UNIVERSIDADE FEDERAL DE
SÃO JOÃO DEL-REI
ELETRÔNICA DE POTÊNCIA
INTRODUÇÃO À ELETRÔNICA DE POTÊNCIA
Professor Eduardo Moreira Vicente
Sumário
Sumário
1. Introdução
2. O que é eletrônica de potência?
3. Por que eletrônica de potência?
4. Um reostato como dispositivo de controle
5. Um interruptor como dispositivo de controle
6. Interruptores semicondutores de potência
7. Perdas de potência em interruptores não ideais
8. Perda na condução
9. Perda por comutação
10. Exemplos
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Introdução
As aplicações da eletrônica de potência de estado sólido
no campo da potência elétrica crescem continuamente. O termo
eletrônica de potência vem sendo utilizado desde a década de
60, após a criação do SCR (Silicon Controlled Rectifier –
Retificador Controlado de Silício) pela GE.
A eletrônica de potência progrediu com rapidez nos
últimos anos, com o desenvolvimento dos dispositivos
semicondutores de potência que podem comutar altas
correntes, de forma eficiente, em altas tensões.
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Introdução
Uma vez que esses dispositivos oferecem alta
confiabilidade e são de pequeno porte, a eletrônica de potência
expandiu sua abrangência para diversas aplicações, como:
controle de iluminação e de aquecimento, fontes reguladas de
energia, motores acionadores CC ou CA de velocidade variável,
compensador estático VAR e sistemas de transmissão CC em alta
tensão.
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O que é eletrônica de potência?
A engenharia elétrica pode ser dividida, de uma maneira
simplificada, em três ramos principais: potência, eletrônica e
controle. A eletrônica de potência trata da aplicação de
dispositivos semicondutores de potência, como tiristores e
transistores, na conversão e no controle de energia elétrica em
níveis altos de potência.
Essa conversão normalmente é de CA para CC ou vice-
versa, enquanto os parâmetros controlados são: tensão,
corrente e frequência. A simples retificação de CA para CC, por
exemplo, é uma conversão de potência. Mas, caso se aplique
ajuste de nível de tensão na retificação, tanto a conversão
como o controle de energia elétrica passam a estar envolvidos
no processo.
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O que é eletrônica de potência?
Portanto, a eletrônica de potência pode ser considerada
uma tecnologia interdisciplinar que envolve três campos
básicos: a potência, a eletrônica e o controle, como mostra a
Fig. 1.1.
Fig. 1.1 - Eletrônica de potência: uma combinação entre
potência, eletrônica e controle.
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Por que eletrônica de potência?
A transferência de potência elétrica de uma fonte para
uma carga pode ser controlada pela variação da tensão de
alimentação (com o uso de um transformador variável) ou pela
inserção de um regulador (como um reostato, um reator variável
ou um interruptor).
Os dispositivos semicondutores utilizados como
interruptores têm a vantagem do porte pequeno, do custo baixo,
da alta eficiência e da utilização para o controle automático da
potência.
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Um reostato como dispositivo de controle
A Fig. 1.2 mostra um reostato controlando uma carga. Quando R1
tem zero de resistência, a carga recebe toda a potência. Quando R1 é máxima,
a potência entregue à carga é praticamente igual a zero.
Fig. 1.2 - Um reostato controlando uma carga.
Nas aplicações em que a potência a ser controlada é grande, a
eficiência de conversão passa a ser importante. Uma eficiência baixa significa
grandes perdas, uma preocupação de caráter econômico, além de gerar
calor, que terá de ser removido do sistema para evitar superaquecimento.
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EXEMPLO
Ex. 1.1) Uma fonte CC de 100 V está fornecendo energia para
uma carga resistiva de 10 Ω. Determine a potência entregue à
carga (PL), a potência dissipada no reostato (PR), a potência total
fornecida pela fonte (PT) e a eficiência η, se o reostato for
ajustado para:
a) 0 Ω; (η = 100%)
b) 10 Ω; (η = 50%)
c) 100 Ω. (η = 9,1%)
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Um interruptor como dispositivo de controle
Na Fig. 1.3, um interruptor é usado para o controle da carga. Quando
o interruptor está ligado, o máximo de potência é transferido para a carga. A
perda de potência no interruptor é nula, uma vez que não há tensão sobre
ele. Quando o interruptor está desligado, não existe potência entregue à
carga. Neste caso, não há perda de potência no interruptor, uma vez que não
passa nenhuma corrente por ele. A eficiência é de 100%, porque o
interruptor não consome energia em qualquer um dos dois casos.
Fig. 1.3 – Um interruptor controlando uma carga.
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Um interruptor como dispositivo de controle
O problema existente nesse método é que, ao contrário
do reostato, o interruptor não pode ser colocado em posições
intermediárias, de modo que proporcione variação de potência.
No entanto, podemos criar o mesmo efeito abrindo e fechando
o interruptor periodicamente.
Os transistores e os SCRs usados como interruptores
podem abrir e fechar de maneira automática centenas ou
milhares de vezes por segundo. Se precisarmos de mais
potência, o interruptor eletrônico deve ficar ligado por períodos
maiores e desligado durante menor parte do tempo. Do
contrário, basta deixar o interruptor desligado por mais tempo.
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EXEMPLO
Ex. 1.2) Uma fonte CC de 100 V está fornecendo energia para uma
carga resistiva RL de 10 Ω através de um interruptor. Determine a
potência média fornecida à carga (PO(med)), a perda de potência no
interruptor (PS) e a potência total fornecida pela fonte (PT) se o
interruptor estiver:
a) Fechado; (PO(med) = 1kW)
b) Aberto; (PO(med) = 0W)
c) Fechado 50% do tempo; (PO(med) = 250W)
d) Fechado 20% do tempo. (PO(med) = 40W)
12
EXEMPLO
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Interruptores semicondutores de potência
Os interruptores semicondutores de potência são os
elementos mais importantes em circuitos de eletrônica de
potência. Os principais tipos de dispositivos semicondutores
utilizados como interruptores são:
Diodos;
Transistores bipolares de junção (TBJs);
Transistores de efeito de campo metal-óxido-semicondutor
(MOSFETs);
Transistores bipolares de porta isolada (IGBTs);
Retificadores controlados de silício (SCRs);
TRIACS;
Transistores de desligamento por porta (GTO);
Tiristores controlados MOS (MCT).
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Interruptores semicondutores de potência
Em eletrônica de potência, esses dispositivos são
operados no modo de comutação (ou chaveamento). Os
interruptores podem funcionar em alta frequência, a fim de
converter e controlar a energia elétrica com alta eficiência e alta
resolução. A perda de potência no interruptor, em si, é muito
pequena, uma vez que ou a tensão é quase igual a zero quando
o interruptor está ligado ou a corrente é quase nula quando o
interruptor está desligado.
Para ser ideal, um interruptor deve satisfazer as seguintes condições:
Ligar e desligar instantaneamente;
Quando ligado, a queda de tensão deve ser zero;
Quando desligado, a corrente que passa por ele é nula;
Não dissipa potência.
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Interruptores semicondutores de potência
Além disso, as seguintes condições são desejáveis:
Quando ligado, que possa suportar correntes altas;
Quando desligado, que possa suportar tensões altas;
Que utilize pouca potência para o controle da operação;
Que seja altamente confiável;
Que seja pequeno e leve;
Que tenha baixo custo;
Que não requeira manutenção.
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Perdas de potência em interruptores não ideais
A Fig. 1.4 mostra um interruptor ideal. A perda de
potência atribuída ao interruptor é o produto da corrente
através do interruptor pela tensão sobre ele.
Fig. 1.4 - Perda de potência em um interruptor ideal.
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Perdas de potência em interruptores não ideais
Quando o interruptor estiver aberto, nele não passará corrente
(embora sobre ele exista uma tensão Vs) e, portanto, não haverá
dissipação de potência. Quando o interruptor estiver ligado, passará
por ele uma corrente (Vs/RL), mas não haverá queda de tensão;
portanto, também nesse caso, não haverá dissipação de potência.
Suponhamos também que, para um interruptor ideal, o tempo
de subida e de descida seja zero. Isto é, o interruptor passaria do
estado desligado para o ligado (e vice-versa) instantaneamente. A
perda de potência durante a comutação seria, portanto, igual a zero.
Ao contrário do que ocorre com um interruptor ideal, um
interruptor real, assim como um transistor bipolar de junção, tem
duas grandes fontes de perda de potência: perda na condução e perda
por comutação.
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Perda na condução
Quando o transistor da Fig. 1.5a estiver desligado, por
ele passará uma corrente de fuga (ILEAK). A perda de potência
associada a essa corrente de fuga é POFF=[Link].
Fig. 1.5 - Perdas de potência em um interruptor transistorizado.
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Perda na condução
Entretanto, uma vez que a corrente de fuga é muito pequena e
não varia de maneira significativa com a tensão, costuma ser
desprezada. Assim, a perda devida à corrente de fuga no transistor é
essencialmente igual a zero.
Quando o transistor estiver ligado, como na Fig. 1.5b, ocorre
uma pequena queda de tensão sobre ele. Essa tensão é chamada de
tensão de saturação (VCEsat). A dissipação de potência no transistor ou
a perda na condução devida à tensão de saturação é:
(1.1)
onde
(1.2)
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Perda na condução
A equação (1.1) fornece o valor da perda de potência
devida à condução se o interruptor permanecer ligado (fechado)
indefinidamente.
Entretanto, para haver controle da potência para uma
certa aplicação, o interruptor deve ser ligado e desligado de
maneira periódica. Portanto, para determinar a potência média,
devemos considerar o ciclo de trabalho:
(1.3)
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Perda na condução
De modo semelhante,
(1.4)
Aqui, o ciclo de trabalho d é definido como o percentual
do ciclo no qual o interruptor está ligado:
(1.5)
22
EXEMPLO
Ex. 1.3) Na figura abaixo, VS = 50 V, RL = 5 Ω e o interruptor é ideal, sem
perdas por comutação. Se a queda de tensão no estado ligado for de
1,5 V e a corrente de fuga for de 1,5 mA, calcule a perda de potência
no interruptor quando estiver:
a) Ligado;
b) Desligado.
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EXEMPLO
Para condições normais de carga, a dissipação de
potência durante o estado desligado pode ser desprezada, em
comparação com a perda de potência durante o estado ligado.
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EXEMPLO
Ex. 1.4) Calcule as perdas máxima e média de potência para o interruptor
do Exemplo 1.3 se a frequência de comutação for de 500 Hz com um
ciclo de trabalho de 50% (VS = 50 V, RL = 5 Ω, VD(SAT) = 1,5 V, IFUGA = 1,5
mA).
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Perda por comutação
Além da perda na condução, um interruptor não ideal
também tem perdas em virtude da comutação, porque não
pode passar de um estado para outro, de ligado para desligado
(e vice-versa), de modo instantâneo.
Um interruptor não ideal leva certo tempo finito tSW(ON)
para ligar e certo tempo finito tSW(OFF) para desligar. Esses
períodos não apenas introduzem dissipação de potência, como
também limitam a máxima frequência de comutação possível.
Os tempos de transição tSW(ON) e tSW(OFF) para
interruptores não ideais não são, em geral, iguais; tSW(ON) é, em
geral, maior.
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Perda por comutação
Entretanto, vamos supor que tSW(ON) seja igual a tSW(OFF). A fig.
1.6 mostra as formas de onda de comutação para: a) a tensão no
interruptor e b) a corrente que passa por ele.
Quando o interruptor estiver desligado, a tensão nele será
igual à fonte de tensão. Durante o fechamento, que leva um tempo
finito, a tensão no interruptor cai a zero. No mesmo período, a
corrente através do interruptor aumenta de zero a IC. Durante a
comutação, uma corrente passa pelo transistor e há tensão em seus
terminais; portanto, existe perda de potência.
Para encontrar a potência dissipada em um transistor durante
o intervalo de comutação, multiplicamos o valor instantâneo de IC
pelo valor correspondente de VCE. A curva de potência instantânea é
mostrada na Fig. 1.6c.
27
Perda por comutação
Fig. 1.6 - Formas de onda durante a comutação: a) tensão no interruptor;
b) corrente passando pelo interruptor; c) potência dissipada no interruptor. 28
Perda por comutação
A energia dissipada no interruptor é igual à área sob a curva
da forma de onda de potência. Observe que a potência máxima é
dissipada quando, tanto a tensão como a corrente, estão passando por
seus pontos médios na curva. Portanto, a perda máxima de potência,
na passagem do estado desligado para o ligado, é:
É interessante observar que a curva de potência parece com a
de uma onda senoidal retificada, motivo pelo qual pode-se utilizar a
seguinte relação na determinação da potência média de fechamento:
Valor da integral da onda senoidal
29
Perda por comutação
ou
1
𝑃𝑆𝑊−𝑂𝑁 = 𝑉𝐶𝐸(max) 𝐼𝐶(max)
2𝜋
A perda de energia (potência x tempo) durante o fechamento será
PSW-ON(avg).tSW(ON).
1
𝑊𝑆𝑊−𝑂𝑁 = 𝑉 𝐼 𝑡
2𝜋 𝐶𝐸(max) 𝐶(max) 𝑆𝑊(𝑂𝑁)
Uma análise semelhante fornece a perda de energia durante o
desligamento (abertura) do interruptor :
1
𝑊𝑆𝑊−𝑂𝐹𝐹 = 𝑉𝐶𝐸(max) 𝐼𝐶(max) 𝑡𝑆𝑊(𝑂𝐹𝐹)
2𝜋
30
Perda por comutação
A perda total de energia, em um ciclo, devido à comutação, é
dada por:
1
𝑊𝑆𝑊 = 𝑊𝑆𝑊−𝑂𝑁 + 𝑊𝑆𝑊−𝑂𝐹𝐹 = 𝑉 𝐼 𝑡 + 𝑡𝑆𝑊(𝑂𝐹𝐹)
2𝜋 𝐶𝐸(max) 𝐶(max) 𝑆𝑊(𝑂𝑁)
A dissipação média de potência no interruptor será:
𝑊𝑆𝑊
𝑃𝑆𝑊(𝑎𝑣𝑔) = = 𝑊𝑆𝑊 . 𝑓
𝑇
1
𝑃𝑆𝑊(𝑎𝑣𝑔) = 𝑉 𝐼 𝑡 + 𝑡𝑆𝑊(𝑂𝐹𝐹) . 𝑓
2𝜋 𝐶𝐸(max) 𝐶(max) 𝑆𝑊(𝑂𝑁)
Onde T é o período de comutação e f é a frequência de
comutação.
31
Perda por comutação
Observe que:
Se definirmos
então,
1
𝑃𝑆𝑊(𝑎𝑣𝑔) = 𝑉𝐶𝐸(max) 𝐼𝐶(max) (2𝑡𝑆𝑊 ). 𝑓
2𝜋
32
Perda por comutação
A perda total de potência no interruptor é:
𝑃𝑇 = 𝑃𝑂𝑁(𝑎𝑣𝑔) + 𝑃𝑂𝐹𝐹(𝑎𝑣𝑔) + 𝑃𝑆𝑊(𝑎𝑣𝑔)
𝑃𝑇 ≈ 𝑃𝑂𝑁(𝑎𝑣𝑔) + 𝑃𝑆𝑊(𝑎𝑣𝑔)
1
𝑃𝑇 = 𝑑. 𝑉𝐶𝐸(𝑠𝑎𝑡) . 𝐼𝐶 + 𝑉𝐶𝐸(𝑚𝑎𝑥) . 𝐼𝐶(𝑚𝑎𝑥) . 𝑡𝑆𝑊 . 𝑓
𝜋
33
EXEMPLO
Ex. 1.6) Um interruptor transistorizado, com as seguintes características,
controla a potência para uma carga de 25 kW. A fonte de tensão VS=500V e
RL=10Ω. Se a frequência de comutação for de 100 Hz com um ciclo de
trabalho de 50%, determine:
a) A perda de potência no estado ligado;
b) A perda de potência no estado desligado;
c) A perda máxima de potência durante a ligação do interruptor;
d) A perda de energia durante a ligação do interruptor;
e) A perda de energia durante o desligamento do interruptor;
f) A perda de energia durante o estado ligado;
g) A perda de energia durante o estado desligado;
h) A perda total de energia;
IRATED = 50 A
VRATED = 500 V
ILEAKAGE = 1 mA
VCE(sat) = 1,5 V
tempo de ligação tSW(ON) = 1,5 μs
tempo de desligamento tSW(OFF) = 3,0 μs 34
EXEMPLO
Ex. 1.7) Resolva os itens de d) a i) do Exemplo 1.6, para o caso em que
a frequência de comutação é modificada para 100 kHz com ciclo de
trabalho de 50%.
d) A perda de energia durante a ligação da interruptor;
e) A perda de energia durante o desligamento da interruptor;
f) A perda de energia durante o estado ligado;
g) A perda de energia durante o estado desligado;
h) A perda total de energia;
i) A perda média de potência.
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EXEMPLO
Esses exemplos mostram com clareza que, em frequências
baixas de comutação, as perdas de potência no estado ligado
predominam no cômputo das perdas totais.
À medida que aumentamos a frequência de comutação, as
perdas de potência por comutação passam a predominar. Nas
frequências mais altas, a dissipação média de potência se torna
também mais alta (1895 W). É claro que o transistor de 50 A não
pode dissipar o calor gerado e sofrerá superaquecimento.
Portanto, a frequência máxima na qual o interruptor pode
operar depende não somente da dissipação de potência no
interruptor, mas também da velocidade de comutação. O valor de
corrente permitido para o interruptor deve também ser elevado em
frequências mais altas.
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Bibliografia
1. Ashfaq Ahmed, Eletrônica de Potência, Prentice Hall, 1ª
edição, 2000. – Capítulo 1
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