Aula 13
Racionalismo
em Spinoza
Prof. Pedro Zanatta
Baruch Spinoza (1632-1677)
• Sua obra-prima é a Éthica, iniciada em torno de 1661 (que
construiu o trabalho de toda a vida do filósofo) e publicada
postumamente em 1677, juntamente com o Tratado sobre a
emenda do intelecto, um Tratado político e as Cartas.
• A cultura de Spinoza era notável e as fontes de sua inspiração
muito variadas: a filosofia tardio-antiga, a Escolástica, a
Escolástica dos séculos XVI-XVII, o pensamento renascentista
(Giordano Bruno) e, entre os modernos, sobretudo Descartes
e Hobbes.
• O sentido de sua filosofia está na compreensão pura e
distanciada do entender, despojado de toda perturbação e de
toda paixão.
Éthica
• Tem um esquema de exposição calcado no dos Elementos de
Euclides, ou seja, segue um procedimento que se desenvolve
segundo definições, axiomas, proposições, demonstrações e
explicações.
• Trata-se do método indutivo-geométrico, em parte já utilizado por
Descartes e bastante apreciado por Hobbes, mas que Spinoza leva às
últimas consequências.
• Ao adotar o método geométrico ele queria rejeitar:
1. o procedimento silogístico abstrato e extenuante, próprio de
muitos escolásticos;
2. os procedimentos inspirados nas regras retóricas próprias do
Renascimento;
3. o método rabínico da exposição excessivamente prolixa
A importância da substancia
• Os fundamentos de sua filosofia, centrados na nova
concepção da “substância”, que determina o sentido de todo o
sistema.
• Aristóteles já escrevia que a eterna pergunta “o que é o ser?”
equivale à questão “o que é a substância?”, e que, portanto, a
resposta para a questão da substância é a resposta ao máximo
dos problemas metafísicos.
• A substância é “aquilo que existe em si e existe concebido por
si mesmo” e, uma vez que “todas as coisas ou existem em si
ou existem em outro”, então além de Deus não pode haver
nem se conceber nenhuma substância.
A importância da substancia
• Só existe uma única substância, que é precisamente Deus. É
evidente que o originário (o absoluto, como diriam os
românticos), o fundamento primeiro e supremo, precisamente
por ser tal, é aquilo que não remete a nada mais além de si,
sendo, portanto, autofundamento, causa de si, “causa sui”.
• Aquilo que para Descartes eram substâncias em sentido
secundário e derivado, ou seja, res cogitans e res extensa em
geral, tornam-se para Spinoza dois dos infinitos “atributos” da
substância.
• “Entendo por Deus um ser absolutamente infinito, isto é, uma
substância constituída de uma infinidade de atributos, cada
qual deles expressando uma essência eterna e infinita”.
Os Atributos e os Modos
• Efetivamente, depois dos estoicos, Spinoza foi o pensador que
mais acentuadamente apontou a compreensão da
necessidade como o segredo que dá sentido à vida.
• À medida que, todos e cada um, expressam a infinitude da
substância divina, os “atributos” devem ser concebidos “em si
mesmos”, ou seja, cada um separadamente, sem a ajuda do
outro, mas não como entidades estanques (são diferentes,
mas não separados), pois só a substância é entidade em si e
para si.
• Nós, homens, conhecemos apenas dois desses atributos
infinitos: o “pensamento” e a “extensão”.
Os Atributos e os Modos
• Além da substância e dos atributos, há também os “modos”.
Deles Spinoza apresenta a seguinte definição: “Entendo por
modo impressões da substância, ou seja, aquilo que existe em
outra coisa, por meio da qual também é concebido”.
• Sem a substância e seus atributos, o “modo” não existiria e
nós não poderíamos concebê-lo: com efeito, ele só existe e só
é conhecido em função daquilo de que é modo.
• O “intelecto infinito” e a “vontade infinita”, por exemplo, são
“modos infinitos” do atributo infinito do pensamento, ao
passo que o “movimento” e a “quietude” são “modos
infinitos” do atributo infinito da extensão.
Deus para Spinoza
• Com base no que explicamos, o que Spinoza entende por Deus
é a “substância” com seus atributos (infinitos); já o mundo é
dado pelos “modos”, por todos os modos, infinitos e finitos.
• O mundo é a “consequência” necessária de Deus. Spinoza
também chama Deus de natura naturans, o mundo de natura
naturata. Natura naturans é a causa, ao passo que natura
naturata é o efeito daquela causa.
• Por que Spinoza não atribui a Deus o intelecto a vontade e o
amor? Com efeito, Deus é a substância, ao passo que
intelecto, vontade e amor são “modos” do pensamento
absoluto (que é um “atributo”).
Deus para Spinoza
• Portanto, não se pode dizer que Deus projete o mundo com o
intelecto, que o queira com um ato de livre escolha ou que o
crie por amor, porque essas coisas são “posteriores” a Deus,
dele procedendo: não são o originário, mas o consequente.
• Como nada mais existe além de Deus, pois tudo está nele,
então está fora de dúvida que a concepção espinoziana pode
ser chamada “panteísta” (= tudo é Deus ou manifestação
necessária de Deus nos modos explicados).
Deus para Spinoza
• Como vimos, nós conhecemos apenas dois dos atributos
infinitos de Deus: a extensão; o pensamento.
• Assim, nosso mundo é um mundo constituído pelos “modos”
desses dois atributos:
• a) pela série dos “modos” relativos a extensão; b) pela série
dos “modos” relativos ao pensamento. a) Os corpos são
“modos” determinados do “atributo” divino da extensão (e,
portanto, expressão determinada da essência de Deus como
realidade extensa). b) Os pensamentos singulares, por seu
turno, são “modos” determinados do “atributo” do
pensamento divino (expressão determinada da essência de
Deus como realidade pensante).
Deus para Spinoza
• Spinoza interpreta o homem como união de alma e corpo. O
homem não é uma substância e muito menos um atributo,
mas é constituído “por certas modificações dos atributos de
Deus”, ou seja, “por modos do pensar”, com a proeminência
do modo que é a ideia, e “por modos da extensão”, ou seja,
pelo corpo, que constitui o objeto da mente.
• Toda ideia é objetiva no sentido de que tem uma
correspondência na ordem das coisas (dos corpos). Não
existem, portanto, ideias falsas e ideias verdadeiras em
absoluto, mas apenas ideias e conhecimentos mais ou menos
adequados.
Os graus de conhecimento
Spinoza individua três graus de conhecimento:
1. a opinião e a imaginação, ligadas às percepções sensoriais e às
imagens, sempre confusas e vagas, mas utilíssimas no plano
prático;
2. o conhecimento racional, próprio da ciência, que encontra sua
expressão típica na matemática, na geometria e na física;
3. o conhecimento intuitivo, que consiste na visão das coisas em
seu proceder de Deus e, mais exatamente, procede da ideia
adequada dos atributos de Deus para a ideia adequada da
essência das coisas.
Os graus de conhecimento
• A consideração das coisas como “contingentes” é uma espécie
de ilusão da imaginação, enquanto é próprio da razão
considerar as coisas como “necessárias” sob certa espécie de
eternidade.
• O terceiro grau de conhecimento, por fim, capta a necessidade
das coisas em Deus sob a mais perfeita espécie de eternidade.
• Nesse contexto, não há lugar para uma vontade livre: a mente
não é causa livre das próprias ações, mas é determinada a
querer isto ou aquilo por uma causa que por sua vez é
determinada por outra, e assim ao infinito.
Sobre paixões humanas
• As paixões não se devem à “fraquezas” e “fragilidades” do
homem, a “inconstância” ou “impotência” de seu espírito. Ao
contrário, devem-se à potência da natureza e, como tais, não
devem ser detestadas e censuradas, mas sim explicadas e
compreendidas, como todas as outras realidades da natureza.
• O jogo das paixões e dos comportamentos humanos aparece
sob luz totalmente diversa, segundo Spinoza, se percebermos
que não existem na natureza “perfeição” e “imperfeição”,
“bem” ou “mal” (ou seja, valor e desvalor), assim como não
existem fins, dado que tudo acontece sob o signo da
necessidade mais rigorosa.
A Virtude em Spinoza
• Assim, não devemos dizer de nenhuma realidade natural que
ela seja “imperfeita”. Nada daquilo que existe carece de algo:
é aquilo que deve ser, segundo a série de causas necessárias.
• Com base na concepção das “paixões” acima expostas e na
visão do homem essencialmente radicada na conservação e
no incremento do seu próprio ser, só resta a Spinoza concluir
que aquilo que se pode chamar corretamente de bem é
somente o útil, e mal é o seu contrário.
• Consequentemente, a “virtude” torna-se tão somente a
consecução do útil, e “vício” é o contrário. Portanto, quando
os homens seguem a razão, não só alcançam seu próprio útil,
mas também o útil de todos.
Baruch Spinoza (1632-1677)