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V Botnica No Inverno

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE BIOCIÊNCIAS
2015

Organizadores

Laboratório de Fitoquímica Laboratório de Algas Marinhas


Alice Nagai Cíntia Iha
Fernanda Anselmo Moreira Talissa Barroco Harb
Fernanda Mendes de Rezende
Laboratório de Anatomia Vegetal
Kátia Pereira dos Santos
Lígia Keiko dos Santos
Martha Dalila Sedano Partida
Priscila Torres
Laboratório de Fisiologia do
Desenvolvimento Vegetal
Laboratório de Ensino de Botânica Paula Natália Pereira
Naomi Towata Paulo Marcelo Rayner Oliveira

Professora responsável
Profa. Dra. Cláudia Maria Furlan

Autores

Annelise Frazão Luíza Teixeira-Costa


Carmen Palacios Jara Marina Macedo
Carolina Krebs Kleingesinds Martha Dalila Sedano Partida
Cassia Ayumi Takahashi Paula Natália Pereira
Cíntia Iha Paula Novaes
Danilo Soares Gissi Paulo Marcelo Rayner Oliveira
Fabiana Marchi dos Santos Paulo Tamaso Mioto
Fernanda Anselmo Moreira Pércia Paiva Barbosa
Fernanda Mendes de Rezende Rafael Zuccarelli
Karoline Magalhães Ferreira Lubiana Ricardo Ernesto Bianchetti
Kátia Pereira dos Santos Sarah Aparecida Soares
Leonardo Doin Pogrebinschi Vania Gabriela Sedano Partida
Luiz Henrique Martins Fonseca Vitor Barão

São Paulo
2015
V Botânica no Inverno 2015 / Org. Alice Nagai [et al.]. – São Paulo: Instituto de

Biociências da Universidade de São Paulo, Departamento de Botânica, 2015. 240p. : il.

ISBN Versão online: 978-85-85658-56-4

Inclui bibliografia

1. Botânica. 2. Extensão. 3. Pós-Graduação.I. V Botânica no Inverno 2015.


PREFÁCIO

Fundado em 1934 pelo professor Felix Kurt Rawitscher, o Departamento de Botânica


do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo atualmente é referência em nível
internacional de pesquisa e ensino. Possui uma equipe formada por 31 docentes (5
aposentados), os quais estão distribuídos em 8 áreas de conhecimento. Apresenta como
infraestrutura 11 laboratórios, um herbário com a coleção de plantas vasculares, algas e
madeiras estimado em 300.000 espécimes e um fitotério, com uma coleção de plantas vivas
para uso didático, estufas e casas de vegetação. Somando-se ao grande número de pós-
graduando (dentre esses, estrangeiros) e a alta atividade científica dessa comunidade, a Pós-
Graduação de Botânica possui conceito CAPES 6, o mais alto entre as botânicas do país.
Realizado desde o ano de 2011, o curso de Botânica no Inverno, é uma iniciativa dos
pós-graduandos que visa divulgar esse trabalho realizado no Departamento de Botânica,
possibilitando o futuro acolhimento de alunos/(potenciais) pesquisadores ao seu corpo
discente.
Na V edição, o Curso de Botânica no Inverno pretende, com os alunos de graduação e
recém-formados, revisar e atualizar conceitos fundamentais das subáreas Anatomia Vegetal,
Educação em Botânica, Ficologia, Fisiologia Vegetal, Fitoquímica, Sistemática e Taxonomia
Vegetal, além de proporcionar a experiência de vivenciarem as atividades realizadas em
nossos laboratórios, despertando o primeiro interesse dos possíveis futuros acadêmicos em
projetos de pesquisa do Departamento.
Para a realização do V Botânica no Inverno, agradecemos à Universidade de São
Paulo, à direção do Instituto de Biociências, à chefia do Departamento de Botânica, à
Comissão Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Botânica, as agências de fomento
FAPESP, CAPES e CNPQ, à Monsanto, à Alemmar, à Li-cor, à Synth e à RCS Copiadora.

O conteúdo dos capítulos é de responsabilidade dos respectivos autores.

Desejamos a todos um bom curso.


Comissão Organizadora do V Botânica no Inverno
ÍNDICE
PREFÁCIO ........................................................................................................................................................... iv

PARTE I: DIVERSIDADE E EVOLUÇÃO


Capítulo 1: A origem do cloroplasto e a evolução dos eucariontes fotossintetizantes ............................................ 7
Capítulo 2: Diversidade de macroalgas marinhas ................................................................................................. 17
Capítulo 3: O fitoplâncton marinho ...................................................................................................................... 28
Capítulo 4: Diversidade intraespecífica: modificações da cor do talo em algas vermelhas .................................. 44
Capítulo 5: Samambaias e licófitas: as plantas vasculares sem sementes ............................................................. 48
Capítulo 6: Árvores filogenéticas e suas aplicações.............................................................................................. 59

PARTE II: ENSINO EM BOTÂNICA


Capítulo 7: Dificuldades inerentes ao ensino de botânica: como superá-las? ....................................................... 77
Capítulo 8: O auxílio das tecnologias de informação e comunicação no ensino de temas complexos da botânica:
o caso da “fotossíntese” ........................................................................................................................................ 85

PARTE III: RECURSOS ECONÔMICOS VEGETAIS


Capítulo 9: Metabolismo secundário..................................................................................................................... 97
Capítulo 10: Plantas e sociedade ......................................................................................................................... 105
Capítulo 11: Obtenção biotecnológica de metabólitos secundários com potencial farmacológico ..................... 119
Capítulo 12: Metabólitos secundários na interação planta-planta ....................................................................... 127

PARTE IV: ESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO


Capítulo 13: Introdução à sinalização hormonal ................................................................................................. 138
Capítulo 14: Fisiologia de frutos: aspectos bioquímicos e hormonais ................................................................ 150
Capítulo 15: Visão geral do controle do desenvolvimento do meristemático apical radicular e caulinar ........... 167
Capítulo 16: Transportadores de nitrato em plantas vasculares .......................................................................... 182
Capítulo 17: Sinalização e indução do metabolismo ácido crassuláceo .............................................................. 201
Capítulo 18: Formação e controle dos estômatos ................................................................................................ 207
Capítulo 19: Comunicação entre plantas e bactérias ........................................................................................... 214
Capítulo 20: Plantas parasitas ............................................................................................................................. 222

LEITURA COMPLEMENTAR ...................................................................................................................... 229


PARTE I

DIVERSIDADE E EVOLUÇÃO
CAPÍTULO 1

A origem do cloroplasto e a evolução dos eucariontes


fotossintetizantes
Cíntia Iha

Registros fósseis indicam que havia vida na Terra há cerca de 3 bilhões de anos. Nessa época, as
únicas formas de vida eram células procarióticas, que viviam em um ambiente pobre em oxigênio e rico
em gás carbônico e outros gases. As primeiras evidências concretas do aparecimento de organismos
fotossintetizantes datam de 2,8 a 2,5 bilhões de anos atrás e evidências fósseis, geoquímicas e
moleculares indicam que esses organismos eram semelhantes às cianobactérias atuais. Esses dados
mostram que a origem das cianobactérias e da fotossíntese oxigênica foram concomitantes na história da
vida na Terra. Hoje sabe-se que a única molécula capaz de realizar esse processo é a clorofila a. Sendo
assim, a clorofila a apareceu uma única vez em um ancestral da cianobactéria e foi a responsável para o
aparecimento da fotossíntese.
A fotossíntese oxigênica feita pelas cianobactérias propiciou uma grande modificação do
ambiente. O oxigênio liberado pela reação da fotossíntese foi se acumulando com o passar dos milhões de
anos e culminou na primeira grande poluição atmosférica. A maioria dos organismos procariontes
existentes naquela época possuía um metabolismo redutivo anaeróbio, que era pouco eficiente, e a
oxidação causada pelo oxigênio era tóxica para eles, portanto, esses organismos redutores sofreram uma
extinção em massa. Entretanto, essa oxidação do ambiente permitiu dois eventos muito importantes: o
primeiro foi o aparecimento de um metabolismo muito mais eficiente – a respiração aeróbia; o segundo
foi o consequente surgimento dos organismos eucariontes.
Os primeiros eucariontes apareceram há cerca de 1,5 bilhões de anos. O fato impressionante é
que a diversificação dos eucariontes ocorreu de forma bastante rápida, em comparação ao tempo entre o
surgimento da vida até o aparecimento do primeiro eucarionte. Do aparecimento da vida até o surgimento
da primeira célula eucariótica se passaram 2 a 1,5 bilhões de anos; do aparecimento dos eucariotos até os
dias de hoje, cerca de 1,5 bilhões de anos. A diversidade atual e já extinta de eucariontes é enorme.
Provavelmente esse “boom” evolucionário de eucariontes só foi possível em decorrência de um terceiro
evento, também ocasionado pela oxidação da atmosfera: o surgimento da camada de ozônio, que protegeu
a vida contra os raios UV que danificam a estrutura do DNA.
Atualmente, a teoria da endossimbiose, em que as organelas mitocôndria e cloroplasto evoluíram
a partir de procariontes de vida livre que foram domesticadas por outras células hospedeiras, é bem aceita
na comunidade científica. A teoria da origem endossimbiótica dessas organelas foi proposta por muitos
cientistas entre o final do século XIX e começo do século XX, porém foi inicialmente abandonada. Essa
teoria foi retomada e consolidada com a descoberta da presença de moléculas de DNA próprias na
mitocôndria e no cloroplasto entre 1960 e 1970. Em 1967, Lynn Margulis (1938-2011) sugeriu que não
apenas a mitocôndria e os cloroplastos originaram-se por endossimbiose, mas a célula eucariótica como
7
um todo. Em seu modelo, a célula eucariótica foi originada a partir de sucessivas endossimbioses
envolvendo bactérias distintas, gerando a maioria das organelas conhecidas. Entretanto, hoje em dia
apenas a origem endossimbiótica da mitocôndria e cloroplasto é muito bem aceita, a das outras organelas
da célula eucariótica ainda é discutida.
Quase todos os organismos eucariontes conhecidos hoje possuem mitocôndria, organela
responsável pela respiração aeróbia. Porém, como na biologia em toda regra há exceções, existem alguns
eucariontes parasitas que não possuem mitocôndria, mas há indícios ultraestruturais e moleculares de que
esta organela foi perdida ao longo da evolução, o que nos permite concluir que o ancestral dos eucariontes
possuía mitocôndria. Sendo assim, os eucariontes fotossintetizantes foram originados por um ancestral
que já possuía mitocôndria.
O nosso planeta está repleto de vida fotossintetizante, sendo que os únicos procariontes
fotossintetizantes conhecidos são as cianobactérias. Ou seja, todas as outras formas de vida que fazem
fotossíntese são eucariontes. O advento da endossimbiose deu capacidade às células eucarióticas de captar
luz e fixar carbono, gerando seu próprio alimento, o que foi vantajoso para elas. A cianobactéria também
se beneficiou, pois recebeu abrigo e proteção da célula eucariótica. Ocorreu então uma coevolução entre a
célula hospedeira e a cianobactéria intracelular, que evoluiu para organela, hoje conhecida como
cloroplasto. Essa coevolução permitiu a origem e o desenvolvimento das plantas e algas atuais.
A ideia básica sobre a origem dos cloroplastos parece muito simples: a endossimbiose de uma
cianobactéria dentro de uma célula eucariótica, em que ambas se beneficiam e podem coevoluir. Porém, a
realidade é muito mais complicada, não apenas em relação aos fatos que tiveram que acontecer para que
esse evento fosse bem-sucedido, como também na diversidade biológica que resultou com a evolução dos
organismos fotossintetizantes. Existem eucariontes fotossintetizantes de vários tamanhos, desde plantas
terrestres e grandes macroalgas até seres unicelulares, as microalgas. Além disso, esses organismos
podem ser sésseis ou móveis e ocupam todos os ambientes: terrestre, aquático, do equador aos polos. Essa
diversidade é enorme e muitos desses organismos não evoluíram juntos. Esse capítulo vai mostrar um
panorama geral da origem do cloroplasto e como esse evento permitiu a diversidade de organismos
eucariontes fotossintetizantes.

As algas e sua diversidade


Para tratar da evolução do cloroplasto e dos organismos eucariontes fotossintetizantes é
necessário ter uma visão geral da diversidade desses organismos. Tradicionalmente, o termo “alga”
remete a todas as formas de vida fotossintetizante com clorofila a, não incluindo as plantas terrestres.
Essa visão era suficientemente ampla para incluir organismos tão distintos como procariontes (as
cianobactérias) e eucariontes. Dos eucariontes, são considerados “algas” tanto organismos próximos às
plantas terrestres como protozoários próximos a organismos não fotossintetizantes. De modo geral, as
algas estão supostamente unificadas com base na fotossíntese oxigênica, apesar dessa realidade não
retratar uma evolução originada de um mesmo ancestral comum (Ver capítulo 2).

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Todas as formas de vidas existentes hoje estão divididas em três domínios: Bacteria, Archaea
(procariontes) e Eukarya (eucariontes). A fotossíntese oxigênica está presente nos domínios Bacteria
(apenas nas cianobactérias) e Eukarya, espalhada em diversos grupos. É consensual que a origem dos
eucariotos é única, ou seja, ocorreu apenas uma vez, porém existem várias evidências mostrando que os
organismos eucariontes fotossintetizantes surgiram diversas vezes. Para entender essa diversidade será
passado brevemente quem são esses organismos.
Atualmente, são reconhecidos cinco grandes grupos em Eukarya: Unicontes (dividido em
Opistocontes e Amoebozoa), Archaeplastida, Rhizaria, Chromoalveolados (divididos principalmente em
Alveolados e Estramenópilas) e “Excavados” (dividido em Excavados e Discicristados). Apenas um deles
não possui representantes fotossintetizantes: os Unicontes (Figura 1). A primeira vez que ocorreu a
endossimbiose foi em um ancestral comum do grupo Archaeplastida (archae = antigo; plastida =
cloroplasto). Esse evento ocorreu apenas uma vez e é chamado de endossimbiose primária. Esse grupo é
monofilético e todas as espécies são fotossintetizantes. Existem três grandes linhagens distintas:
Rhodophyta (algas vermelhas), Chloroplastida (inclui as algas verdes e as plantas terrestres) e
Glaucophyta. Todos os outros eucariontes fotossintetizantes foram originados a partir de eventos de
endossimbiose secundária, em que ocorreu o engolfamento de um eucarionte unicelular fotossintetizante,
que seria da linhagem Archaeplastida, por uma outra célula eucarionte heterotrófica. O evento da
endossimbiose secundária ocorreu várias vezes ao longo da evolução, enquanto que a endossimbiose
primária ocorreu apenas uma vez.
O grupo Rhizaria possui organismos que são majoritariamente ameboides e fazem parte,
principalmente, do plâncton do mar. Porém existem também organismos de água doce e terrestres. Fazem
parte desse grupo: Radiolaria, Foraminifera, Plasmodiophora, Heliozoa e Cercozoa. Apenas em Cercozoa
existem organismos fotossintetizantes, as “cloraraquiniófitas” (Chlorarachniophyta) (Figura 1). Estas
algas são unicelulares marinhas. Apesar de elas serem fotossintetizantes, estão bastante relacionadas com
organismos heterotróficos.
Estramenópilas fotossintetizantes constituem em torno de onze linhagens distintas, todas elas
possuem cloroplasto com clorofila a e c (Figura 1). Entre elas estão dois grupos que são ecológica e
economicamente importantes: as diatomáceas e as algas pardas, juntos formam o grupo heterocontes. As
diatomáceas são microalgas muito abundantes no plâncton marinho e de água doce. Possuem uma
carapaça de sílica bipartida que se encaixam como uma caixa com uma tampa. As algas pardas
(Phaeophyceae) são macroalgas que estão amplamente distribuídas no globo terrestre, principalmente nas
regiões temperadas. Existem espécies enormes, que podem chegar a 60 metros de comprimento e formam
verdadeiras florestas subaquáticas, conhecidas como florestas de kelps.

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Figura 1: Árvore filogenética de Eukarya, mostrando os grandes grupos. Os ramos pretos indicam a
presença de organismos capazes de realizar fotossíntese. Modificado de Baudalf (2008) por Fernando
Sena.

Dentro do grupo dos alveolados (Figura 1), apenas os dinoflagelados possuem representantes
fotossintetizantes, mesmo assim, não são todos. Dinoflagelados formam um grupo diverso,
predominantemente unicelular. Apenas metade deles é fotossintetizante, mas há indícios que o ancestral
comum do grupo era capaz de realizar fotossíntese e, ao longo da evolução, uma parte perdeu essa
capacidade. Apicomplexas são grupo-irmão dos dinoflagelados e inclui importantes agentes que causam
doenças, como malária (Plasmodium) e toxoplasmose. Todos os apicomplexas, apesar de não realizarem
fotossíntese, possuem um cloroplasto vestigial chamado apicoplasto, sugerindo que o ancestral comum
entre dinoflagelados e os aplicomplexas era fotossintetizante.
As haptófitas e as criptófitas são microalgas evolutivamente próximas das estramenópilas
(Figura 1). Elas também possuem cloroplasto com clorofilas a e c, o que sugere que o ancestral comum
entre as estramenópilas, haptófitas e criptófitas já possuía cloroplasto com clorofila c.
Os únicos organismos fotossintetizantes dos excavados são as euglenófitas (Figura 1). Ainda
assim, apenas uma parte delas possui cloroplastos, o que significa que a endossimbiose secundária
ocorreu depois do surgimento da linhagem das euglenas. As euglenófitas são unicelulares de vida livre
que ocorrem nos ambientes marinhos e de água doce.
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Endossimbiose primária
Todos os organismos que fazem fotossíntese oxigênica possuem clorofila a como molécula
principal para captação de luz. Essa molécula está associada a um sistema químico e fotoquímico tão
complexo que chega a ser inconcebível a ideia de que ela possa ter surgido mais de uma vez no planeta.
Já foi dito anteriormente que a clorofila a surgiu nas cianobactérias, antes do aparecimento do primeiro
eucarionte e que existem evidências que sugerem veementemente que o cloroplasto dos organismos
eucariontes surgiu primeiramente com a endossimbiose de uma cianobactéria dentro de uma célula
eucarionte hospedeira (Figura 2a). Com isso, o que prova que a endossimbiose primária ocorreu apenas
uma vez é a origem única da clorofila a das cianobactérias.
De modo geral, a endossimbiose ocorre de forma bem corriqueira no planeta. Vários casos
podem ser citados, o mais comum é o dos recifes de corais. Os corais são cnidários que possuem dentro
de suas células endossimbiontes que são dinoflagelados, chamados zooxantelas. São as zooxantelas que
promovem as cores dos corais. Elas realizam fotossíntese e fornecem alimento para os cnidários, que por
sua vez, fornecem abrigo para elas. Quando há um desequilíbrio ambiental, seja por poluição ou aumento
da temperatura da água, os cnidários expulsam as zooxantelas de suas células, o que provoca o
branqueamento dos corais. No caso das plantas e das algas, elas não são capazes de expulsar os
cloroplastos de suas células. Isso se deve ao fato de que ao longo da coevolução das células vegetais e dos
cloroplastos ocorreram eventos de transferência lateral (ou horizontal) de genes, em que genes essenciais
que pertenciam ao genoma da cianobactéria foram transferidos para o núcleo da célula hospedeira. Esta,
por sua vez, passou a produzir as proteínas importantes para a vida da cianobactéria, tornando-a
dependente da célula hospedeira (Figura 2b). Se a transferência lateral de genes não tivesse ocorrido,
provavelmente a cianobactéria não iria coevoluir para o cloroplasto da célula vegetal.
O cloroplasto dos eucariontes que evoluíram da endossimbiose de uma cianobactéria possui duas
membranas. Esses cloroplastos são chamados de primários ou simples. Tradicionalmente, existem duas
explicações para a presença dessas duas membranas. A hipótese mais comum é que a membrana interna
era a membrana plasmática da cianobactéria, enquanto que a membrana mais externa é do fagossomo
(vacúolo digestivo) da célula eucarionte. Esta teoria foi aceita no início, porém a segunda hipótese é mais
aceita atualmente. A outra explicação é que tanto a membrana interna como a externa pertenciam à
cianobactéria original. As cianobactérias são bactérias gram-negativas, isto é, possuem parede celular
constituída por uma camada de peptidioglicano, envolvendo a membrana plasmática, e externamente a
essa camada há outra membrana lipoprotéica. Durante a evolução dos cloroplastos, a camada de
peptideoglicano foi perdida, mantendo-se as duas camadas lipoproteicas - a membrana plasmática e a
membrana lipoproteica mais externa da parede celular. Uma evidência importante para esta segunda
hipótese é a presença de vestígios de peptidioglicano nos cloroplastos das glaucófitas. Nesta hipótese,
assume-se que a membrana do fagossomo foi perdida. Entretanto, estudos recentes dos cloroplastos de
plantas terrestres sugerem que a membrana mais externa é uma combinação da membrana da célula
hospedeira com a membrana externa da cianobactéria.

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Além da transferência lateral de genes, outro fator importante para que a endossimbiose fosse
bem-sucedida foi a origem de translocons (complexo de proteínas de membranas) nas membranas do
endossimbionte, que permite a importação das proteínas codificadas pelos genes transferidos. Como
existem duas membranas no cloroplasto, as maquinarias de importação de proteínas são compostas por
dois translocons: um para a membrana externa (chamado Toc) e outro para a membrana interna (chamado
Tic). Cada um desses translocons é constituído por múltiplas proteínas de canal, receptores e funções
regulatórias.

Figura 2: Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Primária. Chl


a: clorofila a, Chl b: clorofila b, PB: ficobiliproteínas, TLC: Transferência lateral de genes. Modificado
de Bellorin & Oliveira (2006) por Fernando Sena.

A célula hospedeira ancestral, que adquiriu o cloroplasto primário, deu origem a três linhagens
bem definidas: as glaucófitas, as algas vermelhas e as algas verdes (que inclui as plantas terrestres)
(Figura 2c), que formam a linhagem monofilética Archaeplastida. As glaucófitas constituem um pequeno
grupo de algas unicelulares de água doce. O cloroplasto das glaucófitas é bem característico do grupo e é
chamado de cianela. Como foi dito anteriormente, esse cloroplasto agrega evidências da endossimbiose
primária, pois ainda mantém vestígios da camada de peptideoglicano entre as duas membranas. Os
cloroplastos das algas vermelhas e as cianelas possuem pigmentos para captação de luz semelhante ao das
cianobactérias atuais (clorofila a e ficobiliproteínas). As algas verdes, grupo diverso que inclui desde
organismos unicelulares até as plantas terrestres, possui o cloroplasto mais diferenciado das

12
cianobactérias. Esses cloroplastos perderam as ficobiliproteínas, desenvolveram a clorofila b e possui um
complexo de membrana formando os tilacóides.

Endossimbiose secundária
Como já foi dito anteriormente, todos os outros organismos fotossintetizantes, que não fazem
parte do grupo Archaeplastida, não possuem cloroplasto originado da endossimbiose primária, ou seja, a
partir de uma cianobactéria. O cloroplasto desses grupos se originou a partir de células eucariontes que já
possuíam cloroplasto primário e esses eventos são chamados de endossimbiose secundária. Diferente da
endossimbiose primária, que ocorreu apenas uma vez na história da evolução, a endossimbiose secundária
ocorreu diversas vezes, em vários grupos diferentes. Os grupos que possuem cloroplastos secundários
são: euglenófitas, dinoflagelados, algas heterocontes (diatomáceas e algas pardas), haptófitas, criptófitas,
apicomplexas e “cloraraquiniófitas” (Figura 1).
A primeira evidência que indica a endossimbiose secundária é a presença de mais de duas
membranas nos cloroplastos desses grupos. As euglenas e os dinoflagelados possuem três membranas e as
algas heterocontes, as haptófitas, as criptófitas, os apicomplexas e as “cloraraquiniófitas” possuem quatro
membranas (Tabela 1). Outra evidência consistente da endossimbiose secundária é a presença do núcleo
vestigial (chamado de nucleomorfo) do eucarionte endossimbionte, presente nos grupos
“cloraraquiniófitas” e criptófitas.
A explicação para as mais de duas camadas do cloroplasto secundário é que as duas camadas
mais internas pertencem ao cloroplasto primário, a terceira camada mais interna seria correspondente à
membrana plasmática do eucarionte que foi engolfado e, por fim, a quarta camada, a mais externa,
corresponde à membrana do fagossomo. No caso do cloroplasto com três membranas, é mais provável
que o cloroplasto secundário tenha perdido uma das membranas, que possivelmente era a membrana
plasmática do eucarionte endossimbionte.
Assim como na endossimbiose primária, para que o eucarionte hospedeiro e o eucarionte
endossimbionte coevoluam, foi necessário que a transferência lateral de genes tivesse ocorrido e um
sistema mais complexo de translocons fosse originado. Dessa vez, não apenas genes do genoma do
cloroplasto primário do eucarionte endossimbionte tiveram que ser transferidos para o genoma nuclear do
eucarionte hospedeiro, mas também genes nucleares do eucarionte endossimbionte tiveram que ser
transferidos para o núcleo do hospedeiro.
Os eucariotos que possuem cloroplastos secundários são tão diversos, assim como esses
cloroplastos são diversos entre si. Por causa dessa diversidade, é bem aceito que a endossimbiose
secundária tenha ocorrido algumas vezes. Existem dois principais tipos de cloroplastos secundários:
aqueles derivados da endossimbiose de alga verde e aqueles derivados de alga vermelha. A
endossimbiose por alga verde ocorreu duas vezes de forma independente na história da evolução. Desses
dois eventos, foram originadas as linhagens das “cloraraquiniófitas” e das euglenófitas fotossintetizantes
(Figura 3). A endossimbiose por uma alga vermelha é mais complexa, pois não se sabe ainda se esse
evento ocorreu apenas uma vez ou mais de uma. No cenário atual, é mais parcimoniosa a ocorrência de

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uma única endossimbiose secundária de uma alga vermelha, que ramificou para os dinoflagelados, algas
heterocontes, haptófitas, criptófitas e apicomplexas (Figura 4).
Os cloroplastos originados pela endossimbiose secundária de uma alga verde possuem clorofila a
e b. As “cloraraquiniófitas” guardam bastante evidência sobre a endossimbiose secundária. Esses
organismos pertencem à linhagem Cercozoa e existem poucas espécies conhecidas. O cloroplasto possui
quatro membranas, um citoplasma vestigial com ribossomos funcionais, um nucleomorfo e o cloroplasto
primário do eucarionte endossimbionte.

Tabela 1: Tabela comparativa entre os grupos fotossintetizantes. Chl a: clorofila a, Chl b: clorofila b, Chl
c: clorofila c, PB: ficobiliproteínas.

Membranas do cloroplasto Nucleomorfo Principais pigmentos

Glaucófitas 2 Ausente chl a, PB


Algas Vermelhas 2 Ausente chl a, PB
Algas Verdes 2 Ausente chl a, chl b

Cryptomonas 4 Presente chl a, chl c, PB


Estramenópilas 4 Ausente chl a, chl c
Haptófitas 4 Ausente chl a, chl c
Dinoflagelados 3 Ausente chl a, chl c
Chloraracniófitas 4 Presente chl a, chl b
Euglenas 3 Ausente chl a, chl b
Apicomplexos 4 Ausente não fotossintetizente

As euglenófitas fotossintetizantes pertencem ao grupo dos Excavados e não são evolutivamente


próximas às “cloraraquiniófitas”, o que corrobora a hipótese de que ocorreram duas endossimbioses
secundárias de alga verde. Além disso, apenas uma parte das euglenófitas possui cloroplasto, indicando
que a endossimbiose não ocorreu no ancestral comum do grupo, mas sim durante a sua diversificação.
Inicialmente, acreditava-se que o cloroplasto das euglenófitas havia sido originado por uma
endossimbiose primária, pois é bastante reduzido. Esse cloroplasto possui três membranas e não possui
nucleomorfo, restando apenas o cloroplasto primário do eucarionte endossimbionte.
Uma origem do cloroplasto a partir de uma alga vermelha foi proposta inicialmente com os
cloroplastos das criptófitas, que são as únicas algas que possuem cloroplasto com ficobiliproteínas e mais
de duas membranas. Esses cloroplastos também possuem clorofila c, pigmento também encontrado nos
cloroplastos das algas heterocontes, haptófitas e dinoflagelados. A hipótese mais parcimoniosa é que a
endossimbiose de uma alga vermelha ocorreu apenas uma vez na história evolutiva e que desse ancestral,
divergiu o grupo conhecido como Chromoalveolados (Figura 4).
As criptófitas são organismos unicelulares marinhos ou de água doce. O cloroplasto secundário
desse grupo tem quatro membranas, possui um citoplasma vestigial com ribossomos e pode armazenar
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reserva de amido. Há também um nucleomorfo e o cloroplasto primário contém tilacóides. Como já foi
dito, além das clorofilas a e c, estão presentes ficobiliproteínas, pigmento presente nas algas vermelhas. A
membrana mais externa do cloroplasto secundário é contínua com as membranas do retículo
endoplasmático que envolve o núcleo.
As algas heterocontes e as haptófitas possuem o cloroplasto com quatro membranas e são muito
semelhantes (Figura 4b). Perderam o nucleomorfo, mas estão localizadas no lúmen do retículo
endoplasmático. Possuem clorofila a e c e perderam as ficobiliproteínas. As algas heterocontes
constituem o mais diverso grupo de algas, que possui desde organismos unicelulares presentes no
picoplâncton até complexas macroalgas que chegam a um tamanho de muitos metros, as chamadas kelps.

Figura 3: Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Secundária


por uma alga verde. Chl a: clorofila a, Chl b: clorofila b. Modificado de Bellorin & Oliveira (2006) por
Fernando Sena.

Uma história evolutiva mais confusa é a dos alveolados (Figura 4c). Dentro desse grupo estão os
dinoflagelados, onde metade faz fotossíntese e a outra não. O cloroplasto dos dinoflagelados
fotossintetizantes possui três membranas, não possui nucleomorfo e contém clorofila a e c. Estudos
indicam que a metade heterotrófica dos dinoflagelados perdeu o cloroplasto ao longo da evolução.
O caso mais surpreendente da evolução dos cloroplastos são os apicomplexas. Todos os
apicomplexas são heterotróficos e muitos estão associados a doenças animais. Eles possuem um
cloroplasto não fotossintetizante e reduzido de quatro membranas, que são chamados de apicoplastos.
Esses cloroplastos perderam totalmente a capacidade de fotossíntese, mas os vestígios de um ancestral
fotossintetizante ainda estão presentes.

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A situação filogenética dos chromoalveolados ainda é duvidosa e pouco resolvida. A hipótese
mais parcimoniosa sugere um evento único de uma endossimbiose secundária de uma alga vermelha, que
coevolui, divergindo para os grupos das criptófitas, haptófitas, alveolados e estramenópilas. Ao longo da
evolução, grande parte das espécies desses grupos perdeu o cloroplasto, ou a capacidade de fazer
fotossíntese.

Figura 4: Representação esquemática da evolução do cloroplasto através da Endossimbiose Secundária


por uma alga vermelha. Chl a: clorofila a, PB: ficobiliproteínas. Modificado de Bellorin & Oliveira
(2006) por Fernando Sena.

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CAPÍTULO 2

Diversidade de macroalgas marinhas


Cíntia Iha

O termo “alga” não constitui uma categoria taxonômica definida, muito menos evolutiva. Em
geral, esse termo é empregado para designar qualquer organismo fotossintetizante, que contém clorofila a
como principal pigmento fotossintético, uni ou multicelulares, predominantemente aquáticos e que não
são plantas, ou seja, não possui diferenciação em raiz, caule ou folhas. Toda vida conhecida no planeta
está dividida em três domínios: dois procariontes – Bacteria e Archaea, e um eucarionte – Eukarya. As
algas não possuem um ancestral comum e estão espalhadas pela árvore da vida, pertencendo até mesmo a
domínios diferentes, pois as cianobactérias (pertencentes ao domínio Bacteria) também são consideradas
algas e todas as outras algas estão no domínio Eukarya.
A Ficologia é a ciência que estuda algas (phycos, do grego = algas) e abrange uma grande
diversidade de organismos de linhagens filogeneticamente distintas. Dentro do domínio Eukarya as algas
também estão representadas em linhagens diferentes (Figura 1). Tradicionalmente, a Ficologia é dividida
em estudos de algas microscópicas e macroscópicas. A grande maioria das espécies de algas, inclusive as
eucarióticas, são organismos microscópicos e são comumente chamados de microalgas. Estas podem ser
de vida livre, coloniais, bentônicas, planctônicas e estão presentes em praticamente todos os ambientes da
face da Terra, inclusive ambiente extremos, como em lavas de vulcões e nas calotas polares (Ver capítulo
3). Já espécies de algas que são organismos multicelulares e que podem ser visualizados a olho nu são
chamadas de macroalgas. Podem ser organismos simples de corpo chamado acelular, ou podem ser
constituídas por várias células agregadas, que formam estruturas consideradas tecidos simples. São
encontradas principalmente em ambientes aquáticos, sejam marinhos ou continentais, mas também podem
ser terrestres.
No século XIX, as macroalgas foram classificadas baseadas na composição pigmentar, ou seja,
pelas cores. Essa classificação básica persiste até hoje (Ver capítulo 4). Atualmente, elas estão divididas
em três grandes grupos: Rhodophyta (algas vermelhas), Chlorophyta (algas verdes) e Ochrophyta (algas
pardas). As diferentes cores desses organismos são reflexos da composição pigmentar encontrada em
cada grupo. Além da composição pigmentar, outros aspectos contribuem para diferenciar esses grupos,
entre os quais é possível citar: substâncias de reserva, composição da parede celular, presença ou ausência
de flagelos, ultraestrutura da mitose, conexões entre células adjacentes, ultraestrutura dos cloroplastos,
entre outros. Essas características são utilizadas para diferenciar os grandes grupos que pertencem as
macroalgas, porém as relações filogenéticas eram difíceis de serem estabelecidas. O advento da biologia
molecular e os estudos de filogenia molecular foram um avanço muito importante para estabelecer
hipóteses sobre as relações evolutivas entre as várias linhagens de macroalgas, também de microalgas, e

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mostraram definitivamente que as algas, em geral, formam um grupo artificial que inclui táxons que
muitas vezes são mais relacionados com organismos não fotossintetizantes do que com outras algas.
Até mesmo as macroalgas pertencem a linhagens bem distintas (Figura 1). As algas vermelhas e
as algas verdes (representadas pelos grupos Charophyceae, Chlorophyceae e Ulvophyceae) estão na
linhagem Archaeplastida, que possui cloroplasto originado por endossimbiose primária (Ver capítulo 1).
Já as algas pardas estão bem distantes filogeneticamente desses dois grupos, pois pertencem à linhagem
Estramenóplilas, dentro de Chromoalveolados, que possui cloroplasto originado por uma endossimbiose
secundária por alga vermelha (Figura 1). Esse capítulo será focado apenas nas características e evolução
das macroalgas.

Figura 1: Árvore filogenética de Eukarya, mostrando os grandes grupos. Os ramos pretos indicam a
presença de organismos capazes de realizar fotossíntese (plantas e algas). Modificado de Baudalf (2008)
por Fernando Sena.

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Algas verdes (Chlorophyta)
chloro (grego) = verde
phyton (grego) = planta

Como dito anteriormente, as algas verdes fazem parte da linhagem Archaeplastida, que foi
originada após a endossimbiose primária por uma cianobactéria. A classificação tradicional considera
algas verdes os grupos Charophyceae, Chlorophyceae e Ulvophyceae. Entretanto, esses grupos não
formam um clado monofilético, ou seja, não possuem um ancestral comum, pois Charophyceae é mais
relacionada evolutivamente com plantas terrestes do que com as outras algas verdes. Em termos
evolutivos, para considerarmos algas verdes como um grupo monofilético teríamos que incluir as plantas
terrestres, ou seja, chamá-las de algas. Os botânicos de plantas terrestres não costumam gostar dessa
classificação e esta será uma discussão sem fim.
As algas verdes estão presentes nos ambientes mais diversos. A grande maioria das espécies é de
água doce, predominantemente planctônica, e apresenta uma distribuição cosmopolita. A maior parte das
formas marinhas encontra-se em águas tropicais e subtropicais, fazendo parte dos bentos. Existem
algumas formas terrestres, crescendo sobre troncos ou barrancos úmidos (ex. Trentepohlia). Outras
crescem sobre camadas de gelo nos polos (ex. Chlamydomonas). Existem ainda, formas saprófitas (sem
pigmentos) e formas que vivem em associações com fungos (líquens), protozoários, celenterados (ex.
hidras) e mamíferos (pelos de bicho-preguiça).
A linhagem que inclui algas verdes e plantas terrestres se chama Viridiplantae (Chlorobiota,
Chlorobionta e Chloroplastida também são utilizados, mas menos aceitos atualmente). Esta linhagem
inclui organismos eucarióticos com clorofila a e b e existem praticamente todos os tipos de morfologia
vegetativa, de organismos unicelulares até as complexas plantas terrestres. A grande maioria é
microscópica. Talvez, graças a essa grande diversidade de formas, foi a única linhagem dentro das algas a
colonizar com sucesso o ambiente terrestre. Dados morfológicos e moleculares dividem as Viridiplantae
em duas linhagens: Streptophyta, as carofíceas (Charophyceae) e as plantas terrestres; e a Chlorophyta,
com as demais algas verdes. As macroalgas marinhas são classificadas dentro de Ulvophyceae, que está
dentro de Chlorophyta. Como existem poucas espécies de macroalgas verdes marinhas serão incluídas
características gerais das algas verdes neste capítulo.

Características básicas das algas verdes


São células eucarióticas, com morfologia muito diversificada, existindo formas unicelulares,
coloniais, filamentosas e parenquimatosas. Existem desde formas microscópicas até formas que podem
atingir alguns metros. Algumas formas coloniais apresentam um número definido de células para a
espécie. Essas colônias recebem o nome de cenóbio. As algas verdes podem ser celulares ou cenocíticas,
isto é, não apresentam paredes transversais, e são multinucleadas. A maioria das cenocíticas é
filamentosa.

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Em relação à organização da célula das algas verdes, a parede celular é constituída por uma
estrutura fibrilar, principalmente de celulose (algumas espécies apresentam polímeros de xilose ou
manose) embebida em uma matriz não fibrilar (geralmente hemicelulose). Alguns gêneros podem
apresentar depósito de carbonato de cálcio na parede. Podem apresentar flagelos, geralmente dois ou
quatro, mas este número pode variar, nas fases vegetativa, reprodutiva ou em ambas. Os flagelos são de
tamanho e organização iguais, localizados na região anterior. Podem ser simples ou plumosos. A maioria
das células flageladas apresenta estigma (mancha ocelar) localizado no cloroplasto, em posição anterior
próximo aos flagelos. A mancha ocelar consiste em uma ou mais camadas de lipídios localizados no
estroma entre a última camada de tilacoides e o envelope do cloroplasto. Geralmente é alaranjado ou
avermelhado pela presença de carotenoides. Está relacionado à percepção luminosa.
Como dito anteriormente, todas as algas verdes e as plantas terrestres possuem clorofila a e b.
Além das clorofilas estão presentes carotenoides, sendo o principal a luteína (xantofila). Outras xantofilas
podem ocorrer, bem como β-caroteno. Esses pigmentos estão localizados no cloroplasto. Essas algas
possuem de um a muitos cloroplastos por célula. A forma é extremamente variável, constituindo um
importante critério na classificação. Podem ser em forma de fita, estrelado, laminar, discoide, reticulado,
entre outros. Ao microscópio eletrônico, verifica-se que muitas algas verdes possuem bandas com dois a
seis tilacoides cada. Em alguns gêneros de algas verdes é possível encontrar grana, semelhantes aos
encontrados em plantas vasculares. O pirenoide é uma região localizada no estroma dos cloroplastos
presente apenas em Chlorophyta (Charophyceae e plantas terrestes não possuem) que está relacionado
com a fixação do dióxido de carbono. Podem ocorrer em um ou mais por cloroplasto. O produto de
reserva de todas as Viridiplantae é o amido e é armazenado dentro do cloroplasto, associado aos
pirenoides, quando esses existem. Durante a divisão celular, após a formação de dois núcleos filhos, os
microtúbulos podem se arranjar de duas formas distintas: no caso das Chlorophyta eles se organizam
paralelamente ao plano de divisão da célula (ficoplasto), no caso das Charophyceae e plantas terrestes
eles se organizam perpendicularmente a este (fragmoplasto).

Reprodução e histórico de vida


O histórico de vida das algas verdes é extremamente variável. Nas Chlorophytas ocorre
reprodução vegetativa, por divisão celular simples ou fragmentação. Reprodução espórica, pela formação
de esporo, que podem ser zoósporos (com flagelo) ou aplanósporos (sem flagelo). E reprodução gamética,
ou sexuada, em que a morfologia dos gametas verifica-se a isogamia (gametas iguais), anisogamia
(gameta feminino maior do que o gameta masculino, todos apresentando flagelos) e oogamia (em que o
gameta feminino não possui flagelos). Esses gametas podem ser móveis (planogametas = zoogametas) ou
imóveis (aplanogametas). Dos tipos de histórico de vida estão presentes:
 Haplobionte diplonte, meiose gamética. ex. Caulerpa, Codium.
 Haplobionte haplonte, meiose zigótica. ex. Zygnema, Spirogyra.
 Diplobionte isomórfico, meiose espórica. ex. Ulva, Chaetomorpha.

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 Diplobionte heteromórfico, meiose espórica. ex. Derbiesia (2n), alternando com uma
fase n muito diferente, descrita no passado como um gênero distinto, Halicystis.

Algas vermelhas (Rhodophyta)


rhodon (grego) = rosa
phyton (grego) = planta

As algas vermelhas fazem parte da linhagem Archaeplastida, que foi originada após a
endossimbiose primária por uma cianobactéria (Figura 1). É uma linhagem monofilética, ou seja, possui
um ancestral comum, e abrange muitas características próprias que corroboram para o monofiletismo do
grupo, inclusive dados moleculares. Uma das principais características é a ausência de flagelos em
qualquer fase do ciclo de vida. Estudos genômicos de representantes desse grupo confirmaram a ausência
de genes relacionados com formação de cílios e flagelos, concluindo que a perda desses genes deve ter
ocorrido no ancestral comum do grupo. Tradicionalmente as algas vermelhas são divididas em dois
grupos: Florideophycidae, que é monofilética e abrange 90% das espécies; e Bangiophycidae, que é
polifilética (ou seja, não apresentam um ancestral comum). Todas as Florideophycidae e uma parte das
Bangiophycidae são macroalgas, em pelo menos uma parte do histórico de vida. Existem formas
microscópicas e unicelulares.
As macroalgas vermelhas são, em sua maioria, algas marinhas bentônicas, existindo poucas
espécies de água doce. Ocorrem desde a região equatorial até as regiões polares. Por causa de seu
conteúdo pigmentar, podem ocorrer até profundidades de aproximadamente 260 m em regiões de águas
com elevado índice de transparência.
A maioria das algas vermelhas é multicelular, existindo poucos gêneros unicelulares. Entre as
multicelulares predominam as formas filamentosas às vezes assumindo formas complexas, que são
chamadas de pseudoparenquimatosas. Algumas espécies de Bangiophycidae, principalmente os gêneros
Porphyra e Pyropia apresentam talo não filamentoso, membranoso, com duas camadas de células.
Quanto ao tamanho, variam de microscópicas até espécies com alguns metros de comprimento.

Características básicas das algas vermelhas


O talo das algas vermelhas é constituído por células eucarióticas. Estas podem estar ligadas às
células adjacentes por meio de ligações citoplasmáticas que encontram-se preenchidas por camadas de
polissacarídeos proteicos, conhecidas por “pit-connection”. Estas ligações estão presentes apenas em
Florideophycidae. Em relação à organização celular, as algas vermelhas apresentem parede celular
constituída basicamente por duas partes: uma interna e rígida, formada por microfibrilas de celulose (a
maioria das algas vermelhas), e outra mais externa, mucilaginosa, formada por polímeros de galactanas,
como ágar e carragenanas. Esses dois últimos componentes possuem grande importância econômica.
Certos grupos de algas vermelhas apresentam deposição de carbonato de cálcio na parede, dando grande
rigidez ao talo. Essa deposição pode estar na forma de aragonita ou calcita.

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Os pigmentos das algas vermelhas são a clorofila a (presente em todas as algas vermelhas),
carotenoides, principalmente β-caroteno, e xantofilas, como zeaxantina e luteína. Apresentam, também,
uma categoria de pigmentos chamados ficobiliproteínas, que estão sempre associados, formando os
ficobilissomos. Estão presentes as seguintes ficobilinas: c- e r-ficocianina, aloficocianina e b-, r- e c-
ficoeritrina. As ficoeritrinas são as responsáveis pela coloração vermelha que na maioria dos gêneros de
Rhodophyta mascaram a presença de outros pigmentos. Esses pigmentos estão presentes no cloroplasto.
Pode ocorrer um número variável de cloroplastos (um a muitos por célula), geralmente ovais ou
discoides, podendo em alguns gêneros apresentar forma estrelada. Os tilacoides encontram-se livres nos
cloroplastos, apresentando ficobilissomos em sua superfície. O principal material de reserva é o amido
das florídeas, que é armazenado no citoplasma e não nos cloroplastos. Apresenta propriedades entre o
glicogênio e o amido. Reage com iodo formando uma substância de coloração marrom-avermelhada.
O crescimento da maioria das Florideophycidae ocorre através de uma ou mais células apicais,
enquanto que nas formas membranosas, como nas Bangiophycidae, o crescimento é difuso. As espécies
filamentosas, com crescimento através de uma célula apical, muitas vezes apresentam-se com morfologia
cilíndrica com um sistema de crescimento uniaxial. Quando o crescimento ocorre através de várias células
apicais, o talo é constituído por vários filamentos, cada um deles apresentando uma célula inicial apical,
constituindo-se em um sistema de crescimento multiaxial. Nesses dois tipos de crescimento, as células
apresentam-se tão justapostas que em corte transversal podem ser confundidas com células de um
parênquima. Entre as filamentosas ocorre um tipo peculiar de talo conhecido como polissifônico. Existe
uma distinção entre células corticais (mais externas) e medulares (mais internas). As células corticais são
normalmente pequenas e pigmentadas, enquanto que as medulares são geralmente maiores e pouco ou
nada pigmentadas.

Reprodução e histórico de vida


Entre as macroalgas vermelhas ocorre reprodução vegetativa, que pode ocorrer através da
fragmentação do talo. Ocorre também reprodução espórica, que pode ocorrer através da formação de
esporos resultantes da meiose e são sempre formados em número de quatro dentro de uma estrutura que
pode ser chamada de esporângio, mas nos estudos de algas vermelhas esta estrutura é comumente
denominada de tetrasporângio. Os esporos recebem o nome de tetrásporos. Estes podem estar arranjados
de forma cruciada, zonada ou tetraédrica. Já a reprodução gamética não é conhecida para todos os
gêneros. Nas que são conhecidas, verifica-se a oogamia, em que o gameta feminino é maior que o
masculino, é séssil e é denominado de carpogônio. O carpogônio apresenta uma porção diferenciada,
chamada tricogine, que é a região em que o gameta masculino, denominado espermácio, é móvel, porém
sem flagelo (lembre-se que não existem flagelos em Rhodophyta).
Os históricos de vida das Rhodophyta não são nada simples (Ver capítulo 4). Nas macroalgas
vermelhas, em que os históricos de vida são conhecidos, são diplobionte, ou seja, há alternância de
gerações, que podem ser isomórficas ou heteromórficas. Entretanto, dentro de Florideophycidae surge
uma outra geração, além das conhecidas gametofíticas e esporofíticas (em algas vermelhas essa geração é

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comumente chamada de tetrasporofítica), ocorre o surgimento de uma terceira geração chamada
carposporofítica, que é parasita do gametófito feminino e resultante da fecundação. As características do
histórico de vida são importantes no reconhecimento taxonômico de classes, ordens e famílias. Vão ser
dados como exemplo dois tipos de histórico de vida: do gênero Gracilaria (Florideophycidae) e do
gênero Porphyra (Bangiophycidae).
No gênero Gracilaria, o histórico de vida é trifásico, ou seja, possui as seguintes fases:
gametofítica (n), carposporofítica (2n) e tetrasporofítica (2n). O tetrasporófito e o gametófito são
isomórficos e independentes, enquanto que o carposporófito é parasita do gametófito feminino. O
gametófito masculino produz numerosos espermácios que são carregados através dos movimentos da
água até os gametófitos femininos; onde estão os carpogônios (gametas femininos), que possui a
tricogine, onde o espermácio vai se aderir. Após a fecundação, o carpogônio fecundado se desenvolve e
origina a fase carposporofítica, que é diploide. O carposporófito desenvolve-se superficialmente sobre o
gametófito feminino e é protegido por células do gametófito, formando uma estrutura típica, como uma
urna, denominada de cistocarpo. O carposporófito, lá dentro do gametófito “mãe” produz carpósporos,
que são tipo de esporos diploides, e são liberados gradativamente através de um orifício do cistocarpo
(ostíolo). Esses carpósporos ao germinarem originam a fase esporofítica, que se desenvolve e produz
tetrasporângios. A meiose sempre ocorre na fase tetrasporofítica, dando origem a esporos haploides.
Como esses esporos são formados em número de quatro dentro de um esporângio, recebem o nome de
tetrásporos. A germinação dos tetrásporos resulta em gametófitos masculinos ou femininos.
O gênero Porphyra (Bangiophycidae) apresenta um histórico de vida difásico e heteromórfico.
No início dos estudos das algas vermelhas, essas duas fases heteromórficas foram tratadas como gêneros
distintos. A fase “conchocelis” é microscópica e filamentosa, ocorrendo no interior de conchas, enquanto
que a fase foliácea é macroscópica, ocorrendo, no Brasil, apenas no inverno-primavera, crescendo no
médio-litoral superior de costões rochosos. Para muitas espécies de Porphyra, o fotoperíodo (duração dos
períodos claro/escuro) desempenha um papel importante no controle desse histórico de vida. A fase
foliácea produz carpogônios muito reduzidos e espermácios. Após a fertilização, forma-se o zigoto, que
se divide várias vezes, dando origem a carpósporos. Não são formados cistocarpos como em Gracilaria.
Esses carpósporos são liberados e germinam dando origem a fase filamentosa “conchocelis”. Esses
filamentos produzem esporos denominados de conchosporos, os quais ao serem liberados, germinam e
originam fase foliácea.

Importância econômica
Espécies de algas vermelhas possuem grande importância econômica para indústrias alimentícia,
farmacêutica e biotecnológica. Os ficocoloides são substâncias mucilaginosas (polissacarídeos coloidais)
extraídas de algas, que possuem interesse comercial. Esses ficocoloides possuem um comportamento em
soluções aquosas que permitem a formação de substâncias viscosas ou géis semelhantes à gelatina. Os
ficocoloides conhecidos das algas vermelhas são o ágar e a carragenana. Dependendo de suas
propriedades físico-químicas, esses polissacarídeos terão um emprego determinado.

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As carragenanas e ágar são polissacarídeos presentes na parede celular de algas vermelhas. As
carragenanas são polímeros de D-galactose que se caracterizam por apresentar grupos sulfatados. São
agrupadas em três famílias: lambda carragenano, kappa carragenano e iota carragenano. Cada uma
apresenta propriedades físicas diferentes, e possuem numerosas aplicações na indústria farmacêutica,
cosmética e de tintas; porém, a maior aplicação está na indústria alimentícia onde, devido a suas
propriedades gelificantes e estabilizantes são utilizadas na fabricação de queijos, cremes e gelatinas. Os
principais gêneros produtores de carragenana são: Chondrus, Eucheuma, Kappaphycus, Gigartina,
Iridaea e Hypnea.
O ágar é uma família de polissacarídeos presentes em algas vermelhas, que apresenta estruturas
de D e L-galactose. Alguns ágares possuem um baixo teor de sulfato, o que lhes confere uma alta força de
gel. O ágar, além de ter as aplicações das carragenanas, pode ser usado na preparação de meios de
culturas, sendo a matéria-prima básica na biologia molecular. A utilização do ágar para preparação desses
meios deve-se principalmente à formação de gel em baixas concentrações, baixa reatividade com outras
moléculas; e resistência à degradação pelos microorganismos mais comuns. Preparações comerciais de
ágar são obtidas principalmente de espécies de Gelidium e Gracilaria. Gelidium, juntamente com
Pterocladia, fornecem um ágar excelente para microbiologia. Tentativas de cultivo dessas algas,
principalmente Gracilaria, vem sendo realizadas em vários países, alcançando grande sucesso no Chile
que é hoje seu maior produtor. A partir de frações menos iônicas do ágar, sob condições controladas,
obtém-se a agarose, que é um produto altamente refinado e tem sido amplamente utilizado na área
biotecnologica.
Já na indústria alimentícia, “nori”, usado principalmente no preparo do sushi, prato típico da
cozinha japonesa, é oriundo da Porphyra. No Japão, o cultivo teve inicio há aproximadamente 300 anos,
estando atualmente em um estágio avançado, envolvendo um total controle do histórico de vida dessa
alga.

Algas pardas (Ochrophyta ou Heterokonphyta)


phaios (grego) = pardo
phyton (grego) = planta

As algas pardas pertencem ao grupo Estramenópilas, dentro de Chromoalveoladas (Figura 1).


Esse grupo foi originado após uma endossimbiose secundária, sendo que o endossimbionte era uma alga
vermelha unicelular. Esse acontecimento tem sido fortemente corroborado por estudos genômicos das
algas vermelhas e do cloroplasto dos Chromoalveolados.
Atualmente são descritas cerca de 1800 espécies, dentro de 250 gêneros de algas pardas. Essas
espécies são encontradas principalmente em regiões de águas frias. Existem apenas quatro ou cinco
gêneros de água doce e o restante é marinho. Em águas claras podem atingir até 220 m de profundidade.
Todos os representantes das algas pardas são macroalgas, em pelo menos uma fase do histórico de vida.

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Podem ser diminutas ou possuir até 60 ou 70 m de comprimento. Essas algas gigantes são chamadas de
kelps e podem formar verdadeiras florestas nas marés de água fria.
Os estudos tradicionais de algas pardas separam as espécies em três classes artificiais, que são
reconhecidas pelo tipo de histórico de vida:
 Isogeneratae – alternância de geração isomórfica. Ex: ordens Ectocarpales,
Sphacelariales e Dictyotales.
 Heterogeneratae - alternância de geração heteromórfica, sendo o esporófito sempre
maior que o gametófito. Ex. ordens Laminariales, Dictyosiphonales e Chordariales.
 Cyclosporeae – Histórico de vida haplobionte diplonte. Mas há controvérsia,
atualmente, interpreta-se a fase macroscópica como sendo o esporófito, enquanto que o
gametófito seria extremamente reduzido. Os esporângios são formados em cavidades
especiais denominadas de conceptáculos, que podem estar espalhados no talo ou
agrupados em porções dilatadas das extremidades dos ramos, denominadas de
receptáculos. Ex. Ordem Fucales.

Características básicas das algas pardas


A organização do talo das algas pardas pode ser filamentosa, pseudoparenquimatosa ou
parenquimatosa. O talo filamentoso está presente nas formas mais simples, sendo unisseriado ereto,
ramificado ou não, partindo de uma porção prostrada. Com isso, é possível a distinção de filamentos
rasteiros de fixação e filamentos axiais eretos. O talo pseudoparenquimatoso é composto por filamentos
justapostos, unidos por mucilagem, em uma massa amorfa ou formando crostas. E, por fim, o talo
parenquimatoso é formado por células que podem se dividir em vários planos, formando um verdadeiro
tecido. Esse talo pode ser cilíndrico ou achatado na forma de fita ou lâmina. Existe uma diferenciação
entre medula (células mais internas) e córtex (células mais externas). A medula é formada por células
incolores, enquanto que cloroplastos estão presentes nas células do córtex.
Na medula de certas algas pardas como as da Ordem Laminariales, as células param de se dividir
em determinada fase do crescimento. No entanto, a planta continua a crescer e essas células passam a ser
esticadas. Desta forma, originam-se células longas que na região de contato com as células adjacentes
permanecem com a largura original. Nessa região de contato, existem poros nas paredes que permitem o
transporte de produtos da fotossíntese, principalmente de manitol. Essas células assemelham-se aos tubos
crivados das plantas vasculares, sendo anucleadas e apresentando muitas mitocôndrias.
Existem vários tipos de crescimento nas algas pardas. O crescimento pode ser intercalar ou
difuso, que ocorre quando a maioria das células da alga é capaz de se dividir. Está presente na Ordem
Ectocarpales. O crescimento tricotálico ocorre quando as divisões celulares estão localizadas na base de
um ou vários filamentos. Presente nas ordens Desmarestiales, Cutleriales e Chordariales. O crescimento
apical ocorre através de uma célula apical (ex: Sargassum - Fucales), ou um grupo de células apicais,
como um meristema apical (Chnoospora - Ectocarpales), ou uma margem de células apicais (Padina -
Dictyotales). Pode possuir meristema intercalar, em que o crescimento ocorre através de divisões

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celulares de uma zona meristemática (tecido) localizada na base da lâmina, presente na ordem
Laminariales. Pode ser uma meristoderme, em que uma camada superficial de meristema se divide e
acrescenta células de uma forma centrípeta. Essas células sofrem divisões periclinais, que acrescentam
camadas ao córtex, e divisões anticlinais, permitindo o aumento de superfície. Está presente nas ordens
Fucales e Laminariales.
Em relação à organização celular das algas pardas, a parede celular é formada por uma camada
mais interna constituída por celulose, e outra mais externa composta principalmente por ácido algínico e
fucoidina, ambos polissacarídeos. O ácido algínico pode ser encontrado combinado a íons de cálcio,
magnésio e ferro formando alginatos. O alginato tem importância econômica e é muito utilizado na
indústria. Algumas algas pardas podem apresentar calcificação, que possuem depósitos de carbonato de
cálcio na forma de aragonita em sua parede. Os flagelos entre as algas pardas são encontrados apenas nas
células germinativas móveis, sejam os gametas, zoósporos ou ambos. Geralmente, existem dois flagelos
diferentes inseridos lateralmente ou subapicalmente. Um longo e plumoso e o outro curto e simples. Essa
característica dos flagelos é sinapomorfia do grupo Estramenópilas (que significa flagelos diferentes). Nas
proximidades do ponto de inserção do(s) flagelo(s) ocorre a mancha ocelar vermelha constituída por
estruturas lipídicas fotossensíveis.
As algas pardas possuem como pigmentos a clorofila a, clorofilas c1 e c2. Entre os carotenos, o
mais comum é o β-caroteno, enquanto que entre as xantofilas, a mais frequente é a fucoxantina, um
pigmento marrom que é parcialmente responsável pela cor parda dessas algas. Esses pigmentos estão
localizados no cloroplasto. Os cloroplastos estão em número de um a muitos por célula, sendo esse
número utilizado como critério taxonômico, dentro do grupo. A forma é extremamente variada, existindo
formas estreladas, cilíndricas ou lenticulares. Um estudo ultraestrutural dos cloroplastos mostra que as
lamelas estão arranjadas em grupo de três, formando uma banda. Existe sempre uma banda periférica ao
plasto. Envolvendo o cloroplasto, existem duas camadas de retículo endoplasmático rugoso, sendo que
em muitos gêneros, a mais externa envolve também o núcleo. Existem pirenoides que podem estar
presentes nas ordens mais primitivas, porém está ausente nas ordens Dictyotales, Sphacelariales,
Laminariales e Fucales. Os principais produtos de reserva das algas pardas são polissacarídeos do tipo
laminarina e manitol, que ocorrem no citoplasma. Também podem ocorrer compostos fenólicos
agregados formando vesículas de fucosana de coloração parda. Essas, juntamente com a fucoxantina
presente nos plastos, são responsáveis pela cor parda dessas algas.

Reprodução e histórico de vida


Como já foi visto, as algas pardas podem ser separadas conforme o tipo de histórico de vida.
Ocorre reprodução vegetativa, espórica e gamética. Quanto à morfologia dos gametas, verifica-se
isogamia, anisogamia e oogamia. Entre as algas pardas, adota-se uma nomenclatura especial para as
células reprodutivas: órgãos pluriloculares e uniloculares. No órgão plurilocular, as células produzidas
são móveis e derivadas de mitose. Este órgão pode aparecer tanto no gametófito quanto no esporófito.
Quando ocorre no gametófito (n), funciona como um gametângio, produzindo células haploides sexuais

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(gametas). Apesar de também ocorrer desenvolvimento partenogenético desses gametas. Quando ocorre
no esporófito (2n), funciona como um esporângio, produzindo células diploides assexuais (esporos). Já o
órgão unilocular ocorre apenas no esporófito e é formado por uma célula geralmente grande e esférica,
que corresponde ao centro da meiose. Após a meiose, formam-se quatro ou mais esporos haploides
(sempre múltiplos de quatro).

27
CAPÍTULO 3

O fitoplâncton marinho
Karoline Magalhães Ferreira Lubiana

O termo fitoplâncton (do grego phyton ou planta e planktos errante) foi criado em 1897 e se
refere a organismos majoritariamente autotróficos oxigênicos que são incapazes de vencer as correntes, e
são, portanto, distribuídos ao sabor dessas. É composto principalmente por organismos unicelulares e são
os principais seres fotossintetizantes do ambiente marinho. O fitoplâncton é, consequentemente, uma
comunidade de organismos bastante diversa que não compartilha um ancestral recente em comum. Estão
distribuídos em dois domínios, Bacteria e Eukarya. Dentro de Eukarya há pelo menos quatro divisões
com representantes autotróficos no fitoplâncton marinho.
Os organismos fitoplanctônicos têm uma grande amplitude de tamanho, sendo que alguns podem
ser coletados em redes de malha fina, mas a grande maioria é diminuta, e só pode ser coletadapor
centrifugação ou filtração de um grande volume de água do mar.
Há também algas macroscópicas que derivam ao sabor das correntes em algumas áreas
oceânicas, como o gênero Sargassum no mar de Sargaço. Entretanto, tal evento é restrito a pequenas
áreas. As algas bentônicas macroscópicas também têm distribuição limitada à zona costeira, que são áreas
rasas onde a luz solar consegue chegar ao fundo. Diferentemente, o fitoplâncton está distribuído em todas
as áreas iluminadas dos oceanos, uma vez que não necessita de substrato para fixação.
Como o fitoplâncton é a principal comunidade de organismos autotróficos marinhos, seu papel
na cadeia trófica é de suprema importância. Embora a biomassa da comunidade fitoplanctônica represente
menos de um por cento da biomassa fotossintética do planeta, a comunidade é responsável por mais de
48% da produção primária anual da Terra. Nos oceanos, realizam mais de 90% da produção primária,
sendo o restante feito pelas macroalgas, plantas marinhas e organismos quimiossintetizantes.
Neste capítulo, vamos introduzir alguns conceitos sobre o fitoplâncton marinho, descrever um
pouco do ambiente no qual vivem, os principais grupos que compõem essa comunidade e fatores cruciais
para a fotossíntese e a produção de matéria orgânica por esses organismos.

O ambiente marinho
Os oceanos começaram a ser formar quando a Terra foi se resfriando, entre 4400 e 3500 milhões
de anos atrás. A idade dos oceanos é estimada em 4600 milhões de anos. A vida no planeta Terra surgiu
há cerca de 4400 milhões de anos atrás nos oceanos primitivos e, posteriormente, muitas formas de vida
evoluíram no ambiente terrestre e na água doce.
Os oceanos cobrem aproximadamente 70% da superfície do nosso planeta, embora o nosso
planeta paradoxalmente leve o nome de Terra. A região mais profunda dos oceanos tem cerca de 11000

28
metros (Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico) de profundidade, mas a média de profundidade dos
oceanos é de 3800 metros.
O volume total do ambiente marinho garante cerca de 300 vezes mais espaço para o
desenvolvimento da vida que o ambiente terrestre e dulcícola. Comparativamente, o ambiente marinho é
muito distinto do ambiente terrestre visto que as condições físicas que afetam a vida são bastante
diferentes. A água do mar é muito mais densa que o ar e, sendo assim, atinge o modo como a gravidade
afeta os organismos nos dois ambientes. Em terra, as plantas e animais necessitam de um grande aparato
esquelético para sustentá-los de pé ou para movê-los contra a força da gravidade. Na água do mar, os
animais flutuam sobre a agua e não precisam comprometer grande quantidade de energia para formação
de esqueletos estruturais. A imensa maioria dos organismos fotossintetizantes marinhos é representada
por seres microscópicos unicelulares que flutuam na água. Muitos dos animais marinhos são
invertebrados que não têm esqueletos robustos e os peixes têm ossos pequenos. A locomoção por meio de
flutuação e natação carecem de muito menos energia que caminhar ou voar. Triunfar sobre a força da
gravidade é um problema muito maior para os organismos terrestres que para os marinhos. Olhando por
essa ótica, não é de se espantar que a vida tenha surgido no mar, pois energeticamente é bem mais
econômico.
Outras características dão ao ambiente marinho mais vantagens quando o comparamos com o
ambiente terrestre. A água é um constituinte fundamental nos organismos vivos, além de ser uma
substância com imensa capacidade de solubilizar outras como nenhum outro líquido. Na terra, a água
pode ser um fator limitante para a vida, uma vez que em alguns locais está pouco disponível.
Adversamente, esse não é o caso do ambiente marinho. Além das características citadas acima, a
temperatura dos oceanos é muito mais estável que a temperatura do ar. Isso se deve ao fato da água ter
alto calor específico, sendo necessária muita energia para esquentá-la ou resfriá-la.
Por outro lado, o ambiente marinho também tem desvantagens em relação ao ambiente terrestre.
Um deles é a intensidade e disponibilidade de luz. Apenas 50% da energia luminosa total de fato penetra
na água do mar e rapidamente se estingue com o aumento da profundidade. Os organismos
fotossintetizantes podem crescer em uma faixa superficial muito pequena do ambiente marinho, que se
estende por poucos metros em águas turvas ou por algumas centenas de metros em águas claras. A faixa
iluminada dentro de um corpo de água é chamada de zona eufótica. Abaixo da zona eufótica há uma zona
fracamente iluminada, denominada zona disfótica. Nessa região peixes e alguns invertebrados podem ver,
mas a luz é muito baixa, ao ponto da respiração exceder a produção primária realizada pela fotossíntese.
A maior parte do oceano aberto está em total escuridão, ambiente denominado zona afótica. Entretanto, a
imensa maioria dos organismos que vive no ambiente marinho depende direta ou indiretamente da
energia produzida na zona iluminada. No mar, o crescimento dos fotossintetizantes planctônicos também
é limitado pela disponibilidade de nutrientes, como nitrato, fosfato, que estão presentes em pequenas
quantidades na zona eufótica quando comparamos com o solo. Na terra, as plantas que crescem e morrem
fertilizam o solo e disponibilizam esses nutrientes para as próximas gerações. Entretanto, no mar a

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matéria orgânica se deposita em regiões muito abaixo da zona eufótica onde ocorre a produção primária e
esses nutrientes só conseguem retornar àfaixa iluminada por movimentos físicos das massas de água.
A superfície do mar tem condições muito variáveis. A interação entre ar e água permite troca de
gases, variações na temperatura e salinidade, além de originar a turbulência pela ação dos ventos. A água
profunda tem características físico-químicas mais estáveis. Os oceanos têm zonação vertical, pois as
condições ambientais mudam de acordo com a profundidade. Não é somente a luz que diminui com a
profundidade, a temperatura da água do mar diminui drasticamente com a extinção da luz e o alimento se
torna escasso. A pressão hidrostática aumenta com o aumento da profundidade, a salinidade tende a
diminuir e os nutrientes inorgânicos aumentam, pois não há consumo maciço deles como na zona
eufótica.
Devido a essas mudanças descritas acima, os organismos marinhos tendem a ser restritos a
alguma das zonas verticais, assim como o fitoplâncton é restrito à zona eufótica. Numa escala horizontal,
barreiras geográficas dentro da coluna de água refletem diferenças físicas e químicas da água do mar.
Os oceanos podem ser divididos em ambientes. Há a divisão entre ambiente pelágico e ambiente
bentônico (Fig. 1). O ambiente pelágico compreende a coluna de água desde a superfície até o fundo. O
ambiente bentônico envolve o assoalho marinho. Outra divisão separa o oceano aberto em região
oceânica da zona costeira nerítica, sendo a marca dessa separação a quebra da plataforma continental
(cerca de 200 metros de profundidade). A zona costeira compreende a apenas 8% da área total dos
oceanos.

Figura 1: Divisões ecológicas do oceano.

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As espécies podem ser classificadas como oceânicas (vivem longe da costa) e espécies neríticas
(vivem sobre a plataforma continental). Da mesma forma, espécies bentônicas são aquelas que vivem
aderidas ao fundo do mar e espécies pelágicas são aquelas que nadam ou flutuam na coluna de água.
O ambiente pelágico é subdividido em duas categorias de organismos. Os organismos
planctônicos são aqueles que não conseguem vencer as forças das correntes de água e são por elas
passivamente transportados. O plâncton pode ser categorizado como fitoplâncton (organismos que fazem
fotossíntese) e zooplâncton (organismos heterótrofos). Já os organismos capazes de nadar e vencer a força
das correntes são classificados como nécton.

Principais grupos taxonômicos do fitoplâncton marinho

Diatomáceas
As diatomáceas pertencem à classe Bacillariophyceae e atualmente contam com 9709 espécies
descritas. Têm a maior diversidade de espécies conhecida do fitoplâncton. São um dos grupos mais bem
estudados devido à sua beleza, fácil preservação e observação de caracteres. São os organismos mais
dominantes do fitoplâncton em áreas temperadas em altas latitudes.
As diatomáceas são abundantes no ambiente marinho desde o Cretáceo, cerca de 100 milhões de
anos atrás. Atualmente são os principais produtores primários no ambiente marinho. As formas penadas
têm igual representatividade de espécies no ambiente marinho e dulcícola, entretanto, as cêntricas são
predominantemente marinhas. Algumas formas estão representadas na figura 2 a-d. Os ambientes
marinhos com correntes frias têm maiores quantidades de diatomáceas, representadas por poucas
espécies. São importantes produtores primários em regiões costeiras e zonas de ressurgência. Regiões
mais pobres em nutrientes possuem maior diversidade de espécies e menor biomassa. Estima-se que mais
de 40% da produção primária dos oceanos seja realizada pelas diatomáceas.
O cloroplasto é derivado do processo de endossimbiose secundária que envolveu uma alga
vermelha (Ver capítulo 1). Há poucos representantes heterotróficos. Algumas formas simbiontes são
conhecidas em associação com foraminíferos e esponjas. Esses organismos têm um ou vários
cloroplastos, que são envolvidos por quatro membranas, duas membranas do envelope do cloroplasto e
duas outras membranas do retículo endoplasmático, sendo que a última membrana do retículo
endoplasmático é contínua com a membrana externa do envelope nuclear. Nos cloroplastos há um
pirenoide, que pode ser central. Os pigmentos fotossintéticos são as clorofilas a e c1 e c2, além de
carotenoides e xantofilas. O principal carotenoide é a fucoxantina, que dá às células a cor marrom-
dourada, característica do grupo. O produto de reserva da célula é a crisolaminarina, que fica disposta em
vesículas. Elas também armazenam óleos.

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Figura 2: Diferentes formas de diatomáceas marinhas: a) Triceratium pentacrinus - vista ventral ou valvar
(cêntrica); b) Actinoptychus vulgaris- vista valvar (cêntrica); c) Pleurosigma sp. - vista valvar (penada);
d) Coscinodiscus granii - vista lateral ou pleural (cêntrica).

O caráter derivado próprio do grupo é a frústula, parede celular silicosa que corresponde de 4 a
50% do peso seco da célula. A frústula é dividida em duas partes (epivalva e hipovalva), que se encaixam
perfeitamente, lembrando uma placa de petri. As frústulas podem ter formas altamente variadas, além de
serem muito ornamentadas por espículas, poros, canais ou costelas. A forma e ornamentação das frústulas
são usadas como caracteres taxonômicos dessas algas. Elas podem se reproduzir assexuadamente (mais
comum) e sexuadamente. O método de reprodução mais comum é a reprodução assexuada. A célula mãe
se divide em duas células, a frústula se separa em duas metades e cada célula filha sintetiza uma nova
metade da valva interna da frústula. Essa divisão resulta em duas células ligeiramente diferentes em
tamanho uma da outra, pois a que recebe a metade interna da frústula original é um pouco menor que a
outra célula que recebeu a valva externa. A reprodução assexuada pode resultar em crescimento muito
rápido em condições ambientais favoráveis. Entretanto, com sucessivas divisões há redução no tamanho
das células. Quando uma diatomácea atinge o tamanho mínimo crítico, ela realiza reprodução sexuada
formando uma célula sem frústula de sílica e contém somente a metade do material genético. Tais células
se fundem e formam um zigoto que entumece e forma um auxósporo. Subsequentemente, uma célula
maior é formada e produz uma frústula de forma e tamanho normais. O esquema representando o ciclo de
vida das diatomáceas está na figura 3. Algumas diatomáceas, principalmente espécies neríticas que vivem
em águas relativamente rasas, produzem esporos de resistência em condições ambientais adversas.

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Figura 3: O ciclo de vida das diatomáceas.

As diatomáceas planctônicas não têm nenhuma organela ou aparato locomotor e são usualmente
incapazes de realizar movimentos ativos independentes. Como os demais organismos fotossintetizantes
que dependem da luz para sobrevivência, as diatomáceas lutam contra o afundamento. Para isso, esses
organismos têm vários mecanismos. Tais mecanismos incluem aumento da taxa de área da célula/ volume
(formas achatadas, formação de colônias), regulação iônica (concentração interna de íons é reduzida em
relação à concentração da água do mar), produção e armazenamento de óleo (óleo é menos denso que a
água).
Há poucas espécies que causam efeitos prejudiciais ao homem. São espécies do gênero
Pseudonitzschia que podem formar florações tóxicas e produzir ácido domoico, toxina que pode levar
àmorte dependendo da quantidade ingerida. O consumo de alimento contaminado com ácido domoico
leva à intoxicação amnésica de marisco (Amnesic Shellfish Poisoning- ASP), que causa diarreia, náusea,
vômito, cólicas abdominais. Em casos mais sérios, sintomas neurológicos podem durar horas ou até

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mesmo dias, que incluem dor de cabeça, desorientação, tontura, distúrbios visuais, perca de memória
recente, fraqueza motora, pressão arterial instável, arritmia cardíaca e coma. Alguns casos podem ter
sequelas permanentes, como perda de memória recente.
Florações de outras espécies, apesar de não produzirem toxinas, podem ter efeitos prejudiciais a
muitos organismos. Florações de células que têm muitos prolongamentos da frústula podem injuriar
muitos animais marinhos, uma vez que as células se acumulam nas guelras e geram lesões.
Devido à característica da parede celular desse grupo, que é muito resistente, há um grande
registro fóssil. A acumulação de frústulas durante milhares de anos nos sedimentos dos mares levou à
formação de depósitos silicosos, denominados diatomitos. O diatomito tem utilização comercial na
fabricação de peças de filtros, tintas, produtos abrasivos, creme dental, isolante, além de tijolos. Os
depósitos das frústulas de diatomáceas também são de grande importância para exploração de petróleo.

Dinoflagelados (Dinophyceae)
Os dinoflagelados são o segundo grupo mais abundante de microalgas marinhas no fitoplâncton
e têm aproximadamente 3000 espécies descritas. São bem peculiares, pois muitos deles têm formas
inesperadas. São majoritariamente marinhos (90% da diversidade de espécies) e mais difundidos em
regiões tropicais. A despeito das diatomáceas, os dinoflagelados têm dois flagelos e se movimentam.
Devido a essa característica, os dinoflagelados podem realizar migração vertical na coluna de água.
Durante o dia eles se encarregam de fazer fotossíntese na parte iluminada superficial da água, que é pobre
em nutrientes, e durante a noite vão para o fundo para tirar vantagem da maior concentração de nutrientes.
Por esse motivo, os dinoflagelados são mais numerosos no fitoplâncton de águas tropicais e subtropicais
pobres em nutrientes, onde a coluna d’água é estratificada e impede a mistura vertical.
A grande maioria do grupo é representada por organismos unicelulares monadais (flagelados),
raramente formam filamentos. Há poucos representantes cocoides, ameboides ou formando colônias
palmeloides. Há gêneros simbiontes com corais (Symbiodinium), moluscos, esponjas, foraminíferos e
radiolários. Também há indivíduos parasitas. A reprodução ocorre geralmente de forma assexuada nos
dinoflagelados, com a célula se dividindo obliquamente para formar duas novas células de tamanhos
iguais. A teca pode ser repartida com cada célula filha, que subsequentemente forma a outra parte, ou a
teca pode ser perdida antes da divisão. A reprodução sexuada também ocorre em algumas espécies de
dinoflagelados, que deve levar à formação de cistos dormentes de paredes espessas no sedimento, onde
eles podem sobreviver por anos. Em condições ambientais favoráveis os cistos podem germinar e dar
origem a células natantes.
Metade das espécies de dinoflagelados têm cloroplastos e a outra metade não. Os indivíduos que
têm cloroplastos podem ser exclusivamente autotróficos ou podem ser mixotróficos (capazes de
alternarem autotrofia e heterotrofia). A maioria dos dinoflagelados autotróficos tem cloroplastos
derivados de endossimbiose terciária que envolveu uma Haptophyceae, já em outros grupos os
cloroplastos são oriundos de outras relações de endossimbiose com outros grupos de algas. Alguns
dinoflagelados podem ter plastídios temporários, chamados cleptoplastídios.

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A maioria dos indivíduos fotossintéticos têm cloroplastos envolvidos por três membranas (duas
membranas do envelope do cloroplasto, além de uma membrana do retículo endoplasmático do
cloroplasto, que não é contínua com a membrana externa do envelope nuclear). Os pigmentos
fotossintéticos do grupo são, geralmente, as clorofilas a e c2, além de peridinina e neoperidinina, seus
principais carotenoides. Alguns dinoflagelados têm pirenoides no cloroplasto. O produto de reserva é o
amido, similar ao produzido pelas algas verdes e plantas terrestres, e fica armazenado no citoplasma. O
núcleo dos dinoflagelados tem os cromossomos permanentemente condensados, denominado núcleo
dinocariótico ou mesocariótico, que tem entre cinco e dez vezes mais DNA que outras células
eucariontes.
A morfologia típica de um dinoflagelado consiste em um epicone e um hipocone, divididos por
um sulco transversal ou cíngulo (Fig. 4). Um sulco longitudinal percorre perpendicularmente o sulco
transversal na região ventral da célula. O epicone e o hipocone são fragmentados em várias placas
celulósicas e ornamentados com poros e/ou pequenos espinhos. O número, forma, ornamentação e
disposição das placas são características peculiares dos gêneros e espécies. As células dos dinoflagelados
têm dois flagelos, um emerge da célula e o outro rodeia a célula no sulco transversal, como um cinto.

Figura 4: Morfologia da célula de dinoflagelado típica, Protoperidinium sp. Fonte: Karoline Magalhães.

Gêneros de tecados comuns são Ceratium, Protoperidinium, Gonyaulax e Dinophysis. Há


dinoflagelados que não possuem armadura celulósica, têm apenas uma película, são chamados
dinoflagelados atecados. Gêneros comuns de atecados são Pyrocystis e Gymnodinium. Algumas espécies
estão ilustradas na figura 5 a-d. Nas células dos dinoflagelados há organelas ejetáveis, chamadas
extrussomos, assim como nos ciliados (outro grupo de Alveolados). Os extrussomos encontrados nos
dinoflagelados são do tipo tricocistos, mucosistos e nematocistos. Quando são descarregados, essas
organelas provocam um “salto” da célula.

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Figura 5: Diferentes formas de dinoflagelados. a) Pyrocystis sp. (célula atecada); b) Ceratium tripos
(célula tecada); c) Dinophysis tripos (célula tecada); d) Ornithocercus steinii (célula tecada).

Os dinoflagelados heterótrofos são predadores, realizam fagocitose e osmotrofia, como, por


exemplo, o gênero Protoperidinium. Muitas espécies têm um órgão de captura especializado, denominado
pedúnculo. Devido a essa característica predadora, muitas vezes, florações de microalgas são sucedidas
por florações de dinoflagelados heterotróficos que se alimentam dessas células.
Os dinoflagelados podem apresentar bioluminescência. Algumas espécies, ao serem estimuladas
produzem luz azul neon. A produção do brilho é devida a uma reação enzimática, na qual a enzima
luciferase catalisa a oxidação da luciferina. Esse fenômeno ocorre apenas durante a noite, pois é
controlado pelo relógio biológico (ritmo circadiano) e já foi reportado para os gêneros Gonyaulax,
Noctiluca, Ceratium, Pyrocystis, entre outros. Especula-se que a bioluminescência seja uma forma de
afastar predadores.
Os dinoflagelados podem produzir florações imensas, principalmente no mar. A grande maioria
das florações não é danosa, mas às vezes pode acarretar prejuízos em áreas de cultivo de animais
marinhos. Quando os nutrientes se esgotam pelos dinoflagelados e a floração diminui, a decomposição
bacteriana da matéria orgânica das células mortas resulta em baixa concentração de oxigênio, que culmina
na morte da fauna local. Condições anóxicas não são exclusividade das florações de dinoflagelados.

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Algumas espécies de dinoflagelados têm capacidade de produzir toxinas muito potentes, que
podem desencadear a morte de peixes e mariscos durante as marés vermelhas (florações de espécies
tóxicas). O consumo de mariscos provenientes de áreas onde ocorreram florações tóxicas pode resultar
em intoxicação, uma vez que os dinoflagelados ficam retidos nas guelras e tubo digestivo desses
invertebrados. As toxinas podem ser excretadas das células dos dinoflagelados ou liberadas após a morte.
As principais doenças causadas por consumo de dinoflagelados tóxicos estão listadas na tabela 1.

Tabela 1: Principais tipos de intoxicação causados por ingestão de dinoflagelados tóxicos.


Táxons
Doença Toxinas Ação Sintomas
relacionados
Envenenamento Ácido Inibição das
diarreico de ocadaico, proteínas
Exuviaella,
marisco toxinas serina e Gastroenterite severa (vômito,
Dinophysis e
(Diarrhetic macrolídeas treonina diarreia, náusea, cólicas).
Prorocentrum.
shellfish e fosfatase PP1 e
poisoning) iessotoxinas PP2A.
Ativador do
Ácido
Envenenamento canal de Ca2+,
gambierico,
Ciguatera levando a Diarreia forte durante dois dias
ciguatoxina Gambierdiscus
(Ciguatera fish ruptura da seguida de fraqueza.
e
poisoning) membrana
maitotoxina
celular
Age nos canais Náuseas, vômitos, diarreia, dor
dependentes de abdominal, sensação de
Envenenamento
Alexandrium, voltagem de formigueiro ou ardor lábios,
de marisco
Derivados Pyrodinium Na+, evitando a gengivas, língua, face, pescoço,
paralisante
de bahamense e entrada de Na+, braços, pernas, mãos e pés. Falta
(Paralytic
saxitoxina Gymnodinium evitando a de ar, boca seca, sensação de
shellfish
catenatum geração de asfixia, confuso ou fala arrastada e
poisoning)
potencial de perda de coordenação são também
ação. possíveis.

Os gêneros Alexandrium, Pyrodinium e Gymnodinium podem produzir uma variedade de


neurotoxinas, chamadas de saxitoxinas, que é 50 vezes mais letal que estricnina e 10000 mais letal que
cianeto. As saxitoxinas são estáveis no calor, então o cozimento dos mariscos não degrada a toxina. A
dose letal mínima de saxitoxina em humanos é de 7 a 16µg kg-1. Um único marisco contaminado pode
levar à morte por envenenamento de marisco paralisante (Paralytic Shellfish Poisoning- PSP). PSP é um
problema em países da América do Norte, América Central e nas Filipinas. Também ocorre na Europa,
Austrália, África do Sul e no Japão.
A UNESCO tem o Programa Florações de Algas Tóxicas (Harmful Algal Bloom Programme-
IOC HAB Programme) que visa promover a gestão eficaz de pesquisas científicas sobre a proliferação de
algas nocivas a fim de compreender suas causas, prever a ocorrência das florações e mitigar os seus
efeitos. Muitos países que têm problemas com florações de algas nocivas realizam monitoramentos
constantemente para evitar o comércio de moluscos contaminados quando toxinas são detectadas na água
ou no tecido dos animais comercializados.

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Um outro problema causado por florações tóxicas é o envenenamento ciguatera (Ciguatera fish
poisoning- CFP). É comum em países tropicais e subtropicais, onde certas espécies de dinoflagelados
tóxicos vivem aderidas às macroalgas bentônicas. Os peixes que se alimentam das algas ingerem os
dinoflagelados tóxicos e acumulam a toxina em seus tecidos. A toxina é acumulada via cadeia trófica nos
peixes carnívoros e eventualmente chega a atingir os humanos. Estima-se que a CPF seja a toxina que
mais cause envenenamento em humanos a partir de comidas marinhas.

Outros grupos do fitoplâncton


Os cocolitoforídeos são organismos unicelulares que formam parte do nanoplâncton (2- 20µm).
Pertencem à divisão Haptophyta, classe Coccolithophyceae e contam com 554 espécies descritas. Seu
caráter derivado é uma carapaça formada por várias placas de calcárias, denominadas cocólitos. O
formato e disposição dos cocólitos são usados como características diagnósticas das espécies. Os
cocólitos se acumulam no fundo dos oceanos e são o principal componente dos sedimentos erguidos
conhecidos como giz, que forma os famosos penhascos brancos de Dover.
Os cocolitoforídeos têm dois flagelos, assim como os dinoflagelados. Entretanto, eles têm um
ciclo de vida alternando uma fase móvel (com flagelo) e outra fase imóvel (sem flagelo). A maioria das
espécies ocorre em mares quentes e vive em baixas intensidades luminosas, embora possa ser encontrada
em habitat nerítico e oceânico, assim como próximos à superfície. Algumas espécies atingem a
abundância máxima a cerca de 100 metros de profundidade em águas oceânicas claras tropicais.
Emiliania huxleyi é provavelmente o cocolitoforídeo mais distribuído ao longo dos oceanos, exceto em
mares polares. Por vezes essa espécie forma florações imensas no mar, que já foram estimadas entre 1000
a 500km na superfície do oceano Atlântico Norte.
Além dos cocolitoforídeos, há outros grupos de algas pertencentes à Coccolithophyceae, que não
têm cocólitos e são bastante distintos dos cocolitoforídeos, os quais são importantes no ambiente marinho.
Isochrysis é um gênero de pequenas algas comumente cultivadas em laboratório e Phaecystis, composto
de espécies que formam colônias gelatinosas e entopem redes de pesca. Prymnesium é característico de
águas de baixa salinidade e pode ser o maior causador de mortalidade em fazendas de salmão ao longo da
costa da Noruega, visto que essas algas interferem na troca gasosa nas guelras dos peixes.
As Dictyochophyceae são outra classe de algas microscópicas do fitoplâncton marinho bastante
conhecidas, com cerca de 107 espécies descritas até o momento. São comumente chamadas de
silicoflagelados, pois têm um esqueleto interno formado de espículas silicosas. São organismos
uniflagelados de pequeno tamanho e contêm vários cloroplastos marrom-dourados. São mais encontrados
em águas frias.
Vários outros organismos compõem o fitoplâncton marinho. Esses organismos são pequenos, nus
(sem carapaça ou esqueleto) flagelados ou não e estão distribuídos em diversas outras divisões. Algumas
espécies são de fato raras, mas a grande maioria ainda é pouco conhecida devido à dificuldade de estudá-
las. Muitos organismos que sobrevivem à coleta vão se desfigurar durante a filtração ou quando são

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utilizados fixadores químicos (formol, lugol, glutaraldeído). Apesar disso, alguns desses diminutos
organismos podem ser muito abundantes e importantes em ciclos ecológicos.
As cianobactérias também estão presentes no fitoplâncton marinho, sendo representadas por
organismos bem pequenos e até mesmo grandes tricomas coloniais, como o gênero Trichodesmium. Tal
gênero é bem conhecido e desempenha um importante papel nos oceanos abertos tropicais. Em alguns
momentos essas algas existem como um filamento longo e único, em outros momentos esses filamentos
se organizam em feixes, formando uma colônia que pode comumente ser visualizada a olho nu.
Trichodesmium quando organizada em colônias é capaz de fixar o nitrogênio atmosférico (N 2) em
nitrogênio orgânico, sendo uma importante fonte de entrada desse elemento na rede trófica dos mares
tropicais. A fixação do nitrogênio atmosférico é uma característica única em alguns grupos de
cianobactérias, sendo desconhecida nos demais grupos de algas, que só conseguem assimilar o nitrogênio
dissolvido na água do mar na forma de nitrato, nitrito e amônia. A capacidade de assimilar o nitrogênio
atmosférico é um atributo crucial para o sucesso de Trichodesmium em mares tropicas que são
tipicamente pobres em fontes nitrogenadas. Outro gênero de cianobactéria bastante comum nos mares é
Synechococcus, embora não seja capaz de fixar nitrogênio atmosférico. Tal gênero é picoplanctônico (0-
2µm) e ocorre na zona eufótica de áreas costeiras e oceânicas em zonas tropicais e temperadas.

Fotossíntese e produção primária


O fitoplâncton é o principal produtor primário no ambiente pelágico marinho, papel semelhante
ao desempenhado pelas plantas no ambiente terrestre. A produção primária é desencadeada pela luz solar
e transforma compostos inorgânicos em moléculas orgânicas pelo processo bioquímico da fotossíntese.
Dessa forma, o fitoplâncton é a principal base da teia trófica marinha. Além da luz solar, gás carbônico,
fósforo e nitrogênio, são necessários outros micronutrientes (Na, K, Mg, Ca, Si, Fe, Mn, B, Cl, Cu, Zn,
Mo, Co, entre outros) para dar suporte a vida dessa comunidade.
O gás carbônico utilizado pelas microalgas do fitoplâncton pode ser CO2 livre dissolvido, ou
pode estar ligado como bicarbonato ou íons carbonato. O gás carbônico está disponível em altas
concentrações na água do mar e não é um fator limitante para a fotossíntese. O processo da fotossíntese
não resulta apenas em carboidratos, mas também libera oxigênio livre para a atmosfera (O 2).
A conversão da energia luminosa em energia química depende dos pigmentos fotossintéticos que
estão geralmente contidos dentro dos cloroplastos das algas (exceto nas cianobactérias, que não têm
cloroplastos) (Ver capítulo 1). O pigmento principal e obrigatório da fotossíntese é a clorofila a. Outros
tipos de clorofilas também são encontrados nas algas, além de carotenos, xantofilas e ficobilinas,
denominados pigmentos acessórios, que também podem estar envolvidos na fotossíntese. Os pigmentos
acessórios aumentam o espectro de absorção da luz visível em comprimentos de onda não contemplados
pela clorofila a. Todos os pigmentos fotossintéticos absorvem a luz nos comprimentos de onda entre 400
e 700nm, chamado radiação fotossinteticamente ativa (PAR). A clorofila a tem o máximo de absorção na
faixa do vermelho (650-700nm) e no azul-violeta (450nm). Os pigmentos fotossintetizantes desencadeiam
a fotossíntese pela excitação de seus elétrons que culmina na quebra da molécula de água e produção de

39
moléculas energéticas como o ATP e NADPH2, que serão usados na próxima etapa da fotossíntese para
produção de açúcares. Os pigmentos acessórios frequentemente mascaram a cor verde da clorofila e dão
às algas as cores marrom, dourado ou mesmo verde azulado e vermelho.
A quantidade de luz afeta diretamente tanto na quantidade quanto na taxa de fotossíntese. Dessa
forma, a quantidade de fotossíntese que ocorre em uma fração de água é proporcional à quantidade de luz
que chega ao sistema. A fotossíntese aumenta com o aumento da intensidade luminosa até um valor
máximo. A partir desse ponto, se a intensidade luminosa aumentar a taxa de fotossíntese não irá
aumentar. Se a intensidade luminosa continuar a aumentar ela pode desencadear a fotoinibição.
A produtividade primária é representada pela quantidade de carbono fixado por unidade de
tempo. É também convencionado que a produção pode ser representada pelo índice de assimilação, no
qual o crescimento é expresso em mg de carbono produzido por mg de clorofila a por hora.
Entre os principais nutrientes no mar que são necessários para o crescimento do fitoplâncton,
somente certos elementos devem estar em pequenas quantidades. Em geral as quantidades de magnésio,
cálcio, potássio, sódio, sulfato, cloreto, etc., estão em quantidades suficientes para o crescimento das
células. O dióxido de carbono está presente em altas quantidades na água do mar, não representando um
nutriente limitante para a fotossíntese. Entretanto, algumas substâncias inorgânicas como o nitrato,
fosfato, silicato, ferro e magnésio, podem estar presentes em baixas concentrações suficiente para
limitarem o crescimento das células fitoplanctônicas. A concentração de ferro numa forma metabolizável
determina a habilidade do fitoplâncton para utilizar nitrogênio inorgânico. Esse fato se deve porque o
ferro é necessário nas enzimas nitrato redutase e nitrito redutase, e essas enzimas são essenciais para a
redução do nitrito e nitrato em amônia, que é usado para síntese de aminoácidos. Grandes diatomáceas
são afetadas pela escassez do ferro, entretanto pequenas células geralmente não o são, visto que podem
absorver o ferro em baixas concentrações. Áreas oceânicas que têm altas concentrações de nitrato e baixa
produção primária são comuns no Pacífico Norte, Pacífico Equatorial e partes do Oceano Antártico.
Outras moléculas como vitaminas são necessárias para o desenvolvimento de espécies auxotróficas do
fitoplâncton. Essas substâncias devem também estar em baixas concentrações na água do mar e também
limitam o crescimento de algumas populações.
Muitas espécies de microalgas podem ser encontradas juntas em uma mesma massa de água.
Cada espécie de fitoplâncton tem uma concentração de saturação especifica para a absorção de cada
nutriente limitante e cada espécie tem uma taxa máxima de crescimento diferente. Essas diferenças
espécie-específicas na taxa de crescimento e respostas aos nutrientes permitem uma grande variedade de
espécies coexistentes em um mesmo ambiente.
Se considerarmos as respostas espécie-específicas na taxa de crescimento em relação à limitação
de nutrientes e às mudanças físicas no ambiente, como temperatura, intensidade luminosa e salinidade,
que mudam consideravelmente no ambiente, podemos entender como tantas espécies coexistem no
fitoplâncton marinho e as constantes mudanças das espécies abundantes.
O mosaico ambiental de fatores físico-químicos não é constante no ambiente. A luz e a
temperatura variam diariamente e de acordo com a sazonalidade. As concentrações de nutrientes também

40
não são constantes. Por vezes é a mudança por si mesma que reflete em diferentes respostas do
fitoplâncton. Por exemplo, a concentração de nutrientes pode mudar esporadicamente por entradas de
água profunda mais fértil por ressurgência. Essas mudanças flutuantes na concentração de nutrientes terão
efeitos diferentes sobre a composição das espécies do fitoplâncton se compararmos a um ambiente no
qual a taxa de nutrientes é constante. Em contrapartida, poluentes agem antagonicamente à fertilização de
nutrientes, pois terão efeitos deletérios a algumas espécies no ambiente. Outra questão importante a ser
considerada é o feito seletivo da predação sobre as espécies. Organismos do zooplâncton têm preferência
por algumas espécies que pode culminar na diminuição da população.
A luz é um dos fatores que mais controla a produção primária do fitoplâncton no mar. Outro
fator muito importante são as forças físicas que fazem os nutrientes emergirem para a zona eufótica da
água profunda, onde eles se acumulam. Esses dois fatores determinam amplamente o tipo de fitoplâncton
que se desenvolve e a quantidade de matéria orgânica que é produzida no oceano como um todo. Tais
características também são capazes de decidir a fauna local que se instala.
A luz se distribui de maneira não uniforme ao longo da superfície da Terra. No Equador a
intensidade luminosa é maior e vai gradativamente decaindo em direção aos polos. Em contrapartida, a
quantidade de vento que é capaz de realizar mistura vertical da água superficial e profunda, trazendo
nutrientes para a zona eufótica, aumenta dos trópicos em direção aos polos. Dessa forma, a abundância de
luz e de nutrientes na zona eufótica é inversamente proporcional, e juntos, são os principais fatores que
controlam a produção primária do fitoplâncton em diferentes latitudes. Nas regiões polares, o fitoplâncton
se desenvolve abundantemente apenas no verão quando a luz está disponível em abundância. Nas áreas
temperadas a produção primaria é maior durante a primavera e o outono, quando nutrientes e luz estão
disponíveis suficientemente para permitir a formação de florações. Nas regiões tropicais há intenso
aquecimento da água superficial que forma um termoclina permanente, que, consequentemente, impede
que a água profunda rica em nutrientes aflore para a zona eufótica. Então, nas regiões tropicais a
produção primária é limitada pela disponibilidade de nutrientes na zona iluminada da coluna de água.
Nessas regiões a fertilização da zona eufótica ocorre apenas em eventos irregulares dadas as condições
locais. Há muitos fatores físicos que podem afetar os níveis de nutrientes na zona eufótica e
consequentemente mudar o padrão geral descrito acima da produção primária. A figura 6 representa
esquematicamente a produção primária nos oceanos de acordo com a sazonalidade e latitude.
As correntes superficiais dos oceanos são majoritariamente formadas pelos ventos e estão
relacionadas com o sistema de ventos. Entretanto, a rotação em sentido leste da Terra modifica a direção
do movimento da água pela deflexão das correntes para a direita no Hemisfério Norte, resultando em um
padrão horário de circulação (giros anti-ciclônicos). No Hemisfério Sul a tendência de deflexão é para a
esquerda, direcionando a maior parte das correntes para o sentido anti-horário (giros ciclônicos). Em
todos esses giros, as correntes são mais profundas e rápidas ao longo das costas ocidentais dos oceanos
quando comparadas com aquelas ao longo das margens orientais.
O movimento da água superficial dos oceanos interfere grandemente na vida marinha. As
correntes se encontram e se misturam e também encontram o continente e a água que flui desse ambiente.

41
Tudo isso interfere nos padrões de circulação vertical que afetam a distribuição de nutrientes
disponíveispara o fitoplâncton.
Grandes zonas frontais ocorrem ao longo das margens dos continentes devido à ação dos ventos
e mudam a circulação oceânica. As frentes continentais divergentes são associadas às costas oeste dos
continentes, como as correntes do Peru e da Califórnia, no Oceano Pacífico e nas correntes Canárias e de
Benguela no Atlântico. Essas correntes vão em direção ao Equador ao largo da margem oeste dos
continentes e são empurradas para fora da costa pela ação da rotação da Terra, culminando em
ressurgência costeira. A ressurgência de águas profundas traz à zona eufótica nutrientes por muitos meses
no ano. Além disso, a localização dessas correntes em latitudes entre 10° e 40° significa que há energia
luminosa suficiente para a fotossíntese durante a maior parte do ano. Essas regiões de divergência
continental estão entre as áreas mais produtivas de peixes e pássaros marinhos.
Outra frente continental divergente que resulta em ressurgência e apresenta larga produção
primária ocorre ao redor da Antártica. Conhecida como convergência Antártica, nessa área há grande
produção de krill e outros organismos do zooplâncton que alimentam grandes quantidades de baleias,
focas e pássaros.
Outro evento de efeito contrário, chamado de frente continental convergente tende a ocorrer no
lado leste dos continentes, aonde vem do Equador. Essas regiões são caracterizadas pela acumulação de
grandes quantidades de água quente e pobre em nutrientes. São áreas onde recifes de corais ocorrem em
grande abundância.
Os rios ao entrarem nos mares sempre transportam muitos nutrientes oriundos tanto da
fertilização agrícola quanto do esgoto. Esses nutrientes enriquecem as águas costeiras e aumentam a
produtividade na foz do rio. Adicionalmente, a água do estuário realiza uma pressão física no mar,
arrastando os nutrientes de partes mais profundas para a superfície, culminando numa ressurgência. Essas
duas formas de fornecimento de nutrientes contribuem para a formação de florações do fitoplâncton na
foz dos rios.
O efeito de massa de ilha é outro processo físico que traz nutrientes à zona eufótica. Tal efeito
causa um distúrbio no fluxo de água devido à presença da ilha, ou uma montanha submersa, culminando
em uma ressurgência abaixo da termoclina, consequentemente enriquecendo a água superficial.
Como mencionado anteriormente, a produtividade do fitoplâncton varia em diferentes
localidades de acordo com a estação do ano. As áreas mais produtivas são regiões onde ocorre
ressurgência e as menos produtivas são em giros convergentes subtropicais. O verão em latitudes
subárticas do Pacifico e Atlântico têm alta produtividade primária, entretanto, no inverno não há produção
por vários meses.
No ambiente terrestre o padrão de produtividade primária é bem diferente quando comparado
com o ambiente marinho. Nos ecossistemas terrestres uma alta produtividade primária ocorre em
pequenas áreas e há grandes variações nos valores. Em oposição, a produtividade marinha acontece
praticamente em todos os lugares da zona eufótica dos oceanos, até mesmo sob o gelo polar.

42
As diferenças latitudinais e sazonais na produtividade marinha são resultado de diferenças na
disponibilidade de luz e nutrientes, pois tais características determinam a possível produtividade máxima
do fitoplâncton no ambiente marinho. Há outros fatores que regulam a produção primária no ambiente
além dos citados acima. À medida que as microalgas crescem, elas consomem o estoque de nutrientes
disponíveis na zona eufótica e a biomassa formada por esses organismos realiza um efeito de auto
sombreamento, reduzindo a penetração de luz consequentemente, reduzindo a extensão da zona eufótica.
Adicionalmente, o zooplâncton herbívoro controla a densidade populacional do fitoplâncton quando
preda esses organismos.

Figura 6: A produção primária no oceano de acordo com a sazonalidade em três latitudes distintas. A
abundância relativa de luz (triângulo branco) e nutrientes (área cinza) na superfície do mar.

43
CAPÍTULO 4

Diversidade intraespecífica: modificações da cor do


talo em algas vermelhas
Fabiana Marchi dos Santos

Algas, em sua maioria, são seres autotróficos que possuem a clorofila a como principal pigmento
fotossintetizante. São consideradas organismos talófitos, ou seja, não diferenciados em órgãos (raiz,
caule, folha). O termo alga não possui significado taxonômico tendo em vista que é um grupo polifilético,
o que lhes confere características diferentes entre si. As algas marinhas bentônicas fazem parte de três
grandes filos: Chlorophyta, Ochrophyta (Phaeophyta) e Rhodophyta.
O filo Rhodophyta (algas vermelhas) possui clorofila a como principal pigmento
fotossintetizante, possuem também carotenoides (zeaxantina e luteína, como principais xantofilas e β-
caroteno, como principal caroteno) e ficobiliproteínas (ficoeritrina, ficocianina e aloficianina), como
pigmentos acessórios (Ver capítulo 2). A ficoeritrina é a principal responsável pela coloração
avermelhada dessas algas. As algas vermelhas possuem o amido das florídeas como produto de reserva e
este é armazenado fora do cloroplasto. Seus tilacoides apresentam-se livres nos cloroplastos, não
formando bandas. Sua parede celular é constituída de celulose, ágar ou carragenana. Em Rhodophyta não
ocorrem flagelos, inclusive nos gametas e esporos.
Dentre os diferentes grupos de algas, o filo Rhodophyta possui o histórico de vida mais
complexo. Na maioria das espécies, o histórico de vida é constituído por três fases: duas diploides
(tetrasporofítica e carposporofítica) e uma haploide (gametofítica). As gerações tetrasporofítica e
gametofítica são de vida livre, enquanto que a carposporofítica é parasita do gametófito feminino (Fig. 1).
O gametófito é dioico e isomórfico ao tetrasporófito (Fig. 1). O gametófito masculino libera na água os
espermácios (gametas masculinos não flagelados) produzidos nos espermatângios. O gametófito feminino
desenvolve ramos carpogoniais, onde estão localizados os carpogônios. Após a fertilização, desenvolve-
se o zigoto que, por meio de divisões mitóticas, origina uma nova fase do histórico de vida, o
carposporófito que se mantém fixo ao talo do gametófito feminino envolto pelo pericarpo. Nas porções
apicais do carposporófito são produzidos carpósporos (2n). Após a liberação, esses carpósporos
germinam e originam os tetrasporófitos (2n). No tetrasporófito desenvolvem-se tetrasporângios que por
meio de meiose produzem tetrásporos (n). Esses tetrásporos, após serem liberados na coluna d’água,
germinam e originam os gametófitos (n).

44
Figura 1: Histórico de vida trifásico.

O filo Rhodophyta apresenta muitos representantes de importância econômica tendo em vista a


presença de ficocoloides como ágar e carragenana na parede celular. Estes ficocoloides são de muita valia
para a indústria alimentícia, têxtil e biotecnológica, pois possuem propriedades estabilizante,
emulsificante e gelificante (Ver capítulo 2). No Brasil a exploração dos recursos naturais para a
exploração de ágar data da década de 60.
O conhecimento acerca da diversidade intraespecífica e o estudo dessa diversidade em algas
vermelhas pode levar à seleção de linhagens mais adequadas a Maricultura. Além disso, colabora com
interpretações de quais seriam as possíveis vantagens adaptativas para uma espécie com a manutenção de
diferentes fenótipos.
A diversidade intraespecífica pode ser caracterizada por alterações fenotípicas (plasticidade
fenotípica) dentro de uma mesma espécie, que por sua vez pode ter diferentes expressões dependendo do
ambiente onde a população ou o indivíduo ocorra. Essa plasticidade fenotípica pode ser decorrente de
processos de aclimatação e adaptação. Processos de aclimatação correspondem a diferentes expressões de
ajustamento ao ambiente que um organismo pode sofrer dentro dos limites do seu genótipo,
proporcionando plasticidade fenotípica. Já os processos adaptativos correspondem à expressão de
ajustamento ao ambiente decorrente de alteração no genótipo (Fig. 2).
Tomando como exemplo a variável cor, indivíduos de uma mesma espécie que apresentam
colorações distintas apenas como resposta às condições ambientais, como por exemplo, indivíduos
crescendo em locais sombreados e indivíduos crescendo em locais iluminados, quando submetidos ao

45
cultivo sob condições semelhantes e controladas, sofrem modificações na coloração após algumas
semanas, adquirindo colorações semelhantes, como consequência da aclimatação às condições de
laboratório. Entretanto, a ocorrência de algas com diferentes colorações crescendo lado a lado na natureza
é um indicativo da existência de variantes genotípicas pigmentares, especialmente se as condições do
local forem muito homogêneas. Entretanto, se as diferentes colorações forem mantidas após um longo
período de cultivo sob condições semelhantes e controladas se interpreta a cor como uma característica
determinada geneticamente. Essas variações genotípicas intraespecíficas podem ocorrer em uma mesma
população ou populações distintas (Fig. 3).

Figura 2: Comparação entre processos de aclimatação (esquerda) e adaptação (direita).

1
cm
Figura 3: Ápices femininos vermelhos (esquerda) e verdes (direita) de Gracilaria caudata provenientes
de uma mesma população. Colorações distintas foram mantidas após longo período de cultivo em
condições semelhantes.

46
A estabilidade do caráter cor e o modo como é transmitido, pode ser conhecido por meio do
acompanhamento de sua herança em condições de laboratório. A herança de cor, entretanto, somente
poderá ser estudada quando houver um conhecimento prévio do histórico de vida da espécie selecionada.
Em algas vermelhas a segregação genética ocorre geralmente na fase gametofítica (haploide), em
que mutações recessivas não são mascaradas por alelos dominantes, assim simplificam a análise genética.
Entretanto, para tetrasporófitos (diploides), é necessário induzir a fertilidade e somente após a liberação e
produção de gametófitos, é possível realizar testes de cruzamentos adicionais para determinar se um
indivíduo em particular apresenta genes dominantes ou carrega mutações recessivas.
Os estudos de herança de cor em uma espécie são iniciados a partir da seleção de indivíduos
femininos e masculinos das diferentes colorações. Essas algas podem ser obtidas do campo com posterior
isolamento unialgáceo ou a partir do cultivo de esporos provenientes de algas de diferentes colorações
coletadas do ambiente. O experimento consiste na manutenção de ápices femininos: i) cultivados
isoladamente, para assegurar a ausência de partenogênese ou hermafroditismo; ii) cultivados em conjunto
com ápices masculinos de mesma coloração, e iii) cultivados em conjunto com ápices masculinos de
diferente coloração. Esse experimento deverá ser realizado simultaneamente para cada variante de cor
ensaiada, respeitando um número mínimo de repetições para cada cruzamento.

CRUZAMENTOS

♀A x ♂A ♀B x ♂A ♀A x ♂B ♀B x ♂B

O conhecimento da composição pigmentar é fundamental em estudos de variantes pigmentares,


pois permite caracterizar quantitativa e qualitativamente esses compostos que denotam as diferentes
colorações. A quantificação desses pigmentos possibilita a determinação das extensões das colorações
alcançadas por cada tipo de variante, indicando possíveis diferenças, que se refletem na capacidade
competitiva de uma variante em ocupar determinado nicho. A diversidade pigmentar confere à espécie
diferentes estratégias de captação e aproveitamento da energia luminosa.
A decisão de manejar uma espécie depende, entre outros aspectos, do conhecimento da
diversidade intraespecífica. A suposição de que as variações cromáticas são devidas somente à
plasticidade fenotípica, pode subestimar a necessidade de preservação de uma diversidade não estimada.

47
CAPÍTULO 5

Samambaias e licófitas: as plantas vasculares sem


sementes
Danilo Soares Gissi

As plantas vasculares ou traqueófitas formam um grupo monofilético de plantas terrestres e


possuem uma série de apomorfias como parede secundária lignificada, com pontoações em certas células
especializadas; esclerênquima, células especializadas que funcionam como suporte estrutural; elementos
traqueais, que são as células que compõe o xilema; elementos crivados, que são as células que compõe o
floema e endoderme, que é uma camada de células presente nas raízes e em alguns caules (principalmente
subterrâneos), cada célula da endoderme apresenta uma estria de Caspary, um anel ou uma banda de
lignina e suberina na parede celular. Outra característica marcante nas traqueófitas é um esporófito de
vida longa e independente do gametófito capaz de produzir diversos esporângios.
As plantas vasculares atuais são representadas por dois grandes grupos: as Licófitas e as
Eufilófitas, que por sua vez são divididas em Samambaias e Espermatófitas, como pode ser evidenciado
no cladograma abaixo (Fig. 1). Sugerindo, dessa forma, que as licófitas e as samambaias não são
intimamente relacionadas como se acreditava. Tanto as samambaias, quanto as licófitas apresentam ciclo
de vida com alternância de gerações em que a fase esporofítica é reconhecida como mais duradoura,
apesar de se ter registro de gametófitos que podem viver por vários anos, e também são conhecidas pela
ausência de flores, frutos e sementes, ao contrário das fanerógamas.

Figura 1: Cladograma simplificado das plantas vasculares com seus dois principais grupos: Lycophyta e
Euphyllophyta.

48
As licófitas apresentam raízes com protoxilema endarco, ramos com protoxilema exarco, ao
contrário das raízes, e folhas do tipo microfilos. Microfilos são caracterizados por apresentar meristema
intercalar e não possuir lacuna foliar que interrompe a vascularização do ramo, além de possuir uma única
nervura não ramificada. Além do mais, as licófitas apresentam uma organização do sistema vascular do
tipo protostelo.
As licófitas atuais são representadas por três famílias: Lycopodiaceae, Selaginellaceae e
Isoetaceae.
Lycopodiaceae (Fig. 2) apresenta 16 Gêneros e cerca de 400 espécies no mundo com
distribuição cosmopolita e no Brasil encontram-se 9 gêneros e 64 espécies, sendo 31 delas endêmicas. Os
representantes da família produzem apenas um tipo de esporo, condição denominada de homosporia e não
apresentam lígula. Esta família não se destaca economicamente quanto outras traqueófitas. Porém, devido
à presença de compostos altamente inflamáveis nas paredes dos esporos, já foram usadas por magos e
feiticeiros da Idade Média e como flash em máquinas fotográficas antigas. Diversos alcaloides de
licopodiáceas, como a Huperzina, têm sido utilizados como drogas contra o mal de Alzheimer e outros
como a Sauroina teve sua ação afrodisíaca comprovada.

Figura 2: Exemplo de Lycopodiaceae. Palhinhaea camporum (B. Øllg. & PG Windisch) bem comum em
áreas alagadas.

49
Nas últimas décadas a família passou por diversas reformulações taxonômicas (Fig. 3). Tryon &
Tryon (1982) reconheceram apenas um gênero (Lycopodium L.) para agrupar todas as espécies, exceto
Phylloglossum Kunze. Enquanto Øllgaard (1987, 1992) e Øllgaard & Windisch (1987) consideraram três
gêneros para os neotrópicos: Huperzia Bernh., Lycopodium e Lycopodiella Holub. Tais gêneros foram
subdivididos em grupos informais, os quais representavam os gêneros propostos por Holub (1964).
Holub (1964) havia segregado Phlegmariurus Holub de Huperzia e dividiu Lycopodium (sensu
Øllgaard, 1987) em Austrolycopodium Holub, Diphasiastrum Holub, Diphasium Rothm., Lycopodium s.
str., Lycopodiastrum Holub, Pseudodiphasium Holub e Pseudolycopodium Holub. Também tratou
Lycopodiella (sensu Øllgaard, 1987) em quatro gêneros: Lycopodiella s. str., Palhinhaea Vasc. & Franco,
Pseudolycopodiella Holub e Lateristachys Holub. Haines (2003) separou o gênero Spinulum Haines e
Dendrolycopodium Haines de Lycopodium sensu Øllgaard (1987) e considerou os gêneros Huperzia,
Phlegmariurus e Phylloglossum em uma família distinta: Huperziaceae Rothm.

Figura 3: Filogenia de Lycopodiaceae apontando os gêneros da família.

As duas famílias atuais, Selaginellaceae e Isoetaceae, ainda com a ordem de licófitas extintas,
Lepidondrales, compartilham algumas sinapomorfias como a presença de lígula e aerênquima, como
também se tratam de plantas heterospóricas. A lígula é um apêndice foliar de função ainda incerta. O
aerênquima provavelmente está relacionado ao fato dessas plantas viverem em ambientes aquáticos,
pantanosos ou sujeitos às inundações. Sendo heterospóricas, estas plantas produzem dois tipos de
esporos: micrósporos, os quais são formados em esporângios especializados denominados
microsporângios e vão dar origem a gametófitos masculinos que conterão apenas anterídios e

50
megásporos, os quais são formados nos megasporângios e vão dar origem a gametófitos femininos que
conterão apenas arquegônios.
A família Selaginellaceae é representada por apenas um único gênero, Selaginella P. Beauv. com
aproximadamente 770 espécies por todo o mundo (Fig. 4). Apresentam 55 espécies no Brasil, sendo 15
endêmicas.

Figura 4: Um estróbilo de Selaginella (esquerda) e Selaginella macrostachya (direita).

A família Isoetaceae, como as Lepidodendrales, compartilham além das características citadas


anteriormente a presença de xilema secundário o que permitiu que, por exemplo, as Lepidodendrales
atingissem grandes tamanhos como plantas de até 30m, que junto com outras plantas compunham grande
parte da biomassa do carbonífero, responsáveis pela formação das reservas atuais de carbono.
Interessantemente, os representantes da família Isoetaceae são os únicos sobreviventes dessa linhagem.
Com apenas um único gênero e uma morfologia típica, o gênero Isoetes L. (Fig. 5) apresenta
aproximadamente 350 espécies pelo mundo e 23 espécies no Brasil, sendo 18 endêmicas. A maioria das
espécies da família Isoetaceae, e provavelmente as espécies de Lepidodendrales, usa uma via metabólica
para a fixação de carbono que envolve a absorção de carbono sedimentar e enriquecimento de CO2 em
espaços internos como um mecanismo de concentração de carbono. Este metabolismo, o que está
relacionado com o ciclo "CAM aquático" é caracterizado por adaptações morfológicas, fisiológicas e
bioquímicas para diminuir a perda fosforespirativa, arejar as raízes e a manutenção de altas taxas de
crescimento em ambientes anóxicos ou oligotróficos.

51
Figura 5: Isoetes com as principais características (modicado de Raven et al., 2007).

As eufilófitas formam o grupo irmão das licófitas que inclui as demais plantas vasculares.
Diferentemente das licófitas, elas apresentam raízes com protoxilema exarco e folhas do tipo megafilos.
Megafilos são caracterizados por crescerem a partir de meristema apical e possuir lacuna foliar que
interrompe a vascularização do ramo, além de possuir geralmente mais de uma nervura e ramificações
desta. Além do mais, as eufilófitas apresentam uma apomorfia molecular que seria uma inversão de 30
mil pares de base na região de cópia-única longa (LSC - Large single-copy). A organização do sistema
vascular será discutida neste capítulo.
As samambaias formam um grupo monofilético suportado por diversos marcadores moleculares
(como pode ser observado em extensa literatura citada em Smith et al, 2006) e são reconhecidas 4 classes
(Psilotopsida; Equisetopsida; Marattiopsida; Polypodiopsida), 11 ordens (Ophioglossales, Psilotales,
Equisetales, Marattiales, Osmundales, Hymenophyllales, Gleicheniales, Schizaeales, Salviniales,
Cyatheales e Polypodiales) e 37 famílias (Fig. 6).
As samambaias apresentam algumas características que são importantes principalmente para a
taxonomia do grupo. Elas podem apresentar dois tipos de esporângios: os eusporângios que formam seus
esporos a partir de várias células epidérmicas e os leptosporângios que formam seus esporos a partir de
única célula da epiderme (Fig. 7c). Por sua vez, os esporos podem ser monoletes ou triletes de acordo
com as lasuras na parede do esporo (Fig. 7a, b).
A classe Psilotopsida apresenta duas ordens Ophioglassales e Psilotales. Ophioglossales com
apenas uma única família Ophioglossaceae é caracterizada por possuir rizoma subterrâneo globoso,
frondes divididas em uma porção fotossintética estéril (trofóforo) e uma porção fértil (esporóforo),
esporângios globosos, massivos e sem ânulo. São homosporadas com esporos triletes. Produzem uma
fronde por vez. Os gametófitos são micotróficos e os esporófitos micorrízicos. O número de
cromossomos pode chegar a 2n=1400, o maior dentre as traqueófitas. Um exemplo de Ophioglossaceae é
mostrado na figura 8. As Psilotales possuem igualmente uma única família, Psilotaceae, com dois gêneros
reconhecidos Psilotum L. e Tmesipteris Bernh. Não possui raízes e as folhas foram reduzidas a escamas.
Os esporângios são 2-3-loculares e lobados, denominados sinângios. São homosporadas e os esporos
monoletes.
52
Figura 6: Filogenia das famílias atuais de Samambaias (Smith et al., 2006).

Figura 7: a) Esporo trilete; b) Esporo monolete; e c) Leptosporângio.

53
Figura 8: Ophioglossum. Note
os esporângios em espigas.

A classe Equisetopsida possui apenas uma única ordem, Equisetales com uma única família
Equisetaceae e possivelmente um único gênero Equisetum L. dividido em dois subgêneros: Equisetum
com estômatos e caules ramificados (Fig. 9) e Hippochaete com estômatos em cripta e caules não
ramificados. Possui frondes verticiladas; caule oco e articulado; ramos laterais e verticilados; esporângios
reunidos em esporangióforos que por sua vez formam um estróbilo no ápice dos ramos férteis. São
plantas homosporadas com esporos clorofilados com elatérios (apêndices nos esporos higroscópicos e se
desenrolam dos esporos à medida que eles secam ajudando na dispersão destes).

Figura 9: Equisetum hyemale L. no horto da ESALQ. (Foto: B. M. Villa).

A classe Marattiopsida também possui apenas uma única ordem com uma única família,
Marattiales e Marattiaceae respectivamente. Apresentam raízes suculentas, frondes 1-4-pinadas,
semelhante às Polipodiales ou outras samambaias leptosporangiadas, entretanto são eusporangiadas e os
esporângios estão reunidos em sinângios com abertura poricida. São homosporadas com esporos
monoletes. Gametófito é subterrâneo.

54
A classe Polypodiopsida é representada pelas samambaias leptosporangiadas e possui
esporângios com pedúnculos de três a seis células em seção transversal. Geralmente são agrupados em
soros, providos de ânulo e homosporadas (com algumas exceções como as samambaias aquáticas).
Dentro da classe, a ordem mais basal é a ordem Osmundales, com uma única família
Osmundaceae. Podem ser facilmente reconhecidas por apresentar pecíolo com uma ala na base, frondes
dimórficas ou com porções férteis distintas das estéreis, esporângios em densas panículas. Esporos com
clorofila e triletes. São conhecidos fósseis desde o permiano e recentemente foram encontrados fósseis
com o material genético intacto o que permitiu analisar o DNA dessas plantas e foi verificado que o
genoma dessas samambaias continuou essencialmente o mesmo desde o período Jurássico (entre 199
milhões e 145 milhões de anos).
A ordem Hymenophyllales, família Hymenophyllaceae (Fig. 10), conhecidas como “filmy ferns”
em inglês, recebem esse nome por uma característica marcante dessas samambaias que são suas frondes
apresentando de uma, duas ou raramente três camadas de células e ausência de estômatos. Os soros são
encontrados nas margens das frondes e protegidos por um indúsio. São homosporadas e possui esporos
clorofilados e triletes.
A ordem Gleicheniales é representada por três famílias sendo apenas Gleicheniaceae (Fig. 10)
encontrada na região Neotropical. Apresentam frondes monoformas, pseudodicotomicamente bifurcadas,
com uma gema latente na bifurcação. Soros sem indúsio. Plantas homosporadas com esporos monoletes
ou triletes. Estas plantas são conhecidas por formar extensas populações conhecidas como gleiqueniais.

Figura 10: Hymenophyllaceae (Hymenophyllum) (esquerda) e Gleicheniaceae (Sticherus) (direita).

A ordem Schizeales é representada por três famílias (Lygodiaceae; Anemiaceae e Schizeaceae) e


caracterizada por apresentar frondes com diferenciação na lâmina em porções estéreis e férteis.
Esporângios obovoides ou piriformes, sésseis, com ânulo subapical. Curiosamente, plantas da família

55
Lygodiaceae são trepadeiras com frondes de crescimento indeterminado, podendo chegar a mais de 30m
de comprimento.
A ordem Salviniales agrupa os representantes aquáticos das samambaias e é caracterizada por
apresentar frondes com diferenciação na lâmina em porções estéreis e férteis, veias anastomosadas,
aerênquima frequentemente presente, ânulo ausente, plantas heterosporadas, apresenta monomegasporia,
ou seja, dos quatro megásporos produzidos, apenas um se desenvolve. Os gametófitos são reduzidos com
germinação endospórica. Duas famílias são inclusas na ordem, Salviniales com plantas flutuantes e
apresenta frondes modificadas (Fig. 11) e Marsileales com frondes 2-4-foliadas ou filiforme e não
expandida.
A ordem Cyatheales agrupa os representantes arbóreos das samambaias. São plantas geralmente
arborescentes com caule ereto (cáudice), homosporadas e é composta por oito famílias, sendo
Cyatheaceae e Dicksoniaceae as mais comuns. Dicksonia sellowiana (Presl.) Hooker é a espécie que se
origina o vaso de xaxim, atualmente com sua venda proibida devido ao risco de extinção.

Figura 11: Salvinia auriculata Aubl. com as frondes flutuantes à mostra.

Por fim, a ordem mais derivada das samambaias é a ordem Polypodiales caracterizada por
apresentar esporângios com um ânulo vertical bem desenvolvido interrompido pelo pedicelo e plantas
homosporadas. Dentre as famílias, podemos citar algumas como Pteridaceae, a família da Avenca
(Adiantum spp.), Thelypteridaceae, Blechnaceae, Dryopteridaceae e Polypodiaceae (Fig. 12).
Vale ressaltar que dentro do clado de Polypodiales, são formados dois clados menores
denominados Eupolypods I e Eupolypods II (Fig. 6). Esses clados podem ser separados, além dos dados
moleculares, através de um caráter morfológico muito utilizado na identificação de samambaias que seria
a vascularização do pecíolo. Em Eupolypods I, o pecíolo possui três ou mais feixes vasculares, enquanto

56
em Eupolypods II, o pecíolo possui apenas dois feixes vascularesm (exemplo na figura 13 em
Woodsiaceae), com exceção de Blechnaceae que possui três ou mais feixes (Fig. 13).
Apesar dos avanços na sistemática de samambaias e licófitas terem ajudado a esclarecer diversas
questões nestes grupos, ainda há muito para ser feito e entendido a respeito da evolução e diversificação
destas plantas.

Figura 12: Exemplo de Polypodiaceae. Fronde de Phlebodium decumanum (Willd.) [Link]. mostrando os
soros imaturos.

Figura 13: Cortes transversais no pecíolo de um exemplar de Blechnaceae com vários feixes vasculares
(esquerda) e em um exemplar de Woodsiaceae com dois feixes vasculares (direita).

57
Glossário (modificado de Lellinger, 2002)

Ânulo: uma fileira ou conjunto de células com paredes inteira ou parcialmente espessadas e finas da
cápsula de um leptosporângio que contrai ou rompe, permitindo a abertura da cápsula e a descarga de
seus esporos.
Elatério: cada um dos quatro apêndices em forma de fita encontrados nos esporos de Equisetum.
Eusporângio: Um esporângio de paredes espessas e pedicelo espesso, formando milhares de esporos e
sempre formado a partir de diversas células epidérmicas iniciais.
Indúsio: Apêndice foliar que recobre os soros a fim de proteger os esporângios até o seu
amadurecimento.
Leptosporângio: Um esporângio de paredes e pedicelo delgado, apresentando geralmente 64 esporos e,
em geral, formado a partir de uma única célula epidérmica inicial.
Lígula: apêndice em forma de lingueta pequena, frequentemente triangular, localizado próximo da base,
(em posição distal em relação ao esporângio, na superfície adaxial do microfilo), sendo persistente em
Isoetes, porém caduco em Selaginella.
Megásporo: um esporo grande das samambaias e licófitas heterosporadas que produz um gametófito
feminino.
Micrósporo: um esporo pequeno das samambaias e licófitas heterosporadas que produz um gametófito
masculino.
Monolete, esporo: um esporo com simetria bilateral apresentando uma lesura linear não ramificada.
Pedicelo: pedúnculo de um esporângio.
Soro: um conjunto de esporângios apresentando formato distinto.
Trilete, esporo: um esporo com simetria radial (esférico ou tetraédrico) e com lesura apresentando três
ramos irradiando de um ponto.

58
CAPÍTULO 6

Árvores filogenéticas e suas aplicações


Annelise Frazão
Luiz Henrique Martins Fonseca

As árvores filogenéticas são diagramas ramificados, em geral dicotômicos, que representam uma
hipótese das relações de parentesco evolutivo entre organismos. O conhecimento das relações evolutivas
entre os organismos nos permite classificar a diversidade biológica, sendo o atual paradigma da
sistemática, conhecida como sistemática filogenética. As filogenias são também a base para estudos
evolutivos e ecológicos, sendo o arcabouço utilizado para testar diversas hipóteses acerca da diversidade
biológica.

Breve histórico e introdução a conceitos básicos


A evolução das espécies é um processo de acúmulo de mudanças moleculares e,
consequentemente, morfológicas ao longo de diversas gerações. Esse acúmulo de mudanças é o
responsável pela presença de variações dentro das espécies ou intraespecíficas (Ver capítulo 4.). O
acúmulo de mudanças ao longo do tempo pode levar a uma diferença tão grande entre populações que
estas passam a apresentar propriedades que as levariam a serem consideradas espécies distintas 1. Este
processo de acúmulo de variação entre populações e a formação de duas novas espécies é chamado de
especiação. Darwin, em A Origem das Espécies, propôs que os organismos são produtos da descendência
com modificação a partir de ancestrais comuns. A sistemática filogenética parte dessa premissa de que há,
em algum momento, um ancestral comum às espécies, permitindo comparar diferentes entidades
biológicas (e.g. espécies, gêneros, famílias) ao ponto de se acessar esta história evolutiva ao longo de
certa escala temporal. Para que a comparação entre as entidades seja possível, ela é baseada na
comparação de características homólogas, em outras palavras, características que tiveram uma origem
comum. Desta forma, a inferência da relação entre as entidades é feita a partir da comparação de diversos
grupos de características que têm uma origem comum e que acumularam mudanças ao longo do tempo na
escala evolutiva. A evolução é um conjunto complexo de diversos processos que atuam em diferentes
escalas. Assim sendo, há diferentes formas de representá-la de acordo com o nível de detalhamento
estudado. Em um nível menos abrangente, é possível representar graficamente a relação direta de
parentesco e, consequentemente, de fluxo genético entre indivíduos de uma população utilizando-se uma
genealogia. Já de uma forma mais abrangente, a representação da hipótese de relação entre diferentes
entidades biológicas criadas a partir da análise das evidências disponíveis é feita por meio de uma
filogenia, o que pode ser visto na figura 1.

1
Para um estudo mais aprofundado acerca de conceitos de espécies e critérios para reconhecimento de
espécies leia de Queiroz (1998, 2007)
59
Figura 1: Esquema hipotético mostrando os
diferentes níveis em que a evolução ocorre e
o que uma filogenia realmente representa. A
partir de um nível individual, quatro
indivíduos de uma espécie A de
angiospermas (a) podem ser relacionados
diretamente com sua geração parental e com
a geração parental dos parentais deles e
assim por diante, por meio de características
herdadas (b e c). É possível ainda
estabelecer a relação genealógica entre esses
indivíduos em nível populacional (d) e da
relação entre essas diferentes populações
dentro da espécie (e). Por fim, essas
populações com todas suas características
representem uma espécie, e é utilizada para
o estabelecimento da história evolutiva em
relação a outras espécies (B, C, D, E) por
meio de uma filogenia (f). Figura adaptada
de Baum (2008).

60
Dizemos que uma filogenia é uma hipótese porque é construída a partir de evidências
(comparação de caracteres homólogos) da relação entre diferentes entidades biológicas. A figura 1 mostra
um esquema hipotético do que representa uma filogenia.
Apesar de o termo filogenia ter surgido no século XIX, somente no século seguinte foi
apresentado um método objetivo para a construção de árvores filogenéticas pelo entomólogo alemão Willi
Hennig, método este que é utilizado até os dias de hoje. As ideais de Hennig foram embasadas
principalmente em duas premissas: (1) assumir que os organismos evoluem e todos eles compartilham um
ancestral comum em pelo menos algum momento; e (2) por este exato motivo, características homólogas
devem ser preferidas para realizarmos comparações. Assim, torna-se possível estabelecer as relações de
parentesco entre os organismos, ou seja, quais táxons compartilham um mesmo ancestral exclusivo
diferente de todo o resto da diversidade. No entanto, a interpretação de filogenias não é algo trivial e pode
levar a conclusões equivocadas caso certos conceitos fundamentais não estejam claros. Assim, estes serão
apresentados na próxima secção.

A leitura de uma árvore filogenética e alguns conceitos fundamentais


Para uma leitura apropriada de uma árvore filogenética é necessário entender elementos
fundamentais que ela representa. Em uma filogenia os representantes utilizados para o estudo de uma
parcela da diversidade biológica são chamados de terminais (Fig. 2a). Esses terminais são representados
por diferentes táxons. Os terminais se conectam por nós, formando o que chamamos de clados. Os nós
representam o ancestral comum mais recente compartilhado por entidades presentes nos clados. As
conexões entre terminais e entre clados são chamadas de ramos (Fig. 2a). Tendo em vista que o acúmulo
de variação ocorre continuamente, os terminais também representam ramos, os quais chamamos de ramos
terminais (Fig. 2a). O nó mais externo de uma filogenia que conecta todos os ramos desta é chamado de
raiz (Fig. 2a). Quando mostramos apenas o padrão da relação entre os terminais, temos um diagrama que
chamamos de cladograma (Fig. 2c). Essa relação entre os terminais também é conhecida como topologia.
Contudo os ramos podem ser informativos e terem diferentes tamanhos, sendo que seu tamanho é
proporcional à chance de mudanças. Interpretando de outra forma, há uma relação entre o tamanho do
ramo e o número de mudanças acumuladas por uma linhagem. O diagrama que mostra a relação entre os
terminais e o número de diferenças entre cada linhagem com tamanhos diferentes de ramos é conhecido
como filograma (Fig. 2d). Uma filogenia também pode conter informação temporal. Nesse caso o
comprimento dos ramos é proporcional ao tempo transcorrido. Quando a informação temporal é
apresentada temos um cronograma (Fig. 2e). Além de conter informações distintas em determinados
casos, uma filogenia pode ser apresentada de diferentes formas, como pode ser visto na figura 2b.

61
Figura 2: Representação esquemática de elementos que constituem uma árvore filogenética: a) filogenia
dos grandes grupos de Angiospermas com cada elemento de uma árvore filogenético indicado; b) as
diferentes formas possíveis de se representar uma filogenia; c) esquema de um cladograma; d) esquema
de um filograma; e) esquema de um cronograma.

Para a leitura de uma árvore filogenética vamos utilizar a figura 3. Nela podemos estabelecer que
A e B são mais relacionados entre si do que com C, porque A e B compartilham um ancestral comum e
exclusivo (x). Dizemos que A é grupo-irmão de B, e C é grupo-irmão de A + B, ou seja, compartilham
um ancestral comum exclusivo entre si (y). Com base no estabelecimento de relações entre terminais e
entre clados, o objetivo da reconstrução filogenética é de apresentar hipóteses de relações hierárquicas e
dicotômicas entre as entidades biológicas estudadas.
A inferência da relação evolutiva entre os terminais é realizada com base na análise de um
conjunto de caráteres dos táxons. Com esse conjunto, é construída uma matriz de caráteres para que os
organismos sejam comparados, lembrando que se assume que cada caráter tem uma mesma origem, ou
seja, são homólogos. Como é um pressuposto que os caráteres comparados são homólogos, diz-se que são
estabelecidas hipóteses de homologia, as quais serão testadas na própria inferência filogenética. Nessa
matriz, cada caráter apresenta um estado de caráter. Por exemplo, em uma matriz para estudos evolutivos
das angiospermas é observado o “tipo de pólen”. Existem espécies com pólen tricolpado e com pólen com
outros tipos de aberturas. Neste caso, o “tipo de pólen” é o caráter, e a variação dos tipos de abertura o
estado de caráter.

62
Figura 3: Relações de parentesco entre três táxons A, B e C e dois ancestrais hipotéticos x e y.

Os caráteres usados para a reconstrução filogenética devem ser qualitativos, podendo ter dois
estados (binário) (Fig. 4a, b) ou mais (multiestados) (Fig. 4c, d). Quando codificamos os caráteres em
estados, reconhecemos diferentes manifestações de uma mesma característica. Os caracteres podem ser
binários e possuírem dois estados ou serem multiestados. Os estados de carácter podem ser ou não
ordenados. Quando ordenados, eles representam uma série de transformação. Essa ordenação é
normalmente determinada pela utilização de dados de outras fontes (e.g. biologia do desenvolvimento).
Para a análise filogenética é necessário realizar a polarização dos caracteres, que é feita com o uso de um
grupo externo, o qual deve ser um grupo aparentado filogeneticamente, mas não do mesmo grupo de
interesse, ou seja, que não compartilhe o mesmo ancestral exclusivo desse grupo. Este último recebe o
nome de grupo interno. Por exemplo, na figura 3, se o grupo de interesse é A e B esses constituem o
grupo interno, e C é o grupo externo.

Figura 4: Os diferentes caráteres usados em análise filogenética: a) binário polarizado; b) binário não
polarizado; c) multiestado polarizado e ordenado; d) multiestado polarizado não ordenado.

De acordo com a proposta de Hennig, somente uma parte da similaridade entre dois táxons é
informativa para a descoberta das relações de parentesco entre eles. Ele definiu dois tipos de caráteres:
um caráter ocorrendo no estado ancestral, a plesiomorfia e um caráter derivado (afastado/modificado do
estado ancestral), a apomorfia. Na figura 5, o caráter "quadrado preto" é plesiomórfico enquanto o
"quadrado branco" é apomórfico. Deve ser ressaltado que estes são conceitos relativos e dependem dos
terminais analisados ou tomados como referência. Por exemplo, na figura 5, o caráter "quadrado branco"
é uma apomorfia do grupo (FEDCBA), mas é uma plesiomorfia para o grupo (CBA). Na figura 5, todo o
grupo interno é definido pelo compartilhamento da apomorfia “quadrado branco”, ou seja, uma
sinapomorfia (estado de caráter apomórfico, ou derivado, compartilhado).

63
Figura 5: Cladograma mostrando o relacionamento entre táxons hipotéticos. De acordo com o
cladograma, ocorreu uma mudança no estado do caráter no grupo FEDCBA. O estado do caráter
“quadrado preto” representa uma plesiomorfia em relação ao “quadrado branco”, o qual é uma apomorfia.

Em um cladograma existe a possibilidade da formação de três tipos de agrupamentos, os quais


aceitam ou rejeitam a hipótese de homologia criada quando construída a matriz de caráteres. Dentre esses
agrupamentos, somente um é tido como um grupo natural, ou seja, descendentes de um ancestral comum
exclusivo (Fig. 6). Um grupo é natural, ou monofilético, se todos os descendentes de um determinado
ancestral comum estão presentes nele (Fig. 6a). O estabelecimento de um grupo monofilético é feito pela
identificação de uma ou mais sinapomorfias, ou seja, estados de caráter exclusivos e compartilhados entre
membros do grupo. Por este motivo, quando um grupo é monofilético as sinapormorfias que o sustentam
representam as hipóteses de homologia apresentadas quando a matriz foi construída e que foram aceitas,
ou seja, são de fato homólogas. Os dois outros tipos de agrupamento são conhecidos como grupos
artificiais. Um grupo parafilético contém o ancestral comum mais recente, mas não a totalidade dos
descendentes (Fig. 6b). Finalmente, um grupo polifilético não contém o ancestral comum mais recente
entre todos os indivíduos do grupo, mas sim vários ancestrais (Fig. 6c). Grupos artificiais são definidos
por homoplasias, ou seja, um caráter que na verdade não é homólogo, ou seja, não tem uma origem única.
Neste caso, a hipótese inicial de homologia é rejeitada, significando que a origem da(s) característica(s)
não foi única.

64
Figura 6: Os três diferentes tipos de grupos possíveis em um cladograma: a) monofilético; b) parafilético;
c) polifilético.

Métodos para a construção de filogenias


As hipóteses filogenéticas representadas pelas filogenias podem ser reconstruídas a partir de
diferentes métodos utilizando diferentes tipos de dados, como por exemplo, características morfológicas,
anatômicas, comportamentais, fisiológicas, químicas e genéticas. Os métodos de reconstrução
filogenética são divididos em métodos baseados em distância e baseados em caráter. Métodos baseados
em distância utilizam uma matriz construída a partir do número de diferenças entre pares de táxons e,
geralmente, são análises realizados com dados genéticos. Os baseados em caráter utilizam características
diretas dos táxons e podem ser utilizados com qualquer tipo de dado sobre o grupo estudado. A seguir
serão apresentadas informações básicas dos diferentes métodos, com ênfase no primeiro método proposto,
a parcimônia.

Métodos baseados em distância


Análises de distância foram muito aplicadas na segunda metade do século XX com dados
genéticos. Esse método foi utilizado pelos cientistas da chamada escola fenética. A ideia dessa escola era
estabelecer o relacionamento de organismos com base apenas em similaridade. Quanto menor a distância
genética entre os táxons mais próximos eles seriam. Esta forma de pensar em relacionamento evolutivo
entre os organismos é muito criticada, já que nem sempre organismos que apresentam pouca diferença
entre si compartilham uma história evolutiva em comum. Desta forma, é possível que o estabelecimento
de alguns grupos não represente uma hipótese provável da história evolutiva do grupo estudado. Por este
motivo os métodos baseados em caráter são os mais aceitos para estudos evolutivos. Os métodos
baseados em distância mais utilizados são os algoritmos de Neighbor-Joining (agrupamento de vizinhos)
e o UPGMA (Unweighted Pair Group Method using Arithmetic average).

65
A distância genética é a divergência entre duas sequências derivadas de um ancestral em comum.
Numa árvore filogenética essa distância corresponde ao comprimento do ramo (distância entre os nós). Se
as sequências evoluíram como um diagrama dicotômico e se conhecemos as distâncias entre as
sequências, então podemos reconstruir a árvore filogenética. Para calcular distâncias genéticas é preciso
ter um modelo de substituição de nucleotídeos (pág. 67) que forneça uma descrição estatística das
substituições de um nucleotídeo para outro. A partir desta probabilidade, calcula-se a distância genética
esperada entre os táxons estudados.

Métodos baseados em caráter


Os métodos baseados em caráter possuem duas abordagens, a da parcimônia e a probabilística ou
paramétrica. Na abordagem da parcimônia a melhor hipótese filogenética será aquela que assumir um
menor número de pressupostos, em outras palavras, um menor número de mudanças nos caráteres e seus
estados melhor explicaria a história evolutiva de um grupo. Na parcimônia, as mudanças dos caracteres
são chamadas de passos evolutivos. Quanto mais mudanças detectadas em uma filogenia, menos
parcimoniosa é aquela hipótese filogenética e vice-versa. Já a abordagem probabilística leva em
consideração a probabilidade de uma hipótese filogenética ser mais próxima da verdadeira uma vez que
temos os dados e um modelo evolutivo que explique esses dados. A probabilidade de uma hipótese
filogenética pode ser inferida com base em máxima verossimilhança ou por estatística Bayesiana.

66
Modelo de substituição de nucleotídeos ou modelo evolutivo

O modelo de substituição de nucleotídeos é uma modelagem matemática utilizada para ajustar os


diferentes padrões de variação dos nucleotídeos ao longo da história evolutiva de linhagens.
Mudanças de um nucleotídeo para outro ao longo de gerações pode variar de acordo com a região
do genoma, do tipo de material genético (DNA ou RNA) e de qual organela ele pertence (núcleo,
mitocôndria, cloroplasto). Um modelo de substituição de nucleotídeos descreve matematicamente
as diferentes possibilidades de mudança entre os nucleotídeos do tipo pirimidina (C, e T ou U) e
purina (A e G). Mudanças entre nucleotídeos de um mesmo grupo são chamadas de transição
(ex.: C para T) e entre diferentes grupos de transversão (ex.: A para C). Tais modelos são
calculados a partir dos dados observados, ou seja, da matriz de caráteres, que neste caso é
chamada de alinhamento de sequências (Fig. 7). Um alinhamento nada mais é do que a
comparação de sequências de DNA, RNA ou ainda de proteína de diferentes táxons, formando
uma matriz. Desta forma, essas sequências devem ser homólogas, ou seja, representarem uma
mesma região do genoma de todos os táxons estudados. Por exemplo, em plantas é muito
utilizado o gene rbcL, o qual codifica uma das subunidades da enzima rubisco, protagonista do
processo de fotossíntese. Como todos os organismos fotossintetizantes apresentam este gene, ele
pode ser utilizado em uma inferência filogenética que inclua esses organismos. Para isso, um
alinhamento deve ser realizado, onde as sequências desses diferentes táxons serão comparadas.
Em um alinhamento, cada nucleotídeo é um caráter, o sítio (Fig. 7), e é representado pelas
colunas do alinhamento. Os estados do caráter no caso da molécula de DNA são as diferentes
possibilidades de nucleotídeos, A, T, C ou G.

Figura 7: Exemplificação de um alinhamento de sequências de DNA e seus componentes.

67
PARCIMÔNIA

Construção do cladograma (Fig. 8a)


A busca da árvore mais parcimoniosa (com o menor número de passos) é feita entre árvores não
enraizadas (sem direção de transformação dos caráteres) a fim de simplificar os cálculos. O número de
árvores possíveis aumenta exponencialmente com o aumento do número de terminais. Por exemplo, para
três terminais existem três árvores possíveis, para quatro terminais existem 15 e para 20 terminais existem
2.1020 árvores possíveis. Dessa forma, existem dois grupos de métodos utilizados para a busca da melhor
árvore (ou melhores árvores). Os métodos exatos (busca exaustiva e branch and bound) buscam o
cladograma que minimiza o critério de otimização, ou seja, quais características são mesmo ou não
homólogas e quais representam novidades evolutivas ou não. Métodos heurísticos foram desenvolvidos
para casos em que o número de árvores possíveis torna o tempo de busca proibitivo com a atual
capacidade computacional. Explorar apenas uma parcela do universo de árvores é a estratégia adotada,
porém sem a garantia de encontrar a árvore mais parcimoniosa. Isso porque métodos heurísticos exploram
amostras do universo de árvores possíveis, mas não todas elas. Diversas estratégias de busca foram
propostas para otimizar o processo e tornar o seu resultado confiável (algoritmo de Wagner, rearranjo dos
ramos, Ratchet etc.).

Polarização dos caráteres e enraizamento (Fig. 8b)


A polarização corresponde à imposição da direção numa série de transformação. Em outras
palavras, distingue o estado apomórfico do estado plesiomórfico de um caráter. O único método que
reduz a arbitrariedade para polarizar caráteres, no caso de caráteres morfológicos, é o critério
ontogenético, ou seja, a descrição detalhada do desenvolvimento de estruturas. No entanto, a ontogenia da
maioria dos caráteres permanece pouco ou totalmente desconhecida. Assim, um método indireto é usado,
a comparação com o grupo externo. Como dito anteriormente, o grupo externo corresponde a um ou
vários táxons relacionados ao grupo de interesse, contudo existem boas evidências indicando que não
pertencem a tal grupo (são portadores de outras características ou uma hipótese filogenética prévia já está
disponível). Não é recomendável restringir as comparações de caráteres a um único táxon externo. A
escolha do grupo externo, em geral, é baseada numa hipótese filogenética prévia. O enraizamento da
árvore é efetuado no ramo com o grupo mais externo (o menos relacionado).

Otimização (Fig. 8c)


É na etapa de otimização que os caráteres utilizados na análise são associados à árvore
filogenética. Neste passo as hipóteses de homologia apresentadas na matriz de caráteres são testadas, ou
seja, se o caráter utilizado para a análise é ou não de fato uma homologia. Se a hipótese for aceita, o
caráter utilizado é uma homologia, a qual poderá ser uma novidade evolutiva (apomorfia) ou não
(plesiomorfia). Caso seja um caráter que apareceu mais de uma vez de forma independente nos diferentes
táxons estudados, este não é considerado homólogo e sim uma homoplasia e, portanto, a hipótese de

68
homologia inicial é rejeitada. Um exemplo de homoplasia é mostrado na figura 8c, onde o caráter 4
apareceu independentemente nos táxons C e D.
Diferente dos outros métodos baseados em caráter, a parcimônia não utiliza modelos de
substituição de nucleotídeos. Como já mencionado na seção de métodos de distância, os nucleotídeos
podem mudar em diferentes taxas dependendo da região do genoma dos organismos (pág. 67). Então
como a parcimônia lida com essa variação se os dados utilizados na matriz de caráteres forem
informações genéticas? Neste caso, existe a possibilidade de atribuir custos para as mudanças dos
nucleotídeos. Quanto mais custo for dado a uma mudança, um maior número de passos será necessário
para que tal mudança ocorra e, portanto, menos parcimoniosa será esta possibilidade de mudança. Essa
atribuição de custos deve ser muito criteriosa, já que pode trazer ruído para a análise e influenciar o
algoritmo a encontrar uma árvore subótima.

Índices, estimativas de sustentação e árvores de consenso (Fig. 8d-e)


Existem índices que mensuram o quanto os caráteres utilizados para a inferência da filogenia
representaram ou não homologias para o grupo estudado. O índice de consistência (CI) é uma mensuração
do número de eventos homoplásticos em uma reconstrução. Isso significa que este índice mede o quanto
das hipóteses de homologia criadas para a construção da matriz de caráteres representaram realmente uma
homologia ou não para o grupo estudado. O índice de retenção (RI) mede a proporção de autapomorfias
(estado derivado a um táxon único) e homoplasias em relação ao número total de passos. Quanto maior o
valor do RI significará que a filogenia apresenta mais apomorfias compartilhadas (sinapomorfias) que não
são sujeitas a homoplasia, ou seja, de não ter aparecido mais de uma vez de forma independente nos
grupos de estudo. Já quando o RI tende a zero, existem muitas apomorfias não compartilhadas
(autapomorfias) e homoplasias.
Mas o que fazer quando mais de uma árvore mais parcimoniosa é obtida? Para sumariar essa
informação, são empregados os métodos de consenso. A árvore de consenso estrito contém apenas os
grupos monofiléticos presentes em todas às árvores. Ela elimina qualquer grupo que não tenha sido
reconstruído em todas as filogenias igualmente parcimoniosas. Porém, parte da informação presente nas
árvores é perdida, como no caso dos clados não conflitantes entre si, mas não presentes em todas às
árvores. A árvore de consenso de maioria inclui os grupos monofiléticos presentes na maioria das árvores
obtidas na análise, haja ou não conflitos entre eles.
As estimativas de suporte trazem uma mensuração da robustez de um clado e indicam o quanto
os dados disponíveis sustentam a existência do clado. As estimativas de suporte mais usadas são baseadas
na reamostragem dos caráteres. Os métodos de bootstrap e o jackknife são reamostragens não
paramétricas, ou seja, não dependem de parâmetros previamente definidos e distribuições de valores. O
bootstrap reamostra os caráteres da matriz com reposição e constrói novas matrizes com o mesmo
tamanho original. Na descrição original do método a existência de um clado seria estatisticamente
significativa se o valor de suporte obtido seja superior ou igual a 95%, significando que de todas as re-
amostragens de caráteres, um determinado clado foi recuperado em 95% das réplicas. A interpretação dos

69
valores de bootstrap é difícil devido a grande variação nos resultados e valores inferiores a 95% foram
posteriormente propostos como aceita (p.e. 70%). Outra forma de se interpretar os resultados de bootstrap
seria a de que o resultado obtido indicaria, indiretamente, a necessidade de inclusão de novos dados para a
análise. O jackknife difere do bootstrap, já que é um método de re-amostragem sem reposição.

Figura 8: Esquema geral mostrando as etapas de uma reconstrução filogenética hipotética por parcimônia.
a) Construção da árvore. A partir de uma matriz de caráteres composta por quatro táxons e 4 caráteres,
sendo A o grupo externo. Cada caráter é visto em cada uma das três árvores não enraizadas possíveis. Ao
final, é somado o número de passos evolutivos necessários para verificar todos os caráteres nas diferentes
árvores não enraizadas e a árvore mais parcimoniosa é escolhida; b) A árvore mais parcimoniosa passa
pelo processo de polarização dos caráteres, onde a árvore filogenética é enraizada em A; c) Os caráteres
são otimizados, sendo possível verificar em que grupo surgiram. (É possível ver um caso de reversão
neste exemplo com o caráter 4, onde ocorreu uma reversão em B); d) Cálculo dos Índices de consistência
(IC) e retenção (IR). m representa o número mínimo de passos evolutivos para a árvore, s o número
efetivo de passos na árvore e g o número máximo de passos evolutivos para a árvore; e) Método de re-
amostragem para suporte dos ramos, o bootstrap. A matriz de caráteres foi re-amostrada 100 vezes, com
reposição dos caráteres. Ao final, é feito um consenso de todas as árvores re-amostradas. Os valores
significam a porcentagem de vezes que um dado grupo foi reconstruído no conjunto de réplicas. Neste
caso, B foi reconstruído com grupo-irmão de C 90% das vezes, D como grupo-irmão de B+C 100% das
vezes e A como grupo-irmão de todo o resto da diversidade também 100% das réplicas.
70
MÁXIMA VEROSSIMILHANÇA

A ideia da máxima verossimilhança (Maximum likelihood - ML) está associada a um valor que
maximiza a probabilidade de algo acontecer ou ter acontecido. Assim, a aplicação da máxima
verossimilhança na reconstrução filogenética implica na busca pela árvore que tem a maior probabilidade
de ter originado os dados observados (a matriz de caráteres ou o alinhamento de sequências de
nucleotídeos). O objetivo é avaliar, assumindo um modelo de substituição de nucleotídeos (M), a
probabilidade condicionada (P) de ter uma árvore específica (Ei), sabendo que observamos os dados da
matriz (D). A notação matemática da probabilidade é P(Ei/D). A verossimilhança (L) dessa última
probabilidade, L(Ei/D), é igual a P(D/Ei), lê-se a probabilidade condicional (P) dos dados (D) dada uma
árvore filogenética (Ei).
Na análise filogenética pelo método de ML é realizado o cômputo do valor de verossimilhança
de cada caráter da matriz em uma dada árvore. Os logaritmos das verossimilhanças de cada caráter da
matriz são, então, somados para se obter o valor de verossimilhança global da árvore analisada. Na
estimativa de verossimilhança, os valores de base ancestrais são feitos levando em consideração os
comprimentos dos ramos da árvore analisada. Dessa forma, não é apenas a topologia que é confrontada
com os dados, mas também o comprimento dos ramos. A forma como o universo de árvores possíveis é
explorada é similar ao realizado para a parcimônia, com alguns dos algoritmos de busca heurísticas, sendo
os mesmos para ambos os critérios. Como o comprimento dos ramos também é analisado e as árvores
precisam estar enraizadas para o computo da verossimilhança, o universo de árvores possíveis é muito
maior e as buscas de árvores mais demoradas e potencialmente mais complexas.
Para ilustrar, imagine que no universo de árvores existem árvores com probabilidades de terem
gerado os dados de uma matriz variando de 0 a 1, sendo 1 o valor que representa a probabilidade máxima
de um evento ter acontecido. Imagine que os valores de ML estão sendo medidos por um ponteiro com a
escala de 0 a 1 (Fig. 9). À medida que o algoritmo vai procurando as árvores e comparando com os dados
da matriz, ele mede a ML de cada uma delas. Imagine que ele faça essa busca três vezes selecionando dez
árvores diferentes em cada uma dessas buscas. Ele mediu diversos valores entre 0 e 1, e reteve os
melhores valores obtidos dentro de cada busca. Supondo que os valores foram 0.99 (Fig. 9c), 0.8 (Fig. 9a)
e 0.85 (Fig. 9b), temos então, que a árvore com 0.99 foi a que mais se aproximou do valor máximo. Logo,
esta seria a árvore que melhor explica a existência dos seus dados. E é basicamente assim que uma
hipótese filogenética por ML é obtida.

71
Figura 9: Ilustração da ideia de busca de árvores em uma análise de Máxima Verossimilhança (ML). Em
um universo de árvores com um número n de árvores possíveis, dez árvores são amostradas. Para cada
uma dessas árvores o valor de ML é calculado. Para cada uma dessas buscas, uma melhor árvore é
selecionada dentre as dez e o valor de ML é registrado pelo algoritmo. Este exemplo representa três
buscas independentes de árvores (a-c). Neste caso, a árvore com maior valor de ML foi encontrada na
terceira busca (c). Adaptada de Herron & Freeman (2014, p. 128).

ANÁLISE BAYESIANA

A ideia da estatística bayesiana é a de ser possível calcular a probabilidade de algo acontecer ou


ter acontecido, sabendo alguma informação a priori. Por exemplo, imagine que um dia você acordou e
viu que o gramado de sua casa estava molhado. Você pode criar inúmeras hipóteses acerca do que deve
ter acontecido para que a grama esteja molhada, como ter chovido durante a noite ou que seu vizinho
molhou a grama. No entanto, você tem uma informação a priori, notou que na noite anterior o céu estava
nublado. Dada esta informação, qual seria a hipótese mais provável dentre as que você criou? A de que
choveu, correto? É basicamente assim que a estatística bayesiana funciona.
Num contexto de inferência filogenética, enquanto a verossimilhança avalia uma árvore com
base em quão provável é que a evolução teria produzido os dados observados, a inferência bayesiana
avalia uma árvore com base em sua probabilidade posterior, P(Ei/D). A probabilidade posterior (P)
representa a probabilidade de uma árvore (Ei) ser verdadeira, ou seja, de representar a história evolutiva
de um grupo, dada uma matriz de caráteres (D). Além disso, são embutidas no cálculo informações tidas
a priori sobre a evolução dos caráteres utilizados e a verossimilhança dos dados dependendo da árvore
hipotética. Uma propriedade interessante do método bayesiano é que, uma vez que temos a probabilidade
posterior, podemos marginalizar (estimar) qualquer parâmetro de interesse do modelo. Assim, não é
preciso determinar os parâmetros antes de começar a análise como no caso da análise ML.
Os resultados da análise bayesiana é um conjunto de árvores (em geral centenas ou mesmo
milhares) que foram amostradas durante a análise. Uma árvore de consenso de maioria é construída para
sintetizar os resultados. A probabilidade posterior de cada clado é estimada e é utilizada para a
sustentação, onde quando maior é o valor, maior a probabilidade de aquele clado existir, dados os dados e
72
informações a priori. O cálculo e a interpretação estatística da probabilidade posterior na árvore final é
muito complexa matematicamente. Apesar disso, esta é mais uma característica interessante da análise
bayesiana, já que sua árvore filogenética é uma árvore de consenso de maioria representando um conjunto
de árvores possíveis, e não apenas uma única árvore como acontece com a inferência por ML. Desta
forma, a análise bayesiana é um método de aproximação da resposta e incorpora incerteza à inferência, o
que se assemelha mais com a forma com que a história evolutiva dos organismos é acessada por nós
humanos. Uma vez que história evolutiva não pode ser conhecida, uma distribuição de probabilidade com
possíveis cenários é o método de inferência mais razoável.

Classificações filogenéticas
Uma classificação pode não ser filogenética, representando uma delimitação de entidades
biológicas artificiais e que não reflete a história evolutiva de um grupo. A partir do momento que existe
uma hipótese da história evolutiva de um grupo, a classificação pode ser feita de forma menos arbitrária.
Este é um dos usos de filogenia mais aplicados pelos filogeneticistas. Na área de botânica, por exemplo,
existe um grupo que pesquisadores que determinam, com base em filogenia, a classificação das
Angiospermas, o Angiosperm Phylogeny Group (APG) (Fig. 10).

Figura 10: Árvore filogenética apresentada para a classificação das Angiospermas. Fonte: artigo do APG
III (2009).

O princípio básico das classificações filogenéticas é o de que todos os táxons devem ser
monofiléticos. Assim, cada táxon dessas classificações são entidades históricas que são descobertas via a
análise filogenética e não entidades definidas com base somente em evidências escolhidas por uma
autoridade botânica.

73
Transformar uma árvore filogenética numa classificação corresponde ao ato de criar um sistema
de classificação que reflita a filogenia em todos os níveis. Além de reconhecer somente os táxons
monofiléticos, três outras normas devem ser seguidas: (1) todos as características que permitem que o
grupo seja reconhecido devem ser expressos ou passíveis de reconhecimento; (2) deve ser possível
reconhecer as relações entre grupos-irmãos e (3) deve ser possível reconhecer a que grupo maior um
grupo menor está subordinado.

Exemplos da utilização de árvores filogenéticas


Uma árvore filogenética pode ser utilizada em diversos tipos de análises. Ela pode servir de
arcabouço para o estabelecimento de padrões da evolução de organismos e em alguns casos até desvendar
crimes. As diversas aplicações da filogenia existem pelo seu poder de previsibilidade, já que a premissa
principal para sua construção é assumir que os relacionamentos entre diferentes linhagens são
estabelecidas com base em uma origem comum. Por exemplo, empresas especializadas em dedetização
fazem estudos criteriosos de filogenias para saber quais grupos de organismos são ou não sensíveis à ação
de um pesticida. Assim, é possível definir quais organismos serão eliminados ou não pelo agente químico.
Além desse, seguem dois exemplos reais do uso de filogenias.

O uso de filogenias para a conservação (Rolland et al. 2012)


Uma nova vertente do uso de filogenias é a sua aplicação em estudos voltados à conservação da
biodiversidade. A ideia seria a de que conservar áreas no planeta com alta diversidade filogenética seria
mais efetivo. Conservar a diversidade filogenética significa, basicamente, conservar áreas que guardam
espécies de diferentes linhagens. Neste sentido, existe o esforço de diversos pesquisadores para identificar
a diversidade filogenética de diferentes áreas, com diferentes linhagens para que planos de conservação
possuam uma base científica mais sólida. Outra prática que pode ser realizada no âmbito da conservação
seria a utilização da macroevolução. Por exemplo, para aves europeias foi reconstruída uma hipótese
filogenética e foi realizado um estudo da evolução de fatores associados ao nicho ocupado por elas nesta
região. Para cada um desses fatores, os pesquisadores inferiram uma taxa de evolução frente à filogenia
inferida. Assim, conseguiram discutir sobre a evolução dessas diferentes linhagens na Europa. A ideia
seria utilizar as taxas inferidas para modelar a distribuição das espécies no futuro, já que os modelos
existentes hoje não levam essas informações em consideração. Havendo uma estimativa da evolução de
características associadas à distribuição das espécies no espaço, uma melhor modelagem pode ser
desenhada e, consequentemente, melhores planos para a conservação da biodiversidade podem ser
designados.

Um exemplo biogeográfico (Antonelli et al. 2009)


Existem várias evidências de que o soerguimento dos Andes teria influenciado enormemente a
diversificação de espécies na região Neotropical (quase toda a América do Sul e América Central). Para
verificar isso, esses pesquisadores utilizaram a família do café (Rubiaceae) como modelo para

74
compreender esse processo. Para isso, eles reconstruíram uma hipótese filogenética para a família
utilizando dados moleculares e utilizaram um método para datar as idades das diferentes espécies
estudadas por eles, ou seja, inferiram um cronograma (não falamos sobre ele neste capítulo, mas citamos
este tipo de representação na seção A leitura de uma árvore filogenética e alguns conceitos fundamentais,
pág. 61). Depois disso, eles inferiram, dadas as distribuições atuais das espécies utilizadas por eles na
análise, uma história biogeográfica, ou seja, a história da evolução das espécies no espaço, ao longo do
tempo. De acordo com resultados encontrados por eles, o ancestral da família Rubiaceae teria evoluído no
Paleotrópico (hoje África e Sudeste Asiático) e teria dispersado para a América do Sul pelo chamado
cinturão boreotropical, o qual existiu enquanto a atual América do Norte tinha conexão com a Europa
pelo Oceano Atlântico, há cerca de 60 milhões de anos atrás. Como evidências geológicas mostram que o
soerguimento dos Andes não foi um evento único, eles viram que existia uma barreira para a dispersão
entre a parte norte e central dos Andes, o que impediu durante milhões de anos a dispersão de linhagens
ancestrais da América do Norte para a América do Sul. Eles viram uma correlação entre o período em que
linhagens começaram a dispersar para a América do Sul e o soerguimento total da cadeira dos Andes e,
portanto, o fim da barreira que existia. Além disso, verificaram que a nova formação hidrológica que
surgiu na Amazônia por influência do soerguimento total dos Andes impediu a conexão entre linhagens
amazônicas e andinas durante milhões de anos depois do evento geológico. Com isso, eles sugeriram que
a alta diversidade de Rubiaceae na Região Neotropical teria sido influenciada pelas mudanças geológicas
e hidrográficas no norte da América do Sul e que, se isso ocorreu com esta família, deve ter influenciado
milhares de outras linhagens de diferentes grupos taxonômicos.

75
PARTE II

ENSINO EM BOTÂNICA

76
CAPÍTULO 7

Dificuldades inerentes ao ensino de botânica: como


superá-las?
Marina Macedo
Pércia Paiva Barbosa

Dentro do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) existe hoje um grupo
de pesquisa que estuda Botânica na Educação, chamado Boted. Dentro desse grupo são desenvolvidas
atividades e pesquisas ligadas a área de educação (sendo Educação à Distância e Formação de
Professores), estando estas relacionadas, também, à Educação Ambiental, Percepção Ambiental e
Biodiversidade Marinha. Dentro deste panorama, sugerimos aqui uma abordagem que une Botânica e o
Ensino desta dentro das salas de aula em nível inicial de Ensino.

Introdução
O estudo das Ciências Naturais faz-se presente desde muito cedo na vida escolar de uma criança.
Visto como uma matéria interessante e cheia de atrativos, estas aulas compõem de forma agradável a
vivência escolar dos pequenos estudantes. Porém, com o amadurecimento, as aulas de Ciências tendem,
muitas vezes, a tornarem-se desinteressantes e enfadonhas, devido ao caráter descritivo e técnico que
assumem com o passar dos anos.
O mesmo pode ocorrer em relação especificamente com o ensino de Biologia, que pode ser
considerada importante e interessante ou mesmo desnecessária e insignificante, dependendo da forma
como é ensinada em sala de aula. Ressalta-se isso, pois a formação do indivíduo com a inserção da
Biologia tem profunda importância, uma vez que proporciona ao mesmo a compreensão do mundo no
qual está inserido de forma completa e atual.
Sobre o ensino de Biologia, o “Biological Science Curriculum Study” (1993) traz a tona o
conceito de “alfabetização biológica”, que admite quatro níveis de subdivisão: [Link]: quando o
estudante apenas reconhece os termos utilizados; [Link]: quando os termos são memorizados com a
sua definição, porém não há compreensão; [Link]: quando os estudantes são capazes de explicar
com as próprias palavras o conceito entendido; 4. Multidimensional: quando os estudantes conseguem
relacionar os conceitos aprendidos com aqueles de outras áreas e, dessa maneira, resolver problemas
reais. Nesse cenário algumas pesquisas mostram que, muitas vezes, os estudantes apenas memorizam os
conteúdos de forma metódica, visando a sua mera aplicação em provas, testes, exames, ou seja,
circunstâncias em que necessitem obter uma classificação (níveis 1 e 2 apresentados anteriormente). Em
outro extremo, porém, há alunos que procuram um aprofundamento do que fora aprendido, buscando
bibliografias adicionais, esclarecimentos e iniciando discussões com professores e colegas, adquirindo,

77
assim, uma visão holística do problema e um envolvimento profundo com o estudo (níveis 3 e 4
anteriormente apresentados).
Mesmo com as colocações sobre a importância de uma contextualização temática, o Ensino de
Biologia ainda é feito, muitas vezes, de forma descritiva, com exposição excessiva de nomenclaturas sem
a vinculação necessária às estruturas nomeadas. Esta perspectiva adotada apenas reforça o ensino teórico,
enciclopédico, passivo, irrelevante, negado de discussões e debates. Sendo assim, a construção do
conhecimento, as discussões e as descobertas acabam prejudicadas, uma vez que as desconexões entre
teoria e realidade acarretam desinteresses por parte do corpo discente. Assim, dificilmente os níveis 3 e 4
da alfabetização biológica serão atingidos. Por isso, acreditamos que a didática adotada no Ensino de
Ciências e Biologia é sumariamente importante no processo da conquista dos níveis superiores.
Dentro deste panorama, temos o ensino de Botânica, o qual, muitas vezes, reforça ainda mais o
caráter desinteressante das aulas de Biologia nas escolas. Possivelmente, isso se deve à característica
extremamente teórica e desestimulante que esta disciplina pode alcançar se tratada de forma
descontextualizada e demasiadamente teórica. Neste cenário, trazemos à tona a “Cegueira Botânica”,
termo que se refere a pouca habilidade apresentada pelas pessoas na percepção das plantas que participam
de sua rotina, o que compromete a capacidade das primeiras de perceber a importância dos vegetais para
o meio ambiente e para a biosfera. Sendo assim, as pessoas que apresentam a chamada “Cegueira
Botânica” podem ter dificuldades de perceber as plantas em seu cotidiano ou enxergá-las apenas como
um cenário para a vida animal. Além disso, podem ignorar a necessidade destas em suas atividades
diárias, bem como não saber quais plantas fazem parte da região em que vivem.
Apesar de o histórico referente aos problemas com o ensino de Botânica ser antigo (desde a
década de 30 isso é discutido no Brasil), ainda hoje este é um tema subestimado na área de Biologia.
Cabem aos professores, facilitadores no processo de ensino-aprendizagem, consolidar tentativas que
visem à diminuição desse problema. Desta forma, uma das maneiras de superar tais entraves poderia ser
proporcionar um Ensino que possibilitasse a (re) construção do conhecimento de maneira que este seja
dinâmico e, ao mesmo tempo, que buscasse uma proximidade com a realidade dos estudantes. Para tanto,
a escola precisa ter como objetivo não apenas o repasse total dos conhecimentos científicos, mas também
deve se preocupar com o “saber escolar”, uma vez que este é uma atividade complexa de recorte de
temas, seleção de conteúdos, proposição e avaliação na execução de tarefas. Além disso, a escola deve
visar modelos que permitam o raciocínio e a investigação para instigar nos alunos uma posição crítica e
reflexiva sobre os conteúdos abordados. Nesta perspectiva a escolha de recursos é fundamental para
tornar o processo de ensino-aprendizagem mais interessante e efetivo.
A utilização de recursos audiovisuais no Ensino de Ciências, por exemplo, pode ser uma das
alternativas para sanar os problemas acima expostos, uma vez que é uma atividade contemporânea,
característica essa que define nossa sociedade atual. Todavia, nuances devem ser analisadas antes da
efetivação desses. Em primeiro lugar destaca-se a motivação, uma vez que os recursos visuais apresentam
grande apelo emocional, além de representarem uma quebra na rotina da sala de aula. Em segundo lugar

78
há a preocupação com o tipo de metodologia adequado, uma vez que, dependendo do assunto, um filme
pode apresentar resultados mais positivos do que fotografias, e vice e versa.
Aqui vale ressaltar que os recursos audiovisuais não devem ser utilizados como “tapa buracos”,
visto que possuem um caráter de complementaridade e não de substituição. Mais do que isso, o professor
deve analisar e estudar o material antes de sua aplicação para testar a coerência com o conteúdo abordado.
Há ainda um detalhe que deve ser levado em consideração: uma imagem (ou vídeo) pode possibilitar
diversas interpretações e, assim, o professor deve considerar explicar e contextualizar a utilização do
recurso, não permitindo que o uso do mesmo confunda os estudantes.
Imagens são importantes recursos para a comunicação científica, pois auxiliam na dinâmica das
aulas, promovendo fácil entendimento de conceitos. Também são importantes para o Ensino de Ciências,
destacando os desenhos, esquemas, fotografias, etc. Tais agentes dialógicos são importantes
intermediários entre professor/estudantes e conteúdo. Desta forma, as imagens têm o papel de clarear os
conceitos aprendidos pelos discentes, sendo uma ferramenta poderosa no processo de
ensino/aprendizagem. Os autores ainda enfatizam que o uso de imagens pode ter um papel muito mais
eficaz na explicação de um conteúdo do que somente a linguagem verbal.
Além das imagens, músicas e textos literários também são passíveis de serem utilizados,
permitindo ao professor novas abordagens dos temas científicos. Além disso, pode-se dizer que tais
recursos, possivelmente, permitirão tanto a contextualização e discussão dos temas específicos, como a
imersão na interpretação e aprofundamento filosófico da questão abordada pelos alunos.
Diante do exposto, apresentamos a seguir algumas propostas para o uso de alguns recursos
didáticos (música e imagens). Deixamos também um convite para uma visita ao site organizado pelo
Grupo de Pesquisa Botânica na Educação (BOTED), que tem como um de seus focos o desenvolvimento
de estratégias didáticas para o Ensino de Botânica ([Link]).

Atividade 1: Superando a “Cegueira Botânica”


Para a realização desta atividade, sugere-se a leitura do livro Um Antropólogo em Marte, de
Oliver W. Sacks2. Neste texto o autor propõe uma comparação entre pessoas que interagem com a vida de
uma forma especial, sendo estas: um pintor, que aos 65 anos passa a enxergar o mundo em preto e branco;
um massagista, cego desde a infância, passa a ver após uma cirurgia corretiva; e ainda uma mulher autista
que, infeliz em sua relação com humanos, encontra abrigo sentimental entre os animais.
Pede-se atenção especial à crônica “Ver e não ver” (início na pág. 72), que conta a história de
Virgil, um massagista de 50 anos que nasceu sem a capacidade de enxergar devido a uma catarata crônica
associada a uma retinite pigmentosa. Sua noiva, Amy, próxima ao casamento, o leva ao oftalmologista,
Dr. Scott, que dá novas esperanças sob a possibilidade de Virgil voltar a enxergar.
Após a cirurgia corretiva em seus olhos, ele lentamente passa a ver um mundo antes
desconhecido. Cores e formas, nunca percebidas, são analisadas lentamente. Porém Virgil não

2
link do livro disponível em [Link]
Oliver+Sacks/UM+ANTROPOLOGO+EM+MARTE+%28780%29/UM+ANTROPOLOGO+EM+MARTE+-
+Oliver+Sacks,[Link]
79
compreende muito bem o que está vendo e chega, no início do processo de ganho da visão, a se sentir
confuso sobre o que estava acontecendo.
A ponte que podemos criar com este texto está ligada à percepção que fazemos sobre o mundo
ao nosso redor. Neste momento podemos refletir sobre as diferenças entre “ver” e “enxergar”, que são
muito presentes no Ensino de Ciências, principalmente no de Botânica. Vejamos os fragmentos do texto:

“Virgil e Amy -- agora recém-casados -- nos receberam à


saída do desembarque no aeroporto. Virgil era de estatura mediana,
mas muito gordo; movia-se lentamente e tinha a tendência de tossir e
ofegar ao menor esforço. Não era, estava claro, um homem
completamente saudável. Seus olhos erravam de um lado para o
outro, à procura de movimentos, e quando Amy nos apresentou -- Bob
e eu -- a ele pareceu não nos ver de imediato -- olhou na nossa
direção, mas não exatamente para nós. Tive a impressão,
momentânea porém forte, de que na realidade não olhava para nossos
rostos, embora tenha sorrido, rido e escutado com atenção.” (pág.
79-80)

Neste fragmento podemos estabelecer uma relação importante com o ensino de Ciências. Virgil,
o protagonista da história, é descrito como alguém que observa as imagens, porém não necessariamente as
vê ou mesmo as compreende. Isso acontece com os organismos estudados na Botânica, que, por muitas
vezes passam despercebidos, mesmo que esteja clarividente a sua presença e importância.

Analisemos o outro fragmento:

“Em certa ocasião, ficou confuso ao ver “um avião gordo”


no céu — “petrificado, sem se mexer”. Era um dirigível.
Eventualmente, tinha visto pássaros; eles o faziam pular, às vezes, se
chegavam muito perto (...) Apreciava paisagens ordenadas, dizia, de
montes verdes e grama — sobretudo depois dos espetáculos visuais
sobrecarregados e excessivos das lojas —, embora lhe fosse difícil,
segundo Amy, conectar as formas visuais dos montes com os montes
reais em que caminhava, e não tivesse senso algum de tamanho ou
perspectiva. (nota 6: A sensação em si não tem “marcadores” para
tamanho e distância, que precisam ser aprendidos com base na
experiência. Assim, tem sido relatado que pessoas que viveram a vida
inteira em densas florestas tropicais, com um horizonte de não mais
que alguns metros à frente, quando colocadas em paisagens amplas e

80
vazias podem chegar a esticar os braços e tentar tocar as montanhas
com as mãos; não fazem idéia da distância das montanhas. Helmholtz
(em Thought in rnedicine, um relato autobiográfico) descreve como,
aos dois anos de idade, caminhando por um parque, viu o que achou
ser uma pequena torre com uma balaustrada no alto e manequins ou
bonecos pequeninos andando por trás do parapeito. Quando
perguntou à mãe se ela podia alcançar um deles para ele brincar, ela
exclamou que a torre ficava a um quilômetro de distância e a
duzentos metros de altura, e que essas pequenas figuras não eram
manequins, mas pessoas lá no alto. Bastou dizer isso, escreve
Helmholtz, para que ele de repente se desse conta da escala de tudo, e
nunca mais cometesse tal erro perceptivo — embora a percepção
visual do espaço como tema nunca tenha deixado de exercitá-lo.”
(pág. 82-83)

Veja que nos parágrafos ressaltados podemos perceber as primeiras sensações que Virgil pôde se
deparar após seu contato com a visão. A mesma análise pode ser parafraseada com os estudantes, após
seu primeiro contato com botânica. Por esta área ser negligenciada, ao olharmos um fragmento de mata,
ou mesmo um jardim, tendemos primeiro a enxergar os animais presentes, ou mesmo as plantas de grande
porte ou que possuem flores, não nos preocupando com toda a diversidade vegetal presente naquele lugar.
Isso representa a “Cegueira Botânica”, citada na introdução presente neste capítulo, que nos torna,
inicialmente, incapazes de olhar a diversidade, pois nossos olhos não estão acostumados com essa visão.
Desta forma, tal texto pode ajudar os estudantes à percepção de que às vezes tudo é uma questão
de olhar as coisas com mais atenção e cautela, sob perspectivas diferentes. Não necessariamente apenas as
coisas visíveis ou mesmo que chama a atenção de nossos olhos em primeiro momento são àquelas de
maior valor ou importância. Na Botânica, como na ciência como um todo, a percepção deve ser aguçada e
instigada o tempo todo, para que a verdadeira diversidade possa ser desvendada.

Atividade 2: Abordagens para o ensino de Botânica

2.1 Uso de fotografias


Como uma forma prática de observar a diversidade Botânica, podemos propor uma atividade
simples com uso de fotografias.
Inicialmente pode-se lançar uma imagem que apresente uma vegetação, como a que segue
abaixo (no caso da figura 1 apresentada trata-se de um jardim doméstico). O objetivo desta primeira parte
é fazer com que os estudantes possam extrair informações da fotografia apresentada.

81
Figura 1: Fotografia de jardim.

Depois da exposição desta imagem, pede-se para os estudantes que busquem características
atrativas que chamem a sua atenção, como por exemplo, que descrevam em uma folha de papel o que
pode ser observado da fotografia exposta.
Espera-se que a maioria deles note a presença da orquídea (Fig. 2), visto que a cor desta chama a
atenção no meio de toda a vegetação verde ao seu redor. Porém, provavelmente eles não descreverão os
liquens e as pteridófitas presentes nos troncos das árvores (Fig. 3). Isso ocorre não somente pela
visibilidade destes na fotografia, mas também pela falta de costume e importância que damos às plantas
menores em tamanho ou sem flores.
Mais uma vez podemos ressaltar a presença da “Cegueira Botânica” mostrando aos estudantes,
através de uma atividade prática, que a observação pode proporcionar uma compreensão muito maior da
diversidade vegetal.

Figura 2: Orquídea. Figura 3: Líquen, musgo e samambaia.

2.2 Uso de quadros


Outra alternativa para chamar a atenção dos alunos é o uso das obras de arte. Estas podem atuar
como ótimos materiais para estabelecer um diálogo entre o conteúdo teórico e a ludicidade envolvida no
processo de ensino-aprendizagem.
Como exemplo, usaremos a obra “The White Water Lilies” (Fig. 4) de Claude Monet. Em 1883
tal pintor transfere-se para Giverny, cidade no interior da França, e faz lá sua morada. Nesta pequena

82
cidade, impressiona-se com os jardins e flores típicos da região. Devido à admiração crescente que
apresenta pela vegetação local, ele constrói para si um enorme jardim e faz deste a sua inspiração.

Figura 4: “The White Water Lilies” (Imagem Disponível no link


[Link]

Monet passava horas no jardim de sua casa pintando a vegetação que aos poucos lá ele plantou.
O Jardim Japonês, que ficava sobre um lago, foi uma de suas grandes fontes de inspiração, fazendo com
que inúmeras obras fossem confeccionadas após a observação detalhada dessa paisagem.
O quadro apresentado na figura 4 é o que traz a tona este jardim. Por tratar-se de um pintor
impressionista, é interessante instigar que os estudantes observem quais elementos são trazidos nessa
obra. Além da ponte, temos inúmeras representações botânicas em uma mesma imagem. Este quadro
pode ser usado tanto na busca pela percepção vegetal, quanto na análise de quais espécies foram
representadas ali. Ainda, com o uso de recursos como a internet, pode-se pedir aos estudantes que
busquem fotografias reais das vegetações representadas a fim de fazer um paralelo entre a arte à vida real.
Também, vale ressaltar aos estudantes que Monet, com o passar dos anos, foi perdendo a visão
devido a uma catarata. Desta forma, suas pinturas também foram se modificando. Na figura 5, à esquerda
há um recorte do quadro “The White Water Lilies”, ressaltando a presença das plantas aquáticas. Na
mesma imagem à direita, temos outra representação, porém esta feita anos depois, quando a catarata já
havia afetado muito a visão deste pintor.
Sendo assim, podemos voltar ao conceito inicial de “Cegueira Botânica” e mostrar aos
estudantes que muitas vezes podemos nos enganar com o que estamos “enxergando”, a fim de ressaltar
para estes a importância de ter atenção e curiosidade ao olharmos uma paisagem.

83
Figura 5: Fragmento de “The White Water Lilies”. A esquerda obra original e a direita obra feita anos
depois. (Imagens Disponíveis no link [Link]
monet-em-giverny/).

Considerações Finais
Após a exposição dos argumentos acima elencados, espera-se que possamos ter contribuído para
a discussão sobre o Ensino de Botânica. Tal área, apesar de ainda negligenciada, apresenta suma
importância na formação dos estudantes, uma vez que entender a biosfera possibilita uma interação mais
coerente e saudável com a mesma. Além disso, depois da discussão sobre “Cegueira Botânica”, trazer a
tona recursos que possivelmente ajudarão a superá-la é uma das maneiras que acreditamos poder
contribuir para uma melhoria na qualidade de Ensino em nossa sala de aula.

Agradecimentos
À professora Suzana Ursi, pela dedicada orientação e auxílio na escrita e leitura do presente
texto.

84
CAPÍTULO 8

O auxílio das tecnologias de informação e comunicação


no ensino de temas complexos da botânica: o caso da
“fotossíntese”
Pércia Paiva Barbosa
Marina Macedo

O presente texto resulta de algumas pesquisas realizadas pelo Grupo Botânica na Educação
(BOTED), o qual pertence ao Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da Universidade de
São Paulo. O BOTED tem como um de seus objetivos, contribuir para a ampliação dos conhecimentos
sobre ensino-aprendizagem de Botânica, sendo que o desenvolvimento de estratégias e recursos didáticos
é um de seus focos. Ao longo dos últimos anos, várias pesquisas e materiais didáticos sobre o tema foram
desenvolvidos, os quais podem ser acessados pelo site: [Link].

Introdução
A Biologia, de acordo com alguns estudos, pode ser uma disciplina muito cativante e merecedora
de atenção assim como pode ser pouco atraente e insignificante para o aluno, dependendo do assunto que
está sendo abordado e também de como esse ensino é realizado. Sabe-se que a formação biológica pode
contribuir para que o indivíduo seja capaz de compreender processos que ocorrem na natureza, assim
como, para tornar esse sujeito um cidadão crítico, reflexivo e apto a avaliar as situações que se
apresentam em seu cotidiano. Ao contrário disso, o ensino escolar, muitas vezes, banaliza a aquisição de
conhecimento por parte do estudante, fazendo com que esse último não compreenda, por exemplo, as
características e procedimentos da pesquisa científica, a historicidade contida na construção do
conhecimento, assim como a contextualização e aproximação dos temas estudados a sua realidade.
Grande parte desses problemas tem relação direta com a formação do professor, com a
disponibilidade de tempo que o mesmo possui para se dedicar ao preparo das aulas, assim como com os
baixos salários recebidos e a desvalorização da classe docente no contexto brasileiro. Porém, cabe dizer
que, além desses fatores, também é importante considerar o fato de alguns conceitos serem mais
desafiadores no campo do ensino-aprendizagem. Na Biologia, isso não poderia ser diferente, sendo a
Botânica uma das áreas que merece destaque nesse sentido.
Alguns estudos, realizados no início dos anos 2000, relatavam que uma das principais
dificuldades para a abordagem da Botânica nas salas de aula estava relacionada àquilo que alguns autores
chamaram de “cegueira botânica” (Ver capítulo 7). Tais pesquisas enfocavam como os estudantes, de
uma maneira geral, tinham pouco conhecimento sobre as plantas, sendo que muitos deles não possuíam,
por exemplo, a consciência de que tais organismos eram seres vivos. Já outros trabalhos apresentavam
como possibilidades para a redução dessa cegueira a produção de currículos mais adequados para os

85
cursos de Botânica desde a graduação, quando os futuros professores ainda estavam sendo formados.
Apesar disso, sabe-se que, ainda hoje, muitos docentes têm poucos conhecimentos sobre essa área, o que
faz com que minimizem o tempo destinado ao ensino da mesma em suas aulas no Ensino Básico,
contribuindo, dessa forma, para a construção de noções imprecisas sobre a Botânica por parte dos alunos.
Diante desse cenário, acreditamos que os professores têm diante de si uma árdua tarefa. O
processo de ensino-aprendizagem, por sua vez, pode se tornar ainda mais desafiador para o docente
quando este se depara com assuntos complexos dentro de sua área de conhecimento. Um tema relevante
e, ao mesmo tempo, complicado para muitos educadores é a fotossíntese, o que pode ser evidenciado pela
grande quantidade de artigos que enfocam o ensino e a aprendizagem desse tema nas escolas. Muitos
desses trabalhos têm abordado as concepções de estudantes sobre tal processo, as diversificadas
estratégias didáticas adotadas para o ensino da mesma nas escolas, dentre outros. No geral, muitas dessas
pesquisas apontam como as concepções sobre a nutrição vegetal são errôneas e, dessa forma, acreditamos
que alguns recursos didáticos específicos podem auxiliar o professor no ensino desse tema.
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), a nosso ver, podem ser boas aliadas do
docente na elaboração e execução de estratégias para abordar processos dinâmicos e complexos como a
fotossíntese. Alguns autores apontam como as TIC podem influenciar a aprendizagem dos estudantes uma
vez que estes estão imersos, atualmente, em um mundo onde a televisão, o computador e a internet
interferem rotineiramente em seu desenvolvimento. Dentre essas tecnologias, destacamos as animações e
os vídeos como ferramentas muito utilizadas no contexto educacional, já que possibilitam observar em
alguns minutos a evolução de um fenômeno que poderia levar horas, dias ou anos para acontecer em
tempo real. Além disso, elas permitem ao estudante repetir a observação sempre que desejar, como
também podem ser mais dinâmicas e atrativas para esses últimos.
Apesar de as animações e os vídeos serem ferramentas valiosas para a abordagem de
determinados assuntos considerados complexos, salientamos que tais ferramentas não devem ser apenas
mais uma forma de “transmissão de conteúdos”, sem a reflexão ao seu respeito. Apenas apresentar a
fotossíntese, ainda que de forma dinâmica por meio de uma animação (ou vídeo), não nos parece muito
efetivo ou atraente se tal processo não for contextualizado. Sobre a contextualização, a importância da
mesma já é amplamente reconhecida e, a nosso ver, no caso do tema aqui apresentado, ela pode ser
realizada de diversas maneiras: relacionando a fotossíntese ao cotidiano de professores e alunos,
estabelecendo uma ponte entre tal processo e a arte, recapitulando o histórico de seu descobrimento,
dentre outras formas. Diante disso, na próxima seção, propomos algumas ideias para a construção de uma
sequência didática sobre o tema “fotossíntese”. Um dos objetivos dessa proposta é exemplificar como as
animações e os vídeos podem ser utilizados como ferramentas de suporte ao professor em aulas cujo tema
é considerado complexo e, muitas vezes, enfadonho pelos estudantes.

As sequências didáticas e o uso de animações e vídeos


Resumidamente, pode-se dizer que as sequências didáticas caracterizam-se por ser um conjunto
de atividades planejadas para o ensino de determinado conteúdo disciplinar. Sabe-se que os tipos de

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atividade e, sobretudo, a maneira como estas se articulam, revelam muito sobre o ato de ensinar de
determinado professor e também sobre suas concepções sobre o ensino.
De acordo com alguns trabalhos, são diversas as concepções dos professores sobre o ato de
ensinar. Uma delas refere-se a acreditarem que a aprendizagem escolar consiste na habilidade do aluno
em conhecer as respostas corretas. Já uma segunda concepção seria que os estudantes são processadores
de informação, ou seja: a principal atividade do docente é oferecer aos alunos múltiplas maneiras de se
obter o conhecimento.
Ao contrário dessas concepções, acreditamos que o ato de ensinar deve permitir ao aluno o
encontro de sentido entre aquilo que está sendo exposto nas aulas e seu cotidiano. Além disso, esperamos
que o ensino possibilite ao estudante a capacidade de refletir criticamente sobre o mundo que o cerca,
estabelecendo conexões e tomando decisões corretas. Dessa maneira, as ideias para a construção de uma
sequência didática, aqui apresentadas, representam algumas dentre as inúmeras possibilidades para
abordagem do tema fotossíntese. Aqui, as animações e os vídeos foram utilizados como recursos-chave.
Conforme mencionado anteriormente, acreditamos que o uso dessas ferramentas deve ser feito com
critério e com planejamento pelo professor: adotar as animações (ou os vídeos) como meras
possibilidades para a “transmissão de conteúdos”, a nosso ver, não implica em um ensino capaz de
desenvolver nos alunos as capacidades críticas, anteriormente relatadas. Sendo assim, apresentamos a
seguir algumas possibilidades para o uso de tais recursos ao longo de uma proposta para construção de
aulas sobre fotossíntese, considerado por muitos alunos e professores um assunto maçante e de difícil
entendimento.

Sequências didáticas sobre o tema “Fotossíntese”: ideias para a construção de aulas para o
Ensino Médio
Neste trabalho, sugerimos algumas ideias para a construção de sete aulas sobre o tema
“Fotossíntese” em que animações e vídeos são utilizados como recursos-chave. Cabe dizer que, apesar de
o referido tema ser o foco do ensino nesta sequência, é possível trabalhar inúmeros outros assuntos,
dependendo dos objetivos mais amplos do professor. Também vale destacar que as ideias, aqui sugeridas,
são apresentadas de maneira simplificada, devido às finalidades deste texto. Sendo assim, ao construir sua
própria sequência didática, o docente deve pensar, cuidadosamente, nos objetivos de cada aula, de cada
atividade proposta e nas habilidades que deseja desenvolver em seus alunos.
Com o objetivo de se construir uma aprendizagem ativa dos estudantes, buscamos utilizar
diferentes estratégias didáticas para a apresentação do tema (aulas expositivas dialogadas, trabalhos em
grupo, experimentos, dentre outras), apesar de, nessa sequência, a animação e os vídeos terem sido
adotados como os principais recursos didáticos. Em um primeiro momento, o vídeo foi utilizado como
suporte para a apresentação do tema pelo docente (no caso, como se deu o descobrimento da
fotossíntese). Em um segundo momento, uma animação foi o recurso utilizado com o intuito de ser uma
alternativa à prática (real) do experimento, sendo que o professor pode optar por esse método quando a
escola, por exemplo, possuir pouca infraestrutura (como ausência de um laboratório e de recursos

87
financeiros para compra dos materiais necessários, dentre outros) ou, até mesmo, quando o tempo
demandado para a execução da experiência for demasiadamente longo, não se adequando à duração das
aulas. Em um terceiro momento, outras animações foram utilizadas, tais como, ilustração de uma aula
expositiva dialogada (auxiliando os alunos a entenderem, de uma maneira menos abstrata, o assunto
tratado pelo professor) e como alternativa a um experimento prático, realizado ao vivo. Por fim, um
último vídeo foi utilizado para despertar a curiosidade e atenção dos alunos em uma aula sobre um
assunto pouco comum: plantas carnívoras.
Feitas as considerações anteriores, passemos, nesse momento, à apresentação das ideias para a
construção de uma sequência didática sobre o tema fotossíntese.

AULA 1

Levantamento de concepções prévias dos alunos


O professor pode iniciar a abordagem do tema com uma questão sobre fotossíntese, a fim de se
identificar as concepções prévias dos alunos. Dependendo da turma, isso pode levar até uma aula de 50
minutos (ou mais). Dessa forma, o professor avaliará quanto tempo disponibilizará para que os alunos
pensem sobre a pergunta. Cabe destacar a importância de se permitir aos estudantes tempo para reflexão:
os alunos trazem consigo ideias prévias sobre os assuntos a serem abordados pelo professor e é
importante que este conheça tais concepções. Logo, fica a critério do docente ampliar ou reduzir o tempo
para a execução dessa tarefa. Sugerimos também que, na última aula, o professor faça um resgate dessas
concepções juntamente com os alunos para ajudá-los a compreender o que foi aprendido ou não.

AULA 2

Atividade 1: explicando, superficialmente, a fotossíntese


O professor pode continuar suas aulas sobre o tema fotossíntese instigando os alunos a pensarem
sobre as condições favoráveis para o desenvolvimento de uma planta, por exemplo. Dessa forma, o
docente pode apresentar uma situação problema e fazer com que os estudantes formulem hipóteses para
explicar os fatos observados. No exemplo a seguir, após analisarem as três situações apresentadas (Fig.
1), os alunos devem concluir que as plantas necessitam de água, luz e nutrientes para se desenvolverem.
Cabe destacar que é importante que o professor permita aos discentes um tempo para reflexão e, se
possível, que incentive o trabalho em grupo.

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Situação I

Situação II

Situação III

Figura 1: Exemplo de atividade para a segunda aula da sequência didática sobre fotossíntese.

Feita essa introdução, e partindo da premissa de que as plantas necessitam de luz para seu
desenvolvimento, o professor pode retomar os conhecimentos prévios dos alunos (primeira aula) e
discutir com os mesmos sobre como a planta utiliza essa luz (assim como água e nutrientes) para sua
sobrevivência. Concluindo, juntamente com a turma, que a planta sintetiza seus próprios carboidratos, o
docente pode utilizar a etimologia da palavra “fotossíntese” para reforçar que a produção dos referidos
açúcares acontece na presença de luz. Continuando a conversa, o professor pode, por exemplo, apresentar
a fórmula química do processo fotossintético (6CO 2 + 6H2O => C6H12O6 + 6O2), instigando os alunos a

89
pensarem sobre como aconteceu a descoberta da mesma. Nesse momento, é possível introduzir uma
segunda atividade, descrita a seguir (Atividade 2).

Atividade 2: contextualização histórica do tema e segunda retomada das concepções prévias dos alunos

Sugestão de vídeo1: [Link]


O professor pode começar a contextualização do tema por meio de uma abordagem histórica
sobre o descobrimento da fotossíntese. Isso pode ser feito através de um vídeo
([Link] sendo que o docente pode destacar para os alunos
que a nutrição das plantas começou a ser pensada há muitos anos. (Possivelmente, alguns estudantes
apresentarão concepções prévias semelhantes aos primeiros pesquisadores do tema. Logo, o professor,
ciente dessas concepções, pode estabelecer relações ao apresentar a contextualização histórica).
Retomando o que afirmamos anteriormente neste texto, é importante que a animação ou os
vídeos sejam utilizados de maneira dialogada com os alunos, não sendo meramente recursos
demonstrativos e informativos. Sendo assim, é importante que o professor planeje como vai utilizá-los.
Aqui, nesta sugestão, o vídeo é utilizado como um recurso capaz de auxiliar o docente a introduzir o
tema, levando a reflexão dos estudantes sobre o mesmo. Sugerimos que o professor interrompa a
apresentação sempre que necessário, fazendo perguntas, observações, a fim de estimular a participação e
reflexão dos discentes. No vídeo, aqui sugerido, o professor pode, inclusive, abordar o “fazer ciência”:
juntamente com a turma, pode-se chegar à conclusão de que a nutrição das plantas começou a ser pensada
há muitos anos e, aos poucos, fora sendo decifrada por pesquisadores de várias partes do mundo, em
diferentes épocas. É importante que o docente aborde a ideia de “verdade absoluta” apresentada, muitas
vezes, pela Ciência e também pela fala comumente ouvida em nosso cotidiano sobre o “cientificamente
comprovado”. No caso da nutrição das plantas, até se chegar à fórmula química acima apresentada,
muitas teorias foram aceitas e outras rejeitadas. Apesar disso, todos os cientistas envolvidos com as
pesquisas sobre o tema contribuíram para alcançarmos o conhecimento sobre fotossíntese que possuímos
hoje. Destacamos que o professor pode conversar sobre muitos assuntos relacionados ao tema a partir do
vídeo proposto. Cabe ao mesmo decidir sobre aqueles que mais se encaixam em seus objetivos mais
amplos.

AULA 3

Atividade 1: contextualização do tema fotossíntese através do cotidiano dos alunos


O professor pode continuar contextualizando o tema, dessa vez, aproximando o mesmo ao
cotidiano dos alunos. Para isso, ele pode apresentar algumas questões e pedir para os estudantes
formularem hipóteses para explicá-las. Algumas possibilidades seriam: “Como a fotossíntese pode ter
contribuído para o surgimento da vida na Terra?”, "Como a fotossíntese poderia auxiliar a diminuição
do aquecimento global?”, “Qual a relação existente entre as cadeias alimentares e o processo

90
fotossintético?”, “Qual a relação da fotossíntese com a produção de etanol, tão presente em nosso
cotidiano?”, dentre outras.
Sugerimos que o docente disponibilize tempo suficiente para que os estudantes formulem as
hipóteses e que as mesmas sejam compartilhadas com toda a turma. No final da aula, caso os alunos não
cheguem às conclusões corretas, o docente auxilia os mesmos fazendo uma explicação sobre cada uma
das questões abordadas.

AULA 4

Atividade 1: contextualização do tema fotossíntese através da arte – Música Luz do Sol


O professor, em um terceiro momento, pode dar continuidade à contextualização do tema através
da arte. Sugerimos a apresentação da música “Luz do Sol”, de Caetano Veloso, a qual aborda, de uma
maneira delicada e poética, o processo fotossintético. Talvez, seja interessante que o docente apresente a
letra impressa, permitindo aos alunos maiores reflexões sobre o assunto. Dessa maneira, pode-se sugerir
que os estudantes encontrem as partes da canção que falam sobre a fotossíntese.

Luz do sol
Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em verde novo
Em folha, em graça
Em folha, em graça
Em vida, em força, em luz...
Em vida, em força, em luz...
Céu azul
Reza, reza o rio
Que venha até
Córrego pro rio
Onde os pés
Rio pro mar
Tocam a terra
Reza correnteza
E a terra inspira
Roça a beira
E exala seus azuis...
A doura areia...
Reza, reza o rio
Marcha um homem
Córrego pro rio
Sobre o chão
Rio pro mar
Leva no coração
Reza correnteza
Uma ferida acesa
Roça a beira
Dono do sim e do não
A doura areia...
Diante da visão
Marcha um homem Da infinita beleza...
Sobre o chão
Finda por ferir com a mão
Leva no coração
Essa delicadeza
Uma ferida acesa
A coisa mais querida
Dono do sim e do não
A glória, da vida...
Diante da visão
Da infinita beleza... Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Finda por ferir com a mão
Em verde novo
Essa delicadeza
Em folha, em graça
A coisa mais querida
Em vida, em força, em luz...
A glória, da vida...

Após a reflexão dos alunos, o docente pode discutir com os mesmos sobre as relações existentes
entre a música e o processo fotossintético. Para essa discussão, o professor pode utilizar o texto “Infinita
91
Beleza” (de Marcos Buckeridge), o qual apresenta uma boa relação, a nosso ver, entre a canção de
Caetano Veloso e a fotossíntese (link do texto: [Link]

AULA 5

Atividade 1: o processo da fotossíntese – Parte I


Sugestão de animação1:
[Link]
A animação pode ser utilizada, nesse momento, como uma alternativa à prática de um
experimento. Conforme mencionado, o professor pode optar por esse recurso quando a escola possuir
pouca infraestrutura (ausência de laboratório e de recursos financeiros para compra de materiais
necessários para o experimento, por exemplo) ou quando o tempo demandado para a experiência for
superior à duração das aulas. Sugerimos que o docente apresente tal animação para os alunos e explique
aos mesmos os procedimentos adotados em cada passo. Reafirmamos a importância de o docente parar a
apresentação sempre que necessário ou nos momentos em que a animação propuser perguntas,
disponibilizando tempo para os alunos formularem explicações para as questões apresentadas.

AULA 6

Atividade 1: o processo da fotossíntese – Parte II


Sugestão de animação 2: [Link]
O professor, por meio de uma aula expositiva dialogada (aquela que considera a opinião dos
alunos, estimula a participação dos mesmos e também leva em consideração as concepções prévias desses
últimos), pode explicar aos estudantes como acontece o processo fotossintético, suas etapas, dentre outros
tópicos. Para auxiliar o docente, sugerimos a animação 2, apresentada acima. Tal recurso é utilizado,
nesse momento, como ilustração da aula expositiva dialogada, como um instrumento de apoio ao
professor. Lembramos que esse tipo de animação (predominantemente informativa) deve ser usado com
critério a fim de não permitir que a aula seja enfadonha para os alunos. É importante também que não seja
utilizado como substituição de uma aula teórica, conforme mencionado anteriormente. Destacamos,
novamente, a importância de o docente fazer pausas em diferentes momentos da apresentação, dialogando
com os alunos sobre o que estão assistindo e esclarecendo as eventuais dúvidas que surgirem.

Atividade 2: os pigmentos e a fotossíntese – As folhas roxas fazem fotossíntese?


Sugestão de animação 3: [Link]
Essa animação pode ser utilizada como uma alternativa ao experimento real e o professor pode
introduzir o tema (As folhas roxas fazem fotossíntese?) a partir da atividade anterior, quando deve
apresentar uma explicação sobre os pigmentos presentes nos vegetais (como, por exemplo, a clorofila).

92
A partir da apresentação, o docente pode explicar o experimento, a técnica da cromatografia,
dentre outros assuntos, e discutir com a turma sobre os resultados observados (formação de uma listra
verde no papel filtro). Dessa maneira, o professor pode chegar à conclusão, juntamente com a turma, que
a folha roxa também possui clorofila, logo, ela também realiza a fotossíntese.

AULA 7

Atividade 1: a nutrição das plantas carnívoras


Sugestão de vídeo 2: [Link]
O vídeo, nesse momento, pode ser utilizado como um recurso capaz de auxiliar o professor na
apresentação do assunto, ilustrando e sanando a curiosidade dos alunos sobre um tema pouco presente no
cotidiano dos mesmos: plantas carnívoras. Conforme observado anteriormente, aqui também sugerimos
que o vídeo seja apresentado com interrupções, formação de questões, hipóteses, dentre outros,
estimulando a participação dos estudantes. O docente pode instigar a reflexão dos discentes apresentando
questões como: “As plantas carnívoras também fazem fotossíntese?”, “Para que as plantas carnívoras
capturam pequenos animais?”, dentre outras.

Atividade 2: fechamento
Por último, o professor, sem citar os nomes, pode apresentar as concepções prévias dos alunos
sobre fotossíntese (aquelas que surgiram na primeira aula sobre o assunto). Caso disponha de recursos
audiovisuais na escola, é interessante que o docente faça uma apresentação (por exemplo, utilizando o
Power Point) com cada concepção prévia que os estudantes possuíam e, juntamente com os mesmos,
discutam sobre os possíveis equívocos cometidos no início das aulas sobre o tema. Também é importante
que o professor, nesse momento, consiga sanar as dúvidas que ainda persistirem sobre o assunto.

AVALIAÇÃO
Sugerimos que o professor adote uma avaliação processual dos estudantes, ou seja, que ela seja
realizada ao longo de todas as aulas, em todas as atividades propostas. Sugerimos também que a
participação dos estudantes seja levada em consideração como critério avaliativo.

Sobre a sequência didática apresentada: algumas considerações


Conforme mencionado, as ideias, aqui sugeridas, para a construção de uma sequência didática
sobre o tema fotossíntese representam algumas dentre as diversas possibilidades para se tratar o assunto
em questão. Cabe ao professor adequá-las ao perfil de sua classe, objetivos a serem atingidos e, até
mesmo, à duração das aulas. A seguir, alguns pontos que gostaríamos de salientar a respeito dessas
sugestões.
Primeiramente, conforme relatado ao longo deste texto, as animações e os vídeos foram
utilizados em diferentes momentos, com diferentes objetivos e métodos: suporte à apresentação do tema

93
pelo professor, alternativa à prática (real) de um experimento, demonstração de experiências, ilustração e
apoio às aulas expositivas dialogadas do docente e, por fim, para aguçar a curiosidade dos estudantes para
um assunto pouco corriqueiro do nosso cotidiano. Para todos esses momentos, pensamos em maneiras de
utilizar tais recursos de forma que as aulas do professor não se tornassem meras exposições de conteúdos.
Salientamos, ainda, que tais sugestões não são engessadas, encerrando-se em torno de si mesmas:
professores e alunos podem aprimorá-las com novas ideias, sempre que desejarem. Além disso, é
importante dizer que o uso das animações e dos vídeos somente fará sentido se pensado de maneira
conjunta a outros pontos, apresentados a seguir.
O primeiro ponto que merece destaque refere-se ao levantamento de concepções prévias dos
estudantes. A nosso ver, essa prática pode proporcionar ao professor um melhor conhecimento sobre a
turma, o que pensam e quais são as dúvidas ou impressões equivocadas sobre o tema a ser abordado nas
aulas. Os alunos, ao serem apresentados a um novo conteúdo, sempre o fazem munidos de uma série de
conceitos, representações e conhecimentos adquiridos ao longo de suas experiências anteriores. Com isso,
podem fazer uma primeira leitura sobre o assunto abordado nas aulas, atribuindo-lhe um primeiro nível de
significado e sentido e, dessa maneira, iniciando seu processo de aprendizagem. Logo, cabe aos
educadores considerarem esses conhecimentos e analisá-los, pensando nos conteúdos que serão
explorados durante as aulas, os objetivos das mesmas, o tipo de aprendizagem que querem desenvolver e,
por fim, a melhor maneira de alcançá-la. Nessa proposta, sugerimos o uso dos conceitos prévios dos
estudantes em dois momentos: na introdução ao tema, para auxiliar o docente em relação às questões
anteriormente apresentadas, e na última aula proposta, a fim de retomar com os alunos as ideias que
possuíam no início do curso e o que aprenderam ao final do mesmo.
Um segundo ponto a ser destacado retoma, em partes, as ideias presentes no parágrafo anterior:
assim como alguns autores, acreditamos que quanto mais relações com sentido o estudante for capaz de
estabelecer entre aquilo que já conhece (seus conhecimentos prévios) e aquilo que está sendo apresentado
pelo professor, mais efetiva sua aprendizagem sobre o novo assunto pode se tornar. Diante disso,
enfatizamos a importância da contextualização. Nesta sequência didática, propomos três momentos para
isso acontecer: a contextualização histórica, com o processo de construção do saber das Ciências e suas
representações em nosso dia-a-dia; a contextualização com o cotidiano dos alunos, com eventos
diretamente observáveis, como o caso do etanol, atualmente, e outros, menos explícitos, como a relação
entre a fotossíntese e o oxigênio presente na atmosfera terrestre; e, por fim, a contextualização por meio
da arte, com a música Luz do Sol, de Caetano Veloso. Assim como ressaltado anteriormente, além destas,
existem inúmeras maneiras de se contextualizar o tema fotossíntese à realidade dos discentes. Cabe ao
professor decidir as melhores formas de proceder.
Um terceiro ponto que merece ser destacado diz respeito à avaliação. A princípio, pode-se pensar
na mesma como algo capaz de medir os resultados atingidos e os novos conhecimentos adquiridos pelos
alunos ao final de um processo de aprendizagem. Nessa proposta, ao contrário, sugerimos uma maneira
alternativa para o professor avaliar os estudantes: a avaliação processual e formativa, levando-se em

94
consideração o processo seguido por cada um dos mesmos ao longo das aulas, a participação e o
desenvolvimento de capacidades que vão além daquelas relacionadas à cognição.
Por fim, para concluir, as animações e os vídeos foram utilizados nessa proposta com o auxílio
de diferentes estratégias e recursos didáticos. É importante que o professor compreenda que cada assunto
pode ser trabalhado de inúmeras formas e que ele tente encontrá-las planejando a abordagem dos
conteúdos e pensando nos objetivos a serem atingidos de uma maneira mais ampla e global. Utilizar
somente um tipo de estratégia ou de recurso (no caso, somente as animações ou os vídeos), sem seu
devido planejamento e sem ter em mente as metas a serem alcançadas, pode comprometer a atenção dos
estudantes nas aulas, assim como o interesse dos mesmos pela área em questão, prejudicando a
aprendizagem. Com as sugestões, aqui apresentadas, pensamos no desenvolvimento de diferentes
habilidades nos alunos (como a interpretação de textos, a formulação de hipóteses, a reflexão sobre a
Ciência, a tecnologia e a sociedade, a interdisciplinaridade, dentre outras). Nosso maior objetivo foi o de
sugerir ideias para uma sequência de ensino que fosse capaz de despertar o interesse e curiosidade dos
alunos sobre um tema considerado complexo e de difícil entendimento (com o auxílio das TIC) e, ao
mesmo tempo, fazer com que tais estudantes desenvolvessem capacidades críticas e reflexivas,
empregando-as, diariamente, em seu cotidiano.

Agradecimentos
À professora Suzana Ursi, pela dedicada orientação e auxílio na escrita e leitura do presente
texto.

95
PARTE III

RECURSOS ECONÔMICOS VEGETAIS

96
CAPÍTULO 9

Metabolismo secundário
Fernanda Mendes de Rezende
Sarah Aparecida Soares
Kátia Pereira dos Santos

Vários autores costumam dividir o metabolismo vegetal em primário e secundário. Embora na


prática essa divisão seja difícil, caracteriza-se como metabolismo primário os processos comuns e pouco
variáveis à grande parte dos vegetais, e que levam à síntese de carboidratos, proteínas, lipídios e ácidos
nucleicos. Tais sínteses ocorrem por vias conhecidas como glicólise e ciclo de Krebs (ciclo do ácido
carboxílico) que, além de sintetizar intermediários para outras vias metabólicas, geram energia e poder
redutor a partir de reações de oxido-redução de compostos orgânicos. Além destas vias, pode-se obter
energia através da β-oxidação de ácidos graxos e degradação de produtos que não são essenciais para a
planta. Esses processos compõem a unidade fundamental de toda a matéria viva.
A distinção entre metabolismo primário e secundário (ou especial) se dá pelo conceito de que
metabólitos secundários não estão envolvidos em processos geradores de energia e/ou de constituição do
protoplasto. Além disso, os metabólitos secundários não estão presentes de forma ubíqua entre as plantas,
expressando a individualidade de famílias, gêneros e, até mesmo, espécies.
Apesar do nome, as substâncias oriundas de vias “secundárias” são vitais para as plantas, e
desempenham papéis essenciais na interação com fatores bióticos e abióticos, atuando como atrativos ou
repelentes de polinizadores; dissuasores de herbivoria; na proteção contra radiação UV e poluição; na
sinalização intraespecífica; na alelopatia (Ver capítulo 12); nas adaptações a novas situações impostas
pelo ambiente, dentre outras funções. Para desempenharem estas funções, diversas substâncias são
voláteis ou pigmentos, sendo responsáveis pelos mais diversos e intensos aromas, sabores e cores,
características de interesse humano nos ramos de paisagismo, indústria alimentícia e farmacêutica.
Outro aspecto interessante, a ser abordado, são os chamados princípios ativos vegetais comumente
encontrados em diversos produtos e terapias, mas o que de fato são esses princípios ativos presentes nos
vegetais?
São substâncias secundárias formadas a partir de produtos da fotossíntese com a função de defesa
para a planta por terem alguma ação sobre o organismo de seu predador. Para nós, humanos, são essas
substâncias que são responsáveis pelo efeito medicinal de uma planta (Ver capítulo 10), mas dependendo
da dose administrada, o efeito destes metabólitos secundários deixa de ser terapêutico e passa a ser tóxico.
Diversas plantas apresentam um uso medicinal milenar e nos extratos destas plantas, a ação conjunta ou
isolada de certas substâncias é responsável pela atividade biológica. Este efeito diferente de acordo com a
dose pode ser exemplificado com os glicosídeos cardioativos, duas espécies de Plantaginaceae do gênero
Digitalis, D. lanata e D. purpurea, sintetizam essas substâncias. Essas são amplamente utilizadas, quando

97
em pequenas doses no controle de problemas relacionados ao baixo débito cardíaco, entretanto, em doses
maiores, os glicosídeos cardioativos paralisam o coração na fase de sístole.
Mas como substâncias com propriedades e ações tão diversas são sintetizadas pelas plantas?
Os metabólitos secundários são muito diversos, mais de 50 mil já foram identificados em espécies
de angiospermas, e são sintetizados em diferentes compartimentos celulares, por quatro vias: via do ácido
chiquímico, do mevalonato (MEV), do malonato e do metileritritol fosfato (MEP) (Fig. 1). Através dessas
vias são formados os quatro grupos principais: terpenos, derivados de ácidos graxos, compostos fenólicos
e nitrogenados. Interessantemente, para classificação em cada grupo as características estruturais e
propriedades químicas são mais importantes do que o compartilhamento de uma mesma via de síntese.
Alguns detalhes sobre as rotas biossintéticas, sua importância para a sobrevivência das plantas e
utilização por seres humanos, serão expostos a seguir.

Figura 1: Esquema das vias do Metabolismo Secundário. Em negrito preto as principais vias de síntese
de metabólitos secundários. Em negrito cinza as principais classes de metabólitos secundários, divididas
em classes de acordo com as setas tracejadas que indicam Terpenoides, Derivados de
Ácidos graxos, Substâncias nitrogenadas e Substâncias fenólicas.

Terpenos
Os terpenos formam o maior grupo de produtos naturais, apresentando uma grande diversidade
estrutural, com mais de 35 mil substâncias identificadas. Estes são derivados teóricos do isopreno, uma
estrutura de 5 carbonos, sendo o número dessa unidade presente na molécula utilizado para a

98
classificação, podendo existir: monoterpenos (C10), sesquiterpenos (C15), diterpenos (C20), triterpenos
(C30), tetraterpenos (C40) e politerpenos (mais de 40 carbonos).
Os terpenos são tidos como derivados teóricos do isopreno por esta molécula não estar envolvida
na síntese dos terpenos, os precursores são o isopentenil difosfato (IPP) e o dimetilalil difosfato
(DMAPP). A sua síntese se dá a partir de duas vias, a do MEV (que tem como precursor acetil CoA) que
ocorre no citossol, e a do MEP (derivado de intermediários glicolíticos) a qual é uma rota plastidial.
Atualmente sabe-se que há uma comunicação entre estas vias podendo haver trocas dos componentes
formados por cada uma, assim ambas levarão a formação do IPP que pode se converter em seu isômero
DMAPP.
A ligação do IPP e DMAPP forma o geranildifosfato (GPP), uma molécula de 10 carbonos, a
partir da qual são formados os monoterpenos. O GPP pode se ligar a outra molécula de IPP, formando um
composto de 15 carbonos (farnesil difosfato- FPP), precursor da maioria dos sesquiterpenos. A adição de
outra molécula de IPP ao FPP forma o geranilgeranil difosfato (GGPP), um composto de 20 carbonos,
precursor dos diterpenos. Por último, dímeros de FPP e GGPP compõem aos triterpenos (C 30) e
tetraterpenos (C40), respectivamente. Cada um destes tipos de terpenos possui uma ampla gama de
funções nas plantas e alguns exemplos serão abordados a seguir.
Os mono e sesquiterpenos são substâncias presentes nos óleos voláteis e conferem a determinadas
plantas seu aroma característico (como as Lamiaceae, Ocimum sp., por exemplo). Os óleos voláteis
também possuem compostos de outras vias como, por exemplo, fenilpropanoides. Estão associados à
defesa (repelindo ou atraindo insetos) e sinalização molecular nas plantas, além disso, exibem atividades
antimicrobianas e têm sido amplamente utilizados na indústria cosmética, farmacêutica e alimentícia.
Há diterpenos essenciais como o fitol, que faz parte de várias moléculas como a da clorofila, e é
um dos mais simples e abundantes diterpenos. Outra molécula essencial dentro desta classe é a giberelina,
grupo de hormônios vegetais envolvidos na regulação de diversos processos como alongamento celular e
senescência.
No caso dos triterpenos, atividades anticancerígenas foram relatadas para os tipos ursano, lupano e
oleanano, substâncias encontradas em diversas plantas. Além destes, triterpenos são frequentemente
encontrados na forma de saponinas (do latim: sapo = sabão) que possuem propriedades surfactantes.
Limonoides, que são triterpenos modificados, têm reconhecida atividade inseticida, como por exemplo,
no óleo de Neem (Azadirachta indica, Meliaceae). Triterpenos, como os esteroides sitosterol,
estigmasterol e campesterol, são frequentemente encontrados como parte estrutural da membrana celular.
Esteroides também são de interesse nutricional pela sua capacidade de reduzir os níveis de colesterol
absorvido.

Derivados de ácidos graxos


O papel destes compostos para as plantas é de extrema importância, pois são constituintes de cera
cuticular. Juntamente com a cutina e a suberina, as ceras constituem o conjunto de substâncias
hidrofóbicas que mantêm as superfícies impermeáveis e restringem a perda de água dos tecidos através da

99
transpiração. Além disto, ao revestir os órgãos aéreos, atua como uma barreira entre o meio interno e
externo, conferindo proteção contra os raios UV, entrada de patógenos e poluição. O surgimento desta
camada protetora foi um dos importantes fatores para a conquista do ambiente terrestre há 400 milhões de
anos.
A quantidade de cera é variável, até mesmo em uma mesma espécie, respondendo a diversos
elementos como idade do tecido e condições ambientais. Elas são misturas complexas de hidrocarbonetos
alifáticos de cadeia longa com série homóloga (por exemplo, n-alcanos, álcoois, aldeídos, ácidos graxos e
ésteres), que podem apresentar pequenas quantidades de terpenoides.
O início da síntese desses compostos se dá no plastídio, onde ocorre a formação de ácidos graxos
C16 e C18 a partir de unidades de malonil CoA e acetil CoA. Esses ácidos são transportados para o retículo
endoplasmático, onde sofrem diversas reações de elongação formando ácidos graxos de cadeia longa
(C20-C40), precursores dos demais compostos da cera. Reações de descarboxilação levam à formação de
alcanos, álcoois secundários e cetonas.
Ainda é obscura a síntese dos aldeídos, entretanto, acredita-se que possam surgir de reações
enzimáticas com os alcanos ou diretamente pela perda de hidroxilas de ácidos graxos. A partir dos ácidos
graxos de cadeia longa, também podem ser formados por reações de redução, os álcoois primários e
ésteres. Os mecanismos de transporte dessas substâncias ainda não são claros, podendo ocorrer por
proximidade, vesículas ou transportadores específicos como transportador ABC e proteínas
transportadoras de lipídios.

Compostos fenólicos
O grupo dos compostos fenólicos inclui substâncias com ao menos um anel aromático no qual
houve a substituição de ao menos um hidrogênio por um grupo hidroxila, sendo que estas substâncias
podem ser simples ou com diversos graus de polimerização. Podem ocorrer naturalmente na forma livre
(agliconas), ligados a açúcares (glicosídeos), ou ainda, ligados a proteínas, terpenos, entre outros.
Exemplos de substâncias fenólicas são os ácidos fenólicos, quinonas, fenilpropanoides, cumarinas,
flavonoides e as substâncias poliméricas (taninos e ligninas).
Estes compostos são essenciais para as plantas, um exemplo está na sua participação na síntese da
lignina. Este complexo polimérico confere rigidez e resistência mecânica à parte aérea, característica que
conferiu uma melhor sustentação e possibilitou maior transporte de água e minerais a partir das raízes,
permitindo a conquista do ambiente terrestre.
Os taninos são classificados em dois grupos baseados em seu tipo estrutural: taninos hidrolisáveis
(restritos a poucas ordens e derivados de ácidos fenólicos) e taninos condensados (derivados de
flavonoides). A principal característica desses compostos é a capacidade de precipitar proteínas, agindo
como importantes anti-herbivóricos ao aumentar a adstringência, tornando a planta impalatável.
Outros compostos fenólicos como as cumarinas, furanocumarinas e estilbenos protegem as plantas
contra patógenos (bactérias e fungos) e herbívoros, além de inibir a germinação de sementes de plantas
adjacentes impedindo a competição destas pelos mesmos recursos (alelopatia).

100
Os flavonoides atuam na proteção dos tecidos vegetais da ação mutagênica dos raios UV e
participam da atração de polinizadores e dispersores de sementes. Sua estrutura básica é formada por 15
carbonos dispostos em três anéis (C6-C3-C6), sendo os compostos mais diversificados do reino vegetal.
Estes compostos têm recebido crescente atenção por parte da indústria alimentícia, cosmética e
farmacêutica. A eles são atribuídos uma vasta gama de efeitos fisiológicos como: antialérgicos, anti-
inflamatórios, antimicrobianos, antitrombóticos, antioxidantes, cardioprotetores e vasodilatadores. Por
estes efeitos, este grupo de substâncias, as quais são presentes em altos níveis em frutas e vegetais, são
consideradas benéficas à saúde humana, especialmente pelo potencial antioxidante.
Essas substâncias fenólicas são oriundas, em sua grande maioria, da via do ácido chiquímico, que
é o precursor dos aminoácidos aromáticos (AAA) tirosina, triptofano e fenilalanina, sendo este último, o
principal AAA precursor de substâncias fenólicas. Parte da síntese de alguns desses compostos pode
ocorrer pela via do acetato malonato, ou, ainda, pela combinação das duas vias, como é o caso dos
flavonoides, que são substâncias de biossíntese mista.

Compostos nitrogenados
Compostos nitrogenados são defesas químicas anti-herbivoria. As três classes mais importantes
são: alcaloides; glicosídeos cianogênicos e glucosinolatos. Essas substâncias são formadas a partir de
aminoácidos aromáticos e alifáticos.
Alcaloide é o nome dado a um grupo de substâncias bastante heterogêneo, predominantemente
sintetizado por plantas (dos 27 mil alcaloides conhecidos no momento, 21 mil são de origem vegetal),
tendo em comum o caráter alcalino, conferido pela presença de um ou mais átomos de nitrogênio,
podendo haver um ou mais anéis heterocíclicos, sendo classificado de acordo com o anel nitrogenado
presente em sua estrutura. São substâncias reconhecidas pelo seu amplo espectro de atividades biológicas,
por isso correspondem a princípios ativos comuns em plantas medicinais e tóxicas. É o caso da papoula
(Papaver somniferum, Papaveraceae), que contém morfina, codeína e papaverina; do café (Coffea
arabica, Rubiaceae), que contém cafeína; de Chondodendron tomentosum (Menispermaceae), da qual se
extrai o curare, potente relaxante muscular com atividade anestésica, utilizado como veneno de flecha por
indígenas sul-americanos. Outro alcaloide muito conhecido é a nicotina (presente no fumo, Nicotiana
tabacum, Solanaceae).
Glicosídeos cianogênicos possuem um resíduo de açúcar e um grupamento nitrila. São
armazenados em vacúolos e, quando a planta é atacada, são hidrolisados pela enzima que se encontra no
citoplasma gerando cianeto, substância altamente tóxica.
Glucosinolatos são substâncias que contém enxofre, nitrogênio e açúcar em sua molécula.
Ocorrem em quase todas as espécies de Brassicaceae e são responsáveis pelo sabor picante do agrião,
rabanete e pelo gosto característico dos brócolis, repolho, mostrada, etc. Quando a planta é atacada, os
glucosinolatos são hidrolisados pela enzima mironase, produzindo isotiocianatos e nitrilas que agem na
defesa da planta como toxinas e repelente contra herbívoros.

101
Técnicas de separação e identificação de produtos naturais
A cromatografia está entre os métodos mais modernos de análise de espécies químicas devido,
principalmente, à facilidade de execução e boa qualidade de separação de constituintes químicos. Iniciada
na década de 1930, as técnicas cromatográficas fornecem informações relevantes, seja por si mesma ou
em conjunto com outras técnicas instrumentais de análise, como a espectrofotometria ou a espectrometria
de massas, que fornecem informações sobre a estrutura da substância.
A cromatografia é um método físico-químico de separação dos componentes de uma mistura,
realizada através da distribuição desses componentes em duas fases: a fase estacionária e a fase que se
move através dela. Durante a passagem da fase móvel pela fase estacionária, os componentes da mistura
são distribuídos pelas duas fases de tal forma que cada um deles é seletivamente retido pela fase
estacionária, resultando em migrações diferenciais desses componentes.
Para a classificação da cromatografia, são feitas algumas distinções gerais como, por exemplo: a
forma física do sistema que define a técnica geral em cromatografia em coluna (quando a fase
estacionária está disposta em um tubo cilíndrico) ou cromatografia planar (quando a fase estacionária está
disposta em uma superfície plana); o estado físico da fase móvel que diferencia a cromatografia em
gasosa (quando a fase móvel é um gás inerte); líquida (quando a fase móvel é um líquido que pode
interagir com os solutos) ou supercrítica (quando a fase móvel é um vapor pressurizado, em temperatura e
pressão acima de seu ponto crítico, com viscosidade menor que um líquido e interação com os solutos);
entre outras.
Sendo assim, o processo cromatográfico pode ser realizado de várias formas. Algumas delas são: a
cromatografia em coluna, cromatografia por partição, cromatografia por exclusão, cromatografia em
papel, cromatografia gás-líquido, cromatografia gás-sólido, cromatografia líquido-líquido, cromatografia
em camada delgada, cromatografia por troca iônica e cromatografia com fluído supercrítico.
Entretanto, considera-se que a classificação mais importante em cromatografia baseia-se no
mecanismo de separação que pode se dar por processos:
1. Físicos: por fenômenos de adsorção ou absorção, a fase estacionária pode ser sólida ou
líquida. Exemplos: cromatografia em papel, cromatografia gás-líquido, gás-sólido, cromatografia líquido-
líquido, entre outras.
2. Químicos: quando os grupos funcionais da fase estacionária interagem com os
componentes da amostra. Mecanismo encontrado, por exemplo, na cromatografia em camada delgada e
cromatografia por troca iônica.
3. Mecânicos: quando a fase estacionária é uma matriz de composição inerte com
partículas de forma, tamanho e porosidade uniformes. Mecanismo encontrado, por exemplo, na
cromatografia por exclusão.
Como dito anteriormente, para a identificação de compostos podem ser empregadas técnicas
cromatográficas acopladas a técnicas de identificação ou apenas técnicas de identificação. As principais
técnicas utilizadas na determinação estrutural de produtos naturais são: espectrometria de massas (EM),
ultravioleta/visível (UV/vis), infravermelho (IV) e ressonância magnética nuclear (RMN). Cada técnica

102
permite extrair um tipo de informação sobre a molécula e tais técnicas, com exceção da espectrometria de
massas, se relacionam com o espectro eletromagnético em diferentes comprimentos de onda, frequência e
energia (Fig. 2). Cada uma terá um efeito sobre a estrutura da substância e isso definirá a informação que
será possível extrair da molécula.
A espectrometria de massas, como o próprio nome diz, tem como principal informação a massa de
um constituinte. Nessa técnica o composto é ionizado para que seja detectado, e a estrutura ionizada pode
ser fragmentada fornecendo mais informações sobre como é o arranjo estrutural deste composto.
A técnica de UV/vis abrange uma faixa de comprimento de onda que vai de 190-800nm. É
utilizada muito mais para auxiliar na quantificação de moléculas conhecidas do que na identificação
propriamente dita. Contudo, em alguns casos, essa espectroscopia de absorção UV/vis pode fornecer
informações úteis sobre a estrutura de uma molécula. Essa técnica permite a visualização de cromóforos,
que são regiões onde ocorre a transição do estado fundamental para o excitado. Alguns exemplos de
grupos que absorvem dentro dessa faixa de comprimento de onda são: hidroxilas (R-OH), carbonilas
(C=O), duplas e triplas ligações entre carbonos, nitrogênios ou ambos e conjugações (duplas alternadas).
O IV é uma técnica muito utilizada para o conhecimento dos grupos funcionais de uma molécula.
Envolve comprimentos de ondas entre 2,5µm e 25µm, maiores que os associados ao visível, mas menores
do que micro-ondas. Frequentemente os dados relacionados a esta técnica são empregados em valores de
frequência que varia de 400 a 4.000cm-1. A energia fornecida por essa técnica permite a visualização dos
movimentos vibracionais de estiramento (mudança na distância) e dobramento (mudança no ângulo) das
ligações na maioria das moléculas mais covalentes.
A RMN, como o próprio nome diz, é um método espectroscópico que estuda o núcleo dos átomos.
Muitos núcleos atômicos têm uma propriedade chamada spin, de forma que os núcleos comportam-se
como se estivessem girando. Os núcleos que apresentam massa ímpar ou número atômico ímpar têm um
momento magnético e um momento angular de spin, os núcleos mais comuns e utilizados que possuem
spin são: 1H e 13C. Os comprimentos de onda nesse caso são bem maiores (1m-5m), mas para esta técnica
utilizamos como referência não o comprimento de onda e sim a frequência, que neste caso é similar às
frequências de rádio (4-900 MHz). A técnica permite determinar o adjacente de uma ligação sendo de
extrema importância na determinação estrutural de uma molécula. A combinação de IV e RMN é, muitas
vezes, suficiente para elucidar uma estrutura, entretanto é importante ressaltar que a combinação de
diversas técnicas muitas vezes se faz necessária para que um produto natural seja estruturalmente
identificado.

103
Figura 2: Espectro eletromagnético.

104
CAPÍTULO 10

Plantas e sociedade
Fernanda Anselmo Moreira
Fernanda Mendes de Rezende
Carmen Palacios Jara

Introdução
As plantas são muito importantes para a manutenção do equilíbrio nos ecossistemas devido às
diversas atividades que elas desempenham, tais como, regulação do clima, sequestro de carbono,
purificação da água e do ar, translocação e ciclagem de nutrientes, redução da radiação que incide no
solo, atenuação da ação dos ventos, além de ser fonte de alimento para muitos organismos vivos,
incluindo os seres humanos, sendo, portanto, a base de muitas cadeias alimentares. Dessa maneira, os
seres humanos, assim como vários outros organismos vivos, são totalmente dependentes das plantas.
Os humanos utilizam as plantas das mais variadas maneiras com o objetivo de sanar as suas
necessidades e, consequentemente, aumentar as suas chances de sobrevivência e melhorar as suas
condições de vida.
As plantas sempre foram usadas pelos homens como fonte de alimento e com o passar do tempo
outras funções foram agregadas a elas. Além de fornecedoras de energia para a manutenção do nosso
corpo, elas são usadas como matéria-prima para a confecção de roupas, ferramentas e moradias. As
indústrias farmacêuticas e de cosméticos utilizam as plantas, direta ou indiretamente, em muitos de seus
produtos e esses setores têm grande impacto econômico, visto que, eles movimentam bilhões de dólares
por ano. Elas também são utilizadas como combustível para o fogo e nos últimos tempos como matéria-
prima para produção de biocombustíveis, principalmente devido à crise do petróleo. Algumas delas
também têm grande impacto econômico no setor agropecuário, pois podem ser tóxicas a determinados
animais de criação ou invadir plantações. Outras, por outro lado, são apreciadas por sua beleza e então
são cultivadas e comercializadas simplesmente para fins estéticos. Há plantas que são importantes não por
serem fontes de alívio e curas de enfermidades, mas sim por serem tóxicas aos humanos. Por fim, deve-se
também ressaltar que certas plantas são importantes por causarem impactos sociais negativos devido a sua
empregabilidade na produção de drogas de abuso e o seu comércio ilegal, em virtude de suas
propriedades alucinógenas.
A seguir serão discutidas algumas das aplicações desse grupo de seres vivos em nosso cotidiano,
bem como aspectos sociais referentes a algumas dessas aplicações.

Plantas alimentícias
Os seres humanos, assim como os demais animais e outros grupos de organismos vivos, são
heterotróficos, necessitando das plantas, direta ou indiretamente, para obter os nutrientes necessários para

105
a sua sobrevivência. Dessa maneira, o primeiro uso que os humanos fizeram das plantas foi como fonte de
alimento, sendo a domesticação de plantas o fator crucial para transição do hábito nômade de caçador
coletor para o hábito sedentário de homem agricultor, possibilitando a formação de comunidades.
Um dos problemas mais graves que a humanidade enfrenta é a má distribuição dos recursos
alimentícios. Grande parcela da população mundial não tem acesso a um mínimo de alimentos que
permita um estado satisfatório de saúde, em contrapartida há um grande número de seres humanos que
tem problemas de saúde por se sobrealimentarem. Se por um lado há pessoas sofrendo por carência
crônica de proteínas e vitaminas, por outro há pessoas que sofrem com obesidade, diabetes e doenças
cardiovasculares.
Além da água, os humanos precisam consumir outros cinco tipos de nutrientes, para ter uma
dieta saudável. Carboidratos, lipídeos e proteínas são nutrientes necessários em grandes quantidades e,
por isso, são chamados de macronutrientes, enquanto que vitaminas e minerais, necessários em pequenas
quantidades, são denominados micronutrientes. As fibras apesar de não serem classificadas nem como
macronutrientes ou micronutrientes são importantes para a saúde humana.
Os carboidratos são a principal fonte energética para as células e podem ser encontrados nas
plantas na forma de monossacarídeos (por exemplo, frutose presente nas frutas), dissacarídeos (sacarose
presente na cana-de-açúcar e na beterraba) e amido (trigo, arroz, milho, batata, mandioca, batata-doce e
feijão são as principais fontes).
As proteínas também podem ser fornecedoras de energia, mas também desempenham outras
funções no organismo, tais como, estrutural, enzimática, regulação de várias funções corporais
(hormônios), transporte e defesa. Há vinte tipos de aminoácidos que compõem as proteínas, sendo que
onze deles o corpo humano é capaz de sintetizar e os nove restantes (aminoácidos essenciais) são obtidos
exclusivamente através da dieta. As proteínas de origem vegetal geralmente são consideradas
incompletas, pois não apresentam todos os aminoácidos nas devidas proporções, mas através de uma
combinação de plantas, geralmente um cereal e uma leguminosa, é possível obter todos os aminoácidos
necessários e nas devidas proporções. Dentre as plantas, as leguminosas apresentam maior riqueza em
proteínas.
Plantas oleaginosas produzem misturas de substâncias chamadas de óleos fixos, estes são
misturas de triglicerídeos, formados por três resíduos de ácidos graxos esterificados com uma molécula de
glicerol. Alguns ácidos graxos são considerados essenciais, pois embora eles sejam necessários ao
organismo humano, este não é capaz de sintetizá-los. Os ácidos graxos essenciais são os ácidos linoleico,
linolênico e araquidônico e podem ser encontrados nos óleos vegetais. Os óleos vegetais como, por
exemplo, os óleos de canola, girassol, soja, milho e oliva apresentam ácidos graxos insaturados e estes,
além de altamente energéticos, diminuem as chances de desenvolver doenças cardiovasculares, além de
ajudarem a reduzir os níveis de colesterol no sangue.
As fibras dietéticas (lignina, celulose, hemicelulose, pectina, dentre outras substâncias)
geralmente não são digeridas pelo sistema digestório, mas elas são responsáveis por manter estável o

106
nível de glicose no sangue, reduzir o nível de colesterol sanguíneo e acelerar a passagem do bolo fecal
pelo cólon. Elas podem ser encontradas em grãos integrais, frutas, vegetais e sementes.
As vitaminas, por sua vez, são importantes por atuarem como coenzimas e por estarem ligadas à
síntese de substâncias importantes ao organismo. Algumas vitaminas podem ser obtidas através do
consumo de plantas, enquanto que outras não. As vitaminas A, C e todas do complexo B, exceto a B12,
podem ser obtidas em dietas envolvendo plantas. Por outro lado, as vitaminas B12 e D não podem ser
obtidas através do consumo de plantas, sendo obtidas por outras fontes.
A vitamina A é responsável por várias funções no organismo humano, dentre elas, formação dos
pigmentos visuais da retina presente nos olhos e manutenção do tecido epitelial. Ela pode ser obtida
mediante o consumo de frutas e vegetais de coloração amarela, laranja e verde escuro que contém o
precursor da vitamina A, o betacaroteno. O ácido ascórbico, vitamina C, pode ser encontrado em frutas
frescas e vegetais e essa vitamina tem como função a síntese de colágeno, produção de hormônios, além
de ser antioxidante. Já as vitaminas do complexo B atuam como coenzimas em diversas reações
metabólicas e as principais fontes de vitamina B, exceto a vitamina B12, são os grãos integrais, sementes,
legumes e nozes.
Além dos nutrientes citados acima, há certos compostos provenientes do metabolismo
secundário das plantas (Ver capítulo 9) que também têm sido considerados substâncias que promovem
melhorias na saúde. Algumas classes de metabólitos secundários benéficos à saúde são os glucosinolatos
(presentes principalmente em plantas pertencentes à Brassicaceae, tais como, rabanete, repolho e
brócolis), carotenoides e substâncias fenólicas (encontrados em frutas e vegetais), sendo que estas últimas
são conhecidas por terem uma forte atividade antioxidante. Dentre as substâncias fenólicas com atividade
antioxidante destacam-se os flavonoides, as cumarinas, os taninos e os ácidos fenólicos. Compostos
conhecidos por apresentarem essa atividade são interessantes do ponto de vista nutricional por prevenirem
várias doenças que podem estar relacionadas ao estresse oxidativo, tais como: aterosclerose, diabetes,
câncer e artrite reumatoide.
Nas últimas décadas o conceito de alimento deixou de ser visto unicamente como uma fonte de
energia e nutrientes para formação e manutenção de células e tecidos. Atualmente, a população humana
tem procurado produtos mais saudáveis, de melhor sabor e valor nutricional e que aportem benefícios às
funções fisiológicas do organismo humano. Este novo conceito que vem transformando o padrão
alimentar no mundo corresponde aos alimentos funcionais.
Os alimentos funcionais são aqueles que produzem benefícios específicos à saúde, além da sua
função nutritiva básica. Esses alimentos apresentam, em sua composição, nutrientes ou substâncias não
nutritivas capazes de modular as respostas metabólicas do indivíduo resultando em maior proteção e
estímulo à saúde.
Alimentos de origem vegetal como frutas, hortaliças, legumes e cereais podem ser considerados
alimentos funcionais devido aos seus componentes fisiologicamente ativos. Estudos epidemiológicos
conduzidos em animais mostraram que determinados componentes vegetais são capazes de prevenir
doenças coronarianas e degenerativas.

107
Uns dos principais aspectos relacionados ao efeito protetor desses alimentos têm sido atribuídos,
em parte, à presença de substâncias antioxidantes. Os antioxidantes podem ser divididos em enzimáticos
(antioxidantes de alto peso molecular) e não enzimáticos (antioxidantes de baixo peso molecular). Ácido
ascórbico (vitamina C), tocoferol (vitamina E), carotenoides e polifenóis são exemplos de antioxidantes
de baixo peso molecular, enquanto que os taninos são de antioxidantes de alto peso molecular. Os taninos,
entretanto, podem ser considerados como antinutrientes devido a suas propriedades físico-químicas que
possibilitam que estes metabólitos secundários formem complexos com proteínas, carboidratos, alcaloides
e minerais e precipite-os. Tal fato pode ser observado ao consumir frutos verdes em que a redução da
palatabilidade desses frutos deve-se à sensação de adstringência provocada pela formação de complexos
entre os taninos e as glicoproteínas salivares, provocando a redução no valor nutricional dos alimentos.
Os alimentos nutracêuticos também merecem atenção devido à sua procura nas últimas décadas.
Eles também propiciam benefícios à saúde, entretanto, enquanto os alimentos funcionais estão
relacionados apenas a atenuação do risco de uma determinada doença, os nutracêuticos dizem respeito à
prevenção e ao tratamento de doenças. Alimentos nutracêuticos podem envolver ingredientes
biologicamente ativos isolados, suplementos dietéticos, produtos herbais e alimentos processados
(bebidas e sopas, por exemplo).
Além da importância nutricional, as plantas alimentícias também são importantes do ponto de
vista econômico, visto que certos países têm a maior parte da sua economia voltada para o setor agrícola.
O Brasil, por exemplo, é um dos maiores países agrícolas do mundo e esse setor movimenta cerca de US$
100 bilhões por ano.
As principais culturas de importância econômica mundial são os cereais (Poaceae), seguidos das
leguminosas (Fabaceae). Trigo, arroz e milho são os cereais mais cultivados ao redor do mundo, há mais
de 7000 anos, e a soja é um exemplo de leguminosa muito cultivada.
Muito investimento é destinado para o desenvolvimento de tecnologias que visam aumentar o
rendimento dessas e de outras culturas. Na realidade, hoje, a produção de alimento é suficiente para suprir
as necessidades nutricionais da população mundial, porém, o alimento é mal distribuído e há muito
desperdício. Estima-se que mais de 1 bilhão de pessoas ao redor do planeta não têm condições de
consumir a quantidade mínima necessária para atender as suas necessidades nutricionais diárias e essa é a
causa de milhões de mortes por ano. Vale ressaltar que a população mundial superou a marca de 7 bilhões
de habitantes em 2011 e é esperado que chegue a 9 bilhões por volta de 2050. Dessa maneira,
investimentos em tecnologia para obter maiores rendimentos nos cultivos, redução do desperdício e
melhor distribuição desses alimentos entre as populações são necessários, pois à medida que a população
aumenta, consequentemente, também aumenta a necessidade por alimentos.

Plantas medicinais
Recentemente, em 2012, um estudo verificou que homens Neandertais, que viveram há cerca de
47 e 51 mil anos na gruta de El Sidrón, nas Astúrias, ingeriam além de proteína animal e uma série de
alimentos de origem vegetal cozidos, algumas plantas com baixo valor nutricional e sabor amargo. Uma

108
delas era o milefólio, que contém azuleno - substância reconhecida pela sua ação anti-inflamatória, e a
outra camomila, que contém cumarinas - substâncias que aliviam edemas. Os autores sugerem que os
Neandertais da região tinham um conhecimento sofisticado do seu meio natural, incluindo a capacidade
de selecionar e utilizar certas plantas pelo seu valor nutricional e medicinal, sugerindo que a medicina
tradicional é uma prática muito mais antiga do que imaginávamos.
Desde os primórdios da medicina, substâncias químicas derivadas de animais, vegetais e
microrganismos têm sido utilizadas no tratamento de diversas doenças. Os produtos derivados de vegetais
têm dominado as farmacopeias por milhares de anos, fornecendo uma fonte virtualmente inesgotável de
recursos medicinais (Ver capítulo 11). Nos extratos destas plantas medicinais a ação conjunta, ou isolada,
de certas substâncias é responsável pela atividade biológica, e essas substâncias seriam os princípios
ativos.
As plantas medicinais podem ser usadas de distintas maneiras como, por exemplo, na forma de
cataplasma, chás e pós. No entanto, elas devem ser utilizadas com cuidado, pois da mesma maneira que o
seu uso em determinadas quantidades e formas de administração podem ser usadas para fins medicinais,
se aplicadas de maneira incorreta ou em altas concentrações elas podem se tornar extremamente tóxicas,
podendo inclusive causar problemas crônicos ou levar a óbito. Um exemplo muito conhecido é o confrei
(Symphytum officinale, Boraginaceae), que na década de 1980 era muito consumido in natura ou na
forma de chás, para tratamento de doenças gastrintestinais, inflamações, reumatismos, hemorroidas,
tosses e várias outras enfermidades. No entanto, a planta contém alcaloides pirrolizidínicos que causam
lesões no fígado, podendo levar à doença veno-oclusiva hepática. Hoje se sabe que o confrei tem ação
medicinal graças à presença de alantoína, um composto nitrogenado de comprovada ação cicatrizante, e o
seu uso oral não é recomendado.
Além das formas tradicionais, as plantas medicinais também podem ser usadas para a produção
de medicamentos mais elaborados que requerem técnicas mais sofisticadas. A partir do início do século
XIX, químicos desenvolveram técnicas para a análise e isolamento dos princípios ativos dessas plantas
(Ver capítulo 9). O primeiro fármaco obtido foi a morfina (um potente analgésico) a partir da papoula
(Papaver somniferum - Papaveraceae). Da mesma planta são obtidos outros fármacos para controle da
dor, como a codeína e a papaverina, este último é um dos constituintes do medicamento Atroveran®,
utilizado para o tratamento de cólicas. Na figura 1 estão representadas as estruturas de alguns compostos
isolados de plantas.

109
Figura 1: Estrutura dos princípios ativos de Digitalis spp. (digitoxina), Papaver somniferum (morfina),
Cinchona spp. (quinina), Salix alba (salicina) e Catharanthus roseus (vimblastina).

Até meados do século XX, as plantas medicinais e seus derivados constituíam a base dos
medicamentos até a síntese química, que teve início no final do século XIX, desencadear uma fase de
desenvolvimento vertiginoso. Atualmente, a maior parte dos medicamentos é de origem semissintética
(medicamentos produzidos a partir de um composto isolado de plantas, mas parte da molécula é
quimicamente alterada em laboratório) ou totalmente sintética.
Apesar dos avanços tecnológicos para a produção de medicamentos, cerca de 80% da população
mundial usa recursos vegetais para o tratamento de doenças e alívio de sintomas (Tabela 1). Isso se deve
ao alto valor agregado aos medicamentos industrializados. Dessa maneira, certos países têm investido em
pesquisas para comprovar e validar a eficácia de plantas medicinais.
Em 2008, foi instituído no Brasil o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos que
tem como objetivo implantar o uso de plantas medicinais e fitoterápicas de maneira segura e eficaz. Neste
mesmo ano, o Ministério da Saúde criou a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao
Sistema Único de Saúde (RENISUS) que contém 71 espécies com potencial terapêutico, dentre elas,
Allium sativum, Aloe spp., Anacardium occidentale, Croton spp., Eucalyptus globulus, Mentha pulegium,
Mikania spp., Psidium guajava e Salix alba.

110
Tabela 1: Alguns exemplos de plantas medicinais importantes e seus respectivos princípios ativos e usos
medicinais.

Nome
Nome científico Família Princípio ativo Uso medicinal
comum

Artemisia annua Artemísia Asteraceae Artemisinina Antimalárico

Dilatação de pupilas e
Atropla belladona Beladona Solanaceae Atropina
anticolinérgico

Maria-sem- Leucemia, linfomas e


Catharanthus roseus Apocynaceae Vimblastina
vergonha outros cânceres

Cinchona spp. ------- Rubiaceae Quinina Antimalárico

Anticolinérgico e
Datura metel ------- Solanaceae Escopolamina
antiespasmódico
Tratamento de doenças
Digitalis lanata
Dedaleira Plantaginaceae Digitoxina cardíacas (arritmias e
Digitalis purpurea
insuficiência congestiva)

Codeína Antitússico e analgésico

Papaver somniferum Papoula Paparaveraceae Morfina Analgésico potente

Relaxante da musculatura
Papaverina
lisa

Physostigma
------ Fabaceae Fisostigmina Glaucoma
venenosum

Pilocarpus
Jaborandi Rutaceae Pilocarpina Glaucoma
pennatifolius

Rauwolfia serpentina ------ Apocynaceae Reserpina Anti-hipertensivo

Salicina
Salgueiro-
Salix alba Salicaceae (Ácido Anti-inflamatório
branco
salicílico)

Taxus brevifolia ------ Taxaceae Taxol Câncer ovariano e outros

Plantas tóxicas
As plantas produzem uma enorme variedade de compostos para se protegerem do ataque de
animais herbívoros e patógenos. A maior parte desses compostos são alcaloides, glicosídeos cardioativos
e glicosídeos cianogênicos e, por esta razão, muitos são utilizados para a produção de medicamentos ou

111
de venenos utilizados na agricultura. Além desses compostos, outras substâncias também podem ser
responsáveis pela toxicidade da planta, dentre elas, taninos, diterpenos e toxalbuminas (proteínas tóxicas).
As plantas tóxicas estão presentes no nosso dia a dia e muitas vezes podem estar mais próximas
do que podemos imaginar, frequentemente nas nossas próprias residências. Diversas plantas que
ornamentam as moradias ou estabelecimentos públicos na realidade são tóxicas, caso sejam ingeridas, e
certos alimentos também podem causar intoxicações quando preparados incorretamente.
Diferentes países ao redor do mundo criaram páginas na internet listando as plantas tóxicas mais
comuns em cada país, seus efeitos colaterais em casos de ingestão e como identificá-las. No Brasil, por
exemplo, o Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) apresenta uma lista das
plantas tóxicas mais comuns no país, medidas preventivas, materiais educativos e dados estatísticos sobre
intoxicações por plantas tóxicas a nível nacional e regional. Estima-se que no Brasil aproximadamente
60% dos casos de intoxicação por plantas ocorrem em crianças com menos de nove anos de idade e 80%
desses casos ocorreram acidentalmente.
A seguir são apresentadas algumas plantas tóxicas aos seres humanos, suas partes tóxicas,
princípios ativos e principais sintomas.
- Conium maculatum L. (cicuta - Apiaceae)
A cicuta é uma planta conhecida pela sua toxicidade desde a antiguidade. O filósofo Sócrates
recebeu como sentença ingerir uma infusão de cicuta como pena de morte. Essa planta apresenta
alcaloides, tais como, coniína e coniceína. Todas as partes da planta são tóxicas e sua ingestão pode
provocar náuseas, vômitos, distúrbios neurológicos, paralisia e coma.
- Nerium oleander L. (espirradeira - Apocynaceae)
A espirradeira é uma planta ornamental, com lindas flores e extremamente tóxica. Todas as suas
partes são tóxicas, elas apresentam glicosídeos cardioativos e a sua ingestão provoca sintomas
neurológicos (dor de cabeça e desorientação), arritmias cardíacas, náuseas, vômitos e diarreias.
- Thevetia peruviana (Pers.) [Link]. (chapéu-de-napoleão - Apocynaceae)
É uma planta comum em jardins. Todas as suas partes são potencialmente tóxicas em
decorrência dos glicosídeos cardioativos que elas apresentam. Sua ingestão provoca problemas
gastrointestinais, tais como, náuseas, vômitos e diarreias, sintomas neurológicos (desorientação e dor de
cabeça) e arritmia cardíaca. Se houver contato com os olhos pode ocorrer irritação e fotofobia.
- Dieffenbachia picta Schott. (comigo-ninguém-pode - Araceae)
Uma parcela da população acredita que a comigo-ninguém-pode tem o poder de espantar o mau-
olhado, sendo assim, ela é facilmente encontrada em residências e estabelecimentos públicos. Todas as
partes da planta são tóxicas e a sua toxicidade se deve a presença de ráfides de oxalato de cálcio (em
forma de ráfides, que perfuram a pele) e proteínas tóxicas (dumbcaína). O contato mecânico e a ingestão
podem causar dor e queimação, edema nos lábios, palato e língua, além de náuseas, vômitos e diarreias.
Em casos de contato com os olhos pode provocar intenso lacrimejamento, fotofobia e edema.

112
- Euphorbia milii Des Moul. (coroa-de-cristo - Euphorbiaceae)
Essa planta, além de utilizada como ornamental, também é cerca-viva. As partes aéreas são
tóxicas em decorrência da presença de diterpenos. O contato com a pele pode provocar irritação, coceira e
formação de bolhas de água e a sua ingestão acarreta em irritação da mucosa bucal, edema, dor, sensação
de queimação diarreia e vômitos.
- Euphorbia pulcherrima Willd. ex Klotzsch (bico-de-papagaio - Euphorbiaceae)
Essas plantas são amplamente usadas ao redor do mundo como ornamentais devido as suas
flores. O látex liberado pela planta contém toxalbuminas e pode provocar reações semelhantes a coroa-de-
cristo, uma vez que haja contato com a pele, e em casos de ingestão a pessoa pode apresentar diarreias e
vômitos.
- Manihot esculenta Crantz (mandioca-brava ou mandioca - Euphorbiaceae)
A mandioca é muito utilizada como alimento na América do Sul desde a época da colonização.
Suas raízes e folhas contêm glicosídeos cianogênicos, como a linamarina, tornando-as tóxicas. No
entanto, se preparada corretamente, ou seja, retirar a casca e cozer por tempo suficiente, os glicosídeos
cianogênicos serão eliminados. Esses glicosídeos são degradados pela enzima linamarase, que está
presente na própria planta, originando ácido cianídrico e este libera o íon cianeto. Dessa maneira, além
dos sintomas clássicos de intoxicação que envolve diarreias, vômitos, náuseas, o indivíduo intoxicado
pode apresentar alterações no ritmo cardíaco, asfixia, cianose e óbito.
- Ricinus communis L. (mamona – Euphorbiaceae)
As sementes de mamona apresentam a ricina, uma toxalbumina. Essa proteína tem a capacidade
de aglutinar os eritrócitos e os intoxicados podem ter desde vômitos e diarreias até problemas renais,
distúrbios neurológicos, apneia e coma. A carrapateira, como também é conhecida, pode ser encontrada
em terrenos baldios.
Algumas medidas básicas podem evitar intoxicação por plantas, principalmente em crianças.
Manter as plantas tóxicas fora do alcance de crianças, conhecer as plantas existentes na residência e ao
redor dela, conscientizar as crianças que não se devem colocar plantas na boca e nem brincar com elas,
evitar preparar remédios caseiros sem orientação médica e evitar ingerir qualquer parte de planta
desconhecida são medidas que podem evitar a intoxicação por plantas.

Plantas psicoativas
Determinadas plantas apresentam compostos psicoativos que têm a capacidade de afetar o
sistema nervoso central de várias maneiras. Elas podem ser alucinógenas, estimulantes ou calmantes. Há
relatos de que os humanos fazem uso desses tipos de plantas desde a antiguidade em rituais religiosos,
para aliviar dores e aumentar a disposição durante a realização de tarefas. A maior parte dos compostos
vegetais com propriedades psicoativas são alcaloides e as principais famílias que apresentam alcaloides
psicoativos são: Solanaceae, Papaveraceae, Rubiaecae, Erythroxylaceae, Myristicaceae e Convolvulaceae.
Certos compostos podem causar dependência fisiológica acarretando em uma série de
consequências, dentre elas, danos fisiológicos ao indivíduo e impactos sociais e econômicos.

113
Estima-se que a cada ano cerca de 230 milhões de pessoas ao redor do mundo, entre 15 e 64
anos, fazem uso de drogas ilícitas. No Brasil esse uso abusivo de drogas ilícitas constitui um sério
problema de saúde pública afetando, direta ou indiretamente, mais da metade de população.
A seguir serão discutidas algumas plantas que são importantes por serem usadas como drogas de
abuso, lícitas e ilícitas no Brasil.
- Nicotiana tabacum e Nicotiana rustica (tabaco - Solanaceae)
A nicotina (Fig. 2) é um alcaloide que é produzido nas raízes e depois transportado para as
folhas. As duas espécies do gênero Nicotiana mais cultivadas são a N. tabacum e a N. rustica. O uso de
tabaco remonta por volta de 5000 a 3000 a.C. e, de acordo com achados arqueológicos, é possível que
essa planta tenha sido a primeira droga recreativa utilizada na América do Sul. As folhas de tabaco podem
ser usadas de variadas formas, tais como, mascando, em chás ou, principalmente, fumando-as.
Atualmente, a nicotina é a droga recreativa mais usada no mundo, depois do álcool e da cafeína.
Estima-se que haja aproximadamente 1,1 bilhões de fumantes ao redor do mundo e estes são responsáveis
pelo consumo de 5 trilhões de cigarros por ano. Dos exemplos de drogas psicoativas citadas neste capítulo
apenas a nicotina, que pode ser facilmente encontrada nos cigarros, é considerada uma droga lícita no
Brasil.
Muitas pesquisas têm sido realizadas para avaliar as consequências na saúde de pessoas que
fumam cigarros contendo nicotina, dentre elas, dificuldade de mulheres engravidarem, risco de passar
nicotina para os filhos durante a amamentação, desenvolvimento de doenças respiratórias, cardíacas e
cânceres, principalmente o de pulmão. Fumantes passivos também podem ser afetados, pesquisas
apontam que crianças que são fumantes passivas podem ter a capacidade pulmonar reduzida e
desenvolver doenças respiratórias, enquanto que os adultos podem inclusive desenvolver câncer de
pulmão.

Figura 2: Estrutura da nicotina.

- Cannabis sativa (maconha - Cannabaceae)


O uso da maconha é muito antigo, os primeiros registros datam de 2700 a.C. e são provenientes
da China. Seu uso está presente em todas as sociedades sendo considerada uma das drogas ilícitas mais
consumidas no mundo. Isso se deve, possivelmente, pelo fato de que a planta é facilmente cultivada em
diferentes condições e não precisa passar por muitos processamentos para ser usada.
Mais de 400 compostos foram identificados, dentre eles, mais de 60 canabinoides que são
responsáveis pelas propriedades psicoativas da planta. Os canabinoides são compostos fenólicos, sendo
que o composto mais potente é o THC (delta-9-tetraidrocanabiol – Fig. 3) que está presente na resina.
114
Figura 3: Estrutura do delta-9-tetraidrocanabiol.

Os seus efeitos psicológicos e fisiológicos ocorrem rapidamente, após alguns minutos, e podem
durar de 2 a 4 horas. Alguns dos efeitos fisiológicos e psicológicos da maconha é a euforia, ansiedade,
agravamento dos estados psicóticos, alterações das noções de tempo, perda da memória, confusão mental
e aumento do apetite. A sua completa eliminação do organismo demora mais de 30 dias, metabolizada
pelo fígado e eliminada pelas fezes e urina. Vale ressaltar que os canabinoides são lipofílicos e por esta
razão podem ser acumulados no leite materno e atravessar a placenta.
A maconha tem sido usada de forma empírica há séculos, nos dias de hoje já é reconhecido seu
uso medicinal para melhorar o estado de pessoas com câncer, AIDS e alguns casos de epilepsia, mas não
cura essas doenças. Tem sido proposto o seu uso em tratamentos de anorexia e esclerose múltipla.
- Erythroxylum coca (coca - Erythroxylaceae)
A partir das folhas de coca é extraído o alcaloide cocaína (Fig. 4) que é usado como droga de
abuso. As espécies E. coca e E. novogravatense são as principais fontes de cocaína, elas são nativas da
região das montanhas dos Andes. Há evidências do uso dessas plantas desde 3500 anos atrás nas regiões
andinas, onde tinham importância econômica e social para os incas.

Figura 4: Estrutura da cocaína - princípio ativo presente nas folhas da coca (Erythroxylum coca).

Por volta de 1850 a cocaína foi isolada e a partir dessa época ela passou a ganhar muita
popularidade nos EUA, podendo ser encontrada de diversas maneiras, por exemplo, em chás, elixires e
bebidas. Duas bebidas que continham em sua fórmula extratos de folhas de coca se tornaram muito
apreciadas: a Vin Mariani e a Coca-Cola, esta última criada em 1886. Desde 1903 não há mais extratos de
folhas de coca na Coca-cola, pois os efeitos negativos relacionados ao uso da cocaína começaram a se
tornar evidentes.
115
Nas últimas décadas houve a morte de muitas celebridades ao redor do mundo que faziam uso de
cocaína fazendo com que a população em geral percebesse o perigo relacionado ao consumo dessa
substância, mas ainda assim, em muitos países, o uso abusivo de cocaína constitui um grave problema de
saúde pública, como é o caso do Brasil.
Na década de 1980 foram desenvolvidas novas formas do uso da cocaína, sendo o crack um
exemplo. Ele é a forma da cocaína solidificada que, quando quebrada, recebe o nome de “pedras de
crack” e ao ser fumado os efeitos aparecem mais rapidamente e de forma mais intensa, além de ter um
custo muito inferior quando comparado ao da cocaína.
- Papaver somniferum (papoula - Papaveraceae)
O ópio é um látex rico em alcaloides e extraído por meio de incisões feitas nos frutos imaturos
da papoula. Já foram identificados mais de 20 alcaloides nesse material, dentre eles, a morfina e a
codeína. Os opiáceos são depressores do sistema nervoso central e alguns deles são usados como droga
recreativa, por exemplo, a morfina e a heroína, provocando uma sensação intensa de euforia. A overdose
em decorrência do uso de tais compostos pode levar a óbito devido à supressão do centro respiratório no
cérebro.
A morfina e a codeína, como citado anteriormente, são usadas para fins medicinais como
analgésico e antitússico, respectivamente. A morfina é altamente viciante e atualmente ela é empregada
apenas em casos de dores severas como em situações de pós-operatório e casos terminais de câncer.
Em 1898 a Bayer, uma empresa química e farmacêutica alemã, desenvolveu a heroína (Fig. 5),
um derivado semissintético da morfina, com uma ação analgésica e antitússica superior ao da morfina e
da codeína, respectivamente. Essa substância tem um poder viciante seis vezes superior ao da morfina e o
seu uso se popularizou graças à invenção da injeção hipodérmica que propiciou o uso injetável
intravenoso fazendo com que os seus efeitos sejam mais intensos, uma vez que ela é rapidamente
absorvida através da corrente sanguínea.

Figura 5: Estrutura da heroína.

Plantas ornamentais
As plantas ornamentais são cultivadas simplesmente devido a sua beleza, ou seja, para fins
estéticos, sendo que o cultivo de tais plantas ocorre desde a antiguidade, como é o caso dos lírios, narcisos
e rosas. O próprio Gregor Mendel, que estabeleceu as leis fundamentais da genética, interessava-se tanto
pelo melhoramento dos vegetais como por ornamentação que conseguiu obter uma nova variedade de flor

116
que ficou conhecida como a fúcsia de Mendel (Onagraceae), e chegou a receber uma medalha pelas suas
pesquisas agronômicas.
Uma das propriedades mais apreciadas no mercado de espécies ornamentais diz respeito à
coloração das flores. Três tipos de pigmentos estão envolvidos na coloração de órgãos vegetais, os
carotenoides, as betalaínas, e os flavonoides (em especial a classe das antocianinas). Betalaínas
representam as colorações avermelhadas a violetas (betacianinas) ou amareladas a tons de laranja
(betaxantinas), mas ocorrem restritamente nas espécies da ordem Caryophyllales. Os carotenoides,
responsáveis pela maioria dos tons amarelados e alaranjados, podem coexistir com antocianinas
resultando assim em tonalidades marrons e bronze. As antocianinas são pigmentos responsáveis pelos
tons: vermelho, púrpura e azul. Podem ainda coexistir outras substâncias com esses pigmentos
interferindo nas tonalidades encontradas. Algumas substâncias fenólicas, dentre elas, fenilpropanoides e
flavonóis, além de atuarem como copigmentos, podem conferir a cor branca.
As plantas ornamentais são cultivadas para atender diferentes segmentos, tais como, indústrias
de eventos e cerimoniais, datas comemorativas, recomposição ambiental, paisagismo, dentre outros.
Comercialmente, elas podem ser classificadas em flores de corte, flores de vaso, plantas de interior e
paisagismo, flores e plantas tropicais e folhagens.
Alguns dos principais países produtores são a Holanda, Colômbia, Dinamarca, Itália, Israel,
Bélgica, Costa Rica, Canadá, EUA e Alemanha. Esse setor do agronegócio tem se destacado no Brasil,
sendo que o estado de São Paulo é o principal produtor. No entanto, nos últimos anos houve um
crescimento desse ramo em outras regiões, tais como estados da região Sul e Norte do país, Minas Gerais,
Rio de Janeiro, Goiás, Distrito Federal, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Ceará.
O Brasil começou a se profissionalizar no final da década de 1950 graças ao trabalho de
imigrantes (holandeses, alemães, japoneses, entre outros) que se estabeleceram em cidades próximas à
capital do estado de São Paulo. Estima-se que o Brasil cultiva mais de 350 espécies com
aproximadamente três mil variedades de flores e plantas ornamentais que podem ser nativas ou exóticas,
gerando aproximadamente 194 mil empregos diretos e movimentando R$ 5,2 bilhões em 2013. Os
brasileiros ainda consomem pouco esse tipo de produto, mas o mercado externo tem grande potencial,
visto que os principais países importadores (Argentina, Noruega, Alemanha, Japão e EUA) têm um
elevado consumo. No Brasil, é crescente o investimento e atenção para o mercado de flores e plantas
ornamentais. A Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Flores e Plantas Ornamentais realizou, em 2010,
uma agenda estratégica focada em incentivar, apoiar e promover o crescimento e o desenvolvimento do
mercado interno de consumo para as flores e plantas ornamentais. No Brasil há uma grande variedade de
espécies nativas e ornamentais com ampla diversidade de cores, odores e formas, o que torna ainda mais
interessante o investimento no setor. Na figura 6 é possível visualizar um fluxograma simplificado da
cadeia produtiva do sistema agroindustrial de flores e plantas ornamentais.

117
Figura 6: Fluxograma do sistema agroindustrial de flores e plantas ornamentais. Adaptado de Anefalos &
Guilhoto, 2003.

Devido aos diferentes microclimas favoráveis ao plantio de plantas ornamentais de regiões


tropicais e temperadas, a disponibilidade de água e terras para cultivo e o crescente incentivo na
tecnologia agronômica o Brasil tem sido favorecido neste mercado.
Os principais produtos comercializados são as flores de corte, principalmente, rosas e
crisântemos, e as folhagens. No que diz respeito às flores de vaso, as mais vendidas são as suculentas do
gênero Kalanchoe e as orquídeas do gênero Phalaenopsis. Hoje em dia há espécies arbóreas nativas
sendo comercializadas como espécie ornamental como é o caso do manacá-da-serra (Tibouchina pulchra
- Melastomataceae).
Outros exemplos de plantas comercializadas são: a alocasia, antúrio, jiboia (Araceae), arruda
(Rutaceae), bromélias pertencentes aos gêneros Aechmea, Guzmania, Neoregelia, Tillandsia e Vriesia
(Bromeliaceae) – muito vendidas como plantas de vaso – várias espécies do gênero Cactus (Cactaceae),
gérbera, girassol (Asteraceae) e lírio (Liliaceae).

118
CAPÍTULO 11

Obtenção biotecnológica de metabólitos secundários


com potencial farmacológico
Martha Dalila Sedano Partida
Vania Gabriela Sedano Partida
Leonardo Doin Pogrebinschi

Introdução
O homem procura sempre a natureza para conseguir alimento e cura para suas doenças como,
por exemplo, produtos naturais obtidos de plantas. A natureza tem sido nossa fonte principal de alimentos
e remédios, assim como de inseticidas, tinturas, perfumes, temperos, etc.
O homem antigo, utilizando seu próprio instinto, mediante o conhecimento empírico sustentado
no confronto de acertos e erros, aprendeu a distinguir as espécies vegetais de pouca relevância das que lhe
são úteis. Então, pode-se concluir que a fitoterapia, conhecida como a utilização dos produtos naturais de
origem vegetal com finalidade terapêutica, seja para prevenir, atenuar ou curar um estado patológico, é
tão antiga como o homem.
A importância do uso de plantas para fins medicinais tem se evidenciado ao longo dos anos.
Como no caso de compostos empregados do combate a doenças como a malária (quinino) e até mesmo
certos tipos de câncer (vincristina, vimblastina, taxol), que são derivados de espécies vegetais (Ver
capítulo 10).

Historia da fitoterapia
Na Bíblia cerca de 200 plantas medicinais e suas aplicações também são descritas. O Papiro de
Ebers, escrito cerca de 3500 anos atrás, descreve doenças e indicações para resolvê-los usando certas
espécies de plantas.
No ano 3000 a.C., na China, foi escrito o livro mais antigo de plantas medicinais; os sumérios,
2500 anos a.C. utilizavam plantas para fins curativos; os assírios conheciam pouco mais de 250 ervas
medicinais; na Grécia antiga utilizavam entre outros, canela, ruibarbo, genciana e mostarda; de suas
expedições para a África, Pérsia e Índia, Alexandre Magno introduziu na Europa um número grande de
plantas com propriedades curativas.
No século IX viveu o famoso médico árabe Ibn Wafid (nasceu em Toledo no ano 1008 e morreu
naquela cidade em 1074) autor de "O Livro de Cabeceira" - famoso livro de receitas médicas. Suas
receitas, quase todas originais, tinham remédios para tratar as queixas ou distúrbios da cabeça aos pés
segundo a tradição da medicina árabe, utilizando numerosas espécies de plantas quase todas procedentes
da Espanha e do Norte da África. Posteriormente, no período do século XII ao século XIII, a escola árabe,
tal como a escola de Salerno, prescrevia inúmeras drogas vegetais que são utilizadas ainda hoje. Na Idade

119
Média, os árabes aperfeiçoaram a destilação de plantas aromáticas, promovendo assim o desenvolvimento
da farmácia nascente e rudimentar.
No século XV era conhecida a essência de amêndoas amargas, lavanda, canela, gin, rosa, sálvia e
outros. Um século mais tarde, mais de sessenta novas essências foram adicionadas a essa lista. Em 1511,
em Barcelona publicou-se a "Concordia Pharmacopolarum", que é a primeira farmacopeia territorial do
mundo. O famoso Codex De la Cruz Badiano escrito em 1552 pelo índio Xochimilca Martin de la Cruz e
traduzido do Nahuatl para o latim por Juan Badiano no México, contém o tesouro herbário do México
antigo.
No século XVIII, dá-se um grande passo para o desenvolvimento científico da medicina em geral
e do uso terapêutico de plantas em particular, com o início da farmacognosia, um termo e conceito que
inclui Seydler pela primeira vez em sua Analecta Pharmacognostica (1815). Com o desenvolvimento da
farmacognosia em conjunto com a química, a biologia e outras ciências naturais, começou-se a conhecer a
composição química das drogas de origem natural: quais eram as substâncias ativas e seus mecanismos de
atuação. Ao mesmo tempo adquiria-se um melhor conhecimento a respeito da composição do corpo
humano e animal, necessário para estudar os mecanismos de uma doença e os medicamentos utilizados
para seu alívio ou cura.
Os avanços logrados ao longo dos séculos descritos aqui brevemente possibilitaram que,
finalmente, no século XIX fossem praticadas as primeiras análises químicas de essências e outros
ingredientes ativos dos vegetais, com aplicação do microscópio e química analítica. Nasceu assim a
química farmacêutica; em 1811 conseguiu-se isolar a primeira substância química na história da
humanidade: obtendo-se a morfina a partir do ópio.

Uso das plantas na atualidade


Hoje a medicina tradicional usa drogas sintéticas para tratar todas as doenças. Muitas dessas
drogas são benéficas, mas também muitas delas, por uso indevido ou abuso, têm perdido sua eficiência e
em inúmeros casos têm causado efeitos colaterais nocivos. Portanto, renovou-se o interesse no uso e
obtenção de substâncias químicas extraídas diretamente de plantas. Hoje cerca de 80% da população
mundial utiliza plantas para o tratamento de doenças graves.
Estima-se que o número de plantas terrestres (angiospermas e gimnospermas) neste planeta é de
250000, com um nível inferior de 215000 e um nível superior de 500000. Desse montante apenas cerca de
6% teve alguma atividade biológica pesquisada e apenas 15% foi avaliada fitoquimicamente. Estas
estimativas tornam-se importantes quando se considera o vasto potencial de princípios ativos na natureza
que ainda não foram identificados, muito menos avaliados dentro de um contexto médico. Isso atrai a
atenção da indústria farmacêutica que vê nas plantas uma fonte viável de novos medicamentos.
O uso de plantas como agentes terapêuticos tem os seguintes objetivos:
1) Isolar compostos com atividade biológica e desenvolvê-los como novos fármacos. Os
exemplos de medicamentos desenvolvidos a partir de plantas medicinais são numerosos

120
(ácido salicílico, morfina, reserpina, vimblastina, vincristina, entre muitos outros), na
medida em que passam a constituir mais do que um terço da terapia farmacológica.
2) Sintetizar compostos de estruturas conhecidas para produzir entidades patenteáveis com
melhor eficácia e menor toxicidade, por exemplo, metformina, nabilone, oxicodona,
teniposide, verapamil e amiodarona, que são baseados, respectivamente, em galegina,
tetra-hidrocanabinol, morfina, taxol, podofilotoxina e quelina.
3) Utilizar fármacos derivados de plantas utilizadas como ferramentas farmacológicas, por
exemplo: a dietilamida do ácido lisérgico, a mescalina e ioimbina; e
4) Utilizar toda a planta, ou parte dela, para fins medicinais (fitofármaco); exemplos:
Echinacea purpurea, Allium sativum (alho), Ginkgo biloba (Ginkgo), Panax ginseng
(ginseng) e Hypericum perforatum (erva-de-São-João).

Metabolismo secundário das plantas


De forma similar aos micro-organismos as plantas produzem uma grande diversidade de
compostos químicos, chamados metabólitos secundários, que consistem em um conjunto de substâncias
que não está diretamente relacionado à geração de energia e constituição de protoplasto, mas que auxilia
na sobrevivência e percepção do ambiente externo pela planta. Enquanto os metabólitos primários estão
presentes em todos os vegetais, e por isso são considerados de distribuição universal, os metabólitos
secundários podem ser restritos a grupos vegetais específicos. Geralmente, esses metabólitos apresentam
importantes funções ecológicas para as plantas, podendo ser considerados como estratégias químicas
desses organismos na interação com o ambiente ao seu redor (Ver capítulo 9).
Podemos considerar três grandes grupos de metabólitos secundários, agrupados por suas
semelhanças estruturais e propriedades químicas e não necessariamente por compartilharem a mesma via
de síntese. São eles: terpenos, substâncias nitrogenadas e substâncias fenólicas.
Os terpenos são formados a partir da união de unidades compostas por cinco carbonos (C5) e
podem ser sintetizados a partir de duas vias metabólicas: a via do ácido mevalônico e a via do
metileritritol fosfato. Essas substâncias são subclassificadas conforme o número de isoprenos em suas
estruturas (unidades C5): monoterpenos (2x C5), sesquiterpenos (3x C5), diterpenos (4x C5), triterpenos
(6x C5), tetraterpenos (8x C5) e politerpenoides (mais que oito unidades C5).
As substâncias nitrogenadas incluem metabólitos secundários com a presença de pelo menos um
nitrogênio em sua estrutura química, tais como, glicosídeos cianogênicos, glucosinolatos, aminoácidos
não-proteicos e alcaloides. A maioria é sintetizada a partir de aminoácidos aromáticos, como a
fenilalanina, tirosina e triptofano, ou a partir de aminoácidos alifáticos, como a ornitina e lisina. Possuem
interesse econômico, pois atuam no sistema nervoso central de mamíferos, sendo bastante estudados pela
indústria farmacêutica.
As substâncias fenólicas são agrupadas por possuírem em comum pelo menos um grupo
hidroxílico preso a um anel fenólico. Esse grupo é quimicamente muito diverso e sua biossíntese se dá
pela ação de duas vias metabólicas isoladamente - a via do ácido chiquímico (ou via do chiquimato) e a

121
via do ácido malônico (ou via do acetato-malonato) – ou pela combinação de precursores oriundos de
ambas.
Todas essas substâncias secundárias produzidas pelos vegetais vêm sendo estudadas por suas
diversas propriedades químicas e ação biológica. Deve-se a isso o aumento atual no interesse em estudos
da atividade biológica de extratos vegetais.

Exemplos de atividades biológicas de interesse farmacológico


a) Potencial Antioxidante
Os radicais livres são quimicamente definidos como átomos instáveis que causam danos às
células lipídicas, proteínas e DNA e são resultado do desequilíbrio entre a geração de espécies reativas de
oxigênio (ERO) e as substâncias com poder antioxidante. As EROs são a causa subjacente de estresse
oxidativo e estão enormemente implicadas na patogenicidade de diversas enfermidades, tais como câncer,
diabetes, doenças cardiovasculares e envelhecimento.
O organismo neutraliza as EROs por meio de vários mecanismos antioxidantes que envolvem a
produção de substâncias antioxidantes enzimáticas (como a superóxido dimutase, catalase, glutationa
peroxidase) ou não enzimáticos (ácido ascórbico, glutationa, carotenoides e flavonoides) para prevenir o
dano oxidativo. O estresse oxidativo também está relacionado com o surgimento de numerosas
enfermidades, como câncer, diabetes e alterações cardiovasculares.
Além dos antioxidantes endógenos, existem ainda os antioxidantes exógenos, os quais podem ser
encontrados em produtos de origem natural, como várias plantas medicinais, que contém uma grande
quantidade de antioxidantes tais como, por exemplo, polifenóis, que podem apresentar um papel
importante na adsorção e neutralização de radicais livres. Dentre a gama de antioxidantes, os polifenóis
constituem uma enorme e complexa categoria de compostos. Nessa classe de substâncias podem ser
incluídos fenilpropanoides, flavonoides, lignanas e as proantocianidinas (também chamados taninos
condensados). O interesse em antioxidantes flavonoídicos aumentou consideravelmente nos últimos anos
por sua elevada capacidade para sequestrar os radicais livres associados ao desenvolvimento de várias
enfermidades.

b) Potencial Antimicrobiano
Segundo Stephen Harrod Buhner, autor do livro “Antibióticos naturais” vivemos um problema
grave, pois atualmente a velocidade de evolução das bactérias vem sendo tão rápida que novos
antibióticos geram resistência em períodos de tempo cada vez mais curtos. Em vista desse cenário, as
pesquisas têm descoberto novas substâncias eficazes no tratamento de enfermidades bacterianas. Nesse
sentido, o uso de plantas como fonte de sustâncias potenciais se apresenta como uma alternativa
promissora. As propriedades antimicrobianas de sustâncias provenientes de extratos vegetais e de óleos
voláteis são comprovadas empiricamente desde muitos séculos, assim como também foram comprovadas
cientificamente, para algumas delas, suas atividades antimicrobianas.

122
Técnicas de biotecnologia vegetal para a produção de metabólitos secundários
Metabólitos secundários têm um papel na mediação ecológica da interação da planta com o meio
ambiente, estando geralmente em concentrações muito baixas, o que reduz o seu rendimento (quantidade
de produto obtido por planta), sendo necessária uma grande quantidade de material vegetal para obterem-
se quantidades significativas do composto de interesse.
Outro aspecto de grande importância tem sido o fato de que muitas espécies de plantas estão
ameaçadas ou extintas devido a problemas ambientais causados pelo homem e à exploração de fontes
naturais. É, portanto, compreensível o interesse de grandes indústrias na produção de compostos naturais
comercialmente relevantes, para os quais a qualidade e os custos não sejam afetados por condições
climáticas, sanitárias ou políticas na região de produção.
Tradicionalmente, o uso destes compostos foi determinado pela capacidade de conceber
processos de extração eficazes para as moléculas de interesse; no entanto, durante o último meio século
surgiu a alternativa de cultura de células vegetais para a produção destas moléculas sem que haja a
utilização de toda a planta. O emprego desta estratégia na produção de metabólitos secundários requer a
determinação das condições ótimas de produção e a utilização de métodos de engenharia genética e/ou
elicitação de modo a aumentar a produção de metabólitos de interesse. No entanto, as dificuldades
associadas com a produção em escala têm feito com que o uso comercial desta tecnologia ainda encontre-
se limitado a apenas alguns processos.
Neste contexto, o progresso da biotecnologia vegetal, especialmente a aplicação das técnicas de
cultura de células e tecidos e de propagação clonal. A indução de calo e o estabelecimento de suspensões
de células, especialmente em plantas medicinais, são alternativas para a produção de metabólitos
secundários, e têm a vantagem de produzi-los em condições controladas uma vez que as células podem
facilmente multiplicar-se e produzir metabólitos secundários específicos.

a) Cultura de células vegetais


A cultura de células vegetais tem emergido como uma alternativa para a obtenção de metabólitos
de elevado valor acrescentado, produzidos em plantas em baixas concentrações e para os quais não há
processos de síntese química conhecidos.
A utilização de processos de "cultura in vitro" tem permitido crescer células, tecidos e órgãos das
plantas sob condições laboratoriais controladas. Estas culturas tornam-se um conjunto de metodologias
especializadas, usadas para cultivar o material vegetal em meios nutritivos sólidos ou líquidos estéreis, e
são adicionados hormônios reguladores de crescimento. Deste modo tem-se conseguido produzir de uma
forma homogênea e controlada alguns compostos de alto valor agregado, comumente encontrados no
vegetal de origem.
As técnicas de cultura in vitro podem oferecer muitas vantagens para a produção de compostos
ativos, entre as quais podemos citar as seguintes: 1) um suplemento contínuo de compostos em forma
ótima e sob condições controladas; 2) a independência de fatores climáticos e pragas presentes em plantas
selvagens; 3) a disseminação de espécies com um crescimento muito lento ou que estão em perigo de

123
extinção; e 4) a acumulação de compostos que não tenham sido identificados na planta de origem. Por
outro lado, e por serem altamente controlados, os sistemas de cultura in vitro podem ser modelos
adequados para pesquisas bioquímicas e fisiológicas para ajudar a compreender o metabolismo
secundário de plantas, assim como investigar aspectos básicos dos mecanismos de especialização ou
diferenciação. Atualmente, algumas das culturas vegetais mais utilizadas em pesquisa e produção de
drogas são as culturas de calos, células em suspensão e raízes transformadas.

b) Cultura de órgãos
Os aspectos que podem ser associadas à acumulação de metabólitos secundários são: a presença
de certos tipos de células, a presença de certas organelas e a expressão e regulação de genes biossintéticos
ou catabólicos. Portanto, a cultura de órgãos representa uma alternativa interessante para a produção de
metabólitos secundários de plantas. São dois os tipos de órgãos considerados mais importantes: brotos e
raízes; os quais podem ser cultivados em grande escala. A cultura de órgãos pode produzir substâncias de
interesse que não tenham sido obtidas a partir de culturas indiferenciadas. No entanto, a cultura de brotos
não pode produzir todos os compostos obtidos nas folhas de plantas em condições naturais. Se o
composto de interesse é sintetizado nas raízes, então ele não aparece em cultura de brotos. Além disso, é
necessário notar que, embora o composto seja sintetizado nas folhas pode ser que seu padrão e
concentração sejam diferentes dos obtidos em plantas intactas. Como principal vantagem tem-se que a
cultura de órgãos é geneticamente mais estável em comparação com o cultivo de suspensões celulares e
calos.
Cultura de brotos tem sido pesquisada como uma fonte de óleos essenciais, alcaloides e flavonoides.
Por exemplo, o cultivo de brotos de Lavandula officinalis em meio de cultura semissólido mostrou teor de
ácido rosmarínico maior do que o obtido nas plantas sob condições naturais. No entanto, em outras
espécies como Hypericum perforatum, Cymbopogon citratus e Fabiana imbricata as concentrações dos
compostos desejados foram menores do que as obtidas nas plantas sob condições naturais.

c) Cultivo de calos
Os calos são agregados de células não especializadas em proliferação que crescem em meios
semissólidos na presença de hidratos de carbono, sais minerais, vitaminas e aminoácidos, os quais são
complementados com os reguladores do crescimento das plantas do grupo de auxinas e citocininas. Este
último é responsável por manter o crescimento indiferenciado. Os calos são cultivados sob condições
estéreis e são induzidos a partir de tecidos de plantas normalmente jovens. Em teoria, é possível obter
calos de todas as espécies de plantas, no entanto, as condições ótimas para o crescimento são dependentes
de cada espécie e requerem uma determinação particular para cada caso. Os calos podem variar na sua
textura desde duros e compactos, a tecidos friáveis. Os tecidos calosos são o principal material que vai
estabelecer culturas de células em suspensão.

124
d) Cultura de células em suspensão
As culturas de células em suspensão são estabelecidas a partir de calos finamente fragmentados e
transferidos para meios de cultura líquidos, contendo reguladores do crescimento de plantas, e em
crescimento sob condições controladas de luz (escuro, luz contínua ou fotoperíodo) e temperatura (25°C a
28°C). As culturas em suspensão crescem em contínua agitação utilizando “shaker”, permitindo um
fornecimento contínuo de nutrientes e oxigênio dissolvido. As suspensões de células são subcultivadas
em novos meios regularmente. Vários fatores físico-químicos, nutritivos e hormonais desempenham um
papel crucial na realização ótima de produção dos compostos de interesse. Embora existam muitos
problemas a resolver no que diz respeito a estas culturas, processos industriais atuais baseiam-se em
culturas de células em suspensão.

e) Culturas de raízes transformadas


Estas culturas são altamente diferenciadas e potencialmente produzem uma maior concentração
de metabólitos secundários. Raízes transformadas crescem na ausência de reguladores de plantas e são
geralmente obtidas pela transformação genética por genes contidos nos plasmídeos da bactéria
Agrobacterium rhizogenes. Tem sido demonstrado que estas culturas têm uma maior capacidade de
biossíntese de alguns metabólitos secundários. Assim, proporcionam uma gama mais ampla de produção
de compostos naturais indiferenciados, em comparação com culturas das mesmas espécies vegetais, tais
como os calos e as células em suspensão.

f) Culturas em biorreatores
As culturas de células em meio líquido podem ser dimensionadas para volumes mais elevados
usando dispositivos chamados biorreatores, para os quais existem vários modelos e tamanhos. Até a
presente data poucos procedimentos que utilizam células ou órgãos vegetais foram estabelecidos para
uma escala comercial. Alguns exemplos referem-se à produção dos corantes chiconina e purpurina e de
compostos de valor medicinal tais como a berberina, a sanguinarina, os gingenosides e taxol. Sem dúvida,
o exemplo mais notável tem sido a produção de taxol, anticâncer potente para tratar o câncer de ovário e
de mama, que é produzido na Alemanha por Phyton Company, usando tanques de 70000 litros. Embora
existam limitações associadas à exploração racional da cultura de células e órgãos, esta estratégia de
produção oferece benefícios significativos que justificam o seu estudo e implementação.

O mais recente
Culturas de células microbianas podem atuar oferecendo sua maquinaria metabólica agindo
como uma Biofábrica, com a finalidade de otimizar as condições e aumentar a produtividade de
metabólitos secundários específicos. Além disso, a metodologia de engenharia metabólica é usada para
reforçar o que a natureza faz de melhor, corrigindo as deficiências e os impasses da via metabólica.
Técnicas de biossíntese combinatória levaram à descoberta de novas formas de produção de metabólitos
secundários naturais de plantas e até mesmo não naturais, enquanto a indústria de engenharia metabólica

125
também proporcionou uma oportunidade para investir em biologia sintética para superar os problemas de
versatilidade e produtividade em decorrência dos protocolos atualmente restritos pela química sintética
existente. Atualmente, a síntese de metabólitos secundários está ocorrendo por meio da biotecnologia,
através de síntese combinatória produzida em organismos heterólogos.

126
CAPÍTULO 12

Metabólitos secundários na interação planta-planta


Paula Novaes
Fernanda Anselmo Moreira

As plantas produzem muitos compostos orgânicos que não parecem ter relação direta com o
crescimento e desenvolvimento vegetal, denominados metabólitos secundários (Ver capítulo 9). Os
metabólitos secundários podem proteger a planta contra a herbivoria e infecção por patógenos, agir como
atrativos aos polinizadores e dispersores, atuarem na simbiose planta-microrganismo, na competição e na
comunicação direta entre plantas, na alelopatia, entre outros. Este capítulo tratará do papel destes
metabólitos secundários nas interações planta-planta.

Comunicação entre plantas


Alguns metabólitos secundários podem ser chamados de voláteis (VOCs). Estes compostos
possuem baixos pontos de ebulição e evaporam ou sublimam em temperatura ambiente. Seus
constituintes mais comuns são terpenos (mono e sesquiterpenos), aldeídos, álcoois e ésteres derivados da
quebra por lipoxigenase dos ácidos graxos. Exemplos de VOCs são apresentados na figura 1.

1 2 3

4 5 6

Figura 1: Exemplos de compostos orgânicos voláteis (VOCs) de menor (1. etileno, 2. acroleína, 3.
limoneno) e maior tamanho (4. metil jasmoneto, 5. metil salicilato, 6. linalol).

Muitas plantas podem liberar compostos voláteis quando atacadas por herbívoros. Estas
substâncias podem repelir seus inimigos, atrair predadores ou parasitoides dos herbívoros, mas também
podem avisar outros ramos do mesmo indivíduo ou das plantas vizinhas do perigo. As alterações que
ocorrem devido a esse “aviso” são chamadas de “priming”, ou seja, preparações fisiológicas antecipadas a
um perigo futuro.

127
Vários trabalhos demonstraram que, ao menos em laboratório, os VOCs são capazes de alterar a
expressão de genes de defesa, a produção de ácido jasmônico (Fig. 2) e outros compostos de proteção.
Muitos trabalhos demonstraram que metil jasmonato, terpenoides voláteis e voláteis C6 de folhas verdes
(GLVs) podem ativar reações dependentes de ácido jasmônico. O ácido jasmônico é um hormônio vegetal
que induz a expressão de diversos genes relacionados à defesa contra estresses bióticos e abióticos.

Figura 2: Molécula de ácido jasmônico.

Por exemplo, os voláteis sinalizadores de perigo de artemísia provocam a produção antecipada


de inibidores de proteinases (PIs) em tabaco e, consequentemente, o tabaco deverá sofrer menor
herbivoria. Outro exemplo ocorre em milho, onde plantas que receberam os sinais dos voláteis
apresentam valores de ácido jasmônico semelhantes às plantas predadas.
Três passos caracterizam os sinais de VOCs transmitidos pelas plantas: emissão, transporte e
recepção. A emissão é controlada por fatores físico-químicos como o controle estomático e a liberação de
compostos em fase líquida na planta para fase gasosa na atmosfera. Já o transporte dos VOCs dependerá
do tamanho das moléculas e de fatores abióticos como temperatura, convecção ou ventos. Moléculas
pequenas não devem apresentar grandes limitações em seu transporte, mas moléculas maiores podem
necessitar de plumas para serem dispersas em maiores concentrações. Os VOCs podem ainda ser ativados
pela presença do oxigênio quando dispersos na atmosfera.
Por outro lado, a percepção dos VOCs nas plantas vizinhas dependerá muito da condutância
estomática que, por sua vez, é alterada por fatores como incidência de luz e temperatura. Ou seja, a
recepção dos VOCs nas folhas será maior em períodos de maior abertura estomática. Muitos autores
sugerem que a percepção dos VOCs ocorreria por sinais hormonais como metil jasmoneto, metil
salicilato, GLV e etileno. Por exemplo, o silenciamento de GLVs em artemísia influenciou diretamente a
expressão genética do tabaco vizinho.

Alelopatia e aleloquímicos
Este fenômeno foi documentado pela primeira vez cerca de 300 a.C. por escritores gregos e
romanos, mas apenas em 1937 Hans Molisch denominou "alelopatia" como interações planta-planta. O
termo alelopatia é formado pela junção das palavras latinas allelon (recíproco) e pathos (influência).
Atualmente é definido como qualquer efeito direto ou indireto de compostos químicos de plantas em
outra planta ou microrganismo. Segundo a definição da Sociedade Internacional de Alelopatia, o termo
diz respeito a qualquer processo que envolva metabólitos secundários, ou até primários, produzidos pelas

128
plantas e microrganismos, influenciando o crescimento e o desenvolvimento de sistemas agrícolas e
biológicos.
A alelopatia é reconhecida como um importante mecanismo ecológico, que influencia a
dominância e a sucessão das plantas, formação de comunidades, vegetação clímax, manejo e
produtividade de culturas. As substâncias que apresentam atividade alelopática, ou os “aleloquímicos”,
podem estar presentes em diversos órgãos das plantas, como folhas, caules, raízes, flores e frutos. As
plantas podem liberar esses compostos no ambiente de diversas maneiras: pela decomposição de matéria
vegetal, como lixiviados no solo, volatilização das substâncias ou liberação dos exsudatos radiculares.
Alguns trabalhos demonstram a importância da microbiota do solo em alterar a atividade dos
aleloquímicos. Indicativos visuais de atividade alelopática em uma área são raros ao redor de plantas sem
nascimento de plântulas da mesma ou de outras espécies, regeneração natural inadequada de áreas
degradadas, agrupamentos de plantas da mesma espécie, entre outros.
O processo de alelopatia vem sendo observado tanto em ambientes naturais como em áreas
cultivadas, causando inúmeras implicações, tanto ecológicas como econômicas, tais como o declínio de
produções agrícolas e problemas na regeneração de áreas naturais. Assim, a vegetação de uma
determinada área pode ser um modelo de sucessão condicionado às plantas pré-existentes e às substâncias
que possam liberar no ambiente.
A germinação e o desenvolvimento das plantas podem ser afetados quando expostos aos
aleloquímicos. Na maioria das vezes, há retardo ou inibição da germinação e redução do crescimento
inicial de coleóptilos e plântulas. Microscopicamente, os aleloquímicos podem agir diretamente na
inibição dos componentes do fotossistema II, interrupção da respiração e da síntese de ATP, na indução
da formação de espécies reativas ao oxigênio (ROS) e, consequentemente, morte celular e em outras
modificações no metabolismo das plantas vizinhas, incluindo atividade enzimática, relações hídricas,
níveis de hormônio, disponibilidade de minerais, divisão e elongação celular, estrutura e permeabilidade
de membranas e paredes celulares.
Nos sistemas agrícolas, a alelopatia pode ocorrer entre culturas, entre culturas com resíduos (ou
palha) e entre as culturas com plantas infestantes (exóticas ou nativas), sendo, portanto, um evento de
importância econômica. A rotação de culturas é uma prática importante do ponto de vista da manutenção
dos nutrientes do solo, mas por outro lado, dependendo da cultura anterior, pode trazer sérios prejuízos. A
palha do sorgo, por exemplo, libera a benzoquinona sorgoleona (Fig. 3) no solo que irá afetar a
germinação e o crescimento das próximas culturas. Por outro lado, alguns pesquisadores têm tentado
modificar culturas para que apresentem maior quantidade de aleloquímicos e deste modo ser mais
resistentes contra suas competidoras.

129
Figura 3: Estrutura química da benzoquinona sorgoleona.

Atividade alelopática em si é muito difícil de ser provada, pois necessita de muitas análises,
inclusive em campo. A maioria dos trabalhos trata na verdade de atividade fitotóxica de extratos e
compostos vegetais. Essas são etapas importantes para se demonstrar alelopatia, mas outras análises
devem estar envolvidas. Um estudo completo em alelopatia deveria conter um componente ecológico
(uma demonstração de que ela ocorre em campo), um componente químico (isolamento, identificação e
caracterização dos aleloquímicos) e um componente fisiológico (identificação de interferências relevantes
como mecanismos bioquímicos, celulares ou moleculares). Leslie Weston, Manuel Reigosa e Inderjit são
exemplos de autores que vêm tentando aprofundar os estudos de alelopatia. Na figura 4 estão
representadas as estruturas químicas de algumas substâncias descritas na literatura como fitotóxicas.

Figura 4: Exemplos de substâncias descritas como fitotóxicas: 1. carotenoide luteína; 2. lactona


sesquiterpênica grosheimina; 3. flavonoide amentoflavona.

Plantas invasoras e a hipótese das “armas novas”


As invasões de espécies exógenas são a segunda maior causa de perda de biodiversidade
mundial, perdendo apenas para o desmatamento e a fragmentação dos habitats. Invasões de espécies
exóticas ocorrem quando os organismos são transportados para ambientes muitas vezes distantes, onde
seus descendentes proliferam-se, espalham-se e persistem. As invasões biológicas estão alterando as
comunidades naturais e áreas de plantio do mundo em taxas sem precedentes. Se estratégias eficazes para
reduzir os impactos mais prejudiciais dos invasores não forem implementadas, haverá o risco de

130
empobrecer e homogeneizar os ecossistemas que sustentam agricultura, silvicultura, pesca e outros
recursos que fornecem serviços naturais insubstituíveis.
É preciso entender por que algumas espécies exóticas se estabelecem de forma tão agressiva que
afetam as comunidades nativas (e os sistemas agronômicos), enquanto que outras não. De modo geral, as
plantas invasoras são mais competitivas que as demais espécies, pois são melhores colonizadoras, se
reproduzem mais rapidamente, sobrevivem em condições mais adversas e ainda têm maior área específica
foliar, taxas de crescimento e conteúdo de nitrogênio nas folhas em relação às nativas. Aumentos
consideráveis na distribuição e na abundância de plantas invasoras podem ocorrer devido à falta de
regulação por predadores naturais, patógenos e competidores, situação presente em ambientes degradados
e em monoculturas como as de soja, cana, arroz, etc. Após se estabelecerem no ambiente, as plantas
invasoras exóticas podem alterar as propriedades do solo, por ter potencial para alterar as taxas de
decomposição e a ciclagem de nutrientes, de modo que as nativas não mais possam se estabelecer. Além
disso, a hipótese das novas armas tem sido proposta. Ela prediz que as plantas invasoras podem ter
vantagem no domínio do ambiente, pois possuem metabólitos secundários que são novos para a
comunidade invadida e agem como aleloquímicos.
Aleloquímicos têm sido descritos como “armas novas” de espécies invasoras exóticas para se
estabelecerem rapidamente em um ambiente. Além da ação direta da alelopatia, o poder competitivo de
plantas que liberam substâncias alelopáticas pode ser ainda maior quando também competem por recursos
no ambiente. As plantas invasoras podem alterar propriedades físicas e químicas do solo através de seus
aleloquímicos e, assim, aumentar o potencial de retenção de nutrientes. Esse tipo de ação é classificado
como alelopatia indireta.
A identificação dos aleloquímicos de plantas exóticas invasoras é o primeiro passo para entender
se a alelopatia pode ser um dos modos de seu estabelecimento no ambiente. Após a identificação destas
substâncias, elas poderão ser utilizadas em estudos de campo como avaliação de sua concentração no
solo, sua interação com outras substâncias e microrganismos, entre outros.
A (-)-catequina (Fig. 5), por exemplo, tem sido indicada como a arma química de Centauria
maculosa (Asteraceae), nativa da Eurásia, para se estabelecer como planta invasora em ambientes da
América do Norte. A hipótese das “novas armas” prediz que o sucesso de plantas invasivas exóticas pode
ser devido à produção de aleloquímicos que as espécies nativas nunca encontraram e para as quais ainda
não desenvolveram defesas.

Figura 5: Estrutura química do flavonoide (-)-catequina.

131
Herbicidas de origem natural
O manejo de plantas infestantes (ou “plantas daninhas”) tem sido um problema desde o começo
da agricultura. De modo geral, as plantas infestantes possuem maior área específica foliar e são mais
competitivas que as demais espécies, pois são melhores colonizadoras, se reproduzem mais rapidamente e
sobrevivem em condições mais adversas.
Uma vez evidenciada a ação alelopática, pode-se fazer uso destes compostos no combate às
plantas invasoras de muitas culturas agrícolas. Vários esforços estão sendo realizados na tentativa de
diminuir o uso de herbicidas comerciais com o manejo das invasoras, utilizando sistemas adequados de
semeadura entre espécies e entre safras, adubação verde, além de sistemas agroecológicos. Outro tipo de
pesquisa que pode ser realizada é a procura e o desenvolvimento de herbicidas de origem natural, através
do isolamento, identificação e síntese de aleloquímicos. Muitos autores discutem que a química
combinatória moderna não conseguiu, pelo menos em parte, ser a fonte primária da descoberta de novas
substâncias de interesse biológico e fez necessário que os cientistas voltassem-se aos produtos naturais,
combinados infinitamente pela evolução durante milhões de anos.
Convencionalmente, diversos tipos de herbicidas sintéticos são utilizados para o controle das
espécies infestantes. Os herbicidas sintéticos são altamente eficazes em pequenas doses, apresentam boa
seletividade para culturas e são relativamente baratos para a fabricação. Em 2008, o Brasil passou a ser o
maior consumidor de agrotóxicos do mundo e responder pelo uso de 84% destes produtos em toda a
América Latina. O uso indiscriminado e muitas vezes equivocado destes compostos contra plantas
infestantes tem intoxicado as populações humanas e contaminado as comunidades biológicas.
Em adição, as plantas infestantes desenvolveram sistemas de resistência aos herbicidas sintéticos
convencionais. Algumas destas resistências têm justamente origem no uso indevido destes compostos.
Assim, a busca por herbicidas naturais, que sejam biodegradáveis e não produzam as contaminações
provocadas pelos herbicidas sintéticos, é de fundamental importância. Além disso, o consumo de
produtos oriundos da chamada agricultura orgânica, que não permite o uso de herbicidas sintéticos, tem
crescido mundialmente.
Os efeitos alelopáticos de muitas espécies têm sido estudados para o controle de plantas
infestantes de culturas agrícolas. Nestes casos, os aleloquímicos que forem identificados podem ser
usados como um recurso ao desenvolvimento de novos herbicidas naturais. Ácido acético, eugenol, ácido
oleico, ácido pelargônico, triquetonas, cimetilina, bialafos, glufosinato, sorgoleona, arteter e helianonole,
por exemplo, são aleloquímicos já identificados com potencialidades de herbicidas. As vantagens de
herbicidas de origem aleloquímica estão em serem solúveis em água, ausência de moléculas halogenadas,
rotas alternativas de ação, interações mais específicas com as plantas-alvo, atividade em menores
concentrações e menor dano ambiental do que os herbicidas convencionais. Os aleloquímicos podem agir
no desenvolvimento das espécies receptoras através da interferência nos processos de respiração,
fotossíntese, atividade enzimática, relações hídricas, abertura dos estômatos, níveis de fitormônio,
disponibilidade de mineral, e ainda, na divisão e alongamento celular, na estrutura e na permeabilidade de
membranas e paredes das células.

132
Plantas parasitas
Plantas parasitas são aquelas que penetram no tecido vivo de outra planta, denominada
hospedeira, e dela retiram os recursos necessários para a sua manutenção. Esses nutrientes são retirados
da planta hospedeira através de uma estrutura especializada conhecida como haustório. A presença do
haustório é a característica que define as plantas parasitas, pois há certas plantas que também se
desenvolvem em outras, mas que não são parasitas. Por exemplo, epífitas, lianas e trepadeiras também são
encontradas vivendo sobre outras plantas, mas não retiram nenhum nutriente delas, apenas as utilizam
como suporte para obter melhores condições luminosas e/ou para se manterem eretas (Ver capítulo 20).
O termo haustório foi introduzido em 1813 por A. P. de Candolle ao descrever a ponte anatômica
existente entre uma espécie do gênero Cuscuta (Convolvulaceae) e a sua respectiva hospedeira. Ela é uma
palavra formada a partir da contração de duas outras de origem latina (haustor = beber e orium =
dispositivo usado para), sendo assim, o haustório pode ser considerado como uma estrutura que age como
uma ponte fisiológica usada para transferir água e nutrientes da planta hospedeira para a planta parasita.
Essa estrutura possibilita um contato íntimo entre as duas plantas e vários compostos podem ser
transferidos, tais como, água, nutrientes orgânicos e inorgânicos, hormônios, toxinas e inclusive material
genético.
Todas as plantas parasitas são Angiospermas, mais especificamente no grupo das
eudicotiledôneas. Apenas 1% de todas as angiospermas é parasita, esse 1% corresponde a
aproximadamente 4500 espécies, distribuídas em torno de 270 gêneros e 20 famílias, de acordo com a
nova classificação proposta no APG III. Dessas, 90% são hemiparasitas e as demais holoparasitas. No que
diz respeito ao órgão em que ela parasita, um pouco mais que a metade (60%) é parasita de raiz e o
restante (40%), parasita aérea.
As plantas parasitas podem parasitar qualquer planta que apresente sementes, ou seja, qualquer
espermatófita pode ser uma hospedeira em potencial. Apesar dessa enorme variedade de possíveis
hospedeiras, vale ressaltar que geralmente elas preferem plantas que tenham grande quantidade de
nitrogênio, acesso fácil ao sistema vascular e uma baixa defesa. Elas podem ser especialistas ou
generalistas. As especialistas são aquelas que parasitam um número restrito de plantas. As generalistas,
por sua vez, podem parasitar uma ampla variedade de hospedeiras como é o caso das plantas parasitas
pertencentes ao gênero Cuscuta que podem parasitar centenas de outras plantas de diferentes famílias.
Vale ressaltar que, apesar de certas parasitas serem capazes de parasitar um grande número de
hospedeiras, elas têm o seu ótimo de crescimento apenas em determinadas plantas.
Dos 270 gêneros de plantas parasitas, apenas aproximadamente 25 apresentam alguma
importância econômica, porém esses poucos gêneros já são responsáveis por causar sérios problemas na
agricultora em várias partes do planeta. Os principais gêneros que causam prejuízos na agricultura são
Cuscuta, Orobanche e Striga, mas se for considerar a indústria madeireira deve-se incluir o
Arceuthobium. Os prejuízos na agricultura podem ser devastadores em certas regiões do planeta. Na
África, por exemplo, plantações de cereais podem ser totalmente perdidas devido a infestações por
plantas parasitas e estima-se que as perdas no rendimento das regiões de savana representem um prejuízo

133
de 7 bilhões de dólares por ano. Na tabela 1 estão descritos alguns dos principais gêneros de importância
econômica, bem como suas principais hospedeiras e sua distribuição.

Tabela 1: Principais gêneros de plantas parasitas de importância econômica.


Alguns
Família Gênero Algumas hospedeiras Distribuição
representantes
O. aegyptiaca Alface, girassol, fava,
O. cernua lentilha, ervilha, tomate, Distribuição
Orobanche O. crenata tabaco, batata, repolho, mundial
O. cumana melão, cenoura, aipo,
O. ramosa couve-flor

S. asiatica Milho, sorgo, milheto, África, Ásia,


Orobanchaceae Striga
S. hermonthica arroz, cana-de-açúcar Austrália e EUA

Leguminosas (feijão,
A. picta
grão-de-bico,
Alectra A. orobanchoides África
amendoim), tabaco,
A. vogelii
girassol

C. australis
Alfafa, plantas cítricas,
C. campestris
café, pêssego, lichia,
C. chinensis Distribuição
Convolvulaceae Cuscuta soja, cenoura, batata,
C. gronovii, mundial
tomate, berinjela,
C. pedicellata
cranberry
C. reflexa

C. ciliolata Árvores, tais como,


Lauraceae Cassytha C. filiformis eucaliptos e plantas Pantropical
C. melantha cítricas

Pinheiros, árvores
frutíferas (macieira, Europa, África,
Loranthaceae Viscum V. album
pereira) e árvores Ásia e Austrália
diversas

Europa, África,
A. americanum Representantes das
Ásia, América do
A. douglasii famílias Pinaceae e
Arceuthobium Norte e América
A. pini Cupressaceae
Central
Santalaceae
Árvores fornecedoras de
P. pauciflorum
madeira de lei, coníferas, América do Norte,
P. piperoides
Phoradendron plantas cítricas, cacau, América Central e
P. serotinum
pereira e árvores América do Sul
P. tomentosum
diversas.

134
Diferentes medidas de controle de plantas parasitas têm sido desenvolvidas, elas podem ser
mecânicas, químicas e biológicas. Remoção da planta parasita, poda seletiva dos ramos parasitados,
cultura-armadilha (usar plantas que não sejam hospedeiras compatíveis, mas que estimulem a germinação
das sementes das plantas parasitas – germinação suicida), desenvolvimento de variedades de hospedeiras
resistentes, uso de estimulantes de germinação (a ideia desse princípio consiste em liberar estimulantes de
germinação para induzir a germinação suicida das plantas parasitas), uso de herbicidas e controle
biológico (utilizando, por exemplo, fungos e insetos) são alguns exemplos de mecanismos de controle de
plantas parasitas.
E quanto às plantas hospedeiras? Elas apresentam mecanismos de resistência frente às plantas
parasitas?
Os mecanismos de resistência de plantas hospedeiras contra plantas parasitas podem ser
divididos em mecanismos de resistência pré-penetração, pré-haustorial e pós-haustorial.

Mecanismos de resistência pré-penetração


Os mecanismos de resistência pré-penetração são aqueles que acontecem antes da planta parasita
ter algum tipo de contato com a planta hospedeira. A redução na produção de estimulantes de geminação
e a secreção de substâncias inibidoras de germinação e/ou de fitoalexinas pela planta hospedeira são
exemplos de mecanismos de resistência pré-penetração.
Normalmente, as substâncias estimulantes de germinação são produzidas pelas hospedeiras para
aumentar a associação de suas raízes com fungos micorrízicos arbusculares. De maneira indireta, servem
como sinais para que as sementes das plantas parasitas de raiz germinem. Essas substâncias são liberadas
pelas raízes de plantas que podem ou não ser hospedeiras em potencial. Tais compostos garantem que
apenas as sementes das plantas parasitas situadas dentro da rizosfera da possível hospedeira germinem.
Geralmente essas sementes apresentam pequenas quantidades de reserva nutricional, dessa maneira, elas
precisam estar muito perto de suas hospedeiras para germinar, caso contrário, elas não sobreviverão.
Até o momento foram identificados três grupos diferentes de estimulantes de germinação: as
dihidroquinonas, as lactonas sesquiterpênicas e as estrigolactonas, sendo que o último tipo é descrito
como o mais potente. As estrigolactonas são metabólitos secundários pertencentes ao grupo dos terpenos.
Algumas estrigolactonas já identificadas são o estrigol, orobancol, sorgolactona (Fig. 6a-c) e alectrol.

Figura 6: Estimulantes de germinação – estrigolactonas: a) estrigol; b) orobancol; c) sorgolactona.

135
Mecanismos de resistência pré-haustorial
Os mecanismos de resistência pré-haustorial são aqueles que impedem que haja a conexão da
planta parasita ao sistema vascular da planta hospedeira, pois uma vez que a parasita tenha feito contato
com a sua hospedeira e o haustório tenha começado a se formar, a penetração pode ocorrer. Em estudos
realizados com espécies de Orobanche foi constatado que a penetração da parasita pode ser interrompida
em três momentos diferentes: no córtex, na endoderme e dentro do cilindro central. A interrupção da
penetração da planta parasita no córtex está associada a um reforço da parede celular da hospedeira por
proteínas de ligação cruzada (cross-linking), deposição de calose, suberização e acúmulo de substâncias
fenólicas no apoplasto no ponto de infecção. Nos casos em que a interrupção ocorre na endoderme há
lignificação da parede celular endodermal e do periciclo e quando a penetração é impedida dentro do
cilindro central ela está associada ao acúmulo de substâncias fenólicas que cria um ambiente tóxico.
Essas respostas defensivas (lignificação, suberização e produção de substâncias fenólicas) são
bem conhecidas contra diferentes tipos de estresses abióticos e bióticos e é uma resposta defensiva a
outros gêneros de plantas parasitas, além do Orobanche.

Mecanismos de resistência pós-haustorial


Os mecanismos de resistência pós-haustorial são aqueles que ocorrem após a planta parasita
estabelecer uma conexão com o sistema vascular da planta hospedeira. Espécies pertencentes ao gênero
Orobanche formam um tipo de ligação com o sistema vascular da hospedeira que é conhecido como
tubérculo e é através desta estrutura que a parasita obtém água e nutrientes de sua hospedeira. Foi relatado
que em algumas plantas houve necrose e morte dessa estrutura e esses eventos podem estar associados à
presença de gel ou de substâncias parecidas com gomas dentro dos vasos do xilema da hospedeira. Outra
resposta defensiva é a produção de substâncias fenólicas tóxicas que chegam à parasita através do sistema
vascular.
Nos últimos anos houve um aumento no conhecimento a respeito dos mecanismos de resistência
das plantas hospedeiras contra as plantas parasitas, no entanto, pouco se sabe sobre o processo de
sinalização envolvido na defesa dessas plantas. Vale ressaltar que a maior parte dos estudos sobre os
mecanismos de defesa se refere a plantas parasitas de raiz, pois os principais gêneros de importância
econômica, Orobanche e Striga, pertencem a esse grupo.

136
PARTE IV

ESTRUTURA E DESENVOLVIMENTO

137
CAPÍTULO 13

Introdução à sinalização hormonal


Rafael Zuccarelli
Ricardo Ernesto Bianchetti
Paulo Tamaso Mioto

Introdução
Ao longo da evolução das plantas, condicionado pelo seu padrão séssil, a sensibilidade na
percepção das alterações ambientais, assim como o ajustamento do metabolismo aos sinais, se tornaram
pontos cruciais que possibilitam a sobrevivência das diversas espécies vegetais. Neste cenário, as plantas
desenvolveram mecanismos sofisticados que permitem sensibilidade às variações exógenas, sendo que os
hormônios se destacam como pontos chave nesse processo, permitindo a interface entre o meio externo e
o meio interno celular.
Os hormônios agem como mensageiros intermediários entre os sinais primários (não apenas
ambientais, mas também o próprio controle endógeno no crescimento e desenvolvimento) e as respostas
fisiológicas vegetais. Eles podem ter como alvo a própria célula em que são produzidos ou podem ser
transportados, possibilitando sua ação em células e tecidos distintos.
A ação dos hormônios depende de uma série de etapas: biossíntese, transporte, percepção,
transdução de sinal e efeitos a jusante. Todas essas etapas são estritamente reguladas para que a
sobrevivência da planta seja possível. Devido à quantidade de interações existentes, esse pode ser um
quadro complexo. Nesse capítulo, abordaremos cada passo separadamente, trazendo alguns exemplos
para ilustrar a importância de cada um deles para o metabolismo da planta. Mesmo assim, é importante
lembrar que essa divisão é meramente didática, uma vez que todas essas etapas estão intimamente ligadas.

Biossíntese e metabolismo
A atividade biológica promovida por fitormônios depende do controle preciso da concentração
disponível da molécula ativa no ambiente celular. O primeiro passo desse evento é a biossíntese das
substâncias com função sinalizadora. Existe uma ampla e diversificada gama moléculas que podem ser
precursoras dos hormônios, como aminoácidos, purinas, terpenos, dentre outras. Por esse motivo, a
produção de hormônios compartilha, ao menos em parte, vias bioquímicas relacionadas com a produção
de compostos com outras funções fisiológicas.
As citocininas foram inicialmente descritas como promotoras da divisão celular, no entanto, hoje
se sabe que elas estão relacionadas com diversas respostas durante o desenvolvimento, como:
diferenciação de plastídios, mobilização de nutrientes e inibição da senescência. Diversas moléculas são
indicadas com potencial atividade citocinínica e muitos compostos sintéticos têm sido estudados. As
moléculas de ocorrência natural são em sua maioria derivadas da nucleobase adenina, sendo a zeatina e a

138
N6- (Δ2-isopentenil) adenina (Fig. 1) as mais estudadas. Uma grande parte dessas moléculas apresenta
uma potencial ação citocinínica, porém a função específica de cada uma desses diferentes compostos
ainda permanece obscura, sobretudo devido à variação dessas formas químicas entre as espécies vegetais.
Mais ainda, as maiorias desses compostos são na verdade parte do metabolismo normal de purinas,
encontrado em quaisquer células eucarióticas.
Tão importante quanto sua produção de novo ou a partir da reciclagem do anel de adenina,
mecanismos eficientes na remoção ou inativação permitem que a informação carregada por tais
biomoléculas atue em momentos específicos, perdendo sua ação em etapas subsequentes do
desenvolvimento. Uma consequência relevante da bioquímica de inativação ou conjugação é a
possibilidade de armazenamento ou transporte de formas inativas do hormônio e sua posterior ativação,
transmitindo o sinal de uma parte distante da planta a outra, atuando em um tecido alvo específico sem
interferência nas demais partes do organismo. Também é comum a degradação de um hormônio após sua
conjugação.

Figura 1: Estrutura química da zeatina e da N6- (Δ2- isopentenil) adenina. A zeatina pode estar presente na
sua forma cis (inativa), trans (ativa) ou glicosilada (inativa). A flecha indica o nitrogênio da posição N6 na
molécula.

Várias modificações químicas distintas podem ocorrer na molécula da zeatina, alterando sua
atividade. Dado à similaridade química com nucleobases, boa parte da maquinaria enzimática capaz de
modificar as citocininas é compartilhada com estas. A modificação da atividade de um hormônio em
grande parte está relacionada com a mudança da capacidade de ligação química com seus receptores
específicos.
A zeatina pode ser inativada pela ação de oxidases que retiram a cadeia lateral N6, responsável
por sua atividade. Por outro lado, sua conjugação com um carboidrato, também conhecida como
glicosilação (Fig. 1), além de inativar a citocinina, impede a ação das oxidases, permitindo o
armazenamento e posterior retorno da forma ativa da citocinina por meio da atividade de beta-
glicosidades. Esse tipo de evento é bastante comum como mecanismo de inativação hormonal, onde a
porção ativa da molécula se liga a outra substância, impedindo a ligação com receptores hormonais ou
mesmo marcando a molécula para posterior degradação.
139
Transporte
Uma das principais características de um hormônio vegetal é a capacidade deste ser transportado
após sua biossíntese, possibilitando sua atividade tanto na célula alvo, quanto em células distantes de
onde ocorreu a produção inicial. O transporte de substâncias com atividade biológica em plantas opera em
diferentes escalas, num curto espaço célula a célula, ou por longas distâncias, entre diferentes tecidos e
órgãos como raízes e folhas. Essas diferentes distâncias podem ser percorridas de forma passiva,
dissolvidas na seiva dos vasos condutores ou por meio da simples difusão.
O transporte por difusão pode ocorrer por meio de três vias distintas. A Primeira é possível em
moléculas capazes de atravessar livremente a membrana plasmática, como no caso do etileno, hormônio
de natureza gasosa. Nesse caso, a difusão ocorre de maneira livre, sem mecanismos de controle de
transporte. A segunda ocorre no contínuo existente entre as paredes celulares, o apoplasto, carregando
moléculas por médias distâncias (ao longo de tecidos) no espaço externo ao citosol. Essa é capaz de
transportar hormônios como o ácido abscísico, e alguns trabalhos sugerem que este hormônio pode ser
liberado para o solo pelas raízes, funcionando como um mecanismo de percepção de déficit hídrico, uma
vez que, o espaço apoplasmático possui uma íntima ligação com o ambiente externo, as raízes. Por fim,
existe a comunicação célula a célula por meio de plasmodesmas. Essa última via comunica o citoplasma
de diferentes células permitindo o livre fluxo de substâncias. Além da simples difusão, existe ainda o
transporte de substâncias por longas distâncias, a altas velocidades, dissolvidas na seiva transportada no
interior de vasos condutores.
Um importante mecanismo de transporte de hormônios é a atividade de proteínas integrais de
membrana, capazes de transportar moléculas de forma ativa e polarizada, como já foi extensivamente
estudada no caso das auxinas, uma das principais classes hormonais existentes. Ao contrário da difusão
ou transporte promovido pelos vasos condutores, o transporte polar, conduzido célula a célula controla
precisamente a concentração do hormônio num pequeno e específico grupo de células. Essa capacidade
permite enorme plasticidade no desenvolvimento, respondendo dinamicamente a estímulos ambientais
como nos tropismos.
O efluxo de auxinas é promovido por um grupo de proteínas conhecidas como PIN. Os
transportadores PIN são proteínas integrais de membrana que se encontram distribuídos de maneira
assimétrica, podendo estar mais concentradas numa das faces da célula. Diferentes tipos de proteínas PIN
(PIN1, PIN2, PIN3, PIN4, PIN5, PIN6 e PIN7) podem estar presentes em locais e contextos distintos.
Essa concentração de transportadores numa região específica direciona o fluxo de auxina para o espaço
extracelular, num sentido específico de uma ou poucas células adjacentes. A coerência de ordenamento
entre um grupo grande de células modula de forma orquestrada o fluxo polar de auxina. Essa organização
produz um gradiente de concentração intracelular do hormônio ao longo de diferentes estruturas, tecidos e
órgãos, determinando padrões de crescimento e desenvolvimento.
Devido à sua característica de ácido fraco, as auxinas tendem a permanecer presas no ambiente
intracelular, pois no pH do interior da célula a fração majoritária das moléculas encontra-se na forma

140
desprotonada, e portanto, com carga e incapaz de atravessar a membrana. Os transportadores PIN
bombeiam auxina para o espaço extracelular, diretamente próximo a célula adjacente. A auxina, quando
presente no espaço extracelular, mais ácido do que o citosol, tende a estar na forma protonada (sem carga)
e desse modo atravessa livremente a membrana plasmática da célula adjacente (Fig. 2). A entrada de
auxina nas células também é promovida por proteínas carregadoras de influxo como a AUX e LAX. Essas
proteínas são capazes de conduzir a auxina do espaço extracelular para o citosol e auxiliam na
coordenação da polarização do transporte de auxinas promovido pelas proteínas PIN.

PIN 1 PIN
PIN PIN
PIN AUX PIN
PIN 2 PIN
PIN PIN
AUX

AUX

AUX

AUX
PIN PIN
PIN PIN
PIN PIN
PIN AUX PIN
C PIN PIN
V

Figura 2: Transporte polar de auxinas. As proteínas PIN localizadas à direita das células bombeiam
auxina (representada pelos pontos escuros) para o espaço extracelular. Em sua forma desprotonada,
existente no espaço extracelular a auxina é capaz de atravessar livremente a membrana da célula
adjacente (marcado pela flecha 1). Existe ainda a participação de proteínas de influxo (AUX) capazes de
realizar a entrada de auxina na célula (marcado pela flecha 2). A organização da posição das proteínas
neste esquema é arbitraria e outras conformações são possíveis, resultando em padrões de fluxo, direção e
sentido diferentes.

Percepção
A síntese e o transporte dos hormônios são etapas limitantes para a promoção de respostas
relacionadas a estes sinais endógenos, o que culminará em alterações do perfil metabólico e demais
respostas fisiológicas das plantas. Porém além da presença do hormônio na célula alvo, existe um
segundo fator chave na cascata de sinalização: a sensibilidade da célula ao hormônio.
A sensibilidade é capacidade de responder a presença do hormônio. Está principalmente
relacionada à presença e abundância de receptores funcionais capazes de interagir com o hormônio
141
localizado na célula, de forma que somente a presença do hormônio é irrelevante se não houver nenhuma
molécula capaz de percebê-lo. Os receptores correspondem à etapa inicial da transdução de sinal e são os
responsáveis pelo gatilho que dará sequência a uma intrincada via de regulação, gerando, na maioria das
vezes, respostas em nível gênico.
Os receptores são proteínas (ou complexos proteicos) localizadas em diferentes compartimentos
celulares. Eles podem estar presentes na membrana plasmática (e.g. receptores histidina quinase de
citocininas) ou membrana do retículo endoplasmático (e.g. receptores ETR do etileno). A transcrição dos
genes que codificam para as proteínas com funções receptoras é regulada por diversos fatores, como a
concentração do próprio hormônio ou de outros hormônios (Feedback e crosstalk), sinais ambientais ou
mesmo sinais relacionados com uma variável temporal de um determinado estágio do desenvolvimento.
Em plantas, apesar das diferenças na cascata de sinalização de cada um dos hormônios, o modo
inicial em que o sinal é transmitido é semelhante na maioria deles. Os receptores, em geral, estão
presentes em sua forma inativa na célula e, por consequência, a cascata de sinalização não é
desencadeada. Após sua síntese e transporte, o hormônio se ligará ao receptor, desencadeando toda uma
cascata de resposta e regulando na expressão diferenciada de genes (aumento ou diminuição). Os
receptores que respondem por meio da ativação da cascata de sinalização são os mais comuns, como os
dos hormônios auxina, giberelina, citocinina e ácido abscísico.
Após a ativação do receptor, a cascata de sinalização vai variar conforme a classe hormonal. Um
dos receptores de auxinas, por exemplo, é na verdade, um complexo proteico. Após as auxinas
alcançarem a célula alvo, existe a ligação com um domínio, denominada TRANSPORT INHIBITOR
RESPONSE (TIR), pertencente a este complexo. A molécula de auxina é utilizada como uma ponte para
a ligação do TIR a um transdutor de resposta localizado no citosol. Desta forma, a presença de auxinas
iniciará a cascata de transdução de sinal (Fig. 3a). Outra classe hormonal que também tem em seu
receptor a função de ativar a cascata de sinalização gênica é das citocininas. Diferentemente das auxinas,
as citocininas promovem uma auto-fosforilação no receptor. Após este evento bioquímico, a cascata de
respostas relacionadas às citocininas será ativada (Fig. 3b).
Curiosamente, apesar de a maioria dos receptores serem ativados após estabelecerem uma
ligação com hormônio, os receptores de etileno existem constitutivamente na sua forma ativa, tendo papel
inibitório para toda a cascata de resposta relacionada a este hormônio. Após a ligação do etileno ao
receptor, ocorre sua inibição e a consequente ativação da cascata, resultando nas respostas gênicas ao
etileno (Fig. 3c). Portanto, é possível encontrar em plantas tanto receptores que atuam por meio de
mecanismos estimulatórios, quanto outros com ação inibitória.

142
Figura 3: Cascata de sinalização após ligação do hormônio com o receptor. Cascata representando
influência dos receptores na sinalização em nível gênico. a) Ligação da Auxina (AIA) ao receptor
TRANSPORT INHIBITOR RESPONSE (TIR) ativará a cascata, onde auxina fará a interação física entre
TIR e o transdutor de resposta. Essa interação fará com que o transdutor de resposta seja degradado,
estimulando a transcrição de genes relacionados à auxina; b) A citocinina (CK) se ligará ao receptor,
estimulando a transferência de um grupo fosforildo domínio Histidina Kinase (HK) para o domínio
receptor (DR). A fosforilação (P) do DR será intermediária para fosforilaro transdutor de resposta,
fazendo com que haja a regulação da expressão de genes relacionados às citocininas; c) À esquerda,
receptor de etileno na forma ativa, inibindo respostas gênicas. À direita, a ligação deste hormônio ao
receptor irá inibir sua ação, estimulando às respostas relacionadas ao etileno. Linhas terminadas em setas
indicam relações estimulatórias e linhas terminadas em barras indicam relações inibitórias.

143
Transdutores de respostas
A ligação do hormônio com o receptor resulta na regulação de proteínas intermediárias na
cascata de sinalização. Estas proteínas são chamadas de transdutoras de resposta. Os transdutores existem
na cascata de regulação gênica de todas as classes hormonais. Podem ser divididos em dois grupos: as
proteínas que irão estimular a cascata de sinalização hormonal e culminar em respostas fisiológicas, ou as
proteínas que farão a repressão desse processo. A sinalização desencadeada por hormônios poderá agir
por duas formas: inibindo os transdutores de resposta com ação inibitória (por consequência, ativando
respostas) ou de forma direta estimulando diretamente os transdutores que desencadearão as respostas em
nível gênico. Além disso, uma resposta muito comum de um dado hormônio é a inibição de sua própria
percepção (feedback negativo). Essa é uma resposta regulatória necessária, visto que o sinal precisa
retornar a um nível inicial para que ele seja percebido novamente num momento posterior.
Os transdutores de resposta, são altamente regulados em nível celular mesmo na ausência do
hormônio, após a ligação deste ao receptor, os transdutores passam por uma série de modulações, a fim de
transcrever novos genes. Os principais modos de regulação dos transdutores de resposta são a
fosforilação/desfosforilação ou a marcação de alvos para a degradação.
A fosforilação das proteínas é desencadeada por proteínas quinases. As proteínas quinase têm a
função enzimática de acrescentar um fosfato, proveniente de moléculas portadoras de alta energia, para o
substrato alvo, causando sua fosforilação (Fig. 4a). A fosforilação pode causar mudanças conformacionais
de modo a desativar ou ativar a proteína, estimulando ou reprimindo respostas moleculares nas células
(Fig. 4a). Por outro lado, também existem as proteínas fosfatases, que detêm função com ação inversa às
proteínas quinases, realizando a desfosforilação de determinado substrato.
A fosforilação é uma das mais importantes formas de regulação celular em eucariotos,
aparecendo com função primordial para várias classes de hormônios. Conforme mencionado
anteriormente, as citocininas ativam a cascata celular ao fazer a ligação com um receptor que tem
propriedades histidina quinase (Fig. 4b). Após a fosforilação do receptor, ocorre a transferência de um
grupamento fosfato para um transdutor de resposta, denominado ARABIDOPSIS THALIANA
RESPONSE FACTOR (ARR). A fosforilação ativa essas moléculas e, uma vez ativas, elas podem
estimular a transcrição de genes de respostas relacionadas às citocininas ou fazer alterações em nível
celular (sem expressão gênica). A família proteica ARR é dividida em dois grupos: ARR-tipoB, que após
ser fosforilada desencadeará respostas relacionadas às citocininas e as ARR-tipo A, que além de agirem
estimulando outras respostas relacionadas às citocininas, também farão o controle da sinalização deste
hormônio inibindo as ARR-tipo B. Essas proteínas funcionam, portanto, tanto como reguladores positivos
de resposta quanto como reguladores negativos que farão o retorno ao estado basal do sinal (“reset”).
Outra classe hormonal que detém especial destaque quanto à fosforilação durante a via de
sinalização é o ABA. Após sua ligação com o receptor, será iniciada a uma cascata de resposta
dependente de fosforilação e desfosforilação de proteínas, até chegar às respostas em nível gênico. A rota
de transdução de sinal de ABA é reprimida constitutivamente por uma proteína fosfatase, que reprime
uma proteína quinase. Ao se ligar ao receptor, ABA fará a inibição da proteína fosfatase, ativando a

144
proteína quinase. A proteína quinase, por sua vez, fará a fosforilação de elementos de resposta ao ABA,
resultando em alterações de expressão gênica.
Além da fosforilação/desfosforilação de proteínas, uma segunda via pode existir, onde a ligação
de determinado hormônio ao seu receptor irá degradar transdutores de respostas que possuem ação
inibitória.
Os inibidores de respostas relacionados aos hormônios agem de forma constitutiva, inibindo os
transdutores de respostas positivos. Por este motivo, a ligação do hormônio ao receptor será importante
por estimular a cascata de transdução de resposta em uma forma indireta, isto é, inibindo a ação de
proteínas que causam efeito negativo na própria cascata. A principal forma de inibição dessas proteínas é
a proteólise. Nesses casos a proteína-alvo será marcada para degradação, mediante a percepção do
hormônio, permitindo assim que a cascata de transdução de resposta aconteça. A marcação para a
proteólise é desencadeada quando o alvo é marcado por ubiquitina (Fig. 4b). A ubiquitina é uma proteína
de pequeno porte e consiste em uma das principais formas de regulação em nível celular. O alvo marcado
por ubiquitina é reconhecido pela própria maquinaria celular e degradado via proteossomo 26S. O
proteossomo 26S consiste em um complexo proteico que reconhece e degrada qualquer substrato marcado
por ubiquitinação (Fig. 4b). A clivagem desses alvos será realizada reduzindo-os à forma de
oligopeptideos, e posterior reciclagem da ubiquitina. Dessa forma, a degradação de fatores que regulam
negativamente as vias de sinalização hormonal permite que outros transdutores de respostas existentes nas
rotas estejam livres para estimular às respostas relacionadas a determinado hormônio.
As auxinas constituem um exemplo de hormônios que farão a degradação de proteínas
repressoras através da marcação por ubiquitina e degradação via proteossomo 26S. Existem proteínas
denominadas AUX/IAA que faz a repressão de outros transdutores de respostas denominados AUXIN
RESPONSE FACTOR (ARF). Os ARFs são fatores de resposta que promovem a transcrição de genes
relacionados às auxinas, porém são inibidos pela interação física com AUX/AIA, formando dímeros.
Após se ligarem aos receptores, as auxinas atuam como ponte entre o TIR e o AUX/AIA, permitindo que
esses fatores sejam marcados por ubiquitinação e posteriormente degradados via proteossomo 26S (Fig.
4a). Após ocorrer degradação, os ARFs poderão, em forma de homodímeros ou heterodímeros (ARF é
uma família multigênica), realizar a transcrição de novos genes que estarão associados com a presença do
hormônio auxina.
Um segundo exemplo de como os hormônios atuam na degradação de transdutores de respostas
consiste na via de sinalização das giberelinas. As respostas relacionadas à transcrição de genes
relacionados às giberelinas são inibidas através das proteínas DELLA. As DELLA agem reprimindo
motivos em promotores, através de uma interação física, inibindo a transcrição desses genes. Após serem
desencadeadas as respostas relacionadas às giberelinas, toda a cascata culmina na marcação via ubiquitina
das proteínas DELLA, fazendo com que estas proteínas sejam degradadas via proteossomo 26S.

145
Figura 4: Esquema das vias de sinalização hormonal desencadeado por (a) fosforilação/desfosforilação de
transdutores de resposta e (b) Proteólise de proteína reguladora que reprime a rota de transdução. Em (a),
a ligação do hormônio pode estimular proteínas quinases a fosforilar determinado transdutor de resposta
(1), que poderá estimular a expressão gênica específica ao sinal hormonal (2), a fosforilação de outros
transdutores de resposta (3) ou também poderá fazer a repressão gênica (4). A sinalização demonstrada
em A também pode ocorrer com a desfosforilação de transdutores de resposta. Em B, uma proteína
reguladora detém função inibitória na cascata de sinalização, fazendo a inibição da expressão gênica (1).
Ao se ligar ao receptor, o hormônio poderá interagir com essas proteínas regulatórias (2), fazendo a
marcação com ubiquitina (3). Proteínas que sofrem ubiquitinação são marcadas para a degradação via
proteossomo 26S (4). Havendo a degradação dessas proteínas, a cascata de sinalização não estará mais
inibida, o que resultará na expressão de genes relacionados ao hormônio (5). Setas abertas indicam
interação estimulatória e barras indicam interação inibitória.

Efeitos downstream
A transdução de sinal geralmente termina na regulação de um ou mais genes. Esses genes
representam mais uma etapa na qual a regulação é possível, além de também servirem como
amplificadores de sinal. A regulação dos genes é possível graças aos promotores e os fatores de
transcrição. Um fator de transcrição é uma proteína capaz de interagir com a dupla fita de DNA e regular
a transcrição de diversos genes. Os fatores de transcrição se ligam a uma região do gene específica,
conhecida como promotor. Os promotores possuem uma função puramente regulatória, nunca sendo
transcritos ou traduzidos em proteínas. A figura 5 mostra um esquema simplificado de um gene,
mostrando a região promotora e a região codificante. É importante ressaltar que um determinado
promotor pode ser compatível com diversos fatores de transcrição diferentes, dependendo dos motivos
146
contidos nele. Um motivo é uma pequena sequência de nucleotídeos que é reconhecida pelos fatores de
transcrição, permitindo que eles se liguem nessa porção específica do DNA. A ligação do fator de
transcrição no DNA é importante para regular a formação de um complexo de proteínas que promoverá a
transcrição gênica. É importante lembrar que um fator de transcrição pode tanto promover a formação do
complexo de transcrição quanto inibi-lo. Dessa forma, um mesmo motivo contido em promotores
diferentes garantiria sensibilidade a um mesmo fator de transcrição.

Figura 5: Estrutura geral de um gene. A região promotora pode conter vários sítios de ligação para
diferentes fatores de transcrição, além de uma sequência específica que marca o início da região
codificante (que será transcrita) do gene. O gene começa a ser transcrito em um códon que codifica para
uma metionina (Met) e termina em um códon que marca o final do gene (STOP codon). Após a
transcrição ocorre a remoção dos íntrons, que não farão parte do RNAm maduro. Após a remoção dos
íntrons, o RNAm maduro será transportado para o citoplasma e traduzido em uma proteína.

É muito comum que os primeiros genes estimulados pela ação dos hormônios codifiquem para
fatores de transcrição. Assim, é possível passar por mais uma etapa de amplificação de sinal: um fator de
transcrição estimulado pela ação dos hormônios regula a produção de outros fatores de transcrição e
assim por diante. Chamamos de respostas primárias aquelas reguladas diretamente pela cascata de
sinalização de um hormônio e de respostas secundárias aquelas reguladas por fatores de transcrição

147
produzidos pela resposta primária. Levando em conta esse cenário, a regulação pode se tornar bem
complexa, uma vez que um gene regulado por um hormônio pode ser um receptor, um intermediário na
cascata de sinalização, ou mesmo codificar para uma proteína responsável pela biossíntese de outro
hormônio. É muito comum, como já foi citato, um hormônio regular negativamente não apenas sua
biossíntese, como também sua própria sinalização, o que permite a célula retornar a um estado sensível a
estímulos futuros por esse hormônio.
Exemplificaremos o papel dos promotores e fatores de transcrição utilizando a via do hormônio
ácido abscísico (ABA), geralmente relacionado com respostas de estresse nas plantas. Sabe-se que existe
uma região conhecida como ABA Responsive Element (ABRE), sítio de ligação de fatores de transcrição
controlados pelo ABA. Esse elemento é formado por um motivo contendo a seguinte sequencia
nucleotídica: ACGT. Essa pequena sequência é reconhecida por fatores de transcrição que, em sua
maioria, são regulados upstream por ABA. De fato, existe um fator de transcrição denominado ATHB12
que é capaz de se ligar ao ABRE. Esse fator de transcrição é capaz de, por exemplo, reduzir a expressão
do gene GA20oxidase1 (GA20ox1), que codifica uma enzima chave na síntese de giberelinas. Já é
conhecido que o processo de germinação em várias espécies depende de um balanço entre ABA e
giberelinas, sendo essa relação entre os dois hormônios um dos mecanismos que controlam a indução da
germinação.

Integração de todos os eventos


Os mecanismos de sinalização hormonal são um assunto bastante complexo à primeira vista. No
entanto, quando adquirimos familiaridade com alguns conceitos e mecanismos básicos, como os que
foram abordados neste capítulo, é possível constatar que são apenas variações do mesmo tema. As regras
que governam os elementos do sistema são simples. A complexidade surge quando todos os elementos
interagem simultaneamente, em diferentes cenários fisiológicos.
Um resumo da visão integrada dos vários passos tratados aqui é mostrado na figura 6. É possível
notar que muitos hormônios estão interagindo de várias formas para gerar as respostas fisiológicas ou
morfológicas que observamos nas plantas. À medida que o conhecimento a respeito do papel dos
hormônios em plantas aumenta, fica claro que já não é mais possível atribuir uma única função ou
resposta a um hormônio, como às vezes ainda podemos encontrar em diversos materiais didáticos
disponíveis.

148
Figura 6: Resumo de diferentes vias de sinalização hormonais envolvidas durante os eventos de
crescimento fotomorfogênico e escotomorfogênico. As linhas terminadas em seta indicam mecanismos ou
eventos com ação estimulatória, e as linhas terminadas em barra com ação inibitória. A ação pode se dar
sobre uma biossíntese/degradação de uma molécula ou hormônio, ativação/inibição de uma cascata,
transcrição de um gene ou a própria resposta fisiológica.

149
CAPÍTULO 14

Fisiologia de frutos: aspectos bioquímicos e hormonais


Ricardo Ernesto Bianchetti

Introdução
Angiospermas são hoje representadas por mais de 300000 espécies, sendo o grupo vegetal de
maior diversidade e maior sucesso adaptativo dentre as plantas vasculares. Conquistando praticamente
todos os ambientes terrestres e existindo também em alguns ambientes aquático, as angiospermas
apresentam várias autapormorfias que conferem o sucesso evolutivo do grupo, dentro as quais, entre os
caracteres reprodutivos, se destacam, além da presença de flores com verticilos e a dupla fecundação, o
revestimento e proteção das sementes por frutos.
Os frutos são estruturas na maioria das vezes originadas do ovário após a fecundação, são
responsáveis por parte do sucesso adaptativo das Angiospermas, dentre suas funções se encontram o
revestimento e a proteção da semente, sobretudo durante o estágio de sua formação e o auxílio na
dispersão desta após sua maturação, maneira eficiente de passar geração adiante de determinado
indivíduo, sendo capaz de conquistar, inclusive, outros ambientes de acordo com o poder de dispersão. Os
frutos e sementes também, em parte das espécies vegetais, chamam a atenção pelo valor nutricional, se
tornando fonte de pesquisa de interesse na biologia vegetal, agronomia e programas de melhoramento
genético, e a cada vez, mais atenção é dada para o estudo da fisiologia, bioquímica e genética dessa
estrutura.

Frutos: classificações morfológicas e funcionais


Diante da diversidade entre os tecidos vegetativos e florais das angiospermas, não é
surpreendente que os frutos também apresentam diversas adaptações morfológicas e bioquímicas, que
foram surgindo e auxiliando a adaptação de espécies vegetais de acordo com o habitat em que foram
selecionadas. Pela definição clássica, frutos são carpelos maduros, com ou sem estruturas acessórias e/ou
sementes. Relacionados ao seu tipo e origem, os frutos “verdadeiros”, isso é, que são originados
diretamente da transformação dos tecidos do ovário, podem ser divididos em três grupos: os simples,
onde uma flor, com um carpelo e um estigma, origina um fruto; os agregados, onde uma flor, com vários
carpelos e vários estigmas, dá origem a um único fruto; e os compostos, onde várias flores, pertencentes a
uma inflorescência, originam a um fruto.
Dentre os frutos simples, existe a divisão em dois grupos, porém a evolução de cada um desses
grupos ocorreu de forma independente por várias vezes dentre a diversificação das Angiospermas. O
primeiro grupo consiste nos frutos secos. Os frutos secos podem abrir de forma espontânea após as
sementes atingirem o estágio maduro, são denominados deiscentes, e como exemplos mais notórios estão
as síliquas (e.g. Arabidopsis thaliana) e algumas cápsulas (e.g. papoula) e legumes (e.g. vagem, ervilhas),

150
porém também pode haver sua abertura de forma não espontânea após a maturação das sementes, estes
frutos são denominados indeiscentes e correspondem a exemplos de importância econômica, por ser o
grupo das cariopses (e.g. milho, arroz).
O segundo grupo consiste nos frutos com tecidos suculentos, denominados carnosos. Os frutos
carnosos possuem divisão morfo-anatômica, que apesar de variável entre as diversas espécies, tem
características teciduais semelhantes (Fig. 1), em geral é existente um pericarpo carnoso, divididos
geralmente em três camadas de tecidos: o epicarpo, camada fina com poucas células epidérmicas e possui
alta densidade de plastídios; o mesocarpo, que apresenta várias camadas de células em tamanho maior,
com alto teor de água e onde geralmente ocorre a maior parte da atividade fotossintética do fruto e o
endocarpo, camada mais interna do pericarpo, possuindo uma ou poucas camadas de células na região
locular. Além do pericarpo, os frutos carnosos apresentam um tecido denominado columela, que
corresponde ao ponto de ligação do fruto com a planta mãe. A columela é um tecido rico em células
xilemáticas e floemáticas, sendo o elo da ligação entre a nutrição dos demais tecidos do fruto através da
capacidade de dreno do mesmo, sobretudo na manutenção e nutrição durante o estágio imaturo. Por fim
existe a placenta, que corresponde a um tecido parenquimatoso, servindo como sustentação às sementes,
além de que em alguns frutos, como o caso do tomate, é desenvolvido um gel aquoso com alguns
sacarídeos.

Figura 1: Divisão morfológica de frutos carnosos. Modelo utilizado. S. lycopersicum cv. Micro-Tom.

Os frutos carnosos, quanto ao seu amadurecimento são divididos em climatéricos e não


climatéricos.

Frutos climatéricos e não climatéricos


Os frutos carnosos, durante seu desenvolvimento e posterior amadurecimento, têm metabolismo
extremamente ativo e várias alterações bioquímicas e fisiológicas em curto espaço de tempo. Tais
alterações se dão início já durante a fertilização do óvulo e tem seu ápice na transição do fruto pré-
maduro para a fase de amadurecimento. Além de genes que detém funções exclusivas durante o
desenvolvimento do fruto carnoso, em tomateiro, por exemplo, foram detectadas mais de 34000 proteínas

151
diferentes que atuam durante a formação e manutenção do fruto. Toda essa regulação molecular é o
resultado de grande investimento que as plantas detêm neste órgão, demonstrando a importância dele para
a dispersão das sementes e por consequência a sobrevivência da espécie.
Os frutos carnosos são divididos em dois grupos de acordo com o seu perfil metabólico durante o
amadurecimento, o primeiro grupo são os frutos não climatéricos. Os frutos não climatéricos, como
exemplo a uva, o pimentão e os frutos cítricos em geral, apresentam metabolismo estável durante todo o
desenvolvimento e amadurecimento, sem nenhuma drástica e repentina alteração, são caracterizados,
sobretudo, pela produção de etileno e da taxa respiratória de forma praticamente constante (Fig. 2a). Em
sua maioria, os frutos não climatéricos não podem ser destacados da planta mãe até que todo o
amadurecimento seja concluído, tendo como risco o amadurecimento irregular e a inviabilidade
comercial.
Por outro lado, os frutos climatéricos são marcados com alterações metabólicas rápidas, durante
a transição do período pré-climatérico para a fase climatérica. A alta atividade metabólica é desencadeada
após um pico na produção de etileno que é seguido por aumento na taxa respiratória (Fig. 2b). Após o
aumento na produção de etileno ocorre uma série de alterações bioquímicas e fisiológicas, variável de
acordo com as espécies, mas de uma maneira geral se destacam a rápida modificação na coloração, o
aumento na síntese de compostos voláteis e o amolecimento gradual do fruto.

A B

Figura 2: Modelo hipotético do padrão de emissão de etileno, taxa de respiração, amolecimento e


acúmulo de carotenoides: a) frutos não climatéricos; b) frutos climatéricos.

Atualmente esforços são feitos para entender os aspectos fisiológicos e bioquímicos que
controlam todos os eventos durante o desenvolvimento e amadurecimento do fruto, nesse cenário o
tomateiro vem ganhando destaque como espécie modelo para o estudo de frutos climatéricos, e baseados
no tomate, todo o processo de desenvolvimento pode ser dividido em cinco fases distintas (Fig. 3), porém
a delimitação temporal entre cada uma das fases pode ser variável dentre espécies e de cultivares:
. Fase I – Fruit set: corresponde a fase pós-fertilização do ovário e as alterações iniciais que
resultarão na transformação do carpelo em fruto;
. Fase II – Divisão celular: A fase corresponde onde ocorre a maior parte da divisão celular, que
ocorre de forma rápida, nesta fase a maioria das células que o fruto terá até o final de seu amadurecimento
será definida;

152
. Fase III – Expansão celular: Fase em que as células têm expansão, devido ao aumento de água
no vacúolo, nesta fase o tamanho final do fruto será definido;
. Fase IV – Maturação: Marcado pelo pico climatérico, fase em que o fruto terá alterações
metabólicas e várias mudanças em sua estrutura;
. Fase V – Ripening (Amadurecimento): Fase em que ocorre a manutenção dos metabólitos
originados na maturação, onde as sementes já estarão prontas para a dispersão.
Os frutos climatéricos, por terem o perfil estabelecido e por serem extremamente estudados são
modelos ideais para a introdução dos estudos na fisiologia do fruto. Por isso, representados pelo tomate (e
alguns outros modelos acessórios) será dada ênfase nessa classe nas próximas sessões.
Existem inúmeros fatores que podem alteram o desenvolvimento do fruto, tais como genótipo da
própria planta, disponibilidade hídrica e nutricional para a planta mãe, disponibilidade de oxigênio
atmosférico, influência da temperatura, umidade e a quantidade e qualidade de luz, porém abordaremos,
na maior parte das vezes, apenas a maquinaria endógena, onde o próprio fruto controla o seu crescimento,
desenvolvimento e maturação.

Figura 3: Fases do desenvolvimento de frutos de tomateiro. Coloração e tamanho indicativos de acordo


com cada uma das fases: Fruit set, divisão celular, expansão celular, maturação e ripening. Abaixo
esquema das concentrações e tipos de hormônios que influenciam em cada uma das fases. CK =
citocinina; AIA = auxina; GA = Giberelina; BR = Brassinoesteroides; ABA = Ácido Abscísico.

153
Fruit set
A transformação do ovário em fruto é iniciada logo após a fecundação do óvulo, através de uma
intricada cascata de sinais envolvendo desde a sinalização do próprio grão de pólen (gametófito
masculino) até uma série de modificações que farão a formação do fruto.
O fruit set corresponde à fase mais rápida durante o desenvolvimento do fruto e está relacionado
com o balanço de três classes hormonais: giberelinas, auxinas e citocininas (Fig. 3).
As giberelinas (GA) são hormônios originados do substrato Geranil geranil difosfato,
proveniente da Acetil Co-A. A produção de GA ocorre em uma rota, onde as enzimas GA3OXIDASE e
GA20OXIDASE são responsáveis por passos chaves na formação deste fitormônio. GA é uma classe
hormonal importante no desenvolvimento vegetal, estando relacionadas a eventos como a germinação de
sementes, o crescimento celular e a evocação do meristema floral. Também é conhecido que a aplicação
exógena de GA origina a produção de frutos sem que tenha existido a fecundação. Este evento é
denominado partenocarpia, onde a ausência da fertilização produz frutos com óvulos abortados (sem
sementes), mostrando que esta classe hormonal detém importância durante o fruit set (Fig. 3, 4). Durante
o processo de fertilização e posteriormente de pós-fertilização existe aumento na expressão de genes que
codificam as enzimas GA3OXIDASE e GA20OXIDASE, o aparecimento destas, assim como o aumento
do GA endógeno é coincidente com o estabelecimento do fruto.
Por muito tempo as giberelinas foram consideradas o principal sinalizador molecular durante o
fruit set, porém estudos recentes têm apontado as auxinas com papel importante também nessa fase,
sobretudo na regulação de níveis endógenos de GA (Fig. 4), tendo sua função caracterizada durante o
desenvolvimento inicial do fruto.
Auxina foi a primeira classe de hormônio vegetal descoberto, produzida por diversas rotas
metabólicas, entre os quais, a utilização inicial do aminoácido triptofano detém singular destaque, a
biossíntese passa por uma rota elaborada até a geração de Ácido Indolacético (AIA), principal forma de
auxina livre ativa em plantas. Essa classe hormonal tem ação em todo o desenvolvimento vegetal. Apesar
de serem bem estudados em diversos eventos fisiológicos, os estudos envolvendo auxinas no
desenvolvimento de frutos ganharam destaque apenas nos últimos anos, entre eles é apontada que este
hormônio participa da regulação durante o fruit set (Fig. 3).
Durante o desenvolvimento do ovário, AIA é encontrado em baixas concentrações.
Recentemente foi detectado uma proteína transdutora de sinal, denominado AUXIN RESPONSE
FACTOR 7 (ARF7). ARF7 faz parte da cascata de sinalização desencadeada por auxinas, onde existem
membros que estimulam respostas associadas ao hormônio e membros que reprimem a sinalização
desencadeada por AIA. A existência de ARF7 em níveis elevados durante o período de formação do
ovário desencadeia o baixo acúmulo de AIA inibindo a partenocarpia (Fig. 4).
Naturalmente, durante a fertilização, existe aumento na quantidade de AIA, deixando a inibição
promovida por ARF7 irrelevante frente à alta quantidade de auxinas livres ativas. O aumento de auxinas
levará a inibição de ARF7, permitindo que este hormônio exista em condições ideais para a
transformação de ovário em fruto. Entretanto a sinalização de auxinas no fruit set não ocorre em uma via

154
direta, uma vez que após o aumento de AIA nas células do ovário, existe aumento de GA, que por sua vez
tem sua relevância na formação do fruto já descrita. Curiosamente a aplicação de GA não leva a nenhuma
alteração na rota metabólica de auxinas durante o evento de fertilização, mostrando que AIA detém o
controle sobre a biossíntese de GA neste evento, mas o contrário não ocorre.
Em outra via de sinalização para a formação inicial dos frutos, são conhecidas as citocininas. As
citocininas (CK) são hormônios derivados de adenina, tendo as enzimas ISOPENTENIL
TRANSFERASE (IPT) como limitante em sua rota de formação. São muitos os eventos vegetais em que
CK tem influência, como na divisão celular, na defesa vegetal contra patógenos e manutenção foliar, esta
classe hormonal ainda possui crosstalk relatado com a sinalização desencadeada por nitrogênio e com a
sinalização luminosos. A aplicação de CK exógena é capaz de fazer toda a transformação do ovário em
fruto, porém com o crescimento e desenvolvimento inicial comprometido. Frutos partenocárpicos,
provenientes da aplicação de CK têm padrão disforme, com células menores e formação mais achatada.
Em tomate existem várias isoformas de IPT, a alta expressão especialmente das isoformas IPT3 e
IPT4 em estágios posteriores a fecundação, indica a presença de CK como elemento relevante para que
este processo venha a ocorrer, mostrando que este hormônio, além das auxinas e GA, também
corresponde ao gatilho inicial para a formação de frutos.

Figura 4: Interações hormonais durante o fruit set. O aumento de isoformas de proteínas ISOPENTENIL
TRANSFERASE 3 e 4 (IPT3 e IPT4) faz aumento nos níveis de citocininas (CK) que fará o crescimento
do ovário e a iniciação da transformação deste em fruto após a fertilização. Em outro caminho, auxinas
(AIA) são reprimidas por AUXIN RESPONSEN FACTOR 7 (ARF7) durante o desenvolvimento do
ovário. Após a fecundação, os níveis de auxinas aumentam, inibindo a ação de ARF7 e aumentando a
síntese de Giberelina (GA), que fará a transformação inicial do fruto. Ainda não é relatado se as rotas de
citocinina e de auxina/giberelina possuem interações. Setas abertas indicam interação positiva e setas
fechadas indicam interação negativa.

155
Divisão e expansão celular
Após ocorrer a fertilização e o desenvolvimento inicial dos frutos, existe uma cascata de
respostas que fará a rápida divisão celular e, e um período um pouco mais longo, a expansão celular.
Algumas espécies vegetais não têm divisão clara entre uma fase e outra, uma vez que ambas ocorrem
concomitantemente, porém, para fins didáticos, os eventos ocorrentes essas fases serão tratadas nessa
sessão de forma separada.

CICLINAS e o papel na divisão celular


A fase de divisão celular consiste em uma fase rápida, onde as células, principalmente do
pericarpo entrarão em sucessivas divisões mitóticas. Ao fim dessa fase, o fruto terá praticamente a
quantidade de células que o constituirá até o período final de amadurecimento. A divisão celular só é
possível pela influência de proteínas específicas denominadas CICLINAS. A ação de CICLINAS se dá
principalmente no início do processo mitótico, especificamente na fase G1, onde antecede a divisão de
DNA e na transição da fase G2 para a fase mitótica. Em frutos de tomateiro já foram clonados seis genes
que codificam em isoformas para as CICLINAS, onde a maioria delas tem seu nível de expressão máximo
nas células do epicarpo e do mesocarpo. Os níveis da maior parte das isoformas apresentam expressão
pouco significante alguns dias pós-antese, e tem a expressão praticamente nula no fim do período pré-
climatérico do fruto. Cada CICLINA tem um controle específico, mas em todas elas existe estímulo maior
quando em presença de concentrações exógenas de auxinas e citocininas.
Durante o desenvolvimento vegetal, auxinas e citocininas atuam de forma integrada promovendo
a divisão celular. Ambos promovem a expressão e ativação de ciclinas desencadeando a divisão mitótica
em diversos tecidos (Fig. 5a). Obviamente durante todo o crescimento vegetativo das plantas, não só as
concentrações de auxinas e citocininas definirão o padrão organogênico que será desencadeada das
células, mas sim o balanço entre elas.
Apesar de nos frutos, a fase de divisão celular ocorrer concomitantemente com alta quantidade
de ambos os hormônios (Fig. 3), pouco é conhecido como o balanço entre eles irá agir na divisão de
células, apenas que a presença de ambos é necessária para que exista expressão ótima de CICLINAS.
Além da alteração na expressão, AIA e CK também estão relacionados ao maior acúmulo de açúcares
durante a fase de divisão e alongamento de frutos, e a disponibilidade de carboidratos solúveis se torna o
principal sinalizador para a expressão de todas as isoformas de CICLINAS.

Poder de dreno, papel das INVERTASES e capacidade de estocagem de carboidratos


Durante o desenvolvimento inicial, ainda no estágio pré-climatérico, o fruto está associado com a
planta mãe, captando recursos essenciais ao seu desenvolvimento, como água, nutrientes e açúcares
solúveis, mostrando investimento da planta em sua formação e no desenvolvimento. Nesse cenário mais
uma vez AIA e CK aparecem como responsáveis, dentre os fatores endógenos, pela captação de
compostos orgânicos.

156
A columela é o tecido encontrado na região interna do fruto, se ligando a placenta e o pericarpo e
terminando na região externa denominada pedicelo (Fig. 1), onde ocorrerá o ligamento com a planta mãe.
A columela apresenta tecidos condutores como o xilema e o floema, e tem estas células em maior
quantidade quando ocorre aplicação de CK exógena. O aumento de células xilemáticas e floemáticas faz
com que este tecido, torne o fruto um dreno mais eficiente, o que mostra a importância de CK na captação
de carboidratos (Fig. 5a), o que é vital nessa fase, onde haverá o investimento, além de na divisão celular,
também no acúmulo de amido.
As INVERTASES são responsáveis pela capacidade de dreno durante o desenvolvimento inicial
do fruto, são enzimas que fazem a hidrolização de sacarose, convertendo-as em glicose + frutose.
Atualmente são identificadas quatro isoformas dessa família em tomateiro, onde uma delas tem a
expressão nos frutos, sobretudo no estágio de desenvolvimento inicial. A CK é o principal hormônio
relatado com o aumento da atividade de INVERTASES. O poder de dreno é muito importante nos frutos
e existe competição entre eles para adquirir a maior quantidade de fotoassimilados da planta mãe.
Junto a CK, AIA corresponde a um segundo hormônio importante durante o acúmulo de
açúcares e amido. Durante o estágio pré-climatérico existe maior acúmulo de sacarose e de amido em
resposta a AIA, constatado pelo silenciamento de uma proteína transdutora de sinal denominada AUXIN
RESPONSE FACTOR 4 (ARF4), que é um repressor das respostas relacionadas à auxinas no estágio pré-
climatérico. O silenciamento de ARF4 resulta no maior acúmulo de sacarose e amido durante o
desenvolvimento inicial. (Fig. 5a). Auxinas e citocininas também, especificamente nessa fase, atuam
juntas inibindo o amadurecimento precoce de frutos.
A maior quantidade de compostos solúveis proveniente da aplicação de CK´s e do silenciamento
de ARF4, além de estarem relacionados à capacidade de dreno (e.g. crescimento do pedicelo e atividade
de INVERTASES) também pode estar relacionado com a biogênese plastidial e o aumento da atividade
fotossintética, que hoje é conhecida por compreender pouco mais que 10% dos assimilados totais que o
fruto utiliza.

Biogênese plastidial
A fotossíntese em frutos é um tema ainda com poucos e controversos estudos. Apesar de ter
maquinaria fotossintética ativa, com membranas de tilacóides organizadas em uma conformação
semelhante ao cloroplasto foliar, a presença de clorofilas com potencial para receber energia fotoquímica,
a constatação da atividade da enzima RIBULOSEBIFOSFATO CARBOXILASE OXIGENASE
(RUBISCO) que é essencial para fixação de CO2 e proteínas relacionadas às vias de fotorrespiração, é
notável que a maioria dos assimilados em frutos é proveniente da planta mãe, uma vez que a energia
metabólica utilizada em seu desenvolvimento é maior do que sua capacidade de fixação de carbono.
Também a redução da quantidade de clorofilas totais, resultado pelo silenciamento de um gene que
codifica uma enzima chave na rota de biossíntese de clorofilas, traz pouco impacto no acúmulo de ácidos
orgânicos e carboidratos solúveis durante seu desenvolvimento. Os eventos em conjunto colocam em
dúvida a real necessidade da fotossíntese do fruto para seu desenvolvimento. Existe um consenso geral de

157
que este é um órgão dreno e que a fotossíntese constitui um processo fisiológico que ajuda na refixação
do CO2 perdido pela respiração e serve como processo acessório, mas não vital ao seu desenvolvimento.
Para a formação da maquinaria fotossintética e o acúmulo de clorofilas e carotenoides é
necessária a formação de cloroplastos durante o desenvolvimento inicial do fruto. Os cloroplastos são
organelas que são acumuladas em maior densidade nas células do pericarpo. A biogênese plastidial
ocorre, sobretudo, em resposta ao sinal luminoso e a hormônios (Fig. 5b), a maior densidade de formação
de cloroplastos neste estágio estará relacionada com o número de cromoplastos, e consequentemente o
acúmulo de fitonutrientes durante o amadurecimento dos frutos.
A sinalização desencadeada pela luz favorece a formação de cloroplastos, assim como o número
e a estrutura destes. As proteínas que desencadeiam alterações moleculares em resposta ao sinal luminoso
ou as proteínas que regulam negativamente o sinal luminoso tem controle sobre genes que serão
responsáveis pela biogênese plastidial, onde os mais conhecidos deles é o GOLDEN LIKE-1 (GLK1), ou
genes que estarão em controle da divisão plastidial (e.g. ARC3, FTsZ, MinD, entre outros). No entanto,
não só a luz tem relevância na biogênese plastidial e acúmulo de clorofilas e carotenoides, mas também
os hormônios, como citocininas e auxinas também detém, ainda não conhecido se de forma paralela ou
complementar ao sinal luminoso, o controle sobre GLK1 (Fig. 5b).
As auxinas foram os primeiros hormônios identificados com importância direta na formação e
divisão de cloroplastos nos frutos. O silenciamento de ARF4, além desencadear o aumento da quantidade
de amido, também é relacionado ao maior número de cloroplastos, onde é mostrado que a resposta
relacionada às auxinas atua positivamente na biogênese plastidial e no acúmulo de clorofilas nos frutos de
tomateiro. Cultivares arf4 possui expressão acentuada de GLK1, aumentando os cloroplastos no fruto e
tendo expressão também em outros tecidos vegetais.
Apesar de ainda não ser conhecida a influência de citocininas durante a biogênese de
cloroplastos e nem na divisão deles durante o início do desenvolvimento do fruto, CK´s são reguladas por
fotorreceptores (moléculas que percebem e fazem a transdução do sinal luminoso) durante a formação de
plastídios em diversos tecidos de diferentes espécies vegetais. Reforçando a hipótese, a superexpressão de
IPT ou a aplicação exógena de citocininas aumentam o acúmulo de pigmentos em frutos de tomate,
mostrando uma possível interação desse hormônio durante o desenvolvimento plastidial (Fig. 5b).

EXPANSINAS e o crescimento celular


Após a divisão celular, a fase seguinte é marcada pela expansão celular. A expansão das células
é o resultado da ativação de enzimas EXPANSINAS, que são ativas na parede celular, quando esta tem
um decréscimo no pH. As EXPANSINAS permitem o afrouxamento da parede celular agindo na quebra
de ligações não covalentes entre celulose e hemicelulose. Após a entrada de água na célula, esta se
acumula no vacúolo, e com as paredes celulares mais frouxas, será possível que a célula se expanda. Ao
fim dessa fase os frutos chegarão ao seu maior tamanho até o fim do amadurecimento. Juntamente com as
auxinas, outros dois hormônios detêm influência sobre as principais modificações que ocorrem na fase de
expansão celular: a giberelina (Fig. 3, 5b) e o brassinoesteroide (Fig. 5b).

158
A giberelina compreende a um hormônio relevante na expansão celular durante todas as fases de
desenvolvimento da planta. Em frutos, a aplicação de GA exógeno está relacionada ao aumento da
expressão de duas isoformas de EXPANSINA (Fig. 5b). Além de GA, as auxinas já são classicamente
conhecidas pelo crescimento celular nos tecidos vegetativos. Em geral, as auxinas agem aumentando a
acidificação das paredes celulares, onde o pH mais baixo irá favorecer a ativação das EXPANSINAS. Em
frutos, esse efeito é considerável, uma vez que a repressão de genes que atenuam a ação de auxinas
favorece maior crescimento das células do pericarpo, por consequência, a aplicação de auxina exógena
faz o aumento do diâmetro dos frutos, assim como da área celular, o que demonstra ação conjunta de
ambos: giberelinas e auxinas durante o afrouxamento da parede celular e crescimento do fruto. Os
Brassinoesteroides, hormônios de natureza lipídica também são associados ao evento de expansão celular
durante o desenvolvimento de frutos de tomateiro.

Figura 5. Esquema das interações hormonais em diferentes eventos do desenvolvimento de frutos. a)


Interação entre auxina (AIA) e citocinina (CK) na expressão de CICLINAS, resultando na divisão celular,
a expressão de CICLINAS também é dependente da presença de açúcares solúveis proveniente da
capacidade de dreno. Citocininas e auxinas agem aumentando a capacidade de dreno e na regulação de
INVERTASES, o transdutor de resposta AUXIN RESPONSE FACTOR 4 (ARF4) tem ação inibitória
sobre as auxinas neste evento; b) ARF4 inibe respostas relacionadas a auxinas, que promovem a
transcrição de GLK1, por outro lado a sinalização luminosa pode prover uma via direta de regulação de
GLK1 ou indireta, influenciando nas citocininas, GLK1 é um dos grandes responsáveis pela biogênese
plastidial. Auxinas associadas às giberelinas (GA) também promovem a expansão celular, sobretudo
através da regulação de EXPANSINAS. Brassinoesteroides (BR) também atuará na expansão celular.
Setas abertas indicam regulação positiva e setas fechadas indicam regulação negativa. Relações ainda não
bem esclarecidas.

Maturação e Ripening
O estágio de maturação do fruto consiste em rápidas alterações metabólicas desencadeadas por
um pico na emissão de etileno. Posteriormente ao pico de etileno, ocorre também aumento na taxa
159
respiratória e diversas características são alteradas, como a coloração do fruto, a firmeza, o decréscimo de
ácidos orgânicos e amido e a biossíntese de compostos voláteis (Fig. 2b). Todos esses atributos fazem o
fruto climatérico extremamente atrativo para dispersores. Durante a fase de maturação é possível destacar
o fruto da planta mãe, onde este conseguirá terminar o amadurecimento sem qualquer problema que o
torne inviável comercialmente.

Climatérico
O pico climatérico consiste ao ponto que marca a transição para o amadurecimento do fruto. O
climatérico é representado pelo aumento na emissão de etileno e na respiração. O etileno é um hormônio
gasoso, constituído de uma ligação dupla entre dois carbonos, que atravessa facilmente membranas e tem
ação em receptores específicos localizados na membrana do retículo endoplasmático. A biossíntese do
etileno é iniciada pelo aminoácido metionina, que é convertido em S-adenosilmetionina (SAM) pela
enzima S-ADENOSILMETIONINA SINTETASE e posteriormente, pela ação da enzima ACCSINTASE
(ACS), esse substrato é convertido a Ácido Carboxílico amino ciclo propano (ACC) para posteriormente
ser oxidado a etileno pela ACCOXIDASE (ACO), o produto remanescente desta reação é convertido para
regenerar a metionina.
Durante o desenvolvimento das plantas em geral, as etapas limitantes da regulação da síntese do
etileno são as enzimas ACS e ACO, e ainda na forma de conjugação, em que ACC é convertido para
malonil ácido carboxílico amino ciclo propano (MACC). Durante o estágio climatérico existe regulação
muito forte em nível gênico de algumas isoformas de ACS e de ACO, particularmente em tomate, existe
aumento nas isoformas ACS2 e ACS4 e ACO1 e ACO4, tornando-as marcadores eficientes da maturação
dos frutos.
Durante o estágio climatérico a produção de etileno que era de um perfil auto-inibitório, onde a
produção de etileno tem um feedback negativo na própria biossíntese, para a produção auto-catalítica,
típica do desenvolvimento de frutos climatéricos, onde a produção de etileno irá estimular a sua produção,
conseguindo uma concentração extremamente alta desse hormônio gasoso em pouco tempo, e por
consequência um aumento na taxa respiratória, aumentando os níveis de CO 2 emitidos pelo fruto. A alta
produção de etileno é responsável pela regulação de vários eventos fisiológicos (Fig. 6).
Curiosamente, o amadurecimento do fruto começa das regiões mais internas: placenta e
columela, até a região mais externa, que consiste o pericarpo. Durante todo seu desenvolvimento, as
concentrações de substratos intermediários na rota de formação do etileno, como o SAM e o ACC
encontram-se mais elevadas nos tecidos mais interno, decrescendo à medida que chegam a regiões mais
externas, chegando às menores concentrações no pericarpo. Por outro lado, está no pericarpo maior
atividade da ACO e também a maior emissão do etileno, o que mostra um transporte entre tecidos e uma
comunicação eficiente entre todas as regiões do fruto.

160
Fatores que controlam a síntese de etileno
A síntese de etileno é influenciada por fatores de transcrições e pela regulação de outros
fitormônios.
Na regulação hormonal, estudos recentes demonstram a importância de auxinas na síntese de
etileno (Fig. 6), através da regulação da expressão diferenciada de ACS. Auxinas, apesar de serem
relatadas como retardadores do desenvolvimento na fase de divisão e alongamento celular, apresentam
concentração elevada pouco antes do período climatérico, seguido de alta conjugação.
Outro fitormônio relevante durante a maturidade dos frutos é o ácido abscísico (ABA) (Fig. 6).
ABA é um hormônio vegetal que está relacionado ao amadurecimento em alguns poucos eventos
fisiológicos de forma etileno-independente. Porém, em diversas espécies, como pepino, caqui e o próprio
tomate, ocorrem aumento nos teores de ABA pouco antes do pico de etileno no climatérico. As
concentrações de ABA vão decrescendo após estimular a produção do etileno.
Quanto aos fatores de transcrição, o maior responsável pela regulação da síntese de etileno,
assim como do amadurecimento em geral dos frutos é o RIPENING INHIBITOR (RIN). RIN atuará
como intermediário, estimulando diversos genes relacionados ao amadurecimento de fruto (Fig. 6), sendo
considerado o principal gatilho para o amadurecimento e o principal marcador que identifica a transição
da fase pré-climatérica para a fase climatérica. Mais de 200 genes são expressos diferencialmente nos
frutos estando associados diretamente ou indiretamente com a expressão de RIN, entre os quais se
encontram algumas isoformas de ACS, assim como receptores de etileno, ou outros fatores de transcrição
como COLORLESS NON-RIPENING (CNR) ou NON-RIPENING (NOR) (Fig. 6). As maiores alterações
que ocorrem durante o estágio de maturação e que segue pelo ripening são o aumento de açúcares
solúveis, o amolecimento do fruto, a síntese de compostos aromáticos e a coloração característica,
produto da alteração do perfil dos carotenoides.

161
Figura 6: Esquema interações moleculares que controlam o amadurecimento. A expressão e posterior
transcrição de RIPENING INHIBITOR (RIN) aumenta a expressão de NON-RIPENING (NOR) e
COLORLESS NON-RIPENING (CNR), onde de forma integrada irão fazer a expressão diferenciada de
genes que controlam a síntese de compostos voláteis, a alteração na coloração, a formação de açúcares
solúveis e o amolecimento dos frutos. RIN também é o gatilho para o início da produção de etileno,
sobretudo na regulação da ACCSINTASE (ACS), que também é regulada por auxinas (AIA). A produção
de etileno também é afetada positivamente pelo Ácido Abscísico (ABA), também responsável pela
expressão de genes do amadurecimento do fruto de forma independente do etileno. O Etileno é o principal
ponto de regulação no amadurecimento, sendo capaz de controlar a própria síntese e fazer a expressão de
genes essenciais no amadurecimento. Setas abertas indicam interação positiva.

Aumento de açúcares solúveis


A aquisição de propriedades palatáveis do fruto para os potenciais dispersores é um dos
principais eventos que ocorre durante o amadurecimento. Os fatores que tornam um fruto palatável são
resultado da quebra de taninos, ácidos orgânicos e amido e o acúmulo de açúcares solúveis. A drenagem
de açúcares e o acúmulo destes durante o desenvolvimento é extremamente utilizado nesta fase, a partir
do aumento da taxa respiratória no período climatérico, a quantidade de amido no fruto diminui,
aumentando os teores de açúcares solúveis, como glicose e sacarose.
O amido constitui de cadeias de polissacarídeos presente em forma linear com ligação α1-4, e
ramificação em alguns pontos, onde ocorre ligação α1-6 entre os carbonos. Durante o amadurecimento do
fruto o teor de amido decresce concomitantemente com o aumento da atividade de amilases, que
dependendo de sua forma é capaz de fazer a quebra da ligação 1-4 de cadeias lineares ou de ligações 1-6
de cadeias ramificadas. A quebra de amido feita por AMILASE e resulta em maltose, que será clivada a
glicose por MALTASE. Glicose constitui a um carboidrato de seis carbonos que na maioria das vezes é
presente em forma cíclica estável, e sua ligação com frutoses fará a formação de um dissacarídeo
denominado sacarose, com sabor adocicado presente em grande parte dos frutos carnosos. A

162
palatatividade promovida pelos açúcares solúveis é um auxílio para que dispersores, ao consumir o fruto,
propaguem a semente.

Amolecimento do fruto
O amolecimento do fruto é resultado da reestruturação da parede celular devido à atividade de
EXPANSINAS, apesar de algumas isoformas terem ação durante a fase de crescimento, outras detêm
especial papel na maturação e durante o ripening, sendo estimuladas principalmente por etileno e ABA.
A ação das EXPANSINAS fará o afrouxamento da parede celular, deixando com um padrão
histológico mais desorganizado e o fruto com o aspecto amolecido, facilitando a palatatividade por
potenciais dispersores. Apesar da influência desses dois hormônios nos processos de amolecimento, ainda
existe a ação de proteínas independente às respostas desencadeadas tanto por etileno quanto por ABA. O
amolecimento é um processo importante, resultando da expressão de mais de 50 genes.
Os eventos bioquímicos que controlam a reestruturação da parede celular são semelhantes ao
descritos anteriormente, como a clivagem de pectina, o rompimento de ligações não covelantes entre
celulose e hemicelulose e a modificação de proteínas relacionadas à parede.

Aumento de compostos voláteis


Os compostos voláteis, junto à coloração do fruto (abordado posteriormente) são os maiores
responsáveis pela atração de dispersores a longa distância, e presente em quantidades expressivas de
frutos climatéricos.
O perfil de compostos voláteis é variável durante as fases do fruto, sendo alterados de forma
dependente à fase do desenvolvimento ou maturação em que o fruto se encontra. Durante o
desenvolvimento alguns compostos voláteis aumentam enquanto outros diminuem de intensidade, sendo
o etileno o principal hormônio envolvido em sua síntese.
Dentre os diversos grupos de compostos voláteis presente em frutos, as diferentes rotas podem
ser encontradas:
. Ácidos graxos: os compostos voláteis são sintetizados através de longas cadeias de lipídeos,
provenientemente da Acetil Co-A, substrato final de três carbonos que é gerado como produto da quebra
anaeróbica existente durante a glicólise. O Acetil-CoA passa por uma série de conversões enzimáticas até
formar o ácido linoléico. Ácido linoléico é convertido pela ação de enzimas denominadas
LIPOXIGENASES a hidroperoxidos. A ação da enzima HIDROPEROXIDOLIASE quebra este substrato
em produtos menores com função orgânica aldeído, que podem ser dehidrogenados a outros compostos
que possui propriedade orgânica álcool.
Aldeídos e álcoois possuem aromas, e a variação entre eles, assim como seus tipos podem dar
diferentes odores durante o amadurecimento de diferentes espécies.
. Terpenos: Ainda com a utilização do substrato Acetil Co-A, também são gerados os terpenos e
os apocarotenoides, dois compostos que conferem odor aos frutos.

163
A acetil Co-A sofre acetilação e posterior redução, sendo convertida a mevalonato que será
duplamente fosforilado, até formar o isopentenildifosfato. Este intermediário poderá ser convertido em
três vias distintas, as duas primeiras com origem citosólica, onde ele é convertido a (1) geranil difosfato
ou (2) farnesildifosfato, dando origem a respectivamente, monoterpenos e sesquiterpernos, a terceira via
pode ocorrer na mitocôndria ou plastídios, onde o isopentenildifosfato é convertido a geranil-geranil
difosfato dando origem além de sesqueterpeno, a via de formação de todos os carotenoides e
apocarotenoides, assim como de hormônios importantes como GA e ABA.
Os terpenos constituem a maior classe de compostos voláteis, sendo compostos de cadeias
longas e hidrofóbicas.
Aminoácidos: Assim como terpenos e ácidos graxos, os aminoácidos têm importância para o
odor do fruto. Alguns aminoácidos geraram compostos voláteis, tais como a valina, leucina e a isoleucina.
No entanto o mais reconhecido com essa função é o aminoácido aromático Fenilalamina, que entre outros
originará eugenol, isoeugenol, metilsalicicato, benzilacetato e feniletanol. Estes compostos são
caracterizados por terem anel aromático, muitas vezes com a propriedade fenol.

Formação de cromoplastos e síntese de carotenoides


Um dos eventos que possui a regulação bem estudada durante o amadurecimento de frutos
climatéricos é a transição entre cloroplastos a cromoplastos. Os cloroplastos possuem maquinaria
fotossintética organizada com alto teor de clorofilas e membranas dos tilacóides íntegras (Fig. 7). Durante
a maturação do fruto, as membranas sofrem a desintegração, assim como existe o decréscimo nos níveis
de clorofila concomitantemente com o aumento dos teores de carotenoides. As diversas alterações que
ocorrem na transição de cloroplastos para cromoplastos desencadeiam mudanças na estrutura e no
tamanho das organelas (Fig. 7).
Durante o estágio de transição os plastídios acumulam quantidades elevadas de carotenoides. Em
tomate, como exemplo, existe o acúmulo inicial de β-caroteno, ao passo que a quantidade relativa de
clorofilas decresce e a desintegração das membranas dos tilacóides ocorrem, concomitantemente os
plastoglóbulos são formados (Fig. 7), que podem ser constituídos de diversos compostos lipídicos, em sua
maior parte carotenoides. Durante o ripening o fruto é composto por cromoplastos, onde ocorre a
diferenciação de todos os cloroplastos formados anteriormente.

164
1 2
3 4
Figura 7: Micrografias ilustrando a estrutura de cloroplasto e a transição para cromoplasto. O cloroplasto,
à esquerda apresenta (1) membranas dos tilacóides bem formada e íntegra e (2) quantidade moderada e
tamanho reduzido de plastoglóbulos, enquanto os cromoplastos, à direita possuem (3) as membranas
desestruturadas e (4) plastoglóbulos maiores e em maior densidade.

Um dos maiores eventos que marca a transição de cloroplastos para cromoplastos é a síntese de
novos carotenoides, que dará a coloração características de frutos, como por exemplo os frutos de
tomateiro, variando do amarelo ao vermelho. Existe alteração entre os carotenoides durante o
amadurecimento de frutos: nos estágios imaturos existem maiores teores de luteína, e durante o
amadurecimento esses carotenoides cedem lugar ao β-caroteno ou licopeno.
A síntese de carotenoides é um evento controlado por fatores ambientais, como a presença e
intensidade luminosa, assim como por fatores endógenos, tendo o etileno como o principal hormônio
influenciando em sua formação.
A rota de formação de carotenoides tem vias em comum com a formação de sesquiterpenos até a
formação de geranil geranil difosfato. Após a junção de duas moléculas de geranil geranil difosfato, a
enzima FITOENO SINATASE, que faz uma dehidrogenação deste substrato, origina o fitoeno. Uma vez
formado o Licopeno é possível dois caminhos de conversão diferentes: através de uma αciclização em
suas extremidades, realizado por uma CICLASE, o licopeno é transformado a α-caroteno, carotenoide de
pouca representabilidade em frutos, após esse passo ele servirá de substrato para HIDROXILASES, onde
será convertido em luteínas. As luteínas estão presentes em maior quantidade no desenvolvimento inicial
dos frutos, tendo pouca representatividade durante a maturação e o ripening.
O segundo caminho, onde o licopeno sofre βciclização, origina o β-caroteno. O β-caroteno, após
ser hidroxilado, é convertido à violaxantina, pertencente à classe das xantofilas. As xantofilas são
relacionadas, sobretudo à proteção fotoquímica do aparato fotossintético em tecidos vegetativos, porém
durante o amadurecimento de frutos servem como compostos iniciais para a formação de ABA e de
apocarotenoides.

165
Ripening
Ao fim de todas as maiores alterações metabólicas, os frutos permanecem em constante
manutenção de açúcares e carotenoides até o fim do ripening, onde entra em estágio de degradação não
programada, culminando nos eventos relacionados à sua podridão. Após as diversas alterações no
desenvolvimento e posteriormente no amadurecimento, os níveis de todos os hormônios: citocininas,
auxinas, etileno, ABA, giberelina e brassinoesteroides, chegam a concentrações mínimas, não detendo
qualquer influência fisiológica aparente nos estágios finais de amadurecimento.

Considerações finais
Apesar de muito dos estudos na fisiologia do fruto terem avançado bastante nas últimas décadas,
existem muitos aspectos que ainda não foram bem elucidados. As respostas desencadeadas pelas classes
hormonais: auxinas, citocininas, giberelinas, brassinoesteroides, ácido abscísico e etileno são relevantes
durante todos os processos da formação, porém, apesar de alguns processos já bem estabelecidos, o
cenário que nos encontramos há pouco tempo era como causa-efeito: aplicação de determinado hormônio
e consequência fisiológica. Apenas nos últimos anos, esforços têm sido feitos para compreender em
detalhes as vias de sinalização e a interação entre cada hormônio e processo fisiológico que é estimulado
por ele, assim como as interações entre cada uma das classes hormonais e a interação destas com fatores
ambientais, como luz e temperatura, que apesar de não relatados nesse capítulo, possuem influencia
singular em todos os estágios de desenvolvimento. Muitos aspectos ainda não foram descobertos, porém
hoje, ao menos para frutos carnosos climatéricos, já é possível ter uma visão geral de toda a maquinaria
que influência eventos chave, como a biogênese plastidial, divisão e crescimento celular, capacidade de
drenagem, acúmulo de carotenoides, amolecimento ou síntese de compostos voláteis.

166
CAPÍTULO 15

Visão geral do controle do desenvolvimento do


meristemático apical radicular e caulinar
Paulo Marcelo Rayner Oliveira

Introdução
As atuais inúmeras linhagens de plantas são o resultado de milhares de anos de evolução sob as
mais variadas condições ambientais. Dada a natureza séssil, as plantas são incapazes de migrar sob
condições ambientais desfavoráveis ou fugir o ataque de predadores. Em virtude disto, apresentam as
mais diversas adaptações, exemplos desta variabilidade na arquitetura vegetal é a Bromeliaceae epífita
Tillandsia recurvata, (L.) L. que possui um sistema radicular responsável, quase que exclusivamente, na
fixação no substrato, enquanto que a absorção de água e nutrientes, em como todo o metabolismo do
indivíduo, ocorre nas folhas. Por outro lado, a Orchidaceae Chiloschista usneoides ([Link]) Lindl., possui
um sistema caulinar bastante reduzido, cerca de 5 mm, que só se mostra evidente no período de floração,
dado que todo aparato reprodutivo é proveniente exclusivamente deste sistema. Sendo assim, a obtenção
de água e nutrientes, bem como processos bioquímicos que promovem a incorporação destes nutrientes,
fica a cargo do sistema radicular. Estas variações na arquitetura vegetal só são possíveis devido a duas
regiões extremamente importantes, que são os meristemas apicais caulinar e radicular.
Todo o processo de formação do corpo vegetal é o resultado da atividade meristemática. A
determinação dos polos meristemáticos ocorre ainda na fase embrionária. Através de um complexo
processo que envolve diversos sinais, na região apical do embrião é estabelecido o polo do Meristema
Apical Caulinar (MAC), e na região basal do embrião polo do Meristema Apical Radicular (MAR). Esses
dois centros celulares são essenciais para o desenvolvimento após a germinação, uma vez que o embrião,
diferentemente dos animais, não possui órgãos como folha, raiz e flores formados, estes se diferenciarão
posterior à germinação, conforme estas regiões meristemáticas desenvolverem a arquitetura vegetal em
resposta aos estímulos ambientais e do próprio organismo.
A resposta a estes diversos estímulos tem como protagonistas os hormônios vegetais (ou
fitormônios). Sabe-se que quase todos os eventos que acontecem na planta têm a participação destas
moléculas. As principais classes hormonais são: Auxina (AIA), Citocininas (CK), Giberelinas ou Ácido
Giberélico (AG), Ácido Abscísico (ABA) e o Etileno. Todavia, existem também outras substâncias
reguladoras do crescimento como os Brassinosteróides, Ácido Salicílico, Ácido Jasmônico,
Estrigolactonas e o Óxido Nítrico. Tendo em vista a importância dos hormônios, veremos um pouco dos
processos dos quais alguns destes compostos participam durante o crescimento e desenvolvimento
vegetal.

167
Estabelecimento dos polos meristemáticos
Os polos meristemáticos são determinados ainda na fase inicial do desenvolvimento
embrionário. Já na fase de uma célula, há o estabelecimento de um gradiente nessa única célula através do
transporte polar de auxinas pelas proteínas PIN (Ver capítulo 13). Além disso, o zigoto também já possui
sinalizadores que coordenarão o início de seu desenvolvimento. Dentre as principais moléculas que
participam do início deste processo, há mRNA do gene SHORT SUSPENSOR (SSP) oriundo do grão de
pólen. SSP é responsável pela indução da produção de uma proteína chamada YODA, que por sua vez
induz a expressão do fator de transcrição GROUNDED (GRD) que marcará o início da primeira divisão
do zigoto (Fig. 1). A partir daí, outras moléculas sinalizadoras entram em cena, o que vai garantir a
continuidade do desenvolvimento embrionário. Após esta primeira divisão, o embrião começa a tomar
forma. Ao atingir o estágio de oito células, há a instauração das células formadoras do polo caulinar.
Concomitantemente, o polo radicular também começa a ser gerado, sendo este originado a partir da
hipófise.

Figura 1: Indução da primeira divisão assimétrica gerando o embrião.

Para entender melhor o estabelecimento dos polos meristemáticos, estes dois centros serão
tratados separadamente.
Como dito anteriormente, após algumas divisões celulares, ocorre a determinação do destino das
células que formarão o MAC. Neste momento, os produtos de uma grande família multigênica exercem

168
um papel vital para a formação do polo meristemático, são eles os genes WUSHEL HOMEOBOX (WOX).
No estágio de oito células (Fig. 2), WOX2 atua nas células apicais do embrião, reprimindo diversos
fatores de transcrição imediatamente. Isso é importante porque, vale lembrar, que nesta fase o embrião é
basicamente um conjunto e os processos de formação de MAC e MAR acontecem concomitantes. Dessa
forma, caso os limiares não sejam impostos precisamente, fatalmente essas regiões de vital importância
não serão devidamente formadas.
Após expressão de WOX2, outros fatores de transcrição dão continuidade ao processo, são eles
BODENLOS (BDL) e TOPLESS (TPL). Eles são, em partes, responsáveis pelo estabelecimento do polo
caulinar. Além disso, inibem fatores de transcrição envolvidos na determinação do polo radicular (que
serão vistos mais adiante). Complementarmente, a identidade do MAC tem a participação de outro
regulador CLASS III HOMEODOMAIN-LEUCINE ZIPPER (HD-ZIP III). Sendo assim temos WOX2,
BDL e TPL determinando o polo meristemático e HD-ZIP III conferindo a identidade meristemática das
células dessa região. Neste momento WUSHEL (WUS) e CLAVATA (CLV), dois importantíssimos fatores
de transcrição, também começam a ser expressos. Entretanto suas funções serão vistas na parte de
manutenção do meristema apical caulinar (Fig. 2).

Figura 2: Estabelecimento do polo meristemático. Fatores de transcrição envolvidos, sendo expressos nas
células mais apicais do embrião.

169
O polo radicular localiza-se na parte basal do embrião sendo formado a partir da hipófise. Para
seu estabelecimento, o produto do gene AUXIN RESPONSE FACTOR5/MONOPTEROS (ARF5/MP) é
um fator de transcrição que ativa a expressão de outro fator de transcrição, o TARGET OF
MONOPTEROS7 (TMO7). Por sua vez, TMO7 é transportado para hipófise e induz uma cascata de
transdução de sinais que determinará o estabelecimento do polo radicular.
A sinalização para este processo tem a auxina como protagonista (Fig. 3a). As células expressam
BDL e TPL, os quais reprimem a expressão de ARF5/MP. A auxina tanto inibe a expressão dos dois
primeiros, como ativa a do último, ativando a cascata transcricional acima descrita.
Neste momento é interessante notar a sutileza do mecanismo regulatório que determina as zonas
meristemáticas, a presença de auxina somente nas células a ser MAR, faz com que somente essas células
expressem ARF5/MP e os seus alvos. As outras células com BDL e TPL transcricionalmente ativos e sem
este hormônio, têm a expressão de ARF5/MP completamente inibida. Em suma, o preciso transporte de
auxina, determina que somente algumas células se tornem MAR, enquanto que o mecanismo inibitório da
transcrição de ARF5/MP garante a diferenciação do MAC.
Não obstante, é possível ressaltar outro papel chave da auxina ao ativar a transcrição dos genes
PLETHORA (PLT). Estes genes determinarão a formação das células tronco da raiz ao mesmo tempo em
que inibem a expressão de seu próprio repressor, HD-ZIP III. Novamente, este feedback negativo entre
estes dois genes é um exemplo do quão precisa é a determinação do MAC e MAR. Neste momento
também ocorre a determinação do nicho de células tronco (NCT) onde se localiza o centro quiescente
(Fig. 3b). Este evento é mediado pela auxina que induz a expressão de ARR7 e ARR15, os quais inibem a
sinalização da citocinina onde será formado o NCT enquanto que para determinação do centro quiescente
destaca-se o papel da citocinina.

170
Figura 3: Embrião na fase globular. Fatores de transcrição envolvidos no processo de estabelecimento do
polo radicular: a) indução da divisão da hipósife; b) estabelecimento do nicho de células tronco (NCT) e
centro quiescente (CQ).

Algo que fica evidente é que imprescindível para a determinação dos diferentes tipos celulares
que haja um fluxo de auxina bem determinado ao longo do eixo embrionário. O gradiente deste hormônio
garante a ativação de fatores para determinação do MAC, os quais são ativados quando os níveis estão
baixos, e do MAR, que responderão a níveis maiores deste fitormônio.
Sendo assim, é preciso que a auxina seja drenada da região do polo caulinar e concentrada na
região do polo radicular. Este processo é orquestrado pelas proteínas PIN (Fig. 4). Estes carregadores
criam e mantém um fluxo hormonal ao longo do embrião que garante este gradiente: o AIA entra pela
região basal e pelos flancos é direcionado ao ápice, retornando à base pela porção central. Além disso,
este mecanismo também drena o AIA produzido pelas células do polo caulinar (Fig. 4).

171
Figura 4: Transporte polar da auxina no embrião no início da fase cordiforme. Setas pretas indicam o
direcionamento do fluxo pelo corpo do embrião, convergindo para a região de formação dos cotilédones.

Resumindo temos todo o processo de estabelecimento do polo meristemático caulinar,


trabalhando de forma antagônica à maquinaria responsável por fundar o polo meristemático radicular.

Meristema Apical Caulinar


O MAC (Fig. 5) exibe o seguinte padrão de organização: a região mais interna é a Zona Central,
que é composta pelo Centro Organizador (CO), sendo este circundado pelo NCT. O CO apresenta células
morfologicamente indiferenciadas com baixa taxa de divisão celular e supre o NCT com novas células. Já
o NCT apresenta uma maior taxa de divisão, porém as células permanecem indiferenciadas. Contornando
o CO e NCT, existe as Zonas Periféricas (ZP), regiões onde acontece a formação de novos órgãos.

172
Figura 5: Divisão espacial do meristema apical caulinar.

Os mecanismos que regulam o desenvolvimento do MAC são de alta complexidade, porém boa
parte dessa maquinaria já é conhecida. Sabe-se que a citocinina, dentre todas as classes hormonais,
apresenta-se indispensável para a manutenção e desenvolvimento do MAC. Os maiores teores desta
molécula estão localizados no CO. A manutenção desta região é fortemente controlada pelo fator de
transcrição WUSCHEL (WUS). WUS define o centro organizador, fazendo com que as células nesta
região apresentem baixa atividade mitótica e permaneçam morfologicamente e histologicamente sem
diferenciação. Além disto, regula negativamente fatores de transcrição que inibem a sinalização da
citocinina como ARABIDOPSIS RESPONSE REGULATOR 7 (ARR7) e ARABIDOPSIS RESPONSE
REGULATOR 15 (ARR15). Desta forma, nota-se um feedback positivo uma vez que a citocinina induz
WUS, que por sua vez mantém as células responsivas a este hormônio, o que, consequentemente, mantém
ativa a expressão de WUS.
Células do Centro Organizador e do Nicho de Células Tronco apresentam uma semelhança, a
ausência de células morfologicamente diferenciadas. Sendo assim, como distinguir entre estas duas
regiões? Há uma condição que permite fazer a separação: a quiescência. Células quiescentes, além de
morfologicamente indiferenciadas, apresentam atividade mitótica extremamente baixa. Dessa forma,
temos no CO células quiescentes, enquanto que as constituintes do NCT não apresentam esta condição.
Embora difiram somente por esta característica, a regulação do desenvolvimento do CO e do
NCT é distinta. As células do Nicho de Células Tronco estão reguladas pelo SHOOT MERISTEMLESS
(STM). STM, que está presente na zona periférica, induz genes codificantes para enzimas que participam
da biossíntese da citocinina, no caso, a ISOPENETENILTRANSFERASE7(IPT7). Este mecanismo

173
aumenta os teores deste hormônio no NCT, não permitindo sua diferenciação. Além deste mecanismo,
proteínas codificadas pelo WUS no CO são transportadas para o NCT, induzindo a transcrição de
CLAVATA (CLV3), cuja proteína reforça a inibição da diferenciação nesta região. Apesar de CLV3 ser
induzido por WUS, CLV3 inibe a expressão de WUS no NCT, o que permite a estas células sair da
condição de quiescência. (Fig. 6).

Figura 6: Interações hormonais e gênicas que controlam o desenvolvimento do meristema apical caulinar.
Nicho de células tronco (NCT), centro organizador (CO), Zona periférica (ZP).

STM também inibe a biossíntese da giberelina e a expressão do gene ASYMMETRIC LEAVES


(AS1). AS1 participa do processo de indução da formação do primórdio foliar, sendo assim, a inibição
deste fator de transcrição no NCT é essencial para manter as células dessa região indiferenciadas. O
estabelecimento de um novo primórdio foliar depende da perda da característica meristemática das
células, para isto, uma intensa alteração no perfil de expressão gênica e, consequentemente, das vias de
sinalização. O primeiro passo é o estabelecimento de uma fronteira entre a região meristemática e a região
de formação do primórdio foliar. Tal evento é mediado via gene CUP SHAPED COTYLEDON (CUC),
cujo produto inibe a proliferação celular, possibilitando a diferenciação destas células. A partir deste
ponto outro hormônio extremamente importante entra em cena, a auxina. Ao contrário da manutenção do
meristema, esta molécula é um fator chave na formação do primórdio foliar (Fig. 7). Nas regiões onde o
balanço hormonal é favorável à auxina, há também o aumento no teor de giberelina, consequentemente,
reprime-se STM ao mesmo tempo em que AS1 é induzido.

174
Figura 7: Interação entre auxina, citocinina e outros elementos durante a formação do primórdio foliar.

Em resumo, o processo de manutenção do meristema, bem como a organogênese é altamente


regulado através do fino balanço hormonal e diversas vias regulatórias que alteram a expressão gênica e
determinam o destino das células. É justamente este controle fino que garante o funcionamento de uma
região tão essencial para o desenvolvimento vegetal.

Meristema Apical Radicular


Conhecendo o processo de estabelecimento do primórdio radicular, vejamos a organização da
raiz (Fig. 8 a,b) que pode ser dividida da seguinte forma: Zona Meristemática (ZM), Zona de transição
(ZT), Zona de alongamento (ZA) e Zona de Diferenciação/Maturação (ZD). A região meristemática
compreende o Nicho de Células Tronco (NCT) que é formado pelo Centro Quiescente (CQ) – equivalente
ao Centro Organizador do meristema apical caulinar – e pelas células tronco propriamente ditas. Também
constitui esta região a coifa, a qual é formada a partir de divisões celulares que ocorrem em direção à
parte apical da raiz. Esta estrutura funciona como uma barreira conferindo proteção ao CQ e ao NCT da
columela. Além disso, ela também favorece a penetração da raiz no substrato, auxiliada pela presença de
mucilagem. Outra função da coifa é a gravipercepção, ou seja, percepção da direção e sentido do vetor
gravitacional. A Zona de transição se localiza entre a ZM e a ZA, sendo onde as células iniciam sua
diferenciação de acordo com as informações de identidade tecidual percebidas. A Zona de alongamento é
a parte da raiz onde as células crescem longitudinalmente e apresentarão a identidade tecidual
175
determinada na região meristemática e Zona de Transição. Por fim, a Zona de Diferenciação/Maturação é
a região onde as células completarão seu desenvolvimento.
Além da divisão longitudinal das zonas, uma vez um órgão já formado, a raiz apresenta uma
divisão transversal de tecidos (Fig. 9). A camada mais interna é formada pelo cilindro vascular. Este é
composto pelo xilema e floema, que são componentes não só da raiz, mas da planta inteira. Adjacente ao
cilindro, temos o periciclo. Este tecido é conhecido por ter células com características meristemáticas e é
o local a partir do qual se formam as raízes laterais. Externamente ao periciclo há a endoderme. Esta
camada é a uma barreira que separa o córtex do cilindro, esta barreira é essencial para a absorção de água
uma vez que impossibilita que o fluxo apoplástico, ou seja, que estava passando pelos espaços
intracelulares, entre diretamente no feixe vascular, atuando como um filtro da água e nutrientes
absorvidos do solo. Em conjunto, o cilindro vascular, periciclo e endoderme formam o estelo. Por fim
temos o já citado córtex, que atua principalmente como tecido de absorção e reserva, e a epiderme, a qual
é o tecido de revestimento da raiz.

Figura 8: Divisão e organização tecidual da raiz: a) zoneamento do órgão radicular e organização tecidual
da raiz; b) organização do ápice radicular.

O simples fato do estabelecimento do CQ e do NCT não determina o desenvolvimento da raiz;


para isso é necessário a manutenção da atividade meristemática. Para garantir o funcionamento correto
destas duas regiões, há uma série de mecanismos trabalhando em conjunto. Um deles é comandado pelos
genes SCARECROW (SCR) e SHORT ROOT (SHR). SHR é expresso no estelo, seu produto é transportado
176
até o CQ e interage com a proteína SCR formando um complexo proteico que ativa a expressão de SCR e
de outros genes que impedem a diferenciação das células do CQ. O outro sistema é composto por
PLETHORA1 (PLT1) e PLETHORA2(PLT2). Estes genes, que são regulados pela auxina, induzem a
expressão de genes que codificam para as proteínas PIN. Isto ajuda a manter altos níveis de auxina no CQ
e no NCT, inibindo a diferenciação celular (Fig. 9).

Figura 9: Mecanismos controladores da manutenção do centro quiescente. PLT aumenta a expressão de


genes que codificam as proteínas PIN ocasionando em um aumento nos níveis de auxina. A auxina induz
a expressão de SCR que junto com SHR mantem o Centro Quiescente.

Outro ponto crucial neste processo é a manutenção do tamanho do meristema, uma vez que
comanda o crescimento e desenvolvimento radicular. A interação da auxina com a citocinina é o que
governa parte deste processo. Sabe-se que estes dois hormônios podem interagir de forma sinérgica ou
antagônica, sendo que diferentes fatores vão determinar o tipo de interação destas moléculas. No caso da
região meristemática, há um antagonismo segundo o qual a auxina mantém a alta taxa de divisão celular
das células próximas ao meristema enquanto que a citocinina controla a taxa de diferenciação na região
abaixo do meristema - a zona de transição.
Este controle se dá através da regulação do gene SHORT HYPOCOTYL2 (SHY2), seu produto, a
proteína SHY2, é um repressor da auxina. Entretanto, a própria auxina, em altas concentrações, leva à
repressão de SHY2. Já a citocinina, através da proteína ARABIDOPSIS RESPONSE REGULATOR1
(ARR1), induz a expressão de SHY2 na região vascular da região de transição. Adicionalmente, este gene

177
possui também a função de reprimir a expressão dos genes PIN. Menores níveis de auxina e proteínas
PIN tem como consequência menores níveis de auxina e menor atividade mitótica. Todavia, vale lembrar
que a inibição dos genes PIN não é completa, uma vez que é necessário certo fluxo de auxina para o
correto funcionamento do CQ e NCT. Este mecanismo determina o tamanho do corpo da raiz.
Além disso, outro mecanismo de controle meristemático é realizado via fatores de transcrição
expressos no CQ. WUS-RELATED HOMEOBOX 5 (WOX5) é homólogo ao WUS que, como foi
comentado anteriormente, atua no centro organizador do meristema apical caulinar. Ambos são regulados
negativamente pelo peptídeo CLE40, o qual é homólogo ao CLV3 no MAC. Neste caso, WOX5 possui a
função induzir a proliferação das células tronco que originam columela. Sabe-se também que ele é
regulado positivamente pelo SCR que, por sua vez, é induzido pela auxina. Já na columela, CLE40 regula
negativamente a expressão do WOX5, o que permite a diferenciação das células que formarão essa
estrutura, conforme mostrado na figura 10.

Figura 10: Mecanismos reguladores da atividade meristemática. Citocinina induz a expressão de SHY2 e
este inibe os transportadores de efluxo de auxina, as proteínas PIN. Auxina reprime SHY2 e induz a
expressão de SCR que induz a expressão de WOX5.

Partindo para o processo de diferenciação, temos a formação do floema. Como dito


anteriormente, no caso da raiz, juntamente com o xilema, ele forma o cilindro vascular. Temos como
elementos constituintes do floema as células companheiras e os elementos de vaso. Existem dois fatores
que mostram ser extremamente importantes na especificação dos tecidos floemáticos. O primeiro, e
imprescindível, é o OCTOPUS (OPS). Sua expressão ocorre primariamente próxima ao CQ, na qual uma
de suas funções é determinar o destino celular para formação do floema. Outro importante papel é
178
promover a continuidade no processo de diferenciação das células deste tecido. O segundo fator é o
ALTERED PHLOEM DEVELOPMENT (APL) que é responsável pela diferenciação de células
companheiras e elementos de vaso. Além disso, este fator aparentemente inibe a diferenciação do xilema.
APL e OPS trabalham de forma complementar.
Plantas mutantes ops (plantas que são defectivas para este fator de transcrição) não apresentam
células com características floemáticas como presença de calose, espessamento da parede e alongamento.
Já mutantes apl apresentam atraso no início das divisões celulares que originarão as células companheiras
e elementos de vaso, problemas na formação do protofloema e metafloema. Entretanto, sabe se que outros
fatores também atuariam junto com OPS e APL, mas o funcionamento ainda não estaria bem elucidado.
Completando o cilindro vascular temos o xilema. Um dos reguladores de sua formação é o
FATOR DE INIBIÇÃO DA DIFERENCIAÇÃO DE ELEMENTOS TRAQUEÍDEOS (TDIF) (do inglês
TRACHEARY ELEMENT DIFFERENTIATION INHIBITORY FACTOR). Este é um peptídeo que atua
na inibição da diferenciação das células do procâmbio ao mesmo tempo em que mantém sua proliferação,
além de induzir a expressão do WOX4 que atua na manutenção das células procambiais.
Com relação à diferenciação dos tecidos xilemáticos, temos dois genes do grupo VASCULAR-
RELATED NAC-DOMAIN (VND). Neste caso, VND6 inicia a diferenciação do metaxilema e o VND7
age diferenciando o protoxilema. Juntamente com o produto de SECONDARY WALL-ASSOCIATED NAC
DOMAIN PROTEIN1 (SND1), estas proteínas compõem uma grande e complexa cascata de sinalização
que leva à deposição de parede secundária, processo este induzido por MYB. Vale ressaltar que estes são
apenas alguns dos reguladores da formação do xilema. Uma imensa quantidade de genes está envolvida
no processo, alguns já bem caracterizados, outros nem tanto. Além disso, hormônios como auxina,
citocinina, etileno também atuam no processo de formação. A variação no balanço entre a auxina e
citocinina determina a diferenciação dos tecidos condutores. Estudos mostram que peptídeos CLE
degradam alguns ARRs específicos na regulação negativa da citocinina, neste caso seria inibida a
formação do protoxilema devido à presença da citocinina. Em contrapartida a auxina induz a expressão de
ARRs que atuariam na contramão. Essa oscilação de repressão e indução determina o destino celular das
iniciais do xilema.
Outro tecido que compõe o estelo, juntamente com floema, xilema e endoderme é o periciclo.
Sabe-se que este preserva características meristemáticas em algumas células. Estas células se localizam
nos polos do xilema, é exatamente nesta região que ocorre a formação das raízes laterais. O mecanismo
que está por trás deste evento é sinalizado principalmente pela auxina. Este hormônio é transportado de
distâncias mais longas pelo floema e o transporte polar célula-a-célula via proteínas PIN. No transporte
polar, a auxina entra nas células pelos carreadores de influxo AUX/LAX e sai através dos já citados
carreadores de efluxo, as proteínas PINs.
Em Arabidopsis, a indução da raiz lateral ocorre ainda na região zona de transição sinalizado
pelo transporte polar de auxina. Outro hormônio que aparece como regulador positivo deste processo é o
etileno. A dinâmica acontece da seguinte forma: A auxina é transportada basipetamente pelas proteínas
PIN e estimula a síntese de etileno nas células, por sua vez, o etileno acentua a sensibilidade das células a

179
auxina. Através desse sinergismo entre auxina e etileno, as células do periciclo responsivas a auxina
entram em processo de divisão iniciando a formação da nova raiz lateral.
Completando o estelo, há a endoderme. A formação deste tecido acontece concomitantemente
com a formação do córtex (Fig. 11). Isso se deve ao fato da interação entre SHR e SCR. Da mesma forma
que SHR é transportada ao CQ, existe o transporte para células iniciais que são derivadas do CQ. A
divisão desta célula inicial dá origem à endoderme e ao córtex. Estudos mostraram que mutantes shr
(plantas que são deficientes de SHR funcional) possuem uma camada de células que se assemelha ao
córtex. Já mutantes scr possuem tecidos que se assemelham ao córtex e endoderme, mas sem distinção
entre um e outro. Sendo assim, acredita-se que SHR esteja ligado à determinação da identidade da
endoderme.

Figura 11: Formação da endoderme e córtex via interação de SHORTROOT (SHR) e SCARCROW
(SCR).

Finalmente, revestindo a raiz temos a epiderme. Em algumas plantas, ela é originada das iniciais
da columela, em outras a partir da diferenciação das células do córtex. Em Arabidopsis, a epiderme é
formada em camadas alternadas por dois tipos de células: os tricoblastos e atricoblastos. A diferença entre
estes está na capacidade de formação dos pelos radiculares. Esta estrutura é na verdade expansões da
parede celular da região jovem da raiz, aumentando a superfície de contato e, consequentemente,
ampliando a absorção de água e nutrientes. Existem alguns fatores de transcrição que regulam a formação
dos pelos radiculares. Um deles é o GLABRA2 (GLB2), que é responsável por inibir a formação de pelos
nos atricoblastos e é regulado positivamente por um complexo de fatores de transcrição:
TRANSPARENT TESTA GLABRA 1 (TTG1) e WEREWOLF (WER). O complexo TTG1-WER
também induz a produção da proteína CAPRICE (CPC) no atricoblasto. Entretanto, CPC é transportada
para o tricoblasto onde entra em ação inibindo o próprio WER-TTG1. Esta inibição consequentemente

180
leva à repressão de GLB2, permitindo formação dos pelos radiculares (Fig. 12). O modo como este
transporte ocorre ainda não é completamente conhecido.

Figura 12: Mecanismos de formação dos pelos radiculares.

Todos os mecanismos moleculares e fisiológicos aqui apresentados representam apenas uma


pequena parcela das vias de sinalização presentes em uma planta. Este capítulo foi elaborado com o
intuito de mostrar que todo o processo de desenvolvimento vegetal é orquestrado através de uma
intrincada rede de sinalizadores do desenvolvimento que interagem inclusive entre si. Todos os dados
aqui apresentados tiveram como base Arabidopsis thaliana (L.) Heynh. Pois atualmente é a planta modelo
com um dos maiores volumes de dados. Porém, vale destacar que é necessário explorar outras espécies
dada a plasticidade que as plantas apresentam.

181
CAPÍTULO 16

Transportadores de nitrato em plantas vasculares


Cassia Ayumi Takahashi
Paulo Tamaso Mioto

PARTE A: INTRODUÇÃO ÀS PROTEÍNAS TRANSPORTADORAS DE SOLUTOS


1. A mobilidade dos nutrientes minerais nos tecidos e nas células vegetais
Nutrientes minerais são elementos químicos disponíveis principalmente na forma de íons
inorgânicos nos solos. Eles são considerados essenciais para o desenvolvimento e crescimento das
plantas. Os nutrientes podem ser classificados de acordo com a demanda necessária às plantas: os
macronutrientes (N, K, Ca, Mg, P, S, Si) são os elementos consumidos em grandes quantidades e os
micronutrientes (Cl, Fe, B, Mn, Na, Zn, Cu, Ni, Mo) são aqueles utilizados em pequenas quantidades
pelos vegetais.
A maioria das plantas absorve os nutrientes do solo principalmente através do sistema radicular.
Esses elementos entram nos tecidos radiculares, atravessam os diversos tipos de células existentes nas
raízes e chegam aos tecidos vasculares. Através dos vasos condutores do xilema, esses nutrientes são
transportados para os diversos órgãos da planta como as folhas, flores, frutos e outros. Nos órgãos, os
nutrientes continuam a ser transportados para o interior de diversos tipos de células e, dentro das células,
esses elementos geralmente são processados em locais bastante específicos como, por exemplo, o interior
de determinadas organelas.
O nitrato pode ser considerado um bom exemplo que ilustra essa dinâmica de mobilização de um
nutriente proveniente do solo para o interior dos tecidos da planta, uma vez que as dinâmicas de absorção
e transporte desse íon já foram bem descritas na literatura. Após ser absorvido pelas raízes, o nitrato pode
ser acumulado no interior dos vacúolos ou transportado para as folhas através do xilema. No citoplasma
das células do tecido foliar, o nitrato pode ser reduzido a nitrito pela ação da enzima redutase do nitrato
(NR). O nitrito é um composto extremamente tóxico para as células e, portanto, após ser produzido, ele é
transportado para o interior dos cloroplastos e rapidamente reduzido a amônio através de uma reação
catalisada pela enzima redutase do nitrito (NiR). Posteriormente, o amônio é assimilado em aminoácidos
no interior dos cloroplastos ou no citossol pela ação das enzimas sintetase da glutamina (GS) e sintase do
glutamato (GOGAT).
A mobilidade das moléculas e íons entre uma célula a outra ou entre diferentes compartimentos
celulares é denominada de transporte. A maioria dos elementos minerais não se difunde livremente pelas
células ou pelas organelas, uma vez que a bicamada lipídica das membranas celulares atua como uma
barreira a livre passagem de moléculas e íons. O transporte de solutos entre as células ou entre os
diferentes compartimentos celulares ocorre de forma controlada e finamente regulada por proteínas
imersas na bicamada lipídica das membranas celulares, denominadas de transportadores. A regulação
contínua do trânsito de íons e moléculas para dentro ou para fora das células ou organelas, realizada pela
182
membrana celular e pelas proteínas de transporte, permite a criação de compartimentos celulares que
possuem características químicas bastante diferentes. O interior de cada organela possui uma natureza
bioquímica bastante específica e distinta do citossol como, por exemplo, diferente pH ou concentrações
de determinadas moléculas ou íons. A criação desses compartimentos celulares com diferentes
propriedades bioquímicas tem uma importância crucial para a manutenção do funcionamento de diversos
processos fisiológicos de uma planta, uma vez que grande parte das enzimas são ativas apenas sob
condições químicas muito específicas. A NiR, por exemplo, somente consegue atuar no interior dos
cloroplastos ou plastídios.

2. Processos de transporte em membranas

2.1 Transporte ativo e transporte passivo de solutos


Os processos de transporte de solutos através de membranas estão intrinsecamente ligados aos
conceitos de trabalho e energia da física. Em mecânica, trabalho é o deslocamento de um corpo contra
uma força oposta ou ao estado natural em que esse corpo se encontrava antes de ser deslocado. Energia é
a “força” necessária para se realizar o trabalho. Em uma solução, as moléculas não são estáticas. Elas
estão constantemente se movimento como resultado de sua agitação térmica aleatória, colidindo umas
com as outras e trocando energia cinética. As interações entre as moléculas de uma solução geram uma
“força” denominada de energia livre. A energia livre é definida como uma energia que está disponível em
um sistema químico isotérmico. A quantia de energia livre que existe em um sistema químico varia de
acordo com a quantidade de moléculas ou a concentração de soluto na solução. Quanto maior a
concentração do soluto, maior é a probabilidade das moléculas desse soluto se interagirem entre si e,
consequentemente, maior é a energia livre existente no sistema.
Na difusão, o movimento das moléculas acontece de maneira espontânea ao longo de um
gradiente de energia livre, ou seja, de um local mais concentrado para um menos concentrado. Esse
movimento ocorre até que o equilíbrio do sistema seja atingido, ou seja, quando o sistema se aproxima de
seu estado de menor energia livre. Imagine um tubo na horizontal contendo água no qual é aplicado um
corante vermelho em uma de suas extremidades. Imediatamente após a aplicação do corante e
considerando que o tubo é um sistema completamente imóvel, será possível observar uma fase líquida
vermelha (água + corante) sob a superfície da água. Com o passar tempo, essa fase vermelha tende a se
espalhar gradualmente pelo tubo até que toda a água fique misturada com o corante e o sistema passe a ter
uma cor vermelho-claro. Esse fenômeno ocorre porque a energia livre que há no ponto em que foi
aplicado o corante é maior do que aquela existente no resto do tubo. Ao longo do tempo, essa energia
concentrada inicialmente apenas no ponto de aplicação do corante passa a ser “diluída” devido à
distribuição das moléculas do corante ao longo do tubo por seu próprio movimento aleatório. Embora
esse exemplo do tubo seja bastante ilustrativo para se compreender o processo de movimento das
moléculas, a difusão é significativamente importante apenas em situações em que as moléculas percorrem
distâncias microscópicas. Na visão macroscópica, há vários outros fatores que influenciam o movimento

183
dos solutos. Apesar disso, é interessante também ver a difusão como um processo físico, capaz de realizar
trabalho. Dessa forma, com as devidas ressalvas, é possível comparar a fase líquida vermelha presente na
superfície do tubo com uma bola em uma descida: nos dois casos, o sistema (fase líquida vermelha ou
bola) tende sempre a ir para a configuração de menor energia.
Nas células vegetais, a grande maioria dos solutos não se movimenta através do processo de
difusão devido a presença de membranas que delimitam compartimentos celulares específicos. A
bicamada lipídica de uma membrana celular é praticamente impermeável a maioria dos solutos e, por essa
razão, o movimento de íons e moléculas fica restrito à atividade de proteínas transmembrana capazes de
realizar o transporte de substâncias. Esse transporte pode ocorrer a favor ou contra o gradiente de energia
livre. O movimento espontâneo das moléculas a favor de um gradiente de energia livre é denominado de
transporte passivo e não requer o gasto de energia adicional. O transporte passivo pode ser comparado
com o sistema em que a bola desce livremente uma ladeira. Não é preciso gastar energia para fazer a bola
descer. Por outro lado, o transporte ativo é aquele em que as moléculas se movimentam contra o gradiente
de energia livre. Nesse tipo de transporte, o deslocamento das moléculas não ocorre de forma natural e
nem espontânea. Para que ele possa ser realizado é necessário o gasto adicional de energia. No exemplo
da bola, seria equivalente a usar uma “força” para empurrá-la ladeira acima. Nas células vegetais, essa
energia adicional para realizar o transporte ativo geralmente é proveniente da hidrólise de moléculas de
ATP ou de reações de oxido-redução que ocorrem, por exemplo, na cadeia de transporte de elétrons das
mitocôndrias ou cloroplastos.

2.2 As proteínas de transporte e suas diferentes categorias


Existe uma grande variedade de tipos de proteínas de transporte nas plantas. Essa diversidade
existe devido à grande especificidade que essas proteínas possuem com seus solutos. Há, por exemplo,
transportadores específicos para cada tipo de íon, hormônios, peptídeos, aminoácidos, esqueletos
carbônicos, carboidratos, pequenas moléculas como água ou ureia e outros. Embora uma determinada
proteína de transporte seja altamente específica para um tipo de substância, essa especificidade
geralmente não é absoluta. Por exemplo, o transportador de K + imerso na bicamada lipídica das
membranas plasmáticas das células vegetais também é capaz de transportar Na + e Rb+, embora seja com
uma eficiência inferior ao transporte de K+. Nesse exemplo, também é importante destacar que esses três
íons possuem carga positiva. A carga de uma molécula é uma característica fundamental no processo de
transporte de solutos, pois ela determina o tipo de substâncias que um transportador pode ser capaz de
transportar. Há três tipos de categorias de proteínas de transporte nas plantas vasculares: canais,
carregadores e bombas.

184
Proteínas de transporte do tipo canal – transporte passivo
Os transportadores do tipo canal são proteínas transmembrana que atuam como poros seletivos
(Fig. 1). Quando estão abertos, moléculas e íons podem atravessar por esses poros de modo extremamente
rápido. Alguns estudos já demonstraram que através de cada proteína-canal podem-se difundir
aproximadamente 108 íons por segundo. O tipo de transporte que ocorre pelas proteínas canal é sempre o
passivo e a sua especificidade de transporte é determinada de acordo com o tamanho do poro, a densidade
e as cargas elétricas presentes no seu revestimento interno. Os canais nem sempre estão abertos para
permitir a passagem dos compostos ou íons. Existe uma estrutura na proteína canal denominada de portão
que abre e fecha o poro em resposta a sinais externos como, por exemplo, hormônios, luz ou alterações de
voltagem ou do potencial de membrana.

Figura 1: Transportador do tipo canal imerso na bicamada lipídica e realizando transporte passivo.

Proteínas de transporte do tipo carregadores – transporte passivo


Diferentemente dos transportadores do tipo canal, as proteínas carregadoras estão imersas na
membrana plasmática e não possuem um canal que se estende ao longo de toda bicamada lipídica. Os
carregadores possuem sítios ativos na parte hidrofílica de sua estrutura proteica, permitindo que solutos
específicos se liguem ao transportador. Com a ligação do soluto, a proteína carregadora sofre uma
mudança na conformação de sua estrutura, expondo o soluto para o outro lado da membrana. O transporte
do soluto somente é completado quando ele se dissocia do sítio ativo da proteína carregadora e passa a
transitar livremente no outro lado da membrana plasmática (Fig. 2).

185
Os carregadores são transportadores extremamente seletivos a uma determinada substância
devido a essa especificidade de ligação que os sítios ativos possuem para cada tipo de íon ou molécula. O
transporte de solutos realizado por meio dos carregadores ocorre em uma taxa muito mais lenta (10 6 vezes
menos) do que aquele realizado por um canal, exatamente por causa desse sistema de transporte em que é
necessário se realizar primeiramente a ligação do soluto em um sítio ativo da proteína e, posteriormente,
uma mudança na conformação de sua estrutura. O transporte realizado por um carregador pode ser do tipo
passivo ou ativo. O transporte passivo através de um carregador também é chamado de difusão facilitada.

Figura 2: Transportador do tipo carregador imerso na bicamada lipídica e realizando a difusão facilitada.

Proteínas de transporte do tipo bombas – transporte ativo primário


Os transportadores do tipo bombas são proteínas de membrana capazes de realizar o transporte
ativo primário, ou seja, aquele em que um íon ou uma molécula é transportado contra o seu gradiente de
energia livre através do gasto de energia adicional. Esses transportadores estão diretamente acoplados a
uma fonte de energia, ou seja, são proteínas que também são capazes de realizar a hidrólise de moléculas
de ATP, alguma reação de oxido-redução ou a absorção direta da luz. A maioria das bombas transporta
íons, sendo que o H+ é considerado o principal cátion a ser transportado através da membrana plasmática
das plantas. O transportador mais importante que realiza o transporte desse íon é a bomba próton ATPase
(H+-ATPase). A bomba H+-ATPase imersa na membrana plasmática das células vegetais bombeia, por
exemplo, prótons (H+) para fora da célula através da energia liberada pela hidrólise de moléculas de ATP
(Fig. 3). Sua principal função é manter um gradiente de H + entre fora (maior concentração de H+) e dentro
(menor concentração de H+) da célula vegetal. A criação desse gradiente nas membranas é muito
importante para que diversos processos fisiológicos se mantenham ativos nas células vegetais como, por
exemplo, o funcionamento dos transportadores do tipo carregador que realizam o transporte ativo
secundário.

186
Figura 3: Transportador do tipo bomba de prótons (H +) imerso na bicamada lipídica e realizando
transporte ativo.

Proteínas de transporte do tipo carregadores – transporte ativo secundário


Como descrito anteriormente, os carregadores também podem realizar o transporte de solutos
pela forma ativa. Diferentemente das bombas, os carregadores não estão acoplados a uma fonte de energia
e, portanto, não utilizam diretamente a energia proveniente da hidrólise de moléculas de ATP. A energia
necessária para ocorrer o transporte ativo é proveniente da força-motriz de prótons, ou seja, da energia
livre armazenada na forma de um gradiente de H+ gerado principalmente pelas bombas H+-ATPase. O
transporte realizado pelas proteínas carregadoras dependentes da força-motriz de prótons é denominado
de transporte ativo secundário. Em geral, os transportadores possuem dois tipos de sítios ativos de
ligação: um destinado a um substrato específico e outro a um íon (normalmente H+). Primeiramente, o íon
precisa ligar-se ao transportador para que ele mude a sua conformação estrutural e exponha um segundo
sítio ativo específico para a ligação de um determinado substrato. Quando o substrato liga-se a esse
segundo sítio ativo, ocorre novamente uma mudança na conformação da estrutura da proteína, expondo
tanto o íon quanto o substrato para outro lado da membrana, permitindo o transporte do substrato e do
íon. O transporte do íon pelas proteínas carregadoras sempre ocorre a favor do seu gradiente de energia
livre, enquanto que o substrato é transportado contra o seu gradiente (transporte ativo). Dessa forma, o
gradiente de energia livre gerado pelo íon deve ser sempre maior do que o do substrato.
Existem dois tipos de transporte secundário: simporte e antiporte. O transporte ativo secundário
do tipo simporte ocorre com proteínas que transportam ambas as substâncias (substrato e íon) na mesma
direção através da membrana (Fig. 4). Já o tipo antiporte ocorre quando os carregadores transportam o

187
íon e o soluto em direções opostas, ou seja, o movimento a favor do gradiente de prótons impulsiona o
transporte ativo de uma substância em direção oposta ao movimento do íon pela membrana plasmática
(Fig. 5).

Figura 4: Esquema do processo de transporte ativo secundário do tipo simporte, realizado por proteínas
carregadoras dependentes de uma força-motriz de prótons que é gerada pela atividade de proteínas-
bombas (H+-ATPase). ATP: trifosfato de adenosina; ADP: difosfato de adenosina; Pi: fosfato inorgânico.

Figura 5: Esquema do processo de transporte ativo secundário do tipo antiporte, realizado por proteínas
carregadoras dependentes de uma força-motriz de prótons que é gerada pela atividade de proteínas-
bombas (H+-ATPase). ATP: trifosfato de adenosina; ADP: difosfato de adenosina; Pi: fosfato inorgânico.

188
2.3 Sistema de transporte de alta afinidade (HATS) e sistema de transporte de baixa afinidade
(LATS)
Os transportadores também podem ser classificados segundo suas características de cinética
enzimática, uma vez que o processo de transporte de solutos envolve a ligação e dissociação de moléculas
ou íons a sítios ativos presentes nas proteínas como ocorre com enzimas. Existem dois tipos de sistema de
transporte: um mediado pelos transportadores de alta afinidade (HATS, high affinity transporter system) e
outro pelos transportadores de baixa afinidade (LATS, low affinity transporter system). As diferenças
entre esses dois sistemas de transportes são definidas segundo alguns conceitos provenientes da cinética
enzimática como velocidade máxima (Vmax), concentração do substrato (S) e constante Km.
A taxa máxima de transporte que um carregador ou um canal pode realizar é denominada de
velocidade máxima de transporte (Vmax). Ela refere-se quando os sítios ativos de um carregador estão
sempre ocupados, ou seja, estão constantemente ligando e desligando um substrato para transportá-lo pela
membrana ou quando o fluxo de solutos que passa por um canal está em sua máxima capacidade. A taxa
de transporte de solutos de uma proteína transportadora está intrinsecamente ligada à concentração do
soluto (S) no meio. Em princípio, quanto maior a concentração do soluto, maior é a taxa de transporte.
Entretanto, em condições de concentrações elevadas do soluto, a taxa de transporte torna-se independente
da concentração e passa a ser limitada pela própria capacidade do transportador em conseguir movimentar
o soluto pela membrana plasmática. Nesse caso, é dito que a atividade do transportador está saturada. Por
essa razão, o valor de Vmax também é resultado da quantidade de moléculas transportadoras que estão
em funcionamento na membrana plasmática. Quanto maior for a quantidade de moléculas transportadoras
na membrana, maior é a capacidade para se transportar um soluto específico e, consequentemente, maior
é o valor de Vmax para esse transportador.
A relação entre taxa de transporte (V) e concentração do soluto (S) permite a criação de um
gráfico de saturação característica da cinética de Michaelis-Menten (Fig. 6). O valor da taxa de transporte
aumenta conforme a concentração do soluto torna-se maior no meio extracelular. A partir de uma
determinada concentração, o transporte alcança sua máxima capacidade (Vmax) e torna-se independente
da concentração do soluto, formando uma curva hiperbólica. Existe uma constante denominada de Km
que é definida como o valor da concentração do soluto necessária para que a taxa de transporte de um
transportador alcance a metade do valor da sua taxa máxima (Vmax/2).

189
Figura 6: Curva de saturação características da cinética de Michaelis-Menten. V: velocidade de
transporte; [S]: concentração do soluto; Vmax: velocidade máxima de transporte; Vmax/2: metade do
valor da velocidade máxima; Km: constante que se refere ao valor da concentração do soluto necessária
para que a taxa de transporte de um transportador alcance a Vmax/2.

Quanto menor é o valor da concentração de um soluto (Km) para que um transportador consiga
atingir sua semi-saturação de capacidade de transporte (Vmax/2), significa que maior é a afinidade de
ligação que os sítios ativos dessa proteína têm por esse soluto especifico. Em outras palavras, não é
necessário existirem altas concentrações do soluto no meio para que essa substância possa ser
transportada eficientemente pelo transportador. Esse tipo de proteína caracterizado pelo baixo valor de
Km é classificado como transportador de alta afinidade (Fig. 7). Já aquelas que possuem um alto valor de
Km são denominadas de transportadores de baixa afinidade, ou seja, é necessário existir altas
concentrações do soluto no meio para que os transportadores possam atuar de forma eficaz (Fig. 7). Os
dois tipos de transportadores são importantes para as plantas, pois cada um deles tem uma melhor atuação
conforme a faixa de concentração do soluto presente, por exemplo, no solo. Os transportadores de alta
afinidade são eficientes para absorver íons que estão disponíveis em baixas concentrações, porém eles
saturam rapidamente quando as concentrações do soluto aumentam. Por outro lado, quando existem altas
concentrações de um íon, os transportadores de baixa afinidade são capazes de realizar uma absorção
mais rápida do que os transportadores de alta afinidade, já que sua saturação geralmente ocorre em
concentrações muito elevadas desse soluto.

190
Figura 7: Curvas de saturação características da cinética de Michaelis-Menten para os transportadores de
(1) alta (HATS) ou (2) baixa afinidade (LATS). Os transportadores de alta afinidade são aqueles que
apresentam valores de Km na faixa de grandeza em µM enquanto que os de baixa afinidade possuem na
faixa de mM. Km: constante que se refere ao valor da concentração do soluto necessária para que a taxa
de transporte de um transportador alcance a Vmax/2.

PARTE B: A ABSORÇÃO E A DISTRIBUIÇÃO DO NITRATO NOS TECIDOS VEGETAIS


MEDIADOS POR TRANSPORTADORES DE ALTA E BAIXA AFINIDADE EM PLANTAS
VASCULARES

Introdução
O nitrogênio é um elemento mineral necessário em grandes concentrações pelas plantas sendo
considerado como um dos macronutrientes mais importantes para promover o crescimento e
desenvolvimento adequado de todos os órgãos vegetais. Por essa razão, plantas que crescem em
condições ambientais com deficiência de nitrogênio possuem seu crescimento extremamente
comprometido, o qual pode levar a própria letalidade do organismo. O nitrogênio pode estar disponível às
plantas nas formas inorgânicas como o nitrato (NO3-), amônio (NH4-), gás amônia (NH3) ou nitrogênio
gasoso (N2) e também nas formas orgânicas como aminoácidos ou ureia.
O nitrato pode ser considerado como uma das formas de nitrogênio mais comumente encontradas
nos solos e absorvidas pelas raízes das plantas. Ele não é apenas considerado como uma importante fonte
191
nutricional, mas também pode atuar como uma molécula sinalizadora para diversos processos fisiológicos
das plantas. Esse íon, por exemplo, pode estimular a transcrição de muitos genes relacionados à absorção
e assimilação do nitrogênio como aqueles que codificam os transportadores de nitrato, diversas enzimas
do metabolismo do nitrogênio e do metabolismo do carbono, proteínas envolvidas com a síntese de ácidos
orgânicos, fotorespiração e/ou fotossíntese.
A absorção de nitrato ocorre por meio de transportadores de alta ou de baixa afinidade. Há uma
grande quantia de genes envolvidos e uma enorme diversidade de tipos de proteínas transportadoras que
transportam esse íon durante os processos de absorção, remobilização e distribuição. Embora haja muitos
estudos que se dedicaram a analisar e compreender como são os processos fisiológicos de transporte de
nitrato intermediado por transportadores de alta ou baixa afinidade, muitas questões relacionadas ao seu
funcionamento e sua regulação ainda são pouco compreendidas até hoje. A dificuldade de se estudar esse
tema deve-se a existência de inúmeros fatores fisiológicos, bioquímicos, gênicos e ambientais que
influenciam significativamente a expressão dos genes e a atividade de transporte dessas proteínas.
A regulação desses transportadores é bastante complexa sendo que ela ocorre tanto a nível
transcricional quanto pós-traducional. Os mecanismos de regulação dos transportadores variam de acordo
com a espécie estudada, o órgão vegetal, a idade da planta, a concentração de nitrato endógeno e exógeno
das células vegetais, o pH do solo, a temperatura, a presença e ausência de luz, a concentração endógena
de compostos metabólicos como aminoácidos ou carboidratos, entre outros. Para se ilustrar como os
transportadores de nitrato atuam no processo de absorção, remobilização e distribuição dessa fonte
nitrogenada inorgânica nas plantas, serão apresentadas a seguir as principais descobertas de uma pequena
coletânea de artigos científicos recentemente publicados que utilizaram a Arabidopsis thaliana e o arroz
(Oriza sativa) como modelos de estudo.

Transportadores de nitrato
A absorção do nitrato ocorre através de transporte ativo secundário, intermediado por
transportadores do tipo carregadores dependentes do gradiente de prótons gerado por uma bomba H +-
ATPase. Os transportadores de nitrato pertencem a duas famílias de proteínas identificadas em plantas:
NRT1 ou PTR (proton-dependent oligopeptide transporter) e NRT2 ou NNP (nitrate-nitrite porter).
Cada uma dessas famílias é representada por múltiplos genes que são diferentemente regulados e
codificam transportadores com distintas propriedades cinéticas e de regulação.
Existem transportadores de nitrato de alta ou baixa afinidade sendo que eles podem ser
classificados em duas categorias: os transportadores constitutivos (cHATS e cLATS) e os induzidos
(iHATS e iLATS) por nitrato. As proteínas cHATS e cLATS estão sempre presentes ativamente na
membrana plasmática já que os genes que codificam essas proteínas estão sendo constantemente
expressos mesmo na ausência de fontes nitrogenadas. Já a expressão dos genes das proteínas da categoria
iHATS e iLATS é induzida de acordo com a concentração de nitrato no meio extracelular. Em geral, essa
expressão aumenta quando há altas concentrações de nitrato no solo.

192
Os transportadores de nitrato da família NRT1 (PTR)
O primeiro gene pertencente à família NRT1 (PTR) descoberto em plantas foi o CHL1,
denominado posteriormente de AtNRT1.1. Em 1978, esse gene foi isolado a partir de um mutante de A.
thaliana que era deficiente em absorver o clorato e resistente aos efeitos tóxicos desse íon. Por esse
motivo, esse gene foi inicialmente nomeado com as siglas CHL1 (CHLORATE 1). De maneira
interessante, se verificou que essas plantas mutantes deficientes na absorção do clorato também captavam
o nitrato do solo com baixa eficiência. Através dos estudos de expressão heteróloga 1 do gene CHL1 em
oócitos de Xenopus2, descobriu-se que o clorato era um composto análogo ao nitrato que poderia ser
absorvido pelas plantas através do mesmo transportador. Posteriormente, também foi mostrado que o
clorato pode ser reduzido a clorito pela mesma enzima capaz de reduzir o nitrato, ou seja, a NR.
Embora os transportadores de nitrato sejam pertencentes à família dos transportadores de
peptídeos (PTR) por possuírem sequencias gênicas muito parecidas, há muitas evidências de que as
proteínas da família NRT1 não são capazes de transportar peptídeos e as proteínas que transportam
peptídeos não são capazes de transportar nitrato. O sistema de transporte das proteínas NRT1 é bastante
distinto daquele realizado pelas proteínas transportadoras de peptídeos, uma vez que o nitrato e um
peptídeo são moléculas muito diferentes entre si. Atualmente, ainda é pouco compreendido como dois
transportadores cujas sequencias gênicas são muito parecidas podem ter funções e funcionamentos tão
distintos dentro de uma mesma família.
Outra característica bastante peculiar à família das proteínas NRT1 (PTR) está relacionada à
quantidade de genes NRT1 (PTR) que existem em plantas. Diferentemente dos outros organismos que
possuem um reduzido número de genes NRT1 (PTR) (seis em humanos, três em Drosophila, um em
levedura), em A. thaliana, já foram identificados 53 genes e, em arroz, 80 genes. Essa grande quantidade
de genes NRT1 (PTR) sugere que as proteínas dessa família podem ter uma grande importância para as
plantas e, talvez, exerçam funções bastante particulares nos vegetais.
O transportador codificado pelo gene AtNRT1.1 não foi apenas o primeiro membro da família
NRT1 (PTR) a ser identificado em plantas, mas também foi o mais estudado até o momento. A
concentração de nitrato nos solos pode variar entre uma ordem de grandeza de µM a mM. Para se adequar
as diferentes flutuações da disponibilidade dessa fonte nitrogenada inorgânica nos solos, as plantas
usufruem de dois tipos de sistemas de absorção de nitrato: o primeiro de alta afinidade com valor de Km
nas faixas de µM e o outro de baixa afinidade cujo Km varia em torno da grandeza de mM. Os primeiros
estudos de absorção de nitrato pelo transportador codificado pelo gene AtNRT1.1 mostraram que esse
transportador atuava através do sistema do tipo LATS. Entretanto, estudos mais recentes com mutantes de
A. thaliana defectivos para o gene AtNRT1.1, têm mostrado que a absorção do nitrato foi afetada tanto
para os transportadores do sistema LATS quanto para aqueles que atuariam no sistema HATS. Além
disso, o estudo de expressão heteróloga do gene AtNRT1.1 em oócitos de Xenopus demonstrou que o
transportador AtNRT1.1 atuou eficazmente em duas faixas distintas de concentração de nitrato: uma em
que o valor de Km está em torno de 50 mM (transportador de alta afinidade) e outra cujo o Km está por

193
volta de 4 mM (transportador de baixa afinidade). Esses estudos demonstraram que a proteína codificada
pelo gene AtNRT1.1 é na verdade um transportador de dupla afinidade com dois valores diferentes de
Km para nitrato.
O modo de ação da proteína AtNRT1.1 depende de reações de fosforilação e desfosforilação 3 do
resíduo de treonina presente na sua cadeia proteica. Quando a proteína AtNRT1.1 é fosforilada, o
transportador atua no sistema HATS e, quando está desfosforilada, a proteína passa a ter a função de um
transportador do sistema LATS. A fosforilação e desfosforilação da proteína AtNRT1.1 é regulada
principalmente pelas variações da concentração de nitrato presente nos solos. A expressão do gene
AtNRT1.1 é intensamente induzida pelas altas concentrações de nitrato em nível transcricional, enquanto
que na ausência ou em baixas concentrações dessa fonte inorgânica de nitrogênio, a proteína AtNRT1.1
parece atuar principalmente de forma constitutiva nas raízes de A. thaliana sendo pouco ou
moderadamente estimulada pela presença de nitrato.
Após a descoberta dessa dupla função do transportador AtNRT1.1, outras proteínas da família
NRT1 (PTR) foram estudadas em A. thaliana para se averiguar se existiriam outras proteínas similares a
AtNRT1.1. Segundo a literatura, até o momento, todas as proteínas AtNRT1 que já foram estudadas
possuem somente a função de um transportador de baixa afinidade. Atualmente, acredita-se na hipótese
de que os sistemas de transporte do tipo HATS e LATS sejam realizados por proteínas codificadas por
genes distintos e que não é comum existirem transportadores que possam atuar nos dois sistemas. A única
exceção a essa regra seria a proteína AtNRT1.1.
O transportador AtNRT1.1 parece também estar envolvido com outros processos fisiológicos
como, por exemplo, os primeiros estágios do desenvolvimento de novos órgãos vegetais ou a abertura
estomática induzida pela luz. Em condições em que as plantas de A. thaliana foram submetidas a elevadas
concentrações de nitrato, a proteína AtNRT1.1 também influenciou o processo da quebra da dormência de
sementes. A ligação existente entre a proteína AtNRT1.1 com eventos fisiológicos que não
necessariamente estão relacionados ao transporte de nitrato sugere que ela também pode atuar como um
sensor que detecta diferente concentrações de nitrato existentes no meio endo e/ou extracelular, uma vez
que os eventos fisiológicos descritos anteriormente são influenciados pela presença de nitrato.
Com respeito aos processos de regulação, o gene AtNRT1.1 é intensamente influenciado pelas
diferentes concentrações de nitrato no ambiente sendo que sua expressão é rapidamente induzida a altas
concentrações desse íon. Mesmo quando esse transportador atua no sistema HATS, ele também é
influenciado moderadamente pelas flutuações das concentrações de nitrato que variam na faixa de
grandeza de µM. Há ainda outros fatores que influenciam na sua regulação como, por exemplo, o pH do
meio extracelular, a idade da planta, a concentração endógena de nitrato nos tecidos vegetais, a presença
de amônio no solo ou a atividade de outros transportadores de nitrato que atuam no sistema HATS.
Segundo um estudo, a abundância de RNAm transcrito do gene AtNRT1.1 aumentou rapidamente, em um
período de 2 horas, nas raízes de A. thaliana quando o pH do meio de cultura foi alterado de 6,5 para 5,5,
mesmo quando as plantas eram cultivadas na ausência de nitrato. Outros estudos também já
demonstraram que o gene AtNRT1.1 é expresso principalmente nas regiões mais novas do tecido

194
radicular e é influenciado pela idade da planta. Ao comparar mutantes de A. thaliana defectivos para o
gene AtNRT1.1 com plantas selvagens, observou-se uma redução de 30% da taxa de absorção de nitrato
pelo sistema HATS quando essas plantas tinham de 5 a 12 dias de idade, enquanto que em plantas eram
mais velhas (42 dias de idade), não se verificou diferenças significativas entre as taxas de absorção.
O gene AtNRT1.1 é fortemente regulado pelo ciclo diuturno. Estudos têm demonstrado que nas
primeiras horas do período luminoso há um aumento da expressão do gene AtNRT1.1 enquanto que,
durante o período noturno, a abundância de RNAm transcrito é bastante baixa. A expressão do gene
AtNRT1.1 pode ser intensificada no período noturno com a aplicação exógena de açucares no fim do
período luminoso. Esse resultado sugere que a expressão do gene AtNRT1.1 também é influenciado pelo
status de carboidratos endógenos presente nos tecidos das plantas.
Em A. thaliana, existe outra isoforma4 da proteína AtNRT1 denominada de AtNRT1.2. Embora
ambas isoformas, AtNRT1.1 e AtNRT1.2, sejam transportadores que atuem no sistema de absorção de
nitrato do tipo LATS, esses dois transportadores diferem-se em três aspectos: (1) a expressão do gene
AtNRT1.1 é induzida por nitrato, enquanto que a do gene AtNRT1.2 é expressa constitutivamente nos
tecidos vegetais; (2) a proteína AtNRT1.1 é um transportador de dupla afinidade, enquanto a AtNRT1.2 é
uma proteína que atua somente sob o sistema do tipo LATS; e (3) o gene AtNRT1.1 é expresso
intensamente na epiderme do ápice radicular e somente no córtex e endoderme das regiões mais maduras
do sistema radicular, enquanto que a expressão do gene AtNRT1.2 foi detectada somente na epiderme das
raízes. A citolocalização5 específica da expressão dos genes AtNRT1.1 e AtNRT1.2 em diferentes tipos
celulares demonstram que essas duas isoformas podem exercer diferentes funções na raiz de A. thaliana.
Atualmente, as funções específicas dessas isoformas ainda são desconhecidas e pouco estudadas.
Depois que o nitrato é absorvido nas células das raízes, ele atravessa as membranas de diversas
células para ser distribuído entre os diferentes compartimentos celulares, tecidos e órgãos da planta.
Pouco é conhecido a respeito dos processos de transporte e remobilização do nitrato entre as diferentes
células e tecidos. Segundo alguns estudos, vários genes pertencentes à família NRT1 (PTR) em A.
thaliana podem estar envolvidos no processo de distribuição do nitrato dentro da planta. O transportador
de baixa afinidade codificado pelo gene AtNRT1.4 é um bom exemplo de proteína que atua na
mobilização interna do nitrato nos tecidos da planta. O gene AtNRT1.4 é expresso especificamente no
pecíolo das folhas. Em plantas selvagens de A. thaliana, foi detectado um elevado acúmulo de nitrato
endógeno e uma baixa atividade da NR no pecíolo, indicando que essa parte do corpo vegetativo da
planta pode ser uma importante região de armazenamento de nitrato. Sugeriu-se a hipótese de que o
transportador AtNRT1.4 seja responsável pelo controle do armazenamento e acúmulo de nitrato no
pecíolo e, consequentemente, pela regulação da homeostase da concentração de nitrato na folha.

195
 Informações complementares
1- expressão heteróloga: refere-se a uma técnica que consiste em expressar um gene ou parte de um gene
em um organismo hospedeiro que naturalmente não possui esse gene ou esse fragmento de gene em seu
DNA. O método de inserção desse gene no DNA do hospedeiro heterólogo pode ser realizado por
técnicas de DNA recombinante.
2- oócito de Xenopus: Xenopus é um gênero de sapos africanos cujas espécies são muito utilizadas na
pesquisa científica para diversos objetivos. Os oócitos de Xenopus podem ser considerados como
poderosas ferramentas para realizar estudos de embriologia, desenvolvimento, funcionamento celular,
biologia molecular, genômica, neurobiologia, toxicologia e outros. Os oócitos dessas espécies são células
relativamente grandes, produzidas em grandes quantidades e de fácil manipulação. Eles são muito
tolerantes a injeção de uma grande variedade de materiais biológicos de outras espécies como, por
exemplo, ácidos nucleicos, proteínas ou até núcleos inteiros ou organelas provenientes de outros seres
vivos. Essas células são muito utilizadas em estudos de expressão heteróloga onde genes específicos são
super expressos ou silenciados. Também são considerados ferramentas de grande importância em
pesquisas de fisiologia e do funcionamento de transporte de íons através de transportadores ou canais
imersos na membrana celular.
3- reação de fosforilação e desfosforilação: é uma reação bioquímica que consiste em adicionar um
grupo fosfato (PO4) ou retirá-lo de uma molécula, respectivamente. A fosforilação e desfosforilação são
consideradas uma das reações mais importantes nos processos de regulação das atividades e funções de
diversas proteínas.
4- isoforma: são proteínas que diferem sutilmente na sua sequência de aminoácidos, mas realizam uma
função bioquímica similar. Elas são codificadas por genes diferentes e podem apresentar propriedades
cinéticas distintas como, por exemplo, diferentes valores de Km, velocidade máxima (Vmax) ou serem
reguladas distintamente. Embora sejam proteínas que possuem funções bioquímicas muito similares, não
necessariamente desempenham a mesma função fisiológica nos tecidos dos organismos vivos.
5- citolocalização: estudos científicos que visam localizar determinados compostos no interior das
células e tecidos de um organismo. Existem diversos tipos de protocolos e metodologias de
citolocalização descritas na literatura como, por exemplo, as técnicas de imunorreação. Essa metodologia
consiste basicamente em ligar a molécula de interesse (antígeno) a outro composto (anticorpo) através de
uma reação antígeno-anticorpo. O anticorpo é uma molécula que atua como um “marcador”, já que emite
cor ou fluorescência. Posterior a imunorreação, os tecidos são fixados e cortados por meio de técnicas
anatômicas e analisados em microscópio.

Os transportadores de nitrato da família NRT2 (NNP)


A família das proteínas NRT2 (NNP) representam os transportadores de nitrato de alta afinidade.
O número de genes que codificam os transportadores dessa família varia muito entre as espécies de
plantas, por exemplo, em A. thaliana foram descobertos sete genes e em Oriza sativa já se identificaram

196
cinco genes. Em plantas, nem todos os transportadores da família NRT2 (NNP) são capazes de transportar
o nitrato de forma independente. Muitos desses transportadores somente conseguem realizar essa função
quando acoplados a outro componente proteico denominado NAR2. As proteínas do tipo NAR2 também
estão imersas na bicamada lipídica da membrana plasmática das células vegetais e geralmente estão
próximas às proteínas NRT2. A interação entre essas duas proteínas ocorre diretamente na membrana
plasmática e é extremamente específica. Em plantas de cevada, por exemplo, há três genes NAR2 sendo
que apenas um deles, o HvNAR2.3, codifica uma proteína que é capaz de formar uma unidade funcional
com o transportador HvNRT2.1 para transportar o nitrato.
No genoma do arroz, foram identificados cinco genes que codificam proteínas do tipo NRT2
(OsNRT2.1, OsNRT2.2, OsNRT2.3a, OsNRT2.3b, OsNRT2.4) e dois genes NAR2 (OsNAR2.1 e
OsNAR2.2). Em um estudo que visava analisar a capacidade de transporte de nitrato dessas diferentes
proteínas, os RNAm dos genes OsNAR2.1, OsNAR2.2 e os diversos OsNRT2 foram injetados em oócitos
de Xenopus separadamente ou em distintas combinação entre OsNAR2 e OsNRT2. Os RNAm injetados
foram traduzidos no interior da célula e as respectivas proteínas foram expressas na membrana plasmática
do oócito. Posteriormente, esses oócitos foram utilizados no estudo de absorção do nitrato marcado com o
isótopo pesado de nitrogênio (15N). Embora existam dois genes que codificam a proteína NAR2, somente
a OsNAR2.1 interagiu com os transportadores OsNRT2.1, OsNRT2.2 e OsNRT2.3a. Esses três
transportadores mostraram ser totalmente dependentes da interação com as proteínas NAR2 para que
consigam realizar o transporte de nitrato do meio extracelular para o interior da célula. Já os
transportadores OsNRT2.3b e OsNRT2.4 foram capazes de transportar o nitrato eficazmente e
independente da presença das proteínas NAR2. Essa evidência mostra que os transportadores OsNRT2.3b
e OsNRT2.4, provavelmente, não precisam formar os complexos proteicos com as proteínas NAR2 para
exercerem a sua função de transporte.
Alguns estudos de citolocalização em folhas e raízes de arroz mostraram que a expressão dos
genes responsáveis pelo transporte de nitrato através do sistema HATS ocorre em células bastante
específicas. A expressão do gene OsNAR2.1 foi detectada principalmente nas células epidérmicas das
raízes e moderadamente nas células do córtex e do estelo, enquanto que os genes OsNRT2.1 e OsNRT2.2
foram expressos intensamente na maioria dos tipos celulares existentes nas raízes. A forte expressão dos
genes OsNAR2.1, OsNRT2.1 e OsNRT2.2 nas células epidérmicas da raiz permitiu inferir que,
provavelmente, as proteínas codificadas por esses genes podem ser as principais isoformas responsáveis
pela absorção do nitrato do solo. Além disso, o gene OsNRT2.2 também foi significativamente expresso
nos tecidos do grão do arroz, sugerindo que, talvez, esse transportador também tenha uma importante
função durante o processo do desenvolvimento das sementes.
O gene OsNRT2.3 foi expresso abundantemente nas células do estelo da raiz primária e das
raízes laterais, nas regiões de junção entre o sistema radicular e parte aérea da planta e nas folhas. Essa
citolocalização da expressão do gene OsNRT2.3 sugere que o transportador codificado por esse gene
pode ser responsável principalmente pelo transporte e distribuição do nitrato absorvido pelas raízes para
os demais tecidos e órgãos da planta. No caso da expressão do gene OsNRT2.4, verificou-se que ela foi

197
principalmente encontrada na base do primórdio das raízes laterais. Além disso, esse foi o único gene cuja
expressão foi influenciada pela presença de auxina sintética (NAA), sugerindo que provavelmente existe
uma relação bastante específica entre o gene OsNRT2.4, o nitrato e a auxina. Quando as plantas de arroz
foram cultivadas na presença de nitrato e auxina, verificou-se um aumento da expressão do gene
OsNRT2.4. Por outro lado, quando as plantas foram submetidas a um tratamento contendo nitrato e um
inibidor do transporte de auxina, a expressão do gene OsNRT2.4 diminuiu significativamente nos
primórdios das raízes laterais. Esses resultados sugerem que a proteína codificada pelo gene OsNRT2.4
pode ter uma importante função no processo de desenvolvimento das raízes laterais da planta de arroz
cuja regulação provavelmente deve ter o envolvimento da sinalização via o hormônio auxina.
Os diferentes transportadores de nitrato da planta de arroz são regulados e influenciados por
diversos fatores fisiológicos e ambientais como, por exemplo, a luz, a concentração endógena de
carboidratos, pH do solo, temperatura, concentrações endógenas e exógenas de nitrato ou amônio e
outros. Estudos têm mostrado que a expressão dos genes OsNAR2.1 e OsNRT2 nas raízes de arroz foram
induzidos pela luz alcançando um valor máximo de abundância após 4 horas de exposição enquanto que,
no escuro, a quantidade de RNAm transcrito desses genes foi significativamente baixa. De maneira
interessante, esse padrão de baixa expressão dos transcritos no escuro pode ser revertido quando se
oferece sacarose às plantas de arroz, sugerindo que a presença de carboidratos influencia positivamente na
expressão desses genes. Há ainda evidências de que nas plantas de arroz e em A. thaliana, as expressões
dos genes NAR2 e NRT2 foram muito intensas no fim do período luminoso. As concentrações de
carboidratos endógenos nos tecidos dessas plantas provavelmente estariam elevadas nesse horário do dia
e, consequentemente, estimularia a expressão dos genes responsáveis por codificar os transportadores de
nitrato.
A temperatura também é outro fator que pode influenciar a expressão dos transportadores de
nitrato de alta afinidade. As altas temperaturas podem inibir a expressão dos genes OsNRT2.1, OsNRT2.2
e OsNRT2.3a nas raízes do arroz. Além disso, as expressões dos genes OsNAR2.1 e os diversos OsNRT2
são intensamente estimuladas pela presença do nitrato no meio extracelular e inibidas com a presença de
amônio.
Em A. thaliana, a proteína AtNRT2.1 é considerada um transportador do tipo iHATS, uma vez
que sua expressão aumenta rapidamente quando as raízes estão expostas ao nitrato. Entretanto, o aumento
dessa expressão ocorre apenas durante as primeiras horas em que as raízes foram expostas a essa fonte
inorgânica de nitrogênio. Após um determinado período de exposição, verificou-se um declínio da
abundância dos transcritos do gene AtNRT2.1, apesar da disponibilidade de nitrato ter sido mantida às
raízes dessas plantas. Para se verificar se as altas concentrações endógenas de nitrato nos tecidos
radiculares ou os metabólitos provenientes da redução do nitrato poderiam atuar como inibidores da
expressão do gene AtNRT2.1 (mecanismo de regulação por repressão em feedback), mutantes de A.
thaliana defectivos da enzima NR foram cultivados em meio contendo nitrato e tungstato, um inibidor da
enzima NR. Esses mutantes apresentaram altas concentrações de nitrato endógeno e baixos níveis de
metabólitos nitrogenados resultantes da assimilação do nitrato em seus tecidos. De maneira interessante, a

198
expressão do gene AtNRT2.1 aumentou nas plantas mutantes, indicando que as concentrações de nitrato
endógeno estimulam a expressão desse gene, enquanto que os metabólitos provenientes da redução do
nitrato provavelmente inibem sua expressão. Além disso, estudos recentes têm demonstrado que o amônio
proveniente da redução do nitrato pelas enzimas NR/NiR e vários aminoácidos como a glutamina regulam
negativamente a expressão do gene NRT2.1 em plantas como A. thaliana, tabaco e cevada.

Considerações finais
O nitrato pode ser transportado por dois tipos de transportadores: as proteínas de alta (HATS) ou
baixa (LATS) afinidade. A única exceção é a proteína AtNRT1.1 que é considerada um transportador de
dupla afinidade, uma vez que ela é capaz de atuar eficazmente em dois valores de Km distintos. Os
transportadores dos sistemas HATS e LATS podem atuar de forma constitutiva ou induzida por nitrato.
Há múltiplos genes envolvidos no processo de absorção do nitrato, sendo que todos são regulados por
uma grande diversidade de fatores ambientais como temperatura, pH do solo, tipos e disponibilidade de
fontes nitrogenadas, ciclo diuturno e outros. Além disso, a expressão desses genes é induzida pela
presença de nitrato e de carboidratos, sugerindo que a sua regulação provavelmente é dependente do
status de C e N endógeno da planta. Já o amônio e demais compostos nitrogenados provenientes da
assimilação do nitrato inibem a expressão dos genes que codificam os transportadores do sistema HATS,
mostrando a existência de um mecanismo de regulação em feedback durante o processo de absorção do
nitrato.
As respostas de indução ou repressão da expressão gênica de ambos os tipos de transportadores
(HATS e LATS) geralmente se mostram bastante rápidas, ocorrendo em poucas horas, após o estimulo
ambiental ou fisiológico. Essa característica demonstra a grande plasticidade que as plantas possuem em
adaptar rapidamente a sua fisiologia diante da variação de disponibilidade de nitrato no solo ao qual pode
variar entre as grandezas de µM a mM. As plantas são capazes de estimular ou inibir rapidamente o
funcionamento dos transportadores do sistema HATS e LATS para que sejam capazes de absorver o
nitrato e distribuí-lo pelos diferentes tecidos e órgãos com grande eficiência e sempre de maneira
controlada para que não haja um desequilíbrio da homeostase das células vegetais.
A contribuição relativa que cada um dos transportadores do sistema HATS e LATS oferece
durante o processo de absorção de nitrato ainda é desconhecida e muito difícil de determinar. Os
transportadores de alta e baixa eficiência geralmente atuam conjuntamente durante o processo de
absorção de nitrato como se fossem diversas engrenagens que mantém o sistema de absorção ativo. A
atuação desses transportadores está constantemente variando e se adaptando às condições fisiológicas da
planta e aos fatores ambientais a fim de se manter a eficiência da absorção e distribuição da fonte
nitrogenada nos tecidos vegetais.
Os transportadores de nitrato não são considerados apenas como proteínas responsáveis pela
absorção e distribuição do nitrato nos tecidos e células vegetais, mas também podem ter uma importante
função como sensores que detectam as diferentes concentrações de nitrato no meio endo e/ou extracelular.
Eles podem atuar conjuntamente com os hormônios vegetais, como a auxina, e influenciar diversos

199
processos fisiológicos como, por exemplo, o desenvolvimento de novos órgãos vegetais, a abertura
estomática induzida pela luz, a quebra da dormência de sementes, o estimulo do desenvolvimento de
raízes laterais e outros.

200
CAPÍTULO 17

Sinalização e indução do metabolismo ácido


crassuláceo
Paula Natália Pereira

Introdução
O Metabolismo Ácido Crassuláceo (CAM) é uma das 3 vias fotossintéticas de fixação do CO 2
nas plantas vasculares. Ao contrário dos outros metabolismos fotossintéticos, C 3 e C4, o CAM é
caracterizado pela fixação noturna do CO2 e pela maior economia de água (3 a 10 vezes) quando
comparado à via C3. Nas plantas CAM, os estômatos abrem durante a noite, o que possibilita a entrada do
CO2 atmosférico e maior economia de água. Esse CO2 é utilizado na carboxilação do fosfoenolpiruvato
(PEP) pela enzima fosfoenolpiruvato carboxilase (PEPC), produzindo oxalacetato (OAA), o qual é
convertido em malato pela enzima malato desidrogenase (MDH). Esse malato juntamente com íons H + é
rapidamente estocado durante o período noturno no interior do vacúolo na forma ácido málico,
provocando a acidificação noturna característica das plantas CAM. Durante o dia, o malato é
descarboxilado, dependendo da espécie vegetal, pela enzima fosfoenolpiruvato carboxiquinase ou enzima
málica (NADP-ME ou NAD-ME) gerando PEP. O CO2 resultante da descarboxilação do malato é então
fixado pela enzima ribulose bifosfato carboxilase oxigenase (RUBISCO).
O CAM pode operar de quatro modos: CAM obrigatório, C 3-CAM facultativo, CAM- cycling e
CAM-idling. O CAM obrigatório é caracterizado pela fixação noturna do CO 2 e pelo acúmulo de ácidos
orgânicos durante esse período. O segundo tipo, C3-CAM facultativo, em condições favoráveis de água,
luz, nutrientes e temperatura, apresenta um metabolismo fotossintético característico de plantas C3, no
qual não ocorre o acúmulo noturno de ácidos orgânicos e a fixação do CO 2 ocorre durante o período
claro. Contudo, quando em condições ambientais desfavoráveis, há a alteração do metabolismo
fotossintético C3 para o CAM, como a fixação do CO2 ocorrendo durante a noite assim como o acúmulo
noturno de ácidos orgânicos. No CAM-cycling, ocorre a fixação diurna do CO2 e o acúmulo noturno de
ácidos orgânicos. Finalmente, no CAM-idling, há um pequeno acúmulo noturno de ácidos orgânicos, mas
os estômatos permanecem fechados durante todo o ciclo diuturno, sendo que o CO 2 proveniente da
respiração e fotorrespiração é reciclado para a síntese de compostos orgânicos e manutenção do aparato
fotossintético (Fig. 1).

201
C3 CAM obrigatório CAM- cycling CAM- idling

Fixação do CO2

Acúmulo de
ácidos orgânicos

Comportamento
estomático

Figura 1: Fotossíntese C3 e diferentes modos do CAM, CAM obrigatório, CAM-cycling e CAM-idling.


As diferenças referem-se à fixação do CO2, acúmulo de ácidos orgânicos e comportamento fotossintético.
A barra branca inferior representa ao período diurno e a barra escura representa o período noturno.

O metabolismo CAM pode ser sinalizado/induzido por diversos fatores endógenos e exógenos
nas espécies CAM facultativas, tais como Mesembryanthemum crystallinum (Aizoaceae), Guzmania
monostachia (Bromeliaceae) e Calandrinia polyandra (Montiaceae). A seguir serão discutidos alguns
fatores endógenos e exógenos que participam na sinalização/indução da fotossíntese CAM.

Fatores endógenos que sinalizam o CAM


Estudos realizados a cerca da sinalização do CAM têm mostrado que entre os fatores endógenos
que regulam esse metabolismo fotossintético estão os fitormônios, como o ácido abscísico (ABA) e as
citocininas (CKs) e alguns mensageiros secundários, como o cálcio citossólico (Ca 2+) e o óxido nítrico
(NO) (Fig. 2).

Ácido abscísico
O ácido abscísico (ABA) constitui um dos principais fatores endógenos responsáveis pela
indução do CAM. Em condições de estresse hídrico, o ABA atua induzindo a expressão de genes que
codificam proteínas responsáveis por evitar a perda de água e restaurar os danos nas células.
Plantas de Ananas comosus (Bromeliaceae) mantidas sob déficit hídrico durante 25 dias
apresentaram um aumento nos níveis endógenos de ABA de 30 vezes, quando comparadas às plantas
mantidas hidratadas.
Folhas de Guzmania monostachia também apresentaram maiores níveis endógenos de ABA
quando mantidas sob déficit hídrico por 7 dias. Quando comparadas as porções basal e apical dessas
folhas, foram verificados maiores níveis endógenos desse hormônio na porção apical, que corresponde à
parte da folha que expressa com maior intensidade o CAM.

Citocininas
Trabalhos recentes têm mostrado as citocininas (CKs) como um regulador negativo da indução
do CAM (efeito antagônico ao ABA).
202
Plantas de Mesembryanthemum crystallinum mantidas sob déficit hídrico e induzidas ao CAM
apresentaram menores níveis endógenos de citocininas e um aumento na quantidade de transcritos da
enzima PEPC em suas folhas, corroborando o papel de regulador negativo da expressão da PEPC.
Em plantas de Ananas comosus mantidas sob déficit hídrico, foi verificada a redução nos níveis
endógenos de citocininas entre os dias 5 e 7 do tratamento, período que também correspondeu à maior
expressão das enzimas PEPC, MDH e PEPCK e indução do CAM.
Na porção apical de folhas destacadas de Guzmania monostachia submetidas ao déficit hídrico,
foi verificada a maior atividade da enzima PEPC durante o período noturno, quando também se observou
os menores níveis endógenos das citocininas livres, zeatina (Z) e isopenteniladenina (iP). A fim de
corroborar a hipótese que as citocininas regulariam negativamente a atividade da PEPC, foi feita a
aplicação de Z e iP nas folhas destacadas dessa bromélia. Como esperado, foi verificada uma redução na
atividade da PEPC na porção apical das folhas mantidas sob estresse hídrico+aplicação de Z e iP.
Apesar dos inúmeros trabalhos acerca da regulação do CAM por ABA e Cks, pesquisas
envolvendo as demais classes hormonais, como auxinas, giberelinas e etileno, ainda são raras e pouco
conclusivas.

Cálcio citossólico
É conhecido que os níveis de cálcio citossólico regulam processos envolvidos em respostas
hormonais e estresses abióticos.
Em folhas de Mesembryanthemum crystallinum foi verificado que o tratamento com um quelante
de cálcio extracelular levou à inibição no aumento dos níveis de transcritos da enzima PEPC. Por outro
lado, o tratamento com um ionóforo de cálcio extracelular ocasionou o aumento nos teores de transcritos
da PEPC. Dessa forma, o cálcio citossólico parece ser essencial na indução do CAM em folhas de M.
crystallinum.
Plantas de Ananas comosus tratadas com um ionóforo de cálcio (Ionomicina) apresentaram a um
aumento de 1,6 a 4,2 vezes nos níveis de malato e atividade da PEPC, comparadas às plantas não tratadas
com o ionóforo. Por outro lado, o tratamento dessas plantas com um quelante de cálcio (EGTA) levou à
redução de 24 a 45% na atividade da enzima PEPC e nos níveis de malato, quando comparadas às plantas
não tratadas com EGTA. Similar ao observado em M. crystallinum, o cálcio citossólico foi essencial na
indução do CAM em folhas de abacaxizeiro.

Óxido nítrico
O óxido nítrico (NO) participa de diversos processos no desenvolvimento, crescimento e
metabolismo vegetal. Entre esses processos estão, morte celular programada, fechamento estomático,
expansão foliar e radicular, germinação de sementes, síntese de clorofila, entre outros. Recentemente, tem
chamado a atenção a participação desse composto gasoso na indução da fotossíntese CAM.
Plantas de Ananas comosus tratadas com um doador de NO (SNP) ou com a aplicação de NO
gasoso apresentaram um aumento nos níveis de malato e atividade das enzimas PEPC e MDH (ausência

203
de déficit hídrico). Também foi verificado nas plantas mantidas sob déficit hídrico um aumento na
produção de NO comparada às plantas hidratadas. Essas informações apontam o NO como um sinalizador
na indução do CAM.
Em folhas destacadas de Guzmania monostachia mantidas sob déficit hídrico, foram verificados
maiores níveis endógenos de NO na porção apical, onde se observa a maior expressão do CAM. Como
observado em A. comosus, o NO também participou como um sinalizador na indução do CAM na porção
apical das folhas de G. monostachia.

ABA

Ca+2 CAM NO

CKs
Figura 2: Esquema representativo do papel dos fatores endógenos no CAM. representa um regulador
negativo e representa um regulador positivo da fotossíntese CAM.

Fatores exógenos que induzem o CAM


Trabalhos com espécies CAM facultativas têm relatado alguns fatores ambientais responsáveis
pela indução desse metabolismo fotossintético. Os fatores exógenos mais comumente discutidos são água,
luz, temperatura e salinidade. Contudo, alguns trabalhos também apontam para a importância dos
nutrientes na indução da fotossíntese CAM.

Água
O principal fator exógeno utilizado para a indução do CAM é o déficit hídrico. Estudos
realizados com Mesembryanthemum crystallinum, Kalanchoë blossfeldiana, Kalanchoë tubiflora, Ananas
comosus, Calandrinia polyandra, Guzmania monostachia, entre outras espécies, têm mostrado a indução
do CAM (ou aumento na expressão desse metabolismo) quando plantas são submetidas à deficiência
hídrica.
A porção apical de folhas destacadas de Guzmania monostachia mantidas sob deficiência hídrica
apresentaram a maior expressão do CAM, caracterizada pelo aumento nas atividades das enzimas PEPC,
MDH, acúmulo noturno de malato e citrato e diurno de amido. O mesmo também foi observado em
plantas inteiras. Contudo, quando é restabelecido o fornecimento de água à essas plantas, observa-se uma
mudança da fotossíntese CAM para C3, com a redução na atividade das enzimas PEPC e MDH e do
acúmulo noturno de ácidos orgânicos.

204
Salinidade
Além do déficit hídrico, a salinidade (nesse caso, estresse salino) também é um fator exógeno
comumente utilizado em trabalhos com espécies C3-CAM facultativas para promover a indução do CAM.
Em folhas de Mesembryanthemum crystallinum, o estresse salino (100-400mM de NaCl)
estimulou o acúmulo endógeno de ABA, acúmulo noturno de ácidos orgânicos e o aumento na atividade e
nos níveis de mRNA da enzima PEPC, acelerando, dessa forma, a transição da fotossíntese C3 para CAM
nas folhas dessa espécie. A indução da via CAM é reversível, uma vez que é retirado o estresse salino.

Intensidade luminosa
A intensidade luminosa também parece ter um papel importante na indução do CAM. Plantas de
Guzmania monostachia mantidas sob elevada intensidade de fótons fotossinteticamente ativos (600 µmol
m-2 s-1) por 3 meses mostraram um acúmulo noturno de ácidos orgânicos, caracterizando a indução do
CAM. Por outro lado, quando plantas da mesma espécie foram mantidas sob 300 µmol m-2 s-1 e adubadas
com KNO3, 3 vezes por semana durante 28 dias, foi verificada uma redução no acúmulo noturno de
ácidos orgânicos, enquanto, as plantas mantidas sob a mesma intensidade de fótons fotossinteticamente
ativos, mas com suspensão da adubação por 28 dias apresentaram um aumento no acúmulo noturno de
ácidos orgânicos.
Em plantas de Clusia minor, foi observada uma diminuição no acúmulo noturno de ácidos
orgânicos, quando essas plantas foram mantidas sob elevada intensidade de fótons fotossinteticamente
ativos (650-740 µmol m-2 s-1), caracterizando a inibição da fotossíntese CAM. Nesse trabalho foi proposto
que elevadas intensidades luminosas como único fator estressante para a planta não seria efetivo para a
indução do CAM, sendo necessária a combinação de outros fatores estressantes, como a deficiência
hídrica.
Com base nas controvérsias entre os estudos envolvendo a intensidade luminosa como fator
exógeno responsável pela indução do CAM, mais trabalhos seriam necessários para afirmar se elevadas
intensidades luminosas, como único fator estressante, seria suficiente para induzir a expressão desse
metabolismo ou se a combinação desse fator com outras condições de estresse (água, nutrientes,
salinidades, entre outros) seria necessária para a indução dessa via fotossintética.

Temperatura
O termoperíodo também parece ser um fator exógeno importante na indução do CAM em
algumas espécies.
Foi observado que folhas de plantas de abacaxizeiro (Ananas comosus) mantidas em
termoperíodo (28ºC durante o período escuro e 15ºC durante o período claro do dia) apresentaram duas
vezes maior suculência, maior acúmulo noturno de ácidos orgânicos, maior atividade da enzima PEPC e
maiores níveis de ABA, quando comparada com as folhas de plantas mantidas em temperatura constante
(28ºC) ao longo do dia. Esses dados claramente indicam a função do termoperíodo na indução da via
fotossintética CAM em plantas de abacaxizeiro.

205
Nutrição mineral
Poucos trabalhos têm chamado atenção à importância dos nutrientes na indução do CAM. Um
dos pioneiros nessa área, Klaus Winter, mostrou em 1982 que a expressão e a atividade da enzima PEPC
em Kalanchoë pinnata (Crassulaceae) foram maiores em altas concentrações de nitrato (24 mM), quando
comparadas à baixas concentrações (0,6 mM) desse íon. Mais tarde, em 1988, Ota verificou que plantas
de Kalanchoë blossfeldiana (Crassulaceae) que receberam amônio (ausência de nitrato) apresentaram um
aumento na atividade da enzima PEPC e acúmulo noturno de malato, o que não ocorreu nas plantas que
receberam nitrato (ausência de amônio). Esses primeiros trabalhos apontaram que a deficiência
nutricional desempenha um importante papel na indução do CAM.
Recentemente, foi visto em plantas de Calandrinia polyandra, que sob déficit hídrico e
nutricional, houve uma mudança da fixação diurna para noturna do CO 2, caracterizando a indução da via
CAM. Contudo, após o fornecimento de KNO3 houve uma reversão do metabolismo CAM para C3,
caracterizado pela fixação diurna do CO2.
Em folhas destacadas de Guzmania monostachia, foi verificada a maior expressão do CAM,
caracterizado pelo aumento na atividade das enzimas PEPC e MDH e acúmulo noturno de malato e
citrato, na porção apical das folhas mantidas sob deficiência de nitrato e presença de amônio + déficit
hídrico.
De modo geral, a deficiência nutricional combinada ao déficit hídrico, parece ser o fator chave
na indução do CAM, sendo que a deficiência de um nutriente específico varia entre as espécies, uma vez
que em alguns casos, a deficiência de nitrato parece ser mais importante para a indução do CAM,
enquanto que em outros, a deficiência de amônio parece ser primordial para o aumento da expressão
desse metabolismo.

206
CAPÍTULO 18

Formação e controle dos estômatos


Paulo Tamaso Mioto

Introdução
Um dos passos cruciais para o estabelecimento da biodiversidade vegetal como conhecemos hoje
foi a colonização do ambiente terrestre. Para que isso fosse possível, várias adaptações relacionadas à
diminuição da perda de água do tecido foram necessárias. Uma delas é o surgimento das estruturas que
conhecemos como estômatos, cujo surgimento simultâneo à transição ao ambiente terrestre ressalta o
quão importante estas estruturas foram neste processo.
Acredita-se que os estômatos tenham surgido apenas uma vez durante a evolução, uma vez que
eles parecem ser apenas variações de uma mesma estrutura básica. No entanto, parece haver uma
tendência de aumento no número de estômatos na escala evolutiva das diversas linhagens de plantas
terrestres. Acredita-se que esse aumento se deva, ao menos em parte, a diminuições na concentração de
CO2 ocorridas ao longo das eras geológicas. Ao longo desse capítulo, analisaremos como um estômato
surge na folha e depois como ele é controlado.

Como surge o estômato?


Embora existam muitas semelhanças na formação dos estômatos em uma grande variedade de
espécies, a maioria das pesquisas foi feita na planta modelo Arabidopsis thaliana. Por esse motivo, os
mecanismos responsáveis pela formação do estômato serão focados nessa espécie.
Em última análise, os estômatos surgem a partir de células protodérmicas, definidas no
meristema. Em princípio, essas células poderão seguir dois caminhos: tornarem-se células epidérmicas ou
células chamadas de meristemoid mother cell (MMC – célula mãe meristemóide). Uma vez definida, a
MMC sofre uma divisão assimétrica, gerando uma porção menor que dará origem ao meristemóide e uma
maior que formará a stomatal lineage ground cell (SLGC – célula básica da linhagem estomática). Mais
tarde, a SLGC pode sofrer novas divisões assimétricas para originar novos meristemóides e,
consequentemente, novos estômatos. O meristemóide, por sua vez, sofre mais 3 divisões chamadas de
divisões amplificadoras para finalmente originar a mother guard cell (MGC – célula-guarda mãe). Essas
divisões são importantes para manter pelo menos uma célula entre dois estômatos vizinhos, um padrão
importante para o funcionamento dos estômatos, como será visto mais adiante. Por fim, a MGC sofre uma
divisão simétrica que origina duas células que se diferenciarão em células-guarda. Um esquema geral
desse processo é mostrado na figura 1.

207
Figura 1: Esquema da formação das células-guarda. A célula protodérmica pode se diferenciar em uma
célula da epiderme ou na meristemoid mother cell (MMC). A MMC sofrerá uma divisão assimétrica,
dando origem ao meristemóide o fator de transcrição SPCH atua nessas células. O meristemóide, por sua
vez, sofrerá 3 divisões (no caso de A. thaliana) e uma das células formadas, graças ao fator de transcrição
MUTE, dará origem à guard mother cell (GMC). Finalmente, a GMC se dividirá simetricamente,
originando as células que se diferenciarão nas células-guarda do estômato maduro. Esse último passo é
governado pelo fator de transcrição FAMA.

Diversos estudos acerca da regulação da formação estomática apontaram três principais fatores
de transcrição que são essenciais para promover o desenvolvimento estomático: SPEECHLESS (SPCH),
MUTE e FAMA. SPCH é expresso na MMC e, após a divisão assimétrica, ele continua sua expressão
apenas no meristemóide. Já MUTE somente é transcricionalmente ativo após as divisões amplificadoras e
sinaliza para o meristemóide parar de se dividir e se tornar a MGC. Após a divisão simétrica que originará
as células-guarda, detecta-se a expressão de FAMA, sinalizando para a diferenciação em células-guarda.
Uma disrupção no padrão de expressão destes fatores de transcrição impede completamente ou acarreta
em severas alterações morfológicas ao longo do desenvolvimento dos estômatos. Veremos, a seguir,
como cada um deles foi descoberto e caracterizado. Antes, porém, vale a pena relembrar brevemente
algumas convenções a respeito de nomes de genes e mutantes de plantas.
Quando uma sigla está em letras maiúsculas (exemplo: SPCH), ela se refere à proteína
codificada pelo gene. Quando a sigla está em maiúsculo e itálico (exemplo: SPCH), ela diz respeito ao
gene, ou seja, à sequência nucleotídica do DNA. Finalmente, quando o nome está em itálico e minúsculo
(exemplo: spch), ele diz respeito a uma linhagem mutante que possui alguma alteração no funcionamento
do produto gênico ou no padrão de expressão de gene em questão.
208
Mutantes spch não possuem estômatos, sendo que na sua epiderme só são observadas células
pavimentosas. Conforme o esperado de uma planta sem estômatos, essas mutantes sobrevivem somente
por poucos dias após a germinação. Por outro lado, a sobre-expressão de SPCH leva a divisões
exacerbadas das células protodérmicas, formando várias células pequenas que não se parecem com
células epidérmicas. Conforme o esperado, a proteína SPCH é encontrada em maiores quantidades no
núcleo das células protodérmicas, antes delas sofrerem a primeira divisão assimétrica.
MUTE começa a ser expresso após as divisões amplificadoras e sinaliza para o meristemóide se
tornar a MGC. Similarmente a spch, as mutantes mute também não são capazes de formar estômatos, uma
vez que, aparentemente, não saem da fase das divisões amplificadoras. Seguindo a mesma lógica, se
MUTE é sobre-expresso, a folha fica completamente coberta de estômatos. Isso se dá por uma
desregulação na fase de divisões amplificadoras e a regra de pelo menos uma célula entre dois estômatos
se perde. Dessa forma, espera-se que transcritos de MUTE sejam detectados no núcleo do meristemóide
após as divisões amplificadoras, o que acontece de fato.
No caso de FAMA, este passa a ser transcrito após a divisão da GMC, impedindo mais divisões e
promovendo a diferenciação das células-guarda. Mutantes fama formam, ao invés de estômatos,
agrupamentos de células achatadas, nos quais são identificados marcadores de estômatos imaturos, mas
não de maduros. Já linhagens sobre-expressando FAMA formam células que lembram células-guarda,
com espessamentos da parede e marcadores de estômato maduro, mas não estão pareadas. Em resumo,
FAMA é expresso após a divisão da GMC, fazendo com que cada célula-filha se torne uma célula-guarda.
Esses três fatores de transcrição atuam sequencialmente ao longo da formação dos estômatos,
controlando a divisão e diferenciação das células durante este processo. No entanto, o cenário fica mais
complexo quando incluímos alguns outros fatores de transcrição que também têm função neste processo.
ICE1 (INDUCER OF CBF 1) mostra interações um pouco mais complexas com MUTE, FAMA
e SPEECHLESS. O papel desse gene foi descoberto com um mutante chamado scrm. Essa mutante possui
a folha coberta completamente de estômatos, de forma semelhante à quando MUTE é sobre-expresso.
Quando essa mutação foi estudada mais a fundo, notou-se que scrm é, na verdade, uma mutante com
ganho-de-função do gene ICE1. Consequentemente, esse fenótipo de folha coberta de estômatos não é um
gene que está “faltando”, e sim um que está com o funcionamento acima do normal. Dessa forma, ICE1
promove a formação de estômatos.
O cruzamento das mutantes spch e scrm gera uma dupla mutante com fenótipo idêntico a spch.
Isso indica que a função de ICE1/SCREAM é dependente da de SPCH. De fato, em mutantes spch não é
observada a expressão de ICE1, já nas linhagens selvagens, detecta-se expressão durante todo o
desenvolvimento das células-guarda. Assim, seria possível imaginar que ICE1 seria importante em todos
os estágios da formação do estômato. Se isso é verdade, o que aconteceria nas mutantes mute e fama?
Para descobrir isso, pesquisadores fizeram cruzamentos de scrm com mute e fama, sendo constatado que
tanto o fenótipo de mute quanto o de fama foram intensificados quando cruzados com scrm. Os fatores de
transcrição geralmente atuam como dímeros, ou seja, é necessário que duas proteínas interajam
fisicamente para que possam exercer sua função, sendo que podem tanto ser duas cópias do mesmo fator

209
de transcrição (homodímeros) ou de fatores distintos (heterodímeros). Dado os fenótipos de todas estas
mutantes, experimentos de interação entre estas proteínas foram feitos e confirmaram que a proteína
SCRM interage fisicamente com SPEECHLESS, MUTE e FAMA.
A mutação scrm parece resultar da troca de um único aminoácido em ICE1, o que gera uma
interação mais forte com SPCH, desencadeando o fenótipo mutante devido a uma ação mais acentuada
desse heterodímero. Dado que SPCH é inicialmente expresso em toda a protoderme, mas posteriormente
restringe-se às células das linhagens estomáticas e que SPCH é capaz de promover a transcrição de ICE1,
acredita-se que este heterodímero ICE1-SPCH induz tanto a própria expressão como a de diversos outros
genes que determinam a diferenciação das células em estômatos funcionais.
Mas se os estômatos foram tão importantes na conquista do ambiente terrestre, como essa
complexa sinalização gênica se originou? Para inferir sobre a evolução desta sinalização, uma análise
abrangente buscando homólogos (i.e. genes que teriam se originados a partir de um mesmo gene
ancestral) aos genes SPEECHLESS, MUTE e FAMA em 54 espécies de plantas.
Isto revelou que nas espécies pertencentes às linhagens das plantas sem semente encontraram-se
genes com similaridade a FAMA. Já nas gimnospermas, dois grupos foram encontrados, um semelhante a
SPEECHLESS e outro a FAMA. Assim, é possível inferir uma sequência ao longo da história evolutiva
das plantas terrestres a respeito da diferenciação destes genes regulatórios do desenvolvimento de
estômatos, primeiro com a diferenciação de FAMA, seguida de SPEECHLESS e por fim de MUTE.
Isso possibilita a formulação de hipóteses acerca das diferenças morfológicas dos estômatos
pertencentes aos diversos grupos de plantas. Por exemplo, em musgos e licófitas, a célula-mãe do
meristemóide sofre uma divisão assimétrica, que origina diretamente a GMC e, por fim as células-guarda.
A presença de somente genes semelhantes a FAMA pode explicar a razão de não haver o mesmo número
de etapas que são observadas em A. thaliana.
Ainda assim, é importante ressaltar que mesmo em espécies que apresentam maior similaridade
gênica a Arabidopsis, o número de divisões amplificadoras pode variar, gerando diferentes distribuições
de estômatos que refletem diferenças na pressão de seleção ao longo da evolução das diferentes
linhagens. Uma vez que o número e distribuição dos estômatos está diretamente correlacionado a fatores
ambientais, como concentração de CO2 e luminosidade, não é ilógico pensar que linhagens se
desenvolvendo em diferentes ambientes tenham desenvolvido diferentes padrões regulatórios ao longo do
desenvolvimento dos estômatos.
Além dos fatores mostrados que regulam positivamente a formação dos estômatos, existem
também alguns que regulam negativamente esse processo. No entanto, eles não serão abordados aqui
(para maiores informações, consulte as leituras recomendadas X e X).
Um ponto muito interessante desse processo de sinalização é o fato de que o gene ICE1 já era
conhecido antes de ter sua função associada ao desenvolvimento estomático. Na verdade, vários genes
similares a ICE1 são muito associados a respostas de estresse em Arabidopsis. Esses genes são
controlados, entre outros fatores, pelo hormônio vegetal ácido abscísico (ABA). Esse hormônio é muito
relacionado a respostas de estresse, mostrando então um mecanismo pelo qual o número de estômatos é

210
alterado conforme as condições ambientais. Em resumo, é possível que uma folha que tenha passado por
um período de frio ou seca durante seu desenvolvimento tenha mais estômatos do que uma que não
passou por isso. Diversos outros fatores ambientais também alteram o número de estômatos, como
concentração de CO2 e luminosidade, mas ainda sabemos pouco sobre esses processos. O número de
estômatos pode também variar dentro de uma mesma planta, de acordo com as condições ambientais
ocorridas na época em que uma dada folha estava se formando.

Como funcionam os estômatos?


O funcionamento dos estômatos é praticamente o mesmo nas diversas espécies de plantas
terrestres e baseia-se em um mecanismo bastante simples. As células-guarda possuem um espessamento
da parede que circunda o poro estomático, assim, o aumento do volume celular causa a abertura do poro.
Esse ganho de volume resulta da entrada de água provocada por um acúmulo de solutos dentro das
células-guarda. É interessante lembrar que, se não houvesse células entre os estômatos, um competiria
com o outro pela água, fazendo com que a abertura ficasse comprometida ou, ao menos, mais demorada.
Já o controle da abertura estomática é mais complexo. Quando o estômato está aberto, ele
permite um livre fluxo de gases, assim possibilitando tanto a entrada de CO2, necessário para a
fotossíntese, como a perda de vapor d’água. Não é surpresa que esse controle deve ser preciso, rápido e
sincronizado para permitir o máximo de ganho de CO2 com o mínimo de perda de água. Além disto,
acredita-se que os estômatos desempenhem um papel importante na regulação térmica, uma vez que a
evaporação d’água também causa um resfriamento na folha.
Sabe-se que a luz é um componente ambiental que controla fortemente a abertura estomática,
principalmente na faixa do azul. De fato, o fotorreceptor mais relacionado ao movimento estomático é a
fototropina (Ver capítulo 14). As fototropinas são capazes de gerar uma cascata de fosforilação que
resulta na ativação de uma H+-ATPase presente na membrana. A ativação dessa enzima faz com que
ocorra o bombeamento de prótons para o exterior da célula-guarda, gerando uma hiperpolarização da
membrana. Isso faz com que canais transportadores de potássio se abram, permitindo a entrada desse íon
na célula. O potássio é um dos íons responsáveis pela redução do potencial hídrico das células-guarda e,
portanto, causa a entrada de água. Não é apenas o potássio que atua como osmolito na regulação
estomática. Várias outras moléculas, como o malato, monossacarídeos e outros íons também ajudam neste
processo.
A concentração de CO2 também regula a abertura estomática, mas o mecanismo pelo qual isso
ocorre é menos conhecido. Na verdade, ainda existe muita discussão sobre qual é a região da folha
responsável pela percepção da concentração de CO2: há quem diga que é o mesofilo, a epiderme ou a
própria célula-guarda. De qualquer forma, é bem aceito que altas concentrações de CO 2 podem causar o
fechamento dos estômatos.
Um sinal interno da planta muito bem estabelecido que causa o fechamento estomático é o ácido
abscísico (ABA). Em muitas plantas, a falta de água é percebida primeiro pelas raízes, que sinalizam para
a parte aérea da planta. O ABA faz parte desse sinal, causando, entre outras coisas, o fechamento dos

211
estômatos. Trabalhos recentes mostraram que a atuação do ABA parece não ser igual em todas as folhas.
Aparentemente, as folhas mais jovens são menos sensíveis ao ABA, de forma que elas continuam com os
estômatos abertos quando o estresse não é tão severo, permitindo que a planta continue a crescer, mesmo
que em menor escala. Essa diferença de sensibilidade das folhas é um dos mecanismos que permitem que
as folhas mais jovens sejam priorizadas em situações de falta de água: se os estômatos das folhas mais
jovens permanecem abertos, a corrente do xilema será direcionada para lá.
Além do controle em resposta ao ambiente, existe um componente bastante forte que (falando
grosseiramente) não depende das variações ambientais: o relógio biológico da planta. Esse é um regulador
interessante uma vez que permite certo grau de antecipação às variações diárias dos fatores ambientais.
De fato, se monitorarmos o comportamento estomático de uma planta que está sendo mantida sob fatores
ambientais constantes (principalmente luz, CO 2, umidade e temperatura), é possível observar que os
estômatos se fecham no período que corresponderia aos períodos de noite e se abrem no que
corresponderia ao dia. Se deixarmos a planta por muito tempo nessas condições, esse ritmo tende a
diminuir, mas ele ainda é mantido por vários dias.
O controle do relógio biológico se deve em grande parte à flutuação de diversos fatores de
transcrição. Aqui focaremos apenas no CCA1 (CIRCADIAN CLOCK-ASSOCIATED 1), LHY (LATE
ELONGATED HYPOCOTYL) e TOC1 (TIMING OF CAB EXPRESSION 1). CCA1 e LHY são expressos
de manhã, enquanto TOC1 é expresso de tarde. Mas como esses transcritos oscilam diariamente
independente de um sinal maior? A resposta está em como o produto de cada gene é capaz de regular a
expressão do outro. CCA1 e LHY são capazes de reduzir a expressão de TOC1. TOC1, por sua vez,
estimula a expressão de CCA1 e LHY. Assim, quando os níveis de TOC1 estão altos (durante o meio da
noite), a transcrição de CCA1 e LHY aumenta e, com o aumento dos produtos desses genes, se inicia uma
repressão expressão de TOC1, que atingirá níveis mínimos próximo ao meio do dia. No entanto, uma vez
que a transcrição de CCA1 e LHY é promovida por TOC1, a produção de ambos também decrescerá e,
consequentemente, também a inibição transcricional de TOC1. Dessa forma, os níveis de TOC1
aumentarão até atingir seu máximo durante a noite e reiniciar o ciclo. A figura 2 apresenta um esquema
desse controle.
Esses fatores de transcrição também podem ser afetados pelo ambiente, em um processo
conhecido como sincronização do relógio, que atrasa ou adianta a oscilação. Mesmo assim, o componente
endógeno é bastante forte nesse sistema. Além das relações diretas entre CCA1, LHY e TOC1, estes
fatores também controlam diversos outros, gerando uma oscilação diária em seus alvos. Entre eles estão
os fatores de transcrição ELF3 (EARLY FLOWERING 3) e FT (FLOWERING LOCUS T), os quais,
além de atuarem no controle da floração, também estão relacionados com a abertura estomática.
FT acumula durante o dia e promove a abertura dos estômatos, enquanto ELF3 tem um papel
oposto. Só para bagunçar ainda mais, FT parece participar, de uma forma ainda não conhecida, da cascata
de sinalização da luz azul que causa a abertura dos estômatos. Esse é mais um exemplo de fatores
endógenos e exógenos agindo em conjunto de forma a otimizar a resposta da planta a mudanças
ambientais, possibilitando sua sobrevivência.

212
Como vimos neste capítulo, os estômatos são importantes estruturas para controlar a entrada de
CO2 e a perda de água. No entanto, curiosamente, existem algumas plantas que perderam os estômatos ao
longo da evolução e vivem muito bem. Essas são, em sua maioria, espécies aquáticas. Um exemplo é a
espécie Lobelia dortmanna, para a qual foi proposto que a obtenção de CO 2 ocorre através das raízes,
uma vez que estão imersas em uma camada de sedimento rica neste gás. De fato, essa planta apresenta
canais que permitem a passagem de ar desde as raízes até as folhas. Outro destes casos é a espécie Stylites
andicola, a qual habita locais elevados e secos nos Andes. Essa planta apresenta uma cutícula espessa e é
completamente desprovida de estômatos. Acredita-se que ela também obtenha CO2 das raízes. Para essas
duas espécies, é muito provável que exista algum mecanismo que permite concentrar CO 2 no interior da
folha, possibilitando a fotossíntese.
Peculiaridades à parte, não se pode negar que os estômatos foram uma inovação chave que
permitiu a colonização do ambiente terrestre e o aumento na diversidade das plantas.

Figura 2: Regulação de alguns dos genes do relógio de A. thaliana. No início da noite (a), a expressão de
TOC1 está alta, sua proteína então promove a expressão de CCA1 e LHY. No meio da noite (b), o
acúmulo de CCA1 e LHY decorrente da ativação transcricional em (a) gera uma redução na expressão de
TOC1. No início do dia (c), a expressão de TOC1 está muito reduzida e, por falta de estímulo positivo, a
expressão de CCA1 e LHY começa a se reduzir após seu máximo. No meio do dia (d) os níveis de TOC1
estão aumentando, enquanto CCA1 e LHY estão diminuindo sua expressão.

213
CAPÍTULO 19

Comunicação entre plantas e bactérias


Carolina Krebs Kleingesinds

Panorama Geral da relação planta x micro-organismo


As plantas ao longo do seu ciclo de vida interagem com os mais variados organismos e a relação
com os micro-organismos está quase sempre presente. Inclusive, mesmo em plantas cultivadas in vitro de
forma “asséptica” e que aparentemente não estão contaminadas, ao se realizar análises de DNA
microbiano nos tecidos dessas plantas, tem sido demonstrado a existência de micro-organismos ali
presentes. Esses micro-organismos devem exibir uma relação muito específica com a planta e depender
para sua sobrevivência de compostos presentes em seu hospedeiro porque nesse caso específico existe
grande dificuldade em isolá-los e cultivá-los em meios de cultura.
No meio ambiente, os micro-organismos podem chegar até a planta de diversas formas, por
intermédio do vento, chuva, de animais e no caso das plantas terrícolas, o solo costuma ser a principal
origem dos micro-organismos que são atraídos pelos exsudatos das raízes (Fig. 1). A região do solo onde
as raízes exercem influência com seus exsudatos é denominada por rizosfera. Nessa região há um maior
número de micro-organismos em relação as demais regiões do solo. Muitos micro-organismos conseguem
se locomover em direção as raízes com o uso de flagelos por exemplo. Ao chegar a rizosfera, os micro-
organismos se deparam com uma série de substâncias, inclusive com compostos antimicrobianos. Não são
todos os micro-organismos que conseguem se estabelecer nessa região. Existe uma troca de sinais entre
planta e micro-organismo. Além de sinais químicos, existe também um contato mecânico entre os dois
grupos que também é importante para reconhecimento entre os diferentes organismos. Um micro-
organismo que pode ser benéfico para uma planta, pode ser neutro para outra e até mesmo patogênico
para outra. Por exemplo, o Herbaspirillum rubrisubalbicans promove o crescimento de milho, porém
causa sinais de patogenicidade em cana-de-açúcar e sorgo. Já uma outra espécie do mesmo gênero, o
Herbaspirillum seropedicae promove o crescimento da cana-de-açúcar.
Existem micro-organismos que além de colonizar a rizosfera, entram nas raízes e conseguem se
adaptar muito bem ao ambiente interno da planta, inclusive conseguem se espalhar pela planta toda, não
ultrapassando um número de indivíduos que poderia ser prejudicial ao hospedeiro. Em geral esses micro-
organismos estão presentes no vegetal em menor quantidade em relação aos de rizosfera e muitas vezes
inclusive, só conseguem completar seu ciclo de vida se estiverem no interior da planta. Esses micro-
organismos são os endofíticos e muitos autores consideram como endofíticos apenas aqueles que vivem
no interior da planta sem causar danos visíveis ao seu hospedeiro, trazendo em geral benefícios à planta.
No interior da planta os micro-organismos estão mais protegidos e conseguem receber mais facilmente
foto-assimilados da planta, ao mesmo tempo, liberam compostos como fitormônios, antibióticos e muitos
outros, promovendo crescimento das plantas e sendo importantes como agentes de biocontrole. Os micro-
organismos de rizosfera, apesar de não estarem no interior da planta proporcionam outras vantagens que
214
os endofíticos acabam não sendo importantes, como liberar sideróforos para captura de ferro e auxiliar a
solubilização de fosfato do solo.
Não é uma tarefa fácil para a maioria dos micro-organismos ter sucesso na colonização de uma
planta. Tanto para aqueles que seriam benéficos quanto possíveis patogênicos. Os vegetais exibem
barreiras físicas como a presença de cera, cutícula, paredes celulares espessas e fechamento de estômatos.
Além disso, como já citado, existem compostos antimicrobianos tanto produzidos pelos vegetais como
por outros micro-organismos. E os vegetais ao reconhecer as moléculas elicitoras de um micro-organismo
disparam um mecanismo de defesa induzido pela presença dessas moléculas. As plantas possuem
receptores para algumas das moléculas de alguns micro-organismos, mas não para todos. Essa relação de
reconhecimento dos elicitores varia entre as diferentes espécies vegetais. Considerando esses mecanismos
de defesa, se por um lado as plantas atraem os micro-organismos, por outro lado, existe uma série de
dificuldades para que uma relação entre planta e micro-organismo seja estabelecida, tanto benéfica quanto
patogênica. Portanto, existe uma série de trocas de sinais entre planta e micro-organismos até que uma
relação benéfica ou patogênica seja estabelecida. Porém, como a planta sabe que um micro-organismo é
benéfico a ela ou então patogênico? E ao perceber que um micro-organismo é benéfico ou patogênico,
quais são as vias disparadas até que a planta permita ou impeça a colonização? Isso tem sido tema de
muitos estudos. A primeira questão é respondida justamente com o que vem sido descrito até aqui e o que
dá o título ao capítulo: a troca de sinais entre planta e micro-organismo, tema esse que está sendo
estudado e ainda faltam muitas lacunas a serem preenchidas considerando a dificuldade de cada interação
em particular (cada relação entre uma espécie de planta com uma espécie de micro-organismo) poder
produzir sinais diferentes. Assim, os autores procuram aprofundar seus estudos em uma relação, por
exemplo, entre uma espécie de micro-organismo de cana-de-açúcar e seu hospedeiro. Também já foi
possível fazer uma análise de genes de interação presentes em toda uma comunidade microbiana de uma
rizosfera de arroz. Esse trabalho é bastante recente e ainda muitos estão por vir. A segunda questão vem
sendo estudada há algum tempo e tem sido descrito que a sinalização para incrementar os mecanismos de
defesa na planta é diferente quando a planta se depara com um micro-organismo benéfico a ela de quando
ela se depara com um micro-organismo patogênico. Em geral, os micro-organismos benéficos disparam
vias mediadas por ácido jasmônico e etileno enquanto os micro-organismos patogênicos disparam
respostas mediadas pelo ácido salicílico. Os micro-organismos benéficos sensibilizam positivamente as
defesas da planta sem que seja custoso para o vegetal, diferente do que ocorre com micro-organismos
patogênicos que essa resposta de defesa pode se tornar custosa para a planta como no caso de uma
resposta de hipersensibilidade (morte das células vegetais para conter a invasão).
A seguir procurou-se dar ênfase nos estudos de sinalização entre bactérias promotoras de
crescimento e plantas. Como já é bastante descrito, inclusive em livros didáticos de fisiologia vegetal a
relação com bactérias noduladoras em leguminosas, seguem alguns dos compostos importantes nas
relações com outras bactérias promotoras de crescimento que vivem sobre o tecido vegetal ou em seu
interior (sem formar nódulos e que estão presentes nas mais diversas espécies vegetais). Segue uma

215
descrição mais aprofundada dos estudos com compostos voláteis, ácido indol-3-acético (AIA) e
moléculas de N-acyl-L homoserine Lactones (AHLs).

Figura 1: Interação entre planta e microrganismos por meio da raiz que, em geral, é a principal região da
planta onde ocorre interação com os micro-organismos. Quanto mais próximo à região da rizosfera
(região do solo onde a raiz exerce influência com seus exsudatos), maior o número de micro-organismos.
Os triângulos vermelhos representam os micro-organismos patogênicos, os retângulos laranjas
representam os neutros, os bastões azuis com linhas representam os de rizosfera e as circunferências em
preto representam os endofíticos.

Compostos orgânicos voláteis


Compostos orgânicos voláteis são definidos como compostos que contém alta pressão de vapor
sob condições de temperatura ambiente para significativamente vaporizar e entrar na atmosfera. Esses
compostos são liberados em baixas concentrações pelas plantas para uma comunicação entre plantas
vizinhas. Exemplos dos compostos são o etileno, metil-jasmonato e metil-salicilato. Justamente pela
propriedade de volatilização, acredita-se que as raízes emitam esses compostos e que outras plantas e
outros organismos possam percebê-los rapidamente e por isso eles podem ser utilizados como
mecanismos de comunicação eficientes.
Mais recentemente tem sido tema de estudo o fato de muitas bactérias também produzirem e
secretarem compostos voláteis para interações positivas entre plantas e bactérias. Tem sido sugerido que
esses compostos além de serem importantes para comunicação, também têm papel na defesa e promoção
de crescimento da planta.
Muitos desses compostos voláteis têm propriedades antifúngicas e isso é um importante fator que
explica diversas rizobactérias apresentarem função de biocontrole. Além disso, tem sido sugerido que
compostos orgânicos voláteis emitidos pelas bactérias podem induzir resistência sistêmica (aumento de
resistência em todos os tecidos) na planta. E como citado anteriormente os compostos voláteis liberados
pelas bactérias também podem influenciar o desenvolvimento, como por exemplo, desencadeando vias de

216
sinalização hormonal, envolvendo citocininas, brassinosteróides, auxinas, giberelinas e ácido salicílico. A
seguir são descritas algumas dessas pesquisas.
Foi feito um conjunto de experimentos para averiguar o efeito dos compostos voláteis emitidos
por bactérias no crescimento das plantas. Para tanto, plântulas de Arabidopsis thaliana foram expostas a
compostos voláteis emitidos por Bacillus subtilis e foi encontrado aproximadamente 600 genes expressos
diferencialmente relacionados à modificação da parede celular, ao metabolismo primário e secundário, a
respostas ao estresse e à modulação de auxina. Esses dados, publicados em 2007, foram os primeiros a
indicar que os compostos orgânicos voláteis podem modular os níveis de auxina e expansão celular e
sendo assim poderiam ter influência na morfogênese da planta. O B. subtilis da linhagem utilizada
produzia compostos orgânicos voláteis como álcoois de cadeia curta, aldeídos, ácidos, ésteres, cetonas,
hidrocarbonetos e compostos contendo enxofre. Foi verificado que os compostos voláteis emitidos por
essa mesma linhagem bacteriana aumentaram a capacidade fotossintética (aumentaram a eficiência
fotossintética e o conteúdo de clorofila) de A. thaliana por meio de uma modulação da sinalização de
açúcar/ABA e ainda proporcionaram à planta um aumento na tolerância ao estresse salino. Para essa
última constatação, as plantas de A. thaliana foram submetidas a uma condição de 100 mM de NaCl e foi
observado que os compostos orgânicos voláteis emitidos por B. subtilis diminuíram a expressão de HKT1
(High affininity K+ transporter1) nas raízes, mas aumentaram sua expressão na parte aérea, resultando em
um menor acúmulo de Na+ na planta.
Como citado anteriormente, os compostos voláteis podem ser utilizados para comunicação entre
as plantas e também entre plantas e bactérias. Bactérias também produzem compostos voláteis que além
de serem utilizados para comunicação com a planta, podem promover benefícios como auxílio para
defesa contra patógenos e promoção de crescimento alterando o desenvolvimento da planta como, por
exemplo, modulando os níveis de auxina nas plantas. O ácido indol-3-acético (AIA) tem sido bastante
estudado nessa relação entre bactérias e plantas e é assunto do próximo tópico.

Ácido Indol-3-acético (AIA)


O ácido indol-3-acético (AIA), fitormônio importante no controle do desenvolvimento de
plantas, também é produzido por bactérias de diferentes grupos e habitantes de diferentes ambientes, por
exemplo: bactérias de solo, marinhas, epifíticas, endofíticas, cianobactérias e metilotróficas (bactéria
capaz de utilizar como fonte de carbono compostos que não tem ligações carbono – carbono).
Essas bactérias produtoras de AIA podem ser tanto benéficas quanto fitopatogênicas.
Dependendo da concentração de AIA na planta pode haver um efeito benéfico ou inibitório para o
desenvolvimento da raiz. Em uma concentração ideal, a auxina bacteriana induz a formação de pelos
radiculares, aumenta o número e comprimento de raízes laterais e primárias. Isso é vantajoso para planta
que tem como se fixar ao substrato melhor, além de aumentar a captação de água e nutrientes. Porém, em
concentrações muito superiores a ideal, é possível que a auxina bacteriana iniba o crescimento de raízes
primárias.

217
A sinalização de AIA também é importante para a resistência da planta a patógenos. Moléculas
do patógeno induzem microRNAs (miRNAs – pequenas moléculas de RNA não codificante que podem
silenciar RNA e regular a expressão gênica pós transcricional) da planta que tem por alvo RNA
mensageiro do receptor de auxina como o TIR1 (Transport Inhibitor Response1). Sendo assim, há uma
diminuição dos transcritos do TIR1 o que resulta numa diminuição dos genes induzidos por auxina e
consequentemente genes de defesa da planta são ativados como os genes de resposta hipersensível (Fig.
2).
Além de estudos com sinalização entre plantas e patógenos, tem se dado grande relevância para
pesquisas com AIA como sinalizador entre plantas e bactérias promotoras de crescimento. Os estudos
mostram que muitos isolados de solo e de plantas são capazes de produzir e liberar em meio de cultura
AIA. Também é conhecido que em experimentos de inoculação, os níveis de auxina nas plantas são
modificados. O que ainda é difícil de saber é o quanto há de produção de AIA pela bactéria no interior da
planta, e o quanto de AIA foi produzido pela própria planta em virtude da presença bacteriana. Além
disso, existem algumas bactérias que também são capazes de degradar ativamente o AIA e foi
demonstrado que essa característica também pode beneficiar à planta. Ao se aplicar AIA exogenamente à
Arabidopsis thaliana, apenas a linhagem selvagem da bactéria Burkholderia phytofirmans que degrada
AIA promoveu crescimento à planta, o mutante para o gene de degradação não promoveu crescimento.
A produção de AIA pela bactéria varia entre diferentes linhagens de uma mesma espécie, varia
com a fase de crescimento, com fatores como pH e temperatura e tem grande influência dos componentes
presentes no meio de cultura da bactéria. Em geral, a produção de AIA está associada com a entrada do
cultivo bacteriano na fase estacionária, tem uma temperatura ótima de produção que pode ser diferente da
temperatura ótima de crescimento e a presença de vitaminas, sais, fonte de carbono, fonte de nitrogênio e
o triptofano no meio influenciam nessa produção. O triptofano é bastante relevante considerando que é
precursor do AIA. Apesar da existência de uma via de produção menos utilizada que é independente do
triptofano. Além do triptofano e dos outros fatores mencionados, certos extratos de plantas ou substâncias
específicas presentes na rizosfera ou nas superfícies das plantas também tem influência na produção de
AIA bacteriano.
O fato de muitas bactérias produzirem AIA tem sido bastante questionado. Por que bactérias
produziriam um fitormônio? Qual a função do AIA para as bactérias? A explicação mais encontrada é
para a comunicação com as plantas, porém estudos mais recentes têm mostrado que existem outras
funções do AIA para as células bacterianas. As bactérias que vivem próximas ou em relação mais íntima
com os vegetais encontram nesse meio AIA vindo das plantas, então ter a capacidade de produzir AIA dá
a bactéria uma vantagem seletiva para aquele meio. Inclusive tem se verificado que o AIA confere para as
bactérias maior capacidade de resistência a UV, salinidade e acidez. Essas constatações vêm de
experimentos como o descrito a seguir: plantas de Medicago truncatula foram inoculadas com uma
linhagem de Sinorhizobium meliloti selvagem ou com o mutante superprodutor de AIA. Parte das plantas
também receberam AIA exógeno. A seguir foram simuladas condições que provocam estresse nas plantas
como acidez, choque osmótico, irradiação de UV e choque térmico. Em todas essas condições que

218
causam estresse, se verificou um maior número de colônias viáveis nas plantas que foram tratadas com
AIA exógeno e nas plantas que foram inoculadas com bactérias superprodutoras de AIA. Observou-se
que em condições consideradas normais a bactéria selvagem é mais competitiva do que a superprodutora
de AIA, mas que em condições desfavoráveis, a bactéria superprodutora de AIA é de fato mais
competitiva. Esses experimentos foram realizados com uma bactéria fixadora de nitrogênio formadora de
nódulo, falta ainda a realização de experimentos como esse para outras bactérias, como as de rizosfera.
Também tem sido descrito o AIA como molécula de sinalização para própria bactéria, controlando a
expressão de diferentes genes bacterianos como genes de virulência, resposta ao estresse, metabolismo,
adaptação bacteriana e síntese de aminoácidos.
Procurou-se aqui dar um panorama geral das pesquisas que têm sido realizadas com a relação
entre plantas e bactérias envolvendo AIA. Esse é um tema bastante complexo, o qual vai continuar sendo
bastante explorado principalmente porque é de grande interesse agronômico. Há um número elevado de
pesquisas visando o desenvolvimento de inoculantes com bactérias produtoras de AIA, que estimulem o
desenvolvimento da planta, auxiliem na fertilização e biocontrole e assim, busca-se diminuir o uso de
fertilizantes químicos e herbicidas. Ao mesmo tempo, novos trabalhos têm mostrado que algumas
bactérias também podem degradar AIA e isso também pode ser favorável à planta. Portanto, é de grande
relevância entender melhor a participação do AIA nessa relação planta e bactéria.
O AIA é um exemplo de composto tradicionalmente mais estudado em plantas do que em
bactérias e mais recentemente, tem se estudado a função do AIA para a fisiologia das bactérias. Por outro
lado, existem compostos que são utilizados para comunicação entre bactérias e que também podem ser
reconhecidos pelas plantas e atualmente tem se proposto inclusive que as plantas sintetizariam compostos
que poderiam mimetizar esses compostos de comunicação bacteriana. Esses compostos são discutidos no
próximo tópico.

Figura 2: Sinalização de AIA e defesa contra patógenos. Cinza é uma representação de componentes
bacterianos e Branco de componentes da planta.

219
Moléculas de N-acyl-L homoserine Lactones (AHLs)
Muitas bactérias conseguem produzir e perceber sinais que as permitem estimar a densidade
populacional de um ambiente para então regular diferentes mecanismos celulares. Essa comunicação
célula a célula é utilizada por elas para diversos processos como formação de biofilme, virulência e
resistência a antibióticos. Esse fenômeno é denominado por quorum-sensing e pode ocorrer em uma única
espécie assim como entre espécies diferentes.
Essas bactérias produzem e secretam certas moléculas sinais, assim como elas tem receptores
que podem especificamente detectar a molécula sinal. A resposta só é desencadeada quando a sinalização
atinge um limite crítico e então a população como um todo pode agir como uma única unidade.
Em bactérias Gram-negativas, os sinais de quorum-sensing mais comumente utilizados são os
denominados N-acyl-L homoserine Lactones (AHLs). Tem sido estudada a importância dessas moléculas
na rizosfera e sabe-se que essas moléculas são livremente difundidas pela membrana bacteriana e se
distribuem pela rizosfera. Inclusive, acredita-se que as plantas possam produzir seus próprios metabólitos
que podem interferir na sinalização de quorum-sensing. Alguns desses sinais podem pertencer aos grupos
N-acylethanolamines (NAEs) e alkamide que são estruturalmente similares à AHLs. Foi realizado um
experimento com aplicação exógena de NAEs e Alkamides à plântulas de Arabidopsis thaliana e como
resultado houve alterações na arquitetura da raiz e no desenvolvimento da parte aérea. Isso indica que
essas substâncias possam ter papel nos processos morfogênicos da planta. O que precisa ser entendido
melhor é se essas substâncias de fato interferem na sinalização bacteriana.
Além da ideia de que a planta pode interferir na sinalização de quorum-sensing bacteriana foi
demonstrado que as plantas também podem perceber a sinalização bacteriana por AHLs. O primeiro
trabalho que comprovou essa ideia foi realizado com plantas de Medicago truncatula que cresceram de
forma axênica. A essas plantas foi aplicado dois tipos diferentes de AHLs e o resultado foi um acúmulo
de mais de 150 proteínas. Essas proteínas estavam relacionadas com mecanismos de defesa da planta,
respostas de estresse, atividades energéticas e metabólicas, regulação transcricional, processamento
proteico, atividades do citoesqueleto e respostas a hormônios. Posteriormente esses resultados também
foram encontrados em Arabidopsis thaliana.
Portanto é conhecido que bactérias e plantas podem se comunicar por meio de moléculas
utilizadas para sinalização bacteriana de quorum sensing e tem sido levantada a ideia das plantas
mimetizarem esses sinais interferindo na comunicação bacteriana.

Considerações finais
Apesar de existir muitos micro-organismos ao redor dos vegetais, não são todos os que
conseguem estabelecer uma relação com a planta (benéfica ou patogênica). As relações vão depender de
uma troca de sinais entre hospedeiro e micro-organismo sendo que por parte da planta fatores como
espécie, grau de desenvolvimento e estado fisiológico vão influenciar nessa relação, além, evidentemente,
dos compostos liberados em seus exsudatos; por parte do micro-organismo, fatores como o seu ciclo de
vida, estirpe, produção de enzimas e diversos compostos sinalizadores como compostos voláteis,

220
fitormônios (auxinas, citocininas, NO, e outros), compostos relacionados ao quorum-sensing e diversos
compostos são importantes para possibilitar o estabelecimento de uma relação com a planta. Justamente
por existir tantas variáveis para concretização de uma relação entre planta e micro-organismo, existe
ainda muito a ser entendido. Além de essas relações serem específicas para cada par hospedeiro x micro-
organismo e da grande variabilidade de moléculas sinais, há ainda a dificuldade em se medir as moléculas
produzidas pelo hospedeiro e pelo micro-organismo. Como o exemplo descrito nesse capítulo sobre o
AIA, existe grande dificuldade em se saber quanto uma bactéria produz de AIA e quanto a presença da
bactéria estimula a planta a modificar seu balanço hormonal. E agora ainda mais recentemente se viu que
existem bactérias que degradam AIA, o que também pode ser vantajoso para planta. Há algum tempo é
conhecido que bactérias produzem substâncias que eram consideradas importantes para a planta sem se
conhecer bem o papel para a bactéria, assim como plantas perceberiam moléculas utilizadas para
sinalização entre bactérias. Hoje tem se aprofundado esses estudos e visto que os compostos produzidos
pelas bactérias e importantes para as plantas, também tem papel para as bactérias e que plantas poderiam
liberar compostos que mimetizariam compostos de sinalização bacteriana. Esses estudos todos são
importantes para melhor compreensão da relação planta x bactéria e então ser feito um uso mais
apropriado para aplicação na agricultura. Com esses conhecimentos, é possível não somente propiciar as
melhores condições para uso de inoculantes bacterianos promotores de crescimento vegetal como também
entender com maior profundidade muitas relações ecológicas e o processo de evolução dos seres vivos.

221
CAPÍTULO 20

Plantas parasitas
Luíza Teixeira-Costa
Vitor Barão

Introdução
Plantas parasitas sempre despertaram a curiosidade de observadores, sendo conhecidas e
descritas pela humanidade desde a antiguidade clássica. Entretanto, ainda hoje algumas observações
incorretas são feitas a respeito dessas plantas. As confusões mais comuns envolvem plantas epífitas e
lianas, além de plantas saprófitas, e até mesmo as plantas carnívoras. A tabela 1 lista as principais
diferenças entre essas diferentes formas de vida das plantas.

Tabela 1: Comparação entre plantas frequentemente confundidas com parasitas.


Dependência
Forma de Localização Forma de obtenção de nutricional
Exemplos
vida das raízes3 energia em relação à
outra planta
Em contato com
Erva-de-passarinho
tecidos da Total, parcial
Parasitário Cipó-chumbo Autótrofa ou Heterótrofa
planta ou facultativa
Sândalo
hospedeira

Cipós
Lianescente Solo Autótrofa Não
Vinhas

Orquídeas Fora do solo


Epifítico Bromélias (sobre plantas, Autótrofa Não
Líquens rochas, etc.)

Saprofítica
Em contato com
Saprofítico Planta-fantasma (alimentam-se de matéria Não
alimento
em decomposição)
Autótrofa
Copo-de-macaco (pequenos invertebrados
Carnívoras Solo Não
Drósera complementam a
nutrição)

Tendo em vista esse tipo de confusão, Job Kuijt, em seu livro The Biology of Parasitic
Flowering Plants, define as plantas parasitas como aquelas que apresentam órgão denominado haustório,
responsável pela conexão entre a parasita e sua hospedeira. Esse órgão atua como uma espécie de ponte
fisiológica entre parasita e hospedeira, permitindo o fluxo de água, nutrientes, hormônios, etc.

3
A origem evolutiva das estruturas de fixação e dos haustórios das plantas parasitas ainda é incerta, não
havendo homologia clara com as raízes de plantas não parasitas.
222
Embora o primeiro registro de uso deste termo seja atribuído à descrição da conexão entre uma
parasita (Cuscuta sp.) e sua hospedeira, é importante mencionar que o termo haustório é também
empregado para outras estruturas, por exemplo, o tubo polínico (haustorial) presente em Ginkgophyta.

Classificação, diversidade e evolução


A primeira classificação das plantas parasitas foi proposta por Pfeiffer (1789), que as dividiu em
três grupos, utilizando características relacionadas ao hábito da parasita e à morfologia da hospedeira.
Atualmente, embora não haja uma classificação formal para essas plantas, costuma-se dividi-las de
acordo com três principais critérios, resumidos na tabela 2.

Tabela 2: Resumo das principais classificações de plantas parasitas.

Critério de classificação Classes Exemplos

Hemiparasitas Viscum spp.


Status fotossintético
Holoparasitas Orobanche spp.
Grau de dependência em Facultativo Triphysaria spp.
relação à hospedeira Obrigatório Striga spp
Órgão parasitado na Caule Psittacanthus spp.
hospedeira Raiz Rafflesia spp.

Dentre os critérios apresentados na tabela acima, é importante notar que o “status fotossintético”
não se refere apenas à presença/ausência de clorofila ou de atividade fotossintética. Um dos mais
conhecidos grupos de holoparasitas, o gênero Cuscuta, apresenta espécies nas quais já foi observada
presença de clorofila funcional em plastídeos. Entretanto, embora seja capaz de produzir fotoassimilados,
tal produção ocorre em quantidade insuficiente para sua sobrevivência.
Quanto ao grau de especificidade, certas parasitas são conhecidas por sua ampla gama de
hospedeiras, como Dendrophthoe falcata, com 343 hospedeiras listadas; enquanto outras são notáveis por
sua especificidade de hospedeiros, como Psittacanthus sonorae, observada apenas sobre Bursera sp. e
Elaphrium sp. (ambas da família Burseraceae). Em relação ao órgão da hospedeira que é infestado, não se
conhece espécie de parasita capaz de infestar tanto raízes quanto caules.
Por fim, outro tipo menos comum de classificação para plantas parasitas é de acordo com o
hábito que apresentam. Nesse quesito, diversos hábitos são observados, desde ervas (ex. Rhinanthus spp.)
e trepadeiras (ex. Cassytha spp.), até arbustos (ex. Olax spp.) e árvores (Santalum spp.).
Independentemente da classificação adotada, é notável a grande diversidade apresentada pelas
plantas parasitas, que podem ser encontradas em praticamente todos os locais do globo. Acredita-se
atualmente que o hábito parasitário tenha evoluído independentemente 12 ou 13 vezes, não formando,
portanto, um grupo único de plantas com essa forma de vida.
É importante mencionar que todos os clados de plantas parasitas atualmente conhecidos estão
classificados dentro das Angiospermas, mais especificamente apenas entre as Eudicotiledôneas, não se

223
conhecendo, até o presente momento, espécies de plantas parasitas pertencentes a outros grupos vegetais.
Embora a conífera denominada Parasitaxus usta (Podocarpaceae) tenha sido anteriormente considerada
como uma parasita, atualmente sabe-se que esta espécie não apresenta formação de haustórios,
conectando-se às raízes de outras espécies de Podocarpaceae por meio de estruturas que se assemelham a
enxertos.
Baseando-se na classificação atualizada do sistema APG, as plantas parasitas estão distribuídas
em 20 famílias, com um total de aproximadamente 270 gêneros. Este elevado número representa cerca de
1% de todas as espécies de Angiospermas viventes atualmente. No Brasil, Santalaceae e Loranthaceae são
os dois clados mais importantes e numerosos. Merece destaque ainda as famílias Balanophoraceae,
Apodanthaceae, Convolvulaceae (Cuscuta spp.) e Lauraceae (Cassytha spp.), com espécies também
nativas no Brasil.

Relações ecológicas
Plantas parasitas apresentam reconhecida importância em comunidades naturais, podendo atuar
como espécies chave em diversos níveis de interações específicas e de dinâmicas populacionais. Um dos
efeitos mais notados refere-se à promoção de ciclos de extinção e reaparecimento local de espécies, o que
pode favorecer o aparecimento, crescimento ou a disseminação de outra espécie na comunidade.
Outro efeito, que vem sendo apontado em trabalhos recentes, relaciona-se ao papel das parasitas
na ciclagem de nutrientes da comunidade. Durante seu ciclo de vida, uma planta parasita utiliza-se dos
recursos captados pela hospedeira, sejam eles recursos minerais ou fotoassimilados. Quando ocorre queda
das folhas da parasita, parte desses nutrientes é então transferida para o solo por sua decomposição,
tornando-se disponível para plantas do extrato herbáceo.
Quanto às relações que apresentam com a fauna, muitas espécies de plantas parasitas constituem
uma importante fonte de recursos, fornecendo alimento para animais desde insetos até pequenos
mamíferos. Além dos frutos e do pólen das flores, consumidos por dispersores e polinizadores, as folhas,
ricas em nitrogênio, também podem ser consumidas por alguns insetos.
No caso particular do consumo de frutos, as ervas-de-passarinho produzem frutos consumidos
em larga escala por pequenos pássaros que, ao defecarem ou limparem o bico, depositam as sementes da
parasita sobre os galhos de uma potencial hospedeira. As sementes, que desde o interior do fruto
encontram-se envoltas em uma substância mucilaginosa denominada viscina, ao serem depositadas nos
galhos ficam firmemente aderidas, permitindo o desenvolvimento inicial da parasita.
Curiosamente, alguns estudos atuais envolvendo a avifauna dispersora das “ervas-de-passarinho”
têm apontado um possível efeito mutualístico na relação parasita-hospedeira. Em casos que parasita e
hospedeira apresentam dispersão de frutos realizada pela mesma espécie, a parasita pode atuar
aumentando o fitness reprodutivo de sua hospedeira, atraindo um maior número de dispersores.
Outro tipo interessante interações de espécies envolvem duas plantas parasitas, que podem ser
da mesma família e, até mesmo, do mesmo gênero. São os casos de hiperparasitismo (ou epiparasitismo),
que geralmente envolvem espécies bastante específicas (baixa gama de hospedeiras), que utilizam outra

224
parasita como sua hospedeira. Os exemplos concentram-se em membros da família Santalaceae, como
Viscum loranthi (sobre espécies de Loranthaceae), Dendrophtora epiviscum (sobre outras espécies do
mesmo gênero) e Phoradendron falcatum (sobre outras espécies do mesmo gênero).
Por fim, há ainda casos não raros de autoparasitismo, que pode se originar do brotamento de um
novo indivíduo sobre os ramos da planta mãe, como observado em Viscum monoicum, ou se originar da
simples conexão entre ramos do mesmo indivíduo, como em observado Cuscuta reflexa e Struthanthus
flexicaulis.

Anatomia
Como mencionado anteriormente, a existência de conexão entre uma planta e sua hospedeira
através do haustório é o que define o parasitismo entre as plantas. Embora possa apresentar variações
entre espécies, o haustório é genericamente formado por células vasculares e diferentes proporções de
tecido parenquimático. Muitas vezes há também células secretoras associadas, responsáveis pela
produção de enzimas digestivas para a dissolução das paredes celulares e penetração no sistema vascular
da hospedeira.
O primeiro haustório a se estabelecer, durante a instalação da plântula, é chamado haustório
primário e os demais, formados durante o desenvolvimento da planta, haustórios secundários.
Anatomicamente, não há diferença entre os dois tipos de haustório. Quanto à morfologia externa da
estrutura, mesmo que apenas um ponto de conexão seja formado entre as duas plantas, é possível a
formação de um grande número de haustórios secundários (Fig. 1a) promovendo o contato efetivo entre
parasita e hospedeira.
Em algumas relações estabelecidas entre parasitas e hospedeiras, vários pontos de conexão são
formados entre as duas plantas (Fig. 1a). Trata-se das como raízes epicorticais (Fig. 1b, c), que formam
ramificações do sistema de conexão da parasita que crescem externamente por sobre os galhos da
hospedeira. A partir dessas extensões surgem novas conexões com a hospedeira, formando haustórios
secundários em locais mais afastados do haustório primário.
Por outro lado, há casos nos quais apenas um ponto de conexão é formado entre as duas plantas.
Nestes casos, a penetração dos haustórios provoca a formação de galhas (Fig. 1d), uma estrutura que
compreende a interface entre as duas plantas, estando geralmente associada a um intumescimento do
órgão parasitado. Neste ponto único de conexão, as alterações anatômicas observadas são causadas pela
interação entre as duas plantas, formando uma estrutura singular para cada relação entre diferentes
espécies.

225
Figura 1: a) Struthanthus martianus formando múltiplas conxões sobre Erithrina speciosa; b, c)
detalhe das raízes epicorticais formadas por espécies de Struthanthus em diferentes hospedeiras; d)
Phoradendron crassifolium formando galha (conexão única) sobre Tapirira guianensis; e) botões
florais da endoparasita Pilostyles ulei emergindo do caule da hospedeira Mimosa sp.

Algumas holoparasitas passam a maior parte de seu ciclo de vida no interior do corpo de suas
hospedeiras, sendo observadas facilmente apenas durante seu período reprodutivo, quando as flores e
frutos emergem através do caule ou da raiz da planta hospedeira (Fig. 1e). Trata-se de espécies

226
endoparasitas, que são constituídas basicamente por esse conjunto de tecidos localizados no interior do
corpo da hospedeira, ao qual se dá o nome de endófito.
A estrutura geral do endófito costuma ser bastante simples, sendo constituída apenas por massas
de células parenquimáticas instaladas no interior dos tecidos das hospedeiras. Até hoje relativamente
pouco se conhece sobre as relações entre o endófito e os tecidos da hospedeira, devido principalmente à
dificuldade de identificar anatomicamente quais células constituem tecidos da hospedeira e quais
constituem tecidos da parasita.
Algumas plantas ectoparasitas – parasitas cujos tecidos encontram-se no exterior do corpo da
hospedeira – também podem apresentar endófito, geralmente chamado de sistema endofítico. É o caso,
por exemplo, da maioria das espécies do gênero Phoradendron (Santalaceae). Essas espécies apresentam
tecidos que crescem longitudinalmente, permeando a casca de suas hospedeiras, formando cordões de
tecido da parasita que se podem se estender através do corpo da hospedeira. A partir desses cordões
observa-se a formação de novas conexões com o xilema das hospedeiras e, em algumas espécies, a
formação de novas porções aéreas.
As plantas parasitas consomem recursos das hospedeiras de diversas formas, o que pode
significar prejuízos variados. Ervas de passarinho transpiram em geral mais do que suas hospedeiras,
levando à competição por água. Por causa dessa demanda por água, o sistema hidráulico é submetido a
condições mais extremas e, em alguns casos, pode sofrer alterações anatômicas para que o sistema
vascular continue funcional. Podem ocorrer também mudanças na densidade de vasos, no diâmetro dos
elementos condutores e no comprimento das fibras.

Impactos econômicos e controle


Embora as plantas parasitas apresentem importantes papéis em comunidades naturais, como já
mencionado, é necessário lembrar os impactos negativos que essas plantas podem causar à agricultura e à
economia.
Dados de diversos anos apontam perdas massivas de produção agrícola em países dos Estados
Unidos e da África, podendo chegar a cerca de 90% de perda, causada principalmente por espécies dos
gêneros Orobanche, Phelipanche e Striga. Outros efeitos deletérios frequentemente mencionados incluem
impactos causados ao crescimento e à arquitetura hidráulica das hospedeiras.
Tendo em vista as perdas mencionadas, diversas metodologias de controle e de erradicação de
plantas parasitas vêm sendo propostas e testadas, sendo que as mais simples incluem a poda seletiva de
ramos parasitados e a remoção individual da parasita. Entretanto, tais metodologias apresentam baixa
eficácia devido à relação parasita-hospedeira, especialmente no que diz respeito aos fatores metabólicos.
Metodologias mais elaboradas procuram focar-se em características individuais da espécie
parasita e, em alguns casos, da hospedeira, uma vez que a relação entre essas plantas pode variar
amplamente entre um caso e outro. Dentre essas metodologias é possível mencionar o controle biológico,
utilizando fungos, bactérias e alguns artrópodes.

227
Ainda dentro dessa temática, pesquisas atuais, especialmente em Agricultura, têm se focado na
elaboração de técnicas de manejo baseadas no ciclo de vida das parasitas, utilizando-se de substâncias
químicas sintetizadas a partir de hormônios vegetais. Uma melhor compreensão dos processos envolvidos
nos estágios desde a germinação até o estabelecimento da parasita possibilita saber o melhor momento
para que se empreguem técnicas de controle.

228
LEITURA COMPLEMENTAR
CAPÍTULO 1
Baldauf SL. (2008). An overview of the phylogeny and diversity of eukaryotes. Journal of Systematics and
Evolution 46(3): 263-273.
Bellorin AM; Oliveira MC. (2006). Plastid Origin: a Driving Force for the Evolution of Algae. In: AK Sharma;
A. Sharma. (Org.). Plant Genome, Biodiversity and Evolution. 1. ed. Enfield (NH): Science Publishers. 2B:
39-87.
Graham LE; Graham JM & Wilcox LW. (2009). Algae. 2. ed. Pearson Benjamin Cummings, 616 p.
Lee RE. (2008). Phycology. 4. ed. Cambridge University Press, 547 p.

CAPÍTULO 2
Graham LE; Graham JM & Wilcox LW. (2009). Algae. 2. ed. Pearson Benjamin Cummings, 616p.
Lee RE. (2008). Phycology. 4. ed. Cambridge University Press, 547p.
Paula EJ; Plastino EM; Oliveira EC; Berchez F; Chow F & Oliveira MC. (2007). Introdução à Biologia das
Criptógamas. Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, Departamento de Botânica, São Paulo,
SP, 184p.
Pedrini AG. (2010). (Org.) Macroalgas – Uma Introdução à Taxonomia. Série Flora Marinha do Brasil, vol 1, 1.
ed. Technical Books Editora, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.

CAPÍTULO 3
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