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Serviço Social no Judiciário Paulista

Este documento resume a tese de doutorado de Silvia Alapanian Colmán sobre a formação do serviço social no Poder Judiciário do Estado de São Paulo entre 1948 e 1988. A autora analisa como os assistentes sociais desenvolveram uma modalidade peculiar de intervenção para atender às demandas judiciais, transitando entre a ação executiva e a ação judicante. O estudo se baseia em depoimentos e documentação para compreender como as demandas da instituição influenciaram a prática profissional ao longo de quarenta anos.
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Serviço Social no Judiciário Paulista

Este documento resume a tese de doutorado de Silvia Alapanian Colmán sobre a formação do serviço social no Poder Judiciário do Estado de São Paulo entre 1948 e 1988. A autora analisa como os assistentes sociais desenvolveram uma modalidade peculiar de intervenção para atender às demandas judiciais, transitando entre a ação executiva e a ação judicante. O estudo se baseia em depoimentos e documentação para compreender como as demandas da instituição influenciaram a prática profissional ao longo de quarenta anos.
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SILVIA ALAPANIAN COLMÁN

A FORMAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL


NO PODER JUDICIÁRIO
Reflexões sobre o Direito, o Poder Judiciário e a intervenção do
Serviço Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
1948 - 1988

Doutorado em Serviço Social

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

2004
SILVIA ALAPANIAN COLMÁN

A FORMAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL


NO PODER JUDICIÁRIO
Reflexões sobre o Direito, o Poder Judiciário e a intervenção do
Serviço Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
1948 - 1988

Tese apresentada à Banca Examinadora


da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em Serviço
Social sob a orientação da Profª Doutora
Myrian Veras Baptista.

Doutorado em Serviço Social

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

2004
2
Agradecimentos

Conhecer, descobrir, entender o mundo, é uma das maiores fontes de


prazer do ser humano, por isso quero agradecer aos que colaboraram para que
este trabalho se realizasse, pelos momentos de puro prazer que me propiciaram
no processo de elaboração desta pesquisa.

Primeiramente àqueles que, do interior das universidades e das agências


de fomento, ainda acreditam e lutam para que os professores se capacitem em
condições mínimas adequadas. Aos colegas do Departamento de Serviço Social
e ao pessoal da Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade
Estadual de Londrina, onde leciono, e ainda, a Capes, por subsidiar esta
pesquisa.

Ao Professor Paulo Alves, pela leitura e sugestões, ao Professor Gaziri


pela “força” e aos demais colegas da Associação dos Docentes da UEL - ADUEL.

Aos mestres da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a quem


devo toda a minha formação acadêmica, em especial ao corpo de professores e
funcionários do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social.

Aos colegas do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo com os quais


compartilhei os percalços na construção das propostas de intervenção
profissional, em especial àqueles que, hoje, estão vinculados à Associação dos
Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo –
AASPTJ, pela colaboração.

Agradeço ainda aos colegas do Núcleo de Estudos sobre a Criança e o


Adolescente – NCA, da PUC/SP, espaço privilegiado de debates e onde o corpo
técnico do Tribunal de Justiça e demais pesquisadores encontram guarida para
discutir a intervenção profissional. Um agradecimento específico a Eunice
Teresinha Fávero, colega que me precedeu no estudo deste tema e que muito
colaborou dando sugestões, indicando caminhos e cedendo material.

3
Fica aqui registrado um agradecimento especial aos profissionais
entrevistados: Beatriz Cardoso Esteves Franco, João Batista Adduci, Suraia
Daher e Therezinha Zabirowski Davidovich, pela disponibilidade, interesse,
envolvimento e, como representantes de uma geração de profissionais, por tudo o
que fizeram pela nossa profissão.

Agradeço à Professora Drª. Myrian Veras Baptista, pelo exemplo de


profissional, mestre e pesquisadora. Pela serenidade e seriedade mantidas
mesmo nos momentos difíceis pelos quais passou. Desejo, de coração, que
muitos outros como eu, possam gozar do privilégio de tê-la como orientadora.

Agradeço ao Evaristo pelos anos a fio de interlocução, pela amizade, apoio


irrestrito, leitura atenta e sugestões feitas. E ao meu filho, Emilio, um cavalheiro,
cedendo espaços de sua adolescência, limitando movimentos para propiciar
condições para o meu trabalho, e se preocupando junto comigo.

4
Resumo

Por mais de cinqüenta anos os assistentes sociais têm atuado no interior


do Poder Judiciário paulista como colaboradores dos juízes em sua tarefa de
aplicar as leis, adequando-as a cada situação apresentada como litígio entre
partes, prioritariamente nas áreas de infância e juventude e de família e
sucessões.
Ao longo desses anos, o Serviço Social desenvolveu nessa organização
uma modalidade peculiar de intervenção profissional que transita entre a ação
executiva, própria de sua natureza e a ação judicante, constituindo-se em um
modelo de intervenção para quase todos os tribunais de justiça estaduais.
O objeto deste estudo é justamente a formação do Serviço Social no Poder
Judiciário. Pretendemos identificar os principais movimentos realizados pelos
profissionais para responder às demandas postas pela organização judiciária e
identificar como se deu a formatação dessa modalidade peculiar de intervenção
profissional. A proposição foi encontrar, no movimento histórico, as mediações
para compreender como as demandas de uma instituição, no caso o Judiciário,
determinaram a forma de exercício da profissão.
A pesquisa compreende o período que vai de 1948 a 1988, os primeiros
quarenta anos de inserção da profissão no Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, órgão executor da justiça comum estadual paulista onde se deu a
construção da primeira e mais importante experiência de inserção profissional do
Serviço Social no Judiciário brasileiro. Foi realizada tendo por base os
depoimentos de alguns sujeitos significativos que discorreram sobre a sua
trajetória profissional, além do estudo da bibliografia existente sobre o tema e da
documentação disponível.
O referencial teórico construído discute o Direito e o Poder Judiciário em
sua importância para o Estado democrático de Direito e os limites para a
realização da justiça social na sociedade capitalista em crise, buscando dar
sustentação à análise dos movimentos realizados pela profissão como resposta
às principais demandas colocadas pela organização judiciária.

5
Abstract

During more than fifty years, social workers have acted inside the judiciary
of São Paulo State as collaborators of the judges in their task of applying the laws,
adjusting them to each situation presented by litigant sides, prioritizing the area of
childhood and adolescence and the area of family and succession.

During those years, the Social Work developed, inside the judiciary, a
particular mode of professional intervention, extending itself from the executive
actions proper of its nature to adjudicating actions, which constituted a model of
intervention for most State Courts of Law.

The subject of this study is precisely the formation of the Social Work inside
the Judiciary Power. We intend to identify the main movements made by social
workers to satisfy the demands posed by the judiciary organization, and to identify
how this particular mode of professional intervention took its form. We proposed to
find, in the historical movement, the mediations made, so as to understand how
the demands of one institution, in this case the judiciary, determined the form of
professional action.

The study covers the period from 1948 to 1988, the first forty years of
insertion of the social work professionals in the Courts of Law of São Paulo State,
which is the executive organ of common law, and where happened the
construction of the first and most important experiment of professional insertion of
the Social Work into the Brasilian Judiciary. The study was based on testimonies
of some significant subjects, who spoke about their professional paths, and on
extant documents and references.

The theoretical framework constructed discusses the Rights and the


Judiciary Power in their importance for the Democratic State, and the limits for the
realization of social justice in a capitalistic society in crisis, attempting to give
support to the analysis of the movements made by the profession to fulfill the main
demands posed by the judiciary organization.

6
Resumen

Hace mas de cincuenta años los asistentes sociales trabajan en el Poder


Judicial del Estado de São Paulo como colaboradores de los jueces en su tarea
de aplicar las leyes, adecuándolas a la circunstancia de litigios entre partes,
principalmente en las áreas de infancia y juventud y de familia y sucesiones.
Durante todos esos años, el Servicio Social desarrolló en esa organización
una modalidad peculiar de intervención profesional que transita desde la acción
ejecutiva, propia de su naturaleza, hasta la acción judicante, constituyéndose en
un modelo de intervención para casi todos tribunales de justicia estaduales.
El objeto de este estudio es precisamente el de reconstruir la formación del
Servicio Social en el Poder Judicial. Pretendemos identificar los principales
movimientos realizados por los profesionales para responder a las demandas
planteadas por la organización judicial y mostrar como se conformó esta
modalidad peculiar de intervención profesional.
Nos propusimos localizar en el movimiento histórico las mediaciones que
nos permitan comprender como las demandas de una institución - el Poder
Judicial en este caso- determinan la forma del ejercicio profesional.
La investigación abarca el periodo que va de 1948 a 1988, los primeros
cuarenta años de inserción de la profesión en le Tribunal de Justicia del Estado de
São Paulo, órgano ejecutor de la justicia común estadual paulista, donde se
constituyó la primera y más importante experiencia de afirmación profesional del
Servicio Social en el Poder Judicial brasileño. Fue realizada a partir de
testimonios de sujetos significativos que se explayaron sobre su trayectoria
profesional, además del estudio de la literatura existente sobre el tema y de la
documentación disponible.
El referencial teórico construido versa sobre el Derecho y el Poder Judicial,
su importancia para el estado democrático de derecho y los limites para realizar
justicia social en una sociedad capitalista en crisis, buscando dar soporte al
análisis de los movimientos realizados por la profesión como respuesta a las
principales demandas planteadas por la organización judicial.

7
Sumário

INTRODUÇÃO 11

CAPÍTULO I – O DIREITO, A SOCIEDADE E A IDÉIA DE JUSTIÇA 30


SOCIAL
1.1. O Direito como pilar do liberalismo 30

1.1.1 A interdependência entre Direito e Estado 30

1.1.2 O Estado de Direito 38

1.1.3. Dos direitos individuais aos direitos humanos 43

1.2. A crítica marxista do Direito 49

1.2.1. Apontamentos de Marx e Engels sobre o Direito 49

1.2.2. O Direito proletário ou o fim do Direito 55

1.2.3. A construção da teoria geral do Direito em Pachukanis 61

1.3. A sociedade justa 75

1.3.1. Tomás de Aquino e a recuperação do conceito de justiça 75


econômica
1.3.2. Os limites da justiça econômica no marco do capitalismo 84
de monopólios
1.3.3. O Serviço Social e a justiça social 90

CAPÍTULO II – A FORMAÇÃO DO JUDICIÁRIO NO BRASIL E A 103


JUSTIÇA ASSISTENCIAL
2.1. A função social do Judiciário 103

2.1.1. A constituição do Judiciário em poder de Estado 103

2.1.2. A crise do Judiciário ou o Judiciário da crise 114

2.1.3. A busca pela superação da “crise do Poder Judiciário” 122

2.2. O Poder Judiciário no Brasil 132

2.2.1. A formação da consciência e das instituições jurídicas no 132


Brasil

8
2.2.2. A organização do Poder Judiciário a partir da República 148

2.2.3. A justiça de menores: construção de uma justiça 162


assistencial
CAPÍTULO III – A ENTRADA DO SERVIÇO SOCIAL NO PODER 183
JUDICIÁRIO
3.1. A proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de 183
Menores
3.1.1. O Juizado de Menores durante a era Vargas 183

3.1.2. As primeiras inter-relações com o Serviço Social 192

3.1.3. O período democrático e a retomada do protagonismo do 200


Juizado de Menores
3.2. A consolidação do Serviço Social no Poder Judiciário 210

3.2.1. O Serviço de Colocação Familiar 210

3.2.2. As alterações na conjuntura política e a reviravolta na 219


condução do Juizado de Menores
3.2.3. A ampliação das atividades do Juizado de Menores e o 231
Serviço Social
CAPÍTULO IV – O DESENVOLVIMENTO DE UMA PECULIAR FORMA 249
DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL
4.1. A conjuntura política, o papel do Juizado de Menores e o 249
Serviço Social
4.1.1. Os tempos áureos do Juizado de Menores 249

4.1.2. Os primeiros entraves da estrutura montada 261

4.1.3. O regime militar e a Política Nacional do Bem-Estar do 273


Menor
4.2. O juizado judicante: o desmonte da máquina assistencial e a 287
construção da função de perito para o Serviço Social
4.2.1. Crise e expurgos no interior do Juizado de Menores 287

4.2.2. A reestruturação do Juizado de Menores e a construção 301


da função de perito
4.2.3. A descentralização das Varas de Menores e a expansão 315
do Serviço Social

9
CONCLUSÃO 330
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 344
OUTRAS FONTES 351

10
INTRODUÇÃO

O tema deste estudo é a modalidade de ação profissional que o Serviço

Social desenvolveu no interior do Poder Judiciário, sua relação com a função do

Judiciário enquanto um poder de Estado e com o próprio Direito, instrumento da

ação judiciária.

Para ilustrar a relação da profissão com o Judiciário, começaremos por

relatar uma situação bastante comum para os profissionais dessa área.

Queremos com isso chamar a atenção para a importância da reflexão sobre essa

modalidade de intervenção profissional do Serviço Social.

O cenário em que se desenrola a situação é uma das dependências do

Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, um pequeno auditório, onde alguns

profissionais se reuniram em um evento para discutir os problemas gerados por

uma série de crimes hediondos ocorridos recentemente, envolvendo adolescentes

como vítimas e como agressores, crimes que mobilizaram a opinião pública e

estavam exigindo um posicionamento do Judiciário1.

Coordenando os trabalhos estavam membros de uma das equipes técnicas

das Varas da Infância e Juventude da capital, formada por assistentes sociais e

psicólogos. Na mesa, juizes e promotores solicitavam dos debatedores e da

seleta platéia, - formada por outros juízes, mais promotores e vários profissionais

que atuam na área, entre os quais médicos, assistentes sociais, psicólogos,

pedagogos e sociólogos -, que se discutisse que encaminhamentos deveriam ser

1
O evento que inspirou esta ilustração intitulava-se “Saúde mental e justiça – controvérsias e impasses nos
diagnósticos de personalidade anti-social e similares”e realizou-se em 05 de dezembro de 2003 no Auditório
do Fórum das Varas Especiais da Infância e Juventude da capital, reservamo-nos o direito de apresentar aqui
uma visão bastante particular do ocorrido.
11
dados aos envolvidos naqueles casos de violência extrema que estavam se

tornando cada vez mais comuns.

Aos apelos iniciais da mesa seguiram-se as falas dos expositores que

abordaram as principais questões sobre o tema a partir de seus respectivos

enfoques profissionais. Alguns profissionais, representando autoridades, falaram

sobre o que estava sendo feito na esfera do Poder Executivo: quais programas de

atendimento estavam em andamento. Um desses profissionais, mais lúcido, fez

alusão a tudo que ainda estava por ser feito na área, que se sabia necessário

fazer para um enfrentamento minimamente sério da questão.

Na seqüência foi aberto o debate com a platéia que estava ávida para se

posicionar, e o fez através de questionamentos e ponderações sobre o tema. O

debate durou mais de três horas, dando origem a acaloradas discussões sobre a

realidade social e sobre as várias correntes explicativas da questão da violência.

Diante do prolongamento das discussões, os representantes do Judiciário

presentes começaram a demonstrar certa impaciência com as dificuldades em

chegar a um denominador comum sobre o que fazer nos casos específicos.

Porém, alguns profissionais lembraram-lhes que os problemas tratados ali eram

de difícil solução e que provavelmente precisassem de mais tempo para discutir e

encontrar saídas.

Foi então que um promotor de justiça levantou-se da plenária, tomou a

palavra e disse que compartilhava de todas as análises feitas ali,

complementando-as inclusive, numa demonstração de grande domínio das

teorias sociológicas e psicológicas que perpassam toda a problemática da

violência na sociedade de classes. Mas fez questão de ressaltar que não se


12
dispunha de muito tempo para discussões: os fatos já haviam ocorrido e aos

juízes e promotores cabia avaliar a situação e dar um encaminhamento concreto

para cada um dos casos. Quase num apelo, solicitou uma sugestão viável,

mesmo sabendo de antemão que se tratava de problema complexo e de difícil

solução.

A mesa retomou a palavra e pediu aos presentes, com especial atenção

aos profissionais como os assistentes sociais, os psicólogos e os médicos, que

sugerissem ao Judiciário o que fazer diante daqueles casos, pois aos juízes cabe

tomar decisões diante dos conflitos estabelecidos, e essas decisões já estavam

sendo tomadas. Não havia omissão por parte deles, sabiam que sobre o

Judiciário, e sobre cada um dos seus membros, recairia a responsabilidade por

qualquer conseqüência das decisões tomadas, mas pediam sugestões sobre a

melhor forma, a menos danosa, a possível, diante da realidade. E um dos

membros da mesa, um juiz, concluiu usando as palavras que reproduzimos aqui

aproximadamente: se vocês não souberem o que fazer, quem saberá?

Este comentário - quase um apelo – reflete sinteticamente as relações

entre o Serviço Social e o Poder Judiciário. Os assistentes sociais atuam no

interior do Judiciário prioritariamente como integrantes das equipes técnicas das

Varas de Infância e Juventude e de Família e Sucessões, fornecendo subsídios

aos juízes, assessorando-os na tomada de decisões e realizando outras tarefas

que auxiliam a aplicação da justiça2.

2
No caso específico do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo existem hoje diversas experiências e
propostas de intervenção do Serviço Social em outras áreas da ação judicante como as cíveis, as criminais e
os juizados especiais. Além disto, o espectro de intervenção dos assistentes sociais já extrapolou esse
universo judicante: há mais de vinte anos existem profissionais atuando em recursos humanos, junto aos
13
Atualmente todas as Varas de Infância e Juventude do Estado de São

Paulo, da capital e do interior, possuem uma equipe técnica formada por pelo

menos um assistente social3. Os profissionais atuam no atendimento ao público

que acorre aos fóruns solicitando algum tipo de intervenção da justiça nessa área,

elaborando estudos sociais e emitindo pareceres através de laudos periciais por

solicitação judicial. Também faz parte das atribuições profissionais a realização de

tarefas afins como o auxílio na fiscalização das entidades de atendimento, a

elaboração do cadastro de interessados em adoção, a seleção e treinamento do

comissariado da infância e juventude, o acompanhamento de casos, entre outras.

Como uma profissão que se tornou necessária para o andamento das

ações que correm na área de infância e juventude, o Serviço Social está inserido

na estrutura do Poder Judiciário de São Paulo há mais de cinqüenta anos. Sua

atuação ao longo desse tempo abriu caminhos para a entrada de outros

profissionais nessa área, como os psicólogos, e disseminou uma modalidade de

intervenção que hoje está presente em praticamente todos os tribunais de justiça

dos demais estados da federação.

A compreensão dessa modalidade de intervenção no Judiciário requer o

conhecimento das conseqüências do aprofundamento da “questão social”, da

agudização dos conflitos sociais gerados pela crise da ordem social capitalista e

pela forma como o Estado é mobilizado para dar respostas às seqüelas dessa

funcionários do Tribunal. A ação dos profissionais é também solicitada com bastante freqüência pelos
Tribunais de Alçada do Estado de São Paulo
3
Os dados fornecidos pela Associação de Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo – AASPTJ-SP, informam que 181 assistentes sociais e 133 psicólogos atuavam na comarca da
capital no ano de 2001. Os dados referentes ao interior são mais recentes, de dezembro de 2003, e informam
a existência de 586 assistentes sociais e 212 psicólogos divididos nas diversas circunscrições do interior.
Esses números, porém, já foram maiores, uma vez que já há alguns anos o Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo não realiza concurso público para substituição de aposentadorias e demissões.
14
crise. Requer o conhecimento do rebatimento disso no Poder Judiciário que,

como parte da estrutura de poder do Estado, se enfrenta com tais problemas de

uma forma singular: eles são apresentados de forma individualizada, como

conflitos entre partes, como litígios, cabendo-lhe aplicar as leis existentes,

estabelecendo as punições cabíveis e encaminhando soluções para as situações

de conflito. Nessa medida, torna-se necessário também a compreensão da

natureza do próprio Direito como conjunto de normas instituídas para regular a

vida em sociedade.

Porém, é necessário considerar que uma parte significativa dos litígios que

se apresentam ao Judiciário tem como causa direta a omissão do próprio Estado

na garantia dos direitos mínimos de cidadania. Sem entrarmos aqui, neste

momento inicial, na discussão sobre as possibilidades ou não de que esses

direitos sejam efetivamente garantidos, constatamos apenas que as seqüelas da

“questão social” chegam ao Poder Judiciário e por ele devem ser enfrentadas

numa conjuntura em que muito pouco daquilo que está estabelecido nas leis é

cumprido, e o maior transgressor dessas leis é o próprio Estado.

Evidentemente que os litígios que se apresentam ao Judiciário não estão

circunscritos a casos de violência cometidos por e contra crianças, como no

exemplo dado logo no início. Eles abarcam uma variada gama de conflitos cuja

natureza implica aspectos que se convencionou chamar de “sociais”, ou

psicossociais. Sob o rótulo de social, são designados os conflitos envolvendo

crianças, famílias, idosos, incapazes, comunidades carentes, entre outros.

Enquadradas em conflitos de natureza psicossocial estão as situações que

15
envolvem comportamentos delituosos, ou questões de relacionamento

interpessoal.

Nas varas cíveis, criminais, de infância e juventude, de família e

sucessões, na justiça do trabalho, nos juizados de pequenas causas/juizados

especiais, vemos acorrer toda sorte de litígios gerados pelo não-cumprimento ou

cumprimento inadequado da legislação social. Nos processos de despejo, de

abandono de crianças, de não-pagamento de direitos trabalhistas, etc. reflete-se a

falta de políticas sociais de habitação, de assistência social, de educação, de

saúde, de emprego, etc 4.

Assim os magistrados, cuja formação acadêmica os torna especialistas na

aplicação do Direito, vêem-se impotentes diante da incapacidade de aplicar a

legislação, e constatam a necessidade de contar com outros especialistas que os

auxiliem a compreender essa realidade, a realizar a leitura das diferentes

expressões individualizadas do “social” e a encaminhar as soluções cabíveis e

viáveis em cada caso.

Imprescindíveis para a tarefa de administração da justiça, esses

especialistas são profissionais que têm no trabalho do assistente social um

modelo de intervenção considerado tradicional no interior do Judiciário. O

assistente social foi o primeiro dentre todos os profissionais a fazer parte

formalmente da estrutura do Poder Judiciário e ter desenvolvido uma modalidade

de intervenção apropriada para dar as respostas demandadas pela organização

judiciária.

4
Um recente trabalho produzido como dissertação de mestrado, intitulado Crise, demandas e respostas fora
de lugar, (MATIAS, 2002), aborda especificamente esse tema e pode ser consultado para um
aprofundamento da questão.
16
Embora em 1925, no Decreto de criação do primeiro Juízo de Menores de

São Paulo, estivesse prevista a figura de um médico para auxiliar o juiz a

compreender o problema que se lhe apresentava, a intervenção desses

profissionais não se consolidou na estrutura do Judiciário. Foram os assistentes

sociais os profissionais que ocuparam efetivamente essa função desde a sua

entrada formal na organização em 1949 como gestores do Serviço de Colocação

Familiar, programa pioneiro no Brasil de transferência de renda a famílias pobres

e famílias substitutas.

Desde então o Serviço Social trilhou um caminho que consolidou a

profissão como o núcleo do que se chama hoje de “equipe técnica”, responsável

por oferecer subsídios para que o juiz possa tomar a sua decisão auxiliando-o a

operacionalizar a justiça através de atividades como triagem, encaminhamentos,

orientações, aconselhamentos, entre outros. Como exemplo podemos citar a

inserção dos psicólogos nessa área, que se deu somente trinta anos mais tarde

quando, na década de 1980, a Psicologia entra formalmente no Judiciário paulista

passando a compor com os assistentes sociais a equipe técnica.

Desde as primeiras Semanas de Estudos do Problema de Menores,

iniciadas em 1948, em uma parceria com a Escola de Serviço Social (PUC/SP), o

Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo é reconhecido nacional e

internacionalmente por suas ações de vanguarda na justiça da infância e

juventude. Ao longo de mais de cinqüenta anos de atuação profissional, os

assistentes sociais auxiliaram o Judiciário paulista na sua função de aplicação das

leis. Além disso, disseminaram suas propostas implantando serviços iguais aos

de São Paulo no Estado do Paraná e no Estado de Goiás, somente para citar os


17
exemplos dados pelos profissionais por nós entrevistados como nos mostram os

relatos contidos neste trabalho, além de darem aulas em diversas faculdades e

difundirem essa modalidade de intervenção profissional em congressos e eventos

científicos.

O Serviço Social desenvolveu, a partir do Tribunal de Justiça do Estado de

São Paulo, no Juizado de Menores da Capital, uma modalidade de intervenção

que se tornou parâmetro de ação para os demais Tribunais de Justiça estaduais5.

Hoje, em praticamente todos eles, com maior ou menor número de profissionais,

melhor ou pior estrutura para o desenvolvimento dos trabalhos, os tribunais de

justiça possuem assistentes sociais atuando prioritariamente nas varas de

infância e juventude6.

Mais que isso, a modalidade de intervenção construída pelos assistentes

sociais no Judiciário paulista ao longo de sua história foi consagrada pelo Estatuto

da Criança e do Adolescente que, em seus artigos 150 e 151, prevê a

obrigatoriedade do Poder Judiciário manter equipe interprofissional para

assessorar a justiça da infância e juventude, instituindo nacionalmente um

reconhecimento da importância dessa modalidade de intervenção profissional

5
Como um dado ilustrativo de que esse movimento continua, vale informar que, por volta de 1991, ainda nos
primeiros momentos de implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente, as equipes técnicas do Poder
Judiciário elaboraram um material interno para o treinamento dos novos profissionais que estavam sendo
contratados pelo Judiciário paulista. Esse material, intitulado Manual do Curso de Iniciação Funcional para
Assistentes Sociais e Psicólogos Judiciários (1991/1992) ,tornou-se uma referência nacional e, apesar dos
limites impostos pela sua produção, correu todo o país como um manual do fazer profissional de assistentes
sociais e psicólogos no Poder Judiciário
6
No X Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais – CBAS, ocorrido em 2001 na cidade do Rio de Janeiro,
os participantes do grupo de trabalho temático sobre o sistema sócio-jurídico, apontaram a necessidade de um
levantamento preciso sobre esses números. Como conseqüência dessa indicação o Conselho Federal de
Serviço Social criou um grupo de trabalho para debater a atuação do Serviço Social no sistema sócio-
jurídico, o que inclui o Serviço Social no Poder Judiciário.
18
que, embora não seja explicitamente definida como privativa do assistente social,

toma sua ação como modelo.

Estes indicativos da relevância do Judiciário como campo de atuação do

Serviço Social por si instigam a retomada do estudo de uma modalidade de

prática que não tem sido muito estudada na atualidade. Do ponto de vista

histórico, o Serviço Social no interior do Poder Judiciário, como uma prática

consolidada institucionalmente, teve seus momentos altos e baixos no que diz

respeito ao reconhecimento, pela categoria profissional, das possibilidades de

uma intervenção afinada com seus projetos profissionais mais gerais. Nos anos

de 1950 e 1960 era bastante valorizada no meio profissional como uma

modalidade de prática inovadora, tendo sido relegada como possibilidade de

prática criativa e engajada para os parâmetros profissionais da década de 1980,

em vista principalmente da sua natureza de intervenção individual e subordinada

à autoridade judicial. A partir dos anos de 1990, com a entrada em vigor do

Estatuto da Criança e do Adolescente e demais legislação social, essa

modalidade de prática ganhou novo reconhecimento no interior da categoria

profissional, configurando-se novamente como foco de reflexões.

Atualmente o fazer profissional do Serviço Social nesse significativo campo

de trabalho tem sido pensado como uma prática inserida no que se está

chamando de sistema sócio-jurídico7. Nesse campo a atuação dos assistentes

7
Segundo Eunice Terezinha Fávero o ...campo (ou sistema) sócio-jurídico diz respeito ao conjunto de áreas
em que a ação do Serviço Social articula-se a ações de natureza jurídica, como o sistema judiciário, o
sistema penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento como abrigos,
internatos, conselhos de direitos, dentre outros. O termo sócio-jurídico, enquanto síntese destas áreas, tem
sido disseminado no meio profissional do Serviço Social, em especial com a escolha como tema central da
Revista Serviço Social e Sociedade n. 67 (Cortez Editora), pelo comitê que a organizou, tendo sido
incorporado, a seguir, como uma das sessões temáticas do X CBAS – Congresso Brasileiro de
Assistentes/2001 (FÁVERO, 2003, pág. 10).
19
sociais no Poder Judiciário tem suscitado uma série de discussões sobre a

natureza do seu papel como um perito judiciário, sobre o caráter auxiliar da ação

profissional em que esta sobressai como um meio, e sobre o relacionamento com

a estrutura institucional que é formal e hierarquizada, somente para citar algumas,

dentro do leque de questões que têm preocupado os profissionais que atuam na

área.

As peculiaridades da ação profissional no interior do Poder Judiciário estão

marcadas pela natureza diferenciada da organização cuja função não está

diretamente vinculada à prestação de serviços sociais. Estas peculiaridades são

vivenciadas pelos assistentes sociais – profissional cuja ação é eminentemente

interventiva e ligada à prestação de serviços – na forma de um conflito provocado

pela dificuldade de compreender e incorporar as ações demandadas pelo

Judiciário como atribuição profissional do assistente social e sem perder a

referência dos parâmetros ético-políticos construídos pela categoria profissional.

Esta problematicidade reforça a necessidade de conhecer como se deu a

construção dessa modalidade peculiar de ação profissional, longe de considera-la

um ramo ou uma especialidade do Serviço Social – daí a impropriedade do uso

da expressão Serviço Social Judiciário -, consideramos apenas um tipo de

resposta, uma adaptação da profissão às necessidades de uma organização cuja

função social determina uma forma de ação específica, menos conhecida dos

profissionais porque foge dos padrões comuns das organizações onde

majoritariamente atuam assistentes sociais, caracterizadas pela prestação direta

de serviços.

20
Acreditamos ser possível, através do conhecimento de como, ao longo dos

anos, foram sendo construídas pelos assistentes sociais as propostas de

intervenção, colocadas em prática, consolidadas, encerradas, recriadas, enfim,

nesse movimento de construção e reconstrução das ações profissionais, entender

como a prática dos assistentes sociais no interior do Poder Judiciário se tornou o

que é hoje: o que chamam de assessoria nas decisões judiciais, elaboração de

perícias, fornecimento de subsídios, ou simplesmente Serviço Social.

Para entender como se deu a formação do Serviço Social no Poder

Judiciário buscamos estudar a estruturação da profissão ao longo dos quarenta

primeiros anos de sua inserção no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,

órgão executor da justiça comum estadual paulista onde se deu a construção da

primeira e mais importante experiência de inserção profissional do Serviço Social

no Judiciário brasileiro.

Esses quarenta anos estão delimitados em seu início, 1948, pela I Semana

de Estudos do Problema de Menores, realizada pelo Tribunal de Justiça do

Estado de São Paulo, Procuradoria Geral de Justiça do Estado e pela Escola de

Serviço Social, em que a Profª. Odila Cintra Ferreira, representando a Escola de

Serviço Social formulou a proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de

Menores. Em seu limite final, 1988, o estudo é delimitado pela entrada em vigor

da atual Constituição Federal, marcando um novo período democrático para o

país, cuja orientação alterou os parâmetros estabelecidos para a legislação social,

reorientando boa parte das ações de profissionais nessa área em todas as

esferas do Estado.

21
Nossa intenção inicial não se constituía em elaborar uma história do

Serviço Social no Poder Judiciário de São Paulo, queríamos apenas compreender

como a profissão formatou essa modalidade de intervenção profissional. Não foi

possível, porém, fugir da reconstrução histórica da profissão no interior da

organização porque havia pouco dessa história já escrita e sem ela seríamos

incapazes de captar os movimentos gerais da profissão que nos permitissem

minimamente compreender a sua formação.

Assim, o estudo que ora se apresenta está calcado em uma pesquisa

histórica, mas não está centrado nela; nossa proposição foi encontrar, nesse

movimento histórico, alguns planos de mediações que nos permitissem

compreender como as demandas de uma instituição, no caso o Judiciário,

determinaram a forma de exercício da profissão com vistas a reproduzir num

plano pontual como se concretiza a determinação social da profissão. É um

estudo que pretende lançar algumas bases para a elaboração futura de uma

compreensão mais profunda da natureza do Serviço Social no Poder Judiciário

Nossa hipótese inicial estava baseada na percepção de que a natureza

eminentemente executiva do Serviço Social tinha alguma serventia para a função

judicante, própria do Poder Judiciário. Restava saber qual seria essa serventia e

como a profissão se adaptou às necessidades de operacionalização dessa função

por parte da organização, como ela criou um ethos profissional voltado para

responder às necessidades institucionais.

Para elaborar este trabalho partimos da identificação de alguns sujeitos

profissionais que nos pudessem auxiliar na reconstrução da história da profissão

no interior do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e que ao mesmo tempo


22
pudessem nos auxiliar a identificar esses grandes movimentos. Esses sujeitos

significativos foram identificados por nós sem maiores problemas, pois eram

reconhecidos por grande parte dos profissionais do Judiciário como tais. A

trajetória profissional de cada um deles diz muito da trajetória da própria profissão

no interior da organização judiciária.

Foram quatro os sujeitos diretamente entrevistados por nós no período

compreendido entre novembro de 2002 e junho de 2003, constituindo um conjunto

de dez horas de fitas gravadas, transcritas e aprovadas pelos respectivos

entrevistados sobre sua trajetória profissional no interior do Tribunal de Justiça do

Estado de São Paulo. A maior parte deles iniciaram sua ação como estagiários na

década de 50 e permaneceram no interior do Judiciário até a aposentadoria. São

eles:

Beatriz Cardoso Esteves Franco: assistente social formada pela Escola de

Serviço Social (PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiária de

Serviço Social em 1959 atuando no Serviço de Colocação Familiar. Atuou em

comarcas da capital e da grande São Paulo e, desde 1977, teve importante papel

na estruturação do Serviço Social junto às Varas de Família e Sucessões.

Aposentou-se em 1990 dentro da organização e continuou dando assessoria para

profissionais da área.

João Batista Adduci: assistente social formado pela Escola de Serviço

Social (PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiário de Serviço

Social em 1956 atuando no Serviço de Colocação Familiar. Foi assistente social

do Recolhimento Provisório de Menores-RPM e esteve à disposição da Secretaria

de Promoção Social do Estado quando da criação da Fundação Pró-Menor e da


23
Febem-SP. Foi o sucessor de José Pinheiro Cortez na coordenação do Serviço

de Colocação Familiar, assumindo o serviço por mais de dez anos. Atuou também

em programa de adoção e em Varas de Família e Sucessões. Aposentou-se

dentro da organização no início da década de 1990.

Suraia Daher: assistente social formada pela Escola de Serviço Social

(PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiária de Serviço Social em

1957 atuando na Secção de Informações e de Serviço Social. Foi responsável

técnica do Pensionato Maria Gertrudes e posteriormente assistente social e

coordenadora do Centro de Observação Feminina - COF. Fez parte da equipe

que elaborou a minuta para a criação da Fundação Pró-Menor. Desligou-se do

Judiciário juntamente com o grupo de profissionais que foi transferido para o

Poder Executivo, em 1973/74, quando da passagem do COF e demais unidades

do Judiciário.

Therezinha Zabirowski Davidovich: assistente social formada pela Escola

de Serviço Social (PUC/SP), iniciou sua atuação no Judiciário como comissária de

menores do Juizado de Menores da capital, voluntariamente. Foi incorporada ao

quadro do Judiciário em 1962 e designada para a Fundação Dna Paulina de

Souza Queiroz onde exerceu a função de encarregada. Em 1969 passou a atuar

como assistente social do gabinete do juiz de menores permanecendo lá até

1979. Atuou nas Varas de Família e Sucessões, foi supervisora de profissionais

na Vara Central de Menores e membro da Comissão de Desenvolvimento

Profissional dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça.

Aposentou-se dentro da organização no início da década de 1990 e manteve

24
vínculos com o Tribunal realizando atividades de treinamento e capacitação para

profissionais, ainda por algum tempo.

Além das quatro entrevistas, tivemos acesso a íntegra da entrevista

concedida por Zilnay Catão Borges para Eunice Teresinha Fávero em junho de

1994, gentilmente cedida pela pesquisadora. Zilnay foi assistente social e

professora de Serviço Social, fez parte, juntamente com José Pinheiro Cortez e

Idalina Monteclaro César, do trio de assistentes sociais pioneiros responsáveis

pelos primeiros trabalhos do Serviço Social no Juizado de Menores da capital,

atuando lá de 1956 a 1977. A entrevista foi realizada como parte da pesquisa

para a elaboração de dissertação de mestrado que, mais tarde, foi publicada com

o título de Serviço Social, práticas judiciárias, poder: a trajetória do Serviço Social

no Juizado de Menores de São Paulo de 1948 a 1958 (FÁVERO, 1996).

O livro de Fávero é fartamente citado neste trabalho. Ele contém partes dos

depoimentos de Helena Iracy Junqueira, José Pinheiro Cortez (já falecidos) e de

Zilnay Catão Borges, e constituiu-se em uma importante referência para este

estudo no que diz respeito aos dez primeiros anos de atuação do Serviço Social

no Judiciário. O depoimento de Zilnay Catão Borges, que abrangeu um período

que extrapolou a pesquisa de Fávero foi de grande valia para compreendermos

alguns fatos ocorridos e sua significação.

Como fonte importante deste estudo contamos também com o valioso

material contido nos anais das 13 Semanas de Estudos do Problema de Menores.

Compreendidas entre 1948 e 1983 essas semanas de estudos foram

acontecimentos ímpares para o desenvolvimento da política para a área da

infância e juventude em São Paulo. Os textos contidos nos anais são a


25
cristalização de um movimento, dos pensamentos dominantes e dissonantes, da

posição das autoridades, do trabalho dos técnicos apresentados em estudos e

pesquisas.

Infelizmente, porém, além dos anais das Semanas de Estudos e de alguns

livros e artigos publicados por juízes e técnicos envolvidos nesse trabalho, não

existe material disponível sobre as atividades desenvolvidas no Juizado de

Menores ao longo dos quarenta anos estudados aqui. Provavelmente isso se

deveu a lamentável atitude do último juiz titular da vara única de menores da

capital, Dr. Antonio Luis Chaves Camargo, ele próprio autor de um dos poucos

livros sobre o tema, que, no afã de informatizar o Juizado de Menores, mandou

destruir toda a documentação existente nos arquivos da vara. O material utilizado

por nós, tais como portarias, estudos técnicos, relatórios de atividades, etc., foi

todo ele cedido pelos entrevistados que literalmente abriram os seus armários e

deles retiraram as provas do seu trabalho salvas da destruição.

O estudo da bibliografia foi complementado pelo levantamento realizado

em arquivos de jornais, de bibliotecas especializadas como a da Secretaria

Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social e a do Tribunal de Justiça do

Estado de São Paulo e pelo estudo de leis e decretos pertinentes à área.

A apresentação do trabalho foi dividida em quatro capítulos. O primeiro

reflete a nossa tentativa de compreender o Direito como o instrumento da ação do

Judiciário. Acreditamos que não seria possível identificar os movimentos do

Serviço Social no interior dessa organização se não compreendêssemos

minimamente a própria organização e sua função social. Para tanto consideramos

importante compreender a natureza do Direito e do Estado de direito na lógica


26
liberal, que é aquela que dá o suporte para a existência mesma do Poder

Judiciário.

Também consideramos importante reunir alguns elementos da crítica ao

Direito que possibilitassem extrapolar nossa análise para além da lógica liberal.

Essa crítica foi colhida dentro do universo do marxismo e é apresentada aqui

através da fundamental reflexão de Evgueni Pachukanis sobre a importância do

Direito como materialização das relações capitalistas de produção.

Ainda no primeiro capítulo consideramos importante destacar a idéia de

sociedade justa, como se construiu essa idéia, quais os seus limites de aplicação

na atualidade e como os assistentes sociais a incorporaram e sua importância

para o universo ideológico e político dos profissionais.

Feita essa primeira incursão pelo Direito, apresentamos no segundo

capítulo o resultado de nossa reflexão sobre a organização na qual se

desenvolveu a ação do Serviço Social: o próprio Judiciá[Link] destacar que este

é um poder de Estado desconhecido da maior parte dos brasileiros. Apesar de tão

próximo dos problemas sociais, o Poder Judiciário está muito distante do cidadão

comum. Os tribunais são grandes desconhecidos da população em geral e dos

assistentes sociais também, são labirintos processuais criados para dificultar o

acesso da população leiga, onde até mesmo advogados transitam com

dificuldades. Rogério Bastos Arantes chama a atenção para o fato de que o Poder

Judiciário é muito pouco estudado, ele diz:

Uma grave lacuna da ciência social brasileira é a parca produção


acadêmica sobre o Poder Judiciário...É verdade que podemos
encontrar vários trabalhos do ponto de vista jurídico sobre o
Judiciário e seu órgão de cúpula o Supremo Tribunal Federal.
Mas sua abrangência é quase sempre restrita à descrição dos
27
textos legais e constitucionais que dão forma à instituição
judiciária. Não que isso seja de pouca importância, mas a falta de
uma análise política, capaz de demonstrar as conseqüências mais
amplas do papel institucional do Judiciário, é uma lacuna que
esses trabalhos ainda não conseguiram preencher. (ARANTES:
1997; 21)

Acreditamos que compreender o Judiciário é fundamental para todos os

profissionais de Serviço Social uma vez que esse poder de Estado é importante

ator no cenário das decisões políticas, principalmente em períodos democráticos.

Mas, para aqueles que estão diretamente envolvidos com a prática profissional

em seu interior, essa compreensão é imprescindível para a decodificação das

demandas postas para a profissão na instituição e para a formulação de

propostas que reforcem a legitimação social da profissão.

Foram abordados temas como a própria constituição do Judiciário em

poder de Estado, sua estrutura e função social. Abordamos alguns aspectos

sobre o que se chama atualmente de “crise do Judiciário”, e as tentativas de

superação dessa crise com as alternativas construídas para facilitar o acesso da

população à justiça. Num segundo momento discute-se o Poder Judiciário no

Brasil e a criação da “justiça de menores” dentro de uma perspectiva assistencial.

No terceiro e quarto capítulos apresentamos o resultado de nossa pesquisa

sobre a construção dessa modalidade peculiar de ação profissional do Serviço

Social desenvolvida no interior do Poder Judiciário. O texto segue uma lógica

histórica abordando os principais movimentos que identificamos ao longo dos

quarenta anos estudados. O primeiro momento se constitui na inserção formal do

Serviço Social na estrutura do Juizado de Menores: dos primeiros contatos e do

movimento das Semanas de Estudos do Problema de Menores no qual a Escola


28
de Serviço Social teve intervenção decisiva, passa pela implantação do Serviço

de Colocação Familiar e pela contratação dos primeiros assistentes sociais.

No segundo momento tratamos da expansão e consolidação do Serviço

Social no interior do Juizado de Menores, onde é apresentada toda a estrutura

que foi montada tendo como modelo a proposta dos tribunais juvenis e discutidas

as particularidades que esse modelo assumiu entre nós dada a pobreza reinante

no País e as precárias ações na área de política social.

São abordados também a crise desse modelo, o desmonte da estrutura do

Juizado de Menores e a construção de uma nova modalidade de ação

profissional, que já existia, embora de maneira incipiente, desde o início da

inserção do Serviço Social no Judiciário, mas que adquire nesse momento uma

importância maior, passa a ser reconhecida e formulada pelos próprios

profissionais como atribuição profissional no interior do Judiciário. Tratamos da

consolidação desse modelo de intervenção mais claramente voltado para o apoio

à ação judicante e de sua extrapolação para outras áreas que não apenas o

Juizado de Menores.

No estudo desses principais movimentos está contemplada uma breve

contextualização da conjuntura política com ênfase nas questões que

influenciaram o posicionamento do Poder Judiciário diante dos demais poderes do

Estado. Nessa contextualização resgatamos também algumas das principais

questões relativas à política social, principalmente no que diz respeito ao

tratamento dado à infância e juventude e como o Judiciário se posicionava

perante elas.

29
Outra preocupação que permeia toda a exposição do terceiro e do quarto

capítulos diz respeito à relação entre o Poder Judiciário e o Poder Executivo. O

leitor poderá observar a importância da conjugação das funções executivas e das

funções judicantes exercidas pelos assistentes sociais no interior do Judiciário

para a formatação da modalidade de intervenção profissional que estudamos

aqui, além de obter alguns elementos para que possa analisar a importância que

as ações de natureza executivas desempenham na afirmação do Poder Judiciário

como poder de Estado em uma situação de crise da ordem social capitalista.

Por fim, está presente, em linhas gerais, a percepção dos profissionais

sobre a sua prática e de alguns membros do Judiciário sobre a prática do Serviço

Social, expressa através dos discursos dos entrevistados e dos documentos e

discursos oficiais de representantes do Judiciário.

Como conclusões, apresentadas ao final, estão algumas articulações entre

os três grandes temas tratados neste estudo: o Direito, o Poder Judiciário e a

formação do Serviço Social, com vistas a auxiliar a compreensão dessa

modalidade peculiar da ação profissional e indicar caminhos para o futuro.

30
CAPÍTULO I – O DIREITO, A SOCIEDADE E A IDÉIA DE JUSTIÇA SOCIAL

1.1 O Direito como pilar do liberalismo

1.1.1 A interdependência entre Direito e Estado

A modernidade tem como um dos seus atributos o vínculo essencial entre o

Direito e o Estado. Esta vinculação vem sendo construída desde Hobbes (1588-

1679) e Locke (1632-1704), passando por Montesquieu (1689-1755), Kant (1724-

1804) e Rousseau (1712-1778) e até por pensadores mais próximos ao nosso

tempo como Weber (1864-1920) e Habermas (1929). Aristóteles (384-322 a.C.)

já havia delimitado o poder político como o poder exercido na polis, como o poder

dos governantes sobre os governados, que age em nome de ambas as partes, no

interesse do bem comum.

O vínculo entre Estado e Direito comporta uma relação de

interdependência mediante a qual o Estado utiliza o Direito como instrumento de

sua ação política e, ao mesmo tempo, é regulado e limitado nessa sua ação pelo

próprio Direito.

Desta perspectiva, compreender a lógica de funcionamento do Estado é o

ponto de partida para compreender o próprio Direito e sua função na sociedade

moderna.

31
Norberto Bobbio (2000), em seu livro Teoria Geral da Política, busca definir

o poder político a partir de três critérios: o primeiro é o de sua função, o segundo

o de seu fim, e o terceiro e últimoo dos seus meios.

No que diz respeito à sua função recorre a comparações utilizadas desde a

antiguidade, da sociedade como um organismo social do qual o governo é a

cabeça, ou da sociedade como um barco onde o governo se personifica no

timoneiro, considerando-as metáforas válidas. Em ambos os casos o poder

político tem a função de dirigir, comandar, guiar.

Para exercer essa função o poder político necessita do poder de comandar,

ou seja, do poder de fazer com que os comandados obedeçam aos seus

comandos. Esse poder implica conseguir a obediência de todos, até mesmo

daqueles que resistem a obedecer e, portanto, implica também no poder de punir

aqueles que não obedecem.

No entanto, a função de dirigir, comandar, não é exclusiva do poder

político, podendo ser encontrada em outras formas de poder como o poder

patriarcal - o do pai sobre o filho -, ou o poder do chefe sobre o trabalhador. Assim

uma definição do poder político a partir de sua função torna-se insuficiente para

diferenciá-lo das demais formas de poder e explicitar a natureza do Estado.

Do ponto de vista dos fins, Bobbio novamente recorre aos clássicos como

ponto de partida, mostrando que estes definiam como o fim da política o bem

comum. Entendido o bem comum como o bem da comunidade, em distinção ao

bem dos indivíduos que a compõem. Ou seja, a idéia de bem comum só se torna

compreensível quando se explicita a oposição entre interesses públicos e

interesses privados.
32
O autor afirma que o conceito de bem comum é pouco claro porquanto é

encontrado de forma variável nas diferentes comunidades ao longo da história,

conforme cada sociedade considere necessária uma maior ou menor extensão da

esfera pública em relação à esfera privada (BOBBIO, 2000, p. 219). Assim, uma

sociedade, na qual as decisões são tomadas de maneira coletiva, poderia

considerar como fim do Estado a consecução daquilo que foi decidido pela

maioria. Já uma sociedade calcada na opressão de um grupo sobre outro, pode

sustentar interesses de um grupo como interesses de toda a comunidade; sendo

assim o Estado teria como fim satisfazer esses interesses. Além disso, fins

intermediários podem ser pleiteados pelos diversos estados através da história,

como, por exemplo, o comércio, o engrandecimento, o estímulo e preservação

das artes e da cultura, a expansão territorial, etc.

A definição torna-se ainda mais frágil ao constatarmos que tanto Maquiavel

(1469-1527) como Montesquieu afirmaram ser o fim do Estado a sua própria

conservação, ou seja, a perpetuação do poder. Desse modo torna-se difícil

sustentar a idéia de bem comum como fim do Estado.

Na tentativa de explicar o Estado segundo seus fins, ele parte para uma

definição ainda mais restrita. Bobbio busca um objetivo mínimo que possa ser

considerado como um limite, sem o qual a existência mesma do Estado estaria

comprometida.

Esse objetivo mínimo ...é a ordem pública interna e internacional (BOBBIO,

2000, p. 220). E esse fim mínimo é estabelecido tendo-se por base a constatação

de que o Estado constitui-se em um conjunto de normas garantidas, se

33
necessário, até mesmo pela força. E, portanto, constitui-se mais em uma estrutura

de organização social utilizada para fins diversos, do que qualquer outra coisa.

Contudo, é no critério para definir os meios utilizados pelo Estado que se

encontra a melhor maneira de diferenciar o poder político de qualquer outra forma

de poder. O meio utilizado pelo poder político, como já foi dito, é a força, mesmo

tendo-se em conta que ela pode ser utilizada apenas em última instância. Sendo

caracterizado pelo uso da força, o poder político é o poder maior, o poder

soberano, cuja posse indica qual é a classe dominante em dada sociedade.

A utilização da força caracteriza o poder político nas relações entre os

indivíduos em sociedade, isto é, mesmo que se levem em consideração as várias

formas de coerção tais como valores, a exclusividade do uso dos meios de

produção, etc., é somente o uso da força física que consegue dar fim à

desobediência. Também a força caracteriza o poder político na relação entre

grupos políticos distintos, como quando a vontade de um grupo é imposta à do

outro através da guerra, por exemplo.

Se o poder político é caracterizado essencialmente pela força, então qual é

o papel do Direito na sociedade? O Direito, ou o ordenamento jurídico, como

explicitaremos mais abaixo, tem como característica essencial exatamente o fato

de que recorre, em última instância, à força física para obter o respeito às normas.

Ou, nas palavras do próprio Norberto Bobbio:

...a conexão entre Direito entendido como ordenamento normativo


coativo e político torna-se tão estreita, que leva a considerar o
Direito como o principal instrumento através do qual as forças
políticas, que têm nas mãos o poder dominante em uma
determinada sociedade, exercem o próprio domínio (1998, p.
349).

34
Este é, então, o primeiro aspecto da relação entre o Direito e a política: o

Direito, a ordem jurídica, é fruto do poder político.

Estamos nos referindo aqui ao Direito como um conjunto de normas que

regulam a vida em sociedade, um ordenamento jurídico que tem como fim

estabelecer os limites mínimos nos quais a sociedade deve funcionar sem que

corra risco de autodestruição. Assim, excluímos aqui os vários outros significados

da palavra direito.

Esse ordenamento normativo em que se constitui o Direito compreende ...o

conjunto de normas de conduta e de organização, constituindo uma unidade, e

tendo por conteúdo a regulamentação das relações para a convivência e

sobrevivência do grupo social (BOBBIO, 1998, p. 349). São as normas que

regulam as relações familiares, de propriedade e demais relações de natureza

econômica, e mais ainda, são as normas que definem como a sociedade vai punir

ou coibir aqueles que infringem as próprias normas.

O Direito é fruto do poder político como se vê, pois onde não existe a

possibilidade de recorrer a um poder, no sentido de força, capaz de fazer valer as

normas estabelecidas por ele (o poder policial, o exército, os aparatos

penitenciários por exemplo), não existe a possibilidade da existência do Direito.

Ou utilizando-se da idéia de Hobbes: não é a sabedoria, mas a autoridade que

cria a lei (apud BOBBIO, 2000, p. 232).

Mas seria o Direito apenas o produto de uma autoridade capaz de impor as

normas pela força? Caberia então perguntar qual a diferença entre um Estado e

um bando de ladrões. Bobbio (2000) responde utilizando-se da reflexão de Santo

35
Agostinho, segundo a qual, o que distingue o Estado de um bando de ladrões é a

correspondência das leis ao ideal de justiça, isto é, as normas só são justas se

estiverem em conformidade com os princípios éticos daquela sociedade.

Sem entrar profundamente no mérito do que seria a idéia de justiça,

mesmo porque o Direito nesta perspectiva é compreendido como um direito

positivo - entendido como conjunto de normas estabelecidas -, admite-se que a

idéia de justiça está vinculada à moral, à ética de cada sociedade e, portanto, não

existe parâmetro para a definição de um ideal universal de justiça. Tomando a

possibilidade de que a justiça possa ser definida como “dar a cada um o que é

seu”, então quem define o que é justo ou injusto é aquele que tem o poder de

tomar as decisões, poder de decidir o que é de cada um.

Mas então volta-se à questão: Por que razão os indivíduos se submetem a

outros indivíduos? Qual o fundamento do poder? Por que razão um bando de

ladrões não se constitui um Estado?

A partir daqui a relação entre o Direito e a política mostra a outra face de

sua interdependência, face que se expõe na distinção entre poder de fato e poder

de direito, remetendo-nos ao conceito de legitimidade, ou nas palavras de Bobbio:

Um poder é considerado legítimo quando quem o detém o exerce


a justo título, e o exerce a justo título enquanto for autorizado por
uma norma ou por um conjunto de normas gerais que
estabelecem quem, em uma determinada comunidade, tem o
direito de comandar e de ter seus comandos obedecidos. (2000;
p. 235)

Os juristas vão afirmar que a legitimidade dos governantes está sempre

baseada num sistema de normas, escritas ou não. Sustentam-se na idéia de que

herdamos da antiguidade a concepção de que a lei é despida das paixões

36
próprias do homem, pois é impessoal. E seja qual for a sua origem – a natureza

das coisas ou a tradição – tem sido depositária da sabedoria popular acumulada

através da história, evitando mudanças exageradas ou bruscas num processo

contínuo de aperfeiçoamento que vem desde a antiguidade até os nossos

tempos.

É a legitimação do poder que possibilita a transformação de uma relação

baseada meramente na força em uma relação em que impor deveres é um direito

(do governante) e obedece-los é um dever (dos governados). Ou, retomando a

indagação sobre o que diferencia o Estado de um bando de ladrões acrescente-

se mais um atributo à resposta: a diferença está em possuir o poder de fato

(possuir o poder de exercer a força), como é o caso do bando de ladrões, e

possuir o poder de direito, ou poder legítimo, como é o caso do governante.

Kant por exemplo, não fazia distinção nem sequer entre um governo

autocrático e um democrático. Para ele não havia problemas para que um rei

governasse de maneira autocrática desde que ele ordenasse aos súditos aquilo

que os próprios súditos ordenariam para si mesmos se pudessem fazê-lo, o

essencial para Kant é a existência do consenso.

Mas é Max Weber, mais recentemente, quem vai aprofundar a importância

do tema da legitimidade do poder político. Para ele a definição de Estado como

poder fundado na força é insuficiente. Sua definição incorpora o conceito de

legitimidade, para ele o Estado é o “monopólio da força legítima”.

O tema de Weber é o fundamento da legitimidade. Nos três tipos puros de

autoridade legítima apresentados por ele - a carismática, a tradicional e a legal - a

aceitação da ordem estabelecida pode basear-se respectivamente, no carisma do


37
governante, na tradição ou na racionalidade da legalidade. Em todos os casos a

ênfase está nos processos de justificação interna dos sujeitos em aceitar o

comando e a ele se conformar.

Weber apresenta os estados de poder tradicional como pré-modernos.

Neles o Direito é fundamentalmente consuetudinário e as regras são transmitidas

por tradição através do corpo judiciário. A passagem para os estados modernos

caracteriza-se pela passagem do poder tradicional para o poder legal.

O poder legal é para Max Weber o que recebe legitimidade quando é

exercido em conformidade com regras preestabelecidas e vai construindo

organismos especializados na criação e modificação dessas regras, como é o

caso do legislativo, e na sua aplicação, como é o caso do judiciário (BOBBIO,

1998, p. 352). O Estado que desenvolve e se assenta no aparato burocrático é

considerado o mais racional na teoria weberiana.

1.1.2 O Estado de Direito

Na conjunção entre Direito e política, dessa complexa relação em que o

Direito não pode existir sem estar fundamentado no poder da força física, e o

poder político não pode prescindir de sua legitimação (e até mesmo regulação,

como veremos em seguida) através do sistema de normas, é que nasce o

conceito de “Estado de direito”.

A concretização do poder legítimo através do sistema de normas é a

chamada legalidade do poder ou, como diz Bobbio, ...o contrário de poder

38
legítimo é o poder de fato, o contrário do poder legal é o poder arbitrário (2000;

p.237) . O Estado de direito é para ele então a ...destinação final de todo grupo

político que se distingue de outro grupo social pela existência de um sistema

normativo, cujas normas, necessárias para a sobrevivência do grupo, se fazem

valer através da coerção (idem).

Coerção que, segundo Kant, não é incompatível com a liberdade, uma vez

que o princípio de liberdade deve ser igual para todos os indivíduos. A busca de

cada um pela sua felicidade, ou seja, o arbítrio de cada um, deve ser compatível

com o dos demais. Assim a utilização da força é válida para que se imponha um

limite à liberdade de cada indivíduo, limite suficiente apenas para que ele respeite

a liberdade do outro. Dessa maneira, legalidade e liberdade são idéias

compatíveis (CICCO, 1995, p. 186).

Aliás, é na fundamentação da idéia de liberdade individual que está

construída a noção de estado de direito. Para Kant a felicidade é algo muito

pessoal e cabe ao Estado reunir as condições para que cada indivíduo busque a

“sua” felicidade. Dessa maneira, ele se contrapõe às formas de estado

intervencionistas ou paternalistas que indicariam aos súditos caminhos para

atingirem essa felicidade. O seu estado ideal é aquele que garante a liberdade

pelo Direito, e essa liberdade é entendida essencialmente como não-impedimento

de usar ou fazer algo.

Agregado ao núcleo original de idéias desenvolvidas por ele está a noção

de garantia dos direitos individuais de Benjamin Constant, segundo a qual a

organização do Estado deve pautar-se na garantia da inviolabilidade das

39
liberdades individuais: a liberdade pessoal, religiosa, de imprensa e por fim, de

propriedade privada.

Para Constant, a liberdade política, isto é, a participação de todos nos

organismos de poder, é uma maneira de garantir unicamente as liberdades

individuais. E a divisão e separação dos poderes, a forma de operacionalizar essa

garantia.

Também Kant abordou a questão da divisão de poderes como essencial no

estado de direito, para ele

Todo Estado contém em si 3 poderes, isto é a vontade geral


unificada se decompõe em três pessoas, o poder soberano que
reside na pessoa do legislador, o poder executivo, que reside na
pessoa que governa conforme às leis, o poder judiciário, que
designa a cada um o que lhe é devido, e que reside na pessoa do
juiz. (apud CICCO, 1995, p.188)

Existe uma primazia da lei como encarnação da vontade popular – lembre-

se que Kant não considera essa vontade expressa necessariamente através de

mecanismos democráticos - e conseqüentemente do poder legislativo, que tem

mais importância do que o poder executivo. A este, Kant atribui o comando

concreto de seguir as normas estabelecidas. E ao judiciário cabe o poder de

concluir se o comando foi exercido de forma correta ou não, se está de acordo

com a norma ou não.

A primazia do Legislativo sobre os demais poderes é um pilar da

concepção da democracia moderna, seja a de Rousseau, seja a de Locke, Kant e

Benjamin Constant. A diferença essencial está no fato de que para o primeiro

compete ao povo, como um todo, fazer as leis, é a democracia direta de

Rousseau. Já para Locke e os demais, a participação na elaboração das leis é

40
feita pelo povo através de seus representantes, é o estado representativo

moderno.

A democracia tomada na ótica do liberalismo, desse estado representativo

moderno, vem sendo ampliada, segundo Bobbio (1998, p. 324), basicamente

através de dois mecanismos. O primeiro é a extensão do direito de voto a

segmentos cada vez maiores da população, até se chegar ao sufrágio universal.

O segundo é a ampliação dos órgãos de representação, com a criação de esferas

de poder local e divisão das câmaras legislativas. Nessa perspectiva a

democracia complementa o regime representativo.

Também em Weber podemos encontrar a questão da divisão dos poderes

como elemento do Estado de direito. Para ele, embora o estado de direito não

seja sinônimo de poder legal, guarda estreita relação com ele visto que a divisão

de poderes, na forma constitucional de organização do poder político, é o que

garante a sua legalidade em todos os níveis da sociedade, até os mais altos

níveis de comando.

Segundo Norberto Bobbio, a doutrina do constitucionalismo é a forma

perfeita de governo das leis, aprimoramento da idéia de que a lei, despida das

paixões próprias do homem, guarda a sabedoria popular através da história.

A constituição é, segundo Nicola Matteucci, ....a própria estrutura de uma

comunidade política organizada, a ordem necessária que deriva da designação de

um poder soberano e dos órgão que o exercem (In: BOBBIO, 1998, p. 247). Mas,

para além da sua definição, a doutrina do constitucionalismo propõe que ele se

constitua numa técnica jurídica de garantia da liberdade, assegurando aos

41
cidadãos o exercício dos seus direitos individuais e limitando a ação do Estado a

ponto de não permitir que esses mesmos direitos sejam violados.

Pensado por Locke, Montesquieu e Kant como uma forma de

contraposição ao poder absoluto dos reis, um sistema de freios ao governo

através da divisão dos poderes, o sistema constitucional prevê que o poder não

fique subordinado a uma pessoa ou a um grupo de nobres ou notáveis. Divide-se,

assim, o poder de fazer as leis do poder de executar as decisões, e ambos do

poder de punir e julgar as divergências entre particulares.

Contudo, reconhece-se a possibilidade de que um conluio entre os diversos

interesses individuais possa levar ao despotismo e busca-se avançar no intuito de

tornar mais complexas as formas de separação e divisão de poderes. São

propostas outras formas de poder como o poder regulador do rei que cuidaria de

que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário funcionassem em harmonia, ou

o poder municipal/distrital, independente do poder central, numa proposta que se

coadune com a idéia de centros de auto governo, em sintonia com o federalismo

(BOBBIO, 1998, p. 250)

Segundo Matteucci, até a Idade Média o Direito era uma livre expressão da

evolução da sociedade ao longo da história e não deveria sofrer interferências. O

legislador apenas dá forma ao Direito que está dado. Mas nos nossos dias o

Direito é:

...expressão da exata e consciente vontade soberana do povo,


explicitada por meio de um órgão ad hoc, a assembléia
representativa. Outrora o direito era parte integrante de uma vida
social espontânea; hoje é um instrumento com que o Estado
democrático intervém na sociedade, para manter a paz social e
prevenir as necessidades [Link]....hoje é uma criação
consciente.... (In: BOBBIO, 1998, p.255)
42
O constitucionalismo caracteriza-se, em primeiro lugar, por uma

constituição escrita, com normas jurídicas, que guardam um arranjo lógico e

concatenado. Essas normas regulam o funcionamento do Estado, os limites do

seu poder: os direitos dos cidadãos. Sua legitimidade impõe-se pela racionalidade

e justeza de suas normas e também por emanar da vontade do povo que elege os

seus representantes na Assembléia Constituinte.

Uma segunda característica do constitucionalismo é a sua pouca

elasticidade, isto é, as normas constitucionais não podem ser alteradas ou

modificadas facilmente pela vontade do legislador. Alterações constitucionais

exigem procedimentos específicos com quóruns diferenciados das câmaras

parlamentares. A legislação constitucional é superior a todas as demais

legislações especificas e não pode ser alterada por elas.

E, por fim, a terceira característica do constitucionalismo é a existência do

Poder Judiciário, uma corte judiciária que atua para dirimir conflitos entre os

vários organismos do Estado e, sobretudo que trata de fazer com que as leis

tenham correspondência com as normas fundamentais.

1.1.3 Dos direitos individuais aos direitos humanos

Nessa perspectiva de compreensão da organização da sociedade, o

conceito de direitos do homem ou de direitos humanos, ganha importância e

merece ser melhor apreciado. Atualmente ele se apresenta como uma forma

desenvolvida da doutrina do direito natural. Esta nasceu da idéia de que o homem

43
possuía alguns direitos essenciais que carrega desde seu estado de natureza, ou

seja, pré-social, direitos que tem independentemente da organização social e do

Estado. São basicamente os direitos à vida e à sobrevivência, incluindo aí o

direito à propriedade. Também faz parte desse conjunto de direitos essenciais a

liberdade que, na concepção kantiana, tem o sentido de não impedimento de

realizar coisas.

Norberto Bobbio (1992), em seu livro A era dos direitos, defende a idéia de

que, apesar dessa origem, os direitos do homem constituem-se uma classe que

varia de acordo com a história da humanidade, com as necessidades e interesses

de cada sociedade em seus diversos momentos históricos. Assim, algo que hoje é

considerado um direito possivelmente nem sequer poderia ter sido cogitado como

direito no século XVIII.

Como o Direito é considerado historicamente determinado, Bobbio descarta

a idéia de que existe um direito natural, fundamental, do homem, e destaca quatro

processos importantes na evolução do conceito de direito do homem. São eles: a

positivação, a generalização, a internacionalização e a especificação.

A positivação consiste na transformação desses direitos em leis escritas,

em código de normas estabelecidas. As primeiras manifestações objetivas,

positivas, da idéia de direitos do homem estão contidas nas declarações de

direitos, das quais a mais famosa e emblemática é a Déclaration des droits de

l’omme et du citoyen (Declaração dos direitos do homem e do cidadão) aprovada

pela Assembléia Nacional francesa, em 1789, que em sua primeira frase

proclama a liberdade como direito natural: Os homens nascem e permanecem

livres e iguais nos direitos (apud BOBBIO; 2000, p. 484).


44
Um primeiro estágio desse processo evolutivo constituiu-se, assim, na

estruturação do estado de direito, na passagem de uma sociedade de deveres na

qual às pessoas cabia obedecer às leis, para uma sociedade que reconhecia os

direitos fundamentais do homem, direitos que nem mesmo o Estado poderia

subtrair. Essa passagem pressupunha a afirmação de uma concepção

individualista de sociedade, em que o indivíduo vem antes do Estado, não o

inverso, e a conservação dos direitos naturais do indivíduo é entendida como o

objetivo das associações políticas.

O reconhecimento formal por parte do Estado, através de uma

carta/declaração dos direitos individuais eleva esses direitos a uma esfera

pública. Assim, ensina Bobbio:

No Estado despótico, os indivíduos singulares só têm deveres e


não direitos. No Estado absoluto, os indivíduos possuem, em
relação ao soberano, direitos privados. No Estado de direito, o
indivíduo tem, em face do Estado, não só direitos privados, mas
também direitos públicos. O Estado de direito é o Estado dos
cidadãos. (1992, p.61)

No estado de direito o cidadão goza de direitos civis, que se constituem

nos direitos individuais através dos quais ele busca garantir o seu arbítrio, desde

que não fira o dos outros. São a liberdade pessoal, de religião, de pensamento,

de expressão, de reunião e também a liberdade econômica. Aqui o Estado se

obriga a salvaguardar essas liberdades principalmente abstendo-se de intervir

nessa esfera.

No entanto a construção dos direitos do homem, como fenômeno social e

histórico continuou e os direitos se ampliaram, expandiram e modificaram. O

processo de generalização dos direitos do homem guarda estreita relação com a


45
constituição da democracia em sua concepção liberal. Os direitos políticos foram,

dessa maneira, os primeiros a se afirmarem na seqüência dos direitos civis e

estão ligados ao surgimento do Estado representativo moderno. São os direitos

de associação, de organização partidária, de voto, que atingem contingentes cada

vez mais amplos da sociedade e implicam, segundo Matteucci, ... uma liberdade

ativa, uma participação dos cidadãos na determinação dos objetivos políticos do

Estado (In: BOBBIO, 1998, p. 354).

O terceiro processo na evolução dos direitos do homem é a sua

universalização, processo que pode ser observado em fenômenos como a

adoção, por diversos estados, dos princípios presentes na Declaração Universal

dos Direitos do Homem, que é para Bobbio ...apenas o momento inicial da fase

final de um processo, o da conversão universal em direito positivo dos direitos do

homem... (1992, P.32).

A criação de organismos internacionais como a Organização das Nações

Unidas e as assinaturas de pactos e convenções que envolvem vários países ao

redor do mundo, tais como as convenções sobre o trabalho adotadas pela

Organização Internacional do Trabalho – OIT e a Convenção para a Prevenção e

Repressão do Genocídio aprovada pela Assembléia Geral da ONU em 1958, são

vistas por Bobbio como tentativas de busca de implementação dos direitos do

homem no nível internacional.

Esse processo evolutivo que implica a positivação, a generalização e a

universalização dos direitos civis e políticos do homem, precipita, mais

recentemente, uma nova categoria de direitos: os direitos sociais, tais como o

46
direito ao trabalho, à educação, à saúde e à assistência, entre outros, direitos

criados sob a égide da sociedade industrial na sua forma mais avançada.

Em oposição aos direitos individuais, os direitos sociais são ... o conjunto

das pretensões ou exigências das quais derivam expectativas legítimas que os

cidadãos têm, não como indivíduos isolados, uns independentes dos outros, mas

como indivíduos sociais que vivem e não podem deixar de viver, em sociedade

com outros indivíduos (BOBBIO, 2000, p.501).

A tendência ao reconhecimento dos direitos sociais tornou-se mais clara

após a Segunda Guerra Mundial, embora já aparecesse em episódios jurídicos

isolados desde os primeiros anos do século XX, na constituição da República de

Weimar, por exemplo. Na década de 1940 e nas seguintes podemos observar a

introdução dos direitos sociais em constituições de vários países.

No entanto, o reconhecimento de tais direitos exige, por parte do Estado,

uma postura bastante diferente daquela tipicamente liberal. Se, para garantir os

direitos individuais, ao Estado basta não invadir os espaços pessoais de

liberdade, para garantir os direitos sociais sua postura deve ser ativa, exige-se

que o Estado intervenha com providências para que os mesmos sejam

respeitados.

Para Bobbio, a contradição entre os direitos individuais e os direitos

sociais, entre Estado de garantia de liberdades individuais e Estado que intervém

para promover direitos sociais é apenas aparente. Para ele, direitos sociais são

condição para o exercício do direito de liberdade já que ...o indivíduo instruído é

mais livre do que um inculto, um indivíduo que tem um trabalho é mais livre do

47
que um desempregado, um homem são é mais livre do que um enfermo (2000,

p.508).

Mais ainda, para ele o desenvolvimento dos direitos do homem de maneira

que abarque os direitos sociais indica uma possibilidade de superação da antítese

entre o liberalismo e sua priorização dos direitos de liberdade e o socialismo e sua

priorização da igualdade.

Nesse caminho de evolução os direitos do homem sofrem ainda um

processo de especificação, próprio dos direitos sociais. A especificação consiste

em superar a abstração da idéia de “cidadão”, determinando de maneira cada vez

mais específica: que homem é esse cidadão. Assim temos o reconhecimento das

especificidades desse homem genérico nas diferenciações de gênero (os direitos

da mulher), de fases de vida (direitos específicos para crianças, adolescentes,

idosos) e até mesmo no reconhecimento de condições peculiares (deficientes

físicos, doentes mentais).

Bobbio chama atenção para essa evolução no conceito de direitos

humanos e lembra que novos direitos estão por vir, direitos hoje talvez apenas

esboçados como o direito à vida das gerações futuras. No entanto, reconhece que

o grande problema da realização dos direitos humanos, sobretudo o dos direitos

sociais, não é de natureza filosófica ou jurídica, é um problema de

desenvolvimento da sociedade, colocando em cheque as constituições mais

progressistas e o próprio sistema jurídico.

Assim, para Norberto Bobbio, o modelo liberal, cujo fundamento se assenta

nas idéias de Locke, Hobbes e Kant, foi sendo aperfeiçoado através da história.

Criou mecanismos eficientes de limitação do poder absoluto. Incorporou a


48
democracia que, mesmo na sua forma representativa, vem desenvolvendo

estratégias de participação de segmentos cada vez maiores da população,

contemplando seus interesses. Vem se generalizando como modelo para todo o

planeta e constitui-se a esperança de uma sociedade melhor, resguardada a sua

premissa essencial: o direito às liberdades individuais, incluindo o direito à

propriedade privada, a base de todas as demais formas de liberdade.

1.2 A crítica marxista do Direito

1.2.1. Apontamentos de Marx e Engels sobre o Direito

A crítica ao Direito desenvolvida no âmbito do marxismo guarda estreita

relação com a crítica ao Estado e ao modo de produção e organização social

capitalista. Os temas referentes ao Direito e à justiça estão presentes na obra de

Marx e de Engels de maneira esparsa, no entanto é possível, desde os escritos

de juventude de Marx, verificar suas posições em face da relação do Direito com

o Estado.

Marx, em sua juventude, adota inicialmente a posição hegeliana segundo a

qual ...o “verdadeiro” direito é a sistematização da liberdade, das regras internas

das atividades humanas coerentes, ‘universais’ (In: BOTTOMORE, 1988, p.109).

Para Hegel, o Estado é a materialização do interesse geral da sociedade e o

responsável pela sua universalização. Quando o Estado se sobrepõe à sociedade

civil torna esta uma esfera ética e moral. Para ele somente o Estado é capaz de

universalizar a humanidade.
49
No entanto, já em 1843, Marx escreve a introdução à Crítica da filosofia do

direito de Hegel, contendo importantes elementos de sua crítica política em

construção. Neste texto, Marx desenvolve conceitos como o de que a sociedade

civil se expressa no Estado e não o contrário, como afirmara Hegel. Ou de que a

emancipação humana seria obra de uma revolução social com foco na supressão

da propriedade privada.

Ao contrário de Hegel que entende o Estado constitucional burguês como o

apogeu da evolução histórica, Marx desenvolveu sua crítica à economia política

na qual o Estado moderno é sinteticamente definido como ...um comitê para gerir

os negócios comuns de toda a classe burguesa8.

A teoria marxista considera o Estado instrumento de opressão de classe,

produto do antagonismo inconciliável das classes. Engels escreve:

O Estado não é pois, de modo algum, um poder que se impôs à


sociedade de fora para dentro; tampouco é “a realidade da idéia
moral”, nem “a imagem e a realidade da razão”, como afirma
Hegel. É antes um produto da sociedade quando esta chega a um
determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa
sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela
própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não
consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas
classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e
não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário
um poder colocado aparentemente por cima da sociedade,
chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da
“ordem”. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela
se distanciando cada vez mais, é o Estado. (1980, p.191)

O Estado nascido na luta das classes é o representante daquela classe

dominante, que tem o domínio dos meios de produção, que é economicamente

8
Do Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, In: Obras escolhidas, v. 1, p.23)
50
dominante. Através do Estado essa classe adquire também os instrumentos da

dominação política, cria uma determinada ordem que consolida a submissão de

uma classe por outra.

O poder político está assentado no aparelho coercitivo (exército, policia,

sistema prisional, entre outros), que detém o monopólio das forças armadas,

organizadas em separado da sociedade, pois uma sociedade dividida em classes

com interesses inconciliáveis não pode sobreviver a um sistema que se baseie na

organização espontânea dos seus membros em armas.

No que diz respeito aos mecanismos democráticos: os órgãos legislativos,

o sistema representativo moderno, os processos eleitorais, os direitos políticos,

etc., próprios do Estado democrático burguês, Marx escreve em As lutas de

classes na França

...que sua constituição sanciona o poder social da burguesia, ao


mesmo tempo em que retira as garantias políticas desse poder,
impondo-lhe condições democráticas que, a todo momento,
contribuem para a vitória das classes que lhe são hostis e põem
em risco as próprias bases da sociedade burguesa (apud
BOTTOMORE, 1988, p.98)

Mesmo admitindo que uma tal possibilidade de questionamento das bases

do próprio sistema de governo burguês exista, a democracia burguesa tem seus

limites como mecanismo de superação do sistema capitalista e é, antes de tudo,

um instrumento de legitimação da ordem burguesa. O Estado burguês quando

questionado de forma essencial não encontra problemas em assumir formas

opressivas e excluir os mecanismos democráticos, tal como nas várias formas de

Estado de tipo fascista.

51
No que diz respeito ao papel do Direito e de sua relação com o Estado,

Marx e Engels nos apresentam a tese do Direito como um reflexo das

concepções, das necessidades e dos interesses da classe social dominante,

produzido pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de

produção, e, portanto, parte da superestrutura, como podemos observar no texto

extraído do prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política:

Na produção social da sua vida os homens contraem


determinadas relações necessárias e independentes de sua
vontade, relações de produção que correspondem a uma
determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas
materiais. O conjunto destas relações de produção forma a
estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciência social. O modo de produção
da vida material condiciona o processo da vida social, política e
espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina
o seu ser, mas pelo contrário, o seu ser é que determina a sua
consciência. Ao chegar a uma determinada fase de
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se
chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é
senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade
dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se
convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de
revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se,
mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida
sobre ela. Quando se estudam as revoluções, é preciso distinguir
sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições
econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a
exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas,
políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as
formas ideológicas em que os homens adquirem consciência
desse conflito e lutam para resolvê-lo. (MARX, Karl)9

9
O trecho é extraído do Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política in Karl Marx e Friedrich
Engels Obras Escolhidas , v. 1, ed Alfa –omega, São Paulo, sem data, p..301.
52
Engels discute aspectos do Direito em três capítulos do Anti-Duhring, e

num deles aborda a questão da igualdade entre os homens, tema central em todo

o debate sobre Direito e justiça. Ele trata o Direito como um instrumento de

dominação de classe, como uma série de mandamentos sancionados pelo

Estado. Sendo assim, para ele, uma sociedade onde tenham desaparecido a

propriedade privada e a divisão de classes, o Estado e, por conseguinte, o Direito

igualmente desaparecerão, uma vez que ambos, como órgãos de dominação de

classe, perdem sua razão de ser (BOTTOMORE:1988).

Em A Crítica ao Programa de Gotha, escrito por Marx, podem-se encontrar

diversas observações importantes sobre o Direito burguês, sobre a questão da

igualdade e da aplicação da justiça burguesa, como parte da exposição da sua

concepção geral de sociedade, como podemos ver:

Na fase superior da sociedade comunista, quando houver


desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à
divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho
intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for
somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital;
quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus
aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em
caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível
ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e
a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual,
segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas
necessidades. (MARX, Karl)10

O problema da produção em si e da distribuição da riqueza produzida em

sociedade é tema fundamental da teoria marxista erigida sobre a crítica ao

modelo burguês. Para Marx, a natureza é fonte de toda a riqueza e o homem

10
O trecho é extraído de Crítica ao Programa de Gotha, in Obras escolhidas, v. 2 ed. Alfa-omega, São
Paulo, sem data. p. 214
53
passa a produzir riqueza quando se apropria da [Link], dito pelo próprio

Marx nas Grundisse: ...toda produção é apropriação da natureza por parte do

indivíduo. Mas a organização da produção e da repartição é feita ...no seio e por

intermédio de uma forma de sociedade determinada (1986, p. 7). Nas sociedades

divididas em classes, a produção e a repartição entre os seus membros são feitas

sob critérios daqueles que detêm o poder econômico. As relações econômicas

ditam as relações jurídicas e existe uma vinculação intrínseca entre o sistema

econômico baseado na propriedade privada e a forma jurídica.

Apesar de apontar aspectos centrais da questão, as proposições de Marx e

Engels sobre o Direito não atingiram um nível de sistematização e detalhamento

maior. Não se pode dizer que foi elaborada uma reflexão acabada sobre o Direito,

sobre seus vários ramos, suas formas de operacionalização, etc. Ou seja, as

reflexões de Marx e Engels sobre a ideologia jurídica burguesa não foram

utilizadas por eles, para um estudo específico da superestrutura jurídica

(PACHUKANIS,1977). O centro de suas atenções estava na afirmação da

concepção materialista da história, segundo a qual o que determina a consciência

é a existência e não no contrário como afirmava a maior parte da filosofia e

ideologias idealista de sua época. Deste ponto de vista era mais importante

mostrar o Direito como um epifenômeno e não como elemento determinante da

realidade.

Porém, durante a Revolução Russa de 1917, os bolcheviques tinham outra

tarefa: a construção do Estado operário. Essa circunstância explicará a

profundidade e centralidade do debate em torno do Direito e das formas que

54
tomaria durante a ditadura do proletariado, debate no qual Pachukanis e Stutchka

serão os mais altos expoentes.

1.2.2 O Direito proletário ou o fim do Direito

A produção de dois autores vinculados à Revolução Bolchevique de 1917,

Piotr Stutchka e Evgeni Pachukanis, avança sobre questões da natureza do

Direito num momento de desenvolvimento sem precedentes do tema.

A leitura dos textos de Stutchka11 atualiza a dramaticidade das tarefas

postas aos construtores do primeiro Estado operário da história, os gigantescos

desafios que implicavam a montagem de um Estado de novo tipo a partir dos

destroços do anterior.

Sua reflexão tende a demonstrar que a base e o conteúdo do Direito é o

interesse de classe. Seu esforço para definir o que é o Direito poderia resumir-se,

em última instância, à frase ...tantas classes, tantos conceitos de Direito!12.

A produção de Stutchka contempla panfletos e cartilhas explicativas

voltadas aos trabalhadores nas quais ele recupera as idéias de Marx e do próprio

Lênin, e embate com seus pares, advogados. O estilo sarcástico, direto e

combativo de Piotr Stutchka nos faz quase que sentir os dias da revolução. Seu

11
Piotr Stutchka foi dirigente do Partido Bolchevique, membro do Soviet de Deputados Trabalhadores,
Soldados e Camponeses de Petrogrado durante a revolução de outubro e, posteriormente, Comissário do
Povo para a Justiça. Foi o responsável pelo Decreto nº1 Sobre o Tribunal, de 24 de novembro de 1917
(STUTCHKA, 2001), que extingue os tribunais existentes até então e cria os Tribunais de Trabalhadores e
Camponeses, com juízes eleitos, além de extinguir a advocacia privada e juramentada.
12
Do texto “O problema do direito de classe e da justiça de classe” de 1922, in Stutchka; 2001, p. 75.
55
importante papel como Comissário do Povo para a Justiça, organizador do

sistema judiciário soviético e defensor de um Direito proletário, finda com sua

morte em 1932.

Em oposição à proposta de construção de um direito proletário, colocou-se

um eminente teórico bolchevique, Evgeni Pachukanis, autor da impressionante

obra intitulada A Teoria Geral do Direito e o Marxismo (1977), publicada em 1924,

que contém uma profunda reflexão sobre o Direito13.

Pachukanis enxergava uma estreita relação entre a forma jurídica e a

forma mercadoria e pleiteava o desenvolvimento de uma teoria geral do Direito

com o mesmo státus de uma teoria da economia política, utilizando-se para isso

do método de Marx.

Polêmicas, mesmo na sua época, as teses de Pachukanis negavam a

possibilidade de um direito socialista ou proletário e reafirmavam as proposições

de Marx e Engels a respeito da necessidade da extinção da forma jurídica

juntamente com a extinção do Estado. A defesa de suas teses custou-lhe a vida.

Ele foi executado em 1937 após ter sido forçado a fazer várias “autocríticas”, num

cenário em que o Direito soviético foi amplamente utilizado como instrumento de

reforço do Estado na era stalinista.

Levando-se em consideração a inexistência de uma concepção sistemática

do Direito na tradição marxista, foi no calor da tarefa prática de reorganização da

13
Em um ensaio publicado em 1930 e incluído A Título de Introdução na edição portuguesa de A Teoria
Geral do Direito e o Marxismo, Karl Korsch destaca que a obra de Pachukanis percutiu diretamente em G.
Lukacs, no que diz respeito ao seus estudos sobre reificação, isto é, sobre o disfarce fetichista da realidade
social na época da produção mercantil capitalista (KORSCH, In: PACHUKANIS:1977; p.11)
56
legislação e da estrutura judiciária que as formulações teóricas sobre o Direito

avançaram.

As principais influências sobre aqueles que participavam desse processo

de reorganização e se esforçavam para apresentar uma leitura marxista do

fenômeno jurídico, era de juristas burgueses. Segundo Marcio Bilharinho Naves

(2000), o pensamento de Petrajitskii, lido na versão “marxista” de Mikhail Reisner,

foi a maior influência nesse período14.

Reisner recupera a teoria psicológica do Direito de Petrajitskii, que sustenta

que a natureza do fenômeno jurídico não reside nas normas objetivas editadas

por uma autoridade, mas na esfera emocional, de modo que o cumprimento das

obrigações jurídicas e a observância das leis decorrem de uma “consciência

jurídica” intuitiva de que os homens são providos.

Para eles, o Direito não está assentado nas normas jurídicas, mas sim no

conceito do que é justo. A justiça possui um caráter universal e apriorístico e sua

essência está na capacidade de distribuir igualdade e em recompensar, dando às

pessoas iguais o que é igual, e às pessoas desiguais o que é desigual.

Nessa noção geral de justiça, Reisner introduz o conceito de classe social

e afirma que ...o que é justo de um ponto de vista, pode ser injusto de outro (apud

NAVES, 2000, p.35), sendo que cada classe social possui determinado tipo de

justiça, passando do campo da psicologia individual para a psicologia do coletivo.

14
A maior não quer dizer a única influência. Naves cita também “...Menger – o célebre representante do
‘socialismo jurídico’, combatido pelo próprio Engels -, Karl Renner, o funcionalista social-democrata
austríaco, e mesmo o ‘solidarista’ francês Leon Duguit...” (NAVES; 2000, p. 25).
57
Para ele, o Direito está associado aos diversos sistemas ideológicos de

classe ao longo da história, existindo, assim, vários tipos de direito. Durante a

revolução social a classe trabalhadora estaria vivenciando a construção do Direito

socialista, fruto dos estatutos jurídicos criados pelo novo poder.

Na tentativa de definir um conceito geral do Direito que abarcasse os vários

tipos de direito correspondentes às várias classes sociais ao longo da história,

Reisner estabeleceu a relação entre o Direito e a economia. A base do Direito

seria a economia, pois as classes sociais criam o seu direito a partir de sua

posição no processo de produção.

As formas ideológicas, incluído aí o Direito, consistem, para Reisner, em

reflexos, na consciência, das relações econômicas. A particularidade da forma

ideológica do Direito é o conceito de justiça subjacente a ele.

Desta maneira, Reisner submete a determinação econômica a um conceito

ideal preexistente. Esta questão gera um problema em seu pensamento, como

nos sugere Naves: Reisner acaba por reforçar a sua concepção idealista do

direito, pois, ao fundar o direito sobre a noção de justiça, ele torna ociosa a

determinação econômica (2000, p. 37).

A reflexão de Reisner funciona como um contraponto para o debate que

Pachukanis faz e ganha importância na medida em que ele influenciou todos os

juristas de formação marxista do período.

Mas é em Stutchka e nos demais juristas marxistas da época que

Pachukanis terá seus maiores interlocutores. Eram eles que estavam realizando

toda a reorganização jurídica do período revolucionário.


58
Essa reorganização tinha como característica a abertura da administração

da justiça às massas populares e estava centrada na criação dos tribunais

populares, nos quais os juízes eram eleitos entre operários e soldados e exerciam

a judicatura com competência limitada.

Essa era uma estrutura judiciária que estava sendo criada pela

Revolução15, e ela era identificada como popular e justa, capaz de realizar uma

“justiça proletária”, capaz de administrar o Direito conforme os interesses

revolucionários (STUTCHKA apud NAVES, 2000, p.26).

Para Stutchka, aparentemente não havia problema algum em criar

estruturas que poderiam significar o reforço de instâncias formais, com juízes

separados das massas, embora viessem delas. Ele identificava os tribunais

populares com um direito proletário, a sua existência mesma supõe que eles

defendiam os interesses do povo.

A busca de Stutchka é por uma formulação sobre o Direito que estivesse

em conformidade com a concepção de Marx e Engels. Ele parte inicialmente da

concepção de consciência jurídica revolucionária – conceito que vai buscar em

Petrajitskii e em Reisner .

Ciente de que, sob a consciência jurídica revolucionária, havia traços fortes

de uma consciência jurídica burguesa, Stutchka afirma que isso se deve ao fato

de que não havia uma outra consciência nem na natureza, nem na imaginação

humana e o fato dos tribunais serem formados por operários resolveria o

problema.

15
No Decreto nº 1 já citado, os juízes poderiam contar com os funcionários e técnicos da estrutura
preexistente para auxiliá-los nos processos, além de se pautarem em um rol de leis e de saberes especiais.
59
Em razão da necessidade de uma orientação básica na área penal,

Stutchka parte para a elaboração de um conceito de Direito. Para ele o Direito é:

... um sistema de relações sociais que corresponde aos interesses


da classe dominante e é tutelado pela força organizada de tal
classe. O direito penal soviético visa à proteção, mediante
instrumentos de repressão, do sistema de relações sociais
conforme os interesses das massas trabalhadoras, organizadas
em classe dominante no período de ditadura do proletariado, que
é a fase de transição entre o capitalismo e o comunismo. (apud
NAVES;2000, p. 29).

Para Pachukanis a definição de Stutchka desvenda o conteúdo de classe

das formas jurídicas e tem uma função prática imediata, mas não explica porque

esse conteúdo se apresenta dessa forma e qual a especificidade da forma

jurídica. Ainda não responde a uma pergunta fundamental: como é que as

relações sociais se transformam em instituições. Nessa medida criticava Stutchka,

atribuindo um caráter limitado à sua concepção do Direito.

Para nós, o camarada Stutchka equacionou corretamente o


problema jurídico, ao considerá-lo como um problema de relações
sociais. Porém, em vez de se por a investigar a objetividade social
específica destas relações, regressou à definição formal habitual,
ainda que a circunscreva através das características de
classe....Esta definição desvenda o conteúdo de classe das
formas jurídicas, mas não nos explica a razão porque este
conteúdo reveste semelhante forma. (PACHUKANIS, 1977, p. 92)

Apresentadas sob a forma de uma discussão essencialmente teórica, as

questões postas por Pachukanis, questionavam Stutchka e os demais dirigentes

do estado operário nascente, essencialmente no que diz respeito ao caminho que

vinha tomando a construção do aparato jurídico do Estado Soviético. O que

60
preocupava Pachukanis era a necessidade de discutir a natureza do Direito e

assim construir uma teoria geral do Direito a partir do método proposto por Marx

em O Capital.

Referindo-se ao período da história judicial soviética, que se abre

imediatamente após a tomada do poder pelos bolcheviques, as palavras de

Márcio Bilharinho Naves nos dão a dimensão da exata importância desse

enfrentamento teórico-político:

O que pensar desse “intervalo” que parece pleno de conteúdo,


preenchido por uma normatividade “revolucionária” e por uma
magistratura “proletária”?... O que pensar dessa “lucidez” que
parece, em nome da classe operária, reconstruir o aparelho
judicial sob a orientação de um princípio – a “consciência jurídica”
– inexistente no marxismo, e provinda do repertório ideológico
burguês?
Enganam-se, na verdade, os que acreditavam ver a crítica teórica
e prática do direito ali onde o tecido jurídico se recompunha e se
expandia, sob os signos e os emblemas da revolução. Nas leis e
nos códigos, nos saberes dos jurisconsultos, nos poderes dos
magistrados, em todos os poros, nos interstícios, nos silêncios e
na solene eloqüência das sentenças, o direito prosseguia o seu
trabalho. (NAVES, 2000; p. 15)

1.2.3. A construção da teoria geral do Direito em Pachukanis

Para Pachukanis o problema principal dos estudos sobre Direito baseados

na obra de Marx e Engels estava assentado na excessiva valorização do aspecto

coercitivo do Direito. Ele afirma que os poucos marxistas que se ocupavam do

tema consideravam ...o momento da regulamentação coativa social (estadual)

61
como a característica central, fundamental e a única típica dos fenômenos

jurídicos (PACHUKANIS,1977, p. 28).

Assim como Stutchka, outros marxistas davam ênfase à natureza coercitiva

do Direito. Pachukanis cita uma definição de Direito de Podvolockij, um discípulo

de Boukharine, para demonstrar que, mesmo considerando o vínculo existente

entre o conteúdo concreto da regulamentação jurídica e a economia, o Direito

aparece nessas formulações essencialmente como forma:

O direito é um sistema de normas coercitivas sociais que refletem


as relações econômicas e sociais de uma dada sociedade e que
são introduzidas e mantidas pelo poder do Estado das classes
dominantes para sancionar, regular e consolidar estas relações e
conseqüentemente para consolidar o seu domínio.
(PACHUKANIS,1977; p. 51)

O próprio Stutchka também reconhece essa vinculação. Ele diz que o

aspecto central de sua definição diz respeito ao caráter classista do Direito, mas

não ignora a polêmica sobre a relação do Direito com a economia. Para ele, as

relações sociais compreendem o conjunto das relações de produção e de troca.

Mas a questão é: onde se situa o Direito na estrutura social mais geral? A isto ele

responde:

A essência do debate, no entanto, não consiste na discussão


sobre a relação entre a base e a superestrutura, mas na
discussão sobre onde procurar o conceito fundamental de direito:
no sistema das relações concretas ou em uma esfera abstrata,
isto é, na forma escrita ou na idéia do direito não-escrito, na idéia
de justiça, ou seja na ideologia. Eu respondo: no sistema das
relações concretas. Com uma ressalva: se falamos do sistema e
do ordenamento das relações, assim como da sua tutela por parte
do poder organizado, então é claro que levamos em conta as

62
formas abstratas e a sua influência sobre a forma concreta.
(STUCHKA apud NAVES, 2000, p. 31)16

Porém, para Pachukanis, a utilização da análise de Marx acerca do sujeito

jurídico como uma derivação imediata da análise da forma mercantil foi

negligenciada pelos estudiosos. Ele atribui essa negligência à necessidade de

uma radical diferenciação por parte dos estudiosos do marxismo da atitude dos

sistemas idealistas, daquela filosofia do Direito cujo fundamento é representado

pelo conceito de sujeito e sua capacidade de autodeterminação.

Com isso esqueceram-se de que os princípios formais de liberdade e de

igualdade, ou seja, o princípio da subjetividade jurídica, não é apenas produto da

hipocrisia burguesa, um instrumento de luta contra o proletariado e sua missão

histórica, mas sim um princípio incorporado na sociedade burguesa desde o seu

surgimento.

...a vitória deste princípio não é apenas, e deste modo, um


processo ideológico (Isto é, um processo que pertence
inteiramente à história das idéias, das representações, etc.) mas
antes um processo real de transformação jurídica das relações
humanas, que acompanha o desenvolvimento da economia
mercantil e monetária (na Europa da economia capitalista) e que
engendra profundas e múltiplas modificações de natureza
objetiva. (PACHUKANIS, 1977; p. 30)

Para Pachukanis a forma jurídica não se constitui em um simples reflexo

ideológico. Ele diz: o direito, enquanto forma, não existe somente no cérebro e

16
Sob a denominação de formas abstratas ele distingue em primeiro lugar o direito expresso nas
normas jurídicas, nas leis (que podem ou não coincidir com a relação econômica) e a ideologia
jurídica. Já a forma jurídica concreta é aquela que coincide com a relação econômica, é a
expressão jurídica das relações econômicas, propriamente dita.

63
nas teorias dos juristas especializados; ele tem uma história real, paralela, que

não se desenvolve como um sistema conceitual, mas como um particular sistema

de relações (1977, p. 34).

Embora não negue que, no estabelecimento de qualquer relação jurídica,

os sujeitos envolvidos tenham representações ideológicas dos seus direitos e

deveres, dos limites das leis, etc., Pachukanis afirma que a mediação jurídica

somente se realiza no momento do acordo. Na sociedade de produção mercantil,

as relações de produção e a reprodução social se estabelecem através de

contratos jurídicos privados, este é o objetivo da mediação jurídica.

Assim, as condições para o desenvolvimento de uma superestrutura

jurídica (as leis, os tribunais, os processos, os advogados, etc.) surgem a partir do

momento em que as relações humanas são construídas como relações entre

sujeitos. Daí a importância do estudo da superestrutura jurídica como fenômeno

objetivo, o que não foi feito por Marx.

Ele se pergunta se seria possível analisar a forma jurídica da mesma

maneira que se analisa, na economia política, a forma valor. Se isto for possível

então, para ele, estão dadas as condições para a elaboração de uma doutrina

geral do Direito, uma disciplina teórica autônoma.

Pachukanis busca, assim, construir essa teoria geral do Direito, isto é,

busca a essência do Direito a partir da crítica dos conceitos jurídicos

fundamentais. O modelo metodológico utilizado é o apresentado por Marx em O

Capital, indo do abstrato ao concreto.

64
Nesse caminho ele lembra que toda a ciência, no estudo do seu objeto,

reporta-se a uma mesma realidade total e concreta. A diferença entre as várias

ciências é essencialmente a diferença entre seus métodos de abordagem da

realidade. Toda ciência busca reconstituir a realidade como resultado da

combinação de abstrações mais simples.

Na análise da economia política pareceria natural, diz Marx, começar as

investigações pela totalidade concreta: a população que vive e produz num dado

espaço, sob certas circunstâncias. No entanto, se não se consideram as classes

sociais que compõem a população, esta aparece como uma abstração vazia

(PACHUKANIS,1977, p. 66). As classes sociais, por sua vez, nada significam sem

se compreender a renda e o lucro, por exemplo, até se chegar às categorias

como o preço, o valor e a mercadoria.

No que diz respeito à teoria geral do Direito, essa lógica deve também ser

aplicada à totalidade concreta: a sociedade, a população, o Estado, não devem

ser o ponto de partida, mas sim o resultado das reflexões, diz Pachukanis.

Como primeiras aproximações e, a título de exemplos, ele apresenta as

definições de norma jurídica, relação jurídica e sujeito jurídico, como conceitos

jurídicos fundamentais, isto é, abstratos, utilizados pelo direito positivo e que,

independentemente do conteúdo concreto das normas jurídicas (das leis, por

exemplo), conservam a sua significação.

Para Pachukanis, esses conceitos abstratos são resultado de uma

elaboração lógica das normas do direito positivo e representam o produto tardio,

65
e superior, de uma criação consciente (1977, p. 40). São conceitos abstratos que

permeiam todo o pensamento jurídico. Ele diz:

Podemos, portanto, ter como ponto assente que o pensamento


jurídico evoluído independentemente da matéria à qual se dirige
não pode passar sem um certo número de definições muito
abstratas e muito gerais. Mesmo a nossa ciência jurídica soviética
não pode passar sem elas, pelo menos enquanto ela permanecer,
também, enquanto tal, uma jurisprudência, ou seja, dê resposta
às suas tarefas práticas imediatas.(197, p. 42)

Pachukanis ressalta um segundo aspecto metodológico, para ele

fundamental. Novamente reportando-se ao método em Marx, expresso na

Introdução à Crítica da Economia Política:

A sociedade burguesa é a organização histórica da produção


mais desenvolvida e mais variada que existe. Por este fato, as
categorias que exprimem as relações desta sociedade e que
permitem compreender a sua estrutura permitem ao mesmo
tempo perceber a estrutura e as relações de produção de todas
as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e
elementos ela se edificou, de que certos vestígios, parcialmente
ainda não apagados, continuam alias a subsistir nela, e de certos
signos simples, desenvolvendo-se nela, se enriquecem de toda a
sua significação. (MARX, 1983, p. 223)

Seu objetivo é responder às críticas de que o direito proletário deveria

encontrar novos conceitos gerais e que encontrá-los seria a tarefa de uma teoria

marxista do Direito. Para ele, é fundamental a apreensão do Direito como uma

categoria histórica e não como um atributo da sociedade humana abstrata.

Propõe-se negar, portanto, a legitimidade histórica de um suposto “direito

proletário”.

A proposta de criação de novos conceitos para um direito proletário

proclama a invariabilidade da forma jurídica, destitui-a da sua vinculação com as

condições materiais e históricas que lhe permitiram constituir-se como tal, em seu
66
grau de desenvolvimento. Para Pachukanis, isso seria o mesmo que proclamar a

criação de categorias proletárias do valor.

Ele admite a existência da forma jurídica em uma sociedade de transição e

afirma:

A crítica da jurisprudência burguesa, do ponto de vista do


socialismo científico, deve tomar como exemplo a crítica da
economia política burguesa tal como Marx no-la oferece. Para tal,
esta crítica deve, antes de tudo, bater-se no terreno do inimigo, ou
seja, não deve por de parte as generalizações e as abstrações
que foram elaboradas pelos juristas burgueses, partindo das
necessidades do seu tempo e da sua classe, mas analisar estas
categorias abstratas e por em evidência a sua verdadeira
significação, por outras palavras, descobrir o condicionamento
histórico da forma jurídica. (PACHUKANIS, 1977, p. 63)

Estabelecido o problema do método, Pachukanis retoma a necessidade de

determinar se a essência do Direito deve ser buscada na base material da

sociedade ou na superestrutura, como o caminho para resolver a relação do

Direito com a ideologia.

Para Pachukanis, o Direito não deve ser estudado apenas enquanto

espécie particular de ideologia, como afirmavam alguns marxistas estudiosos do

tema, especificamente Rejsner. Ele admite a existência de uma ideologia jurídica,

mais que isso, para ele o Direito é para os homens uma experiência vivida sob a

forma de regras, princípios e normas, explicando sua posição a partir de uma

comparação com o estudo da economia política.

Categorias como valor e mercadoria também se constituem formações

ideológicas, ou seja, abstrações graças às quais pode ser reconstruída a

realidade econômica objetiva, pode ser elaborada teoricamente. No entanto a

67
categoria da mercadoria, por exemplo, reflete uma relação social objetiva. Sua

natureza ideológica não elimina a realidade e a materialidade das relações que

ela exprime.

Assim também os conceitos jurídicos, sem dúvida, fazem parte dos

processos e sistemas ideológicos. A questão não reside aí, mas em saber se as

categorias jurídicas, se esses conceitos, correspondem a relações sociais

objetivas; se sim, a quais relações?

Para Pachukanis ... tal como a riqueza da sociedade capitalista reveste a

forma de uma enorme acumulação de mercadorias, também, a sociedade, no seu

conjunto, se apresenta como uma cadeia ininterrupta de relações jurídica (1977,

p. 95).

Isto se dá, porquanto, na nossa sociedade, a troca de mercadorias

pressupõe uma economia atomizada, em que os vínculos entre as diversas

unidades econômicas, que são privadas e isoladas, são mantidos através dos

contratos que celebram entre si.

A unidade mais simples dessa cadeia repousa nas relações do Direito

privado e uma das premissas de toda a regulamentação jurídica é o antagonismo

entre interesses privados. É a partir do litígio, que estão estabelecidas as

condições para a criação da superestrutura jurídica.

Um dos exemplos dados por Pachukanis sintetiza sua concepção: a cura

de um doente pressupõe uma série de regras a serem observadas pelo médico e

pelo paciente. Essa cura pode mesmo prever alguma coerção sobre o doente

(como obrigá-lo a tomar injeções ou a se submeter a uma cirurgia). Quaisquer


68
ações que tenham por objetivo a cura do doente estão submetidas a uma

racionalidade técnica dada pela ciência médica no seu nível de desenvolvimento,

a unidade de fins exclui o Direito. A tarefa do jurista começa quando se adota o

ponto de vista dos sujeitos com interesses distintos, aí médico e paciente se

transformam em sujeitos de direitos e deveres, e as regras que os ligam se

transformam em normas jurídicas.

... a possibilidade de adotar um ponto de vista jurídico


corresponde ao fato de, na sociedade de produção mercantil, as
diferentes relações se decalcarem sobre o tipo das relações de
troca comerciais e assumirem, por conseqüência a forma jurídica.
... por mais racionalizada e irreal que possa parecer esta ou
aquela construção jurídica, ela assentará sobre uma base sólida
enquanto se mantiver dentro dos limites do direito privado,
principalmente do direito de propriedade.(1977, p. 91)

Disto desdobra-se uma outra polêmica importante: se a base de todo o

Direito está assentada nas relações privadas, como fica o poder público? E qual o

papel do Estado, de onde, em princípio emanariam as normas e demais

instrumentos coercitivos?

Do ponto de vista do jurista que defende o direito positivo, as normas

geram as relações jurídicas. Assim as pessoas cobram suas dívidas porque

existem normas que lhes permitem fazer isso e não o contrário, isto é, tais

normas/leis seriam criadas em função da prática de cobranças, própria do sistema

econômico. Para esse jurista a lei decorrente do poder estatal, emanada de uma

autoridade, é a fonte do Direito e dessa maneira o que realmente interessa são as

normas, o Direito é, portanto, norma e o Estado sua fonte e garantia.

69
Pachukanis por sua vez diz sobre este ponto: o poder do Estado confere

clareza e estabilidade à estrutura jurídica, mas não cria as premissas, as quais se

enraízam nas relações materiais, isto é, nas relações de produção (1977, p.108).

Contrapondo-se aos que defendem que o surgimento do Direito romano

estava assentado no direito público, ele vai fundo para negar essa tese e diz que

...no domínio do direito público, os esforços dos juristas são geralmente

arruinados sem contemplações pela realidade visto que o poder estadual não

tolera qualquer ingerência nos seus afazeres e não reconhece a força toda-

poderosa da lógica jurídica (1977, p.111).

O direito subjetivo, que origina o direito privado, é a expressão do indivíduo

egoísta (membro da sociedade burguesa), voltado para seus interesses e

vontades privadas, isolado da comunidade. O direito objetivo, ou público, é a

expressão do Estado burguês em sua totalidade, Estado que se revela como

poder político.

Em Pachukanis essa divisão existe e não pode ser eliminada facilmente,

uma vez que existe uma contradição entre os interesses egoístas do homem,

como membro da sociedade civil, e o interesse geral abstrato da totalidade

política. O bem comum, de maneira geral, não faz parte da lógica da sociedade

burguesa. Ele diz:

...o que caracteriza a sociedade burguesa é precisamente o fato


de os interesses gerais se destacarem dos interesses privados e
de se oporem a eles. E, nesta oposição, eles próprios revestem
involuntariamente a forma de interesses privados, ou seja, a
forma do direito (1977, p. 123).

70
A fonte desses interesses individuais está assentada na idéia de que todos

os homens são iguais, isto é, são capazes de dispor livremente seus bens no

mercado. A forma jurídica corresponde precisamente a essa relação social, o

contrato que se estabelece entre proprietários de mercadorias.

O sujeito aparece nessas relações essencialmente como o proprietário de

mercadoria, capaz de aliená-la. Se o escravo estava subordinado totalmente ao

senhor, não havia, portanto, necessidade de uma construção jurídica particular

nessa relação. O trabalhador assalariado, por sua vez ... aparece no mercado

como livre vendedor de sua força de trabalho e esta é a razão pela qual a relação

de exploração capitalista se mediatisa sob a forma jurídica do contrato (1977,

p.133).

Os conceitos de sujeito e de mercadoria encontram-se, nesse momento,

muito próximos. A mercadoria adquire valor independentemente da vontade do

sujeito, mas é no processo de troca que esse valor se realiza. O homem, aquele

que estabelece as relações sociais no processo de produção, apresenta-se como

sujeito cuja ... vontade habita nas próprias coisas17 .

Desta forma, o homem livre, quando procura o patrão, o mercado, para

vender sua força de trabalho, constitui-se sujeito de direito pois é proprietário e

estabelece uma relação jurídica. No entanto, nessa mesma ação, torna-se

também coisa. Ou nas palavras de Pachukanis:

A vida social desintegra-se simultaneamente, por um lado, numa


totalidade de relações coisificadas, nascendo espontaneamente,
(como o são todas as relações econômicas: nível dos preços, taxa
de mais valia, taxa de lucro, etc.), isto é, relações onde os
17
Karl Marx, O capital I, cap. II, citado por Pachukanis (1977;136).
71
homens não têm outra significação que não seja a de coisas, e,
por outro lado, numa totalidade de relações onde o homem se
determina tão só quando é oposto a uma coisa, isto é, onde é
definido como sujeito. Tal é precisamente a relação
jurídica...Deste modo o vínculo social, enraizado na produção,
apresenta-se simultaneamente sob duas formas absurdas, por um
lado, como valor de mercadoria e, por outro, como capacidade do
homem para ser sujeito de direito. (1977, p. 137)

Em síntese, a teoria de Pachukanis define o Direito como uma relação

social específica, a relação de troca de mercadorias. Desta relação a forma

jurídica é repassada para as demais relações sociais.

Todo o Direito está baseado na relação que estabelecem entre si os

proprietários de mercadorias, de maneira que o Direito é essencialmente privado,

as demais formas do Direito (criminal, constitucional, etc.) estão baseadas, ou

contaminadas, pela lógica das relações mercantis e, portanto, privadas.

Do ponto de vista de seu desenvolvimento histórico, o Direito atinge seu

apogeu como forma desenvolvida apenas no capitalismo, portanto, seu

fundamento é essencialmente burguês. E as formas anteriores de Direito,

inclusive o Direito grego ou o romano, são formas embrionárias de Direito.

O Direito cumpre uma função ideológica sem dúvida, no entanto este não é

o aspecto determinante ou central do Direito. O fetichismo jurídico é o mesmo

fetichismo da mercadoria. Assim também o papel do Direito como elemento de

coerção é minimizado; o elemento central de coerção de dominação de classe é o

Estado, e o Direito tem papel secundário na execução dessa função pelo Estado.

Para Pachukanis o Direito é essencialmente uma forma privada, baseada

nos interesses privados e na existência de litígio entre interesses individuais. ...

72
Qualquer tentativa que vise apresentar a função social pelo que ela é, isto é,

simplesmente como função social, e que vise apresentar a norma simplesmente

como regra organizatória significa a morte da forma jurídica (1977, p.123).

Desta maneira, o fim da forma jurídica e até mesmo do fetichismo jurídico

pressupõe um Estado social, onde não exista a contraposição entre os interesses

individuais e o interesse social.

Contrapondo-se a todos os juristas de sua época, Pachukanis sustentou a

impossibilidade de construção de um direito proletário. Isso não significava a

negação da necessidade da existência do Direito, este essencialmente burguês,

em uma sociedade de transição.

A transição para o comunismo evoluído não se apresenta,


segundo Marx, como uma passagem para novas formas jurídicas
mas como um aniquilamento da forma jurídica enquanto tal, como
uma libertação face a esta herança da época burguesa destinada
a sobreviver à própria burguesia.(1977, p. 61)

Chama a atenção sua forma de compreender a necessidade das formas

jurídicas numa sociedade de transição, pela lucidez que aparenta sua postura, se

considerarmos o momento de euforia dos primeiros anos da revolução. Ele diz:

Uma sociedade que é constrangida, pelo estado das suas forças


produtivas, a manter uma relação de equivalência entre o
dispêndio de trabalho e a remuneração sob uma forma que
lembra, mesmo de longe, a troca de valores-mercadorias, será
igualmente constrangida a manter a forma jurídica... Porém, daí
até se concluir que os tribunais e as leis terem de existir sempre,
já que, mesmo um estado de abundância econômica não fará
desaparecer todos os delitos contra a pessoa, equivalece a tomar
por essenciais e fundamentais momentos que são secundários e
derivados (1977, p. 62).

73
E responde àqueles que não acreditam na possibilidade de uma sociedade

onde não exista nenhuma forma de direito, reafirmando aquilo que a sociedade

burguesa já permite perceber em germe:

Mesmo a criminologia burguesa progressista, chegou


teoricamente à convicção de que a luta contra a criminalidade
pode ser considerada em si mesma como uma tarefa médica e
pedagógica e que os juristas com seus “corpos de delito”, os seus
códigos, os seus conceitos de “culpabilidade”, de
responsabilidade penal, plena ou atenuada, as suas sutis
distinções entre cumplicidade, participação, investigação, etc.,
não podem de modo algum prestar qualquer auxílio à solução da
questão (1977, p. 62).

Para Pachukanis, a tarefa de construir uma teoria geral do Direito é

essencial para desmascarar o Direito:

Toda a ideologia perece com as relações sociais que a geraram.


Porém, este desaparecimento definitivo é precedido por uma fase
onde a ideologia perde, sob os golpes desferidos pela crítica, a
capacidade de dissimular e velar as relações sociais das quais
nasceu. O pôr a nu as raízes de uma ideologia é o sinal certo de
que o seu fim se aproxima (1977, p. 63).

Se para o liberalismo a sofisticação cada vez maior da operacionalização

do Direito é um indício de aperfeiçoamento das relações sociais no sentido de

uma sociedade em que os homens gozem de maior liberdade, para o marxismo,

na concepção de Pachukanis, a sofisticação do Direito torna cada vez mais

fetichizada a relação do homem enquanto mercadoria, e mais distante ele está de

sua libertação.

1.3. A Sociedade Justa

74
1.3.1 Tomás de Aquino e a recuperação do conceito de justiça

econômica

Embora a reflexão sobre o Direito, sua natureza e função na sociedade,

seja fundamental para a compreensão do nosso objeto de estudo, há que se

ressaltar que, no universo profissional dos assistentes sociais, o tema do Direito

comparece, em boa parte de sua trajetória histórica, travestido pela discussão da

justiça, mais especificamente, da justiça social. Assim, introduzimos aqui algumas

questões referentes às possibilidades e limites da construção de uma sociedade

economicamente justa e da vigência dessa discussão nos dias atuais.

A possibilidade de construção de uma sociedade que seja justa do ponto

de vista econômico, isto é, do ponto de vista da distribuição das riquezas

produzidas, tem sido objeto de reflexão desde a antiguidade até os nossos dias.

Aristóteles foi quem primeiro formulou um conceito de justiça econômica

por volta do século IV a C. A sociedade da época vivia já um processo de

transição entre uma economia de mercado simples, na qual as trocas de

mercadoria se davam com vistas essencialmente ao consumo, para uma

economia de mercado mais complexa, em que os comerciantes utilizavam-se dos

seus recursos monetários para comprar as mercadorias e vendê-las com lucro.

Observando a necessidade de estabelecer limites para o mundo das

relações comerciais, Aristóteles desenvolveu um conceito de justiça específico

para a esfera da economia e, utilizando-se de princípios ético-morais, condenou

75
como contrária à natureza a prática dos comerciantes que obtinham lucros com

as suas transações.

Para tanto ele se utilizou de três argumentos básicos: primeiro, essa prática

tornava o comércio um fim em si mesmo e não um meio para a vida digna;

segundo, gerava uma possibilidade de acumulação que não tinha limites o que

contrariava o princípio de que, para viver com dignidade, o homem precisava

apenas de recursos limitados; e, finalmente, condenava essa prática porque ela

permitia que alguns ganhassem à custa de outros (MACPHERSON,1991, p.19).

A preocupação de Aristóteles estava marcada pelo fato de que a

acumulação que estava ocorrendo no mercado das cidades-estado gregas havia

separado a economia da sociedade, dos seus vínculos sociais, o que gerava

transtornos. Os comerciantes que acumulavam riquezas acabavam por modificar

as relações de troca e, conseqüentemente, a distribuição da renda entre os

cidadãos livres.

Vale ressaltar que ele considerava as relações de produção

preestabelecidas, isto é, não importava se as relações de produção envolvessem

o trabalho servil, o trabalho do camponês ou o do cidadão livre. Ele buscava

restabelecer os valores tradicionais da sociedade desenvolvendo um conceito de

justiça econômica, construindo uma ética comercial que evitasse o domínio de um

grupo de comerciantes e o caos na sociedade.

Nessa busca, ele desenvolveu dois conceitos que posteriormente foram

resgatados na Idade Média por Tomás de Aquino: o de justiça comutativa e de

justiça distributiva.

76
A justiça comutativa referia-se à troca, os preços das mercadorias

deveriam ser determinados socialmente. O importante era determinar quanto do

produto caberia a cada parte em troca do seu trabalho. O “preço justo” é aquele

que permite ao produtor da mercadoria viver de acordo com sua posição social

habitual, determinada pelo seu mérito. Nessa medida é condenada a atitude de

lucrar com a falta do produto no mercado ou com a ignorância do comprador

sobre o real valor da mercadoria.

A justiça distributiva é a que se refere à distribuição da riqueza produzida

pela sociedade entre os cidadãos. Era necessário assegurar que toda a família

tivesse uma renda que lhe permitisse gozar de uma vida com dignidade. A

questão é se Aristóteles teve sucesso em sua tentativa de refrear o processo de

acumulação nas cidades-estado gregas. Macpherson (1991) diz que não.

Desenvolvendo essa reflexão, o renomado cientista político mostra que o

conceito de justiça econômica surge nos momentos em que as sociedades

políticas tradicionais se vêem às voltas com a intromissão do mercado, como uma

reação a essa intromissão. Isso ocorreu no período em que Aristóteles formulou

esse conceito e ocorreu novamente na Idade Média, do século XII em diante.

Segundo Raquel Kritsch, o grande feito de Tomás de Aquino ... foi realizar

uma síntese entre a filosofia pagã aristotélica e a cosmologia cristã, despojando a

primeira daqueles elementos inaceitáveis a um crente (2002, p.263). Ele deu à

filosofia grego-romana uma nova leitura, mais aceitável ao gosto dos pensadores

da Idade Média, de maneira que é comum encontrarmos na literatura a expressão

“aristotélico-tomista”.

77
É no livro Tratado da Lei (questões 90 a 108 da Súmula Teológica) que

Tomás de Aquino aborda a questão da lei e da justiça. Para ele, assim como para

Aristóteles, a lei é algo que diz respeito à razão, no entanto ele concebe a razão

como uma mediação, entende que é ...por meio do conhecimento das leis que a

razão ou o intelecto humano podia apreender as verdades do intelecto divino

(KRITSCH:2002; p.303). Assim, o direito natural teria sido promulgado por Deus

que deu ao homem a capacidade de conhecê-lo através de sua natureza racional.

Por outro lado, as leis elaboradas pelo homem podiam regular a vida em

sociedade desde que estivessem de acordo com o direito natural.

A lei é definida por Tomás de Aquino como um ordenamento da razão,

sendo esta razão orientada para um fim específico: Deus. Desta maneira, a razão

prática vai operar tendo como princípio o fim específico da vida humana que é a

beatitude, a felicidade eterna e suprema, a bem-aventurança. O objetivo da lei,

portanto, dizia Tomás de Aquino, era a ordenação para o bem comum (KRITSCH,

2000, p.305).

Tomás de Aquino referiu-se às virtudes anexas à justiça que para ele

tinham a ver com o relacionamento humano. A justiça é apresentada como o

sentido que ordena a relação entre os homens e tem como implicação uma certa

igualdade.

Ele considerava como partes integrantes da justiça: fazer o bem e se

afastar do mal, cabendo ao ordenamento legal (as leis), ou justiça legal como ele

chamou, organizar a vida da cidade para o bem comum.

78
Também elaborou um conceito de justiça econômica. Estudando as

espécies de justiça que eram a comutativa e a distributiva, desenvolveu o

esquema de Aristóteles e articulou-o com seu princípio religioso. Sobre isso ele

diz:

As disposições de direito humano não podem derrogar as do


direito natural ou do direito divino. Ora, pela ordem natural,
instituída pela providência divina, as coisas inferiores são
ordenadas à satisfação das necessidades humanas. Por onde, a
divisão e a apropriação das coisas permitidas pelo direito humano
não obstam a que essas coisas se destinem a satisfazer as
necessidades do homem. E portanto as coisas que possuímos
com superabundância são devidas, pelo direito natural, ao
sustento dos pobres. (Súmula teológica apud KRITSCH:2000;
p.331)

Como se pode observar, Tomás de Aquino fazia referência à acumulação

de forma distinta da de Aristóteles. Sua idéia de justiça comutativa também

estabelecia que as coisas que fossem objeto de troca tivessem o mesmo valor e

que o preço justo em uma transação comercial era aquele que permitia ao

produtor manter sua posição social. No entanto ele foi mais tolerante no que diz

respeito aos ganhos obtidos pelos comerciantes.

Macpherson diz que o ...comércio com fins lucrativos era permitido desde

que o lucro não ultrapassasse um ganho condizente com o trabalho do

comerciante, o risco por ele assumido e as despesas com transporte (1991, p.20).

Desta maneira, era admissível que um comerciante obtivesse lucros por levar

uma mercadoria para um local distante, onde o acesso às mercadorias fosse

restrito ou perigoso, devido aos riscos a que ele se submetia para isso, mas não

eram aceitáveis os lucros obtidos em situações em que uma das partes estivesse

79
em desvantagem para negociar, lucros obtidos pela usura ou por práticas

monopolistas por exemplo.

A acumulação poderia existir no comércio desde que os ganhos fossem

moderados, ou seja, se limitassem a padrões aceitos socialmente e, sobretudo,

que houvesse benefício para a comunidade. O princípio subjacente estabelecido

aqui é o do bem comum, o do interesse da comunidade como um todo sobre os

interesses individuais.

Segundo Macpherson (1991) a aplicação dos princípios de justiça

comutativa durante a Idade Média não tinha a intenção de limitar a ação individual

dos comerciantes quanto ao seu poder de negociação, mas sim constituía-se num

mecanismo de defesa de uma sociedade cuja organização da produção e do

comércio estava sujeita a objetivos sociais, contra o avanço da lógica do

mercado, que já se fazia sentir naquele período histórico.

Até o final da Idade Média esses princípios de justiça econômica tiveram

validade e conseguiram, com o forte apoio da Igreja Católica limitar ou retardar o

rompimento do vínculo que o mercado estabelecia com a ordem social tradicional.

Mas a passagem da ordem feudal para a mercantil marca também o fim da

vigência do conceito de justiça econômica.

A sociedade mercantil estava organizada com o objetivo de promover a

acumulação de ouro e prata com vistas a reforçar o poderio dos estados-nação

ascendentes. A lógica da acumulação a partir de então passa a ser a lógica do

mercado e, portanto, os interesses da sociedade, representados pelo Estado,

estavam em sintonia com o movimento do mercado. Assim não importava se os

80
lucros obtidos através do comércio promovido pela Inglaterra, suas companhias

coloniais e até mesmo a pirataria, não estivessem lastreados em um conceito de

justiça qualquer.

Os principais pensadores do século XVII em diante fizeram a crítica aos

fundamentos da justiça econômica e consolidaram um ideário marcadamente

liberal. Para Hobbes, o valor justo de uma mercadoria era aquele determinado

pelos interesses e necessidades do contratante e, portanto o valor acertado entre

quem compra e quem vende. E, mais ainda, se a distribuição devia estar dada

pelo mérito de cada um na sociedade, diz Hobbes ...o valor ou mérito de um

homem, como de todas as demais coisas, é seu preço; ou seja, quanto lhe seria

dado pelo uso de seu potencial (HOBBES apud MACPHERSON: 1991; p.22).

A partir de então as relações econômicas ganharam uma autonomia

considerável na maior parte dos países desenvolvidos e a idéia de uma justiça

econômica, na qual as normas tradicionais asseguravam que o mercado não

dominasse sozinho as relações de produção, sucumbiu, dando por concluída a

ascensão do mercado. Como bem coloca Macpherson:

...o mercado mudou, e se percebeu que ele mudara


qualitativamente: as energias e aptidões humanas – a capacidade
dos homens de trabalhar produtivamente – tornaram-se
normalmente negociáveis. A partir daí, uma parte cada vez maior
da população trabalhadora passou a vender sua mão-de-obra em
vez de seus produtos.(1991, p. 23)

É importante destacar que essa transição para uma sociedade mercantil

não se deu sem tensões, ou de maneira linear. Medidas restritivas à expansão

desenfreada da lógica de mercado foram tomadas. Por exemplo, na Inglaterra o

81
governo mandou cercar algumas terras comunitárias, estabeleceu alguns

mecanismos que buscavam proteger a força de trabalho contra as agressões e

flutuações do mercado, como contratos trabalhistas, mas no início do século XIX

até essas medidas foram abolidas pela reforma da Lei dos Pobres.

No entanto, nesse mesmo século XIX, no âmbito da intensificação da luta

política da classe trabalhadora, o conceito de justiça econômica aparece

novamente, mesmo que não no centro da cena. Algumas correntes do movimento

socialista irão pleitear uma sociedade onde a riqueza produzida seja distribuída

de maneira eqüitativa. Exemplo desse pleito é o Programa de Gotha, programa do

Partido Social-Democrata Alemão escrito em 1875 na cidade de Gotha.

Nele os social-democratas alemães propunham: a emancipação do

trabalho exige que os meios de trabalho elevem-se a patrimônio comum da

sociedade e que todo o trabalho seja regulado coletivamente, com uma repartição

eqüitativa do fruto do trabalho18.

A reivindicação excluía o nível das relações de produção e se centrava no

nível do consumo; o que se buscava era uma forma dos trabalhadores serem

menos explorados ou, visto de outro lado, usufruírem um pouco mais da riqueza

produzida como fruto do seu trabalho.

Karl Marx já na época investiu criticamente contra essa modalidade de

reivindicação com o seu conhecido Crítica ao Programa de Gotha. Mesmo

considerando importante que o movimento dos trabalhadores se utilizasse desse

tipo de reivindicação com o intuito de melhorar as condições de vida da classe,

18
Extraído do texto Crítica ao Programa de Gotha op cit.
82
para ele o pleito, não propunha a eliminação do modo como a riqueza era

produzida no capitalismo, fonte da acumulação e da exploração.

Para Marx a luta dos trabalhadores deveria concentrar-se na luta pela

transformação do modo de produção capitalista e não na luta pela distribuição

eqüitativa da riqueza produzida. Embora a crítica de Marx não tenha impedido

que vários partidos, principalmente a social-democracia – continuassem

utilizando-se desse tipo de reivindicação, a tradição marxista a rejeita como

estratégia para se chegar ao socialismo19.

Durante os séculos XVIII e XIX pode-se dizer que o conceito de justiça

econômica não teve grande expressão. De um lado foi negado pelos liberais e de

outro foi rejeitado pelos marxistas. Segundo Macpherson, a razão disso está no

fato de que ...à medida que triunfava, a economia de mercado capitalista foi

tornando inúteis e obsoletas as noções de justiça distributiva e de justiça

comutativa: elas já não serviam para combater o domínio do mercado (1991,

p.27).

A lógica das relações de mercado invadiu todos os rincões e submeteu

todas as demais relações sociais. A economia de mercado foi considerada

funcional e satisfatória por aqueles que detinham o poder de decidir os rumos da

sociedade. E, novamente nas palavras de Macpherson : não apenas a justiça

econômica desapareceu: a justiça em geral foi reduzida ao cálculo da utilidade

máxima ou à observância dos contratos (1991, p. 28).

19
A temática foi aprofundada, entre outros, por Rosa Luxemburgo em Reforma Social ou Revolução
(1990).
83
1.3.2 Os limites da justiça econômica no marco do capitalismo de

monopólios

Para refletir sobre a utilização do conceito de justiça econômica na

atualidade é necessário primeiramente explicar como é possível que numa

sociedade submetida totalmente à lógica do mercado tal conceito tenha alguma

vigência.

Segundo Macpherson, a revitalização da justiça econômica a partir do

século XX está assentada no fato da economia de mercado não se apresentar

mais como viável. Ele diz: ...tanto os setores capitalistas mais avançados como os

movimentos de trabalhadores (e agricultores) consideram o mercado

incompetente para promover uma distribuição de renda justa (1991, p. 30).

Para o autor, a crise na crença do modelo de livre regulação do mercado

gerou a possibilidade da idéia de justiça econômica ser novamente invocada, e

isso se deu basicamente em razão de três fatores.

O primeiro diz respeito aos espaços políticos conquistados pela social-

democracia: partidos políticos e sindicatos utilizaram-se de reivindicações de

natureza distributivistas, do tipo de serviços sociais e previdenciários, em nome

de uma justiça econômica. E mais, governos social-democratas foram eleitos

desde os anos de 1920 tendo por plataforma eleitoral erigir uma sociedade em

que mecanismos de distribuição de renda e de controle dos níveis de exploração

das classes trabalhadoras limitassem os excessos do próprio capitalismo,

84
permitindo uma convivência menos tensa entre as classes; é o chamado pacto

social.

O segundo fator apontado diz respeito à concentração de capitais, típica da

fase monopolista, em que os níveis de concorrência diminuem e poucos grupos

monopolistas dominam todo o mercado. Nessas circunstâncias, o mercado não é

mais capaz de regular o comércio e a idéia liberal de que toda a troca é

necessariamente justa cai por terra, uma vez que os mecanismos reguladores de

mercado - tal como a lei da oferta e da procura -, que se reivindicavam neutros do

ponto de vista moral, são suprimidos. Segundo Macpherson, isso abre espaços

para o estabelecimento de algum tipo de padrão ético regulador dos sistemas de

trocas.

E, por fim, verificou-se que o mercado, também em razão da

monopolização, não se mostrou mais capaz de realizar a distribuição da renda, e

o Estado foi chamado para intervir na economia e realizar a distribuição

necessária para garantir a existência mesma do sistema capitalista.

Nos países capitalistas, o Estado altera o curso dos processos de produção

e distribuição da riqueza, cria incentivos, socorre o capital falido, impõe barreiras

protecionistas, leis de proteção trabalhistas, enfim, o Estado regula o mercado.

Além das explícitas necessidades do próprio capital a quem vai socorrer, a

intervenção do Estado na economia responde também às pressões dos

movimentos de trabalhadores. Desta maneira, quando um governo de tipo

democrático lança mão de uma política com base em princípios de justiça

econômica ele busca mostrar que sua ação está voltada para o bem comum.

85
Dadas as condições para que a justiça econômica se coloque novamente

em pauta, resta saber como ela se apresenta nos nossos dias e quais os limites

de sua vigência.

Do ponto de vista de uma justiça distributiva o que podemos observar é

que os governos do tipo social-democratas que nas décadas de 1940 a 1970

tiveram maior sucesso na aplicação de mecanismos de distribuição de renda –

notadamente nos países desenvolvidos - sucumbiram um após outro ao modelo

neoliberal20.

A resposta capitalista à crise econômica global que se instalou no último

quarto do século e que dura até os dias atuais foi o rompimento do pacto social e

uma guinada política à direita que afetou até mesmo os partidos da social-

democracia. Os governos que levaram a cabo políticas de bem-estar social viram-

se forçados a retroceder e a adotar medidas de cortes dos gastos públicos.

No que diz respeito a uma justiça de tipo comutativa, referente à esfera das

relações de troca, Macpherson nos aponta alguns fenômenos interessantes com

ênfase na legislação e nas sentenças judiciais. São mecanismos de proteção

contidos, por exemplo, em códigos de defesa de consumidores e códigos de

regulação comercial, que prevêem a anulação de contratos, se forem observadas

cláusulas consideradas abusivas ou extorsivas. Ele diz que: o conceito jurídico de

20
Até mesmo a teoria de John Rawls, formulador do conceito de equidade mais conhecido nos nossos dias,
que propõe uma justiça de tipo distributivista, não aceita que mecanismos de distribuição de renda interfiram
na eficiência do sistema econômico capitalista. (para mais informações ver A teoria da Justiça de John Rawls
de Marilda M.S Moreira (MOREIRA, 2003), ou a abra do próprio Rawls. Assim quando esses países se
viram diante da crise econômica que assolou o mundo a partir da década de 1970, priorizaram a eficiência do
sistema econômico em detrimento da qualidade de vida da classe trabalhadora, recortando seus programas
sociais.

86
contratos extorsivos parece incorporar o princípio comutativo da troca de valores

iguais, embora não se baseie somente nesse princípio. E certas legislações

recentes chegaram a fazer do “preço excessivo” um argumento para o não

cumprimento de um contrato (1991, p.33).

Mas o autor alerta que tais mecanismos, embora nos remetam a uma

modalidade de justiça econômica, não se têm constituído em uma regra, são

antes exemplos isolados. Além disso, se o princípio de anular contratos em que

uma das partes estivesse em desvantagem se tornasse uma regra largamente

aplicada, os primeiros contratos a serem anulados deveriam ser os contratos de

trabalho que, no caso brasileiro, submetem a maior parte dos trabalhadores a um

salário de duzentos e quarenta reais21.

Outro questionamento é o de que o parâmetro que, em geral, tem sido

utilizado para considerar se um contrato é extorsivo, é o do “preço normal de

mercado” que não é propriamente baseado na idéia de justiça comutativa como

formularam Aristóteles e Tomás de Aquino, de que o preço deveria estar

vinculado às necessidades sociais de acordo com padrões tradicionais, mas sim

está baseado no preço praticado já sob as regras de um sistema econômico

monopolizado.

A conclusão a que podemos chegar é que o conceito de justiça econômica

não tem sido aplicado, de fato, nos dias atuais, a não ser em situações pontuais e

em períodos e circunstâncias muito específicas, como no caso das três décadas

21
Salário mínimo vigente em fevereiro/2004
87
que sucederam à Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim apenas em alguns

países do mundo.

Macpherson também se mostra cético quanto às possibilidades de uso

desse conceito nesta fase adiantada do capitalismo e afirma que ...o conceito de

justiça econômica parece fadado a não ter vida muito longa...(1991, p. 35)

permanecendo em uso apenas no discurso dos países mais pobres que invocam

a justiça econômica como instrumento em sua luta contra a dominação dos

países desenvolvidos, com o intuito de não se verem totalmente subjugados

diante dos acordos de comércio internacional, sempre lesivos aos seus

interesses.

E, ao contrário da avaliação que faz Norberto Bobbio sobre o futuro dos

direitos humanos, podemos concluir que as possibilidades de garantia dos direitos

humanos na atualidade, seja dos direitos individuais, seja dos políticos, seja,

ainda, dos direitos sociais e econômicos, são cada vez menores.

Ameaçados em todo o mundo, os direitos sociais como o direito ao

trabalho, à saúde, e à assistência, vêm sendo reduzidos de fato em benefício de

mecanismos de acumulação capitalista. Nos países onde o movimento dos

trabalhadores avança em suas reivindicações por direitos sociais fica cada vez

mais clara a incompatibilidade destes com o direito de propriedade capitalista que

almeja a acumulação de capital.

Embora não sejam, em teoria, incompatíveis entre si os direitos e garantias

individuais freqüentemente são colocados em confronto com os direitos sociais,

que pressupõem o direito à propriedade privada. Os choques de interesse entre

88
classes subjacente a esse confronto leva, na maior parte das vezes, à supressão

dos direitos de liberdade, de expressão e participação política das classes

subalternas.

As ditaduras latino-americanas das décadas de 1960 e 1970 fizeram larga

utilização de mecanismos de supressão dos direitos individuais e políticos

pregando a necessidade do desenvolvimento econômico para que a população

pudesse atingir níveis melhores de condições de vida.

Mas, mesmo quando se busca manter um estado democrático de direito,

como acontece em boa parte dos países da América Latina na atualidade, os

direitos sociais acabam reféns do desenvolvimento econômico sendo,

freqüentemente, vinculados os avanços, numa área, aos avanços na outra.É

comum os governos solicitarem que a população abra mão de direitos em

benefício da economia em geral. Exemplos disso são taxações de impostos

adicionais, reformas na legislação trabalhista e previdenciária que implicam cortes

de direitos adquiridos, etc.

Esse mecanismo de impor sacrifícios ou restrições à população para obter

benefícios pode parecer legítimo à primeira vista. Sobre isso Macpherson diz:

alguns moralistas fariam sérias restrições à troca compesatória de


certos direitos civís por benefícios, e muitos alegariam ao menos
que, numa troca desse tipo, é preciso levar em conta os custos e
benefícios para as futuras gerações. Mas conquanto possamos
divergir em tais pontos, todos certamente concordamos que uma
troca compensatória é injustificável quando um grupo de pessoas
colhe os benefícios e outro grupo arca com os ônus. (1991, p..45)

89
Outra faceta perversa do limite da aplicação dos direitos humanos está nos

movimentos de negação de direitos coletivos, como o direito de autodeterminação

dos povos, cuja situação atual do Oriente Médio é emblemática. Como afirma

Macpherson (1991, p.39), para povos que não têm o direito de escolher o seu

modo de vida e de dispor dos meios para mantê-lo, o direito à autodeterminação

pode ser mais importante que qualquer direito individual.

A luta pela manutenção e até ampliação dos direitos humanos se mostra

como um instrumento importante de resistência ao avanço dos níveis de

exploração capitalista, como bem coloca Macpherson ...em qualquer sociedade

dividida em classes, e sobretudo num mundo dividido em classes - quer dizer, um

mundo dividido em países pobres e países ricos -, o lema dos direitos humanos

está fadado a ser, como o atesta a história – uma ameaça à ordem estabelecida

(1991, p.38).

Mas vale ressalvar que, assim como Marx criticou os social-democratas

alemães e seu Programa de Gotha, alertando para a importância de não fomentar

ilusões quanto à capacidade dos mecanismos de distribuição de renda alterarem

o sistema de exploração capitalista, também as reivindicações por justiça

econômica e por direitos humanos não vão direto ao cerne da questão, não

interferem diretamente nos mecanismos de manutenção da propriedade privada

capitalista, fonte de toda a exploração.

1.3.3 O Serviço Social e a justiça social

90
Diante desse quadro vale apresentar alguns aspectos da concepção de

justiça, em especial de justiça social, presentes no universo ideológico e político

dos assistentes sociais ao longo da história da profissão. Antes de mais nada faz-

se necessário afirmar que essa concepção de justiça, construída e reconstruída

pelos agentes profissionais, tem um papel que não deve ser sobrevalorizado do

ponto de vista de sua influência na determinação dos elementos que conformam a

profissão.

O surgimento da profissão e a existência de um espaço profissional

consolidado na divisão sócio-técnica do trabalho dependem essencialmente dos

mecanismos desenvolvidos pelo Estado na fase monopolista do capitalismo. Essa

vinculação torna primordiais, para a conformação da profissão, as determinações

econômicas da organização social e subordina as formulações ideológicas dos

agentes a elas. Mesmo assim há que se considerar que, como diz José Paulo

Netto,

o erguimento da sociedade burguesa madura e consolidada,


assentada na ordem monopólica, não é um processo sem
protagonistas. A sua história não é um puro desenrolar de
requisições econômico-sociais que convocam respostas
automaticamente necessárias; como em toda a história da
sociedade, nesta também “nada acontece sem intenção
consciente, sem meta desejada” {Engels}. (1992, p. 48)

É na perspectiva de subsidiar nosso estudo sobre a prática profissional que

buscamos apresentar aqui a concepção de justiça dos assistentes sociais, com a

consciência da importância e dos limites que o universo ideológico e político dos

agentes profissionais possui para a compreensão da conformação dos caminhos

e das estratégias particulares do Serviço Social no Poder Judiciário.

91
O conceito de justiça predominante no discurso dos assistentes sociais

desde as origens da profissão no Brasil guarda estreita vinculação com os

documentos sociais da Igreja Católica, principalmente as Encíclicas Sociais, e

com a influência do pensamento tomista, mais forte nas primeiras gerações de

profissionais.

No contexto do surgimento da profissão, na década de 1930, a Igreja

Católica no Brasil vivia um período de afirmação institucional em contraposição à

grande perda de espaço que sofreu com a laicização do Estado no final do século

XIX, a partir da proclamação da República, de forte influência positivista. Novas

alternativas de ação pastoral e a formação de uma elite intelectual católica serão

os instrumentos dessa afirmação institucional.

Através das Encíclicas Papais, Leão XIII22 e Pio XI23 deram conformação à

Doutrina Social da Igreja Católica que, segundo Sergio Antonio Carlos (1993),

não se constitui propriamente uma ideologia, mas apenas uma visão de mundo de

um segmento específico de uma classe social, neste caso, da classe dominante24.

A Igreja buscava estabelecer novas bases de sua relação com o Estado

republicano atribuindo-se também um papel na manutenção da ordem pública

através da disseminação de valores morais e religiosos. Seu empenho nesse

sentido foi bem recebido pelos governantes. Esse novo arranjo entre Igreja e

22
Immortale Dei de 1884, Rerum Novarum de 1891 e Graves de Communi de 1901.
23
Divini Illius Magistri de 1929, Casti Connubii de 1930 e Quadragésimo Anno de 1931.
24
No estudo de Sergio Antonio Carlos sobre a gênese e a estrutura do Serviço Social brasileiro no período
doutrinário católico a expressão visão social de mundo é utilizada na concepção de Michael Löwy, assim
definido “um conjunto relativamente coerente de idéias sobre o homem, a sociedade, a história, e sua relação
com a natureza [....] esta visão de mundo está ligada a certas posições sociais, isto é, aos interesses e à
situação de certos grupos e classes sociais. A partir de um mesmo ponto de vista de classe as visões sociais
de mundo não são únicas, ao contrário são possíveis muitas visões.”(1993, p.58)
92
Estado ocorreu sob a égide da crise social e econômica da qual a revolução

socialista de 1917 e os movimentos sociais urbanos decorrentes do processo de

industrialização são fatos marcantes, assim como a quebra da bolsa de Nova

York em 1929.

Pode-se dizer que, como conseqüência desse arranjo, o positivismo vai

servir de inspiração às elites em busca de manutenção da ordem social e o

catolicismo, de sustentação ideológica popular para legitimar a mesma ordem

social burguesa.

A Doutrina Social da Igreja Católica estava ancorada no princípio da

prevalência do direito natural como derivação da razão divina. Ao homem cabe

desvendar quais são as “leis” escondidas na ordem estabelecida, que é natural e,

portanto, inspirada em Deus. Fazem parte dessa ordem a propriedade particular e

o capital, como afirma Sergio Antonio Carlos com base em Leão XIII:

A propriedade particular e pessoal é considerada como direito


natural para o homem. Esta propriedade não deve ser
sobrecarregada por encargo por parte do governo. A obrigação de
dar o supérfluo para os pobres está embasada na lei da mútua
caridade que obriga a dar à cada um o que é seu. Esta mesma lei
obriga a inviolabilidade do direito alheio e da propriedade
particular. (1993, p.126)

A ação social da Igreja Católica constituiu-se um movimento que visava a

recristianização da sociedade com vistas à manutenção da ordem estabelecida.

Essa ordem, fundada no modo capitalista de produção foi interpretada como

ordem natural, sendo necessárias apenas algumas “correções de rota” para

garantir o direito natural. As correções deveriam estar pautadas em princípios de

justiça econômica (comutativa e distributiva), como chamou Tomás de Aquino e


93
compreendiam a condenação do liberalismo, dos monopólios e dos sistemas

totalitários (principalmente o socialismo).

A justiça e a caridade cristã são consideradas as bases para a paz social.

A diferença entre os homens e as classes sociais são reconhecidas; no entanto, a

perspectiva é a da conciliação, como cita Sergio Antonio Carlos:

Cada um deve ter sua parte nos bens materiais e preocupar-se


para que a repartição seja pautada pelas normas do bem comum
e da justiça social. Daí decorre que é impossível, na sociedade
civil que todos estejam elevados ao mesmo nível. O homem deve
aceitar com paciência sua condição. (1993, p.127)

Os primeiros agentes profissionais do Serviço Social foram formados nessa

visão social de mundo. Os dois primeiros cursos de Serviço Social (São Paulo-

1936 e Rio de Janeiro – 1937) constituíram-se inicialmente como cursos de

aprofundamento da Doutrina Social da Igreja. Como parte da intelectualidade

católica, esses primeiros agentes profissionais assumiram a justiça social e o

modelo da democracia cristã como um postulado ético necessário ao equilíbrio da

sociedade, totalmente compatível com o pensamento liberal capitalista25.

A Igreja Católica assumiu para si a justiça e os assistentes sociais

constituíam-se em importantes agentes dessa tarefa. Nessa perspectiva, ao

Estado cabe organizar e regular a sociedade através de uma legislação que

garanta as liberdades individuais cabendo à Igreja a função de nortear

principalmente a legislação social.

25
O conflito entre a concepção de mundo liberal e a concepção católica permanece latente em todo esse
processo, a medida que o ideário da igreja católica remete a uma modalidade de organização social e
econômica de características pré-capitalistas, e o liberalismo é o ideário próprio do modo de produção
capitalista; no entanto, observa-se que a convivência é perfeitamente possível. Para um aprofundamento do
tema ver (NETTO:1992).
94
Para Vilmar Adelino Vicente, em seu estudo sobre a concepção de justiça

no Serviço Social (1992), a justiça social constituía-se na própria fundamentação

da ação profissional e nela estavam implicadas desde as questões relativas à

formação profissional, visto que os agentes entendiam a prática como uma

missão apostólica, até os aspectos do agir profissional. Uma forte visão

reformadora da sociedade embasava todo o processo de constituição da

profissão. Para ele existe:

uma ênfase muito forte na solução dos problemas sociais, a partir


de uma cosmovisão ética e suas implicações no ordenamento
institucional vigente, consistindo nisso o objeto da
profissionalização. Superam-se assim algumas atitudes
retrógradas na abordagem da questão social: o pietismo, a
compaixão e o assistencialismo das benemerências, buscando-
se uma ação social sistemática e eficaz, alimentada por ditames
técnicos, mas sobretudo por uma mística e ideologia cristã (1992,
p.633).

As práticas profissionais desses primeiros agentes estavam baseadas no

ver-julgar-agir, em que o julgar era utilizado no seu sentido do julgamento

moral/ético mesmo. Essa metodologia foi desenvolvida pelo movimento de Ação

Católica e suas principais preocupações estavam vinculadas aos impactos sociais

do sistema econômico que permitia lucros excessivos de um lado, e a ameaça do

comunismo, de outro.

A luta entre as classes sociais nada mais era do que um desvio, elas eram

compreendidas como pilares da sociedade. Nessa perspectiva, os interesses dos

diversos grupos sociais deveriam ser cotejados, sendo possível e necessário

trabalhar para o congraçamento entre a burguesia e o proletariado.

95
Essa concepção de mundo em que o bem comum e a justiça social são

possíveis e desejáveis persistiu no discurso dos assistentes sociais até a década

de 1960, mas ao longo dessa década houve uma série de transformações sociais

que alteraram sensivelmente o período seguinte. A década de 60 é marcada por

uma maior influência norte-americana e também por uma intervenção profissional

nos organismos estatais muito mais atuante.

Segundo Vicente (1992, p.645), a concepção de justiça dos assistentes

sociais a partir daí vai ser alterada por diversos fatores tais como a ampliação do

universo de profissionais e conseqüentemente um pluralismo teórico-

metodológico e ideológico-político na performance profissional; a incorporação

das polêmicas das ciências sociais pelos assistentes sociais num esforço de

superação de sua subalternidade intelectual; a mudança de postura do Estado

com relação às políticas sociais que passa a ser de uma maior intervenção

sobretudo depois do golpe de 1964; por fim a emergência de uma vanguarda

acadêmica que, a partir das escolas, irá consolidar novas perspectivas de

reconceituação da profissão.

Nos primeiros anos da década de 1960 já era marcante a criticidade dos

profissionais com relação ao enfoque tradicional da profissão cuja intervenção

priorizava fundamentalmente as abordagens individuais e de grupo. A introdução

de um enfoque comunitário se deu através do Desenvolvimento de Comunidade

que abriu possibilidade para expressão de várias tendências que vão buscar

desenvolver técnicas de intervenção26. Como conseqüências dessa nova

26
Vicente (1992:649) resgata o importante estudo de Safira B. Ammann para lembrar que nesse período o
Desenvolvimento de Comunidade contemplava ações profissionais inspiradas em práticas tradicionais que
96
modalidade de intervenção os assistentes sociais interagiram com diversos

grupos sociais organizados e foram ganhando autonomia em relação aos setores

mais conservadores da Igreja Católica.

A temática do desenvolvimento - também presente na Encíclica Populorum

Progressio do Papa Paulo VI – é incorporada pelos assistentes sociais, como se

pode perceber no Documento de Araxá publicado pelo Centro Brasileiro de

Cooperação e Intercâmbio em Serviços Sociais - CBCISS em 1967, que propõe

estimular o exercício da livre escolha e da responsabilidade das decisões, o

respeito aos valores e à cultura, o ensejo da mudança com relação à

autopromoção do indivíduo e da comunidade, a atuação dentro de uma

perspectiva de globalidade da realidade social.

O conceito de justiça utilizado pelos assistentes sociais passa a incorporar

o desenvolvimento como pauta essencial, a justiça social passa a ser

determinada pelas necessidades do desenvolvimento e, como expressão dos

valores éticos e morais dos assistentes sociais, vai desaparecendo do discurso

dos profissionais na mesma medida em que se impõe o projeto de

desenvolvimento nacional da ditadura militar, norteado pelo modelo norte-

americano. Sobre o conceito de justiça desse período Vicente diz:

Desta forma o termo Justiça desaparece progressivamente do


discurso profissional, e o caráter filosófico-humanista dos valores
profissionais são substituídos por sinonímias que assumem a
roupagem de uma linguagem tecnicista, pragmática, pertinente à
performance da ideologia estrutural-funcionalista sustentadora

apenas ampliavam a extensão dos grupos em que atuavam, também contemplava ações que buscavam criar
mudanças de comportamento das comunidades mas no marco da lógica capitalista e por fim contemplava
ações profissionais que buscavam transformações sociais que tinham como objetivo alterações estruturais
direcionadas à superação da sociedade de classes. Não é necessário alongar para dizer que a possibilidade
desta última modalidade se firmar como alternativa profissional foi frustrada pelo golpe militar de 1964.
97
dos projetos da elite nacional articulada aos interesses de
internalização de mecanismos de controle nacional. (1992, p. 651)

Esta tendência encontra-se já consolidada no Documento de Teresópolis

publicado pelo CBCISS em 1970, verificando-se lá uma priorização dos aspectos

técnico-metodológicos em detrimento dos valores filosófico-humanistas

fortemente presentes no período anterior. A função expressa dessa mudança no

discurso profissional era a da modernização baseada no arcabouço conceitual

dominante nas ciências sociais naquele período que era o estrutural-

funcionalismo.

Portanto, tratava-se de uma modernização de caráter conservador cujo

objetivo era a manutenção da ordem social e do sistema econômico, em que

caberia ao Serviço Social desempenhar um papel na busca pela superação da

pobreza extrema. Esse discurso possibilitou que uma parcela da categoria

profissional atuasse em conformidade com a lógica da Doutrina de Segurança

Nacional que pregava a integração dos segmentos marginalizados da população

sob a direção do regime militar.

No entanto, para Vicente, o discurso modernizador dos assistentes sociais

nesse período mantém os mesmos princípios de justiça social anteriores:

A concepção de Justiça persiste em nova roupagem transmutada,


em que desaparece o termo, mas a idéia persiste repensada em
novas possibilidades, no caso particular, na sistematização da
abordagem das necessidades humanas como perspectiva de
equidade social. Em outras palavras, a modernização dos
serviços sociais básicos constituem instrumentos de Justiça
Social, na medida em que concorrem para a superação dos
óbices ao desenvolvimento humano e social, representado nas
carências das necessidades humanas individuais e coletivas. O
Serviço Social, portanto, estaria determinado na sua prática pelos
98
condicionamentos básicos da sociedade brasileira
subdesenvolvida e em processo de transição (1992, p.656).

Em meados da década de 1970 a tendência modernizadora teve sua

influência bastante reduzida no universo profissional dos assistentes sociais. Isto

se deve, segundo José Paulo Netto, a dois movimentos distintos: o primeiro deles

diz respeito ao seu rebatimento nos segmentos tradicionais do Serviço Social que

resistiam ao processo de laicização da profissão. Sobre isto Netto diz que ....este

segmento, de extração e vinculação católica, privilegia os componentes mais

conservadores da tradição profissional e mostra-se refratário às inovações

introduzidas pela perspectiva modernizadora (1991, p. 156).

O segundo movimento está relacionado com uma parcela dos quadros

profissionais formados no período anterior ao golpe militar de 1964– estendendo-

se até os primeiros anos da ditadura - que sofreu a influência da tradição

marxista. Esses quadros profissionais ganharam espaços, principalmente no

interior da academia, a partir dos últimos anos da década de 1970 à medida em

que o regime militar ia perdendo seu poder de repressão e se instalava a abertura

política. Sobre a relação da tendência modernizadora com esse movimento, Netto

diz ...o traço conservador e sua colagem à ditadura incompatibilizaram-na com os

segmentos profissionais críticos quer em face da autocracia burguesa {...}, quer

em face dos seus substratos teóricos (1991,P. 157).

Assim, o debate profissional na década de 1980 é marcado por duas

tendências. A primeira, de menor expressão, reclama uma fundamentação

inspirada na fenomenologia. Resgata, sob nova roupagem, o universo ideológico

99
e político dos assistentes sociais das décadas de 1940 e 1950, opondo-se às

tendências modernizadoras de inspiração positivistas/funcionalistas e, ao mesmo

tempo, às tendências críticas de inspiração marxista.

Sobre a concepção de justiça subjacente a esta tendência, Vilmar Vicente

analisa textos expressivos dessa corrente teórica, presentes no Documento de

Sumaré, fruto de um Seminário promovido pelo CBCISS em 1978, e conclui que,

para este grupo:

A justiça é um valor humano essencial que depende de variáveis


fundamentais como: a evidência das essências, fruto da reflexão
do vivido; a intencionalidade da consciência; a significação e
compreensão da totalidade humana existencial intersubjetiva; da
possibilidade do encontro dialógico e da experiência de liberdade
humana. Em resumo, compreende-se a Justiça como uma função
da singularidade humana a partir de uma situação existencial
problemática, sua significação social e possibilidade de interação
entre a pessoa e sociedade (1992, p. 669)

Nem esta tendência nem a outra, que explicitaremos a seguir, incorpora em

seu discurso a temática da justiça que se mantém afastada do centro das

discussões. Desta maneira, o conceito de justiça tratado aqui, subjaz ao discurso

desses profissionais.

A segunda tendência influencia, de maneira mais significativa, o universo

profissional à medida que a ela se filia a vanguarda da profissão inscrita nas

escolas e nos movimentos organizados da própria categoria (associações

profissionais de natureza sindical e de estudos). Reclama a tradição marxista,

100
sendo fortemente influenciada pelo movimento de reconceituação latino-

americano27.

Segundo Marilda V. Iamamoto em seu significativo estudo Relações

Sociais e Serviço Social no Brasil, ... a reprodução das relações sociais é

reprodução da dominação: reprodução ampliada do domínio de classe (1982, p.

67). E o Serviço Social ...como profissão inscrita na divisão sócio-técnica do

trabalho, situa-se no processo da reprodução das relações sociais,

fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do

controle social e na difusão da ideologia da classe dominante junto à classe

trabalhadora (p.94).

Vale ressaltar que o debate profissional ao longo de toda a década de 1980

esteve polarizado por questões postas por este grupo, que, mesmo assim, não

demonstrou grande capacidade na elaboração de respostas de intervenção

profissional orientadas por sua perspectiva teórico-metodológica.

O fazer profissional é determinado pela capacidade dos profissionais se

situarem nas relações sociais tendo como objetivo um posicionamento ético-

político favorável aos explorados e oprimidos, como podemos perceber no texto já

citado de Iamamoto, que influencia gerações de profissionais formados desde os

primeiros anos da década de 1980:

A instituição Serviço Social, sendo ela própria polarizada por


interesses de classes contrapostas, participa, também, do
processo social, reproduzindo e reforçando as contradições
básicas que conformam a sociedade do capital, ao mesmo tempo
e pelas mesmas atividades em que é mobilizada para reforçar as

27
Sobre a forma como a tradição marxista influenciou o Serviço Social nesse período ver o magnífico estudo
do Professor José Paulo Netto (NETTO, 1991) e o trabalho de Lídia M.M.R. da Silva (SILVA, 1991).
101
condições de dominação, como dois pólos inseparáveis de uma
mesma unidade. É a existência e compreensão desse movimento
contraditório que, inclusive, abre a possibilidade para o Assistente
Social colocar-se a serviço de um projeto de classe alternativo
àquele para o qual é chamado à intervir. Sendo o agente
profissional um intelectual mediador de interesses de classes em
luta pela hegemonia sobre o conjunto da sociedade, a prática
profissional é, visceralmente, permeada por esse jogo de força ,
subordinando-se, historicamente, àquelas que são dominantes do
ponto de vista político, econômico, e ideológico, em conjunturas
históricas determinadas. (1982, p. 94)

Em seu comentário sobre as várias idéias de justiça que se encontram

subjacentes ao discurso dos profissionais nesta tendência, Vilmar Vicente diz

....justiça implica numa leitura histórica dos ardis do capitalismo e suas

determinações no âmbito do exercício profissional (1992, p. 683).

Os desdobramentos políticos dessa tendência, principalmente com o fim da

ditadura e o processo de democratização da sociedade a partir da segunda

metade da década de 1980 colocaram no centro das preocupações profissionais

a luta pelos direitos sociais. O engajamento da categoria profissional na luta por

saúde, educação, assistência social, habitação, etc., numa perspectiva de

construção de políticas públicas e de ampliação de direitos de cidadania foi

intenso e dominou o debate profissional a partir de então.

102
CAPÍTULO II - A FORMAÇÃO DO JUDICIÁRIO NO BRASIL E A JUSTIÇA

ASSISTENCIAL

2.1 A função social do Judiciário

2.1.1. A constituição do Judiciário em poder de Estado

O Judiciário é uma organização criada para operacionalizar o Direito. Como

organismo responsável pela aplicação das leis elaboradas pelos legisladores,

funciona como elemento de controle social: absorver tensões, limitar conflitos

evitando a sua generalização e reduzir as incertezas do sistema político são as

funções que exerce na sociedade (FARIA, 1997, p. 6). Sua constituição enquanto

um poder de Estado é, no entanto, um fenômeno relativamente novo do ponto de

vista histórico. É parte da organização do Estado moderno, mais especificamente

da organização do Estado liberal, como vimos anteriormente.

Para melhor compreender a organização e estruturação do Poder

Judiciário como o conhecemos no Brasil atualmente, julgamos necessário

resgatar um pouco das funções desse organismo ao longo do tempo até a sua

organização em um poder de Estado.

Segundo o eminente jurista Dalmo de Abreu Dallari, no livro O poder dos

juízes (1996), o papel atribuído à magistratura ao longo da história constitui-se em

um importante indicativo para análise da função social do Judiciário nas diversas

103
sociedades. Ao longo da história, a aplicação das leis na maior parte das

sociedades estava vinculada diretamente à figura particular de um juiz ou

magistrado, muito mais do que de uma instituição ou de um organismo social.

Esses magistrados, geralmente figuras proeminentes, tinham importante

papel na maioria das sociedades antigas. Porém, a idéia de que a magistratura é

uma carreira profissional, como a entendemos hoje, não é válida para outros

tempos. Ao longo da história formularam-se duas concepções sobre o que seja

um magistrado: numa ele era o representante do povo ou de um segmento da

sociedade e noutra, ele era um auxiliar do governo.

Nas cidades-estado gregas o magistrado podia ser escolhido dentre

quaisquer cidadãos, por eleição ou por sorteio. Sozinhos ou em colegiados, os

magistrados, cujos cargos podiam ou não ser vitalícios, atuavam para solucionar

conflitos em situações específicas que lhes fossem submetidas.

As diferenças nos sistemas de escolha dos magistrados, de acordo com

Dallari, estavam vinculadas aos sistemas de governo: nos democráticos todos os

cidadãos eram eleitores e elegíveis, nos oligárquicos somente os membros da

classe dominante podiam ser magistrados. De qualquer maneira, nos dois casos

... o magistrado decidia como representante dos que haviam participado de sua

escolha, recebendo desse processo sua legitimidade para decidir (1996, p. 9).

A palavra magistratus deriva de magister, que significava chefe na Roma

antiga, e foi utilizada inicialmente para designar um representante do povo que

ocupava uma posição de importância na organização política. A condição de

104
eletividade foi uma característica da magistratura romana por um bom período, a

escolha era feita por eleição e a investidura do cargo era por prazo de um ano.

Com a expansão territorial e a incorporação de novas culturas ao longo dos

séculos, a sociedade romana ganhou complexidade. As transformações sociais e

o notável desenvolvimento do direito romano acabaram por introduzir inovações

na magistratura, dentre as quais destacam-se a existência de categorias de

magistrados (patrícios e plebeus) e a necessidade de que o eleito possuísse

conhecimento do Direito. Mas, é com o império que a magistratura romana se

transforma, extinguindo-se as eleições, tornando-se os magistrados

progressivamente funcionários do imperador e perdendo-se o caráter

representativo da magistratura.

No período posterior, na Idade Média, torna-se muito difícil caracterizar a

magistratura, principalmente durante os primeiros séculos. Os reis continuavam

nomeando seus juízes e constituindo tribunais, mas seu poder estava limitado

diante da organização feudal, dando lugar a uma multiplicação de ordens jurídicas

sem a existência de uma hierarquia e de um entrosamento entre elas.

Somente no século IX, com o aumento de poder da Igreja, com o

desenvolvimento das corporações e com as alianças entre os senhores feudais

em torno dos reis é possível encontrar algumas estruturas judiciárias comuns em

vários pontos da Europa. Surgiram os tribunais corporativos e os tribunais

eclesiásticos, que mantinham sua independência em relação ao poder legal dos

reis, julgando certas causas específicas.

105
No final da Idade Média, com a concentração do poder nos reis e a

formação dos estados nacionais, começa a extinção dos tribunais corporativos.

Generaliza-se a escolha dos juízes feita diretamente pelos reis ...o que deixava

evidente que eles decidiam e praticavam outros atos, não decisórios, em nome e

com o respaldo dos chefes supremos (DALLARI, 1996, p. 11). Com isso a

magistratura ganha muito poder, mas ao mesmo tempo deixa de ser respeitada,

passando a ser temida pelo povo em razão das arbitrariedades cometidas pelos

juízes em nome dos interesses dos reis, como diz Dalllari:

No ambiente de lutas que caracterizou grande parte da Europa do


século dezessete, governantes absolutos utilizaram os serviços
dos juízes para objetivos que, muitas vezes, nada tinham a ver
com a solução de conflitos jurídicos e que colocavam o juiz na
situação de agente político arbitrário e implacável (1996, p.11).

Os reis buscavam obter dos magistrados as decisões legais de que

necessitavam. Nessa busca ignoravam setores organizados da comunidade e até

os conhecedores do direito consuetudinário. Assim o poder da magistratura

ampliou-se de tal maneira que chegou a ponto de ser temido até mesmo pelos

reis, levando-os a reconhecer a necessidade de controlar os juízes em seus atos.

Para ilustrar esse conflito, Dallari cita um ensaio de Francis Bacon no século

dezessete intitulado Da judicatura, que diz: ...é preciso que os juízes se lembrem

de que o trono de Salomão era sustentado por leões em ambos os lados: é

preciso que eles sejam leões, mas leões sob o trono (1996; p. 13).

Na Inglaterra desse período, os juízes dos Tribunais da Coroa exerciam o

papel de funcionários diretos do rei. No entanto, o sistema legal inglês tinha uma

característica marcante que combinava essa vinculação direta dos juízes com o

106
rei a uma outra estrutura de aplicação da lei mais popular, formada por leigos -

como os juízes de paz e os membros de júri. Estes eram os responsáveis por

dirimir os conflitos cotidianos da maior parte da população. Essa característica do

sistema inglês é forte até hoje mantendo separado o julgamento de questões

cotidianas, que dizem respeito à maior parte dos cidadãos comuns, e o de

questões que dizem respeito aos conflitos maiores que interferem no sistema de

governo.

Na França do ancien régime, o Judiciário organizou-se de maneira

diferente. A magistratura fazia parte do aparato da aristocracia, o ofício de juiz

tornou-se uma propriedade que podia ser comprada, vendida, transmitida por

herança ou até mesmo alugada. Mostesquieu, o escritor de O espírito das leis,

herdou de um tio o cargo de membro do Parlement de Bordeaux, órgão judiciário

coletivo, e depois de dez anos no exercício do cargo (de 1716 a 1726), vendeu-o

por não se interessar pela atividade e por estar precisando de dinheiro.

A prestação da justiça era paga pelas partes interessadas e as denúncias

de cobranças abusivas e insatisfação da população com a atuação dos juízes

eram muitas. Contra esse estado de coisas Mostequieu escreveu:

O poder de julgar não deve ser dado a um senado permanente,


mas deve ser exercido por pessoas tiradas do corpo do povo, por
um certo período do ano, de maneira prescrita em lei, para formar
um tribunal que não dure mais do que a necessidade o exija.{...}
desse modo, o poder de julgar, tão terrível entre os homens, não
estando ligado a um determinado estado, nem a uma certa
profissão, torna-se por assim dizer, invisível e nulo. Não se tem
continuamente os juízes diante dos olhos; e se teme a
magistratura, não os magistrados (apud DALLARI, 1996, p. 15).

107
Com a revolução francesa, o sistema de aplicação das leis foi

profundamente questionado e na Constituição francesa de 1791 ficou

estabelecida, então, a eleição para juízes e a investidura temporária do cargo,

alterando-se a estrutura do Judiciário na busca por maior representatividade dos

juízes em relação ao povo. No entanto, a Constituição de 1814 revogou esse

preceito e restaurou a nomeação dos juízes pelo rei. Mais tarde, com a República,

os juízes franceses passam a ser nomeados pelo presidente e institui-se a

vitaliciedade do cargo. Por isso, segundo Dallari, nem mesmo nos dias de hoje se

pode falar propriamente em um Poder Judiciário na França, a Constituição de

1958 fala em “autoridade judiciária”.

O sistema inglês foi constituído de maneira semelhante, pois, apesar de ser

predominantemente leigo e ter um caráter mais popular, convivia com juízes

diretamente nomeados pelo governo nos tribunais superiores decidindo sobre as

grandes questões que organizavam a nação. Em ambos os países, França e

Inglaterra, o Judiciário ainda hoje não existe como um poder de Estado, mas

como uma autoridade subordinada ao poder soberano, seja ele o do rei, o do

parlamento, ou o do presidente da República.

Foi nos Estados Unidos da América, após a independência, que se

desenvolveu e se aplicou com maior rigor uma proposta de organização de um

Judiciário independente como expressão mais acabada do modelo de Estado

liberal. Baseado no sistema de freios e contrapesos, a que fizemos alusão no

capítulo anterior, o Judiciário passou a exercer uma função de controle dos

108
demais poderes, extrapolando a tarefa de interpretação e aplicação pura e

simples das leis.

Nessa configuração de Estado a independência do Judiciário em face do

Executivo e do Legislativo adquire crucial importância. Diz Dallari ...a discussão

sobre a independência da magistratura aparece com freqüência ligada à

questões da liberdade, da justiça social e da democracia (1996, p. 45). A

existência de uma magistratura independente, de juízes imparciais para julgar os

conflitos de direitos com vistas a uma harmonização pacífica de interesses de

todo o povo, baseados unicamente na Lei construída democraticamente pelos

representantes desse mesmo povo, passa a ser premissa da organização do

poder do Estado.

Foi assim que, em 1803, uma polêmica entre o presidente da Suprema

Corte norte-americana, o Juiz John Marshall e o presidente da República, Thomaz

Jefferson, terminou por consolidar as funções da Suprema Corte, firmando como

sua competência o controle da constitucionalidade dos atos do Executivo e do

Congresso Nacional. Nesse ato ficou constituído o Judiciário como um poder de

Estado.

O fato é fundamental dado que Thomaz Jefferson era então o terceiro

presidente da República e se consolidava naquele momento o governo

constitucional dos Estados Unidos da América. Inicialmente ele havia pensado o

Judiciário como uma máquina de aplicação imparcial das leis formuladas pelo

povo, tinha restrições aos juízes permanentes e defendia, como no modelo inglês,

a prevalência de leigos e dos júris populares.

109
Marshall defendia uma magistratura atuante e completamente

independente dos demais poderes. Defendia também que os juízes se

constituíssem em um corpo permanente e que não pudessem ser removidos de

seus postos nem mesmo pelo presidente da República.

No entanto, Jefferson era um defensor da independência do Judiciário e

cedeu em grande parte aos argumentos do Juiz Marshall. Assim, do embate de

idéias entre Jeffersosn e o Juiz Marshall organizou-se o sistema Judiciário norte-

americano, cujas bases estão vigentes até os nossos dias. Dallari nos diz sobre

esse período:

...os criadores dos Estados Unidos da América achavam


necessária a existência de um Judiciário que funcionasse como
fator de equilíbrio, para impedir excessos do Legislativo ou do
Executivo. Consideravam fundamental a independência da
magistratura e pretendiam que os juízes fossem neutros na
disputa entre os dois outros Poderes. Por estarem fundando um
governo republicano, desejavam que o sistema judiciário tivesse
caráter democrático, compondo-se de juízes saídos do corpo do
povo ou designados por tempo limitado pelo chefe do governo,
excluindo a hipótese de um corpo de profissionais que julgasse
por critérios técnicos. Ao mesmo tempo, respeitando o princípio
federativo, jamais tentaram estabelecer um padrão uniforme de
magistratura para os Estados, deixando que cada um decidisse
sobre sua própria organização judiciária, desde que respeitados
os princípios republicanos (1996, p. 19).

Com modificações ao longo do tempo, o Poder Judiciário norte-americano

manteve esses princípios até hoje. Os juízes, em sua maioria, são escolhidos

dentre os membros mais destacados das profissões jurídicas, são advogados

militantes, professores ou funcionários públicos. A magistratura não se constitui

uma carreira. Em mais da metade do país, os juízes são eleitos pelo voto direto

do povo ou pelo voto do legislativo estadual. No âmbito federal, porém, eles são

110
indicados pelo presidente da República e seus nomes devem ser aprovados pelo

Senado. A magistratura não é cargo vitalício; em regra, os juízes são designados

para mandatos por tempo determinado, sendo possível a reeleição: a exceção,

mais uma vez, é para os tribunais federais; nestes os juízes são vitalícios.

Do ponto de vista de sua estrutura, o Poder Judiciário norte-americano

funciona com uma primeira instância, tribunais de apelação intermediários e uma

instância superior de apelação. Ao longo do tempo, e apesar da liberdade dos

estados da federação, houve uma certa uniformização e simplificação do sistema.

Mas, o mais importante para Dallari é que nos Estados Unidos ...existe respeito

pelos juízes, cuja independência é cuidadosamente resguardada, por se

considerar que o Poder Judiciário é peça fundamental no sistema de “freios e

contrapesos”, introduzido na Constituição para impedir que o poder concentrado

destrua a liberdade (1996, p. 20).

Segundo Rogério Bastos Arantes na obra Judiciário e Política no Brasil

(1997), a força política do Poder Judiciário norte-americano foi reconhecida por

Aléxis de Tocqueville que em meados do século XIX escreveu:

O que o estrangeiro com maior dificuldade compreende nos


Estados Unidos é a sua organização judiciária. Por assim dizer,
não há ocorrência política para a qual não ouça ele {o estrangeiro}
ser chamada a autoridade do juiz; e conclui, à vista disso,
naturalmente, que o juiz é, nos Estados Unidos, uma das
primeiras forças políticas. Depois, quando passa a examinar a
constituição dos tribunais, só descobre nela, a princípio,
atribuições e hábitos judiciários. Aos seus olhos, o magistrado
nunca parece introduzir-se nos negócios públicos a não ser por
acaso; mas esse mesmo acaso repete-se todos os dias (apud
BASTOS, 1997, p. 37).

111
Quando Tocqueville se referiu ao fato das atribuições e hábitos dos

tribunais serem apenas de natureza judiciária, isto é, não eram de natureza

diretamente política, ele estava falando dos princípios da atividade judiciária

próprios do Estado de Direito liberal que, segundo Bastos, são três: o primeiro é

que o juiz somente se pronuncia sobre casos concretos, não se manifesta sobre

leis abstratas ou que possam vir a existir, é necessário a existência de um litígio a

ser apreciado; o segundo é que o juiz somente se pronuncia sobre casos

particulares, suas sentenças dizem respeito a um caso, um litígio particular, e não

devem ser generalizadas automaticamente; e por fim, o terceiro princípio é que o

juiz só se pronuncia quando provocado, o Judiciário é um órgão passivo, sendo

impróprio que um juiz emita opiniões prévias acerca de qualquer tema ou

provoque ações ou ataques à legislação. Tocqueville considerava este último

princípio o mais importante da organização judiciária moderna, pois dizia respeito

às garantias processuais e à imparcialidade do julgamento (BASTOS, 1997, p,

38).

Mas, mesmo seguindo esses princípios básicos que colocam o Poder

Judiciário como o terceiro Poder, aquele ao qual cabe aplicar as leis e não

interferir na forma como elas são elaboradas, o Poder Judiciário norte-americano

interferia nos negócios públicos e nessa medida tinha grande poder. Tocqueville

observou o poder dos juízes comuns, das instâncias inferiores, eleitos. Na

estrutura do Judiciário norte-americano não cabe apenas aos tribunais superiores

uma função especial. Todos os juízes possuem, em princípio, o mesmo poder,

este é o segredo dessa estrutura, que a torna mais democrática.

112
Para Bastos, isso se deve ao modelo de controle constitucional norte-

americano, que ele denomina de modelo difuso, que se constitui essencialmente

...na faculdade que têm os juízes e tribunais de examinar antes os fundamentos

constitucionais da lei que devem aplicar (1997, p.39).

Não existe nos Estados Unidos uma Corte Constitucional ou órgão que o

valha – o que caracteriza o sistema concentrado em oposição ao difuso -,

responsável exclusivamente por garantir que a Constituição seja respeitada pelos

demais poderes do Estado. Todos os juízes e tribunais de qualquer instância

podem fazê-lo diante de qualquer ação que esteja sendo julgada. Ainda segundo

Bastos:

Os juízes americanos não têm o poder de fulminar a vigência das


leis que reputam inconstitucionais em seus julgamentos. Se
assim o fizessem, estariam comprometendo o equilíbrio e a
separação dos Poderes. Embora não perca sua vigência, a lei
censurada pelo juiz tem sua eficácia abalada. Uma vez atacada,
seguir-se-ão outros processos, pois, os que se encontrarem na
mesma situação serão incentivados a tomar o rumo dos tribunais.
No limite, se os casos se multiplicarem e as sucessivas sentenças
confirmarem os fundamentos inconstitucionais da lei, “ocorrerá,
então, uma destas duas coisas: o povo muda a sua Constituição
ou a legislatura revoga a sua lei” (1997; p. 40).

Assim, se por um lado é possível dizer, em termos gerais, que a força

política do Judiciário, isto é, o poder do Poder Judiciário, nas sociedades

contemporâneas é resultado da possibilidade e capacidade que lhe é dada de

garantir que a Constituição seja aplicada no que tange aos atos dos demais

poderes - o Legislativo e o Executivo -, é também necessário afirmar que, nos

exemplos dos países citados, as grandes questões que envolvem o sistema

político e a organização social, isto é, as questões constitucionais, são

113
deliberadas por juízes cuja escolha está fortemente determinada pelos demais

poderes, com exceção do modelo proposto pelos Estados Unidos da América.

A evolução dos organismos de aplicação das leis atinge no Estado

moderno o seu momento de maior sofisticação chegando a se constituir em poder

de Estado e ganhando atribuições fundamentais na estruturação do estado de

direito. No entanto, os limites de operacionalização dessa sofisticada estrutura

não se encontra na organização interna do próprio Estado, mas nas forças

externas a ele, na própria estrutura da sociedade organizada em classes sociais

com interesses antagônicos.

2.1.2. A crise do Judiciário ou o Judiciário da crise

O poder do Poder Judiciário está assentado ainda em mais um elemento

importante que, sob novo ângulo, lhe garante força e sustentação: o universo

ideológico liberal. Como estrutura de controle social, organismo

operacionalizador do direito positivo, o Judiciário está impregnado dos elementos

ideológicos que fazem do Direito um pilar da sociedade no liberalismo. Isto é

ainda mais significativo quando ele assume a forma de um Poder de Estado.

Para além de designar um sistema baseado na liberdade tutelada pela lei,

na igualdade formal, na certeza jurídica e no equilíbrio entre os poderes, o

liberalismo se toma como uma expressão retórica: ele utiliza a carga emotiva de

palavras como “liberdade” e “igualdade” para a defesa de valores abstratos, com

fins de manipulação social.

114
José Eduardo Faria, afirma que é a força de operar essa retórica que faz

do liberalismo jurídico um dos mais importantes estereótipos políticos do mundo

moderno, estereótipos estes largamente utilizados no espaço institucional do

Poder Judiciário. Para ele:

As expressões estereotipadas na linguagem política cumprem,


assim, um papel decisivo na reprodução das formas de poder. – e
é nesse sentido que o estereótipo “liberalismo”, produzindo o
efeito de distanciamento e o conseqüente espaço ideológico no
qual o Estado moderno monopoliza a produção do direito e
manipula os instrumentos normativos e políticos necessários à
manutenção de um padrão específico de dominação, provoca
uma alienação cognoscitiva entre os “cidadãos” formalmente
“iguais”: afinal, ao serem levados a acreditar na possibilidade de
uma ordem legal equilibrada e harmoniosa, na qual os conflitos
socioeconômicos são mascarados e, “resolvidos” pela força
retórica das normas que regulam e decidem os conflitos jurídicos,
tais “cidadãos” tornam-se incapazes de compreender e dominar
as estruturas sociais em que eles, enquanto indivíduos
historicamente situados, estão inseridos (1997, p. 21).

No entanto, apesar desses fortes elementos de alienação do próprio

Direito, analisados também por Pachukanis, a capacidade das estruturas como o

Poder Judiciário, criadas para garantir que as tensões sociais se mantenham em

níveis administráveis, continua subordinada à confiança dos “sujeitos de direito”

nos imperativos que todos os cidadãos devem cumprir e na autoridade,

legitimidade e imparcialidade dos agentes que aplicam a lei.

Assim, diz Faria, ...havendo alguma dúvida sobre esses imperativos, e

existindo interpretações ambíguas ou discrepantes quanto ao seu sentido, os

pilares básicos do sistema legal se desmoronam...(1997, p. 26). E, à medida que

o sistema tem demonstrado sua incapacidade para garantir esses imperativos

instala-se uma crise.

115
O sistema jurídico liberal foi pensado como estratégia de contenção de

conflitos num período histórico em que o crescimento da economia capitalista

permitia conceber o modelo de Estado e de organização das estruturas jurídicas

sendo amplamente disseminado por todo o globo. Porém, os choques entre os

interesses de classe tornaram-se cada vez maiores e mais profundos à mesma

medida em que se aprofundaram as crises da economia geradas pelo sistema

capitalista, afetando seriamente a capacidade de crença da maior parte dos

cidadãos no sistema jurídico liberal.

Os fenômenos da fase monopolista do capitalismo tais como a

concentração de capitais e o desemprego crescente gerado pela inversão em alta

tecnologia, levaram a um agravamento da “questão social”, e os choques entre

interesses de classes fugiram da esfera do controle do sistema jurídico visto que

esse mesmo sistema viu-se obrigado a criar e aplicar leis que resguardassem a

propriedade privada e limitassem o atendimento às reivindicações dos

trabalhadores.

Nesse regime, que já dura mais de um século, as relações sociais

tornaram-se cada vez mais conflituosas e cada vez menos reguláveis por

processos jurídicos e procedimentos judiciais com aparência de imparcialidade.

No plano político mais geral, o Estado capitalista nessa nova fase adquiriu

contornos explícitos de Estado intervencionista, abandonando sua função de

guardião das condições externas da organização social, para intervir diretamente

na economia. Isto é, o liberalismo deixou de ter função prática, embora seja

preservado no discurso quando pode ser útil.

116
As formas desse intervencionismo estatal comportam alternativas políticas

que vão desde os regimes ditatoriais até os modelos do tipo de “estado de bem-

estar” que prevêem um pacto entre as classes sociais em luta. Ou nas palavras

de José Paulo Netto que analisa em profundidade esta questão, ...onde não se

defrontou com um movimento democrático, operário e popular sólido, maduro,

capaz de estabelecer alianças sócio-políticas em razão de objetivos

determinados, a burguesia monopolista jogou em sistemas políticos desprovidos

de qualquer flexibilidade e inclusividade (NETTO 1992, p. 24)

O sistema jurídico e com ele as estruturas de sua operacionalização não

ficaram imunes às transformações sociais e econômicas geradas por essa

alteração essencial no modo de operar do Estado capitalista e, como parte do

Estado, adaptou-se enquanto instrumento para dar respostas a essa situação.

Os estudos de Boaventura de Souza Santos com relação aos fenômenos

que rebatem nos sistemas de administração da justiça28 em seu processo de

adaptação a essa nova conjuntura política e econômica, referem-se à explosão de

litigiosidade que acometeu os países capitalistas no século XX.

Para ele, essa explosão de litigiosidade se deveu à transformação do

Estado liberal em Estado-providência, que se envolveu na gestão dos conflitos

entre classes sociais buscando minimizar as desigualdades no âmbito do modo

de produção capitalista. Para o autor:

28
O autor utiliza o conceito de administração da justiça como uma concepção que vê nos tribunais ...um
subsistema do sistema político global, partilhando com este a característica de processarem uma série de
imputs externos constituídos por estímulos, pressões, exigências sociais e políticas e de, através de
mecanismos de conversão, produzirem outputs (as decisões) portadoras elas próprias de um impacto social e
político nos restantes subsistema. (SANTOS, 1997; p. 51).
117
A consolidação do Estado-providência significou a expansão dos
direitos sociais e, através deles, a integração das classes
trabalhadoras nos circuitos de consumo anteriormente fora do seu
alcance. Essa integração, por sua vez, implicou que os conflitos
emergentes dos novos direitos sociais fossem constitutivamente
conflitos jurídicos cuja dirimação caberia em princípio aos
tribunais, litígios sobre a relação de trabalho, sobre a segurança
social, sobre a habitação, sobre os bens de consumo duradouros,
etc. (SANTOS, 1997, p. 43).

Mas, se isso já traria problemas para a administração da justiça pelo

simples fato de ampliar, e muito, a demanda por seus serviços, esses problemas

foram agravados pela crise do modelo que ocorreu no início dos anos de 1970. A

crise econômica mundial que corroeu as bases do pacto social que sustentava o

modelo de bem-estar social provocou o corte nos gastos públicos e não permitiu

mais que os governos cumprissem com os compromissos assistenciais e

previdenciários assumidos com as classes populares, gerando nova motivação

para a busca por direitos nos tribunais, busca provavelmente infrutífera dada a

incapacidade desses tribunais de impor regras aos demais órgãos do Estado.

A formulação de Boaventura de Souza Santos aplica-se à realidade dos

países que viveram o pacto social, países cujos governos de inspiração social-

democrata ampliaram consideravelmente os serviços sociais num período

histórico bastante delimitado que vai do período após a Segunda Guerra até

meados da década de 70, como cita o próprio autor. No entanto, as circunstâncias

às quais a maior parte dos países capitalistas do mundo – incluindo-se a América

Latina - estavam e estão submetidas são diferentes.

Sob um mesmo ponto de vista, mas buscando abarcar a realidade dos

países atrasados, José Eduardo Faria identifica esse mesmo fenômeno – a

118
explosão de litigiosidade - e o relaciona a um movimento de despolitização dos

conflitos sociais, transformando esses conflitos em questões de natureza

econômico-administrativas.

Para ele, esses conflitos sociais, após serem retirados da esfera política da

luta de classes, são “repolitizados” no interior do aparelho estatal, através de

outros mecanismos de controle. O aparelho burocrático do Estado cria novos

centros de poder autônomos que escapam do sistema jurídico-político tipicamente

liberais, como podemos observar em suas palavras:

Ao “tecnificar” dessa maneira a política, convertendo


reivindicações oriundas de partidos, grupos profissionais,
associações e movimentos populares em demandas
“econômicas” e as transformando em seguida em meros
problemas “administrativos” com o objetivo de trazê-las para o
interior dos seus “anéis” burocráticos, a fim de melhor controlá-
las, o Estado dito ”intervencionista” acaba adotando uma
estratégia peculiar: ele respalda-se na aparente neutralidade
técnica dos interesses que organiza ao nível do Executivo,
procurando assim aliviar a sobrecarga das categorias jurídicas
tradicionais e das demais instituições (Judiciário e Legislativo)
deflagrada por pressões que elas não podem suportar, sob risco
de comprometimento da funcionalidade do sistema jurídico como
um todo (FARIA, 1997, p. 30).

Faria explica que a legitimidade do sistema liberal estava centrada na

garantia de que as leis seriam aplicadas para todos de maneira imparcial. Já no

modelo do Estado intervencionista, a legitimidade vem de sua capacidade de

ação regulatória, o que implica a sua habilidade em despolitizar os conflitos e

levá-los, de forma controlada para um âmbito no qual ele possa obter o

engajamento dos envolvidos na manutenção da ordem vigente.

119
Mesmo sendo esta uma nova estratégia, dadas as características

profundas da crise na qual está mergulhado o sistema capitalista, esse mesmo

Estado intervencionista não pode prescindir de nenhuma das fórmulas que lhe

permitam controlar essa explosão de litigiosidade e acaba lançando mão de todos

os meios disponíveis. Assim, utiliza tanto os elementos formais e característicos

do sistema normativo jurídico liberal - mesmo que esse formalismo seja apenas

“de fachada” -, quanto os recursos normativos mais abertos que permitem que as

regras do jogo sejam definidas de acordo com a força dos atores envolvidos,

buscando em todos os lados um nível qualquer de consenso social.

Essas duas lógicas convivem sem contradição, pois não são excludentes.

As formalidades das instituições de aplicação das leis como os tribunais

soberanos, as salvaguardas de direito, as determinações judiciais, continuam

sendo utilizadas, mas são refuncionalizadas no novo quadro político-institucional.

Nesse novo quadro destaca-se o fato do Estado utilizar como instrumento a

formalidade dos estatutos jurídicos, mas não se submeter a nenhum deles. Ao

mesmo tempo, ele é consciente de que a legitimidade de suas ações passa pela

utilização desses instrumentos formais na comunicação entre os que legislam e

aqueles para quem se legisla.

A solução para essa situação ambígua é a utilização de uma legalidade

difusa que admite uma legislação cada vez mais flexível e genérica, capaz de

encobrir as contradições e os conflitos sociais que a ela estão subjacentes. Uma

legalidade que se assenta numa concepção de “justiça” que não está baseada no

120
universo do direito positivo, mas num conceito abstrato que evoca valores

culturais e sociais também genéricos.

O Estado liberal utilizava-se de um discurso jurídico baseado na

racionalidade da norma como instrumento que define o que é lícito e o que é ilícito

e na neutralidade do Poder Judiciário: seu discurso jurídico era objetivo e

prescritivo. Ao contrário, no Estado intervencionista o discurso jurídico é ético e

pedagógico, uma vez que se baseia na capacidade de dar respostas mínimas às

contradições sociais.

Faria destaca que, em última instância, essa capacidade ...encerra um ato

de força e arbítrio mas uma força e um arbítrio mascarados por uma cosmovisão

garantidora da dominação, ou seja: a retórica da “justiça social”, a ideologia do

“progresso”, etc..(1997, p. 34)

A conseqüência da utilização dessa estratégia é o enfraquecimento do

sistema jurídico como um todo e, no caso do Poder Judiciário, a redução de sua

capacidade de colocar em prática o frágil e, muitas vezes confuso, sistema de

normas constituído por leis, decretos, portarias normativas, legislação dispositiva,

e instrumentos para-legais.

Em contrapartida amplia-se o poder normativo do Executivo através da

utilização crescente de decretos-lei, medidas provisórias, resoluções

administrativas, portarias, etc. que colocam em prática as decisões e os acordos

elaborados no interior da burocracia estatal através de câmaras de negociação,

de arbitragens, e outros mecanismos do tipo.

121
As expectativas no poder que o Poder Judiciário tem de dirimir conflitos,

expectativas estas alimentadas pela força ideológica do liberalismo, confrontam-

se com a incapacidade dos tribunais de dar respostas aos profundos problemas

que assolam cada vez mais pessoas na sociedade capitalista em crise.

É o agravamento das contradições próprias do regime capitalista que

inviabiliza a possibilidade de aplicação das leis. Contudo, é o Poder Judiciário

que, através de seus organismos (tribunais, juizados, etc.), experimenta

cotidianamente as conseqüências dos problemas sociais, e dele a sociedade

cobra soluções.

Diante da impossibilidade de resolver esses problemas que se expressam

como problemas individuais, mas são em realidade profundos problemas da

sociedade como um todo, impõe-se o reconhecimento da falência das estruturas

de operacionalização do Direito.

Esta é a questão que se encontra no fundo do que se chama de “crise do

Poder Judiciário”. Que nada mais é, a nosso ver, do que a expressão dos limites

do sistema jurídico, incluindo os órgãos de operacionalização, em administrar as

seqüelas da crise social que no capitalismo monopolista se aprofunda

continuamente.

2.1.3. A busca pela superação da “crise do Poder Judiciário”

122
Buscamos compreender aqui os movimentos que o Poder Judiciário faz

para responder às determinações macroscópicas que o colocam em “crise”.

Interessa-nos descobrir as formas que ele encontra para minimizar os problemas

que essa “crise” impõe aos usuários dos serviços de justiça.

Observadas a partir de dentro dos tribunais, pelos operadores do Direito,

pelos administradores do sistema de justiça, as dificuldades encontradas por

vários segmentos da população para obter justiça, podem apresentar-se como

problemas técnicos.

A solução para tais problemas, a nosso ver, está vinculada a respostas

estruturais, uma vez que eles são apenas mais uma das expressões de uma

ampla crise. Porém, as buscas para sua superação podem indicar caminhos que

permitam uma maior expressão política da população excluída do acesso ao

Direito, desmascarando mecanismos de alienação.

Vale ressaltar também que esta busca de respostas tem-se constituído

movimento mundial de enfrentamento da crise do Judiciário e que vem

influenciando alguns movimentos no Brasil nas últimas décadas.

Uma das mais importantes questões a ser considerada por aqueles que

buscam um melhor funcionamento do Poder Judiciário é a do acesso à justiça. O

conceito ingênuo de que todo o cidadão tem o direito formal de propor ou de

contestar uma ação nos tribunais foi questionado por aqueles que observaram

que a justiça, no Estado liberal, só podia ser obtida por aqueles que podem fazer

frente aos seus elevados custos.

123
No período áureo do liberalismo (1800 – 1914) utilizar os serviços da

justiça era uma possibilidade apenas disponível para aqueles que possuíam bens

suficientes para pagar advogados e custas judiciais. Já na segunda metade do

século XIX, Marx denunciava, em seu já citado Crítica ao Programa de Gotha,

que o caráter público da justiça estava restrito ao seu auto-acionamento em casos

de violação da lei burguesa, ...a justiça criminal é gratuita em toda parte; a justiça

civil gira quase inteiramente em torno dos pleitos sobre a propriedade e afeta,

portanto, quase exclusivamente as classes possuidoras29. Em sua denúncia está

implícita a compreensão de que os tribunais são parte do aparelho de Estado e

funcionam como instrumento de repressão e regulação da vida social e da

propriedade privada.

Mas, no marco da ampliação dos direitos sociais preconizado pelo modelo

do Estado de bem-estar social, desenvolve-se uma crítica aos limites de acesso

das pessoas à justiça. Mauro Cappelletti e Bryant Garth, em seu livro Acesso à

Justiça publicado originalmente na Itália em 1978, afirmam:

De fato, o direito ao acesso efetivo tem sido progressivamente


reconhecido como sendo de importância capital entre os novos
direitos individuais e sociais, uma vez que a titularidade de direitos
é destituída de sentido, na ausência de mecanismo para sua
efetiva reivindicação. O acesso à justiça pode, ser encarado como
o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos –
de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda
garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos (1988, p.
12).

O acesso à justiça passa a ser encarado como o mais básico dos direitos

humanos e a preocupação por garantir esse direito e ampliar as formas de acesso


29
O texto pode ser encontrado em Marx, K e ENGELS, F. Obras escolhidas, São Paulo. Editora Alfa-
õmega, tomo 2 p. 223.
124
da população cresce à mesma medida que se constatam os vários limites para a

sua efetivação. Esses limites são de naturezas diversas como os obstáculos

culturais e administrativos, e não apenas de ordem econômica, o que impõe aos

estudiosos do tema uma crítica ao sistema jurídico e propostas de alterações de

todo o aparelho judicial. Este conjunto de críticas e propostas é conhecido como

“enfoque do acesso à justiça”, uma matriz de análise do sistema judicial.

Refletindo sobre alguns desses limites os autores organizam em três

grupos os principais problemas que afetam o acesso à justiça: as custas judiciais,

as possibilidades das partes e os problemas dos interesses difusos.

Examinaremos cada um deles.

As custas judiciais são um entrave primeiro para que as pessoas que se

encontram envolvidas em um litígio cheguem aos tribunais. Mesmo considerando

que a estrutura física e de pessoal sejam custeados pelo Estado existem os

gastos com advogados e com as custas processuais, isto é, as diligências e

ações que o juiz solicitar como intimações, estudos, pareceres, etc., serão pagos

pelas partes envolvidas. Existem países onde aqueles que perdem a causa ficam

responsáveis por todas as custas judiciais, mas existem outros em que cada uma

paga a sua parte. Em ambos os casos existe a necessidade de possuir condições

para, no mínimo, iniciar uma ação.

Os autores citam inúmeros estudos que indicam o alto custo dos processos

judiciais. Por exemplo, na França constatou-se que, nos casos de pessoas com

renda inferior a U$370, o custo médio das ações era de, no mínimo, 144% dos

seus ganhos mensais (1988, p. 16 n.r.). Mas a situação fica ainda mais séria

125
quando se leva em conta a situação de causas pequenas, que envolvem valores

mais baixos. Na Alemanha, por exemplo, uma causa que envolva um valor de

U$100 custaria ao requerente U$150 em custas e serviços advocatícios, isso se

for tramitada apenas em primeira instância. Esses custos tornam as pequenas

causas inacessíveis (idem, p. 19).

Um outro aspecto ainda vinculado às custas judiciais é a demora no

andamento dos processos. Na Bélgica, a média de duração de um processo em

1969 era de quase dois anos e na França chegava a dois anos e três meses.

Considerando os índices inflacionários e os gastos que se acumulam,

principalmente com honorários de advogados, esses prazos tornam a justiça

inacessível para muitas pessoas.

O segundo grupo de problemas apontados diz respeito às possibilidades

das partes que se envolvem nos litígios, quer dizer, existem indivíduos ou

instituições que possuem condições diferenciadas, vantagens estratégicas, que

lhes garantem maior acesso à justiça. Nessas condições estão os que possuem

recursos financeiros elevados que lhes permitem, por exemplo, gastar mais

dinheiro que a outra parte envolvida, pagar auxiliares mais capacitados e suportar

melhor as delongas do sistema.

Muitos desses podem tornar-se usuários sistemáticos do sistema judicial;

são os “litigantes habituais” como denominam os autores. A maior experiência no

trato do Direito e dos procedimentos judiciários também lhes é favorável; eles

possuem maior conhecimento das estruturas, dos atores do processo, podem

126
planejar as ações e diluir os riscos dos vários procedimentos impetrados.

Possuem, assim, claras vantagens sobre os “litigantes eventuais”.

Mas, existe ainda um outro diferencial que atinge a maior parte da

população de baixa renda, que é a capacidade das pessoas reconhecerem os

seus direitos. Essa capacidade tem relação com as condições financeiras, com o

nível educacional e de informação e até mesmo com o meio em que vivem. É a

capacidade de reconhecer, por exemplo, se um contrato assinado deve ou não

ser cumprido, independente de ter ou não cláusulas que ferem outros direitos.

Direitos já consolidados, como o direito ao divórcio, podem ser mais facilmente

reconhecidos pela população em geral do que o direito a um ambiente saudável,

sem a poluição.

Além disso, as pessoas não conhecem as maneiras de reivindicar

judicialmente seus direitos. Boa parte da população desconfia de advogados,

como mostra um estudo realizado na Inglaterra onde 11% dos entrevistados disse

que jamais procuraria um advogado (idem, p. 24). Os procedimentos utilizados

nos tribunais são complicados, os ambientes intimidadores, os agentes da justiça

são formais.

Por fim, o terceiro grupo de problemas que afeta o acesso à justiça está

relacionado aos direitos difusos, aqueles que representam interesses coletivos ou

fragmentados, tais como o direito à saúde, educação, o direito de proteção do

consumidor, direito a um ambiente saudável, etc. Dada sua natureza geral e

indivisível, em que os sujeitos são indeterminados, são direitos de todos, mas

correm o risco de não serem reivindicados por ninguém.

127
Caberia ao Estado garantir a maior parte desses direitos e, se ele não o

faz, um indivíduo sozinho terá dificuldades para levar a empreita. As dificuldades

residem na falta de interesse em solucionar um problema cujo benefício em si

pode ser muito pequeno como no caso da poluição causada pelos automóveis:

dificilmente um indivíduo pode avaliar os custos disso para sua saúde pessoal; ou

nas dificuldades de agregar um número maior de indivíduos que queiram buscar

coletivamente uma solução judicial para a questão. Ao mesmo tempo que não é

possível confiar apenas no Estado para a proteção dos interesses difusos, é difícil

mobilizar a esfera privada para superar a fraqueza da máquina governamental.

Cappelletti e Garth concluem indicando as tendências que esses

problemas apontam, para eles:

...os obstáculos criados por nossos sistemas jurídicos são mais


pronunciados para as pequenas causas e para os autores
individuais, especialmente os pobres; ao mesmo tempo, as
vantagens pertencem de modo especial aos litigantes
organizacionais , adeptos do uso do sistema judicial para obterem
seus próprios interesses.
Refletindo sobre essa situação, é de se esperar que os indivíduos
tenham maiores problemas para afirmar seus direitos quando a
reivindicação deles envolva ações judiciais por danos
relativamente pequenos, contra grandes organizações (1988, p.
29).

As iniciativas de criar mecanismos alternativos para superar os limites de

acesso à justiça começaram a ser tomadas de maneira sistemática no final da

década de 1940, embora já existisse o reconhecimento do problema desde o

século anterior. Na Inglaterra, na Alemanha e na Itália, por exemplo, desde o

século XIX a legislação estabelecia que os advogados atendessem gratuitamente

128
os pobres. A República de Weimar, na Alemanha instituiu pagamento para esses

advogados.

Os passos mais consistentes, porém, começaram a ser dados em 1949

com um programa inglês em que o Estado reconhecia a necessidade de

compensar os advogados pelos serviços de orientação e assistência judiciária

que davam aos pobres. Em 1965, nos Estados Unidos, um programa de

remuneração da ação comunitária incluiu a assistência jurídica como serviço

remunerado pelo Estado. Em 1972 a França adotou a remuneração dos serviços

dos advogados e, na seqüência, a Alemanha, a Holanda..., de tal maneira que

uma série de movimentos fizeram crescer a tendência pela criação de serviços

que buscavam ampliar o acesso da população à justiça.

Por isso o primeiro grande movimento do sentido de ampliação do acesso

à justiça foi a criação de sistemas de assistência judiciária que consistem

basicamente na prática do Estado remunerar advogados para que orientem e

prestem assistência àqueles que não possuem recursos financeiros para isso. Em

alguns países, esses sistemas funcionam com uma lista de advogados

particulares que se credenciam para atender essas pessoas. Os honorários

seguem tabelas mais ou menos atraentes conforme o país. Existem programas

que prevêem o pagamento de orientação jurídica sem que haja prévia autorização

dos órgãos públicos30 e a liberação do pagamento é automática. Em outros

existem sistemas de subsídios que cobrem todos os gastos para os mais pobres e

níveis decrescentes de auxílios conforme aumenta a renda do requerente.

30
Segundo Cappelletti &Garth na França uma legislação de 1972 previa que qualquer cidadão poderia
utilizar até 25 libras esterlinas em serviços jurídicos sem prévia autorização formal (1988, p. 36 nr).
129
Esse sistema acaba com a barreira dos custos da assistência jurídica, mas

não resolve o problema das dificuldades em reconhecer uma causa, por exemplo.

Para enfrentar esta dificuldade surgiu nos Estados Unidos, em 1965, um

programa que contratava advogados e os colocava em escritórios próximos às

comunidades mais pobres auxiliando essas comunidades a reconhecerem os

seus direitos e a reivindicá-los. O programa tinha limitações, pois não é possível

negar que para funcionar havia a necessidade de recursos públicos, recursos que

eram utilizados muitas vezes em ações contra o próprio governo. Além disto,

Cappelletti & Garth consideram que, dada a sua agressividade, havia muita

dificuldade em capacitar advogados para tal fim.

Sistemas mistos que oferecem os dois modelos combinados de assistência

judiciária podem ser encontrados na Suécia e no Canadá. O sistema inglês da

década de 1970, que criou os centros de atendimento jurídico de vizinhança, é um

exemplo. Agentes e advogados assalariados trabalham juntos buscando

identificar as causas e dando tratamento individual ou coletivo conforme o

necessário.

Mas a assistência judiciária tem seus limites, primeiramente os autores

apontam para o fato de que ...em economias de mercado,{...} a realidade diz que,

sem remuneração adequada, os serviços jurídicos para os pobres tendem a ser

pobres, também (1988, p. 47). Ela também não dá boas respostas às pequenas

causas, e os advogados contratados pelo Estado para as causas coletivas

negligenciam geralmente os problemas, como os direitos do consumidor, o meio

ambiente, dando mais atenção aos direitos individuais dos pobres.

130
Assim, um segundo movimento empenhado em melhorar o acesso à justiça

passa a se preocupar mais de perto com os direitos difusos. Trata-se de um

movimento que encontra mais dificuldades por exigir a transformação da

concepção do processo civil que precisa alterar o individualismo e incorporar uma

concepção coletiva que atenda questões de interesse social.

Nessa linha está a ação dos próprios agentes governamentais tais como o

Ministério Público. Conquanto tenha obtido grandes avanços, este encontra

entraves em sua atuação que vão desde as limitações que o obrigam a se munir

de auxiliares especializados para suprir a falta de qualificação de seus quadros

em questões como proteção à infância, meio ambiente, problemas dos idosos,

etc., até o maior dos problemas que é a sua vinculação com o Estado,

funcionando essencialmente como um órgão político.

Outras iniciativas nesse sentido são o incentivo, reconhecimento e apoio

aos grupos organizados de defesa dos direitos para atuarem como agentes

formais de defesa, e a possibilidade de impetrar ações coletivas de interesse

público. Existem experiências de organizações de advogados particulares

voltados para interesses públicos: são geralmente entidades sem fins lucrativos.

Em alguns casos, a combinação entre os advogados dos escritórios de vizinhança

com a ação dessas organizações surtem bons efeitos.

Esses dois grandes movimentos, a assistência judiciária e a defesa dos

direitos difusos, buscam ampliar o acesso à justiça através da garantia da

representação judicial de indivíduos e da coletividade, porém, por mais eficientes

que sejam esses mecanismos observa-se que as pequenas causas e os novos

131
direitos não encontram caminhos adequados de solução. Cappelletti &e Garth

afirmam ...cada vez mais se reconhece que, embora não possamos negligenciar

as virtudes da representação judicial, o movimento de acesso á Justiça exige uma

abordagem muito mais compreensiva da reforma. (1988, p 70)

Nessa linha encontra-se um terceiro e mais abrangente movimento que

combina o estímulo à assistência judiciária e à defesa dos direitos difusos com o

estimulo a uma gama de reformas no sistema de aplicação das leis envolvendo

mudanças de procedimentos, criação de novos tribunais, utilização de leigos e

para-profissionais, profissionais de outras áreas ou pessoas especialmente

treinadas como agentes de justiça (inclusive como juizes, intermediadores,

defensores) e mecanismos para evitar litígios ou resolvê-los em outras esferas

externas ao sistema judiciário.

A reforma dos procedimentos judiciais implica a modernização dos

equipamentos, a redução ou até eliminação das custas processuais; a introdução

de mecanismos de oralidade como as conversas envolvendo as partes, as

testemunhas, os advogados e o juiz para discutir o caso; e até mesmo a redução

da extrema neutralidade do juiz que, como diz Cappelleti &Garth se referindo ao

sistema norte-americano:

Atualmente admite-se em geral que a utilização de um juiz mais


ativo pode ser um apoio, não um obstáculo, num sistema de
justiça basicamente contraditório, uma vez que, mesmo em litígios
que envolvam exclusivamente duas partes, ele maximiza as
oportunidades de que o resultado seja justo e não reflita apenas
as desigualdades entre as partes (1988, p. 77).

132
Também se observa uma tendência à criação de tribunais especializados

voltados para causas específicas como os tribunais de consumidores e os de

pequenas causas, voltados para os litígios de pequeno porte que atingem a maior

parte dos cidadãos comuns. Esses tribunais são caracterizados pela maior

informalidade dos juízes, rapidez e baixos custos.

Os conselhos ou tribunais de vizinhança, inspirados nos tribunais populares

dos países socialistas, cuja tônica é o envolvimento da comunidade na facilitação

da solução de pequenos conflitos como furtos, desentendimentos e pequenos

danos à propriedade, envolvendo uma população estável como a de umbairro ou

um coletivo de trabalhadores.

Mecanismos de conciliação que evitam o estabelecimento do certo e do

errado, do culpado e do inocente também são utilizados, tanto dentro dos

tribunais de pequenas causas e dos conselhos de vizinhança, como instrumento

prévio de uma decisão, quanto fora deles. Fora dos tribunais também pode existir

o juízo arbitral, geralmente acordado pelas partes e pago por elas.

Se por um lado o movimento no sentido da ampliação do acesso à justiça

tem surtido efeitos positivos e levado um contingente de pessoas a ter alguma

esperança nos sistemas jurídicos modernos, é também verdade que as mudanças

nesse sistema não podem substituir as transformações necessárias nos sistemas

de seguridade social, no sistema político e econômico mais geral.

Em países pobres, com profundas desigualdades sociais, ou em situações

de opressão política, não existe técnica de ampliação do acesso à justiça que

minimize os efeitos perversos dessa situação. Esses efeitos podem, muitas

133
vezes, contaminar as próprias iniciativas de ampliação do acesso dos mais

pobres à justiça, transformando-a numa justiça pobre para pessoas pobres.

2.2. O Poder Judiciário no Brasil

2.2.1 A formação da consciência e das instituições jurídicas no Brasil

Uma justiça que tarda, e muitas vezes falha, assim se refere o jornal O

Estado de São Paulo31 ao Poder Judiciário brasileiro. Segundo dados

apresentados pelo jornal, nos últimos doze anos 113,7 milhões de vezes as

pessoas acorreram ao Poder Judiciário, em suas várias instâncias, para pedir por

justiça. Completa o jornal ...a justiça que está aí é vetusta, pesada, apática,

dominada por costumes e ritos seculares. E continua em outro trecho: processos

se eternizam e, quando o derradeiro registro é cravado nos autos, criminosos já

escaparam do castigo, beneficiados pela prescrição do prazo legal que o Estado

tem para punir. Direitos não são reconhecidos e danos ficam sem reparação.

A idéia de que o Poder Judiciário brasileiro vive uma crise é uma

unanimidade atualmente no Brasil. O governo, a imprensa e os juristas apontam

causas como a estrutura arcaica e ritualística dos tribunais, o excesso de

instâncias e graus de apelação, o volume de trabalho e a pouca estrutura e

recursos do Judiciário para contratar pessoal e comprar equipamentos, a

legislação ultrapassada e cheia de emendas, a falta de controle externo da

31
Reportagem especial intitulada “O Judiciário”, de 18/05/2003 (MACEDO, 2003, p. A6).
134
utilização dos recursos e do funcionamento administrativo do Judiciário, entre

outros problemas.

Está em estudo há mais de dez anos uma reforma do Judiciário, tendo

sido criada atualmente até mesmo uma Secretaria de Reforma do Judiciário no

Ministério da Justiça que listou centenas de projetos e propostas de emendas à

legislação sobre o tema em discussão no Congresso Nacional, dando conta de

que o Poder Judiciário brasileiro precisa ser repensado.

Os elementos da crise do Poder Judiciário em nosso país obedecem às

mesmas determinações da crise do Judiciário nos demais países capitalistas,

agravada pela condição de país periférico e dependente, exigindo respostas

claramente repressivas e comprometidas com a manutenção da ordem. Como diz

José Eduardo Faria:

...com a globalização, os “excluídos” do sistema econômico


perdem progressivamente as condições materiais para exercer
seus direitos básicos, mas nem por isso são dispensados das
obrigações e deveres estabelecidos pela legislação,
principalmente a penal. Com suas prescrições normativas, o
Estado os integra ao sistema jurídico basicamente em suas
feições marginais – isto é, como devedores, invasores, réus,
transgressores de toda natureza, condenados, etc. Diante da
ampliação da desigualdade, dos bolsões de miséria, da
criminalidade e da propensão à desobediência coletiva, cabe ao
Estado-nação – e, dentro dele, ao Poder Judiciário – funções
eminentemente punitivo-repressivas (2001, p. 14).

A operacionalização dessas respostas de caráter punitivo-repressivas

implica, no entanto, o aprofundamento das tensões sociais e a negação dos

direitos individuais, políticos e sociais da população em geral. O Poder Judiciário

brasileiro vê-se assim no meio de uma profunda crise e a sociedade assiste a um

135
fenômeno complexo que Faria chama de “tribunalização” ou “judicialização” da

política, explicado por ele da seguinte maneira:

Seja em virtude do conflito de competências entre os três poderes, seja


porque o Judiciário atua num patamar de complexidade técnico-jurídica
maior de que a do Legislativo e do Executivo, seja pela resistência de
determinados setores da sociedade à revogação dos direitos
fundamentais e sociais pelos processos de desregulamentação,
deslegalização e desconstitucionalização, o fato é que, quanto mais
cambiante é esse cenário [o autor refere-se à globalização econômica
e seus reflexos], mais o Poder Judiciário acaba sendo levado ao centro
das discussões políticas, mais tem de assumir papéis inéditos de
gestor de conflitos e mais dificuldades tem para decidir... (FARIA, 2001,
p.15).

Esse papel de ator político no cenário nacional não é novo para o Poder

Judiciário brasileiro que, desde os primórdios de sua organização, sempre o

exerceu e sempre com o mesmo objetivo: o de manutenção da ordem social,

embora de formas distintas. Para além das determinantes maiores, da ordem

capitalista mundial, existem especificidades da realidade nacional que merecem

uma apreciação mais detalhada para compreendermos as respostas concretas

que o sistema judiciário nacional deu ao longo do tempo.

Tais respostas assimilaram, de maneira muito peculiar - e em geral

tardiamente -, os debates internacionais sobre a administração do sistema de

justiça. Estes vêm insistindo na necessidade de melhoria no sistema de acesso

da população à justiça.

As particularidades do nosso sistema judiciário são decorrentes das

características próprias da formação do Estado brasileiro, sua herança colonial e

a constituição da sua classe dominante, temas que abordamos em linhas gerais

136
para melhor compreendermos a organização dessa instituição que vem sendo

fortemente criticada na atualidade.

As primeiras instituições judiciárias formaram-se no país no período

colonial, organizadas a partir das necessidades, objetivos e interesses

econômicos de Portugal. O monopólio do comércio por parte da Metrópole era o

centro de toda a organização social da Colônia e visava garantir que outros

países não usufruíssem os privilégios dos comerciantes portugueses. Na Colônia

somente se produzia aquilo que poderia ser revendido pela Metrópole com lucros

no mercado europeu. Demais produtos deveriam limitar-se a não concorrer com a

produção de Portugal: a Colônia deveria comprar tudo o que a Metrópole pudesse

vender.

A sociedade colonial constituía-se de uma elite agrária, organizada em

latifúndios e que se utilizava de mão-de-obra escrava, convivendo com alguns

pequenos proprietários, índios, mestiços e negros, sem nenhuma expressão

política, num sistema que juntava práticas do tipo feudal com uma economia de

exportação baseada no monopólio.

Uma situação conflituosa do ponto de vista do poder na Colônia colocava

de um lado os donos das terras e dos engenhos que possuíam grande poder em

consequência da profunda divisão de classes e da grande extensão territorial e,

de outro, a Coroa portuguesa que impunha seu poder centralizador através dos

governadores-gerais e da administração pública. Apesar dessa tensão, o poder

estava assentado em uma aliança entre a aristocracia da Coroa portuguesa e as

137
elites agrárias radicadas no país permitindo a organização de um poder estatal,

uma vez que o sistema colonial garantia os lucros das duas partes.

A organização do Estado consistiu na estruturação de um aparato

burocrático e profissional instalado como extensão do poder real na Colônia. Cria-

se um espaço institucional que foi evoluindo até se transformar em uma

burocracia legitimada pelos donos das terras e pelos proprietários dos escravos.

Sobre isso Antonio Carlos Wolkmer, em seu livro História do Direito no Brasil, diz:

A aliança do poder aristocrático da Coroa com as elites agrárias


locais permitiu construir um modelo de Estado que defenderia
sempre, mesmo depois da independência, os intentos de
segmentos sociais donos da propriedade e dos meios de
produção. Naturalmente, o aparecimento do Estado não foi
resultante do amadurecimento histórico-político de uma Nação
unida ou de uma sociedade consciente, mas da imposição da
vontade do Império colonizador. Instaura-se, assim, a tradição de
um intervencionismo estatal no âmbito das instituições sociais e
na dinâmica do desenvolvimento econômico (2002, p. 41).

Desconsiderando completamente os interesses de quaisquer outros

segmentos sociais que não a elite agrária, proprietária dos meios de produção, a

burocracia estatal nasce com caráter patrimonialista, organizando o poder público

em favor exclusivamente de um estrato social específico em aliança com a Coroa.

Durante o período colonial a legislação privada comum em vigor era

basicamente a transplantação da legislação portuguesa contida nas Ordenações

do Reino32 que eram aplicadas em todo o território brasileiro sem qualquer

modificação ou adaptação. Uma legislação específica foi criada para a

organização e direção da própria atividade colonial, composta, entre outras

32
As Ordenações do Reino eram compilações de leis e costumes e englobavam as Ordenações Afonsinas
(1446), as Ordenações Manuelinas (1521) e as Ordenações Filipinas (1603). (WOLKMER, 2002, p.. 48)
138
coisas, pelas cartas de doação de terras, alvarás e regimentos dos governadores-

gerais. Algumas leis promulgadas em caráter avulso diziam respeito

principalmente a questões comerciais e a questões relativas aos escravos e

índios, questões que as Ordernações não contemplavam, denominadas “Leis

Extravagantes”.

O Direito português que foi transplantado para o Brasil-colônia era herdeiro

da tradição do Direito romano predominante na Europa, mas ao contrário de

países como a França e a Inglaterra, Portugal mantinha-se impermeável, naquele

momento (século XVI e XVII), às transformações culturais ocorridas com o

Renascimento. O resultado desse isolamento cultural foi o distanciamento de

Portugal da modernidade científica e filosófica, do espírito crítico e inovador e

demais avanços propiciados pelo Renascimento e pelo capitalismo.

A legislação colocada em prática aqui tinha os traços da cultura da

Metrópole que era apegada ao dogma da fé e da revelação, à tradição e à

propagação de crenças religiosas baseadas na renúncia, no servilismo e na

disciplina: ...era uma cultura senhorial, escolástica, jesuítica, católica, absolutista,

autoritária, obscurantista e acrítica (WOLKMER, 2002, p. 43).

Essas eram as bases culturais da legislação que era, no entanto, pouco

aplicada, já que o governo português, instalado além mar, pouca importância

dava à aplicação da legislação voltada para o cidadão comum no interior do

território da Colônia, pois suas preocupações estavam centradas na arrecadação

dos impostos e tributos e no estabelecimento de um ordenamento penal que

impusesse barreiras às ameaças diretas à sua dominaçã[Link] Wolkmer:

139
Portugal não tencionava trazer justiça ao povo ou mesmo prestar
os serviços mais elementares à sua colônia. Numa administração
de cunho neofeudal e patrimonialista, o Direito da elite agrária não
era o Direito da maior parte da população, porém existia para
proteger os interesses do governo real e manter o poder dos
fazendeiros proprietários de terras (2002, p. 49).

A importância desse arcabouço legal está no fato de que ele se configurava

como a base ideológico-cultural dos operadores do Direito na Colônia. A

operacionalização do Direito seguia a lógica da Metrópole. Para tanto foi

designado um ouvidor-geral, que juntamente com o governador-geral e o

provedor-mor da fazenda eram os funcionários reais de confiança. Sua função era

resolver as questões de justiça e os conflitos de interesses, gozava de grande

poder, e suas decisões, na maioria das vezes, não eram passíveis de

questionamento.

Com o crescimento das cidades e conseqüentemente dos conflitos, foi-se

criando uma estrutura maior, copiada da estrutura portuguesa, que era composta

por juízes singulares e juízes colegiados, correspondendo à primeira e à segunda

instâncias respectivamente.

Os juízes singulares dividiam-se em juízes especiais e ouvidores. Os juízes

especiais estavam assim subdivididos:

Juízes de Vintena - eram nomeados pelas câmaras municipais, por prazo

de um ano e jurisdição que alcançava em torno de 20 famílias, julgavam causas

de baixo valor, infrações contra posturas municipais e prendiam criminosos;

Juízes Ordinários - faziam parte da Câmara de Vereadores e eram eleitos

por eles, dois para cada Câmara, julgavam juntamente com os vereadores causas

140
relativas a valores maiores, em comunidades maiores, e furtos praticados por

escravos;

Juízes de Fora – tinham as mesmas atribuições dos juízes ordinários, mas

eram nomeados por carta régia, geralmente como substitutos no início, e depois

iam fazendo carreira;

Juízes de Órfãos – podiam ser eleitos ou nomeados, cuidavam da

subsistência, nomeavam tutores e administradores de bens e realizavam os

inventários e questões correlatas que envolvessem menores ou incapazes;

Juízes de Sesmaria – eram escolhidos em cada vila pelo governador da

capitania e sua função era deliberar sobre demarcação de terras de sesmaria;

Os Ouvidores eram nomeados por carta régia para mandato de três anos e

competia-lhes conhecer todas as causas da comarca, decretar prisões,

inspecionar presídios, fazer correições, zelar pela observância dos regimentos,

entre outras coisas.

A segunda instância, composta por juízes colegiados nomeados pela

Coroa, dividia-se em:

Desembargo do Paço – nessa instância o juiz era encarregado de apreciar

matérias sobre liberdade (graça, indulto, perdão, comutação de pena), sobre

adoção, legitimação e emancipação, sobre reintegração de posse e sobre

censura de livros;

141
Mesa da Consciência e Ordens – tratava do provimento de benefícios, da

administração de comendas e dos negócios relativos à interditos, cativos,

ausentes e defuntos;

Conselho da Fazenda – ao qual estava afeto fiscalizar a arrecadação

tributária e os bens da Coroa, sobre cujas matérias tinha jurisdição privativa e

exclusiva;

Tribunal de Relação – julgava recursos ou embargos. Seus membros eram

os desembargadores e suas decisões eram os acórdãos. Segundo Walter Vieira

do Nascimento que apresenta toda esta estrutura em seu livro Lições de História

do Direito (1998, p. 225), este Tribunal, implantado pela primeira vez em 1609,

deu origem mais tarde, aos Tribunais de Justiça dos Estados.

Era possível recorrer de decisões na Metrópole, na Casa da Suplicação,

uma espécie de corte de apelação em Portugal.

Aos poucos, com a consolidação dessa estrutura e o fortalecimento dos

Tribunais de Relação, reduz-se o poder do ouvidor-geral e a administração da

justiça vai ficando a cargo de funcionários preparados e treinados em Portugal.

Esses funcionários eram recrutados dentre elementos de um certo estrato

da sociedade. Por se tratar de uma função privilegiada, a magistratura era

formada principalmente pela pequena nobreza (filhos de fidalgos) e pelo

funcionalismo (filhos de fiscais, inspetores, etc.). Era obrigatório ser graduado na

Universidade de Coimbra, ter exercido a profissão de advogado por pelo menos

dois anos e passar por um exame de seleção. Iniciavam a carreira como juízes de

142
fora, depois ouvidores e só posteriormente poderiam ser designados como

desembargadores, na Metrópole ou nas colônias portuguesas.

A designação para o Brasil era feita em geral para um tempo determinado,

geralmente seis anos. No entanto, a maior parte dos magistrados acabava ficando

por tempo indeterminado em razão do estabelecimento de relações pessoais e

profissionais na Colônia. Wolkmer chama a atenção para o fato de que essas

relações vão marcar profundamente a cultura jurídica institucional de nosso país:

...o “abrasileiramento” dos burocratas, ou seja, a inserção numa


estrutura de padrões rigidamente formais de práticas firmadas em
laços de parentesco, dinheiro e poder. {...} ...significava a
corrupção das metas essencialmente burocráticas, porquanto os
critérios de validade passavam a ser imputados à pessoas, à
posição social e à interesses econômicos. A corrupção cobria um
lastro de desvios da legislação e das regras burocráticas {...}
Freqüentemente o abuso do cargo se dava para a obtenção de
vantagens pessoais diretas o que implicava favorecimento e
suborno capazes de subverter a própria justiça (2002, p. 66).

A posse de terras era fonte de fortuna e poder social na Colônia, e boa

parte dos magistrados aspirava a isso. O estabelecimento de relações entre a

oligarquia agrária nacional, possuidora de grande riqueza, mas formada por não

nobres, e os magistrados, foi-se dando por interesses mútuos, através de

favorecimentos, casamentos, compadrio, e outros mecanismos, fixando uma boa

parte da magistratura portuguesa na Colônia.

Embora fossem formalmente proibidos de contrair matrimônio sem

autorização da Coroa, de adquirir terras em sua jurisdição e de exercer o

comércio em proveito pessoal, essas práticas eram absolutamente comuns entre

os magistrados. Elas eram toleradas pela Coroa pelo fato de esses funcionários

143
exercerem papel fundamental na administração da Colônia. Tal papel era de

tamanha importância que mal se podia distinguir a organização judicial da

administração geral da Colônia.

Dessa maneira, como agentes privilegiados do poder, os magistrados

adentram o período imperial. A partir de 1822, com a independência, inaugura-se

o período de construção de uma cultura jurídica nacional que sofre maior

influência do ideário liberal.

Alguns estratos da sociedade brasileira, formados por mestiços,

despossuídos e libertários, que participaram do movimento pela independência,

estavam de fato comprometidos com as liberdades individuais, com o fim do

preconceito racial e com a igualdade. Para esses setores as idéias liberais

significavam uma mudança na ordem social.

No entanto, as elites locais estavam muito distantes do liberalismo

revolucionário europeu que inspirou a Inconfidência Mineira e outros movimentos

pela libertação da Colônia, e que se assentavam na luta contra os privilégios da

nobreza articulando-se com a emergência da burguesia e do capitalismo. As

idéias liberais no Brasil foram sendo apropriadas e canalizadas por essa elite

dominante com o intuito de romper com o modelo colonial no sentido de

modernizar o Estado e adaptá-lo a formas mais apropriadas ao momento

econômico mundial imposto pelo domínio Inglês. Wolkmer cita a historiadora

Emilia Viotti da Costa para explicar essa particular modalidade do liberalismo

brasileiro:

144
Analisando sua especificidade histórica, Emilia Viotti da Costa
reconhece no liberalismo brasileiro uma “ideologia de tantas
caras”, que se estruturou ao longo do século XIX, sendo usada
em momentos distintos “por diferentes grupos sociais, com
intenções diversas”. Das várias facetas assumidas pelo
liberalismo, como o “heróico” (próprio dos movimentos
emancipatórios anteriores à Independência), o “antidemocrático”
(os revolucionários da primeira constituinte), o “moderado”
(adeptos da monarquia constitucional), o “radical” (reformistas do
período da regência), pode-se dizer que acabou impondo-se o
liberalismo de tendência “conservadora”, praticado por minorias
hegemônicas antidemocráticas, apegadas às práticas do “favor,
do clientelismo e da patronagem” (2002; p. 78).

O Estado liberal brasileiro surge sem revolução burguesa, a partir das

necessidades da elite dominante de reordenar o poder no país. O liberalismo é

utilizado como retórica que convive, sem grandes conflitos, com o poder

oligárquico, de tal maneira que era possível pregar a igualdade, a liberdade e

formas de governo representativas, em uma sociedade cujas estruturas

oligárquicas mantinham a escravidão, à qual estava submetida a maior parte da

população.

Esse liberalismo de tipo conservador foi a base ideológica sobre a qual se

assentou a passagem do Brasil Colônia para o período imperial, tornando-se

importante elemento cultural e influenciando sensivelmente a organização do

Estado naquele período em que a ordem político-jurídica do país começou a ser

organizada de maneira independente de Portugal.

O projeto liberal brasileiro com sua proposta de modernização e de

progresso, superadora do colonialismo, convivia com a escravidão e com uma

estrutura de poder patrimonialista, não se associava a práticas democráticas nem

buscava contemplar as aspirações dos setores populares urbanos e rurais.

145
A modernização proposta passava pela necessidade de reformas

institucionais que atingissem diretamente o sistema jurídico vigente. A maior parte

da magistratura atuante no país era formada pela Universidade de Coimbra e

havia sido preparada para, mais que aplicar a justiça, servir aos interesses da

administração colonial. Segundo Wolkmer (2002), enquanto uma parte desses

magistrados teria deixado o país após a Independência, outra parte significativa

permaneceu, comprometendo-se com as novas condições políticas que estavam

se implantando, e tornando-se ingrediente fundamental na construção das

instituições jurídico-políticas do Império.

As novas condições que estavam se implantando estavam concentradas

em três movimentos centrais que formaram a consciência jurídica nacional: a

constitucionalização do país com a outorga da Carta de 1824, as primeiras leis

nacionais de controle social - com destaque para o Código Penal de 1830 -, e a

criação das Faculdades de Direito em 1827.

A Constituição de 1824 foi redigida tendo por base os princípios do

liberalismo inglês e também sob influência das idéias constitucionais de Benjamin

Constant. O primeiro projeto da Constituição foi elaborado por uma Assembléia

Constituinte que foi dissolvida em seguida por [Link] I. Este nomeou uma

comissão para fazer outro projeto prometendo que posteriormente a submeteria

ao Legislativo. Finalmente a Constituição foi promulgada em 1824, sem que D.

Pedro I cumprisse a promessa de submetê-la a qualquer esfera de poder: foi,

assim, uma Constituição outorgada pelo Imperador.

146
Previa quatro poderes de Estado, o Poder Executivo, o Poder Legislativo, o

Poder Judiciário e o Poder Moderador, sendo dois deles exercidos diretamente

pelo imperador: o Poder Executivo e o Poder Moderador. Estes se sobrepunham

aos outros dois: o Legislativo e o Judiciário.

Vieira do Nascimento diz que a Constituição de 1824 estava ...impregnada

de um centralismo bastante acentuado, investia o Imperador de poderes que o

colocavam à frente de um governo de caráter absolutista (1998, p. 205). A Carta

proclamava direitos, mas tornava-os passíveis de serem suspensos, proclamava

a igualdade mas destacava as diferenças naturais entre os homens. Segundo

Wolkmer, a Constituição consagrava a aliança entre os vários segmentos da elite

dominante, permitindo a convivência entre a burocracia patrimonial e os liberais

conservadores:

Naturalmente, essa Lei Maior afirmava-se idealmente mediante


uma fachada liberal que ocultava a escravidão e excluía a maioria
da população do país. A contradição entre o formalismo retórico
do texto constitucional e a realidade social agrária não
preocupava nem um pouco a elite dominante, que não se cansava
de proclamar teoricamente os princípios constitucionais (direito à
propriedade, à liberdade, à segurança) ignorando a distância
entre o legal e a vida brasileira do século XIX (2002, p. 85).

Depois da Constituição, o mais importante arcabouço legal do Império foi o

Código Penal de 1830. Ele se inspirava nos princípios de proporcionalidade entre

o crime e a pena e de pessoalidade da pena, isto é, a pena não poderia ser

estendida aos descendentes do condenado. Mesmo mantendo a pena de morte, o

Código era um avanço em relação às Ordenações Portuguesas, mais cruéis nos

castigos, segundo Wolkmer (op. cit.). Porém esses avanços restringiam-se a uma

147
parte da população. O autor chama a atenção para o fato de que a legislação

penal não fazia alusões aos índios e aos negros escravos 33. No interior das

propriedades rurais a lei era ditada e aplicada pelo proprietário.

Na seqüência do Código Penal veio o Código de Processo Criminal,

aprovado em 1832, que instituía o sistema de jurados e implantava o habeas

corpus, criava também a figura do juiz de paz que, eleito, possuía atribuições

policiais e criminais. Com isso extinguia-se a figura dos ouvidores e dos juizes de

fora, e estruturava-se uma organização judiciária baseada nos juizes municipais

eleitos, nos juizes de direito e nos tribunais de relação com os desembargadores,

dando por extinta a estrutura baseada no modelo português, mas mantinha-se o

sistema judiciário fortemente vinculado com o policial.

A outra legislação significativa do período imperial é o Código Comercial

aprovado em 1850. Este vinha a regulamentar e disciplinar o processo comercial

sob novas bases que excluíam a intermediação da Coroa portuguesa, o que era

na época prioritário para a elite dominante. Sobre isso Wolkmer diz:

As necessidades imediatas, as atividades negociais e o


desenvolvimento comercial fizeram com que a principiante
burguesia latifundiária priorizasse a regulamentação da vida
econômica sobre a vida civil. Tendo em conta que, para a
burguesia, a ordenação do comércio e da produção da riqueza
era mais imperiosa do que a proteção e a garantia dos direitos

33
Ilustrativa a referência de Wolkmer (2002) a um ensaio publicado por Carlos F. Marés de Souza Filho na
revista Ensaios Jurídicos. Cutritiba: PUC, n. 1, 1993, intitulado O Direito Envergonhado em que o autor
diz sobre essa lei que: ” é muito reveladora, porque por um lado mostra uma omissão em relação aos índios,
não considera sequer sua “orfandade” {...} é estranho mas perfeitamente compreensível dentro do sistema:
a lei penal – dedicada integralmente aos marginalizados sociais – não registra referência à mais marginal
de todas as populações, os indígenas, porque ou estavam fora da sociedade, não lhes alcançando a ação
penal o simples revide guerreiro, ou dentro da sociedade não se diferenciavam dos pobres marginalizados”.
No que se refere aos negros escravos, Wolkmer diz que o Código fazia uma única referência a eles,
extinguindo os castigos de trabalhos forçados nas galés e a morte e substituindo-os por açoites, com o fim de
proteger a propriedade do senhor.
148
civis, nada mais natural do que o Código Comercial preceder em
67 anos o Código Civil (2002, p. 88)34.

Por fim, o terceiro movimento significativo para a formação da consciência

jurídica nacional foi a criação dos dois primeiros cursos de Direito no país: o de

Recife e o de São Paulo, cujo objetivo era funcionar como pólos de

sistematização do liberalismo enquanto ideologia formando o quadro

administrativo-profissional que iria compor as instituições nacionais. Porém, se de

um lado as escolas se propunham a ser defensoras dos princípios liberais, de

outro se comprometiam com a formação da elite burocrática que iria controlar o

poder.

A Faculdade de Direito de Pernambuco formava homens de ciência, que

tratavam o fenômeno jurídico a partir de leituras que incorporavam o naturalismo

e uma visão histórica e sociológica que criticava o jusnaturalismo e o

espiritualismo. Já a Faculdade de São Paulo foi responsável pela formação dos

principais políticos e burocratas de Estado, primou pela militância política de seus

acadêmicos, que eram formados no jornalismo, nas artes e na literatura.

Enquanto em Recife se forjava a teoria, os novos modelos, em São Paulo a

prática política se convertia em leis e medidas. Em Recife estudava um público

que se desvinculava aos poucos da oligarquia agrária nordestina que estava

deixando de ser o centro do poder oligárquico do país, e assim, partiam de lá as

críticas e os gritos de descontentamento. Em São Paulo a Faculdade recebia os

34
O primeiro Código Civil brasileiro foi promulgado em 1916. O projeto elaborado por Clóvis Bevilacqua
em 1899 a partir de estudos iniciados em 1855 por Teixeira de Freitas, levou ainda quinze anos para ser
debatido e entrar em vigor. Somente com a entrada em vigor do Código Civil é que deixam de ter validade
legal, em todos os âmbitos, na sociedade brasileira, as Ordenações do Reino de Portugal.
149
filhos da elite econômica ascendente mais recente e se preparava para se tornar

o centro de formação dos intelectuais destinados a compor a burocracia estatal.

São Paulo, já na segunda metade do século XIX, começava a experimentar a

concentração do domínio econômico e político e os quadros formados pela

faculdade foram gradativamente passando da contestação à defesa do discurso

oficial.

Parte dos magistrados da geração formada em Coimbra juntamente com a

elite intelectual do país formada nos primeiros cursos de Direito tornaram-se os

burocratas que atuaram na máquina do governo durante o Império. E sob a sua

influência e a das idéias liberais, no melhor estilo conservador, acaba sendo

realizada a última e mais importante reforma judiciária do Império, a reforma de

1871, que separou finalmente as funções policiais das funções judiciárias

reduzindo o poder dos juízes de paz. Os juízes municipais e juízes de órfãos

passam a ser escolhidos entre os bacharéis de Direito, podendo ser promovidos a

juízes de direito num esforço por profissionalizar a carreira judiciária, aumentando

aos poucos as restrições ao exercício diretamente político dos magistrados.

Para Koerner, a Reforma Judicial de 1871, que provinha de um programa

liberal e contava com o apoio dos conservadores:

...nada mais foi do que a tênue estratégia legal de transição do


escravismo para a produção liberal livre, ou seja, efetivou-se em
razão do estágio de desenvolvimento das forças econômicas e
sociais, que exigiam uma crescente profissionalização dos
magistrados, e de transição para o trabalho livre, no qual os
fazendeiros defendiam leis que obrigassem ao trabalho, ao
aumento do controle policial sobre os homens livres e pobres, aos
libertos e aos imigrantes (apud WOLKMER, 2002, p. 95).

150
A estrutura criada nos últimos anos do período imperial demonstra que o

ideário liberal de tipo conservador foi ganhando expressão, dadas as novas

condições do desenvolvimento econômico que permitiam extirpar a escravidão,

eliminando assim um dos elementos de maior contradição entre o discurso liberal

e a prática das elites dominantes do país. As condições para a proclamação da

República estavam dadas e as bases de organização das principais estruturas do

Estado nacional estavam fundadas sob uma estrutura de poder patrimonialista e

voltada para a manutenção de uma ordem social que desprezava os interesses

dos cidadãos como um todo.

2.2.2 A organização do Poder Judiciário a partir da República

A proclamação da República consolida um processo de transformações no

cenário nacional marcado pela degradação da economia agrária baseada nos

latifúndios que produziam cana-de-açúcar, com mão-de-obra escrava, localizados

principalmente na região nordeste do país. Essa degradação atingia também a

organização política, baseada no monopólio do poder político, voltado para sua

sustentação, no período imperial.

A mudança consistiu no deslocamento do poder para o sul e sudeste em

virtude da produção do café, que passou a ser o principal produto de exportação

do país a partir de fins do século XIX, necessitando de outro tipo de mão-de-obra

e propriedade agrária. A República, nos primeiros trinta anos, veio representar a

151
oligarquia cafeeira ascendente e ajustar as condições políticas e sociais do país a

suas necessidades.

A passagem do Império para um Estado liberal do tipo republicano, embora

tenha implicado em significativas alterações na estrutura institucional do Estado,

não alterou a correlação de forças e a estrutura do poder político no país.

Segundo Manoel Maurício de Albuquerque, ...as relações de subordinação com

as estruturas dominantes do Capitalismo Internacional não foram afetadas: o novo

Governo declarou que incorporava os compromissos assumidos com potências

estrangeiras e também as dívidas externas do regime monárquico (apud

WOLKMER, 2002, p. 108).

A primeira Constituição da República, a de 1891, expressava valores

pautados em uma filosofia positivista e republicana e incorporava os institutos

formais da democracia burguesa, baseados no liberalismo.

Do ponto de vista da organização do Estado, foi extinto o poder moderador

e adotado o sistema de divisão em três poderes autônomos e independentes

entre si: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Na mesma Constituição está

também definido o sistema de controle constitucional inspirado no modelo norte-

americano, de pesos e contrapesos. Inicialmente o Brasil adotou o sistema difuso,

como nos Estados Unidos da América em que todas as instâncias do Judiciário

teriam autonomia para questionar atos inconstitucionais.

No entanto, a organização social do período era incompatível com o

discurso liberal contido na Carta Constitucional. Sobre este tema Wolkmer diz:

152
Na realidade, a retórica do legalismo federalista, sustentando-se
na aparência de um discurso constitucional e acentuando o povo
como detentor único do poder político, erguia-se como suporte
formalizador de uma ordem sócio-econômica que beneficiava
somente segmentos oligárquicos regionais. Em tal contexto o
aparato oficial conferia legalidade necessária ao poder
hegemônico do Sudeste cafeicultor, sobretudo do seu pólo
dominante, que era São Paulo. Sob a aparência formal de uma
igualdade jurídica, na prática, a autonomia estadual se localizava
numa hierarquia dominada pelas desigualdades do
desenvolvimento econômico e financeiro regional e,
conseqüentemente, limitando, de fato, o poder das unidades da
Federação (2002, p. 109).

A Constituição de 1891, assim como a de 1824, manteve um modelo de

constitucionalismo que não levava em consideração os interesses da maioria da

população, estava baseado em formas clientelistas de representação política, na

manutenção das grandes propriedades rurais, na defesa do liberalismo

econômico e na introdução, apenas formal, de alguns direitos civis (o direito de

voto para as mulheres, por exemplo, só passa a ser contemplado na constituição

de 1934).

Mesmo assim, proclamava, formalmente, a independência do Poder

Judiciário em relação aos demais poderes, o que permitiu que, a partir daí, em

algumas circunstâncias especiais, segmentos da magistratura com mais forte

influência liberal reivindicassem essa independência, instalando-se, assim, um

conflito latente entre os poderes do Estado.

As Constituições seguintes, as de 1934, 1937, 1946, 1967 e de 1969,

pautaram-se por esse mesmo padrão filosófico-político, isto é, empenharam-se na

defesa de um constitucionalismo de base não democrática, eficaz como

instrumento retórico de sustentação de um legalismo apenas formal. Elas foram a

153
expressão, nos vários momentos da história política do país, dos interesses da

elite dominante. São o produto da conciliação entre um liberalismo conservador e

um patrimonialismo autoritário, quer representando interesses de uma incipiente

burguesia nacional, como na década de 30, quer representando os interesses

mais diretamente impostos pelo capital internacional em suas alianças com

segmentos nacionais, como nas décadas de 40 e 60.

A dicotomia entre a realidade e a legislação brasileira é um produto dessa

história, que nem mesmo a última Constituição, a de 1988, conseguiu superar,

mantendo-se muitas limitações. Os avanços obtidos com a consagração de

mecanismos de participação popular, maior autonomia municipal e com o

reconhecimento de direitos sociais e coletivos, vêm sendo bloqueados pela

política neoliberal das elites dominantes no país. Como diz Wolkmer ...Nessa

perspectiva, a atual constituição é atingida profundamente por restrições na área

social, por fluxos de desmobilização que sacodem a sociedade civil e por

diretrizes que conduzem à supressão do espaço político da cidadania (2002, p.

115).

Essa dicotomia reflete-se na estrutura organizacional do Poder Judiciário,

que foi se desenvolvendo ao longo de todo o período republicano e chega aos

dias atuais, como poderemos observar, como uma estrutura híbrida, repleta de

instâncias e com pouca abertura para mecanismos facilitadores de acesso à

população.

As diversas mudanças que ocorreram no sistema de controle constitucional

no Brasil, ao longo do tempo, desfiguraram, segundo autores como Rogério


154
Bastos Arantes, o modelo proposto pela Constituição de 1891. Ele diz: ...várias

mudanças inspiradas no sistema concentrado foram feitas pelas Constituições

posteriores, a ponto de transformar nosso sistema de controle constitucional num

sistema híbrido, sem similar no mundo contemporâneo (1997, p 203). Tal

singularidade cria obstáculos adicionais a que o Poder Judiciário resguarde sua

independência e atue como instrumento de controle constitucional.

Reproduzindo uma estrutura de poder concentrador em todas as instâncias

do Estado, essas mudanças caminharam rumo a uma maior concentração de

poderes no Supremo Tribunal Federal – STF. Realizadas a partir de alterações

feitas na Constituição de 1934, ampliadas pelo regime militar de 1964 e mantidas

pela Constituição de 1988, essas mudanças transformaram o STF numa espécie

de Corte Constitucional, que, no entanto, acumula também as funções de órgão

máximo da hierarquia judiciária.

Em nosso país, cuja estabilidade política é frágil e os governos

democráticos ocorrem como intervalos entre governos ditatoriais, o Poder

Judiciário encontra-se, até os nossos dias, muito fortemente submetido ao Poder

Executivo, apesar de tensões pontuais referentes à garantia de alguma

independência. Para compreender esse fenômeno em sua concretude é

necessário observar alguns princípios que regem a organização do Poder

Judiciário no Brasil.

O primeiro deles diz respeito à organização federativa da justiça. Essa

divisão entre justiça da União e justiças dos estados da federação tem apenas o

objetivo de definir competências, uma vez que, apesar de ter estabelecido um

155
modelo federativo e de cada estado ter sua própria Constituição, é na

Constituição Federal que está determinada a organização do Poder Judiciário,

inclusive no nível dos estados. Vale frisar que não existe hoje no Brasil uma

justiça municipal.

Assim, na esfera da União, além dos órgãos de cúpula citados, está

concentrada a justiça especializada (Federal, do Trabalho, Eleitoral e Militar) e na

esfera dos estados fica a chamada justiça comum, que é definida por exclusão,

isto é, julga tudo aquilo que não diz respeito a essas áreas especializadas.

O outro princípio a ser observado é o do duplo grau de jurisdição, que diz

respeito à existência de juízes de primeiro grau e tribunais de segundo grau para

os quais se pode recorrer em caso de se considerar a decisão injusta ou errada.

Com exceção dos órgãos de cúpula, em todos os demais casos pode-se recorrer

em uma instância superior de uma decisão tomada por um juiz. Existe a

pressuposição de que, sendo humano o juiz, existe sempre a possibilidade de ele

errar e, sentindo-se prejudicada, qualquer uma das partes pode-se recorrer da

decisão. Mas Rodrigues esclarece ...os órgãos aos quais compete julgar os

recursos ocupam posição de revisão, não de mando. Embora possam alterar a

decisão anteriormente proferida não podem impor aos órgãos de primeiro grau

que passem a adotar as suas posições (2003, p. 19).

As exceções a este princípio estão dadas pelas causas julgadas pelos

Tribunais de Júri (com júri popular) aos quais só cabe recurso em casos de erros

processuais, uma vez que o seu veredicto é soberano; outro caso em que não

existe recurso, como foi citado, é nas causas julgadas pelo STF, que por ser

órgão de cúpula não comporta grau superior.


156
Além desses princípios, é possível compreender o Poder Judiciário

brasileiro a partir de dois pontos de vista: o da sua organização vertical que diz

respeito à hierarquia dos tribunais divididos em órgãos de primeiro e segundo

graus e órgãos de cúpula, e o da sua organização horizontal, que diz respeito à

divisão entre justiça comum e justiças especializadas.

Do ponto de vista de sua organização horizontal existem quatro justiças

especializadas, três delas estabelecidas pelo critério da matéria a ser julgada, são

a Justiça do Trabalho, a Justiça Eleitoral e a Justiça Militar. Todas funcionam na

esfera da União, com exceção da Justiça Militar que pode ser exercida também

na esfera dos estados, voltada para as polícias militares estaduais.

A Justiça Federal é também uma justiça especializada pelo critério da

qualidade dos titulares dos interesses em conflito. Ela é competente ...para julgar

todas as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal,

for interessada na condição de parte, assistente ou oponente (RODRIGUES,

2003, p. 22).

A justiça comum, na esfera dos estados-membros é competente para

...julgar todas as ações que não forem de competência de uma das justiças

especializadas.{...} É o que se denomina de competência residual.(idem, p. 24)

Do ponto de vista de sua verticalidade, o Poder Judiciário está dividido em

órgãos de primeiro grau, de segundo grau e os órgãos de cúpula. Os órgãos de

cúpula são o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça 35, além

35
Segundo Dallari (1996) este foi criado pela Constituição Federal de 1988 com o fim de reduzir a excessiva
carga de competências do Supremo Tribunal Federal. Ele tem como ...competência fundamental julgar os
recursos especiais contra decisões que contrariem a legislação federal, julguem válida lei ou ato do governo
estadual contestado em face de lei federal ou que visem a eliminar interpretação divergente, de lei federal,
existente entre tribunais estaduais (RODRIGUES:2003, p.25)
157
dos órgãos de cúpula específicos das justiças especializadas da União que são, o

Tribunal Superior do Trabalho, o Tribunal Superior Eleitoral e o Superior Tribunal

Militar.

O mais importante deles é o Supremo Tribunal Federal que, como já

dissemos, funciona como uma Corte Constitucional, tendo a competência de

julgar questões referentes à constitucionalidade das leis, dentre outras atribuições

gerais.

Na esfera federal, os órgãos de primeiro e de segundo grau organizam-se

de maneiras diferentes. Verificamos, assim, que a Justiça Federal funciona com

juízes federais distribuídos em varas36 federais pelo país, em todas as capitais e

nas demais localidades definidas por lei; o segundo grau de jurisdição é exercida

pelos tribunais regionais federais (hoje em número de cinco no país). Na Justiça

do Trabalho o primeiro grau é formado pelos juízes do trabalho em varas federais,

podendo, onde não exista, ser julgado por um juiz da justiça comum estadual; o

segundo grau é exercido pelos tribunais regionais do trabalho (existe pelo menos

um em cada estado). A Justiça Eleitoral se compõe de juntas e juízes eleitorais

em primeiro grau e nos tribunais regionais eleitorais em segundo grau. E,

finalmente a Justiça Militar é exercida pelos juizes e tribunais militares com o

segundo grau exercido diretamente pelo Superior Tribunal Militar com sede em

Brasília.

No nível dos estados-membros da federação, a chamada justiça comum, o

primeiro grau é exercido pelos juízes estaduais em varas espalhadas pelas

36
Vara é cada uma das unidades jurisdicionais de uma mesma comarca, nas justiças estaduais, e de uma
mesma seção judiciária, nas justiças da União.
158
comarcas37, nos crimes em que haja dolo contra a vida, através do tribunal de júri,

com os jurados leigos (neste caso específico não existe apelação). O segundo

grau é exercido pelos tribunais de justiça de cada um dos estados.

Entre o primeiro grau e o tribunal de justiça, existe, desde 1946, os

tribunais de alçada (cível e criminal) ...que são órgãos de segundo grau mas

inferiores aos Tribunais de Justiça. Sua principal finalidade era aliviar o Tribunal

de Justiça, reduzindo-se o número de recursos a este destinados, sem eliminar o

direito das partes ao segundo grau de jurisdição (DALLARI, 1996; p. 104). Os

tribunais de alçada são encarregados de determinadas matérias ou de causas

que envolvam interesses de menor valor econômico.

Como foi dito, a legislação permite que os estados mantenham uma justiça

militar estadual, voltada para suas polícias militares. Nesses casos em primeiro

grau se constituem conselhos de justiça sendo o segundo grau exercido pelo

tribunal de justiça do respectivo estado ou por tribunal de justiça militar cuja

criação é permitida em casos em que o efetivo policial seja superior a vinte mil

integrantes.

Paralelamente a essa estrutura, seguindo uma lógica um pouco diferente,

mas incorporado ao sistema, estão os juizados especiais cíveis e criminais. Eles

foram criados por uma lei ordinária em 1984 (Juizados de Pequenas Causas) com

o objetivo de agilizar e baratear a solução de pequenos conflitos. A Constituição

de 1988 incorporou essa tendência e previu sua existência na estrutura do Poder

Judiciário. Mais tarde, em 1995 suas atribuições foram redefinidas e ampliadas

pela Lei 9.095/95.


37
Comarca é cada uma das unidades em que se divide o território dos estados-membros para fins da
administração da justiça.
159
Nos juizados especiais existe a possibilidade de recorrer de uma decisão

ao próprio juizado. A lei prevê a criação de turmas formadas por três juízes a

quem pode se solicitar uma revisão da decisão.

A estrutura exposta aqui pode ser visualizada no quadro que apresentamos

na página seguinte, uma reprodução do quadro38 elaborado por Horácio

Wanderlei Rodrigues, com base na Constituição Federal de 1988 (RODRIGUES,

2003, p. 33).

No Brasil, hoje, a magistratura constitui-se uma carreira profissional. O

acesso ao nível de primeiro grau de jurisdição se dá exclusivamente por concurso

público de provas e títulos. No que diz respeito ao acesso aos tribunais e órgãos

de cúpula do Poder Judiciário, no entanto, ele se dá de formas diferenciadas em

cada um deles.

Dalmo de Abreu Dallari defende a constituição da magistratura como

carreira profissional. Mesmo alertando para os riscos do corporativismo e da

burocratização, ele defende que a profissionalização dos juízes ...permite uma

seleção mais adequada e amplia a possibilidade de aperfeiçoamento constante

dos juízes, além de proporcionar o aproveitamento de sua experiência acumulada

(1996, p. 24). Ele também defende o modelo brasileiro de concursos públicos

como forma de ingresso na carreira, dizendo:

O fato é que no sistema de indicação ocorre a influência das


conveniências políticas da autoridade que indica, o que
reduz a independência do juiz e tem levado, muitas vezes, a
escolhas prejudiciais à magistratura e ao povo. Mas a seleção dos
juízes pela via eleitoral não tem ficado isenta de críticas, sendo
oportunoressaltar que não é rara, na imprensa norte-americana, a

38
A linha pontilhada no gráfico indica os órgãos cuja criação é facultativa, dependendo da necessidade de
cada tribunal.
160
acusação a juízes por “comportamento eleitoral” em seu
desempenho judiciário (1996; p. 24).

A carreira da magistratura no Brasil assegura aos juízes a vitaliciedade (a

perda do cargo só é possível mediante processo judicial), a inamovibilidade (a

transferência só pode ser feita com a concordância expressa do juiz) e a

irredutibilidade de vencimentos. Na contrapartida, o magistrado está impedido de

exercer outro cargo, com exceção do de professor, de receber qualquer tipo de

custas processuais e de exercer atividade político-partidária. Rodrigues diz :

Possuem os juízes o que se denomina de independência jurídica,


que significa sua liberdade para decidirem em todos os casos sob
sua competência, nos limites do pedido e dos fatos e provas
trazidos ao processo, com plena liberdade de consciência. Em
outras palavras, não há hierarquia de mando entre os órgãos do
Poder Judiciário. Cada juiz, dentro de sua competência, exerce a
totalidade do poder estatal. Suas decisões podem ser alteradas
em grau de recurso, mas não pode ser imposto a eles que
decidam de forma diferente (RODRIGUES, 2003, p. 39).

O acesso aos tribunais e órgãos de cúpula do Poder Judiciário, no entanto,

não se dá da mesma maneira, existindo formas diferenciadas que contemplam,

na maior parte dos casos, a indicação por autoridades, em geral o próprio

presidente da República.

O Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do Poder Judiciário, é

composto por brasileiros natos, com mais de trinta e cinco e menos de sessenta

anos de idade, de reputação ilibada e notório saber jurídico, escolhidos livremente

pelo presidente da República, tendo sua nomeação realizada após aprovação do

Senado Federal.

161
Na maior parte dos demais tribunais da União seus membros são indicados

pelo presidente dentre juízes da carreira e membros do Ministério Público e da

advocacia.

No caso dos tribunais de justiça estaduais, a composição prevê quatro

quintos de juizes de carreira promovidos a desembargadores por critérios de

antiguidade e mérito e um quinto das vagas destinado a membros do Ministério

Público e da advocacia, indicados pela Ordem dos Advogados do Brasil, sob

critérios de notório saber jurídico, reputação ilibada e mais de dez anos de efetiva

atividade profissional (Artigo 94 da Constituição Federal).

Como podemos observar aqui, os órgãos de cúpula do Poder Judiciário, a

quem compete, em última instância deliberar sobre questões de natureza

constitucional e demais questões do ordenamento geral da sociedade, mantêm-se

diretamente vinculados ao Poder Executivo, garantindo o comprometimento

histórico desse poder de Estado e a sua autonomia como agentes aplicadores do

Direito no país.

Para além disso, é necessário ressaltar que ao longo de toda história da

República em nosso país, a independência do Judiciário tem encontrado

inúmeros obstáculos. Segundo Dallari, são quatro os principais obstáculos que se

lhe antepõem. O primeiro deles são as ditaduras que, por sua natureza totalitária

e seu caráter violento e arbitrário, não admitem limitações ao exercício do seu

poder. O autor diz ....nesses casos a lei suprema é a vontade do indivíduo ou

grupo que governa, e os juízes e tribunais são tolerados e respeitados na medida

em que são úteis para dar aparência de legalidade aos atos governamentais e ao

sistema político vigente (1996, p. 47). As ditaduras requerem um corpo de juízes


162
submisso e acovardado, quando não explicitamente favorável ao totalitarismo e,

quando não encontra cria os tribunais de exceção. É bom lembrar que em

praticamente um terço dos cem anos de república - se considerarmos o período

que vai de 1889 a 1988 - o Brasil viveu sob regimes declaradamente ditatoriais.

O segundo obstáculo à independência do Judiciário está nos governos

oligárquicos ou autoritários, como classifica Dallari. Mesmo não se caracterizando

como ditaduras, são tão antidemocráticos quanto estas, porquanto as decisões

políticas garantem a supremacia de um pequeno grupo social. Costumam utilizar-

se de formas democráticas e de uma aparente legalidade para praticar injustiças:

Um dos modos mais sutis para negar independência à


magistratura, aparentando exalta-la e defendê-la, é a manipulação
de elementos teóricos e doutrinários, utilizando-se a fachada de
altas indagações filosóficas e de sólido embasamento científico,
de tal modo que se reduz o direito a uma forma sofisticada, que
aceita o conteúdo mais conveniente aos dominadores, ficando
eliminada a preocupação com a justiça (1996, p. 48).

Nesse caso, Dallari ressalta a importância da conivência da magistratura

que, acomodada ou irresponsável, aceita a dependência política e financeira do

Judiciário o que ...tem reflexo nas decisões judiciais, que muitas vezes se ajustam

sem muita coerência às conveniências do governo ou, quando muito, fazem

aplicação estrita da legalidade formal manipulada pelos governantes (idem, p. 49)

Também constituem-se obstáculos à independência do Judiciário os

corruptos, os violentos, os imorais de várias espécies que, sustentados pelo poder

econômico, intimidam, ameaçam e hostilizam de várias formas os membros do

Poder Judiciário. Casos de ameaças, agressões e até assassinatos de juízes e

163
promotores são uma realidade, principalmente nos casos em que não se

consegue a submissão da magistratura pela corrupção.

Por fim, Dallari aponta como o quarto grande inimigo da independência da

magistratura os próprios magistrados que renunciam a essa independência. Ele

diz:

...afirmando-se “escravos da lei”, procuram ocultar o temor, o


comodismo, as conveniências pessoais ou a falta de consciência
da extraordinária relevância de sua função social. Adotando
postura de vestais e apregoando como virtude sua falsa
neutralidade, escondem-se atrás de uma solene, e quase sempre
hipócrita, máscara de “técnicos do direito”. Quando se cobra deles
o compromisso com a justiça, respondem que esse é um
problema para filósofos, não para juristas. E quando se chama a
atenção para o fato de que suas decisões agravam conflitos
sociais, alegam que essa é uma questão para a sociologia, não
para o direito (1996, p. 51).

Seja do ponto de vista da origem social dos seus membros, seja do ponto

de vista da sua estrutura organizacional ou seja do ponto de vista dos obstáculos

externos impostos a ele, o Poder Judiciário brasileiro vem encontrando enormes

dificuldades para atuar como um poder de Estado.

2.2.3 A justiça de menores39: construção de uma justiça assistencial

39
Utilizaremos a expressão ”Justiça de Menores” por se tratar da forma usual de fazer referência aos Juizados
de Menores, inclusive no ambiente judiciário. Essa forma, embora tecnicamente inapropriada vem sendo
utilizada até hoje em relação aos Juizados da Infância e Juventude. Mas cabe reproduzir a ressalva de
Rodrigues sobre o assunto, ele diz: Justiças são os conjuntos de órgãos de primeiro e segundo graus (e, em
alguns casos, um órgão de cúpula específico) que formam uma determinada divisão do Poder Judiciário,
expressamente prevista na Constituição Federal. Em seu sentido técnico só são justiças aquelas previstas
constitucionalmente e que se dividem em especializadas e comum (o Estatuto da Criança e do Adolescente
utiliza impropriamente o termo ao referir-se à Justiça da Infância e da Juventude – a legislação brasileira
utiliza a denominação juizados para referir-se a determinados órgãos da justiça comum de primeiro grau
que exercem a atividade jurisdicional em matérias específicas, tais como os juizados de pequenas causas e
os juizados especiais – teria sido mais adequado também a utilização dessa expressão para se referir ao
órgão encarregado da tutela jurisdicional da criança e do adolescente) (RODRIGUES, 2003, p. 18).
164
Desde o período colonial o Brasil contava com os juízes de órfãos,

responsáveis pela guarda e tutela dos órfãos e de seus bens conforme previsto

na estrutura judiciária portuguesa. Embora responsáveis pelos menores e

incapazes, sua atuação estava voltada prioritariamente para os órfãos que

possuíssem bens, normalmente não fazia parte do universo de intervenção

desses juízes a massa da população trabalhadora do país, formada em sua

quase totalidade por escravos e mestiços, os quais estavam submetidos

diretamente ao proprietário da mão-de-obra, no caso dos escravos, ou à “lei” não-

oficial dos proprietários das terras, no caso dos trabalhadores não-escravos.

As crianças pobres ou abandonadas nas ruas das cidades do Brasil-colônia

eram de responsabilidade da municipalidade, que contava com as santas casas

de Misericórdia que colocava as crianças em famílias que as criavam mediante

pagamento, por algum tempo.

A partir de 1726, com a criação da primeira Roda de Expostos, vinculada à

Santa Casa de Misericórdia da Bahia, essas crianças eram encaminhadas pela

municipalidade ou por qualquer outro que se dispusesse a fazê-lo (o sigilo era

garantido), para uma instituição, que se encarregava de batizar os abandonados e

encaminhá-los para essas famílias substitutas. Ao atingir a idade de sete anos, a

criança podia permanecer na família que a aleitou e criou, se esta quisesse, ou

ser encaminhada a uma casa de recolhimento - estas casas eram vinculadas a

outras ordens e irmandades da Igreja Católica - onde ficava até os doze anos de

idade para ser alfabetizada e preparada para o encaminhamento ao trabalho

como aprendiz de ofício, para servir como aprendiz marinheiro ou, no caso das

165
meninas, para o trabalho doméstico ou para o casamento, caso em que as casas

providenciavam o dote40.

A maior parte dessas crianças era branca e nem todas eram pobres como

afirma Eva Teresinha Silveira Faleiros (1995). As crianças pobres eram

amparadas em boa parte por um articulado sistema de compadrio e

doação/adoção entre famílias que as protegia do abandono. As crianças negras

também acabavam sendo “protegidas” do abandono pela sua condição de

escravas, em que a casa e a comida lhes era fornecida em vista de seu potencial

futuro de trabalho. Assim, deduz-se que as crianças abandonadas ou expostas,

como se intitulava na época, eram em sua maioria filhos da pobreza extrema, da

prostituição e de relações fora do casamento. Há que se destacar que o número

de expostos não era muito grande, correspondente, segundo a autora citada, a

0,4 por mil habitantes na Bahia até o século XVII.

Em 1775, um Alvará do Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello viria

regular a relação entre as crianças enjeitadas, as santas casas de misericórdia e

os juízes de órfãos, excluindo as câmaras municipais dessa atribuição. O alvará

procurava estimular a criação de rodas de expostos como um mecanismo

assistencial. Sobre isso nos diz Eva Faleiros:

A Roda se constituía em todo um sistema legal e assistencial dos


expostos até a maioridade. Em realidade, “Roda” era o dispositivo
cilíndrico no qual eram enjeitadas as crianças e que rodava do
exterior para o interior da casa de recolhimento. A denominação
de Roda para o atendimento que era oferecido aos nela
enjeitados presta-se à confusão e ao entendimento de que a
assistência a estes resumia-se ao recolhimento imediato à

40
Existem vários estudos sobre as rodas de expostos e a atenção a crianças expostas nesse período, dentre os
quais destacamos os de PILOTTI e RIZZINI (1995), o de MARCÍLIO (1997) e o de PRIORE (1999).
166
exposição e deixa obscuras todas as etapas e modalidades de
assistência que os mesmos recebiam até a maioridade (1995, p.
230).

Por esse mesmo Alvará, os juízes de órfãos ficavam responsáveis por

essas crianças, por determinar onde ficariam até completar 12 anos, estipulando

que, após os sete anos de idade, a criança não estava mais sob a

responsabilidade da santa casa de misericórdia e deveria ser “curada” como

qualquer outro órfão ....podendo os referidos Juízes (de Órfãos) distribuillos pelas

Casas que os quizerem, até completarem doze annos,sem vencerem outro algum

Ordenado, que o da educação, sustento, e vestido (texto do Alvará, citado por

FALEIROS, 1995, p. 231).

Apesar dessas medidas, existiam instaladas apenas três rodas de expostos

ao final do período colonial - na Bahia, no Rio de Janeiro e em Recife - e a

questão das crianças expostas era uma preocupação secundária do governo.

Ainda nos primeiros anos do governo imperial manteve-se a mesma

estrutura anterior havendo apenas um incremento do número de rodas e uma

maior diversificação das instituições de atendimento. Os juízes de órfãos também

foram mantidos na estrutura judiciária do Brasil Império e ampliavam o volume de

suas intervenções na mesma medida em que se avolumavam os problemas de

crianças órfãs e abandonadas, principalmente a partir da segunda metade do

século XIX, com as transformações ocorridas pela gradativa extinção da

escravidão, pelo deslocamento do centro de poder econômico para o sul em

decorrência das lavouras de café e do aumento da população das cidades com o

incipiente processo de urbanização e industrialização do período.

167
A legislação criada pelo governo imperial como parte do projeto de um

Estado nacional começou a regular um pouco mais a vida das crianças. Em 1854

o governo imperial regulamenta a reforma do ensino primário e secundário no

Município da Corte. Nesse decreto estava prevista a criação de mais casas de

asilo para menores de 12 anos que se encontrassem vagando nos distritos em

situação de pobreza (RIZZINI, 1995), o que demonstra que o problema já

preocupava as autoridades. Até que se criassem esses asilos, os meninos

deveriam ser mantidos por um auxílio do governo e seriam entregues a padres ou

professores para, após os doze anos de idade, serem encaminhados para

trabalhar como aprendizes ou marinheiros, tudo sob a fiscalização dos juízes de

órfãos.

Porém, o primeiro desses asilos públicos só foi criado em 1875, chamado

de Asylo de Meninos Desvalidos, e com um objetivo específico: tinha a finalidade

de receber os filhos libertos de escravas após a Lei do Ventre Livre de 1871. A Lei

dizia que os filhos de escravos nasceriam libertos, mas deveriam ser mantidos

com a mãe até os 08 anos de idade, quando o senhor poderia entregá-lo ao

governo mediante indenização (nesses casos eles seriam encaminhados ao

asilo), ou usufruir do seu trabalho até os 21 anos como forma de retribuição por

seu investimento. Ora, é fácil supor que a maioria dos proprietários de escravos

preferiu manter essas crianças até os 21 anos. Irene Rizzini (1995, p. 107)

apresenta dados da época que dão conta que dos 400 mil filhos de escravos

nascidos livres de que se tem registro até 1885 apenas 118 haviam sido

entregues ao governo. Em conseqüência a autora informa que o Asylo de

Meninos Desvalidos, criado para atender essa população, acabou atendendo


168
basicamente crianças de famílias empobrecidas diante do falecimento do

provedor, em geral um marido com algum nível de qualificação e/ou posto na

estrutura funcional do Estado Imperial.

Outras leis do período, referentes aos abandonados apontam sempre para

a estreita vinculação entre o governo e a Igreja Católica no que diz respeito à

assistência aos pobres e às crianças, como é o caso dos Decretos n. 407 de

1846 e n. 994 de 1858 que tratam das subvenções às santas casas e a outras

irmandades para a criação de asilos e rodas.

No que diz respeito à prática de delitos por parte de crianças, a legislação

imperial tratava do assunto no Código Penal de 1830 que, em seu artigo 10,

estabelecia que os menores de 14 anos não deveriam ser julgados como

criminosos, mas fazia uma ressalva no artigo 13, para os casos em que os

menores de 14 anos tivessem agido “com discernimento”. Nesses casos eles

poderiam ser recolhidos à casa de correção (um presídio comum) pelo tempo que

o juiz - que não era o juiz de órfãos - considerasse necessário, desde que não

ultrapassasse a idade de 17 anos (SANTOS, 1999).

Mas foi a partir das duas últimas décadas do século XIX que esse

panorama começou a se transformar de forma significativa. Esses anos foram de

muitas mudanças na estrutura socioeconômica e política do país, com o final da

escravidão e a proclamação da República, e marcam a passagem também para

uma nova etapa na compreensão da criança e na legislação afeta a essa área.

O Brasil começa também a viver os problemas típicos dos grandes

aglomerados populacionais. Com a abolição da escravidão boa parte dos

169
escravos libertos acorre aos centros urbanos. A entrada maciça da mão-de-obra

do imigrante também auxilia no crescimento das cidades como espaços mais

dinâmicos, centros de integração regional e mercado distribuidor. A cidade de São

Paulo, por exemplo, passa de 30 mil habitantes em 1870 para 286 mil habitantes

em 1907 (SANTOS, 1999, p. 212).

Da Europa, já mais adiantada na convivência com os problemas gerados

pelos grandes aglomerados populacionais próprios do processo de

industrialização vem a influência da eugenia e do higienismo como práticas de

profilaxia social de caráter científico. Aqui, uma onda de preocupação com as

crianças se instala entre médicos e juristas diante do agravamento dos problemas

sanitários, da ampliação da pobreza, da vadiagem e da mendicância nos centros

urbanos e do agravamento da criminalidade, que até então não tinha muita

relevância no cotidiano das cidades.

As denúncias das péssimas condições de salubridade a que estavam

submetidas as crianças nas rodas e nos asilos de expostos, dos alarmantes

índices de mortalidade infantil da época e até mesmo da convivência perniciosa

de crianças com adultos nas casas de correção eram comuns nesse período. Um

bom exemplo dessas denúncias temos no trecho transcrito por Irma Rizzini da

obra do Dr. Moncorvo Filho, famoso higienista do início do século, onde se pode

observar também uma postura favorável à educação laica, própria da influência

liberal positivista:

O asilo, tal qual o concebiam os antigos, era uma casa na qual


encafurnavam dezenas de crianças de 7 e 8 anos em diante nem
sempre livres de uma promiscuidade prejudicial, educadas no
carrancismo de uma instrução quase exclusivamente religiosa,
170
vivendo sem o menor preceito de higiene, muitas vezes atrofiadas
pela falta de ar e de luz suficientes. Via de regra pessimamente
alimentadas, sujeitas, não raro, a qualquer leve falta, a castigos
bárbaros dos quais o mais suave era o suplício da fome e da
sede, aberrando, pois, tudo isso dos princípios científicos e
sociais que devem presidir a manutenção das casas de caridade,
recolhimentos, patronatos, orfanatos, etc, sendo,
conseqüentemente os asilos nessas condições instituições
condenáveis (1995, p. 249).

Outro exemplo ilustrativo foi a polêmica criada pelo jurista Evaristo de

Moraes que, após ter feito uma visita à Casa de Detenção da capital, em 1898, a

convite do Dr. Moncorvo, lançou-se em uma campanha contra misturar adultos e

crianças nessa instituição prisional. Ele declarou aos jornais o seguinte trecho

transcrito por Irene Rizzini, ao qual deu-se ampla repercussão:

Ora, si é certo que aquelle estabelecimento nem reúne as


condições d’uma boa prisão para adultos; si é innegavel que seu
regimento interno vai de encontro ás regras mais elementares da
“hygiene moral”, si ninguém ignora a influencia perniciosa das
prisões sobre o caracter dos detentos – como qualificar essa
remessa de crianças para a Detenção? (1995, p. 119).

A essas denúncias seguiu-se uma política de criação de instituições por

parte do governo, que utilizou os padrões médico-higienistas da época,

separando e classificando as crianças por idade, sexo e tipo de problema

apresentado. Era amplamente difundida a idéia de que os menores deveriam ser

educados em instituições apropriadas para sua idade, surgindo assim de maneia

mais clara a diferenciação entre menores abandonados e delinqüentes. Nesses

primeiros anos do século XX foram criados, entre outros, o Instituto Disciplinar

em São Paulo (1902), a Escola Quinze de Novembro no Rio de Janeiro (1903) e o

171
Instituto João Pinheiro em Minas Gerais (1909), como estruturas para

atendimento específico a menores delinqüentes.

Mas é necessário ressalvar que o Código Penal de 1890, o primeiro da

República, não havia mudado em praticamente nada a legislação com relação

aos delinqüentes, mantendo a possibilidade de crianças de 09 a 14 anos serem

responsabilizadas por seus atos e enviadas à casas de correção, desde que

“obrassem com discernimento” (SANTOS, 1999). Embora na legislação não

estivesse prevista, na prática, a separação entre delinqüentes adultos e menores

de idade começou a ser feita.

Nesse intenso debate sobre a criança ocorrido nas primeiras décadas da

República, os juristas tiveram papel fundamental nas transformações que viriam a

se realizar a partir dos anos de 1920. Advogados de renome como Evaristo de

Moraes, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, Candido Mota, Noé de

Azevedo, entre outros, emprestaram o seu prestígio para a causa da construção

de uma legislação específica para o menor de 18 anos, e para a constituição de

uma política assistencial que amparasse esse segmento da população.

Eles foram buscar fora do país o modelo que inspirou suas propostas de

não responsabilidade penal e de articulação da política assistencial com o sistema

legal. Afirma o Dr. Alberto Augusto Cavalcanti de Gusmão, em discurso proferido

por ocasião do centenário de nascimento de Mello Mattos:

Desde 1866 os Estados Unidos da América do Norte já possuíam


a Sociedade Protetora da Infância e, em 1901, começaram a
funcionar as chamadas “Children’s Courts”. Na Inglaterra, desde
1908, com o “Children Act”, estava proclamada a
irresponsabilidade absoluta dos menores de 16 anos. Na

172
Alemanha, desde 1905, na França, desde 1912, na Itália desde
1917, a jurisdição especial de menores já fora criada (GUSMÃO,
1964, p. 8).

Mello Mattos, por exemplo, havia estado em Portugal participando dos

debates, e foi inclusive membro da comissão para a reforma da legislação, logo

após a implantação da República naquele país. Embora a reforma não se tenha

concretizado em razão das alterações no governo, ele teve contato com o que de

mais avançado se debatia na Europa.

Noé de Azevedo é outro exemplo. Ele foi aos Estados Unidos da América

para conhecer as cortes juvenis que funcionavam desde 1899. De volta defendeu

sua tese em 1920 perante a Faculdade de Direito de São Paulo, com o título Dos

Tribunaes Especiaes para Menores Delinqüentes e como podem ser creados

entre nós, onde ele defendia o modelo:

Enfim, o tribunal para menores não é tribunal, mas um organismo


que centraliza toda a obra de assistência à infância abandonada,
criminosa ou em perigo moral, pondo todas as instituições de
amparo, preservação, educação, aperfeiçoamento e reforma
debaixo das vistas de um só magistrado, o juiz de menores. Onde
não há taes instituições não póde existir tribunal especial para
menores. Só se falsearem a instituição, para não falsear a
palavra. Penso que tenho assim respondido a these que me foi
proposta. Tratar os menores delinqüentes como nós fazemos, é
indigno de um povo culto. O nosso Código Penal, como a
generalidade dos códigos, trata o menor com muitas distinções,
ridículas, para depois applicar-lhes uma pena. Punir é uma
injustiça, punir creanças, uma iniqüidade. Precisamos não de
tribunaes especiais, para distribuir doses de prisão aos menores,
mas de instituições, com esse ou com outro nome, que sejam o
coroamento ou a concentração das múltiplas obras que se hão de
crear necessariamente, porque é um crime não cuidar uma nação
civilizada da assistência social aos menores. Mas para que não
venha logo a desillusão aos entusiastas, acompanhada do
descrédito da instituição mal comprehendida e applicada, é
preciso começar a reforma social pela base e não pelas cimalhas.

173
Não basta uma lei de alguns artigos estabelecendo um tribunal
conforme os modelos extrangeiros mais perfeitos. O problema da
infância abandonada e delinqüente é o reflexo da chamada
questão social. Esta não se resolverá, como ficou demonstrado,
com reformas políticas nem panacéias jurídicas. Não precisamos
de mais algumas leis para o monturo dos archivos. Precisamos
sim, de uma legislação completa, capaz de conter e dirigir,
quando se manifestarem entre nós, as forças de renovação social
que, desencadeadas, trazem o velho mundo em dolorosa
agitação (AZEVEDO, 1920, p. 145).

A proposta dos tribunais especiais, ou tribunais de menores, influenciou

gerações de juizes de menores pois que serviu de modelo para a organização dos

juizados de menores e da legislação de menores no Brasil e em vários outros

países do mundo. Vários estudiosos têm discutido esse modelo de inspiração

norte-americana, indicando, como um dos seus maiores problemas, o fato de que

mantinha uma identificação entre a infância carente e a infância delinqüente

criando um sistema de controle sócio-penal da infância marginalizada, separado

das demais estruturas de aplicação do Direito41.

A predominância do discurso jurídico sobre a questão da infância nesse

período é observada por Irene Rizzini que chama a atenção para o fato de que,

embora o debate alcançasse vários segmentos da sociedade como médicos,

pedagogos, políticos, filantropos, entre outros, foram os juristas que lideraram o

processo, que articularam tais forças sociais em torno da necessidade de uma

mudança na legislação. Para a autora ...a infância foi nitidamente “judicializada”

neste período. Decorre daí a popularidade da categoria jurídica “menor”, sem

qualquer tipo de problematização nos debates da época. (1995, p. 115). No

entanto, esse protagonismo dos juízes também pode estar relacionado ao fato

41
Sobre este tema ver (MACHADO, 2003) e (MENDEZ, 1998).
174
deles serem um segmento da sociedade profundamente articulado com a

ideologia liberal que a República buscava propalar, daí as suas vozes

encontrarem eco.

A expressão desse intenso debate protagonizado por juristas implicou em

várias tentativas de elaboração de uma legislação específica. A primeira foi em

1902 com um projeto de Lopes Trovão. Depois, em 1906, Alcindo Guanabara

submete à Câmara dos Deputados um projeto que contou com a participação de

Mello Mattos na sua elaboração, em que se propunha a tutela do Estado para

menores em situação de abandono, maus tratos, e delinqüência, regulava-se a

suspensão e até a perda do pátrio poder e propunham-se medidas de prevenção

e tratamento aos menores. Ainda segundo Rizzini, é difícil distinguir se a origem

do discurso contido nessas leis era policial ou jurídica: ...a autoria era

provavelmente conjunta, refletindo-se em decretos e na criação de

estabelecimentos que iam numa mesma direção: recolher menores, de acordo

com uma cuidadosa classificação, visando a prevenção e a regeneração (1995, p.

122). O aparelho judiciário do período estava ainda bastante impregnado de sua

ligação completa com o aparelho policial como nos períodos anteriores da história

do país. Basta dizer que o jurista Mello Mattos foi responsável, nesse mesmo

período, pelo projeto de reforma da polícia, projeto que foi transformado em lei

(GUSMÃO, 1964).

Mais tarde, em 1912, outro projeto apresentado, agora por João Chaves,

volta a propor a tutela do Estado para os menores em situação de abandono e

delinqüência, por decisão do Tribunal ou juiz competente. Seu projeto, no entanto,

175
inova ao incorporar as propostas que Noé de Azevedo já vinha divulgando, a de

tribunais especiais para menores, retirando-se os delinqüentes da alçada da

legislação penal.

Todo esse arcabouço de propostas de legislação e debates culmina com a

nomeação de Mello Mattos para elaborar um projeto substitutivo ao de Alcindo

Guanabara que havia sido retirado de pauta anos antes. Mello Mattos é nomeado

pelo presidente Epitácio Pessoa, num período marcado por pressões e revoltas

populares como a greve geral de operários em São Paulo (1920) e a revolta do

Forte de Copacabana (1922).

Em 1921 uma lei orçamentária, a Lei n. 4242 de 05 de janeiro de 1921,

inclui em um dos seus artigos recursos para a criação de um Juízo Privativo de

Menores e dispõe sobre a organização desse serviço de assistência e proteção à

infância abandonada e delinqüente. Essa Lei tratava também de definir o que era

abandono, como se poderia processar a suspensão e perda do pátrio poder,

regulava os processos a que estariam submetidos os menores de 18 anos e

determinava que em caso de co-autoria em crimes, os processos de adultos e

menores corressem absolutamente separados, o que era um grande avanço para

a época. Gusmão (1964) esclarece:

Vê-se em tudo isto o esforço conjunto de Mello Mattos e Alfredo


Pinto {do Ministério da Justiça na época}. Como o projeto geral,
com todas as suas inovações e implicações de ordem jurídica e
administrativa, encontraria obstáculos irremovíveis, a fórmula da
autorização legislativa orçamentária apareceu como o meio hábil
de realizar a grande transformação. Era o código de Menores
entrando como um Cavalo de Tróia no Orçamento Geral da
República (1964, p. 10).

176
Interessante que apesar da “manobra”, não houve recursos para efetivação

da ação e apenas em 1923, já no governo de Artur Bernardes, é que, por força do

Decreto Executivo 16.272 de 20 de dezembro de 1923, o Regulamento de

Assistência e Proteção aos Menores Abandonados e Delinqüentes, e do Decreto

Executivo 16.273, do mesmo dia, que trata da Justiça do Distrito Federal, se

constitui o que viria a se chamar de Juizado de Menores.

Em 02 de fevereiro de 1924, Mello Mattos é nomeado o primeiro juiz de

menores do país e fica extinta a estrutura anterior que vigorou, com algumas

alterações, durante a Colônia, o Império e os primeiros anos da República, em

que a infância era atendida pela municipalidade, por juízes gerais ou comuns, ou

por juízes de órfãos, conforme a natureza da situação.

Além do Distrito Federal, esse mesmo movimento pode ser observado em

São Paulo com menos de um ano de atraso. Em 31 de dezembro de 1924, o Dr.

Carlos de Campos, então presidente do Estado de São Paulo, sanciona a Lei

2.059 que dispõe sobre o processo de menores delinqüentes. Nesta Lei está

prevista a criação do cargo de juiz privativo de menores da capital paulista, suas

atribuições, bem como a estrutura do juízo, a organização do processo judicial e a

política assistencial para o segmento. Em 28 de março de 1925, instala-se o Juízo

Privativo de Menores da capital de São Paulo, sendo o primeiro juiz o Dr.

Francisco Cardoso Ribeiro.

É certo que o movimento que gerou a criação dos respectivos Juízos

respondia aos clamores de uma parte da intelectualidade nacional empenhada

numa assistência social de caráter profissional, mais avançada do ponto de vista

177
da proteção aos cidadãos da recém criada República. Mas é certo também que o

mesmo discurso que dava maior importância ao “menor”, como parte do ideal de

nação civilizada a que almejava a elite intelectual do país, embutia a necessidade

de constituição de uma classe trabalhadora formada por homens livres adaptados

ao sistema de trabalho capitalista, como podemos observar no trecho transcrito

do jornal O Estado de São Paulo numa série de matérias sobre a proteção à

infância, veiculadas no final de 1924, às vésperas de ser sancionada a Lei que

criava o Juízo:

Nenhum dos nossos serviços públicos, entretanto, mais do que o


da assistência à infância deverá merecer a solicitude geral, pois
nenhum mais do que esse de tão perto diz com a formação e a
estructura da população a que futuramente estarão confiados os
destinos da nossa terra. Organisado efficiemtemente e em
proporções condignas do nosso desenvolvimento econômico e
político, tal serviço viria resgatar um thesouro inapreciável de
vidas humanas, que todos os dias perdemos, nós que já não
somos nenhuns millionarios nessa espécie de valores, e que
vivemos a bater constantemente à porta de outros povos afim de
que nos mandem levas de filhos seus, por cujo labor anceia a
nossa palpitante actividade (OESP, 22/11/24, p. 6),

A mesma série de artigos, apontando para os elevados índices de

mortalidade infantil no Brasil comparados aos de outros países, estima o valor de

um trabalhador brasileiro em contos de réis e demonstra, através de cálculos, que

é mais barato que o governo invista em programas de prevenção e tratamento

dessa população do que se submeter às imposições dos países que fornecem

mão-de-obra. Não é sem motivo, portanto, que as primeiras iniciativas de

organizar a proteção à infância se dessem na capital federal e na capital do

Estado economicamente mais importante na época. Esse movimento tentava

reproduzir, entre nós, o que vinha acontecendo nos países capitalistas centrais,
178
em que a intervenção do Estado nas políticas sociais respondia à necessidade de

reprodução e regulação da mão-de-obra.

Também não é estranho que, apesar de uma notória valorização da

questão do menor na sociedade, essas primeiras iniciativas tenham sido

realizadas com dificuldades pelos seus defensores, uma vez que tal política não

era absolutamente uma prioridade dos governos, mas funcionava apenas como

medida coadjuvante na tentativa de organizar esse exército de mão-de-obra. As

críticas veiculadas por vários juristas no mesmo jornal O Estado de São Paulo,

em outra série de matérias publicadas logo após a promulgação da Lei paulista,

mostra a fragilidade com que nascia o Juízo. Thyrso Martins, por exemplo, em

artigo intitulado “O juízo de menores no Fórum Criminal”, criticava o local

escolhido para funcionar o, ainda não instalado, Juízo:

Em frente do juiz a criança precisa não sentir o pavor envolvente


das chamadas casas da justiça. Nada do que lhe possa perturbar
a natural sinceridade. Tudo quanto não seja a impressionante
lithurgia forense. Revestido de sua toga, sobre um estrado e sob
um docel, ladeado de officiaes de justiça, guardado pelo sabres e
pelos revólveres dos policiaes – no fórum Criminal – o Juiz de
Menores, severo, impassível, hierático, é um contrasenso (OESP,
26/01/25, p. 5).

Noé de Azevedo, em vários artigos assinados critica uma série de pontos

da Lei paulista. Primeiro, fazendo alusão ao espaço físico e aos recursos

disponíveis, ele diz:

Ao ler a recente lei estadual sobre a assistência e processo de


menores abandonados e delinquentes, tive a impressão de uma
obra modesta demais para a grandeza e opulência de São Paulo.
Pareceu-me até que o poderoso Estado ao confeccional-a, não
teve como directa intenção o amparo aos pequenos abandonados

179
e a regeneração dos pervertidos e delinqüentes. (OESP,
25/01/25, p. 5)

Ele criticava o fato de que a lei não era clara quanto à criação de um abrigo

provisório junto ao Juízo, a lei dizia que poderia ser criado, mas o prédio previsto

pelo governo nem sequer possuía espaço físico; criticava também o fato de que

na lei estava previsto o procedimento contraditório nos processos de

delinqüentes, e que esta era uma prática própria dos processos criminais,

incompatível com uma proposta tutelar; chamava também a atenção para o fato

de que a indicação do juiz para o cargo, que deveria ser feita pelo governador,

deveria obedecer a critérios de perfil apropriado e não a critérios políticos; enfim,

as críticas eram inúmeras. Sabe-se, no entanto, que o Juízo não foi instalado no

Fórum Criminal, mas no edifício do Tribunal de Contas, à Rua Álvares Penteado

n. 1042.

Mas o movimento para a elaboração de uma lei de abrangência nacional

continuava. Em 1925, Mello Mattos apresenta ao Senado um projeto de Código

de Menores subscrito por 16 senadores. O projeto transforma-se na Lei 5083 de

1º de dezembro de 1926, mas ainda não era o Código. Em seu artigo 1º, a Lei

autorizava o governo a consolidar as leis de proteção a menores. Em 12 de

outubro de 1927, era expedido o Decreto Executivo n. 17.943 – A, consolidando

as leis de assistência e proteção a menores, elaborado por Mello Mattos, com a

participação de várias outras figuras eminentes.

42
A informação consta da Ata de Instalação do Juízo reproduzida nas páginas seguintes. Cópia do arquivo
pessoal de Therezinha Z. Davidovich.
180
Do Código de 1927 Irene Rizzini diz:

A impressão que se tem é que através da lei em questão


procurou-se cobrir um amplo espectro de situações envolvendo a
infância e a juventude. Parece-nos que o legislador, ao propor a
regulamentação de medidas “protectivas” e também assistenciais,
enveredou por uma área social que ultrapassava em muito as
fronteiras do jurídico. O que o impulsionava era “resolver” o
problema dos menores, prevendo todos os possíveis detalhes e
exercendo firme controle sobre os menores, através de
mecanismos de “tutela”, “guarda”, “vigilância”, “educação”,
“preservação” e “reforma”. (1995, p. 130)

O advento dessa lei de abrangência nacional marca duas grandes e

importantes inovações. A primeira delas diz respeito à possibilidade do Estado,

através da figura do juiz, intervir na vida dos indivíduos, das crianças, das

famílias, mediante mecanismos como a suspensão do pátrio poder.

Embora estivesse claro no Código de 1927 que a lei estava voltada para

um segmento específico da população infanto-juvenil43, o Juiz Mello Mattos

entendeu que a Lei permitia uma interpretação relativa à condição de “abandono

moral” das crianças que gerou um episódio de muita repercussão, à época. Em

dezembro de 1927, o juiz baixou uma portaria considerando a exibição da peça

“Ouro a Bessa”, no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, imprópria para

menores de 18 anos.

Ele alegava que a revista, gênero de muito sucesso na época, tinha um ...

feitio escandaloso, suas danças lascivas, vestuários indecentes, trocadilhos

maliciosos e outros inconvenientes, que tornavam a peça, como todas as do seu

43
O texto do Código de 1927 diz quem é objeto da Lei em seu artigo 1º - O menor, de um ou outro sexo,
abandonado ou delinqüente, que tiver menos de dezoito anos de idade, será submetido pela autoridade
judicial competente às medidas de assistência e proteção contidas neste código.(BRASIL, 1927)
181
genero, um verdadeiro perigo moral, especialmente para os menores no crítico

período da puberdade (GUSMÃO, 1964, p. 14).

Considerando-se que era comum que pais levassem seus filhos a esse

tipo de espetáculos, que inclusive promoviam matinês voltadas para esse público,

a reação foi violenta. Uma greve dos teatros ocorreu em solidariedade aos

empresários que apresentavam o espetáculo censurado. Em São Paulo,

defensores da liberdade artística cobriram uma estátua de nu, instalada em uma

praça pública, e embaixo inscreveram: sobre a beleza artística do nú o manto

opaco do Código de Menores (idem, p. 17).

Em 1928, o Conselho Supremo da Corte de Apelação do Distrito Federal

considerou o Código de Menores inconstitucional por entender que feria o Código

Civil e opunha restrições ao pátrio poder. Mello Mattos foi punido com uma

suspensão de trinta dias, porém continuou defendendo o seu ponto de vista e

alguns meses depois a declaração de inconstitucionalidade do Código de

Menores foi revertida. O episódio é ilustrativo da abrangência que a intervenção

do Estado poderia ter sobre a vida dos cidadãos e da reação da sociedade da

época, que até admitia uma legislação voltada para a criança pobre, abandonada,

órfã ou delinqüente, mas não a intervenção do Estado na vida dos filhos das

famílias das classes média e alta. Tudo indica que os juízes de menores foram

mais cuidadosos a partir de então.

A segunda inovação importante diz respeito à inserção do Judiciário no

sistema de assistência social. O modelo inspirado nas cortes juvenis não foi

182
contemplado pela lei, no entanto, a corrente de juristas que defendia essa

proposta não se dissolveu, muito pelo contrário, manteve-se atuante.

Essa inserção começa a ser executada com a criação dos dois Juízos de

Menores e a possibilidade explícita constante na lei de que o juiz poderia intervir

nas entidades de assistência44. Mais tarde, principalmente após 1930, ela

ampliou-se bastante, inaugurando uma interseção entre Executivo e Judiciário

que viria a causar alguns problemas. Sobre isso faremos uma análise detalhada

mais adiante, contemplando o que diz Irene Rizzini ao analisar depoimentos de

juizes de menores das décadas de 30 e 40:

O problema dos abandonados e delinqüentes, apesar do repúdio


explícito a tais denominações, continuava sendo um desafio de
difícil solução. Parecia não haver dúvida de que cabia ao setor
jurídico resolvê-lo. A contradição era clara para os próprios atores
envolvidos, à medida que se tinha consciência da origem
eminentemente social do problema. {...} O verdadeiro conflito de
atribuições está no fato da impossibilidade de resolução de um
problema que, em sua essência, não se circunscreve no âmbito
estritamente jurídico (1995, p. 141).

Distanciando-se aos poucos de uma atuação policial, o Juizado de

Menores desenvolve uma inovadora maneira de intervenção do Poder Judiciário

na vida dos cidadãos brasileiros aproximando-se da assistência social e

subordinando o aparato executor de proteção e recuperação de menores à sua

tutela.

44
O artigo 126 do Código de Menores trata da questão da seguinte maneira: A autoridade pública
encarregada da proteção aos menores pode visitar as escolas, oficinas e qualquer outro lugar onde se
achem menores, e proceder a investigações, tomando as providências que forem necessárias. §1º Também
pode visitar as famílias a respeito das quais tenha tido denúncia, ou de algum outro modo venha a saber, de
faltas graves na proteção física ou moral dos menores; §2º Pode ordenar o fechamento dos institutos
destinados exclusivamente a menores, nos casos de infração das leis de assistência e proteção aos menores
e ofensas aos bons costumes, procedendo à verificação dos fatos em processo sumaríssimo, remetendo
depois os culpados ao juízo que couber; §3º As funções de vigilância e inspeção podem ser exercidas por
funcionários especiais sob a direção da autoridade competente.{grifo nosso}
183
CAPÍTULO III – A ENTRADA DO SERVIÇO SOCIAL NO PODER JUDICIÁRIO

3.1. A proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de Menores

3.1.1. O Juizado de Menores durante a era Vargas

Apesar dos poucos registros sobre o andamento dos trabalhos do Juizado

de Menores no período imediatamente posterior à entrada em vigor das leis de

menores, durante a década de 1920, é de se supor que esses anos, posteriores à

implantação dos Juízos no Rio de Janeiro e em São Paulo, foram de organização

de seu funcionamento.

No Rio de Janeiro, as notícias são de que o Juiz Mello Mattos, que esteve

à frente do Juizado de 1924 a 1934, fez inúmeros esforços para organizar o

aparelhamento da instituição, promovendo a criação e adequação de

estabelecimentos de recolhimento de menores e realizando o que Gusmão

chamou de ...campanhas preventivas, reprimindo a mendicância infantil, a

vadiagem, a exploração de menores, fiscalizando as casas de diversões e os

locais de trabalho (1964, p. 27).

Em São Paulo sabe-se que a sede do juízo foi transferida, sem precisão da

data, para a rua Paraíso, e novamente transferida em meados de 1934, para a

Av. Celso Garcia, no mesmo prédio onde funcionava o Abrigo de Menores.

Por ocasião das comemorações do nono aniversário de instalação do Juízo

de São Paulo, em 28 de março de 1934, foi lavrada uma ata em que se apontava
184
o número de treze mil duzentos e trinta e um processos referentes a menores

assistidos pelo Juízo até então. Nessa mesma ata o curador de menores fez

constar:

...a satisfação com que constato o facto de, anualmente, o


governo vir melhorando a situação dos menores, dando ao
Juizado novos aparelhamentos, como o que foi dado há pouco
instalando a Vara neste prédio da Av. Celso Garcia onde
funciona, digo, onde se acha instalado também o Abrigo de
Menores com bastante conforto (extraído da cópia do Livro Ata do
Juízo, p. 92 –96, do arquivo pessoal de Terezinha D. Zabirowski).

Os poucos registros sobre suas atividades podem dar a impressão de um

funcionamento relativamente tranqüilo dos trabalhos do Juizado, não fosse a

situação de efervescência por que passava o Estado brasileiro. O período que vai

dos últimos anos da década 20 e se estende ao longo das duas décadas

seguintes é de grandes transformações sociais e políticas que marcaram

profundamente o país e, sem dúvida, influenciaram toda a máquina do Poder

Judiciário, uma vez que interferiram nas estruturas do poder estatal.

O crescimento das classes médias urbanas, ocorrida ao longo da década

de 20, introduziu novos atores no cenário nacional que contribuíram para alterar o

quadro de poder existente até então. Segundo Boris Fausto (1995), dada a sua

diversidade nesses tempos, a classe dominante paulista não cabia mais, toda ela,

no Partido Republicano Paulista havendo uma diversificação de partidos que

representavam interesses de grupos específicos.

Em meados de 1926, surgiu em São Paulo o Partido Democrático (PD),

com um programa liberal, saindo na defesa do voto secreto e obrigatório,

representação para as minorias, independência dos três poderes e atribuição da

185
fiscalização eleitoral ao Judiciário. Dele faziam parte profissionais liberais e jovens

filhos de fazendeiros do café. O autor cita que havia entre os membros do PD

vários professores da Faculdade de Direito como Waldemar Ferreira e Francisco

Morato, além de outras figuras proeminentes do meio jurídico, como o advogado

criminalista Marrey Junior, de uma tradicional família de juristas.

O PD fez parte da Aliança Liberal que sustentou a candidatura de Getúlio

Vargas em 1930 e posteriormente apoiou a Revolução e a tomada do poder por

Getúlio. Segundo Fausto, ...o Partido Democrático – porta-voz da classe média

tradicional – pretendia o controle do governo do Estado de São Paulo e a efetiva

adoção dos princípios do Estado liberal, que aparentemente asseguraria seu

predomínio (1995, p. 326).

No panorama político complexo daqueles anos o PD vai ter papel

importante na Revolução Constitucionalista de 1932 e no processo de

constitucionalização que deu origem ao frágil acordo entre as elites o qual

sustentou a Carta Constitucional de 1934 e a eleição indireta de Getúlio, refletindo

o pensamento dominante entre os advogados e demais figuras influentes no meio

jurídico. O discurso liberal desse segmento representado no PD encontrava algum

eco no ambiente republicano daquele período, lembrando tratar-se de um

discurso liberal conservador, conforme as observações já feitas neste trabalho

sobre o tipo de liberalismo dominante no país.

Tomando isso por base poder-se-ia ter uma idéia de que em 1934 o país

estava caminhando para um avanço das idéias liberais e de um projeto

democrático, no entanto isso não ocorreu. A profunda crise econômica por que

186
passava o país e o mundo desde o crack da bolsa em 1929 e a ascensão do

nazifascismo como alternativa ao liberalismo não favoreceram esse movimento.

De um lado, o governo respondeu às greves operárias ocorridas naquele

ano com uma proposta de Lei de Segurança Nacional, uma lei de exceção que

dava poderes extremos ao Executivo. De outro lado, surgiu a Aliança Nacional

Libertadora, de esquerda, que ampliava a sua influência sobre as massas

trabalhadoras. O golpe que deu origem ao Estado Novo, em 1937, coroou esse

processo conflituoso e teve o apoio das classes dominantes, como diz Fausto:

O Estado Novo foi implantado no estilo autoritário, sem grandes


mobilizações. O movimento popular e os comunistas tinham sido
abatidos e não puderam reagir, a classe dominante aceitava o
golpe como coisa inevitável e até benéfica. O Congresso
dissolvido submeteu-se, a ponto de oitenta de seus membros irem
levar solidariedade a Getúlio, a 13 de novembro, quando vários de
seus colegas estavam presos (1995, p. 365).

Os importantes atores políticos que foram os advogados, professores de

Direito e juristas foram relativamente subalternizados no período seguinte,

sobretudo após 1937 com a instalação de um governo ditatorial, muito embora

fizessem parte da elite dominante que apoiou Getúlio.

O Poder Judiciário perdeu muito de sua autonomia e possibilidade de

interferência na política visto que o projeto liberal perdeu espaço. Ainda assim foi

peça importante do jogo político do Estado Novo. Paulo Alves, em seu ensaio “O

Poder Judiciário no Estado Novo (1937-1945) diz que ...o projeto político de

Getúlio Vargas, alterando a ordem constitucional do País, implicava a

subserviência do Congresso Nacional, dos partidos e também da colaboração do

Judiciário, a fim de viabilizar a instauração do Estado autoritário. (1993, p. 270).

187
Mesmo sem grandes mudanças estruturais, a legislação imposta pelo

governo autoritário, deu nova orientação às atividades judiciárias e policiais no

período. A Constituição de 1937 previa a reeleição do presidente da República

por períodos sucessivos tornado-a legal, previa também a possibilidade do

Executivo baixar decretos-leis concentrando o poder de legislar e retirava da

esfera do Judiciário o caráter de julgar a constitucionalidade das leis.

Um tribunal de exceção, o Tribunal de Segurança Nacional, que já havia

sido criado em 1936 após o episódio da “intentona comunista”, foi transformado

em Tribunal de Justiça Especial e durou de 1938 a 1946. Era presidido por um

ministro do Supremo Tribunal Federal nomeado pelo presidente da República e

suas sentenças não eram passíveis de recursos.

No nível dos estados e municípios, os interventores nomeados pelo

presidente da República possuíam plenos poderes de atuação no âmbito da

administração pública, podiam processar ou demitir funcionários que fossem

suspeitos de participar de ações clandestinas ou desrespeitar superiores, também

suas decisões não eram passíveis de apelação nos tribunais de justiça estaduais.

Segundo Alves:

O Supremo Tribunal Federal foi, de certa forma, conivente com a


ordem jurídica que o Estado Novo implantou para o Brasil. O seu
papel histórico de defesa dos direitos dos cidadãos, os quais eram
atingidos pela repressão política do Governo Federal e dos
Estados, deixou de existir e não houve nenhuma reação por parte
dos magistrados que defendiam os princípios liberais no âmbito
do Judiciário no Brasil naquele momento da vida política brasileira
(1993, p. 258).

A subalternização do Poder Judiciário em relação ao Executivo não

contrariava essencialmente os interesses da elite dominante embora pudesse

188
causar alguns constrangimentos aos que defendiam o discurso explicitamente

liberal. Como seus legítimos representantes os magistrados foram auxiliares da

construção de um projeto forjado por uma parte da classe dominante que buscava

modernizar o país, promovendo um capitalismo nacional que tinha como suporte

as Forças Armadas, no âmbito estatal, e uma aliança com a burguesia industrial

e, com alguns setores da classe trabalhadora urbana, no âmbito da sociedade.

Boris Fausto aponta algumas características desse projeto:

...podemos dizer que, a partir de 1930, ocorreu uma troca da elite


no poder sem grandes rupturas. Caíram os quadros oligárquicos
tradicionais, os “carcomidos da política”, como se dizia na época.
Subiram os militares, os técnicos diplomados, os jovens políticos
e, um pouco mais tarde, os industriais. {....} Um novo tipo de
Estado nasceu após 1930, distinguindo-se do Estado oligárquico
não apenas pela centralização e pelo maior grau de autonomia
como também por outros elementos. Devemos acentuar pelo
menos três dentre eles: 1. a atuação econômica, voltada
gradativamente para os objetivos de promover a industrialização;
2. a atuação social, tendente a dar algum tipo de proteção aos
trabalhadores urbanos, incorporando-os, a seguir, a uma aliança
de classes promovida pelo poder estatal; 3. o papel central
atribuído às forças Armadas – em especial o Exército – como
suporte da criação de uma indústria de base e sobretudo como
fator de garantia da ordem interna (FAUSTO, 1995, p. 327).

Entre 1920 e 1940, em meio a conflitos sociais e políticos e sob mais de

uma década de ditadura, o Brasil mudou muito, a população saltou de 30,6 para

41,1 milhões, reduziu-se sensivelmente a entrada de imigrantes no país e a

substituição da mão-de-obra se deu pelas migrações internas.

O Estado passou a desempenhar um novo papel na economia 45. Os

investimentos estatais deram origem a uma indústria de base nas áreas de

metalurgia, mecânica, geração de energia, material de transporte, entre outras.

45
Para mais dados sobre esse novo papel ver o importante estudo de Alberto Cignolli intitulado Estado e
Força de Trabalho: introdução à política social no Brasil (CIGNOLLI, 1985).
189
Um processo de substituição de importações ocorrido primeiramente em

decorrência da crise de 1929 e mais tarde, em novo ciclo, pela Segunda Guerra

Mundial, auxiliou a expansão inicial da indústria nacional.

Na área social, investimentos estatais na educação, por exemplo, fizeram

saltar o número de alunos matriculados nas escolas públicas de 1.739.613 em

1933 para 2.740.755 em 1945. Nessa área instituiu-se também o ensino

profissionalizante com a criação de escolas técnicas federais e com a

obrigatoriedade das indústrias e dos sindicatos oferecerem cursos

profissionalizantes.

À criação do sistema previdenciário e de um sistema de saúde vinculado,

voltado para os trabalhadores, somou-se a organização da legislação trabalhista,

sindical e a decretação do salário mínimo como forma de organizar e disciplinar a

vida da classe trabalhadora que daria suporte ao processo de industrialização.

Um sistema de habitação e de assistência social voltado aos trabalhadores

também estava vinculado aos sindicatos e ao sistema previdenciário, mas, além

disso, o governo criou em 1938 o Conselho Nacional de Serviço Social e, no início

da década de 40, o Departamento Nacional da Criança, órgão responsável pela

coordenação das ações dirigidas à criança e à família vinculado ao Ministério da

Educação e Saúde, e mais uma importante instituição, a Legião Brasileira de

Assistência – LBA, tudo com vistas a promover e organizar a assistência social

pública.

O discurso de proteção social ganhou espaços entre os representantes

políticos da nova ordem social estabelecida a partir de 1930, e a interpretação dos

problemas dos menores passou a ser feita com base nessa ótica. A própria
190
Constituição de 1937 introduziu em seu artigo 127, o dever do Estado de prover

condições à preservação física e moral da infância e da juventude e o direito dos

pais miseráveis de invocar o auxílio do Estado para garantir a subsistência de sua

prole. Sobre esse novo enfoque Irene Rizzini diz:

O reconhecimento da situação da infância como um problema


social é explicitado nos discursos e nas leis, como conseqüência
óbvia da situação generalizada de pobreza da população. Neste
sentido, a conotação jurídica implícita na descrição do problema
dos menores (abandonados e delinqüentes), cede espaço para
uma caracterização de cunho social da infância e da adolescência
{...} A família, sobretudo a família do trabalhador, será o foco da
ação assistencial e legal que se desenvolve, através de medidas
macro, de abrangência federal, em torno da legislação
previdenciária e organização do sistema de pensões e
aposentadorias, consolidação das leis trabalhistas, refletindo a
intenção de combater os problemas mais prementes de miséria e
marginalização que atingiam grande parte da população (1995, p.
136).

Para a construção ideológica dessa orientação contribuiu, e muito, a ação

da Igreja Católica nesse período. A relação entre a Igreja e o Estado, que desde

meados da década de 20 já havia sido bastante estreitada, superando o laicismo

do período inicial da República, estreitou-se ainda mais após 1930. O Estado

passou a reconhecer o poder da Igreja como força social que poderia

desempenhar importante papel nos momentos críticos por que passava o novo

regime e, aos poucos, foi multiplicando as suas demonstrações de boa vontade

contemplando reivindicações como a introdução do ensino religioso facultativo

nas escolas públicas, por exemplo. A Igreja, por sua vez, mobilizou amplamente a

opinião pública católica em favor do novo regime e reorganizou o movimento

católico leigo com o intuito de formular um projeto afinado com as Encíclicas

191
Sociais, buscando disputar com o Estado um papel na condução da vida social do

país.

Uma gama de organismos foi criada pelo movimento leigo da Igreja

Católica a partir de 1932. Dentre estes organismos estão os Círculos Operários, o

Centro Dom Vital, a Ação Universitária Católica. Em 1935, a Ação Social Católica

Brasileira é fundada buscando-se exercer uma função centralizadora do

apostolado social. Desse amplo movimento surge a primeira Escola de Serviço

Social em 193646.

A proposta política da Igreja Católica baseava-se na recristianização da

sociedade, concebendo uma outra via para o capitalismo ...em que o liberalismo é

substituído pelo comunitarismo ético cristão (IAMAMOTO E CARAVALHO, 1982,

p. 162).

Dando seu apoio ao regime e ao mesmo tempo organizando o seu

movimento leigo, a Igreja Católica ampliou significativamente os seus espaços de

atuação durante todo o período em que durou o Estado Novo. Raul de Carvalho,

em seu estudo sobre “Aspectos da História do Serviço Social no Brasil (1930-

1960)” ([Link]), caracteriza a Ação Católica nesse período essencialmente como

um movimento reacionário e estabelece a proximidade de seu ideário com o

fascismo que inspirava também o getulismo. Igreja Católica e Estado estavam,

descontadas algumas divergências, imbuídos do mesmo propósito no que diz

respeito ao controle das massas de trabalhadores.

46
Conquanto o surgimento da Escola de Serviço Social esteja vinculado ao movimento de ação católica, é
necessário ressaltar que o espaço que se cria na divisão sociotécnica do trabalho para a profissão implica a
consideração desse outro movimento do qual estamos tratando, que é – e isso é o mais importante - a
intervenção do Estado nas políticas sociais. Para aprofundamento do tema ver IAMAMOTO e CARVALHO
(1982) e NETTO (1992).
192
3.1.2. As primeiras inter-relações com o Serviço Social

A Lei 2.059 de 31 de dezembro de 1924 que previa a criação do Juízo

Privativo de Menores na cidade de São Paulo estabelecia, em seu artigo 3º, como

este deveria se organizar para o cumprimento de suas atribuições:

Artigo 3º - O juízo privativo de menores se comporá, além do


respectivo juiz, dos seguintes funcionários:
1 curador e promotor;
1 médico;
1 escrivão;
1 escrevente habilitado;
3 comissários de vigilância (2 homens e 1 mulher);
2 officiaes de justiça;
1 servente e porteiro.

De acordo com o artigo 7º o juiz, o curador, o médico e o escrivão seriam

nomeados livremente pelo governador do Estado e os demais funcionários

nomeados diretamente pelo juiz. Ainda nessa mesma lei foram definidas as

atribuições do juiz, do curador, do médico e dos comissários, dentre as quais

destacaremos as duas últimas pela vinculação que terão com as atividades do

Serviço Social, anos mais tarde.

Assim, de acordo com o Artigo 5º - Ao médico incumbirá proceder a todos

os exames periciaes e observações dos menores sujeitos às decisões do Juízo, e

fazer às pessoas das famílias dos menores as visitas necessárias para as

investigações dos antecedentes hereditários e pessoaes dêstes.

A inserção do médico no corpo auxiliar do Juízo estava relacionada à

importância que era dada na época à hereditariedade e à eugenia. Os estudiosos

da hereditariedade defendiam que os filhos tendem a ser semelhantes aos pais,


193
que transmitem as características boas e más, inclusive as referentes à

personalidade e tendências de comportamento. Já a eugenia buscava a formação

de gerações sadias através da escolha de parceiros compatíveis, defendendo a

realização de exames pré-nupciais e outros instrumentos da medicina para evitar

a degeneração dos indivíduos através das gerações47.

No caso dos comissários, era-lhes atribuída uma função fiscalizadora,

claramente de natureza policial, como se pode observar no texto da lei:

Artigo 6º - Aos comissários de vigilância caberá procederem a


tôdas as investigações concernentes aos menores, ao meio em
que êstes viverem e às pessoas que os cercarem; deterem ou
apreenderem os menores abandonados ou delinqüentes,
apresentando-os ao juiz; cumprirem as determinações e ordens
que por êste lhe forem dadas.
§1º - Os comissários de vigilância serão de imediata confiança do
juiz.
§ 2º - Poderão ser admitidos como comissários, voluntários ou
gratuitos, pessoas de um ou outro sexo, que, pelo mesmo juiz,
foram consideradas idôneas.

O Decreto 3.828 de 25 de março de 1925 que regulamentava essa lei

reiterava todos os cargos e funções descritas e, no que diz respeito aos

comissários, detalhava mais a questão do státus funcional dos colaboradores não

remunerados. O texto do decreto diz ....como comissários de vigilância servirão

os officiais de justiça ou pessoas idôneas que, voluntariamente e sem retribuição,

a isso se prestem (Artigo 43). Ao que tudo indica, juntamente com os comissários

remunerados, eram recrutados outros, não-remunerados, para o exercício da

47
A eugenia surgiu como uma doutrina no final do século XIX e foi amplamente difundida no início do
século XX na Europa e nos Estados Unidos. Os estudos eugênicos serviram de base para encobrir ódios
raciais e étnicos, sendo a mais emblemática de todas as cruzadas eugênicas a empreendida pelos nazistas em
sua busca da raça matriz, na primeira metade do século XX, gerando a morte e esterilização de centenas de
milhares de alemães e posteriormente de judeus.
194
mesma função e até mesmo outros funcionários do Juízo, como os oficiais de

justiça, podiam realizar tal tarefa.

O Comissariado de Menores, como passou a ser chamado o corpo de

comissários alguns anos mais tarde, exerceu atividade essencial ao desempenho

das funções do Juízo desde o início de sua implantação. As tarefas de vigilância e

fiscalização sempre ocuparam grande espaço dentro das atividades do Juizado

naqueles anos.

Até meados da década de 30 o Juizado de Menores de São Paulo - e do

Rio de Janeiro também - baseava a sua intervenção nas grandes campanhas de

recolhimento de menores das ruas e de locais considerados impróprios. Boa parte

desses menores era devolvida às suas famílias e outra parte era encaminhada

para as instituições assistenciais que funcionavam em convênio com o próprio

Juizado, articulador de todo o sistema de recolhimento e internação.

Em 1935, através da Lei 2.497 de 24 de dezembro, foi criado o

Departamento de Assistência Social do Estado de São Paulo. Segundo Raul de

Carvalho, foi a primeira iniciativa desse gênero no país e a ele competia, além de

outras funções ...a estruturação dos Serviços Sociais de Menores, Desvalidos,

Trabalhadores e Egressos de reformatórios, penitenciárias e hospitais e da

Consultoria Jurídica do Serviço Social (IAMAMOTO e CARVALHO, 1982, p. 178).

Sua criação marcou o início da estruturação de uma política assistencial no

Estado de São Paulo que, a esta altura, já era o mais rico do país48.

48
Esse movimento ocorreu também no Rio de Janeiro, porém um pouco depois. Segundo Irma Rizzini o
governo federal criou o Serviço de Assistência ao Menor – SAM em 1941 no Distrito Federal com o objetivo
de centralizar a assistência ao menor. Ela diz que ...com a criação do Serviço de Assistência ao Menor
(SAM), em 1941, pelo Governo de Getúlio Vargas, as funções de organizar os serviços de assistência, fazer o
estudo e ministrar o tratamento aos menores, foram retiradas da alçada dos juízes. Mantiveram-se a cargo
195
Desde o início, o Comissariado esteve fortemente ligado ao Departamento

de Assistência Social e, não obstante estar vinculado à estrutura do Juízo de

Menores, passou a ser dirigido e organizado pelo Departamento de Assistência

Social, numa relação que começou a criar alguns problemas com o mesmo Juízo

de Menores, que até então era o único responsável pelas diretrizes no

atendimento aos menores.

À medida que os serviços de assistência social começavam a ser

organizados pelo Executivo, relações dúbias e conflituosas de poder passaram a

se estabelecer entre o ele e o Judiciário. Exemplo disso foi a reação do juiz de

menores da capital à ingerência do Departamento no Comissariado.

Em 1937 tramitava na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo um

projeto que visava reorganizar o Departamento Estadual de Assistência Social e a

Justiça de Menores. Esta iniciativa era uma clara evidência de conflitos, uma vez

que o Departamento havia sido criado há pouco mais de um ano. O então juiz de

menores da capital, Dr. Eduardo de Oliveira Cruz, apresentou suas sugestões ao

projeto dando ênfase à questão da organização do Comissariado e aos

problemas de relacionamento com o Departamento de Assistência Social. No

texto introdutório à sua proposta de reformulação da lei ele tece considerações

sobre a atuação do Comissariado:

....o Commissariado Geral de Menores, apezar da sua


dispendiosa organização, insufficiente, entretanto, para
desempenhar a sua finalidade, nos termos da lei, com dispensa
do auxílio da policia, tornou-se um verdadeiro entrave ao bom
andamento dos trabalhos affectos ao Juízo de Menores.
Além disto, com relação à organização do Commissariado, não
está certa a orientação adoptada, porquanto, estabelecendo a lei

destes a “fiscalização do regime disciplinar e educativo dos internatos, de acordo com a legislação vigente”
.(Rizzini, 1995, p. 276)
196
que os funccionários contractados do Juízo de Menores serão de
immediata confiança do Juiz, deveriam os mesmos ser nomeados
por indicação do Juiz, o que tem sido feito, entretanto, a sua
completa revelia (CRUZ, 1937. Do arquivo pessoal de Therezinha
Z. Davidovich).

Em sua proposta de texto legal o juiz dedica oito artigos ao Comissariado

propondo o retorno da subordinação direta ao Juiz de Menores, a remuneração

de todo o quadro - que deveria ser, segundo sugeria, de 25 comissários e mais

um comissário geral -, e a transferência dos comissários em exercício até então

no Departamento de Assistência Social para outras repartições. Ele conclui suas

considerações no texto introdutório dizendo o seguinte:

Com o augmento do numero de commissarios, devidamente


remunerados, sob a direcção e orientação exclusiva do Juiz de
Menores, fácil será a fiscalisação do Juizo com relação aos
cinemas, theatros, circos e mais diversões públicas, bem como a
vigilância dos menores nas ruas e praças da Capital. O
Commisariado gratuito, em grande escala, só é prejudicial ao
serviço e ao bom nome do Juízo de Menores (idem).

Com a organização dos serviços sob a égide do Poder Executivo, o Poder

Judiciário perdeu espaços na condução das diretrizes da, ainda incipiente, política

para a área. O Juizado continuou mantendo algumas de suas funções,

principalmente no que diz respeito ao delinqüente. O Decreto Estadual nº 9744 de

19 de dezembro de 1938, por exemplo, autorizava a criação, nas sedes das

comarcas, do Recolhimento Provisório de Menores ...destinado a secundar o

trabalho dos juízes (MEIRELES, 1952, p. 38). Porém, quando foi criado o

Recolhimento Provisório de Menores – RPM na Capital, ele passou a funcionar

como casa de recepção e triagem, voltada prioritariamente para adolescentes que

197
cometiam delitos, vinculado ao Juizado, mas sob a direção do Serviço Social de

Menores.

Voltando às críticas do Juiz Oliveira Cruz, é interessante observar na sua

proposta alternativa ao projeto de reorganização do Departamento de Estado de

Assistência Social e do Juizado de Menores, que segundo ele mesmo, ... nada

mais é do que a reprodução, em resumo, do estabelecido no Dec. nº 3.828, de 25

de março de 1925 (idem). De acordo, então, com a proposta do juiz, o Juízo

mudaria a sua composição passando a ser assim constituído:

O Juizo Privativo de Menores comprehenderá:


a) um Juiz de Menores;
b) um Juiz Adjuncto;
c) um Curador de Menores;
d) um Cartório {com seus respectivos funcionários},
e) um Commissariado Geral de Menores,
f) um Serviço Social de Assistência e Protecção aos Menores.

Mesmo em se tratando de uma proposta, o fato de ser formulada pelo

titular do Juízo confere a ela uma grande importância. A proposta sugere que,

para o juiz, esta seria a melhor estrutura de funcionamento.

Assim podemos perceber que a figura do médico, prevista na lei inicial,

seria abolida indicando que este já não exercia função importante no Juizado 49. O

Comissariado ganharia státus de setor e a referência ao Serviço Social de

Assistência e Proteção aos Menores, que compreenderia o Abrigo de Menores e

demais estabelecimentos de proteção e reforma, demonstra a intenção de manter

49
Segundo Irma Rizzini, em São Paulo havia na década de 30 o Instituto de Pesquisas Juvenis ...cuja
finalidade era efetuar pesquisas e investigações referentes aos problemas pedagógicos e de reeducação da
criança, que é estudada em seus aspectos biológico e social , tendo ainda medidas e instituição de
psicotécnica e de orientação profissional (1995, p. 265). No entanto, não existem registros nos documentos
por nós pesquisados de que os serviços de tal instituto tenham sido utilizados em grande escala pelos juízes
de menores.
198
sob a estrutura e subordinação do juiz de menores algumas instituições que

começavam a sofrer a intervenção da ação centralizadora e normativa do

Executivo.

Os primeiros contatos do Serviço Social, enquanto profissão, com o

Juizado de Menores em São Paulo50 deram-se mediante o Comissariado de

Menores justamente nesse período em que ele está vinculado ao Departamento

de Assistência Social do Estado. Raul de Carvalho, tratando dos campos de ação

e prática dos primeiros assistentes sociais, diz:

No Departamento de Serviço Social do Estado de São Paulo, a


mais ampla instituição de Serviço Social existente nesse
momento, os Assistentes Sociais atuarão como comissários de
menores no Serviço Social de Menores – menores abandonados,
menores delinqüentes, menores sob tutela da Vara de Menores,
exercendo atividades no Instituto Disciplinar de Serviço Social (do
Departamento de Serviço Social) no campo da “Assistência
Judiciária a fim de reajustar indivíduos ou famílias cuja causa de
desadaptação social se prenda a uma questão de justiça civil” e,
enquanto pesquisadoras sociais (o maior contingente de
Assistentes Sociais) e nos serviços de plantão. Além dos serviços
técnicos, de orientação técnica das Obras Sociais, estatística e
Fichário Central de Assistidos (IAMAMOTO e CARVALHO,1982,
p. 195).

Os protestos do Juiz Oliveira Cruz decerto não tiveram muito eco na época,

pois o Executivo, fortalecido pelo regime ditatorial que se instalava, continuou a

legislar sobre a questão. Em 1938, o Decreto (o de n. 9744 de 19-11-38), que

50
No caso do Rio de Janeiro, esse contato entre o Juizado de Menores e o Serviço Social nascente é ainda
mais estreito. O Juízo de Menores do Rio de Janeiro é o responsável pela criação, em 1938, da Escola
Técnica de Serviço Social em razão de suas necessidades específicas. Esta, juntamente com outras duas
iniciativas – uma da ação social da Igreja Católica e outra da Escola de Enfermagem Ana Nery – vão
constituir os cursos que darão início ao Serviço Social no Distrito Federal. O Juízo de Menores figura, junto
com a Prefeitura da cidade, como os primeiros órgãos públicos a empregar assistentes sociais. Em 1939 os
assistentes sociais diplomados pelo Instituto Social foram declarados aptos pelo Ministério do Trabalho para
atuarem como fiscais do trabalho de mulheres e menores. Para maiores informações ver “O Serviço Social
no Rio de Janeiro e a Sistematização da Atividade Social”, de Raul de Carvalho In: (IAMAMATO e
CARVALHO: 1982, p 183-191).
199
reorganizou o Serviço Social de Menores, determinou que os cargos de subdiretor

de vigilância, de comissários de menores e de monitores de educação passariam

a ser privativos de assistentes sociais. (idem, p. 192).

As funções de fiscalização e vigilância, seja de menores em situação de

abandono, de delinqüência, seja do trabalho do menor - que naquela época

começavam a ser normatizados pelo Estado - eram atividades exercidas

primordialmente pelo Comissariado de Menores. No entanto esta era uma forma

de ação tradicional e bastante conhecida do Judiciário brasileiro a qual, vinculada

às funções judicantes e policiais e à ação de fiscais da ordem pública,

subordinados ao juiz, remonta ao período colonial. É possível que também por

isso o Juízo reivindicasse a permanência desse organismo sob sua subordinação.

A introdução de assistentes sociais no exercício dessa função buscava

atenuar o seu caráter eminentemente policial, dando-lhe uma conotação técnico-

profissional e protetiva. Porém, o Juízo de Menores da Capital não partilhava

dessa opinião, dando preferência à constituição de um corpo de comissários “de

sua confiança” e sob sua subordinação. No entanto, a atuação dos comissários

voluntários e “de confiança do juiz” foi sempre alvo de críticas e fonte de

problemas para os juízes, como veremos mais adiante.

3.1.3. O período democrático e a retomada do protagonismo do Juizado

de Menores

O quadro político estabelecido na segunda metade da década de 1940,

com o fim da ditadura de Vargas, possibilitou a retomada de algumas discussões


200
na área da infância e juventude, novamente protagonizadas pelo Judiciário.

Mesmo mantida a influência do getulismo, que ditava os parâmetros das

discussões político-partidárias naquele período, respiravam-se ares de maior

liberdade tendo-se aberto espaço para as discussões dos problemas sociais em

geral.

Em 1948, o Comissariado volta à subordinação do Judiciário. A Lei nº

106/48 determinou que o Comissariado de Menores, antes vinculado ao Serviço

Social de Menores, retornasse à subordinação direta do Juizado de Menores,

indicando que o Judiciário retomava algumas de suas prerrogativas estabelecidas

em lei.

Porém, o mais importante movimento ocorrido em nível nacional sobre o

tema nesse período foi o que originou as Semanas de Estudos do Problema de

Menores. A I Semana de Estudos do Problema de Menores ocorreu em 1948 51

promovida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, através do Juizado

de Menores da Capital, pela Procuradoria Geral do Estado e pela Escola de

Serviço Social.

Segundo Eunice Therezinha Fávero, que estuda a implantação do Serviço

Social no Poder Judiciário no seu livro Serviço Social, práticas Judiciárias, poder,

as Semanas foram ...um esforço de setores do Estado e da sociedade no sentido

do debate sobre questões referentes à problemática do menor e busca de

soluções práticas para o enfrentamento da mesma (FÁVERO: 1996, p. 50).

51
Foram realizadas ao todo 13 Semanas de Estudos do Problema de Menores, a primeira em 1948 e a última
em 1983. No entanto as oito primeiras que foram realizadas entre 1948 e 1958 tiveram uma importância
maior, pois eram protagonizadas pelas forças políticas que podiam determinar a política de menores na
época.
201
Nessa época, a Escola de Serviço Social contava já com doze anos de

existência e o Serviço Social, como profissão, possuía campos ou áreas de

intervenção profissional que eram consideradas prioritárias. Raul de Carvalho diz

que no final de1947, mais da metade das formandas da Escola já ocupavam

cargos de assistente social e outra parte era funcionária de instituições da

Previdência Social. Ele diz:

Já nesse momento, para os Assistentes Sociais não se colocava


um problema de mercado de trabalho – estando inclusive diversas
pioneiras em cargos de direção e organização, ou de docência –
mas de luta pelo reconhecimento da profissão e pela
exclusividade, para diplomados, das inúmeras vagas que se
foram abrindo no serviço público ou instituições para-estatais e
autarquias, no campo dos serviços sociais (IAMAMATO E
CARVALHO, 1982, p. 191).

A área de menores era uma das áreas consideradas como campo

profissional para os assistentes sociais que, em São Paulo, atuavam diretamente

nos equipamentos do Serviço Social de Menores, no Departamento de Serviço do

Estado e nas várias entidades filantrópicas que mantinham convênios com ele. A

discussão do tema e o engajamento da Escola de Serviço Social em movimentos

que se propusessem a discutir a questão era natural.

Além disso, o movimento que deu origem às Semanas envolvia uma série

de personalidades vinculadas à Igreja Católica, com influência tanto no Serviço

Social como no meio judiciário, dando-lhe uma sustentação política e ideológica.

No discurso de Abertura da I Semana o então subprocurador geral da

justiça e presidente da Associação Paulista do Ministério Público, Dr. João Batista

de Arruda Sampaio, um dos organizadores do evento (os demais eram o

presidente do Tribunal de Justiça Desembargador Theodomiro Dias, o juiz de


202
menores Dr. Ulisses Dória e as representantes da Escola de Serviço Social,

Professoras Helena Iracy Junqueira e Odila Cintra Ferreira) apontava as

vinculações políticas desse movimento:

Iniciada pelo Exmo. Sr. Presidente da República, a campanha


pela redenção da criança brasileira e anunciada pelo Exmo.
[Link] da Justiça, a atualização do Código de Menores e leis
complementares, pareceu ao grupo Economia e Humanismo,
constituído nesta Capital, à luz da doutrina cristã e sob a
inspiração dos ensinamentos do Padre Lebret, que seria
oportuno, pela sua Comissão Jurídica, tomar o encargo de
oferecer alguma contribuição ao estudo do problema de menores
abandonados e delinqüentes (SAMPAIO, 1948, p. 11).

Segundo Fávero “Economia e Humanismo” era um movimento que

mantinha, entre outras atividades um departamento de pesquisas denominado

Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos

Sociais – SAGMACS, que foi o responsável pela realização de uma ampla

pesquisa sobre menores publicada na revista Serviço Social e que serviu de base

para as discussões da I Semana. O SAGMACS buscava utilizar métodos

objetivos de análise, realizava pesquisas sistemáticas sobre o que considerava

serem os principais problemas humanos e intervinha com o fim de realizar ações

para sua solução.

A autora ressalta que, muito embora os membros do Judiciário

mantivessem uma posição formal de neutralidade com relação a partidos

políticos, em seu discurso ficava clara a vinculação com o projeto político da

Igreja Católica. Já, alguns quadros profissionais do Serviço Social não omitiam

sua vinculação com o Partido Democrata Cristão do qual participavam Helena

Iracy Junqueira e José Pinheiro Cortez, figuras fundamentais na construção do

203
projeto de intervenção do Serviço Social no Juizado de Menores. Analisando os

depoimentos dos dois assistentes sociais citados, Fávero diz:

Embora o discurso dos organizadores das Semanas de Estudos


fosse permeado pelo ideário da justiça social, numa clara alusão à
democracia cristã, os mesmos, segundo Helena Iracy Junqueira,
não tinham – enquanto organizadores -, nenhuma relação com a
política partidária ou com o Partido Democrata Cristão, ao qual ela
própria era vinculada. {...} Por sua vez, José Pinheiro Cortez
avalia que a participação no Partido Democrata Cristão
influenciou sua entrada no Juizado, havendo também influência
deste Partido na promoção das primeiras Semanas de Estudos e
na elaboração e implantação da Lei de Colocação
Familiar...(1996, p. 53).

Tal projeto de intervenção assentava-se na idéia de que os problemas dos

menores tinham como causa o desajustamento familiar. Este foi o tema da

palestra proferida por Odila Cintra Ferreira, na abertura da I Semana, como

representante da Escola de Serviço Social. Na ocasião ela disse:

O problema é tanto mais relevante quando todos nós sabemos


que o conceito “Família como célula básica da sociedade” não é
mero “slogan” para engodo das massas, pois que a ela compete
função primordial de proporcionar ao indivíduo o meio normal para
o seu desenvolvimento físico e psíquico.
Tanto assim que, aquilo que a criança encontrou ou deixou de
encontrar na família, em nenhuma outra instituição ela o obterá
em igualdade de condições (FERREIRA, 1948, p. 17).

A proposta que o Serviço Social indicava era que a saída para o problema

do menor consistia em auxiliar e reforçar a família como espaço privilegiado para

o ajustamento e o reajustamento do menor abandonado ou delinqüente. O

elevado índice de internações em abrigos e reformatórios era condenado e se

defendia a necessidade do desenvolvimento de programas preventivos que

pudessem fornecer às famílias as condições necessárias para que elas

204
exercessem o seu papel na sociedade a partir dos princípios cristãos. Tal

proposta ganhava importância diante do fato de que os abrigos e reformatórios

existentes vinham sendo sistematicamente criticados e noticiados na imprensa

pelas fugas e rebeliões, bem como pela incapacidade de dar um atendimento

humano aos seus internos.

Os discursos de Dna. Odila e do Dr. Arruda Sampaio eram convergentes,

ambos discorriam sobre os vários aspectos dos problemas do menor com base

em uma apreciação jurídica da questão, e trabalhavam com a idéia de

“momentos” em que o Juizado de Menores - como o agente central do processo

de intervenção nesses problemas, poderia atuar: o pré-judiciário (a prevenção do

problema), o judiciário (a adequação e aplicação da legislação a cada caso) e o

post-judiciário ( o acompanhamento).

Porém, enquanto Dna. Odila estava interessada em demonstrar em que

momentos o Serviço Social poderia contribuir com o Juizado de Menores, dando

ênfase ao momento pré-judiciário, isto é, à prevenção, o Dr. Arruda Sampaio

procurava justificar que a política de menores capitaneada pelo Executivo tinha

problemas e que o Juizado de Menores era o único capaz de conduzi-la com

propriedade. Em seu discurso ele dizia:

Dada a observação de que o problema {do menor} contém dois


pontos fundamentais: o social e o jurídico, era natural e lógico que
se examinassem, detidamente, êsses dois aspectos. De um lado,
se o desajustamento social se apresenta com feição mais grave
na Capital, ele existe também no interior do Estado. Observa-se,
entretanto, que as leis referentes à assistência aos menores teem
sido elaboradas por técnicos dos grandes centros, sem audiência
dos que devem aplica-la, resultando daí conflitos e ineficácia
absoluta de medidas legais, que não correspondem às
necessidades do meio. No entanto, dada a sua posição de mais
alta autoridade da comarca, está o Juiz de Direito em ótimas
205
condições de chefiar e orientar o movimento de proteção aos
menores, seja quanto ao seu aspecto jurídico, seja no plano mais
amplo de assistência social. Na verdade, a função do magistrado
não é apenas a judicante. Valiosa e decisiva é a sua ação social.
Cumpria, pois, ouví-lo. Pedir-lhe o indispensável depoimento
(SAMPAIO, 1948, p. 12).

Na continuidade de seu discurso o Dr. Arruda Sampaio deu inúmeros

exemplos de como os juizes e promotores tinham papel fundamental na criação

de entidades de assistência social pelo interior do Estado e deixava claro que o

movimento que gerava aquele evento tinha por objetivo reorganizar a intervenção

do Juizado na política de menores e contava com o apoio dos órgãos de cúpula

do Judiciário do Estado:

A Semana de estudos deveria ter se realizado em dezembro do


ano passado. Dada, porém, a falta do necessário preparo, ficou
adiada para estas férias. Contudo, numa demonstração
inequívoca de seu vivo interesse pelo empolgante tema, o Sr.
Desembargador Mario Guimarães {então Presidente do Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo}, no relatório que apresentou,
relativo aos trabalhos executados em 1947, dedicou-lhe especial
atenção, tecendo oportunas e judiciosas observações a propósito
de algumas respostas dos srs. juízes de direito. A seu ver, “o
problema precisa ser encarado de pronto e resolvido, com o
auxílio do Governo ou sem ele” (idem).

A Escola de Serviço Social, por sua vez, teve um importante papel no

auxílio ao Dr. Arruda Sampaio para a organização dessa I Semana e para dar

respostas aos seus desdobramentos. As assistentes sociais Maria Izabel Galvão,

Leopoldina Saraiva, Nair Coelho e Maria Olímpia de Andrade Morais foram

responsáveis pela análise de uma pesquisa realizada previamente junto aos

juízes e promotores de todo o Estado com relação aos problemas do menor. No

206
depoimento de Helena Iracy Junqueira fornecido a Fávero em 1994, essa

colaboração fica mais clara, ela diz:

A Escola ajudou muito na preparação, porque era alguma coisa


muito diferente dos hábitos e dos trabalhos do Tribunal. Na época
encontravam-se pessoas que tinham uma visão do social. Foi
realmente um trabalho de conscientização. Havia repercussão na
sociedade, em todo o Estado. Entidades que trabalhavam com
menores reconheceram a necessidade de se dar um melhor
preparo àqueles que trabalhavam com menores. A Escola
realizou um curso de dois ou três meses, para todas as entidades
que cuidavam de menores. Iniciou-se um processo de despertar,
de conscientizar, de provocar a melhor compreensão do problema
e a atitude, a ação, numa linha mais avançada, mais moderna.
Um dado que acho muito positivo, é que na primeira Semana,
quando os juízes se manifestavam, diziam: infelizmente eu não
tenho orfanato na minha comarca. Quando foi na segunda ou
terceira, foi muito interessante, pois vários deles diziam: agora
não há dúvida que a solução melhor não é o internato, não é isso
que nós precisamos, o melhor lugar é deixar na família. Quer
dizer que foi uma demonstração de assimilação mesmo da forma
de entender e procurar resolver o problema do menor. Houve uma
mudança de mentalidade por parte de juízes (apud FÁVERO,
1996, p. 53).

Como se pode observar pelo depoimento de Dna. Helena, o Serviço Social

desenvolvia uma proposta de intervenção profissional para ser realizada a partir

do Juizado. Esta proposta já se apresentava no discurso de Dna. Odila na

abertura da I Semana. Para ela, os problemas de desajustamento de menores

mereceriam a intervenção do Juizado quando requeressem uma intervenção nas

atribuições da família ou a sua substituição.

Ainda assim, o Juizado de Menores deveria tentar de todas as maneiras

preservar a família como o espaço para o reajustamento do menor, cabendo

assim uma diferenciação entre os três momentos que citamos anteriormente, o

207
pré-judiciário, o judiciário propriamente dito e o pós-judiciário. Explicando essa

idéia ela diz:

Assim sendo, e tendo em vista o papel primordial da Família na


vida do menor, é óbvio que as soluções mais perfeitas serão
aquelas que, de maneira mais rápida e completa conseguirão ou
prepararão a readaptação do menor ao meio familiar, ou a
situações que mais de perto dêle se aproximem, quando a família
não existe ou o ambiente familiar é prejudicial. Êsse trabalho de
readaptação tem que ser tentado antes de ser iniciada a ação
judiciária, deve inspirar a ação judiciária e precisa ser prosseguido
na ação post-judiciária (FERREIRA, 1948, p. 18).

Defendendo a ênfase na ação pré-judiciária, isto é, ...tentar soluções

sociais antes da abertura de um processo de menor, Dna Odila concluiu seu

discurso perguntando aos presentes:

1 - A atual legislação de Menores permite a separação entre a


ação pré-judiciária e a judiciária? Se não, há vantagem em
procurar consegui-la? 2 - Nas comarcas de grande movimento, é
possível colocar assistentes sociais sob a imediata dependência
do Juiz para desenvolver a ação social pré-judiciária – colher
dados para os processos na ação judiciária, dar os passos para
garantir a ação pré-judiciária. Os comissários de menores
realizam ou podem realizar essa função? Se não, como resolver a
questão? 3 O atual conceito de menor abandonado atende à
situação do nosso país? Há vantagem em restringir êsse
conceito? 4 – O problema da família econômicamente
necessitada deve continuar a ser solucionado através de
processos de abandono de menores (idem, p. 20).

No ano seguinte, em 1949, realizou-se a II Semana de Estudos do

Problema de Menores, organizada pelos mesmos agentes institucionais. Fávero

diz que na II Semana ...permaneceu a perspectiva da doutrina cristã permeando

cada discurso, cada proposta, com ênfase na necessidade de ampliar o

movimento de assistência social aos menores, numa direção de mudança de

208
mentalidade, de tomada de consciência para a realização da justiça social (1996,

p. 58).

Desta vez foi Dna. Helena Iracy Junqueira quem fez o discurso em nome

da Escola de Serviço Social no evento de abertura dos trabalhos, indo um passo

adiante na defesa da inserção do Serviço Social, como profissão, no Juizado de

Menores.

Dna. Helena defendia o deslocamento da visão eminentemente jurídica

para uma nova concepção “mais realista e humanista” do menor como um

problema social. Chamava a atenção para o fato de que esse deslocamento não

implicaria uma anulação do jurídico e nem uma redução do aspecto legal do

problema, ao contrário, indicava como uma tendência moderna a aplicação da

legislação de menores no intuito de ...ultrapassar as soluções meramente

jurídicas, em busca de uma solução social e quanto possível familiar

(JUNQUEIRA, 1949, p. 333).

Propunha o apoio às famílias ou, em caso em que estas não existissem,

famílias substitutas, ao invés de internação, para os casos de menores

abandonados. Propunha também a reeducação e o reajustamento do infrator

sempre que possível no seu próprio meio. Em ambos os casos, defendia a

importância da individualização dos casos, não apenas para uma averiguação de

cada situação em particular, mas ... um verdadeiro estudo da situação, e

conseqüente interpretação seguida do plano de tratamento social que requer o

caso (idem). Ela dizia:

Antes de deliberar-se sôbre o destino de qualquer menor, é


necessário o estudo de seus antecedentes, de sua família, de seu
meio. Após o seu encaminhamento, seja para uma instituição,
209
seja para uma família, é preciso acompanhar-se o seu
desenvolvimento físico, intelectual e moral. É indispensável ainda
que se prepare o seu futuro profissional, que se lhe auxilie a criar
laços afetivos, relações com as famílias do seu próprio meio, para
que tenha o seu ambiente, para que não se torne isolado (idem, p.
334).

A abordagem individualizada de cada caso, proposta pelo Serviço Social,

vinha ao encontro da natureza própria da instituição judiciária numa associação

lógica e facilmente operacional. Na continuidade de seu discurso Dna. Helena

defendia a entrada do Serviço Social no Juizado:

A quem confiar esta tarefa que constitui, por assim dizer a ação
social do juizado de menores na sua fase pré-judiciária e judiciária
propriamente? Nas primeiras tentativas realizadas no século
passado, recorreu-se a sacerdotes, a professores, a membros de
associações assistenciais, etc., à medida que a função se foi
especificando e que o Serviço Social definiu-se como atividade
metódica e baseada em conhecimentos científicos, os tribunais de
menores passaram a valer-se dos Assistentes Sociais, que são os
agentes especializados do Serviço Social. Assim é que hoje, tanto
na Europa como nos Estados Unidos e vários países da América
do Sul, é ponto pacífico que o Assistente Social é um colaborador
indispensável à ação dos juizados de menores. As denominações
podem variar de país para outro como delegado do juízo de
menores, “probation officer”, comissário de menores, etc. (idem, p.
334).

Apesar do empenho de Dna. Helena, a contratação de assistentes sociais

pelo Juizado de Menores não se deu imediatamente, e sua proposta de

intervenção profissional não se operacionalizou naquele ano. Mas, na seqüência

da realização da II Semana foi criada uma comissão, para estudar a colocação

familiar como alternativa à internação e elaborar o projeto de uma lei para

operacionalizá-la. Dna. Helena, representando a Escola de Serviço Social, teve

participação importante nessa comissão.

210
3.2. A consolidação do Serviço Social no Poder Judiciário

3.2.1 O Serviço de Colocação Familiar

A comissão, além de Dna. Helena, era formada também pelo procurador

geral do Estado, Dr. João Batista de Arruda Sampaio e pelo deputado estadual

Monsenhor João Batista de Carvalho. Juntos eles elaboraram o projeto que foi

submetido à Assembléia Legislativa e aprovado, segundo Fávero (1996), em

tempo recorde: 20 dias. Dessa maneira foi sancionada pelo governador Adhemar

de Barros e entrou em vigor de imediato a Lei Estadual nº 560 em 27 de

dezembro de 1949, cujos dois primeiros artigos tinham o seguinte teor.

Artigo 1º Junto aos Juízes de Menores fica criado o Serviço de


Colocação Familiar, que tem por fim proporcionar, a menores
necessitados, ambiente favorável ao seu pleno desenvolvimento.
Artigo 2º São colocados em casas de família, a título gratuito ou
remunerado, menores de 0 (zero) a 14 (catorze) anos que, por
força de fatores individuais ou ambientais, não tenham lar ou nele
não possam permanecer.

A comissão que elaborou o projeto de lei tomou como referência as

experiências das “Placement en Foyes Nourriciers” dos franceses e da “Foster

Home Care” dos ingleses e americanos. Pelos princípios desses programas o lar

substituto deveria proporcionar uma vida familiar ao menor: segurança,

alimentação, abrigo, vestuário, hábitos sadios, recreação, vida em comunidade e

aprendizado moral e religioso. Segundo Fávero, a Escola de Serviço Social vinha

mantendo um intercâmbio profissional com os Estados Unidos através do qual foi

211
possível conhecer o programa de colocação em família substituta que eles

adotavam, e consideraram-no interessante. A autora diz ...vislumbrando, na

colocação familiar, uma alternativa para intervir mais amplamente – e de maneira

considerada segura e eficaz -, contra a internação e o abandono de menores, a

Escola de Serviço Social participou de forma decisiva na elaboração e

regulamentação dessa proposta (FÁVERO, 1996, p. 65).

A lei dava conta de definir quem poderia receber as crianças e quais suas

obrigações para com elas. Declinava a documentação a ser exigida da família e

instituía um acompanhamento a ser feito pelo Serviço de Colocação Familiar.

Definia também que, em caso de remuneração da família, o valor não poderia ser

superior a Cr$300,00 (trezentos cruzeiros) por menor52. A lei definia ainda, no

artigo 6º, como deveria ser organizado esse serviço:

Compete ao Juiz de Menores organizar, com funcionários do


Juízo ou com pessoas estranhas, o Serviço de Colocação
Familiar.
§ 1º - Os funcionários serão designados pelo Juiz sem prejuízo
das vantagens do cargo efetivo; e as pessoas estranhas servirão
a título gratuito, sendo o serviço considerado de relevante valor
social.
§ 2º - Além do pessoal previsto no parágrafo anterior, o Juiz
poderá requisitar ao Poder Executivo, os funcionários técnicos de
que necessite.
§ 3º - Os componentes do Serviço devem ser pessoas de
reputação ilibada e, sempre que possível, assistentes sociais
diplomados por Escola de Serviço Social ou professores,
educadores sanitários, ou orientadores educacionais, com
certificado de curso intensivo de serviço social ou de higiene
mental.
§4º - O Serviço terá sempre que possível uma clínica de
orientação juvenil ou um médico e um psicologista.
§5º - Na comarca de São Paulo, o chefe do Serviço, de
preferência assistente social diplomado por Escola de

52
Segundo Fávero, o salário mínimo à época era de Cr$360,00 (trezentos e sessenta cruzeiros), (idem, p. 66)
212
Serviço Social, será designado pelo Juiz de Menores {grifo
nosso}.

Num primeiro momento, já no ano de 1950, o Serviço de Colocação

Familiar foi implantado em caráter experimental no Juizado de Menores da

Capital, com duas assistentes sociais cedidas pela Legião Brasileira de

Assistência. Estas atendiam as pessoas que compareciam ao plantão do Juizado

de Menores que era de responsabilidade do Comissariado de Menores.

Durante a III Semana de Estudos do Problema de Menores, realizada no

mesmo ano, José Pinheiro Cortez, presidente do Instituto de Serviço Social,

proferiu uma palestra polêmica cujo tema era “A Colocação Familiar e a Lei 560”.

Inicialmente ele enfatizava a defesa da colocação familiar como estratégia de

atenção à infância abandonada e criticava a internação de menores em

instituições:

Desejaria lembrar tão somente que a condenação das instituições


de assistência aos menores é mais do que constatação de
imperfeições graves em seu funcionamento... tais defeitos
poderiam ser removidos. Condenamos os asilos, os orfanatos, os
reformatórios, porque eles não se assemelham ao ambiente
natural da formação da criança. Por melhor instalado, grandiosos
que sejam os edifícios, mais perfeita a administração, nada
substituirá a família, ainda que pobre, sem grandes recursos
financeiros, sem grande instrução de seus membros (CORTEZ,
1950, p. 381).

Na seqüência criticava aspectos da lei nº 560 antevendo alguns problemas

para sua operacionalização tais como as diferenças existentes entre a realidade

da capital e do interior não contempladas pela Lei e o excesso de documentação

exigida das famílias. Tecia comentários sobre a importância de uma organização

213
séria do serviço sugerindo um funcionamento precário do serviço naquele seu

início de atividades:

...quero porém reafirmar o escopo do trabalho que supõe


pacificamente aceita a superioridade da colocação familiar e a
existência da lei. Com algumas falhas, ela já é um esplêndido
passo no sentido do progresso da orientação assistencial do
Estado e cumpre agora, em primeiro lugar, realiza-la. Sua sábia
aplicação contornará pequenos defeitos; sua não aplicação irá
aumentar o acervo das boas, mas inúteis leis que nós temos
(idem, p. 384).

O desdobramento imediato de seu pronunciamento durante a III Semana

foi o convite para chefiar o Serviço de Colocação Familiar. Em 30 de novembro

de 1950, ele assumiu o encargo em caráter voluntário. Em depoimento dado a

Fávero, Cortez aborda o episódio tecendo o seguinte comentário:

Minha palestra, no fundo, criticava o não cumprimento da lei, só


que não foi muito bem entendida. Então, um pouco ironicamente,
a título de represália, um juiz de menores convidou-me para por
em prática aquilo que eu tinha criticado. Na época eu estava
como chefe de gabinete do presidente da Assembléia Legislativa
– o presidente era Franco Montoro. Então comecei a trabalhar
voluntariamente na Lei 560. (apud FÁVERO, 1996, p. 72)

José Pinheiro Cortez organizou, de fato, o serviço que passou a funcionar

com uma assistente social encarregada do plantão e de visitas - Nair Coelho –,

uma assistente social encarregada dos serviços administrativos (o que incluía a

administração das verbas do setor) – Severina Basile -, e duas professoras

comissionadas exercendo função de visitadoras domiciliares. Em 1951, dados

apresentados na IV Semana de Estudos do Problema de Menores dão conta de

que o programa começava a funcionar: eram 34 casos atendidos na capital e

outros 136 processos em andamento (idem, p. 73).

214
Ainda na IV Semana, a de 1951, um juiz, o Dr. Aldo de Assis Dias, da

comarca de Capivari, interior de São Paulo, proferiu uma palestra demonstrando

notável conhecimento dos problemas dos menores e das famílias de sua

comarca. Relatou a experiência dele e de seu colega da comarca de Dois

Córregos, na instalação de um Serviço de Colocação Familiar nas suas

respectivas comarcas. Chamava a atenção para as diferenças entre a realidade

da capital e do interior, tais como: a falta de entidades de atendimento, a

necessidade do Tribunal de Justiça dotar as comarcas do interior de verbas para

a execução desses serviços, a necessidade de profissionais especializados no

interior. Mostrando já os primeiros resultados de sua arrojada empreita em

confronto com a fragilidade dos serviços sociais existentes no interior do Estado,

o Dr. Aldo dizia:

Na comarca onde exerço a minha jurisdição não existe nenhuma


instituição que se incumba única e exclusivamente, de assistência
à família, existindo apenas uma Associação de Proteção à
Infância e à Maternidade, sob cuja direção funciona o Pôsto de
Puericultura local, sendo que as famílias necessitadas, com
menores de 0 a 14 anos, antes da organização do Serviço de
Colocação Familiar, não recebiam, de forma eficiente e
permanente, qualquer espécie de assistência, quer da Legião
Brasileira de Assistência, quer da Assistência Social do Estado. A
esse respeito, penso, com a devida vênia, que com a organização
e o perfeito funcionamento do “Serviço de Colocação Familiar”, de
forma a assistir e a amparar a família-substituta e a família-
origem, em igualdade de condições, de forma que, por intermédio
da mencionada lei, possam ser exercidas, conjuntamente, tanto a
ação recuperativa, como a ação preventiva, não haverá
necessidade de se criar instituição que socorra as famílias
necessitadas, pois os esforços e trabalho de todos, quer do
Estado, quer das autoridades, quer de todas as pessoas de boa
vontade de cada município, poderão ser conjugados, para o
futuro, para o maior êxito e para a completa vitória do referido
Serviço, que, destarte, atenderia, com a mesma amplitude e
eficácia, não só os casos de colocação familiar, como os casos de

215
socorro às famílias necessitadas, com filhos menores de 0 a 14
anos (DIAS, 1952, p. 533).

Sua proposta era aproveitar-se de uma “brecha” da lei nº 560 que permitia,

através do artigo 13, que em não havendo na comarca instituição que atendesse

à família, o juiz poderia estender o benefício da remuneração à própria família de

origem da criança, desde que necessitada. Criada para casos excepcionais,

segundo o Dr. Aldo, essa possibilidade deveria transformar-se em rotina, dado

que ao Estado caberia ...a obrigação de educar e amparar economicamente a

família de prole numerosa e que luta com as dificuldades materiais que

apontamos (idem, p. 532). Dessa maneira ele propunha que o recurso voltado

para famílias substitutas funcionasse como um subsídio para famílias pobres na

tentativa de evitar a internação de seus filhos.

Sua proposta foi criticada por José Pinheiro Cortez no ano seguinte, na V

Semana de Estudos do Problema do Menor. Cortez chamava a atenção para um

provável desvirtuamento do programa, solicitava que a aplicação do artigo 13

fosse feita com o maior rigor e conclamava uma articulação entre o Serviço de

Colocação Familiar e as obras públicas e privadas. Ele dizia ...nossa

organização social e pública se ressente muito dessa separação excessiva entre

os vários órgãos da administração e dêsses com as instituições privadas

(CORTEZ, 1952, p. 75).

Cortez buscava aparar algumas arestas que estavam surgindo à medida

que o Juizado de Menores, através da Lei de Colocação Familiar, começava a

intervir concretamente na área de assistência ao menor e à sua família. Esse,

216
aliás, foi o mote da V Semana, na qual as palestras proferidas buscavam muito

mais prestar contas das atividades já realizados do que propor novas ações.

Sobre o Serviço de Colocação Familiar, Cortez prestava contas do

período em que organizou voluntariamente o serviço e informava que havia se

retirado em junho de 1952, deixando a coordenação para a assistente social do

Juizado, Dna. Nair Coelho. Defendendo novamente a colocação familiar como

alternativa ele disse:

E enquanto os demais serviços de menores, enredados em mil


problemas, exigem o esfôrço integral e a dedicação de uma
equipe numerosa de técnicos, a instituição familiar responde ao
apêlo do Estado permitindo que quatro funcionários, sem recursos
financeiros e sem instalações complexas, atendam a 174
menores, sem que se tenha ainda esgotado a capacidade do
Serviço (idem, p. 71).

O diretor do Serviço Social do Estado, por sua vez, dirige-se aos

participantes da V Semana dando conta dos esforços que o Executivo vinha

fazendo, através de seu próprio Departamento - responsável pelos convênios e

repasses de verbas para as entidades assistenciais – e, também, do Serviço

Social de Menores - responsável pelas unidades próprias do governo de

atendimento a menores no Estado -, com a finalidade de ampliar os serviços, dar-

lhe qualidade e abrangência maior. Numa posição claramente defensiva ele dizia

...temos consciência de que, ao lado da exposição do que já tentamos fazer, não

menos importante é, numa assembléia de estudiosos como esta, fazer e colher

sugestões para o aperfeiçoamento do nosso trabalho (ALVES, 1952, p. 76).

No entanto, os presentes tinham já opinião formada sobre a ineficiência

do sistema de assistência a menores no Estado, o qual estava baseado na

217
internação, a um custo alto para a sociedade, tanto do ponto de vista

econômico53 como do ponto de vista dos resultados na reabilitação e recolocação

dos menores às suas famílias54.

Os debates sobre a necessidade de ampliação da abrangência da Lei de

Colocação Familiar tanto do ponto de vista geográfico, no sentido de atender as

comarcas do interior do Estado, na maioria dos casos privadas de uma presença

mais forte do Executivo, como do ponto de vista do atendimento à própria família

do menor carente, funcionando como um programa de suplementação de renda,

encerram um período do movimento protagonizado pelos juizes de São Paulo

envolvidos com a questão do menor que deu origem às Semanas de Estudos do

Problema de Menores.

Durante o governo de Getúlio Vargas, que vai de 1930 a 1945, parte das

atribuições de gestão da política de assistência ao menor foi retirada das mãos

dos juízes de menores. O protagonismo ampliado do Executivo na formulação de

uma política assistencial – apesar de embrionária - traduziu-se na criação de

departamentos e demais organismos com o objetivo de centralizar o controle das

massas empobrecidas. Com isto, o Executivo reduziu o poder de ação dos juízes

de menores.

53
Dados disponibilizados pelos participantes da III Semana de Estudos do Problema de Menores dão conta
de que o per capita de um interno em estabelecimento governamental naquele ano era de Cr$1.000,00 (mil
cruzeiros), quando o salário mínimo vigente era de Cr$360,00 (trezentos e sessenta cruzeiros) e o repasse do
Serviço de Colocação Familiar por criança era de Cr$300,00 (trezentos cruzeiros).
54
As instituições assistenciais, que davam atendimento aos menores no Estado de São Paulo, estavam
articuladas desde 1935 - com a criação do Departamento de Assistência Social - ao Serviço Social de
Menores. No Rio de Janeiro essa responsabilidade era do SAM (Serviço de Assistência a Menores), que em
1944 ganhou abrangência nacional numa tentativa do governo federal de criar uma política nacional para o
setor. As unidades do SAM, também conhecido popularmente como “Sem Amor ao Menor”, eram duramente
criticadas pela corrupção de seu quadro de funcionários, pelas péssimas condições em que se alojavam os
internos e pela sua incapacidade em “recuperá-los”. Já em São Paulo, as críticas não eram muito diferentes,
embora o Serviço Social de Menores mantivesse suas unidades em melhores condições. Para
aprofundamento do tema ver Irma Rizzini (RIZZINI, 1995)
218
Já na segunda metade da década de 40, com o movimento protagonizado

pelos juízes de São Paulo, que contou com a importante contribuição da Escola

de Serviço Social, começou a ser gestada uma crítica a esse modelo assistencial.

Nesse momento os pontos de contato entre o Juizado e o Serviço Social

aumentaram significativamente. Terminado o Estado Novo e a ditadura de

Vargas, num panorama de maior abertura para o debate das idéias, em que o

fascismo havia capitulado em todo o mundo, e o discurso liberal encontrava um

pouco mais de espaço, o Judiciário do estado mais rico do país, São Paulo,

buscou retomar seu protagonismo.

Para essa retomada contribuiu um segmento específico do Judiciário,

aquele vinculado à democracia cristã que, com seu liberalismo conservador,

construiu um projeto considerado arrojado para a época – não é exagero dizer

que o projeto da colocação familiar pode ser considerado arrojado mesmo em

nossos dias. Era um projeto cujas características morais, baseadas na doutrina

cristã, associavam-se à técnica e ao profissionalismo do Serviço Social como

profissão emergente.

Dessa associação surgiu o Serviço de Colocação Familiar, uma proposta

voltado para a família e não para o menor, numa demonstração de que, embora

individualizada, a intervenção se assentava em um enfoque diferenciado do

“problema do menor”, este deveria ser invertido, dando prioridade para uma ação

de natureza preventiva.

O Judiciário paulista, através do Juizado de Menores credenciou-se,

assim, como elemento de vanguarda na compreensão “do problema do menor” e

iniciou, com o auxílio de um pequeno quadro profissional de assistentes sociais, a


219
sua trajetória na construção de uma estrutura própria de prestação de serviços,

paralela à estrutura organizada pelo Executivo. A inserção do Serviço Social no

Juizado de Menores estava concretizada, e a partir de então a profissão somente

cresceu e se consolidou no interior do Poder Judiciário.

3.2.2 As alterações na conjuntura política e a reviravolta na condução do

Juizado de Menores

No período compreendido entre 1952 e 1955 observou-se um

arrefecimento do movimento em torno das Semanas de Estudos do Problema de

Menores, que deixaram de ser anuais. O Juizado de Menores não absorveu

novas funções nem sofreu alterações significativas, além da criação de um

Recolhimento Provisório de Menores - RPM, diretamente subordinado ao Juizado

de Menores da Capital por força da Lei Estadual nº 2.705 de 23 de julho de 1954.

Este deveria “Abrigar os menores acusados de prática de fatos considerados

infrações penais e até que seja estabelecida a sua situação definitiva, de acordo

com a Lei”, como consta em seu artigo 1º55.

O Serviço de Colocação Familiar continuou ampliando o número de

atendimentos embora mantivesse estagnado o valor do auxílio mensal por

criança em até Cr$300,00 (trezentos cruzeiros) em vigor desde 1949, ...valor

então considerado irrisório, devido às altas constantes do custo de vida

(FÁVERO, 1996, p. 77). Em 1955 o setor estava organizado com nove

55
Prevista em lei desde 1938 a criação do RPM, diretamente vinculado ao Juízo de Menores, só veio a
ocorrer em 1954 em decorrência das articulações e discussões ocorridas ao longo das Semanas de Estudos.
As atividades do RPM vinham sendo realizadas até então pelo Serviço Social de Menores, do Poder
Executivo do Estado de São Paulo.
220
profissionais (uma chefe de serviço – assistente social -, uma escriturária, uma

encarregada de serviços internos e seis pesquisadoras que realizavam as visitas

domiciliares e os relatórios, uma das quais era assistente social e outra estagiária

de serviço social). Em seu trabalho de conclusão do curso de Serviço Social na

PUC/SP, intitulado Serviço de Colocação Familiar no Juizado de Menores da

Capital, Cora de Magalhães Correa informa que nesse mesmo ano 382 menores

recebiam o benefício da Colocação Familiar e outros 507 processos estavam em

andamento (apud FÁVERO, 1996).

Politicamente falando, esses anos foram marcados pelo retorno de Getúlio

Vargas ao poder, desta vez eleito sob uma plataforma de defesa da

industrialização e necessidade de ampliação da legislação trabalhista. Getúlio

procurou exercer novamente o papel de árbitro das diversas forças da sociedade,

que desempenhara durante a ditadura, agora sob um regime democrático

(FAUSTO, 1995). Porém, os conflitos entre nacionalistas e aqueles que

propunham um alinhamento irrestrito do Brasil com os Estados Unidos e com o

combate ao comunismo minaram as suas tentativas.

Ao mesmo tempo uma política de liberalização do movimento sindical

aliada à alta do custo de vida gerou uma série de greves que derrubaram as

forças getulistas do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB - e dos “pelegos”

sindicais, e aumentaram a força da oposição cujo expoente simbólico era Carlos

Lacerda. A tensão social e política do período culminou com o suicídio de Getúlio

Vargas em agosto de 1954, após o episódio da tentativa de assassinato de

Carlos Lacerda, que trouxe a público “o mar de lama” - assassinatos

encomendados e outros aspectos sombrios da máquina do governo.


221
Ao mesmo tempo, em São Paulo, um fenômeno eleitoral surgia: era o

janismo. Em 1953 Jânio Quadros elegeu-se prefeito da capital pelo Partido

Democrata Cristão com uma plataforma política populista, centrada na figura de

político honesto que buscava combater a corrupção e que não possuía por trás

de si um grande aparato partidário. Segundo Fausto ...o desejo de inovar,

derrotando as máquinas partidárias, e a crença nos poderes mágicos de um

homem no combate à corrupção uniram diferentes setores sociais – da massa

trabalhadora à classe média – em torno do nome de Jânio (1996, p. 414)

As bandeiras de combate à corrupção, que dominavam o ambiente político

na época, certamente contribuíram para dar maior destaque aos problemas que

ocorreram no Juizado de Menores referentes aos abusos e desmandos de alguns

comissários de menores. Era comum que membros desse corpo de voluntários

utilizassem, de maneira inadequada, as possibilidades de acesso irrestrito às

casas de prostituição, bares, festas e demais locais públicos, que a função e a

condição de estarem a serviço do juiz lhes permitia. Sobre isso Eunice Ferreira

Rodrigues, em seu trabalho de conclusão do curso de Serviço Social na PUC/SP

em 1959, intitulado Uma experiência de Serviço Social no Juizado de Menores de

São Paulo, diz: É de domínio público que a falta de idoneidade de certos

comissários chegou a tomar vulto calamitoso, de tal forma que a primeira portaria

do MM. Juiz Dr. Aldo de Assis Dias, datada de 27 de julho de 1956, veio exonerar

todos os comissários, auxiliares e estagiários do Juizado (apud FÁVERO, 1996,

p. 33).

No cargo até junho de 1956 o juiz anterior foi substituído pelo Dr. Aldo de

Assis Dias em meio a denúncias que envolviam seu nome e o de comissários de


222
menores. Suraia Daher, em seu depoimento, cita o episódio quando relata o dia

de sua entrada, ainda como estagiária, no Juizado de Menores em 1956:

Aí, chegamos lá, eu e a Beatriz, a televisão estava por todo lado,


imprensa, eu disse: “Beatriz, onde nós viemos parar!” Eram as
mudanças que o Dr. Aldo estava fazendo. Porque o escândalo
envolvendo o Juiz anterior havia estourado. {...} O Juiz foi
acusado, depois a gente não sabe nunca o fim {...} Então a
preocupação do Dr. Aldo era com a reformulação do
Comissariado de Menores. Realmente ele estava colocando o
dedo nas feridas, porque todo esse problema de envolvimento,
corrupção, etc., etc., que embora ficasse velado... (depoimento,
2003).

Incumbido pelo Tribunal de Justiça de colocar o setor em ordem, o Dr.

Aldo de Assis Dias tomou posse como juiz de menores da capital em 17 de julho

de 1956. Suas credenciais para o cargo incluíam a atuação como juiz de Direito

nas comarcas de Capivari e de Santos, onde, em ambos os casos, teve destaque

nas atividades que envolviam a área de menores. Além disto ele havia sido,

juntamente com outros juizes do interior, ativista na luta pela implantação do

Serviço de Colocação Familiar nas comarcas do interior do Estado, e teve papel

importante na polêmica sobre o assunto na IV Semana de Estudos do Problema

de Menores, em 1951, como já apontamos.

Quando da posse do Dr. Aldo, a situação política do país já podia ser

considerada mais estável. Após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e um

conturbado período de transição, foi eleito, democraticamente, o presidente

Juscelino Kubitschek para um mandato de cinco anos (1956-1960). Políticos

ligados ao getulismo, tanto Juscelino, como o vice, João Goulart, conseguiram

acalmar as diversas forças sociais e manter a ordem constitucional. Para isso

eles contaram também com o apoio de segmentos das Forças Armadas. Mesmo
223
sob ataque da oposição, Juscelino respondia ...defendendo a ordem instituída e

aos poucos se fazendo respeitar pela firmeza e pela habilidade na aplicação da

lei. Ele ofertava ao País, além de sua intensa simpatia pessoal, um projeto

otimista de desenvolvimento, que entendia ser capaz de levar o Brasil a seu

grande futuro (VIEIRA, 1995, p. 68).

O mundo vivia ainda os reflexos do final da Segunda Guerra com a

expansão do poderio econômico e militar norte-americano e a guerra fria.

Segundo Evaldo Vieira, em seu livro Estado e miséria social no Brasil:

O programa político de Juscelino, portanto, assentava-se na


conservação da ordem legal da época e na confiança no futuro de
grandeza nacional para o Brasil, comumente apresentadas
através de um clima onde o otimismo era difundido por atacado e
a varejo. Tais pressupostos ideológicos vinham acrescidos de
outros tantos, como a consolidação do regime democrático, o
alinhamento com o chamado “mundo livre”, a inevitabilidade do
auxílio do capital estrangeiro ao País e o desenvolvimentismo.
(1995, p. 70)

Do ponto de vista da política social e apesar do discurso

desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, a estrutura assistencial voltada aos

menores durante toda a década de 50 e início da década de 60 manteve-se

intacta. Em realidade, a prioridade da política social do governo federal seguiu o

mesmo modelo dos anos anteriores, dando ênfase especial apenas à educação

em razão da necessidade de formação de mão-de-obra para o parque industrial

que se ampliava no país. Sobre a política social desse período diz Vieira:

Na verdade, a política econômica preponderou sempre, no tempo


de Kubitschek, sobre a política social, como se observa até em
seus pronunciamentos ao País. As metas econômicas do governo
federal não só conviveram com precárias condições de vida da
maioria da população brasileira, como ainda permitiam ocultá-las,
através da febre desenvolvimentista. Formou-se um círculo
224
pungente: o desenvolvimento vinha para acabar com as precárias
condições de vida. Mas, em certo sentido, às vezes terminava por
agrava-las e daí, dizia o Presidente da República, tornava-se
imperioso maior desenvolvimento. A esta altura da exposição,
cabe notar que a administração juscelinista mudou muito pouco a
organização responsável pela aplicação da política social. Afinal,
como ela não constituía algo predileto no conjunto da gestão de
Juscelino, manteve no geral o que herdara dos governos
anteriores neste campo, em especial desde Getúlio Vargas (1995,
p. 127).

Assim como no resto do país, a malha assistencial do Estado de São

Paulo manteve-se igual. Os serviços voltados para menores continuaram

centralizados pelo Serviço Social de Menores e pelo Departamento de Serviço

Social. Na VII Semana de Estudos do Problema de Menores, em 1956, a

assistente social Maria Nogueira Soares apresentou um relatório dos serviços

existentes no Estado mostrando existir, à época, 19 unidades de atendimento do

Serviço Social de Menores entre casas para deficientes mentais, educandários, e

casas de reeducação. Destas 12 estavam na capital e 07 no interior do Estado. O

relatório citava o RPM como única unidade vinculada diretamente ao Juizado de

Menores e mais uma malha de 578 obras assistenciais (277 na capital e 301 no

interior) divididas em creches, lactários, escolas56, obras de recreação, obras de

reeducação, assistência a anormais, entre outras categorias menos significativas

citadas. Boa parte dessas obras recebiam recursos do Departamento de Serviço

Social do Estado em sistema de pagamento per capita de atendimento. A relatora

dizia: Que no momento essas obras e serviços são insuficientes mostram-no a

avalanche de pedidos de internação ou amparo de crianças, feitos no Juizado de

56
Os dados não incluem as escolas públicas.
225
Menores, no Serviço Social de Menores, no Serviço Social do Estado, além de

outros serviços de assistência, públicos ou particulares (SOARES, 1956, p. 242).

Diante desse quadro, e considerando um ambiente democrático e um

pouco mais estável, as discussões jurídicas puderam intensificar-se, e o

Judiciário ganhou expressão. Os juízes de menores continuaram o seu

movimento de organização em torno da proposta de resgatar a centralidade do

Juízo na condução da política de atenção ao menor. Eles puderam ver também a

possibilidade de operacionalizar o projeto que vinha sendo forjado durante as

Semanas de Estudos desde 1948.

Em 1956 havia sido retomada a discussão da reforma do Código de

Menores (1927), com a formulação de uma proposta pelos juizes de menores,

reunidos em Porto Alegre no 1º Encontro Nacional de Juizes de Menores,

apresentada à Câmara de Deputados na forma do Projeto n. 1000/56. Segundo

Irene Rizzini, as proposições do projeto podem ser resumidas em quatro

aspectos gerais: a criação de uma fundação de âmbito nacional, a instituição de

um Conselho Nacional de Menores para orientar a assistência e proteção aos

menores, o restabelecimento da subordinação da instância executora 57 ao Juízo

de Menores e, por fim, o estabelecimento de um polícia especial para lidar com

menores (1995, p. 143).

Os juízes de menores defendiam em linhas gerais o projeto e, diante dos

conflitos que se estabeleceram a partir das décadas de 30 e 40 entre eles e a

57
A instância executora do atendimento a menores, em nível nacional era o SAM, que desde 1944 era o
responsável pela política para a área. Porém ele só possuía uma presença importante no Rio de Janeiro e não
se efetivava como um órgão centralizador ou coordenador de ações nessa área em todo o território nacional.
Em São Paulo essa tarefa estava claramente subordinada ao governo estadual através do Serviço Social de
Menores e do Serviço Social do Estado.
226
máquina executora dos recém-criados órgãos governamentais, enfatizavam a

sua posição de que o Judiciário era o órgão normativo e o Executivo deveria

cumprir as suas determinações. A idéia da criação de uma fundação para

operacionalizar os serviços era ainda incipiente, mas todos concordavam que o

SAM não era o órgão capacitado para tal fim. Irene Rizzini diz ...Nesse sentido,

os Juízes estabelecidos buscavam ampliar sua competência, abarcando serviços

auxiliares que complementassem sua ação (assistentes sociais, psicólogos,

comissários voluntários, etc.) (idem, p. 145) .

Por trás dessas ações estava o descaso das instituições que atendiam

menores - principalmente as vinculadas ao Executivo - com relação ao poder

normativo dos juízes de menores, como podemos perceber na fala do próprio Dr.

Aldo, citando um debate ocorrido em uma das Semanas de Estudos, no qual o

Dr. Hely Lopes Meirelles advertia:

... que a nenhuma autoridade administrativa é lícita a delegação


da função judiciária, consistente em “recolher, custodiar, internar e
desinternar menores abandonados ou infratores sob sua
jurisdição.” {...} “Por contingência de fato, ou errônea interpretação
das leis, se vêm distorcendo, dia a dia, as atribuições do Juiz de
Menores ao ponto de se lhe retirarem funções tipicamente
judiciais, como as de internamento e tutela dos menores
abandonados sob sua jurisdição, e de se lhe cometerem encargos
nitidamente assistenciais e, portanto da alçada executiva.” “Urge
se ponha um paradeiro a essa indiscriminação de atribuições,
delimitando-se, com precisão, as funções de cada poder estatal,
nesse setor.”
A verdade é que, em nosso meio, um número considerável de
menores, os denominados “assistidos”, são internados
diretamente pelos Diretores dos Serviços Sociais de Menores,
sem a intervenção da Justiça Especial de Menores, por
entenderem êles ter competência para prestar assistência ao
menor necessitado, no que laboram em completo equívoco (DIAS,
1968, p. 283).

227
Em 1957, juizes de menores de vários estados apresentaram, juntos,

propostas de emendas ao projeto n. 1000/56 que tramitava na Câmara Federal.

Seus esforços refletiam as idéias que vinham sendo debatidas nos fóruns

nacionais e internacionais da área e empenhavam-se em propor mecanismos de

administração de subsídios à família, programas de colocação familiar, legislação

sobre adoção, sempre com o propósito de reforçar a família diante do dramático

quadro de ampliação do abandono e da delinqüência juvenil.

É nesse contexto que se pode observar a importância do movimento que

deu origem às Semanas de Estudos do Problema de Menores, pois foi aí que se

forjou essa compreensão específica sobre como deveria ser a política de atenção

na área. Sobre isso Irene Rizzini diz: Reconhece-se neste {nas propostas ao

projeto apresentadas em 1957}, como em outros Projetos, o caminho tomado por

São Paulo desde 1949, no Governo Adhemar de Barros, que criou o Serviço de

Colocação Familiar, associado aos Juízes de Menores (1995, p. 148).

O Juizado de Menores da capital de São Paulo, em virtude da implantação

do Serviço de Colocação Familiar, já tinha se tornado uma referência nacional e

caminhava para, na prática, tornar-se o modelo de Juízo de Menores, segundo a

concepção que predominava então58. A entrada do Dr. Aldo de Assis Dias

significou assim, além da moralização do órgão desgastado com o escândalo que

58
Conquanto fosse a posição hegemônica entre os juízes militantes na questão do menor naquele momento,
esta não era a única posição existente. Segundo Rizzini, existia um conflito no âmbito da doutrina. Ela cita o
estudo de Marcelo G. Jasmim para diferenciar os dois grupos em conflito como os que defendiam um ...
“juizado-executivo” que atua em jurisdição ampliada, fornecendo subsídios à famílias pobres, distribuindo
bolsas de estudo, enfim, agindo em áreas que deveriam estar sujeitas à iniciativa do poder executivo... e
aqueles que defendiam um ... “juizado-judicial” que não se imiscui em nenhuma atividade administrativa,
não mantém nenhum serviço assistencial, reservando-se à área puramente judicial (apud RIZZINI, 1995, p.
146).
228
ocorrera, também a transformação do Juízo naquilo que os integrantes do

movimento que deu origem às Semanas de Estudos, imaginavam.

A partir de sua posse, o Dr Aldo buscou implantar procedimentos que

visavam restituir ao Juízo de Menores as atribuições previstas em lei, que lhe

cabiam por ser o responsável pelos destinos de cada uma das crianças

abandonadas ou que tivessem cometido infrações. Mais ainda, realizou ações

que visavam imprimir um sentido diferenciado daquele que marcou a ação das

instituições governamentais durante as décadas de 20, 30 e 40, que priorizaram

a internação como alternativa para o abandono, a pobreza e a delinqüência

juvenil. Ele usava o discurso da necessidade da prevenção e buscava dar ênfase

à família como o espaço privilegiado para a educação da criança e do jovem,

tornando-se porta-voz de um movimento que à época se apresentava como

progressista e moderno.

Defensor das teses de Noé de Azevedo sobre os tribunais especiais

juvenis, seguiu a tendência de defesa do Juízo de Menores, como o grande

órgão normatizador, e tratou de transformar o Juizado num organismo

centralizador da política para a área. Ou melhor, nas palavras do Desembargador

Francisco Pereira de Bulhões Carvalho, do então Estado da Guanabara, no

prefácio ao livro do Dr. Aldo ...um organismo que centralize em torno ao Juiz de

Menores tôda a obra de assistência ao abandonado ou infrator e coloque o

esfôrço de todas as instituições e da população em geral à disposição do Juízo

de Menores... (CARVALHO, In DIAS, 1968, p. 18).

Logo no primeiro ano em que esteve à frente do Juizado, 1957, o Dr. Aldo

intensificou seus estudos e sua militância em prol de tal modelo. Foi presidente
229
da 2ª Reunião de Juizes de Menores do Brasil – a reunião que organizou as

propostas de emendas ao projeto n. 1000/56 - e ainda nesse mesmo ano fez

uma viagem para os Estados Unidos, onde pode conhecer mais de perto a

estrutura dos tribunais juvenis daquele país, formulando respostas às críticas

daqueles que não aceitavam a interferência do juiz de menores em outras áreas.

Assim ele justificava o papel do juiz de menores:

Ao Juiz de Menores no Brasil, como executor que é de uma


Justiça Especial, a exemplo do que ocorre em todos os países
cultos, está confiada a assistência e a proteção de tôdas as
crianças, quer estejam ou não sob o pátrio poder. O insigne Clóvis
Bevilacqua já sentenciou que a ação do Juízo de Menores nesse
campo, é perfeitamente legal, pois, sendo a sua finalidade a
proteção dos menores contra o contágio dos vícios, atua o Juiz
dentro da esfera da função jurídico-social, indicando aos menores
o caminho do bem, dos sãos princípios da moral e bons
costumes, consultando e tutelando interêsses os mais lídimos de
ordem geral (DIAS, 1968, p. 36).

Dono de uma grande capacidade de articulação e aglutinação de forças o

Dr. Aldo conseguiu, em tempo recorde, fazer mudanças significativas no setor.

Para isso ele contou com o apoio dos dirigentes superiores do Tribunal de

Justiça. Transitava bem entre os organizadores das Semanas de Estudos,

participava ativamente dos eventos promovidos pelos juizes de menores em nível

nacional e internacional, tinha vinculações com o Instituto Interamericano Del

Niño, vinculado à Organização dos Estados Americanos - OEA. Sua formação

católica e suas posições claramente conservadoras no que dizia respeito à

família, como seu posicionamento militante contra o divórcio, por exemplo 59, lhe

59
Era bastante comum encontrar referências à questão do divórcio em seus discursos. Como exemplo
citamos sua fala no discurso de posse como ministro do Tribunal de Alçada em 1965. Lá ele disse:
Felizmente, no Brasil, não existe o divórcio que, como adverte Chaumette, constitui um mal, porque atenta
contra o caráter institucional do matrimônio, baseado na indissolubilidade: atenta ainda contra a natureza
230
davam também o apoio da Igreja Católica e de setores conservadores da opinião

pública.

A empreita proposta pelo Dr. Aldo era ambiciosa desde o início; para

realizá-la ele precisava de muitos apoios. Em 1957, em conferência na VIII

Semana de Estudos dos Problemas de Menores, em que fazia a prestação de

contas de seu primeiro ano no comando do Juizado, o pronunciamento deixava

claro que suas ações estavam respaldadas por vários segmentos:

Seja-me lícito ressaltar, desde já, que o pouco até agora


conseguido, se teve um mérito, devo-o ao constante amparo e
estímulo do colendo Tribunal, ao valioso concurso do Executivo e
do Legislativo estaduais, a entidades de natureza assistencial e
social e, em particular, à estimuladora colaboração dos órgãos de
nossa imprensa falada e escrita, além das demais forças vivas da
sociedade (DIAS, 1957, p. 283).

Em outro discurso, anos mais tarde, o Dr. Aldo se referiu àquele início no

Juizado de Menores e aos seus esforços de articular o que ele chamava de

“forças vivas da sociedade”, da seguinte maneira:

Ao investirmo-nos na jurisdição da Vara de Menores da Comarca


da Capital do Estado de São Paulo, encontramo-la sem recursos
e sem planejamento algum. De sorte que tivemos de
desdobrarmo-nos para que a sua ação se revestisse, desde logo,
de sentido positivo. Cuidamos, pois, de galvanizar na opinião
pública uma consciência do problema do menor. A par disso,
começamos o necessário trabalho de esclarecimento e a
indispensável elucidação dos meios suscetíveis de soluciona-lo.
Provocamos, assim, a atenção e a colaboração da imprensa,
despertamos o interêsse efetivo dos poderes públicos, há muito
esquecidos ou eqüidistantes do problema, conclamamos as
classes mais representativas de nossa sociedade, fazendo-lhes
sentir não só a valia de sua cooperação como também a sua
parcela de responsabilidade frente à situação de fato do menor.
(Posse no Tribunal de Alçada, 01/12/1965, p. 17)

religiosa da instituição. É contrário à ordem natural e ao bem da família. Fomenta paixões malsãs (Discurso
de posse – Tribunal de Alçada de São Paulo, 01-12-1965, p. 24).
231
Sem recursos vultuosos ele utilizou-se do prestígio pessoal e do prestígio

que o cargo lhe conferia para obter os primeiros recursos para sua empreita.

Articulou forças do próprio Judiciário, do Executivo, da sociedade civil

organizada, da polícia, da imprensa, enfim, interferiu em tudo que dizia respeito

aos menores e interagiu com todos os atores sociais na construção de sua

proposta num discurso que era consoante com o espírito ufanista daqueles anos.

3.2.3. A ampliação das atividades do Juizado de Menores e o Serviço

Social

As primeiras ações realizadas pelo Dr. Aldo demonstraram desde logo que

ele estava disposto a fortalecer o Juizado de Menores, o que fez transformando-o

numa máquina que foi ocupando os espaços vazios - que não eram poucos -

deixados pelo Executivo Nesse processo, os assistentes sociais tiveram uma

importante participação.

A defesa do Serviço Social como profissão capaz de auxiliar o Juizado de

Menores a desempenhar uma ação social mais efetiva, graças à prevenção e ao

acompanhamento sistemático de cada caso, vinha sendo feita pela Escola de

Serviço Social desde 1948, quando da I Semana de Estudos. Enfatizando o

caráter técnico-profissional da formação dos assistentes sociais, a Escola de

Serviço Social afirmava serem eles os profissionais melhor qualificados para uma

tarefa que quase nada tinha a ver com boa vontade, necessitando de preparo e

de qualificação. Nessa direção ia o discurso de Dna. Helena Iracy Junqueira já

em 1949. Ela dizia:


232
A generosidade, a dedicação, a simpatia pelos que sofrem são
indispensáveis mas não suficientes para a solução de problemas
tão complexos como os atuais. Para a realização dessa tarefa,
qual seja o Serviço Social, sentiu-se desde muito a necessidade
dos agentes preparados metódica e não apenas empiricamente
(JUNQUEIRA. 1949, p. 335).

Apesar da criação do Serviço de Colocação Familiar, dirigido por

assistentes sociais, não houve naquele momento a incorporação do Serviço

Social nas tarefas rotineiras do Juízo de Menores. As declarações de Dna. Helena

sobre a profissão somente tiveram maior eco após os problemas de denúncias

envolvendo o Comissariado de Menores, anos mais tarde, pois a falta de preparo

e de qualificação para a função sempre foram apontadas como problemas para

esse corpo de voluntários que necessitava desempenhar uma tarefa cada vez

mais distante da função policial, por pressões vindas dos segmentos mais

esclarecidos da sociedade, que propunham uma ação de natureza tutelar.

Mas, a militância do Serviço Social nessa área, desde as primeiras

Semanas de Estudos e o fato de já existirem assistentes sociais atuando no

Juizado, tanto no próprio Comissariado, na condição de voluntários, como no

Serviço de Colocação Familiar, contribuiu para que o Serviço Social fosse

escolhido como a profissão para operacionalizar os projetos do Dr. Aldo.

Provavelmente, os serviços que vinham sendo prestados por esses profissionais

eram considerados satisfatórios.

Assim, uma das primeiras ações nesse sentido foi convidar, ainda em

1956, o assistente social José Pinheiro Cortez para retomar a coordenação do

Serviço de Colocação Familiar, desta vez com remuneração, numa clara

tentativa de profissionalizar o quadro dos funcionários do Juizado de Menores,


233
cercando-se de auxiliares capacitados. Sobre isso, Fávero resgata o depoimento

dado a ela por Cortez em 1994, dizendo ... De acordo com o seu depoimento, o

Serviço de Colocação Familiar passou a ser exercido de forma mais organizada e

dinâmica, com maior número de funcionários, o que garantia a ampliação de

famílias atendidas (1995, p. 78)

No ano seguinte, o Dr. Aldo conseguiu ampliar também o montante de

recursos para a Colocação Familiar que saltou de um milhão e meio de cruzeiros

para um milhão e oitocentos mil cruzeiros, o que permitiu estender o benefício

para um número maior de famílias. Ainda no mesmo ano conseguiu novo

aumento de verbas possibilitando o reajuste do benefício, de trezentos para

oitocentos cruzeiros por criança60.

Com a ampliação dos recursos e a possibilidade de organizar o setor,

Cortez foi buscar estagiários na Escola de Serviço Social. Vários componentes

importantes do quadro do Serviço Social no Juizado começaram como

estagiários no Serviço de Colocação Familiar. É o caso de João Batista Adduci:

Eu fiquei na Santa Casa alguns anos {como estagiário de Serviço


Social}. Lá, no Pronto Socorro Infantil eu tinha contato com o
pessoal do Juizado de Menores porque havia abandono de
crianças. Eu fiquei conhecido do pessoal do Plantão da Vara de
Menores que naquele tempo se chamava Vara Privativa de
Menores, pela minha atuação no Pronto Socorro. Eu fiz contatos
com os plantonistas, uma delas era a Zilnay Catão Borges.
Quando o Cortez conseguiu do Dr. Aldo a ampliação do quadro
de Assistentes Sociais e de estagiários para o Serviço de
Colocação Familiar, a Zilnay me pinçou, ela disse: “João, sai da
Santa Casa, ou fica na Santa Casa meio período, e vem conosco,
vamos conseguir a nomeação de estagiários de Serviço Social.
Era 1956. Eu fui como estagiário para o Serviço de Colocação
Familiar, diretamente ligado ao Dr. Cortez e à Severina De Basile,

60
Ainda assim, dada a alta inflação do período, o valor significava menos de um quarto de salário mínimo,
que em 1957 era de Cr$3.700,00 (três mil e setecentos cruzeiros), bem abaixo do valor real do benefício
quando foi instituído em 1949 (FÁVERO, 1996).
234
que era Assistente Social, mas trabalhava como administradora
da verba do Serviço de Colocação Familiar. Eu fiquei trabalhando
diretamente com eles, naquele tempo o Serviço de Colocação
Familiar estava no centro da cidade... (depoimento, 2003).

O corpo profissional do Serviço de Colocação Familiar foi sendo ampliado

dessa maneira, com alguns profissionais, estagiários remunerados, funcionários

emprestados, à medida que o Dr. Aldo ia conseguindo recursos.

Outra área em que houve modificações logo nos primeiros meses após a

mudança na condução do Juízo foi a do Comissariado de Menores: o Dr. Aldo fez

uma renovação total dos seus quadros. É importante ressaltar que ele não abriu

mão da estrutura que tradicionalmente foi utilizada pelo Judiciário, mantendo o

Comissariado como um corpo formado essencialmente por voluntários, apenas

alterou os seus membros. Assim ele se fiou na capacidade pessoal de selecionar

elementos idôneos. Como ele mesmo disse:

Constituiu para mim, desde o primeiro instante de minha


investidura no Juízo Privativo de Menores, preocupação relevante
o renovo do quadro dos Comissários. Tenho procurado, por isso
mesmo, valer-me dos elementos humanos que se me afiguram
capazes de exercer essa espinhosa e delicada função como
verdadeiros apóstolos da cruzada em prol da infância e da
juventude desprotegidas e transviadas. Mercê do critério seletivo
a que me tenho dedicado, neste particular, já agora o Juizado
dispõe, a bem da tranqüilidade do nosso meio social, de uma
equipe de voluntários que vem realizando tarefa das mais
nobilizantes, quer na esfera fiscalizadora e repressiva, quer na
que se refere a ação assistencial e social (DIAS, 1957, p. 283).

Os comissários de menores eram responsáveis pelas atividades de

fiscalização (de bares, hotéis, casas noturnas, shows e demais espetáculos), por

realizar sindicâncias (averiguações a pedido do juiz), e também pelo Plantão do

Juizado de Menores que atendia à população que para lá acorria em busca de


235
internação para seus filhos, solução para a falta de moradia, problemas

conjugais, enfim, o Plantão recebia toda sorte de problemas que julgava-se, o

Juizado poderia solucionar61.. O plantão do Comissariado recebia também

menores que eram recolhidos pela polícia, geralmente mendigando ou praticando

pequenos furtos, e expedia autorizações para viagem.

Inicialmente o Dr. Aldo transformou esse Plantão, que atendia em horário

restrito, em um Plantão Permanente, com funcionamento ininterrupto, 24 horas

por dia. Nele já atuavam assistentes sociais, voluntariamente, algumas como

estagiárias. Mas, na seqüência, foi feita uma espécie de desmembramento das

atividades desse Plantão Permanente criando-se a Secção de Informações e de

Serviço Social. Para esse serviço ele recrutou a assistente social Zilnay Catão

Borges. Ela diz no depoimento recolhido por Eunice Terezinha Fávero, em 1994:

O Dr. Aldo precisava de gente, mas não tinha verba, não podia
gastar, havia encontrado tudo estourado. Na época eu estava
passando por uma situação muito difícil no Serviço Social de
Menores; o Abrigo havia mudado de direção..., minha situação era
difícil, mas era funcionária, não podia ser colocada na rua porque
não tinha motivo, mas também não tinha o que fazer. Como eu
não tinha serviço, não tinha onde ficar, participava de cursos e aí,
em uma das Semanas de Menores, ela {Zilnay se refere a
Leopoldina Saraiva a quem Dr. Aldo havia pedido auxílio como
professora da Escola de Serviço Social} encontrou comigo e me
convidou para o Juizado. Ela disse que o Dr. Aldo conseguiria. Na
própria Semana de Menores ela me apresentou para o Dr. Aldo e
na mesma semana ele me telefonou e disse: “já arrumei tudo com
o diretor do Serviço Social de Menores e você vem pra cá”. Eu fui
(depoimento a E. T. F., 1994).

61
Para esse fim existia na cidade de São Paulo também o Plantão do Serviço Social de Menores e o do
Serviço Social do Estado, além dos serviços de atendimento municipal. No entanto o plantão do Juizado de
Menores funcionava no centro da cidade e isso era um diferencial que facilitava, e muito, o acesso da
população. Um estudo apresentado na I Semana de Estudos dos Problemas do Menor por duas assistentes
sociais que atuavam como comissárias de menores, intitulado “Assistência Social”, apresenta um
levantamento detalhado desses casos que compareciam ao plantão do Comissariado de Menores.
236
A Secção de Informações e de Serviço Social foi criada com o intuito inicial

de dar atendimento aos casos de natureza “social” que apareciam no Plantão

Permanente, desviando-os do Comissariado para um atendimento técnico

especializado. Vale constar que o juiz de menores estava empreendendo uma

grande operação de repressão à mendicância que ele apresentava assim:

Não contemos o ímpeto de dizer-vos quanto sentimos a triste


sorte desses menores que, desassistidos e deslembrados das
camadas sociais superiores, andam a perambular pelas nossas
artérias principais, entregues à mendicância, à ociosidade e ao
infortúnio {...}Estamos procurando, na medida de nossas fôrças,
remediar, senão resolver, o problema angustiante dêsses párias
infanto-juvenis, cujos pais, de muitos dêles, de sua maioria
mesmo, atraídos pela miragem das cidades grandes, deixam suas
aldeolas, seus lugarejos, suas cidades pequeninas, de solo adulto
e inculto, das regiões menos desenvolvidas do País, e vêm, para
o nosso Estado, à busca de uma prosperidade quase nunca
alcançada (DIAS, 1957, p. 291).

Em vista da demanda que o Dr. Aldo lhe trouxe, a assistente social Zilnay

relata como o serviço foi organizado:

O Dr. Aldo me disse: “eu estou fazendo um serviço de prevenção


à mendicância com policiais femininas” (o corpo de policiais
femininas estava começando). Ele estava com um turma
trabalhando com ele. Eram do Estado, cedidas. Tudo com ele era
cedido, porque ele não tinha dinheiro para ninguém. Ele dizia: “eu
estou fazendo repreensão à mendicância, mas eu não posso
mandar soldados prender, então eu estou mandando as policiais
recolher.” Ele não tinha planos, não sabia o que iria fazer..., nem
eu sabia. Eu fui à Escola de Serviço Social, saber o que, como
era, o que eu deveria fazer. Eles disseram que também não
sabiam, que não havia experiência anterior nenhuma. Que tinha
que ir fazendo à medida que ia conhecendo. Então eu comecei
atendendo os mendigos que eram apreendidos com crianças, na
rua, e eram levados para lá. Eu fazia a triagem. {...} Eu atendia,
fazia triagem, se precisasse internar criança ficava mais fácil para
mim, porque eu conhecia bem o Abrigo de Menores, onde tinha
trabalhado bastante tempo (depoimento à E.T.F, 1994).

237
A Secção de Informações e Serviço Social logo passou a ser conhecida

pelos funcionários e demais pessoas como o Plantão do Serviço Social. Pouco

tempo depois, o Dr. Aldo conseguiu a contratação de outra assistente social para

o setor, era Idalina Monteclaro César, que havia trabalhado alguns anos na Liga

das Senhoras Católicas. Com ela as atividades do setor se ampliaram e foi

possível organizar um atendimento para os vários tipos de casos que

começavam a surgir, como explica Zilnay:

Vinha muita gente que não era apreendida, mais para saber,
perguntar onde é que poderia conseguir orientação. Era centro da
cidade. Então, fora a questão dos mendigos, era aquela
gentarada que vinha saber: “onde eu vou dar queixa do meu
marido, onde eu vou internar o filho, onde eu vou para conseguir
uma escola...Tinham os mais variados pedidos. Aí eu tinha que
atender. {...} ... começou também a surgir um outro tipos de casos
– gravíssimos , que vinham direto do gabinete do juiz, ou
enviados pelo curador de menores ou pelos plantonistas da noite,
ele chamava a gente e mandava que estudássemos o caso
(depoimento à E.T.F, 1994).

Ainda segundo Zilnay, ela mesma foi novamente à Escola de Serviço

Social pedir ajuda, desta vez juntamente com Idalina. Elas tinham uma demanda

ampliada e alguma idéia do que poderia ser feito. Ela diz: A Escola ajudou muito!

Nós fomos à Escola com tudo aquilo que a gente podia planejar e eles mandaram

a primeira turma {de estagiários} ... (depoimento à E.T.F, 1994). Suraia Daher,

uma das estagiárias desse primeiro grupo disse sobre a experiência:

...a preocupação do Dr. Aldo era instituir um plantão de Serviço


Social. Adaptou lá num porão “fedido”, os boxes onde ficavam
Idalina Monteclaro César e Zilnay Catão Borges coordenando os
trabalhos dos estagiários. E nós atendíamos ali de tudo: Vara da
Família, Colocação Familiar, menor delinqüente, a famosa “rapa”
das seis horas dos mendigos e das crianças com os pais, da
mendicância (depoimento, 2003).

238
A partir da entrada dos estagiários o atendimento foi dividido em duas

fases. Num primeiro momento, Zilnay realizava uma triagem de toda a população

que acorria ao plantão, auxiliada por funcionários administrativos e estagiários do

Curso de Direito. Aquilo que era competência do Juizado de Menores ou que o

Serviço Social podia realizar alguma intervenção preventiva, era encaminhado

para Idalina que atendia juntamente com os estagiários do curso de Serviço

Social. Zilnay explica o funcionamento:

Umas 50, 80 pessoas! Todo dia! Aquela primeira triagem era só


no sentido de saber se era ou não nossa competência. Se não
era, a pessoa era encaminhada. Se era competência nossa, a
pessoa recebia um número e ficava esperando a chamada, do
outro lado, onde estava a Idalina com o primeiro grupo de
estagiárias de Serviço Social que nós tínhamos conseguido. {...}
Bom, o serviço foi sendo organizado dessa maneira: assim, num
porão, nós tínhamos guardas que orientavam filas, duas salas, no
fundo tinha um pátio fechado. E aí nós começamos a atender
também os menores que eram apreendidos durante a noite, pelos
comissários e mandados para o abrigo, para pernoitar. Eles
vinham no dia seguinte, para saberem que fim devia ser dado a
eles (depoimento à E.T.F, 1994).

Com o trabalho dos assistentes sociais na triagem e atendimento dados à

população e considerada a experiência desses profissionais e seu conhecimento

da malha assistencial já existente, melhorou muito a articulação do Juizado de

Menores com os demais serviços assistenciais. O juiz tinha consciência da

importância desse trabalho e dessa articulação entre os serviços assistenciais

feita pelo Serviço Social, como podemos perceber em sua fala:

Note-se que, nessa Secção, se apresentam os casos mais


variados possíveis, indo dos pedidos de tutela aos de busca e
apreensão. Das denúncias diversas aos mais delicados pedidos
de internação. E os resultados obtidos no curto lapso de cinco (5)
meses animam-nos a esperar dessa nova dependência efeitos os
mais benéficos à sociedade. Começa que hoje existe, através de
239
sua atuação, um entrosamento exemplar com as demais
entidades assistenciais de nossa Capital (DIAS, 1957, p. 284).

Sobre a relação desse setor recém-criado com o Serviço de Colocação

Familiar, coordenado por Cortez, Zilnay diz:. Era completamente diferente. Ela

{assistente social da Colocação Familiar} recebia os casos, os pedidos das

instituições, das pessoas que iam diretamente para isso. Então, se a gente

encontrasse um caso que o Serviço de Colocação Familiar pudesse atender,

mandava lá para cima para conversar com a Madalena (depoimento à E.T.F,

1994).

Com a criação dessa secção foi ampliado o acesso da população em geral

ao Juizado de Menores; aliás esse acesso e a defesa dos interesses dos

menores era uma preocupação de fato para o Dr. Aldo. Para reforçar esse

aspecto ele criou o Serviço de Assistência Judiciária, em caráter experimental.

A criação de um serviço dessa natureza estava previsto no projeto n.1000/56 de

reforma do Código de Menores e ele buscou colocar em prática mesmo sem

estar aprovado em lei. O serviço estava voltado prioritariamente para a defesa de

jovens que praticavam delitos e para menores vítimas de violência, notadamente

abuso sexual, como ele mesmo disse:

Não havia, até então, um organismo que protegesse e assistisse


os menores transviados ou transgressores do estatuto penal, nem
tão pouco aquêles outros, de ambos os sexos, que figuram como
vítimas em processos criminais onde os indiciados sejam maiores
de dezoito (18) anos de idade. {...} Por essas razões é que
instalamos o Serviço de Assistência Judiciária, integrado por
brilhantes e dedicados elementos do Departamento Jurídico do
“Centro Acadêmico XI de Agosto” e dirigido pelo Assessor
Técnico-Jurídico da Vara, Dr. Sérgio Muniz de Souza, além de
Comissários de Menores que exercem a advocacia e de
bacharéis e solicitadores voluntários (DIAS, 1957, p. 286).
240
A iniciativa, de natureza experimental, como já dissemos, aparentemente

não prosperou, não existindo notícias de que o serviço tenha se consolidado na

estrutura do Juizado de Menores. Mesmo assim, vale a referência para

demonstrar que essa era uma preocupação na época62.

Mas, o Dr. Aldo não se limitou a utilizar os recursos assistenciais

disponibilizados pelo Estado e a criar serviços vinculados ao exercício da ação

judicante do Juizado, e começou a intervir diretamente na malha assistencial,

normatizando-a. Passou também a promover a criação de serviços inexistentes

ou cuja prestação ele considerava insatisfatória. No seu relatório de prestação de

contas do primeiro ano de atividades de sua gestão, o Dr. Aldo relata ter

procedido a visitas regulares às instituições de atendimento, onde constatou o

seguinte:

Trata-se de uma inspeção indispensável. Casas existem que


recebem menores abandonados, sem a competente autorização,
infringindo, assim, os arts. 29 e 36 do Código de Menores.
Estabelecem êsses dispositivos a obrigação de as associações ou
institutos ou particulares fazer declaração à autoridade judicial do
recolhimento de Menores sem a intervenção do pai, mãe ou tutor,
uma vez que os menores confiados a estas entidades ficam, “ipso
facto”, sob a vigilância do Estado, representado pela autoridade
competente. Entretanto, em diligências feitas, tivemos
oportunidade de verificar a presença de menores em casas
rotuladas como creches e abrigos, que, não obstante, vinham
funcionando clandestinamente. Estamos baixando instruções,
através de portarias, no sentido de evitar que irregularidades
dessa ordem continuem a ocorrer em nosso meio (idem, p. 290).

62
A defesa de adolescentes que praticam delitos é um problema presente até os nossos dias. Mesmo com o
Estatuto da Criança e do Adolescente, que resgatou o processo contraditório e garantiu a defesa técnica por
advogado (art. 110), na prática, a maior parte desses adolescentes não têm, de fato, aceso a esse serviço, uma
vez que não podem pagar por ele e os serviços criados pelo Estado nessa área são deficientes, quando não
inexistentes. No caso de vítimas de crimes a situação é semelhante.
241
Ainda no ano de 1956 ele criou a primeira entidade assistencial vinculada

ao Juizado, era a Casa de Estar, uma casa transitória para órfãos:

Problema sobremodo doloroso e que a cada instante vai-se


tornando mais grave, é o que diz respeito às criancinhas nascidas
de mães solteiras ou em lares desajustados ou, ainda, de infelizes
decaídas, que não contam sequer com a bênção do pão de cada
dia. São almas que, como assinalou o poeta, antes de andar e de
falar, já sofrem e já padecem, São órfãos de pais vivos. Para
corrigir-lhes, em parte a higidez de seus destinos, buscamos criar,
a princípio, no 12º andar do prédio onde funciona o Juizado, mais
tarde no Tatuapé, uma “Casa de Estar” que as abrigasse, com a
finalidade precípua de as encaminhar, posteriormente, a lares
onde sintam o carinho e o confôrto dos pais adotivos. Nessa
Casa, fundada a 28 de dezembro de 1956 e que vem sendo
mantida com o concurso da “Legião Brasileira de Assistência”,
“Lions Club” e da “Fundação São Domingos”, passaram,
ate´meados dêste mês, 183 menores, de 0 a 6 anos de idade.
Desse total 101 foram entregues a lares, sob têrmo de tutela; 55
restituídos aos pais, sob têrmo de advertência, guarda e
responsabilidade; 9 internados no “Serviço de Abrigo e Triagem”;
3 falecidos, continuando o restante sob os nossos cuidados
(DIAS, 1957, p. 295).

No final de 1957 o Juizado de Menores recebeu da LBA um novo prédio

para abrigar a Casa de Estar situado na Av. Brigadeiro Luís Antônio. No local

vago o Dr. Aldo criou o Pensionato Maria Gertrudes, em parceria com os

Diários Associados, destinado a receber meninas.

A criação do Pensionato Maria Gertrudes foi uma sugestão das estagiárias

que atuavam no plantão em vista do interesse daquele grupo empresarial em

auxiliar o juiz em sua cruzada pela infância. Sob a coordenação de Celina Celli,

assistente social comissionada do Serviço Social de Menores para trabalhar no

Juizado, as estagiárias haviam feito um levantamento sobre as dificuldades das

meninas com problemas de “conflitos familiares” ou “pré-delinquência”. Sobre

essa entidade relata Suraia Daher, estagiária na época:


242
Porque tinha o RPM para os meninos, mas e as meninas? Então
nós começamos a trabalhar em cima da incidência das
adolescentes que iam parar no plantão e que eram reincidentes,
porque não ficavam na Rua Traipu, em Perdizes, que era o
plantão do Serviço Social de Menores que colocava as meninas
ali como um depósito E tinha um corpo técnico bom, mas a
instituição era do Executivo. As meninas acabavam sendo um
ponto de evidência. Então nós fizemos um levantamento das
necessidades do Juizado, com a Idalina e a Celina, para que
fosse apresentada uma proposta para os Diários Associados,
para a criação de um pensionato para as meninas de 14 a 18
anos. {...} Era o Edmundo Monteiro, da TV Tupi e o
Chateaubriand, dos Diários Associados, que englobava a TV Tupi.
Como exemplo disso cito até o uso da limousine do Chatô para
fazer visita domiciliar. Então na hora de designar que função
caberia ao Juizado ficou estabelecido: o pensionato seria gerido,
administrado pelos Diários Associados, através de um corpo de
voluntárias, entre elas a “primeira dama “ do Edmundo Monteiro, a
primeira mulher dele, e outros artistas da TV Tupi. Coube ao
Juizado a parte técnica e a fiscalização. A Celina, na distribuição
dos estagiários designou a Beatriz para a Casa de Estar e a mim
para o Pensionato Maria Gertrudes....(Depoimento, 2003).

A política de estabelecer parcerias com as “forças vivas” da sociedade, fez

com que o Juizado tivesse influência direta sobre um grande número de

entidades assistenciais, assim foi, alguns anos mais tarde, em 1961, com a

Fundação Dona Paulina de Souza Queiroz, casa para meninas excepcionais em

grau educável, como se classificou na época, e que foi dirigida durante vários

anos por uma assistente social do Juizado de Menores: Therezinha Zabirowski

[Link] havia chegado ao Juizado de Menores em 1960 convidada para

63
A história dessa casa é relatada por Therezina em seu depoimento (2003) e é, no mínimo, curiosa. Dona de
boa parte do que é hoje o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, Dna Paulina de Souza Queiroz, que não teve
herdeiros, deixou sua vontade expressa em um testamento em 1936, criando uma Fundação com o fim de
amparar crianças com problemas mentais leves. Doou a área para esse fim e nomeou o juiz de menores da
capital como o “vigilante” do cumprimento do seu testamento. Anos mais tarde o Dr. Aldo tomou
conhecimento do fato e constatou que a área havia sido desapropriada pelo Estado e vinha sendo utilizada
para fins diversos. Por outro lado, a Fundação estava em situação deplorável, com 30 crianças e sobrevivendo
dos parcos recursos de um convênio com o Serviço Social de Menores. De pronto resolveu assumir sua
função de “vigilante” e tratou de fazer com que o Estado desse melhores condições à Fundação para manter
as crianças e colocou uma assistente social de sua confiança para executar a tarefa.
243
atuar como comissária de menores, voluntária, devido a sua atuação profissional

com crianças: era assistente social da Organização Feminina Israelita de Bem

Estar Social64 e membro do Conselho Técnico do Centro Israelita de Assistência

ao Menor. Posteriormente foi contratada pelo Juizado e atuou na Fundação Dona

Paulina de Souza Queiroz até 1969 como “Assistente Social Encarregada da

Obra”.

Um outro serviço de atendimento direto mereceu uma atenção especial do

juiz de menores nesse processo de transformação do Juizado, foi o

Recolhimento Provisório de Menores –RPM. As atividades de recolhimento

provisório e triagem de adolescentes que cometiam delitos só passaram a ser

realizadas diretamente pelo Juizado de Menores a partir de 1954 (Lei 2075 de 23

de julho de 1954). Se bem que estivessem previstas em lei desde 1938, essas

atividades vinham sendo realizadas pelo Serviço Social de Menores, vinculado ao

Poder Executivo Estadual, como já foi colocado aqui.

Mesmo recém criado, o RPM já se tornara em fonte de problemas para o

Juizado, com denúncias de maus tratos aos menores, superlotação e fugas. As

alterações realizadas pelo Dr. Aldo, naquele momento inicial, visavam mudar

esse quadro e transformar o RPM em uma unidade de pesquisas sobre a

questão da criminalidade, a exemplo das existentes nos Estados Unidos,

vinculadas às Cortes Juvenis/Tribunais Especiais Juvenis. Em 1957 o Dr. Aldo

anunciava as primeiras mudanças no RPM, com o auxílio de parcerias, e

indicava a sua intenção:

64
Atualmente a entidade denomina-se UNIBES – União Brasileiro-Israelita de Assistência Social e mantém
inúmeras obras assistenciais no município de São Paulo.
244
De um autêntico depósito de menores transviados que era, está
se transformando, pouco a pouco, num legítimo laboratório de
recuperação humana. A terapêutica ocupacional ali se vem
aplicando, num cuidadoso programa da mais moderna
laborterapia vem apresentando a compensação que prevíramos.
{...} Revela salientar, nesse passo, a colaboração inestimável que
temos recebido do dedicado e operoso Diretor do Serviço Social
de Menores, Prof. Valério Giuli; dos Lions Clubs, que doaram ao
“RPM” a biblioteca, sala de recreação, consultório dentário e
vestuário; à “Legião Brasileira de Assistência” que tem fornecido
alimentação aos menores ali internados; ao “SENAI”, que instalou
uma oficina de carpintaria e doou os beliches que lá existem; ao
“SESI” que instalou uma escola de alfabetização e vem
fornecendo professôres para êsse curso e para o de educação
física e à tradicional “Fôrça Pública” que tem sido valiosa
colaboradora do Juizado (DIAS, 1957, p. 292).

Para ampliar essa estrutura ele conseguiu também que o Serviço Social de

Menores construísse, no ano seguinte, uma “Casa de Triagem” para funcionar

em frente ao RPM (todo o conjunto ficava na Av. Celso Garcia onde funcionou

posteriormente a FEBEM), com o fim de abrigar os menores mais “perigosos”,

separando-os dos demais. A edificação seguia padrões considerados adequados

ao trabalho educativo, não existindo celas.

Para administrar esse equipamento, que passou a se chamar Casa de

Plantão, o Dr. Aldo alocou a assistente social Celina Celli. Sobre o início desse

trabalho Zilnay Catão Borges relata:

Então ficou a Celina lá nos infratores e nós {Idalina e Zilnay}aqui


na sede do Juizado , que era na {rua}Asdrúbal do Nascimento (os
infratores era na Celso Garcia). Quando ela assumiu, os infratores
que eram apreendidos durante a noite não vinham mais para a
gente. Foi para a gente uma tomada de alento (depoimento a
E.T.F., 1994).

Suraia Daher também fala do início das atividades do Serviço Social na

área de infratores do Juizado quando se refere à distribuição dos estagiários


245
entre os vários serviços que foram sendo criados: Em 1958. Começo de 1959,

porque foi no ano seguinte. Aí com essas atividades, ficaram os mais antigos

estagiários nas casas que foram abrindo e já havia começado a formar a equipe

dos homens para o Recolhimento Provisório de Menores – RPM. (depoimento,

2003)

Juntamente com toda essa estrutura criada em pouco mais de um ano. o

Dr. Aldo montou uma grande operação de repressão e fiscalização iniciada pela

assinatura de uma série de portarias que proibiam a entrada de menores em

casas onde houvesse algum tipo de jogo ilícito; em salas de espetáculos onde se

exibisse conteúdo que atentasse contra a moral; em auditórios, estações de rádio

e TV após as 22 horas; portarias regulamentando a permanência de menores em

clubes e bailes; proibindo viagem e hospedagem de menores de 18 anos

desacompanhados. Sobre essa atribuição do juiz de menores o Dr. Aldo disse:

Na conformidade do art. 131 do Código de Menores, tem o Juiz


competência legiferante, o que o arma de poderes que lhe
permitem uma atuação individual mais precisa, consoante as
necessidades mais prementes verificadas no âmbito de sua
jurisdição. Valendo-nos dessa faculdade, não titubeamos em
adotar, sempre que oportuno medidas que nos parecem eficazes,
com o objetivo de proteger e assistir os menores, com isso
evitando venham êles a ficar moral ou materialmente em perigo
(DIAS, 1957, p. 287).

Para dar suporte, garantir a efetivação dessas portarias e pôr em prática o

restante da legislação de menores ele tomou uma série de iniciativas. Em

primeiro lugar, colocou os comissários de menores nas ruas para fiscalizar

principalmente os estabelecimentos comerciais e casas de espetáculos, obtendo

alguns resultados práticos que anunciou da seguinte maneira:

246
Em decorrência da atuação dessas turmas volantes, que se
conjugam entre si, num alto espírito de cooperação, podemos
sem receio afirmar que, hoje, São Paulo vive fiscalizada, assim no
centro como nos bairros próximos ou distantes. Os ambientes
menos recatados, que atentam contra os bons costumes e a
moral, têm sentido os efeitos dessa nova ordem repressiva. {...}
Como resultado dessa vigilância, só de multas aplicadas
apuramos a importância de Cr$277.000,00 (duzentos e setenta e
sete mil cruzeiros) (DIAS, 1957, p. 288).

Outra iniciativa foi a criação do Serviço de Comissões Técnicas, formado

por especialistas para, sob responsabilidade do Juízo, classificar os espetáculos

impróprios para menores e expedir as autorizações necessárias.

O Dr. Aldo também instalou um posto da Polícia Feminina no próprio

Juizado de Menores. As policiais, cedidas pelo Estado, encarregavam-se de um

Serviço de Ronda Urbana, sobre as quais ele diz ...têm elas retirado das ruas os

menores mendicantes e abandonados, os perigosos e os extraviados,

encaminhando-os ao Juizado para as providências cabíveis (idem, p. 286).

Além disso, ele criou um Serviço de Fiscalização do Trabalho de

Menores que contava com assistentes sociais do Juizado a fim de dar

autorizações para que menores de 14 anos pudessem trabalhar (o que somente

era permitido com autorização expressa do juiz) e realizar a devida fiscalização

nas empresas, do trabalho dos menores entre 14 e 18 anos, conforme a lei.

Sobre este serviço o juiz anunciava:

Criamos, então, o “Serviço de Fiscalização do Trabalho de


Menores”, que tem por missão exercer o contrôle em todos os
estabelecimentos industriais ou comerciais onde trabalhem
menores portadores de autorização do Juizado. Composto de
assistentes sociais, de alunos do Instituto de Serviço Social e de
elementos da Juventude Operária Católica (“JOC”), êsse Serviço
vem permitindo o decréscimo considerável no número de
menores de quatorze (14) anos, que trabalhavam
247
clandestinamente nas indústrias vidreiras, nas olarias e em outros
serviços perigosos. Estão, assim, a caminho da conveniente
regularização, as atividades exercidas por menores de quatorze
(14) anos em nosso meio (DIAS, 1957, p. 289).

Sobre o trabalho dos assistentes sociais nesse serviço, Zilnay fala ...a

equipe que trabalhava com autorização para o trabalho para menor, estudava o

caso, estuda as firmas. Geralmente eram assistentes sociais que tinham ligação

com o SESI também (depoimento a ETF, 1994).

Um outro serviço criado pouco tempo depois foi o Setor de Bolsas de

Estudos, em virtude de uma demanda levada ao Dr. Aldo por um diretor do

Sindicato das Escolas Particulares de São Paulo. Segundo Zilnay, a questão era

dar solução para uma lei que obrigava as escolas particulares a disponibilizar

vagas para menores carentes:

Existia uma lei. Eram poucas vagas, uma ou duas, conforme o


tamanho das escolas. E ele queria saber se o Dr. Aldo não podia
ajudar, encaminhar a pessoas, porque ele disse, “ é horrível, pois
vem uma criança que é filha da doméstica, órfã, vai para o colégio
grã-fino e não consegue nem comprar o material que o colégio
exige, o uniforme... eu vivo com essas vagas incompletas. Então
pediu-nos para encaminhar casos por exemplo, que não podiam
pagar a escola mas podiam pagar o uniforme. Então o Dr. Aldo
colocou uma assistente social fazendo esse trabalho...
(depoimento à ETF, 1994).

Mais tarde a captação dessas vagas em escolas particulares foi ampliada

com a ajuda dos comissários de menores65 e de alguns empresários, que

conseguiam obter verbas para pagar bolsas de estudos e/ou material escolar.

Por fim, o Dr. Aldo anunciava entendimentos com a Polícia Civil do Estado

de São Paulo para a criação de um “novo organismo” que ficaria subordinado à


65
Anos depois esse setor ficou vinculado ao Setor de Relações Públicas, subordinado diretamente ao
gabinete do juiz titular.
248
Vara Privativa de Menores, e que, formado por comissários de menores,

assistentes sociais, policiais femininas e investigadores, seria o responsável por

toda a intervenção direta junto aos menores, com o fim de reduzir ...a natureza

estigmatizante e traumática da intervenção policial (idem, pág, 294). Esta

proposta operacionalizou-se em 1958, pelo Decreto n. 32.766 de 24 de março de

1958, mas com características diferentes, era o Serviço Especial de Menores,

uma polícia especializada.

249
CAPÍTULO IV – O DESENVOLVIMENTO DE UMA PECULIAR FORMA DE

INTERVENÇÃO PROFISSIONAL

4.1. A conjuntura política, o papel do Juizado de Menores e o Serviço Social

4.1.1. Os tempos áureos do Juizado de Menores

O Dr. Aldo de Assis Dias esteve à frente do Juizado de Menores da Capital

de julho de 1956 até novembro de 1965, tendo deixado suas funções para, por

promoção, assumir o cargo de Ministro do Tribunal de Alçada de São Paulo. Ao

longo dos seus dez anos de atividades na área operacionalizou, através do

Juizado, o modelo mais próximo da proposta de Noé de Azevedo, de tribunais

especiais juvenis. Ele buscou fazer aquilo que o Juiz Mello Mattos, do Distrito

Federal, havia tentado desde 1927, conseguindo porém, resultados melhores,

principalmente porque viveu uma conjuntura política favorável na maior parte de

sua gestão. Ao final desses dez anos, o Juizado de Menores era uma imponente

estrutura, com o juiz coordenando uma grande equipe e vários serviços de apoio.

No discurso de prestação de contas realizado quando de sua posse no

Tribunal de Alçada em 1965, o Dr. Aldo forneceu dados que dão a dimensão das

mudanças realizadas por ele no período. Em 1956, a verba orçamentária do

Juizado de Menores da Capital era Cr$14.012.200,00 (catorze milhões, doze mil

e duzentos cruzeiros), em 1965 já era de Cr$[Link],00 (três bilhões,


250
seiscentos e oitenta e sete milhões, quatrocentos e trinta e nove mil e seiscentos

cruzeiros)66. Mesmo se considerarmos a alta inflacionária, os valores eram

significativos e havia uma previsão para que no ano seguinte a verba fosse

triplicada.

O quadro de funcionários também foi significativamente ampliado,

passando de 162 funcionários para nada menos do que 824, isso sem contar os

policiais civis e militares a serviço do Juízo e o imenso corpo de comissários e

estagiários voluntários (discurso de posse do Ministro, Tribunal de Alçada,

01/12/65 p. 18).

Até 1964, meados de 1965 foi mantido o intenso ritmo de crescimento e

ampliação das ações do Juizado. Com a saída do Dr. Aldo e a mudança da

conjuntura política após 1964, o ritmo de crescimento diminuiu, mas a estrutura

montada por ele manteve-se em funcionamento ainda por alguns anos.

O Serviço Social nesse período cresceu no interior do Juizado de Menores

na mesma proporção e ritmo, como o principal agente técnico, auxiliar do Juízo

em praticamente todas as ações jurídicas e assistenciais desenvolvidas.

Assim, em 1964 o Serviço de Colocação Familiar atendia 47.439

menores, colocados em 10.065 famílias, com uma verba de Cr$650.0000.000,00

(seiscentos e cinqüenta milhões de cruzeiros), e orçamentos maiores eram

66
A maior parte desses recursos provinha diretamente do orçamento do próprio Poder Judiciário do Estado
de São Paulo. Ao que se sabe, o Juizado de Menores recebia também 5% dos recursos arrecadados pelo
Fundo de Assistência ao Menor - FAM. Esse Fundo foi criado pela Lei Estadual n. 3.738 de 18 de janeiro de
1957 com a finalidade de ...cooperar financeiramente com as entidades públicas e privadas que tratam do
problema do menor abandonado ou infrator, colaborando nos estudos e na orientação da política social do
Estado relativamente aos menores, bem como na sua execução(art. 2º). (AMARAL, 1967, p. 6). O FAM
recebia doações de particulares e de empresas e era gerido por um Conselho Diretor formado pelo Secretário
da Justiça do Estado, o Juiz Titular da Vara de Menores e os diretores do Serviço Social de Menores e do
Serviço Social do Estado, além da 1ª Curadoria de Menores. Naquele ano, os recursos do FAM destinados ao
Juizado de Menores somaram Cr$125.557.677,00 (cento e vinte e cinco milhões quinhentos e cinqüenta e
sete mil e seiscentos e setenta e sete cruzeiros), em torno de 3% do orçamento do Juizado.
251
previstos para os anos seguintes. A maior parte desses menores recebia o

subsídio para permanecerem em suas próprias famílias (apenas 836 menores do

total estavam em famílias substitutas), consolidando a forte tendência inicial de

conceder o benefício para evitar que famílias pobres internassem seus filhos em

abrigos estatais ou filantrópicos67. Em 1964, através da Lei 8.435 de 03 de

dezembro ficou estabelecido que o valor do benefício a ser pago por criança

deveria estar compreendido entre o mínimo de 1/10 e o máximo de 1/3 do salário

mínimo.

O atendimento aos adolescentes que cometiam delitos sofreu uma

ampliação com a organização de um Centro de Estudos Juvenis - CEJ. A idéia

era formar, como já havia sido anunciado, um centro de estudos sobre a

delinqüência em que os casos fossem estudados individual e profundamente,

pelo tempo que fosse necessário, e por profissionais altamente especializados. O

CEJ seria composto de três unidades: um Centro de Recepção e Triagem – CRT

para a permanência por até 72 horas, um Centro de Observação Feminina - COF

para o estudo dos casos de meninas e um Centro de Observação Masculina –

COM para o estudo dos casos de meninos. Este último na realidade já existia,

era o RPM que deveria mudar de nome após a adequação do seu funcionamento

à nova proposta.

O Centro de Observação Feminina - COF foi criado em 1959 com base

nos estudos, feitos pelo Dr. Aldo nos Estados Unidos (mais especificamente na

Filadélfia) e na Bélgica, dos modelos para a sua organização. Foi a assistente

67
Apesar de essa ser a prática dominante, foi somente em 1968, através do provimento 36 do Conselho
Superior da Magistratura, depois transformado na Lei Estadual n. 10.069 de 09 de abril de 1968, que o artigo
13º da Lei de Colocação Familiar (n.560 de 27/12/49) é alterado extinguindo o caráter de excepcionalidade
através do qual esse benefício poderia ser estendido às famílias de origem da criança.
252
social Celina Celli quem iniciou a operacionalização da proposta. A unidade

começou funcionando na Av. Adolfo Pinheiro, em uma casa adaptada

pertencente à Liga das Senhoras Ortodoxas. Suraia Daher fala um pouco das

características de funcionamento do COF:

Era observação, um Centro de Observação para diagnóstico e


encaminhamentos. Ele passou a ter como suporte o Pensionato
Maria Gertrudes...{...} Nós começamos um projeto com o objetivo
do uso da liberdade gradativa. Fizemos o projeto com os objetivos
gerais, os operacionais, porque todo o nosso trabalho sempre foi
planejado, e nós tivemos a honra de sermos considerados uma
das instituições que forneciam casos para PUC para discussão de
supervisão. {...} Éramos considerados como modelar mesmo, de
intervenção de Serviço Social. {...} O COF era o momento da
recepção da delinqüente, para chegar à conclusão se ela era ou
não delinqüente, se era uma crise de adolescência, se ela era
mais vítima do que delinqüente, sempre ligada no conjunto. Dos
nossos estudos de casos nós mandávamos propostas para o
Juizado, para a criação dos serviços da comunidade...
(depoimento, 2003).

Com uma equipe interdisciplinar formada por psicólogo, psiquiatra, três

assistentes sociais, uma advogada, uma orientadora pedagógica e uma terapeuta

ocupacional, havia também um capelão, pois segundo Suraia Daher os ...projetos

da Bélgica e da França previam um Capelão na equipe. O COF chegou a ter 150

meninas em sua lotação máxima. Suas instalações foram posteriormente

transferidas para Av. Celso Garcia, em prédio construído especificamente para

seu fim, ao lado do RPM, já com a intenção de que aquilo se transformasse num

complexo.

O RPM, por sua vez, nunca chegou a se transformar no COM. Sua

estrutura funcional era muito mais complexa e os problemas referentes à

253
população atendida eram maiores; tratava-se de um número crescente68 e cada

vez mais violento de adolescentes do sexo masculino. Dadas essas

características, o RPM passou a funcionar com uma coordenação tripartite

formada pelo juiz de menores, pelo comandante do 14º Batalhão da Polícia, que

funcionava exclusivamente dentro do RPM, e pelo delegado do Serviço Especial

de Menores, delegacia especializada que também funcionava no RPM. João

Batista Adduci explica essa situação:

Aqui se trabalhou no RPM que era uma situação desastrosa, tinha


uma direção militar, com regras militares para os internos, que era
da Polícia Militar – 14º Batalhão. Existia dentro desse complexo –
RPM – uma Delegacia Especializada de Menores, que era o
poder de um Delegado de Polícia, com seus escrivães, com seus
investigadores, e existia o Juiz, que era outra direção, ele também
era responsável administrativamente pelo RPM. Todos tinham
funcionários, todos mandavam, então na vigilância ninguém leigo
tocava, era só a PM, no julgamento do menino era o Juiz e os
Curadores e os Assistentes Sociais. E a Polícia Civil tinha o poder
de prender ou não prender quem a Polícia Militar levasse lá
(depoimento, 2002).

A equipe interprofissional do RPM era formada por psiquiatra, médico

clínico, um religioso (um padre, no caso), assistente social e pedagogo. O grupo

de assistentes sociais que foi trabalhar no RPM era todo ele formado por

homens. Eles atuavam diretamente nos estudos dos casos, num plantão na

Delegacia Especializada e na Liberdade Vigiada. Sobre esse trabalho João

Batista Adduci diz: Quase todos os assistentes sociais que foram para o RPM

68
A lotação do RPM era de quatrocentos adolescentes, mas chegou a abrigar até seiscentos, segundo
informações do assistente João Batista Adduci (depoimento, 2002). Ao contrário do COF, a direção do RPM
cedia às inúmeras pressões e acabava superlotando a unidade o que aprofundava os problemas de levantes e
fugas, que eram comuns. As casas de retaguarda do RPM eram as unidade de Mogi-Mirim e Casa de
Custódia de Taubaté e a Liberdade Vigiada (regime aberto), as duas primeiras vinculadas ao Serviço Social
de Menores, apenas a Liberdade vigiada era operacionalizada pelas equipes do próprio Juizado, do
RPM/COF.
254
estudaram Direito, então o nível com o Juiz, o nível dos relatos apresentados ao

juiz – e aqui tinha uma característica: o Assistente Social falava com o Juiz, nós

falávamos com o Juiz e com os Promotores (idem).

A metodologia de trabalho com os adolescentes era inspirada no modelo

de Boscoville69, uma instituição canadense que João Batista Adduci descreve

assim: Quem chega fica num lugar, depois que é estudado, no Serviço Social, se

ele tem condições, ele passa para estágios A, B, C, D, até a rua. São estágios de

tratamento do menor...{...} Eu fui visitar na Bélgica uma instituição onde existia

esse mesmo modelo canadense... (depoimento, 2002)

Tanto a equipe do RPM quanto a do COF passaram por um intenso

processo de formação específico para a atuação na área de infratores, todos

foram estudar, especializar-se, tudo com vistas a operacionalizar a proposta de

organização de um verdadeira Centro de Estudos Juvenis como propunha o juiz.

Sobre isso fala Adduci:

Essa equipe (do RPM) exigia de cada membro, de cada


profissional, que se especializasse, que conhecesse
profundamente as razões pelas quais uma pessoa tem tendência
ao delito, ou comete um delito. Razão pela qual nós fomos todos
fazer curso de criminologia, então fomos para o {Instituto} Oscar
Freire e fomos nos habilitar: três anos de criminologia. E aqui
passamos a ver então, o trabalho científico.{...} Foi aí que a
equipe do CEJ {RPM e COF}que estudou criminologia, começou a
fazer trabalhos de pesquisa. Porque o jovem se tornou um
infrator? Qual é a causa mais profunda disso? Por que alguns
apresentavam tendência ao delito? Por que disso? E começaram
a aparecer trabalhos científicos envolvendo a universidade. Um
69
A Escola de Boscoville, em Montreal - Canadá, estuda e desenvolve metodologias de intervenção para o
trabalho com jovens que apresentam problemas de conduta. O modelo desenvolvido por eles é difundido e
reconhecido internacionalmente pelos estudos da Universidade de Montreal na área de psicoeducação, mais
especificamente pelo Professor Gilles Gendreau. Neste caso especificamente, João Batista Adduci está se
referindo à proposta de estágios socializantes que inspirou parte da legislação para a juventude que comete
delitos e que deu origem a programas como a semi-liberdade, liberdade assistida, entre outros. Para
aprofundamento do tema sugerimos o artigo de Marc Le Blanc, intitulado “Boscoville ou les paradoxes de la
reeducation” (LE BLANC, 1986)
255
dos mais notórios foi a influência da verminose na delinqüência
juvenil e a influência da criptorquidia em certas pessoas com
problemas. {...} Então tinha que falar com a Secretaria da Saúde
para pesquisar isso nos exames com as crianças, para evitar... A
idéia era científica, era um trabalho conjunto: educação, saúde e
criminologia e a área de menores. A visão era boa, o intuito do
trabalho nosso era válido.(depoimento, 2002).

As atividades dos assistentes sociais que atuavam na Secção de

Informação e Serviço Social também foram bastante ampliadas e o setor sofreu

algumas alterações importantes ao longo desses anos. A primeira delas foi o

desmembramento das atividades do Plantão com as atividades diretamente de

auxílio ao juiz no seu gabinete.

As assistentes sociais que atuavam nessa secção mantinham, como já foi

colocado anteriormente, uma proximidade muito grande com a pessoa do juiz.

Essa proximidade, essa linha direta dos assistentes sociais desse setor com o

juiz de menores, que se caracterizava pelo livre acesso ao juiz, era uma via de

mão dupla, isto é, também o Juiz tinha à sua disposição e solicitava diretamente

a intervenção delas em casos que ele considerava delicados ou especiais. Esta

peculiaridade fez com que o trabalho da Secção de Informações e Serviço Social,

conhecida como o Plantão do Serviço Social, ganhasse também a denominação,

entre os assistentes sociais, de Serviço Social de Gabinete.

A complexificação do serviço exigia a especialização das atividades, o que

foi feito então, com uma separação dessas atividades: de um lado ficou Zilnay

Catão Borges, coordenando toda a estrutura de atendimento de triagem e

plantão, de outro Idalina Monteclaro César, que foi trabalhar diretamente com o

juiz, numa espécie de assistência técnica exclusiva. Quem fala sobre isso é

256
Therezinha Zabirowski Dvidovich, que foi trabalhar no gabinete, juntamente com

Idalina, alguns anos depois:

O Gabinete na verdade era uma assessoria direta ao Juiz. No


Gabinete você conhecia o trabalho que estava sendo
desenvolvido por todos os setores. Todas as estatísticas vinham
para o Gabinete, então os Assistentes Sociais do Gabinete
examinavam, tomavam conhecimento das dificuldades, tomavam
conhecimento das necessidades. Então o Gabinete era uma
assessoria ao Juiz no conhecimento daquilo que estava sendo
desenvolvido e na apreciação das dificuldades e dentro da
medida do possível, daquilo que poderia ser atendido em termos
de necessidades. Então o Gabinete, na verdade eram dois ou três
Assistentes Sociais. Foi Idalina, depois eu, depois a Stela
Bardavid ficou um período muito curto. Na verdade a gente
estudava todo esse material que vinha para o conhecimento do
Juiz, emitia pareceres para ele daquelas solicitações que eram
feitas, era uma assistência técnica em relação, não a casos
individualmente, em relação à própria estrutura. {...} Era uma
assistência técnica, a gente não pode dizer que assessorava o
Juiz, porque Assistente Social não assessora, ele oferece
subsídios ao conhecimento da autoridade judiciária, o Assistente
Social não é assessor de Juiz, ele oferece subsídios, subsídios
esses que poderão ser reconhecidos como válidos ou não, você
dá o seu parecer. Então é isso que o Gabinete fazia, oferecia
essa assistência técnica em relação a estruturação dos serviços,
à projetos, à reformulações internas (depoimento, 2003).

Nesse Serviço de Gabinete, o assistente social exercia diversas tarefas.

Além da preparação de estatísticas, estudo e sugestão de alteração de

funcionamento dos diversos serviços existentes, o gabinete, que também contava

com um assessor de imprensa e um assessor militar, era responsável por:

atender as pessoas que solicitavam audiência com o juiz, estudantes, jornalistas,

etc.; redigir ofícios e comunicados; realizar estudos sobre a literatura publicada

na área; proferir aulas e palestras; participar de visitas realizadas aos recursos da

comunidade, entre outras atividades.

257
Além disso, as atividades gerais dos assistentes sociais do Gabinete

também incluíam atender, em caráter excepcional, alguns casos “diferenciados”,

tais como situações que envolviam pessoas famosas, ou situações muito

delicadas, de grande repercussão na comunidade, a pedido do juiz. Tal atividade

gerava uma certa confusão até mesmo entre o corpo de profissionais que muitas

vezes interpretava o trabalho do assistente social no gabinete como uma

atividade voltada exclusivamente para atender casos de pessoas ricas que

tinham acesso direto ao juiz.

Porém, sem dúvida, todos reconheciam que estas profissionais estavam

entre as mais influentes de todo o corpo de assistentes sociais do Juizado, em

razão da proximidade com o juiz e da possibilidade de visualizar toda a estrutura

assistencial do Juizado e, no diálogo, com o responsável por ela, o juiz titular,

sugerir alterações em seu funcionamento e até mesmo na forma como o juiz

interferia na política mais geral para a área.

As atividades do Serviço Social no plantão, coordenadas por Zilnay

continuaram crescendo em volume até que teve início o processo de

descentralização. A descentralização dos trabalhos do Juizado de Menores era

uma proposta que o Dr. Aldo já havia começado a realizar em caráter

experimental criando no Tatuapé, junto ao complexo do RPM, um posto

avançado do Juizado, denominado “Setor do Juizado de Menores da Zona

Leste”. Depois ele criou outro posto na Zona Sul, onde funcionou por um tempo o

COF. Ele começou descentralizando o Comissariado de Menores, depois o

Serviço de Colocação Familiar, os cartórios, mas ele queria descentralizar toda a

estrutura e dizia:
258
Essas agências já configuram, de certo modo, a presença do Juiz
nos próprios locais onde nascem os problemas, onde as famílias
se desajustam, onde os menores são abandonados, delinqüem e
são vítimas de delitos. As providências são tomadas mais
rapidamente, evitando que tarde a ação da Justiça e mais
complexo se torne o problema. Descentralizar o serviço
assistencial do Juizado significa torná-lo mais eficiente e mais
atuante com a aproximação da Justiça de Menores dos problemas
do povo (DIAS, 1968, p. 43).

O processo de descentralização da estrutura assistencial levou o Serviço

Social a atender em várias agências, chegando a ter nove delas espalhadas pela

cidade (Casa Verde, Penha, Santana, Vila Maria, Vila Prudente, Vila Matilde,

Pinheiros, Santo Amaro, Lapa) além do Centro70, onde funcionava junto com a

sede do Juizado. Zilnay fala sobre o surgimento dessas agências:

Aí o movimento começou a ficar muito grande, não cabia mais no


prédio, a gente nem podia atender todo mundo, ficava tão
desagradável – parecia INSS -, você tinha que mandar voltar no
dia seguinte. Então começamos a fazer levantamento para ver o
que poderia ser feito. E detectamos as áreas que apareciam mais
clientes. Aí foi aberta a 1ª Agência, aqui em Pinheiros. {...} se não
me engano era o Rotary quem pagava o aluguel da casa, e aí
traziam o material, mesas, cadeiras – e os funcionários. {...}Era
sempre assim: quando abria a Agência, ou eu ou a Idalina íamos
na primeira semana com a turma que trabalharia na Agência, para
treinar. Eu vim para Pinheiros com a 1ª turma, que acho que eram
três assistentes sociais (depoimento, a ETF, 1994).

Para comandar essa estrutura o juiz convocou José Pinheiro Cortez, e

todas as agências passaram a fazer parte do Serviço de Colocação Familiar,

unificando o programa de “Colocação Familiar”, regido pela lei 560/49 com as

atividades do “Plantão”, executado por Zilnay, e com as atividades do “Serviço

70
O complexo de atendimento no Centro, que incluía o Serviço de Colocação Familiar, o plantão do Serviço
Social e o Plantão Permanente, do Comissariado, mudou-se da Rua Asdrúbal do Nascimento, para a Rua
Francisca Miquelina, num prédio exclusivo, de dois andares, e posteriormente retornou para a Rua Asdrúbal
do Nascimento, onde funcionava a sede do Juizado.
259
Social”, coordenado por Idalina. Nas agências atuavam também os comissários

de menores e os demais serviços do Juizado, como a fiscalização do trabalho do

menor:

Então foi dividido assim (porque tinha algumas coisas que não
podiam ter nomes): havia um setor de plantão, um setor que
chamava Colocação Familiar Remunerada – que era a lei 560 -,
colocação Familiar Gratuita, que eram os casos de tutela, família,
adoção, todos esses casos chamados de “gabinete” – que então
iam para a agência, quando eram da área. A autorização de
viagem inicialmente também era dada nos plantões, mas depois
foi para a rodoviária, o aeroporto. As agências foram abrindo
assim, à medida que o Dr. Aldo conseguia verba, conseguia
alguém para pagar o prédio. {...} Quando eu tinha que fazer
supervisão na Agência, ficava quase louca, às vêzes viajava um
dia inteiro! Foi mais ou menos isso. Chegamos a ter 9, 10
Agências (Zilnay, depoimento à ETF, 1994).

Beatriz Cardoso Esteves Franco, que iniciou suas atividades no Juizado

em 1959, fala da dinâmica do Serviço de Colocação Familiar já nessa

configuração, incluindo as agências nos bairros:

E havia, o Plantão para o atendimento de todas as pessoas que


queriam alguma coisa do judiciário, ou imaginavam que queriam,
porque algumas pessoas iam lá para pedir uma vaga no hospital,
outra para pedir um documento, que não era feito lá! Então, o
pessoal do Plantão, era um pessoal muito bem qualificado, que
conhecia todos os recursos da comunidade e fazia um
encaminhamento muito bem feito e adequado. Quando a medida
proposta pelo cliente dizia respeito ao Juizado de Menores, ou à
atuação da Justiça de Menores, era encaminhada para o Serviço
de Colocação Familiar Gratuito que dava início ao processo
mediante uma representação, juntando o estudo do caso, a
documentação e ia para o Juiz despachar. Ele despachava, o
curador se manifestava e daí a decisão final do M.M. Juiz. Muitas
vezes o Juiz mandava o Assistente Social acompanhar o caso,
muitas vezes o caso era um termo de guarda, um procedimento
rápido, outras vezes não; as vezes necessitava usar os recursos
da comunidade para a colocação de menores, etc., apoio familiar,
encaminhamento para emprego, enfim, o que fosse necessário a
mais da medida judiciária proposta, e aceita pela parte e
determinada pelo Juiz (depoimento, 2003).
260
Embora a unificação dos vários setores de atendimento nas agências não

tenha sido simples, pois gerou tensões entre os vários profissionais. Nessas

agências, o Serviço Social chegou a desenvolver trabalhos utilizando-se das

técnicas do serviço social de grupo e do serviço social de comunidade, com

auxílio de profissionais comissionados ou vinculados às faculdades. Foram

citadas, como exemplo, pelos entrevistados a assistente social Arcelina Ribeiro

que trabalhou com grupos de famílias que recebiam o benefício da Colocação

Familiar e a assistente social Antonieta Guerreiro que desenvolveu trabalhos na

comunidade.

Essa grande estrutura montada pelo Dr. Aldo exigia muito mais que um

único juiz para ser [Link] isso ele contava com dois cartórios,

cada um com o respectivo escrivão e funcionários. Contava também com o setor

do Juizado de Menores da Zona Leste que já contava com um juiz auxiliar

responsável por todos os casos de adolescentes que passavam pelo RPM.

Mas aos poucos ele conseguiu outros auxiliares, de modo que em 1964,

através da Lei n. 8.101 de 16 de abril de 1964, que reorganiza o Serviço

Judiciário do Estado passaram a fazer parte da estrutura formal do Juizado de

Menores mais quatro juizes auxiliares, além do juiz titular.

Embora tenha formalizado apenas aquilo que já vinha acontecendo, a lei

organizou a abrangência da Vara Privativa de Menores, dando-lhe uma maior

71
O Juizado de Menores da Capital contava até mesmo com um serviço voltado à auxiliar os juizes das
comarcas do interior do Estado, chamado de “Serviço de Internação dos Menores do Interior”, que
centralizava os pedidos de internação de adolescentes infratores nas cidades do interior e precisavam ser
internados nas unidades dirigidas pelo Executivo. O setor buscava dar cumprimento às determinações desses
juizes, articulando-se com o Serviço Social de Menores na tentativa de dar encaminhamento às internações.
Esse serviço era realizado por um comissário de menores.
261
estrutura, bastante diferenciada das demais Varas do Tribunal de Justiça do

Estado de São Paulo. Em seu artigo 17, a lei determina: Quanto à Justiça de

Menores, a comarca se subdivide em quatro regiões: Norte, Sul, Leste e Oeste,

cujos limites serão fixados em decreto do Executivo, ouvido o Tribunal de Justiça.

E no artigo 39: Os Juizes de Direito Auxiliares da Vara de Menores classificados

de 1º a 4º exercerão, em caráter auxiliar, nas regiões Norte, Sul, Leste e Oeste

do Juízo de Menores, tôdas as funções pertinentes a êste, excetuados os atos de

julgamento (DIAS, 1968, p. 45).

Conforme os organogramas apresentados na página seguinte72 podem-se

observar as mudanças promovidas pelo Dr. Aldo na estrutura do Juizado de

Menores. Esta estrutura, que não era a sonhada por ele, foi o máximo a que

conseguiu chegar na montagem de um Juizado que centralizasse também

funções de natureza assistencial.

4.1.2. Os primeiros entraves da estrutura montada

Ao término da gestão do Dr. Aldo, o Serviço Social atuava em quase todos

os setores do Juizado que envolviam o atendimento direto à população: da

triagem dos casos à coordenação de unidades. A profissão foi peça chave na

edificação da estrutura montada pelo juiz de menores. Mais do que um agente

72
Os organogramas foram reproduzidos do livro O Menor em face da Justiça, do Dr. Aldo de Assis Dias
(DIAS, 1968, págs. 60-61)
262
que deu caráter técnico-profissional às atividades do Juizado de Menores --

criando parâmetros de triagem, elegibilidade e organizando o atendimento à

população -, foram os assistentes sociais que colocaram em funcionamento as

propostas de criação dos serviços existentes.

O Dr. Aldo formulou um projeto para o Juizado de Menores , mas foram os

assistentes sociais que o influenciaram na forma como este deveria ser

construído, de modo que quase tudo tinha um pouco da visão dos assistentes

sociais sobre os problemas que se apresentavam. João Batista Adduci fala disso

quando perguntado se o Serviço Social tinha influência sobre as decisões do juiz

de menores:

... mas sem dúvida nenhuma! Entusiasmando o Juiz, o Juiz


conseguia mobilizar o Presidente do Tribunal, o Presidente do
Tribunal compreendendo a situação ele ia permitindo isto tudo.
{...} de certa maneira, os Assistentes Sociais, frente às
dificuldades do dia a dia criaram recursos e expandiam aquilo que
o Tribunal não se apercebeu de pronto, de como se
avolumou...(depoimento, 2002).

Suraia Daher também fala sobre como a proximidade e o prestígio de que

os assistentes sociais gozavam junto ao juiz, que concentrava muito poder, fazia

com que eles influenciassem a criação de serviços:

A Celina era de planejamento mais do que a Idalina – ela levava o


projeto para ele {Dr. Aldo} e ele dizia: “não, porque não, porque
não”. Ela argumentava, defendia a proposta e ele dizia: “Vou
pensar”. No dia seguinte, ele mandava chamar a Celina e dizia
assim: “sabe Celina, eu pensei bem e eu acho que tem que ser
feito assim, assim, assim”, como se fosse idéia dele, que era a
proposta (depoimento, 2003).

Além disso, o Serviço Social tornou-se imprescindível no que dizia respeito

aos casos individuais, à medida que o Juizado ia-se tornando uma grande porta
263
aberta à população e que os problemas de natureza sociofamiliar iam-se

aprofundando, como se observa na fala de Beatriz [Link] referindo-se ao

juiz: Mas não trabalhava sem o Assistente Social! Ficava absolutamente “sem

pernas”. Não tinha como trabalhar sem o Assistente Social, porque não se

esqueça que a Vara de Menores foi e sempre será atendimento direto ao público,

ela não precisa de advogado (depoimento, 2003).

Com a colocação das atividades de triagem e plantão sob a

responsabilidade de assistentes sociais, o Dr. Aldo abriu as portas do Juizado de

Menores para a população mais pobre, dando ênfase ao caráter tutelar da Vara

de Menores. Ele limitou a ação do Comissariado de Menores que sempre se

caracterizou, e naqueles tempos não era diferente, pela fiscalização e repressão,

sendo mais temido que procurado para solucionar problemas. Isto ganha

relevância quando se tem em conta que o Poder Judiciário sempre foi uma

estrutura acessível a poucos, em que a figura do advogado é obrigatória na

maioria dos casos.

O juiz tinha consciência do que estava fazendo, como se pode perceber

por sua fala em 1957, quando se referia à Secção de Informações e Serviço

Social: Aí as partes são atendidas, entrevistadas e encaminhadas

convenientemente, segundo a natureza de seus casos, munidas das

representações indispensáveis que lhes são fornecidas gratuitamente. (DIAS,

1957, p. 284). O Serviço Social passou a substituir o advogado nesses casos,

representando a pessoa diante do juiz de menores, principalmente a população

mais empobrecida que encontrava no plantão um espaço onde podia contar a

sua história.
264
Um outro aspecto desse trabalho diz respeito ao relacionamento do

Juizado com os demais serviços assistenciais e recursos da comunidade. Os

assistentes sociais que assumiram o setor, assim como alguns dos estagiários,

possuíam um conhecimento da malha de serviços assistenciais, articulavam-se

com esses serviços, conheciam os profissionais que estavam à frente de boa

parte das casas, abrigos, departamentos do Estado e do Município. Conseguiam

assim, não apenas interpretar quais eram os problemas apresentados pela

população, dando uma orientação àqueles que não obteriam a solução no

Juizado de Menores, como também encaminhar ao juiz os problemas que ele

poderia solucionar, já indicando uma alternativa, como exemplifica o depoimento

de Zilnay:

Identificávamos as pessoas todas. E geralmente o relatório


constava disso: o motivo pelo qual a pessoa veio ali – apreendida,
ou isto, ou aquilo, ou por vontade própria, etc., o que a gente tinha
encontrado e sugerindo ou informando que tinha sido orientada,
dispensada... Quando você tinha que fazer internação, por
exemplo, então você procurava fazer o relatório mais detalhado...
{...} No final do expediente eu subia com aquele monte de papéis,
porque ele tinha que dar as ordens de internações, quando eu
tinha que internar... (depoimento à E.T.F, 1994).

Concretizou-se assim mais uma etapa da consolidação do Serviço Social

no Judiciário, as propostas da Escola de Serviço Social, formuladas desde 1948

nas semanas de estudo, de que a profissão poderia auxiliar a Justiça de Menores

nas ações pré-judiciárias (de prevenção), judiciárias propriamente ditas e pós-

judiciárias (acompanhamento dos casos).

Com os benefícios da Colocação Familiar, o Serviço Social agia na

prevenção, com o atendimento ao público, triagem e estudo dos casos realizados

265
no Serviço Social e nas unidades do COF e RPM, a profissão auxiliava

diretamente na ação judiciária, indicando quais as medidas cabíveis e

aconselháveis, por fim, no acompanhamento dos casos realizava uma ação pós-

judiciária.

Porém, à mesma medida que a estrutura foi crescendo e o Serviço Social

foi-se consolidando, os problemas começaram a surgir. A máquina era grande e

confusa, de difícil compreensão até para os assistentes sociais:

Não havia conhecimento do todo, da parte dos Assistentes


Sociais, cada um ficou encastelado no seu serviço, cada um
gostou do seu serviço e passou a trabalhar, sabendo da
existência do outro serviço, conhecendo os colegas do outro
serviço, alguns nem conhecendo, mas não trabalhando juntos,
este foi um grande erro nosso, como categoria profissional. Nós
não fomos unidos trabalhando juntos, criaram-se alguns
preconceitos... (João Batista Adduci, depoimento, 2002).

Mais complexa ainda era a dificuldade de formalização da entrada dos

profissionais. Boa parte dos setores criados pelo Dr. Aldo no Juizado de Menores

era informal. O que existia de fato na estrutura do Tribunal de Justiça era a Vara

de Menores, com seus cartórios e juízes auxiliares (a partir de 1964), o

Recolhimento Provisório de Menores e o Serviço de Colocação Familiar, ambos

criados por Lei. Esse aparato, que por si só já fugia dos padrões normais da

estrutura do Tribunal de Justiça, era insuficiente para abrigar o grande volume de

profissionais e de funções criadas.

Ao longo dos anos, os estagiários foram-se formando e precisavam ser

contratados e os profissionais comissionados necessitavam ser incorporados ao

quadro do Tribunal. As atividades de caráter voluntário ou a contratação precária

não eram mais compatíveis com o volume e importância do trabalho realizado.


266
Além disso a nova geração de profissionais não compreendia mais a atuação

profissional como parte do projeto político da Igreja Católica: exigia o devido

reconhecimento profissional. O relato de João Batista Adduci, que iniciou como

estagiário no Juizado, é ilustrativo dessa situação:

Quando eu me formei eu criei um caso. Eu disse: “eu me formei,


eu quero receber como Assistente Social”, pois era uma diferença
bastante grande. {...} Nós éramos cinco ou seis colegas formados
no mesmo ano e nós pedimos ao Dr. Cortez que ele interferisse
junto ao Dr. Aldo...{...} O Dr. Cortez demorou muito para conseguir
o que eu chamo de justiça, mas ele dizia o seguinte, ele tinha um
argumento que na ocasião eu tinha dificuldade de entender {...}
Ele disse: “João, você tem que trabalhar”. E eu dizia: “mas se eu
estou formado e eu me formei para ganhar mais, por que eu tenho
que continuar aqui ganhando menos e trabalhando igual a um
Assistente Social formado. Esse Assistente Social faz 30 visitas
por mês, eu faço 32, por que eu não ganho igual?” Ele dizia
assim: “moralmente você está errado, você está formado, é um
fato, mas você está trabalhando com gente e você foi formado
para trabalhar com essas pessoas, então eu não vou argumentar
que porque você se formou você deve ter menos casos enquanto
não receber mais” (depoimento, 2002).

A organização administrativa do Tribunal de Justiça não era adequada para

incorporar todas essas novas funções e cargos. Ela foi concebida para ser

compatível com sua função judicante, centrada na autonomia do juiz perante o

julgamento de cada caso. Assim cada Vara está sob o comando de um juiz, que

coordena e chefia a parte administrativa a ele subordinada (cartório e

funcionários), gozando de grande autonomia nesse sentido. Existem poucos

níveis hierárquicos na corregedoria, onde está alocada a maior parte dos

funcionários73.

73
Para mais informações sobre essa estrutura ver o Estudo realizado sobre a problemática social do
funcionário do Tribunal de Justiça, coordenado por Elizabeth de Melo Rico (RICO, 1983)
267
A solução dada ao problema foi precária, o Dr. Aldo utilizou-se

principalmente do RPM para realizar as contratações. Mas, na estrutura desse

órgão não estavam previstos muitos cargos, nem planos de carreira, o que foi

gerando insatisfação à medida que o trabalho se consolidava, principalmente

devido à natureza executiva e de grande responsabilidade. Suraia Daher, que

coordenou o COF por anos, por exemplo, nunca teve um cargo de chefia.

Therezinha Zabirowski Davidovich, que começou a trabalhar no Juizado em

1962, descobriu, em 1979, que precisava fazer um concurso público para se

efetivar no cargo. A situação foi objeto de tensão tanto entre os profissionais

quanto entre o Juizado e a alta administração do Tribunal de Justiça, como

veremos mais adiante.

Além dos problemas que surgiam no próprio espaço profissional do

Serviço Social outros foram se avolumando no que dizia respeito à atuação e à

proposta do Dr. Aldo. O primeiro deles dizia respeito às críticas feitas ao juiz de

menores com relação ao tamanho e complexidade da estrutura que ele havia

montado. Praticamente todos os entrevistados fizeram alusão a essas críticas:

A pessoa do Dr. Aldo: ele era um homem extraordinário, que


queria inovar, se você estudar dentro da maneira dele ser. Ele
queria fazer, ele era bom porque nasceu bom. Agora, ele adorava
contar as coisas que fazia. Então, a crítica que o Tribunal fazia à
ele é que ele estava transformando o Juizado numa árvore de
natal, toda enfeitada (Zilnay Catão Borges, depoimento à ETF,
1994).

Mesmo respondendo às solicitações do juiz de menores para que os

serviços fossem criados havia uma resistência no interior do Tribunal a toda

aquela estrutura:

268
O Tribunal tinha ojeriza pelo Serviço de Colocação Familiar {...}
porque ele exigia muito dinheiro, ele já começou com esse
estigma, mas o Dr. Cortez conseguia interpretar frente à cúpula
maior, pelos conhecimentos que ele tinha com o pessoal, o
benefício que era ajudar uma criança. {...} Nesse sentido os
Juízes, o Presidente do Tribunal de Justiça, aceitavam a
Colocação Familiar um pouco mais, mas havia nesse aparato
todo muito preconceito, eles gostariam de não ter tudo
isso...(João Batista Adduci, depoimento, 2002).

Além das críticas ao tamanho da estrutura, e obviamente ao seu custo -

que não parava de crescer -, existiam também as críticas ao excesso de

exposição do juiz de menores, o que não era visto com bons olhos pelo Poder

Judiciário, dada a tentativa permanente de mostrar-se neutro, isento, diante dos

problemas que deve julgar.

A projeção do Dr. Aldo era de fato muito grande, pois as ações do juiz

interferiam diretamente na vida do cidadão comum, fiscalizando, apreendendo,

multando e normatizando. Contribuía para isso a política de parcerias instituída

por ele e que lhe dava uma projeção muito grande diante da alta sociedade

paulistana. O juiz provou da popularidade daqueles que se envolviam com a

filantropia. Sobre essa popularidade fala Therezinha Z. Davidovich:

...mas o Juiz de Menores era uma figura que quando aparecia em


qualquer lugar público ele era mais aplaudido do que o
Governador e passou a ser mais conhecido que o Presidente do
Tribunal de Justiça. Aí já começou a ter, dentro do próprio
Judiciário também as críticas: extrapolou a parte judicante,
deveria se restringir a conhecer, processar, julgar e determinar,
não é? (depoimento, 2003).

Um outro problema foi a relação com o Poder Executivo, relação essa que

era de colaboração nos primeiros tempos após a posse do Dr. Aldo, e que se foi

deteriorando à medida que as funções executivas do Juizado de Menores foram-


269
se ampliando e que o Executivo foi recuperando a sua força, já nos primeiros

anos de 1960, com a instabilidade política após a renúncia de Jânio Quadros.

Na realidade o Poder Executivo possuía unidades e estruturas para

praticamente todas os serviços que o Judiciário criou, o que gerou uma

duplicidade de atendimento em várias áreas. No entanto, essas unidades

vinculadas ao Serviço Social de Menores eram muito criticadas, consideradas

ineficientes mesmo, viviam superlotadas, e não trabalhavam numa perspectiva de

desinternação, muito pelo contrário, como diz Adduci:

...o Serviço Social de Menores, ele mantinha as casas no interior


do Estado, se pegava um menino da capital, de São Paulo, se
colocava em Iaras porque era deficiente mental, em Taubaté
porque ele era normalzinho, em Batatais porque tinha um sistema
educacional muito bom, e as crianças iam para o interior do
Estado. Isso dificultava o contato com a família e fazer o que se
chamava o tratamento social, a inserção do menino de novo na
família. Essa dicotomia prejudicou, marcou significativamente
muitos menores, porque se julgava num lugar, internava num
outro. {...} A mãe, ignorante, dizia: “meu filho foi para o colégio do
governo”, e eles faziam de conta que estavam bem no colégio do
governo, o colégio do governo educava e os meninos cresciam e
chegavam aos dezoito anos, saíam até sem documentos. Então é
uma crítica que se faz ao atendimento da época, época que eu
vivi também (depoimento, 2002).

O Serviço Social de Menores estava desgastado, assim como estava

desgastado o SAM, do Rio de Janeiro. Os assistentes sociais do Juizado viram a

possibilidade de criar serviços de outro padrão, diferenciados, e acabaram

duplicando a estrutura de atendimentos. Adduci diz ...:o executivo não executava

rapidamente, não executava bem, segundo o que a gente pensava (depoimento,

2002).

270
A crítica não era feita diretamente aos profissionais do Executivo, mas à

sua estrutura de funcionamento, como afirma Therezinha Zabirowski Davidovich:

Eles tinham profissionais excelentes, de grande gabarito, mas


havia uma dificuldade, isso eu acho que tem que ser colocado,
eles tinham profissionais como Leopoldina Saraiva, como Célia
Rubinstein Eisembaum, Alice Arantes, Luiz Cava Neto, pessoas
de porte, de grande estatura profissional, acontece que na
execução eles eram achatados, quer dizer, para criar um serviço
era muita burocracia, era muita injunção política. Eles tinham,
vamos dizer, bons profissionais também, sem dúvida,mas a
dificuldade para executar aquilo acabava redundando em
resultados insatisfatórios... (depoimento, 2003).

Os serviços criados pelo Judiciário tinham todos uma característica

modelar, isto é, funcionavam dentro de parâmetros técnico-profissionais

considerados avançados para a época, numa perspectiva de evitar ao máximo a

internação. Os profissionais tinham liberdade para criar modelos de intervenção,

sendo inclusive estimulados pelo juiz para isso. Foram, assim, tornando-se

grandes especialistas em suas respectivas áreas (infratores, colocação familiar,

orientação e acompanhamento) e a máquina administrativa do Judiciário

facilitava o funcionamento de tudo isso porquanto era ágil 74 e menos permeável

às injunções políticas externas. Therezinha diz:

Não eram projetos feitos em função de agradar ou de imitar


modelos, eram estudados com muita [Link] {Dr. Aldo} teve
na pessoa dos Assistentes Sociais assessores mesmo, de
vanguarda, com iniciativa, responsáveis, que buscavam o
conhecimento, que buscavam realmente que esses projetos
fossem melhores, que esses projetos atendessem às demandas
{...} ...dificilmente um Assistente Social foi galgado para um posto
de diretor – nem havia isso – porque era amigo de quem quer que
fosse. Era em função mesmo da sua vivência, da sua prática
profissional (depoimento, 2003).

74
Dada a falta de um controle externo do Poder Judiciário, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
nunca necessitou de aprovação de orçamentos e licitações públicas, por exemplo, para a compra de
equipamentos ou material de manutenção, o que permitia que os serviços fossem mais ágeis.
271
João Batista Adduci aprofunda esse aspecto quando fala do Serviço de

Colocação Familiar:

...no executivo começam as pressões de deputados: “tem que


ajudar essa família, como que você não ajuda, você está
demitida, você não ajudou a família que eu mandei, ele é o
principal deputado do partido!” {O Judiciário} é protegido. Nunca,
no tempo em que eu fiquei na Colocação Familiar – e acho que o
Cortez diria a mesma coisa – nunca houve um Juiz que dissesse:
“João, coloque essa família que eu quero que dê quinhentos reais
para essa família”, nunca. Nunca houve injunção. (depoimento,
2002)

Protegidos pela menor permeabilidade do Poder Judiciário às injunções

políticas, comuns na máquina do Poder Executivo, os assistentes sociais do

Juizado de Menores contribuíram para o crescimento das animosidades com as

estruturas do Poder Executivo, criticando-as e criando estruturas duplicadas.

Essa animosidade foi crescendo, de modo que anos mais tarde a tensão era

explícita. Therezinha Z. Davidovich, refere-se a essa situação no final da década

de 60,, naqueles tempos ...tudo era comparativo, tudo era confronto, tudo era

crítica, sempre em cima dessa mesma ladainha: o Poder Judiciário está

extrapolando as suas funções. Ninguém falava que o Poder Executivo não estava

cumprindo as suas obrigações (depoimento, 2003).

Mas, ainda na primeira metade da década de 1960, a conjuntura que dava

sustentação às ações do Juizado de Menores começou a se alterar. Algumas das

forças que apoiavam o Dr. Aldo em sua empreita de resgatar o Juizado como

órgão centralizador da política para a área perderam espaços na política, como é

o caso do Partido Democrata Cristão, ou começaram a mudar de posição. Após

272
1964, com a mudança na conjuntura política e o retorno ao regime ditatorial, a

situação ficou pior. O Executivo voltou a monopolizar o poder. E o Judiciário

perdeu muito de sua autonomia.

Aliados a essas mudanças na conjuntura do país, os problemas criados

pela própria estrutura do Juizado, tais como o seu gigantismo, a falta de

formalidade, o alto custo da máquina e o excesso de exposição do juiz,

reforçaram a posição daqueles que entendiam que o Juizado de Menores não

deveria seguir o modelo dos Tribunais Especiais/Tribunais Juvenis. Do que se

depreende que, dada a cultura institucional do Judiciário, que não aceita bem a

publicidade, a promoção do Dr. Aldo para o Tribunal de Alçada, longe de não ser

merecida, foi também uma saída estratégica para frear o crescimento do Juizado

de Menores. Contribui para esta interpretação a ponta de sarcasmo encontrada

no discurso de saudação à posse do Dr. Aldo como ministro do Tribunal de

Alçada, de onde extraímos a fala do ministro Mario Hoepner Dutra: A par com

essas inovações, fruto do trabalho insano de todos os dias, sem que o

esmorecimento de um só instante afluísse ao seu espírito criador, explende-se a

materialidade do Juizado de Menores da Capital, que reúne em si, hoje a

grandeza de um departamento de Estado. (posse do Dr. Aldo no Tribunal de

Alçada, 01/12/65, p.13).

4.1.3. O regime militar e a Política Nacional do Bem-Estar do Menor

(PNBEM)

273
O governo de Jânio Quadros e João Goulart, o último do período

democrático que se iniciou em 1945, foi de grande instabilidade política. Eleito

pelo voto direto em outubro de 1961, Jânio Quadros foi o primeiro presidente da

República a tomar posse em Brasília, como uma promessa de futuro auspicioso

para o país. No entanto, menos de um ano depois ele já havia renunciado, num

episódio até hoje não esclarecido (FAUSTO, 1995). João Goulart, o vice, quase

não conseguiu assumir o cargo, e somente o fez quando se instalou o regime

parlamentarista que retirava da figura do presidente boa parte de seu poder.

Em meio às mudanças no regime político – de presidencialismo para

parlamentarismo e novamente retornando ao presidencialismo em 1963 – Goulart

dirigiu um País com altos índices de inflação, pressões do movimento estudantil,

operário e sindical, organização dos trabalhadores no campo, invasões de terras

e greves. A tensão social era grande e nos últimos meses de seu governo já

estavam articuladas as forças de oposição formadas pelos setores mais

conservadores da sociedade que defendiam um golpe, ou melhor, uma

“revolução” como eles a chamavam à época, com a tese de que ...só uma

revolução purificaria a democracia, pondo fim à luta de classes, ao poder dos

sindicatos e aos perigos do comunismo (FAUSTO, 1995, p. 458).

Em 31 de março de 1964, os militares assumiram o poder com o discurso

expresso de que iriam livrar o país da corrupção e do comunismo e restaurar a

democracia, mas começaram a governar através de decretos, os Atos

Institucionais (AI), que justificavam como instrumentos de um governo

revolucionário. O AI-1 tratou de concentrar poder no Executivo, suspendeu

imunidades parlamentares e autorizou a cassação de mandatos legislativos em


274
todos os níveis; suspendeu a estabilidade dos funcionários públicos e a

vitaliciedade dos magistrados. Foram objeto das primeiras ondas repressivas os

estudantes, os líderes rurais, os dirigentes sindicais, além de cinqüenta

parlamentares e quarenta e nove juízes somente no nível federal, além de

funcionários públicos civis e militares.

Apesar de todo esse quadro autoritário e repressivo, o regime militar

manteve, na maior parte do tempo, uma fachada democrática, isto é, as

instituições, como o Congresso e o Judiciário, sofreram alterações mas

mantiveram suas funções gerais, o que dava ao regime uma aparente legalidade.

Em abril foi eleito pelo Congresso, por indicação das Forças Armadas, o primeiro

presidente militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco.

O AI-2, de 1965, instituiu formalmente as eleições indiretas para presidente

e vice e deu poderes para que eles baixassem decretos-leis complementares

sobre matéria de segurança nacional, o que fez com que quase toda a vida do

país sofresse a intervenção direta do presidente, através de decretos, pois os

militares tinham uma compreensão bastante elástica do que era uma “questão de

segurança nacional”. Através do AI-3, em 1966, estabeleceram-se eleições

indiretas também para os governadores dos Estados.

Em outubro do mesmo ano o presidente fechou o Congresso, que havia

sido submetido a mais cassações, e logo depois convocou-o novamente, através

do AI-4 para “votar” a nova Constituição, o que foi feito em janeiro de 1967.

Segundo Fausto, a Constituição de 1967 incorporou esse aumento de poder do

Executivo, embora não tivesse mantido os dispositivos que permitiam cassações

e perda de direitos políticos. Sobre essa ordem constitucional o autor diz:


275
Uma das características do regime implantado em 1964 foi o de
não ser uma ditadura pessoal. Poderíamos compará-lo a um
condomínio em que um dos chefes militares – general de quatro
estrelas – era escolhido para governar o país com prazo definido.
A sucessão presidencial se realizava, de fato, no interior da
corporação militar, com audiência maior ou menor da tropa,
conforme o caso, e decisão do Alto Comando das Forças
Armadas. Na aparência, de acordo com a legislação, era o
Congresso quem elegia, descontados os votos da oposição,
apenas sacramentava a ordem vinda de cima (1995, p. 475).

Decretada a Constituição, o regime militar concluiu o seu processo de

institucionalização da “revolução”, sob o qual se pretendia garantir um “ambiente

democrático”, nas palavras dos dirigentes do país, como diz Evaldo Vieira:

Havia, pois, “harmonia, tranqüilidade e cooperação necessária à


recuperação da vida nacional”. Castelo Branco entendia que o
processo de redemocratização crescera desde o dia 31 de março
de 1964, indicando como provas disto “o funcionamento normal
do Judiciário e do Legislativo, a liberdade de Imprensa e a
liberdade sindical” (1995, p. 193).

O objetivo dos militares que assumiram o poder e que formavam um grupo

com fortes vínculos com a Escola Superior de Guerra,era organizar o país sob

uma democracia restrita e reunir condições para, no plano econômico, reformar o

sistema capitalista tornando-o mais moderno, o que, segundo eles, poderia

impedir que as idéias comunistas proliferassem em meio ao atraso e à pobreza

reinantes. Na prática, eles precisavam enfrentar a situação econômica herdada do

período anterior, controlar as massas trabalhadoras tanto no campo como nas

cidades e reorganizar o aparelho de Estado.

Dado o caráter autocrático do governo, desde o início foram adotadas

medidas impopulares sem problemas maiores, sem reações da sociedade. Logo

na gestão de Castelo Branco foram feitos cortes em subsídios, aumentos de


276
impostos, alterações na Consolidação das Leis Trabalhistas com o fim da

estabilidade no emprego, tudo visando conter a inflação, flexibilizar o emprego e

conter a força da organização dos trabalhadores. Após 1968, a repressão

aumentou como resposta às tentativas de reorganização dos movimentos sociais

e a perda de parte do apoio social ao regime.

No que diz respeito ao Poder Judiciário, além da perda da vitaliciedade e

da inamovibilidade dos magistrados ocorridas por força do AI-1 e AI-2, foi recriada

a Justiça Federal de primeira instância, com juízes indicados pelo presidente em

todos os Estados e no Distrito Federal e ampliado o poder do Supremo Tribunal

Federal, que passou a ser o responsável exclusivo pelo controle constitucional

das leis, centralizando o julgamento de qualquer representação de

inconstitucionalidade – o que, aliás, perdura até hoje. Após 1968 o número de

ministros do STF foi reduzido de dezesseis para onze e limitadas as suas

competências com relação ao julgamento de habeas corpus e recursos relativos a

mandados de segurança impetrados pelos tribunais inferiores (ARANTES, 1997),

demonstrando uma crescente concentração de poder e de controle do Executivo

sobre os demais poderes.

Na área da política social as ações do regime militar seguiram três

princípios básicos: a concentração de todas as diretrizes na esfera federal, um

predomínio da tecnocracia sobre outras formas de gestão e o estímulo às

estruturas que articulassem o público com o privado como forma de beneficiar o

privado. Esses princípios regeram a política dos Ministérios da Saúde e da

Educação por exemplo, e de órgãos como o Banco Nacional de Habitação - BNH,

277
a Legião Brasileira de Assistência - LBA e a Fundação Nacional do Bem-Estar do

Menor - FUNABEM, sobre a qual trataremos mais detalhadamente.

A Doutrina Brasileira de Segurança Nacional (DSN), formulada no interior

da Escola Superior de Guerra envolvendo quadros militares e civis, dava ênfase à

segurança interna como mecanismo de resguardar o país em meio a uma guerra,

a guerra fria, que envolvia todo o mundo. Fulvia Rosemberg fala sobre a DSN:

Para a DSN, a guerra total era sem quartel, não se restringindo


mais à esfera militar, envolvendo a vida política, econômica e
cultural. Uma forma de expressão da guerra total, a guerra
revolucionária era tida como estratégia do comunismo
internacional para penetrar na África, Ásia e América Latina,
principalmente através da variante da guerra psicológica. O
anticomunismo constituía o eixo ideológico básico das forças
armadas brasileiras e latino-americanas (ROSEMBERG, 1997, p.
140).

Consoante com essa análise da realidade, a DSN incluiu a “questão social”

como objeto expresso de intervenção do governo. Os grupos marginalizados, os

desassistidos, frutos de um processo social perverso, tendiam a se tornar

geradores de desarmonia. Entre esses grupos estavam as crianças e os jovens

pobres como diz Arno Vogel:

... a massa crescente de crianças e jovens marginalizados fazia


prever, a curto e médio prazo, prejuízos consideráveis, quer do
ponto de vista sócio-econômico, quer do ponto de vista político.
No primeiro caso, em virtude da riqueza que se deixava de gerar
e do dispêndio com o qual se teria de fazer face aos problemas
sociais decorrentes da marginalização. No segundo, em virtude
do risco de que o potencial constituído por esses “irregulares”
viesse a ser capitalizado por forças contrárias ao regime (VOGEL,
1995, p. 304).

A compreensão de que o problema do menor era uma questão de

segurança nacional e, portanto, deveria ser atacado de forma estratégica pode


278
ser observada em toda a sua lógica no pronunciamento do então ministro da

justiça, Alfredo Buzaid, por ocasião do III Encontro Nacional de secretários

estaduais, presidentes de Fundações Estaduais e diretores de Serviços de

Menores, realizado em 1973. Dizia ele:

Quando um país tradicionalmente agro-pecuário sofre, em virtude


do desenvolvimento, uma intensa industrialização, começa o
êxodo rural. Apesar dos esforços do Estado e do Município,
surgem daí graves problemas sociais, entre eles o dos menores.
Tais problemas importam, por sua vez, à segurança nacional,
entendida como “defesa da Pátria contra inimigos visíveis ou
invisíveis”. A marginalização do menor cria uma situação ampla
de desassistência para “milhares e milhares de menores” e, com
isso, abre caminho para o surgimento “no fórum mais profundo de
sua alma”, de um “natural sentimento de revolta”. Tal sentimento
não pode ser ignorado como campo fértil para a ação dos
mencionados inimigos da Pátria. {...} Dessa perspectiva são dois
os “inimigos invisíveis” da Pátria. O primeiro são as drogas –
meios utilizados para o “desfibramento da família cristã” – e os
traficantes. O segundo são os propósitos “contrários à moral e aos
bons costumes”, compreendendo-se aí os livros obscenos e as
leituras que afetam os valores da tradição cristã. Tudo isso a
serviço de “agentes internacionais” empenhados no cumprimento
de um suposto preceito leninista – “desmoralizai a juventude e a
revolução comunista estará ganha” (apud VOGEL, 1995, p. 310).

Incorporando o conjunto de críticas severas que eram feitas por vários

segmentos da sociedade ao sistema coordenado pelo SAM, o regime militar

propunha solucionar o problema através de mecanismos prioritariamente

preventivos. E o ministro Buzaid declarava, no mesmo pronunciamento, que a

prevenção ...Consiste “num conjunto de medidas legislativas, administrativas e

até mesmo políticas, tendentes a separar o menor que se encontra marginalizado,

recuperando-o e restituindo-o à vida social (idem).

Desde o início da década de 1960 a necessidade de extinção do SAM e

órgãos correlatos como o Serviço Social de Menores em São Paulo, era uma
279
unanimidade entre os profissionais envolvidos com a questão. A Declaração dos

Direitos da Criança, promulgada pelas Nações Unidas em 1959, constituindo-se

em uma carta internacional de direitos da criança, contribuiu para aprofundar o

mal estar reinante com relação às condições subuhumanas em que se encontrava

a maior parte da população infanto-juvenil no Brasil, incluindo-se aí os segmentos

assistidos pelo SAM. Assim, o regime militar procurou capitalizar esse

descontentamento geral mostrando-se apto a dar uma resposta radical, de

impacto: em 01 de dezembro de 1964 é aprovada a Lei n. 4.513 que “...autoriza o

Poder Executivo a criar a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, a ela

incorporando o patrimônio e as atribuições do Serviço de Assistência a Menores,

e dá outras providências”.

As diretrizes da FUNABEM para a política de assistência ao menor

estavam de acordo com tudo aquilo que havia sido debatido nos diversos fóruns

de profissionais e demais segmentos organizados da sociedade civil até então.

Estava previsto no seu estatuto, artigo 6º, que as diretrizes da política deveriam:

I - Assegurar prioridade aos programas que visem à integração do


menor na comunidade, através de assistência na própria família e
da colocação familiar em lares substitutos;
II - Incrementar a criação de instituições para menores que
possuam características aproximadas das que informam a vida
familiar e, bem assim, a adaptação, a esse objetivo, das entidades
existentes de modo que somente se venha a admitir internamento
do menor à falta de instituições desse tipo ou por determinação
judicial. Nenhum internamento se fará sem observância rigorosa
da escala de prioridade fixada em preceito regimental do
Conselho Nacional;
III - Respeitar, no atendimento às necessidades de cada região do
país, as suas peculiaridades, incentivando as iniciativas locais,
públicas e privadas, e atuando como fator positivo na dinamização
e autopromoção dessas comunidades.

280
Em pouco tempo as diretrizes constantes no Estatuto da FUNABEM se

tornariam letras mortas devido principalmente ao modelo altamente centralizado e

à priorização da internação como medida de segregação dos menores

marginalizados.

Organizada como uma Fundação, a FUNABEM foi criada para ser uma

entidade autônoma administrativa e financeiramente, com o fim de que tivesse

liberdade para a contratação de quadros profissionais adequados e sumária

substituição, no caso de inadequação do pessoal. Buscava-se evitar os

problemas do SAM, onde a corrupção e a falta de estímulo do pessoal aliada à

máquina administrativa pouco ágil, com dotações de recursos limitados,

dificultava a ação do órgão, que muitas vezes necessitava ser emergencial.

Segundo os princípios contidos no seu estatuto, a FUNABEM era um órgão

central, de caráter normativo, que tinha por incumbência básica repassar recursos

e know-how. Assim, foi criado um complexo central no Rio de Janeiro, conhecido

como Centro-Piloto Quintino, formado por antigas unidades pertencentes ao SAM

que foram remodeladas para se transformarem em centro de atendimento direto

onde se aplicavam e avaliavam modelos de atendimento. Foi pensado para ser

um centro de formação de recursos humanos especializados, de treinamento e de

difusão das bases científicas formuladas pela Fundação, capazes de sustentar

tanto conceitualmente como politicamente a sua estratégia de controle social.

Para operacionalizar essa proposta, a FUNABEM necessitava da adesão

dos estados que deveriam encarregar-se de aplicar os recursos e o modelo, in

loco. Assim, segundo Arno Vogel, foi desencadeado um ...processo de

281
sensibilização dos governos estaduais, que deu origem às Fundações Estaduais

do Bem-Estar do Menor – FEBEM’s. (VOGEL, 1995, p. 307).

A direção da FUNABEM, logo de início ficou a cargo do médico Mario

Altenfelder, designado pelo presidente da República, a quem a fundação estava

diretamente vinculada. Possuía também um Conselho Nacional formado por

representantes de várias entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a

Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, o Conselho Federal de Assistentes

Sociais, a Legião Brasileira de Assistência, entre outras, cujos nomes eram

indicados pelas respectivas entidades e submetidos ao presidente da República.

Dez anos depois, a FUNABEM anunciava que mantinha 100 convênios,

destinando mais de 40 milhões de cruzeiros para financiar 605 projetos em quase

todos os estados da Federação. A maior parte desses recursos foram destinados

à criação de infra-estrutura para centros de recepção e triagem, centros de

reeducação e de prevenção das Fundações Estaduais, fora os recursos gastos

com treinamento e capacitação de recursos humanos (VOGEL, 1995).

A Política Nacional do Bem-Estar do Menor foi aclamada por muitos na

época, como a resposta que vinha sendo buscada há décadas para o problema

do menor, mas, apesar do ambiente repressivo daqueles tempos, algumas vozes

apontavam já os seus problemas. Uma dessas vozes, isolada mas contundente,

foi a do Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara, Dr.

Francisco Pereira de Bulhões Carvalho, que publicou uma série de artigos no

jornal O Correio da Manhã, ao longo dos anos de 1964 e 1965, com críticas ao

modelo da PNBEM e reiterou-as no prefácio ao livro do Dr. Aldo de Assis Dias, O

menor em face da justiça, datado de 06 de julho de 1967 (DIAS, 1968).


282
No texto do prefácio ele aponta alguns problemas graves da Fundação

como o fato dela não ter dotação orçamentária com fonte própria, ficando

subordinada aos interesses imediatos do governo, e de não aparelhar os Juizados

de Menores. Deixando clara a sua filiação ao modelo de Juizado de Menores

construído pelo Dr. Aldo de Assis Dias em São Paulo, o Desembargador Bulhões

Carvalho explicou quais seriam, na sua visão, as conseqüências do modelo

preconizado pela FUNABEM, citando partes dos seus artigos publicados nos

jornais cariocas:

O que irá acontecer será o seguinte: a Fundação não aparelhará


em nada os Juízos de Menores Estaduais; não lhes fornecerá
funcionários nem verba, nem estabelecimento algum para que
fiquem à sua exclusiva disposição e autoridade. Irá apenas
aguardar que os juízes de menores lhe enviem os menores
abandonados e infratores das leis penais, para que a Fundação
proceda em relação a êles como lhe pareça mais conveniente.
Será a ressurreição e a consagração da antiga estrutura do SAM,
precisamente no que tinha de mais condenável e mais
desconforme à sua finalidade, qual seja, a usurpação das funções
judiciárias. Desaparecerá a autoridade do juiz de menores, dado o
seu total desaparelhamento para uma ação pessoal eficaz, e será
substituído pela autoridade arbitrária da Fundação, que esta sim,
exercerá a verdadeira autoridade judiciária sôbre os menores.
Essa autoridade, entretanto, será falha e ineficaz, porque a
Fundação não tem poderes legais para ordenar as medidas
coercitivas e corretivas contra os menores ou seus responsáveis;
e o juiz, por seu turno, que detém legalmente tais poderes,
continuaria sem o poder de exercer, na prática, por falta de
recursos e instalações próprias de ordem material e funcional (In:
DIAS, 1968, p. 23).

A preocupação do Dr. Bulhões Carvalho era a mesma da maior parte dos

juizes de menores do país, no entanto a maioria deles não se opôs frontalmente à

PNBEM. Como parte do poder do Estado, o Poder Judiciário, em suas vozes

283
oficiais pronunciou-se favorável às medidas do Executivo e tratou de adaptar-se à

nova ordem.

Passados os primeiros anos das mudanças políticas foi retomado o debate

em torno da reforma da legislação de menores. Em 1968, o III Encontro de juizes

de menores apresentou um novo esboço de projeto para reformulação da lei, que

não foi levado adiante. Porém ficou clara pela carta de princípios aprovada no

Encontro ....a disposição dos juízes em não abrir mão do espaço de atuação que

a história lhes legou (RIZZINI, 1995, p.155).

Eles discutiam a reestruturação e o reaparelhamento dos Juizados de

Menores e a reformulação da legislação e buscavam garantir que os juizes de

menores não se restringissem ao mero controle da regularidade formal do

processo. No IV Encontro Nacional, em 1970, eles afirmavam que o juiz ....é o

intérprete das exigências formadoras e educativas dos jovens e dos reclamos dos

problemas sempre novos da família... (apud RIZZINI, 1995, p. 155).

Uma disputa polarizada pelos juizes de São Paulo e do Rio de Janeiro ao

longo desses encontros75 desvelava as posições técnicas e políticas que

envolviam a questão, de um lado um grupo mais liberal, de outro um mais

conservador. O grupo de São Paulo, que ao longo dos anos foi forjando suas

idéias nas Semanas de Estudos do Problema de Menores, defendia uma ação

restrita da esfera judicial, entendia o problema de menores como uma questão

75
Segundo Irene Rizzini, esses debates extrapolavam as fronteiras nacionais,. Eles aconteciam também no
âmbito das entidades de juizes de menores latino-americanas e internacionais. O oitavo e o nono congressos
da Associação Internacional de Juízes de Menores ocorridos em 1970 e 1974 respectivamente reforçavam o
papel do juiz como promotor do apoio à família e à comunidade, salvaguardando os direitos do menor e da
família e considerando o menor como sujeito de direitos e não objeto de direitos, mais em consonância com
as posições dos juizes paulistas que com a posição majoritária predominante aqui naquele momento
(RIZZINI, 1995)
284
vinculada a estrutura social injusta e acreditava numa ação preventiva e

assistencial do Juizado de Menores. O grupo do Rio de Janeiro, que nessas

alturas era majoritário, estava mais preocupado em formar as bases de um Direito

Menorista.

Os juízes de São Paulo apresentaram uma proposta para a reforma do

Código de Menores, redigida pelo Promotor Público João Benedito de Azevedo

Marques e que seguia a filosofia proclamada nas primeiras Semanas de Estudos

do Problema de Menores, de que o menor é vítima da sociedade e de que o

fenômeno da marginalização está ligado ao não-atendimento de suas

necessidades básicas e de sua família. Sobre esse projeto o Dr. Alyrio Cavallieri,

juiz de menores da Guanabara disse à época:

...um Código de Menores que atribua a um Juiz resolver


problemas de saúde, educação, profissionalização, recreação,
segurança nacional, ou é uma carta de princípios, uma declaração
de direitos ou é: a) um edito destinado a expor o Juiz de Menores
à irrisão; b) ou uma petição de princípios, sugestão a que se dê
aos Juizes de Menores os poderes dos ministros da saúde, da
educação, do trabalho, da justiça e de um ministério ainda não
existente, o do lazer (apud RIZZINI, 1995, p. 157).

Não é mera coincidência que a proposta dos juízes de São Paulo estivesse

tão próxima da que foi forjada anos mais tarde, o Estatuto da Criança e do

Adolescente, pois os debates em torno das Semanas de Estudos contribuíram

muito para que eles desenvolvessem uma visão mais ampla das questões sociais.

Eles se constituíam, de fato, em uma vanguarda nessa compreensão. Mas,

naquele momento, eles não tiveram condições de impor as suas idéias, contavam

com a oposição da maior parte dos juízes de menores do país e teriam ainda uma

285
oposição interna, no próprio Estado de São Paulo, dentro do próprio Poder

Judiciário, como veremos mais adiante.

Em 1977, a proposta dos juízes de São Paulo ainda tramitava no

Congresso quando, em1979, outra lei foi aprovada. O novo Código de Menores, a

Lei Federal N. 6.697/79 de 10 de outubro de 1979 veio substituir o Código de

Menores de 1927. O novo Código introduziu a doutrina da situação irregular, que

acabou com a clássica separação entre abandonados e delinqüentes; ampliou

sensivelmente os poderes do juiz de menores, dando-lhe entre outras atribuições

a de determinar, através de portarias, medidas de ordem geral e, no caso dos

infratores, reuniu no próprio juiz as funções de acusação, defesa e fiscalização

das próprias decisões.

Por outro lado, a Lei 6.697/79 manteve a maioridade penal aos 18 anos de

idade, resistindo às pressões vindas dos militares para reduzi-la e revogou alguns

dispositivos da Lei de Segurança Nacional que incidiam sobre menores de idade.

Mesmo assim o Promotor Azevedo Marques considerou que, em alguns aspectos,

essa Lei representou um ...retrocesso de mais de 50 anos, tendo em vista o

Código de 1927 (apud. RIZZINI, 1995, p. 158).

Felizmente o começo do fim do regime militar já despontava e o Código de

Menores não teve vida muito longa. Porém, no período de sua vigência, os juízes

de menores conseguiram, pela via do reforço de uma legislação que lhes dava

maiores poderes na esfera judicante, garantir um espaço de autonomia. Eles

abriram mão de seu protagonismo na área do menor, abriram mão do poder de

interferir diretamente na política de atendimento como propunha o [Link] de

286
Assis Dias e os demais defensores da proposta organizada em São Paulo e

obtiveram, em contrapartida, autonomia em sua função estritamente judicial.

A postura adotada pelo Judiciário nesse aspecto visava reduzir os pontos

de conflito entre Executivo e Judiciário, e acomodar as vozes discordantes

internas. Contudo, por trás do discurso da ação estritamente judicante do

Judiciário estava uma visão liberal conservadora, e naquele momento

subarternizante, que não se propunha enfrentar o Executivo em questões que

envolvessem, por exemplo, problemas sociais.

4.2. O juizado judicante: o desmonte da máquina assistencial e a

construção da função de perito para o Serviço Social

4.2.1. Crise e expurgos no interior do Juizado de Menores

A saída do Dr. Aldo de Assis Dias do Juizado de Menores da capital, em

novembro de 1965 foi o sinal de que o Tribunal de Justiça do Estado de São

Paulo apoiava, mesmo com restrições, a política nacional do governo para o bem-

estar do menor. O Dr. Aldo era um defensor, um ativista mesmo, da proposta de

um juizado assistencial, ou para utilizar uma outra denominação, um complexo

tutelar. Sua capacidade de articulação aliada à sua respeitabilidade, que eram

incontestáveis, não foram suficientes para mantê-lo à frente do Juizado de

Menores naqueles tempos difíceis.

287
Seu substituto, o Dr. Arthur de Oliveira Costa, já atuava como juiz auxiliar

no Juizado de Menores da capital, e procurou manter a estrutura em

funcionamento seguindo os mesmos princípios propostos pelo Dr. Aldo, mas a

conjuntura interna e externa ao Judiciário havia mudado bastante. As críticas à

estrutura do Juizado cresciam a cada dia e a política nacional para a área forçava

mudanças para a criação de uma Fundação em São Paulo. Therezinha

Zabirowski Davidovich fala mais sobre essas críticas:

As críticas que se fazia ao Dr. Aldo de Assis Dias é que ele era
megalomaníaco, que ele fez, insuflou a Vara de Menores, fez
daquilo uma árvore de natal! Não é verdade, não é justo dizer
isso! Ele precisava executar, ele era um homem muito sério, muito
consciente do seu papel, muito consciente! E ele realmente não
tinha retaguarda, agora, existem mil problemas pelos quais a
retaguarda não cumpria sua missão, se você me perguntar hoje,
por que não existe escola suficiente? {...} Mas ali na área da
Infância e Juventude também não existiam recursos e o Dr. Aldo
foi conseguindo mobilizar, foi conseguindo montar. Aí realmente
veio o problema do confronto, da comparação, e isso gerou, por
parte do executivo, uma atitude de crítica muito forte: que o Poder
Judiciário estava extrapolando as suas funções. Esse era o verso,
essa era a prosa (depoimento, 2003).

Da parte do Executivo, a justificativa para as críticas ao Juizado eram

formuladas de maneira a sugerir que, naquele momento, havia uma estrutura em

formação que tinha transformado o SAM na FUNABEM, constituindo-se esta em

um modelo de alta qualidade técnica. Em São Paulo o Serviço Social de Menores

e o Serviço Social do Estado haviam se fundido, criando em 1969 a Secretaria

Estadual de Promoção Social. Tudo no Executivo, federal e estadual, estaria

caminhando, segundo eles, rumo à construção de um verdadeiro aparato de alta

qualidade capaz de dar um atendimento aos menores. Assim não havia mais

necessidade do Juizado “extrapolar as suas funções”, ”invadir campo alheio”,

288
deveria, pois, se restringir à ação judicante e deixar a execução para o Executivo.

Mas no Estado de São Paulo as mudanças ainda não estavam completas, como

podemos observar na fala de João Batista Adduci:

...com a criação da Secretaria de Promoção, os técnicos do


Serviço Social de Menores e do Serviço Social do Estado
reorganizaram a assistência social pública. Eles fizeram uma
reorganização, eles estruturaram a Secretaria da Promoção com
várias coordenadorias, então aí passamos a ter Coordenadoria
para a Assistência Social Pública, Coordenadoria para a Ação
Social, aí foram várias coordenadorias, e no final uma lei foi criada
estabelecendo duas grandes coordenadorias, e a Secretaria e o
Secretário, e o Serviço Social de Menores ficou açambarcado
nessa estrutura. Mas continuava o problema: o Juizado de
Menores e a Secretaria da Promoção. De vez em quando os
Juízes visitavam Secretários, Secretários visitavam Juízes, mas
nós Assistentes Sociais não participávamos, nem as pessoas
mais influentes, desses acordos que periodicamente eles
faziam...{...} Eles não possibilitavam a interferência e quando
possibilitavam, nós, Assistentes Sociais, no desejo de atender à
população, criávamos recursos. Claro, havia faixas desassistidas
pelo Serviço Social de Menores. Quem é que fazia? O Juizado e
vice-versa. Então daí cada vez mais ia se consolidando a
necessidade de uma fundação, de uma coisa que só cuidasse de
criança, percebe? A gente ia sentindo muito isso (depoimento,
2002).

Além das críticas do Executivo também existia a crítica interna feita pelo

próprio Tribunal que não aceitava a estrutura do Juizado porque era onerosa,

administrativamente incompatível com a estrutura geral da instituição, gerava

problemas políticos, projetava excessivamente a figura do juiz de menores, além

de causar problemas de natureza administrativa como diz Suraia Daher: O

Presidente do Tribunal dizia que não queria ser acordado três horas da manhã,

para ver se tem alface nos depósitos do RPM (depoimento, 2003).

Apesar da grande força que possuía o grupo de juízes de menores

paulistas que defendia a ampliação da esfera de ação do Juizado de Menores,


289
mesmo no interior do Judiciário as forças favoráveis à redução de sua estrutura

foram ganhando cada vez mais expressão. Therezinha Z Davidovich em seu

depoimento diz: Dentro da área do Judiciário, dentro da magistratura, dentro dos

órgãos governamentais, aí ficou os que eram favoráveis e os outros, uns diziam:

mas ele {o juiz} tem que internar, onde é que ele vai por? Outros diziam: mas isso

não é função dele (depoimento, 2003).

Na alta cúpula do Tribunal de Justiça cresceu a influência dos que

defendiam a redução da estrutura do Juizado de Menores, como diz Beatriz

Cardos Esteves Franco:

Essa era a idéia dos Desembargadores, comandados pelo Dr.


Marrey que achava que o Juizado deveria ter única e
exclusivamente ação judicante, ele não deveria entrar na
execução. Não tinha nada contra, aliás achava muito bom, mas
era um ônus muito grande porque tinha que ter uma verba muito
grande, tinha que se administrar aquela verba toda, ele achava
que o Judiciário era para julgamento, não para execução
(depoimento, 2003).

O Dr. Adriano Marrey foi o responsável por fazer renascer as Semanas de

Estudos do Problema de Menores. Oito delas haviam sido organizadas entre 1948

e 1957, sendo interrompido esse primeiro ciclo com a colocação em prática de

uma parte das propostas, por intermédio do Juizado de Menores, no período em

que o Dr. Aldo assumiu a sua condução, tornando-o uma referência nacional e

internacional na execução de programas de atendimento modelo na área do

menor76. Sob o comando do Desembargador Marrey, filho do eminente jurista Dr.

76
Os entrevistados fizeram várias referências a isso, Zilnay Catão Borges, por exemplo, cita que vários
profissionais foram a Curitiba-PR para formar quadros para a implantação do Serviço Social no Poder
Judiciário daquele Estado; Suraia Daher relata o período em que ficou em Goiás auxiliando a implantação do
Serviço Social no Judiciário, sem falar na visitas que o complexo do CEJ (COF, RPM, Cassa de Estar)
290
Marrey Jr., as Semanas foram retomadas, mas agora com outro objetivo: o de

desmontar a estrutura do Juizado de Menores.

Foram quatro semanas realizadas em 1969, 70, 71 e 73, para as quais

foram convidados a participar da promoção os mesmos protagonistas das

primeiras semanas: o Tribunal de Justiça, a Procuradoria Geral da Justiça, a

Escola de Serviço Social da PUC/SP, dentre outros. Todavia o clima dos debates

era outro. Como presidente da Comissão Executiva, o Dr. Marrey fez a abertura

dessas semanas juntamente com o presidente do Tribunal de Justiça e demais

autoridades. Nos discursos proferidos nas solenidades de abertura e

encerramento ele deixava sempre muito claro o seu alinhamento e o da instituição

Tribunal de Justiça com a política do governo militar, como podemos observar:

Visando atingir o melhor rendimento, aproximando-se da solução


que, dentro das contingências, se afigura a melhor, já constituiu o
Governo da República, como obra do regime da Revolução de
1964, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, confiada à
dedicação do melhor especialista brasileiro, que é o Dr. Mario
Altenfelder. O Poder Judiciário de São Paulo está concorrendo, na
medida do possível, a fim de que a providência se concretize
igualmente em nosso meio, tendo para isso tomado a iniciativa da
elaboração, pela Egrégia Corregedoria Geral da Justiça, de um
anteprojeto de lei, já entregue ao Poder Executivo, na
administração anterior, para a constituição da Fundação Estadual
do Bem-Estar do Menor (Anais da XI Semana de Estudos do
Problema de Menores, 1972).

Reproduzindo o discurso ufanista do regime militar e da FUNABEM, o Dr.

Marrey ignorou, nos seus pronunciamentos, os debates que vinham sendo

travados entre os juizes de menores do próprio Estado de São Paulo com outros

juízes de posicionamentos opostos, além de pouco citar os serviços construídos

recebia de delegações de vários países do mundo durante a década de 50 e primeira parte da década de 60,
também citados nos relatos.
291
pelo Juizado da capital. Ele dizia citando o general presidente Emilio Garrastazu

Médici:

Cumpre que em nosso Estado, como em todo o país, se realize,


no campo da assistência ao menor, a obra renovadora a que
aludiu o Exmo. Sr. Presidente da República, em memorável
pronunciamento, quando de sua visita à Fundação Nacional, em 5
de outubro do ano passado. Notou [Link]. que ela havia tomado
posição junto aos serviços sociais, trazendo “a mensagem de uma
nova política”, eliminando, no trato dos menores transviados, a
mentalidade presidiária do antigo e famigerado Serviço de
Assistência ao Menor. Falando do plano educacional a ser
empreendido através da Fundação Nacional, disse o Exmo. Sr.
Presidente da República – “desenvolveremos a mentalidade que
esta casa planta, voltada para o objetivo de escolas formadoras e
qualificadoras, que haverão de substituir, em definitivo, a
deformadora experiência de reformatórios e internatos
correcionais. Somente no aconchego de instituições que tenham
características de vida familiar e de observância às peculiaridades
regionais é que se há de processar a integração do menor à
comunidade, o encontro consigo mesmo, a consciência de suas
potencialidades geradoras e a realização de tanta vocação que
este país vem desperdiçando sem poder mais desperdiçar”
(idem).

Apesar dos discursos doutrinários das solenidades, a leitura da transcrição

de alguns extratos dos debates ocorridos ao longo dessas semanas de estudos

deu uma pequena idéia dos problemas e tensões existentes. Vários juízes de

comarcas do interior, em suas falas, continuavam solicitando do Tribunal a

implantação do Serviço de Colocação Familiar, e citavam casos, pediam solução

para problemas específicos. Houve também pronunciamentos marcando

posicionamentos: o Dr. Ítalo Galli do Tribunal de Alçada e ex-juiz de menores de

Apiaí, por exemplo, defendeu que toda a estrutura assistencial estivesse

subordinada ao Juizado, confrontando-se com a posição oficial da instituição ele

disse:

292
Entendo que o serviço do Juizado de Menores deveria
superintender todo o serviço atinente ao menor, desde a fase do
julgamento até a sua execução. {...} Então não posso entender
que o Juiz de Menores julgue abandonado o menor, ou então
estabeleça uma disciplina, uma sanção ao menor que dela
necessite, e depois o abandone a um outro Poder completamente
estranho, que seria no caso o Executivo, e que estaria sujeito a
outras injunções que não à estrita justiça como é a que orienta o
Juizado de Menores (idem).

E recebeu como resposta do Dr. Alyrio Cavallieri, juiz de menores da

Guanabara e proeminente membro do grupo de juízes que defendia um Juizado

de Menores de funções estritamente judicantes, a seguinte resposta:

O Tribunal de Justiça do meu Estado, sensível ao assunto,


ampliou, na nova organização judiciária que entrou em vigor a 1º
de janeiro deste ano, os quadros administrativos do Juizado de
Menores. No decorrer de cinco anos, o Juizado de Menores da
Guanabara poderá contar com cerca de 170 novos cargos, sendo
50 de comissários de menores, 50 de assistentes sociais, 4
juízes auxiliares, médicos, enfermeiros, etc. {...} Significa isso que
o Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara, embora
estabelecendo desde logo que o Juiz não tenha sob seu cargo
estabelecimentos de abrigo ou de assistência, deseja ampliar as
funções não judicantes do Juiz de Menores. Nessa organização
judiciária atribui ao Juiz de Menores a fiscalização do trabalho do
menor, a fiscalização da freqüência a espetáculos, a fiscalização
de estabelecimentos de menores, assim como autoriza o Juiz de
Menores a se cercar de conselhos técnicos para estabelecer
censuras e para assessoramento de ordens técnicas {grifo nosso}
(idem).

O Dr. Alyrio Cavallieri sintetizava a proposta à qual havia aderido o Tribunal

de Justiça do Estado de São Paulo77. Em sua fala buscou demonstrar que nessa

77
Também no Estado de São Paulo, o Poder Judiciário procedeu a uma reforma da organização judiciária. O
Decreto-Lei Complementar N. 27 de agosto de 1969 alterou a organização judiciária do Estado de São Paulo.
A proposta era ampliar os serviços judiciários. Foram criadas novas comarcas, refeita a divisão territorial no
interior e a descentralização das Varas na capital com a criação de 12 Varas Distritais em pontos estratégicos
da cidade, com competência para julgar alguns tipos de casos (artigos 32 a 35). Por esse decreto o Juizado de
Menores manteve a sua estrutura, contando a capital com uma única Vara de Menores, dois cartórios, e
demais juízes auxiliares O Juizado foi dividido em cinco zonas: centro, norte, sul, leste e oeste, funcionando,
fora o centro, com juízes auxiliares (artigos 45 a 50). É importante frisar que a ampliação dos serviços de
293
nova proposta o juiz não perderia poderes, ao contrário, até poderia ampliar seu

espectro de ação, mas não na área assistencial. Diante do alinhamento do

Tribunal de São Paulo a esse modelo, a estrutura do Juizado de Menores da

capital estava fadada a ser desmontada. Porém, para que isso acontecesse, o

governo do Estado de São Paulo teria que tomar a iniciativa e criar a sua

Fundação Estadual, como já o havia indicado o próprio Tribunal de Justiça.

A idéia de uma Fundação vinha sendo vista, até mesmo pelos profissionais

que atuavam no Juizado de Menores como uma alternativa para a tensão que se

havia instalado entre Executivo e Judiciário, e eles até mesmo contribuíram nos

estudos para a sua criação, como diz Therezinha Z. Davidovich:

Eu me considero privilegiada porque eu vivi todo um clima de


conhecimento, de reflexão, dizendo assim: tudo bem, o judiciário
está extrapolando, o executivo não cumpre. Por que o executivo
não cumpre? Por causa da burocracia, das injunções políticas.
Então qual seria o ideal? {...} Não sei, era um órgão que tivesse
autonomia técnica e administrativa. Com esses dois ganchos o
problema de assistência ao menor estaria resolvido. {...} Então,
quando eu ouvi dizer que iam criar uma fundação, eu participei
disso com uma vibração imensa, porque em cima dessas
condições – autonomia técnica e administrativa – eu disse: pronto,
o problema está resolvido. Então tudo bem, não vai ficar no
judiciário? Tudo bem, está fugindo? Não é judicante? Mas não vai
para o executivo para se transformar naquilo que era o “[Link].
Auxiliadora”, o que era o Instituto Modelo de Menores, entendeu?
Que a gente sabia que era funcionário desestimulado, não podia
ser demitido porque era funcionário público, desinteressado, não
tinha élan (depoimento, 2003).

No entanto, as forças políticas paulistas não aceitaram facilmente filiar-se

ao projeto nacional; afinal, São Paulo era um Estado poderoso. Havia um projeto

educacional próprio, formulado por alguns dos segmentos que criaram o

administração da justiça não vinha acompanhada de ampliação da autonomia do Poder Judiciário, em um


momento em que se vivia o aprofundamento das ações repressivas durante o regime militar.
294
movimento das primeiras semanas de estudos, dentre os quais elementos da

própria Escola de Serviço Social e os juízes de menores paulistas. João Batista

Adduci fala sobre isso:

A fundação sonhada por nós era uma fundação que agilizasse o


trato com o menor e com a família, que não expusesse os
menores nas ruas em carros indo de lá para cá e que diminuísse
muito o número de menores internados e também que houvesse
uma regionalização: que as crianças de São Paulo não fossem
para Batatais e que as de Batatais não viessem para São Paulo,
ficassem perto de suas famílias.{...} Conclusão: o Laudo Natel
conseguiu que o Estado de São Paulo tivesse a sua fundação,
essa fundação, nós não queríamos em São Paulo que ela tivesse
como imagem, e fosse semelhante a Funabem, não. Nós
queríamos que ela fosse uma fundação nascida aqui do Estado
de São Paulo sem copiar modelos, sem copiar os modelos de
Serviço Social de Menores, sem copiar o modelo do Juizado de
Menores, muito menos da Funabem, que era vista por nós como
uma vitrine para a gente trabalhar, treinar gente. {...} ...porque
havia o Dr. Mario Altenfelder e ele queria usar a nomenclatura
Febem São Paulo, Febem Pará, Febem Bahia, e nós não
queríamos entrar nessa, nós queríamos a Pró-Menor: São Paulo
é diferente (depoimento, 2002).

Nessa perspectiva, em 27 de fevereiro de 1973, o Diário Oficial do Estado

de São Paulo publicava o pronunciamento do governador Laudo Natel

anunciando o início da reorganização da área, a matéria com o título “Governador

anuncia reformulação radical na assistência ao menor” dizia:

Uma radical reformulação no atual sistema de atendimento ao


menor abandonado ou infrator, com a implantação de uma política
estadual que defina concretamente os programas a serem
executados no setor, foi anunciada ontem pelo governador Laudo
Natel, durante inspeção que fez ao Recolhimento Provisório de
Menores e à Divisão de Atendimento aos Menores, da Secretaria
da Promoção Social. As novas diretrizes governamentais prevêem
a progressiva passagem da incumbência de cuidar do menor
abandonado a entidades particulares, sob a orientação do Estado
para que os estabelecimentos da Secretaria da Promoção Social
se concentrem na assistência ao menor infrator, funcionando
como centros de recuperação, capacitação profissional e
295
reintegração social, e não mais como locais de segregação. “São
Paulo não tolerará mais situações como esta, em que menores
desassistidos pela família e pela sociedade fiquem encarcerados,
tratados como delinqüentes incorrigíveis”, disse o governador
Laudo Natel ao percorrer, em companhia do secretário Mario
Romeu de Lucca, da Promoção Social, as superlotadas
dependências do Recolhimento Provisório de Menores (DIÁRIO
OFICIAL DO ESP, 23/02/73).

Nos meses seguintes tomou forma a proposta de criação da Fundação

Paulista de Promoção Social do Menor - PRÓ-MENOR com a colaboração de

vários profissionais de Serviço Social do quadro do Juizado de Menores, entre os

quais João Batista Adduci que atuava no RPM e Suraia Daher, do COF. Entre os

dias 22 e 26 de outubro de 1973, realizou-se em São Paulo a XII Semana de

Estudos do Problema de Menores. Em seu discurso na abertura dos trabalhos, o

Dr. Adriano Marrey anunciava a passagem da estrutura do Juizado para o

Executivo:

...como decorrência de quanto se tem discutido nestas Semanas


de Estudos, especialmente na XI Semana, o Egrégio Tribunal de
Justiça, por seu proclamo Presidente, Desembargador Tácito
Morbach de Góes Nobre, com a aprovação do Egrégio Plenário,
promoveu a transferência para a Secretaria da Promoção Social
do Estado, de todos os estabelecimentos destinados a menores,
que vieram, ao longo do tempo, sendo criados à ilharga do
Juizado de Menores, para suprir o descaso a que os órgãos da
administração pública, em sucessivos governos, votaram à
assistência social a eles devida (Anais da XII Semana de Estudos
do Problema de Menores, 1974, p. 45).

A Pró-Menor foi criada oficialmente em 12 de dezembro de 1973, através

da Lei Estadual N. 185 e assumiu todas as unidades executivas do Juizado de

Menores: as casas de recepção, triagem e permanência, incluindo infra-estrutura,

mobiliário, quadro de pessoal e dotação orçamentária. Permaneceu como única

296
atividade executiva no Juizado, o Serviço de Colocação Familiar, programa

pioneiro que resistiu ao expurgo naquele momento. O Dr. Marrey, no mesmo

discurso, falou sobre as funções do Juizado a partir daí:

Colocou, portanto, o Egrégio Tribunal de Justiça, em ocasião


azada, à disposição da Secretaria de Promoção Social, os
serviços e correspondentes dotações orçamentárias,
permanecendo o Juizado com o exercício exclusivo da
Corregedoria Permanente, mesmo em relação aos
estabelecimentos situados fora da Capital, ou seja, continuou o
Juizado da Vara de Menores com a competência própria de suas
funções, fixada no Código Judiciário e na Lei de Organização
Judiciária, com plena autonomia para orientar os serviços sociais,
sem com eles comprometer-se (idem, p.46).

Vale aqui chamar a atenção para o fato de que a criação da Pró-Menor não

passou despercebida pelos gestores da Política Nacional. Nessa mesma XII

Semana de Estudos, na solenidade de encerramento, para a qual foi convidado o

presidente da FUNABEM, Dr. Mário Altenfelder, podemos observar a maneira

polida mas contundente com que ele se referia à Pró-Menor e sua relação com a

política nacional:

No Brasil, a política nacional do bem-estar do menor foi planejada


e estruturada visando o atendimento da criança brasileira, onde
quer que ela se encontre, resguardando-a, protegendo-a . É uma
política ampla. Abrange a órbita estadual, municipal, respeitando
as fronteiras de suas autonomias. Há, sem dúvida, um direito de
natureza ordinária que a rege e disciplina, alicerçado na
Constituição Federal, mas, as unidades estaduais e municipais,
nos círculos de suas necessidades peculiares e próprias, podem
suprir as deficiências que por ventura se apresentem. Assim, não
são afastadas; são convocadas, pois, o objetivo e a finalidade a
que se propõe não se situa na parte, mas, no todo, ou seja, na
sociedade de um modo geral. Do esforço que for desenvolvido
nas três parcelas políticas, do ajuste e harmonia que nelas se
processar, no que tange ao bem-estar do menor, uma constante é
preciso não esquecer: trata-se de uma “política nacional” (Anais
da XII Semana de Estudos do Problema de Menores, 1974, P.
380).
297
No interior do Juizado, a mudança era esperada diante do quadro que se

estabeleceu. Os entrevistados falam sobre a decisão tomada pelo Judiciário.

Suraia Daher diz: ...o Dr. Arthur foi obrigado, pressionado a entregar as obras

para o executivo, sob a dita desculpa de sempre, o Poder Judiciário só julga..

(depoimento, 2003). E João Batista Adduci também fala sobre isso: Numa

“penada” ele passou os Assistentes Sociais, passou tudo para lá, funcionários

administrativos, passou tudo para a Secretaria de Promoção Social e ficou com

um Juizado esvaziado (depoimento, 2002). Therezinha Zabirowski Davidovich,

por sua vez, fala um pouco do “clima” que reinava entre todos:

Havia um momento político favorável, o Juiz não podia fazer


nada, absolutamente nada. Agora, havia todos aqueles cochichos
políticos, entendeu? Essa coisa, um que extrapola, o outro que
não faz, aquela coisa assim: eu não faço, mas tenho raiva de
quem faz, acho que era bem isso, eu não sei, não faço e tenho
raiva de quem faz. Acho que era esse o clima e a finalidade. Entre
o COF e o estabelecimento que fazia o mesmo atendimento,
então tinha rivalidade, tinha comparações e isso se estendia
também aos profissionais das equipes, quer dizer, não era uma
coisa que existia só ao nível de Juízes e Governador, Secretários
de Estado, não... {...} O pessoal do judiciário sempre foi visto
como um grupo de elite, eu não sei se a gente mesmo se
outorgava essa condição, eu acho que sim, a gente se sentia
melhor, a gente se sentia mais qualificado, tinha realmente isso,
sabia? Eu não sei se também era auto-estima, a gente sabia o
que estava falando, e o pessoal do executivo não tinha força
(depoimento, 2003).

E ela continua expondo como repercutiu entre os assistentes sociais do

Juizado toda aquela mudança para o Poder Executivo:

E aí foi um susto, de um lado ainda os Assistentes Sociais


pensavam assim: gente, vamos para o executivo, o executivo tem
quadro, pode ser que a gente possa fazer carreira. Não houve
nenhuma rebelião, não houve, foram, e eu acho que de uma
maneira tranqüila. Eu estava no Gabinete e o Juiz foi realmente
298
muito transparente. Um ou outro funcionário que a gente sabia
que tinha uma contribuição muito grande para com o que ia sobrar
foi pinçado, mas no todo 99,9% foi, eu acho que não foram
pinçados meia dúzia de funcionários (idem).

A passagem da maior parte dos equipamentos do Juizado de Menores,

primeiramente para a Secretaria de Estado de Promoção Social e, logo em

seguida, para a Fundação Pró-Menor contou com a colaboração da equipe

técnica do Juizado, que diante das pressões e críticas internas e externas viu, na

criação da Fundação, uma alternativa para o conflito que se havia instalado entre

Executivo e Judiciário. Eles colaboraram para que essa passagem fosse feita sem

maiores traumas visto que havia a perspectiva de que alguns elementos do

Juizado, de confiança do juiz de menores, passariam a integrar os quadros da

Fundação. Um deles foi João Batista Adduci que figurava entre os poucos

“pinçados” da estrutura que foi transferida para o Executivo, mas que, mesmo

mantendo-se como parte do quadro de funcionários do Judiciário, foi

comissionado para atuar na Secretaria Estadual de Promoção Social.

Eles acreditaram que a Pró-Menor poderia manter a flexibilidade

administrativa e a pouca permeabilidade às injunções políticas que possuía o

Judiciário, ao mesmo tempo que centralizaria ações da área, com dotação

orçamentária considerável, o que permitiria o desenvolvimento de uma proposta

de trabalho tecnicamente séria. A valorização excessiva dos aspectos técnicos -

no sentido do desenvolvimento de instrumentos e métodos de intervenção

profissional - era predominante no meio profissional do Serviço Social no início

dos anos de 1970 e o corpo técnico do Juizado de Menores não fugia à regra. A

299
falta de uma avaliação política mais ampla da situação acabou trazendo

conseqüências negativas para alguns deles.

A vitória parcial obtida pelos “paulistas” com a criação da Pró-Menor durou

muito pouco tempo: dois anos e meio. Com a mudança do governador do Estado

- assumiu Paulo Egydio Martins - mudou a condução da Secretaria Estadual de

Promoção Social. Para o cargo foi convidado ninguém menos que o Dr. Mario

Altenfelder, ex-presidente da FUNABEM, que tratou de extinguir a Fundação Pró-

Menor, transformado-a em Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor – FEBEM-

SP, através da Lei N. 985 de 26 de abril de 1976.

Com a mudança acirraram-se os problemas entre as equipes do antigo

Serviço Social de Menores e do Juizado de Menores no interior da Fundação

resultando na destruição das propostas de trabalho das unidades que tinham sido

do Juizado, destituição dos cargos de direção e subordinação total das unidades

ao modelo da FUNABEM. João Batista Adduci fala sobre o episódio:

Porque nós acabamos colocando os Assistentes Sociais nos


locais já existentes e, de certa forma comandados pelo pessoal do
Serviço Social de Menores, que era o velho pessoal do Dr. Mario
Altenfelder, que já havia sido Secretário desde 1964. ele já tinha
atuado no Plano de Desenvolvimento do Menor, com o Carvalho
Pinto. Eram os rivais da Vara de Menores. Eles passaram a
comandar isso tudo e ele, o Dr. Mario Altenfelder, investiu muito
em gente do Serviço Social de Menores na Funabem no Rio, eles
pagavam estadia durante um mês, dois meses (depoimento,
2002).

A retaliação atingiu pessoas como Suraia Daher que foi destituída da

coordenação do COF após o desmonte de parte das instalações da unidade. Boa

parte dos profissionais transferidos do Juizado de Menores para o Executivo foi,

aos poucos, adaptando-se à nova situação e se incorporando à estrutura da


300
FEBEM/SP e da Secretaria Estadual de Promoção Social. Vários foram treinados

nas instalações da FUNABEM e aqueles que eram dos quadros do Judiciário,

como João Batista Adduci, acabaram retornando ao Juizado de Menores algum

tempo depois.

4.2.2. A reestruturação do Juizado de Menores e a construção da

função de perito

Em virtude da passagem das unidades de atendimento para o Executivo, a

estrutura do Juizado de Menores da Capital ficou bem mais enxuta. Therezinha

Zabirowski Davidovich fala sobre a idéia que sustentou o que deveria e o que não

deveria passar para o Executivo:

Ficou Plantão, ficou a Colocação Familiar, ficou o Gabinete. Não


foram tantos os serviços dentro da Vara, foram mais os
equipamentos, os estabelecimentos é que foram. {...} ...a crítica
era aos estabelecimentos. Quem estava ficou onde estava, quem
foi foi o pessoal do COF, do RPM, do CRP, os estabelecimentos
que atendiam menores, todo o resto não foi considerado como
extrapolando a função judicante, nem a Colocação Familiar. Então
eu acho que pode por com absoluta certeza que o que
incomodava eram as casas, as casas é que foram (depoimento,
2003).

O relatório de atividades produzido pelo gabinete do juiz titular da Vara

arrolava os serviços existentes e explicava o funcionamento do Juizado de

Menores que ficou estruturado a partir de então com: um Serviço de Gabinete, um

Serviço de Plantão Permanente, um Serviço de Administração do Comissariado,

um Serviço de Colocação Familiar, um Serviço de Menores Desaparecidos, um

Serviço de Autorização e Fiscalização do Trabalho do Menor, um Serviço de


301
Relações Públicas, uma Seção Anexa à Curadoria, além da estrutura

administrativa de suporte e dos serviços de cartório.

Com exceção do Serviço de Relações Públicas, que nesse momento era o

responsável pela distribuição de bolsas de estudos, todos os demais serviços

contavam com assistentes sociais, incluindo o Serviço de Administração do

Comissariado cuja função era detalhada pelo citado relatório:

A denominação desse serviço não corresponde às atividades


realizadas pelo mesmo. Destina-se ele:
 ao estudo e prosseguimento dos casos, quando
expressamente determinado no processo pelo Juiz de Menores.
Referido trabalho se realiza através de entrevistas e visitas
domiciliares que atingiram em 1974 a média de 242 mensais;
 e o atendimento de menores apresentados com ofícios ao
Juiz de Menores e de partes que recorrem à sede da Vara
solicitando as mais diversas providências. A média desse
atendimento foi de 613 por mês, no exercício de 1974;
 esse atendimento é sempre realizado por assistente sociais.
(Relatório de Atividades do Juizado de Menores, Serviço de
Gabinete, maio/1975, do arquivo pessoal de T.Z.D).

O Serviço de Colocação Familiar, em suas nove agências, manteve a

atribuição da concessão dos benefícios, que no ano de 1974 atingiram 44.781

menores e 12.103 famílias, além de outros atendimentos, como o relatório

informa: Ainda incumbe ao Serviço de Colocação Familiar o atendimento das

partes que recorrem ao Juizado de Menores para obter adoção, legitimação

adotiva, tutela, guarda, registro civil, suprimento de idade e de consentimento,

bem como, os pedidos de internação de menores (idem).

Mesmo com a saída de um grande volume de profissionais ligados às

unidades de atendimento, os assistentes sociais mantiveram-se presentes em

praticamente todos os setores restantes do Juizado que mantinham contato direto

302
com a população. Não encontramos dados disponíveis dos anos de 1974 e 1975

relativos ao número de profissionais que saíram e que ficaram, mas estima-se

que somente o Serviço de Colocação Familiar tinha perto de cinqüenta

assistentes sociais.

Essa estrutura permaneceu enquanto esteve à frente do Juizado o Dr.

Arthur de Oliveira Costa. Em novembro de 1977, quando ele deixa a função,

assume o cargo o Dr. Nilton Silveira, ex-juiz de menores de Bauru, que se

destacou como um defensor das atividades do Comissariado de Menores naquela

comarca.

A primeira ação do novo juiz de menores titular da capital foi exatamente

dar incremento às atividades do Plantão Permanente do Comissariado de

Menores, retomando o seu funcionamento em 24 horas78, excluindo dele os

assistentes sociais. Segundo Therezinha Zabirowski Davidovich, o juiz veio ..com

uma orientação do Tribunal do que ele poderia ou não fazer (depoimento, 2003).

Em janeiro de 1978 o Dr. Nilton fez uma palestra em que anunciou o seu

plano de trabalho para o Juizado de Menores. Propunha a redução do número de

comissários de menores e ao mesmo tempo uma ação mais atuante dos mesmos;

propunha a criação de uma bolsa de estudos para menores trabalhadores e

estabelecia uma portaria em que autorizava menores a trabalhar como

cobradores de ônibus. Sugeria o reforço das atividades do Serviço de Proteção ao

Trabalho do Menor e também anunciava uma série de portarias liberalizantes com

relação à freqüência de jovens em bailes e demais eventos.

78
O Dr. Arthur de Oliveira Costa havia reduzido o horário de atendimento desse Plantão que deixou de
funcionar durante a madrugada.
303
Com relação aos serviços técnicos e ao atendimento à população ele

determinou a ampliação do Serviço Social da sede com um novo nome: Serviço

de Administração do Comissariado, e com a seguinte orientação:

 ampliação de suas atribuições permitindo-lhe o


atendimento de todos os casos encaminhados pelo Plantão
Permanente do Comissariado de Menores, tais sejam: os
pedidos de adoção, tutela, legitimação adotiva, internação,
além das denúncias contra responsáveis, contra menores
ou contra instituições, etc., cabendo-lhe ainda, o
prosseguimento dos casos cujos processos tramitam na
Vara (Transcrição da Palestra, Gabinete do Juiz, arquivo
pessoal de T.Z.D).

Foram, então, retiradas algumas atribuições do Serviço de Colocação

Familiar (adoção, tutela, internação, entre outras) que passaram a ser

desempenhadas pelo Serviço Social da sede. A Colocação Familiar sofreu

algumas modificações. Sobre essas modificações fala João Batista Adduci, que

passou a dirigir o Serviço no lugar de José Pinheiro Cortez:

Havia um interesse do Tribunal em acabar, naquele momento,


com o Serviço de Colocação Familiar, O Nilton Silveira não deixou
acabar. E exigiram a saída do Cortez...{...} O serviço já estava
meio acéfalo, os valores eram baixos. Aí o Dr. Nilton Silveira não
deixou se extinguir o serviço como o Tribunal queria. {...}... a
verba estava atomizada, a ponto de algumas pessoas, alguns dos
assistidos me darem um testemunho que o dinheiro não dava
nem para comprar a pipoca que as crianças pediam na fila da
Caixa Econômica. {...} Foi feito esse estudo e eu fiz uma proposta
ao Juiz: mudança das agências, de sete ou oito para só quatro,
agrupar pessoal dessas agências de acordo com o bairro de
residência ou que mais convinha a eles, e também a não
atomização da verba, quer dizer, zerar o auxílio permitindo que a
pessoa requisitasse novamente, ou começar a dar de novo, mas
dar uma quantia suficiente para a pessoa fazer frente à melhor
qualidade de vida da criança, E uma visão mais sistêmica da
família, não uma visão só assistencial, é importante na Colocação
Familiar dar o dinheiro, mas eu achava mais importante que os
Assistentes Sociais fizessem um trabalho mais profissional com
as famílias (depoimento, 2002).
304
Em conformidade com a proposta de Adduci, o Juiz anunciou as mudanças

para o Serviço de Colocação Familiar, limitando sua ação e voltando-o mais

especificamente para as famílias que recebiam os benefícios, como ele apontou

em sua palestra:

 redução de suas atribuições para o atendimento exclusivo


dos casos previstos na Lei 560/49 (subsídios à famílias
numerosas, como forma de prevenir o abandono dos
menores visando sempre e prioritariamente, a promoção
dessas famílias);
 revisão de todos os casos, pressupondo a sua reavaliação;
 maior dinamização na sistemática de trabalho, com vistas a
uma maior rotatividade dos casos atendidos;
 redução das 8 agências desfalcadas de pessoal técnico
administrativo, para 4 - nas zonas Norte, Sul, Leste e
Oeste do município – suficientemente agrupadas para fazer
face ao atendimento das famílias que necessitam desse
auxílio. (Transcrição da Palestra, Gabinete do Juiz, arquivo
pessoal de T.Z.D).

Segundo João Batista Adduci, o volume de pessoas atendidas pelo Serviço

de Colocação Familiar foi drasticamente reduzido, embora tenha ampliado, e

muito, a qualidade do benefício concedido e o acompanhamento da equipe

técnica. Passou de ...umas oito mil famílias para mil e quinhentas (depoimento,

2002), o que não evitou que surgissem novos problemas, como ele mesmo diz:

...a gente ia percebendo que se tornava um serviço elitista, de assistencialista

passou a elitista, porque atendendo com mais dinheiro às necessidades das

pessoa, feliz era aquele que entrava (idem).

Com as alterações realizadas pelo Dr. Nilton Silveira a partir de 1978, a

estrutura do Juizado de Menores sofreu uma redução que pode ser claramente

visualizada no gráfico que construímos a partir de um relatório produzido naquele


305
ano pelo Serviço do Gabinete do juiz (do arquivo pessoal de T.Z.D), e que

apresentamos na página seguinte79. Houve uma redução das atividades com

concentração nas ações propriamente judicantes e de fiscalização do trabalho do

menor.

No entanto o volume de atendimentos do Juizado não parou de crescer e o

juiz de menores continuou atuando como um importante agente de intervenção na

política social da área, uma vez que, a nova Lei de Menores (de 1979) ampliava

os seus poderes em relação a sua competência para interferir na vida da cidade,

no que diz respeito à normatização do trabalho do menor, das relações familiares,

etc.

Os assistentes sociais, tanto aqueles que atuavam diretamente no gabinete

do juiz, como os demais, continuaram atuando como assessores nessas

decisões, opinando, sugerindo, aconselhando o juiz nas questões que diziam

respeito às diretrizes gerais de sua ação, como diz Beatriz Cardoso Esteves

Franco:

...cada Juiz escolhe a sua diretriz, enquanto ele estiver na Vara.


{...} É claro que ele é que define a política social, especialmente
na Vara de Menores e no interior, e para isso o Assistente Social
é seu assessor e vai dizer para ele: “eu trabalho aqui em Aldeia
da Serra...” e ele vai dizer: “a partir de hoje eu acho que aqui em
Aldeia da Serra tem que ser assim”, e você vai dizer: “não Dr.,
não pode por isso, isso, isso”. Como eu fiz com aquele moço, o
Juiz tinha prendido o rapaz porque deu uns petelecos no menino,
o Juiz não conhecia a realidade daquele bairro, daquele local,
daquele trabalhador, que vai sem comer e que volta sem comer.
Para isso é que nós temos que dar subsídios. Quando o Juiz diz
assim: “a política de atendimento nessa situação eu gostaria que
fosse assim”, você vai dizer: “Dr, se fizermos assim vai acontecer
isto, isto e isto, se nós fizermos assado vai acontecer isso, isso e

79
No gráfico é possível visualizar a existência da COMENOR- Associação de Proteção ao Menor do
Comissariado de Menores de São Paulo, a quem ficou subordinada a captação e concessão de bolsas de
estudos. Nesse setor não atuavam assistentes sociais.
306
isso”. Daí a importância da assessoria ao Juiz (depoimento,
2003).

Passada a crise ocasionada pela saída das unidades de atendimento, as

atividades dos assistentes sociais foram ganhando nova expressão e, voltando-se

mais para a ação judicante, o Serviço Social investiu em novas modalidades de

intervenção. Uma delas foi a construção da idéia de que o assistente social era o

“perito do social”, feita por José Pinheiro Cortez a partir da demanda pela atuação

de assistentes sociais nas Varas de Família.

Segundo Beatriz Cardoso Esteves Franco, vários Juizes das Varas de

Família buscavam profissionais de fora do Judiciário para elaborar estudos sobre

situações que se lhes apresentavam. Ela diz:

Antes eles não contavam com Assistente Social do Fórum.


Nomeavam, era muito comum nomear Assistente Social da Santa
Casa, da Casa São José que tinha Assistentes Sociais
competentes {...} Em 1956 já tinha Assistente Social de Família,
por uma necessidade que os Juízes sentiam de saber um pouco
mais daquela situação familiar além do que os Advogados das
partes falavam (depoimento, 2003).

Embora em número pequeno, em situações extraordinárias ou mesmo

eventuais, desde a entrada do Serviço Social no Judiciário, em 1949, assistentes

sociais eram requisitados por alguns juízes de Varas de Família para elaborarem

estudos sociais de casos, principalmente em situações que envolviam crianças

como no caso de separação de corpos, guarda de filhos, regulamentação de

visitas, etc. Mas, foi somente por volta de 1978, 1979, que se discutiu a

formalização e ampliação desse trabalho.

Num movimento paralelo ao que ocorria no Juizado de Menores, José

Pinheiro Cortez - que era assistente social e advogado e havia saído da


307
coordenação do Serviço de Colocação Familiar-, contando com o apoio de alguns

juízes das Varas de Família construiu uma justificativa para propor a contratação

de assistentes sociais para as Varas de Família. Essa justificativa posteriormente

passou a constar como anexo do Provimento N. 136, de 15 de abril de 1980, do

Conselho Superior da Magistratura que fundamentava e normatizava a atuação

desses profissionais.

No documento ele estabelecia uma relação entre o Direito e o Serviço

Social como duas formas distintas de intervenção na realidade e ressaltava que o

Direito vinha superando a perspectiva individual e ampliando a perspectiva social

diante dos problemas sociais. O Serviço Social, assim como o Direito, se

posicionava a partir de parâmetros próprios, sobre esses problemas. No

documento consta:

Do mesmo modo que o Direito, o Serviço Social se posiciona ante


os fatos: considera-os como uma realidade, mas não se acomoda
a eles. Constata as distorções, investiga-lhes as causas e
analisa os efeitos, não, porém, no plano puramente
sociológico de verificação, mas ao nível de intervenção
deliberada. Intitulando-se agente de mudança, ou melhor, pondo-
se à disposição do homem para assessora-lo em suas intenções
e práticas de transformação, o Serviço Social possui, obviamente,
um quadro referencial com o qual mede as estruturas existentes.
E, se verifica, por exemplo, que a instituição familiar está em
crise, não se limita a afirma-lo, mas dispõe-se, por opção
profissional, a intervir nessa realidade.
Na convergência desses objetivos, o Serviço Social pode tornar-
se instrumento válido para o direito. Não se limitando ao campo
deste, é, por isso mesmo, adequado equipamento à disposição da
Justiça social {grifo nosso] (Anexo ao Provimento 136/80 do
C.S.M).

E José Pinheiro Cortez concluía dizendo:

Esta exemplificação, embora não exaustiva, serve para indicar as


possíveis modalidades de ação do Serviço Social no campo

308
jurídico, especialmente naqueles em que o significado social do
Direito se torna crescente.
Definido o papel do assistente social como perito do social a
serviço da função judicante, emitindo pareceres técnicos que
contribuem para a decisão do Juiz – que, no entanto, não lhes
está adstrito -, é, conveniente precisar as diferentes situações em
que é chamado a intervir. Anote-se, porém, que a enumeração
das ações ou simulações apresentadas é apenas exemplificativa,
pois com freqüência, novas ações podem pedir sua participação
técnica.
São assim enumeradas no campo da família e do menor: a)
destituição do pátrio poder; b) adoção; c) legitimação adotiva; d)
tutela; e) curatela; f) interdição; g) busca e apreensão de
menores; h) guarda de filhos; i) cláusulas de desquites; k)
regulamentação de visitas. {grifo nosso}

José Pinheiro Cortez formulou pela primeira vez a idéia de que, no interior

do Judiciário, o assistente social pode transformar-se num perito do social, mas

um perito com características especiais, pois visa a intervenção, não apenas a

apreciação da situação. Ele utilizou-se de uma terminologia própria do meio

jurídico (o perito) para justificar a abertura de uma nova frente de trabalho para o

assistente social. Segundo Therezinha Zabirowsli Davidovich a atuação do

“perito” está prevista em lei:

O Código Civil faculta à autoridade judiciária, ao Juiz, se valer de


conhecimentos de experts sobre determinadas áreas, é o
engenheiro, o contador, o médico, esses profissionais são
avocados pelo Juiz para subsidiá-los com conhecimento da sua
área específica, e nessa condição eles são chamados de peritos.
É o perito contador, é o perito engenheiro, é o perito médico. E o
Assistente Social quando passou a fazer o estudo social, até esse
termo foi usado pelo Dr. Cortez na justificativa do Assistente
Social na Vara da Família, ele disse que o Assistente Social era o
perito do social, essa expressão foi dele, consta de documentos,
perito do social, um era o perito da contabilidade, da medicina e
esse era o perito do social. Então os Assistentes Sociais
judiciários passaram a se nomear peritos do Juiz (depoimento,
2003)80.

80
As atribuições do perito judicial estão estabelecidas no Código de Processo Civil em seus artigos 145 e
421, e também na Lei 8455 de 28/08/1992, que introduz algumas modificações nesse Código.
309
As características específicas do assistente social apontadas por Cortez,

isto é, um profissional que aprecia a situação mas também intervém, se somaram

ao fato de que a profissão já mantinha uma atuação profissional reconhecida há

algumas décadas - diferentemente da Psicologia que somente obtém esse

reconhecimento na década de 1960 - e havia demonstrado sua capacidade de dar

respostas às necessidades do Judiciário. Beatriz Cardoso Esteves Franco fala

sobre este aspecto: Nós {Assistentes Sociais} estamos na ativa desde 1936 no

Brasil. Então éramos muito mais reconhecidos e já tínhamos um pouco de

tradição profissional (depoimento, 2003).

Como conseqüência da intervenção de José Pinheiro Cortez e da pressão

dos juízes interessados, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo abriu,

ainda em 1979, concurso público para o provimento de 22 cargos de assistente

social para as 10 Varas de Família e Sucessões do centro e mais 12 para as

Varas Distritais81. Sobre a entrada desses profissionais fala Therezinha

Zabirowski Davidovich:

Eu acho que para os 10 que foram para a Vara Central, que eram
10 Varas, e os 12 que foram para as Distritais, foi realmente um
desafio. Esse pessoal pioneiro é o pessoal que se formou em
1960, 70. Foram profissionais experientes. Tinha uma Beatriz
Cardoso Esteves Franco, tinha o Efraim Zular... {...} Agora, exigia
muito, eu acho que tinha profissionais muito bons nessas Varas,
nas Distritais também como uma Ana Célia Roland Guedes Pinto.
(depoimento, 2003)

O trabalho do assistente social nas Varas de Família abriu uma nova área

de intervenção para o Serviço Social no interior do Judiciário, um tipo de

81
Este constituiu-se no primeiro concurso público para assistentes sociais no Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo. Existem notícias da realização de um concurso anterior, em 1967. No entanto, o Departamento
Pessoal do Tribunal de Justiça não possui esses registros. A informação que nos foi dada é que, a partir de
1967, passou a ser exigido concurso público para admissão no serviço público e, é possível que alguns
concursos tenham sido feitos para formalizar a presença dos profissionais que atuavam até então.
310
intervenção mais voltada para a ação judicante, de caráter menos assistencial

como era a ação no Juizado de Menores, justifica Beatriz Cardoso Esteves

Franco:

...a Vara de Menores é uma Vara administrativa, não tem


necessidade do advogado! Quando o advogado entra com um
pedido de tutela, independente, ele entra porque o cliente quer,
porque não precisa. Você vai lá e pede a tutela do Joãozinho da
Silva no balcão, certo?! Agora, nas Varas de Família é diferente,
não entra nenhum processo, nenhuma ação sem a presença do
advogado, então nesse caso o Serviço Social e depois o Serviço
de Psicologia entravam para assessorar o Juiz e dar a ele
subsídios psicossociais para que ele melhor pudesse julgar, não
apenas se ater à fala de cada uma das partes através do
advogado. Ele tinha uma visão imparcial da situação quando era
nomeado uma Assistente Social e depois um Psicólogo
(depoimento, 2003).

Mas, além desse subsídio ao juiz, ao Serviço Social nas Varas de Família

coube também assumir outras atividades, como um plantão para orientação da

população que procurava a Vara, e o acompanhamento, nos finais de semana,

das visitas de pais e demais familiares, aos menores, realizadas por ordem

judicial. A justificativa para a realização dessas atividades de plantão foi assim

construída por José Pinheiro Cortez, no anexo ao Provimento N. 136/80:

A procura de orientação de pessoas, especialmente das classes


mais carenciadas, indica a conveniência de um plantão diário, das
13 às 17 horas, nos dias úteis, no edifício do Fórum, sala de
atendimento dos assistentes sociais. A esse plantão serão
encaminhadas as pessoas que procuram os Juizes, Curadores ou
simplesmente qualquer setor desejosas de orientação ou consulta
social. {...} O plantão terá assim uma função social relevante
pondo a Justiça em contacto direto com a população,
especialmente os grupos e classes carentes.

Ao mesmo tempo que se abriu essa nova frente de trabalho para o Serviço

Social nas Varas de Família, um outro movimento de afirmação profissional

ocorria no interior do Juizado de Menores. Em outubro de 1979, com o apoio do


311
juiz titular, foi elaborado um anteprojeto de lei, por um grupo de assistentes

sociais e demais funcionários do Juizado que seria apresentado para a

presidência do Tribunal de Justiça, visando estruturar os serviços técnicos e

administrativos do Juízo da Vara de Menores.

O anteprojeto previa a criação de setores, serviços e diretorias,

formalizando dentro da estrutura do Juizado de Menores e do Tribunal de Justiça

as atividades desenvolvidas, dando aos profissionais que exerciam funções de

coordenação o devido reconhecimento de suas ações de direção, inclusive do

ponto de vista da remuneração.

Não havia intenção de alterar a organização geral do Juizado, era apenas

uma tentativa de formalizar o que já existia de fato. As poucas mudanças se

resumiam a uma nova nomenclatura para alguns serviços já existentes e a

introdução de um Serviço de Psicologia82. Propunha também a ampliação do

número de assistentes sociais existentes no Juizado com o objetivo de completar

as equipes existentes, passando dos 80, que já se encontravam em atuação, para

106.

A reação da presidência do Tribunal de Justiça à proposta de estruturação

do Juizado de Menores foi intempestiva. A proposta estava claramente em

dissonância com o processo de descentralização e atomização das ações do

Poder Judiciário, pois tentava consolidar uma estrutura centralizada, que dava

82
Alguns meses antes - em julho de 1979 - um grupo de estagiários do curso de Psicologia iniciou um
trabalho no Serviço de Colocação Familiar com vistas a desenvolver uma proposta de intervenção no
Judiciário. Ao longo dos anos a atuação dos psicólogos no Judiciário foi-se consolidando, de maneira que
hoje eles compõem as equipes técnicas, juntamente com os assistentes sociais, em boa parte dos setores onde
estes atuam. Mais informações sobre o desenvolvimento desse trabalho encontram-se no texto “Histórico do
Serviço de Psicologia no tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”, de Maria Antonia Pires dos Santos
Cerqueira e Renata Mancini Ferreira (In: MANUAL DE INICIAÇÃO FUNCIONAL PARA ASSISTENTES
SOCIAIS E PSICÓLOGOS JUDICIÁRIOS, 1991)
312
muitos poderes a um juiz único, o juiz titular da Vara de Menores, e reforçava uma

justiça de caráter assistencial. João Batista Adduci fala da reação do Tribunal: Aí

nós fizemos o quadro e entregamos o quadro. Quando se abriu o organograma no

Tribunal, o presidente, dizem, deu pulos. “Nunca! Isso tem que acabar, tem que

acabar!” Dizem que ele ficou bravo. Tinha que acabar. Aí foi o fim, Nilton Silveira

acabou saindo (depoimento, 2002).

O Tribunal de Justiça estava preparando uma nova reestruturação que

previa descentralizar ainda mais os serviços de prestação de justiça. Equipar o

Juizado de Menores e reforçar aparelhos assistenciais não estava nos planos da

organização, de maneira que os assistentes sociais continuaram exercendo

funções de direção, chefia e coordenação sem remuneração ou formalização e

somente foram obtendo esse reconhecimento através de ações judiciais, de forma

pontual e individualizada, como fez João Batista Adduci:

Entrementes, eu entrei com o processo. Eu fiz o pedido


administrativo de reconhecimento do meu cargo de Diretor da
Colocação Familiar, pedindo os vencimentos que me diziam
respeito. {...} Tendo eu ganho, fui o primeiro que ganhou, porque
eu tinha as portarias, a minha história no Juizado. Com esta
portaria abriu para o Juizado de Menores as portas das
reivindicações. Aí todos começaram a ganhar os processos,
menos os meus encarregados da Colocação Familiar. Eles não
foram à frente. {...} Porque eles foram criados dentro daquela
filosofia: vamos trabalhar, não dá certo, etc... Eles tinham
portarias de nomeação como encarregados das agências!{...}
(depoimento, 2002).

A ação individualizada de alguns desses profissionais forçou o

reconhecimento das funções de direção e chefia que o Serviço Social

desempenhou ao longo dos anos no Juizado e auxiliou a consolidação da

profissão na estrutura do Judiciário. Também contribuiu para a formalização do


313
trabalho profissional dos assistentes sociais no Judiciário a introdução, no Código

de Menores de 1979 (Lei 6.697/79), do artigo 4º, inciso III que indicava que a

aplicação da lei deveria levar em consideração também ....o estudo de caso,

realizado por equipe de que participe pessoal técnico, sempre que possível.

Independentemente disso o Tribunal de Justiça estava determinado a

concluir o desmonte da estrutura assistencial do Juizado de Menores e para essa

tarefa nomeou um novo juiz titular no final de 1980, o Dr. Antonio Luis Chaves

Camargo.

4.2.3. A descentralização das Varas de Menores e a expansão do Serviço

Social

No período em que o Juizado de Menores da capital esteve sob a direção

do Dr. Chaves Camargo foi concluído o processo de descentralização da justiça

na capital, e a Vara de Menores deixou de ser uma Vara única. Através da Lei N.

3.947 de 08 de dezembro de 1983, que altera parcialmente a organização

judiciária da comarca de São Paulo, foram criados os Foros Regionais da capital.

Em número de doze, distribuídos nas várias regiões da cidade, cada Foro

Regional foi dotado de Varas Cíveis, Criminais e de Família em números que

variavam de duas a oito Varas, conforme a demanda e a população de

abrangência de cada Foro. Cada um deles foi dotado também de uma Vara de

Menores83. Com a criação desses Foros ficaram extintas as antigas Varas

83
Foram criadas também quatro Varas Especiais de Menores situadas próximo ao complexo da Febem, no
Zona Leste, cabendo-lhes a competência nas infrações penais imputadas a menores de dezoito anos (art. 5º da
Lei 3974/83)
314
Distritais com atribuições limitadas, e a prestação da justiça comum na capital foi,

em boa parte, regionalizada.

Tendo por base essa descentralização, o Juizado de Menores deixaria de

existir como uma unidade central e o juiz de menores da Vara Central deveria

passar a ser apenar mais um juiz de menores, com as mesmas atribuições dos

demais juízes dos Foros Regionais, ou seja, atuando sobre uma determinada

área da cidade, sem a capacidade de determinar ações de abrangência muito

grande ou políticas para a área. Essa era a intenção do Tribunal já há vários

anos, mas para isso seria necessário ainda concluir o desmonte da estrutura

assistencial do Juizado, o que tornou o período que vai de 1980 até 1985 um

período de transição.

O Dr. Chaves, que havia atuado como juiz de menores na comarca de

Caconde, entrou no Juizado com a missão de modernizar o seu funcionamento. A

concepção de modernização do Dr. Chaves Camargo incluía desburocratização,

agilização dos serviços e redução do caráter assistencial dos trabalhos do

Juizado. Três eram as grandes linhas de intervenção propostas por ele: a

informatização do Juizado de Menores, a implantação de audiências

interprofissionais e a extinção do Serviço de Colocação Familiar. João Batista

Adduci fala das propostas do Dr. Chaves Camargo:

Aí veio para a Vara um Juiz com a determinação de acabar com


tudo, que era o [Link] Luis Chaves Camargo. Primeiro ele
veio querendo informatizar a Justiça. O primeiro setor
informatizado do Tribunal de Justiça foi o Juizado de Menores. O
Serviço Social, a Vara de Menores na rua Asdrúbal do
Nascimento, tinha. E tendo sido diminuído o número de serviços e
setores em funcionamento o Chaves ainda piorou mais quando
ele criou a audiência multiprofissional. Foi uma experiência
interessantíssima, ele estava correto, mas os Assistentes Sociais
315
se sentiram inseguros, porque ele era muito dinâmico e ele
impunha um certo receio. Os Assistentes Sociais tinham muito
medo do que ele pudesse vir a determinar em prejuízo da
categoria, porque ele verbalizava que ele não gostava dos
Assistentes Sociais. Ele verbalizava. Ele passou a gostar de
alguns no decorrer do tempo, e acho que ele saiu do Tribunal com
uma boa impressão da categoria profissional. Mas ele entrou meio
preconceituoso. Alguém disse para ele que Assistente Social
mandava no Juizado, então ele foi lá para por ordem, percebe?
(depoimento, 2002).

Na XIII Semana de Estudos do Problema de Menores, realizada em julho

de 198384, o Dr. Chaves Camargo apresentou o seu trabalho intitulado “O valor

social da informática no campo do direito do menor”, no qual comentava sobre o

programa de informatização da Vara de Menores que havia sido implantado em

1981, e anunciava os primeiros resultados, dos quais destacamos alguns:

A localização instantânea de quaisquer menores internados; a


pesquisa de localização ultra-rápida de quaisquer processos em
tramitação; a notável agilização nos processos de distribuição e
de controle de internações, prazos e medidas, e, de
acompanhamento dos feitos, bem como o cadastramento de
estabelecimentos responsáveis e das multas e eles impostas,
substituindo-se gradualmente a pesquisa nos arquivos
convencionais por pesquisa rápida e segura nos terminais de
vídeo (CAMARGO, 1983, p.73).

Segundo o Desembargador Adriano Marrey, em seu discurso de abertura

da XIII Semana ...Hoje, em quinze minutos uma família pode ter a guarda ou a

tutela de uma criança (ANAIS, 1983, p. 29). Os inegáveis avanços e o pioneirismo

do Dr. Chaves Camargo nessa área tiveram, porém, uma conseqüência nefasta

84
Entre os dias 26 e 31 de julho de 1983 realizou-se a XIII Semana de Estudos do Problema do Menor sob o
patrocínio do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Dez anos depois da última Semana de Estudos, a
de 1973,o Tribunal, sob a presidência do Desembargador Francisco Thomaz de Carvalho Filho, buscava
ressaltar sua gestão de caráter social e a preocupação com os problemas da família e do menor. Todos os
discursos proferidos na solenidade de abertura faziam referência à importância das semanas de estudos desde
1948, num tom mais saudosista que de proposições. Os conteúdos tratados não traziam grandes novidades
nem polêmicas significativas. Esta foi a última Semana de Estudos do Problema de Menores.
316
para a história do Serviço Social no Judiciário, pois ele incluiu em seu processo

de informatização a inutilização de toda a documentação do Juizado de Menores,

destruindo registros históricos importantes, como diz João Batista Adduci:

Eu soube que ele estava queimando, que ele havia mandado os


funcionários cortar todos os processos das sessões técnicas,
porque ele não queria nenhuma documentação, tudo tinha que
ficar no computador, nada de papel do Assistente Social, nada.
Então toda a história do Juizado de Menores estava naqueles
autos, naqueles processos. {...} Acabou com toda a
documentação. Todos os processos. Ele era avesso a papéis, a
processos, a coisas do passado, coisas velhas. Ele trouxe um ar
novo, um vento novo que não se consolidou. Mas o mérito dele foi
trazer essa visão moderna, mas o demérito foi não ter percebido,
não ter sido sensível para com a história. A documentação toda
ele poderia ter guardado, mandado para a Vila Leopoldina no
depósito do Estado. Ele não fez isso, ele destruiu simplesmente
(depoimento, 2002).

Lamentavelmente boa parte da documentação, de relatórios

administrativos e técnicos a processos de organização dos serviços, portarias e

decretos, quase tudo foi destruído. Salvou-se o que foi recolhido pelos

profissionais, estando até hoje em seus arquivos pessoais85.

Outra ação organizada pelo Dr. Chaves Camargo foi a implantação das

audiências interprofissionais. Estas visavam agilizar a tomada de decisões e

aplicação das medidas necessárias. A experiência consistia concretamente na

presença, em audiência, além do juiz e das partes envolvidas, também do

curador, do advogado, do assistente social e do psicólogo. Feitos os devidos

pronunciamentos, e emitidos ali mesmo os pareceres e opiniões de todos, era

dada a sentença. Com as audiências inter profissionais o juiz pretendia:

85
A biblioteca do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, situada no Palácio da Justiça, Praça da Sé s/nº,
possui pouquíssima documentação sobre o Juizado de Menores.A pesquisa nesse acervo de portarias e ordens
de serviços internas do Juizado, por exemplo, é praticamente impossível dada a falta de documentos de vários
anos seguidos.
317
...uma simplificação do serviço, a ponto de permitir-se que a Vara
de Menores seja o centro jurídico de proteção do menor e sua
família, como existe em outros países mais adiantados. Devemos
eliminar de nossa pauta de trabalho o número imenso de papéis e
impressos, todos destinados a transformar o menor em carimbo,
despacho, sentença, registro de sentença, protocolado, alvará,
mandado, ofício, carta, bilhete, relatório psicossocial, etc.
(CAMARGO, 1982, p. 11).

Ele, de fato, buscou dar ênfase à ação judicante do Juizado de Menores,

inspirou-se na modalidade de audiências comuns nas cortes juvenis norte-

americanos, onde um colegiado de especialistas, juntamente com o juiz,

determina a sentença em uma audiência ágil. O Dr. Chaves Camargo organizou

esse método de trabalho como uma crítica aos procedimentos adotados pelos

seus antecessores, procurando mostrar ser partidário da posição dominante nas

esferas dirigentes do Judiciário:

A Vara de Menores, durante sua existência, pretendeu viver sob


um pseudogigantismo, onde o Juiz de Menores era o centro das
atenções sociais, com funções meramente administrativas, alvo
de entrevistas em rádios e televisão, enquanto a parte judicante,
mais objetiva, ficava a cargo de Juízes Auxiliares, quase
subordinados ao primeiro, que tinha até a prerrogativa de avocar
qualquer processo, quando entendesse necessário. Houve,
portanto, um avanço na implantação de uma Justiça de Menores
com suporte filosófico e jurídico, evitando-se as medidas
casuísticas decorrentes de um Juiz apenas, o que melhor
amparará a infância e a juventude, integrando-se na comunidade
e socorrendo-se de outros movimentos e recursos dessa mesma
comunidade (idem, p. 22).

Apesar de suas críticas e da suposição de que ele não aceitava bem o

trabalho dos assistentes sociais, o Dr. Chaves Camargo, na defesa das

audiências interprofissionais, mostrou-se um defensor da atuação da equipe

técnica, composta por assistente social e psicólogo. Reforçando a figura do

318
psicólogo, ele criou a idéia de uma equipe técnica para subsidiar o juiz. Mesmo

assim, ele indicava ser fundamental a ação específica do assistente social:

Assim, os técnicos são indispensáveis não só à celeridade das


decisões na área do Direito do Menor, como também, para
acompanhamento dos casos e cumprimento das medidas
aplicáveis a menores em situação irregular. {...} Os assistentes
sociais desempenham relevantes funções não só no juízo
interprofissional, como também no acompanhamento dos casos,
para a execução das medidas previstas no Código de Menores.
{...} Os Assistentes Sociais ficam encarregados do
acompanhamento dos casos, bem como da integração social do
menor junto à família e à própria comunidade. O setor de Serviço
Social terá, em mãos, todo o material necessário para indicar às
partes interessadas, os recursos de promoção humana existentes
na comunidade.{...} Sua função na Vara de Menores é a captação
do momento social, do mundo do menor e de sua família,
transmiti-los aos Juízes para que estes apliquem as medidas
previstas em lei, regularizando a situação do menor (idem, p 25).

Pode-se observar nos extratos transcritos acima que ele atribuiu ao Serviço

Social uma função de levantar e relatar ao juiz dados sobre o meio e a realidade

social em que vive o menor e sua família, bem como indicar a essas famílias e ao

próprio juiz os recursos existentes na comunidade que podem ser utilizados para

a solução dos problemas apresentados. Estas duas finalidades da ação do

Serviço Social, já apontadas por José Pinheiro Cortez, foram ficando mais claras.

Por fim, dentro das prioridades do Dr. Chaves Camargo, veio o processo

de passagem do Serviço de Colocação Familiar para o Poder Executivo. Alguns

entendimentos entre o Judiciário e o Executivo, através da Secretaria da

Promoção Social, foram suficientes para solucionar o problema do Serviço de

Colocação Familiar. João Batista Adduci, que nesse momento estava atuando,

comissionado, na Secretaria da Promoção Social dá seu depoimento sobre a

passagem da Colocação Familiar para o Executivo:


319
...o Tribunal não queria mais, e a coisa ia acabar porque ele ia
dizer: “não aloco a verba para ninguém, a verba volta para o
Tribunal, acaba o serviço, esqueçam esse serviço, passado”. Para
continuar, para garantir a continuidade, mesmo sabendo o que
poderia acontecer, se aceitou que ele fosse para o executivo, e foi
criado o IAFAM, com pompa e circunstância. {...} Agora, acabou o
Serviço de Colocação Familiar, o IAFAM não o substituiu como
deveria substituir, poderia, mas no executivo existe o orçamento
programa que aloca as verbas, e não estava no orçamento. A
verba do Tribunal de Justiça passou no primeiro ano, depois não.
Aí não houve verba, não havia dinheiro, a proposta era outra...
(depoimento, 2002).

Através da Lei 4.467 de 19 de dezembro de 1984, na gestão de Franco

Montoro como governador, o Serviço de Colocação Familiar é transferido para o

Poder Executivo e passa a se denominar Instituto de Assuntos da Família –

IAFAM, que foi regulamentado pela Lei 23.625 de 01 de julho de 1985. Assim

como na passagem das unidades de atendimento em 1974, o Tribunal de Justiça

repassou o Serviço com dotação orçamentária e o quadro de pessoal.

O programa que introduziu o Serviço Social no Judiciário foi expurgado de

sua estrutura sem nenhuma resistência interna ou externa, marcando o

encerramento completo das ações de natureza assistencial executadas pelo

Judiciário na área de menores. Outro grupo de assistentes sociais foi transferido

para o Executivo, juntamente com os recursos para a execução do programa.

Mas, ao contrário do que se poderia pensar, diante do expurgo do Serviço

de Colocação Familiar, que simbolizou durante décadas uma ação de caráter

preventivo proposta pelo Serviço Social como alternativa para o problema de

menores, não foi um final melancólico para a profissão no Judiciário. Não houve

sequer redução das atividades do Serviço Social no interior do Tribunal de

Justiça: novas perspectivas estavam se abrindo.


320
Aqui cabe um aparte, para introduzir uma nova porta de entrada para a

atuação de assistentes sociais no interior do Judiciário: na área de recursos

humanos. Durante o ano de 1982 o Tribunal de Justiça, através de sua

presidência, procurou diretamente a Faculdade de Serviço Social da PUC/SP

solicitando um projeto para a criação de um Setor de Serviço Social voltado para

os seus funcionários, na época eram aproximadamente 12.000 somente na

capital. Os baixos salários e as condições precárias de trabalho fizeram surgir

grandes problemas no interior da organização e se buscava dar respostas a eles.

O trabalho coordenado pela Profª. Elizabeth de Melo Rico foi apresentado no

Estudo realizado sobre a problemática social do funcionário do Tribunal de Justiça

(RICO, 1983), já citado aqui, e deu origem à Unidade de Serviço Social do

Trabalho86.

Interessante notar que a presidência do Tribunal não procurou os

assistentes sociais de seu próprio quadro para executar tal tarefa, talvez em razão

dos conflitos e do desgaste com algumas equipes. No entanto, procurou

novamente o Serviço Social para dar respostas aos problemas vividos pelos seus

funcionários, e uma nova frente de intervenção profissional surgiu para o Serviço

Social, mais uma vez fora dos limites do Juizado de Menores.

Mas, voltando ao processo de descentralização, desde a criação dos Foros

Regionais no final de 1983, a Vara Central de Menores não possuía mais

atribuições especiais, tornou-se mais uma entre as 13 Varas de Menores

existentes na capital (12 regionais e uma central). A maior parte dos serviços

86
Após inúmeras reestruturações da máquina administrativa do Tribunal de Justiça, a Unidade de Serviço
Social do Trabalho não existe mais como foi criada. Suas funções, porém, permaneceram ativas existindo
hoje vários setores em que assistentes sociais desenvolvem trabalhos voltados para os funcionários da
organização, incluindo até mesmo os juízes, dentro da área de recursos humanos e de pessoal.
321
existentes como fiscalização do trabalho, distribuição de bolsas de estudos,

serviços de menores desaparecidos, já havia sido extintos ou regionalizados.

Dessa maneira cada juiz de menores em cada uma das Varas de Menores

situadas nos Foros Regionais tinha um Comissariado de Menores - de sua

confiança -, ou poderia optar por criar um setor de captação de bolsas de estudos

na região, por exemplo. A área de fiscalização do trabalho foi sendo

gradativamente assumida pelo Ministério de Trabalho, através das Delegacias

Regionais, contando apenas com o apoio das Varas de Menores.

O Dr. Chaves Camargo, a partir de então com o cargo de juiz da Vara

Central de Menores, manteve por algum tempo ainda sob sua direção alguns

serviços diferenciados, que os demais juízes de menores não possuíam: o

Serviço do Gabinete e o Serviço Social, que se mantiveram vinculados à Vara

Central de Menores.

Para concluir o processo de regionalização e a desmontagem do antigo

Juizado de Menores, em 1985 o Tribunal de Justiça abriu concurso público para o

provimento de 50 cargos de assistentes sociais para as Varas de Menores,

Família e Serviço Social do Trabalho.

A alocação do pessoal concursado deu-se prioritariamente nas Varas de

Menores dos Foros Central e Regionais, dotando-se todas elas de equipe técnica

formada por assistentes sociais e psicólogos. Juntos, os profissionais que já

atuavam nas Varas de Menores, somados aos novos profissionais, formaram as

equipes que passaram a desempenhar as tarefas que eram realizadas pelo Setor

de Serviço Social que ficava na sede do extinto Juizado de Menores. Também

322
realizavam algumas das tarefas do Comissariado de Menores como o plantão e

algumas que eram realizadas pelo assistente social do gabinete do juiz.

Enfim, esses profissionais passaram a realizar a triagem em cada uma das

Varas: central e regionais. Realizavam a representação dos casos quando

necessário, orientando e encaminhando as pessoas que não poderiam ser

atendidas na Vara de Menores. Também faziam os estudos dos casos com vistas

a subsidiar a decisão judicial, e os acompanhavam quando necessário. Sugeriam

e propunham ações para o juiz de menores.

De acordo com os entendimentos entre os juízes de menores e família, as

equipes foram unificadas nos Foros Regionais, o mesmo não acontecendo no

Foro Central em que se mantiveram equipes distintas para a Vara de Menores e

as Varas de Família87.

A nova face do Serviço Social começou a ser construída na somatória das

várias funções exercidas pelos assistentes sociais ao longo dos anos, como

respostas às demandas postas pelo Judiciário nos diversos momentos políticos e

diante da conjuntura social e econômica. Conforme afirma Therezinha Zabirowski

Davidovich:

Ele {o Serviço Social), tem uma influência de tudo o que foi a


atuação dos Assistentes Sociais na Vara de Menores. Então ele
traz repercussão daquilo que era a atuação dos Assistentes
Sociais do Gabinete, daquilo que era no Serviço de Colocação
Familiar, até nos próprios estabelecimentos de internação, no
Plantão Permanente, Plantão de Triagem! Então, na verdade, em
cada um desses setores tinha uma atuação específica e eu acho
que a atuação dos Assistentes Sociais é uma somatória de tudo
isso, de todas essas suas ações.... (depoimento, 2003).

87
Em uma outra linha de trabalho permaneceu a Unidade de Serviço Social do Trabalho, funcionando no
Departamento Pessoal.
323
Utilizando-se de instrumentos que lhe permitiam conhecer a situação que

se apresentava ao Juízo – como entrevistas, visitas domiciliares, visitas a

colaterais - e conhecedores dos limites da malha assistencial disponível, os

chamados recursos da comunidade, o assistente social reuniu as condições para

relatar de forma ordenada o problema que se apresentava ao Judiciário como um

caso individual e sugerir soluções de encaminhamento.

Diante do progressivo agravamento dos problemas sociofamiliares e da

dificuldade em obter saídas para as situações individuais, os assistentes sociais

foram se especializando em construir subsídios para que as decisões judiciais

fossem viáveis e adequadas à realidade, de tal modo que se tornaram

imprescindíveis. A fala de Beatriz mostra essa necessidade:

O Assistente Social tem obrigação de dar sugestão, e sempre.


Deve dar sugestão do que fazer na Vara da Infância e na Vara de
Família! Ele vai dizer o que é possível fazer de acordo com a Lei.
As pessoas é que devem decidir e o Juiz acata ou não a sugestão
do Assistente Social. Com a Lei e com a realidade de cada
pessoa (depoimento, 2003).

E a fala de João Batista Adduci mostra a relação com o juiz, nesses casos:

Talvez seja um exagero meu, mas raras vezes eles contrariavam


o parecer do Assistente Social, tão correto, tão bem
fundamentado que era o parecer do técnico. Eu nunca sofri por
ver alguma pessoa que eu atendi, que eu formulei uma impressão
diagnóstica sobre aquela pessoa, nunca vi o Juiz contrariá-la. Às
vezes ele me mostrou algum aspecto que eu desconhecia, mão
não havia confronto... (depoimento,2002).

Porém, essa modalidade de ação gerou alguns conflitos iniciais nos

profissionais mais identificados com a natureza eminentemente executiva da

profissão, como é o caso do próprio João Batista Adduci, quando relata sua

experiência nas Varas de Família:

324
...existe um problema que eu reputo muito importante e que eu
senti muito, eu tive uma experiência de três anos na Vara da
Família, eu me ressenti muito disso: você é usado para subsidiar
o Juiz, para ele dar uma sentença. Então você tem que levar o
maior número possível de dados para ele perceber onde mora,
com quem mora, como vê o mundo aquela pessoa, mas ele não
me possibilita continuar, eu paro (depoimento, 2002).

Por outro lado, a valorização da atuação do assistente social como um

assessor do juiz foi ressaltada pela maior parte dos entrevistados, como no

exemplo de Beatriz Cardos Esteves Franco:

Essa função é uma função que não se deverá perder nunca, a


função de assessoria, porque o juiz é um indivíduo que deve ser
preparado, etc., mas ele é preparado especialmente na área
jurídica, e na parte social, muitas vezes ele não tem tempo e nem
condições de conhecer mais a área que trabalha. Então, por
exemplo, o pessoal da área de Santo Amaro tem uma realidade
sócio-econômica absolutamente diferente do Centro, então
quando você pega um caso de uma Vara de Família de uma
pessoa que mora num cortiço é uma realidade completamente
diferente da favela do Buraco Quente. As duas são pobres, as
duas têm habitações sub, em todos os sentidos, mas é uma
problemática totalmente diferente (depoimento, 2003).

A variável denominação com que os assistentes sociais começaram a

identificar a função que passaram a exercer a partir de então – assessor, perito,

entre outras – demonstra a dificuldade de dar uma formulação mais acabada a

essa atividade de natureza diferenciada que o Serviço Social passou a

desempenhar no Judiciário. Enquanto João Batista Adduci se incomoda com a

falta de possibilidades de intervenção dessa modalidade de ação profissional,

Beatriz Cardoso Esteves Franco chama a atenção para a impropriedade do uso

da palavra perito:

Eu não sei porque você usa o termo perito? Perito das partes,
porque é o termo jurídico! Mas o Assistente Social é o Assistente
Social Judiciário! {...} ...ele é assessor do Juiz enquanto ele dá ao
325
Juiz subsídios para que ele conheça a realidade em que está
atuando, mas quando ele faz o laudo específico ele é um
Assistente Social Judiciário... (depoimento, 2003).

Therezinha Zabirowski Davidovich por sua vez diz que o assistente social

não assessora, mas oferece subsídios que podem ou não ser aceitos pelo juiz.

Ela diz:

Na verdade o cargo dele é de Assistente Social Judiciário, a


função que ele exerce é de Assistente Social, até que ponto você
pode dizer que ele é perito do juiz? Ele está fazendo um estudo
social por determinação do juiz e oferecendo isso através de
laudo. Quer dizer que aí eu acho que mesclou um pouco essa
linguagem forense, onde o Assistente Social procurou usar essa
linguagem para se identificar, mas eu acho que isso merece uma
discussão um pouco mais profunda (depoimento, 2003).

Apropriando-se da terminologia jurídica, ou forense, como fez José

Pinheiro Cortez quando denominou o assistente social como o “perito do social”, o

Serviço Social criou uma modalidade de ação apropriada para o Judiciário e a

partir de então ampliou ainda mais a sua atuação.

Com a realização do concurso de 1985 o número de profissionais foi

gradativamente sendo ampliado, criando-se também cargos nas cidades do

interior do Estado de São Paulo. Alguns profissionais já vinham sendo

requisitados pelos juízes ao longo dos anos e eram alocados através de

transferência principalmente88. Ao longo dos dois anos que se seguiram ao

concurso muitos profissionais passaram a atuar nas comarcas do interior do

estado usando desses expedientes da transferência, colocação à disposição, etc..

88
Diante da solicitação dos juízes das comarcas do interior e de suas pressões, o Tribunal passou a utilizar o
concurso realizado e, na medida das disponibilidades foi alocando profissionais nessas comarcas. Também
existiam casos em que profissionais chamados para atuar na capital, após algum tempo de serviço solicitavam
transferência para cidades do interior, contando com o apoio dos juízes locais.
326
Além disso, nesse momento, a conjuntura política nacional estava sofrendo

uma nova alteração. Com o fim da ditadura militar e a articulação dos movimentos

populares pelos direitos da criança e do adolescente, cresceu a organização em

torno à necessidade de inclusão na nova constituição, de cláusulas que

garantissem uma nova legislação voltada para esse segmento da população.

Gestava-se o movimento pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

O Judiciário paulista estava pronto para enfrentar as mudanças que viriam

a acontecer e que estavam colocando a justiça da infância e juventude

novamente em foco, mas desta vez eles não estavam dispostos a desenvolver

uma proposta de justiça de caráter assistencial e enfrentar os problemas que

poderiam surgir dela. Buscaram reforçar o modelo clássico de Estado liberal e

com ele o próprio Poder Judiciário enquanto poder de Estado autônomo e forte no

controle da constitucionalidade do país e na garantia dos direitos humanos, daí o

engajamento na luta pela ampliação dos direitos de cidadania.

Os artigos de 226 a 230 da Constituição de 1988 deram os parâmetros

para o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei N. 8.069 de 13 de julho

de 1990), lei infraconstitucional que substituiu o Código de Menores de 1979. A

participação de agentes do Judiciário na reformulação dessa lei foi grande, e o

modelo implementado pelo Judiciário paulista para a atuação de técnicos nas

Varas de Infância e Juventude foi sacramentado pelo ECA em seu artigo 150:

Cabe ao Poder Judiciário, na elaboração de sua proposta orçamentária, prever

recursos para manutenção de equipe interprofissional, destinada a assessorar a

Justiça da Infância e Juventude.

E o artigo 151 detalha as funções dessa equipe:


327
Compete à equipe interprofissional dentre outras atribuições que
lhe forem reservadas pela legislação local, fornecer subsídios por
escrito, mediante laudos, ou verbalmente, na audiência, e bem
assim desenvolver trabalhos de aconselhamento, orientação,
encaminhamento, prevenção e outros, tudo sob a imediata
subordinação à autoridade judiciária, assegurada a livre
manifestação do ponto de vista técnico.

Desde a entrada em vigor do ECA, o Tribunal de Justiça do Estado de São

Paulo promoveu uma série de concurso públicos com o objetivo de dotar todas as

comarcas do estado de uma equipe técnica, com pelo menos um assistente

social, para atender casos de Vara de Infância e Juventude e de Família, objetivo

em que alcançou pleno êxito.

328
CONCLUSÃO

O estudo das respostas profissionais formuladas pelo Serviço Social em

seu processo de inserção e consolidação no interior do Poder Judiciário no

período compreendido entre 1948 e 1988 nos permitiu identificar alguns

movimentos importantes da profissão em relação à organização estudada, o

Judiciário, e a subordinação direta desses movimentos às relações políticas mais

gerais, por se tratar de uma organização que é parte do próprio Estado.

O Judiciário, estudado aqui através do Tribunal de Justiça do Estado de

São Paulo, constitui-se parte da estrutura de poder do Estado em nossa

sociedade, e como tal seu objetivo é a manutenção da ordem capitalista.

Responsável pela operacionalização do Direito, o Judiciário busca limitar os

conflitos e aliviar as tensões e incertezas do sistema político à medida que se

constitui instância que julga e enquadra os litígios ocorridos entre os atores

sociais, individualizando-os e institucionalizando-os.

Na operacionalização de sua função se vê, porém, envolto nos problemas

gerados pela sociedade capitalista em crise, nos conflitos cada vez mais

abrangentes e profundos que são fruto das contradições inerentes ao próprio

sistema. As dificuldades de colocar em prática, de aplicar o conjunto de leis, de

normas, criadas a partir das regras do próprio Estado burguês, isto é, o Direito,

são sintomas da profunda crise da ordem capitalista.

O Direito, como um sistema de normas de conduta e de organização que

regula a convivência e a sobrevivência da sociedade, se constituiu em pilar do

329
Estado liberal democrático moderno, cujo modelo mais acabado é o Estado de

direito. Este consagra a democracia representativa como a forma de participação

dos cidadãos na decisão do seu próprio destino através da eleição de seus

representantes no parlamento.

Esse mesmo Estado de direito reconhece a legitimidade dos governos no

cumprimento das leis elaboradas pelos representantes eleitos pelo povo e

organizadas em uma constituição. E se organiza internamente através da divisão

dos poderes do Estado entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, num

sistema de freios e contrapesos que visa evitar a concentração de poderes numa

só esfera, evitar o absolutismo e o despotismo.

O Estado de direito é tido, na concepção liberal, como um sistema que

permite o avanço e o aprimoramento da sociedade, numa evolução que partiu da

busca pela garantia dos direitos civis (de liberdade de expressão, de reunião, de

religião, de liberdade pessoal e econômica) e dos direitos políticos (de voto, de

associação e de organização partidária), para uma modalidade mais recente, que

é a busca pela garantia dos direitos sociais (à educação, à saúde e aos demais

bens necessários para uma vida digna em sociedade) com o fim de reduzir as

desigualdades geradas pelo próprio sistema capitalista.

O Poder Judiciário, na lógica do Estado liberal democrático moderno, como

um elemento constituinte da estrutura do Estado, é a organização central do

sistema de operacionalização do Direito, e ganha mais importância e centralidade

quanto mais se pratica o modelo de Estado de Direito em uma sociedade, quanto

mais democráticas são as formas de gestão do Estado no capitalismo.

330
Porém, à medida que se aprofunda a crise da sociedade capitalista, os

limites com os quais ele se depara na sua função de operacionalização do Direito

são multiplicados, mesmo nas sociedades democráticas. As contradições geradas

pelo sistema capitalista são a expressão de que o Estado de Direito não comporta

essa lógica evolucionista de garantia de direitos civis, políticos e sociais, cada vez

mais amplos. Pelo contrário, a concentração de capitais e a monopolização

crescente dos meios de produção geram cada vez mais a exclusão de parcelas

inteiras da população do processo produtivo e sua conseqüente pauperização,

desmascarando os litígios como questões particulares, individuais, e

reestabelecendo as contradições e a luta de classes como o cenário da ação do

Judiciário.

Uma leitura crítica das relações de produção capitalista nos permite

compreender que, mais do que um sistema de normas coercitivas, pensado para

limitar aqueles que pretendem transgredir e garantir o bem comum, as leis, as

normas jurídicas, que compõem o Direito são, de fato, a forma que assumem as

relações de produção e reprodução social. Na sociedade capitalista, todas as

relações sociais estão organizadas na forma de contratos jurídicos e, desta

maneira, ser sujeito de direitos é poder estabelecer contratos, é poder comprar e

vender, mesmo que o único bem que se possua seja a própria força de trabalho.

O paradoxo dessa relação está no fato de que o homem torna-se cidadão pela

mesma condição que o transforma em coisa, passível de compra e de venda.

Nesse sentido, a existência mesma do Direito, e de um Estado baseado

nele, pressupõe que a condição desigual da sociedade se perpetua, e não o

oposto como acreditam os defensores do liberalismo. Segundo Pachukanis, uma


331
sociedade que visasse o bem comum de fato, não necessitaria do Direito,

estabeleceria as relações sociais em outras bases que não a de contratos.

Mas, ainda que se considere ser esta uma utopia socialista, é preciso

lembrar que, mesmo as tentativas de conciliação que buscaram garantir algum

tipo de justiça social e econômica no marco da ordem capitalista, como as

propostas de Tomás de Aquino resgatadas pela social-democracia européia na

segunda metade do século XX, não conseguiram, diante da realidade atual de

crise do capitalismo, aplicar mecanismos de contenção da agudização das

contradições da ordem capitalista mundial.

O Estado, representante dos interesses da classe dominante, já vinha

alterando a sua forma de administração dos conflitos entre classes sociais e, no

final do século XIX, passou a intervir sistematicamente nas várias esferas da

sociedade, na tentativa de limitar o aprofundamento da crise da ordem social

capitalista, relegando o discurso liberal à mais pura retórica. O Estado

intervencionista, que assume formas que vão das ditaduras ao Estado de Bem-

estar-social, estabeleceu novas correlações de forças internas ao aparelho do

Estado, desmontando o sistema de freios e contrapesos clássico e alterando o

modo de operar do Estado capitalista.

O Poder Judiciário e as demais estruturas de operacionalização do Direito

sofreram impactos significativos com essas alterações. Fenômenos como a

explosão de litigiosidade, identificado por José Eduardo Faria e Boaventura Souza

Santos, retiraram do sistema tipicamente liberal - e conseqüentemente daqueles

que o encarnam, como o Judiciário - sua legitimidade e reforçaram as estratégias

normativas que são próprias do poder concentrado e do Executivo, num claro


332
reconhecimento de que o Estado capitalista é consciente das limitações que a

estrutura tipicamente liberal de Estado de direito lhe impõe para enfrentar a crise

da ordem social. Um embate no interior do próprio Estado tem sido travado,

desde então, entre as forças liberais que propõem a manutenção do sistema

clássico de freios e contrapesos para limitar o poder concentrado de uma das

esferas do governo, e a necessidade cada vez maior do intervencionismo estatal

na sociedade capitalista como forma de administrar a sua profunda crise.

Do ponto de vista daqueles que estão no interior das estruturas de

operacionalização do Direito, têm sido tentadas medidas que buscam resguardar

a legitimidade dos mecanismos do Estado de direito, apesar da conjuntura

contrária. São tentativas como aquelas que buscam garantir o acesso da

população ao Judiciário, ou que visam uma forma de garantia de direitos difusos e

coletivos, mas que acabam se tornando experimentos marginais, ou iniciativas

colocadas em prática em caráter supletivo. Na maior parte dos casos todo o

sistema sucumbe aos limites de aplicação das leis democraticamente elaboradas

na sociedade capitalista em crise.

No caso brasileiro, de nação periférica e dependente, os limites para

aplicação do Direito são ainda maiores do que nos países capitalistas centrais.

Aqui nem mesmo tem sido possível a manutenção, por longos períodos, do

modelo de Estado democrático liberal, ou Estado de direito. Diante dos profundos

conflitos sociais os governos ditatoriais ou autocráticos têm se apresentado com

freqüência como uma alternativa para impor a ordem social. Eles concentram o

poder e executam as medidas necessárias à manutenção da ordem capitalista,

relegando os interesses da maioria do povo a segundo plano.


333
Nesse panorama, o Poder Judiciário brasileiro - que diferentemente do

Judiciário de países como os Estados Unidos, não nasceu de um processo de

independência nacional, mas de uma adaptação e acomodação dos quadros do

Judiciário do período colonial -, esteve sempre subordinado aos interesses do

Executivo, não obtendo nem sequer força suficiente para funcionar como

elemento independente dentro da lógica liberal da divisão de poderes no interior

do Estado.

Em nosso país as forças liberais se consubstanciaram desde sempre numa

modalidade de liberalismo conservador, como usou conceituar Emília Viotti, e, no

interior do Poder Judiciário, estas forças sempre tiveram grande expressão.

Assim, as formas de aplicação das leis, de administração do sistema de justiça

seguiram uma lógica conservadora de manutenção das estruturas de poder

oligárquicas herdadas do período colonial e perpetuadas durante a República.

Mesmo assim, nos poucos momentos históricos em que se instalou no país

regimes democráticos, essas mesmas forças liberais de caráter conservador,

buscaram ampliar os espaços de ação do Poder Judiciário e reforçar seu papel de

guardião de um sistema de governo baseado em leis democraticamente

elaboradas. Nesses poucos momentos foi possível observar como esse poder do

Estado tentou elaborar respostas aos conflitos sociais, limitando-os e

enquadrando-os institucionalmente, dentro de uma lógica liberal conservadora.

É em um desses momentos, após o fim do Estado Novo em 1945, que

algumas dessas forças liberais conservadoras, articuladas no interior do Judiciário

e na Escola de Serviço Social, dentre outras instituições, organizaram uma

proposta de intervenção, a partir do Judiciário, nas questões que afetavam


334
crianças, adolescentes e suas famílias, como uma particular expressão da

“questão social”. Essa proposta de intervenção pressupunha uma concepção de

mundo e de sociedade baseada na democracia cristã e na idéia da possibilidade

de obter justiça social no âmbito da ordem capitalista.

Naquele momento os interesses do Judiciário e da Escola de Serviço

Social convergiam, ambos buscando afirmação social e ampliação do seu

espectro de ação sob o mesmo referencial teórico e político. Numa união de

propósitos foram organizadas as Semanas de Estudos do Problema de Menores

e dado início a uma modalidade de intervenção do Judiciário em uma área que

vinha sendo objeto da intervenção de outra esfera do Estado, a do Executivo, há

pouco tempo no Brasil: a política social.

A formulação de que a modalidade correta de intervenção nessa área

deveria possuir caráter preventivo, foi o elemento vanguardista da proposta que

deu origem ao Serviço de Colocação Familiar, um programa de transferência de

renda que durante décadas atendeu a milhares de famílias empobrecidas com o

fim de evitar que as mesmas entregassem seus filhos às instituições de abrigo

que se constituíam a alternativa criada pelo sistema de assistência social

embrionário na época, para situações extremas de pauperização.

Com a colocação em prática do Serviço de Colocação Familiar pelo

Serviço Social no interior do Juizado de Menores da Capital de São Paulo,

começou a ser erigida uma estrutura que objetivava credenciar o Poder Judiciário

como órgão capaz de solucionar conflitos de natureza social que outras esferas

do Estado não estavam conseguindo resolver.

335
Assumindo, ele próprio, mecanismos assistenciais, o Poder Judiciário

buscava enfrentar as dificuldades de aplicação da lei de assistência e proteção a

menores de idade, aproximar do Judiciário a população carente, desprovida de

acesso à justiça, e tentar intervir nos rumos da política assistencial do Estado,

tendendo, no entanto, para uma ótica mais intervencionista e tutelar do que

propriamente liberal.

Ao implantar essa modalidade de ação, porém, nem o Poder Judiciário

nem os quadros profissionais do Serviço Social previram as dimensões que

poderia alcançar tal estratégia. A proposta de um Juizado de Menores que

coordenasse todo o sistema assistencial de atenção às crianças e adolescentes,

foi inspirada no modelo dos tribunais juvenis norte-americanos, mas a realidade

brasileira não era exatamente a mesma. A transposição daquele modelo para o

Brasil implicou o enfrentamento de problemas que não existiam na América do

Norte na década de 1950 e seguintes: lá uma economia poderosa não excluía

parcelas tão grandes da população como aqui.

Na lógica de enfrentamento dos litígios a partir do estudo e aplicação de

soluções específicas para cada caso, o Judiciário trouxe de maneira

individualizada, para o seu interior, o grande contingente de pobres que não

tinham seus direitos básicos garantidos. Em pouco tempo, o Juizado de Menores

desdobrou-se em uma grande estrutura assistencial, de controle e fiscalização,

tendo à frente da operacionalização desses serviços os assistentes sociais.

Como gestores de serviços sociais, especialistas em executar ações e

programas nessa área, os assistentes sociais encontraram no interior do

Judiciário um espaço privilegiado para operacionalizar suas propostas de


336
intervenção profissional. A cada caso, a cada situação particular que se

apresentava ao Juízo, era possível elaborar um estudo social aprofundado e

constatar que, em geral, a falta de equipamentos sociais, a falta de políticas

públicas que garantissem os mínimos sociais àquela criança, àquela família, eram

os responsáveis pelo problema.

Diante desse quadro propunham, para um interlocutor privilegiado, o juiz, a

criação dos equipamentos adequados e o auxiliavam a ampliar seu poder de

intervenção na política social. O poder conferido pela estrutura do Estado ao

Judiciário permitiu, em algumas conjunturas específicas, que essas propostas

fossem operacionalizadas como forma de demonstração da maior independência

e força do Judiciário.

No entanto, a administração dos mecanismos de reprodução da força de

trabalho, como as políticas sociais é, preferencialmente, uma tarefa do Executivo,

pois este sofre mais diretamente a interferência das contradições entre as

necessidades do capital e as necessidades sociais expressas pelas lutas dos

trabalhadores, numa lógica que extrapola a intervenção individualizada de cada

situação particular, como é próprio da lógica predominante no Poder Judiciário.

Nos momentos em que a conjuntura política permitiu a concentração de

poderes na esfera do Executivo, as tentativas de operacionalizar mecanismos

assistenciais, de política social, no interior do Judiciário foram reduzidas,

justificando esta redução pela necessidade de limitação do Poder Judiciário à

esfera judicante.

O avanço maior ou menor da interferência do Poder Judiciário nas esferas

de ação do Poder Executivo está limitado pela conjuntura política que regula a
337
modalidade de ação do Estado em formas mais ou menos democráticas. O

Judiciário, quando possível, e diante da crise social, busca dar respostas que

viabilizem a garantia dos direitos legalmente estabelecidos e nesse sentido sua

ação é em geral progressista. Porém, pelos quadros liberais nacionais

defenderem um liberalismo de tipo conservador, essas respostas não foram

elaboradas, no período estudado, como uma ampliação efetiva do acesso da

população ao sistema de justiça, mas traduziram-se em uma modalidade

assistencial de acesso de um segmento muito frágil da população: as crianças e

os jovens pobres, e suas famílias.

Ainda assim, mesmo diante das limitações ao trabalho de natureza

executiva no interior do Judiciário, o Serviço Social, como profissão, continuou

percorrendo um caminho na estrutura da organização, caminho que extrapolou a

sua vinculação com os serviços assistenciais prestados à população, mas

continuou sendo trilhado no contato direto desta com o Poder Judiciário.

A natureza eminentemente interventiva do Serviço Social foi sendo

gradativamente adaptada para dar as respostas institucionais necessárias ao

Poder Judiciário, aos problemas com que se deparava essa organização diante

da realidade com que crianças, adolescentes e suas famílias se defrontavam, e

diante da impossibilidade de aplicação das leis estabelecidas. Parte das

conseqüências das contradições do sistema capitalista, parte das seqüelas da

“questão social”, seja num sistema mais democrático seja num menos

democrático, chegam ao Judiciário na forma de casos individuais, de problemas

particulares que devem ser encaminhados, de litígios para os quais se pede

solução.
338
Articulados politicamente com o Judiciário através da democracia cristã e

presentes no interior da organização judiciária desde 1949 quando se deu início à

criação da estrutura assistencial no interior do Juizado de Menores, os assistentes

sociais mostraram-se profissionais competentes para criar e administrar tais

serviços. A qualificação dos seus quadros e a utilização de parâmetros técnico-

profissionais por parte dos assistentes sociais foram importantes para dar aos

serviços que estavam sendo criados a característica de seriedade e o

profissionalismo que o Judiciário buscava demonstrar na tentativa de se

diferenciar do Poder Executivo, na época, e se credenciar como ator na definição

de políticas públicas, como parte de um plano mais geral de demonstração de

força e independência.

Conquanto os primeiros contatos do Serviço Social com a organização

judiciária estivessem marcados pela ação assistencial, os profissionais desde

cedo não se mantiveram restritos a esse espectro de ação. Desenvolveram

mecanismos de apoio ao Judiciário na sua função de aplicação da lei,

mecanismos que eram vislumbrados por Dna. Helena Iracy Junqueira, desde as

primeiras Semanas de Estudos do Problema de Menores, indicando o assistente

social como possível colaborador nas ações judiciárias.

Essas ações diretamente auxiliares da função judicante foram sendo

construídas, muitas vezes à sombra das atividades de direção e execução dos

serviços assistenciais: das casas de permanência provisória ligadas diretamente

ao Judiciário (RPM, COF, Casa de Estar), das obras em que os profissionais do

Judiciário atuavam como técnicos em parcerias com a sociedade civil (Pensionato

339
Maria Gertrudes e Fundação Dna. Maria Paulina de Souza Queiroz), e sobretudo,

do Serviço de Colocação Familiar.

As atividades de plantão e triagem para definição dos casos elegíveis pelo

Juizado de Menores, bem como os estudos sociais com vistas a elaborar

pareceres para auxiliar o juiz em suas decisões já se delineavam como uma

demanda para o Serviço Social desde os primeiros contatos dos assistentes

sociais com o Judiciário, ainda através de sua ação como comissários de

menores.

Com a entrada formal do Serviço Social no Juizado de Menores para

organizar o Serviço de Colocação Familiar, essas atividades foram quase que

simultaneamente assumidas pelo Serviço Social e, ao longo dos anos, foram

recebendo denominações diversas, inserindo-se e confundindo-se com os

serviços assistenciais propriamente ditos. Implantando-se essas atividades,

através da Seção de Informações e de Serviço Social por Zilnay Catão Borges e

Idalina Monteclaro César, e passando a fazer parte das ações descentralizadas

do Serviço de Colocação Familiar, como parte dos plantões de Serviço Social na

sede do Juizado na rua Asdrúbal do Nascimento, com a denominação de Serviço

de Administração do Comissariado, ou simplesmente de Serviço Social, elas

foram-se configurando como atribuições dos assistentes sociais no Judiciário, no

auxílio a sua função judicante.

Os assistentes sociais tornaram-se profissionais imprescindíveis na

seleção dos problemas que poderiam ser solucionados pelo Judiciário, analisando

e interpretando as situações trazidas pela população carente para a organização

340
judiciária e estabelecendo uma relação com o restante da malha assistencial,

dando orientação à população e realizando encaminhamentos.

Desenvolveram uma modalidade de tratamento dos casos de crianças,

adolescentes e de suas famílias, dessa expressão individualizada da “questão

social” e mostraram-se aptos para estabelecer o vínculo entre essas situações

individuais apresentadas e a política social do Estado, atuando como elementos

de suporte para os juízes, auxiliando-os a compreender essa realidade individual

e sociofamiliar, bem como as modalidades de respostas que o Poder Executivo

dava a elas, os limites e possibilidades dessas respostas.

Estabeleceram por fim, uma modalidade de ação que ia desde o

levantamento da situação e a interpretação dos casos que se apresentam ao

Judiciário, até a intervenção na malha assistencial. Algo que José Pinheiro Cortez

definiu precisamente quando defendia que ser perito do social era mais do que

apenas interpretar as situações no plano sociológico, era posicionar-se diante

delas.

Entre definir, conhecer, interpretar e analisar o problema individual que se

apresenta para o Judiciário e auxiliar o juiz a tomar uma decisão viável, diante da

malha de serviços sociais precária, de um Estado que reduz a cada dia os

investimentos em políticas sociais públicas, os assistentes sociais desenvolveram

uma peculiar forma de ação profissional, funcional e, ao nosso ver, imprescindível

ao Poder Judiciário em sua tarefa de limitar conflitos e aliviar tensões e incertezas

de um sistema em profunda crise.

Chamada de assessoria, assistência, perícia ou oferecimento de subsídios,

essa modalidade de ação profissional, merece ser compreendida em sua


341
historicidade para que os caminhos que traça no presente e as proposições que

elabora para o futuro tenham a mesma ressonância que tiveram no passado,

ampliando as possibilidades de ação do Serviço Social no enfrentamento da

“questão social”.

342
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Do arquivo pessoal de Therezinha Zabirowski Davidovich

 Cópia da Ata de Instalação do Juízo Privativo de Menores da Capital do


Estado de São Paulo, 28 de Março de 1925.

 Cópia da Ata do Juízo de Menores de São Paulo – págs. 91-96 do livro ata
do Cartório do 1º Ofício, 28 de Março de 1934.

 CRUZ, Eduardo de Oliveira. Apontamentos apresentados ao Dr. Candido


Motta Filho, deputado da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo,
sobre o projecto nº 322, de 1936, que reorganiza o Departamento de
Assistência Social e a Justiça de Menores do Estado de São Paulo. Juízo
Privativo de Menores, 1937.

 Posse do Ministro Aldo de Assis Dias no Tribunal de Alçada, 01/12/1965,


São Paulo, transcrição dos discursos.

 AMARAL, Hélio Furtado do. Juizado de Menores de São Paulo: estrutura e


dinâmica, São Paulo, 1967. Impresso nas gráficas da Revista dos
Tribunais, com recursos do Fundo de Assistência ao Menor -FAM. O autor
era Chefe do Serviço de Comissões Técnicas do Juizado de Menores de
São Paulo.

 Relatório de Atividades do Juizado de Menores, Serviço do Gabinete,


maio/1975.

 Palestra do Juiz Titular da Vara de Menores da Capital, Dr. Nilton Silveira,


23 de janeiro de 1978, Transcrição do Serviço de Gabinete.

Do arquivo pessoal de Beatriz Cardoso Esteves Franco:

 Cópia do Provimento N. 136 de 15 de abril de 1980, do Conselho Superior


da Magistratura e justificação elaborada por José Pinheiro Cortez.

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