0 notas0% acharam este documento útil (0 voto) 1K visualizações8 páginasTeoria Prática Do Roteiro
Guia para escritores de cinema e televisão
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David Howard
e Edward Mabley
TEORIA E PRATICA DO
ROTEWRO
Um guia para escritores
de cinema e televisao
a
Com andlises de
16 filmes famosos
.
Tradugdo: Beth Vieira
34 EdigaoZz
ADAPTACAO
a
A genie percebe, com muita fregiténcia, que os bons livros
nem sempre dao bons filmes. Em geral € um erro tentar con-
servar as quatidades literarias da obra.
WALTER BERNSTEIN
Ha cerlas coisas que 0 cinema faz maravilhosamente bem,
os romances nao. Os filmes tem um elemento narrativo
espléndido: tamanbo e aleance. Sao formas totalmente dife-
ventes. A tinica semethanca 6 que, quase sempre, ambas
usam didlogo, De resto, a maneira de lidar com uma cena
mum filme ¢ a maneira de lidar com uma cena num tere nao
tém nada a ver uma com a outra.
WILLIAM GOLDMAN
um filme, a historia pode ser adaptada de varias fontes.
Pecas, romances, contos, experiéncias da vida real e até
mesmo poemas e miisicas ja foram adaptados para a
tela. A primeira vista, pode até parecer um trabalho mais facil
do que desenvolver uma historia totalmente inédita. Entretanto,
adaptar uma hist6ria tirada de outra fonte em geral exige mais
habilidade ¢ maior compreensao do veiculo cinematogr
do que criar uma historia nova. SAO pouquissimas as historias
criadas. pd
‘fico
a um outro veiculo, ou as historias reais, que se
prestam imediata ¢ facilmente as necessidades de um roteiro
cinematografico. Todos nos ja Ouvimos falar no termo “licenga
dramatica”, ou licenca poética, que vem da necessidade de
alterar, simplificar, comprimir ou climinar material para que o
drama funcione. ‘fodos nos tambem ja tivemos a oportunidade
de assistir a um filme baseado num fato real, ainda vivo na
memoria, ¢ de pensar: “Mas nao foi assirn
MENTOS GERAIS) M37
Essas discrepancias nao significam, necessariamente,
incompeténcia do roteirista; talvez a licenga fosse a Gnica
maneira de resolver os problemas draméaticos. A vida das pes-
soas de carne e osso muito raramente se encaixa numa estru-
tura em trés atos, Os romances em geral tém material em exces
so, as vezes nao sao muito visuais OU entao sao demasiadamen-
te intimistas. Quanto as pecas, elas foram escritas para as limi-
tagdes do palco e, para se tornarem mais cinematograf
cisam da camera como narrador, precisam expandir-se para
além dos poucos cenarios ¢ dramatizar acdes apenas aludidas
na pega. Nos contos, em geral falta um primeiro ato completo
e as vezes nao ha material suficiente ou, como nos romances
sao intimistas demais ou entéo pouco visuais. Poemas € can-
cOes quase sempre sao muito esquematicos para serem algo
mais do que um ponto de partida para o roteirista.
Assim que 0 escritor comeca a adaptar uma hist6ria tira-
da de outra fonte, surge a pergunta: até onde se pode ¢ se deve
ser fiel Aquela fonte? As vezes a mais fiel das adaptagoes faz 0
pior dos filmes, porque 0 material nao se presta a uma historia
filmada e, na forma como esta escrito, nao funciona na tela, por
mais forte que seja a historia no original. Em geral, ¢ na tela
certamente, o drama exige compressao intensificacao. Como
diz o ditado antigo, “ficgao é fofoca, drama é escandalo”, Os:
dois sao a mesma coisa, exceto que o escdndalo € mais inten-
so e€ se espalha feito fogo, ao passo que a fofoca vai serpen-
teando aqui ¢ acola e dura mais tempo. Fatos que num roman-
ce ou na vida real duram meses, ou até anos, funcionam muito
melhor num filme se acontecerem todos no mesmo dia. Mas
quando a gente se vé diante de uma histéria impressa, ou dos
fatos reais sobre como, exatamente, algo aconteceu, existe 4
tendéncia natural de seguir os fatos Ou a pagina impressa — as
custas do drama, Quem escreve uma adaptagao tem de contra
balancar constantemente esses dois lados: a fidelidade a fonte
original e a necessidade dramatica de intensidade e compres-
sao — questées dificeis por natureza
Para 0 roleirista iniciante, portanto, G provavel que a
adaptacao seja mais um empecilho do que uma muleta. Ao
mesmo tempo, pode vir a ser um desafio agradavel para um
nas, pre-38 MC TEORIA E PRATICA DO ROTEIRO
bom roteirista, para alguém que saiba o que procurar, 0 que
conservar e quando. Mais: por que e como alterar o material
original, tudo para que 0 drama funcione na tela. O adaptador
experiente procura sob a superficie dos fatos o drama subja-
cente, descobre meios de juntar elementos dispares de modo
que se encaixem tematica ¢ dramaticamente com o restante da
histdria e, ao Mesmo tempo, tenta se manter fiel ao espirito da
histéria original.
Outro grande obstaculo na adaptagao € traduzir a voz do
narrador. Nao existe, em cinema, um equivalente exato do nar-
rador de um livro, quer este seja escrito na primeira ou na ter
ceira pessoa. Entretanto, em alguns dos melhores romanc
a
comunicacao direta entre autor e leitor € 0 aspecto mais inte-
ressante da obra. O autor de um livro pode entrar em digres-
sdes filosoficas, psicolégicas, pessoais, pode falar de algo
regional, fazer trocadilhos, exercer toda aquela magia da lin-
gua, impossivel de se transpor para a tela da mesma forma. S40
esses aspe z% do autor que podem frustrar as tentati-
vas de adaptacao até dos melhores roteiristas, e pelos mesmos
motivos que seduziram 0 leitor: o autor esta provocando a ima-
ginagdo do leitor de um jeito que © filme nao consegue fazer.
O que é mostrado na tela é “real” para o espectador; os atores
sdo as personagens, os lugares ¢ fatos parecem tao reais quan-
to © cineasta consegue fazé-los parecerem reais. JA o leitor
evoca imagens de pessoas, lugares ¢ fatos que cle proprio tem
na mente e encanta-se com os apartes e reflexOes do autor.
Essa evocacao imaginosa e esse vagar sem pressa pela mente
de quem conta a historia sao impossiveis num filme porque,
necessariamente, o filme tem de expor manifestacdes visuai:
enquanto o livro usa a imaginacao do leitor.
E melhor, portanto, que o roteirista iniciante adquira um
certo dominio dos recursos de sua arte enquanto busca uma
hist6ria que possa ser prontamente mudada, desenvolvida ¢
enfatizada para obter impacto dramatico maximo. A partir do
momento em que © roteirista ja possua um certo grau de refi-
namento no trato com as ferramentas discutidas em detalhes
neste livro, uma adaptagdo se torna um esforgo compensador.EXTERNAR
O QUE & INTERNO
O que conta ndo é 0 que estd na pagina e sim o que esta na
tela, mesmo para o escritor,
‘TOM RICKMAN
Vocé tem de interpretar 0 momento, escrever 0 momenio da
forma mais completa possivel. Se fizer isso com verdade e
bonestidade ¢ a situacao dramatica for boa, funciona,
WALTER BERNSTEIN
oria dos filmes traz conflitos internos
como em geral a1
© externos — ainda que em diferentes proporgoes — 0
roteirista esta sempre as voltas com o problema de mos-
trar o que vai por dentro do personagem. Se nao tivéssemos
uma janela aberta para a vida interior delas — para alegrias €
tormentos, para aspiragdes, desejos e medos ocultos — as histo-
rias ficariam muito rasas e chatas. Claro que é muito mais facil
mostrar Ss coisas quando existe um personagem que se
opoe ativamente aos esforgos de outro. Infelizmente, nem sem-
pre essa oposicao existe. O escritor principiante costuma partir
para 0 didlogo a fim de preencher 0 vazio, mas nem sempre a
solugao & satisfatoria. No fim, acaba com um punhado de per-
sonagens que falam aberta ¢ honestamente sobre seus senti-
mentos; 6 tinico drama é quando o ptblico desembesta rumo a
saida do cinema.
FE muito melhor dar ao espectador um gostinho da vida
interior do personagem através de agdes. Uma dessas agdes &
falar, mas © didlogo sO carrega parte do fardo, Se um persona-62 ME TEORIA FE PRATICA DO ROTEIRO
gem diz: “Estou muito bravo com voce”, a frase é meio fraca e
pode nem ser verdadeira. Se esse personagem agarra o outro
pelo colarinho e joga o fulano contra a parede, em geral da
para se ter uma idéia do que vai pelo interior do primeiro sem
© apoio do didlogo. Encontrar ages que revelem emocoes
interiores complexas € uma das tarefas mais dificeis que um
roteirista enfrenta, mas é ai que esta a diferenca entre uma his-
toria que funciona ¢ outra que so fala em funcionar, Em Noivo
Neurotico, Noiva Nervosa (Annie Hal), um dos momentos mais:
felizes de Alvy e Annie acontece quando eles estaio tentando
cozinhar lagosta. Depois que os dois brigam, Alvy tenta fazcr a
mesma coisa com outra mulher. E uma cena que dramatiza
aquilo de que ele sente falta, 0 que ele deseja reaver. E quan-
do comega a dar tudo errado, revela um bocado de coisas
sobre 0 estado de Alvy. O dialogo, embora presente nas duas
cenas, na verdade nao é necessirio para se compreender as
5, 08 personagens c o resultado.
Mesmo quando usado, nem sempre o didlogo diz exata-
mente aquilo que parece estar dizendo. Ao vermos um perso-
nagem esgucirando-se para perto de outro com uma faca de
cozinha escondida nas costas, ao mesmo tempo em que faz
juras de amor eterno pela pessoa, vamos acreditar em que — no
dialogo ou na agao? Na verdade, a justaposicao de didlogos ¢
acoes, muitas vezes desencontrados, nos da o retrato mais niti-
do que se pode ter do mundo interior de um personagem
Quando algum deles mente para outro, € nds sabemos qual €
a verdade, aprendemos mais uma coisa sobre o mundo interior
do personagem mentiros
acrescida de como © para quem foi dita a mentira. Em geral
conseguimos ter uma idéia das razOes que levaram 0 persona-
gem a mentir, € isso funciona mais Ou menos como um instan-
taneo de suas motivagdes, um atalho mais curto para a vida
interior daquela pessoa.
© uso do que parece estar ocorrendo entre dois perso-
nagens € 0 que de fato esta acontecendo chama-se subtexto. O
exemplo mais claro de subtexto surge quando um personagem
mente a respeito de algo, enquanto nds, espectadores, sabe-
mos a verdade, embora 0 subtexto seja bem mais complicado
ace
ss a verdade que ja conheciamos
PRINCIPIOS BASICOS DA ROTEIRIZACAO «M63
que isso. Quando Isa aponta um revélver para Rick, em
Casablanca, tentando forga-lo a entregar-lhe os vistos de via-
gem, trata-se, na superficie, de um ato de hostilidade e agres-
sido, Entretanto, porque nds a conhecemos, porque sabemos
das circunstancias € vemos a mancira como ela age, somos
capazes de perceber 0 que vai sob as aparéncias: seu amor por
Rick, sua admiracao/amor por Victor, seu desejo de pedir per-
dao pelo que houve em Paris.
Revelando ao espectador, com todo o cuidado, trechos de
informagao, mostrando 0 que alguns personagens sabem que
outros nao sabem, levando-nos a ver uma determinada agao
sob uma luz complexa e escolhendo com critério a forma de
revelar os dados na tela — isso tanto para os personagens quan-
to para 0 puiblico — 0 roteitista habilidoso é capaz de construir
uma cena rica em subtexto, O subtexto, aleém de enriquecer a
cena e revelar muita coisa a respeito dos personagens e de
como clas jogam com aquilo que sabem, também aumenta
grandemente © prazer e a participagao do publico na historia.
© ptblico se esforga para entender tudo que esta acontecendo
e, quando capta a natureza do subtexto, sente-se participative
e compreende a vida interior dos personagens de forma muito
mais completaO TEMPO E
O ROTETRISTA
Tente reduzir a moldura temporal ao minimo permitido pela
historia.
RING LARDNER JR
Nao ponba historia demats no tempo de que dispoe.
TOM RICKMAN
um filme, existem trés tipos de tempo: o tempo real, O
tempo filmico (screen time) e a moldura temporal (time
frame). O tempo real € 0 tempo que uma agao leva
para se completar — os quatro minutos que um atleta interna-
Gional gasta para percorrer uma corrida de milha, O tempo fil-
mico € 0 tempo que leva para mostrar a agao ao pablico — tal-
vez, os primeiros trinta segundos da corrida, depois mais uns
dez segundos na metade ¢ os quinze segundos finais, monta-
dos com tomadas de algum fa significative aplaudindo — num
total de um minuto de filme. A moldura temporal € 0 prazo de
conclusao ou o final de uma agio que 0 publico é capaz de
antecipar, no caso da corrida, a linha de chegada € © momen-
to para o qual todos sabemos que a compelicao esta Conver
gindo, quando entao estara encerrada a ago. ;
A maioria das cenas transcorre em tempo real; ou seja, as
acdes que vemos na tela levariam 6 mesmo tempo para serem
completadas se nds as estivéssemos executando em casa
Como estamos testemunhando agdes de pessoas em circuns-
tincias (subjetivamente) realistas e participando de suas acoe
variacdes muito grandes no tempo real normalmente destoam
PRINCIPIOS BASICOS DA RO’
IZACAO
Mas sempre se pode cortar um pouquinho do tempo sem pre-
judicar a cena. [sto chama-se edipse, o ato de saltar periodos
pequenos ou grandes de tempo sem tirar o ptiblico de seu
sonho ininterrupto. Por exemplo, da para fazer uma elipse no
tempo que uma pessoa leva de fato para calgar meias e sapa-
tos. Alias, se nos nao encurtarmos o tempo gasto de fato nessa
40, 0 pliblico comeca a se impacientar, Do mesmo modo, se
© personagem corre perigo de ser pego, de ser descoberto, ou
algo do género, na verdade pode-se até prolongar o tempo
para além do que seria realista esperar do ato de calgar as
meias € enfiar os sapatos. Isto chama-se elaboracdo.
Podemos ver exemplos tanto da elipse quanto da elabo-
racao na cena final de Chinatown. Quando Evelyn esta prestes
4 escapar com a filha, ela entra no carro, 0 motor ronca e 6
carro sai. Houve uma pequena clipse do tempo real — gasto
com pegar a chave do carro e ligar o motor. Depois que a poli-
cia atira e 0 carro para, com a buvina disparada, todos os
demais personagens correm na direcao do automovel, Quando
cortamos para um plano proximo ao carto, cles ainda estao
correndo, mas continuam muito distantes do veiculo. Enquanto:
isso, estamos ansiosos para saber oO que houve © para acabar
com o barulho horrendo da buzina. O tempo real foi elabora-
do em funcgao do impacto dramatico, As vezes usa-se camera
lenta pelos mesmos motivos, para prolongar a vivéncia de um
momento importante.
O tempo filmico e 6 tempo real, portanto, nao sao neces-
riamente O mesmo, Muito roteirista iniciante “empa
tempo real”. Quer dizer, o personagem levanta, atrave:
aposento, destranca a porta, tranca depois de sair, vai até o
carro, desiranca, entra no carro, poe a Chave no contato,.. Ha
muito que se instalou o tédio, a menos que todas essas agoes:
tenham novos significados ou conflitos proprios. A corrida de
milha, de quatro minutos de duragao real e retratada em um
minuto, é exemplo dessa diferenga, mesmo dentro de uma
cena, Se a competic¢do é 0 ponto alto da histéria toda, se é 0
momento para 0 qual o filme inteiro vem se preparando, entao
podemos perfeitamente decidir que sera rodado em quatro
minutos ou quase. Se é uma corrida que alguém tem de ven-68 MM TEORIA E PRATICA DO ROTEIRO
cer ou perder para que a historia continue a se desenvolver, qua-
tro minutos é muita coisa para que o pUblico mantenha a tensao
sem que enuem em cena novas agdes € informagoes. Por tudo
isso torna-se necessario cortar parte do tempo teal e, simultanea-
mente, fazer 0 espectador acreditar que viu a cena toda.
Muitas vezes faz-se uma elipse desse tipo usando uma
acdo paralela, algo que esteja acontecendo em outro lugar ao
mesmo tempo. Por exemplo, 0 pai do atleta esta na arquiban-
cada, mas tem problemas cardiacos. Com a tensao € as emogoes
da corrida, ele cai e a mae € obrigada a ignorar a competicao
por uns momentos, mas no final descobre que 6 marido apenas.
escorregou da cadeira, Até os dois se ajcitarem de novo, a cor
rida j4 esta acabando e todas as atencoes voltam-se, de novo,
para a linha de chegada. O espectador nao vai notar a elipse;
ele foi distraido o suficiente para aceitar que os quatro minutos
tenham sido retratados em um minuto e meio ou dois. Um
outro jeito de fazer uma eclipse dentro de uma cena é dar ao
publico algo diferente para olhar, tirar a atengao do espectador
da cena que esta sendo encurtada. Se quisermos fazer um Ovo
quente numa cena de um minuto, sendo que 6 ovo leva trés
para cozinhar, € preciso desviar a atencao do publico da agua
fervente e do relogio. O personagem que cozinha 0 ovo tem de
interagir significativamente com outra ou fazer alguma coisa —
por exemplo cortar 0 dedo ao picar cebolas ~ que ajude a
a ponte entre 0 tempo real e o tempo filmico, para que 0 tempo
encurtado se parega com o tempo real
Grande parte das elipses acontece entre cenas. Um perso
nagem que esta de partida para Nova York pode sair de uma
cena em Chicago e entrar na proxima em Nova York. Pode-se
recorrer a Montagens, OU a recursos Olicos tais Como fade out,
fade in e fusdes, para fazer a elipse do tempo, mas nem sem-
pre € preciso, ou conveniente, usar essas téenicas. O que é pre-
ciso, quando se quer cortar diretamente de uma cena a outra
com um salto significativo no tempo, é criar a transig¢ao entre
elas. Sair de uma cena em Chicago e entrar na proxima em
Nova York se torna possivel porque vimos a viagem comecar
e terminar. Também é aconselhavel dar uma folga ao especta-
dor, seja no final de uma cena ou no come¢o de outra. Es
IZET
PRINCIPIOS BASICOS DA ROTEIRIZAGAQ) M69.
lez segundos de folga poderiam ser usados para ajudar a sal-
tur um dia, uma semana ou um ano, Em outras palayras, quan-
do um dos personagens sai de cena em Chicago, ficamos com
0s demais durante alguns segundos — uma Ultima fala, uma tea-
gho, uma gag. Ai entao podemos cortar para 0 personagem no
novo local. Ou pode-se inverter a situagao, com alguns segun-
tlos de cena na nova locagao antes da chegada do personagem
Viajante
O importante @ que o espectador consiga cobrir o inter-
yalo de tempo gragas a alguma coisa que o escritor insere com
essa finalidade: uma transicao verbal ou de audio, uma transi-
glo baseada em semelhangas ou transformagoes visuais, usan-
lo figurinos, acessorios cénicos Ou musica para transpor a elip-
se. Por exemplo, um personagem diz que vai procurar fulano
para Ihe dar um sopapo € sai de cena. Cortamos entio direto
para um soco e mostramos O personagem todo satisfeito por ter
executado a agdo, Ou ento o personagem diz que nunca na
Vida ha de usar um smoking © cortamos para ele experimen-
tando um traje desses. Outra maneira de ajudar o espectador a
cobrira brecha & por o processo em andamento e depois mos-
tri-lo sendo completado (como exemplificado acima, com a
corrida e os pais do atleta), Isto tambem pode ser feito eficien-
temente entre cenas. Por exemplo, 0 personagem comega a
pintar o apartamento. Pazemos entio uma fusao para a mesma
pessoa completando a tarefa, ou fazemos um fade out e volta-
mos com a ir
agem nO momento em que estd terminando a
pintura, Mas talvez, fosse mais cinematografico cortar para uma
vizinha fazendo careta por causa do cheiro insuportavel e de
volta para 0 sujeito terminando © servico.
A moldura temporal é um recurso que ajuda 0 ptiblico a
nar energia emocional para OS Momentos importantes,
fazendo com que saiba que existe um prazo ou algum momen-
to para completar-se uma agao crucial (veja “Elementos do:
Futuro € Anuncio”). As vezes a moldura temporal € bastante
Obvia, como no caso da bomba-relogio e do respectivo herdi
tentando desmonta-la. As vezes cla esta embutida no titulo Cori-
ginal) do filme: 48 Hours (48 Horas), Seven Days in May (Sete
Dias em Maio), High Noon (Matar ou Morrer), Three Days of
arm:70 Ml TEORIA E PRATICA DO ROTEIRO,
the Condor (Os Trés Dias do Condor). Nesses casos, sabemos
que a historia tera de ser contada dentro daquela moldura tem-
poral. As vezes a moldura é dada durante 0 decurso do filme:
um prazo final, 0 momento da verdade, uma batalha, uma cor-
rida, uma competi¢do. Em Guerra nas Estrelas, os rebeldes pre-
cisam destruir a estrela da morte antes que ela destrua todo o
planeta deles em « minutos. Em Rocky, 0 Lutador, todo o filme
converge para o momento da verdade, para a grande luta, Em
Uma Aventura na Africa (The African Queen), tudo gira em
torno de se conseguir chegar até 0 lago para afundar o navio
de guerra Louisa, sabemos que ao chegar aquele local teremos,
em breve, © momento da verdade.
Alguns filmes t¢m a moldura temporal definida no titulo;
outros estabelecem-na durante o decurso da historia, em geral
no final do primeiro ato; e ha os que nao tém qualquer moldu-
ra temporal, nenhum prazo final. Mas muitas vezes faz-se uso
de uma moldura temporal dentro de trechos menores da histd-
tia. Por exemplo, uma das seqiiéncias de Golpe de Mestre impli-
ca entrar no escritorio do telégrafo para realizar uma falsa reu-
niao com o alvo do golpe. Fica estabelecido que o chefe do
escrit6rio tem uma hora de almogo e essa hora se torna a mol-
dura temporal daquela seqiiéncia do filme. O uso de uma mol-
dura temporal — ou, como dizem alguns, do tique-taque de um
relogio — ajuda a intensificar uma cena ou seqiiéncia ao encur-
ta-la e torna-la mais dramatica e concentrada.