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Iconografia do Candomblé Jêje-Nagô

Esta dissertação analisa a iconografia da imaginária do Candomblé jeje-nagô vendida no Grande Mercado de Madureira no Rio de Janeiro. A análise mostra que essa imaginária de grande beleza plástica segue um código de santos que requer interpretação iconográfica. Percebe-se que os cultos afro-brasileiros não se prendem à memória, mas articulam o passado com o presente construindo uma dinâmica social específica. O mercado funciona como uma brecha para a construção de uma ident

Enviado por

Enzo Santos
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Iconografia do Candomblé Jêje-Nagô

Esta dissertação analisa a iconografia da imaginária do Candomblé jeje-nagô vendida no Grande Mercado de Madureira no Rio de Janeiro. A análise mostra que essa imaginária de grande beleza plástica segue um código de santos que requer interpretação iconográfica. Percebe-se que os cultos afro-brasileiros não se prendem à memória, mas articulam o passado com o presente construindo uma dinâmica social específica. O mercado funciona como uma brecha para a construção de uma ident

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t?

~, {) 9:J3oi V) <0 LI-%


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JA NEIRO

ESCOLA DE BELAS ARTES

POS GRADUAÇ~O EM ARTES VISUAIS

MESTRADO EM HISTORIA E CRITICA DA ARTE

AREA DE COORDENAC~D~

ANTROPOLOGIA DA ARTE
13749

COISAS DE SANTO - ICONOGRAFIA DA

IMAGINARIA AFRO-BRASILEIRA

ELEN A MAR I A AND REI

1:;: I D DE J {;NE I FW

1994

EELAS ARTES/CLA
rc
..:.J
COISAS DE SANTO - ICONOGRAFIA DA

IMAGINARIA AFRO-BRASILEIRA

ELENA MARIA ANDREI

r
(

Dissertaçào apresentada .>.


e\

Universidade Federal do Rio ele


Janeiro como requisito parcial para
obtenç~o do Grau de Mestre em
Antropologia das Artes~ realizada
sob a orienta~~º da Profª . ºª·
Lilian Pestre de Almeida e co-
orienta~~º da Profª. Lia n .;,
Hilvei1,··a.
No terreiro de Agnelo, em Muricaceba, Om o lu te v e
~esta e dançou no meio do povo no rit mo do
opa n igé . Dan~ou primeiro Agexé, empesteado Dmolu,
morrendo e renascendo na bexiga, na m~o o x a xarà,
coberto com o filà o rosto em pustulas; de p ois
da n ~ou Jagun, Obaluaib guerreiro, o filà e o azÉ
de cor marrom como a bexiga negra; por fim ju n tos
dançaram e o povo saudou o velho erguendo a mào e
repetindo: atotõ, meu pai'

(AMADO, Jorge: Tere z a Bati s ta Cansada de Guerra ;


S~o Paulo: Martins, 1972, pg . 329)
AGRAD ECI MENTOS

ir, eu pai e a minha filha que, cada urn SE:U

modo, nào me deixaram desistir.

rneu~,- [Link],~_,, quE· rr,(~

partilharam deste tempo de passagem.

Especialmente a Sergio Adolfo, Giz0lda e L1ana que

foram grandes e inestimáveis interlocutores.

'\
H Ni l [Link] ~=.. L\i::(S

buscou a certeza da informa~ào e a prova do belo.

pc.~ e i E~n tf,'1ff1en te, t r.. adu;,: iu me u s;

manuscritos, no seu computador.

minhas orientadoras que me assistiram em rr,eu s.

com seus saberes, sua confian~a, sua

E..~' especialmente, a Adilson Martins que foi

quF..,. um informante, mais que um amigo, foi um exemplo como

humano, como artista, como devoto. A ele, todo o meu respeito E!


Um agradecimento especial a um
velho babalaõ que~ mais que
ninguém~ compreendeu que a
beleza é a obrigaç~o mais
necessária no culto dos orixàs:
Pierre Fatumb1 Ve rge r.
r

RE SUMO

O objetivo dessa dissertaçào é realizar uma


anàlise da imaginéria do Candomblé jêje-nagõ,
t;:?.l 1...uít1L• 7: f: 'f,,,1br··ic.::1d.:-:1 f'? vendid.::1 nc::, C3r"·andE?
Mercado de Madureira, Rio de Janeiro. Essa
1maginària, de grande beleza plàstica,
cbcõ-d E-:•cf? ,::1 u,n c:ód .i._g_o···-_ci_e--~,,é\n to ciue r··,?.qu la F?.
d f.-?.ter··m i n i:.'l inter·· prF:t.ê:1 i;:i:':ÍO i CC)n c,q 1,.. ~·t ·f .i C:a,.
Percebemos, a o analisar essa iconografia, que
os cultos afro-brasileiros n~o oaeram
com a memória, mas articulam o passado com o
presente, construindo uma dinêmica social
e~.;;.pec.i. ·f .i.c:a.
O mercado de Madureira é uma encruzilhada
simbólica entre as demandas do capitalismo e
as exigências religiosas do Candomblé .
Funcionando como uma brecha dentro da
estrutura dessacralizada do universo urbano
contempor~neo, permite a constru~ào de uma
identidade que se quer diferente, mas n~o ,
inarg inE\ 1 i:1 tr-,,ivés de (:',•S t.r- i:il tég i i:ES q L\ €0
[Link]:i.:.:,.:1m Cs ~-E'Clr-f?dO como i nstrumento de
ocultamento e comunica~ào e a beleza como uma
afirmaç~o de fé.
r-...----
1

r
l

r
'
SUMAF!IO

I NSTF:ODUÇPIO l

J I CP1F' I TU L..D I TEMPO E ESPAÇO

J :;: l U\F' I [Link] I J O OBJETO 119

Ferramentas 120

Paramentos 124

Ferros i ,-, ,::


.... ...::.,...1

Guias

Cerfünicas e I bás

Esculturas ·• /1 ,-.,
•.1. ·1· /

-!
Objetos Estéticos i::: .•,.
-!..... ,._:,

c:-.,.
I i.,,i C(.\F' I TULD I I I AS SENHOF!AS DA VIDA ................... . l ~ .I /

Iemanjá

Oxum 17'-::•

< ...,~
Nan~ .!. / /

Euà

Ians~ ou Oyà 188

Obá 1.94

CAF' I TULD I '.J OS SENHORES DA LEI 202

Exu

Ogum
.-,'17
Oxossi .,;: ...::. ··--"

assanha

Irôko ou Rôko ou Tempo

Omolu ~"7C::
...:..:. ._) ,.,1
D>:L1maré 2 41

Xangô ,. .., ,, .-,


.0::"1'C:)

Logun Edé

Oxalá :".: '. 6 1

\) I CONCLUSAO

\/II BI BL I OGF:AF IA
l

n
'

'

'
'
.
INTRODUÇJ!iO

A manifesta~ào cio saqrado


se expressa por uma
simbologia formal de
con teúdo estético. Mas
ob j etos, textos e mitos
p o ssuem u ma fun;ào. E a
expressào estética que
"emp r esta" sua mc:1téria c1
fi m de que o mito seja
r e velado . O belo nào ~
concebido unicamente como
prazer estatico: faz
parte de todo um sistema.
(ELBEIN DOS SANTOS: Os
Nàgô e a Morte ;
Petrópolis: Vozes, 1976;
pg . 49)

O objetivo desta disserta ~~º é a imaginàt- iê:i do

Candomblé jêje-nagô , tal como é produzida e comerciada no Gran d e

de Mad u reira, no F:io de Ja n eiro . Conceituamo s,

i mag in à ria, neste texto, como o con j unto de imagens e objetos que

fa z em parte de um c om pl exo ritual e religioso.

imaginária é correlata à de imaginàrio, s en do est e o conjunto de

representa~bes mentais que circulam nos veios das comun i d .::_71d es ,

algo tào cotidiano que se torna um referencial funcionando quase

que au toma t. i c:amen tf,?. E o imaginário a base das conven;bes que

determinam as [Link] das imagens e objetos do Candomblé,

uma vez que esta religiào n~o possui leis escritas em qualquer

biblia, mas sim implicitas, no conjunto de usos e costumes, dos

muitos rituais que respondem às necessidades do sujeito social .

D imaginàrio do Candomblé é portanto, uma

de representa;bes religiosas adaptadas às necessidades sociais

r como veremos no caso do abeb_ê,, de 0 >:uman~ - e, ao mesmo tE':mpo de

históricas que foram [Link] moldadas pe l as

1
necessidades do sujeito religioso - como, nas transformac;:bes que

acon tecc-?ram no ou Xangü ( 1) .

imagéticas moduladas pelas necessidades

express~o de um imaginàrio que é, ao mesmo tempo,

contempor~nea, código de segredo e revelac;:~o, E•scudo

de sil@ncio e alfanje de ameac;:a imaginário de uma religi~o, ao

mesmo tempo, segregada e vivida intensamente, por gente de teidos

As religibes afro-brasileiras, no Rio de Janeiro,

dividem-se em dois grandes registros: e, do Candomblé o

A Umbanda é uma religiào de cunho urbano, por

vo 1 t.":1 da década de 30, que se caracteriza por ser uma ·fusào de

elementos do Candomblé, do Kardecismo e do Catolicismo

popular(2). O Candomblé se caracteriza pela intenc;:~o de perpetuar

f.-?! l emen tos c:le c:ultur·a e religiào africanas no Brasil. Esta

perpetuac;:ào, no entanto, é uma reconstruc;:ào de elementos, uma

[Link];:ào de mitos, de deuses, de rituais, num;;,1 ;-- ea 1 idade

sincrética e americana(3).

O Candomblé possui uma vasta imaginária, ou seja,

uma colec;:~o de objetos que s~o presen;a obrigatória nas

cerimônias. Os deuses e deusas do pante~o j@je-nagõ e

1 ) P,s aos objetos votivos do Candomblé


principalmente a partir da pesquisa de campo exercida entre os
anos de 1990 e 1994, no Grande Mercado de Madureira. Rio. Quando
as refer@ncias forem baseadas em fonte bibliogràfica, far-se-à a
referência correspondente.

2) ORTIZ, Renato. A Morte Branca do Feiticeiro Negro, Petr6polis:


Vozes, 1978.

3) PRANDI,
Reginaldo, Os Candomblés de S~o Paulo. F'ê.'IU 1 o:
HUCITEC/EDUSP, 1991.
no decorrer dos rituais, se apresentam vestidos em

paramentos especiais e usando ferramentas que os/as [Link].

Os iniciados no culto, seja no interior da Casa-de-Santo, seja na

sua existência profana, usam objetos - especialmente

colares especiais - que remetem ao universo sagrado. Além disso,

os rituais utilizam uma rica emblemàtica constituida de fer-ros.

f_erTé'.Hnentas miniaturizadas e de baixel� que serve para a oferta

sào louças, gamelas, bacias e pratos pintados e

trabalhados de modo especifico. Clifford Geertz, em seu te>:to

sobre a análise dos simbolos sagrados assinala:

Tais simbolos religiosos, dramatizados em rituais


e relatados em mitos, parecem resumir, de alguma
maneira, pelo menos para aqueles que vibram com
eles, tudo o que se conhece sobre a forma como �
o mundo, a qualidade de vida emocional que ele
suporta, e a maneira como deve comportar-se quem
está nele. (GEERTZ: 1989; pg. 144)

(.;pesar de Geertz estar se referindo Ct simbolos

estrutul"ais como "uma cruz. um ct-escente, um[Link]� serpente de plumas"

(idem) sua colocaç�o se ajusta perfeitamente ao funcionamento

simbólico e social dos objetos do Candomblé.

A análise da imaginária do Candomblé nos permite

perceber a relai�º de foriaS que se estabelece f::<ntre culto e

�,;ociedade e de que modo, formas e figuras se 1::1 ltE•r"am ou se

conservam no processo de enfrentamento de necessidades sociais

novas desde o surgimento do automóvel até a a·f luência de

4) O termo Iyabà designa, popularmente, as deusas do pante�o


jéje-nagô; o termo Aborg é derivado de g_g_Q!:,§.. (SANTOS: 1976; pg .
80) que, na origem designa os orixàs-filhas mas que, aos poucos,
�=-e fir·ma com a signficaiê:o de ori>:às masculinos.. O termo Ori>:�­
designa ambos os gêneros.

·..,.-·
homclsse>:uais aos terreiros - as quais, por sua \/EZ ~ p~-opiciam

novos posicionamentos religiosos. Na anàlise dessa imaginária,

buscamos, não apenas reconhecer este aspecto significante, mas,

t.i::urrbém, des tc:1 ca r dest.r-eza a sofistica<;:ão dos artistc:.:is

populares que, ao criarem os objetos, transcedem o simples valor

de uso f? ·fazem alcan<;am beleza d ,:1 qual estào

perteitamente [Link]?nti?s .. ti~qo ferramenteiro trabalhando na

[Link] .Ilê pdarª·' de hdilson M.::1rtins, é iniciado, "f.:[Link]-de-Çl.9J::!.fft E?

numa entrevista, explicita:

- Artesão é quem copia; eu, não, eu fa<;:o o que


v em de dentro. E claro que eu fa<;:o ferramentas
por encomenda, mas o que eu fa;o, jà sai de
minha mão com a;;;.§., por que eu sou ·f i 1 ho de
Ogum.

E referindo-se às suas magnificas Pombas-Giras de

-ferr-o:

- Eu não sei como eu ta<;:o, não dà pr-a ninguém


me dizer- como eu tenho que fazer: elas saem
daqui de dentro. [E mostrando o cora<;:ão]. Eu
faço e faço, depois boto elas longe por uns
dias e fico olhando até ver- o que falta: às
vezes, é um cabelo um enfeite na saia, o jeito
da mão, as rosas. Não sei dizer- quando ticam
orontas, pode ser em dia ou em m~s, porque
elas s~o de dentro de mim. (Nêgo, depoimento:
10/0'.:'r/94)

Usar-emos, nesta disser-ta~~o, os ter-mos

artifice e artista popular- como sinônimos sem qualquer c:onotaç,:ào

deprec:ir:.'1 tiva~ pois, apesar- da distin<;:ão que o Nêqo entr-e

"ar-tesão" e "artista", ambos ois qualificativos s~o usu2üs no

mercado, na fala do dia-a-dia.

4
',) f:1 r i o~,-, antropólogos têm se dedicado ao estudo do

alguns analisando-o de um ponto de vista ma.:i.s

e:: u 1 [Link] .. a l is ta , como Bastide e Juana E l be.:i.n, outros

colocando-o numa relaçào maior com o sociológico, a e>:emplo de

Beatriz (3. Dantas e Ortiz. o enfoqur?. a da

P,ntropo l og ic::1 da tem sido pois a maiorii:1 dos

pesquis<::idores véem estes obJetos como ilustraçào ou indic:c? da

simbó 1 i C:i::1 das div:[Link]., e como um conjunto

especifico, possivel de ser analisado em si mesmo. A Antropologia

da Arte, que tem como seu objeto, a produç~o artistica dentro dos

par~metros de uma cultura especifica, nos pi?.rmi te analisai···· ;;~

imaginària do Candomblé enquanto produç~o estética e

social (5). A relaç~o entre a obra de arte e a sociedade que a

produz é ambidirecionada: a sociedade, como vimos, influencia <::\

forma e por sua vez a arte, segundo Reger Bastide "e>:eri;:e uma

influência sobre E1 fcwmr~ soc:ial". (BASTIDE: 1971; p. 30) F:.sta

influência se daria através de imenso poder de comunic:a,;;:ào ela

ele arte, da qualidade de desdobramento simbólico que:- ela

possui e que incita à interpretação, à negocia,;;:i:\o dos

significados que as formas podem vir a ter.

Esta interpretaç~o, de acordo c:om Erwin Panoi'sky,


- se dà em três niveis: o formal, o iconográfico e o iconológico.

l'.Jo n i vE: 1 formal, apreendemos as Cé:1ri::~ctr~r is ti cas imediatas cio


.•"\
objeto: sua forma, sua cor, sua designa,;;:ào bàsica • H iconografia

é 11
a descr-i ~~o f? e l c:tss.i f i <:a~ào de irnaqen<2:. ( .•. ) ela não tenta

5) LAYTON, Robert. The Antropology of Art. Cambrigde: Cambr :[Link]


University Press, 1991.
,:;( interpretac;c3'.o [Link]" (PANOFYSKY: .1.97'=ii; pg. 5::-:_:;) • o
L'.tlt:[Link] nivel de anàl isE· e o ff,ais elaborado, c:onst:i. tui o

iconológico:

A descoberta e interpreta;~o desses valores


simbólicos (que muitas vezes, s~o desconheci-
das pelo próprio artista e podem , até diferir
enfaticamente do que ele conscientemente
tentou expressar) é o objeto do que se poderia
designar por, "icono16qico" em opos:.i ~i::'io
iconografia . (PANOFSKY: 1979; pg. '.:,3)
,.
-~
Tomemos;., (fig.

Fll./18):

1) no nivel f orma 1, temos urn bast~o de metal

pr-ateado [Link], tr-ês discos, ou pratos, cada qual com as

bordas enfeitadas com diver-·sos tipos de pingentes (folhas,

pei::.:es. estn::-las, sandálias, etc ..• ) e to d os .interligado~=- por

correntes prat€:.?adas . No alto deste bast~ o - de cerca 1,50 m

vemo~:; um pàssaro, às vezes suportado por uma coroa e/ou

por um resplendor(6) .

2) no nivel iconogràfico, recon hec:l'?lnc::<r.; neste~

forma, um Q_Qa>:.or!d_, ferramente:, de 0>:alà, €:.ém virtude de cor

- 6) Carybé, em Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da


Bahia.
"pratos"
que,
(Salvador:

como
E? o
a
INL, 1980), registra um "OF'AXOF:O" com
pássaro, sem resplE:ndor, sustentado por um orbe
coroa, simboliza soberania. A maioria
trés

de nossos
infonr,antes con ·[Link] qw'? "o númer·o certo de pratos" é tt-és, mas
r·egistramos "CJPAXORO" com quatro pratos. C\ quarto prato pode ter
surgido como apoio para o pássaro e passou, aos poucos, a figurar
nesta FERRAMENTA, em virtude do número quatro ser metade de oito,
o número mistice de Oxalá. Apesar- de ser possivel encontrar
OF'AXOROS miniaturas com dois discos, encontramos outros de
tamanho convencional com doze discos: de acordo com Liana
Silveira, este número, sendo uma multiplicaçào do três pelo
quatro, simboliza a plenitude da criaç~o, (comunicaç~o pessoal em
17.06 / 94).

6
prateada (branca) e do fato deste atributo lhe ser concedido por-

\lá~-ic::,s relatos rr,iticos(""/). Us R.u1to~:s repr.. ec::~;:;;nt,::1m os. [Link] do

mundo tr-és, de acordo com i=!lguns informantF:,tS porque

o mar, terrc:i e o c::eu, por isso sendo

caracterizados, respectivamente, por pingentes em forma de peixe.

folha ou sandália e estrela; segundo outros informantes, o número

é l..\iHa sincope do número dos nove mundos que compbem o

universo(B) e a forma correta dos pingentes seria apenas a de uma

pequf?na espiral cônica que significa a din~mica de vida f.? f:?Sté

l igad,::1 clivindadE? Exu. Os pratos sào l ig,:1dos

porque os mundos estào sempre interligados. O pàssaro(9) no topo

( f ic,,1. F11/19) est.~ relacionado com o podt'?r· de

.~ fecunda~ào absoluto, desmedido, exclusivo e, portanto ameaiador

que as:, mu 1 heres - as .Lt.~1-flJ_t - possuiam no inicio dos tempos fi que

é usurpado por Oxalá num famoso mito, permitindo, assim, que a

vida pOSSE,a ê.i vir a ser gerada pelo equilibrio entre macho e

coroa designa Oxala como o maior dos

marca, por um lado. um sincretismo do pàssaro com o

Es;pírito Santo crist~o por outro lado, remete ao

pano branco que cobre como um

_.________...,.------·---·-··--··---
-
.....

7) VERGER, Pierre, Orixás. Salvador: Corrupio, 1981.

8) SANTOS, Juana Elbein dos. Os Nagõ e a Morte. F'etr6polis:


\lo:zes, 1976.

9) SANTOS, Juana Elbein dos, idem.

10) AUGRAS, Monique. O duplo e a Metamorfose. Petrópolis: \/ozes !'

1983.
pálio (11).

:::q no nivel iconológico, o [Link] do ~2.f.!ê:i>:oc_g_ é

E:>:t~-·emê:imente complexo, pois sua forma e uso ritual o

simbologia de f,rvore, da co luna, do do ·falo e do

[Link].;:(12). ~Juana Elbein coloca que "QSLl!J.. 11


e "ó.~>:CJró" per t.e-:n cem

à mesma "[Link]" (op. cit.: pg. 78). E os "àsún" sào bastbe~;. dt.=2

ferro que simbolizam os limites entre o orum e o ayé e

é um axi-mundi, uma àrvore sagrada,

um eixo que sustenta os mundos e permite que o axé - for~a viva

o percorra. Mas é também o limite entre os vivos e os mortos e

representa os ancest rais, isto é, aqueles que vencem a morte por

continuarem vivos na memória e no cuidado com os vivos. E ao

tempo representa~ào do que faz o universo uno e do que o

divide em segmentos: no Candomblé, tudo se afirmc::1 pelo S:.eu

contràrio, cada conceito carrega sua nega~~o, e só através desse


~· movimento circular, pode ser legitimado (13).

O pàssaro do alto, que vive nos púbis das mulheres

feiticeiras, enredado em pelos duros e agudos corno arame que

nào permitem a aproxima~~º do homem (14) - ao ser deslocado

11) Remete também pela forma de leque que, às vezes, apresenta, à


ventarola de Oxalà que foi, ao longo do tempo, substituindo o
ABEBE que este ORIXA originalmente carregava e que refor~a a
imagem do pàssaro como simbolo feminino.

12) ELIADE, Mircea. Imagens e Simbolos. S~o Paulo: Martins


Fonte<::., 1991.

- 13) AUGRAS, Monique. op. cit.

14) "Mother \.'Jhose v,:1gina causes pain to i:.'d 1.


"" "Mother i..1hosE• pubic hair- bundles up in knots.
"Mother i..:ho sets i:.1 trap, ~:;;ets a trap.
(in: FAGG, William, Yoruba. New York: Alfred A. Knopf. 1982)

H
fig. Fll/I9
, A

O passaro eye que fica na ponta do opaxoro como


aimbolo da feminilidade vencida e glorificada,
ao mesmo tempo.
cima do bastào é, ao mesmo tempo, simbolo da vitória masculina e

reverencia profunda c:10 poder feminino. Pdém disso, o opa:,-:on'à estit1

ligado a dois outros simbolos que, na origem, nào pertenciam ao

contexto histórico yorubà, mas, em sendo oriundos do Daomé, foram

incorporados ao panteào jêje-nagô: o xaxarà de Omolu e o ibiri de

é.1mbos <:.imbo 1 os ligados à ambigõidade entre a vida e a

entre a secura e a fecundidade, entre o nào-nascido e o

gestado, entre o pavor e a remissào (15). Assim, o opaxorô, neste

brevissimo ensaio de análise iconológica, é cetro e bordào, ei;-:o

e limite. falo que empala o cerne da feminilidade e estandarte de

glorificaçào do poder feminino.

O mercado de Madureira, localizado num subúrbio do

Rio de Janeiro, é seguramente o maior mercado produtor de objetos

ao Candomblé e e>:porta seus prc 1tos para Sào Paulo,

Salvador e até para o exterior. Sào mais cem lojas de

de-s,;;1nto ( 16) , de lojas de cereais, de verduras, frutas e

legumes, de venda de animais vivos, de produtos para culinária,

para testas de aniversário e venda em camelôs. E um "shopping"

popular que está "do outro lado de M.::1dureira", desde a década de

vinte e onde circulam, por dia, milhares de pessoas, nos seu e.

dois pav:[Link]. O Mercad~o - como é chamado - apesar do termo

"s;hopping" que os próprios lojistas usam, com certa il'"onia,

mais dos mel'"cados populares como os de Sào Jo~o ou do

15) SANTOS, Juana Elbein dos. op. cit.

16) COISAS-DE-SANTO sào como se denomina o conjunto de objetos~


comidas~ utensilios e pl'"odutos usados nso rituais de Umbanda e
Candomblé.

9
',.Jer--o-Peso, em Belém, ou das Sete-Por-tas e Agua-dos-Meninos, em

Salvador. Distancia-se do renomado Mer-cado Modelo (Salvador) que

i'unciona como ponto tur-istico, vendendo objetos que na

e nouso, às necessidades do tur-ismo, enquanto o Mer-cad~o,

c:om sua "desor-ganizac;:ào", seu dir-ecionamento

o cliente das religibes afro-brasileiras, tem

uma coeréncia interna baseada no código de Santo (17) e, não,

numa moda circunstancial.

C) público que circula bastante

de·sde· gente rnui to pobr-e, camelôs, dOCt:!i 1~c:1s,

[Link]-os, até profissionais liberais de vàrias procedências. O

que unifica este público é o seu objetivo, jà que todos est.~o là,

envolvidos em alguma atividade ligada ao Santo, seja no

da Umbanda, seja no do Candomblé. Todos estào envolvidos com

alguma e vào ao Mer-cado compr-ar fer-r-ame~tas .

pararnentos, comidas, €·,:n con t. r- ar- amigos

pan::1 convidá-los par·a algumai:; f..est.~s (19) ou r-ealizar· negócios

17) SANTO é um termo que designa, ambiguamente o ser humano


santificado na mitologia cristà, o ORIXA do Candomblé e a
entidade sagrada da Umbanda. Numa assep~~o genérica, o SANTO
denomina o culto às divindades afro-brasileiras de modo geral.

18) Uma parte significativa dos rituais internos de uma CASA-DE-


SANTO está ligada ao sacrificio de animais e ao uso da carne, do
sangue, das estranhas, dos cascos e/ou chifres para a feitura de
comida comunal ou de COMIDA DE SANTO.

19) O ritual externo, público, do Candomblé é denominado FESTA.


Em parte porque é realmente uma festa social, com as pessoas
bem-vestidas e com comida farta e, em parte, porque é uma festa
no sentido antropológico de termo: um momento de interrupç~o do
cotidiano, quando a danc;:a dos deuses recria o tempo primeiro,
forte e iniciático da criac;:ào do mundo.

10
r-elai:ivos a este univer-so r-eligioso. As lojas de

doces, ê:1rnêndoas) , as lojas de


r
quinquilhar-ias por- enfeites dt!: qe!::',::lO S:-E'F'V(':.'ffl ao

tr-abalho das doceir-as, das banqueteir-as que ou

Santo (20) ou estào pr-epar·ando os "buffets" par-a as festaE-de-

Santo; este é o mesmo povo humilde que ganha vida vendt2ndo

biscoitos. E~ brinquedinhos nos came 16:; da

c:idac:le, DU s~o as mulher-es que fazem os mimos que r::nfei tE~m

mesas de aniversàrio e casamento, os doces caramelados, os bolos

confeitados, os canapés, e salgadinhos. (fig. Fl/7)

O mercado, portanto, é uma encr-uzilhada entre o

imaginário religioso e o processo capitalista: os objetos ora se

vendem em dólares, ora sào dados de pres:,ente; os prazo!::, e

discutidos conforme as regras econômicas e os

parentescos sagrados. O que nào é dito, é compreendido e, [Link]

\l(·?ZES ~ o que está claro é para ser interpretado de formc::1 muito

difer-ente (21). No Mercad~o, a arte se expbe como numa galeria e,

como numa galer-ia, é adquirida por dinheiro - mas n~o serve para

uma sala ou um escritório, serve para adornar um deus

vivo, para realizar a media~ào entre o terror da divindade e a f~

do ser humano. (fig. F6/18)

20) AUGRAR. Monique. op. cit.

21) Adilson Martins, nosso principal informante, costuma contar


uma estória bem a propósito: uma senhora que se aproxima do
balcào e lhe pede uma fava de Possum e ele responde,
educadamente, que - nào, nào temos esta fava. Ela agradece e sai.
A situa~ào nào poderia ser mais clara, no entanto n~o é: Pcssun é
um odu que responde no jogo do Ifà e a tal fava simplesmente n~o
existe. A pobre mulher foi iludida por alguém de boa ou mà fé •

.11
fig. F6/18
Nas vitrinas, os objetos de metal formam um conjunto
,
de grande beleza plastica, cujos significados reme-
, .
tem a um complexo codigo-de-Santo.
Os objetos do Candomblé que estào no mercado s~o

classificados, nesta disserta~ào, conforme sua fun~ào ritual e o

ao qual est210 destinadas, de tal modo que leitura

iconogràfica nos permita o levantamento das formas, dos temas,

das imagens e da sua decodifica~ào no momento atual (22). o


conjunto comentado desses objetos pretende formar uma coleç:~o

fotogràfica denominada Colei~o: Mercado de Madureira. Os objetos

do Mercado podem ser produzidos no ~mbito das próprias Casas-de

Santo o lagdib~. e

rungebe só deveriam ser feitas dentro de cada Casa, pois e>: igem

preceitos especiais mas sào encontrados no Mercado ai,

comer-c:ic::d i zados. Na verdade, à medida em que os Candomblés e

se expandiam e passaram a absorver uma clientela de

classe média alta, tornou-se impossivel produzir todos os

f.:1r·te-fc:"1tos necessàrios ao culto nas Casas-de-Sani;o e os melhores

,,,1 r-tes~jos passaram a vender seus trabalhos por encomenda. Este

comércio mostrou-se lucrativo e a competitividade provocou o

embelezamento das peças, cuidado e requinte maior na artesania e,

a te criatividade que, às vezes, contradiz a ortodoxia e pr·ovoc:a

verdadeiras discussbes bizantinas, nos corredores do Mercado como

22) Por exemplo, diante de uma balança dourada, cuja curva do


balancete é tratada como a representaçào de um arco que sustenta
uma seta em riste estamos em presença de: 1) uma ferramenta de
Logun Edé; 2) sua forma de balança remete à ambiguidade deste
deus, o arco, denominado OFA remete a seu pai. OXOSSI e a cor
dourada, a sua màe, OXUN; 3) o tema da balança é recente,
substituindo, o ABEBE e o OFA que, antes, identificavam a
divindade e simboliza o equilibrio entre macho/fêmea, mata/rio,
peixe/caça e 4) remete a Sào Miguel, que se tornou a divindade
católica, identificada com Logun Edé: é um caso de sincretismo
construido a partir da iconografia.

,..,
1 ..::.
na c21sE1 do número dos ~-t,gf:s que deve ter um g..Q_a>:c~Q. ( 2:3).

O Candomblé, como vimos, se caracteriza pela busca

de urna t idel idc:1de às origens africanas e se c:lividtE: em

grandes grupos ou naibes: jêje, nagô e congo-angola. A naç~o jejê

se divide no jbje de Casa das Minas, no Maranh~o e, no chamado

jéje-mahim, que se assemelha muito ao culto nagô com o quc11 fo:i.

composto, formando o candomblé jêje-nagõ. A naç~o conhec:[Link] como

conga-angola mantem especificidades claras no uso das folhas, das

na natureza dos deuses - jnkices - e na e>:isté[Link] de

gualidades de Santo próprias como Cabila que s;eri,::1 um

Essa

pretendida tem sido discutida por alguns autores como Beatri::

E,bi s. Dantas., de afirmada [Link] tement.E· na

bibliogra-fic:1 clàssicc:1 desde Nina Rodrigues até Reger Bastide e

por estudiosos mais recentes como Juana Elbein dos Santos, Pierre

Verger e Júlio Dantas.

O Candomblé n~o é uma manutenç~o, uma cópia rigida

cl i::i religi~o africc:1na, mas sim, o [Link]:1do de f:;;éculos de

r:,;incrf:?ti smos acomcidaçbe!::·, num processo de dinamicidade que

c:arc:1cter i z a qualquer religiào enquanto fato social e histórico.


.
E
-· ' se!' rec:1lmente, e>:iste um "nagbcentrismo, esta hegemc::,nia

23) Reginc:1ldo Prandi, em seu livro Os Candombl~s de S~o Paulo,


nos dois primeiros capitules analisa a inserçào dos "mores" do
Candomblé na din~mica urbana de Rio e Sào Paulo. De como o
Candomblé passa a ser uma opçào religiosa na grande cidade:
Na sociedade de agora, a religi~o nào é mc:1is umc:1 religiào
para todos. A sociedc:1de nào mais se move imbricada em um
único universo de explicaçào. A religi~o jà é c:1 religiào
para o individuo. ( ••• ) A religiào passa agora por um
processo de escolhc:1. ( ... ) Nos meios do Candomblé,
desenvolvimento implica acesso a partes altas na hierarquic:1,
a que se chegc:1 através da obrigaç~o ritual. E isso significa
prestigio( ... ) (PRANDI: 1991, p. 89)

.1.3
atuaria no êmbito do uso dos nomes dos orixàs e da organizaçào do

r r-itual parte pública, conservando, no entanto, cada

especificidades lingtlisticas, rituais e mitologias definidas. Por

outro lado, é claro que assistimos à várias articula~~es entre o

Candomblé e a sociedade abrangente, chegando, aquele, por vezes,


r
r·1t:::•ssas articulaçbes a jogar o jogo da ideologia dominante. Isto

nào significa que o Candomblé faça parte desta ideologia e que

todo o [Link] d iscur-so d0:· 11


neqr- i tude:{" , 11
r-ai zes. 11
e II
jdE~nt:[Link]!..dr.~ 11 seja

uma fraude ou um simulacro - mas sim, que o Candomblé é uma

r-eligião (·?/Ti relaçào com o mundo social com o qual deve travar

sitT1bó li c:a s;. qual devE• cumpr-i r

r1ecessàrias à sua sobrevivência (24). Ao longo de nossa pesquisa

c:lf'2 campo, estas estratégias se montaram vàrias vezes, mas

r
nenhum morrrento, o povo-de-S~to esqueceu seu papE·l espec.í."fic:o ou

[Link],erdeu seu referencial imaginário. Equiparar as lutas de poder

que se travam na Çf_~sa-c:lg-Si::1nto i:1 passiveis 1 ut21s-de-·c: 1 asses ou as

i:',1 J. ian.;:as c:los zeladores-de-Santo com Academia ou ou tr-os

representantes c:lo poder ê trai.;:bes ao povo-trabalhador, pressupbe

uma idealiza.;:ào, pois traz implicito o modelo c:le algum Candombl~

i c:lea 1, no qual n~o existam tensbes nem conflitos nem seres

humanos envolvidos em suas teias de papéis sociais a cumprir,

como papéis antagônicos, contraditórios e ambiguos que, ainda

assim~ devem ser conciliados e (sobre) vividos(25).

24) PRANOI. Reginaldo: Os Candombl~s de S~o Paulo, 1991; AUGRAS,


Monique: O Duplo e a Metamorfose, 1983; SODRE, Muni2: A 'verdade
Seduzida, 1983; BRANDAO, Carlos Rodrigues: Os Deuses do Povo,
1980.

25) Para a no;ào de teias sociais e de relaçbes interativas entre


grupos, remetemos à GEERTZ, Clifford: A Interpreta~~º das
r Culturas. Rio de Janeiro: Guanabara, 1989

14
Sem dúvida alguma, o Candomblé deseja preservar os

valores que real ou imaginariamente, remetem à Atrica, vista como

ter-ra mi ti e,·~ e sagrada. Assim como a Umbanda criou, para si, uma

or· iqem hiduista e "f::!SOtéric,:."" (26) e como c:"1s r·eliqibes judaica e

cristàs se voltam para Jerusalém, a Sion Dourada, como ponto de

e lei c;:ão E-?! de encarna~ão divina, o Candomblé volta-se para ,,:1

Ai' r.:i.c:a, como ponto ao qual o mistério deve retornar eternamente

se ressarcir(27). No entanto, seu contingente de ê1cólitos

n~o se resume mais aos negros e / ou mulatos, mas abrange brancos

h r·· as.i. 1 e i r·os ou de origem E·s t. r·· i,,1r·,g e ir õ:1,

descenden tf?s, gente de todas as classes saciai!::. e t:~s tarm?n tos

pro·f :i.S:.sionai. s, t. e:\ l modo que uma -f r a1n cesa como Gisr.,:l le

Coss.:H-d--Binon possa a·firm.::,r que foi "[Link].:::!." e agora é "~::etu" ou

que um advclgado como Adilson [Link] s.f? diga j_Q.~., sem qualqLler

problema ou contesta~ão.

assim,

que, na medida em que s.e qu€?rem legitimas,

dii:::.putc:1m com outros mitos de ori9em de OU tri:\S

pr-imi:L'.'. ia da veracidade e do prestigio social como

coloca Beatriz Dantc:1s em Papai Branco~ Vovó Negra ( F:io de

Janeiro: Graal, 1988), ao analisar o Candomblé em Sergipe. Essa

atitude nào é privilégio do Candomblé e nào reduz o ritual

discurso mitice a simples alegoria ideológica, mas~ funcionando,

26) GOMES, Vera Bragc:1 de Souza. Umbanda sem Estigmas. Füo c:le
Janeiro: Midia, 1984.

27) ELIADE, Mircea: Le Mythe de 1 'Eternel Retour; F'ê\ r·is:


Gallimard, 1969.


1 e:
em como no jogo do é uma

especi ·f i cidade cultural. Afirmar a Africa como modelo é afirmar·

ser- um outr-o, e=: afirmai~, nos ff1eand r-os longos, sinuosos,

:.i.ndeva1ss.!:1veis

silenciadas, na memória do Ifà, a r-econstru;ào retomada de um

mundo de origem africana: brasileiro, sim, intensa

brasil ei r·o, complicado contra1di t6r io como tudo o que é

brasileiro, mas de uma origem outra, africana e nào greco-romana.

Nesta disserta;ào. no entanto, n~o apF·ofundaremos;.

ques.t~':io da gen{?ti ci::, Cl ob . i E,t.o do

C::E,1ndornb 1 é ser.!:1 c::omo part.E: intr·.inseca da cultura

e c:on tempor·t:"<nei:, onde, até mesmo os motivos

barrocos, neo-clàssicos, ou art-nou-..1eau s~o usados para

r.. epr. e~;;en t c::1 r CtS no c:on te>: to da atualidade. Apesar· de

a transi'or.. ma;~o do objeto [Link]::1vés do tempo, o

com o intuito de p12rceber sua dinàmic:a corno

estética e forma de comunica;ào. N~o l::[Link] qualquer

valoriza;àc do objeto conforme sua maior ou menor proximidade de

um modelo africano ou de origem européia. A Africa é um ponto

focal no imaginário religioso, o que nào pode ser confundido com

urna origem histórica concreta de todos os artefatos do Candomblé

estes se transformaram, surgiram ou desapareceram sob press~es

sociais e de acordo com novas necessidades de novos individuo~:;.

Alguns objetos se aproximam, formalmente, bastante da ·forma

africana pré-e,: is [Link] te ao t.ràfico, como é o caso dos Ci>:ê:;. c:le

Xangô (Fl0/25); outros apresentam acentuadas modifica;~o da forma

e significado como os ferros e outros, ainda, s~o inteiramente

16
'
Insistimos E~m

que todos os três tipos de objetos sào iqualmente válidos do

ponto de vista antropcl6gico, pois todos respondem a uma demand,::1

c:ul tu,,...::11 c 1 ar amc-?n te expressa. E todos sào vàlidos do ponto de

vista estético, pois sào belos no critério dos que os usam e

~?ncomendam.

A maior parte dos autores que estudam o Candombl~

nào deu maior importtncia à sua rica imaginária. Seja porque as

tensbe<:?, sociais que envolvem a religiào teor .i camen te,

atraent.~?s, seja porque ela està~ de tal modo,

em cada gesto do ritual e no cotidiano dos crE?ntef::.

que se torna indivisivel destes e, de certo modo, invisivel.

Levantando o estado atual desta quest~o, podf2ffiOS

con!=.iderar que o trabalho de Nina Rodrigues, Os Afr i c anos no

~ Bra sil (Sào Paulo: Ed. Nacional, 1977) apresenta o primeiro texto

especifico sobre a imaginária do Candomblé, no quinto capitulo,

que ver·sa sobre as sobreviv~ncias africanas no Brasil. Esse


r
, ·,1 r-· t i_ Q Cc -foi publicado or··iginalff1ente em l<o smos, Füo de ,Janeiro,

agos;.to de .1904, E? intenta uma análise iconogrtdica de algumas

pec;:as por ele recolhidas e que ·fazem parte de sua cole~ào

particular-. E um de orienta~ào nitidamente

evolucionista(28), mas primeiro trabalho que coletou~

or·gan i zadamente, dados sobre cren~as [Link] e buscou

analisá-las à luz de um quadro teórico, reconhecendo .::1ssim seu

28) "Nào passaria pelo [Link] de homr:~m mediocr·emente .instruido


a idéia de aplicar à determinaçào de seu valor [das obras de
artesanato - afro-brasileira] as exigências e regras artisticas
por-que se afer·em pr-odutos da P1rte nos povos civilizado~,."
(RODRIGUES: 1977, pàg. 169)

17
valor para o conhecimento da cultura brasileira.

Os objetos coletados por Nina Rodrigues pertencem

ao fim do século passado e inicio deste, localizando-se, portanto

num momento intermediário entre a importa~ào do artefato africano

e ·fei lura brasileira do mesmo. Reconhece, ele que os seus

obj et.c)s n21'.o de 11


bom [Link]" já que não

aqu.i., os mestres~ as ferramentas, cem d .i. ç;:ties; de

ideais. As figuras analisadas por Nina Rodrigues

oito "f_ig_urinhas 11
um banco um tamborete

Xangô; uma figura

que ''representa uma sacerdotisa ou filho de santo, possuido pelo

o r· i >; á O:,-: um " (o p . ci t . : pg. 165) ; uma "figurinha" de br·on:ze;

um cofre encontr.:ido "nas praiC::iS de banho da Calçada do Bonfim,

nesta cidade, envolvido em alva toalha de linho (op. cit. pg.

167)". Segui rt-?fftO!S de perto as análises de Nina 1:;:odrigues por

serem as primeiras na bibliografia brasileira e porque percebemos

cometidos foram provavelmente causados;. por uma

abordagem errônea de trabalho de campo.

as "figurinhas" an tropomór.. f i ca=:., Nina

Rodrigues destaca três Exus, caracterizados pelo penteado alto em

'forma de cone ou de crista. Dois dos Exus s~o qualificados como

"peç;:as gr-osseiras e pouco significativas" (op. cit.: pg. 16'+) e o

terce ir-o é descri to erroneamente como "um Sê.1cet-dot€:? ou filho de

dançanclc:,, provavelmente [Link] pelo orL-: à" (Idem). D

banco CtLt tambor-e te sustentado por uma ·figura de compleiçào

,.... robusta, fartos seis pendentes sustentados pelas m~os em concha e

18
pUb.:i.s raspado e aparente, concordamos, deve estar [Link] i:,1 uma

r· de Iemanjê. E pei;;:a de provável origem · brasileira,

j t~ que 1 he faltam os aderei;;:os e tribais que

marcam as esculturas africanas, fotografados por Pierre Verger em

Oyó ou as analisadas por William Fagg e Pemberton em Yorubá

( 1982) .

Os,. dois descritos de i'orma

breve, mas. corn::~ta: o o:-:~ "repr·oduz umc:~ cené1 de [Link]~o e um

sacerdote ou feiticeiro africano em cuJa cabeça penetrou Xangô"

( I d <:Jm ) • tem, em verdade, siqn i ·f i c,::1do bem 1T1ais amplo,

l'"e 1 ê',[Link]-..·~,,e ê.,O entr·e os contràrios, aos

simbolismos do fogo e às tensdes entre as dimensbes s-,ociais. da

E~>:1S:.tência e as dimensdes cósmicas da natureza. A peça nq 6 que

uma sacerdotisa de Oxum é de iconografia bastante

discutivel. pois;. nada da peç;:a justifica essa pelo

contrário, faltam todos os elementos que definiriam a presença de

tais como a coroa com chorào, o §_bebé, a eventual espada,

c::,s .i,Q.~.~ ou brai;;:alc!tE?S:. . Por outro lado, c1 afinnai;;:~o de que. nas

serve de altar às peças fetiches da c:leusa"

(op. c1t.: pg. 165) também n~o procede, pois as "pec;:as-fetiches"

ou "ferramentas" s~o empunhadas pelo orixà incorporado e os

objetos de assentamento n~o s~o exibidos em público.

Esta peç:a nQ. 6 tal Vf::Z seja o que Eaul l_ody

deno,nina "~.nguetes_". que seriam peças de uso tradicional nos


r terreiros, figuras masculinas e femininas, às vezes

feitas de madeira ou barro.

A figurinha de bronze que Nina i:;:odr igues n~o

anal is.a~ tal vez seja parte de um par de i bej is. - o par de qémeos

19
sagrados - pois representa uma figura de mulher com os caracteres

<.:.. e>:Ltais bem visiveis como os fotografados por \[Link] 11 iam F aqq €'.?

Pernberton (op . cit.: 1982). Os objetos que a fotografia expDe em

primeiro plano sào .[Link] como sendo "algumas [Link]

sacerdotais: a cauda da vaca do babálaú, a ventarola de cauries

de 0>:um, as ê:trm.::1!:- de Xangô" ( 1:;:0DFUGUES: 1977, pq. sgco

,-
da vacc::1 11
que 2.p.::1r-E~ce como :[Link] do babc::11.::,_ô. CJS ou t.r··os

d .i v ir,d.::1de .i .n cot·· por· ;::<.d a e, n~o de um sacerdote

a campainha denominada que repr··t::::sen ta

[Link]·idadE?, e:, comando sobre o desenrolar do [Link]:."'ll. "{~ cauda de

r \1ac::a" poderia s:,er também uma ·ferr·anH:[Link].a [Link] 0:-:oss:i. (o ~ruquf.?:r.~) ou

de Iansà (o ~ruexi~). A ventarola de cauris - um ab~bé - pela cor

branca-leitosa [Link] com o revestimento dest,::1s conchas,

pertence a Oxalà, o deus do branco, um dos orixàs fun-fun e. n~o.

i:1 D>:um, ia\ dona do ouro. E, acima de tudo, "as ;:1r mas de XaniJô" sào

- na verdade espadas palmares, caracteristicas do culto a Oxum .

Na fig. ª~ ê.1S duas pe~as de brc:mze que Nina

F:[Link] identifica como "atributos fálicos do or.i>:à E>:u" (op.

ci t. : pg. 163) e que diz pertenc:E~rc.1m "ao bast~o ou cetro de um

régulo ou potentado africano'' (Idem) s~o~ obviamente, dois Edans

sem corrente que os 1 igava entre si. Os ~daps s:,ào

forma e>:plicita ou estilizadament.e antropomórfica (macho e

·fémeê.1) e que pertencem à sociedade Ogboni ( 29) . As pe~as

- 29) Fagg. William: op. cit. pgs. 19/20.

20
f\Jina F:odr igue=· l'?n cai >:e para a

corrente, na cabeça; o suporte em forma de prego com o qual

fincados no solo e uma das figuras carrega uma réplica estilizada

de outro par de fdans .. confirmando a identidade

dessa peça.

Cl último objeto, o mais belo e comple:-:o, é um

cofre em forma de concha .. sustentado por um grupo escultôrio. o


grupo representa um homem branco montado num crocodilo ou j acarÉ~

e empunhando na mào direita uma espada que crava na réptil; junto

branco encontram duas negras e um negro de pé sobre o

crocodilo. Esta peça que Nina Rodrigues supbe ter sido despachada

no mar por ocasiào do falecimento de pai. ou màe-d.e-Santo.. ·fo.i.

identificada por nosso informante, Adilson Martins .. como um

Igede C'JU IgbaqE:. .If~ .. um cofre de Ifà., umc:~ vez que a cena do

c::r--ocod i 1 o n~·meter i 1:1 a um Odu ( 30) de I f 21.

devida deve ser preparada centro de um crocodilo eviscerado .. que

conserva ;;;ua ·forma como que empa 1 hado; assim.. l'?Sse P.d~ passa por

que cria tudo o que é pele de c?.scama .. represc?.ntada

pela pele quadriculada do jacaré.

Como nenhumc:1 das leituras iconogràficas com

oxês - se revela exata e algumas são francamentF.J

absurdas~ sb podemos atribuir as falhas ao método de pesquisa.

1\1 in21 F:odr-igues .. frequentador assiduo de Candomblés, mas imbuido

30) ODU é um conceito bastante complexo .. mas pode ser resumido


como um destino .. um nô., um feixe de força determinante que
orienta a vida de cada um. Cada ODU carrega consigo a influência
de vários orixàs e comporta vàrias histórias miticas chamadas
ITANS e é tratado como uma individualidade numinosa .. em si mesmo.
(Martins .. Adilson: O Jogo de Bfizios por Odu; Rio de Janeiro:

- mimeo.. 1993)

21
de visào evolucionista se acercou de seu campo de E?S:. tudo,

convencido de seu saber e superioridade, recebendo, po rtanto, de

~ seu informantes, respostas eivadas de malandragem e ironia. Como

ver··emos ao discutirmos a metodologia de trc1bc11 ho de

campo, D pov_c,-d_e-San to t'.? cioso de sua torma~â:o, vivência e

hierarquia e nào aceita a presun~ào, respondendo a ela com desdém

.- e informa~bes erradas, dadas de propósito, seja por galhofa, seja

por alguma razào religiosa.

hrthur Ramos, considerado continuador da obra de

Nina Rodrigues, se desvia. teoricamente, para Cl funcionalismo,

abandonando cer~os
t .
rac1ca
1
·1 . .
.. 1smos rac1s t as. V~ o negro n~o como uma

questâ:o a ser superada, mas como foco de uma cultura que ai estê':,

e qUt-! precisa ser pesquisada e compreendida. Em seu livro As

Culturas Negras no Novo Mundo (Sào Paulo: Ed. Nacional~ 1979) ,


,
r col OCê:1 o negro brasileiro em seu contE'!:-:to latino-americano e

africano~ lan~,::<ndo m~o de contribui~t:1:0 de pesqui sadc,res

importantes como Melville Herskovits e Jacques Maquet. Este livro

~ o terceiro de uma trilogia iniciada com O Negro Brasileiro e O

Folclore Negro do Brasil~ sendo o mais abrangente. No entanto,

sua anàlise da cultura material é muito sucinta~ assinalando~

principalmente a rela;~o de continuidade entre a arte nigeriana e

c,1 dos candomb 1 és baianos: "Os traba 1 hos de e seu 1 tura em madeira,

da Nigéria, foram continuados no Brasil (RAMOS, 1979; pg. 198).

i-~r-thur c1ssina l c1 também que "a predomini'.i:incia da cu l turc:1

yourb~:t é notória ent.r-e o~. negros baianos" ( Idem), -f i 1 i c:~ndo-se

ampla linha do que denominamos hoje, nagôcentrismo. O artesanato


r
afro-brasileiro assim~ na concepçào deste autor, resulta pobre em
quantidade, simples imita~ào de pe~as e estilistica africanas e

sem qualidade estética notável.

Ed i ~?,on Carne i. r-o, autor de Religibes Negras e

Negros Bantes (Rio de Janeiro: Civiliza~ào Brasileira, 1981)

Candomblés da Bahia (EDIOURO, 1960), este último ilustrado por

primorosos desenhos de Carybé, n~o se refere explicitamente ao

i:,1cervo de imaginária afro-brasileira, pois, por um lado

no contexto da descri~~º das cerimônias e dos Drixàs, pressupondo

seu r-econhecimento pelos 1 ei tor-es.; e, por

nanquin~. de Carybé lhe parecem su1' iciente .ilustr-a~~o. Nos

desenhos, percebemos o r-equinte das roupas, da ar-tesania no metal

das c:or-oas, idês ( brace 1 ete~:ã.) 0bebg~ e espadas.; nas,. ser-pentes de

Oxumaré e no xaxar~ do Dmolu (jà na forma do cetro usual hoje) no

no seu eruquer.::§~ tr.::,b.:::d ho e no chapéu de abas

largas, no .f. ~_r.:::g_ de Ossanha, na espada de Ogum e na sua penca de

ferramentas (31). Carybé, também, registra as imagens de madeira,

ainda africanas na memôria do tra~o, como um Xangô encimado pelo


,,
seu oxê e ladeado por uma mulher e um carneiro (CARNEIRO: 1960;

pq. 122). Registra, ainda, imagens, hoje, raras, como o êid.~ de

Bayani, do culto de Xangô. A descri~ào iconogràfica, propriamente

dita, neste livro, é minima - até porque seu livro é um registro

do Candomblé quando era um culto afetivo e familiar e todos

sabiam do que se estava falando e o que se devia calar, por ser

óbvio e/ou segredo.

No volume -f amosc::t cole~~º Retratos do

Brasi 1, Ediscm Carneiro reúne dois estudos etnogr-á-ficos:

::::: 1) Todos esses objetos sào analisados nos capitules II, III e
IV.
ReligiOes Negras e Negros Bantos. No pr imc-? i.r-o cuj e.-\

pPsquis.a, é centrada "no ff1ais. que-: centen~u-io candomblé [Link] Enqenho

\/e lho" ( C{~RNE I F;U: .1.'-i81; pg. 17), ta:: um apanhado gerc:d da

caracter istica do que [Link]nomin,,:1 "teti chismo jêje--nagô" (Idem) ,

indo desde a liturgia, do sincretismo religioso até uma ;anàlise

do "E<:::-ti:\do de Santo" e do "C,':<.ndomblé de C.:.-:iboclo". A no<;â:o de

fetichismo que, como Nina Rodr i gues, Edison Carneiro atribui

"todo~, povos negros vindos para o Eka~,il. Uns (os

tcan tos) , menos ( os !:'.:-UdanE':ses)" ( op. ci t. : pg. se

no tcitE·m .i smo: ''par·entesco com o animal t otem'' (cJp. ci t.:

pg. e na presen~a de fetiche, objeto sagrado no qual se

assenta a manifesta;~o do poder divino, fetiche este, que o autor

acredita estar desaparecendo:


-
O fetiche vai desaparecendo cada vez mais
apenas Xangô, orixà do raio e do trovào,
resiste ainda - fa::endo-se representar pelo
seu feti chi:,, ( a pedr·c::1 c:lo rê:1io, "i t21 de X anqô")
nào aceitando o simile com Santa Bárbara nem
com Sào Jerônimo. (op. cit.: pg. 32)

- natural de Iemanjà pode ser uma pedra-marinha qualquer."


fetiche

(op.

c:it.: pg. 38), assim como cita os apetrechos de guerra de

Ogum f~ os de caçador de 0:-:o!'::.si. 0:,-:um é recc,nhecida pelo seu abebé

s,.eus. E?nfei tes f? esta imaginári.:~ é tào precisa aue: "Os negros

distinguem Oxum-aparé quanto Oxum brinca com a espada e 0>:um·-

quando brinca com leque'' (op. cit.: 39). Omolu é descrito

nê~S s-,uas roupas mas n~o cita o longo e caracteristico filà de

pa l h.c.,1 e o >:a>:ar.~ é registrado na sua ·forma antiga: "P1 f i l ha--de-

24
Santo carrega o fetiche do Santo, pequena com

( op. cit . : pg. 40). Ift:1 "tem por fE?tichE:: o

c:len[Link];:'. li:~ i r·o 11


(op. ei t . : pg . 41 ) e I r·· o k. o "É?: a qamelr,·[Link]

(Idem) . Ei:c. tc::'I [Link]çào de "·fetiche" tem sido bastante discutida

no que diz respeito à imaginària do Candomblé e Olga Cacciatore

define fetiche como:

Objeto-pedra, simbolo de metal ou barro,


ou barro, àrvore, etc. - onde foi fixada
a força mistica de ser espiritual deter-
minado. N~o é um simbolo, pois n~o é a
pr6pr :i. c:1 divindade ou entidade E'· sim "a
morada terrestre dessa força temporària
que precisa de constantes oferendas ali-
mentares, cuJas vibra~bes a mantém firma-
da. O mesmo quE· " as sentamento" ou "asse n-
t:o ". (CASCIATm~:E: 1988; pg. 126)

fetic h e

pode o assentamente;~ ou os j'er"J..:J22. que o compdem ( :32) • As

·/' errc:1mentas., como as c:1pontadas por Edison Car-neir-o, s~o um

emblema do Clr·L-:~ sacr-amentado, é cer-to - e fazem par-te de um

c::ompl e::-:o de imagens, capaz de descr-ever- aspectos recônditos do

orixà, normatizar- suas manifestaçbes e até mesmo, alterar algumas

de suas carc:~cteristicas. o termo "fetiche/ f1':?ti chi smo" é

conside r- ado uma marca negativa, maneir-a de descr-ever uma religi~o

ou cren;a como primitiva, inferior - o que, face à comp 1 e::-: idade

teológica e ritual do Candomblé, n~o é admissivel.

o segundo te>: to: Os Negros Bant es na Bahia é

32) Denominam de ASSENTAMENTO o conjunto de objeto que, dentro de


~ vasilhame ritual, representa a fixaç~o de força din~mica que é o
orixà. Os FERROS s~o insignias que fazem parte dos ASSENTAMENTOS .
(Caciatore: 1988, pq. 53)

,-, e:
...:: '-'
bastante polémico, pois nele, Edison Carneiro esposa f r an cami?.n te

a teor-ia de qL\e:

(... ) os negros bantes esqueceram os seus


próprios orixàs. Este fato, fàcil de ser nota-
do mesmo à primeira vista, explica-se, natu-
ralmente, pela pequena consistência das suas
concep;bes misticas ( ••. ) . Os orixàs ligitima-
mente bantes, que os negros sul-africanos de
certo trouxeram das suas terras de origem
( ... ) perderam-se, ninguém m,::[Link] sabe di?les,
tào esquecidos estào
(CARNEIRO: 1981; pg. 134)

Como \/:Í.ff10S c::1ntes;, pos,.turc:-1 hoje:;:,

c:[Link] como uma :[Link]ência histórica e uma cDns t~-uc;:ào

ideológica. No que tange à iconografia, nesE=.e segundo

Fdison limita, descr-evendo os "Candomblés de

caboclo", assinalar as roupas de pena, nas quai=· considera

encontrar certa sem e l han c;:c:::"\ com o Orixà Oxossi, coisa que

,......., confessa: "n~o cc)nsiqo c:o,npr-eer1der- 11 ( op. ci t. : pg. l48)

Bastide, o célebre etnólogo francês, em As

ReligiOes Africanas no Brasil (Sào Paulo: EDUSP, 1971),

um tratado e,:austivo sobre o tema, no qual toda a

bibl iograf i[Link]"I an ter- ior, discutindo-a teoricamente, para, em


r
,;;:.egu i. d a , realizê1r um dos mais minuciosos levantamentos

etnográficos jà feitos sobre os cultos afro-americanos. Criticado

por nào ter aprofundado as análises sociológicas - o que faria,

mai <::, tarde, junto com Florestan Fernandes, estudando o negro no

mercado de trabalho de S~o Paulo - realiza, no entanto, obra de

tal densidade de :[Link];:bes que se tornou a base para qualquer

26
pesq1,..1isé:1 sobre a religiosidade e a presen;a de

origem africana nas Américas.

O artefato, porém, é analisado por Roger Bastide

de forma muito breve, sempre no seu aspecto morfológico e no que

se refere ao processo do sincretismo:

No nivel morfol6gico, o altar c.:1t6l i. co se


introduz, no Santuàrio
c:,10 "pegi", ou ainda .:1os [Link]; .:1s esti:'1tuetas
de santos, os crucifixos, se justapbe na mesma

- mesa de catimbó com bandeja india de jurema ou


os objetos sagrados dos orixàs.
(BASTIDE: 1971; pg. 533)

des~,;i::1 paral0?lismo simplt?s,

Bastide percebe que estes objetos s6 podem justapor-se, fundir o u

i::1 c:ober·· ta r-·-se por-·que participam de um código ou linquagem: .. o

nivel --fundamental pe rm,:.'ln fi' ce o do simbolismo" (i dem) . (]

sincretismo {~ visto, nesse caso, como construi;:ào histórica t?

<:-OC:ia l, bc:1=-ead,::~ ni::1 mec:i:<nica dos. arquétipos, percebendo u ma

ho mogeneidc:1de dos simbolos mágicos encontrados em todo o mundo.

[Link] que balangandàs das baianas,

reproduzem as figas romanas, as estrelas de Salomào, os peixes e

pombas do cristianismo, os chi f r·es e tambores africanos, os

t.r-evos:, da Irlanda, como se todas as magii:'1S se encontrassem

fr·aternalmente.

Nào desmerecendo impoirtimcia fundamental de

Bastide, é preci~.;;o cons;.iderar que os objetos e seu~.:;

significados nào podem ser comparados isolada e individualmente,

fora de seus contextos, pois se a maqia é encontrada na maio r ia

das épocas e lugares, isto nào significa que se tenha atribuido a

'")(
..:...,
formas e imagens semelhantes, os mesmos conteúdos e significados.

Os obj etcis. das balanqandàes podem ter origem ('?ffl culturas

c:I iversi:,1S, rnas nào [Link] s;;o

r··f::1 in t.E-:-[Link] s fim de E2 >: prE~ssar- tema nove:,

discurso.

F'or· e>:emplo, o "pei >:e do c:1·. [Link]" dos

ba l i::1ngandãs. nào é simbólico de um deus masculino, cuj ,::1

r emontaria, de acordo com Louis Réau, ao deus babilônico

tampouco, partir de sua tradu~~o grega " I ~::HTHU'.::1" ~ o

i:1c:r-ó~;.ti c:o de Christo, o Messias ( REAU: 19 57 , p g. 8 1). De ,::1cordo

c om Réau, essa interpretaiàO crlpticc.~ desaparece no V s~culo,

junto c:om o uso do grego na igreja romana e o pei :,-:e

[Link] tar as almas resgatada s do pecado pelo divino Pescador,

que sob a forma de um delfim, representaria o Cristo salvador. o

peixe, no entanto, nos balangand~s, é sempre simbolo de Iemanjà

ou Oxum, deusas das àguas, dos oceanos e dos rios. Juana Elbein

dos Santos assinala a significa~~º explicita do nome de Ierr,anjà:

-filhos " ( ShNTUS:

1976; pg. 90). Esse peixe de Iemanjà, a1ssim C::OffiC:) C) ele 0 >:um,

representa a abund~ncia do elemento-filho, gerado pelas grandes

màe~:;:

Seu corpo de peixe ou de enorme pàssaro miti -


ce està coberto de escamas ou de penas, peda-
~os do corpo materno capazes de s eparar-se,
[Link]. os da i'ecund idade e de pr-ocr ic::1~ào. ( op.
c:it.: pg. 87)

N~o trata portanto, de mera

r
28
imagens~ ClU <;:;imbolos. f?m e

rnas de indices que apontam uma i:?S t n ..l tu r a

simbólica diferenciada.

Na coletànea chamada de Estudos Afro-Brasileiros

(S~o Paulo: Perspectiva, 1983), Bastide, em trés artigos: O Mundo

dos Candomblés~ Cavalos de Santos e A Cadeira de Og~ e o Poste

Central, se refere aos artefatos que interferem nos r-1 tua.1 !::- cio
_.....,, ·
Candomblé, ainda, como se fossem, t~o somente, adere~os:

A primeir·a saida onde as


filhas-de-Santo vestem-se obrigatoriamente de
branco, com a cabe~a raspada descoberta, o
corpo pintado, cada qual com a insignia de seu
or1xa: XangO, o machado de pedra: Oxossi, o
arco e flecha, o rosto, espáduas e bra~os man-
chados de pontos brancos.
(BASTIDE: 1983, pg. 257)

No terceiro artigo, mais

Bastide, busca ,:.:ipt-oi'undar a antd ise de dois aspectos de

fundamental import~ncia no Candomblé: o poste central, chamado

genética,

~~empre as origens africanas desses dois r~ l emen tos-, e

assinalando com um sinal-mais quando essas origens são lembradas

no Brasil com um sinal-menos, quando elas se perder-,::1m ou


t

( ..• ) a cadeira do og~ e o poste central do


barracão sô assumem toda sua significa~~º
quando recolocados na cultura africana j@je-
nagô da qual são sobrevivências certas.

três as caracteristicas que r-essa l tam no

J. evi:[Link] do trabalho de Roger Bastide: a) culturalismo,

rnoderE<.do pelê.-:i preocL1pação em conte>: tuc:-1 li:: c.:ir o -fenômeno com


reteréncias históricas e sociais, mas constante, na medida em que

na cultura, uma din~mica própria de

evasào de valores; b) a postura acentu2,damente etnográí'ica e

descr·it.ivc1, pe 1 o f:?>:óti co; e, c) novamr2nt.e • o

No entanto, a anàlise da imaginária do Candombl~

nào pode pretender que um significado permanec;:a ou se tr·ansfot-·me

si só, sem responder, sempre, a tensbes e demandas !::~cJc:iais;

C)l.\ que po~;samos uma iconogrà-fica

simplesmente na atrac;:ào pelo pitoresco; ou que algum grupo étnico

r-ec::ebE?U e a [Link]ào de preservar a pureza no Bra~.;,i l 1~m

detr· imF::nt.o de ou tr. as t:;.tn ic:1S. D dinamismo '' de uma sociolog.i.a ele

cl,,,s. [Link];bes" (BASTIDE: 197.t, pg. '.)26) que

preocupa Bastide na conclusào de As ReligiOes Africanas no Brasil


" e que ele procura resolver através dos conceitos de aculturac;:ào,

~ de sincretismo e de memória coletiva, nos parece mais possivel de

- ser

perceber
explicado a partir de uma anàlise interpretativa que

na interaçào entre os grupos, as tensbes que


busque

1 ev i::Hfl ac:,

ato criador religioso ou estético.

Escolhemos, no nivel descritivo, perceber


aqueles modos pelos quais formas mais antigas
da cultura popular se transformam, em vez de
mostrà-las como congeladas e fora do tempo. No
niv2l de interpretac;~o. entendemos tradiç~o
como uma palavra que n~o pode ser confinada
nas culturas pré-modernas e reconhecemos que
o moderno também pode se tornar uma tradiçào.
(ROWE: 1991; pg. 3)(33).

:::3)"l;Je have chosen, on the descr-.:[Link] level • to keep .1 .n mind


those ways in which older forms ot popular culture chc:,nge • rather-
than to present then as frazen and timers. Dn the [Link]':!tat:.i. ve
level, we understand tradition as a word which should not be
confined to the pre-modern cultures and recognize that the modern
too can become a tradition. (ROWE: .199.t; pg. 3)
Clàude Lépine, em seu artigo Anàlise do Pante~o

Nagô, pretende, partir do próprio Bastide. '' e>! c.~ff, ir, ar as

C::E1ré:1c::ter .1. s ti C::é:15 principais do siste ma de e:: 1 ê1ssi f :i. caçl~o do

pensamento nàg6-brasileiro e analisar a sua l6gi[Link]"

( LEF' I NE: 1982; pg . 15). Mas, apesar da referência cons;.tantE': ao

modelo-ideal-nagô, Lépine busca, na artic::ulaçào dos fenômenos e

C!E1S ca tegor- ias;., ultrapassar a simples descriçào e chegar um

[Link]~l interpretativo que privilegia a memória como reconstruçào:

Ocaráter [mitológico dos orixàs], porém, nào


ésenào, embora talvez atualmente o mais visi-
vel e o mais popular, um aspecto de um sistema
de classificaç~o do qual n~o deve ser isolado.
Os 6risàs, a bem dizer, sào verdadeiras cate-
gorias lógicas, que permitem classificar n~o
somente tipos psicológicos, mas diversos tipos
de objetos e de seres que pertencem a vários
estratos do real: subst~ncias, cores, ritmos,
animais, plantas ..• Os adeptos do candomblé
,, estebelecem analogias entre um grupo de divin-
dades, os animais que lhe s~o consagrados, as
comidas de sua preferencia, os colares de seus
filhos( .•. ). Por conseguinte, a natureza das
divindades se diferencia por uma série de
atributos que exprimem preferências, tempera-
mentos. ( .•. ) .
A compara~~º destes atributos e a coerên-
cia de certas oposiçbes deverào nos revelar o
conjunto de relaçbes diferenciadas pelas quais
se definem como unidades de panteào as quali-
dades dos ôrisà e desobrir os elementos for-
mais de cuja combina~ào elas resultam, e des-
vendar a estrutura do sistema classificat6rio.
(op. cit.: pg. 22)

Nesse artigo, Lépine analisa detalhadamente o

l'"itmo e toque!:'.:. de c::1 tabaques;., os as vestimentas

litúrgicas. , as oferendas votivas, os assentamentos e o número

simbólico dos;.

abordagem dos objetos do Candomblé, sua inter-relaçào e seu poder

..,. .
...:,..1.
de comun i Ci,H,:ào e pudemos constc::,tar que i.-:1 maior parte das

afirmaçdes de Lépine corrobora nossas observaçbes no Mercado de

F.~ ni:-is f_estas-de-_Sanj;_9_ que c::,compc::1nhc::1mos no deco1,-t-er de

nossa pesquisa de campo.

Em 1983, setenta e nove anos depois do artigo de

Nina Rodrigues e um ano depois do texto de Lépine, na História

Geral da Arte no Brasil ( Sào Paulo: Instituiçào Moreiri:1

Salles, 1983), Mariano Carneiro da Cunha publica um estudo

a Arte Afro-Brasileira. O artigo constitui marco fundamental pois

inegével influência africana ni:,S plástica,s

brasi l eiras com toda sua especificidade estilistica e formal e a

partir de uma visào histórica.

Cc::,rnei r-o da Cunha parte da

contextualizando o desenvolvimento da!:. ar-tes plásticas nas

regibes do Golfo de Benin e de Congo-Angola, donde vieram a maior

pc::,rte dos escravos negros par-a o Brasil. Ressalta os c~-ispectos

técnicos da escul tur·a e caracter-is t:.i c~,!5 for-mais

estilisticas, a partir- da tr-adiçào de Nok e Ifé:

Apesar do gr-ande naturalismo que infor-ma a ar--


te de !fé, existe, ao que parece, aqui, como
en Nok, uma tendéncia estilizante exacer-bada
( ... ) .
( op; c i t . : pg • 982 )

a ligaçào entr-e a arte e a r-eligi~o, na

mas a-i'ir--ma que "este nào é um cr·itér-io suficiente

clef:[Link]-lc:1 11
(op. cit.; pg. 986), sobretudo a partir ele canônes

ocidentais. Pois se a arte africana é funcional, o é como to das


i:,1s é:1r-·tes de todos os povos e conclui: "Duando a arte a ·f ri Cé:1n ,::1

apres<'2nta finalidade essencialmente religiosa, esta assume toda

uma gama de significados e praticas diversas (idem). Mas a origem

a infiltraçào do elemento escravo nas artes plàsticas brasileiras

coincide com ê:1 próprié:1 eclos~o das mesmas-, no Brasil" (op . c::i.t.:

pg . 989). O negro teria deixado sua marca na fei~~o particular do

bar-TOCO n~o só como

elementos da iconografia religiosa afro-brasileira na .[Link]::1

( . . . ) sào certos detalhes ou simbolos da ima-


ginaçào católica que aparecem deslocados e
dentro de nova linguagem plà[Link], como o
crescente da Virgem da Conceiçào, configuran-
do-se em cornos e compondo o emblema de XangO
- deus do raio nagô - que surge na estatuária
afro-brasileira de Alagoas.
(op. cit.: pg. 990)

n~o s6 nas artes eruditas, Carneiro da Cunha,

pr:-rcet:<e t.é:11 p1~[Link] c;;:a, mas, tc1mbém ni::1s ê:irtes popu J. c1res: ''Nesta:,:, o

ic:one ou a forma africana exprime-se, n~o raro, mais

(i dem ). Ap6s colocar artesào/artista negro no plano da hist6ria

do pais, cent.r.. c1 sua c:1nàli<:::.e na ar-te afro-brasileira. "Arte afro-

urna f-.?>: press~o convencionada c~rtistica que, ou

desempenha funç~o no culto dos orixàs, ou trata de tema ligado ao

culto" ( op . cit.: 994).

Na definiçào acima, Carneir. o da Cunha inclui, "com

justiça" (Idem) as .[Link]ç1r.. clf ias de Umband,::1 "que nada têm de

africano, nem do estilo nem da técnica'' (id e m) e as e

7 ~:r
··~' ..•
)
c::,bj et.c::,s oriundos de outros conjuntos significantes pois, vr.-2nham

de e qualquer que <.:.ej a form,:1 pela qual se

,::1pre~,-Pnt.c,m, [Link] dF.:

pensamento dE? origem africana" (Idem). defini.;ào tem o

rnt?r i to de est.E1be 1 ecer c::larament.E;. essa ff1an i f es t.i:'1<;;:ão afro-

brasileira - a imaginària do Candomblé - c::omo, arte, superando a

E,1ntig.=:1 d i scuss-,ão se e arte apenas o que està r-eferF.1ndc1do pela

Academia ou pelo critério estético dos criticos, ou se a arte se

E1firma pela sua inteni;;:ão própria de expressar o belo. [Link].:'ra

que as noçbes estéticas tradicionais não esclarecem a c1r··te dos

c_:_i rupor:=,. que F:obert Layton c:[Link] ~::-OCiE•dê:ides c:Je pequenr.1-

sendo que as oposiçóes erudito X popular, artista X

artesào, puro X espúrio não cabem como argumenta;ào.

Partiremos pois do principio de que uma arte


só faz sentido na medida em que exprima pa-
drões culturais, ofereia uma vis~o de mundo e
as idéias que a acompanham. Esse sentido, en-
tretanto, deve ser vazado em formas que sejam
a expressão mais adequada possivel do dominio
técnico de matéria trabalhada, visando tal fi-
nalidade.
(op. c:it.: 99!'::,)

r-··
e:. ' se a arte afro-brasileira parte do primado da

matéria que tende a condicionar a forma - o que nào ê:1contece

necessariamente no Mercado de Madureira - isto nào significa que

essa arte sej .::1 limita da pois e 1 a :-e e:-: pande gra;as ";~ r :i. ca gama

de novos. tipos de de cor-rentes, revestidos de

34) LAVTON, Robert: The Anthropology os Art; Cambridge: Cambridge


Press University, 1991
linguagem especi ·fica, ligada a cada artista ou oficina, ou ao

contc;:;:,!to só[Link]óricc," ( Idem)

No final de seu artigo, Carneiro da Cunhc::1,

analisar poss:ivel influéncia africana sobre como

P,leij ê:1dinho c-1 a sua inegàvel presença nos Exus de ferro e nos

O>!tê''=-, hesita t=.-:·ntr··f~ c:11'irmar que o "icone africano" (op. cit.: pg.

.l 026) v em resistindo a todas as t.rê1ns 1' orm2'1çcjes impostas pela

história e reconhecer que:

A arte ritual afro-brasileira, na


nào mais identifica etnicamente apenas a ne-
gros, mas serve também de identifica~~º cultu-
ral a brancos e mestiços, assumindo portanto
uma dimensào, ao que parece, nacional. (idem)

Dent.r-e os autor-es que perfilham o nagôcentr-ismo,

destaca-se Juana Elbein dos Santos que defende, em sua tese Os

Nàgô e a Morte (Petrópolis: Vozes, 1976) a integridade da cultur-a

africana conservada no Candomblé baiano. No entanto, dentre todos

os autor-es, se destaca também, por buscar desvendar C\ tecitur-a

[Link]óqica do culto e nào, apen.?.1s, descrever- sua mor-fologia

r-itual. o tr-abalho de Juana Elbein dos Santos tem-nos servido

come, indicaç~o para várias decodificaçbes iconográficas, apesar

de no<:.<:.os informantes lhe apontarem certos e>!ageros na

interpretaç~o pessoal de alguns fenômenos (35).

35) Talvez a ressalva maior que Adilson Martins e outros fazem ~


vis~o de Juana Elbein é sua convicçào de que o Candomblé é uma
religiào perfeitamente articulada, sem vazios, jà que a maioria
das pessoas com quem nos entrevistamos vé no Candomblé~ a for~a
~ do AXE, da fé, mas percebe - de forma até bastante critica - as
contradiçbes, as diversidades, as perdas e as invençties
inclusive, as falcatruas que chamamos "MAF:MOTAGEM".
~Juana El bein aponta com o que s:.er· ia

descriçào e o que seria interpretaçào.

O nivel fatual inclui os componentes da reali-


dade empirica ( .•. ) Isto é, a descriçào ma:i. <:~
exata possivel do acontecer ritual, de seus
aspectos e elementos constituidos ( ... ).
(SANTOS: 1976, pg. 18)

Ser:i.21 o correspondente ao que, com

ve mos como o nivel formal; [Link]:'?ta<;.ào

correspondendo entào ao que [Link] como o nivel

.i.c:onogré':tf ico, descriiàO esta que, no caso da arte religiosa,

aproxima do limite do nivel iconológico pois:

( ••• ) se elabot-cê'I a perspectiva "desde dentro


par·E1 ·for·c:1": isto é, ,::1 anàlise ela natur·eza f?. do
significado do material fatual, recolocando os
elementos num contexto din~mico, descobrindo a
simbologia subjacente, reconstituindo a trama
dos signos em funç~o de suas inter-relações
internas e de suas relaçbes com o mundo exte-
rior ( .•. ) nào entendemos o simbolo com um
significado constante, sua interpretaçào est~
sempre em rela~ào a um contexto. Sua mensagem
esta em funçào de outros elementos.
(op. cit.: pg. 23)

Juana Elbein percebe claramente que os obj f~tos

rituais expressam categorias e diferentes qualidades mas, que,

mais do que isso!' OS e 1 emen tos-, de uma organizaçâo

"'; :i. gn i -f i c.;;1n te que a autori::1 acredita recriar expressamente li -


e\

herança legada por seus ancestrais africanos'' (op. cit.: pg. 38).

Juana Elbein dos Santos trabalha a iconografia em

dois momentos de seu livro: o primeiro, em anexo, através de um

36
c::onj unte, de fotografias e desenhos, a imaq+::m 3par··ecEindo como

ilustraçào e comprova;ào de tópicos discutidos anteriormente: o

!Segundei, no corpo própr- io te>: to. onde as f er-rê:1men tas. dos Or !-_)iá§:.

sào 2,nalisadas, compr-·ov,,1ndo r:=,ua E:'°ficácia simbólica, enquanto

1-:~mblemática.

No encar··te int:[Link]ê'1do Iconografia, é:1utora

destacE1 os tri~ngulos e losangos que constituem ''uniclz~des;.

e:! ini(m.:i. C::é:1S '' (SANTOS: 1876; figs. 1 e 2) mostrando como ,,1 pc:1 r. ecem

pr-· :i.n ci p,,~ 1 men t€"~, nos penteados falo / faca de Exu (idem: figs. 21,

22, 23, 24 e 27). Destaca, também, algumc:1s ferramentas sagradas

que ;;,,.itflbol:i.;:'.c:IITI C) ê:1>:é: O _:\:_piri de Nan~, na fig. 9, numa vers~o

r brasileira, mais ornamentado e, na fig. 10, numa versào africanc:1,

na qual a simplicidade do artesanato é compensada pela abund~ncia

Ci:ió[Link] dos b_ra.íJ'.is. 1 ongos ccJl ares de búzios que !simbolizam

-..,ida f'~ a abundf::'mc:i.a; E'! o f1beq~, na feiturc1 trc::1dicioncd, r-edondo,

imaç:~em d<·? um p.~ss.::~r-o -- "~.1e ritual 1 evado pelos órisà

qen i tprE·?~~ ·fem.i.n inDs e pela Yal6de, simbDlo da cabaça ·- ven tre

contendo o (Idem: 12) • Destc::,ca peças;.

mas cu 1 inas comt:l o "P,dé SangQ.", cor-oa de for-ma cônica, encimada

por- um pàssaro, que encontr-a analogia numa cur-iosa "mitr-a" de

Xangô que fotografamos no Mer-cado de Madur-eir-a; e o

made:i.r·a que mantêm sua for-ma e significado desde a Africa. As

OL.1 t r a~-; ilustr-açbes r-epresentam os babà-equns, os quais nào sg(o

tema desta disser-taçào, algumas imagens de Exu e um de

r ~b! Sào as bandejas de madeir-a tr-abalhada onde o BABP,Li:::iO, o


adivinho/sacerdote do jogo do Ifà, espalha a ar-eia par-a, <::=.obr-e
ele, tr-açar os sinais oracular-es.
~ Omolu, na sua forma antiga de vassoura.

Ao longo de todo o seu rico e controvertido texto~

Juani:1 Elbein dos Santos se vale das imagens e .f er..ramen tas dos

Dr·L·:i12. para apo.i.c:ir· suas interpreta;bes etnológicas. DondE~ ~ apesar

linha qE•né[Link] e nagúcentrica~

utilizamos muitas de suas informa~bes~ cotejando-as com as de

nossos informantes.

Pierre qut,:, <:: .us ten [Link] CC)m Juc::1na [Link]

polémica acer-ca do simbolismo das cor-es no Candomblé ( :37) ~

fotóq r·é:I fo e n=2al:i.:.:ando minucioso levantamento de

imagens que testemunharam o culto dos Orixàs aqui e na Africa. No

Sf:?U mais famoso livro - Os Orixás (SALVADOR: Corrupio, .t9El.t)

as os par éHnen tos, os utensilios têm presenc;a

mas nào propriamente analisada. O texto de Verger

l::;uscê1 sistematizar a rela;~o do orixà-no-Brasil com o or- i >:à-na-

Africa~ suas caracteristicas e qualidades (38)~ os pr-incipais

tra;os mistices e rituais e o arquétipo de seus filhos-de-Santo.

No f:,!n tanto~ de e:\ n a 1 :i. s êill~

:[Link] ~SLlc\S fotografias~ '.)er-ger lhes

qualidade técnica tào apurada que nos per-mite usà-las na

com os objetos do Mercad~o, com as pe~as catalogadas

por Raul Lody ou com os desenhos de Carybé. Em alguns c:asos~

'fotoqr·afia de Verger foi de [Link]~ncia fundamental, como por-

37) Religi~o e Sociedade, í"IQ 08; S~o Paulo: Cortez ed. /CEF:/ I SER,
Julho de 1982.

r 38) QUALIDADE de um Santo s~o suas variantes miticas, seus


aspectos de representa;~o como velho~ jovem~ paciente ou fogoso:
sâo ver-sbes diferentes de um mesmo orixà.
exemplo ao analisarmos a iconografia de Logum Edé.

Outro~;; ,::1utores assinaram pesquisas de qrande

import~ncia para a compreensào do Candomblé no pais, mas ou o seu

teór· i co t: muito diveF·so ou abordam realidades

etnogràficas sem paralelo com o Mercado de Madureira. No primeiro

caso està o livro de Monique Augras: O Duplo e a Metamorfose

(Petrópolis: Vozes 1983) que se baseia numa visào fenomenológica

e busca compreender os mecanismos psicológicos que se desenvolvem

no processo de segundo caso, est~o os

estudos de Nunes Pereira: A Casa das Minas e de Sérgio Figueiredo

Edufma, 1986), pois

os objetos neles descritos como os xales de contas das [Link],

E:-ncontF·am similar no nosso corpus. A tese de Bec:1tr· i z (36is

Dantas: Vovb Nagô e Papai Branco (R io de Janeiro: 1988) ~

baseada na concepi~º dos campos religiosos de Bourdien, realiza

uma análise do Candomblé em Laranjeiras, Sergipe, :[Link]-..1ador·ê:1 na

medida em que busca, em seu corte~ privilegiar o jogo de poder e

capital simbólico das ·faz

quase nenhuma referancia aos objetos pois a etnografia é apenas

seu suporte da classificai~º que separa os terreiros em grupos

i:",1ntaqônic:os na busca do prestigio. No entanto, sua criticc:1 ao

nagôcentrismo e sua arquta observai~º dos usos e abusos da Africa

no Brasil, nos permite superar o comparativismo [Link].a e

tentar uma abordagem da iconografia do Candomblé buscando a

transformaçào do simbolo e, n~o, sua pretensa permanência.

Como vimos, a iconografia dos objetos de culto do

[Link]é tem tratamento especifico em dois textos: o de Nina


e o de Carneiro de Cunha. mas o termo iconografia vai

intitular propriamente um trabalho de Carybé, artista de


1 radicado no Brasil, adepto dos candomblés baianos,

cujas obras, ~se J a, Iconografia dos Deuses Africanos no

Candomblé da Bahia (Scdvador-: INL, 1.980), !:::,ej.:., o Mural dos

Ori>:ás, e;:::,: posto no Museu de Salvador-, s~o c:le fundamental

- impor-t~ncia par-a a compreensào da imaginér1a afro-brasileira.

Carybé registr-ou inúmerc:1s; f1:.~r·-r2.!..f!l_En't_ª-.~ c.1ue hoje nào

se encontram mais, tais como o lira (ou sistro) de Axab6 (39), ou

outros que reencontramos no Grande Mercado de Madureira, pel ""

propria influência de seu ~lbum de aquarelas, como a curiosa faca

~ de Oxumaré que parece representar a articula;ào dos caminhos do

povo já nào lembra o significado, como a picareta de Oxum (para

arrancar ouro da terr-a?), o péndulo de l~mina de Euà (arma?) ou o

leque de Oxafulà. O trabalho de Carybé funciona como uma espécie

cfr_;, catálogo para inventariar· boc:1 parte das imagens E? elas

:ferramentc:1s. que encontramos ou n~o no Mercado de Madureira. i:::-


i;;-;-_ ~

r
,::\SSim, j un tamen t.E• com os catálogos de Raul L_ody, permitiu-nos

manter- uma orie•ntaçào mais iconogrt-:1f ic:a na abordagem de

imaginária do Candomb 1 (2, do que soc:iol6gic:a. o processo

religioso, nesse caso, nào foi o objeto privilegiado, mas, sim, o

conjunto de objetos que lhe diz respeito. Nosso intuito foi de,

pr-imària e fundamentavelmente, demonstrar que a imaginária do

Candomblé ~ um conjunto de signos que se articulam em discurso,

fala inteligivel, funcionando segundo regras sintáticas

1::-,
:39) CACC I ATO[Link] 1988, pg. ....."ib •

40
na analogia e na eficácia simbólica (40).

Lody promo v e um reqistro diferenciado do de

e nquanto este é um artista buscando preservar a beleza;


r
i.... ody é um museólogo e etnógrafo que se preocupa em pr-eservai~ o

objeto enquanto testemunho de uma história, de um fato social, de

uma manufatura. Dentr-e os catálogos, elaborados por Raul [Link],

ut .11 :lzamo:., acompanhar- t ran:.formac;bes ·for-mais de

ima<;J inár· ia Candomblé, os referentes à Coleç;~o Arthur Ramos

Coleç;~o Maracatu Elefante (F'ern;.::imbuco), Coleç;~o

Perseveranç;a (Alagoas ) . Coleç;~o Culto Afro-Brasileiro ( Bahia); os

catálogo s s obre as Pencas de Balangand~s de Bahia e sobre os

abebés do acervo do Museu Nacional (Rio de Janeiro). Além desse

consu 1 tamo~; é:1 l Ç)UnS te:-:tos do a

simbologia e~pressa no artesanato do metal especificamente,

sobre Xangô.

Vàrios outros artistas, tais como Descoredes dos

Didi), Tatti, Rubem Valentin, tém usado, como

inspira~bes para seus trabalhos, objetos e imagens con\;en c ionai. Se,

do Candomblé, mas sem preocupa~~º de precis~o etnográfica. Assim,

os trabalhos desses artistas ser~o abordados mais adiante;-: no

capitulo r·eferente ao conjunto de produ~~es estéticas é:1 f ro-

brc:1s:[Link]. podemos, outrossim, ao fechar· esta análise


r critica da biblio9rafia, omitir a Tese de Livre-Doc~ncia de Dilma

de Melo Silva, apresentada ao Departamento de Comunica~~es p

Artes da Universidade de S~o Paulo em 1989. Sob o titulo Arte

40, LE'.JI-STF:/~USS, Claude: Antropologia Estrutural~ Rio de


Janeiro: Tempo Brasileiro, 1973.

41
Afro-Brasileira: Origem e Desdobramentos. a autora busca

um panot··,::1ma de iconografia dos recursos plàsticos dos cultos

,..... afro-brasileiros, roas permanece bastante c.~quém

realizando apenas uma compilai~º de informaçbes jé publicadas sem

alcançar· enfoque sociológico, antropológico ou artistice nà"o

conseguindo, portanto, apresentar nem um denominador comum, nem o

estabelecimento de um objeto definido nem anàlise teórica.

F'erc:ebendo que dos

estudam o fenômeno religioso e/ou social do Candomblé n~o abordam

:.i .[Link] ci i::i da imaginêria e os que o fazem, <.se i:,1 po.l.i=.1m num,::1

vis:;,;:o genét.i. C:c,1 b uscando na Afric:a o modelo, como s.e

pr··odu z ido fosse apenas uma sombra platônica ele:, ser

,- africano, optamos. por nos apoiar numa linha teórica que n~o se

relaciona especi ·f icamenb.~ com os cultos afro-brasileiros. A

op~~o, aparentemente surpreendente, justifica-se pela ausência de

estudos iconogràficos, propriamente ditos, como demonstramos.

Louis Réau, em seus cinco volumes da Iconographie

de L ' Art Chrétien (Paris: PUF, 1957), estabelece os par~metros da

i::1nál ise c:l.:=:1 iconografia religiosa, mostrando que as i magen~-:=, de

I sc:1ntos. e as representa;bes de conceitos religiosos se desdobram

num rico simbolismo , limitando porém, pelo histórico da religiào,

[Link],eli:1S influências dos encontros culturais e pelc::1 correlai;~o

necessária entre os atributos e a hagiografia do Santo. Isto é, a

interpretaiào iconogràfica religiosa nào se desdobra ao sa bor de

i:,1naloqias infinit.E1s, nem pode <::,er em

alguma origem geogréfica ou metafisica: o sentido da imagem sa cra

é cingido pelas necessidades da comunicaçào e da classifica~ào.


l....ouis ao compor seu vasto trc::d:ado

iconogràfico que cobre o Velho e o Novo Testamento r,os r-emete

desde as repr-esentaçbes medievais, até às da Contra-Reforma, das

influéncias de outras religibes sobre o cristianismo primitivo às

moderT1as. Nào seria possivel identificar o proces!:::.o

af ro-brasi 1 c·i ro com o processo cristào descrito F:éau: as

imagens~ os atributos~ a teologia de que tratam sào absolutamente

diversos. No entanto~ sua orientaçào teórica sobre como re~°'\ 1 i zar

um corte iconogréfico no tecido religioso pode ser seguida~ pois

possi bi 1 i t.,::"1 percebE•r o objeto na i;;:,ua articulaçào c:om ê:15

funçbes teológicas e litúrgicas, mas nào submerso nelas: o objeto

- enquanto fato especifico. E também,

as rel iç1ibes. afro-brasileiras do


julgamos 1 necessário

nicho antropológico
retira~···

e/ou

sociológico e/ou folclórico no qual foram alocadas ao longo dos

e que as define como fenômenos históricos de r-esisténcic:1,

como [Link]. de presentifica~ào ou de

c::on-f l .:.i. tos r..;ociais 1 c:omo lº~struturê,1S c::ulturais comp 1 e,:a!::,, como

"dan Çi:.°'\S d ramà ti ca~::- 11 mas~ que, raramente ;;1s d~?t ine enqu.;~n to

.[Link]..:.[Link].:.i.ç~o enquanto t;rê:1nSCE'::ndental. No

é como um credo que elas se manifestam na imagináriê:1,

através da manufatura dos artistas e no uso ritual dos objetos

apenas, como sobr-evivência de um continente perdido ou

resultante de pulsbes externas. Assim, usar, na decodificaçào da


r
I' iconografia religiosa afro-brasileira~ os métodos c:1pl i cados na

análise da iconoqrafi.::1 ise nos como uma

intenc;:ào/resqate de o Candomblé como uma r-e:tigião

qualquer 1 em pé de igualdade com qualquer outra. Principalmente~

em pé de igualdade com este cristianismo 1 com o qual, ao longo do

43
século de escravatura, teceu profunda parceria, da qual resultou

um sofistici:,1do sincretismo (41). Além disso, Louis Réau dei>:.:1

claro que seu método se aplica a qualquer religiào desde que esta

pO!==,[Link] um corpo de representaçbes que possa discutido e

ana 1 i s,;;..do, como quando compar·a possibilidade análise

iconográfica em vàrias religiBes:

,-
Sendo que a iconografia cristà ou budista é
extremamente rica, pode-se dizer que, apesar
de algumas excec;:bes, como os afrescos recente-
mente descobertos na sinagoga de Doura-Europas
e as miniaturas persas, a iconografia Judàica
ou muçulmana é praticamente inexistente (42).
(REAU~ 1957, pg. 2)

Seguindo de perto, a posiçào de Panofsky, sobre a

[Link]::,gra-f'ia a descric;:ào do objeto e de seu!::. atributos

c:I is ti n ti vos , F:éau se preocupa em a distinc;:ào

hist6r.i.a de arte e iconografia. Segundo ele, a h.i.st6r.i.a de

estuda os rnonume·n tos e objetos do ponto de [Link]::1 da i'orma,

1 evê:1n tantio questbes que dizem respeito ,. ao


i::1S <:.1 compos.i.çàD~

desenho, à cor, ao estilo, enquanto que a iconografia se preocupa

com o conte~do. Assim a iconografia se interessa, nào apenas por

aquelas obras que fazem parte da história da arte; mas por todas

as que possam trazer alguma informa~ào sobre o conjunto de certa

41) '.-3car··ano, Julita: Devoç~o e Escravid~o, 1978; Mira, Jo~o


l''lê":1ncH?.e J. L. : A Evangelizaç~o do Negro no Periodo Colonial
Brasileiro, 1983); Sodré, Muniz: A Verdade Seduzida, 1983).

4'.2) "Alars que l · iconographie chrétienne ou bouddhique l?St


extrémement riche, ou peut dire, malgré quelques exceptions,
comme les fresques récement découvertes de la synagogue de
Doura-Europas et les miniatures persannes que l'iconographie
juivE• oLt musulmi::1ne 1:?st ,\ peu pr·és ine>:i~.:;tant.." (REAU: 19!':'.',7: pg.
2)

44
.imagir1t.,r. i.:,. ''Do ponto de v:[Link] icc,nogr·áfico, a obra de um ar·tesào

menor pode ter a mesma ou, até, maior importància que a

de um arti~=::.ta de gt:;inio" (45) (op. cit. ~ pg. \/ol 't.i::1cio pE\ra .:1

elucidaç~o de um c6digo imagético, a iconografia, no entanto, n~o

pretensào de, ela mesma, se tornar um '' catecismo

cbdigo, de estabelecer o certo e o errado, o correto e o herético

- mas, sua posiçào, de acordo com Réau ''combina, em quac.::.e tudo,

com i::1 do E?tnc::,qr.. .::do" (44) (Idem), buscando, em cada \/ar·iant.E-, a

motivaçào cultural que a determina.

No entanto, apesar de nos fundamentarmos no método

de Réau para analisarmos a iconografia afro-brasileira, ao ·f a.zé-·

lo, percebemos nos afastar de um ponto fundamental de sua posiçào

teórica. F:eáu coloca c:lar,,:1menb? que "a iconO(.:;Jr-afic:1 ~::;6 se [Link]

dos monumentos nos quais apare;a a figura humana" (4:':,) (Idem)~

enquê~n to que nós consideramos como obj c.:;,to de noss,3. anàlisE•


r
iconográfica, imagens e artefatos nos quais predomina a decoraçâo

geométrica, vegetal ou animal. No Candomblé, a figura humana está

subentendida t·?tc. ~
n
pois estes sào atributos que vestem e identificam uma divindadE·

que s6 se faz presente, na liturgia, através da possess~o. Assim,

todos os elementos imagéticos que descrevemos e analisamos s~o

,·.. eferen tes uma figura humana que é, por [Link]- l es, definida e

r
43) "Du po.:i.t deveu iconographique, 1 'oeuvt"·e d' un médiocre
artisan peut présenter autant ou méme plus d' intén?t qt..le la
création d' um artist de qénü'?."
(REAU: 1957, pg. 3)

.,'.J,4) "11 concorde bien davi::'1n taqe .::1vec ce 1 u.i. dE",·l 'ethnog1~c,1phe" (idem)

4'.:',) "1 ' i conographie nt? c.::. · o[Link]upe que de monumen ts oú .i.n terv ii-?n t 1a
f i<Jur-e humaine" (idem)
fig. Fl0/21
Os deuses incorporados "vestem" os paramentos ri-
tuais, que inclue~~s ferramentas.
. . , .
1 na figura humana "vestida" que a 1mag1nar1a do
, " " , ,
Camdomble jeje-nago se constroi iconograficamente.
e on '=· t. n ..t.i d a .

Por- lado, Réau afirma que .:i. conog r- ,::1 fia

não apenas identificar o tema representado, mas muitas

- ao proceder a esta identifica~~º, consegue

a atribuiiào e a época de execu~ào de um trabalho.


ê:\

No

caso do Candomblé, esta caracteristica da iconografia nos é muito

dtil, em certos casos, como na análise do desenvolvimento formal

do xaxarà de Omolu ou para compreendermos o surgimento de i,~ l gun s.

,,·,, tributos e

or-.:[Link] (africana ou brasileira) surgem, assim, par·i:=, per cebemc:)r.;

comc:i C) se adaptou às interpretaibes diferentes que o

tempoí l?Sp2.;:o obrigava. Mesmo os objetos que tém um

[Link] maior de imutabilidade, com o Q1:!..~ de Xangb ou o i\::;ir-.t de

modi·ficaram l? adaptaram. O problemi::1 de ,::1tribu.i~ão,

também, a ser muito importante no Merc2do de Madureira,


. .,
pois- cada artesào busca marcar sua obra com um ~.;;.[Link] .1 c:listinti-..10

que a venda melhor. A arte das sociedades de pequena-escala~ para

Robert Layton esté frequentemente ligada à expressào religiosa ou


,- expressào dos costumes sociais: é uma arte transportadora de

simbolos, uma arte que visa à comunica~âo. Este aspecto, é claro,

nào estético, pois [Link], este, ligado

expansão de eu, à cria~ào, concorre de modo

funclamf2n ta 1 para e>:pressâo do sagrado. Este aspecto de

do Candomblé f"IO!:- colocou diante de um problema

rnetodo l ÓfJ .i. co fundamental: como descobrir o que s;.ign i ·ficavam as

imagens

46
Duas dificuldades se colocam no tr-ab.=11 ho de

campo, pois as infor-ma;bes só podem ser- obtidas de

formais ou informais, com os ar-tesào, os donos das

loj ai:; ou qent.e--do-Santo e, pari::1 t..~ssas certas

informaibes são codificadas. Esta pr-imeira dificulcjade impliCc.i

em não inquir-içbes dir-etas, mas fr-equentar as lojas e

cor-r-edores do Mercado, fazendo amizades e ouvindo, ouvindo muito.

Além do aspecto do código, existe o fato de que qualquer pergunta

direta é n~o-respondida, pois nào ~ apr-eendida como uma indaga~~º

c:,bj eti va rnas ~ cc,mo partr.;,, do jogo de

perguntas / respostas que constitui o mecanismo de transmissào do

sat,r-2r e do Apesar dos lojistas (·?

claramente que as perguntas se destinam a uma pesquisa acadêmica

1 e, apesar do valor- social e ideológico confer-ido a esse tipo de

a pergunta, numa relai~º de momento e de pessoa, está

car-r-egacla de per-iqo pois implica em desvendar- algum

Assim, do meu papel a postur-a dos

r
se pr-ende ao processo iniciàtico: se eu PE·r·9un to

por-que nào sei e, se eu nào sei é porque nào chegou a hora de

saber- e, portanto, nào posso ser infor-mada de algo que nào me

compete. Nunca se ·i'azem pen_;_iuntas diretas Candomblé: se

obser-va ou se cr-ia uma situaçào que nos leve à informaçào, tal

como dizer "Este objeto. é da I ansà, nâ:o é? l''las nào sei qua 1

qué:1 l .idade ... pois uma vez que se mostr·e que temo~. algum;,,.

infor-ma~ào, completà-la é mais fàcil e menos arriscado. E preciso

tempo para pesquisc:\r- as coi~.:;.as do âc:1nto pois da

pesquisa acadêmica nào significa muito no tempo longo e lento das

47
i n'-e 1 ev antes.

c!iantE;- dos. ' E1nos;.--de-Santo' ' cios informantes.


1

A maior parte de f.-?ntn?vistas nào ·foi

registrada no ato. Eram conversas informais, ao pé dos balcdes

das loj ,:1s e dos bares, nas quais nào E·ra passada "infDrma<;.â:o", de

forma explicita. As vezes era possivel nos identificarmos como

vêzes, isso nâ:o era importante, desde que nàc'.'

f i z<~ssemos anotaç;:des;.; às v~zes, a pesquisa oficial ao

da Denominamos essa con-..1er~;3 de entrevistas

informais, datando-as, sempre que possivel.

A outra dificuldade é oue, como jà assinalamos, os

artesàos funcionam num duplo registro: por um lado, sâ:o ,,,i r t i s,. t e:~ ~-::-

autônomos que vendem seu trabalho para viver, mas. por outro, sào

qeni:.e-cii:-:;-Santo que tem muitos cuidados e que descont ii.':1 de

estr·~~nhos. A maioria deles nào fica no Mercado - o famoso E<ira,

por e>:emp lo - mora longe, nos subúrbios mais afastados e nào

quat .. dé:1 quaisquer registros de seus trabalhos que s~o vendidos

ou dados de forma aparentemente aleat6ri,:1 . técnica de

,1.,
t:. ~ também, de dificil explicaç;:~o e os se

resumem a dizer que trabalham por encomenda ou por inspiraiào; só

depois de algum tempo e de desfeito o clima de entrevista~ é que

se abrem e se colocam como artista, que desvendam as relaçbes que

e:-:[Link] entre a forma e o simbolo, entre o tema e o [Link]

relaç;:ào essa que nunca é clara, que nunca se reduz élgo clar o E~

[Link], que preserva, no seu discurso

ingênuo e despojado, o mistério oculto no simbolo.

46) SODRE, Muniz: O Terreiro e a Cidade; Petrópolis: Vozes, 1988.

48
dificuldades, somou-se outr"c"1 de ordE0m

circunstê.1ncial. Acabados os cr·éd i tos, ao a

sistematizar o trabalho de campo, foi necessário uma mudança para

o Paranà, para assumir a disciplina de Cultura Brasileira e

Folclor·e na Universidade Estadual de Londrina. O afastamento do

campc, 1:?sgan;ou cd ianças, provocou afastamentos e dificultou

alguns contatos fundamentais. Donde, a dissertaç~o se apoiar, com

mais énfase do que a pretendida no projeto, no acervo fotográfico

que construimos e na comparaçào deste acervo com o das coleçeles


r Já catalogadas por Raul Lody. Fizemos vàrias entrevistas mas nos

baseamos num informante privilegiado: Adilson Martins.

Adilson Martins é um dos mais antigos artes~os do

Grande Mercado de Madureira tendo sido dono de quatro

1 oj a·-ate 1 ier
,.,~,eu
de uma na galeria L. tem

influenc:ié.-ido vàr-ios artifices e um número e>: pressi vo deles

t.r·aba 1 hou lado ou aprendeu com seu mister. E

considerado o introdutor de uma nova estética nos paramentos e

f er-·r·E,.men tas, ba!.':.eada em trabalho de incisi\10!:::.. e>: tr··(~mamc~n te

1n :i. nu e: i os,.o e delicado e no uso de formas e figuras que c:i tcim o

barr-oco, o neoclassicismo sem, nenhum

momento, deixar de ser extremamente ortodoxo no que tange ao

[Link]ê.-1do dos objetos. Temos convivido com Adilson Martins

desde 1986 e testemunhado o equilibrio construido entre SL\aS

... duas identidades (que nào considera ambiguas nem antagônicas) de

homem branco, advogado, de cultura formal e, ao mesmo tempo, de

11
f i 1 ho-de-_Q_i..a J. ~" , artes~o, operário, iniciado nos mist.ér· [Link] do

Ifà, possuidor de segredos.


Foi gra;;;:as ao nosso relacionamento que 1~f2a li;: i::1mos.

o presente trabalho. pois ele se prontificou e seus E1migo1r~ - a

dar-nos informa;;;:bes, a deixar-nos acompanhar o desenvolvimento do

oficinas. e nos permitiu - num gesto de


-- c_;_ieneroS:.i dc,1de copiar os desenhos que faz para c,s

possibilitando, que tivéssemos. acesso a uma

completa de temas iconográficos.

A autoridade/antiguidade de Adilson dificultou, de

o acesso aos dois outros melhores i,:1rtesàos do

D - Ubirajara Duque F.~strada e 11


Ci,H" linho 11

(assim, por todos, conhecido); pois sendo aquele o mais velho, o

com in i c:ia;;;:à<::i completa, não poss.i,,.el

[Link].,·..·los em pé dEi igualdade? como 11


objE~i:o::~ de c~nàlise".

A estrutura desta dissertai;:ào se divide (?.m dois

momentos: no primeiro capitulo, pretendemos localizar no tempo e

no espa;;;:o o que denominamos a Cole~~o: Mercado de Madureira, e,

nos tres últimos, analisamos a imaginária, em si.

A localiza;ào no tempo Sl? faz necessária pois

esses artistas popular·es e sua obra nào surgem do nada. Nâo

apenas os objetos têm uma história de transforma<;ào, mas, também

arte, sua expressào estética têm uma história ao longo da

história do Brasil. E "se os simbolos sào estratégias para

englobar situaçbes, entào precisamos dar mais atençào a como as

pessoas definem as situa<;bes e como fazem para chegar a termos

com é'ES mesmc:,s" (GE•ertz: 1.989, pg. l'.:,8). O espa<;o cjo Mercado, por

sua vez, busca, também, dar conta dessa diferen;a de

que coexistem num mesmo lugar: em Madureira, subúrbio que gera

~,(>
uma das maiores receitas tributàrias do Municipio, num

que abriga comércio próspero e intenso, se instala um modo de ser

que se fundamenta no religioso, na inicia;~o.

dessa primeira visào qualitat.i.\ic1 e

dinê!imica do tempc:1 do podemos ·fazer a leitura

iconoqrtd ic.:::1 do~:; i-Õ\rtefatos, das imagens, dos temas que se

no P,gr. upamos con formf'.1 a

divindade a qual estào destinados ou junto a qual funcionam como

.,,\tributo. f'::i decisào fudamentou-se no próprio ·f une i on E1rnF.:n to do

pescnas nào buscam um determinado objeto, mas u1n

objeto de um Ori~é um alfanqe para Iansà, ou Iemanjà ou Dxum

- e~ a destina;ào que determina a forma, a cor, os ornamentos e o

material empregado.

[Link] as divindades em dois embor·a

r·econ hecendo, que nos enredos do Candomb 1 {~, D panteào é

e<:.tri tamente c:-ir·[Link] e [Link] nessa [Link]çào, E~Stà sua

r corrq::ireens~':io. D primeiro grupo, denominamos de As Senhoras da

Vida: tr-at,:~ das Jyab~§:., das Deusas-Màes da mitologia j êj f:.?-nagô.

[I St.~c.:.iundo grupo~ o de Os Senhores da Lei: deus.=,es masculinos,

ligados a vários aspectos da organizaç~o da vida e dos cosmos.

Algumas [Link].• como o analisado!:. mais

detidamente, em face de sua importancia significante, assim como

os ferros. Estes, hoje em dia, usam elementos simples como setas,

machados., arcos, estrelas, coraçbes, etc., combinados entre

c::omo fossem letras de um alfabeto compondo um conjunto que

pode ser lido com bastante exatidào.

longo deste trabalho, optamos por os

5 .t
no que se

informalmente, chamar de grafia brasileira e nào seguirmos, a nào

pois

de mant.1:.~r a integridade de um t.e>: to c:1fricano, mas de

[Link]-ever um conjunto de imagens que só [Link]m pleno sentido

quando colocadas em seu contexto atual e brasileira.

[I [Link] usuais no Candomblé e/ou aqueles que

poderiam ter seu conteúdo confundido, pois, também fazem parte do

l é>: i CC• [Link]éc.:.., s~o [Link] inhados quando n~o s~c,

esclarecidos no texto, o sào em nota no rodapé. Assim, é o caso

d<·? mesmo

c:on t.1::~l'..1do i'°·eccw,hecido na .1 inqua-do-Sa.r:L!;.Q. e no uso comurn, n~o s~o

ressaltados, corno é o caso de alfange, paramentos.

As coi~as-de-Santo, o bulicio do Mercado, o jogo

do dinheiro e do prestigio, a fé cifrada nos temas, nas imagens

que se desvendam aos poucos, com o tempo, com a confian;a que ~


r
forma de fé ··- tubo isso o EH1 trop6 l ogc, busca

interpretar, a fim de compreender. Compreender, através

do uso do olho e do ouvido, através do uso das teorias, uma arte

que esconde/ dE?svendi:.~ em suas tramas, mais que os deuses, os

homens que neles crêem o sentido do mundo.

r
F2/25
fig.
I •
O abebe de Oxum, redondo, com o peixe como tema
I
ornamental, e uma das mais importantes ferramen-
tas, simbolizando o ventre fecundo da mulher.
CAPITULO I

TEMPO E ESPAÇO

Nenhum objeto tem o seu caráter popular


garantido para sempre porque foi
produzido pelo povo ou porque este o
consome com avidez; o sentido e o
valor populares vào sendo conquistados
nas relaçbes sociais. E o uso
e nào a origem~ a posiçào e a
capacidade de suscitar práticas ou
representaçbes populares~ que confere
essa identidade.
(CANCLINI: As Culturas Populares no
Capitalismo; Sào Paulo: Brasiliense~
1983; pg. 135)

A imaginària do Candomblé exposta nas v1tr1nes das

loJas no Grande Mercado de Madureira é uma constru~ào atual~

urbana, que conjuga o sagrado no tempo/espa~o do capitalismo. Mas

nào é um fenômeno isolado: diversos artistas têm usado os

simbolos das religiôes afro-brasileiras na sua obra comercial,

seja no intuito de preservar uma iconografia tida como

tradicional~ seja no de interpretà-la. Procuramos, sem tentar

fazer um panorama da arte brasileira~ buscar em que momentos e de

que modos esses simbolos, esses temas, surgem ao longo do tempo,

desde o barroco até a arte contempor~nea. As pe;as do Mercado de

Madureira têm uma história, um caminho pelo qual chegaram a ter

as caracteristicas formais e iconogréficas que identificamos

hoje; sua nomea~ào é o resultado de extravies, retomadas,

adaptaçbes e, até mesmo, de inven~bes.

Louis Réau coloca, no primeiro capitulo de seu

trabalho, no qual estabeleceu a definiçào e aplica~ào de

iconografia que esta:


( ... ) reflete como um espelho ·f ic~ 1 todos oi=:,
desenvolvimentos do pensamento, todas as mu-
danças da sensibilidade: do mesmo modo que uma
palavra pode ter várias acepc;;:bes simult~neas
ou sucessivas, uma imagem pode despertar
segundo às épocas ideais muito diferentes
ou mesmo diametralmente opostos(!).
(F:éau: .l'-,157; pg. 8)

r.; evo l u c;;:ào ele um temé':'1 pode nos

informar sobre a evoluc;;:~o das crenças, sobre as tensdes, sobre as


-.
acréscimos que o tecido religioso sofre signo!:'.;, em

épocc.~, carreqados de densa simbologia religiosa (como o

abano de Oxalá, que remetia ao combate fundamental entre homem e

mulher pelo segredo da vida) podem desaparecer ou subsistir como

mer··o e l <'2rnE~r-: to (o abano ~:-obrevive nos

c:lenorn:[Link]::,s "obj [Link] estético~:=," que n~o t.!')m definida,

servindo apenas como emblemas referenciais)(2).

arte do Candomblé jêje-nagô tal como a

encontramos no Mercadào, é tributària do processo que come;ou na

Africa, prosseguiu pela escravidào e pela diàspora, por um longo

e tortuoso sincretismo inter-africano e com e:, cristianismo; foi-

se organizando nos candomblés da Casa Branca, do Gantois, do Opô

{~fonj é e, por- fim, depois persegui;~es e acomodamentos, se

conclui como um conjunto estilistice definido. Um conjunto de

c:,bjE~tos de arte religiosa cujo principal objetivo é mediar a

l ) "[Elle] reflete c:omme un miro:i.r fidéle teus les pr"ogres de la


pensée, toutes les nunces de la sensibilité: de même qu'un mot
peut avoir plusieurs acceptions simultanées ou successives, une
image peut éveiller suivant les époques des idées trés
dif·i'érente~;; ou m~mf? diamétr·,::dement opposée." (F:EP1U: 19'.:,7; pq. 8)

2) Como vimos, o abano pode também estar ligado ao resplendor que


orna o pàssaro da ponta do OPAXORO; mas isto nào recupera o
significado que detinha anteriormente, apenas o aponta como
possivel sobrevivência.
entre o homem e o sagrado; um conjunto de obj Eétos cuja

beleza necessária é fundamental nesta mediaçào.

a de E·>:emplos a 1' r .1. c.::1nos e

como a arte e o artesào têm se localizado no campo

social: como a arte religiosa e seu artifice se

Nigéria e como seu descendente consegue se expressar (ou não) na

r- Colônia e depois. E, principalmente, como oc objetos do culto aos

(Jr·· i >:if:1S vistos alguns em quadrei<.:-,

e<.:.c:u l [Link]-3s ou i' i J. mes. Como as ç:oi <=.2. <=.-··dr2-SE1n to c:1pi:,1r-·[Link]m nas

representaçbes imagéticas produzidas no Brasil.

Fischer define a arte como um c.~nsE::to: um

c.~r1seir.:i por- plenitude;;;~ 11


P, artt? Éé o meio [Link]~-;àv&?1 par-;i:I

união do individuo com o todo, reflete in·finita capacicladt?

a assoc:iaçào, para a circula~ào de

.id'=[Link]. 11 (Fúr,c:her: s/ano, pgs. 12-13). Fazer arte é a

forma do c:aos de sensa~~es e perc:ebé-la em sua singularidade; é a

C::ii:1pi::"1C:i.d.::1de de de de ,-::.i de

perceber ;,:dgo que ê um liame, um vinculo entre nós e o mundo~

entr-·f.~ o instante e a plenitude, articulado pel;,:1 har··monia da

i'ormc::1. Esta ·forma, no ~mbito da religi~o, se ergue como uma

t::·ntre o mundo profano do dia-a-dia e o da divindade

tl:?rr-ível: "ESSi::i. o pr-6prio sinõ:"d e>: pressÊto do

sagr-ado. 11
• (Hu>:ley: 1977, pg. 12)

Na realiza de modo

p!?CU 1 l. <:II'" a fun <;;:~o pois 2. tradicional

não pode ser isolada da vida: ela pressupbe um mundo

- c:onc:eb.:[Link] como um todo, onde todas as coisas - homens, deuses,

r
conceitos - se religam fi:: interaqem. A

mais que um furor de emo;ào institiva, é um con [Link] to

cuidadosamente urdido por especialistas . A música, a tecelagem, a

escultura , o oficio do ferreiro sào a expressào de uma [Link];ão

que protege o equilibrio do cosmos e que s6 se na

inic:.iàtica. A Hampaté Bà, num te:-:to da colett\n e ,a1

História Geral da Africa (S~o Paulo: UNESCO, 1982) diz:

Na sociedade tradicional africana, as ativida-


des humanas possuiram freqüentemente um carà-
ter sagrado ou oculto, principalmente as ati-
vidades que consistiam em agir sobre a matéria
e transformà-la, uma vez que tudo é considera-
do v:Lvo.
Toda funçào artesanal estava ligada a um
conhecimento esotérico transmitido de geraç~o
a geraçào e que tinha sua origem numa revela-
c;:;t;;o .[Link]::d.
(ZUBO: 198:~~, pg. J.96)

estào gerE1lmente, em

- "cc:1!:::.t.E1s", em "confrê:H'-iE1s" com um [Link] status social

D~ descreve, por exemplo, como na tradiçào dos


(3).

Mande ou entre os
Ha mpi::1té

Bê:1ff1bi::'1r·E1, s,e dividem ni:1S ''castas.'' ou ''nyé1ma K.:~la'' cios ·ferreir. os P

dos artesàos. O artifice africano tradicional n~o escolhe como

o b j E?to de sua arte um tema de eleiçào pessoal, pois qeralmente

trabalha, ou por encomenda, ou visando uma determinada deman d a

social. Esta demanda nào é apenas explicitamente religiosa, mas,

també m politica e doméstica - apesar de que o enaltecimento da

fun~ào real ou o culto aos gémeos e aos antepassados participa do

·------··-·-----·-·····--·------

3) FAGG, William: Yorubà , 1982; LAYTON, Robert: The Anthopology


of Art , J.992; LAUDE, Jean: Las Art es d e l Afri c a Negr a , 1977.

!56
êmbito sagrado. A arte plástica africana, de acordo com Carneir·o

da Cunha é basicamente funcional e seu aspecto estético nào

do uso para o qual os obj t?.,;tos for .::iff1 c::oncE:bidos,

ainda que nào se restrinja a isto.

o criador i::1 f ri cano é um especii::1 li s té.~, como

dissemos, de apurada técnica, reconhecido como tal na aldeia, na

c:idc1dt?' reino. Trabalha vários materiais como a rnadE:-ir·E,,

o bron:;-~e e o ferro, a pedra ou o Ds

contonnl"? Jean Laude, s;e div:[Link] em dois. (_]randes.

qrupo!:::. : no quando o escultor é um em

abjetos destinados ao culto religioso, sendo geralmente, t,::1mbém,

o do povoado; no i::.egundo grupo, t?n c:on t. r· ,:=im os

E,:scu 1 tores que verdadeiros profissionais que um

c::,·f í cio que lhes granjeia favores e honras especiais. O primeiro

tipo parece ser especifico de sociedades de um tipo 1'eudal,

segundo, pertence ,. mais:,


·federaliz.;;~das e e:, ci

centralizadas nas quais o ferreiro e/ou o artista, trabalham para

o rei e na corte.

A área de Nigéria, de onde vieram c:,s nagôs E?

d c:,,omedanos r::;e inclui no s;.egundo tipo e sua art.t?,: .J..


t:' mais

conhecida da A·frica. o rei das cidades-r?.strada, o ob~, é

considerado uma reencarna\.'.~~º do fundador da e da

- divindade patronal: domina

comércio, o mando temporal e espiritual e seu poder se fundamenta


o ritual, possui o monopólio do

em valores misticos tradicionais atribuidas ao palácic:, e à coroa.

sociedade fortemente estruturada, em cujo ápice um

rei-divino. Benin, depois Ifé, estabeleceram as linhas mestras do

!:.7
que denominamos a arte Yorubà, cujos modelos ainda [Link]?.m

t r an s. formado!=· na imaginària do Candomblé jªje-nagô. Apesar ele

que Umé.1 das [Link]~; CE1racteristicas destc:1 arte,

representaiàO antropom6rfica, se perdeu quase que completamente.

Sào os pequenos objetos, os de formas quase abstratas - como o

i'err·qs.. cie Dssaim ou os o;::.f.!?. de Xangô que permc::1nece1n. f4S

má[Link]<;; Gue 1 edê ~ os <=?.dans d;;~s sociedades Q_gbon i , é:1S magnificas.

cabe~as em terracota ou bronze, as esculturas votivas, tudo o que

pod:i.ê',1 reconhecido étnicamente, tudo o que podia servir cJe

para uma identidade nacional foi impossibi l i tê1do pelo

C':i~':- C!'" i,:1V i !:=,ta, pelo qual o negro devia ser coisa

homem ( . 1,. ) •

Nigéria, o fundidor de metal, o escultor, s~o

consagrados ao orixà Ogun, o senhor do ferro, dos instrumentos da

guerra, do plantio e da arte: pertencem a um colégio 0:~acerdot21 l .

ÜC:) mesmo modo, no Mercado de Madeira, os terramenteiros s~o, em

maioria, tilhos-de-Ogun e realizam seu trabalho plenamente

c::on<:::.c::.ient.E~s. do S€?.U aspecto sacramental, da de

preservar o axé P de transmiti-lo às ferramentas, aos ferros, aos

par,,:1mentos. Esta caracteristicas da arte Yorubà que leva os

objetos de culto a serem simbolos, estruturalmente sof [Link],

da entre o individuo, o Estado e a Potestade divina,

atesta o grande poder de comunica~ào visual dessa arte, realizada

dos elementos mais simples como

geométricos e imagens, ou da própria composi~~o, como um todo.

4) DAVIDSON, Brasil: M~e Negra, Lisboa: Sà da Costa, J.978;


MAESTRI, Mário: A Servid~o Negra: Porto Alegre: Mercado Abé rto, 0

1988.

~':,B
Por brevidade, nos limitaremos a um único exemplo claro do

de comunicaç~o visual do artefato yorubà, cujo código

e: ir· cu 1 ;:-~ , vivo, pelos corredores do Mercadào, no FUo de

,Janeir·o.

John F'E':mbt2r··[Link] ao ê°\nalisar- um §_g_er·e Ifé':I(~,) - uma

taça usad,,:1 guar-dar as sementes usadas né:1

ressalta como a qualidade estética e impor-tante para a func;:ào do

obJeto, o qual pode ser encomendado pelo sacerdote que

E",:ntào, a e os ornamentos que deseja ou pode ser·

of f.-"'r· t.E,1do corno um presente de agr-adecimento, por- um cliente. O

aqere Ifê analisado de madeira, provém da regiào nordeste de

Uyb por um grupo escultório composto por uma

mulher uma m~e - que carrega nas costas uma crianc;:a. A tac;:a

p r·opr· :1. amen tf:? r·epousa sobr-e c:t cabec;:a de mulher-· que,

ajo<'?lhada, est(:1 em atitude de entrega e reverência. O tema da

escultura (~ própr· io da iconografia de Ifà pois com i::"<

criança remetem a Orumilà~ o deus-adivinho, que conhece o segredo


.......
de cria~~º e que deu aos humanos as nozes de cola para que esses

puderem se comunicar- com ele. O tema da m~e que carrega a crian~a

é dos mais freqüentes no imaginàrio yorubà~ mas esse e>:emplar

apresenta algumas caracteristicas que revelam a m~o de um mestre.

A m~e està ajoelhada, em atitude serena e contemplativa, enquanto

que a cabeça de crian~a està virada para o lado, como se ol hé.iSSe

inquisitivamente: diferentes direc;:bes do olhar da màe e da

criança expressam a individualidade da pessoa pois o Ifà e>: iste

·-----------·-----
5) FAGG, Willian: Yorubà; New York: Alfred A. Knopf, 1982; pags.
82-S:3)
para que cada um saib.:1 qual É~ como seu destino

individual seu odu. {~ dinamicidade do movimento das

c:on t r c:'1 S ta com a maneira segura e definitiva como a cr-ianc;:ê1 se

agarra ao dorso materno e como ela o sustenta, de tal modo que

seus corpos se confundem e há uma interac;:ào plástica dos volumes

que formam os brac;:os da m~e e as pernas do filho. Uma

r ica, de incisos, desenha um cinto de contas e

f,?sc:ar-.i f 1.c:a;ões;. em forma de triàngulos no ventre, triàngulos que

remetem ao Exu, o elemento din~mico que permite interpretar o

jogo divinatório. A iconografia dos objetos de culto nagõs, como

por e x emplo, apr-esentam uma possibilidade de

pois como diz Pemberton, analisando o poder da vida

r.. epr·[Link] nesse Ifá: "o jogo entre imagem visual e

imagem ver-balé um importante elemento nos rituais da adivinhac;:~o

do I ·f à. 11
( 6) (Fagg: 1 982 , pg . 8:2 ) E, diriamos, nos outros

rituais, também.

bar-rei r-c:1, o limite, que a arte yorubá coloca

par-a circunscrever- o sagrado é , portanto, ambiguo: por um lado, a

maestria do artista e o rigor iconogràfico criam uma pec;:a que

permite a visualiza~ào do nume, uma pe~a cheia de axé que remete

a um outro mundo; por outro, a inclus~o do artista na comunidade

e o fato de que esta iconogràfica é parte de uma teia de

significados dominada por todos os elementos dessa comunidade e

que cobre todas as instências da vida (n~o s6, as e>:pl ici tamente

litúrgicas ou artisticas) coloca a linha que separa

6) "The inter- play of visual and verbal images is an impor. tant


elementl-'? in rituais os Ifa divination" (op. cit.: pg. 82)

60
profano na urdidura do cotidiano, no gesto do dia-a-dia. o
sagrado, por sé-lo, remete ao tempo do sonho. do nunca, do

momento da cria;~o; mas, por ser assim compreendido e lido, por

todos os homens, os sacramenta no tempo desperto, do agora, do

momento dos afazeres diàrios.

Segundo Carneiro de Cunha, a influéncia dessa arte

negra na arte brasileira, é fundamental nas talhas barrocas, na

m6sica, na arte popular, pois afirma oue ''o negro contribui de

modo definitivo na desvincula~~º das artes brasileiras de sua

tutela metropolitana.'' (ZANINI: 1983; pg. 989). Essa presença, de

acordo com Cunha, levaria a perceber que ''os temas ou a imagem

africana escondem-se, disfarçam-se nas dobras dos mantos ou sob o

peso do ouro da estatuária ou da talha barroca, como os otà(7) em

seus nichos.'' (op. cit.; pg. 990). Tanto na arte erudita, o toque

do negro causa certo desvio do modelo europeu, como o citado

crescente da Virgem da Conceiçào que se configura em cornos e

o emblema de Xangô, quanto na arte das feiras, no objeto

doméstico. (8)

Enfatiza além disso tra~os de estilistica africana

que teriam influenciados as deforma;bes expressionistas do

Aleijadinho. Compara-as com as reelabora~bes que as feiiôes das

máscaras de Gueledé na Bahia - raras e poucas - sofreram, unindo

7) Pedra ou seixo sagrado que contém parte ponderável do AXE de


um SANTO em seu ASSENTAMENTO; se esconde~ geralmente no fundo dos
vasilhames e é coberto por panos suntuosos.

8) ZANINI~ Walter (org.): História Geral da Arte no Brasil; S~o


Paulo: Instituto Moreira Salles, Djalma
Guimar~es, 1983.

61
a continuidade de conven~bes formais africanas às necessidades da

nariz abrasileiram-se, do outro, os olhos continuam

'f ormc:1 l rnr::n t.F: afr:[Link],1nos. E•mbor-2. i--eelaborados. 11


( Zanini: 1983~ pg.

- 1017). Concordando com Màrio de Andrade, a respeito da deforma;ào


r,
voluntària de determinados tra;os de suas estàtuas, Cunha pondera

das exigências dramàticas do té,1mbt.~m se

per·ceoer :i.é':ll'i'I obr-a do arti•:;ta mine ir-o "conven~ê:les

é':li'ricanac;:; que muito provavelmente se ter~o infiltrado ali e

vár-.1.0:õ:, modoi::c.''. (op. c:i.t.: pg. 1018)

Muniz Sodré resume, num paràgra'fo, a conclus~o

que c:hE•gii;il'/'i vàrios historiadores, antropôlogos sociológicos;.,

como Julita Scarano, Jo~o Manoel Lima Mira, Reger Batide, F:enato

Ur .. ti z, F' a t r...1. c i E1 Bi rmc':ln e outr. os: de que os nr:,:gro~?,

coi s.:i. "i' i Ci::1clos como rnáquinas de trabc1 lho fc:1laVc.'\ffl de

t:-:·:·[Link], de sua fala nHo ser

apesar disto nào lhes ser permitido nem cogitado.

Hoje se sabe que, em plena vigência de escra-


tura - com seus desmoralizantes castigos cor-
porais, suas sangrentas interven~bes armadas,
suas tàticas de assimilaiào e ccoptaiàD ideo-
lógicas (concessbes de pequenos privilégios~
oportunidades de ascensào social para os mes-
ti;os, etc.) - os negros desenvolviam formas
paralelas de organiza;~o social. Exemplos: de
ordem econômica - caixas de poupan~a para com-
pra de alforrias de escravos urbanos; de ordem
"politica" ·- conselhos df?[Link],:'[Link] própr-ios
para dirimir disputas internas de uma naçào ou
etnia~ ou para a preparaiào de aibes coletivas
(fugas, revoltas) ou de atividades religiosas
(cristàs); de ordem mitica - a elabora~ào de
uma sintese representativa do vasto pante~o de
deuses ou entidades cósmicas africanos (os
orixàs), assim como a preserva~àc do culto dos

... r;
o..::.
ancestrais (os equns) e a continuidade de mo-
dos originais de relacionamento e de parentes-
co; de ordem lingUistica - a manuten~ào do
iorubé como lingua ritualistica.
(Sodré: 1983, pg. 121)

no àmbito das no séc. )'.\/III poi!,; as ati\1idades,.

tais como as de marceneiro.

sapateiro eram. geralmente. exercidos por negros e pardos, .-:.-1ssirn

como encontramos negros e pardos, fazendo E?SCUl tura. pintura,

música, arquitetura. Esta presenc;:a negra diminui a partir do -fim

do c:om i:':'1 i::1bolic;:i:':íO d.;~ e é:1umento da

imigrac;:ào européia - mas, ao mesmo tempo, vai se plasmar de outra

forma. na organizac;:ào dos primeiros candomblés (9).

As confrarias católicas. serviram como centro de

reuniào dos negros e mulatos durante a Colônia e, depois, após a

- servi r. arn como ponto de partida e

social para a organizac;:ào dos Candomblés . Julita Scarano. em


de segur·anc;:a

seu

livro Devo~~º e Escravid~o (S~o Paulo: Ed . Nacional, 1978) afirma

que i:"\S confrcH-ias i'cH-am o v1:.~iculo de tr·ansmissào de vàrias

africanas, pe} c::I freql'..lênc:ia de contatos:, qLte ai se

pela conservac;:ào da lingüa e. d ir i é:1mos, sobretudo

9) Pierre Verger registra que em 3 de maio de 1855. o Jornal da


Bahia faz uma alusào a um grupo de pessoas presas na casa de
Yanassô, uma das fundadoras do primeiro Candomblé de nac;:~o nagô.
O parágrafo em que Verger descreve essa funç~o é bastante
c::onhecido: "'.)áric1S mulheres enér·gicas e -.,;[Link]-iosas.
originàrias de Kêto. antigas escravas libertas, pertencentes à
Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja de Barroquinha.
teriam tomado a iniciativa de criar um Terreiro de Candomblé
chamado Igà Omi Ase Airà Intilé. numa casa situada na Ladeira do
Berquo. hoje Rua Visconde de Itaparica, próxima à Igreja de
Barn-..Jquinha" ( '·JEF:GEF:: .1.981 • pg. 28).
pelo rompimento moment~neo do curso do trabalho estafante e por

devol \ler de vez em quando, ao grupo de

[Link],,.~. em fun;ào da Diàsoora, nào se

de um modelo africano, mas um E1málgama entrr~ a

do do negro. C<

sincretismo, que nào é mera cobertura ou acobertamento, mas, sim,

cc:mjunto uma no de duas

cr·.:[Link] um "rod.:.unoinho", um jogo pc1ra dar conta de uma

socL=d e>:tremamente penos,c1 e nào podia ser

frontalmente. Nas festas católicas, se conservava um

c-':!thoi::- africano 1 nào era apenas a justaposi~ào, a màscara d<? um

ri tUé:1 l outro, mas, era uma inter-a~ào de [Link], de

de hagiografias construindo um novo campo de [Link]ào

simbólica. "O negro encontrou nas confr.;u-ias oportunidades de

reavaliar e desenvolver suas tendências misticas e ê:1ssociativas,

dé:~r- r-azào c,10 seu '=-~~ntimento religioso e <:-ocial." (Scarc1no: .1.'~78,


r
pq. .1.12)

século XVII, negros, pardos e mu 1 é:1 tn~; se

destacam nas artes plásticas, n~o é por um talento especial, mas,

porque o trabalho manual é visto com desprezo pela sociedade

E~scr··i::1vocr-21ta. Mas este desprezo lhes criar um


-- dE' atirma\;'.ào e "galgar, através dess.a pràtica, patamares

elevado~:; do edificio social" (Leite: 1988, pg • 1 :3) • No

E~ntanto, apesar da afirmaiào da cor de pele e da provenitmcia

étnica, a pintura desses artistas, como, por exemplo, a de Manuel

Dias de Oliveira, o qué1l além de bom pintor

religioso, foi também o primeiro professor público de Desenho do

64
Brasil e o primeiro a ministrar o ensino do nu, nào apresenta

qualquer tra;o aparente de influência africana. Esse artista do

Rio do Janeiro, bem como vàrios de outras provincias, se

conformaram de todos os modos com as regras e os estilos da

época, retratando paisagens, personagens, virgens e santos com

talento, mas sem qualquer inova~~o.

Os dois mais notáveis pintores de S~o Paulo, no

s&c. XVIII José Fatricio da Silva Manso e Jenuino do Monte-

Carmelo também eram pardos, sem que isto tivesse tido

influência no desenho, na composi~~o ou no estilo deles. Vemos,

~ portanto, que a brasilidade, que a influência africana assinalada

por Carneiro de Cunha, nào sào gerais, n~o parecem ser a regra da

produ~ào plàstica da Colônia, apesar do expressivo número de

negros e mulatos que trabalham. Uma ou outra face mais tisnada,

um cabelo mais crespo, uma conven~ào da qual o

católico nào dà conta, um ou outro Sào Benedito, uma ou outra

Santa ou Virgem de côr mais escura que a própria Contra-Reforma

oferece para a devoçào dos escravos e/ou libertos: eis o que pode

ser, na realidade dos oficias e confrarias, representado nas

igrejas e capelas.

Britam Trintade nào nega a porcentagem apreciável

de descendentes de africanos que se encontram como

pintor, entalhador, escultor, arquiteto ou dourador, mas adverte

para nào vermos nesta presença algo mais que uma brecha.

O trabalho livre é condii~O básica parece bom


andamento dos misteres ou oficies mec~nicos
( ••• ). O escravo, aqui, entra nos oficios e
artes primeiramente como um instrumento de
produiào do seu senhor, como portador de lucro
para este; ( ... ) Certamente é um instrumento

65
importante na limitada concorrência do mercado
' interno, mas, como cabedal que~. nào pode de-
cidir nem interferir, nem participar, enfim do
jogo corporativo. Pela rigidez da sua condi~~o
est~ submetido ao conjunto de homens livres,
l'''fi~a:.i.s:, éi1p1ropr-:i.1:.'ldo1res do ''prêmio'' do ,~eu tr-aba-
lho e do seu saber. (Trindade: 1988, pg. 119)

Esta situa~ào nào anula a resistência, nào a reduz

um <:.:.imulacnJ ou a um eco da ideologia, mas obriga,

ser sutil. A se manifestar de forma solerte, como no

ouro dos

Anaola~ cilindro oco, os mais variados simbolos mesclando o culto

católico com cultos africanos, e indicam a presen~a do

neg~ . o pg. 129). Este=.,

"cilindro oco" por e>:emp lo, n,?presen tava o canudo dE~ no

qual se marcava o dinheiro recebido no ganho e que poderia vir a

comprar a alforria: era uma representaçào camuflada da liberdade,

enfim.

A presen;a da Miss~o Artistica que chega em 1816 e

a conseqõente cria;~o da Academia de Belas Artes veio continuar o

processo de irnposic;:ào de estética~ européias~ a partir das quais,

C) Brasil busca se representar, se ver. Assim, corno o barroco, a

Academi,::1 e o [Link] se inscrevem no conte>:to de uma

~;oc:iE~dade dominada pela escravic.i!?:Cc, mais~ pela!:', relac;:eles

\/ :i. si Vf.? i S, invisiveis decorr-en tes dest.:::1 instituic;:!?:Co. o

ê:1c:ademi cisme>, com sua intenc;:ào napoleônica [Link] f"ef l eti r uma

!::iociedacle de liberdade, igualdade e fraternidade e de c:ons-, t ruir

uma .i.déii:.'1 elevada de naçào, estabelecerá uma com os

negro!::., nào no àmbito da emoc;:ào religiosa~ mas, nos

66
termos da representa;~o politica de uma sociedade discricionéria.

( . . . ) a Academia exerce um poder legitimador


incoteste nas artes plásticas, de uma socieda-
de desprovida de iniciativa, de demanda çomer-
cial (com a rarefeita exce~~o da retratistica)
e sobretudo de cultura original independente.
Nessas condi;bes, é de se prever que dada i;;ua
congênita voca;~o àulica, a Academia i'un-
cionasse antes de mais nada como uma barreira
tendendo a dificultar consideravelmente ao ne-
gro e ao mulato o acesso à condi;~o de artista
que ela, apenas, estava habilitada a conferir.
Por outro lado, entretanto, a Academia infun-
diu aos, n~o poucos, negros e mulatos por ela
cooptados uma autoridade, uma legitimidade
tais, que nào seria excessiva aventurar a hi-
pôtese de que a Instituiçào, nào obstante a
estreiteza de seu ideério,por atuar como agen-
te promotor do artista de origem africana no
Brasil, isto é, como veiculo de ascensào so-
cial capaz de proporcionar ao homem recente-
mente egresso da condiçào de trabalhador es-
cravo, o estatuto de trabalhador intelectual,
em uma sociedade onde a divisào de trabalho
era particularmente segregacionista. E, de
resto, talvez seja exatamente esta uma das ra-
zaes que explica nào somente a fidelidade, mas
a not~vel continuidade do pintor negro, nos
quadros da pintura académica, mesmo bem após a
virada do século( . . . )
(Marques: 1988, pg. 136)

e>:emplo, qUc.H"'rdO O sergipano Hora,

autor do conhecido quadro Ce cy e Pery, e Joào Tobias ou Bruno da

rE?trata-..1am negros, o faziam tào somente com o

distanciamento dado a um modelo, a um exercicio de retrato. Joào

F'edn::;, o Mulato, cujo tri:.-:ibalho, (?ntre "naif" e caricato, pertence

é 10 inicio do século e o famoso caricaturista Crispim do

do Pará, na segunda metade do século XIX, se localizam num outr-o

campo de produ~ào: o da critica, o do burlesco, o do j orn ê:1 l j_ s0,mo,

que ::,.em à ~ir-ob 1 emé ti ca negr-a,

67
recupera, o veio da ironia e do sarcasmo.

No entanto, apesar da import~ncia, para a história

da arte no Brasil, que a Academia de Belas Artes t~m,

produziu nenhuma imagem na qual se possa reconhecer algum objeto

r··eiativo à cultura imagens-,, as

encontraremos nas aquarelas de um francês e de um alem~o que, sem

terem nenhuma inten~ào de resgate cultural, registram a

do africano e dos seus descendentes, o~ seus costumes, sua vida,

s,.eu cotic:!iano com preciosa maestria. Moritz F:ugendas •

( 180:2 1858) e Jean Baptiste Debret, (1768 - 1848) • em suas

viagens e estadia no Brasil realizam várias séries de

nas buscam um retrato da populac;:ào indigena, dos negros

escravos e do ambiente urbano brasileiro. Suas aquarelas suscitam

uma [Link];:ào imedié:1tc1: por que -foi posE~i ve 1 • pare:\ eles,

1·-egistrar- pictóricamente os negros, .:,1s capoeiré,1,

E·:nf im • C) cotidiano da rua e da casa, enquanto os pin tor-es de

nào consegu:Lr-am os [Link]:.

:.\.c:lí[Link], os gritos de independénc.i.a, as batalhas e os s;an tos

grad:.i. [Link]'.IEmteE.°~'

O olhar dos chamados pintores-viajantes, dentre os

quaii:. desti.°'\camois Debret (? F:ugendas, é o de um

fotogràfico produzindo um documentàrio. No caso de Debret, isto é

muito claro quando comparamos suas aquarelas, vivas e àgeis, com

sua produiào pictórica destinada aos Salbes: esta é arcaizante em

rela;ào ao que se produzia na Europa, na mesma época. S~o quadros

·fl'"·ios, de uma pompa tôsca e artificial, e uma composi<;:t:lo sem

qualquer .inventiva. Nas aquarelas de sua obra '·Jov.:"!_Oe F.~ittor_esgue

6f:3
clepu:.lS· 1816 j us g u · er~ 18~J. e 1e pôe sua te?. c:n i e: i::1 do dt?SE•nho

no ateliê de David. seu primo) a servi~o de um olhar--

e 1 assi fica t6r io que busca• nào a Ar·t~.. mas o inven t.t~r io do que é

diferente.

Da mesma forma que Lineu r·ecomendava que se


recomendava que se estudasse a natureza num
quadro classificat6rio. para que de imediato o
objeto perdesse qualquer incerteza. Debret en-
contra no Brasil uma natureza informe e um po-
vo sem organiza~~o . O olhar classificatório
tem ai todas as possibilidades e sua obra se
ordena através da visibilidade de uma taxono-
mii:~.
(Boghici: 1990. pg. 23)

na apresenta~~º dos seus \iO 1 umes,

se coloca, explicitamente, dizendo quem é e a que veio:

Historiador fiel, reuni nesta ~sobre o


Brasil os documentos relativos aos resultados
dessa expedi~ào pitoresca,totalmente francesa,
c::uj o pr·ocJ rp~;;.~-;o acompanhei passo a pê:.~S!::-0 .
(Debret: 1989, tomo 1. pg . 21)

O termo "pitoresco" també m entitula o tr·abê.-=tlho de

Rugendas: Vi agem Pitoresc a atr a vés do Brasil . Esse termo descreve

uma realidade estranha, a ser apreciada enquanto desse

povo que "come<;:ou apenas a formar uma na ~ ào" ( F:ugend,:1s • 1989, pg .

8 ::, ) . D que par·a os brasi 1 ei ros, agon iadcls entre "~ "imi tai;:ào

costumr~s ing le!::.es" ( :[Link]) o cotid ii:HíCl mu 1 ê.'I to, (-~

impossibilidade de representa<;ào. para estes pintores viajantes é

"animE1do, barulhento, variado, livr-e" (idem). Nào os incomoda a

69
c1cur·ada dos. costurnes pois os en>:er·c,:,1c1m como

ubj eto u_J ~


--
conhecimento e a critica que fazem à e ser .. a v i d à o n~o

lhes;. causa qualquer ônus politico, econômico ou simbólico, pois

jà nào pertence ao seu modo de vida.

Debret, no I I tomo de ~.;;ua "',)iagem Pitot-escc:1 11


,

dedic.:::1 presença do negro c:onte>:to urbano

car-ioci:'\. atividades comerciais, no "ganho", os

ca!:.tiqos, os passeios, a convivência com a tamilia o


principal fato que podemos observar a partir destas pranchas é

pr·€:.?sen c;:,::1 negra em todos os momentos e a ti v idacjes,., semi-

\[Link]:los, enfarpelados em trajes e pe,;,nteados;. C:i:1pr i c:hosos,

apropriando-se das vestes dos senhores e senhoras para compor uma

[Link] t[H" i .::1 e sedutora. As negras, aos vestido~~. c:le

estilo império, aos penteados de coques e cachos, acrescentam os

[Link], ,,.. i n c o~.::· e colares, os panos no ombro e os turbantes, nc)s qua:i.s

rf.:?c<:;n ht;:,cemo~s certos elementos que viriam compor~ mais a

r-oupc~ do C.::1ndomblé, o pano-d1:'.'!.=-c::0~2_ta, .::is qui..§l.§:. dos '.:=1.:1ntos.

Nê:1 pr· c:1n e hc.'I Negras livres vivendo de suas

atividades descritas~ co mo Vendedoras de aluá, de lim~o-doce, de

cana, de manuê e de sonhos, e na seguinte, Negra baiana,


r\
vendedora de ata~acá, percebemos esta composi~~o de trajes que,

r.·,1tr-avés da mistura de elementos~ procura construir· uma mar·ca·

pr-ópr.i.ê:1, pela qual o escr·avo de ganho possam

enxergar-se como individuo e, n~o, como objeto. A negra gorda que

conver~;.a r,a rua com uma jovem está usando um chapel~o D

tur-bante e, sobre a bata de renda branca, est~ o pano-d ê:1-c:os ti::1

em tons de amarelo e vermelho; vermelho ti::'lmbém o

pano-da-costa que aparece amarrado na larga cintura, real~ando as

70
correntE•s de prata que prendem a penca de balangandàs. A i':.[Link]·a

poder·.1.;;~ - sem o chapelào - ser encontrada em qualquer· Ci:l!:,é:1"-de-

Sar.-.!.tQ hojf::, n2cc,nhecível, talvt:::>:::, como umé:1 V!·?lha ekedi., uma f?bQ..mi

ou uma f.i1àe-de-Sê.:1n to, ataviada para uma cerimônia. A roupa,

E,·nquc,1n to sinal distintivo aparece claramente se as

pranchas 16 do III tomo~ a

casando numa igreja, diante do padre; a segunda mostra o E1nte1"'rr.::,

negra. Na primei1··i::1, as r"OUpC::'15 e os

completamente modelados ao gosto da classe senhorial (nào sabemos

se os colares das negras tinham alguns elementos afro-brasileiros

por nào reconhecer, Debret nào registrou) enquanto que, na

segunda prancha, as mulheres todas estào com seus panos-da-costa,

turbantes., os balangandàs pendentes sobn? as saias de·

- babados, acompanhado com palmas e séquito mortuàrio, compondo um

quadro de identidade bem própria e diversa.

Esta mesma composiç~o de peças de vestuário e de

adereços vai ser registrada por Ruqendas na prancha sobre a Festa

de N. Sra. do Rosário (Féte de Ste. Rosalie, Patrone das Négres),

num cortejo de rei e rainha negros certos dados que

poderiam estar na origem de alguns elementos do Candomblé (10). O

pano-di:':1-costa azul enrolado na cintura da rainha nào seria para

hoj e":7' Nào seriam as m~os espalmadas, voltadas para os o

rnesmo que, hoje dia, c:1 compc:1n ha o em sua

manifestaçào 1 em busca de b@nçào e axé? E a figura do

que~ c:I.
-- 10) E
preciso 1 embr·ar épOCc:I destes aquat-e J. i stas ~
maci ç[Link]~ no Rio de Janeiro e no Brasil~ em gerc:d ~ era
a
c:le
negro~-; bantus, n~o e>: [Link], c:1inda e~ t-:eqemeinia" nagô. 11

71
em primeiro plano~ com a bandeira vermelha ao ombro, vestido de

escarlate e com um curioso barrete que parece ser de pele, com a

ponta caida atràs, nào seria representaçào do Exu7 - pois Exu ve m

frente, abrindo os caminhos, tem a l~mina da ct:iberta

por este mesmo tipo de barrete e se veste de encarnado (11) .

luqares,

de culto e assentamentos n~o sào visiveis, em nenhuma prancha de

Debret ou de Rugendas, ou porque eram muito escondidos; ou porque

ni:\c, tinham sido codificados ainda, permanecendo como -formas

da Africa para o Brasil, ou porque os pintores nào os

tào fora estavam de seus modelos c:ul turc:1.i~,..

sequer Pierre Verger, sempre tào atento, em seu livro Noticias da

Bahia 1850 (Salvador: Corrupio, 1981) faz qualquer m~2nçào a

objetos, citando apenas um viajante alemào que

descreve i::\ beleza e o requinte das negras vestidas dt?

C:iSS:[Link] a fusào dos elementos de conotaçào africana,

religioso, c:om os de origem colonial.

Os negros e negras fervilham diante da igreja


e nas suas adjacências. Um quadro africano,
- original, genuino. ( ... ). Ostentam um rico co-
lar de corais, [um rungebe?J genuinamente a-
fricano, com enfeites de ouro, em volta do
pescoço negro. Destas mulheres, muitas trazem
grossas correntes de ouro ornando-lhes o colo
e o antebraço coberto até o cotovelo de braça-
letes. Parece-me, todavia, que os maiores cui-
dados de toilette consistem no enrolar em for-
ma de turbante à volta da cabeça, a muito bor-
dada faixa branca, na camisa finalmente borda-
da e na fimbria de saia rodada e franzida.
( op. e i t. : pg. 7 4)

,, ___ __ __________
,, ,,

11) As cores de Exu s~o o vermelho forte o indigo que,


geralmente, é representado pela cor preta.
Uuem i::1SSi tiu i:~ 1 guma de Candombló

~econhece, com certeza, o cuidado melindroso no uso do

cujas abas - orelhas - marcam a presen~a de um orixà feminino e o

código f:?>: presso no uso do pano-de-costa de renda 0?nrolado na

[Link][Link].urE1, passado o tiracolo, amarrando sobre o busto, pois cad21

uma destas coisas expressa um grau hierárquica, uma fun;ào ou a

possessào de um orixà.

Se na produç~o oficial da Colônia e dos=, r::,éc.

XVIII/XIX, a presen;a do imaginério negro tem de ser adivinhado e

na arte popular, na feitura dos pequenos santos que

os escravos e viajantes carregavam, esta presen~a parece ter sido

um pouco mais clara. Carlos A. C. Lemos, analisando a imaginf.~ria

dos escravos de Sào Paulo, produzida na segunda metade do século

XIX e que se caractt?riz,?- pelos "Santo {4ntô[Link]" e:-:ecutados no

dur·[Link] "Q.Q. de p1._nho". ai'irma que é possivf2l considerá····la como

uma "~r-te fH:?.qF·a, ~?obrr.~[Link] comLm:i.tác_iE1" (Lemos: 1988, pg . .1.93). O

culto e'::\ Sto. Antônio, no dizer de Lemos, nào ter

relacionado ao sincretismo com Ogun ou com ~xu (com os auais este

s:.an to tem s:[Link] associado), mas, sim, como refer~ncia ao uso

como amuleto. Eram feitos pelo próprio usuário,

tendo Lemos, constatado a e:-:isté>ncia de mestres santeir-os e

[Link] como prote;ào cont.r,:.1 " .f...r~_quez_;ª·", per-igos na l'2Stradé:1 ou

conse<_:Jui r diversas graças, principalmente as l igad,ê1S ao

amor. A relaç~o com o estilo africano residiria na escultura da

cabe~a, a maioria das vezes, de proporçào maior que o corpo e com

as rústicas talhados de modo os o 1 r,os

pr··otubeF·[Link] ou boca com làbios retos de ,,~lgumas :[Link]

73
yorubá,;. lado~ o tato ;.-;.<·?rem usados de

escondida, por debaixo da camisa, escondidas, embaixo da cama ou

ocul t.;1s por detrás dos santos do oratório, pode estar ligado

E?ntidadei::- de origem africana, cultuadas por detrás das ff1à se: i:.~ r as

do catolicismo oficial e/ou popular. Como conclui Lemos:

Muitas vezes, dentro da tradiçào africana, as


cabeças sào muito grandes e, em ocasibes, além
da representaçào da cruz e da sugestào do Me-
nino Jesus, surgem alinhadas em discreto rele-
vo as pernas do santo como se ele estivesse ao
mesmo tempo vestido e nu. As varia;Bes e im-
provisaçóes sào inúmeras. Mas todas elas sào
concorrentes na sua beleza mistica.
( Lemos: 1 988, pg. 1 96)

Como Lemos, até o séc. XIX nào encontramos nenhum

exemplo de imaginária que possamos apontar como ê:'1 f ro-brE1si 1 E~i ra,

no sentido de uma imagem que, nitidamente, remeta na forma ou no

tem,::1 elementos religiosos de origem africana. q ue

anal [Link] por Nina Rodrigues jê provavelmente do

:[Link]< do século XX e de qualidade bastante desigual; acimi.:;., de

t .udo, s::.er de origem africana, para

negr-ci!::, retornados ou côpias de originais do golfo da Guiné: nào

ainda um repertório, um conjunto que tenha sido

gerado pelas condiçbes especificas da vivência r-·el igiosa afro-

( 12) • ~stas peças, no entanto começam a e>:istir-· no

12) o~ Ibeiis, a belissima Iemanjà que sopesa os imensos seios


pesados e os Diloguns, Adés e Abebé que Màrio-Barata usa para
ilustrar seu artigo A Escu ltura de Origem Neg r a no Br asi l (S~o
Paul o: Tenenge, 1988) e que sào datadas do séc. XI X,
provavelmente o sào do final deste século e jà apresentam
caracteristic:as contemporàneas, devendo ser [Link] na
imaginària atual do Candomblé jéje-nagõ.

74
do CE~ndomb J. é~,. inicio de~ nc,s:,so

\ no

da

<::tss:trn dizer (mesmo quando o artesào trabalha em sua of i cin,,~ na

Essa imaginària, no campo das artes plàsticas, inspirou

vários artistas contempor~neos, alguns [Link] ao F'ovo·-de --'..::;,anto,

como Didi e Carybé, outros, nào necessariamente, como

Manoel dos Santos.

,,-. apesar de nascido em Itaparica, teric:1

o Candomblé, sendo sua ligaiào com a

e, nào, em vivência. Neto CC) l OCi::1

Sabe-se que Agnaldo conheceu exemplares desta


arte [africana], mas nào o suficiente para que
se tor-rs2.~!3SE~ "•3eguidor 11 da mesm2.L ,}amais=, a e!:õ.-··
tudou. F>:ecutou "o::ês", nâ°o por·ém c::om a ·f inc:1-
l idade de produzir um objeto ritual - eis uma

- diferen;a fundamental.
(Ramos Neto: 1988, pg. 206)

Apesar de nào terem suas obras uma car·acter· istica

ritual, pode ser considerado um artista afro-brasileiro, em

fun~~o de utilizaiào (espont~nea ou pensada) dos ctt<nonPs de c::1r·te

formais oriundos da ''arte sacra crist~ medieval, sobrevivente na

imaginària de cunho popular do Nordeste brasileiro'' (Idem).

Chico Tabibuia, do Rio de Janeiro, também tem, nas

suas esculturas um certo sabor de africanismo. Tendo tido ligaiào

com o Santo (Umbanda) tem realizado uma obra de grande


originalidade cujo erotismo remete implicita ou explicitamente a

Exu, como na peça Exu - costelinha. Lélia Coelho Frota identifica

outros artistas cuja obra é marcada pela influência das religibes

afro-brasileiras, considerando--os como 1··· e p r-E~[Link] t antes:. c:if.?. uma

crian;ào liminar que se localiza entre a cultura erudita - que os

i,,1bso r··vf.?., expbe e compra - e a cultura popular - que os infor·ma.

Üf::1nt.r··e os vàrios nomes de Lélia Coelho Frota~ discr-iminc:1 ( 13) ,

.r C~mchdo S.:=1ntos Xavier (Bahia) é o c,,u tor ele pequenas

E!m barro policromado dos quais uma delas, ExLt

Boca-de-Fogo tornou-s.e conhecida um [Link] creti smo

~ entre as cores emblematicas do Exu - vermelho e preto - e a forma

que 1 f2mbr··a de um demônio medieval, ou df:? uma más. Cé'.'I 1·· c:1 de

'' papi f.·"!!r"-mé:1 ch!'2 '' como as E!ncontradas na festc:1 do Car-ni::1Vi.':<l; o

equilibrio entre essas vérias influências dá a esta pe;a um sabor

bem bra~.i 1 ei ro, uma iJ r·· a e;,,~ que r-esu 1 ta do use, t~conbm.i co ele

elementos de várias origens, usados no que t~m de mais exp ressivo

para recriar uma arte que diz respeito nào a Africa, nem à

Média, nem ao Carnaval, mas sim, a uma cultura que é tudo isso,

2,C) ff1E1Sffl0 tt~mpo. Sincrética, ta mbém, é temàtica do Louco

( BD,::1ven tura Silva Filho, nascido na Bahia) que no jacarandé, na

jaqueira, na [Link] e no vi nhàtico, vem "construindo uma

veemente galeria de personaqens


... sobrenaturais,. que St":' distribuem

entre~ a iconografic:.~ [Link],1tólicc:1 e a afro-baianc:1 11


(Coelho: 1988, pg.

_____ ___ ___ , ........_.. .

13) FROTA, Leila Coelho: Cria~~º Liminar na Arte do Povo: a


presen~a do negro in A M~o Afro-Brasileira; S~o Paulo: Tenenqe,
J.988.

76
u artista eurdito (14) contempor§neo t.F!ffl é.:,c::esso

ff1a 1. C) r- às formas da imaginària afro-brasileira e 2.S r"("f!ferências

C:Clffi mais. na medida em que està mais ligado i::1.0

religioso, como no caso de Mestre Didi (Deoscôredes M.

Do:::. Santo::;., alc:\pini(l::',) ou de Car-ybé, ob.!:i (16) no Axé Opô Afonjà

C)U' como é o caso de Waldeloir Rego, Rubem '.J,:':11 en tim ou

T.::,tti que s;.e inspirE1m em <:::.em


,..
inten;ào de seguir qualquer ortodoxia.

O trabalho de Waldeloir Rego e de Helio de Andrade

is/?:(o r-:?::-:plicit.?.iffiE~ntf? liqi.':ldos E<.D rnundo d<·? f:,ant._g_. (1s bel.;:i~; >:ilogr-,:1mas
,.
de Helio de Andrade, revelam recônditos dos assentamentos ou

da inicia~~:io, assim como os colares esculturas de Rego remetem

\,-' i 5.i vp 1 mf:?n te às guias dos orixàs. Ambos os artistas têm

com o Candomblé, no qual ocupam cargos, mas seu trabalho possui,

que um rigor icônic::o, uma qualidade de indice que aponta

cerimônias e fundamentos,.• Tatt.:i. Mor0:no,

ao código iconogràfico estabelecido pela l.:[Link]:i.a

--------------------

14) Consideramos, aqui, como artista erudito aquele que trafega


pelas instituiçbes oficiais que legitimam o que é arte: as
galerias, as criticas de arte, os museus, a academia. O artista
popular, sem qualquer validaç~o positiva ou negativa quanto ao
seu valor estético ou maestria, seria aquele que, além de n~o
pertencer ou ser referenciado pelas instituiç~es citadas, tem a
produç~o e o consumo de sua obra imbricados numa comunidade que a
usa como marca de identidade social ou religiosa.

15) alapini: sacerdote de alta hierarquia no culto dos ancestrais


(eguns). Ver Santos, Juana Elbein dos, Os Nàgô e a Morte;
Fetrôpolis: Vozes, 1976.

16) obà: no terreiro do Axé Opô Afonjà se r.. t~ferc• é:1 c:ar-gos
homorificos de grande importancia. Ver LIMA, '.Jivaldo Costê:1 .in
Bandeira de Alairà; S~o F'é:1ulo, 1982.

/7
afro-brasileira: seu Ogum é representado com espada e com as sete

ferramentas do herói civilizador, o serrote, a verruma, ponta de

de venda, martelo, formào, pê de enxada e esquadro; e::\ ss:, .1 rn

como Ibualama carrega flores na mào esquerda (que remetem a

casamento com Oxum) mas, na mào direita carrega o i,H·co-e·-

·f l eché:1 de preceito. Algumas peças de Tatti ,::1pre~õ-en t,::1m

var.i,::1<:;:óes. , E'2>:plic:i'.~ve.i~=- pc:,r· uma [Link]<·?r·pr.. E'2ti:.,çàc, dos ·[Link]., com

o ~bjri que sua Nanà tem nas màos e que se assemelha a um chicote

com a ponta enrolada no cabo: a forma que resulta deste artificio

a de um ibiri. sem dúvida, mas o chicote que o C:r [Link]

simboliza todo o terror que esta velha Iyabé provoca, sua liga~~º

com o juramento e com a angústia. Assim como seu ocaxorõ. em vez

e! os,. ou espirais na borda dos pratos, tem palhas, pois

pa l h.:1 recobre sempre o que é t~o misterioso e t~o podel"'OSO que

n~o pode ser encarado diretamente e nada é mais assombroso que

relaiàO entre a vida e a mot"'te e entre o mundo dos deuses e o

dos homens, expressa nesta ferramenta de Oxaluf~. E s.u c:\ 0>:um

al·f1::1njc, (porque t.~ gu[Link]r·l"'eira), §l;:•et:~g na cinturei E··

leque na m~o direita, lembrando a participa~ào de Oxalà num mito

fundamental desta deusa. Como diz Jorge Amado, na apresentaçào de

seu livro: "Tatti Moreno" r-<ã:'!stabelect~ mai~;;; uma vez imaqem

c:lr-E1mé':,tica~ luminosa f;:, mágici::1 do~. Ori>:ás" (Moreno: 1987, pg. 8).

Rubem Valentim, o conhecido autor das escul [Link]·a!:.=,-

emblemas que usam os signos do Candomblé como marca visual e os

devol \lf?m reduz idos-; à sua essência, desenvolveu uma trajetól"'ia

pal"'t.:[Link] J. c:H".

78
Inspirado pelo geometrismo abstrato em voga a
partir dos anos 50, paulatinamente estiliza
suas formas em busca de um rigor formal que
abrange igualmente em sua obra a sele~~o, nas
composi~des em que privilegia o hieratismo de
objetos emblemàticos dos ritos afro-brasilei-
ros ( ... ) . Suas criaçbes extrapolam a bidimen-
sionalidade expressando-se através de gigan-
tescas peças escultórias, fiéis à mesma simbo-
logia e reduç~o formal.
(Amaral: 1988, pg. 250)

Rubem Valentim, em seu Manifesto ainda que tardio

(1976) explica sua arte e a ligaçào de sua obra com a emblemática

J r~ j E? - n a g 6 , r- e s. s a l ta n d o E? :=·: a t a m r-2 n t E· s. eu i::I =, p e e to de '' f a l a '' ~

( ..• ) passei a ver nos instrumentos !::',imból i-


c:os, nas -fer.. r-i::-1mentas do candomblé, nos ?,bebg_g_~
nof:=. pa>:orós., nos §:1>:g§., um tipo de "·fala", uma
poética visual brasileira capaz de configurar
e sintetizar adequadamente todo o núcleo do
meu interesse como artista.
(Valentim: 1988, pg. 294)

do artista - seja na obra que LlScit as-)

dos g>:t'~.~::. p<:i1ri::1 c:lt:;,,senhar-· uma c:ompos-,.1. çào que

t.i:',,nto ele E··stética con tE.,mpor-·t:'inea ~ de

logotipos. de uma E".?stética ancr2stral e

silenciosa~ imóvel no vó rtice do segredo~ seja no seu Manifesto

afirma mestiçagem da representaiào do Candomblé: li ( ••• ) A

i [Link] i' ia afro-amerindia - nordestina - brasileira està viva"

( Idem) . :::',t? tr-ata dt.~ "esvc::\Ziar" as ·formas dos dos

ou dos próprios o:-:és parc:1 uma arte

c:c,ns tr-u tivista de inspiraçào cubista: se trata de ver nestas

de um ~,;ign i f i c:ado E..,speci f icei, p l enE1S de uma

que se desdobra permanentemente in terpn2taçeles

79
coisê:t i::\ [Link].er·

como de direito, numa arte que pretende o

( .1. 7) • as ferramentas miticas, e cjos

or i :-: ,:\s fora de como E?mbl ema de nacional .idade

r·eco 1 her nas [Link] ·formas o r.. i tmo de hel[Link]'.a

decons tl'"·u i--1 a!::. no cont~?.>:to de uma i,H-tt-:.:< laica que, "conti::[Link] [Link]

aldeia'' se propbe a ser universal, é procedimento legitimo. E se

atitude pressupbe um sincretismo, o faz por fE:nômeno

histórico/social/sem~ntico ter sido o grande método antropológico

de resistência do negro e seus descendentes no Brasil.

Dent1··e os artistas plásticos con tE?.mport<neo~; que

t r a b2, 1 h,,1 r· a,n d i r·[Link]-én te com i::[Link]-

brasileira, destacamos dois: Descoredes Ma~imiliano dos Santos, o

Didi e Carybé. O que diferencia estes dois

citados anteriormente n~o é uma liga~~º pessoal com o Candomblé,

rr,as o uso especi·fico que -fazem c:la Est.,;;,

[Link]ion to--c:le-pc:t r ti d a ou apenas tema de sua obra, mas é a

E?fei to

no caso, se subordina à exatid~o da mensagem contida

mesmo que o espectador/receptor n~o perceba o que està [Link]

aquarela, nos painéis de madeira, nos qUé:idrC•!:",, os

o percebem e isto é fundamental. N~o queremos c:om isto,

1.7) Da [Link] f or·ma, i:,1 arte dos pré-rafaelistas apossou-se


i g no ~e-
i:;;. medir:)vaie.. par. a E->: press;.ar sua angústia e nostalgia e as
public,:H;:bes de "comics" japc:,neses. -- os "mang,:':ts" -- se utilizam
de
imagens de época de ouro dos samurais para expressar uma
identidade nipônica. De acordo com Pierce, o aspecto de indice
que caracteriza a apreensào do objeto na secundidade, remete ao
seu funcionamento emblemático, analógico, necessário para que se
fa;a simbolo e ultrapasse o mero valor de uso.

80
dizer que o Mestre Didi ou Carybé abrem mào de seu estilo próprio

ou de sua criatividade. mas qu&? realizam, no <:::.eu projeto

artistico, os principios b6cir~c da linguagem do Candomblé. E 1 es-,

s~o conhecedores, não só da arte enquanto oficio, mas também dos

'fundé.11T1entos dos Dri>:/.1~ (dc.1s. mitos que criar··ain o mundo f.·" o recriêlm

E1inc:ia) e locêllizam num território que particip21 ti:,1n to do

ff1!?.t'"C:i::idO de arte, com seus valores de consumo e compra venda,

quandD do gesto sagrado com seus valores de troca baS('?adO!S no

[Link]-ct:'<mbio E· [Link]:!nto dD ª:,·:{~. Não "".ão como os ar-t.:[Link]ê'1r",. cio

Mercado de Madeireira, vinculados ao uso ritual de sua produção,

mas, como eles, condicionam sua produçào à exatidào iconogràfica.

Apesa,,- de nào compartilhar a cosiçào de "purismo

a ·f ri cano" de Marco Aurélio Luz, condor-damos com SUi:'I

sobre a obra de Mestre Didi:

Desde a inf~ncia, demonstrou seus dons de es-


[Link] quinze anos foi confirmado Assogbà,
s3cerdote supremo do culto de Dbaluas na comu-
nidade religiosa fundada por màe Aninha,
Iyalarixà Obà Biyi. Desde essa época tornou-se
o responsàvel pela elabora;ào dos emblemas ri-
tuais do templo de Obaluaê que incluem o ;.:_!.-ª..!:.ª-...-·
rá, o i bi r- i , o:-:umar-f:j i.l.H?.i.i..5.. g.Q-ª. assi.-:1 ill~· A 1 ém
disso, fez inúmeras esculturas parêl outros
templos, como se pode notar, por exemplo, pelo
oxé-xangô que afixado e conservado na fachada
do templo de Xanqô feito ja hà muitos
anos.( .•. )
A partir d~s esculturas desses emblemas ri-
tuêlis consagrados, de complexa simbologia e
profundas elabora~bes, Descoredes M. dos
Santos, Mestre Didi, reêlliza suas recria~bes
profanas, onde consegue manter a complexidade
simbólica do contexto ritual através de solu-
~bes geométricas e espaciais e combinaibes de
emblemas que substituem a significa~ào dada
pelo controle da açào ritual.
O valor màximo da arte escult6ria de Mestre
Didi està em conseguir estabelecer em padrào
estético original que harmoniza a passagem do
espaço do contexto da cria;ào religiosa para o
espa~o e o contexto das recria~bes profanas.
mantendo a complexidade simbólica e a profun-
didade das elaboraçbes sagradas.
(Luz: 1983, pg. 47 e 49)

Entre a arte do Mestre Didi e a arte do Mercado do

Macl u r· 1·? ir· ,::1 existe mais que a indetidade do código de Santo, mas

em ambas, uma certa caracteristica formal ;,~ artr.;, do

c:anclCJmb 1 É"!, na sua origem africana. é baseada~ num modelado que

preserva a integridade da estrutura de matéria a ser trabalhada e

que, mesmo nos grupos escultórios, [Link]. detalhados,busca uma

c:ompo:;;.i ~ào cir·c:unscri t,:1 numa forma e: lar amen t.E"! [Link]:i.d;,~.
..., ....
Ut::, vime e cipó do Mestre Didi, nos

de latào ou cobre do Mercado de Madureira, esta

liberta e se transforma em linhas extremamente din~micas que

fogem do núcleo central. buscando o vbo e o arabesco.

também procur,:1 nE1 sua arte anotar, c:om

C: l.\ i dê:<. d O~- ê:1 preci!:::-~o, os fundamentos religiosos a trê:1vés c:!e i..tm

estilo incontundivel, uma vez que ele é, também. dignatário numa

Casa-de~Santq tradicional:

( ..• ) Carybé é um dos doze obàs da Bahia, cha-


ma-se Obà Dnà Xocum, no terreiro senta-se ao
lado direito da m~e Stela de Ox6ssi, a
i y a l o r i >: á •
(Amado. Jorge: 1988, pg. 111)

E. afirma o escritor baiano, no seu romance O Sumi~o da Santa~

"Com Car·ybé tudo podr.:- '=-t-?r" (Idem). De nome Hector- ,Júlio F'àride de

- "nome de marqués veneziano ou de caban2tiê portenho"

·-:>
'8 ....
(op. cit.: pg. .107) feito baiano, personagem de

e consagrado - Carybé é de

uma coleiào de relévos em pranchas de madeira exposta no Museu de

e do j~ citado livro de aquarelas, imenso e beliss:[Link]:

Iconografia dos Deusas Africanos no Candombl~ da Bahia (Salvado r:

INL/UFB, .1980) . Carybé é, provavelmente, o que ,na is

'f reqÜf?n temente bUf::',COL\, nos Drixàs e seus mitos, inspira ç~o para

~seu trabalho: trabalho, esse para ser visto e compr·eE·nd ido em

caracteristicas estéticas, formais e analiticas, pois "/'oi

i nt[Link]-nc;:i::"lo do autor. No livro sobre o Mural dos Ori>:ás

Raizes Artes Gràficas, .1979) cada fotografia da obra

,:',1 e a b ê:1 d ê:1 precedida pelos inúmeros esOoios, onde o autc'ir· n~o

busca apenas o ritmo exato do gesto, dos pés na dança, do menf:?!io

bicho de obriga;ào, da insignia devida. Diz Waldeloir Régo, na

.introduiào:

Assim, cada painel ao retratar um deus o faz


ostentando suas insignias, acrescido do animal
sagrado, que lhe é sacrificado, ou num deter-
minado momento de sua coreografia, numa de
suas posturas normais, dando ênfase a determi-
nado objeto ou simbolo, que o caracteriza ou
ent~o destacando detalhes em sua idumentària.
(Rêgo in Carybé: 1979, pg. 9)

O Mural é composto de vinte e sete pranchas de

C::(·?!dr·o entalhado com incrusta~ào de ouro, prata, búzios, cobre,

vidros e ferro, conforme a natureza do Qr.i.>:si r·epresent.E1clo. Estas

pranchE1S, para serem feitas, foram submetidas à opin i '.3:o ao

saber de Màe Menininha, Olga do Alaketo, Pierre Fabumbi

85
Eduardo I j e>:à, P,genor· Mi r,,.mda e Ni:zinho de Muritiba, todos

sacerdotes de grande fama e antiguidade, a fim de que as :\.mi:1gf.?ns

nào mentissem ,:\OS mi tos;. (o que [Link] idari,::1). Nesta

dissertaçào, usamos os detalhes do mural como informa~~º sobre as

parti cu 1 ar·· idade<.:=. da E~mb lemática de cada e pudemos

constatar, no trabalho de campo o quanto s~o exatos. Por exemplo,

prancha de Rôko, o Orixà fitolàtrico assentado na

ele aparece empunhando uma lania e tem como animal de s:;acrificio

o zebu. Ora, no entanto, como Rõko é sincretizado com Tempo, de

i::1ngo l ,:'\. I n k i "=-Se (18) também assentado numc:1 àr·vor·e F2

[Link],:'lciO desdobramento cio devir, aparece representado por uma

grêlha/escada no esboço que Carybé fez para este Drixà.

Se beleza pl~1stica destas prc.:in chc:15 é

- inestimável, a riqueza documental informativa de seu citado album

:.i. c:ono<J r· á -fico igualmente valiosa. Sào c:1qua relas realizadas

1940 e 1980, retratando fatos que acontecem desde:"! m•.;..;;,dos

dos anos trinta~ portanto quando a repr··ess.ào aos Candomblés

,::1rrefecer e eles ressurgem para um í"I0\/0 per· .iodo de

e;-:plendor·. nào apenas o brilho das primeiras Casas que

nasciam~ mas um brilho dado pelas grandes festas~ pelos


r
escritores, pintores, jornalistas, politico~.,; que

COtfll") <.29.às, par·te elas -[Link]-de_-Banto e pelos pesquisadores que,

em suas teses, definem o Candomblé de Salvador como um modelo de

18) Os deuses da na~ào Conga-Angola se denomina Inkices e.


Orixés e apresentam algumas semelhan~as com os deuses Jéje-nagõs
como~ por exemplo a analogia entre Oxumaré e Rongoró e aloumas
clissemelhanias fortes como as que existem entre a Yemanjê jéje-
nagõ e as Kiandàs angolanas.

84
/

fig. Fll/36
, , , ,,...
O abebe de Logum Ede e seu ofa sao peças que
,
Carybe registra em seu trabalho e que encon-
tramos - transformadas estilisticamente - no
Grande Mercado de Madureira.
\
como o I bua l 21ma de Eugénia do Engenho Velho ou o

C) >: a CJ u i 21 m ele Ti a r-et ir· ê:1 t am festas de fundamento como o

OlubajQ_ de Dmolu e as fases de iniciac;;:ào [Link]. com as

pi n tu r··2.s do rosto e dos ombros e a sequên cia de VE•stimf::ntas di:1

sa .ida-d c=?-San to mas ~ acima de tudo~ o que nos a

representaçào ordenada, explicita, clara, das ferramentas de cada

S~o desenhos mu ito bonitos mas que, além disso~ importam

co mo umc:1 c:locumentac;;:ao que atesta permanências no

ele como 1!:': o C::i:,1s~o do .Lt!i!'"..J:.. de ou cio

pi,,r,':lmen-r.o de Yansà; desaparecimentos como é o caso da cur· 1os3

espada palmar de Dxu m ou

.;·,1 i n di::i 1 '' r·e 1 an çr.:~men to=:. '' baseados. nos desenhos do própr- i o Cary bé: é:

CJ estr-anho "punhi::1 l II de 0>:umaré de

balangandàs 1 raras h à do i s/três anos e que agora sào c2 n contr-;;~ da s

e m várias lojas, exata mente iguais às desenhadas pelo artista .

A c onstru~~o de imagens na sociedade contempo r~ n ea

se dà 1 é claro, apenas no ~mbito das artes nem

acontf:?ce apenas nos museus e exposiçBes: o cinema e a te? 1 ev i s ~ o

(as revistas, e m men or escala) produzem uma q u a n tidade imen sa de

mensagens visuais. N~o pretendemos retomar a discussào c.: .obre a

validade cultural da comunica~âo de massa (19), apenas nos da mo s

conta de ineçJàvel penetréH;:ào popular- enquanto


/

19) MIRANDA, Ricardo & Pereira, Carlos Alberto M. : Televis~o - as


imagens e os sons: no ar~ o Brasil , 1983; ECO, Hu mbert o:
Apocalipticos e Integrados, 1987; SODRE 1 Muniz: O Brasil Simulado
e o Real , 1991 .

a::,
formadora de opiniào e divulgadora de informa~ôes.

Em ,,ilguns filmes, novelas, seriados de TV em

i':1 J. QUfflê:1 S,. publ ici::1c;:bes., o Candomblé [Link] atrê1vós ele

cerimônias, objetos e emblemas. Selecionamos os exemplos que nos

fflc:I j, s. sign1t1cat1vos para percebermos como os mPios de

comunicac;:ào dào conta das religibes afro-brasileiras e como estas

influenciar pelos mesmos. E prc?c:.[Link] que

elementos referentes ao Candomblé (e/ou à Umbanda) estào

presentes no dia-a-dia de boa parte da populac;:~o, pr in ci p.:"1 lmc·? n te

em algumas cidades como o Rio de janeiro, Salvador ou S~o F'aulo,

nào sendo verossimil retratar o cotidiano dos bairros

dos subúrbios, das favelas (princioalmente, mas nào só eles) sem

t'"E~[Link] .. .:,1r·· 2. c:r·c·nc;:a nos ori:,, :ós. São c,1s guie::\§_ de Uc3 uro, ou df:? D>:o<;:.;si

e dos faboclo, ou dos Pretos-Velhos, ou das Crian~as(20) ou dos

E>:\JS, nos espelhos retrovisores dos carros, como proteião para o

caminho e contra os desastres. E a imagem de Sào Jorge (Ogum), de

Nsr.:1. d1::? Concei;~ão ( 0>:um) ou de Cosme-e---Demiao (os Ibejis)

n e)~::. padarias e outros tipos de lojas. São as festc.1!::; de

Cosme--[Link]--Dam i ;:~D com de crian~as correndo atràs elas

dádivas de doces e brinquedos. E a festa de IemanJà, na beira das

praias, na quebrada do ano, juntando milhares de fiéis de todas

as classes sociais e de lugares bem distantes. S~o as senhoras de

tor·so branco, com dezenas de pulseiras finas a lhe subirem noe.

t:irac;:os, sosnobrando grandes sacolas que carregam as saias dur,::1~,

qoma: as fil~as-de-santo que v~o para os terr·e:i. r--os e

20. Caboclo, F'r-eteis '.lelt}_ç;'..§., C_ti2.fil ~§.. pertencem ao pante~o


0

Umbanda. Os primeiros representam espiritos indigenas; os


segundos, seriam velhos escravos e; os terceiros sào almas
(
infantis e brincalhonas.

86
n .inguórn furta a lhes ceder o lugar na conduc;:ào, com tcsdo C)

nespeito. E a cacha;a que se joga um gole no ch~o para o Sa~~o.

pano

omt,r·or,:.., cabec;:a baixa, a quem nào se oferece o banco porque

senta. Sào os gestos tào banais que mal se percebem: a vel é-=t

que ê,1cende, a comida que nào se come, na

o fio de contas escondido por debaixo da blusa~ C)

-
t:ir·inc:c, df? cor··al

Isso somos nós, isso é pare do que nos ident.i f ici,~

os ingleses - uma marca que precisamos ver como qL.1ando

é",1pc~rf,?ce novE:l c.i~;, [Link]:[Link], nos

veiculo<:,; de [Link];:~o e .i n f o nna c;:ào que

e>: c:1 tamente pela intenc;:ào de retratar o cotidiano e

li C:CHnn E~ l c.i ti:, li •

As revistas nào têm nas relig1bes afro-brasileiras

um assunto usual. publica~bes


. dir:[Link]
... J. ei tor1:?ré; com

a revista pe~tinq, (Ed. Globo) que se dedica fazer-


r
r l'""E-?por-ti.:1gt::ns extr-emamente superficiais e sem qualquer- preten<;;:~o

[Link];:;1 sobre horóscopo, runas, letras cr-istais,

-------··--------·------
21. O quelê é uma gargantilha grossa de vér-ios fios que se usa
nas cerimônias de iniciac;:~o ou de obriqaç~o-de-ano [cerimônia que
permitem subir na hier-arquia r-eligiosa).

22. Katana é a gr-ande espada japonesa de combate que ficou famosa


como a arma dos samur-ais. elite guer-r-eira que caracter-izou o
periodo que vai do séc. XV ao séc. XIX. e que constitui a
referéncia fundamental do imaginário nipônico.

87
(~I n Oil'JC•!:S , bú::: ios, <:.~uma•

ou mágico que esteja na moda. Esse tipo de revista

lido por gente-de-Santo. mas n~o tem~ com

inf 1 ué>ncic1 na iconografia que pesq ui ~:.aff10Sé- de

e outras curiosidades, nas lojas do Mercadào).

AlqumaS:. publicaçbes, no entanto. dirigidas um

público mais especifico podem ter uma repercuss~o maior 1 como é o

caso dos livretos sobre os Orixàs publicados pela Editora Três.

Sem terem qualquer inten~ào explicitamente antropológica, têm. no

preocupaçào de transmitir urna

mui t.c1s. vezes baseada em bibliografia reconhecida, con fonT1E~ uma

visào tradicional do Candomblé.

Os livr-·eto!::', e os pôsters que fc,ram i'""I?. 1 an ~ados

\/(1rio~; \/t:?Z E?S ~ uma grande influé>ncia nos objetos

-f é:1 bi'"· i CE:1d OS- no Mercado de Madureira. As ilustra;bes das capas

que as mesmas dos cc1rtazes - foram usadas come, temas

p r-o por e: i on ando o aumento da

c:~n tr··opomór-f i C3 na imaginária do Candomblé. Como as

detalham tra~os do rosto e privilegiam o movimento e o

~ foi possível nào considerá-las como retrato, mas, apenas como uma

do Orixé e como o texto se preocupa em é:1poiar- r.:1S

:.i. mag en s;. nc:1 mi t.o 1 DCJ ic:1 dos D uso

;,;;ntropomc::,r-·f i ca -fica contextualizada e legitimada. Retomar··emos

,,,1 J gum;;,1 s. car cic t.0,:r is ti cas dessas,. imagens ao anali~;artr,os

iconografia de cada divindade (fig. F!0/16).

Alqun:::- informantes - o próprio Adilson Martins

88
têm dúvidas sobre a validade dessa nova maneira de

os pa r amentos, mas nào negam, nem sua beleza, nem o fato de que,

na Africa, a representac;ào antropomórfica era comum e correta

apesar de que no Brasil é uma novidade.

oc:: objetos do Candomblé aparece m nos

dc,cumen tàr- i<JS em ê:1lg u ns tipos de filmes de Os

documentários sobre aspectos turistices de Salvador nào dispensam

L\ m i:I tomada de capoeira, uma batida de atabaque ou uma visàiJ de

uma .f..~~sta-dc'?-Santo, ~.em quc:ilque1'· e>:plicac;ào, no F?n t,::1n to . Us

filmes produzidos pelo SECNEB, sob orientac;ào de Juana Elbein dos

Santos t@m outra visào: buscam o registro etnogràfic:o cuidadoso e

informac;ào criteriosa, sendo considerados pelo •:::iovo-de···San to


! .....· - - - · · - - - - · · · · · · · · · · - -

como referenciais importantes. Ouvi, por exemplo 1 numa pale•stra

na UERJ, citarem o filme Ori x à n i n ú ilê 1 que é sobre Nan~ e seu s

filhos~ como uma das justificativas para contestar a vassoura de

Nanà que aparece em alquns paramentos. O filme Iy à-mi Agbá sob r e

Grandes·-M~':l:eis reforsa tod.::1 pertinente,

o tema do pàssaro e do peixe. O [Link]:t;:iro ·f .:\. 1 me ,

c:onsidf!:1rado o de todos~ é Egungum , sobre o culto aos

em Itaparica e consagrou a iconografia referente i::1

esta liturgia. Estes documentários, produzidos entre 1979 e 1982,

[Link],rados como paradigmas e n~o infelizmente

o cinema de fic;~o tem usado a

brasileira de duas formas: como cenàrio e como móvel da aç~o. No

primeiro caso, podemos reqistrar A Rai n ha Di a ba (1975) de Antonio

Carlos Fontoura e argumento deste e de Plinio Marcos, relatando a


r tr·agetóri.'::I tr-ágic:a de um marc:J .inc.1 l homoiss!:?.>:u;=ci l e

89
interpretado brilhantemente por Milton \::,í..)íH,: a 1 V E·?S •

Neste-? f.ilfM2~ i:?. Umbanda entra para sublinhar a marg .in,;-,11 .idad(,?

irreversivel do personagem: o Exu (ou a Pomba-Gira) s~o uma marca

r de um mundo que só pode sobreviver no sub-mundo. Apesar de enredo

girar em torno do Candomblé~ Tenda dos Milagres (1977) de Nelson

Pereira dos Santos se apoia mais no retrato urbano de Salvador e

nDS::- dilemas vividos pelo seu personagem~ Pedro Archanjo, do que

imaginària sacra que aparece mais para compor o

qeoç1 r·· i~·. ·,' i c::o deste! perS::.onagem do que como

propiramente dita. D filme Quilombo (1984) de Car 1 os,. D.i.F:quer.-s ~

t,::11 Vf22 exemplo mais impressionante do U:::-D elo

c-:•nqui::~nto cenàrio. O filme é de uma beleza pl~stica emoc::ionc'lnte:

C:) cartaz - com Zumbi, qual Ogum empunhando uma [Link](;;:E1 em

·fogo até o vesti~rio e os aderê~os, promove uma valoriza(;;:~O do

que se conceituou denominat- "estética afro". Teve forte


r
inf luéncia nos grupos de afirma~ào da negritude, nas

pr·· in e i pé·~1 men t.1::? depois da vitória da Escola de \3amba

carioca Vila Isabel que em 1988 ganhou o carnaval com o mesmo

temê\ de, f.i. [Link] p com fantasias que r-·etomavam mesmc1 linha

estét:[Link]::1. No entanto, apesar disso, os objetos n~o tinham

qualquer conotaçào etnográfica, a come(;;:ar pela proposta de montar

todo o enredo em torno de uma pretensa simbologia nagô, enquanto

o Quilombo dos Palmares , de acordo com a historiografia, teria

uma predomin~ncia de povos de linguas bantu.

Quilombo ~,.usei tou várias [Link] os

problemas do racismo, da insers~o do negro na história brasileira

o papel das religibes de origem africana. Do ponto de

90
:1. cc,nc,t] ri!.~ i' i co podemos. talvez. considerar que hOU\IF: uma

valorizaçào da estética africana ou. melhor dizendo. da

que recorda objetos africanos (23). A popularidade deste filme e

a vitória da Escola de Samba da Vila Isabel incen tivaram o uso de


r
:.i. mag t?.n ~e- que ou de

<-::,~:; tá tuas madeira - principalmente de Xangô e de com

certos aspectos que poderiamas considerar afros 1 mas que n~o se

1' .. E?f er-0::n e i i::1m a nenhuma reg1~0 da Africa. Na pesouisa de campo 1 C)

foi citado apenas uma vez (24). sendo estes objetos com

e~.tilc:i m;.:~is apcmtados como tendo c,riqem nos

C) LI S:-0 da imaginária como parte da mais

Apon tE,imos como exemplo. o filme de Nelson Per-eir-a dos

San tos. o Amuleto de Ogum (1975) no qual uma guia do orixà é o

E;·lemento que per-passa por- toda a a~ào. num F:nr-~do que mescla

denúncia social com E1 concepç;:ào màqic2. da r-ealidc1df:?. O f:[Link] Qr-i

197El de Beatriz Nasc:[Link] nào se apóia sobre a problemt-1tica

do Candomblé. mas faz um painel sobre o negr-o no Bras:i.l. de modcl

c_:_ir::: r- ê1 l . Uma das sequências mais impressionantes é a que n:?trata

parte de uma cerimônia de Ossanha.

deu o nonH? ao filme. Bea tr- .i :-: Nascimento

se preocupou com o objeto em si. nào o usou por-ém como cenário.

objetos ou imagens que remetem à formas ê1fr::[Link] no


Mercado nào hà nenhuma intenç;:ào de retomar qualquer sign :i. fie ado
or·iginal • mas 1 de apenas. mimetizar um estilo.

r ·24. Entr-·ev:i.s.tê~
julho de 19•::;i:3.

25. Grito ou brado que marca a presenç;:a do Orixà em terr-a .

·~1
como parte c:!a como "emblema" (26) do

considerado elemento fundamental do enredo. T i:1 l \/f::'!Z poir· estes

filmes estarem mais voltados para um público restrito ou por nào

apresentarem a luxuriante concepçào cenogràfica de Quilombo ~ nào

tiveram tanto impacto popular e~ portanto~ nào tiveram influência

- na i conog ir· ai' ia do Candomblé -

proposta~ enquanto obra~ eles nào buscam a inova;ào estética mas~


até~ porque~ em tunçào sua

r
sim, a imagem fidedigna~ testemunha sóbria de um drama.

O cinema~ sendo um meio de comunicaiàO de massa de

mais restrito. só influencia a iconografia na medida em

que c::1}. Cc'1n<:;:é:1 eco em outros veiculas de penf.'2traçào maior·· C)

de!::.f:[Link] de Carnaval é assistido~ na televisào~ por· um número

.imens=,o de pF.:":SSC1a~5, ou quando C) 1" i 1 ffse tem um SUCPSSO

<=!::-: t r ac,r·d in i:1 ri o, seja de público em geral, seja no ~mbito do

público especializado - como no caso das produc;:des do SECNEB.

A televis~o é o meio de comun1cac;:~o que atinge o

maior número de espectadores. Objeto doméstico e~ ao mesmo tempo,

poten tE: veiculo dos [Link]"SD!::. formadores de opiniào, E'I T '.)

tem abordado as religibes afro-brasileiras em escassos momentos.

l\los noti ciàr· ios ~ elas é:1par-·ecem por conte::~ de novidades

sensacionalistas ligadas à bruxaria~ sacrificios de e

c:,utro<:::. i. tens que r·emetFJm ao "pr imi tivismo" ~ e~ supersti c;:~~o c:10

subdesenvolvimento ou ~ ao contrário~ num tom de "democràt.i co"

[Link].i t.o quando morre um dignatário importante como Màe

Men in .in h,::1. Os arte-fatos religiosos s6 aparecem em destaque por

26. Entrevista com Beatriz Nascimento, em janeiro de 1994.

92
[Link] pr·ev:í.s.êH?s, quando p.:ü.~:; ou mà_es-··[Link]. S,. 0 b r--i:? U ffl c:I

ou um circulo de contas coloridas, Jogam os búzios para

prever a vitória numa copa do mundo, numa corrida de ,=1utomóv0?is ,

numa elei~ào ou para anunciar o que hà de acontecer num ano novo.

Nas novelas, importante segmento da proqraii,a~ão,

\listas por todo mundo, desde os barracos dos morros, é":\té

i.-,[Link] to~==- mais elegantes, o culto aos or· i >: és,. prat.icamenb2

inexiste. No Brasil das novelas, as classes populares nào vào na

,:'lcen dem -..1eli::1S, nào usam "guias". Este universo

religioso afro-brasileiro intervem muito raramente e, sempre. sob

a marca do pitoresco ou da supersti;~o (27) bem--·humor2.d.::1

inofensiva como no caso de Rainha da Sucata (TV Globo - 1989) ou

francamente demoniaca, como em Carmem (TV Manchete - 1988). Mesmo

bas:,ei:i1c:Jas. em livros de Jorge Amado Gabriela ( T'.J

Globo - 1979) e Tieta (TV Globo - 1990) a imaginária do Candomblé

aparece raramente e sempre como cenário.

l'•.los s;.eriados ou nos chamados '' casos especiais'' 1 o

Candombié tem ti do uma presença um pouco maior, pois t?>: is te a

e:-:p licita de vender essas ao mercê:1do

internacional que reconhece no orixà, na capoeira, no samba e no

fut1:.~bol algumas "marcê:1S" caracteristicas do Bt-i.':\sil. Os ~,eriados

que se basearam em Joroe Amado, como Tenda dos Milagres (TV Globo

- 1987) e Tereza Batista (TV Globo - 1992) têm, no Candomblé, um

----- ---------------

27 . Na novela B Viagem (TV. Globo - 1994), um personagem defende


o Kardecismo - tema principal - dizendo que é ''coisa direita. n~o
é n1?nhuma macumba'' f? nenhum cios per·sonagen!::- tem~ como ~=:.er ia mais
realista, qualquer relaç~o com a Umbanda, religiào profundamente
ligada ao espiritismo de Kardec.

93
da a~~o, mas abordando-o de i'orma pi:1steurizada,

"tolcló~":i.C<':1 11
E, color:[Link], s;em . : 1 proi'undidade que D e5:.c:r-itor· bê:1iano

alcan~a em seus romances. Nesse programas, o objeto, us:,ado como

é:1derE::;o de uma fantasia que pretende ser um Orixà vestido, o


r
mesmo vendido no Mercado de Madureira: a televisào, neste c:asr.:, ~

ntí.o f?>:erce nenhuma influência sobre e, artesanatD de,

limitando-se. a buscar nele, parte da cenografia.

Urn [Link] i c:1do é urr, de "Você decide" ( TV

Globo) apresentam, no ent~':lnt.o car·acter í st.i cas d iver·sas. o


1;.;pis.ódio, apresentado em setembro de 1994, relata o caso de

[Link] :í. d"'' ç:.or- um E,,sp1.1·- i to ff,é:1 l é-/' Í co, o

marido, sendo requisitado ao público telespectador que decida se

E:J.a ~=-er cons:i.c:ler-c:~da, culpada ou

inocente?. nos deteremos questbes pertinentes ao

imaginário levantados por este programa, mas queremos assinalar o

j ogo-·c:I e-bú::: i e::,<;;:. como elemento importante na trama. Esse ritual

ff,os. t. r· ê:1 d o de forma verossimil e reconhecida, assim como o

e ê.i qira-de-S_r.:,nto

- (esta com falhas mais acentuadas).

C) ser:[Link] M~e-de-Santo (TV Manchete - 1990) foi o

único a ter no Candomblé, o e:[Link] da a~~o, construindo-se assirn,

r.., urr, -f r.~to :.[Link]ólitc, na telf:?Visào brasileira. Foi um [Link]-iado

bastE1nte longo, com quinze episódios, cada qual ded:[Link] um


r
uma cuidadosa, elenco de ótimo

n i ve l , maravilhosas em Salvador - onde paSSc:1iTI

h.:i. s,. tór :i. Eis; - e tentou ser muito didático ao mostrar C) Candomblé!

j êj c-:::--nagô DLI Ketu como um modelo dos cultos afro-brasileiros.

94
parte das pessoas-de-SantQ assistiram este c:om

~ muito interesse e, na Mercado de Madureira, ele foi comentado nas

conver .. ::=.2. s. usuais entre fregueses, lojistas e artesàos, uma

que, ~:eLl i::1specto [Link], havia uma inteni;;ào

e :-: p l i e i t c:.1 de divulgar os mitos dos deuses. sua inter-vf?ni;;~':io na

vida do Africa como ter-r-a m.i tica E? ance~s tra 1 f? o

Canciombl<~ como uma r-eligiào "respeitávt?l".

Apesar disso. o seriado apresentou algumas ·falhas

f und c:1men t t:1 is.• no [I

Màe-de-Santo, por exemplo, era vazio: er-a um jardim ecológico. um

templo onirico bem diferente de um Candomblé verdadeir-o, cneia de

e ruidos; as festas também nào tinham assistência, nem

tinham o-ferE·ndc:1s sa e r- i -f i cios:, ( 28) • D uso da

:.\. rnaq i nàr i 3 -/'oi constante, uma vez que, em todos os

E~p1s.6dios era encenado um mito dos Drixês e, ao final do

hav i é:1 a pc1ramr.:::ntado

c:oreogrc:i' ia par-t. i cu 1 ar- ao som de uma c3ntiga e de uma batidê:1

E?!C~pr.-?cii'ica. Nestes [Link]. momt::•ntos, os ator-e~:;, U!:;avam o Ê~_ruq~E~r··é. o

·ft?rramentas,.

como parte do figurino devido. Sem qualquer explica~~º ;;obre o

significado destes objetos, para o nào-inicic:.,do,

eles nào foram mais do que belos adornes.

Este seriado, apesar das inten~óes que a [Link]~o

tinha, foi mais criticado do que aceito e nào se pode dizer que

-----------------·----·
28. A ausência das DBRIGAÇGES, da COMIDA-DE-SANTO foi uma das
maiores criticas feitas ao seriado, pois essas se constituem numa
pe~a fundamental na rela~ào entre ORIXA e seu FILHO. N~o existe
Candomblé sem DBRIGAÇ~D.
fig. F5/3
O uso dessas peças de forma elaborada, complexa ornamenta-
çao e mui to brilho, tem sido a tri bu1do a influencia da ''e.§
N ' '\, h

tética do Carnaval", veiculada através da televisão.


trouxe qualquer influência sobre a obra dos artesàos do

nào ser~ talvez, para refor;ar o estilo africanista de a 1 qunS:.

objetos. Mas isto pode ser contestado, pois justamente um dos

é:1spec:te<ré, mais criticados foi a representa;~o da Africa como um

continente primitivo de palho;as e mulheres despidas. Estas foram

aprE-?C i i:.'<.d c.'I ~=- por sua beleza e pela elegància de s:,emi-nudez ~

assim como as dan;as foram elogiadas, mas nào foram ccmsideracJas

eram um no ~-;[Link] popular- de uma

inven~ào. A Africa representada no seriado nào construiu a idéia

de uma tradi~~o 1 de uma inst~ncia antiga na qual

per-d i. d E1 s.: -foi ~,-orr11E!nte [Link] ;'folc:[Link]'' como disse Pidi l son

Candombló.

claro que a tele-.....-is~o é o meio cie

comunic:a<;Z:\o de maior alcance, é o grande gerador de .[Link]<.::iens no

mundo contemporàneo 1 nos surpreende quào pouco tem [Link] luenciado ~

- partir de sua programaçào normal 1 a iconografia do Candomblé~

reliqiào essencialmente popular. No entanto~ existe um momento na

televisào que tem uma possivel influência nas formas dos obj [Link]

e nos ornamentos: é o desfile das Escolas de Samba 1 no Carnaval

do Rio de Janeiro.

A cobertura que as televisbes fazem desse desf :i. le

que dur<:71 duas noites é grandiosa 1 fazendo uso dos recurs:,os de

filmagem e edi;~o mais sofisticados do momento. O resultado é um

pr-etende ser deslumbrante, umc:1 apoteose c:le cores 1

bri l hos. 1 .:1 l egc,r .ias. e imagens vendidas ao mundo todo~ como o

29. Entrevista com Adilson Martins em dezembro de 1992.


" maior· espet.f.1cu lo

;:::ior t. i:,1 -- ban d e ir-· c:1 f.:ê. e mestres-sala, os músicos, os i"olibes que

no vid~o se tornam estrelas por alguns minutos seu

pr·[Link] t: inegàvel. Vàrias atrizes, balc:1rinas;, '' rr, i s.:,.f.~,e=. '' ou

mu 1 !-H,,ir-es da sociedade se apresentam nesse desfile em da

popularidade, da fama que ele pode trazer. O desfile das

de Samba é um momento que valoriza tudo que rnost.i--a. quE1

conS:.t.rói Ufflc:I indica;~o do que é bonito, do que tem brilho. E,

como rr,uit[Link]. E:-COJ.215 escolhem como temc,1 assuntos. ,.


e:{

mitologia do Candomblé ou este é parte do enredo, a representaiào

cJe e de seus emblemas é comum. Em 1994, por <-.:->: emp 1 o,

de ~3 amba Grande Rio apresentou seu E~nredo baseado n,;1

figura do Exu Le-Pelintra, famoso na Umbanda car-ioca, sob o nome

Ds Santos que a Africa nào viu, um desfile no qual imensos

carros alegóricos homenageavam entidades afr-o-brasileiras. Neles,

de uma

ornamenta;ão monumental, uma \ieZ que é ocupar· o

espac;:o muito amplo do Sambôdromo: o fato da te l t?V .i. são ter· se

apr-opriado do desfile obrigou as Escolas de Samba ,:=tumen tarem

a +.~[Link] as fantasieis~ a t.r-ansformar·em

alegorias de tal modo a provocar um impacto visual maior. [Link]

pela c:d ture. e lar-gura dos carros, seja pela [Link]:!ii:1de dos

destaques.

Em \/àr~ ia~;, entrE:\1istas, [Link]:1dos D

espetêculo das Escolas de Samba influencia, de alguma ·f ormc:1, c:I

imc:1ginária do os. info1'·mc:1ntE,:s r-·espondem ele cluas

maneiras. Adilson Martins, por exemplo é da opini~o de que certos

97
no tamanho das coroas, no uso de panos brocados ou na

quantidade de ornamentaçào podem ser creditados à influência

Carnaval (30). Liana Silveira tem insistido que o Carnaval prop~e

uma nova estética ao Candomblé:

O povo do Candomblé quer o melhor para o Santo


e o melhor, o mais bonito é o que ele vê no
Carnaval. E o que a televisào valoriza.
Entào aparecem as rendas, os brocados que nào
apareciam antes. Quanto mais brilho, melhor.J~
vi até Oxum sair com a pele todo coberta de pó
dourado. Como no Carnaval.
(Silveira: janeiro de 1993)

(31)

dizem que o carnaval nào teve qualquer influência no Cc':lndomb 1 é,

e:: r·ed i [Link]:lo os eventuais exageros à presen;a dos homossexuais na

chefia de várias Casas e a uma maior tendência que teriam para ,::,

suntuosidade nas roupas, nas festas e nos paramentos.(fig. F3/20)

N~o percebemos Mercado de Madureira

altera;ào dos atributos caracteristicos dos Uri>:t.:..s que

[Link], u d és;. '"·em c:i s:, creditar à influência do Carnaval ou da televisào,

n~o ser talvez, no tamanho dos capacetes e coroas (32) ou no uso

de lantejoulas (33) e de pedras de fantasia em alguns paramentos.


,.

- 30. Entrevista com Adilson Martins em julho de 1993.

31. Entrevistas em julho de 1993

32. çcspc capacetes que~ na origem, eram especificas de CJgum~


hoje podem ser usados também por Oxossi~ Logun Edê, ÜSSé.1im <·?
D>:aguiam.

dt~ Congo-hngo la nào uS:.am paramentos de metal mas,


pano.
dt::;, F'ar-a [Link]á-los l 0
:comum que sejam cobertos de
1antt"'Joulas.

98
C·? ,,:1 l te,-ai;:óes ·fo.-~,n<.-:t:i.s ~

s ign i -f i Ci.~n tf.?!:::- no n.i\/t~l ,;::,imból ico ·funi;:ão

histór·-ica~,. ,-,-,ai<,; antigas, como os sincretismos, por

exemplo ou, sociais como a necessidade de encontrar um arquétipo

divino para os homossexuais. E possivel que a televisào, com seu

poder de persuassào possa causar mudan;as icon<.1qrf:1f icas

mas, até o momento, no Mercado de Madureira,

pudramois detectar transtormaçóes, a '::::.f2r em E1lguns.

aspectos;. que n~o infringem o códioo-de-Santo nem

agr-idem como imaq inà ri é:1 do

Candomblé responde ao culto, e às lendas dos orixàs, sendo par-te

in t:eg r· i::1n tEi de um complexo ritual e mitico, na medida em que

televisào desconhece ou quer desconhecer esse mesmo complexo, não

tE•m como influenciar realmente a iconografia dessa


,.
simplt::?,; e>:acerba<;:~o formal que o Carnaval mostra na T'-,! pode

c:,cas.i on ar- algum exagero, como vimos, mas nenhuma modifica~~º no

ámbiteo do conteúdo e da interpretaçào. As pessoas qut=~ ele•;, f i 1 am

a bateria, a porta-bandeira, C) mestr·[Link], · ··sa 1 a~

veJ.h;::1 guarda) - freqüentemente s~o as mesmas pessoas que est~o

nos Candomblés; os artesàos do Santo freqüentemente trabalham no

!:::,ar r- a c:i::io do samba - mas sabem a diferen~a entre o sagrado o

profano e os limites necessérios entre ambos.

Muniz Sodré, em seu livro (O Terreiro e a Cidade)

~ (Petrópolis: Vozes, 1988) retoma a quest~o de presen;a do sagrado

negro-brasileiro no espa<;:o urbano moderno: o que ele denomina de

. "cul turr.:1S, de ([Link] em con-f'r·onto com os códiqos r-acionalisti::1!:',

e :i. vi 1 i z E:1 ção indur::,tr· :i. a l . . Tomi:,1ncJo por ponto de par·t:ida a

99
fig. Fl/
Vista geral da entrada do sub-solo, vendo-se a grande loja
O Mundo dos Orixás, ~ esquerda.
fig. F6/12
,
Vista geral do interior da loja O Mundo dos Orixas~ vendo-se
a variedade de produtos e artefatos comercializados.
Notar, na prateleira de cima, as imagens que servem ao culto
da Umband~.
constru;ào do conceito de território como espa~o definido n~o só

mas, acima de tudo, simból icamentt.? (::~A) '

as comunidades-terreiro enquanto um E~spa;;,::o

de produzir· r·e l ê.'I c;:bes cespf?C.i t .i cas va 1 or·es

di"fr.ê'renciados.

Do lado dos ex-escravos, o ter~eiro (de Can-


domblé) afigura-se como a forma social negro-bra-
sileira por excelência, porque além da diversidade
existencial e cultural que engendra, é um lugar
originàrio de forc;:a ou potência social para uma
etnia que experimenta a cidadania em condiç~es de-
[Link].
( op. cit.: pq. J9)

(J Gr··i:;,,nde ME·rc::ê1do de Mê1durr,:ir·a nao é um i§'..r:.rei.1·.::_g_ dE·

Candomblé, mas i::1tividades se e>:isténcia dos

que n~o é i:i1 do mê.1peamen to topogr~[Link] (35), mas que repousa nas

me~:=.mc:1s numa mesma vis~o de mundo na qual Ci

no território dos homens uma vez que o mundo vi,;ivel

é ato da criac;:ào divina 1 tanto quanto o [Link] (o

ç:~_r.::_\d[!_) e ser-·vem i!i1 mesmé"< din~micõ:1 (:36).

::':A . Cl conceito de "c::ultur··a de f.:-:I . khti é, ligado ao [Link] do


ª.:ig_ e ao r-·espeito ,\ uma compre<-::?nção diferente do mundo: ''E a
forma de entendimento adequada a uma atitude analógica de
comunicac;:ào entre as diferenças (homens~ casa~ animais~ terra) P
de relacionamento din~mico dos seres, permitindo sempre a
r.. evr::-r··::=,i bi 1 idc:-1de das s:,i tuac;:êles" ( SO[Link] 1988, pq. 101) .

35 . O espaio interno e externo de um terreiro é minuciosamente


organizado como descreve Edison Carneiro em Candomblés da Bahia.

SP,NTOS, Petrópolis:

100
Os mercados sào espa~os extremamente i mpor-t;,,1n tes

no Brasil~ pois neles se encontram o capital com sua nf:?C::[Link]~1de

de lucro no tempo mais rápido possivel e o lazer~ a pechinc:h21 ~ o

olhar de-vagar. Era no mercado~ nas feiras que o escravo jogava a

capoeira nos intersticios de suas atividades de ganho: no mercado

hà uma flexibiliza~ao das situa~bes de comércio com a intr-·odu~ao

um imaginàrio que nào é o do dinheiro como valor c:ie compr-·,,~ ~

C::C)ITIO valor-· de troca, como um [Link]ólic::o de

Inexiste nas culturas de Arkhé o fetichismo do


ouro ou do dinheiro( ... ) porque nào se apaga a
sua gênese simbólica, nem se recalca semanticamen-
te a sua transcendencia. Por exemplo, os nagôs
cultuam o orixà Nana como um principio de cria~ào
f::~ dP ferti J. idade, mê1S tambóm como PloJ::~.fl, e:< do-
na dos dinheiros ou dos c::auris. Hà ai um vinculo
entre o poder genitor da divindade e o da moeda,
assim como na Antigüidade ocidental se patenteava
a rela;~o entre o sagrado e a fabrica~~º do di-
nheiro~ associando-se cren~a e crédito.
(idem)

D Mercado de Madureira, localizado na zona

do é um dos polos de i:''<tividade do bair-ro.

tem uma história movimentada, guardando as

do ·fc:1mos.o Né:!taJ., um dos últimos "bicheiros de antigamente" com

seu c6digo de honra que respeitava as senhoras, as crian~as e n~o

c:"1dmi tia o tráfico de dr-ogas; tem duas Escol ê1S de Sambei

tradicionais: a Portela e o Império Serrano (reduto do jongo); e

é neste subúrbio que se localiza, ainda~ a Escola Normal Carmela

que já foi uma das melhores pais. divididc:"1 pe lê'<

de Ferro Central do Brasil em duas partes: o lado de

101
e o lado do Mt:-? r· e .::1 d ~"(o • No .lado um

certa tendência para a moderniza;ào, é onde se localiza o grande

Shopping de Madureira, um dos maiores do Rio de Janeiro e \/àr ios

bares elegantes e as grandes lojas de nome que vendem

l''"OUpc.~S "produtos. lado, encontr.::1mos um

comc!::-r·cio mais popular e casas de móveis que margeiam parte da

Min. Edgar Romero que se estende por quilômetros até Vaz

Lobo. O primeiro lado de Madureira é voltado J acan2paquá ~

para o Lago do Campinho e lan~a as vistas para a Barra da Tijuca,

bai r·rci de o segundo lado é \!O 1 L:1dü para uma

bairros residenciais de com

cjo J;,~car·1:~zinho -- ambo;s o;:=, são

pela intensa atividade comercial e pela multid~o de

camelôs que tornam as cal~adas intransitáveis. Madureira é um dos

cen tr··cJs. de Janeiro, onde a vida agita com [Link]

O Mercadào é uma grande construi~º de dois andares

e lQ andar), que cobre uma quadra, cercado pelas r--uas

L.E:opo J. e:! i. no de Oliveira e Andrade Figueira e, nos 'fundoE, dando

para via férrea, a Rua Conselheiro Galv~o (fig. Fl/3). De

acordo com o seu sindico Nelson Prudente, uma das lideran~as mais

destacadas da regiào, o movimento de pessoas é de cerca de vinte

trinta mil por dia e gera uma renda f~uper iDr a todos os

shoppings da cidade, exceto o Barra Shopping e o Norte Shopping.

Shopping tem muita gente que só vai passear e


comer. Aqui, no Mercado de Madureira todo
mundo vem comprar. Aqui todo mundo sai com a
sacola bem cheia.
Isso aqui é uma cidade. Tem de tudo.
(entrevista de setembro de 1994)

102
fig. Fl/3
Vista geral da entrada do sub-solo do Grande Mercado de Ma-
dureira, vendo-se, ao centro, a Administração e o Sr. Nel-
son Prudente, seu sindico.
As lojas Tecidos de Oxalá e Império dos Orixáa estão entre
as principais do Mercado.
-foi :[Link]:i.c1d.:=1 em sendo

:.i. n auqu r- ac:i a em 1959, mas o mercado sob o nome de Merecido )el hc,,
1

e>~ is tt-? 19.10/1920, comerc:i.;.:;.ndo an imé:1i s \/ .i V(jS !"

hor-t .i g r- an j 1:? i r-·o~,; já .i. ..


e:\=>
M

Hoje, foi

construida uma segunda parte denominada Anexo, cuja sindica atual

é D. Emilia. S~o, ao todo, 235 lojas, sendo a maioria, de

artigos de Umbanda e Candomblé. Incluindo o comércio da tachadc1,

temos 02 bancos (um deles, uma agência do BANERJ), 01 agência de

01 posto telefônico, 01 farmàcia e jornaleiro. S~o 28

bares; 24 armazéns para a venda de gr~os, cereais e produtos para

i':1 t::,as,. t.t.~ c:er-· c::<~s Vf::'1ndedore,:". c:ie c,::1 e:: hor r··o-·-quen 1:.E.', pi pocE1, 11
pf.':' l E:~,
11
( ::;7 ) ,

F! para Vf?ndi2r "~ c,:tn..iica, o -ff2ijão-fradinho, i:.1 far-·inha dt? iê1Cê:-1C::,'.:I e

todos. os outros ingredientes necessàrios à com_id_i:1·-de-S,,:1n_t_o. Os

quiaboi:- e os outros produtos hortigrangeiros sào vendidos em l'.:1

loj2.s de vários tamanhos; as flores podem ser compr,:1das i:;:,m 6

-f [Link]-·icul [Link]-as. e encontramos cabras, cabritos e bodes, gc:1 linhas

d ' angola, e frangas de todas as corE~s, préas, patos,

pombos., coe 1 hCJ!:,. até igbim - o grande caracol de D>: ,et l i.':I e

-faisào 08 loJas de animais vivos. Para as as

i::1r-tes.às que fazem o~ enfeites para festas, temos lojas de

"de 1 i. Ci:I tf=:'S'::-f:.'!S:- ;i ; 27 de artigos para artesanato e pap1:?li:.H-ias .

Para os camelôs, s~o 13 armazéns especializados em doces, balas e

biscoitos de todo o tipo e 5 grandes lojas de atacado com todo o

tipo de [Link], enfeites e coisas do gênero. E c,[Link] tem

:::;7. S~~o chatnados "peles" ou "baconzitos", ti1'.. ,::1S -feitas é.1 base de
milho que, fritas, ganham o sabor de torresmos.

10::-:::
relojoaria, cutelaria e chaveiro, lojas vender·

E1lim<;:;,nto para todo e::, tipo de i,:1n i mê.11 doméi::.ti co, com

[Link],?.des;. para o ótica, loja de;:;,

pei:-:inhos para aquàrio, para produtos de cabelereiro, loja de

e 2 lojas de tecidos voltadas para

qua:L<:::. maicw é a Tecidp<:::. g_'-ª. Cl>:.alá. no Nestes.

·-:r-
últimos • ..) ano<_=:. ,,: 1ument ..:;,,ndo já (>5 as lojas.

em fabricar e vender carrinhos de frita,

[Link],i poc2., numa clara demonstra;ào que c:stE1~:; micr-o-

empresas estào prosperando.


•'\
HS v .:i. t. r·· i n Ees:,

b em iluminadas e largas, outras estreitas e E:?SCUr"'aS -

de Umbanda e Candomblé. As maiores de todas sào Q Mundo

no sub-,:;olo;

r·,c~s pE~queninar..; os par-amentos, as qu.i.§i!s, 1 E1n~as, coca1~E?!S, conchas,

(::~:a) se amontoam numa aparente confusào de cores, brilhos

e formas que, no entanto, s~o claramente :[Link] os

c::liE~ntc-::-s circulam, entram, conferem pre~os, trocam

ir;forma~ê:ies, fu>: i co~~ e convites. Se o Sr. Nelson F'ruden te tem

ao dizer que se vai ao Mercado de Madureira para comprar--,

também E: ver-d ade que, là~ o ato da compra faz par-te de um

pr-oc:E~=-SO muito maior no qual o n~o é:

-----------·---------
::::8.
E chamacjo "ibá" o conjunto formado por uma bacia que contém
pratos (ou cuias) e sopeira (ou moringa) que é necessário para
oferecer a comida do \::,an to e para f c:1zer o [Link]~_n tamen tq_.

104
fig. Fl/12
Algumas lojas de Santo são muito grandes, com produtos ca-
ros, alguns, importados da África •••

fig. Fl/11
••• outras são pequeni-
nas, amontoadas.
Mas todas servem ao po-
,
vo do Candomble.
determinante (39).

Nas loJas=,, a arruma;ào dos objetos obedece

apenas à lógica do interesse mercantil, mas encontramos uma ordem

que remete à principias religiosos. Sào raras, aquelas que

têm, na porta, acompanhados por velas, um pratinho com moedas,

bebida e fumo, o~ Exus machos e fêmea para prote~~o; as .[Link]?.ns

de Pretos-Velhos e dos Caboclos estào sempre cercando as dos ~xus

controlà-los; há uma certa preocupa~~º em acompanhar

destinadas a Xangô por ostras que perten;am a suas esposas, 0>:um

e Ians~ (40) ou a sua m~e, Iemc::1njá; C)S

c::r/ào ou em lugares que correspondem ao limiar, uma

,[Link] de 1 f:?S per-tence a E>:u e a Ugum, dados como

senhores dos caminhos e dos portais. Em uma loja, pelo menos, ao

nos ser dada permissào para fazer as fotografias, percebemos que

Junto à imagem de S. Gerbnimo (sincretizado com Xangô) havia um

c:':'1 ÍÍI a l t:!.. SUF.1 c:om:[Link]-de-:.SaQj;.Q. - i'r-escc, !:? com velas:, ace!:.as: nossa

[Link][Link] s.a "cientii'icê:1" ê:'10 div:.tno e o

propr1etério, precavido, nos colocava sob os olhos de seu Orixà.

N~o é só o espa~o fisic da loja que 01r·gani;,:a

confor-rrie as necessidades religiosas, a maneira como as pessoas

S,~P recebidas, também principias da As

ekeQ..;i,.,2 de Cé.1sar,; conhecidas E·

----------------·---

39. Ao longo de nossos anos de pesquisa, eu mesma ganhei muitos


pr-esentes dos lojistas, alguns, como um pandeiro de Dmolu que é
peia r-ara, que n~o se fabrica mais e, possivelmente, muito cara.

40. A terceira esposa, Obà, tem um culto


reqistramos nenhum paramento relativo guiê:1S
algum j..bà_.

.1. o:=,
fig. Fl/6
São muitas as variedades de artigos vendidos no Mercadão e,
, À ,

maior ainda e a afluencia do publico coprador.


n'?<:pf?i l: adas sào convidados a se sentarem, se pede àlguém que \lá

buscar·· àgua ou café num bar, entram nas oficinas para

uma peça especial ou reclamam veementemente se uma encomenda

està pronta sempre usando, como argumento, alguma cerimônia jà em

c-:1n<:ji:,1mPn to ou ::::.t-? mesmo dia ou o desagrado de

a l <JUffl Estas reclama~bes s~o atendidas no t empo do

e n~o no tempo estri t o do contrato comercial: o lojü;t,:1

r··[Link] c:ler-· que sabe que tal cerimônia ainda demor<',1 ou

compromete levar pessoalmente a encomenda, uma \l EZ que irá

rnandi:?. que o

se dev<:=? .,
,7.'l que o i::1-fastaram do

servi;o, com o que o cliente concorda ime~iatamente e a c:on\1er-;.:,a

paS!::-i::1 a contemplar este assunto, deixando de lado, a

inicié,d pois um artes~o comprometido com o [Link] e :zeloso de

c:ompr-·om1 ssos mo!::.tra ser portador de a>:g por·[Link], Ct

atraso da encomenda serê compensado pelo aumento de sua

ritu ,::1:i. .

o Candomblé mobiliza uma intensa atividade

produtiva para prover és necessidades dos cultos. Aloumas destas

;,,1 ti vi dadc-:>s. sào desenvolvidas por indústrias de pequeno ou médio

qu[Link], providenciam as velas de vàrios tipos, as J. OU~ê:15, a

pi.."lnos chapa!s de la t~o [Link]-ado

( posti:?.r· ior· mente c::r·omado, quando necessário), os

f::? os materiais usados para ornamenta~~º como vidri1hos,

106
lanteJoulas, arremates, contas e outros l41) . As favas, sementes,

bichos de matan~a, sào atividades criat6rias e extrativas que se

somam as industriais, demandando um conhecimento

e parte das guias sào trabalhos de artesàos; e muitas coisas como

••• /

Ut::!
4~
quatn:::,

firmas (grandes contas de uso especial) e outros produtos véem da

,José Silveira D'Avila em O artes~o tradicional e

seu papel na sociedade contemporanea (RIBEIRO. Berta G. e outros;

Rio de Janeiro: FUNARTE/INF, 1983) afirma que

As produ;~es elaboradas pelas màquinas s~o


muito eficientes e de custo rela~ivamente bai-
xo, porém nào substituem em todos os sentidos
os artefatos artesanais, cujas implica~des e
sentido vào além da própria utilidade do obje-
to. Os valores humanos e culturais a eles
agregados nào podem ser predidos sem que o ho-
mem perca sua própria dignidade e deforme a
vocac;:Z!io ciE-': ~~u,,:1 n,:1tur-·c;?za.
( op. ci t. : pg. J.69)

C) i',1 ~-- tE1san .::-1 to da imaginària do Candombl(:: nào

manual, lanc;:a mào do torno, da solda, da cromagem, da

41. Uma indóstria importante é a da fabricac;:~o das imagens de


gesso, sendo seu mais famoso fabricante, o Sr. Aloisio que
passou, depois de morto suas fôrmas para o Sr. Pedrinho que
possui uma grande loja no Mercado de Madureira, a Casa Ubirajara.
Hoje, esta ind~stria diminui bastante, pois o Candomblé teria
sobrepujado a Umbanda (entrevista com Adilson Martins - setemb ro
de 1994) diminuindo a clientela. S~o Paulo concentra atualmente
as fébricas de imagens cujos maiores compradores sào as paróquias
Ci::<tólic::as.

42. Numa loja, nos foi dito que certa conta de beleza invulgar E~

Ol.\tr-.:::-15 cJe mantim e ~mbar eram brasileiras - na verdade nào se


podia confess.:::,,r· que eram africanas pois, pF·ovavt::.•lment.e 1 (·?.ram
r contrabando.

~
1
queirr:.:1 da cer~mi c .::i ·fornos, mas, <:;em dúvida aS:.

11
.i mpl ic,H;.ôes (:? sentido própr·ia utilidadt=.,. do

[Link],j etc, I! e o ritmo e a inten~ào humanas~ ritmo de um

tempo de eterno r~torno ao momento de cria~ào, inten;ào do homem

de se re-licar ao que lhe dà a medida de transcendência.

Sendo um artesanato do metal principalmente e, em

pouco menos escala, da cer~mica, esta cercado de todas a s cren~as

que determinam estes oficies ancestrais. O trabalho no ferro Ce,

e:,-: tensào, em vérios metais) e a olaria (e por

!=J O\/O';S.. mi tc:i :Logi.a dos. met.,=iis <-::.•st <~ liqada

a lvorada de cultura, à imola~~o; assim como

ligada é cer~mica està ligada aos mitos da terra, da moldagem dos

e do universo (43). Apesar da ceràmica estar, no

,:'\pc.:ir-·entFJmente, menos sacralizada, jamais percebemos no trabalho

de Adilson Martins - que acompanhamos nestes dois últimos anos

nenhumi:':I in cl'..tr· ii:':I com a tradi~ào, com a exatid~o das d O!:-

moti v os a serem pintados~ em suma com o aspecto mistice do objeto

( 44) .

43. ELIADE, fho de


Zabar·, .1'-?7:',.

44. O último trabalho de Adilson Martins que acompanhamos foi uma


sopeira a ser usada num assentamen~o de Ifé. Era um trabalho
aparentemente simples pois a pintura dividia o objeto em duas
metades~ uma verde e uma amarela~ sem nenhum desenho ou
ornamento. Apesar disso~ para que o artesào se desse por
satisfeito com a textura e o tom exato da cor, se deram mais de

-
duas horas de paciente uso de uma pequena esponja.

108
r

fig. Fll/21
Ibá pintado por Adilson Martins, para uso em assentamento
de Oxum.
\

' A descri~~º que fazemos da fabrica~~º dos obj etof."::.

se refere ê oficina de nosso informante, nos fundos da loja

outras também mantém oficinas do

tipo, seguindo o mesmo modo de trabalhar, mas como só

possi··1e l obser·v ,,1 r.. em profundidade uma delas, nos atemos de

Adi l i;on Martins. D [Link]·-do-.Sõ.1n to. r;,,qui libra sua aparente

e total autonomia das Casas com uma rede de fuxicos e

que, muitas vezes sào percebidos como conflitos (4~:,).

longo de nossa pesquisa acompanhamos algumas dessas

que servem à cis~o do grupo religioso mas a cor de

,,1 li an e;:.:?. f:., rtC:t\/C1S

ou n c:1 \/ i::t. f::. Casa~ que se abrem) ou que, simp. ,;mente, se

num E'::ncontr-o em c':,lquma e:! e i >: c:1 r- i::, pc:1 r-en te

i::;eque la. E preciso considerar que os conflitos, C,:1ndomblé ~

estào 9er·f2n e i ,:i\clos pr2lo [Link]::d do j_og_r) do. I·fà c:2 decididos

pe 1 ois as

i::\ r·, .1. rn i fl'IO ",;.'. i d c:I d E"S. individuais e as disputas de poder. No Mercado de

a este quadro, se acrescenta a e c"imle t- e 1. a l

Cjl.\t'? divide o campo, de modo geral entre dois artist«1S: Adilson

Mar.. [Link] e o "Bir-c:1 11 • Nào <::,endo nossa intenc;:ào um ceirtci' sociol6gico

t.r.,,ndo as 11
8:[Link]" é:1 mesma submi !::',s~o ao código

:.i. conorJ r.. à-fico, optamos c:c,tej <7,r ambos os artf.':-S~OS f.~

aprofundar a pesquisa a partir das atividades de Adilson Mar-tins

que, como veremos i.':1diante, teve com "Bit-·a" uma E'[Link]"·eita r·elii:\~:ào e

4::,. '.)ELHEJ, Yvonnr:: Maggie: (;,i_uf2r-ra QI.~ QT.:\:JUi!., 197~:,; DP,NTP,S, Bea t.r" i 2
Góis: '.)c,vg_ NagQ. ~ Papai_ !:ka11..ÇQ, .1988.

109
que além disso é reconhecido, no Mercado como o referenial bàsico

para o fabrico das cois~s-de-Santo.

A oficina do ~lê Odara tem de 20 a 25 m2, dividida

em três espaços: um, onde se guardam os desenhos e se apóiam as

prontas ou semi-prontas; outro onde se fazem as

com torno, solda e esmeril; e o último onde se recortam e

mr..:c. r-c hete i. 2,m as pe~as mais leves. Geralmente trabalham, no local

c:ie clc::,i s. par-êl c:i c:on-fec:c;:~"\o

feitos na folha de cobre ou de um

___________
ferramenteiro parêl os ...-f..E• 1'" r O <:",_•
, [Link]:::ver-emos, processo

pelo qual se fabricam ambos os tipos de objetos, percebendo como

o saber técnico e o saber iniciàtico se imbricam num mesmo gesto.

O parêlmento de Oxum é um conjunto, feito em

quf:?! ·for uma

Pode

ser feito para venda, mas gerêllmente é feito sob encomenda pois o

processo de fabrica;~o corneia pelas c:aracteristicas iconográficas

a cerimônia que serà cumprida. No caso presente, tr-·ati::1-·S:.f:? df:?!

uma Cl>!Uífl Apar.§, "c:1 mais:, jovPns de todos, c:le gênio guerr-ei r-o 11

(VERGER, 1981: pg. 175), para uma Casa de nai~º jêje-nagõ (46) e

para uma entrega de dekà - que é a cerimônia final, na qual a

se torna a ebõmin f:?! rf:?!cebe os utensilios que que

lhe tor-nar- uma M;;(e--d.e--·[Link] se quist2r, ;;;endo,

de muita quc:d o Or i >:.f:i

- - - - - -..·----·-·------
·il6. Ci costume mandi::1 que .::1 nc:1ç;jQ_ de Congo-Angola ngio use metc:11 nos
paramentos, só pano rebordado, como vimos.

J.1. o
fig. Fl/26
.
A oficina do Ile Oda,ir.a, com as bancadas para trabalho com tor-
no, esmeril e solda.
fig. Fl/29
,
O desenho do papel e passado para o metal e, depois, recor-
tado cuidadosamente.
deve ser explendorosamente vestido . Os motivos que ornamen~am as

ç:,e i >!e=· que se cercados por-

ele ·fl ore:. de peta J. ê:1!::', bem arredondadas que

se unem sempre em festbes de seis unidades (o número de Oxum); a

l f:?VE':Z a rr,uitei r-ec:c, r.. t acl c:1 s cio

pontilhc:1do dos detalhes realizam uma dE? 1 Ll>(O e

do

cobre, o metal mais precioso do pais e, no Brasil é a senhora do

ouro, ainda mais valioso e amarelo c:omo é preciso (47). O peixe~

seu atributo pois Oxum é senhora das éguas e é

poderosa geradora de filhos t ào numerosos quanto os

peixes dos rios do mundo; assim com as flores a simbolozam pois é

senhora do da a 1 eg ri E-1, da ~:; f? >: ua 1i dade

entrE•que e consentida, da vida, de tudo o que cresce , de tudo o

qut:? é belo.

pc:,s;.t.D • Adilson Martins ou um

experiente fazem o desenho num papel~ em tamanho natural e colam

c imc:1 do

art.i·[Link]~ usando ponteiro e martelo imprimem o desenho

de [Link] extremamente minuciosos e dào o c:1 través de

é:1bau l ades e repuxamentos no metal~ a fim de conseguir o efeito

mais vistoso. Destaca-se e:, papel~ refaz-se algum detalhe que n~o

tenha -ficado e recorta-se, com uma tesour-3, todo o

contorno e todas as ~reasa serem vazadas. O alfanje é l'"E2. l .:i. z i::1do

em quatro destas etapas pois a l~mina é feita em duas folhas que

·---- ----------·--------·---·-·-
47. Juana Elbein dos: Os Nàgô e a Morte; F·et.r-6polis.:
\ic)Ze!:.~ 1 '- =t76.

111
fig. Fl/30
- , ,
A fabricaçao do alfange e mais demorada pois demanda varias
operações para se conseguir uma pequena arma que expresse,
ao mesmo tempo, delicadeza e ferocidade.

112
fig. F7/20
. ,
; O ferro de Ogum, com suas ferramentaz1nhas,e um dos
mais simples e encontradiços no Mercado.
\

s~o depois manteladas juntas para conseguir um efeito de volume~

lJUc?.r"dc:1 recortada numa terceira folha e o cabo teito

r::ié':1rt[Link] ~ sendo tudo posteriormente montado~ soldado e pintado c::om

tinta dourada para ocultar as emendas. Antes de soldar dado o

br·i.1 ho na peça e esta é protegida com verniz; o chorào ou

que, pend1?ndo cobre o rDsto de será

confeccionado na Cas:.a-de-::::;an to, pois s:.u a [Link]:::~dõ,1 teci tur·a

demanda um cuidado mais individualizado.

O ferro cuja fabricaiào vamos d ' alhar é um ferro

de Ogum, de cerca de 35 cm de altura. Sua forma é a de um ~fà

e flexa - e da barra horizontal pendem as sete ter· r· .,, ilH·:'?n ta i;:;.

N~go, o ferramenteiro que acompanhamos, c:ome~ou por

encurvar um vergalhào de 30 cm para formar parte do arco e soldou

- a haste horizontal. Para encaixar a flexa, cortou o arco e soldou

a nova peça. Em seguida fez cada uma das sete ferramentazinhas e

cortou que ele havic::1 !":C• 1 d c::1do in tr·oduz ir·· tr~.!>s

[Link]!::-; '=·º 1 dou novamente; cortou o outro lado colocou as

e tornou a soldar. Depoi. s; ê::-01 e! ou o

COf"IJUnto todo numa pequena bigorna e~ cuidadosament1? cJ er·· r ,::1mou

àgua sobre o ferro em brasa, com uma pequena cumbuca e em gestos

lentos e medidos. Apesar da classe maestria profissional~ toda a

reVf:?i:;;tia de um cuidado l .i tt'..tr-g i co e demc:irado.

Surpresa com o fato de que a seqüência de trabalho era claramente

anti-produtiva pois teria sido muito mais fàcil ter o arco pronto

e encaixar as ferramentas de uma só vez, n~o havendo nece<::.[Link]<·?

ele cortar e soldar repetidamente no mesmo perguntei

porquê desse ritual. Nêgo me respondeu~ simplesmente:

1.12
p~?.rd e
o ~xé. Vai que eu passo mal e caio no chào;
como vou deixar a pe;a toda aberta?
(entrevista em Julho de 1994)

E sobre o fato de não existir módulos de

para que fosse mais rápido fazer os ferro~, ele disse:

- N~o dà. Cada ferro é diferente. Para cada


pes.!;;oa, p,::1r,c1 cada Çc.\?.-ª. é d i fen?n te. Eu sou
de Ogun, m.1.n hé:1 pe~a t em dc:2 tt?r t~ >: é .•
( .ic!t?m)

E-1 rteS:.ãos, como vemos, ao mesmo tempo que

~eclamam dos salár i os, da dificuldade de uma v ida proletária, se

p1•-eoc::u pc:1m ~ om o aspecto mistice da pe~a que lhes toma tempo (e'

portanto, dinheiro) mas que lhes dà sentido.

O aprendizado de•ses artifices se dê c:1 c::ompan hando

C)S mais. velhos, come~ando por coisas simples ou E'ncomendic1S de

impor-·tfinc.1.ê:í, ê:105 poucos. ,

c:,1 per.. -i' !:-:! :i. <;;:oc.:;ndc::,. O trabalho nào se caracteriza pela

os artesãos vão de oficina em oficina a procura de melhor

F•[Link].::,nc:l idas;. das l ojas ou instaladas em j .i.r-·aus !::iufocé':íntes

um aspecto dos terreiros de Candomblé: de

d brigo para pessoas perseguidas pela policia, fugidos da cadeia

ou E~cusados de i::1lgurr1 crime. Nào qlH? alguém

cone! .i <;;:bes procure e::,


C- • .,,cei to, ten hé:1 ótimo

comportamento e bom rendimento. Adilson Martins me diz que:


- Esse tipo de gente nunca me deu trabalho. Só
a fiscalizaçào quando bate e nào podemos ff10s-
trar os documentos do rapaz, nos dà um prazo
para mandar embora. Ele vai, fica sem emprego,
sem dinheiro e resposabilidade: volta para o
crime e é preso ou morto. Deviam deixar que
eles trabalhassem, é um modo de se recupera-
rem.
(entrevista em janeiro de 1993)

·"
J·"I E':SC:O:[Link].1 de (klil!::.Cln Martins. [Link].imo :i.n for-m,::1n te

pr-ivi leg:[Link] deu-se, portanto como c:oloc:amos, em face de ser um

dos mais antigos artesàos do Mercado e ter adquirido ampla - nào,

respeitabilidade. Ele e o Bira !::.ào

artistas do Mercado e têm influenciado o dos.

outros, apesar da marcada diferen~a de estilo que existe entre os

dois. Um terceiro nome é bastante citado: Carlinhos - mas, dele,

nào conseguimos informa~ào clara, pois é considerado bom artes~o,

mas, n~o, um criador original.

c::abe detalhar a história de vida dr.;,

Adilson Martins, do ponto de vista biogràfico, mas sua trajetória

no Mercado de Madureira pode ser considerada exemplar e justifica

competência que lhe é atribuida. Adilson é filho de Oxalà, de

j ~j e--mahin e pertence à raiz do Sejà-Hunde, com sede em

de S~o Félix, Bahia. E neto do Pai Tata Fomotinho, e

-f :i. lho de Zezinho da Boa Viagem, tendo sido iniciado em 1973 e

poster-iormente no culto de Orunmilà, recebendo o titulo e Awofá

Ogbebara. Sua chegada ao Mercado data da inauguraçào do mesmo em

tendo se instalado com uma loja de hortigranjeiros. Logo,


dt:~d i Ci:?.03 a artigos de Umbanda e Candomblé e, em seguida, a

que foi qualificada por ele como uma '' E?>: per i. t'~n e i i:'1

ruim " . Nessa décacl i:'1 de ar·tesào nem

inici,:1do, pois apesar de jà existirem lojas famosas como a

ge Todos ~::,s '.':3i.=into:::, do portugueis t~ndré • o comé,,-[Link] ,:1inda era

[Link]-i to: "não havia essa máqu.in2. ·funcionando'' ( E•ntrevista em

setembro de 1994). As lojas eram escuras, com artigos amontoados.

empoeiradas boticas medievais. Com o ogã Menininho do

fornecedor· de vários produtos com p_emba ( g i:.-:.

especial) e outros, aprendeu o jogo do comércio e foi o [Link]

a modificar o aspecto das lojas, colocando vitrines grandes, bem

iluminadas e com uma arrumaiàO que procurava valorizar o é:\~- pE':C: to

estético dos objetos.

Esta busca de beleza do artefato o fez procurar o

grande artes~o da época que foi Amorzinho da Fontinha, casado com

de Ü>:urn e conseguiu que i:2 le traba 1 hê:1sse c:om

era do Ogun, do que para fazer paramentos'' (idem). Apesar de sua

e?.>: e t? 1 é n c.::. .'::<. • Amorzinho tinha alguns problemas pessoais e

decidiu aprender o oficio para n~o atrasar nem perder encomendas.

l Oj c;I vendidê:1, Mata

'-.)[Link] ficou com o ex-sócio e após um afastamento de qua<::=,e três

;;,,nos. e de ano e ,neic:,,

sozinho, em 1981, a loja ~dê Odara.

Na década de 70 tinha come~ado a desenhos

para um jovem artifice que come~ava a "Bir,;;;". Este

pé:1SS-OU trabalhar para Adilson na primeira o'f i cina que c:le

montou, localizada onde é hoje o aviário do Mauro~ Galeria M, n~

11'.:,
fig. Fl/20
~

A casa Ile Odara, de Adilson Martins, na galeria L, onde


desenvolvemos parte da pesquisa.
201. Comec;:aram, na parceria dos dois, a surgirem inovac;:bes, tais

como os paramentos vazados e o uso de motivos n~o-africanos como

grifos e cavalos-marinhos que tornarm famosa a I~~ Odara

Em 1984 houve um incéndio que destruiu a loja

épOCê:1, em desen tend [Link] to por

se [Link] para c:omec;:c:,ir- a trabalhar- com

i:lé.iS,ti:'.'int<? diferentes. O trabalho deste artista de

beleza, caré.iCter i zado por um acl'..1mu l D de

ornamentais (48), pelo uso de assimetria come) recur~:.=,o para

conseguir uma sensac;:~o de movimento vertiginoso pela con-fecc;:~o

do que c:hamõ:,mo~,; ''c:,bjetos e<::,téticos.'', dos quais a de

[Link],.:un, [Link] loja [Link]\/f:?.7.'.

conhr?cido e, principalme·nte, por uma [Link],::tde - às \/l'?.Z e s

questionáv€~1 quanto ao código iconográfico tradicional (49). Em

con trapon tci, o trabalho de Adilson Martins tiusc:a

dos par E1men to~; ou c:!os ibàê_ pintados com a

observ~ncia da tradiçào, colocando claramente:

48. Alguns sào bastantes discutiveis como o uso de cabuchans e


rebordados que ele comec;:ou a fazer no 2Q semestre de 1994 para
enfeitar os paramentos de vàrios Dri.xàs. Nào se discute o aspecto
estético, mas o fato das pérolas, contas e miçangas usadas serem
cie pJ.à[Link].t:[Link] E~, por-tc:1nto, 'fuç1irem ao fun_c:l~'lmento.

49. Foi muito [Link], pol"" t:."'1>:emplo, um g_pc::1:<or-ô no qual tc::lf:.'? -fez
os pratos em forma de chapéu de chinês, superpostos uns aos
outros, na ponta da haste. Sendo todos rebordados em grandes
p~rolas de fantasia, tinha o aspecto de bordào enfeitado, mais do
que de uma àrvore sagrada . No entanto, a imagem de bordào faz,
também pc:H"te da c::itai;;:ao iconogràfic:a do opa>:qrô.

116
- A evolu~ào do paramento se dà em fun~~o de
estética, nào do sagrado. Mas hà um limite na
transformaiào, que é o Santo.A qente pode usar
coisas novas, inventar, mas nào pode quebrar o
cód i<:~o-de-~:iE1n to.
(entrevista em julho de 1993)

E acrescenta, posteriormente:

- O problema nào é com o comércio, mas com o


zelador-do-Santo. D comércio tem de vender,tem
de se buscar novidades mas com um m:\.nimo de
hon€~stidi."tde.
N~o admito que o comerciante ou o :ce l_ador· n~o
conheçam o fundamento e comprem um p1'"odu te,
qualquer a ponto de ser enganado. Isto n~o ~

(entrevista em setembro de 1994)

artesàos valorizam seu oficio e o cons:.i..dc-?ram

como arte, mas, ao mesmo tempo que assinalam suas distin;óes de

t?Sti :lo e/ou de fidelidade ao código tradicional

mesmo tempo que buscam sobrepujar a concorrência, jamais c::\SSinam

[Link] trabalho~ lhes bastando ser reconhecidos e valorizados pela

comunidade sagrada na qual submergem.

Canclini (50) mostra que as festas, o artesanato e

elo popular nào podem ser do

cotidic1no: a que E"2 las propbe, o retorno ao tempo

primeiro e cosmogônico não deve ser interpretado como uma fuga da

n,?alidade~ mas como uma sintese das esperanias e das lutas das

[Link]it:~ss,.oas f:?nvolvidas. A comunidc1de do Candomb 1 t.~ que ~:-e faz

presente~ como comerciante~ artesão ou no Grande

Mercado de Madureira~ nào é uma comunidade camponesa~ mas i,:-endo

;.'.'<O. CANCLINI, Nestor Garcia: As Culturas PopL1lares no


Capitalismo; São Paulo: Brasiliense, 1983.

117
fig. F8/15
,
Nessas lojas encontramos ibas, paramentos, ferramentas,as
f • ,.
bel1ss1maa gamelas de Xango •••

fig. F6/27
••• ou as mais simples
cabaças, alguidares e
potes.
uma "c:u l tt...1ra d<? Ar-�·:.ht.=" imbr· i Ci:?.da e confrontada com uma economia

do tipo capitalist.i::1 t2,mbém, precisa dar conta cle�;;te

f.·:.·ntr·e a lógica do sagrado e a lógica do mercado. n


se transforma e se adaptaa para subsistir no mundo do

empresàr·io e do lucro, mas, ao mesmo tempo, perpetua uma

que busca vincular· o passado à"/contradii;tH-:?<:.:. do present�-:;., fim

de que o homem mantenha sua identidade e de que o grupo preserve

sua c::oes�o. Neste contexto, a preservai;ào de iconografia como uma

linguagem transmissora de saberes especific::os, cumpre um papel -


fundamental: nào, o de guardar uma lembrani;a museogràfic::a, mas o

uma reconstru�ào permanente da memória. que

legitima o imaginàrio, im.:':l(J .i.nár· io que D cotidiano,

permitindo que o homem se reconhei;a como individuo e nào, como

máquina.

118
CAPITULO II

O OBJETO

pois um pote a belo por


causa da bgua que encerra, e
uma cetia se magnifica porque
porta a colheita.
(VINES, Vera de: A beleza do
cotidiano in O Artes~o
Tradicional e seu papel na
sociedade contempor~nea, 1983:
pg. .1:33)

Como vimos E1nteriot-mente, o artefato usado no

culto do Candomblé era fabricado no próprio terreiro. Hà

do ·f iné:11 da década de 60, se dê um o aumento da clientela f:? ,i::\

abertura de novas Casas, muitas sob o comando de homossexuais que

imprimem aos rituais e aos trajes um toque de luxo algo teatrad.

Surge necessidade=! os objetos em maior

quantidade e qualidade estética mais [Link]-ada. Mui to~:; objetos

continuam i'ei to!:?, no interior das

roupas, número sempre ff,aior

f.:'.IC:1SSci ser comprado em lojas especializadas. Alguns itens da

imag1.n.~r-i ê:1 cio C,,:1ndomb 1 é hoj <:?, CfUi:."tSe que

&?>: e l usi vamen tt: por artesàos profissionais, como os os

paramentos, as ferramentas. e as ceramicas(l).

Claude Lépine n ' Análise Formal do Pante~o Nagõ (2)

dei.>:"" cl,:1.r.. o que imaginária j ej e·-nagô, n::':(o apenas uma

1) P1s Cª-~ªs de (.~ngo1a ü~m uma cert.õ1 tr-adi~:~o E.7:m fabr··ic.::.'lr- os


paramentos no ~mbito do próprio terreiro ou pelas m~os de
parti cu 1 ar·e=.. E-str-ei tamente 1 igados ao circulo de !_c::1m~.J i;::i-de-
SantQ.• Em outubro de i994 i:."t!:.sii;:;timos C:i uma '.3aídé."t ele O:.:oss1 ~ n,:1
qual o beliss:,imo tr-aje do Ori>:ti~ incluindo cour-a\;a e chifres de
couro foram feitos clesta maneira.

2) in MOURA, Carlos Eugénio M. de (org.): Bandeira de Alair~~ S~o


Paulo: Nobel, 1982.

119
fig • .' F5/14
- -
Osaanha, a bem dizer, nao teria ferramentas de mao,
pois as sete pontas de ferro, constituem parte de
seu assentamento.
Carybé, no entanto, registra-as e à mão-de-pilão CQ
mo ferramentas, o que já não acontece no [Link]
verdade, a ferramenta de Ossanha é a prÓpria folha
viva, aqui estilizada no metal esmaltado a frio.
A lança remeteria 'as pontas de ferro e seu simboli§
,
ao esta ligado ao direcionamento, ao saber o que se
busca e onde encontrar.
representaiào imagética do panteào divino. mas é

da tni."ln.i. ·ft?!;;ti::1iào dos. [Link] e <jeur-:-,:~!s no mundo v.i!;;ivt-?l • no ªl..P:. (:3).

o conjunto imaginária. ~selecion.:amos a que 1 e<.:::.

que se destacam no Mercado de nos

por e:-:emp1o. às Vf2stimentas ( saia!5 • batas.

camisus e oiàs) porque. no Mercado se vendem panos, se indica uma

de confian~a, mas nào se faz o [Link] f,? • prop1·- i. amen te

dito (4)~ nem descrevemos as comidas-do-Santo pois elas s6 podem

ser preparadas na cozinha especial do terreiro. Os elementos da

imaç_1i.nÉ1r.. .:i.c1 que 2.n.:~lisc:1rr,os, nf.-:~ t.::1 pesquis:,a ~=-~o: as fet"·t"·amPr..,.ta~~-. o~,

C:)S c:er--::':<mi cas e

esculturas e os objetos estéticos (5). Conceituamos. em seguida~

cada um desses tipos para, entào, relacioná-los aos Orixà~ a que

~ pertencem e que condicionam sua natureza e caracteristicas.

1. Ferramentas: sào. talvez, as mais

presentes no Mercadào, isoladas OLl vendid.:-:is como

[Link], i:':1 r ê:i mE::-n t. os • Cor-rr?spondem ao que Louis Réau c!enom:[Link] atributo:

Cls objetos n~'to constituem fetiches pois nào s~o idolos nem
amuletos nos quais o deus se encarna, mas, sim, s~o aspectos da
manifestaiào divina, na medida em qLH? os Q.r i :,-:à§. i::iparecem como os
eixos veiculados de f.1:-:é que [Link].;;::-(m todo o universo em. cada
detalhe e momento.

r 4) Encontr-amos uns poucos exemplo de batas ou tónicas de


"guipure". como chamam a renda recortada em seda ou algodào e uma
ou outr-a túnica africana, mas sào excessôes e, nào, regra.

5) Lépine dà uma visào completa de todos os elementos que compôem


o complexo sagrado da religiào dos Orixàs: além dos objetos que
estudamos, inclui o alimento. as roupas, a música, os grikis
(luva~ôes), as caidas do Jogo do Ifà, os bichos de sacrificio, os
liquidas de beber ou de se banhar e os assent~mento~ das
divindades. E, resumindo tudo isto: o temperamento do filho-de-
§_anto_ que r-emete ao ,::1rquétipo do Ç)r-i>:à.

120
obj eto!s que, iconograficamente, determinam a d esc:t- .i ção

r..:;,::1nto. As

car·F-l?QE1ff1 sua

manifestação entre os homens, operar os atos mágicos n ECf2SS-,,f:11•· :i OS

,:"'1 manter p/ou r·ecompor· os ·ft.Í[Link] e a transmi [Link] o §"S§. como e

pr·eciso. Qc ,::1tributos dos santos católicos são emblemé.1S que

cenas detenr,[Link] na <:=.ua bu!sca pela imi t.a~i?:\o de

Cristo ou milagres importantes que comprovam a graça do Senhor

não são recordaçbes: são o mesmo objeto que no

·fora-do-tempo do mito criou um ,~,[Link] fundamE?n tõ, 1 da

existência. Elas n~o são como a cruz de Santo-Antônio ou as rosas

de Sta. Isabel, por exemplo, o simbolo de um percurso, mais, sim,

sào o simbolo da num tempo circular, do poder e da

atuação da divindade - como era (e é) no principio.

Esta Cc:H·acter·istica das :ferrameJ1_)7.E12. parece entr·ar

contradição com o surgimento de novidades como o de

0:-:umaré ou a vassoura de Nanà. O que percebemos, no entanto~ na

observaçào do dia-a-dia nas lojas, nas entrevistas conversas

com as pes<:.oas e [Link] às ceri,nônias nas quais as

ferramentas s~o usadas é que os objetos novos s~o legitimados na

medida em que podem ser referenciados aos mitos~ na medida em que

a inovaçào formal ou temática surge como variaç~o consentida de

uma narrativa original. O artefato pode se modificar - perder ou

ganhê,1r· elementos - pode desaparecer ou ser uma nova a

linguagem, porém, n~o é afetada enquanto sistema. A sintaxe e o

~=,.f.':!n ti d o permanecem, s~o sb os termos dessas senten~as ·formadas

imagens~ que se transformam para se adaptar demand.::-1s

121
.::;oc .1. a :.1. s. E:liade afirma que o mito "fala ê~peni:.'IS do que

realmente o cor.. ret.\, do que

1989; P9 • 11 ) , donde nenhum aspecto do fenômeno vivido pode

deixar de estar justificado pelo mito: é tudo uma questào de (re)

de percepiào das novas possibilidades i:::,imb6 li caE.

que se fazem necessàrias. O sagrado é, no universo do Candomblé,

uma que .[Link]-ompE? em cada festa. em cada O r- i :-: ;!~ que se

mani ·festa:

E essa irrup;~o do sagrado que realmente


fundamenta o Mundo e o converte no que é hoje.
E mais: é em razào das intervenibes dos Entes
sobrenaturais que o homem é o que é hoje, um
ser mortal, sexuado e cultural.
(ic:!E~m)

As ferramentas. aqui nomeadas c:,nalisadas,

--.. c::c,n-forme os Ç)r-i::-:t1~, nos capitulo::. seguintes.

a) capuz

que envolve a l~mina da c::abe~a, registrado por Verger, n~o existe

no Mercado, sendo substituido por capacetes especiais, parte de

b) Ogum: Su as ferramentas, por excel@ncia, s~o a

espada (hoje geralmente na forma de alfange) e as pencas de sete,

qua tor-zE" ou vinte e um instrumentes de tr-abalho na no

ar-tesanato ou na guer-ra.

e) 0>:ossi: compostê.1 pe,.o


'J fle>:a,

juntas; Qj_és, ber-r-ante de boi; capang<:1s; er-uguer~~ o chicote ou

f.õ~spanador de crina ou rabo de cavalo. Algumas gu<,1 l içl_§_çiE·=· podc~m

usar chicotes de couro chamados ~ilala ou lan~a ou polvar-eir-a ou


fig. Fl0/10
Esse paramento de Ogum, em metal esmaltado a frio em azul-mari-
nho e verde, consta de capacete com uma viseira trabalhada _,em
recortes e vazados(~ direita); braçaletes e perneiras; couraça
{à esquerda) e uma espada em forma de folhagem.
\
d) Irôko: arp~6 ou lan;a e grêlha com ati~ador.

e) Omolu: a ferramenta de Omolu é o mas

algumas. qualidade<.: podem carregar lan~a ( 'fundamen tc:1 l em

assentamentos) e Carybé registra um cajado de ferro, sem .indicar

o tamanho ou o uso desta imaginária.

:í.cone, em seu àlbum iconogràfico, desenha uma

adaga curta, com L cabo em forma de circulo atravessado pelo seu

di~metro que està reaparecendo no Mercado. Em certos paramentos

de O >: um 2. r é: , t.é:'1ff1bóm ci pc:I r"f2 CE um como s-,e i'os!::.e sua

·fer-·r-ament2..

g) Xangô: o machado duplo c:hamê:'1do g_>:é. E· o ~a"é'r-q. ou


r
um chocalho usado em cerimônia dedicadas a estE'2

bo 1 i:;é.1 ou c:.:.."lpc::inga bordada com tr-iangulos, onde Xangô guarda as

pedra:=;. de mas esta parece ser uma fer-rê'<ffit?nt,~ em

desaparecimento.

h) Ians~: muitas suas o

c,1lfanje; o eruexim que é semelhante ao [Link] ff..:-ito

porém com ( qU€'2

sendo [Link] por uma f."é'[Link] cie de ª_get',,JJ~).

i) 0>:um: D é:'1 l gumas qualidades

guerreiras usam, também espada, hoje em forma de alfange.

123
r

j) pai~ D:,:[Link];

r·[Link] t.c":nd o a mãe , C:J>: um; E· hoje s.<·?. a f i r-m,::1 o uso

balan<;:a com sua insignia.

l) Euá: 0,:E:.pada ou lc::n<;:a; ;:::.,


.... ' e

<::-l'"Uí?.::·: l iTI.

m) Obá: Espada (alfange) e escudo redondo.

1··· eg .i !e:· t r e": um t::;;.fl!. f2 [Link] Mar-tins diz de uma or·eiha nc,

lugar·· do E1sc:udo.

n) Iemanjá: abebé sempre e, muitas vezes,

( al ·fange).

o) Nam:.t: [Link]··i_, uma das mais fer·ramentar;; de ff1ais

dificil execu~ào.

p) Oxagui:.t: sendo um Oxalà jovem e guerreir-o, tr-az

espada (geralmente, alfanje) escudo, capanga e, acima de tudo, o

pi l ;':io ou ;.::: mão-do-pi l ~o que é sua f ei:..r..ªm€2nt.é:1 -funclc.11T1E1n ta 1.

q) 0>:aluf~: o Oxalà velho, cuja ferr-a~enta é o

\IE-?Zes r-epresentado como um [Link]

pra tos..

_ .·:.,
2. Paramentos: Os par-amentos ::-c:10 um conjunto

por capacete, cor-oa C)L.l ctiapelâo, (que

,:::n ti. ç.1 i:~.rnE?.n te er-a, apenas, para Drixàs ou quc.~lidc.~dt?.S

que hoje em cji.a é u~.=-ada par-a quac.:..e todos), br-c:íC!:?letes,

1 ·-:, il
...... "t
fig. F3/31
,
Ferro de Exu de Oxumare.
Notar as serpentes e o uso
do círculo.

{ig. F4/l
Ferro de Oxumaré - fêmea.
Notar o desenho do triden
te que indica feminilida-
de e o quadrado no centro
que remete 'a piton que vi
ve embaixo da terra.
pu l ~-e.i ra 0::. f."? .id~~ e as f err.::--1mf.ê'n t.;1s correspondentes. o~. par2~mE:>ntos

sào o objetivo da maior parte do trabalho artesanal no Mercado de

Madur1:,)i rõ.-1, pois o ªd~ e o capacete e/ ou c1 coroi:":1 per mi tem s;.o l ui;:ties

estéticas de grande inventiva. Esta foi também, a causa do uso da

passada em torno do torso, te r se qenerali:~ado: ~-::-enc!o

uma superticie mais ampla permite o desenvolvimento da cena ou do

em todos os detalhes. Por exemplo, Dxossi tem vàrios rn:i. tos:,

qUi:.'11 casado com Oxum mas, num deles, come ped r· ,,~ (na

rnont21nha) com essa I"zc1b~ e [Link]:-1 o 21specto de uma p.::1ntera

Ct:?.ni:.1 iconograt:[Link] representada por duas on~as

dourado que se defrontam, cercadas por arabescos que remetem

folhagens~ esmaltados de verde-azulado sobre prata (fig. F3/1~!.).

A larga coura~a permite a representai~º minuciosa dos felinos em

posi i;:;;,"io de vi gil t!in c i .::1, bem como do que

representa a montanha (7).

3. Ferros: S~o assim denomi n i:1dos. C)S ~:;.imbolos

t:.r·idirn<'!!:ns.:i.c:,n.:,1is, qerê::lmente com uma base ou pé~ que -fe itos de

ferro~ representam os Orixàs Exu, Ogum, Oxossi, Dssanha e Oxumaré

Hoje, vemos que~ no Mercado, duas transforma~~es se impuseram: já

nào se usa apenas o ferro, mas também hastes e elementos de metal

dourado, cromado ou de cobre e todos os inclusive as

J-jiab_.:.~s têm sua representa~ào c.i frada na c:,bstrai;:i:':to dos ferrq_ 2_ g_e

7) O paramento de metal é vestido por cima dos aatarios de


i'··oupa···de-ban to. O adé ~ c1 cor-·oa e o Cê:1pacete são postos por cima
do lai;:o da cabe;a e a courai;:a vai por cima dos panos que enfaixam
o peito. A roupa-de-Santo é de complexo e detalhado simbolismo,
devendo ser retomada num estudo posterior.

'") e:
1 ..;..'-!
Os na sua origem africana, par·ecem ter

sido muito simples, limitando-se às pontas

Oxossi, às pencas de Ogum (8), ao tridente de Exu e as cobras de

Oxumaré. Com o fortalecimento de Umbanda e o desenvolvimento das

t.r:"'fcn i c:as artesc.~nai s, os muito comp 1 E?;-: os,

absorvendo parte dos elementos que compbe os ch"'1mados

r·isc_ado~, ( CACC I ATOF:E, 1988~ pg. "


'"\ "'r )
.'.::. ~ coni:=,ti tuindo ·-se numa

·· .;erd ade i. r·· c:1 ''[Link]<;:a'', -/'or·mc:-tda por· circules~, i'lechc"1s, F::str·E":J.E1s,

r.;::tc. D us.o [Link] destes Ed ementas pE2rmi te desenhar-· o :f..§:.!'.::.c.2. de

q u "~ 1 q u e r· 9..I· i >: /:1_ e / ou q u é:1 1 .i d a d e ( f .i g • 1=- :::; / ::-:.'1 <·? F .i'.~ / 2 ) •

J) Tridente: de c:!esenho quac:it·i::H:lo ou ff1citis

arredondado, assinala a presen<;:a do Exu macho ou fêmea. Simboliza

o número trés que é a din~mica de Exu; com o acréscimo do

ao número quatro encr·u:zilhada claro,

sincretizado com o tridente do demônio crist~o.

2) Circulo: no meio do desenho de ferramenta ou na

t. r· i den [Link]. , repr·r.-?sen tc?.1 a totalidade do mundo e està

liqado a E>: LI ' na sua qualidade de !3enhor da passagem, das

porteiras e de todos os caminhos.

Cartas de baralho ou ma~o delas: Pomba-Gira

cigane':\.

4) Pandeiro: Pomba-Gira cigana.

8) Vemos exemplares da simplicidade dessas pe;as no catàlogo dos


acervos da Cole;~o Arthur Ramos e da Cole;~o Perseveran~a, ambas
descritas por Raul Lody.

126
fig. F7/4
Ferro de Pomba-Gira de
Oxum, chamada Sete-Sa!
as.
Notar as seis pontas
de baixo que correspon
,
dem ao numero de Oxum
e a composiçio estili-
zada.

fig. F3/30
Ferro de Pomba-Gira Ciga-
na, de Oxum.
Notar o metal dourado , o
trabalho nas pontas do tri
dente e os outros elemen-
tos.
A coroa pertence a uma Po~
ba-Gira Rainha.
'.'.'.', ) o "s" ou meia-suasticas: usado, geri::1lmentE·,

como <:-t'? -fosse a guarda de uma espada, na ponta do tridente,

representa o movimento, o dinamismo.

6) Caveira: com ou sem o complemento de ossos,

- indica a morte e està ligada ao Exu-Caneira.

7) Cruz: é simbolo de Exu, nas qualidades em que

rnoré:'1 ou ferri::1ff1entas c:le

U::-:a 1 á, r-epresenta o Cristo crusci f i Cê:1do, si n c::r--et .:i. :z ê:1do com

0:-:3J.u"fà.

8) Cai>:bes: ou

ligados ao cemitério.

Espiral: é simbolo de Exu. representando o

movimento infinito.

10) Faca ou Ponteiro: está ligada à Ogum ou a Exu,

enquanto os sacrificadores.

11) Pencas de Ferramentas: r.. F.~mete Oqum como

artifice das artes e da agricultura.

12) Espadas: representa Ogum na sua qualidade de

guerreiro. As vezes é relacionado com Iansà, Oxum ou Iemanjá.

13) Ferradura: no imag inár- io €:;ourope·u, um

simbolo de sorte. Nos ferros conserva um eco deste significado,

mas tendo as pontas viradas para baixo, remete a Ogum, enquanto

caminhante, enquanto senhor de caminhos, e lembra seu sincretis mo

,·,~
J. ..:. I
com Sào Jorge-a-cavalo. E um simbolo de proteçào.

14) Prego de dormente: estes grandes preqos ou

tém de vir efetivamente de uma estrada de f E":r· r·o ::;e m

uso. Representam Ogum como senhor do ferro, dos veicules e da

segurança nas estradas.

Correntes: também, a Ogum.

F~:<:c"pr·esen t;,:1 atividade de ·[Link]:i e sua

construçào da cultura. Um informante, em conversa, lembrou que

·foi corrente, que Ogum subiu ao mundo, ensinar é10S

,-
homens as artes da paz e da guerra~ representaria, entào, o herôi

civilizador, por excelência.

J.6) Ofà: l'"emett:':, nê:1 or·.igem .!.~ 0>:ossi, mas hoje estt:t

ligado à Ogum e a Logun Edé também; é uma das formas mais usadas

!=)E•lo seu equilibrio e pelas possibilidades, que oferece para as

disposi;~es de outros elementos de modo harmonioso.

17) Fle>:a: c:hamadé1 ~~-tA, .~~ a flechê:1 que C::i::-:o~;si

lan~a para atingir um animal ou marcar um lugar. Ela Jamais

seu alvo e n~o pode ser desviada ou parada. Representa, de forma

r clara, o poder total e irreversivel das divindades ctônicas e das

f lon~stas.

18) Lança: representa o poder, a determinaç~o, a

direç~o, n~o està ligada necessariamente a uma funç~o guerreira.

Ern alguns Jerro:::., repr·esenta os r·amos das por

analogia, os vàrios ramos do saber.

-. 128
fig. F?/24
Ferro de Ogum, com prego de dormente, ferradura
e corrente.

)
J.9) Carcáz com flechas: é simbolo de Oxossi ou

Logum, na sua funçào de caçadores sagrados.

ligados a Oxossi ou recipientes onde ç~uanJa

ventos. Ouvimos, também, a chifres como

abund~ncia, donde se derrama comida: em D>:ossi

is,tc:i estaric:1 ligado ao seu poder de alimentador; em Ians~,

i:~ tr-· i buido à sua ligaiào com os mortos (à terra~ portanto) e com

- Omolu, o senhor da colheita fart ~.

2 1) Eruquerê 3U e ruexim: a parece

(J>:o!::.!::..i. ou Ians~. Representam~ r e aleza (Oxossi é Rei do e

F:ainha dos Eguns e dos E: u s) e o s obre os

espiritos s elvagens ( 9 ).

22) Arabesco que forma um arco sinuoso: geralmente

l igi::<.do a Logum; a sinuosidade, um tanto rococó, remete à crença

de que Logum é meio-homem / meio-mulher.

23) Balan~a: representa Logun Edê. E uma deriva;~o

do ofà_ e simbol isa c:.71 ambiguidade e/ou equilibrio deste

devidido entre os reinos de seus pais Oxossi e Oxum. Através <ja


r
balarH;a é sincretizado com S~o Miguel Arcanjo que a possui como

atributo enquanto protetor dos justos: o atributo católico perdeu

completamente seu sentido sendo reinterpretado a partir da forma


. - e recebendo nova avaliaç~o iconográfica .

9) SANTOS, Juana Elbein dos: Os Nagô e a Morte; F'etr-·ópci 1 i =·:


\.)ozes, 197,S .
.
.;

12'.;>
24) Folhas: sào o simbolo de Ossanha e representam

seu pr·ópr-· io jundamenj:.:..Q.·

'.2::,) Feixe de sete lan~as: Este feixe que dE: um

pc:,n to s.e e>:pande para cima e para fora é uma das que

permanece desde a Africa. Representa Ossanha e remete aos

das floresas~ às árvores e ao mistério das folhas, um dos saberes

mais fundamentais.

26) Serpentes: remete s,.e•mpre e

representa o movimento continuo deste Orixà (10).

27) Gr~lha: representa sempre Irôko ou Tempo. Esta

é bastante discutida, mas Adilson Martins acredita que

urna transforma~~º da escada que remete ao simbolismo da árvore

que representa a passagem do tempo nas duas direçbes do passado e

do futuro ( entrevista de fevereiro de 1993).

28) Arco-iris: simboliza Oxumaré. Hà quem diga que

o arco-iris é o aspecto masculino deste Orixà e a serpente o

aspecto feminino: tanto sua ambiguidade sexual quanto estes

siqnifica~ôes sào bastantes discutidas e nào alcançaram um

consenso.

10) O tradicional é que as serpentes apontem para direções


opostas, indicando o dominio do céu (arco-iris) e o das
profundezas (piton), mas hoje a vemos se defrontando como no
caduceu de Hermes ou multiplicadas em certos ferros. Estas
transformaibes nào afetaram o sentido básico que é o de Oxumaré
ser o senhor de todas as coisas que se ligam entre si para formar
a trama do Universo~ é o senhor da consecutividade.

130
29) Sol: esta ligado a Oxumaré, representando seu

caminho circular em volta da terra.

,.
Machado bi-face: é o famoso ligado e:\

Xangõ, enquanto senhor dos elementos.

3.1.) Livr-o: ê:1 Xangô c::nquanto senhor- da

cidade, legislador e dispensador de justiiª·

32) Cor-oa: representa Xangô como rei.

33) M~o de Pil~o: como é1p.a:~rece nos -·J --


\..1 t::' >:angô

està ligado ao elefante, animal real por excelência (11). Mas o

significado mais comum que registramos é que está ligado

realeza, como um cetro e à virilidade: o movimento da mâ:o-do-

pil2(o, tem claras analogias com o falo, o que se explica por ser

XangO senhor da grande descendência e de muitas mulheres. o

de inhame que consome incessantemente.

34) Chamas: estilizadas ou mais óbvias, remetem .).


(::(

XangO e a Ians~, os deuses igneos por excelência (12).

a sua presen;a entre os mortos •

.11) o rei depois da morte. E a met.amorfos1=: do


"O e:d ef c::int.e é r·ei
para o animal. ( .•. ) O pil~o, por exemplo é a encarna~ào do
elefante - é o objeto que significa o elefante.'' (LODY, Raul: Oxê
de Xangô; XVIª reuniào da ABA~ 1988 - pr. 10)

,... 12) LEPINE, Claude: An~lise formal do Pante~o Nagô~ in MOU[Link]


Bandeira de Alairà; Sào Paulo: Nobel, 1982.

131
fig. F3/34
Ferro de Oxossi que tem enrêdo com Ossanha.
Notar a lança com folhas, 'a esquerda.
36) Rel~mpago: representa Iansà como senhora dos

raios e tempestades.

:37) Ta~a: representa Iansà como mulher e r··ainhi:'"I.

Està ligada ao sincretismo com Santa Bárbara.

38) Pássaro: n?prE?senta o f:'..i..~., passar·o mi [Link] das

iüLil h€?.r··es por o mistt,:r-·io do ciue pro-fundo ou

inalcan;ével. Em ferros de Xangô, representa Xangô Airà que

e: om O>: a l à •

Adê com chor~o: PSi:.i!:1


,.
<::{

c:.'t Cl>: u n . ' quando em cobrE·, a l an'::'-~. Podem

c:·,q::iar-·ect:::~r- ad~s tr,u 1 ti coloridos [Link] CL:umaré.

40) Abebé: espelho ou abano que remete a Oxum e/ou

Iemanjà. Sigrd. f i [Link].1 o ventre fecundado e é o grande ~-imbolo da

Iyabi1s.

41) Lua crescente: simbolo feminino, nas conversas

sempr·e s:,e cliz: "est,~ ligada à mulher, ao poder de mt.\lhel"·". E um

signo muito antigo, atribuido à vàrias deusas-mães fenicias (13),

mais tardt:? atribuido à própria Virgem Maria e que simboliza o

poder de regenera~~º' de perpetua~~º' o poder da mulher enqu,:::into

senhol"·a da vida.

42) Peixe: ligado a Oxum e a Iemanjà, representa a

multid~o de filhos gerados que se destacam do corpo materno como

13) SANTO, Moisés Espirita: Origens Orientais da religi~o popular


portuguesa; Lisboa: Assivio e Alvin~ 1988.

132
escamas e também, representam o elemento àgua sob o poder dessas,

43) Dupla Voluta: representa as ondas e as ,\gui::\S

de Iemanjà ou Oxum.

44) Coraç~o: geralmente em dourado, representa o

amor rom§ntico e/ou sexual e està ligado a Oxum.

Flores: quando de péti::1 l ,,'IS bem redondas,

D>:um e/ou a IemanJ~. Quando c:om

~emetem a Obà e/ou a lansà. Representam a feminilidade.

46) Rosas: estào ligadas à Pomba-Gira. Em dourado,

à Pomba-Gira de Oxum; em prateado, a de Yemanjà e em

ter1~0 àlgumas Pombas-Giras do Cemitério como Maria Mulambo

outra~,;.

47) Estrela: s:,imboJ. o de Iemanjé. Representa

rnuJ.t.:i.dào de 1 igadi::1 ..
c:I

de beleza e à seu sincretismo com Mar·.i.a

f".:-ste à etmologia do nome que cH:zer

"Senhor··a do Mc,1r 11
e por e>:tens~o "Estrela do Mar".

48) Barco: é simbolo de Iemanjà. As vezes aparece

,- em ferros de Oxum ou Logum. Representa o comando sobre as àguas.

49) Adjás: é a campainha que representa o poder de

a autoridade incoteste.

133
fig. F7/33
.,
Ferro de IemanJa.
Notar o metal prateado e os elementos constitu-
tivos da peça: o adê com chorão, os peixes, . as
, -
estrelas, o barco, o circulo e as representaçoes
das ondas.

)
)
'.:':<()) Quadrado: em placa ou ··1a2;.:'1do, es t.é'.í l .igado ~
c:I

represen ta~ào da terra, do aiê, do mundo vivido pe 1 os hc:,men':',.

~:.'ti) Idés: c:1parecem como brai;:aletes em c:11 guns

grau de hierarquia ou, ent~o, aparecem representando brincos.

4. Guias: sào os colares que C)S iniciados usafn

em volta do pescoi;:o ou a tiracolo. Têm vàrias fun~bes: é como o

c:l:.i.z L..épine, um indice que aponta a identidade e a hi s tór-· :.i. ê:I de

vida de seu portador; mas, ele, em si mesmo, é um icone, também,

pois é o retrato, imagem presente de um Orixà sem rosto que se

e:-:pressa nas cores, nos materiai-, na forma do aderei;:o

lemanjá do colar- todo cristalino, a mesma que se

representa no colar onde as contas de cristal se intercalam com

contas azul-marinho. Classificamos os Colc:=1r-es por formas,

cor-es, cerimônias e Orixàs. Como é de se <?sperar ,

classificaç~es se cruzam, isto é, um colar segmentado,

loui;:a, br-anco, de dezesseis fios, é um Colar de Oxalá usado por-

uma iaô - quer dizer, nenhuma classificaç~o por si só, determina

~ a significaç~o emblemática do Colar: é necessário cruzar todas as


,..--;
informaçê:les. Se D colar- acima referido tiver apenas um fio

per-tence a uma pessoa iniciada há mais de um ano ou a uma [Link]

nào-iniciada; se tiver algumas contas azuis~ é de Oxagui~,

jovem; se for fechado por- uma conta de cor, determina a presenc;;:a

poderosa de outro Or-ixà. Em suma, a Guia nào tem "enfeites",

nela, tudo deve ser lido com precisào.


r

134
a) Quanto à forma: Os colares podem ser de dois

tipos quanto à forma: segmentados ou intE.°'!lric;:os. Os colares

:::,,eqmen t.:~dos s~o feitos de pequenas particulas: contas,

rodelas de chifre ou de semente de dendezeiro ou elos de ac;:o. Os

inteir-ic;:os sào feitos de fios de palha tranc;:ada ciu de

tiras de couro ou, mais raramente, de uma ónica grande argola de

metal branco ou dourado. Os colares segmentados s€:(o os ma i !:,

comun 1; ; , tanto que a e>: pressào (3.L1ié:1, !z:.e refE?re norm;::ilment~? ao

colar feito de contas e os outros colares recebem nomes especiais

que os identificam: o colar todo feito de búzios se chama

o dF.? r-odel as de c:hi fn:--:1 ou de outros m,,:[Link]::1is se chama L:."lqQ_ibà_; o

de elos de aço é uma ~orrente. Os colares inteiric;:os da palha sâo

usados. nas. iniciac;:é:íes ou obrigac;:bes e se denominam mç:ican; os de

couro, usados por Oxossi, nunca vimos receberem nome especial. Os

de metal inteiric;:o, belos como uma escultura, mas dificeis de se

v1:?r, s,.ào os §'.!_r..9...c<lbê de 0>:um e Iemanjt, (fig. F6/2:',).

A forma do colar no corpo tem duas referências: o

pescoc;:o e o umbigo. Alguns colares sào usados em volta do pescoio

como o kelê, colar de contas, usado bem rente, como uma

e o argolào que se apoia nos ombros e é trabalhado

com folhas, peixes, flores ou estrelas de metal. Outros, a grande

maioria, têm como centro de referência, o umbigo: o colar tem de

ser grande o bastante para ficar bem abaixo do umbigo, mesmo

quando é levado a tiracolo; isto, porque o umbigo é um dos

centros do corpo e uma das sedes da vida, devendo ser preser-vc,do

e protegido magicamente (a cabec;:.:::1, apoiada no pesco,;;:o, é

protegida pelo turbante e pelas firma~:; que fecham o na


r

fig, F6/26
Argolão de Oxum.
Geralmente esse colar vem aos pares. f muito raro, hoje em
,
dia, e esse exemplar foi o unico que pudemos fotografar.
nuca). O colar é levado a tiracolo pelos homens, do lado direito,

sào a um Or-i:-:.:':1 feminino. No entanto, alguns Q_ri>:S\.g_ usam as Guias,

obr-igatoriamente tir-ac:olo, dos dois lados: sào DS

usados por Nanà, Oxumaré e, às vezes, por Omolu e simbolizam a

total idade do [Link]-s;.o abar-cad,::1 por esses Dr-L-:.às, pois. Nanà é a

senhora das raizes subterr~neas do mundo e Oxumaré é o dono das

l .igé:1~bes do muncjo celeste ([Link]-is) com o mundo c:tô[Link]

(piton).

As Guias de contas podem ser feitas numa sequência

igu;,:11 de cores ou combina<;:des de cores, sem nehuma inter.. r-up<;:ão

mas frequentemente, levam contas maior-es, de uma s6 cor,

ou mi::1tizé.:1das que "-fecham" ou que s.e .intercalam no curso do colar-:

11
fechar-" C) colar de tal maneira que fortifiquem e conser--..1em o

encanto màgico que reside nesse objeto. As [Link].s. podem ser- da

mesma cor- das demais contas e se r-eferirem ao mesmo Orixà ou

terem uma cor diferente, ligada a outra divindade relacionada ou

que se quer homenagear - por exemplo, é comum as Guias de Ogum

levar-em uma ·fir-m..e. dt:? Iemanjà, pois esta é sua m~e ou as Guias de

Xangô levarem firmas de Oxalá, dada a relai~O entre esses dois

Qri:-:à~~. As firmas e o número de fios ou de contas de um colê.:1r n~o

e [Link]: uma (um) .:i.aô usarà geralmente um colar de múltiplos

-f' .ios, chamado §?.dilo.9..!Jm. Esses fios, con·for.. me divindc.~de s~o

doze, catorze ou dezesseis voltas.


(
Uuando é 1'ei ta obrigc.H;:i:!o de SE•te anos, o

iniciado recebe um colar especial chamado l'.. UffiQ[Link], feito de

contas marrons intercaladas com pequenos cilindros de coral; este

136
colar, e:-: tremamente singelo e discreto é o de maior poder no

Candomblé: ligado a Iansan, Rainha dos Eguns é o único

que acompanha o devoto à sepultura. Encontramos o rumgebe a venda

no Mercado, mas é voz comum que ele deve ser enfiado na própria

casa pois demanda cantigas e preceitos especiais (14).

Os f!L~~ varic,m de largura e grossura, conforme o

[Link] desde a inicia<;~o e s~o bordados com búzios e

contas das cores dos Or-i:-:à~ consagrados; nas duas pontas, na nuc.:-1

e embai>:o do umbigo, terminam em duas "vassourinhas" de palha.

b) Quando ao material: como vimos~ vários

fnater i é1i s podem usados na confec<;ào do lou<;as ou

por·cf?lana ( contas), coral, palha, búzios, metal, etc., sob a

sejam utilizados materiais sintéticos,

(plásticos ou nylon).O fio que atravessa as contas é de algod~o,

em alguns casos, bem encerado com cera de abelha, para aumentar

~=- Lia durabilidade, endur·ecer sua te:-: [Link] a e / ou por razeles de

"teiti;o".

o principal mais comum materic:11 usado na

confec<;~o das guias, s~o as contas de louça ou cristal, vindas da

Tchecoslováquia ou da Africa. Os tamanho básicos das contas s~o o

bem pequenino, de cerca de 2mm. de di~metro, as pequenas, de +

0,5 cm. de di~metro e as maiores (de cristal) de cerca de 1cm. de

c:I i·àmetro (estas últimas s~o muito caras, usadas geralmente como

firmas; um colar longo de contas grandes de cristal é um

14) Adilson Martins apontou para um fato muito criticado no


Mercado: o surgimento de RUNGEBES de outras cores e contas~
apontadas como sendo de outros ORIXAS. Esta é uma inova<;~o que
r
nenhum dos meus informantes pôde aceitar.

137
objeto de grande valor econômico e religioso).

ger·almente cilindrica~,, de, ou menos,. ou cm. de

comprimento~ de louia ou de cristal; outros materiais~

também, ser usados em firmas, como a laterita marrom.

As contas podem ser foscas~ lisas ou rajadas~ de

lou~a ou de porcelana ou podem ser de cristal [Link]·en t1:.? ou

colorido

"O mc:[Link] empregado depE·nde de como foi


feito o Santo. A porcelana branca està ligada
a Osàlà; contas de louça correspondem à
órisàs assentados em vasilhas de barro,isto ê,
a quase todos, s alvo Osàlà e as divindades
( ... ); as contas de lou;a lembram,
por sua composiiào~ a mistura de àqua e
barro com a qual foram criados o mundo e o
hc,nH2m. ( ... ) U cr-istaJ. e\1oca~ com !:::.ua
trc:1nsparf~ncia, as àqu""'IS doces €'2 salgad,:.'IS."
(LEPINE, 1988, p. 25).

É
Os palha-da-costa. mocans. se

reft:?.r-em especificamt?nte a um Ç)ri >tA~ mas se referem ao fentimeno do

r-·,i,iscimento ~ da abund~ncia de vida e ao poder que a palha tem de

proteger e controlar uma for;a màgica demasiado jovem e

abundante. Os colares de búzios estào ligados a Nanà, Oxumaré ou

Omulu e tém múltiplos significados, dentre os quais o mais

aparente é o de riqueza~ fertilidade, pois os cauris s~o usados

como moeda na Atr-ica. Os colares de marfim~ usados

branco e ao elefante, animal ligado à e >..


c:I

divindade em toda a Africa. Os que levam coral vermel rio est~o

ligados a Yansan por causa da cor rubra e por que o coral é um

sinal de sobrevivência e Iansan, Rainha dos Equns, é, também o

único Orixà que os enfrenta; e estào ligadas a Iemanjà, por ser

138
uma substància de origem marinhr.:1. O 2_gqL~i é uma c:onté.1

de cc,r- azu.l ou intensa, quase como (:? é

con S<':i{] r· i:'ld a a Oxagui~, por vàrios motivos, primeiro, porque está
.,.
.:.1 i;;egundo, sua or ige~m é

sobr·enatur·al terceiro, porque o azul é, também, o negro e

0 :,- :agui~, apesar·· de ser um Ü>:alá, tem uma história de Qdú_, isto

O Jaqdibà de Omolu é uma das Guias mais complexas,

c::c1ré:1S- P. perigosas do Candomblé. Geralmente é negr·o, feito de

,,.. ode 1 i,,<s c or· t a,da s. do chifre-:-e do boi ou da c asca do c oco do

dend&?zei ro, 1cm. de di§me t ro 1 nim. de

enfiadas umas por cima das outras, formando um colar semi-r·· .ig ido

e grosso. O lagdi~~ vermelho, muito raro, é feito de rodelas de

coral e o lagdibà branco, de Oxalà, que jamais vimos e, do qual

sb ouvimos falar, é feito de rodelas cortadas da casca do ovo de

avestruz. Todas esas subst~ncias tém em comum, o simbolizarem um

ato de afa s tamento da morte: o boi é vida e alimento e o chifr·e

descendência e o f uturo; o dendezeiro, planti:.'I de

Ogun tem a fun~~o inequivoca de espantar os mortos; o coral, como

vimos, é sinal de sobrevivência; e, o ovo da avestruz, esvaziado,

é onde se conservam as provis~oes de àgua para se atravessar um

deserto ou cerrado (15).

; O couro é ligado à Oxossi por ser ele o ca;ador e

n a~o é de Ogum, pois ele é o ferreiro divino.

- -- - - - - - - - - - - - - - -- - -
.l ::, ) Em outubro de 1994, em Londrina, Paranà, vimos com o pai
Fernando da Costa (Fernando de Oxalé) um laadibà de (h:a lá,
branco, de marfim que ele afirma ter vindo da Africa.
e) Quanto às cerimônias: P1s [Link] ~:.,:.:- difer·encii:1m

con-for-me cadc::1 cerimbn.:i.c:,\ ou cada passc:1gem hier-àrqui c2.. A

rnodi ti ca~ào básica é a mudan;a do número de fios: o devoto (':,

quandc, usa um colar ~?..imp 1 es cje um fio;

quando plenamente iniciado~ usa um ou mais colares de múltiplos

fios (f-'dilog_um); após:, .1 ano de iniciaç:~o~ volte:~ a usar um colar

simples.

Alguns. colares tem uma participa;~o expressa nas

cer-.i.mônia~:; como o r·,LtJng,ebe que como \limos ~ marca ,:1 obrigaç:i:':i:o de

(.::. o st2:1tus. clt? ~~..Q_Ç1min. Outro colê.'lr- espec.i·f:[Link] de uma

cerimônia é o kel0. uma gargantilha grossa~ com fios de todos os

que :i. n ter- -f E~rem no enredo do iniciado e que é um dos

elemf,?nto mais. importantes dc:1 feiturc:1--cJe--bc\nto. O kel~. é pesado (;e

bastante apertado no pescoç:o~ simbolizando um jugo o

pesco;o~ e lembra os encargos que o iniciado aceitou junto com os

p r- i Vi 1 ég i OS de O altar vivo de um deus. o t~o

importante que està sempre protegido dos olhos profanos por- um


r

p,::1no br-anc:o que enrola sobre ele. des.c:r- :i. to

anteriormente~ também participa das cerimônias de inicia~ào e sua

u ti 1 idadt"? é "dar di reçào" ~ isto é~ proteger o poder que come~a a

se desenvolver~ ajudar o corpo possuido pelo deus a se movimentar

na dire;ào certa.

!'•'las talvez a cerimônia mais marcante da qual

pc:irti ci pa sejc::"1 a lavagem das contas. o é um

instrumento litúrgico~ uma ferramenta sagrada 1 portanto deve ser

<::;acr-amen [Link] que forma e COrPS se

transformem num elemento numinoso - nessa sacramenta~~º o colar é


/"

140
l E:1vaclo em éguas ele ervas maceradas, do mar ou do rio, às ve zes,

no si.."lnguf,?, como um pr-imeir-o pc:1sso n.;:~ admiss~o de um f~biêHl ou b

repetido, a [Link] em que <?sgot.a seu poder Cil.l quando ·for

conspurcado (16).

d) Quanto às cores dos Orixàs:

.---.,
Exu: contas pretas (ou indigo), vermelhas em

;,,11 gun ~:- casos, branco. Usa a conta de laterita que é

muito raramente, a de cristal.

Ogum: utiliz21 c:1zu 1-mar-inho que

o 21ç;:D DU cor r·en [Link]-, desse pr6prio material, com


r
miniaturas de ferramentas de plantio, .de trabalho operário ou de

arte. Mas Dgun Megé, o mais velho de todos, pode usar §_egui_ bem

escur·o; Ogunjá, Ogun Alabegdé, Ogun Onirê, usam contas verdes,

reprl;,sen t,;:[Link] a marj.ô e Ogun Popa, nome que o Ori>:á toma em

terras jéjes, pode usar contas vermelhas representando o sangue.

0>:ossi: o caç;:ador cósmico, usa contas C:tZLliS

c::[Link]·21s, do aç;:o misturado ao branco de Oxalà. Mas Ibualama, I n 1é

ou Erinlé, Otin, s~o qualidades que usam o azul-turquesa.

assanha: usa colares verde e brancos, sob

,,,\lega ç;:ào que seu colar é cinzento, mas tal cor n~o e>: is te no

mercado. Nossos informantes colocam que ele usa verde mesmo, por

causa das folhas, cujo mistério representa.

1.6) '·JERGER, F'ierr·e: Bori, Primeira Cerimónia de Iniciaç;:~o ao


Culto do Orisà Nàgô na Bahia, Brasil, in 0160risà, .1981 •

141
IrOko: usa colares verde-escuro ou, quando tem

.:[Link]ênci2 de Angola, usa búzios:, ou "pu>:.::~ todas as c:or-e•s". Ee tE~m

:i.n-f luênc:ia de pode usar- um c::olE1r de c::ontas:, de

cer~mica ou de palha.

Omolu: usa contas marrons com riscos pn,:?tos ou

,::1lternê1das de br-anc.::1s., pretas e ve-:rmc,.2lhc.~s, s;E::-ndo porém, o lêf:qd:i.b~

preto, seu colar por excelencia. Obalu2yé usa o branco e o preto;

Azoani usa contas marrons rajadas de preto e branco.

Oxumar~: usa, basicamente, o verde e o am2relo ou

e:, ver.. de e o laranja, em cont2s altern2das ou contas r.. .;;1 j a cl 21 s

ness2s cores. Mas um dos mais belos colares de Oxumaré é o feito

de serpente, seu animal ·-[Link]. Adilson

i::1pontcu um tipo de argolào, dourado, que se arti cu J. ê1 doi

[Link]-E·?mi--cí rcu 1 os, como sendo desse Orixà. (entrevista de

df:? J.993)

XangO: é o dono da pedra, da madeira e do fogo,

::::.or t.ê1n to, suas cores sào o vermelho e o marrom, às ·-..,ezes,

.:[Link]:aladc:.~s c:om o branco. Airé Intila, por exemplo, sempre usa

um colcH. branco de Oxalà, além do seu próprio; Xangô ,Jacutà,

Dgodô, também usam o branco se alternando com os tons

E·:•ncar. nados.

Iansan: c::omo Xanqô, seu 02sposo, usa é,1s mesmas

cores encarnadas, mas, como Iyabà, usa contas de cristal vermelho

vivo e usa o rumqebe. seu colar por e>:celênc:ia.

14:2
Oxun: dona do ouro, usa, sobretudo o c,·[Link]

,,,1marPlo e cintilante, assim como pesadas contas de e o

argolào dourado, enfeitado com apliques de folhas, flores, peixes

[Link]- c:ora<;;:tie:.. 0>:un I j imú Oga usam contas de

tonalidades mais escura, por serem bem velhas e Oxun C!botô usa

contas de louia amarela, por estar ligada ao cultivo de terra e à

- [Link]ntEts:-
Logun Ede: filho de üxossi e de

azuis do pai e as de cristal dourado da màe,


CJ>: un,

compondo
l E'\/ci

um

dos mais belos colares do Candomblé.

Euá: divindade muito di·fici.l de "fi::1zer 11


, i::dém do

cristal vermelho, usa contas rajadas de verde, amarelo e vermelho

ou r.1mar--elas rajadas de vermelho. Abomina CJS búzic:is, pois

pertencem a Omolu.

Obá: a terceira esposa de Xangô, além do cr·ist al

vermelho, usa contas laranja ou cor-de-coral.

lemanjá: r·ainha, guerrei rê.1, usa

t. r an s pc:, rE':n te do cristal pois participa da gera;ào primordial do

mundo, assim como o ar·goJJ!i9. prateado, com enfeites de pei>:es e

estrelas. Yemanjà Sobà, a mais velha de todas, usa um colar verde

de cristal, como o limo do fundo; Yemanjà Oqunté, ligada a Ogun

usa contas de lou~a azul-marinho ou peouenos corais, intercalados

143
com as contas de cristal.

urna contai riscada de azul-escuro ou rajada de azu 1 f.?.

VE~rmf.? lho~ contas mimetizam o r"O}(O que s:.eri,::1

verdadeira cor. Obà Iyà é uma qualidade que usa contas de cristal

i:.'iZU 1 bem escuro.

Oxalà: usa contas brancas de porcelana ou lou~a ou

...,....., rncir-·firr,. [t;-:agLti~~ o f)>!cilá jo ..1err1, usa c:ctntr..~s de seqLti.~ inte;rcê,lê~das

branco e jà vimos um colar de Oxagui~ com contas em forma de

como as raizes do inhame~ fechado por quatro de

mar··f .im .

maior parte das lojas do Mercado de Mac:lur·eira

tém e:.sas para vender ou as contas e firmas a\<'U 1 sas

apesar de todos dizerem que os colares devem ser feitos na

muitos sào comprados ou encomendados no comércio.

5. Cerâmicas e Ibás: Além dos paramentos~ ferros e

·f f,2r r [Link] ti:<s ~ Mercado de Madureira produz e vende uma imens.;~

quc:ffitidac:le ele objetos que formam a bai>:ela do Santo. Esses

objetos se dividem em dois grupos: os vasos e alguidares para uso

c::ircunstancicd t?. os ;\,_bá._§..

Us primeir.. os incluem quar··tinhas de vàr-ios

tamanhos, com ou sem al~as, feitas em barro vermelho~ argila ou

1 ouc;;:a branca. Estas s~o usi:<das para o culto de Oxalá~ Iernanjà

144
'

pr,::1 º'=- df.::-USE'?S que Lépine dE·nomina II


df:?Use!,; f r· ios 11 , [Link]

as demais s~o usadas para os deuses

ou para as deusas, como Ians~, ligadas ao fogo e

guerra (fig. F3/29 e F9/11). Os alguidares incluem desde pequenas

cuias até terrinas e travessas bastantes grandes, com cerca de 30

F9/14

f.!: F9/13), ~nforas com até 1 m de altura, s~o feitos e <;iuard.:::idos

e as bebidas à base de ervas ou

outro liquido que seja usado como oferta votiva ou num ritual de

limpezi::1. Nos é:1lguidé:1r-E?s. é [Link]:~ a comid~.:=.<:1e-S,::1nto, ger·alment.0? a

,,:1lguma

c:c,[Link]êncic:~.

CJs :i.bL1~2. compbe-•; .e de uma bc.1cia gr·ancfr::,


0
dentro da

qual se arrumam uma sopeira e vàrios pratos, cujo

c:onfor·me o Dr i >: i!:1 a que se destinam como a que vemos na ·fig.

utilizados para O assentamento dos Santos na

iniciaç~o e, muitas vezes, trocados nas festas-de-ano: c1brigam

as pedras, os objetos que s~o o fetiche da divindade e constituem

um dos elementos mc::1is .:[Link].c:1ntes do Candcimb J. é. Fotogr·c1famos

trés tipos de i bàs: os de 1 ou~a pin tc1da ~ os de bc1t-rD P os de

rneta 1 [Link] 1 hac:lo. Os primeiros s~o os mais comuns e podem ser-

f::. :i. mp l E;,s 1 ou<;;:as pintadas com flores que remetem Ori>:t~s ou

podem ser pintc1dos por um artesào especializado com um motivo

E'!Speci 1' i co (fig . Fll/12 e Fll/21). i;di lson nos

útlimos cinco anos, se especializou neste trabalho e seus

vendidos lojas do Mer-cado ~ além de serem

encomendados em seu próprio estabelecimento. Os temas básicos sào

uma t'·epresentc.H;:~o do ÇJrJ>:~, usando as roupas~ cores e ferramentas

'
fig. Fll/23
Ibá de louça ~intado com flores azuis. f usado para lemanjá.

fig. F3/28
, ,
r- Pratos pintados por Adilson Martins para varies Orixas.
Da esquerda para a direita: Oxalufi, Oxumaré, Oxa~uiam, Logum
Edé, Iemanjá e Oxossi. O azulejo pintado é para "dar 4e lem-
brança" e concerne~ Iemanji Sobi.
fig. Fll/25
, .. t
Iba de ceramica, pin ada com flores, no estilo da louça na-
_ii. Esse ibá veio do vale do Jequitinhonha e é peça rara no
Mercado, apesar de existirem exemplares, no mesmo estilo,f~
bricadas aqui.
da qualidade particular de cada cliente, ou a representa~ào de

.:.~nirnais=, simbólicos, como o pavào para representar Oxossi ou

prateados para representar Iemanjà. E um trabalho que

come~a no desenho e acaba nos fornos, exigindo uma minúcia e

paci én c:i. ,,\ que s6 um t:[Link] de Oxalá pode ter: muitas de nossas;.

entrevistas (formais e/ou informais) se desenrolaram entre pastas

de tinta cuidadosamente diluida, esponjas que esbatiam uma cor

~t~ que parecesse aveludada, gestos de uma exatidào absoluta para

qUE• D dourado, o friso, a fita de uma

Os ibà§. de bé,r-r-·o podem ser-· de difE'21'"E:[Link] tipos: os

dF.2 pinta l gc:.~cJo, em dimensóes diminutas,

de1::.tin,:1dos:, ,:1os erês ou a Vungi (17); os de trabalhado,

imitando a lou;a dita marajoara, usada para Oxossi e Logun Edé (o

dono de uma loja diz que tem vendido para XangO e Ians~, também)

(·f'iCJS. F9/ 1 :'5 <'2 Fl0/'.26). Sem mas cobE~rtas por um

n?nci.:i. l hado de com cont.c:1s e/ou búzios,

[Link] e vasilhas usadas no culto a Omolu, que

destacam nos monstruàrios. O terceiro tipo nào se encontra triais

no Mercado, a nào ser muito raramente, por encomenda e prec;:o


r
muito alto: é a famosa lou;c:i naj§:. que é de um gr~o muito fino,

qua!::-e translúcida e pintada com traços florais estilizê1dos em

branco ou marrom, sobre o fundo de ocre-avermelhado.

lou~a de alto forno que vem do vale do Jequitinhonha, é imitada,

com o mesmo padrào ornamental em barro mais grosseiro~ e ser·ve

17) SANTO menino que, por ser de Congo-Angola, n~o analisamos


dis<::-ert.a;ào.

146
fig. Fg/12
- .
Porrao de ceramica com deco-
...
raçao em ocre-avermelhado.
f de uso corri~ueiro.

fig. F9/13
\ - .
Porrao em ceramica, pintado
de branco, decoração em ver-
melho, representando bambus,
. ...
eruex1m e relampago.
No centro, a figura de uma
N f N
iao possu1da por uma !ansa
,
Bale, uma deusa ligada aos
mortos e que se veste de cor
branca.
fig. F9/24
Um porrão com a representação da cabeça de Cristo.
Apesar do cuidado da pintura, não pode ser usado
, -
por Oxala, pela sua cor de barro e nao deve ser u-
sado por outro Santo, em virtude do sincretismo en
-
tre Oxala, e Cristo - a nao ser, eventualmente, por
um XangÔ Airá ou Intila.
Ians~, Xangô, Dxossi e Ogun, de modo geral (figs. F8/33 l?

F LL/2'.'5)

Ds -f otog r é:1 f amos:,

quat.r-o, em todo o Mercado) e muito caros, de dificil l impez.::1 e

conserv;:1;ào, sendo que II


Bi ra II E? Car 1 inhos foram apontados como

artes~o responsáveis por eles, possivelmente . As pe;as s~o de uma

be 1 E·~-: a impressionante, lembrando artefatos cretenses ou

( i' :i.q. F8/2) : o metal é lat~o dourado ou cr·omado, trabalhado

repuxados e abaulamentos, com motivos de ·f 1 ores •?.

que,em ·formei e-;; númer-·o, a det.E!!r-mi na dos,

Çk :i :,-: s!.'.°=2. ( f i q s • F 9 / 2 O e F 9 / 21 ) .

As gamelas de madeira que pertencem a Xangõ

de alguns ibé1!:- e esti~(o entre os objf.:?tO!::- mais espléndidos

-..·t:.~ndidos no Mercado (fig. F7/29). Sobre a gamela de madeira

e rústica, coloca-se uma tampa de metal prateado ou de

cobre minuciosamente, qeralme•nte com motivos de

trii:.-=ingulos (que remF!!tem ao labá) ou de chamas

encimada por uma série de elementos que remetem ao Orixà. Os mais

comuns ::::._ere!::., e::, coroa do rei, um livro al::lertD e

mâo-·de-pi 1 €:io. o resultado é um artefato de cerca de cm de

compr-imen to com quase 80cm de altura, em geral. Estas c:limensôes

podem !:.er ,::1crescidas quando €1 gamela repousa sobre um <C1 l to

pedestal de metal, completamente recoberto de motivos florais que

representa a mào-de-pil~o e pode ter cerca de lm. de altura como

vemos na fig. FS/28.

6. Esculturas: Como vimos no capitulo anterior, a

147
fig. Fa/2
. ,
Esse prato faz parte de um 1ba de metal. usado por Oxum.
Notar a decoração da borda que representa a maternidade no
tema da fava com a semente.
f· .um dos mais belos exemplares da arte religiosa do Candom
,
ble, no Mercado de Madureira.
escultura em madeira ou bronze um dos fatores mais

caracteristicos da Nigéria, de onde se originam os contingentes

jêjes-nagos. Essa arte escultôria se perdeu no Brasil, durante a

escravid~o e fc,i, de certo modo, reconstruida no ~mbito dos

Candomblés .

Raul Lody, catalogando vérias c oleçõe s do

Nordeste, registra exemplares importante produzidas no Brasil,

algumas peças que sào cópias de artefatos africanos com um Exu,

em gesso pintado (Cole~~º Arthur Ramos: peça 05) e outras como a

Nossa Senhora com oxês que é uma transi~~o entre a iconografia

católica e a afro-brasileira:

Confeccionada em madeira, apresenta o braço


direito articulado, seguindo postura e tipo da
imagem de Nossa Senhora que leva o Menino Deus
no braço. A escultura é envernizada e apresen-
ta Oxês encaixados nas cabeças por pregos de
ferro. Nas costas exibe uma espécie de escudo
oval entalhado, exibindo meia-lua como motivo
central. Ai ressalta-se a pintura pontilhada
de tinta branca sobre a madeira. Seria uma
importante relaçào com o orixà Omolu~ A escul-
tura exibe fios de miçangas na cor vermelha em
várias voltas. Importante observar que o ver-
melho & cor profilàtica nas religibes afro-
brasileiras. Provavelmente uma escultura dos
orixás Iansà e Xangô. Objeto de uso ritual no
peji.
(LODY, 1985: pg. 42/ tomo 162)

Nesta Cole~~º Perseveran;a existem mais seis

esculturas do inicio do século com essas mesmas caracteristicas:

a imagem católica sendo completamente remontada iconográfica e

iconologicamente. Este exemplo de sincretismo demonstra que esse

processo foi mais do que um simples acobertamento mecênico, mas,

sim um verdadeiro diálogo entre dois credos, entre dois sistemas

148
\

de linguagem que se fundiram num terceiro discurso que desse

conta da realidade. Lilian F'estn"' de analisando ê:1

presença da Grande Màe no imaginêrio como

dt~ssa leituras iconográficas a

pr·oc.i~ssão da Senhora Sant ' Ana de Japuiba, na qual as figuras de

Benedito, Sagrado Coraç;:ào de Jesus e Sant'Ana, a partir das.

e:: C:) r- f~ s:. da!;,. i magenr:;, no das

t.1·· adi. ç;:bes orais, se confundem e acabam por "·fun c:[Link]::1r-" tõ:1mbém,

como Exu/Omolu, Oxalà/Omolu e Nan~.

o Candomblé nào privilegiou Ô:I

E,1r'I tr·c::,pomór·!' i Ci:~ como desen\1c:, l vendo

mais abstratas como marca de identidade. Hoje! a

~magem predomina na Umbanda, onde o processo de sincretismo e as

multiplicaç;:bes das entidades tomou grande vulto. No Candomblé~ a

im.:=1gE~n fundi:':1menta l mE-'n te nos E>:us ~ permanecendo

r"elativamentf.-? raras as esculturas articuladas (qual imag1:2ns-·df!::-

roc2.) elos c:,:::'\boc .los ou e"<!:::. que n:::>pr·esE-'n tam f:bor--g_g_:~ ,~/ou Iy abàE. como

~ a Sereia (tomo 024) que integra a Coleçào do Instituto Geogràfico

e Histórico de Salvador.

As esculturas de Exu seguem dois tipos~ ambos com

paralelos nos catálogos de Lody. O primeiro tipo, o mais comum é

o E>:U de construido a partir de um corpo c:ilindrico,

levE;-mente estreitado no primeiro terço em cima, para formi:"<r um

pescoço que c:abeç;:a Neste cilindro sào

soldados os chifres, os braç;:os e pernas feitas de vergalhâo fino

e o rabo. Nas màos carregam uma lança ou um tridente. Esta imagem

que "foi por· Cay-·neiro da Cunha, permanece, S8fft

149
mod i ·f i Ci:H;:bes no Mercado de Madureira, é encontrada em toda!'"; as

Carneir-·o da Cunha os E>:US que

f-.?ncontr-amc:,s;. no nas décadas de '.."2()/:30 com peças

apontando que, ao mesmo tempo que houve mod i f i cac.::t':ies

de representar E:-:u figura [Link] te, nào

soluc.::~o de continuidade. As modificac,::óes mais nott.~vei ~:;

referE.-:,m-se à mudant;:a que sofre a cabeleira que perde a aparéncia

de crista (nem sempre) para acentuar o aspecto faliforme e

feic,::bes que substituem as caracteristicas tribais africanas, por

tr-,:1c.::os f i sionômi c::c:,s br·é:1E-i 1 ei ros. "Com efeito, o que penni::1neceu

r··e-:~cr .:i. ,,,ido porém foram seus sinais dic:1cr1. [Link], os elementos

:[Link]-·es c:!e [Link] sentido E· -funr;;:?.:io ( .•. ) 11


(Cunha .i.n Zanini,

1983: pg. 1009). Nas peças de ferro, a atitude rigida dos bra<;;:os

se torn.":"I mais solta e estes se descolam do cor-po; ,:":IS cabac,::as

desapar-ecem em favor dos tridentes (atr-ibuto do diabo católico) e

da lança que remete ao simbolismo fálico deste Orixà. cr-ist.a

desaparece e é substituida por chifr-es que, no entanto, no dizer

dos informantes, têm o mesmo significado (18). O rabo, terminado

como aponta Carneir-o da Cunha, "é um pr-o 1 ongame:~n to

técnico do se>:0 11 (op. ci t. : pg. 1010) , nâ:o contradizE•ndo,

portanto, o código iconográfico.

Cluan to aos E>:us de madei rê":1, o s;.egundo [Link],

encontramos no Ilê de Inha;~, numa série de oito Exus, .:':1 lguns

18) A làmina do Exu tem origem num mito do Ifà e significa que
ele n~o hà de carr-egar fardo algum na cabe;a como um escravo,
pois ele é o mensageiro dos deuses por ser o primeiro-nascido, o
senhor de todos os percursos, o iniciador.

1'.:,0

:--~...---------------~----------------------

pares, (como ser-· ia D

tradicional, na Africa) e outros, cuja forma se articula com a do

p:i.lào (fig. FB/27 e FB/18). Sào pe;as de um modelado agressivo e

·for-te que remete a um aspecto africanizado mas que nào seguf.·?

nenhum c ·c inone espt~cifico. Os olhos s~o muito

s;ub<.-:-ti [Link] por cauris; a boca, em alguns exemplares é talhé.~da


outr·os em (como ser· ia o

tradicional, na Africa) e outros, cuja forma se articula com a do

pilào (fig. FB/27 e FB/18). Sào pe�as de um modelado agressivo e

-for-te que remete a um aspecto africanizado mas que nào seguf.·?

nenhum cê:tnon<? espt:-C .i fi CD. muito arregalados ou

�;ub��.t.i tu idos por cauris; a boca, em alguns exemplares é

reta e estreita, em outros, é muito aberta, com o i:Hil .[Link] de

corpc) :.i..ntE?.iro a atitude é rigida e os 6rgàos �=-e>! [Link] i S:,

aparentes ou sào cobertos por uma tanga. N�o hà marcas tribais e

os incisos estilizam os pelos do corpo ffJ8. s E>:U é:

pt:' 1 a Ci.."lbe<;:i::'1 pontuda que

l�mina que carrega, lêmina, esta, substituida numa pe<;:a por uma

gr·ande m�:io de? figa. Encontramos, na mesma loja e dadas. como

pertencentes também ao culto de Exu, duas esculturas em madeira,

provavelmente do mesmo artista, representando jacarés.

Clueremos, outrossim, registrar uma ·f igur-inha

qual nào par- ê:1 le 1 o em nossa pesquisa

no mercado, mas que se assemelha bastante ao Exu Boa-de-Fogo de

Canc:1ido Santos Xavier: é uma pe<;:a da Cole��º Maracatu Elefante

(tombo 031) de barro policromado que representa um Exu entre

sentado e agachado, com a imensa boca aberta, lingua de -fora f::!

bra�cs numa postura de aceno ou de afàvel ironia, com um quê de

amea�a. uma peça intrigantE:1 e original com algumas

que, tra1ns·feirmada1s, julgamos-, r-econht::-ce,� nas

esculturas em madeira dei Mercadào.

i',.ios três últimos anos tem havido a tentativa ele

l'.:H
fig. F7/28
Casal de Exu em ferro. Artesanato que segue os padrões tra-
dicionais apontados por Carneiro da Cunha.

fig. F8/27
Casal de Exu em madei-
ra.
...
Notar as inovaçoes fo.r
mais e as transforma -
-
çoes de estilo que, no
_...., ...
entanto, nao alteram a
1 ,
leitura iconografica.

'
de gésso, produzida~;; em s:,é[Link], clf? Q_i--·i>:_~J:?.., 1T1as, ein

r virtude do número minimo que vimos a venda, acreditamos que ainda

foram aceitas pela comunidade. O povo-de-Santo conserva

imagem católica do Santo ou de Virgem e do Jesus Cristo para sua

cievoç~o, plenamente consciente da dupla leitura que o sincretismo

permite,como a grande Nossa Senhora da Concei~ào que, em frente~

1ojr.:1 Ori>:ás em Festa, "funciona" coroo uma D>:um, lado i.':t lado com

um belissimo Xangô, de desenho claramente africanizado. Essa loja

tem buscado, nos dois últimos anos abrir o mercado para o consumo

de esculturas em madeira, mostrando em suas [Link] trabo~lhos

v :[Link]:::- Ua Nigér ii::'I. sào há

,,~indi::1 l.\/Tli.':t nos c:irculos mais

tradicionais do Candomblé: essa resistência come~a a ser vencida

com o u~.:;o da ·figura human,:.'I como terna em alqumas ferrament_;as. na

pintur-,,~ de ibá~,- f? no quE? chamamos ''objetos estéticos''.

Na 1 oj é.:1 Il~ de Inhai~ foram postas a venda, em

.1994, a 1 gumas "e seu l tur-as" de Or- .L-:ás bi::1stante curiosas. '.-3obr-·e um

modelo de gesso de uma ninfa grega, muito comum nas loj,:1~.; que

decidi d ii1fflf:?n t.E!

"Kitch", ·foram colados elementos que, pintados e purpur· inados

a da iconografia, aos Orixás (fig:.• F9í1 e

F9/-4). Foram vendid,::1s, mas, no consenso dos legistas, "n~o tinham

·fundc~men to, que Santo nào tem car-a: Santo tem ,::1ssentamc?.nt.0' 1

de serem montagens, fica o registro dessas

talvez estejam ligadas à tentativa de ressurgimento da escultura

figurativa no mundo do Candomblé.

e: ....,
1 _,_.::
7. Objetos Estéticos: Assim denominamos um tipo de

ê,1 i'-te-f c:1 to que, de SE: 21ter cód [Link]-dE~--~}an to n~o tem

nenhuma fun~ào ritual clara.

Nesta categoria [Link] as magnificas

c::r-i21das por 11
Biré1", dentre as quais fotografamos duas: uma

relc.1tiva a Oxun (fig. F7/1) e outra a Oxumaré (19).

qr-andes quast~ 1m. de altura, compostas-~ pDr vários;.

qu<? õir"ticulam compor- uma 1~epr-esen t,::1 çào

simbólica do Orixà. A de Oxum é a mais complexa, tendo ao centro

uma imagem em latào recortado de Oxum Apará, com espada e abebé.

torno dessa figura se aglomeram peixes, pérolas~

em finos que ondulam e ~.e qualquer-

rnovimento. Todo o conjunto é montado sobre uma base formada por-

uma pe~a de metal antiga trabalhada (talvez seja uma chaleir-a),

d21 qual Séd. um tubo que, em cima, sustenta um ~,1dt:~ com longo

chorào formado por- correntinhas douradas. E uma pe~a eclética, na

qual (j artist.E:1, como numa colagem, usou f-.? 1 emen tos de \lár·.ias.

para conseguir um conjunto que, pelo c:~cúmu 1 o de

detalhes e pelo aspecto cinético, nos coloca em face de uma deusa

bela, buli;osa, mergulhada nas àguas moventes de um rio dourado:

C:h: um. A pe~a referente a Oxumaré é mais simples, mas segue a

mesma técnica, mos t r-i:1ndo a divindade en 1 a\;adé1 pe l <'.':\S duas

f:,;erpen tes, num vórtice formado por um êH-co-ir-is -/'eito de

filamentos dourados.

19) Em outubro de 1994 vimos outra escultura-alegoria de Ians~,


n~o tendo sido possivel descobrir o nome do artista, no mesmo
estilo de, "Bir··a".
informantes nos dizem que estas pe;as

pa,~ê~ ''dat- dE? pr·esent.E':! 11


ou que i:1S c:ompr·am pc.,ra ''cha mar· cl iF..mte1a li

e compor uma bela vitrine. Sào obras impares, se m dúvida. rnarci::1~;

de um artista que nem sempre respeita a ortodoxia, na busca de um

efeito que busca envolver o espectador pelo assombro, através de

um e:-:agero que tende pare:, e~ "estética do c<:"u-naval li.

categoria incluimos, também, as 11


bor,ecaE:." •

Ti.-=i l ve:: cl as;. .i m,:1q en •;:; ar·ti cu 1 adas;. que Lody

na Cole~~º Maracatu E: na Cole~~º Perseveran~a os

'' inqu02tes 11
ii:'1S ''bonE~c.::1s'' \/F:stidc:1~,; .::-..lcan;ar.. am um i::iltc, q 1~;;;1u de

no Mer·cadc,. para dada~=- como

'' J ernbr· an c;:ê~ s '' 'fe!::',ti:',1f,;:, ou compor·em o assen tE,men to

VE~st:[Link](20), sào encontradas em vàrios tamanhos desde 10 cm. at~

.Lyabà_s com

pequenc.1s fE~rramentas nas màos e bc,F·cJado<:. minuciosamente

const:i.. tuem uma amostra de requinte artesanal f2 de

c::uidc,1do pois todos os detalhes de, Santo

nestas miniaturas

As todos C)S

c::,bj e tos que descrevemos podem s;.e r comprr,?end idos quando

articulados entre si e referenciado aos fundamentos do Candomblé.

Os que mais. claramente traduzem estes fundamentos em

imagens 1 sào CtS paramentos, pois, por um lado, pressupbe

de vàrios objetos que formam-nos enquanto conjunto

:·~o)
Us {:iSSE:l\JTf,,MENTOS elos EP,NTOS c:la CP,SA sÊ\o "vestidos c:om panos li

rebordados ou de rendas, constituindo-se num dos mais belos


aspectos de um TERREIRO, esses quartos escrupulosamente limpos e
ocupados por estes conjuntos caprichosamente arrumados.

1 :',4

í
,..
'l

fig. F7/l
, ,
"Objeto Estetice", representando Oxum Apara, entre
, , I
peixes, perolas, abebes e outros s1mbolos dessa
divindade, em metal dourado.
Essa peça não tem função ritual, servindo ~p~naa
para "dar de presente" ou para ornamentar as vi-
trinas.
pcir· fazem parte da inst~ncia mais visivel e pública de

comun i CcH;:ào as nas quais CJS Uri>:ás

incorporados reconstroem o mundo dos homens.

Nos capitules seguintes realizamos a interpreta~ão

cias quc:1tro

rúbricas propostas por Louis Réau: 1) história e lenda, 2) culto,

::::; ) 4) bibliografia . Este último item não

registrado em separado, mas a partir de referências e citaçbes no

próprio corpo do texto.

[Link] como na hagiografia dos católicos,

deuses P deusas afro-brasileiros, história e

lenda se confundem. Alguns Orixàs, como Xangõ, carecem

rf2·fr.-2rência clara na história documentada, mas aspecto

[Link] que d,:1ndo aos momentos humanos uma

justifica~~º sobre-natural. Não descrevemos essas narrativas na

integra, na medida eme que a maioria delas é contada por

E, comentada obrc1s à~.:. quais nos r-emetf.?.mos.;. quando

- necessàr10. Buscc1mos umc1 v1s~o gerc1l e registramos c1s versbes que

c:ont.r",~ .riê:lm
0 ou c1lteram essa vis~o, de tal modo a c::< presen tE,r- a

sintese dos elementos que definem a natureza e as vicissitudes

das divindc1des ou deusc1s do pante~o jéje-nagô.

S~o essas histôric1s, o culto tradicional (que Réau

denomina "culto litúr-gico") e o c:ulto popular que dE·terminam os

iconográficos, sendo que a rela~~º entre as formas

do culto e a representa;~o imagética é bastante comple>:a. No

C::andc,mb J. é n~o nenhuma data de canoniza~~º que se

estabele;a o momento no qual a liturgia estabelece a iconografia ,


l

fig. F6/36

Boneca de Oxum, ricamente vestida, com grande ade,
l
,
carregando abebe e flores.
Notar a exatidão da representação do Orixá, sendo
que esse exemplar foi feito para ornar uma o~sa da
Oxum - como são chamados os quartos ou casinholas;
nos quais se montam os assentamentos dos Santos -
de uma Iyalrixá.
<::,.endo portanto o resultado de uma din~mica ritual e de

mitos que retomam, recriam ou estabelecem Não

raros os exemplos nos quais vemos o culto popular transformar as

diretrizes ortodoxos, criando situa~bes paralelas - como no cascJ

de Logum Edé - ou superà-los completamente - como ca!::,D de

que teve ~:;eu dominio sobre o rio Ogõn completamente

c::,bv:i.d.::~do. ,.Jà ci [Link];,. que, por vezes, a pr6pria

i conoq r c.:1 -f i .::~ o culto pois obriga o mito a de

inovaçbes formais:

A iconografia é fun~~o da lenda e do culto. Mas


acontece, bs vezes, a iconografia, por ~.[Link] ..1e:z ~
engendrar o culto e a lenda.E preciso, ni;?s tf,? ca·-
so, inverter a ordem dos fatores.
([Link]hU: J.9::,7, vol. III, pg. '.JlI) (21)

dos signos, temas e cenas que caracterizam seus paramentai;;, a

partir dos quais os deuses s~o reconhecidos e atualizados: na

dos mi tos, dos II


causo~; 11
( 22) , dos cu 1 tos que t.eCf2iTI a

[Link] e que respondem às angústias e à fé de seus devotos.

21) L..' iconogr-aphie t:0st -fonction de


11
la l~gende et. du cult. Mais
il arrive parfois que l'iconographie engendre à la fois le culte
et la légende. 11 foudrais dans ce cas renverser l'ordre des
"faeteur-s. (F:EAU: 19~,7, vol. III, pg. './ I I )

22) S~o chamadas assim as histórias que contam cJe fatos:,


acontecidos no cotidiano do POVO-DE-SANTO e que ~;empre s~o
exemplares do poder ou de uma caracteristica de certo OF: I XA.
\

CAPITULO III

AS SENHORAS DA VIDA

11
Mas eis que toda ê:< v .[Link]
destinada a parecer, eis que o
mundo n~o surge aos homens a
n~o ser como uma sucess~o de
vida e de morte, de dia e de
noite, de verào e de inverno,
e eis que porque os mortos sào
confiados à terra, a deusa da
vida, deusa da terra, é também
a deusa dos mortos. E, como
deusa dos mortos, ela se torna
a dE·?uisa da c:_iuerr.;,." ( l )
(PIRRENE: Histoire de la
Civilisation de C'Egypte
Anacienne vol I; Paris:
Albin Michel, 1961: gp. 39)

o panteào jêje-nagô no Brasil se divide em três

grupos, atUé."'llmente: as grandes-m~es, i;:;enhora~::; vida que

c:on s.e rv am ainda seu aspecto de poderosas feiticeiras; os deuses

ma~=:.cu 1 inos, geralmente chamados fun',:bes

eminf:.~n temente como o exercicio da lei, ela da

guerra, da medicina; um terceiro grupo que participa dos

uni vpr-sos feminino e mascL\ 1 ino, c:10 mesmo tempo. Neste,

encontramos, por um lado Exu, que alcança um posicionamento que

1.) "Mais puisque toute vie er::;t E:<ppelée à pér:.i.r, puisque lF~ monde
n'appara~t aux hommes que comme une succession de vie et de mort,
de jour et de nuit, d ' été et d ' hiver, et puisque les morts sont
confiés à la terre, la déesse de la vie, deésse de la terre, est.
aussi la déesse des morts. Et comme déesse des morts elle est
c:1evenu1:2 la déess.e de lc< guer . r·e."
(PIRRENE: Histoire de la Civilisation de l'Egipte Ancienne - vol
I; Paris: Albin Michel, 1961: pg. 39)
será discutido no capitulo seguinte, e, por outro lado, Logun Edé

Oxumaré que adquiriam caracteristicas de ~-e>:ua l

( metá·-metà) .

Lydié."'I Cabrera, perguntando sobre quem é

- Yemanjá é a Rainha do Universo porque é a Agua,


a salgada e a doce, o Mar, a Màe de tudo o que
foi criado. Ela alimenta a todos, pois sendo o
Mundo feito de terra e mar,a terra e tudo
o que nela vive, é gra;as a Ela que se sustenta.
Sem égua, os animais, os homens e as plantas mor-
r-et,..iam. (3)
(Cabrera: 1988, pg. 20/21)

Consideremos que esta afirma;ào peca pelo exagero,

pois, no Brasil e também em Cuba, Iemanjà compartilha com Oxum,

o comando sobre as águas - no entanto, ela é exata na e:-:press~o

do poder das Iyabàs., das Grandes-M~es j~je-nagôs. Seu

nào é superado pelo poder dos orixás masculinos e mesmo o

D>:a 1 á inclina, em vários m.:i. tos, .>.


d granc:lezc1

feminilidade. Talvez o mais inequivco sinal desta soberania :::,eja

e::, chc,r-tio ou t .:i. l ~' franja que cai das coroas das e cobre

seu rosto: pois em sua face, o mistério da vida e da morte, do

- gôso e do tormento ainda está presente, como no inicio dos tempos

2) "Decia Dba Olo Ucha, un noti:1ble santero" (CABF:EFU.:i, .1.980: pg.


:20) •

'.S) "Yemayt1 es Fú,?inê:1 UniVE-'!r-s.;d porque es el P1gua, la salada y la


dulce~ la Mar, la Madre de todo lo creado. Ella a todos alimenta
siendo el Mundo tierra y mar, la tierra y quanto vive en la
tierra, gracias a Ella se sustenta. Sin agua, los an.:[Link], los
hombr·es. y la plantas;. [Link]." (op. cit.: pg. :20/21)

1 ::,8
e contemplê-lo seria a morte. (4)

Juana Elbein dos Santos~ assinala a do

elemento feminino a partir da própria caba~a formadora do inundo,

n,::1 qual parte de baixo seria Oduduà (5), a terra úmida~ o

elemento gerador de filhos.

E no interior da matéria genitora feminina fecun-


dada que se realiz~o a intera~ào e a sintese que
tornarào possivel a materializa~ào de novas enti-
c:!adf:.':'S.
A àgua e a terra s~o os elementos que veiculam o
~~-e CJE·?:ni tor -feminino.
(Santos: 1976~ pg. 79)

Esta caracteristica de gesta~ào do poder femir,ino

aquf.:': 1 e

que~ por detiniç~o~ os representa: o abebé?_. Nos par,::1mentos das

em todas as coleç~es catalogadas por Raul Lody.

por aprE'~[Link] uma riqueza €':ê' l emen tos

recortados, gravados e esmaltados nas pe~as produzidas e vendidas

no Mercado de Madureira (fig. FS/20), é, sem dúvida~ uma das mais

importantes da imaginéria do Candomblé jéje-nagô. Sua origem, na

Africa expressa o poder das rainhas-m~es, uma insignia que alarga

poder até o ~mbito religioso (6). Numa das mais conhecidas

4) O velho Oxaluf~ e Omolu também têm o rosto coberto; o primeiro


c::omc, r··esul tc:1do de ter roubado" parte do
II
poder feminino para
dividi-lo com os homens e o segunde porque também remete à
ambiguidade vida/morte~ doença/cura.

~.'.'<) Esta versão de Oduduà como o feminino do par primevo


c::on tes. tad a por F' :.[Link] Verger: Os Orixàs~ 1981.

,S) LODY, F!aul: Dez Abanos e Abebês; F:io de ,Janeir-o: Museu


Nacional, 1991

' 1:',9
·f ot,::,q r cl°f ia ~:s temos uma mu l hi:;:- r· africana, possuida

por· (Iansà) empunhando o abano ritual, o e::uzu~ F'emberton

ta mbém fotoqrafa uma imagem de Oyà que ''carrega um abano quadrado

t::m [Link] màc, dir·[Link], um simbolo de t-eale::c':1 11 • (7)

Sua forma é, por excelência, redonda, pois

i::\O da ci:1ba .;:i::1 /ven tr·E, d+::: V ide:,. o VE~ntt-e

fecundado c:apê.1Z de

~ efetivamente, filhos vivos, por isso é também espelho - os abebes

,,·,1ntigor:::. tinhc:1m, um espelho de vidro no centro [8) pois no

reflexo, se vê um rosto, muitos rostos, os rostos das pessoas que

saúdam o Orixà incorporado que t·?:St~iO V .i VOS-. E o \ten t. r. 02 que

carrega em si todos os seres vivos, assim,quando nào hà o espelho

pr·opr·iament.0? dito, o ê.1bebQ. é polido pari:1 !:;er· capa:.:: de refletir· ou

tem gravado ou recortado, no centro, um pàssaro ou um peixe ( 9) '

pois .::,s e5-Cê:'lmas e penê,:1S sào "pedai;:os do corpo ma terT,o c,:1pa:zE::s de

separar-se, simbolos da fecundidad~ e procriaç;:ào'' (Santos: 1976,

pg. 87) . Em vàrios abebés - desenhados por Carybé ou catalogado:.

[Link] encontramos, a toda volta deste pequeno:.

guizos: perguntando aos artesàos, nos responderam que simbolizava

o barulho das crianças.

No entanto, o um problema

iconográfico fundamental: porque, sendo a ferramenta especifica

'/ ) ["The stately i'igun'? sei:1ted upon a horse] holds a fan plêi.1que
in her r·.i.<;iht hand, a siqn of ro 7·.::d privil~?ge, ( .•• )" (FAGG 8(
PEMBERTDN: Yoruba; 1982: pg. 126).

H) [Link], Raul: Cole~~º Maracatu Elefante e de Objetos Afro-


Brasileiros; Rio de Janeiro: FUNARTE/INF, 1987.

9) Um buqu~ de flores ou uma estrela representam também multidào,


rnu 1 ti p 1 i c,,;'\ç;:g(o.

160
dé:1S I.:,::.a!:<~~:., na ,,-·ea l idad<õ? ela só <~:: i:w6pri i,:1 de Ch :um f? l eman :j ci ·-:, Com

as outras deusas se relacionam com este simblo t~o determinante?

u sa, no

Brasil, abano de palha tran~ada e o brilho lhe de tal modo,

vedado que muitas vezes é coberto de pano, como numa luva (10).

t em fei;-:e fino, de

palme:i.r ê:1, C::UJ a ponti::1 Sf.71 mesmo~

formando uma espécie de oval que o orixà leva nos na

mào direita. Obà leva escudo a lhe cobrir a orelha cJecepou

a mor a Xangõ. Euà carrega arp~o, espada e um c ur .1 .oso cetr··o

Chi'..•.íflê.:1cJo f.'<. dQ. •

'./e remo::, posi~~o

das deusas quanto ao mistério da maternidade. No temos.

Iemanjà e Oxum, as grandes parideiras: Iemanjà é a m~e dos muitos

filhos e Dxum é a dona da vida gerada no prazer da ~.:;ens.uE1 J. .idadr..;,.

::::·ortanto Iemanjà carregam s~o J. igadc1S à

m1..dtiplica~ào dté1 vida sobre a terr-a. As [Link]::d~.s:!.?.. cujas

mais se distanciam do redondo vent r e / cabaça / espelho do ~bebé sào

Euà. A primeira, considerada a mais-velha, das

~··aizes do mundn, cc:1rl"·egêi1 "em [Link] seio, os mortos que

tornarào passiveis os renascimentos ( ••• ) li (Santos: 1976, pg.

81) e o seu ibiri é um ventre vazio, uma placenta para nutrir os

que est~o vivos em virtualidade apenas; Nan~ é a m~e das crianças

n~o-nascidas, ela gera a vida, n~o filhos vivos. Euà é uma

c::ujo ritual foi se perdendo e sobre a qual existem p0UC:êi1S

10) LDDY, Raul: Coleç~o Maracatu Elefante, 1987.

J.61
informantes (11) d.i:::em qu<? (=- uma

Jovem, guerreira, ligada à virgindade, portanto a n~o-

inater-n ici2,de, donde todi:iS as su;::1s ter·r;:.:..mE•n ta~. s=,):o f ,;~li C:i:.1!::.: o of à,

Iansà e Obà carregam ferramentas que se aproximam


.;_
·fei nr,a do abe.bé, mas n~o s~':io o nH?::smo. I ansà t.:'

rainha, màe de nove filhos, mas estes sào filhos que abandona em

alguns mitos ou que s~o filhos monstruosos e devoradores.

associada à floresta, ao vento, à tempestade e rnortos

qLIE• ela dirige e maneja: é o único orixà que se em

[Link]~rr··eit-o dE? equngurl_, onde siào cul tu;:~dos os ancestr-,::ii.r:::.; port.::1nt.o a

maternidade de Iansà é verdadeira, mas conduz aos mortos, donc:le

seu abano nào pode refletir rosto algum, pois estaria mostrando

o rosto de um defunto e rompendo o limite imposto por Dxalà entre

a vida e a morte. E Obà, deusa que é, na Africa a cabe~a de uma

SOC.Ü?dade -femini nc:'\ mas lembrada

;:,-.pena~:; por sua triste• sina, de, engc:1ni::'tda por ter-se

[Link]~clo e acabar sendo rejeitada por seu esposo, Xa ngõ.

esculpe, nos painéis dos Orixàs, o escudo com o qual Obà cobre a

orelha perdida, como um circulo de madrepérola, um abebé sem cabo

e sem brilho, só um ventre, mas vazio; Obà é um simbolo geni tor

feminino que, no Brasil, perdeu seu poder de gestar, por ser

velha e n~o ter mais homem.

11) Ninguém quer falar sobre esta Iyabà, mas a esposa de


Martins é EKEDI e é FILHA-DE-SANTO deste orixà.

12) SANTOS; Juana Elbein dos: Os NàgO e a Morte, 1976

162
O abebé na sua presença, na sua ausência total ou

parcial, indica uma grada;~o, uma varia;~o no poder feminino: um

poder de gesta;~o, exercido desde sua n~o-presen;a-ainda até sua

n~o-presen~a-mais.

Trataremos, a seguir dos vàrios orixàs,femininos e

sua conforme fotografamos no Grande Mercado de

Madureira, comparando-a esta cole~~º com as pe~as registradas por

ou t. rCis i::1U te:, r-·e!::-.

-
1. Iemanj á

E um dos mais complexos Drixàs e um dos que mais;

no Brasil. Verger diz que, na Africa é o Drixà dos

Egbà, uma na;ào que existia entre Ifé e Ibadan, onde corre o rio

yemo-; .:., , primitivo lugar de culto da deusa a qual, depoi!s dos

egbàs migrarem para Abeokutà, no oeste, passou a ser cultuada no

,,.·io Oqún. E, portanto, nõ:1 Africc:-1, dona de r··ic,, dada come::, filho:, de

Olokun, deus do mar em Benim (13). No Bra,~i 1 E·?: em Cuba, [Link]ssas

se transformam radicalmente e Iemanjà passou a

ser, por excelência, a Rainha do Mar~ deusa da àgua-salgada.

E, na Amér·ica, uma .L . abà temive1, pois ao seu

aspecto benevolente de m~e, acrescenta fecétas atenadoras: é a

rainha~ e amante dos afogados (Calunga, o nome do mar

também, o nome do cemitério); é uma deusa severa e r·ancorosa,

.[Link]:-=ipaz de perdoar· uma ofensa e pode ser, como é voz comum,

13) Olokun é uma divindade cujas caracteristicas s~o bastante


confusas: deus masculino em Benim. Verqer afirma que é deusa em
Ifé, concomitantemente. (VERGER: 1981, pg. 190)

163
traiçoeira e falsa (AUGRAS: 1983, pg 170), além de ser c:ora.:ios a

na comum no

Brasil. Se Nanà é a divindade ligada à potencialidade da vida, .l.


(::\

[Link] indistinta de vida ainda nào manifesta, Iemanjà é a deusa

que vai buscar essa vida nas profundezas das raizes do mundo e a

traz à superficie da exist~ncia, onde a corta em pedaços que sào

a identidade individualizada de cada um . E a dona da cabeça, da

:[Link] 1. <;it':>nc:i.a, <::1 Iyi::1b~. que ·faz r1i::.'ISCE~r, nào, neces::;ar-i.i:~.ii1ent<-2, .:.-1
-. que V ê:1i par-ir· : como Çl.5;Juá, ela está mr::[Link] r·el.c:.'lcionadê~ a

que a gestr::1ç~o e, como Nàn~. ,,:1 ssoc::i.. i.':<di:'.-1

inter-ioi-··.i.d.:.-1dE?, i:~ filhos. contidos em ~-,i mesma." (Santos: 1976, pq

90) •

histórias e o culto de Iemanjà

portentosa e ligada aos limites, às passagens da morte

o (re) nascimento. Devemos considerar que o mar nào era

muito importante para o= Nagõ que, dele, ,estavam separ-ado~7,

que realizavam as devidas media;bes culturais e comerciais

rnas mesmo mar, na escravidào, ganhou uma aterradora

importancia. Era a êgua salgada, o oceano, que o navio-negreiro

t .[Link]·o cruzava, arranca n do homens e mulheres de sua existência

de seus nomes, de suas casas, de suas 1 inhaqen~.;, de

deuses, para fazê-los renascer num novo mundo, num novo

tempo e numa outra realidade . O navio era como um ótero im a ge m


-- a 1 iás. i:;empre associada à qualquer nave - que gerava uma nova

vida. Quem sobrevivia à viagem, renascia com novo nome, um novo

14) DA'./IDf.-:iDl"J, Basil: rnle Negr a; Lisboa : Livrar. ia Sá d.:.-1 Costa Ed .


1978

164
deus, um novo corpo refeito para um novo sistema de trabalho.

a m~e terrível que, em .-r:e:\.o

fazia (re)nascer o novo ser: dolorido, é verdade, 1T1as

\/.i\1c1 de "fs:.1tc,.

ligada desde a Africa aos peixes e, por

c·,1 i' in idade, ao <:::.er i ,:':1 re•c::on s, t. r··u i d.::~

caracteristicas simbólicas necessàrias a interpretar esse oceano,

n {~ \/ i c::s ·-t:.t ter- o ~ égua salgada que era, mf.~smo tempo

tGmulo e nascedouro, fim e principio. Aqui, no Brasil, se reveste

da magestade das Grandes-M~es, protetoras e cruéis, e se torna a

mais popular das Iyabàs (15).

lendas de Iemanjà no Brasil ressaltam sempre

sua inteligência - como na que, com espelhos~ cria a ilus~o de

v~rios guerreiros - e sua dignidade que pode desencadear terrivel

fúria se fõr desrespeitada (VERGER: 1981, pg 191). E dada como

m~e de vàrios Orixàs, como na lenda recolhida pelo Padre Baudin e

c::on tf:?S tad a por Verger (op. cit.: pgs. 190 e 194). Juané:1 Elbein

(.1976, pg. 90) confirma sua profunda liga1;:ào com

filho dela e de Oraniam. Outro mito a ·f a:z casada com

(Jr·unmi 1 à, o deus do Ifà, do qual terà Oxumaré e de

i:",[Link]:. com vers~o, ~,,erá màe ··/erdadei r é:1 do

oràcuJ.o. Com Orunmilà teria tido Oxum, filha adulterina pois era,

na época, esposa de Oxalá (Braga: 1988, pg. 51). Foi esposa de

O>:alJ:1, ao qual está associada pelo branco, mas é a Sl.lê.'-i segunda

1 '.'.:'e) "Nos últimos é:1nos, a devo;ào aumentou de tal maneir··a que


c:prtos fiéi:. julgam que se trata de um novo culto, o
"Iemanj ismo"." ( AUGF:AS: 1983, pg. 166)
E màe de Ogun e madrasta de Oxossi, perdendo ambos os

por Cc:lU!:::,2. de seu cióme excessivo; e é esposa df.?. C!gum

Alagbedé, ao lado de quem faz guerra.

Ma cj r· c:1 s t. ii,1 é , também, de Omolu, que abandonado por

sua màe, 0 criado pela senhora do mar. E màe de Exu, que

como se diz, nào lhe nega nada e faz sempre o que ela pedir. No

Mercado de Madureira, ouvimos vérias vezes dizer que, nas m~os de

lemanjà Ogunté, Ogun é seu alfange com o qual corta os peda;os de

vida individualizados que E>:u é S:·t~U "espelho" no qu.;:,d o

individuo, ao se ver, constrói sua indentidade fundamental. Lydia

Cabrera também assinala o aspecto de Iemanjê ligada às origens do

mundo e das coisas ao contar que ela - àgua foi amante de Orix~

Oko - a terra e a agricultura - e o enganou a fim de roubar dele

o poder sobre o tambor batà para dê-lo a Xangb, seu filho . E m~e ,

enfim, dos Ibejis, dos gêmeos sagrados, que representam os fil h os

todos, a inf~ncia em si mesma (CABRERA: 1980, pgs. 37/40).

f:,ssirn, apesar das aparentes contradiçbes, o que

ressalta nas lendas é o traço fundamental de Iemanjà: ela é m~e é

rainha. Carrega dentro de si a existência dos entes do mundo e os

traz à vida enquanto seres inteligentes e únicos e n~o admite,

por isso que ninguém lhe falte com o respeito . Sua autoridade se

até mesmo, frente a Orunmilê, o qual a expulsa por ter

~ usado o Ifà na sua ausência, mas que a teme e reverencia pela sua

Apoiou Oxalá contra seu próprio esposo, Xangô que

C::Ob.i Çé:tVié< o comando homen~:., direito de

Obatal,~, pedindo a Exu que a ajudasse, o que ele, como

E,1tendeu . Iemanjà nào obedece a nenhuma ordem, mas apenas sua

166
própria consci@ncia e segue sempre suas próprias conclusbes.

culto tradicional, S,t72ndc,

cabe;a e do (re) nascimento, esté presente em todos os rituais de

e cu 1 to r-e l ,?,e iona--~-<~

diretamente ao mar e à quebrada do Ano Novo. No fim do ano ou no

dia 02 de fevereiro (na Bahia) Iemanjé recebe presentes,

flores e champanhe para que enterre, nas suas àguas, tudo de ruim

que o ano passado trouxe e que traga tudo de bom no ano vindouro.

pr--aJ.a~~. ficam cheias de uma multid~o heterogénea, n~o s6 ele

filhos-de-Santo, mas de todos os que querem exorcisar o passadci e

renascer simbólicamente. Na ilha de Itaparica, a grande prociss~o

dos saveiros, baia a fora, come;a, sintomaticamente, no Candombl~

mar·canc:to com E?SSa associaç;:~o

mor·t.e/m.:-'lr· / v:[Link].

Como todos os Orixàs, Iemanjà divide-se em

qualidades, mas CtS mais conhecidas e no Mf.?r·cr.~c:lo de

Madureira s~o: Iemanjà Ogunté, Iemanjà Sobà, velha e voluntariosa

que mor,::1 no fundo do mar; Iamassê, màe de Xangó: e I emanj .~

Ac:.c;psc:.u que conta as penas do pato de e demor·a a

atender seus filhos. 86 uma vez, ouvimos citar Iemanjà Aoyó que

coroa com o arco-irise seria a mais bela de todas E::- n~o

ouvimos citar Iemowô, a esposa de Oxalá, apesar dela ser ;.:1ssim

dada por todos.

Os par·[Link]:, de Iemanj à constc:tm sempr·e de ag_~ co m


fi là ( ..feito com corr-entes pr-a teadas, péro 1 as, miúdas mi i;;:angas ou

c::anut.i lho~::.) (fig. F~,/17), §'tbe.t.é., [Link]:., bri:H;:alt:"'tes e

Ca~.o seja uma Ogunté, acrescenta-se a courai;;:a (fig. F5/31) e o

alfange. Sendo a cour-ai;;:a, como dissemos, propicia a desenvolver a

167
com mais exclendor e sendo o alfanoe uma forma de

grande beleza, percebemos que come~am a fa-:..·.endo

c::om que as caracteristicas iconograficas de

tendam a desaparecer. Como Iemanjà Ogunté reúne os tra~os de m~e,

e aos poucos, passa a Sei'~ I emi::1n j ,ti-tipo,

temas

e imagens, mas nào mais pelas [Link].

distintivo dos paramentos de I emc:'lnj ,?.i é

serem obrigatoriamente prateados, às vezes com aplica;bes de

esmalte a frio de tons azul claro ou azul escuro (Ogunté) e verde

u tom de rosa, assinalado ·,.e o .


l.

observado no Mercado, sendo próprio de certa qualidade de lansà

ou df? Eui:':1.

If.·?manjà É;, donc,1 do i:=,enc:!o cari,1 e ter-is ti c:o

dela, o uso de espelho, pois, como vimos, este representa E:-:u .

Nos modelos antigos registrados por Raul Lody na Co le ~~º Mar ac atu

Ele f a n te , esse espelho surge constantemente, seja nos exemplares

que remetem é forma de cust6dia~ seja nos que lembram o ~~'-.imbo lo

inucu 1 rnano de lua-e-estrela . No primeiro caso o paralelo [Link],m o


r
que~ na Igreja Católica, guarda o Corpo de Cristo

repreisen ta do na h6stia, acentua o [Link] .ismo dessa :f_err-·amen te:~: um

ventre fecundado que abriga o filho vivo . No segundo caso, esse

é:"1b§'.bó n°.::,produ2 um simbolo maH~ de forte prestigio màgico ao

rne:-mo tempo, os s . .ignos da 1 ua E? da ambos

ligados à simbologia das màes-ancestres.

Pipes2r- obr- i ga tor :i. 2men te

encon tr,::1m0!5, nesses exemplares e em desenhos de Carybé, ·formas

168
que pre=:.f_•.upóf.'? um circuJ.o, rnas que nàD Ct c:onf igur-é:<m

exeplicitamente. Mercado de Madureir-a, encontramos mesma

ambos. os abebés fotografados nào S~lJ r-f?dondD<::-

(·fig. Além disso, o espelho perdeu-se nesses

assim como uma superficie claramente refletora [Link]-eceLt err,

favor de um requinte artesanal mais minucioso. A razào para essa

transforma~ào nào clara: o argumento de que baseada em

exigsncias estéticas r:1 funcionais ( o [Link]É? com espelho f? mais,.

pesado e mais suscetivel a danos) nào nos parece suficiente. ,~·


,:-_

poss:ivel morte mar- ql..le

no provoque e~:;sa no

Iemanjà. Os temas iconográficos que aparecem nos abebés e nos

paramentos de Iemanjà sào:

1) Sereia: simbolo que chega ao Brasil através de

\1arié:1das pr·ocedé:>nc1c1s: de c:1cordo com Ct!lm.;,1r··a Cascudc,, "F:ecebemo-J.a

made :i.n Eurc::~c1, e~ -r= aci l mente:: é:1ssimi l ou-s;f2 nas super-sti c;:6f.;:s, pelas

t,gu2.i:::- do mar· e dos r- ios" ( CAbCUDO: 1984, pq. 707). t'?SSa

sereia, de origem grega, adquire, no caso de Iemanjà, um s0,entido

próp1~ io, fundamental, pois o nome mesmo dessa J_yab.:':i signi·fica a

"m~e dos múltiplos filhos-pei::-:es". Lydia Cabrera descre·,;e

assim:

Na égua é uma sereia. A Iemanjà mais velha temes-


c::amas nacaradas da cintura para bai >:o, rabo de
peixe, olhos brancos, saltados, redondos, muito
abertos, "as pupi l c~s negrc,s, [Link]:-1s:, como pincéis
e os peitos muito grandes. ( ••. ) Imensamente rica,
!?.,'ao f.:'.eus os tesou1·-os que o mar t::~sconde. ( .1.6)
(CABRERA: 1980, pg. 32)

169
lor:qe aqui, da sereia Lorelei, e: esses

c:,lho'.::- imensos. de tudc, ver- nos remetem i::10 flbebé:_ no qual a !seria

que,

ao ,,.e verem no espelho, constroem a imagem primeira elo (:-?U •

s;er··e.1.c::1 de Iemanjé é sedutora e fatal como todas c:iS

sua atraçào nào é a da morte, é a da vida (fig . F2/7).

2) Peixes, flores, estrelas: os três temas, c:omo


. .,_
J c."l vimos, simbolizam fecundidade, grande número de filhos (fig .

F'.2/2).

3) Lua: remete ao crescente que também f::-.[Link]

regenera~ào e, de acordo com uma informante, está, também, ligado

ao arco de Oxossi, com o qual esta lyabà mantém uma

evitaçào e, ao mesmo tempo, de fascinaçào mútua.

4) Barco: simboliza o comando sobre as águas e sua

relaçho estreita com os pescadores, dos quais é

(17).

5) Cavalo-marinho: animal encantado, comum no

imaginário popular brasileiro, passa por ter qualidades curativas

F!: ~,-er capaz de se transformar. E a montaria de Iemanjá ( que

c:avalqc:1, rainha, um cavalo branco que teve os olhos

.1.6) "En el c:1guc.~ es una sit-ena. L_a Yt:::-manjà mais viejc:1 tiene
escamas nacaradas de la cintura para abajo, cola de pez~ los ojos
bl,~ncos., s:.altones, r-e dondos, muy ê.~[Link], "las:, pupilas negrE1s,
pestanas como pinchas y los pechos muy grandes. ( ••. )
Inmensament.e rica~ son suyos los tesoros que esconde el mar.
(CABRERA: 1980, pg. 32)

17) AMADO, Jorge: Mar Morto; Rio de Janeiro: Record, 1976.

l70
fig. F5/30
Paramento de Iemanjá Ogunté.
Em metal cromado com detalhes em esmalte azul,
~ ,
ad~ com fila de correntes prateadas e trabalhª
do com motivos de concha e peixes sobre um fun
que lembra escamas.
vazados) e simboliza sua ambiguidade de domin.1.0 1 pois sendo

Senhora do Mar~ também pisa a areia entregando a vida par,:1

D ::·:Uffl ( i' ig. F'.?/ [Link]) • Està ligado às qualidade~ mais velhas ele

6) Espada e coraç~o: a primeira é representai~º de

Ogun e indica Iemanjé Ogunté. O segundo é tema mais comum a Oxum

e simboliza a feminilidade amorosa, o que nào é muito c::on d i ::C'. en tf:?

com I emanj !::1 qu<? fj muito l::H,?la ma~-=- ,,~mor

geralmente nào sào felizes (fig. F5/19).

7) Concha e p~rolas: Mircea Eliade em

$imbolos coloca que:

As ostras e as pérolas, que favorecem a fecunda-


~~º e o parto~ exercem também uma influ~ncia be-
n~fica sobre a colheita. A foria representada por
um simbolo de fertilidade manifesta-se em todos
os niveis cósmicos.
(ELIADE: 1991, pg 131)

E, no mesmo capitulo afirma que a concha é como se

-foss.e o .,..,entr-e grávido da péro 1 a, "e 1 a é como ( a mulher) que traz

o feto i:10 ventre" (op. cit. pg. 129). Encontramos esta~.; mesmas

explicaibes no Mercado de Madureira e Adilson, numa ntrevista em

jé:1nE~:[Link] de 1993, diz clar-amente que "i::1 concha é o ventre -frio de

I emanj à" sendo a péro1 ,::1 o simbo lo da v ida·-[Link]·-n~o-v iva que, ao

se desprender das màos da Iyabà se transforma em rosas, em flores

que simbolizam a vida-desabrochada: este simbolismo é é:1mp l r.~mente

c:c)nhec:ido pois está r-epresentando na sua .imag(·?fli tradicional

171
fig. F5/33
Paramento de Iemanjá Ogunté. Abebé e alfange.
Notar que o abano perdeu sua forma redonda, g
'
pesar de conservar o circulo como base da co.!!_
-
posiçao.
Umbanda.

Numc::1 Gnica pe~a, de autoria de Adilson

0::•n cc::,n t r .. amos. dois temas que, nào vendo mais em nenhum exemplar,

hf.·?Si tc11TiO~:- em considerar atributos próprios de Iemanjà. Num adé

(?Stào representados seis monstros marinhos, tal qual •::.er-pentes

enrc::,scadas lDxumaré?) que, tres a tres,ladeiam um feixe de lan~as

,::1pein t.c,\das cirr,c:t. Estc::1 iconoqr--afia Unica -foi J. idõ:i c:omo

per--tencendo a uma Iemanjà-Sobà, na qual os monstros

animais das profundezas e as lanças significam o movimf?nto

pF:lO qUi:il a deusa sobe do limo profundo para a superf l cü:- das

éguas. Como apeia encomendada, nunca foi procurada pelo cliente,

nàei poderemos desconsiderar que esta leitura, apesar de coerente,

"=:.eja c!uvidosa, uma Vf:'!Z que urn .;;,lfE1n..ie fê1r·i.:,( ç:,.:::,r-tf::! c:lo f§..C§:(ffif..~ntc) e

n~o é ferramenta de Iemanjà Sobà (fig . F2/17) .

2. 0 >:um

Para Lydia Cabrera, Dxum, bela, rica e sensual, ~

a irm~ mais nova de Iemanjé, a quem muito deve (Cabrera: 1980, pg

56), mas a maioria a dá por filha de Oxalà e Iemanjà. Mas acim.;;1

df.?.- tudo

- mulheres de uma cidade, pois sua formosura e seu encanto a fazem

inr·esistivel. t=~ssa c:aracteri~::;tica que se

alterou no tr~nsito de Africa para o Brasil, mudando, apenas seu

metal de cobre, para o ouro.

E dona dos rios, fontes, lagos e Ci::(ChOEi!i ra':','

!::iE?ndo a dona da v:[Link] plena, a qual dá luz

concret.2mente. Ela <~~ "Mé'.'lmàe (]:,-:um" e dela SE' diz ter [Link] tudo,

172
desde as folhas das árvores ao filho do Rei.

"Osun" é a <JE~ni. torEI por· E?::-:celéncic::1, lig.:~da parti-


cularmente à procriaiào e,nesse sentido, ela est~
' ,::1ssociê:1da t~ [Link]éncic::1 no "àiyé". Ela é
trona da gravidez. O desenvolvimento do
e=<
feto
pa-
b
colocado sob sua proteiàO como o do bebé até que
elf? comec.2 <"~ C:ir-mi'..:..zenar-
11
conhf:?cimc=-ntos f:2
11
l inç_1ua-
gem.
(SANTOS: 1976, pg. 85)

l'·.lo t?[Link], a nào ser por ser m~e de Exu, ..~ de

l....ogun D:-:urr, tem suas histórias J. iq.:::idê:1S qri:1nde~e- c::aso~~,

n~o a orixàs-filhos. Dxum é a màe dos 1···,o;rien<::; c::lé:1

terra, m~e-concret.a, senhora ela menstrua~~º (simbolo da gravidez)

[Link]om[Link], ilustra um mito famoso, no qual o pr6prio Dxalà r-::cros t2,

(Santos: 1976, pg 87/89). E a esposa amada, a

amante caprichosa de Xangô a quem obriga cumprir vassalagem para

r.::on[Link].equi r seus favores. Como esposa de Xangô, enfrenta o ciúme

consortes Obà e lansà, vencendo-as pela

pelé:1 for~a. Foi esposa de Oxossi Ibualama, com quem teve

Logun Edé; foi esposa de Dgun e de Orunmilà, com este aprendeu as

E1rtes do jogo, s:,endo a única Iyabà, que tem direito a ele,

tradicionalmente. E conhecida a lenda na qual consegue, com s;:,eus

rnimos;, que Drumilà lhe diga como afastar a morte, Iku, e assim

~,;a 1 va 1··· C1S homens que estavam em perigo. Senhora do inicio dos

tempo~,-, s:,em ela a vida nào se manifesta, como aprenderam os

ao querer decidir sobre o mundo - e, por ser bela,

quando os deuses fazem guerra, Oxalá a chama e ela se pbe


r

no meio do campo de batalha, fazendo com que todos parem

admirá-la. Ela tem acordo com o rei de Oxogb6 na Niger·ia

173
com e, qual fez alian~a e, no Brasil, com Moss;:;..

Senhora da Concei~~o, confirma suas caracteristicas de m~e jovem

e [Link].

0>:um dezesseis que é seu n (.1 rM:':': r- o c:< l gumas;

dE•lE<S ~=·~º rnais aguerridas, como a mais conhecida 0::-:um

Apará. Também sào conhecidas Oxum Karé ou Iélé Kerê que é velha e

de i.'?.rcc::,-e-f l echa ,{.,


t-:.6 ~ também Oxum Pondb. Sào

conhecidas Dxum Abalu, IJimu e YeYe Oga, todas idosas, sendo ;:;..

a mais velha das Oxuns. Oxun Abotô é uma deusa j OVf:?m,

à terra fecunda; Oxum AJagura leva espada e é casada com

muitD parecida com a Apara. Iye Omi (·? uma D>:un

qU€'2

como Oxum, ora como Iansà, reconhecendo-se, nela uma

' ambiguidade insolúvel. Oxum talvez seja, junto com Xangô e Oxossi

(sem multidào de Exus) o Orix~ com maior número de

qua 1 idE~.!.1!:~ c:on hecidc'O\S. no M<?rcado.

O culto de Dxum, como o de Iemanjb esté ligada és

,?la;:=. costumi:.'lm ter· Junti::1<:::.• 0>:um .r..


\-:=

esp<=.:·c:.ia 1 mente revf?r-enc:iada junto à água doce, onde ciosta de

receber flores amarelas e sua presen~a é fundamental na [Link] tura-.:.

de-:=.;,::1nto ~ em fun~ào do ?kodidl, pena vermelha que està ligada

pc,rtanto ~ c:ID nasciff,en to simbólico que a

.:i. n i ci c:<~~o.

"Dsun", grcw,de pr-otf2tora da qE:sta~~o. {~ "Iyái


àgbt~ P1J é f:léyé", chefe supremo de nossa!::,
màes ancestrais possuidoras da pàssarDs.
(SANTOS: 1976, pg 114)

174
bela da

pr·,'i\zen tei r·i:.-t ta mbém, a pior das feiticeiras, a mais

implacével, pois a m~e que estende mundo,

~etiré-la quando quiser.


,.::ieu~,
....
s~o pois:.
par21men tos C)

amarelo é uma qualidade de vermelho, tonalidc:1des que simbolizam

i::I ebuliç~o da vida. O trabalho no metal e os vazados sào sempr·e

muito bo nitos, pois a beleza é a própria essência de Oxum. Seus

í~S qui::i 1 icli.::..cler:a. usarn i:.'llgumas

r volt.2nclo usar balangandês sobre as saias ou c:lour.. c':ldos

pr-·e,::.o<=; err, corrE•ntes e nunca vimos C:ê:~rregar· of~, mf,?smo no ce1!::',o de

U:,-:un Karé, talvez para n~o ser confundida com Logun Edé que usa

A espada de Oxum sofreu a 1 tera~bes. con sider·ávE? i s

pois., no inicio do século, como vemos em dois exemplares (049 f.?.

(, ~5(>) da Cole~~º Culto Afro-Brasileiro na cidade de S alvador,

C:ê~ t,;:1logado por Lody e na aquarela de Carybé um sua Iconografia,

ess,c:t arma era o que podemos chamar uma espada-palmar, como um

longo, de ponta arredondada e cabo estreito sem quarda,

semelhante a um remo - o que remeteria ao seupoder sobre as éguas


II
e õ.'!cen tuava a redondez II
que caracter i zi::-t 0:,-:um. Atualmente, essa

se per-·deu, sendo substituida pelo que~

originalmente, pertence a Iansà.

O abebé. poderoso simbolo dessa Iyalodé conservou

!:::-Uél forma redonda, no Mercado de Madureira. Carybé um

ªbeb~ em meia·-taç;i::1 mi::1s que ostentam pê':1SSêH"O c:om um guizo no [Link]~

guizos este~; que est~o em toda a volta de E:ssHs

1 7,;::
J ~·
'::..ininhos té?>: is tem mais~ v .i mo,,; de que se1...1

s1gn1t1cado - a voz, o choro da crian~a viva - ainda é

i:~ de e~=·PE? 1 ho vem per-dE~ndo, '::. ubsti tu ido pelos.

ornamentos que descrevem, como atributos, as caracteristicas do

Algun!'"f, temas inconogréficos de Oxum se apr-o>! imam

dos de Iemanjà, como~

1) Peixe, flores e sereias: o peixe e

tem o mesmo sentido, mas a sereia, como a que vemos na Cole;~o

Culto Afro-Brasileiro tem valorizado o aspecto do encantamento

da música, pois a lira é um instrumento de Dxum (figs.

2) Cora~~o: ::::.eu =;imbolismo

forteme nte ligado ao amor e à paix~o rom~ntica.

3) Frutos: 1· .. epr0:sen tc:1rn o elemento-filho e a

- 4) Liras: D USO da ,.·1 i. r õ,1 r.~ e>! p 1 i e a d o pelos

informantes, como algo c:apa:z de fazer uma música doce que se

assemelha ao marulho das éguas do rio. Mas percebemos que a forma

desse instrumento tem algo de um útero e n~o podemos esquecer que

os sistros s~o ligados ao c:ulto das deusas-m~es, desde o Egito.

5) Circules: significamm , como vimos, a totalidade


r
do universo e representam Oxum como Iyalodé (fig. Fll/26).

176
fig. F2/23
, . ,
Paramento de Oxum. Abebe, alfange e ides.
,
Em metal dourado, usando os temas tradicionais dessa Iyaba.
Notar que o abano conserva sua forma ortodoxa e o primoroso
trabalho de artesanato no alfange.
6) Pássaro s e cisnes: o e, te ma

·fundê.'lmE",n tc:11 de Oxum, seja por ser o ~-[Link] das

seja por ela ter sido transformada em n um

roito~ !:: >! Lt , tugir de uma o

aprisionara . Essa pomba, po r tanto 1 n~o te m o sentido cristào ne m

é o emblema de castidade, cie inocéncia ou de fidelidade conjugal:

pelo contràrio, perfilha o significado pagào, pe l o qual~ atrelad a

carro de Vénus , é a mensageira do amor e da vo l uptuéc1r-idade

1 957 : pg 81). O cisne é tema i conoq r.. .!:1 ·I' i co r"elc.'ltivamente

recente e ainda raro e simboliza, também~ a beleza e a E-: 1 eq !~< n e .i. ê,í

(·? perde completamente o sentido de mo-te feliz no martirio ( op.

cit. : 103) que tinha no Cristianismo (fig. F2/19) .

7) Folhagens e ofá: Sào te mas raros e sô te mos um

exemplar de cada: est~o ligados a Dxum Pon d à ou a Oxum Karê.

Juana Elbein dos Santos confirma que o

de Cb:um !':? "pupa eyin", 1iteralmf.?nte "gem a do ovo". (SP1NT\JS: 1'-;>76,

pg . 89). O ovo é um dos simbolos de Dxum, com o qual se p,,·epar"c:1,

[Link],,,ive, uma de c:omidc1S de mas ,

s u p r ee n dentemente~ nào hé r egistro, no Mercado de Ma d ureira ~ do

3. Nan~

a m~e: é a av6. Associada a lama, aos

pr· imó1rci ÍD'::', do enuncio, EIO que é.~ ocu 1 to e l'"Eê'CêJnd i to,

sinc:ret:i.zc3da c:om '.:3a n t ' () n a; m~e da m~e ~ c:uJas igrejas s e

1T7
r

fig. Fll/26
Ferro em metal dourado, representando Oxum en-
quanto Iyalodé.
Notar a artesania das flores e a presença do
, '
passara e dos c1rculos.
localizam no fundo da baia, como coloca Lilian Pestre de Al meida,

ê:<né·~ li ~::-c1ndo Sant ' Ana/Nanà no imaginbrio da Grande M~e no

i\Jo ~,;[Link]~;ff,o com percebemos que

C:: e:<I'"" i::I C: tpr-· .:Í. S ti Cê":<':.; assustadoras dessa Ivab.!:1 nâío
,N:..L-o-•,,ooo
i'orc:"1m f?squecidas,

-~ muito pelo contrário, várias de suas lendas sào conhecidas, todas

elas marcadas pelo poder primeiro, ctônico e pela dor (18). Como

seu filho Omolu, Nanà é marcada pela dor e pela agonia.

No Daomé, de onde é oriunda, é considerada com o

o elemento feminino do deus supremo, criador de tudo. No

panteào J@je-Nagô para onde foi trazida, junto com seus filhos, é

figura um tanto apartada, em permanente conflito c:om Dqun,

dono do ferro. Pertencendo a um tempo anterior ao da civiliza~~º,

Dr-i.>:~!_i d2,omE:;.danos. nào dever-·iam usar- metal em ~:-eu culto

rnc-:ts determinaçào tende a se perder, por

acima de tudo. A antiguidade de Nanà a faz ainda esposa de Dxal~

e Orunmilà, a primeira delas, comumente identificada, por todos

DS informantes, encolerizada" . E:sta

dE?Uf.::-a representa o poder ancestre feminino, poder totalizador f:~

quF.: oprimiê:1 os homens e que nào permitia que a V id a

nascesse normalmente sob r e a terra. Pierre Verger, em seu

Grandeza e De c adência do Cu l to de " Iyàmi Osóróng à" entre os

Yorubà (in MOURA: As Senhora s do Pêssaro da No i te , 1994),

C:)S principais mitos relativos à Iyà-mi, mitos de or- iqem , nos

qua:i.s o homf2m Dxalà ou Orunmilà deve apaziquar a mulher D LI,

mesmo, iludi-la, a fim de arrarcar dela parte do pode1r· ger.-=.1dor,

18) ALMEIDA, Lilian Pestre de: A p r esen~a da Grande M~e no


imaginário brasile i ro: f ormas e mot i vos barrocos ; UFF-CNPq, 1958
(mimeo) .

178
po i ~=- 2S!:6iff:, com o concurso harmônico dos dois as

pessoas e as coisas poderào vir a existir. E, nào só as pessoas e

as coisas, mas, também a morte e os Eguns poderào ser devidamente

ritualizados e controlados - sem morte, a vida perde seu sentido .

l..Jma cumpr.. ido<::; os :.i. n i e i o ao que

e!".;;tabelecr:2m as regras da realidade e das institui;óes, Vi·? l hi::t

I_và ..·-mi. cc,m o temor· que ii-duncte, "contr·ibui pê.,ra q2,r-ê.'lnti;-- Ufíli.."I

('f:?. pa 1'" t .i i;i'.i~O ffiii:'1.1. s. jU!':ita c:!c,15 r-ique2as ~::.oc: .i ai S:. 11

:i.m MOURA: 1994, pg 35), o que explica porque Nanà

,.. do .:iura,nf?.nt.o, como

,:,1 ··.-' a l i <::,.ta , a ii:'I senhora do compromisso e das riquezas do <::,ubsol o,

e: C:t t.l l"''. i. : ''Senhor-a do pê.,is c!,,,1 mor.. t.E:-,

As lendas de Nan~ mais conhecidas s~o, r.:1 lém dos.

m:.i. tos. de or· igt?.m ela l.i.A::rrii, as que cc,n tam dr:? sua n.::-1 ai;i:ào com [Link] u,

c::om com Ogum. A primeira história, uma das mais

tocantes, narra como Nan~ abandonou seu filho, coberto de chagas,


1
como Iemanjé o adotou e curou e o encontro final de màe e -ri 1 ho,

no qual o poder dos dois é estabelecido e limitado. A deusa do

rnar- tem vários conflitos com a senhora da lama, sendo opini~o

iJE~l'"ê:'1l que 11
€',•las n~o ~::-t:.1 d~o", po.:i.s N.::~n.;:1 Buruku é o insti..~nte imóvel

do ser-que-ainda-n~o-e e Iemanjà é o movimento para o vir-a-ser.

Nan~ é velha e Iemanjé é nova, como aparece claramente no mito em

qUf.? ambas disputam o amor de Oxalá, entregue, por fim, Iyabà

dos oceanos. A avó disputa com Ogun, o inaugurador da cultur-a, o

da morte: ele mata com o ferro aguiado das armas que f.'21 a

ela usa i::t madeir.. a €? pedr,::t para seus.

- 179
~=-i=H~T i f i cios ou, entào, um feitiço que oaralisa a do

i::1nimal. E dada como màe de Oxumaré, no seu aspecto de !,';!·?rpr.::>n te

e [Link] .i c::,:'1 E~m ,::1lquns mitos, de I r-·oko f.?. de

dos deuses cuja forma [Link] està indistinta entre a natureza e a

ou entre a vida e a morte. E, como todas as Iyabás, e

' màe de Exu, também.

Em face dessas caracteristicas. no Brasil, o culto

a Nanà se marca pelo mistério e pelo cuidado em n~o quebrar seus.

tabus . Na Afric::a, Verger assistiu às danças em honra dessa deusa,

em Tc::hetti, ao redor de um ficus. Era uma dança longa e lenta que

rememorava a peregrinaçào, o caminho penoso que a lyabá teve de

apoiada num cajado, desde o Daomé até a 11


yor-ubi:"'1 l and 11

F'er-tE0nc:E~ i::1D mundo do branco, dos Dl'-i>:~2 fu_n-fun. mas sua ma,-c:a de

interioridade a associa negro, criando a cor roxa que lhe é

indicada (19). Os cauris, representando a riqueza e os ancestrais

[Link] s~o consagrados e ela os veste como grandes colares que se

e:: i'"·u ::: i::1m tir·[Link]: também or.. namentam SLla

uma das mais impDrtantes .fE•rrc:1ment.c':l~ e

exige o cumprimento de obriga;bes que quase paralisam o

E1nalogicamente 210 >:E~>ii:=1r::.~, o [Link]. i cc,m sua


,
r··ecur··vada e v.i.r-ada par-a b,::1i>:o, ''remete ,:':l terra par,:il onde

voltem as almas dos mortos: Nanà reúne as almas individualizadas

na grande rnassc:.-:\ cósmica; é inicio e fim" (Adilson [Link]

em setembro de 1991). Nasceu com ela, é parte dela;

J. 9) Tr aduzida, muitas vezes pelo azul-escuro ou, pelo C:iZU 1-com-


vermelho, como vimos, ao descrever as GUIAS.

180
<:.ua jà o continha e el E? mesmo f.?m uma

.invertida placenta e do útero, como vimos

anteriormente.

Os mortos e os ancestrais sào seus filhos~ simbo-


li:zz.1dos pela~::- hastr,?s. de "àtór-1" ( ••• ), de "Oclt~n"
ou peli:1s- n1:?rvurc1s. c!i:I pi:dm.::::s do "igl-··ópé" ( ••• ).
Os ancestrais, representados coletivamente por um
feixe dessas nervuras, constituem o corpo, o ele-
mE:'nto bà~::,ico, ni':ici r::.6 do "sàsàr-,"!:i", emb1f2mi:, de
11
ob,:1lúai"Jt? 11 , ·filho m:[Link] dE;, "N.t.1nà", mas. ta mbérn
seu p1~óp1,·· .i.o f?mb lema, o II I bi r .i" .
( ... )
CJ Ibir··i 11 , como o 11 Sàst:1r·à", Ê1 feito( ••• ) por-
11
um
atado de nervuras de palmeiras( .•• ) o r-n õ:11T1en t. a e:! o
com tiras de couro, búzios e contas azúis-escuras
e brancas e deve ser confeccionado por um sacer-
dote altamente qualificado, preparado para mani-
pular representa;des t~o perigosas .
(SANTOS~ 1976, pg. 82)

Essa fer-r-amenta. é, com t.z.üs caracteristicas~

~egistrada por Carybé em seu àlbum iconográfico e c:at21 J. ogacla por

i:::;"~u l [Link] ( tombo 0::,2) que i::1 descr·eve como: "F'e;a con f f.?.cci onadi:1 em

taliscas de dendezeiro. ( .•• ) quase que totalmente envolvida em

tecido vermelho de c1ldogi:lo ~ detê. 1lhando a 0


base em algod~o t,r·anc:o."

( L..ODY: pg. 48). Conhecida por todos~ no Mercado de

M,:1dun;:;,i ra, dita como .impossivel de ser comprada mas,

ainda assim, podemos encontrar, postos a venda, vàrios .i.l::li ris

que, tem, por dentr·o, jornal ou papel amass,::idos e as "[Link]~. de

D ibiL..t nos coloca um dos maiorE~s pr·oblemas

iconogràficos da Cole~~o: Mercado de Madureira. Por um lado, n~o

qualquer [Link] .[Link] quanto à complexidade e

r
HH
(
-...

fig. Fll/33
Paramento de Nanã. Ibiri.
A forma da ferramenta é a tradicional, mas o fato de ser ven-
dido pronto no Mercado e de usar metal na sua confecção, que-
,
bra os ditames do codigo-de-Santo.
por outro prO\/i::i ../e l men t,:::; ~ \:' ias dt?

dl'~S:-i:ipar··<2c.i.m(2n to, sendo substituido por uma vassoura que nào tem

qua 1 qu0?r- mitic:o. Ni,:1n:!:i

:[Link] ador··a discutivel, uma vez que~ belo ou n~o, ·feito de

meti'IJ. ~ matE:-[Link] inter·dito. Consta, con·fonne fotogra-famos, d<~? f:ld~.

rtH-,.,[Link]
. t.i po cio é.1 :2t1_ de Dmo l u) .

i'-eceber-am

ensinamento de como fazé-lo, uma vez que muitos vieram de Umbanda

C:)U e incomplE,tc:,,

ter (-fig. F 11 /33) .

comprar um ibiri pronto no Mercado mas é impensàvel ql.11?.

urna séria o fa~a, sob de chacota

c:le -foi preciso encontrar outra

-fer-r·;,~mentc.=i parõ:1 Nan~ que demandasse menos p,,·ob J. emê~S:, r·itur.1:i.s.

D ·foi i:[Link]

vassoura para Nanà. Como a ferramenta de Omolu tem, na verdade, o

cetrc:, e seu simbolismo -f à li co é õ:1mp 1 amen te

r-econhec:iclo ,, fica legitimado, na sociedade que a

para sua m~e, figura feminina: '' homem n:to usa

Essa atribuiç~o é reforçada pelo gestual da dança de

Nan~ que faz com as m~os um movimento ritmice como se se apoiasse

num cajado para marchar ou como se [Link] grgios num mor.. tei Y"O

20) PRANDI, Reginaldo: Os Candomblés de S~o Paulo (1991); DAMTAS,


Beatriz Góis: Vovb Nagô e Papai Branco (1988); AUGRAS, Monique: O
Duplo e a Metamorfose (1983)

182
simbólico: esse movimento foi reinterpretado como o ato de varrer

J enta f.? cuic:lc.:idosament.e. Sendo E,s. cer-dc.:is c:la :~.!:n:-ª. fei t.c.:1S de

(fig. Fl0/18), a ràfia de Omolu que, como

de proteger, ocultar e controlar algum grande poder-

ClU segredo, se constitui num indice seguro da oresen;a da velha

Iyabà, da poderosa Iya-mi do inicio dos tempos.

A vassourª de Nan~ vem se impondo ao Mercado, como

urn c:1tribut.o pois c:lescrevr~· ê:1dequ é."'idc:\fflen lt:2

constituindo-se num exemplo de como o culto popular modificou uma

:( c:on og r- ,,?. ·f i E1 de como esta,ao se c::onstr--ói nO\iOS

s ..[Link] i ·fie a dos ~:::,imb61 ic:os para a divindade (21). Esse atributo se

torna tào presente que registramos um paramento para Nan~, -f'eito

de pano rebordado com lantejoulas rosas, no qual as vassouras sâo

F6/22). Adilson Martins OLltros. f2/ ou lojistas

tradicionais recusam veementemente essas modificaçbes (ainda que,

sob encomenda, as fabriquem ou vendam) mas, antropologicamente, é

pr-f::1ciso como uma demonstraç~o da capé.-=ic:id.:'!de do

çódigo-de-Santo criar novos signos, capazes de responder às novas

e:,: igé?n e ias [Link] e religiosas. Se consideramos o _código-de-

9an to como uma l in<;1uagem, éJ necessàr io co l occ::ir que serve, n~o só

e>: pr-essc::1r- a lembran;a do passado, mas, também, para

expressar a novidade que reconstrói a memória permanentemente .

Como todos os Orixàs, Nanà tem de várias

21) No caso de Nan~, os novos significados se apoiam nos traços


antigos que nào desaparecem, sendo constantemente citados pelos
informantes.

183
fig. Fll/34
Paramento de Nanã. Vassoura e Abebé.
O uso do metal nessas peças é muito discut{vel.
,
Notar o padrão d .... ivo, bastante geometrico,
""'
.
usando formas de losangulos, estilizações do i-
biri e cachos de flores.
Notar o uso da palha na confecção da ~oura.
[Link] as únicas que vimos c:i tadar::. no cotidiano do

Mercado de Madureira f Dr c1ff1 P:j a pà, à morte violenta,

às profundezas da terra e que, nos disserc1m, clt?veri.a

todo coberto de búzios e Buruku, a mais conhecida de

a ponto dessa gualidade ter se tornado o "sobrenome" ele

Nào encontramos referência

con for··rne gue:d .i.d~i.!Jf:.. apc:mtc:~dc:1, ~~enclo cs [Link]:i.s tema:~ que

l) ibir i gravado no metal é quase o icone dessa

Iyabé, como vimos.

2) vas s oura representando seu c1!::,pecto \ -' e lho,

maternal e feminino; r emete ao zelo e à severidade desse Orixà .

flores em c a cho --· r.. epr·esentam o~~ i' i lhos E1inda

.:i. ndi s tintos como individuas; quc:-1ndo s~o chamc1d,-1s

quaresmas, remetem à cor roxa e ao sofrimento evocado pela Paix~o

de Cristo. As flores de Nan~ sào sempre apresentadas em

semi-fechadas (fig. Fl0/9).

4) caur is os pequenos b ú zios representa m

riqueza , os filhos por nascer, o mistério da palavra iniciética .

~'.', ) quadrado e tri ~ n g u los i"ormas quadrangu 1 ar.. es

c::omun~. nos incisos que ornam CtS paramentos:, de Nan~ E~

a terra que, sob a forma de lama, é de

Os triê'!!nqulo<.:. <.:.azinhos DU compostos cc)mo fos:.~em

um tran~ado diagonal representam o movimento, pois Nan~, a mais

184
das Iyabãs, ê aquela que comete o gesto precioso que,

mitos das lyà-mi, permite que a vida possa se engendrar.

6) lágrimas ou gotas; lembram sempr-·r:1

nas hist6rias desse Orixé e, também a chuva miúda que

transformando tudo em lama, lhe é consagrada.

I\Jos i'oi r-·E:lat.:1do como tema

iconogr~fico de sua imag1nària, a galinha d'Angola, umdos. seus

bichos de matança, mas jamais vimos qualquer exemplar desse tipo.

4. Euá

Tomamos o E•lemento c::entr-c:11 e

organizador dos atributos que simbolizam as Iyabás e vemos que as

ferramentas de Nanà e de Euã sào as que mais se afastam da forma

e do significado do abano de Iemanjà e Oxun.

desconhecidos. Olga

resgistra a confusào de informa;~es que existe sobre

€-?SSa I/ab.[Link]

Orixà feminino, ninfa do rio e da lagoa Ye wa, na


Nigéria, Africa, cultuada somente no Candomblé,
tendo pouco~::- "-filhos". Em i:dguns terreiros é con-
siderada irmà de Ians~ 1 em outros é a cobra-fêmea
esposa de Oxumaré, representando a faixa branca
do arco-iris. Em alguns é confundida e assimilada
a Ogum.
(CACCIATORE: 1988, pgs . 116/7)

Tatti Moreno (Orixás 1 Salvador: Fundaiào Valdemiro

Gomes, 1987) diz que tem afinidade com Nanà e Omolu,

18~,
Lydia Cab rera diz que teve um filho de Xangc. Waldeloir Rego,

seu texto Mitos e Ritos Africanos da Bahia nos diz que:

As geraçbes mais novas n~o captavam conhecimen-


tos necessários para a realizai~º de seu ritual,
dai se ver, constantemente, alguém dizer que fez
urna "o brigC:i{;:~io" par·é.'I Yt,:vJa, quE1ndo na rf. :r.:[Link]:lade o
0

que foi feito é o que se faz normalmente para


Osum ou Oy a.
(REGO in CARYBE: 1980, s/ pg)

- Dessa deusa sô sabemos, com certeza , três c:[Link] s:

é muito bela (seu nome significa beleza, graça), 0 guerreira e ,..


1:-:c'

\/ i r"ºfJE?ffl. "Ei~- que Yewa, a virgem, o simbolo ( ••• ) li

( CP:BF:EFJ.:i: 1980, pq 3~,). Falando Pid i 1,.,on

(entrevista de janeiro de 1994) considera que seu culto se perdeu

exatamente porque simboliza a virgindade, à qual a negra Pscr··c::1\/a

nào tinha qualquer direito. Diz ele que Euà é tào virgem que o

simple<:: fato de cortar com a lêmina o alto da cabe~a para põr o

adoxu (CACCIATORE~ 1988, pg. 39) Jà é visto, por ela, como uma

Essa vi rg ind.::~d<-::2 estado da "mulher·

-f echc::ide. E'm si mesma" ( 2::) (MARl<ALE: 1979, 170), que remete ao

latim "vis" (for~i:~) e a "vir" ( h1:3mem) , constr·uindo uma

-fpminilidade que e>:iste pela sua e>: e: 1 us~o da a 1 tr,~r idade

[Link] 1 ina, que basta a si mesma. Se Nanà é a mulher que

vida virtual, Euà é a mulher que faz essa promessa à vida, mas

que nào a realiza ainda. As raras lendas que sào lembradas, CC)ffiO

a galinha que lhe suja a roupa; a do filho que concebt? de

Xangô sem ter com ele o intercurso; a de sua fuga desesperada de

Omolu que a deseja ou de seu casamento com Logun ou com Oxossi, a

186
quem salva da morte , s~o histórias confusas e f ragmen tad,:i1S, na

qu a l ressalta a solidào que essa Iyabà persegue e sua impaciência

em relac;:ào à côrte amorosa .

Seu culto come~a a ser resgatado modernamente, mas

parece sé-lo a partir de fo n tes acadêmicas e n~o populares.

uma reconS::.truc;:~io artificial e, portanto, ainda

inexistente no Mercado de Madureira. Ao longo de nossa pesqu:i. ~=·ª

\i irnc:i<.::. fF.::i. to

por encomenda no ll.g, lJdarc.:1 e tivemos [Link] de E~lgumc:.1i;:; con tas

ou de algum alfange ou oià a ela consagrados em

Carybé registra como elementos do paramento de Eué:

l ) u m:i.s:,tér:i.o ela

contradic;:~o da exissténcia, ainda nào existe . A virgem ainda

teria o que escon d er, porque ainda n*o fez nada .

2) adô -·- seu mais. importa n tr: atributo; t<;?m a ·fo r m,:<.

de uma cabacinha enfeitada enfiada num cabo de madeira e com uma

pequf.:2n2. s0 aia de pi::1lh2.. E um s:í.mbolci tàl:[Link] que i::1 torna .[Link].;;.ivel

ou que a transporta de um lugar a outro, capacidades que o tornam

s e mt:l hante ao ogô dt~ E>:u.

3) espada~ ofà e arp~o (ou lan~a) - armas, ta mbém

i;::<[Link] ao universo das formas fàlicas . Essa deusa

ainda n~o mulher, vive a vida de um jovem guerreiro.

'.;;:'.2) "·femme f'~nfermée r,.;,ur· ellE: - mém<:~" (l"IAR~::P,L.E: .1.979, pg . 170)

.1.87
4) eruexim de palha da costa - simbolo de realeza,

caso, a presença de palha serve para cobrir o mistério da

mulher intocada .

5) tran~as de palha de costas bordada com búzios -

se amarra com ela, passando cor debaixo dos bra~os, cruzando nas

costc,:. amarrando na cintura, muitas vezes, em tons de vinho ou

Estariam ligadas à transitoriedade do estado '-lirginal

que, por um lado, deve ser mantido, controlado e, por outro lado,

deVf.·? superado para chegar a ·-f em :i. n .i. na

fundamental no Candomblé j~je-nagô.

Carybé registra,numa ilustra~~º de sua Iconografia

dL.l,;:i t:":. ·fci CE~'.::- em pêndulo, douradas, de uma Euà no Candomblé do

No Mercado não conse<_:;[Link].=-:; n<=-nhuma

informai~º sobre a interpreta~ão iconogràfica desse .:,r-tefato,

sendo provável que tenha desaparecido.

5. Ians~ 0L1 Oyá

l ansã, uma das deusas mais populares, c:ar-rega

atr-ibuto pn'.:,:-:imo d<i:1 for-ma e.~ do [Link] do §beb§'.., mas

que nào deve ser um abebé, em fun;~o da intima liga~~º dessa

deusa com os mortos.

Ians~ rainha, senhor-a da guerra e das

abundantes de tempestadas: àguas do céu e, n~o, da tr.-,:r-ra.

que vem dos relàmpags que s~o riscos de fogo: Ians~ é ardente e

ignea como seu mais famoso consorte, XangO . E uma divindade muito

c omplexa e se r-elaciona com todos os elementos da natureza; com o

188
aspecto selvagem do mundo, enquanto divindade de floresta e com o

aspecto cu1 turcd, enquanto soberana e deusa do de

import~ncia fundamental para o Yorubàs. a senhora dos ventos

i'ur iosos, que t?:io bem descrevem tur-bu 1 en to

deva<::.tador. Sua sensualidade é arrebatada, sendo o protótipo da

mu 1 her- independente, que decide sozinha como, quando e com quem

c::,bter pr-E12e1"'.

r,:;.en ho1·.. ;:,, da vida na sua maior pJ.02n1tude {~,

tambóm màe dos §:gun~c:,. r:.=: 1a i/.":! .LL,fil-mesan-·-ó!'.:l:!.!l, or i ki. que signi f .ica

do qual

o nome Iansà. Ela é um dos aspectos da Jya-mi que possuia

n segredo dos mortos (e, portanto, da ancestralidade e da vidc1)

no inicio dos tempos - segredo, esse, que é conquistado por Ogum

(2~3).

S~o mui tas õ:iS lendas,.

conhecidas a que conta como se tornou a senhora do fogo~ roubando

um feiti;o de Xangô - suas histórias com Xangô s~o vérias~ pois

e o escudo (por isso, ele n~o tem esses atributos) para combater

os mortos que :[Link] a terra; toge de Xangô e ele sua

possessividade, encontrando refúgio junto a 0:-:ossi e E>:u. Num

mito famoso é dada como màe do primeiro Exu nascido, Exu Yangi.

Foi amante e amiga de Oxossi que lhe deu grande parte de

atributos e compartilha com ele, o reino da mata. Foi esposa de

Ogum mas o trocou por Xangõ que a seduziu com sua elegt!incia e

23) Ogum por ser ferreiro~ lidar com o fogo e a c:entelha, está
bem equipado para enfrentar Iansà.

189
espalhando, com seus ventres, as ·folhc~s do

fundamento para que t odos os Orixàs pudessem pegà-las. Chamou seu

vento dan~ar com Omolu e desvendou, por debaixo do :[Link],

[)>:LI m mais de uma vez, pois a do~ura e a malicia desse a

:.[Link].::,m. TE::ve ·filhos - ~';:.9unss_, F>!us, cri.:-1nç;:as - mas u,::. .::1b.::1ndonou

para voltar a vida errante livre na floresta, deixando, no

entanto, com eles,

histórias de valentia, de decisbes que articulam forç;:as opostas:

fogo e égua, paix~o e l i berdade, almas dos mortos

c:!os v i\ 0,::. • ''!::: 11-..1~-E: e violenta como


1 E, ternpesti..1de que f-:,la comanda''

(AUGRAS: 1983, pg. 150).

Seu culto pressupbe que seja assentad~ junto de

DLI, quando é uma qualidade ligada aos mor·tos CjLie

perto de uma touc:eira de bambu. E o único DrL·:~

cultuado em terreiros de Eguns (24) e seu D rumoeb~. de

contas marrons e corais simboliza a idéia de que a vida é maii:.

a morte, de que esta é apenas di::I t:ê'>i i stén eia.

mais c:onhecidi::iS:. Iansàs sào, no Mercado de

Madureira, Ians~ Balé que, toda de branco, comanda os E?spir·.itos,

Oyà Mesan, mulher de Oxossi, que tem poder sobr·e os animais

\',;f? 1 vagens; Oya que, com o vento espallhou i'olhaS:. de

o~:ssanha; qualidade que, como esposa de Dc;iun, é

guern?ira, <? se contunde com Oxun.

() paramento de lansà, E?ITI cobr·e ou t':·m metal

'.2 4) SANTOS, Juana Elbein dos: Os nàgô e a Morte;


'-/ozes, 1976.

190

r
con~.t.:-:1 de·? ·f ..i._lJ·.• erue >: im.

e, às vezes, escudo . S~o

Iansà, no Mercado de Madureira, mas Carybê

nào os registra e Raul Lody cataloga apenas o abano de palha e,

nào o abano brilhante de metal. Fotografamos dois de

Iansà, um com o tema de borboleta e outro com o da ·f l or-df.~-1 is;.

(-fig. F- ..:;. / ,::: F'.2 /::~:o) . ~sào rE::dondos,

f.':: trabalhados, a fim de evitar qual quer·

O uso da borboleta na quase totalidade dos de

Oyà, se explica por ser este o seu eró (segredo) e por suas [Link]

claramente um quadrado que rompe e neqa o

circulo/ventre/cabaça que seria o abebé de Iemanj~ e Oxum . Uma

grande parte desses abanos recebia hoje isso é menos usual - um

fundo de pelo de vitela ou cabrita de mod o

r--pcu pE,:r-a r- C::c.~racter ist:i. ca do

diz ~~d :i. l son emblema

muito t(?.n tador p,:.1ra ser- :[Link]-ado: o devoto sempre busca '' o mais.

bonito'' p;,r-ê:1 seu Si::1nto, ma!:. devE: c::1der.:iu2.r- Sf?U desE:jo dt':: bE·lezõ:1 às

iconografia de Iansà é rica, n~o s6 por cau sa

dos elementos antagônicos que a caracterizam, mas, também, pela

poderosa presença de Sta . Bárbara, com a qual é sincretizada .

1) alf a nge - é a arma de Ians~, foi-lhe dada p or

que a fez, espalmando entre as m~os seu arco (fig .

Faz dela a mais terrivel guerreira, pois esse tipo de

lamina fura e rasga ao mesmo tempo.

191
fig. F2/30
Peças de Ian1ã em cobre.
, ,
O abebe e em forma de· borboleta. Notar a beleza
do relêvo, detalhhdo minuciosamente e sua compQ
- , .
siçao em trapezio, '
quebrando o simbolo ,
do circy
lo.
li
As pulseiras, ao lado, tem como temas ornamen -
.
tais, relampagos, chamas e grifos.
-
2) escudo - est~ ligado a uma batalha que teve com

c:,f.". egLtns num mito famoso no qual a morte e a vida s~o separadas

é bas:,tE1nte l"'E11"'0 hoje em dia,

~ normalmente atributo de Obá .

ezu z u ou abano - representa, desde a Afr-ica,

Ians~ como rainha, como Iyalodé.

4) erue>:i m -·-
11
E:Spê.:inador 11
de r.. ,,~bo dE:, boi ou de

foi-lhe dado por Dxossi e representa sua afinidade com os

ê:[Link]::. selvagens, remete ao célebre mito no qual se trar,;;;.·fc)rma

F2ro \! i te 1 a ou bófala. E um simbolo de também ( t ig .

r F10/.1.).

!:,) ojés - ig u ,:':llmentf::· dados po r 0:-:oss::,i ,nê:1S m~os d.:2

guarda m os ventos q u e desata sc:ibr-e o mundc:i, mas sào, ao

mesrno tempo, us::,ados por seus filhos para

soprados, mas batidos um no outro (fig. F5/28).

6 ) capangas na suas çU..ta 1.-=.\_çlades de ca;adorc1 ,

Ians~ usa capanga (fig . F2/34) que, aos poucos, por ser F~l e mento

muito ornamental, se ge n eraliza para to d as as outras,inclusive a

de Balé .

7) búfalo OLI boi é o animal rio qual se

transforma, representa seu aspecto selvagem e iricontrolàvel.

i92
H) borboleta - representa a alma dos mot·tos qup

ela comanda, mas, ao mesmo tempo, é a própria Iansà (fig. F 2 /32)

enquanto feiticeira.

9) aranha nunc,:::1 \/ imos usadé't co,no te mc:1 f:?. m

qualquer pe~a, provavelmente pela repulsa que provoca; mas é tema

:.i. conoq r-· .'.:1 ti. co deSS.::t deusa, sendo ligada ao bambuzal que

e:: cm ~,,i:,1 (J r-· c1d o •

JO) fogo - é seu simbolo por excelência, j à quf:?:

como Xango, bota chamas pela boca.

11) raio -fu n dame?.ntal de

:.i. conogra-f ia, registram, inclusive o uso deste tema na -forma de

espadas - coriscos.

12) flor-es - serrq:::ir.. e com pontudas pa r-a

acentuar seu car~ter guerreiro; sua flor mais comum é a f 101~-de-

lis que r··epresenta, também, =-eu "status" de rc::[Link].

grifos 116/7) se [Link]

longamente sobre esse animal mitológico, mostrando sua pre~sen<;;.a

na iconografia oriental, eg i pcia e possivelmente hebraica (se r iam

os querubins da arca). Simboliza a a quarda de

tesouros ocultos e, por extensào, a sabedoria. Senda elemento de

<Jrande v alor dE:,cor-,,~t .i vo, terii::-1 sido repetido maquinalmente ,

pe r dendo sua fun~~o simbólica. No Mercado de Madureira està sen do

193

L
-
u~.ado ~,.imbcd :.t.2ar· a coragem, a valentia. s;.endo [Link]::,to em

paramento s de Iansà e Ogum.

1.4) face ou màscar a af rican a temi:\


seria uma representai;;:ào simbólica da própria deusa, como

P1frica; cur· ios.o a deste

11
ai' 1,.. :i. can ismo" pois na pei;;:a que fotografamos, estcf:'t

,:'1 r.. ti eu l a d i::1 com um belo f estào de flores que 1 embré:1 o bar·r·oco

( ·fi<;:J. F'.2 / 3.1).

ta~a o r· J. und ,:.:, do "~i n e: r"f:Jt ismo c om

r emf:,: te à feminilidade, à sensua l idade de num

claro exemplo de t ransformai;;:ào do conteúdo temàtico; registramos,

no entc:1nt.o num §.Q_g_ - capacete, de metal branco, (Ians:,à Balé) um

Ci:i1l :Í.CE': c om r-·esplendc,r que r·e mete é::10 "cálice de ':::. alvai;;:ào",

demonstrando uma apropriai;;:ào da [Link];;:ào católica a fim de

1' .. F:f or-· c;:ar· uma caracteristica da deusa do Candomblé (fig. F6/6 e

F6 /7 ) .

Us temas sào usado 0;:; em t odé:1S as

qual .idade"; de I ans~':l, mesmo c.1 barbo 1 eta que [Link] apenas atributo

da de Balé, sendo o elemento que hoje distingue essa gui:.~ 1 ida d e

das demais apenas o uso de metal cromado (pintado ou n~o) e~ n ~o

mais, um signo especifico . Num dos paramentos registramos um tema

t.r·iplo: Ellfanje, ~:,>:~. f? [Link], muito rar··o , e que ilustr·a o mito no

qua l a deusa se relaciona com Xangõ e Oxossi.

6. Obá

Obá c onhE:cic!a por ser uma I y abá guerreira,


ter-ceir,:\ de Xangô e por ter sido por D>:um.

Elbein 1~ eg is t r· c:1 como J y ~:\ -e_q b e .: "Anc:i~

guardi[i da [Link]~ E l éékó" (SANTOS: 1976~ pg. 118). E

cor,sideradê.1 um,::1 mu 1 her· velha~ mas ·forte e uma

manifestaç~o do aspecto arcaico da feminilidade.

Di v incli:'.1dP do rio Obà 0 na Africa,

conhecido pelo seu insucesso matrimonial. A lenda mais cc:mh1:.H:ida

de Obà conta como, enganada por Oxum (a esposa favorita de Xancõ

e da qual ela tem ciúmes), cortou a orelha e a ofereceu num ama~á

ao marido. Este. enojado com o prato. expulsou-a de c asa. Esta

história justifica a dan~a de enfrentamento que se dà quando Oxum

e Obà se encontram no terreirq. Verger anota. ainda, lendas sobre

conflitos com Ogum e uma sobre o rei de Owu que SéH:T i f i CDU às

do Obà sua esposa Nkan. Ouvimos. no cluas

histórias que nos

era sobre como Obà perdeu a orelha quando, disfarçada de plebéia~

v ai visitar o mercado de Oy6 e là,numa altercaçào com

e:: omurn • ele cor··t.a sua orelha fora. Xangb 0 chamado julqar· o

entrever-o~ dà razào ao homem e Oxum taz para Obà, uma orelha de

masi=:,a de taioba, J'.:. i z .i,J a - tabu -- desta Iyabá. A outra história é

sobre Obà que, sendo avó de Oxum, é amante de Xangô que ,::[Link]
1
formosa, apesar de ser idosa; quando, no entanto vê a neta, se

toma de paix~o pela dona do ouro e faz de tudo para conquistá-la.

Obà cede o amante mas o submete a uma série de prov as (que o

informante nào sabia quais eram). ao fim das quais. a cachoeira

se abre e ele alcança Oxum (25).

25) Entrevista informal em Janeiro de 1992.

19'.:,
Ubá con censo de todo!:, os

mulher abandonada, aouela que jà 'foi mu 1 her-,

plenamente, e deixou de sé-lo . Sua feminilidade é amarga e triste

- mas nàc destituida

a ser evita ; ào de Oxum, nào sabemos. de nf.~nhu ma

no seu culto. Seus paramentos sào raros e pod e m

ser confeccionados em metal cromado com aplicaç~es de esmalte a

-F r· .i. o t?m tons encarnados ou em metal dourado. Nào ·f o tog 1'"· a ·f am o !'::-

nenhum paramento de Obé, tendo nos sido dito, em algumas lojas~

que, ou se adapta um paramento de Oyà para essa i o quf:?

julgamos bastante discutivel) ou que se faz apenas por encomenda,

~sendc:, tê-lo em exposi~~o, t~o poucos seus

1' i 1 hos.

iconografia dessa Iyabà é reduzida, r-·ef J.0![Link]

seu minguado culto.

1) é:1dé ~:;em assim como Euà que n~o cobre o

rosto porque seu mistério feminino ainda nào é completo, Obà nào

o cobre porque perdeu parte dele: perdeu a

hdi l !::'.on Martins (entrevista de janeiro de 1991) argumenta que,

p o r outr·o lado, ela deveri,::1 vir com .f_ilá, pois conh ece o !:,eg r-·e do

da vida e da morte e isso ela nào perdeu. Carybe a registra no


1
Mural dos Ori >: á s, sem o c:horào, c:om os olhos ab e rtos e i.mó[Link] .

2) couraça - por que é guerreira .

::::;) pul s ei r a s e b r aça l etes -·- sempre com corn·?ntes .


r

196
.::;. ) escudo - o seu mais importante atributo, pois.

l..tSa O Ft":',C::UciO or-e l hi::i cJecE:tpac:i~::t. Este f?Scuc!o,

ger .. i:-=tlmente, é com não mé-=tis clF.: 20 cm. dr-"

(J como um disco de madrepérola, polido mas qutõ> não

reflete nada; no seu àlbum iconogràfic::o o desenha num dour-ado

esCUf"O, opaco. assim, um ventre nào mais i'l:?cundo: o

significado do escudo de Obà se aproxima do ~bebé, pel i:.i "forma,

se distancia pela funiào. O escudo nào serve para o~si:E·[Link]·

uma feminilidade orgulhosa, JTJaS uma mu 1 her·

simbolicamente castrada e socialmente destruic!a.

5) espada - Carybé registra a forma de sabre e um

:[Link]:~nt.e rr,e c:!iss.t:? quf2 1


'Dbà n~ei usa [Link] 11
• Tc1l\/ez se j ê:1 por·

que o [Link]"E? é uma i'ormê1 mais 11


i:[Link] 1
' no Mercado ele M.::,1ndur·ei r·c:1 ou

por que ela tenha algum enredo c::om Ogum.

6) Ofá - apesar de nào conhecermos nenhuma lenda

que a aproxime de Oxossi, essa ·ferramenta constante nos

paramentos de Obà.

7) flo..-es As flores s~o s-,ingelc.,s de

p~talas bem peintudas, se aproximando, mais do que as de Ians~ 1 de

- uma forma masculina.

H) ondas - geralmente entreJ.a;adas

197
ondas revoltas do rio ou à luta constante.

-- 9) b~zios - justificados como ornamento pois Obá ~

velha e teria direito a eles. Um informante me contou que, mesmo

<::.endo expulsa do palácio, por XangO, nào perdeu sua riqueza que

pode carregar (26).

f-1di lson Martins, em entrevista em julho de :l.994,

-- contou ~.;;.obre Umi:I :fe.r·r,'::<.ment1t~ dt: Obi~ que seri,A, n~o um f'.':scudo

redondo, mas uma orelha, feita em metal, de cerca de 30 cm de

comprimento, usada para tapar/repor a que teria cortado. Levantou

2 h .i. pó te\;;.e esta ferramen~~ unusual i...tma da

f1:[Link] .i 1 :Ldi:"lde perdida ou D inicio d~? uma reinterpreta~ào que

\[Link] de construir, nessa Iyabá. o

[Link]<::.e a homossexualidade feminina, bastante [Link] em

alguns Candomblés.

O pante~o feminino jêje-nagõ comporta ainda outras

- divindades, tais como Dduduà, Apaokà, Dada ou Baayóni. Sà o deusas

CUJO culto tende a desaparecer ou a se transformar em qualidades

cl,:::. I;,-abt~s mais populares. N~o encontramos, no Mercê.1do de

nenhum paramento ou ferra~enta dessas deusas, até

porque, objetos estào entre os que só podem ser

con'ft?[Link] no retiro do .~...[Link] (CACCIATO[Link] 1988, pg. 221).

Até 1993, no Ilê Odarà estavam expostas esculturas de argila

nas 'fotogr-.;;d ias) que, no de Adilson,

-------------·----
26) E preciso lembrar que, na A'frica, em vàrias regibes, a mulher
rejeitada, retoma o dote que trouxe para o casamento, n~o
perdendo a sua riqueza pessoal. (SMITH, Robert S.: Kingdoms of
the Yoruba, 1976; MAIR, Lucy; African Socieis, 1976; DAVIDSON,
Basil: M~e Negra, 1978) .

198
o aspecto primitivo e/ou assustador das df?u~.as,

sendo dadas como Iya-mi ou Oduduà.

Oduduà, Elbein dos San tos, conta

vàrios mitos e dé longas explica;bes no IV capitulo de sua tese

Os Nagô e a Morte, sustenta ndo, mais tarde, uma polbmica, a esse

,,.·[Link] to com Pierre Verger. Este etnógrafo afirma que Odudué

homem~ '' Odúcluà mai!::- um persona9em hist6r-ico quE:• orL:á;

guerreiro temivel, invasor e vencedor dos igbôs, fundador de Ifé

1981, pg.

Jui:7\na Elbt?in, c.1. t.2:-1ndo Bi:,scom (1969~8::2) (·? Abr-aham

( [Link] 4;,:<.1.) , é:1 f i rm,,71 que Oduduà é mulher e esposa de Obatalà, a

i:::ic,1rte in·ff,,:r"ior.. di:1 c:aba<;;:a --· s-~g_Q., :::.imbolo da uni~c:, F:nt.t'"f.? masculino

e '[Link] (Santos : 1976, pg . 64 ~.;eq • ) . No Mercado de

Madureira, todos conhecem essa polêmica e a opini~o mais geral ~

que Oduduf.:i é um ê~specto i'em:[Link] de Ci>:al&. "de muito fundamento,

1nê'1s que n;;~o tE::ndo, por-tanto,

"f' F:r-rE1men t2:-[Link]. . Tatti Moreno, ao esculpir uma imagem de Oduduà lhe

t,:-:n t. n?. q a ' como a tr-:i. bu tos, uma foice e uma espécie abeb~

empunhad<:1 de cabeça-para-baixo. D primeiro objeto talvez

si gni fique o tempo, a antiguidade dessa divindade, e o segundo,

talve seja uma composiçào entre o abano ritual e a

de uma cabaça.

Apaokà é uma divindade fitolàfrica. identi -ficada

com a jaqueira ou com o mel encontrado numa colméia nessa érvore.

E dada como a màe de Oxossi no célebre mito no qual esse caçador

o pàssaro das Iyé-mi. ç-


.:_m algumas versào é considerada como

entidade masculina. qu_c.:~ 1 [Link] mui to ve 1 ha e esquecida d!2 CJ>:ossi

199
que usaria alfanje e escudo. (Moreno: 1987, pgs. 74/5).

DadE\ ou Baay6ni é uma Santa da familia de Xangô

c:E,pacet.E?

i n t.E? ir- ,::1rn<·?n te carregado de búzios e pedacinhos de espelhos f? do

qual, pendem tiras de couro enfiadas com búzios. Seu papel ritual

parece se conter nessa coroa que, durante uma dan;a de Xangõ, lhe

f,?ntregue retirada em seguida, simbolizando perda e a

!'.. Ft t O ffr ,::í d é.1 d O r- [Link] i n O • [: ~:;.~.;;e f:.:.r!J1 d f? 8aay6ni, imagem muito conhecida e

registrada várias r-epresentar ia C)

feminino que sustenta a soberania de Xango. Na Africa, DS

dessa divindade sào sempre apoiados numa figura feminina que tem

o papel de sustentar o poder do rei e legitimá-lo: assim como &

possivel que as nebulosas figuras de Dada, de Iamassê (dita a màe

de Xangô) ou de Axabó sejam um eco das poderosê.,s. rainhas-

consertes e rainhas-màes nigerianas.

é conhecida apenas como um Orixà i"emin ino

da familia de Xangõ, que se veste de roupa estampada em -..iermel ho

brE1nc:o. Tem como atributos uma lira ou sistro, sem que

qualquer explica;ào a respeito (Carybé: 1979; pg. 78/9) (27).

As I v a -m i Ox oron gá , o aspecto mais tenebroso da

-feminil idade sagrada tem poucas representa~bes, como de

'./imos:, na loja de Adilson, em 1993, uma escultura que

[Link]-ava um ventre de mulher jovem, belo e bem torneado, rnas

aberto, vazio, amea~ador como um buraco negro: nosso .informante

27) Essas figuras femininas nào têm representa~ào iconogràfica no


Mercado, sendo a interpreta~~º de seus atributos, duvidosa . Obà e
Euà, apesar de nào terem ferramentas e paramentos a venda,
costumeiramente, têm seus temas conhecidos por vàrios artesàos
e/ou lcljistas.

200
nos c:1 firmou CjUf? era a representaçào de uma I y i::1·-mi 0>:orongá.

Ci."!Fybé {\ -~
1 O:-:J7
, ; '::J
.. u
~ pg~~.. :32 /:~::,) a d,\ como don.;:1 r·t2pr·t:':'sen ti.=.

como grande cabaça vazia que contém um pássaro CiU como

casca esvaziada de um caramujo, a altura do ventre. Seu pássaro~

a coruja, noturna e de chamado agourento e assustador (Verger in

Moura: 1994; pqs. 16 / 17.

E<r-u>:a ou sereia, amante ou guerreira, ou

P >: :i. 1 i,i d a , senhor·i':1 das àguas todas~ do mar, do chuvas

fortes e finas, das làgrimas. Senhora das àguas que prenunciam o

do sangue menstrual, do ovo, do fogo que aquece as E11 rnas

para além da morte.

podf:? parti l hi,H" o l'"Einc::, da como

c:on!::=,or· tf':', esposa ou m~e, pode ter seus acordos com os reis e os

tronos, mas seu poder e sua mirada s~o muito mais largos. Senhora

c:lo o possua, quer dele se afaste, êt

mitologia jéJe-nagõ, é a artifice da própria existência.

,-..

201
CAPITULO IV

OS SENHORES DA LEI

"Daí, r.. e limpo de tudo,


escorrido dono de s i, ele
montou em ginete, com cachos
d ' armas, reuniu chusma de
gente corajada, rapaziagem dos
campos e saiu por esse rumo em
r·od,.:1, p,':lr· a .impor· ê:1 j usti <;:a."
(Guimaràes Rosa: Grande
Sert~o: Veredas; Rio de
Janeiro, Nova Fronteira, 1985:
pg. 4.1)

i::1pen .;:1r de ~;erem

vi rgens ou s ensuais, apesar de serem t~o diferentes, guardam uma

un idi:<.cie básica que e o mistério da maternidade seja c:umpr·:[Link],

prometido, negado ou temido. Por comparai~º' os orixàs masculinos

-- Os P[Link].or·g_§. ··- par,.;;,cem c:ompletr.1ment:e clist:intos entr·e si, patr·onos

de atividade bastante dispares e até, conflitantes.

Us f.iboy_::ú~ estào 1 igados às c:1tividac:les ;;;,ociais,

C::U 1 [Link]· 2. i S-: pertencem ao mundo da demanda e da aventura humanas.

MF?.!::-mo E:,:u que é o primog~nito do uni ver·so, voz--primeir·a de

Olurum, age como mensageiro, como portr.1dor de pergun tE.1S e

r·e!::.posti::1s da angústia nossa. 0 :, -:alá, o grande Q_rL-:4'1. fun-·fun tem

como ~.ua miss~o, moldar os corpos, ou, com a massa de inhame,

c::ons t. r·u ir·· o mundo permanentemente - estamos longe do espelho de

I emanj i!.1 ou de vi rtua 1 idade de Nan~: os Or· i-l!..s!.á. mas cu l .inos buscam a

concn,? tude. Buscam o remédio ou o veneno efetivo das folhas, a

c::a;a que irà alimentar a comunidade, os artefatos da civiliza~~º,

o comando das leis, os tesouros que se ocultam nas profundezas,

a pesca e o plantio no espa~o domesticado. As Grandes-Màes parem

2(>2
\

o mundo - todas elas, miticamente, s~o m~es de Exu - para que os

deuses - f ilhos / esposos o organizem. Essa divisào de poderes não

e Abor-g_2 dis.put2m e< soberani,':.i ( 1).

Corno é ele s; [Link] espera,r··, por

v<·?n tre / caba;a, os. a tributos dos B.!loró§. f::.ào -f ,\ 1 i cos. (1li_::iuns

r-f-2·fert-?m ao conflito com as mulher-e!:., com o ê.2a>;or-t'.'.l dr? Ü >;al,~~ ou o

L~ de 0~:SS:-i::inha; outrr.:ii;; l'"f:?metem ;\ r·elaç;:ão n,?c:r-2ssé\r- ii,:1 f:?ntre os:;.

como "" forma antigi::i do 9.2:!..~ dt~ Xanqô e outros, se

apossam de imaginêria feminina, reiterpretando-a como nos s=1banos

e:! F: D : -: e:< 1 u ·f à , !....ogum Edé e Dxumaré. Não hà uma ferramenta q ue se

posicione no centro das demais, feito um referencial e, mesmo, as

mais

E:speci-ficos de uma divind.:~de. '-.iernos, por· E·>:emplo, que o qf~. pode


)
[Link] usado por outros orixàs, como Ogum, Oxum, Obà, Euá: mas

con~.et'-\/3-~.e [Link] o arco·-e-·f 1 ech,::1 de 0>:ossi e assim

r.. econh ..~[Link] e [Link]:ado por algum mito, "causa" o u enn~~do ( 2) •

Os deuses parecem ser mais ciosos de sua individualidade do que

as deusas que sugerem ser todas aspectos diferentes de uma rr,esma

Senhora, m~e/feiticeira, amorosa/ameaç;:adora.

Os P1bort.:'Js. man tt>m uma certa 1 igat;:~o entre eles e,

at~ mesmo, uma certa contiguidade nas suas funt;:bes divinas, mas

)
1) Quase todos os autores, ao abordarem a mitologia jéje-nagô,
d~o conta dos conflitos entre os deuses e deusas do panteào, mas,
sem dúvida, quem mais aprofunda essa quest~o é Juana Elbein dos
Santos (Os Nàgô e a Morte: 1976), Pierre Vergar (Os Orixás: 1981)
e Monique Augras (O Duplo e a Metamorfose: 1983).

1 :?) O ter-mo e::~nrédo nào é muito claro; significa a rela;~o de um


orixà com outro em múltiplos niveis: num mito, numa lenda ou no
conjunto individual que [Link]ida .f ilho-::dE·-Santç:.: c:arregc:, cc:msigo.

)
203
fig. Fll/10
Ferro de um Oxossi que tem enredo com Iansã.
,
Esse Oxoasi e o que ajuda a deusa a fugir da Xan
.. • 1 • ,
go e, mais tarde, lhe da os oJes, como ferramen-
ta.
Notar a lança que atravessa o crescente de chi -
fres, representando a ação masculina.
s.e def .[Link] claramente COff1Cl sequéncii::1S de

fatos e, nào, como versbes de um mesmo fenómeno. Por exemplo, nào

é possivel negar a proximidade de Ogum, Dxossi e Ossanha: Ogum é

o inaugurador dos caminhos na terra virgem; Dx6ssi é aquele que

percorre o caminho e o assinala com a inten<;:ào de ca;ar, de tomar

parte da natureza para o consumo da cultura e Ossanha, embrenhado

na mata profunda, a refaz conceitualmente, transformando a folha

em remédio, em veneno, em mistério a ser

obrigatóriamente, por um pre;o humano. Os três

e vàrios mitos dào conta desta rela<;:ào, inas

c:ome<;:i::1 onde o outro acaba (como Iemanjé come<;:a onde Nanà ja nào

pode ser): os três têm seus afazeres independentes.

Se a imaginária do Candomblé atribui

i:":"1 os deuses, fálicas, é precise com E>:u que,

1. E>:u

O mais controvertido e vàrio dos Or i >:.\s.

r brasileiros. E,por excelência, o senhor dos limites, se postando

entre o incriado e a cria~~o, entre um movimento e outro: um dos

seus si mbolos mais importantes é o vórtice.

Pierre '·Jer-ger·· (1981: pg.76) diz que E:-:u é t~o

contraditório que é dificil descrevê-lo. Alguns informantes nos

dizem que E>:u é um (J_r :i. >:..f':!.: é um f?Sc r avo dos

C)utr-·os di Zf,~m que ele nào tem

.i~;-SO É! tolice: que se r-·asp_€~ E>:u como outro Santo quêtlquer; out.r-os

contam que se raspa Exumas é r-ar-o e dificil. Hà quem diga que ~

'.204
o Diabo; hà quem o negue furiosamente. Seus orikis deixam c:laro

;;._mbi v.:~ 1 t-?n ci a:

o erro virar acerto e o

~.Lld em pé!'I

che<Jé."1 ao [Link] ir-·o." 0

D que é certo é que Exu é por onde tudo se inicia,

no cosmos e na liturgia, no culto do terreiro e no culto pessoal.

E>:u é dono dos caminhos, das encruzilhadas, isso

e l E.~men to dinàmico que permite que tudo

deusr.:.:,s. deusas, ancestrais e descendentes, Orixàs

humanos; um momento e o outro, um àtomo e seu vizinho, um

e o esp;;~c;;:o se interelacione. Exu está no mundo como o desejo

man i i' c-:?s te, de-:? e>: i sti r-, es t.21 em c:2<.di::1 .[Link] i v ícluo. "Cada pessoa tem

[Link] "Esú"; o "Esú" de-..1e d<":?sempenhê:1r seu papel, de tal

rnodc:, que ajude a pessoa para que ela adquira um bom nome e o

poder de desenvolver-se'' (SANTOS: 1976, pg. 131) E o princípio da

individualidade, da vontade de preponderar, de se expandir: donde

com através do qual ·fala

i;;;ol ucionar os problemas que obstruem o destino de crescer que

reservado a cada um de nós (3).

3) O POVO-DE-SANTO acredita que todos nós, ao nascer, escolhemos


livremente a natureza de nosso ORIXA e nosso ODU (destino) e que
sempre escolhemos ser felizes, ricos, fortes. No entanto, nos
esquecemos disso e nos perdemos de n6s mesmos: o JOGO do Ifà e os
rituais do Candomblé têm, por finalidade, nos devolver ao nosso
própr- io fado.

2(>:=,
Essa capi::1cidade d ini~mi Cõ:1 de Esú qut'~ t anto per-II II

mite a "Sàngó lanç;:a1~


11
suas pedras di:? l'" aio
como a O ' sany 1 n
II
prepa1~i:H"
II
!3eus r-r2m(:'.?d i o s ~ t?"',se
poder neutro que permi t e a cada ser mobi l izar e
desenvolver suas funçbes e seus destinos~ é co-
r·1hecido como "agbc!:tr· a Esú é o 11
• Sen h or. -cio-
F'od€'.:-r ~ "Eleqb.::~ra", ele é. ao mr:?sff,o tF:mpo ~:.eu con-
0

trolador e sua represenaç~o.

hi =· tór· i é:1S de Exu sào sempre

rn:i. to!:,. c:osmoq(ini cc,s como 2. dr:, E ;:u Yangi, no qual !:se e >: p 1 i c:a ccimo

E•le se torna a parcela din~mic:a de tudo e porque é o senhor das

c:.-/' erendc1s. . Ou como E :,.:u ,"õ:~lê'.1 no JSillQ r::;


..... !'I organiza D

proprio caos que é ele mesmo. Exu é que tem uma l~m i na na

nào levar cargos, mas é o que transporta tudo e, por lSSC) !'

t . E1iTf primazia. E x u é Dxetué, filho de Oxum, da

vida e da felicidade.

Mesmo 11
caur;:;os 11
ou as 1€:?ndasc, de E>:u s~o para

[Link] que, no mundo tudo se transfDrma constantemente

F:>:iste C:1. necessidade de nos precc::1vermos c:ontr·1::1 c::onsequéncia~,

·[Link] s tas a travé<::, da obriqa~ào. S~o conhecidas as histór·ias do

vermelho-e-branco que induz os amigos a brigarem; a do

r·eino que ele destrói numa noite por meio de hábil intriga, da

mulher que aruina, ao queimar sua casa. Assim como vários itans -

contos do de Exu se tornaram histórias t-epetidas por

todo<::. , no Mercado, como a de como ajudou Ogum na sua taref ,::1 de

i' azer brotar inhames de raizes secas ou de como salvou 0:-:um da

onde a prendeu, ou, ainda, do combate cheio de

peripécias que tem com Dxalà (e no qual, foi derrotado).

Os "causas" que cadc:1 um con t.::-1. ,::1poiado nos ba 1 cbes

das. lojas ou dos bares fc1lam do aspecto traquinas, malévolo ou

206
r

-f i:~ té:11 men tE, ju!:',ticeiro de f_>:u. não tale de uma

:.i. n i e i .::1 ç;: ão qual orixà nào foi atendido e tenha, da

festa, se intrometido e posto tudo a perder. Ou quem nào fale das

vezes que, como Zé Pelintra, Trance-Ruas ou Pomba-Gira, nào tenha

vindo dar um aviso crucial ou virado uma situaç;:ào pt?rcl ida. Du

quem nàD caso do feitiç;:o de amor que E? se

transforma em 6dio e asco. Exu é o inovador e, ao mesmo tempo, o

regulador das relaç;:bes.

Para que tudo corra bem é necessàrio despachar Exu

num r-:[Link]:':11 c:ham.::1do p,~'ldr.:?~

( ... )Significa em iorubê encontro ou reuniào,


durante a qual Exu é chamado, saudado, cumprimen-
tado e enviado ao além com uma dupla funç;:ào:
convocar os outros deuses para a festa e, ao
mesmo tempo, afastá-lo para que nào pertube a boa
ordem da cerimônia com dos seus golpes, de mau
gosto.
(VERGER: 1981, pg 79)

Pois se o culto de Exu é ligado ao primeiro gesto,


.,
ao primeiro dia da semana, E ac:im,ê'< d(? tudo,
-'
Es!=.E? é o termo que o P,pvo-de-Sé.<-nto usa p.::1r-a designar- todos. os
r
~ rituais - grandes festas ou pequenas oferendas - nos quais homens

e deuses interagem. Todos os rituais comportam libaçbes, comidas

espi?ciais, sacrificios sangrentos ou nào, através dos quais, o

df"'voto ,C<trai a benevo 1 én c:ia das divindades: essa obr iga~_si..Q. f':::, por-

definiç;:ào, ligada a Exu. E ele quem a transporta enquanto pedido

e que intermedia a graça divina; e ele mesmo n~o faz nada sem as

obr i.q;,~~e'ª- dev i.d.:.'<s. F'oi,::.;. tudo, para funcionar·, necessi tc:1 df.0 uma

c::on tr . i::1-par.. tida ou o ~1>:~ se perde, diminui, o que seria r-uim para

207
Sào vinte Pum Exus, na realidade sào três

sete Exus, sendo estes seus números sagrados. Adilson Martins nos

:.[Link]·ma (4) que o número três simboliza o movimento, o filho,

dPSC::f.:1ndÊlnci.:.'I; o número quatro simboliza o munc:!o o r· g ê:1 n i ;~ i::1 d o

mecl ido (sào quatro os elementos, quatro as estaçbes do ano) e a

uniào desses dois números no sete simboliza a totalidade, o mundo

C':m movimento ~, portanto a vida. Multiplicar o sete três

/1 mul tidào d<·? E>:us que permi tE0m que o a:,-:é

universo e o vivifique. E bem possivel que essas

que se aproximam das que Réau (1957: pg ~s7 /f3)

sejam uma construçào contemporanea, com .influência

judaico-cristà. Esses vinte e um Exus se resumem em alguns, m;;~is

conhecidos no Candomblé como Exu Yangi, o mais poderoso; Exu Abõ

que fala no jogo, assim como Dxetu~; Exu Lonà que anda no caminho

e protege a porteira; Esu Iné~ invocado no pad~ é ligado ao fogo;

E>:U (]lobé qUF.!! é dono da faca e anda com Ogum (2 I emanj i!:i. Na

Umband;::1 s~o muitos mais~ cultuados no entanto nos ter rE~ i ros. de

como Tranca-Ruas o mais famoso; Exu Tiriri; Zé Pelintra;

E>: LI Exu do Lodo; Exu Veludo. E SLtas pareei F·as, as

das quais as mais conhecidas sào Maria F'adilha~

Mulambo~ Sete Saia~ Sete Ca t,::1cumbas, Cigana~ F'omba-Gi 1,..a da

E'.~s tr-· i:,1dé1 tantas outras. Exu parece ser o mesmo e mu.:i. tos~

parece ser capaz de transgredir as fronteiras entre a Umbanda e o

Candomblé e chegar a um concenso: n~o importa como~ de que modo

se apresente~ ele é necessário e fundamental.

4) Entrevista em julho de 1993.

208
Como n~~o tem mu.i tos. f i [Link] -· é v[Link]-r[Link]

paramentos n~o sào comuns, apesar de que come~am a no

de Madureira, ainda que nào frequentemente. F'oc:lem

c::on í' e e: e:: :.i. on c1dc1s. cromado ou em metr.:11 douF·ado com

aplica~bes em esmalte vermelho. Constam de (co m

ou <:::.e m pulsc=::i1'·i::1S e (·? sua~=:.

::Lr' rr· õ71ment.:l_~: o siqô e o tr.. ident.e. N,:71 vt:~rdade, ~:;ua .:i.c:onoqr.. c:1fi.::1 n~o

é muito rica no que diz respeito ao vestuàrio, mas nos

e nas imagE:ns c:!e met.21 l ou madei r·c:1 que o

ferros enfiados num monticulo de tabatinga ou por uma efigie em

de Mc11··tins.

fotogra·famoi;;. um exemplar desse tipo de assentamento que tinha

~::.ido deixado lb. A cabe~a apresenta fei~bes ocidentais, cabelos

F:nro la dos=, e marcas tribais nas faces , constituindo um conjunto

!:::,.:':\<::. t,:71n te curioso, a respeito do qual, infelizmente~ temos

quaisquer informa;bes (fig. F4/4).

a iconografia de Exu, divindindo-a f.·?m

c!oi =· grupos, qu1:2 se relacionam, mas que tém

diferentes: 1) as estatuetas e, 2) os atributos e temas.

1. As Estatuetas

Carneiro da Cunha e, antes dele, Nina F:odr-igues~

ch,:1m,:1m a ateni~º para a frequência com CJLH? E>:u ~ d i feren tem<'2n te

dos. outros orixàs, é representado antropomórficamente (Cunha in

Zanini: 1983~ pgs. 1004/1013). Essas estatuetas~ seja em madeira,

rneta l , fJêSSO ou .:1r·[Link] conservam Cf:?r·tc:1S caracter is ti c.::1s

2(>9
apesar de passarem por tra nsformaçbes formais. n
iconogréficas. H

mai s notável é a cabeleira - faca que se modifica num aspecto

faliforme (op. cit.: pg. 1007) ou em chifres que sincretizam o

demônio crist~o: mas sua interpreta;~o temàtica remete sempre à

l~mina e ao mito que jé citamos anteriormente . Dois outros

elementos que aparecem com certa frequéncia s~o as caba~as e o

falus ereto, simbolizando, as primeiras, os recipientes cheios de

cacos de tabat1nga com os quais Exu reconstroi mundo

incessantemente e o segundo representando a poténcia viril e o

ax~. As cabaças, assinala Carneiro da Cunha s~o substituidas, nos

Exus de ferro pelo tridente que conserva um significado

semelhante àquelas .

O que parece ter ocorrido entretanto ê que dada a


assimilaiào de Exu com o diabo católico, as cab a-
~as vào sendo gradualmente substituidas por
simbolos mais coerentes com a nova iconografia
que se vai definindo. ( . . . )
Tais distor~bes contudo nào escondem nem o
icone original nem os elementos formais que l he
permitem a metamorfose. Na realidade, essa última
etapa diabólica da representa~ào plástica de Exu
é uma sintese do Legbà daomedano e do Exu-Elegbá
das cidades Yorubá da Nigéria.
( op. cit.: pg 1010)

Por outro lado, como veremos, as cabacas nào

desapareceram da indumentária do Exu, sendo amplamente usadas

pelos compradores que circulam no Mercadào.

Raul Lody registra várias estatuetas de Exu~ nas

coleçbes que catalogou. Como a figura em cimento, tôsca, usada em

assentamento~ (tombo 009) da Coleç~o Culto Afro-Brasileiro de

Salvador ou uma outra em madeira~ (tombo 055) de feitura

tradicional, com olhos projetados lembrando búzios, nádegas

exageradas e mào sobre os seios, numa atitude que talvez indique

210
um E::-:u de Iemanjà. O tombo 153 dessa colei;;:ào é uma das mais

conhecidas estatuetas: em madeira, muito gasta, com o penteado ou

c::apu;,'. t.::<em pronunc:iE1rJo E': C::i:.'lbé:1i;;:as ''n-,ost1···ando o c:onhec::imento e

dom:i.n :.\.o dos rnistér··iDs." (Lody: pg. Na c::é-leb r·e

Cole\;~O: Maracatu Elefante, sào mostradas uma série de Exus de

e ferro, com caracteristicas bem sincréticas e uma pei;;:a

( tombo 031) de 0,24m em barro policromadCi, descrito

,,:..ntr2r-·:[Link]·mente, e que parece ser do mesmo tipo do Exu de

[Link], vindo de Cachoeira, Bahia, registrado no

Inaugurai;;:ào do Museu Afro-Brasileiro de Salvador.

As c:lo clr::: Madur·· eir··a uuar·da m

analogia formal com as que Lody e Carneiro da Cunha citam, apesar

de que vérios exemplares, nos parecem bem mais requintados for mal

iconoqràficamente. Grai;;:as à sofistica~ào que os

sendo capazes de expressar múltiplas:, temáticas a

partir de elementos simples e codificados, os clientes podem

encomendar Exus e Pombas-Giras (seguindo a tradi~~o africana, o

casal é comum) com uma representaçào detalhada.

Comparamos~ por exemplo, a simplicidade dos Exus

de ferro da fig. F 7/28 com a rebuscada elaboraçào dos da fig.

Fll / 9. Esse último casal representa os Exus dos aspectos macho e

de !J>:umaré, tendo os tridentes, flechas e lan<;;:as ~,i do

combinados com os atributos desse orixà. O exemplar da fig. F8/22

mos;. trc.-1 um percurso inverso pois~ aqui, na forma tradicional

c:!e -f oi interpretado um Exu Trancc.~-F:uas, nor··ma l men tr:?

como diabo (fig. F6/16) também as

Pomba-Giras vestidas como a da fig. F9/9 que representa uma Maria

211
r

fig. FB/31
Pomba-Gira de ferro, vestida com metal dourado,
remetendo a Oxum.
À , -

Notar o belo trabalho do ade e o adja na mao di


rei ta.
ligada a Oxum, como vemos pela roupa de renda dout"·ada.

Também ligada a Dxum, outra Padilha que, provavelmente é entidade

- chefe-de~terreiro (fig.

Do mesmo artes~o, fotografamos uma Pomba-Gira de Ians;:x

Balé, toda vesti da de metal branco e carregando, numa bandeja, os


.. ..i:.
principais atributos dessa entidade. t. '1.g. FS/29)

estatuetas de madeira, analisada no

C::ê:1pituJ.o, terão significantes aqui c,nal isados

enquanto atributos do orixà, assim como os signos elementares dos

2. Atributos e Temas

paramentos s urgem alguns elementos que s,.ào

atr:[Link]!s de Exu, em geral e outros que especificam uma cert,:':<

que é seu patrono. Na fig. F6/10, vemos um

capacete, em metal branco dito para Exu-Lúcifer ou Exu-Yangi, um

Exu de Oxalà e na fig. F6/11 vemos um elaborado capacete para uma

Pomba-Gira de Iansã Balé, identificada pela teia estilizada que

a pe;a. As peças das figs. Fl0/22 e Fl0/20 pertencem um

paramento de uma Pomba-Gira Rainha e os temas que as caracterizam

fazem parte da iconografia geral de Exu.

1. é ~.eu atributo mais:, impor·[Link],

pE~rmaneCE'!ndo desde a Africa e nunca esquecido. E a

representai~º explicita de um falo e seu significado é amplo: a

virilidade enquanto poder de penetra;~o, de transforma~~º e de

gera~~o. Dà a Exu o poder de se transportar instantaneamente para

quiser, indicando mobilidade e multiplicaç~o. O falo Pstf.:I

212
ligado, como veremos, a vêrios atributos que remetem a limites e

o xaxarà. mas nenhuma

co 1 oc::a tão cla rE1ment r? [Link] ~· ma:.

limiar e transgressão,

rec:onstruç[~o, cc:imo o [Link].

2. tridente - é uma representaçào aue cita o

mas que deixa mais explicita a funçào de dinamismo ê~ t,~ .i. buicla

I='"
~-···,LI• As trés pc:intas representam o movimento, com o cabo forma m um

desenho de quatro elementos que remetem à encruzilhada.

3. lança - indicando dire~ào, determina~~º' lembra

sua atividade de mensageiro.

4. sete espadas é um atributo raro e

Exu Yanqi ou a Exu Olobé e lembra que ele é a individualidade de

cada pedacinho do mundo.

!:, • cabaças r-eprt'.:.>sen tam o mistério da perpétua

criaç~o e o saber de ~xu que refaz o mundo com os ele

laterita ou de tabatinga que guarda nelas.

búzios representam a riqueza desmt.~d ida de

dons e a multidão de individuas.

7' • penteado-faca - r-emete ao mi to de 0>:etuá e de

como o ritual das oferendas foi organizado.

8. chifres é uma t.r-ansfor-ma~~o ·for mal do

penteado-faca mas soma à seu significado or-iginal um c:~specto

"/'ali forme o fato do chifre significar descendência~ ·rutur-o .

(Santos: 1976~ pg. 94)

1::;, • pil~o com m~o-de-pil~o - muito r-ar-o e E1lguns


r

fig. F4/3
OgÔs de Exu em madeira.
Sua simplicidade denota que são de uso comum nos assenta-
mentos do Orixá.
Notar a representação fálica explicita.
discordam que seja atributo de Exu . c::I

esse orixà, uma vez o i:H·tefato é

claramente faliforme.

10. figa ···- tema t-E·centE:; r·epr-·est?nta a SE>;Uê:d idade

- e ê um simbolo de proteiàO contra o mal.

11 . espiral~ vórtice - aparecem fr-equentemente

como pingentf.?S no opa>:c:,r-b ou como ornamento de roupas de E>:u ou

do Dkot6, caracol - simbolo de Ex u .

crescimento incessante.

12. tri~ngulos art i culados as

i .. inlc:i,:1c:if.'::S dini:'~micc:1=- e E•stào l [Link]~S é:10 pc1pel c:!e [Link]-:u no ,Joo_ç2_.

circulo representa o munc:!o, a totalidade

por Exu. Apesar de sua abstra~ào, é um dos

14. chave - simbolo recente; reme te à chave de S~ o

Pedro, guardiào dos po r tbes c:!o Ceó e, portanto simboliza Exu co mo

aquele que abre e fecha por-teiras e caminhos .

15 . dentes - apar-ece frequentemente nas ,?.státu a s

de madeira ou nas de gêsso policr-omadas (imaginàri.a de Umbanda) e

""·j. mbo li Zê,í a voracidade d e Exu; si n aliza um aspecto ameaia d o r do

16 . linqua pendente - u m si mbolo apar-entemente de

or i gem n~o-africana ~ =-igni·fica o furo r- se>:Uê:i 1, o deboche , o

J.7 . chamas - tém um duplo s ig nificado: o

r,::: J. e mento d inÊ<mi co f.:~ transformador- que asso c ia E>:us a o u tros

C:Jr·i:,:~.§. turbulr:.>nto=·, co mo X.::1ngô E': Iansà e , moder· n amente, t c:1m bé m

està ligc:1do às ch am as do infer-no cr-ist~o .

214
l8. apesar da identidadE~

significado iconogréfico é diferente do de Iansà: aqui, simboliza

a bebida alcoôlica, tipica das obriga~des de Exu

19. flores~ baralhos c.:[Link]:.tancia.i~.;;,

ligados a Pomba-Giras.

20. caveiras~ caix~es e:: ir· cu!sn tan c:i ais,

ligados a entidades de cemitérios.

2. Ogum

D:[Link]:IF:

desbravador, realizador, o herói civilizador que pôs pr· im0?:i. r-o os

pés no mundo,subindo (ou descendo) por uma corrente de ferro. N~o

é deus da guerra, como dizem normalmente, mas é

ferro, com o qual se fazem as armas, instrumentos agricolas e as

arte (5) - o que é const,,:1ntementf?

~ Mercado de Madureira.

Ogum o dono do gesto criador, da luta para

inaugurar concretamente algo. ~xu, dado como seu irmào ~ o inicio

cósmico, Ogum é o inicio histórico: o caminho que ele abre é a

visive1 que corta a mata, que conduz à cidade, por onde

vai o comerciante (6) e o cavaleiro. Nào é um rei conquista

como guerreiro mas nào as governa e, esse seu aspecto

___ ______________
marcial acabou por se tornar o mais conhecido no Brasil. Enquanto
..

5) Hoje é também o deus dos motoristas porque os veiculas sào de


ferro e porque ele està no caminho e é o dono do caminho.

6) Sincretizado com Sào Jorge, Ogum està presente, como protetor


e incentivo, na maior parte dos estabelecimentos comerciais, n~o
só do Mercado, mas do Rio, em geral.

21 :,',
pioneiro, possuidor do metal negro nas

Oqum ê, também, um senhor de mistérios e da

ff1i:,1scu 1 i n :[Link]. como f :i. 1 ho de IemanJà ( f:?m r:1 l qurr1i:'~s

histórias, seu marido) no sentido de ser filho das profundezas e

tem, o dissemos. conflito com Nanà: Ogun é o ·f i 1 ho que

màe abissal para se impor como homem controlar i:I

como 0>:DS!Si c:omo E~s te, 1 ut,,~ com

feiticeiros. Suas relaçbes com as mulheres nào sào pacificas pois

ele n~o tem com elas qualquer consideraçào.

Seus mitos s~o todos de guerra ~berta ou f:,;uti l,

os mais conhecidos o que perde Iansà para Xangô, ou o que

roub,:1 Iyi:.-1bf?. o poder [Link]:i1~e o~:; §?..filln??..· Esse mito que ,Juan,:<

Elbi·?in (1976: pg 122/3) narra por extenso deixa bem que

Ugum no inicio dos terrq::-JOS, que

i'fli:':'1SCU J. :\. n :i. d ê:1df.':! tem

poderosa da espada, seu maior atributo. A mais famosa história de

Oqum, lembr·ada de seus paramentos (·? de como

um feiticeiro e acabou matando-o sob a prot.f.':!<;:~ü.:< da~-

desfiadas do dendezeiro - chamadas ~ariO para, loqo em

seguida~ ao voltar para sua cidade Iré, esquecendo-se de que era

um dia de festival~ massacrar a popula<;:ào que guardava voto de

silt:mcio. A explicaç~o~ a moral da história~ é que Ogum, muito

afoito e seguro de si nào consultou o Ifà, se n~o teria sabido

que o bruxo o havia amaldiçoado antes de falecer. Essa hi. stór.i a

vàr--ios c.-1 <::.pec teis sua ferocidade primitiva~

aversào à magia e aos mortos e sua ligaçào com e:,

mundo vegetê:, l •

216
C:1 cu 1 to c:1 Ugum ~ nc:1 Africc:1 se conservc:1 muito forte

c::omo relata Verger (1981: pg 88/94) mas no Brasil se [Link]·nou um

culto do cotidiano. Como seu 1rmào Exu~ Ogum "compad1·-e" dos

homens e com eles bebe cerveja - que quando se derrama é sinal da

cobrando (junto cc,ii1 seu

outro irm~o Oxossi) da maior parte das quias que~ penduradas nos

espelhos retrovisores protegem os autom6veis e~ sob o aspecto de

S. Jorge, ajuda os motoristas dos ônibus. Ele come feijoada~ no

':',t?U d .i a festivo~ com a mào e regada a cachaça e chopp e; no

Br,?.s::.i 1 ~ n~o come mais cachorro que~ aoesar de estar associado

Omolu, anda com Ogum porque representa o companheirismo. Talvez o

sinal mais importante desse culto cotidiano~ no Candomblé~ seJa a

eterna das franjas de mariô nas janelas, nas portas e

Como E>:u ~ Ogum sete, donde sua qualidade mais

conh[Link]ida é Oqum Megf!.? qu(:.'? signi·fica "Oi;,ium é setF.:". T<:-mos. ain d a

Ogunjà que dizem que acompanha Iemanjá Ogunté; outros dizem que

este seria Ogun Alagbedé e outros, ainda, o dào como Ogun

filho dessa Iyabà irmào de Oxossi~ com o qual viaja e ca ç a

f requen tt?mf"~n te. Conhecidos sào, também~ Ogum Ajakà que {, dado

como velho e autoritàrio e, Ogum Oniré~ rei da cidade de Iré que

é fácil de zangar, Ogun Xoroké que se confunde com Exu e Ogum

F·opo. A es![Link] qu.:::i 1 idª-.ck~r:::. se somam d uai::. vindas da U1ribanda que, no


-- entanto~ influenciam a imaginária do Drixá: Ogum de Ronda e Og u m

Beira-Mar, ambos ligados a Iemanjá~ dos quais é dito que sào seus

Seus atributos~ sendo os do guerreiro~ recaem numa

imaginá[Link] que simbolos europeus e os n?.integra no


,-
217
quadro afro-brasileiro. Sua l i ga~ào sincrética com S. Jorge, "o

homem de ferro'', ê uma das mais bem sucedidas do ponto de vist,::1

da articu l a;~o simbólica e da aceita;ào popular. Seus

foram a inspira~~º para todos os outros: foi a partir da armadura


r··.
cie .::J • c1 orge / Ouum que os outir·os Orixàs-querreiros ;:,\ dqui r- i r-am

CClU r- ,:'\ ~ i?, e capacete, os quais, junto com as largas pulsf:?.i.r-as 1":'

l: ::,r·· a;t1 l etes que escr-·.::1v id2\o

junto c:om ,::1S c.::1pangi:,1S c:Jo

formam (J conjunto bàsico de todos os paramentos. C::é.1!;:.C) de

-fun c::.[Link] como um

impor·tic1ntE? que, adaptado para outros

apenas ecos de seu simbolismo. P or exemplo, a coura~a de Iemanjà,


. ,.
tantos outros usam J c.1 F.~l emento

fund,2.m(::<n t;;:1 l de defesa como no Ogum, mas s:l:!o,

[Link]:imente, c,bj f:?tos ornamentais (7). Ogum se veste de metal

C::l'"Offii':1dc,, muitas vezes com aplica~bes de F.:!Smal te

mc-=irinho que remete ao ferro e ao verde que remente às plantas e

ás mari~. S eus atributos n~o aparecem 3pen3s no vestuàrio, cnmo

de E >: u, mas prepondE?r·antes nos

~ que, por serem parte c:Ja matéria que o forma, representam sua mais

:tntima natureza.

Ogum r: um tem recebido uma

representa~~º antropomórfica - distante das imagens de gesso da

7) Essa perda de sentido das coura~as ficou bem claro quando uma
decoradora de S~o Paulo comprou vérias delas para fazer ''cache-
pots'' e ninguém se espantou, no Mercado. E claro que o aspecto
comercial é importante nessa atitude, mas os comentérios é que
EiqLtelar:;:, couraç;:as eram "mesmo r,-, 6 para t?.nfeiti:1r (julho de 1993) 11

218
Umbanda ou dos sa n tos católicos 1 enquanto concepç~o . N~o se trata

de im,,;igem votiva 1 mas de motivo ornamental que se inspira nas

ilustraçbes dos livros e cartazes da Editora Três . Vàrios

[Link] representados assim, como Oxumaré, (};,:ossi !"

e duas Iyabàs: Iansà e Oxum. (4 nov idadE? j ust:i. f .ica

E·:· ~;tet.i carneintr:,! pelo dinamismo das composi~~es que 2.i'"ti cu 1 c1m i::I

imag1-=:?m te ff: i::t ~=- [Link]!.usivos, pel é:1 comun :i. cai;i:~':io

COfl ~:-E'<;JU i d i::1 pt:'? 1 i::I ·f' .i C:JU r- .,~ t .i V C.i clivind;~,di-'J S(:t

legitima - ao menos, em parte religiosamente pois o Orixá nâ'o

aparece com rosto ou cabelos, sendo apenas um vulto f2m rnov .[Link]?nto

[Link] as cores e [Link] devidas . N~o [Link]. f:~ s. =· a s.

imagen,,; na nossa anàlise pois elas simplesmente repetem ol:<..i e tos.

da imaginéria jé citados e nào acrescentam nenhum significado ês

interpreta~bes vigentes.

1. capacete - representa o aspecto gu e rreiro e se

como u ma mistura do capacete romano de S . Jorge com

\/i~rié.'IS outras formas , algumas oriundas de capacetes me d i!õ?vais ,

outras, construidas a partir da fantasia. [Link](2 rn ,

a ab u nd~ncia de filhos-de-cabe~ª de Ogum e é usado sempre po is

s ubstit u i a coroa de fe r ro que deveria usar para nào usar a co ro a

- de rei .
.-,
k . espada - seu mais fam o so atrib u to, r-egistra do

por Raul Lod y, sob a fo r ma de sabre , na Cole~~º Maracatu Elefante

(tombe 461) e po r Carybé no seu álbum iconogréfico. A forma cl<~

sabre parece ter si d o a mais tradicional no Brasil, mas hoje foi

substituida pelo alfange, alguns trabalhados de forma caprichosa,

co mo vemos na fig. F4/32, onde um pa r amento de Ogem Alag b ed~

219
tem, na forma da lb mina , uma refer0ncia ê algas marinhas . A for ma

de alf a nge, como vemos no livro de Verger (1981: pgs. 107/6) nào

era estranha na Africa onde tomava a forma de um facçào e, n~o de

uma cimitarra. A espada normanda, com a guarda em cruz, ta mbém

aparece no Mercado, ainda que menos frequentemente.

fac~o Dqum é o dono da -[Link]~ do corte

Uff1a de

suas ferramentas e atributos, como vemos nos tombos 120 e 132 da

Cole~~º Culto Afro-Brasileiro .

4. mariô - as franjas de mariô - feitas de

ciPS -f :i. E1di:i1S - cobrem o peito de Ogum e s~o sua veste sagrada;

um poderoso talismào contra os mortos e a desgra~a.


,-.
5. coura~a - oriunda da ar madura medieval de ,=) •

Jo r ge ou da sua armadura ro mana, ocupa, no paramento, o l ugar d a s

franjas de mariô, representando a barreira contra a morte, sendo,

o mais das vezes, ornamentado com folhagens, re metendo às palma s .

6. escudo oriundo da armadura, tem

simbolismo da couraça .
...,·' . revblver - Raul Lody catalogou

de fogo , algumas reais e outras de us a dc.~s nos

assentamentos desse orixà ( Cole;~o Maracatu Elefante : tombo 050 ;

Cole;~o Per s everan~a : tombo 036) mas n~o registramos ne n h u m d e l e s

no Mercado, sendo as espingaradas observadas dedicadas a Oxossi .

8. pol v adeira - de acordo com Adilson Martins já

F:! >! i S'· t .:i. U no paramento de Ogum, mas se perdeu, passando a

atributo de Oxossi .

9 . capanga todos os orixás caminheiros as usa m a

tiracolo e, mais que todos, Ogum que é o dono do caminho .

220
fig. Fl0/15
Paramento de Ogum.
A belíssima espada desse paramento, reproduz,na
lâmina, um. :pactr.ãro que remete às mariÔ. f uma p~
, .
ça un1ca, no Mercado de Madureira, que une a cri
' ,
atividade do artista a ortodoxia iconografica,
pois as folhas da palmeira são parte importante
dos mitos desse Orixá.
10. manto - feito por encomenda e bastante raro no

comum na Umbanda)= s,-E:mprc, vermelho e se justifica

::::ior- ÓClUa

c::c:1:.a. F'en:ieu o sentido da glória do martirio que DOS!:'"-U i ci1 corno

,,-,1tr- i bu t.o de pê:1SS-OU significar- <::\ v iol én ci é1

ir-r-acional e sagrada de uma divindidade feroz.

1.1. pencas de ferramentas ··· com a l~spadc.-1 f.~ "~ ma...c.i..Q

é sua representaç~o fundamental . A espada é o aspecto aguerrido,

c:1 [r1c:ir·ib é: D [Link] de pr-otf."![Link]·, de carnpE:~o contr·a o ma1l e

r···epr··c,s-E?n i:c:1 o orixà como herói civilizador. l'-lurn

esti1o quc:1tor-:~(;:, ou vinte um

;,':- imbo J. i ZE1ndo o trabalho e a constru~~o do mundo: i::tS

sào ser-rote , VE?rruma, ponteiro, chave de fenda, martelo, tesoura,

fi::n ;< ad c:1, faca, pà, esquadro, flecha ou foice e

espada.
--, •
1 .L. flores - se mpre pontudas, f~licas: s~o simples

ornamentos ou remetem a Iemanjá.

13. palmas - folhagens em forma de samambaia ou de

-folhE1 Sào caracteristicas desse orixá, como -..;e mos

na belissima espada que fotografamos (fig. Fl0/15) em -f or-mi:,1 de

·folhai de pa 1 mei r-ê:1 ou de peregum (planta que, lhe é

indicada).

14. estrela - remete sempre a Iemanjá.

J 5. águia R~au (1957: pg. 84/5) diz que a àguia,

no imaginár··:i.o cris.tào simboliza a realeza, o [Link] e

significaç~o remetf2 ao Batismo, à Ascenç~o e ao Juizo Final. Esse

,,,1nimc:1 l usado na emb J. erná ti Cc:1 de \/ár ios paises e l"'::m várias

221
tem sua interpretaiào .i. ccmog 1~ à f :L ca [Link] nci

Mercado d= Madureira: simboliza o guerreiro rna. s.

digno; a coragem de se lan~ar em qualquer combate.

:l. b . grifo - Jà vimos a interpreta;ào temr.:-1

:.i. conorJ r-à fico, i n t.r··ocíu ;:: ido por Adilson Martins e que

simbolismo da àguia.

17. dr ag ~ o - vimos apenas um exemplar desse tema,

c:omu1nen te usado para Oxumaré. O dono da que tinha

1,··[Link].[Link] en comE::>nd ê:1 nào soube explicar o seu ~~ignificado,

dizendo vagamente que pode ser interpretado também como

( j i::1n<·?.:Lf"O de 1991). Nos parece, apesar da simplicidade, que E~St,::,

verdadeira, pois o S:-:[Link] J. ismo trac:!i.c.:[Link] 1 do

como animal pe~onhento e demoniaco nào tem com

Ogum (8). A nào ser por neqa~~o, o que nào encontramos em nenhum

relaiào entre a divindade e a imagem se

dà sempre por citaiào, analogia ou [Link]~o, nunca por opos.:i.c;:~o .

:L 8. ro s á ceas o tema aparece num paramE,nto de

-- Ogum Alagbedé (fig . F4/31) e parece ter rela~~º com a -flor com

I Pmê.,1n Já e, com o padrào expancionista, [Link] dese.e

19. Cornuc bp i a s e fr u t as - Ogum n~o é um senhor de

alimr-::[Link];:~o, c:omo seu irm~o Oxossi, pode ter sido usado como

alusào a um Ogun Akorô.

B) REAU (1957: pg 115) diz que o drag~o na mitologia grega e ,


mais tarde, nos contos medievais representa a vigil~ncia, a
guarda de uma donzela ou de um tesouro. Apesar de vários contos
populares brasileiros o caraceri2arem assim, seu aspecto maléfico
nào é superado, o que parece negà-lo como tema referente a Ogum,
a n~o ser como cita c;: ~o sincrética e obliqua com S. Jorge .

.-... ., ..,
..::..,;:..:
3. 0>:ossi

Dono dos [Link] belos paramentos do Mer-c:;:,[Link] de

Ü>!OS:,5.1. é, talvez, o mais complexo dos Ori>:ás.

por-·qu!-:? como ~xu, Dmolu ou Oxalá, seja um senhor de limites.

por-tanto, de ambiguidades, mas, porque Oxossi - corno Iemanjá

foi praticamente reconstruido no Brasil.

seu culto encontra-se

quase extinto na Africa, mas é poderoso no Brasil, para onde seus

sacerdotes foram trazidos como escravos (Verger= 1981, pg. 113) .

Sua 1mport~nc:1a n~o se deve a essa c:ircunst~ncia, mas ao tato de

~ ser c:a~ador, de ser o dono do of~. o arco-e-flecha. Se Ogum é o

:~ n augur-õ:idor terra enquanto espa~o, Oxossi é que S{:'

apossa dela numa funiào social. Ele n~o é o guerreiro que irrompe

de·fende, nem é o ferreiro que cria o instrumento 0::-:oss.i é

aquele que toma a ferramenta e a usa na é aquele que

transfor-ma a morte em alimento e vida (9) 1 é aquele que une a

técnica, à funçào, ao ritual e a uma instituiiào. Oxossi é o dono


~
1
da terra, sem ele nào era possivel acessar o indio, nem as folhas

de Ossanha 1 nem [Link] iver na fuga para os quilombos. Ele

simboliza a liberdade e a possibilidade de sobrevivência.

Um pai-de-§cmto nos disse, um dia: "D>:ossi, no

Br-,;;..si l, é corno uma coluna: no alto, ele é Oxalà, em bai >:O, é

' E>:u". Como quem diz: s,.ern 0>:ossi n~o se ·faz nada.

Na Umbanda, sob a figura do Caboclo, Oxossi

9) Donde é sincretizado como o "Corpus Chr-isti" e c:om s.


Sebastiào: o caiador representado como caia, pois ele, em Ei
mesmo, simboliza o alimento. E um dos sincretismos mais belos e
que demandaria um estudo semiótica ..~profundado.

223
representa a maturidade, a capacidade de tomar uma decis~o

Fr·ieza {':! uma de 1::.uê:15 qualid<-ides, como bem diz um or·iki: ''0>:os~;.i é

frio como o silêncio e branco como o vento''. Seu elemento de aç~o

nào é a mata: é o vento. Seja o vento que soa no grito do

brado é tào poderoso que une, por

como era no principio dos tempos. ..,


e H

palavra de Oxossi é parca e definitiva: ele é o único a

e a lembré-lo dos tabus da realeza. O vento, também

no s.:[Link].o da ·f'lech;;:1 - g_am.:á.S!_ ···· ·,,.ímbolo de ~:;ua vontc,de in-flr"':,-:.[Link].

Por ser dono da palavra e da direçào imutével, Oxossi é,

o senhor da loucura, que se perde, às vezes, no labirinto de tudo

q Uf.? r· e r· /~.saber· .

Pierre Verger mostra claramente a import~ncia de

Oxossi e seu amplo dominio:

Oxossi, o deus dos ca~adores, teria sido o irm~o


ca;ula ou o filho de Ogum. Sua import~ncia deve-
se a diversos fatores.
Primeiro é de ordem material,pois, como Ogum, ele
protege os caçadores, torna suas expediçbes efi-
cazes, delas resultando ca~a abundante.
D segundo é de ordem médica, pois os caçadores
passam grande parte do seu tempo na floresta~ es-
tando em contato frequente com Ossaim, divindade
das folhas terapêuticas e litúrgicas, e aprendem
com ele parte de seu saber.
O terceiro é de ordem social, pois normalmente é
um caçador que, durante suas expedi~~es, descobre
o lguar favorável à instalaç~o de uma nova ra~a
ou de um vilarejo. Torna-se assim o primeiro ocu-
pante do lugar e senhor- da tf.?rra ( "or·:\.lé") com
autoridade sobre os habitantes que ai venham a se
instalar posteriormente.
O quarto é de ordem administrativa e policial,
pois os Cc:H;:acjores ("ode") E<r·am os
únicos=, a possuir cH·mas no vilc:H·ejos, servindo
também de guar[Link],s-noturnos ósó ( li li ) •

(op. cit: pg 112)

)
224
Sào muitas as lendas de Oxossi que se guardam na

do povo. A mais famosa é a que Verger (1981: cg. 112/3)

("9 J. .::1tc:1 como ele matou o grande pàssaro dé.-=tS i'ei t.i. ceir-c:iS .
' (]::-:[Link] nào tem simpatia pelas feiticeiras, sendo

tornar seus poderes socializados. Como irmào de Ogum, enfrentou e

venceu Iemanjé, para ficar com Ossanha; foi amigo/amante de Iansà

e 1 he CÍt'?U armas que ela carrega, protegendo-a de Xangô, o


,....,,,
qual prendeu no labirinto da mata. Foi esposo de Oxum e com ela

' teve .ogum Edé, mas foi abandonado pela senhora da vida, ao ca~ar

histórias de decisôes silenciosas ou aparentemente loucas, como a

que Adilson Martins me contou, em sua loja (fevereiro de

sobre pàssaro e o antilope que traziam a morte e que Oxossi

consegue atingir de dentro de uma cabana sem portas e janelas e,

t,:'11 ·feito de tal modo os homens do reino que elf".:>S o

[Link] :,-: i f.:- tem se

confundem no imaginàrio popular. Os mais conhecidos s~o I bu é:1 l c:IIT,a

que usa chi cotes c:le cour·o - t_:ci 1 a 1 ª- -· para se atuo--f l aj f? 1 ar e

casado com Oxum e Otin que é um Oxossi jovem e perigoso que anda

com Ogum. Odé s~o qualidades mais velhas e s~o citadas Odé Kari

r que é ligado também a Dxun, Odé Arolé que chama c:le Alaketu e OdÊ'

Ib6 que é ligado a Ossanha. Esses tipos, no E?ntanto, par-e cem

bastante indistintos, sobressaindo sempre o mistério escorregadio


)
e fascinante de Oxossi, o ca~ador, o rei vaga-mundo.

Os paramentos de Oxossi sào de metal branco e, no


fundamento, ele n~o leva metal na cabeça nem couraça no peito. No

s-:n tc,1r'J to, o uso de metal tornou-se t~o comum no Mercad~o que ele

recoberto com pelo de cabrito ou de rnas,

,,,1 pa r"'E•n te, na de capacetes e chapelbes de rr,etr.:11 , d€':! um

r.'I r-tE·?Sé'ln a .l ma<;Jn í f .i co. CDLil'-ac;:,;:1 também compoe

habitualmente o paramento desse orixà, complementadD por capanga,

po 1 V i:'I r·· e i ~- 3 e_;;, [Link]-~ E? o·fà. D::.=. p,,'lr-c.:1mento<:=, dourados que Carybé

registra ao desenhar o Ibualama de Eugénia do Engenho Velho

[Link].~ capacete de metal) ou que vemos frequentemente no Mercado

(fig. F3/20) est~o ligados a relaçào desse orixà com Oxum.

J.. chapel~o - é atributo de Oxossi e c1pê.~r1c::c:E~ na

Cole~~o: Culto Afro-Brasileiro (tombo 095) em pano e palha, nas

cores azul claro e rosa, o que talvez remeta a um Otin. Carybé o

r:um desenho -famoso, como um chap<:2 l i:(o de couro,

nordestino e no Mercado é dito chapéu de vaqueiro ou chapelào de

capitào-do-mato. Os exemplares que aparecem nas figs. F3/6 e FS/4

belissimos, cujo trabalho de marcheteamento, de


)
V [Link]~ é:1Ci OS- ele~ frio demonstra extraordinàrio
' \1 :i. [Link]. srno: o [Link] que e::, artesào imprime na copa,

mimetisando o gesto do couro, confere às pe~as eouilibrio e

.l e-..iez ,,1. A interpreta;ào iconográfica desse chapelào é tào ric,:1

quanto seu apuro visual: Oxossi usa chapéu de vaqueiro porque é

r andarilho, nào tem pouso certo, porque é,por vezes, pastor e toma

conta dos bois (10). Mas usa chapelão de capitão-do-mato porque é

10) Num mito, soubemos que Oxossi tomava conta dos bois de XangO,
o Rei, que representavam o alimento do pais. Num sonho, Dxossi
,,-._ vé que Equn r-ouba os boi~::. trazendo a fome. '.Jendo o rabo dos bois
)
que se v~o, Oxossi tem uma inspira~ào e faz o eruquerê, com o
qual dominé'I Equn e s,:1lva o pais.

226

,.....,,
o dono da liberdade e as únicas fugas da escravidào que t~ ::-: .i !::· t i a m

eram os Quilombos donde Oxossi é caboclo ou tor-nar

C:é.'lp.i tZ!io-do-·-;nE'!to. Uma liberdade cruel~ às avessas e egoista,

real, em todo caso. O chapelào diz que Oxossi busca a 1 .i lx~rtac;:ào

autonomia a qualquer pre~o, mesmo se tiver que

alguém para obtê-las: donde se diz que Oxossi (como Iemanjà) sào

seLi~.;, com,,:1ndos. e [Link]~;. s;:';!o

absolutamente implacéveis e, por vezes, desmesurados.

O u so do capacete-alado é uma inovac;:ào de Adilson

Martins em sua busca de formas que juntem o trac;:o habilidoso com

tr-·2ci.1.~::io t emàtica. O capacete comum jb é aceito normalmente

como substituto do chapelào .

2. eru kerê - é uma espécie de espanador feito com

de tour--o ou cavalo f!~ tem o \ialor- de um

Provavelmente tem analogia simbólica co m o látego dos

significa o coma n do sobre uma multidào , o controle autoritàrio . F

um atributo fundame n tal de üxossi e dete m poderes sobrenatura i s :

"tem poder de controlar e manejar todo tipo de E?spi r :i. tor;;

(Santos: 1976; pg . 94). Sua feitura é complica d a

q uan to do ibiri e do xaxa~~' pois co mo eles , estf~ l i gado a

re p resentaçào dos ancestrais (op . cit : pg . 95), mas apesar dis s o ,

é vendido no Mercado, mesmo sob criticas dos próprios vended o re s

bilala ou r eben que atributo de Oxossi q ue

representa a auto-flagela~~º' o fato de que ele, ca;ador , é a

irnagem dai ca~a sacrificada . Ouvimos, ta1mbém, que o

chicote estaria ligado ao seu aspecto de capitào-do-mato , mas era

u ma opini~o única nunça fci secundada .

22''7
fig. Fll/29
Paramento de Oxossi.
Magnifico conjunto de peças de metal cromado
recoberto de pelo de boi, sendo o couro de
uso consagrado e o metal, negado por muitos,
na imaginária desse Orixá.
, A
O paramento consta de ofa, erug~, chape-
-
lao, ,
couraça e ojes.
As peças de Oxossi são, talvez, as mais re-
quintadas do Mercado.
/J.• ofà D grande atributo de Oxossi como ca<:;.i,1dc)r..

E: que e:, :.i. e! en ti ·f :i. c .:,1 nos em qua 1 quf.-:>r

paramento . Tem a forma de um arco em riste. com uma flecha pronta

soltar. E simbolo de açào~ como vimos e, um

poder·oso simbolo ·fálico, retor;ado pelo arco

ao meio~ representa<;.ào da vitória mas cu 1 inc:, '5übr··E?

mu1 her·es. .
~,,..t • os chi ·fr-E•s de boi [Link]<::. como

i"if?rc;,,do. concomitantemente, i?.ncont:r··2. mus;. oi:;

·f PC had o<::-!' usados como recipientes, no dizer de alguns,

ser·:[Link] chifres para guardar pólvora mas, na opiniào da maior·· :i. ;;:, ,

s~o chifres màgicos que guardam a abundctncia de carne e comida.

6. capanga ·-- "0:-:os.!:',i é capa':lngueir·o", isto é~ quase

um g_c_;LL.i., s.için i ·ficando s-Uê:1 si na de andê:11'.. .i. lho . Nas c,::,pangas guarda

balas , feitiços e muitas coisas .

7. polvareira - està caindo e m desuso, mas

/::\ pólvora que o orixà sua para caç;:ar. Nào nos esque~amos que

pólvora é, também~ considerada um poderoso contra-feiti~o.

8. espingard a - Raul Lody assinala um e >:emp 1 ar

desses na Cole~~º Perseveran~a (tombo 046) e sào bastante co muns

no mercado . S~o atributos de ca~ador.

lan~a é atributo de Otin, o 0>:oss.i que

abandona Iemanj~ para se embrenhar na floresta. E arma de ca~a e,

indica direçào - esta significa~à é refor~ada por

de cour-·o com búzios que pendem do cabo, simbo l .i. z ando

r.
fortuna a ser buscada no caminho próprio

228
.:L(>. carc~s - com flecnas recortadas
..,_
corpo pec;a {;, atributo comum f:'!! Ut:.'

Provavelmente ligada~ iconografia do Caboclo .

11. flores - sempre pontudas, usadas em paramentos

de Oxossis com enrêdo com Iemanjé ou Oxum.

12. folhas "- ,=:.endc:, [Lt~.i~~ da t:?st.F.:: é um

tema ornamental comum; ligado, às vezes , ao enr~do com Ossanha.

13. cornucópia l igad,:, como

receptáculos de abundancia.

14. frutos - Nos elmc:,s de Dxossi tem aoarecido, ho

\:.\J [Link] i:'1no, como ornamento, uvas, pinhas e mac;~s. Questionados

sobre o significado dessas frutas, nos responderam que s~o

adornos. No entanto, C~mara Cascudo nos informa que é chamada de

uma pi los;:, que o cac;ador·

no bucho dos animais, a qual, se c:on [Link]\/ ad .:, em

serve para afastar maleficios e para apanhar

(C3scudo: 1984, pg 449). O mesmo autor que

[Link]"ia ClU ( op.

cit~ pg 617) e a uva é~ no imaginàrio crist~, simbolo do

cn.1ci f i c.::Ido do cujo sangue se transforma no vinho

eucaristico, alimento da salvac;ào (Réau : 1957; pg 132). Portanto,

1 mesmo que tenham [Link] usadas inconscientemente, as tr-es frutas

parecem ser coerentes com as diretrizes iconogràficas de Oxossi.

1 !5. pássaro - remete ao pássaro das feiticeiras

que Oxossi mata para libertar povo de um poder maléfico. E muito

comum aparecer empalado na ponta do damat~.

16. pantera - ligada ao titulo de Oxoss.i. de Akuer~

que ~".ign:[Link] "o que tra2 mu:i.têi1 car·ne", "o que Ci:~C.:c:1 muita c::ar-r1E' 11

C um animal que Caryb~ registra na prancha relativa no Mural dos

Orixás (Carybé: 1979 1 pg . 26/7).

i7. serpente representa, provavelmente,

Nho estaria ligada a bicho de prêsa~ mas, sim, ao destino que fez

e! e C:i ::-: 0 S S J. , U ffi Çl.r i >: t:1 •

J.8 . javali - ou porco do mato .

o animal de Oxossi, que o usava como rnon t c,11'"· .i ,3

provavelmente numa aproximaiàO com a figura do Curupira indige n a .

Mas encontramos essa alus~o em lendas antigas e ainda encontramos

esse tema (reduzido ao focinho) em algums pe;as do orixá .

19. pav ~o - é o animal mais usado em paramentos de

(] >~ DS:.S i . acredita que & uma tr-ans-forma~ã dCJ

faisào, esse sim, animal de caia real, o qual poderia s;i mbol i Zi:H..

o Alaketu. Réau (1957: pg 83) afirma que o pav~o é o sim b olo da

ressureiiào de Cristo e da imortalidade da alma 1 mas nào pod e moi~,-


,,....
que~ ni::1 iconogrE:1fia da :[Link]<_;J ini\r ia do Candomblé, do

r---1+:.?rcaclo de Madureira, esse significado seja aceito ( apesar- da

relaç~o sincrética entre Oxossi e o corpo de Cristo).

- po r Ca r- ybé como
O lagarto, o calango e o camale~o s~o

bicho~, de Choss.i e, também s~o


assinei 1 c:-1clo~~

c:i ta d os nc,

Mer-cado, mas nunca vimos nenhuma peça com esses temas .

4. Ossanha

Ossanha é a divindade das folhas, sem as quais n~o

mal. hs -folhas e seu poder representam um a;J_§: oculto e poderoso

portanto J. igado ,::io pàssc.'\r--o eye, o pássaro das. mulheres que

230
r

,--

fig. F3/13
Paramento de Oxossí.
Couraça feita em metal cromado, esmaltado a frio, osten-
tando o tema das panteras douradas que o representam en-
quanto Akuerã.

-
o mistério mais profundo e interno de todos.,

que sabemos estar ligado ao segredo da vida e da morte e que C)S

homens. tiver" <'.:1ff1 de conquistar. E com a vo2 desse que

Ossanha fala, donde erroneamente, e, às vezes, tomado por mulher,

no Brasil. E no entanto, entidade claramente masculina, pois, em

penetrc,do ao

rnesinC) tempo, glorificado. O pássaro é o mensageiro de Oss,,ã\n ha,

vai a toda parte, t udo vs - como os couvos de Odin - e volta para

lhe con tt=.•r". F:epr·r:?[Link] ta o numa dimensão

-/'undc~mE•ntal. rela~ào de Ossanha com das

m:~E?s.·-·,,?,n c:es tre,~ tem como c:on1::.equên c.i. a interprett.1 · · la como

homossexual e vinculé-lo amorosamente a Oxossi.

P1 que Monique F:studi:1 em

profundidade, de buscar, nos orixés, um arquétipo a ser imitado e

referendado na vida religiosa e profana, tem gerado a busca de

r ·.
modE:J.o'.::°, hDmoE:r . ót i cos. H grande quantidade de homosse>:uai s
r
i'fli:':1sc:u l inor::, femininos que E·ncontré:1 no
,.-
C,:i<.nc:!omb 1 ó ra2 com que busquem um modelo sagrado que

!,::.ua escolha pE'SS.Oê:11. Us Qd..~::. às qur,? ê:1p1~e~sent01m algumê:1 ambiquidadE?

como Ossanha e Ians~ ou atributos que remetem à duplicidade, como

Logun Edé e Oxumaré, s~o considerados como tais modelos e sofrem

i,,1 l ter é,1 çóes, imaginària a fim de cor·,,..esponderi?m esta

demanda de cunho social.

As histórias de Ossanha s~o todas ligadas à buscc:~

do saber - ele é um feiticeiro e um erudito - e ao preço que se

deve pagar. A mais conhecida é aquela, na qual chamado a curar a

pr6pria m~e, cobra dela o preço devido, n~o por gan~ncia, mas por
equilibr10 do axf. O

ajudou, em outra história a conhecer os nomes das filhas do rei

e a ganhar a mais velha em casamento. Também famosa e a

na qual Ians~ o enfrenta e, com seus ventos espalha as folhas que

de cada Or ~ :,-: ;.~. E~ c:ique 1 a, na quct 1 , C::t!::=,Sc.'ln hei i/:.~ urr, f:2~::,cr· i::1vo que

.[Link]!:?de rei de ro~ar o mato, percebendo, em e: 21d a -fol hc~, seu

poder terapêutico. Ossanha e Orunmilà tem certa proximidade, por

E1mbo~,. c:iE~ter·f.?.m poderes ocultos, mas, também, tem ciúmr.-,•s um elo

outr··o. Um mito narra como, através de seus filho~; metafóricos,

Sacrificio, disputam as primaziE1s, consE•guida pelo

Orixá do jogo, finalmente.

D culto de Ossanha é um dos rr,ais c::ompJ.e>:os do

n?alizado no interior do rr1at.a

virgem. As cantigas de trés, cinco, sete, nove, doze e vinte e um

•:;;.ào muito dificeis e, na realidade, privativas de um

Sacerdote especial, denominado Babàossaim. ou que jà n~o existe

praticamente, pois os tabus aos quais se deve submeter sào muitos

Ussi::1nha,

mas seus nomes ser iam o!=. d;.::is folhas, sugerindo que ei;;se Dt- i :,-:6_ é a

pr-ópr- ia mata. Apesar de sua import~ncia, a iconografia dele é

reduzida, pois o seu mistér-io é p,°:\ra ser- visto ou

compreendido.

1. feixe de hastes - é um feixe de seis hastes que

;,,brr='m em cone, em torno de uma maior. Na do meio, està o

pás=-i".lr··o eye. Essa ·f err i::1men ta, que é seu [Link]é.11 atributo

r simboliza como um mistério que se desvenda sob o

cond~o do saber, mas que preserva o segredo fundamental das Iyá-

•'/"':!"';
.,:_._,..:.,
r

mi.
....,
.,;_ . folhas - em metal ou naturais sào Ui1'1

mais que um atributo desse orixá .

3 . lan~a - atributo de algumas qualidades, inc:lic,::1

que ele conhece o caminho para conseguir o que busca.

caba~a - representa a matriz cósmica (mais um

elo com as Grandes-Màes) e é nela que ele guarda as folhas, sua

r fermentada (no Brasil, cacha~a) e, é claro, o pàssaro do

podE?r.

5. m~o-de-pil~o - serve para pilar as folhas.

6. ta~a - em forma de cone bem fundo, remete, de

com Adilson Martins (fevereiro de 1992) ao mito no qual,

através dos filhos, tem disputa com Orumilá .

E>: iste uma qualidade de Ossanha, que C:DfflO Iroko

(ou Tempo) e Omolu, se cobre de palha-da-costa, pois está ligado

aos antepassados.

5. Irôko ou Rôko ou Tempo

de s-,er um ori>:~1 f :i. to l á t r- :\. c:o

apar·e n tado com Ossanha, sendo dado até como uma g u alidaçle de

Xangõ e apresenta, ta mbém, afinidades com Exu e com Oxossi .

[Link] u m é_antQ de origem d21omedanc:1, dado como f i 1 ho de

e, po r tE1 n to, de posic::ionamento ince r-to na r,a~ijQ jr:ijr.~··-·nac3ô ,

da famosa Iyabor-.i:,.:á Olga de Alaketu <::.er quase

Roko (na verdade, seu nascimento tornou-se um mito desse

identificado CD ffi Tempo d('? Dª~º· congo--ê:1ngo la, com D qu a l

co mpartilha atributos e para mentos.

.,..,-,-7
:.:. ·~=i ...:,
fig. F6/31
Paramento de Ossanha.
' . ,
Cabaças usadas a guisa de ferramentas do Or1xa.
) ,
Notar os pequenas passaros de metal que repre -
,
sentam o misterio e a sabedoria - lembramos que
, ,
8 -'' 0 pasaaro que lhe revela os nomes das filhas
do rei.
Iroko é a gameleira branca, érvore sagrada e estb

relacionada tanto à varia~~º meteorológica quanto ao tempo como

estrutura de duraç~o e como memória. Ele é a àrvore que tem o

tronco no presente, as raizes no passado e as folhas no futuro.

Apesar de ser considerado o fundamento da na~ào de Congo-Angola,

existem muitos mitos sobre Tempo, por ser um

(Yodun/lnkice) de dificil feitura e culto.

Sb conhecemos como mitos, a história de Olga do

Alaketu que, rejeitada pela m~e, sobrevive aos pés da grande

brvore sete dias e sete noites, sendo a ele, entào, consagrada. E

u m outro mito, muito longo que, na verdade, parece ser uma coleta

de retalhos de versbes que se perderam e que conta a história de

uma mulher que recebe de Iroko feitiços para o bem e para o

e os usa de forma abusiva matando os vizinhos e os próprios


r
filhos. A interpretaç~o seria arriscada pois a narrativa está

truncada e com um fim moralizante que n~o parece própria do

pensamento doCandomblé: talvez remeta ao devir do tempo que deve

ser percorrido com discernimento, para n~o ser desperdi;ado.

Seus paramentos s~o sempre em palha, muito

enfeitadas de búzios e com panos bem coloridos ou completamente

brancos. Jamais vimos nenhum paramento para Irôko a venda no

Mercado, mas, seus ~erro~ e ferramentas n~o s~o raros.

1• grelha e ponteiro - está ligado ao fogo,

segundo alguns e segu ndo outros, é, na verdade, uma

da escada que simbolizaria o Tempo; o ponteiro seria uma

transformaç~o da lança ou do arp~o.

2. arp~o - com setas em cima e em baixo, marcando

234
direçbes. Tem o cabo coberto de búzios que c.-~imbo li ,:é.-1m

mu 1 tidac, ~ seres e carrega cabacinhas com

3. lança ou flecha - simboliza a dire~~o do tempo,

a escolha entre op~des.

4. espanado r de palha-da -cost a - <:0,emE: l hr:,,n t.r:::

i::· ..
car·1··egi::1do por· ,..• Uct ~ é muito temido pelas mulheres~ pois dizem que~

se as tocar pode trazer a esterilidade.

,..- 6 . Omolu

Omc:, 1 u, como Oxumaré e Nanà, deuses jbjes'. tem um

t.1·· a c;:o ca r· ac: tf.:;-r· :\.~:;ti co de inquiet,i:1<;;:ào, df,? temor ligado

perff..onE~ 1 idc1de. E o orixà da doen~a, principalmente das doent;:c1S

epid~micas e, também, da cura.

O conceito de doen~a ligado a Omolu, no entanto,

n~o é o mesmo relativo a Ossanha. O deus das folhas tem a c:loent;:a

como um infortúnio, um mal a ser conjurado; a c:loent;:a que Omolu

t.1··az [Link] urn [Link], peni tt:>nc::ic:1, uma pes;. t.f.'::'. Clmolu f::!

da terra ressecada ap6s a colheita; é, ao mesmo

[Link], C.t esterilidade e a colheita dos frutos. Se caracteriza

pela ambi va 1 É?[Link]-:.:i: é doente e médico~ chagado e belo, jovem e

velho, mendiqo soberano, morto e vivo. Com a morte~ Omolu é

",::11guém que mati:.'I f? com e? qf:c-nte" (\lerg1=~r: 1981: pg. :214) ,2~ no

r:·:•ntanto, se apresenta a Oxum, como uma das encarna~bes [Link]

abundante. Hà quem diga que é o senhor da agonia e da culpa e que

nào perdoa nunca nem nunca esquece.

Apesar da complexidade teológica desse orixà, sua


'fun~i:\c:, clar·c:1 df:,: "medico dos pobr·es" tc:irT1ê:1 suc1 1'.igur··.=.1 bf.?m definidc::1

e marcada por uma imagin~ria especifica. Omolu tem suas [Link]

ligadas ao renascimento, ao desvendamento de aspectos ocultos da

existência - mas, em todas, hà um travo de amargura e solidào. O

ao nascet-, abandonado por sua màe Nanà <·;


"'· . quc.1ndo jà

carcomido pelos caranguejos, é encontrado por Iemanjà que o adota

e c1.1ra. A vingan;a que busca exercer contra sua [Link] a

razào pela qual sai pelo mundo a busca das doen~as e das curas

não c:umpr· ida, afinal, mai5 que mar·c:i:.'<

definitiva entre màe e filho. Nanà é a pioneira de vida e Omolu é

um dos aspectos da preserva~ào da vida em curso: sua pr·o>: imidade

é a ansiedade, mas seus momentos sào diferentes. Uma outra versào

do mesmo mito, diz que Nan~ o expulsou porque estava com doE:n1:;:c:1

··./€?.nérec.1 e Iemanjé o acudiu. Uma terceira versào o faz sair de

adolescente, errar no mundo sem abrigo e sem !SUCBS!::-0 até

que. quase morto, Irõko o acode e lhe desvsnda o destino de ser

um Q..c....tJ::...~· Como vemos, o inicio da mi sstío dE· Umol u j à marcc::1do

~:;:.ina l sombr· io da mor.. tE1 f.?. por- u,n que,

.ind i candc,-c:, com senhor das moléstia nào o remete, com

nem a alegr-ia nem ao prazer.

Omolu tem rela;ôes de enfrentamento com [I :-: êl g ui ~ '

com Ossanha, com Xangô de quem tentou roubar o trono, e c:om Oxum,

c:1€?.u•:=..es; ligados àlgum aspecto mais luminoso de f,~::-:isténc:i . .:.':l.

histórias com Oxum sào conhecidas: a primeira trata de como ele

apareceu na sua frente e a desafiou, proclamando-se Oba Ilu Ayé -

Ubalua:i.é Senhor dos espiritos da terra e, tirando de debai>,o

das palhas sujas e empoeiradas de seu filà, espalhou, aos p&s da

236
dona do ouro, os frutos e gr~os, significando que, sem a J. .[Link],en t.o,

i::( v ic!a perece. segunda historia, D>:um de ~::: .[Link]

que provoca a fGria de Omolu que cerca os deus;es

com todas as doenc;:as de seu cajado/cetro / vassoura, o xax~~b .

Ians.~, en\iOl tz.-1 em fogo e vento consegue queimar C) ·f e .i ti c;;:o do

Orixfa e apaziguá-lo, dançando com ele e revelando, para despeito

de Cl::-: um , seu rosto verdadeiro, belo, perfeito e ofuscan t e como o

sol. Omolu està ligado ao calor, mas as calor de febre, ao corpo

abafado e entregue.

Seu culto, como ele, é ambivalente. Sua f e sta mais

i rnpo 1··· t i=1 n 1'..f.·? e o Dlubajé, feita de comida, de ,:":"1 l .i. men t c:1 çi\io

me~sma cateçJDr-·.1.c". da dos inhames de Dxalé, dos

F' retc:i~;-',)p lhos OU dos churrascos de Caboclos - si:\o festas de

~::.acr,::1mf2n t,,":<.c;;:ào, de invocaçào para que a fome se afaste. E, com

dc:,en<;:a e a peste . Mas, por outro lado, na Africa e, me

dizem, ainda no Brasil, seu culto propbe a mimetizac;:~o da rnorte .

O neófito é,em transe,posto na terra e enterrado como se tosse um

c:l E:'fun to r··eti r·· c1do \ie1~mp~.;

[Link], i,1 s i,~


;:;.e n d o pelo sudário ''. Isto indicaria a semente posta no ch~o

para que possa renascer/germinar.

f'.~s g_ual_.i;_s:!~gE:-~~ de Dmolu par-ecem ser relativas -=1os

lugares em que pousou, erando no mundo. Ele é caminhante, mas n~o

c:a pangue i r·o, nào carrega bagagem, anda como um fantasma, como o

-...1 ento fer· ·, .-,ente que ~,.opra mcddii;;:ê:íes. E comum os "causos" dr? Clmolu,

c::omec;:c( r-c;:,m por uma indicac;:~o geogràfica, por um r-elato de

ao qual ele se relaciona com um nome próprio (Amado: J.972; pg.

239). Obaluaié é o rei da terra, velho e vingativo, tào qener-oso

.- , ·":""'-,
..:,:.,_;, /
quanto cruel; Xapanà é a divindade da v ariola e seu nome é tabu;

8abà Ibonà e ligado a tebre e Dmolu Wari à peste, também. ~°3C.i\/ci J. Ll

e Azoani sào Dmolus ao Daomé, curvados e silenciosos, assim como

e Ajansu sào Dmolus Jovens, cuja dan~a é [Link]::1Se

acrobàtica e Jagum é um Dmolu guerreiro e brutal que usa

vermelho e palha rosea.

Os paramentos de Omolu sào diferentes dos de todos

DS C)r·i.::-:;:~s e nào carrega meté"ll nunc,::1. r.1pes,':lr· de tE;,1rmCJs [Link] que

1.'.".'1t.::5p tc1bu ·foi r"Dmp:i.c:!o a respeito de Nanà e, que

completamente esquecido com Oxumaré. nunca, ninguém se atrE?\lf.~l..l a

rompê-lo quanto a Omolu. Este se veste sobriamente. sem brilhos,

brocados, usando preto, vermelho, branco e marrom ( Santos:

pg '7'6) e, pi--incipalmE•ntrJ, usando o lonqo ~z~, fiLf.'I de

palha-da-costa que cai de um capuz traniado (fig. F4/9) e o cobre

qua~.e que todo. Esse ~'lz~. é um dos ô':1 tributos mai=:.

.impor.. t.c.1ntes, junto cDm !:::.ua "vassour·ê:1 11


, e cer[Link]o de t,::1bus, r'ia sua

c:onfr~c;.ào. Omolu nào tem, como Ossanha ou Nan~, uma grande

varidade de temas relativos a sua imaginária, talvez porque, como

<-:?1 es, sentido P cosmog.àmica podem

matizados e devem ser compreendidos sem qualquer dúvida.

1. xaxarà - Analisando os simbolos-signos, ,Juan d


\
Elbein, diz do xaxarà:

) o "si1sà!"·à emblem;:~ de "ObaJ.uà.i.yé" •


11
, é:: um
objeto com uma estrutura determinada, constituida
por uma quantidade de simbolos-signos que se
encontram ai incorporados - bózios,certas contas,
ráfia, nervuras de palmeira, cores especificas,
etc. que, embora tendo significados próprios,
nao devem ser considerados separadamente, mas
como partes integrandes da totalidade do simbolo
"sàsàr·é'=I" que contr·ibuem pcH"ê"I e>:prE·?ssar.
(SANTOS: 1976, pg. 24)

238
.,..
de c::hami:,1do

de s igna~~º que nos parece estranha dado a sua forma . Rau l [Link] y,

na Cole~~o: Culto Afro - Brasil ei ro cataloga dois xaxaràs to mbos

141 e 142) que n~o sào mais que um feixe de palitos de dendezeiro

guineensil), trouxamente amarrados com um de

ti n turada na cor vinho. Na Cole;~o Perseveran~a

i::\ p2 r·(?. Cf::i um xaxarà (tombo 183), no qual os palitos de dendezeiro

estào atados na base, com um pano rebordado por búzios: o aspec t o

é realmente de uma vassoura sem cabo e se compreende, vendo

c:,bj eto, porque Dmolu usa o xaxarà cara varrer lna dupla

e limpar) os males do mundo . Nessa mesrna ccd t?<;:ão,

( to1T1bo H,1) , c c, m os

[Link], i::1 l i. t D~-"· i n te ir a1mE;,n tf.7-' 1'-F! COber·tos po r pano t:·:! c:,r.. namen tac:lo po r·

fieiras de contas e búzios: é o xax~ r é . em for ma de bastão, c omo


,..
o conhece-mos hoje e registramos no Mercado de Madureira .

No MusE2u de Sa J. Vc1dor hf:1 urn bel [Link]

completamente coberto por couro tingido de vermelho e ornamenta -

do, de ci ma a oaixo , com bózios e to d o o tipo de contas. Os

F!::-:emp 1 i:H"e:;; de<.:;enhados po r Carybé em sua Iconografia s ~o

c~eme 1 han tes. a esse, mas apresentam as caba~as de remé d io . O u so

dessas caba~as na parte mais [Link] ta do xax~ré e sua analo gi a

com o aparelho genital masculino, sublinha o poderoso significad o

fàlico atribuido a essa pe;a .

Ap1:~s2.r cio )~:a::-:e~..C.s<.. tE!r- r·[Link];;:~D com o _;\;bir·_J_ ele Na n ~,

sendc::, s.e n tido df! '' \li::[Link]·;;, '' anà l oqo "'º de de,

eruker·é_: serve para co n trolar as doen~as que , como os


seguem a morte - Iku - e hé:1bi ta.m no fundo da. terra. E um

de rei, um cajado de viajante e o falus de um poderoso fei tic:i?i··-·

ro. Sua mudan;a de forma parece ter se dado, nào s6 para acentuar

a masculinidade do mi::1S també?m, confessadamente,

motivos estéticos: a forma atual permite uma ornamenta~ào rnui to

vistosa. Esse aspecto explica a venda de xaxar~ prontos no

Mercado de Madureira, mas nào descarta que tal a~~o é mafazeja.

Diz Adilson Martins:

- Os xaxarés vendidos aqui e recheados de papel,


de papel-jornal com noticias de desgraças e
mortes, porque escolhem os jornais mais baratos
sào inúteis e perig osos .
(Entrevista de fevereiro de 1992).

.-,
~:. . A:zê - é a~ssim cha1ma d o o 1 ongo [Link]!. de ràfia

por Omolu . Essa r-áfic::1 chama-ise =[Link]. e ela é: U~o impor-tante

que vem da Africa ~ nào sendo possivel adaptar esse mate r-:[Link] de

nenhuma forma. Essa palha participa de todos os rituais da morte

e sua presença, vimos~ é indispensàvel em todas as

que cuidados excepcionais devem ser tomados no rr,anejo de uma

·-forç;:a ~;;.obr-·enatural. ráfia feita das folhas bem novas e

po:.tas a secar indica a presença de um segredo tremendo que n~o

ser desvendado sob pena capital . Alguns Omolus usa m palha

escura, marrom ou púrpura, acentuando seu aspecto guerreiro, como

o J.:=tgum .

r ca jado de ferro - apesar de estar registrado em

desf?nhos. de Carybé no Mural d os Ori >: ás , todo!5 nossos,.

informantes dizem que Omolu nào pega ferro nem metal. Usa-se, mas

é errado; estaria ligado ao seu caminho .i. n cessante, "-"? dizem

240
claramente que não é d.:i -f21miliê:1 dos o _n_à como o or.:i.:::~>:or:t:i. dE? 0::-:alá.

4. lan~a L.\!:;:.ada no~::, é:1ssen i:.ê:1men tc:i'::, cie

'::,-i::1indo burê:1C:O!::, de um cuscuzeiro ou, en 1' i. é,1d é":1

( Colei~º Ma r a catu Elefante : tombo por f.?.>:emplo). Está

1'"·el ac::[Link].:idé.i. nào a dire i ào . mas ao aspecto fàlico cio orixà e c:'10

crescimento das plantas sobre a terra; associada ao xaxaré,

atributo de Jagun.

Encontramos a forma de anzol, de curva asc:E"ncien tF~

muito comum nos ferros para assentamento de Omolu, no

conjunto e hê:1rné:1d o 11
q ê:1 r- i::1 tt: :i. ê:i 11
, e: r.::,m as rnf:?~.;;ff1ê:1 s

1conogràficas anteriores.

5. b~z i o s - c:omo Nanà, Oxumaré e Irôko, Umolu se

búzios. pertencendo a ele, ta mbém os grandes

6. lagdibà - essa conta. própria c:less:,e

C::UJ O significado jà analisamos em outro capitulo, é considerada

como atributo importante de Omolu .

)'. quadrados - os temas ornamentais de Dmolu

minimos e se destaca o uso do quadrado representando, como vimos,

a terra e da disposii~º das contas e búzios em fileira, pois sua

sequência indica os passos de Omolu.

8. cru z es - os búzios est~o, na maioria das v~zes,

dispostos num padr~o cruciforme, quatro a quatro, ao

quadrado e sinc:[Link] à morte e ao cemitério.

)
7. 0 >:umaré
)

)
E o deus-serpente, ou melhor, é o deu~;-ser·pen tes,

)
241
)
'

fig. F8/32
Pontas de metal ou lanças, que enfiadas num
cuscuzeiro, fazemparte do assentamento de~
molu.
por·qui:e Oxumaré é sempre dois que se articulam em um: é o

a piton subterrjneo. Se m<::Jvimento caótico,

Oxumaré é incessante movimento sequencial.

O simbolismo ligado~ serpente é demasiado vasto e

i':IOS objetivos de nosso trabalho uma

iconológica dos i:1 tr-i bubos de Oxumar-é. No entanto nào podemos

e! e i >: a. r· de assinalar- algumas caracteristicas simbó[Link]~ que o

i mé"lg .1. n à r· i o popular retem, seja a par-tir da

seja a partir dos mitos americanos.

c:1par·Ece como a serpente do tempo que,

coleante, tudo percorre e que tu do devora. E, em cima o arco-iris

,·=:.
..... , emoaixo, a piton gigantesca que vive sob os mares e a tet···r·i::1:

na primeira forma, dizem que é macho, na ,,....,

(essas atribuiçbes nào sào un~nimes no Mer-cado). A

SEf"Pf?f"ltE? como o decurso do tempo a ser- contado e medido~

port,:>.n to, elo tempo único 1 partido em ciclos, é -f un cl am~?n t;,:11 na

:i. c:on og r· ;2, 'f i ,,:1 de Oxumaré, na qual vários atr-ibutos ,;:-1par-ecem como

duas partes de um objeto que é continuo, teoricamente: o argolào,

e:-:emplo. Num conto daomedado, a ar-anha deVf:? E•ntr-e

vàrias tar-efas a cumprir, capturar Onini, a piton e consegue seu

intent.o,ao imobiliz~-la sob o pretexto de medir- qu~o longa ela é:

se apossar do tempo é poder- mensurà-lo. (COURLANDER: :l.976, pg.

~,86./'l) .

Oxumaré é também~ ligado ao tr-anscurso~ porque ele

no :[Link] ds tempos: é um q1··ande tliil..P..€'~1..s-~fl ''nos alvor-es dc::1

c:r·.ia(i;ào" (Santos: 1976 1 pg 99) como a serpente que, em vária~:;;.

mitologia~.~ par·ti ci pa dos mitos de origem 1 seja como f:? l emer: to

constr-utor 1 como na India, seja como fator de dissocia;~o, como na

242
[Link].i:L a protetora de tesouros e, de

C:J :,-: uma 1·· {:" , c:!iz ser imensamente rico, pois r.:ios~su .i

maravilhas ocultas sob as ondas ou sob as rochas: uma alegoria d o

que sO pode ser conquistado por quem domina o tE·rnpc:i ,, Ma s

està ligado apenas a esse aspecto pedagógico da

relacionado, também, com destino ··· q u e no

pens::-c1mento afro-brasileiro, é construido através da iniciaiàD e

do acaso - e com a consecutividade . Para

Oxumaré, todo o tato, todo o gesto é, causa e consequência, parte

de um percurso que tudo articula. Monique Auqras

[Link]··pé.-?n te como ·fôm(·?i::1 e diz que '=-Ei chi::1fi1i::1 8(,?s;;;;ém 1 ''[Link], que vive

nos,. r·.i.o~:- F:? l,,:1gos''. !::s!:,-E? [Link] ·f<-?[Link] di::1 <:-€':!r·pent<~ cont,,...;-=idiz seu

aspecto fàlico e seu poder de penetra;ào, mas pode ser c:n-?di [Link]

a sua capacidade de engolir e a sua identifica;ào com as éguas e

com a deusa ctônica que é sua màe, Nanà.

Um informante nos alertou para uma ·f igurE-1 muito

c::onhec:ida, 1··eproc:lu ;-~ .i. da até em livros escolares, de uma deUSi::1

e:: 1··e tf:?n s:,e C::Dfíl os ==i~= nus e duas serpentes nas m~os e que

[Link]é.-1 C:OfflD o aspecto feminino do orixá . ouv.i. mo s

\lár ia=. a rela~ào baseada na homologia de sons~ entre

C:L:umaré e Ü>:um ·-· ;::, ponto de 11


E!>:istir" umi:::-1 "0:-:um Mi.:11,..é", liqc,da ao

i,,,r·co-i ris. Apesar das claras [Link]~bes internas de ê1ff1bos os

- c:liscur·sos

ar·c:o·-ir·.is
que

[Link]
ignoram os anacronismos hist.ôricos ou o

macho, percebe-se um esfor~o, na c:ornun [Link]:?


fato do

dos

devotos, construir um relato que legitime [Link]::-1mente a

a mbivaléncia sexual da divindade.

o ar· c:o- ir· is, s6 na Afric:.:-1, físêtS~ CJS


:Lndios,. (-'? uma ser-pente:

popu 1 a;õe!:- indigenas de quase todo o continente americano é uma

( ca~:.cudo ~ pq 73) igua11T1f?nte, à

representa~ào do tempo, do ano, da vida subterrctnea e, se mpre, à

á<;[Link]::(. CJ arco-iris relaciona Oxumaré com Xangô pois dizem que

aquel f.? 1 e\/a égua da chuva para refrescar o palàcio,

chi::<.ff1as, do F:e.i.

histórias de Dxumaré s~o muitas, como que

c::ont.i".:1 que N21nã pariu (filho de Dxalà?) feito um monstro

""i' r.",1bu 1 c:,<=::.r.::<: seis meses era bela mo~a e, seis outros, uma serpent.e

rnc:,s t r-uos.c~, se apossa da coroa da rainha e, come:,

de segredos - e, com a ajuda de Ifà que se compadece de

sua pobreza, cura o filho de Olokum, fazendo Jus aos tesouros d o


. L
mar- . Dxossi està ligado a Oxumaré pois o ca~a tabu, .J cj que o

tempo n~o pode ser devorado: é ele quem devora - e, por esse ato,

foe transforme.'! em C:ir-i>:á . Um mito e>:ten~,-:.o, [Link]::1do c:10 Dbê1r-à - odL.!. da

boa-fortuna - mostra a liga~~º entre Oxum e as serpentes várias-

que--~,-?ío--urna-~:;ó. \)ár-- iC)S 11


Ci:..~Lls-.. os
11
contados. ·+
como mi~os,

como o do senhor branco e belo que libertou duas princesas

africanas da escravidào e uma delas fundou o terreiro do

ou qUf:? conta como alguém enterrou o cord~o umbilical ao pé da

palmeir--a que !:i-e torn.=.'I o "doble" dc:1 pessoa. Essi::; última h i stória

r··r.=2li::1cionc, o cord~o umbilical a Oxumaré por sua forma alongada e

por ser o inicio do inicio da vida; a palmeira está associada ao

afastamento da morte, à r-epulsa i:.iOS c~gun~~ e todo o mito é u ma

afirma;ào da vida como destino a se cumprir - se

forem feitas a contento.

244
- complexo simbólico que
iconoqr.::1·i'ic:1 qur::2 tf.=-n t;;~ cJE1r·· conta LJ~·' tJ C:C

caracteriza como tipo divino. Dan, o nome jejé do Ori.xà ou sua

citadas no Mercado.

paramentos buscam, nas cores do arco-iris

ousada~,. e dinêmicas, retratar o Ori.xà.

('i:.•ntr··<·?. {JS belos paramentos e sào, com os ffii::1i.~::-

coloridos e ousados, na sua forma e concepçào. Podem ser douradbs

ou cromados e recebem esmalta~ào a frio nos tons do arco-iris e

em quaisquer outros, sem restri~~o; foram os primeiros a usarem a

representação antropomórfica, na qual Oxumaré é representado com

as duas serpentes do preceito, envolto em cobras ou gerando, nas

o arco-iris. Consta de adê com fi)~. couraça, serpentes e

abebé. além de pulseiras, bra;a l ete:. e, frequentemente,

tornozeleiras. Esses objetos devem ser analisados como atributos,

de que .:.~s cobras. podem

verdadeiramente como

l . adê com f i l ~ -- remete claramente à inten;~o de

uma identidade ·feminina a esse Apes.::1r do

conhecimento arcano ser uma de suas caracteristicas, nào é o tipo

de saber a ser oculto com o cho~ào. pois nào denota ambiguidade.

Oxumaré usa, também, duas coroas: a primeira, mais tradicional.~

composta por duas serpentes de pano que se enroscam como um torso

e que sào seu icone, mais que seu indice: a segunda é uma coroa

como a que vemos na fig . F2/36 que é a que ele tira de Nanà e que

24~,
representa o arco-iris (11)

......::...
,
coLtra~a aparentemente s6 uma

estética, sendo suporte privilegiado dos temas ornamentais .


··::
·-' . abebé

nitida e publicamente artificial. Todos os informantes, mesmo os

que acreditam na ambiguidade c:!e genei···o do orixà, dizem que

Oxumaré nào carrega abano. Mas é uma das pe~as mais executadas e

no ~':-Lta popu 1 .:"lr:[Link]:~ O:=-

um E'>:emplar- dEiss.e 11
ié'itributc,' 1 f2 perceb(?ff10<:=:. qut? f.?>:i!::,tt? urn

d f?s,. conE~c t,~ ·--1 o no simbolismo relativo ao do

feminino, seja negando a redondez na forma, seja pelo uso

de temas especificos na ornamenta~~o. Nesse caso o abano continu a

a ser signo da feminilidade, mas n~o mais da maternidade.


..·,
··1· • Serpentes - é o atributo

ci :.i. v inda1de . Du ele as carrega como duas serpentes de -ferro que

r u ma e .1. rria '"


"· . parc1 bai::-:o, ~:.-imbol i:~ando o

cir-c u lo que é o tempo e o destino e, é claro, o arco-iris c1

píton. Duas traz como um cetro (fig. Fl0/5) na qua1l elemt:=2ntos

como o sol, repbe essa mesma interpretai~º, c1pesar das cobras se

olharem frente a frente, como no caduceu .

~·.
r.:
brajàs - os grandes colares de búzios que se

cr u zam a tiracolo, para Oxumaré, representam, principalmente, su a

imen~.a riquez,3.

6. chifres s~o um atributo que passa por s er

11 ) como Nan~ e Omolu n~o ca r rega na


ap e sar de serem suas as serpentes de metal .

246
fig. F5/6
,
Para~ento de Oxumare.
Em metal cromado com aplicações de esmalte co-
- ,
lorido, usa uma representaçao antropomorfica do
,
deus como tema ornamental. â figura esta cerca-
,
por arco-iris, serpentes e sol.
Notar o dinamismo da composição que apesar do ªI
f A
co-1ris, tende para um losangulo.
presente de Oxossi; é de uso muito raro e poucos informantes o

citam. Sua interpretaçào iconogràfica remete ao berrante que

reúne, em seu brado, os mundos dos deuses e dos homens,

integrando-os, por um instante, como na manhà dos tempos .

que ~ de manhà, que Oxumaré os sopra, repetindo a cria~ào e

permitindo a comunica~ào de todos os elementos entre si .

7
·' . ibiri apenas um informante citou-o como

atributo de Dxumaré, sem qualquer explicaçào (e ntrevi sta informal

em julho de 1994); provavelmente é ligado a Nan~.

8. punhal - Carybé registra, em sua Iconografia um

punhal, que Jê citamos, de pequena lamina triangular e um cabo em

forma de circulo atravessado em seu di§metro. Esse

citando a mesma fonte, tem reaparecido no Mercado e Adilson

fabricou um deles em 1993. Sua interpretaç~o parece ser uma

representa;ào do destino, enquanto fatos que se encadeiam,

necessaria, e n~o, casualmente.

8. argol~o - é diferente do de Iemanjé ou Oxum,

pois é de duas metades que se articulam nas pontas,

fo rmando um circulo.

9. arco-irise cobras - sào os temas decorativos

mais comuns das pe;as de Dxumaré. As cobras, ultimamente, s~o

representadas como najas, na posi;ào tradicional que se vê no

toucado das Faraós P representa realeza.

10. flores - sào numa forma intermediária entre as

de pétalas redondas de Iemanjé e Dxum e as pontudas de Iansà e

dos Aborbs. Geralmente o número de pétalas é um múltiplo de

quatro, remetendo , talvez, a múltipla duplica~ào, ou à terra.

247
1

11 . sol - representa a rota~~º e, portanto o tempo

que envo1ve a terra. Ou, também, o sol por tràs do arco-iris que

seria o saber, o conhecimento luminoso.

J.2. triângulo representa a vidência de Oxumaré.

l ~5 . estrela s - o curso dos astros no ceú.

representa~ào extremamente rara .

8. Xangô

Dito como filho de Oxalà ou de Oraniam e Iemanjà,

X,ô.'{ngô é o ú[Link] Q.c.i..0..6. j~"i?jf?···n.::'lgô qu<·? c:onser-vE1 um r·e::,lato hist.ór·.ico

sua origem . Teria sido, de acordo com Pierre Verger, o

tercein:, de Oyó, mas hà quem diga que foi Ct po is

te r ia perdido o irm~o, 1~e c uoer·,::1ndo-···o depois .

.1.981, pg 134) Xc.1ngb é E?>:empl o do

on:;iu l ho!=.o E? violento , Cê:'lpaz de distribuir- c om

propriedade infalivel, mas , às vezes, de forma destruidora.

~-
Representa di n astia, conceitualizando uma co r -
rente de vida ininterrupta, expressa pela funiào
de "Alàtdir:", "epitome do poder· E~bsoluto da
reé.1le:za 11

(SANTOS: 1976, pg 96)

Fst.~1 lig a do ao r·aio que r·epresen té.1 just:i.c;;:a

r~pida e eficaz e ao trov~o que o anuncia - a voz do Rei . O

de Xangõ, no entanto, diferente dos raios da tempestade d e Ians~ ,

estào articulados com a pedra: sào pedras de fog o , que per· [Link] C€,: m

248
c:óu. Xiéinqô é dono d,:1 cidade rr,L.i ,- ada ,

circunscrita pela 1e1 (12).


..
E c:c,mo D d escendt..?n e: .i ê,1 da
-' F:t

urr,a qUf.2 p1··oe:c ;;_,s

vitalidade do reino= muitas esposas, sào muitos filhos e muitos

filhos s~o um povo numeroso e forte. Toda a simbologia de XangO o

faz um representante de vida atuante no plano social e histórico,

pCit" tC'll"l to, liga;ào com os ancestrais é de c:on t i nu :i. d ,:1d E'? do

ciclo de existência - donde sua liga;ào com Oxumar& - e de

com os mortos. Xangô, todos o repetem, i:~boiT,ina o

da morte= seus filhos sequer entram num cemitério

pas,.\,;õ'1rnento . Na verdade, Xangõ n~o tem medo da morte: ele tem um

r?ntr . anhi:,1do amor pela vida que considera bi:":\se rJe

qualquer poder real .

Essa rela~~º visceral entre poder e vida que XangO

a base do mais conhecido dos da

evemerizai~O. Esse mito corneia por citar seu reinado hist6rico e

conta, como, levado pela ~nsia de expandir seu dominio,

apossou de um terrivel feiti~o do fogo que, descontrolado,

incendiou e destr·uiu seu próprio palácio, massac:r,:indo a

popula;ào . Horrorizado com o fato, Xangõ se retira ( acomp,:;nhadc:,

,:'lpenas por Oyà) e se enforca (recebendo o nome de Obá Kossó,

12) S~o conhecidos na Africa e presentes no Brasil, os DBAS de


Xangô, seus ministros que respodem pelo prestigio do Rei e pela
administra;~o do reino . O artigo de Vivaldo Costa Lima: Os Obàs
de Xangô (MOURA: 1981, pg 87/125) analisa a presen~a dessa
instituii~º no terreiro Ax ~ Op6 Af o njà, em Salvador.

249
Sf?gundD vt~[Link] c.'IUtor-es e m0?r·gul h,::'lncJo na

ela quai r·r:::ssur··ge, f.'::m chamar,:;, co mo um Çlr·i>:_~.

de suas histórias, como rainha e amante. assim

como tod.::1r:=. .::1s. outr-é."'I~=· .I.J.::1b.:':is.• Foi esposo apaixonado de Oxum, a

quem tenta conquistar, mas que o conquista sempre com sua beleza

e encantamento, fazendo com que ele se [Link] a seus pés e realize

[Link] comandos. Foi esposo, como vimos, de Obà,

C:Off1 F:: 1 é.:1, ao aspecto arcaico da feminilidade e fo.i., em

lendas, [Link] da própria Iemanjà que o abandonou por-

ter, ele, zombado de seus volumosos [Link] (este Xangõ, dizem que

é uma qualidade velha e muito antiga, pai do Xangõ jovem, cha mado

Xango-menino ou Xango de Ouro) (13).

(Jutr"c1 de suas lendas o relaciona com Oxalé, <:::.ob

seus duplos aspectos de Oxaluf~ e Oxaguiam, a partir de um cavalo

como roubado e que, resgatado~ resgata i::1 v idE:1 no

reino. Esse mito està ligado ao ritual das Aguas de Oxalà, como

veremos. O carneiro, seu animal tot~mico - ou, um déles - também

i:::, ii,-.. r t .i e i. p c1 de uma história, na qual tenta derrotar o pàssaro das

acaba derrotado e justi;ado por Xangô

1 983, pg 14 7 / 8) •

As histórias de Xangô est~o entre eis:, que

1 t'?mbr·;;:1das por quase todos e contadas numa narrativa c:r)e~.a !' !=.em

dos episódios principais, como acontece na di::15

lendas dos ori.xàs guardadas na mem6ri.a do povo. E, sem düvida, um

13) Xangô como infante e sua rela;ào com a constru;ào de vida na


festa dos homens é revista no belo texto de Roberto Motta:
Bandeira de Alairà: a festa de Xangô - S~o Jo~o (in MOURA: 1982,
pg 1/12).
n

fig. F3/7

Coroa de Xango.
.
Em cobre, encimada pelo~. apresenta como temas ornamen-
tais, chamas e folhas de louro, indi e ando a natureza e · a
, . . ,
gloria desse Orixa.
- de orgu l ho e prazer para seus filhos.

cein!:;ider .::1do como no


O posto de Obé de Xano~

Candomblé do
é

investidura é motivo de prestigio maior (Amado: Jorge: Tenda dos

Mi la g r es= Rio de Janeiro~ Record, 1987).

bE~ff: con hE?[Link]!:', e

reconhecidas, seja nos paramentos, seja durante o transe. Os mais

conhecidos sào Xangô Airé e Xango Intila, duas qualidades que se

vestem de branco; Xango Ibon~ ou Babé Bon~ é ligado às chamas e b

~J ciC:Ll tá é ligado às pedras de raio e seu (': de

difici1 Afonjá é o Xangô da casa r·i?.al de Oyá~

patrono das mais antiqas Casas de Salvador. Menos s;;:o

Xangô Ogodõ, jovem e guerreiro e Aganju que pode ser muito cruel;

Xangõ Baru foi dito que C::Offlt? quiabo porque é muito velho e

Xangô Dlorokê foi dado como o que conquistou Ians~ e a tirou de

Ogum.

Seu~; s~o sempre em cobres, esmaltado,

às ve2es, em vermelho - a n~o ser, os de Airà e Intila que sào em

metal u e l emE•n to quE,: mais se !'"essa l ti:i< nos seus

par·[Link] tos~ é coroa, numa forma que r-i?.mc?te coroa~; dos

do Brasi 1 1 significando soberania mistica,

sobre o pais e deixando~ bem [Link], qu e? (·'; o Rei. Sào vários o~

atr-ibutos e o Orixé que apresenta um maior nómero de

.-,,, n i mê'< i ;;:. como tema ornamental, uma vez que vàrios se prestam a

simbolizar sua virilidade e nobreza, tanto a partir da imaginária

européia~ quanto a partir da africana.

l. O>: é f.J machê1do biface é, como dissemos, o


atributo masculino mais conhecido. Das 70 pranchas que ilustram a

arte e a cultura yorub~ do livro de William Fagg e John Pemberton

( J. 9E3~:'. ) , impor. tf.:inc::.:i.a

ferramenta. E também a pec;:a mais comum - em v~rias versbes - nas

c::ol ec;:ê:iE::s. catalogadas por Raul Logy, assim c::omo sãc1 [Link]ncontr,::1dos

todo o Mercado de Madureira, feitos de metal, de madeira ou

com pedra. Raul Lody (1988: pg 13 e seg.) diz que a iconogr·[Link]

dess.é',1 pe;a remete .::10S n~o c::omo ambiguidade ou

c::Dn tri:~d i c;:'.::ío mas como equilibrio de devem

responder, uma às outras:

f CJ{_:;JC) \/ i \/C'.i d os;. c:(,,u s cun t r· o 1 acl o n i:~ t. r:::r· r a ; '' ''=·~~o C)S. m.:7\ i !:, pod E? t-·oso~:;;.

de vermelho, aquele que dssegur-a

n-:.?pn::idw;;:ão" (ShNT0'.3: 1976, pg 96).

U g>:ê ó um falo, claramente desenhado, mas é,

ixé. mastro central, que sustenta a construç~o . suas

duas l~minas representam os pares do bem/mal, poder do Rei/poder

cio [Ir i >:à, poder· tempor·i:.~ l / poder· religioso,

palbcio/terreiro, i:.;olo de pedras/terremoto,

A relaç~o macho/f0mea n~o est~ contida nas J.~rninbas-:.

,nas na figura feminina que, tradicionalmente, as sustf2nta,

mostrando que o deus viril só pode subsistir apoiado no poder das

r rnul heres. No l"'IE?rc:i::,do de l',.ladurr-2i ra, figura -feminina

desapareceu, como iconogr-a'i'ia, mas permanece citada como


,._

remiss~o. Nos machados de madeira, no Me r cadào, é comum o u so de

olhos lavrados nas l~minas, talvez uma representaç~o resumida ela

rnu l her que as suportava, originalmente (14). As làminas duplas

14) Numa entrevista informal, nos foi dito que esses olhos
expressavam a vigil~ncia do deus da Justiça.
/

fig. Fl0/25
,. ,.
Oxe de Xango.
.
Em madeira, com os olhos gravados na lamina e sois
,.
representando o calor escaldante e a soberania.
.... ,;....
~:::, c::t LI
- ~ também, a representaç~o dos chifres dos carneiros, como no

[Link] 044 da Cole~~o: Culto Afro-Brasileiro, mas,

relaç~o ser lembrada, hoje, o mais comum, sào as lêminas em forma

de trapézio, com um desenho mais reto ou mais curvo, mas, em todo

caso, próximo às l~minas dos machados usados profanamente (fic;,is .

F3/9, Fl0/25 e Fl0/24).

..
r·"i
.,:: coroa - Raul Lody cataloga vàrias

Xangô, algumas na forma europ&ia, outras como barretes ( Cole~~o:

Culto Afro-Brasileiro e Coleç~o Perseverança )

as pe~as mais vendidas. A fig. F3/7

comum de coroa de Xangô, em cobre, ornamentada com ramos de louro

e: hic< me. s::. e encimada - come::, sempre - por um

mesmo modE~ 1 o pode ser feito em metal cromado ou, num E,::-:emplo

0nico (Fig. F6/5) ganhar uma viseira, indicando um Xangô (.;ganj u.

-fig . F4/22, vemos uma curiosa mitra, usadc:1 c:!e

C.c.:::ingo-Ango 1 ,:"I que remete à dualidade poder temporal/poder sagrado

E:- que recupera a forma de cone, usada na Africa, como :.i. 1 u s;, t r· ,3

Juana Elbein (1976: Iconografia, fig. 11).

:3. :xere como um chocalho, feito de uma cabaia

com cabo de metal prateado ou de cobre, é usado em os

rituais onde se dê a presença de Xangõ. Na sua origem é

aos olhos das mulheres, o que denuncia pr·ov,~ve 1 '::',imbolo fàliCD

mesmo que hoje, essa proibiçào nào seja tabu, o mais usual

qu~? nas cerimôn.i;;.1s ele envolvido num a :t \iO [Link]!.. No

Mercado, sua exposi~ào e venda nào sofrem qualquer entrave,

passou pelos banhos e oraçóes que o sacramentam. D

dito como transportando. em seu chacoalhar, o barulho do trovào,

253
mas em duas entrevistas informais, uma em 1991 e a outra em 1993 ,

"i'c,i dito que o barulho se refere à chuva, o oue

significa~ào fàlica, havendo uma analogia

c::huvc:1 E? esperma; o informante mais recente nos que o


,-
barulhei do

invad:Lu e conquistou Oyô . Aoesar dessa informa;ào ser ( [Link] ~

reg i s t ramos pois reme t e ao aspecto histor:Lcizante que os mitos de

r Xangõ conservam e, também, porque sugere que o interc~mbio en t re

popular e constru ~ bes eruditas vem se intensificando no

Mercado d e Madureira, como em t odo universo do Candomblé.

4 . (Jd(j a mào-de-pilào e o próprio o:Llào,

1 :.1.g.:;1dos reinado de Xangõ, mas n~o obtemos i n ·f or·mé.1 (;;'.CJe":;

claras sobre isso e, também, representam co mo vimos, à virilidade

Orixà . Como o pil~o tem uma carga significante rel a tiva

U:,-:aqu :i. ã muito mais nitida, no Mercado não o v emos relacionado

Xangb E1pe<:::.ar·, dos in i'ormant€~S se r.. eco V" C! E1 r· e1n bem cJes!::;a

iconogr-·c:1i' io:1, Vi:~ 1 O!'' :i. :;:~ c:'1 ffl mão--do-pi 1 ão por· se u ó b vio

simbolismo félico . Raul Lody registra dois pilãos de madeira; um

na Cole~~o: Culto Afro-Brasileiro , o qual hesita, na cataloga ; ão,

.:,:.>ntre 3ssinalà-lo como um pilão c:le Xangô ou de 0>:aguiã :

acreditamos se r do pri me i ro , em virtude de , nos baixos rel@vos de

to d a a volta ap a recerem os orixàs Xango , Exu, Ogum e Iansà, o q u e

par,?Cf? re meter ao mito citado a

r·ainh,':'1 dos ventos (tombo 015). A outra pe ç a pe r tence a Coleç~o:

Maracatu Elefante e, apesar de ser referenda d o, pelo autor co mo

de algumas dúvidas, pois a } E1 r c;Jii:1S

flores pintadas de branca, esculpidas na pe ç a e o uso de um a cr u z


Lí\

estilizada com decoraç~o, na base, parece r emeter, iconografica-

à Oxagui~ (tombo 278), podendo, no entanto, pertencer

assentamento de um Xangü Airé. Os demais significados

{1 mãe-de-pilão ji!:1 ·for··c:1m V.: Ls-,tos qu21ndo õ:[Link];;;;. os :1'..E.!'..".E.Q~·

,- ~-'•. Labcf:I -··· {. 0


: urna qr··.::1nde bolsa, [Link] tir·i::1c:olo,

i:::•r· inc:í. pa l mE.:-n te por XangO Jacutà, feita de couro ornamentado com

padrbes decorativos baseados no tri~ngulo, no qual o orix~ guarda

nas

tempestades e / ou num ato oe justi;amento. 36 a vimos uma vez, no

Mercado, feita por encomenda.

6. batcf:I - também ~;;. ó v:\.mc,i::=, u1T1a v ez no f'1E"r[Link],1dc,~ foi

na loJa de Adilson Martins que o estava consertando. ~ um t,::1mbor

se prende a tiracolo (VERGER: 1981, fot. 106), de cerca de

O, 80rn de c:ompr· imen to, as r·ecobe1· .. tc:1 1s

membranas e que é batido dos dois lados. E exclusivo do culto de

X,:1ng(1 E' cielt? s .r"' [Link] que "fala", "conversa" diretamentt? com o

orix~, sendo, portanto, objeto de muito preceito. Parece estar em

desuso e poucos o conhecem: o que Adilson nos mostrou, parece ter

vindo da Africa.
-,/ . couraça parE~ce, no paramento de

,::;ube:.t..ituil'.. o "avental" qu1? es:,se ori>:à usc:1Vc~ (L..ody: 198~,, pg. <=9
\.,, ;

Verger: 1981, fot. 114), rebordado com cauris e / ou fios de ouro e

franjas vermelhas e que simbolizava a riqueza e prosperidade do

r··eino.

8. Elefante - "D elefc:1nt1::. 0: é" e, rf.~i depoi!::; di::1 mc:ir-te.

Essa

infonnac;:ào é con ·-f ir·· rna d é,1 no Dictionnaire des Civilisations

Africaines (Paris~ Fernand Hazan E ' diteur, 1968), no qual

,-, e: e:
~ ....1\,..1
Ichac diz o mesmo e acrescenta que seu marfim é propriedade

(op. cit.: pg. :i47)..

,-::; . Cavalo - O Rei a cavalo é uma

c::omum na imaginéria africana e essa montaria representa o

de comando (15). No Mercado, o cavalo aparece relacionado com o

mito, no qual o velho Oxal~ vai preso, acusado de té-lo

Donde, o tema do cavalo alado serve pra ornamentar paramentos de

~ Xangô e Dxagui~ (que também é parte dessa história).

10. Agutà - é o carneiro de chifres recurves, que

desde o Egito, onde é consagrado a Amon-Ré, representa a realeza,

o sol, o poder impactante e irrefreével. No Brasil, esse carneiro

( 1··ar.. o se encontrar e caro de se comprar) Ê• símbo J. c-:i dc:1

velocidade de a~ao de Xangõ e a forma dos chifres era muito usada

nos o>:é 2 •

1.1. le~o - 6 o animal real por E•;-: ce 1 r.)n e: :.i. é':1.

(1957, pg. 92/3) o di2 um símbolo de Cristo mas que propicia uma

J E~l tur-·3 iconográf ic~{ ambígua, pois representando a pocle

bem c:,u c:io rr,,,,, l • i conoq r·· é:1 -;: ir:,,

:.\. n tf.'21r· pr·etado como sígno de

Misericórdia, da Coragem e da Vigil~ncia. Na Africa (Diccionaire:

.l 968, pg. 250/1) o le~o é simbolo do guerreiro e do Rei,

renasce ndo sob a forma do animal; sua carne e suas visceras s~o

consumidas ritualmente em algumas regibes e é centro

cultos propiciatórios, permanecendo, até hoj t?, um signo muito

·i'o rte nas representaçbes do poder politico. No Brasil, o leâ"o

15) FAGG, William: Yoruba (1982); LAUDE, Jean: Las Artes del
Africa Negra (1968).

.,,:::,,
L'-,10
r

o Rei, igualmente, mas, também é o animal-simbolo da

Afric:a, donde sua constante utili2a~~o, como tema nos pi::11··· ,::1mE'2n tos.

J.2. Quimera No

européia e cristà desapareceu e é usada, a partir de sua forma de

e:: a t<e e;: E:1 (e corpo, geralmente) de leào e cauda de para

como o le~o mesmo, o poder real.

representada, alada e rampante, remetendo aos edun-ar~.

13. pe i>:e ligado sempre àlgum enredo co m 0:,-:um

14. pomba p c:I r· E~ C: f2 o

dir·et.E1mentP. todos os informantes a d~o como s . .[Link] 1 e:, dl':?

0>:a 1 i\ e marca iconogréfica de pe;as ou paramentos de XangO (ürá

ou I n t.i. la.
e:
•l
..l. ,_J • estrelas - tema muito raro, sempre ligado

I e manj t.-'I .

16. asas - tema frequente, representa a velocidade

com que XangO lan~a os eoun~ará.

17 . b~z i os - representa a riqueza material e, po r ·

extens~o, a frondosa descend~ncia do Rei .

l8 . ramos de l ouro simbolo de uso comum,

representa a coroa dos Césares e, por afinidade, o poder real ou

r imperial e a glória.

J.9 . chave - é um signo de uso raro. S6 vimos,

uma chave de >:anç_iô. ?~di l son

in·formou que r-epr-esE,nta\iê.~ .::·:1. ''c:h,:t\/(·? dê:t lei~ ,-a c:J-,a··1r:2 ela cida d t~"

(entrevista de julho de 1992).

=~,7
20. chamas - é o mais comum dos temas usados em

paramentos de Xangô e é auto-explicativo.

t1~e,,. ~:;iqno <::,

imag i nária de XangO e que nào e ncontramos no Mercado. Raul

c::oloc: c u muletas como simbol o de Xangô, mas n~o encontramos nada

parec i do no Mercado, nem ninguém pôde nos falar sobre e l as; é de

s e notar a semelhança d e sua fo rma com o oxê ( Lod y : 1985, p g 17).

Doi~0, é"1nii,:'1mis 1·.. e l ê',1cionE1dos. c om e bastante usados

nào aparecem como temas, a

apesar da imensa i mport ~ ncia que tem no Candomblé , nào

pui' .i 1 hõ~r- .ia os sign i ficados de f orça e rapidez que, percebemos ,

caracterizam a iconografia do orixà.

9. Logun Edé

E um Dr iJ:L~ j ovem, ·f i 1 ho de 0 >:um F'ondá e 0 >: o;.:,si

J bU,:i\ 1 é'lffl<::I e seria a representaç~o d a terra cult i vada, retirada do

dominio da floresta e irrigada pelas ~guas do rio e, também e s tà

[Link] é'10 ·fonte cie alimentac;;:~o f:7! meio de

comunicaçào. Parece constituir-se um herói civilizador, ligado à

,,~ gr. :i.c:ul tura e às artes pacificas. SLtas caracteristicas ma is

apontado~~~- a beleza e a juventude, que lhe conferem c:e r·ta

E:1mbi<Jui dadt? se>! L.t c:i J. , ace n tuada pela tradic;;:~o de que -..ii VF: SE•i S

meses na mata e seis meses no rio - nestes seria moc;;:a encantadora

e, naqueles, um rapaz atraente.

N~o conhecemos mitos de Loqum Edé, pois dele ~


que é filho de Oxum e de Oxossi todos

'' c:aus,.os. '' s.~o ligados à bissexualidade. rz..•n tr.:1n to conhece mos

,,,1J. gun ,:::,

do nr- i ::: à. dizendo que seu aspecto de caiador foi sendo anulado,

formar um c::laro arquétipo C) compot-tamento

!···,omos~-F.~;{Ua l .

na

o diz um Dxossi e considera que seu culto de or-:[Link], em

Ilexà està ligado ao de Erinlé, um deus da ca~a em cujo culto se

misturam dois: o do rio e o do elefante. (VERGER: 1981)

dfi:,: Logun Ed{~ IT1Ui te:, t::,oni tos.,

geralmente em metal dourado como o de Oxum (temos :::.oment.f:


0
cJoi~,

peças em metal cromado: as figs. F3/3 F.,1 F3/ 11) f:?

rnui to [Link]:d hados. Seus paramentos incluem

chapel ~'.':'io, coura~a, capanga, bra~aletes, pulseiras e cane l e:i. r-,::~s,

u
l....oc:l·:1 uma pec;:a ( tombe 027) na Colec;;:!(o: Culto Afro-

Brasileiro, (:'? iTl latào CC'Jffi desenhos de lira (Oxum) e ramos de

~1rvor··es (Oxossi), com uma estrela no centro (Iyabàs?) e outra

(to mbo 084) na Cole~~o: Perseveran~a em lat~o dourado, com os

temas de flores (Oxum) e ofà (Oxossi) e um crescente. No entanto,

Fj_er-re './e rge1~ (1981: tot. 7~, e T/) n~o n:·,1gi~~tr-.:,1 quc:.·[Link]-· õ:1beQ.§: e

o simbolo de Oxum parece ser uma alfanje (gravado numa pe~a c:le

c:er,~mica) ou uma r.::>sp.::,d,=1 pi~lmar- que a .tª·º- carreqi:.1 numa m~'<:o e o g_fá_

na E possivel que, a necessidade de criar um ,,=ir-ouétipo

t r an =·f ot-ma [Link] espad,,-=i. p.::11 mr.:,r em •="-9..~bé ou que, ~.implesmente,

substituísse arma pelo abano, a fim de o aspecto


feminino que se buscava .

l. adê sem filà ··-· n:-?mtE:- ê:1 0>:um e nào l.\Si::i

porque, mesmo transformado em mo~a, nào conhece os fundamentos da

fem.i.n i l idade.

chapel~o - remete a Dxossi, Nesse

a interpreta~ào iconográfica parece nào exitir e o chapéu

equivale a um capacete ou coroa.

3. coura~a - como o orixà nào é guerreiro~ pi:,ir-ece

4. capangas - Logum é capangueiro, por [Link] inii;,:ào,

pois se locomove entre espa~os de natureza simbólica diferentes .

eruquerê - jà nào se usa no Mercado, ;nas

considerado parte de sua imaginària. Como o de Euà feito com

il-·;_tL 1
E: nào com pelos. E possivel que !,~eu s;. .i. gn i f .i cac:lc'.>

o de controlar o processo de passagem do mundo da

para o mundo da cultura.

6. abebé pe~a de uso antigo, fflê:iS í1E:-m to do ~~

correto seu uso, apesar de sua forma atual n~o ser

redonda (fig. Fll/36).

7. ofá -· é o simboJ.o do ca\;ador e uma ci ta\;~O de

Oxossi. E sua única ferramenta que permanece, sem discuss~o.

8. balan~a com sua s-,imbologia

r essencialmente maternal n~o s aceito por todos~ corneia a surgir-

a ~jarr.!.S'J:°.:.6. -;'or-rna o pé f'~ o ponteir·o e o abebé mnd:[Link] -f .i Cé:'t nc,

lugar do mostrador (fig. FS/24). Essa ferramenta está bastante

260
,J..

fig. F5/24
,
Paramento de Logum Ede. orá e balança.
Em metal dourado, muito bem trabalhado com os
temas de seus pais, Oxossi e Oxum.
" -
Notar a composiçao hibrida da balança que com
'"" ,
serva a representação do abebe.
divulgada no Mercado, seja nessa forma complexa, seja reduzido ao

b á s;..i e o d c::i o ·f ,?. fig. F7/32). Seu significado seria do

equilibrio que o Drixà o rio e a floresta e a

de Ogum, nessa pe~a, remetem ao seu


,._
C: :i. V i J. i ;: a d O r-· " Essa ferramenta parece c:I

que [Link] experimenta atualmente e uma

tpr: ta ti Vé:i de, iconografic:amente, gerar uma :\. n tf.::: r·· pr··ii:?t r:,1 i;;:~o df:? 1 e

como ca~ador e/ou desbravador, fun~bes eminentemente masculinas.


,::;:,
periquitos c:1 n :i. rr1E1 l mais

e:: c::,mum; representados sempre como casal, remete~ ambiguidade ~o

10 . folhagens - representam a mata.

JJ • pe i >: e e O f ~ - r.. P p 1r· [Link] Si e n ta iTI C) >:Um E?. 0 >: O S-ê- S i •

r
10. 0>:alá

Considerado o mais velho dos Orixàs, é o único a

ter, por direito, esse nome que é uma corruptela de Orixalé. um

o chefe

do panteào do Candomblé e ocupa o luoar do pai

simbólico. E uma divindade, a um só tempo, simples e complexa.

C) c:on Ct?i to que do

principio da vida enquanto perman~ncia eterna, por isso ele é o

Qr-1.:,-:,::i ·fun·-·fun e est,t-t [Link] i':ID branco [Link]':ldo.

Os "·funfun 11 ~si':\o a!':, entidades que manipulam t:?.


t.·ém o dominio sobre a forma~~º dos seres deste
mundo( •.. ) e também a forma~ào de seres no além.
Os vivos e os mortos~ os dois planos da exist~n-
cia, s;.à o cord:.n:<1 ados pe 1 o II i~se" de II Dr·· .i sàn hê\ 11 " •
O '',\lá'', o gr·,::[Link]:> pi:'lno br·c-1nc:c"J, t'2 o s;.eu (2mble,na. E
embaL-:o do "à l t'I f:?S tendido quf.! t:·? lt~ ,,'lbr- i <
II
.~ a é'.-1 \i ida
e a mort(?.
(SANTOS: 1976, pg. 75/6)

:261
por··tc.:,n to, que as

qualidades), apesar de representar a essência da poder masculino

e o poder fecundador do esperma, tem uma forte identifica~ào com

a atua~ào do poder feminino.

Oxalá é a grande massa de ar orimitiva, origem de

tudo, na qu.=.:"1 l a umidade do ar e da àgua

inas.s.a·::. d e

... y ; \

mch' i ilH:=-.:•n tos. dr2 :i..ds:.,dc~ irnemori,-::,.1 '' ( op. cit: C,(J / {:J } •

'.3endo principio, nào hà muito a falar de Oxalá, mas, como o

principio traz, em si, o modelo,a protoforma de tudo o que \/Í\lE~

em Oxalá encontramos todas as caracteristicas dos demais Ori>:ás;

pur·· essa palavra passou a designar as d iv ind,:;.d1':!!s a·fro ·····

brasileiras, no seu conjunto.

O branco de Oxalá, mais que uma cor, funciona como

atributo, pois representa o esperma fecundante, o ar prenhe

de i:". luz, as águas primordiais. O branco, Juana Elbein

todos os nossos informantes concordam, tem um duplo ·,;[Link] :

,1 ci C) hr· 2n c:o, tudo qL.u'2 t, l~:ir·,:1n CD ··- o "J~ l à", O~=-

de cor branc2; e do incolor, a o

(} é a vida visivel e é, também, cor· de sua

ausência: d2 morte.

està ligado às árvores, pois elas s~o

,,·,in tig.::1s. os animais e s~o imóveis e permanentes como o ato

:.l. nd .i ·f E?r·en ci c.:~c:!o ele viver. Para cada ser que cr· i ava, no

cios tempo!:=,, uma como um "doble"

espiritual, sendo o duplo do grande Orixà, a palmeira, cujo vinho

é tabu para ele, como veremos no mito que anotamos, oor ser

,..., ... r;
..::.o..:.
anàlogo ao seu próprio sangue: a autofagia é o maior dos pE?cado;::.

como vimos é, também, uma ~rvore como e:,

Ygdrar1l que sustenta os mundos.

Sendo o criador dos homens - é ele que os molda em

e do mundo - Oxaguià pila, sem cessar, a pr-otomas;.;;;:,a de

:.Í. n hii:1i/H25. [i ::-: r.:\ l i:1 é o dono da oalavra e da tecitura. 1-1


: c.~e

dê':\ vida que sai de sua boca, em palavras de podf:,:r.. ( l 7) .

Geneviêne Calame - Griaule, em seu famoso estudo sobre os Dogon~

Ethnologie et langage (Paris: Gallimard, 1965) se estende sobre a

relaç~o entre a palavra e a tecelagem:

Se a palavra é um tecido, inversamente, o tecido é uma


pal;: 1vr-c:1
11
no
0 s;.entido .:':lrr,pJ.o, pois É:: uma cr.. ii:,ç~:i:o dii,1
11
,

atividade humana e no sentido estrito, pois os fios se


entrelaçam como os elementos da linguagem, ( •.. ). Essa
mensagem misteriosa que é escrita nos desenhos do
pano,a palavra enigmática ( ••• ), é recebendo essa men-
sagem que o fio torna-se tira de pano;o verbo é neces-
sário a essa transforma~~º de substancias .
(op. c:it. ~ pg '.':'<16/7) ( .18).

16) Lembramos a import~ncia das palmeiras, de cujas palmas se


t ..ir,::1 c:,s piac;:aVC:i~c, pc1ra o l:!.§1)·:_arà e o ibi.r.::_j_ 0::-, eis f1ranjas:, de rr,ariô e
,::1 palha de i_kó, de rm.'.lltipli:.'IS [Link]. F·or ser o "doble" de
C) :-: a 1 ;~ , 1'i< palmeira é o icone vegetal da vida, em s . .i mesma, o
índice da sobrevivência e o simbolo da permanência do ~,E~lr.

:!.7) F'arc1 a impor-t.~nc:.:i.a da palavr-a c:omo tr-·ans missào de ci1>:~, ver


SANTOS: 1976; pg. 46.
r
l8) "Fli J.a pa1•. olE? e~;t. un [Link], inve rsement le [Link]:~gE~ E:~;t une
"parole", au s.f:?n!::. l.:':lrge puisqu':i.1 est. une cnjation de l'[Link]é
humaine, du sens restreint puisque les fils s'entremêlent comme
les éléments du langage, ( ••• ) Ce message mystérieux qui
s ' inscrit dans les dessins de l'étoffe, c'est la parole
énigmatique ( .•. ), c'est en recevant ce message que le fil
devient bande d'étoffe; le verbe est néc:essaire à ce changement
de ~.;ubstance."
' (CALAME - GERIAULE: 1965, pg 5l6/7)
l

Sendo o dono da palavra, Dxalb é, também, o senhor

silêncio, do limite e da separaçào: donde seu

para separar os vivos dos mortos, instituindo o tabu fundi::1mf.2nta 1

cio C:,::1ndornblé ( J.e~.é Or··i<:::.é\, lF::se Egun) pai'"c:1 ,,sep€:1r·a1·· o ort'..tn do Qj_'t::! .

.,_
o conflto mas, como Oxaguià, t~

senhor da guerra. Diz Adilson Martins que Ogum faz a guerra, mas

foi Oxagui~ que a inventou. N~o gosta de barulho, nem de sal, nem

de comidas ou cores de sabor forte: tudo, para ele é tatu, po:i. ~;.

ele contém a semente de tudo.

de Dxal~ s~o sempre mitos de origem

acabam, nos relatos na beira do balcào das lojas ou dos bares ou

c:lé:1f.:. c:o-:~:.LnhE:1s, ;::,i?mpr·E· dizendo: ''E2 foi [Link] que

C:r J.C::,U ••• " ou "E, (? [Link],or j_ sso que é ê1ssim . . . " D mi to ela

do mundo e dos seres humanos é c:1 hist6ria na qual D>:al.!:1 desce

pi::11'" ;::I e>:er·cer-· sui:~ tar·E:·fa P, teimoso, recus-,õ,1-s:.f,,: a .1..[Link].C. pa r--a ...,e r

contento .
r
por beber o vinho da palmeira e cai por terra, exaurido

permitindo que o mundo seja plasmado por ( 19) .

Outra de sua histórias, da qual participa Oxum, mostra que a

s-,inal de vida e, portanto, parte essencial do

nascimento. Oxalà é o deus que, na maior parte das versbes acalma

(""1 "furor da J \/ á M::.IT.!.:~L ~ d.;.[Link] de beber Ci ;;,;uco do i_gbi ri.

mar-avilhosamente refrescante e apc:12iguador e que & o esperma da

divi.nd2df.2: 0>:2.lé e, portanto, o macho primordial que desvenda

19) Para Verger (1981: pg. 252) Oduduà é homem e para Juana
Elbein (1976: pgs. 61/64) é mulher. Mas ambos concordam que é uma
QUALIDADE de Oxalá.

264
mulher sua sensualidade e, seduzindo-a com o prazer, a convence a

dividir com ele os poderes da vida e dos [Link].

C) com a figura do Cristo St?

ressentiu dessa~ caracteristicas muito pouco católicas de 0>: é:•.1 à:

a teimosia, e a sexualidade (20). Sua identificaç~o com o

do Bonfiff1, o Cristo de Salvador, se dé mediante a elas

diferenças e a reten~ào das analogias que sào o branco da

,,:.. p,.:1 r·€-?n tE• a autoridade incoteste e 11


iTIC)r-t.:;c.;:- ' 1

co11na. Fsse sincretismo da origem a uma das mais f amosas

do Brasil, para a qual a correm turistas do oais e do

i::'. m_;:;i:e s,:...·-_d Eé··-.'.3_é·~n t.o.,

em trajes de gaia, lavam o chào da Igreja do Bonfim

coro água-de-cheiro e flores lançam sobre a multidào~ as

d e CJ :·! c.1. l i.~ •

E=·'=·ª festa està ligada a um ciclo de I'.. i t.Ué."ti S;. no

[Link]tndoinb 1 é, c:lenc:,mini.~do II
f'.::guds de Cl>!a l .f,1 11
que t-emf,,:1no1·-a urr, IT1it.o no

qual Oxaluf~ decide visitar Xangõ e encontra um cavalo branco que

dera de presente ao Rei, fugido. Recolhe o animal para devolvê-lo

é confundido com um ladrào e é atirado numa (:'21).

Pelos sete anos que ficou preso, a seca e a fome cairi:.:,.rn s,obre D

pais - O~aJ.é é a vida - atê que Xangô descobrisse o acontecido, o

e o honrasse devidamente, banhando-o em àquas j:::<ur-;;,,s .

No final do mito, Oxaguià interfere, usando as do

:;~u) i=:·or· outro lado, as feridas [Link]-E"'ntê::t:,'> elo C1·- is;t.o também
con~sti tut?m anátema para Oxal~ que abomini::.. ~,.anqur2.

21) Tudo acontece porque, mais uma vez, Oxalà n~o C::Uff1 p 1'' .i U
OBRIGAÇOES devidas.

' l ,. e:
..::o ~.J
charr:adcs. purificar todos do comet:[Link]

festa dos inhames cJc:i

mundc. Candomblé, i:.'<i::. ••nqua,::,. d(? O::-:alJ:1 11


cobrem, no :i.n .i cio do

,,...,l
culto dedicado a quai !=-

reconstrói simbólicamente todas as instancias do mundo, desde sua

dimE'ri::,âO cósmica e criadora, até a dimensào terrena e criada de,

( ' t?. .i n C1 .

u culto de Dxalà, no entanto n%o se restringe

CJ !'.. an d F,:s mas é uma constante no c::otid i c:1no cio J}D\/o - cle-

dia de Oxalà; se abstém ele

coisas muito salgadas e s6 toma sua cerveja bem perto dii.'< meic:1-

ou depois; nào se usa c:lendê, de jeito nenhum na <:::.e::-: ta-

terreirq nesse dia nào se faz ~atan~a. nem

por-que, como a pa l avra de Oxalé é a final , se o Ifà mostrass e

algo ruim, se r ia impossivel evité-lo: nào haveria a quem apela r.

Na iniciação, Oxalà, se n do o criador, interfere na constru ç ão da

quem seja, sai uma vez de branco, antes de envergar as ro u pas de

sEiu pl"·ecei to .

Os 11
Ca\J SDS
11
de Oxalà S~ o muitos e el e p ar ece,

;,,1pe<:~c:1 r, de sua natureza co medida, t~o co n tumaz em c~1parE!Cer aos

quantD Exu o u Dgun. Geralmente é visto como um ho mem

.idoso, to d o de branco, usando bengala ou como jovem, de

c::lr.?.r·o altivo e enérgicD: Jorge Amado , em Tereza Batista Cansada

de Guerra , [Link], no epi~:.ódio da "g r<?ve do balaic, fechado", a

de Oxalà, ajudando uma jovem prostituta a

)
266
~ numa igreJa. O autor recorre, nessP ~d=u, a uma narrativa que, em

vàrias versbes, é comum no imagin~rio popu l ar. 1 1 - ·· -


L..11:tc:t

j_ n f C) i'··rnEt J. (julho de 1994 ) nos conta, no que

' - na figura de velho de branco - a ajudou a

filha acidentada num hospital do Rio de Janeiro que, por estar em

crian~a . Diz ela que o Vii:?lho de

,:~
,... ~
J_ ~-
L r.~ J.
'!
a sua autoridade que todos. que

o obedeceram e acolheram a me n ina, apôs o qu@ , e« velho

dt?~-ap,?.rt."'?Ceu (·2 nint]uém ~;c:iubr2 d.i-:~er-· quem Ei'-,::t . Confirm,:\do no ;i__qg o

que era Oxalá, essa menina fez-o-Sfan~~ e~ hoje, com quinze

As qua l idades de Oxalé s~o muitas - dizem que s~o

rn i:1 ir;.:. de duzentas - mas todos parecem se ater a três

Oxalà velho, Oxalé jovem. Oxalá fémea . Os velhos s~o: Oxaluf~ que

bordào, Okin, Dluwofin , Drixé Roko,

1....ulu; c,s s~o: Dxaguian e Drixà Kiré; e o que -fªme a

( Dduduà ':i) .

r e: de Oxalb, qualquer sej;:,1


º .J

qualidade sào em metal prateado e pintado com tinta branca. Mes mo

Ch:agui~, que usa [Link].§:.9J:.1.i_ [Link]zul nas S:-Uê.'IS co nt ê.'I~,, C:i:.1rl'"E'c;)i:t co r

i:",1Igum;;~ em seu parC:,mento. Est.E:-s variam con·for··me a qua_}.idacif.?._ idosa

ou jovem do Oxalé e os di f erenciamos, com as ferramentas e te mas ~

e m dois gn.1pos.:

I - Tipo Oxaluf~

apesar de rep r esentar a pot.@nc1a masculina, usa roupas de mulhe r ,

\
fig. F6/I5
,
O sincretismo entre Oxala e Jesus Cristo, ape-
. ,
sar de certas discrepancias, e um dos mais a-
ceitos pelo povo-de-Santo.
<Je que o podei·- no .[Link]:.i.o, todo das.

No E·n tanto, o uso do 11ç!t:?. coroa tra dicional da

rei:1J.[Link] ê:i-frici:,1nc1 - e do ~;_hor::_t\.Q. cc,nrJi:::: com .: '1 nat.u1···[Link] dessE~ or··i>:á

que, como as mulheres, tem a ocultar o segredo de que a vid a e a

morte sào um mistério só, proibido ao saber dos homens.


, ...,
.,::. . coroa o c:n tanto, po r t~o
11
f 8ff1 :Ln .1. r.., C:c 11 por Oxalà ser damasiado grande para que passasse..

rnan i pu 1 ê:H;:ito que ê:1i:inq1.u Loqun D>: uma F·ó, foi

no Mercado de Madureira.
i::- .
. Cll ,,[Link] pela coroa, encimada por um pássaro ou por um

orbe que simboliza sua soberania sobre o panteào 2. -f ro·-br- i:1 si 1 ;;,? .i.t-o

e sobre o mundo todo .

abebé pela mesma razào que vest.1.a

L..ody

na Cole~~o: Culto Afro-Brasileiro (tombos 022 e 115) e

na Cole~~º Arthur Ramos (t ombos 1.60.6 e 1.60.80). Pela rr,esma

r··c::1zào que per-deu o ad_g_, perdeu o abebfé. que -fo i subst.i [Link] por um

leque como o que Carybé desenha na sua Iconografia. No Mercado de

tal pe~a desapareceu completamente da emblemática de

l 0>:alà, sendo F·e jeitc~da por que "0:-:alá é home•m, n~o é metá·-metá.

r:.=::1e usa roupa comprida porque é muito velho. E igual a roupa de

,Jesus [Link]." (entrevista infoF·mal em setembro de 1994).

4. opaxorô - essa pe~a foi ê:1na 1 i sacia na nossa

introdu;~o, onde sua riqueza iconogràfica foi ressaltada~ uma vez

que essa ferramenta é árvore do mundo, bast~o de comando~ falo

(-:-:-1 r- e to , marca de limites e bord~o de caminhante e pastor. No

Q.I;•a::-:or-g_ se unem c:[Link] do bt~culo [Link]:ío e do cajado do

Orixá Oko, patrono da agricultura e pouco conhecido no pais.

268
como necessário, . remetem aos mitos p= l ;-,,::. S1':?

apoderou do poder feminino, dominando se u aspecto sensual .

6 . flor-es - estào sempre ligadas a co m

pú[Link] bem r·edondc:1S quc:1tr·o ou rnl.\ 1 ti p 1 o .

plenitude da vida e a paz que 8SSE~

,. palmas - ligadas a import~ncia da palmeira no s

H. no

simbolo de riqueza e [Link]:":!ndf:n c:.i r.:1 ,

ligados, simbolicamente a Oxalá.

9. iqb i n é o grande caramujo de c ujo

\.1r:,1 lor, no circuito do axé , é t~o grande quanto o do [Link] . o.

"b F·a n co" E."" [Link], o [Link]ê~ o sacrificio mais condizente

com o Or.i :,-:ª- que ab o min.:::-1 sangue rubro e, também, como v imo i:;; ~ ,:::s s e

sa n gue/sumo é a rep r esenta~~º do esperma, liquido vital .

II - Tipo Oxagu i ~

J.• capacete - por ser guerreiro, é co mum. esse

Cl>:a 1 à usar· geralmente com viseira, !::.ub!::=,ti tu.i r-

cho1·-ào . No ent an to , n~o é incomum que esse, coroa como o tipo

D :,-: a l u -f ~ •

2. coura~a - usa sempre , porque é um guerreiro

·feroz .

escudo - o~agu.i~ é o criador da guerra e, po r-

defini \; ão , s.t:?u VE•ncedor . E chamado "o gue ,,-n,,·ir-o do bom co mb.;.:1te" E!

269
fig. Fll/18
.
Opaxoro de
,
Oxala.
,
Nessa peça foram usadas perolas de fantasia
no lugar dos pingentes de Exu. Apesar do in
tuito confesso de ser um recurso apenas es-
tético, lembramos que o simbolismo da péro-
, , '
la tambem esta ligado a vida.
Notar a transformação do anoio do pássaro ,
num quarto prato, justificado por ser a me-
tade do oito, número de Oxal~.
acredita-se que luta sempre pelo bem e pela vida . ~ de se notar

que conceitua,;,:ào parece muito influenciada pela visàc, do

maniqueista, bastante dife r ente da do Ca n domb 1 f?,

onde duplicidade compr:2nsa<;:ào inter·na (·? nào •...tma

c:onc:eitual. "guer-r i::1" d F:? 0>: aqu .i. i!:I: par-ece

do conflito inerente a todas as c:irc:unst~ n cias e

·fenómenos, a partir da qual se dà a din~mica e a tran~.;for-·m,,:1,;,:ão .

Por isso, usa nào ape n as espada, mas também escudo, rep r esentando

a preserva~ào da exist~ncia que é a finalidade última do combat<:?

ij. • alfange desse tc:,mbé-rr, 5.e

transformou no alfange e representa seu impeto guerreiro .

5. capangas - Oxaguià é u m ca minheiro e,por isso~

usa capagnas, muitas vezes, em forma de cora ,;,: ào (sincretismo com

o Sagrado Cora,;,:ào?).

polvareira - de uso muito raro F:' na q u al,

p6 branco - e, n~o, pólvora .

7. m~o-de-pil~o é sua po r

excelência. Oxaguià é con h ecido por sua gula de inhames, os quais

pi 1 ,:.1 sem cessar: rep r esenta a cria,;,:~o co n stante do universo ,

pois, na cosmologia jeje-nagõ, o mundo n~o foi criado de uma vez

[Link]or- todas no inicio dos tempos, mas ve m sendo criado ainda, por

t···,o men i::; , an tF:,pass:,ac:lo<:=- e deuses. O pil~o e m~o-de-pil~o sào ,

também, temas decorativos comuns nos paramentos de Oxaguià .

8. Pombas, flores e búzios - com o mesmo s en t i d o

que t@m para Oxaluf~ .

9. cavalo alado - remete ao mito jà citado mas,

270
r
tr:,mbtf?.m es.tê':I ligõ.'ldo acl '',;;onho'' .N ;·:;o [Link]-:.!mo~,- qu,::\lquer :i.n-fD1'·mac;:~~o ::,

mas lembramos que os sonhos sào tnF..:tn s,;.g c'2n s. ~ dos.

como, sonhos que se molda a realidade V .1. V .1. d i::l no mundo

donde os sonhos parecem ligados à fun ~ão c::[Link]·a de

.1.0 . ramagens - remetem à palma~ como em

mas também, como para Xa ngb, sào simbolo de realeza.


·1 ·f
..l. ..\ . • asas a comum, alé m do cavalo alado q ue D

p J. l ::':io, rnão-c![Link]-pi J. ão ou o búzio ganhem um par de c::omo

ornamento. A única explica~ào que recebemos é que esse tema é uma

pomb.::, L.l SCtdc~, também, como temi:,1

iconografia desse orixà.

ligada ao sincretismo com Jesus Cristo.

sào i:ilS varas de ê:1tor.::.:i.. quEc.;, os s-ê.~Cf.?.r··dotes


.•..
1-az põ:1rtr,:: dos

um f ..tCt\/Ct tE,mpo.

representadas raramente, rnas consideradas um tema vivo dos

paramentos do orixà e, por vezes, como uma sua ferramenta.

o deus do ~J ogp do I f_á qu.::\S.e não tem

ou objetos no Mercado de Madureira. As

os cofres parc:1 qu.:H·dai-- o ;.t_ogq ·for·.:.-1m substi tu idos por sopeira!:-


r.
pintadas, ,:?..ssim como Jamais vimos qua 1 quer .i. rok 1::2- IJ i:':1, um

bast~o curvD e pontudo, que o sacerdote usa batendo na

horda da bandeja do Joqo, chamar· aten<;:to de Orumilà. Esse

\
fig. F9/31
Paramento de Oxaguiam.
Mão-de-pilão em metal cromado com detalhes em branco.
Notar o uso das pombas como tema ornamental.
obj 0?to, de i::) l'"i:indE' iconográfica (FAGG: 1982, pg 190)

par-t-=?C:f? tr-:2r· cJes.::~pare:i!c:ido no Br·i:~~=-i 1. Pii::. b;:..~ndr2j ,,:1s ·-- ofon. J:..:_f ,\ -- nai::.

CjUii.'1.1.S:- S:-E:• espalha a areia a ser marcada pelos sinais (jl.l !'

propriamente dito - s~o

F?n con tr·· i:'ld a e:, no Mercado. Algumas sào peneiras ornamentadas f .i g •

F6/28) e outras sào de madeira, com as bordas esculpidas, como na

(\"/'rici:',1. c::o mo triànqulos ,

galos, Exu, pássaros ou mulheres ou s~o ornamentais como bt'..t::ios.,

ou, r-f2gis;;.tr-arnos uma Slli!}I.!..:::.Iiú em cuJc1s bor·dc:1s, E,stc~vam f."'[Link] l pi dos

os sinais do zodiaco, um sinal de que, mesmo no sacrossanto Jogo ,

a atualidade se compbe com a antiguidade.

Ds AborO~ determinam os meandros, múltiplas

que o mundo concreto sustenta. Esse mundo que E' les

ar·rancam do impér· .i.o profundo mas abissal dos I ·,; a-·-mi s.


.. ~-----· f.:: quf2

' coni:;[Link], institui;bes e no trabalho, para o i:c:1manho dos

-.. Se as Grandes-Màes s~o apaixonadas e apaixonantes,

i:,1mei:i1c;:ador· c:1 s e i::1mor·osas, oi,· i >; ~s-·f .:i. lhos ( OU

esposos/amantes/adversários como Oxalá) que se arrancam clessE•

casulo do ventre para, na multiplicidade das c:Dtidiana!:.,

inventar o mundo que é. Contingente;

272
CONCLUSPIO

··~~ mõ~.i.S:. pL,[Link] dc.'IS E:>: :i.s.t.Ê[Link].=,


està repleta de simbolos, o
homE:m m,,1.i.s ''i,·eci1li<:~tc,1'' -..-,.[Link]'? de
imaç~ens."
( EL H ':DE, M.i.r· ce,::1; Imagens e
Simbolos; S~o Paulo, Martins
i:::· on tf,::,,:::., 1991 )

Tudo sentido. Os paramentos, os as

f. E?r r· r.1ml'?n t ª!.?.., os temas ornamentais t ém um significado e

~......=· te com num cDmpl f.'::>,o

i nteligivel. Nada é gratuito e as novidades

l eituras que se desdobram ou que se modificam, mf.?Sff10 quE1ndo

ci1C:Of": tf.·?Ct?ffl por necessidades estéticas - como no x~xara ou por-

pr-·ecisào [Link].i,?.1 como 0>:umar··(·? uma

just.i·f.icc1tiva no c:ódi_g_o--cJ_e·-S c':tr·:tCl_.

A dinêmica das representa~bes e fun;bes simbólicas

Cio [Link]-ie1gr-ado, segue uma lógica interna que, como a cio rnito,

a manter a coerência entre universo pensado u n :i. vet-·f:;o

v.:[Link]. Como o sistema social e o econômico s~o também s istr.ê'mas

[Link]ó l .i co!::',, ic\ anàlise antropológica consiste em como

i:;des como r·espondem um ao outro. No Mercado de

Madur··E:i. r-·a, 2t manipulaçào dos ,not:[Link]

iconogràficos expressam a tens~o entr-e a tradiçào que s e oretende

inauguradora e, por-tanto, legitimadora e a realidade tumultuada e

exigente do mundo contempor~neo. Os · -/ a l ores 11


ortodc) :,-:c:,!5" P

":[Link])va;êies 11
precisam coexistir e, mais, precisam s e c on-funcl .:i. r·,

a fim de que n~o se instalem rupturas [Link] entre a pràtica

273
r
crença religiosa e a vida cotidiana . A

dE!pende que linguagem sagrada seJa comoreendida como

das categorias inconscientes e dos desejos

do pr2n Sc:1men to coletivo (Lévi-Strauss: Antropologia Estrutural

dois. 1'773) .

As peças do Mercado de Madureira circulam em cloi r:::.

parti c::i. parn d f.':: um Ci.l'"C::Uito

capitalista~ devem propiciar lucro e serem rentáveis numa rela~~º

de compra-e-venda avaliada apenas pelo seu teor monetarista. Mas,

enquanto parte de um c6digo religioso~ devem satisfazer demE~nc:!i:1s.

de uma hierarquia eclesiástica, de relatos

rn.i t.i ci:.-=t::. ~ elevem ser rentéveis na circula~~º doª~± que viv:.[Link].

tDdO o mundo do Candomblé. desde os ~erreiros até as [Link]. o


inclui, seu território, D econômico (? lhe dá um

sentido para além da moeda; mas o econômico também se apropria da

lE•[Link];:~o sacramentada para aumentar os neq6cios. f?

pr.. ofano se reduzem mutuamente: pelo contrário~ do

cl.i!::-cur .. ~=·º do cô[Link]-d~?-_ban.t.o. ~;e ê:[Link].icc1m par-a que c:ompor-tamr!n tos

:.i. n d i V i d U i-.:.1 i. '=· e ansiedades sociais encontrem uma possibilidade de

~ justificac;:~o.
:"""'\
isso, o artefato da imaginària do Candombl{::

1 imi ti::1 aos modelos africanos: refa:;: temas

crist~os; modifica significantes pé1r.. a pr-eser-var o

~,;ign i -fie ado DLI ~ pelo contr·.'..1rio, matém a i'orma e ê:t

interpreta;~o. Devora, antropofagicamente, todos os elementos que

lhe denornina "tunclé1men tos" , c:cs

elementos bàsicos da fé e das caracteristicas das divindades. No

r:?.ntanto, E·s~:;es 11
·fLtndamentos 11
t ...":[Link]ém s.e tr·ansformam - como v·emos.

274
ou em Logum Edé - e assim, tradi~bes se criam =·e

n <::I etf:?r·n '.\.d é:1df:? do rrii to. o do

Candomblé nào é uma forma, ou uma palavra ou um Orixé

narrativa, em si mesmos: é a rela~ào que os deuses mantém com os

homens, o compromisso de funcionarem como arquétipos,

e cúmplices da aventura de ser humano.

podemos, por·t.c:1n to,

C::c,1tól:[Link]•.s:, de alguns signos, pois essas leituras fazem c1 f::!

uma iconografia sincrética que abomina o vazio e busca explica~~º


)
o signo em qualquer inst~ncia que o favoreca. como

imagens que possam visualizar conceitos abstratos e

se furta a buscá-las no imaginério de outra religi~o ou de uu tr i::<

épOCc::1, nas;. informa~bes dos livros acadêmicos ou dos de

comun .i. ca ,;.ào. e'::cletismo, que s~.e no estilo dos.

objetos e no uso dos temas que v~o da referência i::10

neo-classicismo, do barroco à art-decô, de Carybé ao carnaval

é uma tomada de posiç~o, um reconhecimento que os Drix~s buscam

seus jilhos em todas as classes sociais, em todas as pr·of if.,.s(':les,

em todas as etnias. D sincretismo n~o é uma màscara a esconder o

ultrajado rosto africano, mas é um diálogo entre sistemas

religiosos e sistemas de vida. Um diálogo que busca encontrar uma

resposta .[Link] que 1?.>: is tem num,::1 soe: .i ed ade'?

segmentada e injusta. Essa voca~~o que os cultos

afro-brasileiros têm para o múltiplo funciona como uma estratégia

para ocupar espaiOS simbólicos e/ou reais - uma maneira de lan~ar

mào de '' pa 1 av r·· i:".~S '' v i:'l l or· i z acl é'I i,; !::-OC i ê'l l mE"·n te e u !,;,\-1 i::i s como

para circular num espaço mais amplo.


é um or-igem ou

c::ompoi;;:i. ç;:ào que lembra a art-nouveau; se é trazida da

C·!'.::- t2. tuet.a ciE: da

cita~ào de um antropólogo; se um paramento é muito caF·o tudo

isso visa a aumentar o valor simbólico dos objetos e, portanto, a

o é'I::-:~. U Cê'lnclomb l é_;. não t'? uma ,,.-e li g i ao "em

c::c:irno Roger Bastide, é uma religiào viva que, como tudo o

que é vivo, se transforma e se adapta para permanecer e c:rE:.'SCE· r··.

A identidade do Candomblé no Mercado de Madureira nào é a de um

modelo ou de uma sobrevivªncia; é a de uma atua~~º que re-l1ga o

a um pante~o de deuses uue pr,'?[Link]'i:!:tn

E-:· t. e r". n e::, ~~- • Ogum subiu pela corrente de ferro na manhà do mundo I.:::.' ~

hoje, por ser o dono do ferro, é patrono dos automóveis e avices .

Os ritos e sua imaginária n30 remetem o presente ao passado, mas

identificam um com o outro~ traduzem um no outro, para que

frase que come;a na memória e continua na presen;a, se cifre u ma

n realidade que faz sentido.

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