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Actas

O Colóquio discutiu a arquitetura popular entre a tradição e a vanguarda, analisando como foi estudada entre os séculos XIX-XXI. No século XIX, buscou-se uma arquitetura "nacional" no passado, levando ao estudo do folclore. No século XX, a arquitetura popular foi fonte de lições para a moderna e valorizada patrimonialmente. Hoje, é pertinente estudá-la para entender visões do passado e como influenciou debates sobre mundialização e patrimônio.

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Martin Quirot
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Actas

O Colóquio discutiu a arquitetura popular entre a tradição e a vanguarda, analisando como foi estudada entre os séculos XIX-XXI. No século XIX, buscou-se uma arquitetura "nacional" no passado, levando ao estudo do folclore. No século XX, a arquitetura popular foi fonte de lições para a moderna e valorizada patrimonialmente. Hoje, é pertinente estudá-la para entender visões do passado e como influenciou debates sobre mundialização e patrimônio.

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Colóquio Internacional Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda.

Coordenação
Paula André

DINÂMIA’CET-IUL
ISCTE-IUL
2016
Título: Colóquio Internacional Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda.
Coordenação: Paula André
Edição: DINÂMIA’CET-IUL
ISBN: 978-989-732-985-2
Ano: 2016
Índice

Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda.


Paula André
Carlos Sambricio

Lisga - a tradição perdida, a vanguarda inexistente, o regresso à Natureza


Duarte Belo

Arquitectura Popular: totalidade e ordem implícita.


Maria Rosália Guerreiro

A preservação de um “casarão popular” do século XIX: entre ideologias,


interpretações e intervenções no Casarão Pau Preto, cidade de Indaiatuba, Brasil.
Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus
Marcos Tognon

Guadiana, Barrera tipológica. Un estudio comparativo de las tipologías de


casa popular en el Sur Oeste de la Península Ibérica.
Vidal Gómez Martínez
María Teresa Pérez Cano
Blanca Del Espino Hidalgo

Património rural dos Açores. Proposta de inventariação e reabilitação da vila


Conceição e envolvente.
Hernâni Alves Ponte
Soraya M. Genin

Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. A relação com a arquitectura típica


açoriana.
Bruno Furtado
Cheila Arruda
Dinis Simão
Gonçalo Lopes

Arquitetura Portuguesa de Autor: Aproximações à Arquitetura Popular.


Teresa Madeira da Silva

A Arquitetura Popular dos Povoados do Alentejo. Uma abordagem metodológica e


operativa.
José Baganha

A 2ª Geração dos arquitectos Modernos Portugueses, o Inquérito à Arquitectura


Regional e os CIAM.
António Neves

Descontextualização e impactos das casas-cueva de Galera - Granada: de moradia


popular a moradia de luxo.
María José Reche Domingo
Tomás Antonio Moreira
Bibliografia da arquitectura vernácula em Portugal – algumas considerações
José Manuel Fernandes

Arquitetura, contexto e mudança nas regiões de montanha do norte da Beira


Miguel Reimão Costa

Paradoxos entre a casa vernacular e a moderna - divergências ao longo do tempo


entre o conservadorismo e o modernismo na cultura romântica europeia.
Ana Lau
Miguel Baptista-Bastos

Telhados de Tesouro de Tavira – Modelos e Tipologias de Casas Nobres da Ribeira


com telhados múltiplos
Ana Isabel Nascimento Santos

Considerações de Raul Lino acerca das condições que influenciam a arquitectura


de cada região
Francisco Portugal e Gomes

Manter ou não manter as técnicas construtivas utilizadas na Arquitectura Popular


Portuguesa? – sua justificação à luz da contemporaneidade ecológica, filosófica e
tecnológica.
Joana Maria Freitas Mesquita

Arquitetura Vernacular Praieira – Nordeste do Brasil


Genival Costa de Barros Lima Junior

A Casa e o sagrado – A Cidade de Macuti, na Ilha de Moçambique.


Filipa Besteiro Lacerda

A operatividade do popular na conceção do erudito.


Pedro Fonseca Jorge
Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda

O Colóquio Internacional Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda,


procurou uma sistematização historiográfica, e uma reflexão teórica sobre a arquitectura
popular, no abrangente arco temporal de finais do século XIX à contemporaneidade. A
atenção e o foco centrado na arquitectura popular, parte integrante da cultura
arquitectónica nacional em cada momento, insere-se num contexto mais vasto, de
valorização da geografia como matriz, de propaganda das diferentes regiões nacionais,
de valorização do mundo rural, e da construção de uma imagética iconográfica de um
passado, tudo em prol de definição de um carácter nacional.
A complexa e contraditória realidade da contemporaneidade e do plural século
XX, obrigam a recuar às heranças oitocentistas do pitoresco que parece evoluir para o
folclorismo, e no caso português muito particularmente ao longo e persistente debate da
“casa portuguesa”. Durante o séc. XIX, depois do processo que conduziu à “invenção da
nação”, à reinvenção de uma arquitectura “própria” (isto é, “nacional”), procurou-se
essa arquitectura no passado/na história. Nesse processo foi-se entendendo (do mesmo
modo que uma paisagem caracterizava uma nação), quanto o estudo da cultura popular
(isto é, do folclorismo), possibilitava enfrentar não já a arquitectura histórica (e foram
longas as discussões sobre o manuelino, o neomudejar, ou a arquitectura do
renascimento), mas sim a arquitectura que, pelas suas características tanto formais,
construtivas como pela ordenação dos espaços, caracterizava um território. Se a pintura
e a literatura deram num primeiro momento conta dessas singularidades (definindo
“tipos”, descrevendo trajes, costumes e comportamentos) nos finais do século XIX
ocorreu que, perante a reivindicação do pastiche historicista, outros inventaram o que
denominariam “arquitectura regional”. Inventaram formas que identificavam com
características locais (fosse essa arquitectura vasca, montanhesa, andaluza ou minhota,
alentejana, algarvia) e aplicaram essa arquitectura tanto a habitações da alta burguesia,
como aos equipamentos que nesse momento se edificavam. Contudo, seria nesses
mesmos anos que pela primeira vez houve quem (nos momentos em que se questionava
a desornamentação da arquitectura) ao assumir os critérios de simplicidade e
simplificação, reclamasse o estudo da arquitectura rural.
Os olhares, as leituras, e as interpretações do mundo popular levadas a cabo por
antropólogos, etnólogos, geógrafos, engenheiros agrónomos, e arquitectos, permitem
posicionar o popular como uma plataforma entre o tradicional e o moderno, oscilando
entre uma manipulação dirigida pelo poder, e uma alternativa desejada pela vanguarda.
Os conceitos operativos são normalmente colocados em confronto nas mais diversas
variantes: tradição vs modernidade; nacional vs internacional; verdadeiro vs supérfluo;
academismo vs vanguardismo; erudito vs vernáculo. O vasto leque de fontes primárias
como as publicações periódicas, exposições, inquéritos, concursos, congressos, ensaios,
desenhos, projectos ou obras construídas, permitem desvendar as lições da arquitectura
anónima, a associação de uma moral à arquitectura popular, e a atribuição de um valor
patrimonial à arquitectura popular.

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Qual a pertinência de estudar hoje a arquitectura popular? A resposta é clara:
num momento em que vivemos uma intensa produção terminológica e conceptual; num
momento em que segundo Saskia Sassen a mundialização entrou numa fase de
“expulsão” e numa fase da “globalização do protesto”; num momento em que segundo
Laurajane Smith o património pode ser tanto “um impulso progressivo” como um
impulso “reacionário de conservação”, torna-se pertinente um olhar radiográfico sobre
as visões, as revisões e as contaminações em torno da Arquitectura Popular,
desvendando tempos de tradição, de vanguarda e de atemporalidade.
O debate sobre a arquitectura do séc. XX caracterizou-se tanto pelo estudo da
habitação económica como pela gestão da cidade, e a discussão não só se centrou no
debate sobre o programa de necessidades do existenzminimun como também sobre a
possível estandardização dos elementos construtivos, para o qual se tomou como
referência a até então quase desconhecida arquitectura popular, estudando como
conseguir a reclamada “normalização do vernáculo”.
Experiências levadas a cabo, por exemplo, por Paul Schmitthenner em Berlim na
siedlung de Staaken foram coetâneas aos estudos sobre a arquitectura popular
desenvolvidos em Portugal e em Espanha. Perante a grandiloquência do regionalismo, o
que agora se valorizava era uma “arquitectura humilde”, coerente tanto com as
propostas de Heinrich Tessenow como com as iniciais propostas do jovem Le
Corbusier. Foi então que a arquitectura moderna se direccionou para o estudo não já do
classicismo mas sim para o estudo da tradição, procurando compreender (e apreender) o
sentido das soluções dadas a programas de necessidades que, por sua vez, eram tema de
reflexão.
Podemos detectar posições racistas que procuravam estabelecer o “catálogo”
nacional de uma arquitectura nacional (como foi o caso, dentro do NSDAP alemão, dos
nove volumes da Kulturarbeiten de Paul Schultze-Naumburg), ou a posição dos
arquitectos da modernidade racionalista (como por exemplo o italiano Giuseppe Pagano
ou o grupo catalão GATEPAC), interessavam pela cultura arquitectónica do
Mediterrâneo. Na década dos anos trinta, em paralelo aos debates promovidos pelos
CIAM, podemos ainda detectar outra posição (latente e presente em todas as discussões)
que se centraram no sentido da arquitectura popular mediterrânea ao ponto de, a
propósito da Weissenhofsiedlung de 1927, se publicar a conhecida imagem daquele
bairro convertido em aldeia árabe, montagem fotográfica promovida por quem se
opunha a uma arquitectura que entendiam alheia à tradição local.
Se o estudo da arquitectura popular é chave para entender os debates abertos na
primeira metade do século XX, não devemos esquecer que depois da II Grande Guerra
no caso espanhol a reconstrução obrigou (a partir de carências não só económicas, mas
também perante a escassez de materiais de construção) a recorrer ao saber artesanal,
edificando-se os núcleos rurais a partir de uma tradição e um saber que se rejeitava nos
grandes monumentos edificados por ambos regimes, mais adeptos de uma história
triunfante do que a uma arquitectura elementar. E só a partir dos anos 50 do séc. XX,
quando de novo a moderna arquitectura centro europeia se abre a realidades portuguesas
e espanholas houve quem abandonasse a reflexão sobre a tradição, participando do novo
debate, enquanto que outros, pelo contrário, entenderam que perante uma recordação

6
nostálgica caberia outra opção, coerente com um Ortega y Gasset que assinalaria como
“… existem alguns que reivindicam a tradição, mas são esses precisamente os que não a
seguem, porque tradição significa mudança”. É a partir dessa intenção de mudar que o
estudo do popular surgiria como uma das polémicas mais ricas e positivas.
O Colóquio Internacional Arquitectura Popular. Tradição e Vanguarda
procurou assim desenvolver os temas assinalados e as abordagens com eles
relacionadas, lançando o desafio através de uma chamada de trabalhos que materializem
o exercício de uma história comparada, como reflexão de problemas que foram comuns
e singulares, e que caracterizaram o debate e a cultura arquitectónica no período em
análise.
Um espacial agradecimento aos autores de Universidades e Centros de
Investigação de Portugal, de Espanha e do Brasil: Duarte Belo; Maria Rosália Guerreiro
(Instituto Universitário de Lisboa - ISCTE-IUL; Centro em Rede de Investigação em
Antropologia - CRIA); Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus (Fundação Pró-Memória de
Indaiatuba; Universidade Católica de São Paulo); Marcos Tognon (Universidade
Estadual de Campinas; I.P.R. (Inovação e Pesquisa para o Restauro) da Agência de
Inovação da UNICAMP); Vidal Gómez Martínez (Escuela Técnica Superior de
Arquitectura. Grupo de Investigación HUM 700. Universidad de Sevilla), María Teresa
Pérez Cano (Escuela Técnica Superior de Arquitectura. Grupo de Investigación HUM
700. Universidad de Sevilla), Blanca Del Espino Hidalgo (Escuela Técnica Superior de
Arquitectura. Grupo de Investigación HUM 700. Universidad de Sevilla); Hernâni
Alves Ponte (Secretaria Regional dos Transportes e Obras Públicas-Direção de Serviços
de Infra-estruturas e Equipamentos); Soraya M. Genin (Instituto Universitário de Lisboa
- ISCTE-IUL; Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e
Arquitetura - ISTAR-IUL); Bruno Furtado, Cheila Arruda, Dinis Simão, Gonçalo Lopes
(Mestrado Integrado em Arquitectura MIA - ISCTE-IUL); Teresa Madeira da Silva
(Instituto Universitário de Lisboa- ISCTE-IUL; Centro de Estudos sobre a Mudança
Socioeconómica e o Território - DINÂMIA’CET-IUL); José Baganha (International
Network for Traditional Building, Architecture & Urbanism- INTBAU); António Neves
(Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto - FAUP; Centro de Estudos de
Arquitectura e Urbanismo - CEAU/FAUP); María José Reche Domingo (Faculdade de
Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo – FEC- UNICAMP); Tomás Antonio
Moreira (Instituto de Arquitetura e Urbanismo – USP – São Carlos); José Manuel
Fernandes (Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa-FAUL); Miguel
Reimão Costa (Universidade do Algarve / Ceaacp / Cepac); Ana Lau (Centro de
Investigação de Arquitetura, Urbanismo e Design- CIAUD; Faculdade de Arquitetura,
Universidade de Lisboa-FAUL); Miguel Baptista-Bastos (Faculdade de Arquitetura,
Universidade de Lisboa-FAUL); Ana Isabel Nascimento Santos (Universidade de
Évora-UE); Francisco Portugal e Gomes (Departamento de Arquitectura da Faculdade
de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra- DARQ); Joana Maria Freitas
Mesquita (Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa-BAUL); Genival Costa
de Barros Lima Júnior (Universidade Federal de Pernambuco – UFPE); Filipa Besteiro
Lacerda (Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto - FAUP); Pedro Fonseca
Jorge (Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha-ESAD). E claro também

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um agradecimento à eficaz equipa do Centro de Estudos sobre a Mudança
Socioeconómica e o Território - DINÂMIA’CET-IUL (Maria José, Bruno Vasconcelos,
Maria João Machado, Fátima Santos e Mariana Leite Braga) por todo o suporte
operativo.

Paula André
[email protected]
Instituto Universitário de Lisboa - ISCTE-IUL
Centro de Estudos sobre a Mudança Socioeconómica e o Território - DINÂMIA’CET-
IUL

Carlos Sambricio
[email protected]
Universidad Politécnica de Madrid

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Lisga - a tradição perdida, a vanguarda inexistente, o regresso à Natureza
Duarte Belo
[email protected]

Resumo
A Lisga é uma aldeia pertencente à freguesia de Sarzedas, do concelho de Castelo Branco. No
âmbito de uma iniciativa do pelouro da cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco, é
lançado o desafio de fazer o mapeamento fotográfico da aldeia da Lisga, da ribeira da Lisga e
da ribeira do Alvito, onde se incluem também as povoações de Sesmo, Sesminho e Pomar.
Esta é a área mais afastada da sede do município e está hoje sujeita a um processo de
desertificação humana bastante acentuado que se prolonga há várias décadas. Como
consequência disso, a arquitetura popular, tradicionalmente construída em xisto, está a
desaparecer e com ela a perder-se uma tradição e uma marca identitária da região. Por outro
lado as construções mais recentes são, generalizadamente, desenhadas de forma pouco
qualificada. O trabalho fotográfico consistiu no contacto direto com a realidade espacial, das
aldeias e dos seus territórios de influência, e a captura fotográfica em diferentes períodos do
dia. O que se passa neste território não é uma exceção em relação ao que podemos observar
em quase todo o espaço português: não é apenas a arquitetura popular que está a desaparecer é
mesmo o território que avança para um processo de desertificação humana e, em muitos
casos, o abandono e a devolução à Natureza. Não podemos observar, tão pouco, qualquer
espécie de vanguarda, de evolução qualificada de arquiteturas, de malhas urbanas ou de
territórios agrícolas. Os campos reticulados são tomados pelo mato, as áreas maiores são
quase sempre florestadas com espécies de crescimento rápido, como o pinheiro manso ou o
eucalipto.

Palavras-chave: Arquitetura, território, mapeamento, fotografia, desertificação

9
1. Aproximação
Vindos de Castelo Branco, passamos a Sarzedas, sede de freguesia, e continuamos na direção
poente. O povoamento humano vai-se tornando cada vez mais rarefeito. Deixamos as terras
acentuadamente planas numa paisagem que agora se começa a enrugar. Um mundo que é
isolado pelo próprio relevo. Descemos para o Sesmo e percebemos que há uma singularidade
naquele vale. A ribeira do Alvito abre-se em terras férteis de aluvião. Este chão plano é
dominado pelo olival. As árvores mais antigas falam-nos de solos há muito tempo
trabalhados. Subimos a ribeira em direção a Pomar, depois continuamos para a Lisga.
Observamos agora o domínio de pinhais jovens. Vemos parcelas agrícolas, muitas delas
abandonadas, que nos contam a história de um tempo em que havia uma população mais
numerosa e ativa a trabalhar as terras. Hoje a Natureza vai recuperando o seu território, a sua
biodiversidade. A ribeira da Lisga, na “sombra” de serra do Moradal, é um mundo de vida e
de lugares escondidos, um labirinto surpreendente e íntegro que nos fala silenciosamente de
um mundo em transformação contínua.

Serra do Moradal, Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. dg685500. 2016

2. Descrição
A aldeia do Sesmo é como que a porta de entrada neste território. Desenvolve-se a partir da
proximidade da ribeira do Alvito que aqui, para montante e para jusante, apresenta solos de
aluvião férteis. Dominam os olivais a par da coexistência com outras culturas e algumas
hortas. A povoação é concentrada e as ruas orgânicas, adaptadas à topografia dominada por
declives regulares uma vez que o local de implantação do povoado é um outeiro contornado
pela ribeira. O conjunto urbano não apresenta edifícios notáveis. São visíveis casas

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abandonadas, várias em ruína avançada, particularmente as habitações mais antigas, com
paredes de xisto e áreas exíguas.
Acompanhando a ribeira do Alvito para montante, passamos a Pomar. O povoado tem um
traçado linear ao longo de uma rua, a qual apresenta algumas ramificações muito curtas. Há
uma pequena ribeira que desce de norte e que aqui próximo aflui à ribeira do Alvito. Podemos
observar olivais abundantes, algumas hortas, não longe, em cotas mais elevadas, ruínas de
moinhos de vento, raros nesta região.
Sesminho, no extremo sul desta área geográfica, é a mais pequena povoação do conjunto
situado nas margens da ribeira da Lisga/Alvito, na zona de intervenção previamente definida.
Situando-se um pouco afastada da margem da ribeira, não apresenta uma estrutura urbana
clara, apenas casas dispersas entre dois núcleos separados pela estrada que vem do Sesmo e se
dirige para sul.
Numa tentativa de caracterizar alguns elementos dominantes que encontramos nestes lugares,
não podemos deixar de notar a presença de um mundo acentuadamente rural presente em
todas as intervenções humanas naquela paisagem. Usar o solo, intervir, produzir alimentos,
semear cores e formas pelas paisagens, pelos recantos possíveis dos declives das montanhas.
Hoje, muitos espaços, antrs trabalhados, foram abandonados, mas a vegetação mantém o seu
ciclo de vida, de floração. Outras espécies se aproximam. Há vida que se ergue sobre as ruínas
das construções humanas. Natureza transformada.
As estradas e os caminhos estabelecem as múltiplas ligações entre sítios que aqui apresentam
traços identitários bastante homogéneos. São, quase sempre, simples desenhos no solo, formas
construídas para o atravessamento de linhas de água, estradas para uma passagem ou uma
partida célere. São desenho e estrutura no território, são organização e espelho de uma
sociedade. Formas elementares para o movimento.
A arquitetura popular tradicional mais antiga representa fragmentos de sabedoria e texturas de
tempo, hoje ruínas. Formas de habitar materializadas com as pedras de xisto que são extraídas
do solo, de pedreiras próximas ou da limpeza dos campos agrícolas. Paredes que se erguem
como uma segunda natureza em diálogo com o mundo árduo diariamente trabalhado em
registo de subsistência precária.
Há uma civilização que se perde. Gestos humanos poderão querer resgatá-la, fixar a memória
de antigos construtores de paisagens. Talvez não faça hoje sentido lutar pela integração numa
natureza dura em que apenas a falta de diferentes caminhos levou à edificação de obras tão
notáveis. Percorremos a arqueologia de um tempo que queremos compreender, mas que quem
o habitou quer esquecer.
A Natureza vai tomando progressivamente antigos campos agrícolas. As águas da ribeira
continuam a correr ininterruptamente. No seu leito há desenhos em xisto polido tornados
vivos pela erosão das cheias sazonais. A vegetação arbórea mostra poderosas raízes.
Expressões perplexas de vida que se revelam no movimento efémero do transporte de uma
folha sobre a água ou na chuva que desenha círculos na sua superfície, que ao mesmo tempo
avivando o verde permanente.
Quando percorremos as terras elevadas, as linhas de festo que envolvem a ribeira da Lisga,
percebemos, do alto, a dimensão de isolamento destas paisagens. Para norte, ao longe, vemos
montanhas: Gardunha, Estrela, Açôr, Lousã. Para Sul sentimos o enunciar do vale do rio Tejo
e das terras mais planas de horizontes longínquos.

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Este território, no extremo poente de Castelo Branco, é um istmo administrativo situado entre
os concelhos de Oleiros, a norte, e Proença-a-Nova, a sul. A aldeia da Lisga, que em tempos
passados teve um grande dinamismo económico associado à agricultura, está quase a 40
quilómetros da sede do concelho, o que contribui para um acentuado isolamento. Um dos
motivos de prosperidade no passado terá sido a presença de água, todo ano, numa certa
abundância. Hoje a população decresceu de forma muito acentuada, muitas pessoas
emigraram. A água continua a correr na ribeira, marginando agora campos abandonados e
ruínas de moinhos. A Natureza toma conta do lugar e forma galerias ripícolas onde a
biodiversidade cresce nesta paisagem húmida. Ao redor, numa grande concha que delimita
aquele sítio, vemos pinhais jovens a perder de vista.

Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. dg682494. 2016

3. Contexto
O trabalho de mapeamento fotográfico da “península” administrativa da Lisga, na freguesia
de Sarzedas, foi um desafio lançado por Carlos Semedo, programador cultural da Câmara
Municipal de Castelo Branco. O objectivo foi o de conceber e concretizar uma exposição de
fotografia no salão do edifício da junta de freguesia, nas proximidades do território
fotografado. A iniciativa, “Castelo de Artes - Encontros de Castelo Branco”, enquadrava-se
num conjunto de outras propostas e desafios lançados a diversas pessoas ou entidades, todas
elas em aldeias ou territórios agrícolas. É, por parte da autarquia, a procura de soluções para a
interioridade que faz da paisagem, do mundo rural e das pessoas que o habitam, uma realidade
que se quer resgatar do esquecimento, que se quer integrar nos movimentos contemporâneos
de expressão artística. É uma forma de pensar o povoamento e de atuação que nega, no
imediato, um mundo que procura apenas encontrar na economia produtiva de bens e serviços.

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Há uma aposta na cultura como força transformadora que põe diferentes mundos em diálogo,
renovando modos de olhar e de intervir nos lugares. É uma forma de criar memórias nas
populações e de revitalizar espaços na iminência do abandono.
Sarzedas é uma vila fora do espaço que se tomou como referência de trabalho, mas o facto de
aí se realizar a exposição, que motivou este levantamento fotográfico, levou à inclusão de
algumas fotografias da mesma no projeto. Dessas imagens, algumas são de arquivo, feitas em
1996 e em 2003. As mais recentes são já do corrente ano, 2016. Nas várias representações
feitas num intervalo de 20 anos é percetível a passagem do tempo, em contraponto a uma
estrutura urbana que se mantém e que é muito interessante. A povoação é definida,
sensivelmente, por duas linhas, duas ruas paralelas. Ao centro há uma pequena praça onde se
localiza o pelourinho, símbolo de um antigo poder municipal que, entretanto, se perdeu. Ao
fundo do povoado, a nascente, situa-se a igreja matriz. Do alto de um cabeço, no topo de uma
torre sineira isolada, vemos extensas paisagens em todas as direções. A serra do Moradal, e a
sua sombra, estão próximos. A exposição veio a ter como título “A Sombra do Moradal -
Uma viagem pelo extremo poente de Castelo Branco: Sarzedas, Lisga, Sesmo, Pomar e
Sesminho”.

Sarzedas, Castelo Branco. dg686528. 2016

4. Matéria
“A sombra do Moradal” é este território próximo daquela serra, são as terras de xisto vizinhas
dos horizontes planos de Castelo Branco, mas onde os solos de xisto são enrugados e pobres.
São hoje paisagens em processo de desertificação humana, pontuadas por casos de resiliência.
Alguns desses exemplos são obras de arquitetura tradicional muito interessantes, mas
dominadas atualmente pela imagem de abandono. Campos agrícolas, parcelas conquistadas à

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floresta e ao mato, outrora trabalhados, são hoje as ruínas que revelam um “esplendor”
passado e perdido.
Este levantamento fotográfico decorreu nos dias 2 a 4 de outubro e, mais tarde, no dia 22 do
mesmo mês, período em que choveu praticamente durante todo o dia. O objetivo deste
trabalho consistiu na caracterização daquele espaço pela imagem fotográfica, um registo livre
de paisagem e de povoamento humano. Foram feitas 6.604 fotografias nos primeiros três dias
e 2.007 fotografias no dia 22. No total, foram captadas 8.611 imagens. Na preparação da
exposição, o passo seguinte foi proceder a uma primeira seleção de fotografias. Do número
total, foram destacadas 2.834 fotografias. Num segundo nível, reduziu-se aquele número para
1745. No terceiro e último passo, foram editadas, convertidas do formato original, RAW, para
TIFF, 624 fotografias. Seguiu-se a estruturação da exposição. Definiram-se 11 grupos de
imagens: Lisga; Sesmo; Pomar; Sesminho; arquitetura; caminhos; rural; natureza; ruína;
fragmentos; Sarzedas. Procurou-se criar uma narrativa, pôr em diálogo os vários conjuntos de
imagens que caracterizavam a região.
Na véspera da inauguração da exposição, no dia 28 de outubro de 2016, o trabalho é
apresentado publicamente na aldeia da Lisga. Levo comigo um documento preparado com as
fotografias da exposição que acabava de ser montada em Sarzedas. Provavelmente, esta
população envelhecida e com pouca capacidade de transporte, não se deslocará a Sarzedas, até
ao final do ano, para ver as fotografias impressas. Depois de uma breve apresentação do
trabalho, feita por Carlos Semedo, promotor do evento, e pela presidente da Junta de
Freguesia de Sarzedas, Celeste Rodrigues, avanço para a projeção das imagens. Nunca no
passado tivera a oportunidade de falar com uma população que nada tem de próximo com este
género de registo. O ruído das conversas e comentários alterna com o silêncio. Vou
avançando com a projeção e os comentários pontuais às imagens. Da apreensão inicial, pela
especificidade do público, rapidamente me apercebo que há uma identificação com as
imagens, com os lugares que elas representam. Há o reconhecimento da terra por alguém que
vem de fora e se fixa em fatores, aparentemente, insignificantes, mas que, na realidade, dizem
muito àquela população. De uma forma inesperada, encontro no olhar e nas palavras daquelas
pessoas algo do sentido mais profundo do que eu próprio procuro no meu trabalho: a
representação da terra, a identificação e o reconhecimento dos lugares, a materialização de
uma “geografia” própria, a convicção de que o conhecimento dos lugares e das formas sábias
das suas arquiteturas, são elementos-chave para o desenho de um mundo mais qualificado,
informado e livre. Fotografias que tentam captar a estrutura e a face dos lugares, das
povoações e das paisagens.
Que o trabalho de fotografia sobre territórios povoados relativamente isolados e pouco
visitados por pessoas de fora, pudesse levantar suspeitas, desconfianças por parte dos
habitantes locais, era uma evidência decorrente de episódios vários que quotidianamente
ocorrem neste labor. Quando ocorre o regresso, por várias vezes, aos mesmos sítios, em dias
consecutivos, ou com o intervalo de poucas semanas, essa desconfiança acentua-se. O
contacto com a população que estranha uma presença desconhecida é parcialmente
desvanecido nos vários diálogos ocasionais, em que há sempre uma saudação, muitas vezes
uma conversa breve sobre a atividade em desenvolvimento, seus pressupostos e destino. No
diálogo com os habitantes da Lisga, quase todos manifestam alguma apreensão sobre alguém
que por ali andou a fotografar em dias consecutivos. Em cada troca de palavras, nesses dias de

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recolha fotográfica, foi clarificada a natureza e os objetivos deste trabalho. Mas quem observa
ao longe este labor desconfia do estranho que por ali circulava, por terras que raramente
recebem a visita de quem vem de fora, muito menos para desenvolver um levantamento
fotográfico e colher imagens de situações, de paisagens, pouco valorizadas pelos habitantes
locais.

Pomar Sarzedas, Castelo Branco. dg687317. 2016

5. Partir
Olhamos para um pequeno núcleo de casas abandonadas no centro da aldeia da Lisga.
Também poderíamos observar a sua antiga ponte de pedra, os socalcos agrícolas, os muros de
contenção de terras, as ruínas de azenhas ao longo da ribeira, ou os numerosos caminhos.
Nestes elementos podemos ler uma parte do processo civilizacional que nos conduziu ao
presente, como se ali estivesse representada a história de séculos do caminhar humano, entre
derrotas e vitórias.
A arquitetura popular tradicional teve um lugar próprio na história do povoamento do espaço
português. O período do seu desenvolvimento é necessariamente limitado. A sua evolução foi
lenta, mas terá durado vários séculos. Agarra as suas raízes, talvez, ao período castrejo,
quando se erguiam cividades no alto dos montes. O uso dos metais e da mineração irá
proporcionar poderosas ferramentas evolutivas. Daí até meados do século xx, os processos
construtivos pouco evoluíram em espaço rural. O grande salto dá-se com o uso generalizado
do cimento. Betão armado, ferro, tijolo, vidro e, mais tarde, o alumínio. Historicamente, a
maior densidade populacional de todo o espaço português, com a exclusão das cidades, dá-se
em meados do século passado. Um regime opressor governava um país fechado ao exterior. A
grande maioria dos solos era, e é, pobre e em parcelas de pequenas dimensões, mas sempre se

15
procuraram novos campos para cultivar à medida que as famílias cresciam. A fome surda, ou
o seu limiar, estimulou o “salto”. Em meados dos anos sessenta o regime começou a
apresentar fragilidades. A uma vigilância menos apertada da fronteira com Espanha não será
alheia a participação portuguesa nas guerras que, entretanto, eclodiram nos territórios
ultramarinos de expressão portuguesa, concentrando em si um enorme esforço administrativo
e militar. Há um esvaziar parcial dos campos. Simultaneamente, aumentam
consideravelmente as migrações internas com destino às cidades, particularmente Lisboa e a
sua área limitrofe, onde se procura trabalho e o afastamento da dureza das lides da agricultura,
dos pés na terra e as mãos no arado ou na sachola. Este movimento populacional tem como
consequência, não só o abandono dos campos, mas, sobretudo, de muitas casas. O declínio
não mais será travado.
Com o amealhar de poupanças, a primeira geração de emigrantes começa a construir novas
habitações. Novos materiais e áreas muito mais generosas levam a que se abra o perímetro das
aldeias. O seu antigo núcleo rural é, em parte, desabitado. As relações sociais, muito
relacionadas com rituais associados aos ciclos das plantações e colheitas, também se alteram.
As novas casas grande construídas por quem fora procurara alguma riqueza, de desenho quase
sempre pobre e uniforme nas suas soluções arquitetónicas, simbolizam o sucesso na vida face
à pobreza em que permaneciam as populações que haviam decidido ficar.
Hoje, este mundo afastado das maiores cidades continua o seu processo evolutivo com um
outro revés. As casas que foram construídas pelos emigrantes destinavam-se também a
acolher os filhos e os netos. Mas os jovens integraram-se nas comunidades de acolhimento,
estudaram e, no início da vida adulta, iniciaram a vida laboral. O passo seguinte seria a
constituição de família. O regresso à terra dos pais, em Portugal, deixava de se perspetivar.
No tempo da reforma da atividade profissional, a primeira geração de emigrantes volta aos
seus lugares de origem, mas, em muitos, casos, não será por muito tempo. A permanência de
filhos e netos nos países estrangeiros leva a que estes homens e mulheres voltem para junto
dos mesmos. As aldeias apresentam agora dois níveis de abandono. O das casas pequenas,
mais antigas, quase sempre construídas com métodos tradicionais, e as casas grandes, mais
recentes. Este fenómeno não é uniforme em todo o país, apresentando mesmo algumas
diferenciações assinaláveis. O Minho e o Alentejo são um pouco uma exceção a esta leitura,
mas correspondem a territórios que não deixaram de ser também transformados em direções
opostas: o Minho numa exuberância significativa de muitas das suas formas construídas
versus o Alentejo num conservadorismo evidente, em contraste com uma vanguarda
ideológica de oposição ao regime do Estado Novo, na incessantemente procurada reforma
agrária. Há ainda casos pontuais, um pouco por todo o país, de resistência ou declínio mais
acentuado desta imagem geral que caracteriza o mundo rural. Algumas destas diferenças
constituem casos de estudo muito interessantes.

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Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. dg681535. 2016

6. Quadro
O “fim” da arquitetura popular tradicional poderia ser interpretado como uma derrota. Não há
perdedores, há um movimento civilizacional imparável. É um ciclo de habitar que chega ao
fim, que deixa no solo as ruínas do seu “esplendor” passado. Foram desenvolvidas soluções
arquitetónicas de grande equilíbrio e qualidade de desenho. Eram formas que respondiam a
problemas concretos, saídas para necessidades prementes, muitas vezes de sobrevivência. O
Inquérito à Arquitetura Popular em Portugal, coordenado pelo arquiteto Francisco Keil do
Amaral, então presidente do Sindicato Nacional dos Arquitetos, é um tributo a esse mundo. É
um registo feito entre 1955 e 1960 que capta uma civilização à beira do seu colapso. Legitima
uma fonte de inspiração e de liberdade para o modernismo arquitetónico que, tardiamente,
despontava de forma generalizada em Portugal e que procurava a sua internacionalização. Era
como se a própria arquitetura tradicional aguardasse esta passagem de mensagem e de
testemunho para implodir.
O abandono da “prisão” da terra é uma realidade que poderá ser difícil de interpretar à luz de
conceitos contemporâneos. E estamos tão próximos desse passado. Aquele espaço teria que
ser vivenciado noutro tempo, durante os invernos duros e os verões tórridos. Quem habita as
aldeias não tem dúvidas nem hesitações sobre o porquê do fim das mãos no arado. Foram
tempos e rituais que se deixaram para trás, que levaram muita gente para as cidades, para as
suas cinturas periféricas. Nos povoados de origem deixaram, indeléveis, memórias fortes,
mas, ainda assim, a recusa de um regresso.
Mas não deixa, contudo, de haver algo de muito sedutor neste processo de transformação do
solo, quanto mais não seja o desejo de o entender. O conhecimento é construído com a
vivência do terreno, com o caminhar sobre um solo pedregoso, lamacento ou coberto de

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geada. Na terra poderemos encontrar um olhar renovado, a compreensão de gestos do
passado, mesmo aqueles que poderão ter sido vividos por quem há séculos desapareceu. Há
um caminhar humano que permanece por longos anos plasmado nestes horizontes. Estas
fotografias buscam também esse tempo, essa memória. Procurar o tempo longo da cisão da
passagem de uma condição animal para o dealbar da humanidade. Dificilmente uma
bibliografia transmite uma vivência concreta, mesmo o cinema tem limitações. As fotografias
aqui apresentadas são um movimento que procura a representação do desejo de captura das
dimensões da terra e do tempo breve do seu habitar. Andamos, lentos, sobre um reino de
silêncio, de sentidos despertos, de aproximação à força dos elementos basilares que compõem
a natureza intacta ou o ambiente habitado.
As ruínas no interior das aldeias são cicatrizes insanáveis de um modo de construir que deixou
de fazer sentido. Os artífices dessas obras também desapareceram, eram os construtores de
uma arquitetura de aparência rude a par de pormenores de elevado refinamento no seu
desenho. Agora são lugares de impasse e de solidão. Isolamento e, por oposição,
indiretamente, a afirmação das cidades como pólos de agregação de populações que para elas
convergem de diferentes territórios.
Muito mais do que em qualquer outro período no passado, o mundo rural é hoje um tabuleiro
onde se jogam tensões de enorme complexidade. As cidades polarizam regiões cada vez mais
vastas. A globalização vai invadindo territórios que não estão minimamente preparados para a
receber. Há, na procura das cidades, um desagregar de estruturas sociais longamente
maturadas. Os trabalhos árduos do campo não serão, quase nunca, substituídos por mundos
fáceis e coloridos muitas vezes são veiculados pela televisão, pela internet dos mais jovens.
Há uma dureza oculta na periferia cinza das urbes maiores, silêncios que escondem dor e
sofrimento. Nenhuma revolução nos livrou ainda da luta quotidiana pela sobrevivência.
Hoje, Portugal tem uma rede de estradas qualificada. As auto estradas parecem-se com os
componentes de um computador onde a informação circula a velocidades luminosas. Uma
imagem relativamente homogénea e equilibrada, no jogo de forças entre o povoamento
humano e a natureza, mostrou-nos, no passado, um país onde a arquitetura popular era a face
dessa realidade aparentemente eterna. Atualmente lemos um país com enormes cicatrizes
deixadas no solo, a par de construções recentes, do desejo de povoar, de desenhar. A
arquitetura popular foi abandonada. A Lisga é um lugar que se sente afastado, mas que acaba
por estar em ligação com tudo. As estradas são hoje linhas de fuga e de aproximação, de
visitas breves, serpentes, muito mais do que artérias de vida entre comunidades vizinhas ou
afastadas. São os territórios onde nunca estamos, que se escondem em recantos insuspeitos.
Reserva de lugar pode ser o que encontramos no vale da ribeira da Lisga. Num avanço da
intervenção humana por todo o território, do desenho, técnico, de todos os espaços, são estes
territórios mais escondidos que vão guardar micro paisagens. Aqui se criam estratos
geológicos que contam a passagem do tempo e a história da ocupação do espaço ao longo dos
séculos. Sedimentos civilizacionais que poderão ser eventualmente encontrados daqui a
milhares de anos.
Antes de partir daquelas paisagens da Lisga procuramos Galharós, uma pequena aldeia de
Oleiros a cerca de duzentos metros do limite do concelho de Castelo Branco. Percorremos
estradas que serpenteiam entre pinhais, em horizontes ocultos. Seguimos uma indicação para
virar à esquerda. Entramos num estradão. Chegamos ao ponto mais elevado da pequena

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aldeia. Completamente abandonada. O lugar não é habitado por quem quer que seja em
permanência. O último habitante da aldeia morrera em 1984 e nesse momento já não se
encontrava em Galharós. Em 2003 um incêndio florestal destruiu completamente o que então
restava da povoação. Uma parte das casas está hoje recuperada. É como se uma força
poderosa lutasse com tenacidade contra o desaparecimento de um lugar. Esta é uma imagem
possível deste mundo, a recusa do fim, o apelo da terra, como se na sabedoria do diálogo com
a natureza estivesse a única chave possível para o entendimento da vida, a sobrevivência da
luta tranquila pela permanência, a compreensão dos gestos que nos ergueram humanos ao
longo de centenas de milhares de anos.

Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. dg685167. 2016

7. Notas
Estes trabalhos questionam o sentido do viajar, do registo fotográfico, do entendimento da
terra, de “toda a terra”. Há um limite de registo que nunca se alcança, persistem sempre
enormes descontinuidades nessa aproximação, como que a ideia de um mapa à própria escala
do território, como escreveu Jorge Luis Borges. Uma realidade que nos escapa. Projetos
expositivos recentes como Procurar um País - trinta anos em viagem, apresentado em
Coimbra, Mundo Português, em Viseu, ou O arquivo como cidade, primeiro sob a forma de
conferência no ISCTE, depois o conjunto das imagens foi mostrado na Golegã, são a procura
de uma síntese, de uma caracterização dos territórios na sua imensa diversidade, modos de
comunicar uma reflexão sobre Portugal, expor informação, suscitar conhecimento.

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Lisga, Sarzedas, Castelo Branco. dg685054. 2016

8. Fontes
Este trabalho partiu de uma conversa com Carlos Semedo sobre o objetivo de produzir um
mapeamento fotográfico de um território delimitado, no extremo poente de Castelo Branco. A
materialização do projeto consistiu na apresentação pública do trabalho desenvolvido no
campo junto de uma das comunidades visadas e na realização de uma exposição. A pesquisa
que precedeu o trabalho no terreno foi feita na Carta Militar de Portugal, escala 1/25.000,
série M 888, do Instituto Geográfico do Exército, bem como na consulta de fotografias aéreas
disponibilizadas no Google Earth e no Google Maps.
Há uma base transversal e sempre presente num olhar sobre Portugal: a obra de Orlando
Ribeiro e de um modo de fazer geografia por si fundado. Também a escola etnográfica de
Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira, Benjamim Pereira, entre outros, é uma referência sobre
a ruralidade. O inquérito à arquitetura Popular Portuguesa é outra obra incontornável.
De referir ainda o recurso a fontes bibliográficas díspares que, de algum modo, contribuem de
forma ativa para a construção de um olhar e de uma reflexão sobre o espaço entendido de uma
forma lata.
Não poderá deixar de ser aqui assinalado que este trabalho é a continuidade de cerca de 30
anos de recolhas fotográficas, de mais de 10.000 povoações fotografadas em espaço
português, 1.200.000 fotografias feitas e referenciadas, 700.000 quilómetros percorridos.

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Pomar, Sarzedas, Castelo Branco. dg687711. 2016

9. Fotografias
Numa experiência de levantamento fotográfico recente, desenvolvida em Viseu, em 2015,
apontava, numa estimativa inicial, para o registo de cerca de 40 a 50 aldeias, além de toda a
cidade. Ao fim de 33 dias de campo, que se estenderam ao longo de 4 meses de trabalho,
foram registadas 240 aldeias, num total superior a 400 lugares. Quando pensamos que um
determinado território está relativamente bem coberto, em termos de registo de imagem,
deparamo-nos com o que poderíamos descrever como uma dimensão fratal das paisagens,
sensação essa que é exponencialmente acentuada pela passagem do tempo, que muito
transfigura os sítios, mesmo aqueles onde é pouco notada a intervenção humana.
A terra é um labirinto e a forma de captarmos as suas dimensões não terá outra alternativa que
não seja a de percorrermos os seus lugares. O que procuramos nesta busca árdua? Há aspetos
individuais que se prendem com a consciência de identidade e posição de nós próprios, a
procura da liberdade ou do sentido que a nossa vida pode ter. Mas há também aspetos
coletivos conexos, como a identificação da comunidade a que pertencemos e o diálogo com a
expressão da sua cultura. Talvez estas sejam apenas formas de procurar a sobrevivência num
processo, em que há algo que nos escapa permanentemente .
Por vezes parece estarmos perto de uma ideia que esclarece uma dúvida difusa que
perseguíamos ou que liga conceitos aparentemente díspares. Noutras vezes esse pensamento
desvanece-se ou evolui simplesmente para dúvidas mais densas. Seguimos intuições que
falham mas há um momento em que damos um passo em frente, em que algo se torna mais
claro. Partimos para outras “batalhas”, para outras materializações do pensamento. Adaptação
e sobrevivência, sem moral determinada, sem sentido definido. Um pouco como a arquitetura
popular tradicional, construímos formas, reais e imaginárias, que um dia serão obsoletas.

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As investigações fotográficas, os trabalhos extensivos sobre a imagem dos territórios, criam
um corpus de informação com potencial estratégico para ser transformado em conhecimento
estruturado. Há o “transporte” de uma realidade espácio-temporal vivida, complexa,
tridimensional, para o espaço delimitado da representação bidimensional. O “poder” dessas
fotografias não reside no seu valor individual, mas no conjunto que representam. Neste
conjunto podemos estabelecer relações topológicas que ligam o sentido dos lugares, uma das
maiores seduções num trabalho tendencialmente exaustivo de levantamento fotográfico.
Depois de selecionar e de excluir fragmentos de realidade, de construir um discurso, em
continuidade, a partir de centenas, milhares e milhares de imagens. As fotografias são
unidades de significação, propostas para o entendimento do mundo.

Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. dg686982. 2016

10. Continuação
Há “uma” imagem que não ficou registada. É essa ausência que nos “puxa” para o regresso ao
campo, para então repararmos em detalhes que antes não observáramos. As fotografias são
uma dança, um movimento performativo sobre o real, liberdade, imersão num espaço-tempo
singular, o diálogo com o mundo visível, formal, reflexos de luz e sombra.
A arquitetura popular tradicional, como a conhecíamos, tende a desaparecer na sua expressão
em territórios contínuos e integrados com o meio ambiente. Nas fotografias ficará fixada a sua
imagem. São estas representações que nos demonstram, na sua imobilidade, a passagem do
tempo e a transformação que este opera sobre os habitats humanos ou sobre o espaço natural.
Nada detém a erosão dos elementos, o envelhecimento dos seres, a sucessão de ciclos de vida
de indivíduos, de espécies, a morte.

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A arquitetura popular tradicional mostrou-nos exemplos extraordinários de sabedoria e de
conhecimento, de adaptação. Hoje, as construções sem recurso a arquitetos ou engenheiros
continuam a existir com grande dinamismo. Ocupam lugares de franja, não o centro das
cidades, mas as suas periferias, longe dos centros de poder e onde a pobreza de recursos é
mais acentuada. Ironicamente, foi também esta que impulsionou algumas das nossas mais
belas peças de arquitetura popular tradicional, muitas delas que hoje apenas permanecem em
fotografias.

Ribeira do Alvito, Sesmo, Sarzedas, Castelo Branco. dg 684171. 2016

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24
Arquitectura Popular: totalidade e ordem implícita
Maria Rosália Guerreiro
Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), CRIA,
Av. das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa, Portugal
[email protected]

Resumo
As construções humanas criam ordem física nas nossas paisagens, seja ela produzida pelo
designer, pelo construtor ou pelo usuário ou até pela intervenção combinada destes intervenientes.
Contudo e apesar do nosso mundo ser dominado pela ordem que nós criamos a nossa ideia presente
de ordem é obscura. A arquitectura popular é uma excelente oportunidade para analisar o conceito
de ordem e quais as suas propriedades emergentes.
O presente trabalho procura olhar para o ambiente construído emergente e explicar um certo
tipo de ordem implícita que resulta da complexidade da auto-organização e que está presente na
arquitetura popular.
O estudo socorre-se da teoria de Wholeness de Christopher Alexander nomeadamente
através de 15 propriedades geométricas que estão presentes na natureza e na arquitectura e que o
autor considera serem fundamentais e inerentes às estruturas espaciais com vida. A teoria consiste
em analisar o ambiente construído às mais variadas escalas a partir de uma abordagem integrada e
holista onde as formas e os objectos não devem ser vistos, apenas como uma parte da realidade,
como algo separado do seu contexto, mas sim um centro, ou um conjunto de centros que se
associam com uma certa organização e que não têm qualquer valor como entidades isoladas.
Conclui-se com este trabalho que a arquitetura popular do mundo mediterrâneo pode ser
explicada em grande medida através da sua relação com o contexto. No entanto essa informação
pode ser traduzida numa linguagem universal que pode ajudar a solucionar os problemas do habitat
humano, nomeadamente nos países do global Sul onde a superpopulação cria uma grande demanda
de novas construções que serão feitas necessariamente pelas pessoas, pelo que se torna imperativo
encontrar os meios para recrear o nosso habitat de um modo mais sustentável e harmonioso de
acordo com o espirito humano.

Palavras-Chave: Wholeness, configuração, centro, vida, natureza, arquitectura.

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1. Introdução
As construções humanas criam ordem física na nossa paisagem, seja ela produzida pelo
designer, pelo construtor ou pelo usuário. Contudo e apesar do nosso mundo ser dominado pela
ordem que nós criamos a nossa ideia presente de ordem é obscura. A arquitetura popular é uma
excelente oportunidade para analisar este conceito de ordem e quais as suas propriedades
emergentes.
Numa altura em que se reconhece o valor da arquitetura informal enquanto solução para o
habitat humano, nomeadamente nos países do global Sul onde a superpopulação cria uma grande
demanda de novas construções, torna-se imperativo encontramos os meios para recrear o nosso
habitat de um modo mais sustentável e harmonioso de acordo com o espirito humano.
O termo “totalidade” que formaliza o título deste trabalho, é a tradução do conceito e teoria
de “Wholeness” desenvolvida por Christopher Alexander e que oferece um enquadramento para o
estudo do ambiente construído enquanto um sistema vivo que optimiza a vida da espécie humana e
adiciona valor à vida do planeta (Hamilton, 2008, p.xxi). Outra tradução para o termo Wholeness
poderia ser holismo. O pensamento holista, integral, sistémico ou complexo, que significa olhar
para qualquer entidade como um todo, como um sistema formado por uma série de elementos ou
sistemas interconectados onde a complexidade e a beleza emergem com simplicidade e elegância.
Olhar para o ambiente construído desta forma, significa compreender que mais importante
do que as partes constituintes dum sistema, são as relações entre essas partes, o que se designa por
configuração. Assim, interessa perceber quais as características dessa configuração que se revelam
em propriedades emergentes e dão vida ao ambiente construído nomeadamente na arquitetura
popular.
O presente trabalho procura olhar para o ambiente construído emergente e explicar um certo
tipo de ordem implícita que resulta da complexidade da auto-organização e que está presente na
arquitetura popular. É este tipo de ordem que caracteriza os organismos ou estruturas espaciais com
vida, seja ela, no universo, no planeta, numa cidade, num bairro, numa rua, num edifício, numa sala
ou simplesmente num objecto pessoal.
Os princípios e o método de Christopher Alexander aplicados a este trabalho estão
sistematizados na sua obra The Nature Of The Order, Volume 1- The Phenomenon of Live (2002),
nomeadamente através de 15 propriedades geométricas que estão presentes na Natureza e na
arquitectura e que o autor considera serem fundamentais e inerentes às estruturas espaciais com
vida.
Embora o termo “vida” em arquitectura seja há muito usada, as bases científicas para a sua
identificação/produção têm sido pouco exploradas. A vida de determinado sistema espacial é uma
ideia positiva que temos de determinado espaço, que partilhamos subjectivamente mas que não
sabemos descrever exactamente. Com Alexander, esta visão subjectiva vem alterar-se para algo
mais concreto, definido e mensurável e com ela, uma profunda mudança na forma de ver a
arquitectura e o urbanismo. Ele introduziu a ideia de vida na arquitectura, uma certa qualidade
estrutural com determinadas características geométricas. Esta qualidade estrutural, vida, pode existir
em maior ou menor grau, em qualquer parte do espaço e tem como peças do jogo, entidades, que o
autor definiu por “centros”, por oposição a objectos ou partes. Consequentemente, esta teoria traz

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profundas implicações nos estudos da relação da forma com o contexto, bem como na dualidade
forma (edifícios) e espaço (vazio).
Na teoria de Alexander são as relações e as conexões, as forças que moldam a forma. O
conceito de centro fundamenta-se, assim, na ideia de que a forma e contexto não se podem separar e
que o espaço/matéria é constituído por um contínuo de entidades, centros relacionados uns com os
outros, formando uma estrutura e uma ordem global que o autor designa por totalidade ou inteireza
- Wholeness (Alexander, 2002).
Neste trabalho procurar-se-á aplicar a teoria e método de Alexander à leitura do ambiente
construído, sugerindo assim um vocabulário próprio para partilhar informação subjectiva sobre o
que sentimos quando estamos perante um contexto de arquitetura produzida pelas pessoas - popular.
O artigo está dividido em duas partes principais. A primeira parte descreve a metodologia e
a teoria do todo, totalidade ou ordem implícita (Wholeness), bem como as suas propriedades
configuracionais emergentes formuladas por Christopher Alexander para a compreensão do
ambiente construído. Na segunda parte apresenta-se a discussão e aplicação dessas propriedades ao
estudo da arquitectura popular, nomeadamente no mundo mediterrâneo como forma de interpretar a
ordem implícita e/ou vida que estes objetos apresentam.

2. Totalidade e ordem implícita no ambiente construído


A teoria e metodologia de Christopher Alexander aplicada a este trabalho consiste em
analisar o ambiente construído às mais variadas escalas a partir de uma abordagem integrada e
holista. Deste modo, não devemos olhar para um objecto, apenas como uma parte da realidade,
como algo separado do seu contexto, mas sim um centro, ou um conjunto de centros que se
associam com uma certa organização e que não têm qualquer valor como entidades isoladas.
A noção de centro está ligada à ideia de que tudo está ligado a tudo e à existência duma
relação necessária entre as coisas. Segundo Alexander (2002), esta é a noção de totalidade ou
inteireza (wholeness) – aspecto fundamental para o entendimento do que é a vida num sistema
espacial. Wholeness, é assim, uma característica do espaço que aparece em todo o lado, em toda a
parte do espaço/matéria. Qualquer configuração do espaço/matéria que nós reconheçamos, edifício,
rua ou praça é composto por entidades com base nas quais o wholeness é feito. Wholeness é um
sistema de centros.
A razão por que é preferível chamar centro em vez de parte, deve-se ao facto de não ser
possível definir e delimitar exactamente essa entidade. É muito difícil definir os seus limites. Como
um lago, por exemplo, cujas margens se tornam muito difíceis de definir – isto não significa que o
lago não existe como um todo. Nós é que não conseguimos defini-lo exactamente. No entanto,
temos plena consciência da sua entidade. O que interessa na definição dum lago enquanto entidade
coerente é que a sua organização é causada por um campo de forças no qual os vários elementos
trabalham juntos para produzir o fenómeno centro.
Na arquitectura, e do ponto de vista desta relação que existe entre as coisas, se nós
chamarmos partes a determinados objectos, edifícios, praças, escadas, etc., elas passam a existir na
nossa mente como objectos isolados, mas se lhes chamarmos centros, estamos a acrescentar algo
extra ao nosso pensamento sobre esses objectos: tomamos consciência das relações entre as coisas.

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Ao chamar centro a uma parte ou objecto, pensamos nessa coisa como algo que irradia a partir dum
centro e se estende para lá das suas fronteiras. Assim, ficamos muito mais despertos para o
parentesco entre as coisas e como realmente elas são, ou seja, passamos duma visão fragmentária e
racionalista da realidade para visão holista integradora e sistémica.
Wholeness é assim uma propriedade crucial do espaço/matéria. Não é somente uma
percepção visual enquanto resultado da focagem em determinadas áreas do espaço. Ela é antes
estrutura real e fundamental, uma coisa em si própria. É fonte de coerência e ordem que existe em
qualquer parte do mundo (Alexander, 2002, p.90). Wholeness, definida como um padrão de centros,
é, portanto, uma propriedade do espaço que actua a várias escalas, desde as partículas subatómicas
ao universo. O carácter real do mundo é governado pela geometria dos centros que animam o
espaço – ordem implícita.
Posto isto, o autor sugere que a vida numa estrutura espacial depende do padrão que esses
centros formam entre si, da forma como se relacionam, da sua densidade e da forma como
colaboram para formar uma unidade (Alexander, 2002, p.106). A vida de um objecto, um edifício,
uma cidade, um qualquer sistema espacial, depende da forma como os centros estão organizados, se
complementam e se reforçam uns aos outros. As 15 propriedades enunciadas pelo autor (Tabela 1) e
que a seguir se analisam com o objectivo de perceber a arquitectura popular e o ambiente
construído, são diferentes modos de perceber como isso pode ocorrer.

1. Levels of scale 1. Níveis de escala


2. Strong centers 2. Centros fortes
3. Boundaries 3. Fronteiras
4. Alternative repetition 4. Repetição alternada
5. Positive space 5. Espaço positivo
6. Good shape 6. Boa forma
7. Local symmetries 7. Simetrias locais
8. Deep interlock and ambiguity 8. Interligação profunda e ambígua
9. Contrast 9. Contraste
10. Gradients 10. Gradiente
11. Roughness 11. Irregularidade
12. Echoes 12. Eco
13. The void 13. O vazio
14. Simplicity and inner calm 14. Simplicidade e calma interior
15. Not separateness 15. Não separação

Tabela 1: As 15 propriedades geométricas que formam Wholeness e dão vida ao espaço-matéria


(Alexander, 2002)

Estas 15 propriedades que vamos discutir na secção seguinte aplicadas ao estudo da


arquitectura popular reflectem pois o comportamento dos centros, nos quais podemos identificar
uma certa ordem implícita e grau de vida, aspecto crucial da coisa todo. E quanto mais uma

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estrutura espacial tiver o carácter de centro, mais vida ela terá. No entanto, isso não é determinado
por um fenómeno local. É determinado pelo modo como um centro se implanta num sistema geral
de centros e do grau de vida que esses outros centros possuem (Alexander, 2002, p.126).

3. Propriedades configuracionais da arquitectuta popular


Nesta secção analisam-se as propriedades dos centros em separado, no entanto elas nunca
acontecem em separado – apenas por uma questão de sistematização e gestão de informação e
consequentemente do seu entendimento, elas são aqui expostas separadamente. No entanto, as suas
relações mais directas vão-se estabelecendo ao longo da descrição de cada uma.
Procura-se aqui concretizar o método de Christopher Alexander para o estudo da
arquitectura popular, nomeadamente no mundo mediterrâneo como forma de interpretar a ordem
implícita e/ou vida que estes objetos apresentam.

3.1. Níveis de escala


Entre as propriedades geométricas identificadas pelo autor que caracterizam uma estrutura
espacial com vida, os níveis de escala são a mais evidente. Também Henri Laborit nos fala deste
princípio fundamental, que designa por níveis de organização que asseguram a coesão funcional do
conjunto e, portanto, fundamental às estruturas auto-organizadas (Laborit, 1971, p.17-18). Para que
esta coesão possa existir, os saltos de escala não devem ser muito grandes. Segundo Alexander
(2002), os centros contidos nas estruturas espaciais com vida têm diferentes níveis de escala e esses
tamanhos existem em séries de bem marcados níveis, ou seja, existem centros grandes, centros
médios, centros pequenos e centros muito pequenos. Uma grande variedade de todos bem formados
e de diferentes tamanhos é muitas vezes a primeira coisa que podemos notar num edifício de
arquitectura popular, conforme se pode observar na Figura 1.

Figura 1 – Edifício vernacular, Ribeirinha, Ilha do Pico (Açores)

29
A hierarquia de centros a várias escalas trabalha em conjunto e de uma forma sobreposta e,
portanto, dobrada no espaço. Na Figura 1 a parte central da fachada que enquadra os vãos
representa o centro maior e, portanto, de hierarquia superior. Na hierarquia seguinte temos dois
centros formados respectivamente pelos conjuntos de vãos superior e inferior. Depois temos ainda
mais quatro níveis de centros: os centros formados pelos pares de janelas, os centros formados por
cada janela, os centros formados pelas frames das janelas e os centros formados pelas tabuinhas da
parte central da fachada. É esta diferença de tamanhos, bem proporcionada, que faz com que os
centros, ou seja, as entidades discerníveis se reforcem uns aos outros e ganhem coesão. A extensão
das escalas forma um contínuo que liga o sistema espacial e o torna um todo. Para que esse
contínuo se mantenha, é importante que os saltos de escala não sejam demasiado grandes.
Um centro torna-se assim mais intenso e com mais vida, quando os outros centros à sua
volta têm com ele uma relação de tamanhos bem definidos, a uma escala que é talvez metade do seu
tamanho ou o dobro do seu tamanho, mas não enormemente grande ou enormemente pequena.
Deste modo para intensificar um determinado centro, temos de criar outro centro, talvez com
metade ou um quarto do tamanho do primeiro. Mas se o centro mais pequeno for menos de um
décimo do tamanho do centro maior, é muito pouco provável que o primeiro venha a ajudar a
intensificar o segundo (Alexander, 2002, p.149).
Podemos assim dizer que o edifício de arquitectura popular representado na Figura 1 tem
vida, porque os múltiplos centros existentes se entre-ajudam e porque existe uma relação correcta
que se mantém entre os diversos tamanhos.

3.2. Centros fortes


Paralelamente aos níveis de escala, e intimamente relacionado com essa propriedade, outro
aspecto importante dum objecto-organismo com vida, e, portanto, se comporta como um todo, é o
facto deste conter um centro forte de atenção. O centro que comanda cada escala. Um centro forte,
em qualquer sistema espacial, é um campo de forças. É qualquer coisa que mesmo que não se possa
observar, sabemos que está lá, porque ficam visíveis as múltiplas forças de ligação que o todo
estabelece com ela, ou seja, fica a sensação de que, todo o conjunto está organizado para suportar e
rodear esse centro. E quanto maior for o número de ligações mais forte ele é.
Qualquer centro forte é constituído por muitos outros centros fortes visíveis a outras escalas.
Uma multiplicidade de centros, que se organizam de tal forma que ajudam a formar esse centro
forte. Na Figura 1 também podemos observar esta propriedade onde os centros mais pequenos se
reforçam mutuamente e formam um todo, um centro forte, que dá vida a essa estrutura espacial.
Um centro forte é uma noção recursiva e fractal, que só se explica pela relação que tem com
outros centros do sistema. Em cada nível de escala, um centro é mais forte do que outros, é o centro
da composição naquele momento, para aquele tamanho e para aquela configuração. Tal como
podemos observar também na Figura 2, é uma característica essencial da arquitectura popular. Os
centros fortes desempenham um papel fundamental na imagem e na vida do sistema espacial por
criarem pontos focais ou de encontro com muita facilidade.
Se o centro é meramente qualquer coisa no meio dum sistema espacial que desaparece
quando o cobrimos, ou seja, não tem esta qualidade progressiva, sequencial, campo de forças que
nos leva até ele, então este centro tem muito pouco poder. Para ser um centro forte, é necessário que

30
todo o sistema espacial esteja organizado de tal forma que suporte e circunscreva esse meio – o
campo visual está orientado para esse centro. Na Figura 2 a igreja ou a protuberância do telhado não
precisavam de lá estar para se saber que este é o centro do sistema espacial. Mas, a centralidade
forte pode também ser criada pelo próprio vazio, como é o caso das praças das cidades tradicionais
de crescimento orgânico, cuja centralidade está definida pelo grande número de ligações que
indicam a sua existência.
A formação de centros fortes juntamente com os níveis de escala é um dos aspectos mais
importantes na estrutura dum sistema espacial com vida, sendo por isso aspectos essenciais a ter em
conta no desenho de novos sistemas espaciais sejam eles um edifício ou uma cidade ou na
reconversão dos já existentes.

Figura 2 – Valbona, Espanha (in Carver Jr., 1988, p.74)

3.3. Limites
Os centros, ou todos com vida, são formados ou reforçados por fronteiras. A fronteira forma
assim um campo de força que cria e intensifica o centro que fica por ela circunscrito. Este limite
tem um duplo propósito: focar a atenção no centro, ajudando assim à sua produção, bem como, ligar
o centro circunscrito ao mundo para lá da fronteira. Para que isso aconteça, é necessário que a
fronteira seja, ao mesmo tempo, distinta do centro circunscrito para o manter separado da
envolvente e simultaneamente ter a capacidade de unir esse centro ao mundo exterior. Dito de outro

31
modo, a fronteira é ela própria formada por centros. A fronteira unifica e separa ao mesmo tempo e
ao percepcionar o espaço desta forma, as ideias fixas de centro e de limite dissolvem-se.
Para que a fronteira seja efectiva, esta deve ser da mesma ordem de magnitude do que o
centro que circunscreve. Se a fronteira for muito mais pequena, do que a coisa que ela envolve, ela
não ajuda muito à produção dum centro, dum todo.
Estas fronteiras largas resultam de necessidades funcionais de separação e de transição entre
dois sistemas diferentes. Elas ocorrem essencialmente porque onde quer que dois fenómenos
diferentes interajam, existe também uma zona de interacção que é uma entidade em si própria, tão
importante como os sistemas que ela separa.
O ambiente construído por entidades, que são simultaneamente centros ou zonas de
transição, fronteiras. Os telhados que rematam os edifícios e desenham o skyline, reforçam o centro
urbano como um todo. Uma rua é simultaneamente espaço de transição entre edifícios, mas é
também um espaço de interação e um centro forte, (Figura 3).

Figura 3 – Uma rua em San Gimignano, Itália (in Carver Jr, 1983, p.50,55)

3.4. Oscilação ou repetição alternada


A repetição só por si consegue criar harmonia. Esta é uma das formas pelas quais os centros
mais se enfatizam uns aos outros e consequentemente criam vida numa estrutura espacial. No
entanto, para que exista vida é necessário um tipo de repetição muito especial. É a designada
repetição alternada, que é uma forma de repetição em que o ritmo dum conjunto de centros, que se
repetem, é intensificado pelo ritmo paralelo dum segundo sistema de centros que se repetem duma

32
forma alternada com este. Por vezes, estes dois sistemas de centros dão origem a um terceiro
sistema, que mais uma vez se repete, e oscila como os primeiros (Alexander, 2002).
Numa repetição alternada o que se repete não são simplesmente as unidades, mas também o
espaço entre essas unidades. E muitas vezes a própria repetição se repete, criando imagens auto-
semelhantes, mais uma vez evidenciado o carácter recursivo das estruturas espaciais.
Na maioria dos padrões da Natureza, verifica-se que, as unidades que se repetem são
alternadas por uma segunda estrutura, da mesma ordem de magnitude, que também se repete. As
oscilações do relevo, as ramificações das árvores e os espaços entre essas ramificações, as folhas e
os espaços entre elas, uma flor e os espaços entre as suas pétalas – em todos estes casos, o espaço
vazio também se repete e também é uma entidade, um centro. Mas a questão central da repetição
desta segunda estrutura é a coerência em si própria dos seus centros secundários. Não são apenas
lidos como fundo, mas também como forma. Podemos ver claramente esta propriedade expressa nas
estruturas representadas nas (Figuras 4 e 5).

Figura 4 – Museu do Vinho, Madalena, Ilha do Pico, Arq.º Paulo Gouveia.

Figura 5 – Casa de Lavoura, Anta S. Paio, Guimarães (in Arquitectura Popular em Portugal, 1.º
Vol., p. 48).

33
3.5. Espaço positivo
O espaço positivo é também uma propriedade muito importante para garantir a inteireza do
espaço e consequentemente para gerar vida numa estrutura espacial. O espaço positivo é um espaço
que contém enclausura e que é convexo. Ou seja, é um espaço inteiro. Todos os pontos no interior
desse espaço são intervisíveis e têm, pois, uma relação de simetria com os seus vizinhos. Isso
significa que qualquer ponto dentro de um espaço positivo é um centro forte.
O espaço estruturado por formas positivas é um espaço fractal. Qualquer divisão que se faça
num espaço positivo, ele é sempre um espaço positivo. As superfícies que crescem sob tensão têm
tendência para formarem espaços positivos, convexos e inteiros, porque crescem de dentro para
fora. Assim se passa com os assentamentos vernaculares, sendo esta uma das características
principais dos seus espaços públicos (Figura 6).
Este é de facto um dos atributos geométricos mais importantes dos espaços vernaculares que
resulta de imensos conflitos e tensões entre o espaço edificado e o espaço não edificado. Com o
objectivo de compreender melhor a estrutura física do ambiente construído tendemos a separar duas
variáveis: O espaço edificado que se percebe como forma ou cheio e o espaço não edificado
(interstício) que se percebe como fundo ou vazio (Guerreiro, 2011). Acontece que o fundo ou
espaço não edificado, tem também ele uma forma visual, positiva, cuja qualidade, dimensão e
escala “resulta do encontro entre a massa e o espaço” (Ching, 1998, p.95). O espaço positivo está
presente em muitas estruturas da natureza e bem assim na arquitectura e urbanismo vernacular onde
não existem espaços residuais. Tudo é programado para uma função específica. O espaço público
representado na Figura 6 é o arquétipo deste tipo de espaço que se vem falando. Nesta fotografia
aérea, cada bocadinho de espaço; rua, praça, edifícios e até os espaços públicos interiores, são
espaços positivos: “Não existe parte deste todo que não tenha uma forma definida e positiva. É
uma compilação de entidades definidas, cada uma delas, definida e substancial em si própria”
(Alexander, 2002, p.174). Aqui não são só os edifícios que aparecem como figuras, mas também o
espaço exterior nos aparece como figura contra o fundo formado pelos edifícios.

34
Figura 6 – Espaço público positivo, Sabugal (in Arquitectura Popular em Portugal, 2.º Vol., p. 83).

Normalmente estes espaços apresentam uma geometria irregular, mas coerente. Estas formas
emergentes são o resultado dum processo e o produto do desenho duma colectividade, onde cada
lugar, cada rua, praça ou edifício foram concebidos com significado e propósito. Tal como na
natureza, não há desperdício, não existem estruturas ou espaços residuais – tudo tem uma função
específica.
São espaços anatómicos, mas também dinâmicos, que podem mudar de aspecto ao longo do
ano com o devir do ciclo solar e das estações, o que provoca alterações no seu aspecto e
consequentemente no seu uso. São estes espaços bem apropriados que têm mais vida. As praças,
pracetas ou pequenos largos, os becos e as ruelas que caracterizam este padrão orgânico de espaços
positivos, são ainda hoje um exemplo de espaços públicos bem-sucedidos para a função a que se
destinam – o uso colectivo.

3.7. Boa forma


A boa forma depende do modo como determinada configuração é formada por múltiplos e
coerentes centros, ou seja, pelo modo como é formada por espaços bem definidos e positivos. Em
qualquer parte do todo, temos centros e como a regra recursiva ou fractal também se aplica, cada
um desses centros é formado também por múltiplos centros.
Adicionalmente verificamos que a mais simples e elementar boa forma, é composta por
figuras elementares regulares: triângulos, retângulos, hexágonos, pedaços de círculos, etc. Deste
modo, verifica-se que as formas resultantes da boa forma são também espaços positivos.
Segundo Alexander, a boa forma é composta das seguintes propriedades parciais: 1 - Alto
grau de simetria interna; 2 - Simetria bilateral (quase sempre); 3 - Um centro bem marcado (não

35
necessariamente no centro); 4 - Os espaços adjacentes criados por esta forma são espaços positivos;
5 - É muito distinta da envolvente; 6 - É relativamente compacta (1:1, 1:2, nunca acima de 1:4); 7 -
Tem enclausura, está encerrada, um sentimento de estar fechada e completa (2002, p.183).
A boa forma, tal como aqui é descrita, tem extrema importância quer para o espaço
edificado quer para o espaço não edificado. Ela joga um papel vital na forma como estes elementos
se ligam. O essencial desta propriedade é que cada parte do espaço deve ser positiva e definida.
Como resultado, nós tendemos a ver figuras simples como boa forma e a boa forma tende a ser
composta por formas simples.
Muitos sistemas naturais têm a tendência para gerar boa forma. Se observarmos as curvas e
contra-curvas das folhas de algumas plantas, verificamos que cada curva circunda um centro, sendo
que umas vezes o centro está no interior da folha, outras vezes está fora. Esta propriedade existe
também em muitos edifícios de arquitetura popular conforme podemos observar nas curvas do
telhado representado na Figura 7. De igual modo, é o que acontece nas ruas curvas, que apresentam
do ponto de vista de vivência do espaço, mais vantagens do que a rua rectilínea, exactamente
porque ela apresenta maior número de centros que dão vida a esse espaço (Figura 8).

Figura 7 – Composição de formas tradicionais, Albufeira (in Carver Jr., 1988, p.105).

36
Figura 8 – Uma rua em Monsaraz (in Carver Jr., 1988, p.112).

Nos objectos com boa forma a funcionalidade joga um papel fundamental. O que acontece
essencialmente é que o objecto que funciona efectivamente deve ter mais centros nele próprio e em
virtude disso tem melhor forma. A relação que existe entre boa forma e o ambiente que a envolve
tem a ver com o facto de essa relação ser também funcional.

3.8. Simetrias locais


As simetrias locais são sub-simetrias. A existência dum centro e de uma simetria local estão
relacionados. Onde quer que exista uma simetria local tende a existir um centro. Onde quer que se
forme um centro vivo é quase sempre necessária alguma simetria local. As simetrias locais são uma
espécie de cola – a cola que mantém o espaço junto, coerente.
As coisas vivas apesar de serem muitas vezes simétricas, raramente têm simetrias perfeitas.
Na realidade a simetria perfeita é uma marca das coisas mortas. O que dá vida a um sistema
espacial não é a simetria global, mas sim as simetrias locais. O conjunto representado na Figura 9
não apresenta uma simetria global, no entanto está coberto de simetrias locais. São as simetrias
locais que causam a beleza deste conjunto ordenado. Não existe de todo uma simetria global, mas
sim muitas simetrias locais, que tornam o sistema vivo, orgânico e flexível. E mais uma vez a regra
é recursiva, as simetrias locais podem existir a várias escalas.
Um sistema espacial onde abundam as simetrias locais é muito mais adaptável, do que a
rigidez dum sistema com uma simetria global.
Aparentemente as grandes simetrias contribuem muito pouco para coerência dum sistema
espacial. O que importa é o número das simetrias pequenas e locais. Contudo, como a maior parte
das simetrias locais estão escondidas, este aspecto está longe de ser óbvio.
Qual é a relação entre simetrias e centros? Em muitos casos a simetria é usada para
estabelecer um centro e cada simetria local estabelece uma simetria entre dois centros mais

37
pequenos para criar um centro maior (como no caso da Figura 1). “Apesar, de se garantir que a
irregularidade do contexto local não é violada, as simetrias locais fornecem a cola que liga o
campo de centros, tornando-os assim mais coerentes” (Alexander, 2002, p.194).

Figura 9 – Garrovillas, Espanha (in Rudofsky, 2003, p.71)

3.9. Interligação profunda e ambígua


Os centros adjacentes interpenetram-se formando centros intermédios. Isto faz com que
muitas vezes seja difícil de distinguir o centro da sua envolvente. Vimos como na natureza vários
sistemas se caracterizam por esta propriedade. Acontece normalmente nas estruturas que necessitam
de manter uma extensa superfície de contacto face ao volume que apresentam. As estruturas em
meandro, como é o caso da massa cerebral, são exemplos disso. Para aumentar a superfície de
contacto e assim permitir um número máximo de ligações (centros) com o tecido envolvente o
cérebro enruga-se profundamente. Vimos também como as ruas curvas interpenetram o espaço
formando novos centros entre as zonas de contacto (Figura 8).

Figura 10 – a) Arcadas em Garovillas, Espanha b) Poiais numa rua em Elvas


(in Carver Jr., 1988, p.19,119).

Por questões essencialmente climáticas e de vivência do espaço exterior, a arquitectura


popular mediterrânea é muito rica nesta propriedade. Nas arcadas, o espaço dentro da galeria

38
pertence ao espaço público exterior, mas ainda assim também pertence ao espaço privado do
edifício, causando assim uma fusão entre estes dois centros, (Figura 10a). O mesmo se passa com os
poiais anexos às casas, que se interligam com a rua, (Figura 10b). A interligação ou ambiguidade,
fortalece os centros de cada um dos lados, ganhando a sua força a partir da força do centro que se
forma no meio.

3.10. Contraste
A diferenciação é uma propriedade fundamental das estruturas espaciais com vida e sem a
qual esta não pode ocorrer: “A unidade só pode ser criada a partir da distinção” (Alexander,
2002:200). Assim, para que os centros se entre ajudem e formem todos, unidades, vida, é necessário
que estes sejam constituídos por opostos discerníveis. É necessário que tenham um contraste
pronunciado.
O claro e o escuro, o cheio e vazio, o alto e o baixo, o largo e o estreito, são os tipos de
contraste mais comuns. Representam verdadeiros opostos que se anulam se sobrepostos. E a
diferença entre opostos dá origem à unidade, beleza e vida.
O contraste unifica os centros. Em vez de separar as coisas, unifica-as. A dualidade dá lugar
à complementaridade que por sua vez gera diversidade.
Muitos sistemas naturais estão organizados através da interacção de opostos. Desde as
partículas mais elementares como as cargas eléctricas negativas e positivas, ao nível biológico, o
contraste macho-fêmea, que existe em quase todos os organismos, ao ciclo do dia/noite, ao estado
sólido ou liquido. Do ponto de vista cognitivo, o contraste é muito importante para os seres
humanos, uma vez que nós lemos contraste.
Também as cidades com intensa vida têm esta propriedade. Existem muitas formas de
contraste que produzem este efeito: diferenças de densidade, de luz, de materiais, de cores, de
topografia, etc. Muitas variáveis urbanas trabalham muito melhor juntas se forem inteiramente
diferentes, de tal modo que cada uma desempenha a sua própria função.
Esta é uma propriedade que encontramos com muita frequência na arquitectura e nas cidades
tradicionais do mediterrâneo, que assumem o seu esplendor máximo, talvez no Sul de Portugal, nas
famosas vilas brancas de contrastes de pedra e cal, de luz e de sombra, que o clima enfatiza.

3.11. Gradiente
O gradiente reforça a força dos centros, criando orientações através da gradação de centros.
Uma qualidade muda gradualmente através do espaço, criando uma certa harmonia. “Nas coisas
que têm vida, existem campos graduados de variação através do todo (…). Na verdade, os
gradientes estão essencialmente e necessariamente conectados com a existência de um centro vivo.
Quase sempre, a força do carácter do centro é causada, em parte, porque as organizações de
centros mais pequenos criam gradientes que apontam para um centro maior virtual” (Alexander,
2002, p.207). A Figura 11 é a imagem certa para estas palavras de Alexander – aqui, as casas, os
telhados, as árvores, comportam-se como centros mais pequenos, todos ordenados em relação ao
Sol, centro maior, causando assim um gradiente de luz distribuído pelas diferentes partes, o que dá
imensa vida e inteireza a este espaço.

39
Sempre que uma quantidade varia sistematicamente, através do espaço, estabelece-se um
gradiente. Os gradientes, são assim, uma resposta natural à mudança de qualquer circunstância no
contexto, como a luz, topografia, o vento, etc. Ao adaptar-se às novas circunstâncias, e criando
assim séries de centros graduados, novos centros maiores são criados.

Figura 11 – Frias, Espanha (in Carver Jr., 1988, p.52).

3.12. Rugosidade
A irregularidade aparece nos sistemas naturais, como o resultado da interacção entre uma
ordem bem definida e os constrangimentos do espaço. A irregularidade, não é assim, um erro, mas
sim uma forma criativa que a natureza tem de se adaptar ao contexto, criando sempre novas
situações que permitem a existência da diversidade.
É esta propriedade que nos permite diferenciar a arquitetura popular da erudita. “As coisas
que têm vida verdadeira têm sempre uma certa irregularidade. Isto não é uma propriedade
acidental. Não é o resultado duma cultura inferior, ou o resultado de ser feito manualmente. É uma
característica estrutural essencial sem a qual uma coisa não se pode tornar um todo” (Alexander,
2002, p.279).
Ao contrário do que estamos habituados, verifica-se nos objectos com vida que a
irregularidade é muito mais precisa do que a regularidade, uma vez que ela surge dum cuidado

40
muito maior para guardar o essencial dos centros numa forma. São sobejamente conhecidos os
espaços urbanos ou edifícios irregulares que parecem ter imensa vida, comparados com outros
extremamente regulares, rígidos e mortos. Isto acontece porque na realidade os espaços têm que se
adaptar às irregularidades do contexto ambiental correctamente - eles tornam-se parcialmente
irregulares como resposta a esse facto. Os espaços vernaculares ilustram claramente esta
irregularidade, como uma forma de perfeição e de adaptação ao contexto e às características do
espaço tridimensional. Ela não acontece apenas porque os materiais ou as técnicas não eram
precisas, ela acontece porque ela é uma forma de ordem real que permite alcançar a inteireza.
Camillo Sitte (2013 [1889]) demonstrou claramente e de uma forma empírica como é que a vida dos
espaços públicos depende da sua geometria. Tal como ele afirmou, “Os espaços públicos são
frequentemente irregulares. A irregularidade ajuda a criar uma atmosfera informal que liga o
espaço público à cidade e aos edifícios” (Apud Alexander, 2002, p. 216).
Deste modo, para construirmos espaços funcionais, eles terão naturalmente de ter alguma
irregularidade, contrariamente à nossa tendência para uma ordem rígida e regular. Essa
irregularidade poderá ser introduzida pelas próprias pessoas que interagem com o espaço.

3.13. Eco
Eco é a propriedade que mais evoca o contexto natural em que a configuração está inserida.
Segundo Alexander (2002), eco é o modo como a força de determinado centro depende das
semelhanças de ângulos e orientações do todo (envolvente). Depende dos ângulos e direcções que
prevalecem no objecto construído.
Observamos esta propriedade nos ângulos do telhado da capela de peregrinação representada
na Figura 12, que fazem ressonância com os ângulos das montanhas ao fundo, fazendo assim eco da
paisagem em que está inserida. Também as construções em encosta tendem a ter uma relação
similar com o declive, com o sol e com a drenagem das águas. Como resultado os edifícios, tendem
a obedecer às mesmas leis, criando o eco do contexto nas suas formas físicas.

41
Figura 12 – Capela de Peregrinação de Santa Maria Madalena, Lindoso ((in Arquitectura Popular
em Portugal, 1.º Vol., p. 101).

Esta propriedade eco tem muitas vezes uma justificação também climática. Na vila cubista
de Olhão, os cubos anexados criam as condições necessárias para o sombreamento. A chuva é
escassa dispensa o uso de telhados, cuja utilidade era propícia à secagem de alimentos (Figura 13).
De igual modo, os palheiros do litoral central tendem a estabelecerem-se em filas paralelas à costa,
contrariando assim o sentido dos ventos marítimos e permitindo que as areias passem por baixo das
construções em palafitas, o que enfatiza também a familiaridade dos ângulos das construções
(Figura 14). De um modo geral, toda a arquitectura popular portuguesa é muito rica nesta
propriedade, exactamente pela diferença acentuada dos seus ambientes bioclimáticos face à latitude
(Norte-Sul), longitude (Litoral - Interior) e altitude (Serra - Planície).

42
Figura 13 – Olhão, Portugal (in Girão, 1936, p. 254-255)

Figura 14 – Palheiros da Tocha - Portugal, (Instituto Geográfico do Exército, 1950)

A essência desta propriedade reside ao nível da própria estrutura: “Quando as funções são
tomadas a sério, existem usualmente várias regras geométricas que são seguidas como resultado de
condições funcionais. Estas regras, aplicadas uma e outra vez, criam um sentimento de
familiaridade entre os ângulos, linhas, formas, não por razões formais, mas simplesmente como
resultado do cuidado de aderência aos requerimentos funcionais” (Alexander, 2002, p.221).
A propriedade eco é uma forma de adaptação ao contexto em que a expressão da
configuração traz consigo algo desse contexto. Como as formas mais bem-adaptadas, são aquelas
que tendem a sobreviver por mais tempo, a nossa paisagem está repleta destes exemplos, quer ao
nível das formas naturais quer ao nível das formas construídas.

3.14. O vazio
Sobre o vazio, Alexander faz-nos a seguinte descrição: “Nos centros mais profundos que
têm perfeita inteireza, existe no seu coração um vazio que é como água, infinito e profundo,
circunscrito e contrastado com a desordem das coisas à sua volta” (Alexander, 2002, p.222). Nesta

43
análise sobre a arquitectura popular, conjectura-se que esses locais sejam aqueles vazios, espaços
públicos, que se podem encher temporariamente como os largos ou praças enunciadas na
propriedade espaço positivo (Figura 6).
No centro nós experienciamos o vazio, o infinito, a calma. Uma propriedade também
associada a certos locais muito especiais, como aqueles espaços que preenchem o espírito e,
portanto, ligados à religião, à meditação, à contemplação, à imaginação e à brincadeira (Figura 6).
A necessidade do vazio levanta-se em qualquer centro para contrastar com a envolvente fervilhante,
tal como num redemoinho onde o centro, por contraste com a envolvente, é calmo.

4.15. Simplicidade e calma interior


As coisas com vida são muito simples: “Na maioria dos casos esta simplicidade mostra-se
ela própria numa simplicidade geométrica e purismo, que tem as formas geométricas tangíveis”
(Alexander, 2002, p.226). No entanto, o simples, não significa o simplificado, como por vezes
fazemos, quando aplicamos os modelos abstractos.
Esta qualidade vem antes duma síntese de quando tudo o que é desnecessário é removido.
Todos os centros que não funcionam activamente para suportar outros são removidos. O que resta
quando o desnecessário é afastado é uma estrutura num estado de calma interior.
Na natureza esta propriedade está sempre presente, uma vez que no fabrico das suas formas,
segue as leis do menor esforço, da uniformidade, da mínima energia e do mínimo material. As
formas da natureza todas têm esta propriedade. É típico das formas ajustadas, adequadas e
adaptadas aos contextos em que estão inseridas. Esta é também uma característica fundamental da
arquitetura popular.

4. Conclusão: Não separação


A última das propriedades enunciada por Alexander na sua obra The Nature of the Order é
porventura a mais significativa e transversal e por isso é usada como conclusão deste trabalho. É
designada por não separação porque experienciamos as formas enquanto partes dum todo e não
separadas dele. A forma depende do contexto e este determina o seu conteúdo.
Corresponde ao facto de que não existe um isolamento perfeito de qualquer sistema e que
todo o sistema é sempre parte de sistemas maiores, no mundo à sua volta e que está conectado a ele
profundamente no seu comportamento.
O reconhecimento científico desta interconexão entre as coisas surge com a teoria quântica,
que nos mostrou como do ponto de vista físico tudo está ligado e interconectado, de tal forma que
não é possível decompor as coisas em partes. Apenas podemos mapear as relações. Embora ainda
não existam bases científicas suficientes para traduzir este facto numa teoria geral, algumas teorias
têm emergido nos últimos anos nas várias disciplinas e isso está a marcar profundamente a nossa
forma de pensar. Nas palavras de Pierre Rosenstiehl: “A nossa época será marcada pelo fenómeno
rede” (1988, p.228). A obra de Christopher Alexander é um grande contributo neste sentido para as
disciplinas de arquitectura e do urbanismo, porque procura explicar o porquê de certas ordens
complexas e escondidas, mas implícitas como a da arquitectura popular.

44
Bibliografia
ASSOCIAÇÃO ARQUITECTOS PORTUGUESES - Arquitectura Popular em Portugal. 3.º
Edição. Vol. 1, 2 e 3. Lisboa: Associação dos Arquitectos Portugueses, 1988.
ALEXANDER, Christopher - The Nature of the Order. The Phenomenon of Life. Book One,
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CHING, Francis D. K. - Arquitectura Forma Espaçio Y Orden. Barcelona: Edicciones Gustavo Gili.
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f., Tese de Doutoramento.
HAMILTON, Marylin – Integral City Evolutionary Intelligences for the Human Hive. Gabriola
Island: New Society Publishers, 2008. ISBN 978-0-86571-629-2.
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Eastford: Martino Fine Books, 2013 [1889]. ISBN 978-1614275244.

45
A preservação de um “casarão popular” do século XIX: entre ideologias, interpretações
e intervenções no Casarão Pau Preto, cidade de Indaiatuba, Brasil.

Carlos Gustavo Nóbrega de Jesus


Fundação Pró-Memória de Indaiatuba
Universidade Católica de São Paulo, Brasil
[email protected]

Marcos Tognon
Universidade Estadual de Campinas, Brasil
I.P.R. (Inovação e Pesquisa para o Restauro) da Agência de Inovação da UNICAMP.
[email protected]

Resumo
A nossa apresentação tem o intuito de discutir a questão do patrimônio cultural e suas
relações com as políticas públicas de preservação e legitimação da memória, assim como as
práticas de intervenção sobre bens de natureza vernacular. Para tanto apresentamos um estudo
sobre o processo de tombamento de um bem edificado localizado na cidade Indaiatuba,
interior do Estado de São Paulo, Brasil, construído entre 1810 e 1812, denominado Casarão
Pau Preto. A partir de escritos de memorialistas locais e laudos técnicos de especialistas,
buscou-se levantar algumas evidências da relação da conservação do imóvel com as políticas
públicas de preservação patrimonial e com o empenho de construção de uma memória e
legitimação da história da cidade, em torno da consagração de tal patrimônio histórico
reconhecido pela população como um dos maiores marcos de identidade da “origem” deste
núcleo urbano. Por fim, avaliamos os critérios de intervenção de reconstrução do Casarão
então em ruína parcial no momento dessas iniciativas preservacionistas dos anos de 1980,
configurando assim uma visualidade do bem edificado segundo consensos e valores
ideológicos considerados legitimadores de todo o processo.

Palavras-Chave: Patrimônio Cultural Vernacular, Políticas Públicas, História do Restauro da


Arquitetura Popular.

46
1. Introdução
Com este texto pretendemos discutir o processo de preservação e tombamento de um
bem edificado no Brasil, localizado na cidade Indaiatuba, interior do Estado de São Paulo e
sua relação com as políticas públicas nacionais de proteção do patrimônio histórico daquele
momento, bem como as abordagens e intervenções, decorridas sobretudo de uma construção
ideológica, sobre um conjunto construído com técnicas vernaculares.
O bem denominado Casarão Pau Preto, construído entre 1810 e 1812, na cidade de
Indaiatuba, distante 90 quilômetros da cidade de São Paulo, foi casa paroquial e depois sede
da fazenda que levava o mesmo nome. Do ponto de vista arquitetônico pode ser caracterizado
por uma mistura de estilos e técnicas construtivas, como a taipa de mão, de pilão e “alvenaria
Inglesa”1.
Indaiatuba é hoje um abastado centro urbano e industrial da região metropolitana de
Campinas, estado de São Paulo, no entanto suas origens retomam a segunda metade do século
XVIII, como uma região de parada na estrada de Itu para Vila de São Carlos (Campinas), o
que contribuiu que se tornasse um pequeno polo populacional, tornando-se, no começo do
século XIX um pequeno bairro de Itu.
Nesses tempos Itu estava prestes a se tornar a “Vila mais rica de toda a província de
São Paulo, destacando-se na importante participação política e na economia, em função dos
negócios de exportação de açúcar para a Europa”2. Localizada na região conhecida como o
“quadrilátero do açúcar”, território entre Campinas, Sorocaba, Jundiaí e Mogi Mirim, depois
da metade do século XVIII passou a produzir açúcar em grande escala3.
Foi nesse contexto histórico que, em 1813 o bairro de Itu que era conhecido por
Cocais, teve sua capela curada4 e, em 9 de dezembro de 1830, foi feita Freguesia por Decreto
do Imperador, situação que possibilitou a nomeação de Juízes de Paz, bem como vereadores
que serviriam na Câmara Municipal de Itu. Só em 24 de março de 1859, foi elevada à “Vila,
isto é, categoria de ‘Munícipio’, através da Lei n. 12 do Presidente da Província de São

1
No levantamento técnico sobre a situação do Casarão do Pau Preto, elaborado em 6 de março de 2013, o
Arquiteto Charles Fernandes, definiu desta forma a técnica “Alvenaria Inglesa” empregada no Casarão Pau
Preto: “No começo do século XX (o Casarão Pau-Preto) recebeu uma edificação adjacente para beneficiamento
de café, que acompanhou as tecnologias trazidas pela ferrovia, com alvenaria de tijolos aparentes de barro
maciços e queimados, assentados por argamassa, tecnicamente chamada de alvenaria inglesa” (grifo nosso); in
FERNANDES, Charles. Levantamento técnico a respeito da atual situação do complexo histórico Casarão Pau
Preto. Indaiatuba: Fundação Pró-Memória, 2013.
2
ALVES, Silvane Rodrigues Leite. A instrução pública em Indaiatuba:1840-1930. Contribuição para a
história da educação brasileira. Campinas, 2007. 200 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade
Estadual de Campinas-UNICAMP, p. 12.
3
O “quadrilátero do açúcar” foi a denominação dada para região entre Piracicaba, Sorocaba, Jundiaí e Mogi
Guaçu que, depois da metade do século XVIII, entre o fim da extração do ouro nas Gerais e o começo da
produção cafeeira no Rio de Janeiro e São Paulo, passou a produzir açúcar em grande escala, a ponto se tornar a
principal base econômica do país na época. A produção açucareira, com sua lavoura de cana e seus engenhos foi
a responsável por introduzir a plantation no planalto paulista. Ver PETRONE, Maria Thereza S. A lavoura
canavieira em São Paulo, expansão e declínio (1765-1851). São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1968, p. 24-
53, e, JÚNIOR, Alfredo Ellis. A Economia Paulista no Século XVIII. São Paulo: São Paulo: Academia
Brasileira de Letras, 1979, p. 104.
4 4
Cf. CAMARGO, Ana Maria. Apresentação. In. Carvalho, Nilson Cardoso de. A Paróquia de Nossa Senhora
da Candelária. Indaiatuba. Fundação Pró-Memória, 2004, p.37-38.

47
Paulo”, tendo sido “procedidas no dia 3 de julho as eleições de vereadores para a Câmara
Municipal de Indaiatuba”5.

Foi nesse momento, que a produção açucareira começou a ser substituída no planalto
paulista:

(...) 1846-1847 é, certamente, o ano mais importante, o ano decisivo


para a cultura canavieira. Os agricultores do hinterland de Santos, a
partir de então, resolvem abandonar o cultivo da cana-de-açúcar para
se dedicarem ao café. O ‘quadrilátero do açúcar’ vai transformar-se
em zona cafeeira. O café plantado em 1846-1847 produzirá, em 1850-
1851, ano em que ultrapassa, em volume, a exportação de açúcar pela
barreira de Cubatão. Estranha coincidência! No ano de maior
exportação de açúcar também foram formados grandes cafezais, e daí
a pouco produzirão tanto, que o açúcar passará para o segundo lugar
nas exportações de Santos6.

No entanto, especificamente na região do “quadrilátero do açúcar” tal mudança


ocorreu algumas décadas mais tarde, pois:

(...) a implantação da lavoura cafeeira ocorreu de forma desigual nas


vilas do Oeste paulista, até a sexta década do século XIX. Enquanto
declinava a produção de açúcar e o canavial cedia espaço ao cafezal
em municípios como Campinas e Rio Claro, o número de engenhos e
o consequente aumento da produção de açúcar ampliava-se em
municípios como Itu, Piracicaba, Capivari e Mogi-Mirim7.

Desta forma, seguindo o modelo das demais cidades da região Indaiatuba direcionou
sua produção para os campos de café nas três últimas décadas do XIX, o que fez com que os
cafeicultores vissem nesse momento a necessidade de criar uma alternativa para escoar sua
produção. Com tal intuito foi idealizada em 1870 a Cia Ytuana de Estradas de Ferro. A
companhia originou-se de uma concessão outorgada em 1870, para se fazer a ligação entre Itu
e a São Paulo Railway, em Jundiaí. Para tanto construiu-se vários ramais que foram
responsáveis por boa parte da distribuição da produção cafeeira nas décadas de 1870 e 1880.
As duas primeiras linhas construídas pela Companhia passavam por Indaiatuba: a Jundiaí-
Pimenta (Indaiatuba), inaugurada em 1872 e a Pimenta-Itu, criada em 1873. Esta última
“abriu o ramal de Piracicaba, partindo de Itaici”, atingindo, Capivari, a partir de 1875, Rio das

5
SAMPAIO, Scyllas Leite de, Sampaio, Caio da Costa. Indaiatuba: sua história. Indaiatuba: Rumograf, 1998, P.
44-51.
6
PETRONE, M.T., op. cit., p. 162.
7
MELO, José Evandro Vieira de. Café com açúcar: a formação do mercado consumidor de açúcar em São
Paulo e o nascimento da grande indústria açucareira paulista na segunda metade do século XIX. In Saeculum
Revista de História. João Pessoa/PB, n.14, Jan./ Jun. 2006, p 76.

48
Pedras em 1876 e Piracicaba em 1879”8. Especialistas no tema destacam a importância
estratégica da Estação de Itaici em Indaiatuba, pois “era um ponto de parada de onde abria
uma chave para o ramal de Piracicaba”, além de ser “um ponto de distribuição e de ligação
entre o interior do Estado de São Paulo e suas regiões”, (...) como era “uma estação de união,
ligava a região de Sorocaba a Campinas, Piracicaba e Jundiaí, atualmente as maiores regiões
do interior paulista”9.
Sendo assim, pode-se notar que Indaiatuba historicamente, desde o ´final do século
XVIII sempre esteve numa região estratégica na província de São Paulo, panorama que
colaborou para que ali se concentrasse uma parcela populacional significativa, foco de fixação
e moradias. No entanto, a maior parte de tais testemunhos edificados da história da cidade se
perdeu, perdurando alguns poucos remanescentes, entre eles o Casarão Pau Preto10. Tal
situação lhe conferiu o “status” de uma das construções históricas mais reconhecidas pela
comunidade local. Por isso, no começo dos anos 1980, liderado pelo jornalista Sérgio
Squilanti iniciou-se um o movimento popular em prol da preservação bem, já que parte da
Tulha, feita no final XIX de alvenaria inglesa para abrigar a máquina de beneficiar café, tinha
sido derrubada em virtude da especulação imobiliária.

Figura 1. Vista da Fachada principal do Casarão Pau Preto e a Tulha, s.d., Arquivo
Fundação Pró-Memória, Indaiatuba. Sem autoria.

8
ANUNZIATA, Henrique. Parecer Técnico HA-01/2003 Relevância cultural e recomendação de tombamento e
conservação a título permanente da Estação Itaici, Indaiatuba, São Paulo. In. FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA
DE INDAIATUBA. Processo de tombamento n.11/2012, p. 4. Processo de Tombamento de nove bens de valor
histórico e arquitetônico da cidade de Indaiatuba. (Acervo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba).
9
Idem, ibidem, p. 4 e 8.
10
PAIVA, C.L. Parecer Técnico CLP-26/2002. Relevância Cultural e recomendação de tombamento e
conservação a título perene do “Casarão Pau Preto”. In. FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA DE INDAIATUBA.
Processo de tombamento municipal n.05/2002 referente à preservação do Casarão Pau Preto de Indaiatuba
localizado na Rua Pedro Gonçalves, n.477 (Quadra s/n, Lote s/n), Jardim Pau Preto, Indaiatuba, São Paulo, p. 6.
(Acervo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba).

49
A primeira mobilização popular ocorreu em 1982, organizando-se passeatas, reuniões, e
protestos na imprensa - o que resultou no decreto 2.394 de 20 de abril de 1982, do prefeito
Clain Ferrari, declarando o bem edificado como de Utilidade Pública, a fim de ser adquirido,
mediante desapropriação e sua área de terreno de 9.810 metros quadrados, ser utilizada para
“instalação de museu histórico, centro cultural e parque de lazer”11. Entretanto, o mesmo
Clain Ferrari revogou o decreto em 14 de dezembro de 1982, o que fez a comunidade
continuar a se mobilizar, por meio de projeções de filmes, exposições e passeatas.

Figura 2. Manifestação da População de Indaiatuba em 1982, Arquivo Fundação Pró-


Memória de Indaiatuba, Foto de Silva e Pena, Álbum Fotográfico Digital.

Muito provavelmente em consequência de tal reivindicação popular, em 24 de


fevereiro de 1983, o novo prefeito, José Carlos Tonin, pelo decreto número 2.615, novamente
declarou a edificação de “Utilidade Pública” só que, nesse momento, a área considerada foi de
4500,9 metros quadrados.
Em 1984 o prefeito anunciou o início de uma recuperação do Casarão, que foi
executada pelo Departamento de Obras da Prefeitura, com supervisão de uma comissão da
comunidade nomeada pelo prefeito ("Comissão de Participação do Projeto Cultural do
Casarão Pau Preto"), que contava com nomes como o do memorialista local Nilson Cardoso
Carvalho, o fotógrafo Antônio da Cunha Penna, o Engenheiro José Carlos Bicudo, o
advogado Fernando Stein, entre outros.
Recuperado, o Casarão foi simbolicamente entregue à população da cidade em 9 de
dezembro de 1985, no dia de comemoração do aniversário de Indaiatuba, sendo tombado
como Patrimônio Histórico do Município muito mais tarde, em dezembro de 2008 (Decreto
Municipal 10108). No local hoje se concentra a sede do Museu Municipal e da Fundação Pró-
Memória de Indaiatuba.

11
CARVALHO, Nilson Cardoso. Arquitetura em Taipa - um dos últimos exemplares em Indaiatuba.
Indaiatuba, datilografado, 1984, p. 11 (Acervo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba).

50
O Laudo técnico que subsidiou a abertura do processo de tombamento se apoiou na
argumentação de que as edificações do Casarão conservam características que a recomendam
“(...) a título perene, a ser mantido como amostra significativa da evolução histórica de
Indaiatuba. Suas características construtivas justificam a conservação como objeto de
pesquisas de História da Técnica”12.
No entanto, acredita-se que há outras questões que foram preponderantes para
preservação da construção histórica que vai além da sua riqueza arquitetônica e dialoga com a
construção da identidade dos moradores da cidade e com o desejo de um grupo consolidar
uma memória e uma história específica para o município. Pretende-se, então, buscar entender
como se deu a construção deste processo e qual a relação de tal operação com a sacralização
do Casarão Pau Preto como um patrimônio de relevante valor histórico e principal “lugar da
memória” da cidade de Indaiatuba.

2. Desenvolvimento

“Ora, a arquitetura popular apresenta em Portugal, a nossa ver,


interesse maior que a ‘erudita’ – servindo-nos de expressão usada,
na falta de outra, por Mario de Andrade, para distinguir da arte do
povo, a ‘ sabida’. E nas suas aldeias, no aspecto, no aspecto viril
das suas construções rurais a um tempo rudes e acolhedoras, que as
qualidades da raça se mostram melhor”13.

Dentre as várias iniciativas do movimento em prol da preservação do Casarão Pau


Preto, pode-se destacar a estratégia de se forjar o fato de que a edificação fez parte do ciclo
bandeirista14.
Tal ideia teve entre seus percursores o memorialista Nilson Cardoso Carvalho, que no
propósito de apoiar o movimento de preservação do bem, produziu em 1984 o livreto,
Arquitetura de Taipa: um dos últimos exemplares em Indaiatuba. Na obra ele partiu de uma
aproximação um tanto artificial e comparou a planta da edificação de Indaiatuba com o
modelo bandeirista proposto por Luis Saia.
É possível levantar a hipótese que as ligações afetivas do memorialista com a causa de
preservação do bem o fez cometer alguns deslizes do ponto de vista da pesquisa histórica.
Muito em virtude disso a sua prática investigativa se distanciou de uma operação
historiográfica e, na maior parte das vezes, tomou os documentos como fontes objetivas do

12
PAIVA, C.L., op. cit., p. 7.
13
Lúcio COSTA, Documentação necessária. In Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, n. 1, 1937, p. 31.
14
Sobre a definição histórico-econômica de “ciclo bandeirista” consagrada no debate historiográfico no Brasil
citamos os clássicos: HOLLANDA, Sergio Buarque de Holanda. Visão do Paraíso. São Paulo: Livraria José
Olympo, 1959; FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. Companhia Editora Nacional. São Paulo,
1974; PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1979; NOVAIS, Fernando
A. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 4ª Edição, 1996;

51
passado, deixando, justamente, de levar em conta o que Michel de Certeau chamou de “não
dito”, ou seja, as informações que estão nas entrelinhas de tais fontes15.
Tal prática é comumente encontrada nos escritos dos memorialistas, nas quais
experiências pessoais se misturam às escritas do passado e emoções se confundem à
interpretação literal das fontes, iniciativas que os levam a uma busca quase ingênua de uma
suposta objetividade calcada não só nas fontes, mas também em fatos, datas e nomes, fugindo,
assim, dos princípios fundamentais da historiografia no que se refere ao tratamento
documental. Por outro lado, deve-se levar em conta, que mesmo com tais limitações, tais
escritos se aproximam de narrativas históricas, pois ainda que contenham uma parcialidade
interpretativa, não são totalmente formadas pela ficção, apresentam conexões com a memória,
a partir das lembranças e da experiência vivida.
No entanto, diante de todas as situações que contribuíram para se cunhar um perfil
arquitetônico artificial para o bem, talvez nenhuma tenha sido mais forte que o intuito de se
alinhar ao discurso das políticas públicas de preservação patrimonial vigentes na época.
Assim, pode-se afirmar que ao salientar o fato do Casarão ter sua planta semelhante ao estilo
bandeirista e datar de um período próximo aos “últimos exemplares” consagrado por Luis
Saia16. Nilson Carvalho buscou dar legitimidade ao bem a partir de um critério já oficializado
pelo SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), na época o principal
órgão de preservação do país17.
A política preservação patrimonial brasileira se baseou, desde da criação do órgão, em
1937, em buscar objetivar o que era subjetivo, ou seja, criar um critério universal que definiria
o que deveria ser tombado ou não, baseado em características arquitetônicas especificas dos
bens edificados. Nesse sentido, o arquiteto Lucio Costa, chefe da Divisão de Estudos e
Tombamentos (o principal departamento de ordem técnica do SPHAN), foi o principal
responsável por concretizar tal proposta, sedimentando, também, na época, um modelo
historiográfico para os estudos sobre a história da arquitetura brasileira. Marcelo Puppi
salienta que o propósito principal de tal modelo se baseava no fato de levantar os equívocos e
aprofundar estudos da casa colonial brasileira. Situação que o levou defender a tese de que
qualquer estudo da arquitetura brasileira devia recuar até o século XVII para definir um
parâmetro18.
Tal proposta se tornou marcante ao longo do tempo, a ponto de tomar conta do próprio
imaginário nacional, haja visto que até hoje há uma nítida preferência em se preservar um

15
A historiadora Ana Maria Camargo (2004, p.12-13) escreveu, que ele “frequentou regularmente o Arquivo do
Estado de São Paulo, transcrevendo todos documentos relacionados com Indaiatuba. Dos arquivos eclesiásticos
das Cúrias Metropolitanas de São Paulo e de Campinas trouxe subsídios para o conhecimento não apenas da
antiga paróquia de Nossa Senhora da Candelária, centro originário de Indaiatuba, mas também de inúmeros
aspectos da vida comunitária da época, profundamente marcada pela presença da Igreja; cf. CERTEAU, Michel.
A escrita da história. 2ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000, p. 67.
16
CARVALHO, Nilson Cardoso, op. cit., 1984, p. 7.
17
Para entender a trajetória do Iphan ver FONSECA, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em Processo:
trajetória da política federal de preservação no Brasil. 2ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/IPHAN, 2005.
18
PUPPI, Marcelo. Modernidade e Academia em Lucio Costa: Ensaio de Historiografia. Revista de História da
Arte e Arqueologia. Campinas. n.1, 1994, p. 124-144, e destacamos especialmente p. 125-128.

52
bem de estilo arquitetônico colonial. Situação que pode facilmente ser vista se examinarmos a
lista dos bens edificados tombados pelo IPHAN19.
Desta forma, os critérios utilizados por Lucio Costa na Divisão de Estudos e
Tombamentos do SPHAN, rapidamente ganharam ar de oficialidade, sendo apropriados nas
diversas Delegacias Regionais no Brasil. Entre elas a de São Paulo, com Mário de Andrade e
Luis Saia, local que encontrou terreno fértil, pois ia de encontro ao projeto político e
ideológico cunhado pela elite paulista nos anos 1920, que aproveitou o momento de discussão
acerca de projetos para nação, para tentar legitimar uma leitura própria do passado brasileiro,
baseada no discurso que a história da nação era a história de São Paulo. Tal tese foi
direcionada pela tentativa de forjar a identidade do povo paulista a partir da imagem do
bandeirante e do mestiço20.
Foi na concretização de tal discurso que se destacou a figura de Luis saia, discípulo e
herdeiro de Mário de Andrade, que passou a dirigir a regional de São Paulo em 1939 e seguiu
no cargo até 1975, quando faleceu21. Ele foi o primeiro a estigmatizar os traços da arquitetura
paulista a partir do estilo colonial que ele denominou “casa bandeirista” (termo criado por ele
para casa rural paulista), dividindo seu estilo arquitetônico em duas vertentes, a pura e tardia,
o que deixava evidente um juízo de valor em tal definição, pois julgava pura aquela
construção que se aproximasse do estilo colonial luso brasileiro do século XVII e XVIII.
Segundo Lia Mayume a tese do “tipo arquitetônico puro”, juntamente com o desejo
modernista de valorizar as raízes culturais paulistas miscigenadas, legitimou “restaurações de
casas bandeiristas orientadas para a recuperação da imagem ‘pura’, autorizando a destruição
de elementos arquitetônicos desconformes com o estilo arquitetônico” e removendo “dos
exemplares, sempre que possível os traços da ‘decadência’ social, cultural e estilística”22.
A maior evidência de que a chamada “Academia SPHAN” solidificou suas propostas
são os trabalhos da geração seguinte que pensou o patrimônio histórico, principalmente
paulista, como por exemplo, os de Carlos Lemos e Ernani Silva Bruno. Ambos, mesmo com
algumas considerações diferenciadas, conservaram boa parte das premissas da dita “Fase
Heroica” do órgão23, como a valorização da arquitetura colonial e a crença no diferencial
paulista advindo da miscigenação, principalmente do branco com o indígena: “(...) entende-se
por bandeirista a designação das atividades do mameluco em suas próprias plagas” 24. Da
mesma forma, Julio Katinsky na sua A Casa Bandeirista (1979) designou o termo “tradição

19
Conferir o link, “Bens Tombados e Registrados” na página institucional do IPHAN. Disponível em:
http://portal.iphan.gov.br/portal/montarPaginaSecao.do?id=17733&sigla=Institucional&retorno=paginaInstitucio
nal Acesso em 14 nov.2014.
20
RODRIGUES, Marly. Imagens do Passado – a instituição do patrimônio em São Paulo, 1969-1987. São
Paulo: Editora UNESP/IMESP/CONDEPHAAT, 2000, p. 21-22; o maior exemplo dessa proposta é a montagem
histórica do Museu Paulista feita por Affonso d’Escragnolle Taunay a partir de 1917, na qual de um Museu de
História Natural foi transformado num local de consagração de uma interpretação ilustrada da nação à paulista,
cf. BREFE, Ana Cláudia Fonseca. O Museu Paulista: Affonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo:
Editora Unesp/Museu Paulista, 2005, p. 118-119.
21
MAYUMI, Lia. Taipa, canela-preta e concreto: estudo sobre o restauro de casas bandeiristas. Tese
(Doutorado) - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005, p. 16.
22
MAYUME, L. op. cit., p. 16 e 15-18.
23
Cf. FONSECA, Maria Cecília Londres, op. cit., p. 81-130.
24
LEMOS, Carlo A. C. Casa Paulista: história das moradias anteriores ao ecletismo trazido pelo café. São
Paulo: Edusp, 1999, p. 12.

53
bandeirista” que abarcou “também as edificações de inspiração bandeirista construídas a partir
da metade do século XVIII”25, e, não somente as ditas edificações “puras” privilegiadas por
Saia, mais próximas do século XVII. Por isso, ao rol das 16 Casas Bandeiristas proposta por
Saia, Katinsky adicionou mais treze que correspondiam à “tradição bandeirista”, abrindo
caminho, assim, para toda aproximação e apropriação que se podia ser feita de tal modelo,
situação que daria legitimidade para o processo de preservação e restauração de qualquer bem
que pudesse dialogar, de alguma forma, com esse perfil arquitetônico.
Por isso, a ideia de um programa de “tradição bandeirista” tornou-se um relevante
argumento para aqueles que defendiam o estilo colonial como principal representante da
arquitetura de São Paulo, ainda mais se pensarmos que, na realidade, a maioria das cidades
paulistas, foi “fundada ou profundamente reconstruída entre o século XIX e XX”, sobrando
muito pouco da arquitetura essencialmente colonial no Estado26. Assim, para se encaixar no
modelo excludente das políticas públicas estatais que privilegiavam o bem arquitetônico
colonial, a saída era exatamente cunhar a ideia do estilo arquitetônico de tradição bandeirista,
que se estenderia para um bem edificado que ia além, temporal e geograficamente, “do
cinturão caipira de chácaras ao redor de São Paulo, e seguia no vale do rio Tietê na rota dos
desbravadores e colonizadores”27.
A luta pela preservação do Casarão Pau Preto se apoiou em tal discurso, abarcado pela
a hipótese que suas características coloniais seriam o motivo para que fosse preservado e
outras edificações históricas da cidade não. Situação que nos possibilita afirmar que não foi
descabida, do ponto de vista político, a estratégia utilizada por Nilson Carvalho de adequar a
sua proposta de preservação àquela vigente na época e praticadas por órgãos oficiais, ou seja,
valorizar a preservação das moradas de tradição colonial, especificamente bandeirista, nem
que para isso tivesse que abrir mão de um estilo peculiar da edificação, que tinha como sua
marca a representação de, pelo menos, mais de um estilo arquitetônico28. Situação que,
obviamente, não reduzia as qualidades do Casarão Preto à tradição colonial bandeirista.
O interessante é notar que tal estratégia, no mínimo ambígua do ponto de vista
arquitetônico e histórico, deu certo, e a maior evidência disso é o parecer técnico de
tombamento do Casarão (CLP-26/2002), feito 18 anos depois, por Celso Lago Paiva. Mesmo
tendo chamado a atenção para as evidências da mistura de técnicas construtivas e para os
diferentes estilos arquitetônicos presentes no bem edificado, (situação que, para ele, inclusive
possibilitaria ‘inserir a cidade de Indaiatuba no circuito das cidades históricas e turísticas), o
técnico se aproximou do discurso de Nilson Carvalho para concluir que a preservação do
imóvel se justifica, dentre outros apontamentos, pelo fato de filiar-se “ao partido colonial, que
caracteriza as mais antigas edificações de uso civil na região paulista dos séculos XVIII e
XIX”29.

25
ZANETTINI, Paulo E. Maloqueiros e seus palácios de barro: o cotidiano doméstico na Casa Bandeirista.
Tese (Doutorado em Arqueologia) MAE/USP, São Paulo, 2005, p. 74.
26
MARINS, Paulo César Garcez. A vida cotidiana dos paulistas: moradias, alimentação, indumentária. In. In.
SETÚBAL, Maria Alice (coord.). Terra Paulista: histórias, arte e costumes. Modos de vida dos paulistas:
identidades, famílias e espaços domésticos. São Paulo: CENPEC/IMESP, 2008, p. 151 b.
27
ZANETTINI, Paulo E., op. cit., p. 74.
28
PAIVA, C.L., op. cit., p. 7.
29
Idem, ibidem, p. 5-6.

54
O posicionamento técnico de Celso Lago Paiva é um tanto contraditório, pois tem o
cuidado de não mencionar o termo “bandeirista”, pois sabia que seria inapropriado para tal
edificação, mas nem por isso deixou de definir o Casarão Pau Preto a partir do estilo “colonial
do século XVIII”30. Na verdade, tal ambiguidade deixa patente o interesse em legitimar a
relevância histórica da edificação a partir dos critérios privilegiados pelos órgãos de proteção
nacional e apropriados por Nilson Carvalho.
Tal hipótese ganha maior credibilidade se atentarmos para os demais laudos técnicos
feito de bens considerados por Paiva passíveis de preservação. No laudo de outro bem
edificado que posteriormente foi tombado em Indaiatuba, a Fazenda Engenho D´Água,
mesmo depois de descrever algumas características que a distanciam do estilo bandeirista ele
apresenta uma saída para aproximar a edificação do clássico partido colonial das moradas
paulistas: “As características primitivas dessa construção (datada por mim de 1755 +/- 15
anos) prevalecem, fazendo dela exemplar conservador, quase bandeirista no sentido
atribuído por Katinsky”31. Em outro parecer técnico desta vez de uma edificação
contemporânea do Casarão Pau Preto, a “Casa Número Um”32, nota-se que o técnico, mesmo
conhecendo as singularidades da casa bandeirista, em alguns momentos, também reduz a
arquitetura colonial a tal terminologia consagrada por Saia. Segundo suas palavras a Casa
Número Um, “de características semelhantes ao Casarão, se particulariza por filiar-se ao
partido bandeirista, que caracteriza as mais antigas edificações de uso civil na região paulista
do século XIX”. Uma conclusão um tanto equivocada, no nosso ponto de vista, ainda mais se
levarmos em conta um outro laudo pericial a respeito do mesmo bem:

O interesse pela preservação da Casa Número 1 recorre não somente


no seu aspecto exemplar ainda hoje de uma residência típica da
ocupação urbana do estado de São Paulo, desde o início do século
XIX, quando as casas localizadas próximas à matriz, em várias
cidades (Itu, Sorocaba, Campinas, mas também Amparo, sem
esquecer inúmeros exemplos no Vale do Paraíba como em São Luiz
do Paraitinga) possuíam as seguintes características: a) Ocupação
frontal e lateral do terreno em relação ao lote e ao calçamento; b)
Pequena elevação do pavimento da casa em relação à rua, com

30
Idem, ibidem, loc. cit.
31
PAIVA, Celso Lago. Parecer Técnico CLP-15/2002. Relevância Cultural e recomendação de tombamento e
conservação a título perene da antiga sede da Fazenda Engenho –d´Água. FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA DE
INDAIATUBA. Processo de tombamento n.01/2002 do imóvel antiga sede da Fazenda Engenho –d´Água,
localizada na rua Zephiro Puccineli, quadra 38/39, lote s/n, Jardim morada do Sol, Indaiatuba, São Paulo.
(Acervo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba); no título de um artigo escrito por Paiva em 1998 a respeito da
Fazenda, ele deixa claro, não só sua aproximação com o discurso legitimador do modelo colonial, como também,
o seu conhecimento a respeito da diferença entre o termo bandeirista e tradição bandeirista: “Engenho d’ Água:
uma casa de Tradição Bandeirista em Indaiatuba, Estado de São Paulo”.
32
PAIVA, Celso Lago. Parecer Técnico CLP-22/2002. Relevância Cultural e recomendação de tombamento e
conservação a título perene da Casa Número Um. In. FUNDAÇÃO PRÓ-MEMÓRIA DE INDAIATUBA.
Processo de tombamento municipal n.02/2002 referente à preservação da Casa Número Um, localizada na Rua
Candelária n.459 (quadra s/n, lote s/n) Centro, Indaiatuba, São Paulo. (Acervo Fundação Pró-Memória de
Indaiatuba); nesse estudo, o autor data a construção da “Casa Número Um” próximo a 1830, afirmando que é a
“segunda mais antiga edificação residencial urbana sobrevivente em Indaiatuba, sendo posterior apenas ao
chamado Casarão Pau Preto”.

55
introdução de grande porta monumental por quase toda a extensão do
pé direito do vestíbulo de entrada; c) Distribuição dos ambientes em
três “lanços” distribuídos da rua para os fundos, sendo sala e quarto
principais (primeiro lanço); alcovas e depósitos (segundo lanço) e
cozinha e dispensas (terceiro lanço); d) Telhado com cumeeira
principal e alinhada, paralelamente, à rua do ingresso; e) Utilização de
técnicas construtivas leves, como a taipa de mão, para a configuração
das divisórias e paredes frontais; f) Estabelecimento de um quintal no
restante posterior de serviços, geralmente delimitado por alvenarias
pesadas, como a taipa de pilão, para distinção do lote em relação aos
vizinhos; neste quintal se instalavam “casinhas” sanitárias, a criação
de víveres, a cozinha suja em uma edícula precária, o pequeno jardim
com pomar g) Os caixilhos são ainda de manufatura elementar de
carpintaria, mas as janelas já apresentam folhas de vedação e em breve
futuro, ainda no século XIX, serão instaladas guilhotinas com
requadros de vidros. Todas essas características construtivas, formais,
morfológicas e espaciais estão presentes na Casa Número 1,
definitivamente um exemplo do modo de morar dos habitantes de
Indaiatuba que superava o modelo, limitado, das construções rurais
paulistas do século XVIII33. (TOGNON, 2015, p. 9)

Assim, não é descabido afirmar que Celso Lago Paiva amparou seu argumento na tese
de Katinsky de “herança bandeirista” para tentar encaixar a Casa Número 1, a Fazenda
Engenho d’Água, o Casarão Pau Preto em tal proposta, pois acreditava que dessa forma
poderia ter uma maior probabilidade de sucesso na preservação de tais bens. Mas, ao mesmo
tempo que a definição alargava o espectro das casas bandeiristas, ainda, se apoiava na tríade
capela-varanda-quarto de hóspedes34, atributos que, de acordo com o próprio Paiva, não se
encaixava ao estilo do Casarão: “As características primitivas dessa construção (datada por
mim de 1820 +/- 10 anos) prevalecem, fazendo dela exemplar conservador, ainda que nada
dela corresponde à faixa posterior de cômodos, com sua varanda típica”. Situação que à
primeira vista dificultaria rotular o estilo da edificação como “essencialmente colonial
paulista”, mas não para Paiva, que de forma surpreendente completava o raciocínio,
afirmando, que esse “despojamento formal da edificação reflete a sobriedade da vida dos
proprietários rurais do período colonial paulista”35.
Desta forma, bandeirista, tradição bandeirista, morada rural ou urbana, pouco
importava a delicada, mas relevante diferença entre os termos; o importante seria enfatizar um
suposto “estilo arquitetônico colonial” anterior ao da era do café, que não por acaso era o
privilegiado nas políticas de preservação do país. O que corrobora com a hipótese de que essa
aproximação forçada fez parte de uma estratégia de discurso construída e utilizada tanto no

33
TOGNON, Marcos. Laudo Técnico Pericial 075/2015 – “Casa n. 1 em Indaiatuba”. Campinas, 2015, p. 8-9.
(Acervo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba).
34
ZANETTINI, P., op. cit., p. 84.
35
PAIVA, Celso Lago, Parecer Técnico CLP-26/2002, op. cit., p. 8.

56
laudo do Casarão, como por Nilson Carvalho no seu livreto, para legitimar a proposta de
preservação do bem36.
Todo esse esforço de adequação a um modelo aceito nas políticas oficiais de
preservação do patrimônio cultural edificado, não pôde esconder a artificialidade de tal
aproximação, que fica clara se atentarmos para os escritos do próprio Luis Saia, a partir dos
quais nota-se claramente a desconformidade entre o estilo arquitetônico da Casa bandeirista e
do Casarão Pau Preto. Ao começar pela localização temporal de edificações bandeirista que
para Saia se estendia ao XVIII e não ao XIX, como assevera Nilson. Ele chega até mencionar
as casas do século XIX, mas como uma herança dos mineiros, que

(...) já liquidada a exploração do ouro de lavagem, iniciaram um


movimento para São Paulo, trazendo consigo as características das
construções montanhesas (...). Nada comparável, entretanto, que
pudesse indicar uma base sólida para a organização da coletividade
paulista (...) E, nada, portanto equiparável ao que ocorrera no período
bandeirista (1611-1727)”37.

Além disso, para ele as taipas do XIX não tinham os mesmos cuidados que as dos
séculos XVII e XVIII:

A taipa das construções do século seguinte não só apresenta os


mesmos cuidados, como pelo contrário indica descuido na fatura
propriamente dita e ainda no uso de quadro desse processo de edificar.
Deve-se, realmente, supor que as condições desfavoráveis de
economia e mobilidade demográfica, que afligiram os séculos XVIII e
XIX, vieram criar circunstâncias prejudiciais ao aprendizado das
técnicas correntes38.

Saia também repudiava as comparações entre plantas como fizera Nilson Cardoso:

Cumpre ter em vista que a análise deste tipo de residência não se deve
prender unicamente à planta; para considerar mais completamente o
funcionamento, a importância especial em mesmo a concepção do
conjunto, torna‐se preciso estudar a aplicação desse esquema em três
dimensões39.

Mesmo que despidas de qualquer má intenção, tais aproximações nos soam como uma
tentativa forçada de encaixar a linguagem arquitetônica de toda construção histórica nos

36
Ver ANDRADE, Francisco de Carvalho dias; COSTA, Eduardo. Arquitetura Bandeirista na Serra do Itapeti:
Um caso interessante para o estudo da arquitetura colonial paulista. In. VII Encontro de História da Arte da
Unicamp. 2011. Campinas. Anais do VII Encontro de História da Arte da Unicamp. 2011. p. 192-199.
37
SAIA, Luis. Morada Paulista. São Paulo: Perspectiva, 1972, p. 47.
38
Idem, ibidem, p. 85.
39
Idem, ibidem, p. 71.

57
parâmetros das características coloniais bandeiristas. Nesse caso deve-se concordar com Paulo
César Garcez Marins que deixa claro que, as tentativas de adequar as moradas erguidas a
partir da metade do século XVIII ao bandeirismo, é um sério caso de anacronismo, “já que a
maior parte delas estava ligada à produção de açúcar ou às repercussões do tropeirismo e não
mais às expedições sertanistas”40.
Mas no Casarão de Indaiatuba, como em outros bens de diferentes regiões do Estado
tal adequação não ocorreu somente por meio do discurso, mas também da prática. A maior
prova disso é que a primeira obra de “restauro” do bem, em 1984, houve a preocupação em
substituir janelas com vidraças, características do século XIX, por janelas protegidas por
grades de seção retangular, particularidades das mais antigas moradas paulistas41.

Figura 3. Interior do Casarão Pau Preto, estruturas em Taipa de Mão, Áreas com
remoção do preenchimento argiloso original, Arquivo Fundação Pró-Memória de Indaiatuba,
Foto de Silva e Pena, Álbum Fotográfico Digital, c. 1983.

Tal estratégia utilizada por Nilson Carvalho para buscar a preservação do Casarão
revela que não há como se pensar num pesquisador, seja acadêmico ou memorialista, fora do
seu lugar social e de seu tempo histórico como infere Certeau42, , pois, especificamente nesse
caso, estava pautado por uma prática e um discurso legitimador de que qualquer preservação
deveria seguir os ideais abarcados na arquitetura colonial, produto da mestiçagem, que em
São Paulo se configurou nas casas bandeirista, edificadas pelas mãos mamelucas. Nem que
para isso precisasse fazer desparecer seus diversos traços arquitetônicos originais.
Não se pode negar que graças a essa perspicácia, muito mais política do que técnica,
legitimada pelos laudos, que Nilson Carvalho e seu grupo ganharam a luta pela preservação
do bem. No entanto, deve-se salientar que não foi apenas esse discurso que contribuiu para o
sucesso de tal empreitada.

40
MARINS, Paulo C. G., op. cit., p.112.
41
Cf. MARINS, Paulo C.G., op. cit., p. 117.
42
CERTEAU, M., op. cit., p. 66.

58
3. Conclusão

Figura 3. Interior do Casarão Pau Preto, estruturas novas em alvenaria, Arquivo


Fundação Pró-Memória de Indaiatuba, Foto de Silva e Pena, Álbum Fotográfico Digital, c.
1983.

Os critérios de intervenção para restituir a “originalidade” do Casarão Pau Preto em


1982-1984 seguiram evidentemente os preceitos dominantes dos órgãos de preservação
atuantes em São Paulo43: quando a técnica construtiva vernacular se encontrava deteriorada a
solução era imediatamente a sua demolição e substituição por métodos construtivos modernos
(alvenarias de tijolos ou mesmo concreto). Mas ao final, a visibilidade completa do bem
recorria aos velhos valores do patrimônio colonial e imperial, como a pintura a cal, a
irregularidade dos rebocos, a rusticidade de janelas e portas novas, mas manufaturadas como
se fossem recentemente extraídas de troncos da mata Atlântica, pintadas com tinta moderna,
em um padrão bicromático legitimador (branco e azul) de todos os bens de um passado
nacional homogêneo.
A arquitetura popular no Brasil ganhará novas interpretações e, assim, novas razões
para a sua preservação quando, de fato, entrarmos profundamente no mérito das condições
sociais e técnicas que caracterizaram as suas diversas e difusas manifestações.

4. Bibliografia
FERNANDES, Charles. Levantamento técnico a respeito da atual situação do complexo
histórico Casarão Pau Preto. Indaiatuba: Fundação Pró-Memória, 2013.
ALVES, Silvane Rodrigues Leite. A instrução pública em Indaiatuba:1840-1930.
Campinas, Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, 2007. Dissertação de Mestrado

43
Ver sobretudo Lia MAYUMI (2008) e Cristina GOLÇALVES (2007).

59
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(1765-1851). 1ª ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1968. ISBN 978-85-912876-0-4
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60
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SAIA, Luis. Morada Paulista. 3ªed. São Paulo: Perspectiva, 1972. ISBN 9788527306058

61
Guadiana, Barrera tipológica. Un estudio comparativo de las tipologías de casa
popular en el Sur Oeste de la Península Ibérica.

Vidal Gómez Martínez,


Escuela Técnica Superior de Arquitectura. Grupo de Investigación HUM 700. Universidad de
Sevilla.

María Teresa Pérez Cano,


Escuela Técnica Superior de Arquitectura. Grupo de Investigación HUM 700. Universidad de
Sevilla.

Blanca Del Espino Hidalgo,


Escuela Técnica Superior de Arquitectura. Grupo de Investigación HUM 700. Universidad de
Sevilla.

Resumen
El trabajo es un estudio comparativo de las tipologías de casa popular en el sur oeste
de la Península Ibérica, tomando como referencias principales el caso de Mértola (Portugal) y
diversos municipios de las provincias de Huelva y Sevilla (España). Desde un punto de
partida común: la casa almohade, se detecta una divergencia clara durante la Edad Moderna.
Si esta casa almohade se caracterizaba por un patio central como núcleo vertebrador, las
tipologías posteriores son claramente diversas a ambos lados del Guadiana. En el Alentejo y
Algarve portugueses hay una respuesta compacta y continua, mientras que en Andalucía
Occidental se caracteriza por la concavidad y la discontinuidad. En ambos casos, la ocupación
de la parcela es extensiva. Se profundiza en el factor cultural como principal condicionante de
las tipologías de arquitectura popular residencial.

Palabras-clave: Casa-popular-tradicional-Alentejo-Andalucía

62
Introducción
La proximidad física actual en el tiempo y en el espacio, de dos territorios separados
por el río Guadiana, han producido un modelo de asentamiento y unas formas de habitar la
casa doméstica, que tuvieron un nexo originario común, pero que a partir de cierto momento
han evolucionado de forma diferente.
Los objetivos fundamentales que se pretenden alcanzar son los siguientes:
- Valorar las similitudes y diferencias entre las tipologías tradicionales de la
casa popular en el sureste de Portugal y suroeste de España.
- Indagar en los orígenes comunes de ambas tipologías y profundizar en la
búsqueda del punto de divergencia cultural entre el desarrollo a ambos lados
de la frontera.
La investigación se ha realizado principalmente a partir de la consulta bibliográfica y
el trabajo de campo, mediante la visita de inmuebles. Se han llevado a cabo labores de
documentación en las Universidades de Lisboa, Faro, Huelva y Sevilla, así como en el Campo
Arqueológico de Mértola1.

1. Alcance de las tipologías en la Arquitectura Popular


Los tipos de vivienda popular no responden a un marco geográfico claro sino que, por
el contrario, se extienden por un territorio amplio y se fusionan con las tipologías de áreas
limítrofes dentro de su ámbito cultural.
El estudio de la arquitectura popular en España tiene dos importantes referentes en las
publicaciones especializadas en las obras de Carlos Flores y Luis Feduchi, “Arquitectura
Popular Española” 2 e “Itinerarios de Arquitectura Popular Española” 3 , respectivamente.
Ambas comparten una clara relación en el concepto y la forma con la que se considera la gran
obra de recopilación sobre arquitectura vernácula portuguesa, “Arquitectura Popular em
Portugal”4. Realizada a partir de la iniciativa “Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal”
por el Sindicato Nacional dos Arquitectos, cuenta con un amplio elenco de profesionales
encabezados por José Huertas Lobo y Francisco Keil do Amaral.
Lo que actualmente entendemos como cultura europea no es sino una amalgama de
experiencias confluyentes y lo que hoy se lee en clave de límites internos, han sido hasta
fechas muy recientes fronteras internacionales. En el suroeste de la Península Ibérica, el

1 El presente artículo muestra parcialmente los resultados de una parte de los trabajos desarrollados dentro del
proceso de elaboración de la Tesis Doctoral del primero de los autores –bajo la dirección de las dos segundas- y,
más concretamente, es consecuencia de la estancia de investigación llevada a cabo en el Campo Arqueológico de
Mértola durante el verano de 2016, centrada en el estudio de su vivienda popular tradicional.
2
Flores, Carlos – Arquitectura popular española. Madrid: Aguilar, 1973. ISBN 84-0380-004-5
3
Feduchi, Luis; Borrego, Fernando; Temprano, Jesús – Itinerarios de arquitectura popular española.
Barcelona: Editorial Blume, 1978. ISBN 84-7031-201-4.
4 [Org.] Associação dos Arquitectos Portugueses – Arquitectura Popular em Portugal. Lisboa: Associação
dos Arquitectos Portugueses, 1980. ISBN no disponible.

63
Guadiana, además de como frontera natural entre España y Portugal, se erige como una
barrera que las tipologías de la arquitectura popular respetan rigurosamente.
En el contexto de la casa popular tradicional como elemento vertebrador de los
núcleos urbanos, así como soporte de la vida de las clases trabajadoras a lo largo de la Edad
Moderna en las ciudades medias y pequeñas de Andalucía Occidental, no se pueden obviar las
experiencias de nuestros vecinos más próximos. En concreto, destaca la experiencia
excepcional de estudio, conservación y difusión de la casa tradicional en la Villa de Mértola.
Los trabajos desarrollados por el Campo Arqueológico de Mértola desde los años 70, tanto en
el ámbito del patrimonio cultural en general como en el de la arquitectura popular en
particular, han cristalizado en la publicación y exposición “Mértola. A arquitectura da vila e
do termo”5.
2. La Casa Almohade
Entre los años 1.147 y 1.148, los almohades desembarcan desde el norte de África y
toman las principales ciudades y territorios del suroeste de la Península Ibérica, entre ellos
Jerez, Mértola, Niebla y Sevilla 6 . El fugaz dominio de los almohades, que comienza su
deterioro definitivo con la derrota de Las Navas de Tolosa en 1.212, tiene una fuerte
repercusión en las ciudades, tanto a escala urbana, como en los edificios de ámbito público y
privado. Este periodo se caracteriza por un regreso a las costumbres islámicas que se habían
relajado durante el periodo almorávide.
A escala doméstica, esto se traduce en el desarrollo de una vida introspectiva que se
refleja en una tipología clarísima de casa almohade que se extenderá a lo largo de estos dos
siglos de dominación por todo el sur peninsular, desde el Algarve portugués hasta el Levante
español, y que albergará desde las clases más modestas hasta los profesionales al servicio de
la élite.
Se trata de una casa con marcado carácter mediterráneo, organizada en torno a un
patio central al que abren las estancias y al que se accede desde la calle a través del zaguán,
normalmente dispuesto en recodo para garantizar la privacidad interior7. El tamaño de la casa
y el número de salas, acompaña a la posición social de se propietario, situándose entre los 50
y los 150 m2.
Esta descripción es tan válida para las casas localizadas en la alcazaba de Mértola8,
como para las excavadas en Saltés9 (Huelva) o Siyãsa10 (Cieza, Murcia) y que se recogen en

5
La exposición cuenta con un amplio catálogo coordinado por Miguel Reimão Costa y con diversos trabajos
relacionados en la bibliografía.
6
Kennedy, Hugh - Muslim Spain and Portugal: a political history of al-Andalus. Londres: Longman, 1996.
ISBN 9780582495159.
7
Palazón, Julio Navarro; Castillo, Pedro Jiménez – Casas y palacios de Al-Ándalus. Siglos XII-XIII. In. Casas y
Palacios de Al-Ándalus. Barcelona: Lunwerg Editores, 1995. ISBN 84-778-342-1. P. 17-32.
8
Macías, Santiago; Torres, Claudio – El Barrio almohade de la alcazaba de Mértola: el espacio cocina. In. Casas
y Palacios de Al-Ándalus. Op. cit.. P. 165-176.
9
Bazzana, André - Urbanismo e hidráulica (urbana y doméstica) en la ciudad almohade de Saltés (Huelva). In.
Casas y Palacios de Al-Ándalus. Op. cit. P. 139-156.
10
Palazón, Julio Navarro; Castillo, Pedro Jiménez – La decoración almohade en la arquitectura doméstica: la
casa almohade nº 10 de Siyãsa. In. Casas y Palacios de Al-Ándalus. Op. cit. P. 117-138.

64
el catálogo de la exposición “Casas y Palacios de Al-Andalus. Siglos XII y XIII” llevada a
cabo por El Legado Andalusí en Murcia en 1995 [fig. 1, fig. 2 y fig. 3 respectivamente].
La continuidad territorial y social de esta tipología se diluye con el ocaso del Imperio
Almohade. A partir de este momento, con la conquista cristiana y el establecimiento de los
reinos de Portugal y Castilla, la casa popular comienza a divergir claramente a ambos lados
del Guadiana.

Figura 1 - Planta de la casa I. Barrio almohade de Alcazaba, Mértola. Macías, Santiago;


Torres, Claudio – El Barrio almohade de la alcazaba de Mértola: el espacio cocina. In. Casas
y Palacios de Al-Ándalus. Op, cit. P. 173.

Figura 2 – Planta de la casa 1 B. Saltes. Bazzana, André - Urbanismo e hidráulica (urbana y


doméstica) en la ciudad almohade de Saltés (Huelva). In. Casas y Palacios de Al-Ándalus.
Op. cit. P. 146.

65
Figura 3 – Plantas de las casas 10, 12 y 14 Siyãsa. Palazón, Julio Navarro; Castillo, Pedro
Jiménez – La decoración almohade en la arquitectura doméstica: la casa almohade nº 10 de
Siyãsa. In. Casas y Palacios de Al-Ándalus. Op. cit. P. 120.

3. Divergencias
A partir del siglo XIV, las tipologías populares toman rumbos distintos, respondiendo
a diferentes aspectos socioculturales. Las divergencias tipológicas son claras y las formales
son evidentes -aunque no forman parte del presente trabajo, que se centra en la tipología
entendida como esquema de generación y funcionamiento arquitectónico. El único
denominador común entre las casas populares tradicionales a un lado y otro de la frontera es
la limitación de recursos de sus habitantes, lo que obliga a disponer de todo el espacio
disponible, ocupando -funcionalmente- todo el solar por las actividades necesarias para
cocinar, dormir, almacenamiento, etc. En Alentejo y Algarve, los volúmenes se agregan en un
continuo construido albergando usos puramente domésticos, mientras que en Andalucía, la
casa ocupa el solar con espacios destinados a la vida doméstica -construidos-, pero también
con espacios interiores -libres- de relación social y vinculados a la actividad agropecuaria.
Por tanto, podemos decir que en ambos casos nos encontramos con una implantación
tipológica extensiva, en tanto ocupa todo el espacio disponible. La divergencia surge en el
carácter -construido/libre- de los espacios con los que se ocupa el parcelario.
Dado que las condiciones orográficas son similares, debemos buscar el origen de esta
divergencia tipológica en condicionantes económicos, sociales y culturales. Una estructura de
la propiedad dispar -desde la escala local a la estatal- que genera una implicación laboral y

66
una posición social diferente, etc. En definitiva, una forma de vida y una cultura distintas, lo
que se traduce en otra tipología doméstica.
A pesar de la simetría geográfica respecto al cauce, en la margen izquierda del
Guadiana se presentan configuraciones morfológicas y tipológicas radicalmente distintas de
las que pueden apreciarse en la margen derecha. Este hecho se constata desde la simple
observación de fotografías aéreas hasta el estudio pormenorizado de los diferentes casos.
Como ejemplo especialmente expresivo de este fenómeno, podemos mencionar el caso de las
ciudades de Alcoutim, Portugal, y Sanlúcar de Guadiana, España, separadas por los 260
metros del cauce del Guadiana a esta altura [fig. 4]. Con una vista aérea comparada, podemos
apreciar claramente las características fundamentales identificadas anteriormente a ambos
lados de la frontera: un parcelario compacto, colmatado por edificaciones de cuerpos
yuxtapuestos en el lado portugués y manzanas de mayor dimensión en las que las parcelas
presentan numerosos espacios libres interiores intercalados con los cuerpos construidos, en la
orilla española. No se observa una transferencia tipológica, no hay una contaminación, ni
siquiera una conexión visible entre las arquitecturas populares de un lado y otro de la frontera.
Durante el final de la Edad Media y la Edad Moderna se generan y desarrollan las
tipologías de vivienda popular que se describen a continuación: la “morada de casas” de
“frente estreita” y de “frente larga” en el Alentejo meridional y la casa popular tradicional en
Andalucía Occidental, caracterizada por la secuencia de cuerpos construidos alternados con
espacios libres y para la que no se conoce un nombre específico.
Estas características pueden ser contrastadas también de una manera clara en un
enclave como Mértola, villa histórica situada, también, a orillas del Guadiana -unos
kilómetros más al norte de Alcoutim- pero a cierta distancia ya de la frontera con España. Es
por ello que la caracterización de la arquitectura popular mertolense, plenamente portuguesa
sin contaminaciones de frontera, centra el contenido del siguiente epígrafe.

67
Figura 4 – Vistas aéreas de conjunto y detalles de Alcoutim (bajo izquierda) y
Sanlúcar de Guadiana (bajo derecha). Imagen elaborada por los autores a partir del “Vuelo
Fotogramétrico Digital 2010-2011 (VF0.45_2011NO): Fotograma h50_980_fot_039_1901,
INE 21065, Sanlúcar de Guadiana, MTA10 98012” realizado por Instituto de Estadística y
Cartografía de Andalucía. Consejería de Economía, Innovación, Ciencia y Empleo. Junta de
Andalucía.

68
4. Casa Popular en Mértola, entre Alentejo y Algarve
Mértola se sitúa en un enclave privilegiado sobre la confluencia de la Ribera de Oeiras
con el río Guadiana, sobre un espolón rocoso que le permite controlar el punto de desembarco
de las rutas fluviales. La ciudad se desarrolla fundamentalmente en el interior de las murallas
que protegen al castillo desde la Edad Media, existiendo algunos arrabales históricos
extramuros y en la otra orilla del Guadiana.
La topografía escarpada del espolón rocoso da como resultado una trama urbana
basada en “ruas” y “travesas”. Las primeras son las calles principales que discurren siguiendo
las curvas de nivel, mientras que las segundas son más pequeñas y conectan las anteriores
entre sí desafiando a las líneas de máxima pendiente.
Cabe destacar que, en Mértola, las casas principales y los edificios más representativos
se sitúan en la zona baja del núcleo, donde la topografía es más suave y permite un desarrollo
más amplio de las construcciones. Mientras, las zonas altas son ocupadas por casas más
sencillas, que colmatan las manzanas en su práctica totalidad con viviendas de “casas de
frente estreita” y de “casas de frente larga”, designaciones que Miguel Reimão Costa rescata
de la tradición oral11. También es importante entender que la configuración actual del caserío
de la villa proviene de un profundo proceso de renovación sufrido entre los siglos XIII y XVI,
en el que se abandonan las tipologías medievales árabes.
Centrándonos en la casa popular, tenemos que buscar su origen para poder entender su
tipología. Al inicio del periodo moderno se constata a través de las “visitações e os tombos da
Ordem de Santiago” (1482-1607)12 el cambio de tipología fruto del cambio cultural. Aumenta
el número de viviendas (por aumento de la densidad) y desaparece el patio. La casa adopta
una configuración celular de estancias yuxtapuestas que colmatan el loteamiento definido por
el sistema de ruas y travesas.
Tanto en el lenguaje coloquial como en el documental, se ha conservado la
denominación de cada una de estas células como “casa”. Se trata de unidades constructivas
definidas por un pequeño espacio (en torno a ocho metros cuadrados) delimitado por muros
de carga en todo su perímetro. La unidad mínima (casa de frente estreita) se compone de la
casa de fuera que alberga la cocina y la casa de dentro donde se ubica el dormitorio [fig. 5]. El
crecimiento de este tipo mínimo se produce bien en vertical, añadiendo una segunda planta de
escasa altura (sobrado) o por adición de unidades colindantes, dando lugar a la casa de frente
larga13 [fig. 6].

11
Costa, Miguel Reimão - A transformação da arquitectura durante o antigo regime. In. Mértola a arquitectura
da vila e do termo. Mértola: Campo Arqueológico de Mértola, 2015. ISBN978-972-9375-49-1. P. 97-122.
12 Barros , Mª de Fátima Rombouts de; Boiça , Joaquim Ferreira; Gabriel , Celeste - As comendas de Mértola e
Alcaria Ruiva : as visitações e os tombos da ordem de Santiago 1482 – 1607. Mértola: Campo Arqueológico
de Mértola, 1996. 972-9375-06-2.
13
Costa, Miguel Reimão; Rosado, Ana Costa - A vila velha e o arrabalde da vila no terceiro quartel do século
XX. In. Mértola a arquitectura da vila e do termo, Op. Cit..P. 149-188.

69
Figura 5 – Planta, secciones y volumetría de “morada de casas de frente estreita”.
Costa, Miguel Reimão; Rosado, Ana Costa - A vila velha e o arrabalde da vila no terceiro
quartel do século XX. In. Mértola a arquitectura da vila e do termo. Op. Cit.. P. 151.

Figura 6 – Planta, sección y volumetría de “morada de casas de frente larga”. Costa,


Miguel Reimão; Rosado, Ana Costa - A vila velha e o arrabalde da vila no terceiro quartel do
século XX. In. Mértola a arquitectura da vila e do termo. Op. cit. P. 152.

A primera vista, esta configuración podría entenderse consecuencia directa de la


topografía y la densificación del tejido urbano. Sin embargo, la observación de las tipologías
de casa popular tanto en el entorno rural de Mértola como en el resto de su ámbito territorial
(Alentejo y Algarve) nos confirman que no se trata de una mera adaptación funcional, sino
que responde a un posicionamiento cultural que se traduce en una forma de habitar propia.
Tanto en el amplio recorrido que hace Reimão Costa por las casas de la sierra entre
Algarve y Alentejo14, como el en estudio tipológico de la casa rural en Mértola que realizan

14Costa, Miguel Reimão - Casas e montes da serra entre as estremas do Alentejo e do Algarve : forma,
processo e escala no estudo da arquitetura vernacular. Porto: Edições Afrontamento, 2014. 978-972-36-
1383-4.

70
Ilaria Agostini y Daniele Vannetiello15, podemos comprobar que la generación y ampliación
de las casas populares se lleva a cabo por una continua yuxtaposición de células compuestas
por cuatro paredes maestras.
El proceso tipológico [fig. 7] sintetizado por los autores italianos es muy esclarecedor:
a partir de una célula mínima con cubierta a un agua se van añadiendo células a un lado y a
otro, creando un faldón a cada lado del muro de cumbrera que alberga las diferentes casas de
cada vivienda y las diferentes viviendas dentro de la manzana.
Este proceso, que a priori puede entenderse como propio e incluso consecuencia
natural de las densidades asociadas al hecho urbano -especialmente en recintos amurallados-
donde el espacio disponible es limitado y escaso, se desarrolla igualmente en el micro-
universo urbano de las aldeas, y en el de las construcciones aisladas de las alquerías con las
que se estructura el vasto territorio del Alentejo portugués [fig. 8].

15Agostini, Ilaria; Vannetiello, Daniele - La casa rurale nel territorio di Mértola. Arqueología Medieval. ISSN
0872-2250. Nº 6 (1999) 269-278.

71
Figura 7 – Proceso tipológico. Agostini, Figura 8 – Planta de Alcaria Queimada,
Ilaria; Vannetiello, Daniele - La casa rurale Vaqueiros. Costa, Miguel Reimão - Casas
nel territorio di Mértola. Arqueología e montes da serra entre as estremas do
Medieval. Op. cit. P. 269. Alentejo e do Algarve : forma, processo
e escala no estudo da arquitetura
vernacular. Op, cit. P. 185.

72
Estamos ante una estructura de células yuxtapuestas, cada una de las cuales transmite,
al mismo tiempo, autonomía y capacidad de crecimiento por adición, teniendo un carácter
absolutamente único.
La masividad tipológica de la arquitectura popular en el sur de Portugal se confirma en
el “mapa tipológico” diseñado por Artur Pires Martins, Celestino de Castro y Fernando Torres
[fig. 9], donde reflejan las tipologías dominantes en la costa portuguesa al sur del Tajo y la
zona sur de Alentejo. Se sintetizan 8 tipos de viviendas populares relevantes (más una
cabaña), todas ellas generadas a partir de la comentada yuxtaposición de cuerpos construidos,
con la única salvedad de las casas costeras de Olhão y Fuseta, de un origen claramente
diferente al resto y que se identifican como una tipología singular dentro del contexto.
Las casas del Bajo Algarve y la zona de Monchique se definen por un cuerpo principal
con cubiertas de tejas a una o dos aguas con división interior y un cuerpo anexo que alberga el
horno y otros espacios complementarios. La casa del Algarve Central no cuenta con el cuerpo
anexo, incluyendo el hogar en una de las salas, con la características chimenea algarvía. Las
cubiertas de teja se alternan con cubiertas transitables. En la Sierra de Grândola y el Valle del
Sado, las casas se organizan longitudinalmente en una crujía única con cubierta de teja a dos
aguas. Por último, la casa del Bajo Alentejo, que se recoge en este esquema -un poco ajena al
objeto de este trabajo-, es de mayores dimensiones, pero igualmente de un único cuerpo a dos
aguas, con más divisiones internas y con porche y horno adyacente.
Nos encontramos, pues, con una casa popular marcada por dos características
fundamentales a nivel tipológico, como son la compacidad y la continuidad. Como se ha
descrito anteriormente, se generan por sumas de células compactadas por adición. Se
conciben así casas que crecen de forma continua, sin dejar espacios intermedios. Por otro
lado, en la mayoría de las ocasiones, estas células colmatan la totalidad de la parcela, a
menudo de pequeña dimensiones, por lo que se acaba compactando el espacio construido.

73
Figura 9 – Mapa tipológico Alentejo y Algarve. Martins, Artur Pires; Castro, Celestino de;
Torres, Fernando - Zona 6 (Algarve, Baixo Alentejo e Alentejo Litoral). In. Arquitectura
Popular em Portugal. Lisboa: Banco de Fomento Nacional, 1988. ISBN no disponible
(depósito legal 19 991 88). P 678-679.

74
5. La Casa Popular Tradicional en Andalucía Occidental
Tras la toma de los territorios por parte de los reinos cristianos, los edificios
fundamentales de las ciudades sufren un proceso de cristianización que se entiende en la
actualidad como un valor añadido, específico de nuestro patrimonio. El cambio de culto
transformó numerosas mezquitas en iglesias , las fortalezas se adaptaron a las nuevas técnicas
de combate y los palacios se amoldaron a los nuevos usos sociales.
La tradición mudéjar consiguió hacer la transición hacia la arquitectura tardo-medieval
cristiana y renacentista a lo largo de la Península Ibérica - sobre todo en España -, afectando a
todos los ámbitos de la arquitectura.
En este contexto y en tramas urbanas marcadas por grandes manzanas, se desarrolla un
tipo de casa popular en parcelas de gran fondo y poco frente que albergan usos domésticos y
algunos asociados a labores agropecuarias. Es un tipo reconocible en todo el poniente
andaluz, tanto en la provincia de Sevilla como en las de Huelva o Cádiz. Se trata una casa
popular tradicional de características específicas, que comparten poco con sus homólogas
portuguesas.
Feduchi hace una acertadísima reflexión sobre la “concavidad de la casa andaluza” en
el cuarto volumen de su obra Itinerarios de Arquitectura Popular Española 16, dedicado a “los
pueblos blancos”. El concepto, empleado para la casa patio [fig. 10], es extensible a la casa
popular tradicional de menor entidad. Sin entrar en grandes pormenores, las agrupa por las
realidades geográficas en las que se implantan, nombrándolas, así, como “casa de la sierra” y
“casa de la campiña”. En todos los casos, la casa permanece cerrada al exterior con muros
ciegos, de huecos pequeños defendidos por rejas y contraventanas, mientras se abre a patios
que, además de aportar luz y ventilación, ordenan el conjunto y son soporte de gran parte de
la actividad cotidiana. Cuando nos centramos en los tipos más modestos, de menores
dimensiones de frente de fachada, los patios pierden el carácter central y organizador de la
distribución, para pasar a tener un papel de alternancia con las zonas construidas.
En cualquier caso, es una casa que se vive desde dentro, donde los espacios libres, más
allá de las meras funciones de salubridad, son tan importantes como los construidos, ya que
en ellos se desarrollan buena parte de la vida doméstica y algunas tareas relacionadas con la
actividad agropecuaria.
Por tanto, la casa popular tradicional en el suroeste español puede definirse por su
concavidad y discontinuidad. Estas dos características son reconocibles en los tipos de casas
populares en las provincias de Sevilla, Huelva, Cádiz, Badajoz o Málaga, algunos de cuyos
casos más significativos se detallan a continuación.
En la provincia de Sevilla, se localizan tipos sujetos a la siguiente secuencia: cuerpo
de fachada de doble crujía, patio, cuerpo interior de doble crujía y corral con construcciones
auxiliares -o no- [fig. 11], mientras en la provincia de Huelva, el cuerpo de fachada suele ser
de triple crujía y muchas veces abre directamente al corral interior. Es importante remarcar

16Feduchi, Luis; Borrego, Fernando; Temprano, Jesús – Itinerarios de arquitectura popular española.
Barcelona: Editorial Blume, 1978. ISBN 84-7031-201-4.

75
que, en todos los casos, la sucesión de espacios construidos y libres se registra mediante un
recorrido que arranca con el zaguán17 de entrada y libra a las salas de servidumbres de paso.

Figura 10 - Casa patio en la calle Dos Hermanas de Sevilla. Delorme, Francisco Collantes de
Terán; Estern, Luis Gómez – Arquitectura civil sevillana. Sevilla: Editorial Castillejo, 1999.
ISBN 84-8058-082-8. P 141.

Figura 11 – Esquema tipológico de la casa popular tradicional en la provincia de Sevilla.


Imagen elaborada por los autores.

17 Zaguán: espacio cubierto situado dentro de una casa, que sirve de entrada a ella y está inmediato a la puerta
de la calle. Definición del Diccionario de Arquitectura y Construcción de Santiago Vega Amado y otros.

76
Siguiendo el itinerario marcado por Luis Feduchi para la provincia de Huelva,
encontramos numerosos ejemplos de estas casas en Alájar, Aljaraque, Ayamonte, Huelva,
Manzanilla, Palos de la Frontera o Zufre. Y en los municipios sevillanos de Alanís,
Constantina, El Coronil, Écija, El Saucejo, Estepa, La Puebla de Cazalla, Lebrija, Lora del
Río, Marchena, Morón y Utrera.
Más en detalle, María Teresa Pérez Cano y Eduardo Mosquera Adell describen en su
trabajo de catalogación de Almonte18 una casa compuesta por un cuerpo de fachada de triple
crujía y un corral posterior, asociada a los agricultores y pequeños propietarios y que
identifican como “casa agrícola” [fig. 12], existiendo la posibilidad de “media casa” (puerta
de acceso y ventana) o “casa entera” (ventana, puerta y ventana). Engloban dentro de “otras
tipologías tradicionales” casas mas modestas -de hasta 200 m2 de parcela, por lo general
“medias casas”- que se limitan a un cuerpo de fachada de doble crujía y un pequeño patio o
corral posterior. En ambos casos, si la casa es “entera” el acceso se realiza mediante zaguán
ubicado en la zona central de la casa.
Cronológicamente, se trata de una tipología longeva, ya que consigue, con ligeras
adaptaciones de estilo y funcionales, adaptarse al devenir de los tiempos. Así, se localizan en
Carmona las “casas corredor”19 que se ajustan a la secuencia anteriormente descrita y se datan
a partir del siglo XIV en los arrabales y en los espacios intramuros. Esta casa recibe de la
tradición mudéjar el diseño sencillo de las portadas o los arcos de ladrillo aplantillado
enmarcados por alfices en las aperturas a los patios [fig. 13].
Se localizan tipos similares en todo el ámbito de influencia, llegando hasta finales del
siglo XIX y principios del siglo XX, cuando la migración a las ciudades y las innovaciones
tecnológicas comienzan a configurar una nueva manera de vivir y de construir. En Lebrija,
por ejemplo, la casa tradicional de las clases trabajadoras recibe el nombre de “doméstica” o
“popular”20 en función de si es más modesta o con un programa funcional más complejo [fig.
14 y 15].

18 Cano, María Teresa Pérez; Adell, Eduardo Mosquera – La protección del patrimonio edificado. Catálogo
de bienes inmuebles del municipio de Almonte. Sevilla: Secretariado de publicaciones de la Universidad de
Sevilla, 2006. ISBN 84-472-0718-8.
19 [Org.] Servicios Técnicos Municipales - Plan Especial de Protección del Conjunto Histórico de Carmona.
Documento de Aprobación Definitiva. Boletín Oficial de la Provincia de Sevilla Nº 191 de 19 de agosto de
2009.
20 [Org.] Servicios Técnicos Municipales - Plan Especial de Protección del Conjunto Histórico de Lebrija.
Documento de Aprobación Inicial. Boletín Oficial de la Provincia de Sevilla Nº 183 de 8 de agosto de 2014.

77
Figura 12 - Planta de casa agrícola “casa entera” en Almonte. Huelva. Cano, María
Teresa Pérez; Adell, Eduardo Mosquera – La protección del patrimonio edificado.
Catálogo de bienes inmuebles del municipio de Almonte. Op. cit. P. 53.

Figura 13 – Planta casa corredor en Carmona. Plan Especial de Protección del


Conjunto Histórico de Carmona. Memoria de Información y Diagnóstico. P 108.

Figura 14 y 15 – Plantas de casas doméstica y popular. Plan Especial de Protección


del Conjunto Histórico de Lebrija. Memoria de Información y Diagnóstico. P 47-48

78
6. Conclusiones
Podemos establecer las siguientes conclusiones de manera sintética, como resultados
de la presente investigación:
Se constata la arquitectura popular como hecho cultural, puesto que se produce como
respuesta tanto a la realidad social como a la geográfica u orográfica.
La adaptación inmediata de la casa, como centro de la vida privada, se produce ante
cambios bruscos culturales como lo fue la toma de los territorios almohades por parte de los
reinos cristianos en el siglo XIII.
La pervivencia de las tipologías de casa popular en periodos históricos estables -sin
grandes alteraciones socio-culturales-, perdurando los tipos estudiados en el presente trabajo
hasta los inicios de la Revolución Industrial.
Se detecta una diferencia de planteamiento ante necesidades similares en la casa
popular tradicional en el sur de Portugal y en Andalucía Occidental, optando por soluciones
caracterizadas por la compacidad y la continuidad en el primer caso y por la concavidad y
discontinuidad en el segundo.

Normativa y Planeamiento
Boletín Oficial de la Provincia de Sevilla Nº 191 de 19 de agosto de 2009 - Plan Especial de
Protección del Conjunto Histórico de Carmona. Documento de Aprobación Definitiva.
Boletín Oficial de la Provincia de Sevilla Nº 183 de 8 de agosto de 2014. - Plan Especial de
Protección del Conjunto Histórico de Lebrija. Documento de Aprobación Inicial.

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79
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Campo Arqueológico de Mértola, 2015. ISBN 978-972-9375-49-1. P. 97-122.

80
Património rural dos Açores. Proposta de inventariação e reabilitação da vila Conceição
e envolvente.

Hernâni Alves Ponte,


Secretaria Regional dos Transportes e Obras Públicas-Direção de Serviços de Infraestruturas e
Equipamentos, Portugal,
[email protected]

Soraya M. Genin,
ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa – Departamento de Arquitetura e Urbanismo,
ISTAR-IUL – Centro de Investigação em Ciências da Informação, Tecnologias e Arquitetura.
[email protected]

Resumo
As construções em alvenaria de pedra marcam a paisagem natural da Ilha de São
Miguel, habitações, torres, mirantes, abrigos e muros altos para proteção das quintas da
laranja oitocentistas. Por abandono, muitas encontram-se degradadas e em estado de ruína.
Com o objetivo de salvaguarda deste património, desenvolvemos um estudo histórico e
arquitetónico da Vila Conceição, na Ribeira Grande, construção rural composta por habitação
e torre/mirante. A investigação tem por base a pesquisa documental, o levantamento
arquitetónico e informação oral. Inclui sete construções rurais localizadas na envolvente
próxima, que partilham o mesmo tipo de sistema construtivo. Duas apresentam a mesma
tipologia, são torreadas e integram o Inventário do Património Imóvel dos Açores. Com base
nos resultados obtidos propomos a inventariação da Vila Conceição, dado o seu valor cultural,
histórico, arquitetónico e funcional. Com vista à sua conservação e das sete construções que
se encontram abandonadas, propomos uma reabilitação integrada para fins turísticos em
espaço rural, fundamentado no valor paisagístico e arquitetónico do conjunto.

Palavras-chave: Açores, Património rural, Arquitetura popular, Construções em pedra,


Inventário.

81
Introdução
No séc. XVIII e XIX, a ilha de São Miguel foi palco de um desenvolvimento
económico notável, proveniente da exploração da cultura da laranja. “Submetidas a
transformações posteriores ou completamente destruídas, a reconstituição destas antigas
quintas de laranja só é possível graças a testemunhos indirectos e a algumas estruturas
inertes (…). Muros, arruamentos, pavilhões, mirantes e, sobretudo, os portais de acesso à
quinta (…)”1
O abandono da arquitetura popular e da paisagem rural dos Açores apela ao seu estudo
e inventariação como meio de salvaguarda. Com este objetivo desenvolvemos o estudo de
uma construção rural, a Vila Conceição, no âmbito do Projeto Final do Mestrado Integrado
em Arquitetura do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
O método de investigação utilizado inclui: análise construtiva, através de observações
in situ, levantamento arquitetónico e fotográfico; análise de documentos existentes na
Conservatória do Registo Predial da Ribeira Grande e disponíveis na internet; entrevistas
realizadas a Maria Ivone Calisto, filha de José da Silva Calisto Estrela, antigo proprietário da
Vila Conceição, e a Marcolina Frazão Mota, moradora na vila entre 1950-70 e atual
proprietária.
Pretende-se analisar o valor histórico e arquitetónico da Vila Conceição e avaliar a sua
integração no Inventário do Património Imóvel dos Açores, com base nos critérios de seleção
e caracterização do bem referidos no Inventário:
- A caracterização do bem inclui cinco categorias/grupos tipológicos: unidades paisagísticas
construídas, conjuntos edificados, edifícios isolados, construções utilitárias e vestígios
arqueológicos;
- A seleção do bem deve satisfazer a, pelo menos, uma das condições seguintes: o bem deve
apresentar significado, valor ou qualidade arquitetónica ou tipológica, paisagística,
urbanística, construtiva, tecnológica, decorativa; significado cultural (funcional, simbólico,
histórico, arqueológico ou literário); ou potencialidades de valorização cultural, turística, de
restauro, de recuperação, de reconstrução ou de gestão museológica.
O Inventário do Património Imóvel dos Açores inclui o concelho de Vila Nova do
Corvo, na ilha do Corvo, os concelhos de Santa Cruz e Lajes na ilha das Flores, o concelho da
Horta na ilha do Faial, os concelhos de São Roque, Lajes e Madalena na ilha do Pico, os
concelhos da Calheta e Velas na ilha de São Jorge, o concelho de Santa Cruz na ilha Graciosa,
os concelhos da Praia da Vitória e Angra do Heroísmo na ilha Terceira, o concelho da Vila do
Porto na ilha de Santa Maria e os concelhos da Povoação, Nordeste, Vila Franca do Campo,
Lagoa, Ponta Delgada e Ribeira Grande na ilha de São Miguel. É no concelho da Ribeira
Grande que se localiza o nosso objeto de estudo.
A Vila Conceição é composta por dois corpos autónomos: um volume térreo de planta
retangular e um volume de dois pisos com planta aproximadamente quadrada, com acesso por
escada exterior e balcão (figura 1). O sistema construtivo é em alvenaria de pedra ordinária,
característico da região. Na envolvente próxima encontram-se mais sete construções em
pedra; seis estão abandonadas, em mau estado de conservação ou mesmo de ruina; duas
integram o Inventário do Património Imóvel dos Açores, uma com tipologia de torre/mirante,
semelhante ao volume de dois pisos da Vila Conceição.

1
ALBERGARIA, I. S - Quintas, Jardins e Parques da Ilha de São Miguel. p.58

82
Figura 1 - Vila Conceição. Elaborado pelo autor.

Localização e envolvente

A Vila Conceição e as restantes construções em alvenaria de pedra localizam-se na freguesia


do Pico da Pedra, com acesso pela rua Maria do Céu. Estão inseridas numa paisagem natural
agrícola. Encontram-se identificadas no mapa (figura 2) com os números 1 a 8 (Figura 2):
construções pequenas para abrigo de alfaias agrícolas (números 4 e 5), habitações de um piso
(números 3 e 7) construções com dois pisos (números 1, 2 e 6). As construções números 1 e 2
integram o Inventário do Património Imóvel dos Açores. A Vila Conceição, identificada com
o número 8, será analisada em capítulo próprio.

Figura 2 - Localização das 8 construções em alvenaria de pedra. Elaborado pelo autor sobre orto foto.

Construção 1
A construção 1 (figura 3) está registada no Inventário do Património Imóvel dos
Açores com a referência “22.171.11, Quinta com torre - Rua Maria do Céu”. Insere-se na
categoria de “unidade paisagística construída”2. Está datada do século XIX e considerada em

2
As “Unidades paisagísticas construídas constituem áreas de dimensão territorial significativa, mas contendo
um edificado fragmentado ou de pouca densidade, onde os espaços ou elementos vegetais desempenham um
papel importante; devem ter uma personalidade ou identidade própria e reconhecível; são exemplo as quintas,
solares, casas rurais e “casas de campo”; os palácios e respectivas áreas envolventes ajardinadas; os conventos,
mosteiros e santuários, com os respectivos terrenos ou espaços envolventes; os jardins e parques, com o

83
estado de ruina. Transcrevemos a descrição da ficha de inventário, servindo de exemplo, uma
vez que adotamos os mesmos critérios de caracterização e seleção do bem, para o nosso caso
de estudo.
“Sítio constituído por um terreno murado de formato rectangular, inicialmente
destinado ao cultivo da laranja ("quinta da laranja"), com a respectiva torre/mirante.
O muro de pedra que delimita o terreno está completo, apesar de, em algumas zonas,
estar bastante danificado. É característico das propriedades de cultivo de laranjas do século
XIX, tem uma altura aproximada de 3,15 m e destinava-se a proteger as árvores de fruto (este
tipo de muro de protecção estava normalmente associado a sebes altas, tanto plantadas junto
ao seu paramento interno como criando divisórias no interior do terreno). Actualmente
funciona apenas como muro de vedação, estando o terreno, já sem árvores, destinado ao
pasto.
A torre situa-se a meio do lado sul, à face do muro. Tem dois pisos: o armazém/abrigo
situa-se no piso térreo e o mirante coberto no piso superior. Apresenta uma entrada em arco,
a eixo da fachada principal, por cima da qual se situa uma janela. Esta disposição é igual na
fachada posterior. O acesso ao segundo piso é feito por escada exterior e balcão lateral. O
edifício é construído em alvenaria de pedra rebocada e as molduras dos vãos são em
cantaria à vista. Emoldurando a fachada principal tem uma faixa pintada de rosa velho. A
cobertura era de duas águas, em telha de meia-cana tradicional, com telhão na cumeeira e
beiral duplo (muito danificado na fachada principal). O interior do edifício ruiu, assim como
grande parte do telhado, restando as quatro paredes exteriores. Actualmente, a entrada de
gado é feita por um portão de madeira situado à direita da torre, aproveitando parte de um
vão que, possivelmente, teria sido um antigo portal.”3
Note-se a tipologia é semelhante ao nosso caso de estudo, do volume torreado
composto por dois pisos.
Segundo o arquiteto Pedro Maurício Borges os muros que limitavam as quintas de
laranja do Pico da Pedra ultrapassavam os 3,00m de altura e podiam chegar a ter 3.70m de
altura, com elevados custos inerentes. “O efeito visual de muralha defensiva, acrescentaram à
sua finalidade utilitária outra finalidade de tipo simbólico: estes muros seriam tão mais altos
quanto mais valiosa fosse a propriedade que defendiam, como era o caso das quintas da
laranja”4

Figura 3 - Construção 1. Quinta com Torre. Elaborado pelo autor.

respectivo mobiliário; os elementos pontuais e seu contexto; os “sítios” ou conjuntos agregando diversas
funções). INSTITUTO AÇOREANO DA CULTURA – O Inventário do Património Imóvel dos Açores.
3
INSTITUTO AÇOREANO DA CULTURA – O Inventário do Património Imóvel dos Açores.
4
BORGES, P. M - O Desenho do Território e a Construção da Paisagem na Ilha de São Miguel, Açores, na
segunda metade do século XIX, através de um dos seus protagonistas. p.92

84
Construção 2
A construção 2 (figura 4) encontra-se registada no Inventário do Património Imóvel
dos Açores com a referência 22.171.12, como “casa de habitação” – Rua Maria do Céu, nº1 E
3. É composta por casa rebocada pintada de branco e anexos em alvenaria de pedra à vista.
Data do séc.XVII / séc.XIX e insere-se na categoria de edifício isolado5.
Durante a II Guerra Mundial foi um quartel militar, onde os oficiais se instalaram na casa
principal e os soldados nos anexos. Estas construções foram reabilitadas recentemente,
encontrando-se em bom estado de conservação.
Relativamente aos anexos, a ficha de inventário refere que “tem uma disposição
longitudinal e inclui um mirante, uma torre e um forno com uma expressiva chaminé. É
construído em alvenaria de pedra à vista com as molduras e cunhais em pedra aparelhada.
As coberturas, com diferentes águas, são em telha de meia-cana tradicional, com beiral
duplo no corpo da torre e simples nos outros corpos. O conjunto de dois corpos é em "L" e
corresponde às actuais garagens e arrumos.”6

Figura 4 - Construção 2. Anexos em alvenaria de pedra. Adaptado do Inventário do Património Imóvel dos
Açores.

Construção 3
A construção número 3 (figura 5) localiza-se no interior da propriedade. Tem planta
retangular, com duas divisões interiores e cobertura de duas águas. As fachadas norte e sul são
cegas. As fachadas laterais incluem duas portas a poente e uma janela a nascente. As paredes
eram rebocadas no exterior e interior e o pavimento interior era em terra batida. Há vestígios
da cobertura, com estrutura em madeira e revestimento em telha de meia-cana tradicional.
Inicialmente era habitação, atualmente encontra-se abandonado e em estado de ruína.

5
“Edifícios isolados constituem objectos com considerável autonomia e consistência, destacáveis com clareza
da sua envolvente (…); Construções utilitárias (infraestruturas e mobiliário) constituem os tipos mais
especializados de estruturas edificadas, em geral não destinadas a ocupação interior humana (atafonas,
cisternas), ou mesmo sem espaço interno (cruzeiros)”. INSTITUTO AÇOREANO DA CULTURA – O Inventário do
Património Imóvel dos Açores.
6
INSTITUTO AÇOREANO DA CULTURA – O Inventário do Património Imóvel dos Açores.

85
Figura 5 - Construção 3. Habitação. Elaborado pelo autor.

Construção 4
A construção 4 (figura 6) apresenta planta retangular no sentido norte-sul, com a
fachada sul contígua à rua. As paredes são em alvenaria ordinária de pedra seca, rebocadas
com argamassa de cimento no exterior. A fachada nascente tem dois vãos de porta, os
restantes alçados são cegos. O pavimento era de terra batida. A cobertura era de duas águas,
observando-se vestígios da estrutura em madeira e revestimento em telha de meia-cana.
Servia para abrigo de alfaias agrícolas e dos agricultores. Atualmente encontra-se
abandonado e em estado de ruína.

Figura 6 - Construção 4. Abrigo para alfaias agrícolas. Elaborado pelo autor.

Construção 5
A construção 5 (figura 7) localiza-se no interior do terreno agrícola. Tem planta
retangular e apenas um vão de porta na fachada nascente. As paredes são em alvenaria de
pedra seca ordinária e cunhal aparelhado, sem qualquer reboco interior ou exterior. A
cobertura é de duas águas com estrutura em madeira e revestimento a chapa de fibra de vidro.
Originalmente era revestida com telha de meia-cana. O pavimento é de terra batida.
Mantem a sua função inicial de abrigo de alfaias agrícolas, encontrando-se por isso
num razoável estado de conservação.

86
Figura 7 - Construção 5. Abrigo de alfaias agrícolas. Elaborado pelo autor.

Construção 6
A construção 6 (figura 8) localiza-se no interior da propriedade, limitada por muros de
aproximadamente três metros e meio de altura. Tem planta quadrangular, dois pisos e
cobertura de quatro águas. O piso superior é acessível por uma escada exterior, contígua ao
alçado norte. O piso térreo é de terra batida e tem apenas um vão de porta a nascente. No piso
superior há duas janelas de peito, uma a nascente e outra a poente, a última encontra-se
entaipada com blocos de cimento. As paredes são em alvenaria de pedra, com cunhais
aparelhados. Os vãos são guarnecidos com cantaria. Apenas a fachada nascente se encontra
rebocada, com argamassa de cimento nos cunhais e no embasamento. Interiormente, a torre
apresenta reboco nos dois pisos. A cobertura e o pavimento do piso superior ruíram,
observando-se vestígios da anterior estrutura em madeira.
Esta construção tem tipologia de torre/mirante, característica das quintas da laranja,
limitada por muros altos, à semelhança da construção 1 incluída no Inventário do Património
Imóvel dos Açores.

Figura 8 - Construção 6. Torre. Alçados nascente e poente. Elaborado pelo autor.

Construção 7
A construção 7 (figura 9) localiza-se contígua à rua e é composta por dois volumes
térreos. O volume norte dispõe de uma única porta exterior, na fachada norte, e um pequeno
vão a nascente para ventilação. O volume principal a sul, com cozinha e forno de lenha, inclui
uma porta a norte, e uma janela de peito a poente. A cobertura era em madeira, revestida a
telha de meia-cana e o pavimento em terra batida. Há vestígios de reboco na chaminé e no
interior da casa. O forno é em alvenaria de pedra vermelha, com cobertura abobadada, coberta

87
de terra e revestida a telha de meia-cana. A terra era utilizada nas coberturas dos fornos para
reter o calor, assim como a pedra vermelha.
A construção destinava-se a habitação, atualmente encontra-se abandonada e em estado de
ruína.

Figura 9 - Construção 7. Habitação. Elaborado pelo autor.

A Vila Conceição

Análise construtiva
A Vila Conceição (figura 1) encontra-se afastada da rua, fronteiriça a poente com a
propriedade da construção 5. O terreno confronta a nascente e a sul com a propriedade da
construção 6 com muro divisório alto, de aproximadamente três metros e meio de altura. Os
restantes muros têm um metro e meio de altura.
A construção é composta por dois corpos autónomos. O corpo térreo tem planta
retangular (figura 10), com três quartos e uma cozinha, com forno saliente e chaminé de
grandes dimensões. A cobertura é de duas águas, no sentido nascente/poente.
O corpo de dois pisos tem planta aproximadamente quadrada, com um piso inferior
semienterrado para abrigo de alfaias agrícolas, e um quarto no piso superior com acesso por
escada exterior e balcão (figura 11 e 12). A cobertura é de duas águas no sentido
nascente/poente.
A construção das paredes é em alvenaria de pedra ordinária com os cunhais em pedra
aparelhada. Apenas o alçado sul se encontra rebocado parcialmente (figura 15). O interior está
rebocado na totalidade, com argamassa de barro, pintado de branco, à exceção da cozinha.

.
Figura 10 - Planta do piso térreo da casa e do piso semienterrado do torreão. Elaborado pelo autor.

88
Figura 11 - Corte longitudinal. Elaborado pelo autor.

Figura 12 - Cortes transversais. Elaborado pelo autor.

As duas coberturas têm estrutura composta por elementos de madeira roliça (figura 13)
- asnas, madres e varas – revestidas a telha de meia cana tradicional, assente em tábuas. A
fileira e as madres apoiam em cachorros (figura 14).

Figura 13 - Planta de tetos. Elaborado pelo autor.

Figura 14 – Cobertura em madeira. Elaborado pelo autor.

89
Os vãos exteriores são guarnecidos com elementos em cantaria: vergas, ombreiras,
peitoris e soleiras.
O volume térreo tem cinco vãos. Na fachada principal nascente existe um vão de
porta, ladeado por duas janelas (figura 15). A fachada sul inclui um vão de porta, de acesso
direto à cozinha, e um vão de janela entaipado (figura 15).
O volume contíguo tem dois acessos independentes para cada piso, alinhados
verticalmente na fachada nascente. O vão de acesso ao piso térreo, localizado sob o balcão,
tem forma de arco abatido e a ombreira norte é composta pelas pedras aparelhadas do cunhal.
A fachada nascente inclui mais dois vãos, uma janela guarnecida com cantarias no
piso superior, e um pequeno vão no piso inferior. A fachada norte (figura 15) inclui um vão de
janela em cantaria no piso superior, e um pequeno vão no piso inferior.
A fachada poente é cega (figura 15), confina com o terreno vizinho.

Figura 15 - Levantamento arquitetónico. Alçados sul, nascente, norte e poente. Elaborado pelo autor.
.

Os pormenores construtivos visíveis nos alçados indicam que o volume torreado já


existia antes da construção da casa. Os seus quatro cunhais são aparelhados e a fachada
poente é saliente em relação ao volume térreo (figura 16).

Figura 16 - Secção dos alçados nascente e poente. Elaborado pelo autor.

Destacam-se os elementos construtivos singulares. No volume térreo, a sul observa-se


o corpo saliente do forno e a chaminé de grandes dimensões (figura 19). O forno tem planta
circular (figura 18) e é coberto por abóbada em alvenaria de pedra. Por baixo do forno existe
um pequeno vão para limpeza das cinzas. A abóbada é em alvenaria de pedra, coberta com
terra para retenção do calor, e revestida com telhas de meia cana, idênticas às restantes
coberturas.

90
No volume de dois pisos, a nascente observa-se a escada exterior e balcão em
alvenaria de pedra. No alçado norte destacam-se duas cantarias salientes para apoio de haste
de bandeira (figura 19).

Figura 18 - Forno. Elaborado pelo autor.

Figura 19 – Elementos singulares. Elaborado pelo autor.

Análise histórica e tipológica


O volume de dois pisos, com escada exterior e balcão, tem tipologia de torre com
mirante coberto, idêntico ao imóvel número 1 que se encontra inventariado. Na Vila
Conceição acresce a particularidade das cantarias para colocação de haste de bandeira (figura
19).
“Todas as quintas têm uma alta torre com mastro de bandeira, donde oscilam ao
vento bandeiras e galhardetes em todas as ocasiões” (…) “A função emblemática e quase
heráldica do mirante, evoca situações militares que se inscrevem numa tradição construtiva
de longa duração. Tanto no domínio do simbólico como no plano arquitectónico, aliam a
tradição das construções militares a uma nova função de teor essencialmente recreativo.”7.
Segundo a historiadora Isabel Soares Albergaria, a filiação dos mirantes oitocentistas
pode recuar ao século XV ou XVI, às torres semafóricas e atalaias que pontuavam a linha de
costa em todas as ilhas, “destinadas à vigia da costa, equipadas com um sistema de
comunicação por bandeiras” (…) Em meados do século XIX «todas as quintas têm uma alta
torre com mastro de bandeira, donde oscilam bandeiras e galhardetes em todas as ocasiões».
Atribui aos mirantes uma função comercial, de observação do porto para transporte da fruta,
e defensiva, funcionando em rede como atalaias na vigilância da costa, como desde longa
data, sendo a bandeira no mirante uma constante. Num levantamento levado a cabo em
2007/2008 identificou a existência de 165 mirantes e torres da laranja nos Açores, dos quais

7
ALBERGARIA, I. S - Quintas, Jardins e Parques da Ilha de São Miguel. p.63

91
137 estão em São Miguel8. Desconhece-se os imóveis inventariados, mas provavelmente
inclui a Vila Conceição.
Da análise documental realizada, identificámos um mapa de 1897 (figura 20) que
regista um imóvel no local, provavelmente o volume torreado.
Não existem registos de imóveis na Conservatória do Registo Predial da Ribeira
Grande anteriores a 1959. A descrição predial de 1959 inclui as duas construções, referindo a
torre como uma construção contígua à casa (o volume térreo).
“A requerimento de José da Silva Calisto Estrela, casado, proprietário, morador no
Pico da Pedra, se declara que este prédio tem a área de 146.26 ares (10 alqueires e 100
varas), de terreno, onde se acha edificada uma casa, com três quartos e cozinha, retrete e
casa de lavar, e contíguo tem uma parte com cave e 1º andar com quarto, achando-se a parte
urbana omissa na matriz predial, tendo sido feita a competente participação para a
respectiva inscrição, em 4 de Abril corrente”9.

Figura 20: Extrato do mapa de 1897. Adaptado do Museu Virtual da Direção-Geral do Território

Segundo informação oral, o terreno era dividido em três partes, com muros de pedra
seca, não ultrapassando um metro e meio de altura, de modo a facilitar a gestão das
plantações, uma vez que não se semeava todo o terreno com a mesma cultura. “A propriedade
era cultivada com tabaco, milho, feijão, favas e amendoim. Na parte mais alta havia duas
viradas de vinha”10.
Note-se que os muros baixos poderão ser anteriores aos altos da época da laranja,
século XVIII e XIX. Como refere Borges, até ao século XVIII os muros tinham cerca de
metro e meio, porque as culturas não necessitavam de proteção11.
O volume térreo foi construído entre 1950-52 (figura 21). Em 1940 José da Silva
Calisto resolveu albergar o seu vinhateiro, Manuel do Porto, pai de Marcolina Frazão Mota,
na sequência de uma tempestade que assolou a ilha e para o efeito construiu o corpo de um
piso.
“A parte mais alta da casa é mais antiga. Na parte de baixo, eles arrumavam os produtos da
terra. Na parte de cima tinha uma cama e uma cómoda que os senhores costumavam usar

8
ALBERGARIA, I. S. e, FRANÇA, I. E. - Mirantes e torres da laranja: elementos identitários da paisagem
Açoriana.p.154-156
9
BOTELHO, V. B. - Livro de descrições prediais.
10
MOTA, M.F. – Entrevista.
11
BORGES, P. M - O Desenho do Território e a Construção da Paisagem na Ilha de São Miguel, Açores, na
segunda metade do século XIX, através de um dos seus protagonistas.p.91

92
depois do almoço para descansar. Ninguém dormia lá de noite, era só de dia quando iam
para lá com os trabalhadores”12.
Antes da construção da casa, o torreão servia de vigia e abrigo, sendo o piso
semienterrado destinado ao abrigo dos animais e armazenamento das colheitas e utensílios
agrícolas. O piso superior era utilizado apenas de dia, como local de descanso após o almoço
do proprietário, dispondo, de uma cama e uma cómoda. Com a construção da casa, o piso
superior passou a ser o quarto principal, sendo os quartos da casa mais pequenos e modestos.
A casa dispunha de um quarto de cama à direita da porta de entrada e uma cozinha no
restante espaço da casa, separadas por uma parede com estrutura e forro em madeira. A
cozinha tinha uma bancada ao longo da parede poente, com um louceiro no topo. Ao centro
existia uma mesa com dois bancos corridos de madeira e, junto à parede nascente, havia os
“talhões” utilizados no armazenamento de água para a alimentação, outros destinados à
conservação da carne de porco proveniente da matança anual. A cozinha era o espaço de
maior permanência, mais confortável devido à presença do forno, servia como zona de
refeições e de estar.

Figura 21 - Vila Conceição. Fotografia dos anos 50 cedida pela proprietária.

Uns anos mais tarde a Vila Conceição sofreu alterações. O interior da casa foi
compartimentado devido ao aumento do agregado familiar, construindo-se dois quartos com
blocos de betão. O pavimento interior foi cimentado à exceção da cozinha, que continuou em
terra batida.
Foi construído a sul, um anexo para retrete e tanque de lavar roupa, com cobertura em
chapa. A chaminé original foi parcialmente demolida devido a problemas de desenfumagem
(figura 19). A fachada nascente tinha dois pequenos vãos de ventilação, que ladeavam a porta
principal. Estes foram posteriormente substituídos por vãos de janela idênticos aos do torreão.
No torreão, o piso superior manteve-se com um só quarto assoalhado. O piso inferior
(figuras 11 e 12) que era utilizado para abrigar os animais, dispunha de baias em todo o seu
perímetro para acomodar os cavalos e burros. Com o revestimento do pavimento em
massame, este espaço passou a ser utilizado como granel da casa.
O acesso ao piso inferior deixou de ser em rampa para ter degraus de pedra. O balcão
foi coberto por alpendre de madeira, suportado por duas colunas de pedra de secção
quadrangular (figuras 22).
Para além da habitação existia uma pocilga, um secadouro e uma tolda de milho.
A Vila Conceição foi habitada até aos anos 70 do século passado. Com a mudança dos
moradores e o decréscimo da atividade agrícola, substituída pela criação de gado bovino, o
terreno e os apoios agrícolas tornaram-se obsoletos.

12
CALISTO, M. I. – Entrevista.

93
Figura 22 – Norte e nascente, escada. Elaborado pelo autor.

Estes dados permitem confirmar que a casa tem tipologia de casa popular dos Açores,
da ilha de São Miguel. Note-se a sua semelhança com a casa de Arrifes (figura 23), incluída
no livro Arquitectura Popular dos Açores13.

Figura 23 - Casa de Arrifes. Adaptada de Arquitectura Popular dos Açores.

Proposta de inventariação e conservação

Como medida de salvaguarda deste património rural, propomos a integração da Vila


Conceição no Inventário do Património Imóvel dos Açores e a reabilitação do conjunto das
sete construções que se encontram abandonadas, em mau estado de conservação e ruina.
A Vila Conceição apresenta deformações na parede nascente da cozinha e forno. A
cobertura está degradada, mas ainda conserva a estrutura original. No corpo torreado, o
pavimento de piso ruiu. As caixilharias das janelas foram vandalizadas, restando apenas as do
alçado norte do torreão, com portadas de madeira decorada com corações.
A proposta de inventariação baseia-se na análise efetuada, que prova o valor
arquitetónico, tipológico, paisagístico, construtivo, cultural (funcional, simbólico e histórico),
da Vila Conceição, assim como potencialidades de valorização cultural e turística, condições
referidas no inventário para seleção do bem. A Vila Conceição tem as seguintes
particularidades:
- A construção em alvenaria de pedra seca ordinária com cantarias nos vãos e cunhais
aparelhados, é característico da arquitetura rural dos Açores;
- O corpo de um piso com forno saliente tem tipologia de casa popular dos Açores;
13
CALDAS, J. V. - Arquitectura Popular dos Açores. p.142

94
- O corpo de dois pisos está registado no mapa de 1897; tem tipologia de torre e mirante
coberto, característica das torres oitocentistas das quintas da laranja, para apoio à atividade
agrícola; as cantarias para haste de bandeira posicionadas na fachada norte, provam a função
comercial de vigia do porto, e função de vigia da costa, filiação que remonta aos séculos XV e
XVI.
Chama-se a atenção para a autenticidade rara do imóvel. Apresenta na íntegra os dois
corpos (habitação térrea e torre de dois pisos), as alvenarias de pedra seca e coberturas em
madeira. A escassez na ilha de antigos torreões/mirantes em boas condições é um dos fatores
determinantes para esta seleção.
Propomos a reabilitação integrada das sete construções, para fins turísticos em espaço
rural, como turismo de Aldeia, dado o seu valor cultural, social e económico. O conjunto
compreende os requisitos recomendados para o desenvolvimento de turismo em espaço rural.
Os materiais e sistemas construtivos são característicos da região e está inserido numa
paisagem rural agrícola.
Propõe-se a reabilitação das construções torreadas (1 e 6), para agroturismo com
árvores de fruto, incluindo laranjas, e as restantes construções (2, 3, 4, 5 e 7) para casa de
campo.
Para a construção 8 (Vila Conceição) propõe-se a reabilitação do volume térreo para
restaurante, aproveitando o forno. No torreão, o piso inferior serviria de apoio ao restaurante e
no piso superior um quarto para o caseiro, dando continuidade à sua função de vigia. Todos os
materiais e sistemas construtivos tradicionais devem ser conservados, incluindo a cobertura
original, única existente do conjunto.
Para o conjunto, devem ser mantidas as construções originais e prever-se uma
intervenção sustentável, com sistemas de recolha de águas pluviais para abastecimento de
água e rede geotérmica para fornecimento energético.
Para além das potencialidades culturais e turísticas, a reabilitação do conjunto irá
dinamizar a região, permitindo a integração da comunidade local, através de um conjunto de
atividades e serviços, como a hospedagem, a restauração e outras de animação turística. O
turismo em espaço rural deve ser sustentável e contribuir para o desenvolvimento local e
regional.

Conclusão
As construções rurais de apoio à atividade agrícola nos Açores e particularmente na
ilha de São Miguel encontram-se abandonadas, desde a segunda metade do século XIX, e em
estado de degradação e ruina.
Com o objetivo de inventariação e salvaguarda deste património, estudou-se uma
construção localizada na Ribeira Grande, a Vila Conceição. Alargou-se o estudo para um
conjunto de construções rurais próximas, com o mesmo sistema construtivo em alvenaria de
pedra. Duas destas construções integram o inventário do Património Imóvel dos Açores.
A investigação prova o valor arquitetónico, tipológico, construtivo e cultural da Vila
Conceição, assim como o valor paisagístico, social e económico do conjunto.
O sistema construtivo da vila (e restantes construções) em alvenaria de pedra é
característico da arquitetura rural dos Açores. A vila é composta por dois volumes autónomos.
O corpo de um piso tem tipologia característica de casa popular açoriana, com forno e
chaminé salientes. O corpo torreado tem tipologia de mirante oitocentista típico das quintas da
laranja. As duas cantarias na fachada norte para suporte de haste de bandeira, testemunham a
função comercial de vigia do porto e a função defensiva da linha de costa, herdada das torres
de vigia e proteção quinhentistas.

95
Com vista à conservação da Vila Conceição e do conjunto das construções
abandonadas, é proposta uma reabilitação integrada com fins turísticos em espaço rural.

Bibliografia
ALBERGARIA, Isabel Soares - Quintas, Jardins e Parques da Ilha de São Miguel (1785 –
1885). 1ª ed. Lisboa: Quetzal Editores, 2000.
ALBERGARIA, Isabel Soares, FRANÇA, Igor Espínola de (2011) - Mirantes e torres da
laranja: elementos identitários da paisagem Açoriana. Boletim do Núcleo Cultural da
Horta, 21: 149-176.
BORGES, Pedro Maurício - O Desenho do Território e a Construção da Paisagem na Ilha
de São Miguel, Açores, na segunda metade do século XIX, através de um dos seus
protagonistas. Coimbra: Faculdade de Ciências e Tecnologia, 2007. Tese de Doutoramento.
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CALDAS, João Vieira - Arquitectura Popular dos Açores. 2ª Edição ed. Lisboa: Ordem dos
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LOPES, Flávio - Património Arquitetónico e Arqueológico - noção e normas de proteção.
Casal de Coimbra: Caleidoscópio, 2012.
MOTA, Marcolina - Entrevista [3 jan. 2014]. São Miguel, 2014.
PONTE, Hernâni - Património Rural nos Açores – Inventariação e Reabilitação da Vila
Conceição. Lisboa: ISCTE-IUL, 2014. 155f. Projeto final de Arquitetura. Disponível em
https://repositorio.iscte-iul.pt/handle/10071/8756.

96
Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. A relação com a arquitectura típica açoriana.

Bruno Furtado
ISCTE-IUL - ISTA – MIA
[email protected]

Cheila Arruda
ISCTE-IUL - ISTA – MIA
[email protected]

Dinis Simão
ISCTE-IUL - ISTA – MIA
[email protected]

Gonçalo Lopes
ISCTE-IUL - ISTA – MIA
[email protected]

Resumo
O presente trabalho centra-se na análise do Bairro dos Ilhéus em Mafra, procurando-se fazer
uma analogia entre o referido bairro e um tipo de arquitetura vernácula, saloia ou açoriana,
bem como a relação destas com o tema de habitação operária, em particular na região de
Lisboa.
Esta análise procura ainda realizar uma estreita relação entre a edificação do Bairro dos
Ilhéus, e por consequência com o tipo de arquitetura e contexto que deram lugar à sua
edificação, com um bairro social contemporâneo erguido na Ilha de São Miguel, nos Açores,
na freguesia das Sete Cidades, projecto de Souto Moura e Adriano Pimenta, considerando-se
que o objetivo essencial desta construção estabelece uma estreita relação com as
circunstâncias que deram lugar ao Bairro dos Ilhéus, com uma arquitetura económica, em
série, que garante a optimização da relação custo/qualidade e revela uma reinterpretação dos
desenhos de uma casa saloia portuguesa, com especial foco na chaminé e forno, símbolos
marcantes das casas típicas açorianas.

Palavras-chave: Bairro dos Ilhéus, saloio, habitação operária, casa açoriana, período
industrial, arquitetura vernacular.

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1. Introdução
Este trabalho tem como tema “O Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. A sua
relação com a arquitetura típica açoriana”. Em particular e tal como sugere o tema,
procura-se analisar a relação do Bairro dos Ilhéus em Mafra com a casa Açoriana,
baseando-se o presente trabalho, maioritariamente na Dissertação de Mestrado de António
Vasconcelos.
Considerando que para a análise desta relação é necessário compreender-se o contexto
histórico, analisando-se não só as origens de uma comunidade, como a sua conjuntura ao
longo do tempo, procura-se, numa primeira abordagem, focar a origem da comunidade em
análise, procurando-se compreender o desenvolvimento de uma identidade e cultura própria,
que sem dúvida influência a arquitetura.
A arquitetura deve assim ser considerada como uma manifestação direta da cultura
secular que transporta as influências que a originam e moldam ao longo do tempo
(Vasconcelos, 2015, p.61).
O Bairro dos Ilhéus erguido em 1879 insere-se no período industrial, na segunda
metade do século XIX, época em que também surge em Lisboa as primeiras vilas operárias.
Considerando que dentro de cada comunidade desenvolve-se uma arquitetura de acordo com
os seus costumes e materiais a que têm acesso, procurou-se assim abordar a evidente
analogia entre as casas dos Ilhéus e um tipo de arquitetura vernácula, saloia ou açoriana,
bem como a relação destas com o tema de habitação operária, em particular na região de
Lisboa, considerando-se estar associados os conceitos e o tipo de solução (Vasconcelos,
2015, p.159).
É esta influência, de época, que parece promover a edificação do próprio Bairro dos
Ilhéus na medida em que este surge no contexto de aumento da exploração e produtividade
da Quinta dos Machados e a consequente necessidade de mão-de-obra, habitual nesse
período. Nesse sentido, pode-se considerar que as casas dos ilhéus e as vilas operárias
assumem princípios e ideologias semelhantes, fruto da proximidade geográfica Mafra-
Lisboa e de um pensamento moderno que se encontra em conformidade com época,
resultando num tipo de habitação idêntica na oferta, na finalidade, nos modos de habitar e na
população-alvo (Vasconcelos, 2015, p.159-161).
Salienta-se ainda, que para a realização deste trabalho foi efectuada uma visita ao
Bairro dos Ilhéus, de forma a obter-se uma aproximação com a realidade em estudo.
Por fim, este trabalho procura ainda revelar uma estreita relação entre a edificação do
Bairro dos Ilhéus, e por sua vez, um tipo de arquitetura vernácula e saloia, com um bairro
social contemporâneo, erguido na Ilha de São Miguel, mais propriamente na freguesia das
Sete Cidades, projeto do arquiteto Souto Moura e Adriano Pimenta. Para tal, foi efectuado
uma visita ao local, que permitiu a criação de uma curta-metragem, onde se encontra visível
a reinterpretação dos desenhos de uma casa saloia portuguesa, porém, numa linguagem
contemporânea.

2. Enquadramento Histórico
De forma a analisar e compreender o fenómeno de um habitat é interessante começar-se
por analisar as origens de uma comunidade.

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Por volta do século VIII, os povos Berberes formaram unidades político-religiosas com
os Árabes, dando origem a uma tentativa de fundação de dois impérios corânicos, que
constituíram a linha da frente da invasão Árabe na Península Ibérica em 711. Foi neste
contexto que se fixaram nas áreas de fronteira, como é o caso da Estremadura, uma
província portuguesa estabelecida na Idade Média e extinta no século XIX (Vasconcelos,
2015, p.49).
Foi com a Batalha de Tarik, este um general incumbido de defender a posição de um
grupo de herdeiros do rei Vitiza, que possibilitou a invasão Árabe na Península e permitiu
aos árabes apoderarem-se das terras de Andaluzia, os berberes das terras áridas da Mancha e
da Estremadura, as Montanhas de Leão, a Galícia e as Astúrias. As tropas mouras,
constituídas na sua maioria por berberes, invadiram o reino visigótico, obtendo a vitória
decisiva em julho de 711, na Batalha de Guadalete (Área Militar, s.d).
Os Árabes ao tomarem Lisboa permitiram aos Berberes espalharem-se pelos arredores
formando o que mais tarde se veio a designar de região saloia.
A ocupação moura, que durou cerca de cinco séculos, admitia no território grupos de
cristãos, que não renegavam a sua religião, e que vieram a adotar os costumes e modos
daquele povo (Vasconcelos, 2015, p.49).
Em 1147, com o fim do domínio muçulmano naquela região e após a reconquista de
Lisboa, D. Afonso Henriques autorizou a permanência de algumas populações autóctones
nos arredores, mediante o pagamento de um tributo. Estes foram designados de “mouros-
forros”, podendo-se justificar e relacionar esta designação com o termo de saloio. Ao
explorar-se a etimologia do vocábulo saloio nota-se que o mesmo parece derivar do termo
“çahroi”, referindo-se ao Deserto do Saara, com o intuito de designar “planície deserta”, a
ideia de campo afastado da civilização. O vocábulo “çalaio” refere o tributo pago pelos
mouros-forros, podendo assim estar relacionado com a etimologia do nome. Contudo, é
necessário realçar que existem discordâncias nas investigações acerca desta etimologia, bem
como da área dita saloia (Carneira, 2014, p.35-37).
De um modo geral, o elemento cristão absorveu o chamado mourisco, onde se insere a
população saloia, contudo, o perímetro da região saloia é vago, não estando definido uma
designação administrativa relativa ao território saloio, sendo a região delimitada pelas
características e vestígios culturais, dos quais se destaca a casa saloia, bem como a
proximidade com a cidade de Lisboa, a evolução da província de Estremadura como área
primitiva de fronteira e os lugares de peregrinação e romarias (Carneira, 2014, p38-41).
Para José de Leite Vasconcelos, a área de saloios compreende algumas freguesias rurais
do Concelho de Lisboa como Ameixoeira, Benfica, Amadora, Carnide, Charneca, Lumiar e
Olivais; o Concelho de Oeiras; o Concelho de Cascais com exceção das freguesias à beira-
mar como Monte Estoril e Estoril, São João de Estoril, Parede e Carcavelos; o Concelho de
Loures com exceção em Sacavém; o Concelho de Sintra, com menos incidência no centro
da vila e o Concelho de Mafra com exceção de Ericeira. (Leite de Vasconcelos, 1980 p.
429-430 apud Vasconcelos, 2015, p.55-57).
Pode-se referir que a população dita saloia, comunidade de tradição rural, é autóctone,
afastada dos centros urbanos, mas com uma estreita relação com estes, permitindo assim o
desenvolvimento de uma identidade e cultura própria (Vasconcelos, 2015, p.49).

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Em síntese, para a caraterização da casa saloia é importante considerar-se a importância
da cultura árabe/muçulmana e do seu cruzamento com a cristã para a concretização de um
modelo arquitetónico do habitat saloio. Além desta caraterística é ainda importante ser
considerado o sentido vernáculo (Fernandes & Janeiro, 1991, p.25).

2.1. Arquitetura vernacular e as influências muçulmanas/árabes


Dentro de cada comunidade desenvolve-se uma arquitetura de acordo com os seus
costumes e materiais a que têm acesso. Com o romper do isolamento do Homem, com o
aperfeiçoamento técnico e inovações formais da arquitetura, acompanhado da expansão
territorial de certos povos, das suas doutrinas religiosas, intercâmbios económico e cultural
deu-se o desenvolvimento de pequenas comunidades e culturas regionais assentes na
tradição dos seus costumes e necessidades. Embora não imune a este desenvolvimento, a
arquitetura vernácula pode urbanizar-se, contudo, se dissipa as suas raízes perde a sua
autenticidade (Vasconcelos, 2015, p.37-39).
Ora, o termo vernacular refere-se a uma linguagem própria de uma região, um tipo de
arquitetura indígena própria de uma época ou local específico. Manifesta-se em construções
identificadas com um local, que a originou através das necessidades físicas e sociológicas de
um grupo restrito, do uso de materiais circunscritos à fronteira do mesmo e na sua
adequação aos agentes físicos. É um tipo de arquitetura em que se emprega materiais e
recursos do próprio ambiente em que a edificação é construída, apresentado assim um
caráter local ou regional, estabelecendo vínculos com o lugar e pressupondo uma cultura,
reflexo da história e da sucessão do tempo, de uma população face às adversidades e
condicionalismos da natureza, produto dessa região e da respectiva cultura. É sem dúvida,
determinante no retrato das gentes dessa região (Jorge, s.d, p.9-10).
A aplicação deste termo na arquitetura sugere o recurso a uma matéria física, cultural e
local, que diz respeito a uma determinada natureza. Deste modo, resultam diversas práticas
que se assemelham em contextos naturais semelhantes, como é o caso da arquitetura
vernácula da região de Lisboa, da região saloia e da arquitetura vernácula das ilhas de Santa
Maria e de São Miguel, nos Açores. Contudo, atualmente o fenómeno designado de aldeia
global, provocou uma maior acessibilidade a diferentes tipos de materiais, que tornaram-se
comuns a várias regiões, provocando uma alteração da ideia desta mesma arquitetura,
denotando-se a necessidade de clarificar-se não só este conceito como também o termo
popular em arquitetura, entendido como se referindo às edificações e espaços de um
determinado extrato da população de uma dada região em comum, enquanto o primeiro se
refere aos aspetos construtivos e materiais que caraterizam uma região (Vasconcelos, 2015,
p.39-41).
A arquitetura é assim uma manifestação direta desta cultura secular que transporta as
influências que a originam e moldam ao longo do tempo. A casa saloia ergue-se, implantada
à margem da cidade, ora em aglomerados rurais ora em casais, isto é em pequenos grupos de
casas pouco afastadas entre si, uma espécie de propriedade campestre com casa. Deste
modo, e como exemplo de uma arquitetura vernácula, demonstra as influências mais
significativas que foi sofrendo e que contribuíram para a definição da sua cultura
(Vasconcelos, 2015, p.61-63).

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É neste contexto que torna-se relevante para a concretização de um modelo
arquitetónico do habitat saloio considerar-se a importância da cultura muçulmana/árabe e do
seu cruzamento com a cristã.
Apesar de se relacionar esta casa com a comunidade ibero-berbere-moçárabe é
necessário ter em conta o referido por Fernandes & Janeiro (1991, p.28), isto é, que ao
partir-se da tese de relacionar esta casa com a formação e evolução da comunidade ibero-
berbere-moçárabe, depois de cristã e saloia, é provável ter-se processado nesse quadro uma
lenta elaboração e consolidação dos modelos arquitetónicos que serviram de base a essa
comunidade e que terão evoluído em paralelo a ela, pelo que será possível procurar-se as
suas origens numa fase ainda anterior à reconquista, com graus sucessivos de
aperfeiçoamento do modelo ou influências de outras arquiteturas chegadas à região.
Porém, neste contexto de relação da importância da cultura muçulmana/árabe e do seu
cruzamento com a cristã, assinala-se o caráter sagrado que acompanha o conceito de casa na
cultura árabe, que tal como a mesquita, é um local sagrado, funcionando como elemento
base, onde a rua fica em segundo plano (Vasconcelos, 2015, p.63).
A casa considerada como reflexo do homem, e determinada com base nas dimensões da
figura humana é representada geometricamente pelo quadrado. Foi precisamente com o
desenho do Homem de Vitrúvio de Leonardo Da Vinci, que esta noção ganhou uma
expressividade maior, entendendo-se este como uma forma de elo de ligação entre Deus, o
círculo celeste, e o mundo terreno, o quadrado dos quatro elementos da natureza. Este
pensamento da cultura árabe eleva a casa como alma do homem, espaço de concretização da
quadradura do círculo, e a sua morada, e com efeito é privilegiada na relação vertical, tanto
num edifício isolado, como no esquema urbano da cidade (Vasconcelos, 2015, p.63).
O olhar o Céu é também entendido nesta cultura, como a articulação entre o Homem-
Terra e o Céu-Deus, representado geometricamente pelo octógono, e revelado na arquitetura
através das construções religiosas pela intersecção da abóboda-céu com o quadrado terra,
como é o exemplo do “caaba”, edifício cubico e sagrado situado em Meca (Anexo – Figura
1). Como exemplos de construções árabes espalhadas por Portugal pode-se referir a Capela
do Sitio de Nazaré (Anexo – Figura 2), e da Senhora do Cabo (Anexo – Figura 3), que
apresentam formas cúbicas e encontram-se próximas de um território saloio (Vasconcelos,
2015, p.63-65).
Pode-se assim afirmar que, originalmente, a casa árabe, e mais tarde a casa saloia, terá
tido como base a raiz quadrada de dois, ou seja, uma planta quadrada. Na casa árabe o
centro é o pátio quadrado envolto por toda a casa, enquanto na casa saloia é a casa-de-fora
que marca o centro e comunica com toda a habitação, apresentando na sua composição uma
geometria quadrada que se estende da planta à projeção dos alçados, de dimensões idênticas.
Deste modo, o quadrado é a primeira grande evidência das casas saloias e a testemunha da
sua origem (Vasconcelos, 2015, p.65).
Ao examinar-se as influências muçulmanas/árabes é pertinente mencionar a identidade
de saloio, a sua atividade e o meio em que se insere, isto é, deve-se ter em consideração o
facto de que D. Afonso Henriques ofereceu proteção e jurisdição própria aos mouros, em
troca de um tributo pago à Coroa Portuguesa e de alguns serviços agrícolas e comerciais a
prestar à cidade de Lisboa, o que permitiu a polarização dos arredores de certas cidades do
centro e sul de Portugal, definindo assim bairros próprios, onde coabitam mouros, judeus e

101
cristãos, e que conduziu à criação de uma dupla realidade que resultou na criação de casas
de mouraria, urbanas, por um lado, e por outro lado, na casa saloia, rural. Em ambas as
situações, a aplicação das normas canónicas muçulmanas na organização e conceção de
espaços constitui uma chave na materialização da expressão mourisca. Os becos e ruas sem
saída que estruturam os antigos arredores de Lisboa, são precisamente um exemplo tão
comum no urbanismo muçulmano (Vasconcelos, 2015, p.65-67).
Contudo, esta influência deve ser observada do ponto de vista de domínio territorial por
parte dos cristãos, factor que subordina a expressão morfológica muçulmana aos seus
próprios ideais e directrizes (Vasconcelos, 2015, p.69).
Procurando sistematizar em grupos tipológicos as variantes da casa do tipo da região
saloia, partindo-se de um esquema organizativo comum, pode-se relatar que a casa saloia
(Anexo – Figura 4) apresenta um espaço de entrada térrea, uma casa-de-fora, com armários
caraterísticos de canto em madeira e escada interior, no caso de ter dois pisos, ligado por sua
vez à cozinha ou a outros anexos como quartos ou arrecadações. Por cima, apresenta um ou
mais quartos. Em relação à cozinha, esta apresenta um forno integrado na lareira que pode
ser alta ou chã, tendo a chaminé por cima. Quando o conjunto torna-se mais complexo e
apresenta uma escada exterior com alpendre, o sistema pode alterar-se, articulando-se a sala
de entrada directamente com esse alpendre, no cimo das escadas. Neste caso, os espaços
térreos poderão servir de lojas (Fernandes & Janeiro, 1991, p.40).
Ora, deve-se assim considerar de grande importância a arquitetura popular na idade
média na análise da casa saloia, uma vez que esta lhe é contemporânea. De facto, a casa
popular medieval na região de Lisboa teve a sua origem precisamente no tipo elementar da
casa unicelular de piso térreo e divisão única, que resultam em duas tipologias bicelulares,
na casa térrea de duas divisões pela repartição horizontal do tipo elementar (a casa térrea de
uma divisão) e na casa de dois pisos e duas divisões (a loja térrea e o sobrado resultante da
repartição vertical da casa elementar). (Vasconcelos, 2015, p.69).
A primeira é predominante no meio rural, uma vez que adequa-se às economias locais e
insere-se num contexto marcado pela simplicidade, homogeneidade e largueza espacial,
sendo essencialmente um núcleo de uma empresa agrícola. Já a segunda carateriza o
panorama urbano, heterogéneo, assente na pluralidade funcional e verticalização dos
espaços, sendo um reflexo da densificação das cidades e crescimento da população, onde já
se denota uma preocupação com a ordenação do espaço em lotes, em comunicação com a
rua na parte da frente e uma traseira mais modesta, de articulação do espaço doméstico com
o quintal (Vasconcelos, 2015, p.69).
Em síntese, a casa medieval da região de Lisboa era bastante elementar e com poucas
aberturas para o exterior. A sua organização quando horizontal caraterizava-se pela
compartimentação simples, um sistema de dois módulos de divisão única que se sucediam
em profundidade, isto é casa dianteira e casa de trás. Apresentava uma ordem rectangular na
sua planta no Centro e Sul, aproximando-se da forma quadrada no Norte, o que denota a
provável influência muçulmana (Vasconcelos, 2015, p.71).
A casa saloia surge assim como um elemento de síntese entre muçulmanos e cristãos
dos arredores de Lisboa, marcada fortemente pela presença dos mouros-foros e por um
contexto popular medieval. Em termos morfológicos, a casa saloia é constituída por uma
série de módulos quadrados que posicionados de forma diferente definem as três tipologias

102
principais da casa e as suas variantes. Seja em piso térreo ou em dois pisos, a casa
compreende por norma três a quatro divisões, ou seja, a casa-de-fora, espaço de entrada, a
cozinha onde se encontra o forno familiar integrado na lareira, adossado e saliente em
relação ao volume da casa e coroado pela chaminé, sendo esta uma das particularidades da
casa saloia e por fim o quarto de dormir, que por vezes era o único espaço privado da casa
(Anexo – Figura 5 e 6). (Vasconcelos, 2015, p.73).

2.2. A expressão saloia no Arquipélago dos Açores


No fim da idade média foram realizadas as primeiras expedições marítimas, orientadas
por D. Henrique, dando-se os primeiros passos para a descoberta do Arquipélago dos
Açores e também da Madeira, exploradas e ocupadas entre os séculos XV e XVI
(Vasconcelos, 2015, p.81).
As primeiras ilhas descobertas e ocupadas foram Porto Santo na Madeira e Santa Maria
nos Açores, tendo as migrações para as ilhas tido origem no Algarve e daí progressivamente
para o Norte, à medida que o povoamento das ilhas ia sendo feito (Vasconcelos, 2015, p.81).
A partir do século XVI o movimento migratório para as ilhas foi tendo a sua origem no
Norte, onde havia uma maior densidade populacional, bem como um maior número de
famílias ilustres interessados em protagonizar algumas explorações (Vasconcelos, 2015,
p.81-83).
O povoamento das ilhas contribui para uma polarização de diferentes meios culturais na
fisionomia das ilhas, o que influencia a arquitetura doméstica. Como exemplos, pode-se
referir que o facto da ilha da Madeira ter recebido mais “povoadores” do Norte do que Sul
do país o que poderá explicar a sobreposição de marcas do Noroeste no arranjo das casas e
na disposição dos campos. Outro exemplo são as pequenas casas térreas de Santa Maria,
muito semelhantes ao Sul Algarvio, ou as tradicionais casas nortenhas de loja e sobrado e
pedra à vista na ilha do Pico, as relações entre a ilha do Corvo e Trás-os-Montes
(Vasconcelos, 2015, p.83).
Sofrendo mais ou menos influências, físicas ou culturais, as ilhas foram sobretudo
elementos da civilização rural portuguesa. Contudo, é necessário salientar que apesar das
semelhanças e destas relações a falta de documentação não permite verificar os movimentos
migratórios na origem do povoamento das ilhas (Vasconcelos, 2015, p.83-85).
De qualquer modo, nota-se a existência de várias habitações muito semelhantes à casa
saloia nos Arquipélagos dos Açores, Madeira e Canárias, denotando-se uma maior coerência
de representação destas casas em Santa Maria, nos Açores, onde essas tipologias surgem
mais frequentemente e em São Miguel já com alguma raridade (Vasconcelos, 2015, p.85).
Ora, o caráter individual e autónomo das habitações nos Açores, claro na dispersão de
povoamento, é confirmado pela existência em todas as casas de um forno familiar. É na
organização interna, na sua composição formal e no modo como se articula com a cozinha,
na chaminé e nos tipos de acabamentos, que as casas se distinguem de ilha para ilha e até
dentro de uma ilha, motivo pelo qual deverá ser considerado no processo de caraterização
das ilhas as relações de influência entre ilhas vizinhas e entre o continente, por meio de
emigrantes (Vasconcelos, 2015, p.85).
De acordo com Vasconcelos (2015, p.85-87) a casa popular açoriana pode ser
classificada em três grandes grupos quanto à sua organização interna e à posição que a

103
cozinha integra a casa. Em primeiro lugar a casa dissociada da cozinha, isto é, totalmente
separada ou unida por um telheiro, a casa linear em que os espaços se sucedem em linha ou
em “L”, ocupando a cozinha sempre um dos topos, a casa integrada de volume único e
saliente, geralmente simétrica na composição do espaço e da fachada e dobrada com
divisões para a frente e para trás.
Na ilha de Santa Maria as casas rurais pertencem de um modo geral ao tipo de casa
integrada e destaca-se pelos telhados de quatro águas, pelos cantos sem beiras, pela caiação
das casas e dos telhões nas arestas das coberturas e pelas faixas de cor nos cunhais e
molduras dos vãos (Vasconcelos, 2015, p.87).
Contudo, é nas casas denominadas de “mais antigas” que a semelhança com as
tradicionais casas da região saloia surge de forma clara. Compostas por um volume
principal, normalmente loja e sobrado, onde se encosta um outro, térreo, que integra a
cozinha e o forno familiar saliente, com um sistema de forno-lareira-chaminé, comum na
ilha Terceira e Graciosa. A casa torreada é deste modo a tipologia de referência que além da
semelhança visível nos volumes, destaca-se a forma quadrada e o tipo de assentamento,
isolado e afirmativo em relação à envolvente, que tanto carateriza a casa saloia e lhe
configura personalidade (Vasconcelos, 2015, p.87-89).
As casas “mais antigas” de Santa Maria, tal como as casas saloias, são compostas por
uma compartimentação modelada, aproximadamente quadrada, onde cada divisão ou
pequeno conjunto de divisões corresponde um telhado de quatro águas. Atualmente, com as
obras de conservação dessas casas, foram simplificadas as coberturas tornando-as maiores e
contínuas (Vasconcelos, 2015, p.87-89).
Por se encontrar implantada em terrenos mais acidentados, resiste com mais frequência
nas freguesias de Vila do Porto e Anjos o que pode-se designar por casa saloia-mariense,
onde a topografia menos agreste em Santa Maria e São Miguel do que nas restantes ilhas, se
assemelha mais aos terrenos áridos da região saloia. Na Vila do Porto em Santa Maria, estas
casas quando inseridas em meio urbano são dispostas em sequência ao longo das ruas
(Vasconcelos, 2015, p.89).

2.3. O período industrial e o princípio do modernismo


Com o objetivo de acompanhar a evolução industrial da Europa e recompor a
precaridade económica da região de Lisboa, a cidade alarga as suas fronteiras em 1852 e em
1880, o que conduziu a um processo da industrialização e urbanização da região, que tinha
como intenção o alargamento da área de tributação fiscal pela inclusão de novas localidades
e aumento do número de contribuintes (Vasconcelos, 2015, p.89-91).
Foi a partir da década de 50 que se estabeleceram medidas importantes de
industrialização da cidade, como as obras do porto de Lisboa e a introdução de uma
estrutura ferroviária. Contudo, só a partir da década de 60 é que o desenvolvimento tornou-
se mais significativo, uma vez que o desenvolvimento dos caminhos-de-ferro conduziram à
implantação de unidades industriais (Vasconcelos, 2015, p.91).
A industrialização desenvolveu-se com base nas trocas comerciais, estabelecendo a
cidade de Lisboa como o centro de importações e exportações. Este progresso resultou num
maior afluxo populacional para Lisboa e consequentemente um forte aumento demográfico.
A população concentrava-se no centro, nos bairros antigos e nas zonas das ribeirinhas,

104
porém com as novas redes de transportes e de eletricidade, do telégrafo e a iluminação
pública, permitiram a sua expansão para outras áreas da cidade, sendo evidente o aumento
demográfico a partir de 1864, que resultou numa densificação das áreas urbanas e provocou
um alargamento das mesmas e reorganização dos espaços (Vasconcelos, 2015, p.91-93).
A cidade teve assim de responder a este crescimento populacional em serviços e
habitação, sendo a classe baixa, operária, a que chegava à cidade em grandes quantidades,
procurando uma melhoria das suas condições de vida e trabalho, o que obrigou a cidade a
crescer em área através da inclusão das periferias nos novos limites da cidade (Vasconcelos,
2015, p.93).
Procurando responder a estes problemas que se colocavam, foi promulgada legislação
relativa a melhoramentos da capital, tal como o decreto de 31 de dezembro de 1864, que
com a falta de disponibilidade financeira do governo para tais melhoramentos, incentivou a
iniciativa privada, particular ou colectiva, razão pela qual a expansão foi influenciada pela
estrutura de classes dominantes. Esta iniciativa pertencia a uma burguesia em ascensão, com
fortes aspirações políticas e às várias companhias construtoras que começavam a surgir
(Vasconcelos, 2015, p.93-95).
As preocupações em causa estavam assentes na qualidade das construções, enquanto o
problema central, era sem dúvida a falta de habitações para a população crescente, operária,
cuja existência dependia, nos finais da década de 60, da localização das fábricas
(Vasconcelos, 2015, p.95).
Os novos bairros que se erguiam, como o de Campo de Ourique e Estefânia eram pouco
acessíveis e não respondiam à procura de habitação das classes operárias, sendo as mesmas
ocupadas por uma classe média (Vasconcelos, 2015, p.95).
Deste modo, a área oficial da cidade não correspondia à área urbanizada, uma vez que a
população de baixos rendimentos começou a urbanizar-se em zonas residenciais mais
acessíveis e afastadas do centro. Porém, o peso das deslocações para o local de trabalho
tornou-se pouco sustentável, aspecto que originou os diferentes tipos de habitações operárias
que surgem no sentido de resolver uma necessidade de alojamento no centro da cidade
(Vasconcelos, 2015, p.95).
Com o objetivo de alojar o maior número de operários ao menor custo, foram ignoradas
quaisquer regras estéticas ou morais que impedissem o proprietário de um lucro maior,
passando a arquitetura a ter uma conotação meramente utilitária, admitindo apenas em
alguns casos certos valores tradicionais, eruditos ou vernáculos (Vasconcelos, 2015, p.95).
A procura por um alojamento próximo do local de trabalho conduziu a que as
populações se acomodassem em bairros antigos, em casas abandonadas, em pequenos
logradouros, sempre mediante o pagamento de uma renda. Alguns proprietários construíram
pequenos alojamentos nas traseiras das suas casas ou em edifícios religiosos ou nobres,
adquiridos em hasta pública e alugados quarto a quarto. Com esta ocupação surge a mais
frequente habitação operária, isto é o designado pátio (Anexo – Figura 7 e 8), que após um
inquérito industrial acerca destes lugares concluiu-se que essa solução colocava em risco a
população pela propagação de bactérias e doenças, motivo pelo qual e na impossibilidade de
o Estado intervir com capital, promulga uma lei que isenta as novas construções de
pagamento do imposto predial, procurando promover a melhoria das condições da habitação
operária (Vasconcelos, 2015, p.97-99).

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Ora, o designado pátio surgiu em Lisboa na arquitetura árabe, como espaços íntimos
que reflectem a própria religião e o modo de habitar muçulmano. As fachadas das casas
eram despojadas porque a atenção encontra-se voltada para o interior onde reside a riqueza
material e espiritual. Nesse sentido, o pátio da casa medieval é nada mais do que a
continuação de um modelo já existente e produto de uma cultura mourisca, adaptada a uma
cultura cristã e medieval. Porém, o aumento da população permitiu o alojamento de uma
série de famílias em habitações construídas nestes pátios que resultou na criação de novos
pátios, onde se diminuíram as condições de habitabilidade, perdendo-se o significado mais
nobre e ideológico dos pátios árabes, em favor de uma conotação social popular
(Vasconcelos, 2015, p.99-101).
Em consequência das novas premissas e procurando responder a este problema surge
um segundo tipo de habitação que procura agrupar os trabalhadores e oferecer uma
habitação digna e salubre, designada de vila (Anexo – Figura 9). Esta era colectiva e
baseada numa repetição de módulos (Vasconcelos, 2015, p.99).
Neste quadro de procura pela melhoria das condições de habitação, associado ao
progresso industrial surgem os primeiros ideais funcionalistas modernos na arquitetura, isto
é, economia e utilidade, ideais que pressupõem uma racionalização do espaço doméstico, o
qual devia de responder de forma prática e acessível às necessidades básicas dos moradores,
sem prejuízo das condições mínimas de habitabilidade (Vasconcelos, 2015, p.111).
No século XIX, o progresso assenta assim na produção e no princípio de uma cultura de
massas. De um modo geral, a arquitetura deixa de lado as preocupações individuais e
assume um novo comportamento face às necessidades de um colectivo, inicialmente
composto pelas classes trabalhadoras (Vasconcelos, 2015, p.111).
A grande indústria ocupa-se então de construir e estabelecer em série os elementos da
casa, construindo as casas em série. As vilas operárias vieram precisamente dar forma a esta
arquitetura para massas com preocupações funcionalistas e utilitárias, sendo um tipo de
habitação que demonstra ser fruto de um pensamento moderno, adequado ao seu tempo e às
necessidades que pretendia dar resposta, com uma estrutura composta pela repetição seriada
de um modelo tipológico e por um espaço comum que regulava a implantação, formando
longos blocos de construção, ou pequenas vilas (Vasconcelos, 2015, p.111-113).
De facto, estes conjuntos assemelham-se às grandes unidades habitacionais que se
viriam a construir no auge do modernismo (Vasconcelos, 2015, p.113).

3. O Bairro dos Ilhéus


A antiga vila de Mafra surge na proximidade de um Castelo, actualmente desaparecido,
do qual resta apenas a Igreja de Santo André que remonta aos séculos XII-XIV. Esta área
habitada tanto pelos romanos como pelos árabes foi incorporada aquando da conquista de
Lisboa na Coroa Portuguesa, e mais tarde cedida à Ordem de Catalavra, sendo
posteriormente retomada pela Coroa (Vasconcelos, 2015, p.117).
Geograficamente, Mafra situa-se em terra fértil, o que justifica a ocupação dos mouros-
forros e logo dos saloios (Anexo – Figura 10). (Vasconcelos, 2015, p.117).
Paralela a esta, surge em Ericeira, local sob a jurisdição de Mafra e que possui fronteira
com o Atlântico, uma cultura piscatória. É neste contexto que se encontra o casal da

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Picanceira, numa vasta propriedade rural do século XIV, sito no lugar com o mesmo nome,
e onde mais tarde surge o Bairro dos Ilhéus (Vasconcelos, 2015, p.117).
Foi com a ascensão da burguesia no século XIX que a Quinta da Picanceira, que servia
de pólo ao pouco casario que aí se erguia, chegou às mãos de Domingos Dias Machado, um
industrial açoriano que na época ganhou alguma influência em Mafra. Procurando o lucro,
decidiu construir e ampliar a quinta fundando a Quinta dos Machados em 1850, apostando
na exploração agrícola, ligada essencialmente à vitivinicultura, reconhecida na primeira
metade do século XX, como uma das mais importantes do concelho (Vasconcelos, 2015,
p.117-119).
O desenvolvimento do lugar da Picanceira insere-se deste modo no movimento de
criação de grandes latifúndios destinados a sustentar um esquema económico em grande
escala por uma nova burguesia capitalista (Vasconcelos, 2015, p.119).
A exploração da Quinta de Santo António e a Quinta dos Machados conduziu ainda à
construção de alguns edifícios fora das suas fronteiras para apoiarem as atividades
económicas das quintas (Vasconcelos, 2015, p.119).
De acordo com Pagará (2002) foi devido à falta de mão-de-obra na região que
Domingos Machado promoveu a vinda de 23 famílias da ilha de S. Miguel, nos Açores,
lugar de onde era natural, com o intuito de trabalharem na quinta, podendo esse facto
derivar ainda da necessidade de o mesmo ter trabalhadores da sua confiança. Foi neste
contexto, com o intuito de acomodar estas famílias, que mandou edificar habitações
unifamiliares, que vieram a se designar de as Casas dos Ilhéus ou Bairro dos Ilhéus (Anexo
– Figura 11). No seu conjunto, e com uma arquitetura singular, as mesmas parecem fazer
referência tanto à arquitetura saloia como à açoriana (Pagará, 2002, p. 273 apud
Vasconcelos, 2015, p. 119).
Procurando-se uma relação com a época em análise, realça-se que o bairro surge num
período de desenvolvimento industrial. As circunstâncias que dão origem ao Bairro dos
Ilhéus são semelhantes às que estão na origem dos pátios e vilas operárias em Lisboa na
mesma época, com uma arquitetura económica, em série, capaz de resolver os problemas do
alojamento das famílias operárias e em estreita relação com o local de trabalho
(Vasconcelos, 2015, p.119-121).
Implantadas num território de declive acentuado por um pequeno vale exposto a
sudoeste, o Bairros dos Ilhéus insere-se na paisagem ressaltado do contexto do aglomerado
das velhas casas que compõem o lugar. (Vasconcelos, 2015, p.121).
O Bairro dos Ilhéus afirma-se numa extremidade do aglomerado. O conjunto mais
elevado em relação à cota do lugar situa-se a nordeste pela Rua dos Ilhéus, integrando-o na
estrutura viária a norte e estendendo-se para contornar a encosta a nascente. Insere-se, pois
numa relação superior e à margem desse centro. O volume longitudinal entre a rua a
nordeste e o vale a sudoeste deixa-se quebrar pela situação topográfica, criando vários
desníveis da fachada (Anexo – Figura 12). (Vasconcelos, 2015, p.121-123).
Erguido assim numa das concavidades desenhadas pelo relevo da encosta, o local da
implantação parece ter sido determinado por um jogo de condicionantes, ora de natureza,
ora de proximidade com a Quinta dos Machados. A proximidade com os terrenos da quinta,
local de trabalho, constitui um fator importante na localização das habitações operárias,
elementares e seriadas, que permitiam não só a acomodação das famílias, mas pouco tempo

107
de deslocação, fator ainda favorável para o proprietário que assim poderia supervisionar e
controlar melhor os seus trabalhadores (Vasconcelos, 2015, p.121-123).
As casas dos Ilhéus surgem dispostas numa corrente isolada de dois pisos e deste modo,
de duas frentes, isto é, a principal para a rua, em cima, onde só é perceptível um piso, e a
tardoz, para o vale, com dois pisos. Adjacente a esta fachada surge um espaço-patamar que
acompanha o declive em socalcos, numa espécie de “degrau”, e que serve de pequenos
quintais às habitações, não murados e com comunicação entre si por um caminho estreito
que percorre todo o comprimento. Numa quota mais elevada, a rua serve de acesso e conduz
ao lavadouro (Vasconcelos, 2015, p.123-125).
Reconhecido pela sua fachada posterior, o bairro distingue-se ainda pela sua
composição modular, económica e industrial e pela repetição dos elementos que o
identificam na paisagem, como os fornos e as chaminés (Vasconcelos, 2015, p.125).
Ainda em relação à implantação é necessário referir-se que é devido à forma como se
insere na estrutura viária e a relação que estabelece com ambas as frentes, que cria uma
espécie de barreira na encosta, contra os ventos e climas vindos do nordeste, permitindo
atribuir um ambiente mais ameno aos quintais que se encontram expostos a sudoeste.
Esta implantação revela assim um pensamento moderno, num contexto rural de uma
arquitetura de massas, que se encontra num contexto de industrialização e expansão e que se
começaram a desenvolver nos grandes centros urbanos (Vasconcelos, 2015, p.125).
O Bairro dos Ilhéus, constituído por 23 módulos dispostos em série e agregados à
ilharga, foram, tal como já referido, construídos para o alojamento dos trabalhadores da
Quinta dos Machados. A cada módulo compreende uma regra geral de 27 m2 a cada duas
cotas. Os quatro primeiros, que se situam a noroeste correspondem às habitações familiares,
ocupando um lote maior de 44 m2, motivo pelo qual destaca-se duas tipologias, uma grande
que se será designada de familiar, e outra simples, mais pequena, considerando-se na
caraterização das tipologias o piso superior, de entrada e com serventia para a rua, e o piso
inferior, com serventia para as traseiras (Anexo – Figura 13). (Vasconcelos, 2015, p.125-
127).
Por natureza, os módulos são virados para sudoeste, o que privilegia os espaços da
cozinha e do quarto. O interior dos módulos é distribuído em forma de “L” e composto por
três partes, isto é, casa-de-fora, cozinha e quarto, logo duas áreas públicas posicionadas nas
extremidades em contato com o exterior e uma privada entre elas (Vasconcelos, 2015,
p.127).
As primeiras quatro casas, de tipologias familiares, diferem das restantes pelas exceções
nos alçados e na dimensão do módulo pelo espaçamento das chaminés e dos fornos, como
também pelo número de janelas, que resultam dos dois compartimentos que lhe são
acrescentados no piso superior e da área no piso inferior. O espaço desta planta
“aquadradada” apresenta uma área bruta de 68 m2, tendo em média entre 5 a 8 m2 por cada
compartimento. A pouca compartimentação dos fogos é evidente a partir dos alçados, dada a
escassez das aberturas para o exterior que, em regra geral, têm um vão por cada
compartimento. Esta tipologia possui uma variante nas duas primeiras casas devido ao
declive do terreno, não possuindo um piso inferior. Neste caso, a cozinha é transporta para
um dos compartimentos no piso superior (Vasconcelos, 2015, p.127).

108
Relativamente à tipologia pequena, esta apresenta uma área bruta de 41 m2. É na casa-
de-fora e no quarto do piso superior, por onde é feito o acesso à cozinha e ao pequeno
arrumo no piso inferior. A planta possui uma geometria alongada, correspondente a dois
terços da tipologia familiar, e uma aparência “aquadradada” que é figurada nos
compartimentos de cerca 10 m2 (Vasconcelos, 2015, p.127).
O elemento comum à maioria dos espaços nestas unidades são as escadas “em tiro”,
perpendiculares à distribuição da tipologia, e que encostam-se ao eixo longitudinal dos
fogos, servindo de forma eficiente as várias dependências e estabilizando a estrutura visual
da casa, na medida em que permite que a casa se ajuste ao declive e assente no território
(Vasconcelos, 2015, p. 129).
Ora, o quadrado que circunscreve o módulo permite entender o pé direito reduzido e a
relação de proporção entre as duas fachadas, tornando claro a forma como as tipologias
organizam os seus espaços, e permitindo que se identifique um aspeto particularmente
interessante que carateriza a distribuição tipológica das casas, isto é, o duplo acesso, que
tem uma entrada superior pela Rua dos Ilhéus e outra inferior pela área dos quintais
(Vasconcelos, 2015, p.129).
Deste modo, a forma como a casa se estrutura internamente e se relaciona com o
exterior define a sua distribuição e distingue-a das casas saloias, onde os acessos, quer haja
um ou mais, são geralmente feitos pelo mesmo plano. A organização tipológica é assim,
reflexo de uma de uma adaptação da unidade habitacional às condicionantes naturais e
culturais, o que traduz uma maturação de um pensamento elementar regional às
necessidades do tempo em que é concebido (Vasconcelos, 2015, p.129).
Actualmente foram feitas algumas alterações que descaraterizam tanto o interior como o
exterior, dificultando o diálogo do conjunto no território e o seu caráter comunitário.
Relativamente à organização interna foram introduzidas, em parte das tipologias simples,
escadas em caracol na casa-de-fora que terminam num espaço por cima do quarto, numa
espécie de sala-sótão; nas tipologias simples é implantando uma pequena casa de banho na
casa-de-fora; o espaço da casa-de-fora é destituído do seu caráter e passa a servir de
corredor entre os espaços; o arrumo é muitas vezes substituído por uma casa de banho ou
eliminado para expandir a cozinha; os fornos familiares deixam de funcionar para passar a
incluir um pequeno lavado ou arrecadação no seu interior (Vasconcelos, 2015, p.131).
Porém, considera-se a alteração mais grave a dos logradouros que são delimitados e
murados individualmente, perdendo-se a comunicação e o caráter comunitário e público que
os distinguia (Vasconcelos, 2015, p.131).
Tal como acontece nas estruturas dos conjuntos operários, nas lógicas de habitação em
série, a malha estrutural do Bairro dos Ilhéus é definida pela lógica repetitiva dos módulos.
Assim, a estrutura é definida por um eixo central no comprimento do conjunto e uma série
de planos transversais que delimitam os módulos. Esta continuidade só é quebrada em meia
dúzia de níveis devido ao ajusto ao declive do terreno, porém, sem deixar de perder a sua
homogeneidade (Vasconcelos, 2015, p.131-133).
Nos pontos de quebra, a seção dos planos transversais aumenta permitindo um melhor
comportamento estrutural e dividindo todo o conjunto em pequenas séries de módulos,
resultando em três seções diferentes de paredes e dois tipos de estrutura, isto é, a primária,
composta pelas paredes interiores de seção maior, pelas paredes interiores de seção

109
intermediária que delimitam vários módulos e a secundária composta pelas paredes
interiores que demarcam e compartimentam os vários módulos dentro de cada série. O facto
de não ser um problema estrutural que dimensiona os módulos reforça a analogia com as
vilas operárias, na medida em que procura um maior número de fogos por área de conjunto,
em detrimento de módulos um pouco maiores mas em menor quantidade (Vasconcelos,
2015, p.133).
A cobertura é também um elemento importante na homogeneização do conjunto. O
mesmo apresenta um único telhado de quatro águas e que se deixa quebrar nos vários
desníveis que o conjunto apresenta, o que resulta na decomposição formal do todo em
pequenos agrupamentos de módulos com cobertura de águas, à exceção dos topos com três
águas para fechar o conjunto. A estrutura do telhado em madeira parece assim ser referente
a cada série de módulos, em vez de única para cada um, contribuindo para reforçar a ideia
de conjunto, de comunidade. Esta cobertura em telha canudo é o próprio tecto no interior,
cuja estrutura assenta directamente nas paredes (Anexo – Figura 14). (Vasconcelos, 2015,
p.133).
No que diz respeito aos materiais, estes são de fraca qualidade, reforçando o caráter
económico da construção. As paredes são de argamassa barata, de pedra irregular assente na
argamassa, rebocada e posteriormente caiada tanto no exterior como no interior. No interior,
a compartimentação é feita por intermédio de uma espécie de tabiques, compostos por uma
estrutura de pedras de argamassa, o que estabelece relações com os modelos açorianos. A
altura destes tabiques, no piso superior é de 40 cm acima das vergas das portas, para
compartimentar apenas os espaços. (Vasconcelos, 2015, p.133-135).
O pavimento é assente em pedra ou terra, no piso inferior, subpiso enquanto no superior
é composto por um tabuado de madeira, construído sobre uma estrutura de barrotes que
assentam directamente nas paredes e desenham o teto do piso inferior. As escadas em
madeira constituem uma estrutura independente e permite alargar o espaço da cozinha
através do seu vão (Anexo – Figuras 15, 16 e 17) (Vasconcelos, 2015, p.135).
Em relação às fachadas do Bairro dos Ilhéus, pode-se dizer que são o elemento de
comunicação com o exterior e o resultado da composição lógica do conjunto. A fachada
tardoz, com uma cércea de 4,57 m a sudoeste revela as habitações de dois pisos adaptada ao
terreno com declive, o que lhe confere uma feição particular. A homogeneização da cal que
cobre todo o conjunto, a repetição dos volumes dos fornos familiares salientes no piso
inferior e as chaminés que individualizam a fachada posterior, concedem-lhe também um
ritmo próprio (Vasconcelos, 2015, p.135-137).
A posição das tipologias familiares torna-se evidente devido ao espaçamento entre os
vãos, chaminés e fornos que se encontram aproximados ao longo desta série de casas e que
se deixam alargar em quatro janelas a partir do noroeste. Os vãos da janela do piso superior
e da porta no piso inferior contribuem para a estabilidade cromática do conjunto
(Vasconcelos, 2015, p.137).
O contraste entre a brancura do cal e a sombra de baixo relevo nestes elementos, bem
como o branco das chaminés e o tom escurecido do telhado, permitem assegurar a coerência
do alçado e do ritmo equilibrado. É neste sentido que a fachada posterior assume uma maior
riqueza na sua composição, ao estar voltada para um contexto mais rural, dos campos
agrícolas e contígua aos pequenos quintais de cada módulo, caraterizando a vertente mais

110
social desta série de casas, pela maior exposição solar e diversidade de elementos. Porém, o
alçado principal é sem dúvida mais humilde na sua escala e composição. O seu desenho
horizontal é composto pela repetição contínua dos vãos de porta e janela das tipologias
familiares a noroeste, tornando possível observar-se pequenos alçados contínuos pelo
declive, escondendo o piso inferior, que só se descobre nas traseiras (Vasconcelos, 2015,
p.137).
A simplicidade desta fachada carateriza um espaço mais guardado, apropriado para as
crianças brincarem e para os bailaricos ao jeito do ripo de vida mediterrâneo, de apropriação
da rua (Vasconcelos, 2015, p.139).
Em síntese, pode-se dizer que a reduzida informação da longa fachada permite uma
fácil leitura do conjunto. Por um lado, há uma fachada muito rica, de elementos variados e
de dois pisos, e por outro lado, uma mais pobre, simples e térrea. Para Vasconcelos (2015)
esta dualidade parece relacionar-se com o caráter e dimensão dos espaços contíguos, em que
na principal temos a rua, o acesso à vizinha e nas traseiras o sentido privado do conjunto,
mais rural, diverso e agreste (Anexo – Figuras 18, 19 e 20). (Vasconcelos, 2015, p.139).
Conforme já referido, foram efetuadas alterações nas tipologias. Estas alterações têm
também um reflexo imediato nas fachadas, pela abertura de pequenos vãos de janelas ao
lado das portas de entrada, por razões de ventilação. Deste modo, as alterações mais
significativas foram as da fachada principal, na medida em que alteraram a leitura e o
caráter da fachada, perdendo a opacidade do alçado e o enche de mais informação
(Vasconcelos, 2015, p.139).
Procurando entender como a forma como os espaços do Bairro dos Ilhéus se relacionam
e estruturam, há algumas “leituras” a ter em conta. Por um lado, deve-se considerar a
distinção da habitação em dois espaços em que a primeira corresponde a uma divisão
horizontal, por cotas, isto é, a casa-de-fora e quarto, cozinha e arrumo, logo uma zona
superior, mais formal e comercial associada a um contexto viário, mais urbano, limpo e
reservado, e uma zona inferior, mais rural, mas mais social e comunitária no espaço que
integra e que se associa com o exterior. A segunda corresponde a uma divisão cruzada, mais
útil nos espaço que considera, ou seja, casa-de-fora e quarto, cozinha e quarto. Uma casa
térrea de dois compartimentos e uma de dois pisos do tipo loja e sobrado. Deste modo,
pode-se estabelecer uma analogia com as casas medievais, ora rurais, de um só piso, ora
urbanas de loja e sobrado com escadas de tiro. Outra analogia prende-se com a
compartimentação das lojas rurais, com tipologias que se inserem no âmbito das construções
rurais que unem trabalho e habitação, tal como o Bairro dos Ilhéus na medida em que tinha
como finalidade servir de habitação aos trabalhadores agrícolas (Vasconcelos, 2015, p.145-
147).
Os espaços interiores desempenham assim um papel na estruturação da habitação, entre
as quais se pode destacar a casa-de-fora e a cozinha, ambas de caráter público e em contato
com o exterior. A casa-de-fora é mais contida e sob a Rua dos Ilhéus e a cozinha, mais
social e associada às traseiras, a um espaço comunitário. No entanto, ambas apresentam um
espaço de transição, tanto para o exterior como para o interior, sendo duas divisões
próximas e ao mesmo tempo opostas (Vasconcelos, 2015, p.147).
O quarto funciona como um elemento comum e agregador da casa, como um espaço
neutro e regulador da casa, uma vez que estabelece uma relação próxima como a cozinha

111
com a casa-de-fora, permitindo que ambos os extremos da casa se relacionem. Deste modo,
as Casas dos Ilhéus funcionam como um espaço próprio de acolhimento, mediando o nível
superior da rua e inferior do campo, permitindo ao conjunto intervalar os conceitos de
trabalho, habitação e lazer como uma espécie de antecâmara (Vasconcelos, 2015, p.147-
151).
Ora, de um modo geral, o Bairro dos Ilhéus revela uma proporção quadrada dos espaços
e dos elementos que o compõem, caraterística esta, própria do saloio que o envolve. Inserido
no período industrial, na segunda metade do século XIX, época em que também surge em
Lisboa as primeiras vilas operárias, a analogia entre as casas dos Ilhéus e um tipo de
arquitetura vernácula, saloia ou açoriana, pode parecer relativa, contudo, a relação destas
com o tema de habitação operária, em particular na região de Lisboa, pode já parecer
evidente, pelos conceitos associados e o tipo de solução (Vasconcelos, 2015, p.157-159).
As casas dos ilhéus e as vilas operárias assumem princípios e ideologias semelhantes,
fruto da proximidade geográfica Mafra-Lisboa e de um pensamento moderno que se
encontra em conformidade com época, resultando num tipo de habitação idêntica na oferta,
na finalidade, nos modos de habitar e na população-alvo (Vasconcelos, 2015, p.159-161).
Considerando esta relação destaca-se o tipo de solução comum que distingue as Casas
dos Ilhéus e as insere no âmbito da habitação operária, como o facto de serem multifamiliar,
programática, seriada, económica e espacial na comunicação com o edificado envolvente
(Vasconcelos, 2015, p.161).
A opção por um sistema habitacional colectivo, de casas em série, multifamiliar, lógica
oposta à rural, isolada e unifamiliar, é um princípio que nasceu fruto do problema urbano da
falta de espaço e adotado no período industrial devido à sua eficiência na resolução deste
problema, permitindo concentrar na mesma área e a baixo custo grande parte dos
trabalhadores de uma unidade fabril. No caso das casas dos Ilhéus, embora não houvesse
falta de espaço, esta opção adequou-se ao seu propósito permitindo a integração dos
trabalhadores vindos dos Açores, o cooperativismo e o controlo da entidade promotora
(Vasconcelos, 2015, p.161).
O programa exclusivo à habitação, considerado como uma das especificidades das vilas
operárias, surge da mesma necessidade de aproveitamento do espaço urbano. Esta
caraterística, para Vasconcelos (2015, p.161-163) parece ter uma origem profundamente
rural e elementar, principalmente na região de Lisboa, onde o piso térreo é aproveitado para
a habitação. Neste sentido, não só o bairro em análise adota a mesma ideologia das vilas
operárias, como as próprias vilas estabelecem relações com o meio rural, podendo-se
constituir assim uma observação válida que contribui para a relação entre a habitação rural e
operária.
A seriação da habitação foi uma grande revelação das vilas operárias. Este fator
repetitivo, assente na estrutura modular, padrão, permite reduzir os custos da construção e
define a composição caraterística das habitações operárias. Este tipo de solução descende de
pequenas construções de um só piso, com dois fogos, que terão existido em bairros mais
antigos. No meio rural, a opção pela tipologia padrão de caráter funcional é recorrente,
aspeto que traduz um tipo de solução vernácula e não erudita. É de fato esta solução padrão
que permite distinguir a casa saloia de uma casa algarvia ou gandaresa (Vasconcelos, 2015,
p.163).

112
No caso dos Ilhéus, esta opção de casas em série torna-a única na sua relação com o
meio rural em que se insere. A sua composição, ora em planta, ora em alçado, permite
evidenciar a relação com o mesmo tipo de solução e pensamento industrial que carateriza as
vilas operárias. Em ambos, é possível observar um tipo de estrutura comum que regula todo
o conjunto, mais densa na periferia e mais fina e secundária na compartimentação interior e
de acordo com os diferentes módulos ou tipologias (Vasconcelos, 2015, p.163-165).
A necessidade de resolver a crise de alojamento operário conduziu a arquitetura a um
racionalismo estrito nas opções que toma e nas soluções e tipo de arquitetura que propõe,
motivo pelo qual, neste contexto e de forma a reduzir os custos, há ainda um despojamento
pelo ornamento, considerado como uma despesa sem retorno (Vasconcelos, 2015, p.165).
De acordo com Vasconcelos (2015, p.165-167), a forma como as vilas operárias e o
Bairro dos Ilhéus se inserem e relacionam com a envolvente parece ser o reflexo da mesma
linha de pensamento e de solução habitacional, na medida em que a primeira se insere à
margem dos arruamentos e em estreita proximidade com o local de trabalho. A implantação
e configuração assume um caráter segregacionista, ora no interior dos quarteirões formando
uma espécie de rua ou pátio alongado para o qual se voltam as habitações. Por sua vez, o
Bairro dos Ilhéus, ainda que inserido num contexto próprio como o meio rural, a rua que
serve de acesso ao bairro funciona por natureza, como espaço de recreio dos moradores,
assemelhando-se ao pátio ou rua formados pela generalidade das vilas operárias.
Pode-se assim verificar a semelhança entre a arquitetura do bairro em análise e a
arquitetura das vilas operárias. Para comprovar basta observar-se a semelhança entre alguns
exemplos de pátios e vilas operárias e o Bairro dos Ilhéus, como por exemplo, o Pátio Novo,
a Vila Elvira e a Vila Cardoso, no que diz respeito à sua configuração, composição e
tipologia (Vasconcelos, 2015, p.167).
Ora, implantados também numa situação de declive, tal como o Bairro dos Ilhéus, estes
exemplos apresentam a mesma tendência ao nível das coberturas, telhadas de duas águas,
reforçando o sentido alongado destes conjuntos, podendo-se notar que a circunstância da
implantação tem resultados formais semelhantes. A organização interna dos fogos pode
também ser classificada em duas tipologias base, surgindo algumas variações. A casa
profunda, semelhante à casa medieval, é organizada numa lógica de compartimentação
sucessiva em profundidade, por vezes com um pequeno corredor que une as três divisões,
uma delas interior (Vila Elvira). Já a casa regular é circunscrita numa espécie de quadrado
de quatro divisões e compartimentação em cruz, sendo ligeiramente maior que a anterior e
embora tenha apenas uma frente corresponde à tipologia mais comum deste tipo de
habitação operária (Pátio Novo). (Vasconcelos, 2015, p.167-169).
O desenho das tipologias dos Ilhéus apesar de possuir um caráter mais rural, saloio ou
açórico apresenta semelhanças com o Pátio Novo em termos de organização interior da
tipologia ou de tipologia pequena profunda dos Ilhéus com o tipo de casa da Vila Elvira.
Em suma, o Bairro dos Ilhéus parece encontrar a sua verdadeira identidade num tipo de
arquitetura popular, em estreita relação com a região em que se insere (Vasconcelos, 2015,
p.169-175).

113
4. A casa saloia versus casa açoriana
Considerando a relação entre saloio e açoriano é possível notar-se algumas semelhanças
materiais e estéticas que caraterizam ambas as tipologias, aproximando-as num contexto de
arquitetura mediterrânea, como é o exemplo da utilização da pedra local como material de
construção, em detrimento das madeiras, um sistema de cobertura de pouca inclinação e em
telha canudo, que denota a influência continental de ocupação mourisca no povoamento das
ilhas, a aplicação de cantarias no guarnecimento dos vãos e a utilização de nichos escavados
nas paredes no interior das habitações, e por fim o fabrico e utilização do cal no reboco das
construções, que nos Açores verifica-se apenas nas ilhas de São Miguel e Santa Maria
(Vasconcelos, 2015, p.177).
Do ponto de vista formal e cultural, o modo de habitar e a estrutura do agregado
revelam grandes relações de semelhança entre a casa saloia e a açoriana. Dessas
semelhanças pode-se enunciar a existência de um forno familiar integrado no volume das
habitações, saliente e de acordo com o sistema forno-lareira-chaminé; o volume, as áreas,
pequenas, o dimensionamento dos espaços domésticos com uma variação entre as quatro e
as cinco varas e a quadrangulariedade da sua composição; e pelo tipo de habitação
elementar e independente da sua relação com a envolvente (Vasconcelos, 2015, p.177).
Ainda que com algumas diferenças no que respeita à dimensão do lar e do seu interior,
a existência de um forno, do emprego do sistema forno-lareira-chaminé e a integração desse
elemento no programa habitação, em detrimento da lareira e do forno comunitário, reforça o
caráter autónomo do agregado, apresentando assim uma semelhança cultural na
consideração do espaço doméstico e na forma de habitar (Vasconcelos, 2015, p.177).
No que diz respeito à tendência quadrangular dos espaços que carateriza a arquitetura
doméstica saloia, pode-se dizer que a casa açoriana, apesar de distanciar-se na estruturação e
na modulação geométrica do seu espaço interior, acaba por aproximar-se desta tendência na
composição genérica da tipologia (Vasconcelos, 2015, p.177-179).
A casa açoriana, situada num contexto histórico semelhante à saloia, entre migrações e
ocupações de vários pontos do continente, resulta num mesmo tipo de arquitetura elementar,
autónoma e de síntese, onde integra pequenos detalhes mais eruditos, de ordem estética
como as cantarias que emolduram os vãos (Vasconcelos, 2015, p.179).
Face ao exposto é necessário ter-se em conta que as circunstâncias que estão na base de
ambos os casos dão origem a uma arquitetura doméstica comum, na sua forma, composição
e entendimento do espaço, na medida em que partem de um mesmo tipo de influências e
ocupações. Porém, existem divergências. Torna-se assim relevante, entender-se que o
processo de aculturação promovido pelas ocupações do território e o desenvolvimento dos
costumes e necessidades dos habitantes conduziram a uma arquitetura doméstica regional,
vernácula, que se distingue em vários aspectos da tipologia saloia, apesar de a expressão
saloia ter surgido nas ilhas açorianas como resultado de uma série de influências
continentais, uma vez que essa expressão foi subordinada a uma cultura local, aos seus
hábitos, modos de vida, recursos e necessidades, resultando numa arquitetura própria
(Vasconcelos, 2015, p.179).
Como exemplos dessas divergências pode-se referir a variação do número de águas da
cobertura, do tipo de escadas e do desenho da chaminé. O telhado da casa popular de Santa
Maria e São Miguel, que originalmente eram de quatro águas, alterou-se para duas águas,

114
criando assim pequenas empenas às quais se anexam muitas vezes, outras casas, o que
facilita a lógica urbana e as casas em série. A diferença em relação às escadas em “L” da
casa açoriana e das escadas de tiro da casa saloia podem ser explicadas num contexto
histórico, uma vez que só a partir da época moderna é que passou a ser comum as escadas
em “L” na habitação corrente, período que coincide com as ocupações das primeiras ilhas
dos Açores (Vasconcelos, 2015, p.179-181).
No que diz respeito à chaminé, o seu desenho varia não só entre as tipologias como
também dentro de cada uma. A chaminé da casa saloia é formada habitualmente por dois
volumes, um primeiro paralelepipédico e um segundo semicircular e semicilíndrico
horizontal. Na casa açoriana esta varia entre o modelo à moda antiga e o de vapor, mais alta
e esguia, formada por dois volumes sobrepostos, um tronco de pirâmide e um tubo cilíndrico
com ventilações laterais na seção superior (Anexo – Figura 21, 22 e 23). (Vasconcelos,
2015, p.181).
A estruturação da casa açoriana numa composição de módulos difere também da casa
saloia. Enquanto na tipologia da casa saloia cada módulo corresponde em área a um único
espaço como cozinha, casa-de-fora ou quarto, na casa açoriana estes são habitualmente
compartimentados ou interrompidos através da introdução de paredes de tabiques, gerando
outras pequenas divisões (Vasconcelos, 2015, p. 181-183).
Numa perspetiva tipológica, pode-se dizer que a casa saloia é mais térrea, torreada ou
sobradada, enquanto a casa açoriana pode ser mais linear, antiga, abarracada, ou de cozinha
dissociada. Apresar do referido, os dois modelos partilham algumas ideologias comuns
(Vasconcelos, 2015, p.185).

5. Relação entre o Bairro dos Ilhéus, a casa saloia e a casa açoriana


Procurando-se estabelecer uma relação entre o Bairro dos Ilhéus e casa saloia, além do
seu contexto geográfico, é relevante referir, além do que já foi exposto ao longo deste
trabalho, que as mesmas assemelham-se na distribuição, estruturação, organização e
proporção da casa, bem como, na proporcionalidade do desenho das fachadas, no número de
vãos por área e na sua forma, nos acessos e nas relações interior/exterior e no tipo de escada
utilizado (Vasconcelos, 2015, p.187).
A lógica distributiva da casa, a sequência e a posição dos espaços em “L” é um aspeto
do bairro em análise que parece aludir à tipologia torreada da casa saloia, na distribuição e
volumetria dos espaços que compreende, bem como, nas transições que estabelece
(Vasconcelos, 2015, p.187).
Em ambos os casos, o quarto situa-se num extremo da casa, acessível apenas pela área
social e ocupando a posição de destaque. Os alçados do bairro parece também ser um
reflexo da lógica de proporção que existe na composição das casas saloias, com acento na
quadrangularidade dos vãos (Vasconcelos, 2015, p.187-191).
Observando-se por exemplo, duas casas saloias, uma torreada em Lourel e uma
sobradada em Arneiro dos Marinheiros, nota-se as relações entre a geometria dos seus
alçados e o alçado dos Ilhéus (Anexo – Figura 24 e 25). Ao considerar-se os limites das
casas como eixos de vãos, destes dois exemplos, verifica-se a aproximação ao tipo e
proporção de alçado do Bairro dos Ilhéus, em que no caso da tipologia sobradada é notável a

115
semelhança dos eixos que marcam os vãos e deste modo, a sua composição (Vasconcelos,
2015, p.191).
Relativamente ao número de vãos por área, que não é abundante neste tipo de
habitações, o Bairro dos Ilhéus aproxima-se do modelo saloio na medida em que é bastante
poupado, apresentando, em regra geral, um vão de janela por compartimento. Como
resultado, o tipo de relações interior/exterior apresenta analogias entre as duas casas devido
à existência de uma casa-de-fora num dos dois acessos à casa, com um espaço cego, de
receção e em comunicação com a rua, tal como na casa saloia. O acesso feito pelos dois
espaços sociais da casa (pela casa-de-fora ou pela cozinha) relaciona-se com as duas portas
na fachada da casa saloia (Vasconcelos, 2015, p.191).
As escadas “em tiro” assemelham-se com a da casa saloia em tipologia, forma,
dimensão e no próprio vão da escada, sendo apropriado devido ao espaço onde se inserem.
Porém, é através das divergências entre o bairro e a casa saloia, que se encaixam as
semelhanças com o modelo açoriano. Estas semelhanças encontram-se, fundamentalmente,
na cobertura de duas águas e nos sistemas de agregação por empena (Anexo – Figura 26 e
27); no tipo de declive a que a casa está sujeita e por consequência no modo de implantação;
no caráter dobrado das tipologias dos Ilhéus e em parte no desenho da fachada a nordeste
(Vasconcelos, 2015, p.197).
É, deste modo, possível fazer-se uma analogia entre o Bairros dos Ilhéus e os pequenos
aglomerados açorianos, como por exemplo, uma série de casas situadas na Feteira Pequena,
em São Miguel, com relação ao número de águas de cobertura e sistema de agregação.
Contudo, esta analogia pode tornar-se ambígua pelo facto de que aparentemente, o modelo
original açoriano poderia ser de quatro águas, facto este que não é possível verificar-se. Não
obstante, o caso das hospedarias do Santuário de Nossa Senhora do Cabo, que, tal como os
modelos açorianos era composto por uma sequência de coberturas de quatro águas,
caraterística comum nas casas saloias, passou também para uma estrutura única de duas
águas, notando-se uma tendência para a uniformização das coberturas tanto nos modelos
açorianos como nos saloios (Vasconcelos, 2015, p.197-199).
O sistema de agregação por empena, comum na tipologia linear da casa açoriana em
contexto urbano, encontra-se em grande evidência no acabamento entre os vários desníveis
que compõem o Bairro dos Ilhéus. Contudo, para além da semelhança exterior ao nível do
conjunto entre ambas, é relevante destacar-se também as relações próximas com um tipo de
casa saloia térrea, podendo-se encontrar proporções constantes nos três casos e numa lógica
linear idêntica, apesar de tipologicamente o Bairro dos Ilhéus não se organizar da mesma
forma (Vasconcelos, 2015, p.199-201).
A relação mais evidenciada, encontrada em matéria de empenas entre ambos os
modelos referem-se às casas abarracadas, comuns em São Miguel, num contexto mais rural
e isolado, como na zona da Bretanha e Sete Cidades. Nestes casos, os modelos aproximam-
se pela profundidade dos espaços interiores, com exceção do lar de acesso ao forno
(Vasconcelos, 2015, p.201).
Considerando que é frequente, na generalidade das tipologias açorianas, em especial da
Ilha de São Miguel, a implantação em situações de declive, tanto num meio rural como
urbano, a casa açoriana ganha expressão no contexto de semelhança com o Bairro dos
Ilhéus, pelo uso frequente de pequenos degraus de acesso que permitem estabelecer cotas

116
comuns entre as várias casas e vencer o declive, como é o exemplo de duas casas na Vila do
Porto; a aparência escadeada que revela o sistema de agregação por empena; a implantação
a duas cotas de algumas tipologias maiores de forma a vencer o declive, como acontece com
uma casa com alpendre em Água Retorta, São Miguel (Vasconcelos, 2015, p.203-205).
Relativamente ao interior, e não obstante ao facto de a estruturação linear da casa saloia
e a organização em “L” do seu modelo torreado estabelecer relações com o Bairro dos
Ilhéus, a planta dobrada com compartimentos para trás e para frente, comum em algumas
tipologias açorianas, relaciona-se também com o bairro em análise. Porém, estes modelos
dobrados são normalmente o resultado de modernização das casas existentes (Vasconcelos,
2015).
Em relação ao desenho das fachadas, nota-se uma relação entre o alçado nordeste das
quatro tipologias familiares do bairro e a generalidade das casas açorianas, que são
caraterizadas por um alçado do tipo janela-porta ou janela-porta-janela. Contudo, esta é
outra semelhança que, assentando numa exceção do bairro, não se revela uma amostra
suficiente para estabelecer uma analogia (Vasconcelos, 2015, p.207).
De acordo com Vasconcelos (2015, p.207), é através dos aspectos de ordem construtiva
tipológica que se observa as relações, quer de semelhança como de divergência entre as
casas dos Ilhéus e os modelos açorianos e saloios. Desse modo, o Bairro dos Ilhéus assume
uma posição racional e económica quando se considera a época da sua construção e a sua
relação com o tema de habitação operária, o que resulta na inexistência de nichos no interior
do espaço doméstico, ou de cantarias no guarnecimento dos vãos, elementos estes
transversais na arquitetura popular saloia e açoriana.
É ainda na dimensão do lar que as casas do bairro afastam-se do modelo açoriano,
habitualmente mais profundo, aproximando-se da casa saloia, normalmente menos
profunda. Assim sendo, a relação entre a casa açoriana de Santa Maria e São Miguel e o
bairro dos Ilhéus refere-se, acima de tudo, ao tipo de assentamento que carateriza de modo
mais transversal a sua arquitetura popular, afastando-a dos continentais (Vasconcelos, 2015,
p.207-209).
Em síntese, ao considerar-se a constituição das tipologias do bairro, que revela uma
proporção quadrada dos seus espaços e elementos em medidas muito aproximadas às da
casa saloia; a ordem na edificação dos espaços com destaque sobre o forno, a cozinha e o
quarto, revelando uma tipologia em loja-sobrado; a proporcionalidade no desenho dos
alçados com referencias à geometria quadrangular; a aproximação entre a seção das casas do
bairro e a casa saloia e não tanto com a açoriana, bem como os acessos e a sucessão dos
espaços na distribuição da tipologia e a quantidade e o desenho de vãos em ambas as
tipologias, apura-se a existência de uma base saloia na arquitetura do Bairro dos Ilhéus, tal
como também o é na arquitetura popular dos Açores, pelo que se pode considerar a casa
saloia como o tipo-base em ambos os casos (Vasconcelos, 2015, p.209).
Por fim, é ainda importante referir que o território em que se insere o Bairro dos Ilhéus
revela uma abordagem de um tipo de arquitetura popular, de bases locais ao ter-se em conta
o território como zona e área de influência, isto é, a região saloia onde se insere e à possível
mão-de-obra local que terá estado na construção do conjunto. Por outro lado, o território
como matéria física, isto é, o declive em que se insere esta série de casas, adversa à
implantação das casas saloias, estabelece semelhanças com as ilhas de São Miguel e Santa

117
Maria, criando assim condições para obter um resultado aparentemente idêntico uma vez
que a arquitetura popular das ilhas insere-se também no âmbito da arquitetura saloia
(Vasconcelos, 2015, p.209-211).
Deste modo, o Bairro dos Ilhéus, tal como a casa saloia ou a açoriana são fruto de um
processo de aculturação, representando uma síntese de dois tipos de arquitetura vernácula de
princípios semelhantes, ou seja, saloios. A relação com a habitação operária permite
concluir que o bairro constitui uma representação seriada da casa saloia na região de Lisboa
(Vasconcelos, 2015, p.211).

6. Loteamento e casas das Sete Cidades de Eduardo Souto Moura e Adriano Pimenta
Sete Cidades é uma freguesia portuguesa do concelho de Ponta Delgada, ilha de São
Miguel, arquipélago dos Açores, com 19.22 km² de área e 793 habitantes de acordo com os
censos efectuados em 2011 (Censos, 2011, p.151). Esta apresenta características e paisagens
únicas, sendo uma freguesia com uma altitude de 260 metros no interior da caldeira do
vulcão das Sete Cidades, na margem oriental da lagoa com o mesmo nome. Os habitantes
desta freguesia vivem essencialmente da agricultura e da produção de gado.
No que diz respeito a obras arquitectónicas de caráter importante nesta freguesia,
realça-se a Igreja de São Nicolau, em estilo neogótico e inaugurada em 1852, bem como a
casa dos herdeiros de Caetano de Andrade, e o túnel de descarga da lagoa, inaugurada em
1937.
De vivências genuínas e com uma beleza natural impressionante, esta freguesia tem
sido alvo de interesse por alguns arquitetos, alguns até de renome, devido à sua delicadeza.

Neste paraíso natural, Souto Moura foi convidado a projetar uma construção de 27
casas em regime de custos controlados (Anexo – Figuras 28, 29 e 30), com o objetivo de
garantir uma otimização da relação custo/qualidade das habitações, sendo este o objetivo
essencial do projecto, evidenciando-se neste tipo de construção uma estreita relação com as
circunstâncias que deram lugar ao Bairro dos Ilhéus, bem como aos pátios e vilas operárias.
A racionalidade das soluções dos espaços das casas nas Sete Cidades tenta garantir a
satisfação do exercício das atividades da vida familiar, desenvolvendo-se em dois pisos com
o aproveitamento da falsa e com um forno exterior (Anexo – Figuras 31, 32, 33 e 34),
elementos caraterísticos das tipologias do nordeste micaelense (Delaqua, 2015).
O forno é, sem dúvida, uma imagem marcante das casas típicas da Região Autónoma
dos Açores, sendo um elemento arquitetónico presente na vivência das suas gentes. O forno
é assim utilizado não só para cozinhar, mas também para aquecer, como desumidificador,
como o local de convívio entre a família.
Nota-se que Souto Moura ao construir este bairro teve precisamente a preocupação de
integrar as vivências típicas dos Açores. Sendo um projeto de áreas mínimas, por ser de
custos controlados, as casas apresentam-se ainda desagregadas umas das outras e com
logradouros sem delimitações aparentes, podendo-se notar aqui uma relação com o Bairro
dos Ilhéus, antes da já referida alteração que foi efectuada nos logradouros.
Salienta-se que apesar das casas das Sete Cidades apresentarem traços contemporâneos,
as mesmas não desrespeitam a forma das moradias típicas daquela zona.

118
Ora, o terreno das casas das apresenta uma área total de 13.202 m² e situa-se numa zona
de transição da Vila das Sete Cidades, confinando a poente com um arruamento existente,
com uma frente consolidada de habitações de R/C mais 1, a norte com uma habitação e uma
série de lotes de ocupação agrícola, a nascente com um lote agrícola e a Sul com um lote
arborizado e sem construções (Delaqua, 2015).
O arquiteto escolheu o betão como principal material construtivo, mas não deixa de ter
a delicadeza de utilizar tábuas de criptoméria para a sua cofragem, madeira esta, típica
daquela região, e que permite que a cofragem permaneça com o negativo dos veios da
madeira, fazendo com que as casas se interliguem com o local e utilizando assim material
local para a construção.
Evidencia-se ainda o cuidado na escolha das cores das casas. A casa típica das Sete
Cidades é pintada de cor branca e as portas de uma cor avermelhada. No bairro das Sete
Cidades, o arquiteto não utilizou a cor branca no exterior mas sim no interior deixando os
veios da madeira visíveis, utilizando somente nas portas a típica cor vermelha (Anexo –
Figuras 28 e 29).

7. Considerações finais
Foi possível observar-se através deste estudo desenvolvido, que o Bairro dos Ilhéus,
inserido num contexto de arquitetura popular regional, relaciona-se com a casa saloia e a
casa açoriana.
Erguido ainda numa época de consequente necessidade de mão-de-obra, caraterizada
por um pensamento moderno industrial, estabelece relações com as formas de habitação
operária no tipo de arquitetura que propõe, em particular com as vilas.
É neste contexto histórico próprio em que surge o bairro em análise que o mesmo
estabelece ainda uma relação entre o sentido de tradição e modernidade, de onde resulta a
singularidade da sua arquitetura, pelo equilíbrio que aparenta apresentar entre os valores
tradicionais e um pensamento moderno, sóbrio, expondo uma arquitetura rica e coeva.
Revela pois a sua base tradicional pelas relações que estabelece com a arquitetura
popular local, saloia. É neste período caraterizado pelo êxodo rural, pela invasão da
modernidade e do urbanismo que o bairro demonstra ser um produto assente na tradição
cultural saloia. É igualmente um produto do tempo em que surge, no tipo de soluções e
necessidades que procura atender, motivo pelo qual os princípios industriais que o
concebem tonam-no testemunha de um tipo de arquitetura operária e industrial. São
precisamente estas soluções que caraterizam as vilas operárias de Lisboa e que são
reconhecidas no Bairro dos Ilhéus que o destacam no meio em que se insere, por revelar um
pensamento moderno, capaz de responder a necessidades coevas (Vasconcelos, 2015, p.221-
224).
Deste modo, pode-se dizer que o Bairro dos Ilhéus é uma obra de modernidade, criada
de acordo com objetivos e soluções modernas, expondo-se como resultado da colaboração
entre a participação da cultura vertical da tradição e de uma cultura horizontal da
modernidade, num ponto em que a tradição acolhe naturalmente os aspectos da
modernidade (Vasconcelos, 2015, p.223).
Por fim, realça-se que o contato de natureza constante, a transmissão de certos
elementos de uma cultura de uma sociedade para a outra, aceite em certos aspectos e

119
rejeitada noutros, conduz a que se verifiquem semelhanças arquitetónicas, quer no Bairro
dos Ilhéus, como na casa saloia e açoriana, aspectos estes, que ao procurar-se não
desrespeitar a envolvente, a forma típica das moradias da zona, cria, ainda que de modo
singular, uma estreita relação com as edificações contemporâneas, como é o caso do bairro
edificado nas Sete Cidades, que representa, de certa forma, os desenhos de uma casa saloia
portuguesa, com uma configuração contemporânea.

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em: < http://hdl.handle.net/10400.5/8930>

120
Anexo

Figura 1 – Caaba, Santuário de Meca. Know.net Enciclopédia Temática. Caaba. [Conslt. 14 de nov. 2016]
Disponível em: http://knoow.net/religioes/islamismo/caaba/

Figura 2 – Capela do sítio da Nazaré. Nazaré e São Martinho do Porto. [Conslt. 14 de nov. 2016] Disponível
em: < http://viajarso.blogspot.pt/2011/04/nazare-e-s-martinho-do-porto.html>

121
Figura 3 – Capela da Senhora do Cabo, Cabo Espichel. Artigos de apoio.[Conslt. 14 de nov. 2016] Disponível
em: < https://www.infopedia.pt/$santuario-de-n.-sra.-do-cabo-espichel,4>

Figura 4 – Casa Saloia em Assafora, Sintra. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do
Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

122
Figura 5 – Forno adossado ao volume de uma casa térrea no Pragal, Almada. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia
na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 6 – A casa-de-fora de uma casa saloia na aldeia de Broas, Sintra. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na
Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

123
Figura 7 – Pátio do Carrasco, Alfama, Lisboa. Ruas de Lisboa com alguma história. Largo do Limoeiro. [Conslt. 15 de
nov. 2016] Disponível em: http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.pt/2014/11/largo-do-limoeiro-ii.html

Figura 8 – Pátio do Gil em 1904, Lisboa. Na última hora do ano do 2º Centenário. [Conslt. 15 de nov. 2016] Disponível
em: http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.pt/2014/11/largo-do-limoeiro-ii.html

124
Figura 9 – Vila Flamiano, Lisboa. Ruas de Lisboa com alguma história. Vila Flamiano III. [Conslt. 15 de nov. 2016]
Disponível em: < http://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.pt/2015/09/vila-flamiano-iii.html>

Figura 10 – Mapa da região de Lisboa com o lugar da Picanceira sobre a região saloia. Vasconcelos, 2015. Seriação da
casa saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível
em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

125
Figura 11 – Bairro dos Ilhéus à direita, Picanceira. Picanceira. [Conslt. 15 de nov. 2016] Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Picanceira#/media/File:Pincanceira_-_Vista_geral.jpg

Figura 12 – Situação topográfica, desníveis. Elaborada pelos autores, 2016.

126
Figura 13 – Logradouros nas traseiras com acesso pela cozinha. Elaborada pelos autores, 2016.

Figura 14 – Cobertura em telha de canudo. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do
Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

127
Figura 15 – Estrutura da cobertura.Vasconcelos, 2015.
Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do
Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov.
2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 16 – Detalhe da estrutura da cobertura.Vasconcelos,


2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso
do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de
nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

128
Figura 17 – Estrutura do pavimento do sobrado e do teto no piso inferior. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia
na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 18 – A porta, de postigo, que dá acesso a cada casa. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de
Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

129
Figura 19 – A casa-de-fora. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos
Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 20 – O quarto. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus
na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

130
Figura 21 – Dois tipos de chaminés comuns nas ilhas de S.Miguel e Santa Maria. À direita a chaminé “mais antiga” e
à esquerda a chaminé de vapor. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro
dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 22 – Dois tipos de chaminés comuns nas casas saloias. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região
de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

131
Figura 23 – Chaminé do Bairro dos Ilhéus, distinta da casa açoriana. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na
Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em:
http://hdl.handle.net/10400.5/8930

132
Figura 24 – Alçado e Planta de casa sobradada, Arneiro dos Marinheiros. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa
saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível
em: <http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 25 – Casa torreada em Lourel. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do
Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

133
Figura 26 – Sistema de agregação por empena, na Feteira Pequena, S.Miguel. Vasconcelos, 2015. Seriação da casa
saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov. 2016] Disponível
em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

Figura 27 – Detalhe do sistema de agregação por empena, na Feteira Pequena, S.Miguel. Vasconcelos, 2015.
Seriação da casa saloia na Região de Lisboa. O caso do Bairro dos Ilhéus na Picanceira, Mafra. Conslt. 03 de nov.
2016] Disponível em: http://hdl.handle.net/10400.5/8930

134
Figura 28 – Loteamento e casas das Sete Cidades, S.Miguel. Elaborada pelos autores.

Figura 29 – Loteamento e casas das Sete Cidades, S. Miguel. Elaborada pelos autores.

135
Figura 30 – Loteamento e casas das Sete Cidades, S. Miguel. Elaborada pelos autores.

Figura 31 – Detalhe do forno das casas das Sete Cidades, S. Miguel. Elaborada pelos autores.

136
Figura 32 – Esquiço do forno. Alves, 2015. Loteamento e casas das Sete Cidades/ Eduardo Souto Moura + Adriano
Pimenta. Archdaily.[Conslt. 08 de dez. 2016] Disponível em: < http://www.archdaily.com.br/br/765406/loteamento-
e-casas-das-sete-cidades-eduardo-souto-de-moura-plus-adriano-pimenta/552c85c8e58ece2cfd000183>

Figura 33 – Desenho técnico. Loteamento e casas das Sete Cidades/ Eduardo Souto Moura + Adriano Pimenta.
Archdaily.[Conslt. 08 de dez. 2016] Disponível em: http://www.archdaily.com.br/br/765406/loteamento-e-casas-das-
sete-cidades-eduardo-souto-de-moura-plus-adriano-pimenta/552c8936e58ece2cfd00018a

137
Figura 34 – Forno, vista interior. Loteamento e casas das Sete Cidades/ Eduardo Souto Moura + Adriano Pimenta.
Archdaily.[Conslt. 08 de dez. 2016] Disponível em: <http://www.archdaily.com.br/br/765406/loteamento-e-casas-
das-sete-cidades-eduardo-souto-de-moura-plus-adriano-pimenta/552c810be58ece2cfd000176

Curta-metragem
“ORIGEM”
Link:
www.youtube.com/watch?v=NTMfS7vj4BA
Duração:
3:04 min
Produção:
Magmáticos.

[email protected]
[email protected]
[email protected]
Imagem:
Magmáticos
Imagens aéreas:
Dronabove
Som:
“Open sea morning – Puddle of infinity”

Memoria-descritiva:
A nossa curta, tinha como objetivo relacionar vários pontos fundamentais relacionados
com o nosso trabalho “O Bairro dos Ilhéus, Picanceira”.
Visto que as casas do bairro dos ilhéus, tem grandes semelhanças com as casas
micaelenses devido a historia da sua origem. Achamos interessante retratar uma recente
obra dos Arquitectos Souto Moura e Adriano Pimenta, onde reinterpretavam os

138
desenhos de uma casa saloia portuguesa, só que numa linguagem contemporânea.
Áreas, forno de lenha e as formas dos vãos, não foram esquecidos. Acaba por manter
uma relação interessante também, por o projeto ter como lugar os Açores, local que
estabelece uma relação com as casas do Bairro dos Ilhéus .
A nossa curta estabelece uma relação entre a forte envolvente açoriana e a obra
arquitetónica. Utilizamos filmagens aéreas e filmagens estáticas de forma a enfatizar as
sombras, cores e texturas.

139
Arquitetura Portuguesa de Autor: Aproximações à Arquitetura Popular
Teresa Madeira da Silva,
ISCTE-IUL / DINÂMIA’CET-IUL
[email protected]

Resumo
O objetivo deste artigo é identificar os traços da arquitetura popular (a partir do
Inquérito), na arquitetura erudita (de autor), na segunda metade do século XX a partir da
análise de três obras de arquitetos portugueses projetadas e construídas nas décadas de
1950 e 1990 e da leitura do Inquérito à Arquitetura Regional Portuguesa (1955-1960). No
seguimento do repto lançado por Leal (2011) acerca do diálogo entre o erudito e o
popular partindo da arquitetura erudita, este texto apresenta três habitações unifamiliares
onde é possível reconhecer raízes da arquitetura popular numa atitude que associa os
princípios da arquitetura moderna e a tradição da arquitetura rural. Este artigo organiza-se
em quatro partes: o corpo do texto que faz uma leitura dos casos de estudos e do
Inquérito, antecedido de uma Introdução de modo a enquadrar o tema a tratar, seguido de
uma Conclusão e de uma Bibliografia. O primeiro caso de estudo corresponde aquilo a
que alguns autores designam por “segunda geração no Movimento Moderno” (Tostões,
1997: 40) e é uma obra realizada entre os anos 50 e 60 do século XX, fortemente marcada
por um processo de reflexão e crítica a certas premissas do Movimento Moderno.
Referimo-nos à Casa Metelo construída, no Banzão, em Sintra (1957/1959), e projetada
pelos arquitetos Nuno Teotónio Pereira (1922) e Nuno Portas (1934). A Casa em
Moledo, Caminha (1991/1997), do arquiteto Eduardo Souto de Moura (1952), e a Casa
Saraiva de Lima II em Alcácer-do-Sal (1998/2001) projetada pelo arquiteto João Pedro
Falcão de Campos (1961) são os dois outros exemplos escolhidos. Em todos eles
encontramos traços comuns e reconhecíveis dos princípios da arquitetura popular
apresentados no Inquérito.

Palavras-chave: Arquitetura Popular, Arquitetura Moderna, Fernando Távora, Nuno


Teotónio Pereira, Souto de Moura.

140
Introdução
Este artigo parte do pressuposto aceite por vários investigadores que o Inquérito1,
foi se tornando “uma obra de referência para os arquitectos portugueses, sendo-lhe
atribuído um papel importante no desenvolvimento da arquitectura portuguesa da
segunda metade do século XX.” (Teixeira, p.156, 2013). O nosso objectivo é fazer uma
análise da arquitetura de autor da segunda metade do século XX a partir de três
habitações unifamiliares em confronto com os fundamentos da arquitetura popular
apresentados no Inquérito. Neste sentido, interessa-nos refletir sobre os aspetos
relacionados com “formas e expressões” (Inquérito, p. 93, 1988), ou seja, na linguagem
de Keil do Amaral e da sua equipa, através de “uma análise sob o aspeto plástico” da
arquitetura (Inquérito, p.93, 1988). A metodologia utilizada assenta assim na leitura dos
casos de estudo escolhidos e do Inquérito através da recolha bibliográfica e iconográfica
à luz de diferentes tópicos tais como: a forma de implantação dos edifícios e a sua relação
com o terreno onde se implantam e com a orientação solar, a relação dos volumes, dos
espaços e das superfícies, os efeitos de luz e sombra, a relação e a disposição entre os
cheios e vazios, os materiais e os sistemas construtivos, etc. Não iremos, portanto, fazer
uma leitura, nem do ponto de vista histórico, nem do ponto de vista conceptual (são
muitos os contributos quer nacionais quer internacionais sobre a arquitetura popular a
partir destas duas vertentes), vamos sim, fazer uma leitura entre os casos de estudos
escolhidos – habitações unifamiliares construídas nas década de 1950 e 1990 e as
soluções do ponto de vista funcional, construtivo e formal apresentadas no Inquérito.
A primeira obra que iremos apresentar marca um período de viragem no campo
disciplinar da arquitetura em Portugal. É aceite que a partir da década de 1950 podemos
encontrar um número significativo de propostas resultantes da aproximação aos valores
da arquitetura vernacular, popular como forma de afirmação de uma entidade cultural
(Fernandes (1996), Tostões (1997), Leal (2000; 2009, 2011), Teixeira (2013), Farias
(2013), entre outros). É aceite igualmente que neste período, se assistem a certas
mudanças de linguagem e de formas de construir através da perceção das virtudes e
qualidades da arquitetura popular que resultaram numa nova sensibilidade em relação ao
modo de leitura do lugar, do território, dos sistemas construtivos, e da utilização de
materiais de construção. “Embora o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal tivesse
exclusivamente objectivos de estudo da arquitectura popular e não pretendesse portanto
definir – à semelhança da Casa Portuguesa – um programa estilístico, teve um impacto
considerável na produção arquitectónica portuguesa da época, facilitando a abertura para
novas formas de diálogo entre arquitectura moderna e arquitectura vernácula, (...).” (Leal,
p. 8, 2009). A Casa Metelo de Nuno Teotónio Pereira2 e Nuno Portas, a Casa em Moledo

1 “Entre 1955 e 1960 o então Sindicato Nacional dos Arquitectos levou a cabo uma pesquisa denominada
Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa. Tratava-se de um levantamento sistemático da construção
popular portuguesa, já então prestes a desaparecer, realizado de norte a sul do país. Dividido por regiões
geográficas coube a diferentes equipas de arquitectos o estudo de uma área delimitada num total de seis
zonas (Minho, Trás-os-Montes, Beiras, Estremadura, Alentejo e Algarve). A profunda mutação do território
português e da sua construção que se vem sentindo desde então torna o material recolhido um espólio de
valor incalculável e único. Deste Inquérito resultou a 1ª Edição do livro Arquitectura Popular em Portugal
publicada em 1961, reeditada em 1980, 1988 e 2004.” In: Ordem dos Arquitetos (s.d.). Neste artigo
designaremos por “Inquérito” a obra “Arquitectura Popular em Portugal”.
2 Nuno Teotónio Pereira foi um dos arquitetos que participou no Inquérito fazendo parte da equipa da zona
IV (Extremadura, Ribatejo e beira Litoral), juntamente com António Pinto de Freitas e Francisco Silva
Dias.

141
de Souto de Moura e a Casa Saraiva de Lima II de João Pedro Falcão de Campos são,
entre muitas outras que poderíamos incluir neste estudo3, proposta que poderão ir ao
encontro da leitura que pretendemos fazer a partir do pressuposto inicial.

Casa Metelo na Praia das Maças4


A Casa Metelo, também conhecida como Casa na Praia das Maçãs (Portas e
Pereira, 1963) foi projectada pelo arquitetos Nuno Teotónio Pereira (1922) e Nuno Portas
(1934), entre 1958 e 1959. A casa, situa-se no Alto da Salada, no Banzão perto de Sintra
no meio de um pinhal e implanta-se numa zona de duna com um desnível acentuado. “A
construção, no interior do pinhal, estende-se adoçada à duna que atravessa
longitudinalmente o terreno virado para a estrada tendo apenas uma discreta presença.”
(Portas e Pereira, p.13, 1963). Pela maneira como se implanta no terreno, o edifício tem
uma forma escalonada a partir de dois pisos – o piso onde se situa a entrada principal
assenta na parte superior do terreno e o piso da zona de estar, na parte mais baixa do
terreno, remetendo a forma de implantação para a relação com a topografia do terreno. A
casa é formada por três volumes organizados de forma a criar uma zona exterior de
recepção e de estar. A inflexão que se verifica na volumetria da casa, assim como o
desenho da escada interior, têm igualmente a ver com a topografia do terreno,
acompanhando, deste modo, o desenho das curvas de nível: “a escada, reproduzindo
interiormente o movimento natural do terreno, liga os dois espaços parcialmente
sobrepostos e ambos à entrada intermédia e ao corredor dos quartos, de novo sobre
elevado” (Portas e Pereira, p.14, 1963), (Figs. 1 e 2).

Figura 1 – Casa Metelo, Planta; Fonte: PORTAS, N., PEREIRA, N. Teotónio (1963). Habitação na Praia
das Maçãs (1957-59), Sítio do Alto da Salada (projecto), Arquitectura, 79, pp. 11-14.
Figura 2 – Casa Metelo - Vista Geral. Fotografia: Inês Flores, 2006.

3 Por exemplo, a casa Dr. Ribeiro da Silva em Ofir (1956) de Fernando Távora, já analisada à luz da
arquitetura popular por Hugo Farias (Farias, pp.537-552, 2001), a Casa Alves Costa (1971-1973),
projectada por Siza Vieira e construída em Moledo do Minho. A Igreja de Águas (1949-1957), de Nuno
Teotónio Pereira e Frederico George; ou a Pousada de Santa Bárbara (1955-1958), de Manuel Tainha.
4 A Casa Metelo ou Casa na Praia das Maçãs foi pela primeira vez publicada na revista Arquitectura em
1963 (Portas e Pereira, 1963).

142
No projeto original da casa5, no primeiro corpo, situam-se o acesso principal da
casa a partir da zona superior do terreno e a escada de acesso a uma zona mais baixa onde
se situam a sala e a zona de refeições com uma zona de duplo pé direito; no segundo
corpo e no piso mais baixo, situam-se uma outra entrada a cozinha, os arrumos e uma
área para o pessoal, no piso de cima ficam os quartos (quatro) e as instalações sanitárias;
no terceiro corpo situam-se dois quartos e uma instalação sanitária em cada um dos pisos
e uma escada de ligação entre os dois pisos.
“O gozar do sítio dividia-se naturalmente em dois níveis: o alto da duna e o
terreno baixo suavemente inclinado. Por isso, a zona de estar dividir-se-ia também pelos
dois níveis dos seus prolongamentos exterior a vida intensa de uma família numerosa e
acolhedora de numerosos amigos.” (Portas e Pereira, p.13, 1963). O acesso à propriedade
faz-se por uma passagem aberta num muro tosco de pedra que divide a propriedade da
estrada em terra batida. Os acessos no interior da propriedade são dois caminhos de terra
batida, revestidos de lajetas de pedra e desenhados pelos moradores da casa durante e
após a construção (Portas e Pereira, 1963). Estes caminhos, de configuração linear, dão
acesso às passagens para o interior da casa e foram pensados em função do terreno, da
existências de enormes pinheiros e dos acessos da casa para o exterior. À casa acede-se
por três portas principais, duas na parte de trás da casa e outra no topo poente. A relação
da zona superior da casa com a parte mais baixa é organizada através de escadas e muros
de pedra que resolvem o desnível acentuado onde a casa se implanta. A partir das zonas
de estar do piso mais baixo é possível aceder ao interior da casa também através de
envidraçados (janelas de sacada) que servem as zonas de estar. A chaminé da lareira
revestida a pedra tem uma forte presença do exterior, dada a sua dimensão.
As paredes exteriores são, até ao nível do primeiro andar, de pedra local aparada.
As do piso superior são rebocadas e caiadas com alguns elementos de betão pintados de
cores diferentes. As portas e os caixilhos das janelas exteriores são em madeira maciça,
envernizadas incluindo as portadas constituídas por réguas fixas de madeira de pinho
também envernizada. As coberturas são inclinadas de duas águas, com alguma
complexidade resultantes dos 3 volumes que se interceptam, e revestidas a telha
portuguesa à cor natural. A vegetação, maioritariamente pinheiros, constitui igualmente
um elemento do revestimento da casa, dada a forma como se relaciona com esta. (Figs. 3
e 4).

5 Atualmente a casa encontra-se dividida em duas habitações independentes e é usada por duas famílias.

143
Figura 3 - Casa Metelo. Vista sobre a casa. Fotografia: Teresa Madeira da Silva, 2007.
Figura 4 - Casa Metelo. Vista sobre a fachada nordeste. Fotografia: Teresa Madeira da Silva, 2007.

Do que nos é dado observar, o modo como a casa se implanta no terreno, remete-
nos para situações que encontramos na arquitetura popular. Tal como nos exemplos
apresentados no Inquérito, verificamos que o conjunto foi pensado como que “adaptando
os edifícios e os pequenos espaços livres adjacentes e murados ao parcelamento dos
terrenos e à sua configuração e acidentes naturais; e deixando livres as ruas e os
caminhos por onde todos têm que passar…” (AAVV. 2º vol., p.18, 1988). Assim, a casa
adoça-se à duna adaptando-se ao perfil do terreno criando muros e escadas de acesso em
pedra e onde a pedra se mistura com a vegetação rasteira. No topo do corpo da sala
encontramos uma escada em pedra exterior de pedra que dá para um terraço que serve de
zona de estar exterior semelhante à que encontramos na arquitetura popular - “as escadas
exteriores de pedra; as varandas alpendradas…” (AAVV, 1º vol., p.27, 1988). Como na
arquitetura popular, as relações que a casa estabelece com a envolvente prendem-se com
as vistas, com a orientação solar, com os acessos e com a vegetação. As aberturas estão
deste modo localizadas em pontos estratégicos, quer em relação a pontos de vista sobre a
vegetação envolvente, quer em relação aos acessos. A fachada onde as aberturas são
maiores é a fachada orientada a sul onde se situa a zona de estar exterior “esplanada”.
Ao observar este excerto retirado do Inquérito verificamos que o mesmo se aplica
à casa na Praia das Maçãs: “solidamente erguida em alvenaria de pedra, os seus volumes
cúbicos, rematados pelo telhado mourisco de telhas cuidadosamente argamassadas, nas
povoações ou implantados nos campos, entre muros de pedra solta, são elementos
humanizantes de uma paisagem equilibrada, que a proximidade da cidade ainda não
destruiu.” (AAVV, 2º vol., p.219, 1988). Também a forma como a pedra é aplicada
reforça a ideia de uma intencionalidade semelhante à apontada no Inquérito: “e as
cantareiras praticadas nas paredes sem rigidez geométrica são, por vezes, peças de grande
interesse decorativo.” (AAVV, 2º vol., p.99, 1988). (Figs. 5 e 6).

144
Figura 5 – Casa Metelo - Vista sobre a fachada sudeste. Fotografia: Inês Flores, 2006.
Figura 6 – Olela. St.ª Senhorinha de Basto. Habitação. Fonte: AAVV., 1º Vol., p. 87, 1988.

A forma como os volumes da casa se articulam remete-nos, mais uma vez para o
Inquérito à semelhança das casas que se vão ampliando ao longo do tempo: “a ampliação
da habitação faz-se organicamente pela adição de novas dependências no piso térreo.”
(AAVV, 2º vol., p.219, 1988). A articulação do terraço e do volume da sala de estar faz-
se à semelhança do Inquérito: “A articulação interior, quer se desenvolva num ou dois
pavimentos, faz [se] sempre em volta da sala de entrada chamada ‘de fora’. No núcleo
primitivo da solução térrea, a cozinha e o quarto dão imediatamente para esta
dependência; na solução em dois pisos, uma escada conduz da sala para o quarto que se
localiza no sobrado. (AAVV, 2º vol., p.219, 1988). (Figs. 7 e 8).

Figura 7 – Casa Metelo – Estudo. Grafite e lápis sobre esquiço; n/dat.; n/ass. Fonte: Tostões, p.179, 2004.
Figura 8 – Anta. Planta do 2º piso da casa da lavoura. Fonte: AAVV., 1º Vol., p.49, 1988.

A adaptação aos materiais e às formas de construir locais, quer pelo embasamento


em pedra no piso inferior, quer pelo uso de telha à portuguesa em telhados com panos
pouco inclinados dão-nos a sensação de que o edifício se agarra ao terreno à semelhança
de algumas construções apresentadas no Inquérito. Os processos construtivos e materiais
aproximam-se da arquitetura popular: os muros de pedra com uma certa largura
semelhantes à forma de construir tradicional, o uso da madeira nas caixilharias exteriores
e nas portas interiores, a forma como são resolvidas e revestidas as coberturas inclinadas
de telha cerâmica de cor natural e a forma como a casa se encosta ao terreno, revelam a
aproximação à arquitetura popular expressa no Inquérito.

145
Casa em Moledo
A casa em Moledo (1991- 1997) de Eduardo Souto de Moura (1952), situa-se em
Moledo do Minho, perto de Caminha e desenvolve-se num só piso, a partir de uma planta
retangular com duas fachadas envidraçadas (as de maior dimensão) e duas fachadas cegas
(as de menor dimensão). A casa, de um só piso, está semi-enterrada e desenvolve-se entre
a ruína existente e um muro de pedra6 formando um sucalco; a fachada principal (virada
a oeste), está voltada para a vista do vale e do mar enquanto a fachada de traz (voltada a
leste), tira partido de um muro rochoso de granito, pré-existente que se situa no fundo da
casa. Do exterior a única indicação de que o terreno foi alterado é a existência de uma
parede de vidro entre a ruína e a parede do socalco, e a cobertura formada por uma laje
assente sobre as empenas e o terreno como uma plataforma colocada à cota do terreno
superior, de onde emergem as chaminés cuidadosamente desenhadas. (Figs.9 e 10).

Figura 9 - Casa em Moledo. Planta. Fonte: https://en.wikiarquitectura.com


Figura 10 - Casa em Moledo. Vista sobre a casa e sobre o vale. Fotografia: Luis Ferreira Alves. Fonte:
https://divisare.com/projects/

A cobertura vista de baixo dilui-se no terreno dada a sua reduzida espessura. A


preocupação com a paisagem envolvente é-nos revelada, por um lado, através das vistas
que se tem da sala e do corredor de acesso aos quartos e, por outro, pela forma como a
casa se encaixa nos muros de pedra que a escondem e a articulam com o terreno
envolvente. Apesar de ser uma construção nova na paisagem, a partir da reconstrução de
um conjunto de elementos, podemos ter a leitura de que a casa surge da topografia do
terreno. Este mantem o seu carácter uma vez que o terreno mantém as características
topográficas pré-existentes nomeadamente os muros de pedra em socalcos entre a
vegetação pré-existente. A planta organiza-se a partir de um rectângulo onde, de forma
linear, estão distribuídos, a cozinha (adjacente a um pátio), a sala, os três quartos, as
6 Segundo Ströher, “Além da descoberta dessa ‘pedra única’ e das consequências que ela trouxe para o
projeto de Moledo, existe ainda um outro aspecto da construção que me parece importante ressaltar, citado
no texto publicado pela revista Projeto (1999, p. 88/93): ‘Aterros, plataformas e muros de arrimo foram
reconstruídos [...] para que a casa pudesse ser implantada, uma vez que o muro original era muito baixo.’ A
recriação desse ‘muro original muito baixo,’ inserindo-o numa sequência de terraços e paredes de pedra,
traz consigo algumas características de interpretação que são fundamentais à leitura do projeto.
Inicialmente, a tão decantada associação com a ruína e, mais do que isso, com a própria natureza.” (Ströher,
pp. 104-115, 2005).

146
instalações sanitárias e os arrumos. Junto à parede envidraçada voltada para a rocha,
existe um corredor de distribuição que percorre a casa e permite o acesso a todos estes
espaços. As paredes laterias cegas são de betão e constituídas de blocos de granito de
forma irregular e as paredes longitudinais são fachadas de vidro, a principal com
elementos de madeira à vista e a tardoz com caixilhos em aço inox. A sala é limitada
pelos dois envidraçados (com vista para o vale e para o mar e com vista para a parede de
pedra) e lateralmente, de um lado, por um armário desenhado em madeira, e de outro por
um muro de pedra da região colocada de forma irregular que incorpora a lareira. (Figs.11
e 12).

Figura 11 - Casa em Moledo. Vista sobre o corredor. Fonte: https://divisare.com.


Figura 12 - Casa em Moledo. Vista sobre a lareira. Fonte: http://ofhouses.tumblr.com.

Nenhum destes dois elementos – o armário e a parede da lareira (ambos de


direcção perpendicular aos socalcos) toca no envidraçado frontal. Da leitura que fazemos
da casa podemos reconhecer algumas semelhanças com o esquema apresentado no
Inquérito, no modo simples de organização dos espaços: “As habitações apresentam
geralmente um esquema muito simples, circunscrito a uma forma rectangular, e
desenvolvendo-se num único piso, (…). Interiormente, a casa reserva nos exemplos mais
elementares, a zona que se abre à rua ou à praia para sala de fora, e a cozinha com ligação
com a varanda ou com os quartos que se abrem para o lado oposto.” (AAVV. 2º vol.,
p.214, 1988). (Figs.13 e 14).

Figura 13 – Casa em Moledo. Planta. Fonte: https://pt.pinterest.com.


Figura 14 – Habitação. Planta; Fonte: AAVV, 3º vol., p.62, 1988.

147
A simplicidade do desenho em planta e o emprego da pedra nos seus projetos é
um dos aspectos que aproxima esta casa à arquitetura popular. “…as habitações
construídas de tijolo, tufo ou adobe, desenvolvem-se sempre num único piso, segundo um
esquema muito simples - divisões em sucessão e comunicando entre si –, implicando a
característica planta dentro de um rectângulo alongado” (Inquérito - 2º vol., p. 219,
1988). À semelhança do que vem referido no Inquérito, “o largo emprego da pedra –
granito ou xisto – (…); as casa de planta rectangular, embora sem grande regularidade…”
(Inquérito - 1º vol., p.27, 1988), são aspectos que aproximam a casa da estética da
arquitetura popular. (Figs.15 e 16).

Figura 15 - Casa em Moledo – Vista dos socalcos. Fonte: https://spar487design2.wordpress.com


Figura 16 - Linhares. Fonte: AAVV., 2º vol, p.63, 1988.

“Do construtor rural recebemos o legado do seu engenho e da economia das suas
soluções, admiráveis pela sinceridade formal, a coerência entre a construção e o ambiente
que o rodeia, a natural compreensão dos valores espaciais e a sua tradução em situações
variadas e de elevado sentido estético, em suma, a mensagem de uma verdadeira
superação, natural e harmónica, das necessidades materiais” (Inquérito - 2º vol., p.221,
1988). Apesar da utilização de tecnologia actual (como a aplicação de isolamentos
térmicos nas paredes, o uso de aço inox em caixilharias, etc.) permitindo níveis de
conforto especiais, podemos dizer que através da forma com a casa se relaciona com a
paisagem (como um abrigo encrustado na rocha e em contacto com a natureza) nos
remete para a arquitetura popular. Instalada numa zona alta do tereno, de planta
rectangular e distribuição ortogonal, encaixada entre muros de pedra e sendo a parte mais
visível de intervenção o arranjo de um conjunto de socalcos, esta casa obedece à matriz
popular no que toca à relevância dada às características do terreno e ao contexto onde se
situa a obra. A simplicidade formal e a materialidade reforçam a leitura que fazemos de
aproximação à arquitetura popular.

Casa Dr. Saraiva de Lima


A casa Dr. Saraiva de Lima (1998-2001), situada em Santa Catarina, nas
proximidades de Alcácer do Sal projectada por João Pedro Falcão de Campos (1961),
está implantada numa zona sobre-elevada do terreno, entre enormes pinheiros e bastantes
sobreiros. A organização do conjunto, de forma quadrangular, é marcado por caminhos,
muros e por uma zona de pátio que separa a zona da casa da zona da piscina situada um

148
pouco distante da casa de modo a aproveitar a vista a sul e ao mesmo tempo criando um
pátio central. “Percursos pavimentados circundam a casa e acedem à piscina, que se
afasta e procura a vista a sul. Entre ambas uma zona relvada.” (Neves, p.97, 2002). “A
casa nasce de um quadrilátero, formando uma cobertura plana” (Neves, p.94, 2002) e
desenvolve-se horizontalmente em dois pisos num terreno com um certo desnível que
permitiu a construção de um semi-piso autónomo. Comporta no piso superior, uma sala
comum, três quartos, cozinha, instalações sanitárias, zonas técnicas e arrumos. No piso de
baixo, decorrente do aproveitamento do desnível a sul, existe uma sala de jogos, um
quarto e uma casa de banho de apoio. Junto da entrada existe uma zona coberta formando
um alpendre que protege a casa a sul. A toda a volta da casa a cobertura perlonga-se
alguns centímetros para fora da linha da parede constituindo um elemento de protecção
das fachadas em relação ao sol e da chuva. (Figs.17 e 18).

Figura 17 – Casa Saraiva de Lima. Planta do 2º piso. Fonte: Neves, p. 98, 2002.
Figura 18 – Casa Saraiva de Lima. Vista frontal. Fonte: Neves, p.99, 2002.

Os materiais utilizados são: “estrutura de betão armado; tijolo; reboco; azulejo e


cal nas paredes; pedra e tijoleira nos pavimentos; madeira pintada nos vãos. (Neves, p.97,
2002). Os vão são ritmados e marcados na vertical. O seu alinhamento permite que se
verifique uma transparência entre um lado e o outro da casa, através de enfiamentos
visuais e mais uma vez o exterior é trazido para o interior. Neste caso, dado o clima da
região, a casa não é demasiado aberta para o exterior. Como em muitas construções
populares também este conjunto remete para um tipo de organização referenciado no
Inquérito: “de uma forma geral em toda a extensão da zona, as habitações são de
composição simples e de um só piso; a chaminé nem sempre é utilizada, os estábulos, os
galinheiros, as pocilgas, os fornos, etc. acompanham a habitação ou ‘monte’ e ficam-lhe
adoçados, ou por vezes, agrupados e dela distintos” (AAVV, 3º vol., p.191, 1988). A
ortogonalidade, a horizontalidade dos volumes e a forma como a casa assenta no terreno
remete-nos para a relato apresentado no Inquérito: “a simplicidade de volumes e das
composições salta à vista, bem como o geometrismo elementar das articulações das
massas construtivas e dos elementos que as definem, completam ou valorizam. Robustos,
sólidos e sem desvaneios, os edifícios assentam pesadamente na terra. (…). De
proporções modestas, dominantes horizontais, disciplinada e sem arrogância (…) … os
volumes, a modulação, as proporções, a horizontalidade, permanecem sem grandes
alterações ” (AAVV, 2º vol., p.116, 1988). (Figs.19 e 20).

149
Figura 19 – Casa Saraiva de Lima. Alçado frontal. Fonte: Neves, p.99, 2002.
Figura 20 – Alcaria Ruiva. Fonte: AAVV, 3º vol., p.118, 1988.

Também a relação entre os vãos exteriores e os panos de paredes associados ao


clima da região remetem-nos para a composição de cariz popular: “outro aspecto a
acentuar é o hermetismo das edificações. Do absoluto predomínio das paredes sobre os
vãos…. Imposições de ordem técnica, climatérica e económica encontram-se na base
dessas soluções fechadas, maciças, que um nível primevo de existência e de concepção
fizeram perdurar.” (AAVV, 2º vol., p.118, 1988). A mesma associação pode fazer-se em
relação ao jogo de luz e sombra resultante dos cheios e vazios: “…o contraponto de
grande superfície branca com o negro incisivo das pequenas aberturas, o gosto pelo jogo
dos volumes simbólicos sob a luz, a penetrante síntese estética, a apurada sobriedade que
conduz a uma superação plástica eivada da mais genuína monumentalidade.” (AAVV. 2º
vol, p.225, 1988). Numa outra ocasião, “cremos bem, de resto, que de um modo geral
(embora mais acentuado no interior do País) as características apontadas são típicas da
arquitetura portuguesa. A sobriedade, a horizontalidade e o hermetismo caracterizam,
com efeito, as edificações típicas de regiões mais vastas do que as da Zona em estudo.”
(AAVV, 2º vol., p.118, 1988). A zona de alpendre da casa remete para o descritivo da
zona 4 do Inquérito quando refere que “os Invernos temperados, com dias soalheiros, e os
Estios quentes, influenciam o carácter dos espaços exterior contíguo à habitação que, pela
criação dum alpendre ou de uma varanda alpendrada, constitui zona de transição
climática entre o ambiente tórrido e o interior fresco. Geralmente orientados para sul, os
alpendres oferecem no inverno excelentes logradouros, bem isolados e abrigados do
vento nordeste. Por estar de certo modo ligado à recepção, o alpendre adquire muitas
vezes grande valor plástico, quer pela cuidadosa composição dos seus elementos, quer
pela escolha criteriosa dos materiais empregados.” (AAVV. - 2º vol., p.163, 1988). (Figs.
21 e 22).

Figura 21 – Casa Saraiva de Lima. Alpendre. Fonte: Neves, p.95, 2002.


Figura 22 – Beja, Monte da Diabrória. Alpendre. Fonte: AAVV, 3º vol., p.109, 1988.

150
Tanto a horizontalidade que nos é dada pela volumetria, como a disposição dos
vãos, como a forma de organização do conjunto, lembram-nos muitas das construções de
cariz popular existentes no país. Os valores regionais da arquitectura popular são
reinterpretados e aplicados à arquitectura desta casa, de forma simples, austera e
económica. Podemos dizer que, a casa se expressa, por um lado, através de volumes
neutros que actuam na paisagem isoladamente como arquétipos quase transportáveis7, no
entanto, ela assume elementos formais que encontramos claramente na arquitectura
popular da região.

Conclusão
Numa primeira leitura das obras em estudo, é possível entender que existe um
conjunto de características comuns na forma como os edifícios se implantam, na relação
que estabelecem com a envolvente e no modo como são interpretadas as particularidades
do local. Se observarmos os exemplos seleccionados, verificamos que os pressupostos
que estão na base das relações que se estabelecem com a topografia do terreno, as
construções envolventes, os ventos dominantes, o movimento do sol, os acesso e os
percursos, a luz, as vistas, etc., constituem valores expressivos e reconhecíveis na forma
como são construídos as obras em referência e as apresentadas e citadas a partir do
Inquérito. Dos exemplos escolhidos observa-se, numa primeira leitura, a contextualização
dos modelos no sítio - a dissolução do objecto na paisagem. O lugar é o ponto de partida
para a forma. Aqui trata-se de obras que, embora autónomas, reinterpretam a condição do
lugar. As qualidades do espaço interior assim como as formas, as cores, as texturas, as
entradas de luz natural, advêm das pré-existências ambientais e naturais. As construções
adaptam-se à topografia do terreno ou através de pisos semi-enterrados (Casa Metelo,
Casa Saraiva de Lima, Casa em Moledo) ou através da articulação de vários corpos
distintos (Casa Metelo), e neste sentido há uma valorização do lugar pré-existente e uma
aproximação às raízes da arquitectura popular portuguesa. Em todos os casos estamos
perante uma arquitetura de formas sóbrias, com uma geometria elementar rectilínea,
acentuando a horizontalidade, podemos verificar uma tendência à simplificação formal,
onde os elementos decorativos e simbólicos são praticamente inexistentes, verifica-se em
quase todos os casos uma tendência para a abstração, para a simplificação das formas e
para a maneira como as mesmas se articulam. Usando os tópicos utilizados por Montaner,
reconhecemos que “a forma do lote, a topografia, as vistas (…), a orientação, as árvores
pré-existentes e o programa doméstico” (Montaner, p.18, 2001) acabam por configurar
cada uma destas obras. Os exemplos escolhidos são exemplos paradigmáticos que vão ao
encontro dos nossos pressupostos. O uso dos materiais da zona (cal ou reboco pintado a
branco, tijoleira, pedra da região, madeira, azulejo, etc.) é recorrente. Fachadas muito
abertas para espaços de estar ou de contemplar, fachadas muito fechadas para outras
envolventes são situações que encontramos nestas três obras e na arquitetura popular.
Apesar de reconhecermos que este artigo é um ponto de partida de uma investigação que
se pretende mais aprofundada, podemos concluir, desta primeira leitura, que, em todas as

7Ver Josep Maria Montaner - caracterização da arquitetura de final do Século XX in. Montaner, Josep
Maria – A Modernidade Superada, Barcelona: G.G. 2001, p. 38.

151
obras se verifica uma tendência inicial para absorver as influências internacionais mas,
incorporando-as e trabalhando-as de uma forma crítica, de acordo com as especificidades
da cultura portuguesa, quer nas suas formas e linguagens quer, sobretudo, nos seus
valores plásticos.

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153
A Arquitetura Popular dos Povoados do Alentejo. Uma abordagem metodológica e
operativa.
José Baganha,
International Network for Traditional Building, Architecture & Urbanism
[email protected]

Resumo
Esta comunicação surge no seguimento do ensaio subordinado ao tema “Arquitetura Popular
nos Povoados do Alentejo”, levado a cabo no âmbito de um doutoramento concluído em
2012, no Departamento de Arquitetura da Universidade do País Basco.
Neste ensaio, aprofundaram-se os conhecimentos sobre a matéria de estudo, na senda de uma
melhor, mais completa e fundamentada compreensão da singularidade dos povoados do
Alentejo, da sua morfologia urbana e da sua arquitetura de raiz popular, nos seus vários
aspetos e nas suas várias expressões, de lugar para lugar, com diversidades por vezes muito
subtis mas também muito interessantes, e ainda a relação ou interdependência do espaço
construído do espaço livre - dependência recíproca ou relação indissociável esta que forma
um todo coerente e singular.
O objetivo aqui contido, neste estudo, é o de usar toda a singularidade cultural, o manancial
riquíssimo, a qualidade do espaço dos povoados do Alentejo, nas intervenções que hoje
fazemos nessas aldeias, nos montes, nas cidades, a nível urbanístico ou arquitetónico, com
uma abordagem culta, nova, sem preconceito ideológico, mas profundamente ecológica1.
Trata-se, portanto, de um trabalho com claros objetivos operativos, um estudo metodológico,
se quisermos. A análise aborda os aspetos de composição e todos os demais que caracterizam
estas arquiteturas, bem como os processos e materiais construtivos que contribuem fortemente
para esta singularidade tipológica.
Perante um cenário mais ou menos previsível, e bastante provável, de descaracterização e
desqualificação ambiental que os fenómenos da globalização e do turismo de massas poderão
vir a gerar nesta região, como noutras do sul da Europa, parece evidente, e até urgente, que se
possam encontrar soluções que permitam viabilizar novos investimentos e gerar mais bem
estar para as populações locais, sem que isso implique necessariamente, perda de identidade2.

Palavras-chave: Vernacular, popular, arquitetura, povoados, Alentejo

1
Na introdução da sua obra “Vernacular Architecture in the Twenty – First Century”, publicada pela Taylor &
Francis em 2006, Lindsay Asquith e Marcel Vellinga referem, a propósito: “(...) the way in which the vernacular
can play a part in the provision of future built environments. Analysing the value of vernacular traditions to such
diverse fields as housing, conservation, sustainable development, disaster management and architectural design.
(…) these are valuable lessons to be learnt from the traditional knowledge, skills and expertise of the vernacular
builders of the world.” E sublinham também a vantagem de “(…) a more processual, critical and forward
looking approach to vernacular research, education and practice.”
2
Robert Adam, num seu artigo com o título “Globalisation and Architecture – the challenges of globalisation are
relentlessly shopping architecture’s relationship with society and culture”, artigo publicado na ”Architectural
Review”, em Fev. 2008, estabelece com clareza os desafios em causa:
“The future of both architectural persuasions will be tested in the lasted and most urgent crisis – the survival of
the ecology of the planet such that it will continue to support our global civilisation. This is the supreme
challenge for globalization: The cause, the effect and the resolution are and will be global and local. It will affect
all aspects of social, political and economic life and it will, as day follows night, have a profound impact on
architecture.”

154
Introdução
Neste ensaio procurei demonstrar a importância de cada pequeno detalhe nas várias
expressões urbanas de pequeno aglomerado (as vilas e aldeias); como tudo tem um sentido
muito adequado no todo, quer se trate da rua, do muro, da fachada ou da chaminé.
Trata-se, portanto, de um trabalho com claros objetivos operativos, um estudo metodológico,
se quisermos, e não de um mero rol ou levantamento exaustivo, de tom saudosista ou
melancólico, para “arrumar” ou “guardar” museologicamente certos lugares, mais
preservados, despojando-os, muitas vezes, de vida própria e de sentido de existir.

“Numa sociedade que apesar de alguns integrismos, se vê em vias de dessacralização, ir à


procura do passado é um exercício essencial, porque traz consigo uma atração, mesmo uma
fascinação, que permite que se viva uma aventura espiritual que não é forçosamente religiosa.
(…) No Alentejo é possível exercitar-se uma reconciliação com valores de uma cultura em
renascimento”.3

Desenvolvimento
Este estudo incide sobre a Arquitetura Popular e procura ater-se fundamentalmente aos
aspetos de natureza tipológica – nas diversas espacialidades, usos e materiais, na composição,
no jogo dos volumes, no detalhe, nas soluções construtivas/tecnológicas – e na relação que
estes estabelecem entre si – as partes e o todo – e menos na busca da origem, da explicação
para estas mesmas manifestações, já exaustivamente estudadas em várias e excelentes obras.
Naturalmente que teremos de levar sempre em consideração estes aspetos, de natureza
histórica, geográfica, sócio-económica e outros – não poderemos empreender semelhante
estudo ignorando estes fatores – até porque, na maior parte dos casos (senão sempre)
justificam a diferenciação tipológica, as cambiantes, de região para região. No entanto,
procurei atender mais direta e concretamente à análise do(s) tipo(s) em si mesmo(s), nesse
enfoque ou nessa abordagem mais abrangente entre o construído – o cheio – e o vazio,
considerando o conjunto e não só a casa ou a construção isoladamente, procurando analisar
também, assim, o espaço público urbano, como objeto de composição e não como uma mera
resultante, aleatória, do somatório de arquiteturas ou construções.
Existem várias abordagens ao estudo da cidade – a económica, a histórica, etc… e são todas
importantíssimas; Mas a mim, interessa-me estudar a sua forma.

Metodologia
Para levar a cabo esta tarefa, adotei um conceito geográfico de região, ao invés de uma
delimitação meramente administrativa, mais concretamente, a divisão geográfica definida
pelo Prof. Amorim Girão, citada ou incluída na magnífica obra que constitui o “Inquérito à
Arquitetura Popular em Portugal”4.
Delimitadas as sub-regiões e identificados os casos de estudo mais significativos, houve
naturalmente que percorrer estes lugares, fotografando, desenhando, recolhendo informação,
tentando compreender a gente que povoa o Alentejo, os seus hábitos, as suas histórias.
Os dados recolhidos foram estudados, sistematizados, comparados, «arrumados» de forma a
originarem conclusões tão significativas quanto possível para o objetivo do estudo.

3
SARAMAGO, Alfredo: Livro-Guia do Alentejo, Ed. Assírio & Alvim, Lisboa, novembro de 2007, p.12.
4
“ARQUITECTURA POPULAR EM PORTUGAL”, II Vol.s, Ed. Centro Editor Livreiro da Ordem dos
Arquitectos, Lisboa 2004.

155
Figura 1 - Mouraria no distrito de Évora. Desenho elaborado pelo autor

Neste trabalho de recolha, de análise, vão-se observando igualmente as intervenções mais


recentes. E, entre estas, encontramos, geralmente, dois tipos:

- As obras projetadas por arquitetos ou engenheiros:


- Como esta que aqui se apresenta (figura 2), de uma intervenção da
Administração Central do Estado Português em Vila Viçosa, nos anos 40 do
Séc. XX, em que se destruiu uma parte significativa do seu centro histórico
para abrir uma alameda monumental rematada pelo castelo;

Figura 2 – Vila Viçosa - «Alameda do Castelo» hoje. Fotografia elaborada pelo autor

156
- E também as obras de natureza espontânea.

Figura 3 – Arraiolos, construções híbridas, descontextualizadas. Fotografia elaborada pelo


autor

Considerei também, neste estudo, as experiências que eu próprio vou tendo, como arquiteto,
no exercício da minha profissão de projetista, nesta região.
Refiro, a propósito, três experiências que vivi em obras de minha autoria: O monte da
Herdade do Rego, em Vila Boim – Elvas, nos anos de 2001 a 2007; O monte da Casa Alta,
em Melides – Grândola, nos anos de 2003 a 2005; e as obras que desenvolvi e as que estou a
desenvolver para a Sociedade Agrícola Niza Mariano, em Terena, Alandroal, no âmbito dos
programas de Turismo no Espaço Rural, do Turismo de Portugal.

Figura 4 – Monte da Herdade do Rego, Elvas. Fotografia adaptada de FG + SG (Fernando Guerra)

Naturalmente que este trabalho não poderia ser completo sem a leitura e o estudo de outros
ensaios sobre a matéria, ou que de alguma forma com ela se relacionam.
Finalmente e tendo em conta a procura crescente de que as construções da arquitetura popular
da região têm sido alvo, nos últimos anos, recolhi também dados sobre ofícios tradicionais
«vivos», sempre no mencionado propósito de operatividade.
Existem, de facto, no Alentejo, ainda hoje, uma série de pequenas empresas que se dedicam
ao fabrico e ao comércio de produtos tradicionais para a construção.

157
Descrição geral do território
Neste ensaio apresento uma análise histórica e geográfica do território alentejano por forma a
contextualizar e compreender melhor as formas urbanas e arquitetónicas dos seus povoados.
Esta temática é de estudo indispensável para melhor compreender as singularidades urbanas e
arquitetónicas desta região. Assim, estudou-se a História e também, a geografia:

- A sua paisagem natural;


- A geologia;
- Os rios do Alentejo;
- O clima;
- A vegetação;
- etc..

E também a PAISAGEM URBANA.

De facto, a região constitui, no contexto do urbanismo e da arquitetura vernácula, em


Portugal, um território singular, no qual o tempo soube preservar, de forma bastante
significativa, a autenticidade das suas expressões formais urbanas e construtivas.

De uma forma, ou num processo, que se poderia classificar como espontâneo, inato, as gentes
do Alentejo têm demonstrado uma sabedoria que provem da tradição, na sua verdadeira e
única dimensão, isto é: a que não exclui a inovação, a evolução5.
De acordo com António Borges Abel, e a propósito dos povoados do Alentejo, podemos
distinguir dois tipos principais de «malhas» urbanas: aquelas que não foram planeadas
(orgânicas) e as que resultam de um plano ou esquema previamente determinado, induzindo-
se nestas últimas os vários sub-tipos ou «nuances».
Também segundo este autor, podemos identificar dois tipos de crescimento dos núcleos
originais: pelo prolongamento das vias existentes (radiocêntrico) e/ou segundo novos núcleos
(policêntrico)6.
Considerando que a ocupação urbana do território compreende, em termos formais, dois
elementos fundamentais: a estrutura edificada e os espaços livres (exteriores), formados pelas
áreas de circulação e estadia – ruas, praças e largos – e restantes espaços não construídos
públicos ou privados, teremos que o carácter, a identidade, de um determinado povoado
resulta da distribuição relativa dos diversos espaços bem como da sua articulação e da
arquitetura dos seus edifícios.

Poderemos enumerar algumas das características comuns dos povoados das várias sub-regiões
– o denominador comum – digamos assim:

- A concentração do casario em assentamentos bem delimitados e densos;


- Uma definição nítida dos volumes – volumes simples e muito precisos;
5
“Tradition (…) is a term that has been much maligned and misunderstood in recente years. We live in a world
that has become so pre-occupied with change and innovation, that we can all too easily forget how crucial
traditions are in handing on the immense richness of human knowledge, wisdom and skill” Introdução de H.R.H.
the Prince of Whales à obra de Robert Adam e Matthew Hardy com a I.N.T.B.A.U. (International Network for
Traditional Building, Architecture and Urbanism) e Witpress, 2008, p.7.
6
Abel, António Borges – “Os Limites da Cidade”. Dissertação presentada na Universidade de Évora para
obtenção graduação de Doutor em Arquitetura, 2007, 2008.

158
- A horizontalidade é dominante, num jogo de volumes em que cada parte é
indispensável no todo;

Figura 5 - Marvão, Norte do Alentejo – fotografia elaborada pelo autor

Figura 6 – Mértola – Fotografia elaborada pelo autor.

Não são tão visíveis, neste território, e apesar de fenómenos esporádicos, os efeitos de
descontinuidade que certas «arquiteturas» provocam na paisagem e nos aglomerados urbanos,

159
com tipologias híbridas, ingénuas, inspiradas em modelos de outras paragens, longínquas (a
designada «casa do emigrante»).7
Já o mesmo não se poderá afirmar no que diz respeito à substituição, a que paulatinamente
vamos assistindo, de materiais e processos construtivos; Isto é: se na forma, no volume, na
inserção no conjunto, apesar de tudo, as novas construções e as renovações vão mantendo o
essencial das tipologias urbanas dos aglomerados populacionais, já na composição
arquitetónica, nos materiais usados e nas tecnologias construtivas vai sendo raro o uso dos
elementos e processos originais:
A estes fenómenos, para os quais existem explicações socioeconómicas e culturais já
relativamente bem identificadas, está associado o inevitável desaparecimento de certos
ofícios, tradicionais, por outros, novos, sem qualquer ligação ao local, ao seu clima ou
natureza própria, mas sim a uma lógica de produção globalizante.
Perdem-se assim, a pouco e pouco, oficinas e artífices com sabedorias preciosas, de origem
ancestral, e também se perdem empregos, população e vida nos povoados desta região. “O
processo de modernização tende a subtrair aos indivíduos a sua identidade tradicional”.8

Os espaços exteriores
Os espaços exteriores complementam o edificado e, ambos, no seu conjunto
indissociavelmente, contribuem para a identidade ou singularidade dos locais.

Figura 7 - Praça Giraldo, Évora – fotografia elaborada pelo autor

A análise morfológica dos aglomerados populacionais permite evidenciar esta relação


edificado - vazio, nas ruas, por exemplo (ver figura 8) mas também no conjunto dos espaços
exteriores privados – pátios e áreas comuns adjacentes aos edifícios – quase sempre de
dimensões reduzidas, podemos adicionar as hortas urbanas. Se os primeiros se encontram
7
Nuno Portas afirma, a propósito: “Na verdade, só a síndrome alentejana – do envelhecimento, desertificação,
déficie de iniciativa – terá evitado, neste caso por razões negativas, as lacerações internas ou o cerco de
expansões (…) que se vêem noutras regiões, também do interior do país.” In : “Revista Monumentos”, n.º 27,
Dez. 2007, Lisboa, p. 7.
8
Peter L. Berger, director do Institute for the Study of Economic Culture e do Institute on Religion and World
Affairs da Universidade de Boston, U.S.A., na conferência proferida no colóquio internacional “Globalização,
Ciência, Cultura e Religiões”, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, em 2003, e publicada
pela D. Quixote em Setembro de 2003, p. 40.

160
disseminados pelo tecido urbano, estas situam-se predominantemente na periferia dos
aglomerados (existindo ou não muralhas), quase sempre limitadas por muros que contêm
muitas vezes, também, pequenos pomares de citrinos, o que contribuiu para conter a dispersão
urbana.

Figura 8 – Perfil tipo de uma rua de um povoado Alentejano tradicional – desenho elaborado pelo autor

Figura 9 – Muro no limite urbano de Alpalhão que encerra um pomar de citrinos – fotografia elaborada pelo
autor.

Equipamento e mobiliário urbano


O aspeto sóbrio, de um certo “minimalismo”, que caracteriza estes povoados, manifesta-se
também nas suas ruas e praças, e o mobiliário urbano participa desta sobriedade.

161
Como elementos principais, temos:
- Chafarizes;
- Fontes;
- Fontanários;
- Bebedouros;
- Bancos;
- Pelourinhos;
- Alegretes e Floreiras;
- Tanques;

Estrutura funcional
Mas os povoados do Alentejo são também estruturas funcionais diversificadas. De facto, para
além das habitações, estes aglomerados, contêm também os espaços destinados ao comercio,
os espaços culturais – museus, teatros, cinemas, etc. – e de culto religioso, e também os de
uso mais institucional – câmaras municipais, quartéis, tribunais, entre outros – e os da
industria ligeira, artesanal e oficinas.
Esta diversidade de usos é tão maior quanto maiores são também as dimensões do povoado e
da respetiva povoação.

Figura 10 – Oficinas no centro de Vila Viçosa – desenho elaborado pelo autor

A partir da década de 1960, o país viveu um crescimento económico significativo.


Como resultado desta profunda mudança, os povoados do Alentejo sofreram também
alterações. Enquanto algumas aldeias se foram esvaziando de população, nos povoados de
maior dimensão – nas cidades – verificou-se uma deslocação em direção às periferias, quase

162
sempre seguindo modelos inadequados, sem qualquer atenção aos modos de vida locais, aos
aspetos singulares da cultura, do clima e todos os demais que moldaram os povoados desta
região.
Hoje, e apesar da influência que os mencionados modelos desadequados continuam a exercer
nos povoados destas regiões (tal como acontece em todo o mundo), parece começar a existir
um reconhecimento da qualidade que os centros urbanos tradicionais acrescentam, como
contrapartida ou antídoto à explosão e dispersão (“sprawl”) a que assistimos, agora, nos
últimos anos, um pouco por toda a Europa e que procuramos contrariar através da
Reabilitação Urbana.
O tema da «Reabilitação Urbana» é hoje um dos mais tratados nos meios académicos, como
nos políticos e até sociais. Reconhece-se a sua importância no contexto atual.
A partir dos modelos originais apresentados e do seu estudo aprofundado poderemos então
retirar os dados essenciais de que necessitamos para as novas intervenções, com uma
abordagem contemporânea mas sem qualquer tipo de preconceito e respeitando a identidade
local/ regional, nos seus múltiplos aspetos.

Tipologias arquitectónicas / construtivas


Neste ensaio inclui-se uma análise detalhada destas tipologias e constata-se que a divisão por
sub-regiões, adotada para efeitos de sistematização, não impede que se manifeste claramente
um traço comum, uma imagem comum na arquitetura vernácula desta região do país.
Isto, mesmo tendo em consideração certas reservas ou «nuances» que tais afirmações muito
perentórias nos deverão suscitar, sem o que se corre o risco de faltar ao rigor que estas
análises merecem.
Mas, parece não haver grandes dúvidas que se poderá falar de «Arquitectura Popular
Alentejana» com alguma segurança, ressalvando essas tais «nuances» e reservas atrás
mencionadas e que, mais rigorosamente, nos deveriam levar a considerar «Arquitecturas
Populares Alentejanas».
Da análise tipológica efetuada, resulta evidente que uma das características principais dos
edifícios destes povoados é a de uma forte presença da arquitetura de raiz popular rural.

163
Figura 11 – Rua de Mértola – desenho elaborado pelo autor

Figura 12 – Centro da cidade do Redondo – fotografia elaborada pelo autor

164
O modelo – o arquétipo – da casa popular do povoado alentejano
Na sua origem, a habitação vernácula, anónima, dos povoados do Alentejo, copia a casa rural
dos montes da região e adapta-se à morfologia do terreno e à exiguidade do espaço
intramuros.

Figura 13 – Arquétipo de casas rurais em Torre de Palma, Monforte – fotografia e desenho elaborados pelo
autor

A simplicidade e a excelente adaptação às contrariedades do clima destes modelos rurais, são


importados para as aldeias e vilas e dão origem aos tipos novos, diversificados, mas com
características comuns que, de região para região, podemos identificar nos seus aspetos
principais.
Parece ser opinião unânime dos autores que consultei a este propósito, o tipo mais
característico de casa ou de edifício vernacular dos povoados alentejanos terá a sua origem
nas casas de habitação de operários agrícolas dos «montes» desta região.

165
Figura 14 – Casas rurais – o arquétipo do modelo teórico – 1 piso mais largo. Desenho elaborado pelo autor.

Figura 15 – Casas rurais – o arquétipo do modelo teórico – 1 piso mais estreito (mais comum nos povoados com
muralhas). Desenho elaborado pelo autor.

Figura 16 – Casas rurais – modelo teórico – 1 piso – evolução. Desenho elaborado pelo autor.

As dimensões variam consoante o espaço disponível e as características do terreno – mais


exíguo / estreito em terrenos acidentados; Mais «largo» em terrenos de planura – tal como
variam os materiais usados na construção consoante as características geológicas dos terrenos
– a taipa ou o adobe, a pedra e o barro – e, em todos, omnipresentes, a cal e as telhas «de
canudo» das coberturas.
Este modelo «original», que encontramos um pouco por todo o Alentejo, evolui em muitos
casos em altura (para dois pisos, na maior parte dos casos) podendo chegar a três pisos ou
mais em cidades mais populosas – Évora, por exemplo.

166
Figura 17 – Casas rurais – o arquétipo do modelo teórico – 2 pisos. Desenho elaborado pelo autor.

Figura 18 – Casas rurais – modelo teórico – 2 pisos – evolução. Desenhos elaborados pelo autor.

Elementos de composição
Mais altos e estreitos, com vãos de maiores dimensões, a Norte, nas serranias do Alto
Alentejo, ou mais baixos e largos no Sul, nas planícies que precedem os peneplanos da
fronteira com o Algarve, ou ainda com «nuances» de materiais que resultam do
aproveitamento que sabiamente o homem alentejano soube fazer da natureza e do que esta
tem para dar, os edifícios vernaculares dos povoados alentejanos apresentam alguns
elementos de composição arquitectónica mais comuns, que passo a identificar:

- A chaminé
A chaminé elemento indissociável da composição da casa alentejana (mais para o Norte e
Centro e menos no Sul) assume um papel determinante na arquitetura vernacular desta região,
com formas muitas vezes fantásticas e surpreendentes. Outrora, constituía elemento
indispensável e central da vida familiar, doméstica, da casa desta região; Era à volta da grande
chaminé que se cozinhava, que se faziam as refeições, que se conversava. Entretanto as
cozinhas «modernizaram-se», a compartimentação da casa alentejana alterou-se – surgiu a
«sala de estar» – era à volta do fogo que tudo se passava, existindo apenas uma separação dos
quartos de dormir ou alcovas. Esta chaminé, hoje, quando existe, serve já somente para

167
aquecimento. Muitas vezes, até, tem só o propósito de «conforto espiritual» que o fogo de
uma lareira proporciona.

- Telhados
As coberturas, de telha cerâmica, de canudo, quase sempre de uma ou duas águas pouco
inclinadas, sem se intersectarem, terminando muitas vezes em beirais simples ou com uma
sanca de sub-beira, igualmente muito simples, em telha ou paralelepipédica, recordam-nos a
secura que caracteriza o clima alentejano – de longos e quentes estios – e, na sua cor terrosa,
contrastam harmoniosamente com o branco das paredes e das chaminés.

- Cal branca
A cal branca é usada profusamente no revestimento das paredes dada a abundância de calcário
na região e contribui para a frescura do interior das casas nos verões abrasadores bem como
para manter afastados insetos e outras «moléstias».

- Predominância das superfícies dos paramentos sobre os vãos


A predominância das superfícies dos paramentos sobre as aberturas, decorre igualmente desta
característica do clima que, sendo seco e muito quente no verão, também se faz de Invernos
frios, muito frios, de que a casa alentejana se protege com a grande lareira e com a espessura
das paredes (de taipa ou alvenaria) de grande inércia térmica, tanto no frio como no calor,
reduzindo ao mínimo indispensável a fenestração.

- Espessura das paredes


Esta espessura confere, assim, aos vãos, quase sempre de pequenas dimensões, um aspeto de
concavidade, de profundidade, muito acentuado, na macicez das paredes, produzindo um
efeito de sombra muito marcado, acentuando o contraste claro-escuro das fachadas em que
predomina a alvura das superfícies dos paramentos caiados à exaustão, que a luz reflete de
forma, por vezes, quase violenta.

- Vãos
A disposição e proporção dos vãos nas fachadas das construções vernaculares do Alentejo não
é uniforme. No norte, as janelas têm dimensões um pouco menos reduzidas do que no Sul –
onde as aberturas são as mínimas indispensáveis. Isto por razões de ordem climática,
fundamentalmente, como atrás já descrevi, mas também decorrentes do sistema construtivo –
que não deixa lugar para grandes vãos.
Por outro lado, também variam com a dimensão do lote. Se nos burgos medievais, de lotes
«apertados» no interior das muralhas, há menos espaço para abrir vãos – até porque a
chaminé, quase sempre no mesmo plano da fachada, ou de ressalto em relação a esta, ocupa
por vezes mais de metade da frente do lote, deixando nos casos dos edifícios de um só piso,
térreo, apenas lugar para uma porta com um postigo –, nos lotes mais largos, nas áreas «fora
de muros», já há lugar para abertura de vãos de janela suplementares, correspondendo a
plantas com distribuição mais generosa.
As janelas têm a proporção clássica – «ao alto» –, que resulta do sistema construtivo
tradicional – que não permite vergas com grande vão –, de forma retangular, com duas folhas
de abrir, com mais ou menos bites, de acordo com a sua dimensão. Por vezes aparecem

168
surpresas como janelas góticas – normalmente do gótico tardio («manuelino») –, com
elementos singulares em cantaria como arcos polilobados, colunelos e decorações diversas –,
deixando os seus autores (canteiros) marcas características, a maior parte das vezes de
identificação, ainda hoje visíveis nas janelas e portas de burgos medievais como Castelo de
Vide, Estremoz, Monsaraz, e outros.
Nas portas também sucede essa variedade. Além da porta mais comum, de vão retangular,
com um postigo, são visíveis «intra-muros» ainda bastantes portas inseridas em arcos góticos.
O contraste da pedra destes vãos emoldurados em cantaria com a cal das paredes, constitui um
dos elementos singulares de composição das arquiteturas vernaculares destes povoados.

- Óculos e frestas
Para além das portas e janelas encontramos aqui também uma profusão significativa de óculos
e frestas, com o propósito evidente de iluminar e/ou arejar determinados compartimentos
interiores (normalmente zonas de escadas, mas também outras). De forma circular, elíptica,
em trevo, ao alto, ao baixo, … a variedade é razoavelmente grande. Estes elementos de
composição emprestam ao edifício e ao conjunto em que se inserem, uma nota igualmente
singular e bela. Por vezes, estas aberturas são também protegidas com tijoleiras formando
grelhas com formas curiosas.

- Varandas, sacadas, «lógias»


Nos tipos arquitetónicos mais «ricos», no sentido em que pressupõem ocupações menos
modestas que nos tipos mais simples, incluem-se, com alguma frequência, pequenas varandas
ou «sacadas» nas fachadas voltadas à rua.
Menos comuns são as varandas alpendradas e/ou pérgoladas e as «loggias»; Embora também
visíveis, principalmente nos burgos de maior influência do período renascentista (Vila Viçosa,
Évora e outras).

- Galerias
Bastante raras, observam-se apenas em Évora, na zona da praça de Giraldo.

- Bancos, «poiais», muros, pilastras, socos, sancas


Às fachadas destes edifícios são ainda justapostos, frequentemente, bancos ou «poiais» de
forma paralelepipédica, muito simples.
Os muros poderão delimitar um espaço defronte da casa (em zonas mais limítrofes dos
burgos), sendo baixos e integrando grelhas decorativas em tijoleira, vasos, pilaretes e outros
elementos decorativos. Mas os mais comuns são muros que se situam no tardoz das casas,
altos (2,00m e mais) e que encerram pequenas hortas, pomares ou «almuínhas»; Estes muros
são construídos em alvenaria seca, taipa ou adobe, rematados superiormente com pedra e
argamassa de cal e areia de forma semi-circular para evitar a degradação por efeito da água
(isto à exceção dos muros de adobe que são rematados na horizontal, utilizando o próprio
tijolo).
Nestas fachadas podemos encontrar também as já mencionadas pilastras em cunhais, sancas
de beirado (mais ou menos decoradas, consoante os tipos) e, quase sempre ou mesmo sempre,
os socos que protegem as paredes.

169
170
Figura 19 – Elementos de composição arquitetónica – desenhos elaborados pelo autor

- A Cor
O casario dos aglomerados urbanos e dos «montes» do Alentejo é branco, refletindo a luz
do sol intensamente, fruto da pintura das superfícies com a cal ou leite de cal. Mas a côr
também está presente; E não só a côr terrosa dos telhados mas também, e especialmente, a côr
dos pigmentos que se adicionam à cal para emoldurar um vão, assinalar um soco, uma pilastra
ou uma sanca de beirado.
São os azuis ferretes, os verdes secos, os amarelos ocre, os vermelhos «sangue-de-boi» e até
(mais no Centro – Norte) os cinzas quase pretos.

171
As portas e as janelas são também profusamente pintadas (antigamente com tintas de óleo,
hoje com esmaltes sintéticos). Normalmente o caixilho é branco e os aros e almofadas em côr
– as mais usuais são o vermelho «sangue-de-boi» e o verde-escuro, “seco”, também
conhecido por «verde-garrafa».
É um dos aspetos mais singulares destes conjuntos de construções.

Conclusão
Em jeito de síntese, parece-me que poderei concluir destacando que a concentração urbana se
afigura como uma solução mais adequada do que a dispersão e que esta ultima deverá ser, na
medida do possível, obstaculizada. Neste contexto, resulta também evidente a necessidade de
respeitar as relações de cheio – vazio, do espaço construído com o espaço livre – seja este
público ou privado, incluindo as relações de largura de ruas com as cérceas dominantes, a
existência de hortas e pomares, incluindo ruas estreitas, rossios, praças e outros espaços
públicos.

Há que saber extrair das experiencias dos passado tudo aquilo que nos possa ser benéfico hoje
e no futuro, numa perspetiva sem compromisso, assumindo espírito de descoberta,
criatividade e inovação à sabedoria ancestral, buscando uma síntese nova, verdadeiramente
adequada ao meio em que vivemos e intervimos, tanto nos aspetos ambientais como nos
culturais e socioeconómicos, conjugando os léxicos compositivos e as tipologias tradicionais
com modos de vida contemporâneos, contribuindo assim também para esse propósito de
proteção, de preservação e de afirmação de identidades locais.

Teremos também que ser capazes de adotar e promover as indústrias e ofícios tradicionais
renovados e os equilíbrios do comércio de proximidade com os bairros em que predomina a
habitação e com a adequada distribuição dos serviços públicos.

Desta investigação posso concluir também que, mesmo tendo em conta o passar dos séculos e
apesar de todas as vicissitudes de abandonos e mudanças, estes povoados e estas arquiteturas
resistem e preservam as suas extraordinárias qualidades, com uma resiliência que permite a
sua reabilitação ou seu «renascimento» numa nova era, plena de paz e harmonia.

Parede, 30 de Setembro de 2016

172
Figura 20 - Alandroal, recanto perto das muralhas da cidade – desenho elaborado pelo autor

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174
A 2ª Geração dos arquitectos Modernos Portugueses, o Inquérito à Arquitectura
Regional e os CIAM.
António Neves,
Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) / Centro de Estudos de
Arquitectura e Urbanismo (CEAU/FAUP)
[email protected]

Resumo
O presente artigo pretende iluminar o modo como as discussões levadas a cabo pelas
vanguardas do debate arquitectónico mundial no período do segundo pós-guerra
influenciaram formal e conceptualmente o Inquérito à Arquitectura Regional.
Através da elencagem de anteriores relações entre arquitectura moderna e vernacular; da
análise do conhecimento dos arquitectos portugueses do debate arquitectónico do período em
causa e da sua participação nesse mesmo debate por via da presença em congressos
internacionais de arquitectura pretende-se desenhar uma teias das inter-relações que nos
parece ser possível estabelecer entre Arquitectura Popular, tradição e vanguarda.

Palavras-chave: Movimento Moderno, CIAM, Arquitectura Vernacular, Arquitectura


Portuguesa.

175
Introdução
É nossa opinião de que sobre as relações entre o Inquérito à Arquitectura Regional e os
arquitectos do Movimento Moderno (e sobre o próprio movimento) se têm feito algumas
generalizações que não contribuem para uma leitura exacta do seu significado e da sua
importância no debate arquitectónico.
Estas generalizações apontam para um Movimento Moderno monolítico e uniforme,
características que se verificariam também nas relações que os arquitectos mais conotados
com este movimento estabeleceram com a história e com a tradição.
A procura de paralelismos entre a arquitectura vernacular e a arquitectura moderna
apresentava alguns antecedentes anteriores ao período em que se inicia o Inquérito,
coincidente com a revisão crítica do Movimento Moderno iniciada depois da Segunda Guerra
Mundial.
Estes antecedentes são hoje conhecidos.
Em trabalho já publicado1 também tivemos oportunidade de nos debruçar sobre tais esforços
anteriores, destacando os existentes na cultura arquitectónica espanhola (através da acção do
GATPAC), italiana (através da acção de Giuseppe Pagano e da revista Casabella) e brasileira
(através dos textos e acção de Lúcio Costa).
Nesse mesmo trabalho, tivemos ainda espaço para relevar algumas relações entre as obras de
figuras-chave da 2ª Geração de arquitectos modernos portugueses e o Inquérito à Arquitectura
Regional.
O conhecimento das dinâmicas que se estabeleceram no seio das discussões realizadas no
âmbito dos Congressos Internacionais de Arquitectura Moderna (CIAM) e das respectivas
sessões preparatórias ilumina uma rede de relações muito mais rica e complexa do que as
habituais leituras, com um certo carácter maniqueísta, têm vindo a propor.
A investigação que realizámos no âmbito da tese de doutoramento2 revelou que para uma
compreensão mais aprofundada dessa interessante teia de relações, que informa o debate da
cultura arquitectónica portuguesa ao tempo do Inquérito, é preciso ter em conta o apport
permitido pelas participações dos arquitectos portugueses pertencentes à designada segunda
geração dos modernos3 nas discussões que se estabelecem tendo como polo central os
congressos internacionais de arquitectura.

O debate arquitectónico do pós-guerra e a preocupação com a arquitectura vernacular


Com o fim da Segunda-Guerra Mundial, em Portugal, estabelece-se definitivamente a ruptura
entre os arquitectos e artistas conotados com os movimentos das vanguardas e o estado.
Estado que, esquematicamente, pretendia impor uma arquitectura pretensamente nacionalista,
baseada numa hipotética síntese das várias especificidades regionais e articulada (por vezes de
forma abusiva) com base nos escritos e propostas do arquitecto Raul Lino (1879-1974).

1- Neves, António - The second modern generation and the survey on regional architecture, some notes based
on projects of Arménio Losa (1908-1988) and Cassiano Barbosa(1911-1998),
2- Neves, António - Arménio Losa e Cassiano Barbosa, arquitectura no segundo pós-guerra : Arquitectura
Moderna, Nacionalismo e Nacionalização.
3- Designação atribuída por Nuno Portas aos arquitectos nascidos nas duas primeiras décadas do Século XX em
A Evolução da Arquitectura Moderna em Portugal.

176
O fim do conflito permitiu de uma forma quase imediata o acesso a um enorme manancial de
informação sobre o panorama arquitectónico internacional.
A adesão aos ideais do Movimento Moderno atinge um pico de interesse entre a classe dos
arquitectos portugueses, como demonstram as actas do 1º Congresso Nacional dos
Arquitectos.4 Sem entrar aqui na discussão deste congresso e do seu significado, apesar da
aparente unanimidade que parece testemunhar - aparente porque a considerámos mais tática
do que real - o problema da relação dos arquitectos modernos com a história e a tradição
permanecia em aberto e era expresso por alguns dos principais protagonistas deste movimento
de actualização.
Távora perguntava, logo em 45 no texto intitulado O problema da Casa Portuguesa:
“O estilo nasce do povo e da terra com a naturalidade de uma flor, e povo e terra
encontram-se presentes no estilo que criaram em muitas gerações. Que sentido poderá
ter, pois, a vontade de criar numa geração um estilo português sem, para tanto,
proceder a estudos íntegrais das nossas necessidades e das nossas condições?”5
Estipulando o objectivo a atingir - uma arquitectura integral, entendida como estudos
integrais das nossas necessidades e das nossas condições que nos levariam, pouco pouco, a
soluções verdadeiras e em muita coisa diferentes das que apresentam as chamadas "casas
portuguesas”. Távora preconizava estudos em três-ordens: a) Do meio português; b) Da
arquitectura portuguesa; c) Da arquitectura moderna no mundo.6 E esclarecia, no que diz
respeito ao estudo da arquitectura portuguesa:
“O estudo da casa portuguesa (erudita e popular), ou chamemos-lhes antes da
construção em Portugal, não está feito; alguns arqueólogos falaram e escreveram já
sobre as nossas casas mas do que conhecemos nenhum deu sentido actual ao seu
estudo, tornando-o elemento colaborante da nova arquitectura; além dessa, outra
ausência se verifica: a da relação da nossa arquitectura antiga ou popular com todas as
condições que a criaram e desenvolveram, sejam elas condições do Homem, sejam
elas condições da Terra.
A casa popular fornecer-nos-á grandes lições porque ela é a mais verdadeira, a mais
funcional e a menos fantasiosa.”7
Keil do Amaral, em convergência de intenções, no mesmo ano em que Teotónio Pereira
reedita este texto de Távora em versão revista e ampliada8, escreve, logo no primeiro número
em que passa a estar directamente ligado à revista Arquitectura, o texto Uma iniciativa
necessária:
“Trata-se da recolha e classificação de elementos peculiares a arquitectura portuguesa
nas diferentes regiões do País, com vista à publicação de um livro, larga e
criteriosamente documentado, onde os estudantes e técnicos da construção pudessem
vir a encontrar as bases para um regionalismo honesto, vivo e saudável. Exactamente
assim: honesto,vivo e saudável. (...)

4 - Silva, Luís Cristino da [compil. por] - 1º Congresso de Arquitectura 1948.


5- Távora, Fernando O problema da Casa Portuguesa in Aleo, 1945, Ano IV, série IV, nº9.
6- Távora, Fernando O problema da Casa Portuguesa in Aleo, 1945, Ano IV, série IV, nº9
7- Távora, Fernando O problema da Casa Portuguesa in Aleo, 1945, Ano IV, série IV, nº9
8- Távora, Fernando O problema da Casa Portuguesa (1947), publicado originalmente em Cadernos de
Arquitectura nº1, 1947.

177
(...)Nós, os que acreditamos numa arquitectura funcional, feita para servir mais do que
para agradar, consulta-lo-íamos com frequencia. Creio que as nossas obras lucrariam
com isso: serviriam melhor e ganhariam um calor humano mais acessível aos corações
da gente portuguesa. Quanto aos regionalistas do aspecto, estou certo de que também
se interessariam pelo livro; e talvez as suas obras viessem a adquirir maior
profundidade. (...)”9.
Também no nosso país existiam alguns estudos antecedentes.
Além das investigações ligadas ao Movimento da Casa Portuguesa (que não abordaremos no
presente artigo, bastando notar que não lograram grandes conclusões e cujos resultados
arquitectónicos o próprio inquérito pretendia rebater), já havia sido realizado um Inquérito à
Habitação Rural por um conjunto de engenheiros agrónomos como Lima Basto, Henrique de
Barros, ou Castro Caldas com o objectivo de fazer um levantamento das condições de vida
das populações agrícolas10.
O regime não podia reagir bem aos resultados deste Inquérito dos engenheiros, que mostrava
quão miseráveis eram as condições de vida no mundo rural, promovido por aquele como
modelo, premiando as aldeias onde o atavismo das condições de vida era mais patente e
estimulando arquitectonicamente a reprodução dos traços desta ruralidade.
“O contraste com o texto de Lino anteriormente citado não poderia ser mais evidente.
As casinhas passam a casebres. Deixam de ser sorridentes, alegres, simpáticas, para se
passar delas a reter a miséria”11.
O Inquérito dos engenheiros foi proibido, nunca chegando a ser editado o seu terceiro volume,
mas era do conhecimento das equipas do Inquérito à Arquitectura Regional.
Existe ainda um outro aspecto que à época do arranque do Inquérito informa de modo
decisivo o debate arquitectónico português, que na nossa opinião tem uma enorme
importância na forma como é realizado esse levantamento, mas que não tem sido referido: a
internacionalização da arquitectura portuguesa, nomeadamente a participação nos CIAM.

A internacionalização da arquitectura portuguesa e a participação nos CIAM.


Neste início da década de 50, em que se inicia a participação dos arquitectos portugueses nos
CIAM pressente-se a existência de uma certa tensão no ar, de uma certa dúvida sobre quais
seriam as direcções a tomar pela arquitectura (e pelas artes em geral).
Esta participação centra-se num número reduzido de arquitectos. Nos espólios pessoais de três
dos mais relevantes protagonistas não encontrámos textos próprios relativamente aos CIAM.12
No entanto, Távora em particular, se também não escreveu muito sobre os CIAM
propriamente ditos refere-os sistematicamente em entrevistas várias que quando relacionadas
permitem ter uma ideia deste processo.

9- Keil do Amaral, Francisco Uma Iniciativa necessária.


10- Basto, E. A. Lima, Barros, Henrique de - Inquérito à habitação rural (1943 e 1947).
11- Leal, João Arquitectos, engenheiros, antropólogos : estudos sobre arquitectura popular no século XX
português.
12- Efectuámos pesquisas nos espólios de Arménio Losa, Viana de Lima e Fernando Távora, que não nos
levaram a nenhum texto pessoal que tivessem escrito, individualmente ou em conjunto, sobre os encontros no
âmbito dos CIAM. O facto de os três espólios não estarem totalmente tratados, nem totalmente disponíveis para
consulta, leva-nos a basear as reflexões seguintes na reunião de referências dispersas, previlegiando as fontes
primárias, com a respectiva origem sempre assinalada.

178
A participação portuguesa nestes acontecimentos começa em 1951 quando um grupo de
arquitectos portugueses constituído por Viana de Lima, pelo referido Fernando Távora e por
João José Tinoco se desloca pela primeira vez a um Congresso Internacional de Arquitectura
Moderna - o CIAM VIII, realizado em Hoddeson.
Recorda mais tarde Távora:
“Nesse congresso que foi muito importante na vida do CIAM porque foi, em certos
aspectos um congresso de reviravolta em relação ao pensamento anterior, clássico, dos
CIAM, estiveram presentes os nomes mais famosos do organismo, Le Corbusier,
Gropius, Giedion, Sert, e depois gente mais nova como Kenzo Tange, Bakema,
Rogers, e muitos arquitectos ingleses.
O tema era o Core, interpretado como o coração, o centro. Não referido somente ao
centro urbano mas especialmente à necessidade do centro em qualquer organização de
arquitectura ou urbanismo. Ao centro da cidade, por exemplo, ou ao centro da casa.
Portanto uma visão muito ampla, arquitectónica, urbanista e humana da necessidade
do core como elemento de vida espontânea ou organização individual ou colectiva”13
Como descreve Távora, no CIAM VIII havia sido eleito como tema principal o Core, no
sentido de núcleo, de centro. Ao longo das discussões foi transformado em Cuore, ou na
versão inglesa em Heart, designações que acabariam por substituir a primeira nas publicações
que resultaram desse congresso.14
Como resultado, a versão inglesa da publicação que pretende documentar este congresso
intitulou-se precisamente “The Heart of the City”.15
Ao que se sabe, Le Corbusier defendia que o CIAM de 51 tivesse como objectivo a
elaboração de uma “Carta do Habitat”, mas acabou por ser convencido por Sert e Giedion da
importância de introduzir este novo tema.
Este tema foi não só tido em linha de conta como constituiu o elemento aglomerador das
discussões, conforme se pode ver pela leitura do referido The Heart of the City:
Giedion fez um apanhado da evolução histórica do Core, a partir da tradição da Grécia, e a
generalidade dos textos coligidos a partir deste tema, introduzem as questões da relação com o
passado (Gregor Paulson e J. M. Richards) do indivíduo com a comunidade (artigo de G.
Scott Williamson e, mais tarde, título de um livro de Giedion); da escala humana (Gropius) e
da relação entre o homem e as coisas (Bakema) - estes dois amplamente sublinhados por
Távora no exemplar existente na sua biblioteca- ; da relação com as artes (Le Corbusier e J. J.
Sweeney); e também das relações do homem com a cidade (Rogers), por via da
espontaneidade (Ian McCalum), das ideias (Fry) e das necessidades humanas (Ling). Estes
textos de cariz mais geral são também completados com transcrições parciais das discussões
abertas sobre a importância das cidades como centros civilizacionais e sobre as praças
italianas. São ainda acompanhados por uma descrição de experiências recentes - de Paris

13- Távora, Fernando Entrevista in Revista Arquitectura, nº 123, 1971.


14 - Josep Lluis Sert, Jacqueline Tyrwhitt CIAM 8: The Heart of the city: towards the humanisation of urban
life. London: Lund Humphries, 1952, Il cuore della città: per una vita più umana delle comunità. Milano: Hoepli,
1954; El corazón de la ciudad: por una vida más humana de la comunidad. Barcelona: Hoepli, 1955
15- Sert, Josep Lluis; Tyrwhitt, Jacqueline CIAM 8: The Heart of the city: towards the humanisation of urban
life (1952).

179
(Alaurent), Londres (Holford) ou Califórnia (Neutra) - e por uma colectânea de projectos
relacionados com o tema e elaborados por membros dos CIAM.
Note-se, desde logo, como os temas abordados serão aspectos valorizados no levantamento
realizados pelas equipas do inquérito.
É também de notar neste congresso a ausência da Arquitectura Moderna Brasileira que, como
referimos, constituía uma referência fundamental para os portugueses.
No entanto, nele se assiste à consolidação de uma outra influência que começava já a granjear
considerável importância entre nós, a do Empirismo Nórdico.
Embora Aalto não participasse directamente no VIII CIAM, as arquitecturas que se
apresentam na publicação que deste resulta são, senão directamente influenciadas, pelo menos
convergentes em intenções com as deste autor.
É muito curioso o facto deste movimento poder ser relacionado com uma preocupação de
aproximação da arquitectura ao homem comum que vinha sendo divulgado por J. M. Richards
na Architectural Review (revista da qual era editor e que existe em vários espólios de
arquitectos portugueses, como o de Viana de Lima) e que encontrava no Empirismo Nórdico
(termo aliás por ele criado na mesma publicação) o equilíbrio necessário entre o realismo
soviético - considerado inaceitável no seu ecletismo - e a vanguarda do Movimento Moderno
- agora considerada elitista e desligada da realidade, mas no entanto detentora de uma herança
que não se devia renegar na totalidade.16
Entre nós Empirismo Nórdico e Arquitectura Moderna Brasileira constituíam-se em duas
alternativas para aproximar a arquitectura do Movimento Moderno das aspirações do homem
comum, sem, por um lado, cair no Realismo revivalista proposto pelo Estalinismo, mas, por
outro, também sem renegar a herança do Movimento Moderno, das vanguardas e da
abstracção.
No nosso país problemas semelhantes opunham os arquitectos modernos aos tradicionalistas,
ambos na procura de uma resposta relacionada com as questões da identidade e da tradição
que fosse nesse mesmo sentido de aproximação da arquitectura ao homem, como se percebe
nos textos de Távora e Keil atrás citados.
Neste CIAM de 51 o Grupo português, com estatuto ainda de “grupo em formação” não
apresenta, ao que se sabe, nenhum contributo escrito ou desenhado. Mas, como mostra a
descrição de Távora, não terá ficado indiferente a esta centralidade das problemáticas do
homem no debate arquitectónico deste CIAM.
Esta primeira participação teve assim um carácter algo passivo e teve como principal
resultado a transformação da ODAM no grupo CIAM-Porto.17
Depois de Hoddesdon, o grupo Português participa e começa a contribuir para as sessões de
trabalho que conduziriam ao CIAM de 53.

16- A oposição entre estes dois pólos, pela conotação política com a oposição ao regime vigente dos movimentos
artísticos portugueses ligados à arte e à arquitectura modernas irá desempenhar um papel importante no âmbito
da cultura artística e arquitectónica portuguesa desta época.
17- A ODAM, que aparece no espólio de Arménio Losa como tradução de Organização dos arquitectos
Modernos e também como Organização em defesa da Arquitectura Moderna é uma organização de arquitectos
que surge no Porto em 1947 e estabelece um conjunto de actividade articuladas com a acção de Keil do Amaral
em Lisboa e com as actividades da organização lisboeta ICAT (Iniciativas culturais de Arte e Técnica). A este
propósito veja-se Neves, António - Arménio Losa e Cassiano Barbosa, arquitectura no segundo pós-guerra :
Arquitectura Moderna, Nacionalismo e Nacionalização. pp 210-217, 297-309.

180
Se, por um lado, não participa na reunião mais restrita realizada em Paris, no escritório de Le
Corbusier em 1952 - onde ficou decidido que no CIAM IX (quando se completariam 25 anos
desde o Congresso de La Sarraz) se iniciaria um processo de transição para os membros mais
novos que deveria ficar concluído até ao CIAM seguinte- por outro, o grupo português assiste
ao evento realizado entre 25 e 30 de Junho do mesmo ano de 1952 - o encontro de Sigtuna -
que dado o extenso programa de actividades foi, segundo Eric Munford, praticamente um
CIAM.18
Participaram quase 60 membros, muitos dos quais os que iriam mais tarde dar origem ao
Team X.
Segundo o mesmo autor foi neste encontro que apareceram os primeiros sinais de ruptura
entre esta geração mais nova e a geração anterior, conhecida por “middle generation”.
A avaliar pelos documentos oficiais, Portugal participa com Viana de Lima, Luís Canossa
(engenheiro) e Matos Veloso,19 e assume um papel mais interventivo, apresentando uma
grelha que é discutida com alguma intensidade20.
No seguimento da proposta portuguesa e doutras propostas relativamente à grelha a adoptar, e
face à impossibilidade de chegar a um consenso, constitui-se uma comissão para o seu estudo
de que também faz parte Viana de Lima.
Os resultados desta não seriam no entanto suficientemente consensuais para a definição de um
modelo único de grelha a adoptar no CIAM IX.
Note-se que tem sido referida erroneamente a não participação de Távora nessa reunião.
Távora não aparece de facto nas listagens de participantes, apesar de ter estado presente,
como atestam os documentos da Câmara Municipal do Porto.21
Neste mesmo ano de 1952 Távora participa também na Escola de verão dos CIAM, realizada
em Veneza. Nessa cidade terá oportunidade de re-encontrar Le Corbusier e conhecer Lúcio
Costa, personalidade que muito o influenciará.22
Logo na sequência destas duas participações em actividades dos CIAM é publicado o texto de
Fernando Tàvora que ficará conhecido como “A Lição das Constantes”23, que remete
directamente para as discussões tidas no congresso de 51, enriquecendo-as e nacionalizando-
as, através da sua própria reflexão sobre o papel do arquitecto, sobre a sua modernidade
assente no conhecimento da história, sobre o seu papel de homem entre outros homens.
Posteriormente, em Julho de 53, Arménio Losa desloca-se com Viana de Lima e com o
mesmo Fernando Távora ao IX CIAM em Aix-en-Provence.24

18- Mumford, Eric The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, p219.


19- Mota, Nelson An archaeology of the ordinary: rethinking the architecture of dwelling from CIAM to Siza,
p73.
20- Refira-se a título de curiosidade que esta grelha que o grupo português apresenta em Sigtuna é apresentada
no livro de Eric Munford referido em (18) como “não identificada, provavelmente do CIAM X, 1956”.
21- Trevisan, Alexandra Influências internacionais na arquitectura moderna no Porto (1926-1956), p309.
22- Mendes, Manuel Ah, che ansia umana di essere il fiume o la riva! in Antonio Esposito, Giovanni Leoni
Fernando Távora: opera completa, p 378.
23- Távora, Fernando Arquitectura e Urbanismo, a Lição das Constantes, revista Lusíada Vol1/2 Novembro
1952
24- Existe uma certa indefinição quanto aos restantes membros da delegação portuguesa ao CIAM de 53.
Martins, João Paulo - em Arquitectura Moderna em Portugal, a difícil internacionalização, in Tostões Ana
(coord.) Arquitectura Moderna Portuguesa 1920-1970, p164 - refere a presença de Matos Veloso. Por outro
lado, Nelson Mota, em informação que muito agradecemos, no contexto da sua investigação levada a cabo
directamente nos arquivos dos CIAM forneceu-nos dados que vão no sentido de ser João Andresen quem

181
Esta viagem terá sido certamente palco para os três discutirem o que pensavam relativamente
à evolução da arquitectura e, se não o tinham feito já, para Viana e Távora partilharem com
Losa o que haviam vivido dois anos antes no CIAM de Hoddesdon e também, no tempo desde
aí decorrido, nas reuniões de trabalho em que nesse âmbito haviam participado.
Não procuramos sustentar que, destes problemas então em discussão, os três arquitectos que
agora se preparavam para participar no CIAM de 53 tivessem entendimentos semelhantes por
esta altura, apenas nos parece importante sublinhar que acabariam por tomar direcções
convergentes pouco depois.
Estes três arquitectos saíram do Porto a 16 de Julho e viajaram juntos durante três dias
passando por Salamanca, Valladolid, Burgos, S. Sebastian, Pirinéus, Feix, Carcassone.
Chegaram na véspera do inicio do Congresso a Aix-en-Provence, onde aquele se realizou
entre 20 e 25 de Julho, na Escola de Artes e Ofícios.
O programa do congresso, apesar de estipular as quatro funções do urbanismo, limitava as
discussões às questões relacionadas com a função habitar, incluindo as “extensões da
habitação” e o “meio envolvente”, com o objectivo de elaborar uma Carta do Habitat,
documento que se esperava sucedesse à Carta de Atenas e cuja formulação vinha sendo
adiada desde o VII CIAM realizado em Bergamo em 1949.
Neste congresso, segundo Eric Munford, a cisão que referimos entre a geração mais nova e
aquela que designa por middle generation acentua-se até à ruptura que se consumaria nos
encontros seguintes.25
A publicação que se esperava que resultasse do IX CIAM - CIAM9, The Human Habitat -
segundo o que Giedion e Thyrwitt haviam assente num encontro que realizam com Sert na sua
casa antes do congresso - deveria incluir não só a referida Carta do Habitat, mas também
abordar temas como o perímetro das deslocações a pé tratado também enquanto habitat e
analisado relativamente às diversas realidades mundiais; os meios de tornar patente a ligação
entre a célula de habitação e a envolvente; a necessidade de privacidade; a integração de
usuários de diferentes idades; a questão da concentração urbana versus dispersão; a relação do
Habitat com o Core; os meios para expressar a continuidade com o passado; e até a
necessidade de alegria no habitat.26
Estas foram de facto aspectos que emergiram, individualmente ou associados entre si, nas
discussões e nas cerca de 40 grelhas apresentadas no âmbito do Congresso.
Pela relevância que a participação neste congresso nos parece assumir na reflexão teórica do
grupo de arquitectos que temos vindo a seguir, parece-nos que vale a pena determo-nos um
pouco sobre ela.
Começemos pelo texto da comunicação portuguesa existente no Espólio de Távora27:
“En tenant compte des limitations imposées par les successives modifications du
programme initialement proposé; en tenant compte de l’impossibilité de recueillir les
éléments valables pour une analyse juste du problème de l’habitation. En tenant
compte que le problème de l’habitation n´attire suffisamment la attention de l’autorité

completa a delegação portuguesa. Note-se que face ao elevado número de participantes neste CIAM (aspecto
também não quantificável a partir dos dados actuais da historiografia, por muito diversos) não é de excluir a
possibilidade de se terem ambos (e até eventualmente outros) deslocado a Aix-en-Provence.
25- Mumford, Eric The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, p225.
26- Mumford, Eric The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, p226.
27- Espólio Fernado Távora. Fundação Marques da Silva FIMS, Porto.

182
et que par conséquence nous n’avons pas d’exemples à présenter, ni une expérience.
En tenant compte encore que les conditions économiques des architectes qui se vouent
– avec passion – a l’étude des problèmes que nous présentons maintenant, sont très
difficiles au Portugal; Notre Grille touche les sujets des grillions de la façon suivante:
I Urbanisme - On prétend démontrer que l´habitation, ne peut être considérée
isolément, c’est-a-dire que l’habitation totale n’existe que si elle s’intègre dans une
communauté, donc continuée pour les prolongements.
II Synthèses des Arts - Nous pensons que l’habitation, comme tout manifestation des
activités de l´architecte, doit être le résultat de la synthèse des trois arts. En outre, nous
pensons que pour nôtre cas, il sera nécessaire de faire une révision et la connaissance
correcte de la leçon du passée, donc connaitre et développer la véritable tradition.
III Formation de l´architecte -Nous n’avons pris en considération se sujet.
IV Technique - On présente la relation existante parmi le type de l’agglomération -
urbaine et rurale - et ce procédée de construction que lui corresponde, en arrivent a la
conclusion qu’il faut bien profiter de toutes techniques correctes à portée de
l´architecte pour la réalisation de l’habitat, surtout quand il s’agit du logis minimal.
V Législation - De l’analyse de la législation portugaise ressort l’impossibilité de
réaliser un habitat à l’échelle du pays et donc le besoin d’une législation basée sur la
réalité nationale.
VI Questions Sociales - Nous sommes d’avis que l´habitation devant être toujours
considérée comme un droit semblable au droit de la vie, doit être considérée en
fonction de l’individu sans jamais ignorer les conditions économiques et sociales.”
Este texto, que resultou da síntese dos contributos solicitados individualmente em reuniões
sucessivas aos membros da ODAM e CIAM-Porto, pode ser considerado como uma resenha
do que eram os aspectos relevantes para os arquitectos portuenses da 2ª geração dos
modernos, e confirma algumas das hipóteses levantadas neste trabalho.
Note-se a preocupação com a relação entre a habitação, a intervenção isolada e o contexto
urbano onde se insere; com a necessidade de fazer uma revisão e conhecer correctamente a
lição do passado e de conhecer e desenvolver a verdadeira tradição; com o estabelecimento
(que o inquérito viria a aprofundar) de relações entre as intervenções nos aglomerados
urbanos e rurais e com a reciprocidade da validade das técnicas construtivas a cada um deles
associadas, ou seja, a criação ou o reforço da sensibilidade que potencia o Inquérito à
Arquitectura Regional.
Note-se ainda a reafirmação do direito à habitação (no sentido do que já vinha dos textos do
Congresso de 48) e da necessidade de intervenção ao nível da legislação e enquadramento da
prática, que vinha sendo tentada, quer através das actividades individuais, quer através das
actividades da ODAM (como referimos, articuladas com as ICAT e revista Arquitectura,
lideradas por Keil do Amaral), quer ainda através da crescente participação no âmbito do
Sindicato Nacional dos Arquitectos, cujos corpos dirigentes seriam integrados por Losa,
Viana de Lima, Fernando Távora, João Andersen e Matos Veloso, ou seja pelos principais
participantes nestes congressos.28

28- Informação amavelmente cedida por João Afonso recolhida no âmbito da sua tese de doutoramento em
curso, sobre a actividade deste organismo.

183
Esta contribuição era o que os arquitectos portugueses já traziam na sua bagagem.
As dos outros grupos, com as quais puderam contactar durante o congresso, não deixaram
seguramente de os marcar também.
É neste congresso que emergem algumas personalidades e/ou grupos que assumirão papel
importante no debate arquitectónico.
É o caso de Allison (1928-1993) e Peter Smithson (1923-2003) - que haviam ganho
notoriedade com a sua miesiana Escola de Hustanton (1949) - e que questionam frontalmente
a cidade funcional, apresentando uma proposta urbana para Londres que tenta casar as
virtudes da cidade tradicional (e multifuncional), com uma multiplicação de edifícios
fortemente inspirados nas Unidades de Habitação de Le Corbusier.
Também a participação do grupo holandês foi bastante destacada e terá sido apreciada pelos
arquitectos portugueses. Não nos esqueçamos a atenção já dedicada por Távora ao texto de
Bakema no congresso anterior, arquitecto que neste congresso aparece juntamente com outra
personagem com quem Távora também viria a estabelecer relações importantes, Aldo Van
Eyck.
Outro contributo relevante para os portugueses neste congresso terá sido o dos arquitectos
nórdicos que, como vimos, eram já alvo da atenção destes arquitectos portugueses. O Grupo
Pagon - constituído por Christian Norberg-Schulz (1926-2000), Arne Korsmo (1900-1968),
Jorn Utzon (1918-2008) e Sverre Fehn (1924-2009) - lidava no seu país natal com problemas
que se aproximavam daqueles que apresentava a prática portuguesa, o que os levava a
defender uma postura muito semelhante: “O valor da tradição não se pode negar. Mas,
precisamente porque compreendemos e apreciamos o modo como as formas emergiram a
partir das suas próprias circunstâncias, não desejámos emulá-las”.29
Ainda relativamente às questões urbanas, uma das outras novidades deste congresso, depois
de algumas referências laterais ao tema noutros encontros, foi a tentativa de abordar um
problema que foi baptizado neste âmbito dos CIAM e em articulação com a UNESCO como
Casa para o Maior Número, problema que se tornou central no debate arquitectónico durante
e após o congresso.
A emergência deste candente problema estava ligada à divulgação do trabalho dos vários
grupos CIAM na América do Sul e principalmente no continente africano.
Este tema foi bastante importante para os arquitectos portugueses pois permitiu, por uma via
algo inesperada, alargar o debate a temas que não a pressão sobre a cidade industrial e a
reconstrução do pós-guerra, e passar a incluir problemas mais relacionados com zonas não
urbanizadas ou zonas onde era o próprio problema da urbanização que se punha, e não os
problemas que dela resultam. Estes problemas estavam muito mais presentes na realidade do
nosso país do que os anteriores e a sua aproximação a questões arquitectónicas, como as que
se punham em Portugal, associadas a uma maior exiguidade de meios do que a que era
apresentada pelas Unités e pelas intervenções de grande escala nos países europeus e nos
Estados-Unidos, revelava-se porventura mais útil para a prática dos nossos arquitectos.

29- PAGON-CIAM, citado em Borrego, Iván Rincón, Arquitectura nórdica en la segunda mitad del slglo xx in
Alexandra Cardoso, Jorge Pimentel, Fátima Sales (Eds.) Januário Godinho, Leituras do Movimento Moderno,
p201.

184
Assim, além das já referidas intervenções do casal Smithson, as apresentações geralmente
mais destacadas no âmbito do congresso são as do grupo CIAM-Algers coordenado por Pierre-
André Emery (1903-1982) e do Grupo Marroquino GAMMA.
As grelhas apresentadas por estes participantes viriam a ser publicadas na Architecture
d´Aujourd´hui precisamente com o título “L´habitat pour le plus grand nombre / Habitat for
the greatest number”.
Em particular a apresentada pelo grupo CIAM-Algers apresenta enormes semelhanças com o
grafismo que viriam a ter as grelhas portuguesas dos CIAM seguintes, nomeadamente as do
estudo para uma comunidade rural que Viana de Lima, Távora e Lixa Filgueiras coordenaram
e seria apresentado no CIAM seguinte, e também com o grafismo do próprio Inquérito à
Arquitectura Regional.
Como explica Eric Mumford:
“In a similar way to the Smithsons presentation, the Moroccan group´s conception of
habitat combined a changed attitude toward the urban design process with Corbusian
protypes inflected with a awareness of local cultural identities”30
Desta forma, a participação nos CIAM e em todo este debate parece ter dado um contributo
muito importante para as mudanças na arquitectura portuense neste período, e inclusivamente
para a forma como viria a ser encarado o Inquérito.
Depois do CIAM de Aix-en-Provénce, propriamente dito, continuaram a chegar elementos
relativos às discussões que aí tiveram lugar, até pelo menos 1956.
Por exemplo, nas conclusões do CIAM de 53, apenas recebidas no ano seguinte pelos
arquitectos participantes, podemos encontrar outros contributos importantes:
“A tarefa do Arquitecto é dar ao Homem instrumentos de vida (do lápis à cidade) que
sejam a expansão das suas necessidades, no seio do meio natural e humano em que se
encontra, a concepção da nossa arquitectura não será ligada às condições de fronteira
(internacionalismo ou nacionalismo) mas seguirá a variedade e as variações das
condições que são impostas pelo meio natural. (…) (…) mais ainda, no quadro destas
condições climatéricas formam-se tradições de vida.
Será necessário e imperativo compreender essas tradições e tê-las em conta na medida
em que sejam válidas se queremos estabelecer formas construídas que respondam às
necessidades criadas pelo clima. Por outro lado, é razoável aspirar à junção dos
materiais naturais adequados ao clima, de novos materiais na medida em que a
tecnologia possa ajudar a resolver os problemas que se põe.(…)31
E no relatório de outra comissão:
(…) A Arquitectura primitiva, abordada de uma forma acertada, tornou-se um símbolo
que reflecte directamente um modo de vida que navega através dos tempos, com as
suas profundas raízes nas condições humanas e cósmicas(...)
(...) Reconhecemos que os métodos técnicos modernos podem muito bem ser
combinados com o uso de materiais tradicionais. Para assegurar as necessidades
materiais do Homem primitivo, apenas era necessário dar-lhe um esqueleto estrutural,

30- Mumford, Eric The CIAM discourse on urbanism, 1928-1960, 2002, p236.
31- CIAM IX - Comissão 1: Urbanismo; Sub-comissão 1A, p10. Espólio AL/CB.

185
para que as suas faculdades inatas de decorar e transformar a Arquitectura pela sua
utilidade não sejam destruídas. (…) ”.32
Curiosamente esta informação que chega a este grupo de arquitectos portuenses não foi muito
divulgada, nem sequer no âmbito da revista Arquitectura, talvez por estes terem seguido à
risca as indicações que constavam dos documentos recebidos no âmbito da participação no
CIAM de 53 - “Publication interdite”.
Ainda neste ano de 1953, os arquitectos portugueses teriam oportunidade de participar num
outro encontro com profissionais de várias nacionalidades, realizado no nosso país, em
Lisboa, entre 20 e 27 de Setembro: o 3º Congresso da União Internacional de Arquitectos.
A participação de arquitectos de todo o mundo foi muito grande. A dos portugueses atingiu, a
julgar pela lista dos inscritos, uma enorme percentagem dos existentes em Portugal à época.
O Congresso tinha como tema central das discussões, muito apropriadamente face ao que
acabamos de referir, “A arquitectura na encruzilhada dos caminhos”.
No mesmo número em que dá conta das conclusões provisórias do CIAM de Aix-en-
Provénce, a Architecture d´aujourd´hui noticia igualmente a realização deste congresso em
Lisboa, dando conta de que seria acompanhado de três exposições: uma exposição itinerante
relacionada com o próprio congresso, uma exposição itinerante de Arquitectura Moderna
Brasileira e ainda uma exposição das técnicas tradicionais de construção portuguesas.33
Não é de somenos significado a escolha dos temas das duas exposições para acompanhar o
primeiro e único Congresso Internacional de Arquitectos realizado no nosso país:
. Uma Exposição de Arquitectura Moderna Brasileira - facto que vem confirmar a importância
de que esta se revestia para os arquitectos portugueses. O seu aparecimento neste ano de 53
tem, no entanto, mais um significado de confirmação de tal importância do que propriamente
um cariz inovador, já que nesta altura aquela era sobejamente conhecida dos arquitectos mais
representativos do nosso país (no caso dos arquitectos portuenses já estaria até na sua curva
descendente enquanto influência, substituída pelas que referimos a propósito dos eventos
ligados aos CIAM).
. Uma Exposição de Técnicas de Construção Portuguesa - não realizada. Sublinhe-se que da
publicação que reúne as actas deste 3º Congresso da UIA, percebe-se também que Fernando
Távora era o responsável pela organização desta exposição34, no que constitui desde logo um
sinal do seu futuro envolvimento nesta questão.
Na mesma publicação relativa ao Congresso da UIA de 53 podem encontrar-se quatro
comunicações de arquitectos portugueses feitas nesse âmbito: Pardal Monteiro, Januário
Godinho, Arménio Losa e João Andresen.
Se as comunicações dos dois primeiros não se revestem de particular interesse para os
assuntos em questão, nas intervenções de Andersen e Losa, parece existir uma lógica conjunta
que reflecte já alguns aspectos tratados em Aix-en-Provénce, onde, recorde-se, ambos haviam
estado presentes. Referem-se as novas terminologias de Habitat, Unidade de Habitação,
Unidade de Vizinhança e Prolongamentos da Habitação - terminologia que Losa manterá
sempre nos seus planos urbanísticos -, os trabalhos do grupo de Marrocos e a designação de

32- CIAM IX - Comissão II: Síntese das artes plásticas, p20 Espólio AL/CB.
33- Revista Architecture d´aujourd´hui, nº 48 Julho 1953.
34- UIA Troisiéme Congrés de l'Union Internationale des Architectes 1953, p447.

186
Michel Ecochard (1905-1985) de Habitação para o maior número (o que confirma a
importância que lhes atribuímos) . Reforça-se a defesa do direito à habitação como universal e
inalienável e sublinha-se o problema da habitação incluindo o da habitação rural. Apresenta-
se ainda uma das grelhas já apresentada nesse CIAM, completada por uma outra elaborada
sobre o mesmo esquema que pode ou não ter também sido reaproveitada do dito congresso.35
A exposição prevista para acompanhar o congresso da UIA em Lisboa e dedicada às técnicas
tradicionais de construção, por motivos que desconhecemos, acabaria por não se realizar, mas
Carlos Ramos, na sessão de abertura aproveita o discurso inaugural deste congresso não só
para lamentar a impossibilidade de a realizar referindo-a como “uma vez mais de entre outras
tentativas já sugeridas e igualmente perdidas” 36 - mas também para:
“(...)pedir a sua Excia. Ministro das Obras Públicas a quem a palavra tradição toca,
como a nós todos, as profundidades da sua alma, de tomar nota da prioridade desta
iniciativa e pedir ao Governo da Nação para nos fornecer os meios de proceder sem
mais atraso aos inquéritos, aos inventários e aos trabalhos relacionados que esta tarefa
exige e que é urgente realizar.”37
Só dois anos mais tarde, em 1955, o apelo veemente de Carlos Ramos feito nesse congresso
iria, finalmente, surtir efeito e unificar os arquitectos de todo o país em torno desse desígnio
que foi a realização do Inquérito à Arquitectura Regional.

Conclusão
O debate em curso no âmbito dos CIAM renovou o interesse relativamente à integração e
radicação local da arquitectura, problemas ainda em aberto desde da década de 40, e logo
expressos nos textos seminais de Keil do Amaral - “Uma Iniciativa Necessária” - e Fernando
Távora - "O Problema da Casa Portuguesa”.
É importante também ter presente o modo como Lúcio Costa propunha uma linha de
continuidade da arquitectura moderna brasileira com as suas raízes portuguesas, assim as
como referidas relações entre arquitectura vernacular e arquitectura moderna propostas pelos
arquitectos italianos e espanhóis.
Mas se, como Távora descreve, esta pluralidade orientações se traduzia numa certa angústia,
simultaneamente, dizemos nós, ela produziu um quadro de enorme fertilidade de pensamento.
Este quadro, testemunha do sincretismo de referências que defendemos verificar-se no
período do pós-guerra no contexto arquitectónico português, permitirá, num processo de
nacionalização dessas problemáticas, duradouras sínteses de cariz eminentemente local.
Os factos apontados constituem desde logo prova de que generalizações que se têm feito
sobre a relação dos arquitectos da Segunda Geração dos Modernos com o Inquérito à
Arquitectura Regional, pecam por superficialidade.

35- UIA Troisiéme Congrés de l'Union Internationale des Architectes 1953, pp 305-319
36- Ramos, Carlos Séance Sollenelle d´ouverutre in UIA Troisiéme Congrés de l'Union Internationale des
Architectes 1953, p14.
37- Ramos, Carlos Séance Sollenelle d´ouverutre in UIA Troisiéme Congrés de l'Union Internationale des
Architectes 1953, p14.

187
Assim não podemos concordar que o período de meados da década de 20 seja, como diz Nuno
Portas, o “único momento em que se repercute neste país, e quase sem atraso, um movimento
de vanguarda internacional”.38
É nossa opinião que em Portugal no início dos anos 50 há uma quantidade de arquitectos
considerável com perfeito conhecimento e em perfeita sintonia com o debate arquitectónico
internacional, conhecimento que contribui decisivamente para a construção de uma síntese
própria e local.
Todas estas questões que temos vindo a analisar, maturadas com a evolução do debate
arquitectónico que referimos atrás relativamente aos anos 50, dentro e fora dos CIAM, estão
presentes em 1955 no arranque dos trabalhos de campo do “Inquérito à Arquitectura Regional
Portuguesa”.
Assim, não é rigoroso dizer que seja o Inquérito que provoca a revisão crítica das premissas
do Movimento Moderno, pois, como mostramos, ela já está em curso no seio do próprio
movimento.
O Inquérito contribuiu profundamente para tal revisão, mas esta é alimentada dialecticamente
por ambos: Vanguarda e tradição têm neste período um sentido convergente, e assumem um
papel fundamental para a compreensão da arquitectura portuguesa, não só do período do
segundo pós-guerra, mas também da nossa contemporaneidade.

Trabalho cofinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER) através


do COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização (POCI) e
por fundos nacionais através da FCT, no âmbito do projeto POCI-01-0145-FEDER-007744

Bibliografia
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38- Portas, Nuno - A evolução da arquitectura moderna em Portugal, p708.

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Policopiado, 1996

Espólios
Espólio Arménio Losa/Cassiano Barbosa - CDA/FAUP
Espólio da família de Arménio Losa
Espólio Viana de Lima - CDA/FAUP
Espólio Fernando Távora - Fundação Marques da Silva

189
Descontextualização e impactos das casas-cueva de Galera - Granada: de moradia
popular a moradia de luxo1

María José Reche Domingo


Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo – FEC- UNICAMP- Brasil
[email protected]

Tomás Antonio Moreira


Instituto de Arquitetura e Urbanismo – USP – São Carlos, Brasil
[email protected]

Resumo
A arquitetura escavada vem dando refúgio ao homem desde a pré-história.
Característica dos países do mediterrâneo, é na Espanha onde essa arquitetura apresenta-
se em maior número e forma parte da arquitetura vernacular. Encontram-se exemplos de
cuevas com diferentes usos ao longo do país: casas-cueva, silos, adegas, poços para
neve, entre outros. As casas-cueva são um exemplo de moradia popular escavada
vigente até hoje que se caracteriza pelo aproveitamento das condições naturais do
terreno de cada região. A autoconstrução, o baixo custo e as propriedades isotérmicas
no interior destas fizeram das casas-cueva um dos exemplos mais peculiares de moradia
popular na Espanha, com maior afluência no sul do país. O objetivo específico deste
trabalho é analisar as transformações de uso das casas-cueva na cidade de Galera, na
Espanha. Esta cidade se destaca pela grande presença de cuevas e têm-se dados da
existência destas arquiteturas como moradia já no século XVIII. Em sua origem, este
tipo de habitação relacionou-se às classes mais baixas da sociedade. No entanto, no final
do século XX, após a população da cidade diminuir consideravelmente, o município
adotou um discurso patrimonialista e incentivou diversas políticas para o
desenvolvimento do turismo cuevero. Estas políticas ocasionaram importantes
transformações tanto no nível de uso das casas-cueva quanto no perfil de seus usuários.
Metodologicamente, esse trabalho se desenvolve nas seguintes etapas: apresentação de
um breve quadro das casas-cueva na Espanha, como modelo de arquitetura vernacular;
estudo desta tipologia arquitetônica em Galera e estudo das transformações de uso nos
últimos 50 anos. Dentre as conclusões destacam-se a perda do caráter, da tradição e do
uso original destas arquiteturas influenciada pelos novos usuários. Antes moradia de
agricultores, as casas-cueva de Galera são agora recurso econômico e turístico
destinado a moradores temporários e estrangeiros.

Palavras-chave: Casas-cueva, patrimônio arquitetônico, arquitetura escavada,


arquitetura popular, neorruralismo.

1
Este artigo é resultado de parte do trabalho de pesquisa de Iniciação Científica “Direito à moradia: origem e
transformação das casas-cueva em Galera, Granada” Bolsista: María José Reche Domingo. Orientador: Prof.
Drº. Tomás Antonio Moreira, IAU-USP, Brasil. Financiamento: FAPESP nº 2015/14858-2. 2015- 2016.

190
1. Arquitetura escavada
Existe uma forte ligação entre os países do mediterrâneo e a arquitetura escavada, já que
essa se encontra principalmente na Itália, França, Sérvia, Palestina, Síria, Egito, Líbia,
Tunísia, Marrocos e Espanha. Além desses países, exemplos mais esparsos são
encontrados também na Turquia, no Iraque, Iran, estendendo-se até a Ásia central até a
China2.

Dentre os países do mediterrâneo, a Espanha é o país com maior número desta


arquitetura e encontram-se exemplos com diferentes fins: armazenamento, moradia,
abrigo de animais, adegas e poços para neve, entre outros3. Todos os exemplos
encontrados ao longo do país têm em comum métodos e processos construtivos
similares4.

Presentes em várias regiões da Espanha, as casas-cueva são um exemplo de arquitetura


vernacular com maior concentração no sul do país, especialmente na Província de
Granada5 6. Muitos autores evidenciam que essas construções já estavam presentes
desde a Idade Média 7 8. Desde a sua origem, as casas-cueva foram vinculadas às
classes mais baixas da sociedade e à trabalhadores do campo. O sucesso das cuevas
como moradias populares está associado à facilidade de construção, o baixo custo e às
boas condições climáticas que oferecem. No entanto, na segunda metade do século XX,
houve uma redução importante no número de casas-cueva habitadas. Tanto por causa da
emigração destas cidades, quanto pela mudança dos moradores destas para vivendas
construídas, muitos dos assentamentos cueveros foram desabitados e muitas cuevas
abandonadas. Foi apenas na década de 1990 que estas arquiteturas começaram a
valorizar-se novamente mediante um processo de recuperação de vivendas tradicionais
cujo objetivo era a atração do turismo9. Neste processo, determinado por agentes tanto
públicos como privados, os promotores imobiliários e os grupos de estrangeiros e
turistas tiveram um papel fundamental que alterou notavelmente as cidades cueveras10.
Estes processos e os novos moradores da cidade trouxeram consigo mudanças no uso
das casas-cueva e no perfil dos usuários11.

2
URDIALES VIEDMA, M.E. – Las cuevas-vivienda en Andalucía: de infravivienda a vivienda de
futuro.
3
DE CÁRDENAS Y CHÁVARRI, J. [et al.] – Sostenibilidad y mecanismos bioclimáticos de la
arquitectura vernácula española: el caso de las construcciones subterráneas, p.3.
4
SORROCHE CUERVA, M.A. – La casa-cueva. ¿Un modelo de recuperación de la arquitectura
vernácula en la provincia de Granada?, p.358.
5
URDIALES VIEDMA, M.E., cit. 2.
6
GIL CRESPO, I.J. [et al.] – La arquitectura popular excavada: técnicas constructivas y mecanismos
bioclimáticos (el caso de las casas-cueva del valle del Tajuña en Madrid).
7
PÉREZ CASAS, A. – Los gitanos y las cuevas, en Granada, p.2.
8
BERTRAND, M. – Notes sur les cuevas artificielles de la vallée de l’Alhama de Guadix, p.64.
9
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. – De infravivienda a recurso turístico, las casas-cueva de Baza y Guadix,
p.21.
10
MOCHÓN ESCOBAR, A. [et al.] – Nuevas realidades poblacionales en el rural profundo. Nuevos
residentes extranjeros con fines de ocio y retiro en el altiplano granadino.
11
MEJÍAS DEL RÍO, J.M., cit. 9.

191
É assim, objetivo principal deste trabalho mostrar a cidade de Galera - Granada como
estudo de caso de cidade que viveu e está vivenciando estas mudanças. Além do estudo
destas moradias na cidade de Galera, apresenta-se uma breve análise das características
principais e da origem das casas-cueva como arquitetura vernacular espanhola.

2. Objetivos e metodologia
Esse trabalho tem como objetivo principal o estudo da descontextualização e seus
consequentes impactos nas casas-cueva na cidade de Galera, Granada.
Metodologicamente, optou-se pelas seguintes etapas: apresentação de um breve quadro
das casas-cueva na Espanha como modelo de arquitetura vernacular; estudo desta
tipologia arquitetônica em Galera, Granada; e estudo das transformações de uso nos
últimos 50 anos.

3. CASAS-CUEVA como modelo de arquitetura popular espanhola


Para Sorroche12 a casa-cueva é sem dúvida o melhor exponente de adaptação do homem
ao meio refletido através da vivenda, na qual aproveita as condições extremas que
oferece o território em um setor concreto da geografia. O hábitat escavado encontra no
sul do país um grande espaço de representação, porém não é único desta região nem em
todos os casos trata-se de escavações dedicadas à vivenda.

Segundo Gil et al.13 encontraram-se mais de 44 assentamentos com o topônimo de


cuevas o cueva na Espanha, entre os quais os autores destacam: Tierras de Campos
(Valladolid e Palencia), o valo do rio Ebro em La Rioja e Navarra, o vale do rio Jalón
(Zaragoza), o vale do rio Tajuña (Madrid), La Mancha (Toledo e Ciudad Real), La
Manchuela e o vale do rio Júcar (Albacete e Alicante), na horta de Valencia, no
altiplano de Baza-Huéscar (Granada), nos vales dos rios Andarax e Almanzora
(Almería) e em Gran Canaria e Baleares.

12
SORROCHE, M.A. cit. 4.
13
GIL CRESPO, I.J. [et al.], cit.6.

192
Figura 1. Assentamentos de arquitetura subterrânea na Espanha. Fonte: Cárdenas y Chávarri, J. et al.,
2008.

Observando o mapa da Figura 01, constata-se que é no sul do país onde existem mais
destas vivendas subterrâneas, concretamente em Jaen, Almería e Granada. Já no começo
dos anos 60 essa distribuição estava presente, a Andaluzia já era a região com maior
número de cuevas habitadas, representando 49% das famílias que viviam em cuevas de
todo o país. Só a Provincia de Granada representava 41% do total da Espanha14.

3.1. Origem das cuevas na Espanha


No caso da origem das casas-cueva do vale do Tajuña, em Madrid, Gil et al.15 afirmam
que esse hábitat já foi adotado pelos colonizadores visigodos e muçulmanos, mas que
foi no século XII (1118-1157), depois da reconquista de Toledo de Alfonso VI, quando
essa tipologia começou a assentar-se significativamente formando bairros cueveros.

Na Andaluzia, as referências das cuevas habitadas começam a surgir no século XV.


Sorroche16, referindo-se as cuevas do antigo reino de Granada, aponta que a proliferação
destas moradias populares é resultado direto de uma situação histórica concreta na
região. Um conjunto de acontecimentos históricos que mostram a estreita relação entre
arquitetura vernácula e história. Foi fundamentalmente nos séculos XV e XVI, com as
Revueltas de las Alpujarras e a expulsão dos mouriscos em 1607, que aparecem em
maior medida o número de casas-cueva17.

14
URDIALES, cit.2.
15
GIL CRESPO, I.J. [et al.], cit.6.
16
SORROCHE, M.A. cit.4.
17
Apud FLORES, C. – La España popular: Raíces de una arquitectura vernácula.

193
Espinar18 também confirma a existência de um documento em Guadix já no ano 1551
com o projeto de construção de uma cueva. E ao mesmo tempo, Bertrand19 não tem
dúvida da origem medieval das casas-cuevas de Guadix. ”Les cueves artificielles, dans
cette région, sont pratiquement les seuls témoins de l’habitat rural de la période
médiévale, et très vraisemblablement du haut Moyen-Age, qui aient pu se conserver
intacts jusqu’à nos jours”.

No entanto, se a origem é datada na Idade Média, é dos séculos XVIII até metade a do
XX que esse tipo de moradia teve maior esplendor.20 Viedma data no século XIX e
durante a primeira metade do século XX a principal expansão destas casas. Segundo a
autora, este período coincide com etapas de expansão demográfica, imigração e
inauguração de novas terras para cultivo 21. Na época posterior à Guerra Civil
espanhola, numerosas famílias adotaram a cueva como moradia devido a
impossibilidade de reconstruir suas casas. Este crescimento se manteve por causa do
aumento da população e consequentemente da necessidade de moradia e do acréscimo
da pobreza até os anos 60. No entanto, a partir dos anos 60 – 70, segundo Mejías del
Río22 o número de casas-cueva diminuiu consideravelmente. A principal razão foi a
falta de recursos no setor agropecuário e a consequente emigração que sofreram as
cidades pequenas. Por outro lado, a depreciação do preço da vivenda construída nas
cidades também permitiu a muitos moradores mudarem-se para novas casas na cidade e
abandonarem as cuevas. Cabe destacar que nos anos 70-80 a maioria das casas
começaram a ter conexão elétrica, agua e esgoto, porém, não sempre estas instalações
básicas chegavam com facilidade aos bairros cueveros.

Enquanto à questão socioeconômica, desde sua origem, as cuevas associaram-se a


grupos com piores condições. O baixo custo e a facilidade na construção fazem desta
arquitetura uma arquitetura de fácil aquisição. Na cidade de Granada, existe uma forte
ligação entre os ciganos e as casas-cueva de um modo depreciativo. ”Tradicionalmente
se viene asociando al gitano con la cueva, que constituía en Granada su vivienda por
antonomasia, sin tener presente que esta ha sido utilizada por el castellano”23.

3.2. Tipologias e construção


Os assentamentos de cuevas apresentam um urbanismo sui generis diferenciado. Em
relação à implantação destes assentamentos, esta responde a questões importantes: por
um lado, a questão social, pois estão relacionadas as classes mais baixas24 e a grupos

18
Apud ESPINAR MORENO, M. – Materiales y sistemas constructivos de la provincia de Granada en
los siglos XV y XVI.
19
BERTRAND, M. cit. 8.
20
Apud SEIJO ALONSO, F.G. – Arquitectura alicantina. La vivienda popular I.
21
URDIALES, cit. 2.
22
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. cit. 9, p.20.
23
PÉREZ CASAS, A. cit. 7. p.1.
24
DE CÁRDENAS, J. [et al.], cit. 3.

194
afastados da sociedade25. Por outro, por motivos construtivos referentes às
características geológicas do terreno. Agrupadas formando comunidades compactas a
grande parte das vezes, situam-se perto de rios ou montanhas, evitando edificar na parte
horizontal para obter o maior rendimento e aproveitamento agrícola26.

Piedecausa-García27 apresenta um estudo extenso sobre arquitetura escavada em


diferentes regiões do mundo e os analisa dividindo-os em quatro subtipos dependendo
da direção da escavação: de escavação horizontal, de escavação vertical, de escavação
superficial e de escavação mista. Na Espanha, a grande maioria dos exemplos
encontrados são de escavação horizontal. No entanto, localizam-se exemplos de
escavação mista na região do Levante espanhol em cidades como Paterna, Benimamet
ou Bétera, na Provincia de Valencia.

Imagem 1. Casa-cueva em Galera. Fonte: Acervo Imagem 2. Cassa-cueva de Paterna. Fonte:


pessoal. www.paterna.es

Enquanto aos assentamentos, a autora diferencia dois tipos de escavação horizontal:


assentamentos lineares – cidades penhasco-, e assentamentos circulares – cidades em
anfiteatro. Os assentamentos em penhasco situam-se em ladeiras muito pronunciadas
com difícil acesso e apresentam significado fundamentalmente defensivo. Por outro
lado, os assentamentos em anfiteatro, são exemplos similares aos anteriores não
desenvolvidos linearmente e sim em forma de curva determinando um espaço central
convergente.

No que se refere a escavação, na escolha do terreno, é preferível construir em terrenos


formados por materiais vulcânicos ou sedimentários, fáceis de escavar e com
capacidade de endurecer com o tempo. De construção relativamente fácil e rápida,
muitas vezes são os futuros moradores ou donos do terreno, junto ao maestro de pico,
quem constroem a vivenda. O equipo encarregado da construção estava formado por um

25
PÉREZ CASAS, A. cit. 7.
26
SORROCHE, MA. cit. 4.
27
PIEDECAUSA-GARCIA, B. La vivienda tradicional excavada: las casas-cueva de Crevillente.
Análisis tipológico y medidas de calidad del aire, p. 19-34.

195
maestro de pico, um ou dos picadores ou um ou vários peões, pudendo ser estes últimos
os próprios moradores28.
Segundo de Cárdenas y Chávarri29, estudando os mapas litológicos e geológicos da
Espanha, percebe-se que estas arquiteturas somente existem em terrenos calcários e
argilosos. Os terrenos calcários formaram-se na Era Secundária e parte da Terciaria e
nestes predominam as rochas sedimentares como as calcárias, arenistas e margas. Os
solos formados por estas rochas permitem fácil escavação, além de endurecer-se
rapidamente com o contato do ar. Por outro lado, os solos argilosos são os mais
recentes, formados nas Eras Terciaria e Quaternária. Estes ocupam as bacias dos rios e
estão formados por argilas, margas, gessos e areias. Este tipo de rocha apresenta uma
brandura e impermeabilidade idônea para o desenvolvimento de construções
subterrâneas. Uma das características mais singulares deste tipo de construção é que se
baseia na subtração e não na adição de material.

De uma maneira geral, a escavação iniciava-se com um corte vertical no terreno


servindo este de fachada e liberando um espaço na frente, a plazoleta ou solana.
Posteriormente, traçava-se uma porta com forma de arco de profundidade aproximada
de 1 a 1,5 metros, sendo esta a espessura das paredes estruturais. A partir deste espaço,
escavava-se a primeira estância que geralmente tinha abóbada de berço ou arista e
planta quadrada de entre 2,5 e 3 m de lado. Seguido desta habitação, escavavam-se o
resto dos quartos. O número de estâncias da casa dependia da extensão da colina, da
existência de cuevas vizinhas ou das necessidades e situação económica dos moradores.
30
O processo de escavação é muito rápido. “It takes two Guadix men only a few months
to carve out a four-roomed house, with a least two rooms fronting the rock face”31.

Encontramos na bibliografia diferentes classificações destas tipologias segundo:


trabalho dos moradores: jornaleiros ou agricultores 32 33; uso: moradia, trabalho, misto;
e, o mais comum, segundo a disposição dos quartos: cueva túnel, cueva fachada, tipo
misto34. No entanto, em todas as tipologias é comum o excelente comportamento
térmico frente às oscilações do ambiente exterior. A temperatura interior em uma cueva
com boa orientação oscila entre os 16 – 20ºC, o que favorece economicamente os
moradores já que evitam gastos de calefação e refrigeração.

Os elementos mais significativos e comuns a todas as tipologias são a plazoleta ou


solana, as fachadas brancas e as chaminés.
A plazoleta ou solana é o espaço que precede as vivendas e era destinado originalmente
ao curral ou horta. Em ocasiões, nesse espaço também havia um algibe que recolhia as
águas provenientes da ladeira. A fachada costuma ser opaca, com o espaço da porta de

28
BERTRAND, M. cit.8, p. 58.
29
DE CÁRDENAS, J. [et al.], cit. 3, p.3-4.
30
PIEDECAUSA-GARCÍA, B., cit. 27, p. 94.
31
Apud OLIVER, P. – The vernacular house world wide, p.86.
32
DE CÁRDENAS, J. [et al.], cit. 3.
33
BERTRAND, M. cit.8.
34
PÉREZ CASAS, A. cit. 7.

196
acesso e poucas aberturas. O número reduzido de janelas está relacionado com o
funcionamento térmico da cueva, com o intuito de manter a temperatura interior. Estas
perfurações para as janelas eram feitas de dentro para fora para não errar a localização e
favorecer a iluminação35. Segundo Aranda Navarro, as janelas e portas costumavam ser
cercadas por tijolos para melhor assentamento dos caixilhos. As fachadas contavam
também, para proteger da intempérie, com uma pequena cobertura salientando-se uns 50
cm da colina.
As chaminés são outro marco característico da arquitetura das casas-cueva. Construídas
com diversas formas – retangular, piramidal, cônica ou circular-, cumprem a função de
ventilação, iluminação e evacuação da fumaça da cozinha. “Estos elementos
aparejados, todos ellos pintados de blanco para diferenciarlos del ocre natural del
terreno, se inspiran en un supuesto folclore local, prevaleciendo la verdadera
naturaleza subterránea del barrio sobre los intentos de imitación de la casa
construida” 36.

4. CASAS-CUEVA de Galera: transformação do uso, descontextualização e


impactos.
A cidade de Galera, localizada no altiplano de Baza-Huéscar, é uma das cidades da
Província de Granada caracterizadas pela grande presença de casas-cueva. Pouco
estudada até agora, a cidade oferece um interesse particular no que se refere às
habitações trogloditas. Por um lado, segundo dados da Associação de Turismo do
Altiplano de Granada, Galera é pioneira no turismo das casas-cueva e o destino número
um do altiplano em turismo cultural. Por outro lado, no seu entorno encontram-se duas
jazidas arqueológicas que revelam a existência de povoados morando nessas terras na
antiguidade: o Castellón Alto (Idade de Bronze) e a Necrópolis de Tútugi (IV-III a.C)
.37. “El Castellón Alto posee una serie de terrazas naturales en las que se situó el
poblado, adaptándose a la configuración del terreno” 38.

Durante a Idade de Bronze desenvolveu-se no sudeste da Península Ibérica a Cultura do


Argar. O Castellón Alto pertence a esta época da pré-história e devido às boas condições
da jazida conseguiu-se reconstruir o urbanismo e o modo de vida deste povoado.39 O
urbanismo desta cultura destaca-se pela agrupação de casas construídas adaptadas à
configuração do terreno mediante a construção de terraços escalonados. Sem ser o
objetivo deste trabalho, é interessante destacar a semelhança entre o urbanismo argárico
com o urbanismo cuevero atual da cidade. Não existem ligação nem estudos feitos até o
momento sobre a possível relação destas moradias argáricas com as casas-cuevas atuais,

35
BERTRAND, M., cit. 8.
36
ARANDA NAVARRO, F. La arquitectura del material único: arquitectura subterránea excavada en
Levante, p. 95.
37
OLIVA RODRIGUEZ-ARIZA, M. [et al] - Conservación y puesta en valor del yacimiento argárico de
Castellón Alto (Galera, Granada).
38
MOLINA GONZÁLEZ, F. [et al] - La sepultura 121 del yacimiento argárico del Castellón Alto
(Galera, Granada), p.120.
39
OLIVA RODRIGUEZ-ARIZA, M. [et al], cit. 37, p. 122.

197
porém, essa informação é interessante no que diz a respeito da forma de adaptação ao
terreno naquela época, comparável ao atual.

Imagem 3. El Castellón Imagem 4. Desenho do Castellón Alto. Fonte:


Alto.Fonte: www.granadamagazine.es
www.casacuevarural.com

4.1. As casas-cueva na cidade


O urbanismo troglodita de ruas estreitas e casas-cueva vestidas de branco de Galera não
difere muito do das cidades vizinhas. As casas-cueva na cidade exibem as mesmas
características e elementos principais que as conterrâneas: fachada branca, plazoleta,
solana e chaminés.

Enquanto à origem, dar uma data específica sobre a origem destas arquiteturas na cidade
é impossível devido à ausência de documentos mais precisos e de uma cronologia
tipológica das cuevas.40 Será só no século XVIII, com o Catastro del Marqués de la
Enseada quando aparecerão as primeiras referências à cuevas na cidade. “ay ziento
cincuenta casas a corta diferienzia y de ellas ocho arruinadas y diez cuevas las que se
allan algunas grabadas con diferentes zensos y memorias que sus dueños abrán dado
en sus relaciones (…)”41.

Ao contrário de outras cidades vizinhas, não existem evidencias da relação das casas-
cueva de Galera com os mouriscos na Idade Média 42 43.Segundo González Barberán,
pode-se assegurar que as casas-cueva na região foram um fenômeno próprio do século
XIX. Para o autor, foram dois os motivos principais que propiciaram o aumento da
demanda destas moradias na região. Por um lado, muitos imigrantes chegaram do leste
espanhol, o Levante, por causa de uma grande sequia. Por outro, a Rainha Isabel II fez a
Desamortização de terras para particulares na comarca, o que fez precisar de mais mão
de obra para trabalhar as novas terras. Esta emigração dos povos do Levante espanhol
junto à mão de obra que veio para trabalhar as novas terras, fez das casas-cueva uma
tipologia muito demandada, possivelmente imitando as construções já existentes de
assentamentos vizinhos, como pode ser o caso de Guadix.

40
BERTRAND, M.; SÁNCHEZ VICIANA, J.R. - Valoración del conjunto de cuevas del cerro de la
Virgen de la Galera.
41
Apud Arquivo Municipal de Galera, Seção II. Nº3.
42
GONZÁLEZ BARBERÁN, V. - Las cuevas, sus barrios y su origen en nuestra tierra, p.7.
43
FERNÁNDEZ, J.; GARCÍA, J.M. - Galera. Treinta cinco siglos de historia, p. 447.

198
O principal setor que habitou as casas-cueva durante um largo período histórico sempre
esteve formado por jornaleiros sem terras ou pequenos proprietários. No entanto, nas
cidades de Galera e Orce também medianos proprietários habitavam este tipo de
moradia44.

Imagem 5. Bairro de casas-cueva, Galera, Granada. Fonte: Acervo pessoal.

O aumento da população na cidade de Galera e a consequente demanda das cuevas


como moradia foi aumentando até a segunda metade do século XX. Como aconteceu em
outras regiões, devido à ausência de oportunidades laborais fora do setor agropecuário,
grande parte da população se deslocou para zonas costeiras ou cidades maiores.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística da Espanha, o número de cuevas habitadas
na cidade de Galera diminuiu mais de 50% do ano 1981 para o ano de 1991, reduzindo-
se para 104. Pode-se observar o grande descenso da população e do total de domicílios
habitados na cidade a partir de 1960 nos gráficos 1 e 2.

44
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. cit. 9, p.20.

199
6000
Populaçao total Total de domicílios
1500
4000
1000
2000 500

0
0

1842
1860
1900
1910
1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
2010
2015
1842

1910
1860
1900

1920
1930
1940
1950
1960
1970
1981
1991
2001
2010
2015
Gráfico 1. População total na cidade. Fonte: INE Gráfico 1. Total de domicílios. Fonte: INE 2015.
2015. Elaboração própria. Elaboração própria.

4.2. O turismo cuevero


Como resposta a esse declínio da cueva dos anos 60, a meados de 1990 a cidade de
Galera iniciou um processo de recuperação destas vivendas tradicionais para uso
turístico. Este processo não é exclusivo da cidade de Galera nem do sul do país, porém,
para Mejías del Río apresenta maior interesse na depressão Guadix-Baza45 e segundo
dados da Associação de Turismo do Altiplano de Granada Galera é pioneira em turismo
troglodita.

Este ressurgimento do hábitat troglodita para uso turístico contou com financiamento do
Governo. O governo de Granada, Diputación de Granada, junto as administrações e
promotores locais de cada cidade, aproveitou as cuevas como recurso econômico. De
acordo com dados da Diputación46, destinaram-se 17 milhões de euros para toda a
província com o fim de reabilitar ou construir cuevas para uso turístico e estavam
pendentes mais 24 milhões com o mesmo fim na data da publicação. O objetivo
principal destas políticas era o aproveitamento do hábitat troglodita como parte do
patrimônio histórico e cultural e dotar de diferentes usos além de moradia: restaurantes,
adegas, zambras, entre outros.
Vizinhos e ex-moradores adquiriram cuevas e casas-cueva abandonadas e as
reabilitaram como hotéis rurais, segunda residência ou para a venda. Manifestou-se uma
forte demanda por alojamentos temporários em casas-cueva no fim do século XX e no
começo do XXI, no entanto, não temos dados exatos da quantidade de cuevas que foram
acondicionadas para o uso turístico.

Acompanhando este processo de ressuscitação da habitação troglodita, aparece também


no começo dos anos 2000 o que Mochón Escobar et al. denominam de neorruralismo

45
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. cit. 9.
46
DIPUTACIÓN DE GRANADA. Cuevas en la Provincia de Granada. Aspectos técnicos, urbanísticos,
legales, patrimoniales y perspectivas para el desarrollo local de la provincia.

200
no altiplano de Granada47. Muitos estrangeiros começaram a chegar na cidade em
busca de lazer e descanso. Em Galera a porcentagem de estrangeiros morando de
maneira permanente é bastante significativa, passando de 0,31% em 2001 a 11,1% em
2011, dos quais 10,1% são de origem britânica.48 Enquanto à idade, 54% destes
estrangeiros têm entre 45-65 anos e 23% têm mais de 65.
Segundo os autores, este coletivo de novos moradores contribui para a ruptura do
despovoamento e para a conservação do patrimônio arquitetônico. Também, colaboram
com o aumento do consumo na cidade pois realizam as compras nos comércios locais.

Imagem 6. Cueva, Galera, Granada. Fonte: Acervo pessoal.

Este turismo temporário e os novos moradores, propiciaram, além da valoração do


patrimônio arquitetônico, o fomento de atividades culturais e de ecoturismo na região.
Criou-se, com o intuito de promover o turismo e o patrimônio da região, a Asociación
de Turismo do Altiplano de Granada. Segundo dados desta associação, Galera é
considerada a cidade mais rica em patrimônio cultural da região, devido as duas jazidas
e ao museu arqueológico da cidade. É interessante destacar que no museu encontra-se
uma parte dedicada ao Museu da Cueva, onde se imita a modo de mostruário como era
uma casa-cueva de jornaleiros antigamente.

Como estudo de campo visitamos a cidade de Galera em várias ocasiões. Uma das
visitas realizadas foi no mês de agosto de 2015. No mês de agosto são as festas
patronais da cidade e é quando a cidade recebe mais turistas e familiares de moradores.

47
MOCHÓN ESCOBAR, A. [et al], cit. 10.
48
Instituto Nacional de Estatística - INE. Espanha. 2011.

201
Em esta ocasião, tivemos a oportunidade de entrevistar seis famílias. Das seis, duas
tinham casas-cueva herdada de familiares já defuntos e a usavam como segunda
residência exclusivamente nas férias. Outras duas contaram que tinham vendido a antiga
cueva da família para famílias de estrangeiros (canadenses e ingleses, no caso) e que
estavam passando o final de semana em casa de familiares. Outro morador da cidade
contou que possuía uma cueva como moradia de animais, mas que que tinha vendido
recentemente para uma família de ingleses. E por último, o ultimo entrevistado
comentou que continuavam indo passar as férias na cidade como antigo costume, mas
que alugavam casas-cueva por temporada cada vez que iam.
Como pôde-se observar nas diferentes visitas de campo, a cidade apresenta maior
número de turistas em épocas de temporada alta: férias de verão, semana santa, natal e
fim de ano; épocas de férias e que coincidem com costumes de se juntar à família,
encontrando-se praticamente deserta no resto do ano.

Enquanto a arquitetura popular se refere, verifica-se realmente uma valorização do


patrimônio troglodita com a chegada destes novos moradores e dos turistas. As casas-
cueva, tanto as antigas como as recondicionadas para os novos habitantes, tentam
conservar a mesma imagem que outrora mantendo os elementos principais desta
arquitetura. No entanto, para adaptar-se às novas necessidades, substituem-se os antigos
espaços dedicados aos animais por novos dormitórios ou por espaços para
armazenamento. Em numerosas ocasiões, amplia-se a cueva com uma obra externa
contendo os quartos húmidos, como pode-se observar no estudo de caso das Imagens 7
e 8.
Urbanisticamente, são mais valorizadas as cuevas afastadas do centro urbano e
posicionadas em lugares mais altos, pois beneficiam-se de melhores vistas, mais espaço
e acessos rodados independentes. 49 50

Imagem 7. Planta de casa-cueva, Galera, Imagem 8. Planta de casa-cueva, Galera,


Granada. Desenho dos autores. Granada. Ampliação externa. Desenho dos
autores.

49
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. cit. 9.
50
MOCHÓN ESCOBAR, A. [et al], cit. 10.

202
Contudo, e devido a este boom imobiliário troglodita e a falta de planejamento, muitas
obras foram realizadas com prazos muito curtos dando lugar a resultados pouco
satisfatórios. Em entrevista com moradores da cidade (2015), vários constataram que
algumas das novas instalações de saneamento estão apresentando problemas na
atualidade. Um morador relatou que, como consequência, uma das cuevas vizinhas tinha
desmoronado por causa das filtrações.
É importante destacar a ausência do maestro de pico nestes processos de reabilitação
das cuevas. Outrora, ser maestro de pico era uma tradição, era o construtor da cidade e
uma profissão herdada de pais para filhos. Atualmente, a profissão está desaparecendo e
estes trabalhos de recondicionamento foram feitos na maioria dos casos por pedreiros, o
que pode ter incidido na qualidade das obras.

Segundo Mejías del Río, destaca a existência de um dualismo neste ressurgimento das
cuevas e neste processo de acondicionamento para os novos usuários. Por um lado,
continuam as cuevas ocupadas por moradores oriundos da cidade totalmente
mimetizados com o entorno e cuja casa assemelha-se as originais. Por outro lado, as
destinadas a imigrantes europeus, com um exterior que lembra cartões postais e
interiores carregados de objetos da vida rural totalmente sem uso e
descontextualizados.51

5. Conclusões
Em definitivo, o turismo troglodita e o fenômeno neorrural estão contribuindo para a
conservação do patrimônio arquitetônico e da vida da cidade de Galera. No entanto,
estão causando grandes mudanças nos usos e perfis tanto da arquitetura como da própria
cidade.
As casas-cueva, antes moradias de trabalhadores do campo e caracterizadas pela
autoconstrução, se transformaram em um recurso turístico vendido por imobiliárias que
as adaptam aos gostos e necessidades de aposentados estrangeiros ou de turistas de alta
renda. As características que fizeram desta arquitetura um dos exemplos mais peculiares
de moradia popular – autoconstrução e baixo custo – em nada se assemelham com os
atrativos atuais que incitam a demanda das classes médias e altas.
Como consequência, a cidade, escavada ao redor de campos de cultivo e que vivia do
setor agropecuário, agora tem o setor de serviços como setor principal.
Em menos de 50 anos a vida e a arquitetura tradicional da cidade desapareceu e são
vistas apenas na exposição do museu local. A casa-cueva como moradia popular, ainda
que o modelo continue vigente, não existe mais.

51
MEJÍAS DEL RÍO, J.M. cit. 9, p.21.

203
6. Bibliografia
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subterránea excavada en Levante. Informes de la construcción, [Em linha]. V.40, nº.
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infravivienda a vivienda de futuro. Scripta Nova: revista electrónica de geografía y
ciencias sociales, [Em linha] Nº. 7, (2003). [Consult. Setembro 2016] Disponível em
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205
Bibliografia da arquitectura vernácula em Portugal – algumas considerações.
José Manuel Fernandes
Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa
[email protected]

Considerando, em Portugal, o universo dos estudos sobre arquitectura vernácula (isto é,


etimologicamente, “própria de uma região ou lugar”), ou, seguindo outras terminologias
também concorrentes ou afins, sobre arquitectura “regional”, “popular”, “vernacular”
(um anglicismo) – há vários grupos de estudos que são habitualmente referidos pelos
investigadores como essenciais, mais pertinentes ou constituindo-se de algum modo em
núcleos de conhecimento “fundadores” nesta área temática.

Os âmbitos bibliográficos habitualmente referidos


Podem agrupar-se estes estudos, de um modo sintético, por sectores ou áreas de
conhecimento e de investigação profissional e científica. Seguindo uma sequência de
algum modo evolutiva, podem mencionar-se:
- os estudos etnográficos / etnológicos, evoluindo mais tarde para os antropológicos,
de que a obra de Joaquim Leite de Vasconcelos (Etnografia Portuguesa), nos inícios do
século XX, foi marcante, sendo também de mencionar as obras de Luís Bernardo Leite de
Ataíde (Etnografia, Arte e Vida Antiga nos Açores) e de Rocha Peixoto (na génese do
movimento da “Casa Portuguesa”), entre outras. Na geração seguinte pontificou a
investigação e obras do grupo do Centro de Estudos de Etnologia, partindo do acção de
Jorge Dias (antropólogo qu estudou com Margot Dias os Macondes de Moçambique), e
desenvolvida entre 1947 e os anos 1980, por Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando
Galhano e Benjamim Enes Pereira, com trabalhos aprofundados (e de sólida consistência
nos conteúdos desenhados) sobre a arquitectura popular, (1959 e 1992), as construções
primitivas (1969 e 1988), os espigueiros (anos 1970 e 1994), os sistemas de moagem
(anos 1950 e 1983), entre vários; constitui aqui uma obra base a Arte Popular em
Portugal, sobre as áreas ibérica, insulares e ultramarinas (em 3 vols, Arte Popular em
Portugal. Ilhas Adjacentes e Ultramar, com dir. Fernando de Castro Pires de Lima), ed.
Verbo, 1968-75)
- o estudo, isolado, de carácter sócio-económico e agro-rural, promovido pelos
engenheiros-agrónomos E.A. Lima Basto e Henrique de Barros, o Inquérito à Habitação
Rural (“promovido pelo Senado Universitário da Universidade Técnica de Lisboa”), de
que se publicou o 1.volume (“A Habitação Rural nas Províncias do Norte de Portugal”,
IST, Lisboa, 1943), e tendo o segundo, sobre a região Centro, saído em 1947; ao que se
sabe, os originais da restante obra, preciosos e inéditos, estiveram à guarda dos
professores do Instituto Superior de Agronomia, seg. info. de 2010) – tendo sido

206
publicado finalmente em 2012 o terceiro volume, sobre Estremadura, Ribatejo e Alentejo
(por Lima Basto, António Faria e Silva e Carlos Silva, ed. Imprensa Nacional / Casa da
Moeda, Lisboa);
- os estudos pela Escola de Geografia de Lisboa, que, na sequência dos trabalhos de
Amorim Girão, e sob a forte liderança cultural e científica de Orlando Ribeiro,
desenvolveram, sobretudo nos anos de 1940, 1950 e 1960, um conjunto de monografias
onde o estudo do território, aliado ao desenho esquemático das habitações, constitui
mesmo assim um forte contributo de conhecimento, pela primeira vez alargado às ilhas
Atlânticas e às áreas africanas insulares e continentais, como Angola (Ribeiro, no
fundamental Geografia e Civilização, de 1961; e Soeiro de Brito, Brum Ferreira, Ilídio
do Amaral, etc);
- os levantamentos e análises pelos arquitectos, com forte dimensão gráfica e
estética, assentes no desenho e na fotografia; primeiro, nos anos 1900-1930, com
pioneirismo, pelo arquitecto Raul Lino (A Casa Portuguesa, 1929); e décadas depois,
realizados de um modo mais sistemático, pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos e
seguidamente pela AAP e OA (bem como por arquitectos trabalhando isoladamente), de
que a obra de referência é a Arquitectura Popular em Portugal (SNA, 1961, realizada
desde 1956, de autoria colectiva), seguindo-se outras, de algum modo continuadoras (por
Mário Moutinho, nos anos 1970; pela AAP, desde 1982, Arquitectura Popular dos
Açores, ed. em 2000, de autoria colectiva; e por Vitor Mestre, Arquitectura Popular da
Madeira, s/d, ed. em 2002).
De referir ainda obras de vocação mais monográfica, ou já sectorizadas em áreas ou
temas sub-regionais, como os estudos de arquitectos como João Vieira Caldas (Casa
Rural dos Arredores de Lisboa, 1999; Casa Rural no Algarve, 2007) e José Manuel
Fernandes (Cidades e Casas da Macaronésia, 1996; Arquitectura Vernácula da Região
Saloia..., 1991, com Maria de Lurdes Janeiro; Casa Popular no Algarve, 2008, com Ana
Janeiro); e ainda os trabalhos sobre Arquitecturas de Terra (várias actas de colóquios),
Património Rural Construído do Baixo Guadiana (coord. Odiana, 2005), Arquitecturas
do Xisto (coord. Maria Calado, FAUTL, 2006), Arquitecturas do Granito (Manuel
C.Teixeira, C.M. de Arcos de Valdevez, 2013), entre várias outras obras.

Estes terão sido no essencial, ao longo de um século, os grupos de investigadores,


centrados em áreas de conhecimento científico específicas - cada uma com características
próprias - que abordaram e desenvolveram em Portugal o conhecimento sobre a
arquitectura vernácula. São, em geral, os temas e os nomes que habitualmente são
referenciados pelos estudiosos, como constituindo a bibliografia básica no sector.

207
Breve referência a outros e menos conhecidos âmbitos bibliográficos
Embora sem qualquer preocupação sistémica, ou exaustiva - cabe aqui apontar, e chamar
a importância para várias outras áreas de estudo, e para outra investigação que se foi
realizando, seguindo vias paralelas e/ou complementares, muito menos conhecidas mas
nem por isso menos valiosas para o conhecimento destas matérias da arquitectura
vernácula, ao longo do século XX, sobretudo na sua segunda metade, em Portugal.

Assim, e na mesma linha evolutiva, podem mencionar-se:


1 – os estudos decorrentes do planeamento e da urbanização: os planos de âmbito
territorial, urbanístico, os planos de pormenor e/ou de salvaguarda, que, sobretudo nos
anos de 1960 a 1990, foram organizando levantamentos e estudos de análise, os quais,
sendo necessários para seu próprio corpus de intervenção, não deixaram de constituir
base de conhecimento da arquitectura urbana ou rural, vernácula, no locais estudados -
que valem como conhecimento científico, para além das suas utilidades para fundamentar
circunstancialmente projectos ou obras.
Recordem-se, a título de exemplo, os planos de ordenamento territorial, que Keil Amaral
e também Cabeça Padrão executaram, em âmbitos distintos, para o Algarve (cerca de
1960-62); mais tarde, mencionem-se os planos de salvaguarda para Beja (pela equipa de
Vasco Massapina), para o Bairro do Castelo de Lamego e para as aldeias de Castelo
Mendo e de Castelo Bom, (pelas equipas de Pitum Keil Amaral e Antunes da Silva), os
quais se desenvolveram, nos finais dos anos 1970 e inícios dos anos 1980, quando a
(então inovadora) temática do património construído criou estas novas dinâmicas.
Para além destas referências, haverá que sistematizar todo o vasto trabalho de
levantamento do património urbano e rural, arquitectónico, executado no âmbito dos
Gabinetes de Apoio Técnico Local (GTLs), ou dos Gabinetes de Apoio Técnico (GATs),
quer nas cidades maiores (gabinetes específicos para o Barredo ou a Sé, no Porto; e para
Alfama, Bairro Alto e Mouraria, entre outros, para Lisboa), quer nas povoações
regionalmente dispersas por todo o país, sobretudo nos anos 1980-90 (por. ex., o
constante nos planos para Tavira e para a Horta, por J.M.Ressano Garcia Lamas).
Todos estes estudos, trabalhos de análise e de desenho de habitações, que se destinavam a
fundamentar a sua recuperação, reabilitação ou reconstrução, constituem hoje testemunho
da arquitectura popular então existente; porém, na sua quase totalidade, permanecem
apenas acessíveis em papel, em velhos policopiados ou edições impressas limitadas.

2 – os estudos que podemos designar de “coloniais”, realizados no chamado “Ultramar”


e nas ilhas atlânticas, sobretudo nas décadas de 1950 a 1970, escassos mas muito
interessantes, que vão desde artigos em revistas científicas: como pelo geógrafo Ilídio do
Amaral sobre o território, as cidades e as casas populares de Angola (in revistas
Finisterra, do GEG; in Garcia de Orta, da JIU); como pelo arquitecto Fernando Batalha
sobre arquitectura urbana de Luanda / Angola (opúsculos em Angola, anos 1950-70 e em

208
Lisboa, anos 2000); e como os textos pelo arquitecto Quirino da Fonseca sobre as casas
de influência Índica em Moçambique (in revista Monumenta, Lourenço Marques, dos
anos 1960-70) – até a estudos mais aprofundados, constituindo relatórios policopiados
(como por Fernando Shiappa sobre o habitat indígena na Guiné Portuguesa, dos anos
1950-60), a estudos geográficos (Goa e as Praças do Norte, por Raquel Soeiro de Brito,
JIU, 1966) e ainda a livros de assinalável beleza, como por Ruy Cinatti, Leopoldo de
Almeida e Sousa Mendes, sobre a Arquitectura Timorense (pelo Instituto de Investigação
Científica Tropical, de 1987).
Isto sem esquecer o trabalho fundador por Veiga de Oliveira e Fernando Galhano (Casas
Esguias do Porto e Sobrados do Recife, 1986, editado no Recife), e os estudos sobre as
populares edificações dos Impérios do Espírito Santo, quer em abordagens antropológicas
(por João Leal, entre outros) quer arquitectónicas (pelo arquitecto João Campos, do
Porto, nos anos 2000).
Estes trabalhos procuravam enquadramentos muitos diversos, ou quase totalmente
autónomos em relação à cultura arquitectónica portuguesa (Schiappa, Cinatti), ou, pelo
contrário, procurando uma expressa articulação com a realidade lusa (Amaral, Batalha,
Oliveira/Galhano).

3 – as abordagens à “nova arquitectura” popular, iniciadas a partir dos anos 1980, com
base quer na arquitectura efémera dos migrantes urbanos (bairros clandestinos, etc), quer
na análise da designada “arquitectura dos emigrantes”, com um olhar de valorização
desta como “novo” património social e estético (a exposição Casas Modernas em
Paisagens Antigas, pelo IPPC, Lisboa, em 1982; os artigos sobre as casas Pop com “pele
de girafa”, por Manuel Graça Dias, dos anos 1980); mas sobretudo, nesta temática, são de
referir os livros pela arquitecta Isabel Raposo (Alte na Roda do Tempo, 1995; Casas de
Sonhos, 1992, com Roselyne de Villanova e Carolina Leite, de 1995).

Finalmente, para rematar esta breve enumeração, há que mencionar a (mais recente)
internacionalização dos temas da arquitectura vernácula portuguesa / insular / colonial,
por via da série de artigos e entradas inseridas na chamada “bíblia”, a vasta obra em três
volumes EVAW / Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World (pelo “editor”
Paul Oliver, Cambridge University Press, 1997), onde se incluíram (por J.M.Fernandes)
temas da “arquitectura popular do mundo português”, como: Colónia do Sacramento,
Ilha de Moçambique, Angola colonial, Diu português, Cochim, Damão português, Goa
portuguesa, Timor Leste português, Península Ibérica/Alentejo e Algarve, Ilhas da
Macaronésia, Minho e Trás-Os-Montes, Minho/Espigueiros, Vale do Tejo (Casa
Saloia/moinhos), Sistema Chaminé-Forno da Macaronésia, Moinhos de Maré.

209
Bibliografia JMF

livros
Fernandes, José Manuel; Janeiro, Ana, A Casa Popular do Algarve. Espaço Rural e
Urbano, Evolução e Actualidade, CCDRAlgarve e Edições Afrontamento, Porto, 2008
Fernandes, José Manuel (et al), Arquitectura Popular dos Açores, Ordem dos
Arquitectos, 2000, 2ª. ed. 2007
Fernandes, José Manuel, Cidades e Casas da Macaronésia, FAUP, Porto, 1996
Fernandes, José Manuel; Janeiro, Maria de Lurdes, Arquitectura Vernácula da Região
Saloia. Enquadramento na Área Atlântica, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa,
Lisboa, 1991
Fernandes, José Manuel, entradas diversas sobre regiões de Portugal, com Madeira e
Açores, in Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World (ed. Paul Oliver),
Cambridge University Press, Cambridge, 1997

artigos
Fernandes, José Manuel, “Arquitectura Timorense”, in ExpressoRevista, 10.12.1994
Fernandes, José Manuel, “Obra de Sonhos”, in ExpressoRevista, 6.5.1995
Fernandes, José Manuel, “O Fim das Pombinhas?”, in ExpressoRevista, 10.6.1995
Fernandes, José Manuel, “O Último Tesouro de Lagos”, in ExpressoRevista, 6.11.1998
Fernandes, José Manuel, “Solares Transmontanos”, in ExpressoRevista, 17.7.1999

ALGUMA BIBLIOGRAFIA RECENTE sobre arquitectura popular:


Oliveira, E.V.; Galhano, F.; Pereira, B. – Construções Primitivas em Portugal, Publicações Dom
Quixote, Lisboa, 1988
Teixeira, Manuel C. – Arquitecturas de Granito. Arquitectura Popular, ed.Município Arcos de
Valdevez, 2013
Menéres, António (fotografias) – Arquitecturas Populares, ed. Município Arcos de
Valdevez, 2013

210
Arquitetura, contexto e mudança nas regiões de montanha do norte da Beira
Miguel Reimão Costa
Universidade do Algarve / Ceaacp / Cepac
[email protected]

Resumo
O presente artigo incide na arquitetura vernacular das áreas de montanha no norte de Portugal
e, mais especificamente, da região setentrional da Beira, procurando caracterizar as condições
da sua permanência e mudança, a partir da importância do contexto, do povoamento e da
paisagem e considerando os diferentes ciclos de transformação características da época
contemporânea. Numa fase inicial, esta arquitetura será analisada no âmbito da organização
tradicional das áreas de recursos das aldeias serranas, desde os diferentes usos e construções
na paisagem ao sítio do assentamento. Do mesmo modo, será também caracterizada tendo em
conta a transformação destas paisagens em altitude: primeiro através da seleção de um caso de
estudo particular, tradicionalmente marcado pelo deslocamento estacional das populações
(num processo idêntico aos estudados no sistema montanhoso da Peneda-Gerês ou noutras
áreas de montanha do Mediterrâneo); e depois mediante o registo de algumas das
características particulares que as arquiteturas destas aldeias poderão adquirir, em função da
sua localização em altitude ou a cotas mais baixas.
Numa segunda fase, serão considerados alguns dos temas que marcam a transformação das
arquiteturas e aldeias serranas em época contemporânea, desde a importância da mineração,
até aos diferentes ciclos migratórios e aos processos de gradual abandono. Por fim, já numa
parte conclusiva, a transformação mais recente da arquitetura serrana será enquadrada nos
processos da redescoberta das áreas do interior, associados a projetos ou iniciativas de índole
diversa que têm contribuído para afirmar a importância e identidade de alguns destes núcleos,
num contexto de crescente e reconhecido abandono das áreas de montanha e, em especial,
daquelas mais distantes das regiões urbanas do litoral. Procurando documentar o quadro de
significativa diversidade que caracteriza as aldeias de montanha do norte da Beira serão
mencionados os casos de Covas do Monte, Mazes, Pena, Drave, Almofala, Rio de Frades,
Regoufe, Nodar e Campo Benfeito.

Palavras-chave: aldeia, paisagem rural, arquitetura vernacular, casa do emigrante, “território


vago”

211
Introdução
As aldeias de montanha em Portugal têm sido caracterizadas, em diferentes circunstâncias, a
partir da contraposição de um passado de relativo isolamento, associado à economia de
subsistência e à persistência de formas arcaicas, e um presente em que as diversas expressões
da desruralização se combinam com a generalização de novas arquiteturas. A presente
investigação procura contribuir para uma abordagem mais matizada destas regiões, capaz de
refletir a diversidade que hoje conforma os núcleos serranos de pequena dimensão,
considerando os modelos de ocupação do território, os legados da economia tradicional, os
reflexos da emigração e do abandono e, ainda, a emergência de novas propostas ou visões
para estas áreas.
Em termos metodológicos, esta investigação tem privilegiado o trabalho de campo, quer a
nível da prospeção e da visita a um número significativo de aldeias, quer a nível do
levantamento da arquitetura tradicional.1 Incide na unidade de paisagem das “montanhas do
norte da Beira e do Douro”2, compreendendo especialmente as regiões que se estendem do
Caramulo ao Montemuro, passando pelas serras da Freita e da Arada. Inscreve-se num estudo
comparado, de âmbito mais abrangente, que se estende a outras áreas de montanha do
Mediterrâneo Ocidental, procurando integrar as diversas expressões do património construído,
à escala da arquitetura, do assentamento e da paisagem. Ainda que este trabalho privilegie
assim a caracterização do património a uma abordagem mais prospetiva, procura, em qualquer
caso, contribuir para a reflexão em torno à eventual importância da sua conservação enquanto
fator de desenvolvimento das áreas designadas de Baixa Densidade. Pretende-se demonstrar
que, ao contrário do que à primeira vista poderia parecer, os núcleos de montanha em estudo
remetem hoje para uma multiplicidade significativa de situações que deveria ser considerada
nas diferentes escalas de Ordenamento do Território.

Como um círculo na paisagem


As serras do norte da Beira confirmam a tendência para a organização do povoamento em
pequenos aglomerados característica das regiões de montanha. O estudo da economia
tradicional destas regiões revelará, quase sempre, essa relação primordial entre o carácter
agreste dos territórios serranos, a organização em comunidades praticamente autossuficientes
e a pequena dimensão generalizada das suas povoações. A presença da aldeia na paisagem é
aqui enfatizada pela configuração das parcelas de regadio e de sequeiro que estendem o seu
limite a um círculo largo correspondendo a um vale mais ou menos generoso e aos terraços
construídos na encosta. O desenho desse círculo resultou, na maior parte dos casos, de um
trabalho contínuo sobre o território, reconfigurado a partir da importância das culturas
regadas. As águas retidas em presas ou poças a montante são encaminhadas através de regos
para os campos delimitados nas baixas ou para as leiras construídas nas encostas. Mas a
economia de subsistência característica destes territórios remete necessariamente para uma
diversidade de recursos que tem ou tinha uma expressão evidente no modelo de organização
da paisagem: às terras do milho e das culturas regadas juntavam-se as vertentes e os terraços
de sequeiro adstritos, em grande medida, ao centeio; a proximidade da aldeia era ainda
marcada pelas vertentes florestadas de carvalhos e castanheiros (que foram perdendo
relevância durante o século passado e de forma ainda mais expressiva com a recente extensão
do eucalipto); e as vertentes e os planos mais altos dos baldios serviam aos pastos (gado
miúdo aduado e gado graúdo semiestabulado) mas também às lenhas e aos matos para as

1
No presente caso, o levantamento da arquitetura tradicional recaiu fundamentalmente na aldeia da Drave,
integralmente levantada pelo autor em parceria com Nuno Reimão de Brito Peres e João Reimão Ferreira da
Silva, a quem o presente artigo é dedicado. Cf. COSTA, M.R.– A casa de baixo e a casa de riba na Drave:
crónica de um lugar do maciço da Gralheira em Portugal.
2
RIBEIRO, O. – Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Esboço de relações geográficas, p. 188-189.

212
camas dos currais, às silhas de cortiços ou à produção de carvão. Vista do Portal do Inferno, a
aldeia de Covas do Monte na serra da Arada, regista ainda hoje esta organização (figura 1),
marcada como outras povoações pela persistência de muitos dos hábitos da economia
tradicional, desde as culturas regadas ao rebanho aduado que ainda mantem.

Figura 1 Covas do Monte, Arada; Elaborada pelo autor.

A portela do inverno
Este modelo genérico de organização da paisagem tradicional comportava, como foi notado,
por exemplo, para a serra de Montemuro, um significativo número de variantes, em função da
delimitação das diversas subunidades de paisagem – ribeira, meia serra e planalto3 – e das
limitações das diferentes culturas em altitude4. A aldeia de Mazes, localizada junto à serra do
Bigorne no extremo oriental de Montemuro, constitui um caso particular no contexto da
região, considerando justamente a transformação da paisagem com a altitude. Este lugar
comporta uma organização em diversos núcleos associada ao deslocamento estacional da sua
população, compreendendo a aldeia de Mazes, em zona de vertente, mais abrigada (entre as
cotas 730 e 800) e os núcleos das Antas, Sabugueiro e Castelo mais sujeitos aos rigores do
inverno (entre as cotas 930 e 970). O contraste entre as condições destes diferentes lugares é
registado pela expressão das gentes de Mazes quando referem, reportando-se à zona do
cruzeiro sobranceira à aldeia, que «quem não passar a portela para cima não sabe o que é o
inverno...».
Os lugares mais altos combinavam as pastagens e os fenos com as culturas dos campos –
batata, feijão, muito centeio e pouco milho – na orla da ribeira das Poldras que bordejava
também, a jusante, a aldeia de Mazes, onde o milho, a vinha e a fruta tomavam o lugar do
centeio. Se a aldeia, marcada pela presença da Igreja e dos espigueiros, não se distingue
consideravelmente das povoações vizinhas (figura 2), os lugares de cima, a mais de um

3
Cf. RIBEIRO, O. – Dois tipos de ocupação humana na montanha portuguesa: posição do Montemuro.
4
GIRÃO, A. – Montemuro: a mais desconhecida serra de Portugal, p. 121.

213
quilómetro de distância, apresentam uma estrutura bem menos formalizada marcada pela
preponderância dos currais para o gado (figura 3). As últimas décadas confirmaram, de resto,
o abandono gradual destes lugares, primeiro de Sabugueiro e Castelo, e depois das Antas.
Antes deste processo, a maior parte das famílias tinham as casas divididas nos dois lugares,
com a aldeia de Mazes a corresponder à habitação matriz e a lojas várias e os lugares de cima
a albergar o conjunto dos currais e palheiros associados frequentemente à habitação sazonal
de um único compartimento (entre algumas raras habitações de ano inteiro). Isto porque, para
além de ali se deslocarem duas vezes ao dia de modo a abrir e fechar as portas dos currais ao
gado, a população de Mazes transumava para os lugares de cima, nos meses de estio
(geralmente em Julho e Agosto). Recordando as brandas e inverneiras da serra da Peneda, o
deslocamento estacional de Mazes é mais próximo do das aldeias da região de Soajo, (onde a
inverneira, a cota mais baixa, constituía o núcleo principal), do que das de Castro Laboreiro
(onde, ao contrário, eram as brandas mais altas que correspondiam aos períodos de maior
permanência).

Figura 2 Mazes, Montemuro; Elaborada pelo autor.


Figura 3 Mazes (núcleo da Anta), Montemuro; Elaborada pelo autor.

Figura 4 Pena, Arada; Elaborada pelo autor.


Figura 5 Drave, Arada; Elaborada pelo autor.

Um número certo de casas


Uma das condições decisivas que justificam a organização da aldeia de Mazes em dois
núcleos está relacionada com a decisão de explorar as terras mais altas com maior aptidão
agrícola, o que poderá ter permitido, inclusivamente, o aumento do número de famílias ou de
casas da aldeia. Isto porque, pelas suas características específicas, os territórios de montanha
tenderão a impor, ao longo da história, um limite ao crescimento dos seus aglomerados. Ainda
que com a construção das leiras em terraço, o homem se pretenda rebelar à expressão
confinada dos vales de montanha, as povoações nunca adquirirão aqui uma dimensão

214
significativa, com as aldeias maiores a localizarem-se, quase sempre, junto às zonas mais
generosas de aluvião ou nas zonas de planalto.
Esse limite ao crescimento que o território tenderá a impor a estas aldeias, acabará por
adquirir, nalguns casos, uma expressão cultural como ocorreu no lugar da Pena localizado na
vertente norte da serra de São Macário (figura 4). Segundo a tradição ainda vigente na década
de trinta do século passado, a povoação deveria manter-se enquanto lugar de somente sete
casas, pelo que cada família casava apenas um dos filhos na aldeia, largando os restantes à
sua sorte, de modo a contrariar o parcelamento da propriedade e assegurar a viabilidade das
explorações5. Nalguns casos, esta tradição poderá ter dado sequência aos preceitos inerentes
aos contratos de emprazamento que conformavam a ocupação destas terras durante o Antigo
Regime, como ocorria com a póvoa da Drave, 6 a que voltaremos de seguida. É um costume
que enfatiza a importância do vínculo da aldeia à área de recursos que lhe estava afeta,
registando o modo como, ao contrario do que hoje sucede, o núcleo edificado e a paisagem
constituíam duas partes de um mesmo sistema, podendo, com alguma facilidade, estabelecer-
-se uma consonância entre a dimensão da aldeia e a generosidade das terras que se estendiam
em seu redor. É o que ocorre com a aldeia da Drave (figura 5), a poucos quilómetros da Pena,
que constitui um interessante caso de estudo para a interpretação da relação entre o território
natural e a paisagem cultural, compreendendo, entre outros temas, o sítio do assentamento, as
poças e as leiras ou as encostas de sequeiro, como a seguir se verá.

Os de Baixo e os de Riba
A paisagem da Drave é marcada pelo curso da
ribeira de Palhais, integrado na bacia
hidrográfica do rio Paiva, num vale encaixado
de ladeiras fragosas que, mais uma vez, se
traduziu, a nível do povoamento, numa aldeia de
pequena dimensão. Tal como, de um modo
geral, ocorre nas regiões montanhosas, a
construção deste lugar converte o afloramento
rochoso em fundação, modelando a sua
morfologia através da execução da plataforma e
do muro de suporte em alvenaria de pedra para
as habitações, os currais, os caminhos ou os
eirados pontuados pelos característicos canastros
onde se secava o milho.
Este processo é especialmente evidente no
núcleo edificado principal da Drave que ocupa
uma das ladeiras rochosas sobranceiras à ribeira
de Palhais (figura 6). A organização das
diferentes edificações registava ainda, em
meados do século passado (figura 7), a
importância da aldeia de outrora, conformada
pela copresença de duas casas de lavrador que as
várias fontes históricas distinguem por “casa de
Baixo” e “casa de Riba”. O mesmo ocorre a
nível da organização da paisagem em redor da
aldeia, sendo ainda possível reconstituir os
Figura 6 Drave, area de recursos; Elaborada pelo
autor limites das parcelas pertencentes a cada uma das
5
GIRÃO – Montemuro: a mais desconhecida serra.... p. 124.
6
COSTA – A casa de baixo e a casa de riba...

215
Figura 7 Drave, planta da aldeia, pisos térreo e
superior; Elaborada pelo autor

duas casas, a partir do testemunho de antigos moradores. Na sua grande maioria, as leiras
regadas dispunham-se em três bolsas principais, correspondendo a três regos distintos
alimentados por poças encadeadas ao longo da ribeira a diferentes cotas (figura 6). Os
processos de parcelamento, por herança, destas casas maiores enfatizaram progressivamente a
importância das águas de partilha e da gestão comum de parte das estruturas construídas (que
resultavam, por exemplo, nos trabalhos, entre consortes e herdeiros, de conservação dos regos
e de reconstrução das poças).
É também o que ocorre com outras estruturas, desde as eiras e os canastros aos pequenos
moinhos de água que, já em época contemporânea, passaram a servir ao número superior de
habitações que entretanto surgiam na aldeia. Do outro lado da ribeira de Palhais, o núcleo do
Colado, constituído quase em exclusivo por currais de cabras, foi também parcelado entre
herdeiros das antigas casas maiores que procuravam manter as vantagens da sua localização
junto às terras mais aplanadas e produtivas do lugar. De facto é a maior proximidade a estas
terras associada à facilidade no transporte do estrume ali produzido que justifica a
concentração de uma parte dos currais de cabras num núcleo autónomo e apartado da aldeia.

216
217
As casas das aldeias altas
O acento na difícil condição das terras de montanha, na paisagem agreste ou no povoamento
serrano dos pequenos aglomerados terá repercussão, a nível da caracterização da arquitetura
tradicional, na referência a uma edificação pobre e austera de alvenaria de pedra aparente,
com cobertura de duas águas, frequentemente associada a um único compartimento térreo ou
sobradado sobre as lojas do gado (figura 8).7 Mas esta caracterização genérica, que se poderia
reportar indistintamente às diversas serras do norte, acabará por remeter, necessariamente,
para um quadro tipológico mais complexo de expressão diacrónica e diatópica. Uma primeira
variante poderia ser considerada, a nível dos sistemas construtivos, em resultado da
alternância entre solos de xisto e solos de granito comum à generalidade destas áreas de
montanha. À arquitetura de alvenaria irregular de xisto com telhado em lousa contrapõe-se
assim a arquitetura de aparelho frequentemente mais regular de granito com cobertura de
colmo, a que se poderá acrescentar ainda a combinação de algumas destas diferentes soluções
nas áreas de transição (figura 9).

Figura 8 Almofala, Caramulo; Elaborada pelo autor.


Figura 9 Covelo de Paivó, Freita; Elaborada pelo autor.

Figura 10 Gralheira, Montemuro; Elaborada pelo autor.


Figura 11 Gralheira, Montemuro; Elaborada pelo autor.

A arquitetura constitui também uma das expressões que regista as especificidades das diversas
subunidades geográficas a que antes fizemos referência. As aldeias dos planaltos e das
cumeadas mais altas, marcadas pela preponderância das pastagens e do centeio, tenderão a
compreender uma arquitetura tradicional mais indistinta correspondendo com frequência a
uma edificação de granito com cobertura de duas águas de colmo implantada contra a

7
Cf. AMARAL, F. K. [et al]. – Arquitectura Popular em Portugal, p. 245-247.

218
vertente. Trata-se de uma solução fundamental da arquitetura destas regiões durante todo o
Antigo Regime até ao final da primeira metade do século passado. Era esta, por exemplo, a
morfologia comum a grande parte das edificações de Almofala na serra do Caramulo (figura
8) ou da Gralheira na serra de Montemuro.
Nesta última aldeia, implantada no alto da serra a mais de 1100 metros de altitude, distingue-
-se uma edificação que remete para a persistência desta morfologia, com fachada principal de
alvenaria particularmente bem aparelhada, marcada por vão flanqueado por mísulas e
conformado por lintel com a data de 1758 inscrita (figura 10). Mas, para lá de uma aparência
mais formal quando comparada às demais, esta edificação, hoje arruinada, confirma uma das
mais correntes soluções na organização destas edificações que procuram beneficiar da
implantação transversal à ladeira de modo a permitir um acesso mais fácil ao piso superior. É
também esta morfologia que vemos frequentemente escondida ou dissimulada no quadro da
profunda transformação que marcará a arquitetura de muitas destas aldeias, em especial, a
partir da década de 1970 (figura 11).

As casas maiores da lavoura


Descendo a partir das cumeadas mais altas para a meia serra e para as zonas ribeirinhas, a
diversidade de tipologias que poderemos encontrar tenderá a crescer, refletindo, entre outros
fatores, a presença mais significativa da casa de lavoura associada a explorações de dimensão
significativa no contexto das áreas de montanha. A maior dimensão destas casas,
considerando não apenas os compartimentos da habitação mas as dependências agrícolas,
resultarão frequentemente na edificação sobradada implantada ao longo da encosta, de
fachada marcada por um ritmo compassado dos vãos e cobertura com quatro ou mais
vertentes associada à integração de asnas e de madeiramentos mais complexos 8 . Estas
soluções adquiriram maior relevância a partir da segunda metade do século XVIII e, em
especial, com o aproximar do final do Antigo Regime e, pontualmente, poderão mesmo ser
distinguidas pela presença de elementos de recorte barroco na fachada, do guarnecimento dos
vãos à cornija e aos cunhais. Por vezes registam também a influência da organização da casa
de lavoura do Norte Atlântico, particularmente evidente nas casas dispostas em redor de um
quinteiro, com acesso a partir de portal com data inscrita na padieira correspondendo à
primeira metade ou, com maior frequência, à segunda metade do século XIX (figura 12).
A influência da arquitetura das regiões vizinhas nestas aldeias é também evidente na
aproximação ao vale do Douro, com a presença progressivamente mais significativa das
soluções de paredes exteriores de tabique pintadas ou revestidas com telhas, soletas de
ardósia, chapas onduladas ou outros materiais (figura 13). Estas soluções contribuíram para
uma transformação da imagem das aldeias ribeirinhas ou a meia encosta, a partir da segunda
metade do século XIX, compreendendo uma arquitetura mais diversificada a nível dos
sistemas construtivos (morfologia) e dos revestimentos (cor e textura) que contrasta com a
imagem mais austera daquela que era até então a arquitetura corrente da Serra.

Os anos das minas da Freita


À economia agro-silvo-pastoril de subsistência vem-se juntar, em sobressalto, a mineração do
volfrâmio com especial impacto nas serras da Freita e da Arada da segunda guerra, quando
esta região foi marcada pela afluência significativa de gentes das regiões vizinhas que
procuravam alternativas à conjuntura de crise. O alvoroço da indústria do volfrâmio terá
como lugar central as vertentes a nascente do Alto da Freita, na área sudeste do concelho de
Arouca e, em particular, as minas em redor das aldeias de Rio de Frades (exploradas pelos
alemães) e de Regoufe (exploradas pelos ingleses). Distanciadas em cerca de cinco

8
COSTA – A casa de baixo e a casa de riba... p. 58.

219
quilómetros, estas aldeias apresentam evidentes analogias na implantação na base de uma
encosta voltada a sudeste na margem de um curso de água afluente do Paiva. Mas as
dissemelhanças que se verificam a nível da orografia destes lugares – bem mais acidentado
em Rio de Frades que em Regoufe – acabariam por contribuir para distinguir de sobremaneira
os modelos dos assentamentos mineiros de Alemães e Ingleses. No primeiro caso, a nova
povoação situada junto a um vale muito encaixado, dispersava-se em diferentes núcleos com
acesso a partir da aldeia para sul: subindo para os bairros de Cima e da Capela situados
respetivamente a meia encosta e em promontório; ou percorrendo o trajeto na margem da
ribeira para as casas da Companhia e para as instalações técnicas, de armazenagem e da
lavaria9.

Figura 12 Covas do Monte, Arada; Elaborada pelo autor.


Figura 13 Parada de Ester, Montemuro; Elaborada pelo autor.

Figura 14 Minas de Regoufe, Freita; Elaborada pelo autor.


Figura 15 Regoufe, Freita; Elaborada pelo autor.

Em Regoufe, o complexo mineiro concentra-se, em contrapartida, num único núcleo a meia


encosta, ocupando em terraços os dois flancos de uma linha de água afluente da ribeira com o
nome da aldeia. A percepção, a um único olhar, do conjunto das diferentes edificações e
estruturas deste complexo enfatiza a sua imagem assombrada e vaga, marcada pelo tempo e
pela gradual remoção de materiais reaproveitados para outras construções (figura 14). Uma
imagem de abandono que regista a condição temporal deste assento autónomo em relação à
aldeia de lavradores, situada mais abaixo. Em Rio de Frades, uma parte dos bairros operários
acabará, em contraponto, por ser integrada na aldeia agrícola, constituindo a única nota de
permanência da ligação casual entre esses dois mundos. Isto porque mesmo durante o

9
cf. SILVA, A. M. (coord.) – Memórias da terra: património arqueológico do concelho de Arouca, p. 407.

220
frenesim dos anos do minério – que acabaria por se desvanecer a partir de 1944 – as duas
aldeias manter-se-ão profundamente arreigadas às atividades tradicionais 10 , reiterando a
importância dos campos largos em Regoufe (figura 15) ou das estreitas leiras em terraço de
Rio de Frades.

Aldeias à beira e leiras a monte


À parte este período excecional de exploração do volfrâmio, também o maciço da Gralheira
confirmará as regiões de montanha enquanto áreas da emigração para o país e para o
estrangeiro. Uma das condições mais relevadas na caracterização do processo de
transformação das áreas rurais do norte do país, no século passado, é justamente a presença da
casa do emigrante. A partir de finais do século XIX, algumas das aldeias das regiões
consideradas neste artigo, serão marcadas pelo aparecimento da casa do emigrante brasileiro
de torna-viagem que frequentemente acrescentará uma dimensão mais eclética e exuberante à
arquitetura do tabique a que anteriormente fizemos referência.

Figura 16 Carvalhosa, Montemuro; Elaborada pelo autor.

Mas, como se sabe, será fundamentalmente a partir das décadas de setenta e oitenta do século
passado que se assistirá à transformação mais significativa dos conjuntos edificados serranos,
em grande parte, marcada pelo investimento nas aldeias de origem dos emigrantes que haviam
partido para o centro da Europa 11 . A afirmação das novas construções inscreve-se num
discurso de renuncia à arquitetura tradicional, convertendo grande parte das aldeias em
lugares de expressivos contrastes de volumetrias, morfologias e materialidades (figura 16).
Esta transformação não atingiu, no entanto, todas as aldeias serranas do mesmo modo,

10
Cf. VILAR, A. – O volfrâmio de Arouca no contexto da segunda guerra mundial (1939-1945), p. 174.
11
Cf. COSTA, M. R. – Sobre a tradição e a transformação em arquitetura: as aldeias da Beira entre a Freita e
Montemuro.

221
acabando por ser mais evidente nas áreas de transição para os grandes vales (nalguns casos
marcados pelos processos da rurbanização) e nos núcleos mais próximos dos eixos de escala
regional e nacional que entretanto alteraram significativamente o quadro de distâncias com o
exterior. Nos planaltos e nas zonas de vertente mais altas, as aldeias maiores assumir-se-ão
também enquanto polos dessa profunda transformação, reservando, nalguns casos, para os
aglomerados de menor dimensão uma condição diversa que tanto poderá resultar na relativa
conservação do património vernacular de conjunto como no seu abandono (figura 17).
Será, de resto, sobre alguns destes aglomerados que recairá a preferência para as novas formas
de segunda habitação que marcam um outro tempo de transformação destas aldeias, a partir
da década de noventa do século passado, registando uma alteração de discurso em relação à
arquitetura vernacular, que se passa então a admirar. Mas na realidade, a formalização desse
discurso restringir-se-á, quase sempre, a um desígnio de representação ou recriação da
arquitetura local que, privilegiando a renovação à conservação, raramente traduzirá aquelas
que são as suas características fundamentais, a nível da morfologia, da organização ou até dos
sistemas construtivos tradicionais. Por outro lado, a ocupação sazonal destas lugares, em parte
cada vez mais próximos das regiões urbanas do litoral, resultará na emancipação da aldeia em
relação à paisagem, com o abandono ou a florestação das melhores terras da povoação de
outrora.

Figura 17 Levadas, Montemuro; Elaborada pelo autor.

222
Para além de um «território vago»: uma conclusão
Como resultado das diversas circunstâncias que marcam estes territórios durante o século
passado, a condição da aldeia serrana do norte da Beira remete hoje para um quadro muito
diversificado de situações, distinguindo: lugares de ribeira e meia serra de lugares de planalto
e de cumeada; lugares que preservam traços fundamentais da economia agro-pastoril de
lugares marcados por diversas formas de abandono e desruralização; lugares caracterizados
pela justaposição dissonante de construções de lugares com valor patrimonial de conjunto;
lugares próximos dos principais eixos estruturantes de lugares mais afastados e recônditos.
Algumas outras aldeias desta região têm, ainda, acabado por acolher projetos incomuns
promovidos por diferentes instituições que importaria considerar: A Associação Binaural
desenvolve, desde 2004, a sua atividade na aldeia de Nodar, na margem esquerda do rio
Paiva, nos domínios da arte sonora experimental, com um conjunto muito diversificado de
iniciativas que incluem a organização de festivais e workshops vários ou as residências de
artistas com um número admirável de visitantes; A aldeia da Drave, na serra da Arada,
alberga desde 1992 uma base nacional de escuteiros a que acorrem todos os anos dezenas de
jovens; O Teatro Regional da serra do Montemuro desenvolve a sua atividade desde 1990 na
aldeia de Campo Benfeito, com diversas iniciativas relacionadas com a educação e a
formação ou ainda com a organização do festival Altitudes.
Partindo de uma abordagem contemporânea e procurando adquirir uma dimensão nacional ou
internacional, estes projetos estão, ao mesmo tempo, arreigados a diferentes expressões da
cultura regional, defendendo a relação profunda com as comunidades locais. A diversidade de
circunstâncias que marcam no presente as aldeias serranas, a par da implementação destes
projetos e de outras iniciativas análogas, abre a expectativa de um modelo de
desenvolvimento que considere os territórios de montanha, não isolados sobre si mesmos, mas
significativamente integrados com as regiões urbanas do litoral. Uma integração que se afirme
para lá do que poderíamos caracterizar como interesse crescente em torno a um «território
vago», ausente e expectante, remetendo para as marcas de abandono e de memória de uma
cultura do passado. É neste quadro que importa compreender de que modo poderá este
modelo resistir ao processo continuo de desaparecimento das atividades agro-pastoris e à
tendência de desvinculação da aldeia da sua paisagem ou, em contrapartida, de que forma
estará dependente da emergência de novos contextos de produção associados a comunidades
locais simultaneamente conscientes dos aspetos particulares desta cultura e deste território.

Bibliografia
AMARAL, F. K. [et al.] – Arquitectura popular em Portugal. Volume I. Lisboa: Sindicato
Nacional dos Arquitectos, 1961.
COSTA, M. R. – Sobre a tradição e a transformação em arquitetura: as aldeias da Beira entre
a Freita e Montemuro. In Palcos da Arquitectura. Actas do 2o Seminário Internacional de
Arquitectura, Urbanismo e Design. Volume I. Lisboa: Academia de Escolas de Arquitectura e
Urbanismo de Língua Portuguesa, 2012, p. 349-358.
COSTA, M. R. – A casa de baixo e a casa de riba na Drave: crónica de um lugar do maciço da
Gralheira em Portugal. Labor & Engenho [Em linha]. Vol. 7, n.o 2 (2013), p. 45-62. [Consult.
21 Outub. 2016]. Disponível na internet: < URL: http://www.conpadre.org/v7n22013.php
GIRÃO, A. – Montemuro: a mais desconhecida serra de Portugal. Coimbra: Coimbra
Editores, 1940.
RIBEIRO, O. – Dois tipos de ocupação humana na montanha portuguesa: posição do
Montemuro. In Opúsculos Geográficos: o mundo rural. Lisboa: Fundação Calouste
Gulbenkian, 1991, p. 273-281.

223
RIBEIRO, O. – Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Esboço de relações geográficas.
Lisboa: Sá da Costa, 1998.
SILVA, A. S. (coord.) – Memórias da terra: património arqueológico do concelho de Arouca.
Arouca: Câmara Municipal de Arouca, 2004.
VILAR, A. – O volfrâmio de Arouca no contexto da segunda guerra mundial (1939-1945).
Arouca: Câmara Municipal de Arouca, 1998.

224
Paradoxos entre a casa vernacular e a moderna - divergências ao longo do tempo entre o
conservadorismo e o modernismo na cultura romântica europeia.

Ana Lau
CIAUD – Centro de Investigação de Arquitetura, Urbanismo e Design, Faculdade de
Arquitetura, Universidade de Lisboa
[email protected]

Miguel Baptista-Bastos
Faculdade de Arquitetura, Universidade de Lisboa
[email protected]

Resumo: A distância que separa a arquitetura de vanguarda da arquitetura vernácula, tem


uma história de séculos, na qual o arquiteto surge apenas em meados do século XIX. As
transformações sociais profundas provocadas pela Revolução Francesa (1789) e pela Primeira
Guerra Mundial (1914-1918), mudaram a interpretação que é feita da casa tradicional. A sua
identificação com o nacionalismo, foi uma construção das sociedades conservadoras da
segunda metade do século XIX e dos regimes ditatoriais do século XX. Por outro lado, os
filósofos e os poetas do romantismo, elevaram-na a símbolo da luta vivida pela alma entre a
necessidade da natureza e a vontade do espírito. Foi igualmente alicerce do Movimento
Moderno, pelo estudo sistemático da sua evolução, permitindo a superação. A ambivalência
que hoje é sentida em relação à casa tradicional, é o resultado da sua apropriação cíclica por
duas tendências ideológicas contrárias. Quando parece ter caído no esquecimento, surge o seu
arquétipo sob a capa da sustentabilidade, com a apologia dos métodos de construção
tradicionais. Este trabalho tem como finalidade traçar um percurso, num exercício de
interpretação, permitindo tornar mais claras as origens do pré-conceito que temos hoje da casa
tradicional. Ao final, será possível concluir o seguinte: a história demonstra que o perigo não
reside no próprio modelo, mas na intenção de quem o aplica.

Palavras-chave: Arquitetura vernacular – cottage – nacionalismo – romantismo –


modernismo

225
Introdução: A Valorização da Habitação (o arquétipo da Cabana Primitiva)
O interesse dos arquitetos dirigiu-se para a casa tradicional somente no século XIX,
pois até à Revolução Francesa, a profissão estava inteiramente devotada ao serviço prestado
para com a aristocracia, salvo as devidas exceções. A Itália demarcou-se desde o século XV,
pela constituição de cidades-Estado, governadas por burgueses, permitindo o contexto que
deu origem ao «arquiteto à italiana», celebrizado pelos grandes espíritos da época, como
Leonardo da Vinci e Michelangelo, tornando-se o exemplo a seguir para as futuras gerações
de arquitetos em toda a Europa. Na França, o classicismo surgiu com vigor no século XVII,
num contexto ideológico de Contra-Reforma, pelo que o debate teórico não possuía a
grandeza nem a profundidade da Accademia Platonica (fundada em 1459 por Marsílio Ficino,
sob o mecenato de Cosme de Médicis). O governo absolutista de Luís XIV, deu margem para
a fundação da Académie Royale d'Architecture (1671), supostamente seguindo o modelo da
sua congénere italiana, embora na realidade a censura do conteúdo ideológico que era
lecionado aos estudantes e o controlo apertado dos debates no meio académico não
permitiram o florescimento intelectual ambicionado e a melhor produção teórica surgiria no
campo oposto – de reação ao absolutismo, através dos novos ideais Iluministas.
Na viragem para o século XVIII, o debate sobre a construção da identidade nacional
estava inflamado e o papel vital que a arquitetura desempenhou nesse processo. A construção
de Versalhes foi um marco, na medida em que, não só desempenhou a função simbólica
tradicional duma afirmação de poder do monarca, como também foi uma campanha de
promoção da indústria nacional. A competição, era abertamente efectuada contra a Itália – até
então a maior fornecedora de elementos decorativos (espelhos, tapeçarias, vidros, etc.). No
mesmo período, a querela entre os “antigos” e os “modernos”, colocava sobre a mesa a
questão sobre a decadência da tradição, que no entender de Perrault se havia desvirtuado
completamente no decorrer dos séculos. A prática que os arquitetos tinham de guiar-se pelos
tratados italianos do Renascimento, relativamente recentes em comparação com as ruínas da
Antiguidade, baseava-se num erro fundamental – o da falta de rigor nas medições, associado à
livre interpretação dos autores italianos, não obstante defendidos como inquestionáveis
(colocando os arquitetos franceses na posição de meros seguidores), resultando numa
ausência de noção do todo do edifício (perda do sentido das regras fundamentais que devem
gerar a obra como um todo harmonioso). A importância deste debate deve-se ao arquétipo
pelo qual todos os arquitetos se guiavam – o do Templo de Salomão. A sobreposição das
Sagradas Escrituras com o conhecimento da tratadística, impedia o livre pensamento e a
inovação, na medida em que era uma blasfémia um indivíduo ter a ousadia de criar algo
inteiramente novo, pois isso significava colocar-se arrogantemente ao mesmo nível que os
construtores da Antiguidade. A arquitetura clássica estava revestida duma aura de sagrado que
ninguém deveria profanar. No mesmo sistema de pensamento, a sociedade era igualmente
obra divina, conferindo ao monarca o «direito divino» para governar. Assim, a contestação do
modelo clássico antigo na arquitectura, identificou-se com a contestação da monarquia
absolutista e dos seus abusos.
Nas décadas que antecederam a Revolução Francesa, a população francesa estava
mergulhada na fome e num desespero crescente, enquanto quantias exorbitantes, eram
continuamente investidas na ampliação do Palácio de Versalhes. Foi neste contexto que

226
Rousseau expressou o seu arcadismo e escreveu sobre o «bom selvagem»: o Homem no seu
estado de inocência original, ainda não corrompido pela civilização. No seguimento, Laugier
(1753) evoca a arquitetura nas suas origens, num imaginário romântico – a cabana primitiva,
que não senão um abrigo, construído com os elementos fundamentais (a coluna, o
entablamento e o frontão). Esta passagem para o arquétipo da “Cabana Primitiva”, foi o passo
decisivo para a arquitetura dos séculos seguintes, pois determinou uma mudança profunda: a
atenção dos arquitetos estava voltada exclusivamente para a criação de palácios e dalguns
edifícios públicos com uso restrito; no Iluminismo a ambição volta-se no sentido da habitação
para uso corrente e edifícios de uso coletivo. Seria o mesmo que dizer: voltaram-se da
sociedade aristocrática para a sociedade burguesa, do absolutismo para a luta pela
democracia. Os ideais da Revolução vão unir-se ao ideal de uma arquitetura para todos, tanto
na construção de habitação com qualidade para a população, como na construção de edifícios
que prestam um serviço à população.

1. Romantismo e Nacionalismo
Uma vez lançadas as bases para a utopia, no final do século XVIII será a Alemanha a
tomar as rédeas da teoria da arquitetura, fundamentalmente devido ao florescimento da
filosofia. O neoplatonismo do sul da Europa, de origem italiana renascentista, foi sendo
gradualmente suplantado pelo classicismo francês e, finalmente, pelo Idealismo alemão. O
crescendo rumo à Revolução Francesa irá culminar numa deceção, vivida tanto pelos
intelectuais franceses, como pelos alemães. A expectativa em meados do século alimentava-se
do sonho numa sociedade livre e democrática, com os olhos postos no exemplo positivo da
sociedade inglesa. O modelo da monarquia constitucional inglesa é defendido por uma parte
dos iluministas franceses, incluindo Voltaire. Em 1789, a intenção inicial não era o fim da
monarquia, mas a conquista da distribuição dos poderes – à época centrados na pessoa do
monarca absoluto. Mas no decorrer da ação, a fação extremista de Robespierre precipitou os
acontecimentos, criando um vazio que abriu caminho para a ascensão rápida de Napoleão
Bonaparte. Com o Diretório de 1795 e o golpe de Estado de «18 de Brumário» em 1799,
começou uma ditadura ideologicamente ambígua, que publicamente defendia os direitos dos
cidadãos, mas nos bastidores defendia os interesses da alta burguesia. Na Alemanha, os
intelectuais aspiravam ao fim do absolutismo e aguardavam com expectativa a chegada das
tropas napoleónicas. Mas a realidade foi bem diferente, pois Napoleão anexou os territórios ao
que considerava o seu império e o sonho da república desvaneceu como fumaça. A reação dos
alemães, desde o povo aos governantes, foi a união. As mais de trezentas regiões autónomas,
que formaram o Império Romano-Germânico, mantiveram-se artificialmente durante séculos
como um todo, mas perante a invasão estrangeira o sentimento de identidade nacional ganhou
expressão. Num período de enorme riqueza cultural, desde o Classicismo de Weimar na
década de 1780, a Alemanha encontrou nos seus poetas e filósofos a âncora necessária para
estabilizar a sua identidade. Não sendo uma nação territorial, tornou-se numa nação cultural,
unida pela mesma língua materna.
A esta transição para a época dos nacionalismos, correspondeu à mudança do modelo
de referência na arquitetura, do templo grego (símbolo da sociedade democrática) para a

227
catedral gótica (símbolo das raízes culturais dos povos nórdicos), marcada pela publicação do
artigo «Da Arquitetura Alemã», por Goethe, em 1773. Antes da desilusão com a Revolução, a
apologia da catedral gótica era um apelo ao orgulho nacional num contexto em que a língua
alemã era considerada inferior (os próprios monarcas alemães evitavam falar alemão,
preferindo sempre o francês). O sentimento do povo alemão era de inferioridade, uma sombra
com muitos séculos, com raízes no complexo de ser «bárbaro» e não romano. A cultura da
Europa do sul era superior em muitos aspetos, e o Grand Tour era a evidência de como os
europeus da França, da Inglaterra e da Alemanha idolatravam essa cultura clássica superior. O
choque com a realidade demonstrou que os modelos de governo romano e grego eram
idealizados (a arqueologia e a história estavam ainda no seu primórdio). Por outro lado, a
sensibilidade dos poetas românticos alertavam para a discrepância entre o sentimento do povo
e a estética clássica pois, para todos os efeitos, os alemães não são gregos. Uma vez associada
a arquitetura clássica alemã com os ideais da Revolução, naturalmente o helenismo tornou-se
alvo de crítica, tanto dos românticos desencantados com a democracia incipiente como dos
conservadores adeptos do reacionarismo. Ambos os extremos irão voltar-se para a catedral
gótica e para a arquitetura tradicional, como fonte de alimento do seu nacionalismo.
Caminhando lado a lado, as ideologias de esquerda e de direita, irão dar expressão a esta
necessidade de identidade nacional durante o século XIX.

2. O Interesse pela Cultura Popular e as Revoluções Liberais


Às dicotomias entre revolução e reacionarismo, cultura nórdica e cultura do sul,
estrangeiro e nacional, soma-se a oposição entre a classe dominante e o povo. E a distinção é
clara, no período do Congresso de Viena (1814). Os aristocratas da Europa central, destituídos
por Napoleão reuniram forças e redesenharam o mapa político, segundo os seus interesses
particulares. A aristocracia continuou a desempenhar funções governativas, com poderes
muito reduzidos e a alta burguesia tornou-se a classe dominante efetiva. A sociedade burguesa
abria assim caminho para a industrialização e para a sociedade consumista, embora com um
arranque tardio da França e da Alemanha. A migração de milhares, do campo para a cidade,
traduziu-se na perda da escala rural e da tradição, próxima da natureza, para dar lugar a uma
massa anónima de operários fabris. Perdeu-se grande parte da produção artesanal, peça a
peça, na qual o artesão controlava todo o processo de fabrico e do qual obtinha um sentimento
de realização pessoal. O operário, por sua vez, lida apenas com uma parte do processo,
funcionando como se ele próprio fosse uma peça da engrenagem. Esta desumanização ficará
associada à mudança para a cidade, criando um imaginário nostálgico que reúne todos os
aspetos positivos da vida rural.
As Revoluções Liberais nas décadas de 1820 a 1840 irão alcançar conquistas
importantes para os direitos humanos, mas serão esbatidas pelos regimes conservadores
repressivos da segunda metade do século: no Reino Unido, com o reinado de Vitória (1837-
1901); na França com a Restauração Bourbon (1814-1830) e o Segundo Império de Napoleão
III (1852-1870); na Áustria, com a era do Príncipe Metternich (chanceler em 1815-1848) e o
neo-absolutismo do Barão Alexander von Bach (1849-1859). Neste período, o nacionalismo é
argumento defendido pela esquerda revolucionária, associando-se a cultura e a identidade

228
nacional ao povo, em oposição à cultura estrangeira da elite e aos seus mecanismos de
repressão. A independência nacional estava em jogo, pois os governantes das diversas nações
coligaram-se pela Santa Aliança (1815-1853), para combater o republicanismo, a
secularização e os movimentos revolucionários nos respetivos países. Na Confederação
Germânica (1815-1866), foram publicados os Decretos de Carlsbad (1819) banindo as
fraternidades de estudantes (Burschenschaften), de forte pendor nacionalista e liberal,
defensores dos direitos civis, da liberdade política e da representatividade democrática. Os
mesmos decretos instituíram inspetores nas universidades e a censura na imprensa.
Neste contexto, os arquitetos ingleses e alemães dirigiram a sua atenção para a
pesquisa dos monumentos medievais, proliferando as publicações com compilações de
catedrais e castelos medievais. Os poetas românticos recuperaram os heróis das lendas e dos
contos tradicionais. A sensibilidade passou gradualmente da experiência do Sublime para o
Trágico. Por influência de Johann Gottfried von Herder (1744-1803), os intelectuais voltaram-
se para a cultura ancestral popular, para as origens do povo, para o folclore, em busca de uma
poesia menos «artística» (kunstpoesie) e mais próxima da natureza (volkspoesie), associando a
produção artística ao lugar. Cada região teria, então, a sua expressão artística própria, mais
autêntica, com um desenvolvimento orgânico que demorou séculos, livre do «artifício»
académico. Foi a época da publicação de muitos dos contos infantis mais célebres, uns
compilados, outros criados pelos irmãos Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-
1859), e por Hans Christian Andersen (1805-1875). Na novela Heinrich von Ofterdingen
(1802), Novalis (1772-1801) narra a jornada do protagonista, um trovador da Idade Média,
em busca da flor azul – símbolo da sabedoria alcançada através da união entre a necessidade
da Natureza e a vontade do Espírito: um estado de bem-aventurança inalcançável. Estava
assim completada a transição do Racionalismo iluminista, na sua busca do ideal através da
Razão, para a procura do ideal pela experiência subjetiva transcendental, essência do
Romantismo.
É precisamente através do sentimento, na busca da flor azul, que a cabana primitiva se
vai identificar com a casa de campo tradicional (cottage). Durante o Iluminismo, alguns
arquitetos concentraram a sua atenção na busca do tipo – o modelo, a génese, a matriz
geradora de todas as suas variantes, as invariáveis da arquitetura. A recolha de exemplos num
modo sistemático, tornou-se cada vez mais uma prática corrente. Da observação empírica, os
arquitetos esperavam obter leis universais, encontrar as regras invariáveis subjacentes a todos
os casos particulares e assim determinar a base de formação necessária para produzir obras de
grande qualidade – queriam perceber o que faz o estilo. Em 1800, a arquitetura produzida ao
longo de séculos, baseada na tradição clássica, continuava a ser ensinada na École
Polytechnique de Paris (1794), nomeadamente por Durand, e na sua congénere Bauakademie
de Berlim (1799). O espírito científico prático iluminista fez-se sentir através da necessidade
de dar uma formação mais completa aos arquitetos, pois até então a formação artística estava
separada da formação técnica, sendo que a construção civil era ensinada como mais um ramo
das engenharias, e os arquitetos formados nas Belas-Artes não adquiriam esse conhecimento.
O novo modelo para uma escola de arquitetura, após o período napoleónico, colocou a ênfase
no espírito científico, no estudo da literatura sobre arquitetura, na adequação dos edifícios às

229
particularidades do país e suas especificidades climáticas, na durabilidade, estabilidade da
construção e na decoração do edifício, sobretudo na interligação de todas estas componentes.
Na mesma época, o Reino Unido vivia a Revolução Industrial, precipitando o
fenómeno de migração em massa para a cidade: um processo que seria mais gradual e lento na
França e Alemanha. Após o Congresso de Viena (1814), a sociedade aburguesou-se ainda
mais e agilizou-se a mobilidade social. A sociedade nouveau riche, aspirando à ascensão
social, queria imitar o estilo de vida da classe alta. Para o efeito, adotaram as suas práticas, a
sua moral e o seu comportamento. O acesso da classe média a mobiliário e elementos
decorativos semelhantes aos da classe alta (mesmo sendo imitações de qualidade inferior)
gerou o consumismo, tornando corrente a prática de decorar os diversos compartimentos
duma casa de acordo com um «estilo». No mesmo século, os alunos das Belas-Artes
aprendiam a decorar segundo os estilos antigos, os engenheiros realizavam obras notáveis
graças à constante inovação tecnológica, enquanto as casas da classe média e da pequena
burguesia eram inundadas de objetos produzidos industrialmente, sem qualquer referência
estética. Em mundos diferentes, a técnica, a arte e a indústria demorariam um século a
encontrar-se.
O período da proliferação dos bens de uso corrente produzidos em série, foi
coincidente com o interesse pelos estilos do passado e de outras culturas. O revivalismo
gótico vai adquirir contornos muito diferentes, consoante a intenção. Para o poeta romântico,
o imaginário da Idade Média é sinónimo de uma jornada espiritual às profundezas da alma, tal
como viria a ter o mesmo simbolismo para os Pré-rafaelitas. Para o socialista utópico, o
modelo de produção medieval, de relação direta entre o artesão e o artesanato, será uma luta
humanista pelos direitos dos trabalhadores a melhores condições de vida, para John Ruskin.
Para William Morris, será a representação de uma época em que a arte era próxima da
natureza, produzida por camponeses e por artesãos, sem ser desvirtuada pelo academismo e
pela indústria. Na Inglaterra, pioneira da Revolução Industrial, e a primeira a sentir
plenamente o seu impacto negativo, o Movimento Arts & Crafts foi a resposta salutar. No
centro da busca de uma arquitetura autêntica, com raízes profundas na sabedoria popular,
estava a cottage house, a casa do camponês. O mesmo símbolo poderá ser expressão de uma
intuição profunda de ligação ao passado, para dar sentido ao presente, em direção ao futuro,
como também poderá expressar, no sentido inverso, um sentimento de nostalgia retrógrado e
conservador, que caracterizou o moralismo da sociedade vitoriana. A estética voltada para o
passado tornou-se cada vez mais desfasada do progresso tecnológico e da aceleração do ritmo
de vida. Quando a rainha Vitória faleceu, em 1901, os ingleses sentiram que um enorme peso
lhes retirou a liberdade e uma nova era teve início.
O trabalho notável de sistematização da casa tradicional, realizado por diversos
arquitetos ingleses e alemães ao longo do século XIX, veio a tornar-se a base de formação dos
primeiros modernistas. O arranque da industrialização na Alemanha na era de Bismarck (na
década de 1870), e a consequente expansão da classe média alargou o mercado de potenciais
clientes. Novos edifícios tinham de ser construídos rapidamente e em grande número, para
acompanhar o progresso: fábricas, bancos, estações de caminho-de-ferro, pontes, hotéis, todo
o tipo de equipamentos coletivos, que servissem para acelerar a comunicação, o transporte de
mercadorias, e para agradar ao novo estilo de vida da burguesia. E, acima de tudo, a

230
habitação. Este setor da construção, apenas pontualmente tinha merecido a atenção dos
arquitetos, mais voltados para a produção de palácios e residências de dimensão monumental,
ou seja: às camadas da população mais abastadas. Na segunda metade do século XIX, a classe
média burguesia exigia mais qualidade do trabalho dos arquitetos para os seus apartamentos
na cidade. Foi a época das grandes reformas urbanas nas capitais europeias – Regent Street
em Londres, por John Nash (1811-1825), o projeto de Haussmann para Paris (1853-1870),
Ringstrasse em Viena e o Plan Cerdà para Barcelona (décadas de 1860-1890). A construção
de habitação tornou-se uma prática corrente e uma fonte de rendimento importante para os
arquitetos. Mantinha-se o fosso que separava claramente a arquitetura tradicional, da
arquitetura académica voltada para as elites.

3. Vanguarda na República de Weimar


Num período de censura e repressão, como foi a segunda metade do século XIX, a
liberdade criativa dos artistas era controlada e limitada. Em meios mais restritos, contudo,
mecenas cultos e industriais humanistas aderiam ao socialismo utópico e financiavam projetos
experimentais, que visavam proporcionar melhores condições de vida ao proletariado,
formando os antecedentes da habitação social. Foi após a Primeira Guerra Mundial que uma
transformação profunda ocorreu na sociedade europeia.
No Reino Unido, as grandes propriedades rurais dos aristocratas tornaram-se
insustentáveis, devido ao aumento dos salários dos trabalhadores. Durante a guerra, as
mulheres tomaram o lugar dos homens nas fábricas e em muitas outras profissões que
anteriormente lhes eram inacessíveis. Quando os homens regressaram da frente de combate e
retomaram os seus postos, recusaram-se a voltar aos baixos salários que ganhavam como
empregadas domésticas, o que gerou uma crise social debatida até no Parlamento, pois a
classe média e a classe alta pretendiam regressar ao estilo de vida que tinham antes da guerra.
A pressão exercida sobre as mulheres para aceitarem condições indignas de trabalho, não
resultou e as grandes propriedades foram lentamente perdendo os seus trabalhadores, por não
possuírem meio de sustento além do rendimento agrícola. O poder passou da aristocracia e da
propriedade para a classe que detinha maior quantidade de dinheiro e de ações na bolsa.
Na Alemanha, o kaiser Wilhelm II foi forçado a abdicar durante a Revolução de
Novembro (1918-1919) e o Partido Social Democrata Alemão (SPD) tomou o poder, dando
início ao período da República de Weimar (1919-1933). Embora formalmente tendo mantido
o título de Império Alemão (que iria perdurar até 1949), o governo era formado por um
sistema representativo democrático. Foi redigida a Constituição do Império Alemão,
fundando o Estado Social, concretizando a ambição socialista do SPD. Este partido havia sido
formado em 1875, pela união da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães (ADAV,
criado em 1863) com o Partido Social Democrata Alemão dos Trabalhadores (SDAP, de
1869). Sendo que o primeiro era um partido trabalhista e o segundo um partido marxista
socialista, o SPD por eles formado estava em sintonia com a Revolução Russa (1917) que
dera início à União Soviética. Tinha como prioridade a garantia dos direitos sociais dos
trabalhadores. Com a fundação do Estado Social, foi instituído o direito ao trabalho, ao apoio
da Segurança Social, à educação, aos cuidados de saúde e à habitação. Este último direito

231
constitucional, significou que o Governo assumiu a responsabilidade de proporcionar
habitações para os milhares de cidadãos que ficaram desalojados durante a guerra.
Os artistas avant-garde juntaram-se à Revolução de Novembro e com a liberdade de
expressão durante a República de Weimar, deram origem a um período de intenso
florescimento cultural. Esta vanguarda viria a ser abruptamente interrompida pela ascensão do
nazismo ao poder em 1933, que baniu a arte moderna, considerada «degenerada». A estética
do Terceiro Reich iria basear-se no conservadorismo, aliado ao uso da cultura como
propaganda.
Na primeira metade do século XX, a casa de campo tradicional sofreu dois desvios da
sua natureza: no sentido da superação, realizada pelos modernistas, e no seu uso para a
propaganda dos regimes fascistas. Esta dicotomia é a agudização da mesma tendência para o
uso ambíguo do nacionalismo, que vinha do século XIX. As duas correntes mantiveram-se (e
mantêm-se) lado a lado, alternando-se consoante o zeitgeist (o «espírito da época»). A
aparente ambiguidade da apologia da casa tradicional surge apenas quando se exclui a
ideologia da sua hermenêutica (ou processo de interpretação). A ideologia de esquerda
enaltece a casa tradicional por ser símbolo do povo, da classe trabalhadora; a ideologia de
direita enaltece a casa tradicional pela nostalgia do passado ao qual desejam voltar. Do
mesmo modo, a primeira usa o nacionalismo como incentivo à revolução no sentido do
progresso social e da conquista de direitos, a segunda recorre ao nacionalismo como forma
dissuasora da revolta, estimulando o imaginário de que uma nação forte e estável só é possível
sob um governo repressivo e autoritário. O discurso de ambos pode encontrar pontos comuns,
tal como o da valorização duma arquitetura vernácula que poderia ser defendida por qualquer
um dos pontos de vista. A distinção fundamental, tal como foi apontado por Ricoeur, é a
intenção que move a ação. Por sua vez, a intencionalidade só é compreensível quando
associada a uma ideologia, pois não é possível ao ser humano ser isento de pré-conceitos.
Neste sentido, a distinção entre tradicional e moderno sofre os mesmos desvios
consoante a intenção. Colocando o Modernismo Alemão no seu período próprio – o da
República de Weimar, entre as duas grandes guerras – então, torna-se evidente que o seu
conteúdo ideológico é tendencialmente de esquerda, pois a sua manifestação foi reprimida e
censurada no período extremamente reacionário que antecedeu a Primeira Guerra Mundial.
Do mesmo modo, este primeiro Modernismo foi combatido ferozmente pelo nazismo,
obrigando os respetivos arquitetos avant-garde a emigrar rapidamente, tanto por correrem
risco de vida (pela sua ascendência ou por adesão ao comunismo), como por terem ficado sem
trabalho, por pressão direta sobre os potenciais clientes. Na fase que se seguiu à diáspora dos
artistas e intelectuais alemães, o Estilo Internacional deu continuidade à estética modernista,
embora descartando-a do seu conteúdo social. Esta vertente norte-americana superficial
celebrizou o Modernismo, transformando-o numa prática banal da sociedade de consumo. A
ambiguidade política dos arquitetos modernistas, contribuiu para obscurecer a origem
ideológica do Movimento Moderno, na medida em que deram a primazia à sua conquista da
notoriedade. As tentativas de abordagem de Mies van der Rohe a Hitler (intercedendo pela
preservação da Bauhaus) e de Le Corbusier a Mussolini (oferecendo os seus serviços),
dificultam ainda mais uma interpretação correta.

232
Contudo, a ambivalência do processo de transição do Modernismo para o Estilo
Internacional, não é exclusivo da arquitetura. A própria época manifestou falta de clareza e de
direção, o que foi favorável à ascensão dos partidos fascistas. Sob o disfarce de defensores
dos direitos dos trabalhadores, Estaline (secretário-geral de 1924 a 1952), Mussolini
(primeiro-ministro de 1922 a 1943) e Hitler (chanceler de 1933 a 1945), adotaram um
discurso oficial que ia ao encontro dos desejos da classe trabalhadora e da classe média. Antes
da guerra, Mussolini foi secretário do Partido Trabalhista e trabalhou para o Partido
Socialista; Estaline ascendeu dentro do Partido Comunista; Hitler enveredou pela política ao
associar-se ao Partido dos Trabalhadores Alemães (DAP), um partido de extrema-direita
anticapitalista, antimarxista e nacionalista, posteriormente transformado no Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP, vulgarmente conhecido por partido nazi). A
dissociação entre estes conceitos não possuía um caráter de dicotomia, como lhes é atribuído
hoje. E a distinção entre arquitetura tradicional e arquitetura de vanguarda nem sempre teve o
mesmo valor.
Em 1896, o arquiteto e diplomata Hermann Muthesius (1861-1927), foi nomeado
adido cultural da Embaixada Alemã em Londres e nos seis anos seguintes, dedicou-se a
estudar a arquitetura daquele país. A sua missão estava inserida no contexto de Revolução
Industrial na Alemanha, impulsionada pela política de Bismarck (chanceler de 1871 a 1890) e
pela unificação do Império Alemão (1871-1918), um período no qual a indústria alemã ficava
aquém da inglesa. Muthesius publicou os resultados da sua investigação: Arquitetura Inglesa
Contemporânea (1900, sobre edifícios governamentais, institucionais e comerciais),
Arquitetura Religiosa Recente na Inglaterra (1901) e Arquitetura de Estilo e Construção
(1902) onde expõe e defende as ideias do Movimento Arts & Crafts, embora não rejeitando o
progresso da produção industrial como William Morris. Na perspetiva de Muthesius, a cultura
e arte precisavam de revitalização urgente, unindo-se à indústria e à tecnologia, para gerar
uma nova sociedade. Viria a ser esta a visão da Deutscher Werkbund (Associação Alemã de
Artesãos), da qual foi um dos fundadores em 1907, Em 1907, foi um dos fundadores da
juntamente com outros onze arquitetos. Entre os fundadores figurava também Peter Behrens,
que viria a ser mentor de alguns dos grandes nomes do Movimento Moderno, como Mies van
der Rohe, Walter Gropius, Le Corbusier e Adolf Meyer.
De regresso à Alemanha, Muthesius publicou A Casa Inglesa (Das Englische Haus,
1904), onde divulgou a arquitetura de habitação, praticada por jovens arquitetos ingleses
vanguardistas. O abandono da arquitetura de estilo, defendida por muitos na viragem do
século, significava igualmente o abandono da estética elitista das Belas-Artes, dirigindo-se
para a realidade da classe média. A Arte Nova pretendia superar a decadência, mas
rapidamente se tornou evidente que a raiz do problema eram as dissociações entre o artista, a
sociedade, a arte, a técnica e a indústria. A sistematização do conhecimento da casa
tradicional durante o século XIX estava a servir de base para a aproximação dos arquitetos em
direção à realidade, sobretudo da classe média, que exigia uma arquitetura do seu tempo. Com
a atenção dos arquitetos voltada para a casa de campo (cottage), tornou-se possível o seu
cruzamento com a filosofia de Nietzsche, a inovação tecnológica, o progresso da indústria e o
projeto de reforma social. Esta combinação permitiu uma expressão plástica totalmente nova,
assente na sabedoria de séculos de evolução da habitação, nos novos meios de construção e

233
numa visão social global. Quando se deu início à República de Weimar, reuniram-se as
condições para uma nova arquitetura, que viria a ser o modelo da habitação do século XX. Os
projetos de habitação coletiva da década de 1920, financiados pelo Estado, deram aos
arquitetos a oportunidade há muito desejada.

Considerações Finais
Na Alemanha, o nacionalismo que começou por ser liberal, tornou-se reacionário
durante o período do Império Alemão. O sentimento de inferioridade do país, que se
esforçava por deixar para trás o seu caráter rural, deu lugar ao orgulho nacional, por ser a
maior potência económica europeia em 1900. A derrota na Primeira Guerra Mundial fez
despertar na população o sentimento de humilhação, associando-se à nostalgia do apogeu.
Este conservadorismo veio a ser amplamente explorado pelo nazismo, que promoveu a cultura
popular como motivo de orgulho e fundamento da identidade nacional. A crença na
superioridade da raça veio colmatar a vergonha, alimentando um mecanismo desequilibrado
de oscilação entre extremos, que se iria repetir com a derrota na Segunda Guerra Mundial e a
recuperação económica do país nas décadas de 1950 e 1960.
Na Itália, o fascismo identificou-se com a estética do Modernismo, pois defendia a
palingénese (o renascimento ou a recriação da cultura e da sociedade). Contudo, o
Modernismo italiano não comungava do conteúdo ideológico do original alemão, uma vez
que o conteúdo de esquerda era considerado subversivo e foi erradicado. Com a mesma
expressão formal, mas sem o conteúdo que lhe conferia vida, a vanguarda modernista foi
forçosamente associada às grandes renovações urbanas dos regimes fascistas. Na prática,
ocorreu uma variante do mesmo desvirtuamento que ocorreu nos Estados Unidos com a
vulgarização do Estilo Internacional. O Modernismo teve uma continuidade formal, mas não
ideológica, tendo-se tornado apenas mais um estilo, imposto pela classe dominante à restante
população. Este desvio total da sua origem conduziu rapidamente ao seu ocaso e à contestação
da geração seguinte. Porém, o Pós-Modernismo viria a ser um fogo-fátuo, pois afirmou o fim
da Modernidade sem ter conseguido proporcionar alternativas capazes. Nas décadas de 1960 e
1970, a arquitetura foi novamente puxada na direção da realidade do dia-a-dia, com a vontade
de abraçar a complexidade da construção quotidiana, na esperança de que ocorresse uma
revitalização salutar. O resultado é a mesma sensação de há cem anos, de que a tecnologia
destruiu a arte e de que há um vazio por preencher.
No Reino Unido, o nacionalismo não teve uma expressão tão extrema quanto nos
regimes fascistas do continente e a arquitetura tradicional seguiu o seu curso natural de há
séculos. Na realidade, grande parte da população continua a habitar em casas ao estilo
tradicional e possui hábitos semelhantes aos seus antepassados de há séculos. A evolução da
habitação sempre foi gradual e fruto da necessidade. A interferência do arquiteto no processo
teve como consequência uma tipologia de uso corrente que em nada apela às memórias
ancestrais que proporcionam equilíbrio psíquico. A casa de campo surge novamente como
modelo, sob a capa da construção sustentável. No imaginário de quem habita na cidade, a casa
tradicional surge como símbolo da vida ligada à natureza, em harmonia com os seus ciclos e
leis. Os arquitetos contemporâneos, formados em ambiente académico, estão relutantes em

234
abandonar o seu estatuto de artistas, tal como aconteceu com os seus antecessores das Belas-
Artes há cem anos atrás. A questão da sustentabilidade, embora em si mesma seja débil do
ponto de vista teórico, contém o potencial de recuperar os valores e os ideais românticos no
seu melhor, quando em 1800 os filósofos e os poetas alemães discorriam sobre a dinâmica
entre a necessidade da Natureza e a vontade do Espírito. O arquétipo da casa tradicional, pode
desempenhar para o Homem contemporâneo a função terapêutica de reaproximação às suas
necessidades espirituais mais profundas – papel que desempenhou para os arquitetos avant-
garde do século XIX. No sentido inverso, a não reflexão sobre a sustentabilidade num ponto
de vista filosófico, poderá desencadear um conservadorismo retrógrado, nostálgico, de
abandono da cidade para regressar à vida simples do campo, como solução rápida para o
vazio espiritual.

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235
Oxford: T. Hudson Turner, 1851.

236
Telhados de Tesouro de Tavira – Modelos e Tipologias de Casas Nobres da Ribeira com
telhados múltiplos
Ana Isabel Nascimento Santos
Universidade de Évora
[email protected]

Resumo
O telhado de tesouro, tipologia de cobertura tradicional com estrutura em madeira resulta
num elemento construtivo original presente na paisagem urbana de algumas cidades do
Algarve desde o séc. XVI. Distingue-se dos comuns telhados de tesoura: pela complexa
estrutura interior de madeira que assenta diretamente nas paredes-mestras de cada “casa” ou
espaço (telhados múltiplos), inclinação superior a 45 graus, linha a um terço da altura, remate
em beiral revirado, forro em caniço (isolante natural), telha de canudo proveniente de
telheiros locais e pela carga simbólica associada a um modelo construtivo complexo e
dispendioso e que confere valor de nobreza aos edifícios por eles rematados.
Incidem no território português em cidades-porto ligadas na maioria à empresa dos
descobrimentos e na Madeira. Terão existido ao longo da Rota do Cabo em espaços onde a
presença de estaleiros navais e conhecimentos complexos em marcenaria eram essenciais para
a sua execução e onde o cruzamento da tradição de construir portuguesa com diferentes
tradições em África e na Ásia gerou uma evolução para a época.
Têm em Tavira, principal cidade-porto do Algarve no séc. XVI a maior dispersão. A
posição geoestratégica no apoio às praças marroquinas e consequente expansão do
aglomerado desde 1415, assim como a fraca afetação por parte das catástrofes que assolaram
o país no séc. XVIII devido à posição face às ilhas-barreiras da Ria Formosa tornaram
possível a manutenção de alguns exemplares que foram sendo replicados até à atualidade
apesar do apogeu do turismo desde os anos 60. Acrescentam-se os motivos funcionais que
passam por gerar espaço através da cobertura em núcleos urbanos consolidados e pela forma
como tornam os espaços de habitação mais frescos devido à concentração de ar quente na
cobertura o que acusa o seu estranho aparecimento numa região do sul do país.

Palavras-chave: telhados de tesouro, Tavira, ribeira, arquitetura, casa nobre.

237
Introdução

Figura 1 - Vista aérea de Tavira, 1960; fonte: Algarve Visto do Céu, P. Argumentum; original: Arquivo CM
Tavira

A necessidade de enquadrar e caracterizar atualmente os telhado de tesouro e sistematizá-


las com dados precisos sobre a genealogia, dispersão e incidência pressupõe entender as suas
características, geografia e influências o que significou o motivo principal para o
desenvolvimento desta investigação. Às influências sociais e económicas, relevantes para o
seu aparecimento, este estudo pretende entender uma tipologia arquitetónica desenvolvida
desde o séc. XVI e que por ter uma raiz sólida, carácter nobiliárquico e erudito chega até à
atualidade. Assiste-se porém ao seu desaparecimento progressivo e a necessidade de
inventariação através de um estudo arquitetónico que possa ser transmitido às gerações
vindouras e que auxilie nos trabalhos de reabilitação e revitalização de edifícios que as
tenham de raiz mostra-se urgente e necessário.
Quanto ao seu enquadramento e na tentativa de caracterização da arquitetura algarvia em
que se insere a maioria dos exemplares José Eduardo Hora Correia é o primeiro autor a tentar
uma síntese das suas características. Na articulação com a história e valor do património
construído no Algarve, referiu-se ao contributo da arte e arquitetura Manuelina da região,
explicando que “… é já hoje aceite pacificamente a originalidade do “Manuelino” algarvio de

238
Alvor e Estômbar à Luz de Tavira ou de Monchique a Loulé.” (Correia, 1991); a formação
das escolas decorativas de pedreiros loca, com a escola de Tavira, Moncarapacho e Cacela,
para além da arquitetura religiosa, onde destaca a arquitetura de habitação urbana e rural
algarvia. Num enquadramento mais próximo destaca, (principalmente na obra Algarve em
Património) a coerência presente nas casas nobres de Tavira nomeadamente na tipologia de
“casa fundada a partir do séc. XVI de que a presença do telhado de tesouro é a característica
principal”.
Já Carminda Cavaco no volume II - Vilas e Cidades da obra Algarve Oriental destaca o
papel de Tavira, a “principal” do Algarve do Séc. XVI como porto difusor e recetor das
novidades bem como a arquitetura civil que surge ligada ao passado nobilitário da cidade que
recebe a corte para mais facilmente controlar as praças-fortes de Marrocos e que reúne no seu
centro paradigmas de um passado construtivo de grande valor poupado pelo terramoto de
1755.
O geógrafo Orlando Ribeiro, redige um capítulo a propósito das açoteias de Olhão e os
telhados de Tavira (1961, pp. 53-146) e, nesta visão Ribeiro convida a relacionar os Telhados
de Tavira com exemplares de arquitetura oriental pelas características semelhantes dos
exemplares de cobertura existentes nos territórios do sul português e na India. Maria Isabel V.
Afonso (2006, pp.50-55) interpreta que telhados de tesouro são “coberturas múltiplas de
quatro águas muito inclinadas cujo beiral assenta quase horizontalmente na parede”. Aqui
destaca as diferenças em relação aos outros telhados múltiplos existentes em Portugal que
residem no facto de aqui haver, de preferência, um telhado por cada divisão e de a inclinação
das quatro águas ser mais acentuada, o que transforma a transição suave até ao beiral, vulgar
noutras zonas do país, numa curva quase angular. Quanto às relações orientais abordadas por
Ribeiro na sua obra, a autora redige: “Pensamos, assim, que os telhados algarvios não foram
inspirados nos pagodes da Índia e da China, mas antes importados da Índia, onde nasceram
como criações indo-portugueses, fruto do encontro de culturas. No Algarve, recebem o
encurvamento dos perfis, embora este já existisse em telhados anteriores ao conhecimento do
caminho marítimo para o Oriente(…)”(Afonso, 2006, pp. 50-55). Mas Maria Isabel Afonso
contesta e com razão, a inexistência de qualquer funcionalidade nos telhados de tesouro
defendida por Orlando Ribeiro que diz “(…) os telhados múltiplos não têm qualquer função
de recolha de água, e não correspondem portanto a nenhum fim utilitário.” (Ribeiro, 1961, pp.
53-146) o que leva a querer que daí parta a relação com outros espaços ao longo da Rota do
Cabo como Luanda ou Goa onde se conhece a existência de construções com telhados
múltiplos de raiz semelhante e que podem vir a ser alvos de investigações futuras que as
relacionem com os telhados de tesouro de Tavira.

1. A vida litoral, as cidades-porto e os novos espaços da Ribeira: desígnios do


urbanismo quinhentista
As implantações junto ao mar estimularam uma vida de relação quase vital. As cidades
marítimas na orla do continente: abertas para o mar mas estabelecidas em sítios isoláveis da
terra firme, promontórios escarpados, ilhas rochosas ou acrópoles inacessíveis, dominavam o
porto e os caminhos que lá conduzem.

239
Na génese dos aglomerados litorais ou da proximidade de rios com foz no mar a rede
urbana estruturou-se e completou-se em função da cabotagem das embarcações e dos portos
que melhores condições ofereciam para a ancoragem e desembarque. O aumento da
circulação concordou com o desenvolvimento económico e comercial que torna necessário
dotar as aglomerações medievais mais importantes - dominadas por ruas estreitas - com vias
em que o atravessamento e escoamento do trânsito se fizesse naturalmente e atraísse o
comércio dos novos produtos vindos dos territórios recém-conquistados.
Com o incremento da riqueza nas cidades litorais acumulam-se preocupações com a
defesa que explicam a implantação das cidades com funções comerciais e ligadas à navegação
afastadas da foz dos cursos de água mas que apresentem uma base de construção rápida mas
robusta. Passam a apresentar-se recuadas no seu estuário ou curso, como sucede em Lisboa ou
no Porto mas também no caso das recém-conquistadas, desde a Conquista de Ceuta em 1415,
que beneficiaram com o negócio dos descobrimentos como Lagos, Faro e Tavira.
O advento de novas ideologias modernistas, atrai a mudança das condições económico-
sociais e à tradicional economia feudal sucede uma economia de base comercial que em muito
contribuí para a vocação marítima e política expansionista.
Com o Renascimento e com a emergência de novas conceções estéticas começa a olhar-
se com desagrado para as cidades medievais de ruas sujas e apertadas o que gera reajustes na
forma de pensar e projetar a cidade. Por estas questões desperta-se a problemática da
ampliação do aglomerado urbano e das habitações. Ainda nesta altura observa-se que a
documentação passa a dar grande importância ao espaço público, designadamente no que
respeita à regulação e traçado de ruas, utilizando um padrão funcional já de natureza
mensurável, do qual resulta uma expressão bem documentada: traçar “de cordel” ou “por
cordel”" .
O desenho base da cidade da modernidade incluía agora uma grande praça/ terreiro,
maioritariamente quadrangular, que se identificava como o centro do aglomerado. Daí,
definiam-se as restantes ruas e quarteirões segundo uma malha tradicionalmente ortogonal e,
aos espaços onde existia maior densidade comercial correspondiam-lhe já na mesma
proporção os estratos sociais mais elevados.
Á zona ribeirinha, área principal de desenvolvimento das cidades-porto, com quarteirões
perfeitamente estabilizada e conservada após o século XVI, apresenta um traçado de clara
intenção ortogonal, definido em relação à margem de rio, o seu eixo gerador. Este vem mais
tarde a tornar-se no modelo de cidade marítima portuguesa que se afirma a partir dos finais do
séc. XV, e tem o seu auge nas transformações ocorridas em Lisboa durante o reinado de D.
Manuel I daí, exportado para todas as novas situações coloniais. As denominadas “Ribeiras”
de todas as cidades do reino começaram por ser espaços, sempre na margem de um rio ou à
beira-mar, onde acontecia tudo o que se preteria na zona “nobre”. Com efeito, tal como na
Ribeira de Lisboa, modelo para as restantes quer no Reino quer no Império Ultramarino,
verifica-se em Tavira a associação dos vários equipamentos portuários no espaço da Ribeira –
praia, porto, alfândega, estaleiro naval e mercado (Caetano, 2009). Para isto foi necessário
ampliar o aglomerado urbano e definir regras para o seu desenvolvimento, regras essas
aplicando conceitos-base de ordem e proporção fundamentalmente militares.

240
A Ribeira de Tavira
O espaço da Ribeira de Tavira foi crescendo e consolidou as suas estruturas com
referência na margem sul do rio Gilão, à semelhança das ribeiras de Lisboa ou do Porto. A
aproximação da cidade ao rio e ao mar assim como o desenvolvimento da sua actividade
portuária são motivos para o apogeu da sua evolução urbana. Acrescem a estes, o facto de ter-
se verificado que, a área da Ribeira de Tavira, se circunscreveu, na generalidade, de um lado
da cidade até à segunda metade do séc. XX, o que faz compreender que o início da Época
Moderna foi, com efeito, “esplendoroso” para as construções na área da “Ribeira”.
É interessante observar tanto na cartografia como na documentação de Tavira, a apropriação
desta realidade (a Ribeira) que se vai complexificando e consolidando durante os séculos XV
e XVI. Assim, de um conceito generalizado de “ribeira” enquanto espaço ainda à margem,
onde se doam pardieiros (casebres/choupanas) em 1287, passamos à afirmação de um espaço
identificado na cidade, a “(…) praça da ribeira(…)” onde, em 1415, já se formalizavam
testamentos e, finalmente, à expansão habitacional da zona, agora privilegiada, confirmada
pela estadia, em 1573, de D. Sebastião nas Casas da família Corte Real no bairro da Ribeira
(Iria, 1976, p.114).
O novo Foral que Tavira recebe em 1504 dá-nos, a certa altura, um claro testemunho da
realidade da construção naval e da multiplicidade de materiais necessários para equipar um
navio, objetos estes que se guardavam nestes edifícios e/ou que povoavam a paisagem
ribeirinha, muitas das vezes utilizados na construção ou ampliação das casas nobres dos
proprietários ligados aos negócios navais: “E quaisquer pessoas que fizerem navios ou naus
de cento e trinta toneladas para cima, não pagarão dízima nem algum direito de portagem de
mastros, madeira, ferro, armas, velas, remos, mantimentos, breu, cevo, e de quaisquer outras
coisas que, para fazimento das naus e navios e reparo e armação sua, lhe forem necessárias,
posto que venham pela foz. E se os vizinhos da dita vila fizerem naus ou navios, caravelas ou
barcas, menos da dita quantia, não pagarão os ditos direitos, solto das coisas que lhe vierem
pela foz do dito reino do Algarve, ou sejam pessoas, que tenham, por ofício de fazerem alguns
dos ditos navios para vender e não para seu uso”.
A elevação de Tavira a cidade surge numa altura em que era necessário exercer a
administração e controlar os territórios do Norte de África, pelo que a sua arquitetura
acompanha também essa expansão, imagem do poder e ambição do português desta época.
O aumento demográfico progressivo requer a expansão da cidade homogénea pelas
margens do rio, depositando as habitações paralelas ao seu curso, que serviriam também elas
como armazéns para matérias e utensílios necessárias aos estaleiros no piso inferior e que
convergiam de igual modo para o rio. Nas zonas ribeirinhas, a jusante da ponte, formam-se
quarteirões paralelos ao rio de uma regularidade denunciadora do cumprimento de normas
urbanísticas modernas. Os edifícios são encomendados ao “estilo romano”,
inconfundivelmente marcados pela sobriedade e pela clareza das formas.
A partir do séc. XVII com a perda de importância da cidade, assoreamento do rio e perda
de territórios conquistados, o que leva a querer que a maior evolução urbana e qualidade
arquitetónica desta época com a deslocação massiva de estratos sociais do reino para esta
cidade. “ E daqui em diante começou a nobreza de Tavira, uma a abater-se outra a aniquilar-
se” acompanhando provavelmente o declínio o porto (Castro, 1971, pp.576-580).

241
2. Telhados múltiplos portugueses: os telhados de tesouro

Figura 2 - Corte do Palácio da Inquisição. Primeira residência dos Vice-Reis em Goa. Desenho segunda metade
do seculo XVIII; fonte: Gabinete de Estudos Históricos de Fortificação e Obras Militares, Lisboa.

Da arquitetura militar à arquitetura civil: a casa-torre


Na génese das construções modulares do séc. XVI estão as casas-torre, incluídas no
Algarve muitas das vezes no sistema de defesa do litoral (desenvolvido por D. Dinis no final
do séc. XIII) e destinavam-se maioritariamente a famílias nobres com funções militares. “Os
primeiros solares eram simples torres quadrangulares, extremamente pesadas nos seus grossos
muros, com poucas aberturas (…) tratar-se-iam de novos edifícios destinados a suprir um
determinado número de solicitações, nomeadamente como fortalezas e casa de habitação”
(Azevedo, 1988, p.8).
A planta quadrangular compacta, derivada da casa-torre, combina-se aqui com as
coberturas múltiplas de telhado de tesouro. Elevadas e colocadas em sítios de fácil controlo
visual eram por vezes maciças e geralmente de pequenas dimensões. Edificadas com
dimensões e expressão comparáveis às das torres dos primitivos solares do norte
assemelhavam-se ainda mais na medida em que no Algarve seriam rebocadas e caiadas.
Surgem algumas habitações nobres que, não se confundindo com o modelo, terão dele
herdado a planta quadrangular, o aspeto compacto e o desejo de construir em altura sendo que
dois pisos mais e os elevados telhados de tesouro já constituíam um modelo de construção em
altura para época.
A casa-torre possuía normalmente vários pisos de apenas uma sala sem divisões internas
e apresentam dois ou três pavimentos soalhados. A entrada era feita através de um destes
pisos por uma escada basculante de madeira, que era retirada em situações de emergência e no
século XV os andares, principalmente dos pisos térreos, começam a ser dotados com
abóbadas de pedra, em substituição da anterior divisão por estruturas de madeira.

242
Características, incidência e dispersão
O telhado de tesouro resulta numa cobertura que responde a exigências espaciais,
programáticas e formais decorrentes das evoluções construtivas da época do seu aparecimento
(séc. XVI), materiais disponíveis e qualidade da mão-de-obra designada para a elaboração dos
trabalhos que resultaram em fator de novidade e inovação para a época, apenas possível pelo
grande conhecimento da "arte de trabalhar a madeira" possivelmente ligada à existência de
um grande estaleiro e do aproveitamento das matérias excedentes da construção naval.
Numa fase inicial são aplicados apenas nas “casas da frente” das principais artérias da
cidade e replicados pelas divisões principais da habitação (telhados múltiplos). Ao deixar
adivinhar o número de divisões da habitação que confere ao modelo um carácter nobilitário
pela afirmação do poder do seu encomendador devido ao grande investimento em matérias-
primas e mão-de-obra especializada necessária para a sua execução, imagem de uma
burguesia mercantil em ascensão com grande ligação aos negócios dos descobrimentos.
São atribuídas aos telhados de tesouro normas construtivas que pressupõem inclinação
superior a 45º e o facto de assentarem sobre paredes-mestras, o que permite, no interior das
salas nobres, a existência de um teto de caixão do tipo “masseira”.
Não têm uma altura fixa, mas aquela que é dada pela dimensão das áreas das casas que
cobrem, pelo que como a sua inclinação sempre igual ou superior a 45º, são tão mais altos
quanto maior for o espaço a cobrir, o que gera perfis de grande dinâmica quando conjugados
com os seus pares. Quando uma divisão é quadrangular não é possível construir telhados de
forma trapezoidal e nestes casos a cumeeira é inexistente e as asnas são suprimidas, tornando
um telhado em forma piramidal quadrangular.
Quanto à estrutura interior em madeira, as asnas simples do período do Renascimento,
são de geometria elementar, constituídas por linha e pernas e em alguns dos casos pendural.

243
Figura 3 - Palácio da Galeria, telhado de tesouro sobre a loggia; fonte: FERNANDES, José Manuel e
JANEIRO, Ana Algarve. Arquitecturas e Espaços Renovados. p.122.

244
O comportamento estrutural de uma asna simples é equivalente a um arco de 3 rótulas: o
esforço atua sobre as pernas, que trabalham à compressão e a linha absorve a componente
horizontal deste esforço. A componente vertical é compensada pela reação vertical do apoio.
O elemento vertical (pendural) surge posteriormente, para facilitar a união entre as pernas
No caso das asnas de tesoura a linha passa a estar carregada a meio-vão e sujeita para
além da tração, à flexão e ao esforço de corte nesta zona, o que agrava a deformação ao longo
do tempo conferindo-lhe o perfil hiperbólico quando colocado na união de outro elemento de
cobertura com as mesmas características.
As tradicionais ligações eram feitas por samblagem, um método que exigia a transmissão
de esforços feita por atrito e compressão na interface entre os elementos a unir. Normalmente
feita por dentes que asseguravam a perfeita conexão entre as peças ao prevenir os
deslizamentos laterais das mesmas.
Diferem dos vulgares telhados de tesoura na medida em que quase todos os telhados de
duas ou quatro águas (e seus derivados) utilizam asnas ou tesouras na sua estrutura, fazendo
com que essa designação não estabelece a diferença entre os telhados de tesouro e os restantes
telhados de quatro águas. Têm geralmente os níveis ou linhas (traves horizontais que ligam as
pernas da asna ou tesoura) implantados a cerca de dois terços da altura interna dos telhados
(asna francesa). E nos que cobrem um só compartimento, as linhas integram frequentemente
uma armação horizontal atravessada por uma trave que as une pelos pontos médios e as liga
às “pernas” axiais das tacaniças (as duas águas do telhado mais pequenas). Há ainda quatro
traves que unem os últimos cruzamentos da armação aos barrotes dos rincões.
Nos telhados verdadeiramente piramidais que cobrem divisões quadrangulares, essas
armações, simplificadas, ficam reduzidas, a dois Xx cruzados a 45º que fazem com que se
perca completamente a noção de asna ou tesoura - as aspas.
O termo tesoura terá tido origem nas asnas que o compõem, enquanto que o termo
tesouro terá surgido por uma mudança de género, como aconteceu com outros vocábulos. A
escolha do termo tesouro teve apenas em conta distingui-los dos habituais telhados com asnas
de tesoura, pois como demonstramos nesta investigação apresentam diferentes características
principalmente a nível da estrutura interior apesar de pelo exterior serem bastante
semelhantes.
Segundo Orlando Ribeiro, podem ver-se telhados múltiplos nas seguintes cidades (todas
as gravuras no volume 3º, os respetivos números entre parêntesis): Diu; Baçaim; Chaul; Goa;
Barcalor; Mongalor; Cananor; Cochim; Columbo; Negapatão; Malaca; Solor. O seu uso seria
portanto bastante geral em cidades do Oriente, onde a dominação portuguesa durou algum
tempo ou sem as quais Portugal manteve relações frequentes de navegação e comércio nos
séculos XVI e XVII.
Em Luanda, alguns núcleos de telhados múltiplos surgiram, salvos da “sistémica
destruição”(Batalha, 1950). Aqui, todos os estabelecimentos portugueses foram autênticas
criações, ao mesmo tempo feitorias e fortalezas, em locais escolhidos pelas vantagens
defensivas e facilidades de comunicação. Resultaram em fator de inovação para a época de
quinhentos, possível pelo grande conhecimento da "arte de trabalhar a madeira" ligada à
existência de um grande estaleiro naval e do aproveitamento das matérias-primas excedentes
da construção naval, onde o reaproveitamento dos troncos mais curtos ou menos resistentes
que não serviam a construção de grandes embarcações era possível.

245
Os altos e inclinados telhados permitiam que o ar quente e húmido subisse fazendo com
que o espaço habitado da casa se mantivesse mais fresco pela constante circulação de ar dada
não só pela presença dos telhados de tesoura mas pela conjugação com as janelas e portas de
reixa.
Este tipo de cobertura, que na sua versão mais simples, não apresenta qualquer tipo de
teto ficando a estrutura de suporte à vista, permite que o ar quente suba e ative a circulação
das massas de ar. A versão mais sofisticada e mais próxima do modelo indiano (goês), mas de
utilização rara no Algarve, com um teto plano de reixas, faz exatamente o mesmo efeito. A
capacidade relativamente isolante do forro de caniço colocado entre a armação de madeira e a
telha, complementa a contribuição para o conforto térmico dos telhados de tesouro (Caldas,
2007). O ar abafado era exteriorizado através de uma estrutura de reixa do interior do telhado
(no Algarve normalmente substituído por caniço) e sequentemente pelas telhas em forma de
escama que os portugueses logo adaptaram a “canudo” (Carita, 1995).
Em Tavira, cidade onde os telhados de tesouro apresentam a maior dispersão definem o
perfil característico da cidade. O seu desenho, de quatro águas muito inclinadas e a cor do
barro das telhas tradicionais fabricadas localmente (Santa Catarina) conferem à paisagem
urbana uma grande unidade. Confundem-se com a evolução urbana o que indica que o seu
início estará provavelmente relacionado com a primeira grande expansão do edificado à altura
da sua elevação a cidade (1520), ou seja, a planta do séc. XVI.
A área urbana de Tavira distribui-se e é condicionada morfologicamente por elementos
elevados como as colinas/morros de Santa Maria; S. Brás; Santana; as zonas de vale e linhas
de água que correspondem aos eixos viários principais da Rua da Liberdade; Alagoa; Fonte
Salgada; Bela Fria, os bairros tradicionais das zonas ribeirinhas: da Ribeira e da Carreira de
São Lázaro e por um sistema geomorfológico, associado às condições que cria de declive e
orientação solar o que provocou a diferenciação, quer em termos de densidade, quer em
termos de época de ocupação da estrutura urbana geral da cidade.
O rio, eixo mais marcante da cidade define nas suas margens dois planos: as frentes de rio
que são o espelho uma da outra. As elevações pontuam visualmente o perfil da cidade onde se
localizam os pontos de referência mais importantes e, o caminho antigo que atravessa a cidade
e antiga estrada de Castro Marim a Faro funciona como segundo eixo, perpendicular ao
primeiro, em volta do qual se estrutura todo o aglomerado e sobretudo as casas nobres com
telhados de tesouro.
Podem observar-se ainda hoje em grande número nas duas margens do rio, ligando-se aos
bairros antigos da Ribeira, na sua extensão, na antiga Rua Nova Grande e Rua Nova Pequena,
na Corredoura, no largo da Alagoa e ao longo da antiga Carreira de São Lazaro com o bairro
do mesmo nome. Em geral estas construções estão associadas a ruas de grande tráfego e
muito particularmente ao Caminho Antigo que seguia de Castro Marim, passava o rio e se
dirigia para Faro (Cavaco, 1976).
As frentes urbanas são definidas pela sucessão de fachadas, geralmente de dois pisos,
com portas e janelas de peito no primeiro e sacada no segundo, paredes caiadas, beirado com
cornija e telhado de tesouro. Assim se compõem conjuntos muito homogéneos que pela sua
grande extensão e repetição denunciadora de normas estilísticas modernas conferem-lhe
carácter monumental ao perfil das ruas.

246
1. Casas Nobres com telhados de tesouro da Ribeira de Tavira
Nos lotes maiores a construção desenvolve-se à volta do logradouro numa série de
volumes de dois pisos interligados por galerias ou terraços exteriores.
Numa das primeiras zonas de expansão da cidade (séc. XVI e XVII) os lotes têm maior
dimensão e as habitações desenvolvem-se em dois pisos, dos quais o primeiro é destinado a
ocupação comercial ou armazém. Normalmente os pátios são áreas de passagem em volta dos
quais se organizam os volumes da habitação e em muitos casos há também logradouros com
árvores de fruto e poços situados na parte posterior das casas e que dão para a rua das
traseiras.

Figura 4 - Ribeira de Tavira, 1888 - fonte: Arquivo Histórico CM Tavira.

A tipologia base de casa nobre do séc. XVI presente na paisagem urbana de Tavira representa
a estandardização do tipo de casa formada nos finais do século anterior, o que corresponde em
termos de arquitectura portuguesa ao que poderemos genericamente integrar no chamado
“estilo chão” nacional (Correia, 1991). Assemelhavam-se estes primitivos solares a grandes
cubos ou paralelepípedos, geralmente de silhueta ou mais raramente de alvenaria, de altura
modesta, sendo a sua planta por vezes quadrada, outras vezes retângular (Azevedo, 1988).
Nas coberturas a partir do séc. XVIII vão desaparecendo os telhados múltiplos, “substituídos
por telhados uniformes de quatro águas, sobretudo nos centros urbanos mais atingidos em
1755, enquanto a escala e a volumetria igualmente se alteram. As maiores mudanças operam-
se no desenho dos vãos” (Correia, 1986, p.76).
A inexistência de corredores fazem com que se acrescentem módulos sucessivos,
havendo que passar progressivamente por cada uma delas, ou pelo menos, a partir da primeira
câmara, até se atingir a mais recuada. A maneira como a sua ampliação era muitas vezes feita,
por acrescentamento sucessivo de módulos essenciais constituí a sequência sala-câmaras. A
sala surge como a dependência que mais excelentemente caracteriza a casa nobre, pelas suas
dimensões acrescidas em relação às restantes divisões e pela multiplicidade de usos que
permite. Á sala seguem-se as câmaras, dependendo o seu número da grandeza da própria

247
habitação. A sequência modelar indicada seria a câmara do paramento ou antecâmara, a
câmara de dormir e o guarda-roupa ou trascâmara, colocadas progressivamente por esta
ordem umas após outras e com ligação directa entre si, de modo a que a trascâmara seja a
mais interior e de acesso mais privado. A esta progressão de intimidade corresponderia
também a diminuição das áreas dos espaços por serem precisamente mais reservados e, como
tal, com acesso permitido a um número gradualmente mais restrito de pessoas.

Conclusão
A importância dos estudos sobre arquitetura civil e neste caso no Algarve, complexos por
se associarem a temas paralelos como a demografia ou as vivências do quotidiano. Estas,
levam as investigações a prosseguir mais ricas e globais pelo facto de acompanharem não só
as tendências construtivas como o ambiente social de uma dada época.
Uma incorreta diferenciação ou associação direta aos mais vulgares telhados de tesoura
existentes um pouco por todo o território português e facto do carácter nobiliárquico do
telhado de tesouro não ter possibilitado a sua integração nos volumes de Arquitetura Popular
Portuguesa tem vindo a revelar-se devastadora para este tipo de cobertura atípica. A falta de
estudos que lhe conferem a importância que merecem, sob pena do desaparecimento da
informação com a cada vez menor e envelhecida mão-de-obra qualificada tem-se revelado
uma ameaça para a sua manutenção.
Com a evolução tecnológica e a mudança constante de hábitos e gostos, os edifícios
tendem a ser alterados ou até mesmo a desaparecer muito em parte (no caso específico do
Algarve) pela devastação que o património assiste pelo desenvolvimento do turismo de
massas na região o que em muitos casos deu origem à destruição gratuita de muitos destes
exemplares.
Sobre os telhados de tesouro e quanto aos edifícios que lhe correspondem, com clara
influencia militar e renascentista seriam facilmente reproduzidos ou reconstruídos sobretudo
em períodos de guerra traduziram-se mais tarde como importantes elementos sobreviventes a
correntes de estilo que ultrapassaram séculos e que chegaram até nós como repositórios de
técnicas construtivas tradicionais, memória da arquitetura de casas nobres da época de
quinhentos.
O grande poder de adaptação e absorção de influências dos portugueses da época de
quinhentos a diferentes contextos e culturas levou à criação de um modelo construtivo erudito
por se adaptar facilmente às novas necessidades e desafios programáticos em diferentes
contextos e culturas, para lá das correntes de gosto efémeras.

Bibliografia
AZEVEDO, Carlos - Solares Portugueses: Introdução ao estudo da casa nobre. 2ª Edição.
Livros Horizonte. Setembro, 1988. p.8. ISBN: 9789722401661.
BATALHA, Fernando Batalha - A arquitectura Tradicional de Luanda – Angola,
Arquitectura e História. Luanda: 1950. ISBN: 9789726996811.
CAETANO, Carlos - Ribeira de Lisboa na Época da Expansão Portuguesa (séc. XV – XVII.
Lisboa: Edições Pandora, 2008. ISBN: 9789728247140.

248
CALDAS, João Vieira Caldas - A Arquitectura Rural do Antigo Regime no Algarve [Texto
policopiado] Lisboa: Publicação UTL - Instituto Superior Técnico, Lisboa, 2007. Dissertação
de Doutoramento.
CARITA, Hélder - Palácios de Goa, Modelos de Arquitectura Civil Indo-Portuguesa. 2ª
Edição. Lisboa: Quetzal Editores, 1995. ISBN: 9789725642436.
CASTRO V. Damião António de Lemos Faria - Política Moral e Civil etc. tomo IV. Lisboa,
1751. pp. 576-580.
CAVACO, Carminda - O Algarve Oriental: as vilas, o campo e o mar. Faro: Gabinete de
Planeamento da Região do Algarve, 1976.
CORREIA, José Horta - Arquitectura Portuguesa: Renascimento, Maneirismo, Estilo Chão.
Lisboa: Editorial Presença, 1991. ISBN: 9789722314428.
IDEM; O Algarve em Património - Arquitectura Algarvia do Séc. XVI ao Séc. XIX (tentativa
de caracterização) “4º Congresso do Algarve. Racat, 1986” P.71.
IRIA, Alberto - Da Importância Geo-Política do Algarve, na Defesa Marítima de Portugal,
nos séculos XV a XVIII. Lisboa: Academia Portuguesa de História, 1976. pág. 114.
ISABEL, Maria Vieira Afonso - Telhados de Tesouro em Faro, Revista Monumentos, Revista
Semestral de Edifícios e Monumentos. Lisboa: Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos
Nacionais, Março, 2006. ISBN: 0265000229686. pp. 50-55.
RIBEIRO, Orlando - Geografia e Civilização. Temas Portugueses, - Açoteias de Olhão e
telhados de Tavira (Influências orientais na arquitectura urbana) 1961. pp. 53-146 e 255.
ISBN: 9789898268167.

249
Considerações de Raul Lino acerca das condições que influenciam a arquitectura de
cada região.
Francisco Portugal e Gomes
DARQ- Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Coimbra
[email protected]

Resumo
Este artigo aborda as considerações de Raul Lino (1879-1974) acerca das condições que
influenciam a arquitectura de cada região, a partir da análise aos ensaios, “A Nossa Casa”
(1918), “A Casa Portuguesa” (1929), “Casas Portuguesas” (1933), L’Evolution de
l’Architecture Domestique au Portugal” (1937 A) e “Auriverde Jornada” (1937 B). O estudo
reúne um conjunto fragmentário de reflexões sobre o assunto disperso pelas obras citadas,
referenciando-as a contributos de outros autores, sintetizando os aspectos fundamentais das
considerações de Raul Lino em esquemas gráficos que permitem uma melhor interpretação
crítica das sínteses que se podem extrair de cada uma destas obras. O tema ainda não foi
objecto de estudo sistematizado e poderá contribuir para a clarificação da evolução do
pensamento de Raul Lino não só acerca do que considera serem as condições que influenciam
a arquitectura de cada região, no período de 1918 até 1937, mas também do seu significado,
quer no contexto das pesquisa dos fundamentos da «casa portuguesa», quer no contexto de
reafirmação nacionalista da tradição portuguesa que se instala em Portugal a partir de 1936,
de combate vigoroso à arquitectura moderna, no âmbito dos restantes nacionalismos
Europeus. O estudo também poderá contribuir para um enquadramento das considerações
acerca das condições que influenciam a arquitectura de cada região que antecedeu a reflexão
sobre “aspectos” em que deveria fundamentalmente incidir o “Inquérito à Arquitectura
Regional Portuguesa”, (1955-1958), promovido pelo SNA-Sindicato Nacional dos
Arquitectos.

Palavras-chave: Raul Lino, «casa portuguesa», arquitectura popular, condições que


influenciam a arquitectura de cada região, inquérito.

250
1. Introdução
Este artigo aborda as reflexões escritas de Raul Lino (1879-1974) acerca das
condições que influenciam a arquitectura de cada região, centrando-se na análise dos
ensaios, “A Nossa Casa” (1918), “A Casa Portuguesa” (1929), “Casas Portuguesas” (1933),
L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal” (1937 A) e “Auriverde Jornada”,
(1937 B). A metodologia utilizada neste estudo consistiu em reunir um conjunto de
considerações fragmentárias sobre o assunto dispersas pelas obras citadas, sintetizando-as em
esquemas gráficos que permitem uma interpretação crítica, referenciando algumas dessas
considerações a contributos de outros autores. O tema ainda não foi objecto de estudo
sistematizado e poderá contribuir para a clarificação, não só da evolução do pensamento de
Raul Lino acerca dessas condições, no período de 1918 até 1937, mas também do seu
significado, quer no contexto das pesquisa dos fundamentos da «casa portuguesa», quer no
contexto de reafirmação nacionalista da tradição portuguesa que se instala em Portugal a
partir de 1936, num período de combate vigoroso à arquitectura moderna, no âmbito dos
restantes nacionalismos Europeus.

Raul Lino começou a tecer considerações sobre o assunto no livro a “A Nossa Casa”
(1918), indicando aí dois factores variáveis que geravam instabilidade na arquitectura
doméstica burguesa: um de ordem psicológica e outro de ordem social. Em “A Casa
Portuguesa” (1929), (Ver Figura 1) Raul Lino rejeitou a abordagem tipológica preferindo
estudar a arquitectura de cada região a partir da combinação de elementos arquitectónicos. O
ensaio é uma tentativa de identificação dos elementos constantes da arquitectura doméstica
portuguesa, enquanto base da caracterização da «casa portuguesa», sendo aí referidos três
factores fundamentais que influenciavam a arquitectura de cada região: Etnografia, Clima,
Paisagem. Em “L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal” (1937 A), Raul Lino
distingue duas classes fundamentais de condições que apresentam diversidade de região para
região: uma física e outra humana. No livro “Auriverde Jornada”, (1937 B), a tradição é uma
força de resistência que se opõe às novas ideias e contrária ao movimento transformador
gerado pelas condições modificadas do viver, conceito analisado e representado na parte final
do artigo.

2. Modernidade versus Tradição: Raul Lino e Garcia Mercadal


A definição dos factores que influenciam a arquitectura de cada região constituiu uma
matéria fulcral das pesquisas à arquitectura popular no século XX, tendo sido ponto de partida
para estudos de arquitectura nos dois países ibéricos. Raul Lino não foi o único a reflectir
sobre este assunto. Em 1930, um ano após as exposições de Barcelona e de Sevilha, Fernando
Garcia Mercadal (1896-1985), publicou o livro “A casa Popular em Espanha”1, [La Casa
Popular en España], (ver Figura 2). A pertinência desta obra deve ser enquadrada na sua
ligação ao Movimento Moderno e aos C.I.A.M. O interesse de Mercadal pelo estudo da
arquitectura doméstica rural espanhola advém em parte da ausência dos estilos históricos.
Mercadal, (op. cit. 1930) reconheceu que a disciplina da Geografia tinha aberto uma nova

1
MERCADAL, Fernando Garcia - La Casa Popular en España, Editora Espalsa, Madrid, 1930.

251
perspectiva de entendimento da casa tipo rural enquanto facto predominante em íntima
relação com a geografia local. A casa rural isolada seria a que melhor expressava os
caracteres de dependência com o quadro geográfico local; havendo locais onde era tão íntima
a sua relação com a paisagem que dir-se-ia ser um elemento da natureza que ali se fixou e
cresceu como um ser vegetal. Mas, enquanto a Natureza em Raul Lino é inspiração, e o bom
gosto adquire-se por um estudo dedicado, isso é, pelo amor contemplativo da natureza e pela
observação das obras dos artistas também nela inspiradas,2 para Mercadal a natureza molda a
casa tipo rural. E o estudo da casa tipo rural parte da sua intima relação com a geografia
local. De acordo com Mercadal (1931: p.7), são três os factores fundamentais que influenciam
a arquitectura de cada região: Clima, Materiais, Estrutura social:

São factores fundamentais perenes:


- O Clima;
- Os Materiais.

É factor fundamental variável:


- A Estrutura social.

Há semelhança de Raul Lino, também para Mercadal “...os gostos, as modas e os


costumes de cada geração, fazem com que a casa careça de uma permanência absoluta”.3
Porém, Garcia Mercadal vai mais longe ao admitir que “...só a perenidade dos factores
físicos, clima e materiais tende à formação dois tipos locais, com características para as
quais pouco ou nada influenciam os chamados estilos históricos.” 4

Enquanto “A importância atribuída por Raul Lino ao envolvimento paisagístico da


habitação, remete originariamente para a sua formação teórica de juventude nas linhas do
pensamento de Emerson, Ruskin e Thoreau, mas acima de tudo, para a sua estrutural
sensibilidade romântica, que cultivou ao longo da sua vida.” (Irene Ribeiro,1994: p.164); para
Garcia Mercadal o entendimento da arquitectura rural é inseparável da sua adesão ao
movimento moderno e das suas preocupações com os problemas e soluções para a habitação
popular no âmbito da arquitectura moderna e do racionalismo dos anos 30 do Sec. XX. Se por
um lado, a poética mistificadora da tradição arquitectónica popular em Raul Lino, (Irene
Ribeiro, 1994: p.157) resulta de um distanciamento em relação à realidade no seu todo, por
outro lado, a insistência de Raul Lino no tema, ainda que fragmentada e dispersa, poderá ter
contribuído para suscitar o interesse dos arquitectos mais directamente envolvidos no
Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, (1955-1958), promovido pelo SNA-Sindicato
Nacional dos Arquitectos, a fazerem eles próprios a sua reflexão acerca dos factores que
influenciam a arquitectura em cada região e na metodologia a aplicar num estudo tendo em
consideração esses mesmos factores.

2
Cf. LINO, Raul - A Nossa Casa. Apontamentos sobre o bom gosto na construção das casas simples. Apêndice.
Edição da Atlântida. Lisboa, 1918, p.13.
3
MERCADAL, Fernando Garcia, La Casa Popular en España, Editora Espalsa-Calpe, Madrid, 1930, p.8.
4
Ibidem, p.8

252
Figura 1: Raul Lino, (1929). “A Casa Portuguesa”, Figura 2: Garcia Mercadal, (1930). “ La Casa Popular
Portugal, Exposição Internacional de Sevilha, 1929, en España”, 1930, p.75.
p. 9.

3. Três condições fundamentais em Raul Lino


No ensaio “A Casa Portuguesa” (1929),5 Raul Lino faz uma caracterização da
arquitectura doméstica portuguesa em várias regiões do país, procurando identificar os
elementos arquitectónicos fundamentais que conferem identidade nacionalista à arquitectura
da casa portuguesa, evitando uma abordagem tipológica. Nesse ano em Espanha foram
realizadas duas exposições: uma Internacional realizada em Barcelona, virada para a Europa e
o mundo industrializado, para onde Mies van der Rohe desenhou o Pavilhão alemão, e a
Ibero-americana, realizada em Sevilha, direccionada para o colonialismo em África e na
América. O Governo português, através do Ministério do Interior, na preparação da
representação portuguesa recomendou aos industriais “da conveniência de se fazer espalhar
durante esta exposição, como propaganda, pequenos objectos com manifesto carácter
regional.”6 O ensaio de Raul Lino é apresentado em Espanha com conteúdo de interesse para
o Estado Português e a sua divulgação oficial na exposição insere-se no programa de
propaganda da política colonial que Portugal pretendia levar a cabo, transpondo para África
os modelos arquitectónicos regionalistas da casa portuguesa.
5
LINO, Raul - A Casa Portuguesa. Portugal. Exposição Portuguesa em Sevilha. Imprensa Nacional de Lisboa.
1929.
6
In “O Trabalho Nacional”, nº 94, Novembro de 1927, cit. por Marisa Gonçalves Rodrigues, A Participação
Portuguesa nas Exposições Universais na Perspectiva do Design de Equipamento. Faculdade de Belas Artes
da Universidade de Lisboa, Dissertação de Mestrado, 2013, p.44.

253
Raul Lino, (op. cit. 1929) recordava que a questão colocada trinta anos atrás, sobre se
existiria, ou não, um tipo verdadeiro de casa portuguesa, decorria duma má interpretação do
movimento nacionalista para o «reaportuguesamento» da habitação que encarava o assunto
mais como um problema da organização da planta do que uma questão de ideia geral de
arquitectura:

...dada a variedade etnográfica, e a diferenciação de climas e paisagem que existe


no continente, menos é de espantar que não haja um tipo único de casa portuguesa.
As condições gerais das províncias do Norte diferem tanto das do Alentejo e
Algarve, que, logicamente hão-de influir de modo variado na arquitectura doméstica
das respectivas regiões. Sendo lar e a cobertura centro e origem de toda a
habitação. (Lino, 1929: 6)

A abordagem de Raul Lino é uma rejeição consciente a uma aproximação à questão


da casa portuguesa através da análise dos tipos. É o próprio a afirmar na véspera de completar
92 anos que as viagens que fazia por Portugal, logo desde o seu regresso da Alemanha,
aconteceram «no desejo imenso de conhecer a nossa terra, que tinha qualquer coisa de
furor».7 Raul Lino utiliza neste texto a expressão condições gerais, mas pouco ou nada
avança na descrição e caracterização da variação das condições nas diferentes regiões, quer da
etnografia, quer do clima, ou da paisagem. Não obstante, a partir destas considerações é
possível concluir que para Raul Lino, em 1929, Etnografia, Clima, Paisagem, constituíam os
três os factores fundamentais que influenciavam a arquitectura de cada região, (ver Figura 3):

Figura 3: Elaborado pelo autor. Esquema das Condições que influenciam a arquitectura de cada região, a partir
do livro, LINO, Raul - A Casa Portuguesa. Portugal, Exposição Portuguesa em Sevilha, Imprensa Nacional de
Lisboa, 1929.

É possível que quando Raul Lino se referia a condições gerais incluísse outras
circunstâncias além das três citadas, porém, neste reduzido número de condições não
7
A Vida Corre e o Tempo Continua. Conferência de Raul Lino na véspera de completar 92 anos, por ocasião da
Exposição Retrospectiva da sua obra na Fundação Calouste Gulbenkian, in Diário de Notícias, 20-11-1970,
p.1 e p.8.

254
aparecem, por exemplo, nem as influências sociais, nem as influências económicas. Também
é de admitir que Raul Lino considerasse que variedade etnográfica seriam os costumes, os
modos de vida e tradições locais que variavam de região para região; noutros textos e ensaios
faz referência às influências das tradições e costumes locais, quando abandona a utilização da
expressão variedade etnográfica.

4. Condições e elementos fundamentais da arquitectura


No livro “A Nossa Casa” (1918), Raul Lino manifestava um grande apreço pela
relação harmoniosa da arquitectura com a paisagem e identificava as causas da corrupção do
gosto nacional que degradavam a harmonia que segundo ele existia:

Até á cerca de 50 anos, em Portugal todas as obras de alguma importância eram


projectadas por arquitectos enquanto que obras de categoria mais modesta, ou
rústica, se executavam por gente prática, obedecendo sempre às tradições regionais.
Deste modo todas as cidades, vilas e aldeias ofereciam um aspecto agradável e
interessante pela harmonia do seu conjunto, sem exclusão da variedade. (...)
Várias foram as causas – umas de origem psicológica, outras de ordem social – que
provocaram a tão desastrosa queda no barbarismo de construções que deslustram a
maioria das localidades portuguesas e que amplamente atestam a corrupção
absoluta do gosto nacional. Uma grande parte, porém, da responsabilidade deste
desastre, cabe à introdução de certas publicações francesas que tiveram grande
voga em Lisboa, servindo para divulgar entre nós os tipos de construções
completamente inadequadas ao nosso país... (Lino, 1918: 14)

Raul Lino (op.cit, 1918) indicava dois factores variáveis que geravam instabilidade
na arquitectura doméstica burguesa, um de ordem psicológica e outro de ordem social,
reconhecendo a importância das influências de ordem psicológica causadoras da perturbação
da harmonia. Para ele essas influências irradiavam para o resto do país a partir de Lisboa onde
residia grande parte da cultura burguesa portuguesa. Nas cidades de maior dimensão, mais
sujeitas às influências externas, a arquitectura estava mais dependente do factor psicológico
do que nas cidades de província, vilas ou aldeias, onde as influências externas pouco ou nada
se faziam sentir, nas primeiras décadas do Século XX. Aí a tradição impedia que o factor
psicológico se fizesse sentir, ou se fazia sentir não era suficientemente perturbador da
harmonia. Irene Ribeiro (1994), citando o próprio Raul Lino, refere que harmonia tão grata a
Raul Lino advém de uma poética mistificadora da tradição arquitectónica popular: “Como
sempre é através do véu suavemente romantizado que Lino acentua a doçura campestre das
“casas simples”, sem entrever a real violência de uma ruralidade obscurantista e atrasada:
«Não sei de qualificativo melhor quadra a estas casas que o de modestas. (...) As casas não
gritam nem se acotovelam para atrair as atenções de quem passa. Tudo é conformidade,

255
harmonia, uso geral, boa apresentação, boas maneiras, dignidade...honestidade.» (Lino,
Panorama, 1941).” 8

Relativamente às condições de ordem social Raul Lino não desenvolve o assunto no


livro “A Nossa Casa” (1918); aparentemente nunca terá sido sensível às necessidades das
populações rurais, nem às carências dos trabalhadores e dos operários. Porém, Raul Lino
indicava já nessa obra a existência de duas ordens de influências da arquitectura que viria a
fazer referência em obras posteriores e a desenvolver sobretudo em “L’Evolution de
l’Architecture Domestique au Portugal” (1937 A)”: uma de ordem física e outra de ordem
humana. Em “A Nossa Casa” (1918), Raul Lino refere que, “...as obras de categoria mais
modesta, ou rústica se executavam por gente prática, obedecendo às tradições locais”.9 Além
disso, a arquitectura erudita e a construção de novas casas estava muito dependente das
influências psicológicas e das influências da organização social. Se por um lado, as casas
modestas populares obedeciam às tradições locais, na construção das “novas casas” havia a
considerar o factor psicológico (“gostos especiais e modos de viver do proprietário”) – Raul
Lino desenvolve um pouco o assunto no capítulo “Beleza”, do livro “Casas Portuguesas”
(1933, p. 71). Para além deste factor, haveria a considerar o sol, os ventos predominantes
etc.10 Ou seja, Raul Lino reconhece a influência do factor físico (condições climatéricas) na
arquitectura de cada região, e que as circunstâncias locais variam; neste ponto apesar de não
indicar quais são as circunstâncias, podemos admitir que implicitamente Raul Lino possa ter
considerado, costumes, modos de vida, paisagem, materiais, etc. (Ver Figura 4):

Figura 4: Do autor. Esquema das Condições que influenciam a arquitectura de cada região: (Raul Lino, 1918),
a partir do livro, LINO, Raul - A Nossa Casa. Apontamentos sobre o bom gosto na construção das casas simples.
Apêndice, Edição da Atlântida, Lisboa, 1918.

No ensaio “A Casa Portuguesa” (1929), Raul Lino não se refere apenas à


arquitectura modesta e rústica de cada região, mas sobretudo à arquitectura de palacetes e
casas senhoriais. O livro ensaia a identificação dos elementos constantes da arquitectura
doméstica portuguesa, que de alguma forma constituíssem as bases da caracterização da «casa

8
RIBEIRO, Irene - Raul Lino Pensador Nacionalista da Arquitectura. Edições FAUP. Porto, 1994, p. 157.
ISBN 972-9483-04-3.
9
LINO, Raul - A Nossa Casa. Apontamentos sobre o bom gosto na construção das casas simples. Edição da
Atlântida. Lisboa, 1918, p.14.
10
LINO, Raul - A Nossa Casa. Apontamentos sobre o bom gosto na construção das casas simples. Edição da
Atlântida. Lisboa, 1918, p.17.

256
portuguesa», como aliás sugere Varela Gomes (1993) 11. Contudo, evita uma abordagem
tipológica necessariamente mais sistemática e abrangente. De salientar também que elementos
constantes da arquitectura portuguesa não tem o mesmo significado que elementos
primordiais. Para Raul Lino elementos primordiais são: proporção, linha, volume, cor. “E
realmente é a proporção base de toda a arquitectura.” 12

Se bem que Raul Lino (op.cit. 1929) praticamente não faz referência à palavra tipo,
em contrapartida recorre frequentemente ao termo feição, contudo, não define o seu conceito.
Apenas dá exemplos, como este: “feição arquitectónica mais característica, e que se estende
de maneira mais generalizada por todo o país é o alpendre.”13 Por outro lado, não existe uma
clara distinção entre feições e elementos arquitectónicos. É possível que a utilização frequente
do termo feição signifique uma aproximação ao carácter dos elementos particulares da
arquitectura de cada região, vinculados ao seu modo de sentir particular. Apesar de Raul Lino
admitir que são as condições gerais de cada região que influenciam a sua arquitectura, é a
partir da comparação de alguns elementos arquitectónicos característicos da arquitectura de
cada região que Raul Lino apresenta as principais conclusões do estudo; algumas surgem logo
na introdução do ensaio; Raul Lino considera a cheminé da lareira um elemento fundamental
da habitação:

Vemos em todo o Sul a cheminé da lareira em grande honra. Por mais modesta que
uma casa seja, não lhe falta a sua cheminé – ampla no Alentejo e no Ribatejo, mais
historiada em toda a província do Algarve onde os mestres de obra chegam a
concentrar e a limitar todo o aparato decorativo da casa nesta única feição;
enquanto que a partir da Beira para o Norte, a cheminé perde toda a importância
decorativa, chegando a não existir nalgumas regiões onde o escoamento do fumo
das lareiras se opera de qualquer modo, inclusivamente pela telha vã da cobertura.
(Lino, 1929: 6)

Evidentemente que estas considerações acerca da cheminé da lareira não resultam de


uma abordagem regionalista aos modos de vida das pessoas, nem correspondem a um estudo
sistemático da organização funcional das habitações, nem da evolução da tecnologia de
controlo do fogo no interior da habitação, apenas nos dão conta que as diferenças de clima,
costumes, culturas e materiais no Continente influenciam a arquitectura de cada região, e que
a cheminé da lareira é uma manifestação onde as diferenças se combinam. Aliás a cheminé
enquanto elemento funcional (de ventilação e extracção de fumos) mas também elemento
expressivo e decorativo, passou a ser visto como um símbolo da portugalidade, representativo
da arquitectura doméstica portuguesa.

11
Cf. GOMES, Paulo Varela - O Último Erro de Raul Lino. In revista “Expresso”, 23 de Janeiro de 1993, 42-R,
43-R.
12
LINO, Raul - Casas Portuguesas. Alguns Apontamentos Sobre o Arquitectar das Casas Simples. Edição
Valentim de Carvalho, Lisboa, 3ª Edição Nov. 1943, p.71.
13
LINO, Raul - A Casa Portuguesa. Portugal, Exposição Portuguesa em Sevilha. Imprensa Nacional de Lisboa,
1929, p.6.

257
Gottfried Semper (1851) em “Os Quatro Elementos da Arquitectura”,14 a partir das
condições primitivas (Urzustände) da sociedade humana fez-nos notar que o primeiro sinal de
assentamento humano que resultou do descanso após a caça, a batalha, ou da viagem pelo
deserto, foi a criação da lareira e a iluminação da chama do reviver, o aquecimento, e
preparação de refeições quentes:

Em torno da lareira reuniram-se os primeiros grupos; em torno dela formaram-se as


primeiras alianças; em torno dela foram apresentados os primeiros rudes conceitos
religiosos e formados os costumes de um culto. Ao longo de todas as fases da
sociedade o coração foi o foco sagrado em torno do qual tudo se formou e ordenou.
Foi à volta do primeiro elemento, o mais importante, a lareira [the heart], o
elemento moral, que reuniram os outros três: o telhado, o encerramento e o monte,
que são os elementos defensores do coração da chama contra os três elementos
hostis da natureza. (trad. do autor a partir da versão original, Semper, 1851: 102)

A combinação destes quatro elementos variou com as sociedades, desenvolvendo-se


diferentemente sob as mais variadas influências do clima, ambiente natural, etc. (Semper,
1851: 110). De modo aparentemente semelhante também para Raul Lino os elementos
fundamentais da arquitectura adquirem diferentes formas e expressões em função do clima,
costumes, materiais e tradições locais. Mas a selecção de feições e elementos arquitectónicos
no ensaio de Raul Lino é apenas pessoal, traduz as suas experiências e o seu gosto, não advém
de qualquer estudo criterioso. E Raul Lino não vai ao ponto de elaborar uma teoria acerca dos
elementos fundamentais da arquitectura. Para além do elemento arquitectónico cheminé da
lareira, Raul Lino socorre-se da combinação de elementos arquitectónicos, de elementos
integrados em espaços, ou materiais, que são encarados como evidências arquitectónicas que
servem de exemplos para estabelecer a comparação entre regiões, ou fazer generalizações
como é, por exemplo, o caso anteriormente apresentado do alpendre. Mas, há outros,
escadaria principal, pátio e revestimento de azulejo, são exemplos que servem para
corroborar conclusões acerca dos casos que descreve característicos de cada região. Veja-se a
propósito da importância atribuída em Portugal, o exemplo da entrada da habitação: “No Sul
mormente nas cidades, existe muitas vezes o pátio de entrada, a que em geral se liga a escada
exterior para o andar nobre, mas quando não há lugar para um pátio, desenvolve-se certo luxo
na escadaria principal.” (Lino, 1929: 7)

5. As duas ordens de condições principais: física e humana


Num ensaio posterior, “L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal”
(1937 A), as ideias de Raul Lino sobre as condições que influenciam a arquitectura de cada
região registam uma evolução. Por um lado, reconsidera a inexistência de um tipo de casa
portuguesa, dizendo que “a íntima combinação de características não é suficiente para definir

14
Cf. SEMPER, Gottfried - The Four Elements of Architecture and Other Writings. Cambridge University
Press. 1851.

258
um tipo específico de casa portuguesa, porém afirma que “a casa portuguesa existe”.15 Por
outro lado, Raul Lino distingue duas diferentes classes fundamentais de condições que
apresentam diversidade de região para região: uma física e outra humana, [...”diversités
d’ordre physique et humain qui se manifestent sur tout l’étendue.”]16. Refere ainda que na
formação de todo o tipo nacional de arquitectura doméstica entram elementos que se
relacionam intimamente, sejam eles de ordem psicológica, da organização social dos
habitantes, sejam as condições físicas da região. Algumas destas circunstâncias variam com o
tempo, outras não registam apreciável modificação com o passar dos séculos:

A planta da casa depende dos costumes locais e do clima do país, e a aparência


exterior e interior revela o gosto de seus usuários e das qualidades ou defeitos dos
materiais utilizados na construção. A planta, a elevação e a decoração são os três
elementos essenciais da arquitectura doméstica que, quando o tipo é bem definido,
todos apresentam caracteres particulares.
Temos procurado, nas páginas anteriores, para destacar o que encontramos mais
notável na casa portuguesa. Se assim for elementos combinados não são suficientes
para dar inteiramente corpo para o tipo absoluto e perfeito do nosso lar nacional,
mas não temos receio de dizer que a casa portuguesa existe, E ela não pode ser
confundida com qualquer outra, pelo menos quando ao seu exterior e interior.
No geral, temos de admitir que não é no sentido de proporção que reside a nossa
força. Podemos ser dotados de uma robusta exuberância na composição global, e
uma bastante fantasia na forma pitoresca de lidar com o detalhe mas sempre fomos
relutantes em aperfeiçoar o conceito de verdadeira grandeza. (trad. do autor a partir
da versão original em francês, Lino, 1937 A: 20).
Raul Lino não refere a existência de influências fixas, mas introduz uma distinção
entre as influências que variam com o passar dos anos, de outras que não registam apreciável
modificação com o passar dos séculos. Apesar de não indicar quais são as mais variáveis e
quais as menos variáveis, é de crer que em relação às condições menos variáveis se refira às
de ordem física, ao passo que as mais variáveis fossem as de ordem humana. Os factores que
influenciam a arquitectura já não são exactamente os mesmos que aparecem no ensaio “Casas
Portuguesas”, (1929). O número de factores também não é igual. Vemos, por exemplo, que
desaparece a expressão variedade etnográfica. Designações utlizadas nos textos anteriores
que foram substituídas por novas. Se por um lado há uma clarificação das duas grandes
ordens de factores, uma de ordem física e outra de ordem humana, por outro lado, é inegável
que existe uma margem de ambiguidade relativamente às condições incluídas em cada uma
destas ordens. Não obstante, para além destas duas ordens também se podem distinguir dois
grupos de condições:

Primeiro grupo:
- Influências de ordem psicológica;
- Influências da organização social;

15
LINO, Raul - L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal. Institut Français au Portugal. Ateliers de
«Coimbra Editora, Lda», 1937, p.20.
16
Idem, p. 2.

259
- Influência das condições físicas do meio.

Segundo grupo:
- Costumes locais;
- Clima;
- Gosto dos seus usuários;
- Materiais utilizados.

No primeiro grupo Raul Lino utiliza novamente o factor das Influências de ordem
psicológica que já aparecia no livro “A Nossa Casa” (1918). No segundo grupo surge pela
primeira vez os materiais utilizados. Sintetizando e tentando compatibilizar as duas ordens de
condições principais, a física e a humana e os dois grupos de factores referidos em cima
podemos representar uma síntese através do seguinte esquema:

Figura 5: Elaborado pelo autor. Esquema das Condições que influenciam a arquitectura de cada região: (Raul
Lino, 1937A), a partir do livro, LINO, Raul, (1937 A) - L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal.
Institut Français au Portugal, Ateliers de «Coimbra Editora, Lda», 1937.

No esquema da Figura 5, desaparece a referência a Etnografia, e surge e expressão


Costumes locais no segundo grupo de condições. Acontece ainda uma sobreposição das
Condições psicológicas do primeiro grupo, com o Gosto dos seus usuários, do segundo
grupo; Raul Lino sempre se referiu às Influências psicológicas como determinando o gosto e
as preferências dos usuários, pelo que esta duplicação parece ser uma redundância.
Relativamente aos Materiais de construção, não surgem no ensaio “A Casa Portuguesa”
(1929), como condições que influenciam a arquitectura de cada região, apesar de se referir a
eles em várias ocasiões. É de admitir que Raul Lino incluísse os materiais de construção no
que considerava serem as condições locais, ou elementos integrantes da combinação das
condições gerais. Raul Lino fazia depender a utilização dos materiais das tradições. No ensaio

260
“L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal” (1937 A), Raul Lino limita-se a
considerar os materiais mais comuns e nobres, para explicar a variedade de alguns aspectos da
arquitectura doméstica. Relativamente à pedra, Raul Lino dizia ser abundante em Portugal,
mas com características diferentes em várias regiões, limitando-se a destacar a adequação de
cada tipo de pedra a aspectos decorativos. Quanto à madeira, Raul Lino refere que foi um
material que abundou no passado no nosso país, que sempre foi usado para elementos
estruturais rudimentares das coberturas e em algumas partes como substituto da alvenaria,
porém com o passar dos anos a sua utilização tem-se vindo a reduzir.

6. “Condições modificadas do viver”


Em “Auriverde Jornada”, (1937 B), Raul Lino escreve pela primeira vez sobre o que
considera serem as condições modificadas do viver:

De facto, os costumes arrastam-se por vezes muito para além das épocas a que
pertencem pelo seu aparecimento; e tal sucede porque a mentalidade também só
lentamente se amolda às condições modificadas do viver. (...) Os tempos vão
passando; as ideias surgem norteadas por diversas correntes. Também os costumes
não deixam de evoluir, e com eles a expressão arquitectónica das nossas casas. Bom
é, e consolador, porém, quando alguma coisa permanece de época em época;
quando no cortejo dos séculos, os figurantes passam, gentilmente, de mão em mão o
facho ardente da continuidade. (Lino, 1937 B: 267, 269)

Raul Lino não define exactamente o que entende por condições modificadas do viver.
Contudo, fica claro que não são condições específicas de um Tempo ou de uma determinada
época. Poderão eventualmente ser até de natureza distinta, por exemplo, novos hábitos de
vida, novas tecnologias, novos materiais, etc., que forçosamente impelem à transformação e
ocorrem a cada momento da História. Por isso é de crer que para Raul Lino, os costumes
exercendo uma influência directa sobre a expressão arquitectónica doméstica, iam passando
de época para época para além dos tempos em que surgiram, e essa influência exercia-se
porque as mentalidades só lentamente se iam adaptando às condições modificadas do viver.
Raul Lino entendia que a tradição impedia que o factor psicológico se fizesse sentir, ou
fazendo-se não era suficientemente perturbador da harmonia. (Ver Figura 6):

261
Figura 6: Elaborado pelo autor. Interpretação do conceito Condições modificadas do viver, (Raul Lino, 1937 B),
a partir do livro, LINO, Raul (1937 B). LINO - Auriverde Jornada. Casas Portuguesas do Séc. XVIII. Valentim
de Carvalho, Lisboa, 1937, p. 263-264.

A propósito do arcaísmo dos costumes que ainda havia nas casas antigas de província
Raul Lino dizia que era curioso verificar como “...alguns costumes e certas mentalidades se
mantinham à margem da corrente dos tempos”.17 Apesar de não ser explícito no texto lê-se
nas entrelinhas que a “tradição” é o facho ardente da continuidade que sustêm o avanço
imediato de novas ideias.

17
Cf. LINO, Raul - Auriverde Jornada. Casas Portuguesas do Séc. XVIII, Valentim de Carvalho, Lisboa, 1937,
p. 263-264.

262
7. Conclusão

Apesar das considerações de Raul Lino acerca das condições que influenciam a
arquitectura de cada região constituírem conteúdos fragmentários em cada um dos textos
referidos e encontrarem-se dispersas pelo conjunto da sua obra escrita, uma vez reunidas neste
estudo são um importante contributo para a clarificação, não só da evolução do pensamento
de Raul Lino acerca dessas condições, no período de 1918 até 1937, mas também do seu
significado, quer no contexto das pesquisa dos fundamentos da «casa portuguesa», desde a
escrita do primeiro livro em 1918, até à fase da reafirmação nacionalista da tradição
portuguesa que se instala em Portugal a partir de 1936, num período de vigoroso combate à
arquitectura moderna, no âmbito dos restantes nacionalismos Europeus.
No ensaio “A Casa Portuguesa” apresentado Exposição Ibero-Americana de 1929, Raul
Lino faz uma caracterização da arquitectura doméstica portuguesa em várias regiões do país,
procurando identificar dos elementos arquitectónicos fundamentais que conferem identidade
nacionalista à arquitectura da casa portuguesa, evitando uma abordagem a partir dos tipos, e
define as três condições fundamentais que influenciam a arquitectura de cada região:
Etnografia, Clima, Paisagem. Quando comparamos o primeiro esquema das condições que
influenciam a arquitectura de cada região, de 1929 (Figura 3), com o de 1937 (Figura 5), a
primeira conclusão que podemos tirar é que o clima é único factor que se mantém em ambos
os esquemas. Não é de estranhar que Raul Lino o considere como um dos elementos mais
importantes dentro do conjunto dos factores de ordem física. O clima é um factor
determinante da dinâmica de distribuição e disseminação espacial dos seres vivos, inclusive
os seres humanos e é um dos factores fundamentais responsáveis pela variação da arquitectura
em todo o planeta. Garcia Mercadal considerava o clima e os materiais os dois factores
fundamentais perenes, e a estrutura social o um factor fundamental variável.
O conceito condições modificadas do viver, que Raul Lino apresenta em “Auriverde
Jornada”, (1937 B) é um exemplo paradigmático da tentativa de definir uma condição perante
o avanço de novas ideias e de mudanças que inevitavelmente iriam provocar perturbação na
harmonia existente. As condições modificadas do viver interferem com as condições gerais
locais, e a tradição surge como força de resistência que se opõe às novas ideias e contrária ao
movimento transformador gerado pelas condições modificadas do viver. O aparecimento deste
conceito neste período, no seguimento da sua viagem ao Brasil em 1936, denota a sua
obsessão crítica contra a arquitectura moderna e uma maior consciência das inevitáveis
transformações que se adivinhavam na sociedade.

6. Bibliografia
LINO, Raul - A Nossa Casa. Apontamentos sobre o bom gosto na construção das casas
simples. Apendice. Edição da Atlântida, Lisboa, 1918.
LINO, Raul - A Casa Portuguesa. Portugal. Exposição Portuguesa em Sevilha, Imprensa
Nacional de Lisboa, 1929.
LINO, Raul (1937 A) - L’Evolution de l’Architecture Domestique au Portugal. Institut
Français au Portugal, Ateliers de «Coimbra Editora, Lda», 1937.

263
LINO, Raul (1937 B) - Auriverde Jornada. Casas Portuguesas do Séc. XVIII. Valentim de
Carvalho, Lisboa, 1937.
LINO, Raul - A Vida Corre e o Tempo Continua. Conferência de Raul Lino na véspera de
completar 92 anos, por ocasião da Exposição Retrospectiva da sua obra na Fundação Calouste
Gulbenkian. In Diário de Notícias, 20-11-1970, p.1 e p.8.
GOMES, Paulo Varela - O Último Erro de Raul Lino. in revista “Expresso”, 23 de Janeiro de
1993, 42-R, 43-R.
MAGALHÃES, Fernando Perfeito de - A Habitação. Libraria Bertrand, Lisboa, 1938.
MERCADAL, Fernando Garcia - La Casa Popular en España. Editora Espalsa, Madrid,
1930.
RIBEIRO, Irene - Raul Lino Pensador Nacionalista da Arquitectura, Edições FAUP, Porto,
1994, ISBN 972-9483-04-3.
SEMPER, Gotttefried - The Four Elements of Architecture and Other Writings, Cambridge
University Press, 1851.

264
Manter ou não manter as técnicas construtivas utilizadas na Arquitectura Popular
Portuguesa ?– sua justificação à luz da contemporaneidade ecológica, filosófica e
tecnológica.
Joana Maria Freitas Mesquita
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa
[email protected]

Resumo
O presente artigo tem como base e objetivos o tema por mim apresentado e defendido
na dissertação do mestrado em Património Público, Arte e Museologia, em Abril deste
ano, na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa com o título– “ O colmo
nas terras do Parque Nacional Peneda Gerês, Barroso, breve ensaio sobre a técnica, a
vida e o Homem”, consistindo, como assim sugere, no tema das coberturas em colmo
das antigas habitações serranas do NO Peninsular, em Portugal. De um modo geral fala-
se da construção e do ato de habitar, aborda-se a arte e a arquitetura popular, tão sábia e
equilibrada, refletindo acerca da sustentabilidade deste tipo de construções e sua
aplicação na arquitetura contemporânea (apresentando alguns exemplos concretos da
sua atual utilização), sua memória e conservação, como parte da identidade e passagem
de testemunho de uma comunidade.
Descreve-se também a execução de duas peças, incluídas neste estudo. Uma,
explicativa do processo de construção de uma cobertura de colmo, e a outra, uma
interpretação do material e da técnica, envolvendo o sentido poético e mágico que o
abrigo/habitáculo/ninho tem junto do Homem e do animal.
A propósito do tema das coberturas em colmo, e seu modo de “fazer”, defende-se aqui,
acima de tudo a manualidade como elemento importante não só de perpetuação do
património mas também sua importância no ato humano de criar .

Palavras-chave: Colmo, Arquitectura Tradicional, Barroso, habitação rural,


abrigo/ninho, memória

265
Introdução

Sabendo que a Natureza influencia o Homem no seu comportamento, crenças, hábitos e


costumes, facilmente se concluiria que a vivência entre os dois deveria ser de equilíbrio
e harmonia, caso o Homem tivesse sempre o cuidado e conhecimentos necessários, para
entender e respeitar essa Natureza que o acolheu há milhares de anos. E há milhares de
anos, que o Homem tem sentido necessidade de, na sua evolução, de intervir, modificar,
construir.
Sempre que o equilíbrio se mantém, essa dualidade funciona sem hostilidade, sem
revolta, sem convulsões; essa revolta e convulsões com que a nossa atualidade de
“progresso”, diariamente nos confronta e cuja causa está na quebra desses laços
essenciais de equilíbrio e respeito trocados pela ganância, pela corrupção que conduzem
ao esgotamento dos meios naturais de que tanto precisamos para sobreviver.
Sempre que o Homem é suficientemente inteligente para evoluir, criando novos
métodos de sobrevivência, novas técnicas conducentes à realização harmoniosa de
engenho e arte, na saúde, na habitação, na alimentação, na cultura, enfim, tudo se
conjuga para a felicidade humana e sustentabilidade do planeta.
Porém, nem sempre assim tem acontecido e eis-nos chegados a uma situação de
necessidade urgente, não de regredir no progresso alcançado, mas sim de tomada de
consciência em relação à agressão consecutiva ao meio ambiente que nos acolheu e
permitiu viver até agora. Torna-se imperativo parar.

Acima de tudo, sendo um tema bastante atual, fruto de uma compreensão e necessidade
agora de uma aproximação à Natureza, e de um retorno a princípios e modos de vida
mais equilibrados assiste-se a uma tentativa de assimilação destas técnicas ancestrais,
estas entretanto, quase desaparecidas, que povoaram a vida dos nossos antepassados,
arriscando-se assim ao desaparecimento, se não trouxermos para a esta época de
grandes mudanças e convulsões, o debate iniciado há várias décadas acerca da
assimilação e contextualização destas práticas na modernidade.
A minha defesa da sustentabilidade das técnicas ancestrais de construção das coberturas
em colmo, pela sua simplicidade, economia de meios e valorização humana,
aproveitando e usufruindo da tecnologia moderna ecologicamente vivida, tem como
base a profunda pesquisa por mim efetuada no local, fazendo uma observação e recolha
visual dos poucos elementos em ruínas existentes de coberturas em colmo,
complementada com uma recolha efetuada por conversa com pessoas locais que ainda
aprenderam a técnica, para além dos preciosos elementos obtidos nas obras de autores
que sobre a matéria se têm debruçado ao longo dos tempos, e que mais adiante serão
referidos.
Através do seu estudo, pretendeu-se ilustrar e valorizar a técnica de colmagem das
coberturas das antigas habitações do Parque Nacional Peneda Gerês, colocando também
a hipótese da sua transposição para a atualidade, tendo em conta contudo, outras
condições de segurança (sobretudo na questão dos incêndios), com a ajuda das novas
tecnologias de aplicação, postas em prática por países que ainda mantêm e valorizam a
técnica tradicional, mas que, embora conservando-a, pretendem inovar.

O trabalho desenvolveu-se, numa primeira parte, iniciada com uma reflexão acerca da
questão do abrigo, apresentando a técnica, o material, e o porquê da sua utilização na
região em estudo, pretendendo mostrar, tanto quanto possível, esse processo e modo de
“fazer” artesanal. Foi considerada ainda a importância do cereal para o Homem, quer

266
como alimento e abrigo, presente nos vários aspectos da vida rural (ciclo do pão), e
refletida na sua arquitetura e religiosidade.
Tratando-se porém e principalmente de um trabalho prático de análise e demonstração
da técnica construtiva, passo a passo, desde a estrutura que sustém a cobertura aos seus
processos de união, construí uma réplica de um telhado de colmo, utilizando os mesmos
materiais e sistema construtivo e de aplicação utilizados originalmente.
Tal processo materializado nessa réplica/maquete está registado e documentado em
fotografias, executadas nas diferentes fases de construção, bem como em desenhos e
esquemas explicativos.
Numa segunda parte de reflexão aborda-se a contemporaneidade de uma técnica
tradicional e a sua transposição, continuidade, e preservação na atualidade, bem como a
importância dos organismos de conservação do património oral e edificado de uma
região, e consequente tentativa de dinamização da sua população, envolvendo-a nos
seus projetos (o caso concreto dos Ecomuseus). Finaliza-se com as conclusões obtidas
por este estudo.
Numa terceira parte, agora de abordagem plástica ao tema e como reinterpretação do
material, na sua vertente técnica e poética, foi construída uma peça simbolizando o
ninho/abrigo (cf. fotografias e desenhos).

Do “pão” ao abrigo - a técnica ancestral das coberturas em colmo nas habitações


serranas do Parque Nacional Peneda Gerês. Estudo de caso.

.O colmo
Transversal a várias sociedades humanas e utilizadas ao longo dos tempos, as coberturas
vegetais (colmo) foram principal estrutura de abrigo. Material primitivo de construção,
não exigia em sua aplicação, conhecimentos nem ferramentas muito sofisticadas, sendo
fácil encontrá-los nos locais onde instalavam as casas que, com a sedentarização, se iam
transformando, de frágeis construções temporárias em construções semissólidas e
sólidas. O aperfeiçoamento dos utensílios e da técnica permitiu ao Homem apropriar-se
de materiais como a pedra, a madeira e a argila, possibilitando-lhe erguer paredes
robustas, deixando assim as fibras vegetais para cobertura superior das habitações.
Fresca no verão e acolhedoramente quente no inverno, bastante isolante e impermeável,
a cobertura vegetal ou colmo, é aplicada por cima de uma armação em troncos de
madeira, que a sustenta (Figura 2, Figura 3).Com o aperfeiçoamento da técnica, foram
sendo encontradas novas formas de sustentação da cobertura (a introdução da asna,
elemento construtivo), mais leves e mais simples que permitiram aumentar o tamanho
das habitações e explorar novas formas.
Mas o que é exatamente o colmo? E porque é assim designado? Cientificamente, é uma
fibra vegetal da família das gramíneas, oco por dentro e que tem os entrenós revestidos
pelas bainhas das folhas.
O bambu, o junco e principalmente o trigo e o centeio (Figura 1) são exemplo de tipos
de colmo. Utilizado como material construtivo, como revestimento exterior e cobertura
das habitações, no interior e no litoral, a sua utilização varia conforme o clima e a
Natureza envolvente.
Com a agricultura, o Homem aprende a cultivar o centeio e o trigo e a retirar o grão da
palha, guardando esta para alimento dos animais e cobertura das habitações.

267
Figura 1 Campo de centeio em Montalegre (foto elaborada pela autora).

Figura 2- imagem de habitação serrana com cobertura em colmo, Castro Laboreiro, anos 80 (foto
acervopessoal da autora).

.As coberturas de colmo em Portugal


Revestimento exterior e cobertura das habitações da zona do interior e litoral do país, o
colmo, praticamente desapareceu das paisagens portuguesas, fruto do desenvolvimento,
mas também de algum desinteresse, encontrando-se atualmente apenas alguns vestígios
de como eram originalmente estas construções. À falta de elementos concretos, o estudo
destas estruturas em Portugal, implica recorrer às imagens e informações presentes em
livros como “Construções Primitivas em Portugal” e “Inquérito à Arquitetura Popular
Portuguesa”, entre outras.

268
Figura 3- habitação típica serrana com cobertura em colmo, desenho elaborado pela autora.

.O colmo nas regiões montanhosas em estudo


“ A pequena casa de Barroso, construída de grossos blocos de granito,
cosida com o solo, mal deixando penetrar a luz de tal modo se reduziram
as aberturas, com a sua espessa capa de palha, dá bem a medida do
esforço de adaptação do Homem a um meio inclemente”.1

Isolada do resto do país durante séculos, esta região, de clima agreste, temperaturas
extremas, chuvas e neves, obrigou-se a soluções engenhosas, sobretudo a nível da
habitação. Olhando ao seu redor, o Homem observava as montanhas como obstáculos
mas também como elementos protetores, construindo junto a elas, nos locais mais

1
TABORDA, V. – Alto Trás-os-Montes: Estudo Geográfico, p.125

269
afáveis o seu abrigo de pedras, toscamente “aparelhadas” umas de encontro à outras.
Entradas estreitas e pequenas fenestrações.
Quanto à sua cobertura? Longe dos centros onde havia e eram já utilizados outros
materiais, o Homem, vítima desse seu isolamento permaneceu durante muito tempo sem
outros recursos, para além daqueles que o meio ambiente lhe proporcionava.
O centeio, cereal que melhor se adaptava a esse meio ambiente, depois de dar o pão,
dava o abrigo, já que a sua palha (colmo), depois de separada do grão, constituía um
eficaz material de cobertura vegetal aplicado nas habitações, tornando-se assim o
material típico dessas regiões.
Não fora o perigo de incêndio e dificilmente se encontraria melhor cobertura de
características isolantes. Os próprios fumos (do fumeiro da lareira do chão, onde
também se cozinha) saindo para o exterior, revestem a cobertura de uma camada, como
que de verniz se tratasse, tornando-a mais resistente e protetora.
Esta região em estudo do Barroso (que inclui Pitões das Júnias, Tourém, Cambezes do
Rio) pertencente ao Parque Nacional da Peneda Gerês é dos poucos locais que mantém
ainda, embora nem sempre em estado de conservação desejável, este tipo de
construções.
Como material leve, a palha de centeio (colmo) necessita de uma aplicação engenhosa
que o impeça de ser arrastado pelas ventanias ou permeado pelas chuvas. Há várias
técnicas, espalhadas por todo o Portugal e Galiza, que, de acordo com o meio ambiente
e sabedoria das pessoas de cada localidade, são ou foram utilizadas ao longo dos
séculos. Há casos em que apenas se aplicam pedras e calhaus nos bordos das várias
camadas de colmo, fixando-o assim à estrutura.
Noutros lugares de maior rigor climatérico, ainda nesta zona em estudo, surgem
exemplares em que as armações de paus entrecruzados - as “latas”, amarradas de onde
em onde aos beirais por paus – “grampos” , evidenciando mais uma vez a busca de
soluções que com êxito cumprem a sua função (mais à frente se explica o seu
significado).
No entanto, ao longo dos tempos, devido à pobreza de meios de subsistência, as
populações foram-se deslocando, quer para fora quer para dentro do país, tomando
contato com novas realidades que se lhes afiguravam mais promissoras e geradoras de
riqueza, criando na sua mente e naquilo que deixaram para trás um símbolo de pobreza,
que a todo o custo tentaram eliminar, quer da habitação, quer ao nível de continuidade
das tradições. Para além disso, com a introdução da telha, essas habitações de cobertura
em colmo passaram a ser reservadas para os animais e armazenamento, trazendo uma
melhoria a nível de segurança e higiene, facto este que não anula a defesa da existência
destas habitações na atualidade, desde que salvaguardadas as condições que a moderna
tecnologia oferece, sobretudo a nível de incêndios.

. Técnica de construção e de aplicação de uma cobertura em colmo do caso em


estudo (Parque Nacional Peneda Gerês)

A arte de colmar praticamente deixou de ser ensinada em Portugal e até executada, com
o esquecimento das antigas técnicas e o uso de novos materiais de construção. Apenas
uns poucos, os mais antigos conservam o saber. Com o advento da industrialização as
máquinas substituíram o trabalho manual, conseguindo realizar-se em pouco tempo, as
tarefas que antigamente duravam meses. Levando ao desaparecimento de certas
atividades que orbitavam à volta das culturas e envolviam a comunidade em eventos
mesmo de carácter festivo. Semeado em fins de verão, o centeio passa o inverno e a
primavera na terra, sendo colhido no tempo quente. Segundo o senhor António

270
Monteiro, colmador local do Barroso, “Ao passar do verde é altura de cortar o centeio;
Em setembro é quando se semeia. E depois em fins de julho é cortado e depois “emeda-
se” (ata-se) em uns “molhinhos” numas “medas” pequenitas, coloca-se num carro de
bois (agora num trator). O centeio é reunido em molhos e os molhos são atados com
“feixes” (bancelho) da própria palha e fechados em cruz. (Fig.10). todo este processo
está em registo fotográfico e em vídeo, realizado no local).

Figura 10 - Molhos de palha de centeio amarrados com bancelhos à espera de serem transportados para a
eira, em Parada do Rio, Montalegre, agosto 2016 (foto da autora)

Figura 11 e Figura 12 – segada, corte do cereal e reunião do centeio em


molhos, recriação tradicional na aldeia de Parada do Rio, Montalegre, agosto
2016 (foto da autora).

Figura 13 e Figura 14 –malhada, recriação tradicional na aldeia de Parada


do Rio, Montalegre, agosto 2016 (foto da autora).

271
Do corte do cereal (segada, Figura 11-12) passando pela separação da palha do grão
(malhada, Figura 13-14), a palha do centeio escolhida será guardada para posterior
aplicação nas coberturas (colmagem). Com a introdução das máquinas a palha deixou
de ser ceifada à mão, impossibilitando o seu uso para a colmagem das casas, pois
quebrada, deixava de ter as dimensões necessárias, servindo então apenas para
alimentação e cama dos animais .

Figura 15 – “Mulheres ceifando” (desenho elaborado pela


autora).

Reconstituição de uma cobertura em colmo- estrutura, proteção, manutenção

A cobertura em colmo necessita uma estrutura que a suporte.

Para uma melhor compreensão dos elementos que compõem a estrutura, elaborei um
esquema de desenhos ilustrativos.
Partindo da imagem de uma casa local em ruínas (Figura 15), outrora com telhado em
colmo, onde ainda se encontram alguns vestígios da sua estrutura original, tenta-se
explicar o processo, o qual passo a descrever (Figura 16).

272
Constituída por troncos e paus existentes na envolvente natural, apoiados nas paredes
laterais, paralelos entre si, tendo no cume uma viga grossa de madeira que funciona
como um elemento de ligação estrutural principal de sustentação de todo o conjunto.
Sobre estes assentam paus ou varedos verticais colocados horizontalmente, fechando
toda uma malha, que irá suster o colmo. Por vezes há necessidade, para maior
resistência, de prender o colmo com o uso de bancelho (corda feita em palha utilizada
para prender os feixes de centeio, depois da segada e da malhada, usada também como
elemento de ligação e pormenor construtivo nas coberturas em colmo, Fig.17 e Fig.18).

Figura 15 - Casa em ruínas com vestígios de


estrutura suporte de cobertura em colmo em
Paredes do Rio, Montalegre 2016 (foto da
autora).

Figura 16 – Elementos estruturais construtivos


de um telhado com cobertura em colmo
(desenhos da autora).

273
Figura 17 -Exemplo de como a palha era dobrada para criar a corda do
bancelho
(fotos da autora).

Figura 18 - Interior de uma cobertura em colmo onde são visíveis os


bancelho, amarrando o ripado de varedo, imagem retirada do livro
“Construções Primitivas em Portugal”.

É então iniciada a colmagem (compostura) sendo o colmo colocado de baixo para cima
em pequenas fiadas que cabem na mão do colmador (Figura 19), batidas a prumo por
ele, partindo do lado direito.
Espiga voltada para cima para o cume da casa. Outras fiadas se seguem, em camadas
sobrepostas até atingir uma espessura de 40 cm. Para melhor impedir a entrada de água,
as fiadas (“panadas”) são batidas muito inclinadas em bisel, com instrumentos próprios,
por exemplo uma espécie de pá que acama o colmo; também serão retiradas as palhas
que fiquem soltas. A rematar, o cume da cobertura leva ainda uma camada de palha
(cumeada).
Para contrariar a ação do ventos fortes são utilizados processos de fixação extra como
por exemplo as “latas”, que são elementos pétreos amarrados com arame descendo do
cume até à beirada; também são

274
usados paus ou travessos de ramos de árvore ou giestas, aplicados como de ganchos de
cabelo se tratasse, prendendo a palha.

Figura 19 - “Modo de colocar o colmo” (desenho elaborado pela autora).

Outra forma de proteção é a aplicação de paus entrecruzados, em tesoura por cima do


cume. (Figura 20)

Figura 20 - Representação dos vários processos de prisão das coberturas em colmo, desenho de
Fernando Galhano. Imagem retirada do livro “ Construções Primitivas em Portugal”, pág.304

275
Por tudo isto, a manutenção de tal cobertura é muito exigente e permanente, pelo menos
de cinco em cinco anos, sendo substituídas parcialmente aquelas partes que estiverem
danificadas, embora a durabilidade destas coberturas seja bastante grande (podendo
durar quarenta anos). Dadas as características do clima de serra (chuvas e neves) as
coberturas deverão ter inclinação de 45 graus pelo menos, para um melhor escoamento
das águas e melhor acumulação de neve.

O abrigo, a cobertura em colmo e o ninho


Os elementos teóricos estudados e adquiridos ao longo do trabalho, foram colocados em
prática, através da construção de uma cobertura em colmo, maquete (conforme ilustrado
nas Figuras 22- 30 , e descrito o seu processo de colocação mais detalhadamente, assim
como os elementos de prisão do colmo, proteção contra o vento.
A peça interpretativa, o ninho, sendo feito do mesmo material, palha de centeio, é um
elemento expressivo, que resulta do estudo da 1ª peça, o telhado, e onde é aplicada
como técnica construtiva e de união dos vário elementos de palha, o bancelho. (Figura
31-34).

Figura 21 - “Abrigo: telhado de colmo, ninho” (desenho elaborado pela autora).

276
A ideia surgiu ao relacionar a forma do telhado em V invertido, com a de um ninho, que
sugere um V ascendente, e que conduziu de novo para a questão do habitáculo,
refletindo agora sobre o abrigo não só como objecto construído, mas, também, como a
imagem poética, sensorial que nos evoca. Idealizei então esta outra peça, um ninho,
como contraponto à peça do telhado, por considerar interessante a diferente dinâmica
que estas duas formas, ambas abrigo e proteção, de estrutura e materiais semelhantes,
tão simplesmente lembram. Se olharmos apenas para a forma de um telhado e de um
ninho, podemos interpretar o primeiro, virado para baixo, como princípio do abrigo,
proteção do sol e da chuva;
Virado para cima, o segundo, é a imagem do sonho. Lugar de contemplação e conforto,
o ninho atua como um receptáculo para o corpo, aconchego, e segurança, mas que pode
ser interpretado como o início de uma viagem, de busca. É uma forma que, protegendo,
abre para o mundo (Figura 21).
A série de estudos (Figura 35 à Figura 36), “Ataduras e nós, bancelho, pormenor
expressivo”, ilustrado na página seguinte, é resultado das experimentações com o
material, palha de centeio. Criadas por mim, estas peças, de pequena dimensão, ganham
outro carácter com a fotografia, que, como meio visual, permitiu captar a sua beleza e
simplicidade, contida na forma dos nós, sugerida pelos bancelho (como técnica).
inclui também no trabalho elementos de estudo que designei de ataduras e nós,
bancelhos, detalhes de pequeno tamanho, fotografados e ampliados, adquirindo uma
dimensão e uma expressão.

Desenvolvido para a construção das duas peças propostas: o telhado de colmo, e o ninho,
foi elaborado um esquema de fotos, ilustrando o processo de construção de uma
cobertura de colmo, descrevendo, passo a passo, como um guião, até ao resultado final,
todas as fases do processo, como podemos observar em exemplo nas seguintes imagens.

. o telhado cobertura de colmo

Figura 22 - Material (palha de centeio) utilizado


na construção das coberturas em colmo, tal como
Figura 23 - Preparação do material (humidificação
saído da malhada junto em molhos de palha (foto
trabalho da autora). da palha para posterior colocação). A palha é
espalhada e separada, retirando algumas das
impurezas e as palhas mais finas (foto trabalho
da autora).

277
União dos dois lados da estrutura

Figura 24 - Depois de preparado o material (palha de centeio), inicia-se a construção da estrutura em


madeira, que irá sustentar a cobertura (colocação dos varedos / caibros, troncos que irão compor cada
água do telhado (foto trabalho da autora).
Figura 25- Colocação dos troncos (ripado de paus) que irá formar a estrutura que sustém cobertura em
colmo (foto trabalho da autora).

Colocação das várias camadas de palha (colmo)

Figura 26 - Espigas viradas para o cume(foto trabalho da autora).


Figura 27- Início da colocação da cobertura em colmo,1ª camada (foto trabalho da autora).

Figura 28 - Colocação do colmo correspondente à cumeada (foto trabalho da autora)


Figura 29, Figura 30 -Colocação dos paus (cangas) que irão prender o colmo (proteção contra o vento)
(foto trabalho da autora)

278
Interpretação poética, o ninho

Figura 31- peça escultórica “Ninho”, pormenor de união (foto trabalho da autora)
Figura 32-Pormenor da peça (o bancelho como elemento de ligação do conjunto, foto trabalho da
autora).
Figura 33- peça escultórica “Ninho”, (foto trabalho da autora)

Figura 34 - Ninho e Telhado, (foto trabalho da autora)

Figura 35 e Figura 36- bancelho pormenor estético (fotos trabalho da autora)

279
Apesar da dificuldade na execução prática destas peças, complementares ao trabalho,
encontrei vários pontos de interesse plástico que explorei e poderão ainda vir a ser mais
desenvolvidos numa outra fase.
Na minha visão de escultora, o bancelho, de técnica construtiva (e de amarração dos
molhos de palha), surgiu como objeto de interpretação artística resultado das
experimentações com o material, palha de centeio, descobrindo as suas diferentes
expressividades quer dobrando, desenhando, quer fotografando, . A sua importância no
contexto, quer no processo em estudo, quer na vivência rural foi por mim observado e
compreendido, no decurso da minha investigação (literária e trabalho de campo).
Embora solução secundária de pouca relevância para todo o processo para os
autóctones, mero pormenor em todo o processo da colheita do centeio (segada e
malhada), ampliei-o visual e simbolicamente, de forma a torná-lo protagonista de uma
experimentação estética. Este não me foi ensinado mas sim observado, presencialmente,
na representação da segada e malhada, evento na aldeia de Paredes do Rio, Montalegre,
na qual participei, e através da observação das filmagens e fotografias que fiz deste
mesmo evento.
Na continuidade do trabalho pessoal artístico, outras interpretações plásticas do
bancelho ou de outros pormenores da técnica em estudo, poderão vir a ser mais
desenvolvidos.

Conclusões
. À memória e conservação, contributos para uma reflexão.
. Manter ou não manter? A sustentabilidade de uma arquitetura ligada ao passado

“Os primeiros abrigos dos grupos de caçadores-recolectores são, até ao


Mesolítico cavernas, tendas e para-ventos, assim como cabanas. O
nomadismo permitia apenas a construção de abrigos provisórios feitos
com a ajuda do material disponível em cada lugar. No Neolítico
cumpre-se a passagem revolucionária para a agricultura. Uma parte da
população primitiva sedentariza-se, tornando-se necessária uma casa
estável para os Homens, os animais e as suas provisões. As técnicas
primitivas de construção melhoram pouco a pouco, e surgem as
primeiras casas semissólidas e de aparência mais robusta”.2

Poder-se-ia supor (ou refletir) que, onde antes se idealizava o conforto, numa tentativa
de sobrevivência e de adaptação ao meio que rodeava o Homem, se antes se buscava o
conforto, se junta atualmente uma preocupação por valores ecológicos e de
sustentabilidade do planeta, assim como (agora existe) a busca de uma identidade
perdida através da preservação de um património cultural, material e imaterial.
Embora tendo em conta razões sociais de extrema pobreza, que estes modos de vida,
refletiam, e não pretendendo glorificar tais tempos, de um difícil quotidiano, conseguir
integrar as técnicas antigas, tão cheios de sabedoria, com os conhecimentos e
tecnologias que permitem um melhor modo de vida, será pois o objectivo a atingir.

2
GODIVIER , J. - Atlas d’architecture mondiale, p.100

280
. A questão da passagem de testemunho
“Por outro lado, em épocas recentes, as sociedades baseavam-se na
transmissão ativa do saber técnico, dos ofícios, de condutas de vida; a
experiência ajustava-se com a ideia de um tempo progressivo, segundo uma
evolução sujeita a uma acumulação de conhecimentos que registava a
sucessão sequencial dos acontecimentos. Porém, agora, encontramo-nos
frente a uma civilização onde se exerce, de maneira generalizada, um culto
frenético à inovação contínua, onde inclusive o papel das competências
profissionais se torna funcional na busca saudosa do presente e a antecipação
futurista do amanhã”.3

Mas a ignorância combate-se com o conhecimento4. O mesmo meio que condiciona é o


mesmo que faz evoluir, revelar, construir, refletir, sem cessar, mesmo quando as
respostas já parecem suficientes. Nunca o são. O Homem tem necessidade de ir mais
além. Que o digam os antropólogos, os arqueólogos, os arquitetos, os filósofos e os
artistas, que, juntamente com todos os anónimos e, sinceros e interessados, possuidores
de uma sabedoria empírica e intuitiva, têm dado o seu contributo para a concretização
de um dos mais íntimos e ancestrais sonhos do Homem, saber quem é, de onde vem,
para onde vai…
Segundo o Arq. José Gomes Alvarez, acerca da questão da proteção, e conservação do
património:
“a melhor conservação, diríamos a única possível é a utilização. Conserva-se
uma casa um bairro velho, um convento abandonado, uma aldeia, usando-a,
vivendo-a, isto é, possibilitando aos seus utilizadores ou habitantes as
condições de vida digna que lhes permitam orgulhar-se de si e do lugar onde
vivem. Assim, evidente se torna o que não é legítimo, sob o pretexto de
conservar manifestações de cultura e da História de um povo, como seria o
caso da arquitetura popular, manter certas condições de vida, muitas vezes
abaixo do mínimo aceitável; será preciso encontrar uma fórmula que,
tornando possível o progresso de tais núcleos e dos seus moradores,
conserve para as gerações futuras toda a surpreendente e inestimável riqueza
cultural que a sua existência faz supor”.5

Neste sentido, considera-se a ideia de que a vivência de um local é também em si


mesma um modo de conservação (pode-se pensar que, uma vez que as pessoas habitam
o lugar, a sua história é também património).

. O Ecomuseu do Barroso, e o seu papel na comunidade


Para a conservação do património material, imaterial e memória, muito tem contribuído
o projeto do Ecomuseu de Montalegre com a ajuda preciosa e podemos dizer orgulhosa
e entusiasta da comunidade local. É um dos poucos do país que mantém uma certa
atividade dinâmica, talvez característica da terra, talvez por via de algumas pessoas

3
PIZZA, A. - La Construcción del Pasado, p.8
4
Edgar Morin afirmou, “Neste sentido, a cultura deve ser transmitida, ensinada, aprendida, quer dizer,
reproduzida em cada novo indivíduo, no seu período de aprendizagem, para se poder auto-perpetuar e
para perpetuar a alta complexidade social”. MORIN, E. - Paradigma Perdido, p.75.
5
ALVAREZ, J. - Inventário do Património Cultural Construído.

281
locais, por maior interesse e conhecimento. Não podendo esquecer o Padre Fontes,
figura muito querida na terra, dedicada à promoção e valorização do Barroso.
Um Ecomuseu caracteriza-se pela preservação e sensibilização para a educação da
conservação do meio ambiente onde estas comunidades se inserem, com o propósito de,
como já referenciado, preservar o património imaterial e edificado, as tradições e modos
antigos que constroem uma identidade cultural, e, ao mesmo tempo, incluir as gentes
locais, colocando-as como principais dinamizadores da passagem de testemunho.
Porque as suas histórias “vivem” nos lugares, as aldeias passaram a ser palco de
reconstituições dos ritos de trabalho ligados à agricultura, ao ciclo do “pão” e ao muito
procurado fumeiro de carnes, podendo participar quem queira. Também as construções
relacionadas com a manufactura do pão, dos tecidos (burel) e do artesanato local têm
vindo a sofrer obras de restauro e transformação para posterior musealização, (caso do
moinho comunitário/pisão e do forno, em Paredes do Rio). Esta ideia de um museu
“vivo”, surge de uma nova compreensão da necessária contextualização dos objetos e
tradições da memória colectiva no seu universo popular, assim como do ambiente em
torno, que povoou a cabeça do artesão que os imaginou. Estas tradições do saber fazer,
algumas já extintas no tempo, também por lembrança de uma miséria e uma vida muito
dura de montanha, correm o risco de desaparecer. Fruto destes complicados anos, e
aliado a um “chico-espertismo”, que nada tem a ver com sabedoria e aproveitamento de
materiais do modo correto, substituíram-se as técnicas por outras mais atuais, que na
prática não se adequam ao clima agreste das terras montanhosas, pelo contrário, as
descaracterizam.

. A técnica das coberturas de colmo e a sua aplicação na arquitetura


contemporânea
Atualmente, podemos encontrar ainda, em alguns países, exemplos de continuidade na
aplicação das coberturas em colmo na atualidade, integrando-a na arquitetura
contemporânea, preservando a técnica antiga manual de aplicação, protegendo-a, e
promovendo o seu ensino. O processo de utilização das coberturas vegetais é um
fenómeno transversal a todas as culturas, verificando-se a sua existência um pouco por
todo o lado, variando (como já anteriormente foi afirmado), conforme o material que
têm à sua disposição, o clima e as ideias que definem cada uma das culturas humanas.
A introdução de novos materiais, ecológicos, que, conjugados com a técnica tradicional
optimizam o seu desempenho (porém mantendo a sua imagem tradicional), concedendo-
lhe mais segurança (resolvendo questões prementes tais como o isolamento e a proteção
contra incêndios), contribui para a continuidade da sua utilização, tornando-a mais
versátil, adaptada aos tempos modernos. Existem já algumas soluções para o principal
problema destas coberturas, o fogo; certos produtos são retardadores de incêndios
(placas colocadas entre o colmo e o interior da casa, na estrutura de madeira,
dispositivos electrónicos que controlam a temperatura das coberturas, avisando a
possibilidade de fogo), outros isolam, condicionando o fogo a uma parte da cobertura,
prevenindo um estrago mais extenso. Embora estas técnicas sejam já utilizadas para a
proteção das habitações de possíveis fogos, ainda não foi encontrada a melhor solução,
o que porém, não inviabiliza a construção contemporâneas destas coberturas.
No meu percurso de investigação acerca do tema das coberturas em colmo, deparei-me
com um organismo de proteção, ensino, e valorização do colmo em suas variantes
internacionais, a Sociedade Internacional de Colmadores (International Thatching
Society).

282
. A preservação das técnica manuais construtivas vernaculares na arquitetura
contemporânea
A Sociedade Internacional de Colmadores (www.thatchers.eu), formada pela Finlândia,
a Holanda, Inglaterra, o Japão, Suécia, Alemanha e a África do Sul, países estes que
ainda utilizam o colmo como cobertura de casas. Esta organização empreende, na busca
de soluções que tornem o colmo uma técnica em sintonia com as técnicas atuais de
construção, e o conforto que elas oferecem, melhorando o seu desempenho como
material construtivo.
Através da promoção de encontros internacionais (congressos), procuram acima de tudo,
a partilha de conhecimento e a entreajuda, através do debate e exibição da diversidade
que cada um dos países membros da Internacional Thatching Society apresenta (as suas
associações nacionais de colmadores e seus representantes).
Para isso, apostam também, para além da formação de técnicos especializados
(colmadores), na promoção da técnica junto de Universidades e centros de investigação,
profissionais da área da construção, arquitetos e engenheiros (divulgando para tal, em
feiras relacionadas com a construção), sendo a contemporaneidade e a busca de novas
formas de utilizar o colmo como material construtivo e mesmo decorativo, igualmente
uma das suas intenções. Uma das suas maiores preocupações, é o tratamento do material
natural, de modo a evitar o grande perigo de incêndio, o qual no nosso país, para além
da sua manutenção dispendiosa e mão de obra praticamente escassa, foi a principal
razão de termos abandonado, em Portugal, tal técnica.

São então estas as ideias gerais e questões mais importantes debatidas e analisadas:
Isolamento e espessura do colmo; incêndios e retardadores de incêndios; combinação de
outros materiais, ecológicos, que respeitem a técnica tradicional das coberturas em
colmo, optimizando-a; arquitetura tradicional e as suas regras de construção em diálogo
com novas formas e soluções criativas para a aplicação do colmo; o tipo de colmo
utilizado ser o mais apropriado para o clima onde é instalada a cobertura, em simbiose
com a paisagem e a natureza envolvente; promover e ensinar a técnica tradicional,
divulgando-a, apostando também na comunicação junto de Universidades e centros de
investigação, trazendo novas ideias; assim como, permitir às comunidades conhecer e
compreender as suas tradições, através do ensino e preservação das tradições inerentes
às suas regiões.

Na Holanda, país pertencente à Sociedade Internacional de Colmadores, as coberturas


em colmo “vivem” ainda atualmente, não apenas através da reabilitação de antigas
construções, mas também pela utilização em edifícios novos, de traço contemporâneo,
explorando novas formas de colocação do colmo nas casas. Uma das suas inovações é a
colocação do colmo nas paredes externas, sobrepondo-o a outros materiais de
construção (Figura 21).

283
Figura 21 -Utilização do colmo na arquitetura contemporânea, cobertura e paredes, Holanda, retirado do
site www.thatchers.eu/content/hollan (acedido em 22/02/2014).

Para além desta sociedade, existem cooperações entre países, promovendo a troca de
ideias e intercâmbio de artesãos e arquitetos, utilizando as técnicas tradicionais de
construção, onde se inclui o colmo.
Como exemplo, tomo o Raiding Project, com a participação do arquiteto japonês
Terunobu Fujimori.
Raiding Project é uma organização que promoveu o intercâmbio cultural entre o Japão
e a Áustria, fomentando a sua ligação, sendo também o seu propósito a construção e
manutenção de edifícios feitos neste contexto.

Figura 22 - Casa Storkhouse (Casa da Figura 23 - O autor, Terunobu Fujimori, observa


Cegonha), Áustria, retirado do site a cegonha residente, ave que dá nome à casa da
www.raidingfoundation.org (acedido em sua autoria, retirado do site
22/02/2014). www.raidingfoundation.org (acedido em
22/02/2014).

Figura 24 -Aplicação da cobertura em colmo na casa Storkhouse. retirada do site


www.raidingfoundation.org (acedido em 22/02/2014).

284
A StorkHouse e a Hara House são duas casas construídas no âmbito do projecto, sendo
a primeira da autoria de Terunobu Fujimori.
Incluo StorkHouse (Figura 22 - 24), neste trabalho, porque esta casa é mais um exemplo
da utilização contemporânea das coberturas em colmo na arquitetura.
Nas suas obras, Fujimori emprega as técnicas antigas de construção japonesas, entre as
quais, a cobertura das habitações em colmo utilizadas principalmente em templos e
casas de chá. Podemos observar na Figura 24, o processo de colocação da cobertura em
colmo sobre uma estrutura em madeira.
No nosso país existem algumas empresas que comercializam colmo sintético para
guarda-sóis e estruturas de praia, mas penso ser mais importante citar e procurar
exemplos como a “I.T.S.” ou o ”Raiding Project”, na sequência deste presente trabalho,
uma vez mais por ir de encontro a tudo o que foi abordado.
E por não me parecem enquadradas, uma vez que até o aspecto delas sugere outras
paisagens, mais tropicais, longe da nossa realidade. Não pretendo menosprezar o
material sintético, (como já à muitos anos é utilizado nos países nórdicos substituindo o
colmo natural), porém, acredito e defendo a ideia de se criar um tipo de material de
características que se adequem, e se harmonizem com as nossas paisagens e tradições.
Fica a questão e a vontade de conseguir fazer uma simbiose, entre o novo e o antigo,
praticando uma arquitetura que una a preocupação ambiental, cultural e de conforto,
unindo todo o saber e técnica, evoluindo. Não virarmos as costas ao passado, mas
integrando-o no nosso futuro.

O caso das coberturas de colmo, do P.N.P.G., Alto Barroso;


Julgo ser necessária a valorização de toda uma cultura existente na região em estudo,
realçando os valores positivos dessa mesma cultura, no que se refere à proximidade do
homem com a natureza, o que não significa menosprezar todo o desenvolvimento e
progresso adquiridos, desde que se mantenha o equilíbrio, o bom senso, e a sabedoria de
enquadrar o progresso num sistema sustentável e ecologicamente responsável. Sem a
utilização da tecnologia poluente, quer a nível da alimentação, quer a nível da
construção, dando preferência aos meios que o progresso trouxe sim, mas não a
qualquer preço. Estar atentos ao sinais que a natureza nos transmite, cada vez mais
intensa e diariamente.
Apesar de tudo, acredito que a essência original não está perdida e as tentativas e ações
para a recuperar são numerosas e verdadeiramente interessadas.
Existe em diferentes locais e também nesta região do Barroso, onde como atrás dizia, se
procura, pelo menos, manter viva a memória coletiva, através de atividades que o seu
Ecomuseu, em Montalegre, mantém e dinamiza.
O Parque (Nacional Peneda Gerês), como organismo de proteção e preservação da
Natureza (fauna, flora, paisagem natural) e costumes e tradições das aldeias serranas
nele englobadas, poderia viabilizar projetos dentro da área em estudo, começando por
criar dentro do próprio Parque algumas oficinas de ensino e aprendizagem da técnica de
aplicação do colmo, em comunhão com os próprios habitantes mais antigos, detentores
de um vasto conhecimento e sabedoria.
Seria uma área a considerar a nível da investigação universitária, sobretudo em
Arquitetura, Design e Belas Artes, no intuito de salvaguardar os valores etnográficos e
antropológicos dos elementos da arquitetura popular (como exemplo: trazendo novas
abordagens ao processo aplicativo e construtivo).
Mas, para que tal possa acontecer, será necessário a conjugação dos interesses dos
habitantes com o interesse do Parque, por exemplo: nas Ecoaldeias, propiciar o

285
financiamento da plantação do centeio, cuja palha seria colhida no modo artesanal (onde
não é quebrada e automaticamente compactada em fardos), podendo assim ser utilizada
para a construção de coberturas em colmo.

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287
Arquitetura Vernacular Praieira – Nordeste do Brasil.
Genival Costa de Barros Lima Junior
Universidade Federal de Pernambuco – UFPE
[email protected]

Resumo
Há uma expressão técnica construtiva produto de três culturas que perdura nas praias nordestinas
e que tem seus primeiros registros desde 1809: casas feitas do material originário do meio
ambiente onde estão inseridas e que refletem um contexto socioeconômico específico das
comunidades praieiras. Este artigo, através de análise dos vestígios materiais e de documentação
histórica, identificou as influências e as origens destas construções, o que permitiu defini-las e
compreender sua configuração atual. Através de visitas ao longo do litoral nordestino fez-se um
levantamento fotográfico, gráfico e estatístico para se estabelecer quais os padrões existentes e
os níveis de preservação de cada comunidade e, identificar assim, os graus de influência externa
e de técnicas construtivas indígenas, europeias e negras.

Palavras-chave: Arquitetura vernacular, Patrimônio, Técnica construtiva.

288
Introdução
A adaptação ao ambiente, bem com permanência e uso do mesmo, depende, entre outros fatores,
de desenvolvimentos técnicos que o grupo aprimora, absorve ou descarta com o passar do tempo.
Este desenvolvimento estabelece padrões que se tornam característicos do grupo. Barrio (2005)
associa cultura1 a alguns sistemas de desenvolvimento técnico e tecnológico. Assim pode-se
entender que o processo de aprimoramento tecnológico está ligado ao desenvolvimento cultural
de determinado grupo e que esse arcabouço de conhecimento técnico acaba por ser característico
de determinado grupo.

Com isso em mente percebe-se em todo o litoral nordestino uma rica expressão sociocultural
envolvida diretamente com o mar e a terra e dependente desse ambiente para permanência e
sobrevivência: a cultura praieira e pesqueira. Desde o trabalho até o falar, essa cultura tem suas
peculiaridades, nuances, que a tornam única e explicam o fascínio que exerce em muitos
observadores atentos. Música, religião, vestimenta, ferramentas e apetrechos de trabalho são
facetas desse modo de vida que permeia as grandes cidades no Nordeste brasileiro. Uma das
manifestações mais constantes, tão forte quanto a jangada, em toda a imagética popular é a casa de
pescador. Sempre presente, isolada ou em vilas, ela acaba por se tornar parte da paisagem. Como
se formou esta cultura construtiva? O que ela revela sobre sua origem? Como explicar a evolução
tecnológica que se processou nas praias do nordeste?

Leroi-Gourhan, pág. 184 (1984) escreve que a habitação “é um dos aspectos da atividade humana
sobre os quais mais se tem escrito, porque a casa é, ao mesmo tempo, o mais aparente e o mais
pessoal de todos os traços étnicos”. Também Rapoport, pág. 48(1969) diz: “Uma casa é um fato
humano, e mesmo com as mais severas restrições físicas e tecnologia limitada o homem tem
construído de modos tão diversos que estes só podem ser atribuídos à escolha, a qual envolve
valores culturais”. Sendo um elemento cultural que traz tanta intimidade com seu construtor,
compreender a casa será imprescindível para um entendimento de cultura.

Como elemento cultural técnico, a casa dialoga com o meio, é condicionada por este e o altera na
medida do possível. Esse relacionamento, homem, cultura técnica e meio, molda um inteiro modo
de pensar que é bem peculiar ao caso em estudo. A diversidade de grupos humanos, associada à
diversidade geográfica e biológica do ambiente praieiro, formou um modo de construir que
explica como se deu, no caso do Nordeste brasileiro, e em quais proporções, um sincretismo
cultural. História, população e cultura estão envolvidas nessa fusão.

1
Definida como sistema integrado de padrões de conduta aprendidos e transmitidos de uma geração a outra,
características de um grupo humano ou sociedade.

289
Arquitectura Vernacular Praieira
Paul Oliver, em Dwellings (2003), já na sua introdução destaca que habitar é tanto processo
como artefato: é a experiência de viver num localidade específica e a expressão física de fazer
isso. Essa capacidade de se adaptar construtivamente ao ambiente, usando os recursos
disponíveis localmente em concordância com a terra, com o clima e sendo resultados de gerações
sucessivas de acúmulo de conhecimento torna a arquitetura vernacular2 uma expressão cultural
de grande relevância para o entendimento do desenvolvimento sócio cultural de localidades.

A força dos aspectos culturais na arquitetura vernacular pode ser demonstrado em Rapoport
(1990) quando discorre sobre o importância do significado (entendendo que a mente humana
trabalha basicamente estabelecendo significados ao mundo através de relações cognitivas,
taxonomias, categorias e esquemas que geram formas, como outros aspectos da cultura material)
do meio. Relata que aparentemente as pessoas reagem ao meio em termos do significado que o
meio tem para elas. Prova disso se encontra na variedade de reações que grupos tem em
diferentes partes do mundo a ambientes com quase todos os mesmos recursos e dificuldades.
Rapoport salienta assim que relações de afetividade (aspectos culturais) com o ambiente podem
ser mais relevantes que reações analíticas do meio. Isto sugere que significado não é algo à parte
de função, mas parte importante desta.

Estas ideias foram absorvidas e ampliadas num mestrado em arqueologia que foi feito a partir de
uma pesquisa sobre casas de pescadores em todo o litoral nordestino. Este trabalho acabou por
gerar um livro chamado “Arquitetura Vernacular Praieira”, que trata de um panorama de como
(em 2006) se encontrava a cultura construtiva praieira no litoral do nordeste. Para efeito de
estudo foi feita extensa busca por comunidades litorâneas que ainda preservassem a cultura
material e imaterial intacta ou com mínima influencia da cultura citadina. Este livro, após
apresentações, palestras e debates motivou a compreensão da necessidade de se traçar o caminho
de volta para perceber melhor os traços culturais que formaram esta cultura e técnica construtiva
no litoral nordeste do Brasil.

Corte temporal e geográfico


O cenário que serve de pano de fundo para o desenvolvimento da cultura praieira se desenrola
em meados do século XIX, com a proximidade do fim da escravatura. Essa época que marca o
declínio de um inteiro sistema econômico e social onde à guisa de muito custo e contragosto,
negros começam a usufruir de “regalias” mais amplas e a liberdade completa de alguns —
também fuga e consequente ajuntamento e união de outros — permite a formação de uma
população que inicialmente é forçada a viver à margem da economia citadina e que, por isso,
acaba por se enfronhar em outros modos de produção que vão se tornando cada vez mais
rentáveis. É baseado nessa conjuntura político econômica que escritores, pesquisadores,
2
O termo “Arquitetura vernacular” compreende as habitações e outras construções dos povos. Relacionadas aos
seus contextos ambientais e recursos disponíveis, são costumeiramente construídas por seu dono ou pela
comunidade utilizando tecnologias tradicionais. OLIVER, 1997.

290
antropólogos e historiadores começam a descrever e registrar a formação de um povo brasileiro,
mestiço e fundido culturalmente, como salienta Ribeiro, pág. 251 (2006):

“[...] nasce em torno do complexo formado pela economia do açúcar,


com suas ramificações comerciais e financeiras e todos os complementos
agrícolas e artesanais que possibilitavam sua operação[...] Nela, a forma
de existência, a organização da família, a estrutura de poder não eram
criações históricas oriundas de uma velha tradição, mas meras resultantes
de opções exercidas para dar eficácia ao empreendimento. Mas, por outro
lado, muito mais complexa, como população surgida da fusão racial de
brancos, índios e negros, como cultura sincrética plasmada na integração
das matizes mais díspares e como economia agroindustrial inserida no
comércio mundial existente.”

Conceitos
Quando lemos ou pesquisamos a respeito desta cultura tecnológica construtiva entramos em
contato com duas expressões atribuídas a este tipo de construção. Uma usada em âmbito mundial,
e outra, mais local, no âmbito dos pesquisadores brasileiros: vernacular e popular.

“Até tempos bem recentes não se havia considerado nenhum termo


específico para designar esta imensa maioria de construções
habitualmente ignorada nos tratados. O reconhecimento da própria
existência de formas construídas, sobretudo de edifícios destinados ao
uso doméstico, suscetíveis de diferenciação segundo culturas, meio
ambiente e clima do lugar em que se levantam, tem conduzido a um
emprego cada vez maior do termo “arquitetura vernácula” para
identificá-las.”

Com esse argumento, o autor Paul Oliver, pág. 11 (1978), defende a importância de uma
terminologia adequada que descreva as construções descritas acima. De fato, o termo vernacular
é um dos mais usados na Europa pelos estudiosos das construções feitas em bases totalmente
culturais, sem a presença do arquiteto ou construtor profissional, onde o conhecimento e domínio
da técnica são quase que instintivos — não há documentação do processo (manuais), o trabalho é
artesanal, e a oralidade e observação fazem parte do aprendizado e da difusão do conhecimento.
Este termo é vinculado à construção que absorve matérias de seu entorno, que é moldada pelas
restrições do clima e geografia do seu lócus.

Já no Brasil autores como Weimer, em Arquitetura Popular Brasileira (pág. XL), defende que o
termo popular é melhor aplicado “às manifestações construtivas do povo”.

291
“Em sua origem latina, populus designava o conjunto de cidadãos que
excluíam, por um lado, os mais privilegiados, os patrícios, a quem estava
reservada a representação no senado, e, por outro lado, os menos
afortunados, a plebe, os despossuídos. Portanto, em seu sentido mais
direto, significa aquilo que é próprio das camadas intermediárias da
população. Essa definição parece ser extremamente atual e muito feliz:
exclui a arquitetura realizada pelas elites — denominada erudita — e a
dos excluídos, para a qual, modernamente, se têm usado o termo favela e
outros termos semelhados.”

Nessa defesa de sua terminologia, o autor deixa claro que o termo popular se aplica com mais
precisão ao objeto construído pelo povo e para o povo. Para tais, essa designação tem sido
suficiente por, simplesmente, excluir o que é “erudito”, ou profissional, da referida construção.

Tanto Oliver quanto Weimer usam termos que, por mais que tendam a se aproximar da realidade,
segundo as explicações fornecidas, não são incisivos na explicação e no entendimento de alguns
padrões tecnológicos ou, mais especificamente, de um objeto construído, neste caso uma casa,
pois são essencialmente generalizantes. Descrevem3, mas não explicam alguns fatores que
podem ser preponderantes para a boa compreensão dessa cultura construtiva como, por exemplo,
quais as suas origens e as suas influências, qual o seu modo de construção, qual a cultura por trás
da obra e, mesmo, quais as atividades e hábitos dos homens por trás da cultura construtiva, são
alguma das questões que os conceitos dos dois autores não conseguem responder.

Influência Indígena, Negra e Branca


Antes de obter respostas para as questões acima convém relembrar quais aspectos foram
misturados ao formar a casa do pescador praieiro. As influências se manifestam em detalhes
construtivos e executivos (técnica) e modos de uso do ambiente construtivo (cultura).

Entre as influências indígenas que podemos elencar no desenvolvimento tecnológico do habitar


praieiro estão: Construção com materiais vegetais, uso da varanda (estrutura a partir da uma
extensão da coberta em duas águas) coberta para fugir do calor, palafitamento para fugir ma maré
ou cheia dos rios, utilização da tesoura romana como estrutura de telhado, planta retangular
baseada em sequencias de três pilares (sendo os do meio formadores da cumeeira), uso de
forquilhas no madeiramento de apoio da coberta, coberta em camadas de palha seca, trançado da
palha (seja de coqueiro, carnaúba ou babaçu), ausência de divisões internas na casa (objetos e
utensílios em uso determinam o ambiente), casa é o reino das mulheres, plantas com dois acessos
(e únicas aberturas) e banheiro separado da casa com piso elevado e livre de olhares por vedação.

3
No sentido de que os termos servem para determinar o que são as construções e, em alguns casos, como em
vernacular, o contexto em que a construção está inserida.

292
Já entre as contribuições negras estão: construção com terra (argila), plantas retangulares (cerca de
seis por oito metros), cubatas (casas unifamiliares sem divisões internas), cubatas de sombra
(cobertas sobre pilares de madeira para uso dos homens da tribo, servindo para reuniões e
trabalho), uso da taipa, beiral saliente (com o objetivo de proteger a taipa das intempéries),
alpendre (lussambo) diante da casa, poucas e pequenas aberturas.

Por fim os brancos influenciaram a construção com: alpendramento das fachadas principais,
especialização do ambiente interno (cozinha e demais divisões internas), acabamento de fachada,
elementos acessórios (portas e janelas) trabalhados e rebuscados, telha cerâmica, exacerbação do
senso de privado.

Sincretismo
A palavra sincretismo vem do grego synkretismós, “união de diversas cidades da ilha de Creta
contra um inimigo comum”; de syn—junto — com kres—cretense. Com o tempo, adquiriu o
sentido de união de correntes, teorias ou religiões diferentes. O dicionário Michaelis, entre as
definições para sincretismo, define, sob o ponto de vista antropológico, assim: Fusão de dois ou
mais elementos culturais antagônicos num só elemento, continuando, porém, perceptíveis alguns
sinais de origens diversas.

De fato, sincretismo é o termo que se enquadra no cenário exposto. Mais do que uma construção
popular, com a qual se poderia confundir, por exemplo, com as casas em favelas, atualmente
encontradas em quase todas as grandes cidades, além de outras construções espalhadas pelo
mundo, onde o fator não profissional é a principal característica analisada. Do mesmo modo,
mais do que uma construção vernacular, onde o meio fala mais alto do que a cultura por trás da
técnica construtiva e que pode facilmente apontar para outras regiões similares no mundo. Esta
palavra — sincrética — afunila as opções socioculturais em um único ponto, onde se pode
perceber e apontar, ou pelo menos conjecturar, as origens humanas da construção.

Sincretismo cultural
Conforme Silva (2004) descreve, os índios foram a mão de obra inicial nas plantações de cana-
de-açúcar e outras culturas agrárias menores, que logo se desenvolveram no litoral nordestino,
atividade esta que serviu como impulsionador de todo um dinamismo econômico, social e
cultural observado na região. Cabia aos índios não apenas trabalhar nas plantações, mas também
construir engenhos e casas, bem como produzir alimentos através da caça e pesca. Quanto ao
envolvimento com as atividades pesqueiras Silva, pág. 44 (2001) salienta:

“A escravização do “gentio da terra”, portanto, não se verificou apenas


no interior dos engenhos e das lavouras de cana, mas também no mundo
do mar, da pesca e da navegação de cabotagem, que começava a se
impor na América portuguesa. Até mesmo chegou a atingir alguma
especialização, como se pode verificar, na medida em que os escravos

293
indígenas habilitados como pescadores, calafates e caixeiros custavam
quase o mesmo preço que um escravo africano.”

No entanto, em fins do século XVI, observa-se uma grande mortandade, por diversos fatores, de
doenças a guerras, entre os indígenas e o início do tráfico intenso de negros africanos como
escravos. Some-se a isso o fato de que “entre os séculos XVII e XVIII, os indígenas deixaram de
constituir a principal força de trabalho não apenas entre os engenhos e lavouras de cana do
Nordeste, mas também na pesca e em outras atividades ligadas ao mundo do mar. Pela lei
promulgada em 30 de julho de 1609, proíbe-se até mesmo sua escravização” (Silva, pág. 45,
2001).

Durante esse período, percebe-se um incremento na quantidade de escravos africanos no


Nordeste e no seu uso como força de trabalho nas mais variadas frentes, não somente na lavoura
de cana. Estes também tinham contato com a cultura pesqueira4.

A partir dessa realidade, os senhores de terras não apenas usavam sua mão de obra para a cana,
mas, como observou Castelluci Jr., pág. 137 (2008).

“[...] em muitas delas [fazendas], os senhores investiram na plantação de


coqueiro, cuja fruta era muito bem aceita no mercado provincial e
enviada para o Rio de Janeiro; na coleta da piaçava; na extração da lenha
que alimentava os fornos dos arguidas, das engenhocas e padarias do
recôncavo; também cultivavam várias árvores frutíferas. A pesca
litorânea se constituiu, assim como outras atividades produtivas, numa
importante fonte de receita para os senhores, além de extraordinária fonte
de alimentação que completava a dieta alimentar deles, de seus escravos
e dos trabalhadores livres da zona rural. Na maior parte das propriedades
arroladas, foi quase uma rotina identificar uma série de embarcações,
tradicionalmente utilizadas para a pesca, nas proximidades da praia, além
dos instrumentos utilizados na apreensão do peixe.”

Durante essa época, começou a surgir a expressão escravo de ganho, ou seja, o negro mais
habilitado à diversificação de funções econômicas, dentre elas a pesca, que se tornava maior
fonte de renda para seu possuidor. Sobre este novo contexto que se desenvolve no litoral Silva,
pág. 69, (2001) acrescenta:

“Como já foi sugerido, entre os séculos XVII e XVIII os escravos


africanos e seus descendentes, bem como um número cada vez mais
4
Há estudos que mostram que alguns escravos pescavam e catavam caranguejo em mangues e rios, próximos ao
engenho ou fazenda, para contribuir com alimentação na senzala (Silva, pág. 45 ,1988).

294
significativo de negros livres, foram substituindo paulatinamente pessoas
de origem portuguesa e indígena nos misteres marítimos e na navegação
fluvial nas regiões açucareiras na Bahia e em Pernambuco[...]”

Também é digno de nota, como já salientado acima, rapidamente, que uma parcela importante
dos escravos trazidos para o Brasil eram oriundos de regiões costeiras africanas, onde já havia
uma cultura de pesca, praieira, na estrutura social das tribos (Diegues, pág. 59, 1983).

Acontece que com o declínio da mão de obra indígena a população de escravos negros abundou.
As culturas econômicas se diversificaram. Escravos eram usados nas mais diversas atividades
comerciais, da padaria à construção civil, passando, lógico, pela pesca. Assim, criou-se uma
cultura econômica paralela, e muito forte, diga-se de passagem, nas cidades litorâneas, com
arrendamentos de terras a famílias e grupos que acabavam por se instalar na praia, ou coqueiral,
para administrar seu empreendimento, que incluía não só o coqueiral, mas muitas vezes um
roçado onde eram plantados alimentos de subsistência. Foi nessa época que os mercados de
peixe começaram a sair da sombra dos coqueiros para as proximidades da cidade e,
posteriormente, para dentro dela.

Dessa cultura em desenvolvimento surge toda uma sociedade tipicamente brasileira, segundo
Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro, citado acima. O autor deixa claro que esse povo gera
matizes culturais que serão a base do entendimento das populações tradicionais, ou rústicas.
Dentro dessas populações a crioula, segundo nomenclatura usada pelo autor, é que se torna foco
de interesse. Por quê? Esta surge em torno das complexas relações econômicas, politicas e
sociais no Brasil escravista colonial. Estas relações modificam e reconstroem estruturas
familiares e sociais, criam um inteiro sistema econômico cultural no litoral nordestino e fundem
tecnologias constrituvas num sincretismo de matrizes dispares e em choque.

Sincretismo tecnológico
A capacidade ou a opção pela escolha, o poder de decisão, ou, como salienta Basalla (2001), a
abordagem voluntarista (em vez da determinista), conduz a entendimentos mais amplos sobre o
conjunto de fatores que formaram a casa do pescador como hoje conhecemos. Nas suas
conclusões em A Evolução da Tecnologia, pág. 220, o autor citado destaca:

“As pessoas fazem novos tipos de coisas porque decidem definir e


procurar um tipo particular de vida humana. A história da tecnologia não
é um registro dos objetos fabricados para garantir nossa sobrevivência.
Em vez disso, é o testemunho da fertilidade da mente inventiva e do
imenso número de formas que os povos da terra escolheram para viver.
Sob esta perspectiva, a diversidade de artefatos é uma das expressões
mais elevadas da existência humana”.

295
Este será o ponto de partida para salientar que adaptações e desenvolvimentos tecnológicos na
construção da casa do pescador são fruto de desejos e anseios (traços culturais), além de
adaptações climáticas e tecnológicas, que permeiam a cultura que se fundiu no litoral nordestino
durante um período especificado. No ambiente praieiro as tipologias construtivas adotadas, ou
misturadas, para se chegar ao que hoje ainda se encontra pelo litoral nordestino brasileiro,
conforme o levantamento histórico feito, revelam que culturas se chocaram, cada qual com
bagagem técnica.

Nesse ponto, pode-se atentar para o que Crouch e Johnson argumentam em Traditions in
Architecture, pág. 25, para entender o progresso ou a evolução tecnológica. As autoras discorrem
sobre como se técnicas e tecnologias especificas acabam por formar tradições tecnológicas que
se espalham pelo território, se misturam ou são completamente modificadas. Escrevem:
“Pessoas em culturas tradicionais sabem como fazer as construções de
que precisam. Há anos, através de tentativas, de erros, reflexão e novas
tentativas, tradições construtivas têm evoluído para integrar clima,
materiais, outras contenções físicas e práticas culturais a formas
arquitetônicas que satisfazem necessidades de indivíduos e grupos.
Pessoas nessas culturas, enquanto desenvolvem meios falados e escritos
para codificar tradições construtivas, também sabem como transmitir
este conhecimento de uma geração para a próxima. Elas preferem
sempre instruções faladas e demonstração do que material impresso.”

Ainda, somando-se a isso, o que Oliver, pág. 110 (2006) destaca ao escrever sobre know-how
vernacular pode ampliar o conhecimento dos aspectos de transmissão cultural em discussão:

“Na prática, dentro do contexto da arquitetura vernacular, é englobado o


que se sabe e o que é característico sobre abrigar, construir ou assentar;
inclui a sabedoria coletiva e experiência da sociedade envolvida e as
normas que se tornaram aceitas pelo grupo como sendo aceitáveis para
suas construções[...] tecnologia vernacular está situada conceitualmente
dentro de um grande mapa cognitivo ou território que constitui a
totalidade do conhecimento sobre construir e assentar que é guardado por
uma sociedade específica”.

Oliver descreve não somente o papel desse mapa cognitivo que guarda o conhecimento técnico
dentro de uma determinada sociedade, mas propõe que a transmissão se torna possível através de
uma técnica simples, que use poucos artifícios, como ferramentas, e que seja baseada no
empreendimento humano (que pode ser coletivizado), e, desse modo, a manutenção do know-
how, do saber e do fazer, permanece no seio do grupo. Não é que se iniba qualquer manifestação
de individualidade, mas que as soluções estabelecidas, culturalmente, foram, como é de
conhecimento de todos no grupo, testadas através dos tempos e então aceitas e difundidas na

296
comunidade. Os padrões de vida se mantêm constantes nesse aspecto. Então os edifícios se
manterão constantes.
Assim entendemos que o choque de culturas associado, ou motivado, a todo um sistema sócio-
político fez com que dados tecnológicos se unissem em torno de uma nova formatação
econômica e cultural. Esta nova formatação gerou, enquanto se desenvolvia, um novo modus
operandi construtivo característico que de quem estava a usar o meio praieiro como base de
produção.

Pesquisa
As pesquisas e levantamento de dados durante as visitas (em 31 comunidades no MA, CE, RN,
PB, AL e BA) permitiram a geração de tabelas temáticas que nos ajudam a estabelecer, por fim,
quais detalhes mais se aproximam das culturas em fusão. Elas apontaram para relações que
podem ser estabelecidas e as conclusões que podem ser tiradas ao se deparar com os
quantitativos de elementos construtivos ou finalizadores (acabamentos) de recorrência nas
construções estudadas. As tabelas temáticas de recorrência são:

Tabela 1 Tabela analítica tópico: Tabela 1 Tabela analítica tópico: Tabela 3 Tabela analítica tópico:
Estrutura Coberta Vedação
Fonte: Desenvolvido pelo autor Fonte: Desenvolvido pelo autor Fonte: Desenvolvido pelo autor

297
Gráfico 1 Resumo Influência Indígena
Fonte: Desenvolvida pelo autor.

Tabela 1 Tabela analítica tópico: Acessórios. Tabela 2 Tabela analítica tópico: Planta / Espaço
Fonte: Desenvolvido pelo autor Interno. Fonte: Desenvolvido pelo autor

298
Figura 1 Casa em madeira, Caburé -MA- Planta Baixa, Perspectiva estrutura e Foto
Fonte: Desenvolvimento e acervo do autor.

299
Outros exemplos de influência Indígena:

Figura 2 Casa em palha, Ilha São Pedro –MA


Fonte: Acervo do autor.

Figura 3 Casa em palha, Balbino/Xavier -CE


Fonte: Acervo do autor.

300
Figura 4 Casa em palha, Abiaí -PB
Fonte: Acervo do autor.

Figura 5 Casa em madeira, Camaratuba -PB


Fonte: Acervo do autor.

301
Gráfico 2 Resumo Influência Negra, Fonte: Desenvolvida pelo autor.

Figura 6 Casa em taipa, Quitérias – CE, Planta baixa, perspectiva estrutura, foto
Fonte: desenvolvimento e acervo do autor

302
Outros exemplos de influência Negra:

Figura 7 Casa em taipa, Canto do Espadarte/Vassoura –MA


Fonte: Acervo do autor.

Figura 8 Casa em taipa, Morro do Boi –MA


Fonte: Acervo do autor.

303
Figura 9 Casa em taipa, Barrinha –CE
Fonte: Acervo do autor.

304
Figura 10 Casa em taipa, Fontainha –CE
Fonte: Acervo do autor.

Gráfico 3 Resumo Influência Branca (Européia)


Fonte: Desenvolvida pelo autor.

305
Gráfico 4 Resumo Influência Branca (Européia)
Fonte: Desenvolvida pelo autor.

Outros exemplos de influência Branca:

Figura 11 Casa em alvenaria, Barrinha –CE


Fonte: Acervo do autor.

306
Figura 12 Casa em alvenaria, Vila de Contrato -BA
Fonte: Acervo do autor.

Figura 13 Casa em madeira, Cumuruxatiba -BA


Fonte: Acervo do autor.

307
Figura 14 Casa em madeira, Cumuruxatiba –BA
Fonte: Acervo do autor.

Gráfico 5 Resumo Sobreposição das influências


Fonte: Desenvolvida pelo autor.

Conforme Mumford (1998) destaca, as escolhas construtivas continuam determinantes na


preservação das características culturais, afinal a cultura de aldeia (aquela baseada em oralidades,
mitologias e estruturas rígidas e ancestrais) permanece nos costumes e tradições que se refletem
na estrutura material (mesmo que em vestígios) das populações tradicionais que se estabeleceram
historicamente no litoral. Apesar do contato com culturas dominantes e opressivas a maneira de
ver e fazer o habitar permaneceu. Justamente em questões mais ligadas ao construir (estrutura,
coberta e vedações) é que são mais encontradas. Não é meramente um fato ambiental, de
proximidade com o material, ou de custos construtivos (quando o material básico de construção é

308
retirado do entorno), mas de escolha. Afinal percebe-se que no mesmo sítio onde se encontra
madeiramento aparelhado e montado conforme ditames europeus também se encontra a palha e
mesmo o barro (taipa). Estas decisões estético construtivas e recorrentes, independente de
condições financeiras e sociais, demonstram bem como a preservação ancestral do modus
operandi construtivo é marcante e permanente.

A tabela temática de estrutura aponta para uma relação mais achegada entre construção e meio
ambiente. Conforme já salientado o madeiramento roliço, sem acabamento, é encontrado mais
abundantemente no norte e no sul do litoral nordestino, enquanto a palha de coqueiro e o barro
ficam mo intermédio destas áreas. Ainda assim a técnica construtiva sofre alterações onde se
encontra madeira aparelhada (tratada em forma de sarrafos e tábuas) com mais facilidade em
função de plantios e serrarias.

As tabelas de coberta e vedação também salientam a estreita relação, em alguns momentos, entre
construção e meio. A disponibilidade de material é fator importante para a utilização do mesmo.
No entanto a sobreposição de técnicas construtivas de acordo com materiais diferentes no mesmo
sítio deixa claro que a escolha cultural ainda é o mais preponderante fator de execução da casa.

No entanto as duas últimas tabelas (elementos acessórios e planta) demonstram o que foi a maior
contribuição branca (européia) ao desenvolvimento da Construção Sincrética Praieira: o senso do
privado através da especialização dos ambientes internos da casa. Conforma já discorrido, esta
especialização, fruto, principalmente, da atuação da mulher no ambiente construído (Mumford,
1998), revela que novos modos de vida se estabeleceram no ambiente de praia. Com as novas
convenções sociais e culturais formadas as relações familiares e interpessoais também
adquiriram novas feições e o uso da construção acompanhou tais mudanças. Com ambientes
mais reservados, privatizados dentro do ambiente familiar, a casa se compartimentou. As plantas
e elementos acessórios (em especial os de proteção visual ou resguardo, como, por exemplo, as
portas estilo saia e blusa) evidenciam este novo genre de vie estabelecido.

Estas modificações demonstram que a casa colonial foi transplantada para a construção índia e
africana, em sua maioria de planta livre ou, em alguns casos, fragmentada em varias pequenas
construções. Essa mudança no ambiente interno nem sempre se refletiu na construção. Os
elementos acessórios, que incluem janelas, por exemplo, nem sempre seguiram a distribuição
interior. Algumas casas, na respectiva tabela, forma marcadas como sofrendo influência índia ou
negra justamente pela ausência de aberturas ou aberturas muito pequenas. Ainda digno de nota é
que esta modificação em planta se deu com muito mais força no ambiente interno do que no
externo. Não aparecem terraços e alpendres com ascendência branca, portuguesa, com a mesma
freqüência que a planta interna da casa é influenciada.

309
Considerações finais
O que, realmente, passa desapercebido pelo olhar apressado é que este é um genre de vie
baseado numa cultura socioeconômica e que esse fato gera uma ESCOLHA pelo ambiente
praieiro e pela técnica construtiva característica desse processo. Essa escolha é feita em bases
históricas e CULTURAIS, e não está lá por falta de opção ou investimento. O fator cultural pesa
mais que outros fatores decisórios como o ambiente ou disponibilidade de material
(características vernaculares). As decisões são tomadas em base do que se aprende por
transmissão do conhecimento coletivo da comunidade. Este conhecimento pode ou não estar
vinculado a fatores ambientais, vernaculares ou econômicos. Prova disso são as diferentes
formas de uso do material (que vão de palha até alvenaria em algumas comunidades) ou pela
aparente despreocupação com orientação solar ou de ventilação. Os materiais variam dentro de
uma mesma comunidade, que já tende a ser condicionada pelo entorno, demonstrando que nem
sempre o clima é fator preponderante, mas a cultura construtiva. O que não desfaz das
propriedades físicas dos materiais com relação às intempéries do meio ou as características
ecológicas e sustentáveis dos mesmos. Com respeito à ventilação vale a pena ressaltar que a
principal preocupação em muitas comunidades é fugir dos fortes ventos que trazem a areia fina
para dentro de casa e são muito abrasivos (junto com a areia fina) para a construção em taipa.
Também a sobreposição de ambientes demonstra uma mínima preocupação com a insolação,
visto que a disposição interna pode variar em sua distribuição na planta livre. Ainda se pode
mencionar a distribuição espacial da comunidade variada e inconstante. Esta distribuição,
conforme se observou nas visitas aos sítios, não obedece preceitos geomorfológicos ou
urbanísticos (no sentido de ordenação desenhada do ambiente), mas a convenções familiares e a
uniões destas mesmas.. Estes fatores confirmam que a CULTURA é o principal fator decisório
na construção sincrética praieira. O acúmulo de experiência associado a formação de uma cultura
específica gerou o modus operandi construtivo em estudo, a construção sincrética praieira.

Por fim, vale terminar com as palavras de Freyre, pág. XXIV (1967) ao fazer a introdução de
suas anotações sobre os mucambos do Nordeste:

“O mucambo, seja qual for o seu futuro no Nordeste ou em qualquer


outra região do Brasil, não existiu em vão: nele afirmou-se de modo
sociologicamente significativo e até esteticamente expressivo, a
capacidade do brasileiro rústico para, à base de tradições européias e,
principalmente, ameríndias e africanas, de arte de construção vegetal,
resolver, como “arquiteto anônimo”, problemas importantes de sua
fixação em espaço tropical, em face de destribalização e de ajustamento
de destribalizados à modernas condições de vida denominada civilizada:
inclusive ao tipo de família denominado romântico, isto é, constituído
por homem, mulher e filhos. A família do genuíno, do telúrico, do
brasileiro caboclo.”

310
Bibliografia
BARRIO, Angel-B. Spina. Manual de Antropologia Cultural. Massangana,
Recife. 2005. ISBN 978-85-7019-431-2
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311
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312
A Casa e o sagrado – A Cidade de Macuti, na Ilha de Moçambique.
Filipa Besteiro Lacerda
FAUP
[email protected]

Resumo
Viajar é talvez a melhor forma de aprender arquitetura. Este trabalho surge, por isso, de uma
experiência vivida durante uma visita à Ilha de Moçambique. Lado a lado com teorias,
argumentos e ideias para uma arquitetura, são narrados episódios pessoais, num pequeno
caderno de viagem, para um melhor entendimento da realidade que se vive no lugar.
A ilha de Moçambique é um testemunho de muitas lendas e histórias
que se foram
cruzando e faz hoje parte do património cultural mundial. Embora deixada ao abandono
durante muitos anos, nas últimas décadas têm sido feitos esforços para a reabilitação e
conservação das ruínas da cidade colonial. Contudo, a cidade tradicional, maioritariamente
construída em Macuti (e por esse mesmo motivo denominada Cidade de Macuti), tem sido
esquecida e corre sérios riscos de perder a sua identidade de paisagem histórica urbana,
estando a transformar-se num simples bairro informal, igual a qualquer outro.

Neste contexto, o trabalho faz um estudo das condições atuais da Cidade de Macuti, com a
intenção de chegar a algumas recomendações úteis, para uma possível conservação da
arquitetura tradicional e consequente manutenção da imagem urbana de uma ilha habitada,
tanto por homens, como por espiritos.

Palavras-chave: Ilha de Moçambique, arquitectura tradicional, Cidade de Macuti, lendas,


Moçambique

313
Introdução

“Há lugares que não são apenas sítios onde vivemos. São parte da nossa vida, são a nossa
vida. A cidade onde nascemos é um lugar onde continuamos a nascer. Essa cidade (que é
mais água que terra), somos nós, com as nossas lembranças, as nossas saudades. E a
esperança que aquela seja uma cidade carregada de Futuro.”1

Moçambique faz parte da minha vida, parte de quem sou. Por muitos lugares que visite,
mesmo que me ausente durante muito tempo, Moçambique é a terra onde deposito as minhas
lembranças e saudades. Ao desejo de regressar, acrescento o desejo de contribuir no seu
processo de evolução. Foi dessa vontade, que surgiu o tema da tese, revelando-se uma
oportunidade para aprofundar uma realidade que me é tão próxima, mas ao mesmo tempo
distante.

Aproveitei o facto de ter de viajar à Ilha de Moçambique, em Agosto de 2011, para começar
o meu estudo. Tradicionalmente conhecida por Muipiti, a Ilha de Moçambique, é um lugar
rico de memórias, que definem a identidade de Moçambique. Caracterizada pela sua
paisagem histórica urbana, a Ilha é um livro das civilizações que por ali foram passando,
desde o séc. VII. Chineses, árabes, indianos e portugueses usaram-na como palco de histórias
de conquistadores, de piratas e religiões. Foi principalmente, importante porto de negociação
de escravos, de ouro, marfim, especiarias, de tecidos e adornos. Foi exatamente este registo
de trocas culturais, que contribuiu para que a Ilha fosse declarada, património mundial, em
1991, pela UNESCO.

Existem, na Ilha, dois tipos diferentes de conjuntos urbanos que a definem, a Cidade de
Pedra e Cal e a Cidade de Macuti. A Cidade de Pedra e Cal situa-se na parte norte da Ilha e
foi a primeira sede da ex Colónia Portuguesa (1507-1898). É aqui onde hoje se encontram
localizados alguns escritórios, pequenos postos comerciais, alguns monumentos e também
algumas residências. Por sua vez, a Cidade de Macuti, fundada no final do século XVI,
representa 30% da área total da Ilha e serve de habitação para a maioria da população menos
privilegiada economicamente, que vive das emergentes atividades comerciais. Esta cresceu
no “buraco” de onde foram retiradas as pedras, para construir a cidade de pedra e cal.

A riqueza cultural da Ilha é tão visível nas tradições das pessoas, nas suas crenças, na sua
linguagem, nas suas estruturas sociais, arte, artesanato, comércio, gastronomia e música,
como nos edifícios, que vão variando de uma cidade para a outra, refletindo uma longa
história e diversificadas culturas populares. Na Cidade de Pedra e Cal, há uma nítida
influência da cultura portuguesa, enquanto que na cidade de Macuti a influência é suaíli.

Contudo, ao longo dos séculos, através de casamentos, ou do afluxo de emigrantes (como


por exemplo de refugiados de guerra), os habitantes da Cidade de Macuti têm permitido
estrangeiros à ilha trazendo mudanças radicais na população. Mudanças não apenas sociais,
mas que se refletem também e são bem visíveis na arquitetura. As tradicionais casas de
macuti, de onde surgiu o nome da cidade, correm o risco de desaparecer, para dar lugar a
novas casas de cimento e zinco. Estas alterações podem transformar por completo a
identidade da paisagem histórica urbana daquele lugar, fazendo da cidade tradicional um
simples bairro informal, igual a qualquer outro no mundo.

O objetivo do trabalho foi (re)conhecer e compreender a situação atual da Cidade de Macuti

1 Mia Couto – mensagem à comunidade Beirense, Maputo, 07.12.02

314
e a decadência dos seus edifícios, antes de receitar, diagnosticar a doença e entender o que a
provoca, sugerir recomendações para ações de intervenção na Cidade, com vista a reabilitar e
conservar o património histórico edificado desta parte da Ilha, que se encontra em
progressiva degradação, podendo vir a resultar em consequências negativas para a
comunidade no seu todo.

De um modo geral, o trabalho pretende alertar sobre o problema que existe atualmente em
Macuti e contribuir para a discussão de possíveis soluções para este, como forma de
melhorar as condições de vida dos seus habitantes.

Perante a problemática selecionada como motor de desenvolvimento da dissertação, o


trabalho assenta num estudo faseado entre partes interdependentes. Numa primeira fase,
delimitou-se um objeto de estudo com uma recolha bibliográfica orientada para o mesmo,
especificando o campo segundo os objetivos propostos. Seguiu-se uma fase de recolha de
informação específica sobre o caso e posteriormente a observação e reconhecimento direto
dos espaços urbanos e arquitetónicos em estudo. Numa fase avançada, analisaram-se os
resultados obtidos, finalizando com uma sistematização de algumas considerações finais.

Desenvolvimento

Por todo o País se ouve falar de espiritos, deuses e demónios na Ilha porém estes espiritos
estão ainda mais presentes. Ninguem sabe ao certo o motivo de tal fenomeno mas há quem
afirme que a ilha guarda os espiritos de toda a gente que por ali passou ao longo da sua vasta
historia.

Uma das mais conhecidas lendas relatada por Rui Knopfli, diz que: “Há muitos, muitos anos
já - tantos que o real mal esboçava o corpo do que viria a ser fantasia e lenda e o homem era
um bicho inocente e natural pois nem sequer intentava ainda mistérios para o amor e coisas
como o pecado, o crime ou a guerra - aconteceu, certa feita, terem acordado as gentes de
terra firme, para um estranho facto: a neblina era pesada e densa e não se via mais a ilha.
Aflitos os homens gritaram: “-Desaparceu a ilha, desapareceu a ilha!”

Parecia terem-na tragado as águas, era só um mar de chumbo a perder vista, um pasmo
silencioso sem claro rumor de gaivotas e velas brancas na baía. Quando voltou a surgir,
raiava o sol e a ilha estava no céu, reclinada entre nuvens e azul, o insuportável diamante
iridiscente de que ainda hoje guardo o resplendor.” 2

2 KNOPFILI, Rui, A Ilha de Moçambique pela voz dos Poetas. Lisboa: Edições 70, Lda.,
1992, p. 58

315
Figura 1 - Crianças da Ilha brincando

Simbolicamente o céu representa liberdade e representa também o contacto com o divino. A


ilha foi elevada a um lugar sagrado, mais próximo de Deus. “o céu revela-se infinito,
transcendente. O muito alto torna-se espontaneamente um atributo da divindade... é uma
dimensão inacessivel ao homem como tal; pertence de direito às forças e aos seres humanos.
(...) passa a ser parte de uma condição divina.”3

Em entrevista, Mia Couto conta-nos que “existe uma lenda que é bastante conhecida e que
fala da intervenção de um demónio que erguia a fortaleza e que, no dia seguinte, por artes
mágicas, a fortaleza desaparecia.O autor acha curiosa essa lenda, pois ela traduz um
sentimento de estranheza da população local em relação às construções dos estrangeiros.
Esse sentimento percorre ainda hoje a ilha, como todo o território moçambicano. Será que
os ilhéus sentem como sendo da sua propriedade o património histórico da Ilha? Esse
património foi erguido por outros, para servir outros. Como fazer com que os locais se
sintam donos dessa herança?”4

Num dos livros de Mia Couto, “Um rio chamado tempo, uma casa
chamada terra”
encontramos em Luar-do-Chão, a ilha onde a familia de Mariano se encontra reunida “Para
salvarmos Luar-do-Chão, o lugar onde ainda vamos nascendo. E salvarmos nossa familia,
que é o lugar onde somos eternos.” 5 , vestigios de Muipiti. Também ali “só mora o

3 ELIADE, Micea, O Sagrado e O Profano (1a edição). São Paulo: Livraria Martins Fontes
Editora Ltda., 1992, Tradução: Rogério Fernandes, p.59
4 COUTO, Mia. Entrevista sobre a Ilha de Moçambique. 21.07.2014.
5 COUTO, Mia, Um Rio Chamado Tempo, Uma casa chamada terra, (3a edição). Lisboa:

Editorial Caminho, 2002. p.65

316
passado.”6 e “não são apenas casas destroçadas: é o próprio tempo desmoronado.”7

No livro, o autor realça esta visão tradicional onde “Nenhum lugar é apenas um lugar. Aqui
tudo são moradias de espiritos, revelações de ocultos seres.”8 e, onde ao contrário da visão
católica, o grande deus celeste, o ser supremo criador e omnipotente, desempenha um papel
insignificante na vida religiosa da tribo, encontrando-se muito longe, ou sendo bom demais
para ter necessidade de um culto propriamente dito, pelo que é invocado apenas em casos
extremos: “Dormir é um rio, um rio feito só de curva e remanso. Deus está na margem,
vigiando
de sua janela. E invejando o irmos, infinitos, vidas a fora. Vem daí o
cansaço
de Deus. Esse Deus do padre Nunes se consome na desconfiança. Há
séculos
que Ele deve controlar a sua obra, com seu regimento de anjos. O nosso Deus não
necessita de presença. Se ausentou quando fez a sua obra, seguro de sua perfeição.”9

Uma influência dos povos bantos que afirmam que “Deus, depois de ter criado o homem, já
não se preocupa mais com ele.”10 e das populações Fang da pradaria da África equatorial
que resumem a sua filosofia no seguinte cântico: “Deus (Nzame) está no alto, o homem em
baixo. Deus é Deus, o homem é o homem. Cada um no seu país, cada um em sua casa.”11

Em “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra”, tal como na Ilha de Moçambique,
“só existem dois lugares: a cidade e a ilha. A separá-los apenas um rio. Aquelas águas,
porém, afastam mais do que a sua própria distancia. Entre um e outro lado reside um
infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas
gentes, duas almas”. 12

Embora em conversa com o escritor, tenha percebido de que a Ilha relatada no livro e a Ilha
da Inhaca e não a Ilha de Moçambique não deixa de ser evidente a semelhança que partilha
com Muipiti (e quem sabe também outras ilhas do pais). Comprovando que esta forma de ver
o mundo não se restringe a Muipiti, mas abrange grande parte do território Moçambicano.

6 Ibidem, p. 151.
7 Ibidem, p. 27.

8 Ibidem., p. 201.
9 Ibidem, p. 259.
10 ELIADE, Micea, O Sagrado e O Profano (1a edição). São Paulo: Livraria Martins Fontes

Editora Ltda., 1992, Tradução: Rogério Fernandes, p. 62


11 Idem.
12 COUTO, Mia, Um Rio Chamado Tempo, Uma casa chamada terra, (3a edição). Lisboa:

Editorial Caminho, 2002. p.65.

317
Edifícios e estado de conservação

Figura 2 - Casas de Macuti

“No princípio, a casa foi sagrada, isto é, habitada não só por homens e vivos como também
por mortos e deuses”13

“Em todas as culturas tradicionais, a habitação é composta por um aspecto sagrado pelo
próprio facto de refletir o mundo.” 14 Mais uma vez recorremos ao livro de Mia Couto “Um
rio chamado tempo, uma casa chamada terra” para analisar a arquitetura tradicional
moçambicana: “Por fim, avisto a nossa casa grande, a maior de toda a ilha. Chamamos-lhe
Nyumba-Kaya, para satisfazer familiares do Norte e do Sul. “Nyumba” é a palavra para
nomear “casa”, nas línguas nortenhas. Nos idiomas do Sul, casa se diz “Kaya”.15

Como já referimos anteriormente, em todo o País há a tradição de regar a casa antes de ela
ser construída, o que por vezes também acontece depois.

“-Já alguém deitou água à casa? Todos os dias a Avó regava a casa como se faz a uma
planta. Tudo requer ser aguado, dizia ela. A casa, a estrada, a árvore. E até o rio deve ser

13 ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner in Um Rio Chamado Tempo, Uma casa chamada
terra, (3a edição). Lisboa: Editorial Caminho, 2002.
14 ELIADE, Micea, O Sagrado e O Profano (1a edição). São Paulo: Livraria Martins Fontes

Editora Ltda., 1992, Tradução: Rogério Fernandes.


15 COUTO, Mia, Um Rio Chamado Tempo, Uma casa chamada terra, (3a edição). Lisboa:

Editorial Caminho, 2002, p.28.

318
regado.”16

Em Macuti as melhores casas têm instalações técnicas e são habitadas por elementos da
população com melhores condições económicas, situadas perto da “cidade de Pedra e Cal”
ou ao longo das ruas principais. As casas são semiurbanas, organizadas em grupos ou em
“cachos”, separados por estreitas ruelas. O lado maior das casas forma a fachada para a rua,
com a porta principal ao centro. As casas encontram-se, usualmente, viradas a rua ou a um
logradouro comum, colocadas face a face. Devido a falta de espaço levou a que este
princípio nem sempre se verifique. Nomeadamente nas antigas pedreiras, nota-se a ocupação
aparentemente arbitrária dos terrenos entre as filas mais regulares das casas.

Encontra-se um patamar levantado ou uma plataforma de pedra, que funciona como uma
zona de estar semiprivada, Sob o amplo beiral do telhado, ao longo de toda a extensão da
casa. Daqui, os moradores podem assistir ao que se passa na rua e meter conversa com quem
passa. Na época quente, as varandas são também utilizadas como áreas de dormir, e as
relações sociais na rua tornam-se mais intensas.

“Em Luar-do-Chão não se bate a porta, por respeito. Quem bate a porta já entrou. E já
entrou nesse espaço privado que é o quintal, o recinto mais intimo de qualquer casa. Por
isso, a entrada do quintal de meu pai eu bato palmas e grito:

- Dá licença?”17

A planta da casa é caracterizada pela existência de um corredor central que liga as varandas
abrigadas e o logradouro nas traseiras e dá acesso aos quartos, funcionando assim também,
como sala comum. Na sua origem a casa era construída para acomodar diversas gerações ou
várias famílias.

Junto a cada quarto ou para cada dois quartos existe um pequeno quarto de banho, com
lavatório e urinol. A cozinha e anexos encontram-se em ligação com um pequeno alpendre,
que se abre para o logradouro nas traseiras, ou está situado ao longo dos seus limites laterais
ou ao fundo. A maioria das atividades domésticas, como lavagens de roupa, cozinha e
preparação dos alimentos, desenrolam-se no logradouro (quintal) e no alpendre.

“Não era apenas a casa que nos distinguia em Luar-do-Chão. A nossa cozinha nos
diferenciava dos outros. Em toda a Ilha, as cozinhas ficam fora, no meio dos quintais,
separadas da restante casa. Nós vivíamos ao modo europeu, cozinhando dentro, comendo
fechados. No princípio ainda houve resistência. Lembro como minha avó conduzia as bacias
e panelas, dentro e fora, fora e dentro. Outras mulheres passaram equilibrando latas de
água nas cabeças, como se escutassem o compasso da terra sob os pés descalços. E a porta
de rede, num sonolento bater e rebater. O pilão fiel ao chão. E tum-tum-tum, a dança das
mulheres pilando.”18

O telhado tem um papel fundamental na casa tradicional: “Mesmo de longe, já se nota que
tinham mandado tirar o telhado da sala. é assim, em caso de morte. O luto ordena que o céu
se adentre nos compartimentos, para limpeza das cósmicas sujidades. A casa é um corpo - o

16 Idem, p.31.
17 COUTO, Mia, Um Rio Chamado Tempo, Uma casa chamada terra, (3a edição). Lisboa:
Editorial Caminho, 2002, p.28.
18 67 Idem, p. 145.

319
tecto é o que separa a cabeça dos altaneiros céus. Sobre mim se abate uma visão que muito
se irá repetir: a casa levantando voo, igual ao pássaro que Miserinha apontava na praia.”19

A abertura do telhado é feita para que o espírito do falecido habitante da casa consiga chegar
ao céu. A casa é um corpo e o telhado é a sua cabeça. Na Índia, o termo “brahmarandhra
designa abertura que se encontra no alto do crânio e que desempenha um papel capital no
ioga tântrica. É por aí também que se desprende a alma no momento da morte. Lembremos,
a este propósito, o costume de quebrar o crânio dos iogues mortos para facilitar a saída da
alma. A alma do morto sai pela chaminé, a alma se desliga mais facilmente do corpo se a
outra imagem do corpo cosmos, que é a casa, for fracturada em sua parte superior. (...) mas
também porque já não vive num cosmos propriamente dito e já não se dá conta de que tem
um “corpo” e instalar-se numa casa equivale a assumir uma situação existencial.”20

A arquitetura tradicional tem uma relação muito forte com o sagrado, ao contrário da
sociedade moderna, que já perdeu muitos dos seus valores.

A substituição dos materiais vem também talvez revelar uma mudança na maneira da
população de encarar o mundo, uma troca do sagrado pelo material. Uma cópia do que se
depara no resto do mundo, descrente, ganancioso, onde se tem pressa para construir em
massa, sem realmente se perceber porque.

Segundo o relatório Aarhus, o modo de construção mais corrente das casas de macuti é de
pau-a-pique, com cobertura de quatro águas assente em bambu. O tectos são feitos em
mangal ou em bambu e rebocados. As paredes exteriores são rebocadas com argamassa de
cal e caiadas com cal pigmentada. As vedações dos quintais são geralmente feitas em bambu.

Paredes

Tradicionalmente, as paredes exteriores e as interiores compõem-se por:

Um entramado, constituído por uma fileira de estacas de madeira de 5cm de diâmetro,


espetadas no chão a intervalos de 50cm, cobertas, internas e externamente, com canas de
bambu de cerca de 5cm de diâmetro, colocadas horizontalmente. as canas são atadas as
estacas com cordel de sisal, a intervalos de 12.5cm. cortes oblíquos no bambu, eliminam
tensões e proporcionam um travamento eficaz da armação.

Os interstícios são preenchidos com pedra miúda e pedriça de coral.A estrutura é rebocada
em ambas as faces e caiada. A construção de laca-laca, constituída por uma fileira de estacas
de madeira com 5cm de diâmetro, espetadas no chão e intervalos de 50 a 100cm, sendo-lhes
atadas, horizontalmente, a intervalos de 50 a 100cm, varas de bambu ou mangal, as quais é
presa a laca-laca, uma esteira de varas de mangal, atadas muito juntas umas das outras. As
paredes são maticades e geralmente rebocadas e caiadas.

Ambos os tipos de estrutura são colocados diretamente no chão natural ou numa base
levantada de pedras de coral ligadas com cimento ou argamassa de cal com murrapa. Tanto
num como noutro caso as faces internas e externas das paredes exteriores são rebocadas e

19Ibidem, p.28.
20ELIADE, Micea, O Sagrado e O Profano (1a edição). São Paulo: Livraria Martins Fontes
Editora Ltda., 1992, Tradução: Rogério Fernandes, p. 83.

320
caiadas. O facto de estar em contacto direto com o chão revela-se um problema, porque não
apresenta resistência as águas da chuva e aos bichos que, aos poucos, destroem as estruturas.

Figura 3 - Estrutura da Casa de Macuti

Tectos e coberturas

Uma série de postes que suportam uma cumeeira, constituem a estrutura da cobertura. Os
barrotes, que são fixados na cumeeira, desenvolvem-se em leque, evitando o normal
emprego de barrotes presos às pernas e aumentando a estabilidade no sentido longitudinal.
Os barrotes que sobem para a cumeeira, nas águas laterias, também são dispostos em leque, e
são fixados 30 a 50cm, dentro do plano das águas principais.

Os pendurais, madres e tirantes, são feitos com a madeira local disponível, e as pernas e o
ripado são feitos em bambu. Todas as junções são atadas com cordel de sisal.

A cobertura mais frequente é em macuti - renques de folhas de coqueiro bem atadas a varas
de 30 a 50cm de comprimento, formando feixes lamelares coesos de 30 a 50cm. Estes
painéis são fixados a ripas horizontais amarradas aos barrotes, a intervalos de 5 a 15cm.
Quanto mais curto for este intervalo, mais espessa e impermeável se torna a cobertura.

Este método de revestir a cobertura, não possibilita uma junção estanque entre as águas nas
cumeeiras. Este problema é resolvido através da inserção das águas laterais dentro das águas
principais, proporcionando assim, uma cobertura estanque e uma opima ventilação. Uma
cobertura de macuti, recém- construída, é estanque e proporciona uma temperatura agradável
no interior da casa, mas só se mantem por 2 ou 3 anos.

321
A sua pouca duração é um dos motivos pelo qual a população prefere os novos materiais
como o zinco, que são mais baratos e mais resistentes aos bichos e as chuvas.

Os tectos são feitos de laca-laca, com um revestimento de argamassa de cal. Eles servem de
isolamento térmico e permitem ventilação, servindo também, por cima, de espaço para
arrecadação de lenha e de madeira.

Pavimentos

Os pavimentos térreos são feitos ou em terra pisada ou com uma betonilha de cal e cimento.

Portas e janelas

A caixilharia tem uma alta qualidade de fabrico e é muito variada. As portas mais comuns
são do tipo de pranchas ou de almofadas, com aberturas de ventilação. As janelas têm
portadas e por vezes um caixilho exterior, com rede mosquiteira.

A habitação tradicional é funcional e climaticamente confortável. As técnicas de construção


e de manutenção são bem conhecidas pela população, mas a falta de materiais no local
conduz à deterioração das casas e dos bairros.

Com a introdução de novos materiais de construção (cimentos, fibrocimento e chapas de


zinco), a forma das casas modificou-se. Foram-lhes introduzidas coberturas planas ou pouco
inclinadas, e a plataforma coberta em frente da casa transformou-se num alpendre
semicoberto ou desapareceu completamente. Esta modificação reflete o desejo de se possuir
uma casa do tipo “europeu”, e embora se mantenham os princípios de organização interna da
casa, ela perdeu a sua zona semiprivada de contacto com a rua, e com ela, uma importante
qualidade social.

As paredes são fortes e estáveis, e necessitam de relativamente pouca manutenção, que pode
ser feita localmente. Nas áreas de cota baixa situadas a oeste, as paredes e os postes de
madeira estragam-se, devido às inundações periódicas provocadas pelas fortes chuvadas. A
água desaparece muito lentamente, devido ao nível freático que se encontra a menos de
50cm de profundidade. O que teria sido um dos maiores problemas é como se podem travar
as inundações? Tentarei pensar em soluções mais adiante.

Dado o pouco peso da estrutura, o efeito do vento e sobrecargas, fazem com que as paredes
se desloquem independentemente umas das outras, fazendo com que o reboco nos cantos se
desprenda. A estrutura dos cunhais fica assim descarnada, fazendo aumentar ainda mais os
efeitos nefastos da humidade. Toda a construção fica, em seguida, ainda mais debilitada pelo
apodrecimento das estacas enterradas no chão. A ação da muchén pode ser por vezes tão
violenta, que as estacas e as varas de bambu desaparecem completamente, ficando somente
de pé as pedras barradas e o reboco, parecendo uma carcaça descarnada.

Em geral, as coberturas encontram-se em mau estado. A falta de macuti resulta na


progressiva deterioração da qualidade dos revestimentos das coberturas. Vêem- se remendos
por todo o lado, e muitas das coberturas tendem a transformar-se em simples resguardos
contra o sol e não protegem contra o vento e contra a chuva. O confronto térmico é
importante, e a impermeabilidade das coberturas e renovação dos tectos, devem ser
assegurados, como objectivo prioritário. Este objectivo pode ser atingido assegurando o
fornecimento dos necessários materiais de cobertura e construção, assim como assistência

322
técnica aos proprietários.

O restabelecimento dos palmares e a provisão de sistemas de transporte eficientes para a


província, tão rica em recursos, deverão ser as tarefas principais, no esforço de abastecer a
Ilha com materiais de construção tradicionais.

A maior parte dos pavimentos estão colocados diretamente sobre ou ligeiramente acima do
nível do terreno. Os edifícios nas áreas de cota mais baixa são ocasionalmente inundados
durante as épocas de chuva. No tempo seco, a areia e poeiras levantadas pelo vento,
provocam condições pouco higiénicas. Uma boa drenagem das áreas baixas e a consolidação
dos largos, ruas e estradas, tornam- se necessárias para o melhoramento da saúde e conforto
dos edifícios e dos seus ocupantes.

As caixilharias encontram-se em geral em bom estado, mas necessitam de manutenção,


especialmente de pintura. Geralmente, os grandes balanços das coberturas protegem as
portas e janelas contra o sol e a chuva. O estado das caixilharias é muito melhor nas casas
com beirados salientes.

Tirando os aspectos técnicos, um dos factores mais visíveis para a transformação das casas é
o aumento da população. O censo de 2007 indica uma população de 17.536 na parte insular
da ilha de Moçambique, um número que em 1984, rondava os 7760 habitantes dos quais
6.560 viviam na cidade Macuti.

“Eu penso que é um movimento geral de urbanização, ou melhor, de urbanismo, que é


migração das aldeias para a cidade, do campo para a cidade que afeta todas as zonas
urbanas. E a ilha é uma zona urbana em muitos aspectos. Tem algum comércio, tem uma
administração publica mais desenvolvida, sobretudo tem um ambiente urbano, uma
sociedade urbana. E isso atrai as pessoas. Tem sistemas de relações entre as pessoas que
são urbanas. São diferentes do rural.”21

Grande parte da população que visita a ilha é turista: “hoje tem turismo, tem turistas, tem
sobretudo muito mais gente, sobretudo e isso é que é importante! Muito mais gente, mais do
triplo das pessoas que tinha. Provavelmente, muito menos gente da raça e da classe social
que antes tinha e portanto transformou-se completamente do ponto de vista social. Por outro
lado, abriu-se um turismo que não tinha, que diga-se é um turismo internacional, que já
tinha um pouco antes de ser elevado à categoria de Património Mundial da Humanidade,
mas que agora se desenvolveu bastante mais. Mas sobretudo a grande diferença, é que tem
muito mais gente, a maioria da qual é muito pobre.”22

A consequência imediata deste aumento demográfico é a transformação do ambiente da


cidade de Macuti num ambiente de pior qualidade de construção e a transformação dos
materiais tradicionais e tecnologias de construção convencionais em inevitáveis soluções
industriais. No relatório do arquiteto Forjaz, das 180 casas estudadas, 100 foram construídas
em blocos de betão, 88 têm telhados feitos por telhas industriais e apenas 34 mantêm
algumas das características básicas da casa

O espaço público tem sido, até agora, parcialmente respeitado, mantendo-se inalterado
proporcionalmente ao crescimento da população. Se sobrepusermos um mapa de 1983 e a

21 Forjaz, José. Entrevista sobre a Ilha de Moçambique. Julho de.2014.


22 Idem.

323
atual foto de satélite Google, conseguimos perceber que houve um aumento muito pequeno
de construções na cidade Macuti, da ordem de 4 a 5%. O que podemos encontrar no local é a
superlotação do espaço doméstico. Casas onde vivia apenas uma família, vivem agora três,
quatro ou mais, sendo que o proprietário da casa aumenta a renda familiar ao arrendar
quartos a famílias diferentes.

“As pessoas não se sentem muito orgulhosas da sua casa e da sua cultura quando vivem sem
água, sem luz, sem condições, sem saneamento básico. Fez-se um esforço para as pessoas
construírem latrinas em casa - o que é um problema muito grande, porque depois, a água
vem e há zonas que estão mais baixas que o nível do mar. Há ali problemas sérios, porque e
depois ao lado, há poços onde tiram água para as pessoas beberem. Da última vez que
fizemos o levantamento. havia 9 fontanários para 16000 pessoas, dos quais 3 estavam
estragados.”23

A consequência direta é o empobrecimento da qualidade de vida em geral, a ruptura dos


serviços básicos. A distribuição pública de água é irregular e insuficiente. “Encontramos seis
fontes de água públicas para servir uma população de cerca de 16000 habitantes. Uma que
não funciona desde 2008 e o funcionamento das outras cinco muito irregular. O
fornecimento diário de água é assegurado pelos poços públicos e privados, perigosamente
contaminados pela presença de uma população excessiva”.24

Para além do aumento da população, está a surgir na ilha uma classe social mais rica, que
acaba por transformar as necessidades, os tipos de construção, materiais e suas soluções, que
alteram gradualmente o cenário urbano. Estas famílias mais ricas ainda não têm dinheiro
suficiente para restaurar uma casa de coral de pedra da cidade de pedra, mas também não se
identificam com o modelo vernacular e são inspiradas por modelos urbanos, exigindo uma
casa maior, diferente e moderna, usando novos materiais, para melhor expressar a sua nova
posição na sociedade. “Não podemos esquecer que foram as leis coloniais, que impuseram a
construção macuti como a tipologia permitida somente nas partes baixas da ilha, conhecida
como Ponta da Ilha. O estigma associado à Casa macuti como um símbolo de pobreza e de
dominação colonial não pode ser subestimado.”25

Embora tidos como símbolo de pobreza, os materiais tradicionais estão a tornar-se cada vez
mais raros, e com custos muito elevados, que não conseguem competir com o custo,
disponibilidade e com a simplicidade da construção dos novos materiais, bem como a sua
durabilidade e menor custos de manutenção.

O aumento dos custos de uma telha de macuti passou de cerca de 3 meticais em 2000 para
15, isto é um aumento muito grande, em relação ao aumento dos salários durante o mesmo
período. Para além disso, o ataque de fungos e insectos sobre a estrutura de madeira, bem
como a humidade nas fundações de madeira, requerem um esforço importante de
manutenção a cada 5 ou 6 anos. O custo de uma folha de cobertura industrial, a sua
durabilidade, a simplicidade do seu apoio e o facto de ter um preço semelhante a um telhado
de macuti, faz com que seja mais facilmente escolhido, em detrimento do outro. Uma vez
que quem tem possibilidades de pagar um telhado macuti, também tem maneira de pagar um
telhado de folha de metal.

23 Ibidem.
24 Ibidem.
25 Ibidem.

324
Aqueles que não podem pagar nem um nem outro, escolhem materiais mais baratos e mais
simples, tanto para o telhado como para a estrutura de apoio. Folhas de palmeira ou palha,
que são menos eficientes em termos de proteção, isolamento, durabilidade e facilidade de
manutenção.

“Onde as coisas se complicam é que os regimes de propriedade são extremamente


complicados, a sociedade patriarcal, onde a mulher é que manda. Depois, não se sabe se a
casa é do primo, do tio, da mulher, do filho, do avô, as coisas são muito complicadas, mas
vão-se resolvendo. já a nível de visão, de interesses, eu recebo tanto, tu recebes tanto e tal,
mas é um fenómeno que está longe de ser compreendido ou minimamente estudado. As
forças vivas e que determinam as transformações formais da ilha, não se explicam
facilmente, não é? E a última das explicações que pode encontrar-se, é na lei.”26

Para estudar a transformação das casas tradicionais, foi recentemente elaborado, pela equipa
do arquiteto Forjaz, um levantamento a 180 casas da cidade de Macuti, que representa 13,5%
do parque edificado existente. Foram escolhidas como amostra de tipologias, técnicas e
materiais, edifícios dos bairros Areal, Litini, Macaribe, Marangonha, Quirahi e Santo
António, como exemplos mais significativos.

Neste levantamento 27 , foram identificados 6 tipos principais de edifícios na arquitetura


vernacular e mostra-nos ainda, que menos de metade dos edifícios existentes, são cobertos
com fibras naturais. Em mais de 50% dos casos, as paredes são feitas de betão convencional
e apenas 25% dos casos apresentam paredes construídas de forma tradicional. A casa de
macuti, não representa mais de um quarto de todos os casos e o uso de materiais industriais é
amplamente difundido e é hoje a forma predominante de construção, fazendo com que a
arquitetura vernacular local seja realizada com materiais industriais, principalmente blocos
de betão, folhas de metal ou telhados de fibrocimento industrial.

“As casas vão sendo alteradas, já estão a ser, já há muita, muita alteração. E esta
alteração, quanto a mim, é imparável. Se é desejável ou não, isso é outra coisa. Outra coisa
é o modelo generalizado, chamado a “casa ventoinha”, 4 telhadinhos, cada um para seu
lado, depois uns balustres clássicos de betão fundido, a grelha mal feita, a lajezinha sobre a
varandinha à frente, o modelo é conhecido, não é? E é reconhecido como modelo de
dignificação da família, e nós temos que respeitar isso. As pessoas têm os seus quadros
estéticos e tem os seus quadros de qualificação social. Daqui a 300 anos vai ser muito
bonito... Vai ser outra coisa, vai ser como a casa do emigrante em Portugal e já há, e ainda
bem, quem a tenha requalificado esteticamente.”28

Julgo que a alteração seja inevitável. As casas já estão a ser e vão acabar por ser todas
alteradas e transformadas num outro tipo de habitação, o que contraria as leis do Património
cultural da Unesco, mas vai de acordo com as leis naturais da vida.

Até que ponto é ético obrigar as pessoas a viver neste tipo de condições só para manter a
imagem urbana?

Será mais importante melhorar as condições de vida ou conservar um património histórico?

26 Ibidem.
27 Island of Mozambique - Architectural survey and study on local vernacular architecture •
REFERENCE NUMBER: 513MOZ4001.
28 Forjaz, José. Entrevista sobre a Ilha de Moçambique. Julho de.2014.

325
Para a população as casas estão associadas a um passado de escravatura e é natural que
queiram um futuro diferente, mais moderno, mais parecido com o que admiram ver no resto
do país.

Como se faz com que as pessoas se sintam orgulhosas das suas casas e se desliguem de
complexos associados ao seu passado, que incluem um período de escravatura.

‘Todo o homem tem o direito à modernidade’, que modernidade é essa e como se adquire,
sem romper com as tradições ou heranças importantes do passado?

Figura 4 - Casa de Macuti alterada

Conclusão

O problema de Macuti é maior do que o tamanho das suas casas. É um problema que levará
tempo a resolver e dependerá tanto da vontade dos habitantes como da dos governantes. É
uma questão sensível, cujo resultado é tão complexo, quanto imprevisível.

Nesse sentido, as intervenções nas cidades em geral, não podem ser tipificadas, na medida
em que ‘cada caso é um caso diferente’. As estratégias urbanas, dependem de um contexto
concreto que deverá ser devidamente estudado e compreendido.

Este trabalho foca, principalmente, as exigências de reabilitação e conservação necessárias


para manter viva a paisagem urbana da Cidade de Macuti e melhorar as condições de vida
dos seus habitantes. Macuti representa a história da “outra metade da Ilha”, muitas vezes
esquecida, atrás da importância que se dá ao património edificado da Cidade de Pedra e Cal.
Contudo, é nesta parte da ilha que habita hoje a maior parte da população e onde se estão a
dar as grandes transformações sociais e económicas que poderão vir a alterar o futuro da ilha.

Ao longo do trabalho, foram analisados, principalmente, os vários factores que afectam a


atual transformação dos edifícios de macuti, cujo estado de preservação é lamentável, pondo

326
em risco toda a imagem urbana que lhe possibilitou o estatuto de património mundial.

As mudanças objectivas refletem-se através da maneira de estar dos habitantes e na forma


como participam na sociedade. A tentativa constante e inevitável da procura do
melhoramento das condições de vida, leva a que o tradicional seja preterido, em troca do que
é tido como sendo o mais moderno. A evolução da Cidade de Macuti fica assim marcada
pela troca dos materiais locais tradicionais por janelas com vidros, telhados de chapa de
zinco, muros de pedra e cal. Esta situação envolve de forma espontânea e descoordenada as
três autoridades supervisoras, do património, administração da cidade e do distrito, que por
sua vez, e não raramente, agem de forma contraditória.

Estas alterações fazem parte de um processo natural, na medida em que as exigências sociais
vão variando ao longo do tempo, fazendo com que as pessoas sintam necessidade de alterar o
espaço em que habitam. A casa é, no fundo, um espelho de quem a habita, estando o seu
espaço em constante mutação.

Essa alteração não tem de ser positiva ou negativa, ela é inevitável. E ninguém tem o direito
de a parar, uma vez que ‘todo o homem tem o direito à modernidade’. A questão que o
trabalho levanta é que a imagem urbana é um dos aspectos que importa salvaguardar, como
forma de respeito pela história urbana e social, pelo passado, presente e futuro, quando se
discute a preservação ou salvaguarda da cidade existente. A recomposição da identidade e da
imagem da cidade processa-se na confluência da crise e retração de alguns factores, com a
renovação e a consolidação de outros, no modo como se combina tradição e inovação.

A conservação destes edifícios tradicionais é uma tarefa complexa que deve ser considerada
como uma simbiose entre a conservação do património edificado e a qualidade de vida dos
seus habitantes. Ao longo do trabalho pode ser facilmente reconhecido que o problema
central na manutenção do carácter e integridade do património histórico não pode ser
abordado e resolvido apenas por um conjunto de recomendações técnicas.

A situação da cidade de Macuti é preocupante, uma vez que os edifícios estão a enfrentar
mudanças profundas, pondo em risco um enorme banco de conhecimento, história e a
identidade da cidade. Contudo, tem que se perceber que a identidade da cidade é evolutiva e
o seu papel muda no tempo, adaptando-se às novas necessidades. Deste modo, a tradição
deve ser conjugada com a inovação, de forma a que a cidade não permaneça estagnada, mas
sim orientada para o desenvolvimento, incorporando novas intervenções aliadas à
reabilitação do existente.

Apesar de deixar questões em aberto, tal como, por exemplo, se será positivo ou não, manter
as tradicionais casas de macuti, consegui ao longo do trabalho reunir um conjunto de
princípios estratégicos e regras aplicáveis ao caso particular da Cidade de Macuti, que levam
em consideração a situação administrativa, económica, social, ambiental e cultural da Ilha.

No momento em que se encerra esta fase da investigação, gostariamos de deixar as seguintes


observações e recomendaçoes para a ilha de Moçambique:

a) Apostar na sensibilização da educação cívica e na reavaliação dos valores culturais dos


edifícios de macuti, através do registo, documentação e divulgação permanente do
conhecimento local e das técnicas usadas na construção e conservação dos edifícios de
macuti;

327
b) Investir na criação de um programa de incentivo (monetário) para os habitantes dispostos
a preservar os seus edifícios tradicionais;

c) Incentivar um maior envolvimento e representação das Comunidades locais da Cidade de


Macuti nos organismos de conservação da Ilha, garantindo que os habitantes façam parte dos
processos de tomada de decisão e permitindo a sua cooperação em questões de conservação
dos edifícios;

d) Estabelecer um sistema de drenagem pluvial na Cidade de Macuti, de forma a resolver o


problema da má drenagem que está a afectar a maioria dos edifícios de macuti;

e) Estabelecer um sistema de sanidade pública com base em latrinas esvaziáveis e no


aproveitamento do material fecal para a produção de biogás ou fertilizantes;

f) Criar um centro de formação e divulgação das técnicas de macuti, que servirá


simultaneamente de estaleiro de materiais de construção (palma, bambu, cal, etc.) para
garantir um pronto fornecimento deste material à população;

g) Autorizar a concessão de licenças de desenvolvimento, somente mediante um estudo


prévio de impacto arqueológico e cultural aprovado pelas estruturas competentes;

g) Ponderar a diminuição da densidade populacional através da promoção da emigração para


o continente, com apoio de um programa de reassentamento e respectivas perspectivas de
emprego das famílias abrangidas;

h) Incentivar entidades privadas a investir na construção e melhoria das infraestruturas


turísticas existentes na Ilha e arredores;

i) Promover a Ilha, a nível regional e internacional, desenvolvendo uma estratégia de turismo


atraente e sustentável;

j) Incentivar a população a cumprir com as leias criadas pela Unesco e criar mais propostas
no sentido de cumprir com as normas estipuladas pela UNESCO;

Creio que devo, porém, realçar que para qualquer das indicações acima indicadas terem o
êxito para as populações, será necessário redistribuir papéis e funções; ao arquiteto um papel
efetivo de orientação, aos utentes um papel de controle. Esta atribuição de responsabilidades,
direitos e deveres, e de papéis claros, facilita a logística de sistemas multidisciplinares
articulados, preferencialmente mais operativos e eficazes.

É também necessário que exista uma articulação disciplinar, por exemplo: pouco sucesso
será atingido se as manutenções dos edifícios pelos habitantes não se fizerem acompanhar de
programas de educação de construção. A participação da população instruída é fundamental
pois permite um sentido de apropriação cívica do espaço, o que leva os habitantes a
sentirem-se responsáveis por cuidar do que faz e que é seu.

As soluções mais efetivas e operativas estão nas próprias cidades e nas próprias populações
beneficiárias. Saber ser arquiteto na Cidade de Macuti é, do mesmo modo, saber ser arquiteto
na Cidade de Pedra e Cal e em qualquer outro lugar do mundo. Há que confeccionar
posições de afecto, generosidade, respeito, reconhecimento e empatia, a par da consciência
profissional e da responsabilidade técnica pela busca da solução.

328
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330
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www.ilhademoca
mbique.wordpress.com
www. inam.gov.mz - Instituto Nacional de Meteorologia www.
ine.gov.mz - Instituto Nacional de Estatística www.international.icomos.org
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www.unesco.org
www.web.mit.edu/akpia/www/articlebhatt.pdf www.wikipedia.com


Créditos:
Fig. 1 • Crianças da Ilha brincando • AZEVEDO, Líceno, A Ilha dos Espiritos,
documentário, Moçambique, 2010
Fig. 2 • Casas de Macuti • Fotografia disponibilizada pela Faculdade de Arquitectura e
Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane
Fig. 3 • Estrutura da Casa de Macuti • Fotografia disponibilizada pela Faculdade de
Arquitectura e Planeamento Físico da Universidade Eduardo Mondlane
Fig. 4 • Casa de Macuti alterada • Fotografia da autora

331
A operatividade do popular na conceção do erudito.
Pedro Fonseca Jorge
Escola Superior de Arte e Design das Caldas da Rainha
[email protected]

Resumo
O artigo pretende expor o caráter operativo da arquitetura popular no sentido em que fornece
modelos capazes de responder a critérios contemporâneos de ocupação do espaço habitável.
Foram por isso utilizados três momentos na presente investigação que correspondem 1) à
contextualização do âmbito “popular” no domínio das expressões da arquitetura, 2) da
investigação em História (da Arquitetura) como repositório de formas e espaços capazes de
fornecer soluções para a arquitetura contemporânea, e 3) o habitar contemporâneo na sua
necessidade de rever os seus critérios espaciais de modo a corresponder às aspirações dos
diversos grupos domésticos que atualmente compõem o panorama ocupacional da “casa”.
No final é feita a conexão entre os diferentes caminhos trilhados através da composição de
uma proposta de projeto que faz uso do saber adquirido através dos estudos tipológicos
realizados no âmbito da arquitetura vernácula, popular e erudita para conceber uma resposta
credível ao caráter nómada da população contemporânea e à sua necessidade de conceber um
espaço com que se identifique.

Palavras-chave: Popular, Vernacular, Habitar, Nomadismo, Arquitetura

332
Desenvolvimento
Contextualização da Investigação sobre o Domínio do Popular
O mote para a presente proposta teve origem em dois trabalhos académicos realizados no
âmbito da Licenciatura em Arquitetura e no Mestrado em Metodologias de Intervenção no
Património Arquitetónico.
Em ambos houve uma necessidade de conhecer o território dos arredores de Alcobaça a nível
da sua arquitetura, na altura designada pelo autor como simplesmente “Popular”. Não se
partiu de um pressuposto de “provar” ou “definir” a existência de Tipos e Modelos, mas tão
somente de “conhecer”, criando um repositório, prático e teórico, que pudesse substanciar a
prática ou a investigações futuras, ainda por definir.
A Prova Final em Arquitetura, “Alguns aspectos da evolução da casa rural da região de
Alcobaça” (Jorge, 2001), revestiu-se de um caráter de “trabalho de campo”, no sentido em
que os modelos recolhidos foram-no através da observação no local do legado existente. Para
além do mais, havendo a vontade de fazer um registo para além do visual, o acesso ao interior
das mesmas era fundamental, de modo a aferir o modo como cada Modelo distribuía o seu
espaço interior.

Imagem 1: Registo fotográfico e desenhado realizado no âmbito da Prova Final (2001)


Fotografias e desenhos do autor

Pelo número reduzido de Modelos recolhidos, e suas notórias dissemelhanças, não houve a
pretensão de procurar definir um Tipo, “(…) a estrutura conceptual, a matriz de organização
formal que está presente, mesmo com distintas soluções formais, num determinado conjunto
de obras (…)” (Fernandes, 1999, p. 35). Pôde-se, no entanto, legitimar uma futura
investigação que incidisse num Modelo, (…) um objecto acabado, uma obra que se pode
repetir (…)” (Fernandes, 1999, p. 35) de modo a aferir a existência de um Tipo Local.

333
Imagem 2: Registo fotográfico e levantamento realizado no âmbito da Prova Final (2001)
Fotografias e desenhos do autor

A Dissertação de Mestrado, “A casa rural no concelho de Alcobaça em 1961” (Jorge, 2001)


deu azo a essa pesquisa, sendo que se procuraram bases mais científicas para a pesquisa:
recorreu-se ao arquivo da Câmara Municipal de Alcobaça, a nível de Licenciamentos, de
modo a poder datar-se, por exemplo, os Modelos recolhidos. A anarquia reinante neste
“arquivo” viciou em parte a investigação: os registos mais antigos datavam de 1961 e
consistiam numa amostra certamente incompleta, embora numerosa: apenas estavam presente
Modelos de habitação unifamiliar em povoações (sendo que seria lógico houvessem também
edifícios plurifamiliares edificados na própria cidade concelho, por exemplo). A própria
informação requerida na altura era bastante simples e reduzida: planta, alçados, por vezes
seções (ausência de implantação), escala, o nome do requerente e povoação onde residia (sem
o nome de rua, por exemplo), o que impedia o reconhecimento no local do Modelo licenciado
(se esta ainda existisse).
A oferta determinou parte dos critérios de recolha dos Modelos: necessariamente rurais
(porque as povoações o eram), de 1961 (por ser o registo mais antigo, mas também porque a
pesquisa dos anos sucessivos se revelava ser uma empreitada demasiado trabalhosa). No seio
destes puderam identificar-se formalmente, pela consulta dos processos, dois Tipos de casas
(identificados na Prova Final): um correspondente a uma planta retangular e cobertura de duas
águas no sentido do comprimento, paralelo à estrada, com uma porta central ladeada por duas
janelas; outro de maiores dimensões, com um desenvolvimento em profundidade e a empena
da cobertura orientada para a estrada, com soluções de alçado mais diversas. E finalmente,
teve-se consciência que estes licenciamentos consistiam apenas no módulo inicial de um
processo edificativo da casa, dado que os Modelos que podíamos observar eram aditivados
com numerosos anexos ao longo do tempo.

334
Imagem 3: Modelos dos dois Tipos encontrados nos processos de Licenciamento de 1961.
Desenhos do autor sobre a informação gráfica recolhida.

Sendo que o primeiro Tipo aparentava ser mais constante nas suas caraterísticas, e mais
recorrente numa memória em desaparecimento, optou-se por centrar a atenção no mesmo,
através de um trabalho que envolveu a recolha das fontes, o seu redesenho fiel (de modo a ter
uma base operática para registo e comparação). Este processo revelou a existência de um
paralelismo entre forma e distribuição formal, apesar de diferenças existirem: um corredor
largo (face às dimensões da casa) ladeado simetricamente por divisões similares, onde apenas
podíamos atribuir um uso concreto a um espaço: a cozinha, porque uma chaminé se
encontrava representada. A partir deste, alguns modelos adicionavam o corredor a uma das
divisões frontais, outros variavam a área dos diferentes espaços antes simétricos, faziam
avançar a cozinha sobre o topo do corredor, etc. Contrapondo ao outro Tipo referido, poder-
se-ia aferir, tal como Francisco Barata Fernandes afirmava, que o Tipo esgota as suas
capacidades evolutivas, sendo substituído por outro? (1999). Aqui faz-se uma ressalva para o
trabalho “de campo”, através da observação da paisagem construída, que indiciava a
existência de variantes formais que poderiam realizar (ou não) a transição entre Tipos.
Contextualização da pertinência de um domínio do Popular e do Vernacular.
O interesse pela arquitetura popular foi gerado pela consulta da obra “Arquitetura Popular em
Portugal” (Centro Editor Livreiro da Ordem dos Arquitectos, 2004), obra incontornável pelo
registo que consiste, não só da arquitetura, mas também de uma sociedade empobrecida.
Sobre a mesma já muito foi dito, tendo sido coincidência que o intervalo de investigação e
publicação da obra coincidisse com os registos camarários usados como casos de estudo.

335
Imagem 4: Modelos do Tipo escolhido para caso de estudo nos Licenciamento de 1961.
Desenhos do autor sobre a informação gráfica recolhida.

A comparação entre os Modelos e Tipos levantados na obra supracitada e a investigação


realizada no âmbito do mestrado tornou-se obrigatória. Haveria alguma coincidência entre os
Tipos recolhidos no princípio dos anos 1960 e os “registados” no mesmo período?
Tendo Portugal sido “dividido” por zonas de trabalho, o concelho de Alcobaça foi abrangido
pela quarta zona, abrangente o suficiente para incluir “(…) as províncias da Estremadura,
Ribatejo e parte da Beira Litoral” (Centro Editor Livreiro da Ordem dos Arquitectos, 2004, p.
7). O levantamento refere uma área entre Alcobaça e Leiria, onde se inclui Pataias,
Martingança (Concelho de Alcobaça), Monte Real e em especial Ortigosa (Conselho de
Leiria), sendo que o Tipo apontado consiste numa (…) construção em adobe ou taipa,
alpendre integrado no volume da edificação; um só piso; caiação simples” (Centro Editor
Livreiro da Ordem dos Arquitectos, 2004, p. 96).

336
Imagem 5: Tipo recolhido na Zona 4 do “Arquitetura Popular em Portugal” .
Desenhos do autor a partir das fotagrafias patentes na obra.

Nos requerimentos de Licenciamento de 1961 este Tipo não foi encontrado, mas é de
acreditar que tivesse existido em tempos também a sul de Alcobaça: registos orais que foram
recolhidos referem construções já desaparecidas com as mesmas caraterísticas,
nomeadamente a construção em terra e principalmente o alpendre recolhido na entrada (há
uma casa na Benedita, Alcobaça, que possui este alpendre, sem hipóteses de ser datada, mas
decerto mais recente que as mencionadas, pelo tipo de construção. Enquanto referência
merece ser mencionada porque será eventualmente a recuperação de uma memória existente
no local).

Imagem 6: Modelos recolhidos em Ortigosa.


Fotos do Autor.

Se determinado Tipo persiste enquanto outro desaparece poderá ser determinada uma
hierarquia em termos temporais, e esta premissa levou a que num pós-doutoramento não
levado avante fosse proposto procurar este Tipo alpendrado, precisamente no local onde o
“Inquérito” mais o mencionava: Ortigosa, Leiria. Vários Modelos foram recolhidos em
trabalho de campo na preparação da proposta, em que alpendre e a construção em terra
(nalguns também com adição de pedra lascada local) eram constantes presentes. Em conversa
com uma proprietária, esta referiu que a casa (usada como arrumo) teria “cerca de 200 anos”.
Assim sendo, se não podemos afirmar que estes dois Tipos não terão sido, em tempos,
contemporâneos, a pertinência do Tipo presente nos Licenciamentos garantiu a sua

337
permanência no tempo. Mas também no território: a imagem de uma casa de planta
retangular, com uma entrada central ladeada por duas janelas não nos é estranha em diversos
pontos do país (em 2001 havia sido apresentada uma foto de uma casa algarvia com o mesmo
alçado) e talvez Espanha: pelo menos a solução de fachada é possível encontrar em registos
sobre a arquitetura popular espanhola (Feduchi, 1975).
O que nos leva a pensar nas designações de Vernacular e Popular, e o modo como são usadas
de forma indiferenciada: mesmo no livro "Arquitetura Popular em Portugal" em nenhum lugar
desse livro "popular" é sistematicamente definido, sendo a sua definição implícita através dos
Modelos estudados (Leal, 2011, p. 70): o popular dos arquitetos não é erudito, embora possa
ser por ele influenciado. Mas será tanto mais popular quanto menos erudito for. Não é urbano,
mas predominantemente rural, está próximo da natureza: autêntico, genuíno, espontâneo.
Esta possibilidade da existência de influências eruditas (que consistiu também em parte da
investigação realizada na citada Prova Final) retira desta definição o Tipo alpendrado, não
apenas por uma questão estética e construtiva (subjetiva), mas porque para este Tipo se
distribuir por um espaço físico mais restrito houve decerto menor contato com realidades
exteriores.
Jane Pieplow (2006) é das raras autoras a procurar uma distinção entre os dois termos em
debate, em que refere que no Popular não é possível identificar uma única fonte nem um
período específico, o que indica a ausência de Tradição Ao mesmo tempo, a autora refere
implicitamente a existência de “modas” no domínio dos Tipos que são adotados, o que nos
remete novamente para o domínio do Erudito1.
A existências de influências distintas (embora predominando sempre na arquitetura “sem
arquiteto”) contextualiza de forma coerente o Tipo patente nos Licenciamentos. Já o Tipo
Alpendrado, pela contenção territorial e pelo aspeto mais simplista e local (também pelo
processo construtivo) não parece adequar-se. Geoffrey Magnan (2013) ao estudar a
Arquitetura Local do Mali define-a como sendo Vernacular, refugiando-se no contexto da
Linguística para sustentar a sua decisão: originalmente, o termo "Vernacular" atribuiu-se a
um idioma que é falado dentro de uma comunidade bem delimitada culturalmente. O seu
oposto é um idioma "Veicular", comum a vários grupos, falado entre diversas comunidades
ou segundo limites mais alargados. Consequentemente, tal como a “sua” arquitetura no Mali,
também o Tipo Alpendrado parece mais contido a nível de fronteiras físicas e culturais, à
semelhança dos Tipos, noutros contextos arquitetónicos, denominados por “vernaculares”.
Por isso, à margem de polémicas, e mesmo que não possamos determinar fronteiras precisas
ou caraterísticas inequívocas aos Tipos recolhidos, mesmo que não possamos assumir a
evolução, sucessão ou substituição dos mesmos, existe espaço para a consideração de
categorias aparte para os Modelos estudados.
Sobre o Habitar Contemporâneo
O percurso académico iniciado com os estudos da Arquitetura Popular e Vernacular
encontrou seguimento, a nível de Doutoramento, num estudo aprofundado da Habitação a
Custos Controlados (Jorge, 2012), onde numerosos Modelos de habitação coletiva,
maioritariamente do início do século XX até à atualidade, foram recolhidos e estudados. Já
descontextualizado dos domínios da arquitetura unifamiliar e rural, a proposta de investigação

1
A página mencionada foi consultada em 2006, pelo que lamentavelmente já não se encontra disponível, sendo
impossível requerer à autora a informação produzida, por esta ter falecido entretanto.

338
pretendia culminar numa resposta ao habitar atual, cujas caraterísticas se foram aferindo ao
longo do trabalho.
É ainda comum na arquitetura residencial contemporânea optar por soluções trazidas desde os
primórdios do século passado, em que a procura por soluções espaciais que resolvessem as
necessidades físicas, salubres e sociais dos seus ocupantes (Aymonino et al., 1973) levou a
uma especificação dos espaços de acordo com um uso que lhe era atribuído. Esta conceção da
‘casa’ funcionalista (Montaner, 2001), sustentaria um processo construtivo baseado na
repetição que tornaria a habitação digna acessível às camadas mais desfavorecidas da
população. Prever um uso específico e a produção em série coordenavam-se assim para
produzir eficazmente e de forma barata modelos universais e ‘perfeitos’ na sua relação entre
função e uso atribuído.

Imagem 7: Bad Durremberg (Alexander Klein, 1928)


Desenho do autor

Os referidos excessos da primeira metade do século XX foram realizados de modo a


constituírem uma resposta eficaz a um modelo de vida pré-estabelecido, que englobava um
modelo familiar nuclear e estável (Silveira, 2006), um emprego com a duração de uma vida,
executado num raio limitado da habitação: as relações cidade/subúrbio fortaleciam-se (Neves,
2005), tal como a facilidade de transporte, pelo que parecia racional promover a permanência.

339
Imagem 8: Dom Komuna Narkomfin – Piso 1 e Piso 2 do dupléx (Moisei Ginzburg e Ignaty
Milinis in 1928)
Desenho do autor

Há contudo de referir que a mesma regra da estabilidade e da permanência seria aplicada em


utopias mais extremas, enraizada nas ideologias de esquerda, que previam a abolição do sinal
mais visível da burguesia: a família, parte do ‘derretimento dos sólidos’ (Bauman, 2003).
Ainda que esta fosse desintegrada em prol da valorização do Indivíduo como membro de toda
a comunidade e não de um círculo restrito (Teige, 2002), as propostas arquitetónicas e design
envolvidas no desenho das ‘Dom Kommunas’ não punham em causa a estabilidade (i)móvel
do Homem, enquanto pertencente a um local específico (Laboratoire Urbanisme
Insurrectionnel, [s.d.]).
Os anos 1960 inverteram de forma drástica outra forma de pensar através principalmente de
experiências visíveis pelo seu caráter experimental (e excessivo/impossível), destinadas mais
a fazer pensar do que a executar: mobilidade e transformação tornam-se pressupostos a
estudar, seja através da magnitude de cidades móveis, seja pela minimização da célula
habitável, através de ‘casas’ reduzidas ao essencial: vestíveis, como o Suitaloon (Jacob,
[s.d.]); (Cushicle and Suitaloon, 2012), ou móveis, como as cápsulas da torre Nagakin (Lin,
2011); (Clark, 2009). Algo a ser ‘levado’ pelo habitante nómada, agarrado ao corpo, ou
agarrado à casa. Algo que Montaner definiria como um Novo Funcionalismo (2001), pois
mesmo se móvel, era igualmente condicionante a nível do indivíduo e da sua identidade.
No princípio do século XXI começam a tornar-se mais evidentes mutações sociais que
repensam os modelos anteriormente referidos, dado que a evolução do modelo familiar se
reconhece e assume (preferindo passar a referir-se o mesmo como ‘grupo doméstico’ (Afonso,
2000), independente das relações de sangue entre habitantes), e o estatuto laboral do
trabalhador se altera: temporário, variável, doméstico, móvel (Bartholomew, e Mayer, 1992),
parte da definição da ‘Sociedade Complexa’ em ‘Nomads of the present’ de Alberto Melucci
(1989). Este caráter nómada privilegia a definição de uma Identidade Coletiva, enquanto
‘grupo’ exterior ao ambiente doméstico, em detrimento da individualidade, dado que o caráter
móvel impede o habitante de criar raízes na sua casa, que é um elemento efémero da sua
Identidade Individual: ‘a narrow domestic identity’ (Melucci, 1989, p. 93).
Mobilidade Imóvel
Enquanto na produção corrente da arquitetura ainda se aposta na herança funcionalista, em
que existem espaços específicos para atividades específicas, que nega contudo a criação de
uma Identidade Individual neste novo contexto social. Quarto principal, quartos secundários,

340
sala comum, etc., tornam-se obstáculos quando o ocupante da casa deixa de ser a Família
Nuclear e passa a ser um Grupo Doméstico composto por vários indivíduos (potencialmente
com a mesma idade, unidos por laços de amizade ou simplesmente por mera comodidade
financeira): a hierarquização Funcionalista não contempla necessidades espaciais similares
para ocupantes sem hierarquias evidentes, em que todos pretendem um espaço individual
similar e independente e lhes são disponibilizadas áreas diferentes em termos de área, uso ou
localização na casa.
A nível da investigação na arquitetura, a mudança de paradigma social e individual foi já
identificado, e propostas foram criadas que respondem não só ao nomadismo, mas a todo um
conjunto de imprevisibilidades não contempladas pelo modelo funcionalista: convivências,
familiares ou não, trabalho a partir de casa, mobilidade dos indivíduos dentro da ‘sua’ própria
casa. E, ainda que paradoxalmente, contemplam-se agora modelos que, assumindo a
incerteza, não procuram as suas respostas na mobilidade da casa e nem na efemeridade da
construção. O edifício é uma permanência (não um módulo transportável) e os espaços
internos são imutáveis, mas concebidos de forma a promover a sua apreensão pelo indivíduo.
A resposta contemporânea
Como exemplos desta postura podemos citar dois exemplos importantes no campo da
arquitetura: primeiro, Bahnofstrasse, de Florien Riegler e Roger Riewe (Graz, Suíça, 1992),
onde todas as divisões são acessíveis por um corredor mais ou menos dissimulado, mas
também entre si, através de duas a quatro portas por divisão. Paralelamente a cozinha pode ser
transposta da divisão espacial que ocupa para o espaço da sala, criando um espaço livre
adicional onde antes se situava que pode ser agora ocupado como escritório, quarto
suplementar, etc. É certo que o espaço da sala se vê condicionado, o que prova que tal como
na vida, na arquitetura não existem soluções perfeitas. Mas neste caso a mera existência de
uma pré-instalação de fornecimento de água e esgotos permite este ‘anonimato’ de cada
divisão da casa que permite a sua livre ocupação. Igualmente importante é a ligação entre
divisões, o que permite a circulação entre estas sem se aceder a um espaço de circulação
comum a todos os ocupantes da casa: cada um pode ‘anexar’ duas divisões ao seu espaço
privado sem expor os seus movimentos entre elas ao seu colega de casa.

341
Imagem 9: Bahnofstrasse, de Florien Riegler e Roger Riewe (1992)
Desenho do autor

Outra proposta que explora este tema consiste no Edifício de Habitação Coletiva em Kitagata,
pelo atelier SANAA: a abordagem é diversa, uma vez que se pode identificar uma circulação
única interna, onde inclusivamente se situa o lavatório. Já sanita e chuveiro estão separados o
que permite o uso simultâneo das instalações sanitárias por pessoas sem afinidades pessoais.
Mas o que mais identifica esta proposta é o modo como se processa o acesso para o exterior:
sendo um edifício em altura, os acessos coletivos são feitos através de uma galeria que
percorre todo o edifício. Este tipo de acesso, ao contrário do precedente (central) permite que
para além da ‘porta principal’, também os quartos possuam uma ligação direta ao exterior.
Horários, companhia, etc., são igualmente sinais próprios de privacidade negados num
apartamento ou casa convencionais. Mas tal como nestes, qualquer uma das propostas citadas
permite a apropriação das suas divisões por famílias nucleares ou grupos domésticos mais
convencionais (ainda que em vias de se tornarem menos preponderantes).

342
Imagem 10: Edifício em Kitagata, do estúdio SANAA (1994)
Desenho do autor

A oportunidade de, através desta análise social e espacial, propor um Tipo que correspondesse
às expetativas (múltiplas) dos novos grupos domésticos, surgiu no âmbito de um concurso de
arquitetura, que envolvia uma componente urbana, mas que incidia igualmente na criação de
módulos domésticos que traduzissem as nossas inquietações enquanto arquitetos que
determinam a sua atividade como social. E neste contexto, as referências recolhidas ao longo
do tempo foram fundamentais. Todas elas.
Interseções entre Passado e Contemporaneidade
O recurso ao passado para legitimar o presente não é de todo uma novidade em arquitetura, e
podemos encontrar exemplos tão díspares como o uso de Tipos espaciais como construtivos.
É conhecido que Le Corbusier, nas suas Unidades Habitacionais, recupera o mezanino das
Celas dos Monges do Mosteiro de Ema em Itália, edifício que visitou em 1911 (Curtis, 1998,
p. 36), e mesmo Mies van der Rohe, na Casa Tugendhat (1928-1930) fez uso de reboco
tradicional à base de cal no revestimento das paredes (Hammer, 2005). A casa, erroneamente
considerada como “branca”, foi alvo de obras de “conservação” ao longo do tempo que
visaram corresponder a esta expetativa, até ser finalmente alvo de um processo de intervenção
que visou remover as “renovações” e “reabilitar” o reboco bege original.
Na minha própria atividade enquanto projetista a Arquitetura Popular (por ser aquela que
permanecia na memória e ainda caraterizava a paisagem em que me inseria, sempre esteve
presente, quando a encomenda o permitia: recuperar a distribuição formal da casa no lote de
modo a qualificar o espaço urbanizado, fazer uso do seu caráter evolutivo como resposta às
mutações familiares dos ocupantes, etc.

343
Imagem 11: Casa evolutiva na Cruz de Oliveira (2005)
Projeto, desenho e fotos do autor

Imagem 12: Casa Unifamiliar no Taveiro (2007)


Projeto, desenho e fotos do autor

No entanto, a recuperação do espaço interior de uma Casa Popular da região revela-se uma
tarefa mais complexa, pois lidávamos com espaços que não correspondiam a legislação
contemporânea, nem tão pouco às aspirações, legítimas, de um habitante na atualidade. No
entanto, e recuperando Le Corbusier, as referências passadas que nos inquietam e conduzem
ao raciocínio não têm de ser transportas para a atualidade de uma forma acrítica. Pelo
contrário, a seleção exige-se para que a questão que se nos é colocada seja respondida com
precisão.
No contexto do referido concurso de arquitetura surge a vontade de criar, à dissemelhança da
habitação funcionalista, um módulo habitável anónimo, em que cada espaço pudesse ser
apropriado de acordo com a necessidade funcional, e sem que hierarquias fossem
manifestadas no momento de ocupar o espaço. E se estas hierarquias se manifestavam em
diferenças de áreas, espaços mais ou menos expostos às visitas, acesso mais dificuldade aos
acessos, parte das soluções de referência foram encontradas nos Modelos acima citados no
domínio da arquitetura contemporânea.
No seio das minhas “inquietações passadas” deparo-me com um princípio de um raciocínio
que lideraria a minha proposta multifamiliar. Do módulo Popular levantado na Prova Final e
explorado na Dissertação de Mestrado ressaltaram caraterísticas que correspondiam às minhas
pretensões, e que foram exploradas no sentido de as potenciar.

344
Imagem 13: Módulo proposto, usando como referência um Tipo dos anos 1960’s, 2003
Desenhos do autor

Áreas similares (em que apenas o equipamento da cozinha “distingue” o uso), acessos diretos
ao exterior para cada espaço, exploração adicional das circulações internas como modo de
permitir maior privacidade, etc. Uma casa que pode ter o “átrio” como sala, o “quarto” como
escritório – acessível do exterior – a partir do qual o visitante pode aceder às instalações
sanitárias sem interferir na privacidade do Grupo Doméstico. Inclusivamente, colocando duas
portas por divisão, pode dividir-se esta em duas menores, sendo que nenhum espaço ficaria
privado de iluminação e ventilação naturais.
A “encomenda” previa, no entanto, habitação plurifamiliar, mas cujas necessidades
específicas foram correspondidas pelo Módulo inicial. Uma galeria exterior envolvente em
todos os pisos permitia a saída direta de qualquer uma das divisões, ao mesmo tempo que o
acesso do exterior por parte de daqueles que recorrem a serviços cada vez mais disponíveis a
partir de casa sem invadir a privacidade interior.

Imagem 14: Diferentes módulos propostos na composição de edifício Plurifamiliar (2011)


Desenhos do autor

345
Imagem 15: Simulações tridimensionais do edifício de habitação coletiva (2013)
Desenhos do autor

Pode ainda adiantar-se que, não havendo uma clara distinção entre zonas de habitação e
serviço permitiria um uso permanente destas galerias que, a ser “confundidas” com as ruas
elevadas ao Movimento Moderno, pretendem oferecer uma versatilidade no percurso apenas
possível através da conceção de um Módulo Habitacional que pode acomodar outros usos e
facilidades.

346
Conclusão
Uma das minhas posturas sobre o trabalho académico, e que me valeu grande censura numa
apresentação, é a de que não há que ter certezas acerca do tema ou dos objetivos a trabalhar
aquando do início de uma investigação. É certo que é necessário delimitar campos de estudo,
Tipos ou Modelos a investigar, etc., mas o facto é que de acordo com a informação recolhida
novos caminhos, novas pertinências e novos objetos se vão desenhando no seio dos nossos
interesses. Essa liberdade é necessária, especialmente no campo da História, porque o seu
principal objetivo, enquanto campo de estudo, é criar um repositório de soluções que podem
vir a tornar-se úteis em circunstâncias das quais podemos não estar conscientes durante
muitos anos. Mas que efetivamente o serão.

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