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PSICOPATOLOGIA
- Introdução
A psicopatologia é a semiologia da psiquiatria, ou seja o estudo dos sinais e
sintomas para se chegar a um diagnóstico sindrômico, um diagnóstico geral. Devemos
então aqui sempre lembrar que a observação vertical da situação clinica momentânea não
permite aos profissionais de saúde mental fazer um diagnóstico final somente o diagnóstico
sindrômico, o diagnóstico nosológico só pode ser feito pelo histórico e evolução da doença.
A única ferramenta que temos para fazer o diagnóstico psiquiátrico é a observação,
já que não há qualquer exame de imagem ou laboratorial que nos aponte anormalidades de
doenças mentais. E a psicopatologia é justamente o estudo dos sintomas das doenças
mentais.
Apesar dos processos mentais serem interligados, didaticamente dividimos a mente
em 3 partes: (1) cognição; (2) afetivida e (3) vontade (ação)
- Cognição – as funções cognitivas são aquelas que permitem ao individuo a
compreensão da realidade. São 7 as funções cognitivas: consciência, atenção, orientação,
memória, pensamento, inteligência e sensopercepção.
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I- CONSCIÊNCIA
A palavra consciência é usada, em nossa língua, a exemplo de que sucede nos
demais idiomas do grupo neolatino, em duas diferentes acepções. Assim, ora é empregada
em sentido ético, ou seja, para definir aquilo que nos dita o nosso dever moral, tudo isso
que nos permitimos fazer ou deixar de fazer, de conformidade com os princípios, normas,
costumes e juízos de valor, pelos quais pautamos nossos atos e avaliamos as ações dos
nossos semelhantes; ora é usado no sentido estritamente psicopatológico, para caracterizar a
tomada de conhecimento da realidade, em um dado momento.
Assim consciência é o todo momentâneo que possibilita que se tome conhecimento
da realidade naquele instante. (Jaspers)
Dessa forma o termo consciência é usado no sentido de estado vigil, que de certa
forma iguala a consciência ao grau de clareza do sensório. Consciência é fundamentalmente
o estado de estar desperto, acordado, vigil, lúcido.
Entre o estado de plena lucidez de consciência e a ausência completa dela,
observam-se gradações, quanto a claridade do cenário e subseqüente intensidade dos
fenômenos. Daí a noção pratica, tradicional, de campo da consciência.
A noção de campo de consciência, subentende a representação gráfica da
consciência por meio de um circulo, no interior do qual se delimita o campo, cuja a parte
central, mais iluminada se denomina foco. A zona que circunda esse foco vai se tornando
gradativamente menos clara, a medida que dele se afasta, aproximando-se da periferia.
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As alterações da consciência podem ser classificadas como quantitativas, onde esta
alterada a claridade da vivencia, ou qualitativa, que se caracterizam pela variação na
amplitude do campo da consciência.
Desse modo, entre a vigília absoluta e o sono profundo, entre a lucidez perfeita e o
coma, em que se da a abolição, a suspensão total da consciência, será legitimo reconhecer a
existência de estados intermediários, tanto normais como patológicos, estes últimos
acompanhados ou não da redução da amplitude do campo da consciência.
Nas alterações normais da redução da clareza da consciência situam-se os estados
hipnagógicos ou do adormecer e os hipnopompicos ou do despertar. Que consistem na
presença de alterações psicopatológicas na passagem da vigília para o sono (hipnagógica)
ou do sono para a vigília (hipnopompico)
Em diversos quadros clínicos, o nivel de consciência diminui de forma progressiva,
desde o estado normal, vigil, desperto, até o estado de coma profundo, no qual não há
qualquer resquício de atividade consciente ou ainda podem haver alterações do campo da
consciência.
Vejamos os diversos graus de alteração da consciência:
1- Embotamento ou entorpecimento da consciência: é o rebaixamento da
consciência, acomete todo o campo da consciência com perda da nitidez. À inspeção inicial
paciente pode já estar claramete sonolento ou pode parecer desperto, o que dificulta o
diagnóstico. De qualquer forma há sempre uma diminuição do grau de clareza do sensório,
com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração. Nota-se que o paciente tem
dificuldade para integrar as informações sensoriais oriundas do ambiente. Assim, mesmo
ao se apresentando claramente sonolento, observa-se nos quadros leves de rebaixamento do
nível de consciência que o paciente esta um tanto perplexo, com a compreensão dificultada,
podendo estar o pensamento já ligeiramente confuso. Mas sem outros sintomas
psicopatológicos associados.
2- coma – é o grau mais profundo de rebaixamento da consciência, no qual não é
possível qualquer atividade consciente.
3- estreitamento – compreende-se o estreitamento aquela alteração em que há
redução do campo da consciência, nestes casos os pacientes parecem ter perdido o elo com
o mundo exterior, agem como se estivessem psiquicamente ausentes, praticando atos
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estranhos ao conteúdo habitual de sua ideação, sem, contudo perder totalmente a lógica,
como acontece no sonambulismo, no transe mediúnico, nos estados hipnóticos, nos estados
epilépticos (estado crepuscular) etc.
4- obnubilação – caracterizam-se por determinados tipos de alteração da consciência
em que, ao lado de certo grau mais ou menos flagrante de entorpecimento ou estreitamento
da consciência, observam-se outros sintomas psicopatológicos. É portanto uma síndrome
onde cabem tanto os quadros de delirium, como os estados crepusculares epilépticos.
Além dos diversos estados de redução global do nível de consciência a observação
psicopatológica registra uma serie de estados alterados da consciência nas quais se tem
alteração parcial ou focal da consciência. Uma certa parte do campo da consciência esta
preservada, normal, e outra parte alterada.
CONSCIÊNCIA DO EU
Além da consciência objetiva, relacionada aos objetos e a clareza da vivencia,
estudada anteriormente, a consciência possui um componente reflexivo, sobre si mesma, o
qual foi chamada por Jaspers de consciência do eu.
Não se sabe ao certo em que ponto do desenvolvimento individual aparece a
chamada consciência do eu. Acreditava-se, outrora que isso se desse a partir do momento
em que a criança deixasse de se referir a si mesma em terceira pessoa e passasse a usar
então o pronome adequado. Hoje já se sabe que tal não é verdade. É bastante provável que
nos primórdios do desenvolvimento infantil, não saiba a criança distinguir o seu eu do
mundo exterior, como acontece com adultos.
A consciência do eu possui quatro propriedades formais:
a- identidade do eu – refere-se ao fato de que o eu é consciente de que é o mesmo
que antes, de que sempre foi a mesma pessoa. Quando o paciente se transforma em outras
pessoas acontece o que denominamos perda da identidade. Exemplos de perda da
identidade: “eu sou Napoleão”.
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b- unidade- a unidade do eu reflete a consciência de que o eu é um todo no mesmo
momento, é uno e indivisivel. A perda da unidade do eu é internamente vivenciado como
uma cisão da personalidade, consiste na existência de uma dupla consciência simultânea do
eu. Exemplos de perda da unidade ocorrem nas falas “do lado direito sou Fátima, do
esquerdo sou Raquel.”
c- autonomia – trata-se da consciência de que nós realizamos as nossas atividades.
A perda da autonomia do eu faz com que o enfermo se sinta influenciado, não esta agindo
de modo próprio e sim por imposição de outro. Tudo o que pensa, sente, quer ou faz esta
sendo comandado de fora e se realiza por sobre ou mesmo contra a sua vontade.
d- oposição do eu em relação ao mundo – refere-se a atividade de delimitar-se do
mundo circundante. Quando ocorre alteração desta propriedade, os pacientes identificam-se
com os objetos do mundo externo, havendo uma perda do limite entre os dois, ou ainda o
paciente sente-se completamente invadido não havendo individualidade entre pensamentos
e sentimentos.
Por fim existe uma alteração da consciência do eu denominada despersonalização,
na qual o paciente relata que vivencia a si próprio como irreal, diferente, transformado,
estranho ou dissociado. As vezes, refere que está interpretando um papel ao invés de estar
sendo espontâneo e natural, ou seja, que é outra pessoa.
Freqüentemente a despersonalização é acompanhada de desrealização, fenômeno no
qual o ambiente que cerca o individuo é experenciado como irreal, desconhecido, diferente,
com sensação de estranheza.
II- ATENÇÃO
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A atenção consiste em um estado de concentração da atividade mental sobre
determinado objeto. É o foco da consciência. O interesse é um dos importantes dirigentes
da atenção, sendo a intensidade com a qual a atenção é direcionada a determinado objeto é
denominado concentração.
A atenção, como a orientação, são funções psíquicas usadas para avaliar a
consciência. Sempre que a consciência está alterada a atenção esta alterada, sendo que o
contrário não é verdadeiro.
A atenção pode ser avaliada quanto sua natureza, direção e qualidade.
No que diz respeito a sua natureza, duas são as modalidades da atenção: espontânea
e voluntária. Denomina-se atenção espontânea a que é suscitada pelo interesse momentâneo
ou incidental que nos desperta este ou aquele objeto e que não exige gasto de energia, por
exemplo, ver TV, bater papo. E voluntaria, é aquela que exprime a concentração ativa e
intencional da consciência sobre um determinado objeto, essa forma exige gasto de energia
como por exemplo estudar.
No que se refere a sua direção, é costume também distinguir duas modalidades da
atenção: a que se projeta para fora (externa), e a que é denominada interna: voltada para
dentro, introspectiva.
Por fim a atenção pode ser classificada segundo a sua qualidade. Nesse caso
avaliamos sua tenacidade que se refere a capacidade do individuo fixar sua atenção sobre
determinada área ou objeto. Na tenacidade , a atenção se prende a determinado estimulo,
fixando-se sobre ele. Enquanto que a vigilância é definida como a qualidade da atenção que
permite o individuo a mudar seu foco de um objeto para outro. A concentração exacerbada
em determinado objeto, como durante uma leitura interessante, é denominada de
hipertenacidade e hipovigilancia, enquanto que um individuo que muda com freqüência o
foco de sua atenção, como um vigilante em trabalho, apresenta hipervigilancia, e
hipotenacidade. Em algumas situações pode coexistir um estado de hipervigilancia e
hipertenacidade, como um maestro. A combinação de hipervigilancia e hipertanacidade é
denominada de hiperprosexia, enquanto que a combinação de hipovigilancia e
hipotenacidade é denominada hipoprosexia. Quando a vigilância e a tenacidade estão
normalmente equilibrados denominamos normoprosexia.
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São muito características as alterações da atenção que se observam nos estados
depressivos e nos estados maníacos. Há nos quadros maníacos diminuição da atenção
voluntaria e aumento da atenção espontânea, com hipervigilancia e hipotenacidade. A
atenção do individuo em fase maníaca “salta” rapidamente de um estimulo para outro, sem
se fixar em nada. Nos quadros depressivos, por outro lado, há geralmente, uma diminuição
geral da atenção, ou seja, uma hipoprosexia.
III- ORIENTAÇÃO
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A orientação é a função psíquica responsável pela capacidade do individuo de
situar-se quanto a si mesmo e quanto ao ambiente, sendo portanto, um elemento básico da
atividade mental. A avaliação da orientação é um instrumento valioso para a verificação das
perturbações do nível de consciência. Muitas vezes verifica-se que a consciência esta turva,
levemente rebaixada, ao se investigar a orientação do individuo.
A orientação é denominada autopsiquica quando se trata da orientação do individuo
em relação a si mesmo. Revela se o paciente sabe quem é, como se chama, a sua idade,
nacionalidade, profissão, estado civil etc.
A orientação alopsiquica diz respeito a capacidade de se orientar em relação ao
mundo, isto é, quanto ao tempo (orientação temporal)- que indica se o paciente sabe
informar a data em que estamos, a hora do dia, o mês, o ano .... - e quanto ao espaço
(orientação espacial)- quando o paciente indica o local que estamos, o Estado, Pais etc....
A orientação temporal é adquirida mais tardiamente que a espacial na evolução
psicológica da criança, é uma função que exige a integração de estimulos ambientais de
forma mais elaborada, por isso é mais fácil e rapidamente prejudicada pelos transtornos
mentais, em particular pelos transtornos da consciência. Sempre que o paciente apresentar
alteração da consciência sua orientação estará alterada, mas o contrário não é verdadeiro.
ALTERAÇÕES DA ORIENTAÇÃO
Distinguem-se, vários tipos de alteração da orientação, na dependência dos
distúrbios psíquicos que a condicionem, deve-se lembrar que, geralmente, a desorientação
ocorre primeiramente quanto ao tempo, e só após o agravamento do transtorno é que o
individuo desorienta-se quanto ao espaço e quanto a si mesmo.
1- desorientação por redução do nível de consciência, também denominada
desorientação confusional. É aquela em que o individuo esta desorientado por rebaixamento
do nível de consciência. Esse rebaixamento provoca alteração da atenção, da concentração
e da capacidade de integração dos estímulos ambientais, impedindo que o individuo
apreenda a realidade de forma clara e precisa.
2- desorientação apática- surge por desinteresse normalmente decorrente das
alterações da vida instintivo-afetiva, nesse caso o individuo torna-se desorientado devido a
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uma marcante alteração do humor, e conseqüente falta de motivação e interesse. O
individuo gravemente deprimido, via de regra, não investe sua energia no mundo, não se
atem aos estímulos ambientais, e portanto, torna-se desorientado.
3- desorientação por déficit de memória – também denominada desorientação
amnéstica. Nesse tipo de desorientação o individuo não consegue fixar em sua memória as
informações ambientais básicas. Não conseguindo fixar as informações, perde a noção do
fluir do tempo, do deslocamento no espaço, passando a ficar desorientado temporo-
espacialmente. A desorientação amnéstica é típica da síndrome de Korsakoff. A
desorientação demencial é muito próxima a amnéstica. Ocorre não apenas por perda da
memória de fixação, mas por déficit de reconhecimento ambiental (agnosias) e por perda e
desorganização global das funções cognitivas.
4- desorientação delirante – acontece em indivíduos que estão imersos em estados
delirantes, pelos quais crêem que estão habitando o lugar de seus delírios. Nesses casos é
comum a chamada dupla orientação, na qual a orientação falsa, delirante, coexiste com a
orientação correta. O paciente afirma que está no inferno, cercado por demônios, mas pode
reconhecer também que está na enfermaria de um hospital.
5- desorientação histérica – ocorre em quadros histéricos graves, geralmente
acompanhada de alterações da identidade pessoal (fenômeno da possessão histérica ou
desdobramento da personalidade).
IV- A MEMÓRIA E SUAS ALTERAÇÕES
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A memória se define, genericamente, como a propriedade ou capacidade psíquica de
fixar, conservar e reproduzir, evocar ou representar (voltar a apresentar na consciência), sob
a forma de imagens representativas ou mnêmicas, aquelas impressões sensoriais, recebidas,
transmitidas e conscientizadas em algum momento do passado, ou seja, é a capacidade de
reviver estados do passado, sendo portanto fundamental em qualquer ato cognitivo.
FASES DO PROCESSO MNÊMICO
Em principio, é certo que nenhum dado de consciência, uma vez experimentado,
vivido, deixa de ser incorporado e reconhecido pelo individuo como fazendo parte de sua
experiência pessoal. Mas, para que um dado perceptivo venha a ser vivenciado como tal, é
necessário que ele seja objeto de uma apreensão e fixação adequadas. Essa primeira fase do
processo mnêmico é extra-consciente.
O processo mnêmico é dividido em 3 etapas: apreensão e fixação, armazenamento e
evocação.
O número de imagens mnêmicas que podem ser fixadas, com nitidez, em um só ato
perceptivo, é variável de individuo para individuo.
Ora, mesmo em condições normais, nem todo o apreendido é fixado da mesma
maneira. A capacidade de notação também varia com os sentidos, sendo em geral bem
maior na esfera visual que na auditiva, donde, o sucesso, para aprendizagem, dos métodos
chamados áudio-visuais.
De modo geral, para que um objeto se fixe em nossa retentiva será necessário, antes
de mais nada, que ele seja claramente percebido. E para isso, é condição essencial o dito
objeto seja dotado de certa carga afetiva potencial, capaz de despertar nosso interesse e
solicitar nossa atenção. Na simples e despreocupada travessia de um quarteirão urbano,
recebemos, é certo, milhares de estímulos e impressões, que todavia, jamais poderemos
recordar, porque nos passaram despercebidos, e portanto não foram fixados. A influência
dos fatores afetivos da fixação na imagem mnêmica pode fazer-se, aliás, tanto positiva
como negativamente. É sabido, com efeito, que em estados de forte tensão emocional, as
percepções se tornam compreesivelmente imprecisas e os engramas resultantes carecem,
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em conseqüência, da nitidez habitual, daí o dizer-se que o protagonista de um episódio
dramático é sempre quem o relata com menor exatidão e fidelidade.
Dessa forma, do ponto de vista psicológico, o processo de fixação depende:
- do nível de consciência: o individuo deve estar desperto, não muito cansado, bem
nutrido e calmo.
- da atenção global e da capacidade de manutenção concentrada sobre o conteúdo a
ser fixado.
- da sensopercepção preservada.
- do interesse e conteúdo emocional relacionado ao conteúdo mnêmico a ser fixado,
assim como do empenho do individuo em aprender (vontade e afetividade).
- de conhecimento anterior : elementos já conhecidos ajudam a adquirir elementos
novos.
A segunda fase do processo mnêmico é a conservação das nossas lembranças, e
também, em torno desta, não faltam experimentos e teorias, tendentes a explica-la. Uma das
mais antigas e difundidas é justamente a que consiste em admitir que a consevação se faz
por um espécie de impregnação mecânica, donde o papel da repetição na aquisição de
hábitos, com subseqüente armazenamento dos engramas nas estruturas cortiço-cerebrais
respectivas. Estas funcionam então como verdadeiros escaninhos, em cada um dos quais
seriam catalogadas e arquivadas determinadas classes de lembranças.
A conservação pode ser definida como a possibilidade de pensar de novo. O
importante aqui, antes de tudo, é saber que uma lembrança, enquanto não evocada,
permanecerá em latência, não propriamente isolada, mas articulada com outras lembranças,
em múltiplas direções, formando então, um fluxo associativo.
A conservação dos elementos mnêmicos depende de:
- repetição
- associação com outros elementos.
Temos então a terceira fase do processo mnêmico: a evocação. Esta é a última aliás,
percebida pelo indivíduo como um ato consciente.
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No curso de nossas vidas, operamos uma seleção salutar de nossas lembranças. A
isso se liga o prestígio do passado, que nem sempre terá sido na verdade, tão esplendoroso,
quanto o pretendem as rememorações dos que o cultivam.
ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA MEMÓRIA
É a memória, como temos salientado, atributo de máxima importância para a
segurança, estabilidade e continuidade de nossas ações no meio social, motivo pelo qual os
distúrbios que a comprometem logo repercutem no plano das relações inter-humanas, e
conseqüentemente, na vida civil do individuo, sob todos os aspectos.
A memória deve ser avaliada para fatos recentes e para fatos passados, a memória
para fatos recentes é a chamada memória de fixação, a memória para fatos passados é a
chamada memória de evocação. A importância dessa avaliação se dá pela observação de
um neurologista chamado Ribot, que observou como se dá a perda da memória nos
processos demênciais o que hoje é conhecido como Lei de Ribot. Ele diz: a perda da
memória se de de fatos mais recentes para fatos mais antigos, do menos importante para o
mais importante, do mais complexo para o mais simples. Essa é a razão pela qual a
memória dos idosos se mostra, via de regra, bem mais fiel para com os acontecimentos
remotos que para os recentes, fato que se acentua de maneira característica nos estados
patológicos de senilidade.
Alterações da memória
As alterações quantitativas da memória, podem estar presentes para mais, ditas
hipemnésias, ou para menos, ditas hipomnésias ou amnésias.
Hipermnésias - É certo que o aumento da memória nem sempre se acompanha de
aumento paralelo do número e velocidade das representações e associações e vice-versa.
Senão, vejamos, indivíduos de inteligência medíocre e até não raro, débeis mentais e
imbecis, são as vezes, dotados de extraordinária capacidade de fixação a ponto de
decorarem de imediato, e sem falhas, todo um longo discurso, ou peça teatral.
Também por outro lado, nos estados maníacos e de exaltação emocional, de
qualquer espécie, a hipermnésia traduz a aceleração do ritmo psíquico, mas sem aumento
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coetaneo da retentividade. De tal modo que as recordações afluem em tropel, ganhando,
porém, em número o que perdem em clareza e precisão.
Uma forma especial de hipermnésia é conhecida como ecmnésia, que consiste em
estados de recaptulação abreviada e panorâmica da existência, experimentados, ao que se
diz, pelos que estão na iminência da morte. Convém acentuar, entretanto, que não é a
ecmnésia mera rememoração, mas a verdadeira presentificação do vivido.
Existe ainda um outro fenômeno, conhecido como recordação obsidente, ou idéia
fixa que consiste na lembrança reitarada e insistente de uma palavra, trova, provérbio,
melodia etc.... algo que se instala e resiste, as vezes, por algum tempo, a todo esforço,
voluntariamente despendido para o seu afastamento.
As hipomnésias ou amnésias por outro lado constituem a diminuição da capacidade
de memória, que pode ser classificadas de acordo com a origem, quanto a evolução ou
quanto a extenção.
Classificação das hipomnésias ou amnésias quanto a origem:
- somatogênica: trata-se de uma alteração de memória de origem orgânica. Como
acontece por exemplo no alcoolismo ou na demência.
- psicogênica: trata-se de uma alteração de memória devido a um trauma ou forte
emoção.
Classificação das hipomnésias ou amnésias quanto a evolução:
- reversível
- irreversível
Classificação das hipomnésias ou amnésias quanto e extensão:
- maciça – esquece completamente ou grandes porções.
- lacunar – esquece tudo o que acontecer durante um período (um trauma ou um
determinado episódio), mas lembra antes e depois.
- seletiva- esquece determinados detalhes de determinados momentos.
Outras alterações de memória são:
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- alomnésia : ilusão de memória: é um exagero ou uma modificação de memória.
- paramnésias: o fato não ocorreu e o individuo conta como se tivesse acontecido. A
paramnésia se clássica como fantástica ou confabulatória.
- paramnésia confabulatoria: o paciente preenche as falhas de memória com algo
não ocorrido. neste caso, elementos da imaginação do doente ou mesmo lembranças
isoladas completam artificialmente as lacunas de memória, produzidas geralmente por um
déficit de memória. Não há intenção do paciente de mentir ou enganar o entrevistador.
Pode-se produzi-las, direciona-las, ou estimula-las diferente das alucinações de memória
que não podem ser modificadas ou induzidas pelo entrevistador. As fabulações ocorrem
freqüentemente na síndrome de Korsakoff, secundária ao alcoolismo crônico, associado ao
déficit de tiamina (vitamina b1).
- paramnésia fantástica: é uma memória resultante de uma atividade delírante.
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V- INTELIGENCIA E SUAS ALTERAÇÕES
A inteligência refere-se a capacidade de identificar e resolver problemas novos, de
reconhecer adequadamente as situações vivenciais e encontrar soluções. Ou seja, é a
capacidade de adaptar-se as novas situações mediante o emprego consciente dos meios
ideativos.
Pelo que daí se depreende, implica a inteligência, não somente a posse dos meios
ideativos, mas também a capacidade aplicá-los, de forma oportuna e conveniente, na
consecução de um propósito determinado. De onde resulta que não só será inteligente o
individuo que pensa muito, como também, em certas circunstancias , aquele que pensa
pouco. Por que a exigência fundamental para caracterização da inteligência é sempre de
ordem econômica: há que se obter o máximo de efeito, com o menos de gasto possível.
A isso poderíamos acrescentar que um individuo será a principio, tanto mais
inteligente: 1-quanto melhor, mais rápida e mais facilmente compreenda; 2-quanto maior,
mais extenso e variado for o número de enlaces e relações significativas (associações) que
estabeleça entre os dados da compreensão; 3- quanto mais pronta e espontaneamente
elabore novos e originais conteúdos de pensamento (idéias) que ampliem e enriqueçam o
seu patrimônio representativo e ideativo; 4- quanto melhor saiba ajuizar com segurança e
raciocinar com lógica, abstraindo e generalizando dados concretos da realidade imediata,
sob a forma de conceitos atemporais e universais, de validade absoluta e enfim; 5- quanto
melhor se adapte, por tudo isso, as exigências das situações vitais.
A forma de inteligência meramente racional, cujo objetivo é apenas suprir as
necessidades vitais primárias, dá-se o nome de inteligência prática ou orgânica, forma
comum ao homem e aos animais inferiores.
Stern fala que nas primeiras etapas do desenvolvimento infantil, tudo o que existe é
tão somente essa inteligência prática. Até porque, em tais fases as funções intelectuais da
criança reduzem-se a rodeios, para satisfação do instinto. Mas a proporção que a idade
avança e que o desenvolvimento mental progride, vai se debilitando também
progressivamente, a influencia das excitações externas e começa a crescer, paralelamente, a
inteligência dita disposicional. A pouco e pouco, alonga-se cada vez mais o caminho entre a
vontade e o objetivo. Entre um e outro surgem então numerosos elos intermediários. De tal
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sorte e a tal ponto, que a obtenção do fim passa a exigir agora a utilização de mais
numerosos atos ideativos, culminando isso no desenvolvimento da inteligência chamada
teórico-lógica. Enfim, quando os processos intelectuais atingem nível de superior
desenvolvimento, ultrapassando os limites dos imperativos vitais imediatos, fala-se então
de uma inteligência pura, teórica ou gnóstica, em frontal oposição a inteligência prática ou
orgânica, a que há pouco nos referimos.
Outra questão que vem sendo insistentemente salientada pelos entusiastas da análise
fatorial é a que se refere a qualidade da inteligência, o que também já era admitido
anteriormente, quando se falava de aptidão vocacional. De regra, delimitam-se tantos tipos
de inteligência quantas espécies de problemas possam ser formulados. Daí falar-se em
inteligência mecânica, espacial, verbal, social etc....
Finalmente cabe lembrar que o desenvolvimento da inteligência é influenciado por
fatores genéticos, pelo componente ambiental (estímulos psicossociais), bem como a
integridade sensorial, e emocional.
NÍVEIS DE DESENVOLVIMENTO: NOÇÃO DE IDADE MENTAL E DE
QUOCIENTE DE INTELIGÊNCIA (QI)
De regra, e em condições normais, observa-se constante paralelismo entre a
evolução intelectual da criança e do adolescente e sua idade cronológica respectiva.
Segundo Piaget, entre o primeiro e o décimo quinto mês de vida, a inteligência é
meramente sensório-motora, cingindo-se ao estabelecimento das primeiras identificações e
relações mecânicas, com objetivos práticos imediatos. Somente a partir do segundo ano de
idade, com o aparecimento desse prodigioso instrumento de intercomunicação humana, que
é a linguagem verbal, simbólica, começa a crescer então a chamada inteligência
representativa pré-operatória, que perdura até aproximadamente 7 anos de idade e que se
caracteriza sobretudo por um pensamento egocêntrico e sincrético, impregnado de ficções
mágicas e de toda sorte de simplificações catatimicas, causalistas e finalistas. Daí por
diante, e até as vizinhanças da puberdade, domina a fase dita de inteligência concreta,
caracterizada pela necessidade de esclarecer a diferença entre o real e o imaginário,
mediante o exercício de operações mentais simples, regidas por um sistema de valores mais
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ou menos fixos. Segue-se finalmente, a etapa das operações lógico- formais, já
característicos da puberdade consumada e em que se afirma, sobre modelos ideoverbais
cada vez mais rigorosos, a crescente independência do pensamento construtivo e
discursivo.
É, em geral, entre os 15 e 16 anos de idade, que se admite hajam os processos
intelectuais alcançado o máximo de seu desenvolvimento quantitativo. É provável até que
isso ocorra algo mais cedo no sexo feminino. Mas o que importa frisar a respeito é que,
para além daquele limite cronológico, o progresso intelectual far-se-a apenas em qualidade,
por efeito do amadurecimento de disposições herdadas, e principalmente, de
aprimoramento da cultura e enriquecimento da experiência vital.
Ora, quando as potencialidades intelectuais de um individuo não chegam a se
desenvolver ou estacionam em qualquer etapa evolutiva do desenvolvimento infantil, isso
ocasionará, forçosamente, uma dissociação ou falta de correspondência entre o nível mental
desse individuo e sua idade cronológica. Diz-se então, que a sua idade mental é inferior a
sua idade real.
Assim, Binet, no início do século 18, passou a distinguir, baseado na noção de idade
mental, 3 graus fundamentais de oligofrenia:
- debilidade mental – o grau mais leve, correspondem aos níveis mentais que
oscilam entre os 7 e 10 anos de idade.
- imbecilidade – grau médio, equivalente aos níveis mentais situados entre 3 a 7
anos de idade.
- idiota – grau mais profundo, equiparável a um nível mental definitivo igual ou
inferior ao de uma criança de 3 anos de idade.
Essa noção de idade mental, primitivamente introduzida, foi mais tarde substituída
por outra, bem mais precisa, a de quociente intelectual – QI –criada por Stern. O QI de um
individuo é o resultado da divisão de sua idade mental por sua idade cronológica, ambas
expressas em meses, e até o limite máximo de 16 anos. Nos indivíduos de inteligência
normal esse quociente encontra-se entre 90 e 110. É superior a 110 nos superdotados e
inferior a 70 nos oligofrenicos, conforme a escala a seguir:
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- retardo mental leve – QI – 50 a 69 – são individuos levemente retardados, que
adquirem linguagem com algum atraso, mas a maioria atinge a capacidade de usar a fala
para finalidades cotidianas, para envolver-se em conversações e para envolver-se na
entrevista clínica. A maioria delas também consegue total independência em cuidados
próprios (comer, lavar-se, vestir-se e no controle dos esfíncteres) e em habilidades práticas
domésticas, mesmo se o ritmo de desenvolvimento é consideravelmente mais lento que o
normal. As principais dificuldades são vistas usualmente no trabalho escolar acadêmico, e
muitos têm problemas específicos de leitura e escrita. No entanto, pessoas levemente
retardadas podem ser grandemente auxiliadas pela educação planejada para desenvolver
suas habilidades e compensar seus prejuízos. A maioria dos indivíduos nos limites
superiores do retardo mental leve é potencialmente capaz de trabalhos que demandam
habilidades práticas, ao invés de acadêmicas, incluindo trabalho manual especializado ou
semi-especializado.
- retardo mental moderado – QI – 35 a 49 – indivíduos nessa categoria são lentos na
compreensão e uso da linguagem e suas eventuais realizações nessa área são limitadas.
Realizações nos cuidados pessoais e habilidades motoras estão igualmente retardadas e
alguns necessitam de supervisão durante toda a vida. O progresso em trabalhos escolares é
limitado, porém uma proporção desses indivíduos aprende as habilidades básicas
necessárias para leitura, escrita e calculo. Programas educacionais podem oferecer
oportunidades para eles desenvolverem seu potencial limitado e adquirir algumas
habilidades básicas; tais programas são apropriados para pessoas que aprendem lentamente
e que têm baixo limite de realização. As pessoas moderadamente retardadas são usualmente
capazes de fazer trabalhos práticos simples, se as tarefas forem cuidadosamente
estruturadas e supervisão especializada for proporcionada. Uma vida completamente
independente na fase adulta é raramente alcançada. Geralmente entretanto, tais pessoas são
inteiramente móveis, fisicamente ativas e a maioria mostra evidencia de desenvolvimento
social na sua capacidade de estabelecer contato, engajar-se com outros e se engajar em
atividades sociais simples.
- retardo mental grave – QI -20 a 34 – o nível de desenvolvimento da linguagem é
variável. Alguns daqueles afetados podem tomar parte em conversações simples, enquanto
outros tem capacidade de linguagem suficiente para informar suas necessidades básicas.
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Alguns nunca aprendem a usar a linguagem embora possam entender instruções simples e
aprender a usar sinais manuais. A maioria das pessoas nessa categoria sofre um grau
marcante de comprometimento motor.
- retardo mental profundo – QI abaixo de 20 – esses indivíduos são gravemente
limitados em sua capacidade de entender ou de agir de acordo com pedidos e instruções. A
maioria desses indivíduos é imóvel ou gravemente restrito em sua mobilidade, incontinente
e capaz de, no máximo, apenas formas muito rudimentares de comunicação não verbal.
Eles possuem nenhuma capacidade de cuidar de suas próprias necessidades básicas e
requerem constante ajuda e supervisão.
Os indivíduos cujo QI esta entre 70 e 90 pertencem as faixas dos fronteiriços,
incluindo um vasto grupo de borderline cases, como denominam os autores americanos.
Devemos sempre lembrar de ser cautelosos em relação a avaliação da inteligência,
uma vez que são muitas as circunstancias suscetíveis de ferir ou falsear as aparências.
Existem situações em que ocorrem certas deficiências de rendimento, decorrentes não de
déficits da capacidade intelectual propriamente dita, mas de fatores de ordem
caracterológica – introversão, timidez, hiperemotividade, ou de natureza conflitual, por
desarmonia com os pais ou entre os pais, opressão familiar, forte sentimento de
inferioridade e subseqüente fuga das competições etc. muitas vezes, atenções voltadas para
outras esferas de interesses, simples desajustamentos interpessoais, transitórios dentro do
grupo ou mesmo estados de embotamento, que foram denominadas estupidez emocional.
Essas situações podem, não raro, responder também por esses tão freqüentes erros de
julgamento, nem sempre fáceis de se prevenir ou remediar.
Haja vista os inúmeros casos que se conhecem de homens de espírito geniais, que
foram todos, na infância, e alguns até na juventude, considerados apoucados ou retardados
mentais. Por ex. Isaac Newton nunca teve boa fama como escolar. Édison, chegou a ser
expulso da escola por incapacidade para o estudo. O próprio Pasteur foi tido por seu mestre
como medíocre.
A contrapartida desses casos é constituída justamente pelo grupo das denominadas
crianças prodígios, que infelizmente, na maioria dos casos, naufragam na idade adulta, vão
se perdendo ao longo dos anos, diluídas no oceano do anonimato, sem nada realizarem
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enfim, de suas promessas. Há por certo, algumas exceções como Mozart.... basta considerar
a alta proporção com que se assinalam níveis de inteligência superior entre escolares.
Termam chegou a registrar 1 para 250, proporção que lamentavelmente está muito longe de
corresponder ao que se observa nas médias das populações adultas.
Não é de todo impossível que boa parte desses prodígios infantis caiba na categoria
dos denominados gênios parciais, que Bleuler veio mais tarde descrever e disignar como
imbecilidade desarmônica. Tais indivíduos ostentam frequentemente a aparência de
extraordinária inteligência, providos que são de grande vivacidade mental, excelente
memória mecânica e boa capacidade lingüística. Possuem, além disso, exagerado
sentimento de auto-estima e acentuada falta de auto-crítica, dando assim, não raramente a
impressão de vasto saber e grande rendimento. Em realidade, porém, revelam ao exame
atento, inteiramente confusos, vazios e caóticos, a par da mais surpreendente incapacidade
de solucionar situações vitais e elementares, incorrendo, a cada instante, em opções
desvantajosas, inadequadas e até contraditórias aos seus interesses e pretensões.
EXPLORAÇÃO DA CAPACIDADE INTELECTUAL: MÉTODOS DE EXAME
DE INTELIGÊNCIA
De regra, a simples conversação bem conduzida, no decorrer de uma ou mais
entrevistas psicológicas, será por si só, suficiente pra fornecer ao observador
experimentado, uma primeira impressão geral a cerca da inteligência do entrevistado,
através da maneira como esse se comporta no diálogo, de sua capacidade de compreensão
de conceitos abstratos, das idéias e juízos que emite acerca de várias questões que forem
surgindo no decorrer da conversa. A consideração longitudinal dos acontecimentos de sua
vida e a analise de sua conduta no meio social, o acerto e desacerto com que soluciona os
problemas, representam outros tantos elementos que frequentemente nos asseguram a
possibilidade de uma avaliação da inteligência.
Mas há que convir que esse método é bastante subjetivo, até porque entra em jogo
forçosamente a inteligência do observador. Daí algumas vezes serem necessários a
realização de testes.
É sempre preciso, para melhor ajuizar o resultado dos testes de inteligência, avaliar
as condições de aplicação, adaptabilidade, e calibração. Isso equivale a reconhecer que
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múltiplas são, de fato, as circunstancias, causais ou incidentais, os fatores intrínsecos ou
extrínsecos, permanentes ou ocasionais, passiveis de interferir no rendimento intelectual, e
portanto falsear a apreciação da inteligência por esse meio.
Do ponto de vista do individuo, também há que contar com um sem número de
influencias pessoais desfavoráveis, capazes de prejudicar, até por vezes, decisiva e
substancialmente, a exatidão da aferição, como por ex. a introversão, o desinteresse, a
distraibilidade.....
Dessa forma podemos concluir que tanto o exame clinico quanto os testes
psicométricos podem ter falseados os seus resultados, tanto por interferência externa,
quanto interna do paciente.
Dessa forma temos que distinguir as alterações de inteligência em:
- oligofrenia: diminuição da capacidade intelectual, que pode se dar em vários níveis
como já foi referido anteriormente, esta pode ser genética, congênita, ou pseudo-adquirido.
- imbecilidade desarmônica: nível intelectual baixo, associado com desinibição,
excelente memória mecânica, boa habilidade lingüística e elevada auto-estima.
- estupidez emocional: impotência intelectiva momentânea, devido a ansiedade.
- pseudo-oligofrenia: quando por motivos externos ou internos, como ansiedade,
desinteresse, conflitos emocionais etc. o individuo acaba compromentendo o seu
desempenho intelectual.
VI- A SENSOPERCEPÇÃO E SUAS ALTERAÇÕES
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Define-se sensação como o fenômeno elementar gerado por estímulos físicos,
químicos ou biológicos variados, originados fora ou dentro do organismo, que produzem
alterações nos órgãos receptores, estimulando-os.
É uma função psíquica básica que estabelece uma ponte entre o ambiente externo e
o interno.
A sensação é o estímulo que vem do meio externo e é captado por receptores
específicos e conduzido ao sistema nervoso central onde é transformado em percepção.
A percepção é portanto a tomada de consciência, pelo individuo, do estimulo
sensorial.
Conseqüentemente, para que a percepção se dê é condição a integridade anátomo-
fisiológica do aparelho sensorial e das áreas cerebrais incumbidas de receber e elaborar a
sensação.
Assim, toda percepção em condições normais, tem base na sensação, seja esta
proveniente de nossa sensibilidade geral ou especial (órgãos dos sentidos), implica
necessariamente a existência de um estimulo específico, que é transmitido pelos nervos
sensitivos aos centros cerebrais correspondentes.
Agnosia - Quando, por ação de fatores e mecanismos físico-patológicos diversos,
que afetam tais ou quais regiões do encéfalo, o individuo não pode identificar as impressões
sensoriais que recebe, diz-se então que há agnosia. Esta pode referir-se tanto a sensibilidade
geral (agnosia táctil por ex, na qual o individuo não consegue reconhecer um objeto pela
palpação), como especial (cegueira). É importante, porém, não tomar por verdadeiras
agnosias (decorrentes de lesões centrais), ás alterações vinculadas aos aparelhos sensoriais
ou a lesão de certos pares cranianos, nervos sensitivos periféricos ou feixes laterais e
cordões posteriores da medula, condutores de sensibilidade.
Múltiplas são as condições capazes de alterarar a intensidade e nitidez das nossas
percepções. Valendo ressaltar aqui, em primeiro lugar, a que se refere as influencias de
ordem afetiva, que se fazem sentir, tanto positiva quanto negativamente. De regra, para que
a percepção se dê é necessário que o estimulo seja dotado de certa carga afetiva potencial,
sem o que, a imagem perceptiva não chegará a se formar destacadamente e com clareza no
campo da consciência. A prova disso está em que, embora sejam sempre inúmeros e
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variadíssimos os estímulos que recebemos na unidade do tempo, raro é que possamos
discriminar em um só ato perceptivo, todos os elementos ou unidades da percepção. É
verdade que dentro de certos limites, registram-se no particular, diferenças dignas de nota,
de individuo para individuo, e até em um mesmo individuo, conforme o campo sensorial,
que esteja em foco no ato perceptivo a considerar, e em favor de sua maior ou menor
capacidade de percepção, do seu interesse ou desinteresse, efetivo ou ocasional, grau de
fadiga, ou até seu maior ou menor adestramento profissional.
As sensopercepções reais se caracterizam pelas seguintes qualidades:
1- Nitidez – a imagem é clara e bem delimitada.
2- Corporeidade – a imagem é viva (tem luz, brilho e cores vivas) e corpórea.
3- Estabilidade – a imagem é fixa, estável, não muda de um momento para outro.
4- Extrojeção – o objeto correspondente está projetado no espaço natural externo,
fora dos limites do eu.
5- Ininfluencibilidade voluntária – a imagem não é modificável pela nossa vontade
consciente.
Existem imagens que são fruto de uma representação, de uma re-apresentação, de
uma imagem na consciência, sem a presença da imagem real externa do objeto que no
primeiro momento gerou a imagem real externa.
A imagem representativa ou mnemica (representação), caracteriza-se por:
1- pouca nitidez.
2- pouca corporeidade
3- instabilidade – a representação aparece e desaparece facilmente da consciência.
4- introjeção – ela é percebida no espaço interno.
Tem-se alguns subtipos da imagem representativa:
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1- imagem eidética – trata-se da disposição de que são dotados alguns poucos
adultos e aproximadamente a metade de todas as crianças e adolescentes, que conferem a
capacidade de visualizarem figuras e objetos que lhes tenham sido apresentados ainda que
tão só durantes alguns segundos, e depois retirados de sua presença. Tais indivíduos são
então capazes de continuar vendo sobre uma parede lisa ou sobre uma folha de papel cinza
ou branca, aquelas figuras e objetos já desaparecidos de seu campo visual, os quais podem
ser, pois voluntariamente extrojetados, quer dizer, projetados (não simplesmente
reproduzidos na memória) no espaço objetivo, com toda a precisão e abundancia de
detalhes. As características das imagens eidéticas são a extrojeção condicionada e a
influencibilidade voluntária. O que explica a capacidade de Beethoven que continuava a
compor apesar da surdez. Esse tipo de imagem não representa um sintoma de transtorno
mental.
2- pareidolias – são imagens visualizadas voluntariamente a partir de estímulos
imprecisos do ambiente. A criança ao olhar uma nuvem e poder ver nela um gato ou um
elefante esta experimentando o que se denomina pareidolia.
ALTERAÇÕES DA SENSOPERCEPÇÃO
As alterações da sensopercepção podem ser classificadas como quantitativas ou
qualitativas.
Alterações quantitativas da sensopercepção
Nesse caso, as imagens perceptivas tem uma intensidade anormal, para mais ou para
menos.
A hiperestesia é a condição na qual as percepções estão anormalmente aumentadas.
Os sons são ouvidos de forma amplificada, um ruído parece um estrondo, as imagens
visuais, as cores, tornam-se mais vivas e intensas. As hiperestesias ocorrem nas
intoxicações por alucinógenos (eventualmente também após a ingestão de cocaína ou
maconha), em algumas formas de epilepsia, na enxaqueca, no hipertiroidismo agudo e nos
quadros maníacos.
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A hipoestesia é observada em alguns pacientes depressivos, nos quais o mundo
circundante é percebido como mais escuro, as cores tornam-se pálidas, sem brilho. Os
alimentos não têm mais sabor, os odores perdem a intensidade. A analgesia de partes do
corpo, quando não de origem neurológica, podem ocorrer em pacientes histéricos, em
hipocondríacos, e ocasionalmente em pacientes submetidos a estados emocionais intensos.
Alterações qualitativas da percepção
São as alterações da sensopercepção mais importantes em psicopatologia.
Compreendem as ilusões, as alucinações, a alucinose e a pseudo-alucinação.
1- ilusão – a ilusão é a imagem deformada de um objeto real e presente. Na ilusão
há sempre um objeto externo real, gerador do processo de sensopercepção. Elas podem
estar presentes nos estados de rebaixamento do nível da consciência, quando por
rebaixamento do nível de consciência a percepção torna-se imprecisa; nos estados de fadiga
grave ou de inatenção marcante, quando são transitórias sem muita importância clínica; ou
ainda em determinados estados afetivos, por sua acentuada intensidade, o afeto deforma o
processo de sensopercepção, gerando as chamadas ilusões catatímicas.
As ilusões mais comuns são as visuais, e também não são raras as ilusões auditivas.
2- alucinação – define-se alucinação é a percepção sem objeto, sem o estímulo
respectivo. Jaspers assinala que a alucinação apresenta todas as características de uma
percepção verdadeira, ou seja, nitidez, corporeidade, projeção no espaço externo,
constancia e ininfluencibilidade voluntária. Que é o que empresta objetividade espacial a
essa intuição mórbida e lhe assegura passiva e imediata aceitação pelo juízo de realidade. A
força de convencimento da imagem alucinatória é, portanto irresistível, e muitas vezes os
pacientes obedecem as vozes mesmo quando isso implica em risco para a própria vida ou
de outro.
Importante é falar que as alucinações não são distúrbios puro e estritamente
perceptivo. Tais fenômenos, embora projetados na esfera sensorial e aí aparentemente
localizados, expressam a participação de todo o conjunto da atividade psíquica.
Muitas vezes é difícil perceber a existência das alucinações, tal a freqüência com
que os pacientes sonegam fenômenos dessa natureza à inquirição coloquial, ainda que hábil
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e cautelosa. Isso, no entanto, não é constante e, ademais, há quase sempre no
comportamento desses pacientes certos indícios reveladores, que não escapam ao
observador sagaz e que, assim, contradizem frontalmente as suas negativas: o ar,
subitamente alheado ou distraído, em meio ao exame; a atitude de escuta atenta; os
solilóquios, sobretudo em tom de diálogo; bruscas respostas a parte no decurso da
conversação; ouvidos e narinas protegidos com algodão; etc.
Os tipos de alucinações mais freqüentes na clínica são:
- alucinações auditivas – estas são as mais comumentes observadas. Podem ser
simples, de caráter elementar, nas quais o individuo ouve apenas ruídos, zumbidos,
estalidos, silvos, campainhas etc. ou podem se apresentar como fenômeno mais complexo,
sob a forma diferenciada acústico- verbais, ou seja vozes. Há vozes que vêm de longe,
claras e sonoras; outras que saem das paredes, confusas, em alvoroço; outras ainda, que
falam dentro do ouvido, em murmúrios indistintos. Nas esquizofrenias, podem dirigir-se
diretamente ao paciente, ou podem falar dele entre si. Em geral insultam, ofendem,
advertem, criticam, ameaçam ou ordenam (alucinações imperativas), influenciando a
conduta, atitudes e reações do paciente. Há vozes dialogantes, que atacam e defendem o
paciente, ora por um, ora por outro ouvido, ou por ambos. Não raro, nas esquizofrenias
avançadas, as vozes falam, mas já nada querem dizer ao enfermo, que não chega sequer a
molestar-se, aceitando-as com indiferença. Uma forma de alucinação particular é a
chamada sonorização do pensamento, quando o paciente ouve o próprio pensamento no
mesmo instante em que ele é pensado, ou logo após, nesse última forma também chamada
eco do pensamento, ou ainda a publicação do pensamento, quando o paciente acredita que
as outras pessoas também podem ouvir seu pensamento.
- alucinações visuais – as alucinações visuais também podem ser elementares
(fagulhas, clarões....) ou diferenciadas ou complexas (visões, figuras, cenas estáticas ou em
movimento...). As alucinações complexas podem ter tamanho natural, minúsculo
(chamadas alucinações liliputianas), podem ser gigantescas (chamadas alucinações
guliverianas). Podem ser de animais (zoopsias).
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De forma geral, embora as alucinações visuais possam ocorrer em qualquer psicose,
elas são mais freqüentes nas síndromes psicorgânicas agudas (delírium) e nas psicoses
desencadeadas por drogas.
- alucinações olfativas e gustativas – são formas de alucinações relativamente raras,
que aparecem quase sempre associadas entre si. As alucinações olfativas em geral têm um
impacto pessoal especial, podendo estar relacionadas à interpretações delirantes (sinto
cheiro de comida envenenada).
- alucinações táteis – sediadas a superfície do tegumento cutâneo, sob a forma de
queimaduras, picadas, formigamentos, choques. É uma alucinação encontrada com muita
freqüência no delírium tremens e nas psicoses tóxicas. Nos pacientes esquizofrênicos uma
forma freqüente de alucinação tátil são aquelas sentidas nos genitais, que sentem de forma
passiva que forças estranhas tocam, cutucam ou penetram seus genitais.
- alucinações cenestésicas – acontecem com freqüência em pacientes melancólicos e
hipocondríacos, são fenômenos que assumem uma forma dramática, concernente a sua
sensibilidade visceral, concomitantes a alterações da esfera do julgamento (delírios) como a
sensação de que o fígado está podre ou o cérebro encolhendo.
- alucinações cinestésicas – entende-se essa forma de alucinação como a falsa
sensação de movimento, segmentados ou de todo o corpo. O paciente experimenta a
sensação de que executa um movimento ou de que é movido, como por ex. de que está
afundando no leito. Tais fenômenos não devem ser confundidos com as vertigens
labirínticas.
- alucinações sinestésicas – são alterações da sensopercepção em que o individuo
cria uma percepção de outra, ele vê os sons por exemplo.
- alucinações funcionais – denominam-se alucinações funcionais aquelas
verdadeiras desencadeadas por estímulos sensoriais. Note-se que a alucinação funcional
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difere da ilusão, pois, enquanto a ilusão é a deformação da percepção de um objeto real e
presente, a alucinação funcional é a percepção de um objeto inexistente apenas
desencadeada por um estimulo real. Alguns pacientes relatam por ex. que quando abrem o
chuveiro começam a ouvir vozes.
- alucinações combinadas - são experiências alucinatórias nas quais ocorrem
alucinações de várias modalidades sensoriais ao mesmo tempo. O individuo vê uma pessoa,
que fala com ele, toca nele etc.
- alucinações extra-campinas – são aquelas experimentas fora do campo
sensoperceptivo usual, quando um paciente vê uma imagem nas suas costas ou atrás de uma
parede.
- alucinação autoscópica – é geralmente uma alucinação visual mas que também
apresenta componentes táteis e cenestésicos, na qual o individuo enxerga a si mesmo, vê
seu corpo, como se estivesse fora dele, comtemplando-o. É um fenômeno relativamente
raro, associado a epilepsia, lesões do lobo parietal e esquizofrenia.
3- alucinose – a alucinação denominada alucinose é o fenômeno pelo qual o
paciente percebe tal alucinação como estranha a sua pessoa. Na alucinose embora o
paciente veja a imagem ou ouça a voz ou ruído, falta a crença de que comumente o
alucinado tem em relação a sua alucinação. Uma forma comum de alucinose auditiva é a
alucinose alcoólica. Ela ocorre geralmente em alcoolistas crônicos e consiste em vozes que
falam do paciente em terceira pessoa. Ocorre com nível de consciência preservada, o
paciente tem uma boa critica em relação a vivencia alucinatória, reconhecendo seu aspecto
patológico.
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VII- PENSAMENTO
O pensar consiste na atividade de suceder idéias, conceitos. É através do
pensamento que compreendemos o mundo, asseguramos nossa sobrevivência, dirigimos
nosso comportamento e nos adaptamos. O pensamento é uma função psíquica que depende
de todas as outras funções psíquicas para acontecer. Ou seja, ele depende da consciência,
inteligência, sensopercepção, humor, memória, para ao final julgar a realidade.
Ele é classificado como pensamento mágico e pensamento lógico.
Pensamento mágico e pensamento lógico
O pensamento mágico é aquele que não tem compromisso com a realidade, é
peculiar da chamada mentalidade pré-lógica, própria do primitivo, e até certo ponto das
crianças. Nessa forma de pensar não existem fronteiras nítidas entre o real e o irreal, entre o
objetivo e o subjetivo. A realidade externa carece de estabilidade e objetividade neutras,
vindo a ser, por isso, arbitrariamente configurada, em função de temores e desejos
individuais. A essa participação afetiva na configuração da realidade circundante, com
projeção do eu nos objetos e fenômenos da natureza se denomina participação mística.
Apesar de haver um predomínio do pensamento reflexivo e lógico no individuo
adulto, há em sua mentalidade um sem número de sobrevivências mágicas residuais, que se
reativam, em determinadas circunstancias (ansiedade, paixão, incerteza, sofrimento, perigo
iminente.....) que aparecem sob a forma de apelos desesperados ao sobrenatural,
superstições, crendices etc.
O pensamento reflexivo e lógico, organizado de forma racional, baseada no juízo
(aqui definido como a capacidade de diferenciar o falso do verdadeiro), que governa a vida
do individuo adulto está baseado em 3 principios fundamentais: 1) o principio da identidade
onde A é A e B é B, 2) o principio da causalidade onde se observa que não há efeito sem
causa, e causa e efeito formam uma relação temporal; 3) principio da relação da parte com
o todo.
Juízo e raciocínio são duas operações de que se vale e com que se exerce
habitualmente a atividade do pensamento lógico. O juízo consiste na capacidade de inferir
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se algo é verdadeiro ou falso. O raciocínio consiste em encadear os nossos juízos, uns aos
outros, de maneira tal que o último elo da cadeia se imponha como derivação necessária e
inevitável dos anteriores.
Instrumento fundamental no processo do conhecimento é o juízo, antes de tudo, um
ato de inteligência que nos permite afirmar nossa relação com o mundo, discernir a verdade
e o erro. Mas não devemos nos esquecer de que ajuizar também quer dizer julgar, o que
indica que nossos juízos estão sempre impregnados de afetividade e vontade, e que todo
julgamento é por isso, predominantemente subjetivo. Um julgamento frio, neutro, imparcial
e desinteressado, é a rigor, inexeqüível, uma vez que ele estará impregnado sempre de
nossa formação e cultura. Daí dizer-se e não todo sem razão, seguramente, que um juízo
critico, por mais bem fundamentado que possa ser, revela, as vezes, muito mais, a natureza
mesma da pessoa que julga do que a qualidade da coisa julgada.
Pensamento e linguagem
O pensamento flui, independente de sua verbalização interior ou de qualquer outra
modalidade de linguagem, interna ou externa. Quando lemos em silêncio, quando
escrevemos ou mesmo quando nos falam, nossa endofasia se coloca em marcha, sem que
isso nos impeça que pensamentos outros, não verbalizados, atravessem nossa mente ou
ocupem nossa consciência. Ao falarmos, porém, em voz audível, inibe-se instantaneamente
a nossa linguagem interior. Em síntese, do ponto de vista fenomenológico, o pensar e o
falar são acontecimentos distintos, embora intima e profundamente conectados. Na verdade
a linguagem é de fundamental importância para a representação dinâmica do pensamento.
Pertubações do pensamento
Uma forma de avaliar o pensamento e suas alterações, é analisar o seu processo,
assim se distinguem 3 aspectos importantes do pensamento: o curso, a forma e o conteúdo.
O curso é a forma como o pensamento flui, a sua velocidade e ritmo ao longo do
tempo.
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A forma do pensamento é a sua estrutura básica, a sua arquitetura, preenchida pelos
mais diversos conteúdos de interesse do individuo.
O conteúdo é aquilo que dá substancia ao pensamento, os seus temas
predominantes, o assunto em si.
Alterações do pensamento:
- aceleração do pensamento – o pensamento flui de forma muito acelerada, uma
idéia se sucedendo a outra rapidamente. Ocorre com freqüência nos quadros de mania, e em
alguns esquizofrênicos, nos estados de ansiedade extrema, e em psicoses tóxicas,
principalmente secundária ao uso de cocaína e anfetaminas.
- fuga de idéias – sintoma conhecido de longa data como típico do estado maníaco.
Alteração da estrutura do pensamento secundaria a condição fundamental da excessiva
aceleração do pensamento. Há, nesse caso uma incapacidade de concluir o raciocínio e a
todo momento o paciente muda de um tema para outro. Algumas vezes essas mudanças são
tão bruscas que tornam o discurso do paciente incompreesível ao que denominamos
pensamento descarrilhado.
- lentificação do pensamento- consiste na diminuição do número de representações
evocáveis, na dificuldade de elaboração intelectual, e na lentificação do curso do
pensamento, acompanhado, via de regra, de acentuado empobrecimento expressional, que
atinge as vezes a proporção de extremo mutismo. É anormalidade que traduz a presença de
um estado depressivo, de intensidade variável.
- pensamento prolixo – quando o paciente prioriza idéias secundárias em detrimento
da idéia principal. O paciente dá longas voltas ao redor do tema e mescla o essencial com o
supérfluo, promovendo uma dificuldade de se obter uma construção direta e clara.
- pensamento obsessivo- largamente estudado, o pensamento obsessivo é por si só, o
elemento sintomatológico fundamental do transtorno obsessivo-compulsivo. Consiste em
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idéias que se impõem na consciência do individuo, de maneira inopinada e persistente, a
respeito das quais o paciente apresenta crítica e que por isso habitualmente acompanha-se
de intensa luta interior, com forte estado de angustia. Algumas vezes o pensamento
obsessivo se apresenta como uma dúvida mórbida, duradoura e torturante face a toda sorte
de acontecimentos banais do cotidiano. Levando o paciente a rituais de conferencia ou de
anulação de tais pensamentos.
- pensamento perseverante – é uma idéia estável e neutra, trata-se da aderência
involuntária, passiva, automática, obstinada do pensamento a determinados temas,
locuções, frases, palavras, melodia. Formas leves podem ser identificadas até mesmo em
pessoas normais. Mas que também pode acontecer nos estados de demência e oligofrenia.
- pensamento desagregado – consiste em uma perturbação do processo associativo,
vinculado a estranhos arranjos de relação. As idéias são encadeadas sem estruturação lógica
racional e muitas vezes é acompanhada de outros fenômenos como o neologismo. Ocorre
com freqüência na esquizofrenia hebefrenica.
- pensamento delirante- aqui torna-se importante a diferenciação entre delírium e
delírio. O primeiro trata-se de alteração do nível de consciência, de origem orgânica e a
presença concomitante de alterações psicopatológicas como alucinações, ilusões, agitação
psicomotora.... no segundo, o delírio, trata-se de um fenômeno primário, sendo portanto
psicologicamente incompreensível, ou seja, não apresenta raízes na personalidade bem
como não apresenta equivalentes nas experiências psíquicas. São juízos patologicamente
falseados, dos quais o paciente apresenta certeza absoluta. O delírio não é influenciável ou
corrigível pela lógica ou pela experiência.
Idéias deliróides diferente do delírio verdadeiro, que é primário, é uma forma de
juízo falso, secundário a alteração de humor, como ocorre no delírio de ruína no deprimido,
ou no delírio de grandeza do maníaco.
Para Jaspers, todo delírio verdadeiro é sempre e necessariamente precedido, durante
tempo variável, de um vago, estranho, inquietante e indefinível estado de espírito a que ele
dá o nome de humor delirante. Trata-se de uma experiência indiscritivel pelo paciente, em
33
que se mesclam espanto, incerteza, a intranqüilidade, a confusão e a perplexidade. Com
freqüência os pacientes dizem: “há qualquer coisa estranha no ar....” e por fim, o paciente
vai demonstrando crescente ansiedade, pressentimento de que um grande perigo se
aproxima, ameaça oculta, cheia de sombrios presságios.....
Ainda segundo Jaspers, existem 3 fenomenos que identificam a existência de um
quadro clinico das vivencias delirantes primárias:
- percepções delirantes – quando todo o mundo perceptivo circundante do paciente
passa a encher-se de significações ocultas, dantes inexistentes. Cabe diferenciar percepção
delirante de interpretação delirante, neste último, a significação é sempre secundariamente
atribuída ao objeto percebido, vale dizer, é algo dado a posteriori e por fim as cognições
delirantes, o que consiste em certas convicções intuitivas que surgem de forma inesperada,
ao contrário das anteriores, elas prescindem por completo de quaisquer dados perceptivos
ou representativos concretos, ocorrendo antes a guisa de intuições puras atuais.
No que se refere a estrutura, os delírios podem ser classificados como
sistematizados ou não sistematizados. Nos delírios sistematizados ocorre uma coerência
interna entre a premissa e os demais elementos constitutivos do delírio. Já nos não
sistematizados, ao contrário, carecem desses caracteres, mostrando-se frouxos,
fragmentários desarticuladoos, sem concatenação lógica.
Com relação ao conteúdo o delírio pode ser classificado como persecutório ( em que
o paciente acredita que esta sendo perseguido, característicos das chamadas esquizofrenias
paranóides.). delírios de influência (este tipo de delírio se nutre de toda a sorte de
concepções mágicas, segundo as quais forças misteriosas, vindas de fora, dominam o eu e
todas as suas atividades, privando o indivíduo de sua autodeterminação e tornando-o mero
joguete de fenômenos estranhos), delírio de grandeza (em que o individuo acredita-se
detentor de poderes ou missões especiais, de conteúdo religioso ou não) e delírio de
negação (neste caso há a ocorrência de forte matiz depressivo, podendo apresentar
conteúdo hipocondríaco ou de ruína) .
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VIII- PSICOPATOLOGIA DO AFETO
A vida afetiva é a dimensão psíquica que dá cor, brilho e calor a todas as vivencias
humanas. Sem afetividade a vida mental torna-se vazia, sem sabor. A afetividade penetra
todos os demais aspectos da vida psíquica, influenciando decisivamente as percepções, a
memória, o pensamento, a vontade e as ações, representando dessa forma, componente
essencial para harmonia e equilíbrio de nossa personalidade.
Empregaremos aqui a palavra afeto para designar genericamente os elementos
tímicos, vivenciado sob a forma de emoções e sentimentos.
Distinguem-se 5 tipos básicos de vivencias afetivas:
- humor ou estado de animo- é definido como o tônus afetivo do individuo. É a
disposição afetiva de fundo, que penetra toda a experiência psíquica, a lente afetiva que dá
às vivencias do sujeito, a cada momento, uma cor particular, ampliando ou diminuindo o
impacto das experiências reais, e muitas vezes as modificando. Podemos dizer que o humor
é a síntese dos sentimentos na consciência do indivíduo.
- emoções- é a perda súbita do equilíbrio afetivo, são reações afetivas agudas,
momentâneas, desencadeadas por estímulos significativos. Assim a emoção é um estado
afetivo intenso, de curta duração.
- sentimentos- são estados de configurações afetivas estáveis, em relação as
emoções são mais atenuados em sua intensidade, e menos reativos a estímulos passageiros.
Os sentimentos estão geralmente relacionados a conteúdos intelectuais. Constituem um
fenômeno muito mais mental que somático. Pode-se com certa arbitrariedade se classificar
os sentimentos em vários grupos como sentimentos de amizade, tristeza, saudade, alegria
etc...
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- ansiedade – é o sentimento de medo e expectativa que nos move em determinda
direção, levando a um estado de alterta. É patológico em excesso, e também na ausência,
sendo fundamental para a sobrevivência.
- paixões- a paixão é um estado afetivo extremamente intenso e tiranizante, que
polariza a vida psíquica do individuo na direção de um objeto único, que passa a
monopolizar seus pensamentos e suas ações, em detrimento de tudo o mais, sem nenhuma
razão, sem nenhuma crítica.
Perturbações da afetividade
Sendo a afetividade, como frisamos no ínicio, o setor de nossa vida psíquica que
mais precoce e constantemente se altera, em todos os diversos quadros de patologia mental,
é preciso ressaltar que há certos tipos de perturbações afetivas que constituem verdadeiras
síndromes clinicas.
Isso posto, nos limitaremos agora a caracterizar aqui, tão somente de um lado, as
perturbações afetivas que expressam variações anormais de intensidade, duração,
excitabilidade e regulação dos afetos.
- hipertimias e hipotimias – são alterações de intensidade, correspondem
respectivamente ao aumento e a diminuição da intensidade e duração dos afetos, e de regra,
apresentam-se associadas a aceleração ou ao retardamento da excitabilidade afetiva
expontanea.
A hipertimia pode ser encontrada tanto nos quadros maníacos, como em quadros
clínicos, como ocorre nos hipertiroidismo.
A hipotimia, ao contrário, caracteriza a diminuição da intensidade e da
excitabilidade dos afetos, como acontece nos quadros depressivos. A inibição momentânea
ou transitória da excitabilidade aos estímulos constitui o que se denomina estupor
emocional. O estupor emocional é geralmente de curta duração, instala-se abruptamente,
em seguida a um acontecimento externo fortemente traumáticos
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- labilidade afetiva- refere-se essa designação a instabilidade e constante
mutabilidade das reações afetivas, o que também atribuímos a insuficiência da regulação
interna dos afetos. Tido até certo ponto, por normal a época da adolescência,
principalmente no sexo feminino, apresenta-se depois, preferencialmente em neuróticos do
tipo histérico, e em indivíduos com personalidade instável, sendo encontrado também na
demência e no AVC.
- incontinência emocional – reflete a perda da capacidade de regulação e controle
das emoções, que se desencadeiam e se exteriorizam ao menor motivo, sob a forma, em
geral, de pranto convulso e mais raramente de riso incontido.
- paratimias – caracterizam os sentimentos inadequados e paradoxais, que Bleuler
descrevera em esquizofrênicos. Tal distúrbio ocorre pela falta de capacidade de modular os
sentimentos. Ocorre aqui uma inadequação entre a idéia e a expressão correspondente do
sentimento. Como rir de nervoso.
- neotimias- trata-se de sentimentos novos decorrentes na maior parte das vezes
secundariamente a mudanças corporais. Como ocorre no uso de alucinógenos que muitas
vezes provocam alucinações cenestésicas, ou fisiologicamente na gravidez.
- embotamento afetivo- é a perda profunda de todo tipo de vivencia afetiva. Ocorre
principalmente nas formas crônicas de esquizofrenia.
- ambitimias – é a coexistência de estados afetivos diversos e normalmente
inconciliáveis, contraditórios. O paciente ri e chora ao mesmo tempo.
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IX- VONTADE
A vontade é uma ação psíquica complexa que se inicia pelo desejo consciente ou
insconsciente, visando algo, procurando sua satisfação, podendo resultar ou não em uma
ação explicita no ambiente.
O ato volitivo se dá de forma geral, com um processo, no qual se distinguem 4
etapas fundamentais, e geralmente cronologicamente seguidos:
1- propósito- fase em que se polariza a atenção em determinado objeto.
2- deliberação- etapa que consiste a ponderação consciente dos prós e contras, e que
levará forçosamente a uma opção, isto é, fazer ou deixar de fazer alguma coisa.
3- decisão – momento culminante do processo volitivo, instante que demarca o
inicio da ação.
4- execução – fase final em que surgem os movimentos físicos requeridos para a
consumação dos propósitos em pauta.
Perturbações da vontade
As perturbações da vontade fazem-se tanto para mais quanto para menos ou ainda
podem se dar em seus aspectos instintivos ou impulsivos:
Alterações quantitativas:
- hiperbulia – aumento, exagero ou exacerbação da energia volitiva, dando lugar ao
que se conhece vulgarmente por força de vontade. A hiperbulia não deve ser confundida
com reações bruscas ou violentas, sendo na maioria das vezes um predicado positivo que se
manifesta no comportamento individual através da persistência e eficácia das ações,
rendimentos e propósitos. Somente apresenta caráter patológico quando contrária ao
interesse público e ao bem estar social.
- hipobulia e abulia consistem na diminuição da vontade, até a total incapacidade,
do potencial volitivo, indispensável a consumação do ato voluntário. Esse enfraquecimento
da vontade pode se manifestar de maneira nítida e aguda, secundária a um trauma ou a
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estados de fadiga, ou de forma duradoura, em estados depressivos e ansiosos, com aquela
típica dificuldade de decisão.
Alterações do impulso:
Os impulsos em sentido fenomenológico estrito, são ações psicomotoras
automáticas ou semi-automáticas, de tipo explosivo, instantâneas, caracterizadas sobretudo
pela subitaneidade com que se desencadeiam e se processam bem como pela falta de
controle voluntário das ações. O impulso pode ser:
- contra objetos- frangofilia – impulso de destruição de objetos do ambiente sem
propósito deliberado. Esse tipo de alteração de impulso pode ser observado nos casos de
oligofrenia e epilepsia. Algumas vezes esse tipo de impulso contra objetos se dá com
caráter seletivo e simbólico, a exemplo do que se verifica em indivíduos desajustados e
imaturos.
- piromania – este é o impulso a atear incêndios. A verdadeira piromania é rara.
- impulsos auto e hetero-agressivos – impulsos heteroagressivos, podem ser vistos
em pacientes epilépticos, que quando ocorrem revestem-se , em geral, de grande violência
consumando-se de súbito, sem prévio aviso ou premeditação, de modo cego e automático.
Impulsos suicidas também podem ser observados em epilépticos. Esses impulsos agressivos
também podem ocorrer em pacientes em estado catatônico que apresentam movimentos
súbitos, com socos por exemplo.
- dromomania – impulso incontrolável de caminhar, sem destino e sem controle
- dipsomania- impulso de beber liquidos.
-cleptomania – impulso de roubar, pouco importando o valor ou a utilidade do
objeto. É o tipo de impulso que ocorre com mais freqüência no sexo feminino.
Alterações do instinto
Neste ponto iniciam-se as chamadas perversões instintivas. Sendo o instinto aqueles
atos voltados para sobrevivência do individuo.
- perversão alimentar- está visto que alterações meramente quantitativas da função
alimentar como bulimia e anorexia, não constituem perversões ou sequer anormalidades
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instintivas. Tais alterações são sintomas de eventualidades clínicas diversas. Em principio,
mas nem sempre, é necessário que a necessidade impulsiva de comer ou de beber esteja
dirigida para substancias estranhas ou inadequadas, é a alotriofagia propriamente dita, que
muitas vezes incluem alimentar-se de excrementos, ou animais repugnantes. Temos ainda a
sitiofobia que consiste no medo de comer e ser envenenado.
- perversões sexuais – essas sim são as alterações do instinto mais freqüentes, dentre
elas se destacam a necrofilia (manter relações sexuais com cadáveres); pedofilia (relações
sexuais com crianças); sadismo (prazer é alcançado fazendo o parceiro sofrer) que pode ser
acompanhado de masoquismo (prazer é alcançado através do próprio sofrimento); zoofilia
(prazer adquirido com animais) e enfim o fetichismo (prazer só é alcançado utilizando
determinados objetos ou partes do corpo).
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X- PSICOMOTRICIDADE
Diferente das perturbações da vontade, de que nos ocupamos no último item, estas
de que cuidaremos aqui transcorrem no plano superficial da execução dos movimentos.
Sendo a expressão motora objetiva que traduz o psiquismo. Essas alterações da
psicomotricidade podem ter origem orgânica ou psicogênica.
Dentro das alterações da psicomotrocidade temos:
- aumento da psicomotricidade – quando o individuo apresenta agitação
psicomotora traduzindo um quadro de hiperatividade.
- diminuição da psicomotricidade – que constitui uma diminuição podendo chegar a
paralização completa do movimento, quando denominamos estupor. Quando conseqüentes
de um quadro de esquizofrenia tem o inicio súbito, é completo e acomete principalmente
pacientes jovens. E quando são resultado de um quadro depressivo tem inicio gradativo.
- estereotipias – é uma manifestação bastante característica da série catatônica, que
consiste na repetição automática de movimentos, frases ou palavras.
- ecolalia – repete exatamente o que o entrevistador fala.
- ecomimia – o paciente repete os gestos do entrevistador.
- negativismo – consiste na oposição ativa ou na resistência passiva, obstinada, as
solicitações externas. No primeiro caso o paciente faz exatamento o contrário do que se lhe
pede, no segundo apenas se abstém. É sintoma típico da catatonia, onde se apresenta com
caráter primário, incompreesível, imotivado, e não deliberado, o que permite distingui-lo de
um simples capricho. O mutismo é no mais das vezes, modalidade de negativismo passivo.
- obediência automática- conceitualmente oposta ao negativismo, consiste
justamente no cumprimento passivo e imediato por parte do enfermo, das ordens que lhe
sejam dadas, sem qualquer reflexão ou elaboração, inclusive as que acarretam em
conseqüências penosas para si próprio ou para outrem. No fundo trata-se de uma forma de
sugestionabilidade patológica extrema.
- pseudoflexibilidade cérea- o exagero do tônus postural, com marcada redução da
motilidade, por hipertonia muscular generalizada, de tipo plástico. O paciente assume por
muito tempo posições incomodas e desconfortáveis, sem denotar sinais de fadiga.
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- tiques- movimento repetitivo que difere das estereotipias por aparecer em
situações de ansiedade, enquanto que na estereotipia o movimento se dá sem relação com a
ansiedade.