Internet - Christine Hine
Internet - Christine Hine
corporificada e cotidiana2
CHRISTINE HINE
University of Surrey, Guildford, Reino Unido
[Link]@[Link]
DOI 10.11606/issn.2316-9133.v29i2pe181370
resumo O artigo apresenta um panorama dos desafios enfrentados por etnógrafos que
buscam entender atividades envolvendo a internet explorando tanto princípios metodológicos
quanto estratégias práticas chegar a um acordo com a definição de sites de campo, as conexões
entre online e offline e a natureza mutável da experiência corporificada. Os exemplos são
extraídos de uma ampla gama de configurações, incluindo etnografias de instituições científicas,
televisão, mídia social e redes locais de presentes.
palavras-chave Internet. Etnografia Digital. Metodologias
1
Nota das tradutoras [NT]: Optamos por manter o título o mais fiel possível ao original, ainda que o jogo com as
iniciais das palavras se perca na tradução para o português. Os três “Es” a que se refere a autora são embedded,
embodied e everyday, traduzidos por nós como incorporada, corporificada e cotidiana. Ao longo do texto, quando a
autora utiliza “ E3”, utilizamos “as três características da internet”.
2
NT.: Agradecemos à professora Christine Hine e à editora Bloomsbury por gentilmente nos cederem os direitos
de tradução deste texto, que é um dos capítulos da obra Ethnography for the Internet: embodied, embedded and everyday,
publicada em 2015. Agradecemos também à Juliana Valente pelo apoio na revisão.
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Um aspecto crucial desta citação é a noção de que os recursos e as limitações dos métodos
são reveladas na prática e, portanto, não é possível, por exemplo, saber de antemão quais
entrevistas serão necessárias, quais perguntas devem ser feitas, que forma de presença é
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apropriada ou se uma linha particular de investigação será “suficiente” para entender o que está
acontecendo. Decisões sobre o método são tentativas e sua efetividade é avaliada em retrospecto.
Assim, a etnografia é sempre adaptável em sua escolha de métodos e podemos esperar
que isso aconteça novamente frente às condições apresentadas pela Internet. De fato, muito da
discussão sobre etnografia em cenários online, nas ciências sociais, em anos recentes, tem
sugerido que os etnógrafos nestas novas circunstâncias devem ser particularmente ágeis em seus
métodos e adaptáveis em suas estratégias. Os proponentes de etnografias conduzidas em
cenários puramente online argumentaram fortemente sobre a relevância da etnografia como
um método de entendimento em cenários online, mas também enfatizaram que esse tipo de
cenário demanda mudanças na maneira como os estudos são conduzidos e nas formas que os
dados assumem. Williams (2007), por exemplo, sugere que a natureza de rápidas mudanças dos
cenários online e as formas diversas que os dados assumem são particularmente desafiadores,
enquanto Robinson e Schulz (2009) argumentam que a prática etnográfica tem forçosamente
que se desenvolver e se adaptar em face da natureza de constantes mudanças da comunicação
mediada por computadores e das populações que a utilizam. Boellstorff et al (2012) apresentam
suas experiências etnográficas em vários ambientes online em um guia, conscientes de que não
podem prescrever estratégias para todos os cenários online, mas propondo, ao invés disso, que
eles podem esboçar estratégias que funcionaram para eles, que se baseiam, mas são distintas,
daquelas utilizadas em cenários offline.
Ainda que os métodos usados pelos etnógrafos tenham se adaptado, com o tempo, a
diferentes circunstâncias online, a relação entre a metodologia etnográfica e a Internet e as
aspirações dos etnógrafos também se desenvolveram. Robinson e Schulz (2009) separam o
desenvolvimento do fazer etnográfico sobre a comunicação mediada (e particularmente a
Internet) em três fases. De acordo com sua cronologia, uma primeira fase de ciberetnografias
pioneiras focou em sites online que pareciam particularmente interessantes para perceber o jogo
de identidades e para a separação das identidades offline que os participantes praticavam. Os
ciberetnógrafos pioneiros estudaram campos na Internet porque eles pareciam oferecer
condições diferentes daquelas do mundo offline. Ulteriormente, “etnógrafos legitimados”
exploraram a transferência da prática etnográfica offline e de conceitos como campo e
observação participante para o domínio online (e, nesta categoria, os autores incluem minha
própria discussão anterior sobre abordagens etnográficas para a internet [HINE 2000]). Essa
onda de ciberetnografias era menos comprometida com uma diferença de princípio entre online
e offline. A partir desta reivindicação da Internet como território legítimo para o insight
etnográfico, Robinson e Schulz (2009) descrevem como as subsequentes abordagens
etnográficas da Internet se tornaram cada vez mais multimodais, explorando o uso, pelos
participantes, de combinações de interações face a face e mediadas.
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Como em todas as cronologias, a que foi desenvolvida por Robinson e Schulz (2009)
simplifica a história e encobre várias diferenças significativas. Não obstante, fornece um
enquadramento útil para avaliar o que entendo como as aspirações deste livro. Continuo
comprometida com um projeto de “legitimação da ciberetnografia”, que, para mim, envolve um
compromisso contínuo com o exame de princípios metodológicos aplicados à Internet e uma
consideração cuidadosa dos fundamentos para a formulação de conhecimento gerado sobre a
Internet, a partir de várias abordagens etnográficas, como robusto, autêntico e útil. Para mim,
essa é uma pergunta em curso, não resolvida de uma vez por todas nos primórdios da internet,
mas que está viva na medida em que continuamos a adaptar nossos métodos em face de novas
circunstâncias. Entretanto, este livro é também situado dentro da terceira fase, multimodal, da
ciberetnografia identificada por Robinson e Schulz (2009), porque meu foco não é em um campo
localizado puramente online. Porque eu foco em uma etnografia que é para, e não na, a Internet,
e porque eu foco naquilo que, vou argumentar no restante deste texto, é uma Internet
incorporada, corporificada e cotidiana, eu vejo a copresença com o campo como uma questão
que pode envolver tanto a interação mediada quanto o engajamento face a face ou ambos. E eu
proponho várias estratégias diferentes para o engajamento com o campo. Tenho como foco,
neste livro, descrever estratégias que podem ser úteis, ao invés de tomar uma abordagem
prescritiva para definir o que os etnógrafos deveriam fazer. As qualidades úteis dessas várias
perspectivas só serão reveladas na prática, como nos lembram Schatzman e Strauss (1973).
Um dos aspectos do meu foco, que difere de uma abordagem da etnografia meramente
online, é que eu desejo manter alguma dúvida sobre o melhor lugar para ir para estudar a
Internet e sobre as coisas mais úteis para estudar quando alguém chega lá. Pode parecer óbvio,
graças ao sucesso de etnografias online seminais, como o estudo de Baym (1995, 2000) sobre os
newsgroups [Link], que os etnógrafos podem estar online e encontrar campos de
estudo ali. De forma similar, Kozinets (2009) argumenta de forma persuasiva defendendo o
estudo de “culturas e comunidades online”, como se essas fossem coerentemente delimitadas e
preexistissem aos interesses do etnógrafo. Boellstorff et al. (2012) desenvolvem uma orientação
sobre estratégias etnográficas com base em vários diferentes cenários, as quais são unidas pelo
fato de que estão amplamente contidas em um domínio online. É perfeitamente possível e
amplamente aceito que os etnógrafos podem encontrar campos de estudo online. Esses estudos
são, entretanto, um subconjunto muito pequeno do conjunto total dos estudos etnográficos que
desejamos conduzir, os quais vão, de algum modo, incorporar ou considerar a Internet, mas não
vão se subsumir completamente nela. Como Boellstorff (2010) argumenta, um único mundo
virtual pode ser estudado etnograficamente em si mesmo, mas também é possível que os estudos
etnográficos foquem nas maneiras pelas quais diferentes mundos virtuais interagem, ou nas
interações entre o mundo virtual e mundo real. É para este último grupo de estudos etnográficos
que direciono minha atenção, ainda que, como Miller e Slater (2000), eu rejeite a noção de que
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há uma distinção pré-existente entre mundo virtual e mundo real. Ao invés disso, pretendo
permanecer agnóstica de antemão sobre até que ponto qualquer pessoa que use a Internet para
realizar suas atividades pode entender esta como uma forma de participação em um “mundo
virtual”. No que se segue, vou explorar em mais detalhes como se pode constituir um campo que
envolve a Internet sem pressupor que a Internet atua como um domínio virtual discreto. A
abordagem que exploro se constrói a partir da ideia de que a etnografia pode ter como objetivo
seguir conexões, ao invés de focar em um lugar específico. Eu sugeriria que uma abordagem
como essa está de acordo com o compromisso etnográfico duradouro que tem como objetivo o
entendimento holístico, embora seja um holismo compreendido em termos de sua abertura às
conexões.
A etnografia convencionalmente aspira desenvolver descrições holísticas dos cenários
que estuda, mas os significados desta aspiração ao holismo mudaram com o tempo. A ideia de
que a etnografia poderia fornecer uma explicação compreensiva de uma entidade cultural
delimitada e discreta tem sido submetida a uma crítica abrangente. Marcus (1989), em um paper
intitulado “Imagining the Whole”, pontua que a noção de que uma etnografia oferece uma
descrição abrangente de uma cultura local específica tende a apresentar a cultura local como um
todo conhecível, que incorpora algumas características de um sistema político e econômico
mundial mais amplo e assim por diante, sendo que o sistema mais amplo está fora do escopo do
etnógrafo e não é conhecível a partir de abordagens etnográficas. Este modelo, ele argumenta,
tende a reificar aspectos do sistema mais amplo que, ao invés disso, estão indiscutivelmente
sempre presentes, à medida em que são materializados em circunstâncias locais específicas e,
portanto, incorporam uma distinção micro/macro que não resiste a um escrutínio detido.
Marcus (1989) defende que há necessidade de se reimaginar o projeto de uma etnografia
holística, uma que acaba com a distinção entre o micronível das culturas locais e o macronível
dos sistemas mundiais e, com isso, com a ideia de que os etnógrafos deveriam construir
descrições compreensivas das culturas locais. Ao invés disso, ele propõe uma noção de etnografia
que aceita que nenhuma descrição de uma cultura pode ser totalmente compreensiva, mas
prossegue com base no entendimento de que sistemas mais amplos estão significativamente
presentes em uma escala local e podem ser efetivamente estudados como tal por meio de
abordagens etnográficas. A nova forma de holismo imaginada por Marcus (1989) foca na
habilidade do etnógrafo de visualizar e seguir conexões e de ver as atividades no micronível
como manifestações de fenômenos macro. Esta é uma versão do holismo etnográfico que é
caracterizada por um foco na contextualização e na incorporação, ao invés de uma reivindicação
de abrangência (FALZON 2009a).
Tomando esta abordagem aberta do holismo etnográfico, ao invés de selecionar de
antemão aqueles aspectos dos casos que iremos registrar, da maneira como uma agenda de
entrevista pré-determinada ou um questionário poderiam fazer, o etnógrafo permanece aberto
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aos diversos aspectos do cenário que estão sendo interconectados. Para um etnógrafo, um estudo
sobre a comida de uma população particular não começaria e terminaria olhando para o que as
pessoas comiam. Em vez disso, uma etnografia focada na comida permaneceria aberta para ser
surpreendida com os significados que a comida tem para as pessoas em questão e estaria
interessada em qualquer aspecto de sua organização da vida cotidiana, suas rotinas e rituais, suas
relações e suas identidades que influenciaram ou foram influenciadas pelas práticas em torno da
comida e dos significados nelas investidos. Não iríamos simplesmente assumir que influências
externas como “política de governo” ou “estruturas de gênero” moldaram práticas em relação à
comida, mas estaríamos alerta para situações nas quais tais estruturas foram criadas pelos
participantes como motivações ou explicações. As conexões que o etnógrafo seguiria são
derivadas apenas pela permanência no campo ao longo de um período prolongado de tempo, e
ao descobrir o que havia acontecido ali, um etnógrafo se propõe a estudar algo com a expectativa
de que outros aspectos imprevistos do cenário irão se tornar relevantes e, assim, os instrumentos
de pesquisa adequados não podem ser projetados de antemão. A etnografia é, desse modo, um
método muito adaptável, na medida em que parte da premissa de que não será imediatamente
aparente quais são as dimensões relevantes da contextualização e, então, a pergunta de pesquisa
completa não pode ser antecipada previamente, assim como o campo apropriado no qual estudar
esta questão não pode ser totalmente definido a princípio.
A natureza adaptável da etnografia significa que ela é “boot-strapped”3, construída peça
por peça, à medida que o etnógrafo desenvolve seu entendimento através de etapas incrementais
e descobre aquilo sobre o qual quer saber. Assim, é difícil generalizar um conjunto de
ferramentas etnográficas de antemão e frustrantemente desafiador especificar, antes de começar
o estudo, o que exatamente o etnógrafo deveria fazer. No entanto, em geral, o conjunto de
ferramentas do etnógrafo contém vários dos componentes padrão dos métodos de pesquisa em
ciências sociais. Os etnógrafos realizam entrevistas, conduzem surveys, quantificam
comportamentos e desenham mapas. As diferenças de outras abordagens estão relacionadas à
falta de especificação antecipada do método, tanto quanto com os métodos realmente usados.
Ao recusar decidir de antemão o que será mais interessante de explorar no cenário, o etnógrafo
permanece aberto a novas descobertas sobre as maneiras únicas a partir das quais um modo de
vida particular pode se organizar e à perspectiva de que as atividades podem fazer sentido de
maneiras surpreendentes.
Se os métodos de investigação não podem ser previstos de antemão em um estudo
etnográfico, também não é possível identificar prontamente o lugar apropriado para realizar o
estudo. Em termos convencionais, poder-se-ia imaginar que um etnógrafo proveja um relato
abrangente da cultura em uma localidade delimitada identificável, como uma aldeia, mas isto foi
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NT: A expressão utilizada pela autora indica algo que é feito por partes, feito pouco a pouco e de forma
incremental.
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detecta o que é fácil e difícil, o que é sancionado e o que é tabu. A Internet pode ser muito grande
para a conhecermos, mas o etnógrafo pode desenvolver uma sensação de como é viver com essa
vastidão, descobrindo como se produz o sentido do inefável. Nós vamos esculpir locais de campo
arbitrários - vamos escolher focar em um objeto ao invés de outro, perseguir uma linha possível
de contextualização ao invés de outra e ficar em determinados lugares ou sair deles - a partir de
caprichos teoricamente informados. Não há uma etnografia holística da Internet, no sentido de
oferecer uma descrição abrangente do que ela significa. Entretanto, há uma ambição de entender
a Internet como um fenômeno contextual e criador de contexto. Queremos entender o que as
pessoas pensam que estão fazendo quando usam a Internet. Mas como fazemos isso?
Geertz (1993) explica que o etnógrafo está frequentemente tentando fazer a ponte entre
as formas de descrição da “experiência-próxima”, que as pessoas usam para falar sobre seu
mundo, e os conceitos de “experiência-distante” que habitam os textos acadêmicos, abstraindo
da especificidade das situações e permitindo que sejam feitas comparações entre eles. Realizar
esse trabalho de ligação requer uma conexão muito próxima com o mundo da vida que é
estudado, mas não necessariamente significa que esse alguém tenha que se tornar um membro
completamente imerso desse mundo da vida:
Geertz continua a explicar que, para ele, descobrir o que as pessoas pensam que estão
fazendo envolve um exame minucioso dos meios que elas têm disponíveis para expressar e
entender a si mesmos e seu mundo. Ele ilustra com alguns exemplos provocativos, incluindo
uma discussão dos sistemas de nomeação de crianças em Bali e a maneira bastante peculiar pela
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NT.: Utilizamos a tradução para o português do livro O Saber Local. GEERTZ, C. O saber local: novos ensaios em
antropologia interpretativa. Petrópolis: Vozes, 1997.
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qual esse sistema de nomeação por ordem de nascimento posiciona os indivíduos em um estágio
social.
Aqui, Geertz se concentra em um projeto antropológico muito específico no qual está
envolvido, focado nas noções de individualidade circulantes entre diferentes grupos de pessoas.
Entretanto, seu aviso de que não podemos entrar dentro da pele das pessoas que estudamos e
que devemos pensar mais pragmaticamente sobre o que esperamos obter de nossa proximidade
com elas, é útil mesmo se não compartilhamos o foco antropológico na individualidade. Por
exemplo, eu acho esse insight sobre as preocupações e limitações da etnografia útil, mesmo que
meus próprios interesses teóricos tendam para questões da sociologia e dos estudos de ciência e
tecnologia mais do que da antropologia. Os insights metodológicos de Geertz se tornam
particularmente provocativos quando consideramos os encontros etnográficos mediados pela
Internet, nos quais a proximidade que desenvolvemos pode ser uma questão de compartilhar
um status do Facebook ou participar de uma troca de e-mail, ao invés de uma copresença física
prolongada. Na etnografia para a Internet, os termos “experiência-próxima” e “experiência-
distante” poderiam ser descritos como formas de engajamento de “tecnologia específica” ou
“tecnologia neutra”. A tarefa do etnógrafo, como participante de um grupo do Facebook, é fazer
a ponte entre a tecnologia específica da atualização de status e o ato social com tecnologia neutra
que a atualização de status produz. Tal como nos exemplos de Geertz, uma atenção detida
precisa ser dada aos meios de expressão que a atualização de status no Facebook torna
disponíveis. Do mesmo modo como o sistema de nomeação de crianças em Bali, o status do
Facebook pode ser visto como algo que torna disponível uma maneira particular de
entendimento de si e a sua relação com o mundo.
Para Geertz, a etnografia certamente não é simplesmente coletar sistemas de
representação, ou formas simbólicas, e realizar a leitura da cultura a partir de uma coleção
abstraída de signos. É preciso trabalho concertado e engajamento prolongado para ver esses
signos em ação e descobrir como seus significados são negociados durante o uso. Tal qual, a
etnografia no Facebook não é simplesmente uma questão de ler a cultura que é criada pelas
formas distintas de comunicação que ele torna disponível. Para começar, o Facebook é usado de
maneiras muito diversas. É necessário um exame minucioso e algum engajamento prolongado
e imersivo para entender as nuances de como qualquer grupo particular de pessoas que se
encontraram no Facebook fazem uso de suas características. Por outro lado, nem tudo que
queremos saber, como etnógrafos, sobre o Facebook é aparente de forma pública no próprio
Facebook. Para descobrir como um grupo particular de pessoas se entende a partir do Facebook
pode ser necessário olhar para como aquelas atividades no Facebook são produzidas e
consumidas, como elas viajam para além da localidade online e são incorporadas em outras
formas de atividade.
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simultaneamente como um local cultural, onde as pessoas fazem coisas, e como um artefato
cultural, que se torna significativo dentro de outros contextos; e que as estratégias etnográficas
podem englobar ambos os aspectos e explorar como eles estão mutuamente enredados.
Dei sequência ao argumento a partir do famoso caso de mídia explorado em Virtual
Ethnography (HINE 2000), e depois parti para examinar um grupo mais especializado, para
estudar como cientistas, em particular, estavam usando a Internet. Em meados dos anos 90, eu
estava envolvida em um estudo etnográfico sobre a implantação de tecnologia da informação
em pesquisa sobre o genoma humano e realizei um trabalho de campo mais convencional,
baseado localmente, em um laboratório de genética e entre desenvolvedores de software e
equipe de suporte, usando como inspiração o modelo de etnografia de laboratório, que foi
pioneira na sociologia do conhecimento científico (LYNCH 1985; LATOUR; WOOLGAR
1986). A etnografia é usada na sociologia do conhecimento científico para examinar
detidamente o que os cientistas fazem em seu trabalho cotidiano no laboratório, com o objetivo
de entender o processo de construção dos fatos científicos (LATOUR; WOOLGAR 1986). À
medida em que participei e observei no laboratório de genética e nos escritórios de
desenvolvimento de software, notei que a Internet estava emergindo como uma localidade
significativa, para a qual os participantes dos cenários offline que eu estudei estavam orientando
seu trabalho. Assim, tornou-se cada vez mais difícil ignorar os fóruns online ou separá-los como
um local de campo contido em si mesmo. Na tentativa de realizar uma etnografia da prática
científica, eu gradualmente comecei a me sentir obrigada a englobar os espaços online e a
explorar como eles influenciaram e estavam entrelaçados com os espaços offline do laboratório
e dos escritórios de desenvolvimento de software. Como parte deste trabalho, examinei um
grupo de discussão online específico onde se discutiam técnicas laboratoriais (HINE 2002),
olhando para as maneiras pelas quais as fronteiras sociais e físicas do laboratório, na vida real,
eram reencenadas no espaço online a partir de práticas discursivas.
Subsequentemente, meu interesse no papel da Internet na pesquisa científica foi
expandido por meio de uma exploração do desenvolvimento de bancos de dados, disponíveis
publicamente, de informações sobre biodiversidade. (HINE 2007; 2008). Este estudo tomou a
disciplina científica da sistemática biológica como seu foco de investigação, envolvendo o
engajamento com museus de história natural e jardins botânicos e suas contrapartidas online,
através de projetos de desenvolvimento de software e fóruns online. Material de arquivo foi
usado para explorar a gênese e a transformação das esperanças de rejuvenescimento da disciplina
por meio da adoção da tecnologia da informação, e para investigar as circulações e translações
entre política e prática em vários domínios. O estudo era etnográfico em espírito, mas expandiu
seu escopo para abarcar o histórico e o autobiográfico, em uma mistura eclética de estratégias
metodológicas, com intenção de descobrir por que, e para quem, determinadas soluções
tecnológicas faziam sentido em momentos particulares. Mais uma vez, a Internet é apresentada
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como um lugar cultural, já que era um lugar significativo onde os cientistas se encontravam e
discutiam, e onde novos espaços de produção de conhecimento emergiram. Ela era também um
objeto cultural significativo, pois carregava algumas conotações poderosas para os usuários e
comentadores. Usar a Internet era visto como uma maneira importante de estar atualizado e de
alcançar usuários potenciais do conhecimento científico.
Meu interesse no papel que a Internet desempenha nas preocupações muito específicas
da pesquisa científica tem sido acompanhado por um interesse duradouro no papel da Internet
em cenários mais mundanos e cotidianos. Estive interessada no entrelaçamento da mídia de
massa com a Internet, explorando a extensão em que a Internet simultaneamente provê uma
possibilidade para que emerjam novos tipos de audiência e, ao mesmo tempo, torna viável para
pesquisadores de audiência desenvolverem um novo sentido de engajamento cotidiano com a
mídia (HINE 2011b). Finalmente, tenho explorado mais recentemente o uso de redes de trocas
gratuitas de produtos online localmente baseadas, como Freecycle e Freegle, descobrindo como
essas conexões mediadas pelo computador interagem com o entendimento das pessoas em
relação à sua localidade e daqueles que habitam a localidade ao lado delas. Em cada um desses
casos, estou interessada em entender a Internet como uma esfera flutuante de interação social
separada da vida cotidiana, mas como uma parte incorporada da vida cotidiana das pessoas que
a utilizam. Tomando como inspiração uma posição etnográfica holista, tenho tentado descobrir
o que a Internet significa exclusivamente em cada um desses cenários, sem esperar que ela tenha
algum conjunto transcendental de efeitos que ela exerce em cada um dos domínios em que é
utilizada.
Tenho interesses de pesquisa ecléticos, o que tem a vantagem, para os propósitos atuais,
de que tenho desenvolvido estratégias etnográficas para diversos cenários de pesquisa. Eles estão
unidos, entretanto, por um compromisso com a etnografia como uma forma experiencial de
conhecimento e uma crença de que o engajamento com o campo deveria ser conduzido por uma
busca das maneiras pelas quais um cenário tem sentido único, ao invés da aplicação de um
modelo particular do que o escopo do campo deveria ser. Cada solução metodológica é única.
No entanto, existem estratégias que continuam úteis em vários lugares diferentes e, como
sempre, um etnógrafo em um cenário pode sempre e de modo útil se inspirar a partir de
abordagens que funcionaram em outros lugares. As situações nas quais tenho me engajado são
muito diversas, mas olhando para esses estudos e refletindo sobre os desafios enfrentados e as
adaptações realizadas, aparecem algumas questões comuns. Três aspectos particulares da
experiência contemporânea da Internet me impressionam repetidamente por serem
especialmente desafiadores para o desenvolvimento de estratégias etnográficas. Para o
desenvolvimento de uma estratégia etnográfica para a Internet, parece particularmente
significativo que ela é incorporada em várias molduras contextuais, instituições e dispositivos,
que a experiência de usá-la é corporificada e, consequentemente, altamente pessoal, e que ela é
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cotidiana, frequentemente tratada como uma infraestrutura normal e mundana, ao invés de ser
algo sobre o qual as pessoas falam a menos que algo significativo dê errado. Essas três
características (a internet 3 Es) forneceram um pano de fundo para pensar sobre por que é difícil
aplicar os princípios etnográficos para a Internet contemporânea e o que podemos fazer para
obter sucesso.
Não pretendo dizer que essas três características capturam de forma única e
compreensível a Internet contemporânea ou são, de algum modo, completamente novas; ou que
distinguem a Internet de agora daquela de períodos anteriores. Ao invés disso, elas são um
dispositivo para articular alguns desafios genéricos que a Internet contemporânea oferece aos
etnógrafos, como um caminho para a formulação de estratégias transportáveis. A etnografia é
uma metodologia adaptativa, sempre criada do zero a partir das circunstâncias em que se
encontra, mas os etnógrafos podem aprender uns com os outros e podem desenhar um
repertório de abordagens. O enquadramento a partir das três características oferece um meio de
pensar sistematicamente sobre porque algumas estratégias são mais prováveis de funcionar para
iluminar pontos específicos sobre a Internet do nosso interesse. Nas seções seguintes, vou
articular o que entendo por cada uma das características, discutindo algumas das orientações e
estratégias etnográficas que surgem.
A internet incorporada
Nos círculos técnicos, o termo “Internet incorporada” se refere à tendência crescente de
se incorporar em objetos cotidianos a capacidade de se conectar à Internet (INTEL 2009). Essa
“Internet das coisas” (GERSHENFELD et al. 2004) permite que os objetos sintam e respondam
aos seus ambientes e enviem mensagens para dispositivos de monitoramento. Foi prometido
que um mundo contendo tal Internet incorporada será mais inteligente, permitindo que os
objetos ao nosso redor tomem ações apropriadas por nós, se adaptando às necessidades que nós
ainda sequer sabemos que temos. A Internet incorporada, de acordo com esse projeto, promete
o poder computacional e a capacidade preditiva perfeitamente integrados ao mundo que nos
cerca. Ao me referir a uma Internet incorporada, não estou especificamente referenciando este
cenário, ainda que a incorporação da capacidade de acesso à Internet em dispositivos cotidianos
é sem dúvida um tópico de preocupação etnográfica. A maneira como tais dispositivos
inteligentes vão se tornar atores em nossas paisagens doméstica e de trabalho, e a extensão com
que vamos levá-los em conta, reconhecer sua agência e transformar nossas outras relações
humano - humano e humano - máquina para acomodá-los, estão clamando por atenção
etnográfica. A exploração dessa forma de Internet incorporada é uma forma bastante específica
de desafio etnográfico que pode estar no horizonte de possibilidades. Entretanto, não é essa
forma relativamente esotérica de Internet incorporada que intento referenciar aqui: é o sentido
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mais geral a partir do qual a Internet se torna entrelaçada, no uso, com múltiplas formas de
contexto e molduras de criação de significado.
Hoje em dia, pode parecer óbvio que a Internet é incorporada à vida cotidiana, mas nem
sempre foi assim. Nos primeiros anos da Internet mainstream, era comum falar sobre a Internet
como algo que oferece acesso a um novo tipo de espaço: o ciberespaço (como popularizado por
William Gibson no livro de ficção científica Neuromancer [1984]). A Internet foi concebida
como uma nova fronteira que poderia ser colonizada por quaisquer novas estruturas e
identidades que as pessoas desejassem criar. O ciberespaço foi interpretado como um domínio
separado da vida cotidiana, concebido como oferecendo novas possibilidades para
desenvolvimentos pioneiros, separado dos modos predominantes de governança e
potencialmente livre de estruturas e desigualdades duradouras experienciadas nos cenários da
“vida real”, como capturado na famosa Declaração de Independência do Ciberespaço (1996), de
John Perry Barlow. Esse modelo transcendental de ciberespaço foi uma metáfora dominante
para entender as possibilidades da Internet emergente (ARORA 2012) e se provou grandemente
produtivo para criar um sentido de maravilhamento e expectativa em torno das possibilidades
socialmente transformativas da Internet. Esse modelo de Internet enfatizou o papel da
tecnologia em abrir possibilidades para que a interação social fosse reorganizada no tempo e no
espaço e para que as identidades fossem fluidas e múltiplas. A Internet foi também encarada
como uma manifestação de ideias pós-modernas sobre o colapso de estruturas persistentes de
poder, conhecimento e identidade (por exemplo, ver POSTER 1995; TURKLE 1995; STONE
1996).
A noção de que a Internet era uma esfera de inovação social, dentro da qual quaisquer
estruturas prévias poderiam potencialmente ser refeitas, provou-se muito estimulante nos
círculos acadêmicos. Por um lado, enquadrar a Internet como parte do domínio esotérico
separado das preocupações da vida cotidiana poderia ser visto como uma forma de posicioná-la
como frívola e sem as preocupações significativas, que seria considerada adequada pelos
pesquisadores acadêmicos. Aqueles que focaram na Internet se viram como alvo de uma certa
dose de escárnio de seus colegas mais “sérios”. Por outro lado, entretanto, o ar de novidade em
torno da Internet e a concepção do ciberespaço como um domínio novo e separado sugeriram
uma nova fronteira para o entendimento acadêmico e motivaram uma atenção mais detida para
o que essa cultura online emergente poderia ser, atraindo pesquisadores de uma vasta gama de
disciplinas (BAYM 2005; HINE 2005). A Internet parecia oferecer um laboratório no qual os
cientistas sociais poderiam assistir à sociedade sendo fabricada do zero. À medida em que
floresceram os usos da Internet para vários propósitos, as novas formações e atividades sociais
que tomaram lugar começaram a ser levadas a sério tanto por jornalistas (RHEINGOLD 1993;
DIBBELL 1999) quanto por cientistas sociais acadêmicos (por exemplo, as coletâneas pioneiras
editadas por JONES 1995; 1997; 1998).
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pesquisa e diferentes modelos do local de campo podem ser necessários para explorar essa
Internet incorporada.
Embora o modelo ciberespacial de Internet tenha sido altamente influente em moldar a
primeira onda de estudos acadêmicos da Internet, se tornou logo aparente que várias interações
sociais que aconteciam na e em torno da Internet não eram encompassadas por esse modelo. De
acordo com Silver (2000), se a primeira onda de estudos da Internet foi se voltou para os “pilares
gêmeos” de comunidades virtuais e identidades online, uma segunda onda emergiu, a qual
assumiu uma postura mais crítica sobre as propriedades potencialmente transformadoras da
Internet. Essa nova geração de estudos ainda prestou atenção ao que as pessoas faziam online,
mas também olhou para os contextos nos quais essas atividades emergiram e prestaram atenção
às histórias contadas sobre essas atividades online e nas estruturas e processos que tornaram
bem mais fácil para algumas pessoas participarem enquanto outras não (SILVER 2000). Os
pesquisadores foram solicitados a perguntar que diferença a Internet fez para as pessoas em
contexto (HOWARD 2004) e estavam olhando para os processos pelos quais ela se tornou
incorporada na vida das pessoas, de modo que fazia sentido para elas (BAKARDJIEVA 2005).
Uma mudança também ocorreu no discurso popular, posicionando a Internet como um artefato
mundano enredado com os imediatismos de outros aspectos da vida, como descreve Sterne:
Como o discurso popular enfatizou cada vez mais o que se poderia fazer com a Internet,
como ficou claro que a Internet não necessariamente flutua livre do restante da experiência das
pessoas, como emergiu que havia uma possibilidade significativa de uma divisa digital com
consequências sociais reais e como retrocedeu a noção de uma Internet livre das formas
predominantes de desigualdade social, uma urgência de fazer tipos de perguntas de pesquisa que
não poderiam ser respondidas por estudos contidos apenas dentro de um ciberespaço da Internet
ganhou andamento.
Já ficou aparente para alguns, incluindo os etnógrafos, que a Internet não precisa ser
pensada como um espaço inevitavelmente apartado da vida cotidiana. Miller e Slater (2000)
tiveram uma abordagem da etnografia da Internet, radical para seu tempo, que começou em um
lugar físico, Trinidad. Eles iniciaram com o objetivo de descobrir o que a Internet significava,
de forma particular, em Trinidad, ao invés de assumir que havia um ciberespaço separado,
transcendente e definido de forma única que as pessoas habitavam. A perspectiva de Miller e
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Slater (2000) demonstrou que a Internet poderia significar coisas diferentes para grupos
diferentes de pessoas e ela poderia ser usada de maneiras muito específicas como um meio de
realizar interesses culturais particulares e tendenciosos. Miller e Slater não assumiram a
existência do “virtual”, mas propuseram que ele poderia existir apenas na medida em que fosse
trazido à existência por conjuntos particulares de práticas culturais. Pode haver maneiras bem
diferentes de experienciar a Internet que não veja o domínio online como uma forma de
ciberespaço. “A Internet” não era de fato um artefato cultural único, mas vários artefatos
culturais diferentes a depender das pessoas que estavam fazendo uso dela (Hine, 2000). Assim,
seria desnecessariamente limitante delinear estudos etnográficos da Internet como se ela sempre
existisse como uma experiência ciberespacial. Não se pode assumir que podemos descobrir como
um conjunto particular de práticas online faz sentido para os seus participantes somente ao
observá-los online. De acordo com Miller e Slater (2000), um etnógrafo deveria seguir um grupo
específico de pessoas usando a Internet e segui-los online de acordo com qualquer sentido que
eles mesmos dão a essa prática. Mais recentemente, Miller (2011) adotou uma abordagem
semelhante para a etnografia do Facebook, começando não com trabalho de campo dentro do
Facebook, mas explorando como seu significado é construído por uma variedade de usuários
trinitinos com os quais ele passou um tempo realizando entrevistas e explorando o Facebook a
partir da visão deles.
Uma abordagem “incorporada” da etnografia da Internet, como proposta por Miller e
Slater (2000), prevê que um conjunto diferente de perguntas de pesquisa sejam feitas, se
comparada à perspectiva ciberespacial da etnografia da Internet. Especificamente, uma
abordagem incorporada nos ajuda a questionar como a Internet vem a significar coisas
diferentes em cenários diferentes. Em outras palavras, ela abarca a multiplicidade da Internet.
Tal abordagem é ressonante com trabalhos recentes na sociologia da ciência e tecnologia, os
quais têm enfatizado que as tecnologias podem ser pensadas de forma útil como possuindo
múltiplas identidades. De acordo com essa perspectiva, ao invés de ser um agente externo que
impacta na sociedade, uma tecnologia pode ser interpretada como um componente de
circunstâncias culturais dinâmicas, as quais dão significado e identidade para a tecnologia (DE
LAET; MOL 2000; MOL 2002). Desse modo, a identidade de uma tecnologia não preexiste
qualquer cenário de uso, mas é estabelecida por meio de práticas que as trazem à vida naquele
cenário (LAW; LIEN 2013). Práticas diferentes podem produzir representações múltiplas e
divergentes de uma tecnologia (ou de uma doença, de um organismo ou de uma organização -
de fato, qualquer um dos artefatos que tomamos como entidades estáveis podem, de acordo com
essa perspectiva, ser pensados como potencialmente múltiplos e localmente estabilizados
somente através de nossas práticas). Ainda que possamos falar sobre tecnologias, no sentido
cotidiano, como artefatos estáveis, enquanto uma metodologia heurística, esta perspectiva da
sociologia da ciência e tecnologia sugere que devemos esperar e nos preparar para que as
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O estudo de adolescentes flamengos, conduzido por Courtois et al. (2012), explorou o uso de
múltiplas tecnologias de mídia, incluindo fones, consoles de jogos, MP3 players, televisores e
computadores. Os pesquisadores conduziram estudo baseado em survey e entrevistas para
explorar como os adolescentes usavam essas tecnologias e para identificar as interações entre
objetos, textos e espaços. Um etnógrafo da Internet poderia usar essa noção de tripla articulação
- como objeto, texto e contexto - como dispositivo de sensibilização, mantendo em mente a
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possível necessidade de atenção para qualquer um desses múltiplos aspectos para entender a
experiência incorporada da Internet, embora sem esperar que cada um seja experimentado, na
prática, como entidades separadas.
Então, para recapitular, a metáfora do ciberespaço foi altamente influente no
desenvolvimento de uma compreensão de que as comunicações online deveriam ser levadas a
sério como uma maneira para as pessoas se juntarem e desenvolverem novas identidades e novas
formações sociais. Os estudos etnográficos de espaços online foram centrais em estabelecer a
natureza das formações sociais que ocorreram online. Vários pesquisadores da Internet, no
entanto, rejeitaram em seguida essa noção dos estudos de Internet contidos na Internet e
procuraram estudar as formas diversas pelas quais a Internet era contextualizada. Quando se
segue essa abordagem, se torna rapidamente aparente que a Internet significa coisas diferentes
para pessoas diferentes e assume múltiplas identidades. A metáfora ciberespacial, e com ela a
noção de um local de campo contido na Internet, se provou como apenas uma forma de entender
o que a Internet significa. Vista dessa forma, a abordagem incorporada e contextual para
entender a Internet não é inerentemente superior ao entendimento ciberespacial. Cada uma é o
produto de um momento cultural particular, servem para responder tipos específicos de
questões sobre a Internet e têm sua própria validade local. De igual modo, o modelo incorporado
não varre de lado o modelo ciberespacial e o torna irrelevante. Ainda há espaços online que
desenvolvem culturas distintas e bem ordenadas. Ainda é relevante e interessante descobrir o
que as pessoas fazem quando estão online e que formas de identidade, estrutura e desigualdade
emergem quando as pessoas se encontram no espaço online. Entretanto, existem agora muitos
etnógrafos que desejam estudar a incorporação da Internet em várias dimensões da vida
cotidiana. Como pesquisadores, não estamos acima das tendências culturais atuais e nem somos
totalmente vítimas delas, mas somos participantes ativos dessas tendências. À medida em que a
tendência cultural atual se distancia do ciberespaço, é importante ser capaz de se envolver com
as questões de nossos dias, que tendem a focar no papel da Internet em nossas organizações e
instituições, em nossas famílias e nossas escolas e em nossos objetivos de viver vidas
sustentáveis, plenas e justas. Os etnógrafos contemporâneos podem recapitular essas questões e
adotar uma abordagem crítica aos valores que eles incorporam, mas eles frequentemente vão
querer e precisar se engajar com o interesse generalizado em uma Internet incorporada.
A Internet pode ser vista como incorporada de acordo com muitas dimensões diferentes
de incorporação. Miller e Slater (2000) realizaram uma abordagem antropológica da
incorporação, tomando como foco o papel da Internet na cultura trinitina, mas existem várias
outras maneiras potenciais de enquadrar o contexto no qual a Internet é vista como incorporada
para além da espacial e da cultural. Podemos, por exemplo, olhar para o papel desempenhado
pela Internet no desenvolvimento de modos particulares de vida familiar na sociedade
contemporânea ou a incorporação da Internet em comunidades locais; ou poderíamos explorar
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como organizações e instituições específicas produzem sua própria Internet (RAINIE et al.2012).
Podemos olhar para como a Internet tanto incorpora e é incorporada dentro de outras formas
de mídia (BOLTER; GRUSIN 2000). Podemos olhar para a incorporação de redes sociais na
Internet e da Internet nas redes sociais (GARTON et al. 1997). Cada uma dessas formas de
incorporação sugerem uma direção pela qual um etnógrafo poderia buscar por conexões,
oferecendo um quadro de construção de significado dentro do qual atividades particulares da
Internet ganham sentido.
Além dessas dimensões sociais da Internet incorporada, podemos também olhar para a
incorporação de nossa experiência da Internet em dispositivos específicos. Dados emergentes
das edições sucessivas do Oxford Internet Survey (DUTTON; BLANK 2011; DUTTON et al.
2013) sugerem que a experiência de usar a Internet em múltiplos dispositivos e enquanto em
movimento é muito diferente daquela do usuário limitado a um único ponto de acesso à Internet
no desktop. Existem hoje muitas formas diferentes pelas quais uma funcionalidade
aparentemente igual da Internet pode ser vista e várias maneiras diferentes a partir das quais as
pessoas podem ter essa experiência. Então, o etnógrafo tem um grande desafio quando decide
que dispositivo usar para sua própria atividade na Internet e como comparar essa experiência
com a experiência que os participantes podem ter. Escolher um dispositivo ao invés de outro
pode implicar se tornar mais alinhado com a experiência de um conjunto de participantes em
detrimento de outro e pode ser importante ter discernimento sobre o que essa diferença pode
implicar.
O conteúdo da Internet também pode ser visto como um fenômeno incorporado de
forma múltipla. O conteúdo advindo da Internet circula continuamente e é extraído e
reincorporado, aparecendo em conversas boca a boca, em relatórios impressos e na mídia de
massa, formatando e sendo formatado pela miríade de atividades da vida cotidiana e da
existência pública. Uma das características definidoras do digital, afinal de contas, é a facilidade
com que ele pode ser movido, recombinado, revisualizado, recalculado e adaptado. Por isso, nós
não podemos saber de antemão como outras pessoas vão ver o que estamos vendo e onde os
dados podem acabar. Não precisamos ser oniscientes ou mediúnicos - os etnógrafos sempre são
limitados por suas próprias habilidades de percepção e por suas capacidades corporificadas de
observação. Não podemos esperar abordar todos os aspectos da reincorporação do conteúdo da
Internet que examinamos, nem produzir um relato exaustivo de onde exatamente ele se
movimenta e o que faz lá. Não é para isso que a etnografia serve e nem o que ela aspira conseguir
realizar. Ao invés disso, nós reconhecemos as dinâmicas da incorporação, permanecemos alertas
às possibilidades de movimentação inesperada de dados e às novas formas de conexão, e
tentamos manter o foco em como as situações emergem e ganham sentido para as pessoas. E
fazemos escolhas conscientes, atentos às perguntas de pesquisa que nos impulsionam e às
questões que desejamos que nossas descobertas enderecem.
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Internet corporificada
Conforme descrito acima, a ficção ciberpunk, e particularmente sua noção de ciberespaço,
teve grande influência na definição das expectativas iniciais da Internet. Fomos encorajados a
pensar em entrar na Internet como similar a acessar um espaço alternativo. Como corolário,
também fomos levados a pensar na Internet como um espaço onde alguém poderia
potencialmente se tornar outra pessoa, desenvolvendo uma identidade alternativa àquela
mantida no mundo físico, ou mesmo deixando para trás a identidade do mundo físico por
completo. Esse processo de construção de identidades virtuais tornou-se um foco significativo
dos esforços de pesquisa. No entanto, tem se tornado cada vez mais aparente, à medida que o
uso da Internet se torna incorporado à vida cotidiana, que, em vez de ser um local ciberespacial
transcendente de experiência, a Internet frequentemente se torna parte de nós e que as
identidades virtuais não são necessariamente separadas dos corpos físicos. Não pensamos
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necessariamente em “entrar na Internet” como uma forma distinta de experiência, mas, em vez
disso, muitas vezes experienciamos estar online como uma extensão de outras formas
corporificadas de ser e agir no mundo. Há, no uso contemporâneo da Internet, muitas vezes um
grau considerável de continuidade reconhecível entre as experiências e identidades online e
offline de uma pessoa e, de fato, a performance de alguém em sites de redes sociais pode muitas
vezes ser julgada de acordo com sua autenticidade, de não ser "falso", comparando o self online
diretamente com sua contraparte offline. Nesta seção, discutirei até que ponto a experiência do
ambiente online se tornou perfeitamente integrada com outras experiências corporificadas e
explorarei as implicações dessa integração para a orientação do etnógrafo no campo. Torna-se
aparente que online e offline não estão relacionados de alguma forma previsível em termos de
corporificação, e que as interações corporificadas do etnógrafo com o campo são, portanto,
altamente individualizadas e altamente consequentes para moldar a compreensão do campo. O
reconhecimento adequado da natureza diversa e altamente pessoal da experiência online
representa um desafio metodológico considerável. Algumas estratégias para lidar com este
desafio serão descritas no final desta seção.
A ideia de "deixar a carne para trás" foi, como Bell (2001) descreve, um dos primeiros
mitos prevalentes em torno dos ciberespaços, fundado em uma literatura ciberpunk que se
concentrava em deixar o corpo para trás e "conectar-se" a um domínio online distinto de
existência. O corpo era representado como um estorvo a ser abandonado o quanto antes, pois
vinculava um sujeito a uma identidade corporal que constrangia a autoexpressão e a um
conjunto de restrições físicas que, uma vez no ciberespaço, não precisam mais ser reconhecidas.
O ciberespaço parecia oferecer uma existência pura da mente. Muitos comentaristas, no entanto,
responderam à altura às simplificações excessivas que esta posição representava. Stone (1992:
p.113) explorou as relações diversas e mutáveis entre corpos, identidades e espaços virtuais,
entretanto enfatizou, em sua conclusão, que “mesmo na era do sujeito tecnossocial, a vida é
vivida por meio dos corpos”. Lupton (1995) enfocou a relação emocional e corporificada que os
usuários têm com seus computadores, explorando os múltiplos sentidos nos quais o corpo estava
presente na relação com um computador. O que quer que acontecesse no ciberespaço, o usuário
teria, em algum momento, que retornar a um corpo com necessidades físicas. Os eventos no
ciberespaço também evocam reações emocionais e físicas em um usuário inescapavelmente
corporificado. Argyle e Shields (1996) descreveram as experiências corporificadas de um usuário
que poderia estar, simultaneamente, presente no ciberespaço e um corpo físico sentado em uma
cadeira frente ao teclado, olhando para uma tela:
Se acreditarmos que o corpo deve estar presente no sentido físico para ser um
fator entre os indivíduos, que há separação e que podemos nos comunicar a
partir de um nível sem que outros níveis estejam presentes, então será muito
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Essa noção de múltiplos modos de ser e múltiplas noções de fisicalidade oferece uma
maneira útil de compreender as complexidades da experiência online. Até certo ponto, o mundo
online pode ser imersivo. É possível sentir-se copresente com outros seres virtuais em um
mundo online e, naquele momento, esquecer seu corpo físico e localização offline. Esse efeito,
entretanto, é apenas temporário. Em algum momento, você será chamado de volta às
necessidades físicas, porque o corpo não pode viver online e, eventualmente, requer atenção. A
complexidade das múltiplas maneiras de ser não se trata apenas de uma alternância entre a
imersão online e as presenças físicas. A escolha de permitir que o mundo online seja imersivo é
carregada, porque durante essa experiência online imersa estamos nos afastando de outras
formas de engajamento e fazendo, implícita ou explicitamente, uma declaração sobre o que é
importante para nós. Um membro da família sentado em uma sala de estar, envolvido em uma
sessão de jogo online pode estar imerso no mundo online, mas sua presença física contínua na
sala, juntamente com uma evidente falta de envolvimento com outros membros da família fala
de suas prioridades e pode ser lido dessa forma. Estar imerso em um mundo online não
necessariamente substitui responsabilidades como pais, irmão ou amigo para com outros
copresentes, nem, da mesma forma, isenta a pessoa de várias formas de responsabilidade ligadas
a um corpo socialmente engajado no mundo físico.
Portanto, mesmo que às vezes possa ser imersivo, o mundo online não necessariamente
substitui ou repõe a experiência corporal. O usuário da Internet é um usuário corporificado.
Corpos, entretanto, não existem simplesmente no mundo de uma forma singular, mas são
trazidos à existência de uma forma complexa e múltipla (TURNER 1991). Portanto, não é
suficiente dizer simplesmente que alguém está aqui ou ali, corporificado ou não, online ou
offline. Tanto online quanto offline são modos complexos de ser, que muitas vezes precisam ser
desagregados (não agrupados como se todas as experiências online ou offline fossem de alguma
forma as mesmas), a fim de diferenciar o que cada um pode significar para pessoas em
circunstâncias específicas e como cada um pode se relacionar com um corpo físico. Como
Markham (1998) enfatizou em sua etnografia online reflexiva, a Internet nem sempre é
experimentada como algo em que se imerge, como retrata a ficção cyberpunk. Em vez disso, ela
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destacou, a Internet pode ser experimentada de várias maneiras, dentre as quais atuar como um
lugar, uma ferramenta e uma forma de ser. Descobrir como a Internet é vivenciada, em qualquer
instância particular, torna-se uma questão de compreensão etnográfica, combinando a reflexão
sobre como a experiência é sentida pelo etnógrafo com um envolvimento próximo com as
experiências e interpretações dos participantes na situação.
A Internet é potencialmente experimentada por usuários corporificados de diferentes
maneiras, dependendo das circunstâncias. Mais claramente aparente, possivelmente, é até que
ponto a Internet mudou ao longo do tempo, e nossa relação com a experiência de usar a Internet
se adaptou à sua familiaridade crescente e à ampla gama de situações sociais que o estar online
oferece. Ultimamente, o advento das mídias sociais e da Internet de banda larga reformulou, em
um sentido muito pragmático, nossa relação com a Internet. Como Gies (2008) descreve, os
usuários da Internet agora muitas vezes esperam transmitir e receber uma ampla gama de
informações uns sobre os outros, utilizando a natureza cada vez mais audiovisual da
comunicação na Internet e fundamentando seu uso da Internet em uma gama ainda mais ampla
de performances de uma realidade corporal. O uso da Internet sempre foi, em alguns sentidos,
uma experiência corporificada, mas a realidade contemporânea dos sites de redes sociais
concentra a atenção popular nessa corporificação de novas maneiras. Na medida em que
rotineiramente alertamos os jovens contra o contato com estranhos na Internet, e ao passo em
que definimos nossas configurações de privacidade em sites de redes sociais de acordo com o
quão bem conhecemos as pessoas, reafirmamos a importância da Internet como um meio de
interagir com outras pessoas conhecidas e encarnadas a quem conhecemos em mais de um meio.
No discurso popular e na experiência cotidiana, a Internet se tornou muito mais rotineiramente
um lugar para expressar um self corporificado, em vez de um lugar para deixar o corpo para trás.
Os corpos que usam a Internet são corpos situados socialmente, e vários aspectos do
posicionamento social e das circunstâncias materiais moldam a experiência da Internet, levando
ao surgimento de uma divisa digital com consequências potenciais de longo alcance para a
inclusão e oportunidade social (HARGITTAI 2008). Além da segmentação social em grande
escala, as biografias individuais determinam o quão acessível e significativa a Internet pode ser
e moldam nossa forma de a usarmos. A Internet tornou-se, por exemplo, uma valiosa fonte de
informação sobre muitos aspectos da existência contemporânea, mas não é necessariamente
vivenciada da mesma forma ao longo da vida. As pessoas recorrem à Internet não como uma
fuga da existência cotidiana, mas para informar e enriquecer sua compreensão dos eventos que
acontecem em suas vidas. Os pais, por exemplo, recorrem à Internet em momentos específicos
de crise, transição e incerteza (PLANTIN; DANEBACK 2009). Como Gies (2008) descreve, o
próprio corpo pode fornecer uma motivação significativa para se estar online, seja para
encontrar informações relacionadas à saúde, buscar apoio de outras pessoas em sofrimento ou
buscar satisfação sexual. A Internet, portanto, pode ser vista como estando ao lado, dependendo
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é ou não acessível com base apenas na vontade, e documentando como se experienciam formas
particulares de engajamento. Este foco no envolvimento corporal, sensual e emocional com o
campo tem sido uma característica duradoura das reivindicações específicas da etnografia como
uma forma de produção de conhecimento, e não é menos significativo para uma etnografia
envolvendo a Internet do que para qualquer outra forma de etnografia.
Nos próximos capítulos, documentarei com mais detalhes algumas estratégias de
pesquisa que decorrem diretamente desse reconhecimento da importância da Internet
corporificada para a compreensão etnográfica. No Capítulo 3, o papel da autoetnografia e da
etnografia reflexiva é explorado, destacando a contribuição feita pelo sentido crescente que o
etnógrafo desenvolve das estruturas de sentimento em torno de várias formas de interação. Um
etnógrafo pode, eu argumento, focar nas experiências autoetnográficas de forma útil para
refletir sobre experiências corporificadas da Internet e para explorar a textura da experiência
vivida cotidianamente conforme ela transite entre os domínios online e offline. Os etnógrafos
podem aprender com suas próprias experiências de movimentação, descobrindo quais
movimentos são fáceis e quais são difíceis, quais tipos de contato são permitidos e quais são
tabus. Relatos de tais percepções, no entanto, não devem ser considerados necessariamente mais
"autênticos" do que as atividades de outros participantes e não substituem a necessidade, na
maioria dos projetos, de explorar a diversidade das experiências, incluindo, mas não se
limitando, às do etnógrafo.
Focar na ideia de uma Internet corporificada estimula uma mudança em direção ao
reconhecimento da diversidade da experiência da Internet e, como corolário, encoraja o
reconhecimento de métodos reflexivos e autoetnográficos como um componente valioso da
etnografia para a Internet.
Internet Cotidiana
Conclui-se da discussão feita até o momento que muito do uso da Internet se tornou
mundano e normal, já que muitas vezes simplesmente a implantamos como uma forma de fazer
o que faz sentido para nós como seres sociais incorporados e corporificados. A Internet pode,
de fato, desaparecer como uma faceta notável da vida cotidiana, tornando-se simplesmente uma
infraestrutura que oferece um meio para fazer outras coisas. Apesar de muitas vezes serem vistas
como mundanas, entretanto, as infraestruturas não são necessariamente indignas de atenção
crítica. Trabalhos na sociologia da infraestrutura argumentam que é importante olhar para o
trabalho estruturante invisível que as infraestruturas realizam. Ao tomar como certa uma
infraestrutura, podemos estar aceitando certas escolhas e prioridades que são incorporadas a essa
infraestrutura. Mesmo que a Internet pareça ter se tornado comum, então, pode ser importante
examinar de perto o trabalho que estamos permitindo que os vários aplicativos da Internet em
que confiamos façam para nós, e as decisões que estamos implicitamente permitindo que essas
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infraestruturas possam fazer por nós. No restante desta seção, explorarei com mais detalhes essa
perspectiva sobre infraestruturas e considerarei o seu potencial para sugerir estratégias
etnográficas para a Internet.
A Internet cotidiana e mundana representa um desafio metodológico para etnógrafos,
pois podemos precisar desenvolver estratégias para capturar e tornar visíveis os aspectos da
Internet que se tornaram comuns, indo contra a maré cultural para falar sobre questões que não
são tópicos de discussão cotidiana. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a Internet
às vezes volta ao primeiro plano cultural, como um fenômeno notável para a atenção política ou
da mídia, como uma questão de preocupação mais localizada para organizações e indivíduos, ou
como um problema quando não funciona como esperávamos. Conforme discutido no Capítulo
1, a Internet se apresenta na cultura popular como banal e um tópico de interesse 5. Retratos da
Internet são fenômenos situados, e o etnógrafo precisa olhar cuidadosamente para as condições
sob as quais eles surgem, bem como explorar o papel da internet como tópico de interesse que
molda nosso relacionamento com ela e nossas expectativas acerca do que fazer com ela, em uma
base cotidiana, à medida que se torna mundana. O desafio etnográfico da Internet cotidiana (e
sua contraparte, a Internet excepcional) é tratar ambas com igual ceticismo, olhando tanto para
o trabalho invisível feito pela Internet, quando a tratamos como mundana, quanto para as
expectativas moldadas por nossa atenção a um Internet excepcional, que, segundo relatos
populares, oferece o potencial de impulsionar mudanças sociais para o bem ou para o mal.
Trabalhos na sociologia e antropologia da infraestrutura fornecem alguns precedentes
úteis para pensarmos sobre as tecnologias de infraestrutura como um espaço onde ocorre um
trabalho invisível, no sentido de que o design da tecnologia e a maneira pela qual interagimos
com ela tem o efeito de tornar algumas ações mais fáceis e outras mais difíceis, criando espaço
para papéis e responsabilidades sociais e definindo possíveis ações. Bowker e Star (1999), por
exemplo, discutem sistemas classificatórios, como a Classificação Internacional de Doenças e um
esquema para definir intervenções de enfermagem, para mostrar como esses sistemas
determinam prioridades e incorporam valores e escolhas. Com diferentes classificações,
diferentes grupos de pessoas consideram suas experiências valorizadas ou negadas. Uma
infraestrutura pode ser um sistema classificatório ou protocolo padrão, ou pode ser um artefato
mais tangível, como os plugues elétricos que nos permitem acessar os sistemas de energia (STAR
1999). Diferentes grupos podem se relacionar com uma determinada infraestrutura de maneiras
diferentes: um padrão pode parecer perfeitamente aceitável e, de fato, invisível se as preferências
de alguém forem atendidas, mas se não, sua inflexibilidade pode exigir que alguém faça um
5
A autora utiliza o termo “topicalized” para descrever a internet cotidiana. Não há uma palavra que corresponda
exatamente a este termo. A partir das reflexões realizadas no capítulo introdutório, optamos por traduzir como
uma internet transformada em tópico de interesse pela mídia, caracterizada como um local, ao mesmo tempo, de
risco e esperança.
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trabalho extra para se encaixar ou se adaptar. Para ilustrar, Star discute os problemas de um
cliente que tem alergias específicas frente à eficiência dos sistemas de produção em massa do
restaurante fast-food (STAR 1991). Várias formas de resistência e adaptação são possíveis, mas
todas exigem trabalho adicional de um cliente que está fora do mainstream.
As infraestruturas podem, portanto, ser locais importantes de ordenamento social e
político: posicionam algumas pessoas como “normais” e marginalizam outras. O antropólogo
Anand (2011) descreve o entrelaçamento de conjuntos complexos de fatores tecnológicos e
políticos envolvidos no trabalho com a infraestrutura que molda o acesso à água para a
população de Mumbai. Faço uma citação longa aqui para preservar o impacto de uma descrição
que é complexa e elegante em seu retrato dos diferentes fatores em jogo:
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padrão enfrentado por qualquer etnógrafo. À medida que tentamos explorar como um
determinado ambiente cultural funciona em seus próprios termos, nos encontramos tentando
desenvolver a "perspectiva do estranho", destacando o que para os participantes é totalmente
normal e destacando que poderia ter sido de outra forma. Como descreve Hirschauer (2006), o
etnógrafo é sempre confrontado com o “silêncio do social”, tentando colocar em palavras algo
que, em outras circunstânicas, não seria dito em suas descrições de como o social funciona. Nos
termos de Bloch (2008), o etnógrafo está procurando explicar "o que não é preciso dizer", uma
atividade que se baseia no conhecimento experiencial do ambiente tanto quanto nos relatos
retrospectivos verbalizados que os participantes podem nos dar sobre o que está acontecendo.
Ao lidar com esta Internet cotidiana, um aspecto comum de realizar alguma outra
atividade mais notável, a imersão do etnógrafo no ambiente, juntamente com a determinação
de perceber e questionar o que é dado como certo, é uma estratégia chave. Os relatos dos
informantes são obviamente importantes para tirar o etnógrafo de uma série de interpretações
auto-obcecadas do que está acontecendo a partir de sua própria perspectiva limitada. Os
etnógrafos precisam triangular suas próprias percepções com as de outros participantes. No
entanto, a imersão do etnógrafo no cenário (que no caso da etnografia para a Internet implica
quase inevitavelmente cenários, no plural, incluindo tanto engajamento online e offline) é a
chave para desenvolver uma compreensão da estranheza da Internet cotidiana como meio de
fazer as coisas. O etnógrafo questiona ativamente as implicações de várias formas de
engajamento e reflete sobre por que determinadas escolhas de meio fazem sentido e quais podem
ser suas consequências. Etnografia para a Internet envolve o desenvolvimento de uma
consciência aguda da textura social da experiência vivida à medida que ela se move entre as
mídias e através das situações. Uma sensibilidade precisa ser desenvolvida para identificar
mudanças na disposição emocional, nos sentimentos de presença e conectividade, movimentos
que são permitidos e fáceis, e aqueles que são difíceis ou tabus. Os etnógrafos da Internet se
movimentam e aprendem muito sobre a Internet cotidiana através de uma reflexão constante
sobre as propriedades de seu movimento. Esta é uma etnografia sensorial (Pink, 2009), em que
muito pode ser aprendido através de uma reflexão sobre o engajamento sensorial diferencial das
várias mídias em uso. O foco de Star (2002) em estudar a conexão entre experiências vividas e
tecnologias é um guia útil para o estudo da Internet cotidiana, conforme olhamos para
materialidades de interação com infraestruturas, exploramos o trabalho que está sendo feito e
procuramos ordenação social emergente.
À medida que a Internet se torna cotidiana, é claro que se torna mais difícil separar a
Internet como tal do fluxo geral da existência. Qualquer que seja o domínio que examinarmos,
as mudanças serão aparentes e serão objeto de comentários, mas não ficará claro até que ponto
tais mudanças são atribuíveis à Internet em si. Como Beer (2013) descreve, no domínio da
cultura popular, tornou-se quase sem sentido tentar separar as novas mídias e a cultura popular,
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tal é o grau de enredamento entre elas. De acordo com Beer, precisamos nos sintonizar com as
maneiras pelas quais a cultura popular e as noções de gosto não mais circulam simplesmente de
acordo com segmentações sociais e pertencimentos a grupos sociais específicos
convencionalmente entendidas. Cada vez mais, os dados circulam de acordo com algoritmos,
que moldam o que vemos, e as atividades anteriores são arquivadas e se tornam agentes ativos
na formação de nossa exposição contínua à cultura popular. Para Beer, o estudo da cultura
popular deve, forçosamente, atender ao papel dessas dinâmicas, pois “o estudo da cultura
contemporânea exige a compreensão dessas circulações, a dobra dos dados na cultura e as
infraestruturas materiais que as constituem como possíveis” (BEER 2013: p.4). Para o etnógrafo,
a Internet se torna uma paisagem que nós e as pessoas que estudamos habitamos, mas esta é uma
paisagem que é ativamente moldada e trazida à existência por nossas ações. A etnografia para a
Internet cotidiana envolve estudar a maneira pela qual as pessoas se movem, criam, atendem e
ignoram essa paisagem enquanto realizam suas atividades diárias.
Mesmo quando uma tecnologia se torna cotidiana, haverá circunstâncias em que ela será
transformada em tópico de interesse. Uma perda de conexão Wi-Fi, quebra do disco rígido ou
o celular cair no vaso sanitário são ocasiões para uma atenção considerável ao que a tecnologia
significa em nossas vidas. Uma universidade em que trabalhei teve uma falha catastrófica de
servidores de e-mail, o que desativou todas as contas por alguns dias. Nunca tínhamos
conversado tanto sobre a maneira pela qual usamos o e-mail como fizemos naqueles poucos dias,
ao refletirmos sobre as práticas que precisávamos mudar e as atividades que se tornaram difíceis
de fazer. Tirar uma tecnologia é uma boa maneira de estimular a conversa sobre o que ela
significa. Contudo, a reflexão sobre as tecnologias do dia-a-dia nem sempre precisa envolver
tais catástrofes. Mesmo quando uma tecnologia se tornou rotina, muitas vezes preservamos um
repertório que possibilita colocar a tecnologia em primeiro plano em uma narrativa, lançando-
a como um agente ativo em vez de um elemento não dito do pano de fundo (HINE 1995ª; 1995b).
Assim, mesmo quando consideramos a Internet um dado adquirido, muitas vezes ainda
preservamos uma forma de falar que lhe dá agência, que se reflete nela como um grande
fenômeno que potencialmente muda vidas e impacta a sociedade. Em grande parte de nossa vida
cotidiana, desagregamos a Internet, enviando e-mails às pessoas, atualizando o status do
Facebook, comunicando com nossos amigos e pesquisando fatos no Google. Em outras
narrativas, unificamos a Internet, atribuindo-lhe uma identidade única que traz benefícios e
riscos. Os retratos da mídia também contêm ambos os aspectos da Internet, tornando-a ao
mesmo tempo uma maneira cotidiana de manter contato (tuite suas respostas ao programa,
procure-nos no Facebook) e um grande fenômeno que oferece oportunidades comerciais, põe
em perigo nossos filhos e transforma as sociedades, conforme retratado nas manchetes dos
jornais (analisadas pela autora no capítulo introdutório do livro).
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Conclusão
Neste capítulo, tenho defendido uma abordagem multimodal da etnografia para a
Internet, que não trata da fronteira online/offline como um limite de princípio para locais de
campo etnográfico, mas aceita que os temas e questões que estudamos forçosamente muitas
vezes cruzam essa fronteira (ou são agnósticos sobre a existência de tal fronteira como um
princípio organizador para a experiência social). O enquadramento baseado nas três
características de sensibilidade em relação a uma Internet incorporada, corporificada e cotidiana
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é um incentivo para olharmos para dentro e para fora em busca de holismo etnográfico. Somos
encorajados a olhar para fora da própria Internet, em direção a uma miríade de potenciais
conexões e estruturas de construção de significado. Somos encorajados a olhar para dentro em
busca da experiência corporificada de usar a Internet como um componente da vida cotidiana
que não necessariamente se pergunta se algo acontece ou não online como uma questão primária
de preocupação. Um etnógrafo pode adotar uma postura simetricamente cética em relação às
alegações de que a Internet tanto ocasiona uma inovação radical e mudança social, quanto que
ela dá continuidade aos valores do passado ou se torna totalmente normal. Inspirados pela
sociologia da infraestrutura, os etnógrafos podem desejar observar com especial atenção as
situações em que decisões técnicas estão sendo tomadas, pois essas decisões podem ter grandes
consequências para o ordenamento social e também podem trazer à visibilidade conjuntos de
valores de outra forma não articulados.
Nesse estágio, esses conselhos a um etnógrafo em potencial são generalizações um tanto
brandas, como sugestões para ser sensível a isso e olhar de perto para o que não se conta a um
etnógrafo, diante de uma situação real e de um conjunto de problemas prenunciados, em
qualquer forma útil, o que ele realmente deve fazer. Essa situação é, naturalmente, em certa
medida compatível com a postura de que as abordagens da etnografia são sempre adaptativas, e
o conselho geral é formulado na expectativa de que não existe um modelo correto de etnografia
para a Internet. Por serem adaptáveis às circunstâncias, a escolha e a estratégia são
particularmente significativas para o etnógrafo. As ações que tomamos precisam ser
consideradas com cautela, uma vez que têm grandes consequências para a constituição do objeto
que estudamos. A etnografia é mais intencional do que passiva: no entanto, não é “adaptativa”
no sentido de que apenas fazemos o que o campo nos diz para fazer, mas sim, que adaptamos
ativamente nossas estratégias a fim de explorar algo em particular. Não há, portanto, um modelo
único de etnografia para a Internet: entretanto, na expectativa de que alguns conselhos mais
concretos sobre como se envolver com a Internet de várias maneiras sejam úteis, no próximo
capítulo vou explorar estratégias para formular o campo e engajar com ele que são
particularmente relevantes para uma internet incorporada, corporificada e cotidiana.
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