Retrato de Russell por John Cochran
James Stuart Russell - Fotografia sem data,
colorida por Virgil Vaduva
A PAROUSIA
Um olhar cuidadoso sobre a doutrina do Novo
Testamento da Segunda Vinda de Nosso Senhor
________________
James Stuart Russell
MA, D. Div. (1816-1895)
________________
2ª Edição Ampliada
Tradução e comentários adicionais
Mateus Fonseca Souza
– Setembro de 2020 –
_____________________________
Patrocine esta obra!
_____________________________
Colabore com este trabalho que visa reformar o verdadeiro
ensinamento sobre a Escatologia (ou fim dos tempos), o qual foi tão
suprimido nos últimos séculos. Acima de tudo pedimos que nos
ajude com as suas orações, para que possamos continuar a ter vigor
para continuar e resistir os desafios de cada dia.
Se você pretende patrocinar esta revista, saiba, nós não
prometemos as bênçãos de Deus para você, mas garantimos que
você estará abençoando outros que precisam ter nossas literaturas
gratuitamente.
Doe via depósito bancário
Banco: Caixa Econômica Federal
Em favor de: César Francisco Raymundo
Agência: 3298
Operação: 013
Conta: 00028081-1
Usufrua gratuitamente do site
Temos perto de mil arquivos de artigos, vídeos e mensagens sobre
escatologia em geral. Todos eles divididos em ordem alfabética.
www.revistacrista.org
Contato:
[email protected]
[email protected]
________________
A Parousia
Um olhar cuidadoso da doutrina do Novo Testamento
da Segunda Vinda do Nosso Senhor
Autor: James Stuart Russell (1816-1895)
Tradução e Comentários adicionais: Mateus Fonseca Souza
E-mail do tradutor: [email protected]
Site: arquivopreterista.blogspot.com
Capa: César Francisco Raymundo
(Imagem da internet)
Revista Cristã Última Chamada
- 2ª Edição Ampliada - Fevereiro de 2021 –
Sobre o Copyright © desta obra:
Devido ao ano que foi escrito, este livro está em domínio público nos EUA. Esta
tradução do livro The Parousia é a primeira a ser realizada em língua portuguesa.
Esta tradução está protegida pela LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.
De acordo com esta Lei de Direito Autorais, esta tradução é uma obra “inédita - a
que não haja sido objeto de publicação;” (Art. 5º, inc. VIII, d); “derivada - a que,
constituindo criação intelectual nova, resulta da transformação de obra
originária;” (Art. 5º, inc. VIII, g).
________________
Revista Cristã Última Chamada publicada
com a devida autorização e com todos os
direitos reservados no Escritório de Direitos
Autorais da Biblioteca Nacional do Rio de
Janeiro sob nº 236.908.
É proibida a distribuição deste material para fins comerciais.
É permitida a reprodução desde que seja distribuído gratuitamente.
Editor
César Francisco Raymundo
E-mail: [email protected]
Site: www.revistacrista.org
Fevereiro de 2021
Londrina - Paraná
Livro do Ano Congregacional de 1896. O texto foi ligeiramente
editado. As referências das escrituras dos algarismos romanos foram
convertidas para o árabe.
* Os comentários em letra azul foram adicionados a fim de
enriquecer o material e não fazem parte da obra original.
CONTEÚDO
Sobre o Tradutor 20
Este e-book não defende o Preterismo Completo 21
Prefácio do Tradutor 23
Sobre a Obra e Autor 26
Alto Elogio para James Stuart Russell 29
Prefácio ao livro 31
INTRODUÇÃO
1. As últimas palavras da profecia no Antigo Testamento 34
O livro de Malaquias 34
O intervalo entre Malaquias e João Batista 39
PARTE I
A Parousia nos Evangelhos 41
1. A Parousia prevista por João Batista 41
2. O ensinamento de Nosso Senhor sobre a Parousia nos Evangelhos
sinópticos 44
Previsão da ira que vem naquela geração 45
Alusões adicionais à ira 48
O destino iminente da nação judaica 50
O fim do mundo ou o fim da dispensação judaica? 51
A vinda do Filho do Homem (a Parousia) durante a vida dos
apóstolos 55
A Parousia tem lugar durante a vida dos discípulos 58
A vinda do Filho do Homem, segura e pronta 63
A recompensa dos discípulos na era vindoura 66
3. Indicações proféticas da consumação que se aproxima e a vinda do
reino de Deus 68
I. Parábola das minas 68
II. A lamentação de Jesus sobre Jerusalém 72
III. A parábola dos lavradores maus 73
IV. Parábola do casamento do filho do rei 77
V. Aflições denunciadas aos escribas e fariseus 79
VI. Lamentação (segunda) de Jesus sobre Jerusalém 82
VII. A profecia do Monte das Oliveiras 86
Sinais e a manifestação do fim do mundo em geral 93
Sinais do fim do mundo em particular 94
O Fim Real do Mundo (versos 24-31) 96
4. Consideração da profecia do Monte das Oliveiras 99
I. Questões dos discípulos 99
- Resposta de Nosso Senhor aos discípulos 101
(a) Eventos que mais remotamente precedem a consumação 101
(b) Mais indicações sobre a condenação próxima de Jerusalém 106
(c) Discípulos advertidos contra os falsos profetas 110
(d) A chegada do "fim" ou a catástrofe de Jerusalém 112
(e) A Parousia deve ocorrer na geração atual 121
(f) Certeza da consumação, mas incerteza de sua data exata 128
(g) A rapidez da Parousia e o chamado para estar vigilante 129
(h) Os discípulos são advertidos sobre a rapidez da Parousia
(parábola do mordomo fiel) 134
II. Resposta de Nosso Senhor aos discípulos (continuação) 137
(i) A Parousia, um tempo de julgamento para amigos e inimigos de
Cristo (Parábola das virgens prudentes e virgens loucas) 137
(j) A Parousia, um tempo de julgamento (Parábola dos talentos) 140
(k) A Parousia, um tempo de julgamento (Parábola das ovelhas e
dos bodes) 142
5. O ensinamento de Nosso Senhor sobre a Parousia nos Evangelhos
sinópticos (continuação) 159
Declaração de Nosso Senhor diante do sumo sacerdote 159
Previsão das desgraças que vêm sobre Jerusalém 161
Oração do ladrão arrependido 163
Comissão Apostólica 164
- Leitura Complementar Adicional - Indicações proféticas da
consumação que se aproxima 167
- Apêndice Adicional - A Destruição de Jerusalém - George Peter
Holford 1805 168
6. A Parousia no Evangelho de João 212
A ressurreição dos mortos 212
A ressurreição, o julgamento e o último dia 216
O julgamento deste mundo e do príncipe deste mundo 219
O retorno de Jesus (a Parousia) em pouco tempo 224
João tem que viver até a Parousia 229
Resumo do ensinamento dos Evangelhos 232
Apêndice da Parte I 234
Nota A: Sobre a teoria da interpretação do duplo sentido 234
(a) A teoria do duplo sentido desestabiliza toda a interpretação 236
(b) Tipologia e duplo sentido da linguagem não devem ser
confundidos 237
(c) A plenitude sugestiva da Escritura não é prova de um duplo
sentido 238
(d) Nenhuma designação enganosa de tempo na profecia 239
(e) Mil anos como um dia 240
(f) Falácias da teoria da perspectiva profética de Bengel 241
(g) Tantas falácias quanto sentenças 242
(h) Aplicações práticas da profecia podem ser muitas 243
(i) Noções equivocadas da própria Bíblia, causa de falsa
exposição 243
Nota B: Sobre o Elemento Profético nos Evangelhos 245
PARTE II
A Parousia nos Atos e nas Epístolas 247
1. Nos Atos dos Apóstolos 247
A vinda do reino de Deus (na Parousia) 247
"Ir" e "Retornar novamente" 251
Os Últimos Dias chegaram 253
A destruição desta geração 255
A Parousia e a restauração de todas as coisas 255
Atitude dos cristãos primitivos em relação à Parousia 259
Cristo em breve julgará o mundo 261
A esperança da ressurreição (na Parousia) 263
2. Na Primeira Epístola aos Tessalonicenses 268
Introdução 268
A Primeira Epístola aos Tessalonicenses 271
O Evangelho é anunciado em todo mundo 272
Expectativa da rápida Vinda de Cristo 273
A Ira contra o povo Judeu 276
A relação entre a Parousia e os discípulos de Cristo 277
Cristo virá com todos os seus santos 278
Eventos que acompanham a Parousia 280
O Dia do Senhor e exortações para a repentina destruição 291
Oração pelos Tessalonicenses para sobreviver até a Vinda de
Cristo 293
3. Na Segunda Epístola aos Tessalonicenses 293
A Segunda Epístola aos Tessalonicenses 293
A Parousia, um tempo de julgamento contra os inimigos de Cristo e
de libertação do seu povo 294
Eventos que devem preceder a Parousia 296
1. Apostasia 303
2. O homem do pecado 304
4. Na Primeira Epístola aos Coríntios 315
A Primeira Epístola aos Coríntios 315
Atitude dos cristãos de Corinto em relação ao "Dia do Senhor" 316
O caráter judicial do "Dia do Senhor" (1 Co. 3:13) 319
O caráter judicial do "Dia do Senhor" (1 Co. 4:5) 321
O Julgamento do mundo 322
A Ressurreição dos discípulos do Senhor 323
A Proximidade da consumação 324
Alcançando o prêmio na Parousia 326
O fim dos tempos já chegou 327
Os Corintos devem anunciar a morte do Senhor até que ele
venha 329
A vinda do estado perfeito na Parousia 335
Eventos que acompanham a Parousia 337
Os vivos (os santos) são transformados na Parousia 346
A Parousia e a "última trombeta" 351
A senha apostólica, "Maran-atha" - O Senhor Vem 352
5. Na segunda Epístola aos Coríntios 353
Antecipações do "fim" e "o dia do Senhor" 354
Os mortos em Cristo serão apresentados junto com os vivos na
Parousia 354
Expectativa da futura bem-aventurança na Parousia 356
6. Na Epístola aos Gálatas 359
"A presente Era do Mal" 360
As Duas Jerusalém, a Antiga e a Nova 362
7. Na Epístola aos Romanos 363
O Evangelho é anunciado em todo mundo 363
O Dia da Ira 364
A vivificação dos vivos 365
A Escatologia de São Paulo 366
Israel na Escatologia Paulina 377
Proximidade da salvação vindoura 382
O Tribunal de Cristo 385
Perspectiva de libertação próxima 387
8. Na Epístola aos Colossenses 387
O Evangelho é anunciado em todo mundo 388
A Herança dos santos 389
Os rudimentos do mundo 390
A manifestação aproximada de Cristo 391
A aproximação da ira 392
9. Na Epístola aos Efésios 393
A dispensação da plenitude dos tempos 393
O dia da redenção 398
A gloriosa herança dos santos 399
A era presente e a era vindoura 400
As eras vindouras 401
O estado perfeito e glorioso 401
10. Na Epístola aos Filipenses 402
O dia de Cristo 402
O estado melhor da vida futura 403
A extraordinária ressurreição dentre os mortos 405
O destino dos inimigos de Cristo 407
A expectativa da Parousia 407
A proximidade da Parousia 408
11. Na Primeira Epístola a Timóteo 408
Apostasia dos últimos dias 409
Tabela Escatológica de passagens relacionadas com os últimos
tempos 410
Descrição da apostasia 415
Sinopse das passagens relativas a apostasia 416
Conclusão relativa à apostasia 422
Timóteo e a Parousia 423
A Apostasia já se manifesta 426
12. Na Segunda Epístola a Timóteo 426
"Aquele dia", o dia do Senhor 427
A heresia de Himeneu e Fileto 428
Apostasia dos últimos dias é iminente 433
Antecipações do fim que se aproxima 436
A promessa de ser levado em segurança ao reino celestial 437
13. Na Epístola a Tito 438
A atitude dos cristãos primitivos no "presente século" ou Aeon 439
Antecipação da Parousia 439
14. Na Epístola aos Hebreus 440
Os últimos dias já chegaram 441
As eras, idades ou períodos mundiais 442
O mundo vindouro ou a nova ordem 444
O fim, ou seja, da era ou aeon 445
A promessa do repouso de Deus 446
A era vindoura 451
O tempo da Reforma 452
O fim das eras 456
O Julgamento particular 456
Expectativa da Parousia 459
A Parousia é próxima 459
A Parousia é iminente 461
A Parousia e os santos do Antigo Testamento 462
A grande consumação está próxima 473
A Proximidade da consumação da era 475
A expectativa da Parousia 479
15. Na Epístola de Tiago 480
A relação entre a Parousia e os discípulos de Cristo 481
Os últimos dias vieram 481
A proximidade da Parousia 484
16. Na Primeira Epístola de Pedro 487
A salvação prestes a ser revelada no último tempo 488
A revelação de Jesus Cristo é próxima 489
Relação entre a redenção de Cristo e o mundo antediluviano 490
A proximidade do julgamento e o fim de todas as coisas 496
A boa notícia anunciada aos mortos 500
O teste de fogo e a glória vindoura 507
O tempo do julgamento chegou 508
A glória prestes a ser revelada 510
17. Na Segunda Epístola de Pedro 511
Entrando no reino eterno do Senhor 512
A certeza da Parousia 512
Falsos profetas 513
Os escarnecedores nos últimos dias 514
A escatologia de São Pedro 515
Certeza da proximidade da consumação 517
A Parousia será repentina 520
Atitude dos cristãos primitivos em relação à Parousia 520
Os novos céus e nova terra 521
A proximidade da Parousia e a razão da diligência 522
Os crentes não devem ser desencorajados pela aparente demora da
Parousia 522
A alusão de Pedro ao ensino de Paulo no tocante a Parousia 523
18. Nas Epístolas de João 525
Na primeira epístola de João 525
O mundo está passando: é a última hora 525
O anticristo veio; uma prova de que é a última hora 527
O anticristo não é uma pessoa, mas um princípio 529
Sinais distintivos do anticristo 531
Antecipação da Parousia 532
19. Na Epístola de Judas 533
A apostasia chegou 534
A Parousia transmitida por Enoque 536
Apêndice da parte II 537
Nota A - O reino dos céus, ou o reino de Deus 537
Nota B - Sobre "Babilônia" de 1 Pedro 5:13 550
Nota C - Sobre o simbolismo da profecia 556
Nota D - Dr. Owen sobre "os novos céus e nova terra" 562
Nota E - Rev. FD Maurice sobre a "última hora" (1 João 2:18) 565
- Apêndice Adicional - O Período de Transição 572
PARTE III
A Parousia no Apocalipse 594
1. O Apocalipse 594
Interpretação do Apocalipse 595
Limitação de tempo no apocalipse 596
Data do Apocalipse 601
Verdadeiro significado do Apocalipse 604
Estrutura e plano do Apocalipse 606
O número sete no apocalipse 609
O Tema do Apocalipse 610
O Prólogo 611
2. A primeira visão 612
As mensagens das sete igrejas 612
3. A segunda visão 615
Os sete Selos 615
Abertura do Primeiro Selo 618
Abertura do Segundo Selo 619
Abertura do Terceiro Selo 620
Abertura do Quarto Selo 623
Abertura do Quinto Selo 625
Abertura do Sexto Selo 628
Episódio do Selamento dos Servos de Deus 633
4. A terceira visão (parte I) 638
As sete trombetas 638
Abertura do sétimo selo 638
As quatro primeiras trombetas 639
A quinta trombeta 642
A sexta trombeta 646
5. A terceira visão (parte II) 649
Episódio do anjo e o livro aberto 649
A Medição do templo 656
Episódio das duas testemunhas 663
A sétima trombeta 678
6. A quarta visão 681
As sete figuras místicas 681
1. A Mulher vestida com o Sol 682
2. O Grande Dragão Vermelho 684
3. O Filho do Sexo Masculino 685
4. A Primeira Besta Selvagem 691
O Número da Besta 697
5. A Segunda Besta Selvagem 700
6. O Cordeiro no Monte Sião 704
7. O Filho do Homem na nuvem 707
7. A quinta visão 710
As sete taças 710
8. A sexta visão (parte I) 718
A cidade prostituta 718
9. A sexta visão (parte II) 734
Mistério da Besta Escarlate 734
Os Sete Reis 736
Os dez chifres da besta 738
(Nota sobre Apocalipse 17) 741
10. A sexta visão (parte III) 743
A Queda da Babilônia 743
O Julgamento da besta e seus poderes confederados 747
O Julgamento do Dragão 751
O Reino dos Santos e Mártires 757
A soltura de Satanás após os mil anos 760
A Catástrofe da Sexta Visão 762
11. A sétima visão 764
A santa cidade, ou a Noiva 764
Prólogo à Visão 765
A Cidade Santa descrita 768
Epílogo 769
12. Resumo e Conclusão 776
Apêndice da parte III 792
Nota A - Reuss sobre o "número da besta" 792
Nota B - Dr. J. M. Macdonald's "Vida e Escritos de João" 797
Nota C - Bispo Warburton sobre a "Profecia de nosso Senhor no
Monte das Oliveiras" e o "Reino dos Céus" 800
- Apêndice adicional - Robert Morey "Sheol, Hades e Gehenna" 802
13. Pós-Escrito de Russell 831
Prefácio à nova edição 831
Dollinger sobre "O Homem do Pecado" 832
A Babilônia do Apocalipse 833
Jerusalém, uma cidade de sete colinas 834
A questão crucial 835
A verdadeira solução 839
- Crítica de Charles Augustus Briggs e Resposta de Russell 842
- Posfácio R. C. Sproul 850
- Posfácio do Tradutor 854
- Leitura Complementar Adicional 858
- Relações Igreja-Estado no livro do Apocalipse 859
Sobre o Tradutor
Mateus Fonseca nasceu em 5 de
novembro de 1993 e é natural da
cidade de Cabo Frio, Estado do Rio
de Janeiro. É membro da igreja
Batista daquela cidade. Estudioso
do Preterismo e também
colaborador da Revista Cristã
Última Chamada, atualmente,
mantém o blog Arquivo Preterista
que possui materiais de estudos
sobre a interpretação preterista da
profecia Bíblica.
Email: [email protected]
Site: arquivopreterista.blogspot.com
Este e-book não defende
o Preterismo Completo
Na página 20 de meu e-book, Refutando o Preterismo Completo, escrevi
que ―até mesmo o estudioso preterista completo, o estudioso J. Stuart
Russell, admitiu que Atos 1:9-11 ensina sobre uma vinda literal de
Cristo‖. Chamei Russell de preterista completo porque naquele
tempo da escrita desse e-book eu estava seguindo o raciocínio do
pastor Brian Schwertley. O que pude notar é que muitos de nós que
tivemos contato com a obra The Parousia de Russel, não demos muita
atenção a alguns pormenores. Por nos concentrarmos demais sobre a
ideia de que Russell foi um preterista completo, acabamos ignorando
certos pontos bem sutis.
Um pouco mais contextualizado na obra de Russell, o que posso
dizer hoje aos meus leitores é que vocês podem discordar de seu livro
The Parousia; mas não poderão chamá-lo de preterista completo.
Apesar de ensinar que a ressurreição e a segunda vinda de Cristo se
cumpriu no primeiro século da era cristã, Russell deixa em aberto os
acontecimentos restantes de Apocalipse 20 para cumprimento em um
futuro indefinido, os quais incluem juízo final e uma ressurreição.
Russell também é ortodoxo na questão sobre a natureza da
ressurreição e da segunda vinda, algo negado pelo moderno
Preterismo Completo.
A obra de Russell é recomendada por teólogos famosos, como R.
C. Sproul, Gary DeMar, David Chilton, Kenneth Gentry Jr. e tantos
outros estudiosos do Preterismo Parcial. Para quem sabe aproveitar
bem uma obra rica como esta, sem ser dogmático agarrando-se a
qualquer ideia, mas retendo o que é bom, recomendo a leitura deste
e-book.
É com muita satisfação que apresento pela primeira vez no Brasil
não somente este e-book em si, mas com acréscimos de comentários
adicionais produzidos por Mateus Fonseca, tradutor e escritor do
blog Arquivo Preterista.
Boa leitura.
César F. Raymundo
Editor da
Revista Cristã
Última Chamada
PREFÁCIO
- MATEUS FONSECA1 -
Para os estudantes da profecia e da escatologia bíblica, a palavra
"Parousia" é uma palavra familiar, é uma referência à Segunda Vinda
de Cristo. J.S. Russell examina todos os textos significativos do
Novo Testamento sobre a volta de Cristo, para ver quando isso
ocorreria e como seria. Ele chegou a conclusão que a Segunda Vinda
ocorreu no primeiro século com a destruição de Jerusalém em 70 dC,
e por isso sua visão é conhecida como "Preterista". De acordo com o
Dicionário Webster's Unabridged, um Preterista é "um teólogo que
acredita que as profecias do Apocalipse já foram cumpridas".
Mas que diferença isso faz? A verdade é que tudo que é crucial para
o Cristianismo está em risco. A Deidade de Cristo, a integridade dos
apóstolos e profetas e a inspiração do Novo Testamento estão em
jogo. Como assim? Jesus e os escritores do NT repetidamente fazem
previsões restritas de tempo sobre Seu retorno e os outros eventos do
tempo do fim. Eles não apenas sugerem que a Parousia de Cristo
pode ocorrer em seu tempo vida (isto é, em sua geração), mas eles
afirmam isso inequivocamente. Liberais, céticos e críticos judeus /
islâmicos usam essas "declarações de tempo" para desacreditar Jesus e
o Novo Testamento. Homens inspirados não podem cometer erros.
Uma vez que Jesus e os escritores do NT previram que o retorno de
Cristo ocorreria em sua geração, e isso supostamente não aconteceu,
eles assumem que Jesus e os escritores do NT estavam enganados.
Na verdade, se não podemos confiar em suas declarações proféticas,
não podemos confiar em nada mais que eles dizem. O cristianismo
ficará totalmente desacreditado se essas previsões falharem em se
materializar exatamente como foi profetizado.
Mas quais são esses "textos temporais"? Mateus 16:27-28 é um bom
exemplo. Este livro trata de cada um deles. Eles não se enganaram
1
Esse prefácio foi baseado no prefácio de Ed Estevens a The Parousia.
quando previram o retorno de Cristo em seus dias, realmente ocorreu
em 70 dC. Os teólogos que estudam a profecia do tempo do fim
consideram o livro de Russell uma defesa clássica da visão preterista.
É este livro, mais do que qualquer outro, que moveu tantos em
direção ao Preterismo. Muitos na fé reformada (por exemplo, R. C.
Sproul, Sr., David Chilton, Gary DeMar, Ken Gentry, Gary North,
Jim Jordan, et al) creditam o livro de Russell como tendo um impacto
significativo em suas visões escatológicas.
Até este livro aparecer em 1878, o Preterismo tinha pouca
sistematização. Este livro iniciou esse processo e continua sendo uma
das explicações mais consistentes e abrangentes do Preterismo
disponíveis. A visão preterista floresceu na Alemanha e na Grã-
Bretanha. Mas a América, ainda se recuperando da guerra civil, deu
pouca atenção. Em termos globais, seu impacto ainda é marginal, mas
teve um crescimento significativo nos últimos dez anos, e a Internet é
um dos grandes fatores que o estimulam. O que a imprensa de
Gutenberg fez pela reforma protestante, a Internet fez pela reforma
preterista.
A Internet é o lugar perfeito para publicar materiais úteis como
este. Um dos primeiros livros a serem postados em sites preteristas
foi The Parousia de James Stuart Russell. Este livro está destinado a
permanecer um clássico Preterista. Russell fez um trabalho notável de
interpretação em comparação com os séculos anteriores. Ele apontou
o caminho em uma série de áreas que apenas agora estamos
começando a desenvolver ainda mais. Ele dedicou mais de 170
páginas ao livro do Apocalipse. Uma de suas melhores declarações
está aí. Ele usa as declarações de "tempo" nos primeiros três
versículos do Apocalipse para mostrar o quão crucial é a data de
escrita para a interpretação do livro: "Pode-se dizer que a chave está o
tempo todo pendurada na porta, claramente visível para cada um que
tinha olhos para ver; no entanto, os homens têm tentado arrombar a
fechadura, ou forçar a porta, ou escalar de alguma outra maneira, em
vez de se valerem de um meio de admissão tão simples e pronto
como usar a chave feita e fornecida para eles". Russell não deixa
desculpas para o futurismo. A precisão substancial de suas conclusões
pode quase ser presumida do fato de que a profecia do Novo
Testamento é encontrada consistente e fácil de interpretação, e o
resultado totalmente digno do Evangelho da salvação. Sua pesquisa
em todas as referências da "Parousia" (segunda vinda) é um tour na
exegese preterista.2 Este livro foi a primeira onda do que se tornou
uma tempestade de livros defendendo o cumprimento da profecia do
tempo do fim em 70 dC. Futuristas e preteristas parciais não podem
mais se esconder atrás da desculpa de querer "indicadores de tempo"
explícitos antes de atribuir um texto a 70 dC. Russell e os preteristas
modernos demonstram exaustivamente que todos os textos do tempo
do fim do NT têm "relevância de audiência" do primeiro século
escrita neles, que funciona como um indicador de tempo implícito. O
Novo Testamento não foi escrito para nós originalmente. Estamos
lendo o e-mail de outra pessoa. A principal tarefa de um intérprete da
Bíblia é descobrir o que o autor original pretendia comunicar ao seu
público original, não apenas perguntar o que isso "poderia" significar
para nós hoje.
O preterismo conservador é provavelmente o mais exigente de
todas as abordagens proféticas. Digo isso porque não é suficiente
para um preterista conservador expor apenas em uma determinada
passagem; ele também deve mostrar como ela foi realizada na
história. Isto é, uma vez que ele tem interpretado uma determinada
passagem e harmonizada com o resto da Escritura, um preterista
conservador deve, então, conciliar sua interpretação com os fatos da
história. Isso nem sempre é fácil, especialmente quando se está a
2
A segunda edição conta com alteração de algumas notas, um
apêndice adicional sobre sheol, hades e gehenna, a crítica de Briggs e
réplica do Russell e um tratado sobre a relação igreja e o estado no
livro do Apocalipse escrito por Todd Dennis deixando esta
maravilhosa obra ainda mais completa.
discutir os eventos que ocorrem no reino espiritual, como os livros de
Daniel e Apocalipse costumam fazer (cf. Ap. 12:1-12).
SOBRE A OBRA E AUTOR DE:
The Parousia - Um exame cuidadoso da doutrina do Novo
Testamento sobre a Segunda Vinda de nosso Senhor
Interage com: Alford, Bengel, Conybeare/Howson, Jowett,
Hengstenberg, Lange, Maurice, Michaelis, Meyer, Reuss, Stier, Stuart,
Tholuck, Warburton.
James Stuart Russell (1816-1895) serviu como pastor da Igreja
Congregacional em Bayswater, Inglaterra durante 1862 a 1888. Ele
obteve seu diploma de M.A. pelo King's College, University of
Aberdeen. Depois que este livro foi publicado, eles o homenagearam
com diploma de D.D. Duas edições foram publicadas, a primeira em
1878 e a segunda em 1887, ambas em Londres. Esta é a introdução
mais popular e a defesa da visão preterista da Profecia da Bíblia
impressa hoje.
James Stuart Russell, filho de um escocês piedoso, nasceu em Elgin,
Morayshire, em 28 de novembro de 1816. Entrou no King's College,
em Aberdeen, aos doze anos de idade e, aos dezoito anos, completou
seu mestrado. Sua decisão religiosa data de cerca de seu décimo sexto
ano sob a influência de seu irmão mais velho. Por um tempo ele
serviu em um escritório de advocacia. Então, para se preparar para
um ministério cristão, ele estudou nos salões teológicos de
Edimburgo e Glasgow, encontrando seu caminho para o Cheshunt
College.
Em junho de 1843, Russell tornou-se ministro assistente na Igreja
Congregacionalista em Great Yarmouth, antes de assumir o cargo de
ministro. Em 1857, Russell transferido para a Igreja Congregacional
em Tottenham e Edmonton. Mantendo esta posição, Russell visitou
Belfast para observar o funcionamento do grande renascimento
irlandês e ficou sob sua influência. Em seu retorno, um despertar
semelhante ocorreu em sua própria igreja.
Após uma estadia de cinco anos em sua segunda igreja, Russell foi
atraído por uma nova igreja no rápido crescimento de Bayswater, cuja
capela foi construída em 1866. Aqui ele continuou a servir até que
seus anos e problemas de saúde levaram à aposentadoria em 1888.
Russell não era apenas um pregador capaz, mas também um
homem de gentileza de comportamento. Ele foi dotado de
características pessoais vencedoras, que lhe asseguraram seguidores
dedicados. Suas maneiras agradáveis e espírito genial, seu humor
nativo e sagacidade genuína, sua leitura extensiva e amplo
conhecimento e memória mais retentiva, fez conversações com ele
agradável e rentável.
O fervor de Russell se estendia além dos limites de seu próprio
pastorado. Ele estava presente, em 1843, na formação da Aliança
Evangélica, com cujo objetivo e operações ele permaneceu em
simpatia calorosa e ativa até o último. Ele tinha um senso cada vez
mais profundo da importância do movimento de temperança, e ele
foi o primeiro presidente da Associação Congregacional Total de
Abstinência. Tanto a Liga Nacional de Temperança quanto a Aliança
do Reino Unido o consideravam entre seus membros. Sua defesa da
boa causa estava em demanda frequente por reuniões em Londres e
nos subúrbios.
PUBLICANDO THE PAROUSIA
Mas é como autor que Russell é mais amplamente conhecido e será
lembrado por muito tempo. Ele havia mantido a doutrina do passado
segundo advento (Preterismo) por muitos anos antes de escrever ou
até mesmo falar sobre o assunto. Ele costumava descrever como o
assunto lhe chegava como uma espécie de revelação. Ao descobrir a
chave do mistério, todo o tema se desdobrou gradualmente. Era para
ele uma fonte de deleite constante ver um ponto após o outro em
harmonia com o que ele acreditava ser a verdade central. Assim, em
1878, ele publicou anonimamente sua agora célebre, A Parousia,
contendo uma elaborada exegese sobre essas linhas do ensino do
Novo Testamento sobre a segunda vinda de Jesus Cristo. Outra
edição seguiu com o nome do autor em anexo.
Este trabalho, um espécime rara de exposição séria e perspicácia
lógica, chamou muita atenção para o assunto em ambos os lados do
Atlântico. A Universidade de Aberdeen logo sinalizou sua apreciação
do livro conferindo ao autor um diploma bem merecido em
divindade, que ele valorizava tanto mais por ser de sua alma mater.
O argumento desta peça consumada de crítica bíblica teve o efeito
de levar muitos a crer que o segundo advento de Cristo realmente
ocorreu no primeiro século da era cristã. Frequentemente Russell
teria alegria da adesão aberta de uma pessoa após a outra às visões
estabelecidas em seu trabalho. Sua magistral dissertação deve manter-
se como autoridade em seu departamento particular, que todos os
que se propõem a explorar o mesmo campo devem consultar. Para
sua pena independente, mas reverente, a Igreja em geral é devedora
de uma valiosa contribuição para o alcance do estudo das Escrituras e
do pensamento sagrado.
VIDA TARDIA
Os últimos anos de Russell foram encobertos por enfermidades
corporais e doenças dolorosas. Ele suportou seus sofrimentos, para a
admiração de atendentes e consultores médicos, com uma paciência
masculina e até alegre, sustentada por sua fé cristã. Repetidas vezes
ele repetia as palavras: "Em Cristo, a rocha sólida, estou em pé!"
Além disso, suas provações físicas foram alegremente aliviadas, como
as de sua esposa santo, pela solicitude e pela devoção incansável de
uma única filha. De seus braços e dos de seu único irmão, o pai
passou pacificamente em 5 de outubro de 1895, no 79º ano de sua
idade e no quinquagésimo segundo ano de seu ministério. Russell está
enterrado no cemitério Kensal Green.
ALTO ELOGIO PARA JAMES STUART RUSSELL
"Acredito que o livro de Russell é um dos trabalhos mais
importantes na escatologia bíblica que está disponível para a igreja
hoje. As questões levantadas neste volume com respeito às
referências de tempo do Novo Testamento à Parousia são de vital
importância não apenas para a escatologia, mas para o futuro debate
sobre a credibilidade da Sagrada Escritura."
"Esta é atualmente a introdução mais popular da defesa do ponto
de vista preterista da profecia bíblica. A maioria dos teólogos na
Europa séculos atrás adotou o preterismo, por isso não é
surpreendente ouvir alguns dos bem conhecidos contemporâneos de
Russell dizer coisas boas sobre este livro: FW Farrar disse que o livro
era "cheio de sugestividade" Milton Terry, que escreveu
Hermenêutica bíblica, citou amplamente o livro de Russell e apoiou
plenamente a abordagem preterista. Charles H. Spurgeon, disse que o
livro "lança muita luz sobre partes escuras das Escrituras, e é
acompanhada por muitas investigações críticas e raciocínio, portanto,
detalhado, não pode ferir ninguém e pode se beneficiar a todos".
- CH Spurgeon sobre "The Parousia
Escritores conhecidos e teólogos conservadores de nossos dias
dizem coisas semelhantes sobre Russell e o ponto de vista preterista.
Ouça as seguintes declarações de Gary De Mar, do Dr. RC Sproul, do
Dr. Kenneth Gentry e de Walt Hibbard.
"Eu nunca poderei ler o Novo Testamento novamente da mesma
forma que o li antes de ler The Parousia. Espero que melhores
estudiosos do que eu continuem a analisar e avaliar o conteúdo do
importante trabalho de J. Stuart Russell."
- Dr. RC Sproul, fundador e presidente do Ministério Ligonier
"Quantas vezes você tem lutado com a interpretação de certos
textos bíblicos relacionados ao tempo do retorno de Jesus porque
eles não se encaixam com um sistema preconcebido de escatologia?
The Parousia de Russell leva a Bíblia a sério quando nos fala da
proximidade do retorno de Cristo. Aqueles que afirmam interpretar a
Bíblia literalmente frequentemente tropeçam no significado óbvio
desses textos de tempo, ao fazerem a Escritura, o oposto do que ela
inequivocamente declara. Ler Russell é uma lufada de ar fresco em
uma sala cheia de fumaça e hermenêutica espelhada".
- Gary DeMar, autor de Last Days Madness
"Embora eu não concorde com todas as conclusões de The
Parousia, de J. Stuart Russell, recomendo vivamente esta bem
organizada, cuidadosamente argumentada e convincentemente escrita
defesa do preterismo aos estudantes sérios e maduros da Bíblia. É um
dos livros mais persuasivos e desafiadores que li sobre escatologia e
teve um grande impacto no meu próprio pensamento. O estudo
teológico bíblico de Russell sobre a escatologia do Novo Testamento
estabelece um padrão de excelência".
- Dr. Kenneth L. Gentry Jr., autor de Before Jerusalem Fell
"Em vista das perspicazes observações do Dr. Russell, nenhum
estudante sério de escatologia bíblica deveria tentar construir um
esquema sistemático de eventos apocalípticos sem primeiro consultar
esta obra do século XIX, The Parousia".
- Walt Hibbard, Great Christian Books
PREFÁCIO AO LIVRO
Nenhum leitor atento do Novo Testamento pode deixar de ser
atingido com a proeminência dada pelos evangelistas e pelos
apóstolos à PAROUSIA, ou "vinda do Senhor". Esse evento é o
grande tema da profecia do Novo Testamento. Não há praticamente
um único livro, desde o Evangelho de São Mateus até o Apocalipse
de São João, no qual ele não é apresentado como um gloriosa
promessa de Deus, uma bendita esperança da igreja. Foi
frequentemente e solenemente prevista por nosso Senhor; foi
incessantemente mantido diante dos olhos dos primeiros cristãos
pelos apóstolos; e foi firmemente acreditada e ansiosamente esperada
pelas igrejas da era primitiva.
Não se pode negar que há uma diferença notável entre a atitude dos
primeiros cristãos em relação à Parousia e a dos cristãos atualmente.
Essa esperança gloriosa, para a qual todos os olhos e corações da era
apostólica se voltaram avidamente, quase desapareceu da visão dos
crentes modernos. Quaisquer que sejam as opiniões teóricas
expressas em símbolos e credos, é preciso admitir com sinceridade
que a "segunda vinda de Cristo" quase deixou de ser uma crença viva
e prática.
Várias causas podem ser designadas na explicação desse estado de
coisas. As vaticinações precipitadas daqueles que se comprometeram
com demasiada confiança a serem intérpretes de profecia, e o
descrédito resultante do fracasso de suas previsões, sem dúvida
dissuadiram homens reverentes e sóbrios de entrar na investigação de
"profecia não cumprida". Por outro lado, há razões para pensar que a
crítica racionalista gerou dúvidas sobre se as previsões do Novo
Testamento pretendiam ter um cumprimento literal ou histórico.
Entre o racionalismo, por um lado, e o irracionalismo, por outro,
tem havido um estado amplamente prevalecente de incerteza e
confusão de pensamento em relação à profecia do Novo Testamento,
que em certa medida explica, embora possa não justificar, a
consignação de todo o sujeito à região de problemas
irremediavelmente obscuros e insolúveis.
Isso, no entanto, é apenas uma explicação parcial. Merece
consideração se pode não haver uma diferença fundamental entre a
relação da igreja da era apostólica com a Parousia prevista e a relação
com esse evento sustentado pelas eras subsequentes. Os primeiros
cristãos, sem dúvida, acreditavam estar à beira de uma grande
catástrofe, e sabemos que intensidade e entusiasmo a expectativa da
vinda quase imediata do Senhor inspirou; mas se não for possível
demonstrar que agora os cristãos estão em situação semelhante,
haveria falta de verdade e realidade ao afetar a antecipação e a
esperança da igreja primitiva. O mesmo evento não pode ser iminente
em dois períodos diferentes, separados por quase dois mil anos.
Portanto, deve haver algum equívoco grave por parte daqueles que
sustentam que a igreja cristã de hoje ocupa precisamente a mesma
relação e deve manter a mesma atitude, em relação à 'vinda do
Senhor' que a igreja nos dias de São Paulo.
O presente volume é uma tentativa, num espírito sincero e
reverente, de esclarecer os equívocos modernos, e de averiguar o
verdadeiro significado da Palavra de Deus sobre um assunto que
ocupa um lugar tão visível nos ensinamentos de nosso Senhor e Seus
apóstolos. É o fruto de muitos anos de investigação paciente, e o
Autor não poupou esforços para testar ao máximo a validade de suas
conclusões. Seu único objetivo era determinar o que diz a Escritura e
seu único desejo de ser governado por uma submissão fiel à sua
autoridade. O ideal da interpretação bíblica que ele manteve diante
dele é tão bem expresso por um teólogo alemão - "Explicação plana
não tortuosa, facilidade não violenta, eademque et exegeticce e
Chistanae conscientium pariter arridens".3
3
Tratado de Donier, De Oratione Christi Eschatologica , p. 1.
Embora a natureza da investigação necessite de uma referência um
tanto frequente ao original do Novo Testamento, e às leis da
construção e interpretação gramaticais, tem sido objeto do Autor
tornar este trabalho o mais popular possível, e tal como qualquer
outro. Um homem de educação e inteligência comuns pode ler com
facilidade e interesse. A Bíblia é um livro para todo homem, e o
Autor não escreveu apenas para estudiosos e críticos, mas para
muitos que estão profundamente interessados na interpretação
bíblica, e que pensam, com Locke: "uma busca imparcial do
verdadeiro significado do Sagrada Escritura, o melhor emprego de
todo o tempo que eles têm".4 Será uma recompensa suficiente de seu
trabalho se ele conseguir elucidar em qualquer grau os ensinamentos
da revelação divina que foram obscurecidos por preconceitos
tradicionais ou mal interpretados por uma exegese errônea.
4
Locke, notas sobre Efésios 1:10.
AS ÚLTIMAS PALAVRAS DA PROFECIA DO
ANTIGO TESTAMENTO
O LIVRO DE MALAQUIAS
O cânon das Escrituras do Antigo Testamento fecha-se muito
diferente do que se poderia esperar após o esplêndido futuro revelado
à nação da aliança nas visões de Isaías. Nenhum dos profetas carrega
um fardo mais pesado do que o último profeta do Antigo
Testamento. Malaquias é o profeta da destruição. Parecia que a nação,
através da sua obstinação e desobediência incorrigíveis, havia
renunciado ao favor divino e provado ser não apenas indigna, mas
incapaz, das glórias prometidas. A partida do espírito profético estava
carregada de maus presságios, e parecia indicar que o Senhor estava
prestes a deixar a nação. Como resultado, a luz da profecia do Antigo
Testamento desaparece em meio a nuvens e escuridão espessa. O
livro de Malaquias é uma longa e terrível acusação contra a nação. O
próprio Senhor é o acusador, e com evidência cada vez mais clara,
sustenta cada uma das acusações contra os culpados. A longa
acusação inclui sacrilégio, hipocrisia, desprezo contra Deus,
infidelidade conjugal, perjúrio, apostasia, blasfêmia; enquanto, por
outro lado, essas pessoas têm a coragem de repudiar a acusação e se
declaram "sem culpa" de cada uma das acusações. Essas pessoas
parecem ter chegado a essa fase de insensibilidade moral em que os
homens chamam o bem de mal e o mal de bem e estão rapidamente
se amadurecendo para serem julgados. Como resultado, o julgamento
seguinte é "o ônus da palavra do Senhor para Israel através de
Malaquias".
Malaquias 3:5: "E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma
testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os
que juram falsamente, contra os que defraudam o diarista em seu
salário, e a viúva, e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro,
e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos".
Malaquias 4:1: "Porque eis que aquele dia vem ardendo como
fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade,
serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o
SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem
ramo".
Que esta não é uma ameaça vaga e sem sentido é evidente a partir
dos termos claros e definidos com os quais é anunciado. Tudo aponta
para uma crise iminente na história da nação, quando Deus
administra julgamento sobre o povo rebelde. "aquele dia vem
ardendo como fornalha", "o dia grande e terrível do Senhor". Que
este "dia" se refere a um certo período e a um evento específico não
se admite dúvidas. Já havia sido predito, e precisamente com as
mesmas palavras, pelo profeta Joel (2:31): "O grande e terrível dia do
Senhor". E encontraremos uma clara referência a ele no discurso do
apóstolo Pedro no dia de Pentecostes (Atos 2:20). Mas o período é
definido mais precisamente pela declaração notável de Malaquias em
4:5: "Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o
grande e terrível dia do Senhor". A declaração explícita de Nosso
Senhor de que o Elias predito pelo profeta Malaquias era seu
antecessor João Batista (Mateus 11:14), nos permite estabelecer o
momento e o evento referido como "o grande e terrível dia do
Senhor". O evento não deve ser procurado a uma grande distância
de tempo além do período do ministério de João Batista, isto é, a
alusão ao julgamento da nação judaica, quando sua cidade e seu
templo foram destruídos e toda a estrutura do estado mosaico foi
dissolvida.
Merece ser notado que tanto Isaías como Malaquias previram a
aparição de João Batista como o precursor de nosso Senhor, mas em
termos muito diferentes. Isaías o representa como o herdeiro do
Salvador vindouro: "Voz do que clama no deserto: Preparai o
caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus" (Is
40:3). Malaquias representa a João como o precursor do próximo juiz:
"Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante
de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós
buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele
vem, diz o SENHOR dos Exércitos." (Ml 3:1).
Que esta é uma vinda de julgamento está esclarecida pelas palavras
que se seguem imediatamente, e que descrevem o alarme e a
consternação causados por sua manifestação: "Mas quem suportará o
dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer?" (Ml 3:2).
Não se pode dizer que esta linguagem seja apropriada para a
primeira vinda de Cristo; mas é altamente apropriada para uma
segunda vinda. Há uma clara alusão a esta passagem em Apocalipse
6:17, onde "os reis da terra, e os grandes, os ricos, os capitães, etc.,
são representados como escondidos" da face do que está sentado no
trono e da ira do Cordeiro, dizendo: "O grande dia da sua ira chegou,
e quem poderá subsistir?" Nada pode ser mais claro de que "o dia da
sua vinda" em Malaquias 3:2 é o mesmo "o dia grande e terrível do
Senhor" de Malaquias 4:5 e que ambos respondem ao "grande dia de
sua ira" em Apocalipse 6:17. Concluímos, portanto, que o profeta
Malaquias fala, não do primeiro advento de nosso Senhor, mas do
segundo.
Isto ainda é comprovado pelo fato significativo de que, em
Malaquias 3:1, o Senhor é retratado como vindo "de repente em seu
templo". Afirmar que isso está se referindo à apresentação do filho
Salvador no templo por seus pais, ou ele próprio nos tribunais do
templo, ou ele próprio entre os compradores e vendedores do templo
sagrado é certamente uma explicação inadequada, estas não são
ocasiões de terror e consternação, tal como está implícito no segundo
verso: "Quem pode ficar de pé quando ele aparecer?" No entanto, a
expressão sugere vividamente uma visita final e judicial da casa de seu
pai, quando esta ficaria "deserta", de acordo com sua predição, o
templo era o centro da vida da nação, o símbolo visível da aliança
entre Deus e seu povo, o lugar onde o "julgamento deveria começar"
e que deve ser atingido por "destruição repentina". Então, tendo em
conta todos esses detalhes, a "chegada súbita do Senhor ao seu
templo", a consternação que acompanha "o dia da sua vinda", a sua
vinda como "fogo purificador", a sua vinda "para julgamento", "vem
o dia ardente como uma fornalha", "todos os que praticam a maldade
serão como palhas", "não os deixará nem raiz nem ramo", e a
aparição de João Batista, o segundo Elias, antes da chegada do
"grande e terrível dia do Senhor", é impossível resistir à conclusão de
que aqui o profeta prediz a grande catástrofe nacional em que o
templo, a cidade e a nação caem juntos; e que isso é designado como
"o dia da sua vinda".
No entanto, por mais estranho que possa parecer, o fato inegável é
que Malaquias não faz alusão à primeira vinda de nosso Senhor. Isto
é claramente reconhecido por Hengstenberg, que observa: "Malaquias
omite completamente a primeira vinda de Cristo em humilhação e
deixa completamente vazio o intervalo entre o precursor (João
Batista) e o julgamento de Jerusalém".5 Isso deve ser explicado pelo
fato de que o objetivo principal da profecia é prever a destruição
nacional e não a libertação nacional.
Ao mesmo tempo, em que o juízo e a ira são os elementos
predominantes da profecia, os traços de um personagem diferente
não estão completamente ausentes. O dia da ira também é um dia de
redenção. Há um restante fiel, mesmo na nação apóstata: há ouro e
prata que devem ser refinados e jóias que devem ser reunidas, bem
como escória que deve ser rejeitada e restolho que deve ser
queimado. Há filhos a serem poupados, bem como inimigos a serem
destruídos; e o dia que trouxe consternação e escuridão para os
ímpios, faria "o Sol da justiça nascer trazendo a salvação nas suas
asas" para os fiéis. Até mesmo Malaquias sugere que a porta da
misericórdia ainda não está fechada. Se a nação voltar a Deus, Ele
retornará a eles. Se quiserem restituir o que receberam do serviço do
5
Veja, por Hengstenberg, Nature of Prophecy. Cristologia. Vol. 4, p. 8
templo, Ele os compensará com maiores bênçãos do que poderiam
receber. Eles ainda podem ser uma "terra deliciosa", a inveja de todas
as nações. Na última hora, se a missão do segundo Elias conseguir
ganhar os corações do povo, a catástrofe iminente pode ser removida
(Ml 3:3, 16-18; 4:2, 3, 5).
No entanto, há a conclusão inevitável de que avisos e ameaças não
ajudarão. As últimas palavras soam como o toque de sinos
anunciando destruição. (Malaquias 4:6): "para que eu não venha, e fira
a terra com maldição".
É interessante notar aqui o contexto de aliança e o julgamento local
e pactual. Deus não estaria julgando e amaldiçoando o planeta terra
inteiro por causa de Israel. Ferir a terra com maldição é um
julgamento sobre a terra de Israel, é um julgamento nacional, e a terra
que seria ferida é a terra onde habitava o povo pactuado.
O significado total desta afirmação ameaçadora não é
imediatamente evidente. Para a mente hebraica, essa declaração
indicou o destino mais terrível que poderia acontecer em uma cidade
ou nação. A "maldição" era o anátema, ou cherem, que indicava que a
pessoa ou coisa sobre a qual a maldição caiu foi dada à completa
destruição. Nós temos um exemplo do cherem, ou o ban, na
maldição pronunciada em Jericó (Josué 6:17) e uma declaração mais
detalhada da ruína que significava, no livro de Deuteronômio (13:12-
18). A cidade deveria ser ferida com a ponta da espada, todos os seres
vivos na cidade tinham que ser executados, o botín não devia ser
tocado, tudo foi amaldiçoado e tornado impuro, a cidade deve ser
consumida pelo fogo e o lugar dado à desolação perpétua,
Hengstenberg observa: "Todas as coisas imagináveis estão incluídas
nesta única amecaa" 6 e cita o comentário de Vitringa sobre esta
passagem:" Não há dúvida de que Deus quis que ele entregasse com
certeza a destruição, tanto os rebeldes teimosos da lei como a sua
6
Hengstenberg, Christology , vol. 4, p. 227
cidade, e que eles deveriam sofrer a punição extrema de sua justiça,
como líderes consagrados a Deus, sem qualquer esperança de
obtenção de favor ou perdão".
Terrível era a maldição que estava sobre a terra de Israel, anunciada
pelo espírito profético no momento da sua partida, o qual também
manteria um silêncio que duraria séculos. É importante notar que
tudo isso faz referência clara e específica à terra de Israel. A
mensagem do profeta é para Israel; os pecados reprovados são os de
Israel; A vinda do Senhor é para o seu templo em Israel; A terra
ameaçada com uma maldição era a terra de Israel.7 Tudo isso aponta
manifestamente para uma catástrofe local e nacional específica, da
qual a terra de Israel deveria ser o cenário, e seus habitantes culpados
são vítimas. A história registra o cumprimento da profecia, em
correspondência exata com o tempo, o lugar e as circunstâncias, na
ruína que devastou a nação judaica durante o período da destruição
de Jerusalém.
O INTERVALO ENTRE MALAQUIAS E JOÃO
BATISTA
Os quatro séculos entre a conclusão do Antigo Testamento e o
início do Novo estão vazios na história das Escrituras. No entanto,
sabemos dos livros dos Macabeus e dos escritos de Josefo que foi um
período problemático nos anais judaicos. A Judeia foi, por sua vez,
escrava das grandes monarquias, que a cercaram - a Pérsia, a Grécia,
o Egito, a Síria e Roma - com um intervalo de independência sob os
príncipes macabeus. Mas, embora durante este período a nação
sofreu um grande sofrimento e produziu alguns ilustres exemplos de
patriotismo e piedade, em vão buscamos algum oráculo divino, ou
7
O significado desta passagem (Ml. 4:6) é obscurecido pela tradução infeliz da
terra em vez da terra. A expressão hebraica como a grego é freqüentemente
usada em um sentido restrito. A alusão no texto é claramente para a terra de
Israel. Ver Hengstenberg, Christology, vol. 4. p. 224.
algum mensageiro inspirado, para declarar a palavra de Deus. Israel
realmente poderia dizer: Já não vemos os nossos sinais, já não há
profeta, nem há entre nós alguém que saiba até quando isto
durará. (Sl 74: 9) E, no entanto, esses quatro séculos não deixaram de
exercer uma influência poderosa sobre o caráter da nação. Durante
este período, as sinagogas foram estabelecidas em todo o território, e
o conhecimento das Escrituras foi amplamente estendido. As grandes
escolas religiosas dos fariseus e dos saduceus surgiram, cujos dois
grupos professaram ser expositores e defensores da lei de Moisés.
Em grande número, os judeus se estabeleceram nas grandes cidades
do Egito, da Ásia Menor, da Grécia e da Itália, carregando com eles
em todo o culto da sinagoga e da Septuaginta, a tradução grega do
Antigo Testamento. Acima de tudo, a nação acariciava no fundo de
seus corações a esperança de um libertador vencedor, um herdeiro da
casa real de Davi, que devia ser o rei teocrático, o libertador de Israel
da dominação dos gentios, cujo reino era tão feliz e glorioso que
merecia ser chamado de "reino dos céus". Mas, em sua maior parte, o
conceito popular do futuro rei era terreno e carnal. Em quatrocentos
anos, não houve melhora na condição moral do povo e, entre o
formalismo dos fariseus e o ceticismo dos saduceus, a verdadeira
religião tinha atingido seu ponto mais baixo. No entanto, ainda havia
um remanescente fiel que tinha os conceitos mais verdadeiros do
reino dos céus, e "quem esperava a redenção em Israel". À medida
que o tempo se aproximava, havia indícios do retorno do espírito
profético e dos presságios que o libertador prometido estava
próximo. Simeão foi assegurado que, antes de morrer, ele veria o
"ungido do Senhor" (Lc 2:26). Parece que uma indicação semelhante
tinha sido feita à velha profetisa Ana. É razoável supor que tais
revelações devem ter despertado grande expectativa nos corações de
muitos, preparando-os para a proclamação que foi ouvida pouco
depois no deserto da Judeia: "Arrependa-se, pois o reino dos céus se
aproximou.". Novamente um profeta havia ressuscitado em Israel, e
"o Senhor visitou seu povo".
PARTE I
A PAROUSIA NOS EVANGELHOS
A PAROUSIA PREVISTA POR JOÃO BATISTA
Nada é afirmado mais claramente no Novo Testamento do que a
identidade de João Batista como Elias, o precursor do messias,
previsto através de Isaías e Malaquias. Que a descrição de João se
encaixa com a de Elias é evidente à primeira vista. Cada um era
austero (de caráter severo) e ascético (aquele que se volta para a vida
espiritual) em seu modo de vida; cada um era um reformador
ciumento de sua religião; Cada um era um severo acusador do
pecado. Os tempos em que viviam eram singularmente semelhantes.
Em ambos os períodos, a nação judaica era degenerada e corrupta.
Elias teve seu Acabe, João, seu Herodes. Não há objeção a esta
identificação de João como Elias, mesmo que o próprio Batista tenha
rejeitado o nome quando os sacerdotes e levitas de Jerusalém o
perguntaram: "Você é Elias?" (João 1:21) Os judeus aguardavam o
reaparecimento do Elias literal, e a resposta de João foi dirigida a essa
opinião errada. Mas o seu verdadeiro direito à designação é
expressamente indicado no anúncio feito pelo anjo ao seu pai
Zacarias: "E ele irá adiante dele com o espírito e o poder de Elias
(Lucas 1:17), bem como nas declarações de nosso Senhor: "E, se
quereis dar crédito, é este o Elias que havia de vir" (Mateus 11:14)
"Mas digo-vos que Elias já veio, e não o conheceram ... Então
entenderam os discípulos que lhes falara de João o Batista" (Mt.
17:12-13) João foi o segundo Elias, e cumpriu as previsões de Isaías e
Malaquias a respeito dele, portanto, sonhar com um "Elias do futuro"
é pôr em causa a expressão clara da palavra de Deus, e uma
expectativa sem nenhuma justificativa bíblica.
Já aludimos ao duplo aspecto da missão de João apresentada pelos
profetas Isaías e Malaquias. A mesma diversidade é vista nas
descrições do Novo Testamento sobre o segundo Elias. O aspecto
benigno de sua missão, apresentado por Isaías, também é
reconhecido nas palavras do anjo por meio do qual seu nascimento
havia sido anunciado, como já foi citado, e no pronunciamento
inspirado de seu pai Zacarias: "E você, filho, profeta do Altíssimo
você será chamado, porque você irá perante a presença do Senhor,
preparará seus caminhos, dará conhecimento da salvação ao seu
povo, para o perdão de seus pecados "(Lucas 1:76, 77). Encontramos
o mesmo aspecto da graça nos versículos iniciais do Evangelho de
João: "Ele veio como um testemunho, para que ele dê testemunho da
luz, para que todos possam crer nele" (João 1:7).
Mas o outro aspecto de sua missão não é reconhecido de forma
menos clara nos evangelhos. Ele é representado, não apenas como o
precursor do vindouro Salvador, mas como o próximo juiz. De fato,
suas próprias declarações registradas falam muito mais de julgamento
e ira do que de salvação, e são concebidas mais no espírito de Elias
falado em Malaquias do que o Arauto (aquele que, por meio de
pregão, tornava pública uma notícia) do deserto em Isaías. Ele
adverte os fariseus e os saduceus, e as multidões que vieram ao seu
batismo, para "fugir da ira que virá". Ele diz-lhes que "o machado
está posto na raiz das árvores". Ele anuncia a vinda de um mais
poderoso do que ele, "cujo pá está em sua mão, e ele irá reunir o trigo
no celeiro e queimar a palha em um fogo que nunca será apagado"
(Mateus 3:12).
É impossível não ficar impressionado com a correspondência entre
a linguagem de João Batista e a de Malaquias. Como Hengstenberg
observa: "Ao longo do texto, é a profecia de Malaquias que João
comenta".8 Em ambos, a vinda do Senhor é descrita como um dia de
ira; ambos falam da sua chegada com fogo que refina e prova, com
fogo que queima e consome. Ambos falam de um tempo de
discriminação e separação entre justos e ímpios, ouro e escória, trigo
8
Christol., Vol. 4, p. 232
e palha; e ambos falam da destruição completa da palha ou do
restolho. com fogo que não se apaga. Estas não são semelhanças
fortuitas (causal, acidental): as duas previsões são a contrapartida
entre si, e só podem se referir ao mesmo evento, o mesmo "Dia do
Senhor", ao mesmo julgamento vindouro.
Mas o que merece ser observado mais especialmente é a
proximidade evidente da crise que João prediz. "A ira vindoura" é
uma interpretação muito inadequada do idioma do profeta. 9 Isso deve
ser lido como "a ira que está prestes a vir"; isto é, não meramente
futuro, mas iminente. "A ira vindoura" pode ser indefinidamente
distante, mas "a ira que está prestes a vir" é iminente. Como Alford
observa com razão: "João está falando agora no verdadeiro caráter de
um profeta que predica a ira que logo será derramada sobre a nação
judaica". 10 Este é o caso das outras representações no discurso de
João Batista; Tudo indica a rápida aproximação à destruição. "Já está
posto o machado à raiz das árvores". A pá estava realmente nas mãos
do agricultor; o processo de triagem estava prestes a começar. Estes
avisos de João Batista não são as exortações vagas e indefinidas para
o arrependimento, dirigida aos homens, em todo momento, mas estas
palavras ardentes tiveram relevância específica e presente para aquela
geração, os homens que viveram e para quem ele trouxe a mensagem
de Deus. Os judeus estavam agora em sua última corrida, o segundo
Elias tinha vindo como um precursor do "grande e terrível dia do
Senhor", se eles rejeitassem os seus avisos, a destruição profetizada
por Malaquias, certamente, e rapidamente viria: "Eu irei, e ferirei a
terra com maldição. "Nada pode ser mais óbvio do que a catástrofe a
que João alude é específica, nacional, local e iminente, e a história nos
diz que, no período da geração que ouviu seu grito de advertência, "a
ira veio sobre eles ao máximo".
9
the mellouse orghe
10
Testamento grego in loc.
A PAROUSIA NOS EVANGELHOS
O ENSINAMENTO DE NOSSO SENHOR SOBRE A
PAROUSIA NOS EVANGELHOS SINÓPTICOS
Como consequência de ter sido preso por Herodes Antipas, o fim
do ministério de João Batista marca uma nova orientação no
ministério de nosso Senhor. Na verdade, antes desse tempo, ele
ensinava as pessoas, realizava milagres, ganhava adeptos e ganhava
grande popularidade; Mas, depois desse evento, que pode ser
considerado como uma indicação do fracasso da missão de João,
nosso Senhor recuou para a Galileia e entrou em uma nova fase de
seu ministério público. Somos informados de que "desde então, Jesus
começou a pregar e a dizer: Arrependa-se, porque o reino dos céus
está próximo" (Mateus 4:17). Estes são os termos precisos com os
quais a pregação de João Batista é descrita (Mateus 3:2). Tanto nosso
Senhor quanto seu precursor chamaram "a nação ao
arrependimento", e anunciaram a aproximação do "reino dos céus".
Segue-se que, com a frase "o reino dos céus se aproximou", João não
poderia simplesmente significar que o Messias estava prestes a
aparecer, porque, quando Cristo realmente apareceu, ele fez o mesmo
anúncio: "O reino dos céus está próximo". Da mesma forma, quando
os doze discípulos foram enviados em sua primeira missão de
evangelização, eles foram mandados a pregar, não que o reino dos
céus tivesse chegado, mas se aproximou (Mateus 10:7). Que o reino
teocrático não veio no tempo de nosso Senhor, nem no dia de
Pentecostes, é evidente pelo fato de que, em seu discurso profético
no Monte das Oliveiras, nosso Senhor deu a seus discípulos certos
sinais por meio de que poderia saber que o reino dos céus estava
próximo (Lucas 21:31).
Portanto, chegamos a certas conclusões claramente dedutíveis dos
ensinamentos de nosso Senhor:
1- Que Ele proclamou que uma grande crise, ou consumação,
chamada "o reino dos céus", se aproximou.
2- Que esta consumação, embora próxima, não ocorreria durante o
curso de sua vida, nem por alguns anos após sua morte.
3- Que seus discípulos, ou pelo menos alguns deles, poderiam esperar
testemunhar a chegada dessa consumação.
Mas todo o assunto do "reino dos céus" deve ser reservado para
uma discussão mais completa em um período futuro.
PREVISÃO DA IRA QUE VEM NAQUELA GERAÇÃO
Há outro ponto de semelhança entre a pregação de nosso Senhor e
a de João Batista. Ambos deram os indícios mais claros da
proximidade próxima de um tempo de julgamento que devia cair
sobre a geração existente, por causa da rejeição das admoestações e
dos convites da misericórdia divina. Assim como João Batista falou
da "ira vindoura", também nosso Senhor, com igual clareza, advertiu
o povo do "julgamento vindouro". Jesus repreendeu "as cidades em
que ele realizou muitos dos seus milagres, porque não se
arrependeram", e ele previu que seria um maior infortúnio do que o
que havia caído sobre Tiro e Sidom, Sodoma e Gomorra. (Mateus
11:20-24). Que tudo isso aponta para uma catástrofe que não era
remota, mas perto, leia Mateus 12:38-46 (compare Lucas 11:16, 24-
36):
"Então alguns dos escribas e dos fariseus tomaram a palavra,
dizendo: Mestre, quiséramos ver da tua parte algum sinal.
Mas ele lhes respondeu, e disse: Uma geração má e adúltera pede um
sinal, porém, não se lhe dará outro sinal senão o sinal do profeta
Jonas;
Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia,
assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.
Os ninivitas ressurgirão no juízo com esta geração, e a condenarão,
porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis que está aqui
quem é maior do que Jonas.
A rainha do sul se levantará no dia do juízo com esta geração, e a
condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de
Salomão. E eis que está aqui quem é maior do que Salomão.
E, quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares
áridos, buscando repouso, e não o encontra.
Então diz: Voltarei para a minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-
a desocupada, varrida e adornada.
Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e,
entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do
que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má.
E, falando ele ainda à multidão, eis que estavam fora sua mãe e seus
irmãos, pretendendo falar-lhe".
Esta passagem é de grande importância para estabelecer o
verdadeiro significado da frase "esta geração" [genea]. Neste lugar, ele
só pode se referir aos povos de Israel que viveram - a geração então
atual. Nosso Senhor costumava se referir aos seus contemporâneos
quanto a esta geração:
"Mas, a que devo comparar esta geração?" - isto é, os homens
daquele dia que não ouviriam nem o seu precursor nem a si mesmo
(Mt 11:16, Lc 7:31). Mesmo comentaristas como Stier, que detém a
interpretação de "genea" como uma raça ou linhagem em outras
passagens, admite que a referência nessas palavras é "para a geração
que estava viva naquele momento e naquele momento, o que era o
mais importante." 11 Assim, na passagem diante de nós, não pode
haver controvérsias quanto à aplicação das palavras exclusivamente à
geração que existia então, os contemporâneos de Cristo. Nosso
11
Reden Jesu, in loc.
Senhor aqui testemunha a iniquidade exacerbada (Agravar-se; tornar-
se mais intenso ou forte) e enorme desse período. Jesus acabou de
dirigir-se a essa geração com as mesmas palavras de João Batista:
"Geração de víboras!". (Mt 12:34) É declarado que sua culpa excede a
dos pagãos; Aquela geração é comparada a um endemoninhado, de
quem o espírito imundo partiu por um tempo, mas retornou com
maior força do que antes, acompanhado por outros sete espíritos pior
do que ele, de modo que "o último estado desse homem vem a ser
pior do que o primeiro".
Temos no testemunho de Josefo uma confirmação impressionante
da descrição de nosso Senhor sobre a condição moral dessa
geração. "Como seria impossível relacionar suas enormidades em
detalhes, direi brevemente que nenhuma outra cidade já sofreu
calamidades semelhantes, e que nunca houve uma geração que fosse
mais prolífica no crime". Confessaram que eram escravos - e eram - a
escória da sociedade , as monstruosidades falsas e contaminadas da
nação".12 E aqui não posso conter-me, e devo expressar o que meus
sentimentos me dizem, sou de opinião que, se os romanos tivessem
adiado a punição desses miseráveis, ou a Terra se abriu e a cidade
havia engolido ou teria sido varrido por uma inundação ou
compartilhado o destino de Sodoma, porque produziu uma raça
muito mais selvagem do que aqueles que foram visitados, porque,
através da loucura desesperada desses homens, toda a nação viu
envolvido na ruína deles.13 De alguma forma, esse período tornou-se
tão prolífico na iniquidade de todos os tipos entre os judeus, que
nenhum trabalho maligno foi deixado sem permissão ... tão universal
foi o contágio, tanto em público como em particular, e essa emulação
para superar uns aos outros em atos de impiedade para com Deus e
injustiça para com seus vizinhos".14
12
Guerra judaica, bk vcx sec.5. Tradução de Traill.
13
Ibid. G. Xiii. seg. 6
14
Ibid. bk.vii. c. viii. seg. I.
Tal era a terrível condição em que a nação se apressou quando
nosso Senhor pronunciou essas palavras proféticas. O clímax ainda
não chegou, mas já estava totalmente à vista. O espírito imundo ainda
não voltou para sua casa, mas ele estava a caminho. Como Stier
observa: "No período entre a ascensão de Cristo e a destruição de
Jerusalém, especialmente no final disso, poderíamos dizer que esta
nação parece possuída por sete mil demônios". 15 Não é este um
cumprimento adequado e completo da previsão do Salvador? Temos
a menor justificativa, ou a menor necessidade, dizendo que isso
significa algo mais do que isso? Que razão existe para assumir um
cumprimento adicional e futuro de suas palavras? Não é um
desacredito total da profecia de Jesus buscando algo mais do que o
significado óbvio que aponta tão claramente para uma catástrofe
iminente que estava prestes a ocorrer nessa geração? Certamente,
mostramos a maior reverência pela palavra de Deus quando
aceitamos implicitamente seus ensinamentos óbvios e rejeitamos as
especulações injustificadas e meramente humanas que os críticos e os
teólogos extraíram de sua própria fantasia. Concluímos, então, que,
na escandalosa devassidão da época, e as notáveis calamidades que,
antes de terminar destruindo o povoado judeu, temos o testemunho
histórico do preenchimento completo da profecia.
ALUSÕES ADICIONAIS À IRA
Lucas 13:1-9: "E, Naquele mesmo tempo, estavam presentes ali
alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara
com os seus sacrifícios.
E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidais vós que esses galileus
foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido
tais coisas?
Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual
modo perecereis.
15
seg. Reden Jesu; Mat. 12: 43-45.
E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou,
cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens
habitam em Jerusalém?
Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual
modo perecereis.
E dizia esta parábola: Um certo homem tinha uma figueira plantada
na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o achando;
E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto
nesta figueira, e não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra
inutilmente?
E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a este ano, até que eu a
escave e a esterque;
E, se der fruto, ficará e, se não, depois a mandarás cortar."
Quão vividamente nosso Senhor percebeu as iminentes
calamidades da nação, e quão claras e distintas eram suas
advertências, pode-se inferir desta passagem. O assassinato de alguns
galileus que subiram a Jerusalém para a festa da Páscoa, seja por
ordem ou com a conspiração do governador romano, e a súbita
destruição de dezoito pessoas pela queda da torre perto do grupo de
Siloé foram incidentes que formaram os temas de conversa das
pessoas naquela época. Nosso Senhor declara que as vítimas dessas
calamidades não eram excepcionalmente impacientes, mas que um
destino semelhante alcançaria as mesmas pessoas que agora falavam
delas, a não ser que se arrependessem. O ponto de sua observação,
muitas vezes negligenciado, reside na semelhança da ameaça de
destruição. Ele não disse: "todos vocês irão perecer também", mas
"todos vocês vão perecer da mesma maneira"; Que nosso Senhor
tinha em vista a ruína que estava prestes a chegar a Jerusalém e a
nação dificilmente pode ser duvidado. A analogia entre os casos é real
e impressionante". Foi na festa da Páscoa que a população da Judeia
se reuniu em Jerusalém, e ali foi preso pelas legiões de Tito, Josefo
nos diz como, na última agonia do cerco, o sangue dos sacerdotes
que oficiaram foi derramado ao pé do altar sacrificial. Os soldados
romanos eram os executores do julgamento divino; e quando o
templo e a torre caíram no chão, eles enterraram em suas ruínas
muitas vítimas de impenitência e incredulidade. É gratificante
descobrir que Alford e Stier reconhecem a alusão histórica nesta
passagem. O primeiro observa a força perdido na versão de nossas
Bíblias "da mesma forma", [semelhante], que deveria ser traduzido
"da mesma forma" [da mesma maneira], assim como o povo judeu
pereceu pela espada dos romanos".16
O DESTINO IMINENTE DA NAÇÃO JUDAICA
Parábola da figueira estéril
Lucas 13:6-9: "E dizia esta parábola: Um certo homem tinha uma
figueira plantada na sua vinha, e foi procurar nela fruto, não o
achando;
E disse ao vinhateiro: Eis que há três anos venho procurar fruto
nesta figueira, e não o acho. Corta-a; por que ocupa ainda a terra
inutilmente?
E, respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a este ano, até que eu a
escave e a esterque;
E, se der fruto, ficará e, se não, depois a mandarás cortar."
O mesmo significado profético é revelado nesta parábola, que é
quase a contrapartida da que aparece em Isaías 5, tanto na forma
como no sentido. A verdadeira interpretação é tão óbvia que
dificilmente é necessária qualquer explicação. Sua aplicação ao povo
judeu é tão clara e direta, mais especialmente quando considerada em
relação aos avisos anteriores. Israel é a figueira inútil, cultivada há
muito tempo, mas sem produzir frutos para seu dono. Agora ele está
em seu último teste: o machado, como João Batista declarou, foi
colocado na raiz da árvore; mas o golpe fatal foi adiado pela
intercessão da misericórdia. Mesmo naquele momento, o Salvador
estava ocupado em seu trabalho de graça para alimentá-lo e cultivá-lo;
16
Testamento grego. in loc.
um pouco mais, e o decreto surgiu: "Corte-o, por que ocuparia ainda
a terra inutilmente?".
Não há dúvida de que, nessa como em outras parábolas, existem
princípios gerais aplicáveis a todas as nações e a todos os tempos;
mas não devemos perder de vista sua referência original e primária ao
povo judeu. Stier e Alford parecem perder-se na busca de significados
recônditos e místicos nos pequenos detalhes das imagens; Mas
Neander dá uma explicação luminosa de sua verdadeira importância:
"Como a figueira inútil, que não reconheceu o propósito de sua
existência, foi destruída, assim também a nação teocrática, pelo
mesmo motivo, depois de ter tido muita paciência, teria que ser
alcançada pelos juízos de Deus e cortada de seu reino".17
O FIM DO MUNDO OU O FIM DA DISPENSAÇÃO
JUDAICA?
Parábola do joio e do trigo
Mateus 13:36-50: "Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus
para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo:
Explica-nos a parábola do joio do campo.
E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o
Filho do homem;
O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o
joio são os filhos do maligno;
O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e
os ceifeiros são os anjos.
Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na
consumação deste mundo.
Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu
reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade.
17
Vida de Cristo, seg. 245
E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de
dentes.
Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido
num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele,
vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo.
Outrossim o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que
busca boas pérolas;
E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo
quanto tinha, e comprou-a.
Igualmente o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao
mar, e que apanha toda a qualidade de peixes.
E, estando cheia, a puxam para a praia; e, assentando-se, apanham
para os cestos os bons; os ruins, porém, lançam fora.
Assim será na consumação dos séculos: virão os anjos, e separarão
os maus de entre os justos,
E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de
dentes".
Nas passagens citadas aqui, encontramos um exemplo de uma
dessas traduções que tem feito muito para confundir e desorientar os
leitores comuns de nossas versões bíblicas. É provável que, com a
frase "fim do mundo", noventa e nove de cada cem leitores
compreendam o fim da história humana e a destruição da Terra
material. Eles não imaginariam que o "mundo" em Mt. 13:38 e o
"mundo" em Mt. 13:39, 40, são palavras totalmente diferentes, com
significados totalmente diferentes. No entanto, esse é o fato. Kosmos
em Mt. 13:38 é o mundo corretamente traduzido e refere-se ao
mundo dos homens, mas o éon em em Mt. 13:39, 40, refere-se a um
período de tempo e deve ser processado por idade ou época. Lange
traduz isso como um aion. É de extrema importância compreender
corretamente os dois significados desta palavra e da frase "o fim do
aion", ou da "era". Aion é, como dissemos, um período de tempo, ou
época. É exatamente equivalente à palavra latina aevum , que é
meramente aion com traje latino; e a frase traduzida para a nossa
versão, "o fim do mundo", deve ser "o fim desta época". Tittman
observa: (grego - sunteleia tou aion) no Novo Testamento, não indica
o fim do mundo, mas sim a consumação do aion, que deve ser
seguido por uma nova era. Este é o caso em Mateus 13:39, 40, 49;
24:3; é de temer que esta última passagem seja mal interpretada
quando aplicada à destruição do mundo. 18 Sempre foi crença dos
judeus que o Messias inauguraria um novo aion, ou uma nova era: já
este novo aion, ou essa era, é chamado de "reino dos céus". Portanto,
o aion existente (a era presente) era a dispensação judaica, que agora
se aproximava do fim; e o Senhor mostra nessas parábolas de forma
impressionante como isso acabaria. É realmente surpreendente que
os ouvintes não tenham reconhecido nestas previsões solenes a
reprodução e reiteração das palavras de Malaquias e João Batista.
Aqui encontramos a mesma separação final entre os justos e os
ímpios; a mesma purificação da terra; o mesmo recolher o trigo no
celeiro; o mesmo queima da palha [o joio, o restolho] no fogo. Pode
haver alguma dúvida de que este é o mesmo ato de julgamento, no
mesmo período de tempo, para o mesmo evento histórico, ao qual
Malaquias, João e nosso Senhor se referem?
Mas vimos que João Batista previu um julgamento que era então
iminente - uma catástrofe tão próxima que o machado já estava na
raiz das árvores - de acordo com a profecia de Malaquias, que "o dia
grande e terrível do Senhor" seguiria a chegada do segundo
Elias. Chegamos, portanto, à conclusão de que essa discriminação
entre os justos e os ímpios, a reunião do trigo no celeiro e queimando
o joio no fogo, se refere à mesma catástrofe, isto é, à ira que veio
sobre a mesma geração, quando Jerusalém literalmente se tornou uma
"fornalha de fogo", e a era do judaísmo terminou no "grande e
terrível dia do Senhor".
Esta conclusão é apoiada pelo fato de que existe uma estreita
18
Sinônimos do Novo Teste. vol. 70; Bib. Cab. N. iii.
relação entre esta grande época judicial e a vinda do "reino dos céus".
Nosso Senhor representa a separação entre os justos e os ímpios
como característica da grande consumação que se chama "o reino de
Deus". Mas havia sido declarado que o reino estava nas portas.
Segue-se, portanto, que as parábolas diante de nós se referem, não a
um evento remoto ainda no futuro, mas a um que, no tempo de
nosso Salvador, estava perto.
Um argumento adicional a favor deste ponto de vista deriva da
consideração de que nosso Senhor, em sua explicação da parábola da
joio, fala de si mesmo como semeador da boa semente: "Aquele que
semeia a boa semente é o Filho do Homem". É para o seu próprio
ministério pessoal e resultados que ele se refere e, portanto, devemos
considerar a parábola para ter uma relação especial com seus
contemporâneos. Isto está em perfeita harmonia com sua solene
advertência de Lucas 13:26-28, onde Ele descreve a condenação
daqueles que tiveram o privilégio de apreciar sua presença pessoal e
ministério, e que fingiram discipulado, mas eram joio e não trigo.
"Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença,
e tu tens ensinado nas nossas ruas. E ele vos responderá: Digo-vos
que não vos conheço nem sei de onde vós sois; apartai-vos de mim,
vós todos os que praticais a iniquidade. Ali haverá choro e ranger de
dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas
no reino de Deus, e vós lançados fora". Mesmo que essa linguagem
seja aplicável aos homens em geral sob o evangelho, é claro que teve
uma aplicação direta e específica aos contemporâneos de nosso
Senhor - a geração que testemunhou seus milagres e ouviu suas
parábolas; e que tiveram um relacionamento com ele, como não teve
com mais ninguém.
Encontramos na conclusão da parábola do joio uma nota bem
impressionante, que chama a atenção de uma maneira especial para a
instrução contida nela: "Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ele
ouça". Podemos aproveitar a ocasião para fazer uma observação
sobre a imensa importância de ter um conceito verdadeiro do período
em que nosso Senhor e os apóstolos ensinaram. Isso é indispensável
para entender corretamente a doutrina do Novo Testamento sobre o
"reino de Deus", o "fim dos tempos" e a "era por vir" ou o mundo
por vir. Esse período foi perto do fim da dispensação judaica. A
economia mosaica - como é chamado - o sistema de leis e instituições
dadas à nação pelo próprio Deus, e que existiram por mais de
quarenta gerações - estava prestes a ser substituída e desaparecer. Já
estava em cena a última geração que possuía a terra - a última e
também a pior - a criança e o herdeiro de seus antecessores. O longo
período durante o qual o Senhor esgotou todos os métodos que a
sabedoria divina e o amor divino poderiam conceber para cultivar e
reformar Israel estava prestes a terminar. Isso acabaria
desastrosamente. A Ira, por muito tempo contida e reprimida,
explodiria e destruiria aquela geração. Esse seria "o grande e terrível
Dia do Senhor". Este é "o fim do século" ao qual o Senhor sempre se
referiu, e que seus apóstolos constantemente previam. Eles já
estavam na penumbra daquela tremenda crise, cada vez mais perto
cada dia, e, finalmente, de repente chegaria "como um ladrão na
noite". Esta é a verdadeira explicação das constantes exortações para
assistir, ser paciente e esperar, que está em abundância nas epístolas
apostólicas. Eles viveram esperando uma consumação que viesse em
seu próprio tempo, e que eles pudessem testemunhar com seus
próprios olhos. Esse fato é evidente nos escritos do Novo
Testamento; é a chave para interpretar muito do que de outra forma
seria obscuro e ininteligível, e veremos durante esta investigação quão
consistente essa visão é realizada ao longo das Escrituras do Novo
Testamento.
A VINDA DO FILHO DO HOMEM (A
PAROUSIA) DURANTE A VIDA DOS APÓSTOLOS
Mateus 10:23: "Quando vos perseguirem nesta cidade, fujam para o
outro; porque em verdade digo-vos que não passarás por todas as
cidades de Israel, antes que venha o filho do homem".
Nesta passagem, encontramos a primeira menção clara a esse
grande evento que veremos com tanta frequência a respeito de nosso
Senhor e seus Apóstolos, ou seja, sua Parousia. Na verdade, pode-se
perguntar, como veremos, se esta passagem corretamente pertence a
esta parte da história do evangelho.19
19
Existe uma dificuldade real nesta passagem, que não deve ser
negligenciada. Parece inexplicável que nosso Senhor, em uma ocasião como
esta, quando enviou os doze em uma missão curta, aparentemente dentro de
um distrito limitado, do qual eles retornariam em pouco tempo, falou-lhes de
sua vinda que só ocorreria até que eles concluíssem seu dever de casa.
Parece pouco apropriado para esse período particular, e isso corresponde
mais a uma tarefa posterior, isto é, o que está registrado no discurso do Monte
das Oliveiras (Mt 26, Mc 13, Lc 21). Na verdade, uma comparação dessas
passagens pode satisfazer qualquer mente sincera de que todo o parágrafo
(Mateus 10:16-23) foi transposto de sua conexão original e inserido na
primeira missão que nosso Senhor confiou aos discípulos. Encontramos as
mesmas palavras sobre a perseguição dos apóstolos, que seriam dadas aos
conselhos, encurralados nas sinagogas, trazidos perante governadores e reis,
etc., que são registrados no décimo capítulo de São Mateus, designado
por São Marcos e São Lucas a um período subseqüente, ou seja, o discurso
do Monte das Oliveiras. Não há evidências de que os discípulos tenham
sofrido tal tratamento durante sua primeira turnê evangelística. Há, portanto,
uma evidência forte como o caso permite, que o verso 23 e seu contexto
pertence ao discurso do Monte das Oliveiras. Isso eliminaria a dificuldade que
a passagem apresenta no relacionamento que encontramos aqui e
proporcionaria coerência e consistência ao idioma que, como tal, não é fácil de
descobrir. É um fato aceito que nem mesmo os evangelhos sinópticos
relacionam todos os eventos exatamente na mesma ordem; portanto, deve
haver maior precisão cronológica em um que em outro. Stier diz: "Mateus é
descuidado na cronologia dos detalhes" (Reden Jesu, vol iii, p.U.S.). Neander,
falando sobre esta mesma comissão, diz: "É evidente que Mateus conecta
muitas coisas com as instruções dadas aos apóstolos em vista de sua primeira
viagem, que corresponde cronologicamente mais tarde". (Vida de Cristo, 174,
nota b); e, novamente, falando da comissão confiada aos setenta, como está
registrada em Lucas, diz: "De acordo com Lucas, toda a coerência
característica de tudo o que Cristo falou, com as circunstâncias (tão superiores
à disposição de Mateus)", etc. . (Vida de Cristo, _204, nota 1). O Dr. Blaike
observa: "É geralmente entendido que Mateus organizou sua narração mais
para temas e lugares do que cronologicamente" (História da Bíblia,
p.372). Portanto, parece haver uma abundante justificativa para atribuir a
Mas, deixando de lado a questão por enquanto, vamos nos
perguntar o que realmente é a chegada do qual é falado aqui. Será
possível, como sugere Lange, que Jesus seguisse seus mensageiros tão
rapidamente no seu circuito evangelístico que iria alcançá-los antes de
terminar? Ou devemos aceitar, como Michaelis, o significado claro e
óbvio indicado pelas próprias palavras? A interpretação de Lange é
certamente inaceitável. Quem pode duvidar que "a vinda do Filho do
homem", o que é falada em toda parte, é a fórmula pela qual a
Parousia, a segunda vinda de Cristo, é expressa? Esta frase tem um
significado definido e constante, bem como a sua crucificação, ou a
sua ressurreição, e não admite qualquer outra interpretação. Mas
poderia ter uma dupla referência, primeiro, ao julgamento iminente
de Jerusalém e, segundo, à destruição final do mundo, sendo o
primeiro considerado como sombra do segundo? Alford aceita o
duplo significado e é severo com aqueles que hesitam em aceitá-lo.
Ele nos diz o que ele acha que Cristo queria dizer; mas, por outro
lado, temos que considerar o que Ele disse. Os defensores do duplo
sentido têm certeza de que Ele quis dizer mais do que Ele disse?
Vamos olhar para as palavras dele. Alguma coisa pode ser mais
específica e mais definida em termos de pessoas, lugar, tempo e
circunstâncias do que esta previsão de nosso Senhor? É para os doze
que ele fala; são as cidades de Israel que devem evangelizar; o tema é
a sua chegada inicial; e o tempo é tão próximo que antes do seu
trabalho terminar sua vinda acontecerá. Mas se quisermos ser
informados de que esse não é o significado, nem mesmo a metade, e
que isso inclui outra vinda, a outros evangelistas, a outras eras e
outras terras - uma vinda que, depois de dezoito séculos, ainda é
futuro, e talvez remoto - então surge a pergunta: o que a Bíblia não
pode significar? O significado gramatical das palavras já não é
suficiente para a interpretação; A Escritura é um enigma que deve ser
adivinhado, um oráculo que pronuncia respostas ambíguas; e
ninguém pode ter certeza, sem uma revelação especial, de que ele
importante previsão contida em Mt. 10:23 ao discurso pronunciado no Monte
das Oliveiras.
entende o que ele lê. Portanto, estamos dispostos a concordar com
Meyer que esta dupla referência "não é nada além de uma evasão
forçada e antinatural", as palavras significam simplesmente o que
dizem - que antes que os apóstolos completassem sua obra de
evangelizar a terra de Israel, a vinda do Senhor deveria acontecer.
Esta é a interpretação da passagem tomada pelo Dr. E. Robinson:
"A vinda referida é a destruição de Jerusalém e a dispersão da nação
judaica, e o significado é que os apóstolos mal teriam tempo, antes da
catástrofe, de passar por todas as cidades, alertando as pessoas da
destruição de uma geração infeliz, de modo que eles não poderiam se
dar ao luxo de atrasar em qualquer lugar depois que seus habitantes
tivessem ouvido e rejeitado a mensagem".20
A PAROUSIA TEM LUGAR DURANTE A VIDA DOS
DISCÍPULOS
Mateus 16:27,28: "Porque o Filho do homem virá na glória de seu
Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras.
Em verdade vos digo que alguns há, dos que aqui estão, que não
provarão a morte até que vejam vir o Filho do homem no seu reino.
Marcos 8:38; 9:1: "Porquanto, qualquer que, entre esta geração
adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e das minhas palavras,
também o Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na
glória de seu Pai, com os santos anjos".
"Dizia-lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão,
alguns há que não provarão a morte sem que vejam chegado o reino
de Deus com poder" .
Lucas 9:26, 27: "Porque, qualquer que de mim e das minhas
palavras se envergonhar, dele se envergonhará o Filho do homem,
20
Veja a nota na Harmonia dos Quatro Evangelhos.
quando vier na sua glória, e na do Pai e dos santos anjos.
E em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não
provarão a morte até que vejam o reino de Deus."
Esta declaração notável é de extrema importância nesta discussão e
pode ser considerada como a chave para interpretar corretamente a
doutrina da Parousia no Novo Testamento. Embora não se possa
dizer que haja alguma dificuldade especial com o texto, ele causou
grande perplexidade entre os comentaristas, que estão muito
divididos em suas explicações. Certamente, é desnecessário perguntar
o que é a vinda do Filho do Homem que está prevista aqui. Supor
que se refere meramente à gloriosa manifestação de Jesus no monte
da transfiguração, embora esta seja uma hipótese apoiada por grandes
nomes, 21 é tão palpável e inadequada como uma interpretação que
dificilmente precisa ser refutada. A mesma observação aplica-se aos
comentários do Dr. Lange, que assume que esta vinda foi
parcialmente cumprida com a ressurreição de Cristo. Esta exegese de
Lange é uma ilustração tão curiosa dos arquivos aos quais os
defensores de uma teoria de interpretação bi direcional, que merece
ser citada, têm que recorrer. "Em nossa opinião", diz ele: "é
necessário distinguir entre o advento de Cristo na glória de seu reino
dentro do círculo de seus discípulos, e esse mesmo evento se aplica
ao mundo em geral e ao julgamento. O último é o que geralmente é
entendido pelo segundo advento: o primeiro ocorreu quando o
Salvador ressuscitou dentre os mortos e apareceu no meio de seus
discípulos. Assim, o significado das palavras de Jesus é: o momento
está chegando quando seus corações descansarem na manifestação da
minha glória; nem será o destino de todos os que estão aqui para
morrer durante o intervalo. O Senhor poderia ter dito que apenas
dois desses naquele círculo morreriam até então, a saber, Ele mesmo
e Judas. Mas, na sua sabedoria, ele escolheu a expressão: "Alguns
daqueles que estão aqui não vão provar da morte", para lhes dar
21
O Treinamento dos Doze, p. 117
exatamente a medida da esperança e da expectativa ansiosa que eles
precisavam."22
Basta dizer que tal interpretação das palavras de nosso Salvador
nunca poderia ter passado pelas mentes daqueles que as ouviram. É
tão implausível, intrincada e artificial, que é desacreditada pela própria
ingenuidade. Mas a interpretação também não satisfaz as exigências
do texto. Como a ressurreição de Cristo pode ser chamada de sua
vinda na glória de seu Pai, com os santos anjos, no Seu reino e
julgando cada um segundo suas obras? Ou como podemos supor que
Cristo, falando de um evento que aconteceria mais ou menos em
vinte meses, diria: "Em verdade, eu digo a você: alguns dos que estão
aqui não provarão a morte até que vejam o reino de Deus?" A
própria forma da expressão mostra que o evento que está sendo
falado não pode ser dentro de alguns meses, mesmo dentro de alguns
anos: é uma maneira de falar, que todos os presentes viveriam para
testemunhar o evento que está sendo falado; que muitos não
estariam; mas alguns outros sim. É exatamente a maneira de falar que
caberia em um intervalo de trinta ou quarenta anos, quando a maioria
das pessoas presentes ali teriam morrido, mas algumas sobreviveriam
e testemunhariam o evento mencionado.
Alford 23 e Stier compreendem mais razoavelmente a passagem
como se referindo "a destruição de Jerusalém e a manifestação
completa do reino de Cristo através da aniquilação do estado judeu",
embora ambos embaraçam e confundam sua interpretação com a
hipótese de uma oculta alusão a outra "vinda final", da qual a
destruição de Jerusalém teria que ser "tipo e sinal". Deste modo, no
entanto, nenhuma sugestão é dada pelo próprio Cristo ou pelos
evangelistas. A verdade é que não se pode negar que nosso Senhor às
vezes usava linguagem ambígua. Para os judeus, ele disse: "Destrua
este templo, e eu o ressuscitarei em três dias" (João 2:19), mas o
22
Lange, Comm. em St. Mt. in loc.
23
Alford, teste grego. in loc.
evangelista tem o cuidado de acrescentar: "Mas ele falou do templo
de seu corpo". Então, quando Jesus alude à maneira de sua própria
morte, dizendo: "E eu, se eu for levado da terra", o evangelista
acrescenta: "E dizia isto, significando de que morte havia de morrer"
(João 12:33). Portanto, é razoável supor que, se os evangelistas
conhecessem um significado mais profundo e mais oculto das
previsões de Cristo, teriam dado uma indicação disso; mas eles não
dizem nada que nos leve a inferir que seu significado aparente não é
seu significado completo e verdadeiro.
Na verdade, não há ambiguidade quanto a vinda do que é aludido
na passagem agora em consideração.
Não é uma das várias aventuras possíveis; mas um único e supremo
evento, tão frequentemente predito por nosso Senhor, tão
constantemente esperado por Seus discípulos. É a Sua vinda em
glória; Sua vinda ao julgamento; Sua vinda em Seu reino; a vinda do
reino de Deus. Não é um processo, mas um ato. Não é a mesma
coisa que "a destruição de Jerusalém" - esse é outro evento
relacionado e contemporâneo; mas os dois não devem ser
confundidos. O Novo Testamento conhece apenas uma Parousia,
uma vinda em glória do Senhor Jesus Cristo. É completamente um
abuso de linguagem falar de vários sentidos nos quais se pode dizer
que Cristo vem - como em Sua própria ressurreição; no dia de
Pentecostes; na destruição de Jerusalém; na morte de um crente; e em
várias épocas providenciais. Este não é o uso do Novo Testamento,
nem é uma linguagem precisa em nenhum ponto de vista. Somente
esta passagem contém tanta verdade importante a respeito da
Parousia, que se pode dizer que cobre todo o terreno; e, quando
usado corretamente, será considerado a chave para a verdadeira
interpretação da doutrina do Novo Testamento sobre esse assunto.
Concluímos então:
1. Que a vinda da qual se fala aqui é a Parousia, a segunda vinda do
Senhor Jesus Cristo.
2. Que essa parousia seria gloriosa - "na sua glória" e"na glória do seu
Pai", "com os santos anjos".
3. Que o propósito de sua parousia foi julgar aquela "geração
perversa e adúltera" (Marcos 8:38) e "dar a cada um de acordo com
suas obras".
4. Que a sua vinda seria a consumação do "reino de Deus"; o fim da
era; "a vinda do reino de Deus com poder".
5. Que o nosso Salvador declarou expressamente que esta
manifestação estava próxima . Lange observa corretamente que as
palavras são "colocadas enfaticamente no início da oração, não é um
futuro simples, mas eles significam: o evento é iminente e que em
breve Ele virá, está prestes a vir".24
6. Que alguns dos que ouviram o nosso Salvador fazer esta predição
teriam que viver para testemunhar o evento do qual ele estava
falando, isto é, a sua vinda em glória.
Portanto, segue-se que Ele próprio declarou que a Parousia,
ocorreria dentro dos limites da geração que existia, uma conclusão
que encontraremos na sequência como justificável e em abundância.
24
Veja Lange in loc .
A VINDA DO FILHO DO HOMEM, SEGURA E
PRONTA
Parábola da viúva importunada
Lucas 18:1-8: "E contou-lhes também uma parábola sobre o dever
de orar sempre, e nunca desfalecer, dizendo: Havia numa cidade um
certo juiz, que nem a Deus temia, nem respeitava o homem.
Havia também, naquela mesma cidade, uma certa viúva, que ia ter
com ele, dizendo: Faze-me justiça contra o meu adversário.
E por algum tempo não quis atendê-la; mas depois disse consigo:
Ainda que não temo a Deus, nem respeito os homens,
Todavia, como esta viúva me molesta, hei de fazer-lhe justiça, para
que enfim não volte, e me importune muito
E disse o Senhor: Ouvi o que diz o injusto juiz.
E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de
dia e de noite, ainda que tardio para com eles?
Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho
do homem, porventura achará fé na terra?"
O caráter intensamente prático e atual, se podemos chamá-lo assim,
dos discursos de nosso Senhor, é uma característica de seus
ensinamentos que, embora muitas vezes negligenciados, requer que
ele não seja perdido de vista. Ele falou com seu próprio povo, em seu
próprio tempo. Ele era o mensageiro de Deus para Israel; e, embora
seja muito verdade que suas palavras são para todos os homens em
todos os momentos, foram aplicadas principalmente e diretamente à
sua própria geração. Por falta de atenção a este fato, muitos
expositores fugiram completamente da intenção da parábola diante
de nós. Em suas mãos, torna-se uma predição vaga e indefinida de
uma reivindicação dos justos, em algum período mais ou menos
remoto, mas sem qualquer aplicação especial para o povo e para o
tempo do próprio Senhor. Certamente, qualquer aplicação
pessoal que essa parábola possa trazer para nós ou para tempos
futuros, teve uma aplicação direta e específica aos discípulos a quem
foi originalmente abordada. O Senhor estava prestes a deixar seus
discípulos "como ovelhas no meio dos lobos"; eles seriam
perseguidos e afligidos, e odiados por todos os homens, pelo amor de
seu Mestre; e poderia muito bem acontecer que faltasse coragem e
que seus corações desmaiassem. Nesta parábola, o Salvador os
encoraja a "orar sempre, e não desanimar", através do exemplo do
que a oração perseverante pode fazer, mesmo com os homens. Se a
importunidade de uma viúva pobre pudesse restringir um juiz sem
princípios para fazer justiça a ela, quanto mais Deus, o único juiz,
seria movido pelas orações de seus próprios filhos para que suas
queixas fossem reparadas. Sem alegorizar todos os detalhes da
parábola, como alguns comentaristas fazem, basta sublinhar a sua
grande moral. É esta: Os filhos perseguidos de Deus seriam vingados
com segurança e prontamente. Deus os vindicaria e logo. Mas
quando? O ponto no tempo não foi deixado indefinido. É "quando o
filho do homem vier". A parousia seria a hora da reparação e
libertação do povo sofredor de Deus.
A reflexão de nosso Senhor no final do versículo oito merece
atenção especial. "Mas quando o Filho do Homem vier, ele
encontrará fé na Terra?" Neste ponto, devemos retornar aos fatos
acima mencionados sobre o ministério de João Batista. Vimos como
o horizonte escuro e ameaçador era o ponto de vista do profeta que
pregava arrependimento a Israel. Ele foi o precursor do "grande e
terrível dia do Senhor"; Foi o segundo Elias enviado para proclamar a
vinda daquele que "feriria a terra com uma maldição". A reflexão de
nosso Senhor indica que ele previu que o arrependimento, o único
que poderia impedir o desastre da nação, não seria procurado. Não
haveria fé em Deus, nem em suas promessas, nem em suas ameaças.
Portanto, o dia do Senhor seria o "dia da retribuição" (Lucas 21:22).
Doddridge capturou bem o alcance desta parábola, e parafraseia o
versículo da seguinte forma: 'Assim, nosso Senhor discursou com
Seus discípulos sobre a aproximação da destruição de Jerusalém pelos
romanos; e incentivá-los tendo em vista as calamidades que poderiam
alcança-los, tanto de seus compatriotas como de outros incrédulos;
Ele contou uma parábola, para eles, que tinha a intenção de alertar
para esta grande verdade, que independente de quão angustiantes as
suas circunstâncias poderiam ser, eles deveriam sempre orar com fé e
perseverança, e não desmaiar sob suas provações".25
A seguir, é a paráfrase de Lucas 18:8: "Sim, eu digo que Ele
certamente irá reivindicá-lo, e quando Ele o faz, Ele o fará
rapidamente, e essa geração de homens o verá e o sentirá com
terror". No entanto, quando o Filho do Homem, tendo entrado em
possessão de seu reino glorioso, vindo a aparecer com este
importante propósito, encontrará fé na terra de Israel?"26
25
Exposições familiares. em Lucas 18:1-8
26
Doddridge tem a seguinte nota sobre "Será que ele encontrará fé na Terra?"
"É evidente que a palavra geralmente significa, não a Terra em geral, mas
algum território ou país particular, como em Atos 7:3, 4, 11 e em inúmeros
outros lugares, e o contexto aqui o limita ao significado menor. É evidente que
os crentes hebreus estavam em maior perigo das perseguições e da angústia.
Comp. Hb. 3:12-14; 10:23-39; 12:1-4; Tiago 1:1-4; 2:6. A interpretação dada
pelo judicioso Campbell acrescenta confirmação, se necessário, a essa visão
da passagem. Há uma conexão íntima em tudo o que nosso Senhor diz sobre
qualquer assunto de conversa, que raramente escapa de um leitor atento. Se
nisso, como é muito provável, Ele se refere à destruição iminente sobre a
nação judaica, como o julgamento do Céu por sua rebelião contra Deus, ao
rejeitar e assassinar o Messias. e perseguindo Seus seguidores, (o grego)
deve ser entendido como significando "essa crença", ou a crença da verdade
particular que Ele vinha inculcando, a saber, que Deus vingará no devido
tempo os Seus eleitos e punirá de forma significativa seus opressores; e (o
grego) deve significar "a terra", a saber, da Judéia. As palavras podem ser
traduzidas de qualquer maneira - terra ou território; mas o último,
evidentemente, dá-lhes um significado mais definido, e os une mais de perto
com aqueles que o precederam (Campbell on the Gospels, vol. 2: p. 384). O
ensino desta parábola instrutiva não está de modo algum esgotado; e vamos
encontrá-lo lançar uma luz inesperada em uma passagem muito obscura, em
um estágio futuro desta investigação. Enquanto isso, podemos nos referir a 2
Ts. 1:4-10, como fornecendo um comentário surpreendente sobre toda a
parábola, e mostrando a conexão entre o Parousia e a vingança dos eleitos.
A RECOMPENSA DOS DISCÍPULOS NA ERA
VINDOURA, OU SEJA NA PAROUSIA
Mateus 19:27-29 "Então Pedro, tomando a palavra, disse-lhe: Eis
que nós deixamos tudo, e te seguimos; que receberemos? E Jesus
disse-lhes: Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, quando,
na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória,
também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos
de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs,
ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor de meu
nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida eterna."
Marcos 10:28-30 "E Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo
deixamos, e te seguimos.
E Jesus, respondendo, disse: Em verdade vos digo que ninguém há,
que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou
mulher, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho,
Que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos,
e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no século
futuro a vida eterna."
Lucas 18:28-30 "E disse Pedro: Eis que nós deixamos tudo e te
seguimos.
E ele lhes disse: Na verdade vos digo que ninguém há, que tenha
deixado casa, ou pais, ou irmãos, ou mulher, ou filhos, pelo reino de
Deus,
Que não haja de receber muito mais neste mundo, e na idade
vindoura a vida eterna".
A que período devemos designar o evento ou estado aqui chamado
pelo nosso Senhor de "regeneração"? É evidentemente
contemporâneo do "Filho do homem sentado no trono da sua
glória". Não pode haver qualquer dúvida de que as duas frases: "O
Filho do homem vindo em seu reino" e "O Filho do homem sentado
no trono de sua glória", ambas se referem à mesma coisa e ao mesmo
tempo. Isto é, é para a Parousia que ambas as expressões apontam.
Temos outra nota de tempo e outro ponto de coincidência entre a
"regeneração" e a Parousia, na referência feita por nosso Senhor à
"idade ou éon", como o período em que Seus fiéis discípulos
receberiam sua recompensa. (Marcos 10:30, Lucas 18:30) Mas a 'idade
vindoura' foi, como já vimos, para suceder a era existente ou aeon,
isto é, o período da dispensação judaica, o fim do qual nosso Senhor
declarou estar próximo. Concluímos, portanto, que a "regeneração", a
"idade vindoura" e a "parousia" são virtualmente sinônimos ou, em
todo caso, contemporâneas. A vinda do Filho do homem em Seu
reino, ou em Sua glória, é distintamente afirmada como uma vinda
em julgamento - 'recompensar cada homem de acordo com suas
obras; (Mt. 16:27) e o fato de Ele estar sentado no trono de Sua
glória, na regeneração, é evidentemente uma sentença de julgamento.
Neste julgamento, os apóstolos teriam a honra de serem conselheiros
com o Senhor, de acordo com sua declaração (Lucas 22: 29-30). "Eu,
portanto, eu te designei um reino, como meu Pai o designou para
mim, para que você possa comer e beber em minha mesa no meu
reino, e sentar em tronos julgando as doze tribos de Israel". Mas
nosso Senhor expressamente afirma que esta vinda gloriosa para
julgar ocorreria dentro dos limites da geração que viveu naquele
tempo: "Há alguns dos que estão aqui, que não provarão a morte, até
que tenham visto o Filho do Homem vindo em seu reino" (Mt
16:28). Não era, portanto, nenhuma esperança longamente adiada e
distante que Jesus oferecia aos seus discípulos. Não era uma
perspectiva que ainda é vista de longe na obscura perspectiva de um
futuro indefinido. Pedro e seus companheiros discípulos estavam
plenamente conscientes de que "o reino dos céus" estava próximo.
Eles aprenderam isso com seu primeiro professor no deserto; eles
tinham sido assegurados por seu Senhor e Mestre; eles haviam
passado pela Galileia proclamando a verdade aos seus compatriotas.
Quando o Senhor prometeu, portanto, que nos próximos dias seus
apóstolos deveriam sentar-se em tronos, é concebível que Ele
pudesse significar que eras e séculos e até mesmo milênios, tiveram
que passar lentamente antes que eles pudessem colher as prometidas
honras? A herança da ―vida eterna‖ e o ―assentar nos doze tronos‖
ainda estão entre ―as coisas que se esperam, mas não são vistas‖ pelos
discípulos? Certamente tal hipótese se refuta. A promessa teria soado
como escárnio aos discípulos se tivessem sido informados de que o
cumprimento levaria tanto tempo. Por outro lado, se concebermos a
"regeneração" como contemporânea a Parousia, e a Parousia, com o
fim da era judaica e a destruição da cidade e do templo de Jerusalém,
temos um ponto definido de tempo, não muito distante, mas quase à
vista dos homens que viviam, quando o predito julgamento dos
inimigos de Cristo e a gloriosa recompensa de seus amigos
ocorreriam.
INDICAÇÕES PROFÉTICAS DA CONSUMAÇÃO
QUE SE APROXIMA E A VINDA DO REINO DE
DEUS
I. Parábola das minas
Lucas 19:11-27: "E, ouvindo eles estas coisas, ele prosseguiu, e
contou uma parábola; porquanto estava perto de Jerusalém, e
cuidavam que logo se havia de manifestar o reino de Deus.
Disse pois: Certo homem nobre partiu para uma terra remota, a fim
de tomar para si um reino e voltar depois.
E, chamando dez servos seus, deu-lhes dez minas, e disse-lhes:
Negociai até que eu venha.
Mas os seus concidadãos odiavam-no, e mandaram após ele
embaixadores, dizendo: Não queremos que este reine sobre nós.
E aconteceu que, voltando ele, depois de ter tomado o reino, disse
que lhe chamassem aqueles servos, a quem tinha dado o dinheiro,
para saber o que cada um tinha ganhado, negociando.
E veio o primeiro, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu dez minas.
E ele lhe disse: Bem está, servo bom, porque no mínimo foste fiel,
sobre dez cidades terás autoridade.
E veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco minas.
E a este disse também: Sê tu também sobre cinco cidades.
E veio outro, dizendo: Senhor, aqui está a tua mina, que guardei
num lenço;
Porque tive medo de ti, que és homem rigoroso, que tomas o que
não puseste, e segas o que não semeaste.
Porém, ele lhe disse: Mau servo, pela tua boca te julgarei. Sabias que
eu sou homem rigoroso, que tomo o que não pus, e sego o que não
semeei;
Por que não puseste, pois, o meu dinheiro no banco, para que eu,
vindo, o exigisse com os juros?
E disse aos que estavam com ele: Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que
tem dez minas.
(E disseram-lhe eles: Senhor, ele tem dez minas.)
Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado, mas ao
que não tiver, até o que tem lhe será tirado.
E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse
sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim".
Todos os leitores atentos da história do evangelho podem perceber
o quanto os ensinamentos de nosso Senhor, quando Ele se
aproximava do fim de Seu ministério, residiam no tema do
julgamento vindouro. Quando falou esta parábola, ele estava a
caminho de Jerusalém para celebrar a última Páscoa antes de sofrer; e
é notável como muitos de seus discursos desde então parecem ser
quase completamente absorvidos, não na própria morte que se
aproxima, mas na iminente catástrofe da nação. Não só esta parábola
das minas, mas o seu lamento por Jerusalém (Lucas 19:41); Sua
maldição sobre a figueira (Mt. 21, Mc.11); a parábola dos lavradores
maus (Mt. 21, Mc. 12, Lc. 20); a parábola do casamento do filho do
rei (Mt. 22); as aflições pronunciadas nessa geração (Mt. 23:29-36); o
segundo lamento por Jerusalém (Mt. 23:37-38); e o discurso profético
no Monte das Oliveiras, tudo isso lida com esse assunto absorvente.
A consideração dessas indicações proféticas mostrará que a
catástrofe antecipada por nosso Senhor não era um evento remoto,
distante centenas e milhares de anos no futuro, mas um evento que
caiu naquela época e nessa nação; e que as Escrituras não nos
autorizam a supor que nada mais, ou qualquer outra coisa além, que
não está incluído nas palavras de nosso Salvador.
A parábola das minas foi pronunciada por nosso Senhor para
corrigir uma expectativa equivocada por parte de seus discípulos, de
que "o reino de Deus" estava prestes a se manifestar imediatamente;
não é surpreendente que tenham caído nesse erro. João Batista
anunciou: "O reino de Deus se aproximou". O próprio Jesus
proclamou o mesmo fato; e encomendou-os para proclamá-lo nas
cidades e aldeias da Galileia. Como patriotas israelitas, eles se
contorceram sob o jugo de Roma e desejavam as antigas liberdades
da nação. Como filhos piedosos de Abraão, eles queriam ver todas as
nações abençoadas nele. E havia outros sentimentos menos nobres
que tinham um lugar em suas mentes.
Não era seu próprio Mestre o Filho de Davi, o rei que deveria vir
ao mundo? O que eles não poderiam esperar, uma vez que eram seus
seguidores e seus amigos mais próximos? Isso os fez competir entre
eles pelo lugar de honra no reino. Isso fez os filhos de Zebedeu
ansiosos para obter a promessa das posições mais honradas, à direita
e à esquerda de Jesus, quando ele assumisse a soberania. E agora eles
estavam se aproximando de Jerusalém. O grande festival nacional da
Páscoa estava se aproximando; Todo Israel foi para a Cidade Santa; e
não havia ninguém lá que não desejasse ver Jesus de Nazaré. O que
mais do que o entusiasmo popular colocaria seu Mestre no trono de
seu pai Davi? O que eles queriam, eles acreditavam; e "eles pensaram
que o reino de Deus se manifestaria imediatamente".
Mas o Senhor restringiu suas esperanças entusiasmadas e disse-lhes,
em uma parábola, que um certo intervalo deve decorrer antes de suas
expectativas serem cumpridas. Tomando como base para a parábola
um incidente bem conhecido da história judaica recente, isto é, a
jornada de Arquelau a Roma para obter do imperador a sucessão aos
domínios de seu pai, Herodes o Grande, Jesus empregou como uma
ilustração apropriada de seu própria partida da terra, e sua posterior
manifestação em glória. Enquanto isso, durante o tempo de sua
ausência, ele deu a seus servos uma tarefa a cumprir. "Negocie entre
tanto até que eu venha". Eles deveriam ser diligentes e fiéis, até que o
Senhor retornasse, quando os leais servos seriam aplaudidos e
recompensados, e seus inimigos completamente destruídos.
Nada pode ser melhor do que a explicação de Neander sobre esta
parábola, embora, de fato, se possa dizer que ela se auto explica. No
entanto, pode ser bom inserir suas observações. "Nesta parábola, em
vista das circunstâncias em que foi proferida, e da catástrofe que se
aproximava, são dadas indícios especiais da partida de Cristo da
Terra, sua ascensão, seu retorno para julgar a nação rebelde
teocrática, e para consumar seu domínio, ele descreve um grande
homem que viaja para o tribunal distante do poderoso imperador
para receber autoridade de seus concidadãos e retornar com poder
real, de modo que Cristo não foi imediatamente reconhecido em sua
posição real, mas primeiro ele teve que deixar a terra, deixar seus
agentes para avançar seu reino, ascender ao céu, ser nomeado rei
teocrático, e retornar novamente para exercer o poder
conquistado".27
Tal é o ensinamento da parábola das minas. Mas embora o reino de
Deus não devesse aparecer no momento preciso que os discípulos
anteciparam, não se sugere que foi adiada desde então e que a
consumação esperada não ocorreria por centenas ou milhares de
anos. Isso falsificaria as declarações mais expressas de Cristo e seu
antecessor. Como eles poderiam ter dito que o reino estava próximo,
se ele não apareceria por séculos? Como poderia ser dito que um
27
Vida de Cristo, seg. 239
evento que estava perto, se na verdade estava mais distante do que
todo o período da era judaica de Moisés a Cristo? O reino ainda pode
estar próximo, embora não tão perto como os discípulos supunham.
Era apropriado que seu Senhor "parta", mas apenas "por um tempo",
quando ele voltaria para eles "no seu reino". Esta era a esperança na
qual eles viviam, a fé que eles pregavam; e não podemos pensar que
sua fé e esperança eram uma ilusão.
II. A Lamentação de Jesus sobre Jerusalém
Lucas 19:41-44: "E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou
sobre ela,
Dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o
que à tua paz pertence! Mas agora isto está encoberto aos teus olhos.
Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados;
E te derrubarão, a ti e aos teus filhos que dentro de ti estiverem, e
não deixarão em ti pedra sobre pedra, pois que não conheceste o
tempo da tua visitação."
Aqui estamos no terreno que não é discutível. Esta profecia é clara
e clara como história. Nenhum defensor da teoria da interpretação de
duplo sentido propôs encontrar aqui nada além de Jerusalém e sua
desolação que se aproximava. Não é a conflagração da terra, nem a
dissolução da criação: é o cerco e a demolição da Cidade Santa, e o
massacre de seus cidadãos, como historicamente cumprido em menos
de quarenta anos - apenas isto e nada mais. Mas porque? Por que não
é o duplo significado possível aqui? A resposta será, sem dúvida:
porque aqui tudo é homogêneo e consecutivo; O Salvador está
olhando para Jerusalém, e falando com Jerusalém, e prevendo um
evento que logo ocorreria. Mas isso também é o que acontece com a
profecia de Mateus 24:1-51, onde os expositores encontram, às vezes,
Jerusalém e às vezes o mundo; às vezes o término do governo judeu,
e às vezes a conclusão da história humana; às vezes o ano 70 d. C., e
às vezes um período de tempo ainda desconhecido. Veremos que a
profecia do Monte das Oliveiras não é menos consecutiva, nem
menos homogênea, nem menos indivisível, e essa é uma previsão
clara e simples da iminente destruição de Jerusalém. Se a teoria do
duplo cumprimento, ou dupla referência, fosse usada para algo, seria
considerado igualmente aplicável à predição que temos diante de nós.
Aqui, no entanto, seus próprios advogados a descartam; pois o senso
comum se recusa a ver nessa arrepiante lamentação outra coisa além
Jerusalém, e somente Jerusalém.
III. A Parábola dos lavradores maus
Mateus 21:33-46: "Ouvi, ainda, outra parábola: Houve um homem,
pai de família, que plantou uma vinha, e circundou-a de um valado, e
construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns
lavradores, e ausentou-se para longe.
E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos
lavradores, para receber os seus frutos.
E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram
outro, e apedrejaram outro.
Depois enviou outros servos, em maior número do que os
primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo.
E, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu
filho.
Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o
herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança.
E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o
mataram.
Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?
Dizem-lhe eles: Dará afrontosa morte aos maus, e arrendará a vinha
a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos.
Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras:A pedra, que os
edificadores rejeitaram,essa foi posta por cabeça do ângulo;pelo
Senhor foi feito isto,E é maravilhoso aos nossos olhos?
Portanto, eu vos digo que o reino de Deus vos será tirado, e será
dado a uma nação que dê os seus frutos.
E, quem cair sobre esta pedra, despedaçar-se-á; e aquele sobre
quem ela cair ficará reduzido a pó.
E os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, ouvindo estas palavras,
entenderam que falava deles;
E, pretendendo prendê-lo, recearam o povo, porquanto o tinham
por profeta."
Marcos 12:1-12: "E começou a falar-lhes por parábolas: Um
homem plantou uma vinha, e cercou-a de um valado, e fundou nela
um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e partiu
para fora da terra.
E, chegado o tempo, mandou um servo aos lavradores para que
recebesse, dos lavradores, do fruto da vinha.
Mas estes, apoderando-se dele, o feriram e o mandaram embora
vazio.
E tornou a enviar-lhes outro servo; e eles, apedrejando-o, o feriram
na cabeça, e o mandaram embora, tendo-o afrontado.
E tornou a enviar-lhes outro, e a este mataram; e a outros muitos,
dos quais a uns feriram e a outros mataram.
Tendo ele, pois, ainda um seu filho amado, enviou-o também a
estes por derradeiro, dizendo: Ao menos terão respeito ao meu filho.
Mas aqueles lavradores disseram entre si: Este é o herdeiro; vamos,
matemo-lo, e a herança será nossa.
E, pegando dele, o mataram, e o lançaram fora da vinha.
Que fará, pois, o senhor da vinha? Virá, e destruirá os lavradores, e
dará a vinha a outros.
Ainda não lestes esta Escritura: A pedra, que os edificadores
rejeitaram,Esta foi posta por cabeça de esquina;
Isto foi feito pelo Senhor E é coisa maravilhosa aos nossos olhos?
E buscavam prendê-lo, mas temiam a multidão; porque entendiam
que contra eles dizia esta parábola; e, deixando-o, foram-se."
Lucas 20:9-19: "E começou a dizer ao povo esta parábola: Certo
homem plantou uma vinha, e arrendou-a a uns lavradores, e partiu
para fora da terra por muito tempo;
E no tempo próprio mandou um servo aos lavradores, para que lhe
dessem dos frutos da vinha; mas os lavradores, espancando-o,
mandaram-no vazio.
E tornou ainda a mandar outro servo; mas eles, espancando
também a este, e afrontando-o, mandaram-no vazio.
E tornou ainda a mandar um terceiro; mas eles, ferindo também a
este, o expulsaram.
E disse o senhor da vinha: Que farei? Mandarei o meu filho amado;
talvez que, vendo, o respeitem.
Mas, vendo-o os lavradores, arrazoaram entre si, dizendo: Este é o
herdeiro; vinde, matemo-lo, para que a herança seja nossa.
E, lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, pois, o
senhor da vinha?
Irá, e destruirá estes lavradores, e dará a outros a vinha. E, ouvindo
eles isto, disseram: Não seja assim!
Mas ele, olhando para eles, disse: Que é isto, pois, que está escrito?
A pedra, que os edificadores reprovaram, Essa foi feita cabeça da
esquina.
Qualquer que cair sobre aquela pedra ficará em pedaços, e aquele
sobre quem ela cair será feito em pó.
E os principais dos sacerdotes e os escribas procuravam lançar mão
dele naquela mesma hora; mas temeram o povo; porque entenderam
que contra eles dissera esta parábola."
Esta parábola, registrada em termos quase idênticos pelos
sinópticos, dificilmente precisa ser interpretada. Sua referência local,
pessoal e nacional é muito clara para ser questionada. A vinha é a
terra de Israel; o senhor da vinha é o pai; Seus mensageiros são seus
servos, os profetas; Seu único filho amado é o próprio Senhor Jesus;
os fazendeiros são judeus rebeldes e perversos; a punição é a
catástrofe vindoura na parusia, quando, como Neander expressa bem,
"a relação teocrática é quebrada, e o reino é transferido para outras
nações que produzirão frutos correspondentes a ela".28
A aplicação desta parábola às pessoas do tempo de nosso Salvador
é tão direta e explícita, que se poderia assumir que nenhum crítico
teria que procurar um significado oculto ou uma referência adicional
posterior. Os principais sacerdotes e os fariseus perceberam que
"contra eles dissera esta parábola"; e eles estremeceram e fizeram um
gesto de dor sob o chicote. Como podemos ver, está perfeitamente
claro e inteligível; mas a exegese de um teólogo pode torná-lo
realmente escuro e obscuro. Por exemplo, Lange comenta sobre
Mateus 24:41:
"A parousia de Cristo é consumada em sua última vinda, mas ele
não é um com ela. Em princípio, começa com a ressurreição (João
16:16); continua como um poder ao longo do período do Novo
Testamento (João 14: 3-19); e é consumado no sentido mais estrito
no último advento (1 Cor 15:23, Mateus 25:31, 2 Tessalonicenses 2,
etc.)".29
Aqui não temos uma vinda, nem a vinda de Cristo, mas nada menos
do que três vindas, separadas e distintas - uma vinda contínua que já
dura quase dois mil anos e pode continuar por mais dois mil, pelo
que sabemos. Mas nada disso tem sequer uma pista no texto, ou em
qualquer outro lugar. É meramente um adorno humano, sem uma
única partícula de autoridade bíblica, inventada em virtude de uma
teoria de interpretação de duplo ou triplo sentido.
Muito mais sóbria é a explicação de Alford: "Podemos observar que
"quando o Senhor vem" coincide com a destruição de Jerusalém,
Assim, esta passagem constitui uma chave importante para as
profecias do nosso Senhor, e uma justificativa decisiva para aqueles
28
Vida de Cristo , seg. 256
29
Lange sobre Mateus P. 388.
que, como eu, afirmam que a vinda do Senhor, em muitos lugares,
deve ser identificada principalmente com essa destruição".30
Deve-se lamentar que esta nota sóbria e sensata seja marcada pelas
frases "em muitos lugares" e "principalmente", mas é, no entanto,
uma admissão importante. Sem dúvida, encontramos aqui "uma
chave importante para as profecias de nosso Senhor"; mas a chave
mestra é a que já encontramos em Mt. 16:27, 28, e que serve para
abrir, não apenas essa, mas muitas outras palavras sombrias nos
oráculos proféticos.
IV. Parábola do casamento do filho do rei
Mateus 22:1-14: "Então Jesus, tomando a palavra, tornou a falar-
lhes em parábolas, dizendo:
O reino dos céus é semelhante a um certo rei que celebrou as bodas
de seu filho;
E enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas, e
estes não quiseram vir.
Depois, enviou outros servos, dizendo: Dizei aos convidados: Eis
que tenho o meu jantar preparado, os meus bois e cevados já mortos,
e tudo já pronto; vinde às bodas.
Eles, porém, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, outro
para o seu negócio;
E os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram.
E o rei, tendo notícia disto, encolerizou-se e, enviando os seus
exércitos, destruiu aqueles homicidas, e incendiou a sua cidade.
Então diz aos servos: As bodas, na verdade, estão preparadas, mas
os convidados não eram dignos.
Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a todos
os que encontrardes.
30
Alford, Testamento grego. in loc.
E os servos, saindo pelos caminhos, ajuntaram todos quantos
encontraram, tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de
convidados.
E o rei, entrando para ver os convidados, viu ali um homem que
não estava trajado com veste de núpcias.
E disse-lhe: Amigo, como entraste aqui, não tendo veste nupcial? E
ele emudeceu.
Disse, então, o rei aos servos: Amarrai-o de pés e mãos, levai-o, e
lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes.
Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos."
Esta parábola tem uma forte semelhança com a da "Grande Ceia"
de Lucas 14. É possível que as duas parábolas sejam apenas versões
diferentes do mesmo original. A questão, no entanto, não afeta a
discussão atual, e não pode ser provado que essas parábolas não
foram proferidas em diferentes ocasiões. A moral de ambos é a
mesma; mas a natureza da parábola registrada por São Mateus é mais
claramente escatológica do que a de São Lucas. Ele aponta
claramente para a consumação próxima do "reino dos céus". A
vingança que o rei promoveu sobre os assassinos de seu filho e
contra sua cidade é uma referência a vingança que veio sobre
Jerusalém e aos judeus. Os exércitos romanos eram apenas os
executores da justiça divina; e Jerusalém pereceu por causa dela e sua
rebelião contra o seu rei.
Alford, em suas notas sobre essa parábola, embora reconhecendo
uma referência parcial e primária a Israel e Jerusalém, descobre
também que ela se estende muito além de seu escopo aparente, e é
dividida em dois atos, o primeiro dos quais é passado, e termina com
Mt. 22:10; enquanto um novo ato abre com Mt. 22:11, que ainda está
no futuro. Isso implica que o julgamento de Israel e Jerusalém não
proporciona um cumprimento completo e exaustivo das palavras de
nosso Senhor. Por um lado, temos os ensinamentos do próprio
Cristo - simples, claros e inequívocos; por outro lado, a especulação
conjetural do crítico, sem uma centelha de evidência ou autoridade da
palavra de Deus. Expor a parábola de acordo com sua clara
significância histórica será ridicularizado por alguns como superficial,
e pouco espiritual, e que devemos tentar encontrar neles significados
ocultos, enigmas escuros e profundos, profundidades místicas que
ninguém além de teólogos podem explorar, e que isso é uma visão
crítica, uma percepção aguda, uma alta espiritualidade! Em nossa
opinião, toda essa imitação de hipóteses e sentidos duplos humanos
nas previsões de nosso Senhor é totalmente incompatível com a
crítica sóbria, ou com verdadeira reverência pela Palavra de Deus; não
é crítica, mas misticismo; e obscurece a verdade em vez de esclarecê-
la. Então, sob o risco de ser considerado superficial, nos apegaremos
aos ensinamentos simples das palavras da Bíblia, entendendo que
todas as especulações fantásticas e conjecturadas são de origem
meramente humana, independentemente da educação ou dignidade
de onde eles vêm.
V. Aflições denunciadas aos escribas e fariseus
Mateus 23:29-36: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que
edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos
justos,
E dizeis: Se existíssemos no tempo de nossos pais, nunca nos
associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas.
Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os
profetas.
Enchei vós, pois, a medida de vossos pais.
Serpentes, raça de víboras! como escapareis da condenação do
inferno?
Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; a uns
deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas
sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade;
Para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado
sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de
Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.
Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta
geração".
Lucas 11:47-51: "Ai de vós que edificais os sepulcros dos profetas,
e vossos pais os mataram.
Bem testificais, pois, que consentis nas obras de vossos pais;
porque eles os mataram, e vós edificais os seus sepulcros.
Por isso diz também a sabedoria de Deus: Profetas e apóstolos lhes
mandarei; e eles matarão uns, e perseguirão outros;
Para que desta geração seja requerido o sangue de todos os profetas
que, desde a fundação do mundo, foi derramado;
Desde o sangue de Abel, até ao sangue de Zacarias, que foi morto
entre o altar e o templo; assim, vos digo, será requerido desta
geração".
Podemos perceber que São Lucas dá esta passagem uma relação
diferente, e em uma ocasião diferente, daqueles declarados por São
Mateus. Se nosso Senhor pronunciou as mesmas palavras em duas
ocasiões diferentes, ou se as palavras foram transpostas por São
Lucas de seu relacionamento original, não é fácil estabelecer. A
primeira hipótese não parece provável, e não se recomenda à mente
crítica. Os apotegios (dito ou palavra memorável) e breves parábolas,
como "muitos são chamados, mas poucos são escolhidos", "o último
será o primeiro e o primeiro, último", pode ter sido repetido várias
vezes; mas dificilmente se pode imaginar que discursos relacionados e
detalhados, como o Sermão do Monte, o discurso profético no
Monte das Oliveiras e essa acusação contra os escribas e fariseus,
foram repetidos palavra a palavra em diferentes ocasiões. Como já
vimos, é um erro buscar uma ordem cronológica rigorosa nas
narrativas dos evangelistas; geralmente é admitido que, às vezes,
colocam fatos em conjunto que tinham um relacionamento natural,
independentemente da ordem cronológica em que ocorreram.
Stier diz da cronologia de São Lucas em geral: "Duas coisas são
suficientemente claras: primeiro, ele menciona ocorrências individuais
sem considerar estritamente a cronologia, mesmo repetindo e
intercalando algumas coisas registradas em outros lugares", etc.
Neander faz a seguinte observação sobre a passagem perante nós:
"Da mesma forma que este último discurso narrado por Mateus
contém várias passagens narradas por Lucas na conversa da mesa
(capítulo 11), assim Lucas insere aí este anúncio profético, cuja
posição apropriada é encontrada em Mateus". 31 No entanto, não
podemos concordar com a opinião de Neander, que "este discurso,
como aparece em Mateus 23, contém muitas passagens faladas em
outras ocasiões"32. Nós achamos impossível ler o capítulo 23 de São
Mateus sem perceber que é um discurso contínuo e relacionado,
proferido em uma mesma ocasião, derivando suas diferentes partes e
seguindo-se naturalmente. Sua própria estrutura, composta por sete
ais e desgraças33, pronunciado contra os hipócritas que fingiram ser
santos mas que era os guias cegos do povo - e a ocasião solene em
que foi pronunciada, sendo o discurso público de nosso Senhor -
irresistivelmente obriga a conclusão de que é um todo completo, e
que São Mateus nos dá a forma original do discurso.
Mas a elucidação desta questão não é essencial para esta
investigação. Muito mais importante é observar como nosso Senhor
fecha seu ministério público em termos quase idênticos aos que seu
antecessor dirigiu à mesma classe de pessoas: "Serpentes, geração de
víboras, como você escapará da condenação do inferno?" Isso não é
coincidência. Evidentemente, é a adoção deliberada das palavras de
João Batista, quando falou da "ira vindoura". Israel também rejeitou o
severo apelo ao arrependimento que o segundo Elias havia feito e as
ternas admoestações do Cordeiro de Deus. A medida de sua culpa
estava quase cheia, e o "dia da ira" estava chegando rapidamente.
31
Vida de Cristo , seg. 253, nota n.
32
Vida de Cristo , seg. 253, nota m.
33
Tischendorf rejeita essa visão, que é omitido pelo Codice Sinaitico e
Vaticano.
Mas o ponto que merece atenção especial é a aplicação particular
deste discurso aos tempos do Salvador. "Em verdade, eu digo a você:
Tudo isso acontecerá com esta geração". "Isso será exigido desta
geração". Certamente não pode haver reivindicação aqui para uma
referência primária e secundária. Nenhum orador negará que essas
palavras tenham uma explicação única e exclusiva para a geração do
povo judeu que vivia na Terra naquele momento. Até mesmo
Dorner, que defende mais arduamente uma grande variedade de
significados da palavra genea [geração], admite francamente que só
pode se referir aqui aos contemporâneos de nosso Senhor: "Hoc
ipsum hominum aevum". 34 Esta é uma admissão da maior
importância. Isso nos permite consertar o verdadeiro significado da
frase "Esta geração", que desempenha um papel tão importante em
várias das previsões de nosso Senhor, e notavelmente na grande
profecia proferida no Monte das Oliveiras. Na passagem diante de
nós, as palavras são incapazes de qualquer outra aplicação que não
seja a geração existente da nação judaica, que é representada por
nosso Senhor como herdeiro de todas as gerações anteriores, que
herdaram a depravação e e a rebeldia do caráter nacional, e destinado
a perecer no dilúvio de ira que se acumulara através dos séculos e
estava prestes a sobrepujar a terra culpada.
VI. Lamentação (segunda) de Jesus sobre Jerusalém
Mateus 23:37-39 "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e
apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os
teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e
tu não quiseste!
Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta;
Porque eu vos digo que desde agora me não vereis mais, até que
digais: Bendito o que vem em nome do Senhor".
34
Veja o tractoe de Dorner, De Oratione Christi Eschatologica, p. 41
Lucas 13:34-35 "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e
apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os
teus filhos, como a galinha os seus pintos debaixo das asas, e não
quiseste?
Eis que a vossa casa se vos deixará deserta. E em verdade vos digo
que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito
aquele que vem em nome do Senhor".
Aqui, novamente, temos outro exemplo dessas discrepâncias na
história do Evangelho que causa perplexo aos harmonistas. São Lucas
registra este apóstrofo em um relacionamento bastante diferente
de São Mateus. No entanto, dificilmente podemos assumir que estas
palavras foram pronunciados em mais de uma ocasião, ou seja,
aqueles especificados por São Mateus. Dorner diz: "Que estas
palavras: "Eis que a tua casa se deixará deserta", foram pronunciadas
por Cristo, não onde Lucas as coloca, mas onde Mateus as coloca, as
próprias palavras mostram-lhes, porque foram faladas quando nosso
Senhor partiu de templo para não voltar para ele até que ele tenha
sido julgado." 35 Lange diz que a passagem é colocada mais cedo
por São Lucas "por razões pragmáticas". Em qualquer caso, podemos
considerar corretamente as palavras pronunciadas na ocasião indicada
por São Mateus.
Como tal, sua colocação é mais sugestiva. Esta admoestação
patética mitiga a gravidade das acusações anteriores e encerra o
ministério de nosso Senhor com uma explosão de ternura humana e
compaixão divina. Como o Dr. Lange diz: "O Senhor queixa e
lamenta a sua própria Jerusalém arruinada... Toda a sua peregrinação
na terra foi agitada pela angústia sobre Jerusalém, como a galinha que
vê a águia ameaçadora no céu, e ansiosamente tenta reunir seus
filhotes sob suas asas. Com tanta angústia, Jesus viu as legiões
romanas se aproximando para julgar os filhos de Jerusalém, e tentou
35
Dorner, Orat. Cristo. Esch. p. 43
salvá-los com as mais fortes solicitações de amor, mas em vão.
crianças mortas para a voz do amor materno".36
É necessário dizer que aqui está Jerusalém, e somente Jerusalém?
Não há ambiguidade, nenhuma referência dupla; nenhuma realização
imediata e posterior é concebida aqui. Um pensamento, um
sentimento, um propósito encheu o coração de Jesus - Jerusalém, a
cidade de Deus, o amado, o culpado, o condenado! Seu destino agora
estava menos que selado, e o coração de nosso Salvador foi oprimido
de angústia quando ele lhe deu o último adeus.
Mas como devemos entender as palavras finais: "Você não me verá
mais, até que você diga:" Bem-aventurado aquele que vem em nome
do Senhor"? Esta frase: "Bem-aventurado o que vem em nome do
Senhor" é a fórmula reconhecida usada pelos judeus quando se fala
da vinda do Messias - a saudação messiânica: equivalente a "Salve,
ungido de Deus". Geralmente é suposto ter sido adotado do Salmo
118:26;37 Portanto, chegaria um momento em que essa saudação seria
apropriada. O Senhor que deixou o templo retornaria ao seu templo
mais uma vez. Mais do que isso, essa mesma geração testemunharia
esse retorno. Isto está claramente implícito na forma da linguagem de
nosso Salvador: "Você não me verá novamente até que você diga"
etc. - essas palavras ficariam desprovidas de metade do seu
significado se as pessoas referidas na primeira parte da frase não
fossem as mesmas que as referidas na segunda parte. Nada pode ser
mais claro e explícito do que a referência do princípio ao fim ao povo
de Jerusalém, os contemporâneos de Cristo. Eles e Ele se
encontrariam novamente; e o Messias, o Senhor que eles professavam
procurar tão ansiosamente, subitamente veio ao seu templo, de
36
Comentário sobre Mt. p. 416
37
Chamado de Canção da Ascensão ou Canção dos Peregrinos. O salmo era
cantado aos peregrinos pelos habitantes de Jerusalém, quando os viajantes se
aproximaram da cidade de Jerusalém para observar um dos três dias
sagrados de festa do calendário judaico, especialmente a festa dos
Tabernáculos.
acordo com as palavras do profeta Malaquias. Eles esperavam essa
vinda como um evento que fosse recebido com alegria; mas seria de
um jeito muito diferente. "E quem pode suportar o tempo de sua
vinda, ou quem pode suportar quando se manifestar?" Aquele dia
traria a desolação da casa de Deus, a destruição de sua existência
nacional, a eclosão da ira contida de Deus sobre Israel. Este foi o
retorno, o reencontro, a reunião, à qual o Salvador alude aqui. E esta
não é a mesma coisa que Ele havia declarado repetidas vezes? Não
disse Ele muito recentemente que "sobre esta geração " viriam as sete
aflições que Ele acabara de pronunciar? (Mt. 23:36). Não teria
afirmado solenemente que alguns dos que então viviam veriam o
Filho do homem vindo em glória, com seus anjos, "para dar a cada
um de acordo com suas obras" - isto é, chegando para julgar? É
possível adotar a estranha hipótese de alguns comentaristas, que com
estas palavras nosso Salvador significa que ele nunca mais seria visto
por aqueles a quem ele falou, até que Israel se converta ao
cristianismo, em algum tempo muito distante no tempo, preparado
para recebê-lo como rei de Israel? Isso seria de fato tomar liberdades
injustificáveis com as palavras da Escritura. Nosso Senhor não diz:
"Você não vai me ver até que eles digam: ou, até que outra geração
diga; mas, "até que [você] diga", etc. De maneira alguma segue-se que,
porque a saudação messiânica é citada aqui, as pessoas que deveriam
usá-lo estavam qualificadas para entrar em seu verdadeiro significado.
Essas mesmas palavras foram gritadas pelas multidões nas ruas de
Jerusalém apenas um dia ou dois antes, e ainda assim foram
transformadas em "Crucifica-o! crucifica-o!" em um espaço muito
breve. Essas palavras simplesmente denotam o fato de sua vinda. Os
homens infelizes a quem nosso Salvador falou não podiam adotar a
saudação messiânica em seu verdadeiro e mais elevado sentido; eles
nunca diriam "Bem-aventurado é ele", etc., mas testemunhariam Sua
vinda - a vinda com a qual aquela fórmula estava indissoluvelmente
associada, a Parousia.
Nós sustentamos, então, que não somos apenas garantidos, mas
obrigados, a chegar à conclusão de que aqui nosso Senhor se refere a
sua vinda para destruir Jerusalém e fechar a era judaica, de acordo
com suas declarações expressas, dentro do período da geração. que
então existia. A história confirma a profecia. Menos de quarenta anos
após o tempo em que essas palavras foram proferidas, a Judeia e seu
povo foram subjugados pelo dilúvio de ira profetizado pelo Senhor.
Sua terra foi devastada; sua casa ficou deserta; Jerusalém e seus filhos
estavam submersos numa ruína comum.
VII. A profecia do Monte das Oliveiras
A vinda do filho do homem [a parousia]
antes de passar esta geração
Mateus 24; Marcos 13; Lucas 21
Agora, consideramos o que é de longe o pronunciamento mais
completo e explícito de nosso Senhor em relação à sua vinda, e os
eventos solenes relacionados a ele. O discurso ou a conversa no
Monte das Oliveiras é a grande profecia do Novo Testamento, e não
seria errado chamá-lo de o Apocalipse dos Evangelhos. Dependerá
da interpretação deste discurso profético para compreendamos
corretamente as previsões contidas nos escritos apostólicos; pois
quase pode ser dito que não há nada nas Epístolas que não esteja nos
Evangelhos. Esta profecia do nosso Salvador é um grande depósito a
partir do qual derivam as declarações proféticas dos apóstolos.
A visão comumente aceita da estrutura deste discurso, que é quase
certo, tanto pelos expositores quanto pela generalidade dos leitores, é
que nosso Senhor, ao responder a pergunta de seus discípulos quanto
à destruição do templo, mistura com esse evento a destruição do
mundo, o julgamento universal e a consumação final de todas as
coisas. Imperceptivelmente, é suposto que a profecia desliza da
cidade e do templo de Jerusalém, e seu destino iminente no futuro
imediato, para outra catástrofe, infinitamente mais tremenda, no
futuro distante e indefinido. Assim, misturadas, no entanto, estão as
alusões - agora para Jerusalém e agora para o mundo em geral; agora
para Israel e agora para a raça humana; agora para eventos próximos
e agora para eventos indefinidamente remotos; Distinguir e atribuir as
várias referências e os vários assuntos é extremamente difícil, se não
impossível.
Talvez o modo mais justo de mostrar os pontos de vista daqueles
que argumentam em favor de um duplo significado, ou uma divisão
de assuntos neste discurso profético é apresentar o esquema ou plano
da profecia proposta pelo Dr. Lange e adotado por muitos
expositores de maior destaque.
"Em harmonia com o estilo apocalíptico, Jesus exibiu os
julgamentos de Sua vinda em uma série de ciclos, cada um
representando toda a futuridade, mas de tal maneira, que a cada novo
ciclo a cena parece aproximar-se e se assemelhar mais a catástrofe
final. Assim, o primeiro ciclo delineia todo o curso do mundo até o
fim, em suas características gerais. (Mt. 24:4-14) O segundo dá os
sinais da aproximação da destruição de Jerusalém, e pinta essa
destruição em si como um sinal e um começo do julgamento do
mundo, que a partir daquele dia prossegue em dias silenciosos e
reprimidos de julgamento até o último dia. (Mt. 24:15-28) O terceiro
descreve o fim repentino do mundo e o julgamento que se segue. (Mt
24:29-44) Segue-se uma série de parábolas e semelhanças, nas quais o
Senhor pinta o próprio julgamento, que se desdobra em uma
sucessão orgânica de vários atos. No último ato, Cristo revela Sua
majestade judicial universal. (Mt. 24:45-51) exibe o julgamento sobre
os servos de Cristo ou o clero. (Mateus 25:1-13) (as virgens sábias e
tolas) exibe o julgamento sobre a Igreja, ou o povo. Em seguida,
segue o julgamento sobre os membros individuais da Igreja. (Mt.
25:14-30) Finalmente, ( Mt. 25:31-46) introduz o julgamento universal
do mundo".38
38
Lange, Comentário sobre Mateus p. 418
Não é muito diferente o esquema proposto por Stier, que encontra
três tipos diferentes de vinda Cristo que se abrangem em perspectiva:
1. A vinda do Senhor para julgar o judaísmo
2. Sua vinda para julgar o cristianismo anti-cristão degenerado
3. Sua vinda para julgar todas as nações pagãs - o julgamento final do
mundo, que são todos juntos39
Esse é o esquema elaborado e complicado adotado por alguns
expositores; mas há objeções óbvias e graves a ela, que, quanto mais
forem consideradas, parecerão mais formidáveis, senão fatais.
1. Uma objeção pode ser feita aos princípios envolvidos neste
método de interpretação da Escritura. Devemos procurar significados
duplos, triplos e por profecias dentro de profecias e mistérios
envoltos em mistérios, onde poderíamos razoavelmente esperar uma
resposta clara a uma pergunta simples? Alguém pode ter certeza que
entende as Escrituras se elas são enigmáticas ou obscuras? É assim
que o Salvador ensinou seus discípulos, deixando-os a tatear e
investigar o caminho através de intrincados labirintos, que,
irresistivelmente, sugerem astronomia ptolemaica - "Ciclo e epiciclo,
orbe em órbita"? Certamente, uma revelação tão ambígua e obscura
dificilmente pode ser chamada revelação, e mais parece um oráculo
de Delphi, ou uma sibila de Cuma, do que o ensino dAquele que o
povo comum ouviu com prazer.40
2. Dificilmente se pretendia que, se a exposição de Lange e Stier
estivesse correta, os discípulos que ouviram as declarações de Jesus
no Monte das Oliveiras pudessem ter compreendido ou seguido o
desvio de seu discurso. Eles eram sempre lentos em entender as
palavras do Mestre; mas seria dar-lhes crédito demais por uma
39
Stier. Rede. Jes. vol. iii. 251
40
Veja a Nota A, Parte I., sobre a Teoria da Interpretação de Sentido Duplo.
penetração surpreendente, supor que eles conseguiram abrir caminho
através de um labirinto de inúmeros caminhos, estendendo-se através
de "uma série de ciclos, cada um dos quais retratando todo o futuro,
mas de tal maneira que a cada novo ciclo, a cena parece se aproximar
e se assemelhar mais à catástrofe final".
Para o leitor comum, não é fácil seguir esse engenhoso esquema
tortuoso; Mas é claro que os discípulos devem ter se sentido
irremediavelmente confundidos no meio de uma avalanche de crises e
catástrofes desde a queda de Jerusalém até o fim do mundo. Talvez
nos seja dito, no entanto, que isso não significa que os discípulos
entendessem ou não a resposta de nosso Senhor: não era para eles
que Ele estava falando; foi para as eras futuras, para gerações ainda
não nascidas, que estavam destinadas, no entanto, a considerar a
interpretação da profecia como embaraçosa para eles como era para
os ouvintes originais. Não há palavras fortes demais para repudiar tal
sugestão. Os discípulos foram ao seu Mestre com uma pergunta
simples e sincera, e é incrível supor que Ele os ridicularizou, dando-
lhes um enigma ininteligível. Deve ser assumido que o Salvador
queria que seus discípulos compreendessem suas palavras, e deve-se
assumir que eles as entenderam.41
41
Ainda pode ser objetado que os discípulos muitas vezes estavam confusos
sobre os ensinamentos de Jesus. Isso está correto. No entanto, o fato
importante, é que em todos os casos em que os discípulos não entenderam o
que Jesus disse, os evangelistas claramente nos dizem que eles "não
entenderam". A questão é, portanto, onde no Discurso das Oliveiras
encontramos algo parecido com tal afirmação? Em vários casos nos
Evangelhos, quando os discípulos não entenderam o que Jesus ensinou, nos
é informado: "eles não entenderam" (Mc 6:52). Em Mateus 15:17, Jesus
perguntou a seus discípulos se eles agora entenderam o que realmente
contamina uma pessoa. Em Mateus 16 e paralelos, Jesus repreendeu os
discípulos por não terem compreendido seus comentários sobre o "fermento
dos fariseus". Mas, nesse mesmo texto, no qual os discípulos não entenderam
inicialmente o que foi dito, após a instrução de Jesus, O escritor evangélico
nos diz: "Então os discípulos entenderam" (Mateus 16:6-12). Em Marcos 4,
depois de contar a parábola dos solos e os discípulos pedem a interpretação,
Jesus disse: "Se você não entender essa parábola, como você entenderá
3. A interpretação que estamos considerando parece basear-se na
compreensão errônea da pergunta feita a nosso Senhor pelos
discípulos, bem como de Sua resposta à pergunta deles.
É geralmente assumido que os discípulos vieram ao nosso Senhor
com três perguntas diferentes, relativas a diferentes eventos separados
uns dos outros por um longo intervalo de tempo; que a primeira
pergunta: "Quando estas coisas estarão?" Tinha referência à
destruição que se aproximava do templo; que a segunda e terceira
pergunta – "Qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo?"-
referiu-se a eventos muito posteriores à destruição de Jerusalém e, de
fato, ainda não cumpridos. Supõe-se que a resposta de nosso Senhor
se conforma a essa tríplice investigação e que isso dá forma a todo o
seu discurso. Agora, deve-se considerar como absolutamente
improvável, se não impossível, que os discípulos tinham esse
esquema mapeado em suas mentes; As escrituras do antigo
testamento não ensinam isso, o Senhor não os ensinou assim.
Sabemos que eles haviam ficado chocados com a previsão de seu
Mestre da destruição total da gloriosa casa de Deus sobre a qual eles
haviam estado tão recentemente contemplando com admiração. Eles
ainda não tiveram tempo de se recuperar da surpresa, quando
todas as parábolas?" Jesus repreendeu abertamente seus discípulos por não
entender o que ele disse em relação à sua morte iminente (Marcos 9:32; Lucas
24: 25, João 14). Na verdade, foram discussões sobre a paixão e a
ressurreição de Jesus, que provocaram mais comentários sobre o seu mal-
entendido do que qualquer outra ocasião. O argumento é que quando os
discípulos não entenderam algo, o Senhor diz ou os escritores do Evangelho,
olhando para trás a esses casos, nos falam de sua confusão ou ignorância.
Eles até nos dizem como as ações posteriores iluminaram sua compreensão
(João 12:16). Em contraste com essas declarações enfáticas sobre a confusão
ou a falta de compreensão dos discípulos, nada há em Mateus 24 que se
assemelha, de modo algum, que os discípulos não entenderam as palavras de
seu Mestre. Não existe uma declaração: "Eles não entendiam". Não há:
"Depois de sua glorificação, eles vieram a conhecer". Não há: "Depois que ele
foi ressuscitado, os discípulos se lembraram..." (cf. João 2:19-22). Não há uma
palavra de Jesus que os persegue por não compreender suas palavras.
chegaram a Jesus com a pergunta: "Quando estas coisas estarão?"
etc. Não é razoável supor que apenas um pensamento os possuísse
naquele momento - a terrível calamidade que aguardava a magnífica
estrutura, glória e beleza de Israel? Esse foi um momento em que
suas mentes estariam ocupadas com um futuro distante? Você não
deveria concentrar toda a sua alma no destino do templo? E não
deveriam estar ansiosos para saber quais sinais seriam dados sobre a
abordagem da catástrofe? Se eles conectaram em sua imaginação a
destruição do templo com a dissolução da criação e o fechamento da
história humana, é impossível dizer; mas podemos concluir
seguramente que o pensamento superior em sua mente foi o anúncio
que o Senhor acabara de fazer: 'Em verdade vos digo que não ficará
aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada'. Pela linguagem do
Salvador, eles devem ter convencido de que a catástrofe era iminente;
e sua ansiedade era conhecer o momento e os sinais de sua
chegada. São Marcos e São Lucas fazem a pergunta dos discípulos se
referirem a apenas um único evento e para se cumprir uma única vez
- "Quando estas coisas acontecerão e qual será o sinal quando todas
estas coisas forem cumpridas?"
Portanto, não é apenas presumível, mas indubitável, que as
questões dos discípulos se referem apenas a aspectos diferentes do
mesmo grande evento. Isso harmoniza as declarações de São Mateus
com as dos outros evangelistas e é claramente exigido pelas
circunstâncias do caso.
4. A interpretação que estamos discutindo repousa também sobre
uma concepção errônea e equivocada da frase fim do mundo (era)
[sunteleia ton aionos]. Não é surpreendente que os simples leitores de
de uma tradução moderna do Novo Testamento assumam que esta
frase realmente significa a destruição do mundo material; mas esse
erro não deve ser suportado por homens de conhecimento. Já
tivemos ocasião de enfatizar que o verdadeiro significado de (aion)
não é mundo, mas Época, Era ou dispensação; que, como seu
equivalente latino, aevum, se refere a um período de tempo: assim, "o
fim da idade" [tou aion] significa o fim da era ou da era judaica ou
dispensação, como o Senhor sempre o indicou. Todas as passagens
que falam do "fim dos tempos", referem-se à mesma consumação.
Em 1 Cor. 10:11, São Paulo diz: "E estas coisas aconteceram com
eles como um exemplo, e estão escritas para admoestar-nos, para
aqueles que alcançaram os fins dos tempos", o que implica que ele
considerava a si mesmo e seus leitores como vivendo perto da
conclusão de um aeon, ou idade.
Da mesma forma, na Epístola aos Hebreus, encontramos a
expressão notável: "Mas agora, no final dos séculos (erroneamente
traduzido: o fim do mundo), ele apareceu uma vez por todas pelo
sacrifício de si mesmo" (Hb. 9:26), mostrando claramente que o
escritor considerou a encarnação de Cristo como acontecendo perto
do final da era, ou de uma dispensação. Supor que ele quisesse dizer
perto do fim do mundo, ou perto da destruição do planeta material,
ele estaria escrevendo uma história falsa e com uma gramática ruim.
Na verdade, não seria verdade, porque o mundo durou mais tempo
desde a encarnação do que a duração de toda a economia mosaica,
desde o êxodo até a destruição do templo. É inútil, portanto, dizer
que o "fim dos tempos" pode significar um período prolongado,
estendendo-se desde a encarnação até nossos dias, e até mesmo
muito além deles. Isso seria um aeon, e não o fim de um aeon. O
aeon, do qual nosso Senhor estava falando, estava prestes a fechar em
uma grande catástrofe; e uma catástrofe não é um processo
demorado mas um ato definitivo e culminante. Somos obrigados,
portanto, a concluir que o "fim dos tempos" ou [sunteleia ton aionos]
refere-se unicamente ao término idade judaica ou dispensação que se
aproximava.
5. Pode-se de fato objetar que, mesmo admitindo que os apóstolos
tenham sido ocupados exclusivamente com o destino do templo e os
eventos de seu próprio tempo, não há razão para que o Senhor não
ultrapasse os limites de sua visão, e estenda um olhar profético para
um futuro distante. Não há dúvida de que ele poderia fazê-lo; mas,
nesse caso, devemos esperar alguma sugestão desse fato; uma linha
bem definida entre o futuro imediato e e o indefinidamente remoto..
Se o Salvador mudou de assunto, de Jerusalém e seu dia de
condenação, para o mundo e seu dia de julgamento, seria razoável
buscar uma frase como "Depois de muitos dias", ou "Isso acontecerá
depois dessas coisas", que marcará a transição. Mas, em vão,
buscamos alguma indicação desse tipo. As tentativas dos expositores
de traçar linhas de transição nesta profecia são inteiramente
insatisfatórias, mostrando onde ele para de falar sobre Jerusalém e
Israel e continua falando sobre eventos remotos e de gerações que
ainda não nasceram. Nada pode ser mais arbitrário do que as divisões
que se destinam a ser estabelecidas; eles não suportam um exame
cuidadoso e são incompatíveis com as afirmações expressas da
própria profecia.
Acredita-se que alguns expositores encontram uma marca de
transição em Mateus 24:29, onde as próprias palavras do Senhor
tornam a própria ideia totalmente inadmissível por Sua própria nota
do tempo " Imediatamente"! Se, diante de tal autoridade, tão
imprudente uma sugestão pode ser proposta, o que pode não ser
esperado em casos menos marcados? Mas, na verdade, todas as
tentativas de estabelecer divisões e transições imaginárias na profecia
falharam de maneira significativa. Que qualquer leitor justo e franco
julgue o esquema do Dr. Lange, que pode ser tomado como um
representante da escola de expositores de duplo sentido, em sua
distribuição deste discurso de nosso Senhor, e diga se é possível
discernir qualquer traço de uma divisão natural, onde ele desenha
linhas de transição. Sua primeira seção, de Mateus 24:4-14, ele
intitula:
"Sinais e a manifestação do fim do mundo em geral"
O que!? É concebível que nosso Senhor, quando está prestes a
responder aos corações ansiosos e palpáveis, cheio de ansiedade
sobre as calamidades que Ele lhes disse serem iminentes, deva
começar falando do "fim do mundo em geral"? Eles pensaram sobre
o templo e o futuro imediato. Jesus falaria do mundo e do tempo
indefinidamente remoto? Mas existe alguma coisa nesta primeira
seção que não é aplicável aos próprios discípulos e ao seu tempo? Há
algo que realmente não aconteceu em seu próprio tempo? "Sim", será
dito: "o evangelho do reino ainda não foi pregado ao mundo inteiro
como testemunho de todas as nações". Mas temos o mesmo fato
atestado por São Paulo (Cl. 1:5, 6): "A verdadeira palavra do
evangelho, que veio até você, assim como para o mundo inteiro" e
novamente (Cl 1:23): "O evangelho que você ouviu, que é pregado a
toda criatura que está sob o céu". Havia, então, no tempo dos
apóstolos, a difusão mundial do evangelho para satisfazer as
previsões do Salvador: "E este evangelho do reino será pregado no
mundo inteiro" (oikemene).
Mas a objeção decisiva a esse esquema é que toda a passagem é
evidentemente endereçada aos discípulos, e fala do que eles verão,
eles farão, eles sofrerão; o todo cai dentro de sua própria observação,
experiência e geração, e não pode ser falado nem para uma audiência
invisível em uma era futura longínqua, que ainda não apareceu na
Terra. A próxima divisão de Lange, composta por Mateus 24:15-22, é
intitulado:
"Sinais do fim do mundo em particular:
(a) A destruição de Jerusalém".
Sem parar para investigar a relação dessas ideias, é satisfatório
encontrar Jerusalém finalmente introduzida. Mas quão antinatural a
transição do "fim do mundo " para a invasão da Judeia e o cerco de
Jerusalém! Poderia um salto tão súbito e imenso ter sido
possivelmente feito pelos discípulos? Poderia ser inteligível para eles,
ou só é inteligível no momento? Mas marque o ponto de transição,
como fixado por Lange, em Mateus 24:15: "Portanto, quando você vê
a abominação da desolação", etc. Isso, certamente, não é transição,
mas a continuidade: tudo o que precede leva até este ponto; as
guerras, a fome, as pestes, as perseguições e os martírios eram todos
preparatórios e introdutórios ao "fim", são os "sinais que antecedem
o fim". isto é, para a catástrofe final que deveria vir sobre a cidade, o
templo e a nação de Israel. Em seguida segue um parágrafo de
Mateus 24:23-28, que Lange chama:
"(b) Intervalo de julgamento parcial e suprimido".
Este título é em si um exemplo de exposição fantasiosa e arbitrária.
Há algo de incongruente e autocontraditório nas próprias palavras.
Um dia de julgamento implica publicidade e manifestação, não
silêncio e supressão. Mas qual pode ser o significado de 'dias de
julgamento silenciosos e reprimidos', que vão desde a destruição de
Jerusalém até o fim do mundo? Se quer dizer que há um sentido em
que Deus está sempre julgando o mundo, isso é um truísmo que pode
ser afirmado de qualquer período, antes e depois da destruição de
Jerusalém. Mas a parte mais objetável desta exposição é o tratamento
violento da palavra "então" [ tote ]. (Mateus 24:23) Lange diz: "Então
(isto é,no tempo entre a destruição de Jerusalém e o fim do mundo)".
Certamente, um prodigioso "então"; para Lange, "então" não é mais
um ponto do tempo, mas um aeon - um período vasto e indefinido; e
durante todo esse tempo as declarações no parágrafo, Mateus 24:23-
28 , devem estar em curso de cumprimento. Mas quando nos
voltamos para a profecia em si não encontramos nenhuma mudança
de assunto, nenhuma quebra na continuidade do discurso, nenhum
indício de qualquer transição de uma época para outra. A nota do
tempo, "então" [ tote ], é decisiva contra qualquer interrupção ou
transição. Nosso Salvador está colocando os discípulos em guarda
contra os enganadores e impostores que infestariam os últimos dias
da comunidade judaica; e diz a eles: "Então" (Naquele tempo, na
agonia da guerra judaica) "se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo, ou
ali não credes". É Jerusalém, sempre Jerusalém, e somente Jerusalém,
que nosso Senhor fala aqui. Finalmente chegamos a:
"O fim Real do Mundo" (versos 24-31).
Tendo feito a transição do "fim do mundo de volta à destruição de
Jerusalém, o processo é agora revertido, e há outra transição, desde a
destruição de Jerusalém até o" verdadeiro fim do mundo". Este fim
real é colocado após a aparição daqueles falsos cristos e falsos
profetas contra os quais os discípulos foram avisados. Essa alusão aos
"falsos cristos" deveria ter salvado o crítico do erro em que ele caiu e
indicar claramente o período a que a previsão se refere. Mas onde há
algum sinal de divisão ou transição aqui? Não há vestígio ou sinal de
qualquer: pelo contrário, a linguagem expressa de nosso Senhor exclui
a ideia de qualquer intervalo; porque Ele diz: "Imediatamente depois
da tribulação daqueles dias, etc". Esta nota de tempo é decisiva e
proíbe a suposição de qualquer ruptura ou hiato na continuidade de
Seu discurso.
Mas fomos longe o suficiente na demonstração do tratamento
arbitrário e acrítico que essa profecia recebeu, e fomos traídos na
exegese prematura de alguma parte de seu conteúdo. O que
argumentamos é a favor da unidade e continuidade de todo o
discurso. Desde o início do vigésimo quarto capítulo de São Mateus
até o final do vigésimo quinto, é um e indivisível. O tema é a
consumação do aeon, ou fim da era judaica, com os eventos
concomitantes, os problemas que atingiriam a "geração perversa",
que incluiu a invasão dos exércitos romanos, o cerco e a captura de
Jerusalém, a destruição total do templo, as terríveis calamidades do
povo. Juntamente com isso, encontramos a parousia, ou a chegada do
Filho do homem nas nuvens, o derramamento judicial da ira divina
sobre os impenitentes e a libertação e recompensa dos fiéis. Do início
ao fim, esses dois capítulos formam um discurso contínuo,
consecutivo e homogêneo. Assim, deve ter sido considerado pelos
discípulos, a quem foi dirigido; e, portanto, na ausência de qualquer
indicação em contrário no registro, nos sentimos ligados a ela.
6. Em conclusão, não podemos deixar de advertir para outra
consideração, a qual estamos convencidos ter muito a ver com a
interpretação errônea desta profecia, a saber, a apreciação inadequada
da importância e grandeza do evento que forma seu fardo - a
consumação da era e a revogação da dispensação judaica.
Esse foi um evento que formou uma nova época no governo
divino do mundo. A economia mosaica, que havia sido entronizada
com tanta pompa e grandeza em meio aos trovões e relâmpagos do
Sinai, que existiram por quase dezesseis séculos, que tinha sido o
meio divinamente instituído de comunicação entre Deus e o homem,
e que pretendia realizar um reino de Deus sobre a terra - revelara um
fracasso comparativo por meio da incapacidade moral do povo de
Israel, e estava fadado a chegar ao fim em meio à demonstração mais
formidável da justiça e da ira de Deus. O templo de Jerusalém, por
séculos a glória e a coroa do Monte Sião, - o santuário sagrado, em
cujo santo lugar Jeová teve o prazer de morar - a santa e bela casa,
que era o paládio da segurança da nação, e mais querida do que a vida
a todo filho de Abraão, Estava prestes a ser profanado e destruído, de
modo que nem uma pedra deveria ser deixada sobre a outra. O povo
escolhido, os filhos de Deus, a nação favorecida, com a qual o Deus
de toda a terra se dignou a entrar em uma aliança e ser chamado de
Rei, foram esmagados pelas mais terríveis calamidades que alguma
vez caiu sobre qualquer nação: deviam ser expatriados, privados de
sua nacionalidade, excluídos de sua antiga e peculiar relação com
Deus, e expulsos como errantes na face da terra, um sogro e assobio
entre todas as nações. Mas, juntamente com tudo isso, haveria
mudanças para melhor. Primeiro, e principalmente, o fim do aeon
seria a inauguração do reino de Deus. Haveria honra e glória para os
verdadeiros e fiéis servos de Deus, que então entraria em plena posse
da herança celestial. (Isso será mais amplamente revelado na
seqüência de nossa investigação.) Mas também haveria uma mudança
gloriosa neste mundo. O velho abriu caminho para o novo; a lei foi
substituída pelo evangelho; Moisés foi substituído por Cristo. O
sistema estreito e exclusivo, que abrangia apenas um único povo, foi
sucedido por um novo e melhor pacto, que envolveu toda a família
humana, e não conhecia nenhuma diferença entre judeus e gentios,
circuncidados e incircuncisos. A dispensação de símbolos e
cerimônias, adequada à infância da humanidade, foi mesclada em uma
ordem de coisas em que a religião se tornou um serviço espiritual,
cada lugar um templo, cada adorador um sacerdote e Deus o Pai
universal. Esta foi uma revolução muito maior do que qualquer outra
que tenha ocorrido na história da humanidade. Ele fez um novo
mundo; "mundo por vir", o [oikonmenh mellonsa ] de Hebreus 2:5; e
a magnitude e importância da mudança é impossível superestimar. É
isso que dá tal significado à derrubada do templo e à destruição de
Jerusalém: estes são os sinais exteriores e visíveis da revogação da
velha ordem e da introdução da nova. A história do cerco e captura
da Cidade Santa não é simplesmente um emocionante episódio
histórico, como o cerco de Tróia ou a queda de Cartago; não é
meramente a cena final nos anais de uma nação antiga; tem um
significado sobrenatural e divino; tem uma relação com Deus e a raça
humana e marca uma das épocas mais memoráveis do tempo. Esta é
a razão pela qual o evento é descrito na Bíblia em termos que
parecem exagerados para alguns, ou requerem uma grande catástrofe
para justificá-la. Mas se fosse apropriado que a introdução dessa
economia fosse sinalizada por presságios e maravilhas, terremotos,
relâmpagos, trovões e trombetas - não era menos adequado que se
apagasse em meio a fenômenos semelhantes, visões temerosas e
grandes sinais. do céu.' Se o verdadeiro significado e grandeza do
evento tivessem sido melhor apreendidos pelos expositores, eles não
teriam achado a linguagem com o qual nosso Senhor o descreve
extravagante ou exagerada.42
42
O fim do aeon judaico no primeiro século e da era romana no quinto e sexto
foram narrados pela mesma ocorrência de calamidades, guerras, tumultos,
pestilências, terremotos, etc., todos marcando o tempo de julgamento divino.
Estamos agora preparados para entrar no exame mais particular do
conteúdo desse discurso profético; que devemos nos esforçar para
fazer da forma mais concisa possível.
CONSIDERAÇÃO DA PROFECIA DO MONTE DAS
OLIVEIRAS
I. QUESTÕES DOS DISCÍPULOS
Mateus 24:1-3
"E, quando Jesus ia saindo do templo, aproximaram-se dele os seus
discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo.
Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo
que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada.
E, estando assentado no Monte das Oliveiras, chegaram-se a ele os
seus discípulos em particular, dizendo: Dize-nos, quando serão essas
coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?"
Marcos 13:1-4
"E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre,
olha que pedras, e que edifícios!
E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não
ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada.
E, assentando-se ele no Monte das Oliveiras, defronte do templo,
Pedro, e Tiago, e João e André lhe perguntaram em particular:
Dize-nos, quando serão essas coisas, e que sinal haverá quando todas
elas estiverem para se cumprir."
Lucas 21:5-7
"E, dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de
formosas pedras e dádivas, disse:
Pela mesma crença na conexão física com a convulsão moral, ver Niebuhr,
Leben's Nachrichten, 2: p. 672 Dr. Arnold: Veja 'Life by Stanley,' vol. 1: p. 311
Quanto a estas coisas que vedes, dias virão em que não se deixará
pedra sobre pedra, que não seja derrubada.
E perguntaram-lhe, dizendo: Mestre, quando serão, pois, estas
coisas? E que sinal haverá quando isto estiver para acontecer?"
Podemos conceber a surpresa e consternação sentida pelos
discípulos quando Jesus lhes anunciou a completa destruição que
estava chegando sobre o templo de Deus, cuja beleza e esplendor
excitaram sua admiração. Não é surpreendente que quatro deles, que
parecem ter sido admitidos em uma familiaridade mais íntima do que
o restante, buscaram informações mais completas sobre um assunto
tão intensamente interessante. O único ponto que requer
esclarecimentos aqui refere-se à extensão de seu interrogatório. São
Marcos e São Lucas representam isso como referente ao tempo da
catástrofe prevista e o sinal da iminência de sua realização. São
Mateus varia na forma da questão, mas é evidente que tem o mesmo
significado: "Conte-nos, quando serão essas coisas, e qual será o sinal
de sua vinda e do fim do mundo [aeon]?" Aqui também é o tempo e
o sinal o que forma o assunto da questão. Não há nenhuma razão
para supor que em suas mentes considerassem a destruição do
templo, a vinda do Senhor e o fim da era, como três eventos distintos
ou amplamente separados; mas, pelo contrário, é bastante natural
supor que todos foram considerados coincidentes e
contemporâneos. Que ideias precisas eles entretinham em relação ao
fim dos tempos e aos eventos com os quais estão conectados, nós
não sabemos exatamente; mas sabemos que eles estavam
acostumados a ouvir seu Mestre falar sobre a Sua vinda em Seu reino,
em Sua glória durante o tempo que alguns que ali estavam com Ele
ainda estariam vivos. Eles também o ouviram falar do "fim dos
tempos"; e eles evidentemente conectaram Sua "vinda" com o fim
dos tempos.43 Portanto, os três pontos abordados por sua pergunta,
43
Nosso Senhor especificamente pergunta se eles entenderam do que Ele
estava falando sobre o "fim dos tempos", e eles enfaticamente responderam
que "sim" (cf. Mt. 13:51). Sabemos como "o fim dos tempos" foi sempre
como apresentado por São Mateus, foram considerados por eles
como contemporâneos; portanto, não encontramos diferença prática
nos termos da pergunta dos discípulos, conforme registrado pelos
autores dos evangelhos sinópticos.
RESPOSTA DE NOSSO SENHOR AOS DISCÍPULOS
(a) Eventos que mais remotamente precedem a consumação
Mateus 24:4-14
"E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos
engane;
Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e
enganarão a muitos.
E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos
assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o
fim.
Porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e
haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares.
Mas todas estas coisas são o princípio de dores.
Então vos hão de entregar para serdes atormentados, e matar-vos-
ão; e sereis odiados de todas as nações por causa do meu nome.
Nesse tempo muitos serão escandalizados, e trair-se-ão uns aos
outros, e uns aos outros se odiarão.
associado na mente judaica com a vinda do Messias e a inauguração da era
messiânica; que foram profetizados por Joel, Ageu, Malaquias e outros
profetas, e que foi pregado com tanta veemência por João Batista. No livro de
Daniel a consumação dos principais eventos escatológicos podem ser
encontrados nos capítulos 2, 7, 9 e 12. Daniel tem visões escatológicas sobre
os "o tempo do fim", "o fim dos tempos", "os último dias", nessas visões
encontramos a desolação do templo, a tribulação, a vinda do Filho do homem
e a chegada do reino, associadas ao tempo quando a cidade e o templo
devem ser destruídos - ou "quando o poder do povo santo seria
completamente destruído", não somos apenas permitidos mas obrigados a
concluir que todas estas coisas seriam cumpridas em conjunto (cf. Daniel 7:13-
14, 18, 27; 9:24-27; 12:1-7).
E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.
E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.
Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.
E este evangelho do reino será pregado em todo o mundo, em
testemunho a todas as nações, e então virá o fim".
Marcos 13:5-13
"E Jesus, respondendo-lhes, começou a dizer: Olhai que ninguém
vos engane;
Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e
enganarão a muitos.
E, quando ouvirdes de guerras e de rumores de guerras, não vos
perturbeis; porque assim deve acontecer; mas ainda não será o fim.
Porque se levantará nação contra nação, e reino contra reino, e
haverá terremotos em diversos lugares, e haverá fomes e tribulações.
Estas coisas são os princípios das dores.
Mas olhai por vós mesmos, porque vos entregarão aos concílios e
às sinagogas; e sereis açoitados, e sereis apresentados perante
presidentes e reis, por amor de mim, para lhes servir de testemunho.
Mas importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre
todas as nações.
Quando, pois, vos conduzirem e vos entregarem, não estejais
solícitos de antemão pelo que haveis de dizer, nem premediteis; mas,
o que vos for dado naquela hora, isso falai, porque não sois vós os
que falais, mas o Espírito Santo.
E o irmão entregará à morte o irmão, e o pai ao filho; e levantar-se-
ão os filhos contra os pais, e os farão morrer.
E sereis odiados por todos por amor do meu nome; mas quem
perseverar até ao fim, esse será salvo".
Lucas 11:8-19
"Disse então ele: Vede não vos enganem, porque virão muitos em
meu nome, dizendo: Sou eu, e o tempo está próximo. Não vades,
portanto, após eles.
E, quando ouvirdes de guerras e sedições, não vos assusteis. Porque
é necessário que isto aconteça primeiro, mas o fim não será logo.
Então lhes disse: Levantar-se-á nação contra nação, e reino contra
reino;
E haverá em vários lugares grandes terremotos, e fomes e
pestilências; haverá também coisas espantosas, e grandes sinais do
céu.
Mas antes de todas estas coisas lançarão mão de vós, e vos
perseguirão, entregando-vos às sinagogas e às prisões, e conduzindo-
vos à presença de reis e presidentes, por amor do meu nome.
E vos acontecerá isto para testemunho.
Proponde, pois, em vossos corações não premeditar como haveis
de responder;
Porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir nem
contradizer todos quantos se vos opuserem.
E até pelos pais, e irmãos, e parentes, e amigos sereis entregues; e
matarão alguns de vós.
E de todos sereis odiados por causa do meu nome.
Mas não perecerá um único cabelo da vossa cabeça.
Na vossa paciência possuí as vossas almas."
É impossível ler esta seção sem perceber sua clara referência ao
período entre a crucificação de nosso Senhor e a destruição de
Jerusalém. Cada uma das palavras foi dirigida aos discípulos, e apenas
a eles. Toda palavra é falada aos discípulos e somente a eles. Imaginar
que o "você" e "vós" nestas referências se aplique, não aos discípulos
a quem Cristo estava falando, mas a algumas pessoas desconhecidas e
ainda inexistentes em uma era distante, é uma suposição tão absurda
que não merece ser dada uma séria atenção.
Que as palavras de nosso Senhor foram plenamente verificadas
durante o intervalo, entre a Sua crucificação e o fim dos tempos,
temos o mais amplo testemunho. Falsos Cristos e falsos profetas
começaram a aparecer em um período muito inicial da era cristã, e
continuaram a infestar a terra até o fim da história judaica. No escrito
do procurador de Pilatos (36 dC), um deles apareceu em Samaria e
enganou grandes multidões. Havia outro escrito de Cuspio Fado (45
dC). Josefo nos diz que, durante o governo de Félix (53-60 dC), "o
país estava cheio de ladrões, magos, falsos profetas, falsos messias e
impostores", que enganou o povo com promessas de grandes
eventos.44 A mesma autoridade nos informa que as comoções civis e
as hostilidades internacionais eram abundantes naqueles dias,
especialmente entre os judeus e seus vizinhos. Em Alexandria,
Seleucia, Síria e Babilônia, houve tumultos violentos entre judeus e
gregos, e entre judeus e sírios, que moravam nas mesmas cidades.
"Cada cidade foi dividida", diz Josefo, "em dois campos". No reinado
de Caligula, houve grande apreensão na Judeia sobre a possibilidade
de uma guerra com os romanos, em conseqüência da proposta
daquele tirano de colocar sua estátua no templo. Durante o reinado
do imperador Claudio (41-54 dC), houve quatro estações de grande
escassez. No quarto ano de seu reinado, a fome na Judeia era tão
severa que o preço da comida era enorme e um grande número de
habitantes pereceram. Terremotos ocorreram em cada um dos
reinados de Calígula e Cláudio.45
O Senhor orientou aos discípulos que tais calamidades precederiam
o "fim". Mas não era seu antecedentes imediatos. Eles eram o "início
do fim"; mas "ainda não é o fim".
Neste ponto (Mateus 24:9-13), nosso Senhor passa do geral para o
particular; do público ao pessoal; das fortunas das nações e reinos às
fortunas dos próprios discípulos. Enquanto esses eventos estavam
ocorrendo, os apóstolos se tornariam objetos de suspeita para os
poderes dominantes. Deviam ser levados perante conselhos,
príncipes e reis, aprisionados, espancados nas sinagogas e odiados por
todos os homens por amor a Jesus.
44
Josefo Antiq. bk. xx.x.xiii, 5, 6.
45
Conybeare e Howson, Vida e Epist. de São Paulo, c. iv.
Tudo isso foi verificado na experiência pessoal dos discípulos que
podemos ler nos Atos dos Apóstolos e nas Epístolas de São Paulo.
Mas a promessa divina de proteção na hora do perigo foi cumprida
de forma notável. Com a única exceção de "Tiago, o irmão de João",
nenhum apóstolo parece ter sido vítima de perseguição maliciosa por
seus inimigos até o fim da história apostólica, conforme registrado
em Atos (63 dC).
Um outro sinal precederia a consumação. "Este evangelho do reino
será pregado em todo o mundo [oikoumene] como um testemunho a
todas as nações, e então o fim virá". Nós já advertimos para o
cumprimento desta previsão dentro da era apostólica. Nós temos a
autoridade de São Paulo para tal difusão universal do evangelho em
seus dias, a fim de verificar a palavra de Nosso Senhor. (Veja Cl. 1:6,
23) Se não fosse por este testemunho explícito do apóstolo, seria
impossível persuadir alguns oradores de que as palavras de nosso
Senhor haviam sido cumpridas em algum sentido antes da destruição
de Jerusalém; tal ideia teria sido considerada mera extravagância e
capricho. Agora, no entanto, a objeção não pode ser razoavelmente
alegada.
Aqui pode ser apropriado lembrar a observação do tempo, dada aos
discípulos em uma ocasião anterior como uma indicação da vinda de
nosso Senhor: "Em verdade vos digo que não acabareis de percorrer
as cidades de Israel sem que venha o Filho do homem". (Mt. 10:23)
Comparando essa declaração com a previsão que temos diante de nós
(Mt 24:14), podemos ver a consistência perfeita das duas afirmações,
e também o "terminus ad quem" em ambos. Em um caso, é a
evangelização da terra de Israel; no outro, a evangelização do império
romano, que é chamada precursora da Parousia. Ambas as afirmações
são verdadeiras. Pode muito bem ocupar o espaço de uma geração
para levar as boas novas a todas as cidades da terra de Israel. Mas os
apóstolos não teriam muito tempo para sua missão doméstica,
porque tinham uma missão muito maior em território estrangeiro.
Obviamente, devemos tomar a linguagem empregada por Paulo, bem
como por nosso Senhor em um sentido popular, e seria injusto
pressioná-la até o final da carta. A ampla difusão do evangelho na
terra de Israel e em todo o império romano é suficiente para justificar
a predição de nosso Senhor.
Até agora, temos um discurso contínuo, relacionado a um evento
particular, falado de e para pessoas particulares. Encontramos quatro
sinais, ou conjuntos de sinais, que pressagiam a abordagem da grande
catástrofe.
1. O aparecimento de falsos cristos e falsos profetas.
2. Grandes distúrbios sociais, calamidades e convulsões naturais.
3. Perseguição dos discípulos e apostasia de crentes professos.
4. A publicação geral do evangelho em todo o império romano.
Esse último sinal indicava especialmente a aproximação do "fim".
(b) Mais indicações sobre a condenação próxima de
Jerusalém
Mateus 24:15-22
"Quando, pois, virdes que a abominação da desolação, de que falou
o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda;
Então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes;
E quem estiver sobre o telhado não desça a tirar alguma coisa de
sua casa; E quem estiver no campo não volte atrás a buscar as suas
vestes.
Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias!
E orai para que a vossa fuga não aconteça no inverno nem no
sábado;
Porque haverá então grande aflição, como nunca houve desde o
princípio do mundo até agora, nem tampouco há de haver.
E, se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma carne se
salvaria; mas por causa dos escolhidos serão abreviados aqueles
dias".
Marcos 13:14-20
"Ora, quando vós virdes a abominação do assolamento, que foi
predita por Daniel o profeta, estar onde não deve estar (quem lê,
entenda), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes.
E o que estiver sobre o telhado não desça para casa, nem entre a
tomar coisa alguma de sua casa;
E o que estiver no campo não volte atrás, para tomar as suas vestes.
Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias!
Orai, pois, para que a vossa fuga não suceda no inverno.
Porque naqueles dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde
o princípio da criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá.
E, se o Senhor não abreviasse aqueles dias, nenhuma carne se
salvaria; mas, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles
dias".
Lucas 21:20-24
"Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então
que é chegada a sua desolação. Então, os que estiverem na Judeia,
fujam para os montes; os que estiverem no meio da cidade, saiam; e
os que nos campos não entrem nela.
Porque dias de vingança são estes, para que se cumpram todas as
coisas que estão escritas.
Mas ai das grávidas, e das que criarem naqueles dias! porque haverá
grande aperto na terra, e ira sobre este povo.
E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados
cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos
gentios se completem".
Nenhum argumento é necessário para provar a referência estrita e
exclusiva desta seção a Jerusalém e Judeia. Aqui não podemos
detectar qualquer vestígio de duplo significado, de realização primária
e posterior, de significados subjacentes e típicos. Tudo é nacional,
local e próximo; "A Terra" é a terra da Judeia; "Este povo" é o povo
de Israel, e o tempo é "quando vocês virem" o que significa que os
eventos estão para acontecer enquanto alguns ainda estariam vivos.
A maioria dos expositores encontra uma alusão aos padrões das
legiões romanas na expressão "abominação da desolação", e a
explicação é altamente provável. As águias eram para os soldados
objetos de culto religioso; e a passagem paralela em São Lucas é
evidência quase conclusiva de que este é o verdadeiro significado (cf.
Lc 21:20). Sabemos por Josefo que a tentativa de um general romano
(Vitélio) no reinado de Tibério, para marchar suas tropas sobre a
Judeia, foi resistida pelas autoridades judaicas, alegando que as
imagens idólatras de seus emblemas seriam uma profanação da lei 46.
Quão grande foi a profanação quando esses emblemas idólatras
foram exibidos em plena luz no templo e na Cidade Santa! Este seria
o último sinal anunciando que chegou a hora da destruição de
Jerusalém. Sua aparição seria o último sinal para todos os que
estavam na Judeia devessem escapar apara além das montanhas,
porque então haveria um período de sofrimento, horror e castigo
divino sem paralelo nos anais da história.
Que a "grande tribulação" (Mateus 24:21) faz referência explícita às
terríveis calamidades que acompanharam o cerco de Jerusalém,
especialmente severas para o sexo feminino, é evidente demais para
ser questionada. Que essas calamidades eram literalmente
incomparáveis, podem ser facilmente acreditadas por todos os que
leram a horripilante narrativa nas páginas de Josefo. É notável que o
historiador comece seu relato da guerra judaica com a afirmação de
que "na opinião dele, a soma do sofrimento humano do começo do
mundo seria leve em comparação com a dos judeus". 47
A descrição gráfica a seguir apresenta a trágica história da infeliz
46
Josefo. Antiq. bk. xviii. c. v, 3.
47
Josefo Traill Guerra Judaica, pref. 4.
mãe, cujo horrível alimento pode ter sido no pensamento de nosso
Salvador quando pronunciou as palavras registradas em Mateus 24:19:
"Incalculável era a multidão daqueles que pereceram na fome na
cidade, e além da descrição dos sofrimentos que suportaram. Em
todas as casas, se em qualquer lugar aparecesse a sombra da comida,
seguia-se um conflito; aqueles unidos pelos laços mais ternos lutando
ferozmente, e arrebatando uns dos outros os miseráveis apoios da
vida. Nem mesmo os moribundos permitiram o crédito de estar em
falta; ou melhor, até mesmo aqueles que estavam apenas expirando,
os bandidos procurariam, com receio de algum, com comida
escondida debaixo de uma dobra de suas vestes, deveriam fingir a
morte. Com a fome escancarada, como cães enlouquecidos, eles
cambaleavam de um lado para outro e rondavam as portas como
homens bêbados, e perplexos entrando na mesma casa duas vezes, ou
três vezes em uma hora. Os desejos da natureza os levaram a roer
qualquer coisa, e o que seria rejeitado pela criação muito mais imunda
ou bruta que eles tinham que colher e comer. Mesmo de seus cintos e
sapatos, eles foram incapazes de se conter, e arrancaram e mastigaram
o próprio couro de seus escudos. Para alguns, tufos de feno velho
serviam como comida; pois as fibras estavam reunidas e as menores
quantidades vendidas por quatro peças áticas. 'Mas por que falar da
fome como desprezando a restrição no uso do inanimado, quando
estou prestes a declarar um exemplo disso a que, na história dos
gregos ou dos bárbaros, nenhum paralelo é encontrado, e que é
horrível de se relacionar? e é incrível ouvir? De bom grado, de fato,
teria omitido mencionar a ocorrência, para que as gerações futuras
não pensassem em lidar com o maravilhoso, se eu não tivesse
inumeráveis testemunhas entre meus contemporâneos. Eu deveria,
além disso, pagar ao meu país, mas um elogio frio, se eu suprimisse a
narração dos problemas que ela realmente sofreu".48
Que nosso Senhor tenha em mente os horrores que estavam para
acontecer aos judeus no cerco, e não quaisquer eventos subsequentes
48
Josefo Traill Guerra judaica, bk. vi. cv 3.
no "final dos tempos", é perfeitamente claro a partir das palavras
finais do versículo 21: "Porque haverá então grande aflição, como
nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tampouco
há de haver".
(c) Discípulos advertidos contra os falsos profetas
Mateus 24:23-28
"Então, se alguém vos disser: Eis que o Cristo está aqui, ou ali, não
lhe deis crédito;
Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes
sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos.
Eis que eu vo-lo tenho predito.
Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto, não saiais.
Eis que ele está no interior da casa; não acrediteis.
Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até ao
ocidente, assim será também a vinda do Filho do homem.
Pois onde estiver o cadáver, aí se ajuntarão as águias".
Marcos 13:21-23
"E então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo; ou: Ei-lo ali; não
acrediteis.
Porque se levantarão falsos cristos, e falsos profetas, e farão sinais e
prodígios, para enganarem, se for possível, até os escolhidos.
Mas vós vede; eis que de antemão vos tenho dito tudo.".
Até o momento, não encontramos nenhuma ruptura na
continuidade do discurso; nem a menor indicação de que ocorreu
uma transição para algum outro tópico ou algum outro período. A
narrativa é perfeitamente homogênea e consecutiva, e flui sem
divergir para a mão direita ou para a esquerda.
O mesmo é verdade em relação à seção que agora nos ocupa. A
primeira palavra indica continuidade. "Então", e cada uma das
palavras subsequentes é claramente dirigida aos próprios discípulos,
por seu aviso e instrução pessoal. É claro que nosso Senhor lhe dá
dicas sobre o que aconteceria em breve, ou pelo menos o que eles
poderiam viver para testemunhar com seus próprios olhos. É uma
representação vívida do que realmente aconteceu nos últimos dias da
comunidade judaica. Os judeus e especialmente o povo de Jerusalém
foram encorajados com falsas esperanças por falsos impostores que
infestavam o país e traziam a ruína aos miseráveis e tolos. Tal foi o
engano e paixão produzido pelas pretensões jactanciosas desses
impostores que, como aprendemos com Josefo, quando o templo
estava em chamas, uma vasta multidão de pessoas iludidas foram
enganadas, vítimas de sua credulidade. O historiador judeu declara:
"De tão grande multidão, ninguém escapou. Sua destruição foi
causada por um falso profeta, que naquele dia havia proclamado
àqueles que permaneceram na cidade, que "Deus ordenou que
subissem ao templo para receber os sinais de sua libertação". Havia
nessa época muitos profetas subjugados pelos tiranos para iludir o
povo, pedindo-lhes que esperassem por ajuda de Deus, a fim de que
houvesse menos deserção, e que aqueles que estivessem acima do
medo e do controle pudessem ser encorajados pela esperança. Sob
calamidades, o homem prontamente cede à persuasão, mas quando o
enganador lhe apresenta a libertação dos males urgentes, então o
sofrimento é totalmente influenciado pela esperança. Foi assim que
os impostores e pretensos mensageiros do céu naquele tempo
enganaram o povo miserável".49
Nosso Senhor adverte seus discípulos que a sua chegada a essa cena
de julgamento seria como ladrão e repentina como o relâmpago, que
é revelado e parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo, além
do fator surpresa. "Porque," ele acrescenta, "onde quer que esteja a
cadáver, as águias se juntarão". Ou seja, onde quer que os filhos
49
Josefo Guerra judaica, bk. vi. cv 2.
culpados de Israel fossem encontrados, eles seriam dominados pelos
ministros da ira, as legiões romanas.
(d) A chegada do "fim" ou a catástrofe de Jerusalém
Mateus 24:29-31
"E, logo depois da aflição daqueles dias, o sol escurecerá, e a lua
não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e as potências dos céus
serão abaladas.
Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; e todas as
tribos da terra se lamentarão, e verão o Filho do homem, vindo sobre
as nuvens do céu, com poder e grande glória.
E ele enviará os seus anjos com rijo clamor de trombeta, os quais
ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma à outra
extremidade dos céus".
Marcos 13:24-27
"Ora, naqueles dias, depois daquela aflição, o sol se escurecerá, e a
lua não dará a sua luz.
E as estrelas cairão do céu, e as forças que estão nos céus serão
abaladas.
E então verão vir o Filho do homem nas nuvens, com grande
poder e glória.
E ele enviará os seus anjos, e ajuntará os seus escolhidos, desde os
quatro ventos, da extremidade da terra até a extremidade do céu".
Lucas 21:25-28
"E haverá sinais no sol e na lua e nas estrelas; e na terra angústia
das nações, em perplexidade pelo bramido do mar e das ondas.
Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que
sobrevirão ao mundo; porquanto as virtudes do céu serão abaladas.
E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e
grande glória.
Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e
levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima".
Aqui também a fraseologia proíbe absolutamente a ideia de
qualquer transição do assunto. Não há nada para indicar que a cena
tenha mudado, ou que um novo tema tenha sido introduzido. A
seção diante de nós se conecta claramente com a "grande tribulação"
mencionada em Mateus 24:21, e é inadmissível supor qualquer
intervalo de tempo em vista da presença do advérbio
"imediatamente". Mas a cena da grande tribulação é inegavelmente
sobre Jerusalém e a Judeia (versos 15, 16), nenhuma quebra no
assunto do discurso é permitida; não há espaço para qualquer
interrupção no tema do discurso. Mais uma vez, em Mateus 24:30,
lemos que "todas as tribos da terra lamentarão", evidentemente
referindo-se à população do território da Judeia e as tribos judaicas; e
nada pode ser mais forçado ou antinatural do que incluir a expressão,
como Lange faz, "todas as raças e povos" do globo. O sentido
restrito da palavra (ge) [terra] no Novo Testamento é comum; e
quando está conectado, como está aqui, com a palavra
"tribos"[phule], sua limitação à terra de Israel é óbvia. Esta é a
posição adotada pelo Dr. Campbell e Moses Stuart, e realmente se
explica. Encontramos uma expressão semelhante em Zacarias 12:12 -
"Todas as famílias [tribos] da terra", onde seu senso restrito é óbvio e
indiscutível. As duas passagens são, de fato, exatamente paralelas, e
nada pode ser mais confuso do que entender a frase como se
incluísse "todas as raças do globo".
A estrutura do discurso, portanto, resiste inflexivelmente à
suposição de uma mudança de sujeito. Tempo, lugar, circunstâncias
continuam todos iguais. 50 É, portanto, com admiração não fingida
50
Quaisquer que sejam os eventos descritos nesses versículos, diz-se que
eles seguem "imediatamente após a tribulação daqueles dias". Essa tribulação
que encontramos Dean Alford comentando da seguinte maneira:
"Toda a dificuldade que essa palavra [supostamente "imediatamente"]
deveria envolver surgiu de confusão, o cumprimento parcial da
profecia com a última. A importante inserção Lucas 21:23, 24 mostra-
nos que a "tribulação" inclui (ira contra esse povo), que ainda está
sendo infligida, e a pisada de Jerusalém pelos gentios, ainda continua
em; e imediatamente depois dessa tribulação, que acontecerá quando
o cálice da iniquidade dos gentios estiver cheio, e quando o evangelho
tiver sido pregado no mundo inteiro como testemunha e rejeitado
pelos gentios, acontecerá a vinda do próprio Senhor... (A expressão
é concedida como sendo os sofrimentos sem paralelo mencionados nos
versículos 21 e 22 que foram ocasionados pelo cerco de Jerusalém. Josefo
observa que, em seu julgamento, os infortúnios de todos os homens desde o
início dos tempos eram comparativamente de menor magnitude do que os dos
judeus nessa terrível guerra. É notável que um grande número de expositores
tenha feito grandes esforços para escapar da força da palavra eutheos,
"imediatamente". Alguns tentam explicá-lo como equivalente a de repente,
mas isso dificilmente ajuda o caso, assim diz Desprez: "Mateus é levado a
dizer: Quando a tribulação dos dias em que Jerusalém será destruída tiver
passado, então, depois de um intervalo indefinido, que pode chegar a miríades
de anos, de repente a grande consumação cairá como um raio sobre a
humanidade". Para isso, a resposta é:
1- que a interpretação não é gramatical e que, se esse for o significado da
palavra (eutheos), qualquer palavra pode significar qualquer coisa; São Lucas
usa essa mesma palavra grega para dizer que: "E, quando ouvirdes de
guerras e sedições, não vos assusteis. Porque é necessário que isto aconteça
primeiro, mas o fim não será logo [eutheos]" (Lucas 21:9). Se a palavra
eutheos não significa "imediatamente", o apelo do Senhor para que seus
discípulos não se assustem com esses eventos quando os vissem, perdem
todo o sentido e força; é evidente que o apelo do nosso Senhor foi de que o
fim não seria "logo após" os rumores de guerras e sedições, esses são os
"princípios das dores", e são apenas os sinais que precedem a consumação;
2- que a passagem paralela em Marcos (13:24) afirma distintamente que os
sinais da consumação final serão vistos nos dias que se seguem à tribulação
anterior; e
3- que o próprio Jesus é descrito dizendo que tudo deve ser realizado dentro
dos limites da a geração existente". Somos levados, então, por princípio sólido
da hermenêutica, a concluir que Mt. 24:29-31 deve ser incluído nos prazos do
discurso do qual é parte essencial e não pode ser legitimamente aplicado a
eventos distantes da catástrofe final do estado judeu".
em Marcos é igualmente indicativa de um intervalo considerável -
naqueles dias após essa tribulação.) O fato de Sua vinda e suas
circunstâncias correspondentes serem conhecidas por Ele, mas no
tempo exato desconhecido, Ele fala sem considerar o intervalo, o que
seria seja, empregado na sua espera até que todas as coisas sejam
postas aos seus pés" etc.51
Pode-se dizer que neste comentário há quase tantos erros quanto
palavras. De fato, não é a explicação de uma profecia mas é uma
profecia independente do próprio comentarista. Primeiro, há a
hipótese infundada de seu duplo sentido, é parcial e uma realização
definitiva, para a qual não há fundamento no texto, mas que é uma
mera suposição arbitrária e gratuita. Em seguida, temos uma
"tribulação", não "encurtada", como o Senhor declara, mas
prolongada, de modo que ainda "continua" nos dias atuais. Então a
palavra "imediatamente" passa a se referir a um período ainda não
chegado, de modo que entre Lucas 21:28-29, onde o olho
desassistido não percebe traços de qualquer linha de transição, o
crítico intercala um imenso período de dezoito séculos, com a
possibilidade de uma duração indefinida além disso. Ainda mais,
temos uma contradição implícita à afirmação de São Paulo de que o
evangelho foi pregado "em todo o mundo" (Cl. 1:6) e a suposição de
que o evangelho deve ser rejeitado pelos gentios. Então, o
comentarista descobre que São Marcos sugere um "intervalo
considerável", enquanto ele diz expressamente: Naqueles dias mesmo
depois dessa "tribulação" - excluindo a possibilidade de qualquer
intervalo e, finalmente, temos o que parece ser um pedido de
desculpas pela veracidade da previsão, com o argumento de que
nosso Senhor, não sabendo o tempo exato em que Sua vinda
aconteceria "fala sem em relação ao intervalo" etc.
É óbvio que, se é assim que as Escrituras devem ser interpretadas,
as leis comuns da exegese devem ser deixadas de lado como inúteis.
51
Ver Alford Gr. Test, Mt. 23.29.
Ele é o melhor intérprete e o mais ousado. Existe algum livro antigo
que um gramático trataria dessa maneira? Não seria declarado
intolerável e acrítico se tais liberdades fossem tomadas com Homero
ou Platão? Não seria ridículo propor enigmas aos discípulos como
resposta à sua pergunta: "Quando serão essas coisas?".
Como eles poderiam saber de realizações parciais e finais e sentidos
duplos? e que efeito poderia ser produzido em suas mentes, senão
amarga perplexidade e perplexidade? Não podemos deixar de
protestar contra esse tratamento das palavras das Escrituras, não
apenas não-acadêmicas e acríticas, mas no mais alto grau presunçoso
e irreverente.
Mas, é respondido que o caráter da linguagem de nosso Senhor
nesta passagem exige sua aplicação a uma catástrofe grande e terrível
que ainda é futura e pode ser entendida adequadamente de nada
menos que a dissolução total do tecido do universo, e o fim de todas
as coisas. Como alguém pode fingir que é dito que o sol foi
escurecido, que a lua retirou sua luz, que as estrelas caíram do céu,
que o Filho do homem foi visto entrando nas nuvens do céu com
poder e grande poder glória? Esses fenômenos ocorreram na
destruição de Jerusalém, ou podem se aplicar a qualquer outra coisa
que não a consumação final de todas as coisas?52
52
Mateus 24:29-31, provavelmente foi a principal razão para acreditar que
essa profecia deve se referir a outros eventos além da destruição de
Jerusalém e o fim da dispensação judaica. Pressionando o sentido literal das
palavras, muitos intérpretes perguntaram: "Quando o sol foi escurecido e o céu
abalado? Mas, não há motivo válido para presumir antecipadamente que aqui
devemos encontrar um descrição literal. Pelo contrário existe na profecia, e
especialmente na profecia apocalíptica, a demonstração de grandes
catástrofes de julgamento divino preditos com figuras e símbolos. A linguagem
de Mt. 24:29, é manifestamente apropriado de tais Escrituras como Joel 2:10,
31; Ez. 32:7 e Is. 13:10. Nosso Senhor fez uso do estilo profético familiar a
todo judeu bem letrado, mas o literalismo extremo mantido pelos
comentaristas modernos destroem qualquer exposição racional de uma
passagem como Is. 34:4, 5: "E todo o exército dos céus se dissolverá, e os
céus se enrolarão como um livro; e todo o seu exército cairá, como cai a folha
Argumentar desta maneira é perder de vista a própria natureza,
genialidade e espírito da profecia. O símbolo e a metáfora pertencem
à gramática da profecia, como todos os leitores dos profetas do
Antigo Testamento devem conhecer. Não é razoável que a destruição
de Jerusalém seja apresentada em linguagem tão animada e retórica
como a destruição de Babilônia, ou Edom, ou Tiro? Como, então, o
profeta Isaías descreve a queda da Babilônia?
"Eis que vem o dia do Senhor, horrendo, com furor e ira ardente,
para pôr a terra em assolação, e dela destruir os pecadores.
Porque as estrelas dos céus e as suas constelações não darão a sua luz;
o sol se escurecerá ao nascer, e a lua não resplandecerá com a sua
luz. Por isso farei estremecer os céus; e a terra se moverá do seu
lugar, por causa do furor do Senhor dos Exércitos, e por causa do dia
da sua ardente ira." (Isaías 13:9, 10, 13)
Podemos ver que as imagens usadas nesta passagem são quase
idênticas às de nosso Senhor. Portanto, se esses símbolos estivessem
corretos para representar a queda da Babilônia, por que eles seriam
incorretos para descrever uma catástrofe ainda maior, a destruição de
Jerusalém?
Considere outro exemplo. O profeta Isaías anuncia a desolação de
Edom, com a seguinte linguagem profética:
"E todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão
como um livro; e todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e
como cai o figo da figueira.
da vide e como cai o figo da figueira. Porque a minha espada se embriagou
nos céus; eis que sobre Edom descerá, e sobre o povo do meu anátema para
exercer juízo". Se o profeta do Antigo Testamento faz uso dessa linguagem
para predizer a desolação de Edom, com que razão ou propriedade, podemos
insistir na importação literal de passagens como Mt. 24:29 e 2 Pedro 3:10?
Porque a minha espada se embriagou nos céus; eis que sobre Edom
descerá, e sobre o povo do meu anátema para exercer juízo." (Isaías
34:4,5)
Aqui temos novamente as mesmas imagens usadas pelo Senhor em
seu discurso profético. Se o destino de Edom pode ser descrito
corretamente em linguagem tão simbólica, por que deveria ser
considerado extravagante usar termos similares ao descrever o
destino de Jerusalém?
Em outro exemplo o profeta Miqueias fala de uma "vinda do
Senhor" para julgar e punir Samaria e Jerusalém - uma vinda para o
julgamento que, sem dúvida, aconteceu muito antes do tempo de
nosso Salvador - observe com atenção a linguagem magnífica que
esta cena representa!
"Porque eis que o Senhor está para sair do seu lugar, e descerá, e
andará sobre as alturas da terra.
E os montes debaixo dele se derreterão, e os vales se fenderão, como
a cera diante do fogo, como as águas que se precipitam num abismo."
(Miqueias 1:3, 4).
Seria fácil multiplicar exemplos desta característica e qualidade da
linguagem profética. A natureza da profecia é a poesia, e representa
os acontecimentos, não no estilo prosaico do historiador, mas nas
imagens vivas do poeta. Adicione a isso o fato que a Bíblia não fala
com a fria correção lógica dos povos ocidentais, mas com o fervor
tropical do maravilhoso Oriente. Mas seria errado chamar essa
linguagem de extravagante ou sobrecarregada. A grandeza moral dos
eventos que esses símbolos representam pode ser mais corretamente
descrita como convulsão e cataclismo no mundo natural. Também
não é necessário construir uma gramática de simbologias e uma
analogia para cada hieróglifo sagrado, através do qual traduzir cada
metáfora particular em seu equivalente correto, porque isso
transformaria a profecia em uma alegoria. As seguintes observações
sobre a linguagem figurativa das Escrituras são sensíveis. "O que é
excelente na natureza é usado para expressar o que é digno e
importante entre os homens tais como corpos celestiais, montanhas,
árvores majestosas, reinos ou aqueles em cargos de autoridade. As
mudanças políticas são representadas por terremotos, eclipses,
tempestades, o giro das águas e dos mares em sangue. 53
A conclusão, então, a que somos levados irresistivelmente, é que as
imagens usadas por nosso Senhor em seu discurso profético são
apropriadas para descrever a dissolução do estado e do governo
judeus, que teve lugar na destruição de Jerusalém. Eles são
apropriados porque concordam com o estilo reconhecido dos
profetas antigos, e também porque a grandeza moral do evento é tal
que justifica o uso de tal linguagem neste caso particular.
Mas podemos ir além disso e afirmar que não é apenas apropriado
quando aplicado à destruição de Jerusalém, mas que essa é sua
aplicação verdadeira e exclusiva. Não encontramos nenhum vestígio
ou indicação de que nosso Senhor tenha em mente qualquer
significado posterior ou oculto. Mas nós achamos que dificilmente há
uma característica nesta descrição sublime e terrível que Ele próprio
ainda não havia antecipado e fixado em sua aplicação a um evento
particular e a um tempo particular. Compare cuidadosamente a
descrição dada na passagem que nos diz respeito, do "Filho do
homem que vem nas nuvens do céu, com poder e grande glória"
(Mateus 24:30)54 com a declaração de nosso Senhor (Mateus 16:27) -
"Porque o Filho do homem virá, na glória do seu pai com os seus
anjos" - um evento que Ele afirma expressamente seria testemunhado
53
Manual Bíblico de Angus, p. 20, p. 20, i.
54
Os fenômenos descritos por nosso Senhor que acompanha a Parousia (v.
29) não pode ser explicado com sinais e prodígios, que de acordo com Josefo,
precedeu a captura de Jerusalém (Guerra judaica, bk. Vi.cv 3). Que pelo
menos alguns desses sinais realmente apareceram, não parece haver
qualquer razão para duvidar disso, e servem para verificar a previsão de Lucas
21:11: "Haverá terror e grandes sinais no céu".
por alguns dos discípulos que ainda estavam vivendo.55 Novamente,
o envio de Seus anjos para reunir Seus eleitos, corresponde
exatamente com a representação do que aconteceria na "colheita", no
final do aeon, conforme descrito nas parábolas do joio e do trigo
(Mateus 12:41-50). "O Filho do Homem enviará seus anjos, e eles
juntarão do seu reino todos os que servem de pedra de tropeço, e
todos os que praticam iniquidade". "Assim será no fim da era [aeon]:
os anjos sairão, e separarão os ímpios dentre os justos, e os lançarão
na fornalha de fogo".56 Aqui a profecia e a parábola representam a
mesma cena, no mesmo período: ambos falam do fim da época ou da
era, não do fim do mundo ou do universo material; e eles falam da
grande época judicial como "à mão". Com clareza São Lucas, em seu
registro da profecia do Monte das Oliveiras, representando a grande
catástrofe ocorrida durante a vida dos discípulos: "Quando essas
coisas começam a acontecer, levante suas cabeças, porque sua
55
Certamente, é desnecessário perguntar o que é a vinda do Filho do Homem
que está prevista aqui. Não há ambiguidade quanto a passagem agora em
consideração. É o único e supremo evento, tão frequentemente predito por
nosso Senhor, tão constantemente esperado por Seus discípulos. É a Sua
vinda em glória; Sua vinda ao julgamento; Sua vinda em Seu reino; a vinda do
reino de Deus. Não é um processo, mas um ato. Não é a mesma coisa que "a
destruição de Jerusalém" - esse é outro evento relacionado e contemporâneo;
mas os dois não devem ser confundidos. O Novo Testamento conhece apenas
uma Parousia, uma vinda em glória do Senhor Jesus Cristo.
56
O envio dos anjos, e a reunião dos eleitos, descrito em Mateus, 24:31,
representa necessariamente um procedimento real e experiencial que deveria
ocorrer na Parousia, que foi um evento intimamente relacionado com a
destruição de Jerusalém. É estranho que haja tanta incredulidade hoje em dia,
respeitando o sentido claro das declarações expressas de nosso Senhor sobre
esse assunto. Não há ambiguidade ou incerteza em Sua linguagem. Mas todo
o assunto da "reunião dos santos" deve ser reservado para uma discussão
mais completa em um período futuro. No momento, sem dúvida, a maioria dos
leitores se encolherá com a exigência feita sobre sua fé, quando lhes for
pedido que acreditem que previsões de nosso Senhor em Mateus 24:29-31
teve uma verdadeira realização no passado. Mas por que deveria ser
considerado incrível? Não há motivo válido para negar que qualquer uma das
declarações de Mateus 24:29-31 são inconsistentes com os prazos que Jesus
positivamente definiu para esta profecia escatológica.
redenção está próxima" (Lucas 21:28) Não foram pronunciadas estas
palavras aos discípulos, que ouviram o discurso? Eles não aplicaram a
eles mesmo? Há algum lugar, mesmo uma suspeita de que eles
estavam se referindo a outra audiência, a milhares de anos de
distância, e não ao grupo ansioso que tomou as palavras de Jesus?
Certamente, essa hipótese traz sua própria refutação.
Mas, como para impedir até mesmo a possibilidade de equívoco ou
erro, nosso Senhor, no próximo parágrafo, traça em torno de Sua
profecia uma linha tão clara e palpável, fechando-a totalmente dentro
de um limite tão definido e distinto, que deve ser decisivo para a
profecia e responde as questões dos discípulos como um todo.
(e) A Parousia deve ocorrer na geração atual
Mateus 24:32-34
"Aprendei, pois, esta parábola da figueira: Quando já os seus ramos
se tornam tenros e brotam folhas, sabeis que está próximo o verão.
Igualmente, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está
próximo, às portas.
Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas
estas coisas aconteçam".
Marcos 13: 28-30
"Aprendei, pois, a parábola da figueira: Quando já o seu ramo se
torna tenro, e brota folhas, bem sabeis que já está próximo o verão.
Assim também vós, quando virdes sucederem estas coisas, sabei
que já está perto, às portas.
Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas
estas coisas aconteçam".
Lucas 21:29-32
"E disse-lhes uma parábola: Olhai para a figueira, e para todas as
árvores;
Quando já têm rebentado, vós sabeis por vós mesmos, vendo-as,
que perto está já o verão.
Assim também vós, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que
o reino de Deus está perto.
Em verdade vos digo que não passará esta geração até que tudo
aconteça".
As palavras não têm sentido se esta linguagem, pronunciada em
uma ocasião tão solene tão precisa e expressa em sua importância,
não afirma a proximidade do grande evento que ocupa todo o
discurso de nosso Senhor. Primeiro, a parábola da figueira indica que,
assim como os galhos macios nas árvores anunciam a aproximação
do verão, então os sinais que ele acabou de especificar anunciariam
que a consumação prevista estava à mão. Eles, os discípulos a quem
Jesus falava, veriam esses sinais e, quando os visem, reconheceriam
que o fim estava próximo às portas . Em seguida, nosso Senhor
resume com uma afirmação calculada para remover todos os vestígios
de dúvida ou incerteza:
"Em verdade vos digo que esta geração não passará, até que todas
estas coisas sejam cumpridas".
Alguém poderia supor que, após uma nota de tempo tão clara e
expressiva, não haveria espaço para controvérsia. Nosso próprio
Senhor respondeu à pergunta. Noventa e nove pessoas a cada cem,
sem dúvida, certamente entenderiam suas palavras no sentido de que
a catástrofe prevista ocorreria dentro dos limites da geração existente,
dentro dos limites do tempo de vida daquela geração. Não que todos
provavelmente viveriam para testemunhar isso, mas a maioria ou
muitos deles estariam vivos quando o grande evento viesse a ocorrer.
Não há dúvida de que esta seria a interpretação que os discípulos
dariam às suas palavras. A menos que, portanto, nosso Senhor
quisesse mistificar [e confundir] Seus discípulos, Ele os deu
claramente para entender que Sua vinda, o julgamento da nação
judaica e o fim da era aconteceriam antes que a geração existente
tivesse morrido, e dentro dos limites da sua própria existência. Como
já vimos, esta não era uma ideia nova, mas uma ideia que ele próprio
havia manifestado antes.57
No entanto, longe de aceitar esta declaração do nosso Salvador
como a palavra final, os comentaristas resistiram violentamente àquilo
que parece ser o sentido natural e de senso comum de Suas palavras.
Eles insistiram que, porque os eventos previstos não aconteceram
dessa maneira naquela geração, portanto a palavra (genea) não pode
significar o que é usualmente entendido como significando, as
pessoas daquela era ou período em particular, os contemporâneos de
nosso Senhor. Afirmar que essas coisas não aconteceram é suplicar a
pergunta e algo mais. Mas nós sugerimos que é da responsabilidade
dos gramáticos não ficarem apreensivos de possíveis conseqüências,
mas sim estabelecer o verdadeiro significado das palavras. As
previsões de nosso Senhor podem ser seguramente deixadas para
cuidar de si mesmas; Cabe a nós tentar entender.
Muitos argumentam que, neste lugar, a palavra genea deve ser
traduzida como "raça ou" nação", e que as palavras de nosso Senhor
apenas significam que a raça ou nação judaica não deve passar ou
perecer, até que as previsões que Jesus fez se cumpra. Este é o
significado que Lange, Stier, Alford e muitos outros autores atribuem
57
Os princípios da interpretação histórico-gramatical requerem nossa atenção
às limitações de tempo específicas dessa profecia. Todo o discurso parece ter
crescido a partir da declaração de Jesus: "Chegará o dia em que não ficará
pedra sobre pedra aqui que não será derrubada" (Lucas 21:6; comp. Mt. 24:2;
Marcos 13:2). Essas palavras, especialmente, ocasionaram a pergunta dos
discípulos: "Quando serão essas coisas?" Toda a profecia pretende ser uma
resposta a essa pergunta, e nenhuma afirmação nela é mais enfática do que
as palavras: "Em verdade vos digo que esta geração não passará até que
todas essas coisas sejam cumpridas" (Mt. 24:34; Marcos 13:30; Lucas 21:32).
Em que princípios hermenêuticos válidos, então, pode-se afirmar com clareza
que esse discurso de Jesus compreende toda a futilidade? Por que devemos
procurar as revelações de eras distantes e milênios da história humana em
uma profecia expressamente limitada à geração em que foi proferida?
à palavra, e que é sustentado com uma capacidade notável e uma
grande erudição por Dorner em seu tratado "Orae Christi
Eschatologica". Não há dúvida que é verdade que a palavra genea,
como muitas outras, tem diferentes nuances de significado e que, às
vezes, na Septuaginta e autores clássicos, podem se referir a uma
nação ou a uma raça. Mas acreditamos que é comprovável, sem
sombra de dúvida, que a expressão "esta geração", usada com
frequência por nosso Senhor, sempre se refere unicamente e
exclusivamente aos seus contemporâneos, o povo judeu de seu
próprio tempo. Pode ser deixado sem perigo o julgamento sincero de
cada leitor, seja um erudito em grego ou não, para decidir se é ou não
o caso. Mas, como o ponto é de grande importância, pode ser
desejável aduzir as provas dessa afirmação.
1. No discurso final de nosso Senhor ao povo, entregue no mesmo
dia que o discurso sobre o Monte das Oliveiras, ele declarou: "Tudo
isso virá sobre esta geração" (Mateus 23:36). Nenhum comentarista já
propôs entender isso como se referindo a qualquer outra geração que
não seja a geração existente no tempo de Jesus.
2. "Com o que devo comparar esta geração?" (Mateus 11:6) Aqui,
Lange e Stier admitem que a palavra se refere a "última geração de
Israel então existente" (Lange, in loc , Stier, vol.2, 98).
3. "A geração má e adúltera exige um sinal". "Os homens de Nínive
se levantarão no julgamento com esta geração". "A Rainha do Sul se
elevará no julgamento com esta geração ". "Assim também será para
esta geração perversa " (Mateus 12:39, 41, 42, 45).
Nessas quatro passagens, Dorner tenta estabelecer que nosso
Senhor não está falando sobre seus contemporâneos, os homens de
seu próprio tempo. "Porque" - ele diz - "os gentios (os habitantes de
Nínive e a rainha do Sul) se opõem aos judeus, portanto," esta
geração [genea] deve significar a nação ou a raça dos judeus "(Dorner,
Orat, Christ, Esch., 81). Seu argumento, no entanto, não é
convincente. Certamente a geração que buscava um sinal era a
geração então existente; e pode-se supor que foi contra qualquer
outra geração que não aquela que resistiu a pregação como a de João
Batista e de Cristo, que os gentios deviam levantar no julgamento?
Existe apenas uma interpretação possível da linguagem do nosso
Senhor, e é isso que refere as Suas palavras aos seus próprios
contemporâneos perversos e incrédulos.
4. "Para que o sangue de todos os profetas seja exigido dessa geração
" (Lucas 11:50, 51).
Aqui o próprio Dorner admite que é da geração existente (hoc
ipsum hominum avum) do qual estas palavras são faladas (p 41).
5. "Aquele que se envergonhar de mim e das minhas palavras nesta
geração adúltera e pecadora..." (Marcos 8:38). "Mas primeiro é
necessário que ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração"
(Lucas 17:25). Basta citar essas passagens para estabelecer que Jesus
se refere apenas à geração particular que rejeitou o Messias.
Estes são todos os exemplos em que a expressão "esta geração"
ocorre nas palavras do nosso Senhor, e esses exemplos estabelecem,
além de todos os questionamentos razoáveis, a referência das palavras
na declaração importante que consideramos agora. Mas, suponha que
adotássemos a tradução proposta e aceitamos que ela significa raça,
que finalidade ou significado teria então a previsão? Alguém pode
acreditar na afirmação de que nosso Senhor fez tão solenemente:
"Em verdade, eu digo a você", etc. é apenas equivalente a isto: "A
raça hebraica não será extinta até que todas essas coisas tenham sido
cumpridas"? Imagine um profeta em nosso próprio tempo, prevendo
uma grande catástrofe em que Londres seria destruída, a Catedral de
São Paulo e as Casas do Parlamento seriam arrasadas, e uma morte
terrível dos habitantes seria perpetrada; e quando perguntado:
"Quando essas coisas acontecerão?" resposta: "A raça anglo-saxônica
não se extinguirá até que todas essas coisas tenham sido cumpridas".
Esta seria uma resposta satisfatória? Não seria uma resposta
considerada como depreciativa para o profeta e como uma afronta
aos seus ouvintes? Não teriam motivos para dizer: "Não há perigo de
profetizar quando o evento é colocado a uma distância infinita"? Mas
a simples suposição de tal sentido na previsão de nosso Senhor
mostra que é um reductio ad absurdum. Foi por isso que os
discípulos esperaram e vigiaram? Foi essa a lição que a figueira em
desenvolvimento ensinou? Não foi até que a raça judaica estava
prestes a se extinguir que eles deveriam "olhar para cima e levantar
suas cabeças"? Tal hipótese é sua própria refutação.
Recorremos, portanto, à única interpretação sustentável e possível,
e entendemos nosso Senhor como, o que em tantas palavras Ele diz,
que os eventos especificados em Sua previsão certamente
aconteceriam antes que a geração existente tivesse passado
completamente. Esta é a única interpretação que as palavras
suportam; Todas as outras envolvem uma luta de linguagem e uma
violência ao entendimento. Além disso, a interpretação está em
harmonia com o ensino uniforme de nosso Salvador. Muito tempo
antes, ele havia assegurado aos discípulos que alguns deles viveriam
para testemunhar sua vinda em glória (Mateus 16:27, 28).
Ele havia dito a eles que, antes de completarem sua missão
apostólica nas cidades de Israel, o Filho do homem viria (Mateus
10:23). Ele declarou que todo o sangue derramado na terra, do
sangue de Abel ao sangue de Zacarias, seria exigido dessa geração
(Mateus 23:35, 36). Foi, portanto, daquela geração que Ele falou.
Nunca deve ser esquecido que havia uma especialidade sobre essa
geração. Era a última e a pior de todas as gerações de Israel, que
herdara a culpa de todos os seus predecessores e estava prestes a ser
visitada com julgamentos marcados e incomparáveis. Se a catástrofe
prevista ocorreu ou não, é outra questão, que será considerada em seu
devido lugar.58 Outras interpretações que foram sugeridas, como a da
"raça humana", "a geração dos justos" e "a geração dos ímpios", não
exigem discussão e não requerem consideração.
Uma ou duas palavras podem ser necessárias, respeitando o
período de tempo coberto por uma geração. Certamente, não é uma
medida exata do tempo, como uma década ou um século, mas tem
uma certa qualidade de indefinição ou elasticidade, mas dentro de
certos limites, digamos, trinta ou quarenta anos. No livro de
Números, achamos que a geração que fez com que o Senhor o
excluísse da terra de Canaã, e que fosse condenada a cair no deserto,
morreria no espaço de quarenta anos. No Salmo 95, lemos:
"Quarenta anos, eu não estava com vontade com a nação". Na tabela
genealógica que São Mateus dá, temos informações para estimar a
duração de uma geração. Lá descobrimos que "da deportação para
Babilônia para Cristo", havia catorze gerações. (Mateus 1:17). Agora,
diz-se que a data do cativeiro, no reino de Zedequias, era
aproximadamente o ano 586 a. C., que, dividido em catorze, dá
quarenta e um anos e uma fração como a duração média de cada
geração. A guerra judaica sob o imperador Nero estourou em 66 dC.,
e assumindo que nosso Senhor tinha cerca de trinta e três anos
quando foi crucificado, isso nos daria um espaço de cerca de trinta e
três anos, nos quais os sinais que anunciavam a aproximação do "fim"
começaram a "acontecer". A destruição do templo e da cidade de
Jerusalém ocorreu em setembro de 70 dC, ou seja, cerca de trinta e
sete anos depois da profecia do Monte das Oliveiras, um espaço de
tempo que satisfaz amplamente as exigências do caso. Não é tão
curto a ponto de tornar inadequado dizer: "Esta geração não passará"
58
A nota no trabalho de Robinson "Harmonia dos Quatro Evangelhos", parte
vii, 128, é excelente. "Esta geração", etc. Essas palavras (genea) não podem
ser entendidas (como alguns explicaram) como se referindo à nação judaica
ou à raça humana. O significado é que nem todos os homens daquele tempo
morreriam (ver Mateus 16:28, no parágrafo 74) antes que a profecia se
cumprisse, o que começou a ocorrer trinta e sete anos depois de ter sido
proferida, em a destruição de Jerusalém ", etc.
etc. nem tão distante, para além do tempo de vida de muitos que
possam ter visto e ouvido o Salvador ou os próprios discípulos.
"Essa geração" estaria de fato passando, mas não teria passado
completamente.59
(f) Certeza da consumação, mas incerteza de sua data exata
Mateus 24:35, 36
"O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de
passar.
Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas
unicamente meu Pai".
Marcos 13:31, 32
"Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.
Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu,
nem o Filho, senão o Pai".
59
A afirmação em Lucas 21:24, de que "Jerusalém será pisada
pelos gentios até que os tempos dos gentios sejam cumpridos", supõe-se que
envolva eventos que não ocorreram naquela geração. Os" tempos dos
gentios" são assumidos como os tempos e as oportunidades de graça
oferecidas a eles, os gentios sob o evangelho, mas entender as palavras
nesse sentido seria, como observa Van Oosterzee, interpolar um pensamento
totalmente estranho ao contexto. "Os tempos dos gentios", diz Bengel, "são os
tempos atribuídos a os gentios pisarem a cidade"; mas não há nada na
passagem ou no contexto que autorize sua observação adicional de que "estes
tempos terminarão quando a conversão dos gentios estiver totalmente
consumada" e que a pisada pelos romanos, persas, sarracenos, francos e
turcos devem ser entendidos aqui. Esses tempos são manifestamente tempos
de julgamento sobre Jerusalém, não tempos de salvação para os gentios. O
paralelo mais natural e óbvio é Ap. 11:2, onde a quadra externa do templo é
"dado aos gentios", por quem a cidade santa será pisada por quarenta e dois
meses Este é um período de julgamento particular, em nenhum lugar indica
idades e gerações. São três anos e meio - um sete dividido, um período curto
e um sinal de aflição. Os "tempos dos gentios", portanto, são três anos e meio
durante os quais os exércitos gentios sitiaram e pisotearam Jerusalém.
Lucas 21:33
"Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar".
Embora nosso Senhor tenha definido os limites de tempo dentro
dos quais a consumação prevista aconteceria, permanece um certo
grau de indefinição em relação ao tempo de sua vinda. Ele não
especifica a data exata, nem "o tempo, nem o dia", nem mesmo o
mês do ano. Isso não significa que toda a questão do tempo tenha
sido deixada instável e sem especificação: isso refere-se apenas à data
precisa. A consumação ficaria dentro do prazo da geração existente,
mas a hora precisa em que o sino da condenação soaria não foi
revelada ao homem, nem ao anjo, nem (o que é ainda mais estranho)
ao próprio Filho do homem. Foi o segredo que o Pai "colocou no seu
único poder". Sem dúvida, houve razões suficientes para esta reserva.
Tendo especificado "o dia e a hora" - tendo dito: "No ano trinta e
sete, no sexto mês, no oitavo dia do mês, a cidade será tomada e o
templo destruído pelo fogo" - não só teria sido inconsistente com a
forma de se pronunciar uma profecia, mas teria tirado uma das
motivações mais fortes para constante vigilância e oração - a incerteza
do momento preciso.
(g) A rapidez da parousia e o chamado para estar vigilante
Mateus 24:37-42
"E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho
do homem.
Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam,
bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé
entrou na arca,
E não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos,
assim será também a vinda do Filho do homem.
Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro;
Estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra.
Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso
Senhor".
Lucas 17:26-37
E, como aconteceu nos dias de Noé, assim será também nos dias
do Filho do homem.
Comiam, bebiam, casavam, e davam-se em casamento, até ao dia
em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio, e os consumiu a todos.
Como também da mesma maneira aconteceu nos dias de Ló:
Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam;
Mas no dia em que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e
enxofre, e os consumiu a todos.
Assim será no dia em que o Filho do homem se há de manifestar.
Naquele dia, quem estiver no telhado, tendo as suas alfaias em casa,
não desça a tomá-las; e, da mesma sorte, o que estiver no campo não
volte para trás.
Lembrai-vos da mulher de Ló.
Qualquer que procurar salvar a sua vida, perdê-la-á, e qualquer que
a perder, salvá-la-á.
Digo-vos que naquela noite estarão dois numa cama; um será
tomado, e outro será deixado.
Duas estarão juntas, moendo; uma será tomada, e outra será
deixada.
Dois estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado.
E, respondendo, disseram-lhe: Onde, Senhor? E ele lhes disse:
Onde estiver o corpo, aí se ajuntarão as águias".
Mateus 24:42
"Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso
Senhor".
Marcos 13:33-37
"Olhai, vigiai e orai; porque não sabeis quando chegará o tempo.
É como se um homem, partindo para fora da terra, deixasse a sua
casa, e desse autoridade aos seus servos, e a cada um a sua obra, e
mandasse ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à
tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã,
Para que, vindo de improviso, não vos ache dormindo.
E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai".
Lucas 21:34-36
"E olhai por vós, não aconteça que os vossos corações se
carreguem de glutonaria, de embriaguez, e dos cuidados da vida, e
venha sobre vós de improviso aquele dia.
Porque virá como um laço sobre todos os que habitam na face de
toda a terra.
Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que sejais havidos por
dignos de evitar todas estas coisas que hão de acontecer, e de estar
em pé diante do Filho do homem".
Todas as representações dadas pelo nosso Senhor da catástrofe
vindoura e seus eventos concomitantes implicam que pegariam os
homens de surpresa. Assim como a inundação veio de repente sobre
os antediluvianos, e a tempestade de fogo e de enxofre caiu sobre as
cidades da planície, assim seria a catástrofe que alcançaria Jerusalém e
Judeia em uma hora inesperada, quando os negócios e os prazeres da
vida ocuparam as mãos e os corações dos homens. Em Lucas 17,
temos o registro mais completo do discurso de nosso Senhor sobre
esse ponto. Se a passagem de São Lucas foi transposta por ele desde
sua conexão original, ou se nosso Senhor pronunciou as mesmas
palavras em ocasiões separadas, não é um problema que nos interessa
particularmente aqui. Neander é de opinião que "Lucas fornece a
conexão natural dessas palavras", e em São Mateus "elas são definidas
com muitas outras passagens similares que se referem à última
crise".60
60
Vida de Cristo. c. xii, 214, nota.
Duvidamos disso; mas, renunciando a essa questão, uma coisa é
indubitável, isto é, que São Mateus e São Lucas descrevem a mesma
coisa, o mesmo período, a mesma catástrofe. É surpreendente
encontrar Alford afirmando, em relação à passagem de São Lucas:
"Não há uma única palavra em tudo isso sobre a destruição de
Jerusalém". Seria mais correto dizer: "Cada uma das palavras nesta
passagem fala da destruição de Jerusalém". Observe a nota do tempo
tão claramente marcada por nosso Senhor: "Mas primeiro é
necessário que ele sofra muito e seja rejeitado por esta geração (Lucas
17:25) Que outra catástrofe pertence ao período dessa geração, que
pode ser corretamente comparado à destruição do mundo
antediluviano por meio de um dilúvio de águas e com a destruição de
Sodoma e Gomorra por meio de uma inundação de fogo?
Da certeza e do repentino momento da consumação que se
aproxima, nosso Senhor tira a lição que Ele imprime em Seus
discípulos - a necessidade de vigilância. Aqui ele pronuncia pela
primeira vez a admoestação de que, a partir desse momento, nunca
deixou de ser o slogan de seus discípulos durante a era apostólica:
"Orai e Vigiai!" Descobriremos quão constantemente e com urgência
os apóstolos dirigiram esse chamado para os fiéis em seus dias e
como é constantemente repetido, até o último momento em que
ouvimos o som de uma voz apostólica. Esta vigilância era essencial
para a segurança dos seguidores de Jesus, porque, tão súbita seria a
catástrofe, que alcançaria os despreparados e os descuidados, como
os pássaros que estão presos na rede. "Porque, como laço, virá sobre
todos os que habitam sobre a face de toda a terra‖ - palavras que
intimam claramente o caráter local do evento.
Temos um comentário impressionante sobre essa passagem na
história de Josefo. Contabilizando os números prodigiosos abatidos
no cerco de Jerusalém - um milhão e cem mil -, ele diz: "Destes, a
maioria era de sangue judeu, embora não nativos do lugar, tendo se
reunido de todas as partes do país para a festa de o pão ázimo foi
subitamente cercado pela guerra, nessa ocasião a nação inteira havia
sido trancada, como na prisão, pelo destino, e a guerra encerrou a
cidade quando estava superlotada com as pessoas".61 Uma verificação
mais exata da previsão de nosso Senhor (Lucas 21:35) é impossível
conceber.
Em tudo isso, observamos a continuação desse discurso pessoal
direto que mostra que nosso Senhor falou aos seus discípulos sobre o
que os preocupou pessoalmente. Não há a menor sugestão de que
havia um significado "subterrâneo" em suas palavras, e que, quando
ele disse "Jerusalém" e "esta geração" e "vós", ele quis dizer "o
mundo" e "eras distantes" e "discípulos" que ainda não nasceram".
Neste ponto, São Marcos e São Lucas fecham o registro da profecia
do Monte das Oliveiras, e não se pode negar que o término é natural
e apropriado. No entanto, no Evangelho de São Mateus, temos uma
série de parábolas adicionadas ao discurso de nosso Senhor, como as
que Ele costumava ensinar às pessoas. Fomos impressionados com o
fato de que nosso Senhor falou aos seus discípulos em parábolas,
especialmente nesta ocasião; e há pouco a ser dito em favor da
opinião de Neander, que "era peculiar que Mateus ao editar em grego
tivesse os ditos semelhantes de Jesus juntos, mesmo que tivessem
sido pronunciados em ocasiões diferentes e em circunstâncias
diferentes. Portanto, não é necessário que nos surpreendamos se
acharmos impossível traçar linhas de distinção neste discurso com
total precisão, nem é necessário que tal resultado conduza a
interpretações forçadas, inconsistentes com a verdade e com o amor
da verdade. É mais fácil fazer tais distinções no registro de São Lucas
(capítulo 21), embora isso não seja sem dificuldades. Ao comparar
São Mateus com São Lucas, no entanto, podemos traçar a origem da
maioria dessas dificuldades para misturar diferentes porções, quando
os discursos de Cristo foram organizados em coleções". 62
61
Josefo Traill, Guerra Judaica, b. -vi. ch. ix, 3, 4.
62
Vida de Cristo, 254, Nota.
Mas, sem discutir esta questão, é muito evidente que as parábolas
registradas por São Mateus em relação a este discurso, embora não
tenham sido pronunciadas nesta ocasião particular, estão estritamente
relacionadas com o assunto; Considerando que, se este é o seu
verdadeiro lugar na narrativa, sua relação com o assunto antes de nós
é ainda mais próxima e mais íntima.
Agora, consideramos as parábolas de nosso Senhor, registradas em
relação a esta profecia, principalmente por São Mateus.
(h) Os discípulos são advertidos sobre a rapidez da Parousia
(Parábola do mordomo fiel)
Mateus 24:43-51
"Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da
noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa.
Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem
há de vir à hora em que não penseis.
Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu
sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo?
Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar
servindo assim.
Em verdade vos digo que o porá sobre todos os seus bens.
Mas se aquele mau servo disser no seu coração: O meu senhor tarde
virá;
E começar a espancar os seus conservos, e a comer e a beber com
os ébrios,
Virá o senhor daquele servo num dia em que o não espera, e à hora
em que ele não sabe,
E separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá
pranto e ranger de dentes".
Marcos 13:34-37
"É como se um homem, partindo para fora da terra, deixasse a sua
casa, e desse autoridade aos seus servos, e a cada um a sua obra, e
mandasse ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à
tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã,
Para que, vindo de improviso, não vos ache dormindo.
E as coisas que vos digo, digo-as a todos: Vigiai".
Lucas 12:39-46
"Sabei, porém, isto: que, se o pai de família soubesse a que hora
havia de vir o ladrão, vigiaria, e não deixaria minar a sua casa.
Portanto, estai vós também apercebidos; porque virá o Filho do
homem à hora que não imaginais.
E disse-lhe Pedro: Senhor, dizes essa parábola a nós, ou também a
todos?
E disse o Senhor: Qual é, pois, o mordomo fiel e prudente, a quem
o senhor pôs sobre os seus servos, para lhes dar a tempo a ração?
Bem-aventurado aquele servo a quem o seu senhor, quando vier,
achar fazendo assim.
Em verdade vos digo que sobre todos os seus bens o porá.
Mas, se aquele servo disser em seu coração: O meu senhor tarda em
vir; e começar a espancar os criados e criadas, e a comer, e a beber, e
a embriagar-se,
Virá o senhor daquele servo no dia em que o não espera, e numa
hora que ele não sabe, e separá-lo-á, e lhe dará a sua parte com os
infiéis".
Podemos ver que esta parábola de nosso Senhor está registrada em
diferentes conexões por São Mateus e São Lucas. A semelhança
verbal, no entanto, é muito exata para tornar provável que tenha sido
falada em duas ocasiões diferentes. A menor atenção irá satisfazer o
leitor que o relatório de São Lucas é o mais completo e circunstancial,
e ele atribui a sua verdadeira posição cronológica. Isto é visto pelo
fato de que a pergunta de São Pedro, registrada somente por São
Lucas, deu origem a observações conclusivas de nosso Senhor, as
quais, dadas por São Mateus sem esse elo de ligação, parecem um
tanto incoerentes e abruptas. Além disso, dificilmente podemos supor
que São Pedro, conversando em privado com apenas outros três
discípulos em companhia do Senhor, pergunta a si mesmo: "Você
nos diz esta palavra, ou a todos nós?" - uma questão que era mais
natural quando, como São Lucas nos diz, Jesus falou com seus
discípulos na presença de uma grande multidão (Lucas 12:1). Vale
ressaltar também que em Marcos 13:34-37, onde podemos detectar
vestígios desta parábola, a pergunta de São Pedro é respondida com
clareza: "O que eu digo a você, eu digo a todos: vigiai", uma
declaração que seria fora de lugar quando nosso Senhor falou com
quatro pessoas, mas bastante apropriado ao falar com uma multidão.
Portanto, não há impropriedade ao assumir que São Mateus,
percebendo as palavras de Jesus, falado em outra ocasião, e que
ilustra admiravelmente a necessidade de vigiar os sinais que precedem
a vinda do Senhor, insira-os neste discurso escatológico. Stier sugere
que São Marcos apresenta um breve resumo de Mateus 24:43, com as
duas parábolas do servo, Mateus 24:45-51, 25:14 e ainda com um
leve eco da parábola das virgens. 63 Não temos mais motivos para
esperar um arranjo rigorosamente cronológico nos evangelistas do
que estritamente na letra: nem o mesmo nem o outro entraram em
seus planos.
Mas o que é principalmente importante para nós é a relação desta
parábola, se é que se pode chamar isso, entre o mordomo da casa que
vigia o ladrão da meia-noite e o discurso anterior de nosso Senhor.
Nada pode ser mais evidente que essa relação está entrelaçada no
próprio tecido desse discurso. Nenhum assunto novo é introduzido
no versículo quarenta e três do capítulo vigésimo quarto de São
Mateus (Mateus 24:43): nenhuma transição para outra catástrofe,
nenhuma outra vinda, diferente do que Ele havia falado desde o
início. Não há hiato, nem interrupção ou quebra, na continuidade do
63
Reden Jesu, vol. iii, p. 304
discurso; nenhuma indicação de ir do grande evento que absorveu os
pensamentos dos discípulos para outro em um futuro muito
distante. Parece incrível que qualquer julgamento crítico escolha
Mateus 24:43 como o início de um novo tópico do discurso. E, no
entanto, é o que o Dr. Ed. Robinson faz, o que diz: "Aqui o Senhor
faz uma transição, e passa a falar da sua última vinda no dia do
julgamento". Isto é visto pelo fato de que a matéria dessas seções é
adicionada por Mateus depois que Marcos e Lucas concluíram seus
relatórios paralelos sobre a catástrofe judaica, e aqui Mateus começa,
com o versículo 43, o discurso que Lucas apresentou em outra
ocasião, Lucas 12:39 , etc."64 Mas não há a menor sombra de qualquer
transição. O instrumento mais fino não consegue desenhar qualquer
linha divisória entre as partes do discurso e atribuir uma porção ao
julgamento da nação judaica e outra porção ao julgamento da raça
humana. Não há transição, mas continuação, no verso 43. Nada pode
ser mais consecutivo e concatenado. "Vigiai, então", diz o nosso
Senhor aos discípulos no verso 42, "por que você não sabe a que
horas seu Senhor vem". "Portanto, você também deve está
preparado", ele diz no verso 44, "pois o Filho do Homem virá na
hora em que você não pensa". A sugestão de que um novo tema, que
se refere a um evento totalmente diferente, em um momento muito
distante no tempo, introduzido aqui, é completamente arbitrário e
sem fundamento.
II. RESPOSTA DE NOSSO SENHOR AOS
DISCÍPULOS (continuação)
(i) A Parousia, um tempo de julgamento para amigos e
inimigos de Cristo
(Parábola das virgens sábias e das virgens tolas)
Mateus 25:1-13 Então o reino dos céus será semelhante a dez
64
Harmonia dos Quatro Evangelhos, 129.
virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do
esposo.
E cinco delas eram prudentes, e cinco loucas.
As loucas, tomando as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo.
Mas as prudentes levaram azeite em suas vasilhas, com as suas
lâmpadas.
E, tardando o esposo, tosquenejaram todas, e adormeceram.
Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao
encontro.
Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas
lâmpadas.
E as loucas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque
as nossas lâmpadas se apagam.
Mas as prudentes responderam, dizendo: Não seja caso que nos
falte a nós e a vós, ide antes aos que o vendem, e comprai-o para vós.
E, tendo elas ido comprá-lo, chegou o esposo, e as que estavam
preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta.
E depois chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor,
Senhor, abre-nos.
E ele, respondendo, disse: Em verdade vos digo que vos não
conheço.
Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do
homem há de vir".
Quase todos os expositores supõem que agora Jerusalém e Israel
desaparecem inteiramente da cena, e que nosso Senhor se refere
exclusivamente à consumação final de todas as coisas e ao julgamento
da raça humana. Esta suposta transição é sugerida e facilitada para o
leitor de uma bíblia moderna através de um novo capítulo que
começa neste ponto.
Mas nosso Senhor realmente abandonou o assunto com o qual Ele
e Seus discípulos estiveram ocupados até agora? Passou de um tempo
próximo e iminente a uma era distante, separado de seu próprio
tempo por centenas e milhares de anos? Se assim fosse, certamente
poderíamos esperar uma indicação muito clara de mudança de
assunto. Mas não há absolutamente nenhuma. Pelo contrário, a
suposição de que um novo tema é introduzido por esta parábola é
completamente impedida pelos termos expressos com os quais a
parábola começa e termina. Comece com uma nota de tempo muito
explícita: "Tote", então, naquele momento. Não há absolutamente
nenhum hiato entre o final do capítulo 24 e o início do capítulo 25. O
link de conexão "então" (tote), leva adiante o discurso e liga-o
intimamente no que diz respeito ao tema, ao tempo e às pessoas a
quem se dirige. Isto é confirmado, além disso, pelo fato de que a
moral da parábola das dez virgens é exatamente a mesma que a
parábola do mordomo fiel no capítulo anterior, isto é, a necessidade
de vigilância. As palavras finais: "Vigiai, pois, porque não sabeis o dia
nem a hora em que o Filho do homem há de vir", é tão
evidentemente dirigido aos discípulos, e esses são os mesmos que o
Senhor já pronunciou em Mateus 24:42; de modo que em ambas as
passagens a referência deve ser para o mesmo evento.
Não está dentro dos nossos propósitos fazer uma exposição
detalhada desta parábola. Há teólogos que encontram um mistério em
cada palavra; no número dez, na virgindade, nas lâmpadas, no óleo,
etc. (Veja Lange in loc) Como Calvino observa sarcasticamente:
"Multum se quidam, em lucernis, em vasis, em oleo". Basta observar
aqui a grande lição da parábola. É a necessidade de estar
constantemente preparado e vigilante, esperando o retorno repentino
e em breve do Filho do homem. Não estar vigilante e não estar
preparado, levaria ao castigo que caiu sobre as virgens tolas, isto é, a
exclusão da ceia de casamento do Cordeiro.
Encontramos, então, nesta parábola uma conexão orgânica com
todo o discurso anterior de nosso Senhor. Ainda é o grande assunto
do qual ele está falando - a consumação que aconteceria dentro dos
limites da geração que existia - e em relação à qual os discípulos
expressavam uma ansiedade natural.
(j) A Parousia, um tempo de julgamento
(Parábola dos talentos)
Mateus 25:14-30: "Porque isto é também como um homem que,
partindo para fora da terra, chamou os seus servos, e entregou-lhes os
seus bens.
E a um deu cinco talentos, e a outro dois, e a outro um, a cada um
segundo a sua capacidade, e ausentou-se logo para longe.
E, tendo ele partido, o que recebera cinco talentos negociou com
eles, e granjeou outros cinco talentos.
Da mesma sorte, o que recebera dois, granjeou também outros
dois.
Mas o que recebera um, foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do
seu senhor.
E muito tempo depois veio o senhor daqueles servos, e fez contas
com eles.
Então aproximou-se o que recebera cinco talentos, e trouxe-lhe
outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos;
eis aqui outros cinco talentos que granjeei com eles.
E o seu senhor lhe disse: Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco
foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
E, chegando também o que tinha recebido dois talentos, disse:
Senhor, entregaste-me dois talentos; eis que com eles granjeei outros
dois talentos.
Disse-lhe o seu senhor: Bem está, bom e fiel servo. Sobre o pouco
foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.
Mas, chegando também o que recebera um talento, disse: Senhor, eu
conhecia-te, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste e
ajuntas onde não espalhaste;
E, atemorizado, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é
teu.
Respondendo, porém, o seu senhor, disse-lhe: Mau e negligente
servo; sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?
Devias então ter dado o meu dinheiro aos banqueiros e, quando eu
viesse, receberia o meu com os juros.
Tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos.
Porque a qualquer que tiver será dado, e terá em abundância; mas
ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado.
Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e
ranger de dentes".
Nesta parábola encontramos uma continuação evidente do mesmo
tema, embora apresentado em um aspecto um pouco diferente. A
moral da parábola anterior foi a vigilância; a do presente é
diligência. Dificilmente se pode dizer que um novo elemento é
introduzido nesta parábola, pois a representação da vinda de Cristo
como tempo de julgamento perpassa todo o discurso profético de
nosso Senhor. É este fato que dá propósito e urgência à chamada,
muitas vezes reiterada, para estar vigilante. Não só seria um tempo de
julgamento para Jerusalém e Israel, mas mesmo para os próprios
discípulos de Cristo. Eles também tiveram que "ficar diante do Filho
do homem". Havia o perigo de que "aquele dia" viesse sobre eles sem
que eles estivessem preparados e fossem descuidados. Esta
associação de julgamento com a Parousia aparece na parábola do
mordomo, e ainda mais na dos servos bons e maus. É expressa ainda
mais vividamente na parábola das virgens prudentes e nas virgens
tolas, e é ainda mais proeminente na parábola dos talentos; mas atinge
o clímax na parábola final, se pode ser dito, das ovelhas e dos bodes.
Não é necessário entrar nos detalhes da parábola dos talentos. Suas
principais características são simples e óbvias. Contém uma solene
admoestação para que os servos de Cristo sejam fiéis e diligentes na
ausência de seu Senhor. A parábola aponta para um dia em que Ele
retornaria e faz contas com eles. Estabelece a abundante recompensa
do bem e dos fiéis, e o castigo do servo infiel.
No entanto, o ponto que nos preocupa principalmente nesta
investigação é a relação desta parábola com o discurso anterior. O
que pode ser mais claro do que a conexão íntima entre um e outro? A
partícula conjuntiva "porque" no versículo 14 claramente marca a
continuação do discurso. O tema é o mesmo "por que isto é também
como", o tempo é o mesmo, a catástrofe é a mesma. Até este ponto,
então, não encontramos interrupção, nenhuma mudança, nenhuma
introdução a um assunto diferente; tudo é contínuo, homogêneo,
um. Nunca, por um momento, o discurso se desviou do grande e
absorvente tema - a condenação que se aproximava da culpada cidade
e nação, com os eventos solenes correspondentes, tudo para
acontecer no período daquela geração, e que os discípulos, ou alguns
deles, viveriam para testemunhar.
(k) A Parousia, um tempo de julgamento
(Parábola das ovelhas e dos bodes)
Mateus 25:31-46 "E quando o Filho do homem vier em sua glória,
e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua
glória;
E todas as nações serão reunidas diante dele, e apartará uns dos
outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas;
E porá as ovelhas à sua direita, mas os bodes à esquerda.
Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de
meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a
fundação do mundo;
Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de
beber; era estrangeiro, e hospedastes-me;
Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e
foste me ver.
Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos
com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te
vestimos?
E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te?
E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando
o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos
de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus
anjos;
Porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me
destes de beber
Sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me
vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes.
Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te
vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo,
ou na prisão, e não te servimos?
Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando
a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim.
E irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida
eterna."
Até este ponto, descobrimos que o discurso de Jesus sobre o
Monte das Oliveiras é uma profecia conectada e contínua, que se
refere à grande catástrofe que sobreveio a nação judaica, e isso
aconteceria, de acordo com a previsão de nosso Senhor, antes da
geração que existia naquele momento passasse. Agora, no entanto,
encontramos uma passagem que, na opinião de quase todos os
comentaristas, não pode ser entendida como se referindo a Jerusalém
ou a Israel, mas a toda a raça humana e ao fim de todas as coisas. Se o
consenso dos expositores pode estabelecer uma interpretação, esta
passagem, sem dúvida, deve ser considerada como se afastando
completamente do assunto das questões dos discípulos e descrevendo
a última cena de todos na história do mundo.
Pode admitir-se livremente que esta parábola, ou descrição
parabólica, tem muitos pontos de diferença com a parte anterior do
discurso de nosso Senhor. Parece ser separado e diferente do resto,
os elos de conexão que encontramos em outras seções. Além disso,
parece ter um alcance maior do que Jerusalém e Israel; parece o
julgamento, não de uma nação, mas de todas as nações; não de uma
cidade ou de um país, mas do mundo inteiro; não uma crise
passageira, mas a consumação final.
É, portanto, com um profundo senso da dificuldade da tarefa que
nos atrevemos a desafiar a interpretação de tantos homens sábios e
bons e argumentar que a passagem não é apenas uma parte integral
da profecia, mas também pertence inteiramente ao assunto do
discurso de nosso Senhor - o julgamento de Israel e o fim da era
[judaica].
1. Esta parábola, embora em nossas bíblias modernas sejam separadas
e desconectadas do contexto, está realmente conectada por um elo
muito suficiente com o que acontece antes. Isso é evidente no grego,
onde encontramos a partícula "e quando", cuja força consiste em
indicar transição e conexão - transição para uma nova ilustração e
conexão com o contexto anterior. Alford, em seu Novo Testamento
revisto, retém a partícula de continuidade: "Mas o Filho do homem
virá em sua glória", etc. Com a mesma propriedade, poderia ter sido
traduzida - "E quando", etc.
2. Esta "vinda do Filho do homem" já foi anunciada por nosso
Senhor (Mateus 24:30 e passagens paralelas), e o tempo
expressamente definido, sendo incluído na declaração abrangente:
"Realmente eu digo a você: não passará esta geração, sem que tudo
aconteça" (Mateus 24:34).
3. Merece ser observado em particular que a descrição da vinda do
Filho do homem na sua glória, que é feita nesta parábola, se encaixa
em todos os pontos de àquela em Mateus. 16:27, 28 , da qual é
expressamente afirmado que ela seria testemunhada por alguns então
presentes quando a predição foi feita.
Pode ser bom comparar as duas descrições.
Mateus 16: 27.28
"Pois o Filho do Homem virá na glória de seu Pai com seus anjos, e
então ele retribuirá cada um de acordo com suas obras. Em verdade,
eu digo a você que há alguns daqueles que estão aqui, que não
provarão a morte, até terem visto o Filho do Homem chegar em seu
reino"
Mateus 25:31-33
"Quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos
anjos com ele, ele se assentará no seu trono da glória, e todas as
nações serão reunidas diante dele", etc.
Aqui, o leitor notará que:
a) Em ambas as passagens, o assunto a que se referem é o mesmo,
isto é, a vinda do Filho do homem - a parousia.
b) Em ambas as passagens, ele é descrito como vindo em glória.
c) Em ambos, ele é acompanhado pelos santos anjos.
d) Em ambos, Ele vem como um rei. "Vindo em seu reino" "Ele se
assentará no seu trono"; "Então o rei" etc.
e) Em ambos, ele vem para o julgamento.
f) Em ambos, o julgamento é representado em certo sentido como
universal. "Ele recompensará todo homem" "Em frente todas as
nações serão reunidas".
g) Em Mateus 16:28, é expressamente afirmado que Jesus virá em
glória, etc., e que ocorreria durante a vida de alguns estariam vivos.
Isso delimita a ocorrência da parousia dentro dos limites de uma vida
humana, estando assim em perfeita concordância com o período
definido por nosso Senhor em seu discurso profético. "Esta geração
não vai passar", etc.
Estamos plenamente garantidos, portanto, em relação à vinda do
Filho do homem em Mateus 25 como idêntico ao referido em Mateus
16, que alguns dos discípulos deveriam viver para testemunhar.
Assim, quaisquer que sejam os eventos descritos nesses versículos
em Mateus 25:32, somos levados à conclusão de que não é a
"consumação final de todas as coisas" da qual é falada, mas está
conectada ao julgamento de Israel no fim do era [judaica].
4. Mas ainda será objetado que permanece uma dificuldade
formidável na expressão "todas as nações". No entanto, a dificuldade
é mais aparente do que real; porque:
1- Não é incomum encontrar nas Escrituras proposições universais
que devem ser entendidas em um sentido qualificado ou restrito.
Há um caso em questão neste mesmo discurso de nosso Senhor.
Em Mt. 24:22, falando da "grande tribulação", ele diz: 'Se esses dias
não forem abreviados , não se salvará carne'. Agora, é evidente que
essa "grande tribulação" estava limitada a Jerusalém, ou, de qualquer
forma, à Judeia e as terras em sua vizinhança imediata, e ainda assim
temos uma expressão usada em relação aos habitantes de uma cidade
ou país que é ampla o suficiente para incluir todo o ser humano. raça,
nesse sentido Lange e Alford realmente a entendem.65
2- Há grande probabilidade na opinião de que a frase "todas as
nações" seja equivalente a "todas as tribos da terra". (Mt. 24:30) Não
há impropriedade em designar as tribos como nações . A promessa
65
O uso do artigo definido aponta para certas nações em particular, e
provavelmente essas para as quais os discípulos deveriam ir pregando o
Evangelho em nome de Cristo e representando ele em suas pessoas
individuais.
de Deus a Abraão era que ele deveria ser o pai de muitas nações. (Gn.
17:5, Rm. 4:17, 18)
No tempo de nosso Senhor, era comum falar dos habitantes da
Palestina como constituídos por várias nações. Josefo fala da "nação
dos samaritanos", "da nação dos bataneanos", "da nação dos galileus"
- usando a própria palavra (etnos) que encontramos na passagem
diante de nós. A Judéia era uma nação distinta, geralmente com um
rei próprio; Samaria também; e assim também com Idumea, Galiléia,
Paraea, Batanea, Traquonite, Ituraea, Abilene - que em tempos
diferentes tinham príncipes com o título de Ethnarch , um nome que
significa o governante de uma nação . Não está fazendo violência,
então, a linguagem de entender (panta ta eynh) como referência, a
"todas as nações" da Palestina, ou "todas as tribos da terra". 66
3- Essa visão recebe forte confirmação do fato de que a mesma frase
na comissão apostólica (Mt. 28:19) "Vá e ensina todas as nações",
parece não ter sido entendido pelos discípulos como se referindo a
toda a população do globo ou a qualquer nação além da Palestina. A
princípio, Cristo havia proibido os doze de pregar aos gentios: "Não
vá em qualquer maneira aos Gentios, e não entre em nenhuma cidade
dos samaritanos: antes vá as ovelhas perdidas da casa de Israel‖ (Mt.
10:5-6). Para a mulher de Canaã ele disse: "Eu não fui enviado senão
para as ovelhas perdidas da casa de Israel‖ (Mt. 15:24). E então,
depois da ressurreição Ele lhes ordenou pregar o Evangelho a
toda criatura (Mc. 16:15) e fazer discípulos de todos as nações (Mt.
28:19). Supõe-se geralmente que os apóstolos sabiam que haviam
recebido uma carga de evangelizar o mundo. Se eles sabiam disso,
eram culpados por não agir de acordo. Mas é presumível que as
palavras de nosso Senhor não tenham transmitido nenhuma dessas
66
O equivalente da palavra hebraica, got - plural, gotitn – é usada
repetidamente no Antigo Testamento para as tribos expulsas de Canaã pelos
israelitas (Josué 23:3).
idéias à mente deles.67 O culto professor Burton observa: ―Não foi
até catorze anos após a ascensão de nosso Senhor que São Paulo
viajou pela primeira vez e pregou o evangelho aos gentios. Também
não há evidências de que, durante esse período, os outros apóstolos
tenham ultrapassado os limites da Judeia."68
O fato parece ser que a linguagem da comissão apostólica não
transmitiu às mentes dos apóstolos nenhuma dessas ideias
ecumênicas. Nada mais os surpreendeu do que a descoberta que
"Deus havia concedido aos gentios também se arrependia para a
vida". (Atos 11:18) Quando São Pedro foi desafiado por ir "aos
homens incircuncisos e comer com eles", não parece que ele
justificou sua conduta com um apelo aos termos da comissão
apostólica. Se a frase "todas as nações" tivesse sido entendida pelos
discípulos em seu sentido literal e mais abrangente, é difícil imaginar
como eles poderiam ter falhado em reconhecê-la uma vez que o
caráter universal do evangelho e sua comissão de pregá-lo da mesma
forma para judeus e gentios. Exigia uma revelação distinta do céu
para superar os preconceitos judaicos dos apóstolos e dar a conhecer
a eles o mistério "de que os gentios deveriam ser co-herdeiros, e do
mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho"
(Ef. 3:6)
Em vista dessas considerações, consideramos razoável e garantido
atribuir à frase "todas as nações" um significado restrito e limitá-la às
nações da Palestina. Nesse sentido, ela se harmoniza bem com as
palavras de nosso Senhor: "Não passareis sobre as cidades de Israel
até que o Filho do homem venha". (Mt. 10:23)
67
Observe que mesmo após a ressurreição de Jesus, os pensamentos dos
discípulos ainda se moviam dentro do estreito círculo de esperanças
nacionais. (cf. Atos 1:6)
68
Bampton Lecture, do professor Burton, p. 20
5. Mais uma vez, o teste peculiar de caráter aplicado pelo juiz nesta
descrição parabólica se opõe fortemente à ideia de que esta cena
representa o julgamento final de toda a raça humana. Será observado
que o destino dos justos e dos ímpios é feito para girar em torno do
tratamento que eles ofereceram respectivamente aos discípulos que
sofrem. Todas as qualidades morais, toda conduta virtuosa, toda fé
verdadeira, aparentemente não são úteis, e apenas os atos de caridade
e beneficência para com os discípulos aflitos são levados em
consideração. Não é surpreendente que essa circunstância tenha
causado grande perplexidade tanto aos teólogos como aos leitores em
geral. Essa é a doutrina de Paulo? Esta é a base para a justificação
diante de Deus estabelecida no Novo Testamento? Devemos concluir
que o destino eterno de toda a raça humana, desde Adão até o último
homem, finalmente se voltará para sua caridade e simpatia para com
os discípulos perseguidos e sofredores de Cristo?
A dificuldade é séria, na suposição de que temos aqui uma
descrição do "julgamento geral no último dia", e não deve ser
negligenciado, como é comum. Como as nações que existiam antes
do tempo de Cristo podem ser julgadas por esse modelo? Como
poderiam as nações que nunca ouviram falar de Cristo - ou aquelas
que floresceram nos tempos em que o cristianismo era próspero e
poderoso, e onde os seguidores de Cristo não sofreram fome, sede,
nudez, doença e prisão por conta dele, e onde, consequentemente,
eles poderiam não ser aliviados dos efeitos de perseguição severa -
serão julgadas por tal padrão? É manifestamente inadequado e
inaplicável. Mas a dificuldade é fácil e completamente resolvida se
considerarmos essa parábola descrevendo o julgamento da geração
que está passando pelo período de transação judicial como o
julgamento de Israel no final da era judaica. É o rejeitado rei de Israel
que é o juiz: é a geração hostil e incrédula, a última e a pior da nação,
que é denunciada antes de seu tribunal. Seu tratamento de seus
discípulos, especialmente de Seus apóstolos, poderia ser o mais
adequado e justamente o critério de caráter para "discernir entre o
justo e o ímpio". Um teste como este seria muito apropriado numa
época em que o cristianismo era uma fé perseguida, e é evidente que
isso é assumido pelos próprios termos das palavras do rei: "Eu estava
com fome e sede, eu era estrangeiro, estava nu, doente, e na prisão".
As pessoas designadas como "estes meus irmãos", e que são tomados
como representantes do próprio Cristo, são evidentemente os
apóstolos de nosso Senhor, em quem tinha fome e sede, estava nu,
doente e na prisão, tudo isso está em perfeita harmonia com as
palavras de Cristo aos seus discípulos, quando os mandou pregar:
"Aquele que o recebe me recebe; e aquele que me recebe recebe
aquele que me enviou. Aquele que recebe um profeta porque é
profeta, receberá a recompensa de um profeta; e quem recebe um
homem justo porque ele é justo, receberá uma recompensa justa. E
quem dá a um desses pequenos um copo de água fria, porque ele é
um discípulo, eu digo a verdade, ele não perderá sua recompensa"
(Mateus 10:40-42).
Chegamos assim à conclusão, a única que em todos os aspectos está
em conformidade com o teor de todo o discurso; temos aqui, não o
julgamento final de toda a raça humana, mas a da nação culpada, que
rejeitou o seu rei, maltratado e matou os seus mensageiros (Mateus
22:1-14) e cujo dia de destruição estava agora próximo.
Sendo assim, podemos ver que toda a profecia do Monte das
Oliveiras é um todo homogêneo e conectado: "simplex duntaxat et
unum". Não é mais uma mistura confusa e ininteligível, o que frustra
toda a interpretação, que parece falar com duas vozes e que aponta
em direções diferentes ao mesmo tempo. É uma representação clara,
consecutiva e historicamente verdadeira iniciada com julgamento da
nação teocrática no final da era judaica ou da dispensação judaica. A
teoria da interpretação que considera este discurso como apenas
típico do julgamento final da raça humana e de uma catástrofe
mundial que acompanha esse evento, na verdade não consegue
nenhum suporte na própria predição, ao mesmo tempo em que
implica perplexidade e confusão inextricáveis. Se, por um lado,
pudesse demonstrar-se que a profecia, como um todo, é igualmente
aplicável em cada uma das suas partes a dois eventos diferentes e
amplamente separados; ou, por outro lado, que em um certo ponto se
separa de um tema e lida com o outro, então o duplo significado, ou a
dupla referência, estaria sobre alguma base inteligível. Mas não
encontramos nenhuma linha divisória na profecia entre o próximo e
o remoto, e todas as tentativas de traçar tal linha são insatisfatórias e
arbitrárias ao extremo. Ainda mais insustentável é a hipótese de um
duplo sentido que perpassa o todo; uma hipótese que supõe uma
"faculdade de verificação" no expositor ou leitor, e dá um poder
discricionário tão grande ao crítico engenhoso que parece totalmente
incompatível com a reverência devida à Palavra de Deus.
A perplexidade que a teoria do duplo significado envolve é
colocada em luz forte pela confissão de Dean Alford, que, no final de
seus comentários sobre esta profecia, expressa honestamente sua
insatisfação com os pontos de vista que ele propôs. "Eu acho que é
correto", diz ele, "expressar nesta terceira edição que, tendo entrado
em um estudo mais aprofundado sobre as partes proféticas do Novo
Testamento, não sinto de nenhuma maneira a confiança total que tive
em exegese, sobre a interpretação profética, que é dada aqui das três
partes deste capítulo 25. Mas eu não tenho outro sistema com o qual
substituí-lo, e alguns dos pontos discutidos aqui me parecem tão
pesados como sempre. Pergunto-me muito se o estudo exaustivo da
profecia das Escrituras me deixará cada vez mais desconfiado de toda
sistematização humana e menos disposto a correr o risco de fazer
uma forte afirmação sobre qualquer parte do assunto "(julho de
1855). Na quarta edição, Alford acrescenta: "Endossado, outubro de
1858". Esta é uma sinceridade altamente honrosa para o crítico, mas
sugere essa reflexão: se, com toda a luz e experiência de dezoito
séculos, a profecia no Monte das Oliveiras ainda permanece um
enigma não resolvido, como poderia ter sido inteligível para os
discípulos que o escutaram avidamente quando este caiu dos lábios
do Mestre? Podemos supor que, naquele momento, ele falasse com
eles em enigmas ininteligíveis? Que, quando lhe pedissem pão, ele
lhes daria uma pedra? Impossível! Não há razão para acreditar que os
discípulos eram incapazes de entender as palavras de Jesus e, se essas
palavras foram mal interpretadas nos tempos posteriores, é porque
um método de interpretação falso e não natural obscureceu e
desfigurou o que em si o que era claro e simples. É surpreendente
que os alguns comentaristas tenham mostrado tanta indiferença
quanto às limitações expressas do tempo estabelecido pelo Senhor;
que significados forçados e não naturais foram dados a palavras como
aion, genea e etc. que as linhas de divisão foram desenhadas no
discurso onde não existe - e, em geral, que foi submetido à profecia a
um tratamento que não seria tolerado na crítica de qualquer clássico
grego ou latino. Deixe que apenas a linguagem da Escritura seja
tratado com justiça comum e interpretado pelos princípios da
gramática e do senso comum, e grande parte da escuridão e mal-
entendidos serão eliminados, e a forma e substância virão à luz da
verdade.69
69
O seguinte extrato foi tirado de um excelente artigo no primeiro volume da
Biblioteca Sacra (1843), do Dr. E. Robinson, intitulado "A vinda de Cristo". Até
o ver. 42 do cap. 24 de Mateus, o Dr. Robinson mantém a referência exclusiva
da previsão a Jerusalém e, por essa razão, menciona as interpretações que se
referem a ela como o "fim do mundo":
"Agora surge a questão de saber se, sob essas limitações de tempo, uma
referência da linguagem de nosso Senhor ao dia do julgamento e ao fim do
mundo em nosso sentido desses termos é possível." Aqueles que sustentam
essa visão tentam de várias maneiras. livrar-se das dificuldades que surgem
dessas limitações. Alguns atribuem à palavra (imediatamente) o significado de
repente, como a Septuaginta usa em Jó ver 3 para hebraico. Mas, mesmo
nesta passagem, o objetivo do escritor está simplesmente marcando uma
sequência imediata - indicando que outro evento em sequência ocorre
imediatamente, e nada seria ganho mesmo que a palavra estivesse disponível,
contanto que eles permaneçam a limitação posterior a "esta geração". Outros
tentaram se referir genea à raça dos judeus, ou para os discípulos de Cristo,
não apenas sem o menor fundamento, mas contrário a todo uso e toda
analogia. Todas essas tentativas de aplicar força ao significado da linguagem
são em vão, e agora elas foram abandonadas pela maioria dos comentaristas
de notas”.
Depois de uma exposição tão luminosa, é decepcionante descobrir que o Dr.
Robinson não consegue consistentemente levar até o fim os princípios com os
quais começou. Intrigado com a rápida conclusão de que "o Dia do
Julgamento" e "Fim do Mundo" são, de alguma parte da profecia, e incapaz de
Antes de deixar de lado essa profecia profundamente interessante,
pode ser apropriado referir-se ao maravilhoso cumprimento
minucioso que recebeu, como testemunhado por uma testemunha
inatingível - o historiador judeu Josefo. É um fato de singular
interesse e importância que um registro completo e autêntico dos
tempos e das transações a que se faz referência na profecia de nosso
Senhor será preservado para a posteridade; e que esse registro deve
ser da pena de um estadista judeu, soldado, sacerdote e homem de
letras, não apenas tendo acesso às melhores fontes de informação,
mas ele mesmo uma testemunha ocular de muitos dos eventos que
ele relaciona. Dá peso adicional a este testemunho de que não vem de
um cristão, que poderia ter sido suspeito de partidarismo, mas de um
judeu, indiferente, se não hostil, à causa de Jesus.
Tão marcante é a coincidência entre a profecia e a história que a
velha objeção de Porfírio contra o Livro de Daniel, que deve ter sido
escrita após o evento, poderia ser plausivelmente alegada, se houvesse
o menor pretexto para tal insinuação.
ver onde a questão de Jerusalém termina e a outra começa e tema principal
da catástrofe global , adote o seguinte método. Começando com o
pressuposto de que a parábola das ovelhas e as cabras deve descrever o
último evento, tateia seu caminho de volta para a parábola anterior dos
talentos, que é o mesmo assunto, a doutrina do pagamento final . Indo ainda
mais longe, à parábola das dez virgens, descubra que o objetivo dessa
parábola é inculcar a mesma verdade importante. Ele conclui que o vigésimo
quinto capítulo de São Mateus deve, portanto, referir-se inteiramente às
transações do último grande dia.
"Mas", continua ele, "a última parte do capítulo 24, isto é, do verso 43 ao 51,
está intimamente ligada à parábola inicial de 25", o que parece fornecer base
suficiente para considerar essa passagem. Também se refere ao julgamento
futuro. No verso. 43 de Mt. 24, portanto, Dr. Robinson acredita que nosso
Senhor abandona completamente o tema de Jerusalém e entra em um novo
tema, o julgamento do mundo.
Imediatamente é evidente que a totalidade de seu raciocínio está viciada pela
falsa premissa com a qual ele começa, isto é, a suposição de que a parábola
das ovelhas e dos bodes se refere ao julgamento da raça humana. Já
mostramos que não há novo começo em Mt. 24:48.
Embora o povo judeu sempre se sentisse desconfortável sob o jugo
de Roma, não havia sintomas urgentes de descontentamento no
momento em que nosso Senhor fez esta profecia da quase destruição
do templo, da cidade e da nação. As classes mais elevadas abundavam
em manifestações de lealdade ao governo imperial. "Nós não temos
rei senão César!" Exclamaram eles. Era política de Roma conceder o
livre exercício de sua própria religião às províncias sujeitas. Por
conseguinte, não havia razão aparente para que o novo e esplêndido
templo de Jerusalém não permanecesse em pé durante séculos e que a
Judeia não pudesse desfrutar de uma maior tranquilidade e
prosperidade sob a proteção de César do que conhecia sob os
príncipes nativos. Contudo, antes que a geração que rejeitou e
crucificou o Filho de Davi tivesse morrido completamente, a
nacionalidade judaica se extinguiu: Jerusalém era uma desolação; 'a
santa e bela casa' no Monte Sião foi arrasada; e as pessoas tolas, que
não conheciam o tempo de sua visita, ficaram sobrecarregadas por
calamidades incomparáveis que estão registradas nos anais do mundo.
Tudo isso é inegável; e ainda assim seria demais, esperar que isso
fosse considerado como uma satisfação adequada das palavras de
nosso Salvador por muitos a quem o preconceito ou interpretações
tradicionais os ensinaram a ver mais em profecia do que nunca
inspirado. A linguagem é muito magnifica, as transações são demais
para serem satisfeitas por um evento tão inadequado quanto o
julgamento de Israel e a destruição de Jerusalém. Nós já tentamos
apontar o verdadeiro significado e a verdadeira grandeza desse
evento. Mas a única resposta suficiente para todas essas objeções é a
declaração expressa de nosso Senhor, que cobre todo o escopo deste
discurso profético. "Em verdade, eu digo para você, esta geração não
vai passar sem que tudo isso aconteça". Não há dúvida de que há
algumas partes dessa previsão que são capazes de verificação por
testemunho humano. Alguém espera que Tácito, Suetônio, ou Josefo,
ou qualquer outro historiador, relate que ―o Filho do homem foi
visto vindo nas nuvens do céu com poder e grande glória; que
convocou as nações ao seu tribunal, e recompensou todo homem
segundo as suas obras?
Há uma região na qual as testemunhas e repórteres não podem
entrar; os mistérios do [reino] espiritual ou do imaterial. 70 Mas há
também uma grande parte da profecia que pode ser verificada, e isso
pode ser amplamente verificado; são metáforas proféticas do oriente
antigo que descrevem a cena de um julgamento nacional. Mesmo um
incrédulo que ataca o cristianismo, e que desafia o conhecimento
sobrenatural de Cristo, é forçado a admitir que "a porção relativa à
destruição da cidade é singularmente definida, e corresponde muito
de perto ao evento real". 71 O cumprimento pontual da parte da
profecia que entra no campo da observação humana garante a
verdade do resto, que não se enquadra nessa esfera. Após a discussão,
descobriremos que os eventos que agora parecem incríveis para
muitos foram a expectativa e a esperança confiantes da era apostólica,
e que os primeiros cristãos estavam plenamente persuadidos de sua
realidade e sua proximidade. Somos colocados, portanto, nesse
dilema - ou as palavras de Jesus falharam e as esperanças de Seus
discípulos foram falsificadas; ou então essas palavras e esperanças
foram cumpridas, e a profecia em todas as suas partes foi totalmente
cumprida. Uma coisa é certa. A veracidade de nosso Senhor está
comprometida com a afirmação de que a totalidade e cada uma das
partes dos eventos contidos nesta profecia ocorreria antes do fim da
geração existente. Se qualquer idioma pode reivindicar ser preciso e
definido, é o que nosso Senhor emprega para marcar os limites do
tempo em que todas as Suas palavras deveriam ser cumpridas.
Quaisquer que sejam as outras catástrofes, de outras nações, em
outras eras, com relação a elas, nosso Senhor está em silêncio. Ele
fala de sua própria nação culpada e de seu processo judicial no final
da era, como Malaquias, João Batista e o próprio Jesus haviam
70
O termo "imaterial", provavelmente não é o mais adequado para descrever a
natureza do reino espiritual.
71
Contemporary Review , novembro de 1876. Ver Nota B, Parte I.
predito com frequência e clareza.72 Por isso, Suas palavras devem ser
consideradas responsáveis; mas além disso tudo é mera especulação
humana, a hipótese dos teólogos, baseada em nenhuma garantia das
Escrituras.
Assim, esforçamo-nos em resgatar esta grande profecia do método
de interpretação impreciso e acrítico pelo qual ficou tão obscurecido
e confuso; esta profecia deve ter o mesmo significado distinto e
definido para nós, como teve para os discípulos. A reverência para a
Palavra de Deus, e a devida consideração pelos princípios da
interpretação, nos proíbem de impor construções não naturais e de
duplo cumprimento que, de fato, "acrescentariam as palavras desta
profecia". Não nos atrevemos a lidar de forma irresponsável com as
afirmações expressas e precisas de Cristo. Encontramos até agora
apenas uma Parousia; um fim da era; uma catástrofe iminente; um
terminus ad quem; uma "esta geração". Protestamos contra a exegese
que maneja a Palavra de Deus de maneira arbitrária que se recomenda
a muitos: "O Senhor", diz-se, "está sempre vindo para aqueles que
procuram por Seu aparecimento". "Vemos sua chegada em larga
escala em todas as crises da grande história humana. Nas revoluções,
nas reformas e nas crises da nossa história individual. Para cada um
de nós, há um advento do Senhor, sempre que novos e maiores
aspectos da verdade nos sejam apresentados, ou somos chamados a
entrar em novos e talvez mais trabalhosos e empolgantes
deveres". 73 Desta maneira, pode ser mais difícil dizer o que não é
"uma vinda do Senhor". Mas, transformando-o em tudo e qualquer
coisa, não o transformamos em nada. Está vazio de toda precisão e
realidade. Não há razão para que a encarnação, a crucificação e a
ressurreição não possam, de modo semelhante, tornar-se comuns e
72
Referindo-se à destruição de Jerusalém, diz Jonathan Edwards: "Então,
houve um fim definitivo do mundo do Antigo Testamento: Tudo foi concluído
com uma espécie de dia do julgamento em que o povo de Deus foram salvos,
e seus inimigos destruídos de uma maneira terrível ". História da Redenção ,
vol. i, p. 445
73
Evang. Meg. Fevereiro de 1877, p. 69
transações diárias, bem como a Parousia. Uma coisa é dizer que os
princípios do governo divino são eternos e imutáveis, que o juízo de
cristo ocorre entre as nações,74 e que, portanto, o que Deus faz a um
povo, ou a um tempo, ele fará em circunstâncias semelhantes a outras
nações e outras vezes;75 outra coisa é dizer que esta profecia tem dois
74
A aparente dificuldade de conectar este quadro de julgamento e destino
eterno com a ruína de Jerusalém é desfeita com uma atenção mais cuidadosa
às escrituras sobre doutrina da administração judicial divina. Nós perdemos
toda a ideia de julgamento quando a concebemos como confinado a um dia
final, em que os indivíduos de todas as nações e eras serão reunidas
simultaneamente. Esta concepção envolve a ideia fundamental e verdadeira
de que cada indivíduo será levado a julgamento diante de Deus, e que a
questão de tal julgamento será de acordo com o caráter e ações, e é garantido
não só por numerosos textos particulares, mas também por toda a deriva do
ensino das Escrituras sobre o caráter de Deus e sua relação governamental
com os homens. Os princípios do governo divino são eternos e imutáveis, e o
juízo de Cristo que ocorre entre as nações pode culminar apropriadamente em
um ato final, ou um terminus ad quem "juízo final", e esta é a crença comum
da Igreja. Mas nada poderia ser mais antibíblico do que a noção de que a
administração judicial de Cristo é limitado a um dia final na história humana. É
um processo de atos judiciais correndo através da "era vindoura", e uma parte
necessária da administração do rei dos reis. As nações estão continuamente
passando por julgamento, e os destinos eternos dos indivíduos estão sendo
determinados todos os dias. O dia do julgamento para qualquer nação, cidade
ou indivíduo perverso é o tempo em que a visitação penal vem; e o julgamento
dos santos de Deus é manifesto em todo evento de sinal que magnifica a
bondade e condena a iniquidade. E isso é essencialmente a ordem do reinado
de Cristo. Uma das notáveis características do Messias é que o Pai comete
todo o julgamento ao Filho (João v. 22); ele "deu-lhe autoridade para executar
julgamento, porque ele é o Filho do homem "(v. 27). Ou seja, ele é o Filho do
homem descrito nas visões de Daniel que veio com as nuvens do céu e
recebeu do Ancião de dias um reino e domínio sobre todas as nações (Dn.
7:9-14). Seu escritório real e autoridade constituem ele juiz e governante de
todos.
75
Não precisamos assumir o quão longe e de que maneira Cristo executa seus
atos de julgamentos. Aquele que "faz das nuvens o seu carro, que caminha
sobre as asas do vento, fazendo os seus anjos ventarem, e os seus ministros,
uma chama de fogo" (Salmo 104:3; comp. Hb 1:7), está presente em todas as
grandes crises da história deste mundo, e ele faz com que seus anjos
ministrem para servir aos santos (Hb 1:14). O Rei da glória está julgando,
mediando e reinando entre as nações..
significados: um para Jerusalém e Israel, e um para o mundo e a
consumação final de todas as coisas. Nós defendemos, como
Neander, que "as palavras de Cristo, como suas obras, contêm em si
o germe de um desenvolvimento infinito, reservado para futuras
épocas que estão a se revelar". 76 77 Mas isso não implica que essa
profecia seja qualquer coisa que possa conceber uma fantasia
engenhosa, ou que tenha sentidos escondidos ou ulteriores que
estejam subjacentes ao significado aparente e natural da linguagem. O
dever do intérprete e aluno da Escritura não é tentar o que a
Escritura possa dizer a ele, mas submeter a sua compreensão sobre
"as verdadeiras palavras de Deus", que geralmente são tão simples
quanto profundas.78
76
Vida de Cristo, 165
77
Consequentemente, enquanto a maioria das coisas enumeradas no discurso
precedente teve cumprimento na queda do judaísmo e no começo do
cristianismo, outras coisas, de sua própria natureza, são tais que devem ser de
ocorrência progressiva ou contínua. Tal é especialmente a execução do
julgamento e governo de Cristo entre as nações, uma função de todo rei
reinante; Esta é a doutrina da Epístola aos Hebreus: "o trono do Filho de Deus
é para todo o sempre" (Hb. 1:8); "ele é o mediador de uma aliança melhor", o
sacerdócio do Filho de Deus "permanece continuamente" (Hb. 8:3); Cristo
"obteve agora um ministério mais excelente, por quanto ele também é o
mediador de um convênio melhor" (Hb 8: 6). Daí a força e a propriedade das
palavras: "Quando vier o Filho do homem em sua glória e todos os anjos com
ele, então se assentará no trono de sua glória". Há um ponto no tempo que é
constantemente indicado no Novo Testamento como a vinda do reino de Deus.
Nosso Senhor declarou que, entre seus discípulos, havia alguns que viveriam
para vê-lo chegando em seu reino. Naturalmente, esta vinda do Rei é sinônimo
da vinda do reino, e limita a ocorrência deste evento à geração que então
existiu. Seu começo foi como a pequena semente de mostarda, ou como a
pedra cortada da montanha sem as mãos, mas cresce, como fermento que
leveda a massa, e aumentará até torna-se uma grande montanha e
preencherá toda a terra. Sua história e triunfos ainda estão principalmente no
futuro, e séculos e séculos devem decorrer antes que atinja a plenitude do
desenvolvimento. Não precisamos de outro testemunho do que o registro da
própria história para provar que existe um rei entronizado sobre os homens,
regendo as nações com uma vara de ferro. (cf. notas em Atos 17:31).
78
Ver nota A, parte I
O ENSINAMENTO DE NOSSO SENHOR SOBRE A
PAROUSIA NOS EVANGELHOS SINÓPTICOS
(Continuação)
DECLARAÇÃO DE NOSSO SENHOR DIANTE DO
SUMO SACERDOTE
Mateus 26:64
"Disse-lhe Jesus: Tu o disseste; digo-vos, porém, que vereis em
breve o Filho do homem assentado à direita do Poder, e vindo sobre
as nuvens do céu".
Marcos 14:62
"E Jesus disse-lhe: Eu o sou, e vereis o Filho do homem assentado
à direita do poder de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu".
Lucas 22:69
"Desde agora o Filho do homem se assentará à direita do poder de
Deus".
A resposta do nosso Salvador à solene ordem do sumo sacerdote
de declarar sob juramento é a repetição, quase palavra por palavra, do
que Jesus declarou aos discípulos no Monte das Oliveiras: "E verão o
Filho do Homem vir nas nuvens do céu com poder e grande glória"
(Mt 24:30). Eles são, evidentemente, o mesmo evento e o mesmo
período para o qual é feita referência. A linguagem implica que as
pessoas a quem Jesus aborda, ou algumas delas, testemunhariam o
evento previsto. A linguagem implica que as pessoas endereçadas, ou
algumas delas, testemunhariam o evento previsto. A expressão "
Vereis " não seria apropriada se falada se nenhum dos ouvintes
vivesse para testemunhar, e que não ocorreria por milhares de anos.
Nosso Senhor, então, disse a seus juízes que eles, ou alguns deles,
viveriam para testemunhar seu juízo em seu reino.
Esta declaração está em harmonia com o que nosso Salvador disse
aos seus discípulos: "O Filho do Homem virá na glória de seu Pai
com seus anjos ... Em verdade, eu digo a você que há alguns dos que
estão aqui, que não gostariam morte, até que tenham visto o filho do
homem chegar no seu reino "(Mateus 16:27, 28). Alguns de seus
discípulos e alguns de seus juízes viveriam o tempo suficiente para
testemunhar essa grande consumação, menos de quarenta anos
depois, quando o Filho do Homem viria em seu reino para executar
os julgamentos de Deus sobre a nação culpada. Isto é precisamente o
que a profecia do Monte das Oliveiras afirma: "Esta geração não
passará", etc. Aqui, mais uma vez, não temos nem obscuridade nem
ambiguidade. Mas pode-se dizer o mesmo da interpretação que faz
com que as palavras de nosso Senhor se refiram a um tempo ainda
futuro e a um evento que ainda não ocorreu? Pode-se dizer que
quanto à interpretação que encontra nesta cena, que os Judeus no
sinédrio deveriam testemunhar, não evento distinto e particular, mas
um processo prolongado e contínuo, que começou na ressurreição de
Cristo, ainda está em andamento, e vai continuar até o fim do
mundo?
Essa estranha interpretação, que é a de Lange e Alford, baseia-se
em parte no pressuposto de que a previsão de nosso Senhor ainda
não foi cumprida e em parte na palavra "desde agora", que é usada
para indicar um processo contínuo.79 Mas tal explicação é credível ou
até concebível? É verdade que o sumo sacerdote e o Sinédrio
começaram a partir desse momento a ver o Filho do homem vindo
nas nuvens do céu? etc. Como essa aparição poderia ser um processo
contínuo?
79
(arti) em grego posterior veio a significar 'logo' 'atualmente:' veja Liddell e
Scott; e, assim, nossos tradutores, corretamente, 'Here-after', o que deixa o
tempo real do evento futuro, mas não necessariamente imediato. - Critical
English Test. vol. iii. P. 860, nota.
Claramente, as palavras só podem se referir a um evento definido e
específico; e não podemos perder para determinar o que é esse
evento. Não pode ser outro senão o Parousia, tantas vezes previsto
antes. Esse não foi um processo prolongado, mas um ato sumário -
repentino, rápido, visível como o raio.
O significado é bem expresso pelos editores "Critical English
Testament": O significado não pode ser que ele viesse e eles o viriam
imediatamente após o momento de sua resposta, mas sim que ele
agora se afastaria deles, e que a próxima vez que o viessem, depois de
sua rejeição por eles, seria na sua chegada em glória, conforme
previsto pelo profeta Daniel".80
Nesta declaração de nosso Senhor, encontramos, então, uma
confirmação adicional de suas afirmações anteriores de que sua vinda
em julgamento aconteceria durante a geração existente. Alguns de
seus juízes, bem como alguns de seus discípulos, deveriam
testemunhar isso; E essa declaração não teria sentido se não
implicasse que eles a testemunhassem com seus próprios olhos e "em
carne".
PREVISÃO DAS DESGRAÇAS QUE VÊM SOBRE
JERUSALÉM
Lucas 23:27-31 "E seguia-o grande multidão de povo e de
mulheres, as quais batiam nos peitos, e o lamentavam.
Jesus, porém, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não
choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos.
Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as
estéreis, e os ventres que não geraram, e os peitos que não
amamentaram!
80
Testamento Crítico Inglês. vol. iii. p. 860, nota.
Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros:
Cobri-nos.
Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?"
Aqui temos uma declaração tão clara, assim definida em cada ponto
que você pode fixar sua referência - tempo, lugar, pessoas,
circunstâncias - que não há espaço para a incerteza. Isso aponta para
um tempo que não era muito distante, mas as portas - "dias virão" -
um tempo em que as pessoas a quem eles falaram e seus filhos
viveriam para testemunhar; um tempo de grande tribulação, que cairá
com particular severidade em mulheres e crianças; uma época em
que, na agonia de seu terror, multidões desesperadas clamavam às
montanhas e colinas para cair sobre elas e cobri-las.
Verifica-se que esses detalhes memoráveis serão extremamente
valiosos na elucidação da profecia bíblica no estágio subseqüente
desta investigação. Enquanto isso, é claro que esta descrição patética
só pode se referir à catástrofe de Jerusalém nos últimos dias de sua
história. Nós apenas temos que ir às páginas de Josefo para encontrar
os fatos que ilustram e confirmam a profecia do nosso Salvador. Os
horrores dessa trágica história culminaram no episódio de María de
Pêraea, cuja festa da província de Toledo horrorizou até os bandidos
implacáveis que vagavam por lobos famintos através da cidade. É à
luz de incidentes como este que vemos o significado completo das
palavras: "Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que não
geraram".
É com um sentimento de algo parecido impaciência que ouvimos
Stier, seduzido pela farsa do ignis fatuus de um duplo sentido,
insistindo em um significado oculto nas palavras de nosso Salvador:
"Ele falou expressamente e primariamente do julgamento de
Jerusalém e Israel, ainda Ele contemplou e se refere àquilo que foi
obscurecido neste tipo histórico - o julgamento de todos os
impenitentes e de todos os incrédulos em comum, até o
último. 81 Assim também Alford, seguindo Stier. É apenas na
imaginação do expositor, no entanto, que existe essa referência
ulterior: não há sugestão no texto; e é com espanto que encontramos
um crítico acadêmico que vai tão longe em esquecer sua verdadeira
vocação que ele declara que a "realização histórica, real e específica" é
"a menor coisa: o significado da palavra alcança muito mais". Se
alguma vez houve um caso em que não se pensasse em dois
significados e realizações típicas, certamente está aqui. Em tal hora de
angústia, só poderia haver um pensamento presente no coração de
Jesus. Ele viu a crescente tempestade de ira em que a devotada cidade
logo seria envolvida, e que explodiria com tanta violência sobre a
terna e delicada, as crianças e as mães de Jerusalém. e Ele retribuiu a
piedade que Ele recebeu daqueles corações compassivos - mais
tocados naquele momento por suas aflições antecipadas, do que pelos
seus próprios. Qual é a necessidade de ir além dessa catástrofe trágica
e procurar outra sobre a qual o contexto é totalmente silencioso?
A ORAÇÃO DO LADRÃO ARREPENDIDO
Lucas 23:42. "E ele disse a Jesus:" Lembre-se de mim quando você
entrar em seu reino".
O único ponto que nos preocupa neste incidente memorável é a
referência feita pelo malfeitor à vinda do nosso Senhor em seu reino.
Não sabemos o jeito que ele tinha adquirido esse conhecimento, pois
o reconheceu como Profeta e sabia que estava ao lado do rei de
Israel, o Filho de Deus. Ele acreditava que, apesar de sua rejeição e
crucificação por parte de Israel, um dia ele voltaria em seu reino.
Quanta fé em um homem como este e em um momento como este!
Se o ladrão na cruz ouviu o testemunho de Jesus diante do sumo
sacerdote, ou se eu soubesse o que Jesus disse a seus discípulos que:
"alguns deles não veria a morte até que tinha visto o Filho do homem
no seu reino", poderíamos explicar melhor a sua fé e oração. De
81
Reden Jesu, vol. vii. p. 426
qualquer forma, não poderia ter havido mais inteligência e precisão na
linguagem de um discípulo do que nas palavras dessa "marca
arrancada do fogo". Que noção o malfeitor considerou a respeito
daquela época, se ele a concebesse próxima ou distante, não teríamos
como saber; mas é presumível que ele considerou isso como
iminente. Um moribundo dificilmente oraria para que ele fosse
lembrado em algum momento distante, muito menos depois de
séculos e milênios se retorcerem. Em tal crise, só poderia ser o
iminente, ou o imediato, que poderia estar em seus
pensamentos. Uma coisa parece certa: a mais implausível de todas as
interpretações é aquela que representaria sua oração ainda não
respondida e a "vinda" da qual ele falou ainda entre os eventos de um
futuro incógnito.
COMISSÃO APOSTÓLICA
Mateus 28:19,20
"Ide, pois, e ensina a todas as nações, batizando-os em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar tudo o que
eu lhe ordenei; e eis que estou sempre contigo. , até o fim do mundo,
Amém ".
Marcos 16:15,20
"E disse-lhes: Ide em todo o mundo, e prega o evangelho a toda
criatura".
"E eles, saindo, pregavam em todos os lugares, ajudando o Senhor e
confirmando a palavra com os sinais que a seguiam, Amém".
Lucas 24:47
"E aquele arrependimento e perdão dos pecados seja pregado em
seu nome em todas as nações, começando a partir de Jerusalém".
É comum considerar esta comissão como se fosse dirigida a toda a
Igreja Cristã em todas as eras. Sem dúvida, é possível inferir dessas
palavras a obrigação perpétua que repousa sobre todos os cristãos em
todos os tempos, para propagar o Evangelho entre todas as nações;
mas é importante considerar as palavras em sua referência correta e
original. É a comissão de Cristo para Seus mensageiros escolhidos,
designando-os para o seu trabalho evangelístico, e assegurando-lhes a
Sua constante presença e proteção. Tem uma aplicação especial para
os apóstolos que não pode ter para outros. Nós já anunciamos o fato
de que os discípulos, a quem essa comissão foi dada, parecem não ter
entendido como direcionando-os a estender seus trabalhos
evangelísticos além dos limites da Palestina, ou a pregar o Evangelho
a judeus e gentios indiscriminadamente. É certo que eles não agiram
imediatamente, nem ainda por anos, sobre essa comissão em seu
sentido mais amplo; nem parece provável que eles o teriam feito sem
uma revelação expressa. Como o Dr. Burton mostrou, não menos de
quinze anos se passaram entre a conversão de São Paulo e sua
primeira jornada apostólica para pregar entre os gentios. "Também
não há evidências de que, durante esse período, os outros apóstolos
tenham ultrapassado os limites da Judeia". 82 Há, portanto, muita
probabilidade na opinião de que a linguagem da comissão apostólica
não transmitisse à mente a mesma ideia que nos transmite, e que,
como já vimos, a frase "todas as nações" é realmente equivalente a
"todas as tribos da terra".
Mas o que especialmente merece atenção é a notável limitação do
tempo, o "terminus ad quem", aqui especificado por nosso Salvador.
"eu estarei com vocês sempre [todos os dias], até o fim do mundo"
[sunteleias tou aionos]. Nada pode ser mais enganoso para o leitor de
uma Bíblia moderna do que a expressão "o fim do mundo"; que
inevitavelmente sugere o fim da história humana, o fim dos tempos e
a destruição da Terra - um significado que as palavras não suportarão.
Lange, embora longe de apreender o verdadeiro significado da frase,
corretamente dá o sentido, "a consumação do seculo, ou o período de
tempo que termina com a parousia". O que pode ser mais evidente
82
Palestra de Bampton de Burton p. 20
do que a promessa de Cristo de estar com Seus discípulos até o final
da era; isso não implica que eles deveriam viver até o fim da era? Essa
grande consumação não estava longe; o Senhor freqüentemente falara
sobre isso e sempre como um evento que se aproximava e que alguns
deles viveriam para ver. Foi o encerramento da dispensação mosaica;
o fim da longa provação da nação teocrática; quando todo o quadro e
tecido da comunidade judaica foi varrido, e "o reino de Deus veio
com poder". Este grande evento, que o nosso Senhor havia
declarado, deveria acontecer dentro dos limite da existente geração. O
"fim da era" coincidiu com a Parousia, e o sinal exterior e visível pelo
qual se distingue é a destruição de Jerusalém. Este é o término pelo
qual no Novo Testamento o campo é limitado. Para Israel, era "o
fim", "o fim de todas as coisas", a passagem do céu e da terra, a
revogação da velha ordem, a inauguração do novo. Desta grande
época providencial, a história nos diz muito, mas profetiza mais. A
história nos mostra os sinais previstos que estariam para acontecer; os
sintomas premonitórios da catástrofe que se aproximava - os falsos
cristos, as guerras e rumores de guerras, as insurreições e comoções,
os terremotos, fomes e pestilências; as perseguições e tribulações; as
legiões invasoras de Roma; a cidade sitiada e capturada; o templo em
chamas; as miríades abatidas; a nação extinta. Mas a história não pode
erguer o véu que pairava sobre o mundo espiritual; Ela nos leva até a
fronteira e nos convida a adivinhar o resto. Mas temos uma palavra
de profecia mais segura que, em vez de conjetura, nos dá segurança.
Revela "o Filho do homem vindo em sua glória"; o rei sentado no
trono; o tribunal e os livros abertos. Revela as ovelhas e as cabras
separadas uma da outra; a sentença dos justos para vida eterna; e dos
ímpios para o castigo eterno. Se não temos a verificação histórica do
invisível e espiritual, como temos dos elementos visíveis e materiais
dessa consumação, é porque eles não estão na natureza das coisas
igualmente cognoscíveis pelos sentidos. Mas nós os aceitamos com
base na fé em Sua palavra que declarou: "Em verdade vos digo que
todas estas coisas hão de vir sobre esta geração"; e novamente: "Em
verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas
coisas se cumpram". "O céu e a terra passarão, mas minhas palavras
não passarão." O cumprimento literal de tudo o que se enquadra na
esfera da observação humana é o comprovante para a credibilidade
do restante, que pertence ao reino do invisível e do espiritual.
LEITURA COMPLEMENTAR ADICIONAL
A maioria das pessoas não percebe que muitas, se não a maioria das
parábolas de Jesus, não pretendiam ser contos de moralidade geral,
mas como pronunciamentos específicos de julgamento e mudança
vindouros. Jesus estava alertando Jerusalém para se arrepender e
aceitar seu novo Rei (Jesus), ou então cairia na condenação final de
Deus.
Na verdade, muito do ensino de Jesus nos Evangelhos diz respeito
principalmente àquela multidão anterior ao ano 70 dC e, sem lê-lo
sob esta luz, o entendemos mal. E quando entendemos mal,
aplicamos mal. Por isso recomendamos a leitura das ―Indicações
Proféticas da consumação que se aproxima‖ no blog:
https://arquivopreterista.blogspot.com/2020/08/indicacoes-
profeticas-da-consumacao-que.html
As parábolas que Jesus conta durante Sua jornada final para
Jerusalém (Lucas 9:51-20:26 e além) quase todas dizem respeito à
rebelião, falta de fé, julgamento e destruição vindoura de Jerusalém e
a salvação de um pequeno remanescente de Seus eleitos pessoas.
APÊNDICE ADICIONAL
A DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM,
Uma prova Absoluta e Irresistível
da origem do Cristianismo
Por George Peter Holford
(escrito em 1805)
"Eu considero absolutamente irresistível a profecia relativa à
destruição da nação judaica como se nada mais houvesse para apoiar
o Cristianismo".83
Neste apêndice, compartilharei com o leitor trechos de um
pequeno livro escrito por George Peter Holford em 1805 sobre a
destruição de Jerusalém.
PREFÁCIO84
A história registra poucos eventos de maior interesse geral do que a
destruição de Jerusalém e a subversão do estado judeu pelas armas
dos romanos. – A conexão íntima dos judeus com a dissolução da
economia levítica e o estabelecimento do Cristianismo no mundo; a
chocante verificação que oferecem de tantas profecias, tanto do
Antigo como do Novo Testamento, e os poderosos argumentos da
autoridade divina das Escrituras que daí derivam; as solenes
advertências e admoestações que dirigem a todas as nações, mas
especialmente àquelas favorecidas com a luz e as bênçãos da
Revelação; junto com a grandeza impressionante e terrível dos
próprios eventos - são circunstâncias que sempre asseguram ao leitor
83
(Discurso do Sr. Erskine, no Julgamento de Williams, pela publicação de Age
of Reason, de Paine).
84
Prefácio de GH LONDON, 1805.
das páginas seguintes mais do que graus normais de interesse e
importância. Muitos homens eminentes e eruditos empregaram suas
penas para ilustrá-las; mas os frutos de seu trabalho estão, em sua
maior parte, contidos em obras grandes e caras, fora do alcance de
muitos, para quem a discussão pode ser igualmente interessante e
aprimoradora. Para seu uso e gratificação, o presente tratado, de uma
forma mais acessível e familiar, é timidamente oferecido ao público.
Para que possa ser mais bem adaptado ao leitor em geral,
questionamentos críticos e detalhes tediosos são igualmente evitados.
Mas, o escritor cuidou de não omitir nenhum fato ou argumento
importante que, em sua opinião, elucidasse o assunto. Apoiado pelo
exemplo de muitos nomes respeitáveis, ele se aventurou a apresentar
os extraordinários prodígios, que, segundo Josefo, precederam a
destruição da Cidade Santa. Ele também acrescentou algumas frases
em sua defesa, mas não expressou sua admissão irrestrita de sua
autenticidade.
Mediante a assinatura do tratado, geralmente, o público determinará.
A utilidade é o objetivo principal do escritor; e se uma leitura dela
contribuir, sob a benção divina, para confirmar a fé vacilante de
apenas um cristão ou para abalar a vã confiança de um único
descrente, seu trabalho será abundantemente recompensado.
A Destruição de Jerusalém
A bondade de Deus marca todos os seus procedimentos. Tem Lhe
agradado não só comunicar à humanidade uma revelação, que, para a
mente piedosa, traz em sua textura interna sua própria evidência e
recomendação, mas também acompanhá-la com tais provas externas
de uma origem sagrada, como parecem calculadas para atingir, com
irresistível convicção, mesmo aqueles que estão menos dispostos a
admitir a verdade das Sagradas Escrituras. Para evidenciar sua
autenticidade divina, Deus fez tudo o que o homem poderia ter
exigido. 85 Pois, supondo que foi referido que a humanidade
prescreveu para sua própria satisfação, e de sua prosperidade, as
credenciais que Seus mensageiros deveriam trazer consigo, a fim de
autenticar a divindade de sua missão, poderiam os mais sábios e
céticos entre os homens propor, para este fim, qualquer coisa mais
conclusiva do que:
1- Demonstrações de poder, superando todos os efeitos possíveis da
habilidade e esforço humanos; e
2- Inteligência relativa aos eventos e circunstâncias futuras de nações
e indivíduos, que nenhuma sagacidade humana jamais fingiria prever?
Se tais fossem as evidências exigidas, que acréscimo a elas poderia
ter sido sugerido? Está na mente humana imaginar quaisquer testes de
autoridade divina mais bem adaptados, mais cedo ou mais tarde, para
expor os artifícios e frustrar os projetos de um impostor? Em vão a
política mais profunda tentará descobrir os meios mais adequados
para este propósito e, com respeito à recepção da própria revelação,
mais perfeitamente adequados para banir todas as dúvidas razoáveis,
por um lado, e invalidar a acusação de credulidade no de outros. Ora,
essas, precisamente, são as credenciais com as quais agradou a Deus
sancionar o testemunho de seus mensageiros inspirados, conforme
registrado nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento. Eles
fizeram milagres e previram eventos futuros. Assim, tudo o que o
próprio homem poderia exigir foi dado, e os objetores não têm
desculpa.
Jesus Cristo, o principal desses mensageiros, como seus tipos
85
Esta afirmação é suficiente para o propósito do escritor. - O fato, porém, é
que o Todo-Poderoso, neste aspecto, como em qualquer outro, fez pelo
homem "muito mais do que "ele" pode pedir ou pensar". - O esquema daquela
evidência que demonstra a autoridade divina da Bíblia só poderia ter sido
construído por Aquele "que conhece todas as coisas" e que vê o fim desde o
princípio.
ilustres e predecessores (p.ex., Moisés e Elias), proclamou e atestou
sua missão divina ao mesmo tempo por atos milagrosos e por
declarações proféticas. Seus milagres foram numerosos, diversificados
e realizados em várias partes de seu país natal; não eram truques
frívolos, calculados apenas para despertar admiração e gratificar a
curiosidade, mas atos de substancial utilidade e benevolência. Eles
eram públicos, mas não de forma ostensiva, exibicionista. Na
presença não apenas de amigos, mas também de inimigos. Os
inimigos ficavam exasperados com maldade contra Ele, porque
censurou seus vícios e expôs suas hipocrisias. Eles atuaram por todo
motivo que um espírito de vingança pudesse sugerir a um preconceito
incurável, para induzi-los a detectar a imposição de seus milagres, se
falso, e para negar e desacreditá-los, se verdadeiro. Eles se esforçaram
para afundá-Lo em descrédito. Eles atribuíram os milagres ao arbítrio
de Satanás; assim representando-o, "que foi um mentiroso desde o
início", mas contribuíram ainda mais para a difusão da verdade - "o
espírito que opera nos filhos da desobediência" foi como um
promotor da causa da santidade como cooperando na derrubada de
seu próprio reino, pois Ele "se manifestou para destruir as obras do
Diabo".
As profecias de nosso Senhor, assim como seus milagres, foram
muitas e de grande variedade. Não foram entregues com pompa e
desfile, mas surgiram fora das ocasiões e parecem ter resultado, na
maior parte, de sua solicitude afetuosa por aqueles que então eram,
ou poderiam vir a se tornar, seus discípulos. Enquanto o
cumprimento de algumas dessas predições se limitou ao prazo de Sua
missão e aos limites de Seu país, o cumprimento de outras se
estendeu a todas as nações e a todas as idades futuras do mundo.
Das profecias que já foram cumpridas, poucas, talvez, são tão
interessantes em si mesmas, ou tão marcantes em seu cumprimento,
como aquelas que se relacionam com a destruição de Jerusalém e seu
Templo, e as calamidades marcantes que ocorreram em todos os
lugares da nação judaica. As principais previsões de nosso Senhor,
relativas a esses eventos, estão contidas em Mateus 24, Marcos 13,
Lucas 19:41-44, 23:27-30 e 21. Podemos com confiança apelar aos
fatos que os verificam como provas conclusivas e incontestáveis da
divindade de Sua missão.
No segundo dia da semana, imediatamente anterior à Sua
crucificação, nosso bendito Salvador fez Sua entrada pública e
triunfal em Jerusalém, em meio às aclamações de uma grande
multidão de Seus discípulos, que o saudaram REI DE SIÃO, e com
ramos de palmeira, os emblemas da vitória, em suas mãos, alegraram-
se e deram louvores a DEUS por todas as obras poderosas que
tinham visto, cantando: "Hosana! bendito seja o REI que vem em
nome do Senhor! Paz nos céus e glória nas alturas!" Mas, enquanto o
povo exultava e felicitava triunfantemente o MESSIAS, Ele lutando
com as mais profundas emoções de piedade e compaixão por
Jerusalém, contemplou a cidade e chorou por ela, dizendo: "Se tu
soubesses, tu mesmo, pelo menos neste teu dia, as coisas que
pertencem à tua paz! Mas, agora, eles estão escondidos de teus olhos;
porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de
trincheiras, e te cercarão, e te manterão por dentro; 'E te derrubarás, e
teus filhos dentro de ti, e eles não deixarão em ti pedra sobre pedra;
porque não conheceste o tempo da tua visitação". 86 Quatro dias
depois, faltando apenas dois dias para sua morte, Ele foi pela última
vez ao templo para ensinar o povo: enquanto estava assim
empregado, os sumos sacerdotes e os anciãos, os herodianos, os
saduceus e os fariseus, sucessivamente, vinham a Ele e O
questionavam sutilmente, desejosos de "enredá-lo em Sua conversa";
a quem, com Sua costumeira dignidade e sabedoria, Ele retornou
respostas que carregavam convicção em seus corações, e ao mesmo
tempo silenciou e espantou eles. Então, voltando-se para Seus
discípulos e toda a multidão, dirigiu-lhes um discurso de energia
muito incomum, no qual, com a mais requintada acuidade de
reprovação, Ele expôs e condenou a crueldade e o orgulho, a
86
Lucas 19:42-44
hipocrisia e a sensualidade dos "fariseus e escribas" da então geração
existente, adicionando aquela apóstrofe inimitavelmente tenra e
patética a esta cidade devotada: "Ó Jerusalém, Jerusalém, tu que
matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes
eu teria reunido teus filhos juntos, assim como uma galinha ajunta
seus pintinhos sob as asas, e vós não quisestes! Eis vossa CASA ficará
deserta; porque vos digo que de agora em diante não me vereis mais,
até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor!"87 Tendo dito
isso, Ele saiu do templo e, ao partir, Seus discípulos chamaram sua
atenção para a magnitude e esplendor do edifício. Eles falaram:
"Como era adornado com belas pedras e presentes"; e disseram-Lhe:
"Mestre Veja! que tipo de pedras e edifícios existem aqui! E, Jesus
disse-lhes: Não vedes todas estas coisas? Em verdade vos digo que
não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada". Quando
consideramos a antiguidade e santidade do templo, sua estupenda
estrutura, sua solidez e a incomum magnitude das pedras de que foi
composta, podemos, em certa medida, conceber o espanto que esta
declaração de nosso Senhor deve ter suscitado na mente de seus
discípulos. No entanto, esta notável predição (como veremos a
seguir) foi literalmente cumprida, e, como nosso Senhor havia
predito, seria durante a existência da geração à qual Ele se dirigiu.
Nosso Senhor retirou-se agora para o Monte das Oliveiras, para
onde os discípulos O seguiram, a fim de fazer perguntas mais
específicas sobre o tempo em que os eventos calamitosos por Ele
preditos aconteceriam. O Monte das Oliveiras comandava uma visão
completa de Jerusalém e do templo. Nenhuma situação, portanto,
poderia ter sido melhor adaptada para dar energia a uma previsão que
se relacionava principalmente com sua total ruína e demolição.
Supormos (e a suposição é altamente provável) que nosso Senhor,
enquanto no ato de falar, apontou para os edifícios majestosos e
estupendos, cuja destruição Ele predisse, cada palavra que proferiu
deve ter sido revestida de sublimidade inexprimível, e deriva das
87
Mateus 23:37-39
circunstâncias da paisagem circundante, uma força e um efeito que
não é possível conceber adequadamente.
"Diga-nos, quando serão essas coisas? e qual será o sinal de
quando todas essas coisas se cumprirem?" Tais foram as perguntas
dos discípulos, em resposta às quais nosso Senhor condescendeu em
dar-lhes um relato particular dos vários eventos importantes que
viriam antes, bem como dos prognósticos que anunciariam as
desolações que se aproximam; incluindo orientações adequadas para a
regulamentação de sua conduta sob as várias provações a que
deveriam ser expostos. Ele começa com uma advertência: "Preste
atenção", "que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu
nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos". A
necessidade deste aviso amigável logo apareceu; pois dentro de um
ano após a ascensão de nosso Senhor, levantou-se Dositeu, o
Samaritano, que teve a ousadia de afirmar que ele era o Messias, de
quem Moisés profetizou; enquanto seu discípulo Simão Magus iludiu
multidões na crença de que ele próprio era o "Grande Poder de
Deus". Cerca de três anos depois, outro impostor samaritano
apareceu e declarou que mostraria ao povo os utensílios sagrados, que
teriam sido depositados por Moisés, no monte Gerizim. Induzido
pela ideia de que o Messias, seu grande libertador, havia chegado,
uma multidão armada reuniram-se sob seu comando, mas Pilatos os
derrotou rapidamente e matou seu chefe. Enquanto Cuspius Fadus
era procurador na Judeia, surgiu outro enganador, cujo nome era
Teudas.88 Este homem realmente conseguiu persuadir uma grande
multidão a pegar seus pertences e segui-lo até o Jordão, garantindo-
lhes que o rio se dividiria sob seu comando. Fadus, entretanto,
perseguiu-os com uma tropa de cavalos e matou muitos deles, e,
entre os outros, o próprio impostor, cuja cabeça foi decepada e
transportada para Jerusalém. Sob o governo de Félix, enganadores se
levantaram diariamente na Judeia e persuadiram o povo a segui-los
para o deserto, assegurando-lhes que deveriam ver sinais e maravilhas
88
Este não é o Theudas mencionado em Atos v. 36.
realizadas pelo Todo-Poderoso. Destes, Félix, de vez em quando,
prendia muitos e os matava. Sobre este período (55 dC), surgiu o
célebre impostor egípcio, que reuniu trinta mil seguidores e os
persuadiu a acompanhá-lo ao Monte das Oliveiras, dizendo-lhes que
dali deveriam ver as muralhas de Jerusalém caírem em seu comando,
como um prelúdio para a captura da guarnição romana, e para a
obtenção da soberania da cidade. O governador romano, no entanto,
apreendeu este no início da revolta, imediatamente os atacou, matou
quatrocentos deles e dispersou o resto; mas o egípcio escapou. Na
época de Porcius Festus (60 dC), outro distinto impostor seduziu o
povo, prometendo-lhes a libertação do jugo romano, se eles o
seguissem no deserto; mas Festus enviou uma força armada que
rapidamente destruiu o enganador e seus seguidores. Em suma, os
impostores, a uma comissão divina, contínua e fatalmente enganaram
o povo, e imediatamente justificaram a cautela e cumpriram a
predição de nosso Senhor.
Se for objetado que nenhum desses impostores, exceto Dositeu,
assumiu o nome de Messias, respondemos, que as expectativas
humilhantes dos judeus eram dirigidas a um Messias que deveria
meramente libertá-los do jugo romano e "restaurar o reino para
Jerusalém"; e tais eram as pretensões desses enganadores. Essa
expectativa, de fato, é a única solução verdadeira para essas estranhas
e reputadas insurreições; o que naturalmente lembrará o leitor das
seguintes expressões proféticas de nosso Senhor: "Eu vim em nome
de meu Pai, e não me aceitais; se outro vier em seu próprio nome, a
esse recebereis". "Se eles vos disserem: "Eis que ele está no deserto!"
não vá em frente. Eles vão mostrar (ou fingir mostrar) grandes sinais
e maravilhas".89 Nosso Salvador assim procedeu: "E ouvireis falar de
guerras e rumores de guerras; vede que não sejais perturbados:
porque todas estas coisas devem acontecer, mas o fim ainda não é,
89
A palavra original significa que, na linguagem das Escrituras, há uma
distinção clara entre dar um sinal e o próprio sinal , é suficientemente provado
por Deuteronômio 13:1,2
porque nação se levantará contra nação e reino contra reino, e
grandes terremotos ocorrerão em vários lugares, e fomes e pestes:
tudo isso é o começo das dores" (Mt 24.7-8).
Lucas 21:11: "Guerras e rumores de guerras".
Essas comoções, como trovões distantes, que pressagiam a
tempestade que se aproxima, foram tão frequentes, desde a morte de
nosso Senhor até a destruição de Jerusalém, que todo aquele intervalo
poderia, com propriedade, apelar para a ilustração desta profecia.
Cento e cinquenta das copiosas páginas de Josefo, que contêm a
história deste período, estão em todos os lugares manchadas de
sangue. Para particularizar em alguns casos: Cerca de três anos após a
morte de Cristo, eclodiu uma guerra entre Herodes e Aretas, rei da
Arábia Petraea, na qual o exército do primeiro foi eliminado. Este era
um reino se levantando contra reino. As guerras são geralmente
precedidas de rumores. Pode, portanto, parecer absurdo tentar uma
elucidação distinta desta parte da profecia; no entanto, não se deve
omitir que, nessa época, o imperador Calígula, tendo ordenado que
sua estátua fosse colocada no templo de Jerusalém, e os judeus tendo
insistido em recusá-la, toda a nação ficou muito alarmada, pela mera
apreensão de guerra, que negligenciaram até mesmo o cultivo de suas
terras! A tempestade, entretanto, passou.
Sobre este período, um grande número de judeus, por causa de uma
pestilência que assolou a Babilônia, mudou-se daquela cidade para
Selêucia, onde os gregos e sírios se levantaram contra eles, e
destruíram deste povo devoto mais de cinco miríades! "A extensão
desta matança (diz Josefo) não teve paralelo em nenhum período
anterior de sua história". Novamente, cerca de cinco anos depois
deste massacre terrível, aconteceu uma disputa severa entre os judeus
na Pereia e os Filadélfia, respeitando os limites de uma cidade
chamada Mia, na qual muitos dos primeiros foram mortos. Esta era
uma nação se levantando contra outra. Quatro anos depois, sob
Cumano, indignidade foi oferecida aos judeus dentro do recinto do
templo, por um soldado romano, do qual eles se ressentiram
violentamente; mas, com a aproximação dos romanos com grande
força, o terror foi tão excessivo, e tão desordenado e precipitado em
sua fuga, que não menos de dez mil judeus foram pisoteados até a
morte nas ruas. Isso, novamente, era nação se levantando contra
nação. Quatro anos mais não se passaram, antes que os judeus
fizessem guerra contra os samaritanos e devastassem seu país. O
povo de Samaria havia assassinado um galileu que estava subindo a
Jerusalém para celebrar a Páscoa, e os judeus o vingaram. Em
Cesaréia, tendo os judeus uma contenda acirrada com os sírios pelo
governo da cidade, um apelo foi feito a quem o decretou aos sírios.
Este evento lançou as bases de uma disputa mais cruel e sanguinária
entre as duas nações. Os judeus, mortificados pelo desapontamento e
inflamados pelo ciúme, se levantaram contra os sírios, que os
repeliram com sucesso. Somente na cidade de Cesaréia, mais de vinte
mil judeus foram mortos. A chama, no entanto, não foi apagada;
espalhou sua fúria destrutiva onde quer que judeus e sírios vivessem
juntos no mesmo lugar: por toda cidade e vila, a animosidade mútua e
massacre prevaleciam. Em Damasco, Tiro, Ascalon, Gadara e
Citópolis, a carnificina foi terrível. Na primeira dessas cidades, dez
mil judeus foram mortos em uma hora, e em Citópolis treze mil
traiçoeiramente em uma noite. Em Alexandria, os judeus, ofendidos
pela opressão dos romanos, se levantaram contra eles; mas os
romanos, ganhando ascendência, mataram daquela nação cinquenta
mil pessoas, não poupando crianças nem idosos. E depois disso, no
cerco de Jopata, não menos de quarenta mil judeus pereceram.
Enquanto essas disputas destrutivas prevaleciam no Oriente, as partes
ocidentais do Império Romano foram dilaceradas pelos ferozes
contenciosos: Galba, Otho e Vitélio. Os três imperadores, é notável
que todos eles, junto com Nero, seu predecessor imediato, morreram
de uma morte violenta, no curto espaço de dezoito meses.
Finalmente, toda a nação dos judeus pegou em armas contra os
romanos, o rei Agripa, e provocou aquela guerra terrível que, em
poucos anos, inundou a Judeia em sangue, e deixou sua capital em
ruínas.
Se for aqui contestado, que, porque as guerras são eventos de
ocorrência frequente, seria impróprio referir-se à previsão
sobrenatural uma previsão bem-sucedida a respeito deles, responde-
se que muito dessa objeção será removida, considerando a
incompetência dos próprios estadistas em prever a condição, apenas
por alguns anos, da própria nação cujos negócios eles administram. É
um fato bem conhecido que o atual ministro da Grã-Bretanha, nas
vésperas da última longa e destrutiva guerra com a República
Francesa, mostrou a este país uma imagem de quinze anos sucessivos
de paz e de fato, os bons pontos dos quais a paz e a guerra dos dez
dependem, confundem todos os cálculos dos aspectos presentes; e
um boato de guerra, então alto e tão alarmante, que até mesmo
suspendeu as operações de lavoura, pode terminar, como acabamos
de ver, em nada além de rumores. Mais adiante, consideremos, que as
guerras às quais esta parte da profecia de nosso Senhor se refere,
deveriam ser de dois tipos, e que o evento correspondeu de acordo;
que ocorreram dentro do período para o qual ele os designou; que
eles caíram com a mais destrutiva severidade sobre os judeus, aos
quais a profecia em geral se relacionava principalmente, e que a
pessoa que os previu não estava na condição de um estadista, mas na
de filho de um Carpinteiro! Sobre esse assunto falaremos mais em
outro lugar.
"E grandes terremotos ocorrerão em diversos lugares".
Destes emblemas significativos de comoções políticas, ocorreram
vários no cenário desta profecia e, como nosso SALVADOR previu,
em diversos lugares. No reinado de Cláudio houve um em Roma, e
outro em Apamea na Síria, onde residiam muitos dos judeus. O
terremoto neste último lugar foi tão destrutivo, que o imperador, a
fim de aliviar o sofrimento dos habitantes, remeteu seu tributo por
cinco anos. Ambos os terremotos são registrados por Tácito. Houve
um também, no mesmo reinado em Creta. Isso é mencionado por
Filóstrato, em sua "Vida de Apolônio", que diz que "havia outros em
Esmirna, Mileto, Quios e Samos; em todos os lugares que os judeus
haviam se estabelecido". No reinado de Nero, houve um terremoto
em Laodicéia. Tácito também registra isso. É igualmente mencionado
por Eusébio e Orósio, que acrescentam que Hierópolis e Colose, bem
como Laodicéia, foram derrubados por um terremoto. Houve
também um na Campânia neste reinado (deste fato tanto Tácito
quanto Sêneca registraram) e outro em Roma no reinado de Galba,
registrado por Suetônio; a todos os que podem ser acrescentados
aqueles que aconteceram naquela noite terrível quando os idumeus
foram excluídos de Jerusalém, pouco tempo antes do cerco começar.
"Uma forte tempestade (diz Josefo) estourou sobre eles durante a
noite, ventos violentos surgiram, acompanhados das chuvas mais
excessivas, com relâmpagos constantes, trovões tremendos, e com
rugidos terríveis de terremotos. Parecia (continua ele) como se o
sistema do mundo tinha sido confundido pela destruição da
humanidade; e pode-se muito bem conjeturar que esses eram sinais
de eventos não comuns".
Nosso Senhor previu "fomes".
Destes, o principal foi o que Ágabo predisse que aconteceria nos
dias de Cláudio, conforme relatado nos Atos dos Apóstolos.
Começou no quarto ano de seu reinado e teve longa duração.
Estendeu-se pela Grécia e até pela Itália, mas foi sentido mais
severamente na Judeia e especialmente em Jerusalém, onde muitos
morreram por falta de pão. Esta fome é registrada por Josefo
também, que relata que "um assaron de milho foi vendido por cinco
dracmas", Também é notado por Eusébio e Orósio. Para aliviar esta
terrível calamidade, Helena, rainha de Adiabena, que estava naquela
época em Jerusalém, ordenou que grandes suprimentos de grãos
fossem enviados de Alexandria; e Izates, seu filho, consignou vastas
somas aos governadores de Jerusalém, para serem aplicadas ao alívio
dos sofredores mais indigentes. Os convertidos cristãos gentios que
residiam em países estrangeiros, também enviaram, por iniciativa de
São Paulo, contribuições liberais, para aliviar as aflições de seus
irmãos judeus. (1 Co. 16.3) Dion Cassius relata que havia fome no
primeiro ano de Cláudio, que prevaleceu em Roma, e em outras
partes da Itália; e, no décimo primeiro ano do mesmo imperador,
houve outro, mencionado por Eusébio. A estes podem ser
adicionados aqueles que afligiram os habitantes de várias das cidades
da Galileia e da Judeia, que foram sitiadas e levadas, antes da investida
de Jerusalém, onde o clímax da miséria nacional, decorrente desta e
de todas as outras causas, foi assim terrivelmente concluído.
Nosso Senhor adiciona "pestilências" da mesma forma. A
pestilência segue os passos da fome, pode-se, portanto,
razoavelmente presumir, que esse terrível flagelo acompanhou as
fomes que acabamos de enumerar. A história, entretanto, distingue
particularmente dois exemplos dessa calamidade, que ocorreu antes
do início da guerra judaica. A primeira ocorreu na Babilônia por volta
de 40 dC e foi tão alarmante que grandes multidões de judeus fugiram
daquela cidade para Selêucia em busca de segurança. O outro
aconteceu em Roma, em 65 dC, e levou consigo multidões
prodigiosas. Tanto Tácito quanto Suetônio também registram que
calamidades semelhantes prevaleceram, durante este período, em
várias partes do Império Romano. Depois que Jerusalém foi cercada
pelo exército de Tito, doenças pestilenciais logo apareceram ali para
agravar as misérias e aprofundar os horrores do cerco. Eles foram
ocasionados em parte pelas imensas multidões que se aglomeravam
na cidade, em parte pelos eflúvios pútridos que surgiam dos mortos
não enterrados e em parte pela propagação da fome.
Nosso Senhor prosseguiu: "E terríveis visões e grandes sinais virão
do céu".90
Josefo reuniu o principal desses presságios e apresenta seu relato
por meio de uma reflexão sobre a estranheza desses eventos que
poderiam induzir seus conterrâneos a dar crédito a impostores e
90
Lucas 21:11.
relatos infundados, enquanto eles desconsideravam as admoestações
divinas confirmados como ele afirma que foram pelos seguintes sinais
extraordinários:
1- "Um meteoro, semelhantemente extraordinário, 91 pairou sobre
Jerusalém durante um ano inteiro". Não podia ser um cometa, pois
era estacionário e era visível por doze meses consecutivos. Uma
espada também é um emblema mais adequado para a destruição.
2- "No oitavo dia do mês de Zanthicus (antes da festa dos pães
ázimos), na hora nona da noite, brilhava ao redor do altar e dos
edifícios circunjacentes do templo uma luz igual ao brilho do dia que
continuou pelo espaço de meia hora". Não podia ser efeito de um
raio, nem de uma vívida aurora boreal, pois estava confinada a um
despojo particular e a luz brilhava ininterruptamente por trinta
minutos.
3- "Enquanto o sumo sacerdote conduzia uma novilha ao altar para
ser sacrificada, ela deu à luz um cordeiro, no meio do templo". Tal é
o estranho relato do historiador. Alguns podem considerá-lo uma
"fábula grega", enquanto outros podem pensar que discernem neste
prodígio uma repreensão milagrosa da infidelidade e impiedade
judaica, por rejeitar o Cordeiro ANTITÍPICO, que se ofereceu como
expiação, "de uma vez por todas" e que, cumprindo assim
completamente seu desígnio, tinha virtualmente revogado os
sacrifícios levíticos. Seja como for, as circunstâncias do prodígio são
notáveis. Não ocorreu em uma parte obscura da cidade, mas no
templo; não em uma hora normal, mas na Páscoa, a temporada da
crucificação do nosso Senhor, na presença, não do vulgar apenas, mas
dos altos sacerdotes e seus assistentes, e quando eles estavam levando
o sacrifício ao altar.
4- "Por volta da hora sexta da noite, o portão oriental do templo foi
91
1 Cronicas 21:16.
visto abrir sem ajuda humana". Quando os guardas informaram o
Curador deste acontecimento, este enviou homens para os ajudar a
fechá-lo, que com grande dificuldade conseguiram. Este portão,
como já foi observado, "era de latão maciço e exigia que vinte
homens o fechassem todas as noites". Não poderia ter sido aberto
por uma "forte rajada de vento" ou um ligeiro terremoto; pois Josefo
diz que "era seguro por parafusos e barras de ferro, que foram
baixados em um grande limiar; consistindo de uma pedra inteira". 92
5- "Logo após a festa da Páscoa, em várias partes do país, antes do
pôr do sol, carros e homens armados foram vistos no ar, passando ao
redor de Jerusalém". Não poderia este espectáculo portentoso ser
ocasionado pelo aurora boreal, pois ocorreu antes do pôr do sol; ou
nem apenas a fantasia de alguns aldeões, olhando para o céu, pois foi
vista em várias partes do país.
6- "Na subsequente festa de Pentecostes, enquanto os sacerdotes iam,
à noite, para o interior do templo para realizar suas ministrações
habituais, eles primeiro sentiram, como disseram, um tremor,
acompanhado por um murmúrio indistinto, e depois vozes como de
uma multidão, dizendo, de uma maneira distinta e sincera: "DEIXE-
NOS PARTIR DAQUI". Esta gradação lembrará o leitor daquela
terrível transação em que, na festa de Pentecostes, instituiu-se
principalmente para se comemorar. Primeiro, um tremor foi ouvido;
isso induziria naturalmente os sacerdotes a ouvir um murmúrio
ininteligível bem-sucedido; isso prenderia mais poderosamente a
atenção deles, e enquanto era assim despertado e fixo, eles ouviram,
diz Josefo, as vozes como de uma multidão, distintamente
pronunciando as palavras: "DEIXE-NOS PARTIR DAQUI". E,
portanto, antes que o período para celebrar esta festa voltasse, a
guerra judaica havia começado, e no espaço de três anos depois,
Jerusalém foi cercada pelo exército romano, o templo convertido em
92
A conclusão que os judeus tiraram. a partir deste evento foi, que a
segurança do templo se foi.
uma cidadela, e seus tribunais sagrados fluindo com o sangue de
vítimas humanas.
7- Como último e mais terrível presságio, Josefo relata que um certo
Jesus, o filho de Ananus, um rústico da classe baixa, durante a Festa
dos Tabernáculos, repentinamente exclamou no templo: "Uma voz
do leste, uma voz do oeste - uma voz dos quatro ventos - uma voz
contra Jerusalém e o templo - uma voz contra noivos e noivas - uma
voz contra todo o povo!" Essas palavras, ele proclamou
incessantemente em voz alta dia e noite, por todas as ruas de
Jerusalém, por sete anos e cinco meses, começando em um momento
(62 dC) quando a cidade estava em um estado de paz e
transbordando de prosperidade, e terminando em meio aos horrores
do cerco. Este perturbador, tendo despertado a atenção da
magistratura, foi levado perante Albinus, o governador romano, que
ordenou que ele fosse açoitado. Mas, as mais severas listras não
arrancaram dele lágrimas nem súplicas. Como nunca agradeceu aos
que o socorreram, também não se queixou da injustiça dos que o
golpearam. E, nenhuma outra resposta poderia o governador obter
aos seus interrogatórios, mas sua denúncia usual de "Ai, ai de
Jerusalém!" que ele ainda continuou a proclamar pela cidade, mas
especialmente durante os festivais, quando suas maneiras se tornaram
mais sérias e o tom de sua voz mais alto. Por fim, no início do cerco,
ele subiu as muralhas e, com uma voz mais poderosa do que nunca,
exclamou: "Ai, ai desta cidade, deste templo e deste povo!" E então,
com uma apresentação de sua própria morte, acrescentou: "Ai, ai de
mim mesmo". Ele mal havia pronunciado essas palavras quando uma
pedra de uma das máquinas romanas o matou no local.
Tais são os prodígios relatados por Josefo que, exceto o primeiro,
encontra-se no ano imediatamente anterior à guerra judaica. Vários
deles são registrados também por Tácito. No entanto, deve-se
observar que eles são recebidos pelos escritores cristãos com cautela e
com vários graus de crédito. Aqueles, entretanto, que são mais
céticos, e que os resolvem em causas naturais, permitem que a
"superintendência de DEUS desperte seu povo por alguns desses
meios". Qualquer que seja o fato, a este respeito, pode ser, é claro,
que eles correspondem à predição de nosso Senhor de "visões
terríveis e grandes sinais do céu"; e deve ser considerada uma
resposta suficiente para o objetor, que exige se tais aparições são
registradas de forma respeitável.
A próxima predição de nosso Senhor relacionava-se com as
perseguições de seus discípulos: "Imporão as mãos sobre vocês (disse
ele), e os perseguirão, entregando-os nas sinagogas e nas prisões,
sendo apresentados a reis e governantes por causa do meu nome"
(Lucas 21.12). "E eles vos entregarão aos conselhos, e nas sinagogas
sereis espancados" (Marcos 13.9). "Vocês serão traídos até por pais,
irmãos, parentes e amigos, e eles entregarão alguns de vocês à morte"
(Lucas 21.16). Na própria infância da igreja cristã, essas crueldades
não merecidas e não provocadas começaram a ser infligidas. Nosso
Senhor, e seu precursor João Batista, já havia sido submetido a morte;
os apóstolos Pedro e João foram presos primeiro, e então, junto com
os outros apóstolos, foram açoitados perante o conselho judaico;
Estevão, após pregar a Palavra de Deus no Sinédrio com sua
eloquência irresistível, foi apedrejado até a morte; Herodes Agripa
"estendeu as mãos para irritar certos da igreja", decapitou Tiago, o
irmão de João, e novamente prendeu Pedro, planejando matá-lo
também; São Paulo suplicou perante o conselho Judaico em
Jerusalém, e diante de Félix, o governador romano, que tremia na
cadeira de juiz, enquanto o intrépido prisioneiro "raciocinava sobre a
justiça, a temperança e o julgamento vindouro!" Dois anos depois, ele
foi levado perante o tribunal de Festo (que sucedera Félix no
governo), estando presente o rei Agripa, o mais jovem, que, enquanto
o governador zombava, ingenuamente reconheceu a força da
eloquência do Apóstolo, e, meio convencido, exclamou: "Quase me
persuades a ser um cristão". Por último, ele implorou perante o
imperador Nero em Roma; ele também foi levado com Silas perante
os governantes de Filipos, onde ambos foram açoitados e presos.
Paulo foi igualmente preso dois anos na Judeia, e depois duas vezes
em Roma, cada uma pelo espaço de dois anos. Ele "foi açoitado pelos
judeus cinco vezes, três vezes espancado com varas e foi apedrejado;
ele mesmo, antes de sua conversão, era um instrumento de
cumprimento das predições". São Lucas relata que "ele destruiu a
igreja, entrando em todas as casas, e odiando homens e mulheres, os
condenou à prisão; quando foram condenados à morte, ele deu sua
voz contra eles; puniu-os frequentemente em todas as sinagogas e
perseguiu-os até mesmo em cidades estranhas e com isso concordam
suas próprias declarações (At 26.10-11; Gl 1.23). Por fim, cerca de
dois anos antes da guerra judaica, a primeira perseguição geral
começou por instigação do imperador Nero, "que", diz Tácito,
"infligiu os cristãos com castigos extremamente dolorosos";
multidões sofreram um cruel martírio, em meio a zombarias e
insultos, e entre os outros os veneráveis apóstolos São Pedro e São
Paulo.
Nosso Senhor continua: "E sereis odiados de todas as nações por
causa do meu nome". (Mateus 24.9) O ódio do qual as perseguições
acima citadas surgiram, não foi provocado por parte dos cristãos por
uma resistência contumaz à autoridade estabelecida, ou por quaisquer
violações da lei, mas foi a consequência inevitável deles sustentarem o
nome e imitarem o personagem de "seu MESTRE". "Foi uma
guerra", diz Tertuliano, "ser cristão já era crime suficiente". E, no
mesmo sentido é aquela expressão de Plínio em sua carta a Trajano:
"Eu perguntei se eles eram cristãos; se eles confessassem, eu
perguntei a eles uma segunda e terceira vez, ameaçando-os com
punição, e aos que perseverassem, ordenei que fossem conduzidos à
morte". É acrescentado: "De todas as nações". Qualquer animosidade
ou dissensão que pudesse subsistir entre os gentios e os judeus em
todo lugar, desaparecia, pois os romanos estavam sempre prontos
para se unir e cooperar na perseguição dos humildes seguidores dEle,
que vieram a ser uma LUZ para os primeiros e a GLÓRIA dos
segundos.
"E então muitos ficarão ofendidos e trairão uns aos outros".
(Mateus 24.10)
Sobre este fato, o seguinte testemunho decisivo de Tácito pode ser
suficiente. Falando das perseguições aos cristãos sob Nero, às quais
acabamos de aludir, ele acrescenta: "vários foram apreendidos ao
confessar, e, pela descoberta de uma grande multidão de outros,
foram condenados e executados barbaramente".
"E este Evangelho do reino será pregado em todo o mundo,93 em
testemunho a todas as nações, e então virá o fim (isto é, da
dispensação judaica)". (Mateus 24.14)
O cumprimento desta predição pode ser encontrado nas Epístolas
de São Paulo, dirigida aos cristãos de Roma, Corinto, Galácia, Éfeso,
Filipos, Colossos, Tessalônica; e os de Pedro aos que residiam em
Ponto, Capadócia e Bitínia, antes da destruição de Jerusalém pois
nenhum desses apóstolos estava vivo quando a guerra judaica
começou. São Paulo, em sua Epístola aos Romanos, informa-os que
"a fé foi falada em todo o mundo"; e nisso, aos Colossenses, ele
observa que o "Evangelho foi pregado a toda criatura debaixo do
céu". Clemente, que era colaborador do apóstolo, relata a respeito
dele que "ele ensinou a justiça a todo o mundo, viajando do leste para
o oeste até as fronteiras do oceano". Eusébio diz que "os Apóstolos
pregaram o Evangelho em todo o mundo, e que alguns deles
passaram além dos limites do oceano, e visitaram as ilhas Britânicas".
Além disso, "parece", diz o Bispo Newton, "pelos escritores da
história da igreja, que antes da destruição de Jerusalém, o Evangelho
93
Admite-se que a frase "a todo o mundo", "toda criatura", etc. são
hiperbólicos, mas então, tomados em sua conexão, eles evidentemente
descrevem a universalidade da pregação e difusão do Evangelho, antes da
destruição de Jerusalém, que é o ponto a ser provado.
não foi apenas pregado na Ásia Menor, Grécia e Itália, os grandes
teatros atuantes no mundo, mas foi igualmente propagado como fax
para o norte como Cítia, tanto para o sul como a Etiópia, tanto para
o leste como Pártia e Índia, até o oeste como Espanha e Grã-
Bretanha". E, Tácito afirma que "a religião cristã, que surgiu na
Judeia, se espalhou por muitas partes do mundo, e se estendeu até a
própria Roma, onde os professores dela, já no tempo de Nero,
somavam uma vasta multidão", de tal forma que seus números
despertavam a inveja do governo.
Cumpriu-se assim completamente uma predição contrária a toda
conclusão que pudesse ser fundada na probabilidade moral, e à qual
se opunha incessantemente todo tipo de impedimento. O suposto
filho de um carpinteiro instrui alguns pescadores simples sobre umas
"boas novas" desprovidas de incentivos mundanos, mas cheia de
abnegação, sacrifícios e sofrimentos, e os informa que em cerca de
quarenta anos ela deveria se espalhar por todo o mundo. Ele se
espalha de acordo, e, em desafio ao fanatismo exasperado dos judeus,
e de toda autoridade, poder e oposição ativa dos gentios, é
estabelecido, dentro desse período, em todos os países em que
penetra. Alguém pode duvidar que a predição e seu cumprimento
foram igualmente divinos?
Tal é, resumidamente, o relato que a história dá dos vários eventos
e sinais, que nosso Senhor havia predito que precederiam a destruição
da Cidade Santa. Em pouco tempo suas previsões estavam se
realizando, e mais do que uma paixão inexplicável se apoderou de
toda a nação judaica; de modo que eles não apenas provocaram, mas
pareciam até precipitar-se no meio daquelas calamidades sem
paralelo, que por fim os oprimiram totalmente. Em um ensaio desse
tipo, é impossível entrar em detalhes minuciosos sobre a origem e o
progresso desses males; mas os detalhes que ilustram o cumprimento
da parte restante da profecia e justificam a linguagem forte em que ela
é expressa, devem ser apresentados ao leitor.
Desde a conquista de seu país por Pompeu, por volta de 60 aC, os
judeus haviam, em várias ocasiões, manifestado um espírito refratário;
mas depois que Judas, o gaulonita, e Sadduc, o fariseu, pregaram que
a submissão às avaliações romanas abriria o caminho para um estado
de escravidão abjeta, esse temperamento se manifestou com crescente
malignidade e violência. Tumultos e insurreições rebeldes tornaram-
se comuns e tornaram-se mais frequentes e alarmantes; e para eles as
exações mercenárias de Floro, o governador romano, não
contribuíram nem um pouco. Por fim, Eleazar, filho do Sumo
Sacerdote, persuadiu aqueles que oficiavam no templo a rejeitar os
sacrifícios de estrangeiros e não mais a oferecer orações por eles.
Assim, um insulto foi lançado a César, seu sacrifício rejeitado e a
fundação da guerra romana foi estabelecida. Os distúrbios entre os
judeus continuava, Céstio Galo, presidente da Síria, marchou com um
exército para a Judeia, a fim de sufocá-los, e sua carreira foi marcada
por sangue e desolação em todos os lugares. Enquanto ele prosseguia,
ele saqueou e queimou a bela cidade de Zebulom, Jope, e todas as
aldeias que estavam em seu caminho. Em Jope ele matou oito mil e
quatrocentos habitantes. Ele devastou o distrito de Narbatene e,
enviando um exército para a Galileia, matou dois mil judeus rebeldes.
Ele, então, queimou a cidade de Lida; e depois de ter repelido os
judeus, que fizeram uma investida desesperada contra ele,
acamparam, por fim, a uma distância de cerca de uma milha de
Jerusalém. No quarto dia, entraram em seu portão e queimaram três
divisões da cidade, e por fim, sua captura, pôs fim à guerra; mas por
meio das persuasões traiçoeiras de seus oficiais, ele inexplicavelmente
levantou o cerco e fugiu da cidade com a maior precipitação. Os
judeus, no entanto, perseguiram-no até Antipatris e, com pouca perda
para eles, mataram seu exército quase seis mil homens. Depois que
esse desastre se abateu sobre Céstio, o mais opulento dos judeus (diz
Josefo) abandonou Jerusalém como os homens fazem com um navio
que afunda. E, é com razão que se supõe que nesta ocasião muitos
dos cristãos, ou judeus convertidos, que ali residiam, lembrando-se
das advertências ou de seu divino Mestre, retiraram-se para Pella, um
lugar além do Jordão, situado em um país montanhoso,94 para onde
(de acordo com Eusébio, que residia perto do local) eles vieram de
Jerusalém e se estabeleceram, antes que a guerra (sob Vespasiano)
começasse. Outras oportunidades providenciais para escapar depois
ocorreram, das quais, é provável, aqueles que ficaram para trás se
aproveitaram; pois é um ato notável, e tal que não pode ser
contemplado pela mente piedosa sem sentimentos de devota
admiração, que a história não registra que mesmo um CRISTÃO
pereceu no cerco de Jerusalém. Perseverando até o fim, fiéis ao seu
bendito MESTRE, eles deram crédito às suas previsões e escaparam
da calamidade. Assim foram cumpridas as palavras de nosso Senhor,
conforme Mateus 24.13: "Aquele que perseverar até o fim (isto é, da
cena desta profecia) será salvo".
Nero, tendo sido informado da derrota de Céstio, imediatamente
nomeou Vespasiano, um homem de valor provado, para iniciar a
guerra contra os judeus, que, auxiliado por seu filho Tito, logo se
reuniram em Ptolemais um exército de sessenta mil homens. A partir
daí, na primavera de 67 dC marchou para a Judeia, espalhando a mais
cruel destruição por todos os lados; os soldados romanos, em várias
ocasiões, não pouparam crianças nem idosos. Durante quinze meses
Vespasiano prosseguiu nesta carreira sanguinária, período durante o
qual reduziu todas as cidades fortes da Galileia e a principal das da
Judeia, destruindo pelo menos cento e cinquenta mil habitantes.
Entre as terríveis calamidades que nessa época aconteceram aos
judeus, as que se abateram sobre eles em Jope, que havia sido
reconstruída, merecem atenção especial. Suas frequentes piratarias
provocaram a ira de Vespasiano. Os judeus fugiram antes deles
alcançarem seus navios; mas uma tempestade imediatamente se
levantou e perseguiu os que estavam no mar e os ultrapassou,
enquanto os demais foram lançados navio contra navio e contra as
rochas, da maneira mais tremenda. Nessa perplexidade, muitos
94
al foi a admoestação de nosso Senhor ...: "Os que estão na Judeia fujam
para as montanhas", Mt. 16:22.
foram afogados, alguns foram esmagados pelos navios quebrados,
outros se mataram e os que alcançaram a costa foram mortos pelos
impiedosos romanos. O mar por um longo espaço estava manchado
de sangue; quatro mil e duzentos cadáveres foram espalhados ao
longo da costa e, é terrível de relatar, nenhum indivíduo sobreviveu
para relatar essa grande calamidade em Jerusalém. Tais eventos foram
preditos por nosso Senhor, quando disse: "Haverá angústia das
nações em perplexidade; o mar e as ondas rugem" (Lucas 21.25).
Vespasiano, depois de prosseguir até Jericó, voltou a Cesareia, a fim
de se preparar para seu grande atentado contra Jerusalém. Enquanto
estava assim empregado, recebeu informações sobre a morte de
Nero; então, não sabendo qual seria a vontade do futuro imperador,
ele prudentemente resolveu suspender, por enquanto, a execução de
seu projeto. Assim, o Todo-Poderoso deu aos judeus uma segunda
trégua, que continuou por quase dois anos; mas eles não se
arrependeram de seus crimes, nem foram em nenhum grau graciosos,
mas sim procederam em atos de enormidade ainda pior. A chama da
dissensão civil explodiu novamente e com fúria mais terrível. No
coração de Jerusalém, duas facções, disputando a soberania, lutaram
uma contra a outra com animosidade rancorosa e destrutiva. Uma
divisão de uma dessas facções tendo sido excluída da cidade, entrou à
força durante a noite. Ansiosos por sangue e inflamados pela
vingança, eles não pouparam idade, sexo ou infância; e, pela manhã,
foram vistos oito mil e quinhentos cadáveres nas ruas da cidade
sagrada. Eles saquearam todas as casas e, tendo encontrado os
principais sacerdotes Ananus e Jesus, não apenas os mataram, mas,
insultando seus corpos, os expulsaram sem sepultura. Eles
massacraram as pessoas comuns tão insensivelmente como se fossem
um rebanho das bestas mais vis. Os nobres, eles primeiro
aprisionaram, depois açoitaram, e quando não puderam por esses
meios anexá-los ao seu partido, concederam a morte a eles como um
favor. Das classes mais altas, doze mil morreram dessa maneira; nem
ninguém se atreveu a derramar uma lágrima ou gemer, abertamente,
por medo de um destino semelhante. A morte, de fato, era a pena das
acusações mais leves e pesadas, e ninguém escapou pela mesquinhez
de seu nascimento ou pobreza. Aqueles que fugiram foram
interceptados e mortos.
Enquanto Jerusalém era presa dessas facções ferozes e devoradoras,
todas as partes da Judeia foram açoitadas e devastadas por bandos de
ladrões e assassinos, que saquearam as cidades; e, em caso de
resistência, matava os habitantes, não poupando mulheres nem
crianças. Simão, filho de Gioras, comandante de uma desses bandos,
à frente de quarenta mil bandidos, tendo entrado com alguma
dificuldade em Jerusalém, deu à luz uma terceira facção, e a chama da
discórdia civil acendeu-se novamente, com ainda mais destruição e
fúria. As três facções, tornadas frenéticas pela embriaguez, raiva e
desespero, pisoteando uns montes de mortos, lutaram entre si com
selvageria brutal e loucura. Mesmo aqueles que trouxeram sacrifícios
ao templo foram assassinados. Os cadáveres de sacerdotes e fiéis,
tanto nativos quanto estrangeiros, foram amontoados, e um lago de
sangue estagnou nas cortes sagradas. João de Gischala, que chefiava
uma das facções, queimou depósitos cheios de provisões; e Simão,
seu grande antagonista, que chefiava outro deles, logo depois seguiu
seu exemplo. Assim, eles cortaram os próprios tendões de sua própria
força. Somado a essa conjuntura crítica e alarmante, chegou a notícia
de que um exército romano estava se aproximando da cidade. Os
judeus ficaram petrificados de espanto e medo; não havia tempo para
conselho, nenhuma esperança de pacificação, nenhum meio de fuga.
Tudo era desordem selvageria e perplexidade. Nada se ouvia senão "o
barulho confuso dos guerreiros". Nada se via a não ser "roupas sujas
de sangue". Nada a ser esperado dos romanos, a não ser um sinal e
vingança exemplar. Um grito incessante de combatentes foi ouvido
dia e noite, no entanto, as lamentações dos enlutados eram ainda mais
terríveis. A consternação e terror que agora prevaleciam induziram
muitos habitantes a desejar que um inimigo estrangeiro viesse e
efetuasse sua libertação. Tal era a terrível condição do lugar quando
Tito e seu exército se apresentaram e acamparam diante de Jerusalém;
mas, infelizmente não para livrá-lo de suas misérias, mas para cumprir
a predição e justificar a benevolente advertência de nosso Senhor:
"Quando vós vedes (disse ele aos Seus discípulos) a abominação da
desolação, falada pelo profeta Daniel, de pé no lugar santo, 95 e
Jerusalém rodeada por exércitos (ou acampamentos). Então, os que
estiverem na Judeia fujam para os montes; os que estiverem dentro da
cidade, saiam; e os que estiverem nos campos não entrem nela"
(Mateus 24.15,21; Lucas 21:20-21).
Estes exércitos, nós não hesitamos em afirmar que foram os
romanos, que agora investiam a cidade. Desde o tempo do cativeiro
babilônico, a idolatria foi considerada uma abominação pelos judeus.
Essa aversão nacional se manifestou até mesmo contra as imagens de
seus deuses e imperadores, que os exércitos romanos carregavam em
seus estandartes; de modo que, em tempos de paz, Pilatos e depois
Vitélio, a pedido de alguns judeus eminentes, por conta disso
evitaram marchar suas forças pela Judeia. Da disposição desoladora
que agora governava o exército romano, a história da guerra judaica, e
especialmente da demolição final da cidade santa, apresenta um
exemplo terrível e notável. Jerusalém não foi meramente capturada,
mas, com seu célebre templo, ficou em ruínas. Para que, no entanto,
o exército de Tito não fosse apenas designado por esta expressão,
nosso Senhor acrescenta: "Onde estiver a carcaça, aí estarão as
águias reunidas" (Mt 24.28). O estado judeu, de fato, neste tempo,
foi apropriadamente comparado a uma carcaça. O cetro de Judá, isto
é, sua autoridade civil e política, a sua religião, e a glória de seu
templo se foi. Estava, em suma, moral e judicialmente morta. A águia,
cujo instinto dominante é rapinar e assassinar, adequadamente
representava o temperamento feroz e sanguinário dos romanos e,
talvez, pudesse ser intencional para se referir também à figura
principal em suas insígnias, que, embora detestáveis para os judeus,
95
Não era apenas o templo e a montanha em que ele se erguia considerados
sagrados, mas também toda a cidade de Jerusalém e vários estádios de terra
ao redor dela. Neemias 11; Isaías 53; Daniel 9:24; e Mateus 27:53.
foram finalmente plantadas no meio da cidade sagrada e, finalmente,
no próprio templo.
O dia em que Tito cercou Jerusalém era a festa da Páscoa; e é
merecedor da atenção muito particular do leitor que este foi o
aniversário daquele período memorável em que os judeus
crucificaram seu Messias! Nesta época, multidões subiram de toda a
região circundante e de partes distantes para celebrar o festival. Quão
adequada e gentil, então, foi a admoestação profética de nosso
Senhor, e quão claramente Ele se dirigiu ao futuro quando disse: "e
os que estiverem nos campos não entrem nela (na cidade)" (Lucas
21.21).
Não obstante, a cidade estava nesta época apinhada de estrangeiros
judeus, e estrangeiros de todas as partes, de modo que toda a nação
pode ser considerada como tendo sido encarcerada em uma prisão,
preparatória para a execução da vingança divina; e, de acordo com
Josefo, este evento ocorreu repentinamente; assim, não apenas
cumprindo as predições de nosso Senhor, que essas calamidades
viriam, como o relâmpago veloz "que vem do oriente e se ilumina até
o ocidente" e "como uma armadilha para todos eles (os judeus) que
habitam sobre a face de toda a terra (de Israel)" (Mt 24.27; Lucas
21.35), mas justificando, também, sua direção amigável, que aqueles
que fugiram deveriam usar a maior expedição possível.
Com o aparecimento do exército romano, os judeus facciosos se
uniram e, correndo furiosamente para fora da cidade, repeliram a
décima legião, mas com dificuldade. Esse evento causou uma breve
suspensão das hostilidades e, ao abrir os portões, deu oportunidade
aos que estavam dispostos a escapar; que antes disso eles não
poderiam ter tentado sem interrupção, desde a suspeita de que
desejavam se revoltar aos romanos. Esse sucesso inspirou confiança
aos judeus, e eles resolveram defender sua cidade ao máximo; mas
não impediu a renovação de seus grilhões civis. A facção sob Eleazar
tendo se dispersado e se organizado sob os outros dois líderes João e
Simão, seguiu-se uma cena da mais terrível contenda, pilhagem e
conflagração: o espaço central da cidade sendo queimado e os
miseráveis habitantes eram como prêmio das partes em conflito. Os
romanos finalmente obtiveram a posse de duas das três muralhas que
defendiam a cidade, e o medo mais uma vez uniu as facções. Essa
pausa, porém, mal havia começado quando a fome fez seu terrível
aparecimento no exército judeu. Já fazia algum tempo que se
aproximava silenciosamente, e muitos dos pacíficos e pobres já
haviam morrido por falta de suprimentos. Com esta nova calamidade,
estranha de relatar, a loucura das facções voltou novamente, e a
cidade apresentou um novo quadro de "miséria". Impelidos pela
fome, arrancaram a vida uns dos outros, e muitos devoraram os grãos
ainda despreparados. Torturas foram infligidas para a descoberta de
um punhado de comida; mulheres forçavam por comida a seus
maridos, e filhos a seus pais, e até mães de seus bebês, enquanto as
crianças de peito definhavam em seus braços, não hesitavam em tirar
as gotas vitais que os sustentavam! Assim, com justiça, nosso Senhor
pronunciou uma desgraça sobre "as que amamentavam naqueles dias"
(Mt. 24.19).
Este terrível flagelo finalmente levou multidões de judeus para fora
da cidade, para o campo do inimigo, onde os romanos os
crucificaram em tal número que, como relata Josefo, faltava espaço
para as cruzes, e cruzes para os cativos; e tendo sido descoberto que
alguns deles haviam engolido ouro, os árabes e sírios, que foram
incorporados ao exército romano, impelidos pela avareza, com
crueldade sem precedentes rasgaram dois mil desertores em uma
noite; Tito, tocado por essas calamidades, implorou pessoalmente aos
judeus que se rendessem, mas eles responderam com injúrias.
Exasperado por sua obstinação e insolência, ele agora resolveu cercar
a cidade por uma circunvalação (uma trincheira de 39 estádios em
circuito e reforçada com 13 torres) que com espantosa atividade foi
efetuada pelos soldados em três dias. Assim foi cumprida outra das
predições de nosso Senhor, pois ele havia dito, ao se dirigir a esta
cidade dedicada: "Porque dias virão sobre ti, em que os teus inimigos
te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os
lados" (Lucas 19.43). Como nenhum suprimento podia agora entrar
pelas paredes, a fome se estendeu rapidamente e, aumentando o
horror, devorou famílias inteiras. Os topos das casas e os recessos da
cidade estavam cobertos com carcaças de mulheres, crianças e
homens idosos. Os jovens apareceram como espectros nos recantos
públicos e caíram sem vida nas ruas. Os mortos eram numerosos
demais para serem enterrados, e muitos expiraram no desempenho
deste ofício. A calamidade pública foi grande demais para lamentação.
Silêncio e, por assim dizer, uma noite negra e mortal, espalhou-se pela
cidade. Mas, mesmo tal cena não poderia assustar os ladrões; eles
abriam os túmulos e despojavam os mortos de suas roupas de
sepultura, com uma risada insensível e selvagem. Eles passavam o
gume de suas espadas em suas carcaças, e mesmo em algumas que
ainda respiravam; enquanto Simon Goras escolheu este período
melancólico e terrível para manifestar a profunda Malignidade e
crueldade de sua natureza na execução do Sumo Sacerdote Matias, e
seus três filhos, a quem ele fez com que fossem condenados como
favores aos Romanos. O pai, em consideração por ter aberto os
portões da cidade para Simão, implorou que ele pudesse ser
executado antes de seus filhos; mas o insensível tirano deu ordens
para que ele fosse despachado em último lugar, e em seus momentos
de expiração perguntou-lhe insultuosamente se os romanos
poderiam, então, substituí-lo.
Enquanto a cidade estava nesta situação sombria, um judeu
chamado Mannaeus fugiu para Tito, e o informou, desde o início do
cerco até o 7º mês. Em seguida, cento e quinze mil oitocentos e
oitenta cadáveres foram carregados por apenas um portão, que ele
havia guardado. Este homem tinha sido nomeado para pagar o
subsídio público para transportar os corpos para fora, e, portanto, foi
obrigado a registrá-los. Logo depois, vários indivíduos respeitáveis
desertaram para os romanos e asseguraram a Tito que o número total
de pobres que haviam sido expulsos pelos diferentes portões não era
inferior a seiscentos mil. O relato dessas calamidades despertou
piedade nos romanos e de uma maneira particular afetou Tito, que,
enquanto examinava o imenso número de cadáveres empilhados,
ergueu as mãos para o céu e, apelando ao Todo-Poderoso, protestou
solenemente que não havia sido a causa dessas calamidades
deploráveis; que, de fato, os judeus, por sua inigualável rebelião
perversa e obstinação, derrubaram sobre suas próprias cabeças.
Depois disso, Josefo, em nome de Tito, exortou sinceramente João
e seus adeptos a se renderem; mas o rebelde insolente não retornou
nada além de censuras e imprecações, declarando sua firme persuasão
de que Jerusalém, como era a cidade de DEUS, nunca poderia ser
tomada: cumprindo assim literalmente a declaração de Miquéias, de
que os judeus, em sua extremidade, não obstante seus crimes,
presunçosamente "se apoiaria no SENHOR e diria: Não está o
SENHOR entre nós? nenhum mal pode sobrevir sobre nós"
(Miquéias 3.11).
Enquanto isso, os horrores da fome se tornaram ainda mais
melancólicos e aflitivos. Os judeus, por causa da falta de comida,
foram finalmente compelidos a comer seus cintos, suas sandálias, as
peles de seus escudos, grama seca e até mesmo excrementos de bois.
Nas profundezas ou nesta extremidade horrível, uma judia de família
nobre incitada pelos desejos intoleráveis da fome, matou seu filho
pequeno e o preparou para refeição; e tinha realmente comido
metade dela, quando os soldados, atraídos pelo cheiro de comida, a
ameaçaram de morte instantânea se ela se recusasse a dizer onde
estava. Intimidada por esta ameaça, ela imediatamente revelou onde
estava os restos mortais de seu filho, que os petrificou de horror. Ao
recitar esta ocorrência melancólica e comovente, toda a cidade ficou
horrorizada, e derramaram suas felicitações àqueles que a morte os
poupou de tais cenas de partir o coração. Na verdade, a humanidade
ao mesmo tempo estremece e adoece com a narração, nem pode
qualquer pessoa com a menor sensibilidade refletir sobre a condição
lamentável a que a parte feminina dos habitantes de Jerusalém
sofreram neste momento, sem experimentar as mais ternas emoções
de simpatia, ou abster-se de lágrimas enquanto ele lê o discurso de
nosso Salvador às mulheres que "lamentaram" quando ele foi levado
ao Calvário, onde Ele evidentemente se refere a essas mesmas
calamidades: "Filhas de Jerusalém, não chorem por mim, mas por
vocês mesmas e pelos vossos filhos; porque eis que vêm os dias em
que dirão: "Bem-aventuradas as estéreis e os ventres que nunca
deram à luz e os seios que nunca amamentaram" (Lucas 23.29).
O fato melancólico acima também foi literalmente predito por
Moisés: "E quanto à mulher mais mimosa e delicada no meio de ti,
que de mimo e delicadeza nunca tentou pôr a planta de seu pé sobre
a terra, será maligno o seu olho contra o homem de seu regaço, e
contra seu filho, e contra sua filha; e isto por causa de suas páreas,
que saírem dentre os seus pés, e para com os seus filhos que tiver,
porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no
aperto, com que o teu inimigo te apertará nas tuas portas"
(Deuteronômio 28:56-57). Esta previsão foi parcialmente cumprida,
quando Samaria, a capital das tribos revoltadas, foi sitiada por Ben-
Hadade; e depois em Jerusalém, antes de sua captura por
Nabucodonosor; mas sua realização exata e literal em relação a uma
senhora de posição, delicada e voluptuosamente educada, foi
reservada para o período de que estamos falando. E, merece
consideração particular, como uma circunstância que aumenta muito
a importância desta profecia, de que a história do mundo não registra
que um exemplo paralelo de barbárie não natural tenha ocorrido
durante o cerco de qualquer outro lugar, em qualquer outra época ou
nação. De fato, o próprio Josefo declara que, se não houvesse muitas
testemunhas credíveis do fato, ele não o teria registrado, "porque",
como ele observa, "uma violação tão chocante nunca foi perpetuada
por nenhum grego ou bárbaro", a inserção disso poderia ter
diminuído a credibilidade de sua história.
Enquanto a fome continuava a espalhar sua fúria destrutiva pela
cidade, os romanos, depois de muitas tentativas ineficazes, finalmente
conseguiram demolir parte da muralha interna, possuíram a grande
torre de Antônia e avançaram em direção ao Templo, e Tito, em um
conselho de guerra havia determinado preservar [o templo] como um
ornamento para o império e como um monumento de seu sucesso;
mas o Todo-Poderoso havia determinado o contrário; pois agora, na
revolução das eras, chegou aquele dia fatal, enfaticamente chamado
de "um dia de vingança" (Lucas 21.21), no qual o Templo havia sido
anteriormente destruído pelo rei da Babilônia. Um soldado romano,
impelido, como ele declarou, por um impulso divino,
independentemente da ordem de Tito, subiu nos ombros de outro e
jogou uma marca em chamas na janela dourada do Templo, que
instantaneamente incendiou o prédio. Os judeus, ansiosos acima de
tudo por salvar aquele edifício sagrado, no qual confiavam
supersticiosamente, com um clamor terrível, precipitaram-se para
apagar as chamas. Tito também, apressou-se para o local em sua
carruagem, acompanhado por seus principais oficiais e legiões; mas
em vão ele acenou com a mão e ergueu a voz, ordenando aos seus
soldados que apagassem o fogo; tão grande foi o alvoroço e
confusão, que nenhuma atenção foi dada mesmo a ele. Os romanos,
deliberadamente surdos em vez de extinguir as chamas, espalharam-
nas cada vez mais. Movidos pelos impulsos mais violentos de rancor
e vingança contra os judeus, eles avançaram furiosamente sobre eles,
matando alguns com a espada, pisoteando outros sob seus pés ou
esmagando-os até a morte contra as paredes. Muitos, caindo entre as
ruínas fumegantes das varandas e galerias, foram sufocados. Os
pobres desarmados, e até mesmo os doentes, eram massacrados sem
misericórdia. Dessas pessoas infelizes, muitos foram deixados
banhados em seu sangue. Multidões de mortos e moribundos
amontoavam-se ao redor do altar, para o qual haviam fugido em
busca de proteção, enquanto os degraus que conduziam ao átrio
externo foram literalmente inundados com sangue.
Achando impossível conter a impetuosidade e crueldade de seus
soldados, o comandante chefe procedeu, com alguns de seus oficiais
superiores, a fazer um levantamento das partes do edifício que ainda
não foram alcançadas pelo incêndio. Não tinha, neste momento,
alcançado o templo interno, que Tito entrou e viu em silenciosa
admiração. Impressionado com a magnificência de sua arquitetura e a
beleza de suas decorações, que até superou o relato de fama a
respeito deles; e percebendo que o santuário ainda não havia pegado
fogo, ele redobrou seus esforços para impedir o avanço das chamas.
Ele condescendeu até mesmo em suplicar aos seus soldados que
exercessem todas as suas forças e atividades para este propósito, e
designou um centurião dos guardas para puni-los se eles novamente o
desconsiderassem: mas tudo foi em vão. A fúria delirante dos
soldados não conhecia limites. Ansiosos por saques e massacres, eles
igualmente desprezavam as solicitações e ameaças de seu General.
Mesmo enquanto ele estava assim empenhado na preservação do
santuário, um dos soldados estava realmente empenhado em atear
fogo às ombreiras das portas, o que fez com que o incêndio se
generalizasse. Tito e seus oficiais foram agora obrigados a se retirar, e
ninguém permaneceu para conter a fúria dos soldados ou as chamas.
Os romanos, exasperados ao extremo contra os judeus, agarraram
todas as pessoas que puderam encontrar e, sem a menor preocupação
com sexo, idade ou qualidade, primeiro saquearam e depois os
mataram. Os velhos e os jovens, as pessoas comuns e os sacerdotes,
os que se renderam e os que resistiram, estiveram igualmente
envolvidos nesta carnificina horrível e indiscriminada. Enquanto isso,
o Templo continuou queimando, até que por fim, vasto como era seu
tamanho, as chamas envolveram completamente o edifício inteiro; o
que, pela extensão da conflagração, impressionou o espectador
distante com a ideia de que a cidade inteira estava agora em chamas.
O tumulto e a desordem que se seguiram a este evento, é impossível
(diz Josefo) para a linguagem descrever. As legiões romanas deram os
gritos mais horríveis; os rebeldes, encontrando-se expostos à fúria do
fogo e da espada, gritaram terrivelmente; enquanto as pessoas
infelizes que se encontravam encerradas entre o inimigo e as chamas,
deploravam a sua situação nas mais lamentáveis queixas. Os que
estavam na colina e os da cidade pareciam retribuir mutuamente os
gemidos um do outro. Os que estavam morrendo de fome, foram
revividos por esta cena horrível e pareciam adquirir novos espíritos
para deplorar seus infortúnios. As lamentações da cidade ressoaram
nas montanhas adjacentes e em lugares além do Jordão. As chamas
que envolveram o Templo eram tão violentas e impetuosas, que a
colina elevada, no qual se erguia parecia, mesmo diante de suas
profundas fundações, como um grande corpo de fogo. O sangue dos
sofredores fluía em proporção a raiva desse elemento destrutivo; e o
número do mortos excedeu qualquer possibilidade de cálculo. O chão
não podia ser visto por causa dos cadáveres, sobre os quais os
romanos pisotearam em busca dos fugitivos; enquanto o ruído
crepitante das chamas devoradoras se misturavam ao clamor das
armas, os gemidos dos moribundos e os gritos de desespero
aumentavam o tremendo horror de uma cena, à qual as páginas da
história não podem fornecer paralelo.
Entre os acontecimentos trágicos que ocorreram nesta época, o
seguinte é mais particularmente digno de nota: um falso profeta,
fingindo uma comissão divina, afirmou que, se o povo se dirigisse ao
Templo, eles deveriam ver sinais de sua rápida libertação. Assim,
cerca de seis mil pessoas, principalmente mulheres e crianças,
reunidas em uma galeria, que ainda estava de pé, do lado de fora do
edifício. Enquanto esperavam ansiosamente pelo milagre prometido,
os romanos com a mais desenfreada barbárie, atearam fogo à galeria;
da qual, multidões, frenéticos por sua situação horrível, precipitaram-
se nas ruínas abaixo e foram mortos pela queda; enquanto, horrível
de relatar, o resto, sem uma única exceção, pereceu nas chamas. Tão
necessária foi a segunda premonição de nosso Senhor de não dá
crédito aos "falsos profetas", que fingiriam "apresentar grandes sinais
e maravilhas". Neste último cuidado, como demonstra a conexão da
profecia, Ele evidentemente se refere ao período do cerco, mas no
primeiro Ele se refere ao intervalo imediatamente anterior à guerra
judaica (Mateus 24.5,23-26).
O Templo agora apresentava pouco mais do que um monte de
ruínas; e o exército romano, em triunfo sobre o evento, veio e ergueu
suas insígnias sobre um fragmento do portão oriental e, com
sacrifícios de ação de graças, proclamou majestade imperial a Tito,
com todas as demonstrações de alegria possíveis.
Assim terminou a glória e a existência deste edifício sagrado e
venerável, que por seu tamanho estupendo, sua solidez maciça e força
surpreendente, parecia formado para resistir às mais violentas
operações da força humana e permanecer, como as pirâmides, em
meio aos choques de idades sucessivas, até a dissolução final do
globo.96
Durante cinco dias após a destruição do Templo, os sacerdotes que
haviam escapado sentaram-se, morrendo de fome, no topo de uma de
suas paredes quebradas; por fim, eles desceram e humildemente
pediram o perdão de Tito, que, no entanto, se recusou a conceder-
lhes, dizendo que, "como o Templo, pelo qual ele os teria poupado,
foi destruído, seus sacerdotes deveriam ser destruídos também".
Então, ele ordenou que fossem condenados à morte.
Os líderes das facções, agora pressionados por todos os lados,
imploraram uma conferência com Tito, que se ofereceu para poupar
96
Desde sua primeira fundação pelo rei Salomão, até sua destruição, foram mil
e trinta anos, sete meses e quinze dias; e de sua reedição por Ageu, até o
mesmo período, seiscentos e trinta e nove anos e quarenta e cinco dias. Já foi
sugerido que, por uma coincidência muito singular, foi agora reduzido a cinzas
no mesmo mês e no mesmo dia do mês em que havia sido anteriormente
queimado pelos babilônios. Essas duas eras são distinguidas também por
outra coincidência extraordinária, que Josefo, em um de seus discursos aos
judeus, apontou para eles como um dos sinais que pressagiaram a destruição
de sua cidade.
"As fontes", disse ele, "fluem copiosamente para Tito, que para você se
secaram; pois, antes que ele viesse, você sabe que tanto Siloé secou, como
todas as fontes fora da cidade, de modo que a água foi comprada pela ânfora
[um vaso contendo cerca de sete galões;] mas agora eles são tão abundantes
para seus inimigos, que bastam, não apenas para eles e seu gado, mas
também para seus jardins. Esta maravilha você também experimentou
anteriormente quando o rei dos babilônios colocou cerco à sua cidade".
suas vidas, desde que deponham as armas. Essa condição razoável,
entretanto, eles se recusaram a cumprir; e após isso Tito, exasperado
por sua obstinação, resolveu que dali em diante não concederia
perdão aos insurgentes, e ordenou que uma proclamação fosse feita
para esse efeito. Os romanos agora tinham plena licença para devastar
e destruir. Na manhã seguinte, eles incendiaram o castelo, o cartório,
a câmara do conselho e o palácio da rainha Helena; e então se
espalharam por toda a cidade, massacrando onde quer que fossem, e
queimando os corpos que estavam espalhados por todas as ruas e no
chão de quase todas as casas. No palácio real, onde tesouros imensos
foram depositados, os judeus sediciosos assassinaram oito mil e
quatrocentos membros de sua própria nação, e depois saquearam
suas propriedades. Um número prodigioso de desertores, também,
que escaparam dos tiranos e fugiram para o acampamento inimigo,
foram mortos. Os soldados, entretanto, finalmente, cansados de
matar e fartos do sangue que haviam derramado, empunharam suas
espadas e procuraram satisfazer a avareza. Com esse propósito, eles
pegaram os judeus, junto com suas esposas e famílias, e os venderam
publicamente, como gado no mercado, mas em muitas multidões
foram expostos à venda, enquanto os compradores eram poucos em
número. Então, foram cumpridas as palavras de Moisés: "e sereis
vendidos como escravos e escravas aos vossos inimigos; mas não
haverá quem vos compre" (Deuteronômio 28.68).
Os romanos, tendo se tornado senhores da cidade baixa,
incendiaram-na. Os judeus, então, fugiram para a cidade alta, de onde,
com seu orgulho e insolência ainda inabaláveis, continuaram a
exasperar seus inimigos e até pareceram ver o incêndio da cidade
baixa como sinais de prazer. Em pouco tempo, porém, as paredes da
cidade alta foram demolidas pelas máquinas romanas e os judeus,
ultimamente tão arrogantes e presunçosos agora, tremendo e em
pânico, caíram em seus rostos e deploraram seu próprio entusiasmo.
Os que estavam nas torres, considerados inexpugnáveis à força
humana, além da medida assustados, estranhamente os abandonaram
e buscaram refúgio em cavernas e passagens subterrâneas; em que
não menos que dois mil cadáveres foram encontrados
posteriormente. Assim, como nosso Senhor havia predito, essas
criaturas miseráveis, de fato, disseram para as montanhas, "Caí sobre
nós"; e para as rochas, "Cubra-nos" (Lucas 23:20) Estando as
muralhas da cidade agora completamente de posse dos romanos, eles
içaram suas cores nas torres e irromperam nas mais triunfantes
aclamações. Depois disso, todo o aborrecimento dos judeus chegou