Lei preambular
(Decretó-Lei n.° 29 :637, de 28 de Maio de 1939)
Usando ~da faculdade co,n'ferida pela 2.g parte do n,.0 2. 0 do
artigo 109.11 da Constituição, o Governo decreta e eu promulgo,
para valer como lei, o seguinte :
ARTIGO 1 .°
(Promulgação)
É aprovado o Código de Processo Civil, que faz parte da
presente lei.
Sobre a história do Código, o seu sistema e as suas características
pode ver-se a Revista de Legislação, ano 72 .1 , págs. 2 17, 81, 97, 113, 161
e 193 . Pode ver-se ainda a Gazeta da Relação de Lisboa, ano 53 .0, n .°' 3~ e 4
e Prof . Barbosa de Magalhães, Estudos sobre o novo Código de Processo
Civil, pág . 179 .
ARTIGo 2 .°
(Começo da vigência do Código)
O Código começará a vigorar -em todo o continente e ilhas
adjacentes no dia 1 de Outubro do corrente ano.
ARTIGO 3 .°
(Revogação do direito anterior)
A partir do início da sua vigência fica revogada toda a legis-
lação anterior sobre processo civil e comercial, e designadamente
o Código de Processo Civil de 8 de Novembro de 1876, o Decreto
n.° 4 :618, de 13 de julho de 1918, o Decreto n.° 21 :287, de 26
Lei preambular
de Maio de 1932, o Decreto n° 21 :694, de 29 de Setembro de 1932,
o Código de . Processo Comercial de' '14 de 'Dezembro de 1905
e o Código de Falências, aprovado pelo Decreto in.° 25 :981,
de 26 de' Outubro de 19315
§ único . Fica salva a legislação de processo contida no
Código do Trabalho e no Código da Estrada, bem como a legis-
lação especial de processo sobre liquidação de casas bancárias
e sobre expropriações por utilidade pública .
A disposição deste artigo tem dado lugar a várias dúvidas, umas
descabidas, outras fundadas. Pode ver-se a este respeito, a Gazeta da
Relação de Lisboa, ano 5~.°, n.°' 9, 1'1, 15 e 17 a 20, Prof. Barbosa de. Maga
lhães, Estados citados, págs. 191 a 2316 e Dr. 'Palma 'Carl'os, Código de
Processo Civil anotado, fasc. 1."; pág . 39.
É muito difícil formular um preceito que defina com todo o rigor a
repercussão ydum Código sobre a legislação anterior. Em principio um
Código, porque compendia e fixa todo o regime legal sobre determinada
matéria, deve revogar toda a legislação anterior relativa a. essa matéria .
Por isso se determinou que, a partir do inicio da vigência do novo Código,
ficava revogada toda a legislação anterior sobre processo civil e comercial,
semelhantemente ao que se prescrevera no artigo 4.o da Carta de Lei de 8
de Novembro de '187% e diferentemente do que se dispusera no artigo . E5 .°
da Carta de Lei de 1 de Julho de 1867 e na primeira parte do artigo 3.*
da Carta de Lei de 28 de Junho de 1888.
Mas não pode dar-se ao princípio de revogação do direito anterior
o carácter rígido cabsoluto que fica assinalado . Há sempre, dispersa por
vários diplomas, legislaçãq da natureza daquela que o Código contém e
que não pode varrer-se com uma penada, porque é necessária e útil a sua
conservação. Toda a dificuldade do problema dia revogação do direito
constituído anteafiormente está em fixar os limites do princípio geral,
isto é, em determinar com precisão qual a legislação anterior que deve
escapar à acção revogatória do novo Código.
O § único do artigo 3." ressalva a legislação de processo contida no
Código. do trabalho e no Código da estilada, bem como a legislação espe-
cial de processo sobre liquidação de casas bancárias e sobre expropriações
por utilidade pública. Parece, pois, que foi esta a única legislação de pro-
cesso civil e comercial, anterior ao Código, que este deixou de pé : toda
a restante legislação de processo civil e comercial, ou seja geral ou seja
especial, ou tenha no Código correspondência ou não tenha, deve consi-
derar-se revogada.
Assim deveria ser, numa interpretação apertada e severa do artigo 3.o
Mas o legislador não quis, com certeza, ir tão longe. Por exemplo, a legis-
lação de processo civil inserta no Código do Regisibo Civil, porque foi pro
vocada por necessidades especiais que a aplicação do processo comum
não lograria satisfazer, 9leve considerar-se em vigor .
DecretoLei ia.° . 29 :637, de 08 de Maio de 1939 3
ARTIGO 4.0
(Regime das alterações posteriores)
Todas as modificações que de futuro se fizerem sobre matéria
contida -no Código de Processo Civil serão consideradas como
fazenda parte dele -e inseridas 0o lugar próprio, devendo essas
modificações ser sempre efectuadas por meio de substituição
dos artigos alterados, supressão dos artigos inúteis ou pelo adi-
cioname, nto dos que forem necessários.
ARTioo 5.°
(Aperfeiçoamento do Código)
Compete à Procuradoria-Geral -da República receber todas
as exposições tendentes ao aperfeiçoamento do Código e propor
ao Gmrerno todas as providências que para esse fim entenda
convdnientes .
ARTiGo 6.°
(Extensão às Colónias)
Fica o Governo autorizado a tornar o Código de Processo
Civil extensivo ao Império Colonial, . com as modificações que as
circunstâncias especiais das colónias exigirem .
Publique-se e cumpra-s, e como nele se contém .
Paços do Governo da República, 28 de Maio de 1939. -
ANTóNIo VSCAR DE FRAGOSO CARMONA-- António de Oliveira
Salazar - Mário Pais de Sousa - Manuel Rodrigues júnior
-- Manuel Ortins de Bettencourt - Duarte Pacheco -Francisco
José ~Vicira Machado - António Faria Carneiro Pacheco - João
Pinto da Costa Leite - Rafael da Silva Neves Duque.
O Governo usou desta autorização publicando a Portaria n.o 9 :605,
de 20 de Julho de 1940, depois substituída pela Portaria n.° 9 :677', de 30
de Outubro de 1940, . cujo texto vai adiante inserto.
4 Decreto-Lei n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1939
Decreto-Lei n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1939
AwriGo 1 .°
, Os artigos 60 .°, 471 .°, 47'4 .°, 791 .°, 792 .°, 806 .0 e o § único
do artigo 93'3 .° do Código de Processo Civil passam a ter a
redacção seguinte :
ARTIGO 2.°
É inserto entre o artigo 1162 .° e o artigo 1'164.° do Código
de Processo Civi! um artigo do teor seguinte :
2
ARTiGO 3.°
A alçadá das Relações é de 20 .000$09 e a dos tribunais de
comarca de 6.000$00, qualquer que seja a natureza dos bens .
§ 1 .° Admitem sempre recurso até ao Supremo Tribunal de
justiça:
1 .° As decisões recorridas com fundamento na incompe-
tência absoluta do tribunal ou na ofensa do caso julgado ;
2.° 0 despacho que fixar à causa, aos incidentes ou aos
próeessos preventivos e conservatórios valor contido na alçada
do tribunal de .comarca ou da Relação, se o recurso for inter-
posto com o 'fundamento de que o valor excede a alçada ;
3.° Quaisquer outras 'acções ou incidentes em que por lei
especial seja admitido tal recurso.
§ 2.° A matéria de alçadas é regulada pela lei em vigor ao
tempo da propositura da acção.
Nas colónias a alçada das Relações passa a ser também de 20 .000$00;
mas a alçada do tribunal de comarca é fixada em 3.000$00 (Portaria
n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940, n.° 18 .°) .
O texto vai inserto nos lugares próprios .
Vai no lugar próprio.
Decreto-Lei n.' 29 :950, de 30 de Setembro de 1939 5
Os n .*' 11 .o e 2.* do § 1.° reproduzem o que se encontra no artigo 678 .*
do Código ; o n .o 3 .* e o § 2' repetem o que se lê no n.o 3 .° e no § 2 .° do
artigo 77 .° do Estatuto Judiciário .
ARTIGO 4 .°
'0 tribunal colectivo intervirá . n o julgamento das causas de
valor superior a 6..000$00, exceptuadas únicamente as causas de
processo especial cujos termos 'excluam a intervenção desse tri-
bunal .
Nos incidentes, nos processos preventivos e conservatórios
e nas execuções o tribunal 'colectivo só intervirá nos casos em
que se mandam seguir os termos do processo ordinário ou sumário
de declaração e quando o valor exceda o limite indicado .
§ único . As 'questões de facto da competência dos tribunal
colectivo são as que hajam de s-er julgadas a final .
Sobre a constituição do tribunal colectivo nada se dispôs e por isso
continua em vigor o que se achava estabelecido anteriormente (Decreto
n .° 21 :69'4, de '29 de Setembro de 1932, art . 13 . 0 ) .
Quanto à competência do mesmo tribunal alterou-se o que estava
legislado . As alterações dizem respeito ao valor, à natureza das causas
e à espécie das questões.
Valor. O tribunal colectivo só intervinha nas causas de valor supe-
rior a '7.0 .000$00 ; passou a intervir nas de valor superior a 6 .000$00 .
Causas . Há que distinguir entre acções de declaração pròpr~ame`nte
ditas, execuções, incidentes e processos preventivos e conservatórios .
a Acções. Se à acção oorresponde o processo comum o tribunal
colectivo intervém sempre, desde que o valor exceda 6 .000$00 ; passou,
portanto, a intervir nas acções de processo sumário de valor superior ao
quantitativo indicado .
Se à acção cabe processo especial, o tribunal colectivo intervirá ou
não, conforme os termos do processo respectivo comportem ou excluam
a sua intervenção .
De um modo geral pode dizer-se que o tribunal colectivo intervém
nas acções de processo especial em que, em certa altura e dadas certas
circunstâncias, se mandam seguir os termos do processo ordinário ou
sumário (arts. 952 .°, 953 .o, 9.60 .°, 958 .° o 961 o, 974 .o e 982 .', 1009 .o,
", 1015.',
1027.°, 102'8°, 1032 . 1 , 105'1 °, 1053f, 1057.0, 1060 .°, 1062 .0 9 1070 .° , 1109 .",
1'117 ", 1118 .°, 1121 ",112!6.°, 1132 ., 1541 .°) .
No processo de falência o tribunal colectivo intervém no julgamento
do pedido de declaração da falência (art . 1144.°) e no julgamento dos
embargos' opostos à sentença de declaração (art. 1150 .°) .
6 Decreto-Lei .n.° 29 :950, de 30 de Setembro de 1989
lÉ duvidoso se terá de intervir na verificação dos créditos ('art. 119U),
parecendo que o artigo 1194 .' quis reservar para o juiz a decilsão de todas
as questões .
No processo de inventário pròpriamente dito não há intervenção do
tribunal colectivo . Este tribunal só terá 'de intervir no julgamento das
contas do cabeça-de-casal quando hajam de ~ir4se, por aplicação do
artigo '1015 .o, aos termos do processo ordinário ou sumário (art. 1018.°), e
na acção ordinária ou sumária a que se referem o artigo 1426 .* e o n ° 2 .°
do artigo 1427.°
Excluem a intervenção do tribunal colectivo os termos dos seguintes
processos especiais : expurgação-8e hipotecas nos casos dos artigos 999"
e 1001 .°, contas do tutor, curador ou administrador e do deposiltár§o
(arts . 11019' e 1022 .1) embargos de terceiro (art . 1038 .'), posse judicial
(art . '1045:°, Rev. de Leg ., ano 73 .°, pág . 298), reforma de autos e de livros
(arte . 1076.0 e 1081'), recurso dos conservadores (arte . 1083', 1086.°
e 1088.°),acções de perdas e danos contra magistrados (art . revi-
são de sentenças (art. 1101 .°), abertura de testamento cerrado (art. 1113'),
cessação da curadoria (arte . 11164 .° a 611'16'), contas do administrador da
falência (art. 12365.°), incidentes do inventário (arts . 1489 .° a 1443 :°) e todos
os processos de jurisdição voluntáriã (arts. 1452.a e sega .), exceptuado o
de redução do capital social (1541 .o) .
b) Execuções. No processo de execução o tribunal colectivo só inter-
vém para o julgamento dos embargos de executado (art. 817 .°, último
período) e para a verificação dos créditos (art . 868.°) . Não intervém na
liquidação (Rev . dos Trib ., ano 58.°, pág . 300) .
c) Incidentes. Relativamente aos incidentes da instância, regulados
nos artigos 310' e seguintes o tribunal colectivo intervém unicamente no
julgamento da, falsidade e da liquidação quando estes incidentes surjam
em causa que exija a intervenção do referido tribunal (arts. 369:° e 385,°) .
d) Processos preventivos e conservatórios . Aqui a intervenção do
tribunal colectivo só tem lugar para o julgamento dos embargos opostos ao
arresto, ao embargo de obra nova e à imposição de selos e arrolamento
(arts . 41'5 .°, 425 .o, '§ 1', e 413 .5') .
Espécie das questões . Continua a ser restrita às questões de facto que
hajam de ser julgadas a final, a competência do tribunal, colectivo . Mas
além dos factos provados por confissão ou acordo das partes e por documeri
tos autênticos ou autenticados, excluem-se também os que se acharem
provados pelos documentos particulares a que se refere o artigo 542'
. 6563:°, alínea g) .
(art
Nas Colónias não há tribunal colectivo . 0 juiz julga de facto e de
direito (Port . ri .° 9 :677, n .° 14 .°) .
ARTIGO 5 .°
lEnquanto não é publicado o novo Estatuto judiciário conti-
nuam em vigor as disposições dos artigos 46 .° a 68 .°, inclusive,
Decreto-Lei n.° $9 :950, de 30 de Setembro de 1,939 7
do Código de Falências aprovado pelo Decreto n.° 25 :981, de 26
de Outubro de 1035, e respectiva tabela anexa.
ARTIGo 6.°
As multas a aplicar em .processos cíveis serão fixadas, salvo
disposição especial em contrário, elntre 50$00 e 1 .000$00 e do
seu montante reverterão 50 Jo para o Cofre do :tribunal e 'Ordem
dos Advogados, em partes iguais, constituindo os restantes 50 %
receita do !Estado.
único. As multas a impor aos litigantes de má fé serão
de 500$00 a 50.000$00e reverterão, em partes iguais, para o Estado,
Cofre do tribunal e Ordem dos Advogados.
Nas Colónias o produto das multas reverte para o Estado e, cofre
do juízo, em partes iguais (Portaria n.o 9 :677, n.° 13.°) .
V+aja-se o Código das Custas, artigos 14'5 .' e 146.'
ARTiGo 7 .0
São suprimidos, 'à medida que vagarem, um lugar de juiz-
-Conselheiro no quadro do Supremo Tribunal de justiça e dois
,de desembargador no de cada uma das Relações de Lisboa e
Porto.
ARTIGO 8.°
É extifnto o 10.° Tribunail CrimInal de Lisboa, passando o
circule, judicial n.° 48 a ser formado peias comarcas de Almada
e Montijo, e - os respectivos tribunais colectivos a ser compostos
pelo juiz - da comarca onde o processo correr, pelo seu substituto
.e pelo juiz da outra comarca.
ARTIGO 9.°
Os processos pendentes no 10." Tribunal Criminal, agora
extilnto, serão distribuídos entre os restantes tribunais criminais,
ficando os livros de registo na Repartição ida Distribuição-Geral
dos Tribunais Criminais .
único. Os processos 'findos entrarão no arquivo judicial.
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940
ARTIGO 1.0 .°
Os chefes de secretaria e de secção, seus ajudantes e os
oficiais do extinto X10.° Tribunal Criminal de Lisboa ficarão, como
adidos, percebendo cinco sextos dos seus vencimentos e serão
eol»cados em -lugares de correspondente categoria, nas vagas que
ocorrerem em comarca da respectiva classe, e preferentemente na
de Lisboa.
único. Os funcionários mencionados neste artigo, enquanto
se mantiverem na situação de adidos, poderão ser mandados
prestar serviço, pelo Ministro da justiça, na secretaria dos tri
bunais crimiriais de Lisboa, mediante proposta do presidente da
respectiva 'Relação .
ARTIGO I I .'
'Este decreto-lei entra em vigor no dia 1 de Outubro.
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940
Manda o Governo da República Portuguesa, pelo Ministro
das Colónias, ouvido o Conselho Superior judiciário das Coló-
nias e nos termos ido artigo 911 .° da Carta Orgânica do Império
Colonial Português e artigo 6 .° do Decreto-Lei n.° 29 :637,, de 28
doe Maio de: 1939, que sejam publicados em -to-das as colónias,
para começarem a vigorar em, '1 de janeiro de 194,. o Código
de .Processo Civil, aprovado pelo mesmo decreto, e o Decreto-Lei
wQ 2!9,950, de 30 de 1Setembro de 1939, que alterou o referido
Código, devendo na sua aplicação observar-se o seguinte :
Sempre que nas comarcas não haja advogado nem solici-
tador e a lei exija a sua intervenção, o mandato judicial pode ser
exercido por procurador judicia4 ou por quem o juiz nomear para
este . fim .
Portaria n.° 9 :677, . de 30, de Outubro de '1940 9
Se a parte não dncontrar ~quem aceite voluntàriamente o seu
patrocínio, poderá requerer ao. juiz para lhe nomear representante,
-que o exercerá sem necessidade -de outra 'formalidade .
A nomeação será feita sem demora e, notificada ao nomeado,
,que pciderá alegar escusa dentro de quarenta e oito horas. Na
falta de escusa, ou quando esta não seja julgada legítima, deve
9 no-meado exercer o patrocínio, sob pena -de suspensão até seis
meses ou de multa se o nomeado não exercer funções de advocacia
,od procuradoria .
Em todas as disposições onde se encontrarem as -expressões
«Tribunal de Lisboa», «Diário do Governo» e «Caixa Geral' de
Depósitos» deverão entender-se e ser substituídas respectivamente
por «juízo (Ia comarca sede da .colónia», «Boletim Oficial» e «esta-
belecimento onde têm lugar os depósitos judiciais» .
A competência expressa no artigo 95 .° cabe apenas aos
juízes municipais especiais . Quanto aos juízes municipais não
especiais e aos juízes instrutores, essa competência é limitada
a 2.000$00.
Quando o Código se referir a «chefes de secretaria», «fun-
cionários de secretaria», «secretaria» e «secções», e se não trate
de actos praticados nas Relações, deve entender-se por «escrivães»,
«ajudante de escrivão», «contador» e «cartório», conforme os
casos.
,O disposto no artigo 139.° é aplicável a todos os que não
souberem a língua portuguesa .
10 ;Portaria n.° 9:677, de 30 de Outubro de 1940
Será -o juiz quem recebe os articulados e assina os mandados
depois de subscritos pelo escrivão .
8.0
A acção disciplinar da Ordem dos Advogados e da Câmara
dos Solicitadores será sempre exercida pelo juiz, na parte apli-
cável .
A expressão «regedor» deve entender-se sempre por «autori-
dade administrativa local» .
'10.°
,Os prazos de dilação a que se refere o artigo '180.° e todos
aqueles que tenham por fim a realização de diligências a que
a parte tenha de assistir pessoalmente podem ser alterados pelo
juiz, segundo o seu prudente arbítrio, tendo em atenção a dis-
tância, a facilidade ~de comuinicações e a natureza das diligências .
Não é aplicável o artigo 209.° e seu parágrafo, devendo a
distribuição ser feita na Relação pelos juízes e nas comarcas pelos
escrivães.
As expressões «continente ou ilhas adjacentes» e «-País .»
devem entender=se por «co-lónia» .
13 .°
O produto das multas a que se refere o artigo 6.° do Decreto-
Lei n.o 2!9,:9450 reverterá para o Estado e cofre do juizo, em
partes iguais .
;Portmria n .° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 11
14 .°
Não são aplicáveis ás disposições relativas ao tribunal colec-
tivo, cuja acção e função continuam a ser -da exclusiva compe-
t-ência do juiz, que julgará de direito e de facto.
15 .°
A espécie 7.8 do artigo 2.22.° terá a seguinte divisão :
1'1. Autos de pobreza e inventários até 1 .000$00
2.° Inventários de mais 'de 1 .000$00 até X5 .000$00
3.° Inventários de mais de '5 .000$00 até 10 .000$00
4.° Inventários de mais de 10 .000$00 até 50 .000$00
5.°' Inventários de mais de 50 .000$00 até 100.000$00
6.° Inventários de mais de 100.000$00 até 500.000$00
7.° Inventários de mais, de 500.000$00.
Os inventários abrangidos nos p .°" 1 .° e 2.° e os processos
de espólio até 10.000$00 são isentos de custas e selos ; e no n .° 3.°
haverá. direito à rasa na percentagem de 30 por cento e ao emolu-
mento único de 10$00 para o contador.
A acção atribuída à Tutoria da Infância é exercida pelo poder
do juiz e o conselho de tutela continua a ser constituído nos ter-
mos da legislação anterior .
117.'
As notificações ; citações e avisos só serão feitos pelo correio
quando houver distribuição domiciliária na localidade ; fora destes
casos terão 'lugar por meio de mandato.
As alçadas das Relações são de 2.0 .000$00 e as dos juízes
de direito de 3 .000$00, qualquer que seja a natureza dos bens .
lá Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940
Não têm aplicação as disposições relativas a síndicos, cujas
atribuições serão exercidas pelo juiz e curadores fiscais nos ter-
mas da legislação anterior .
20 .°
As publicações exigidas nos jornais serão feitas no Boletim
Oficial quando não houver jornal na colónia.
21 .°
Em processo sumário os depoimentos serão sempre escritos,
excepto quando prestados em, audiência e as partes tenham pres-
cindido de recurso.
22 .°
A -decisão -do Tribunal da Relação será tomada por três votos
conformes e, se não houver conformidade, o processo irá !com
vista a tantos juízes quantos os necessários para obter vencimento
e, se ainda não houver vencimento, o processo será remetido para
a Relação de Lisboa .
23 .°
-Nas colónias de Timor, Macau e índia os valores em escudos
serão convertidos na moeda local, ao câmbio do dia :
a) Da propositura da acção, execução ou outro -processo,
quando se trate de valores para efeitos de alçadas -e de custas ;
b) Do vencimento da obrigação nos casos em que deva,
por !lei, :ser considerado esse valor ;
c) Da distribuição, quanto aos inventários, heranças jacen-
tés e processos análogos ;
d) 'Da prática do acto, qua!n+do a lei a este mande atender .
Nas restantes colónias considerar-s-e-á o seu escudo equiva-
lente .a o da metrópole.
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 13
24.°
O disposto no artigo 140.° será aplicável aos documentos
escritos em língua ou dialecto falados na região que não consti-
tuam simples variante da língua portuguesa .
25.°
O preceito do artigo 180.° é aplicável às cartas que, expe-
didas pelas colónias mencionadas nas alíneas c), d) e e), hajam
de ser cumpridas na metrópole ou nas ilhas adjacentes, sendo
o prazo da dilação o que nas referidas alíneas está fixado para
a hipótese contrária .
26.°
A regra estabelecida no número antecedente aplicar-se-á
anàlogamente aos casos previstos no artigo 181 .°
27 .°
Na certidão a que se refere o artigo 232.° o oficial de dili-
géncias identificarg as testemunhas pelos seus nomes, -estado,
profissão e morada.
28.°
As informações que pelo referido Código são colhidas do
pároco e do regedor serão nas colónias obtidas do pároco ou do
missionirio ou da autoridade administrativa local.
29.°
Ao artigo 588.° -devem acrescentar-se :
Os governadores gerais ;
Os governadores -de colónia ;
Os governadores de província ;
Os governadores de distrito .
14 Portaría n.°, 9 :677, de 30 de Outubro de 1940
30 .'
Ao n.° 6;' do artigo 5'88,° devem ser aditadas as seguintes
palavras : «salvos - os casos prevenidos na 1 .8 -parte do artigo 595.0,
na 3.' parte !do -mesmo artigo e na segunda parte -do artigo 604.°x ..
31 .°
No n.° 2.° do,artigo X89 .° devem acrescentar-se as seguintes
palavras : «e os missïonários católicos portugueses» .
32 .°
-O disposto no artigo 6'31 .° é extensivo aos :
Governadores gerais ;
Governadores de colónia ;
Governadores de província;
Governadores de distrito ;
Presidentes das Relações ;
Procuradores da República.
Tratando-se do Presidente da República, a comunicação a
que se refere o § 1 .° será feita por intermédio do Ministério da
Colónias, que a transmitirá ao Ministério da justiça, seguindo-se-lhe
os demais trâmites .
Tratando-se de governadores ou de magistrados, aplicar-se-á
o determinado nos §§ 2.° e 3.° do citado artigo .
33 .'
As bolsas á que se referem os artigos 8'82 .°, 883.° e 884.°
serão as da metrópole, devendo para este efeito expedir-se as
cartas precatórias, que necessárias forem.
34 .°
Nos editais e anúncios exigidos pelo artigo 890.' serão os
móveis identificados por_'forma a determinar-se bem, a sua quali-
Portaria n.° 9 :677, de 30 de Outubro de 1940 15
dade, natureza, substância, espécie e demais elemerrtos conve-
nientes à sua individuação ; e declarar-se-á também o valor em
que cada um vai à praça.
35 .°
~N2,s comarcas do Estado da índia, sempre que o executado
use da faculdade conferida pela 2.g parte do artigo 894.°, e bem
assim rios casos do artigo 904.°, deve o prétend-~.lte ou o arrema
tante depositar metade do preço oferecido, devendo o depósito
ser feito : quanto ao arrematante, no acto da praça, -e, quanto ao
pretend.ente, no prazo de cinco dias contados da data do ofereci-
mérito feito pelo executado.
36 .°
Nas comarcas do distrito judicial de Nova Goa ter-se-á em
consideração o seguinte, quanto às comunidades agrícolas :
a) A citação pessoal será feita na pessoa do administrador
ou de quem o substituir ;
b) As comunidades podem usar contra sacadores e terlos,
devedores e seus fiadores, ou contra aqueles que, por qualquer
modo, se constituírem depositários cie seus dinheiros, das acções
e privi6dgios que por lei competem à Fazenda Nacional para a
arrecadação dos seus créditos, nos termos do Código das Comu-
nidades, aprovado pelo diploma legislativo n.° 651, do Estado da
índia, de 30 de Março de 1933 ;
c) As comunidades serão representadas em juizo nos ter-
mos do artigo 12 .° do referido Código das Comunidades ;
.d) As penhoras por dívidas das comunidades poderão recair
nos seus créditos, rendimentos líquidos que constarem da folha
de receita e despesa e em quaisquer outros .'lucros, mas nunca
nos buas imobiliários ;
A penhora far-se-á sempre nas mãos do tesoureiro da comu-
nidade, com assistência do respectivo escrivão, que, sob sua
responsabilidade, dará dela conhecimento, dentro de vinte e qua
tro horas, ao administrador, para os fins convenientes ; o escrivão
do processei declarará no auto da penhora a quantia exequenda
e acessórios ;
16 Portaria n.° 9:677, de 30 de Outubro de 1940
e) Os proventos do jorro dos componentes das comunidades
e os direitos aos proventos futuros só podem ser arrestados ou
penhorados por dívidas dos mesmos às comunidades ou aos
sub-rogatários destas ;
Fora deste caso poderá arrestar-se ou penhorar-se ìmicamente
a importância vencida dos mesmos proventos à qual tenham direito
ao tempo da penhora.
37 .0
Nas comarcas de que trata o n .° 36 .° observar-se-á o seguinte,
quanto às famílias gentias :
a) A citação pessoal a qualquer membro de família gentia
será feita na pessoa do maioral ou do administrador dela, ou de
quem suas vezes fizer, conforme os usos e costumes mandados
observar pela lei civil ;
b) As famílias gentias que habitem a mesma casa e vivam
sob a mesma economia doméstica são consideradas, para ps efeitos
do Código de Processo, como sociedades familiares, regidas e
administradas, na conformidade dos respectivos usos e costumes,
pelo maioral ou administrador legitimamente constituído, o qual
será o competente para as representar em juízo.
38.°
Mantêm-se em pleno vigor os artigos 770.°, 771 .° e 772.° do
Código de Processo Civil aprovado por Carta de Lei- de 8 de
Novembro de 1876 .
Es'ta portaria substitui, para todos os efeitos, a Portaria
n.° 9 :605, publicada no Diário do Governo, de 20 de julho de 1940 .
Para ser publicada nos «Boletins Oficiais de todas
as colónias .
Ministério das Colónias, 30 de Outubro de '1940.-0 Ministro
das Colónias, Francisco José Vieira Machado.
Código de Processo Civil
LIVRO I
Da acção
TITULO I
Da acção em geral
CAPITULO I
Das disposições fundamentais
ARTIGO l .°
(Proibição da auto-(Iefesa)'
A ninguém é permitido restituir-se ao exercício do seu direito
por sua própria força e autoridade, salvo nos casos e dentro dos
limites declarados na lei .
Código Civil, artigo 2'53,5.°
A z.uto-defesa é excepcionalmente permitida, por exemplo, nos casos
e termos dos artigos 4'86.°, 2'354 .° e 2367.° do Código Civil.
ARmlco 2.0
(Correspondência entre o direito e a acção)
A todo o direito corresponde uma acção, destinada a fazê-lo
acautelar ou reconhecer em juízo e a 'torná-lo efectivo, excepto
quando a lei expressamente determinar o contrário .
` É, claro que estas epígrafes não são oficiais ; são da responsabili-
dade do autor desta publicação .
2-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
is Livro I, Título 1.-Da acção em geral
Como direitos desprovidgs de acção, porque a lei expressamente a
nega, podem citar-.se o direito à quantia emprestada a menor sem á devida
autorização (Cód . Civ., art . 1'535 .") e o direito à quantia ganha ao jogo
(Cód . Civ, art. 1,542°) .
ARTIGO 3 .°
(Necessidade do pedido e da contradição)
0 tribunal não pode resolver o conflito de interesses que a
acção pressupõe sem que a resolução' fhe seja pedida por uma
das partes e a outra seja devidamente chamada para deduzir
oposição . Mas em casos excepcionais previstos na lei podem
tomar-se providências contra determinada pessoa sem que esta
seja previam-ente ouvida .
Este artigo teve por fonte os artigos 1 .' e 3 .o do Projecto de Código
de Processo Civil italiano de CARNELUM . O Código italiano actual con-
sagra a mesma doutrina nos artigos 99 .° e '101 .'
Exemplos-de casos excepcionais em que podem tomar-se providências
contrá determinada pessoa sem. que esta seja ouvida : artigos 400 .° (resti-
tuição provisória de posse) 406 .° (providências cautelares), X410.° (arresto),
X4'23 .° (embargo de obra nova), 431 .°, § 3 .° (arrolamento), 94'7.0, combinado
com o 951^ (interdição por demência) , 960" (interdição por prodigalidade),
11412 ." (declaração da falência) .
Nos casos de arresto e de restituição provisória da posse o Código
proibe a audiência do arrestado e do esbulhados ; nos casos de providências
cautelares,'embargo de obra nova, arrolamento e falência permite a audiên
cia, mas não a exige. Pelo que respeita à interdição por demência e por
prodigalidade, - o arguido é ouvido, por si ou pelo seu representante ; mas
não lhe é facultada a oposição ao pedido como nos outros processos ou
s6 lhe é facultada depois de decretada a interdição .
ARTIGO 4 .°
(Espécies de acções e seu fim)
As acções são de simples apreciação ou declaração, de
condenação, . conservatórias, -constitutivas -e executivas . Têm
por fim :
a) As de simples apreciação, obter ìmicamente a declaração
da existência ou inexistência dum direito ou dum facto ;
b) As de condenação, exigir a prestação duma cousa ou
dum facto ;
Capítulo I-Das disposições fundamentais 19
,c) As cobservatórias, acautelar um prejuízo que se receia ;
d) As constitutivas, autorizar uma mudança na ordem juri-
dica existente ;
e) As executivas, dar realização efectiva ao direito
declarado .
A alínea a) pôs termo à dúvida que se levantava sobre a admissi-
bilidade, no nosso direito, de acções de simples apreciação . A tese da
admissibilidade foi sustentada brilhantemente pelo sr, Dr. Beleza dos
Santos (A simulação em direito civil, vol . 2.', págs. 1'4 e segs.) ; no mesmo
sentido me pronunciei no Processo ordinário, 2.' edição, pág. 240 . Mas
nos tribunais havia relutância em dar foros de legalidade a essa figura
judiciária ; era sobretudo na sua forma negativa que a acção de simples
apreciação encontrava resistências profundas . 'Tendo-se proposto uma
acção de negação de maternidade {acção de simples apreciação negativa),
a Relação de Coimbra não a considerou admissível (Veja-se o Proc. ord .
cit ., pág. 240) .
Hoje a questão está resolvida . Pode propor-se uma acção de simples
apreciação, quer sob a forma positiva (acção destinada a fazer declarar
a existência dum direito ou dum facto, como a acção de declaração'da
validade do casamento, a acção tendente a fazer reconhecer como verda-
deiro um título de crédito, etc .) quer sob a forma negativa (acção proposta
para se obter a declaração da inexistência dum direito ou dum facto, como
a acção de negação de paternidade ou maternidade, a acção de impugnação
da legitimidade dum filho) .
O Supremo Tribunal de Justiça decidiu recentemente que é lícito
ao pretenso pai propor acção destinada a convencer judicialmente
certo indivíduo de que não tem direito a arrogar,se a qualidade de
filho dele.
O que caracteriza a acção de simples apreciação e a distingue da
acção de condenação é a ausência de lesão ou violação do direito . A acção
de condenação pressupõe um facto ilícito, isto é, que o direito já foi vio
lado; a acção de simples apreciação é anterior à violação do direito ou
tudo se passa como se o fosse. Por outras palavras, a acção de condena-
ção representa uma reacção contra determinada violação da ordem jurí-
dica, contra a falta de cumprimento duma obrigação ; e como prata pode
consistir ou na- prestação duma coisa ou na prestação dum facto, a acção
tem por objecto exigir a prestação que deixou de ser satisfeita .
'Na acção de simples apreciação não ,oe exige do réu prestação alguma,
porque não se lhe imputa a falta de cumprimento de qualquer obrigação.
O autor tem simplesmente em vista pôr termo a uma incerteza que o
prejudica : incerteza sobre a existência dum direito ou dum facto.
A ;acção de condenação é também uma acção de apreciação ; antes
de condenar na prestação o juiz tem d(e apurar se o direito do autor
existe . Mas a apreciação aparece aqui como meio para se chegar a um
20 Livro I, Título I - Da acção em geral
fim último : a condenação ; ao passo que na acção de simples apreciaçãó,
o fim único da actividade jurisdicional é a apreciação .
Daí vem que a -sentença proferida na acção de simples apreciação
não é título executivo quanto ao objecto da acção ; visto que não condena
o réu a qualquer prestação, o autor não pode, com base nela ; promover
execução contra o ré1Y. Tal sentença só pode servir de base à execução
por custas, porque, quanto a estas, contém uma condenação.
Pelo contrário, a sentença proferida em acção de condenação, desde
que a julgue procedente, é título executivo contra o réu, porque há-de
condená-lo a prestar uma coisa ou um facto . E a significação clara desta
condenação é a ameaça da sanção executiva.
Quando o juiz diz «condeno o réu a pagar ao autor a quantia de . . . x,
nesta condenação vai implícita a seguinte cominação : «sob pena de, não
o fazendo, se proceder a execução sobre os seus bens> .
Exemplo característico da acção de condenação é a acção de dívida .
Não se suponha, porém, que só no domínio do direito das obrigações é que
surgem acções de condenação ; aparecem igualmente no domínio dos direi
tos reais, pois que o facto ilícito do réu tanto pode consistir na falta de
cumprimento duma abrigaçãa contraída, como na ofensa dum direito real .
A acção de reivindicação dum prédio é uma acção de condenação ; se
o juiz reconhecér que o réu está de posse doe prédio que pertence ao autor,
tem de condenar aquele a entregá-lo a este ; e caso o réu não obedeça à
condenação, o autor tens o direito de promover, com base na sentença, .
execução para a entrega do prédio.
A alínea c) define acções conservatórias as que têm por fim acau-
telar um prejuízo que se receia .
0 Código Civil contrapõe as acções conservatórias às persecutórias .
Com efeito, no n .° 9 .o do artigo 243 .o dá ao tutor legitimidade para propor-
acções conservatórias, sem necessidade de qualquer autorização, ao passo
que, tratando-se doe acções persecutórias, exige que o tutor obtenha auto-
rização do conselho de família ; e o n .' 17 .° do artigo 224 .° áonfirma esta
doutrina. Também o artigo 2083 .` confere ao cabeça-de-casal o exercício
de direitos conservatórios ; e o artigo 59 .° impele ao curador provisório dos
bens do ausente o dever de propor as acções conservatórias que não
possam retardar-se sem prejuízo do ausente, disposição que é aplicável
aos administradores dos bens do pródigo, por virtude do que se determina
no artigo 351 .o
Sobre estes textos se fez a seguinte construção : as pessoas investidas
de poderes de mera administração, como são efectivamente os tutores,
curadores e o cabeçarde-casal, podem propor acções conservatórias, mas
não podem propor acções persecutórias, salvo se obtiverem autorização
do conselho de família ou do juiz, conforme os casos, ou se for urgeprte
a proposição da acção .
Esta doutrina, cujo reflexo se encontra no artigo 12 .o do Código de
Processo, é que dá interesse à distinção entre acções conservatórias e
persecutórias A alínea c) caracteriza as acções conservatórias desta
Capítulo I -Das disposições fundamentais 21
maneira : têm por fim acautelar um prejuízo que -se receia. Se a acção
visa, pois, a reagir contra um prejuízo já efectivado, é persecutória ;
se visa a precaver contra um prejuízo que ;ameaça pi+oduzir-se, é conser-
vatória.
Exemplo típico de acções conservatórias são as providências caute-
lares, a que se refere o artigo 405 .", assim como o ai-resto'(art : 4,09f),
o embargo de obra nova (art. 420:°) e a imposição de selas e arrolámento
(art . 4:.9 .°) . Estes processos têm' no Código a configuração de actos pre-
paratórios duma acção, podendo também apresentar-se sob a forma de
incidentes (art . 3!91 .o) .
Mas a acção conservatória pode ter carácter autónomo . É o que
sucede com ;a acção possessória de prevenção, provocada pelo justo receio
de turbação ou esbulho (Cód . Civ . a rt. 485 .o , Cód, de Proc ., art . 1032 "), com
os embargos de terceiro funcionando como meio preventivo (art . 1039:°),
com a acção de despejo por não convir a continuação do arrendamento
(art . 9`i0 .0) e com a acção de prevenção contra o dano (art . 1051 .°) .
As acções constitutivas têm por fim autorizar uma mudança na ordem
jurídica existente «alínea d) . Ao passo que a acção declarativa (de simples
apreciação ou de condenação) reconhece ou aprecia uma situação preexis
tente, a acção constitutiva cria uma situação nova . Daí vem que os efeitos
da sentença proferida na acção declarativa se produzem ex tune, enquanto
os da :,entença proferida na acção constitutiva se produzemn ex nunc .
A acção de divórcio, a acção de separação de pessoas e bens são
acções constitutivas, porque se d stinam a criar um estado jurídico novo :
o estado de divorciado, o estado de separado . A criação deste estado,
que importa uma mudança na ordem jurídica existente, . é obra da sentença
que julga procedente a acção .
Deve também considerar-se constitutiva a acção de investigação de
paternidade ilegítima, porque a sentença favorável ao autor constitui-o
Tio estado de filho ilegítimo de certo indivíddo.
Na esfera dos direitos reais são numerosos os exemplos de acções
<".onstitutivas . As acções de expropriação por utilidade particular para a
constituição -da ,servidão de aqueduto -de cessação ou mudança de servidão,
de destrinça de foros e censos, de divisão de águas, de divisão de coisa
,comum (art . 1051 .') j de constituição da servid'ã'o de passagem para prédios
encravados (Cód . 'Civ., art . '2309 .°), de aquisição de comunhão em parede
ou mui^o alheio (Cód . Civ, art . 2328f), etc ., são constitutivas.
As acções executivas visam a dar realização efectiva ao direito
declarado (alínea e) . Esta noção ajusta-se principalmente à acção exe-
cutiva que é precedida de acção declarativa, isto .é , à execução fundada
em sentença . Nesta o tribunal declarou o direito e condenou o réu a
satisfazer certa prestação ; se o condenado não cumpre voluntàriamente
:. obrigação, o autor, querendo obter a realização efectiva do seu direito
declarado na sentença, promove contra o réu a acção executiva. Promo-
vendo-a,, solicita os órgãos jurisdicionais do Estado para que desenvolvam
22 Livro I, Título I -Da acção em geral
a sua actividade no sentido de lhe conseguirem, contra ou sem a vontade
do devedor e à custa do património deste, o mesmo benefício que lhe
traria o cumprimento voluntário da obrigação, ou um benefício equi-
valente.
Mas a acção executiva nem sempre tem por base uma sentença ;
pode assentar sobre os outros títulos executivos de que se fala nos n .°' 2 .'
a 5 .° do artigo 46 .o Em tal caso o direito, cuja, satisfação vai pedir-se na
acção executiva, não foi prèviamente apreciado e declarado pelos órgãos
jurisdicionais ; entretanto, a circunstância de a lei atribuir eficácia exe-
cutiva a tais títulos significa que o direito neles exarado se considera .
declarado . Uma vez que a ordem jurídica consente que a execução se
promova com. base -em títulos extrajurisdicionais, segue-se que o direito
aí consignado apresenta aos olhos do legislador, aquele grau de certeza
e segurança necessária para se sujeitar o devedor à responsabilidade
executiva, isto é, para que o órgão da execução expropriti o património
do devedor e dê, ã. custa dele, satisfação ao direito do credor .
Tem-se, portanto, como declarado o direito constante dos títulos
executivos extrajudiciais.
~CAPÍTULO 11
Das partes
SECÇAO I
Personalidade e capacidade judiciária
ARTIGO 5 .°
('Conceito e medida da personalidade judiciária)
A personalidade judiciária consiste 1na susceptibilidade de
ser parte . Quem tiver personalidade jurídica tem personalidade
judiciária .
ARTIGO 6 .°
(Personalidade judiciária sem personalidade jurídica)
A herança cujo titular ainda não esteja determinado e patri-
mónios autónomos semelhantes, as associações legalmente exis-
tentes e as sociedades civis não familiares podem ser partes,
embora-não tenham personalidade jurïdiça .
Capítulo II - Das partes 23
Alrria0 7 .°
(Personalidade judiciária das sucursais)
As - sucursais, agências, filiais ou delegações podem demandar
e ser 'demandadas quando a acção proceder de acto ou facto
praticado por, elas .
Único . Se a administração principal tiver a sede ou o
domicilio em país estrangeiro, as sucursais, agências, filiais ou
delegações estabelecidas em Portugal podem demandar e ser
demaridas, ainda .que a acção derive - de acto ou facto praticado
por aquela, quando a obrigação tiver sido contraída com um
portugu.és .
Alrrifjo 8 .°
(Personalidade das sociedades irregulares)
As sociedades e associações que não se acharem legal-
mente constituídas, mas que procederem de facto como se o esti-
vessem, não poderão opor, quando demandadas, a irregularidade
da sua constituição ; mas pode também a acção ser proposta
contra as pessoas que, segundo a lei, tenham responsabilidade
pelo respectivo acto ou facto .
§ único . Sendo demandada a sociedades ou a associação,
é-lhe lícito deduzir recon.venção .
Aarmo 9 .0
(Conceito e medida da capacidade judiciária)
A. capacidade judiciária consiste na susceptibilidade de
estar, por si, em juizo -e tem por base e 'por inedida a capacidade
do exercício ; de direitos .
O Código distingue a personalidade judiciária da capacidade judiciária .
Faz consistira primeira na susceptibilidade de ser parte, como autor ou
como réu, e a segunda na susceptibilidade de estar, por si, em juizo como
autor (capacidade judiciária activa), ou como réu (capacidade judiciária
passiva) . --
Esta distinção é paralela à que o Código Civil estabelece entre a capa-
cidade de direitos ou personalidade jurídica (Cód . Civ., art. 1 .°)` e a capaci-
dade do exerc~cio de direitos (Cód . Civ., arIts . 5., 9'8' .0, 314.° 337 .°, 3'40.°) .
24 Livro 1, Título I -Da acção em geral
Em princípio há coincidência entre a,personalidade jurídica e a per-
scnalidade judiciária (art . õ :'), assim como entre a capacidade db exercício
de direitos e a capacidade judiciária (art. 9 .") . 0 menor e o interdito por
clemência têm personalidade ju=rídica e por isso têm personalidade judi-
ciária ; mas como não possuem a capacidade do exercício de direitos, estão
também privados de capacidade judiciária (art . 10.") .
0 principio da coincidência entre a personalidade jurídica e a judi-
ciária e entre a capacidade de exercício de direitos e a capacidade judiciária
não é absoluto . Há desvios ; há casos ekn que se reconhece personalidade
judiciária a entidades que não têm personalidade jurídica (arts . 6 .', 7." e 8 ."),
e em que se reconhece uma certa capacidade judiciária a pessoas incapa-
zes de exercer os seus direitos (art . 13 .") . 0 acórdão do Supremo Tribunal
de Justiça de 2.5-3 :'-91 27 (Rev . de Leg., ano 60 .0, pág . 165) atribuiu indivi-
dualidade jurídica às sucursais, agências e filiais ; mas a doutrina não é de
aceitar . Veja-se o artigo A sociedade e as agências, sucursais ou, ,filiais,
no Boletim da Faculdade de Direito de Coimbra, vol . 1'5 .", fase . 2:", págs . 3,58
e seguintes . As sucursais, agências, filiais ou delegações são meros órgãos
através dos quais se exerce a actividade da administração principal ; são
órgãos de administração local, inteiramente subordinados à superintendên-
cia da administração central . Não têm personalidade jurídica . Por se abrir
uma sucursal ou agência não se modifica nem se restringe a personalidade
jurídica da sociedade ; unicamente se facilita a sua acção, criando-se con-
dições favoráveis ao exercício da actividade social numa determinada
localidade.
Para levar mais longe a facilidade de moviméntos, a lei permite que
as sucursais, agências, etc ., posto que não tenham personalidade jurídica,
demandem e sejam demandadas ; quer dizer, atribuiu personalidade judi
ciária às sucursais e outras delegações da administração central, a fim
de se realizar mais completamente o objectivo a que obedece a criação
de tais órgãos .
Mas a sua personalidade judiciária é limitada : só podem demandar
e ser demandadas quando a acção proceder de acto ou facto praticado
por elas, Mesmo neste caso, a personalidade judiciária dos órgãos locais
não faz -dc;saparecer a da sociedade . A acção, em vez de ser proposta
pela sucursal ou contra a sucursal, pode ser proposta, em nome da socie-
dade, pela administração principal ou contra esta .
Não sucede o mesmo quando a acção emerge de acto ou facto pra-
ticado pela administração principal ; então só esta pode demandar ou ser
demandada . Exceptua-se o caso de a administração principal ter a sede
ou o domicílio em país estrangeiro (art . 7", § único) .
Confunde-se, por vezes, na prática o problema da personalidade ou
capacidade judiciária da administração principal e das sucursais com
o problema da competência do tribunal .
Nos termos do § '4 ." do artigo 85 .", o tribunal competente para a
acção contra uma sociedade é o da sede da administração principal ou
o da sede da sucursal conforme a acção for dirigida contra aquela ou
contra esta . Suponhamos que, em consequência dum acto praticado pela
Capítulo II-Das partes 25
administração principal do Banco dte Portugal, se propõe uma acção em
Coimbm contra a Agência dásse Banco. Já tem sido julgado que, em
casos como este, se verifica uma incompetência relativa em razão do
território : a acção devia ser proposta em Lisboa, sede do Banco, e não
em Coimbra, sede da Agência.
A solução é errada . Confunde-se a questão de competência com a
questão de personalidade judiciária . 0 tribunal de Coimbra "é competente
na hipótese figurada, em vista do que se dispõe no § 4 .° do artigo 85 .o :
desde que a acção foi dirigida contra a Agência de Coimbra, era no tri-
bunal da sede da agência que a acção tinha de ser proposta. 0 que
sucedia era que a Agência de Coimbra carecia de personalidade para ser
demandada ; derivando o pleito de acto praticado pela administração prin-
cipal, não podia a acção ser dirigida contras, agência, havia de ser dirigida
contra a administração principal do Banco.
0 artigo 8 .' resolve, no seu aspecto judiciário, o problema das socie-
dades irregulares . Estas não têm personalidade judiciária activa, a não
ser para formular pedidos reconvencionais ; mas têm personalidade judi
ciária passiva, porque podem ser directamente demandadas, sem que lhes
seja lícito opor a irregularidade da sua constituição . Quem haja de propor
a acção pode, conforme mais lhe convier, ou dirigi-lá contra a própria
sociedades ou contra aqueles que, em nome dela, praticaram o respectivo
acto ou facto .
Sobre o artigo 8 . 6 pode ver-se a Revista de Légisiação, ano 72 .°,
págs. 198, 209, 225 .
Ern vista do § único do artigo 7 .', se o dono dum navio abalroador
for o Estado ou uma pessoa jurídica estrangeira, pode a acção ser- pro-
posta contra o agente geral dessa entidade em Portugal, desde que o
lesado seja português (ac . do S . T, J ., de 27--5 .o-941, Rev. de Leg ., ano 74.°,
pág. 170) . Na hipótese o navio -abalroador pertencia ao Lloyd Brasileirio,
património do Estado do Brasil .
ARTIGO 10 .'
(Representação dos incapazes)
Os incapazes só podem estar em juizo por intermédio dos
seus representantes, excepto,nos actos que são admitidos a exer-
cer pessoalmente .
cínico : Se houver conflito de interesses iF,-rtre o inca-
paz e o seu representante ou o cônjuge, ascendentes ou descen-
dentes deste, será o incapaz representado na causa por um
curador especial . Sucederá o mesmo quando o conflito surgir
entre vários incapazes que Tenham o mesmo representante . Neste
26 Livro I, Título I- Da acção erra geral
caso a cada grupo de interessados em conflito será nomeado um
curador .
A nomeação do curador pertencerá ao juiz da causa, ouvido
o Ministério Público .
O corpo do artigo teve por fonte o § 1.^ do artigo 9.° do Código ante-
rior. O § único teve por fonte o artigo 1'5!3.° do Código Civil ; mas alargou
e completou a disposição deste artigo. Veja-se o § único do artigo imcy
disto.
0 menor é representado em juízo, como autor ou como réu, pelo
pai e, na falta, ausência ou impedimento deste, pela mãe (Cód. Civ .,
arts. 138.°, 1:39.o, 1515 .') ; tendo falecido ambos os pais ou estando impedidos
de exercer o poder paternal, a representação compete ao tutor (Cód. Civ .,
arFs. 185 .- e 243 .*) .
O interdito por demência ou por surdez-mudez é representado pelo
tutor (Cód. Civ., arts . 321 .0 e 339 .o)1 ; o interdito por prodigalidade, pelo
curador (Cód. Civ ., art. 349 .*) ; o -ausente, pelo curador provisório (Cód. Civ .,
art. v59 .') ou pelos curadores definitivos (Cód . Civ , art. 71.') ,; o falido, pelo
administrador da falência (Cód. de Proc. Civ ., art. 11'58 .") .
Mas se a lei, substantiva ou processual, admitir o incapaz a exercer
pessoalmente certos actos, pode ele estar em juízo por si no tocante
F esses actos ou às causas que deles derivem . É o que acontece : quanto
ao menor, por exemplo, que pode contrair obrigações sabre coisas de arte
ou profissão em que seja perito, contrair empréstimos quando tenha bens
com livre administração ou quando sejam para alimentos e se acharem
ausentes as pessoas a quem pertencia autorizá-los, etc . (Cód. Civ., arts. 299 .',
ri .* l.a, 11536 .', ri ." 2 .° e 3.`) ; quanto ao interdito por demência ou ;por
surdez-mudez, ~ a interdição for limitada a certos actos (Cód. Civ.,
arts. 314 .' e 318.,o) ; quanto -ao interdito por prodigalidade, relativamente
aos actos de carácter não patl-imonial, e mesmo em relação aos actos
patrimoniais que a sentença o não tenha inibido de praticar (Cód. Civ.,
arts. 344 .' e 345 .') ; quanto ao falido, relativamente ao exercício dos seus
direitos exclusivamente pessoais ou estranhos à falência (Cód. de Proc..
Civ., art. 1'15'8 .°, § 2.°) . (Veja-se Alberto dos Reis, Processo ordinário,
`L .' ed., pág. 332) .
ARTIGO 11 .°
(Nomeação de representante)
Quando o incapaz mão tiver representante, poderá reque-
rer-se a nomeação 'dele ao tribunal competente. Pode também
requerer-se ao tribunal da causa a nomeação de um curador
provisório, havendo urgência na proposição da acção. Neste
último caso, logo que a acção 'seja proposta, provocar-se-.á, no
Capítulo II- Das partes 27
tribunal competente, a nomeação de representante geral, que
virá ocupar no processo a posição do curador provisório .
único. As nomeações a que se referem . este artigo e o
único do artigo antecedente -devem ser requeridas pelo Minis-
tério Público ou por qualquer parente até ao sexto grau, quando
o incapaz tenha -de ser autor; quah-do haja de figurar como réu,
serão requeridas pelo autor.
É o desenvolvimento do que se dispunha 'no § 2 ." do artigo 9 ." do
Código anterior .
O tribunal competente a que o texto se refere é o seguinte :
a) Tratando-se de menor, como o seu representante, na falta de pais,
é o tutor e este há-de ,$er nomeado ou confirmado pelo conselho de família
(Cód . Civ ., arts. 203.0 e 224 .°, n ."" 2 ." e 3.o), deve aplicar-sre o disposto no
artigo por iriso, ou há inventário, ou não há : se há, pede-se a
nomeação de .tutor no juízo do inventário e por dependência do respectivo
processo (art . 1490.0, § único) ; se não há, pede-se a nomeação no juízo do
domicílio do menor (aplicação, por analogia, da regra gerai do art . 85 .") ;
b) 'Tratando-ise de interdito por demência surdez-mudez ou pródiga-
lidade, a nomeação de novo tutor ou curador há-de ser pedida no juízo da
interdição (arte . 9'54 .°,959 " e 960 .', § único) ;
c) Tratando-se de ausentes ou de falidos, a nomeação há-de ser
requerida 'ao tribunal da curadoria ou da falência .
ARTIGO 12 ."
(Poderes do tutor e do curador)
Para a proposição de acções carece o tutor de autorização
do conselho de família e o curador de autorização judicial, salvo
se a acção for meramente conservatória ou se da demora da
sua instauração puder resultar a extinção do direito ou de qual-
quer garantia.
Vejam-se os artigos 224 .", n." 17 .', '59 ." e 351 .0 do Código Civil .
Veja-se também o § '5 ." do artigo 2 ." do Código anterior, que se
ampliou . Veja-se a nota ao artigo 4 ."
A noção dé acções conservatórias encontra-se na alínea c) do artigo 4 :'
A autorização do conselho de família obtém-se pelo processo do
artigo 14'90." Não há, neste caso, que donstituir' o cónselho, pois já está.
constituído ; só há que pedir a autorização .
28 Livro I, Titulo I-Da aeçãn em geral
Para a obtenção de autorização judicial por parte do curador é que
não há no Código processo especial regulado . Não vá daqui concluir-se
que se hão-de seguir os termos do processo comum . Basta um simples
requerimento no processo de interdiçãó . 0 juiz coTicederá ou denegará
a autorização, depois de colher as informações que reputar necessárias .
ARTMO 1'3 .°
(Capacidade judiciária, dos menores com azais de 1,.4 anos
e dos interditos por prodigalidade)
Os menores não emancipados com mais de catorze
anos
e, os interditos por prodigalidade serão admitidos a intervir nas
acções em que sejam partes e devem ser citados quando tiverem
a posição de réus .
único . Se o menor perfizer os catorze anos no decurso
ela causa e depois da citação do seu representante, não tem
ele ser citado, embora seja réu, mas pode intervir por sua
iJniciativa .
Teve por fonte o § 3 .° do artigo 9 .0 do Código anterior . Mas regu-
lou-se também a capacidade judiciária activa dos menores púberos e dos
interditos por prodigalidade e resolveu-se, no § único, uma dúvida da
jurisprudência.
Veja-se o artigo 563 .o
A intervenção dos menores ou dos interditos, admitida por este
artigo, é uma figura sui generis. Nada tem que ver com a assistência
(art. 340 .°), nem com a intervenção prinçipal (art . 35U) . Por outro lado,
o incapaz não está para com o seu representante na mesma posiçíio em que
um litisconsorte está para com outro ou em que a parte está para com
o seu mandatário judicial . 0 incapaz coopera com o seu representante :
deve auxiliá-lo e não embaraçá-lo .
ARTico 14 .°
(Representação das pessoas impossibilitadas de receber a citação)
As pessoas que por qualquer das circunstancias indicadas
nos §§ 1 .°, 2 .° e 3 .° do artigo 236 .° se encontrarem de facto
impossibilitadas de receber a citação para a causa serão repre
sentadas nesta por um curador nomeado nos termos do mesmo
artigo
1 .<> Cessará esta representação quando for julgada des-
necessária ou quando se juntar documento que prove ter sido
Capítulo II - Das partes 29,
declarada a interdição. A desnecessidade da curadoria será apre-
ciada sumariamente, a requerimento do curatelado, que pode
produziu quais-quer provas .
§ :2 .° Terrdo - sido decretada a interdição, será imediata-
,mente citado o tutor para vir ocupar no processo ò lugar do
curador..
Está em relação com o artigo 236 .o Os dois textos tiveram por fonte
os artigos 1'2 .° e do Código anterior. Mas este Código referia~
unicamente à impossibilidade proveniente de demência ; agora prevêem-se
outros casos : qualquer impossibilidade derivada de causa permanente,
como surdez-nudez, paralisia, cegueira, e a que provier de doença grave
e aguda que ponha em risca a viria do citando .
Dis3utiu-se recentemente se o indivíduo declarado demente nos ter-
mos do § 1 " do artigo 236 .° podia usar de acção de simples apreciação ou
declaração, admitida pela -alínea a) do artigo 4 .0, para fazer verificar a sua
sanidade men'ta'l .
Os factos apresentavam-se assim : requerera-se inventário por morte
de dois cônjuges e o cabeça-de-casal declarara que o único filho dos
inventariados, Manuel da Costa se achava notòriamente demente. Orde
nada a citação dele, o oficial de diligências certificou que o citando apa-
rentava desarranjo mental ; foram produzidas e inquiridas testemunhas
para prova da notoriedade da demência . Nesta altura -o pretenso demente-
tentou demonstrar que se achava em seu perfeito juízo : requereu que
fossem ouvidas testemunhas por ele oferecidas e declarou que estava .
pronto a submeter-se a qualquer exame . Mas o juiz não o admitiu a fazer
a prova e julgou justificada a demência notória, pelo que lhe nomeou
curador que o representasse no inventário .
Tendo este seguido os seus termos, foi proferida sentença que adju-
dicou ao filho dos inventariados como único herdeiro, todos os bens des-
critos. A, sentença transitou em julgado e o inventário findou .
Mwi ficou a pesar sobre o Costa o estigma da demência . O § 4 .° do
antigo 220 .* esclarece que a nomeação de curador é restrita a cauda e sem
outíos efeitos . Não obstante, Manuel da Costa sentia, em volta de si, as
consequências do despacho que no inventário o declarara demente ; este
despacho criara para ele um estado de desconfiança e incerteza que
o prejudicava económica e moralmente na sua vida privada e social .
Couto libertar-se de tal situação?
Entendeu que tinha o direito de propor uma seção ordinária de
sihiples apreciação, nos termos da alínea a) do artigo 4 .*, para fazer
declarar judicialmente que se achava no pleno gozo das suas faculdadës
mentais,; e assim o fez, indicando como réus todos os que haviam contri-
buído parra a declaração 'da demência : cabeça-de-casal, oficial de diligên-
cias, testemunhas, Ministério Público.
Os réus alegaram que o meio empregado era impróprio, pois devia
ter-se 14nçado mão do processo facultado pelo § 1.° do artigo, 1'4:°
:3 0 Livro I, Título I -Da acção em geral
O Supremo 'Tribunal de dustiçp, em acórdão de 23 de Março de 1943
,(Boi. Of., ano 3.°, 73), confirmando as decisões de 1.* e 2.' instáápcia,
julgou a acçãa meio idóneo e os réus partes legítimas .
Do processo estabelecido pelo § 1.° do artigo 14' não .podia o -finte .
xessado socorrer-se, diz o acórdão, por ter findado o inventário. Com o
termo deste extinguira-se a curadoria ; ora o meio organizado pelo . § 1.*
do artigo 14.° destina-se 'a fazer julgar desnecessária uma curadoria que
.ainda existe e funciona.
Assim é, na verdade,
Não podendo o Costa fazer uso do meio facultado pelo dito parágrafo,
,só lhe restava o recurso â acção ordinária. Fr o emprego desta acção
estava perfeitamente justificado, em vista do prejuízo que lhe -causara e
continuava a causar a declaração de demência proferida no inventário.
Bem se compreende que a sua actividade fosse, a cada passo, embaraçada
pelo atestado de demência lavradio contra ele . Convinha-lhe afastar esse
obstáculo posto no seu caminho, provocando uma sentença que procla-
masse a sua sanidade de espírito e portanto a inexistência do facto que
o estava prejudicando .
O acórdão aflora, mas não resolve, este ponto : poderá fazer-se uso
do meio regulado no § 1.* do artigo 14' quando o interessado alega e pre-
tende demonstrar que nunca esteve demente ou que nunca existiu a inca-
pacidade áeclarada?
No caso sobre que recaiu o acórdão o pretenso demente quis, antes
de proferido o despacho de nomdação do curador, fazer a prova de que
<éstava em seu perfeito juízo ; não lhe foi admitida a contradição. Deci
diu-4se mal, a nosso ver . 0 artigo 236 " não manda ouvir o arguido,; mas
também não proíbe que seja ouvido . Se ele vem espontâneamente ao
processo e se propõe convencer o juiz de que é vitima duma argufçao
infundada, não se vê razão para que não seja admitido a produzir as suas
provas, dentro dos limites apertados do meio sumário estabelecido
nos §§ 1.' a 3.° do artigo 236'
0 que a lei quer certamente é que triunfe a verdade, que se instale
a curadoria sòmente quando seja necessária; não' deve, por isso, o juiz
repelir uma pirava, que se lhe oferece, tendente a demonstrar a desneees-
.szdade da providência .
Para indeferir o requerimento do Manuel Costa o que fez o juiz?
Julgou-o :primeiro em estado de demência, com base ílnicamente nas
provas produzidas pela parte contrária, e depois z+ecusou-se a ouvi-lo, por
já estar declarado incapaz!
Surgia agora a questão : seria lícito ao Costa, enquanto o inventário
esteve pendente, servir-se do meio regulado no- § 1' do . artigo 14.° para
fazer cessar a curadoria? Em termos mais gerais : poderá o curátelado
socorrer-se desse meio quando alegue que nunca esteve em condições de
lhe ser instituída a curadoria, porque nunca existiu a impossibilidade de
receber a citação?
0 acórdão não chega a pronunciar-se sobire -este ponto ; mas, com
fundamento nas palavras <cessará esta representação>, parece inclinar-se
Capítulo II - Das partes 31
para a opinião de que o meio posto pelo parágrafo à disposição do cura-
telado se destina a obter, não a justificação de quo nunca existiu, mas
a de qu, já acabou a incapacidade reconhecida e declarada .
Mas a verdade é que nem a letra nem o espírito do § 1 .1 do artigo 14.°
conduzen a tal solução . 0 que o texto diz é que a representação cessará
quando for julgada desnecessária a requerimento do curatelado . Ora
a desnew,,essidade tanto pode provir dp facto de ter cessado 'a causa da
,curadoria, como do facto de nunca ter existido tal causa.
Não se objecte que a alegação de nunca ter existido a incapacidade
ofende o que, nos termos do artigo 236 .«, foi reconhecido e declarado por
despacho judicial. A objecção não procede , 'pela razão simples de que,
não tendo o curatelado sido ouvido nem convencido, o despacho não o
vincula .
Es1:a consideração reforça a doutrina acima exposta. Há toda a
vantagem em admitir o arguido a produzir, antes da decisão, a prova da
desnecessidade da curadoria, porque se lhe tira a possibilidade de vir,
mais tarde, requerer o levantamento com o fundamento de nunca ter
existido a incapacidade declarada . Se ele foi admitido a produzir provas
e -apesar disso se julgou necessária a curadoria, então é que só pode
requerer a cessação com o fundamento de ter desaparecido a causa da
provídência .
O que importa é que o meio sumário dos §§ 1 .° a 3 .° do artigo 236 .°
oenão converta num longo e complicado debate contencioso . O juiz deve
admitir o interessado a defender-se e produzir provas, contanto que se
não ultrapassem es limites impostos pela índole sumária da investigação
organizada pela lei, isto é, que o incidente se não arraste e tudo se apure'
dentro de prazo curto .
Alrrloo 15 .0
(.Defesa do ausente e do incapaz pelo Ministério Público)
Se o ausente em parte incerta ou o seu represeintante ou
o representante do incapaz não deduzir qualquer oposição,
incumbirá ao Ministério Público a defesa dos direitos do inca
paz ou ausente, para o que será devidamente. citado, correndo
novamente o prazo para a contestação . Quando o Ministério
Público representar o autor, será nomeado um defensor
oficioso .
§ único . Cessará a representação do Ministério Público
ou do delmsor oficioso logo que o ausente compareça ou
o seu representante ou o do incapaz constitua mandatário
judicial..
32 Livro I, Título I -Da acção em geral
ARTiGo 16 . 0
(Representação dos incertos)
Quando a acção seja proposta únicamente contra incertos,
serão estes representados pelo Ministério Público . Se o Minis-
tério Público representar o autor, será Inomeado defensor oficioso
para servir como agente especial do Ministério Público na
representação dos incertos .
único . Cessará esta representação logo que se apresente,
para intervir como réu, alguma pessoa cuja legitimidade seja
reconhecida por sentenca .
Este artigo e o anterior tiveram por fonte os artigos 13 .o e 14 .' do
Código de 1876 e o artigo 1. .° do Decreto n .' 21 :287.
A intervenção do Ministério Público no caso deste artigo e do ante-
rior é a titulo e na qualidade de parte principal.
Se o Ministério Público não for citado no caso previsto pelo
artigo 15 .°, verifica-ase a nulidade a que se refere o artigo 1951
ARTiGo 17 .°
(Capacidade judiciária activa do marido)
O marido pode, sem outorga da mulher, propor quaisquer
acções, excepto as que tenham por fim fazer recdnhecer a pro-
priedade perfeita ou imperfeita de bens imobiliários comuns ou
próprios da m~u!l'her .
ARTIGO 18 .°
(Capacidade judiciária activa da mulher)
A mulher casada tem a mesma capacidade judiciária activa
que o marido, quando, por ausência ou impedimento deste, lhe
pertença a administração dos bens do casal .
Enquanto o marido exercer a administração, a mulher só
poderá propor acções destinadas a fazer valer os seus direitos
próprios e -exclusivos de natureza extra-patrimonial, para o que
não carece de autorização marital .
§ único . Nos casos previstos no artigo anterior e na pri-
meira parte deste artigo a outorga da mulher ou a autorização
cio marido, quando necessária, será suprida judicialmente se for
recusada sem justo motivo ou não puder ser pedida .
Capítulo II-Das partes 33
ARTIGO 19 .°
(Capacidade judiciária passiva dos cônjuges)
Serão propostas contra o marido e contra. a mulher :
1 .° As acções emergentes de actos ou factos praticados
por ambos os cdnjúges ;
2.° As acções emergentes de acto ou facto praticado por
um dos cônjuges, em que pretenda obter-se sentença que venha
a executar-se sobre bens comuns ou sobre bens próprios do
outro cônjuge ;
3.° As acções reais imobiliárias e todas aquelas que tenham
por fim fazer reconhecer ou constituir qualquer ónus sobre bens
imobiliários de um ou de ambos os cônjuges ou extinguir ónus
constituídos em 'benefício -dos mesmos bens.
ARTIGO 24 .°
i!Capacidade judiciária dos cônjuges depois da separação)
Autorizada a separação de pessoas e bens, cada um dos
cônjuges adquire plena capacidade judiciária, como se o casa-
mento estivesse dissolvido .
,No caso de simples separação judicial de bens, a mulher
pode demandar e ser demandada, sem autorização nem ilnter-
vençao do marido, desde que se trate de acções relacionadas
com o exercício da sua administração . Em tudo o mais se obser-
vará o disposto nos artigos 17 .° a 19.°
Os artigos lt<.° a 20.° regulam a capacidade judiciária do marido e
da mulher.
Alterou-se profundamente o regime do Código Civil, que aliás já tinha
sido modificado, no tocante à mulher, pelo artigo X44.° do Decreto n.o 2,
de 25 de Dezembro de 1910. Vejam-se os artigos 1191.o e 1192.° do
Código Civil.
No domínio do Código anterior era questão muito agitada a de saber
se a comunicabilidade das dívidas entre os cônjuges podia ser discutida
e resolvida no processo de execução, mediante o mecanismo dos embargos
de terceiro . Havia quem entendesse que, embora a dívida tivesse sido
contraída sômente par um dos cônjuges ou só um deles tivesse sido
demandado e condenado, era lícito ao credor fazer penhorar bens comuns,
desde que a dívida fosse comunicável ; isto é, desde que tivesse sido con-
traída em benefício comum do casal. Penhorados os bens comuns, o
outro cônjuge podia dedilzir embargos de terceiro, ou para ilidir a pre-
3 - OÓDI00 DE PEOC&880 CIVIL
84 Livro I, Título I -Da acção em geral
sunç,ão de comunicabilidade estabelecida no artigo 15 .° do Código Comer-
cial, ou para alegar que não tinha responsabilidade na dívida.
A questão foi largamente. tratada no meu escrito Execução por dívi-
das dos cônjuges .
O Código põe termo à controvérsia . O princípio a que obedeceu foi
este : a questão da comunicabilidade das dívidas tem de ser d'erimida e
julgada na acção declarativa, não o podendo ser na acção executiva . Por
isso é que o n .° 2 .° db artigb 19 .° exige que se proponha a acção contra
ambos os cônjuges quando pretenda obter-se sentença que venha a exe-
cutar-se sobre bens comuns ou sobre bens próprios do outro cônjuge.
Com o preceito do n .o 2 .o do artigo 19.° se conjuga . o disposto nos
artigos 824 .° e 1041 .° Se o título executivo obriga sòmente o marido, por-
que é uma sentença de condenação proferida em acção proposta única
mente contra o marido ou é uma escritura pública ou um título particular
em que sòmente o marido se constituiu devedor, é claro que a acção exe-
cutiva não pode ser dirigida contra a mulher : só o pode ser contra o
marido . E então não é lícito ao credor fazer penhorar bens comuns, a não
ser que se trate de dívida comercial, caso em que, nos termos do artigo 10.°
do Código Comercial, pode a penhora recair sobre bens comuns, contanto
que seja citada a mulher para requerer, no decêndio posterior à penhora,
a separação judicial de bens.
Neste caso o penhora - de bens comuns vem a converter-se, em con-
sequência da separação, em penhora de bens próprios do marido (Cód .
Com ., art . 10 .°, § 1 .°) .
Sendo a dívida de natureza civil, o que ó credor pode penhorar é o
direito do marido à meação nos bens comuns, suspendendo-se, depois da
penhora, a execução desse direito até que se dissolva o matrimónio ou
seja decretada judicialmente a separação de bens (art . 8'24 .° e § único ;
Cód . Civ ., art . 1114 .°, § 1 .o) .
Se se penhorarem bens comuns fora do caso e termos do artigo 10 .° do
Código Comercial, a mulher tem o direito de deduzir embargos de terceiro'
contra a penhora (art. 1041 .') ; e os embargos procedem, isto é, a penhora
tem de ser levantada, uma vez. que a mulher alegue e prove : 1 :° que é
terceiro, quer dizer, que a execução não foi promovida contra ela ; 2 .° que
tem a posse dos bens . Se o exequente alegar, na contestação sós embar-
gos, que a dívida foi contraída em benefício-comum do casal, o juiz não
pode tomar em consideração esse facto, nem mesmo na hipótese de o
marido ser comerciante e a dívida comercial, isto é, nem mesmo na
'hipótese de o credor ter a seu favor, nos termos do artigo L5 .° do Código
Comercial, a presunção de comunicabilidade da dívida .
Daqui se vê que a alegação da comunicabilidade é irrelevante na
acção executiva ; tem de ser deduzida na acção declarativa. Por isso, é a
bata acção que o credor tem de recorrer quando esteja munido de um
título com força executiva contra o marido (escritura, pública, auto de con-
ciliação, letra, livrança, cheque, etc .), mas queira fazer-se pagar pelos . bens
comuns. Há-de então propor a acção contra o marido e contra a mulher, para
convencer esta da comunicabilidade da dívida ; e ainda que a mulher não con-
Capítulo II - Das partes $5
teste, não deverá o autor ser condenado nas custas, porque não se verifica o
caso do :a.° 4.° do artigo 458 .o O credor tem necessidade de usar dó processo
de declaração para obter sentença que faça `executar sobre oo bens comuns .
O marido pode estár em juízo ; sem intervenção nem outorga da
mulher, na acção destinada a exercer o direito de preferencia (se , da Rel.
d e Lisboa de 25-1f-941, Rev . de Just., ano 26 .0, pág . 138) .
Feita uma promessa de arrendamento por prazo superior a quatro
anos, o . promitente-arrendatário pode, por si só, sendo casado, demandar
o promi~ènte-senhorio para o cumprimento . da promessa ou indemnização .
O disposto no artigo 10 .° do Decreto n .o '5 :411 não prejudica a legitimidade
e apenas poderá, porventura, obstar à procedência de acção (ac. do. S . T . J .,
der 30-1 :'-942, Rev . de Leg., ano 75 .*, pág. 13'4) .
A mulher pode, sem intervenção do marido, investigar a sua pater-
nidade ilegítima (ac . da Rel . d o Porto dé 2-5 .°-942, Rev . dos Trib ., ano 60.',
pág. 155) .
Proposta acção contra marido e mulher, pode esta tomar no processo
uma atitude diferente da do marido (Rev. de Leg, ano 70 .*, pág . 20) .
ARTIGO 21 .°
(Representação do Estado)
O Estado é representado pelo magistrado do Ministério
Público que funcionar junto do tribunal competente para a causa .
§ único . Se a causa tiver por objecto bens ou direitos do
Estado, mas que estejam na administração ou fruição de enti-
dades autónomas, podem estas constituir advogado que inter-
venha no processo juntamente com o Ministério Público, para
o que serão citadas quando o Estado seja réu . Havendo diver-
gência entre o Ministério Público e o advogado prevalecerá a
opinião do primeiro .
A fonte do corpo do artigo é o artigo 10 .* do Código anterior ; a fonte
do parágrafo é o § 2.* do artigo 192.° do Estatuto Judiciário e o artigo 2 .°
do Decreretó n .° 21 :287 .
A .;alta de citação das entidades autónomas dará lugar à nulidade
prevista no artigo 195 .°
ARTIGO 2 .2 .°
(Representação das outras pessoas colectivas)
A representação das outras pessoas colectivas será exer-
cida par intermédio dos órgãos designados na lei ou no pacto
36 Livro I, Título I -Da acção em geral
3oéial . Na falta de disposição, a representação pertencerá
àqueles a -quem incumbir a administração da pessoa colectiva.
único. Se 'houver conflito de interesses entre a pessoa
colectiva e o seu representante, ou se a pessoa colectiva não
tiver representante, quem substituir este nas suas faltas e impe-
dimentos poderá demandar ou ser demandado em nome da
pessoa colectiva. Não havendo substituto, o juiz Nomeará, de
entre os membros da pessoa colectiva, um representante espe-
cial, cujas funções cessarão logo que a representação seja
assumida por quem for designado pela pessoa colectiva.
A nomeação dar-se-á logo publicidade pela afixação de
um aviso na porta do tribunal e na porta da sede da adminis-
tração da pessoa colectiva, quando seja conhecida, e pela inser
ção de anúncio em dois números do jornal mais lido na locali-
dade a que a mesma sede pertencer.
Veja-se o artigo Representação das pessoas cotectivas em juízo, no
Boletirm da Faculdade de Direito de Coimbra, vol. 1'5.0, fase . 2.°, 1?ágs. 339
e seguintes .
Contra a opinião do sr . Dr . Palma Carlos (Cód . de Proc. anot , vol. 1.°,
pág . 116) entendemos que não é de aplicar o disposto no artigo 239 :° ;
, se na localidade não . houver jornal, o anúncio não se publica, dando-se ,
conhecimento da nomeação sòmente pela afixação do aviso .
ARTIGO 23 .°
(Representação das entidades-que não têm personalidade jurídica)
Os patrimónios autónomos serão representados pelos seus
administradores, salvo se a lei dispuser de modo diverso .
As sociedades e associações que não tiverem personalidade
jurídica, as sucursais, ageincias, filiais ou delegações serão repre-
sentadas pelas -pessoas que procederem como directores, gerentes
-ou administradores .
Os artigos 22 .° e 23 .o tiveram por fonte, em parte, o artigo 11 .° do,
Código anterior.
A regra do corpo db artigo 11 .o do Código de 1876 substituiu-se uma
outra mais correcta e compreensiva . As dispoisições do artigo 23 .o estão
em correspondência com os artigos -6 .0, 7 .° e 8 .1
O § único do artigo 22.° nsd figurava no Projecto primitivo ; foi:
acreàcentado por sugestão da Comissão revisora.
Capitulo ÌI-Das partes 37
ARTIGO 24 .°
(Efeito da falta de personalidade e dè capacidade e da representação
irregular. Suprimento)
A falta de personalidade, a incapacidade judiciária e a
irregul!;aridade da representação têm o mesmo efeito que a ilegi-
timidade da parte ; mas as duas últimas podem ser supridas
pela intervenção ou citação do representante legítimo ou do
cônjuge.
-Se estes ratificarem os actos anteriorme=nte praticados, o
processo seguirá como se o vício não existisse ; no caso con-
tráriq, ficará sem efeito tudo quanto se tenha processado a partir
do momento em que a falta ou a irregularidade se cometeu.
§ único. O juiz -pode, oficiosamente ou a requerimento da
parte, fixar o prazo dentro do qual hão-de ser supridas a inca-
pacidade ou a irregularidade . Se o não fixar, o suprimento pode
ter lugar a todo o tempo.
ARTIGO 25 .°
(Regime da falta de autorização ou deliberação)
Se a parte estiver devidamente representada, mas faltar
alguma autorização ou deliberação exigida por lei, designar-se-á
o prazo dentro do qual o representante deve obter a respectiva
autorização ou deliberação, suspendendo-se entretanto os termos
da causa.
Não sendo a falta sanada dentro do prazo, o processo ficará
sem efeito= quando a autorização ou deliberação devesse ser
obtida pelo representante ;do autor ; se era ao representante do
réu que incumbia prover, o processo seguirá como se o réu não
deduzisse oposição .
ARTmo 2fi.°
(Regime da falta de outorga conjugal)
C, disposto no artigo anterior é aplicável ao caso cie um
dos cônjuges carecer da outorga ou da autorização do outro,
38 Livro I, Título I-Da acção em geral
ou do respectivo suprimento judicial, para estar em juízo como
autor .
Os artigos 24 ." a 26 ." não têm correspondência no Código anterior.
Regula-se, em primeiro lugar, o efeito da falta de personalidade judi-
ciária, da incapacidade e da irregularidade de representação . 0 efeito é
o da ilegitimidade da parte, que se acha definido no artigo 293.° (n ." 4.°)
absolvição do réu da instância. O que se dispõe no artigo 24 ." está
em perfeita concordiânc.ia com o que se lê no n.' 3.° do artigo 293.
e respectivo § único e relaciona-se também com a alínea c) o § 1." do
artigo '499 .°
A falta de personalidade judiciária é uma excepção dilatória que tem
como consequência a absolvição do réu da instância; a incapacidade judi-
ciária e a irregularidade da representação são também excepções dilatórias
com a mesma consequência, mas sómente no caso de não serem devida-
mente sanadas ou supridas (art. 499.°, § 1.') .
Como se suprem? Nos termos do artigo 24 ." e respectivo § único .
0 regime de suprimento que se estabeleceu foi inspirado no artigo 99 ° do
Decreto n., 21 :287, reprodução do artigo 26 ." do Decreto n." 13 :979, e nas
aplicações e desenvolvimentos que a jurisprudência deu ao princípio ali
consignado.
Regula-se, em segundo lugar, o efeito da falta de autorização, delibe-
ração ou outorga exigida por lei (arts. 215 .o e 26 .°) .
Falta de autorização : um tutor, por exemplo, propõe uma acção sem
ter sido autorizado, como devia ser, pelo conselho de família, nos termos
do n." 17: do artigo 224 .° do Código Civil e do artigo 12.0 do Código de
P1^occaso .
Falta de deliberação : o presidente duma câmara municipal vai a juízo
propor uma arção em nome da câmara ou defendê-la numa acção contra
ela proposta, sem que tenha precedido deliberação sobre o pleito, como
exige o n." 11." do artigo 77." combinado com o n.* 14." do artigo 51.0 d(>,
,Código Administrativo .
Falta de outorga: o marido propõe, sem outorga da mulher e sem
o respectivo suprimento judicial, uma acção de reivindicação dum prédio
comum ou próprio da mulher, contra o disposto no artigo 17°
Em qualquer dos casos que ficam mencionados, a parte está devida-
mente representada em juízo ; o que sucede é que falta, no primeiro, a
autorização do conselho de família, no segundo, a deliberação da câmara,
:; no terceiro, a outorga da mulher . Qual é a consequência ,dia falta?
Logo que o juiz se aperceba do facto ou ele lhe seja denunciado, deve
;,uspender os termos da causa e marcar prazo para a falta ser sanada, isto é,
;para se obter a autorização, deliberação ou outorga respectiva . Se a falta.
~.i sanada dentro do prazo, o processo segue depois como se nenhuma.
i.xaegularidade tivesse ocorrido ; se não é, há que distinguir :
a) Ou é o autor que está em juízo desprovido de autorização ou
cleliberagão ;
,Capítulo II -Das partes 39
b) Ou é o réu, . como no caso de o presidente da câmara assumir a
defesa desta num pleito contra ela proposto, sem ter prèviamente provo-
cado uma deliberação sobre o assunto .
N:> 1 .1 caso estamos em presença duma excepção dilatória (art . 499 .°,
alínea d) ; o juiz deve absolver o réu da instância, declarar o processo
sem efeito e condenar o autor nas custas (arts . 25 ."~ e 29'3.", n . , 0:.`) .
No 2 .° caso não se toma em consideração a defesa deduzida pelo réu :
o processo segue como se este fosse revel (art. 25 .°) . Mas convém acen-
tuar crie o regime estabelecido para este segundo caso não se aplica à
falta d, autorização ou outorga conjugal . O artigo 26 .' só manda aplicar
o disposto no artigo '25 .1 ao caso de um dos cônjuges carecer da outorga
eu autorização do outro para estar em juízo como autor. É que não pode-
falar-se -de falta de autorização ou outorga conjugal no caso de ser réu
o marido ou a mulher ; os princípios a aplicar, em tal . caso, são outros.
O artigo 19 .o diz-nos quais são as acções que têm de ser propostas
contra o marido e contra a mulher . Se o texto é observado, demandando-se
o marido e a mulher e sendo ambos citados, não há falta a suprir : a lei
foi cuxr,prida .
Aparece a defender-se sòmente o marido? Pouco importa. A defesa
há-de ser tomada em consideração . A mulher é revel, mas a sua revelia
não prejudica o marido, porque ela foi colocada em condições de intervir
no processo e era isso o que a lei pretendia .
Se o artigo 19 .o foi infringido, propondo-se a acção sòmente contra
um dos cônjuges, a consequência é a seguinte :
a) Tratando-se da infracção do n .° 1 ." ou do n .° 3 .", o réu deve ser
conside "ado parte ilegítima ; estamos então em presença dum caso de
litisconsórcio necessário, a que é aplicável a alínea a) do artigo 28 ." ;
b) 'Tratando-se da infracção do n .° 2 . ,, , se o autor obtiver sentença
favorável, não poderá executa-la sobre bens comuns nem sobre bens pró-
prios do cônjuge que não foi chamado à acção .
Uma coisa é o suprimento da incapacidade judiciária, outra a falta de
individualização e identificação das pessoas que se pretendem representar .
Se os autores se dizem representantes de seus filhos nascidos e por nascer,
sem designarem aqueles nem esclarecerem se são maiores ou menores,
verifica .-se a ilegitimidade de representantes e regresentados (ac . do S . T . J .
de 8-5 . 942, Rev . de Leg ., ano 75 .°, pág .. 177) .
SECÇAO II
Legitimidade das partes
ARTIGO 27 .'
(Conceito de legitimidadé)
O autor é parte legítima quando tem interesse directo em
demandar ; o réu é parte legítima quando tem interesse direto
em contradizer.
40 Livro I, Título I -Da acçdo em geral
O interesse em demandar exprime-se pela utilidade deri-
vada da procedência do pedido ; o interesse em contradizer pelo
prejuízo causado por essa mesma procedência .
ARTIco 28 .0
(Litiseonsórcio voluntário e necessário)
Quando o interesse disser respeito a mais de duas pessoás,
a questão da legitimidade das partes será resolvida em confor-
midade das regras seguintes :
a) Se a lei ou o contrato exigirem expressamente a inter-
venção de todos os interessados, a falta de qualquer deles será
motivo de ilegitimidade ;
b) Se a lei ou o contrato permitirem que o direito comum
:seja exercido por um só ou que a obrigação comum seja exigida
de uni só dos interessados, basta que um deles intervenha ;
C) Se a -lei ou o contrato nada declararem, pode a acção
ser proposta por um só ou contra um só dos vários interessados,
devendo porém o tribunal conhecer unicamente da quota parte
do interesse ou da responsabilidade dos respectivos interessados,
ainda que o pedido abranja a totalidade .
Cessa o disposto na primeira parte desta alínea quando,
pela própria natureza da relação jurídica, for necessária a inter-
venção de todos os interessados para que a decisão a obter
produza o seu efeito útil normal .
único . Qualquer sócio, herdeiro ou comparte em cousa
comum ou indivisa pode pedir a totalidade dessa cousa em po-der
de terceiro, sem que este possa opor-lhe, que ela não fhe per-
i;ence por inteiro .
No artigo 27 .1 estabelece-se o conceito legal de legitimidade das partes
e no artigo 28.° fixam-se as regras da legitimidade no caso de pluralidade
de interessados.
O artigo 2'7 .° é novo ; não tem correspondência no Código anterior.
Faz depender a legitimidade sòmente do requisito interesse e diz em que
este consiste .
Discutia-se quais eram os requisitos da legitimidade. Todos esta-
vam de acordo em que, para haver legitimidade, era necessário o interesse ;
mas a este acrescentavam-se outros requisitos, como a capacidade, o
patrocínio judiciário, a exigibilidade do-direito, etc . Agora depurou-se
o conceito, reduzindo-o ao elemento «interesse», posto que a incapacidade
Capítulo II-Das partes 41
judiciária, a falta de personalidade judiciária e a falta de constituição de
advogado tenham consequências semelhantes . à da ilegitimidade da parte
(arts. 293 .o e 499 .o) .
0 acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 15-;5 .1-928 (Rev . de Leg .,
ano 61 .`, pág . 216) diz que a legitimidade das partes no tocante ao requisito
interesse deve ser referida à relação jurídica, objecto do pleito, e de t,r
mina-se averiguando quais são os fundamentosda acção e qual é a posição
das partes em relação a esses fundamentos . É assim mesmo.
Urna coisa é o interesse em demandar ou contradizer, outra o direito
a uma sentença favorável (a c . do S. T . J . de 23-1 "-942, Rev. de Leg ., ano 75.°,
pág. 121) . Na verdade, o interesse em demandar ou contradizer única
mente assegura a legitimidade para a acção, ao passo que o direito a uma
sentença favorável é uma condição de procedência do pedido do 'autor ou
da defesa do réu .
Com serem legítimas .as partes, não se segue que a sua pretensão
seja fundada, que tenham razão -sob o ponto de vista substancial.
A questão de legitimidade é simplesmente uma questão de posição
quanto à relação jurídica substancial . As partes são legítimas quando
ocupam na relação jurídica controvertida uma posição tal que têm inter"se
em que sobre ela recaia uma sentença que defina o direito .
Pode dizer-se que ter legitimidade equivale a ter o direto concreto de
acção, porque na verdade o interesse em demandar e em contradizer tra-
duz-se ~no direito a que a relação jurídica seja objecto duma apreciação
jurisdicional .
Chamo que o interesse tem de ser jurídico . Não basta um interesse
meramente moral . :Se para os assistentes, partes acessórias, a lei exige
que o interesse seja jurídico (art . 240 .0, com maioria de razão se há-de
considerar 'necessária essa característica do interesse para o autor e réu,
partes principais .
E também se tornará necessário que o interesse seja actual?
O acórdão da Relação do Porto de .1 de Outubro de 19'41 (Rev. de
Just ., ano 27 .0, pág. 131) pronunciou-se em sentido afirmativo. Um inte-
resse dEpendente de acontecimento futuro, por mais certo que se apresente,
não dá legitimidade como réu ; o interesse há-de ter actualidade, isto é,
há-de verificar-se à data da propositura da acção.
Não é inteiramente exacta esta doutrina. Em primeiro lugar a actua-
lidade do interesse deve reportar-se, não à data da propositura da acção,
mas à data do julgamento da legitimidade, ou pelo menos à data do encer
ramento da discussão, por argumento de analogia derivado do artigo 6'83 .°
Ern segundo lugar vê-se pelo artigo 682 .* do Código Civil que, ainda
antes de se verificar o evento futuro e incerto o interessado pode exercer
os actós lícitos, necessários à conservação do seu direito, e entre esses
actos não pode deixar de se incluir a proposição de acções.
O Supremo Tribunal de Jhrstiça, em acórdão de 28-3 .°-941 (Rev . de
Leg ., arfo 59 .% pág. 1'50), considerou partes ilegítimas como réus, em acção
de anulação de contratos simulados, as pessoas que não intervieram nesses
contratos, embora se alegue que colaboraram neles para daí tirarem pro-
42 Livro I, Título I =Da acção em geral
veito e se formule contra eles o pedido de indemnização de perdas e danos .
A doutrina do acórdão merece reparos . Veja-se a anotação publicada na
Revista.
Tendo um homem casado feito uma promessa de venda de bens
imobiliários sem outorga da mulher, esta é parte ilegítima cromo ré na
acção proposta por falta de cumprimento da promessa (ac . do ~S'. T, J-
de 25-11 .'-941, Rev. de Leg ., ano 74:°, pág . 398) .
0 artigo 28 .° teve por fonte, em parte, o artigo 8" do Códígo , de 1876 ;
,mas esta disposição era muito deficiente e incompleta : procurou.~se com-
pletá-la.
A regra que está na base do artigo 28 .o é a seguinte : havendo vários
interessados, qualquer deles pode demandar ou ser demandado, devendo a .
acção considerar-se restrita à quota paute do interesse do autor ou da
responsabilidade do réu.
Mas esta regra sofre excepções de duas ordens :
a) 'Há casos em que é indispensável, sob pena de ilegitimidade, que
estejam em juízo todos os interessados. É o que sucede, nos termos da
alínea a), quando o contrato de que a acção emerge, o exigir, ou quando
o exigira lei., como no caso do quinhão (Cód . Civ., art . 2,193 .1 ) e nos casos
dos n .°° 1 .* e 3 .' do artigo 19 .° ; é o que sucede ainda, nos termos da última
parte do corpo do artigo 28.*, quando pela própria natureza da relação jurí-
dica for necessária a intervençião de todos os interessados para que * a deci-
são a obter produza o seu efeito útil normal, como na acção de divisão de
águas de correntes não navegáveis nem flutuáveis, acórdão da Relação de
Çoimbra de 4-6 .°-927, Revista de Legislação, ano 60 .o, pág . 191 . É nestes
casos que se verifica o litisconsórció necessário, a que alude o artigo 31 .°
b) Há casos em que a totalidade da coisa pode ser pedida só por
um (são os casos do § único -do art . 28 .o) e em que a obrigação pode, poi-a
sua própria natureza, ser exigida só de um (é o caso de solidariedade
passiva) .
ARTIGO 29 .°
(Coligação de autores e de réus)
É permitida a coligação de autores contra um ou vários
réus e é `tpermi'tido a . um autor demandar conjwntamente vários
réus, por pedi-dos diferentes, quando a causa de pedir seja a
mesma e única ou quando os pedidos estejam entre si numa
relação de dependência,
único . Cessa o disposto neste artigo quando aos pedi--
dos correspondam formas de processo diferentes ou a cumulação
possa ofender regras de competência em razão da matéria ou
da hierarquia ; mas não impedirá a cumulação a diversidade da
forma de processo que derive únicam~ente do valor .
Capítulo 11- Das partes 43
ARTiGO 30 .°
Podem também autores ou . demandar-se
coligar-se vários
conjuntamente vários réus, embora a causa de pedir seja dife-
rente, quando a procedência dos pedidos principais dependa
essencialmente da apreciação dos mesmos factos ou da interpre-
tação ;~ aplicação das mesmas regras de direito ou de cláusulas
de contratos perfeitamente análogas .
§ único . Se o tribunal, oficiosamente ou a requerimento
de algum dos réus, entender que, não obstante a verificação de:
qualquer dos requisitos indicados, é preferível que as causas
sejam instruídas, discutidas e julgadas em processos separados,
assim o declarará no despacho saneador, ficando o processa
sem efeito . Neste caso, se as novas acções forem propostas den-
tro de trinta dias a contar do trânsito em julgado do despacha
que ordenar a separação, os efeitos civis da proposição da acção
e da citação do réu retrotaem-se à data em que estes factos se
produziram no primeiro .processo .
O artigo 29 .° teve por fonte o artigo 6 .° do Código anterior ; mas
em vez do se dizer «com relação a direitos e obrigações que tiverem
a mesrr:a origem», adoptou-se a fórmula «quando a causa de pedir seja
a mesma, e única», pondo-se termo à controvérsia que se agitava em volta
da frase «mesma origem» . Agora está bem vincado que não basta que os
pedidos procedam de actos ou factos semelhantes ; é necessário que pro-
cedam do mesmo e único acto ou facto .
Por outro lado, em vez da fórmula aquando um dos pedidos for con-
sequência do outro», empregou-se esta «quando os pedidos estiverem entre
si nume. relação de dependência» .
Vê!-se, pois, que para -a legalidade da coligação se exige um certo
nexo entre os pedidos ; esse nexo é o que resulta :
a) Ou de ser a mesma e única a causa de pedir ;
b) Ou de os pedidos estarem entre si numa relação de dependência .
MEL não basta . É necessário ainda :
1) Que aos pedidos corresponda a mesma forma de processo, salvo
se a diversidade de forma derivar únicamente do valor (art . 29 .° ; § único) .
Quer dizer, a coligação é ilegal se a um dos pedidos corresponder pro
-cesso especial e a outro algumas -das formas de processo comum (ordinário,
sumário ou sumaríssimo) ; mas se a um dos pedidos corresponder processo
ordinário e a outro corresponder processo sumário ou sumaríssimo, a,
coligação é lícita, devendo então empregar-se a forma de processo corres-
pondente ao valor total dos pedidos (art . 312 .°) ;
-4a4 Livro I, Título I -Da acção em geral
2) Que a cumulação não ofenda regras de competência em razão da
matéria ou da hierarquia (art . 29 .°, § único) . Quer dizer, é necessário que
em razão da matéria e da hierarquia seja competente para todos os pedi
dos o mesmo tribunal, pouco importando que, em razão do valor ou do
território, os pedidos pertençam a juízos diferentes .
É claro que se para algum dos pedidos os tribunais portugueses não
tiverem competência internacional, nos termos do artigo 65.0, a cumulação
também não pode fazer-se : obsta a ela a incompetência absoluta definida
no artigo 101 .°
0 artigo 30 .o permite a coligação, embora seja diferente a causa de
pedir ; mas exige então que a procedência dos pedidos principais dependa
essencialmente :
a) Ou da apreciação dos mesmos factos ;
b) Ou da interpretação e aplicação dos mesmas regras de direito ou
de cláusulas de contratos perfeitamente análogas .
Este texto é novo e !inspirou-se no § 60:° do Código alemão., sobretudo
no texto que começou a vigorar em 1 de Janeiro de 1934 . No artigo 10 .° do
Projecto primitivo dizia-se aquando haja questões idênticas a resolver, de
facto ou de direito» ; a redacção actual resultou dos trabalhos da Comissão
revisora.
Não se lêem no artigo 30.o as palavras ae não exista nenhum das
,obstáculos mencionados no § único do artigo 8 .°», que se encontravam no
artigo 10 .1 do Projecto primitivo . É que se consideraram desnecessárias .
Não pode deixar de entender-se que os obstáculos opostos â coligação pelo
§ único do artigo 29 . 1 tanto -funcionam no caso previsto neste artigo como
no caso previsto no artigo 30 .° O artigo 30 .o não fez senão isto : substituiu
a exigência de ser a mesma e única a causa de pedir por esta outra-depen-
der a procedência dos pedidas da apreciação dos mesmos factos ou da
interpretação e aplicação das mesmas regras de direito ou de cláusulas
contratuais análogas . Quanto ao mais, ficou de pé o estatuído no artigo 29 .°
0 disposto no § único do artigo 30 .o é que se aplica unicamente ,ao caso
previsto no corpo do artigo . Fala-se neste parágrafo dos efeitos civis da
proposição da acção e da citação do réu . Os efeitos civis da citação do
réu são os designados nas alíneas a), b) e c) do artigo 485 .° ; o efeito civil
<ia proposição da acção é o de se considerar exercido o direito dê accionar
no momento em que a petição inicial é recebida na secretaria (az+t . 267.°)
e portanto considerar-se a acção proposta em tempo desde que o recebi-
mento tenha lugar dentro do prazo fixado pela lei, quando esta fixe prazo
para a proposição .
A coligação é um direito, não é uma obrigação do autor . Pode, por
isso, suceder que se proponham separadamente acções que, nos termos
dos artigos 29 . e 30.°, poderiam ser reunidas num único processo . Em tal
caso o artigo 280 .1 permite a junção .
São figuras distintas a. mera cumulação de pedidos, a simples plurali-
dade de autores e réus e a coligação. Na mera cumulação de pedidos há
um só autor e um só réu, mas mais do que um pedido : o mesmo autor
deduz contra o mesmo réu vários pedidos na mesma acção . Na simples
Capítulo II-Das partes 45,
pluralida,1e o pedido é só um, formulado por vários autores ou contra
vários réus. A coligação tem de comum com a cumulação a circunstância .
de os pedidos serem múltiplos, e com a pluralidade a circunstância de os
autores ou os réus serem mais do que um .
Na mera cumulação de pedidos, precisamente porque 'há um único
autor e um único réu, a lei não exige que entre o5 pedidos haja conexãw,
ao contrário do que sucede na coligação ; contenta-se com a circunstância
de os . pedidos serem compatíveis (art . 274 .'), estabelecendo como sanção
deste requisito a nulidade do processo por ineptidão da petição inicial
(art . 193:", alínea d)) .
Quanto à competência do tribunal e à forma do processo, coincidem
os requisitos da coligação e da mera cumulação (art . 274 .') .
Visto que a lei permite a coligação e a simples cumulação mesmo
quando para cada um dos pedidos sejam competentes tribunais diversos
sob o ponto de vista do valor e do território, pode perguntar-se como se
resolve, em tal hipótese, a questão de competência .
Não há dificuldades no tocante à determinação do tribunal compe-
tente em relação ao valor . Cumulou-se um pedido para o qual é compe-
tente o tribunal municipal com outro para. o qual é competente o tribunal
da comarca ; como o valor da acção é condicionado pela soma dos pedidos
(art. 312,"), é claro que o tribunal competente passa a ser o da comarca .
Mas suscita embaraços a questão de saber em que circunscrição
judicial deve ser proposta a acção . Cumulou-se um pedido para o qual é
competente, por exemplo, o juízo de direito de Coimbra com outro para
o qual é competente o juizo de direito de Anadia e ainda com outro para
o qual é competente o juízo de direito -da Figueira da Foz . Em que juizo
deve correr o processo?
A lei não estabelece, para- o caso de coligação ou mera cumulação,
qualquer disposição especial de competência territorial . E assim :
a) 'Tratando-se de mera cumulação, o autor poderá escolher qual-
quer dos juizos singularmente competentes : na hipótese figurada poderia
propor a acção em Coimbra, na Figueira ou em Anádia ;
b) Tratando-se de coligação, a solução é a mesma salvo se puder
funcionar a regra do artigo 86 .', isto é, se os vários pedidos estiverem
sujeitos ao preceito de competência do artigo 85 .°
No verdade, desde que a lei admite acumulação ou coligação, por
um lado, e, por outro, não formula uma norma especial de competência .
territorial'., a situação é nitidamente esta : o autor encontra-se perante.
vários tribunais igualmente competentes . Sendo assim, o caso não com-
porta outra solução que não seja a que, em idênticas circunstâncias, se
enuncif, nn. última parte do § 1 " do artigo 85 .° e no 2, .0. período do
artigo &i .° : o autor tem o direito de escolher qualquer dos tribunais
competentes.
O a<, órdão do S. T, J . de 26-3 ."-940 (Rev . de Leg ., ano 73 .o, pág. 187)
considere t, ilegal a coligação de autores em acção de investigação de
paternidade ilegítima quando sejam filhos dê mães diferentes e entendeu
que a consequência da ilegalidade era a nulidade do processo .
d,6 Livro I, Título I -Da acção em geral
Esta última parte não está certa, em vista do que se lê na alínea i)
do artigo 499 . 1 A ilegalidade da coligação, por não existir entre os pedidos
a conexão exigida pelos artigos 29 .' e 30 .°, constitui uma excepção dilatória
diferente da nulidade de todo o processo, mencionada na alínea a) do
.artigo 499 .°
Quanto à primeira parte da decisão, é exacta . Não podem dois filhos
ilegítimos coligar-se para investigar a paternidade, posto que seja o
mesmo o pretenso pai ; e a coligação é ilegal não só no caso de os autores
serem filhos - de mães diferentes, mas até quando sejam filhos da mesma
mãe, ao contrário do que recentemente decidiu o Supremo.
Só no caso de os filhos serem gémeos é que pode sustentar-se, em
face do artigo 29 .o, que a coligação é admissível porque a causa de pedir
é o mesmo e único facto de procriação. Fora deste caso a coligação nem
satisfaz ao requisito do artigo 29 .°-ser a mesma e única a causa de
pedir-nem ao do artigo 30.° : depender a procedência do pedido da
.apreciação dos mesmos factos .
ARTIGO 3'1 .°
(O litisconsórcio nas suas relações com a acção)
No caso de 'litisconsórcio necessário, deve entender-se que
'há uma única acção com pluralidade de sujeitos .
No caso de litisconsórcio voluntário, deve entender-se que
há uma acumulação de acções, conservando cada litigante a sua
independência em relação aos seus compartes .
0 artigo 31 .° fala de litisconsórcio necessário e de litisconsórcio volun-
rário . Há litisconsórcio necessário quando, por força da lei, do contrato
ou da própria natureza da relação jurídica, a acção tem de ser proposta
por todos os interessados ou contra todos os interessados ; há litiscon-
sórcio voluntário quando a associação dos litigantes é facultativa .
'SECÇAO III
Patrocínio judiciário
ARTIGO 32 .°
(Quem pode exercer a mandato judicial)
0 mandato judicial só pode ser exercido por advogados
,e solicitadores . Quando seja conferido a pessoas que mão per-
tençam a alguma destas categorias, envolve neeessãriamente o
poder e a obrigação de substabelecer o encargo em advogado
ou solicitador .
Capítulo II - Das partes 47
Alrrlco 33 .°
I'Caus&s em que é obrigatória. a canabituição de advogado)
É obrigatória a constituição de advogado nas. causas em
que seja admissivel recurso . Mas os solicitadores e as próprias
partes são admitidos a fazer requerimentos em que sé não
levaíntern questões de direito .
Se a parte não constituir advogado, não será recebido o
primeiro articulado e, sendo-o, o tribunal, oficiosamente ou a
requerimento da parte contrária, fará notificar a parte para, den
tro ;de prazo certo, constituir advogado, sob pena de ficar sem
efeito a. acção ou a defesa .
.§ l .° Nos inventários, seja qual for a sua natureza e valor,
só é indispensável a intervenção de advogados para se suscita-
rem ou discutirem questões de direito .
§ 2 .° Quando na comarca não haja advogado, pode o patro-
cíinio ser exercido por solicitador .
Veja-se o artigo 60,°
Nestes processos a instância suspende-se quando o advogado morre
ou se impossibilita de exercer o mandato (arts. 281 .-, n .* 2 .°, 283:°, 289 .*,
alínea b), e § 2 .o) .
Quanto às colónias veja-se o n .O 1 .° da Portaria n .* 9 :677 .
A intervenção de advogados e solicitadores nos processos estava
regulada no artigo 93 .1 do Código anterior, que havia sido remodelado
pelo Decreto n' 21 :287. Depois o artigo 703 .* do Estatuto Judiciário, na
forma nova que lhe deu o Decreto n .* 22 :779, alterou o que se achava esta-
belecido no artigo 93 .° do Código, segundo a redacção do Decreto n .* 21 :887.
Agora é pelos artigos 33.0, 34 .° e 60.° do Código actual que se há-de deter-
minar a actividade forense dos advogados é solicitadores, devendo consi-
derar-se inteiramente revogado o artigo 703' do 'Estatuto (Rev . de Leg .,
ario 73 .°, pág . 107) .
No projecto primitivo (art . 48 .Q) dispunha-se que cada uma das partes
grão podia ser representada por mais do que um advogado e um solici-
tador ; e que, sendo vários os autores ou réus, recorrentes ou recorridos,
todos deviam ser representados pelo mesmo advogado e solicitador, salvo
o caso cie incompatibilidade de defesas . Esta doutrina foi vivamente
impugnada na Comissão Revisora e posta de parte em consequência disso
de; sorte que -continua a sér lícita a representação da parte por mais do que
um advol;ado . É também isto o que dispõe o artigo 87.° no novo Código
de -Processo Civil italiano.
0`disposto no § 2 .° deve aplicar-se também ao caso de haver advo-
gado oú advogados, mas estarem eles impedidos de aceitar o mandato .
Veja-se a. nota ao artigo 41.<'
48 Livro I, Título I - Da acção em geral
ARTIGo 34 .0
(Causas em que não é necessária a intervenção de advogado)
Nas causas em que não seja admissivel recurso podem as,
próprias partes pleitear por si e ser representadas por solici-
tadores.
ARTiao 35.°
(Como se confere o mandato judicial)
O mandato judicial pode ser conferido :
1 .° Por meio de procuração pública ou havida por pública ;
2.° Pela assinatura da parte, em seguida à assinatura do
mandatário, na petição inicial ou no articulado de defesa .
Neste caso a assinatura da parte tem de ser feita perante
notário que assim o certifique e reconheça a identidade do ,
mandante .
A procuração pública está definida no artigo 1320.' do Código Civil;
a havida por pública, no artigo 1322 .° do mesmo Código.
ARTiGo 36 .°
(Conteúdo e alcance do mandato judicial)
Quando a parte assinar o primeiro articulado nos termos
do artigo anterior, entender-se-á que confere poderes ao man-
datário para, a representar em todos os actos -e termos do pro
cesso principal e respectivos incidentes, mesmo perante os tri-
bunais superiores .
§ único. Nos poderes a que se refere este artigo inclui-&e
o de substabelecer.
ARTIGO 37 .°
Quando a parte declarar na procuração que dá poderes:
forenses ou para ser representada em qualquer acção, o. man-
dato terá a extensão definida mo artigo anterior.
No artigo 83.' do Códigó de Processo Civil italiano declarasse que
a procuração forense pode ser geral ou especial -e que esta se presume,
salva estipulação 'em contrário, conferida únicamente para um determinado
grau do processo, entendendo-se por grau o que entrq nóR se exprime poá
'Cap£tulo II-Das partes 49
instânció ou tribunal . 'É, portanto, diversa a doutrina desse Código da
que está consignada nos . artigos 36 .0 e 37.* do nosso..
Claro que a parte pode, na procuração, restringir os poderes confe-
ridos ao advogado ; o que se prescreve no artigo 3'7" só vale para o caso
de o mandante se limitar a conceder poderes forenses ou a autorizar o
nmndatário a representa-la em «quaisquer acções» ou em «tenta e deter-
minada acção» . Fora destes casos, o mandato terá a extensão que o
mandante lhe tiver assinado ; quando se levantarem dúvidas a tal respeito,
estamos em face do problema da interpretação do negócio jurídico .
Convém advertir de que, não podendo a parte deixar de estar assis-
tida de advogado nos processos a que se refere o artigo 33 .°, a restrição
do mandato conferido a um advogado importa a necessidade de constituir
outro para os actos que aquele fica inibido de praticar .
No artigo 37.° figura-se o caso de a parte outorgar poderes para ser
representada em qualquer acção . Há que entender esta fórmula em termos
hábeis . A parte pode exprimir-se de duas maneiras :
a) Outorgar poderes ao advogado para a representar em qual-
quer ao,ão ;
b) Outorgar poderes para ser representada em certa e determinada
acção, devidamente identificada ou individualizada .
Num e noutro caso estamos em presença duma procuração especial,
visto que procuração geral é 'a que não especifica acto algum (Cód . Civ .,
art. 1324 .°) . Quem dá poderes forenses ou passa procuração para ser
representado em qualquer acção, não confere mandato para «todos e
crzaisquer actos», mas únicamente para uma certa espécie de actos :
o exercício de mandato judicial .
É evidente que tem maior extensão o mandato judicial conferido
para «qualquer acção» do que o conferido para «certa e determinada
a<,,ção» ; aquele habilita a representar o mandante em qualquer acção e
por isso não se esgota pelo facto de ser exercido a propósito duma acção ;
deste nz.o pode fazer-se uso senão na acção para que foi concedido, extin-
guindo-se com o termo dela .
Na última alínea do artigo 39 .' do Projecto primitivo determinava-se :
«a procuração que não individualizar a causa só pode ser utilizada uma
vez e dentro do prazo de seis meses a contar da data em que foi passada» .
Não vingou esta doutrina na Comissão Revisora. Deve -entender-se, por-
tanto, que o tipo de procuração desenhado no artigo 37.° habilita o manda-
tário a :representar o mandante numa série indefinida de acções, sem
lim'itaçã'o de natureza nem -de tempo . 0 mandato judicial que aí se des-
creve, não se esgota por ser exercido uma ou mais vezes .
Aparte esta diferença, nenhuma outra existe entre o mandato outor-
gado para «qualquer acção» e o outorgado «para certa e determinada
acção», devidamente individualizada . Em relação a esta, o mandato tem
o conteúdo e alcance marcados no artigo 36 .°
0 aa-tigo 108 .° do Código de Processo Civil brasileiro define a extensão
do mandato que tiver a cláusula ad juditia, nestes termos : habilitará
o procurador a praticar todos os actos do processo, dispensada a menção
4 - CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
,50 Livro], Título I - Da acçân em geral
especial de outros poderes, salvo para receber a citação inicial, confessar,
desistir e transigir, receber e dar quitação, e firmar compromisso .
Por sua vez o Código dé Proceaso Civil italiano, . no artigo 84 :°,
exprime-se assim : quando a parte estiver representada por advogado,
pode este realizar e receber, no interesse dela, todos os actos do processo
que a lei não reservou expressamente para a própria parte ; mas não podé
praticar actos que importem disposição do direito em litígio, a não ser
que esse poder lhe tenha sido conferido expressamente.
Não obstante a diversidade de forma, pode dizer-se que, na essência,
6 a mesma a doutrina doa três Códigos : português, brasileiro e italiano.
Os actos que importam disposição do direito controvertido são a
confissão e desistência do pedido e a transacção (art . 298 .°) ; ora estes
actos não pode o advogado pratica-dos, em nome da parte senão quando
esteja munido de procuração que expressamente lhe confira tais poderes
(art. 38') e o mesmo sucede em face do artigo 108 .° do Código brasileiro .
O mandato conferido nos termos dos artigos 36:° e 37.° não habilita a
praticar esses actos .
E também 'é po itivo, em face do que se 16 no artigo 233 .*, que,
tal como sucede pelo artigo 108.° do Código do Brasil, a procuração
passada em conformidade com o artigo 37 .° não habilita o advogado do
réu a receber, em nome deste, a citação .
ARTIGO 38 .°
(Requisitos neceesdrios para que os mandatários possam confessar
a acção, desistir ou transigir)
Os mandatários judiciais só podem confessar a acção, tran-
sigir sobre o seu objecto e desistir dela ou da instância quando
estejam munidos de procuração que, individualizándo a causa,
os autorize expressamente a praticar qualquer desses actos.
Veja-se o artigo 305.0
O artigo 1328 .° do Código Civil diz que a. procuraçãà pode ser geral
ou especial ; e o artigo 1$24 .° define cada uma destas modalidades. Depois
o artigo 1325' avisa de que a procuração geral eó pode autorizar actos de
mera administração. Como as pessoas investidas 'de poderes de simples
administração 96 podem propor acções conservatórias (Cód. Civ., art. 243 .0,
n .° 9 .° art. 2083 .°), é de concluir que a proposição duma acção conserva-
tória constitui um acto de mera administração e a proposição duma acção
persecutória excede os limites da mera administração. De sorte que uma
procuração geral s6 pode habilitar a propor acções conservatôriás.
Deve considerar-se especial a procuração em que se concedem poderes
-forenses ou que autoriza a propor quaisquer acções .
A procuração exigida no artigo 38.° pode classificar-se de especia-
Afima.
Veja-se a anotação ao artigo 37 .°
Capítulo II-Das partes. ól
Awriao 39 .°
(Regime da confissão de factos feita pelo mandatário)
As afirmações e confissões expressas de factos, feitas pelo
mandatário, vinculam a parte, salvo se forem rectificadas ou
retiradas dentro de cinco dias .
Não podem -ser retiradas as confissões feitas na audiência
de discussão e julgamento, mas podem ser rectificadas até ao
encerramento da discussão .
Vejam-se os artigos 562',°°, 151%.?, § único e 570 .°
A primeira vista parece haver contradição entre o artigo 39 .* e o
artigo 570.° : o primeiro fixa o prazo de cinco dias para se rectificarem ou
retirarem as confissões de factos, e o segundo permite que as confissões
de factos, feitas nos articulados, sejam retiradas enquanto a parte con-
trária se; não tiver aceitado especificadamente . Não existe contradição,
porque o domínio dos dois textos é diferente. O artigo 5'70.° estabelece
o regime especial da confissão de factos feita nos articulados . E assim,
a doutrina é a seguinte :
a) As confissões de factos feitas na audiência de discussão e julga-
mento não podem ser retiradas, podendo porém ser rectificadas até ao
encerramento da audiência ;
b) As confissões feitas nos articulados podem ser retiradas enquanto
a parte contrária as não tiver aceitado especificadamente ;
c) As confissões feitas em qualquer outro momento padem ser reti-
radas dentro de cinco dias.
ARTiGO 40 .°
(Revogação e renúncia do mandato)
A revogação e a renúncia do mandato devem ser requeridas
no próprio processo e nótificadas, tanto ao mandatário ou ao
mandante, como à parte contrária .
Os efeitos da revogação e da renúncia produzem-se a partir
da data dá notificação, salvo nos processos em que é obriga-
tória a cons, tituição de advogado, porque nestes a renúncia só
produz deito depois de constituído novo mandatário .
único . Se a parte, depois de notificada da renúncia, se
demorar a constituir novo advogado nos processos em que a
constituição é necessária, pode o mandatário requerer que se
fixe prazo para esse fim . Findo o prazo sem aparte ter provido,
62 Livro I, Título I - Da aeçdo em geral
considerar-se-á extinto o mandato e a parte ficara fna situação
de revelia.
Veja-se o artigo 263 .°
Trata-se, é claro, neste artigo 40.° da revogação e renúncia do man-
dato judicial.
Assim como o mandante pode revogar, quando e como lhe
aprouver, o mandato conferido (Cód. Civ.; art . 13f4 .°), ao mandatário
é igualmente lícito renunciar ao mandato quando não lhe convier conti
nuar a exercê-lo. A revogação tem de ser notificada ao mandátárioo
e à parte contrária ; a renúncia tem de ser notificada ao mandante e à
outra parte.
Enquanto a notificação se não fizer, o acto não produz efeitos . Mas
estes nem sempre se produzem a partir do momento da notificação .
Há que atender ao disposto na última parte da 2 .` alínea do artigo e no
§ 2.' do artigo 263 . 1
Se o mandato consta de procuração já èncorporada no processo, o
efeito ~da revogação .s6 se produz a partir da junção, ao processo, do reque-
rimento e da certidão da notificação ; pelo que respeita à renúncia, há que
distinguir : a) ou se trata de processos em que, nos termos dos artigos 33"
e 60 .o, é obrigatória a constituição de advogado ; b) ou de processos ein que
a constituição de advogado é facultativa . No 2 . 1 caso a doutrina é a mesma
que para a revogação : o efeito produz-se a partir da junção do requeri-
mento e certidão da notificação ; no 1 .1 caso o advogado tem de continuar
a 'exercer o mandato enquanto o mandante não constituir outro man-
datário . Esta obrigação é consequência da regra geral formulada no
artigo 1368.° do Código Civil .
Pode ,suceder,, porém, que o mandante não seja solícito em constituir
novo advogado ; logo que o mandatário entenda que há demqra, pode
requerer ao juiz que fixe prazo para a constituição ; o juiz pode ouvir
a parte sobre o prazo necessário, wsim como pode, a requerimento do
mandante, prorrogar o prazo primitivamente fixado . Se o prazo expirar
sem que o mandante haja constituído novo advogado, o mandato consi-
dera-se extinto pela renúncia e a parte respectiva fica na situação de
revelia .
Visto que o mandato judicial pode ser conferido por meio de pro-
curação ou pela assinatura da parte (art . 35 .*), pode perguntar-se se o dis-
posto nos artigos 40 .' e 263:° se aplica a uma e outra forma de constituição
do mandato.
Parece-nos evidente que o § .2 .o do artigo 263 .° só tem aplicação ao
caso do n.° 1 .' do artigo 35.° e que o artigo 40.° se aplica tanto a este como
ao caso do n .° 2' do mesmo artigo.
O artigo 85.°, do novo Código de Processo Civil italiano declara que
a revogação e a renúncia hão produzem efeito em relação à parte contrária
enquanto não for constituído novo advogado .
Capítulo II- Das partes 53
ARTIGO 41 .°
(Falta, insuficiêência e irregularidade do mandato)
A falta, a insuficiência e a irregularidade ~do mandato
podem, em qualquer altura, ser arguidas pela parte contrária
e suscitadas oficiosamente pelo tribunal . O juiz marcará b
prazo dentro do qual deve ser suprida a falta ou corrigido
o vício e ratificado o processado . Findo este prazo sem que
esteja regularizada -a situação, ficará sem efeito o que tiver sido
praticado pelo mandatário, devendo este ser candenádo nas
cu's'tas respectivas e na indemnização dos prejuízos a que tiver
dado causa.
O artigo ocupa-se de três anomalias diferentes :
a,l Falta de mandato;
bJí Insuficiência de mandato ;
c,! Irregularidade de mandato .
A. falta de mandato dá-se quando um advogado está em juízo a
praticar actos . em nome da parte, sem que esta o tenha autorizado
a praticá-los, nos termos dos n. 1.o e 2.° do artigo 35.o
A. insuficiência de mandato pressupõe que o advogado está munido
procuração passada pela parte, mas a procuração rião contém os
poderes necessários, não habilita o mandante a praticar os actos que está
praticando . É o caso de a procuração ser geral e o advogado tê-la apro-
veitado para propor uma acção persecutória, salvo se da demora da sua
inÉtaut"açãq puder resultar a extinção do direito ou de qualquer garantia
(argumento derivado do art. 12.o) ; é o caso ainda de a procuração ser
especial, .mas não conferir poderes para propor acções ou representar
a parte em juízo, etc .
A, irregularidade do mandato diz respeito à forma : a procuração
não sfktisfaz aos requisitos necessários para ser pública ou havida por
pública.
Ctinvém aproximar o artigo X41.° da .2' alínea do artigo 33" Os dois
textos- :vi$am casos diferentes : a 2.° 'alínea do artigo 33.° prevê a hipótese
de a parte se apresentar em juízo por si, quando devia estar representada
por advogado, o artigo 41.° prevê a hipótese de o advogado se apresentar
em juízo em nome da parte, sem estar munido de mándato que o habilite
a rep:resentá=la, ou estando munido de procuração insuficiente ou irre-
ghlar.
Poderia parecer que a 2.a alínea do artigo 32.o abrange também os
casos previstos no artigo 41.*
Sé o advogado propõe, em nome da parte, uma causa sujeita a patro-
cínio ;iudiciário obrigatório, sem lhe ter sido conferido mandato ou fazendo
uso de. mandato insuficiente ou irregular, é como se a parte não houvesse
94 Livro 1, Título 1- Da acção em geral
constituído advogado. Mas a verdade é que estamos nitidamente -em
presença dos vícios previstos no artigo 41 .° e por isso deve aplicar-se
o que neste artigo se prescreve, quer se trate de causas para que sèja
facultativa a constituição de advogado, quer das causas para que tal cons-
tituição seja obrigatória, pois que o artigo não distingue .
O que fica então para campo de aplicação do artigo 334?
Fica este caso: num processo em que é obrigatória a constituição
de advogado a parte está por si só em juízo .
Quando oe verifique este caso, a primeira sanção que o artigo '33 .11
comina é ,severa : o juiz não deve receber o primeiro articulado (á petição
inicial, quando a falta seja cometida pelo autor, a contestação, quando a
falta seja do réu) . A sanção é severa, porque pode ter como consequência
a perda do direito de acção ou de defesa ; é o que sucede se na altura .da
aplicação da sanção já tiver expirado o prazo para a proposição da acção
ou para o oferecimento da contestação .
Nesta parte é que o regime estabelecido na 2 .` alínea do artigo 33 .°
se diferencia do adoptado no artigo 41°
Pode acontecer que o juiz, par inadvertência, receba o articulado .
Daí por diante é sensivelmente igual o regime dos dois artigos : a parte
contrária pode requerer que se fixe prazo para a constituição de -advo
gado, para o suprimento da falta, da insuficiência ou da irregularidade de
mandato, e .o próprio juiz- pode, por s!ua iniciativa, fixar esse prazo, logo
que se aperceba da ilegalidade :
Se a parte não providenciar, dentro do prazo , fixado, . 'fica sem
efeito a acção ou a defesa (art . 33 .°), ou ò que tiver sido praticado
pelo mandatário, (art. 41') . No caso do artigo 33.° é claro que; cessando
a acção, paga as custas o autor ; se ficar sem efeito a defesa, desentra-
nha-se do processo a contestação, mas não há lugar a condenação ime-
-diata em custas .
No caso do artigo X41 .° é condenado o mandatário nas custas res-
1?eetivas e na :indemnização dos .prejuízos .a que tiver. dado causa .
Não é tudo . Pode ir mais longe a reacção contra a inobservância
da lei . O.,Rue se determina nos artigos 33 .1 e 41' completa-se ainda com
o que está prescrito na alínea e) e § 1 .o do artigo 499 .° Suponhamos que
não ae tomam as providências ordenadas nós artigos 33 .* a 41.° : a falta
de constituição de advogado, a falta, insuficiência oq irregularidade doe
mandato não se sanam, nem por iniciativa do tribunal, nem em conse-
quência de arguição da parte contrária ; o processo continua a correr,
sem que a falta ou o vício tenham, sido notadob e supridos eu corri-
gidos .
Entra então em jogo a alínea e) do artigo 499 .* `Tratando-se da falta
de c~ituição de advogada par parte do autos, ou da falta, insuficiência
ou irregularidade de mandáto, por parte da niandatário que haja proposto
a acção, a 5.legalidadc passa a constituir uma ex~ão dilatória; de que
o juiz deve conhecer no despacho saneador (art . n .° 1f), ou oficiosa
mente, ou mediante arguição do réu (art . 499 ",;, § tendo como conse-
quência a absolvição de réu da instancia (art. 293'.o, n:" 5..*) .
Capítulo II - Das partes 65
E 3e se tratar da falta de constituição de advogado por parte do réu,
ox da ^.falda, insuficiência ou irregularidade de mandato por parte db
mandat¬trio que haja actuado em nome do réu?
A alínea e) do artigo 499 .° exclui esta hipótese . A anomalia não
pode então converter-se em excepção dilatória, visto que esta é um meio
de defesa do réu e quem está em falta é precisamente o réu ou o manda-
tário que em nome dele agiu .
Não quer isto dizer que a anomalia deva considerar-se sanada pelo
facto de o processo ter' chegado ao despacho saneador sem qualquer
espécie de reacção contra ela . Continua de pé a sanção organizada no
artigo 41 .° O texto diz expressamente que em qualquer altura podem os
vícios de que aí se fala ser arguidos nela parte contrária ou suscitados
oficiosamente pelo tribunal .
Dai vem que, mesmo no tocante à falta, insuficiência ou irregulari-
dade de mandato por parte do mandatário que haja procedido em nome
do autor, o preceito db artigo 4'1 :° não perde a sua eficácia pelo facto
de a ilegalidade ter assumido o carácter de excepção dilatória . Se a
excepção não for alegada ou o Juiz não conhecer dela no despacho sanes=
dor, pode o réu, ã. sombra do artigo 41 . 1 , deduzir posteriormente a sua
arguição. As palavras cem qualquer altura> são peremptórias.
No artigo 33' não se lê esta frase. Más não pode deixar de enten-
der-se que o pensamento da lei é o mesmo . Em primeiro lugar, não se
sujeita ~s prazo a reacção contra a falta ; diz-se que o tribunal, oficiosa
mente ou a requerimento da parte contrária, fará notificar a parte para
a constituição de advogádo, sem ae eubord'inár este procedimento a 'qual-
quer limite de tempo .
Em, segundo lugar, é manifesto que a lei reputa mais grave a falta
de que se ocupa o artigo 33.o Não faria, por isso, sentido que pudesse,
em qualquer altura, reagir-se contra faltas menos graves e não se pudesse
,reagir contra uma falta de maior gravidade.
ARTiGo 42 .0
(Patrocínio 4udi~ a titulo de gestão de neoócios)
IEm . casos de urgência, pode um advogado ou um solicitador
exercer o patrocínio judiciário como gestor de negócios da parte .
Mas se esta não ratificar a gestão dentro do prazo que for assi
nado, será o gestor condenado nas custas a que deu causa e na
indemnização das perdas e danos que tiver eito sofrer à parte
contrária ou :à parte cuja gestão assumiu .
nova esta disposição. Não se encontra texto idêntico noCÓdigo de
Processo Civi4 italiano ; no Código brasileiro o artigo llo' exprime-se assim :
«Sem a apresentação do instrumento de mandato, ninguém será
admitido em juízo para tratar de causa em nome de outrem, salvo, em
&8 Livro I,, Titulo I -Da, acção em geral
caso de urgência, quem se obrigue, mediante caução, a concordar com
ó que for julgado e a exibir procuração . regular dentro em prazo fixado
pelo juiz.
§ único . Os, actos praticados ad referendum serão havidos. como
inexistentes, se-a ratificação não se realizar no prazo marcados
Estamos em presença dum caso nítido de gestão de negócios . Se o
advogado ou o solicitador se apresenta voluntàriamente a propor uma
açção em nome de pessoa que o não autorizou a fazê-lo, ou a tomar, sem
autorização do réu, a defesa dele, o acto reveste ò aspecto duma verda-
deira gestão de negócios, tal como a configura o artigo 1723.° do Código
civil.
0 Código brasileiro, 'do mesmo modo que o nosso, exige ~,haja
urgência na intervenção ; mas exige mais alguma coisa: que o gestor se
abrigue, mediante caução, a concordar com o que 'for julgado e a exibir
procuração no prazo que o juiz fixar. A primeira obrigação não tem
justificação plausível, a nosso ver ; a segunda não se torna necessária.
Em face do artigo 42.* o gestor é condenado nas custas e na indemnização
de perdas e danos, desde que a parte não ratifique a gestão dentro do
prazo que for assinado.
Em que consiste a ratificação da gestão? Em a parte aprovar o que,
em seu nome, foi praticado pelo advogado ou solicitador. A parte pode
fazer isto de duas maneiras
a) Ou por meio de procuração passada ao gestor, dando-lhe poderes
para a representar e ratificando o que até aí ele praticou;
b) Ou por meio de termo lavrado no processo.
Não há, pois, necessidade de exigir antecipadamente do gestor o
compromisso de exibir mais tarde procuração. O que importa 'é colocar
o advogado ou o solicitador perante o dilema : ou obtém a ratificação da
parte, ou responde pelo que fez .
Claro que, se a parte, não ratificar a gestão, os actos praticados
nenhum valor têm como actos praticados em nome dela : ficam, por isso,
sem efeito e seguem-se as consequências naturais . Se a gestão consistiu
em o advogado ou solicitador propor uma acção, esta tem-se .como não
proposta e o processo finda ; se consistiu em o gestor assumir a defesa,
considera-se o réu em situação de revelia.
Como se distingue o caso previsto no artigo X42.° do caso de falta de
mandato a que se refere o artigo 4LO?
Parece que as duas situações são idênticas, visto que a gestão de
negócios se caracteriza precisamente pela falta de autorização e portanto
de mandato .
E todavia há diferença. No caso do artigo 41.o o advogado ou soli-
citador -procede como mandatário; no caso do artigo 42" procede como
gestor . Por outras palavras : o acto de vontade praticado pelo interveniente
tem alcance e significação diferente num e noutro caso. Uma coisa é o
advogado ou solicitador querer agir a titulo de mandatário e apresentar-se
como tal, embora, de facto, por esquecimento ou inadvertência, -não exiba
mandato, outra coisa é querer actuar a titulo de gestor de negócios e assu-
Capítulo II - Das partes 57
mir declaradamente essa posição . Quando se verifique a . primeira hipó-
tesé, rege o artigo i4'1.° ; quando se verifique a segunda, rege o artigo 42 .*
O gestor tem de alegar a urgência ; e deve procurar convencer
dela o juiz.
A urgência consistirá naturalmente em a . parte se encontrar, por
qualquer circunstância, impossibilitada de providenciar e sofrer prejuízo
sie não irar exercida a gestão. Não deverá o juiz ser demasiado exigente
na apreciação da urgência ; mas é claro que lhe cumpre repelir a inter- .
venção, se lhe parecer manifesto que não se justifica a tentativa de intro-
missão . ,do advogado ou. do solicitador . Importa evitar que à sombra do
artigo 42 .* medre o processei desonesto da caça à procuração .
Admitida a gestão judiciária, o juiz., ou oficiosamente ou a requeri-
mento da parte contrária, fixará o prazo dentro do qual há-de ser rati-
ficada.
ARTIGO 43 .°
(Assistência técnica aos advogados)
Quando no processo se suscitarem questões de natureza
técnica para as quais o advogado não tenha a necessária prepa-
ração, pode este fazer-se assistir, durante a produção da prova
e a discussão da causa, de pessoa que possua competência espe-
cial para se ocupar das referidas questões .
Até oito dias antes da audiência de discussão e julgamento
o advogado indicará no processo a pessoa que escolheu e a
questão ou questões para que reputa conveniente a sua assis
tência ; dar-se-á 'logo coidhecimento do facto ao advogado da
parte contrária, que poderá, dentro de cinco dias, usar de igual
direito .
A intervenção pode ser recusada quando se julgue des-
necessària .
único . Em questões para que tiver sido
relação às
designado, o técnico terá os mesmos direitos e deveres que os
mandatários judiciais, mas deve prestar o seu concurso sob a
direcção -do respectivo advogado .
Este artigo teve por fonte o artigo 22 .° do Projecto CARNELUM .
0 Código admite duas espécies de assistência técnica : a) aos advo-
gados das partes ; b) ao tribunal. Aqui trata-se da primeira ; da segunda
ocupam-se os artigos 618", 650.° e 652 .°, alínea f) .
Também o Código italiano se refere, nos artigos 87 .' e 201 .°, ao con-
sulente técnico da parte e nog artigos 6.1 .* a 64 .° e 191 .' a 198' ao consu-
lente técnico do tribunal. 0 Código brasileiro só fala de assistente técnico
às partes (art . 132 .') .
58 Livro I, Título I -Da acção em geral
Nos termos do artigo 43.° a designação de assistente técnico em
benefício da parte só -pode ser feita através de advogado . Sie a parte não
constituiu advogado, não pode fazer-se assistir de um técnico.
A intervenção deste é limitada aos períodos da produção da prova
e da discussão da causa. Na fase dos articulados não é admitida tal inter-
venção.
Quando no artigo 43.° se fala da discussão da causa, deve entender-se
abrangida tanto a discussão final regulada no artigo 1653.o, como a discussão
preparatória de que se trata no artigo 513"
O direito à assistência técnica exerce-se do seguinte modo : o advo-
gado indica, no processo, até oito dias antes da audiência de discussão e
julgamento do artigo 653 .°, a pessoa que escolheu e a questão ou questões
para que reputa conveniente a sua assistência ; o juiz ou admite a inter-
venção ou a recusa, conforme a julgar ou não necessária; se a admite,
manda notificar imediatamente do facto o advogado da parte contrária,
que, dentro de cinco dias, pode igualmente designar um assistente! técnico .
Algumas dúvidas se suscitam. Poderá o advogado fazer-se assistir
de mais do que um técnico? O artigo diz : indicará a, pessoa ; parece; pois,
que não é lícito escolher mais do que uma . Mas não deve interpretar-se
assim o texto legal.
O advogado tem de mencionar a questão ou questões para que reputa
conveniente a assistência do técnico ; e bem se compreende que, havendo
várias questões de natureza técnica, a mesma pessoa não seja porventura
idónea para prestar a sua colaboração especial em todas elas ; se as ques-
tões técnicas forem de natureza diferente e exigirem determinada- espe-
cialização, a assistência só se torna perfeita quando para- cada uma delas
for possível escolher um técnico . Portanto a lei deverá entender-se neste
sentido :, para cada questão não poderá o advogado designar mais do que
um assistente, mas pode designar assistentes diversos para as várias
questões.
A designação está sujeita à fiscalização do juiz. Este pode recusar
a intervenção no todo ou em parte ; pode julga-la desnecessária em relação
a determinada questão e' necessária ou conveniente quanto a outra ou
outras.
Mas o que o juiz não pode é exercer censura sobre a escolha feita
pelo advogado . 'Se admitir a' assistência ; esta há-de realizar-se por inter-
médio da .pessoa designada.. E também não é licito à: parte coiitráxia
deduzir quaisquer suspeições, impedimentos ou recusas contra o técnico
indicado .
>r' que o técnico funciona, não como um perito, semelhante àqudq#
a que se referem os'artigos 5-86.° e seguintes ; mas como um mamdatário.
(art. 43.o, § único)'e a base do mandato é a confiança do mandante .
A mesma índole tem, segundo cremos, o cpnsulente técnico das
partes admitido pelo Código italiano, visto que se fala dele a propósitq
dos defensores das partes e se coloca no mesmo plano que os advogados
(art 87.°) . 'Pelo'cont~o, no Código, brasileiro o assistente técnico das
partes reveste a figura dum perito (art. 132 .*) . ,
Capítulo II-Das partes 59
Quanto à,actividade a exercer pelo técnico, o § único do'artigo 43 .°
delimita-a assim : em relação às questões para que tiver sido designado,
o técnico terá os mesmos direitos e deveres que os mandatários judiciais,
mas de-, ,e prestar o seu concurso sob a direcção do respectivo advogado.
A intervenção do técnico é circunscrita à questão ou questões «para
que tiver sido designado» . Esta fase há-de entender-se em termos conve-
nientes . O advogado é que inflita inicialmente a questão ou questões
para que deseja a assistência técnica ; mias a indicação está sujeita, como
dissemos, à cènsura do juiz . Portanto onde se diz «para que tiver sido
designado» deve ler-se «para que tiver sido requisitado pelo advogado
e admitido pelo juiz» .
Dentro da questão ou questões respectivas, o técnico desenvolve a
sua acção em .dois momentos diferentes : no acto da produção da prova
e no acto da discussão. Em cada um,destes momentos competem-lhe os
mesmos direitos e incumbem-lhe os mesmos deveres que ao advogado
da parte . E assim o técnico tem, como o advogado,, o direito de formular
quesitos aos peritos, de fazer a estes as observações que entender, de
apresentar reclamações sobre as respostas (arts. 585.°, 597 .°, 600.'), de
esclarecer o juiz e chamar a sua atenção para determinados factos . na
inspecção judicial (art. de interrogar as testemunhas ou de requerer
que sejam esclarecidas é completadas as suas respostas (art . 641 .o) ; pode
usar da palavra na audiência preparatória (art . 513 .°) , assim como na
audiência final de discussão e julgamento (art . 653 .°, alínea e) .
Como o técnico exerce a sua função ao lado do advogado e paralela-
mente com ele, convinha evitar que da intervenção dos dois resultassem
atritos, divergências, atitudes e actuações, contraditórias . No § 2 .o do
artigo X16' do Projecto primitivo impunha-se ao técnico o dever de «pres-
tar a sua colaboração em perfeita concordância com o respectivo advo-
gado» ; ma Comissão Revisora reconheceu-se a conveniência de empregar
uma fórmula que inculcasse uma disciplina mais severa e por isso . se disse :
«deve prestar .o seu concurso sob a direcção do respectivo advogado» .
0 técnico tem, pois, de submeter-se à orientação, às indicações e às
directrizes que lhe forem traçadas pelo advogado com quem trabalha .
ARTIGO 44 .°
(Nomeação oficiosa de advogado)
Se a parte não encontrar quem aceite voluntàriamente o seu
patrocínio, poderá dirigir-se ou ao presidente do conselho dis-
trital da Ordem dos Advogados ou à respectiva delegação para
que lhe nomeiem advogado .
A nomeação será feita sem demora e notificada ao
nomeado, que poderá alegar escusa dentro de quarenta e
oito ~hctras . Na falta de escusa ou quando esta não seja jul-
60 Livro I, Título I -Da acção em geral
gada legítima por quem fez a nomeação, deve o advo-
gado exercer o patrocínio, sob pena de procedimento dhci-
plinar .
!§ único. O que fica disposto neste 'artigo aplicar-se-á à
nomeação de solicitador, sendo porém exercidas pelo juiz as
atribuições cometidas ao presidente do conselho distrital e à
delegação. Ao juiz. pertencerá também a nomeação de advogado
quando o presidente o não faça dentro de cinco dias ou nos casos
cie urgência .
Nas colónias a nomeação compete sempre ao juiz, nos termos do
n .* 2 .° da Portaria n.° 9 :677 .
"Pode suceder que o autor ou o réu não encontre quem aceite volun-
tàriamente o seu patrocínio. O facto é frequente nas comarcas que têm
a sede em vilas ou cidades pouco populosas, em que haja um quadro
reduzido de advogados inscritos " Ordem. São, em regra, de duas
espécies as razões da recusa dos advogadas em aceitar o patrocínio :
a) razões atinentes àí pessoa do adversário ; b) razões atinentes à matéria
da causa . Na maior parte dos casos o advogado recusa-se, porque tem
relações de amizade ou parentesco com o adversário da parte que lhe
oferece o mandato, ou este adversário é credor, .para com o advogado,
de atenções, favores ou consideração especial .
Outras vezes a recusa filia-se em considerações relacionadas com
o objecto da causa : o advogado entende que a parte não tem razão, ou já
foi ouvido pela parte contrária, ou não se sente à vontade, por qualquer
circunstância particular, para defender a pretensão ou o ponto de vista
da parte .
Convém definir com precisão o facto previsto no artigo . A lei des-
creve-o assim
«Se a parte não encontrar quem aceite voluntàriamente o seu patro-
cínio . . .».
Em primeiro lugar deve {) texto interpretar-se como se nele figu-
rassem as palavras anã comarca ou julgado» . Para que ;a parte tenha
o direito de pedir a nomeação oficiosa de advogado, não é necessário que
o patrocínio tenha sido recusado não só pelos advogados do auditório,
isto é, da comarca ou julgado em que a causa corre ou há-de correr,
senão também pelos das comarcas vizinhas . Não se pode ir tão longe ;
a lei não quis impor ao autor ou ao réu o encargo de ir procurar advogado
em comarca estranha, quando o possa obter na própria comarca.
Verifica-se, pois, o evento visado pelo artigo quando a parte não
encontrar, na comarca ou julgado respectivo, quem aceite voluntàriamente
o seu patrocínio . Mesmo em relação à comarca ou julgado da cansa,
a disposição legal deve executar-ase sem rigor demasiado .
Para que obtenha deferimento ao seu pedido, não é indispensável
que o requerente faça. a prova cabal e convincente de que bateu à porta
Capítulo II - Das partes 61
de todos os advogados e a encontrou fechada ; exigir semelhante demons-
tração é sujeitar a parte a diligências deprimentes e vexatórias. Para
que há-d.e obrigar-se o interessado a andar de porta em porta, de escri-
tório em escritório, a solicitar, um patrocínio que de antemão sabe lhe
será recusado?
Na prática, basta que a parte alegue não encontrar patrono ; .não
se exige a prova de que ofereceu em vão o mandato a todos ou a alguns
dos advogados .
Muitas vezes a parte limita-se a dirigir-se ao seu advogado habitual
oú àquele que lhe merece mais confiança e requer a nomeação oficiosa
pelo simples facto de ele não aceitar o patrocínio, encaminhando as coisas
no sentido de a nomeação recair nessa pessoa, por ter a segurança de
que, embora se haja recusado a aceitar o mandato oferecido, não alegará
escusa, se for nomeado oficiosamente:
Pelo artigo 15.1 do Código anterior e pelo artigo 47.o do Projecto
primitivo a nomeação de advogado oficioso competia ao juiz ; pelo
artigo X44.° do Código actual compete ou ao presidente do conselho dis
trital da Ordem dos Advogados ou à respectiva délegação, e só subsi-
diàriamente ao juiz.
Pode perguntar-se se o presidente do conselho distrital tem sempre
competência para fazer a nomeação ou se o presidente e a delegação têm,
cada um,, a sua esfera de acção própria.
Parece-nos que a competência do presidente do conselho distrital
não é cumulativa com a da delegação ; se a causa correr ou houver de
ser proposta em comarca em que haja, delegação, é a esta que cabe
nomear o advogado ; se o facto se der na comarca sede do conselho dis-
trital, a nomeação pertence ao presidente dó conselho .
Duas razões nos determinam : uma razão de urgência e uma razão
de! competência . Razão de urgência : o artigo quer que a nomeação seja
feita sein demora e consequentemente quer também que sem demora
se aprecie a escusa e se faça a nova nomeação, no caso de ser julgada
legítima a escusa apresentada ; ora mais depressa se conseguirá tudo isto,
se a atribuição pertencer, fora da comarca sede do conselho distrital,
à respectiva delegação .
Razão de competência : nas comarcas afastadas da sede do conselho
a delegação, conhecendo as pessoas e os factos da localidade, está em
melhor pasição do que o presidente, do conselho para fazer a nomeação
e para julgar a escusa .
No segundo período do § único comete-se ao juiz a nomeação em
duas circunstâncias : . a) quando o presidente a não faça dentro de cinco
dias ; b) nos casos de urgência . fe a nomeação, em vez de pertencer ao
presidente do conselho distrital, pertencer a,delegação e esta a não fizer
dentro ci.e cinco dias, não pode deixar de entender-se que se devolve tam-
bém ao juiz .
Os casos de urgência dizem naturalmente respeito ao patrocínio para
a proposïção de acções que seja necessário instaurar ou para o requeri-
mento de providências que seja necessário pedir dentro de prazo de tal
62 Livro I, Titulo II- Da acção executiva
modo curto que não se compadeça com 'as delongas do recurso aos orga-
nismos da Ordem .
Importa advertir que a :nomeação oficiosa tanto pode ser requerida
para ~as causas em que é obrigatória a constituição de advogado, como
para aquelas em que a constituição é facultativa . 0 artigo 44 .* não dis
tingue ; e não há razão para distinguir. A parte tem direito a patrocínio
judiciário, mesmo quando possa pleitear por si .
Feita a nomeação, notifica-se ao advogado nomeado . Este pode,
dentro de 48 horas, pedir escusa ; da legitimidade desta conhecerá a enti-
dade que houver feito a nomeação . 'Se a escusa for admitida, deve ime
diatamente nomear-se outro advogado, seguindo-se os mesmos trâmites.
Não especifica a lei os motivos de escusa que devam considerar-se
legítimos. Por isso, a apreciação fica ao prudente arbítrio de quem haja
de julgar . Mas é natural que se considerem sobretudo legítimas as escusas
fundadas em inibições morais e de consciência, como as de o advogado ter
aconselhado a parte contrária ou entender que o litigante não tem razão.
Claro que a nomeação não pode recair em advogado estranho à
comarca respectiva. Não pode impor-se a um advogado o encargo de
exercer o patrocínio fora da sua comarca .
Daí vem que, se na comarca houver um único advogad&e este já
tiver aceitado o patrocínio da ;parte contrária, ou se, havendo mais do que
um, todos eles estiverem .inibidos de aceitar o mandato ou obtiverem
escusa, a nomeação oficiosa .não pode ter lugar. Em tais circunstâncias
a parte, ou se faz representar por solicitador, nos termos do § 2 . 11 do
artigo M .°, oq constitui um advogado de comarca estranha, ou pleiteia
por si, caso possa faz&3b, more termos do artigo 34 .°
TITULO II
Da acção executiva
Depois de tratar da acção em geral no titulo 1 .°, o Código ocupa-se
~cial~te, no título 2 .°, da acção executiva. Quer isto dizer que as
disposições do titulo 1.0, como disposições de carácter,geral, são também
aplicáveis i3 acção executiva, naquilo em que o puderem ser e não esteja
em oposição com o que neste titulo 2 .° se prescreve.
CAPITULO 1
Do título executivo
,ARTiao 45 .°
(Função do título executivo)
Toda a execução terá por base um título, pelo qual se
determinarão o fim e os limites afia acção executiva. A exe-
Capítulo I-po título executivo 63
sução pode ter por fim ou o pagamento de quantia certa, ou a
-entrega de cousa certa, ou a prestação dum facto .
A acção executiva supõe um título executivo, isto é, um título com
força legal suficiente para servir de base à execução .
É pelo título que se determina o fim da acçião executiva, isto é, con-
forme o título consigna a obrigação de pagar uma quantia, de entregar uma
coisa ou de prestar um facto, assim terá de promover-se ou a execução
para pagamelito de quantia certa (arts. 811.0 a 927 .*), ou` a execução para
entrega de-coisa certa (arte . 928 .° a 932 .") , ou a execução para prestação
de facto <arts. 933 .° a 943f) .
É gelo título que se determinam os limitas da acção éxecutiva, isto é,
a exten,9.ão e o conteúdo da obrigação do devedor e consequentemente até
onde pode ir a acção do credor .
Podem dar-se várias hipóteses :
1' Promoveu-se uma execução sem título ;
2.' PPromoveu-se uma execução com base num título que não tem
força executiva ;
3.' Promoveu-se uma execução que está em desconformidade com
o titulo, ou no tocante ao fim, ou no tocante aos limites ;
4.' O credor, apesar de~ estar munido de titulo executivo, fez uso
do proce"aso de declaração
.
Os dois primeiros casos são equivalentes. Em qualquer deles o exe-
cutado pode lançar mão dum destes meios : a) agravar do despacho que
ordenou a sua citação ; b) deduzir oposição por simples requerimento
(arte. 81.2 .*, 813.°, n.o 3" e 815.°) . Pode também arguir a falta ou a inexe-
quibilidade do titulo nos embargos; mas só lhe convém usar deste meio,
se houver de opor os embargos por outro motivo (art. 812 .°, § 2.') .
O Código não se refere expressamente à falta absoluta de título ; só
alude, no n.* 3:° do artigo 813:°, à inexequibilidade do título . Mas é evidente
que se a oposição é lícita quando o título é inexequível com maioria de
razão o é quando não há titulo algum. Acresce que só são taxativos os
fundamentos de oposição quando a execução se baseia em sentença; ora,
se não há título algum, o caso cai sob o domínio do artigo 815.', e não sob
o domínio do artigo 813 .o
Pelo artigo 173:° do Decreto n' 21 :287, reprodução do artigo 72.° do
Decreto n.° 12 :3'53, a,inexe'quibilidade do título devia ser alegada, em reque-
rimento, dentro de cinco diás a contar da citação ; e era esta a doutrina do
artigo 11!52` do Projecto primitivo. Mas entendeu-se, afinal, que não havia
necessidade nem vantagem em destacar a oposição fundada na inexequi-
bilidade do título ; ficou, pois, a oposição fundada neste motivo integrada
no regime geral da oposição regulado nos artigos 812.° e seguintes.
O terceiro, caso assemelha-se ao primeiro. Desde que a execução não
é conforme ao título, na parte em que existe a divergência tudo se passa
como se não houvesse título : nessa parte a execução não .encontra apoio
no título .
64 Livro I, Título II -Da acção executiva
O quarto caso está previsto no n .° 4 .° do artigo 4'58.° Se o réu não
contestar, é o autor quem paga as custas do processo de declaração . Mas
convém notar que as custas só ficam a cargo do autor quando ele tenha
usado, sem necessidade, do processo de declaração. Pode suceder que,
apesar de possuir um título executivo, o autor tenha necessidade de
recorrer ao processo de- declaração. Veja-se o artigo 458 . 1
O sr . Dr. Palma Carlos (Cód . de Proc . Civ . anot ., pág. 176) entende que
o juiz deve indeferir in limine a petição quando se proponha acção decla-
rativa, havendo título executivo . O sr . Dr . Lopes Cardoso (Manual da
acção executiva, pág. 21) sustenta, com razão, que o facto está unicamente
sujeito à sanção do artigo 458 .°-responsabilidade pelas custas-, salvo
so o título executivo for uma sentença, porque neste caso pode o réu
alegar a excepção de caso julgado. Veja-se Alberto dos Reis, Processo de
execução, vol. LO, pág. 201 .
ARTioo 46 .0
(Espécies de títulos executivos)
Podem servir de base à execução :
1 .° As sentenças -de condenação ;
2 .°Os autos de conciliação ;
3 .°As escrituras públicas ;
4 .°As letras, livranças, cheques, extractos -de factura, vales,
facturas conferidas -e quaisquer outros escritos particulares, assi-
nados pelo devedor, dos quais conste a obrigação de pagamento
de quantias determinadas ;
5 .° Os títulos a que por disposição especial for atribuída
força executiva .
Enumeram-se os títulos executivos. O artigo teve por fonte o
artigo 798 .0 do Código anterior e os artigos 172 .o e 197 .o, n.° ;2 .0, do Decreto
n .° 21 :287. É claro que a enumeração é taxativa.
a) Sentenças. Só as sentenças de condenação é que podem servir de
base à execução . Não deve cónfundir-se a frase «sentenças de condenação»
com esta outra «sentenças proferidas em acções de condenação» . A alínea b)i
do artigo 4° define as acções de condenação . Se numa acçaso de condena-
ção o autor obtém sentença favorável, é claro que esta sentença constitui
título executivo . Mas é também título executivo, no tocante e. custas, e
porventura a multa e indemnização, a sentença que julga improcedente a
acção de condenação e a proferidá . em acção de simples apreciação ou em
- acção constitutiva . As sentenças proferidas em acções conservatórias ou
em acções constitutivas são também títulos executivos quanto aos actos ou
providências que ordenam e quanto à mudança que deteraninam. Veja-se
Alberto dos Reis, Processo de execução, vol. 1 .°, pág. 126 .
Os artigos 47.0 a 50.o completam o n .o 1 .° do artigo 46 .o
Capítulo I -Do título executivo 6,5
b) Autos de aoncilidção. -São, em primeiro . lugar, os autos a que
se referf!xn os artigos 418:° e 479:° Mas a conciliação, em vez de ter lugar
perante o juiz de paz antes, de proposta á acção, pode ser levada a cabo
pelo juiz municipal, ou de direito no decurso do processo contencioso
(art . 1518 .° § único, in fine). Há mesmo um momento em que o juiz
deve esforçar-,se por conciliar as partes : no começo da audiência pre-
paratória '(art . '513 .°) e no princípio da audiência de discussão e julga-
mento em processo sumaríssimo (art . 800 .°) . Se o juiz conseguir a
conciliação, é claro que o resultado obtido fica a constar da acta da
audiência . Suponhamos que as partes não cumprem aquilo a que na
conciliação se abrigaram . Como há-de o respectivo credor promover a
execução?
O sr . Dr . Lopes Cardoso (Manual cit ., pág. 29)'é de parecer que a
conciliação obtida pelo juiz no decurso do processo contencioso deve ser
homologada por . sentença, nos termos dia artigo 305.0, tal qual como a
transacção, a que a conciliação equivale . Desde que a conciliação põe
termo à instância, são de aplicar as disposições dos artigos 292 .° e seguin-
tes ; é a única maneira de as aplicar é considerar a conciliação como uma
verdadeira transacção . De sorte qre a acta da audiência da qual fica a
constar a conciliação, exerce o função do termo a . que se refere o
artigo i:05 °, seguindo-se depois a sentença de homologação. Em con-
clusão : se ás obrigações assumidas na conciliação não forem cumpridas,
o título executivo com base no qual o credor há-de promover a execução,
é, a sentença de homologação e não a acta da audiência .
. Não nos parece inteiramente exacta esta doutrina. Estamos de acordo
em que a conciliação apresenta a fisionomia jurídica duma transacção ;
julgamos;, porém, desnecessária a sentença de homologação .
que entre a transacção celebrada por 'termo no processo ou por
documento autêntico extraprocessual e a conciliação de que nos estamos
ocupando há a seguinte diferença fundamental : aquela realiza-se sem
intervenção do juiz, esta é obra do próprio juiz. Tal diferença explica a
necessidade da homologação no primeiro caso e a inutilidade dela no
segundo .
As partes chegaram a uma transacção, a que o juiz foi estranho ;
a transacção consta de termo lavrado no processo ou de escritura pública
junta. aos autos. Então compreende-se que o acto seja submetido à! fis
ealizaçdcr do juiz, que este seja chamado a verificar se 'a transacção é
válida; quer em atenção ao objecto, quer em atenção à qualidade das
pessoas que nela intervieram . A sentença de homologação destina-se
precisamente a esse fim : verificar a legalidade do acto .
FiFmremos agora o caso de o juiz, em audiência, levar as partes a
uma conciliação. Então a sentença de homologação não faz sentido, não.
tem razão de 'ser : seria o juiz a fiscalizar-se a si mesmo, a verificar a
legalidade do seu próprio acto. 'Quando o juiz faz a tentativa de conci-
liação, é claro que se certifica pnèviamente da correcção e regularidade
dó acto 'que empreende, se emprega esforços para conciliar as partes,
á porque está seguro de que, quer sob o ponto de vista do objecto, quer
5 - C6DIGO DR PROCESSO CIVIA
66 Livro I, Título II- Da acção executiva, .
sob o ponto de vista das pessoas, a conciliação é legalmente admissível .
A sentença de homologação seria, pois, uma excrecência .
Qual é então o titulo sobre que há-de assentar a execução no caso
de inobservância -dos compromissos tomados?
É a acta da audiência, que funciona como verdadeiro auto de eonci-
liação. A acta tem efectivamente o valor, a significação e o alcance dum
auto judicial. E se o auto levado perante o juiz de paz é, por si só, titulo
executivo, não se compreende que o não seja o auto lavrado perante .o. juiz
de direito ou o juiz municipal .
Entendemos, pois, que a expressão «autos de conciliação> do n .° 2 .o
do artigo 46 .° abrange tapto os autos celebrados perante o juiz de paz,
como os celebrados perante o juiz municipal ou de direito .
Claro que a conciliação põe termo não só à instância, mas à própria
acção ; esta finda por um acto de vontade das partes, que apresenta a con-
figuração jurídica duma transacção ; o que sucede é que, dadas as circuns
tâncias em que a transacção se realiza, a sentença de homologação não
tem cabimento .
A única sentença, a proferir será sobre o pagamento das custas, que
o juiz pronunciará verbalmente para ser inserta na acta .
c) Escrituras públicas. O artigo 51 .* . define os termos em que a
escritura pública tem força executiva. A redacção do corpo do artigo é
diferente da que tinha o n.' 3 . 0 do artigo 798.° do Código anterior, Em vez
de se falar de créditq, palavra que deu lugar à dúvida de saber se as escri-á
turas públicas podiam servir de base à execução por coisa-certa e à exe-
cução para prestação de facto, ou sòmente à execução para pagamento de
quantia certa, empregou-se a fórniula «qualquer obrigação>, que abrange
manifestamente, além da obrigação de pagar uma quantia, a de entregar
uma coisa e a de prestar um facto .
Dizia-~se no n.° 3.* do artigo 798.° que o crédito devia mostrar-se ven-
cido . Não se reproduziu esta exigência no artigo 51,° porque está declarado
no artigo M2 . 0, de um modo geral, que não pode promover~Lqe a execução
enquanto a obrigação se não tornar exigível, se em face do titulo não apre-
sentar esse carácter.
Também se não aproveitaram as palavras «em ambos os casos sòmente
com relação às pessoas que nela se obrigarem>, que se Liam no n .I 8 .* do
artigo 798.0 do Código de 1876, porque se formulou a regra geral do
artigo 55 .°, com as excepções mencionadas nos artigos 56 .° e 57 .°
O § único do artigo 51 .° resolve a questão, tantas vezes suscitadas, de
saber se as escrituras de abertura de crédito e de contratos de fornecimento
podem ser base de execução e em que termos. Este parágrafo, que no l?ro
jecto primitivo tinha uma redacção mais limitada (art. 1145 .1), foi ampliado
por intervenção da Comissão revisora .
Não pode deixar de entender-se que têm força executiva os instru-
mentos lavrados pelos notários fora das notas, (Albexxo dos Reis, Proc . de
exéc., vol . 1.", pág. 150 ; Dr . Andrade, Rev . de Leg., ano 73:°, pág. 202 ;
Dr . Lopes Cardoso, Manual, pág. 30) . 'Se os escritos particulares são
títulos executivos quando satisfaçam aos req'uisitgs do n.° 4.° do artigo 46 .°,
Capítulo I-Do título executivo 67
combinado com o artigo ;52 .0, por maioria de razão o devem ser os instru-
mentos notariais lavrados fora das notas . _Tudo está em saber se estas
instrumentos devem incluir-se no n .° 3 :' ou no n'0 4 .° do artigo 46
Cremos que entram no n .' 3 .* A escritura pública aí vale o mesmo que
.documento autêntico extra-oficial .
d) Letras e outros ' escritos pai~ticulaires . O artigo 52 .* completa
o n' 4.° do artigo 46 .* Manteve-se a doutrina dos artigos 172 .° e 197.°,
n .° 2', do Decreta n .° 21 :287.
Aos títulos mencignados no artigo 172' do Decreto n.o 211 :287 acrescen-
-tou-se o * extracto de factura, criado. pelo Decreto n.° 19 :490, .de 21-3 .'- .931-
Nos tCrrrios dos4e decreto
à o extracto de factura já era . título exequível, por
que servia de base acção executiva regulada no artigo 6115 .° do Códfgg
anterior (art. 12 .° do "Dec . n ° 19 :490) ; e não precisava, paria o ser, de qué
a assinatura do comprador estivesse reconhecida por notário. Assim se
-declarou também no artigo 62.°
É caro que o Decreto n .° 19 :490 continua - em vigor na parte em que
fixa o regime jurídico do extracto de factura (arts . 1 .° a 11 .°), assim como
na parte em que indica os meios, de que pode ;servir-~se o vendedor quando
o comprador não tenha devolvido o extracto 'ou o tenha devolvido sem a
Bua, assinatura (art . 14 . 1 ), -devendo acrescentar-se aos dois meios indicados
{acção ordinária ou, sumária) a acção sumaríssima .
Do Decreto n .° 19 :490 só deve Considerar-se revogado, por força do
:artigo 2 .° do Decreto n .° 29 :637, o artigo :12 .° Este artigo mandava seguir
os termos da acção executiva do artigo 615 ",do Código anterior . Mas essa
acção . não existe no novo Código. Segundo este a acção executiva começa
.sempre por citação do executado, salvo se -se tratar¡ de execução sumarís-
~(art. 474.*), em que se começa pela penhora e só depois é- admissivel
a oposição (art. 27 o) .
Erri ; face do Código de 1929 o credor de foros, censos, pensões, qui-
nhões ou rendas de quaisquer bens imobiliários está sujeito ao regime geral
e comum dos outros credores, ainda que possua título autêntico ou auten
ticado que demonstre a constituição do ónus ou do direito' real ; se o título
tem força executiva nos termos dos-nartigos 46.° e seguintes, pode- pro-
mover e, execução, mas esta há-de seguir os trâmites normais, não lhe
senda lícito obter a penhora afites da citação do executado, a não ser
no cano de execução oemarf~a, loto é, no caso em que qualquer cre-
dor a pode obter. O mesma sucedé ao credor munido de extracto de
,factura devidamente passado e aceite : há-de promover execução nas ternos
comuns .
-e) Outros títulos. 6 n:° 4.* do artigo 798 .o mencionava os docuánen-
tos de-cobrança de impostos, ou de outros créditos da Fazenda .Nacional,
a que as leis derem . força de -sentença, mandando-éé observar, na parte
~aplicáve,l, o disposto no ,artigo 3, ,da Lei 'de -4-6.°-1859 .
Esta -última, determinação tinha sido acrescèntada, -para resolver
-dúvidas de jurisprudência, pelo Decreto .n .° 4 ;618, de 1a-7"-918 . ,
O n .' *5 .o do artigo 1140,° do-Projecto primitivo, Mepois de,falar dós
títulos a que por disposição especial . for atribuída fgr~ja executiva, acx~
68 Livro 1, Título II -Da acção executiva
centava : ae entre eles os conhecimentos de impostos ou de outros créditos
da Fazenda Nacional . . .x, reproduzindo o que se achava no n.° 4.° do
artigo 798,° do Código anterior . E assim se manteve o texto até à última
revisão ministerial . Nesta resolveu-se eliminar toda a segunda parte do
n.° 5.°, porque se entendeu que nenhuma necessidade havia de fazer refe-
rência especial aos conhecimentos de créditos da Fazenda Nacional, abran-
gidos indubitàvelmente pela primeira parte ; também se considerou des-
necessário acentuar.'que o artigo 3.* da Lei de 4 de Junho de 1859 ainda tem
de ser observado . (Alberto dos Reis, Pme. da exec., vol. 1 .0, págs. 180-184) .
O artigo 6.° do Decreto n:° 15 :076, de 14-2.°-928, permitia que os
estabelecimentos de beneficência e caridade promovessem acção exe-
cutiva para pagamento de foros e outras prestações, com base em deter
minadas certidões. Suscitou-se a dúvida sobre se estas certidões ainda
hoje podem servir doe base à execução comum. O sr . Dr. Lopes Cardoso
(Manual, pág. 20) considera revogado o. artigo ; não nos parece aceitável
esta opinião, pelas razões expositas na Revista de Legislação, ano 7U,
. pág. 389, e no Processo de execução, vol . 1.°, pág. 1'87.
ARTiGo 47.0
(Requisito da exequibilidade da se-ntença)
Para que a sentença seja título executivo é necessário qbe
tenha passado em julgado ou que o recurso interposto tenha
efeito meramente devolutivo .
§ Único. A execução iniciada na pendência de recurso extin-
gue-se ou modifica-se em conformidade com a decisão definctiva
comprovada por certidão. Enquanto a sentença estiver pendente
de recurso, não pode o :exequente ou qualquer credor ser pago
sem prestar caução.
Os requisitos de exequibilidade podem classificar-se em formais e
substanciais.
Não se trata aqui dos requisitos de forma a que há-de satisfazer uma
sentença para ser exequível ; esses requisitos são precisamente os mesmos
a que há-de satisfazer um acto judicial para valer como sentença. Eistão
designados no artigo 1'57.°, combinado com o n.° 1.° do artigo 668.°
Quanto aos requisitos de catácter substancial, reduzem-se a dois :
a) )Que a . sentença contenha uma condenação (art. 46:0, n.O 1.o) ;
b) Que tenha passado em julgado ou que o recurso dela interposto
haja sido recebido no efeito meramente devolutivo (art. 47.°) .
O conceito legal de trânsito em julgado encontra-se no § único do
artigo 677 .'
Se o recurso teve efeito meramente devolutivo e a execução se pro-
moveu antes da decisão definitiva dele, é claro que o resultado do recurso
pode exercer influência sobre a execução . 0 que há-de afinal prevalecer
Capítulo I-Do título executivo 69
como titulo executivo é a decisão definitiva do tribunal superior e não
a sentença de 1.' ou de 2. instância.
Consideremos as duas hipóteses :
1' A sentença que serve de base à execução foi definitivamente
confirmada pelo tribunal de recurso;
2.' A sentença exequenda foi definitivamente revogada ou modificada .
No 1.1 caso a execução não é afectada pelo julgamento do recurso ;
no 2f, a execução extingue-se ou modifica-se em conformidade com a
decisão do recurso.
Pcde, porém, suceder que, revogada ou modificada a sentença na
Relação, obtenha provimento o recurso interposto para o Supremo Tri-
bunal de Justiça. Que influência exerce na execução o julgamento pro-
ferio pelo tribunal de 2.' instância?
Influência definitiva não a pode exercer, visto que a decisão do
Suprezrio é que há-de executar-se ; mas pode temporàriamente fazer
sustar ou modificar a execução pendente, se o recurso para o Supremo
tiver efeito meramente devolutivo (Alberto dbs eis, Proc. d e exec.,
vol. 1.°, pág. 131) . O ar. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 54) acha que
a referência expressa a «decisão definitiva» e a ausência de preceito seme-
lhante ao da 2' parte do artigo 803 ." do Código de 76 indicam que hoje
a acção executiva baseada em sentença pendente de recurso ordinário só
pode se r alterada uma vez, pela última decisão, e depois de esgotada toda
a hierarquia jurisdicional .
Não podemos aceitar este ponto de vista. Quando se diz, no § único
do artigo 47.1, que a execução se extingue ou modifica em conformidade
com a decisão definitiva, não se exclui a possibilidade de, transitòria
inente, se sustar ou modificar .a acção executiva em consequência de
julgado de 2." instância. A ideia que aí se exprime é a de que, para
efeitos decisivas e finais, o que interessa é a decisão definitiva, a que
transitar em julgado . Tanto foi este o pensamento, que se fala de extin-
ção e esta só pode ter lugar em consequência de julgamento definitivo .
Não se aludiu, nem tinha que aludir-se, às repercussões transitórias
produzidas pelo julgamento de 2.' instância pendente de recurso . Isso é
matéria concernente aos efeitos dos recursos, a que não havia necessidade
de fazer referência neste lugar .
E a verdade é que, como o ar. Dr. Lopes Cardoso observa o artigo .724 .'
mostra que o acórdão da Relação pode executar-se imediatamente, uma
vez que o recurso interposto para o Supremo tenha efeito meramente
devolutivo .
Pode dar-se um outro casc. : iniciar-se a execução por o recurso ter
subido à Relação com efeito meramente devolutivo e este tribunal, nos
termos do artigo 703f, atribuir ao recurso efeito suspensivo . Em tal
hipótese pode o apelante requerer que se expeça ofício para ser suspensa
a execução.
Consideremos agora o caso de a sentença ser' revogada ou alterada
em consequência dos recursos extraordinários de revisão ou de oposição
70 Livro I, Título II -Da acção executiva
de . terceiro (arte: 771 .o e 778 .o) . Não pode haver dúvida de que a execução
tem de ser éxtinta ou modificada em conformidade com a decisão defini-
tiva proferida no recurso .
0 disposto no § único do artigo 47" ajusta-se perfeitamente ao caso.
Só há que completar o texto legal, estendendo-o ã. hipótese de a execução
se promover antes de interposto o recurso extraordinário .
Resta saber qual é a influência que têm sobre a execução as decisões
anteriores à -definitiva, proferidas no recurso . 0 sr. Dr. Lopes Cardoso
distingue: tratando-se da oposição de terceiro, as decisões anteriores
nenhuma influência exercem ; tratando-se da revisão, como a procedência
do recurso importa á imediata anulação da sentença exequenda (art. 775 .1),
e respectiva execução deve extinguir-ase logo (Manual, pág. 55) .
Não estamos de acordo .
Em primeiro lugar convém ter presente o disposto no artigo 777 .o,
aplicável à oposição de terceiro por força do § único do artigo 782.11-
0 artigo 77:7.1 contém um preceito paralelo ao do último período do
§ único do artigo 47' e ao da 1 .' alínea do artigo 8191.°: proíbe que o
exequente ou qualquer credor seja pago, enquanto pender o recurso,
sem prestar caução . Isto mostra que a execução não se suspende pelo
simples facto de ter sido interposto o recurso extraordinário .
Agora quanto ao efeito da decisão do recurso .
0 artigo 775 .° não formula o princípio de que a procedência do recurso
em qualquer grau ou instância produz a imediata anulação da sentença exe-
quenda. Limita-se a dizer, na alínea a), que no caso do n.° 7 .o do artigo 771 .°
o juiz ordenará que fique sem efeito a sentença exequenda . Segue-se daí
que, mesmo neste caso especial a. ordem tem execução- imediata?
De modo nenhum . Suponhamos que a sentença a rever é de um
tribunal de comarca ; o juiz de direito declara sem efeito a sentença, mas
a parte vencida apela para a Relação e o recurso é recebido no efeito
suspensivo .
Como é que se há-de cumprir imediatamente a decisão do juiz de
direito e extinguir-se logo a execução, se a decisão está pendente de
recursos e este tem efeito suspensivo?
0 exemplo figurado põe-nos em face da doutrina exacta. As deci-
sões proferidas no recurso extraordinário antes da decisão definitiva
exercerão na execução a mesma influência que as decisões proferidas nos
recuvsos ordinários. Tudo depende do efeito que for atribuído ao recurso
interposto dessas decisões .
Pode dar-se o caso de a execução chegar à altura do pagamento sem
haver decisão definitiva no recurso ordinário ou extraordinária . A lei
prescreve então: o exequende ou qualquer outro credor não pode obter
]:)agaimento sem prestar caução. A exigência compreende-se : a caução
destina-se a garantir o reembolso do executado para a hipótese de a sen-
tença exequenda ser revogada ou modificada .
Mas há discrepância entre o '§ único do artigo 47.° e o artigo 777 .1
Este só exige caução no caso de o pagamento . ser feito em dinheiro ou em
bens mobiliários : aquele não distingue.
Capítulo I -Do título executivo 71
Cosmo a adjudicação de bens imobiliários é também uma forma de
pagamento (arts . 8'72 .° e 87'4:°), e por optro lado o artigo 819 .°, para o caso
de pendência de embargos opostos 'à execução, considera necessária a
caução mesmo no caso de o credor receber e?n pagamento bens imobiliários,
deve entender-se que, estando pendente recurso ordinário ; o credor tem
de . prestar caução para obter pagamento mediante a adjudicação de bens
imobiliários .
Quanto ao critério segundo o qual 'há-de ser fixada a caução, deve
aplicar-se, por analogia, o que está estal>elecido no artigo 819 .°
O processo para a prestaç4o da caução é o dos artigos '443 .° e 444'
Nos termós -do artigo 475.° do Código de Priocesso Civil italiano, as
sentenças e as outras providências da autoridade judiciária, assim como
os actos, notariais ou recebidos por outro oficial público, para valerem
como título executivo hão-de estar munidos da fórmula executiva, salvo
se a lei. dispuser o contrário. A fórmula executiva consiste na oposição
das seguintes palavras, em nome do Rei :
«C, rdenamos a todos os oficiais judiciários a quem for requerido, e a
quem competir, que dêem execução a este título, ao Ministério Público que
lhes dispense assistência, e a todos os agentes da força pública que lhes
prestem o seu concurso, desde que para isso sejam legalmente solicitados» .
Esta fórmula é inserta, no original ou na cópia do título, pelo secrè-+
tário do tribunal ou pelo notário -ou oficial público a requerimento da
parte a favor de quem foi proferida a sentença ou estipulada a obrigação,
ou dos :-,,pus sucessores ; e não pode, sem justo motivo, entregar-se à mesma
parte mais do que uma cópia em forma executiva.
Aeisim era já em face dos artigos 555 .° e seguintes do Código italiano
de 1865 . Entre nós nem pelo Código velho, nem pelo Código novo se exige
a aposição da fórmula executiva. Os títulos designados no artigo 4'6 .°
têm força executiva por si, independentemente da inserção de qualquer
comando ou ordem executiva . A eficácia executiva deriva da lei, e . não
de qualquer fórmula administrativa ; desde que os títulos satisfaçam aos
requisitos especificados nos artigos 46 .° e seguintes, podem servir de base
à execução, sem necessidade de que, lhes seja aposto qualquer comando
especial e solene .
ARTIGO 48 .Q
(Exequibilídade dos despachos)
São equiparados ,às .sentenças, sob o ponto de vista da força
executiva, os despachos e quaisquer outras decisões ou actos da
autoridade judicial que condenem no pagamento de uma quantia,
na prática de um acto ou no cumprimento de qualquer outra
obrigação .
Que a condenação conste de uma sentença ou de um despacho, é
indiferente. 0 despacho que profere uma condenação tem a mesma efi-
72 Livro I, Título II -Da acção executiva,
cácia executiva que a sentença ; e o mesmo sucede quanto aos outros
actos ou decisões da autoridade judicial. A força executiva não deriva
do nome ou da forma extex ;na do acto ; deriva, do poder jurisdicional de
que está investido o órgão.
Veja-se ,Alberto dos Reis, Processo de execução, vol . L?, pág. 13-5 .
ARTIGO 49 .°
(Exequibilidade das decisões arbitrais)
,As decisões proferidas pelo tribunal arbitra] são exequíveis
nos mesmos termos em que o são as decisões dos tribunais
comuns .
O disposto neste artigo é consequência do que se lê no artigo 1574 .°
Ao contrário do que se dispunha no artigo 2'30 .0 da Novíssima Reforma
Judiciária e do que ~se determina na maior parte das legislações estran-
geiras (Cód. brasileiro, art . 1041 .°, Cód . italiano, art . 825 .°), a decisão arbi-
trál não carece -de homologação do juiz de direito ou de qualquer outro
juiz para ter força executiva ; e já assim era pelo artigo 54 .' do Código
d e 76,
A execução não corre perante o tribunal arbitral ; há-de correr
perante o tribunal de comarca (Alberto dos Reis, Proc . d e exec., vol . 1 .°,
pág . 140) .
ARTIGO 50 .°
(Exequibilidade das sentenças estrangeiras)
,As sentenças proferidas por tribunais ou por árbitros em
país estrangeiro só podem servir de base à execução depois de
revistas -e confirmadas pe-la Relação .
§ Único . Não carecem de revisão para ser exequíveis os
títulos exarados em país estrangeiro .
0 processo para a revisão e confirmação das sentenças estrangeiras
eétá regulado nos artigos 1100 .0 a 1106:°
Se a decisão a executar foi proferida por tribunal estrangeiro, para
que tenha eficácia executiva é necessário que se mc5stre revista e confir-
mada pelo tribunal português competente . No artigo diz-se : pela Relação .
Mas há que entender isto em termas hábeis . É à Relação que compete
realmente a revisão e confirmação das sentenças estrangeiras (art . 71 .o,
alínea d), art . 1101 .1) . Mas a Rélação não conhece desta matéria em última
instância . 0 artigo 1106 .°. expressamente admita recurso de revista da
decisão da Relação . Pode, portanto, suceder que, revista e confirmada a
sentença pela Relação, o Supremo revogue o acórdão e negue á confir-
Capítulo I -Do título executivo 78
reação, assim como pode dar-se o inverso ; e é evidente que a decisão do
Supremo prevalece sobre' a da Relação .
Confirmada a sentença pela Relação e interposto recurso de revista,
pode entretanto promover-se a execução, desde que o recurso seja rece-
bido no efeito meramente devolutivo .
Parece estranhar o sr. Dr . Lopes Cardoso que no artigo 150 .' se não
tenha ressalvado o disposto .nos tratados, como se fazia no artigo 1087 .°
do Código anterior (Manual, pág . 61, nota 1) ; mas é sem razão a estra-
nheza, porque a ressalva está onde devia estar : no artigo 1100 .°
Também estão sujeitas a revisão e confirmação as sentenças profe-
r-idas por árbitros em, país estrangeiro . No Projecto primitivo (art . 912.°)
falava-se de «árbitros estrangeiros» ; a redacção foi alterada pela Comissão
Revisora e obedeceu ao pensamento de significar que a revisão e confir-
mação são necessárias ainda que os árbitros sejam cidadãos portugueses,
desde que funcionem em país estrangeiro .
Se'. a lei deste país exigir, como condição de exequibilidade da sen-
tença firbitral, que seja homologada pelo tribunal comum não pode a
sentença executar-se em Portugal sem tal requisito, posto que a nossa lei
o dispense no que respeita às decisões arbitrais aqui proferidas (Alberto
dos Reis, Proc. de exec .; vol. 1.", pág. 141) .
A :revisão e confirmação expressamente se dispensa para os títulos
exarados em país estrangeiro (§ único) . Pós-se assim termo a uma con-
trovérsia suscitada no domínio do Código anterior .
O sr. Dr. Palma Carlos faz o reparo de não se ter exigidb, ao menos,
que os títulos se achem exarados por oficial público do país de origem
e em ce.rnformidade com os preceitos legais aí mandados observar (úód .
de Proc . Civ. anot ., pág . 183) . Não tem razão o douto advogado. Como nota
o sr. Dr . Lopes Cardoso (Manual, pág . 62), a estruturá interna do título
(e não só interna corno também a externa) é regulada pela lei do * país
da emissão ; o título, para ter existência jurídica, há-de satisfazer aos
requisitos de formação exigidos pela lei do 'lugar da celebração (locus
regit a~ .tum). Veja-se Alberto dos Reis, Processo de execução, vol. 1.°,
pág. 179 .
ARTIGO 5 1 .'
(Exequibilidade das escrituras)
As, escrituras públicas têm força executiva quando sejam
o instrumento de constituição d.e qualquer obrigação .
único . As escrituras de abertura de crédito, de contrato
de fornecimento e quaisquer outras em que se convencionem
prestações futuras podem servir de base à execução, desde que
se mostre, por documento passado em conformidade. co m a escri-
tura ou revestido de força probatória segundo a lei, que em
74 Livro I, Título II-Da acção executiva
cumprimento do contrato foi efectivamente emprestada alguma
quantia, realizado algum 'fornecimento ou feita alguma pres-
tação .
Os requisitos formais da escritura pública estão designados no
Código do notariado (arts. 168 .o, 169.o, 171 .' a 173.° 177 .0) . Nenhum requi-
sito especial, relativo à forma, exigiu a lei de processo para que as escri
turas públicas, além de válidas, sejam exequíveis. Mas exigiu um requisito
substancial de exequibilidade : que sejam o instrumento de constituição de
qualquer obrigação . Que a obrigação seja de dar (prestação de loisas) ou
de fazer (prestação de factos), é indiferente.
Nisto se distingue o título executivo mencionado no n.' 3.' do
artigo 4'6 .' do descrito no n.° 4.' As letras livranças, etc ., só funcionam
como títulos executivos no que respeita a obrigações pecuniárias, como se
infere das palavras «das quais conste a obrigação de pagaonento de, quan-
tias detenninadasx . Foi para assinalar esta diferença que no artigo 51.'
se escreveram as palavras «qualquer obrigação».
O n' 3.* do artigo 4'M .° do Código de Processo Civil italiano só
reconhece eficácia executiva aos actos notariais relativamente às obriga-
ções de somas de dinheiro neles contidas .
Para que a escritura pública possa servir de base à execução não é
necessário, como no direito germânico (Cód. de Proc. Civ . alemão, § 794,
n.o 5.0, lei austríaca de 26-7.0-1871, § 3 .'), que contenha a cláusula executiva,
isto é, que dela conste ter-se sujeitado o devedor à execução forçada
imediata.
Pode perguntar-se se no n.* 3.° do artigo 46.°', combinado com
o artigo 51.o, está incluído o testamento. Afigura-senos que sim .
Se o testamento é público, tem manifestamente o valor duma escri-
tura pública, sob o ponto de vista formal; se é cerrado, pode, sqm esforço
nem artificio, equiparar-se à escritura, depois de aberto e registado.
Considerada a questão sob o aspecto substancial, não há dúvida de
que o testamento satisfaz ao requisito do artigo 5'11' quando o testador se
confesse devedor a alguém de determinada quantia ou se reconheça
sujeito passivo de qualquer obrigação . Mas mesmo fora deste caso espe-
cial, o testamento pode valer como título executivo quando imponha obri-
gações ao herdeiro ou ao -legatário e se mostre ter sido aceita a hexlança
ou o legado. Veja-se Alberto dos Reis, Processo de execução, vol . 1.',
págs. 1'50 e 1.458.
A escritura de abertura de crédito é título executivo, diz o § único,
desde que se mostre, por documento passado em conformidade com a
escritura ou revestido de força probatória segundo a lei, que em cumpri-
mento do contrato foi efectivamente emprestada alguma quantia .
A abre a B, por escritura pública, um crédito até ao montante de
100 contos, por exemplo. Qual é a fisionomia jurídica deste contrato?
É um mero contrato preliminar, um contrato de promessa de emprés-
timo. Com a celebração de tal escritura, nos termos simples que ficam
Capitulo I-Do título executivo 75
expostos, nenhum empréstimo sie efectuou, na realidade : B não recebeu
de A qualquer quantia; unicamente recebeu a promessa de lhe serem
entregues, a título de empréstimo, somas sucessivas até ao limite de
1.00 contos .
P+ :irtanto a escritura, só por si, não pode ser título executivo a favor
de A contra B, visto que por ela B não se constituíu em obrigação para
com A . 0 que pode é ser título executivo de B contra A, se este não
cumprir a promessa . Com eleita, se A não puser à disposição de B, nas
épocas e condições ajustadas, as quantias que prometeu abonar-lhe,
B pode exigir indemnização de perdas e danos ; e a escritura funciona
então como titulo executivo, visto que exprime a obrigação em que A se
constituiu, de entregar a B determinadas somas .
0 § único do artigo 51 .' não considera a escritura sob este aspecto ;
teve unicamente em vista definir a exequibilidade da escritura como título
a favor_ do creditante contra o creditado . E encarando-a por este lado,
exige que à escritura se junte prova documental de que foi efectivamente
emprestada pelo creditante ao creditado alguma quantia .
Bem se compreende esta exigência . Se a escritura, vista através do
prisma indicado, é uma mera promessa de empréstimo futuro, não pode
evidenl;emente funcionar como título executivo enquanto se não mostrar
que a promessa foi cumprida .
Gc>mo há-de fazer-se esta prova complementar?
Diz o parágrafo :
a,l Ou por documento passado em conformidade com a escritura ;
b) Ou por documento revestido de força probatória , segundo a lei .
Se a escritura previu e especificou a forma por que devem ser
documentados os empréstimos ou levantamentos sucessivos, observa-se
a estipulação : basta que à escritura se juntem documentos passados em
conformidade com o que as partes convencionaram . Assim, tendo-se
declarado que os levantamentos por conta do crédito aberto serão feitos
por meio de letras ou cheques ou vales ou simples recibos, etc, a prova
há-de fazer-se por aquele, destes meios, que tiver sido -fixado . Claro
que nem a letra nem o cheque, nem o vale carecerá de satisfazer ao dis-
posto no artigo 52 .*
Se a escritura nada disse a respeito da prova adminicular, tem de
observa-se a lei. Os documentos complementargg hão-de satisfazer à
forma exigida pela lei para prova do empréstimo . Que prova haverá de
produzir-+se, pergunta o sr . Dr. Palma Carlos, se cada levantamento exce-
der 8.000$00? Por dura que pareça a solução, responde, entendemos que,
por virtude do artigo 1,534 .o do Código Civil, serão necessárias escrituras
públicas sucessivas (Cód . de Proc . anot, vol . Lo, pág. 187) .
Sem dúvida, a não ser que, como é natural, as partes se tenham
servi&,) de letras, ou, se o creditante é um banco, de cheques, com refe-
rência ao crédito aberto .
O sr. Dr. Lopes Cardoso é de parecer que, no silêncio da ~esc)Itura,
a prova complementar há-de ser feita com documento que tenha eficácia
executava, nos termos dos artigos X46 ." e seguintes (Manual, pág. 68) .
76 Livro I, Titulo .II-Da acção executiva .
Não podemos aceitar esta doutrina . O § único do artigo 'vil ° é expresso :
só exige que o documento iseja revestido de força probatória segundo
a lei ; ora força probatória é coisa diferente de força executiva .
Acha o distinto magistrado que é vaga e imprecisa a fórmula «reves-
tido de força probatória segundo a 'lei» ; qualifica-a assim, porque a não
relaciona com o resto do texto ; se a puser em correlação com a parte
final do parágrafo o -sentido aparece-lhe claro e preciso . Assim, tratando-s~
de abertura de crédito, o documento há-de revestir a forma exigida pela
lei para prova do empréstimo da quantia levantada .
Observa ainda o sr. Dr. Lopes Cardoso que o parágrafo atribui tam-
bém força executiva aos documentos cofplemetares e que, bem consi-
deradas as coisas, a execução tanto assenta na escritura como nos referidos
documentos .
Se assim fosse, a lógica devia levar o sr . Dr. Lopes Cardoso a sus-
tentar que seria nula a estipulação da escritura pela qual se elevasse
à categoria de prova complementar um documento que não estivesse nas
condições dos artigos 46 ." e seguintes . Na verdade, se as partes não
podem, por convenção, criar títulos exequíveis, se essa criação é função
única da lei, é claro que os interessados teriam de limitar-se, na escri-
tura a escolher, de entre os tíulos exequíveis, aquele que para o caso
havia de ser utilizado como prova complementar .
Não é esta a opinião do ilustre magistrado . Pelo que respeita aos
documentos passados em conformidade com a escritura, acha que não
se torna necessário o requisito da exequibilidade . É o que se depreende
das suas palavras : asno silêncio da escritura exequenda» .
A construção que a análise cuidada do § único do artigo 51 .° permite
fazer é a seguinte : a verdadeira base da execução é a escritura ; esta é
que funciona como 'título executivo . A prova adminicular integra-se, por
assim dizer, na escritura, recebe dela a força executiva.
Mais delicada é a questão de saber se poderá considerar-se válida a
cláusula da escritura por virtude 'da qual se admita, cano prova comple-
mentar, um documento insuficiente, segundo a lei, para a demonstração
do empréstimo parcial .
No Processo de execução, pág. 162, escrevi :
Como a lei de forma tem carácter imperativo, parece que não é lícito
às partes derroga-la por meio de convenção e que portanto deve conside-
rar-se nula a cláusula figurada ; as partes podem, na escritura, mostrar-se
mais exigentes do que a lei, mas não podem contentar-se com menos do
que a lei prescreve .
Reflectindo de novo sobre o assunto, inclino-me agrara para a opinião
contraria . A prova complementar integra-se na escritura, recebe dela a
sua força probatória, e por isso tudo ase passa como se a própria escritura
titulasse os empréstimos parciais e sucessivos .
Tudo o que acabamos de expor em relaçaó à escritura de abertura
de crédito tem aplicação, mutatis mutandis, à escritura de contrato de
fornecimento e àquela em que se cónvencionem prestações futuras .
Capítulo I -Do título executivo 77
Arrrioo 52 .°
(Exequibilidade das letras e doa .outros escritos particulares)
Assinatura do devedor nas letras, livranças, cheques e
nos outros escritos particulares, ~xoeptuado o extracto de factura,
deve estar reconhecida por notário.
Basta o reconhecime-nto simples se o montante da dívida não
exceder 10.000$00 ; quando for superior a este quantitativo, é
necessário que o notário certifique que a assinatura foi feita n á
sua presença e que- reconheça a identidade do signatário. J
Nãe, vamos analisar aqui os requisitos farmais a que hão-de satis-
fazer ais letras, as livranças, os cheques e o extracto die factura para vale-
iwn com,> tais ; é matéria de direito substantivo . 0 que interessa, neste
lugar, s¬io os requisitos formais de que depende a exequibilidade dos
títulos mencionados no n.° '4" -do artigo 46.o, e que se resumem na assinar
tura ;do devedor e no reconhecimento, por notário, dessa assinatura.
Aludiremos, entretanto, a duas questaes que se têm levantado a pro-
pósito das letras
1.' Se, não 'reunindo o título tgdoís os requisitos exigidos para as
letras pela Lei Uniforme, pode, apesar disso, servir de base à execução ;
2" Se, estando prescrita a acção cambiaria, a letra perdi a categoria
de título executivo.
A primeira dúvida é de fácil solução . O escrito, pasto que não valha
como letra, será título executivo, uma vez que possa enquadrar-se na
última espécie designada no n.° 4.o do artigo 46.°, isto é, desde que apre-
sente a configuração dum documento particulaz+ de obrigação pecuniária,
assinado pelo devedor, e core o reconhecimento de que fala o artigo '52 .°
(Dr . Tapes Cardoao, Manual, pág. 32 ; Dr. Palma Carlos, Cód. d e Proc.
Civ. anot., vol. LI, pág. 1'89) .
Quanto à segunda, o ar. Dr. Palma Carlos entende que a letra, apesar
de prescïita, conserva a eficácia de título executivo para o efeito de ser
exigida a obrigação subjacente (Cód. cit ., voo . 1.°, págs. 189 e 190) ; pelo
contrário, o, sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, págs. 42 a 47) sustenta a dou-
trina de que, em consequência da prescrição, a letra perdé a qualidade
de título -executivo.
Esta questão prende-se com a de saber se o Assento de 8-5 .°-930
ainda deve considerar-se em vigor . 0 Assento foi proferido sobre o
artigo 339 ." . do Código Comercial ; proclamou-se nele a sobrevivência da
obrigação causal depois de extinta, por prescrição, a obrigação cartular e
coilcluíu--e daqui que as letras podiam continuar a servir -de base à exe-
cução. 0 sr. Dr. Lopes Cardoso desenvolve uma argumentação cerrada
e viva, tendente a demonstrar : a) que o Assento deixou de ter. força obri-
gatória, *desde que o artigo 339 .0 do Código, norma interpretada, foi subs-
tituído pelo artigo 70° da Lei Uniforme ; b) que em face da teoria-da acção
78 Livro I, Título II- Da acção executiva
executiva não pode admitir-se que a letra continue a valer como título
executivo depois de extinta a obrigação nela incorporada, a obrigação
cartular.
Salvo o devido respeito, parece-nos que a questão está mal posta.
O primeiro ponto a averiguar é este : quando a lei (art. 339 .' do Cód .
Comercial ou art . 70 .° da Lei Uniforme) fixa um prazo pãxa a prescrição
da acção cambiária, no fundo trata-se de prazo para a proposição da acçdo
ou de prazo para a prescrição da obrigação constante da letra isto é, de
caducidade ou de prescrição propriamente dita?
Cremos que o prazo aí estabelecido é um verdadeiro prazo de pres-
crição, e não um prazo de caducidade ; não se quis dizer que a acção' -de
letra tem de ser proposta dentro de cinco anos ou dentro de um alvo ; o que
se teve em vista determinar, é que a obrigação cartularchá-de ser . exigida
dentro do referido prazo, sob pena de o devedor poder invocar a prescrição.
Por isso é que a questão levantada pelo sr. Dr. Palma Carlos-se
o juiz deve indeferir in limine a petição' inicial ou deixar seguir a execução
-- não oferece dificuldades nem embaraços, não tem mesmo razão do ser.
A questão a pôr era a que enunciámos : se o caso é de caducidade ou de
prescrição propriamente . dita . Reso'Ivida, esta, aquela desaparece . Com
efeito, tratando-sé de prescrição propriamente dita, o juiz não' pode inde-
ferir in lvmine a petição, já porque lho veda o artigo 5115 .1 do Código Civil,
já porque não tem em tal .caso aplicação o n.° 3 .* do artigo 481 . 0 da Código
de Processo .
Pela mesma razão não é de aceitar o ponto de vista, do sr, Dr. Lopes
Cardoso . Não estamos em presença dum caso de título inexequível ;
Estamos em presença dum caso de prescrição da obrigação cartular.
A letra continua a ser título executivo, porque continua a reunir os requi-
sitos exigidos para a sua exequibilidade ; o que sucede é que o executado
pode deduzir oposição à execução, nos termos do artigo 812 .*, com funda-
mento na prescrição. Se a letra houvesse 'perdido, em consequência do
decurso do prazo, a eficácia de título executivo, o juiz teria o direito e
o dever de indeferir in limine a petição, porque não pode dar seguimento
ã uma execução baseada em título que não tenha, força executiva ; isso
equivaleria a, conhecer oficiosamente da prescrição, contra o preceito
categórico d.o artigo 15'1'5 .° do Código Civil .
Promovi-da a execução e oposta pelo executado á excepção de pres-
crição da obrigação cartular, poderá a acção executiva seguir para a
exigência da obrigação causal, ou deverá ficar sem efeito o processo exe
eutivo, cumprindo ao credor fazer uso da, acção declarativa, se ^ quiser
obter o cumprimento da obrigação subjacënte?
Extinta a obrigação cambiária por virtude da prescrição, surgem as
questões de saber se subsiste a obrigação causaQ ~e se, nas relèções entre
o exequ'ente -e o executado,' o escrito está <" 'condições de valer como
titulo particular de obrigação a que deva atribui-r~ força executiva . Tais
questões podem discutir-se e resolver-se na oposição à execução ; da
solução que lhes for dada dependerá o termo pur'.o,_seguimento da acção
executiva .
Capítulo I -Do título executivo 79
Assinatura. Há várias formas de assinatura:
a) Autógrafa, isto é, aquela em que o devedor, pelo próprio punho,
zscreve o seu nome;
b) Por procuração (escrito assinado, em nome do devedor, por
mandatário seu) ;
c) ,A rogo (escrito assinado por terceiro, a pedido do devedor) ;
d) De crua (escrito em que o devedor, em vez de apor o seu nome,
se limita, a traçar uma cruz) ;
e) De chancela (escrito a que o devedor apõe um carimbo ou qual-
quer outra assinatura mecânica) .
0 aio 4.° do artigo 46.° exige que os títulos aí designados estejam
assinados pelo devedor ; mas não especifica a forma que a assinatura
há-de re:vestik . Duas coisas têm de considerar-se certas :
1.` Que nenhum valor pode atribuir-se à assinatura de cruz e de
chancela ;
2.' -Que são indiscutivelmente válidas a assinatura autógrafa e a
assinatura por procuração.
A primeira proposição assenta em duas razões : a) não há disposição
actual de lei que reconheça qualquer eficácia ã1 assinatura de cruz ou de
chancela ; b) a assinatura tem de. ser reconhecida por notário e nenhum
notário está autorizado a reconhecer uma assinatura nas condições
referidaw.
A segunda proposição é evidente por si mesma. A assinatura autó-
grafa é a assinatura por excelência, a que tem mais valor e oferece maior
segurança . A assinatura por procurador vale o mesmo que a assinatura
autógrafa, desde que o signatário esteja efectivamente autorizado a assinar
em nome do mandante . Nos termos do artigo 1332:° do Código Civil, pode
qualquer mandar fazer por outrem todos os actos jurídicos que por si
pode praticar, e que não forem meramente pessoais ; claro que a assina-
tura dum título de obrigação não é um acto pessoal.
0 que importa é que o exequ'ente, ao promover a execução, junte ao
título a procuração que autorizou o mandatário a assina=lo (gr. Dr. Lopes
Cardoso, Manual, pág. 39) .
Resta a assinatura a rogo. Mas, quanto s esta, a questão de saber
se pode servir de base à execução um escrito assinado a rogo do devedor
resolve-se numa questão de reconhecimnto .
Reconhecimento. 0 artigo 52.* declara suficiente o reconhecimento
simples quando o montante da dívida não exceda 10.000$00 ; quer que
o notário certifique ter sido feita na sua presença a assinatura e que
reconheça a identidade do signatário, quando o montante seja superior
àquele quantitativo .
0 reconhecimento simples equivale ao reconhecimento por seme-
lhança : o notário limita-se a afirmar, -explícita ou implicitamente, que a
assinatura é semelhante à que o signatário escreveu nos livros e papéis
existentes no cartório (Cód. do Notariado, art. 2G4 .o, § 3.o) . Às outras formas
de reconhecimento são : a) o reconhecimento circunstanciado, em que, a
80 Livro I, Título II =Pa acçdo executiva
pedido dos interessados ou por exigência da lei, o notário faz menção de
qualquer facto ou circunstância que aos signatários ou aos interessados
se refira (C6d . do Notariado, art. 204*°, § 2.°) ; b) o reconhecimento autên-
tico, feito -nos termos do § 1 .° do artigo 2f4 .° e do -artigo 205 .° do Código
do Notariado .
0 reconhecimento descrito na 2 .` alínea do artigo 52.o para, os títulos
de montante superior a 10 .000$00 é um reconhecimento circunstanciado,
visto que, por exigência da lei, o notário, além de reconhecer a assinatura,
tem de mencionar duas circunstâncias : 1) que a assinatura foi feita na sua
presença ; 2) que reconhece a identidade do signatário. Como uma das
circunstâncias é a de a assinatura ter sido feita na presença do notário,
o reconhecimento pode denominar-se presencial ; como, por outro lado, este
reconhecimento tem maior valor que o reconhecimento simples ou por
semelhança, pode ainda dar-se-lhe a designação de qualificado.
Por mais elevado que seja o montante do titulo, a lei não exige reco-
nhecimento autêntico ; basta o simples até 10 .000$00 e o circunstanciado
dai para cima .
Para se saber ~se basta o reconhecimento simples ou é necessário o
reconhecimento circunstanciada deve atender-se, não ao pedido formulado
na execução, mas 'ao montante inicial do titulo (Rev . de Leg., ano 73 ", pág . 38) .
'Para o extracto de factura nenhum reconhecimento se exige (1.' alí-
nea do artigo '52 .o) ; ou tenha a assinatura autógrafa- do comprador ou
esteja assinado por outrem a seu rogo, pode servir de base ià' execução,
independentemente de qualquer espécie de reconhecimento .
Resta saber, quanto aos outros títulos de que fala o n.° 4 .' do
artigo 4'6 .°, que forma deve revestir o reconhecimento quando estejam
assinados a rogo do devedor.
Como acima ao disse, a questão da exequibilidade dos títulos partï-
culares assinados a rogo é uma questão de reconhecimento . Destle que o
n.o 4:° do artigo 46 .o não exige a assinatura autógrafa do devedor e desde
que, por outro lado, a assinatura a rogo é unia forma admitidla e consa-
grada pela lei, impõe-se a conclusão de que o título não deixa de ser exe-
quível pelo simples facto de se achar assinado a rogo. Esta conclusão
adquire maior realce e torna-se mesmo irrecusável, uma vez que o extracto
de factura, compreendido na enumeração do dito n .o 4 .*, goza de eficácia
executiva., mesmo quando assinado a rogo .
Tudo está, pois, em saber que espécie de .reconhecimento notarial é
necessária para .a exequibilidade dos títulos particulares assinados a rogo,
excepção feita do extracto de factura .
0 artigo 540.° considera verdadeira a assinatura a rogo quando esteja
reconhecida por notário com a declaração de que o rogo foi dado na sua
presença, ou quando a parte a quem for oposto o documento reconheça
que o rogo foi dado, ou quando for acompanhada da impressão digital do
rogante . Mas o artigo 52 ..° põe, como requisito de exeqúibilidade, o reco-
nhecimento da assinatura por notário ; daqui já se infere que é, pelo menos,
necessário o reconhecimento notarial feito rios termos da primeira parte
do artigo '540 .° : não basta o reconhecimento simples, poeto que o montante
Capítulo I -Do titulo executivo 81
não exceda 10.000$00, nem mesmo o reconhecimento circunstanciado, tal
como o artigo b2.° o apresenta assim como d.e nada serve, para efeitos
de ~ixibilidade, quê ao lado da aissinatura haja sido aposta a impressão
digital do rogaste ; o mínimo que pode exigir-se ,é que o notário reconheça
a assinatura e a identidade de rogado e certifique que na sua presença foi
dado o :rogo e feita a assinatura.
Mas será suficiente este mínima?
A questão surge em consequência do que se lê na segunda alínea do
artigo '.540" : da veracidade da assinatura a rogo dzriva a veracidade do
documento, quando se provar que sabia e podia ler a pessoa por (conta de)
quem ou em nome de quem o documento foi assinado (rogaste) . A razão
desta exigência-prova de que o rogaste sabia e podia ler -é fàcilmente
compreensível ; se o rogante podia e sabia ler, deve presumir-se que antes
de dar o rogo tomou conhecimento, pela leitura pessoal, do conteúdo d:)
documento, e ~se deu o rogo foi por se ter assim certificado de que o con-
teúdo exprimia a sua vontade.
Conhecida a razão de wa'r do pre~ceintb inserto na 2.' alínea do
artigo X540.", a questão da exequibilidade dos -documentos assinados a
rogo avança mais um passo : todas as vezes que o reconhecimento notaíial
der a seguranca de que o conteúdo do documento corresponde ã vontade
real do rogaste, a exequibilidade é incontestável . Por isso, ficam fora de
d' scussã,o ala sleguintes hipóte~,e'a : a) ter 'a documento rieccinhécisn!en'to
autêntico ; b) certificar o notário que o rogante leu o documento, ou que
o documento lhe foi lido e o achou conforme à sua vontade ; c) certificar
que o rogante podia e sabia ler .
A dúvida surge verdadeiramente quando só existe -o mínimo a que
nos referimos : o notário reconhece a identidade e a assinatura do rogado,
certifica que a assinatura foi feita e o rogo foi dado na sua presença.
Neste caso o reconhecimento -só assegura a veracidade dia assinatura ;
não garante a veracidade do conteúd, do documento e esta é que em
última análise interessa .
Não obstante isto o ar. Professor Manuel Andrade sustenta que
o -documento é exequível, incumbindo porém ao exequente fazer a prova
de que o rogante podia e sabia ler, caso o executado deduza oposição
(Rev. de Leg., ano 73:, págs. 306 e'207, 401 e 403) . Pelas razões que expus
no Processo de execução, vol . 1.", págs. 174 a 176, não me parece segura
esta doutrina ; inclino-me antes para a opinião de que, no caso figurada,
o título não tem força executiva .
Requisitos substanciais . São dois :
a) Que o título contenha uma obrigação, isto é, que por meio dele
alguém se tenha constituído em obrigação para com outrem ;
b) Que a obrigação se traduza no pagamento de quantia determinada
(art. 46.Q, n .I 4.') .
Daqui se v© que, ao contrário do que, nos termos do artigo õ1.",
sucede !em relação à escritura pública, os títulos particulares só pdssuem
eficácia executiva no tocante a obrigações pecúniárias líquidas.
6 --CÓDIO0 DE PROCESSO CIVIL
82 Livro I, Título II- Da acção executiva
O sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 33) não aceita este ponto
de vista; é de parecer que a palavra «detextrninad'as>, escrita no n' 4.° 'do
artigo 4'6.°, ~ifiea o mio que «certa>, empregada m a~ 45.' Que
«determinadas» não é equivalente a «líquidas», moátra-o o artigo 58.°,
pois =que o segundo período do artigo prevê expressamente 'a hipótese de
alguma das quantias determinadas ser ilíquida. De resto, conclui, seria
absurdo que uma letra deixasse de ser exequível só por vencer juros .
Não tem -razão o distinto escritor. Na linguagem jurídica «quantia
determinada» exprime o mesmo que «quantia líquida> . O § 1.° do
artigo 765 .° do Código Civil dá a seguinte definição : dívida líquida diz-se
aquela cuja importância se acha determinada ou pode determinar-se
dentro de nove dias. Para efeitos de compensação tanto importa que a
llmporbânaila da 'dívida já esteja liquidada ou determinada, como que possa
liquidar~ ou determinar-ise dentro do curto prazo de nove dias.
Realmente o adjectivo «determinadas do n.° 4.o do artigo 466' vale
o mesmo que o adjectivo «certa» do artigo 45.° ; mas «quantia» corta quer
dizer precisamente «quantia» líquida. A execução regulada nos artigos 811 .°
a 92?.° destina-se a obter o pagamento de quantia cujo montante já está
fixado ou liquidado, uma vez que não pode promover-se a execução enquanto
a obrigação se não, tornar líquida (art. 802 .o), e se se promover, pode
o executado opor-se com o fundamento da -liquidez (art. 813.°, n.° 6.°) .
0 artigo 806.' mostra, sem sombra de dúvida, que são rigorosamente
equivalentes as expressões squantia líquida» e «quantia certa> . Regulando
o processo a seguir para converter a obrigação ilíquida em liquida, o artigo
exige que o exequente, depois de especificar as verbas que considera
compreendidas na obrigação genérica, conclua pedindo quantia certa.
A mesma ideia se enebntra expressa nb artigo 384.°
Quanto ao argumento derivado do artigo 68.°, é contraproducente.
Na primeira alínea do artigo requere-se para a coligação de eaequentes
que as execuções tenham por fixa o pagamento de quantia determinada.;
que esta expressão áignifica o mesmo que líquida, confirma-o o segundo
período, onde se determina que, sendo ilíquida alguma das quantias, a
coligação :só pode ter lugar depois da liquidação. De maneira que as
duas alíneas do artigo exprimem exactamente a mesma doutrina. Para
quê a coligação seja admissível, diz a 1' alínea., é necessárib que a quantia
a exigir em cada uma das execuções esteja determinada, isto é, texiha
o carácter de líquida; se alguma delas for ilíquida, acreÊCenta a 2.' alínea,
a coligação só pode ter lugar depois da liquidação, isto é, depois de se
tornar determinada ou líquida a quantia que era ilíquida.
Finalmente, a interpretação que damos ao n.° 4' do artigo 46 .° não
conduz necessà:riamente ã consequência de que m títulos aí especificados
deixam de ter força executiva quando a- quantia neles indicada vencer
juros. É que, como observa o sr. Dr. Manuel Andrade, não obsta ú liqui-
dez da quantia devida o facto de ela vencer juras (Rev. de Leg., ano 73.°,
pág. 202, nota) .
0 que importa essencialmente é que o capital esteja apurado ou
liquidado ; conhecido o montante exacto do capital e a taxa dois juros,
Capítulo I-Do título executivo 83
é fácil, em cada momento, determinar a importância devida a titulo de
juros:- basta fazer uma operação aritmética.
De resto, ao promover a execução, o exequente, se o capital vence
juros e quer obter o pagamnto dos já vencidos, deve liquidá-los no
requerianento inicial (art. 805:°) .
A exigência de liquidez do crédito como condição de exequibilidade
das letras, livrança, chexlues e extractos de factura nada acrescenta ao
que se acha prescrito na lei reguladora destes títulos . Com efeito, pelo
n.° 2.° do artigo 1.* e pelo n' '2.° do artigo 75.o da Lei Uniforme sbbrig
letras e livranças, pelo n.O 2.o do artigo 1.° da Lei Uniforme sobre cheques
e pela alínea-e) do artigo 3,° do Decreto n' 19:490, a quantia 'a pagar por
algum destes títulos de crédito há-de estar determinada no título respec-
tivo; e determinada não pode deixar de significar o mesmo que fixada
ou indicada com precisão, e portanto líquida.
Vales, facturas conferidas e outros escritos particulares . Nem o
Código de Processo nem qualquer outro texto legal indica os requisitos
externos a que hão-de satisfazer estes títulos para serem válidos ; nãd
estão sujeitos, pois, a quaisquer condições de iorma preestabelecidas.
Basta que reunam os requisitos dê exequibilidade já examinados.
Há entretanto algumas restrições a fazer. 0 título não pode deixar
de conter os elementos indispensáveis para dar a conhecer a natureza
do acto jurídico nele contido. Como se trata, porém, de títulos que não
têm carácter formal, emes elementos podem ser exproslsas de qualquer
maneira .
Por outro lado, quando a validade do acto jurídico dependa de for-
malidades especiais a partir de certo valor, é claro que essas formalidades
são imprescindíveis.
Assim, o vale representa, em regra, um empréstimo, um adiantamento
ou abono feito a alguém por conta de vencimentos, ordenados ou salários
que o mutuário tem direito a receber . Contém geralmente a designação
«Valei, a indicação -da quantia abonada, a data e a assinatura do devedor.
Exemplo: «Vale 100$00 . 8-3 .°-943 . Jacinto Rodrigues> .
Passando e assinando um escrito deste teor, o signatário confessa-se
devedor, por empréstimo, dia quantia de 100$00 e obriga-se a pagá-la
à pessoa a quem entregou o vale, ou autoriza essa pessoa a, descontar a
importância respectiva no vencimento ou salário que o devedor há-de
receber no fim da semana ou do mês.
Suponhamos, porém, que o credor não chegou, por qualquer circuns-
tância, a embolsar-se da quantia expressa no vale e quer obter pagamento
pelos meios judiciais . Em que casos e termos poderá promover a execução
com base no vale?
Em primeiro lugar, desde que o vale corresponde no fundo, salva
inklicaçãra em contrário, a um título doe empréstimo, é nle~rib que a
quantia designada nele não ultrapasse o limite de 4.000$00, fixado no
artigo 1534.1 do Código Civil, pois que daí para cima o mútuo está sujeito
a determinadas exigências de forma.
84 Livro 1, Título II-Da acção executiva
Em segundo lugar, há que atender a que o título . executivo tem . de
designar a pessoa do credor, como -se vê pelo artigo 55.o A simples ins-
pecção do título -há-de habilitar o órgão juri§dicional a determinar ,quem é
o portador da acção executiva ou quem é o sujeilto activo da execução.
Ora se o vale contiver únicamente os dizeres usuais acima exemplificados,
não pode servir de base à execução, porque não declara quem é o titular
do direito de crédito. 0 bêneficiário do vale terá então de propor acção
declarativa, em que alegue e prove que o vale foi expedido a seu favor.
Para que o vale sirva de título executivo, é necessário, pois, que às
menções indicadas acresça a designação da pessoa do credor, por exemplo
nestes termos : «Vale 100$00 a favor de Ricardo da Piedade» .
Facturas conferidas. A factura conferida é, pela sua natureza, o,
documento comprovativo duma venda feita por comerciante (Cód. Com.,
art. 4'76.°) . É passada pelo vendedor ou por quem o representar, com
indicação especificada da quantidade e qualidade dos objectos vendidos e
respectivo preço .
Se este fica em dívida, pode o vendedor exigir que o comprador
lance na factura a nota de conferência, que é, afinal, a declaração feita pelo
comprador de que a factura exprime a verdade, istmo é, de que comprou
e recebeu os objectos especificados nela e deve ao vendedor ò preço aí
indicado. Ordiniàriamente o comprador diz «Conferi» ou «Conferida» e
assina . Escrevendo estas palavras, o comprador afirma que examinou a
factura e a achou exacta ; isto equivale a declarar que recebeu realmente
per compra os objectos mencionados na factura e se obriga a pagar o
preço nela fixado.
Se não pagar, pode o vendedor, com base na factura, promover exe-
cução para o pagamento, salvo se o comprador for comerciante, porque
neste caso a execução só pode fundar-se no extracto de factura, em vista
do que se dispõe no Decreto n, 19 :490 .
Podem suscitar-se duas dúvidas, uma relativa à exigibilidade da
dívida, outra à designação da pessoa do credor.
Quanto à exigibilidade hão-de . aplicar-se as regras gerais. Ou a fac-
tura declara a data ou o prazo dentro do qual o pagamento há-de ser feito,
ou nada diz a tal respeito. No 1.° caso, é claro que não pode promover-se
a execução enquanto não chegar. o dia ou não expirar o prazo fixado
~art. 802.o) ; no 2 .° caso, têm de observar-se as disposições legais relativas
às obrigações sem prazo certo de vencimento-(Cód
. Civ., arts. 711 .", n." 2.o,
e 732 °).
Quanto à pessoa da credor, não nos parece necessário que esteja
indicada pelo punho do develor ; desde que a . factura designe, em carac-
teres impressos, como é costume, o nome ou firma do vendedor ou identi
fique o. respectivo estabelecimento comercial, é quanto basta para que se
possa considerar satisfeito o disposto no artigo 5'5
0 ar, Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág. 49) observa que nada impede=
que a nota.de conferência, em vende ser lançada-na'própria factura,conste,
doe diocumdnlto separado, uma, carta po+r exemplo, com referência expressa
.
Capítulo I-Do título executivo 85
ao conteúdo da factura ; mas neste caso terão de exibir-se em juízo, para
base da acção executiva, os dois documentos. Estamog de acordo.
Outros escritos particulares . O que dissemos quanto aos vales e às
facturas conferida9 tem aplicação aos outros escritos, na parte respectiva .
Alrrioo 153.°
(Cumulação de execuções)
Contra o mesmo devedor pode o credor cumular execuções
fundadas em títulos diferentes, seja qual for o valor excepto :
1 .° Se o tribunal competente para todas as execuções não
for o mesma ;
2 .° Se as execuções tiverem fins diferentes ;
3,° Se a alguma das execuções corresponder processo espe-
cial d :ifeÈente do que deva ser empregado quanto às outras .
1 .° Quando a alguma ou algumas execuções corres-
ponder processo sumário ou sumaríssimo e a outra ou outras
processo ordinário, empregar=se-á, quanto a todas, o processo
ordinário . Cumulando-se várias execuções sumárias ou suma-
ríssimas, a forma de processo a observar será determinada pela
soma dos pedidos .
§ 2 .° Se todas as execuções forem fundadas em sentenças,
a acção executiva será promovida no processo de maior valor,
ao qual se apensarão os outros processos .
Se houver outros títulos executivos, encorporar-se-ão no
processo em que haja de ser promovida a execução, segundo a
regra da alínea anterior . Mas se algum dos títulos 'for de valor
superior, os processos em que tenham sido proferidas as sen-
tenças apensar-se-ão ao processo formado com base no título de
maior Valor .
3 .° IE,nquanto uma execução não for julgada extinta, pode
o exequente requerer no respectivo processo . a execução de
outro título, desde que não existam os obstáculos mencionados
nos n .°" 1 .° a 3 .° e à nova execução corresponda, sob o ponto
de vista do valor, a forma de processo empregada na execução
pendente .
O artigo ocupa-se da cumulação de execuções . Convém ap.roximá-lo
do artigo õ8 .", que trata da coligação de exequentes. Os elementos com-
ponent:!s da cumulação de execuções são : unidade de exequente, unidade
86 Livro I, Títúlo II- Da acção executiva
de escutado, unidade de processo e pluralidade de execuções . A coligação
tem de comum com a simples cumulação a unidade de executado e de
processo e a pluralidade de execuções ; o traço diferencial é a pluralidade
de exequentes, contraposta,à unidade de exequente na cumulação . Há que
distinguir acumulação inicial da cumulação sucessiva ; a esta se refere
especialmente o § 3 .°
a) Cumulação inicial.
Permite-se a cumulação de execuções entre o mesmo credor e o ,
mesmo devedor, mesmo quando os títulos executivos sejam vários e de
diferente natureza, e seja qual for o valor de cada uma delas . Pode cumu
lar-se uma execução fundada em sentença com uma execução fundada
numa letra ou numa escritura pública ou num auto de conciliação ; pode
cumular-ase uma execução de valor -superior a 20 .000$00, sujeita portanto à .
forma ordinária (art . 474 .°), com uma execução de valor inferior, sujeita
à forma sumária ou sum'áríssima .
Quando cada uma das execuções esteja sujeita a forma diversa de
processo comum, emprega-se para todas a forma de processo mais
solene : cumulando-se uma execução de processo sumário com outra de
piso ordinárib, há-dto empregar-sie o proceboo ordinário ; cumulandü-se~
uma execução de processo sumário com outra de processo sumaríssimo,
há-de empregar-IsL o procosso gumárib (§ 1 .° do art . 53..o) .
Quando as várias execuções estejam sujeitas à mesma forma de pro-
cesso, !se a soma Nas valores ultr~iar o lïhnite restabelecido para essa
forma, há-de empregar-se a forma de processo correspondente à soma dos
valores (segunda parte do § 1.o) . E assim, cumulando-se-uma execução do,
valor de 6 contos com outra do valor de 8 contos e outra do valor de 10 con-
tos, isto é, cumulando-se três execuções que, processadas isoladamente,
seguiriam a forma sumária (art . (474 .°) o processo a empregar há-de ser-
o ordinário, visto que o valor total das execuções é de 24 contos e excede,
portanto, a limite do. processo sumário .
O disposto no começo do artigo e no seu § 1 .' está em perfeita har-
monia com o disposto no § único do artigo 29 .° e no artigo 3,12 . o
Quando as várias execuções sejam fundadas em sentenças, a cumu-
lação dá .lugar à' apensação dos processos em que as sentenças foram pro-
feridas . Quer dizer, não se extraem certidões das várias sentenças para
servirem de base à execução : apensam-se os próprios processos. E a apen-
sação faz-~se, tomando-se por base o valor . A execução promove-se no
processo de maior valor e a esse se apensam os outros (§ 2 .°) .
Os títulos diversos de sentenças encorporam-se no processo . Se a
execução de maior valor for fundada em título diverso de sentença, é com-
base nesse título que ,se organiza o processo, ao qual se hão-de apensar
os processos em que tenham sido proferidas m sentenças a executar (§ 2 ,)
Nem a diversidade do título nem a desigualdade de valor constituem
obstáculo à cumulação das execuções . Mas há três obstáculos legais à
cumulação, um derivado da competência do tribunal, outro do fim da exe-
cução, outro da forma do processo.
Capítulo I -Do título executivo 87
Não é lícita a cumulação se o tribunal competente para todas as exe-
cuções não for o mesmo (art . 53 .°, n .° 1 .1) . Exige-se, pois, a identidade de
eompet4,ncia, considerada esta-sob todos os seus aspectos . Não pode cumu
lar-se uma execução para a qual seja competente um tribunal especial com
outra para a qual seja competente o tribunal comum ; não pode cumular-se
uma execução que haja de ser promovida no juízo de direito com outra
que haja de ser promovida no juízo municipal ; não pode cumular-se uma
execução que haja de correr em certa comarca com outra que haja de
correr em comarca diversa. Nesta parte é diverso o regime da cumulação
no processo de declaração e no processo de execução . Ao passo que a
diversidade de negras de corìnpetência em razão do território não constituí
obstáculo legal à cumulação de pedidos no processo de declaração (art . 29 .°,
único e art . 274.'), no processo de execução é necessário que para todas
as execuções seja competente o mesmo tribunal sob o ponto -de vista do
território para que a cumulação seja legal.
Exige-se, em segundo lugar, identidade de fim (art- 53'.°, n.° 2 .') . Não
pode cumular-se uma execução para pagamento de quantia certa com
uma execução para entrega de coisa certa ou para prestação de facto .
Exige-se, em terceiro lugar, uma certa identidade de forma de pro-
cesso (n.° 3 .°) . Dentro dos tipos de processo comum não há embaraços
formais à cumulação, como vimas ; mas desde que a alguma das execuções
corresponda processo especial, a cumulação só é permitida se às outras
corresponder o mesmo-processo especial . Não pode cumular-se, pnis,'uina
execução de processo especial com outra de processo especial diferente
nem uma execução de proesso especial com outra de processo ordinário,
sumário ou sumaríssimo .
No Código só há uma execução de processo especial : a execução por
alimentos (arts . 1119 .* a 1121 .°) . Mas há execuções de processo especial
fora .de. Código, como as execuções fiscais .
O sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág . 69) considera evidente que
não pode cumular-se uma execução hipotecária com uma execução para
a cobrança de um crédito comum, embora reconheça que, segundo o
Código ;, o processo de execução hipotecária não é especial . A razão que
produz é a de que o possuidor dos bens hipotecados só responde pela
obrigação até 'ab val'or das dÍitas bens ; não é, por iggo, admilssívfll que,
conjuntamente com a obrigação hipotecária, de soa natureza limitada
quanto a ele, se lhe exija outra própria .
Estamos longe de reputar evidente esta doutrina ; e o que se nos afi-
gura, se não evidente, pelo menos exacta e rigorosamente legal, é a dou-
trina oposta . Assente que o processo de execução hipotecária não é um
processo especial, o único obstáculo legal que pode encontrar a cumulação
de uma execução por crédito hipotecário com 'a de uma execução por
crédito comum é o -do n .' 1 o do -artigo -53 .° Se este obstáculo não existir
se para ambas as execuções foi compf~tente o mesmo tribunal, nada há
na lei que se oponha à cumulação .
A razão invocada pelo sr. Dr. Lopes Cardoso não procede . Em pri-
meiro lugar, nem sempre a execução hipotecária corre contra pessoa
88 Livro I, Título II -Da acedo executiva
diversa do devedor ; a hipoteca pode ter sido constituída pelo próprio
devedor-é a hipótese normal-e os bens hipotecados podem não ter
saído da sua mão . Em segundo lugar, mesmo quando o possuidor dos
bens hipotecados não seja a pessoa que se constituiu em obrigação, a cir
cunstância de o credor só poder penhorar e excutir os bens hipotecados
para se fazer pagar do crédito garantido pela hipoteca não cria dificuldade
alguma iì cumulação com execução destinada a obter o pagamento dum
crédito comum . Não se vê onde esteja a repugnância ou a incompatibi-
lidade entre as duas execuções . Tudo se resolve numa simples questão
de responsabilidade patrimonial : em relação ao crédito hipotecário só
estão sujeitos à acção executiva, sendo o executado pessoa diversa do
devedor, os bens hipotecados, em relação ao crédito comum a responsa-
bilidade executiva incide sobre todo o património . Daqui não resulta
nem confusão, nem desordem, nem atropelo de quaisquer regras ou
garantias ; o executado não é vítima de nenhuma violência. A cada passo
sucede que, em consequência do concurso de credores no mesmo pro-
cesso de execução se dá pagamento a credores hipotecários em concor-
rência com credores comuns, sem que isto crie perturbações nem emba-
raços . Tudo se passa, no fundo como se a personalidade do exequente
se 'd'esdobrassie 'em credor hipotecário e credor comum e o primeiro con-
corresse com o segundo .
b) Cumulação sucessiva. Enquanto uma execução não for julgada
extinta, nos termos dos artigos 916 .' e seguintes, pode-o exequente requerer
no processo a execução de outro título . E pode fazê-lo, qualquer Que
seja a altura em que se encontre a primeira execução, pois que a § 3 .° não
põe limites . O que importa é que :
1) Não existam os obstáculos mencionados nos n .°" 1' a 3,' ;
2) A :nova execução corresponde a forma de processo empregada
na execução pendente .
Vê-se, pois, que para a cumulação sucessiva se exigem os mesmos
requisitos que para a cumulação inicial e, além desses um requisito espe-
cífico . A diversidade de forma de processo dentro do tipo de processo
comum não obsta à cumulação inicial, mas obsta à cumulação sucessiva .
A razão é fácil de compreender . Na cumulação inicial adopta-se para
todas as execuções a forma de processo correspondente à soma dos
valores ; na cumulação sucessiva não pode fazer-se o mesmo, porque
a nova execução vai enxertar-se numa outra já instaurada e que está
seguindo os trâmites próprios duma certa forma de processo . Se fosse
lícito requerer, numa execução ordinária pendente, uma execução
sumária ou sumaríssima, estabelecer-se-ia. o tumulto e a desordem den-
tro do processo executivo ((Alberto dos Reis, Proc . de exec., vol . 1 .',
págs . 268 e 269) .
A cumulação indevida, inicial ou sucessiva, é fundamento de oposi-
ção, nos termos do n .° 2 .o do artigo 813 .' E será motivo de indeferimento,
in limine, da petição?
Capítulo I -Do Título executiw 89
0 sr. Dr . Lopes Cãrdoso .(Manual, pág. 73) responde afirmativamente,
com baeré m n .' 3.° do artigo 481 .° Não pode aceitar-se soem reservas esta
opinião. As palavras do n' 3' «quando for evidente-que a pretensão do
autor n;, ~o pode proceder» não se ajustam ao caso de ilegalidade de cumu-
lação . Admitimos, --ntretanto, que o juiz indefira in limine, se a ilegali-
dade cometida implicar violação de que o tribunal possa conhecer oficiosa-
mente, : ;omo a incompetência absoluta (aTt. 102') e o erro na foi ;rna do
processo (art. 202 .1) ; mas se a infracção for da natureza daquelas que têm
de ser arguidas pela parte, como a incompetência relativa (art . 109 ."), não
parece admissível o indeferimento liminar.
AR-riao 54 .°
(Exequibilidade das certidões extraídas dos inventários)
As certidões extraídas dos inventários valerão como - título
executivo, desde que contenham :
a) A identificação do inventário pela designação do inven-
tariado e do inventariante ;
b) A indicação de que o respectivo interessado teve !no
processo a posição de herdeiro ou legatário ;
C) 0 teor do mapa da partilha na parte que disser respeito
ao mesmo interessado, com a declaração de que a partilha foi
julgada. por sentença ;
d) A descrição dos bens que forem apontados, de entre os
que tiverem cabido- ao requerente,
Se a sentença de partilhas de l .a instância tiver sido
modificada em recurso e a modificação afectar a quota do inte-
ressado, a certidão reproduzirá a decisão definitiva, na parte
respeitanrte à mesma quota .
§ 2 .° Se a certidão for destinada a demonstrar a existência
de uni crédito, só conterá, além do requisito da alin,'t-a a), o que
do processo constar a respeito da aprovação ou verificação do
crédito e forma do seu pagamento .
As execuções fundadas em sentenças de partilhas, ou tenham por fim
exigir a entrega dos bens adjudicados, ou o pagamento das dívidas apro-
ve}ilas, estão sujeitas à regra do artigo 90:0 : correm nos próprios autos .
Meus pode haver necessidade de demonstrar, fora do processo de
inventário, para efeitos de registo, por exemplo, que a um herdeiro foram
afòrmalados certos bens, que a um credor foi reconhecido certo crédito .
O artigo '6'4 :° indica os requisitos a que devem satisfazer as certidões
extraídas do inventário para: valerem como títulos executivos .
90 Livro I, Título II -Da acção executiva
, CAPÍTULO II
Das partes
ARTico 55.°
(Legitimidade do exequente e do executado)
,A execução tem de ser promovida pela pessoa qúe no título
executivo figurar como credor, e deve. s~ê-1o contra a pessoa que
no mesmo titulo tiver aposição de devedor, salvo o que vai dis-
posto nos dois artigos seguintes .
No processo de execução ocupam o primeiro lugar, como partes,.
o exequente e -o executado, cuja posição corresponde, respectivamente,
à do autor e do réu no processo de declaração.
0 'artigo formula os critérios segundo os quais há-de determinar-se
a legitimidade do exequente e do executado .
É parte legítima coma exequente, em regra, a pessoa que no título
executivo figura como credor, é parte legítima como executado a pessoa
que no título tiver a posição de 'devedor . Note-'se que o texto não diz é,
parto egítimla comia ~uente o credor e como executado o develd!ar ; não
diz e não devia dizer, sob pena de confundir a questão de legitimidade
com a de procedência . É que o exequente e o executado podem ser partes.
legítimas, apesar -de não serem credor e devedor.
A legitimidade deriva, em princípio, da posição que as pessoas têm
no título executivo. A inspecção 'deste deve, em regra, habilitar a resol-
ver o problema da legitimidade . Se o título é uma sentença, é parte legí
tima como exequente a pessoa a favor de quem foi'próferida a condenação ;
é parte legítima como executado a pessoa que foi condenada (argumento
derivado do § ún. do af. 8'13 .°) Se o título é negocial, é parte legítima
como exequente a pessoa que nele figura como credor, isto é, a pessoa
a favom de quem foi constituída a obrigação, e como executado a pessoa
que figura como devedor, isto é, a que seobrigou .
Mas pode bem acontecer que à atribuição do crédito e da obrigação,
resultante do título, já não corresponda ou nunca correspondesse à: reali-
dade. Imagine-se que a sentença condenou alguém a pagar a outrem uma
quantia ; promove-se a execução, estando -a sentença pendente de recurso
com efeito meramnte devolutivo ; a sentença é revogada. Se a execução.
foi promovida pelo beneficiário da sentença e, ,contra o condenado nela,
exequente e executado são partes legítimas, e _todavia vem a apurar-se
mais tarde que o primeiro era credor aparentè ,e o segundo devedor
suposto : na realidade nunca o primeiro. fora titular do direito de crédito
:nunca o segundo fgra verdadeiro devedor.
Capítulo II - Das partes 91
Suponha-se que a execução tem por base um título negocial ; o exe-
quente é parte legítima, porque é a pessoa que no título figura como
credor ; o executado é igualmente parte legítima, porque tem no título a
posição de devedor. Mas, iniciada a execução, o executado deduz oposição
por emb~ e vem a apurar-se que houve na formiação do título um vício
de consentimento, ou que a dívida já eptá paga ; a acção executiva cai,
porque numa existiu ou já não existe o direito de, crédito.
Convém notar que as palavras «credora e «devedora são emprega-
das em sentido amplo, para abranger tanto a relação jurídica de obrigação
como a relação derivada de direitos, reais.
Ne processo de execução podem intervir, como partes, outras pessoas,
além do exequente e do executado, tais como os credores (árts . 61 .° e 864,°),
o cônjuiye do executado (art. 864 . 0), os preferentes- (art . 892 .°), os remi
dores (art. 912 .0), os terceiros responsáveis (arte. 825 .0, 827.°, 856.°), o com-
prador ou arrematante e o licitante (arts . 887 .*, 888 .*, 893 .°, 894.°, 897 .°, 904 .*) .
Sobre a. posição dessas pessoas veja-se Alberto, das Reis, Processo de
exeeuçãa, vol . LI, págs. 204 e seguintes.
A ilegitimidade do exequente ou do executado é fundamento de
oposição à execução (art. 813 .°, n .o 1 .o) ; pode também ser causa de inde-
ferimento in limine (art. 481 .°, n.° 2.1, aplicável por força do art . 801 .') .
ARTIGO H .°
(Habilitação do exequente. e do executado)
Tendo havido sucessão no direito ou na obrigação, no,
requerimento para a execução deduzir-se-á a habilitação do
sucessor . A pessoa ou pessoas citadas podem contestar a habi
litação, observando-se em tudo o mais o disposto no artigo 378 .°
Se a habilitação for contestada, ficarão suspensos, até à
decisão definitiva -do incidente, todos os prazos e termos do
processa) de execução,
§ l .° A execução hipotecária seguirá sempre contra o pos-
suidor pios bens hipotecados, qualquer que ele seja, sem neces-
sidade de habilitação.
2.° A execução fundada em sentença não pode ser
promovida contra o adquirente se a acção estava sujeita a
registo e a transmissão foi registada antes -de feito o registo da
acção.
Nem sempre é parte legítima como exequente ou como executado a
pessoa a quem o título executivo atribui a posição de credor ou de deve-
dor. O artigo 56 .o, depois de enunciar a regra, ressalva. o disposto nos
artigos 56 .° e 57'
92 Livro I, Título II -Da acção executiva
0 caso do artigo 5'5 .° é o de' ter havido sucessão no direito ou na
obrigação . A palavra sucessão está empregada aqui em sentido genérico,
para designar qualquer espécie de transmissão e não únicamente a trans-
missão por morte.
As palavras atendo havido sucessão no direito ou na obrigação»
devem considerar-se equivalentes a estas : atendo havido sucessão na posi-
ção activa ou passiva expressa no título» . É o que resulta da combinação
com o artigo antecedente e das consideraçoes que acabamos de fazer a
propósito desse artigo .
Se a posição constante do título se transmitiu, bem se compreende
que a acção executiva haja doe ser promovida, por quem ou contra quem
foi posto no lugar que ocupava o originário credor aparente ou o primitivo
pretenso devedor.
0 que se torna então necessário provar é o facto da sucessão . Como
se pirava? Por meio de habilítcáç4, -diz o artigo 5S .° Através da habili-
tação vai demonstrar-se que o exequente é o legítimo sucessor da pessoa
que no título tinha a posição de credor, ou que o executado é o legítimo
sucessor do inculcado devedor segundo o título ; feita tal demonstração,
fica estabelecida a legitimidade do exequente e do executado .
Por isso é que o § único do artigo 813 ;°, ao dar a noção dia ilegitimi-
dade do exequente ou do executado, 'a propósito de execução fundada em
sentença, diz que a ilegitimidade do exequente consiste em não ser a
própria pessoa ou o legítimo sucessor da pessoa a favor de quem foi pro-
ferida a sentença, e a do executado consiste em não ser a pessoa ou o
legítimo sucessor da pessoa contra quem a sentença foi proferida ou para
quem ela tem força de caso julga-do .
Tendo-se produzido o fenómenó da sucessão, o título executivo já
não é suficiente para, por si só, apontar o exequente ou o executado ; mas
há-de sempre partir-se do titulo, isto é, da posição nele criada ou definida,
e estabelecer-se em seguida a mutação que nela se tenha operado por
virtude da transmissão:
A habilitação de que se fala no artigo distingue-se claramente da
habilitação regulada nos artigos 376 .0 e seguintes ; aquela é uma habilitação
preliminar ou inicial, tendente a estabelecer a legitimidade das partes
(habilitação-legitimidade), esta é uma habilitação incidental, provocada
pela morte de alguma das partes na pendência da causa (habilitação-inci-
-dente) .
Os termas dia habilitaçãb-legiitimida+de são, ~em eisquema, CI3, Seguintes :
- Dedução ;
- Contestação ;
- Produção de prova ;
- Sentença ;
- Recursos .
Dedução. 0 exequente tem de deduzir a sua habilitação ou á do
executado no requerimento para a execução, isto é, na petição inicial da
acção executiva (art. i56.°) . Alegará naturalmente que em face do titulo
Capítulo II-Das partes 93
executivo a posição de credor ou de devedor pertencia a determinada
pessoa, mas que essa posição se transmitiu, por virtude de tal e tal facto,
para ele, (sucessão no crédito) ou para o executado (sucessão na dívida) .
A dedução não carece de ser articulada (arts. 36 .', 378 .", 307 .o) .
Contestação. Citado o executado nos termos do artigo 811 ." ou dos
artigos 924 .', 928.", 933 .", pode ele contestar a habilitação . Se não can-
testar, consideram-se confessados os factos alegados pelo exequente
(argufento do art. 488:") . e o juiz proferirá imediatamente santença sobre
a questão de direito, julgando demonstrada ou não a habilitação .
Querendo o citado contestar, há-de oferecer a contestação, também
sem dependência de artigos, dentro do prazo de oito dias (art . 308 . 0 ) .
O sr. Dr . Palma Carlos (Cód. de Proc . anot ., vol . Lo, pág. 203) sustenta que
o prazo para a contestação da habilitação é o mesmo que para a oposição
à execução (cinco ou dez dias, conforme a execução for sumária ou ordi-
nária, arts . 816 ." e 929 .') . Julgo ter demonstrado no Processo cle execução,
vcP . 1 .", págs . 224 a 226, que esta opinião não é aceitável . O artigo ã6 ."
manda observar o disposto no artigo 378 .", no qual tem de considerar-se
integrado o artigo 308 .* ; e remete para o artigo 378 .", não em tudo o que se
seguir à contestação, como pretende o sr. Dr. Palma Carlos, mas em, tudo
o azais, isto é, em tudo quanto não está regulado no mesmo artigo 'S6 ."
Oferecida a contestação, ficam suspensos, até à decisão definitiva do
incidente, todos os prazos e termos do processo de execução (2 ." alínea do
art. &6 .o) . A suspensão produz-se a partir da contestação '(Alberto dos
Reis, Proc . de exec., vol . LI, pág . 227) e só cessa quando sobre a habilitação
hajz, decisão com trânsito em julgado (decisão definitiva, como diz o texto
legal) .
Já se observou que a 2 ." alínea do artigo 56 .o emprega indevidamente
a palavra «incidente» . A habilitação -de que se trata não é um incidente,
mas um meio destinado a estabelecer a legitimidade das partes .
Não há dúvida de que, como já acentuámos, uma coisa é a habili-
tação-legitimidade regulada no artigo 56 ..", outra a habilitação-incidente
de que sc ocupam os artigos 376 ." e seguintes . Simplesmente, a habili
tação-legitimidade vem a converter-se, caso seja contestada, num verda-
deiro incidente, visto que suspende os termos do processo de execução
até que .reja julgada definitivamente .
Senio sumaríssima a execução, o executado não é citado para pagar,
nomear b,ens à penhora ou deduzir oposição (art . 9'27 .") . Surge, por isso,
a questão de saber desde quandb se conta o prazo para a contestação da
habilitação . O sr. Dr . Lopes Cardoso (Manual, pág. 83) entende, a nosso
ver bem, que o ponto doe partida para a contagem dó prazo é o que
a 2 .° alínea dó artigo 927." fixa para a contagem do prazo de oposição
à execução : a penhora .
Produção de prova. Só podem produz ir-se, duas espécies de prava : por-
documenbos e por testemunhas (art. 37.8r .o) . Os .-documentos e o rol de tes-
temunhas têm de ser juntos com a petição e contestação (arts. 30?." e 308 .0) .
94 Livro 1, Título II-Da acção executiva
Não podem ser inquiridas mais de 3 testemunhas a cada facto nem
mais de 8 por cada parte (art . 3f9 °) . A inquirição deve ter lugar nos
5 dias seguintes ao termo do prazo da contestação (art. 378.°). Os depoi
mentos são escritos, visto que não intervém o tribunal colectivo (arts. 642.*
e '579 .°, combinados com o art. 4 .o do Dec . n .° 29 :950) .
Sentença . A produção da prova segue=se imediatamente a sentença.
0 sr . Dr. Lopes Cardoso dá -ao juiz o prazo de 15 dias para proferir
a sentença, aplicando o preceito do § único do artigo 658.o Temos dúvida
em aderir a esta doutrina . 0 artigo 378.° determina que, produzida a
prova, logo depois se decida o incidente . A frase «logo depois» tem um
duplo sentido : significa, por um lado, que nenhum ; acto deve interpor-se
entre ~a produção de prova e o julgamento, isto é, que não há a fase da
discussão da causa ; exprime, por outro lado, a ideia de que a decisão
deve ser proferida sem demora, no mais curto prazo de tempo . Esta
interpretação é a que ase coaduna com o espírito da lei, revelado nos
trâmites abreviados e rápidos do }ncidente .
Reconhecemos, em todo o caso, que, não se tendo fixado um prazo
especial para ~a sentença e não sendb lícito exigir que o juiz decida acto
contínuo, fica sem sanção prática a determinação constante das palavras
«logo depois». Exprime-se o voto de que a decisão seja rápida.
Recursos . Da sentença cabe recurso de agravo, coar efeito suspensivo,
que sobe imediatamente nos próprios autos . É o que resulta da alínea c)
do artigo 923.0, como muito bem lembra o sr, Dr. Lopes Cardoso (Manual,
pás . 84) .
Não é exacto, pois, o que escrevi a pás, 230 do Processo cle execução .
Socorrendo-me do n .o 2.° do artigo 691.°, que considerei aplicável pelo
facto de o artigo 516 .° mandar observar o disposto no artigo 378.*, afirmei
que o recurso a interpor era a apelação e que db acórdão proferido. sobro
o objecto desta cabia recurso de revista. Há que corrigir a afirmação,
em vista do que se encontra na alínea c) do artigo 923:°
0 § único do artigo 376.° determina que, certificado o falecimento
do réu por parte do funcionário incumbido . dá citação, podierú o autor
promover a habilitação dos seus sucessores em conformidade do que na
secção se dispõe, ainda que o óbito seja anterior à pro~ção da acção.
0 caso é este : prop6s-se acção contra determinada pessoa, partindo-se do
pressuposto de que ainda está viva ; o oficial de justiça procura o réu para
o citar e obtém a infomação de que faleceu ; apura-se que o falecimento
é anterior à data da* proposição da acção ; não obstante isto, a habilitação
dos sucessores do réu pode .fazer-se mediante o incidente .da habilitação
regulado nos artigos 376.° é seguintes .
É claro que, em rigor, devia ficar sem efeito o processo e o autor
propor de novo a acção contra os herdeiros ou representantes do falecido,
deduzindo a habilitação deles na petição inicial . Para evitar que se inu
tilize o processado em consequência dum evento que o autor pode deoco-
Capítulo II-Das partes 9.)
nhecer, mesmo sem haver negligência da sua parte, inseriu-se a disposição
do § único do -artigo 376'
Tentos domo certo que esta disposição é aplicável ao processo de
execução, já por força do artigo 801', já porque se trata de disposição
geral. Portanto, promovida execução contra, o devedor, se o funcionário
lavrar cerbidãb de que não pôde citá-lo por ter falecido, tanto importa jluie
o fal~ec'ihnento seja poiaterior à proposição da acção executiva, como que
seja anterior. Num e noutro caso a habilitação dos sucessores for-se-á
nas térmos dos artigos 376 .' e seguintes .
Há casos em que a execução pode ser promovida, independente~
mente .ch! habilitação, contra pessoa diversa da que tem no títnlo a posição
de devedor . São os indicados no § 1 ." do artigo :536 . ~ e no ~artigo 5'7,'
Tratando-se de execução hipotecária (execução para cobrança de
crédito garantido por hipoteca), é pane legítima como executada, não o
devedor segundo o título, mas o possuidor dos bens hipotecados, qualquer'
que ele seja . Por !siso é que, em perfeita concordância com o § 1 .' do
artigo 56 .°, o § único do artigo 81 :53 .' declara que a ilegitimidade do, exe-
cutado na execução hipotecária só pode consistir em ser outro o possuidor
dos bens hipotecados . 0 que inteaessa é a pessoa do possuidor e não a
do devedor ; pelo; facto de estar de, posse dos bens hipotecados, a pessoa
é investida na qualidade de parte legítima corroo executado .
O fundamento desta .doutrina é o artigo 892 .' do Código Civil . 0 § 1 .'
do artigo 156 .o é consequência lógica do chamado direito de secpiela. Claro
que a pessoa há-de ser possuidor em nome próprio (Alberto dos: Reis,
Proc . de exec ., vol. 1.°, pág . 236 ; Lopes Cardoso, Manual, pág. &5) .
O preceito do § 1' do artigo '56.o completa-se com o disposto no § 2 .'
do artigo 1036 .1 , onde se diz que os embargos de terceiro opostos à penhora
de beras hipdtzcadás para pagamento do crédito hipotecário só podem
fundar-sr~ em acto ou facto anterior ao registo da hipoteca . Promoveu-se
execução contra o possuidor dos bens hipotecados ; penhorados estes bens,
pode o possuidor deduzir com êxito embargos de terceiro ciontra a penhora,
se tiver meio de provar que adquiriu os bens ou entrou na posse deles
antes da data do registo da hipoteca .
É que, estando a hipoteca sujeita a registo (Cód . Civ., art . 949 .', n .'2 .'
e § 2 .', alínea a), não produz efeito em relação ao possuidor dos bens,
quando este deva considerar-+se terceiroo, senão desde a data do registo
(Cód . Civ ., art . 9151 .') . Por isso, sie o possuidor nem é a própria pessoa que
constituía a hipoteca, nem herdeiro ou representante dessa pessoa, - e
se os bens hipotecados vieram à: sua mão por virtude dum acto ou
facto anterior ao registo d'a hipoteca, pode ele obter o levantamento da
penhora mediante embargos de terceiro . Não obsta ao uso de~ meio
a circunshância de ser executado, corno se vê pela 2.' alínea -do § 1 ." do
artigo 1036."
Temos assim que, no caso figuradb, o possuidorr é_ parte legítima
como executado ; mas o exequente não conseguirá obter pagamento à custa
dos bens .hipotecados, a n.ãb ser que possa socorrer-se do artigo 10+40 .0
91 ; Livro I, Título II -Da acção executíva
(Alberto dos Reis, Proc . d e exee ., vo'l . 1 .", pág . 239) . E se não puder fazer
subsistir a penhora sobre os bens hipotecadas, é claro que menos pode
fazer-se pagar à custa doo i°estante património do possuidor, quando este
seja pessoa diversa do devedor . A execução terá, em tal caso, -de ser
dirigida depois contra o devedor .
Pode perguntar-se se o possuidor, para fazer vingar os embargos de
terceiro deduzidos :à . sombra, do § 2 ." do artigo 1036.", terá de mostrar que
o acto ou facto, em que funda os seus embargas, além de ser anterior ao
registo da hipoteca, foi registado antes desta . Como d'emonstr'ei no Pro-
cesso de execução, vol . 1 .", págs. 237 e 238, e na Revista de Legislação,
ano 73 .", pág. 141, -a solução depende de estar ou nao sujeito a registo
o acto ou facto que serve doe fundamento aos embargos ; se o embargante
invoca, por exemplo, uma compra, uma troca, uma doação, como estes
actos estão sujeitos a registo (Cód . Civ ., art . 949 .", n ." 4 :'), os embargos não
têm viabilidade, desde que o embargante não prove ter registado ess8
acto 'da aquisição antes do regista da hipoteca ; se o embargante alega o
facto da meara posse, como este facto não está sujeito a registo (Cód . Civ.,
art . 952 .< , ), basta que 'o ~embarganta prove que a pese é anterior ao registo
(Ia hipoteca . Assim como a hipoteca não produz efeito em relação ao
possuidor, sendo este terceiro, senão a partir do registo, também o acto
de transmissão em que o possuidor funde os seus embargos não produz
efeito em relaçã:a ao credor hipotecário, sendo ele terceiro, senão desde
o momento do registo.
0 § 2 ." db 'artigo 56 ." constitui uma limitação ao princípie,> que está
na base do artigo . 0 princípio é que, no casa de sucessão, -a execução
pod-e ser promovida pelo sucessor ou contra o sucessor . 0 § 2 ." , esta
belece uma. restrição, : quando a execução se funde em sentença proferida
em acção sujeita a registo, não pode promover-se contra o adqu'irent'e se
a transmissão fz>i registada antes de feito o registo da acção .
Exemplifiquemos . A propõe contra B acção de reivindíicação duro
prédio ; esta acção está sujeita a registo, visto que é uma acção real sobre
bens imobiliários deteiminados (Cód . Civ ., art . 949.", n ." 3 .", Cód . do, reg .
preá., art . 180 .", n ." 3 .") . Suponhamos que o autor não tem o cuidado de
registar a acção e que, no decurso dela, B vende o prédio a C ; este regista
a transmissão a seu favor . Ainda que A obtenha sentença favorável, não
poderá executá-la contra C, 'o adquirente do prédio . Obsta a isso o registo
da compra do prédio, feito numa data em que não se achava registada
a acção .
Pelo contrário, se A registar a acção antes de C consaguir o regista
da tran'smiss'ão, a sentença *quie condenar o réu a entregar o prédio é título
executivo contra C (art . 271 .o, § 2 .") .
Qual a razão disto?
São as ragras relativas ao registo predial que impõem estas soluções .
Desde que o acto sujeito a registo só produz feito em relação a terceiro
no caso -de :ser registado e a partir da datado registo., segue-se que a acção
real sobre bens imobiliários determinados não produz efeito em relação
Capitulo II-Das parte .c 9T
ao adquirente da coisa litigiosa, que é terceiro senão quando for registada
e a conta . da data do registo ; a çornsequência natural e lógica de o acto
dr, proposição da acção não pro'du'zir efeito relaitivam~ente ao adquirente
desde que não seja registado antes do registo da transmissão, é não poder
executai-se contra o adquirente a sentença favorável que o autor obtiver.
ARTIGO 57 ."
(Exequihilidade da sentença contra terceiros)
Se a sentença de condenação tiver força de caso julgado,
não só contra o vencido, mas ainda contra outra pessoa, pode
a execução ser promovida contra esta, independentemente de
habilitação .
Há. casos em que a sentença de condenação tem força de caso julgado
não só contra o vencido, mas ainda contra outras p'esisoas (aras, 328 :', 333 .0,
3 ,16 .", etc .) . Então pode a execução ser promovia çcntr'a essas pessoas,
independentemente de habilitação.
0 sr. Dr. Lopes Cardoso (Manual, pág . 87) escreve que o § 2 ." do
artigo ;ï6 .° parece ter queri,db e,stab'eDecer uma excepção à regra do
artigo 57 .1 ; mas, bem consideradas as coisas, não faz tal excepção, sendo
puramente redundante. 0 que está messe parágrafo é a repetição des-
necessária do que se prescreve no artigo 57.", combinado com o § 2.^ do
artigo 271 .°
Salvo o devido respeito, não é assim . São diversos os domínios de
aplicação do § 2 .0 do * artigo '56 .° e dal artigo 57 .° O pri~neimo estabelece,
como dissemos, uma limitação -ao princípio que o artigo '5 ,6" pressupõe,
isto é, e.o princípio de que a sentença pode ser; execwtada não só contra
'o originário devedor, senão t'aanbénn contra o seu sucessor. 0 adquirente
sucede aro transmitente ; e 'todavia a sentença não pode, ser executada
contra ele, nem mesmo mediante habilitaé;ão, se a acção não for rggistada
nas circunstâncias já expost"~.
O artigo 57.° nada tem que ver cora o fenómeno de sucessão, pr ,2ve-
nido no arrogo t56 .1 ; refere-se a casas em que certas pessoas estão sujeitas
à eficácia executiva da sentença, apesar de não terem a posição de suces-
sores -do originário devedor .
ARTIGO 58 .°
(Coligação de exequentes)
,Podem vários credores comuns coligar-se contra o mesmo
devedor quando as execuções tçnham por fim o pagamento de
quantia determinada e não se verifiquem as excepções previstas
nos n .°' 1 .° e 3 .° do artigo 53 .*
7-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
9'8 Livro I, Título II- Da acção executiva.
Se alguma das quantias for ilíquida ; a coligação só pode ter
lugar depois da liquidação.
único . É aplicável a este caso o disposto no § 2 .° do
artigo 53 .°
Como já dissemos, a figura & coligação, tratada neste 'artigo, distin-
gue-se .da figura da simples cumulação, prevista no artigo 53 .°, em que
naquela o exequente é só um, ,3 nesta os exequentes sãó vários .
Para chie seja válida 'a coligação de exequentes é necessário :
'Que 1 .' todos eles sejam credores comuns (não pude um credor comum
col'igar~se com um credor privilegïad'o ou preferente, não podem coligar-se
vários credores preferentes ou privilegiados) ;
Que 2.* todas as execuções sejam destinadas a obter o pagamento de
quantia determinada (não pode um credor por quantia certa coligar-se com
um credor ipor coisa certa ou com um credor de prestação de farit», assim
corno não podem coligar-sevários credores por coisas certas ou, vários cre-
doreside prestação de factos) ;
3, .° Que concorraM os mquiaitos de identidade de. competência e de
identidade de forma de processo que se exigem parara validade -da cumu-
)ação, nos termos que já explicámos, s. propósito db artigo, 53 . 1
O sr . :Ur. Lopes Cardoso (Manual, págs. 92' e 93) põe a questão de
saber se será admissível a coligação do e executados ; pana a resolver dis-
tingue entre :
a) Coligação de executados baseada em títulos diferentes ;
b) 'Coligação ba'sea'da no mesmo título .
0 artigo '53 .° repele a primeira. Quanto à segunda, tem de consi-
derar-se 'adm'issivel em face db 'artigo 29 .o, pois que, aendo uso ®ó o titulo
executivo a causa de pedir da 'acção executiva é a mesma e única..
Estamos de acyowdo com o ilustre magistrado. E neste sentido se
deve enetender o que se acha escrito a pás . 269 . do Processo de execução ;
quando aí se diz que a lei não consente que o mesmo ou vários credores
promovam, no mesmo processa, mais do que uma execução contra diversos
devedores, tem-se em vista a coligação fundeada em títulos diferentes.
0 artigo 58 .o, aplicável ã coligação baseada em títulos diferentes,
exige, como requisito, a unridmde de devedor . Mas esta unidade deve
encamarrse sob o aspecto jurídico, e não 'sob o aspecto materílal. 0 que
importa, como frisa o sr . Dr . Lopeis Cardoso, é guie haja unidade de obri-
gação (Alberto dos Reis, Proc, de exec., vbl . 1 .°, pás . 270) .
Atrrroo 59 .°
(Legitimidade do Ministério Público como exequente)
0 Ministério 'Público tem legitimidade para promover a
execução por multas impostas -em qualquer processo, bem como
a -execução por custas ou quaisquer importâncias devidas ao
Capítulo II-Das partes 99
Estado, cofres, Ordem dos Advogados ou Câmara -dos Solici-
tadores .
Atribui-se neste artigo legitimidade especial ao Ministério Público
para prunover execução destinada à ; cobrança de certas quantias .
Que quantias? Em primeiro lugar as devidas a título de multas
impostas em processos cíveis, ou em consequência da má fé dos litigantes
(art . 465 ."), ou ãrn consequência da falta de observância de determin'a'dos
preceitos, já por pare 'do autor ou do réu (arts. lõ5^ e '550 .'), já por p'árte
dos seus advogados (art . 170f), já por parte dos funcionários judiciais
(arts. 17'i .", 658f), já por parte de terceiros (art. 524 .") .
Em segundo lugar as quantias devidas a título de custas .
Finalmente as importâncias devidas ao Estado, Cofres, Ordem dos
Advogadas ou Câmara dos Sdlicitadores . Não obstante a frase «quaisquer
importâncias», não pode supor-se que o pensamento da lei fosse conceder
legitimidade ao Ministério Público, para, como representante da Ordem
dos Advogados ou da Câmara dbG Solicitadores, promover acções por
dívidas a. estas entidades, qualquer que seja a sua proveniência. A,expres-
sãrr «quaisquer importâncias» há-de relacionar-se dom a palavra «custasx,
de que é o seguimento ; não são todas e quaisquer importâncias devidas
à Ordem dos Ad'vogad'os e à Gamara dos Solic4tadoros, mas 'aquelas
importâncias que têm, mais ou menos, o carácter de custais ou que cos-
tuinam entrar em regra de custas, como são as percentagens que, segundo
o artigo 70 .0 do Código das Custas, cabem à Ordem e à Câmara nas impor-
tâncias arbitradas a título de procuradoria e nas remunerlações atribuídas
aos defensores, curadores, advogados e solicitadores nomeados oficiosa-
mente e aos agentes especiais 'do Ministério Público .
ARTIGO 60 .°
(Intervenção obrigatória de advogado)
As partes têm de fazer-se representar por advogado nas
execuçõ,ws de valor superior ,à alçada da Relação ; e nas de valor
inferior a esta quantia, mas excedente à alçada do tribunal de
comarca, quando sejam opostos embargos ou haja lugar à veri-
ficação de créditos .
0 patrocínio judiciário nas execuções está sujeito às regras seguintes :
a) Se o valor da execução não excede a alçada do tribunal de
comarca (6 .000$00), não é necessária, para acto algum, ~a intervenção de
advogado ; as partes podem, por si ou por intermédio de solicitador;
iaquerer e praticar !todos os actos e termos ;
100 Livro I, Título II =Da acção executiva
b) Se o valor excede a alçada da Relação (20 .000$00), é indispensável
a constituição de advogado 'desde o início da intervenção da parte ;
e) Se o val'o'r está compreendido entre 'os dois limites indicados,
a intervenção de advogado Èó é necessária quando sejam opostos embargos
ou haja lugar à verificação, de créditos .
No caso 'd'a alínea b) o exequente tem de constituir a3Vogado, ao
apreselntar a petição inicial, ou passando procuração, ou fazendo assinar
por ~aidvogad'o a petição nos termos do n." 2.o do artigo 35." ; o executado
tem igualmente de constituir .a~d~vogado, se quiser deduzir oposição ou
levantar qualqu'el-questão de direito (art . 33 .") .
No caso da alínea c) a constituição de advogado é necessária, por
parte do exequ'ente, para contestar os embargos da executado e pura os
actos. d o respectivo processo ; por parte do executado, para deduzir
oposição por enrbargcls e para os restantes actos do processo de
oposição .
Além disso, se qualqueN ci°edor quiser reclamar o seu crédito há-, d,e
constituir advogado para esse efeito ; e o ex'equ~ente e executado têm
igualmente de c'onsÚtuir advogado, não o tendo já constituí, db, se quiserem
impugnar os créditos reclarnadfos .
0 si-. Dr . Lopes Ca'rdo'so (Manual, pág. 103) entende que não é neces-
sárca a eorr,stituição de advogado para a reclamação dos cr-é .d~t!os por, parte
doe credores. Funda-se em que o artigo 60 ." exige a intervenção de advo
gado quando houver lugar à verificação de créditos, e não quando haja
reciaru.ação de c1r!éd4tas ; 'ara a verificação só surge sie os créditos são
impugnados, pois os que o não forem, considerarn-n~e- reconhecidos
(art . 868.") .
Afigura-se-no's que o distinto magistrado se cinge demasiadamente
à lc)tra da lei . 0 artigo 60." tear, na redacção actual, resultante do 1?eci!eto
n." 29 :9':10, o mesmo pensamento e o mesmo alcance que tinha no- texto
primitivo ; as altercações que se fizeram foram não de substância, mas da
fornia (Alber't'o dos Reis, Proc . de exee ., vol. 1.", pág. 256) . A frase «quando
sejam 'opostos embargos eu haja lugar à verificação ~de créditos» c'orr--s-
pcnde precisamente à' fórmula inicial «desde que !s!ejam opo'stos embargos
ou surja algum incidente que siga termos semelhantes aos ;do processo
do declaração» .
0 processo organizado nos artigos 865.1 a 868.' é um processe para
a verificação 'de créditos ; 'de;~de que a reclamação -do crédito é já um acto
desse proc~e:J~~o, acto que corresponde 'precisam'ent'e à petição inicial para
uma acção de dívida, não polir 'deixam de entender-'se que a ci~nstituição
de advogado é necessária paria esse acto . Reclamar o crüdito é r(-clamar,
a verificação ~dele, coma se vê pelo artigo 1180 .' ; que, no decurso do. pro-
cesso, o crédito seja ou nã'o impugnaido, é indiferente para o efeito da
significação e valor do 'acto da reclamação .
De gesto, ~a palavra «reconhecii ,dbs», que se lê na parte final lio
artigo 868.', equivale precisamente a «verificados» . Para não se r!epetir-
o vocábulo, é que s!d escreveu reconhecidos, em-vez de veri'ficad'os .
Capítulo II - Das partes 101
ARTIGO 61 .°
(Poderes do credor privilegiado ou preferente)
0 credor que sobre os bens penhorados tiver privilégio
ou preferência, mesmo baseada em penhora ou hipoteca judi-
ciária, pode promover o andamento da execução quando o exe
quente não seja diligente em a fazer seguir os termos res-
pectivos .
Dá-se ao credor privilegiado ou preferente o poder de promover
o andam'en'to da execução, 'quando o exequente sla mostra inactivo .
Esitamos em presença 'dum caso de acção executiva sub-rogatória :
a cr'ed'or substitui-sie o,3 exequeinte e actua Em n'em-e dEi3te . Há aqui dis-
cordância entre a legitimidade formal e a legitimi'dã9,e substancial. Sob
aspecta formal, o exequente paissa 'a rar o credor privilegiado eni pnafe-
rente ; sob o aspecto substancial, continua a ser a piesfa'c,a que promoveu
inicti'alrnznte a execução (Alberto -dos Reis, Proc. de exec ., v'1,, 1 .", págs . 217
e 218) .
Como se justifica esta substituição?
«Justifica-se pelo facto dia que pode suceder virem es créditos pre-
ferentes a absorver todo o paltr!imónio executadìo, com inteiro prEijuízb do
ex"u,ente, o qual neste casso deixará de se interessar pelo prossegui
mento da acção executiva» (Dr. Lopes Cardoso, Manual, pág. 108) . Lrto
responde à crítiica feita polo sr . Dr. Palma Cartas (Cód . de Proc . anot .,
vos . 1 .", págs . 204 e 20 .3) . Eeltranha o ilustre 'advogado que a faculdade can-
cedida prelo artigo 61 .^ não se çesoten'desse a todos as cr'e'dores, mesmo
comuns, cujos créditos já estivess~am verificados, tanto macia que o artigo
manda atendler à preferência baseada em penhora ou hipatec'a judiciária
e os credores que têm a seu favor edta preferência, são afinal cr'édoiies
comuns.
O artigo 61 ." foi escrito principalmente para assegurar b andamento
de, execução no intervalo quia decorre desde a p-enhiorla até à verificação
dos créd"vtos, quando o exequente não cuide dia 'o promovei . A negigên
cia do exequente nesta fase 'do pilocesiso não podia ser suprida pela acção
dos credores comuns, pela razão simples de que estes ainda não têm os
seus credifois rec'onhecidos .ou verificados .
Chega-se à sentença de verificação e graduação de créditos. Daí por
diante 'todos os credores cujos créditos tenham sido reconhecidos. ou veri-
ficados, sejam preferentes, sejam comuns, ficam no mesmo plano sob
o ponto de vistia *s padeces meramente processuais. Podem fazer penhorar
outiros bens (ai+t. 870.") e têm voz em todos os actos, posteriorlasi do pro-
ceg'o, '-tal qual como o exequente (arts. 886 .', 888 .", 894 .", 906 ." ; 875 .', 878 .°,
879 .", 880 . ,, , 895f, 897 .", 899 :", 9014 .', 917 .", 919 .')
Só há um acto r'eserva'do ao 'exequente : a fixação ~do valor em quo
os bens hão-de ir à praça (art . 896 .") .
:1102 Livro I, Título II- Da acção exeçutiva
Daqui se conclui quie, por força do reconhecimento e verificação dos~
ci~i&dk;os, os credores, mesmo, comunis, ficam tendo no processo pooição
idêntica à do exequerite ; ia e~ução convei~~sie de singular em colectiva,
ou concursual (Albeito dbs .Itêis, PLroc. de exec, vol . Lo, págs. 209 e 210) .
~ a pienhora até à verificação dos créditos é que a inactividade
dia exequente só podie -ser suprlidia pelos crediores privilegiados ou pre-
fkxrentês,
Eiai face do artigo, 61 .* o credor que se propõe exercer a acção
oub-riogaMAia há-& m~ar :
1 .' Quie tmn privilégio ou preferência ssobre os bens penhorados ;
2 .' Que o e~ente não é diligente em promover os t~os da
~Cução.
Quanto ao 1 .* reqiri~, a prova há-de fazeir-sei pior documentos.
AL prova da preferência ~tará natwralknente, da certidãb dos, ónut3 ins-
<-ritos sobre os bens penhorados .
Quanto -aio 2.o, o ~r tratará de demon~r que a atituide e conduta .
do êxequente no procêsso revelwn negligência e de«interesse ; o juiz deci-
dirá m seu prudente arbítrlib, se as~dm é (Dr. "pes Cardoso, Manual,
pág. 109) . Queria o ará Dr. Palma Carloi~ (ob . cit ., pág. 205) que a lei
descesise até à .fixação do critério dia negligência . 0 único critério que se
poderia .estabelecer era o do tempo : considerar-se negqÍgente~ por e~lo,
o ex~nte que diéixasse de promover o -andamento da execução durante
um detembrado per"b dê tempo (um mês, três meses, ' iseis m~s ,, .
um ano) .
Mae pareceu preferíviel, deixar ao juiz maior liberdade de apre-
ciação, o que lhe ~iW" atender iNs circunstâncias que em cada caso
e.brw~ podem verifioar-se, tanto mais que o exercício do prudente
ar.bítirio do juiz n&o oferece peirigos, tr*bando-se, ccbno si,- trata, de substi~
tüir a ~ duin credor pela d-e outro <lue se mostra mais inheresbado .
Manifeista, o 9r . Dr. Palma Carlos a sua surpresa por -si-- tonial~ em
consideiraçÃo -a prefeiriênciia bas" em penhora ou hipoteca judiciária .
Argumenta assim : ou os bens chegam para pagamento a "os os cTedores,,
e --neste ~ é indffer~ ter ou não penhora ou hipoteca judiciária, ou
não chegam, e n~ c~ tem de decreWr-se a insolvência, que faz desa-
parecer a preferência derivada da penhora ou da hipotecia judiciái -dia .
0 raciocínio parece impecável. Mas &squece-~e este facto, certo e
positivo : enquanto ãe não chega ao de~cretamento ~da insolvência a posição
do credor com penhoraou hipoteca judiciáris, não é igual à -do credor que
n@D tem a seu favor ~quer de%sas garantias . Tal qual ciomo o credor
hipoteca
priv~legiodo ou prerferente porr vi-Aude de negocial, o credor com
penhúra ou hipoteca judic-iár~a tem o -direito de se fazer pagar pelos bens
penhor«dos ou hi~adeis, de prefeTência ao credar despilovildo de qual-
juer garantia. Se antes ,da declailaçã1o -de insolvência a situação do ciiedor
<-Iyrn 1)referêhicla de origem proces-suM é igual, à do credIar com prefe-
riência de origem extraprocessual, não fa~ia sentido que a acção sub-roga-
tória "se concedida a este e negada àquele .
LIVRO II
Da cempeténcia e das garantias da imparcialidade
CAPITULO I
Das disposições gerais sobre competência
Arrrioo 62 .0
(Competência internacional e competência interna.
Elementos que as condicionam)
Os tribunais (portugueses têm competência internacional
quando se verifique alguma das circunstâncias mencionadas no-
artigo 65.°
Na ordem interna o poder jurisdicional distribui-se pelos
diferentes tribunais, em regra, segundo a matéria e o valor da
causa, a hierarquia judiciária e o território. Em casos excepcionais,
atende-se também à qualidade do réu.
No Pr~ primitivo o livro 2.° tinha por epígrafe Da jurisdição
e competência, compreendendo cinco oaipítulo$, o primeiro, doa quais dizia
respeito à «jurisdição» 'e o segundo à «competência» .
Sob a -rubrica «Da juriod`içfãb» colocava-ise a matéria que hoje se
encontra no artigo 65:°, a matéria actualmente subordtiarada à inscrição
«Da cornpetênc~a internacional» ; o capítulo relativo à «competência» abran-
gia o que o Código ,,insere sob a designação «Da competência interna.».
A sistematização do Projecto assentava sobre determinados conceitos
doutrinais de «jurisdição» e «competência» ; visava, sob~ldoi a estabelecer
distinção entre a falta absoluta de jurisdição e -a incompetência . Se a acção
não pode ser proposta perante tribunais portugueses, ou por outras pala-
vras, se nenhum txi'bunal português tem poder jurisdicional para conhecer
da causa, estamos em presença dum caso de falta absoluta. de jurisdição,
que é 'ilntrìnsecamente diferente do caso doe incompetência, do caso de ~o
tribunal ter jurisdição, mas não poder exercê-la em relação a determinado
104 Livro II-Da''competência e das garantias dia imparcialidade
litígio, por o seu poder jurisdickon'a1 estar limitado pelo -de outro tribunal,
competente para a acção .
Que os conccilGos em que sie inspirava o Projecto eram exactos,
prova-o o seguinte passo, transcrito da RiviRta di diritto processuale
civile, :194'1, parte LI, pág. 82 :
«0 terrnb «competência» em sentido técnico designa a repartição do
poder j~cional pelos diversos tribunais do E'stadb . Teríamos, pois,
uma questão de competência quando se tratasse de determinar se o poder
de julgar uma certa causa peTtence, não ao tribunal a que ela está afecta,
mas a rum outro tribunal do Estado ; pelo con'trári'o, quando PPz tratasse de
verificar sa e.ss!e poder não peitence nem ao tr'ibuna'l a que a causa está
sujeita nem a nenhum outro ido Estádo, teríamos, não uma questão de com-
petência, nuas uma questão de jurisdição . Na verdade, decidir se exislbe ou
não um juiz que possa conhecer 'do ped.ido equ'iva'le a decidir £~e pode ou
mão 5nv'ocar-se a tutela jurd'sdicional db Estado .»
A orientação doutrinal doo Projceto, tendenhe a introduzir ordem e
diséipliina no uso dois termos «jurisdição» e «competência», foi 'impugnada
na Comissão, Revisora ; pareceu ousada e revoluciomária a inovação que
pretend'i'a eistabeleeer-se . Por assiso, em vez de se adoptarem, para ~a distri-
buição dia3 matérias dIos priméih~ois capítulos do livros 2 .', as epígrafes
a:Da jurisdição.» e «Da coTnpetêncma», julgaram-se preferíveis . estas :
,s;Da competência internacional» e «Da competência `interna» .
Mas isto 'não quer dizer que não 'se tomasse posição quanto aio sen-
tido das palavras «jurisdição» e «competência» . No Código de 1876 não
era poaível -disc~!irar e que 1&vila entender-se por um e bu,tro vocá
buTo ; parece que se empregavam inddstintamente para exprimiu a mesma
ideia .
0 Código factual dá-nos, no artigo 11'5 .', elementos que permitem
construir o conceito de jurisdição e o conceito '6e . competência. Há, conflito
d: : jurhdição, düz-se saí, quanidb duas ou mais autoridades, p~ertencentàs
a diversas actividades do Estado, ou dois ou mais trÍbuna;i ,s , d!e, espécie dife-
rente, e axrogam ou d~ec1-unam o poder èe conhecer 'd'a mesma questão ;
há conflitb de c'ompetênci'a quando dois ou mai;S tribunais da mesma espécie
se consideram competentes ou incompetentes para conhecer da mesma
questão .
Exemplas caracteristicos dz conflitos de jurisdição, :
a) O governador civil de Coimbra atribui-se o poder de conhecer
duma questão para a qual se julga também competente o juiz! de ddmito
de Coimbra ; o comandiante da polícia de segurança pública de IAsbaa
arroga-.s;e o po , d-ride decretar um despejo, para o 'qual o tribunal civil de
Lisbaa se declara igualmente competente (duas autori4ad'es' pertencentes
a, diversas actividades do Estado, uma à actividadie administrativa, outra
à ~actinvidade judicial, atribuem-se simultâneamente o poder -de conhecer
da mesma quéstão) ;
h) O auditor administrativo do Porto julga-se competente para
conhecer duma causa guie pen'd'e também no tribunal civil da comarca de
Aveiro e para a qual este se armogou também pader-jurisdic'ional ; o tri-
Capítulo 1-Das disposições gerais sobre competência 105
burmi do trabalho de Coimbra declara-se competente pana julgar uma
questão que está também afecta ao juízo de dirsito de Cofimbrla e para
a qual este 'se considera competente (dais tribunais de espécie°diferente
arrogam-se simultâneamente o poder de conhecer da mesma causa) .
Exemplos ~de conflito -de competência : o tribunal municipal de Con-
de'ixa e o tribunal ida comarca de Coimbra julgam-se competentes paro
derimir o mesmo pleito ; o tribunal -dh ecmarc'a de Scure e o tribunal da
comarca, da Figue'ir'a (ia Foz, o tribunal da trabalho de Ave'ir'o e o tribunal
do trabalho ido Poa-to déclaram~se competentes par'a utecidir a mesma causa
(dois tribunais da mesma espécie jurisdic'io'nal arrogam-se o poder de
apreciar e resolver a mesma causa) .
Destas definições legais de conflito de jux-is.d, içã,o e conflito de com-
petênciia extraem-sie os seguintes conceitos : a jurisdição significa o poder
de julgar atrfuído, em conjunto, 'a uma actlividade ido Estad+o ou a uma
determinada espécie de tribunais ; a competência idesigna o modo como
a jurisdição Ise acha d'istribuíd'a dentro da mesma actividia~da ou da mesma
espécie de tribunais. Noutros termus, a junisd~ição exprima uma relação
da «ctivïid'a+de ou do aparelho jurilsdc'ional eim globo com as oultras activi-
dades ou os outros aparelhos ju.risdicionais (relação com o mundo exte-
rior) ; 2Y compe;tênci!a 'expr'imie uma relação, entre si, dias. ~au;toili; ±a.des -ou
tribunais pertencenteis à -me~_-rna iactividade ou à: meesma espécie (ralação
interna) .
São exa'ctamenta as noções que ncs dá Goldschmidit neste trecho :
«ao passo que o âmbito de 'adulação dbs tribunais civis ,mias suas relações
com o exterior, especialmente perante as demais autoridades, re-cebe o
nome de «jurisdição» ou «via processual, quando !se refere às relações
-idos diferentes tribunails entre si toma o nome espzcífica d'z competência» .
(Derecho procesal civil, trad . d e Pietró Castro, pág. 163) .
0 que . nos interessa, neste m'om'ento, é conhecer o sistema de cxn-
petêncila organiza-do pelo Código, isto é, os crïtério1sl segundo os quais se
atribuía competêndia aos tribun'avs portugueses em confronto com as juris
dições estrangeiras (competência internacional) e o modo corno o podei
juris'dicional -se repartiu e distribuía, dentro ~do Estado português, pelos
diferentes órgãos -da jurisdição c.ivi1 (competência interna) .
As' disposições legais sobre competência das tribunais destinam-,s ,--
a este fim : habilitar a pessoa que pretende propor uma, acção a deter-
minar em que tribunal há-d,a pr-opô-'la para 'ter a ségurança de obter Uma
sentença de mérito .
A maior" parte das vezes o autor não carece de resolver o problema
da competência internacional, qued dizer não carece de averiguar se
os tribunais portugueses, considerados no seu,conjunto, são competentes
para conhecer ida acção que vai prerpor, sz a causa pode ser sujeita à
jurisdição portuguesa ou terá de -ser submetida a uma jurisdição estran-
geira . A questão da competên&a internacional, da 'posição da jurisdição
portuguesa perante as jurisdiçdeis- estrangeiras só surge quiando a acção,
petos seus elementos essenciais-as pessoas, os bens, a causa de ped'ir,
106 Livro II-Da competência e das .garantias da imparcialidade
o lugar de cumprimento da obrigação, i.tc . -está em conexão com as
jurisdições de vários Estados .
Imagine-se que um doa litigantes ou ambos são estrangeiros, que
a arção diz respeito abens situados fona de Portugal, que emerge de noto
ou facto praticado em território estrangeiro, qua se refere a obrigações
a cumprir em país estrangeiro, . 0 autor terá então doe verificar, antes de
reais nada, se lhe será lícito propor a acção em Portugal ou pe-rante
tribunais portugueses .
0 autor é português, mais o réu é espanhol ; as partes são ambas por-
tuguesas, mas ia acção tem ,por' objecto bens imóveis situados na Itália ;
o réu é português, mas o atito jurídico de que a causa emerge, foi praticado
na França . Em qualquer -deJtes casas a acção está em conexão, pelos .
seus elementos, com as jurisdições de dois Estados diferentes : com a
j urisdrição portuguesa e a espanhola no 1 .° caso, com a jurisdição portu-
guesa e a italiana no 2.', com a jurisdição portuguesa e a francesa, no 3 .-
Quer dizer, estamos em presença dum possível conflito de jurisdi-
ções . O Código de Processo Civil português resolve o conflito, indicando,
no artigo 65 .°, as circunstâncias de que depende a competência interna
cional dos tribunais portugueses, isto é traçando a órbita dentro da qual
se move a jurisdição portuguelya em confronito com as jurisdições estran-
geiras.
Quando não haja razões para duvidar da competência internacional
dos tribunais portugueses ou apurado que, nos terirnois do artigo 65 .0, esse.
competência, se verifica, surgem depois os problemas de competência,
interna . Pretende saber~se qual, dentre os tribunais po-ftugueoes, é com-
petente para a acção . Ora este quesito demanda uma averiguação muito.
complexa, atendendo a que a competência se acha distribuída por muitos
órgãos e a que a porção de jurisdição atribuída a ciada um deles implica
necessàriamente um limite à competência dos outros.
Lógica e cronálógicamente a primeira questão ,de competêncio interna.
que sie põe é a da determinação dia espécie do tribunal. Os tribunais
portugueses arrumam.s e em duas classes : a) tribunais comuns ; b) tri
bunais especiais . 0 problema dia de't'erminação da espie consiste em
saber, se a acção deve ser proposta perante o 'tribunal comum ou perante :
allgum tribunal especial .
Corno se resolve o problema?
Q artigo 66 .° fornece-nos o critério : as cousas que não forem atribuí-
das pela lei a alguma jurisdição especial são da competência do tribunal
comum . Vê-,se, por este texto, que 'a competência dos tribunais especiais
se fixa e conhece directamente, mediante a análise dos diplomas legais
que lhes marcam a esfera de acção, ao passo que a competência dosa tri-
bunais comuns só se determina por via indirecta ou por exclusão de, partes .
Quando a lei cria e organiza um tribunal especial, tem o cuidado de
rlh-limitar a Isua competência, isto é, de designar a massa de causas de que
ele pode conhecer : essas, e só essas, ficam dentro do seu poder jurisdi
cional . Portanto, basta examinar com atenção a lei orgânica do tribunal
Capítulo I- Das disposições gerais sobre competência 10 7
para M! verificaM se uma certa causa está compreendida, na zona da sua,
competência .
Percorrido o quadro dos tribunais especiais, se se apura que 'a acção
a propor não é da competência . de nenhum desses tribunais, não pode
haver hesitação no corolário a tirar : a causa terce de sem proposta no
tribunal. comum .
Eis o que nos diz o artigo 66 .° do Código ; e o que está expresso, pdr
outras palav~, nos n.0 * 1 .' e 2." da alínea a) do artigo 58 .' -do Estatuto
Judiciário : em matéria. civil compete aos juízes de direito preparar e
julgar, em 1.' i~nei'a, todas as cocções e conhecer das execuçõos que não
pertencerem a tribunúl especial. Por isso é que o artigo 67 .° do Código
acrescenta : o tribunal comum é o civil ; a plenitude da jurisdição civil
pertences, ean primeira instância, ao tribunal de comarca .
As regras de competência que nos habilitam o msalver o pro'blem'a
da espécie ou a determinar se. a; acção há-de ser proposta no juízo comum
ou nalgum juízo especial, são regras de competência em razão da matéria,
como se deprkende da epígrafe dla secção 1 .' do capítulo 3 ." É que, ao
distribuir as -acções pelos vários triibun'ais especiais e pelo tribunal comum,
a lei toma em consideração a matéria da causa: para a audtoria adminis-
trativa vão -as causas de natureza administrativa, para o tribunal do con-
tencioso dias corntrtibuições e impostas as questões de natureza tributária,
para os tribunas do trabalho as causas'emergentes . de contratos de tra-
balho etc . ; o que 'fica, para o tribunal comum, tlue é o tribunal civil, é a
nible imensa das causas a que, péla sua natureza ou matéria, cabe a
designação de causas cíveis .
Que fim sie procura atingir com a repartição da competência entre
os tribunais especiais e o foro comum?
Procura-se adaptar o órgão à função, procura-se assegurar a idonei-
dade do juiz ; ~pretend" que aa gusas sejam decididas por quem tenha
uma formação jurídica adiequada . Põe~ assim a matéria da causa em
correlação dose a preparação técnica dos magistrados que 'a hão-de julgar,
de modo a obter-se um julgamento mais perfeito .
Resolveu~ o problema ~da determinação da espécie do ' tribunal .
Aves'iguou-se, por exemplo, que a ~aausa pertence ao `foro comum, ao
tribunal civil .
Surge, a seguTr, um outro problema : "a qual, -dos vários tribunais
civis, deve a acção ser submetida?
Se olharmos para a estrutura de. jurisdição civil, verificamos que ela
á formada por uma esoala hierá'rquicla de tribunais, desde o juízo muni-
cipal até 'ao Supremo Tribunal de Justiça . Destes órgãos jurisdicionais,
uns julkam normalmente em primeira instância : tribunais municipais e
a tríbu?cmis de comarca; outros julgam normalmente por via ~de recurso :
Relações e Supremo. Más sucede, por um lado, que o tribunal doe
comarca pode também funcionar domo tribunal de recurso, e por outro,
que a Relação e o Supremo funcionam, excepcionalmente, como tribunais
de primeira io~cia.
1.08 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
Nestas circunstâncias, é be~n -de ver que, resolvida o problema da
+_,spécie do tribunal no sentido de que ia causa é da competência do trí-
buna~l comum, apõe-s12 imediatamente ~F_!ste quesito : ateve -a acção ser pro
posta no tribunal municipal, no tribunal de comarca, na Relação ou no
Suprema Tribunal de Justiça?
É o pr ,obl,rmà da determinação da categoria do tribunal, viste que
os referidos tribunais estão dispostos em escala hierárquica, , tendo por
isso cada um deles categoria diversa, mais elevada à medida que se sobe
na escalfa.
O problema da -determinação da categoria do tribunal civil perante
o qual a 'acção há-de ser proposta resolve-se desta maneira :
,a) Primeiro averigua-se se para o caso de que se trata a lei alterou
as regras normais -da hierarquia, isto é, se a causa deverá ser proposta
perante tribunais que ordinàri'amente funcionam como tribunais da
recurso ou deverá ser proposta perante os tribunais de primeira instân-
cia própriamente dito ,,$ ;
b) Quando s.e dê esta última hipótese, há que verificar, em seguida,
se a causa terá de s°r instaurada no juízo municipal ou no juízo de
-direito .
Trata-se, por exemplo, duma acção de perdas e danos 'contra um
juiz -de direito ou da revisão duma sentença estrangeira, ou dum conflito
de competência entre dois tribunais de comarca pertencentes ao mesmo
distilto judicial : a causa tem de ser proposta na Relação (art . 71 .°) . Nãd
se verifica nenhum -dos casos previstos nos artigos 71 .°, alíneas b), c) e d),
e: 72 .", alíneas b) e c) : a causa tem de ser intentada no tribunal municipal
,ou no tribunal de comarca.
As regras de que nos socorremos para decidir o primeiro ponto, são
regras de conipetência em razão da hierarquia, como se mostra pela
epígrafe da secção 3 ." ; as regras que nos dão a solução do segundo aponto,
são regras de competência em razão do valor (secção it), porque, na ver-
dade, é ao valor da causa que a lei wten5e para repartir a competênda
entre o tribunal municipal e o tribunal de comarca (arts. 68 .0, e 69 .°) .
As regras de competência em razão da hierarquia têm, como factor
determimntc, 'ou a qualidade do réu (acção -de perdas e danos contra
magistrados e funcionários de tribunais inferiores, art. 70 .° contra magis
trados dos tribunais de comarca, art., 71 .", alínea b) ., contra magistrados da
Relação e do Supremo Tribunal de Justi~a, larft . 72 .^, alínea b) . ; ou a
natureza da função, da actividade que o órgão jurisdicional é chamado
a exercer (julgamento de recursos, resoluções de conflitos de competência,
revisão de sentenças estrangeiras, art. 70 .°, art . 71 .°, alíneas a), c) e d),
art . 72 .0, alíneas a) e c) . Pqr isso é que alguns autores, como Carnelutti
e Chiwenda, dão a estas últimas a denominação de regrai;- de competência
.
funciona-1
Determinada a categoria :do tribunal, o problema de competência
está, esgotado sie há um único tribunal dessa categoria. É o caso excepcio-
nal de ser competente o Supremo Tribunal de Justiça (art. 72 .') .
Capítulo I-Das disposições gerais sobre competência 10 9
Mas se há mais do que um tribunal da categoria fixada, a solução
conipleta do problema de comotêncis, demandh ainda uma última averi-
guação : saber qual dos tribunais da referida categoria é competente para
a causa.
Ora quando o Estado institui mais do que um tribunal de certa cata-
goria, o que sucede é que os diferentes tribunais da mesma categoria têm
a sua jurisdição confinada a uma certa área territorial . Para facilitar o
exerc£c o da actividade jurisdiciicinal e tornar a justiça mais acessível aos
cidadãos, criam-se várias Relações, várikl3 tribunais de comarca, vários
tribunais municipais e de'l'imita-se a zona do território em que cada um
deles há-de administrar justiça.
Desta maneira, ~apuradb que 'a questão há-de ser submetida a uma
das Relações, a um dos tribunais de comarca, a um dos tribunais munici-
pais, resta determinar qual idas Relações, qual dcis tribuna:i3 de comarca,
qual dos tribunais municipais há-de conhecer dela ; e como cada um desses
tribunais 'funciónla cm k-er!ta circunscrição territorial, a averiguação con-
si~§te, afinal, em saber em que circunscrição territoriaal há-die correr a causa :
em que distrito judicial, em que comarca, em que julgado municipal .
Estamos assim em face da última indagafã.o carítida no problema
complexo dIa fixação ~da competência a determinação da circunscrição
territorial Ais regr013 a ap!1'icair para esta determinação são regr+a~, tira dom~
petência em razão do território ou regras de competência territorial
(arts . 73 .° e seguintes) .
Do eLS~em« que acabamos -de traçar resulta que as regras de com-
petência si? classificam, -segundo o Código actual, em :
a) Regras de competência internacional ;
b) Regras da competência interna .
Est&i últimas agrupam-se em : 1) 1egras de competência em razão
da matéria ; 2) regras de competência em razão da hierarquia ; 3) regras
d~; competência em razão do vedor ; !4) regras de competência territorial
ou em razão do território.
As regras de competência internacional destinam-se a resolver' os
possíveis conflitos entre a jurisdição portuguesa e as jurisdições estran-
geiras ou s, determinara naciio-rcalidadc db tribunal, isto é, dado o casso de
a acção, pelos seus elementos característicos, estar em contacto com a
jurisdição portuguesa e com jurisdições estrangeiras, habilitam-nos a
resolver o problema de saber se pode ou não ser proposta perante tri-
bunais portugueses.
As regras de competência em razão cia matéria exercem esta função
servem para determinar ~a éapéc'ie do tribunal . Por outras palavras,
dão-nos a. conhecer se a acção h"e ser proposta. nalgum tribunal especial
ou no tribunal comum .
As regras de competência, em razão da hierarquia e do valor permi-
tem-nos resolver o prdblema da d'e"inação da categoria do tribunal :
as primeiras indl~nos o grmu h~quico do tribunal a que a questão
há-db sem afecta, ou em la!tenção à qualidade db réu, ou em atenção à natu-
11 0 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
reza da função a exercer ; as segundas (regras de competência em razão
do valor) dizem-nos se a causa há-4de ser proposta no tribunal de comarca
ou no tribunal municipal.
Finalmente as regras de competência territorial servem para deter-
m'inar, dentre os tribunais duma certa espécie e categoria, qual deles é
competente para a causa ; ou noutros termos, servem para determinar a
,circunscriç«o territorial a que a causa deve ser afecta .
A classificação das regras !de competência segundo o -Código por-
tuguês não coincide nem com a classificação adoptada por outros códigos,
nem com qualquer classificação organizada por processualistas estran-
geiros .
O novo Código de Processo Civil italiano, depois de regular a juris-
dição dos tribunais italianos em relação aos réus estrangeiros (art. 4 .°),
formula as regras de competência em razão da matéria e do. valor (arts. 7.°
a 9 .°) e por fim as regras de competência em razão do território (arts . 18 .°
a 30 .') .
O Código alemão só alude a duas espécies de competência : objectiva
(§fi 1 .' a 11 .°) e territorial (§§ 12 .o a 37 .°) .
O Código brasüleiro não cuidou de estabelecer qualquer class'ificaç'ão
ou arrumação de regras de competência . Mistura no mesmo capítulo
regras de competência de carácter terr'iborial (arts. 133 .* a 136 .° e 141 .°
a 143.") com regras de competência determinadas pela continência (art.138'.°)
e pela natureza especial da função (arta. 144 . 0 e 145:°) .
Não nos propümeei dar conta dla (sistematização das ~as de compe-
tência organizada pelos principais escritores . Limitar-nos-emos a apre-
sentar a mais completa e aparatosa, que é a de Carnelutti .
No Sistema di diritto processuale, vol . Lo, págs. 584 e seguintes,
Carnelutti começa por distinguir a competência externa da'competência
,interna, entendendo pela primeira a distribuição da massa das lides pelos
diferentes tribunais, e pela segunda a distribuição idas lides pelos magis-
trados e funcionários que compõem o mesmo tribunal.
Pelo que rfLspeita à competência externa., Carnelutti observa que os
.factores que 'a determinam podem ser constantes ou eventuais, donde a
distinção entre competência necessária ou principal e competência eventual.
Gs 'factores constantes da competência necessária podem referir,-se
ou ao modo de ser da lide ou ao modo de ser do processo ; daá duas eapé-
cies de competência : material (respeitante ao apodo de ser da lide), fun-
cional (respeitante ao modo de ser do processo) .
A compeitência material apresenta três modalidades : competência
era razão da matéria (d'eterminadIa pelo ~teúdo d)a lide), competência
em razão do valor, competência em razão do território (determinada pela
;sede da lide) .
A competência em razão do território pode tomar por critério ou
o foro pessoal, ou o foro real ou o foro instrumental .
Se pusermos de parte a competência e~tual, que não oferece inte-
xesse, vê-seque a classificação da competência exposta no Sistema apro-
Capítulo I -Das disposições gerais sobre competência 11 1
xima-se muito da que o nosso Código consagra ; pode mesmo dizer-se que
coincide se à competência em razão da hierarquia fizermos corresponder
a competência funcional .
Mas o que se lê no Sistema não é a última palavra de CarneluttL
No volume 1.o das Istituzioni del nuovo processo civile italiano, a, págs. 123
e seguintes, já a sistematização é um pouco diferente. Aqui a primeira
distinção dia compeitênicia externa é em competência hierárquica e compo"
tência territorial, aetuando a primeira em sentidb vertical, visto que se
destina a determinar o grau do tribunal, e a segunda em sentido horizon-
tal, em ordem à. determinação da sede.
A competência hierárquica, distingue-se em funcional e material,
conforme é condicionada pela função que se trata de exercer ou pela
matéria sabre que a função há-de ser exercida .
Por -sua vez a competência material pode ser influenciada ou pelo
aspecto qualitativo (sujeitos, objecto e causa da lide), ou pelo aspecto
quantitativo .(valor), donde -a distinção entre competência em razão da
qualidade e competência em razão do valor .
Pelo que respeita à competência territorial, tendente à determinação
da sede ou à fix~, dentre os t'ribunai's dum certo tipo e dum certo grau,
do tribunal competente para a acção, a sua influência exerce-se em sientido
horizontal, porque os tribunais do mesmo tipo e do mesmo grau estão no
mesmo plano e acham-se distribuídos pelas várias regiões do território .
A sede da lide designa o ponto do território em que a lide deve con-
siderar-se localizada ; umas vezes a localização é determinada pelos sujei-
tos (forro pessoal), nutrias vezes pelo objecto dia lide (foro real), outras
vezes pelo elemento causal (foro causal) . Há ainda, o foro instrumental,
determinado pelo lugar em que rse encontram os instrumentos (provas ou
bens) necessários para a composição da lide.
ARTioo 63.°
(Lei reguladora da competência)
A competência fixa-se -no momento -em que a acção se pro-
põe . São irrelevantes as modificações -de facto que ocorrerem
posteriormente a esse momento ; são igualmente irrelevantes as
modificações de direito, excepto se for suprimido o órgão judi-
ciário a que a causa estava afecta ou se deixar de ser competente
em razão da matéria e dá hierarquia.
O artigo enuncia o princípio de que a competência se fixa no
momento em que a acção se propõe.. É a consagração da velha regra :
ubi acaeptum est semel judicium, ibi et finem aacipere debet.
Entre o momento da proposição da acção e o momento da sentença
pddimn acorrer modl'ficaçõeg mams ou menos profundas no, que respeita a
11 2 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
competência : modificações no estado de facto e modificações no estado
de direito. Pois bem, uma vez que a competênc',ia se fixa no momento em
que a acção .se propõe, segue-se que as modificações posteriores são,
em princípio, irrelevantes.
Se rna data da proposição da ,acção o tribunal era competente, atentas
as circunstâncias de facto e de direito que então ase verificavam, continua
sê-lo, embora
P. se tenham produzido alterações no estado de facto 'ou de
d41 ,eito que, se fossem tomadas em co.n:eii, deração, determinariam ;a incom-
petência do tribunal .
A regra do artigo 63 .' está inserta entre as disposições gerais sobre
competência ; aplica-se, portanto, a todas as espécies -de competência : à
internacional e à interna, e nesta tanto à competência em razão da maté
ria e (Ia, hi, erarquia, como à competência em razão ido valor e do terri-
tório .
Ao artigo 63 ." do nosso Código corresponde, no Código italiano, o
artigo -4 ." e, no Código brasileiro, artigo 151 .° Texto italiano : a jurisdição
e a competência determinam-se em atenção ao estado de facto existente
no momento da proposição do pedido ; são irrelevantes, quanto a elas, as
modificações posteriores do mesmo estado . Texto brasileira : não influirão
na competência do juízo as transformações posteriores à proposituria da
denmunda e relativas ao domicílio, c'i.dlad'ania das partel3, ao objecto da causa
c)'u ao seu valor.
Entre a lei portuguesa e as leis italiana e brasileira notam-4se dife-
renças . A. principal é a seguinte : a nossa 'lei proclama a irrelevancia
não só das modificações de facto, senão também das modificações de
direito que 'unicamente respeitam à competência em razão do valor e do
território ; as leis italiana e brasille'ira nada dizem quanto à influência das
tnodificaçõeis de'direito .
Se, o silêncio destas 'lcïs significa, como parece, que as'modificações
ecorridas no estado de direito são relevantes, afigura-,se-nos preferível a
doutr-ï'na 'd'o artigo 63':" Suponhamos que, propda't'a uma ucçaoi de valor até
cinco contos perante um juiz municipal, competente para ela segundo a lei
enteio vigente, antes de ser julgada essa acção entra em vigor uma lei nova
que restringe a. c'ompetênc'ia dos juízes municipais às acções de valor
até 3 .000$00 . Segundo o disposto no artigo -63 .' esta modficação no estado
dc direito é 'i .rrelevante ; quer dizer, o tribunal municipal a que a causa
estava afecta continua a ser competente para a julgar, posto que já não
ten'im compi~tência para cau£ias nyvas die valoz superior a 3 .000$00 .
Se a modificação operada pela lei nova fosse relevante, a causa
tinha de ser remetida imediatamente para o tribunal de comarca, a fim de
seguir aí os- termos ulteriores.
Mais impressionante é o caso de se alterar uma regra de competência
territorial . Tehnas uni exemplo 'elucidatlvó a respeito das acções de
investigação de paterrnidade ilegítima .
Pelo artigo 43 .o do Decreto n .' 2, de 25 de Dezembro de 19'10, o tri-
bunal cohnpetente para usas a!cçõels èra o do lugar do nascimento do filho ;
vaio o Decreto n .' 12 :353, de 22-9f-926, e no ortiga 4 .' declarou que as
Capítulo I-Das disposições gerais sobre competência 11 3
acções de investigação de paternidade ilegítima deviam ser propostas no
juízo do domicílio do réu. Qual era a consequência, em relação 4s acções
pendentes, desta mudança do foro territorialmente competente para a
investigação da paternidade ilegítima?
A seguir-se a doutrina expressa no artigo 63 .', a mudança era irrele-
vanYie : os tribunais perante os quais pendl1am as acções, contihluavam, a
soer competentes. A seguir-oe a doutrina 'que, a contrario sensg; parece
resultar da Sei Italiana e da lei brasileira, a mudança seria relevante :
os processus pendentes nos tribunais do lugar do nascimento tinham de
passar para o tribunal do domicílio db réu, ainda mesmo que eis'tivessem
na fase final .
,Que as modificações operadas nas regras de competência em razão
da matéria e da hierarquia 'sejam de observância imediata e devam,
consequentemente, aplicar-se às causas pendentes, está bem, porque, ao
decretá-las, o legislador terá em vista dar satisfação a interesses supe-
rlbres de ordkem pública ; tratando-oe de alterações ela regras doe cómpe-
tência em razão do valor ou do território, as perturbações causadas pela
deslocação dos processos são de maior -peso do que a realização im'edi'ata
dos interesses que a alteração se propõe proteger.
0 artigo 1'51 .° do Cód'i'go brasileiro teve certamente -por 'fonte o
artigo 97,° do Projecto defin tivo elaborado na I't'ália por Sblmi. Mas é
inanifesta a superíoridadg da disposição inserta no artigo 63 .o db nosso
Código, que coincide, na parte relativa às modificações de facto, com o
artigo 4 . 1 do Código italiano .
C'dfn efeito, neste artigo e no artigo 63..° afirma-se, de um modo geral,
a irreilevância dão modificações ide 'facto ; no artigo 15'1' do Código brasi-
leiro, em vez de se enunciar o mesmo princípio, declara-se sòmente que
são irrelevantes as transformações relativas ao domicílio, à cidadania das
partes, ao objecto da causa ou ao seu valor.
Que transformaçães : únicamente 'as operadas no estado de facto, ou
também as operadas no estado de direito?
Pode ainda estranhar-se que não se faça alusão . à residência, uma vez
que, na falta de domicílio, o réu tem de ser demandado no foro da sua
residência (Cód . brasileiro, art. 1314 .*) .
Modificações de facto. As modificações de facto que poderiam exer-
cer influência sobre a competência -do tribunal seriam a mudança de
domicílio ou residência, a alteração do valor dos bens sobre que versa a
acção e a deslocação da coisa que se pretende obter .
Pi+~de na comarca de Coimbra uma acção sujeita. ao foro db
domicílio do réu (are. 8W) ; ao tempo era que a acção foi proposta, o réu
tinha efectivamente o seu domicílio, em Coimbra ; mas na pendência da
causa transferiu-o para Aveiro, por exemplo . Este facto é irrelevante
sob -o ponto de vista da competência do tribunal: Quer dilzer, o tribu-
nal de Cimbra, que era competente pe4o facto de o réu estar domíci-
1iado em Coimbra, à data da proposição da acção, não deixa de o ser
pelo facto de ele estabelecer posteriormente o seu domicílio na comarca
8 - CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
1 .14 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
de Aveiro . A competência do tribunal de Coimbra, uma vez que se
fixou, I+ersiste .
Sucede exactamente o mesmo quando o autor mudar de domicílio,
n+:> caso de o domicílio do autor ser o factor determinante da competência
territorial .(art. T5 .°), ou quando deva atender-se à residência ou ao lugar
da estada (aras. 7'5,o e 85 .°, §§ 1 .° e - 3 .°) e eles variam posteriormente à
proposição dia acção ; sucede ainda o miesino quando o réu seja um corpo
colectivo e 'a sede da sua, administração passar a ser em comarca diferente
da que era à data -da propositura da causa (art . 85 .°, § 4 .°) .
A alínea b) do artigo 94 .0 declara competente para 'a execução desti-
nada à entrega de coisa certa, quando se funde em sentença estrangeira
,ou em título diverso de .sentença, o tribunal do lugar onde a coisa se
encontrar . Suponhamos que, posteriormente à instauração da execução,
a coisa muda de lugar : passa duma comarca para outra . Esta mudança é
: o tribunal da comarca em que a coisa se encontrava à data
irrelevante
em que foi recebida na scoretaria judicial a petição inicial para a execução,
continua 'a ser competente.
Pelo que respeita àls modificações respeitantes ao valor dos bens, já
vimos que, tratando-se de modificações de direito, são irrelevantes ; s~ãp-no
igual~m~entle as modificações de ,facto . Suponhamos que se propôs perante
um tribunal municipal uma acção sobrie bens que valiam 4 .000$00 mais
tarde, na pendência da causa, esses bens subiram consideràvelmente de
valor : -passaram a valer oito ou dez contos . O tribunal municipal não
deixa de ser competente para a acção .
Com o exemplo que acaba de ser figurado, não deve confundir-se
a caso previsto no artigo 3214 .°
Quamdo pela decisão do incidente da verificação do valor da acção
se reconheça que o tribunal é incompetente, os autos têm de ser
remetidos para o tribunal competente, diz o artigo 324 .° Não se
trata aqui de mudança de valor ~dos bens ; trata-se de atribuição, aos
bens, do seu verdiadoiro valor, diferente do declarado ou pmssuposto
pelo autor.
O artigo 313 .° formula o princípio de que para a determinação do
valor ida Facção, deve atender-ise ao momento 'em que é proposta. Sapo
nhamos que 'se propõe no tribunal municipal uma acção de reivindicação
<1~,í imóvel, a que o autor atribui o valor de '5 .000$00 ; o réu impugna o
valor da acção, afirmando que o imóvel vale 10 .000$00 ; apura-se, pela
decisão üb incidente, que é exacta ~a allegação do réu e fixa-se o valor da
acção em 10 .000$00 ; a consequência desta decisão é que o processo tem
de ser remetido para b tribunal da comarca .
Como se vê, na hipótese agora apresentada o imóvel, objecto da acção,
não subiu ide valor posteriormente à proposição da causa ; o que se averi-
guou foi que esse imóvel tinha Is data em que a acção foi proposta, valor
superior as que o autor lhe atribuíra. Não estamos, portanto, em pre-
sença de caso abrangido pelo preceito do artigo 63 . : alteração de valor
ocorrida depois do momento em que 'se fixou a competência -db tri-
bunal.
Capítulo I -Das disposições gerais sobre competência 11 5
Modificações de direito . Já vimos que são irrelevantes as modifi-
cações de direito quando we produz= na esfera da competência em Vazão
do valor ou db territóri'o. Sã» relevar}teo :
1 .° Quandb for suprimido o órgão ju4'iciário a que a causa estava
afecta ;
2 .o Quando . .o tribunal da causa deixar de ser competente em razão
da matbrIa ;
3 .° Quando deixar de ser competente em razão da hierarquia .
Suponhamos que em determinada conjuntura são extintos os tribu-
nais mund .cipais ou são suprimidas "as auditorias administrativas ; a conse-
quência imediata da supx~o é que os processos pendentes hão-de ser
remetidos para 'o tribunal que piassar a ter cbrcnpeItência para as acções
respectivas
Imagine-se que, proposta uma acção no tribunal civil, se criou pos-
teriormente um titibunalespecial para o conhecimento das acções dessa
natureza ; o tribunal civil deixou de ter competência, em razão ,da matéria,
para o julgamento dia 'acção ; o processo tem, por isso, de transitar para
o tribuna especial . Esta hipótese verificou~, na realidade, em 1930, ao
serem estabelecidas 'as auditorias administrativas para o julgamento das
questões do contencioso ~administrativo, que nessa altura eram da compe-
tência dos tribunais comuns (Dec . n .I 18 :017, de 27-2 .'-930, art .
As causas administrativas pendentes nos tribunais comuns, competentes
à data da proposição, tiveram de passar para as auditorias, visto ter-se
operado uma modlYicaç'ão relevante no estado de direito, uma modificação
de competência em razão da matéria .
Sucede coisa semelhante quando se dá uma modificação de direito que
fornia incompetente o tribunal isbb o ponto de vista da hierarquia . Supo-
nha-ice que 'a revisão de sentenças estrangeiras, em vez de pertencer as Rela
ções, passa a pertencer ao Suiprem'o Tribunal de Justiça ; é claro que os
processos de revisão pendentes na Relação à data da alteração do regime
jurídico teriam de ser remetidos ao Supremo para serem julgados por este .
Convém advertir que a disposição inserta no artigo 63 .° no tocante
às modificações de direito só é de observar quando a lei que produz a
modificação. não haja estatuído em sentido contrário . Suprimem-se os tri
bunais municipais, por exemplo ; mas a lei que os suprime expressamente
determina que as causas pendentes continuem a seguir aí os seus termos
e sejam ainda julgadas por eles ; ~é evidente que tal determinação preva-
Iece "re o que, como prindipib geral, está estabelecido, n'b artigo 63 .°
As modificações de direito que se produzam na esfera da competên-
cia internacional são tão irrelevantes como as que se produzam na esfera
da competência interna em razão do valor e do terrïtório . Desde que
o caso não cabe nas excepções previstas no artigo 63 .°, entra necessària-
mente na regra .
Pode, isto parecer estranho atendendo a que a tutela das regras rela-
tivas à competência internacional tem 'a mesma energia que a das regras
11{i Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
ix4ativas à competência em razão -da matéria e da hierarquia (arts . 101 ."
e segs .) . Mas entérndeu=se 'que, fixada a competência da jurisdição portu-
guesa para uma cgrta causa, não devia ela desaparecer, em benefício
duma jurisdição estrangeira, pela circunstância de se alterar posterior-
mente o regime jurídico da competência internacional .
E assim, proposta em tribunais portugueses, por força da alínea b)
do artigo 65 . 0, por exemplo, uma acção em que são partes dois estrangei-
x+c:~s, se no decurso do processo a circunstância de o acto ou facto de que
a causa emerge ter sido ipraticado em Portugal deixar de ser factor atri-
butivo de competência internacional dos tribunais portugueses nem por
isso cessa a competência do tribunal a que a acção estiver afecta .
Até aqui considerámos o caso de o tribunal ser competente à data da
proposição ela acção, mas deixar de o ser por virtude de modificações
prasteiliores operadas ou no estado doe facto ou no estado de direito .
Examinemos agora a hipótese inversa. O tribunal era incompetente
para a acção no momento em que foi proposta ; mas na altura em que a
questão de competência tem de ser julgada, a s'i:tuação é outra : o tribunal
tornou-se competente, em consequência duma alteração no estado de facto
ou 'no estado de -direito . Deverá, não obstante. isso, ser dec'larad'a a incom-
petência?
Há que distinguir entre modificações de facto e modificações de
direito. Sie o tribunal se tornou competente por virtude duma modificação
de fasto, a modificação é irrelevante. Levantada a questão da incompe
tência, há-de atender-se ao estado de facto que se verificava no momento
da proposição 'da causa e por isso o tribunal trem de ser julgado incom-
petente, ase nesse momento o era.
Suponhamos que à data da proposição da acção o réu, sem residên-
cia fixa, se encontrava em Pombal e que portanto era o tribunal de Pom-
bal o competente, em vista -do disposto no § 1 .* do artigo 85 .' ; mas a acção
foi proposta em 'Soure e o réu encontra-se nesta vila no momento em que
a excepção de incompetência vai soer julgada . Não obstante isto, a excepção
terá de -ser atendida e o processo remetido para a comarca d2 Pombal .
Se o tribunal inicialmente incompetente, se tornou competente em
consequência duma modificação no estado de :direito, há ainda que fazer
uma distinção :
a:) A 'incompetência inicial era relativa (em razão -do valor ou do
território) ;
b) A incompetência inicial era absoluta (em razão da nacionalidade,
da matéria ou da hierarquia) .
No 1 ." caso a incompetência subsiste ; a modificação doe direito é
irrelevante . Nb 2 .o caso a modificação é iIellevante : faz desaparecer a
incompetência.
Poderá parecer arbitrária esta diversidade de soluções, em -vista do
preceito categórico do artigo 63 .o, que declara irrelevantes as, modificações
de direito, salvas as excepções aí mencionadas, nenhuma das quais se
verifica na hipótese da alínea b) .
Capítulo I ---Das' disposições gerais sobre competência 11lí
Mas a distinção que fizemos, tem razão de ser na lei . Atente-~se em
que a 'incompetência absoluta tem como resultado a absolvição e portanto
a extinção da instância (arts . 292.° e 293 .°, n .° 1 .°), ao passo que a incompe
tência relativa não produz a extinção da instância : o processo tem de ser
remetido para o tribunal competente (art . 111 .°), continuando aí a mesma
instância, a que se iniciara com a proposição da acção (art . 293 .°, § único) .
Tomada em consideração esta circunstância, vejamos as conse-
.
;,
quência
a) Incompetênia relativa . Propôs-se em Coimbra uma acção de
investigação de paternidade ilegítima ; ao tempo da proposição o tribunal
era incompetente, porque o réu tem o domicílio no Porto ; mas pouco
depois entra em vigor uma lei que declara competente para a investigação
de paternidade o juízo do lugar do nascimento do filho ; dá-se o caso que
o filho nasceu em Coimbra . Arguida a incompetência do tribunal de
Coimbra, como ~deverá ser julgada a questão?
Deve o tribunal de Coimbra declarar-se incompetente e ordenar a
remessa dos autos para o. tribunal do Forte. O tribunal inicialYnenfe com-
petente era o do Porto ; essa competência não cessa pelo facto de se
promulgar uma lei que lhe retira a eompetencia territorial (art . 63 .°) .
Se, proposta a acção no tribunal do Porto, este tribunal continuaria a ser
competente, apesar da modificação operada pela lei nova, também não
pode considerar-se prejudicada a competência do tribunal do Porto pelo
facto de a acção ter sido erradamente proposta no tribunal de Coimbra .
Remetidos os autos para a comarca do Porto, a instância que aí vai 'pros-
seguir é a que foi instaurada em Coimbra ; e para tal instância o juízo
competente é o do Porto .
As considerações que acabamos de fazer aplicam-,se, mutatis mutanr
dia, ao caso -de se propor uma acção num tribunal incompetente em razão
do valor e de entrar em vigor, antes do julgamento da excepção de incom
petência, uma lei por virtude -da qu'a'l o tri'bun(al já teria competência para
a acção proposta .
b) Incompetência absoluta . Propôs-se uma acção no tribunal comum,
incompetente para ela, em razão dla matéria, nesse momento ; veio uma
lei nova sujeitar ao foro comum as acções da natureza daquel=a de que se
trata. 'Sendo este o estado ~de direito no momento em que a excepção de
incompetência tem de ser julgada, quid juris?
A excepção não pode proceder. Veja-se o que sucederia se o tribu-
nal comum fosse julgado incompetente . Absolvido o réu da instância,
o autor teria de propor outra acção ; e havia de propô-la necessàriamente
no tribunal comum, pois era esse o tribunal competente segundo a lei em
vigor cà data da proposição da nova acção . Seria absurdo que sé decla-
rasse, , incompetente o tribunal comum para, a seguir, o autor ter de propor
nova acção perante o tribunal comum .
Deve suceder o mesmo quando se propõe uma acção perante tribu-
nal ;português incompetente em razão da nacionalidade ou da hierarquia
e depois o tribunal se torna competente por virtude de entrada em vigor
duma lei nova .
118 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
ARTIGO 64 ."
(Proibição do desaforamento)
Nenhuma causa pode ser deslocada do tribunal compe-
lente para outro, a não ser nos casos especialmente previstos
na lei .
Proi'be-se, em princípio, o desaforamento : o desvio da causa do tri-
bunal competente para outro .
Esta proibição constitui uma garantia para os litigantes . Dá-se-lhes
a segurança de que a lide será decidida pelo tribunal que, segundo a lei,
te:m competência para isso, quer dizer, pelo tribunal com que eles deviam
contar . Nem o juiz da causa nem a autoridade judiciária superior pode
surpreender as partes com um despacho que afaste o processo do tribunal
competente e o mande submeter a outro qualquer.
Em matéria criminal pode suceder que, por determinação do Supremo
Tribunal de Justiça, o feito seja julgado em comarca diversa :da que seria
competente. O n :' 7 ." da alínea b) do artigo '53 ." do Estatuto Judiciário
autoriza o Supremo a decretar esse desaforamento . Trata-se de uma
medida de excepção, que há-de ser justificada pelas circunstâncias e a
solicitação do juiz da causa, do Ministério Público, da parte acusadora ou
do réu .
Mas em processo cível o Supremo não goza de prerrogativa seme-
lhante. Nem ele nem qualquer outro tribunal, órgão ou poder do Estado
tem a faculdade de mandar julgara causa em tribunal diverso do compe-
tente segunda a lei.
E em tanto apreço tem a lei a garantia do foro competente que no
artigo 113 .° ex .press$mente se admite como fundamento de incompetência
relativa a tentativa de desaforamento territorial, isto é, o facto de se ter
demandado um indivíduo estranho à causa para se desviar o verdadeiro
réu -do tribunal territorialmente competente .
Só nos casos especialmente previstos, na lei, diz o artigo 64 .", é que
a causa pode passar do tribunal competente para o' outro .
De &saforamento facultado ou imposto pela lei temos exemplos nos
artigos 280'.°, 869 .o e 1165."
A eampetência normal sobrepõe-se, nos termos do artigo 280 .°, a
competência por conexã{> . Duas causas conexas, que poderiam ser reuni-
das num único processo, pendem em tribunais diferentes ; qualquer das
partes pOdb requerer ~a junção . Ordenada ela, uma das causas, posto que
afecta ao tribunal competente, é desviada deste tribunal para ser apensada
à outra . Há aqui uma razão superior a justificar a deslocação : a conve-
niência de assegurar a un%dade de julgamento .
Em todos os outros casos de desaforamento autorizado ou prescrito
pela lei a garantia do, foro competente cede também perante interesses
mais altos de boa administração da Justiça .
Capítulo II-Da competência internacional 11 9
, CAPITULO 11
Da competência internacional
AR-rioo 65 .1,
(Factores de atribuição da competência internacional)
As circunstâncias de que depende a competência interna-
cional dos tribunais portugueses são as seguintes :
,a) Dever á acção ser proposta em Portugal segundo a's
regras de competência territorial estabelecidas pela -lei portu-
guesa ;
b) Ter sido praticado em território português o acto ou
facto de que a acção directamente emerge ;
C) Pretender realizar-se, em benefício de algum português,
o princípio da reciprocidade ;
d) Não poder o direito tornar-se efectivo senão por meio
de acção proposta em tribunais portugueses.
1 .° Quando para a acção seja competente, segundo a
lei portuguesa, o tribunal do domicílio do réu, os tribunais
portugueses podem exercer a sua jurisdição desde que o réu
resida em Portugal há mais de seis meses ou se encontre
acidentalmente em território português, contanto que, neste
último caso, a obrigação 'tenha sido contraída com um por-
tuguês .
2 .° As pessoas colectivas estrangeiras consideram-se
domiciliadas em Portugal desde que tenham aqui, sucursal, agên-
cia, filial ou delegação.
Fixam-se os critérios legais da competência internacional dos tribu-
nais portugueses, isto é, as circunstâncias de que depende o poder juris-
dnciofal do Estado português em confxrointo core o dos' Estados ~tx+angeiros .
Andes dás reformas 'iniciadas em 192,6 a matéria achava-~se regtrladsa
nos artigos 28.' e 29 ." do Código Civil, 5.° do Código Comercial, 20 ." do
Código de Processo Civil e 8.° do Código de Processo Comercial.
E~n face destes textos era, objecto de dúvida 'se ora tribunais portu-
gueses tënham competência internacional quando todos os litigantes fossem
estrangeiros e a ilide diásesse respeito a obrigações contraídas em pais
e4rangeiro, posto qule o réu tivesse domicfli`o ou ~dência M Portugal
ou houvesse uma razão justificativa da competência territorial da juris-
dição , portuguesa.
120 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
O artigo '5 .° do Decreto n ." 12 :353, de 22 cie Setembro de 1926, veio
resolver a dúvida ; mas a isso se limitou .
Foi o Decreto n.o 13 :979, ~de 25 de Julho de 1927, que, ampliando a
órbita do artigo 5.1 do Decreto n," 12 :353, organizou um sistema completo
do competência internacional . O artigo 17 ." do Decreto n ." 21 :287 rspro
duziu o disposto no artigo 5 ." do Decreto n ." 13 :979 e serviu de fonte ime-
diata ao artigo 80.o do Projecto primitivo, que se tr'ansfo'rmou no ar-tl^go 65 ."
do Código .
São quatro os títulos atributivos de competência internacional :
a) Dever a acção ser proposta em Portugal segundo as regras de
competência territorial estabelecidas pela lei portuguesa (princípio de
coincidência da competência internacional com a competência territorial) ;
b) Ter sido praticado em território português o acto ou facto de
que a acção directamente emerge (princípio da causalidade) ;
c) PretendeY realizar-sie, em benefício dalgum português, o prin-
cipio da reciprocidade (princípio da reciprocidade) ;
d) Não poder o direito tornar-se efectivo senão por meio de acção
proposta em tribunais portugueses (princípio da necessidade) .
Como se vê, as regras de competência internacional rias alíneas a),
b) e dl são independentes da nacionalidade das partes ; aplicam-se quer
sejam estrangeiros ambos os litigantes, quer algum deles seja português .
A nacionalidade só é tomada em consideração na alíena c) e na parte final
do § 1 .
Não sucedia o mesmo na legislação anterior ao Decreto n .o 13' :979 ;
nem sucede o mesmo em face do artigo 4 ." do Código de Processo italiano .
Estie artigo determina os casos em que o estrangeiro pode ser demandado
perante os tribunais italianos donde se conclui que o cidadão italiano
pode sempre ser demandado perante a justiça do seu país (Morelli, 1 limiti
della giurisdizione italiana nel nuovo Codice de procedura civile, Rivista
di diritto processuale civile, vol. 18 .", 1." parte, pás . 105) .
Não pode aceitar-se esta doutrina entre nós, dados os termos em que
se acha redigido o artigo 65 .' Suponha=se que um português contrai em
Madrid uma obrigação com um espanhol e que a obrigação devia ser
cumprida na Espanha ; se o português não cumprir, h espanhol não poderá
demandá-lo perante os tribunais portugueses, ainda que o réu tenha o seu
domicílio em Portugal ou aqui se encontre, a não ser que sé verifique
o caso excepcional previlsta na, alíri rm d) .
Podemos, pois, assentar nisto : em princípio, as regras de compe-
tência internacional tanto funcionam em relação a estrangeiros como em
relação 'a portugueses (Veja-se o estudo do ar. Dr . Machado Vilela, Com
petência internacional no novo Código de Processo Civil, no Boletim da
1!aculdade de Direito de Coimbra, ano M I , págs . 6 e 7) .
Examinemos cada uma das circunstâncias mencionadas no artigo 65 .°
a) Coincidência da competênctia internacional com a competência terri-
torial. Se pela aplicação das regras de competência territorial formuladas
rios artigos 73 . a 89 .° ou em disposições equivalentes da lei portuguesa
Capitulo II - Ira competência internacional 12 1
a acção deva ser proposta em Portugal, isso basta para que a jurisdição
portuguesa seja competente ou para que os tribunais portugueses tenham
competência internacional ; quer dizer, as circunstâncias ou factos que,
na órbita da competência interna, -determinam a competência territorial
do tribunal português, determinam também, na esfera internacional, a
competência da jurisdição portug'uIesa em confronto com as jurisdições
estrangeiras .
Nos artigos 73 .° a 84 .' o Código estabelece uma série de preceitos
particulares sobre competência territorial e no artigo 85 . ,, 'enuncia a
regra geral .
Preceitos particulares . Se a acção tem por objecto fazer valer direi-
tos reais sobre imóveis, se é uma acção possessória, de despejo, para
arbitramento, de preferência, etc . pode ser proposta em Portugal, desde
que o imóvel respectivo esteja situado em território português (art. 73 .') ;
se a acção se destina 'a exigir o cumprimenta de obrigações, os tribunais
portugueses te ;ão competência internacional uma vez que, por lei ou
convenção escrita, a obrigação deva ser cumprida em Portugal (art . 74 .') ;
a competência internacional para a acção de divórcio ou de separação de
pessolass e bens depende da fatty doe o autor ter domicílio ou i!eeIsidência
em Portugal (art. 75 .o) ; para o inventário a referida competência depen-
derá da circunstância de a herança se abrir em território português
(art . 77.°, n .o LI, etc .
Desde que se localize em território português qualquer dos factos ou
circunstâncias que, nos te~s dois artigos 73 .° a 84 .', condi ciloanam a
competência territo2-i'al, os tribunais par~tugueses têm competência inter
nacional, pouco importando então que o réu tenha o domicílio ou a resi-
dência em país estrangeiro e se encontre fora de Portugal no momento
da proposição da acção.
Regra geral . Suponhamos agora que a acção está sujeita, sob o
ponto de vista da competêncU terx~itomial, não a qualquer duos preceitos
dos artigos 73 .° a 84 .0 , mas à regra geral do artigo 8'5 .° : foro do domicílio
do réu. Em tal casa a jurisdição portuguesa poderá exercer-se, uma vez
que se verifique um destes factos :
1) Ou o réu tenha o seu domicílio em Portugal ;
2) Ou resida, há mais de sieis mesura, sem território português ;
3) Ou 'ao menos se encontre, embora acidentalmente, em território
português no momeento da proposição da acção, contanto que a obrigação
te`dha sido eoitraída com nm português (art . 65 .", § 1 .°) .
0. domicilio é um conceito jurídico e por isso pode suscitar-se a
questão de saber a que lei deve atender-se para se apurar se o réu tem
ou não ean Portugal o seu domicílio-se à lei portuguesa, cromo lex fcri,
se à liei estrangeira, como lei regul'ad'ora da relação jurídica, se ao direito
comparado, como quer Rabel (Prof. Machado Vilela, Boletim cit ., vol. 18 .°,
pág. 22) . Pode realmente suceder que o conceito de domicílio segundo a
lei portuguesa não coincida com o -d'a'rei estrangeira ou com o do direito
comum ILegislativo' ; dai o prbblema, que _se traduz no chamado, conflito de
qualificaq7ão .
12'2 Livro II-Da co ;)zpetênt~ia e das tlarantias da imparcialidade
0 sr. Dr . Vilela, depois de pôr a questão, resolve-a no sentido de
que, para o efeito da aplicação dás regras de competência jurisdicional do
novo Código de Processo, a qualificação das noções que nelas se empre
gam deve ser a que resulta da lei portuguesa (Boletim, vol. 18 :', pág. 24) .
É a doutrina que consideramos exacta.
De modo que quando a competência internacional seja comandada
pelo foro -do domicílio do réu, os tribunais portugueses serão , competentes
se, nos termos idas artigo% 40 ." e seguin't'es do Código Civil, o réu dever
considerar-se -domiciliado em Portugal .
Pelo que respeita à residência por mais de seis meses, o sr . Dr. Vilela
suscita esta dúvida : será necessário que a residência seja fixa ou ao menos
com certa estabilidade em determinada localidade, ou bastará a presença
do réu em Portugal por mais de seis meses, pouco importando que ele
mude constantemente de lugar?
0 sr . Dr. Vilela pronuncia-se neste último sentido, pela consideração
de que, se se exigisse a 'fixação, em determinado local, a presença do réu
em Portugal por mais doe seis meses, quando ele ase d~-s'Ibcasae a cada
momento, ficaria a valer o mesmo que a presença acidental a que se refere,
por fim, o § '1 .° do artigo 6'5.° (Boletim, vol. 17:", págis . 323 e 324) .
Concordamos com o ponto de vista do ilustre professor . Para o
efeito da atribuição de competência internacional aos tribunais portu-
gueses no caso de funcionamento da regra de competência territorial do
artigo 85 .1 o que interessa sobretudio 'é a lição do réu ao território por-
tuguês 'em geral, e não a ligação a este ou aquele ponto do território .
Desde que o réu vive em Portugal há mais de seis meses, o seu contacto
com o território português não pode deixar de considerar-se miais quali-
ficado e relevante do que se estivesse em Portugal, de passagem, com
demora de poucos dias .
Porque o vínculo é mais force naquela hipótese, os tribunais portu-
gueses têm competência, aihda que a obYigação tenha )sidb contraída com
um estrangeiro. Mas nada importa que a residência por mais de seis meses
seja na mesma localidade ou em localidades diversas e variáveis a cada
momento, visto que o facto decisivo, para efeitos internacionais, é a per-
manência do réu em território português, e não a permanência neste ou
naquele 'lugar de~ território ; esta ú'ltimà permanência pode flnteres~sar à
solução da' quiestão de sabei! en que circunscrição terrvibarial pbrtugüesa
há-de ser proposta a acção, não interessa à questão de saber se os tri-
bunais portugueses em geral têm competência internacional .
Acresaentaremos adnd'a, que a opiniãb contrária incorreria no vício
de confundira residência com o domicílio. Se para a nossa lei o domi-
cílio é o lugar .em. que o cidadão tem ra suia residência permanente (Cód .
Civ., art. 41 .') e se, no caso de residências alternadas, o cidadão se consi-
dera domiciliado naquela onde se achar (art, 43 ."), a entender-se que a
residência por mais de seis meses havia de ser no mesmo lugar ou em
dois -lugares diferentes, mas alternàdos, seguir-,se-ia que o caso previsto
na primeiTa parte do § 1 .o do urtigh 6'5 .° não se dIstinguiria, afinal, do
caso ~de o réu ter o domicílio em Portugal .
Capitulo 77-Da co)npetência internacional 123
É claro que a residência há-de subsistir na data em que a acção se
propõe, em vista do que se prescreve no artigo 63 ." Se, a essa data, o réu
já não está em Portugal, a jurisdição portuguesa não pode exercer-se,
embora o réu vivesse em território português durante mais de seis meses
e saísse, de Portugal no dia anterior àquele em que a petição inicial deu
entrada na secretaria .
Sob este aspecto é - que o domicílio se diferencia da residência. Desde
que o réu tenha o,~seu domicílio em Portugal, a jurisdição portuguesa é
competente, pouco importando que ele não se encontre em território por
tuguês no momento da propositura da acção ; enquanto o réu mantiver,
segundo a dei portuguesa, o seu d'omicíl'io em território n~acian!al, enquanto
não puder entender-se que perdeu o domicílio português-e para isso não
basta, é claro, a passagem acidental para além da fronteira portuguesa-
os tiibunia5's portugueses donitinuam 'investidos, quanto ia ele, de poder
jurisdicional para as acções sujeitas à regra do artigo 85 .'
Presença acidental do réu em território português . Se o réu nem tem
domicílio em Portugal nem aqui reside há mais de seis meses mas se
encontra em Portugal no momento da propositura da acção, ainda os tri
bunais portugueses têm poder jurisdicional no tocante às acções sujeitas
à regra do artigo 85 ." ; mas então, além da presença acidental do réu em
território português, exige-se um outro requisito : ter sido contraída com
um português a obrigação que pela acção se pretende exigir .
Em que sentido deve tomar-se a palavra obrigação : no sentido gené-
rico, ou no sentido específico, no sentido de vínculo correspondente a
qualquer direito, ou no sentido d-e vínculo correspondente a um direito de
crédito?
Como pondera o sr. Dr. Machado Vilela, sempre se entendeu que a
palavra «obrigação», empregada nos artigos 28 .o e 29 .° do Código Civil e no
artigo 20 .o do Código de Processo de 1876, tinha alcance genérico ; não há
razão para lhe atribuir 'significado diferente no § 1 .* do artigo 65 .° do
Código actual (Boletim, vol . 17.o, págs . 325 e 326) .
O sr . professor Machado Vilela não concorda com a exigência cons-
tante das palavras finais do § 1 ° do artigo 65.°, isto é, com a exigência de
a obrigação ter sido contraída com um português . Esta disposição observa
ele, está em desarmonia com o princípio da igualdade entre nacionais
e estrangeiros perante a justiça e, por isso, devia ser eliminada (Boletim,
vol. 18 :°, págs . 63, e 04) .
Salvo o devido respeito, entendemos que não tem razão o ilustre
professor. Em primeiro lugar, não há quebra do princípio da igualdade
entre 'racionais e estrangeiros ; se um português contrair uma obrigação
com estrangeiro fora de Portugal e não cumprir, o estrangeiro, querendo
demandá-lo em tribunais portugueses, só o poderá fazer, caso a acção
esteja sob o domínüo da regra do atrigo 85 .°, se o réu tiver o gau domicílio
em Portugal ou aqui residir há mais de seis meses .
Em segundo 'lugar, não é razoüvel equiparar ao domicílio e à resi-
dência por mais de 6 meses em Portugal o simples contacto acidental
124 Livro II-Da coinpétïsnritt e,, da ., yara.tttias tira hn]tarc-ia!idcade
e :passageiro com o território português . Como já se notou acima, este
nexo é, muito mais ténue e apagado do que aqueles ; bem se compreende,
pois, que não se eleve a factor determinante da competência internacio-
nal rios mesmos termos em que o domicílio e a residência exercem a sua
influência .
Nos casos de domicílio e residência, porque o 'laço é mais forte a
jurisdição portuguesa pode exercer-se independentemente da nacionali-
dade do autor ; no casa de presença acidental, porque o laço é muito mais
frouxo, a jurisdição portuguesa só tem razão de ser em benefício de
nacionais .
Já se decidiu que o § 3 .'> do artigo pode ser invocado para o
enfeito de se determinar a competência internacional dos tribunais portu
g;ueses . O caso era o seguinte : dois portugueses propuseram, em' Lisboa,
acção de investigação de paternidade ilegítima contra diversos cidadãos
brasileiros ; os réus nem estavam domiciliados em Portugal, nem tinham
aqui residência, nem I5e encontravam no país à data da : proposição da
acção ; levantada a questão de incompetência dos tribunais portugueses, a
Relação de Lisboa entendeu que a jurisdição portuguesa era competente,
por força da alínea a) do artigo 65 .", combinada com o § 3 ." do artigo 85 .o,
pois (luxe 'ojs autores tinham o xseu dom'icíl'io em Lisxbou (acórdão da, Rél, d.e
;de '.16 de Janeiro de 1943, Rev . de Leg ., ano 76 .", pág . 1'58) .
A solução é errada, como mostrei na Revista de Legislação, ano 76 .",
pág . .1 ,16 . O § 3 .° do artigo 8'5 ." não funciona no domínio da competência
inte'rn!ac'íonal para o efeito -de ase averiguar se a acção, podo siar proposta
em tribunais portugueses, isto é, não funciona como preceito complemen-
tar ou como desenvolvimento da aliena a) do artigo 65 ." A regra db '§ 3 .°
do artigo 85 .o destina-se a resolver, não o problema de competência inter-
nacional, mas o problema de competência interna, como a sua colocação
inculca .
'o domínio da competência internacional o factor «domicílio do réu»
só pode ser substituído pelo factor «residência do réu há mais de seis
nrebes» ou pelo factor «encontro acidental do réu em território português»,
conjugado este último factor com a circunstância de a obrigação ter sido
contraída, com um português . O § 1 ." do artigo 65 ." é expresso .
Se pudéssemos lançar mão do § 3." do artigo 85 .° para o efeito de
apurarmos se os tribunais portugueses têm competência inter'n'acional,
chegaríamos à conclusão de que qualquer acção poderia ser proposta em
til>unais portugueses, embora nenhuma conexão tivesse, por algum dos
seus xelementos, com a jurisdição portuguesa . Na verdade, o parágrafo
declara competente, em última extremidade, o tribunal de Lisboa ; portanto,
a aplicar-se esta disposição legal em correlação com a alínea a) da
artigo 65°, os tribunais portugueses teriani .sempre competência internar
ciional, fossem quais fossem as circunstâncias .
() § 3 .' do artigo 85.' supõe já resolvido o problema da competência
internacional -dos tribunais portugueses. Resolvido o problema no sen-
tido de que estes tribunais têm efectivamente competência internacional,
'Capítulo 11-Da competência internacional 125
a função k3,o refertidb parágrafo, é 'dizer-nos qual é, sob b ponto de vista
territorial, o tribunal português competente . Apìrrou-se em face do
,artigo '65 .", que 'a acção pode :ser proposta em tribunais portugueses ; quer
agora saber-se em que circunscrição territorial há-de ser proposta : para
este efeito é que se recorre ao § 3 .' do artigo 8-5 .0 ,
Conforme já acentuámos, deste .§ não pode fazer-se uso quando a
competência internacional seja consequência da aplicação da alínea a) do
artigo 6'5 :'
Em tal caso, uma de duas :
a) Ou os tribunais portugueses são competentes por virtude da com-
binação da alínea; a) do artigo 6'5 ." com algum dos preceitos particulares
dos artigos 73 .° a 84' ;
b) Ou são competentes por virtude da coordenação da mesma alí-
nea a) com a regra geral do corpo do artigo 8&5.'
Na ]..' hipótese o tribunal português territorialmente competente é
o da circunscrição em que se localizar o facto ou a circunstância deter-
minativa da competência territorial . E assim, tratando-se de acção real
sobre imóVeis,'será competente o tribunal (Ia situação doas beni3 (art . 74 ."),
tratando-se de acção destinada a exigir o cumprimento de obrigações será
competente o tribunal cio lugar em que a obrigação devia ser cumprida
(art. 74 .°), tratando-se de acção de divórcio ou separação de pessoas e
bens, será competente o tribunal do domicílio ou da residência do autor
(art. 75 .o), etc .
Na 2 ." hipótese a acção deve ser proposta :
1) na comarca do domicílio do réu, se este tiver domicílio em
Portugal
;
2) na comarca da sua residência, se tiver o domicílio em país
estrangeiro, mas residir em Portugal há mais -de seis meses ;
3) na comarca em que se encontrar, se não tiver domicílio nem
residência em Portugal, mas estiver aqui acidentalmente à data da
propositura da acção, uma vez que a obrigação tenha sido contraída
com um português (art . 65 .o, § 1 .") .
Quando entra então em actividade a regra formulada no § 3 ." do
artigo 85 .°?
Entra em actividade quando a competência internacional dos tribu-
nais portugueses deriva da aplicação das alíneas b), c) e d) do artigo 65 .°
A jurisdição portuguesa não é competente por forçada alínea a) e do § 1 ."
do artigo mas é-o por 'força da alínea b), ou da alínea c), ou da alí-
nea d) . Então é que a circunscrição territorial em que a acção há-de ser
proposta, se determina em conformidade com o disposto no § 3 ." do
artigo 85 .'
Pessoas colectivas . O § 2 ." do artigo 65.Q considera domiciliadas em
Portugal as pessoas colectivas estrangeiras que aqui tenham sucursal,
agência, `filial ou representação .
t26 Livro II- Da competência e das garantias da imparcialidade
0 que quer isto dizer?
Tomadas em consideração quer a letra do parágrafo, quer a sua colo-
cação, o sentido que imediatamente se apresenta ao espírito é este : quando
para a acção seja competente, segundo a lei portuguesa, o tribunal do
d ;nnicíl'io do réu, ais p~eisisbas c'ollectivas eÊst-range iras podem ~sw demanda-
das perante tribunais poituguese-s, desdb que itènham em Portugal agência,
sucursal, filial ou delegação .
Na verdade, se a lei, para o efeito da determinação da competência
irrterirnadional dos tribunais portugueses, considera domiciliadas em Por-
tugal as pessoas colectivas estrangeiras quando aqui tenham sucursal,
agência, filial ou d'e'legação, segue-se lógicamente que, até onde o :domicílio
do réu seja factor determinante da competência internacional, a circuns-
tância de as ,peissoas colectivas estrangeiras terem em Portugal sucursal
eu outra representação equivale inteiramente ao facto de estarem real-
mente domiciliadas em território português, ou por outras palavras, ao
facto de terem em Portugal a sede da sua administração principal (Cód .
Civ., art. 41 .°, § único) .
É claro que o -disposto no § 1 ." do artigo 65 .' não funciona em relação
a pessoas colectivas, visto estas não poderem residir nem èncontrar-.se em
determinado lugar . Pode residir ou encontrar-se em Portugal a pessoa
singUar ou fí~sic1a à qual incumbe a representação da pessoa colectiva ;
mas isso não importa á residência ou presença, em Portugal, da própria
pessoa colectiva (sr. Dr . Machado Vilela, Boletim cit ., vol . 17.", págs . 342
e 343) .
No que respeita, pois, a pessoas colectivas a alínea a) do artigo óã .°
actua desta maneira :
1) Se a acção houver de ser proposta em Portugal por força daque-
las regras dos artigos i~3 .° a 8'4 ." que são susceptíveis de se aplicar a
pessoas colectivas,, como são as dos artigos 73 .", 74 .o, 76 .", 78 ." a 81.'.°, os
tribunais portugueses serão competentes nos mesmos casos e termos em
que o são relativamente a pessoas singulares, isto é, se os imóveia esti-
vererri situ~adus em Portugal, ~se a obrdglação houver de sea- cumprida em
território português, etc . ;
2) Se a acção estiver sujeita ao foro do domicílio do réu, a juris-
dição portuguesa poderá exercer-se quando a pessoa colectiva, ré na
acção, tiver em Portugal o seu domicílio, quer se trate de domicílio real
(sede da administração), quer do domicílio legal ou fictício, resultante
do facto de ter em Portugal agência, sucursal, delegação ou filial (art. 66 .o,
As pessoas colectivas estrangeiras, sendo estrangeiras precisamente
por terem a sede da sua administração fora de Portugal, só aqui' podem
ter o domicílio legal ou fictício a que alude o § 2 .° do artigo 6ô .° Mas,
quando o tenham, ficam colocadas, sob o ponto de vista da competência
internacional dos tribunais portugueses, exactamente na mesma situa-
ção das pessoas colectivas nacionais : podem ser demandadas perante
os tribunais portugueses para as acções sujeitas ao foro do domicílio
do réu .
Capítulo II-Da competência internacional 12 7
Eis, a meu ver, o alcance do .§ 2.o do artigo 65 .° É certo que o § único
do artigo 7.° se exprime nestes termos :
«Se a administração principal tiver a sede ou o domicílio em país
estrangeiro, as sucursais, agências, filiais ou delegações estabelecidas em
Portugal podem demandar e ser demandadas, ainda que a acção derive
de acto ou facto praticado por aquela, quando a obrigação tiver, sido con-
traída com um português.»
Neste § exige-se que a obrigação tenha sido contraída com um por-
tuguês ; no § 2.° do artigo 65..° não ,se faz tal ex'igênci'a . Mas nenhuma difi-
culdade existe em conciliar os dois textos ; basta 'que cada um deles se
aplique cÌentro da esfera de acção que lhe é própria .
Com efeito, o § único do artigo 7.° visa a resolver o problema da
personalidade judiciária das sucursais, agências, etc . ; o § 2.° do artigo B5,°
tem finalidade diferente : resolve o problema da competência 'internacional
dos tribunais portugueses para acções em que sejam rés pessoas colectivas
estrangeiras. Se fizermos funcionar cada um dos textos dentro -do domínio
que lhe é próprio, obtemos o resultado seguinte :
a) 'Pretende propor-,se uma acção contra determinada pessoa colec-
tiva ~~Pa ie quer 'saber-!se, em primeira liagarr, Fie os tribunais por-
tuguesea têm competência internacional para ela . A acção pertence à
categoria daquelas para as quais o foro competente, sob o ponto de vista
territorial, é, segundo a lei portuguesa, o do domicílio do réu . . Averi-
guado isto, o problema da competência internacional dos tribunais portu-
gueses we-solve~ pela aplicação do § 2.o do artigo 6'5.° : a jurisdição
portuguesa será competente se a ré tiver em Portugal alguma agência,
sucursal filial ou delegação ; não o será, na hipótese inversa ;
b) Apurado que os tribunais portugueses são competentes, porque
a ré tem. uma agência -em Portugal, a acção terá de ser proposta no juízo
da sede da agência, parque é aí que a pessoa colectiva s-z~ considera domi
cíliada (art . 85', !§ 4.*) . Surge agora o problema da personalidade judi-
ciária, a questão :de saber contra quem há-ide ser dirigida a acção : entra
então em movimento o artigo 7.°
Se ,a acção deriva de acto ou facto praticado pela administração prin-
cipal, o problema da personalidade judiciária resolve-se nestes termos :
a acção pode ser dirigida contra a sucursal, dado o caso de a obrigação
ter sido contraída com um português ; terá de ser dirigida contra a admi-
nistração principal, quando a gbrigação haja sido contraída com um
estrangeiro .
O ar. Dr. Álvaro Vilela não aceita esta interpretação. No seu enten-
der, não basta que a pessoa colectiva estrangeira tenha em Portugal
agência, sucursal, delegação ou filial para poder ser demandada em tribu
nais portugueses : é necessário que a acção, por algum dos seus elementos,
esteja em conexão com ajurisdição portuguesa . «É preciso que exista um
elemento :de conexão, independentemente da ficção do domicílio em
Portugal, e esse elemento de conexão deve ser um elemento objectivo
que, posto de parte o domicílio do réu, justifica a competência dos tribu-
nais portugueses, tal como a localização em Portugal das circunstâncias
12 8 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
que determinam a competência territorial previstas por disposição espa-
cial da lei, noas `De~s dos artigos 73 .° e seguintes, enquanto eistes arti-
gos podem ser aplicáveis às pes-soas colectivas, e à prática em Portugal
do acto ou facto de que a acção dir"ectamenttl emerge .»' (Boletim, vol. 17 .",
pág. 342) .
Não pòclemos dar o nosso assentimento ao ponto de vista do abali-
sadc:, professor. 0 § 2." do artigo 65 .", embora exprima uma ficção legal,
lrá--de ter algum conteúdo e alcance ; na doutrina do sr . Dr . Vilela fica
ria desprovido de qualquár significaçãkb, s'er'ia uma fórmula vazia de
sentida.
Com efeito, se a competência internacional dos tribunais portu-
gueses em relação a pessoas colectivas estrangeiras dependesse ou do
facto dé: a acção se localizar em Portugal por aqui se verificar alguma dás
circunstâncias determinativas (Ia competência territorial nos termos dos
artigos 73 .° a 84 .", ou de ter sido praticado em Portugal o acto ou facto de
que a acção directamente emerge, o § 2.o do artigo 65 ." nenhuma 'influên-
cia exerceria na esfera da competência internacional . Que a pessoa colec-
tiva estrangeira tivesse ou não agência ou outra representação em ter-
ritório português, era absolutamente indiferente : a jurisdição portuguesa
exercer-se-ia, não por a pessoa colectiva. ter cá a sia representação,
ruas por o acto ou facto ter ocorrido em Portugal, por os imóvei!3 -estarem
aqui situados, por a obrigação dever cumprir-se em território portu-
g-ues, etc.
Desta maneira, a declaração legal de que se consideram domiciliadas
em Poii;ugal as pessoas colectivas estrangeiras que tenham cá sucursal,
ü._,, êrrcia, filial ou delegação nunca seria factor determinativo da compe;
tência internacional dos tribunais portugueses . Desde que ao texto legal
:'e não atribua alcance idêntico ao que tem, em relação às pessoas singu-
lares, o § 1.° db mesmo artigo, isfto é desde que a disposição não signi~
fique que para as acções sujeitas ao foro do domicílio do réu segundo a lei
portuguesa a competência internacional da jurisdição portuguesa, quanto
a pessoas colectivas estrangeiras, depende únicament.e do facto de elas
terem em Portugal agência sucursal, delegação ou filial, o § 2." fica sem
valor nem eficácia no domínio da competência internacional .
Que devam interpretar-se restritivamente as regras de direito em
que se enuncia uma ficção legal, está certo ; mas que a compressão inter-
pretwA;iva vá até ao ponto de flsvasiar -todo o conteúdo e to,dlo o sentido-da
norrria, não é doe admiitir.
Disse-á porventura : a função do § 2 .° do artigo 65 .° é indicar que,
no caso de os tribunais portugueses terem competência internacional, a
acção deverá seT proposta na comarca em que estiver a sede da agência,
aicursal, etc.
A explicação não satisfaz . Para designar a circunscrição territorial
errr que a causa há-de ser proposta, não era necessário o § 2.° do artigo 65 .°,
porque existe o § 4.11 ~do artigo 85 :° Além de que, colocado comia está no
artigo 65 .*, o § só pode ter por fim apontar uma circunstância de que
depende a competência internacional dos tribunais portugueses .
Capítulo II -Da competência internacional 12 9
Falência . 0 § único do artigo 82 .° atribui competência aos tribunais
portugueses para a declaração da falência de comerciante ou sociedade
estrangeira que tenha em Portugal qualquer estabelecimento, sucursal ou
representação.
Discute o sr. Dr . Palma Carlos se a palavra «comerciante> abrange
o comerciante estrangeiro ; pronuncia-se em sentido afirmativo, observando
gele o § único do artigo 82:° fala expressamente em comerciante ou socie-
dade estrangeira . E a seguir acrescenta
«Mas ainda que o não fizesse, a solução do problema teria, de ser
afirmativa, pois do próprio artigo 65 .° resulta que os tribunais portugue-
ses podem, no uso da sua competência internacional declarar a falência
de eaatra~los, quando eles tenham o oeu domicílio em Portugal, aqui
residam há mais de seis meses, ou aqui se encontrem acidentalmente,
tendo contraído com portugueses as suas obrigações vencidas e -não pagas ;
quando ;a falência tenha origem em obrigações contraídas em território
português ; e quando a aplicação do princípio da reciprocidade imponha
tal, solução .» (Cód . de Proc. Cir . anbt, voo . 1.°, pág. 227) .
Há neste passo uma afirmação que nos parece inexacta, salvo o
devido respeito ; é aquela em que se reconhece competência internaéicnal
aos tribunais portugueses para -a' declaração de falência de estrangeiros
que tenham o seu domicílio em Portugal, aqui residam há mais de seis
meses, ou se encontrem acidentalmente em território português, tendo-
contraído as obrigações com um português .
É fora doe dúvida. que o dbrn'icíl'ia do réu tem, no campo da compe-
tência internacional, a mesma extensão que no campo da competência
interna ; quer dizer, o domicílio do réu é factor atributivo de competência
internacional precisamente nos mesmos casos ' e termos em que é factor
atributivo adie !dompetêricia berritarial interna . Ora, o artilgri 85 . 0 é termi-
n"te : «em todbs os outros casos não previstos nos artigos anteriores . . .
é competente o tribunal do domicílio do réus .
Para a declaração da falência há um preceito particular de compe-
tência territorial, o do artigo 82 .' Tanto basta para dever concluir-se que,
em relação ao ipmocessd de falência, a regra do artigo 85 .0 não funciona ;
e se não funciona na . 'esfera da competência territorial interna, também não
funciona na esfera da competência internacional .
Assente este ponltb, vejamos o' que se prescreve no artigo 82 .° Para
a declaração de falência, diz o artigo, é competente o tribunal da situação
do principal estabelecimento e, na falta deste, o do domicílio ou da sede
do arguido. Daqui se vê que a competência do juí2o do domicílio é res-
trita ao caso de o falido não ter estabelecimento. Desde que o tenha a
falência há-de ser requerida no tribunal da situação ; e se tiver mais ido
que um, nb tribunal da situação do esta'belec'iinenth principal .
0 § único manda aplicar o preceito ao caso de um comerciante ou
sod~e estrangeira ter em Portugal qualquer estabelecimento, sucursal
ou representação ; mas o tribunal português sóipode declarar a falência
em consequência de obrigações contl-4ídas em Portugal e que aqui deves-
9-CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL
13 0 Livro II -Da competência e das garantias da imparcialidade
sem ser cumpridas, sendo também a liquidação restrita aos bens èxistentes
em território português .
O que se lê hoje no artigo 82 .° era fúndamentalmente o que se
achava estabelecido nos artigos 12 .° e 13 .° do -Código dê Processo
Oornercia1 A doutrina que resuMa do corpo do . amigo ie do iseu § único
é a seguinte
a) Se o comerciante ou a sociedade estrangeira temem Portugal
o seu principal estabelecimento, 'o tribunal da situação 'dèate é competente
para a declaração da falência e para a liquidação de todos os bens, ainda
que as obriglações tenham sido cbntraíàaa fora de Portugal ;
b) ;Se o principal estabelecimento está situado no estrangeiro, mas
o comerciante ou a sociedade tem em Portugal um estabelecimento, sucur-
sal ou representação, o tribunal português da situação do estabelecimento
ou da sede da sucursal ou da represèntação é competente para declarar
a falência em consequência de obrigações contraídas em Portugal e que
aqui devessem ser cumpridas, sendo a liquidação restrita aos bens exis-
tentes em território português ;
c) ;Se o comerciante ou a sociedade não tem em Portugal estabeleci-
mento, nem sucumsa'1, nem 1lepresenlbação 'algguma, -tendoo porém estabe-
lecimento em pais !estrangeiro, não pode a falência ser declarada em
Portugal, embora o arguido tenha cá o seu domicílio ou residência, ou
se encontre acidentalmente em território português e haja contraído a
obrigação com um português .
A competência internacional tem de coincidir com a competência
territorial interna .
Casos concretos . Apresentemos algumas hipóteses concretas para
aplicação da alínea a) do artigo 6,5f
Um português compra um automóvel a um . fabricante alemão que se
obriga poT conVênção escriba, 'a entregar ei carro em Coipnbna ; ge o ven-
cìedor irão ~pMir, pode o comprador exigir,, em tribunai~s~ portugueses,
a entrega, do carro, embora o contrato haja sido feito na Alemanha, o réu
t~E .í o seu domicilio e resIidênci'a e não ~se' encontre em Portugal rio
imàm"to dia pTop'asição da 'alcção . Os tr~'bun[a'is . portugúeses têm compe-
tênc'ia internacional por força da aliena a) do artigo 65 .°, combinada com
o artigo 74 .°
Um proprietário de Setúbal vende a um comerciante de Liverpool
a laqanSa dos seus pomarels ; o comprador recebe a laranja em Setúbal
e obriga-se a pagar o preço daí a 90 dias ; se não efectuar o pagamento,
grade o vendedor demandá-lo em tribunais portugueses, ainda que o com-
[rradar não tenha domicílio nem residência em Portugal nem se encon-
tre cá . A competência da jurisdição portuguesa deriva da alínea a) do
artigo 65 .°, combinada com o artigo 74,° ~dwGódigo de Processo e com o
1 o do artigo 1'583 .° do Código Civil . Supomos, é claro, que, o contrato
se celebrou em Portugal e que por isso tem aplicação o § 1 .* do artigo 1583 .°
do Código Civil, que manda pagar o . preço- da venda no lugar da entrega
cia coisa vendida .
Capítulo 77-Da competência internacional 13 1
Neste caso os tribunais portugueses seriam competentes não só por
força da alínea a) do artigo 65 .°, como também por força da alínea b)
do mesmo artigo .
Já se discutiu se os tribunais portugueses eram competentes para
uma acção de divórcio proposta por uma portuguesa que casara com um
belga . A Relação de Lisboa, em acórdão de 1 de Fevereiro de M8 (Rev .
de Leg ., ano 61 .', pág . 47) decidiu em sentido afirmativo, com os funda-
mentos de o réu ter o domicílio em Portugal e de o casamento, origem
da obrigação, ter sido celebrado em território português.
A decisão foi confirmada pelo Supremo em acórdão de 8 de Outubro
de 1929 (Colecção Oficial, ano 28.°, pág . 269) .
Dec1diw-se bem ; mas fumdi~entelu-se mal a decisão . A esse tempo
vigorava o artigo '5 .' do Decreto n .o 13' :979 ; mas a doutrina do decreto era,
nesta parte, a mesma do Código .
Os tribunais portugueses eram competentes para a acção de divórcio,
não por o réu ter o áomicí'lno em Portugal, mas por a autora estar domi-
ciliada e residir em território português (alínea a) do art. 6:5 .°, combinada
cone o art . T5.o) . A circunstância de o casamento, ter sido celebrado em
Portugal também era irrelevante para o efeito da competência internacio-
nal dos tribunais portugueses ; o que interessaria era que a causa ale pedir,
o facto alegado pela autora para justificar o pedido . de divórcio houvesse
ocorrido em Portugal . A autora pedia o divórcio com o fundamento de
adultério do marido e cie sevícias e injúrias .graves ; pouco importava o
lugar em que o casamento houvesse sido celebrado, o que importava, nos
termos 'da alínea b) do artigo 65 .', era que o adultério, as sevícias e as
injúrias tivessem sido praticados em Portugal .
b) Prática, em território português, do acto ou facto de que a acção
directamente emerge . Passemqs à análise da alínea b) do artigo 6 .5 .o
O n .' 2 .° do artigo '5 . 1 do Decreto n .° 13 :979 e o n .° 2 .° do artigo 17 .0
do Decreto n" 2'1 :287 exprimiam-se de outra maneira . A redacção era :
<Quando a obrigação tenha origem em acto ou facto praticado em
território português.
Não obstante a diversidade de forma, a ideia é a. mesma. Declarasse
competente a jurisdição portuguesa. quando a causa de pedir tenha conexão
com o território português, conexão que se traduz na circunstância de ter
sido praticado em Portugal o acto ou facto que se invoca como causa de pedir.
A causa de pedir é um contrato? Serão competentes os tribunais
portugueses, se o contrato tiver sido celebrado em Portugal .
A causa de pedir é pm acto jurídico unilateral, como por exemplo
um testamento? A competência da jurisdição portuguesa derivará da
circunstância de o testamento ter sido feito em Portugal .
A causa de pedir é um facto ilícito? A acção pode ser proposta em
tribunais :portugueses, uma vez que esse facto ilícito tenha ocorrido em
território ;português.
A alínea b) do artigo 65 .' deve aproximar-se do disposto no §,3 .o do
artigo 502.0, onde se define a causa de pedir, porque, nà verdade, o que se
13 2 Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
quis significar com a alínea b) do artigo 65 .° foi que os tribunais portu-
gueses são competentes quando tiver sido praticado em Portugal o acto
ou facto - causei de pedir.
As várias alíneas do artigo 65.' são autónomas ; funcionam em com-
pleta independêncila umas dais outras. Quer isto dizer que se a acção
não puder ser proposta em Portugal por força da alínea a), isso não obsta
a que o seja !par força da alínea b) ; e ~se nem pela alínea a) nem pela
alínea, b) a jurisdição portuguesa for competente, sê-lo-á por força da alí-
nea-c) ou da alínea d), desde que se verifique a circunstância aí prevista .
17m exemplo esclarecerá o nosso pensamento.
lmagine-se que um português vende a um espanhol determinadas
mercadorias ; o contrato é celebrado no Porto e o vendedor entrega' ao
comprador as mercadorias em Vigo ; o, comprador não paga o preço .
Poderá o vendedor exigir o pagamento em tribunais portugueses?
A resposta é nitidamente afirmativa . A causa de pedir, o acto de
que a acção directamente emerge é o contrato de compra e venda . Desde
que este acto foi praticado em Portugal, a jurisdição portuguesa é compe
tente, por virtude da alínea b) do artigo 65 .° Pouco importa que o réu
tenha o domicílio e a residência em Espanha e não se encontre acidental-
mente me Portugal ; pouco importa também que a obrigação do paga-
mento do preço devesse, segundo a lei portuguesa, ser cumprida na
Espanha, por ter sido entregue aí a coisa vendida (Cód . Civ, art . 1583 .',
§ 1 .'), e consequentemente que a acção devesse ser proposta na Espanha,
segundo as regras de competência territorial da lei portuguesa (Cód . de
Proc.,, art . 74.°) ; numa palavra, pouco importa que, nos termos da alí-
nea a), os tribunais portugueses fossem incompetentes .
Uma vez que são competentes por força da alínea b), é quanto basta .
0 ar. Dr . Machado Vileta, ao ocupar-se da alínea b) do artigo 65 .°,
procura esclarecer dois pontos :
1 .° (Quando 'deverão considerar-se celebrados em Portugal os con-
braftod feitas entre ausentes, dois quais um se encontre em Portugal e o
nutro em país estrangeiro . ;
2 .° Qual é o alcance da fórmula «directamente , emergeu.
Quando ao 1 .o ponto, o ilustre professor entende que o Código Civil
português seguiu, não o sistema da informação, mas o sistema da declara-
ção, como se vê pelo artigo 649 ." ; por isso conclui que o contrato entre
ausentes deve considerar-se celebrado em Portugal, para os efeitos da
alínea b) do artigo 65 .°, quando a aceitação se der em território português .
E é iavdife~, acrescenta, que ~a lei do lugar donde partiu a proposta
siga o sistema da informação, visto que a regra da alínea b) do artigo 65:°
é de competência internacional ou jurisdicional e as regras de compe-
tência desta categoria sido leis de ordem pública internacional, como normas
que delimitam a esfera de acção do poder jurisdicional do Estado em
relação aos outros Estados (Boletim cit. vol. 17 .°_págs. 327 e 328) .
Concordamos inteiramente com esta doutrina .
0 Supremo Tribunal de Justiça teve, há pouco, ensejo -de se pro-
Capítado 11---Da competência internacional 13c,
nunciar sobre a aplicação dá alínea b) do artigo (i5 .° a um contrato que!
parecia ter sido celebrado entre ausentes . Um comerciante do Porto,
Ernesto de Oliveira firmou um contrato com a Société Tunisienne de
1'Hiperphosfate Reno, com sede em Paris, por virtude do qual esta se
comprometia a fornecer àquele determinado número de toneladas de
hiperfe.sfato da sua produção .
Em determinada altura a Sociedade não forneceu as quantidades
pedidas pelo Oliveira ; este propôs contra aquela, no 'Porto, acção de
'indemnização por falta de cumprimento do contrato .
Levantou-se a questão da competência internacional dos tribunais
portugueses .
Sustentava-se que a jurisdição portuguesa era competente : a) por
força da alínea b) do artigo ~6'W, visto que o contrato devia considerar-se
celebrado no Porto ; b) por 'força da alínea a) do mesmo artigo, combi-
náda com o ar'biga 79: .°, pois que a sociedade parisions,e se obrigara a fazer
a .entrega do hiperfosfato no Porto .
0 Supremo Tribunal de Justiça, em acórdão de 9 de Outubro de 1942
(Rev . de Leg, ano 75 .°, pág. 377), afastou a aplicação tanto da alínea b)
como cia alínea. a) e decidiu que os tribunais portugueses não tinham
competência internacional . A decisão suscita-nos alguns reparos .
Quanto à aplicação da alínea b) . 0 contrato fora reduzido a escrito
desta maneira : a sociedade francesa redigiu e assinou em Paris dois exem-
plares 'do contrato, remeteu-os para o Porto ao Oliveira, este ficou com uai.
deles em seu poder, aiss:nou o outro e enviou-o para, Paris à dita sociedade .
Em face disto, e admitido que a lei portuguesa segue o sistema da
declaração, como o acórdão reconhece, de acordo com os professores José
Tavares, 'Guilherme Moreira e Machado Vilela, parece que devia ter-se
como certo o seguinte : o contrato fora celebra-do no Porto; lugar da acei-
tação cia proposta feita pela sociedade francesa .
Não obstante isto, o acórdão decidiu que o contrato havia sido con-
cluído em Paris. Justifica assim a sua decisão :
«17 exame atenú~o do assunto convence, porém, doe que o título ores--
supõe a existência do contrato anteriormente celebrado, contrato que, .por
não ser de natureza formal, ficou válido e perfeito antes de reduzido a
escrito . Como o título do contrato foi escrito em Paris, lá se deve ter
real~ o en;dontirb de vontadíes dois pactuantes e tornado pierffeito o dou-,
trato . 'Tem-se, por isso, como assente que o contrato foi realizado em
Paris, ou, ao menos, que não há nos autos elementos para o considerar feito
em Portugal.>
Não sabemos se nos autos havia prova segura de que o Oliveira esti-
vera em Paris e aí fechara oacordo com -a ,sociedade, a que depois, se dera.
forma escrita, redigindo-se e assinando-se os dois exemplares . Anão existir
tal prova-e parece que não existia, em vista da passagem que sublinhá-
mos - não podemos deixar de acentuar que nos causa estranheza a decisão .
O tribunal encontrava-se perante -um fato certo e positivo : o cor-
trato, na sua forma escrita, fora concluído em Portugal, pois que a acei-
tação, por parte do Oliveira, tivera lugar no Porto .
1.34 Livro 17 -Da competência e das garantias da imparcialidade
Para arredar este facto inequívoco, do qual derivava a competência
dos tribunais portugueses, o que fez o Supremo? . Entrou no caminho das
presunções ou das conjecturas . presumiu, em primeiro lugar, que por
trás do contrato escrito estava um contrato verbal ; presumiu, em segundo
lugar, que esse contrato verbal se fechara e~ concluíra em Paris .
Para se verificar a fragilidade desta segunda conjectura basta atender
à razão em que o acórdão a filia : como o título foi escrito em Paris, lá se
deve ter realizado o encontro de vontades e tornado perfeito o contrato!
Mas então, se o Oliveira esteve em Paris e aí fechou o contrato com
a Société Tunisienne, como se compreende que não fossem logo redigidos
e assinados os exemplares do contrato? Parece que a reconstituição mais
natural doe factos seria esta : houve negociações preliminares entre o Oli-
veira e a Sociedade, houve troca de correspondência para se chegar a um
entendimento e por fim, como resultado definitivo, celebrou-se por escrito
p contrato de fornecimento .
A ser assim, é claro que o contrato devia considerar-se concluído
no Porto .
Qzuznto à aplicação da alíena a) . No § 2 .0 da cláusula 6 .` do contrato
tinha-se estipulado que «salvo cláusula contrária expressa, os preços
entender-se-Ao C . I . F . Lisboa ou Porto, mercadoria posta nas embalagens
usuais da Soc. Tun ., e a entregar em porto> ; e na cláusula 10.' d'etesmi-
n)ava~ que «ás encomendas da ~ Oliveira dleverão chegar à Soe . Tun.,
en Parvws, do'í~9 meses antes da data previsto para entrega C. 1. F . Lisboa
OU, P~> .
Em vista destas estipulações a Relação do Porto deu como assente
que a sociedade francesa se obrigara a fazer a entrega do hiperfosfato em
1,1~ ou P~ e que, por isso, os tribunais portugu . eram compe
tentes, nos termos da alínea ,a) do artigo 65.°, conjugada com o artigo 74 .°
0 Supremo interpretou as cláusulas transcritas no sentido de que
por elas se teve em vista fixar o preço das mercadorias, e não o lugar da
sua entrega.
I?ulas observações nos permi~bimoe fazer . A primeira é que a deter-
minação da vontade das partes nos negócios jurídicos é matéria de facto,
da competência exclusiva dos tribunais de instância (Rev. de Leg, ano 74 .o,
. 289 e sega. ; lac'órdãás do S. 'T, J., de 28-11 .'441, 17-3 . 942, 30-10
,figa
.°_942
e 2'6-2'-948, Rev. de Just, ano 27.°, pág. '103, Rev. de Leg, ano 75 .o, pág. A1,
Boletim Oficial, ano 2 .°, pág. 291, Rev. dos Trib., ano 61 .1 , pág 136),1 'Sle
a Relação decidira que os contratantes, ao estipularem a cláusula 10' e
o § 2 .* da cláusula 6.`, tinham querido fixar Lisboa e Porto como lugar"
de entrega da mercadoria, não era lícito ao Supremo atribuir às partes
unia intenção diversa..
A segunda é que as cláusulas referidas dificilmente comportam a
interpetação do 'Supremo . As partes não se limitaram a declarar que os
preços deviam entender-se C . I . F. Lisboa ou Porto ; foram mais longe :
estipularam, ao que parece, que a mercadoria devia ser posta nas emba-
lagens usuais da Société Tunisienne, e que a entrega devia fazer-se em
Lisboa ou Porto.
Capítulo II-Da competência internacional 13 5
Admitidb que se fixaram estas d!u'as cidades como lugares da entrega
do hiperfodato, tinha de concluir-se, que os tribunais portugueses eram
oompetentes . É certo que a acção não se destinava a exigir a entrega ;
o que se pedia era a indemnização de perdas e danos por falta da entrega
da mercadoria . Mas quando se diz, no artigo 74 .", que a acção destinada
a exigir o cumprimento db obrigação será prbiposta nó lugar em que a res-
pectiva obrigação devia ser cumprida, deve entender-se que o juízo desse
lugar é competentg não só para a acção 'em que se pede o cumprimento
específico, como também para aquela em que se pede a indemnização de
danos
perdas e por falta dó cumprimemfib, visto que a obrigação de inde-
mnizar é o substitutivo legal da obrigação específica que deixou de ser
cumprida (ae . do S . T . J . de 9-10 .o-942, Rev. de Leg, ano T5 .°, pág. 37E7 ;
Alberto dos Reis, Processo ordinário, 2." edição, págs . 701 e '702, nota) .
Vejamos agora qual é o alcance das palvaras «directamente emerge" .
Com estas palavras quis certamente significar-", escreve o
sr. Dr. Vilela, que a pretensão do autor deve ter por fonte o próprio acta
ou facto praticado em território português . Se, pois, entre esse acto ou
facto e e, litígio se interpuser outro acto, que modifique ou regule os efeitos
do acto ou'facto primitivo, como uma transacção entre as partes, já a
regra se: não pode aplicar . Pode dizer-se que o sentido da lei é este :
a acção deve ter como fonte imediata o acto ou facto praticado em Portugal
(Boletim cit ., vol . 17 .o, págs . 328 e 329) .
É fora de dúvida que no exemplo figurado pelo sr. Dr . Vilela-ter-se
celebrado um contrato em Portugal e mais tarde os contratantes haverem
realizado, fora do território português, uma transacção destinada a regular
as consequências da inexecução do contrato inicial - à acção em que se
peça o cumprimento da transacção não é aplicável a regra da alínea b)
do artigo 65 .°
Mas para afastar a competência das tribunais portugueses na hipó-
tese apresentada não seria, a meu ver, necessário inserir na alínea b)
o advérbio directamente ; ainda que lá não estivesse tal palavra, os tri
bunais portugueses não teriam competência internacional . Desde que o
objecto da acção é exigir o cumprimento da transacção, é claro que é do
acto juridcao transacção quis ela emerge, e não dó acto juríd" contrato
.
primitivo
Entretanto, é perfeitamente exacto o sentido que o sr . Dr. Vilela
atribui à alínea b) do artigo 65 .° : a acção deve ter como fonte imediata
o acto ou facto praticado em Portugal . Por outras palavras, conforme já
frisámos, a acção deve ter como causa de pedir o acto ou facto praticado
em Portugal.
A acção de divórcio ou de separação de pessoas e bens permite-nos
pôr em relevo o alcance do termo «directamente» . Dois espanhóis casa-
ram na Espanha ; em certa altura vêm viver para Portugal ; o marido
comete aqui adultério ; a mulher pode propor contra ele acção de divórcio
ou de separação nos tribunais portugueses, embora ao tempo da propo-
sição da acção tenha o domicílio e a residência na Espanha, uma vez que
13 6 ~Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
invoque, como fundamento do divórcio ou da separação, o adultério come-
ti'd'o em Portugal . A causa de pedir é o facto do adultério ; é deste facto
que a acção directamente emerge, e não do acto jurídico casamento, se bem
que o adultério constitua infracção de um dos deveres contraídos mediante
o matrimónio .
Já se discutiu em que termos deve a alínea b) aplicar-se às acções
de investigação de patern'id'ade ilegítima . Entendeu-se que os tri-
bunais portugueses são competentes, por força dessa alínea, quando o
filho ilegítimo haja nascido em território português (ac . da Rei . d e Lx .",
de 16-1. .°-9'43, e ae . do S . T . J ., de 27-7 .°-943, Rev. de Leg., ano 76,°, págs . 155
e 2'52) .
Como procurei demonstrar na Revista de Legislação, aho 76 .o,
págs. 1!4'7 e 2 .43, não pode aceitar-se semelhante doutrina . Não é do facto
do nascimento que emerge directamente a acção de investigação de pater
nidade ilegítima ; a causa de pedir nesta acção não é esse facto . Claro
que ase o fãho não nascer com vida e figura humana, não pode investigar
a paternidade ; mas, ao investigá-la não é no simples facto do nascimento
que se funda para afirmar o seu direito a ser declarado filho de determi-
nado indivíduo . A verdadeira causa de pedir na investigação da pater-
nicllade iilegítima é o facto da procriação : piar ter -sido procriá,do au gerado
por certo homem é que o autor se julga no direito de ser havido como
filho ilegítimo dele.
Mas como o facto da procriação não pode ser apurado directamente,
há-de tomar-se o facto jurídico através do qual, segundo a lei, se pode
chegar ã determinação da paternidade : posse de estado, sedução, convivên
cria mmrital, etc . (Dei . n .* 2, de 25-121.°-910, art . 34 .') . Para os efeitos da
alínea b) do artigo 65 .° deve entender-se que o facto de que emerge directa-
mente a .acção de investigação de paternidade é qualquer dos factos espe-
cificados no artigo 34." -do Decreto de 2'5 de Dezembro de 1910 : aquele que,
no caso concreto, se invocar para investigar a paternidade . 0 que importa,
pois, para que os tribunais portugueses tenham competência internacional,
é que esse facto haja sido praticado em Portugal .
Alguns dos factos jurídicos designados no citado artigo 34 .° prçs-
supõem uma; certa. continuidade, uma série sucessiva de actos e factos mate-
riais . É o que se dá com a posse de estado, a sedução e a convivência
notória como marido e mulher . Surge, por isso, a questão : para que os
tribunais portugueses tenham competência internacional, será necessário
que ocorram em Portugal todos os factos materiais necessários para cons-
tituir o facto jurídico, ou bastará que ocorram alguns?
Basta que ocorram alguns, contanto que sejam relevantes e caracte-
rísticos do facto jurídico (Rev . de Leg., ano' 76 0, pág . 147) . É claro que, ao
examinar-se e decidir--se a questão de competência, não vai averiguar-sa
se realmente os factos ocorridos em Portugal são suficientes para constituir
a pio~ de estado, a dedução, a convivência ; isso equflValeria a conhecer
cio mérito da causa a propósito da questão de competência . 0 que o tri-
bunal tem de verificar, para se certificar da sua competência, é se, dentre
Capítulo II-Da competência internacional 13 7
a massa dos factos materiais alegados pelo autor, foram praticados em
Portugal factos suficientes :para justificar a conexão da acçao corte a
jurisdição portuguesa.
c) Princípio da reciprocidade. Os tribunais portugueses são compe-
tentes quando se 'pretende realizar, em benefício dalgum português, o
princípio da reciprocidade (alínea c) .
0 sentido desta :regra de competência é exactamente o mesmo que
tinha o § 2 .o do artigo '5 .° do Decreto n .o 13 :979 e o § 2 .° do artigo 17 .° do
Decreto :n .* 21 :'287 : «o estrangeiro pode ainda ser demandado por um por
tuguês era Portugal nos mesmos casos em que o português o poderia ser
perante aos tribunais dia Estada a que pertence o réu .»
Disposição semelhante se lê uo n .° 4 .o do artigo 4 .° do novo Código
de: Processo Civil italiano, assim redigido :
«O estrangeiro pode ser demandado perante os tribunais do Reino
se, no caso recíproco, e, juiz do Estado a que pertence o réu pode conhecer
de acções propostas contra um cidadão italiano .»
Tratarse die um critério geral, escreve N'appi, inspirado num princípio
de defesa., senão propriamente -de retorsão . Todas as vezes que um-juiz
estrangeiro possa exercer a sua jurisdição sobre um cidadão italiano, o
magistrado 'italiano pode considerar-se jurisdicionalmente competente em
relação ao réu estrangeiro (Nappi, Comanentario al Codice di procedura
civile, vol . 1 .°, pág . 77) .
É claro que, no ponto de vista estritamente jurídico, a disposição da
alínea c,) n.ão tear justificação plausível . 0 Estado deve estatuir o seu
regime de competência jurisdicional sobre a base dos princípios que jul
gue razoáveis, sem se preocupar com a atitude que os Estados estrangeiros
tomem em tal mâtéria,; por outras palavras, definidos e assentes por cada
Estado os critérios de conexão que hão-de orientar o seu sistema da
competência internacional, só quando algum -desses critérios se verifique
é que a 'l5'dle deve ser 'sujeita à jurisdição rrac'ional . Que um Esitado estran-
geiro adopte critérios diferentes, pouco importa ; o . Estado não pode abdi-
car da sua própria doutrina das suas concepções, para se subordinar ao
ponto de vista dum Estado estrangeiro .
Este o aspecto ju~r&ico do problema . Tem razão, pois, o sr . Dr . Machado
Vilela, quando escreve :
«A disposição da alínea c) do artigo 65 .* do Código é, em verdade,
mais urna regra de retorsão do que uma regra 'de competência interna-
cional juridicamente defensável . Deixa dependente de uma lei estrangeira,
que pode ser má, e por uma espécie de devolução que se não justifica, o
exercício da jurisdição dos tribunais portugueses.» (Boletim cit, vol . 17 .°,
pág. f&2) .
Mas há o aspecto político . Como observa : Morelli a respeito do n .o 3 .o
do artigo 105 .° do Código italiano de 1865, por considerações de ordem
política e no intuito de proteger os interesses dos seus nacionais, o Estado
italiano, perante o facto de que o Estado a que o estrangeiro pertence
eoerceri~r, em situâção anáÊoga, â Êuia jurisdção sobre um italiano, afirma
13 8 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade
a sua própria jurisdiçao relativamente ao estrangeiros (Morelli, Il direito
proeessuale civile italiano, pág. 112) .
Não é uma doutrina juridicamente recomendável, mas é uma atitude
politicamente compreensível esta de o Estado velar pela protecção dos
seus nacionais e não os deixar em situação de inferioridade em face dos
estrangeiros. Choca, na verdade, o sentimento nacional que um estran-
geiro não possa ser demandado por um português em Portugal nós casos
em que o português o poderia ser pelo estrangeiro nos tribunais do seu país.
Há aqui, de facto, uma, m~a de retorsão uma forma velada doe
represália; mas sob o ponto de vista político não pode condenar-se tal
procedimento.
0 § 2.° do artigo 5,.° do Decreto n.° 13 :979, fonte da alínea c) do
artigo 65.', foi influenciado por uma ocorrência que causou uma certa
emoção nos meios jurídicos portugueses . Um navio francês abalroou nas
águas da Terra Nova,' onde se entregava à pesca do bacgIhau, um navio
;pertencente a uma sociedade portuguesa, que pescava nas mesmas águas;
;propôs-.se em Portugal. acção de indemnização de perdas e danos contra
o francês, db~'db navio abal'roador; o réu arguiu a incompetênci~a .inter-
nacional dos tribunais portugueses .
E, na verdade, em face das normas de competência então vigentes,
ia jurilbidhção pbx+tuguesa não eira compet3nte pára -a causa. 0 artigo 10.°
do Código de Processo Comercial dava competência para conhecer da
acção por perdas e danos resultantes da abalroação ao juízo do lugar onde
se desse o facto, ao domicilio do dono do navio abalroador e ao do lugar
a que pertencesse ou em que fosse encontrado esse navio ; de modo que,
nos termos do § 1.o do artigo 5 .1 do Decreto n' 12 :3'53, os tribunais portu-
gueses só seriam competentes se o navio abalroados se encontrasse em
Portugal, pois que o evento ocorrera em -águas estrangeiras, o dono dó
navio abalroador tinha o seu domicílio na França e esse navio estava
matriculado num porto francês . Como 'o navio abalroador também se não
encontrava em Portugal, os tribunais portugueses eram incompetentes .
E todavia, se as situaçoes se invertessem ; lato é, se um navio por-
tuguês abalroasse na Terra Nova um navio francês, o dono deste navio
~ria demandar perante os tribunais ,db seu pais o cidadão português,
dono do navio abalroador.
Entendeu-se que convinha colocar, em Portugal, o autor português
perante o réu francês na mesma, situação,,jurisdici'onal em que, em igual-
dade de circunstâncias, o autor francês, estaria, na França, perante o réu
;português .
d) Principio de necessidade . Os tribunais portugueses têm compe-
tência internacional quando o direito não possa tornar-se efectivo senão
por meio de acção proposta em tribunais portugueses (alínea d)) .
Também esta regra de competência; vem do artigo 5 . do Decreto
n..° 13 :979. Formulava-a o n.* 4.° deste artigo ; dai-passou para o n.o 4.*
do artigo 17.* do Decreto n.' 21 :287.
Como se justifica?
Capítulo II-Da competência internacional 139
Procurando dar a razão do n .* 4 .' do artigo 17 .o do Decreto n .° 21 :287,
escrevi em tempo :
«f um caso excepcional e subsidiário de competência, por meio do
qual se tem em vista evitar que o direito fique sem garantia judiciária .
Suponhamos que um português quer propor contra outro, domici-
liado em Portugal, uma acção -de reivindicação dum prédio situado num
pais cuja lei declara competente para essa acção .o juizo do domicílio do
réu . A. acção não ipbderia nbrmlalmente ser proposta em Portugal, juízo
do domicilio do réu, porque, segundo, a lei portuguesa de competência
interna as acções destinadas a fazer' valer qualquer direito real sobre
imóveis têm de ser intentadas no juizo da situaçãodo prédio (Dec . n.° 21 :287,
art. 10 .°), e tanto basta para que, sob o ponto de vista internacional, ao
;juízo do domicílio do réu se substitua o juízo da situação do imóvel (Dec .
cit ., art . 17.°, § 1 .1) ; também não poderia ser proposta no juízo da situação
cio prédio, visto este estar situado no território dum Estado cuja lei declara
competente a jurisdição do domicílio do réu . 0 autor corria, pois, o risco
cie não poder tornar efectivo o seu direito, por falta de jurisdição interna-
cionalmente competente.»
E mais abaixo
«Vê-se que o n :' 4 .o do artigo 17 .° contém ; como dissemos, uma dis-
posição excepcional e subsidiária de competência . Pela aplicação das
regras normais de competência a acção não poderia ser proposta en1 tri
bunais portugueses ; é a necessidade extrema de não deixar o direito des-
protegido e desprovido de acção que faz capitular o legislador e o leva
a consentir que a acção seja submetida à jurisdição nacional .» (Breve
Estudo, 2 ` edição, págs . 40 a 4-2) .
0 sr. Dr. Machado Vilela, reconhecendo que a regra da alínea d) do
artigo 65 .° tem certa beleza moral, pois obedece ao pensamento de evitar
a denegação de justiça, considera-a juridicamente injustificável, nos ter
mos em que está formulada. Injustificável, porque a competência juris-
dicionall dos tribunais dum Estado só pode reputar-se legítima quando,
por um elemento de facto ou de direito, a relação jurídica de que emerge
a acção tem conexão com a jurisdição desse Estado . Não se compreende
que seja internacionalmente competente para julgar uma acção o tribunal
dum país, se a acção não emerge de relação jurídica que esteja em cone-
xão com a jurisdição desse país. Ora a regrada alínea d) não indica ele-
merrbo algum que ~si'rva de base à competência dos tri'bun'ais portugueses
e, portanto, nos termos em que está formulada, não é juridicamente
admissível .
Por outro lado, acha o eminente professor que a regra é 'desnecessár
ria. As bases da competência in~erniaciom'al adoptadias pelo Cód'i'go são
tão .'largas, que dificilmente poderá conceber-se que o sistema conduza a
uma denegação de justiça (Boletim cit . vol . 17.°, págs . 3'33 a 335) .
Que pode haver casos de denegação de justiça, já o mostrámos com
o exemplo acima figurado . A divergência de critérios em que assentam
os diferentes regimes legislativos de competência internacional pode, em
determinadas circunstâncias, coldcar os litigantes perante um beco sem
1.40 Livro II - Da competência e das garantia s da imparcialidade
saída, perante a situação anómala de não ser internacionalmente compe-
tente para a acção nenhuma das jurisdições com as quais ela se adia em
contacto.
É um caso extremo, em,que se compreende perfeitamente uma tran-
sigência legislativa . Não fica mal ao legislador abrir então uma brecha
nh seu sistema, a fim de permitir que por ela entrem os 'litigantes acossa-
dos e atribulados.
É inteiramente exacto como nota o sr . Dr. Vilela : a) que não faz
sentido admitir-se a competência internacional dos tribunais portugueses
quando a acção não tenha qualquer ponto, de contacto com a jurisdição
portuguesa ; b) que a alínea d) não indica qual deva ser esse ponto de
contacto. Mas se o não indica, pressupõe em todo o caso que ele exista .
Na verdade, quando se diz que o direito não pode tornar-se efectivo senão
1" meio de acção proposta- em tribunais portugueses, implicitamente se
ínculda que há-die existir qualquer razão para que a jurisdição portuguesa
seja posta em causa e essa razão não pode senão a circunstância de a
acção, por alguns dos seus elementos constitutivas, estar em conexão com
a. jurisdição portuguesa .
0 que sucede é que normalmente essa conexão não seria suficiente
para justificar a competência dos tribunais portugueses ; justifica-a, no
caso particular, pelo estado de necessidade, pela consideração de que o
direito :não há-de ficar sem garantia judiciária .
0 exemplo que apresentámos é suficientemente elucidativo . A acção
de reivindicação está em contacto com a jurisdição portuguesa por um
elemento subjectivo-serem portugueses os litigantes -e por um elemento
obj&,tivo-achar-se o réu :domiciliado em Portugal ; não obstante esta
conexão os tribunais portugueses seriam incompetentes, nos termos das
alíneas a) e b), visto que se trata de acção real sobre imóvel situado em
país estrangeiro . Intervém o princípio de necessidade para erigir a refe"
rida conexão em factor determinante da competência internacional .
A lei não driz qual deva ser a conexão existente entre ~a lide e a juris-
dição portuguesa? A conclusão a tirar é que qualquer conexdo'é suficiente,
uma vez que se mostra existir a razão de necessidade. Desde que a acção,
por algum dos seus el'e'men!tos constitutivos (subjectivos ou objectivos),
e boja em contacto com 'a jurisdição portuguesa e 'se verifique o princípio
de necessidade, a alínea d) funciona legalmente.
É esta também, afinal, a opinião do sr. Dr . Vilela, como se vê deste
passo :
<Sendo assim, somos de parecer que, mesmo na sua forma actual,
a dis~ição da -alínea d) dd a*igb 6'5 .° não deverá ser aplicada pelos tri-
lbunais se, no caso ocorrente, não existir algum elemento de facto ou de
direito pelo qual a causa esteja em conexão com a juridição portuguesa :
(jgo,letim, vol . 17.°, pág. 336) .
Que saibamos, a alínea d) já foi invocada três vezes nos tribunais
para fundamentar a competência internacional da jurisdição portuguesa .
Um cios casos foi aquele a que já nos referimos, a propósito da alínea b) :
o caso sobre que incidiu o acórdão do 'Supremo Tribunal de Justiça, já
Capítulo I3-Da competência internacional 14 1
citado, de 9 de Outubro de 194'2 . Para se demonstrar que a acção era da
competência dos tribunais portugueses, além de se al?'irmar que ó contrato,
base da acção, fora celebrado no Porto, alegava-se que, dada a situação
especial da França ocupada, o Fautor não tinha pos'sibil'idade de demandar
a ré perante a justiça francesa e que por isso se verificava o caso previsto
na alínea, d) do artigo 65 .° 0 acórdão repeliu, e bem, a aplicação desta
alínea, por constar oficialmente das 'autos ser possível promover a activi-
dade dos tribunais franceses da zona ocupada .
Outro caso foi decidido pelo acórdão do Supremo Tribunal de Jus-
tiça, de 30 de Junho de 1942 (Rev . de Leg., ano 75 .', pág . 286) . Tratava-se
também de uma acção de indemnização de perdas e danos proposta por
uma sociedade portuguesa contra urna sociedade comercial japonesa, por
falta de cumprimento de um contrato . Intentada a acção em Lisboa, a
ré arguiu a incompetência internacional dos tribunais portugueses, ale-
gando que não se verificava qualquer das circunstâncias previstas no
artigo 65 .o
Por parte da autora respondeu-se que os tribunais portugueses
tinham competência internacional :
1 .' Nos termos da alínea a) do artigo 65 .', porque, tendo a ré asse-
gurado à autora o exclusivo da venda dos seus produtos em Portugal,
infringira o contrato, vendendo a um outro comerciante português redes
da sua fabricação, e assim praticara em Portugal um facto ilícito, que a
constituía em responsabilidade para com a autora, responsabilidade que
podia ser exigida em tribunais portugueses, em vista da 2 .' parte do
6rtigo 74 ..° conjugada com a alínea a) do artigo 65 .' ;
2 .° Nos termos da alínea b) do mesmo artigo, porque a acção de
indemnização ideriv'ava directamente de factos praticados em berriteório
português, como 'eram o ~atrasd na entrega das mercadorias e serem os
produtos de qualidade 'inferior aos tipos ajustados ;
3 .° Nos termos da alínea d), porque o Japão se encontra em guerra
com vários Estados e não tinha, por isso a autora possibilidade de tornar
efectivos os seus direitos perante os tribunais japoneses .
0 acórdão afasta estas razões e considera . incompetentes os tribunais
portugueses. Afasta a 1 .', por não se mostrar que o facto ilícito-venda
das redes a outro comerciante -tenha sido praticado em Portugal'; afasta
a 2; .', porque o contrato, base da acção, fora celebrado no Japão e os factos
de que a autora se queixava- atraso no embarque das mercadorias e
inferior fabricação- a serem exactos, teri(am ~indo nh Japão ; afasta
finalmente a ,3 .', porque o estado de guerra entre o Japão e algumas potên-
cias estrangeiras, se poderia acarretar embaraços e dificuldades na pro-
posição de uma acção em tribunais japoneses, não tornava impossível
o exercício, no Japão, do direito de accionar, e seria necessário que tal
impossibilidade se verificasse para que pudesse invocar-se a alínea d) do
artigo 65 .o
Cremos que a decisão do lacórd'ão é correcta, em todas as suas partes.
Canvém frisar que a sociedade japonesa, ré nsa acção, não tinha em Por-
tugal agência nem qualquer espécie de representação ; e além disso que
142 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade
não se provou, nem sequer alegou, que a entrega das mercadorias devesse
ser feita pela vendedora em território português.
0 terceiro caso é o do acórdão da Relação de Lisboa, de 16 de Janeiro
de 1943, e do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 27 de Julho
de 1943, a que já nos referimos anteriormente : acção de investigação de
paternidade ilegítima, proposta. por dois filhos ilegítimos portugueses con-
tra réus brasileiros domiciliados no Brasil. Os acórdãos julgaram com-
petentes os tribunais portugueses, por força da alínea d) do artigo 65 .'
Argurnentaram assim : a acção não seria viável no Brasil, já porque se
fundava na ,pus'se de est'adb e a lei brasileira nãa. admite a investigação
de paternidade com tal fundamento, já porque os investigantes eram filhos
adulterinos e o Código Civil brasileiro nega a estes filhos o direito de
investigar a paternidade.
Aqui é mánifes~b que se fez errada aplicação da alínea d) : confun-
diu-se a questão de fundo ou mérito da causa com a questão de competên-
cia, . A. alínea d) nada tem com a questão de fundo, com a questão de saber
se o autor tem ou não o direito material que se arroga ; só entra em fun-
ção quando, supondo que o autor tem o direito substancial que se atribui,
precisa de recorrer aos tribunais portugueses para o tornar efectivo, isto
é, para o fazer r~hecer judicialmente, porque não encontra, à sus, dis-
posição, nenhuma jurisdição competente .
Pilão era evidentemente o caso . Se a lei- brasileira não admitia a
'investigação no caso particular de que se tratava, seguia ise que, perante
essa lei, os autores não tinham o direito substantivo que se arrogavam,
e não que a jurisdição brasileira não fosse competente para a acção de
nvestigação referida (Rev . de Leg ., ano 76.', págs. 148 e 244) . São coisas
completamente diferentes : não ter direita, ou tê-lo mas não poder torná-lo
efectivo em juízo . A impossibilidade de efectivação pode resultar : a) ou
ele a própria lei substancial negar a acção judiciária ; b) ou de não haver
tribunal competente para a acção respectiva . A alínea d) do artigo 65 .°
relaciona-se com esta última hipótese.
No Instituto da Conferência da Ordem -dos Advogados pôs-se a ques-
tão de saber se, em face da alínea d), os tribunais portugueses seriam
competentes para decretar, a requerimento duma firma inglesá, o arresto
de dois navios duma companhia alemã, surtos num porto de Angola .
A 'firma 'ingles'a era credora 'dia c'ompanh'ia alemã, dona dos navios ; não
podia propor a iacção doe divida na Alemanha, dado o estado de guerra ; se
a propusesse na Inglaterra e obtivesse sentença favorável, não a podia
executar na Alemanha ; logo, concluía-se .verificava-se o caso da alínea a) :
o direito só poderia tornar-se efectivo por meio de acção proposta em tri-
bunais portugueses, uma vez que se encontravam em território português
bens -da companhia devedora sobre os quais a sentença podia ser dada
à execução .
Não foi esta, porém, a opinião que prevaleceu . A maioria foi de
parecer que a competência internacional dos tribunais portugueses não
podia, no caso concreto, justificar-se mediante a aplicação da alínea d) .
Capítulo II-Da competência internacional 143
Para que fosse legítima a invocação desta disposição seria necessário :
á) que existisse um laço,de conexão entre o direito do Autor e um ele-
mento jurídico português ; b) que se verificasse a impossibilidade jurídica,
e não só prática, de propor a acção noutro país (Relatório do sr, Dr. Gentil
na Rev. da, Ordem dos Advogados, ano 1 .", n ." 1, pág. 30) .
Aplhudimos a solução. Quãnto aos fundamentas em que se baseou,
algumáb observações nos ocorrem .
É claro que os tribunais portugueses não seriam, em circunstâncias
normais, competentes para o arresto dos navios alemães, visto que a
competência para o arresto determina-se pela competência para a acção
de: que o arresto é , acto preparatório (art . 83:°, alínea d) e nem por virtude .
da :alíneas a) do artigo f5 .°, nem por virtude da alínea b) do mesmo artigo
a acção de dívidá confra a companhia alemã, por parte dá firma inglesa,
-poderia ser proposta em Portugal, certo que a dívida não tinha sido con-
traída ena Portugal nem a devedora tinha aqui qualquer agência ou repre-
sentação social.
Resta saber se o estado de guerra entre a Inglaterra e a Alemanha
seria suficiente para fazer funcionar a alínea d) do artigo 65 .°
Cremos que não.
Para que a disposição se aplique, diz o relatório, são necessários
dois requfisi'tas :
1 .* Que exista um laço de conexão entre o direito do autor e um
elemento jurídico português, ou melhor, como -já explicámos, que a acção,
por algum dos seus elementos constitutivos, esteja em conexão com a
jurisdição portuguesa ;
2 .' !Que se verifique a impossibilidade jurídica, e não ìznicamente
a impossibilidade prática, de propor a acção noutro país .
Podemos condensar os dois requisitos numa fórmula : é necessário
que, das várias jurisdições com, as quais a. acção está, pelos seus elementos,
em, contacto, só haja acesso à jurisdição portuguesa.
0 que sucedia na hipótese? 'Sucedia : a) que a acção não tinha
conexão alguma com a jurisdição portuguesa ; b) que ao autor não estava
vedado o acesso à~ outras jurisdições com as quais a acção estava em
contacto .
Com efeito, não se mostrava que, por qualquer dos seus elementos,
subjectivos ou objectivos, a lide tivesse qualquer ponto de contacto com
ia ju~ção p'ortu'guesa. AW pa*es eram estrangeiras ; o acto jurídico de
que 'a acção emergia, fora praticado fora de Portugal ; a obrigação não
tinha de aer'cumprida em território português ; 'a acçãõ não dizia. respeito
a bens existentes em Portugal. A simples circunstância de se encontra~
rera em porto português dois navios pertencentes à devedora não era sufi-
ciente para estabelecer um traço .de união entre a acção de dívida e a jurisdi-
ção portuguesa, pois que a acção, em si, nada tinha que ver com os navios .
Tanto quanto nos é dado conjecturar, a lide estava, pelos seus ele-
mentos, subjectivos e objectivos, em conexão com duas jurisdições-
a inglesa e ia mleRnã.. :Fede lasseverar-se que à au$dra. estava fechadiv o
acesso a essas duas jurisdições?
14 "l Livro II-Da competência e das garantias da imparcialidade
A alemã talvez ; à inglesa não, segundo parece. 0 que se ponderava
era que a instauração dum processo na Inglaterra daria satisfação pura-
mente platónica, visto a devedora não possuir aí bens e não se poder
obter a execução, na Alemanha, de sentença inglesa favorável à autora .
É claro* que isto não era suficiente para justificar a invocação da alínea d') .
O que esta alínea exige é que se mostre a impossibilidade de propor a
acção noutro país ; o que se alegava era a impossibilidade de obter a exe-
cução de sentença que .s e obtivesse na Inglaterra .
Portanto, dos dois requisitos apontados no relatório nenhuns se vexi-
ficava. . Se realmente a acção podia ser proposta na Inglaterra, faltava
o segunde requisito ; ~,se não tainha ; conexão al'gum'a com a jurisdição pbrtu-
gueaa, como parece, faltava o primeiro,
0 caminho que estava naturalmente indicado era este : a firma inglesa
propunha a acção na Inglaterra, se a lei inglesa a isso a autorizava, justi-
ficava aí a necessidade do arresto dos navios surtos em porto português,
obtinha sentença que o declarasse e executava essa sentença em Portugal,
depois de revista e confirmada.
Resta frisar um ponto. Observou-se, no Instituto da Conferência,
que não basta a impossibilidade prática de propor a acção noutro país, é
necessária a impossibilidade jurídica. Parece-no$ preferível a doutrina
do acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, de 30 de Junho de 1942, a
que fizemos referência . Não basta que haja grande dificuldade em propor
a acção .no país coma jurisdição doo qual a lide esto em conexão ; é necès-
sário que haja verdadeira impossibilidade. Que esta seja jurídica ou
prática., pouco Importa .
Como já assinalámos, as alíneas a) e b) do artigo 65 .*, completada
a primeira com os §§ 1 .° e 2 . 0 , é que estabelecem o regime normal de
competência'internacional dos tribunais portugueses ; as alíneas c) e d)
formulam princípios subszdiámios e extraordinários de competência, um
em homenagem ao conceito de reciprocidade, outro em obediência à razão
de necessidade.
Pode dar-se o caso de para uma determinada acção ser competente
a jurisdição portuguesa e ser, ao mesmo tempo, competente uma juris-
dição estrangeira, segundo a lei do respectivo país.
Obstará essa circunstância a que os tribunais portugueses exerçam
o seu poder jurisdicional? Poderá o tribunal português abster=se de jul-
gar se o - -réu alegar e demonstrar a competência do tribunal estrangeiro?
0 sr . Dr. Machado Vilela, que põe a questão, resolve-a em sentido
negaitivo. Concordamos inteiramente com o p~cer db ilustre professor ;
julgamos absolutamente decisivas as suas razões (Boletim, vol . 1'S .°, pág. 27) .
Execuções. Pode perguntar-se se o disposto no artigo 65 . 1 é aplicável
às execuções e em que termos .
0 problema s6 tem interesse no que respeita às execuções baseadas
em título diverso de sentença . Se o título executivo é uma sentença, não
Capítulo II-Da competência internacional 1'45
há dificuldade de solução . Ou a sentença foi proferida por tribunal por-
tuguês ou . por árbitros em Portugal, bu foi proferida por tribunal estran-
geiro ou por árbitros em país estrangeiro . No 1 .° caso não pode por-se
em dúvida a competência internacional dos tribunais portugueses para
a execuçã(> ; no 2 .° caso a decisão só pode ser .executada depois de revista
e confirmada (arts. 50 .° 'e 11 .00 .°), mas desde que obtenha a confirmação,
é claro que pode ser dada à execução em Portugal.
Quando a execução se funde em título extrajurisdicional, surge a ques-
tão : em que casos têm os tribunais portugueses competência internacional?
Uma coils'a nos parece certa : que os tribunais portugueses são compe-
tentes se a execução dever ser promovida em Portugal segundo as regras
de competência territorial do artigo 9'4.°, isto é, se o executado tiver o domi-
cílio em Portugal, tratando-se -de execução para pagamento de quantia certa,
se! a coisa se encontrar em Portugal, tratando-sé de execução para entrega
de coisa certa, se o facto houver de ser prestado em território português,
tratando--se de execução para prestação de facto, devendo ainda ter-se em
conta, subsidilàriam'ente, as disposições dos §§ 1 .° e 2 .° do artigo 94 .°
A alínea a) do artigo 6'5.°, embora fale de «acção proposta» e esta
terminologia se ajuste com mais propriedade à acção declarativa, não pode
deixar de considerar-se como uma regra comum às acções pròpriamente
ditas e às execuções (sr. Dr. Machado Vilela, Boletim cit, vol . 17'.°, pás. 517,
nota) . 'Com efeito, o artigo 65 .° é o desenvolvimento da 1 .° parte do
artigo 62.0 e este texto irysere uma disposição geral sobre competência,
o que equivale a dizer uma disposição aplicável tanto àls acções como às
execuções .
Resta saber se as outras alíneas do artigo 65 .° terão o mesmo canepo
de aplicação .
A resposta está contida no que acabamos de expor. Se o ;artigo 65 .°
formula regras de carácter geral e comum, tem de concluir~se que é lícito
aplica-las às execuções, até onde a aplicação seja possível . A alínea b)
poderá ser invocada quando a execução se basear em título exarado em
Portugal. ; 'a alínea e), quando a execução seja promovida por um portu-
guês çontra um estra:ngeirro e, em circunstâncias idênticas, o português
pudesse ser executado pelo estrangeiro nos tribunais do seu país ; a alí-
nea d), quando a execução só seja possível em Portugal .
Bera consideradas as coisas, a instauração da execução perante as
tribunais; portugueses só oferece verdadeira utilidade, só dá garantias com-
pletas quando o executado tenha em Portugal bens suficientes para, à
custa del-es, se dar satisfação ao direito do exequente . Se todo o patri-
mónio do executado estiver em país estrangeiro e não se tratar dei dívida
garantida por hipoteca constituída por terceiro sobre bens situados em
Portugal, a execução só dará resultado se o executado quiser cumprir a
obrigação ou se as jurisdições estrangeiras do''lugar da situação dos bens
derem cumprimento à;", cartas rogatórias expedidas pelo tribunal portu-
guês para -a penhora e venda dos béns do devedor . Mais prático será
então promover a execução, sendo possível, nos tribunais do país em que
se encontrem os bens .
10 = CÓDIGO DE PROCR9f30 CIVIL
14 6 Livro .l1- Da competência e das garantias cla impa~rcialídade
CAPÍTULO 111
Da competência interna
SECÇÃO I
Competência em razão da matéria
Awrioo 66 .°
(Competência do tribunal comum)
As causas que não forem atribuídas pela lei a alguma juris-
ddição especial 'são da competência do tribunal comum .
Os artigos 66 .° a 72 .° não fixam, de modo completo, a competência
interna dos tribunais comuns sob o ponto de vista da matéria, do valor e da
hierarquia . Entendeu-se que era ao Estatuto Judiciário que cumpria regu
lar esse assun o, .como de facto regula nos artigos '53 .° (Supr!e¢no Tribunal
de Justiça), 56.° (Relações), ~58 ." (juízes de direito), 76 .o (juízes¡-municipais)
e 80 .° (juízes de paz) .
No que respeita à competência interna o que se tem considê~rado
pertença do Código de Processo Civil é a fixação da competência territorial,
de que o novo Código se ocupa desenvolvidamente nos artigos 73'.° e seguin
tbes. 0 resto - competência em razão da matéria, do valor e da hieraT-
quia - é objecto próprio das leis de organização judicial, e por isso está
bem colocado no Estatuto Judiciário .
0 que se quis, com os artigos 66 .° a 72 .°, foi: traçar as linhas funda-
mentais do novo sistema de competência, em que os oonc<èito ' e .a termi-
nologia aparecem sensivelmente alterados . 0 quadro da competência
interna não ficaria compreensível se, além das disposições sobre compe-
tência territorial, o Código não inserisse algumas regras essenciais sobre
competência em razão da matéria, do valor e da hierarquia, que dessem a
conhecer o lugar que cada uma dessas espécies ocupa no novo plano -legis-
lativo.
Segundo o Código de 1876 todo o sistema de competência assentava
na distinção entre regras de competência , em razão da matéria e regras , de
competência em razão das pessoas ; era o que se depreendia do n .° 1° do
artigo 3 .° E a competência em razão da matéria abrangia não só as dis-
posições ditadas pela matéria ou objecto da . acção, como também as dita-
das pelo valor da causa e perla +hierarquia judiciária, ficando para a
competência em razão das pessoas sòmente as regras de competência
territorial.
Capítulo III- Da competência interna 147
É outro o novo sistema de competência . Do artigo 101.o se conclui
que a distinção fundamental a estabelecer agora é entre competência abso-
luta e competência relativa. A competência absoluta é a que deriva da
observância das regras de competência internacional e das regras de com-
petência interna em razão da matéria e da hierarquia ; a competência rela-
tiva é a que deriva das regras de competência em razão do valor e do
território . O tribunal tem competência absoluta se pode conhecer da
cau§a por força do artigo 6ã .o e em atenção à matéria da acção e à hierar-
quia judicial; posto que não possa conhecer dela em razão do valor ou do
território ; se o tribunal pode conhecer da causa, mesmo em atenção ao
valor e ao território, além de competência absoluta terá competência
relativa.
Adoptou-se, nas últimas revisões do Projecto, a designação «tribu-
nal de comarca», em vez de ajuízo de direito», que lhe, corresponde, por
se entender que aquela. é mais expressiva e menos equívoca.
ARTiGO 67.0
(Qual é o tribunal comum. Plenitude de jurisdição
do tribunal de comarca)
O tribunal comum é o civil. A plenitude da jurisdição civil
pertence, em primeira instância, ao tribunal de comarca,
Veja-se a anotação ao artigo 62.°
Na averiguação da competência interna aparece-nos em primeiro
lugar, como vimos, o ;problema -da determinação da espécie do tribunal,
problema que pràticamente se apresenta, assim : saber se a acção há-de
ser proposta 'no tribunal comum ou perante algum tribunal especial.
As regras de competência que nos permitem resolver este problema são
regras de competência em razão da matéria, porque é em atenção à¡ maté-
ria da lide, aio acto cu facto jurídico de que a acção emerge, que a lei
manda sujeitá-la 'ao tribunal comum ou a determinado tribunal especial .
O artigo 66.° dá-nos o critério geral de orientação para a solução do
problema. Se pertencem ao tribunal comum as causas que não forrem
atribuídas pela lei a alguma jurisdição especial segue-se que, em face
de determinada acção, o quensito a formular, por parte de quem pretenda
averiguar a espécie do tribunal, é este : haverá disposição de lei que
submeta ;a acção de que se trata à competência dalgum tribunal especial?
Se há, a acção terá de ser levada para esse tribunal ; no caso contrá-
mio, é da competência do tribunal comum . De modo que, como já notámos,
a competência do foro comum determina-se por exclusão de .partes .
São muitos e variados os tribunais especiais existentes em Portugal.
Não nos propomos apresentar o quadro completo e muito menos estudar
-a competência de cada um deles. Limitamo-nos a mencionar os seguintes :
tribunais criminais, ttibunais do contencioso administrativo, tribunais do
14 8 Livro II - Da competência e das garantias da imparcialidade
trabalho, tribunais da infância, tribunais do contencioso das contribui(c~es
e impostos, tribunais das execuções fiscais, capitanias dos portos, direcção
geral do comércio e indústria (propriedade industrial), contencioso técnico
aduaneiro .
O tribunal comum é o tribunal civil, constituído pelos seguintes graus
hierárquicos de- jurisdição :
a) Supremo Tribunal de Justiça ;
b) Relações ;
c,) , Tribunais de comarca ;
d) Tribunais municipais.
Veja-se a anotação ao artigo 115 .°
G artigo 116 .° da Constituição Política classifica os tribunais em
ordinários e especiais ; e depois de mencionar os três graus normais de
jurisdição (Supremo Tribunal de Justiça, tribunais de 2 ." instância tri
bunais de 1 ." instância nas comarcas) acrescenta que pode a lei admitir
juízas municipais de competência limitada, em julgados compreendidos nas
comarcas, e que são mantidos os juízos de paz .
Como se vê, os tribunais ordinários, de que fala a Constituição,
correspondem ao's tribunais comuns a que se referem os artigos 66 .° e'67 ."
cio Código . A expressão. «tribunal comum» pareceu preferível à expressão
«tribunais ordinários» . Desde que esta classe de tribunais se contrapõe à
dos tribunais especiais, a designação «tribunal comum» tem a vantagem
de exprimir com mais nitidez a ideia de jurisdição-regra, destinada a
operar em confronto com as jurisdições-excepcionais, isto é, a conhecer
da massa geral das causas, de todas aquelas que, por disposição expressa.
d e lei, não entrem na esfera de competência dalgum tribunal especial .
Chiovenda, seguindo na esteira de alguns escritores alemães, como
Wach Kohler e Hellwig, sustentou na Itália a doutrina'de que o poder
jurisdicional do tribunal comum é de natureza diversa do dos tribunais
especiais : a capacidade jurisdicional dos tribunais comuns é plena e ilimi,
tada, o que sofre limites é a sua capacidade de exercício ; pelo contrário, .
os limites postos pela lei à actividade dos tribunais especiais não . são
únicamente limites de exercício, são limites de poder ou de capacidade
potencial .
Quer dizer, o tribunal comum, . considerado no conjunto, dos seus
órgãos, tem a plenitude da jurisdição, tem capacidade de gozo ou capaci-
dade potencial para conhecer de todas as causas, embora a sua capacidade
de exercício sofra restrições e limiteis, em consequência da instituição de
tribunais especiais ; quanto aos tribunais especiais, a capacidade de gozo
ou potencial coincide com a capacidade de exercício, a sua jurisdição con-
fundese com a 5ua competência : não têm poder jurisdicional senão a
respeito das causas que a lei submete ao seu conhecimento .
Esta diversidade de poder jurisdicional traduz~ numa consequência
prática importante : se o tribunal comum exorbitar, conhecendo de causa
que está fora da sua competência, porque é atribuída por lei ~a um tribu
nal especial, estamos em presença dpma incompetência em razão da mate-
Capitulo III -Da competência interna 14'9
ria; se o excesso for cometido por um tribunal especial, isto é, se- este
conhecer , de causa que pertence a outro tribunal especial ou ao tribunal
comum, estamos em face duma falta absoluta, de jurisdição . Daí vem geie
no 1 .° caso, se a i