Aula
AS ESTÉTICAS BARROCA E
ARCÁDICA E SUAS RELAÇÕES
COM O ROMANTISMO
META
Apresentar o Barroco e o Arcadismo brasileiros, destacando seus
respectivos representantes e suas características principais,
relacionando-as ao Romantismo.
OBJETIVOS
Ao final da aula, o aluno deverá:
definir as estéticas que antecederam o Romantismo;
realizar leitura e análise crítica de textos de autores pertencentes ao
Barroco e ao Arcadismo brasileiros;
reconhecer, em obras literárias,
elementos pertencentes a essas
estéticas que dialogam com o
Romantismo.
PRÉ-REQUISITOS
Leitura prévia de alguns textos
entendidos como ‘literatura de
informação”, discutidos na lição
anterior.
Pintura de François Boucher, Pastoral de Outono, 1749. Represen-
tação do pastoralismo (Fonte: http://upload.wikimedia.org).
Literatura Brasileira I
INTRODUÇÃO
Caminho para o Calvário - obra de Aleijadinho (Fonte: http://usuarios.lycos.es).
Oi, muito curioso para saber sobre o Barroco e o Arcadismo? Muito
bem! Começaremos nossa aula definindo cada um deles, e o que repre-
sentaram para a literatura brasileira; depois, seguiremos mostrando as-
pectos pertinentes a ambos e como dialogam com a estética romântica.
Consideremos, então, os estudos de Afrânio Coutinho em Introdução à Li-
teratura no Brasil (1986), que deixa de lado a designação de literatura colo-
nial para tudo o que se produziu no Brasil durante o Período que engloba
três séculos, e não estabelecia distinção entre, por exemplo, a produção
de Anchieta e a de Gregório de Matos daquela posterior composta pela
conhecida Escola de Minas, e afirma que a crítica literária de cunho esté-
tico reconhece como sendo barroca a produção literária do Brasil-Colô-
nia. Para este autor a produção dos autores desse período não era menos
brasileira do que a que veio no período posterior à Independência políti-
ca, e, buscando comprovar sua tese, chama atenção para aquilo que se
produziu tanto no Barroco quanto no Arcadismo, capaz de caracterizar o
‘nacionalismo’ brasileiro desde os primórdios coloniais e de se infiltrar
pelo Romantismo adentro.
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
A LITERATURA PRODUZIDA NOS TRES
PRIMEIROS SÉCULOS DA VIDA COLONIAL
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A hora da leitura (Fonte: http://cyberteca.files.wordpress.com).
Afrânio Coutinho (2008) postula que o historiador português Fidelino
de Figueiredo entende as primeiras manifestações literárias da colônia
brasileira como pertencentes ao conjunto de obras que compunha o “ci-
clo dos descobrimentos” da literatura portuguesa do século XVI. O
quinhentismo português constitui-se da combinação de elementos medi-
evais, clássicos e nacionais. Dentre os elementos medievais, o autor destaca:
a velha métrica, as origens e a estrutura do teatro vicentino, a história por
crônicas de reis e a novela de cavalaria; dos elementos clássicos de importação:
o teatro clássico, a comédia e a tragédia, o romance e a écloga pastorais e
a epopéia; dos elementos nacionais: o movimento interno do teatro vicentino,
a historiografia, ou narração dos grandes feitos coloniais e a crônica da
expansão; a epopéia, transformada por Camões de gênero clássico em
instrumento da idéia nacional, os gêneros novos, ligados às narrativas das
descobertas, como as relações de naufrágios e os roteiros de viajantes.
O conhecimento da literatura produzida nos três primeiros séculos
da vida colonial mostra que ela se inclui em algum desses itens ou obede-
ce à inspiração dos motivos que dominaram o ciclo dos descobrimentos,
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Literatura Brasileira I
talvez, a contribuição mais original dos portugueses à literatura universal,
fundamentada nos motivos econômicos tais como: a conquista de novas
terras, mercados e fontes de riqueza, a expansão do comércio, a caça ao
escravo. Deste “ciclo” irromperam as primeiras forças que originaram,
posteriormente, as “letras” brasileiras.
A essa literatura de expansão e descobrimento se ligaram os primei-
ros livros escritos por portugueses ou brasileiros, no Brasil, ou acerca de
fatos, coisas e homens da Colônia: a obra dos jesuítas, seja a parte literá-
ria, lírica ou dramática, seja o acervo de cartas e informes sobre as condi-
ções da Colônia, é um capitulo da expansão portuguesa; a literatura de
viajantes e descobridores, os roteiros náuticos, os relatos de naufrágios,
as descrições geográficas e sociais, as descrições da natureza e do selva-
gem formam outros episódios desse ramo brasileiro da literatura de ex-
pansão ultramarina do quinhentismo português.
Entretanto, Afrânio Coutinho defende que o mito do ufanismo, isto
é, a tendência à exaltação lírica da terra ou da paisagem, espécie de cren-
ça num “eldorado”, apresenta-se como a primeira grande manifestação
das forças que marcaram uma linha permanente da literatura brasileira de
prosa e verso. Assim, Pero Vaz de Caminha, Anchieta, Manuel da Nóbrega,
Cardim, Bento Teixeira, Gândavo, Botelho de Oliveira, entre outros, são
exemplos de autores de “diálogos das grandezas”, uma singular literatura
de informação, que emerge de motivos econômicos de valorização da
terra aos olhos dos europeus.
A maioria dessas obras não pertence à literatura no sentido restrito, e
sua importância decorre de participarem desse ciclo de literatura do des-
cobrimento e de se inclinarem para a terra brasílica, na ânsia, que domina
a consciência do brasileiro do século XVII, de conhecê-la, de revelá-la,
de expandi-la. Embora possuindo inferior qualidade, do ponto de vista
estético, há que se considerar a sua posição na história literária: traz ano-
tações acerca do estilo de vida e da arte característicos do tempo. Delas é
que proveio o conhecimento dos fatores geográficos, econômicos e soci-
ais sobre que se erigiu a civilização brasileira.
Afrânio Coutinho (1980) destaca que: “a literatura brasileira emerge
da literatura ocidental do Barroquismo. Foi sob o signo do Barroco defini-
do não só como um estilo de arte, mas também como um complexo cultu-
ral, que nasceu a literatura brasileira” (p. 80). Você, talvez, esteja curioso
para saber mais sobre o Barroco, portanto, que tal começarmos com a
etimologia desta palavra?
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
O barroco: uma pérola de superfície irregular (Fonte: http://www.mundovestibular.com.br).
A palavra Barroco tem suscitado muita controvérsia; para uns ela é
de origem ibérica, espanhola barrueco, ou portuguesa barroco, que
significa uma pérola de superfície irregular. Para outros, a forma “bar-
roco” é legitimamente original, lusa. Nos séculos XVI e XVII o epíteto
significava um modo de raciocínio que confundia o falso e o verdadei-
ro, uma argumentação estranha, evasiva e fugidia, que subvertia as re-
gras do pensamento.
Originalmente, o Barroco tem sentido negativo, pejorativo, sinôni-
mo de bizarro, extravagante, artificial, monstruoso, visando a designar
um valor menos à arte seiscentista, interpretada como forma de decadên-
cia da arte renascentista ou clássica. É este o sentido usado pela crítica
neoclássica e Arcádica, o qual penetrou o século XIX. A palavra entrou
para o vocabulário corrente, com o sentido pejorativo original, na filoso-
fia: idéia barroca, argumentação barroca, pensamento barroco; em arte:
imagem barroca, figura barroca.
Afrânio Coutinho (1986) argumenta que o conceito, com seu sentido
negativo original, teve curso especialmente no terreno das artes plásticas
e visuais, designando a arte e a estética do período subseqüente ao
renascimento, interpretada como forma degenerada dessa arte, expressa
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Literatura Brasileira I
na perda da clareza, pureza, elegância de linhas, e no uso de toda a sorte
de ornatos e distorções, que resultaram num estilo impuro e obscuro.
Desta forma, o Barroco pode ser definido como o período literário
subseqüente ao Renascimento, equivalente ao século XVII, podendo-se
adotar como limite as datas de 1580 e 1680, com variações de acordo
com os países por onde “passou”. Renascimento, Barroco e Neoclassicismo
foram três períodos que se sucederam, entendidos por muitos como a
tese, a antítese e a síntese, pois foi somente com o classicismo da França
depois de 1660 que logrou unir, em uma harmoniosa obra prima Andrômaca
de Racine , a mitologia pagã da Antiguidade e o fervor cristão da Idade
Média, as duas visões opostas da vida que os escritores do Renascimento
e do Barroco tentaram reconciliar em suas respectivas artes.
O Renascimento caracterizou-se pelo predomínio da linha reta, pela
clareza dos contornos; o Barroco tenta a conciliação, a fusão do ideal
medieval, espiritual, com os novos valores estabelecidos pelo
Renascimento, tais como: o humanismo, o gosto das coisas terrenas, as
satisfações mundanas. Essa era uma das estratégias da Contra-Reforma,
que visava combater, consciente ou inconscientemente, o moderno espí-
rito, absorvendo-o no que tivesse de mais aceitável. Daí nasceu o Barro-
co, novo estilo de vida, que traduz em suas distorções o espírito contro-
verso da época, na filosofia, religião, arte, literatura.
René Wellek, ao concluir seu estudo acerca do Barroco em litera-
tura, destaca:
(...) o Barroco é um termo de sentido estético que auxilia a
compreensão da literatura do tempo e que concorrerá para romper
a dependência da história literária para com a periodização derivada
da história política e social. Ele abre o caminho para a síntese, afasta
nosso espírito da mera acumulação de observações e fatos, e
prepara o terreno para a futura história da literatura concebida como
uma arte (WELLEK apud COUTINHO, 1986, p.95).
O Barroco é, portanto, o estilo artístico e literário, e mais ainda, o estilo
de vida que encheu o período que se estende entre o final do século XVI e o
século XVIII, e de que participaram todos os povos do Ocidente. De maneira
feral, o barroco é um estilo identificado com a ideologia fornecida pela Con-
tra-Reforma e pelo Concílio de Trento, a que se deve o colorido peculiar da
época, em arte, pensamento, religião, concepções sociais e políticas.
A Contra-Reforma opôs a concepção do “homem aberto”, voltado para
o céu, à idéia renascentista do “homem fechado”, limitado à terra. Ela rea-
firma a ligação do homem com o divino rompida pelo Renascimento. O
homem barroco é um saudoso da religiosidade medieval, porém, nele foi
despertada tanto a ânsia da eternidade quanto os terrores do inferno. A arte
barroca, portanto, prestava-se a falar uma linguagem de emotividade, de
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
transcendentalismo, de ambigüidade, para traduzir o estado de conflito ou
tensão espiritual do homem, graças ao uso de elementos apropriados, artifí-
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cios e figuras, como antíteses, paradoxos, preciosismos, metáforas, simbo-
lismos sensuais, hipérboles e catacreses.
No entender de Afrânio Coutinho (2008) a literatura no Brasil colonial é
literatura barroca, nascida pelas mãos dos jesuítas, que usaram a representa-
ção ‘dramática’ para catequisar os nativos. E foi ao gênio plástico do Barroco
que se deveu a implantação do longo processo de mestiçagem, que constitui
a principal característica da cultura brasileira, adaptando as formas européias
ao novo ambiente, à custa da transculturação, conciliando dois mundos total-
mente diferentes: o europeu e o autóctone. O estudo da época colonial ofere-
ce o maior interesse para a compreensão da cultura brasileira, pois nele foram
construídas as bases de nossa cultura, sem falar na construção de costumes e
formas de organização social, da fixação de valores de vida e sistemas éticos
e legais e traços da psicologia individual e coletiva.
O termo Barroco no Brasil compreende duas grandes manifestações: o
barroco literário e o arquitetônico do século XVII, principalmente na Bahia,
e o Barroco mineiro do século XVIII, conhecido como Barroco tardio, con-
temporâneo do Arcadismo. Nas artes plásticas, em que o estilo jesuítico
produziu o melhor de nossa arquitetura colonial, destaca-se a figura do
Aleijadinho, com suas igrejas ricamente trabalhadas. Nas letras, porém, tanto
a literatura jesuítica como a obra ufanista de Botelho de Oliveira e Nuno
Pereira, bem como a de Vieira e de Gregório de Matos, com a descendência
do primeiro na oratória sagrada, são expressões, algumas bastante represen-
tativas, do Barroco literário, que somente mais tarde adquiriram valor esté-
tico. A respeito de tais autores, Afrânio Coutinho (1986) destaca:
Valem como testemunhos de um estilo artístico, cujos caracteres e
sinais espelham fielmente, como provam os estudos sobre eles. (...)
a impregnação barroca é tão profunda nos escritores do período
que a ela não escapam inclusive os historiadores e pensadores.
Exemplos típicos são os casos de Rocha Pita e Frei Vicente do
Salvador, cuja prosa reflete a contaminação barroca, mormente
nos seus aspectos de menor qualidade. (p. 80).
Dentre os gêneros literários mais cultivados naquele período, destacam-
se: o diálogo, a poesia lírica, a epopéia, ao lado da historiografia e da medita-
ção pedagógica, das quais o Barroco se aproveita, mesclando o mitológico ao
descritivo, o alegórico ao realista, o narrativo ao psicológico, o guerreiro ao
pastoral, o solene ao burlesco, o patético ao satírico, sem falar do mestiçamento
da linguagem, apresentada nas obras destinadas à evangelização, que muito
contribuiu para a diferenciação de um estilo brasileiro.
O Barroco literário apresenta-se sob duas faces o cultismo e o
conceptismo. O primeiro corresponde ao jogo de palavras e imagens vi-
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Literatura Brasileira I
sando ao rebuscamento da forma do texto, à ornamentação à erudição
vocabular. Nessa vertente barroca é comum o uso exagerado das figuras
de linguagem. O cultismo é também chamado de gongorismo, por ter sido
muito influenciado pelo poeta espanhol Luís de Gôngora. O segundo,
também conhecido como quevedismo, por ter sido muito influenciado
pelo espanhol Francisco Quevedo, corresponde ao jogo de idéias e de
conceitos, pautado no raciocínio lógico, visando ao convencimento à ar-
gumentação. Tanto o cultismo quanto o conceptismo influenciaram al-
guns dos nossos escritores, tais como Bento Teixeira, Pe. Antonio Vieira
e Gregório de Matos. Os dois primeiros não eram brasileiros, e suas obras
trazem a marca, isto é, a visão de mundo do homem europeu. Vejamos
um pouco mais sobre esses representantes do nosso Barroco.
Bento Teixeira destaca-se pelo seu poema épico Prosopopéia (1601), o
marco do Barroco no Brasil. É uma imitação de Os Lusíadas, o que era
muito comum na época, escrito também em decassílabos e dispostos em
oitava rima. No poema de Bento Teixeira a intenção é encomiástica e o
objeto do louvor Jorge de Albuquerque Coelho, donatário da capitania de
Pernambuco, que encetava a sua carreira de prosperidade graças à cana-
de-açúcar. O que há de não-português no poema, como a “descrição do
Recife de Pernambuco, “Olinda Celebrada” e o canto dos feitos de
Albuquerque Coelho, entra a título de louvação da terra enquanto colô-
nia, parecendo precoce o sentimento nativista.
A prosa barroca está representada em primeiro plano pela oratória
sagrada dos jesuítas. Com Antonio Vieira a estética barroca atinge o seu
ponto alto em prosa. Aliando a essência do estilo coupé e sentencioso, à
ênfase, à sutileza, ao paradoxo, à repetição, à assimetria, ao manejo da
metáfora, o grande orador sacro produziu páginas que são verdadeiros
tesouros da eloqüência sagrada em língua portuguesa. Na concepção de
Alfredo Bosi (2000), “existe um Vieira brasileiro, um Vieira português e
um Vieira europeu, e essa riqueza de dimensões deve-se não apenas ao
caráter supranacional da Companhia de Jesus que ele tão bem encarnou,
mas também à sua estatura humana de gênio” (p.44). No fulcro da perso-
nalidade do Padre Vieira estava o desejo da ação. A religiosidade, a sólida
cultura humanística e a eloqüência verbal serviram, nesse militante in-
cansável, a projetos grandiosos, nascidos da utopia contra-reformista de
uma Igreja Triunfante na terra, o sonho medieval de um império portugu-
ês e missionário se tornaria, afinal, realidade.
No seu espírito barroco, fermentavam as ilusões do estabelecimento
de um império luso e católico, respeitado por todo o mundo e servido
pelo zelo do rei, da nobreza, do clero. A realidade era bem outra; como
interprete fantasioso dos textos bíblicos em função do sebastianismo po-
pular, vê frustradas as suas profecias além de atrair suspeitas para as suas
obras “heréticas” Quinto Império e Clavis Prophetarum. Advogado dos cris-
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
tãos - novos (judeus conversos por medo de perseguições), suscita o ódio
da Inquisição que o manterá a ferros dois anos e lhe cessará o uso da
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palavra em todo Portugal. Enfim, no Maranhão, conhece as iras dos colo-
nos que não lhe perdoaram por ter defendido os nativos.
Dele ficou o testemunho de um sonhador incansável e de um orador
complexo e sutil, capaz de provar até o sofisma, eloqüente ate à retórica,
mas assim mesmo, um grande artista da palavra. No Sermão da Sexagésima,
proferido na Capela Real de Lisboa, em 1655, ele expõe a sua arte de
pregar. O Sermão da Primeira Dominga da Quaresma, pregado no Maranhão,
em 1653, o orador tenta persuadir os colonos a libertarem os indígenas
que lhe fazem evocar os hebreus cativos do Faraó. Vieira também foi um
defensor dos escravos. No Sermão XVI do Rosário, pregado em 1633 à
Irmandade dos Pretos de um engenho baiano, ele equipara os sofrimentos
de Cristo aos dos escravos, idéia tanto mais forte quando se lembra que
os ouvintes eram os próprios negros. Vejamos parte dessa obra,
Em um engenho sóis imitadores de Cristo Crucificado: porque
padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor
padeceu na sua cruz, e em toda sua paixão. A sua cruz foi composta
de dois madeiros, e a vossa
em um engenho é de três.
(...) cristo despido, e vós
despidos; Cristo sem
comer, e vós famintos;
Cristo em tudo maltratado,
e vós maltratados em tudo.
(BOSI, p. 46).
Gregório de Matos constitui, em
meio a seus companheiros da ‘escola
baiana’, a expressão individual mais
forte da poesia barroca da Colônia.
Como alguns poetas do seu tempo, ele
teve uma vida atribulada e polêmica,
sempre metido em desavenças com
pessoas poderosas e influentes, o que
lhe valeu o apelido de Boca do Infer-
no. A despeito do muito que deveu
aos grandes escritores espanhóis da
época, sobretudo Quevedo, sua poe-
sia é bem a primeira manifestação elo-
qüente da mestiçagem cultural que se
implantou no Brasil.
Gregório de Mattos (Fonte:http://1.bp.blogspot.com).
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Literatura Brasileira I
Pela temática e pela técnica estilística, a obra desse poeta brasileiro
enquadra-se no barroquismo, em que se podem ver as seguintes caracte-
rísticas expressas abaixo:
Esquema Barroquismo.
De um modo geral, a alma de Gregório de Matos era dominada pelo
dualismo barroco: mistura de religiosidade e sensualismo, de misticismo e
erotismo, de valores terrenos e carnais e de aspirações espirituais. Embora
conhecido como poeta satírico, sua obra divide-se em: poesia lírica e poesia
satírica, a primeira encontra-se dividida em: sacra, amorosa e encomiástica
(textos de circunstâncias destinados a elogiar pessoas importantes da épo-
ca). A poesia sacra ou religiosa é marcada pelo conflito gerado entre a vida
mundana e a vida espiritual, isto é, entre a consciência do pecado e o desejo
de salvação; vejamos um fragmento da sua poesia sacra:
“... Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar “.
Na poesia amorosa, também encontramos a dualidade barroca osci-
lando entre o amor elevado, espiritual e o sensualismo e o erotismo do
amor carnal, conforme podemos constatar nos fragmentos abaixo:
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
“Ardor em firme coração nascido;
2
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido”.
—————————
“O amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
Uma batalha de veias, um rebuliço de ancas;
Quem diz outra coisa, é besta”.
A sátira mais irreverente aflora, muitas vezes, com bastante clareza,
conforme os versos abaixo:
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa , escuta, espreita e esquadrilha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
O poeta moteja aqueles senhores de engenho que, já mestiçados de
português e tupi, presumiam igualar-se com a velha nobreza branca que
formaria o ‘antigo estado’ da Bahia. E é com imensa saudade e culpa que
o poeta vê o novo mercador lusitano e os associados deste na Colônia
ávidos de lucro e interessados em trocar ninharias por ouro das moendas.
Vejamos o soneto Triste Bahia, em que Gregório se identifica com a sua
terra espoliada pelo negociante de fora:
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
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Literatura Brasileira I
A ti trocou-te a maquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excedente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
A estética barroca também contou com alguns exemplos de prosa nar-
rativa, dentre os mais expressivos exemplos podemos citar Compendio Nar-
rativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, de quem já falamos
anteriormente. Trata-se de uma longa alegoria dialogada, muito próxima do
estilo dos moralistas espanhóis e portugueses que trocaram em miúdos os
princípios ascéticos da Contra-Reforma. O objetivo do Compendio (1718) é
apontar as mazelas da vida colonial, e contar o quanto a feitiçaria faz parte
do mundo dos escravos e da gente vagabunda no Brasil.
Até o princípio do século XVIII, as manifestações culturais da Colô-
nia não apresentavam qualquer nexo entre si, pois a vida dos poucos cen-
tros urbanos ainda não dispunha de condições para socializar o fenômeno
literário. Foi necessário esperar a cristalização de algumas comunidades
(a Bahia, o Rio de Janeiro e algumas cidades de Minas) que a economia do
ouro reanimava, para ver militares, religiosos, desembargadores, altos fun-
cionários, reunidos em grêmios eruditos e literários, a exemplo dos que
proliferavam em Portugal e em quase toda a Europa. Das academias bra-
sileiras fundadas, podemos dizer que formam o último centro irradiador
do Barroco literário, além de ser um sinal de uma cultura humanística
viva, fora do convencional, em nossa sociedade. Vejamos agora um pou-
co do movimento literário conhecido como Arcadismo ou Neoclassicismo.
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
Arcadismo: o ambiente fecundo para a vida cultural no Brasil (Fonte:http://upload.wikimedia.org).
O século XVIII é uma encruzilhada de correntes espirituais e estéti-
cas vindas de longe, elas se chocam e se misturam, fazendo desaparecer
umas, transformando outras. Não há mais absoluta pureza de estilos e
ideologias. As correntes que atravessam a época impregnam-se mutua-
mente, como se, por caminhos diferentes, todas se inclinassem para o
mesmo objetivo. É um período de crise, a que Afrânio Coutinho (1980)
chamou de “crise da consciência européia” iniciada por volta de 1680.
Na segunda metade deste século foi publicada a Enciclopédia, símbolo de
renovação cultural que tinha à frente D’Alembert, Diderot e Voltaire. Os
enciclopedistas deram grande impulso ao desenvolvimento das ciências,
valorizando a razão como agente propulsor do progresso social e cultural.
Todo esse movimento de renovação conhecido como Iluminismo, espa-
lhou-se pela Europa e atingiu Portugal.
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Literatura Brasileira I
No século XVIII, observa-se no Brasil o momento de maior importân-
cia, fase de transição e preparação para a independência. Demarcada, po-
voada, dilatada a terra, o século vai dar-lhe prosperidade econômica, melhoria
de suas condições materiais de vida, organização política e administrativa,
ambiente para a vida cultural, terreno fecundo para a liberdade. A Colônia
inicia seu processo de diferenciação com a criação da consciência histórica.
À descoberta e posse da terra, à façanha bandeirante de expansão da fron-
teira de oeste, à defesa contra o invasor, sucedeu a formação de uma cons-
ciência comum, de um sentimento ‘nacional’, que substituiu o nativismo
descritivo da natureza e do selvagem, expressos nas obras literárias produ-
zidas até então. Em vez do sentimento lírico, há o orgulho “nacional” pelos
feitos dos heróis e pelos fatos políticos e militares.
Cresce, antão, a figura do brasileiro, do mestiço de sangue e alma, o
tipo ‘local’ formado pela miscigenação e a aculturação, ao longo dos anos,
falando uma língua cada vez mais diferente daquela da metrópole no so-
taque e no vocabulário, e cantando numa voz própria canções de motivos
locais embaladas pela sensibilidade que a alma nacional desenvolveu.
Nuno Marques Pereira, no seu Peregrino da América (1779) dá noticias
da mudança na atividade intelectual da Colônia, onde também foram cri-
adas algumas academias os primeiros centros de comunhão cultural ,
em cuja sombra a vida literária brasileira se ergueu, acompanhando os
primeiros passos de uma nova estética: o Arcadismo, que surge com a
intenção de combater os excessos do barroco, propondo, pois, um retorno
à simplicidade, resgatando os valores que vão de encontro ao tipo de vida
levado pela aristocracia e à arte barroca que esta apreciava. Assim, idea-
liza-se a vida natural em oposição à vida urbana, a humildade no lugar
dos gastos exorbitantes da nobreza, o racionalismo em contraposição à
fé, a linguagem simples e direta em oposição à linguagem elitista e rebus-
cada do Barroco.
O Arcadismo no Brasil foi cultivado na poesia épica, lírica e na mo-
dalidade satírica. Foram produzidas algumas epopéias poemas que nar-
ram histórias de um povo ou uma nação, envolvendo aventuras, guerras,
gestos heróicos, apresentando um tom de exaltação de heróis e suas ações.
Muitas delas seguiam o modelo de Camões, uma vez que a literatura árcade
buscava a retomada dos modelos clássicos, daí também ser denominada
de Neoclassicismo, um novo Classicismo.
No Brasil, o movimento Árcade encontrou expressão num grupo de
poetas que viveu em Minas Gerais, na época o principal centro econômico
do Brasil em razão da descoberta do ouro e diamante. Na obra desses poe-
tas, podemos reconhecer a presença não só de alguns elementos típicos da
natureza brasileira, tais como a beleza da terra e do índio, como também
certa tendência para a confissão de dramas sentimentais e amorosos, ante-
cipando assim o estilo romântico que apareceria no século seguinte.
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
O arcadismo e a realidade local brasileira (Fonte: http://
www.portalsaofrancisco.com.br).
O marco inicial dessa nova ‘escola’ artística no Brasil é a publicação
de Obras (1768), do árcade Claudio Manuel da Costa. Além dele, perten-
ceram à Inconfidência Mineira os poetas Tomás Antonio Gonzaga e
Alvarenga Peixoto, Basílio da Gama, Silva Alvarenga e Frei de Santa Rita
Durão. Com este grupo começou-se a formar uma literatura mais propri-
amente brasileira, mais voltada para a realidade local, porém, como era
próprio do ideário árcade, sem abandonar os modelos europeus, sobretu-
do os Greco-latinos. Assim, ao lado do Ribeirão do Carmo encontram-se
ninfas e faunos, como verificamos na fábula do Ribeirão de Claudio Ma-
nuel da Costa.
O Poeta, na verdade, encontrava-se no limiar de duas criaturas, sen-
te-se apegado à sua terra natal, mas ainda possui muito da cultura euro-
péia. Vejamos a exemplo, a Lira LXII em que o eu lírico, adotando a
perspectiva de um pastor (comum entre os árcades), contrapõe os valores
da natureza aos do mundo urbano; o que quer dizer que, para ele, a vida
real está na natureza, e não na civilização (Europa), conforme mostra os
versos abaixo:
“Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fiéis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.
43
Literatura Brasileira I
Se o bem desta choupana pode tanto.
Que chega a ter mais preço, e mais valia,
Que da Cidade o lisonjeiro encanto”
O nome Arcadismo deriva de Arcádia, região lendária da antiga Grécia
habitada por pastores, de caráter rústico e símbolo da simplicidade e felici-
dade verdadeira; por isso, o bucolismo é o principal tema da poesia árcade.
O poema deve sempre mimetizar a vida simples e harmoniosa presente in
natura, portanto, deve ser simples, objetivo, claro e com muito mais com-
parações que metáforas, próprias da arte barroca. O retorno à vida próxima
da natureza justifica o fato de os poetas adotarem nomes de pastores em
seus poemas, assim Claudio Manuel da Costa era Glauceste Satúrnio; To-
más Antonio Gonzaga, Dirceu; Basílio da Gama, Termindo Sipilio.
Muitas outras questões estão presas a essa mentalidade bucólica do
Arcadismo, como a idéia desenvolvida pelo filósofo Frances Jacques
Rousseau sobre o “bom selvagem”, teoria sobre a corrupção do homem
pela sociedade. Tal tema será mais bem trabalhado pelos escritores ro-
mânticos como o Frances René Chateaubriand e o americano Fenimore
Cooper, e também pelos brasileiros José de Alencar e Gonçalves Dias,
que se aproveitaram da imagem do selvagem como ‘bom’ para a compo-
sição da imagem heróica do índio romântico, o que reafirma o dialogismo
entre a estética arcádica e o Romantismo brasileiro.
O poeta Basílio da Gama, já em 1769, elevava o ameríndio a herói
contra a imposição da civilização cristã, através do seu poema épico O
Uraguai, e frei de Santa Rita Durão, em Caramuru, defende a catequização
indígena, como única saída de salvação para os povos americanos. O po-
ema de Basílio da Gama, escrito em cinco cantos, em versos brancos,
decassílabos (dez sílabas poéticas) e sem rimas, narra a vitória militar de
Gomes Freire de Andrade na guerra contra os jesuítas, que catequizavam
os índios em colônias, onde hoje é o Rio grande do Sul e o Uruguai. A
origem da guerra é o tratado de Madri (1750), em que Portugal entrega à
Espanha a Colônia do Sacramento em troca da região colonizada pelos
jesuítas, conhecida como Sete Povos das Missões.
Porém, os jesuítas se recusaram a aceitar o Tratado, os dois países
organizaram uma campanha militar contra os padres entre 1752 e 1756.
O poema O Uraguai narra os últimos acontecimentos dessa guerra; escri-
to para agradar ao Marques de Pombal, que queria expulsar os jesuítas das
colônias portuguesas, apresenta como vilões da história exatamente os
religiosos. Embora de forma discreta, o poema mostra-se simpático aos
índios, vistos como vítimas de todo o processo de colonização, o que
levou muitos críticos a admitirem em seus estudos O Uraguai como pre-
cursor da literatura indianista brasileira.
44
As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
Por sua vez, o poema Caramuru, do frei de Santa Rita Durão é escrito à
Camões, com 10 cantos e oitavas com versos decassílabos heróicos. Narra
2
a história de Diogo Álvares Correia, náufrago português que foi salvo de ser
devorado pelos índios por ter produzido um estrondo com sua arma de
fogo. Assim sendo, os índios imaginaram que ele seria enviado de Tupã,
deus do trovão. Diogo passa a ser o alvo de disputa dos chefes, os quais
concederam a ele a mão de suas filhas; mas logo enamora-se da índia
Paraguaçu, noiva do índio Jararaca, partindo com ela para a Europa.
Diogo Álvares Correia: “O Caramuru” (Fonte: http://peregrinacultural.files.wordpress.com).
Nessa epopéia, podemos perceber a presença de temas como
“brasilidade” e ‘lusitanismo’, uma vez que em algumas passagens ele exalta
as coisas do Brasil e em outras enaltece Portugal. A história narrada aconte-
ce na Bahia: assim, ao longo do poema Durão menciona lugares importan-
tes desse estado: “Descobriu o recôncavo afamado da capital brasílica po-
tente” (DURÃO, I, I); ou ainda: “ Vós do áureo Brasil no principado” (DU-
RÃO, I, III). No poema os nativos são vistos como bons, puros, admirados
pelos europeus, mas igualmente aparecem como selvagens, conforme os
fragmentos citados: “Porque a gente cruel guardá-lo intenta/ Até que sen-
do a si restituído/ Como os demais vão comer, seja comido” (DURÃO, I,
XXVIII). A obra enfatiza também as características de Paraguaçu:
Paraguaçu, gentil (tal nome teve)
Bem diversa de gente tão nojosa
De cor alva como a branca neve,
E donde não é neve, era de rosa;
O nariz natural, boca muito leve,
Olhos de bela luz, testa espaçosa”
(DURÃO, II, XXVIII).
45
Literatura Brasileira I
A índia é diferente dos demais da tribo, como podemos perceber, ela
apresenta ‘traços’ e costumes que a aproximam dos europeus, como: pele
rosada, andar com corpo coberto, o que nos remete a um desprezo pelos
costumes indígenas. E, exatamente por ser ‘diferente’, ela é merecedora
de casar-se com o herói da trama, um europeu, enaltecendo assim a visão
do colonizador e não do colonizado.
Alem dessas duas obras poéticas, tiveram fundamental importância
para o Arcadismo brasileiro as obras de Tomás Antonio Gonzaga: Cartas
Chilenas (satírica), e Marília de Dirceu, em que Gonzaga celebrou versos
amorosos dirigidos à sua amada, Maria Joaquina Dorotéa de Seixas, a
Marília. Ainda que seja uma obra poética, imaginada pelo poeta, é possí-
vel acompanhar, pela leitura dos poemas escritos, a trajetória do relacio-
namento entre Gonzaga e Joaquina, inclusive o rompimento, quando o
poeta é preso acusado de ser um inconfidente, isto é, um infiel à Coroa
portuguesa, e expatriado para Moçambique, onde Gonzaga reconstrói sua
vida, casando-se com a filha de um mercador de escravos, vindo a morrer
cerca de seis anos mais tarde.
CONCLUSÃO
Concluímos dizendo que a importância dos árcades brasileiros foi
posta em evidencia por uma série de críticos eruditos Varnhagen,
Fernandes Pinheiro, José Veríssimo, Silvio Romero, entre outros. Todos
são unânimes em mostrar Vila Rica como o espaço que mais produziu
homens de grande cultura literária do tempo, aptos a receber as sementes
da ‘renovação’ que estava em curso para substituir o decadente
gongorismo. Graças à sensibilidade dos intelectuais árcades, foi possível
a adaptação de temáticas de origem clássica ao ambiente e ao homem
locais, com sentimento e emoções específicas, abrindo espaço para que a
literatura brasileira conquistasse a sua autonomia artística. É essencial
pensar o século XVIII como um período de mudanças, onde correntes do
barroco retardatário se misturam à neoclássica, à Arcádica e iluminista,
ora opondo-se, ora entrelaçando-se, para formar, mais adiante, o
Romantismo.É importante destacar que algumas obras do Barroco (lite-
ratura de informação, obras jesuíticas), assim como do Arcadismo brasi-
leiros, a exemplo de Caramuru e O Uraguai, trazem a marca da ‘brasilidade’,
isto é, se fundamentam a partir de três elementos importantes no proces-
so de formação da literatura brasileira, também enaltecidos pelo Roman-
tismo: a natureza, a terra e o índio; eis aí pontos de intersecção que rati-
ficam o diálogo entre a estética romântica e aquelas que a antecederam.
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
RESUMO 2
Nesta aula, tratamos sobre o Barroco e o Arcadismo, e as relações
dessas estéticas com o Romantismo. Mostramos que a literatura produzi-
da nos três primeiros séculos da vida colonial se inclui em algum desses
itens: a conquista de novas terras, mercados e fontes de riqueza, a expan-
são do comércio, a caça ao escravo e, muitas vezes, se fundamentada nos
motivos econômicos; e deste “ciclo” irromperam as primeiras forças que
originaram, posteriormente, as “letras” brasileiras. Vimos também que o
mito do ufanismo, isto é, a tendência à exaltação lírica da terra ou da
paisagem, espécie de crença num “eldorado”, apresenta-se como a pri-
meira grande manifestação das forças que marcaram uma linha perma-
nente da literatura brasileira de prosa e verso. Aprendemos, ainda, que a
literatura brasileira, segundo Afrânio Coutinho, emerge da literatura oci-
dental do Barroquismo. Foi sob o signo do Barroco definido não só como
um estilo de arte, mas também como um complexo cultural, que ela nas-
ceu. Ele (o Barroco) foi o período literário subseqüente ao Renascimento,
enfatizamos que esse estilo foi equivalente ao século XVII, e que tem
sentido negativo, pejorativo, extravagante, artificial, visando a designar
um valor menos à arte seiscentista, interpretada como forma de decadên-
cia da arte renascentista ou clássica. Quanto ao Arcadismo, vimos que
ele surge com intenção de combater os excessos do barroco, e tinha como
ideário estético o resgate da simplicidade da poética clássica Greco-lati-
na. Porém, há que se destacar que ambos trazem a marca da ‘brasilidade’,
isto é, se fundamentam a partir de três elementos importantes no proces-
so de formação da literatura brasileira: a natureza, a terra e o índio; pon-
tos comuns entre ambos que ratificam e tornam compreensível o diálogo
entre a estética romântica e aquelas que a antecederam.
ATIVIDADES
1. Como se caracteriza a literatura dos três primeiros séculos da vida
colonial?
2. O que você entende por Barroco?
3. Como se deu o Arcadismo no Brasil?
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Literatura Brasileira I
COMENTÁRIO SOBRE AS ATIVIDADES
De certo, você começa a lembrar agora que a literatura produzida
nos três primeiros séculos da vida colonial se inclui em algum desses
itens: a conquista de novas terras, mercados e fontes de riqueza, a
expansão do comércio, a caça ao escravo e, muitas vezes, se
fundamenta nos motivos econômicos; e deste “ciclo” irromperam as
primeiras forças que originaram, posteriormente, as “letras”
brasileiras. Lembra também que o mito do ufanismo, isto é, a
tendência à exaltação lírica da terra ou da paisagem, espécie de crença
num “eldorado”, apresenta-se como a primeira grande manifestação
das forças que marcaram uma linha permanente da literatura brasileira
de prosa e verso. E que a literatura brasileira emerge da literatura
ocidental do Barroquismo. Foi sob o signo do Barroco definido não
só como um estilo de arte, mas também como um complexo cultural,
que ela nasceu, portanto a literatura dos três primeiros séculos traz
as marcas barrocas.
Você, certamente, já sabe que a palavra Barroco tem suscitado
muita controvérsia; para uns ela é de origem ibérica, espanhola
‘barrueco’, ou portuguesa barroco, que significa uma pérola de
superfície irregular. Nos séculos XVI e XVI, o epíteto significava um
modo de raciocínio que confundia o falso e o verdadeiro, uma
argumentação estranha, evasiva e fugidia, que subvertia as regras do
pensamento. Originalmente, o Barroco tem sentido negativo,
pejorativo, sinônimo de bizarro, extravagante, artificial, monstruoso,
visando a designar um valor menos à arte seiscentista, interpretada
como forma de decadência da arte renascentista ou clássica. É este
o sentido usado pela crítica neoclássica e Arcádica, o qual penetrou
o século XIX. Pode ser definido como o período literário subseqüente
ao Renascimento. O Barroco é, portanto, o estilo artístico e literário,
e mais ainda, o estilo de vida que encheu o período que se estende
entre o final do século XVI e o século XVIII, e de que participaram
todos os povos do Ocidente. De maneira geral, o barroco é um estilo
identificado com a ideologia fornecida pela Contra-Reforma e pelo
Concílio de Trento, a que se deve o colorido peculiar da época, em
arte, pensamento, religião, concepções sociais e políticas.
Êpa, com certeza, você está lembrado que o Arcadismo surge
com a intenção de combater os excessos do barroco, propondo, pois,
um retorno à simplicidade, resgatando os valores que vão de encontro
ao tipo de vida levado pela aristocracia e à arte barroca que esta
apreciava. Assim, idealiza-se a vida natural em oposição à vida
urbana, a humildade no lugar dos gastos exorbitantes da nobreza, o
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As estéticas barroca e arcádica e suas relações com o Romantismo Aula
racionalismo em contraposição à fé, a linguagem simples e direta em
oposição à linguagem elitista e rebuscada do Barroco. Quanto ao
2
Brasil, observa-se, no século XVIII, o momento de maior importância,
fase de transição e preparação para a independência. Demarcada,
povoada, dilatada a terra, o século vai dar-lhe prosperidade
econômica, melhoria de suas condições materiais de vida,
organização política e administrativa, ambiente para a vida cultural,
terreno fecundo para a liberdade. A Colônia inicia seu processo de
diferenciação com a criação da consciência histórica. À descoberta e
posse da terra, à façanha bandeirante de expansão da fronteira de
oeste, à defesa contra o invasor, sucedeu a formação de uma
consciência comum, de um sentimento ‘nacional’, que substituiu o
nativismo descritivo da natureza e do selvagem, expressos nas obras
literárias produzidas até então. Em vez do sentimento lírico, há o
orgulho “nacional” pelos feitos dos heróis e pelos fatos políticos e
militares. O Arcadismo no Brasil foi cultivado na poesia épica, lírica
e na modalidade satírica. Foram produzidas algumas epopéias
poemas que narram histórias de um povo ou uma nação, envolvendo
aventuras, guerras, gestos heróicos, apresentando um tom de
exaltação de heróis e suas ações. Muitas delas seguiam o modelo de
Camões, uma vez que a literatura árcade buscava a retomada dos
modelos clássicos, daí também ser denominada de Neoclassicismo
(um novo Classicism)o. O marco inicial dessa nova ‘escola’ artística
no Brasil é a publicação de ‘Obras’ (1768), do árcade Claudio Manuel
da Costa. Aqui, o movimento Árcade encontrou expressão num grupo
de poetas que viveu em Minas Gerais, na época o principal centro
econômico do Brasil em razão da descoberta do ouro e diamante. Na
obra desses poetas, podemos reconhecer a presença não só de alguns
elementos típicos da natureza brasileira, tais como a beleza da terra
e do índio, como também certa tendência para a confissão de dramas
sentimentais e amorosos, antecipando assim o estilo romântico que
apareceria no século seguinte.
PRÓXIMA AULA
Quem sabe o assunto da próxima aula? Falaremos sobre o Romantis-
mo, enfatizando desde suas raízes européias até a ‘chegada’ ao Brasil.
Aguardem.
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Literatura Brasileira I
AUTO-AVALIAÇÃO
Fim de aula, inicio de sua avaliação crítica sobre o que aprendeu,
lembra? Será que você consegue definir os conceitos de Barroco e
Arcadismo, e dizer as características principais de cada uma destas estéti-
cas? Olhe, olhe, olhe... esses são os objetivos destacados para a aula,
viu!!! Registre na escala seguinte a nota que você mesmo se daria e tente
justificá-la.
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Justificativa:
REFERÊNCIAS
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 36 ed. São
Paulo: Cultrix, 2000.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no brasil. Rio de Janei-
ro: Civilização Brasileira, 1980.
__________. Conceito de literatura brasileira. Petrópolis: Vozes, 2008.
DURÃO, Santa Rita. Caramuru. São Paulo: Martins Claret, 2004.
FIGUEIREDO, Luciano. Narrativa das rebeliões: linguagem política e
idéias radicais na América portuguesa moderna. In: Brasil Colônia. São
Paulo. Revista USP, n. 57, p. 6-27.
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