Reticuloperitonite Traumática em Bovinos
A reticulo peritonite traumática é causada pela perfuração do retículo por corpos estranhos
metálicos, representados na sua maioria por arames (76%) e pregos (30%), embora possam ser
encontrados parafusos, ferrolhos, pedras, etc. O gado leiteiro adulto é mais comumente acometido
por causa da sua mais freqüente exposição às causas, porém, também pode ser observada em
bovinos de corte, sendo rara em ovinos e caprinos, principalmente devido a algumas
particularidades alimentares dos bovinos. Dentre elas, podemos citar a pequena habilidade dos
lábios para selecionar e diferenciar os alimentos muito fibrosos dos objetos metálicos, presença de
papilas voltadas caudalmente na cavidade oral, além da grande capacidade de contração do
retículo o que facilita que corpos estranhos deglutidos se alogem na parte superior do esôfago ou
entrem em vários sacos do complexo rúmem-retículo e isso ocorre também devido a presença das
pregas de seu revestimento mucoso. esta enfermidade pode ocasionar perdas econômicas, como
a diminuição da produção de leite, perda de peso progressiva, mau aproveitamento alimentar (o
reticulo é responsável pela contração bifásica, se há aderências nesse órgão pela perfuração,
ocorre um distúrbio alimentar mau aproveitamento do material ingerido) e até o sacrifício do animal.
Há certos fatores predisponentes, como às condições de manejo (mais raro em animais criados a
pasto em relação ao gado estabulado, principalmente em manejos intensivo e semiextensivo), o
momento do parto (devido às contrações abdominais), final da gestação (devido à grande
distensão abdominal), erros de manejo, reformas de ambientes aos quais os animais tem acesso,
cochos de madeira (presença de prego), cerca mau feitas (presença de arames).
Retículo pericardite traumática (RPT) é a inflamação do pericárdio, resultando no acúmulo de
líquido e/ou exsudato entre os pericárdios visceral e parietal. . A pericardite fica aparente durante
uma laparotomia e uma ruminotomia, nos bovinos cujo coração se localize muito próximo da região
diafragmática do retículo. Durante sua passagem pelo aparelho digestório, os corpos estranhos são
retidos no rúmen ou no retículo. Contudo, se tratando de estruturas perfurantes, poderão dirigirse
no sentido intrareticular, transpondo a parede reticular, causando uma peritonite focal ou difusa, ou
perfurar o diafragma e o saco pericárdico, causando uma RPT. Raramente pode ocorrer perfuração
do fígado e baço, e ao atingir a cavidade torácica ocasionar pleurites ou perfuração do pulmão
esquerdo. Poderá ocorrer morte súbita devido à hemorragia, se houver perfuração das artérias
regionais principais e, também, no caso de penetração no miocárdio ou ruptura da artéria
coronária. A penetração na cavidade torácica pode ocorrer sem a perfuração do pericárdio e
causar pneumonia e pleurite. A disseminação hematógena da infecção a partir de um abscesso
diafragmático ou peritonite local crônica é uma das causas mais comuns de endocardite, arterite,
nefrite e abscesso pulmonar. Esporadicamente, a infecção se localiza no mediastino, com
desenvolvimento de um grande abscesso que origina pressão sobre o saco pericárdico, resultando
em disfunção e insuficiência cardíaca congestiva. A perfuração da parede do retículo permite o
vazamento do líquido reticular e bactérias contaminando a cavidade peritoneal, resultando em
peritonite local ou difusa. Corpos estranhos proveniente do retículo podem penetrar na cavidade
pleural causando pleurites e pneumonias, indo para o saco pericárdico, causando pericardite,
miocardite, endocardite e septicemia. A RPT pode ser responsável por bacteremia, ocasionar a
endocardite mural e posterior disseminação dos êmbolos sépticos. Segundo alguns autores pode
ocorrer ainda, pericardite fibrinosa nos bezerros e bovinos ou septicêmicos, nos bovinos com
broncopneumonia bacteriana severa. Essa forma de pericardite poucas vezes causa acúmulos de
fluido clinicamente detectáveis e leva a sinais claros de insuficiência cardíaca, como é típico na
pericardite traumática.
A maioria das penetrações ocorrem na parte baixa da parede cranial do retículo, mas algumas
ocorrem lateralmente na região do baço e medialmente em direção ao fígado. A infecção localizada
estabelecida por esta lesão produz inflamação da parede do pré estomago e dor na porção anterior
do abdome. Ambos fatores inibem a motilidade dos pré–estômagos, o apetite. Se a parede do
reticulo for agredida sem perfuração, o corpo estranho poderá permanecer fixado no local por
longos períodos, sendo gradualmente corroído.
Patologia
A ingestão do corpo estranho e subseqüente penetração na parede reticular, leva ao
desenvolvimento de uma reação inflamatória localizada e aguda (peritonite). Se a penetração
ocorrer somente nas dobras da parede do órgão, o curso da doença será brando, com inapetência
temporária e redução na produção de leite, por exemplo. Os sintomas são extremamente variáveis
e diretamente influenciados pela região anatômica da perfuração dentro do retículo, sua
profundidade, pela lesão visceral abdominal ou torácica associada e pelas características físicas do
objeto causador.
A forma clássica da doença, caracterizada por peritonite localizada aguda, acarreta queda na
ingestão de alimentos, além de uma súbita e drástica interrupção da produção. Os animais
acometidos podem apresentar relutância para movimentar-se, arqueamento da coluna vertebral,
gemidos, dispnéia e abdução dos membros torácicos. Ocasionalmente “vomitam” ou regurgitam
mais material do que eles podem reter como bolo alimentar. Isso representa um disparo
neurogênico ou relacionado com a pressão do reflexo de regurgitação originário de irritação
reticular. Os bovinos acometidos por peritonite localizada crônica apresentam sinais de perda de
peso, pelos em más condições, anorexia intermitente, redução da produção, alteração da
consistência das fezes e disfunção rumenal com ou sem timpanismo leve. Tais animais podem ter
uma postura arqueada, além de dor abdominal detectável. A peritonite aguda difusa caracterizase
pela aparência de profunda toxemia dois a três dias após o aparecimento da peritoniteb local. A
motilidade do trato alimentar está diminuída, observa-se acentuada depressão, e a temperatura
encontra-se discretamente elevada ou subnormal. A freqüência cardíaca aumenta para até 100 –
120 bpm, e os gemidos de dor podem aparecer com o auxílio da palpação digital profunda sobre
quase toda a parede abdominal ventral. Tal estágio normalmente é seguido por rápido colapso na
circulação periférica. Na fase terminal, o decúbito e a depressão são comuns.
Pericardite traumática é caracterizada por abafamento dos ruídos cardíacos, estase positiva da
veia jugular e formação de edema nas partes baixas do corpo. Estas complicações indicam um
prognóstico desfavorável e o animal pode morrer subitamente em decorrência de perfuração do
miocárdio, produzindo hemorragia intensa no interior do saco pericárdico.
A pericardite séptica corresponde à complicação melhor conhecida e ocorre quando o corpo
estranho metálico perfura em direção cranial, atingindo o diafragma e o pericárdio, podendo
resultar em alguns casos, em quadros de septicemia e morte.
Imagem 1: bovino, cavidade torácica, distensão do saco pericárdio, que está preenchido por liquido
e inflamação.
Imagem 2: bovino, saco pericárdio, material fibrinoso que preenche o saco pericárdico e recobre o
coração.
Imagem 3: bovino, coração, no ventrículo, se observa um objeto pontiagudo que atravessa a
parede do mesmo.
Imagem 4: bovino, coração, presença de área de necrose do miocárdio, na área de inserção do
objeto pontiagudo (arame).
Imagem 5: bovino, reticulo, fragmento com a presença do objeto pontiagudo (arame).
Imagem 6: bovino, pulmão presença de abscesso na porção cranial do lobo caudal direito, ao porte
mostrando material purulento.