Volume 19, N. 2, pp.
155 – 182, Jul/Dez, 2015
OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM
GILLES LIPOVETSKY
Wallace da Costa Brito
(UFRRJ - Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro)
Resumo
Neste artigo, abordam-se os conceitos pós-modernidade e hipermodernidade tais como
apresentados pelo filósofo Gilles Lipovetsky, focalizando alguns dentre os motes estudados
pelo pensador em torno destes, destacando-se o individualismo, o processo de personalização
e o vazio. Toma-se por base duas de suas obras: A era do vazio e Os tempos hipermodernos.
Enquanto na primeira, o foco está no individualismo contemporâneo, destrinchando sua
estrutura e operação, na segunda, aquilo que Lipovetsky chamou pós-modernidade é revisto,
passando a entendê-la como um momento transitório para a hipermodernidade. Esta segunda
obra traça nova conceituação diante da realidade que se apresenta, superando, assim, o tema
pós-modernidade. O pensador defende que a partir dos anos 1980, situamo-nos na
hipermodernidade, caracterizada por hiperconsumo, hipernarcisismo, hipercapitalismo e
hiperindividualismo.
Palavras-chave: pós-modernidade; hipermodernidade; individualismo; processo de
personalização; vazio.
Abstract
Post-modernity and Hypermodernity Concepts Gilles Lipovetsky
In this article, we approach to the post-modern concepts and hyper as presented by the
philosopher Gilles Lipovetsky, focusing on some among the motes studied by the thinker
around these, emphasizing individualism, personalization process and the void. Becomes
based on two of his works: The era of emptiness and the hypermodern times. While at first,
the focus is on contemporary individualism, unraveling its structure and operation, in the
second, what Lipovetsky called postmodernity is revised, starting to understand it as a
transitional time for hypermodernity. This second work draws new concept to the reality that
presents itself, thereby overcoming the postmodern subject. The thinker argues that since the
1980s, We are located in hypermodernity, characterized by hyper, hipernarcisismo,
hypercapitalism and hyper.
Keywords: Post-Modernity; hypermodernity; individualism; Process Customization; Empty.
Introdução Gilles Lipovetsky é um pensador
importante para o debate sobre o mundo
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contemporâneo em suas características, Vale esclarecer em relação ao
tendências, rumos, desafios e, narcisismo que, em A era do vazio,
consequentemente, para o sujeito aí encontra-se desenvolvido em acordo com
gerado. Nascido na França em 1944; os sociólogos norte-americanos. Refere-se,
professor de filosofia na Universidade de por este viés, aos trabalhos de Richard
Grenoble; doutor honoris causa pela Sennet, Edward Shortem e Christopher
Universidade Sherbooke (Canadá) e pela Lasch; e, também, aos franceses: Jean
Nouvelle Université Bulgare (Sofia); Baudrillard e Marcel Gauchet, dentre
membro do Conselho Nacional dos outros, convergindo, ou, por vezes,
Programas Educacionais e do Conselho de refutando algumas dentre as análises de
Análise Social do Governo Central de seu tais estudiosos (Lipovetsky, 2005).
país. Seus livros passaram ou passam por Para o filósofo, o narcisismo é o
tradução em cerca de dezoito idiomas. que manifesta, no micro, o processo de
Algumas dentre as suas obras publicadas personalização operado no macro,
no Brasil, em língua portuguesa, são as sinalizando o câmbio do individualismo
seguintes: A era do vazio (1983/2005); O restrito da modernidade ao individualismo
império do efêmero (1987/2009); Os completo encontrado mais recentemente. O
tempos hipermodernos (2004/2004); A narcisismo é constitutivo da personalidade
sociedade da decepção (2006/2007); A pós-moderna, resultante de um processo
cultura-mundo (2008/2011); A global que rege o funcionamento social.
globalização ocidental (2010/2012). Sendo assim Narciso é uma espécie de
Neste artigo, pretende-se abordar os vulto mitológico ou fabuloso que simboliza
conceitos pós-modernidade e nosso tempo.
hipermodernidade tais como apresentados Procura-se mostrar como descreve
em seus pensamentos, focalizando alguns e analisa a pós-modernidade e, depois, a
dentre os diversos motes estudados pelo hipermodernidade, situando em seu
pensador em torno de tais conceitos. pensamento, a passagem de um conceito ao
Dentre estes, destacam-se os seguintes: outro, identificando as continuidades e
individualismo; processo de rupturas por ele demarcadas. Para tanto,
personalização; vazio; sedução; serviram de base duas de suas obras: A era
indiferença; modernismo e pós- do vazio: ensaios sobre o individualismo
modernismo; violências; narcisismo. contemporâneo (versão original em francês
lançada em 1983) e Os tempos
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OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
hipermodernos (versão original em francês pós-modernismo com suas lógicas e
lançada em 2004). características, distâncias e proximidades;
No livro A era do vazio – o o caráter humorístico que marca a
primeiro a ser publicado – o foco está no sociedade atual; e, por fim, as violências
individualismo contemporâneo, antigas e modernas, compreendidas e
destrinchando sua estrutura e operação. comparadas nos significados próprios de
Localiza, em especial a partir dos anos cada época através do método genealógico.
1950, o desenvolvimento de uma época No último tópico, destaca-se como
repleta de características peculiares, para o pensador francês reavalia suas análises
as quais adota, no contexto desta obra, o quanto ao pós-moderno, chegando, assim,
conceito pós-modernidade. A leitura de no início deste século, a preferir lançar o
seus escritos, vale dizer, podem ser conceito hipermodernidade, ora concebido
importantes às psicologias. Isto porque para dar conta da tarefa de explicar as
suas críticas aos saberes psi são colocadas mudanças ocorridas nas sociedades
de maneira clara, direta e coerente, ocidentais. Mudanças estas expandidas no
demonstrando como tais teorias ascendem crepúsculo do Século XX e em franca
e se firmam dentro da dinâmica cultural expansão, das mais diversas formas, no
moderna, que, afinal, foi o que possibilitou alvorecer do Século XXI, como será
e criou condições para sua existência e exposto. Com a concepção deste novo
funcionamento. conceito, portanto, em seu pensar, o
A era do vazio estrutura-se em seis conceito pós-modernidade torna-se
capítulos escritos em forma de ensaios que obsoleto e cai em desuso.
pretendem mostrar as mudanças históricas
em pleno funcionamento nas sociedades Uma Primeira Aproximação de seu
ocidentais. Pela composição dos capítulos Pensamento
do livro, o autor apresenta e examina as
características cruciais que, em seu Para Lipovetsky (2005), a lógica
pensamento, marcam a sociedade pós- que rege a dinâmica social vem passando
moderna: onipresença da sedução; por alterações vultosas, ganhando destaque
indiferença a ocupar lugar de destaque; o hedonismo, a permissividade e a
surgimento da personalidade narcisista que psicologização. O domínio das condutas
trafega com um vazio e pelo vazio, viciada ganha novo formato em uma fase diferente
e inebriada por si mesma; modernismo e do individualismo. A época propícia às
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revoluções sociais passou. Ao final do individualismo particularizado e sedento
Século XX, assistem-se agitações que por prazer.
sacodem o cotidiano e o indivíduo: Na sociedade pós-moderna
inconstância apressada das personalidades, prevalece a insensibilidade da massa, a
ferrugem dos ideais político-ideológicos, novidade torna-se banalizada e o futuro
corrosão das identificações sociais. não é mais compreendido como avanço
A tese central que perpassa A era inequívoco. Os grandes eixos da
do vazio focaliza o conceito processo de modernidade: a insurreição, os regimes
personalização, que produz profundas e ordenadores, a secularização e a liderança
significativas modificações no conjunto da sofreram alterações em função da
sociedade. Este processo direciona uma avalanche personalista. O otimismo
nova maneira de domínio social, bem científico não é mais irrefutável; a natureza
diferente do período disciplinar, revoltoso sofre danos enormes; os indivíduos se
e convencional que se manteve firme até a encontram desconexos. Nenhum ideal
metade do Século XX. Atravessamos uma político é capaz de entusiasmar em grande
etapa de profundas alterações sociológicas número as pessoas; não há um plano
de alcance global. Há novas legitimidades histórico com energia de mobilização.
e formulações em funcionamento, um novo Nesta fase é o vazio sem tragédia e sem
formato da autonomia, diverso daquele da destruição que predomina. A cultura pós-
chamada fase democrático-autoritária: moderna sinaliza a saída da coordenação
eclosão e aceitação da diversidade, invariável e administrativa em função de
supervalorização do prazer, descontração, uma sociedade cada vez mais
apreço por liberdade pessoal, personalizada.
psicologismo. Esta cultura, enumera Lipovetsky
Nisto, o indivíduo “aberto”, (2005), é descentrada e heterogênea;
instituído socialmente através de tal materialista e psicológica; obscena e
processo, alterou os modos de vida pela circunspeta; inovadora e anacrônica;
proliferação do consumo. Ele almeja viver consumista e ecológica; sofisticada e
livre, desprovido de pressões, escolhendo o irrefletida; espetaculosa e inventiva. Há
que quer ser e fazer. A era pós-moderna, ao nela uma lógica dualista, a convivência
vigorar, ancora-se em “aparelhos” suave de contrários. O individualismo é
adaptáveis e múltiplos, validando, assim, elevado; há variedade de opções com a
sem oposições consideráveis, o trituração dos referenciais balizadores,
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diluindo, assim, o sentido exclusivo e os descreve e analisa a pós-modernidade, a
princípios da modernidade. qual se refere como era do vazio. Para isso,
O pensador entende a pós- o percurso a ser feito apresenta,
modernidade como o momento do segundo inicialmente, breves comentários sobre a
ciclo individualista; era do narcisismo, modernidade e o advento do
consequência do processo personalista. individualismo. Em seguida, a chamada
Narcisismo que remete a uma postura pós-modernidade, marcada por mutações
afável diante das dinâmicas políticas e antropológicas nomeadas por ele através de
ideológicas, num passo a passo com a dois conceitos: processo de personalização
questão subjetiva alçada ao extremo. Nisto, e narcisismo. As marcas do modo de
então, observa o desinvestimento na esfera operação pós-moderno são a sedução, a
pública e a despreocupação com os indiferença e o consumismo, questões estas
princípios transcendentais aliado ao que, segundo o pensador, aparecem como
aumento da importância atribuída à relevantes para o entendimento deste
dimensão privada da vida. tempo. Neste contexto, os saberes psi
Para ele, o individualismo pós- aparecem como alvos de suas críticas, o
moderno leva, por vezes, a um regime de que também será exposto adiante.
associação restrita aos agrupamentos entre
similares, agregações especializadas com Modernidade e Individualismo
interesses em comum. Há, por assim dizer,
um agrupamento com idênticos, fato ligado Lipovetsky (2005) explica que o
à autoassimilação hedonista. O narcisismo advento do Estado moderno e a expansão
opera através de uma psicologização do da economia liberal implicam-se
social, do político. Enquanto a diretamente no surgimento do
modernidade foi obstinada em produzir e individualismo. O Estado moderno operou
revolucionar, a pós-modernidade aferra-se com uma efetiva e simbólica centralização,
em informar e expressar. Informação e desde o absolutismo, tendo relevante papel
expressão sem alvo, que expõem o na liquidação da dependência pessoal que
narcisismo, fator de análise do vazio que marcava os antigos laços, contribuindo,
perpassa essa época. assim, para o surgimento do indivíduo
Após esta entrada em suas independente das alianças feudais e do
apreciações, a seguir, pretende-se expor, de peso das tradições. Também pela economia
maneira mais detalhada, como o filósofo mercantil, generalização e expansão do
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sistema valorativo de troca que suscitaram homem reconhecido a si como dotado de
o surgimento do indivíduo preocupado aspiração, poder de escolha e equidade.
com o alcance de seus interesses Para que surja a revolução como
particulares. Desenvolvem-se a compra e possibilidade histórica, os homens tiveram
venda de terras, a industrialização com o que passar pela desvinculação com suas
consequente deslocamento de parcelas da tradicionais solidariedades de grupo. Foi
população, passando a haver então uma necessário que as coisas prevalecessem
nova forma de o homem se relacionar, como objetos de relação e declinasse a
desarticulando-o do referencial importância da relação com os seres. Deste
comunitário que o formava. Uma mudança modo, luta e revolução só se tornam
de amplas proporções que podem ser possíveis graças ao poder simbólico e
resumidas em uma palavra: individualismo. ideológico operado pelo individualismo,
Novo modo de viver que se alinha com a não ficando assim nada de fora da possível
aspiração financeira, a vida íntima, o bem- transformação acionada por mãos humanas
estar, a propriedade e a segurança, (Lipovetsky, 2005).
subvertendo, desta forma, a antiga e Quanto a isso, há um lugar de
tradicional forma de organização da importância ocupado pelo ideológico na
sociedade (Lipovetsky, 2005). Acresce etapa inicial do individualismo. O que fez
dizer que, com a modernidade, esvazia-se a com que este momento histórico fosse
antiga força exercida pela comunidade e marcado por lutas sociais intensas. Deste
passa a prevalecer o indivíduo e seus modo, a ideologia passa a ocupar
interesses particulares. Começam a importante papel, sendo apresentada pelo
sobressair as vontades dos indivíduos em pensador francês como um dos grandes
detrimento da prioridade do conjunto eixos da modernidade; como aquela que se
social, declinando, com isso, os códigos encontra subjacente aos embates políticos e
sociais de conduta que ligavam o homem às revoluções. Propulsora das aspirações
ao seu grupo social (Lipovetsky, 2005). coletivas e individuais, das agitações
Segundo o filósofo, havia nas sociais e enfrentamentos que se deram ao
sociedades tradicionais a impossibilidade longo dessa época, sejam para a ampliação
de revoluções. O potencial revolucionário do domínio e a expansão do poder de um
é gerado com a atomização (quebra dos lado, ou, ao contrário, para a derrubada da
vínculos comunitários tradicionais) dos ordem estabelecida e a implantação de um
indivíduos na modernidade, tendo o novo regime sócio-econômico-político, de
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outro. Deste modo, substitui aquele lugar como movimento artístico, dilatou a virada
antes ocupado pela religião. O modo de democrática. Mostrando-se de traço
operar absoluto e passional tem subversor, profundamente vinculado ao
continuidade, marcando aquilo que o autor nexo do modo individualista, o
chama de primeira fase do individualismo modernismo é designado pelo autor como
como momento histórico atravessado por uma transportação do modo subversivo
revoluções e lutas sangrentas (Lipovetsky, (revolucionário) para o domínio da arte.
2005). Conforme ele:
Para o pensador francês, na fase
O modernismo não é mais do que uma
civilizatória, desligando-se das sociedades
face do vasto processo secular que
clássicas, a junção entre Estado moderno e
conduz ao surgimento das sociedades
mercado foi o que permitiu o aparecimento
democráticas baseadas na soberania do
de uma sociedade cujo indivíduo é posto
indivíduo e do povo, sociedades
no centro, passando a existir em função de
liberadas da submissão aos deuses, das
si próprio. No início da modernidade e
hierarquias hereditárias e do domínio da
durante sua expansão e consolidação pelos
tradição. Prolongamento cultural do
séculos seguintes, ocorre o que ele designa
processo que se manifestou com
como a primeira reviravolta individualista
estrondo na ordem política e jurídica no
(Lipovetsky, 2005).
final do Século XVIII, arremate do
empreendimento revolucionário
Modernismo, ou o Movimento
democrático constituindo uma
Modernista, e Pós-Modernismo, ou a
sociedade sem fundamento divino, pura
Chegada à Pós-Modernidade
expressão da vontade dos homens
reconhecidos como iguais. A partir daí,
Para chegar a tratar da pós-
a sociedade se dedica a inventar-se por
modernidade, Lipovetsky (2005) põe em
completo e de acordo com a razão
destaque o fenômeno artístico ocorrido no
humana, não de acordo com a herança
final do Século XIX e início do Século XX
do passado coletivo; nada mais é
que ficou conhecido como modernismo.
intangível, a sociedade se apropria do
Para ele, este acontecimento representou
direito de guiar a si mesma sem
não apenas rebeldia contra si mesmo, mas
exterioridade, sem modelo absoluto
rebeldia contra todos os apegos e preceitos
decretado (Lipovetsky, 2005, p. 66).
burgueses. A este propósito, o modernismo,
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Assim entendida, a base sobre a tornaram isentas à regulação dos desejos e
qual se funda e que fermenta o dos costumes e na qual a autonomia
modernismo é a reviravolta do indivíduo, individual é supervalorizada. A cultura
elevado à categoria referencial. É por esta pós-moderna é aquela na qual o
reviravolta que, como nunca dantes na hedonismo, a permissividade e a
história, o indivíduo concreto passa a ter individualização das pessoas são os valores
uma percepção de si como finalidade, abraçados (Lipovetsky, 2005).
entendendo-se de maneira isolada O estudioso salienta que a pós-
(Lipovetsky, 2005). Entre o final do Século modernidade não que dizer uma ruptura
XIX e o alvorecer do Século XX, além do radical com os estatutos da modernidade.
movimento modernista operado pela Ao contrário, ela representa uma
vanguarda artística, outro movimento – de continuidade, agora regida pelo processo
caráter teórico – se evidencia: a personalista. Este, ao ocupar lugar de
Psicanálise. Ambos são possíveis em domínio, dá continuidade ao que é
função do processo de personalização significativamente central no mundo
posto em movimento na cultura décadas moderno (Lipovetsky, 2005). Ainda assim,
mais tarde, mas, de certo modo, cabe perguntar: se considerarmos, no
antecipados por estas duas importantes entanto, que há uma originalidade pós-
iniciativas (Lipovetsky, 2005). moderna, como então ela se mostra?
Explicando o pós-modernismo, Lipovetsky (2005) assim responde:
exemplificado pelas mudanças postas em
[...] a operação saber pós-moderno, com
cena no campo da arte e pelo surgimento
sua heterogeneidade, dispersão das
da Psicanálise como teoria e como técnica,
linguagens e teorias flutuantes, não
o pensador chega ao pós-modernismo,
passa de uma manifestação do abalo
fenômeno cultural marcado pela busca de
geral, fluido e plural que nos faz sair da
prazer e pela obsessão do consumo. O
era disciplinar e que, assim fazendo,
movimento pós-modernista apresenta
esvazia a lógica do homo clausus
como intento a ampliação sem cessar das
ocidental. É apenas nessa ampla
probabilidades particulares de opções,
continuidade democrática e
ajustes e combinações. A pós-modernidade
individualista que se desenha a
é uma época em que a tendência à
originalidade do momento pós-
personalização sobressai; momento
moderno, a saber, a predominância do
histórico no qual muitas pessoas se
individual sobre o universal, do
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psicológico sobre o ideológico, da aversão entre o que é tradicional e o que é
comunicação sobre a politização, da moderno. Quer, por assim dizer, tornar
diversidade sobre a homogeneidade, do aberto o que pode soar como antagônico.
permissivo sobre o coercitivo Nisto, misturam-se identidades e papéis,
(Lipovetsk, 2005, p. 92). valorizando o indivíduo flexível e
condescendente (Lipovetsky, 2005). O
O pós-modernismo possui caráter
pensador compara, então, modernismo e
sincrético, tendendo a positivar um retorno
pós-modernismo, definindo a ambos de
a si. Apesar disso, coexiste com
maneira sucinta: “O modernismo era uma
movimentos duros e extremistas, tais como
fase de criação revolucionária de artistas
as drogas, o terror, o pornô, o punk. Trata-
em ruptura; o pós-modernismo é uma fase
se de fenômeno cultural simultaneamente
de expressão livre aberta a todos”
cool (que pode ser traduzido por legal, ou,
(Lipovetsky, 2005, p. 101).
bacana, ou ainda, descolado) e hard (que
pode significar: duro, ou, rígido, ou
Pós-modernidade: Processo de
também, difícil); convivial e vazio;
Personalização e Narcisismo
psicologizante e maximalista (Lipovetsky,
2005). O pós-modernismo promove uma
Na primeira obra do pensador
cultura heterogênea, pondo em cena estilos
francês, destacam-se dois conceitos para o
diversos, misturando-os e colocando-os em
entendimento da pós-modernidade, são
nível similar. O peso subversivo dos
eles: processo de personalização e
valores modernistas foi varrido, restando
narcisismo. Em sua análise, o processo de
assim, uma cultura eclética. O filósofo faz
personalização é o que se encontra
uma incisiva crítica ao pós-modernismo,
subjacente ao funcionamento das
afirmando que ele “não é mais do que um
sociedades contemporâneas. Este
outro nome para designar a decadência
fenômeno é por ele definido como “[...] um
moral e estética do nosso tempo”
novo tipo de controle social
(Lipovetsky, 2005, p. 96).
desembaraçado dos pesados processos da
Diante disso, escreve que a tônica
massificação-reificação-repressão. A
geral do pós-modernismo não tem por fim
integração se realiza pela persuasão,
destruir os formatos modernos, nem
invocando a saúde, a segurança e a
tampouco fazer ressurgir o passado. Seu
racionalidade [...]” (Lipovetsky, 2005, p. 7-
fim é fazer coexistir sem conflitos os
8).
diferentes estilos, tornando descontraída a
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O processo de personalização é o persegue sua realização e equilíbrio. O
combustível da sociedade pós-moderna; é espírito revolucionário e o interesse pela
o que alavanca uma nova forma de mobilização das pessoas rendem-se à
individualismo, bem diferente daquele sedução operada pela personalização da
anterior observado ao longo da vida (Lipovetsky, 2005).
modernidade. Sacudido pela velocidade O narcisismo é o motor do processo
das técnicas, pela administração, pelo de personalização; ele diz respeito a um
consumismo massivo, pela mídia, pela perfil original do indivíduo nas relações
ideologia individualista e também pelo consigo próprio, com seu corpo, com os
psicologismo, elevando ao ponto alto a demais, com o mundo e com o tempo. No
prevalência do indivíduo. A sociedade pós- funcionamento narcisístico da sociedade,
moderna é então aquela que torna o nota o pensador, há o interesse em ocupar
processo de personalização generalizado, posições de destaque, atentando-se os
rompendo com a lógica moderna anterior indivíduos não tanto para o respeito, mas
de caráter disciplinar-repressivo. O ideal para a inveja que pode ser provocada no
moderno de independência individual é outro. É esta então uma sociedade marcada
realizado, neste momento, com teor pela manipulação e pela rivalidade
original, no dia a dia, a partir de novas generalizada. Há, com o narcisismo, uma
táticas (Lipovetsky, 2005). nova compreensão do corpo presente no
O processo de personalização é o imaginário social: este é percebido como
que melhor define a pós-modernidade. Este corpo psicológico, ou seja, recebe destaque
tem início com o modernismo, os aspectos psíquicos, a individualidade, a
expandindo-se na pós-modernidade, vindo personalidade, os traços típicos, as
a diminuir, progressivamente, a força do características particulares etc.
processo anterior regido pela disciplina. (Lipovetsky, 2005).
Como funciona, para ele, este processo? O O narcisismo foi desencadeado pelo
pensador o descreve e analisa detalhando processo personalista, havendo aí um
algumas de suas características: esvaziamento ampliado dos valores e
superconcentração nos aspectos finalidades sociais. A dissipação dos
particulares da vida; desconsideração pela grandes códigos de sentido e o
criação de alternativas para outras formas investimento exacerbado no Eu caminham
de viver e de organizar a sociedade; juntos. Para o pensador, este é um modo de
obsessão por si próprio. Assim, o indivíduo vida que, apenas na aparência, é humano,
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ao ter em vista que se concentra no prazer, formas o ser jovial, enérgico. Conforme o
no bem-estar, na despadronização, pensador:
concorrendo assim, para a promoção do
O narcisismo joga e ganha em todas as
individualismo psicológico, voltado para a
tabelas funcionando concomitantemente
valorização geral do indivíduo
como operador de despadronização e
(Lipovetsky, 2005).
operador de padronização, sendo que
O narcisismo é, por assim dizer,
esta jamais se reconhece como tal, mas
filho da escalada social desejosa do prazer,
se dobra diante das mínimas exigências
impulsionada pelos objetos e sinais. É
da personalização: a normalização pós-
resultante da psicologização da vida,
moderna se apresenta sempre como o
operada, sobretudo, com enfoque
único modo de o indivíduo ser
psicopatológico. A lógica psi e terapêutica,
realmente ele mesmo, jovem, esbelto,
tão criticada pelo estudioso, elaborada a
dinâmico (Lipovetsky, 2005, p. 44).
partir do século XIX é o que dá impulso a
isso (Lipovetsky, 2005). Uma nova O outro, tornado um estranho, é
personalidade, gerada pelo apego alguém desconsiderado e apagado
narcísico, apresenta-se indeterminada, cotidianamente. Livrando-se dos costumes
variante, dobrável, fluida, prestando-se à e princípios sociais, na busca por si
adaptação e remodelagem constante e mesmo, o indivíduo acaba por tornar seus
incessante conforme a gerência corpórea e relacionamentos fadados a morrer
mental. De tal modo, que, uma nova forma (Lipovetsky, 2005). Nesta perspectiva,
de ser surgiu, caracterizada por vários acontecimentos da sociedade pós-
inconstâncias e incertezas, com um Eu moderna acabaram por gerar uma
cambiante, desprovido de referências e personalidade interessada apenas em si
pontos fixos de orientação. Forma que se própria e, por conseguinte, avessa aos
adapta ao fluir dos sistemas, na velocidade outros presentes e vindouros. Sobre isso,
das combinações. O narcisismo é o Lipovetsky escreve em tom crítico:
instrumento dessa incessante mudança de
si diante da experimentação pós-moderna A burocracia, a proliferação das
(Lipovetsky, 2005). O padrão sugerido imagens, as ideologias terapêuticas, o
anda as voltas com uma idealização da culto ao consumismo, as
despadronização, pelo qual opera a transformações da família, a educação
personalização, normalizando de diferentes permissiva engendraram uma estrutura
de personalidade, o narcisismo, indo a
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par com as relações humanas cada vez de forma vaga e excessiva. Assim sendo, o
mais bárbaras e conflituosas. Os estudioso observa que os problemas
indivíduos se tornaram mais sociáveis psíquicos se dão em conformidade com as
e cooperativos apenas aparentemente; regras temporais (Lipovetsky, 2005).
por trás da tela do hedonismo e da Nesta realidade confusa e
solicitude, cada um explora excessiva, longe das restrições dos
cinicamente os sentimentos dos outros momentos anteriores, em lugar de haver a
e satisfaz seus próprios interesses sem promoção de relações duradouras e
a menor preocupação com as gerações envolventes, provocou-se mais solidão e
futuras (Lipovetsky, 2005, p. 49-50). mais vazio, na medida em que cada qual
considera apenas os próprios interesses. O
O filósofo salienta que os
que temos é mais solidão em meio à
problemas psíquicos se dão em
imensa gama de possibilidades de
conformidade com as regras temporais.
encontros oferecidos pela cidade. Quanto
Segundo ele, na pós-modernidade, temos
mais as relações se tornam livres, mais há
um mal-estar obscuro, uma sensação de
dificuldade em construir uma relação
vazio em que as desordens da
intensa. Solidão, vazio e dificuldade de
personalidade se apresentam muito mais
sentir aparecem por todo lugar. Ao voltar-
como um caráter irresoluto. As
se para si mesmo, o indivíduo encontra
inquietações narcísicas mostram-se, cada
dificuldades em sair. Mesmo que desejoso
vez mais, como “perturbações do caráter”
por encontrar um relacionamento afetivo,
manifestas através de um mal-estar longo e
esbarra em sua incapacidade de ser
invasivo; de um sentimento de vazio
efetivamente afetado pelo outro, uma vez
interior diante do “absurdo da vida”,
que o narcisismo acaba por favorecer o
deixando o indivíduo, em certa medida,
isolamento. Assim, auto-absorvido por si
incapaz de sentimentos pelas pessoas e
mesmo, o indivíduo empenha-se tão
pelas coisas. Se no capitalismo autoritário
somente no Eu em detrimento do outro
e puritano, tínhamos a prevalência dos
como ser de relação. O Eu, alvejado por
sintomas neuróticos, na pós-modernidade,
todos os investimentos, acaba por se tornar
tendo uma pressão da sociedade
a preocupação central. Com isso, a
permissiva; passamos às desordens
consciência política tem seu lugar ocupado
narcísicas, disformes e recorrentes. Com o
pela consciência narcísica, passando a
apagamento dos referenciais estáveis, os
esfera pública a ser vista como
sintomas não se mostram mais rígidos, mas
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
desinteressante, conduzindo assim ao operação, escreve: “A sedução não
isolamento social (Lipovetsky, 2005). funciona por meio de mistério; ela
funciona por meio da informação, do
Sedução, Indiferença e Consumismo: feedback, da iluminação sem trégua do
Marcas do Modo de Operação Pós- social, como se fosse um strip-tease
Moderno integral e generalizado” (Lipovetsky, 2005,
p. 10).
Lipovetsky (2005) entrelaça três A sociedade pós-moderna é
fenômenos sociais, discernindo-os como propulsora da indiferença. Esta resulta não
marcas nítidas do modo de operação da da falta, mas do excesso. Em lugar da
sociedade pós-moderna, são eles: a privação, há uma solicitação exagerada e
sedução, a indiferença e o consumismo. constante. Apagamos a capacidade de
A sedução move a sociedade; é uma espanto e de surpresa, não mais nos
tática que se impôs, colocando em plano escandalizamos. À velocidade com que são
secundário as relações de produção. Esta veiculadas as informações corresponde a
tática incita o consumir: “Com sua apatia. Um acontecimento após o outro, de
profusão luxuriante de produtos, imagens e maneira incessante, de modo que
serviços, com o hedonismo ao qual induz, facilmente esquecemos e passamos adiante
com seu ambiente eufórico de tentação e (Lipovetsky, 2005). Esta é a sociedade da
proximidade, a sociedade de consumo instabilidade, das combinações individuais
revela claramente a amplidão da estratégia sincréticas. Tudo é passível de receber
da sedução” (Lipovetsky, 2005, p. 2). valor passageiro, momentâneo. Diante
A sedução, como tática, alcança desse quadro, Lipovetsky trabalha com o
enorme êxito por se inserir dentro do conceito de indiferença pura que designa o
esquema do processo de personalização, caráter passageiro e instável do sincretismo
acabando por reforçá-lo. Ela coordena individualista com suas combinações antes
nosso mundo, funcionando pela impensáveis:
multiplicação e diversificação da oferta,
Assim, pode-se ser simultaneamente
ampliando possibilidades de escolha de
cosmopolita e regionalista, racionalista
maneira livre e diferente, propondo a
no trabalho e discípulo intermitente de
multiplicidade em lugar da uniformidade, a
determinado guru oriental; pode-se
exultação dos desejos em lugar do rigor
viver o momento permissivo e respeitar,
(Lipovetsky, 2005). Sobre seu modo de
de acordo com as necessidades, as
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
WALLACE DA COSTA BRITO
prescrições religiosas. O indivíduo pós- Acerca de tal questão, o filósofo traça uma
moderno está desestabilizado e é, de breve genealogia:
certa maneira, “ubiqüista”. O pós-
[...] é com o aparecimento do
modernismo não passa de um grande
consumismo de massa nos EUA, na
encaixe suplementar na escalada da
década de 1920, que o hedonismo, até
personalização do indivíduo devotado
então apanágio de uma pequena minoria
ao self-service narcisístico e às
de artistas e intelectuais, vai se tornar o
combinações indiferentes, como as do
comportamento geral na vida corrente, e
caleidoscópio (Lipovetsky, 2005, p. 23-
é aí que reside a grande revolução
24).
cultural das sociedades modernas. Se
O indiferente é aquele atento às observarmos a cultura sob o ângulo do
informações, para quem não há qualquer modo de vida, é o próprio capitalismo e
constrangimento em adaptar-se à última não o modernismo artístico que vai ser
novidade. Sem apegar-se a nada, sem o artesão principal da cultura hedonista
certeza absoluta, é capaz de ajustar-se ao (Lipovetsky, 2005, p. 63).
mais variado número de coisas. Suas
Há, segundo ele, portanto, uma
opiniões rapidamente se modificam,
relação entre controle social, indivíduo
dispondo-se aos gestores burocráticos do
atomizado, sedução e consumismo. Trata-
saber e do poder, maleável ao sabor de
se de um controle não autoritário, mas leve.
cada nova informação (Lipovetsky, 2005).
O consumismo funciona com base na
O processo personalista gera um apego ao
sedução, pois os indivíduos compram
presente. Torna assim vazio de sentido
coisas, estilos, meios de lazer ofertados por
qualquer posicionamento transcendental,
especialistas, conformando tudo isso ao
uma vez que a subjetividade tem valor
que lhe convém, optando por um algo
total, desprovida de sentido, estonteada
enquanto descarta outro. Neste passo,
diante da própria sedução (Lipovetsky,
ajusta a seu bel-prazer as ofertas
2005). Para entender a intensificação do
programadas. Sob estas condições,
processo de personalização, bem como o
combina-se o cotidiano administrado à
poder da tática de sedução em nível cada
esfera particular “cada vez mais
vez mais elevado ao longo do Século XX,
personalizada e independente”. Esta era do
vale esclarecer a íntima relação mantida
consumismo assenta a independência do
entre a dupla hedonismo-consumismo.
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
indivíduo com a regulação do social e do personalização tem como conseqüência
outro (Lipovetsky, 2005). uma desafeição de massa pela res
publica e em particular pelas ideologias
A Era do Vazio políticas: depois da hipertrofia
ideológica, a desenvoltura em relação
O processo personalista possibilitou aos sistemas de sentido. Com a
o aparecimento de comportamentos emergência do narcisismo, a ordem
excêntricos, variantes, indolentes ao ideológica e seu maniqueísmo caem na
princípio do real. Há nisso a prevalência do indiferença, tudo o que tem um teor de
presente e o declínio da importância do que universalidade e de oposições
é público. Esta nova personalidade, na exclusivas não age mais sobre uma
sociedade pós-moderna, flutua forma de individualismo muito tolerante
desestruturada, sendo nela prevalecente a e móvel. A ordem rígida e disciplinar da
emotividade. Em conformidade ao ideologia se tornou incompatível com a
narcisismo predominante e seu desestabilização e a humanização cool
correspondente: a transformação da (Lipovetsky, 2005, p. 186).
realidade em espetáculo, em mostruário de
O deserto é feito por cada um;
exibições que atende ao nexo dos apelos.
cresce o isolamento e o indivíduo o deseja.
No que tange às grandes finalidades
Por outro lado, nesta condição, acaba por
sociais, predomina uma falta de afeto, uma
não suportar a si próprio. A relação se esvai
falta de valor e importância. Em seu apego
sem alardes, sem ensejos, diante de um
ao presente, o novo narcisismo, segundo
deserto de independência e neutralidade
Lipovetsky, é um tipo de personalidade
que sufocam (Lipovetsky, 2005). As
cambiante e “sem estrutura” (Lipovetsky,
referências maiores são dissolvidas, os
2005). A segunda reviravolta individualista
significados saem de cena, os “conteúdos
levada a cabo pelo processo personalista
pesados” são desvalorizados. Estima-se, ao
provoca um desafeto pela coisa pública e
contrário, a eficiência, o desempenho. O
pelos sistemas ideológicos. O
individualismo alçado ao extremo se volta
individualismo recente prima pela
para isso, desprovendo-nos de sentido: é a
tolerância e pela mutabilidade, situando-se
era do vazio (Lipovetsky, 2005).
de maneira legal. De acordo com o autor:
A segunda “revolução” individualista Crítica aos Saberes Psi
causada pelo processo de
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WALLACE DA COSTA BRITO
Se na modernidade temos o homem “intelectualista” demais; dar prioridade
político; na pós-modernidade temos o aos tratamentos rápidos, às terapias
homem psicológico; uma vez que este se “humanistas” de grupo, à liberação
mantém interessado e concentrado em si direta do sentimento, das emoções e das
próprio e no seu deleite. Viver para si energias corporais: a sedução investiu
mesmo, despreocupado com as memórias em todos os pólos, desde o software até
(tradições) e com o porvir vincula-se com a a catarse “primitiva” (Lipovetsky, 2005,
renúncia à história, aos valores e às p. 5).
composições sociais. O Eu se tornou o
Suas críticas aos saberes psi se
centro do mundo, operação da qual
direcionam mais explicitamente em
participam os diversos saberes e técnicas
número e grau à psicanálise. Talvez porque
psi; restando assim o conhecimento de si
este saber ganhou enorme destaque na
posto acima do reconhecimento do outro
França (país onde nasceu e vive) e, talvez
(Lipovetsky, 2005).
ainda, porque a psicanálise é por ele
As críticas feitas pelo pensador aos
entendida como movimento que, no final
saberes e práticas psi são contundentes.
do Século XIX e início do XX, antecipa
Segundo ele, também aí está em
algumas das características propriamente
funcionamento o processo de
pós-modernas, somente amplificadas
personalização, uma vez que este envolve e
socialmente a partir dos anos 1950. O
move todas as frentes. As teorias e técnicas
pensador se refere a ela como “máquina
psicoterapêuticas não escapam a isso,
narcisista incomparável”, uma vez que sua
configurando-se, por este motivo, como
interpretação é atuante no processo de
um elemento a mais possibilitado e
personalização pela centralidade atribuída
investido por sua inserção neste contexto.
ao desejo. Também operando uma
Conforme o próprio:
“atomização sistemática e interminável”,
Atualmente todas as esferas são de modo semelhante a outros protagonistas
anexadas cada vez mais depressa por da sedução. A partir deste ângulo, cada um
um processo de personalização é remetido a si próprio em seu “mundo
multiforme. Na ordem psicoterapêutica libidinal” sob a força do inconsciente e do
surgiram novas técnicas (análise recalque. Com isso, Narciso se faz
transacional, grito primal, bioenergia) subjugado por si próprio em sua redoma de
que dão mais audácia ainda à vidro (Lipovetsky, 2005, p. 15-16). Nesta
personalização psicanalítica, julgada direção, o interesse focado em si mesmo,
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
limitando-se ao privado, anda de mãos Os tópicos anteriores se ordenaram
dadas com o desinteresse pelo público – o com base em A era do vazio. Este se
que é social fica desligado. É a era psi, na configura como o mais longo e importante
qual há um interesse em demasia pelo deste texto, tendo em vista a proximidade
próprio bem-estar em prejuízo dos valores temporal das reflexões do estudioso, já
coletivos: situado no século XXI. Para tanto, este
tópico é trabalhado com base no livro Os
Em um sistema organizado de acordo
tempos hipermodernos, escrito por Gilles
com o princípio de isolamento “suave”,
Lipovetsky em parceria com Sébastien
os ideais e valores públicos não podem
Charles (professor de filosofia no Canadá,
deixar de enfraquecer, permanecendo
estudioso da obra do pensador francês).
apenas a busca do ego e do próprio
Neste livro, aquilo que Lipovetsky
interesse, o êxtase da libertação
chamou pós-modernidade sofre uma
“pessoal”, a obsessão do corpo e do
espécie de revisão ou atualização em seu
sexo: hiperinvestimento do privado e,
pensamento. A partir desta, passa a
conseqüentemente, desmobilização do
entendê-la como um momento transitório
espaço público. Com a sociabilidade
para a hipermodernidade. O objetivo da
autoclave começa a desmotivação
obra é uma nova conceituação diante da
generalizada, o retraimento da autarcia
realidade que se apresenta, superando,
ilustrado pela paixão de consumir, mas
assim, o tema pós-modernidade; noção que
também pela popularidade da
aparece no final dos anos 1970 para
psicanálise e das técnicas de
designar o recente cenário sociocultural
relacionamento: quando o social é
nos países desenvolvidos. Surgida no
desativado, o desejo, o prazer e a
âmbito da arquitetura, posteriormente,
comunicação se transformam nos únicos
transposta para caracterizar os abalos da
“valores” e os psi, nos grandes
razão, o declínio das grandes ideologias e o
pregadores do deserto. A era psi começa
avassalador processo individualizante e
com a deserção de massa e a libido é
pluralizante. Surge uma nova forma de
um fluxo do deserto (Lipovetsky, 2005,
tempo na sociedade marcado pelo
p. 25).
imperativo do momento.
Atualmente, entretanto, o pós-
A Hipermodernidade moderno não mais se encaixa – estamos
diante da época do hiper. Sobre a
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
WALLACE DA COSTA BRITO
defasagem do conceito pós-modernidade, Eleva-se uma segunda modernidade,
ele escreve: “No momento em que desregulamentadora e globalizada, sem
triunfam a tecnologia genética, a contrários, absolutamente moderna,
globalização liberal e os direitos humanos, alicerçando-se essencialmente em três
o rótulo pós-moderno já ganhou rugas, axiomas constitutivos da própria
tendo esgotado sua capacidade de exprimir modernidade anterior: o mercado, a
o mundo que se anuncia” (Lipovetsky & eficiência técnica, o indivíduo
Charles, 2004, p. 52). (Lipovetsky & Charles, 2004, p. 54).
O pensador defende que, em
Segundo ele, há duas questões
seguida à pós-modernidade, a partir dos
determinantes para a consolidação da
anos 1980, estamos em outra etapa: a
modernidade no patamar de hiper:
hipermodernidade, caracterizada por
hiperconsumo e hipernarcisismo. Enquanto No cerne do novo arranjo do regime do
na pós-modernidade explicita-se o gozo, na tempo social, temos: (1) a passagem do
hipermodernidade, explicita-se a angústia. capitalismo de produção para uma
Esta etapa se concretiza como um período economia de consumo e de
de “acabamento” da modernidade. Deste comunicação de massa; e (2) a
modo, substituição de uma sociedade
rigorístico-disciplinar por uma
Longe de decretar-se o óbito da
“sociedade-moda” completamente
modernidade, assiste-se a seu remate,
reestruturada pelas técnicas do efêmero,
concretizando-se no liberalismo
da renovação e da sedução permanentes
globalizado, na mercantilização quase
(Lipovetsky & Charles, 2004, p. 60).
generalizada dos modos de vida, na
exploração da razão instrumental até a Situa estas mudanças históricas nos
„morte‟ desta, numa individualização anos 1980, intensificadas na década
galopante (Lipovetsky & Charles, 2004, seguinte, momento no qual verifica um
p. 53). foco no presente de segunda ordem, que
subjaz a globalização neoliberal e a
A época atual é chamada pelo
revolução da tecnologia informática
filósofo de segunda modernidade, que se
(Lipovetsky & Charles, 2004). O pensador
baseia em três pontos-chave daquela por
descreve este momento histórico como
ele reconhecida como a primeira:
marcado por fluidez, flexibilidade,
indiferença frente aos grandes princípios
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
modernos. O presente é marcado pela com o futuro arremessou-nos ainda mais a
complexidade e pela perda de sentido. A viver o presente. Deste modo, o centro
vida, tanto pessoal quanto social, chegou gravitacional em relação ao tempo
ao ponto de reger-se em vista do consumo deslocou-se do futuro para o presente.
tornado excessivo: Este, como temporalidade a reger a vida,
impõe-se muito mais pelo excesso
Já faz tempo que a sociedade de
(incitação hedonista, estimulação visual,
consumo se exibe sob o signo do
objetos) do que pela ausência (de
excesso, da profusão de mercadorias;
significado, do que merece importância, de
pois agora isso se exacerbou com os
perspectivas e planos sociais) (Lipovetsky
hipermercados e shopping centers, cada
& Charles, 2004).
vez mais gigantescos, que oferecem
A hipermodernidade se caracteriza
uma pletora de produtos, marcas e
pela não institucionalização, pela não
serviços (Lipovetsky & Charles, 2004,
recorrência à tradição, pela
p. 54-55).
particularização na relação com o tempo –
Um dos paradoxos da fenômenos estes que atravessam a
hipermodernidade é a coincidência sociedade toda. Momento histórico
encontrada, em parte, entre o hedonismo, marcado pela sensualidade e pelo
de um lado, e a tomada de desempenho. Seu caráter é paradoxal,
responsabilidade individual, de outro. A tendo em vista que põe em cena contrários
modernidade se intensifica e se impõe que tornam intensos dois pilares da
concretamente pela escalada liberal modernidade técnica e democrática: o ser
globalizante, na vida mercantilizada de eficiente e a idealização da vida como
maneira quase geral, na imposição da razão prazer incessante (Lipovetsky & Charles,
instrumental e numa aceleração do 2004).
processo de individualização (Lipovetsky Para o filósofo, vivemos uma época
& Charles, 2004). de reviravoltas e avanços na técnica e na
Há um par que vigora: ciência de um lado, porém, de outro,
hipercapitalismo e hiperindividualismo – claramente empobrecida no âmbito
estamos situados em um tempo de cultural. A hipermodernidade desencadeou
extremidades. A coordenação da economia a derrocada das esperanças de revolução, a
segundo os ditames neoliberais acarretou derrubada das importantes aspirações
enorme insegurança, uma despreocupação sociais e políticas e a desvalorização dos
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Perspectivas em Psicologia, vol. 19, n. 2, pp.155 - 182, Jul/Dez, 2015
WALLACE DA COSTA BRITO
valores universais, tendo-os como comportamentos na hipermodernidade,
longínquos, generalistas, incompreensíveis escreve:
(Lipovetsky & Charles, 2004).
Até os comportamentos individuais são
Um impulso de modernização sem
pegos na engrenagem do extremo, do
freios, com a mercantilização a proliferar-
que são prova o frenesi consumista, o
se sem regras econômicas mais severas,
doping, os esportes radicais, os
concentrado no uso da força da técnica e
assassinos em série, as bulimias e
da ciência. Este movimento, atualmente,
anorexias, a obesidade, as compulsões e
não se depara com resistências como
vícios. Delineiam-se duas tendências
ocorreu durante toda a modernidade, em
contraditórias. De um lado, os
que alternativas eram apresentadas
indivíduos, mais do que nunca, cuidam
(Lipovetsky & Charles, 2004). Para
do corpo, são fanáticos por higiene e
Lipovetsky, a modernidade era limitada,
saúde, obedecem às determinações
agora, no que chama de sua segunda
médicas e sanitárias. De outro lado,
versão, encontra-se consumada, impôs-se
proliferam as patologias individuais, o
sem alardes substanciais em contrário. A
consumo anômico, a anarquia
primeira modernidade foi extremamente
comportamental. O hipercapitalismo se
ideológico-política. Esta segunda é aquém
faz acompanhar de um
do político. Configura-se pela tecnologia,
hiperindividualismo distanciado,
pela mídia, pela economia, pelo
regulador de si mesmo, mas ora
urbanismo, pelo consumo, pelos
prudente e calculista, ora desregrado,
desequilíbrios e distúrbios dos indivíduos
desequilibrado e caótico (Lipovetsky &
(Lipovetsky & Charles, 2004).
Charles, 2004, p. 55-56).
Marcas sem limites – o hiper está
em muitos lugares e frentes – existe um O que é pré-moderno não
querer incessante em toda a sociedade: desapareceu de todo, mas passou a ser
consumo em excesso; tecnologias; a TV e regido pela lógica moderna. Antes o pré-
seus espetáculos; internet e sua enorme moderno era encarado como necessidade
quantidade de informação; turismo das de abolição ou erradicação, agora passa por
multidões; aglomerados urbanos imensos; uma adaptação, uma reconfiguração. Isto é,
vigilância eletrônica. Ao tratar dos tudo se torna passível de mudanças em
extremos e contradições dos vista da adequação de acordo com o
mercado, com o consumo e com a
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OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
individualidade. Há, por conta disso, uma Neste terreno, floresce o discurso
remodelação das mentalidades (Lipovetsky medicalizante, como uma atitude escapista
& Charles, 2004). em face das ameaças do passar do tempo,
Para o surgimento do do envelhecer. Lipovetsky nota um estado
hipermoderno, os grandes acontecimentos de tensão quanto ao tempo, pelo que vê
políticos tiveram sua importância: as indivíduos não limitados ao presente. Com
guerras, os totalitarismos, o holocausto, as a individualização, os meios de informação
crises capitalistas etc., mas, o alcance são promotores do afastamento, do voltar-
desses eventos é limitado; outros fatores se e concentrar-se em si. Na
pesaram, ora denominados pelo autor de hipermodernidade, há um sujeito manifesto
revolução do cotidiano (Lipovetsky & na independência dos indivíduos, nas
Charles, 2004). Com a hipermodernidade, orientações subjetivas, na introspecção
desde os anos 1970, a febre hedonista- (Lipovetsky & Charles, 2004).
consumista se expandiu. Contudo, tem por O tempo é acelerado: cadência
companhia, como sombra, uma incerteza, frenética e agir produtivo em ritmo de
um temor que perpassa pelos rumos que a urgência em prejuízo da reflexão. O
vida toma. Persiste uma intensa procura estresse é onipresente, base para distúrbios
pelo gozo que se faz acompanhar, por sua psicossomáticos. Os novos ritmos do
vez, pela apreensão em face de um futuro tempo não se limitam ao trabalho, invadem
imprevisível. A nova atitude frente ao a esfera diária em todas as relações. Daí
amanhã pode ser exemplificada pelos que sobrecarga e estafa são reclamações
cuidados, em tom obsessivo, com a saúde. recorrentes. Todos têm um dia cheio, até
Há uma superpreocupação quanto a ela em crianças. Na vivência acelerada da vida,
um número crescente de pessoas. A quanto mais se faz, maior a sensação de
medicalização do social expandiu-se ao que o tempo se esgota. Tornou-se comum a
ponto de se tornar palavra normativa. queixa pelo tempo que falta. Aqui, aparece
Venera-se a saúde. O homem um paradoxo dessa época: ao lado
hipermoderno é aquele ainda instantâneo, daqueles hiperativos, cujo tempo se
festeiro, desfrutador, ligado ao momento, consome por inteiro, temos aqueles
ao presente. No entanto, remete-se ao esmagados, postos à margem: os
futuro, tendo subjacente um medo quanto desempregados, os jovens das ruas. Esta é
ao que virá (Lipovetsky & Charles, 2004). uma sociedade que não para, apegada que
se tornou ao movimento. Conforme ele:
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WALLACE DA COSTA BRITO
Por toda a parte, a ênfase é na obrigação enfrentamento esfaceladas com o crescente
do movimento, a hipermudança sem o desaparecimento dos referenciais externos
peso de qualquer visão utópica, ditada é o que se encontra na base das panes
pelo imperativo da eficiência e pela subjetivas. Quanto mais queira viver de
necessidade da sobrevivência. Na forma intensa e livre, mais o indivíduo
hipermodernidade, não há escolha, não manifesta o fardo de seguir vulnerável em
há alternativa, senão evoluir, acelerar face das atribulações da existência. Neste
para não ser ultrapassado pela campo, o pensador postula algumas das
“evolução”: o culto da modernização características fundamentais da sociedade
técnica prevaleceu sobre a glorificação hipermoderna e sua incidência sobre o
dos fins e dos ideais (Lipovetsky & indivíduo:
Charles, 2004, p. 57).
A cultura hipermoderna se caracteriza
Há uma bipolaridade do pelo enfraquecimento do poder
individualismo (exagero ou falta). O regulador das instituições coletivas e
consumo excessivo se coloca então como pela autonomização correlativa dos
uma tentativa de ocupação dos vácuos atores sociais em face das imposições
existenciais presentes e futuros. Há uma de grupo, sejam da família, sejam da
fonte que nutre tal postura: a existência religião, sejam dos partidos políticos,
angustiada e a satisfação vinculada às sejam das culturas de classe. Assim, o
inovações (Lipovetsky & Charles, 2004). indivíduo se mostra cada vez mais
O indivíduo que parece senhor de si aberto e cambiante, fluído e socialmente
mesmo é, de fato, volátil, flexível, independente. Mas essa volatilidade
cambaleante, apesar de sua relativa significa muito mais a desestabilização
independência, mostra-se com o Eu sem do eu do que a afirmação triunfante de
firmeza. Isto pode, segundo ele, ser um indivíduo que é senhor de si mesmo.
observado na avalanche de problemas Testemunho disso é a maré montante de
psicossomáticos cada vez mais visíveis, no sintomas psicossomáticos, de distúrbios
que subjaz uma falta de firmeza psíquica. compulsivos, de depressões, de
A marcha vigorosa da centralidade no ansiedades, de tentativas de suicídio,
indivíduo é aqui fator proeminente. A força para nem falar do crescente sentimento
interior decai em face da crescente de insuficiência e autodepreciação.
individualização que assumiu uma posição Vulnerabilidade psicológica que (ao
extrema. As capacidades internas de contrário do que tanto se diz) se deve
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OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
menos ao peso extenuante das normas uma fragmentação cultural. Ressurgem
do desempenho, à intensificação das com força identidades étnicas e religiosas
pressões que se abatem sobre as como luta contra a expansão do modo
pessoas, do que à ruptura dos antigos ocidental de viver. As tradições sagradas
sistemas de defesa e enquadramento dos não são fontes de apelo. Elas passam por
indivíduos (Lipovetsky & Charles, novos arranjos em torno à
2004, p. 83-84). individualização, à dissolução e ao
sentimentalismo nas formas de crer e
A recordação não é valorizada por
praticar. Com a predominância do eixo do
si mesma, mas pelo seu valor de passa
presente, há uma efervescência de religiões
tempo, de distração. Volta-se para o antigo
com regulamentos não rígidos e
– em tom nostálgico – explorando-se os
identificações para além das tradições.
sentimentos e as lembranças com fins
Anota, nesta direção, que apesar da força
mercadológicos. O passado é reenquadrado
da razão instrumental, a crença religiosa
com um tom modernizante. Este não é
não foi extinta (Lipovetsky & Charles,
força que estrutura e institui, uma vez que
2004).
sua recolocação é marcadamente comercial
A hipermodernidade, com seu
(Lipovetsky & Charles, 2004).
cenário de caos, incerteza, insegurança,
Tornado objeto-moda (grifo do
incita a procura por significado, convicção
autor) que perdeu seu poder de tradição
e inserção grupal. A vivência religiosa é
que estabelece a retransmissão e a exatidão
recolocada como adaptada aos imperativos
que se prolonga e com a qual se pode
da autonomia, da não instituição, da
contar, o antigo não rege modos de vida,
subjetivação, da afetividade. Se nas
causa um frenesi superficial, sedutor. É o
sociedades tradicionais o ser religioso era
presente, com suas normas flexíveis, que
algo dado de antemão, inquestionável,
nos dirige. O apreço pelo conforto como
definido; na hipermodernidade, há uma
existência, como recreação, numa
forma de apropriação a partir da qual os
constante demanda por sensações
indivíduos são passíveis de
aprazíveis, como mais uma fraqueza da
questionamentos e mudanças (Lipovetsky
sociedade hipermoderna é o que subjaz a
& Charles, 2004).
procura pelo passado (Lipovetsky &
A identidade passa por uma
Charles, 2004).
tentativa de construção sem qualquer
A globalização impõe uma vivência
garantia de continuidade ou permanência.
temporal homogênea. Ao mesmo tempo, há
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A hipermodernidade é autocrítica dos desequilíbrios subjetivos (Lipovetsky &
conhecimentos e coisas instituídas da Charles, 2004, p. 84).
modernidade. Mas, não só isso, é também
Na hipermodernidade, os
uma nova procura pelos sistemas antigos
indivíduos são paradoxais,
de crença. Trata-se, em grande medida, de
simultaneamente informados e sem
um novo modo de lidar com as tradições;
estrutura, adultos e instáveis, menos
não só desconstruindo-as, mas moldando-
ideológicos e mais ligados à moda, abertos
as ao gosto supremo do indivíduo. O
e influenciáveis, críticos e superficiais,
paradoxo de nossa época se expressa,
mais céticos e menos profundos. Este
ainda, pelo conflito da pluralidade dos
modo de se situar no mundo vincula-se às
conceitos de bem, mas também são visíveis
mudanças sociais ocorridas nas últimas
as bases humanistas (Lipovetsky &
décadas: o ambiente da sociedade, o modo
Charles, 2004). Para o autor, o desprestígio
de entender e viver o presente se
e enfraquecimento das instituições, o
encontram marcados por tensão nervosa,
avanço do individualismo, agora em tons
medo, futuro imprevisível, globalização
exacerbados, são o motor dos problemas
imposta muito além da interferência
psicológicos tão em voga na atualidade:
pessoal, competição ao extremo,
Deixado a si mesmo, desinserido, o superdesenvolvimento das tecnologias da
indivíduo se vê privado dos esquemas informação, emprego precário, indivíduo
sociais estruturantes que o dotavam de inquieto e assustado. A moda alcançou tal
forças interiores que lhe possibilitavam poder ao ponto de tornar sagrada a
fazer frente às desventuras da satisfação própria das pessoas,
existência. À desregulação institucional desmobilizando a solidariedade e a
generalizada correspondem as consciência classista (Lipovetsky &
perturbações do estado de ânimo, a Charles, 2004).
crescente desorganização das Os indivíduos, distantes de
personalidades, a multiplicação de qualquer significado transcendente,
distúrbios psicológicos e de discursos possuem opiniões frágeis e frívolas.
queixosos. É a individualização extrema Encontramo-nos diante do poder de
de nossas sociedades o que, tendo regulação pelo consumo, que contaminou o
enfraquecido as resistências “a partir de tecido social, penetrando nas esferas da
dentro”, subjaz à espiral dos distúrbios e religião, da ética, da política, da família, do
sindicalismo, da natureza. A
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OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
hipermodernidade opera com uma ideia de individualista é forte, pois mina os grandes
reaproveitamento constante do passado. referenciais e joga os indivíduos em um
Nada parece lhe escapar. O mundo relativismo exagerado. Um exemplo disso
produzido é o da vontade da vontade como é o retorno vistoso das seitas e seu poder
uma dinâmica do poder cujo único objetivo de sedução sobre muitos (Lipovetsky &
parece ser sua própria manutenção e Charles, 2004).
expansão. Isto nos levou ao fanatismo pela Com a ascensão inédita do
técnica e (Lipovetsky & Charles, 2004). individualismo irresponsável, assistimos a
Todavia, o pensador acrescenta que fenômenos novos, tais como: a propagação
é possível encontrar resistências à lógica de uma postura cínica, falta de renúncia
do consumo, da técnica e do espetáculo. individual, compulsões, narcotráfico,
Postula dois exemplos disso: os direitos dependência de drogas e violências de todo
humanos e a honestidade intelectual de tipo (Lipovetsky & Charles, 2004).
muitos (aqueles que não sucumbiram Há um outro poder em voga: o
diante do marketing e da obsessão pela quarto (a mídia). Sua força é considerável,
imagem). Nestes termos, o consumo não se mas não é total – sem dúvida, produz
impõe totalmente, há brechas. As relações normatizações e influencia amplamente a
de amor em que há um real envolvimento vida dos indivíduos. Contribui, deste jeito,
com o outro são uma prova disso. A para a manipulação e padronização das
redução das pessoas a consumidores não pessoas. Ela não impõe, mas propicia este
gera total homogeneidade social. Quando a ou aquele comportamento (Lipovetsky &
desestabilização da sociedade atinge seu Charles, 2004). Estas teses apontam para o
ápice, uma reconstrução encontra-se em seguinte: com a lógica do consumo,
curso, partindo, vale dizer, da iniciativa possibilitou-se surgir um indivíduo mais
desejante de alguns (Lipovetsky & senhor de si, instável, desvinculado, de
Charles, 2004). aspirações e modo de ser instável.
Segundo ele, a ética merece Comovido pela moral espetacular. Com
destaque. Cabe refleti-la seriamente. isso, a mídia adaptou-se para seduzi-lo e
Impõe-se uma necessária questão: entretê-lo. Informar passou a se reger pelo
estaríamos com a hipermodernidade num seduzir (Lipovetsky & Charles, 2004).
retorno à barbárie? Muitos se perguntam Coloca-se, assim, em discordância de
isso, haja vista a derrocada do pensamento Herbert Marcuse (1973), que aponta para a
e a gravidade do presente. O hedonismo unidimensionalidade do homem, pela qual
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vivemos numa sociedade que se coloca próprio bem-estar e conforto. Situa-se na
como exclusiva opção dada a imposição da esfera privada, desmerecendo a social. Age
civilização industrial desenvolvida. Há, assim sem qualquer reflexão consciente,
neste contexto, um padrão de pensamento e sem qualquer estranhamento, uma vez que
comportamento linear. O controle social é as lógicas tradicionais que regiam a
intensamente introjetado por cada existência não representam, para quem
indivíduo. Acerca disso, em sua análise, o assim atua, qualquer via de regra ou
pensador alemão postula que o alcance do orientação de conduta (Lipovetsky &
domínio da sociedade sobre o indivíduo Charles, 2004).
nunca foi tão grande. A leitura que Lipovetsky faz do
Lipovetsky defende que, na mundo contemporâneo e do sujeito aí
hipermodernidade, as normas e referências gerado, ao que parece, mostra-se
não são mais fornecidas pelas instituições elucidativa. Suas análises não saúdam ou
tradicionais. Estas, de certo modo, também enaltecem o “espírito” contemporâneo. O
se adaptam à lógica consumista. A pensador também não elogia outras épocas,
sociedade está fascinada pela frivolidade, quando as apresenta. Aponta suas
pela superficialidade, pela flexibilidade, características próprias, isentando-se de
pelo espetáculo, pela inconstância das qualquer postura saudosista. Suas críticas
opiniões (Lipovetsky & Charles, 2004). são intensas e até austeras ao ontem, mas,
A hipermodernidade eleva o sobretudo, à atualidade histórica, seu alvo
individualismo, dispensando menor valor principal do início ao fim.
às tradições; promove a indiferença com o O filósofo recusa leituras idealistas e
bem público; pondo em relevo, com calamitosas e pondera por uma disposição
frequência, o presente em detrimento do concomitantemente racional e pragmática,
futuro; faz crescer interesses particulares e colocando, vale dizer, a importância da
corporativos; desmerecendo o dever como responsabilidade como conduta de base.
valor, isolando, assim, o reconhecimento Esta, para ele, deve se dar em dupla
ou débito com o coletivo (Lipovetsky & direção: individualmente (com autonomia)
Charles, 2004). e socialmente (com valorização do
A herança dos mecanismos coletivo), nos âmbitos do saber e do poder.
democráticos individualistas acabou por se Deste modo, seu posicionamento teórico se
tornar egoísmo. Quem se move por este organiza, ao que parece, contra aqueles que
reveste-se tão-somente pelo interesse no enxergam na atual fase histórica, um
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OS CONCEITOS PÓS-MODERNIDADE E HIPERMODERNIDADE EM GILLES LIPOVETSKY
retorno puro e simples à barbárie. Quanto a reage contra a escravidão e exigência de
isso, elenca os traços negativos: elevação moralização da mídia e da vida política.
das desigualdades sociais, obsessão por Em função disso, entende que a
segurança, imposição do mercado depreciação dos valores maiores, apesar de
globalizado sobre as democracias. Todavia, ampla e forte, não é total. Para ele,
aponta para traços positivos: os protestos e portanto, o futuro é algo que, estando por
compromissos éticos; ações coletivas que vir, é imprevisto, mantendo-se em aberto
tem por base os direitos humanos; o valor (Lipovetsky & Charles, 2004).
dado ao amor e à amizade; indignação que
Considerações Finais apreciar os rumos e tendências que
observou desde as últimas décadas do
Gilles Lipovetsky tem sido, nos últimos século XX e, como o próprio afirma,
anos, um estudioso da cultura intensificadas nesses primeiros anos do
contemporânea cuja referência no Brasil século presente.
parece avançar. É o que supomos indicar Se estivermos vivenciando a pós-
as recentes traduções de suas obras para a modernidade ou a hipermodernidade
língua portuguesa. Algo que vem mostra-se como tema, de certo modo,
ocorrendo com maior frequência desde os polêmico e em debate. Trata-se por isso
anos 2000. Traduções essas das obras já mesmo de uma questão para a qual não
mencionadas no início do texto, dentre existe consenso entre os estudiosos do
outras. Os estudos que exploram suas assunto. Quanto a isso, o psicanalista
escritos têm sido mais evidentes nos brasileiro Joel Birman (2006) não deixa
âmbitos da filosofia e das ciências sociais. passar em branco uma explicação sua
Em relação aos saberes psi, sua influência sobre o uso corrente entre diversos teóricos
ainda parece um tanto quanto acanhada. de que estaríamos, segundo os norte-
Neste artigo, por considerar interessantes americanos, num outro momento
sua interpretação e posicionamento, civilizatório, por estes designado como
apontou-se para as contribuições que pós-modernidade, enquanto que, para a
podem se dar a partir da leitura de seus maioria dos europeus, não estaríamos
textos. Em especial, no que se refere à passando pelo fim da modernidade, mas
compreensão da cultura contemporânea, por sua extensão e intensificação. Dentre
por ele chamada hipermodernidade, após os últimos, vale lembrar, a título de
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exemplo, que o polonês Zygmunt Bauman brasileiros afinados com a Escola de
(1997) apresenta-se como parte da minoria, Frankfurt. Embora a tomada de uma
uma vez que trabalha recorrentemente com posição em definitivo acerca desse debate
o conceito pós-modernidade. possa soar como algo apressado, a
No Brasil, o conceito princípio, as reflexões de Gilles
hipermodernidade tem alcançado, nos Lipovetsky parecem-nos relevantes e,
últimos anos, alguma ampliação, como se assim, estratégicas para aqueles que se
faz notar na interessante obra Tempo e debruçam em estudos relativos à cultura e
subjetividades: perspectivas plurais aos sujeitos contemporâneos.
(2013), organizada por estudiosos
Referências
Birman, J. (2006). Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira.
Bauman, Z. (1998). O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar. (Original
publicado em 1997).
Ewald, A. P., Soares, J. C., Severiano, M. F. V. & Aquino, C. B. (organizadores) (2013).
Tempo e subjetividades: perspectivas plurais. Rio de Janeiro: 7Letras: Pequeno Gesto.
Lipovetsky, G. (2005). A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo.
Barueri: Manole. (Original publicado em 1983).
Lipovetsky, G. & Charles, S. (2004). Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla.
(Original publicado em 2004).
Marcuse, H. (1973). A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. 4. ed. Rio
de Janeiro: Zahar. (Original publicado em 1964).
O autor:
Wallace da Costa Brito é mestrando em Psicologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e
psicólogo pelo UNIABEU Centro Universitário, e-mail: wallacedacostabrito@[Link]
Endereço institucional: UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) - Rodovia BR-465, Km 7,
Campus Universitário, Instituto de Educação, Zona Rural, Seropédica/RJ, CEP: 23.851-970.
Recebido em: 12/08/2015
Aprovado em: 05/11/2015
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