Teorico
Teorico
para o Ensino de
Matemática
Material Teórico
História da Matemática
Revisão Textual:
Prof. Ms. Luciano Vieira Francisco
História da Matemática
• O que é História
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Unidade: História da Matemática
Contextualização
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Contudo, em tais considerações não há oficialmente uma obrigatoriedade da disciplina nos
cursos de Licenciatura em Matemática, como também há controvérsias em relação à importância
da história da Matemática no ensino e aprendizagem, na formação docente em relação à efetiva
contribuição, no que diz respeito ao ensino da Matemática e às atitudes pedagógicas na aplicação
dessa tendência em sala de aula.
Sem entrar no mérito de tais questões, até porque tais discussões acerca do ensino ainda
são recentes, porém, tais considerações são passíveis de credibilidade, uma vez que a educação
matemática, como nova área, somente sairá fortalecida se for alimentada por discussões,
reflexões e questionamentos acerca de seu papel, impulsionando sua institucionalização e o
alicerçar de sua identidade.
Assim, o propósito neste momento é apresentar a disciplina história da Matemática de forma
preambular, a partir do pouco tempo de aula atualmente disponível, favorecendo minimamente
o estabelecimento de elos entre a história e o conhecimento matemático e auxiliando na busca
por respostas a questionamentos que, comumente, ficam carentes de maior significação nas
demais disciplinas do curso, como coloca Stamato (2003, p. 24):
O objetivo da disciplina história da Matemática, em um curso de formação
de professores, não é descrever a história ou acumular conhecimento
sobre a história, mas propiciar uma análise crítica das condições da criação
e apropriação do conhecimento matemático pelas diversas culturas e
atestar que este conhecimento está sujeito a transformações. Além disso,
esse espaço disciplinar deve propiciar questionamentos às pretensões de
verdade, deve revelar perguntas que não foram feitas dentro das demais
disciplinas acadêmicas do currículo para a formação do professor.
Acerca de material disponível sobre o tema desta Unidade, atualmente existe um bom número
de pesquisadores interessados em estudos de história da Matemática, contudo, a produção de
material cuja finalidade seja a sua utilização em salas de aula no Ensino Básico ainda é escassa,
sobretudo em língua portuguesa.
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Unidade: História da Matemática
O que é História
Em linhas gerais, o autor defende a história como uma construção, onde os “acontecimentos”
a serem historicizados são recortados pelos responsáveis por escrevê-la – o historiador –, que se
transforma no “construtor” de uma trama. Assim, o “tecer” dessa trama dá forma à história, ou
seja, como essa é conduzida é que determina qual viés que seguirá.
Em síntese, construções diferentes de uma mesma trama geram resultados distintos,
alicerçados em suas respectivas relações de valores – os quais sempre são relativos. Então, como
ser imparcial em um relato histórico?
Esta questão é crucial e a resposta é: isto nunca será possível de forma plena!
Somos (estamos) inseridos em um contexto social, político e cultural que nos identifica e, não
obstante a individualidade de cada um, de modo que somos sujeitos a uma prática e inseridos
na epísteme de nosso tempo. Cada época tem sua epísteme e o próprio ser pensante já está
envolvido com a própria história. Contudo, apesar da busca por não sermos anacrônicos ao
estudar, pesquisar ou mesmo transpor o conhecimento da história para nossa sala de aula,
podemos minimizar essa problemática quando temos a consciência dessa limitação, buscando
compreender a epísteme a qual nos sujeitamos e, principalmente, um cuidado para não
incorrermos em nosso trabalho de educador ou historiador da Matemática, como bem coloca
o professor D’Ambrósio (2013, p. 9), aludindo a Freudenthal: “[...] no perigo de se fazer uma
história anedotária [...] notas históricas em livros escolares muitas vezes são pequenas histórias,
isoladas, muitas vezes enganadoras e mais entretenimentos que verdades”.
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Assim, até pouco tempo as referências que tínhamos dessa história se restringiam aos
materiais de Boyer, Eves e Struik que, não obstante ao importante papel em relação à relativa
popularização da história da Matemática, contribuíram em diversos aspectos para a propagação
de uma falsa ideia de que a Matemática seria essencialmente abstrata e teórica, acessível
somente à “gênios”, decorrente de uma abordagem dos “grandes heróis”. Tais autores também
fomentaram o mito de que a Matemática seria um edifício de estrutura dada a priori, cujas
lacunas seriam paulatinamente preenchidas pelos avanços trazidos pelas pesquisas de cada
época ou povo, como argumenta Roque (2012).
Contudo, há de ter cuidado, tendo em vista que a história cultural nos auxilia na compreensão
dos nexos causais, mas não consegue o mesmo quando há deslocamento temporal, pois também
corremos o risco em fazer uma história envolvida de presentísmo, ou whiggismo. Assim, um de
seus papéis da compreensão da história cultural é propiciar a desconstrução do conhecimento
para que seja possível se apropriar do conhecimento e incorporá-lo.
Para tanto, o quadro teórico se situa como um conjunto de ideias que auxiliam na explicação
de um fenômeno. Fenômeno do conhecimento matemático e o histórico estão incorporados e,
neste sentido, nosso atual quadro teórico está parecido como o presente no Renascimento, onde
havia proliferação de tentativas em explicar tal “quadro”. A história das Ciências foi construída
para justificar o conhecimento e propiciar a construção desses saberes em outras perspectivas
para, finalmente, serem amarradas às nossas práticas.
Nosso principal aliado nesse aspecto é o documento – a fonte primária – e, pois diante desse
percebermos o que nos permite perguntar. Somente com a utilização de textos originais há a
possibilidade de se estabelecer devidamente, os nexos conceituais.
Um exemplo de inúmeros equívocos oriundos da falta de confronto com fontes primárias é a
utilização indiscriminada da expressão racionalismo. Não se pode falar do racionalismo de modo
singular, como prática dos modernos, pois existem diferentes “racionalismos”, dependendo, mais
uma vez, da cultura em que o indivíduo está inserido! Assim, existe um padrão de racionalidade
na Matemática que também se originou na Antiguidade grega e, consequentemente, essa
relatividade de concepções é um de nossos desafios, de modo que neste estudo talvez fosse
preferível levar o nome de história “das matemáticas”.
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Unidade: História da Matemática
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da Matemática, onde lhes eram apresentadas e organizadas as unidades de medida, como se
efetuavam cálculos, como funcionava o sistema de numeração e como tudo era colocado em
funcionamento a partir da resolução de problemas, em sua maioria, com finalidade prática.
Em linhas gerais, é importante que você tenha claro que, mesmo entre os antigos, havia divergência
em relação aos métodos que dispunham para executar as operações matemáticas, além do que:
O contexto prático, ligado à administração de bens, foi uma das motivações
para a invenção da Matemática, mas os sistemas de numeração, bem como
as técnicas para realizar operações, se transformaram de acordo com questões
diversas [...] havia motivações técnicas para o desenvolvimento da Matemática
e cuidados com a exposição, a fim de que exprimisse certa regularidade e
generalidade dos procedimentos [...] é justamente por terem organizado suas
práticas de modo sistemático, de forma a possibilitar sua transmissão, que se
pode considerar que os mesopotâmicos e os egípcios criaram uma Matemática,
ou melhor, duas matemáticas (ROQUE, 2012, p. 89-90, grifos nossos).
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Unidade: História da Matemática
Lembre-se que o Cristianismo exigia algumas práticas matemáticas, tais como a oração diária
em comunidades monásticas – que deveriam começar e terminar em momentos específicos.
Com relação à celebração da Páscoa, recorde-se que, ao ocorrer sempre em diferentes dias a
cada ano, tais datas deveriam ser determinadas com antecipação e precisão.
Outra área onde a Matemática e a fé cristã se cruzaram condizia à compreensão de Deus e de
sua criação, ou seja, a numerologia bíblica: os sete dias da criação, os quarenta dias do dilúvio,
as doze tribos de Israel, entre outros números tinham em seus interpretes a inspiração platônica.
Na concepção desses, apesar de a Matemática prescindir de um tipo de raciocínio que era
certo e indiscutível, ao mesmo tempo não dependia crucialmente dos sentidos, dado que era
abstrata, podendo funcionar como um modelo para o conhecimento de entidades espirituais,
como Deus ou a alma.
Um exemplo é o principal expoente do Cristianismo na Antiguidade Tardia, Agostinho de
Hipona, que viria a ser chamado de Santo Agostinho e estabeleceu o programa educativo da
Escola Alexandrina, a qual serviria, séculos mais tarde, como base ao trivium e ao quadrivium,
grupos de disciplinas que constituíam as artes liberais na Idade Média.
Agostinho tinha interesse pela Matemática desde sua juventude, atrelando esse saber a uma
melhor compreensão do conhecimento de Deus. Escreveu também um tratado detalhado sobre
música, com as últimas seções dedicadas a uma distinção entre os diferentes tipos de números
e suas relações do ponto de vista espiritual, recalculando, inclusive, o número de gerações antes
de Cristo, com o propósito de refutar as críticas segundo as quais esse número era diferente
nos diferentes evangelhos. Utilizando os números para elucidar concepções teológicas, Santo
Agostinho sustentou que o entendimento da alma pode começar a partir de um processo
semelhante ao utilizado para a compreensão de objetos matemáticos, contudo, era claro para
Agostinho que o conhecimento de Deus e o saber matemático não eram a mesma coisa. Tal
falta de similaridade repousa sobre uma diferença de objetos e não dessa compreensão. Em
linhas gerais, a numerologia teve um forte componente ético, visto que os números e a ordem
no universo poderiam chamar as pessoas para perto de Deus.
Para citar um exemplo, o autor do panegírico de Constâncio (297-298 d.C.), considerado
o primeiro a implantar a Matemática para fins de retórica, movia-se por especulações
“numerológicas”, que forneciam dispositivos capazes de conectar as ordens cosmológica e
humano-política. A tetrarquia (que correspondia a dois imperadores, cada um com um sucessor
nomeado) refletia o número das estações, dos elementos, das divisões da Terra, mesmo das
estrelas, que considerava “lâmpadas” no céu.
Inúmeros outros exemplos podem ser encontrados pesquisando autores neoplatônicos e
neopitagóricos, pois por muito tempo a numerologia pressupunha a crença na ligação entre a
Matemática e o divino.
Em suma, há elementos que sugerem que a Matemática pode ter sido um dos motivos que
justificam a significação divina da história e do universo em geral. A teoria dos corpos celestes foi
aperfeiçoada entre os helenos após as primeiras observações anteriormente realizadas entre os
bárbaros na Babilônia, o estudo da Geometria teve a sua origem na medição territorial do Egito
e desse cresceu à sua importância atual, enquanto a Aritmética começou com os comerciantes
fenícios e entre os helenos adquiriu um novo aspecto.
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Assim, nosso desafio não é apenas interpretar os textos, ordenar seus conteúdos em um
universo matemático presente e de uma Matemática recém-organizada e governada por novas
classificações, mas principalmente uma correta interpretação da intenção do autor, além da
possibilidade de tornar esse passado minimamente compreensível e significativo para o presente.
Quanto a não neutralidade nas diferentes “histórias” e historiografia da Matemática desde
os antigos, é importante lembrar que o uso do passado, no sentido de escrever uma história
da Matemática não apenas era neutro, como havia conflitos entre mais de uma pessoa (não
neutra) na tentativa de reconstrução desse mesmo passado. Face às inúmeras alternativas de
reconstrução desse passado matemático, lembramos o trabalho de Proclus, cuja obra repousa em
comentários sobre o pensamento platônico, com destaque à Astronomia e comentários relativos
ao primeiro livro dos Elementos, de Euclides, fonte essencial sobre a história da Matemática
grega, mas no século V a.C.
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Unidade: História da Matemática
Por outro lado, poderíamos questionar: Houve erro na transmissão dessa história em função
da falta de neutralidade?
Não é correto dizer que sim, tendo em vista que não haveria como ser neutro! Tais histórias
são um aviso de que nenhuma história, nem mesmo a da Matemática, pode ser totalmente
imparcial, até porque as práticas matemáticas na Antiguidade, como em provavelmente qualquer
outro momento, foram extremamente complexas, com diversas camadas e, ocasionalmente,
desconcertantes.
Distinguir entre o que é e não é “real” na Matemática é uma escolha que os historiadores
devem fazer, de modo que, dentre outras questões, isto também implica reduzir em alguns
tópicos descobertas e insights de matemáticos. Aliado a isso, há a escassez de fontes que
permitiriam unir as diferentes práticas matemáticas na Antiguidade, forçando-nos a optar pela
presença de inúmeras manifestações matemáticas, como destaca Roque (2012). Além desse
panorama, lembre-se sempre que falar sobre o pensamento de pessoas com distanciamento
temporal de aproximadamente dois mil anos somente nos capacita a um “apaixonar” por essa
história, como bem coloca Cuomo (2001), situando-nos, se assim conseguirmos, nos limites
desse território, mas nunca no território em si! Em síntese, estamos aqui e agora.
1 Primeiro período (“do século XII”, na realidade) – entusiasmo por Euclides e o Almagesto,
terminando quando Aristóteles se torna a referência;
2 Segundo período (“o século XIII”) – assimilação de Aristóteles;
3 Terceiro período (“século XIV”) – apresenta uma riqueza de criatividade, desenvolvimentos
da Filosofia aristotélica, incluindo evoluções matemáticas;
4 Quarto período (“início da Renascença” até meados do século XVI) – Matemática e
Filosofia formalizadas vivem em grande parte separadamente;
5 Quinto período – a fundação fora definida, pelo menos não por desenvolvimentos
relacionados com a Matemática para a criação de novas filosofias do século XVII.
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Realize um estudo paralelo em relação a esses períodos, entendendo tal investigação
alternativa como novas possibilidades de pesquisa!
Como coloca Roque (2012, p. 288), os desenvolvimentos intelectual e cultural desde a Alta
Idade Média não podem ser creditados somente ao surgimento das universidades. Assim, a
expansão do capitalismo em função do avanço da comercialização e consequente crescimento
da burguesia contribuiu para a ascensão do Humanismo, movimento que se mostraria mais
forte na Itália e posteriormente se difundiria para outras regiões da Europa.
A região de Veneza, em particular, mostrou-se o principal caminho de acesso ao comércio
que se intensificava via mar adriático entre orientais e ocidentais. Importante lembrar que
os textos de Aristóteles tiveram grande receptividade, exercendo significativa influência na
formação filosófica dos árabes, sendo que parte considerável desses escritos foi traduzida ao
longo da Idade média. Com isso, a formação da universidade na Europa medieval também foi
profundamente influenciada pelo pensamento árabe, sendo a Universidade de Bologna uma
referência em relação à herança desse pensamento.
No final da Idade Média o pensamento aristotélico e o avivamento econômico da Europa
produziram condições para que o Humanismo, movimento formado em sua maioria por
autodidatas que trabalhavam fora das universidades, ganhasse força. Importante lembrar que
a redescoberta de textos gregos antigos e suas traduções se acentuaram em meados do século
XIV, como também a invenção da imprensa contribuiu à difusão de tais trabalhos, permitindo
uma disseminação mais rápida dessas ideias, notadamente, por parte desses humanistas.
Florença e Roma podem ser consideradas centros de referência no período e grande parte da
Matemática nesse momento recebeu influência desse movimento, posteriormente chamado de
renascentista (ROQUE, 2012, p. 290). Um dos personagens mais relacionados com o espírito
humanista foi Leonardo Da Vinci, estudioso das artes e das técnicas que se tornou sinônimo
de genialidade e que, além de personificar o período, simboliza o homem que transcende seu
próprio tempo.
Em certa medida, especula-se que, não obstante ao florescimento artístico, o período do
Renascimento geralmente é visto como um momento de estagnação nas Ciências. Radicalismos
são perniciosos, na realidade, na Europa ocidental, onde se iniciou uma apropriação dos
trabalhos mecânicos de Arquimedes por intermédio de teóricos que, já há alguns séculos e
em função das transformações econômicas e sociais, viam-se forçados a aproximar a prática
à atividade intelectual. Niccolò Tartaglia (1499-1557) representa um desses estudiosos,
responsável não somente pela difusão das obras de grandes cientistas clássicos, como também
exercendo a condição de editor das obras de Arquimedes, já em vernáculo (BENJAMIN,
2007, p. 2478-2479).
As contribuições de Tartaglia à arte da guerra e os problemas de artilharia que formulou
despertaram interesse generalizado e duradouro, além de sua demonstrada competência em
álgebra matemática. Segundo o historiador Pietro Riccardi (apud BENJAMIN, 2007, p. 2479),
Tartaglia seria responsável pelos “[...] maiores avanços na Geometria prática da primeira metade
do século XVI”.
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Unidade: História da Matemática
Além disso, nesse período os tratados já estavam nas universidades, assim como os diálogos
entre acadêmicos e “iletrados”, com a valorização do antigo conhecimento que, até então, era
relativamente desprezado. Nessa ocasião surgiram as guildas, que eram grupos de transmissão
de saberes relacionados ao processo de renascimento comercial e urbano. Com esse cenário, o
objeto matemático foi remodelado e as questões ligadas à precisão e à previsão contribuíram
para que a Matemática se estabelecesse.
O Humanismo também trouxe à tona a concepção do homem como centro do conhecimento,
sendo comum a associação desse movimento ao Renascimento, ao desenvolvimento da razão
e à procura por uma explicação do mundo que se contrapusesse à Escolástica, permitindo o
desenvolvimento desse espírito por intermédio das observações experimental e racional.
Com relação à visão do cosmos, o modelo heliocêntrico proposto por Nicolau Copérnico
(1473-1543) só veio a ser significativo no final do século XVI e a importância atribuída ao
estudioso ao longo do Renascimento refere-se principalmente à defesa pela autonomia dos
modelos matemáticos como forma de salvaguardar as aparências dos fenômenos (ROQUE,
2012, p. 294), até porque a preocupação dos pensadores no período não se fundamentava em
descobrir as causas desses fenômenos, mas compreender como se davam. Tal compreensão
está estreitamente relacionada à preocupação com a quantificação e medição e, nesse sentido, a
importância e aprimoramento das técnicas tiveram lugar de destaque nessa transição.
Importante lembrar que a Geometria, a Astrologia, a Astronomia e a Medicina estavam
atreladas e especificamente no século XVI havia grande preocupação com a possibilidade da
ocorrência do final do mundo – Webster (1993, p. 56-58) lembra que a passagem do cometa
Halley em 12 de agosto de 1531 suscitou o interesse e o estudo pelas profecias, em especial,
as de Daniel. Tal expectativa foi fundamental para o direcionamento de estudos e modos de
percepção, além da busca pela compreensão da natureza e seus fenômenos.
Desde o século passado o período renascentista tem suscitado divergência de opiniões
quanto ao status de ser considerado o interlúdio entre as trevas e a luz, gerando controvérsias
entre estudiosos e historiadores, principalmente historiadores da Ciência, sobretudo, no que diz
respeito ao seu legado e reais implicações de sua representatividade.
Com relação à Matemática, inúmeras foram as releituras da Geometria baseada em Euclides,
além de outras Geometrias práticas e da Aritmética. Importante destacar o início da introdução
do movimento à Geometria. A popularização da forma impressa democratizou, em certa
medida, o aprendizado, permitindo a propagação mais rápida de novas ideias, dentre as quais
a Álgebra, já introduzida na Europa por Fibonacci no século XIII, conhecimento esse herdado
dos árabes, principalmente.
Ainda na primeira metade do século passado, até mesmo Sarton, historiador positivista, destacava
a importância do legado oriental à história das Ciências, não creditando ao período renascentista,
de maneira simplista, o status de mero revitalizador do antigo pensamento greco-romano.
De fato, a obra de Luca Pacioli (1445-1517), intitulada Summa de Arithmetica, Geometria,
Proportioni et Proportionalitá, de 1494, viria a ser considerada a primeira enciclopédia
matemática do Renascimento, consistindo em uma coletânea de conhecimentos de Aritmética,
Geometria, Proporção e Proporcionalidade, incluindo O Liber Abaci de Fibonacci, a Álgebra de
Al-Khowarizmi, além de escritos de Euclides e Ptolomeu (ROSE, 1975, p. 143-144). A principal
contribuição de Pacioli foi a de configurar um quadro para os grandes avanços na Álgebra que
tiveram lugar ao longo do século seguinte (ROSE, 1975, p. 145).
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A universidade de Bolonha, considerada um dos mais importantes centros de Matemática no
Renascimento italiano tinha em sua cátedra o professor Scipione dal Ferro (1465-1526) que,
embora não tenha publicado sua descoberta da solução de equações cúbicas, Cardano – cuja
publicação gerou controvérsias e foi motivo de insultos por parte de Tartaglia, diretamente
envolvido na situação –, Ludovico Ferrari (1522-1565) e Rafael Bombelli (1526-1572) o fizeram
após sua morte (ROSE, 1975, p. 145). Girolamo Cardano (1501-1576) é uma personalidade
renascentista que, em certa medida, personifica o homem do referido período. Contudo,
importante lembrar um importante aspecto da cultura renascentista, onde se misturavam os
saberes erudito escolástico e uma literatura mista, científica e tecnológica, baseada na experiência
dos artesãos, dos práticos e dos viajantes (ROQUE, 2012, p. 296). Talvez esse ponto seja o que
torna esse período um marco.
Alexandre Koyré (2001) sugere que o Renascimento representa uma “[...] época da mais grosseira
e mais profunda superstição, da época em que a crença na magia e na feitiçaria se expandiu de
modo prodigioso [...]”. Já Gaston Bachelard (1948, p. 97), em sua Historia de la Ciência y nuevo
Humanismo, coloca que: “Después del siglo XVI, cuando la Ciência se desenredo finalmente de
la teologia, los distingos entre Ciência judia, cristiana y muçulmana perdieron su razón de ser,
pero conservaron su valor histórico”, desconsiderando que a maioria dos modernos tinham ainda
concepções enraizadas da Ciência, visões estreitamente vinculadas à teologia e às práticas religiosas
Assim, não constitui tarefa fácil um desatrelar de tais concepções em um trabalho de história
das Ciências. A narrativa dos grandes heróis, por exemplo, é uma história do século XIX, pois
foi nesse momento que construíram a identidade do país. Apenas depois da Segunda Guerra
Mundial isso mudou!
Resumir a história da Matemática desde a Idade Moderna até os dias atuais foge ao objetivo
desta Unidade, que reside na tentativa de introduzir algumas referências atuais e lhe remeter a
uma reflexão sobre alguns pontos significativos dessa história.
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Unidade: História da Matemática
Em relação aos últimos séculos, somente um dos debates, estabelecido entre os séculos XVII
e XVIIII e com particular foco ao estudo da análise matemática – funções e cálculo – é objeto
de atenção desse período, favorecendo o surgimento de um olhar crítico, no que diz respeito ao
como essa trajetória foi transmitida e atualmente é contada, com o intuído de desmistifica-la,
como assinala Roque (2012).
Tradicionalmente, temos uma visão da história da Matemática de forma linearizada. Funções
e Cálculo dados de forma retrospectiva, esquematizadas, e aprimorados em suas técnicas.
Contudo, os conteúdos matemáticos não são organizados de modo cronológico e temos a
visão estereotipada de que o formalismo somente viria a ocorrer no século XIX, tanto que os
matemáticos do século XVIII já consideravam suas definições rigorosas, no contexto daquela
época.
Assim, não há um padrão único: a “exatidão” dos procedimentos empregados sempre são
passíveis a redefinições. Um exemplo é a Geometria redefinida por Descartes – das construções
geométricas versus técnicas algébricas – e como tais redefinições causaram impactos, tendo em
vista permitirem o desenvolvimento das novas descobertas, não se importando tanto com os
critérios de demonstração.
O contexto que motivou a definição e as redefinições da noção de função, por exemplo,
está diretamente atrelado à história da Análise ou do Cálculo infinitesimal, que desempenhou
papel central no período. De modo que há uma transição do momento de natureza geométrica
– representado por Fermat, Pascal, entre outros – para o estágio analítico ou algébrico – com os
expoentes Euler e Lagrange – e é nesse interlúdio que se estabelece, assim, uma nova arquitetura
à análise matemática.
Especificamente no período iluminista francês, a Matemática, que até então ocupava um lugar
marginal, tornou-se objeto de maior interesse, pois em paralelo se operava uma reestruturação
do sistema de ensino e do papel da Ciência, essa promovendo a primazia da Matemática e
Química. Nesse momento, ao procurar fundar o cálculo em bases mais sólidas e esclarecer seus
conceitos fundamentais, inúmeros matemáticos do século XVIII se motivaram pela busca e rigor.
Diante dessa nova arquitetura para a análise matemática, houve uma crítica à “generalidade
da Álgebra” e uma mudança nos papéis da Física e da Matemática, uma vez que o tipo
estabelecido de investigação abria mão do porquê para investigar somente como os fenômenos
acontecem. Segundo Koyré (2001), ocorreu uma “reconciliação com o inexplicável”, de modo
que, sob diversos aspectos, esse foi o prelúdio da constituição da “Matemática pura”, que adveio
já no século XIX.
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Material Complementar
História da Matemática
Em linguagem objetiva e com ilustrações, este livro apresenta um
olhar crítico sobre o modo como a história
da matemática tem sido contada ao longo dos tempos. Para tanto,
aborda os sistemas matemáticos desenvolvidos
desde a Mesopotâmia até o século XIX – passando pelo Egito antigo,
a Grécia clássica, a Idade Média, a chamada Revolução Científica
e os debates do século XVIII. Nessa ousada empreitada, um dos
objetivos principais de Tatiana Roque é acabar com a falsa ideia de
que a matemática seria essencialmente abstrata e teórica, acessível
apenas a gênios. Outro importante mito aqui questionado é o de
que essa disciplina seria um edifício de estrutura dada a priori, cujas
lacunas seriam paulatinamente preenchidas pelos avanços trazidos
pelas pesquisas de cada época ou povo. A autora mostra, porém, que diferentes práticas
matemáticas coexistiram desde sempre, dando soluções diversas para problemas semelhantes.
E que tal concepção põe em xeque não apenas a crença de que a matemática é universal
como também a tradicional visão de que a matemática grega seria superior à de outros povos,
como os árabes. Fascinante viagem pelo pensamento matemático que leva em conta os fatores
culturais e sociais de cada período histórico analisado, além dos científicos, esta História da
matemática é essencial para professores. E interessa também a todos os que sempre quiseram
ler sobre o tema mas o consideravam árido ou distante demais da vida cotidiana.
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Unidade: História da Matemática
There are also segments on historiographical issues – such as the nature of the evidence
on early Greek mathematics, or the problem of the authentic text of the Elements – as well as
individual sections on ancient mathematicians from Plato and Aristotle to Pappus and Eutocius.
Fully illustrated with plates, drawings and diagrams, and with an extensive bibliography, Ancient
Mathematics will be a valuable reference tool for non-specialists, as well as essential reading for
those studying the history of science.
S. Cuomo is a lecturer at the Centre for the History of Science, Technology and Medicine,
Imperial College, London. She is the author of a book on Pappus, and of articles on Hero
and Frontinus.
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Referências
________, Rosa L.S., TEIXEIRA, Marcos V., NOBRE, Sérgio R. A investigação científica
em História da Matemática e suas realções com o Programa de Pós-Graduação
em Educação Matemática., In: BICUDO, Maria Aparecida Viggiani (org.) Pesquisa em
movimento: Educação Matemática. São Paulo : Editora ABDR, pp. 164-185, 2004.
BOYER, C. R., História da Matemática, trad. E. F. Gomide. São Paulo, Edgard Blucher, 1974.
_______. History of Analytic Geometry, New York, Scripta Mathematica, 1956, p. 177-9.
21
Unidade: História da Matemática
*CUOMO, Serafina. Ancient Mathematics, Routle Edge, London, New York, 2001.
IFRAH, Georges. História Universal dos Algarismos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997
HOYRUP, Jens. In Measure, Number, and Weight: Studies in Mathematics and Culture.
New York: State University of New York Press, 1994. (Capítulo 5: Philosophy: Accident,
Epiphenomenon, or Contributory Cause of the Changing Trends of Mathematics – A Sketch of
the Development from the Twelfth Through the Sixteenth Century, p. 123-171)
KUHN, T. S. A estrutura das revoluções científicas, 5. Ed. São Paulo, Perspectiva, 1997
22
_______.Três Estudos sobre História e Educação Matemática. Tese (Doutorado em
Educação Matemática) – Universidade Estadual de Campinas - 1993: disponível: [Link]
[Link]/document/?code=vtls000069861; acesso em 23.08.2008
_______. História Concisa das Matemáticas, Trad. J.C.S. Guerreiro, 2. Ed., Lisboa, Ciência
Aberta, Gradiva, 1992.
*_______. “Por que estudar História da Matemática ?” trad. Célia Regina [Link]
e Ubiratan D’Ambrosio, História da Técnica e da Tecnologia, org. Ruy Gama, T.A. Queiroz,
Editor/EDITORA da USP, São Paulo, 1985, p. 191-215.
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Unidade: História da Matemática
Uma das obras clássicas a tratar o assunto é Como se escreve a história, de Paul Veyne. O
francês, especialista em Império Romano, escrevera a obra em meados de 1968, e até nossos
dias ela se mostra uma obra certeira no que concerne a suscitar discussões.
Nesse livro, Veyne não se propõe a tratar assuntos comuns aos historiadores como a nouvelle
histoire ou o positivismo. Nele, o autor imerge mais profundamente no tema, esmiuçando-o.
Dividindo o livro em três partes, Veyne separa “O objeto de estudo”, “A compreensão” e
“O progresso da história”. Discorre, inicialmente, sobre a história como narrativa verídica,
discutindo sobre eventos humanos ou não, e as armadilhas da hierarquização da história. Esta
hierarquização – mas não apenas ela – causa lacunas, que são características da história em si;
noção por vezes incoerente, nem sempre factual e sem dimensões absolutas, como os próprios
subtítulos do capítulo 2, “Tudo é histórico, logo, a história não existe”.
Durante boa parte do livro, o autor se propõe a um extenso debate sobre a discussão
“História é ou não é uma ciência”. Expondo seus argumentos, Veyne discorda que a história
seja, de fato, uma ciência, pela ausência de leis; critica o empirismo lógico e afirma que a
história nunca será científica. Entre outras discussões, classifica o termo sociologia como uma
concepção demasiadamente estreita da história. Não critica o sociólogo em questão, mas afirma
que a sociologia ou é uma filosofia política, uma história das civilizações contemporâneas ou um
gênero literário atrativo. Paul Veyne trata desse assunto no item As três sociologias.
Aproximadamente dez anos depois de escrever a obra em questão, Veyne escreveu um ensaio
chamado Foucault revoluciona a história. O ensaio é anexado ao livro; porém, sua linguagem é
deveras intrincada, sendo recomendada apenas a leitores mais experientes.
Com exceção desse apêndice a respeito de Michel Foucault, a obra de Veyne poderia ser lida
tranquilamente por qualquer entusiasta da história. É uma obra ideal para se iniciar qualquer
debate a respeito de historiografia e cuja leitura é de suma importância para qualquer historiador,
ainda que possa causar discordâncias.
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Relacionamos abaixo algumas dessas revistas científicas, com suas respectivas instituições:
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Unidade: História da Matemática
Anotações
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