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Internet - Christine Hine

Este documento discute os desafios enfrentados por etnógrafos ao estudar atividades envolvendo a internet. Explora princípios metodológicos e estratégias para definir locais de pesquisa, conexões entre online e offline, e a natureza mutável da experiência corporificada. Exemplos são tirados de estudos de instituições científicas, televisão, mídias sociais e redes de presentes locais.
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Internet - Christine Hine

Este documento discute os desafios enfrentados por etnógrafos ao estudar atividades envolvendo a internet. Explora princípios metodológicos e estratégias para definir locais de pesquisa, conexões entre online e offline, e a natureza mutável da experiência corporificada. Exemplos são tirados de estudos de instituições científicas, televisão, mídias sociais e redes de presentes locais.
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A internet 3E1: uma internet incorporada,

corporificada e cotidiana2

CHRISTINE HINE
University of Surrey, Guildford, Reino Unido
[Link]@[Link]

Tradução CAROLINA PARREIRAS


Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil

BEATRIZ ACCIOLY LINS


Universidade de Campinas, São Paulo, Brasil

Revisão Técnica JULIANA VALENTE

DOI 10.11606/issn.2316-9133.v29i2pe181370

resumo O artigo apresenta um panorama dos desafios enfrentados por etnógrafos que
buscam entender atividades envolvendo a internet explorando tanto princípios metodológicos
quanto estratégias práticas chegar a um acordo com a definição de sites de campo, as conexões
entre online e offline e a natureza mutável da experiência corporificada. Os exemplos são
extraídos de uma ampla gama de configurações, incluindo etnografias de instituições científicas,
televisão, mídia social e redes locais de presentes.
palavras-chave Internet. Etnografia Digital. Metodologias

1
Nota das tradutoras [NT]: Optamos por manter o título o mais fiel possível ao original, ainda que o jogo com as
iniciais das palavras se perca na tradução para o português. Os três “Es” a que se refere a autora são embedded,
embodied e everyday, traduzidos por nós como incorporada, corporificada e cotidiana. Ao longo do texto, quando a
autora utiliza “ E3”, utilizamos “as três características da internet”.
2
NT.: Agradecemos à professora Christine Hine e à editora Bloomsbury por gentilmente nos cederem os direitos
de tradução deste texto, que é um dos capítulos da obra Ethnography for the Internet: embodied, embedded and everyday,
publicada em 2015. Agradecemos também à Juliana Valente pelo apoio na revisão.
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The E3 Internet: embedded, embodied, everyday Internet


abstract This article presents an overview of the challenges faced by ethnographers
who wish to understand activities that involve the internet. It explores both methodological
principles and practical strategies for coming to terms with the definition of field sites, the
connections between online and offline and the changing nature of embodied experience.
Examples are drawn from a wide range of settings, including ethnographies of scientific
institutions, television, social media and locally based gift-giving networks
keywords Internet. Digital ethnography. Methodologies.

La Internet 3E: una Internet incrustada, encarnada y cotidiana


resumen Este articulo presenta una descripción general de los desafíos que enfrentan
los etnógrafos que desean comprender las actividades que involucran Internet explorando los
principios metodológicos y las estrategias prácticas para llegar a un acuerdo con la definición de
sitios de campo, las conexiones entre online y offline y la naturaleza cambiante de la experiencia
incorporada. Los ejemplos se extraen de una amplia gama de entornos, que incluyen etnografías
de instituciones científicas, televisión, redes sociales y redes locales de obsequios.
palabras clave Internet. Etnografía digital. Metodologías.

O que a etnografia oferece para o entendimento da Internet?


Como um método de pesquisa, a etnografia é distinta em seu uso das experiências
corporificadas do/a pesquisador/a como um de seus meios primários de descoberta. Ao
contrário de outros métodos de pesquisa, que aspiram desenvolver instrumentos
despersonalizados e padronizados de coleta de dados, a etnografia celebra o envolvimento da
pesquisadora em todo o processo de engajamento com o campo, juntando/coletando dados e
interpretando os resultados. Uma etnógrafa deve imergir no cenário e tentar ver a vida a partir
do ponto de vista daqueles que habitualmente povoam aquele cenário. Ao fazer isso, ela pode
trazer de volta um insight único sobre como a forma de vida que ela estuda faz sentido para
aqueles envolvidos na mesma. A imersão da etnógrafa pode se dar por meio da participação nas
mesmas atividades que as pessoas que vivem no cenário executam, permitindo à etnógrafa
desenvolver um entendimento a partir de dentro, o que leva a sério o que se sente durante as
atividades tanto quanto o que elas alcançam. Mesmo onde as questões práticas do próprio
cenário impedem a participação total, a imersão da etnógrafa permite que ela aprenda pela
observação em grande proximidade e permite que ela teste constantemente suas interpretações
emergentes com as pessoas envolvidas. “Estar lá” é o aspecto mais significativo da orientação

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metodológica da etnógrafa, na medida em que permite uma experiência direta e corporificada


do campo e impede o uso de relatos de segunda mão muito simplificados.
Etnógrafos frequentemente sentem a necessidade de refletir essa proximidade diária e a
sensação de compromisso mútuo entre os participantes e a etnógrafa nos resultados escritos da
pesquisa. Ao invés de desenvolver um estilo de comunicação desengajado e desinteressado, o
que poderia resultar numa separação artificial entre um pesquisador que tudo vê e um “nativo”
estereotipado não reflexivo ou deficiente de insights, a etnógrafa frequentemente está muito
presente no texto ao lado dos participantes, que são também apresentados como complexos e
impossíveis de serem conhecidos em sua totalidade. Uma etnógrafa vai, com frequência,
escrever relatórios em um estilo que deixa claro seu próprio envolvimento na produção de
conhecimento, discutindo os passos ativos que ela seguiu para gerar os insights sobre a cultura
que é descrita e examinando abertamente suas dúvidas sobre a robustez das conclusões, as
contingências das decisões que tomou e as dificuldades e frustrações que vivenciou. Esse estilo
de escrita também reconhece uma importante observação epistêmica: cada insight do etnógrafo
é, em grande medida, único para ele ou ela e não devemos necessariamente esperar que outro
etnógrafo, no mesmo cenário, produza os mesmos resultados. A atual convenção etnográfica
aceita que o etnógrafo tenha um lugar de destaque na história e o autor etnográfico vai chamar
atenção para a natureza pessoal e contingente da descrição. A etnografia deriva suas
reivindicações de autenticidade da franqueza da experiência que o etnógrafo tem do cenário e
da intensidade de sua imersão no mesmo, ao invés de aspirar à produção de fatos objetivos, e
esse compromisso é visível no texto etnográfico final. A etnografia não reivindica o
desenvolvimento de um relato objetivo independente das especificidades do engajamento
particular do etnógrafo com o cenário.
A copresença do pesquisador com o cenário pode levar a etnógrafa a desenvolver uma
solidariedade com os participantes: o contato próximo necessita de uma relação amigável e torna
difícil manter uma postura distante. A etnógrafa tem que desenvolver seus insights conforme
dá andamento à pesquisa e, com frequência, é chamada a responder ou dar opiniões sobre o que
está acontecendo, antes mesmo de se sentir pronta para tal. Uma etnógrafa desenvolve uma
forma de compromisso com aqueles que estão no cenário porque ela está lá, visível para os
informantes e se movendo no meio deles. Os pronunciamentos da etnógrafa sobre o cenário
acontecem a cada momento e não estão limitados apenas a um relatório de fim de projeto
primorosamente embalado. Marcus (1998) descreve o “ativismo circunstancial” que uma
etnógrafa desenvolve para responder à situação em que se encontra, particularmente quando se
move entre diferentes locais. Em cada interação, a etnógrafa faz intervenções como parece
adequado para o momento, ao invés de esperar para realizar uma declaração singular e imparcial
sobre o cenário quando está a uma distância segura dela. Longe de estar preocupada com

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influenciar ou alterar de alguma forma o objeto de estudo, a etnógrafa aceita as responsabilidades


e os desafios de estar presente dentro dele.
No que se segue, vou em busca de uma noção de etnografia localizada no corpo,
circunstancialmente ativa e experiencialmente focada, e exploro como esta forma de
entendimento pode ser promovida e sustentada em um mundo cheio de comunicações
mediadas. Este é um modelo de etnografia baseado em um desejo de desenvolver um
entendimento derivado de uma experiência direta e autêntica do fenômeno, seja ela qual for e
onde quer que esteja, ainda que difusa ou difícil de definir. A fim de fazer isso, temos que nos
afastar de pensar o “estar lá”, que caracteriza a etnografia, como algo que requer uma forma
localizada de presença (BEAULIEU 2010), de modo a focalizar mais claramente os aspectos
experimentais da metodologia, em que “experiência” pode ser desenvolvida de múltiplas
maneiras, incluindo, dentro de suas atribuições, várias formas mediadas de experiência. Um
etnógrafo, mesmo na era da Internet, continua a desenvolver uma forma distinta de
conhecimento através do estar, fazer, aprender e praticar e por uma associação próxima com
aqueles que fazem o mesmo no decorrer de suas vidas cotidianas. Em um mundo repleto de
mídias, a associação próxima pode vir a significar proximidade por meio de interações mediadas
e a etnografia precisa estar pronta para se adaptar a essa forma de proximidade tanto quanto à
proximidade física - mas sem perder de vista os princípios originais que motivam o engajamento
etnográfico e que fazem da etnografia uma forma de conhecimento distinta e perspicaz.
Schatzman e Strauss (1973) falam sobre o pesquisador de campo como um estrategista e
um pragmático metodológico. Essa abordagem ampla enquadra a discussão neste livro de várias
estratégias para buscar a experiência autêntica e relatável de fenômenos que envolvem a Internet
de algum modo. Neste modelo de etnografia, estar em campo diz respeito a descobrir a melhor
forma de entendê-lo:

O pesquisador de campo é um pragmático metodológico. Ele vê qualquer


método de investigação como um sistema de estratégias e operações projetado -
a qualquer momento - para obter respostas para certas perguntas sobre eventos
que interessam a ele. Ele entende que todo método tem recursos e limitações
inerentes que são revelados na prática (por meio das técnicas usadas, para
determinados fins e com diversos resultados), avaliados em parte contra o que
poderia ter sido ganho ou aprendido por qualquer outro método ou conjunto de
técnicas (SCHATZMAN; STRAUSS 1973, p. 7)

Um aspecto crucial desta citação é a noção de que os recursos e as limitações dos métodos
são reveladas na prática e, portanto, não é possível, por exemplo, saber de antemão quais
entrevistas serão necessárias, quais perguntas devem ser feitas, que forma de presença é

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apropriada ou se uma linha particular de investigação será “suficiente” para entender o que está
acontecendo. Decisões sobre o método são tentativas e sua efetividade é avaliada em retrospecto.
Assim, a etnografia é sempre adaptável em sua escolha de métodos e podemos esperar
que isso aconteça novamente frente às condições apresentadas pela Internet. De fato, muito da
discussão sobre etnografia em cenários online, nas ciências sociais, em anos recentes, tem
sugerido que os etnógrafos nestas novas circunstâncias devem ser particularmente ágeis em seus
métodos e adaptáveis em suas estratégias. Os proponentes de etnografias conduzidas em
cenários puramente online argumentaram fortemente sobre a relevância da etnografia como
um método de entendimento em cenários online, mas também enfatizaram que esse tipo de
cenário demanda mudanças na maneira como os estudos são conduzidos e nas formas que os
dados assumem. Williams (2007), por exemplo, sugere que a natureza de rápidas mudanças dos
cenários online e as formas diversas que os dados assumem são particularmente desafiadores,
enquanto Robinson e Schulz (2009) argumentam que a prática etnográfica tem forçosamente
que se desenvolver e se adaptar em face da natureza de constantes mudanças da comunicação
mediada por computadores e das populações que a utilizam. Boellstorff et al (2012) apresentam
suas experiências etnográficas em vários ambientes online em um guia, conscientes de que não
podem prescrever estratégias para todos os cenários online, mas propondo, ao invés disso, que
eles podem esboçar estratégias que funcionaram para eles, que se baseiam, mas são distintas,
daquelas utilizadas em cenários offline.
Ainda que os métodos usados pelos etnógrafos tenham se adaptado, com o tempo, a
diferentes circunstâncias online, a relação entre a metodologia etnográfica e a Internet e as
aspirações dos etnógrafos também se desenvolveram. Robinson e Schulz (2009) separam o
desenvolvimento do fazer etnográfico sobre a comunicação mediada (e particularmente a
Internet) em três fases. De acordo com sua cronologia, uma primeira fase de ciberetnografias
pioneiras focou em sites online que pareciam particularmente interessantes para perceber o jogo
de identidades e para a separação das identidades offline que os participantes praticavam. Os
ciberetnógrafos pioneiros estudaram campos na Internet porque eles pareciam oferecer
condições diferentes daquelas do mundo offline. Ulteriormente, “etnógrafos legitimados”
exploraram a transferência da prática etnográfica offline e de conceitos como campo e
observação participante para o domínio online (e, nesta categoria, os autores incluem minha
própria discussão anterior sobre abordagens etnográficas para a internet [HINE 2000]). Essa
onda de ciberetnografias era menos comprometida com uma diferença de princípio entre online
e offline. A partir desta reivindicação da Internet como território legítimo para o insight
etnográfico, Robinson e Schulz (2009) descrevem como as subsequentes abordagens
etnográficas da Internet se tornaram cada vez mais multimodais, explorando o uso, pelos
participantes, de combinações de interações face a face e mediadas.

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Como em todas as cronologias, a que foi desenvolvida por Robinson e Schulz (2009)
simplifica a história e encobre várias diferenças significativas. Não obstante, fornece um
enquadramento útil para avaliar o que entendo como as aspirações deste livro. Continuo
comprometida com um projeto de “legitimação da ciberetnografia”, que, para mim, envolve um
compromisso contínuo com o exame de princípios metodológicos aplicados à Internet e uma
consideração cuidadosa dos fundamentos para a formulação de conhecimento gerado sobre a
Internet, a partir de várias abordagens etnográficas, como robusto, autêntico e útil. Para mim,
essa é uma pergunta em curso, não resolvida de uma vez por todas nos primórdios da internet,
mas que está viva na medida em que continuamos a adaptar nossos métodos em face de novas
circunstâncias. Entretanto, este livro é também situado dentro da terceira fase, multimodal, da
ciberetnografia identificada por Robinson e Schulz (2009), porque meu foco não é em um campo
localizado puramente online. Porque eu foco em uma etnografia que é para, e não na, a Internet,
e porque eu foco naquilo que, vou argumentar no restante deste texto, é uma Internet
incorporada, corporificada e cotidiana, eu vejo a copresença com o campo como uma questão
que pode envolver tanto a interação mediada quanto o engajamento face a face ou ambos. E eu
proponho várias estratégias diferentes para o engajamento com o campo. Tenho como foco,
neste livro, descrever estratégias que podem ser úteis, ao invés de tomar uma abordagem
prescritiva para definir o que os etnógrafos deveriam fazer. As qualidades úteis dessas várias
perspectivas só serão reveladas na prática, como nos lembram Schatzman e Strauss (1973).
Um dos aspectos do meu foco, que difere de uma abordagem da etnografia meramente
online, é que eu desejo manter alguma dúvida sobre o melhor lugar para ir para estudar a
Internet e sobre as coisas mais úteis para estudar quando alguém chega lá. Pode parecer óbvio,
graças ao sucesso de etnografias online seminais, como o estudo de Baym (1995, 2000) sobre os
newsgroups [Link], que os etnógrafos podem estar online e encontrar campos de
estudo ali. De forma similar, Kozinets (2009) argumenta de forma persuasiva defendendo o
estudo de “culturas e comunidades online”, como se essas fossem coerentemente delimitadas e
preexistissem aos interesses do etnógrafo. Boellstorff et al. (2012) desenvolvem uma orientação
sobre estratégias etnográficas com base em vários diferentes cenários, as quais são unidas pelo
fato de que estão amplamente contidas em um domínio online. É perfeitamente possível e
amplamente aceito que os etnógrafos podem encontrar campos de estudo online. Esses estudos
são, entretanto, um subconjunto muito pequeno do conjunto total dos estudos etnográficos que
desejamos conduzir, os quais vão, de algum modo, incorporar ou considerar a Internet, mas não
vão se subsumir completamente nela. Como Boellstorff (2010) argumenta, um único mundo
virtual pode ser estudado etnograficamente em si mesmo, mas também é possível que os estudos
etnográficos foquem nas maneiras pelas quais diferentes mundos virtuais interagem, ou nas
interações entre o mundo virtual e mundo real. É para este último grupo de estudos etnográficos
que direciono minha atenção, ainda que, como Miller e Slater (2000), eu rejeite a noção de que

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há uma distinção pré-existente entre mundo virtual e mundo real. Ao invés disso, pretendo
permanecer agnóstica de antemão sobre até que ponto qualquer pessoa que use a Internet para
realizar suas atividades pode entender esta como uma forma de participação em um “mundo
virtual”. No que se segue, vou explorar em mais detalhes como se pode constituir um campo que
envolve a Internet sem pressupor que a Internet atua como um domínio virtual discreto. A
abordagem que exploro se constrói a partir da ideia de que a etnografia pode ter como objetivo
seguir conexões, ao invés de focar em um lugar específico. Eu sugeriria que uma abordagem
como essa está de acordo com o compromisso etnográfico duradouro que tem como objetivo o
entendimento holístico, embora seja um holismo compreendido em termos de sua abertura às
conexões.
A etnografia convencionalmente aspira desenvolver descrições holísticas dos cenários
que estuda, mas os significados desta aspiração ao holismo mudaram com o tempo. A ideia de
que a etnografia poderia fornecer uma explicação compreensiva de uma entidade cultural
delimitada e discreta tem sido submetida a uma crítica abrangente. Marcus (1989), em um paper
intitulado “Imagining the Whole”, pontua que a noção de que uma etnografia oferece uma
descrição abrangente de uma cultura local específica tende a apresentar a cultura local como um
todo conhecível, que incorpora algumas características de um sistema político e econômico
mundial mais amplo e assim por diante, sendo que o sistema mais amplo está fora do escopo do
etnógrafo e não é conhecível a partir de abordagens etnográficas. Este modelo, ele argumenta,
tende a reificar aspectos do sistema mais amplo que, ao invés disso, estão indiscutivelmente
sempre presentes, à medida em que são materializados em circunstâncias locais específicas e,
portanto, incorporam uma distinção micro/macro que não resiste a um escrutínio detido.
Marcus (1989) defende que há necessidade de se reimaginar o projeto de uma etnografia
holística, uma que acaba com a distinção entre o micronível das culturas locais e o macronível
dos sistemas mundiais e, com isso, com a ideia de que os etnógrafos deveriam construir
descrições compreensivas das culturas locais. Ao invés disso, ele propõe uma noção de etnografia
que aceita que nenhuma descrição de uma cultura pode ser totalmente compreensiva, mas
prossegue com base no entendimento de que sistemas mais amplos estão significativamente
presentes em uma escala local e podem ser efetivamente estudados como tal por meio de
abordagens etnográficas. A nova forma de holismo imaginada por Marcus (1989) foca na
habilidade do etnógrafo de visualizar e seguir conexões e de ver as atividades no micronível
como manifestações de fenômenos macro. Esta é uma versão do holismo etnográfico que é
caracterizada por um foco na contextualização e na incorporação, ao invés de uma reivindicação
de abrangência (FALZON 2009a).
Tomando esta abordagem aberta do holismo etnográfico, ao invés de selecionar de
antemão aqueles aspectos dos casos que iremos registrar, da maneira como uma agenda de
entrevista pré-determinada ou um questionário poderiam fazer, o etnógrafo permanece aberto

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aos diversos aspectos do cenário que estão sendo interconectados. Para um etnógrafo, um estudo
sobre a comida de uma população particular não começaria e terminaria olhando para o que as
pessoas comiam. Em vez disso, uma etnografia focada na comida permaneceria aberta para ser
surpreendida com os significados que a comida tem para as pessoas em questão e estaria
interessada em qualquer aspecto de sua organização da vida cotidiana, suas rotinas e rituais, suas
relações e suas identidades que influenciaram ou foram influenciadas pelas práticas em torno da
comida e dos significados nelas investidos. Não iríamos simplesmente assumir que influências
externas como “política de governo” ou “estruturas de gênero” moldaram práticas em relação à
comida, mas estaríamos alerta para situações nas quais tais estruturas foram criadas pelos
participantes como motivações ou explicações. As conexões que o etnógrafo seguiria são
derivadas apenas pela permanência no campo ao longo de um período prolongado de tempo, e
ao descobrir o que havia acontecido ali, um etnógrafo se propõe a estudar algo com a expectativa
de que outros aspectos imprevistos do cenário irão se tornar relevantes e, assim, os instrumentos
de pesquisa adequados não podem ser projetados de antemão. A etnografia é, desse modo, um
método muito adaptável, na medida em que parte da premissa de que não será imediatamente
aparente quais são as dimensões relevantes da contextualização e, então, a pergunta de pesquisa
completa não pode ser antecipada previamente, assim como o campo apropriado no qual estudar
esta questão não pode ser totalmente definido a princípio.
A natureza adaptável da etnografia significa que ela é “boot-strapped”3, construída peça
por peça, à medida que o etnógrafo desenvolve seu entendimento através de etapas incrementais
e descobre aquilo sobre o qual quer saber. Assim, é difícil generalizar um conjunto de
ferramentas etnográficas de antemão e frustrantemente desafiador especificar, antes de começar
o estudo, o que exatamente o etnógrafo deveria fazer. No entanto, em geral, o conjunto de
ferramentas do etnógrafo contém vários dos componentes padrão dos métodos de pesquisa em
ciências sociais. Os etnógrafos realizam entrevistas, conduzem surveys, quantificam
comportamentos e desenham mapas. As diferenças de outras abordagens estão relacionadas à
falta de especificação antecipada do método, tanto quanto com os métodos realmente usados.
Ao recusar decidir de antemão o que será mais interessante de explorar no cenário, o etnógrafo
permanece aberto a novas descobertas sobre as maneiras únicas a partir das quais um modo de
vida particular pode se organizar e à perspectiva de que as atividades podem fazer sentido de
maneiras surpreendentes.
Se os métodos de investigação não podem ser previstos de antemão em um estudo
etnográfico, também não é possível identificar prontamente o lugar apropriado para realizar o
estudo. Em termos convencionais, poder-se-ia imaginar que um etnógrafo proveja um relato
abrangente da cultura em uma localidade delimitada identificável, como uma aldeia, mas isto foi

3
NT: A expressão utilizada pela autora indica algo que é feito por partes, feito pouco a pouco e de forma
incremental.

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frequentemente um ponto de partida pragmático em vez de um objeto de estudo de princípio.


Na prática, os etnógrafos muitas vezes começaram com um foco pragmaticamente identificado,
mas permaneceram abertos a descobrir que esta fronteira não refletia como os envolvidos
enxergavam as conexões e os limites relevantes. Os etnógrafos estudam conexões culturais e
práticas criadoras de significado que podem não coincidir com fronteiras geograficamente
baseadas. Marcus (1995) propõe que os etnógrafos podem, de forma útil, estudar aspectos do
sistema mundial ao seguir objetos de investigação, ao invés de ficarem em um lugar. De fato, a
noção de etnografia multissituada se tornou particularmente proeminente na antropologia nos
últimos anos, à medida em que se reconheceu a natureza construída do campo como um objeto
de pesquisa (GUPTA; FERGUSON 1997a; AMIT 1999) e à medida em que diferentes modelos
de conceituação do objeto de investigação etnográfica vieram à tona (FALZON 2009b). A noção
de multissituada, entretanto, não deve ser interpretada como implicando que, ao simplesmente
se deslocarem mais, os etnógrafos podem, afinal, produzir descrições abrangentes de objetos
culturais definíveis, nem que os etnógrafos sempre precisam se mover (FALZON 2009a). Como
Candea (2007) argumenta, ainda pode ser útil que o etnógrafo foque em um local um tanto
arbitrário e defina alguns limites para o estudo, e assumir a responsabilidade por quaisquer
limites que essas fronteiras coloquem para as explorações conceituais que podem ser realizadas.
Cook et al. (2009) argumentam por um campo “não situado”, o qual separa a conceituação do
campo de noções de espaço e lugar, evitando o entendimento implícito de uma etnografia
multissituada como um ajuntamento de diferentes componentes e, ao invés disso, lançando foco
em decisões teoricamente orientadas sobre as prioridades da pesquisa. Assim, abundam noções
variadas do campo e, em última instância, a decisão sobre onde o etnógrafo deveria ir precisa
ser tomada a partir de uma combinação de motivações pragmáticas e teoricamente sensíveis,
estando consciente ao mesmo tempo do que alguém pode fazer de forma realista e dos limites
explanatórios que parar em determinados lugares podem impor ao estudo.
Essas discussões sobre a natureza arbitrária, ainda que altamente consequente, da escolha
do campo têm muito a dizer sobre a questão central de como fazemos etnografia para a Internet.
Embora seja claramente possível realizar um recorte arbitrário e definir um campo contido por
um fórum online particular ou um grupo determinado de pessoas, tais escolhas espacialmente
limitadas serão frequentemente limitantes em termos teóricos. A etnografia para a internet pode
se beneficiar por ser mais aberta e inventiva sobre a escolha do local de campo, permitindo que
se persiga diferentes tipos de conexão. Nunca será possível, é claro, compreender
etnograficamente o todo da Internet (ele é, afinal, famoso por ser “muito grande para conhecer”
[WEINBERGER 2011]). Entretanto, um etnógrafo pode explorar criativamente o que significa
para as pessoas ter a Internet em suas vidas. A participação do etnógrafo se torna uma maneira
de chegar perto das experiências vividas na Internet, desenvolvendo um entendimento de como
é navegar as texturas sociais da vida cotidiana. Ao ser uma parte do uso da Internet, o etnógrafo

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detecta o que é fácil e difícil, o que é sancionado e o que é tabu. A Internet pode ser muito grande
para a conhecermos, mas o etnógrafo pode desenvolver uma sensação de como é viver com essa
vastidão, descobrindo como se produz o sentido do inefável. Nós vamos esculpir locais de campo
arbitrários - vamos escolher focar em um objeto ao invés de outro, perseguir uma linha possível
de contextualização ao invés de outra e ficar em determinados lugares ou sair deles - a partir de
caprichos teoricamente informados. Não há uma etnografia holística da Internet, no sentido de
oferecer uma descrição abrangente do que ela significa. Entretanto, há uma ambição de entender
a Internet como um fenômeno contextual e criador de contexto. Queremos entender o que as
pessoas pensam que estão fazendo quando usam a Internet. Mas como fazemos isso?
Geertz (1993) explica que o etnógrafo está frequentemente tentando fazer a ponte entre
as formas de descrição da “experiência-próxima”, que as pessoas usam para falar sobre seu
mundo, e os conceitos de “experiência-distante” que habitam os textos acadêmicos, abstraindo
da especificidade das situações e permitindo que sejam feitas comparações entre eles. Realizar
esse trabalho de ligação requer uma conexão muito próxima com o mundo da vida que é
estudado, mas não necessariamente significa que esse alguém tenha que se tornar um membro
completamente imerso desse mundo da vida:

Para captar conceitos que, para outras pessoas, são de experiência-próxima, e


fazê-lo de uma forma tão eficaz que nos permita estabelecer uma conexão
esclarecedora com os conceitos de experiência-distante criados por teóricos
para captar os elementos mais gerais da vida social, e, sem dúvida. Uma tarefa
tão delicada, embora um pouco menos misteriosa, que colocar-se "embaixo
da pele do outro". O truque e não se deixar envolver por nenhum tipo de
empatia espiritual interna com seus informantes. Como qualquer um de nós,
eles também preferem considerar suas almas como suas, e, de qualquer
maneira, não vão estar muito interessados neste tipo de exercício. O que é
importante é descobrir que diabos eles acham que estão fazendo. (GEERTZ
1997: p.88)4

Geertz continua a explicar que, para ele, descobrir o que as pessoas pensam que estão
fazendo envolve um exame minucioso dos meios que elas têm disponíveis para expressar e
entender a si mesmos e seu mundo. Ele ilustra com alguns exemplos provocativos, incluindo
uma discussão dos sistemas de nomeação de crianças em Bali e a maneira bastante peculiar pela

4
NT.: Utilizamos a tradução para o português do livro O Saber Local. GEERTZ, C. O saber local: novos ensaios em
antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 1997.

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qual esse sistema de nomeação por ordem de nascimento posiciona os indivíduos em um estágio
social.
Aqui, Geertz se concentra em um projeto antropológico muito específico no qual está
envolvido, focado nas noções de individualidade circulantes entre diferentes grupos de pessoas.
Entretanto, seu aviso de que não podemos entrar dentro da pele das pessoas que estudamos e
que devemos pensar mais pragmaticamente sobre o que esperamos obter de nossa proximidade
com elas, é útil mesmo se não compartilhamos o foco antropológico na individualidade. Por
exemplo, eu acho esse insight sobre as preocupações e limitações da etnografia útil, mesmo que
meus próprios interesses teóricos tendam para questões da sociologia e dos estudos de ciência e
tecnologia mais do que da antropologia. Os insights metodológicos de Geertz se tornam
particularmente provocativos quando consideramos os encontros etnográficos mediados pela
Internet, nos quais a proximidade que desenvolvemos pode ser uma questão de compartilhar
um status do Facebook ou participar de uma troca de e-mail, ao invés de uma copresença física
prolongada. Na etnografia para a Internet, os termos “experiência-próxima” e “experiência-
distante” poderiam ser descritos como formas de engajamento de “tecnologia específica” ou
“tecnologia neutra”. A tarefa do etnógrafo, como participante de um grupo do Facebook, é fazer
a ponte entre a tecnologia específica da atualização de status e o ato social com tecnologia neutra
que a atualização de status produz. Tal como nos exemplos de Geertz, uma atenção detida
precisa ser dada aos meios de expressão que a atualização de status no Facebook torna
disponíveis. Do mesmo modo como o sistema de nomeação de crianças em Bali, o status do
Facebook pode ser visto como algo que torna disponível uma maneira particular de
entendimento de si e a sua relação com o mundo.
Para Geertz, a etnografia certamente não é simplesmente coletar sistemas de
representação, ou formas simbólicas, e realizar a leitura da cultura a partir de uma coleção
abstraída de signos. É preciso trabalho concertado e engajamento prolongado para ver esses
signos em ação e descobrir como seus significados são negociados durante o uso. Tal qual, a
etnografia no Facebook não é simplesmente uma questão de ler a cultura que é criada pelas
formas distintas de comunicação que ele torna disponível. Para começar, o Facebook é usado de
maneiras muito diversas. É necessário um exame minucioso e algum engajamento prolongado
e imersivo para entender as nuances de como qualquer grupo particular de pessoas que se
encontraram no Facebook fazem uso de suas características. Por outro lado, nem tudo que
queremos saber, como etnógrafos, sobre o Facebook é aparente de forma pública no próprio
Facebook. Para descobrir como um grupo particular de pessoas se entende a partir do Facebook
pode ser necessário olhar para como aquelas atividades no Facebook são produzidas e
consumidas, como elas viajam para além da localidade online e são incorporadas em outras
formas de atividade.

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Como um etnógrafo, uma pessoa pode permanecer agnóstica sobre se a Internet


realmente, em um sentido amplo, transforma a sociedade. Não é útil assumir de antemão que há
algo especial sobre o digital. De fato, a Internet e o digital não estão disponíveis para nós em
qualquer sentido transcendente, mas emergem na prática, na medida em que são percebidos a
partir de combinações particulares de dispositivos, pessoas e circunstâncias (RUPPERT et al
2013). Se a Internet emerge na prática, ela é também potencialmente múltipla (DE LAET; MOL,
2000; MOL 2002) e não se resolve a partir de um conjunto singular de implicações. A etnografia
para a Internet não precisa assumir que há uma única Internet conhecível por aí - ao invés disso,
busca entender a particularidade e a especificidade dos engajamentos com a Internet como um
componente da vida cotidiana.

Desafios para a etnografia e a Internet


Até agora, argumentei que a etnografia fornece uma maneira distinta e muito útil de
examinar a Internet, o que nos permite desenvolver um entendimento em profundidade das
texturas da experiência social, que surgem conforme as pessoas se engajam com as várias
tecnologias que abrangem a Internet contemporânea. Podemos elaborar locais de campo que
tocam e abarcam a Internet de modos múltiplos, algumas das quais requerem um foco
combinado em um local específico contido dentro da Internet, outras que se movem, e buscam
conexões entre locais online e offline. Tomamos decisões sobre como modelar nossos locais de
campo a partir de uma combinação de bases pragmáticas e teóricas, de modo a permitir que
busquemos questões interessantes. Ao ficarmos imersos em cenários e nas formas de
mobilidade, podemos desenvolver um entendimento mais profundo do sentido que as pessoas
dão às suas várias formas de engajamento com esse conjunto de tecnologias. Embora a Internet
em si mesma seja muito grande para conhecer, podemos explorar de forma útil o que as pessoas,
em situações particulares, fazem dela.
Por muitos anos, venho tentando realizar estudos etnográficos sobre o que as pessoas
pensam que estão fazendo quando usam a Internet, experimentando vários modos de
engajamento e definições do campo e formulando estratégias adaptadas a cada uma das
circunstâncias que encontro. Ao longo do caminho, estudei cenários bastante diversos. Comecei
com etnografia online olhando para o que pessoas que produziam websites e participavam em
discussões online, em resposta a um evento de mídia de grande repercussão, pensavam que
estavam fazendo (HINE 2000). Neste estudo, examinei estruturas sociais online emergentes e
analisei a forma como várias representações da mídia sobre a Internet moldaram expectativas
sobre o que a Internet poderia e deveria fazer pelas pessoas. Realizei análise documental em
websites e na cobertura midiática da Internet, empreguei análise do discurso para investigar
fóruns online, observei e participei de eventos online e entrevistei os criadores de websites e os
participantes dos fóruns online. Argumentei que a Internet pode ser interpretada

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simultaneamente como um local cultural, onde as pessoas fazem coisas, e como um artefato
cultural, que se torna significativo dentro de outros contextos; e que as estratégias etnográficas
podem englobar ambos os aspectos e explorar como eles estão mutuamente enredados.
Dei sequência ao argumento a partir do famoso caso de mídia explorado em Virtual
Ethnography (HINE 2000), e depois parti para examinar um grupo mais especializado, para
estudar como cientistas, em particular, estavam usando a Internet. Em meados dos anos 90, eu
estava envolvida em um estudo etnográfico sobre a implantação de tecnologia da informação
em pesquisa sobre o genoma humano e realizei um trabalho de campo mais convencional,
baseado localmente, em um laboratório de genética e entre desenvolvedores de software e
equipe de suporte, usando como inspiração o modelo de etnografia de laboratório, que foi
pioneira na sociologia do conhecimento científico (LYNCH 1985; LATOUR; WOOLGAR
1986). A etnografia é usada na sociologia do conhecimento científico para examinar
detidamente o que os cientistas fazem em seu trabalho cotidiano no laboratório, com o objetivo
de entender o processo de construção dos fatos científicos (LATOUR; WOOLGAR 1986). À
medida em que participei e observei no laboratório de genética e nos escritórios de
desenvolvimento de software, notei que a Internet estava emergindo como uma localidade
significativa, para a qual os participantes dos cenários offline que eu estudei estavam orientando
seu trabalho. Assim, tornou-se cada vez mais difícil ignorar os fóruns online ou separá-los como
um local de campo contido em si mesmo. Na tentativa de realizar uma etnografia da prática
científica, eu gradualmente comecei a me sentir obrigada a englobar os espaços online e a
explorar como eles influenciaram e estavam entrelaçados com os espaços offline do laboratório
e dos escritórios de desenvolvimento de software. Como parte deste trabalho, examinei um
grupo de discussão online específico onde se discutiam técnicas laboratoriais (HINE 2002),
olhando para as maneiras pelas quais as fronteiras sociais e físicas do laboratório, na vida real,
eram reencenadas no espaço online a partir de práticas discursivas.
Subsequentemente, meu interesse no papel da Internet na pesquisa científica foi
expandido por meio de uma exploração do desenvolvimento de bancos de dados, disponíveis
publicamente, de informações sobre biodiversidade. (HINE 2007; 2008). Este estudo tomou a
disciplina científica da sistemática biológica como seu foco de investigação, envolvendo o
engajamento com museus de história natural e jardins botânicos e suas contrapartidas online,
através de projetos de desenvolvimento de software e fóruns online. Material de arquivo foi
usado para explorar a gênese e a transformação das esperanças de rejuvenescimento da disciplina
por meio da adoção da tecnologia da informação, e para investigar as circulações e translações
entre política e prática em vários domínios. O estudo era etnográfico em espírito, mas expandiu
seu escopo para abarcar o histórico e o autobiográfico, em uma mistura eclética de estratégias
metodológicas, com intenção de descobrir por que, e para quem, determinadas soluções
tecnológicas faziam sentido em momentos particulares. Mais uma vez, a Internet é apresentada

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como um lugar cultural, já que era um lugar significativo onde os cientistas se encontravam e
discutiam, e onde novos espaços de produção de conhecimento emergiram. Ela era também um
objeto cultural significativo, pois carregava algumas conotações poderosas para os usuários e
comentadores. Usar a Internet era visto como uma maneira importante de estar atualizado e de
alcançar usuários potenciais do conhecimento científico.
Meu interesse no papel que a Internet desempenha nas preocupações muito específicas
da pesquisa científica tem sido acompanhado por um interesse duradouro no papel da Internet
em cenários mais mundanos e cotidianos. Estive interessada no entrelaçamento da mídia de
massa com a Internet, explorando a extensão em que a Internet simultaneamente provê uma
possibilidade para que emerjam novos tipos de audiência e, ao mesmo tempo, torna viável para
pesquisadores de audiência desenvolverem um novo sentido de engajamento cotidiano com a
mídia (HINE 2011b). Finalmente, tenho explorado mais recentemente o uso de redes de trocas
gratuitas de produtos online localmente baseadas, como Freecycle e Freegle, descobrindo como
essas conexões mediadas pelo computador interagem com o entendimento das pessoas em
relação à sua localidade e daqueles que habitam a localidade ao lado delas. Em cada um desses
casos, estou interessada em entender a Internet como uma esfera flutuante de interação social
separada da vida cotidiana, mas como uma parte incorporada da vida cotidiana das pessoas que
a utilizam. Tomando como inspiração uma posição etnográfica holista, tenho tentado descobrir
o que a Internet significa exclusivamente em cada um desses cenários, sem esperar que ela tenha
algum conjunto transcendental de efeitos que ela exerce em cada um dos domínios em que é
utilizada.
Tenho interesses de pesquisa ecléticos, o que tem a vantagem, para os propósitos atuais,
de que tenho desenvolvido estratégias etnográficas para diversos cenários de pesquisa. Eles estão
unidos, entretanto, por um compromisso com a etnografia como uma forma experiencial de
conhecimento e uma crença de que o engajamento com o campo deveria ser conduzido por uma
busca das maneiras pelas quais um cenário tem sentido único, ao invés da aplicação de um
modelo particular do que o escopo do campo deveria ser. Cada solução metodológica é única.
No entanto, existem estratégias que continuam úteis em vários lugares diferentes e, como
sempre, um etnógrafo em um cenário pode sempre e de modo útil se inspirar a partir de
abordagens que funcionaram em outros lugares. As situações nas quais tenho me engajado são
muito diversas, mas olhando para esses estudos e refletindo sobre os desafios enfrentados e as
adaptações realizadas, aparecem algumas questões comuns. Três aspectos particulares da
experiência contemporânea da Internet me impressionam repetidamente por serem
especialmente desafiadores para o desenvolvimento de estratégias etnográficas. Para o
desenvolvimento de uma estratégia etnográfica para a Internet, parece particularmente
significativo que ela é incorporada em várias molduras contextuais, instituições e dispositivos,
que a experiência de usá-la é corporificada e, consequentemente, altamente pessoal, e que ela é

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cotidiana, frequentemente tratada como uma infraestrutura normal e mundana, ao invés de ser
algo sobre o qual as pessoas falam a menos que algo significativo dê errado. Essas três
características (a internet 3 Es) forneceram um pano de fundo para pensar sobre por que é difícil
aplicar os princípios etnográficos para a Internet contemporânea e o que podemos fazer para
obter sucesso.
Não pretendo dizer que essas três características capturam de forma única e
compreensível a Internet contemporânea ou são, de algum modo, completamente novas; ou que
distinguem a Internet de agora daquela de períodos anteriores. Ao invés disso, elas são um
dispositivo para articular alguns desafios genéricos que a Internet contemporânea oferece aos
etnógrafos, como um caminho para a formulação de estratégias transportáveis. A etnografia é
uma metodologia adaptativa, sempre criada do zero a partir das circunstâncias em que se
encontra, mas os etnógrafos podem aprender uns com os outros e podem desenhar um
repertório de abordagens. O enquadramento a partir das três características oferece um meio de
pensar sistematicamente sobre porque algumas estratégias são mais prováveis de funcionar para
iluminar pontos específicos sobre a Internet do nosso interesse. Nas seções seguintes, vou
articular o que entendo por cada uma das características, discutindo algumas das orientações e
estratégias etnográficas que surgem.

A internet incorporada
Nos círculos técnicos, o termo “Internet incorporada” se refere à tendência crescente de
se incorporar em objetos cotidianos a capacidade de se conectar à Internet (INTEL 2009). Essa
“Internet das coisas” (GERSHENFELD et al. 2004) permite que os objetos sintam e respondam
aos seus ambientes e enviem mensagens para dispositivos de monitoramento. Foi prometido
que um mundo contendo tal Internet incorporada será mais inteligente, permitindo que os
objetos ao nosso redor tomem ações apropriadas por nós, se adaptando às necessidades que nós
ainda sequer sabemos que temos. A Internet incorporada, de acordo com esse projeto, promete
o poder computacional e a capacidade preditiva perfeitamente integrados ao mundo que nos
cerca. Ao me referir a uma Internet incorporada, não estou especificamente referenciando este
cenário, ainda que a incorporação da capacidade de acesso à Internet em dispositivos cotidianos
é sem dúvida um tópico de preocupação etnográfica. A maneira como tais dispositivos
inteligentes vão se tornar atores em nossas paisagens doméstica e de trabalho, e a extensão com
que vamos levá-los em conta, reconhecer sua agência e transformar nossas outras relações
humano - humano e humano - máquina para acomodá-los, estão clamando por atenção
etnográfica. A exploração dessa forma de Internet incorporada é uma forma bastante específica
de desafio etnográfico que pode estar no horizonte de possibilidades. Entretanto, não é essa
forma relativamente esotérica de Internet incorporada que intento referenciar aqui: é o sentido

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mais geral a partir do qual a Internet se torna entrelaçada, no uso, com múltiplas formas de
contexto e molduras de criação de significado.
Hoje em dia, pode parecer óbvio que a Internet é incorporada à vida cotidiana, mas nem
sempre foi assim. Nos primeiros anos da Internet mainstream, era comum falar sobre a Internet
como algo que oferece acesso a um novo tipo de espaço: o ciberespaço (como popularizado por
William Gibson no livro de ficção científica Neuromancer [1984]). A Internet foi concebida
como uma nova fronteira que poderia ser colonizada por quaisquer novas estruturas e
identidades que as pessoas desejassem criar. O ciberespaço foi interpretado como um domínio
separado da vida cotidiana, concebido como oferecendo novas possibilidades para
desenvolvimentos pioneiros, separado dos modos predominantes de governança e
potencialmente livre de estruturas e desigualdades duradouras experienciadas nos cenários da
“vida real”, como capturado na famosa Declaração de Independência do Ciberespaço (1996), de
John Perry Barlow. Esse modelo transcendental de ciberespaço foi uma metáfora dominante
para entender as possibilidades da Internet emergente (ARORA 2012) e se provou grandemente
produtivo para criar um sentido de maravilhamento e expectativa em torno das possibilidades
socialmente transformativas da Internet. Esse modelo de Internet enfatizou o papel da
tecnologia em abrir possibilidades para que a interação social fosse reorganizada no tempo e no
espaço e para que as identidades fossem fluidas e múltiplas. A Internet foi também encarada
como uma manifestação de ideias pós-modernas sobre o colapso de estruturas persistentes de
poder, conhecimento e identidade (por exemplo, ver POSTER 1995; TURKLE 1995; STONE
1996).
A noção de que a Internet era uma esfera de inovação social, dentro da qual quaisquer
estruturas prévias poderiam potencialmente ser refeitas, provou-se muito estimulante nos
círculos acadêmicos. Por um lado, enquadrar a Internet como parte do domínio esotérico
separado das preocupações da vida cotidiana poderia ser visto como uma forma de posicioná-la
como frívola e sem as preocupações significativas, que seria considerada adequada pelos
pesquisadores acadêmicos. Aqueles que focaram na Internet se viram como alvo de uma certa
dose de escárnio de seus colegas mais “sérios”. Por outro lado, entretanto, o ar de novidade em
torno da Internet e a concepção do ciberespaço como um domínio novo e separado sugeriram
uma nova fronteira para o entendimento acadêmico e motivaram uma atenção mais detida para
o que essa cultura online emergente poderia ser, atraindo pesquisadores de uma vasta gama de
disciplinas (BAYM 2005; HINE 2005). A Internet parecia oferecer um laboratório no qual os
cientistas sociais poderiam assistir à sociedade sendo fabricada do zero. À medida em que
floresceram os usos da Internet para vários propósitos, as novas formações e atividades sociais
que tomaram lugar começaram a ser levadas a sério tanto por jornalistas (RHEINGOLD 1993;
DIBBELL 1999) quanto por cientistas sociais acadêmicos (por exemplo, as coletâneas pioneiras
editadas por JONES 1995; 1997; 1998).

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A ideia de que a Internet pode atuar como um domínio cultural significativo em si


mesmo foi, em seguida, a motivação para e o resultado de esforços combinados de etnógrafos,
nos anos subsequentes, para experimentar e documentar as estruturas sociais que emergem em
espaços online. Os etnógrafos têm estudado formas variadas de interação online, incluindo
grupos de discussão, salas de bate-papo em tempo real, jogos online com múltiplos jogadores e
ambientes de realidade virtual (exemplos particularmente notáveis incluem: BAYM 2000;
KENDALL 2002; SCHAAP 2002; TAYLOR 2006; WILLIAMS 2007; BOELLSTORFF 2008;
NARDI 2010). Tais estudos frequentemente envolveram os pesquisadores na observação e
interação para além dos laços do local online em si. Onde os participantes se encontram na vida
real ou usam outros canais de comunicação, como salas de bate-papo, em paralelo ao ambiente
de jogo, o etnógrafo iria usualmente querer fazer parte também, de modo a experienciar o
espectro completo de interações que os participantes apreciam. Não obstante, o local de campo
tende a ser construído como centrado em um grupo de pessoas que são definidas por suas
conexões com um espaço online específico. Nesta concepção de etnografia para a Internet, o
campo está conceitualmente, na sua maioria, contido na Internet e o etnógrafo busca
compreender como as atividades dentro daquele campo são estruturadas pelos participantes e
como ganham sentido para eles.
A noção de um campo contido na Internet certamente oferece uma lente poderosa para
descobrir o que as pessoas fazem online e, em particular, para entender como os espaços online
emergem como cenários sociais ordenados. É o caminho para entender um conjunto específico
de questões teoricamente orientadas. A etnografia em espaços online pode olhar em detalhes
para como uma cultura distinta pode emergir em tal espaço, com seu próprio conjunto de
normas e valores, com entendimentos comuns de humor, reciprocidade e um sentido de sua
própria identidade como formação social distinta de outras. Espaços online podem formar
entidades sociais coesas que são prontamente descritíveis por termos como comunidade, ou eles
podem oferecer formações sociais mais difusas que ainda assim oferecem a seus participantes
um senso de que eles estão em um espaço distinto que carrega certas expectativas de seus
comportamentos e ainda possuem características receptivas à exploração etnográfica. Como
Boellstorff (2010) argumenta, é perfeitamente legítimo conduzir um estudo etnográfico em tal
local, desde que a pergunta abrangente de pesquisa seja definida adequadamente. Entretanto,
ainda que seja legítimo e frequentemente iluminador, um modelo de etnografia organizado em
torno da Internet ciberespacial autocontida não é apropriado para todas as perguntas de pesquisa
que os etnógrafos podem desejar perguntar sobre a Internet. Particularmente, este modelo de
etnografia não é adequado para responder questões sobre as maneiras pelas quais a Internet
ganha sentido como uma forma de interação entre as várias outras, um modo de existência ao
lado de várias alternativas que as pessoas podem experienciar diariamente. Outras estratégias de

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pesquisa e diferentes modelos do local de campo podem ser necessários para explorar essa
Internet incorporada.
Embora o modelo ciberespacial de Internet tenha sido altamente influente em moldar a
primeira onda de estudos acadêmicos da Internet, se tornou logo aparente que várias interações
sociais que aconteciam na e em torno da Internet não eram encompassadas por esse modelo. De
acordo com Silver (2000), se a primeira onda de estudos da Internet foi se voltou para os “pilares
gêmeos” de comunidades virtuais e identidades online, uma segunda onda emergiu, a qual
assumiu uma postura mais crítica sobre as propriedades potencialmente transformadoras da
Internet. Essa nova geração de estudos ainda prestou atenção ao que as pessoas faziam online,
mas também olhou para os contextos nos quais essas atividades emergiram e prestaram atenção
às histórias contadas sobre essas atividades online e nas estruturas e processos que tornaram
bem mais fácil para algumas pessoas participarem enquanto outras não (SILVER 2000). Os
pesquisadores foram solicitados a perguntar que diferença a Internet fez para as pessoas em
contexto (HOWARD 2004) e estavam olhando para os processos pelos quais ela se tornou
incorporada na vida das pessoas, de modo que fazia sentido para elas (BAKARDJIEVA 2005).
Uma mudança também ocorreu no discurso popular, posicionando a Internet como um artefato
mundano enredado com os imediatismos de outros aspectos da vida, como descreve Sterne:

As reivindicações pela promessa revolucionária das tecnologias digitais estão


se dissipando [...]: os anunciantes mudaram para campanhas de “estilo de vida
digital”, que representam as tecnologias digitais como commodities a serem
integradas na vida cotidiana ao invés de forças de época que vão transformá-
las (STERNE 2006: p.17).

Como o discurso popular enfatizou cada vez mais o que se poderia fazer com a Internet,
como ficou claro que a Internet não necessariamente flutua livre do restante da experiência das
pessoas, como emergiu que havia uma possibilidade significativa de uma divisa digital com
consequências sociais reais e como retrocedeu a noção de uma Internet livre das formas
predominantes de desigualdade social, uma urgência de fazer tipos de perguntas de pesquisa que
não poderiam ser respondidas por estudos contidos apenas dentro de um ciberespaço da Internet
ganhou andamento.
Já ficou aparente para alguns, incluindo os etnógrafos, que a Internet não precisa ser
pensada como um espaço inevitavelmente apartado da vida cotidiana. Miller e Slater (2000)
tiveram uma abordagem da etnografia da Internet, radical para seu tempo, que começou em um
lugar físico, Trinidad. Eles iniciaram com o objetivo de descobrir o que a Internet significava,
de forma particular, em Trinidad, ao invés de assumir que havia um ciberespaço separado,
transcendente e definido de forma única que as pessoas habitavam. A perspectiva de Miller e

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Slater (2000) demonstrou que a Internet poderia significar coisas diferentes para grupos
diferentes de pessoas e ela poderia ser usada de maneiras muito específicas como um meio de
realizar interesses culturais particulares e tendenciosos. Miller e Slater não assumiram a
existência do “virtual”, mas propuseram que ele poderia existir apenas na medida em que fosse
trazido à existência por conjuntos particulares de práticas culturais. Pode haver maneiras bem
diferentes de experienciar a Internet que não veja o domínio online como uma forma de
ciberespaço. “A Internet” não era de fato um artefato cultural único, mas vários artefatos
culturais diferentes a depender das pessoas que estavam fazendo uso dela (Hine, 2000). Assim,
seria desnecessariamente limitante delinear estudos etnográficos da Internet como se ela sempre
existisse como uma experiência ciberespacial. Não se pode assumir que podemos descobrir como
um conjunto particular de práticas online faz sentido para os seus participantes somente ao
observá-los online. De acordo com Miller e Slater (2000), um etnógrafo deveria seguir um grupo
específico de pessoas usando a Internet e segui-los online de acordo com qualquer sentido que
eles mesmos dão a essa prática. Mais recentemente, Miller (2011) adotou uma abordagem
semelhante para a etnografia do Facebook, começando não com trabalho de campo dentro do
Facebook, mas explorando como seu significado é construído por uma variedade de usuários
trinitinos com os quais ele passou um tempo realizando entrevistas e explorando o Facebook a
partir da visão deles.
Uma abordagem “incorporada” da etnografia da Internet, como proposta por Miller e
Slater (2000), prevê que um conjunto diferente de perguntas de pesquisa sejam feitas, se
comparada à perspectiva ciberespacial da etnografia da Internet. Especificamente, uma
abordagem incorporada nos ajuda a questionar como a Internet vem a significar coisas
diferentes em cenários diferentes. Em outras palavras, ela abarca a multiplicidade da Internet.
Tal abordagem é ressonante com trabalhos recentes na sociologia da ciência e tecnologia, os
quais têm enfatizado que as tecnologias podem ser pensadas de forma útil como possuindo
múltiplas identidades. De acordo com essa perspectiva, ao invés de ser um agente externo que
impacta na sociedade, uma tecnologia pode ser interpretada como um componente de
circunstâncias culturais dinâmicas, as quais dão significado e identidade para a tecnologia (DE
LAET; MOL 2000; MOL 2002). Desse modo, a identidade de uma tecnologia não preexiste
qualquer cenário de uso, mas é estabelecida por meio de práticas que as trazem à vida naquele
cenário (LAW; LIEN 2013). Práticas diferentes podem produzir representações múltiplas e
divergentes de uma tecnologia (ou de uma doença, de um organismo ou de uma organização -
de fato, qualquer um dos artefatos que tomamos como entidades estáveis podem, de acordo com
essa perspectiva, ser pensados como potencialmente múltiplos e localmente estabilizados
somente através de nossas práticas). Ainda que possamos falar sobre tecnologias, no sentido
cotidiano, como artefatos estáveis, enquanto uma metodologia heurística, esta perspectiva da
sociologia da ciência e tecnologia sugere que devemos esperar e nos preparar para que as

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tecnologias sejam múltiplas. Aplicar esta metodologia heurística da multiplicidade da Internet


sugere que pode ser um erro assumir que, se a Internet está por perto, então o ciberespaço
sempre existe. De forma geral, a multiplicidade heurística sugere que será útil prestar atenção
detida às circunstâncias a partir das quais nós promulgamos a Internet: como a trazemos à vida
como um componente de nossa vida cotidiana, quais identidades atribuímos a ela, e como a
experienciamos de formas diversas?
Esta antecipação de que haverá múltiplos entendimentos da Internet ressoa com as
observações de Markham (1998) de que a Internet pode nem sempre ser experienciada como
um lugar onde se vai, mas poderia também ser vista como uma ferramenta ou como uma
maneira de ser - ainda que, de acordo com as expectativas semeadas pela sociologia da ciência e
tecnologia, nós não devemos esperar que mesmo essa lista seja exaustiva. Uma tecnologia tão
fluida, dispersa e flexível (DE LAET; MOL 2000) como a Internet deveria ser pensada para ser
experienciada de formas muito diferentes e inesperadas, difíceis de capturar por taxonomias de
uso diretas e pré-determinadas. Por isso, precisamos ser agnósticos de antemão sobre a
organização espacial das conexões e sobre o que elas significam para as pessoas. A pesquisa
contemporânea sobre a Internet precisa estar alerta para novas formações espaciais, que vão
além das metáforas previamente dominantes da rede e da comunidade, e questionar a separação
do espaço em online e offline (POSTILL 2008).
Este entendimento múltiplo da tecnologia tem ressonância com enquadramentos
desenvolvidos para estudar a incorporação da mídia em circunstâncias diversas e o seu papel na
formação da identidade. Courtois et al. discutem um entendimento multidimensional do
consumo de mídia, o qual se estende sobre conceituações prévias da mídia como significante em
um sentido dual, como artefatos materiais e como textos:

...nós aderimos ao conceito de uma articulação tripla que disseca consumo de


mídia como articulação simbólica recíproca da mídia como um objeto (primeira
articulação: exemplo televisão, computador), como um texto (segunda
articulação: exemplo letra de música, jogo, vídeo) e como contexto (terceira
articulação: sozinho no quarto, junto com a família na sala de estar).
(COURTOIS et al. 2012: p.402)

O estudo de adolescentes flamengos, conduzido por Courtois et al. (2012), explorou o uso de
múltiplas tecnologias de mídia, incluindo fones, consoles de jogos, MP3 players, televisores e
computadores. Os pesquisadores conduziram estudo baseado em survey e entrevistas para
explorar como os adolescentes usavam essas tecnologias e para identificar as interações entre
objetos, textos e espaços. Um etnógrafo da Internet poderia usar essa noção de tripla articulação
- como objeto, texto e contexto - como dispositivo de sensibilização, mantendo em mente a

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possível necessidade de atenção para qualquer um desses múltiplos aspectos para entender a
experiência incorporada da Internet, embora sem esperar que cada um seja experimentado, na
prática, como entidades separadas.
Então, para recapitular, a metáfora do ciberespaço foi altamente influente no
desenvolvimento de uma compreensão de que as comunicações online deveriam ser levadas a
sério como uma maneira para as pessoas se juntarem e desenvolverem novas identidades e novas
formações sociais. Os estudos etnográficos de espaços online foram centrais em estabelecer a
natureza das formações sociais que ocorreram online. Vários pesquisadores da Internet, no
entanto, rejeitaram em seguida essa noção dos estudos de Internet contidos na Internet e
procuraram estudar as formas diversas pelas quais a Internet era contextualizada. Quando se
segue essa abordagem, se torna rapidamente aparente que a Internet significa coisas diferentes
para pessoas diferentes e assume múltiplas identidades. A metáfora ciberespacial, e com ela a
noção de um local de campo contido na Internet, se provou como apenas uma forma de entender
o que a Internet significa. Vista dessa forma, a abordagem incorporada e contextual para
entender a Internet não é inerentemente superior ao entendimento ciberespacial. Cada uma é o
produto de um momento cultural particular, servem para responder tipos específicos de
questões sobre a Internet e têm sua própria validade local. De igual modo, o modelo incorporado
não varre de lado o modelo ciberespacial e o torna irrelevante. Ainda há espaços online que
desenvolvem culturas distintas e bem ordenadas. Ainda é relevante e interessante descobrir o
que as pessoas fazem quando estão online e que formas de identidade, estrutura e desigualdade
emergem quando as pessoas se encontram no espaço online. Entretanto, existem agora muitos
etnógrafos que desejam estudar a incorporação da Internet em várias dimensões da vida
cotidiana. Como pesquisadores, não estamos acima das tendências culturais atuais e nem somos
totalmente vítimas delas, mas somos participantes ativos dessas tendências. À medida em que a
tendência cultural atual se distancia do ciberespaço, é importante ser capaz de se envolver com
as questões de nossos dias, que tendem a focar no papel da Internet em nossas organizações e
instituições, em nossas famílias e nossas escolas e em nossos objetivos de viver vidas
sustentáveis, plenas e justas. Os etnógrafos contemporâneos podem recapitular essas questões e
adotar uma abordagem crítica aos valores que eles incorporam, mas eles frequentemente vão
querer e precisar se engajar com o interesse generalizado em uma Internet incorporada.
A Internet pode ser vista como incorporada de acordo com muitas dimensões diferentes
de incorporação. Miller e Slater (2000) realizaram uma abordagem antropológica da
incorporação, tomando como foco o papel da Internet na cultura trinitina, mas existem várias
outras maneiras potenciais de enquadrar o contexto no qual a Internet é vista como incorporada
para além da espacial e da cultural. Podemos, por exemplo, olhar para o papel desempenhado
pela Internet no desenvolvimento de modos particulares de vida familiar na sociedade
contemporânea ou a incorporação da Internet em comunidades locais; ou poderíamos explorar

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como organizações e instituições específicas produzem sua própria Internet (RAINIE et al.2012).
Podemos olhar para como a Internet tanto incorpora e é incorporada dentro de outras formas
de mídia (BOLTER; GRUSIN 2000). Podemos olhar para a incorporação de redes sociais na
Internet e da Internet nas redes sociais (GARTON et al. 1997). Cada uma dessas formas de
incorporação sugerem uma direção pela qual um etnógrafo poderia buscar por conexões,
oferecendo um quadro de construção de significado dentro do qual atividades particulares da
Internet ganham sentido.
Além dessas dimensões sociais da Internet incorporada, podemos também olhar para a
incorporação de nossa experiência da Internet em dispositivos específicos. Dados emergentes
das edições sucessivas do Oxford Internet Survey (DUTTON; BLANK 2011; DUTTON et al.
2013) sugerem que a experiência de usar a Internet em múltiplos dispositivos e enquanto em
movimento é muito diferente daquela do usuário limitado a um único ponto de acesso à Internet
no desktop. Existem hoje muitas formas diferentes pelas quais uma funcionalidade
aparentemente igual da Internet pode ser vista e várias maneiras diferentes a partir das quais as
pessoas podem ter essa experiência. Então, o etnógrafo tem um grande desafio quando decide
que dispositivo usar para sua própria atividade na Internet e como comparar essa experiência
com a experiência que os participantes podem ter. Escolher um dispositivo ao invés de outro
pode implicar se tornar mais alinhado com a experiência de um conjunto de participantes em
detrimento de outro e pode ser importante ter discernimento sobre o que essa diferença pode
implicar.
O conteúdo da Internet também pode ser visto como um fenômeno incorporado de
forma múltipla. O conteúdo advindo da Internet circula continuamente e é extraído e
reincorporado, aparecendo em conversas boca a boca, em relatórios impressos e na mídia de
massa, formatando e sendo formatado pela miríade de atividades da vida cotidiana e da
existência pública. Uma das características definidoras do digital, afinal de contas, é a facilidade
com que ele pode ser movido, recombinado, revisualizado, recalculado e adaptado. Por isso, nós
não podemos saber de antemão como outras pessoas vão ver o que estamos vendo e onde os
dados podem acabar. Não precisamos ser oniscientes ou mediúnicos - os etnógrafos sempre são
limitados por suas próprias habilidades de percepção e por suas capacidades corporificadas de
observação. Não podemos esperar abordar todos os aspectos da reincorporação do conteúdo da
Internet que examinamos, nem produzir um relato exaustivo de onde exatamente ele se
movimenta e o que faz lá. Não é para isso que a etnografia serve e nem o que ela aspira conseguir
realizar. Ao invés disso, nós reconhecemos as dinâmicas da incorporação, permanecemos alertas
às possibilidades de movimentação inesperada de dados e às novas formas de conexão, e
tentamos manter o foco em como as situações emergem e ganham sentido para as pessoas. E
fazemos escolhas conscientes, atentos às perguntas de pesquisa que nos impulsionam e às
questões que desejamos que nossas descobertas enderecem.

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A Internet incorporada coloca muitos desafios metodológicos para um etnógrafo, pois


os quadros de construção de significado que o etnógrafo poderia potencialmente buscar são
inicialmente imprevisíveis, frequentemente diversos e podem requerer uma agilidade
metodológica considerável e mobilidade de foco para serem explorados. As soluções precisas
vão depender de circunstâncias individuais e das aspirações específicas do estudo etnográfico em
questão. Nos próximos capítulos, vou explorar algumas estratégias que podem ajudar os
etnógrafos a lidar com a Internet incorporada e podem ser adaptadas para outras circunstâncias.
O capítulo seguinte explora algumas estratégias abrangentes para construir locais de campo para
a Internet incorporada, focando na abertura para locais de campo que não estejam
arbitrariamente confinados aos domínios online, tomando uma abordagem conectiva e estando
aberta a maneiras imprevisíveis pelas quais a Internet ganha sentido para seus usuários e estando
aberto para o modo como expectativas sobre para que serve a Internet são transmitidas e
cimentadas. Nos capítulos seguintes que tomam como foco exemplos específicos, várias
dimensões de incorporação serão exploradas. O capítulo 4 explora a incorporação da rede online
de doações de produtos Freecycle, que faz parte de comunidades locais, domicílios e dispositivos
específicos. O capítulo 5 considera o desenvolvimento de bancos de dados distribuídos sobre
biologia e investiga o sentido a partir do qual ideias contemporâneas são incorporadas numa
cultura material específica e num clima político contemporâneo, assim como na história da
disciplina. O capítulo 6 olha para a incorporação da televisão na Internet e questiona como a
Internet torna disponíveis novos modos de investigação etnográfica para o entendimento da
mídia de massa na vida cotidiana. Entretanto, esses capítulos também manifestam estratégias
que lidam com a Internet corporificada e cotidiana, e estes conceitos por sua vez requerem uma
explicação antes que passemos à discussão de estratégias etnográficas concretas para enfrentá-
los.

Internet corporificada
Conforme descrito acima, a ficção ciberpunk, e particularmente sua noção de ciberespaço,
teve grande influência na definição das expectativas iniciais da Internet. Fomos encorajados a
pensar em entrar na Internet como similar a acessar um espaço alternativo. Como corolário,
também fomos levados a pensar na Internet como um espaço onde alguém poderia
potencialmente se tornar outra pessoa, desenvolvendo uma identidade alternativa àquela
mantida no mundo físico, ou mesmo deixando para trás a identidade do mundo físico por
completo. Esse processo de construção de identidades virtuais tornou-se um foco significativo
dos esforços de pesquisa. No entanto, tem se tornado cada vez mais aparente, à medida que o
uso da Internet se torna incorporado à vida cotidiana, que, em vez de ser um local ciberespacial
transcendente de experiência, a Internet frequentemente se torna parte de nós e que as
identidades virtuais não são necessariamente separadas dos corpos físicos. Não pensamos

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necessariamente em “entrar na Internet” como uma forma distinta de experiência, mas, em vez
disso, muitas vezes experienciamos estar online como uma extensão de outras formas
corporificadas de ser e agir no mundo. Há, no uso contemporâneo da Internet, muitas vezes um
grau considerável de continuidade reconhecível entre as experiências e identidades online e
offline de uma pessoa e, de fato, a performance de alguém em sites de redes sociais pode muitas
vezes ser julgada de acordo com sua autenticidade, de não ser "falso", comparando o self online
diretamente com sua contraparte offline. Nesta seção, discutirei até que ponto a experiência do
ambiente online se tornou perfeitamente integrada com outras experiências corporificadas e
explorarei as implicações dessa integração para a orientação do etnógrafo no campo. Torna-se
aparente que online e offline não estão relacionados de alguma forma previsível em termos de
corporificação, e que as interações corporificadas do etnógrafo com o campo são, portanto,
altamente individualizadas e altamente consequentes para moldar a compreensão do campo. O
reconhecimento adequado da natureza diversa e altamente pessoal da experiência online
representa um desafio metodológico considerável. Algumas estratégias para lidar com este
desafio serão descritas no final desta seção.
A ideia de "deixar a carne para trás" foi, como Bell (2001) descreve, um dos primeiros
mitos prevalentes em torno dos ciberespaços, fundado em uma literatura ciberpunk que se
concentrava em deixar o corpo para trás e "conectar-se" a um domínio online distinto de
existência. O corpo era representado como um estorvo a ser abandonado o quanto antes, pois
vinculava um sujeito a uma identidade corporal que constrangia a autoexpressão e a um
conjunto de restrições físicas que, uma vez no ciberespaço, não precisam mais ser reconhecidas.
O ciberespaço parecia oferecer uma existência pura da mente. Muitos comentaristas, no entanto,
responderam à altura às simplificações excessivas que esta posição representava. Stone (1992:
p.113) explorou as relações diversas e mutáveis entre corpos, identidades e espaços virtuais,
entretanto enfatizou, em sua conclusão, que “mesmo na era do sujeito tecnossocial, a vida é
vivida por meio dos corpos”. Lupton (1995) enfocou a relação emocional e corporificada que os
usuários têm com seus computadores, explorando os múltiplos sentidos nos quais o corpo estava
presente na relação com um computador. O que quer que acontecesse no ciberespaço, o usuário
teria, em algum momento, que retornar a um corpo com necessidades físicas. Os eventos no
ciberespaço também evocam reações emocionais e físicas em um usuário inescapavelmente
corporificado. Argyle e Shields (1996) descreveram as experiências corporificadas de um usuário
que poderia estar, simultaneamente, presente no ciberespaço e um corpo físico sentado em uma
cadeira frente ao teclado, olhando para uma tela:

Se acreditarmos que o corpo deve estar presente no sentido físico para ser um
fator entre os indivíduos, que há separação e que podemos nos comunicar a
partir de um nível sem que outros níveis estejam presentes, então será muito

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difícil encontrar fisicalidade em uma rede de computador. O corpo não está


lá. A tela, o teclado e o monitor estão fisicamente em contato com o usuário,
com a carne frente a uma barreira depois de barreira. Mas se defendermos
uma multiplicidade, múltiplas camadas de ser, uma maneira de estar no corpo
o tempo todo, de expressar a totalidade da pessoa de forma que não possa
haver separações, e vermos o humano como uma entidade extremamente
criativa que deseja tocar seus companheiros, então como podemos eliminar o
físico por completo? (ARGYLE; SHIELDS 1996: p.68)

Essa noção de múltiplos modos de ser e múltiplas noções de fisicalidade oferece uma
maneira útil de compreender as complexidades da experiência online. Até certo ponto, o mundo
online pode ser imersivo. É possível sentir-se copresente com outros seres virtuais em um
mundo online e, naquele momento, esquecer seu corpo físico e localização offline. Esse efeito,
entretanto, é apenas temporário. Em algum momento, você será chamado de volta às
necessidades físicas, porque o corpo não pode viver online e, eventualmente, requer atenção. A
complexidade das múltiplas maneiras de ser não se trata apenas de uma alternância entre a
imersão online e as presenças físicas. A escolha de permitir que o mundo online seja imersivo é
carregada, porque durante essa experiência online imersa estamos nos afastando de outras
formas de engajamento e fazendo, implícita ou explicitamente, uma declaração sobre o que é
importante para nós. Um membro da família sentado em uma sala de estar, envolvido em uma
sessão de jogo online pode estar imerso no mundo online, mas sua presença física contínua na
sala, juntamente com uma evidente falta de envolvimento com outros membros da família fala
de suas prioridades e pode ser lido dessa forma. Estar imerso em um mundo online não
necessariamente substitui responsabilidades como pais, irmão ou amigo para com outros
copresentes, nem, da mesma forma, isenta a pessoa de várias formas de responsabilidade ligadas
a um corpo socialmente engajado no mundo físico.
Portanto, mesmo que às vezes possa ser imersivo, o mundo online não necessariamente
substitui ou repõe a experiência corporal. O usuário da Internet é um usuário corporificado.
Corpos, entretanto, não existem simplesmente no mundo de uma forma singular, mas são
trazidos à existência de uma forma complexa e múltipla (TURNER 1991). Portanto, não é
suficiente dizer simplesmente que alguém está aqui ou ali, corporificado ou não, online ou
offline. Tanto online quanto offline são modos complexos de ser, que muitas vezes precisam ser
desagregados (não agrupados como se todas as experiências online ou offline fossem de alguma
forma as mesmas), a fim de diferenciar o que cada um pode significar para pessoas em
circunstâncias específicas e como cada um pode se relacionar com um corpo físico. Como
Markham (1998) enfatizou em sua etnografia online reflexiva, a Internet nem sempre é
experimentada como algo em que se imerge, como retrata a ficção cyberpunk. Em vez disso, ela

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destacou, a Internet pode ser experimentada de várias maneiras, dentre as quais atuar como um
lugar, uma ferramenta e uma forma de ser. Descobrir como a Internet é vivenciada, em qualquer
instância particular, torna-se uma questão de compreensão etnográfica, combinando a reflexão
sobre como a experiência é sentida pelo etnógrafo com um envolvimento próximo com as
experiências e interpretações dos participantes na situação.
A Internet é potencialmente experimentada por usuários corporificados de diferentes
maneiras, dependendo das circunstâncias. Mais claramente aparente, possivelmente, é até que
ponto a Internet mudou ao longo do tempo, e nossa relação com a experiência de usar a Internet
se adaptou à sua familiaridade crescente e à ampla gama de situações sociais que o estar online
oferece. Ultimamente, o advento das mídias sociais e da Internet de banda larga reformulou, em
um sentido muito pragmático, nossa relação com a Internet. Como Gies (2008) descreve, os
usuários da Internet agora muitas vezes esperam transmitir e receber uma ampla gama de
informações uns sobre os outros, utilizando a natureza cada vez mais audiovisual da
comunicação na Internet e fundamentando seu uso da Internet em uma gama ainda mais ampla
de performances de uma realidade corporal. O uso da Internet sempre foi, em alguns sentidos,
uma experiência corporificada, mas a realidade contemporânea dos sites de redes sociais
concentra a atenção popular nessa corporificação de novas maneiras. Na medida em que
rotineiramente alertamos os jovens contra o contato com estranhos na Internet, e ao passo em
que definimos nossas configurações de privacidade em sites de redes sociais de acordo com o
quão bem conhecemos as pessoas, reafirmamos a importância da Internet como um meio de
interagir com outras pessoas conhecidas e encarnadas a quem conhecemos em mais de um meio.
No discurso popular e na experiência cotidiana, a Internet se tornou muito mais rotineiramente
um lugar para expressar um self corporificado, em vez de um lugar para deixar o corpo para trás.
Os corpos que usam a Internet são corpos situados socialmente, e vários aspectos do
posicionamento social e das circunstâncias materiais moldam a experiência da Internet, levando
ao surgimento de uma divisa digital com consequências potenciais de longo alcance para a
inclusão e oportunidade social (HARGITTAI 2008). Além da segmentação social em grande
escala, as biografias individuais determinam o quão acessível e significativa a Internet pode ser
e moldam nossa forma de a usarmos. A Internet tornou-se, por exemplo, uma valiosa fonte de
informação sobre muitos aspectos da existência contemporânea, mas não é necessariamente
vivenciada da mesma forma ao longo da vida. As pessoas recorrem à Internet não como uma
fuga da existência cotidiana, mas para informar e enriquecer sua compreensão dos eventos que
acontecem em suas vidas. Os pais, por exemplo, recorrem à Internet em momentos específicos
de crise, transição e incerteza (PLANTIN; DANEBACK 2009). Como Gies (2008) descreve, o
próprio corpo pode fornecer uma motivação significativa para se estar online, seja para
encontrar informações relacionadas à saúde, buscar apoio de outras pessoas em sofrimento ou
buscar satisfação sexual. A Internet, portanto, pode ser vista como estando ao lado, dependendo

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e reforçando um corpo físico sensual e emocional, em vez de necessariamente substituir esse


corpo. O modo como a Internet está incorporada em nossas vidas é em parte um produto de um
envolvimento corporificado com a Internet e, por sua vez, é claro, a Internet pode moldar nossa
experiência de corporificação, pois as informações e percepções que encontramos online nos
ajudam a nos entender de novas formas.
Tais preocupações têm sido o foco de um ramo emergente da antropologia, a
antropologia ciborgue, que toma a relação entre o corpo humano, a subjetividade humana, a
agência e as várias formas de próteses tecnológicas como o tópico de investigação (DOWNEY
et al., 1995; DOWNEY; DUMIT 1997). Este campo de estudo, influenciado por perspectivas de
estudos de ciência e tecnologia, assume que as consequências das novas tecnologias para a
condição humana não devem ser assumidas como resultados de algumas qualidades objetivas
das próprias tecnologias, mas emergem de uma forma mais complexa e dinâmica a partir de
como as tecnologias são empregadas em circunstâncias específicas e se tornam parte da
experiência humana (HARAWAY 1991). Na antropologia ciborgue, a relação
tecnologia/humano torna-se o foco das atenções, com o objetivo de explorar as qualidades
distintivas e duradouras da condição humana contemporânea. Da mesma forma, um campo da
antropologia digital surgiu mais recentemente com o objetivo de documentar a condição
humana moldada e expressa por meio do engajamento com as tecnologias digitais:

A intenção não é simplesmente estudar e refletir sobre novos


desenvolvimentos, mas usá-los para aprofundar nossa compreensão do que
somos e sempre fomos. O digital deve e pode ser um meio altamente eficaz
para refletir acerca do quê significa ser humano, tarefa principal da
antropologia como disciplina. (MILLER; HORST 2012: p.3)

Esse foco específico da antropologia ciborgue e digital na relação tecnologia/humano


não será compartilhado por muitos estudos etnográficos que envolvem a Internet. A etnografia
para a Internet não precisa compartilhar o projeto da antropologia de examinar a condição
humana, e um envolvimento etnográfico com a Internet não precisa se tornar principalmente
uma etnografia de uma relação ciborgue com a Internet. Será, contudo, útil, para qualquer forma
de etnografia que envolva o uso da Internet, reconhecer que acessamos a Internet como seres
sociais corporificados e que a experiência do etnógrafo dessa corporificação é apenas uma entre
muitas experiências possíveis. Para estar no campo como um etnógrafo engajado em um campo
que engloba a Internet, temos, em algum momento, de estar online, e é importante refletir sobre
o que esse “estar” acarreta - como isso é possível, como isso é sentido, como se compara com
outras formas de estar? Essa sensibilidade se baseia no foco estabelecido no aspecto participativo
da etnografia, que valoriza o aprender a partir de fazer e de refletir sobre o quanto a experiência

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é ou não acessível com base apenas na vontade, e documentando como se experienciam formas
particulares de engajamento. Este foco no envolvimento corporal, sensual e emocional com o
campo tem sido uma característica duradoura das reivindicações específicas da etnografia como
uma forma de produção de conhecimento, e não é menos significativo para uma etnografia
envolvendo a Internet do que para qualquer outra forma de etnografia.
Nos próximos capítulos, documentarei com mais detalhes algumas estratégias de
pesquisa que decorrem diretamente desse reconhecimento da importância da Internet
corporificada para a compreensão etnográfica. No Capítulo 3, o papel da autoetnografia e da
etnografia reflexiva é explorado, destacando a contribuição feita pelo sentido crescente que o
etnógrafo desenvolve das estruturas de sentimento em torno de várias formas de interação. Um
etnógrafo pode, eu argumento, focar nas experiências autoetnográficas de forma útil para
refletir sobre experiências corporificadas da Internet e para explorar a textura da experiência
vivida cotidianamente conforme ela transite entre os domínios online e offline. Os etnógrafos
podem aprender com suas próprias experiências de movimentação, descobrindo quais
movimentos são fáceis e quais são difíceis, quais tipos de contato são permitidos e quais são
tabus. Relatos de tais percepções, no entanto, não devem ser considerados necessariamente mais
"autênticos" do que as atividades de outros participantes e não substituem a necessidade, na
maioria dos projetos, de explorar a diversidade das experiências, incluindo, mas não se
limitando, às do etnógrafo.
Focar na ideia de uma Internet corporificada estimula uma mudança em direção ao
reconhecimento da diversidade da experiência da Internet e, como corolário, encoraja o
reconhecimento de métodos reflexivos e autoetnográficos como um componente valioso da
etnografia para a Internet.

Internet Cotidiana
Conclui-se da discussão feita até o momento que muito do uso da Internet se tornou
mundano e normal, já que muitas vezes simplesmente a implantamos como uma forma de fazer
o que faz sentido para nós como seres sociais incorporados e corporificados. A Internet pode,
de fato, desaparecer como uma faceta notável da vida cotidiana, tornando-se simplesmente uma
infraestrutura que oferece um meio para fazer outras coisas. Apesar de muitas vezes serem vistas
como mundanas, entretanto, as infraestruturas não são necessariamente indignas de atenção
crítica. Trabalhos na sociologia da infraestrutura argumentam que é importante olhar para o
trabalho estruturante invisível que as infraestruturas realizam. Ao tomar como certa uma
infraestrutura, podemos estar aceitando certas escolhas e prioridades que são incorporadas a essa
infraestrutura. Mesmo que a Internet pareça ter se tornado comum, então, pode ser importante
examinar de perto o trabalho que estamos permitindo que os vários aplicativos da Internet em
que confiamos façam para nós, e as decisões que estamos implicitamente permitindo que essas

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infraestruturas possam fazer por nós. No restante desta seção, explorarei com mais detalhes essa
perspectiva sobre infraestruturas e considerarei o seu potencial para sugerir estratégias
etnográficas para a Internet.
A Internet cotidiana e mundana representa um desafio metodológico para etnógrafos,
pois podemos precisar desenvolver estratégias para capturar e tornar visíveis os aspectos da
Internet que se tornaram comuns, indo contra a maré cultural para falar sobre questões que não
são tópicos de discussão cotidiana. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a Internet
às vezes volta ao primeiro plano cultural, como um fenômeno notável para a atenção política ou
da mídia, como uma questão de preocupação mais localizada para organizações e indivíduos, ou
como um problema quando não funciona como esperávamos. Conforme discutido no Capítulo
1, a Internet se apresenta na cultura popular como banal e um tópico de interesse 5. Retratos da
Internet são fenômenos situados, e o etnógrafo precisa olhar cuidadosamente para as condições
sob as quais eles surgem, bem como explorar o papel da internet como tópico de interesse que
molda nosso relacionamento com ela e nossas expectativas acerca do que fazer com ela, em uma
base cotidiana, à medida que se torna mundana. O desafio etnográfico da Internet cotidiana (e
sua contraparte, a Internet excepcional) é tratar ambas com igual ceticismo, olhando tanto para
o trabalho invisível feito pela Internet, quando a tratamos como mundana, quanto para as
expectativas moldadas por nossa atenção a um Internet excepcional, que, segundo relatos
populares, oferece o potencial de impulsionar mudanças sociais para o bem ou para o mal.
Trabalhos na sociologia e antropologia da infraestrutura fornecem alguns precedentes
úteis para pensarmos sobre as tecnologias de infraestrutura como um espaço onde ocorre um
trabalho invisível, no sentido de que o design da tecnologia e a maneira pela qual interagimos
com ela tem o efeito de tornar algumas ações mais fáceis e outras mais difíceis, criando espaço
para papéis e responsabilidades sociais e definindo possíveis ações. Bowker e Star (1999), por
exemplo, discutem sistemas classificatórios, como a Classificação Internacional de Doenças e um
esquema para definir intervenções de enfermagem, para mostrar como esses sistemas
determinam prioridades e incorporam valores e escolhas. Com diferentes classificações,
diferentes grupos de pessoas consideram suas experiências valorizadas ou negadas. Uma
infraestrutura pode ser um sistema classificatório ou protocolo padrão, ou pode ser um artefato
mais tangível, como os plugues elétricos que nos permitem acessar os sistemas de energia (STAR
1999). Diferentes grupos podem se relacionar com uma determinada infraestrutura de maneiras
diferentes: um padrão pode parecer perfeitamente aceitável e, de fato, invisível se as preferências
de alguém forem atendidas, mas se não, sua inflexibilidade pode exigir que alguém faça um

5
A autora utiliza o termo “topicalized” para descrever a internet cotidiana. Não há uma palavra que corresponda
exatamente a este termo. A partir das reflexões realizadas no capítulo introdutório, optamos por traduzir como
uma internet transformada em tópico de interesse pela mídia, caracterizada como um local, ao mesmo tempo, de
risco e esperança.

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trabalho extra para se encaixar ou se adaptar. Para ilustrar, Star discute os problemas de um
cliente que tem alergias específicas frente à eficiência dos sistemas de produção em massa do
restaurante fast-food (STAR 1991). Várias formas de resistência e adaptação são possíveis, mas
todas exigem trabalho adicional de um cliente que está fora do mainstream.
As infraestruturas podem, portanto, ser locais importantes de ordenamento social e
político: posicionam algumas pessoas como “normais” e marginalizam outras. O antropólogo
Anand (2011) descreve o entrelaçamento de conjuntos complexos de fatores tecnológicos e
políticos envolvidos no trabalho com a infraestrutura que molda o acesso à água para a
população de Mumbai. Faço uma citação longa aqui para preservar o impacto de uma descrição
que é complexa e elegante em seu retrato dos diferentes fatores em jogo:

Por meio de manipulações de pressão, a água é disponibilizada para diversos


grupos sociais. Essas práticas não só permitem que os moradores de uma
ocupação vivam na cidade, mas também realizam o que chamo de cidadania
hidráulica: uma forma de pertencer à cidade possibilitada por reivindicações
sociais e materiais feitas à infraestrutura hídrica da cidade. Produzido em um
campo que é social e físico, a cidadania hidráulica nasce de diversas
articulações entre a tecnologia da política (habilitada por leis, políticos e
patronos) e a política da tecnologia (habilitada por encanamentos,
encanamentos e bombas). Depende dos fluxos instáveis e mutáveis da água,
das relações sociais por meio das quais as reivindicações políticas cotidianas
são reconhecidas e dos materiais que permitem que os residentes urbanos se
conectem e recebam água potável do sistema urbano. Como os moradores e
outros residentes constantemente avaliam e respondem ao fluxo dinâmico da
água na cidade, essas conexões tanto elucidam quanto diferenciam as
maneiras pelas quais os moradores podem reivindicar e viver na cidade.
(ANAND 2011: p.545)

Anand capta aqui a complexidade de construir e prover infraestrutura, mostrando que a


forma que as infraestruturas assumem podem ter grandes consequências nas demarcações de
inclusão e exclusão daí resultantes, de modo que o acesso à água constitui uma forma de
cidadania. Desenvolver e incorporar uma infraestrutura pode ser um ato social e político tanto
quanto o desenvolvimento tecnológico.
É claro que o acesso à água pode ter consequências para a capacidade de morar em um
determinado local ou não. Quando voltamos o mesmo enquadramento para a Internet, no
entanto, não estamos mais falando sobre a provisão das condições para a própria vida. Estamos,
no entanto, considerando uma tecnologia que tem grandes consequências potenciais para

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moldar o acesso a outros recursos sociais e políticos. A Internet também se tornou


extremamente significativa como um fenômeno cultural, cada vez mais usada para fazer
amizades e relações familiares, para fornecer educação e entretenimento e para conduzir a
política, os negócios e o lazer. Nessa perspectiva, estudos de como as tecnologias-chave da
Internet são desenvolvidas tornam-se importantes como locais de crítica e intervenção, pois
torna-se consequente saber como as tecnologias surgem e são incorporadas nas circunstâncias
de uso, quais perspectivas e prioridades são favorecidas e quem se torna marginalizado. Nesse
sentido, Graham (2004) adverte contra um potencial para o quietismo decorrente da aceitação
inquestionável das tecnologias em rede, e aconselha uma vigilância para as formas particulares
de poder sociotécnico que se tornam invisíveis quando aceitamos tais tecnologias como uma
parte tida como certa de vida cotidiana.
Existem alguns relatos detalhados do desenvolvimento de tecnologias relacionadas à
Internet e da incorporação de prioridades e valores específicos. A história de Abbate (2000) do
desenvolvimento inicial da Internet traça o complexo entrelaçamento de preocupações
acadêmicas e militares e a inovação liderada pelo usuário que produziu a infraestrutura base da
Internet. Olhando para tecnologias mais específicas que dependem dessa infraestrutura, Taylor
(2003) explorou as premissas sobre identidade e corporificação incorporadas nas possibilidades
para o design de avatares fornecidas por designers de jogos de computador, e Bowker (2000)
discute o desenvolvimento de bancos de dados de biodiversidade como um processo que
progressivamente incorpora valores em uma infraestrutura emergente. Mackenzie (2005)
explora o desenvolvimento daquele componente muitas vezes dado como certo e invisível da
conexão à Internet, o Wi-Fi, e explora as diferentes ideias sobre conectividade, identidade,
segurança e mobilidade que são base para os protocolos e os vários projetos, para concretizá-los
na prática. Mackenzie (2005) opta em seu relato por colocar em primeiro plano o
desenvolvimento e operação de uma infraestrutura, que normalmente é colocada em segundo
plano, e por enfatizar as dimensões sociais e políticas das decisões que ela incorpora. Neste
trabalho, ele desenvolve uma posição, que posteriormente descreve em relação ao software de
forma mais geral, como um processo de escavação da dimensão social, cultural e política desta
forma de trabalho:

Apesar de parecerem “meramente” técnicos, as práticas de conhecimento


técnico se sobrepõem e se enredam com concepções de socialidade, identidade
individual, comunidade, coletividade, organização e empreendimento. As
práticas técnicas de programação se entrelaçam com as práticas culturais.
(MACKENZIE 2006: p.4)

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Estes estudos exemplificam uma vertente importante do trabalho etnográfico e histórico


que se especializa em tornar as infraestruturas visíveis, ao observar como se desenvolvem essas
infraestruturas e ao explorar em que medida esta forma de trabalho solidifica escolhas e valores
com impacto nos próximos usuários. Essa perspectiva busca tomar o cotidiano da Internet e
expor até que ponto ela molda as ações de forma invisível. Estratégias etnográficas para este tipo
de trabalho baseiam-se em formas convencionais de observação etnográfica, envolvendo uma
imersão no trabalho cotidiano de desenvolvimento de tecnologia, focado em conhecer a cultura
dos desenvolvedores e compreender as decisões que eles tomam, as restrições colocadas sobre
eles e a valores com os quais trabalham. Alguns desses locais de trabalho são locais
organizacionais geograficamente localizados. Frequentemente, no entanto, os próprios
pesquisadores que estudam o desenvolvimento de tecnologias digitais estão estudando locais
distribuídos que requerem mobilidade e agilidade do etnógrafo para adquirir uma compreensão
do trabalho realizado em locais físicos e virtuais em rede (STAR 1999; TAKHTEYEV 2012).
Mesmo em situações tão complexas e fragmentadas, o princípio etnográfico norteador de que
se deve saber em profundidade e em detalhes como as ações fazem sentido para os participantes
sustenta a investigação e fornece o insight fundamental de que tecnologias específicas sempre
poderiam ter sido feitas de outra forma, e que as escolhas incorporam valores sociais e
proporcionam consequências sociais.
Um conjunto padrão de sensibilidades dos estudos de ciência e tecnologia (usando a
exortação de Latour [1987] aos pesquisadores para abrir as caixas pretas das tecnologias) é,
portanto, de grande ajuda para trazer à tona o sentido em que a Internet cotidiana que
consideramos natural pode ser diferente. Para um etnógrafo trabalhando com usuários, em vez
de produtores da Internet, essas preocupações devem estar como pano de fundo quando se olha
para como um conjunto específico de pessoas, em circunstâncias particulares, aceita o que a
infraestrutura da Internet oferece e dela se apropriam. Frequentemente, porém, a etnografia
para a Internet não envolverá de fato o estudo das circunstâncias em que as tecnologias da
Internet são desenvolvidas e se concentrará apenas em situações de uso em que a tecnologia
alcançou uma identidade relativamente estável: as pessoas entendem que ela possui um
determinado conjunto de funções, que são apropriadas e ganham significado em suas próprias
circunstâncias específicas, mas, em grande medida, a caixa-preta da tecnologia já terá ocorrido
ou, para usar outro conjunto de ideias de estudos de ciência e tecnologia, a tecnologia alcançou
o fechamento (PINCH; BIJKER 1987).
À medida que a tecnologia se torna um componente comum da vida cotidiana, outra
questão importante que confronta os etnógrafos é até que ponto a Internet pode ter se tornado
algo sobre o qual as pessoas raramente falam explicitamente e acham difícil tratar como um
tópico de conversa. O etnógrafo pode descobrir que está investigando algo que muitas pessoas
ao seu redor tratam como mundano, comum e irrelevante. Até certo ponto, esse é o desafio

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padrão enfrentado por qualquer etnógrafo. À medida que tentamos explorar como um
determinado ambiente cultural funciona em seus próprios termos, nos encontramos tentando
desenvolver a "perspectiva do estranho", destacando o que para os participantes é totalmente
normal e destacando que poderia ter sido de outra forma. Como descreve Hirschauer (2006), o
etnógrafo é sempre confrontado com o “silêncio do social”, tentando colocar em palavras algo
que, em outras circunstânicas, não seria dito em suas descrições de como o social funciona. Nos
termos de Bloch (2008), o etnógrafo está procurando explicar "o que não é preciso dizer", uma
atividade que se baseia no conhecimento experiencial do ambiente tanto quanto nos relatos
retrospectivos verbalizados que os participantes podem nos dar sobre o que está acontecendo.
Ao lidar com esta Internet cotidiana, um aspecto comum de realizar alguma outra
atividade mais notável, a imersão do etnógrafo no ambiente, juntamente com a determinação
de perceber e questionar o que é dado como certo, é uma estratégia chave. Os relatos dos
informantes são obviamente importantes para tirar o etnógrafo de uma série de interpretações
auto-obcecadas do que está acontecendo a partir de sua própria perspectiva limitada. Os
etnógrafos precisam triangular suas próprias percepções com as de outros participantes. No
entanto, a imersão do etnógrafo no cenário (que no caso da etnografia para a Internet implica
quase inevitavelmente cenários, no plural, incluindo tanto engajamento online e offline) é a
chave para desenvolver uma compreensão da estranheza da Internet cotidiana como meio de
fazer as coisas. O etnógrafo questiona ativamente as implicações de várias formas de
engajamento e reflete sobre por que determinadas escolhas de meio fazem sentido e quais podem
ser suas consequências. Etnografia para a Internet envolve o desenvolvimento de uma
consciência aguda da textura social da experiência vivida à medida que ela se move entre as
mídias e através das situações. Uma sensibilidade precisa ser desenvolvida para identificar
mudanças na disposição emocional, nos sentimentos de presença e conectividade, movimentos
que são permitidos e fáceis, e aqueles que são difíceis ou tabus. Os etnógrafos da Internet se
movimentam e aprendem muito sobre a Internet cotidiana através de uma reflexão constante
sobre as propriedades de seu movimento. Esta é uma etnografia sensorial (Pink, 2009), em que
muito pode ser aprendido através de uma reflexão sobre o engajamento sensorial diferencial das
várias mídias em uso. O foco de Star (2002) em estudar a conexão entre experiências vividas e
tecnologias é um guia útil para o estudo da Internet cotidiana, conforme olhamos para
materialidades de interação com infraestruturas, exploramos o trabalho que está sendo feito e
procuramos ordenação social emergente.
À medida que a Internet se torna cotidiana, é claro que se torna mais difícil separar a
Internet como tal do fluxo geral da existência. Qualquer que seja o domínio que examinarmos,
as mudanças serão aparentes e serão objeto de comentários, mas não ficará claro até que ponto
tais mudanças são atribuíveis à Internet em si. Como Beer (2013) descreve, no domínio da
cultura popular, tornou-se quase sem sentido tentar separar as novas mídias e a cultura popular,

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tal é o grau de enredamento entre elas. De acordo com Beer, precisamos nos sintonizar com as
maneiras pelas quais a cultura popular e as noções de gosto não mais circulam simplesmente de
acordo com segmentações sociais e pertencimentos a grupos sociais específicos
convencionalmente entendidas. Cada vez mais, os dados circulam de acordo com algoritmos,
que moldam o que vemos, e as atividades anteriores são arquivadas e se tornam agentes ativos
na formação de nossa exposição contínua à cultura popular. Para Beer, o estudo da cultura
popular deve, forçosamente, atender ao papel dessas dinâmicas, pois “o estudo da cultura
contemporânea exige a compreensão dessas circulações, a dobra dos dados na cultura e as
infraestruturas materiais que as constituem como possíveis” (BEER 2013: p.4). Para o etnógrafo,
a Internet se torna uma paisagem que nós e as pessoas que estudamos habitamos, mas esta é uma
paisagem que é ativamente moldada e trazida à existência por nossas ações. A etnografia para a
Internet cotidiana envolve estudar a maneira pela qual as pessoas se movem, criam, atendem e
ignoram essa paisagem enquanto realizam suas atividades diárias.
Mesmo quando uma tecnologia se torna cotidiana, haverá circunstâncias em que ela será
transformada em tópico de interesse. Uma perda de conexão Wi-Fi, quebra do disco rígido ou
o celular cair no vaso sanitário são ocasiões para uma atenção considerável ao que a tecnologia
significa em nossas vidas. Uma universidade em que trabalhei teve uma falha catastrófica de
servidores de e-mail, o que desativou todas as contas por alguns dias. Nunca tínhamos
conversado tanto sobre a maneira pela qual usamos o e-mail como fizemos naqueles poucos dias,
ao refletirmos sobre as práticas que precisávamos mudar e as atividades que se tornaram difíceis
de fazer. Tirar uma tecnologia é uma boa maneira de estimular a conversa sobre o que ela
significa. Contudo, a reflexão sobre as tecnologias do dia-a-dia nem sempre precisa envolver
tais catástrofes. Mesmo quando uma tecnologia se tornou rotina, muitas vezes preservamos um
repertório que possibilita colocar a tecnologia em primeiro plano em uma narrativa, lançando-
a como um agente ativo em vez de um elemento não dito do pano de fundo (HINE 1995ª; 1995b).
Assim, mesmo quando consideramos a Internet um dado adquirido, muitas vezes ainda
preservamos uma forma de falar que lhe dá agência, que se reflete nela como um grande
fenômeno que potencialmente muda vidas e impacta a sociedade. Em grande parte de nossa vida
cotidiana, desagregamos a Internet, enviando e-mails às pessoas, atualizando o status do
Facebook, comunicando com nossos amigos e pesquisando fatos no Google. Em outras
narrativas, unificamos a Internet, atribuindo-lhe uma identidade única que traz benefícios e
riscos. Os retratos da mídia também contêm ambos os aspectos da Internet, tornando-a ao
mesmo tempo uma maneira cotidiana de manter contato (tuite suas respostas ao programa,
procure-nos no Facebook) e um grande fenômeno que oferece oportunidades comerciais, põe
em perigo nossos filhos e transforma as sociedades, conforme retratado nas manchetes dos
jornais (analisadas pela autora no capítulo introdutório do livro).

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Um etnógrafo pode prestar atenção simétrica a ambos os aspectos da Internet cotidiana,


buscando explorar as consequências do silêncio da Internet como um componente da vida
cotidiana e entender como e quando a identificamos como um grande fenômeno com
significantes consequências em grande escala. Um corolário de adotar a “perspectiva do
estranho” acalentada na etnografia é procurar explorar como as posições fazem sentido sem dar
por certo que o fazem. Tanto a notável como a despercebida Internet cotidiana são, portanto,
de interesse etnográfico e passíveis de exploração etnográfica. A etnografia para a Internet
cotidiana precisa perguntar como a Internet é caracterizada e em que circunstâncias. Que
conexões são estabelecidas entre a Internet e outros fenômenos, e que comparações são feitas?
Em quais molduras os participantes se baseiam para compreender o que a Internet significa e
em quais categorias e distinções eles se baseiam ao descrever as tecnologias envolvidas e as
pessoas afetadas? Inspirado no trabalho de Tsing (2005) sobre o atrito entre o universal e
específico, que tensões surgem entre o retrato público de uma “Internet” universal e as
experiências muito personalizadas que podemos ter dela?
As estratégias etnográficas para a Internet cotidiana, portanto, se concentram em ser
sensíveis à variável de transformação da Internet em tópico de interesse, prestando muita
atenção às circunstâncias específicas em que são produzidos relatos de sua importância. Uma
consciência do potencial estruturante das infraestruturas tecnológicas pode ser construída por
meio da observação cuidadosa dos participantes, através de interações com os participantes para
gerar seus relatos sobre as escolhas, limitações e silêncios que se seguiram ao seu uso e refletindo
sobre a própria imersão do etnógrafo no cenário a fim de construir uma sensibilidade para as
texturas sociais resultantes. Na medida em que as culturas da Internet costumam ser um tanto
familiares para os etnógrafos que as estudam, as estratégias etnográficas usadas costumam ser
tendenciosas no sentido de tornar o familiar estranho, em vez da estratégia etnográfica oposta
de fazer culturas estranhas e exóticas parecerem familiares, demonstrando sua lógica interna e
conexões com estruturas conceituais reconhecíveis (YBEMA; KAMSTEEG 2009). A busca pela
perspectiva de estranhamento sobre a Internet envolve lembrar que seu uso é moldado e
modelador das circunstâncias locais, e que nos parece rotineiro e natural na Internet não
necessariamente pareceria como tal em outro local.

Conclusão
Neste capítulo, tenho defendido uma abordagem multimodal da etnografia para a
Internet, que não trata da fronteira online/offline como um limite de princípio para locais de
campo etnográfico, mas aceita que os temas e questões que estudamos forçosamente muitas
vezes cruzam essa fronteira (ou são agnósticos sobre a existência de tal fronteira como um
princípio organizador para a experiência social). O enquadramento baseado nas três
características de sensibilidade em relação a uma Internet incorporada, corporificada e cotidiana

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é um incentivo para olharmos para dentro e para fora em busca de holismo etnográfico. Somos
encorajados a olhar para fora da própria Internet, em direção a uma miríade de potenciais
conexões e estruturas de construção de significado. Somos encorajados a olhar para dentro em
busca da experiência corporificada de usar a Internet como um componente da vida cotidiana
que não necessariamente se pergunta se algo acontece ou não online como uma questão primária
de preocupação. Um etnógrafo pode adotar uma postura simetricamente cética em relação às
alegações de que a Internet tanto ocasiona uma inovação radical e mudança social, quanto que
ela dá continuidade aos valores do passado ou se torna totalmente normal. Inspirados pela
sociologia da infraestrutura, os etnógrafos podem desejar observar com especial atenção as
situações em que decisões técnicas estão sendo tomadas, pois essas decisões podem ter grandes
consequências para o ordenamento social e também podem trazer à visibilidade conjuntos de
valores de outra forma não articulados.
Nesse estágio, esses conselhos a um etnógrafo em potencial são generalizações um tanto
brandas, como sugestões para ser sensível a isso e olhar de perto para o que não se conta a um
etnógrafo, diante de uma situação real e de um conjunto de problemas prenunciados, em
qualquer forma útil, o que ele realmente deve fazer. Essa situação é, naturalmente, em certa
medida compatível com a postura de que as abordagens da etnografia são sempre adaptativas, e
o conselho geral é formulado na expectativa de que não existe um modelo correto de etnografia
para a Internet. Por serem adaptáveis às circunstâncias, a escolha e a estratégia são
particularmente significativas para o etnógrafo. As ações que tomamos precisam ser
consideradas com cautela, uma vez que têm grandes consequências para a constituição do objeto
que estudamos. A etnografia é mais intencional do que passiva: no entanto, não é “adaptativa”
no sentido de que apenas fazemos o que o campo nos diz para fazer, mas sim, que adaptamos
ativamente nossas estratégias a fim de explorar algo em particular. Não há, portanto, um modelo
único de etnografia para a Internet: entretanto, na expectativa de que alguns conselhos mais
concretos sobre como se envolver com a Internet de várias maneiras sejam úteis, no próximo
capítulo vou explorar estratégias para formular o campo e engajar com ele que são
particularmente relevantes para uma internet incorporada, corporificada e cotidiana.

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sobre a autora Christine Hine


É socióloga, professor da University of Surrey.

sobre as tradutoras Carolina Parreiras


Doutora em Ciências Sociais e mestra em Antropologia
pela Universidade de Campinas.

Beatriz Accioly Lins


Doutora e mestra em Antropologia Social pela
Universidade de São Paulo.

Recebido em 17/12/2020
Aceito para publicação em 27/12/2020

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