Progressão da Ciência:
Revoluções Científicas
Para Popper, a ciência é objetiva em termos do método racional que
utiliza, o falsificacionismo; mas a ciência não é objetiva em termos de
alcance da verdade, já que uma teoria corroborada é uma teoria que não
foi falsificada até ao momento e, portanto, o cientista não pode afirmar
este conhecimento como definitivamente verdadeiro.
Questão do Progresso Científico: contra a perspetiva comulativa em
relação ao progresso científico; afirma que a ciência progride por
revoluções científicas (evolução descontínua);
Como progride a ciência?
1. Pré-Ciência: atividade desorganizada e diversa até ser
construída uma comunidade científica que adere a um
paradigma;
2. Paradigma: conjunto de ideias teóricas gerais e leis que
servem de base e modelo de trabalho à prática científica;
modelo de explicação que torna a pesquisa organizada,
coerente e consensual, gerando uma comunidade científica;
determina a forma como se investiga, os problemas a abordar
e o que pode ser considerado ciência (determinada forma de
fazer ciência);
3. Comunidade Científica: formada quando vários cientistas, em
consenso, seguem um determinado paradigma, seguindo
regras e critérios de prática científica iguais, não os
questionando (perspetiva dogmática dos cientistas);
4. Ciência Normal: Ciência que se faz no contexto de um
paradigma e de uma comunidade científica:
Desenvolve-se no meio de uma tradição metodológica
e de conhecimento científico adquirido;
Tem o objetivo de desenvolver as teorias e fenómenos
existentes no paradigma: visa aumentar a abrangência
do paradigma (aprofunda temáticas já existentes e
aumenta a quantidade de conhecimento) e a precisão
do conhecimento já adquirido (aumento da
credibilidade das teorias), permitindo o progresso
científico sem questionar as teorias inseridas no
paradigma; a sua atividade é, portanto, comulativa;
Dedica-se à resolução de problemas/enigmas/puzzles
que podem ter solução através dos critérios de
plausibilidade (critérios que pertencem ao quadro
conceptual do paradigma);
Um cientista não abandona facilmente um paradigma,
ou seja, tem uma postura dogmática porque a sua
perspetiva é limitada pelo quadro conceptual do
paradigma que defende; a atividade da ciência normal
é extremamente conservadora e dogmática;
Fase mais longa do ciclo.
5. Anomalia: Falhanços na prática científica normal; a
comunidade científica ou considera-as uma exceção à regra
ou tenta explicá-las à luz do paradigma vigente;
6. Crise Paradigmática: período em que, após a acumulação de
muitas anomalias, o paradigma é posto em causa; a
comunidade científica divide-se entre os que defendem a
correção do paradigma e os que defendem o seu abandono e
a instituição de um novo modelo explicativo. Torna-se
problemática quando surge um novo paradigma; os cientistas
procuram conservar o paradigma vigente porque a decisão de
rejeitar um paradigma implica a aceitação de outro;
NOTA: Para Kuhn, rejeitar um paradigma sem aceitar outro é
como rejeitar a própria ciência;
7. Ciência Extraordinária: Ciência que se desenvolve fora do
paradigma dominante nos tempos de crise ao se procurarem
soluções para as anomalias fora do paradigma; leva ao
consequente abandono do paradigma anterior e instituição
de um novo;
8. Revolução Científica: Momento que corresponde a uma
mudança de paradigma; o paradigma antigo é contestado e é
adotado um paradigma novo;
9. Nova Ciência Normal: Novo período de ciência normal
resultado da instauração de um novo paradigma e uma nova
comunidade científica, dando-se uma reorganização do
método, instrumentos e teorias.
Questão da Comensurabilidade:
Os paradigmas são incomensuráveis, ou seja, rivais, diferentes, não
se acrescentam nem se misturam, não são comparáveis nem compatíveis;
cada um dos paradigmas representa uma forma totalmente diferente de
ver o mundo.
A incomensurabilidade dos paradigmas relaciona-se com a
impossibilidade de comparar dois paradigmas e consequentemente
estabelecer a supremacia de um em relação ao outro.
A Revolução Científica representa um momento evolutivo e não
cumulativo porque:
São estabelecidos novos princípios, novos métodos e instrumentos
que reconstroem a forma como o mundo é analisado e a prática
científica;
É uma revolução porque é uma mudança radical na visão do
mundo;
Tem subentendida uma resistência à mudança por parte dos
cientistas e a dificuldade em aceitar outra perspetiva;
As revoluções não são frequentes, são ocasionais mas decisivas.
Evolução descontínua porque:
- Os paradigmas são incomensuráveis, ou seja, não há continuidade
entre eles, pois são formas distintas de ver o mundo;
- O progresso científico dá-se por revoluções, alterando-se o
paradigma, não sendo um processo contínuo.
Questão do Problema da Objetividade Científica:
Kuhn diz que este tipo de evolução do conhecimento científico não
nos leva a conhecer realmente a realidade, sendo a verdade estabelecida
segundo os princípios/critérios do quadro conceptual do paradigma
vigente, ou seja, a mudança de paradigma leva a uma forma totalmente
diferente de ver o mundo e ao estabelecimento de novas “verdades”, de
acordo com o paradigma.
Kuhn diz que existem 5 critérios de escolha/características para uma
boa teoria científica:
EXATIDÃO (o que é deduzível a partir da teoria tem de corresponder ao
que se é observado e experimentado);
CONSISTÊNCIA (é consistente internamente com ela própria e
externamente com outras teorias;
ALCANCE (deve ir além dos objetivos iniciais, referindo-se à extensão das
suas consequências);
SIMPLICIDADE (relaciona fenómenos isolados e estruturando fenómenos
em conjunto);
FECUNDIDADE (deve permitir a descoberta de novos fenómenos ou
relações ainda não verificadas entre fenómenos já conhecidos).
Estas são as razões objetivas que levam um cientista a escolher um
determinado paradigma. Estes critérios são partilhados pelos cientistas e
constituem a ciência no paradigma.
No entanto, a aplicação desses critérios é afetada por fatores
subjetivos e/ou psicológicos inerentes a cada cientista, tais como:
educação/valores/crenças; personalidade; interpretação
subjetiva/perceção individual do cientista; contexto histórico;
circunstâncias de vida; experiência de vida.
Logo, na escolha de um novo paradigma, os critérios objetivos
relacionam-se com os fatores subjetivos do indivíduo. A escolha individual
é, portanto, uma mistura de fatores objetivos e subjetivos:
A verdade científica resulta de critérios intersubjetivos.
Para além disso, a incomensurabilidade dos paradigmas leva a que a
verdade científica só o seja no âmbito de cada paradigma, objetiva e
subjetivamente determinada. A verdade não é universal a todos os
paradigmas.
Logo:
Não é possível determinar a objetividade de uma teoria científica.