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ANTROPOLOGIA GERAL E O

DEBATE MULTICULTURAL

ETAPA 1
CENTRO UNIVERSITÁRIO
LEONARDO DA VINCI
Rodovia BR 470, Km 71, nº 1.040, Bairro Benedito
89130-000 - INDAIAL/SC
[Link]

Curso sobre Antropologia Geral e o debate multicultural


Centro Universitário Leonardo da Vinci

Autora
Luciane da Luz
Pedro Fernandes da Luz

Organização
Fábio Roberto Tavares

Reitor da UNIASSELVI
Prof. Hermínio Kloch

Pró-Reitoria de Ensino de Graduação a Distância


Prof.ª Francieli Stano Torres

Pró-Reitor Operacional de Ensino de Graduação a Distância


Prof. Hermínio Kloch

Diagramação e Capa
Letícia Vitorino Jorge

Revisão
Fabiana Lange Brandes
José Roberto Rodrigues
O HOMEM: DO ANTIGO AO MODERNO

APRESENTAÇÃO

Prezado aluno, alguma vez você já se indagou a respeito de sua condição, não
enquanto indivíduo, mas enquanto ser humano? Você já se percebeu enquanto apenas
um exemplar, uma pessoa, no meio de um vasto conjunto, a humanidade (desde seu
surgimento até hoje)? O que significa para você pertencer à espécie humana?

Certamente você deve ter uma resposta a esta questão, afinal, está experimentando
o que é ser humano neste exato momento! Mas se você examinar criticamente a resposta
que dá a este questionamento, perceberá que outra pessoa pode não concordar com
certas características que você atribua ao ser humano, ainda mais se esta pessoa for de
outra cultura.

Se você ouvir as respostas que pessoas de diferentes povos dão à indagação


do que é ser humano, verá uma variedade grande de respostas, algumas conflitantes.
Igualmente, se você examinar a resposta que pessoas de outras épocas deram a esta
mesma questão, constatará grandes diferenças nas respostas.

De fato, ao longo da história, e em diferentes culturas, procurou-se descrever o


que é pertencer à humanidade, e as respostas que foram dadas diferem enormemente!

Neste curso veremos como uma ciência desenvolvida tardiamente, a Antropologia,


procurou responder a esta questão e como este conhecimento nos ajuda a lidar com
a problemática colocada pelo multiculturalismo. Por ora, vejamos as transformações
que se deram ao longo da história, dentro da tradição do conhecimento ocidental, na
concepção acerca do ser humano, e as principais características que foram atribuídas à
nossa espécie como distintivas desta.

Esperamos que ao final desta etapa você seja capaz de se posicionar criticamente
diante da experiência humana ao longo da história.

Bem-vindo ao conhecimento e bons estudos!


2 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
FIGURA 1 - A CONDIÇÃO HUMANA, NOSSA PRINCIPAL REFLEXÃO

FONTE: Disponível em: <[Link]


jpg>. Acesso em: 22 abr. 2016.

1 A CONCEPÇÃO DE SER HUMANO NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA

O professor Pommer (2015, p. 55), ao discutir a condição humana considerada


na Antiguidade Clássica, chama a atenção para o fato de os autores deste período, e
daqueles que escrevem sobre o mesmo, mostrarem uma notável predileção por “reis,
filósofos, artistas e guerreiros”, negligenciando claramente os trabalhadores, as mulheres
e as crianças.

Este autor prossegue destacando que pouco ou nada se fala sobre os escravos
(ainda que estes compusessem o maior estrato da sociedade da época), e quando se
faz isso é somente quando os mesmos se encontram em situação de excepcionalidade.
Quanto à mulher, esta só é digna de nota quando, ou prostituta, ou rainha, ou exemplo
de abnegação e submissão ao homem, nada se falando sobre a mulher comum em seu
cotidiano.

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 3

FIGURA 2 - MULHER GREGA NA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, FIANDO

FONTE: Disponível em: <[Link]


antiguidade_classica_01.jpg>. Acesso em: 22 abr. 2016.

Também os outros povos eram diminuídos em sua condição, quando avaliados


pelos povos dominantes do período, como os gregos e romanos, que desprezavam as
outras culturas.

Mas, se quisermos, como Pommer (2012) destaca, compreender como eram os


seres humanos no mundo antigo, devemos lançar nosso olhar sobre todos os aspectos da
vida, como o trabalho, o lazer, as atividades políticas, econômicas, religiosas, artísticas
e demais. Isto porque a Antropologia, como veremos na segunda etapa, tem uma
abordagem total do ser humano.

Este autor (POMMER, 2012) chama a atenção para uma característica marcante dos
povos da Antiguidade Clássica, povos estes que são fundamentais para a compreensão
do pensamento ocidental (destacando-se os gregos, romanos e israelitas, mas incluindo
também os egípcios), que seria o caráter patriarcal e tribal (pelo menos inicialmente)
destas sociedades.

Uma das consequências de uma organização do tipo tribal, tal como se dava esta
na Antiguidade Clássica do Ocidente, era a existência de uma chefia centralizada, que
era, entretanto, devedora à tradição. Isto quer dizer que o rei, ou chefe, tinha poderes
de mando, mas devia orientar suas decisões e ordens pela tradição e pelos costumes.

Na Grécia antiga, esta sociedade tribal evolui para um sistema democrático,


baseado na cidade-estado, ou pólis, processo similar, apesar das distinções marcantes,
ao que se deu em Roma.

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4 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
Quanto à característica patriarcal destas sociedades, a mesma impõe à mulher
uma condição subalterna na vida social, com estes povos valorizando somente a
capacidade reprodutiva feminina e relegando sua participação a um papel secundário
em relação ao homem, que é valorizado por suas qualidades viris e guerreiras.

Em todos estes povos é notável a instituição da escravidão, a inclinação à


beligerância, com a guerra de conquista sendo uma constante, e o conflito aberto entre
as elites da sociedade e seus estratos mais desfavorecidos (POMMER, 2012).

FIGURA 3 - GUERREIRO ROMANO

FONTE: Disponível em: <[Link] Acesso em:


22 abr. 2016.

Para Pommer (2013), quando lançamos nosso olhar sobre os gregos antigos, chama
nossa atenção a maneira peculiar pela qual este povo se expressava. De fato, as estratégias
de discurso, o modo de dizer algo, eram uma preocupação central na cultura grega.
Esta, por ser não alfabetizada em seus primórdios, privilegiava a enunciação poética dos
fatos, o que favorecia a memorização e transmissão dos mesmos às futuras gerações,
técnica da qual se valiam também os romanos e os hebreus, que assim preservavam
sua cultura e a mantinham coesa.

Com o desenvolvimento da cultura grega, e sua organização na pólis, a palavra


passa a ser também o principal instrumento de ação política e de exercício de poder,
sendo a via privilegiada para o exercício da autoridade e de influência sobre a sociedade
(VERNANT, apud POMMER, 2012).

Com a alfabetização da cultura grega, aqueles que se dedicam ao conhecimento


não mais precisam exercitar a memorização, o que os libera para exercitar a mente com
o pensamento especulativo, favorecendo assim o desenvolvimento da Filosofia e da
Ciência.

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 5

De acordo com Pommer (2012), poderíamos definir o ser humano na Antiguidade


Clássica como comportando duas dimensões notáveis: de um lado enquanto guerreiro
e religioso, de outro enquanto pensador e inventor, lançando as bases do conhecimento
moderno.

2 A CONCEPÇÃO DE SER HUMANO DURANTE O MEDIEVO

Seguindo Pommer (2012) caracterizaremos o medievo aqui como aquele período


que vai do fim do Império Romano (século IV-V) ao século XV. A Idade Média, chamada
por alguns de “Idade das Trevas”, coincide assim com o início, apogeu e crise do
cristianismo.

Sem dúvida alguma, aquilo que é mais marcante no ser humano durante o
medievo é a religião cristã, de caráter monoteísta (contrastando com o politeísmo dos
antigos gregos e romanos), que moldou totalmente a visão de mundo neste período.

FIGURA 4 - CENA DA IDADE MÉDIA

FONTE: Disponível em: <[Link]


[Link]>. Acesso em: 24 abr. 2016.

Devemos ter em vista, como Pommer (2012) destaca, que a religião cristã adquire
relevância e proeminência social depois de um período inicial de formação (que vai do
século I ao século IV), quando é adotada pelo imperador romano Constantino I (em 312
d.C.) e depois tornada religião oficial do Estado romano, com Teodósio I (em 380 d.C.),
quando então se dá sua articulação doutrinária, do século V ao VII, até sua consolidação
e dominância, do século VII ao XVI, quando se inicia sua crise com a reforma protestante.

É preciso ter em mente que a expansão inicial do cristianismo coincide com o


helenismo, a difusão da cultura grega pelo Ocidente, que é marcada por um pensamento
que se volta mais para as questões humanas, relativas à condição humana no mundo,
antes do que no conhecimento da natureza, o que influencia igualmente a formação do
homem medieval.

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6 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
Assim, nos primeiros três séculos do cristianismo, vemos o desenvolvimento
de uma síntese entre os ensinamentos judaico-cristãos e o platonismo, doutrina grega
formulada por Platão (POMMER, 2012). É deste período que nos vem o conceito de logos,
que concilia a visão grega da razão humana com a visão cristã da encarnação divina em
Cristo. Muitos contribuíram com a discussão em torno do logos, especialmente Paulo de
Tarso, que a partir deste termo defende a universalidade da religião cristã.

Com a adoção do cristianismo enquanto religião oficial do Estado romano, vemos


a consolidação deste e seu uso por parte da elite aristocrática romana, tendo em vista
a dominação ideológica das massas, o que leva à perseguição de grupos cristãos que
pregavam uma vida comunitária, a exemplo daquela descrita no “Ato dos Apóstolos”.
Desta forma, de acordo com Pommer (2012), o caminho do cristianismo no Ocidente
está indelevelmente associado ao poder imperial romano e se apoia em uma apropriação
desta religião de preceitos filosóficos gregos, que serviram à consolidação doutrinária
do cristianismo estatal.

Num primeiro momento, assistimos a um conflito entre a razão e a fé, quando


as mesmas se aproximam no pensamento do homem medievo inicialmente; entretanto,
com seu estabelecimento definitivo de religião oficial, o cristianismo procura conciliar
razão e fé, lançando as bases de um saber que articula uma determinada concepção da
realidade, com uma visão própria do ser humano, onde a culminância se encontra no
forjamento do conceito de pessoa (POMMER, 2013, p. 70).

FIGURA 5 - CENA DO COTIDIANO NA IDADE MÉDIA

FONTE: Disponívek em: <[Link] Acesso em


22 abr. 2016.

De fato, foi com o cristianismo que vemos o desenvolvimento do conceito de


pessoa, tendo por base o direito romano e adquirindo um caráter religioso. Inicialmente o
conceito de pessoa no cristianismo é colocado no campo metafísico, com Santo Agostinho
definindo esta enquanto substância e Boécio descrevendo a mesma enquanto “substância
individual de natureza racional” (POMMER, 2012, p. 71).

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 7

Assim, o conceito de pessoa, que marca a partir daí o pensamento ocidental, é


relativo à divindade e, a partir de São Tomás de Aquino, é marcado pela dinâmica da
relação entre homem e Deus, com este pensador afirmando que “o homem é pessoa
exatamente por ser, pela sua inteligência, memória e vontade, imagem de Deus uno e
trino” (PEREIRA apud POMMER, 2012, p. 71).

Esta concepção traz em si a ideia de pessoa em duas dimensões: a verdadeira,


ou seja, Deus, e sua imagem e semelhança, os seres humanos. Esta perspectiva está
fortemente implicada ainda naquela característica mais notável associada ao ser humano
na Idade Média, que é concebê-lo enquanto dicotômico, envolvendo duas dimensões:
a corpórea e a espiritual (POMMER, 2012).

Desta maneira, segundo Pommer (2013), a noção fundamental de ser humano na


Idade Média é marcada por sua condição de imagem e semelhança de Deus, onde seu
corpo é visto como um simulacro e sua alma pensada como aquilo que temos de mais
puro: Deus em nós. Assim, durante a Idade Média, o mais importante na concepção
de ser humano está na relação deste com a divindade, relação esta que é mediada pela
religião cristã.

FIGURA 6 - A RELAÇÃO HOMEM x DEUS NA VISÃO MEDIEVAL

FONTE: Disponível em: <[Link]


XvWGHxCO8CI1Fl_F5hfMIk_oHs3dwWtk6AO30PD-xezAUrk>. Acesso em: 24 abr. 2016.

O HOMO FABER COMO EMBLEMA DO CONCEITO MODERNO DE HOMEM:


A PERGUNTA PELO HOMEM E SUAS RESPOSTAS

1 INTRODUÇÃO

Com o advento da reforma protestante, a concepção medieval do ser humano


é colocada em xeque. A partir das teses de Lutero, a ideia de indivíduo vai adquirindo
relevância e acaba por se tornar um dos componentes ideológicos mais importantes da
modernidade.

Outros movimentos culturais do Ocidente, que foram fundamentais para forjar


a moderna visão de ser humano, foram o Renascimento, com a retomada do debate

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8 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
em torno dos textos e questões colocadas pelos pensadores da Antiguidade Clássica;
o Iluminismo, movimento filosófico do século XVIII que se baseia na confiança na
razão como capaz de solucionar os problemas práticos da vida humana, e, por fim,
as transformações que se dão quando da Revolução Industrial, que forja o mito do
progresso e a valorização da ciência.

Todo esse quadro contribui para o nascimento da moderna visão de mundo do ser
humano, que se fia na razão e na experiência e que apresenta autonomia, autocontrole
e postura reflexiva, prezando antes de tudo a liberdade e fundando suas relações de
trocas econômicas no livre mercado (LEITE DA LUZ; BOHMANN, 2013).

Com a modernidade surge então a concepção de Homo faber, o ser humano


enquanto capaz de controlar seu destino e meio ambiente através da invenção e fabrico
de instrumentos e ferramentas por meio de seu engenho, noção essa fundamental para
compreender a visão de mundo da humanidade neste período histórico.

FIGURA 7 - O HOMO FABER

FONTE: Disponível em: <[Link]


[Link]>. Acesso em: 24 abr. 2016.

De acordo com Pommer (2012), o mais notável no conceito de Homo faber relaciona-
se com a ideia do ser humano, expressa pelo termo faber, não só como aquele que fabrica
e opera ferramentas, mas, antes de mais nada, como aquele que inventa, que cria tendo
em vista o fazer, alguém que pela invenção interfere e transforma o mundo por seu
desejo e/ou necessidade.

O surgimento do Homo faber só seria possível, assim, a partir da adoção da postura
ereta para o caminhar e da liberação dos membros superiores para a manipulação de
objetos, marcando na história de nossa evolução nossa distinção, enquanto espécie, do
restante dos animais (POMMER, 2012).

Para nós, é significativa a perspectiva de Homo faber como aquele que foi capaz de
produzir cultura e desenvolver a sociabilidade, constituindo-se historicamente. Desta
forma, aborda-se o ser humano a partir de suas atividades, onde o trabalho e a técnica
mostram-se constitutivos da especificidade da experiência humana (POMMER, 2012).

Tendo em vista esta dimensão humana, aquela do trabalho e do emprego de técnicas,

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 9

a humanidade define-se através do trabalho, imperativo colocado a todas as gerações


através da história e que adquire feições específicas ao longo desta, caracterizando-nos
desta forma. Assim, na Antiguidade Clássica, o trabalho é desvalorizado, visto como um
empecilho ao desenvolvimento do intelecto, que só é possível no ócio. Já no medievo, o
trabalho é tido como um empecilho à verdadeira realização humana, que é espiritual e
se dá por uma relação com Deus. Com a modernidade, assistimos à valorização da ideia
de trabalho, que passa a ser visto como caminho da realização humana, pelo menos até
ser alienado, no capitalismo (POMMER, 2012).

Somente com o Homo faber, produzindo os meios de sua subsistência, é que
adquirimos nossa especificidade face aos outros animais. De fato, de acordo com
Marx (MARX, 1982 apud POMMER, 2012), quando produzimos nosso meio de vida, e
consequentemente nossa vida material, é que nos tornamos humanos, pois o ser humano
se forja através dos meios pelos quais este produz aquilo que necessita, enquanto parte
de um grupo social. Assim, a existência individual do Homo faber, enquanto ser cultural
e social que é, é devedora de sua ação produtiva.

Desta forma, Pommer (2012, p. 182) chama a atenção para o fato do emblema
do homem moderno ser sua condição de “(...) tirar da natureza com as mãos e com o
cérebro, isto é, com a força física e com a inteligência, as condições reais para a vida (...)”.

FIGURA 8 - TEMPOS MODERNOS, O TRIUNFO DO TRABALHO

FONTE: Disponível em: <[Link] Acesso em: 25 abr. 2016.

2 A PERGUNTA PELO HOMEM E SUAS RESPOSTAS

É fato que o ser humano indaga-se a respeito de si mesmo desde os primórdios


de nossa existência, entretanto, estes questionamentos só adquirem um caráter científico
a partir de meados do século XIX, com a constituição das chamadas “Ciências Sociais”,
como a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia, entre outras.

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10 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
Chamamos a atenção aqui, prezado aluno, para uma importante característica dos
questionamentos que nos colocamos a respeito de nós mesmos: esses são condicionados
pela sociedade e cultura à qual pertencemos. Assim, as perguntas que nos colocamos
acerca de nossa condição humana variam espaço e temporalmente, sendo devedoras da
cultura onde estamos inseridos e da sociedade à qual pertencemos. Da mesma forma,
as respostas que damos aos nossos questionamentos variam de acordo com a sociedade
e tempo histórico.

Na modernidade, as indagações que fazemos sobre nós relacionam-se com a


visão típica desta época histórica, sendo devedoras da razão e da empiria, da ideia
de indivíduo livre, reflexivo, autônomo e autocontrolado, próprias deste tempo. As
ciências sociais, desta maneira, mostram-se como resultante do crescente processo de
racionalização e positivação do mundo (LEITE DA LUZ; BOHMANN, 2013).

Outro fato marcante das reflexões que se dão a partir da modernidade está no
encontro do Ocidente com outras civilizações, que fomenta as especulações acerca da
natureza humana e de sua universalidade ou não.

Assim, a abordagem científica do ser humano, seja na Antropologia, na Sociologia


ou na Psicologia, só se constitui enquanto tal a partir do século XIX, quando está
consolidado o processo de estabelecimento do capitalismo enquanto modo de produção
da humanidade.

Somente no século XIX é que se mostrou possível o estabelecimento de uma


investigação propriamente científica do ser humano, a partir da influência no pensamento
ocidental do racionalismo, do empirismo e do positivismo na Ciência.

O ser humano passa então a ser investigado quanto às suas “(...) ações, emoções,
afetos, posturas morais, formas de sociabilidade, formas jurídicas e políticas, formas
estéticas, razões ou racionalidades” (POMMER, 2012, p. 98). Cabe à Antropologia,
à Sociologia e à Psicologia, a partir daí, o estabelecimento dos padrões culturais e
comportamentais típicos da humanidade, como caracterizados por estas disciplinas,
e que servem na orientação, quando da formulação de leis, projetos e programas de
governo, por parte destas, muitas vezes objetivando o controle social. Todas estas ciências
estão, em seus questionamentos e respostas propostas, desta forma, indelevelmente
marcadas pela “(...) ideia de progresso, de liberdade e de autoafirmação humanos”
(POMMER, 2012, p. 100).

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 11

FIGURA 9 - CENA DA SOCIEDADE BRASILEIRA NO SÉCULO XIX

FONTE: Disponível em: <[Link]


seculo_xix_1__2012-[Link]>. Acesso em: 25 abr. 2016.

O SER HUMANO: SUAS MANIFESTAÇÕES MAIS SIGNIFICATIVAS

1 INTRODUÇÃO

Apesar de termos visto que o ser humano se define e se constitui enquanto tal de
acordo com a época histórica e a cultura da qual faz parte, determinadas características
vêm sendo consideradas como mais significativas e mais importantes em marcar a
especificidade do humano face aos outros animais.

Ainda que possa variar nosso entendimento acerca destes de acordo com a época
histórica e a cultura estudada, certos atributos humanos perpassam nossa história como
sendo importantes para nós, para nos diferenciarmos dos outros seres, de acordo com
nossa visão de nós mesmos.

Assim, escolhemos nos contrastar com os outros seres da natureza a partir de


certas características que nos são gratas e nos parecem exclusivas.

Dentre estas, destacaremos aqui a corporalidade, a racionalidade, a volição, a


aspiração à liberdade, o amor, nossas relações com a natureza, nossa capacidade técnica, a
consciência de nossa finitude, nossa religiosidade e nossas concepções espaçotemporais.
São estas que trataremos aqui. Bons estudos!

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12 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
FIGURA 10 - A ESPECIFICIDADE DO SER HUMANO FACE AOS OUTROS ANIMAIS

FONTE: Disponível em: <[Link]


jpg>. Acesso em: 25 abr. 2016.

2 O SER HUMANO EM SUA DIMENSÃO CORPORAL E RACIONAL, SUA


VOLIÇÃO E ASPIRAÇÃO À LIBERDADE

Um dos aspectos de nossa experiência, a corporalidade é aquele que nos traz, mais
do que todos os outros, a noção de individualidade, de estar separado dos demais e de
ser único. Se a pressão evolutiva liberou as nossas mãos para o trabalho, esse acabou
por produzir nosso próprio corpo (POMMER, 2012).

Uma das maneiras de compreender a dimensão corpórea do ser humano é vê-la


como fazendo parte da expressão do ser, do existir. Assim, o corpo comporta tanto seu
aspecto de substância material, ou seja, sua totalidade física, quanto de organismo, isto é,
totalidade biológica. Mas (e isso é o que nos interessa aqui) este compreende também a
noção de corpo enquanto individualidade, sendo este uma totalidade intencional. Desta
forma, enquanto totalidade intencional, o corpo pode ser pensado como Eu corporal
(LIMA VAZ, 2011, apud POMMER, 2012).

Podemos notar, como Pommer (2012) chama a atenção, que o corpo próprio de
cada indivíduo, aquele que “é enquanto sou”, é um dado da experiência que nos informa
que, enquanto penso, falo, desejo, durmo, como, trabalho ou executo qualquer outra
atividade, é o corpo quem o faz. O corpo, em sua unidade, que possui as faculdades,
capacidades e competências que apresentamos, inclusive as emoções, a razão e as
sensações, tudo isso sendo ordenado pela mente, que nada mais é que uma estrutura
especializada deste mesmo corpo.

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 13

FIGURA 11 - O CORPO HUMANO

FONTE: Disponível em: <[Link]


sistemas-corpo-humano-atividades-espa%C3%[Link]>. Acesso em: 26 abr. 2016.

Ora, isso nos remete à razão, esta capacidade, expressa no real através de nosso
corpo, de escolher, decidir, classificar e separar, emitir juízos e opiniões e também acolhê-
los. É pela razão que nós apresentamos a capacidade, mediada pelo nosso aparelho
sensório, de proteger nossa integridade física, fazer as escolhas que nos são favoráveis,
prever os acontecimentos que podem nos afetar e criar tudo aquilo de que necessitamos
para viver e para tentar explicar a nossa existência para nós mesmos (POMMER, 2012).

Como nos informa Bornheim (1996, apud POMMER, 2012, p. 210): “a razão servia,
assim, para o homem prover-se, defender-se e, em última instância, para inventar a sua
própria criatividade”.

Nota-se, desta forma, que entre nós a evolução biológica acaba por forjar um
corpo ereto que tem as mãos liberadas para o trabalho e que, com a capacidade de
manipular o mundo e transformá-lo com nossa atividade produtiva, desenvolvemos
igualmente a possibilidade de refletir sobre este e sobre nosso papel no mesmo. Assim,
foi pela atividade que nos veio a faculdade racional e sua vocação primeira está em
possibilitar ao ser humano se ocupar de sua existência cotidiana (BORNHEIM, 1996,
apud POMMER, 2012).

Falávamos anteriormente, entretanto, de corpo enquanto totalidade intencional, ora,


esta nada mais é do que o corpo enquanto totalidade volitiva. Nós, seres humanos, agimos
a partir de nossa intenção, e essa não é devedora somente da razão, mas igualmente dos
nossos desejos, embora não coincidam com estes totalmente. Desta maneira, podemos
ver que nossa volição, nossa vontade, nada mais é do que expressão do movimento do
corpo na direção de um objetivo, indo este ao encontro de um desejo (POMMER, 2012).

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14 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
Sabemos que o desejo de liberdade costuma ser elencado como uma das
características humanas, todavia, o conceito de liberdade, a concepção do que é ser livre,
varia de acordo com a época histórica e sociedade onde foi formulado. Na antiguidade
clássica, com a crença na força do destino, a liberdade individual era pensada como
submetida aos desígnios divinos. Com o cristianismo, a ideia de destino é mediada pela
de livre-arbítrio, que colocaria em nossas mãos a escolha entre o bem e o mal. Com a
modernidade, fortalece-se a ideia de liberdade individual, com a concepção, tanto das
garantias dos direitos, quanto a de livre iniciativa econômica e, por fim, o conceito de
liberdade como ligado ao término das desigualdades sociais (POMMER, 2012).

Assim, a liberdade, embora se apresente como uma aspiração humana universal,


tem, na verdade, características que são relativas às sociedades que as produziram,
apresentando uma história própria no Ocidente.

FIGURA 12 - LIBERDADE: ASPIRAÇÃO HUMANA

FONTE: Disponível em: <[Link]


f6HX1CD149sYZtFb9ROyudSxUf8ZT-4Ufiv>. Acesso em: 26 abr. 2016.

3 O SER HUMANO E A QUESTÃO DO AMOR, A RELAÇÃO HOMEM/NATUREZA,


A TÉCNICA, A CONSCIÊNCIA DA FINITUDE E A QUESTÃO DA MORTE, O
TEMPO E A RELIGIOSIDADE

Como Pommer(2012) chama a atenção, o amor, embora possa expressar-


se fisicamente, não existe como um ser absoluto, sendo antes relativo às pessoas.
Considerado assim, o amor é dado pela nossa condição de humanidade.

Desta forma, tanto nossa capacidade, ou não, de amar, quanto o tipo e a


expressão do amor que apresentamos, estão relacionados com a sociedade, cultura a
que pertencemos e às condições biopsíquicas que possuímos.

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 15

Assim, a capacidade de amar é imanente à própria condição humana, mas


encontra estas diferentes elaborações e concepções, bem como expressões, variáveis
historicamente e dependentes dos meios socioculturais onde se manifestam.

FIGURA 13 - O BEIJO ENTRE OS INUIT

FONTE: Disponível em: <[Link]


ppuvo2cIMFr1X63UVsq8FFfKKMsy-PFj0HRmg>. Acesso em: 26 abr. 2016.

Embora tenhamos a tendência a querermos nos distinguir dos animais, a realidade


é que nós, seres humanos, somos parte da natureza. Só podemos nos pensar enquanto
integrantes desta, pois quando falamos de “natureza”, estamos na verdade nos referindo
a uma paisagem que já sofreu a influência humana, que foi modificada por nossa ação
na mesma (POMMER, 2012).

Quando definimos natureza, já estamos nos colocando nesta, a natureza é sempre


pensada em relação a nós. Modificamos o meio natural por nossa ação e, assim, também
mudamos nossa relação com essa.

Ao longo da história, nossa relação com a natureza foi sempre mediada pelo
aparato técnico que possuímos. Nossa relação com a técnica e a tecnologia nos constitui,
embora esta possa também levar-nos a nos negar. Isso porque, através das invenções
técnicas, nós produzimos as condições materiais de nossa existência, entretanto, essas
podem servir à nossa alienação e controle social (POMMER, 2012).

Não existe sociedade humana que não apresente tecnologia, esta deve ser pensada
como tudo o que o engenho humano produz tendo em vista a transformação da natureza
para a produção dos bens que necessitamos. Nossa relação com a técnica e a tecnologia
é fundamental para nos constituirmos enquanto humanos, sendo a mesma distintiva
de nossa espécie, ainda que possa apresentar uma enorme variabilidade, conforme o
tempo histórico e as condições socioculturais onde estão presentes.

Outro traço que desde a Antiguidade Clássica vem sendo pensado como

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16 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
tipicamente humano é nossa consciência de finitude. Sabermos que nossa existência
individual terá um fim é um dado estrutural da vida humana, que, como tal, precede
nossa experiência enquanto pessoa no mundo. Desta maneira, a morte é aquela realidade
inescapável que a todos atinge e diante da qual todos refletimos. Talvez seja esta a
origem de nossas especulações filosóficas e religiosas: diante da morte nos indagamos
acerca do que está além, a mesma é o primeiro mistério com o qual nos defrontamos e
também muito do que nos move na busca do conhecimento (POMMER, 2012).

Uma das questões que a morte nos coloca é aquela referente ao tempo. Podemos
ter consciência de que, para além de nossa existência individual, o mundo tem uma
existência temporal. De fato, são as mudanças que observamos no real que nos levaram
a conceber a ideia de tempo, enquanto seres humanos nós só existimos historicamente,
nada do que é humano se dá fora do tempo (POMMER, 2012).

Assim, o tempo marca a humanidade, mas este é meramente convencional,


sua construção é cultural, dependente, portanto, da maneira pela qual agimos no
real, daquilo, dos fenômenos e fatos observáveis, que selecionamos para marcar a
temporalidade e nossa trajetória no mundo.

FIGURA 14 - O TEMPO: CONSTRUÇÃO HUMANA

FONTE: Disponível em: <[Link]


[Link]>. Acesso em: 26 abr. 2016.

Outro problema colocado pela morte está nas diferentes manifestações de


religiosidade que nossa espécie vem apresentando ao longo de sua história.

De fato, não conhecemos sociedade humana que não apresenta uma ou mais
religiões. Parece que a religiosidade é uma expressão humana universal, sendo que
muitos associam seu início às especulações de nosso pensamento a partir da consciência
de nossa finitude e da realidade inexorável da morte. Se muitas vezes a religião serviu
para aplacar nossa angústia diante da morte, em casos ainda mais numerosos esteve
esta a serviço da manutenção da ordem social e do status quo vigentes.

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ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL 17

Novamente, a universalidade de um traço cultural não deve nos cegar para


o fato das religiões apresentarem uma imensa variedade de formas, expressões e
conteúdos, que são relativos às culturas onde estão manifestados. Ainda que seja assim,
os antropólogos identificam uma constante em todas as religiões: a divisão dicotômica
entre sagrado e profano.

Chauí (2009, apud POMMER, 2012, p. 235) destaca que: “O sagrado é a experiência
simbólica da diferença entre os seres, da superioridade de alguns sobre os outros –
superioridade e poder sentidos como espantosos, misteriosos, desejados e temidos”.

O sagrado, desta forma, pensado como o extraordinário e habitado por seres


poderosos, opõe-se ao profano, o espaço das atividades ordinárias e cotidianas dos
seres humanos. A religião, assim (POMMER, 2013), apresenta-se como consequência da
ideia de sagrado, estabelecendo a ligação deste com o profano, com a esfera humana,
seja para favorecer-nos, seja para eximir-nos de nossas culpas.

Prezado aluno, nesta etapa vimos algumas das características do ser humano.
Na próxima unidade nos familiarizaremos com aquela ciência que se ocupa de estudar
este, a saber: a Antropologia, bons estudos!

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18 ANTROPOLOGIA GERAL E O DEBATE MULTICULTURAL
REFERÊNCIAS

ERIKSEN, Thomas Hylland; NIELSEN, Finn Sivert. História da Antropologia.


Petrópolis: Vozes, 2012.

ESPINA BARRIO, Angel-B. Manual de Antropologia Cultural. Recife: Editora


Massangana, 2005.

GOMES, Mércio Pereira. Antropologia: ciência do Homem.,filosofia da cultura. São


Paulo: Contexto, 2013.

HOEBEL, E. Adamson; FROST, Everest L. Antropologia Cultural e Social. São Paulo:


Cultrix, 2006.

LUZ, Pedro Fernandes Leite da; BOHMANN, Junqueira Katja. Sociologia crítica.
Indaial: Uniasselvi, 2013.

LARAIA, R. B. Cultura, um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma


introdução. São Paulo: Atlas, 2001.

POMMER, Arildo. Antropologia filosófica e sociológica. Indaial: Uniasselvi, 2012.

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