1423 PB
1423 PB
Enfim,
cada um
o que quer aprova,
o senhor sabe,
pão ou pães
é questão de opiniães.
João Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas
ano 7, número 12
Catalogação na Publicação
Serviço de Biblioteca e Documentação
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
Semestral
Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes),
entidade do Governo Brasileiro.
FFLCH
Opiniães–RevistadosAlunosdeLiteraturaBrasileiraéumapublicaçãodosalunosdepós-graduação
do programa de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Comissão editorial Convidados para esta edição
Ana Lúcia Branco (DLCV-USP) Alexandre Guarnieri March Barreto, Caio Augusto
Andréa Jamilly Rodrigues Leitão (DLCV-USP) Leite, Fabio Weintraub, Jean Pierre Chauvin, Leonardo
Betina Leme (DLCV-USP) Chioda, Luana Claro, Marcelo Labes, Marcus Visnadi,
Camila Russo de Almeida Spagnoli (DLCV-USP) Pádua Fernandes, Pedro Fernandes Galé, Tarso de Melo,
Daniel de Queiroz Nunes (DLCV-USP) Verônica Stigger.
Eduardo Marinho da Silva (DLCV-USP)
Geovanina Maniçoba Ferraz (DLCV-USP) Editores responsáveis
Giovanna Gobbi Alves Araujo (DLCV-USP) Eduardo Marinho da Silva (DLCV-USP)
Jéssica Cristina Jardim (DLCV-USP) Rafael Cristofer George Tahan Fernandes (DLCV-USP)
Lohanna Machado (DLCV-USP) Marcílio Ribeiro Godoi (DLCV-USP)
Márcia Cristina Fráguas (DLCV-USP)
Marcílio Ribeiro Godoi (DLCV-USP) Projeto gráfico
Mario Tommaso (DLCV-USP) Cláudio Lima
Rafael Rodrigues Ferreira (DLCV-USP)
Rafael Cristofer George Tahan Fernandes (DLCV-USP) Diagramação
Stephanie da Silva Borges (DLCV-USP) Débora De Maio
Umberto de Souza Cunha Neto (DLCV-USP)
Vinícius da Cunha Bisterço (DLCV-USP) Capa
Wanderley Corino Nunes Filho (DLCV-USP) Débora De Maio a partir de arte de Mário de Andrade
dossiê PASÁRGADA 27
(DOSSIÊ: NOS LIMIARES LÍRICOS)
AS PEDRAS E AS CORES. 30
TRANSFIGURAÇÕES DO NIGREDO E JORNADA CIRCULAR EM EVOCAÇÕES, DE CRUz E SOUSA
SAUDAÇÕES I: 76
UMA ANÁLISE FIGURATIVA DA CULTURA POPULAR NA LÍRICA DE RACHEL DE QUEIROz
DRUMMOND: 90
UMA POÉTICA ENTRE E POR APORIAS
Lívia de Sá Baião
REPRESENTAÇÕES DA LOUCURA FEMININA EM A MÃE DA MÃE DE SUA MÃE E SUAS FILHAS 261
Elane Plácido, Roniê Rodrigues
Criação literária i O ALEPH 276
BIOGRAFIA 279
Tarso de Melo
POEMAS 282
Pedro Fernandes Galé
LIMIAR 291
Alexandre Guarnieri March Barreto
POEMAS: 298
“CONCEPÇÃO” E “DESENCANTAMENTO”
Douglas Batalha
O AMOR NA OITAVA DIMENSÃO (RELATO) 299
Gustavo Primo
EMBARALHADO 314
Caio Augusto Leite
Maurício Silva
editorial
a palavra _ em
> > > trân
limiares si
e fronteiras to :
na literatura
brasileira
Eduardo Marinho*
Marcílio Godoi**
Rafael Tahan***
* Graduado em Jornalismo (FASAM) e Letras-Português (USP), atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira (DLCV-FFLCH-USP), onde
realiza pesquisa sobre o romance Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, sob orientação do Prof. Dr. Vagner Camilo. Bolsista CAPES. E-mail: [email protected].
** Arquiteto, jornalista e escritor, é mestre em Crítica Literária (PUC-SP) e aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira (DLCV-FFLCH-
USP), onde realiza pesquisa Drummond: crítico literário, sob orientação do Prof. Dr. Vagner Camilo. E-mail: [email protected].
20 *** É poeta e possui graduação em Letras-Português (USP). Atualmente realiza mestrado sobre poesia contemporânea, em especial a obra Yacala, de Alberto da Cunha
Melo, com orientação do Prof. Dr. Vagner Camilo. Publicou em 2015, pela Editora Scortecci, Diálogo. É bolsista CNPq. E-mail: [email protected]
Bruzundanga, Ilha do Acaso, Terra do Nunca
Um continente imaginário, como um apartamento, possui limites insondáveis. Uma terra desconhecida, como to-
do bom livro, também é dotada de limiares imperscrutáveis, a despeito de nosso vício incontornável de nos aven-
turarmos sempre, apaixonadamente, nessas vias de não se estar, em se estando.
É por estas paragens que a Opiniães – Revista dos Alunos de Literatura Brasileira convida seus leitores a se aven-
turarem. Esta edição é dividida em seis seções, cada uma delas recebendo o nome de um lugar imaginário – espaço
nascido do engenho de artistas de diversos meios expressivos, cuja força demiúrgica foi capaz de criar ou transfigu-
rar cidades e países, que passam a existir na região indefinida da ficção. Lugares ficcionais: uma zona em constante
crescimento, cujas cartografias são desenhadas coletivamente pela comunidade de leitores do mundo, uma geo-
grafia imaginária sempre à espera de novos expedicionários.
Ao propormos lugares ficcionais como aberturas das seções desta edição de Opiniães, incitamos ao leitor consi-
derar esse percurso sem pegadas, esse mapa cego, esse roteiro sem coordenada visível ou placa de acesso. Tarefa
difícil como traçar a planta do espaço sob a escada d’O Aleph, cruzar a fronteira de Nárnia, anotar o endereço da
farmácia em que Leopold Bloom comprou, em 1904, um sabonete de limão.
Sabemos, são remotíssimas as fronteiras do paraíso de Shangri-La, os vestígios dos muros de Atlântida, o portal
de acesso ao País das Maravilhas ou Maracangalha. E igualmente imaginamos que seu traçado delirante pertença
mesmo ao universo de utopias, ilusões e metafísica em que habitamos, leitores de revistas acadêmicas, como de
resto todo homem humano.
Navegamos um semestre inteiro pelas rotas das ilhas Sonantes de Pantagruel, planamos nas asas do pássaro gi-
gante de Simbad, o marujo, e até cochilamos um sono inquieto no ventre de Moby-Dick. Até que, agora há pouco,
acordarmos na Biblioteca Florestan Fernandes, da FFLCH, seguros, dando de barato que estamos exatos no ponto
em que deveríamos estar de nosso mapa: nos limiares líricos, esfumados, no subterrâneo de lava da Terra, em seu
polo mais gelado e sombrio, no interior de dentro, na margem inexata do sonho, nas possibilidades infinitas do
mito, flotando no Lethe, o rio do esquecimento, na ilha distópica de todas as nossas ilusões austrais, perdidas.
Entre duas representações fantasiosas não há separação ou reparação visível. Assim, podemos assegurar-lhes que
passa-se gradual e espiritualmente de uma a outra, não sem um certo delicioso desespero, como Kublai Kan im-
plorou a Marco Polo uma descrição ao menos, para que o Soberano pudesse enfim, e pelo espaço tempo de uma
história narrada, sentir-se dono outra vez dos reinos que já lhe pertenciam.
Deslocados de nossos eixos cartográficos, cartesianos ou kafkanianos, estaremos sempre, Lemurólogos que somos, a
vinte mil léguas ou a sete palmos do teto da capela Sistina, nessa grota em que nos precipitamos diariamente, como
Alice, Bartleby ou Augusto Matraga. Limiares, limites, travessias, passagens: a Opiniães convida seus leitores à aventura 21
da linguagem, à zona crítica da poesia e da prosa, espaço de crise, de sátira e de celebração, de fuga e resistência.
paSÁrgada, UTOPIA, PAÍS DOS ESPELHOS
A poesia segue desafiando a história literária. Aos esforços de periodização, de agrupamento em escolas e
movimentos, aqui e ali escapam nomes e obras – ora por apresentarem desvios em relação a marcos e con-
venções, ora por abertamente contestar e subverter limites estéticos e sociais vigentes no tempo histórico.
O signo poético desloca-se por múltiplos polos de significação, demandando de seu leitor uma escuta atenta
ao aspecto sensível da palavra. O poema não cede ao desejo de interpretações unívocas, preferindo essa uma
zona de indeterminação, seu habitat e natureza: a poesia sabe ser, não ser.
Para o número 12 a Opiniães apresenta ao leitor o dossiê temático Nos limiares líricos, um conjunto de arti-
gos dedicados aos estudos dos momentos limiares da poesia no Brasil, momento em que o signo poético se
apresenta carregado de tensões – sejam elas estéticas, históricas ou sociais. O limiar alude àquilo que demarca
dois espaços, sem no entanto, separá-los completamente. Diferentemente da fronteira – que limita, separa
e segrega – o limiar traz em si a ideia de movimento, de zonas de transição graduais ou abruptas, espaço da
experimentação, da inflexão, da indecisão e da incerteza.
A seção dedicada ao dossiê Nos limiares líricos, rebatizada de Pasárgada, é composta por doze artigos. No
artigo de abertura Manuella Miki Souza Araujo analisa os princípios alquímicos mobilizados para a represen-
tação e transfiguração do poeta negro em Evocações, de Cruz e Sousa, obra simbolista que habita a própria
fronteira dos gêneros. Em seguida, Sylvia Tamie Anan retoma a recepção de Rainer Maria Rilke no Brasil e sua
influência na Geração de 45, especialmente em Geir Campos. Adentrando o século XX, Paulo César de Toledo
analisa a representação da favela carioca em dois poemas de Raul Bopp pertencentes à obra Urucungo, de
1932. Fernângela Silva, Lia Santos e Suzane Gomes, por sua vez, trazem um importante estudo sobre a cultura
popular nordestina na poesia de juventude de Cecília Meireles, poemas publicados entre os anos 20 e 30 e que
só foram reunidos em publicação recentemente, em 2015.
Em seguida, Elisa Domingues Coelho revisita “Áporo”, de Carlos Drummond de Andrade, poema em que o im-
passe se transforma em força motriz da criação poética. Já Lívia de Sá Baião apresenta uma instigante leitura
de “O burro e o boi no presépio”, conjunto de poemas de Guimarães Rosa, numa leitura que coloca em diálogo
poesia e artes plásticas. O lugar limiar de João Cabral de Melo Neto, tensionado pela relação lírica/antilírica, é
objeto de debate de Robson Deon e Marcos Hidemi Lima, que se concentram na analise do poema “Forte de
Orange, Itamaracá”. Natasha Juliana Pereira analisa os aspectos formais e temáticos, nos dois primeiros livros
de Vinícius de Moraes, conjugados na relação entre poesia erótica e culpa cristã.
Hilda Hilst, autora homenageada na Festa Literária de Paraty de 2018, é objeto de investigação de Andréa
Jamilly Rodrigues Leitão, identificando nos “Poemas aos homens do nosso tempo” a resistência poética da
autora no período da ditadura militar. Vinícius Prado investiga os conceitos de tempo, trauma e experiência
22 em Corola, livro de poemas de Claudia Roquette-Pinto, publicado em 2001. Já Elvio Fernandes Gonçalves Ju-
nior estabelece, em seu artigo, um diálogo entre a produção poética de Manoel de Barros e os simbolistas e
surrealistas franceses a partir da temática do olhar. Encerrando o dossiê, Elizier Junior e Mayara Guimarães se
perguntam – a propósito do escritor paraense Max Martins – se é possível considerar a poesia como um ato
político de resistência.
Tomados em conjunto, é possível observar como o dossiê Nos limiares líricos constitui-se em torno das
grandes questões que balizam as poéticas da modernidade, seja em sua faceta crítica e negativa, seja ainda
nos processos de questionamento e rupturas com o as tradições do passado e com o tempo presente.
Na seção “Debate”, que leva o nome de Cocanha, o professor Jean Pierre Chauvin investiga a faceta crítica do
poeta Manuel Bandeira, centrada sobretudo no ensaio introdutório à Apresentação da Poesia Brasileira, e na
seleção e recorte que o poeta modernista faz do passado e de seus companheiros de geração.
Lilliput é o nome da seção seguinte, que reúne quatro artigos de tema livre concentrados nas diversas mo-
dalidades de prosa de ficção e não-ficção brasileiras. Davi Lopes Villaça analisa uma crônica em que Antônio
Prata rememora como foi o seu primeiro contato com a tragédia Romeu e Julieta, de William Shakespeare.
Outra cronista analisada é Sílvia de Bittencourt, a Majoy, única mulher brasileira enviada à Itália para acom-
panhar a atuação do exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Luiz Henrique Moreira
Soares e Adenize Franco analisam a representação da cidade contemporânea no romance de Carlos Henri-
que Schroeder, As fantasias eletivas, publicado em 2014. Encerra a seção o artigo de Elane Plácido
e Roniê Rodrigues, que analisam a representação da loucura feminina no romance A mãe da mãe de
sua mãe e suas filhas¸ publicado em 2002 pela escrita Maria José Silveira.
23
aLEph, VILA VELHA, MACONDO
A seção de criação literária do presente número da Opiniães recebeu mais de quarenta submissões de textos,
nas suas mais diversas formas expressivas. O critério de seleção utilizado pelos editores, além da qualidade
estética dos textos, foi a multiplicidade temática, privilegiando sempre as perspectivas transversais, a fim de
captar a flor multívoca da produção contemporânea de cultura lusófona. Mostrou-se complexo o desenho de
uma seção aparentemente tão heteróclita, já que a produção contemporânea se expressa, emprestando as
palavras de Drummond, n“as diferentes cores dos homens, nas diferentes dores dos homens”.
Em virtude disso, optamos por dividir a seção de criação literária em duas partes, a primeira, O Aleph, reúne
o conjunto de produções em verso, a segunda, Macondo,, a produção em prosa. O aspecto polimórfico destas
seções se estende a todas as suas camadas: entre os textos publicados encontramos de autores premiados a
estreantes. Escritores das mais distintas áreas, das mais variadas idades e com os mais diversos ofícios. Res-
peitados os múltiplos registros de linguagem, erguemos, por assim dizer, da ruína o monumento, mediante
as mais diversas orientações culturais, filosóficas e políticas.
Partimos do pressuposto de que estar no limiar é estar ao mesmo tempo em algum lugar e em lugar algum. Por
isso, devemos estar de ouvidos sempre atentos, pois é desse núcleo instável e matizado de onde irradia o coro
de vozes díspares, algo ríspidas, algo copiosas, e, no entanto, sempre angustiadas, que se revelam o espectro
poético da contemporaneidade, seu espectro político, sem limites verticais impositivos.
A fisionomia desse espectro se elabora, certas vezes, pela reposição do verso epódico ou a propósito de
uma redondilha; pelo uso concreto, figurativo da mancha gráfica ou ainda pela disposição muitas ve-
zes mimética das palavras em cada verso. Outras vezes pelo uso do terceto dantesco ou por tópicas co-
mo a máquina do mundo; pela evocação das musas que, pagãs, frequentam, algumas vezes, o versículo
claudeliano, e até pela reposição do verso livre de feição dramática nas rubricas dos textos. Formas que,
consolidadas no passado, afinal, tentam resistir ao tempo revelado no corpus da literatura contempo-
rânea, talvez ainda na tentativa da descoberta desse pouco que talvez tenha ficado, um botão? um rato?
24
dogViLLE, ILHA DOS AMORES, AVALON
Fecha a revista a seção Dogville, que traz duas resenhas sobre a produção editorial recente. Marcos Visnadi
resenha a Antologia da poesia erótica brasileira, organizada por Eliane Robert Moraes, docente do Programa de
Pós-Graduação em Literatura Brasileira da USP. Maurício Silva, por sua vez, apresenta A descoberta do insólito:
literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000), livro que é o desdobramento da tese de doutorado
do professor da Unicamp Mário Augusto Medeiros da Silva.
Para esta edição da Opiniães – Revista dos Alunos de Literatura Brasileira recebemos quase uma centena
de contribuições para publicação, seja textos submetidos para integrar o dossiê ou a seção de artigos livres,
seja ainda textos de criação literária. Ter contato com uma imensa gama de expressões e abordagens, vindas
de 34 universidades diferentes, foi uma grata satisfação e um enorme desafio. Agradecemos a todos e todas
que confiaram seus textos à revista.
Agradecemos também ao nosso corpo de pareceristas, que ultrapassou em muito a casa das centenas, e que
com seriedade e compromisso contribuíram com autores e editores. Nosso muito obrigado à equipe do Insti-
tuto de Estudos Brasileiros, que gentilmente nos auxiliou na pesquisa de material artístico no Acervo Mário de
Andrade. Os desenhos de Mário – esse escritor no limiar dos gêneros, das formas e do pensamento – ilustram
a capa, a abertura e o encerramento da Opiniães nº 12. Ao SIBI-USP, na figura de André Serradas, pela aten-
ção e apoio na parte técnica da revista, e à equipe administrativa da FFLCH: obrigado! Por fim, agradecemos
também ao empenho e dedicação dos integrantes da comissão editorial e aos docentes do programa de pós-
-graduação que nos apoiaram nesta longa jornada.
25
dossiê
Não conte com a fada 3
[2014], acrílica e colagens sobre papel
Renata Felinto
dossiê
as pedras e as cores:
transfigurações
do nigredo
e jornada circular
em Evocações,
de Cruz e Sousa
Stones and colors: transfigurations of blackness and the circular journey in Evocações, by Cruz e Sousa
Cruz e Sousa; Transfiguração; Cores; Pedras; Nigredo; [...] — mais, muito mais eu realizarei:
Primeira natureza seguindo as pegadas já deixadas, serei o
pioneiro de um novo método, explorarei
Abstract forças desconhecidas e revelarei ao mundo
os mais profundos mistérios da criação.
Through the use of the alchemical principle of SHELLEY, Mary. Frankenstein, ou o Prometeu
transfiguration, the poet Cruz e Sousa combines the moderno, 2015, p. 119.
polarities of art and life, creator and creature, the African
deserts and the icy North Pole, synthesized in images Transfigurar-se: luar opalescente
derived from the colorful opal. In the poet’s attempt to
transfigure himself, this principle also articulates the A obra Evocações foi organizada pelo poeta João da Cruz
poetic subject’s inner journey in the work Evocações, e Sousa em 1897, mas veio a público postumamente,
as well as the genre transition from prose poem to em 1898. Ela é constituída de 33 composições, a maioria
poetic prose, oscillating as the colors of twilight. This delas realizada na forma do poema em prosa. Observa-
study focuses on the analysis of the opening prose se, porém, no conjunto de textos, uma oscilação formal
poem called “Iniciado”, with special emphasis to its entre o poema em prosa e a prosa poética, intensificada
first paragraph, which serves as a ciphered prelude na metade final do livro. Tal procedimento se articula
to the totality of a diffuse plot, unfolded throughout com o desejo de exploração de variadas formas mistas
the 33 texts that comprise the cited book. In this first e intermediárias, que não sejam “Nem prosa nem verso!
paragraph, the poetic subject transgresses the strict Outra manifestação, se possível fôsse” (cf. SOUSA,
sequence of alchemical transformations of the Opus 1986, p. 177. Edição fac-similar de 18981).
Magnum when he moves the final stage of the rubedo
to the beginning, and attempts to divert from the “Intuições”, composição que apresenta o trecho citado
primordial phase of the nigredo, hidden in the ending acima, está situada estrategicamente no meio da
of his aesthetic operation. This inversion is analogous obra. Tal como o célebre “Emparedado”, o último dos
to that of the traveling poet, who escapes from his first textos de Evocações, ela se afasta dos princípios de
31
“unidade, gratuidade e brevidade”, característicos da
forma do poema em prosa, sintetizados por Suzanne O processo de interpenetração e passagem das formas do
Bernard (1994). Na direção contrária da primeira parte poema em prosa para a prosa poética, operado ao longo
do livro, mais afinada com o formato dos poemas em de Evocações, se fundamenta no princípio alquímico de
prosa da tradição simbolista francesa, a segunda parte transfiguração, caro à poética de Cruz e Sousa de modo
de Evocações flerta cada vez mais com a dispersão, a geral, e particularmente determinante na estruturação do
prolixidade e o estranhamento em textos mais longos, livro em estudo. Logo no poema em prosa de abertura, o
nos quais o poeta tenta expressar a negra e inaudita “Dôr eu poético afirma que o artista é um “desolado alchimista
inconcebível” (cf. SOUSA, 1986, “Dor negra”, p. 122). da Dôr” (SOUSA, 1986, p. 13), estabelecendo uma relação
Esse horizonte de expectativa fica sugerido pela epígrafe de continuidade entre a “Obra” de arte formulada e a
geral de Evocações, colhida do romance simbolista A experiência de sofrimento vivida.
Eva Futura, de Villiers de L’Isle-Adam, prosa na qual um
esteta se une a um cientista na tentativa de refundar o Ao aproximar vida e arte, o poeta busca extrair da primeira
que entendem por beleza feminina ideal, aperfeiçoada a matéria-prima para seu trabalho de quintessenciação
no corpo inoxidável de uma androide, a nova Eva do poética. O texto de abertura de Evocações se denomina
título em questão, projeto de síntese harmônica entre “Iniciado”, título que permite vincular a figura deste
espírito e aparência, interioridade e exterioridade. poeta-alquimista negro com aquela do noviço consagrado
aos mistérios das antigas tradições iniciáticas. O poeta
Embora os textos de Evocações possam ser abordados iniciado está disposto a sacrificar sua primeira natureza,
com certa autonomia, é possível encarar seu conjunto considerada profana, para consumar seu próprio
de composições como as etapas difusas de uma renascimento espiritual. É a partir da metamorfose dessa
iniciação, na medida em que as transformações primeira natureza, realizada por meio de uma simbólica
formais de poesia e prosa ocorrem em paralelo morte em vida, que o neófito pretende atingir sua
com as tentativas do sujeito de alterar-se, quando natureza superior, ainda oculta.
trabalha na Grande Obra almejada, exteriorização
de seu eu superior, ainda latente. As metamorfoses Mircea Eliade explica que a tradição alquímica mobiliza
operadas sobre si mesmo mobilizam a narratividade o modelo da jornada de transformações do iniciado,
e a temporalidade, articuladoras de um tênue enredo transpondo-o para a dimensão do laboratório, onde a
organizador de uma espécie de biografia poetizada do matéria-prima é submetida a uma série de mutações,
poeta negro em Evocações. recombinações, reordenamentos e aperfeiçoamentos.
Esse processo de aprimoramento da matéria culmina
Segundo Fernando Paixão (2014, p. 30-31), os traços na formulação da Grande Obra alquímica, metáfora,
de narratividade e temporalidade apontam mais para segundo Eliade, do aperfeiçoamento correlativo
a prosa poética, ao passo que o poema em prosa se do espírito do alquimista, que se transfigura
fundamenta na gratuidade, espontaneidade, brevidade simultaneamente no mesmo processo (cf. ELIADE,
e unidade de um universo fechado, em sua “inteireza” 1979, p. 116).
e “síntese”. Em Evocações, por outro lado, se vê um
sujeito que se dispersa prolixamente pelo mundo e Ao se valer da noção de transfiguração alquímica, Cruz
oscila entre as formas, sem alcançar a síntese buscada e Sousa tenta conjugar em sua escrita as polaridades
de prosa e verso, exterioridade e interioridade, “se da vida e da arte, da analogia e da ironia, da prosa e da
32
possível fosse”. poesia em Evocações. À maneira da serpente alquímica
ouroboros, que morde a própria cauda formando um Abstrato, às transfiguradoras montanhas do sonho, ao
circuito contínuo, o poeta se desdobra reflexivamente desenvolvimento melhor, à pura perfectibilidade...”.
sobre si mesmo, empenhado em sintetizar um sentido de
totalidade para sua existência dilacerada. Tenta, assim, O princípio de transfiguração, deslocado da alquimia
inventar para si um destino, produzido por meio da arte. para a poesia, permite articular o eu reflexivo com sua
obra estética, bem como a transição entre as formas
O poeta alquimista é também um vidente, um do poema em prosa e da prosa poética. Ele orquestra,
visionário capaz de apreender a totalidade do ser e das ainda, a ordenação temporal em Evocações, encadeada
coisas que aparecem no mundo ainda pela metade, ao pela jornada iniciática do eu poético, em busca de sua
evocar sua dimensão oculta, correspondente, de modo verdadeira forma e exteriorização efetiva no mundo.
a transpor as fronteiras e abismos colocados entre o Definindo-se como poeta-alquimista desde a epígrafe
visível e o invisível, e corporificar o espírito em poesia, de “Iniciado”, ele identifica seu trabalho artístico a uma
encarnado por meio das imagens, construídas pelas rigorosa sucessão de procedimentos alquímicos, nos
palavras. O poeta vidente é então “um ser humano quais a expectativa inicial é que a dor vivida deva se
dotado de uma visão mais rápida do que o pensamento espiritualizar e encarnar numa forma bela, dotada de
sequencial e que pode captar a totalidade do objeto unidade peculiar: “Desolado alchimista da Dôr, Artista,
ou fenômeno antes que a sequência e a relação das tu a depuras, a fluidificas, a espiritualisas, e ella fica
partes estejam conscientemente compreendidas” (cf. para sempre, immaculada essencia, sacramentando
BALAKIAN, 2007, p. 22-24). divinamente a tua Obra” (SOUSA, 1986, p. 13).
O colorido prisma refratado de sua opala reverbera Numa obra em que a África negra se faz tão presente, com
não apenas na imagem do citado “arco-íris celestial seus desertos e tempestades de simoun, podem parecer
de esperanças vagas” mas também nas insistentes dissonantes, à primeira vista, as imagens glaciais de
auroras boreais, que podem ser vistas apenas no auroras boreais e luares de luz pálida e difusa, que abundam
contraste com a escuridão das longas noites glaciais. em Evocações. Mas, para Cruz e Sousa, as polaridades da
O jogo de luzes coloridas e moventes da aurora polar negrura e da brancura convergem na percepção mista de
tende a acompanhar momentos de iluminação interior um frio que é “álgido”. O adjetivo em questão designa não
do eu poético em Evocações, servindo-lhe de “ponte a sensação de um frio comum, mas de um frio de febre,
mágica” para avançar na percepção de si mesmo que faz convergir frio e calor, na vertigem do delírio de
em sua relação com o mundo. Em dois dos textos morte — esse limiar escatológico final.
finais e decisivos para a compreensão de seu destino
como poeta negro, a imagem da aurora boreal brota Deve-se ter em mente, também, que o deserto escalda
das trevas de seu inconsciente, essa mágica câmara durante o dia, mas, por outro lado, seu solo árido
escura, para dar sentido à profecia revelada no texto rapidamente gela no decorrer da noite. Em outras
derradeiro, “Emparedado”: palavras, ele é também um local constituído pelo frio.
Nesse sentido, Cruz e Sousa vê nas terras áridas do
36
norte da África um espaço de convergência de extremos
por excelência. Da mesma forma que na aurora boreal à superfície do real, já modificado. Da metamorfose
o céu congelante parece arder em fogo. A partir dessas de sujeito e mundo, propiciada pelo verbo, deveria
percepções mistas, o poeta traça um paralelo entre a resultar a Grande Obra, expressão da “superação das
terra dos exilados filhos de Cã e a igualmente desolada antinomias” (p. 337) e dualismos estabelecidos no
e imensa Sibéria, paragem de degredos e melancolias pensamento ocidental entre os planos alto e baixo, o
russas. Esse juízo o leva a afirmar que “A África divino e o profano, a interioridade e a exterioridade. O
laocoontica, alma de trevas e de chammas, fecundada trabalho novo consumado na Grande Obra implicaria
no Sol e na Noite, errantemente tempestuosa [é] como o acesso a uma nova sabedoria, rearticuladora de uma
a alma espiritualisada e tantalica da Rússia, gerada unidade inédita. Entretanto, Willer salienta o fato de
no Degredo e na Neve — pólo branco e pólo negro da Rimbaud sinalizar o fracasso em alcançar uma nova
Dôr!” (cf. “Emparedado”, p. 388-389). síntese, capaz de mudar a vida, a ser consumada por
meio de uma concepção alquímica sublimadora e
Em Evocações, o eu poético tenta cruzar as fronteiras dualista (p. 336).
derradeiras da experiência humana para se transfigurar
ali, onde pode vislumbrar, enfim, o elo oculto que julga Os valores e preconceitos do tempo presente também
existir entre as duas polaridades da dor suprema. impedem que Cruz e Sousa realize a sua Grande
Quando ele cruza finalmente o caminho de escuridão e Obra alquímica em Evocações, como será discutido
dilaceração do nigredo, o poeta percebe que ali se situa a seguir. Tal como na prosa poética de Rimbaud, as
o ponto crucial de sua travessia, rumo à consumação transformações em sua escrita e em sua percepção de
do renascimento de seu espírito, que deve enfim mundo e de si mesmo, ao longo dos textos variados,
conquistar “na Arte uma existência una, indivisível” (cf. acabam por indicar ambições iniciáticas, mas também
“Iniciado”, p. 20). Todavia, esse vislumbre da totalidade o fracasso de consumação da mesma nos quadros
a ser apreendida pela alquimia poética não se consuma limitantes do tempo presente.
de fato em Evocações, com o poeta impedido de dar
prosseguimento à suas transfigurações e andanças,
preso na muralha de pedras paralisantes. Nigredo: ponto crucial
Em Um obscuro encanto, Cláudio Willer (2010) chama a É interessante notar que tanto na abertura quanto no
atenção para o fato de que a técnica da alquimia verbal fechamento de Evocações estão presentes pedras de
desenvolvida por Arthur Rimbaud, especialmente na naturezas diferentes, cuja disposição é significativa
prosa poética de Uma estadia no inferno e Iluminações, na estruturação da jornada circular do eu poético. As
visa transfigurar sujeito e mundo, submetidos à ação primeiras, apresentadas no parágrafo de abertura, são
transformadora dessa operação. Segundo Willer “pedrarias” nobres, lentamente formadas ao longo
(2010, p. 335), essas composições sugerem um “relato de milhões de anos nos subterrâneos da natureza, e
das etapas de uma busca ou iniciação”, uma vez que cujo acabamento é prolongado ainda pela técnica do
“As transformações da escrita de Rimbaud permitem ourives e pelos artifícios da poesia moderna. Filtrada
analogias com as iniciações em mistérios” (p. 329), pelo olhar transformador do artista, toda a natureza
na medida em que se operam cisões, dissoluções e é revestida ali da beleza permanente e fulgurante
ressignificações de sentidos e formas, promovidos das pedras preciosas, de modo que é “cristalino [o]
37
no mergulho para dentro e no subsequente retorno cachoeirar dos rios”, a madrugada é dourada como
ouro, o som é “claro e metálico”, combinados todos prima alquímica é concebida pelo moderno poeta-
eles no conjunto de nuances fluidas do “esplendor de alquimista como substância inferior e dessacralizada,
a ser superada, eliminada, nulificada, esquecida. A
colorida paisagem”.
exemplo do herói de A Eva futura, romance de Villiers
d’Isle-Adam que empresta um trecho à epígrafe geral
As últimas pedras a fecharem o livro, por sua vez, são de Evocações, o poeta-alquimista inicialmente crê que
brutas e grosseiras, lançadas contra o poeta negro a arte liberta e purifica, porque transfigura o sujeito
até que ele seja emparedado vivo em uma muralha e lhe permite esquecer dos elos que o prendem a um
rochosa de preconceitos. Em Evocações, o artista negro mundo decepcionante e restrito. Por isso, em um
narra sua Via-crúcis em luta pela realização intelectual primeiro momento, o poeta neófito diz para si mesmo
em um país racista, tendo contra si um passado que “Tudo esqueceste, para vir fecundar o teu ser nos
escravista, e um contexto internacional orientado por seios germinadores da Arte”, conforme trecho citado
teorias cientificistas igualmente racistas. Estas últimas, mais acima.
sustentadas por determinismos e positivismos,
privilegiam uma visão europeia imperialista de mundo,
No começo de Evocações, o eu poético encena a crença
que justifica sua dominação política e cultural sobre
na possibilidade de romper com o estado primordial de
demais povos e territórios. O poeta de Evocações se
nigredo até prescindir deste, encarado como resíduo de
retrata perseguido pelos fantasmas das limitações
uma natureza decaída, a ser depurada definitivamente
circundantes, dilacerado pela sensação de impotência
em pedra preciosa. Ele mira-se então no exemplo
e castração, assombrado por pesadelos nos quais a voz
ideal de “levitas extraordinarios, martyrizados nas
que deseja gritar não sai. Ele é figurado muitas vezes
inquisições truculentas da Carne, mas bemditos,
guilhotinado, paralisado, emparedado sob o peso de
purificados, sem culpa de peccado mundano” (p. 23). O
cruzes religiosas e secularizadas, duras de carregar:
poeta negro espera, por meios inéditos e supostamente
originais, transfigurar-se em produto dotado de total
Eu trazia, como cadaveres que me
pureza e perfeição:
andassem funambulescamente amarrados
ás costas, num inquietante e interminavel
Segue resoluto, impávido, para a Arte branca e
apodrecimento, todos os empirismos
sem mancha, sem mácula, virginal e sagrada,
preconceituosos e não sei quanta camada
desprendido de todos os élos que inibem,
morta, quanta raça d’África curiosa e desolada
de todas as convenções que enfraqueçam e
que a Phisiologia nullificára para sempre com
banalisem, sem as explorações deshonestas,
o riso haeckeliano e papal! (cf. ‘Emparedado”,
os extremos de dedicação falsa, as fingidas
p. 363-364).
interpretações dos cynicos apostatas, mas
com toda a forte, a profunda, a sacrificante
Internalizando em parte as ambições prometeicas sinceridade, da tua grande alma, conservando
modernas, secularizadas pelo modelo de ciência sempre intacta, sempre, a flor expontanea e
empirista e mecanicista triunfante, o poeta negro casta da tua sensibilidade (p. 23-24).
tenta reelaborar ou mesmo sabotar as rigorosas leis
da alquimia e da Natureza, quando procura minimizar
a sua primeira e incontornável passagem pelo estado Evocações partilha, com o citado romance simbolista
38 de ficção científica A Eva futura, o tema da tentativa
de nigredo. Em um primeiro momento, essa matéria-
de vencer, por meio da técnica, o sentimento de Na tentativa de apreender, dominar e burlar as regras
inadequação entre a matéria e o espírito, a aparência da natureza — as quais ele ainda não está convencido
e a essência, a exterioridade e a interioridade. Se os
de que sejam realmente mais profundas que aquelas
criadores de Villiers d’Isle-Adam tentam refundar a
previstas pelo cientificismo —, o poeta-alquimista dos
beleza feminina, o poeta-alquimista de Evocações, por
vias muito particulares, buscará, ao fim de sua jornada, a tempos modernos desloca a fase primordial do nigredo
consumação da profecia do novo Dante negro da Dor. A para o final da sequência imagética de abertura, em
epígrafe geral do livro de Cruz e Sousa já pontua o drama “Iniciado”, enterrando-a, como já se pontuou, sob as
dos criadores seculares, que deslocam o drama da folhagens verdes que cobrem o solo. Em surdo diálogo
criação dos domínios do mito e da religião para aqueles com a imagem dos vergéis verdes, a inédita opala
da arte, da ciência, da biologia e do inconsciente: multicor, desejada pelo neófito, substitui a tradicional
Pedra Filosofal/rubedo ao ser projetada no lugar desta,
no final do processo de transfiguração. Não por acaso,
Les seuls vivants méritant le nom d’Artistes
a luz opalescente dos luares, que sucede a imagem
sont les créateurs, ceux qui éveillent des
dos vergéis verdes, também se projeta “nas mattas”,
impressions
igualmente verdes, fluindo na imagem seguinte das
intenses, inconnues et sublimes.
águas cristalinas e, não por acaso, descendentes de
(L’Ève Future) VILLIERS DE L’ISLE ADAM
cachoeiras. Estas desembocam por fim em sugestivas
(apud SOUSA, 1986, p. 11)2.
“collinas emotivas e saudosas”, que fatalmente levam
o poeta negro rememorar a terra natal abandonada.
Na obra francesa em questão, um aristocrata esteta, de
Como se vê, a natureza acaba por conduzir o poeta-
nome Celian Ewald, se alia ao ficcionalizado cientista
alquimista a seu seio, identificado ao da mãe negra,
Thomas Edison para juntos matarem a “animalidade
que ele abandona em “Iniciado”. Espécie de profecia
triunfante” (cf. VILLIERS, 2001, p. 140) de Alicia, moça
cifrada, esse movimento é articulado e sugerido
dotada de beleza divina, mas supostamente miserável
com delicadeza já na segunda metade do primeiro
de alma. Beleza decaída aos olhos dilacerados de Ewald,
parágrafo do livro:
ela serve de modelo e matéria-prima no experimento
de reconstrução do belo feminino ideal, sintetizado
[...] a verde, viva e viçosa vegetação dos
na androide Hadaly, a Eva futura. Em Evocações Cruz
vergéis virgens; os opalescentes luares
e Sousa assume a máscara do poeta-alquimista que
encantados nas mattas; o crystalino
lhe permite assimilar em si os papeis dos “criadores”
cachoeirar dos rios; as collinas emotivas
seculares Ewald e Edison, quando se propõe a conjugar
e saudosas – todo aquelle esplendor de
poesia/magia e ciência em sua obra híbrida. Mas, em
colorida paisagem, todo aquelle encanto de
especial, ele dramatiza simultaneamente os papéis
exhuberancia de prados, aquelles aspectos
das criaturas Alicia e Hadaly, ao simular em seu
selvagens e magestosos e ingenuos, quase
laboratório poético a sua própria, inaudita e perigosa
biblicos, da terra acolhedôra e generosa
transfiguração, visando não o solidário acabamento
onde nasceste, — deixaste, afinal, um dia, e
mais aperfeiçoado dos produtos da natureza, tal como
vieste peregrinar inquieto pelas inhospitas,
pretendiam os antigos alquimistas em sua concepção
barbaras terras do Desconhecido... (p. 13-14).
cósmica do mundo, mas um rompimento arrogante e
desesperado para com ela. 39
Funcionando como prólogo ou prelúdio, é importante
notar que a metade final do primeiro parágrafo do livro Como avesso ou sombra de si mesmo, o nigredo
já desmonta, como também ironicamente inverte, também rege o organismo que se degenera e
a transgressão da sequência de transfigurações desagrega em esverdeados miasmas, pauis e
alquímicas, proposta pelo poeta na primeira parte abjetos sapos e lesmas, que se arrastam ao chão,
do mesmo parágrafo em questão. Esse segundo predominantes na metade final de Evocações. Sob
movimento já insinua, em suma, os desdobramentos o signo das operações de mortificatio e putrefactio,
irônicos da empreitada do poeta-alquimista, que é o poema em prosa “O sonho do idiota” —, texto que
intuitivamente reconduzido ao enfrentamento com antecede estrategicamente o decisivo “A sombra” —,
seu nigredo primordial, permeado de incômodas raízes sintetiza bem a degradação orgânica e mental de um
e sombras, em sua descida solitária aos subterrâneos gênio que não consegue comunicar as maravilhas de
noturnos e dantescos de sua subjetividade. sua mente, limitado por sua loucura hipertrofiante e
aparência grotesca, que o aprisionam para sempre na
Matéria-prima de potencial proteiforme, o nigredo se solidão das palavras e pensamentos desarticulados.
articula em Evocações com a noção de organismo, que No texto em questão, um templo se torna “pezadello
pode vicejar e procriar, eclodindo em vegetação virgem verde” de “floresta de lugubres assombros”, com sua
e viçosa, coroada no final pelas frequentes imagens “avalanche de reptis verdes” que formam um “mar
de flores, geralmente avermelhadas, sanguíneas, que verde que o affogava”, num delírio esvaziado de
deveriam eclodir na conclusão do desenvolvimento profecia. A desagregação mental do sublime idiota não
do poeta, finalmente reencarnado. Em “Iniciado”, encontra um canal de rearticulação ou regeneração,
por exemplo, o eu poético traz “a alma como a mais de modo que ele “como um monstruoso reptil verde,
excentrica flôr do Sol,— flôr da força, da impetuosidade sentiu-se subdividido, multiplicado infinitamente em
das seivas, aberta, rasgada em rubro, viva e violenta a milhões e biliões de reptis verdes de todos os aspectos
vermelho, cantando sangue...” (p. 17), “a alma como e fórmas” (cf. p. 310).
uma flor exótica dos trópicos” (p. 23). Curiosamente,
ambas as flores são quentes e adjetivadas com Na dissertação A vida vertiginosa dos signos: recepção
vocábulos dotados do prefixo ex-, designador de um do idioleto decadista na belle époque tropical, Marcus
movimento para fora do centro e da ótica comuns. Rogério Tavares Sampaio Salgado (2006, p. 76-77)
ressalta a presença das “contorções miasmáticas e
Ainda em “Iniciado”, o eu poético mobiliza a metáfora emanações ctônicas, poesia saturnina e descendente”
da flor da alma quando recomenda a si o modo de Cruz e Sousa, “quando sua poesia se encontra sob o
adequado de cultivá-la (e cultivar-se) bem: “tira a nigredo”3. Leonardo Pereira de Oliveira (2007, p. 156),
linha geral do teu ser (...) na frescura abençoada e nos por sua vez, aponta a relação da metáfora alquímica
rejuvenescimentos e reflorescencias da Fé” (p. 19). do nigredo na perspectiva da elaboração e “associação
Para tanto, ele procura seguir o exemplo dos “artistas étnica”, no trabalho intitulado “A tensão lírica no
calmos e poderosos na obscuridade do meio ambiente, simbolismo de Cruz e Sousa”.
quando floresce e alvorece nas suas almas a rara flor
da Perfeição” (p. 23), de modo que ele possa seguir seu Submetido à dessacralização em um contexto de
caminho “conservando sempre intacta, sempre, a flor cientificismo, o nigredo se manifesta apenas em sua
expontanea e casta da tua sensibilidade” (p. 24). face degenerada, exterior e parcial em Evocações, com
40
a qual o poeta-alquimista moderno vai, na maioria
das vezes, se deparar. No desfecho de “O sonho do Como os antigos alquimistas, os poetas demente e
idiota”, o personagem desesperado antecipa alguns emparedado de Evocações experimentam um tipo de
eventos desenvolvidos nas composições ulteriores do morte em vida, todavia sem a contrapartida de um
livro, como quando “Queria fugir como um homem renascimento simbólico. Mircea Eliade (1979, p. 116)
allucinado que fóge absurdamente da sua sombra” salienta que inexiste caminho para alquimista ou neófito
(SOUSA, 1986, p. 312), tema tratado logo a seguir, no que não passe pela morte simbólica e descida aos
enfrentamento do filho pródigo negro com a natureza- abismos, dos quais se deve extrair a sabedoria acerca
mãe em “A sombra”. das ligações e continuidades ocultas, latentes sob a
aparência das coisas. Trata-se de uma inescapável
Já a cena final de “Emparedado” também é preludiada “experiência crucial”, que demanda o engajamento
no desfecho de “O sonho do idiota”, quando o poeta total do espírito e do corpo, este também sacralizado
demente, que não distingue o real do imaginado, (p. 123). Se o nigredo original implica morte e
percebe ter “estado a sonhar, preso ás inconsequencias destruição, ele também corresponde ao movimento
revelladôras do seu Sonho de Idiota, [e] que correlativo de ressurreição e recriação:
mesmo assim acordado, continuaria eternamente e
amargamente a sonhar...” (p. 313). “A “morte” corresponde em geral – a nível
operatório – à cor negra que tomavam os
De diferentes maneiras, os poetas demente e ingredientes, à nigredo. É a redução das
emparedado são condenados a sonhar para sempre, substâncias à matéria-prima, à massa confusa,
sem poderem se realizar de maneira efetiva. As a massa fluida, informe, que corresponde –
condições sociais do Brasil finissecular são representadas ao nível cosmológico – à situação primordial,
como extremamente hostis a ambos, oprimidos por ao Caos. A morte representa a regressão ao
um ambiente limitante, que os dilacera e empurra com amorfo, a reintegração do Caos” (ELIADE,
violência ao estado regressivo de um nigredo privado 1979, p. 118).
hoje de sua infinita flexibilidade transformadora
original, lançado para fora do ciclo cósmico de morte Mircea Eliade explica que a mimetização do estado de
e renascimento contínuos. A modernidade é tempo de nigredo nas experiências alquímicas permite realizar a
rigidez imobilizadora, em que encenação iniciática da reordenação do caos em uma
harmonia cósmica, e com isso a refundação do ser, que
[...] nós caminhamos para o irreparável nasce uma segunda vez, de forma mais organizada
impedernimento; desde o solo até aos astros, e deliberada. Ainda segundo Eliade, na tradição
homens e cousas, tudo vae quedar de pedra. imagética da alquimia, a prima materia por vezes se
Será um somno universal de uma universal apresenta como fluido mercurial dissolvido, diluído em
esphinge. Tudo, na pedra, dormirá um somno de amorfo estado de lama e barro, ainda não moldado
pedra. A pedra respirará pedra. A pedra sentirá pela ação de uma vontade ordenadora.
pedra. A pedra almejará pedra. E esta tremenda
aspiração de pedra profundamente symbolisará Em outras tradições ocultas, a exemplo da iniciação
os sentimentos de pedra dos homens de hoje maçônica, o estado primordial do neófito é
[...] (cf. “Melancholia”, p. 66-67). representado como pedra bruta de superfície escura,
41
não polida ainda pelo trabalho do pedreiro em uma
forma mais bela, cintilante, aérea4. Matéria rude e em contato com o fogo [...] (LIMA; SILVA,
pesada, o nigredo é tradicionalmente associado ao 2003, p. 47-48).
chumbo, metal considerado inferior por conta de sua
natureza mais chã e mesmo tóxica, em comparação Ao se valer de ordenamentos quaternários, opera-se
a outros materiais mais nobres, resistentes e puros, uma íntima articulação entre a experiência biográfica
a exemplo da prata e do ouro. Por sua natureza do poeta João da Cruz e Sousa e sua elaboração
dilacerada, informe, o nigredo e o chumbo são estética, plasmados em produto de arte, como se o
associados ao estado de melancolia, segundo a teoria meridiano da vida se cruzasse com o paralelo da arte,
dos quatro humores, que liga ambos aos poderes articulados no eixo central da obra, ponto crucial que
castradores, destrutivos e devoradores do velho une o espírito ao corpo, e que por sua vez promove a
Saturno (cf. ELIADE, 1979, p. 124)5. encruzilhada de poesia e prosa. Assim, o poeta neófito
que reflete sobre si afirma que “tu és, por germens
É curioso notar que tanto as etapas de transfiguração inevitaveis, fataes, a tua Obra, ainda em gestação”
alquímica quanto a cruz que o poeta carrega em sua (SOUSA, 1986, “Iniciado”, p. 21). Ele se dirige a si pela
jornada de martirizante tentativa de redenção são segunda pessoa em “Iniciado”, como se desdobrasse
estruturadas pelo algarismo 4: são quatro as pontas no profeta de si mesmo, anunciador do eu futuro
do madeiro carregado pelo messias, em seu percurso intuído, que espera encarnar-se e salvar-se enfim do
de tortura, morte e renascimento; como são quatro as sofrimento causado “por andares atrahido por forças
cores que designam as fases de fabricação da Grande redemptoras, perdido nos centros fascinantes do
Obra alquímica. O globo apresenta quatro pontos absoluto sentir e do absoluto sonhar!” (p. 17). Esse jogo
cardeais, que o eu poético pretende abranger em sua constante com duplicidades fica visível em “Intuições”,
viagem subjetiva: em que um poeta mais velho encontra seu duplo mais
jovem, sendo este último dotado de traços atribuídos
Os significados simbólicos do 4 imbricam-se ao neófito de “Iniciado”.
aos do quadrado e da cruz. O 4 caracteriza
o universo na sua totalidade, é símbolo Segundo Mircea Eliade, as quatro cores designadoras
de plenitude, de universalidade, símbolo das etapas de transformação alquímica para a obtenção
totalizador, princípio organizador (...). O da Grande Obra encenam o “drama místico” da matéria
cruzamento de um meridiano e um paralelo submetida às operações em laboratório, análoga à
geram uma cruz e dividem a Terra em quatro reencenação da dolorosa trajetória vivida por “deuses
setores. Quatro são os pontos cardeais, as moribundos”, tais como Cristo, Dioniso, Orfeu e Osíris,
fases da lua, as estações do ano, os elementos, que padecem da dilaceração da carne, atravessam
os humores. No plano mítico, quatro são as trevas da morte e ressuscitam, reconquistando a
os rios do paraíso, quatro são as letras do plenitude perdida:
nome de Deus e do primeiro homem, quatro
são as bestas e os cavaleiros do Apocalipse [...] o tema dramático dos “sofrimentos”,
(CHEVALIER; GHEERBRANT, 1996). Quatro “morte” e “ressurreição” da Matéria é
são as fases da transmutação, da Opus atestado desde o início na literatura
magnum, que recebem sua denominação alquímica greco-egípcia. A transmutação – o
42
segundo a cor que assumem os ingredientes opus magnum que conduz à Pedra Filosofal
– é alcançada fazendo-se passar a matéria a obtenção de sua essência imaculada, que “fica para
por quatro fases, denominadas, segundo as sempre”, vivendo eternamente na obra de arte. Por
cores que adquirem os ingredientes, mélansis isso, o eu poético recomenda a si mesmo que: “Se
(preto), leúkosis (branco), xánthosis (amarelo) não tens Dôr, vaga pelos desertos, corre pelos areaes
e iôsis (vermelho). O “preto” (a nigredo dos da Illusão e pede ás vermelhas campanhas abertas da
autores medievais) simboliza “morte” (...). Vida e clama e grita: quem me dá uma Dôr, uma Dôr
Com um sem-número de variantes, as quatro para me illuminar! Que eu seja o transcendentalisado
(ou cinco) fases da obra (nigredo, albedo, da Dôr!” (SOUSA, 1986, “Iniciado”, p. 17-18).
citrinitas, rubedo, algumas vezes viriditas,
outras cauda pavonis) mantém-se em toda
a história da alquimia árabe e ocidental. Pedras polidas e pedras brutas
(ELIADE, 1979, p.114).
Em “Iniciado”, é interessante notar que o eu poético
Conforme afirmado anteriormente, Eliade sublinha que atribui a si o refinamento característico das pedras
a encenação do drama místico dos deuses moribundos preciosas e polidas, ao passo que situa os membros de
é incorporada nas provas iniciáticas enfrentadas pelos sua família no campo das rochas rudes — julgamento
neófitos, e reproduzidas nos processos alquímicos em esse que sofre metamorfoses ao longo de Evocações.
laboratório. As matérias percorrem um itinerário de Na altura dos parágrafos finais de “Iniciado”, o poeta
autossacrifício semelhante ao dos noviços, rompendo julga que “agora que abandonaste a franqueza
simbolicamente com uma primeira forma. Mircea rude das montanhas” da região onde nascera, pode
Eliade enfatiza a mudança de regime ontológico ir “sereno para esta prodigiosa complexidade de
sugerida nesse processo simbólico: “O sentido e a Sentimentos” (SOUSA, 1986, p. 24), que tanto almeja.
finalidade dos Mistérios eram a transmutação do No parágrafo imediatamente anterior, recomendara a
homem: através da experiência da morte e ressurreição si que resistisse “aos perturbadores ululos do mundo”
iniciatórias, o mústês [iniciado] mudava de regime circundante que, tal como Saturno fizera com seus
ontológico (tornava-se ‘imortal’)” (cf. ELIADE, 1979, filhos, teme que possam devorá-lo.
p. 83). Metaforizada em nobre ouro ou milagrosa
Pedra Filosofal, a alma do alquimista mimetiza essa Na procura por manter intacta a sua essência — a frágil
experiência de transmutação total de corpo e espírito, flor de sua alma —, o poeta aconselha a si o seguinte:
na medida em que inicialmente tortura a matéria de “fécha-te á chave astral com a alma, essa esphéra
maneira deliberada, até dissolvê-la em massa informe, celeste, dentro das muralhas de ouro do Castello do
equivalente ao caos primordial a ser reordenado a uma Sonho, lá muito em cima, lá muito em cima, lá no alto
totalidade cósmica. da torre azul mais alta d’entre as altas torres coroadas
d’estrellas” (p. 24). Substituindo a barreira natural
É com esse caminho de inspiração alquímica, no qual se das montanhas, às quais atribui “franqueza rude”,
projeta na matéria “o sentido iniciatório do drama e do o eu poético propõe a construção das “muralhas de
sofrimento” (ELIADE, 1979, p. 116), que Cruz e Sousa ouro”, escudos produzidos pela cultura e pela técnica,
dialoga desde a epígrafe de “Iniciado”, comparando o nas quais deseja se refugiar. Das muralhas de ouro
artista a um “desolado alquimista da Dor”. Esta última desdobra a imagem do “Castello do Sonho”, onde ele
43
deve ser minuciosa e exaustivamente trabalhada até
pretende se elevar com segurança, no “alto da torre Esphéra do méro Instincto para a Esphéra rehabilitadôra,
azul mais alta dentre as torres coroadas de estrelas”. pura e radiante do Pensamento” (p. 21-22).
Embora o eu poético tensione os papéis de criador e Frankenstein desdobra o tema da experiência extrema
criatura, ao se fazer cobaia de seu próprio experimento e transformadora rumo ao polo norte de A balada
de transfiguração, é na relação ambígua com a mãe do velho marinheiro, de Samuel Taylor Coleridge (cf.
que realmente toma corpo o conflito do poeta, com a HINDLE, 2015, p. 38). No limiar das civilizações, na terra
oposição estabelecida entre a sua primeira natureza ignota6, abre-se espaço para o retorno do reprimido
dolorosa e uma desejada e hipotética segunda natureza e para os julgamentos finais contra a hybris dos
superior, a ser recriada por meio da arte. Até perto do modernos Prometeus. O fascínio humano para com a
desfecho de Evocações, o eu poético julga essas duas conquista de fronteiras derradeiras se metaforiza na
naturezas acima totalmente inconciliáveis, resistindo a agulha da bússola, atraída pelo agudo magnetismo do
reconhecer qualquer continuidade entre uma e outra. extremo polo norte, imagem que abre Frankenstein.
De modo que ele se espanta com imenso horror ao ver
na mãe, transfigurada antes dele pela morte, a sombra O impulso inexplicável, a tentação imperiosa que arrasta
do eu profundo que evocara, e que agora tenta a todo o poeta para fora da casa materna, rumo ao Desconhecido
custo exorcizar. Embora saiba que deve descer às em “Iniciado”, é frequentemente acompanhado, em
profundezas da terra como o corpo morto de Cristo, Evocações, das metáforas sobre forças invisíveis que
em sua Via-Sacra da Arte, o poeta neófito tende a se atuam sobre a matéria, tais como o magnetismo,
fixar apenas na via da elevação e da ruptura com tudo a gravidade, as relações de atração e repulsão, as
o que remeta à “obscura Terra” e ao ventre materno, polaridades, bem como expressões como órbita,
imaginando erroneamente que assim possa “entrar rotação, eixo, sistemas e anéis planetários, mobilizados
larga e fraternalmente na Contemplação da Natureza” na tentativa de definir o estranho movimento da jornada
universal (cf. “Iniciado”, p. 22). (e do destino) do poeta-alquimista.
Em seu jogo de atração e ressentimentos para com a A partir desse vocabulário, é possível pensar a
Natureza-mãe, embaralham-se as figuras de criador secularização da noção de ciência oculta, deslocada
e criatura em Evocações, bem como as relações de e ressignificada de um plano cósmico para o plano
perseguição e fuga, de criação e destruição. Todas elas biológico. Nesse mesmo sentido, ganha realce a
convergem no conflito final, projetado nos confins do persistente presença da faculdade de intuição em
real, lá na escuridão extrema onde fulgura a aurora boreal Evocações,, com sua capacidade de servir como uma
45
vislumbrada na imaginação do poeta. Esses elementos espécie de bússola ou farol interiores, a guiar o poeta
pela noite subjetiva, desconhecida, infinita, tenebrosa. tema da noite e da cor negra, que passam a marcar
A exploração dos campos psicológico e artístico, obras mais tardias como Faróis e Evocações. Nestas
ligados por meio da imaginação, aprofunda ainda últimas, o poeta revisita suas produções anteriores, e
mais o deslocamento da noção de ciência oculta para encara suas raízes negras até então soterradas. Estas
os domínios da subjetividade humana, a tangenciar os emergem na forma de sombras e olhos persecutórios,
abismos do inconsciente e seu caos criador. que buscam vingança contra o sujeito poético que as
negou. Ivone Daré Rabello lembra que, especialmente
Nos últimos quatro textos de Evocações, é possível nos textos abolicionistas da juventude, Cruz e Sousa
observar um movimento de reencontro do poeta assumira perspectivas e referenciais da “cultura
com o negrume/nigredo de sua existência, até ali branca da elite” (p. 166), adesão que, no entanto, não
evitado. Em “A sombra”, o filho se percebe cindido e correspondeu a uma inclusão efetiva do poeta nesse
estranho justamente quando atesta a própria e irônica círculo social, que o rejeitou por identificá-lo a um
semelhança para com a mãe morta, abandonada por ele indesejável homem pobre, provinciano e negro.
desde “Iniciado”. Ele se sente devastado ao reconhecer
na genitora, para sempre perdida e muda, “a mesma Rabello afirma que a arte é deliberadamente
expressão nostálgica de beduino no semblante, a aproximada do “trajeto biográfico e [d]os dilemas
mesma fugitiva melancolia” (SOUSA, 1986, p. 319). pessoais do próprio Cruz e Sousa” em “Iniciado” (p. 174),
Em suma, na alma vagante da mãe depara-se com o aproximação esta sugerida na jornada transformadora
mesmo impulso ao eterno movimento que o movera percorrida pelo neófito, dedicado a desfazer
para longe de casa. Embora tivesse previsto a própria simbolicamente “os fatais laços da consanguinidade”
metamorfose e um inevitável distanciamento em por meio da Arte. O itinerário percorrido, porém,
relação a seus familiares, encontra no fantasma acaba por torná-lo um “guilhotinado”, que olha para
materno a primeira natureza que pretendia sacrificar, já o passado e se percebe como “o fantasma do que
transfigurada pelos poderes fatais da morte, a despeito foste”, afastado e isolado de suas origens. Segundo
da ausência do poeta-alquimista. Se a tentadora Arte a estudiosa, o texto encena “a denegação e a busca
o seduzira a evadir-se em “Iniciado”, abandonando o de justificativas da negação da raça” (p. 175), uma
paraíso perdido de sua infância, ela acaba por mesclar- “traição do negro ao negro”, que acaba por produzir
se cada vez mais com a mãe agora ausente, cujo nome no sujeito poético os sentimentos dilacerantes de
de batismo — bastante significativo no horizonte de culpa e remorso. Em “A sombra”, o fantasma da mãe
referências literárias do drama criador do poeta negro vem acertar as contas com o filho, mas é exorcizado
— era Carolina Eva da Conceição. por ele, que nega sua genitora em vida como também
depois da morte dela. Esse reencontro indesejado
Ivone Daré Rabello (2006) afirma que tanto “Iniciado” encarna o drama interior do poeta e sintetiza os
quanto “A sombra” são composições atravessadas pelo dilemas de sua trajetória intelectual, marcada pela
motivo da “traição de origens” (cf. p. 167 e 182), ou seja, “negação da origem”, atitude constatada sobretudo
a dramatização da “traição do negro ao negro” (p. 175). em suas produções juvenis, marcadas pela crença na
Ao abordar o conjunto da poética de Cruz e Sousa, a possibilidade de inclusão e comunhão social por meio
estudiosa observa que, após a recepção crítica de da arte. A dor de se reconhecer em sujeitos socialmente
Broquéis e Missal, ocorre uma reorientação na produção desprezados dos quais julgava se diferenciar em “Asco
46
artística do poeta, percebida na crescente presença do e dor”, e o alastramento da metafórica “mancha
negra”, que devora o sujeito em “A nódoa”, fazem “pezadello de sombras macabras – visão valpurgiana
ecoar a “sombra de Iago”, traidor do negro Otelo no de terriveis e convulsos soluços nocturnos circulando
drama shakespeariano, ou a imagem de um “Narciso na Terra e formando, com as seculares, despedaçadas
às avessas (...) temendo encontrar seu rosto” (p. 167). agonias da sua alma renegada, uma auréola sinistra, de
lagrimas e sangue, toda em torno da Terra...” (p. 390).
“Nirvanismos”, que antecede “A sombra”, apresenta
um personagem em “peregrinação pelas florestas” A imagem da formação da “auréola sinistra, de
infinitas. Em dado momento, estas últimas são lagrimas e sangue” a envolver todo o globo marca
subitamente transfiguradas em imensos desertos o fechamento de uma primeira parte do circuito de
noturnos, que lhe escapam a cada passo, afundado nos andanças e martírios do poeta, que consumaria seu
“areais fugidios”: destino quando ele se transformasse enfim no Dante
negro, naquela altura ainda em devir. Ao vislumbrar
[...] de repente, eis que as floréstas recúam, no horizonte longínquo a sua totalidade existencial, o
se apagam, vão desapparecendo aos poucos poeta encarnado em simoun se prepara para se dirigir e
como por encanto; o assombroso explendor atravessar finalmente o mar Mediterrâneo.
verde das arvores some-se no longinquo
horisonte, como névoas que se desfazem, Curiosamente, em outro trecho de “Emparedado”,
e começam, então, de repente, a surgir o acesso às “priscas margens venerandas do Mar
areiais, areiais de desertos inhóspitos, areiais Vermelho” é negado ao artista negro pela opinião
infindaveis, areiais que successivamente pública, por supostamente pertencerem ao repertório
se reproduzem, longos, muito longos e de uma antiguidade clássica que abarca Oriente e
alvejantes, lá, para além das distancias que a Grécia, mas exclui a “África, tórrida e barbara, devorada
retina não póde abranger nem descortinar... insaciavelmente pelo deserto, tumultuando de mattas
(SOUSA, 1986, p. 340). bravias, arrastada sangrando no lodo das Civilisações
despóticas” (p. 388). Apropriando-se da imagem bíblica
Interessa aqui a transição realizada da imagem das da travessia do Mar Vermelho, que marca o retorno
florestas verdes para o imenso deserto africano, onde dos hebreus escravizados à sua terra prometida, o
sopra a tempestade de simoun. Ao intuir o sentido eu poético revestido da tempestade africana parte
profundo dessa mudança, o caminhante se deixa deserto afora para devastar a Europa, colocada em seu
arrebatar e fundir aos ventos devastadores, que caminho rumo ao magnético polo norte: a verdadeira
sopram em direção ao norte. Somente quando ele fronteira final, onde reluz a fantástica e multicolorida
se torna uma força da natureza, o eu poético é enfim aurora boreal brotada das trevas.
tocado pela “extrema carícia” da “noite saudosa”,
que tanto procurara longe de si. Ao mergulhar nas Apenas ao se identificar à “África cheia de solidões
trevas interiores, revela-se para ele a profecia do maravilhosas, de virgindades animais instintivas, de
Dante negro, apresentada no texto derradeiro, curiosos fenômenos de esquisita Originalidade” — ou
“Emparedado”. O poeta entende ali que o eu futuro, seja, a seu nigredo primordial —, o caminhar do poeta
no qual deve se encarnar, será moldado nas “argilas ganha renovada força e direção. Ele, que acabara de
funestas e secretas” do solo africano. A um só tempo descobrir sua verdadeira natureza, não poderá, porém,
47
virginal paraíso e inferno na terra, do Saara sopra um cumprir a profecia recém-revelada. Uma força ainda
mais devastadora que aquela do simoun reage com CUNHA, Euclides da. Os sertões: (Campanha de Canudos).
brutalidade a seu avanço nos parágrafos finais de Edição, prefácio, cronologia, notas e índices Leopoldo M.
Evocações: uma muralha de pedras rudes se levanta Bernucci. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001.
da Europa, sustentada pelos preconceitos de fundo
cientificista e religioso, todos lançados de uma só vez ELIADE, Mircea. Ferreiros e alquimistas. Tradução Roberto
sobre o poeta negro, acompanhados da condenação Cortes de Lacerda. Rio de Janeiro: zahar, 1979.
fatal: “Não! Não! Não! Não transporás os pórticos
milenários da vasta edificação do Mundo, porque atraz HINDLE, Maurice. Introdução. In: SHELLEY, Mary.
de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram Frankenstein, ou o Prometeu moderno. Tradução de Christian
accumulando, accumulando pedra sobre pedra, pedra Schwartz. Introdução e notas de Maurice Hindle. Posfácio
sobre pedra, que para ahi estás agora o verdadeiro de Ruy Castro. São Paulo: Penguin Classics Companhia das
emparedado de uma raça” (p. 390). Letras, 2015. p. 7-55.
Imobilizado e impotente como sempre temera, LEMINSKI, Paulo. Jesus A.C. In: ______. Vida: Cruz e Sousa,
acuado pelo peso sobre-humano “do apedrejamento Bashô, Jesus e Trótski – 4 biografias. São Paulo: Companhia
dos Impotentes” (cf. “Iniciado”, p. 394), o poeta não das Letras, 2013. p.155-240.
pode se mover para alcançar o espectro colorido de
seu eu opalescente, cristalizado pelo gênio do Dante LIMA, Tania Andrade; SILVA, Marília Nogueira da. Alquimia,
negro. Ele, que tanto desejara as “muralhas de ouro”, ocultismo, maçonaria: o ouro e o simbolismo hermético
as “pedrarias rubentes dos ocasos” e a magnética lua dos cadinhos (séculos XVIII e XIX). Anais do Museu Paulista,
prateada, é condenado a contemplar para sempre São Paulo, v. 8-9, n. 1, p. 9-54, 2001. Editado em 2003.
o brilho difuso das estrelas brilhantes, do fundo de Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0101-
sua prisão de pedra morta, sem poder alcançá-las. 47142001000100002&script=sci_abstract&tlng=pt>. Acesso
Emparedado vivo, ele não pode se completar e realizar. em: 11 maio 2017.
Permanece como sombra, vulto, fantasma, dissociado
de si mesmo. OLIVEIRA, Leonardo Pereira de. A tensão lírica no simbolismo
de Cruz e Sousa. Dissertação (Mestrado em Literatura
Brasileira) – Instituto de Letras, Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, Porto Alegre, 2007.
Referências bibliográficas
PAIXÃO, Fernando. Arte da pequena reflexão: poema em
BALAKIAN, Anna. O simbolismo. Tradução José Bonifácio. prosa contemporâneo. São Paulo: Iluminuras, 2014.
São Paulo: Perspectiva, 2007.
RABELLO, Ivone Daré. Um canto à margem. Uma leitura da
BERNARD, Suzanne. Baudelaire et le lyrisme moderne. In: poética de Cruz e Sousa. São Paulo: Nanquim: Edusp, 2006.
______. Le poème en prose: de Baudelaire jusqu’à nos jours.
Paris: Librarie A.-G. Nizet, 1994. p.103-129. RUFINONI, Simone Rossinetti. A forma negra da morte (um
estudo do satanismo no poema em prosa de Cruz e Sousa).
BRAYNER, Sonia. Esoterismo e estética: Evocações de Cruz e Dissertação (Mestrado em Literatura Brasileira) – Faculdade
48
Sousa. Travessia, Florianópolis, n. 26, p. 171-183, 1993.
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São modo geral, Salgado (2006, p. 43) comenta: “Portanto,
Paulo, São Paulo, 1999. na imago mundi decadentista ocupam destacado
papel: a atração pelo que Huysmans chamava de
SALGADO, Marcus Rogério Tavares Sampaio. A vida misticismo depravado e artisticamente perverso e
vertiginosa dos signos: recepção do idioleto decadista na a observação do regímen lunar, da obra em negro,
belle époque tropical. Dissertação (Mestrado em Letras da fase do nigredo – de onde resulta o fascínio pela
Vernáculas) – Faculdade de Letras, Universidade Federal do decomposição, pela dissolução, pela liquefação, pelas
Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006. emanações miasmáticas, pelas forças tanto ctônicas
como saturninas.”
SHELLEY, Mary. Frankenstein, ou O Prometeu moderno.
Tradução de Christian Schwartz. Introdução e notas de 4 “O cubo, a pedra cúbica, símbolo de
Maurice Hindle. Posfácio de Ruy Castro. São Paulo: Penguin elevação moral, corresponde à pedra filosofal da
Classics Companhia das Letras, 2015. construção espiritual, que constitui a Grande Obra, o
aperfeiçoamento individual que conduz a um estado
SOUSA, João da Cruz e. Evocações. Edição fac-similar. [1898] superior. É o único sólido que pelo paralelismo e a
Apresentação de Esperidião Amin Helou Filho. Florianópolis: retidão de suas faces pode ser bem aproveitado na
Fundação Catarinense de Cultura, 1986. construção do Edifício Social, daí sua importância no
simbolismo maçônico. Representa o Mestre, o ideal de
VILLIERS DE L’ISLE-ADAM, Auguste. A Eva Futura. Tradução perfeição humana”. (Cf. LIMA; SILVA, 2003, p. 35).
de Ecila de Azeredo Grünewald. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2001. 5 Sob a abordagem das relações entre satanismo,
melancolia e sublime, Simone Rossinetti Rufinoni
WILLER, Cláudio. Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e (1999) trabalha o problema de representação do negro
poesia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. na prosa de Cruz e Sousa, em A forma negra da morte.
CAMPOS, Geir. Antologia poética. Organização de Israel ______. O Livro de Horas. Tradução de Geir Campos. São
Pedrosa. Rio de Janeiro: Léo Christiano, 2003. Paulo: Perspectiva, 1993a.
61
______. Poemas e Cartas a um Jovem Poeta. Tradução, seleção e notas assemelha-se ao passo não realizado do cisne.// E o ato
deGeirCampos e Fernando Jorge. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017. de morrer, este não-mais-tocar/ este solo sobre o qual
estamos diariamente,/ ao seu medroso abaixar-se: //
______. Poemas. Tradução de José Paulo Paes. 2a edição. São nas águas, que o recebem suavemente e que, como se
Paulo: Cia. Das Letras, 2012. feliz e passado/ constrangem-se sob ele, em marolas//
enquanto ele, infinitamente calmo e seguro/ sempre
______. Poesia-Coisa. Tradução de Augusto de Campos. Rio mais dono de si e mais nobre/ e mais relaxado digna-se
de Janeiro: Imago, 1993b. a se mover.
RYAN, Judith. Rilke, modernism and poetic tradition. 4 ”Abends” um Dämmerung... sitzen wir an dem
Cambridge, University Press, 1999. eingerahmten Bassin bei seinen jungen Schwänen
und bertrachten sie. (Carta a Clara Westhoff,
SILVA, Dora Ferreira. Poesia reunida. Rio de Janeiro, 20.09.1905. STAHL, 1978, p.201.)
Topbooks, 1999.
5 Seu olhar, de tanto passar pelas barras/ cansou-
SILVA, Domingos Carvalho. Poemas Escolhidos. Prefácio de se tanto, que não detém mais nada./ A ele é como
Adolfo Casais Monteiro. São Paulo, Clube de Poesia, 1956. se houvesse mil barras/ e atrás de mil barras mundo
algum.// O macio caminhar de passos elasticamente
STAHL, August. Rilke-Kommentar zum lyrischen Werk. fortes/ que se roda em círculos cada vez menores,/ é
München, Winkler, 1978. como uma dança de força em torno de um centro/ no
qual se encontra um grande impulso adormecido.//
TELES, Gilberto Mendonça. Para o estudo da geração de Apenas às vezes se ergue a cortina das pupilas/ sem um
45. In: ______. Contramargem – Estudos de Literatura. Rio de ruído – então entra uma imagem,/ passa pela calma
Janeiro: PUC/ São Paulo: Loyola, 2002. p.83-115. tensionada dos membros/ e cessa de existir no coração.
Notas
Raul Bopp; Modernism; Violence; Favela; Slavery A seu ver [segundo Freyre], a poesia negra
norte-americana, justamente porque feita por
negros, revelaria um caráter segregacionista
1. A beleza terrível
e ressentido, hostil em relação ao branco,
ao passo que a brasileira seria produto do
A chamada primeira fase do modernismo brasileiro é
fraternalismo e da democracia, de que é
localizada entre os anos de 1922 e 1930. Neste período,
exemplo a obra de, entre outros, um Castro
vieram à luz obras-primas como Memórias sentimentais
Alves, um Ascenso Ferreira, o próprio
de João Miramar (1924), Macunaíma (1928), Losango
Mário de Andrade e, é claro, Jorge de Lima
Cáqui (1927), Libertinagem (1930), Brás, Bexiga e Barra
(CAMILO, 2003, p. 226).
Funda (1927), entre outras. E é neste mesmo período,
mais especificamente entre 1926 e 1928, que Raul Bopp
Mas como falar da vida dos negros no Brasil sem ser
escreveu os “poemas negros” que compõem Urucungo.
minimamente “hostil em relação ao branco”? O sujeito
Este foi publicado em 1932, “graças a um novo mutirão
lírico mostra, sim, seu sentimento fraternal com relação
de amigos”, segundo Augusto Massi (apud BOPP, 2013,
à dor dos negros, mas sem minimizar o horror da
p. 80), organizador de Poesia Completa de Raul Bopp,
escravidão nem a opressão econômica e social sofrida
obra que adotamos como referência para a realização
pelos descendentes dos africanos, como podemos
deste trabalho.
observar ao longo de todo o Urucungo e neste trecho
64
do poema “Negro” (BOPP, 2013, p. 230):
A tua primeira inscrição em baixo-relevo FAVELA
foi uma chicotada no lombo.
Meio-dia.
Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
O morro coxo cochila.
E durante longas noites e noites
O sol resvala devagarzinho pela rua
vieste escutando o rugido do mar
torcida como uma costela.
como um soluço no porão soturno.
Aquela casa de janelas com dor-de-dente
Como afirma Dostoiévski, em sua obra-prima Os
amarrou um coqueiro do lado.
irmãos Karamázov1, “A beleza é uma coisa terrível e
horrível!”. Os versos de “Negro” são igualmente de uma
Um pé de meia faz exercícios no arame.
beleza terrível, especialmente estes dois decassílabos:
“vieste escutando o rugido do mar / como um soluço
Vizinha da frente grita no quintal:
no porão soturno”. O som do mar e o choro soluçante
-João! Ó João!
do homem, que sofre o violento sequestro de sua
liberdade e que é marcado pela “chicotada no lombo”,
Bananeira botou as tetas do lado de fora.
são aqui materializados sonoramente na sequência
Mamoeiros estão de papo inchado.
de vogais “escuras”2 (Um / solUço / sotUrno), as quais
sugerem toda a incomensurável melancolia do negro
levado aos “depósitos de escravos”. Negra acocorou-se a um canto do terreiro.
Pôs as galinhas em escândalo.
2. A modorra Lá embaixo
passa um trem de subúrbio riscando fumaça.
Em “Favela” e “Favela nº 2”, a imagem que predomina
é a da vida modorrenta. Mas o que provoca a modorra
À porta da venda
no morro? Apenas a preguiça estimulada pelo calor
negro bocejou como um túnel.
do meio-dia e pelo descanso pós-refeição? Ou essa
modorra estaria ligada à falta de ocupação da população
(BOPP, 2013, p. 239)
da favela relegada a uma condição econômica
marginal? Em “Favela”, os únicos elementos da vida
econômica citados no poema são o “trem de subúrbio”
e a “venda”, diante da qual um negro boceja. (Qual
seria a ocupação deste negro? Teria ele um emprego?
Ou seria ele também mais um negro marginalizado
pelas condições econômicas do país e, principalmente,
pela sua condição racial?)
65
FAVELA Nº 2 trabalhadora. Mas tanto o Manuel quanto o “sordado”
são apresentados em seu momento de descanso: o
As janelas dos fundos se reuniram Manuel palitando os dedos e o “sordado” provocando
para ver o trem que vinha de São Paulo. a “negrinha catonga”. Ou seja, naquele momento,
nem o Manuel trabalhava na venda, nem o “sordado”
A paisagem enfeiou-se com borrões de fumaça. estava de serviço. Tudo ia devagar, como o sol que ia
“devagarzinho pela rua”, na vida besta do morro.
Correu um ventinho levanta-a-saia
Seu Manuel acocorou-se à porta da venda Curiosamente, há, em vários poemas de Urucungo,
para palitar os dentes. imagens de lentidão e indolência, como se, para o
sujeito poético criado por Raul Bopp, o mundo dos
A favela caiu na modorra. negros (pertença ele ao tempo dos escravos ou aos
anos 1920) fosse um espaço em que tudo passasse
Passou a negrinha catonga vagarosamente, preguiçosamente. Podemos pensar
se rebolando toda. que o contrário dessa vagareza é o apressado ambiente
urbano da cidade grande3, tão exaltado pela estética
Nesta rua cabe um rancho moderna, especialmente pelos futuristas, como se lê
e neste rancho você. no “Manifesto do Futurismo” (1909), de F. T. Marinetti:
Outro aspecto interessante do verso citado Já no “Favela nº 2”, temos também três personagens:
70
anteriormente é o fato de o Seu Manuel “palitar os Seu Manuel, o “sordado” e a “negrinha catonga”10. A
modorra da favela toma conta de todos (“A favela caiu sequência de consoantes bilabiais (/b/), linguopalatais
na modorra”). Ou de quase todos. (/k/) e linguodentais (/t/) mimetiza o ritmo e o som da
batucada no “largo pátio da fazenda”.
A “negrinha catonga”, aparentemente nada
modorrenta, passa rebolando (“Passa a negrinha Em “Dona Chica”, outra peça de Urucungo, a escrava
catonga / se rebolando toda.”) e cantando (“Neste rua negra de “dentes bonitos”, assim como a “negrinha
cabe um rancho / e neste rancho você.”). Antes, um verso catonga”, vai caminhando e cantando, para o ódio
anuncia a chegada da negrinha e o clima de erotismo de iaiá Chica: “Ai do céu caiu um galho / Bateu no
que toma conta da narrativa: “Correu um ventinho chão. Desfolhou” (BOPP, 2013, p. 226). Assim como a
levanta-a-saia”. A negrinha desfila sua sensualidade negrinha do “Favela nº 2”, a escrava negra conquista
na passarela do morro. Sensualidade que também a atenção de um homem (“- A sua escrava tem uns
encontramos em outros poemas de Urucungo, como dentes bonitos dona Chica. / - Ah o senhor acha?”).
no “Macapá”, em que se lê: “Negras regueiam num Mas, diferentemente da “catonga”, que é livre e pode
compasso lento / rebolando a bunda” (BOPP, 2013, usar sua sensualidade como forma de poder (a única
p. 232). (No poema “Marabaxo” (BOPP, 2013, p. 223), que parece lhe restar, diga-se), a escrava sofre terrível
há a ocorrência de uma palavra muito semelhante a violência: “[Dona Chica] Meteu um trapo na boca. /
“regueiam”: “Em preguiça lasciva / as fêmeas de carne Depois / quebrou os dentes dela com um martelo”.
sedosa / rengueiam em roda num balanço lento”. O Por fim, a escrava perde o sorriso e a dignidade, sendo
vocábulo “rengueiam” vem de “renguear” que significa obrigada a levar os restos de seus dentes numa “salva
mancar de uma perna. Haveria um erro tipográfico em de prata” ao “moço que está na sala”. A imagem é
“Macapá”? A versão correta deste poema seria “Negras terrível, assim como é terrível a vida de milhares de
rengueiam num compasso lento”? Temos “balanço brasileiros moradores de favelas que vendem seus
lento” e “compasso lento” e temos também dois sorrisos – seja dançando “passinho”, seja sambando na
verbos muito semelhantes. A possibilidade de haver Sapucaí – ao moço branco que está na sala vendo TV.
algum erro em “Macapá” é realmente grande.)
Voltemos, agora, aos outros dois personagens do
Outro poema que exala sensualidade é “Coco”, “Favela nº 2”: Seu Manuel e o “sordado”.
uma exaltação a Patrícia Galvão, poeta e musa do
modernismo, mais conhecida como Pagu11: “Toda gente Como já afirmamos, esses dois personagens aparecem
fica olhando / seu corpinho de vai-e-vem / umbilical e disputando a atenção da “negrinha catonga”. O
molengo / de não-sei-o-que-é-que-tem” (BOPP, 2013, “sordado” corteja a moça (“- Onde tu vai fulorzinha?
p. 237). Acreditamos que a lenta malemolência da / cinturinha piquininha”12) e o Seu Manuel fica
personagem é representada fisicamente, no poema, contrariado (“Seu Manuel fechou a cara”). Desse
pela sequência de sons nasais que percorrem toda a embate, o “sordado”, que “cuspiu grosso”, sai
peça: “gENte”, “olhANdo”, “corpINHo”, “vai-e-vEM”, vitorioso. Mas por que a Raul Bopp interessou retratar
“UMbilical”, “molENgo”, “nÃO-sei-o-que-é-que- esse conflito? Seu Manuel, pequeno proprietário de
tEM”. Esse procedimento de “harmonia imitativa” uma “venda” no morro, poderia ser considerado o
podemos encontrar em vários outros poemas de representante do capital; e o “sordado de cavalaria”,
Raul Bopp, como neste verso de “Urucungo” (p. 219): seria o representante do Estado e da ordem. Por que
71
“num soturno bate-bate de atabaque de batuque”. A o Estado venceria o capital? É claro que, aqui, não
se trata do “grande capital”, mas de um modesto da cintura fina
negociante. E também o “sordado” não é sequer, com cheirinho de sol
como indica a palavra, um oficial. Portanto, temos e sovaco lavado.
um conflito entre dois representantes das escalas
mais baixas de suas respectivas classes, localizados Mexe-mexe mexidinho
ambos em um ambiente marginalizado econômica Machuca mais.
e socialmente. Ou seja, temos um embate entre dois
sujeitos com pouquíssimo poder, disputando a atenção Tique-tchim Tique-tchim
de uma moça negra moradora da favela, a qual, devido Tique-tchim Tique-tchim
a essas condições sociais, possui ainda menos poder
do que aqueles outros dois homens (como vimos, o Negro inchou o corpo
único “poder” da moça é a sua sensualidade). Então, e resvalou a cabeça prum lado.
voltamos à pergunta: por que a Raul Bopp interessou
retratar o conflito entre esses dois homens? - Aí, Fulorzinha!
Portanto, no poema “Favela nº 2 (samba)”, publicado ______. Nova Reunião: 23 livros de poesia – vol. 3 / Carlos
em 1932 e escrito durante os anos 1920, quem “dava Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2009.
as ordens no terreiro” (Gilberto Gil dixit14) era o negro
e não o “sordado”. Aliás, como acontece no poema ANDRADE, Oswald. Cadernos de poesia do aluno Oswald
supracitado “O capoeira”, de Oswald de Andrade, (Poesias Reunidas). São Paulo: Círculo do Livro, 1985.
também escrito nos anos 1920.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira / Manuel Bandeira.
Se, no poema publicado em 1941, o “sordado” poderia 20ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
representar a opressão varguista, no “Favela nº 2
(samba)”, o negro, com sua imensa risada, poderia BERNARDINI, Aurora Fornoni (org.). O Futurismo Italiano:
simbolizar a resistência do povo negro contra a miséria manifestos. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1980.
e a opressão social e econômica.
73
BOPP, Raul. Poesia completa de Raul Bopp. Org. Augusto As costureirinhas só gostam de andar de automóvel
Massi. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013. / E de jogadores de futebol. [...] São Paulo é tão
diferente do resto do Brasil! / Parece que a cidade foi
CAMILO, Vagner. Poemas negros: um diálogo poético de feita de encomenda na Casa Sloper...” (BOPP, p. 122).
Jorge de Lima e Gilberto Freyre. In: Revista USP, São Paulo, Tudo indica realmente que Raul Bopp preferia o mato-
n.59, p. 224-231, setembro/novembro 2003. virgem macunaímico à selva de pedra paulistana.
CAMPOS, Augusto. Pagu: vida e obra. São Paulo: Companhia 4 Afirma Jorge Schwartz: “A contaminação cinema-
das Letras, 2014. literatura produz-se pela adaptação de técnicas em que
a narração se sucede rapidamente e em que a sintaxe
FERREIRA, Eliana M. A. R. P. O antropófago Raul Bopp: mimetiza os processos de montagem cinematográfica”
escolhas estilísticas em Cobra Norato e Urucungo. 2015. 231 (SCHWARTz, 1983, p. 66).
f. Tese. FFLCH-USP. São Paulo, 2015.
5 Sobre o “camera eye” oswaldiano, ver o artigo de
LIMA, Jorge de. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Haroldo de Campos, “Uma poética da radicalidade”,
Fronteira, 1980, vol. I. apud ANDRADE, 1985, p. 15-17.
SCHWARTz, Jorge. Vanguarda e cosmopolitismo na década 6 Afirma Augusto Massi, na “Introdução” a Poesia
de 20: Oliverio Girondo e Oswald de Andrade. São Paulo: Ed. completa de Raul Bopp: “Bopp soube beber nas fontes
Perspectiva, 1983. míticas da tradição africana, nas ricas camadas
sonoras da música que enforma festas religiosas
e, principalmente, cantos de trabalho. Além de o
próprio título aludir a um instrumento musical, o livro
Notas apresenta uma gama variada de registros sonoros [...]”
(apud BOPP, 2013, p. 29).
1 DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamazov.
Tradução, posfácio e notas de Paulo Bezerra; desenhos 7 No poema oswaldiano “Noite no Rio”, também
de Ulysses Bôscolo. São Paulo: Ed. 34, 2008, p. 162. se verifica a técnica da antropomorfização: “Árvores
sem emprego / Dormem de pé”. Nesse mesmo poema,
2 Sobre o valor semântico dos sons, ver o capítulo lemos: “Há um milhão de maxixes / Na preguiça”
“O som no signo”, in: BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da (ANDRADE, 1985, p. 147). Aqui, há a presença da
poesia. São Paulo: Editora Cultrix, 1983. música, como no “Favela nº 2”, e da “preguiça”, que
lembra a modorra presente nos dois poemas boppianos
3 Falando em cidade grande, lembramos do ora analisados.
poema “São Paulo”, publicado em 1929, em que Bopp
trata a cidade de forma irônica, com um humor bem
oswaldiano, bem “pau-brasil”. Eis alguns trechos: 8 Esses versos nos recordam o famoso poema
“São Paulo é uma cidade que tem casa mas não tem drummondiano “Poema de sete faces” (ANDRADE,
rua. [...] A gente não pode sonhar direito / Porque só 2009, vol. 1, p. 9): “As casas espiam os homens /
74 que correm atrás de mulheres”. Porém, enquanto,
encontra anúncio e soldados por todos os cantos. [...]
em Drummond, as “casas” observam os homens e
revelam a vida interiorana e seus costumes, no poema 13 Não nos esqueçamos que Bopp inicia sua vida de
boppiano, as “janelas” observam o trem, o signo do diplomata em 1932, indicado pelo “amigo” Vargas, o
progresso e do mundo urbanizado.
que justificaria essa crítica dissimulada ao governante
brasileiro. Augusto Massi afirma, na seção “Cronologia
9 Estampado no livro de contos Sagarana: ROSA, da vida e da obra” de Poesia completa de Raul Bopp:
João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Livraria “1932. De volta ao Brasil, [Bopp] torna-se amigo do
José Olympio Editora, 1974, p. XXV-XXVII. presidente Getúlio Vargas, que o nomeia Encarregado
do Consulado, em Kobe, Japão. Bopp assume o posto
10 Segundo Eliana Ferreira (FERREIRA, 2015, p. no dia 2 de agosto” (apud BOPP, p. 80).
165), em sua tese de doutorado: “A lexia catonga evoca
a sonoridade da língua africana e significa lagartixa, 14 Em 1977, Gil lança o belíssimo disco Refavela,
ser que se caracteriza pelos movimentos rápidos e de temática negra. Sobre esse disco, ver http://www.
deslizantes, o que aproximaria, então, o movimento da gilbertogil.com.br/sec_disco_interno.php?id=13.
lagartixa do rebolado”.
Posto isso, sabemos que a Semiótica Discursiva Dado o conceito de figura e tema, como saber que
compreende que o texto lírico é tecido por uma trama tema é atrelado às figuras de um texto? Ora, não são
de subjetividade, própria da construção poética em figuras avulsas que revelam o sentido do texto, mas a
que figuras e temas se correspondem na construção de correlação de figuras é que conduz o leitor ao tema.
sentido do texto. Com base na Semiótica Discursiva, Denomina-se percurso figurativo o conjunto de figuras
destacaremos para esta análise as figuras responsáveis aos quais subjaz um tema.
pela construção de um efeito de sentido. Como
definição de figura, nos baseamos no pensamento de Ler um texto não é apreender figuras isoladas,
semioticistas, tais como Diana Pessoa Luz de Barros, mas perceber relações entre elas, avaliando a
que, sobre figuratividade, descreve-a como sendo trama que constituem. A esse encadeamento
“relacionada ao(s) elemento(s) do mundo natural, o de figuras, a essa rede relacional reserva-
que cria no discurso, o efeito de sentido ou a ilusão da se o nome de percurso figurativo. No texto
realidade” (BARROS, 2008, p. 87). verbal, um conjunto de figuras lexemáticas
relacionadas compõem um percurso
Desse modo, por figuras, compreendemos o nível mais figurativo (FIORIN, 2005, p. 97).
concreto do texto, em que os semas apontam para a
construção de uma semiose voltada para o mundo da Importante ressaltar, ainda, o caráter pluri-isotópico
realidade comum; enquanto os temas tratam do nível das estratégias discursivas do texto-poético, já que as
mais abstrato relacionados com os valores subjacentes “figuras de linguagem” são conectores de isotopias. Victor
à figuratividade. Aqui, concreto e abstrato não são Manuel Aguiar e Silva (1999, p.229) defende que: “O texto
dicotomias fixas, mas níveis aos quais a palavra pode literário é plurissignificativo ou pluri-isotópico, porque
pertencer de acordo com o propósito do texto. A ver: nele o signo linguístico, os sintagmas, os enunciados, as
microestruturas e as macroestruturas são portadores
dependendo do grau de concretude dos de múltiplas dimensões semânticas, tendem para uma
elementos semânticos que revestem os multivalência significativa, fugindo da univocidade”.
esquemas narrativos, há dois tipos de texto: A simbologia intrínseca a este tipo de construção está
os figurativos e os temáticos. Os primeiros presente no trabalho de Rachel, e com o auxílio dos
criam um efeito de realidade, pois constroem estudos semióticos contemplaremos aspectos pertinentes
um simulacro da realidade, representando, à reflexão sobre o universo de valores desta lírica.
dessa forma, o mundo; os segundos procuram
explicar a realidade, classificam e ordenam
a realidade significante, estabelecendo A expressão da cultura popular em “Saudações I”, de
relações e dependências. Os discursos Rachel de Queiroz
figurativos têm uma função descritiva ou
representativa, enquanto os temáticos têm “Saudações I”, juntamente com “Saudações II”,
uma função predicativa ou interpretativa. compõe o dueto de poemas dedicados a pessoas
81
importantes para Rachel de Queiroz. Assinados por ela
mesma, esses poemas apelam para valores e temas Outro destaque no poema é a apropriação esporádica de
associados ao telurismo, ora apresentando sua terra a um léxico relativo ao popular, sendo possível perceber
uma escritora visitante, como ocorre no primeiro em a conjunção de tipos distintos de linguagens em
homenagem a Maria Eugênia Celso, ora celebrando “Saudações I”. O eu lírico, de modo geral, apresenta uma
uma festa no retorno de José Carvalho às terras fraseologia sem traços regionalistas persistentes, mas
alencarinas, em 1930. com algumas exceções, a exemplo de “alumia”, presente
no terceiro verso da segunda septilha, vocábulo comum
Em “Saudações I” teremos referência ao clima, a na cultura nordestina, que se refere a acender. Contudo,
lugares cearenses, a hábitos e até mesmo a comidas quando o mesmo eu lírico concede a voz a outrem, essa
típicas. Ana Miranda, responsável pelo prefácio de oralidade destaca, de forma mais explícita, o popular,
Serenata, afirma que: “Os poemas foram escritos como nos versos: “Que a gente diz, conformada: /
num momento de escolha entre a alma telúrica e a ‘Desgraça pouca, é tiquim!...’”, a palavra “tiquim” se faz
alma melindrosa, ecos das lembranças antigas de presente no vocabulário regional, usada para se referir a
uma família rural no espírito de uma menina a viver algo em pequena quantidade, o que é escasso.
na cidade” (QUEIROz, 2015, p. 15). Ainda conforme as
palavras de Ana Miranda, Serenata apresenta “Poemas Marginalizada por uma parte da população, a
com vocação popular, por seus versos ingênuos, que linguagem popular faz parte da cultura e da própria
tocam diretamente ao nosso coração. Quem não identidade das pessoas das regiões específicas
haverá de declamar ‘Saudação’ a um visitante que relativas às designações do poema. Paul zumthor em
adentra uma casa cearense?” (QUEIROz, 2015, p. 16). seu estudo acerca da letra e da voz, ao percorrer todo o
passado medieval da oralidade, nos diz que:
Elaborada em dez estrofes, alternando em sete e
quatro versos, a lírica apresenta rimas trabalhadas É “poesia” aquilo que o público, leitores
na seguinte construção: ABABCCA, nas estrofes de ou ouvintes, recebe como tal, percebendo
sete, e ABAB nos quartetos, com isso, veremos que o ou atribuindo a ela uma intenção não
poema se distinguirá do cordel tradicional, uma vez exclusivamente referencial: o poema é
que apresenta septilhas, estrutura mais incomum na sentido como manifestação particular, em
literatura popular, posto que comumente utilizam-se certo tempo e lugar, de um vasto discurso
as sextilhas. Essas duas modalidades de estrofação que, globalmente, é uma metáfora de
que vêm alternadas são características das convenções discursos comuns mantidos no bojo do grupo
poético-discursivas da nordestinidade. No entanto, é social (zUMTHOR, 1993, p. 159).
possível dialogar uma finalidade comum entre ambas
as produções, o que é comprovado pelo caráter oral da Apresentada por meio das septilhas e dos quartetos, o
poesia. O cordel possui sua manifestação relacionada poema “Saudações I” possui como temática central uma
intrinsicamente à oralidade, elaborada com um apresentação da terra natal da escritora dirigida a uma
ritmo e uma métrica própria para ser recitada. O visitante. Podemos verificar esta informação logo no
poema “Saudações I” ostenta o mesmo fim, o de ser primeiro parágrafo que, se aproximando da oralidade, diz:
declamado, e esta informação, inclusive, é apontada
em nota na obra. Visitante bem querida,
82
Pode entrar, a casa é sua...
Ah! é tão bom, nesta vida, condução mencionada em poemas de outros poetas,
Abrir a porta da rua a exemplo do próprio Juvenal Galeno, que compôs
Como quem abre um braço esses belos versos: “Minha jangada de vela, /Que vento
Dizendo assim, como o faço: queres levar?/ Tu queres vento de terra,/Ou queres
- Entre a gosto, a casa é sua!.. vento do mar?” (AzEVEDO, 1976, p. 40).
AGUIAR E SILVA, V. M. Teoria e metodologia literárias. Lisboa: DOMINGUES, Petrônio. Cultura popular: as construções
Universidade Aberta, 1999. de um conceito na produção historiográfica. In: História (São
Paulo) v. 30, n.2, p. 401-419, São Paulo, 2011. Disponível em:
ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. A invenção do Nor- http://www.scielo.br/pdf/his/v30n2/a19v30n2.pdf Acesso em
deste e outras artes. 4ª ed. Recife: FJN; Ed. Massangana; São 28/02/2018.
Paulo: Cortez, 2009.
FIORIN, José Luiz. Elementos da análise do discurso. 2ª ed.
AzEVEDO, Sânzio. Literatura Cearense. Fortaleza: Publica- São Paulo: Contexto, 2014.
ção da Academia cearense de Letras, 1976.
GREIMAS; COURTÉS. Dicionário de Semiótica. São Paulo:
BARROS, Diana Luz Pessoa de. Teoria semiótica do texto. São Contexto, 2012.
Paulo: Editora Ática, 2008.
QUEIROz, Rachel. Serenata: Poesias. Fortaleza, Armazém
BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. Tradução de cultural: 2010.
Denise Bottmann. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
STEGAGNO-PICCHIO, Luciana. História da literatura brasilei-
CHARTIER, Roger. Cultura popular: revisitando um conceito ra. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.
historiográfico. Estudos Históricos, n.16, Rio de Janeiro,1995.
zUMTHOR, Paul. A letra e a voz: A “literatura” medieval. Tra-
COSTA, Cristina. Sociologia: Introdução à ciência da socieda- dução de Amálio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. São Paulo:
de. São Paulo: Moderna, 2005. Companhia das letras, 1993.
89
drummond:
uma poética
entre e por aporias
Drummond: a poetic between and by aporias
______. et al. Pau Brasil. São Paulo: DAEE, n. 13, ano III, 1986.
103
diante da imagem,
um poema:
sobre “o burro e o boi no presépio”
de João guimarães rosa
Before the image, a poem: on “The ass and the ox in the nativity scene” by João Guimarães Rosa
Assim como Rosa, Fra Filippo Lippi coloca o boi e duas rimas no poema, as duas são toantes, uma interna e
o burro como protagonistas da história: ocupam o outra externa. A maior parte dos versos é regular e todos
centro do quadro e “obscientes”, estão diante de e coincidem com os grupos de força.
cientes do milagre que observam. São quase maiores
do que a Família. Além dos anjos, somente eles, Observa-se também um poderoso efeito rítmico que
iluminados como as estrelas, alegres, fortes e grandes, resulta da repetição do mesmo conjunto de células
mas desarmados e indefesos, testemunham a imensa métricas nos versos 2, 3 e 5 (um pé anfíbraco seguido
história que aqui se inicia. de um troqueu indicados em cinza claro) intercalado
por outro conjunto, um acento tônico no começo do
A individualidade sonora do poema é dada pelas grupo sonoro, seguido de um péon 4o (em azul escuro).
aliterações em “s” (embora poucas no início das Esse ritmo é quebrado nos dois últimos versos pela
palavras), pelas assonâncias em “i”, que vão cedendo sequência de cinco pés jâmbicos (em cinza escuro).
gradativamente lugar ao “o”, e pelas sílabas átonas Também se nota que em quatro dos nove versos, os
homofônicas “as”, “es” e “os”, que se repetem ao longo acentos recaem sobre a 2a e a 4a sílaba e três têm
das estrofes. Nas duas últimas estrofes, a maior parte acentos na 1a e 3a sílaba.
das assonâncias em “i” não aparece na sílaba tônica mas
três palavras começam por esta vogal. Na última estrofe O primeiro verso da 3a estrofe, o maior do poema (um
108 encontramos assonâncias em “o” e destacam-se aquelas dodecassílabo), marca a mudança no caráter descritivo
em “a” do início dos dois últimos versos. Há somente das duas primeiras estrofes para o narrativo da última
estrofe, passando da enumeração de adjetivos e V
substantivos que descrevem o boi e o burro para o papel
que eles desempenham na história. Diferentemente da
maioria das cenas que retratam o nascimento de Jesus,
naquela tela a Família está acompanhada somente pelo
boi e pelo burro, além dos anjos. As aliterações em “s”
nas palavras que iniciam os dois primeiros versos da
última estrofe, “Sós” e “são”, concedem uma unidade
à narrativa que contam (Lucas 2,7): “ela deu à luz o
filho primogênito. Envolveu em panos e o deitou numa
manjedoura, por não haver lugar na hospedaria.” Ou seja,
foram os animais que primeiro hospedaram a Família.
Nota-se ainda que o adjetivo “inermes”, no centro do
poema, também desempenha importante função, pois
faz uma contraposição semântica aos adjetivos “fortes”
e “grandes” e, sonoramente (aliterações em i), prenuncia
a “imensa história” que virá em seguida.
Domenico Ghirlandaio, Adoração dosTrês Reis, 1488, Florença, Spedale degli Innocenti
(agora na Galeria Uffizi)
109
Serão os pajens da Virgem, -/-/--/- || 2-4-7
ladeiam-na -/-- 2
como círios de paz, --/- -/ || 1-3-6 anapesto
colunas -/- 2
sem esforço. --/- || 3 anapesto
Sua franqueza comum equilibra frêmitos e gestos --/- -/ --/- /---/- || 3-6-9-11-15 anapestos
Diferentemente do quadro anterior, nessa tela o boi Já na segunda estrofe, o poema torna-se mais sombrio.
e o burro cedem o centro à Virgem Maria, ladeando- Este aspecto é delineado pelas aliterações mais duras
na como pajens. O campo semântico formado pelas da consoante “t”, pelas assonâncias em “u” e pela
palavras “pajens”, “ladeiam-na” e “circunstantes” proximidade semântica e sonora das palavras “taciturno”
remetem exatamente ao que está à volta ou ao lado e e “obscuro” com escuro (rima toante). Sobre a importância
também à relação destas com círios e colunas. do obscuro, vale a pena citar o que disse sobre o tema
o próprio Rosa, em entrevista concedida a Curt Meyer-
As alterações nos aspectos sonoros e rítmicos ao longo Clason, seu tradutor para o alemão.
do poema acompanham as mudanças no clima de cada
estrofe. Na primeira delas, a unidade sonora é dada O Corpo de Baile tem que ter passagens
pelas aliterações em “s”, repetição dos fonemas “pa” e obscuras. Isto é indispensável. A excessiva
“co” e assonâncias nasais “em” (pajens, virgem, sem). iluminação, geral, só no nível do raso, da
Os animais aparecem como pajens da Virgem num vulgaridade. Todos os meus livros são
110
ambiente de paz. simples tentativas de rodear e devassar um
pouquinho o mistério cósmico, esta coisa A força rítmica é dada pela repetição de 8 anapestos
movente impossível, perturbante, rebelde a (marcados em cinza) e pelas células mais longas do último
qualquer lógica, que é chamada “realidade”, verso, dois péons 4os (azul), quando se dá o fechamento
que é a gente mesmo, o mundo, a vida. do poema com “os animais de boa-vontade”, compondo
Antes o óbvio, que o frouxo. Toda lógica um interessante jogo com o famoso versículo 14 do
contém inevitável dose de mistificação. Cap. 2 do Evangelho de São Lucas que, em algumas
Toda mistificação contém uma boa dose de traduções para o português, trazem “...e paz na terra
inevitável verdade. Precisamos também do entre os homens de boa vontade”.
obscuro. (MEYER-CLASON, 2003, p. 238).
VIII
A redução gradual do número de versos nas duas
primeiras estrofes culmina com um verso curto, de
apenas duas sílabas (“se absorvem”), que precede o
início da 3a estrofe que tem o maior verso do poema,
com 15 sílabas e aliterações em “fr”. Este efeito, aliado
à substituição gradativa dos fonemas nasais “em” por
“an” (animais, franqueza), sinaliza o novo momento
do poema que, a partir daí, exalta as qualidades dos
animais. O burro e o boi, com sua franqueza e boa-
vontade, absorvem as iniquidades e destemperos dos
homens tais como se vê em o Massacre dos Inocentes
retratado na parte superior esquerda do quadro e, visto
aqui embaixo em detalhe.
111
A fábula de ouro, o viso, o -/--/-||-/-||- 2-5-8 jâmbico + anapesto
Céu que se abre, /--/- || 1-4
chamaram-nos -/-- 2
de seu sono ou senso sem maldade. --/-/---/- || 3-5-9
Tão ricos de nada ser, \/--/-/ || 2-5-7
tão seus, somente. \/ ||-/- || 2-4
de um momento. --/- || 3
Sabem. /-|| 1
Nada aprendem. /-/-|| 3
(ROSA, 1983, p. 18)
Observa-se que, na primeira estrofe, há versos de três, em “s”, que perpassam todo o poema, lembram palavras
dois e um acento repetindo o recurso de redução do semanticamente correlatas como simples, singelo,
número de acentos e sílabas entre o primeiro e terceiro somente, só, que fazem referência ao boi e ao burro.
verso (de sete para duas sílabas) e entre o quarto e o As homofonias em “se” e “so” dão uma certa coesão
sexto verso (de nove para quatro sílabas). A redução na à estrofe, bem como a repetição do padrão rítmico
quantidade de acentos e sílabas acompanha o caminho jâmbico mais anapesto. O último verso é composto por
semântico da estrofe que começa por ressaltar a riqueza dois grupos de força e aqui salta aos olhos a decisão
da cena retratada e termina com a singeleza dos animais deliberada do poeta de não separá-los em dois versos,
que, por sua vez, são “ricos de nada ser”. O ouro trazido evitando que “somente” ficasse sozinho.
pelos magos, o ouro da moldura e o que está presente
em vários detalhes no quadro se contrapõe à riqueza do Na segunda estrofe, a ideia da habilidade de conter-se
112
nada dos animais. As assonâncias em “o” e as aliterações num determinado espaço é expressa pela equivalência
do número de acentos dos dois primeiros versos (dois Neste caso, teríamos dois versos com o mesmo tamanho
acentos cada) e pela repetição das mesmas células (trissílabos) e acentos na primeira e na terceira sílabas.
métricas, só que com a ordem invertida (um anfíbraco Mas seria muito óbvio: a supressão de “tudo” enriquece
e um anapesto). Nos 3o e 4o versos, há um enjambement o sentido do poema. O que sabem os animais? Seriam
formando um grupo de força de 10 sílabas, coerente mais sábios do que os homens? Não aprendem porque
com o sentido semântico da “grandeza” do momento são incapazes de aprender ou porque já sabem tudo?
que o poema narra. Não são eles capazes, como se afirma na segunda
estrofe, de guardar a grandeza do momento? Seriam os
Nas duas últimas estrofes, há uma substituição do homens que ladeiam o Menino Jesus também capazes
padrão do ritmo jâmbico pelo troqueu que, combinada de guardar essa grandeza? Ou trazem eles apenas muito
às aliterações mais duras em “c-q” de “t”, interrompem ouro e riquezas e ainda maldade?
a fluidez inicial do poema, refletindo a imagem de
contemplação e quietude dos versos.
XVII
113
Hugo Van Der Goes, Adoração dos Pastores (Painel central do altar Portinari), entre 1476 e 1479. Florença, Galeria Uffizi.
Onde se aviva a doçura /- -/- -/- 1-4-7 troqueu + anfíbracos
de um pouco de úmido e relva; -/- -/- -/- || 2-5-8 anfíbracos
de alma? -/- || 2
a Virgem. -/- || 2
114
Anfíbracos (marcados em cinza escuro) e troqueus XX
(marcados em cinza claro) marcam o ritmo do poema.
Dos dezenove versos, seis são de duas sílabas, quatro
são redondilhas maiores, quatro redondilhas menores;
muitos versos têm um acento tônico na 5a sílaba. Há
somente um pé jâmbico (marcado em amarelo). As
assonâncias em “a” da primeira estrofe, que adoçam
e ressaltam o brilho da luz do Menino Jesus, dão lugar
à tensão entre a escuridão das assonâncias em “u”
e a dureza dos fonemas com “t” com a luz que os
“circunfulge”, consistentes com as oposições semânticas
entre intactas x afeto, rudes x ternos x anteparos.
115
Cabem /- 1
definitivos. ---/- || 4
Só eles podem /--/- || 1-4
De ronda e todo aproximar-se. -/-/- --/- || 2-4-6
São eles, o boi e o burro que estão mais próximos a Jesus; da obra em prosa de Guimarães Rosa. A partir de uma
apenas eles podem entender o milagre e traduzi-lo leitura cuidadosa do primeiro parágrafo do texto “Uns
para os humanos. São eles, mais uma vez, que ocupam inhos engenheiros” (ROSA, 1985, p. 54) com as mesmas
o centro do quadro, sendo os protagonistas da história ferramentas utilizadas para o estudo dos poemas, é
para Bosch, Fra Fillipo Lippi e Rosa. A sobriedade do possível perceber a estrutura poética da prosa roseana e
poema acompanha a sobriedade do quadro. vislumbrar as razões pelas quais o som de sua linguagem é
matéria vertente de poesia na sua produção literária.
Esse é um dos textos mais regulares do conjunto. Os
versos são livres, mas sempre múltiplos de quatro: 1, 4, Para fins de análise, os versos foram quebrados de acordo
8 e 12. O verso decassílabo no meio de dois octossílabos com os grupos de força, e as estrofes foram agrupadas a
exatamente iguais (incluindo a homofonia das palavras partir da proximidade semântica dos versos.
acabadas em “se”) e o recurso da expansão nos primeiros
três versos dão uma grande uniformidade sonora e
rítmica à poesia. Parecem reforçar a regularidade das Uns inhos engenheiros
linhas do quadro: uma diagonal, que vai do chifre do boi
alinhado ao manto da virgem; outra perpendicular, que ONDE EU ESTAVA ali era um quieto. O ameno âmbito,
marca o centro e desce pelo rosto da virgem, pela orelha lugar entre-as-guerras e invasto territorinho, fundo
e pelo focinho do burro, que apontam como setas para o de chácara. Várias árvores. A manhã se-a-si bela:
Menino Jesus. A imagem gráfica do poema se assemelha alvoradas aves. O ar andava, terso, fresco. O céu –
ao perfil do boi à esquerda do quadro. uma blusa. Uma árvore disse quantas flores, outra
respondeu dois pássaros. Esses, limpos. Tão lindos,
meigos, quê? Sozinhos adeuses. E eram o amor em sua
3. A poesia na prosa de Rosa: Uns inhos engenheiros forma aérea. Juntos voaram, às alamedas frutíferas,
voam com uniões e discrepâncias. Indo que mais iam,
116 Por fim, não seria possível concluir este trabalho sem voltavam. O mundo é todo encantado. Instante estive
uma análise, ainda que superficial, de um pequeno trecho lá, por um evo, atento apenas ao auspício.
ONDE EU ESTAVA ---/- 4
ali era um quieto. -/--/- 2-5
O ameno âmbito, -/-/-- 2-4
lugar entre-as-guerras -/--/- 2-5
e invasto territorinho, -/----/- 2-7
fundo de chácara. /--/-- 1-4
Nesse pequeno excerto de prosa roseana, os versos são um instante, por um evo. Ali nidificam seus ninhos,
polimétricos, quase todos são regulares, com acentos enquanto aqui o poeta nidifica palavras.
localizados em posições definidas por regras métricas
tradicionais.
4. Considerações finais
Nota-se que a sonoridade do texto é bastante
elaborada. As assonâncias em “i” e aliterações em Como se pode notar nas análises acima, Guimarães
“s” remetem aos inhos do título e a passarinhos, Rosa domina e usa com maestria os recursos poéticos,
protagonistas da narrativa. Na primeira estrofe, as com destaque para os efeitos sonoros e rítmicos que
aliterações em “t” remetem à ideia de quietude e paz se sobressaem dos demais e conferem aos textos uma
do lugar “entre-as-guerras”. A unidade rítmica desta grande musicalidade. Escrevendo em versos, o escritor
estrofe é dada pelo grande número de acentos na faz de seus poemas um verdadeiro laboratório para a
segunda sílaba. sua prosa.
Já na segunda estrofe, os acentos recaem nas sílabas A escolha do boi e do burro como tema desse conjunto
ímpares (1,3,5) e as assonâncias em “a” sugerem a de poesias é coerente com a centralidade que os animais
claridade e frescor da manhã. O pretérito imperfeito têm na sua obra e com a importância que o escritor
das duas primeiras estrofes é substituído pelo pretérito atribuía aos mesmos como fonte de conhecimento e
perfeito na terceira, quando se dá um inusitado diálogo entendimento do mundo, Rosa estende aos animais e
entre as árvores. Depois o tempo verbal volta para o às plantas uma poesia pensante. São eles que melhor
imperfeito coincidindo com a volta ao caráter descritivo compreendem o milagre no nascimento de Jesus, antes
do texto. Na terceira estrofe, a única que não contém e mais do que os homens: o boi e o burro, protagonistas
versos regulares, destaca-se a proximidade sonora que obscientes, cedem à imensa história do mundo, o que
se estabelece entre grupos de palavras: eram/amor/ sabem, sem aprender.
forma/aérea; voaram/voam/voltavam (rima toante:
voaram/voltavam); e indo/iam.
LEONEL, Maria Celia. Guimarães Rosa: Magma e Gênese da 1 Cores e códigos utilizados na análise dos poemas:
obra. São Paulo: UNESP, 2000.
Negrito: assonâncias Vermelho: aliterações
LORENz, Günter. Diálogo com Guimarães Rosa. In: Coutinho, Itálico: rimas
E. Coleção Fortuna Crítica 6: Guimarães Rosa. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1983. / sílaba longa - sílaba breve
MEYER-CLASON, Curt. Correspondência com seu tradutor -/ pé jâmbico: uma sílaba breve e uma longa
alemão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
/- pé troqueu: uma sílaba longa seguida de uma
NIETzSCHE, Friederich. Segunda consideração intempestiva: da breve
utilidade e desvantagem da história para a vida. Tradução: Mar-
co Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003. --/ pé anapesto
ROSA, João Guimarães O burro e o boi no presépio. Rio de Ja- /-- pé dáctilo
neiro: Salamandra, 1983.
-/- pé anfíbraco: duas sílabas breves e uma
______. Ave, palavra. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985. longa no meio
______. Magma. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997. ---/- péon 4o: três sílabas breves, uma longa e uma breve
|| cesura
119
João Cabral de Melo Neto:
o lirismo de um
“Poeta sem Alma”
João Cabral de Melo Neto: the lyricism of a “Poet without Soul”
João Cabral de Melo Neto, modernist poet of Generation Não obstante, JCMN, de modo audacioso, se deu a
of ‘45, is considered an anti-lyric poet par excellence. His missão de propor um novo modelo do fazer poético,
poetic project is oriented by an aesthetic based on the que foi excepcionalmente único e ímpar na poesia
objectivity, concreteness and rationality, so that his poetry brasileira. Não desconsiderando as influências
is essentially rooted in the exterior reality. However, this das inovações técnicas e formais do movimento
work intends to contest the criticism and the conventional modernista sobre sua poesia, JCMN, para engendrar
analyses about him, based on the analysis of poem Forte o seu estilo peculiar e construir a sua monumental
de Orange, Itamaracá, in order to reveal another prism, obra, não afiliou-se acriticamente à uma tradição
perhaps unsuspected, but certainly surprising. Through poética já consagrada na poesia brasileira, nem adotou
a symbolic way of analysis and interpretations, it aims to os moldes artísticos por ela ditados: pelo contrário,
reveal (to uncover, to unveil) the singular lyricism of this JCMN representou a oposição, e, numa espécie de
recifense poet, a sui generis lyricism in the Brazilian poetry. insurreição poética, se pôs na contramão, sendo a
For this, the analysis is theoretically supported by Antonio antítese fundamental de certa vertente poética que
Carlos Secchin (2007), Marta Peixoto (1983), Tzvetan o antecedeu, a qual era marcada excessivamente
Todorov (1979), Mario Ferreira dos Santos (1959; 2000), pela subjetividade, o sentimentalismo exacerbado, o
among others. On the threshold between the lyricism and individualismo ostensivo, entre outras coisas.
anti-lyricism, João Cabral de Melo Neto’s poetry is multi-
semantic: loaded with tensions and senses, as it transits Assim, de modo dialético e conflituoso, o poeta erigiu
through these two fields of poetic language. a sua obra, que já é absolutamente consagrada. Como
coloca Merquior (2007, p. LX), JCMN é “de fala quase
inteiramente única, jeito na linguagem ainda não
Keywords dado”. De igual modo, Secchin (2007, p. XIII) afirma
que, em face da poesia brasileira, “autores como João
Lyricism; João Cabral de Melo Neto; Forte de Orange, Cabral, em vez de acrescentarem um capítulo, logram
Itamaracá; Symbol criar uma outra gramática”.
121
Contudo, a uma primeira leitura, rápida, desatenta, Dessa forma, as configurações rítmicas e sonoras
dessa “nova gramática” feita em verso, ocorre “certo absolutamente diferentes das de outros poetas, entre
desconforto para o leitor [...]. A tendência inicial será de outras características singulares de JCMN, parecem
recusa” (SECCHIN, 2007, p. XIII). Isso contribuiu ao fato confirmar o fato de que ele não pode ser jamais um
de JCMN ser um “poeta muito valorizado, mas talvez lírico, nem demostrar qualquer dimensão subjetiva
insuficientemente lido na sua complexidade” (p. XIII). ou emotiva em sua poesia. Considerando isso, este
trabalho pretende contribuir para desmistificar esta
Sua poética assoma de modo díspar no cenário nacional. imagem ou julgamento errôneo construído em torno
Para exemplificar, sua poesia, entre outras coisas, dele, a saber, o de que era um poeta excessivamente
representa uma ruptura com o tipo tradicional de racionalista e objetivo, um “poeta sem alma”
melodia na poesia brasileira: ao longo de sua obra, JCMN (CASTELO, 2006) fechado num mundo frio e apático
prefere fazer uso da rima toante ao invés da rima soante, que não seria transcendental nem que pudesse
que é considerada a mais melódica e tradicional na lírica manifestar qualquer forma de lirismo.
em português (SECCHIN, 2007, p. XVIII). A melodia
deslizante não é empregada por este poeta: ele prefere Sim, JCMN considera o fazer poético como algo
o verso áspero e duro. Além disso, JCMN “não recorre a profissional, racional e técnico; guiado pelo rigor na
nenhuma retórica” (MERQUIOR, 2007, p. LIX), “declara escrita, é comparado ao engenheiro, um engenheiro das
guerra à melodia, por considerá-la entorpecente, fonte palavras que busca construir uma estrutura funcional
de distração” (SECCHIN, 2007, p. XV), e, ao invés do da máquina do poema, entretanto, uma “máquina
envolvimento sonoro das vogais, que estão associadas de comover” (NUNES, 1971, p. 41), mas na superfície
“à tradição melódico-vocálico” (SECCHIN, 2007, p. XV), da qual não despeja qualquer sentimentalidade ou
o poeta prefere a aspereza das consoantes. emotividade de modo explícito.
Assim, por esses e outros fatores, formou-se a ideia de Somando-se à breve introdução a JCMN, Merquior
que sua poesia seja hermética, complexa e difícil. Isso se (2007, p. LXII) traz importantes apontamentos sobre as
dá pelo fato de ela constituir-se de modo radicalmente particularidades e atributos do poeta recifense:
diferente da poesia usual. Tal percepção equivocada
instalou-se pelo fato de JCMN ter lançado uma nova Como sou o menos passivo dos poetas... estas
poética que tinha pouca sintonia com determinado tipo palavras de João Cabral de Melo Neto concei-
de linguagem poética que comumente se observava tuam melhor que tudo a sua posição singular
(e se observa ainda) na poesia brasileira (SECCHIN, na nossa poesia. Pois ele é, na observação de
2007, p. XIII), sendo praticada por parte dos poetas Eduardo Portella, um verdadeiro caso à par-
modernista, a qual era marcada por um conceito de te na literatura brasileira: o primeiro poeta
poesia feita em rima soante, despejada, sem rigor do novo lirismo; aquele que é, em relação à
construtivo, carregada de sentimentalismo e tom lírica anterior, um antipoeta, porque não dá
melódico, às vezes, próximo à música popular, e, por uma só emoção que não venha pensada, uma
isso e por outras, um tipo de poesia considerada mais só palavra que não chegue a um conceito [...]
fácil ao leitor despreparado e superficial, para o qual o portanto, o poeta que primeiro rompeu não
efeito rítmico, melódico, sentimental e entorpecente só com as melações, os sentimentalismos, as
122
bastam para entretê-lo. pobres melodias, a sugestão deslizante, mas
sobretudo com o acessório, o acidental, a e o trabalho de arte, o pernambucano novamente se
obra do acaso e da sua inspiração [...], poesia posiciona criticamente em relação à problemática
sem plástica, sem construção, e com essa de- da composição dos poemas. JCMN divide os poetas
sordem, porque sem nenhum pensamento. em duas categorias ou famílias: a primeira é marcada
pelos critérios de subjetividade e inspiração, que são
Visto que ele rompe com certa tendência subjetivista projetados como princípios máximos da elaboração
de uma lírica repleta de sentimentalismos interiores, o dos poemas; já a segunda categoria liga a criação
poeta necessariamente pende em direção à realidade artística aos princípios da racionalidade, ou do que
objetiva, povoada de objetos e coisas claras. Voltar- JCMN chama de “trabalho de arte”. O poeta-crítico
se ao mundo objetivo e real, de modo acentuado e conclui que, em detrimento do trabalho racional da
significativo, revela-se como a base essencial que arte, a demasiada e ostensiva presença da primeira
fornece material à sua poesia, pois o “reconhecimento tendência afetou consideravelmente a qualidade
da autonomia existencial dos objetos [...] conduz a estética e formal da produção poética de parte
um fabuloso programa de atenção. No seio das coisas considerável dos poetas modernistas.
o poeta levanta o trabalho da sua contemplação, o
esforço atento de ver, de descobrir seu lado novo” Para muitos desses, a composição dava-se sem
(MERQUIOR, 2007, p. LXIII). Ostensivamente marcado apuramento formal, uma poesia psicologista, desregrada,
pelo “dom antigo/de fazer poesia com coisas” (Museu intimista e subjetivista: “poesia para eles é um estado
de tudo, 1975), poesia marcada pela referência concreta subjetivo” (MELO NETO, 2007, p. 709). Assinala que,
e imagística povoada por substantivos e adjetivos ao invés do trabalho da arte, para poetas desse tipo os
concretos ao invés dos abstratos, JCMN é aquele que poemas “brotam, caem, mais do que se compõem”
“coloca o ‘fazer poesias com coisas’ a nível de programa (p. 703), pois eles são absolutamente guiados pela
estético” (PEIXOTO, 1983, p. 147). dita “inspiração”, que baixa neles feito uma “presença
sobrenatural” (p. 708). Soma-se a isso o fato de serem
Essa tendência o fará distanciar-se da expressão do eu absolutamente dominados pela vontade de serem
subjetivo e lírico daquela maneira explícita e exacerbada “originais”, “as tendências pessoais procuram se afirmar,
que foi herdada desde os românticos e praticada pelos todo-poderosas” (p. 706). O poeta afirma que essa atitude
modernistas. Em espinhoso texto crítico do poeta, escrito foi herdada desde o Romantismo, que pôs no autor o
em 1954 e intitulado Da função moderna da poesia, JCMN “centro de interesse da obra” (p. 711), e que a postura
reconhece que a poesia moderna teve avanços formais de parte da poesia moderna foi arquitetar-se baseada
consideráveis quanto ao verso, à imagem e às palavras, essencialmente na inspiração, na “tradução de uma
entretanto, apontou a demasiada “atitude psicológica experiência direta” (p. 708), na qual “o valor essencial da
do poeta” (MELO NETO, 2007, p. 736), pela qual escrever obra é a expressão de uma personalidade” (p. 710).
passa a ser uma “atividade intransitiva” em que o objetivo
“é, para esse poeta, conhecer-se, examinar-se, dar-se em Em JCMN, é explícito o ataque a certas convenções do
espetáculo” (p. 736). Essa afetação excessiva do eu acabaria lirismo. Por exemplo, em “Fábula de Anfion”, inserido
por corromper a poesia e desqualificar seu valor estético. no livro Psicologia da composição (1947), o personagem
mítico, em vez de erigir, por vontade própria e ao som
Ainda, noutro texto crítico do poeta (também de sua flauta, a cidade de Tebas e sua vegetação a partir
123
espinhoso), intitulado Poesia e composição: a inspiração do deserto, prefere tão somente a presença dura do
deserto, vazia e sem qualquer ornamento. Observando e objetividade, mas que, por isso, se revela de um
a composição desse texto poético, fica evidente que “a modo ainda mais excepcional e distinto.
utilização de Anfion e do mito grego ‘pelo avesso’ – a
negação do lirismo ao invés de sua exaltação - contribui Tal possibilidade de manifestação lírica, não sendo
para uma rejeição da poesia lírica” (PEIXOTO, 1983, p. expressa explicitamente na superfície sígnica do
67). Ainda nesse mesmo livro, no conjunto de poemas poema através da linguagem direta, revela-se de
intitulado Antiode, o poeta também desdobra sua modo implícito, pela linguagem indireta. Dessa
dura crítica a certo estilo poético dito profundo. Como maneira, é pela linguagem simbólica e o uso dos
informa no subtítulo, é uma poesia, ou melhor, uma símbolos que os objetos concretos e exteriores, pela
metapoesia “contra a poesia dita profunda”, ornada, sugestão e conotação, conduzem a uma significação
etérea, flórea, que, para JCMN, nada mais era que uma e interpretação que remete ao mundo interior e,
mentira: “Poesia, te escrevia: / flor! Conhecendo/que és portanto, à presença do eu lírico e de sua expressividade
fezes” (MELO NETO, 2007, p. 74). intimista e subjetiva.
Desde cedo, já a partir do livro O engenheiro (1945), seus Por isso, antes da efetiva análise do poema, cabe
poemas são pautados por uma tendência construtivista algumas considerações sobre o símbolo, pois é por
clara, e sendo engendrados com base na observação/ intermédio deste objeto que chegar-se-á à dimensão
contemplação do poeta sobre a paisagem exterior e lírica deste poeta, consagrado como o antilírico
natural. Desse modo, não existe divagações poéticas fundamental da poesia brasileira.
em torno de um possível eu subjetivo e interior: ou
contrário, nota-se o “eu integrado observando os
objetos do mundo físico e controlando racionalmente Symbolon
as emoções” (PEIXOTO, 1983, p. 37).
Todorov (1979), explicitando a noção de símbolo em
Como verifica-se na sua poesia e em seus textos Schelling (1775-1854), afirma que as coisas, para signifi-
críticos, JCMN posiciona-se abertamente contra carem, não devem deixar de ser o que são em si mesmas.
certas noções de lirismo, sendo absolutamente É justamente pelo fato de serem algo que podem signifi-
avesso a uma atitude individualista frente à criação car algo. O símbolo, para Schelling, é a fusão do particu-
artística. Entretanto, paradoxalmente, aqui lar com o geral, de modo que as coisas, para significarem
pretende-se rastrear a manifestação (ou ocultação) simbolicamente, não podem abdicar do que são. Não é
de alguma expressão lírica, um estado subjetivo, a dicotomia, mas fusão o que se opera, “fato de o símbolo
presença subterrânea do eu lírico que aparentemente não só significar, mas ser;” (TODOROV, 1979, p. 212).
parece inexistir. Marcado ao longo de sua carreira
por uma poética “que afasta qualquer tentativa de Dessa maneira, as coisas e objetos poetizados no
auto-expressão (sic) direta” (PEIXOTO, 1983, p. 42), é poema de JCMN produzem um efeito perceptivo
difícil encontrar brechas por onde vislumbrar alguma enquanto tais, em suas realidades concretas, e só a
conotação subjetiva ou intimista ali. Entretanto, partir daí dão-se os símbolos, pois “o símbolo produz
quando ela é encontrada, surge a revelação de uma um efeito e, só através dele, uma significação”
singular manifestação lírica sui generis, a qual está (TODOROV, 1979, p. 207). Disso, entende-se que o
124
encoberta por camadas de concretude, racionalidade objeto simbólico não exclui a sua natureza: “é a coisa,
sem ser a coisa, e apesar de tudo é a coisa” (GOETHE Ao avesso de uma longa tradição poética subjetivista,
apud TODOROV, 1979, p. 207). Entretanto, às vezes, JCMN parte do ponto de vista das coisas sensíveis, dos
esse sentido simbólico entranhado no poema nem objetos disposto na realidade concreta, para daí fazer um
sempre pode ser claro e extraído com imediatismo: mergulho ao íntimo do humano, e é essa a inversão mais
“no símbolo, a imagem presente não indica só por excepcional: primeiramente, ele toca o leitor com o plano
si que tem um outro sentido, só «mais tarde», ou sensorial do mundo das coisas, e, simultaneamente, pela
inconscientemente, somos levados a um trabalho de leitura de outro nível, estes objetos vão funcionando como
reinterpretação” (TODOROV, 1979, p. 209), que é o que pinças exteriores que, cirurgicamente, vão penetrando
será feito aqui, na análise do poema. o ser e especulando seus espaços interiores. Os objetos
são a lanterna com que o poeta vasculha a interioridade
A configuração da poesia cabralina é ostensivamente humana. Eles carregam uma luz rica que JCMN soube
coisificada, as palavras remetem à existência concreta muito bem dar utilidade, e mais que tudo, uma utilidade
dos objetos. Entretanto (e o mais impressionante), o poética, sumo da linguagem.
poeta ultrapassa essa referência fria da existência das
coisas sem recorrer a qualquer idealismo, subjetivismo Como exemplificação, cita-se o extenso e belo poema
ou metafísica: as transcende mencionando-as (livro-poema) Uma faca só lâmina (1955), no qual isso
obstinadamente, reiterando-as e detalhando-as nas é perfeitamente percebido. No transcorrer de todo o
suas especificidades próprias. Essa transcendência seu desenvolvimento, o poeta usa, reiteradamente,
atingida, que conduz ao símbolo, acontece porque três imagens concretas essenciais, a saber: a bala, o
o poeta, ao poetizar com coisas, não pretende tão relógio e a faca; contudo, as usa com um fim abstrato
somente significar “aquilo que as coisas são, mas, [...] e humanizado, que é o de querer transmitir ao leitor,
os signos que elas representam, ou seja, o que elas por intermédio da concretude desses objetos, o que o
significam” (AGOSTINHO apud TODOROV, 1979, p. 42) poeta chama de uma ausência que o homem carrega
para além delas próprias. Simbolicamente, os objetos dentro de si, uma “ausência tão ávida”, “ausência
concretos possuem a capacidade de significarem, sôfrega”, que chega a ser aguda, a ferir, a acender,
ou seja, de também se constituírem como signos, (e, ao final, a ativar esse próprio homem) visto que
pondo “entre parênteses a sua natureza de coisas” “ninguém do próprio corpo/poderá retirá-la”. Ao
(TODOROV, 1979, p. 42) enquanto tais. longo desse poema, os objetos concretos não são
enfatizados e reiterados a fim de restringirem-se à
Disso, conclui que, em vez de retratar o humano significação referencial deles próprios: como é da
diretamente, o que se vê na poesia de JCMN é um natureza dos símbolos, “estes objetos adquirem
retrato perspicaz e agudo dessa dimensão humana, um crescente poder de sugestão” (PEIXOTO, 1983,
mas por meio da descrição das coisas: cabra, rio, pedra, p. 133) que busca transmitir este sentimento de
engenho, entre outros signos-imagens que figuram ao ausência interior presente no eu lírico do poema.
longo de sua obra. Desse modo, através de elaboradas
metáforas, comparações e analogias criadas a partir Conceitualmente, o símbolo pode ser entendido como
dos objetos focados, a sua poesia atinge o nível toda coisa ou objeto que funciona como um signo
simbólico da linguagem, e é por intermédio deste significativo capaz de evocar outro elemento que está
que revelar-se-á (sempre indiretamente, como é da ausente. Grosso modo, é algo presente que tem o
125
natureza do símbolo) a dimensão lírica deste poeta. potencial de transmitir algo ausente. Assim, “símbolo é
tudo quanto está no lugar do outro, sem acomodação intransmissível. Só o símbolo pode falar por ela,
atual à presença desse outro, com o qual tem qualquer porque a expressa melhor que os conceitos abstratos”.
semelhança (intrínseca por analogia), e por meio do qual (SANTOS, 1959, p. 42-43).
queremos transmitir essa presença não atual” (SANTOS,
1959, p. 27). No caso desta análise, o símbolo desenvolvido Ainda, por analogia, forma ou natureza, o símbolo
no poema terá a funcionalidade de evocar o lirismo de é aquilo que “evoca, representa ou substitui, num
um poeta considerado antilírico, ou seja, evocar algo que determinado contexto, algo abstrato ou ausente”
está ‘ausente’ ou não manifesto de modo explícito na (FERREIRA, 1986, p. 1301). Também, configura-se como
superfície textual do poema, uma “presença não atual”. um “elemento descritivo ou narrativo” (FERREIRA,
1986, p. 1301) que é passível de “dupla interpretação”.
Embora JCMN caracteriza-se como um poeta Somadas a essas definições, Piaget (1978, p. 129)
marcadamente racionalista, ele não pode jamais ser coloca que “o símbolo repousa numa semelhança
um racionalista absoluto. Tratando da presença do entre o objeto presente, que desempenha o papel de
simbólico na arte, Santos (1959) explica essa relação «significante», e o objeto ausente, por ele «significado»
do artista com o plano racional e o plano simbólico. O simbolicamente, e nisso [...] existe a representação;
símbolo, de inconsciente, se “torna consciente quando uma situação não dada é evocada mentalmente”.
a razão já funciona” (SANTOS, 1959, p. 39), entretanto,
por sua própria natureza, ainda mantém uma relação Em acordo com a aguda presença de elementos
com o não-racionalizável, visto que o artista, apesar concretos na poesia cabralina, Silva (in CEIA,
de adotar a racionalidade, não é nenhum cientista, 2010) aponta para a possibilidade do símbolo e da
pois ele possui uma carga afetiva e vivencial que não interpretação simbólica emergirem a partir de um
ousa jamais ignorar: ao contrário, quer transmiti- “novo a priori” caracterizado pelo “pensamento
la através de sua arte. Logo, por ser afetivo e não concreto”, ou seja, emergirem da vida e de seu “modo
totalmente racionalista no sentido estrito, ele, por sempre simbólico e hermenêutico” com que se
encontrar dificuldades de expressar totalmente a sua manifesta. A autora defende que o simbólico é possível
experiência singular, afetiva e vivencial no plano da a partir do “pensamento concreto” e da vida real que se
linguagem sígnica e racional, as supera quando “lança configura diante de todos.
mão do símbolo” (SANTOS, 1959, p. 41), que é capaz
de referência ao singular. Visto que a questão da hermenêutica e da simbólica são
essenciais à análise do poema, que é marcadamente
Adotar o símbolo, contudo, não implica abandonar a engendrado a partir de elementos concretos da vida real,
dimensão racional, pois, como pontua Santos (1959, ao final de seu texto, Silva (in CEIA, 2010) traz os objetivos
p. 41), o artista “precisa usar o sinal estruturado do do pensador francês Paul Ricoeur (1913-2005) quanto ao
verbal, coordená-los de tal forma que perdem a estudo do símbolo, os quais se aplicam muito bem aqui:
esquematização abstrata para que possam receber
o conteúdo vivencial, o símbolo” (SANTOS, 1959, p. com esta sua reflexão sobre o símbolo, o
41). Desse modo, os símbolos presentes na arte, na objetivo de Ricoeur é claro: [...]. É a condição
religião, na filosofia, etc. são meios de “transmitir o hermenêutica [...] e intersubjetiva do
intransmissível, por processos operatórios, racionais pensar que a mistura originária de símbolo e
126
[...]. A singularidade estética ou divina é sempre interpretação oferece. [...]. É, enfim, assumir
os conflitos que tecem a condição corpórea ou meio deste mesmo sentido remetem para um
encarnada do existir que pensa, penetrar no outro. (SILVA in CEIA, 2010).
conflito das interpretações que ele origina. O
resultado é a concretização e o alargamento Uma vez apreendido alguns pressupostos teóricos que
do âmbito da reflexão filosófica que se abre abordam a conceituação de símbolo, a partir de agora,
finalmente à Poética, às ciências da linguagem, numa perspectiva analítica pautada pelo ângulo de uma
à expressividade religiosa e a todo o conjunto leitura simbólica, a discussão deter-se-á na materialidade
de disciplinas que exploram a dimensão não do poema de JCMN. Através de uma ampla interpretação
semântica ou ligada do símbolo. do poema, indo desde os quesitos formais, estruturais e
estilísticos, até às intepretações emergidas dele, buscar-
Assim, essas interpretações surgidas através da -se-á os traços de um lirismo singular, e, como já falado,
dimensão simbólica, como pensa Ricoeur, alargam as sui generis na poesia brasileira. Oliveira (2008, p. 28) assi-
potencialidades e possibilidades de sentidos. Neste caso, nala que “o campo do símbolo é o campo da interpreta-
amplia-se a dimensão significativa do texto poético: o ção”, e que cabe “à hermenêutica criar um processo que
poema não fica mais restrito ou enclausurado em apenas permita ultrapassar o sentido primário das expressões
uma possibilidade de leitura: pela via simbólica e pelo descortinando seus outros sentidos.” Este precisamente
“conflito das interpretações” (geradas, de um lado, pela é o rumo que se tomará a seguir.
linguagem direta, e, de outro, pela linguagem indireta) o
poema se enriquece ainda mais, revelando nuances que,
à primeira vista, pareciam não existir. Análise Simbólica do poema Forte de Orange, Itamaracá
O símbolo presente na literatura só pode dar-se O poema a ser analisado consta no livro A escola das
através da interpretação, pois “não existe símbolo facas (1975-1980), e segue transcrito abaixo, junto de
sem interpretação. Isto é, o simbolismo só é possível seu esquema rímico (por uma convenção restrita a esse
quando a sua estrutura é interpretada” (SILVA in CEIA, trabalho, foram utilizadas apenas as quatro primeiras
2010). No caso do texto que será analisado a seguir, letras do alfabeto para indicação do esquema rímico
a apreensão do símbolo se dará quando o poema que ocorre a cada quatro versos):
(enquanto estrutura formal e sintática) for interpretado,
e, sendo interpretado, ele implicará “uma leitura de um
outro sentido no primeiro sentido, isto é, o imediato e
literal” (SILVA in CEIA, 2010). É precisamente:
Quanto à estruturação do poema, ele é composto Descrevendo em prosa a descrição do poema, dá-se
por uma única estrofe longa, formada por 24 versos. o seguinte cenário: o poema parte inicialmente da
Através da escansão métrica do poema, que faz a imagem de uma pedra “sitiada por/erva-de-passarinho,
contagem das sílabas poéticas, chega-se ao número musgo”. Logo em seguida, traz conciliado a imagem
de sete sílabas, portanto, o verso heptassílabo, que é derivativa e principal, que é a do canhão de ferro
tradicional na poesia portuguesa, em especial na poesia projetado sobre a pedra, o qual aparentemente “parece
popular, sendo conhecido como redondilha maior. eterno, absoluto”. A partir desse cenário, configurado
em torno da pedra, da erva-de-passarinho, do musgo e
Em relação às rimas, sabe-se que o poeta não é dado do canhão de ferro, o poeta ruma ao abstrato, iniciando
à musicalidade e melodia excessivas no poema (para uma reflexão sobre o tempo.
JCMN, fonte de demasiada distração ao leitor) que se
realizam principalmente pela preferência das rimas A partir da introdução das imagens materiais, a
128
soantes. Como bem apontou Secchin (2007), ele reflexão sobre o tempo passa a ser predominante,
ressaltando-se sua natureza e atributos (“pontual”, Antes disso, para melhor guiar-se pela interpretação
“pontiagudo”, “bate sempre”, “penetra tudo”); nesse simbólica do poema, faz-se necessário, com o auxílio de
caso, é ressaltada precisamente a força e influência um dicionário de imagens e símbolos, apreender o que
contínuas e destrutivas que, lentamente, o tempo simbolicamente significa um dos principais elementos
concretiza sobre a matéria “no seu infiltrar-se mudo”, desse poema, que é o metal (nesse caso tipificado no
reduzindo-a ao seu próprio fim irremediável. ferro de que é feito o canhão). Alvarez Ferreira (2013),
em Dicionário de imagens, símbolos, mitos, termos e
Uma vez ressaltado esse potencial corrosivo do tempo, conceitos bachelardianos, traz definições pertinentes
logo ele é relacionado aos canhões de ferro, que do grande poeta e filósofo francês Gaston Bachelard
igualmente à pedra já corroída, serão - em seu ferro e (1884-1962). Para este:
a seu tempo - corroídos e deteriorados, tomados pelos
vegetais e condenados à ruína. Inclusive, sucumbirão a hostilidade do metal é assim seu primeiro
de um modo incomum e inusitado, aquele que faz valor imaginário. Duro, frio, pesado,
coisas tão distintas juntarem-se paradoxalmente, anguloso, ele tem tudo o que é preciso para
de maneira que o tênue, o frágil e o precário (aqui ser ofensivo, psicologicamente ofensivo.
representados pelo musgo) tomem vantagem sobre o [...] O metal é um protesto material. Será
supostamente forte, maciço, resistente e durável (os necessária toda a energia dos devaneios de
canhões de ferro). provocação para “domá-lo”. De qualquer
modo, sua frieza impõe certo respeito [...].
Dessa forma, numa primeira leitura superficial, chega- (1948, p. 238-239 apud ALVAREz FERREIRA,
se à interpretação de que o poeta está descrevendo a 2013, p. 126).
ação corrosiva e inevitável do tempo sobre a pedra,
e, futuramente, sobre os canhões enferrujados e As características simbólicas do metal ser hostil, de uma
carcomidos, que também serão tomados pelo musgo. frieza que impõem respeito, “psicologicamente ofensivo”,
Mas isso seria muito gratuito a um poeta desse porte: são, sem dúvida, aplicados ao metal de ferro do canhão
evidentemente, ele deseja transmitir algo a mais, além descrito no poema, e ainda mais radicalizadas em seu valor
do perceptível, do imediato, do concreto visível. Nesse simbólico pelo fato de se tratar de um metal materializado
sentido, conforme salienta Todorov (1979, p. 46), a e incorporado a um canhão de guerra, guerra que por sua
leitura pode ser transposta a outro nível: embora os própria natureza é extremamente ofensiva e hostil, dura e
signos partam de um “sentido inicial”, esse sentido fria, psicologicamente ofensiva. Entretanto, se Bachelard
inicial pode ser deslocado a uma “utilização segunda”. (1948) afirma que é necessária muita energia para “domá-
lo”, no poema cabralino essa supremacia metálica é
A saber, o símbolo evoca um objeto ausente, algo abstrato abalada e desbancada pela energia do tempo em seu
que não está presente à primeira vista na epiderme do contínuo pingar, “pontiagudo” e “inestancável”.
texto. Portanto, iniciando uma leitura simbólica, pode-se
propor a seguinte pergunta em relação ao poema: o que a Depois desses apontamentos, retoma-se a questão
descrição imagética (pedra, canhão, erva-de-passarinho, proposta, que é a seguinte: Portanto, o que a configuração
musgo, tempo pingando) do poema evoca? imagética, pousada e desdobrada na realidade e
desenvolvida ao longo do poema (em torno do canhão de
129
ferro, do musgo, da pedra e do tempo), evoca?
Para isso, cabe “à hermenêutica criar um processo que sobre os objetos. O musgo, por sua vez, aproveitando-
permita ultrapassar o sentido primário das expressões se das fraturas do tempo sobre as coisas e os seres
descortinando seus outros sentidos.” (OLIVEIRA, 2008, (nesse caso, sobre os canhões), simboliza o próprio
p. 28). Pela condição interpretativa (hermenêutica), declínio e a decadência, de maneira que traduz a
verifica-se que a ação destrutiva e corrosiva do invasão e o apoderamento da fragilidade sobre aquilo
tempo sobre os canhões de ferro será irremediável. que figurava como estável e forte.
Desse modo, é a partir dessa interpretação primária
que se atinge a interpretação secundária, a saber, Em Forte de Orange, Itamaracá (como numa infinidade
a interpretação simbólica, de forma que se conclui de outros poemas presentes em sua obra), JCMN
o seguinte: simbolicamente, esse poema pretende engendra um texto sem qualquer afetação subjetiva
transmitir a ideia de Decadência. explícita, sem nenhuma poetização girando em torno
de supostos estados interiores. Como percebido,
Quanto às definições do termo, decadência sugere um em nenhum momento o poema apresenta qualquer
estado de “declínio; queda” (BORBA, 2011, p. 376), ou referência direta a algo subjetivo e sentimental, nem
ainda significa algo que “se aproxima do fim ou da ruína” à presença explícita de qualquer sujeito lírico. Ao longo
(AULETE, 2011, p. 434), denotando a “degradação”, dos versos, ele circula em torno da imagem do canhão
“empobrecimento, enfraquecimento”. Também, para de ferro, do musgo e da ideia do tempo.
Ferreira (2008, p. 141), decadência indica aquilo que
perdeu “poder, força, qualidade, etc.”. Em adição, A voz que fala no poema gira em torno de materialidades
para o Michaelis (2017) decadência é aquilo “que se exteriores, isso é evidente. Mas agora, buscando
encaminha para a ruína; caimento, declínio”, para a desvendar uma dimensão propriamente subjetiva e lírica
“perda progressiva de poder, prosperidade ou valor”. do poeta, pode-se perguntar à voz que fala no poema o
que ela pretende transmitir em relação à possível presença
De fato, essas definições se aplicam ao canhão de ferro de um eu lírico enviesado, o qual discretamente pulsa à
que será afetado pela ação do tempo; ele se deteriorará, sombra desse tecido poético feito de concretudes.
se enfraquecerá em seu metal, de modo a empobrecer-
se. Com isso, também perderá suas qualidades e Dessa forma, uma vez sabendo que o poema evoca
valores que antes possuíra; sofrerá, exposto ao tempo, simbolicamente a ideia de decadência, este mesmo
uma “perda progressiva” de seu poder e valor bélicos, símbolo pode ser investido e pensado em relação
encaminhando-se ao declínio e à ruína; carcomido e à presença do sujeito lírico que repousa no poema.
enferrujado, será todo coberto e invadido pelo musgo. Assim, toda ideia de declínio e ruína, evocada no
poema, pode simbolicamente referir-se à interioridade
Dessa forma, a imagem do canhão de ferro simboliza do sujeito lírico ali subtendido. Ao invés da descrição
algo ou aquilo que tem poder e força em sua natureza direta de um estado de espírito do eu lírico, o poeta
e constituição; entretanto, como se vê, esse poder toma tais imagens exteriores e as investe de um poder
será abalado pelo tempo, que trará a sua decadência. simbólico que abarca e reflete o estado interior do
Já o tempo, com seu pingar “inestancável”, passa sujeito lírico do poema, o qual, pelo estilo mesmo do
a simbolizar precisamente todas as implicâncias, poeta, mantem-se voluntariamente oculto.
circunstâncias, fatos e nuanças que o desenrolar de seu
130
“decurso” e “discurso” imprimem irremediavelmente
O que mais impressiona é o seguinte: a depender do ruína futura, que, no poema, ganha contornos de um
modo de abordagem interpretativa do poema, o que destino fixo e irremediável. Ainda, o eu lírico apresenta-
serve de ocultação ao eu lírico pode servir, ao mesmo se como um ser sem qualquer força de reação contra
tempo, como meio de revelação do mesmo. À primeira tal força negativa que atua sobre ele, a qual o corrói
vista, esta camuflagem feita de exterioridades parece interiormente, condenando-o ao declínio final e fatal.
negar em absoluto a própria possibilidade da presença
de um eu lírico; entretanto, numa análise mais A fim de sustentar tais afirmações em relação à essa
apurada, percebe-se que essa mesma camuflagem, de presença subjetiva, direciona-se agora a análise
concretudes e objetividades, serve propriamente como à concretude do poema, de forma a apontar os
forma de revelação da subjetividade e da interioridade elementos que sugerem a presença desse eu lírico
de um sujeito lírico implícito: é o que revela, de modo dissimulado e enviesado, aspecto assinalado pelo
reservado e até hermético, a própria natureza e os crítico Silviano Santigo em seu ensaio “As incertezas
traços específicos de um eu lírico não-manifesto. O que do sim” (1982), bem como constatar qual a significação
parecia ser a negação de qualquer manifestação lírica, simbólica evocada e transmitida ao leitor.
quando avaliado desde outra perspectiva de análise
(a saber, a via simbólica), torna-se a própria forma de Como o canhão de ferro significa simbolicamente a
afirmação dessa manifestação lírica sui generis. presença do eu lírico no interior do poema, num primeiro
momento o canhão de ferro representa a supremacia
À vista disso, a imagem do canhão de ferro (que assoma que o sujeito lírico ‘parece’ possuir ao longo da vida:
como a figura central no poema, representando algo com
reconhecido poder e importância) sugere simbolicamente inroído, o metal canhão
a própria entidade do eu lírico, visto que o indivíduo parece eterno, absoluto.
ou o sujeito sempre ocupam uma posição central e
relevante em relação ao mundo. Contudo, a imagem Logo em seguida, entretanto, essa superioridade
do canhão de ferro, embora tenha atributos de força e do eu lírico é confrontada. O poema apresenta
solidez, na configuração deste poema está condenado esse ataque sorrateiro do tempo sobre ele, que
irremediavelmente à ruína: o tempo subjugará o seu irremediavelmente sofrerá as consequências,
metal e, em decorrência da inevitável degradação, será independente da força que supõe possuir:
carcomido pela ferrugem, sendo tomado pelo musgo.
Porém o pingar do tempo,
Com tal configuração imagética exterior, a voz pontual, penetra tudo;
lírica do poema sugere a presença de um sujeito se seu pulso não se sente,
lírico decadente, em pleno estado de decadência bate sempre, e pontiagudo,
interior, um ser frustrado que sofre paulatinamente e a guerrilha vegetal
de um abatimento interior progressivo, o qual afeta no seu infiltrar-se mudo,
consideravelmente suas estruturas interiores (sejam conta com o tempo, suas gotas
elas psíquicas, emocionais, sentimentais, etc.), as quais contra o ferro inútil, viúvo.
sugeriam ser firmes e inabaláveis. E o pior, o eu lírico do
poema se manifesta de modo ainda mais agudo quando As convicções desse eu lírico, por mais fortes que se
131
se constata que ele já prevê ou antevê a sua própria constituam, acabam por serem postas em xeque,
levadas a cabo e destruídas ao longo do tempo. As comportamento, atitude, posicionamento, princípio,
convicções que alimentam e constituem a força interior convicção, crença ou ideia, as quais eram consideradas
dele acabam por renderem-se ao “discurso” do tempo, fortes e inabaláveis como o canhão de ferro, o objeto
que se revela bem mais pujante e impetuoso: simbólico central que foi analisado aqui.
CEIA, Carlos. E-dicionário de Termos Literários, (verbete PEIXOTO, Marta. Poesia com coisas. São Paulo: Editora
“símbolo” de autoria SILVA, Maria Luísa Portocarrero F. Perspectiva, 1983.
da), 2010. Disponível em: http://edtl.fcsh.unl.pt/business-
directory/6240/simbolo. Acessado em: 10 dez. 2017. PIAGET, Jean. A formação do símbolo na criança: imitação, jogo,
sonho, imagem e representação. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
COLLOT, Michel. O sujeito lírico fora de si. In: Terceira
Margem – Revista do Programa de Pós-graduação em Ciência SECCHIN, Antonio Carlos. João Cabral – Do fonema ao livro. In:
da Literatura. Rio de Janeiro, UFRJ, nº 11, 2004. MELO NETO, João Cabral de. Poesia completa e prosa. Org. Antonio
Carlos Secchin. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. XIII-XXI.
DECADÊNCIA. In: Michaelis Dicionário Brasileiro de Língua
Portuguesa. Disponível em: http://michaelis.uol.com.br/busca? SANTOS, Mário Ferreira dos. Tratado de Simbólica. 2. ed. São
r=0&f=0&t=0&palavra=Decadência. Acessado em: 10 dez. 2017. Paulo: Editora Logos, 1959.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da SANTIAGO, Silviano. As incertezas do sim. In: Vale quanto
Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1986. pesa: ensaios sobre questões político-culturais. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1982.
______. Dicionário Aurélio ilustrado. Curitiba: Ed. Positivo, 2008.
TODOROV, Tzvetan. Teorias do Símbolo. Trad. Maria de Santa
134
Cruz. Lisboa: Edições 70, 1979.
desejo
e culpa
na poesia inaugural
de Vinicius de Moraes
Lust and guilt in the Vinicius de Moraes’ early poetry