SILVIA ALAPANIAN COLMÁN
A FORMAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL
NO PODER JUDICIÁRIO
Reflexões sobre o Direito, o Poder Judiciário e a intervenção do
Serviço Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
1948 - 1988
Doutorado em Serviço Social
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
2004
SILVIA ALAPANIAN COLMÁN
A FORMAÇÃO DO SERVIÇO SOCIAL
NO PODER JUDICIÁRIO
Reflexões sobre o Direito, o Poder Judiciário e a intervenção do
Serviço Social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
1948 - 1988
Tese apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, como exigência parcial para
obtenção do título de Doutor em Serviço
Social sob a orientação da Profª Doutora
Myrian Veras Baptista.
Doutorado em Serviço Social
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
2004
2
Agradecimentos
Conhecer, descobrir, entender o mundo, é uma das maiores fontes de
prazer do ser humano, por isso quero agradecer aos que colaboraram para que
este trabalho se realizasse, pelos momentos de puro prazer que me propiciaram
no processo de elaboração desta pesquisa.
Primeiramente àqueles que, do interior das universidades e das agências
de fomento, ainda acreditam e lutam para que os professores se capacitem em
condições mínimas adequadas. Aos colegas do Departamento de Serviço Social
e ao pessoal da Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade
Estadual de Londrina, onde leciono, e ainda, a Capes, por subsidiar esta
pesquisa.
Ao Professor Paulo Alves, pela leitura e sugestões, ao Professor Gaziri
pela “força” e aos demais colegas da Associação dos Docentes da UEL - ADUEL.
Aos mestres da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a quem
devo toda a minha formação acadêmica, em especial ao corpo de professores e
funcionários do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social.
Aos colegas do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo com os quais
compartilhei os percalços na construção das propostas de intervenção
profissional, em especial àqueles que, hoje, estão vinculados à Associação dos
Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo –
AASPTJ, pela colaboração.
Agradeço ainda aos colegas do Núcleo de Estudos sobre a Criança e o
Adolescente – NCA, da PUC/SP, espaço privilegiado de debates e onde o corpo
técnico do Tribunal de Justiça e demais pesquisadores encontram guarida para
discutir a intervenção profissional. Um agradecimento específico a Eunice
Teresinha Fávero, colega que me precedeu no estudo deste tema e que muito
colaborou dando sugestões, indicando caminhos e cedendo material.
3
Fica aqui registrado um agradecimento especial aos profissionais
entrevistados: Beatriz Cardoso Esteves Franco, João Batista Adduci, Suraia
Daher e Therezinha Zabirowski Davidovich, pela disponibilidade, interesse,
envolvimento e, como representantes de uma geração de profissionais, por tudo o
que fizeram pela nossa profissão.
Agradeço à Professora Drª. Myrian Veras Baptista, pelo exemplo de
profissional, mestre e pesquisadora. Pela serenidade e seriedade mantidas
mesmo nos momentos difíceis pelos quais passou. Desejo, de coração, que
muitos outros como eu, possam gozar do privilégio de tê-la como orientadora.
Agradeço ao Evaristo pelos anos a fio de interlocução, pela amizade, apoio
irrestrito, leitura atenta e sugestões feitas. E ao meu filho, Emilio, um cavalheiro,
cedendo espaços de sua adolescência, limitando movimentos para propiciar
condições para o meu trabalho, e se preocupando junto comigo.
4
Resumo
Por mais de cinqüenta anos os assistentes sociais têm atuado no interior
do Poder Judiciário paulista como colaboradores dos juízes em sua tarefa de
aplicar as leis, adequando-as a cada situação apresentada como litígio entre
partes, prioritariamente nas áreas de infância e juventude e de família e
sucessões.
Ao longo desses anos, o Serviço Social desenvolveu nessa organização
uma modalidade peculiar de intervenção profissional que transita entre a ação
executiva, própria de sua natureza e a ação judicante, constituindo-se em um
modelo de intervenção para quase todos os tribunais de justiça estaduais.
O objeto deste estudo é justamente a formação do Serviço Social no Poder
Judiciário. Pretendemos identificar os principais movimentos realizados pelos
profissionais para responder às demandas postas pela organização judiciária e
identificar como se deu a formatação dessa modalidade peculiar de intervenção
profissional. A proposição foi encontrar, no movimento histórico, as mediações
para compreender como as demandas de uma instituição, no caso o Judiciário,
determinaram a forma de exercício da profissão.
A pesquisa compreende o período que vai de 1948 a 1988, os primeiros
quarenta anos de inserção da profissão no Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo, órgão executor da justiça comum estadual paulista onde se deu a
construção da primeira e mais importante experiência de inserção profissional do
Serviço Social no Judiciário brasileiro. Foi realizada tendo por base os
depoimentos de alguns sujeitos significativos que discorreram sobre a sua
trajetória profissional, além do estudo da bibliografia existente sobre o tema e da
documentação disponível.
O referencial teórico construído discute o Direito e o Poder Judiciário em
sua importância para o Estado democrático de Direito e os limites para a
realização da justiça social na sociedade capitalista em crise, buscando dar
sustentação à análise dos movimentos realizados pela profissão como resposta
às principais demandas colocadas pela organização judiciária.
5
Abstract
During more than fifty years, social workers have acted inside the judiciary
of São Paulo State as collaborators of the judges in their task of applying the laws,
adjusting them to each situation presented by litigant sides, prioritizing the area of
childhood and adolescence and the area of family and succession.
During those years, the Social Work developed, inside the judiciary, a
particular mode of professional intervention, extending itself from the executive
actions proper of its nature to adjudicating actions, which constituted a model of
intervention for most State Courts of Law.
The subject of this study is precisely the formation of the Social Work inside
the Judiciary Power. We intend to identify the main movements made by social
workers to satisfy the demands posed by the judiciary organization, and to identify
how this particular mode of professional intervention took its form. We proposed to
find, in the historical movement, the mediations made, so as to understand how
the demands of one institution, in this case the judiciary, determined the form of
professional action.
The study covers the period from 1948 to 1988, the first forty years of
insertion of the social work professionals in the Courts of Law of São Paulo State,
which is the executive organ of common law, and where happened the
construction of the first and most important experiment of professional insertion of
the Social Work into the Brasilian Judiciary. The study was based on testimonies
of some significant subjects, who spoke about their professional paths, and on
extant documents and references.
The theoretical framework constructed discusses the Rights and the
Judiciary Power in their importance for the Democratic State, and the limits for the
realization of social justice in a capitalistic society in crisis, attempting to give
support to the analysis of the movements made by the profession to fulfill the main
demands posed by the judiciary organization.
6
Resumen
Hace mas de cincuenta años los asistentes sociales trabajan en el Poder
Judicial del Estado de São Paulo como colaboradores de los jueces en su tarea
de aplicar las leyes, adecuándolas a la circunstancia de litigios entre partes,
principalmente en las áreas de infancia y juventud y de familia y sucesiones.
Durante todos esos años, el Servicio Social desarrolló en esa organización
una modalidad peculiar de intervención profesional que transita desde la acción
ejecutiva, propia de su naturaleza, hasta la acción judicante, constituyéndose en
un modelo de intervención para casi todos tribunales de justicia estaduales.
El objeto de este estudio es precisamente el de reconstruir la formación del
Servicio Social en el Poder Judicial. Pretendemos identificar los principales
movimientos realizados por los profesionales para responder a las demandas
planteadas por la organización judicial y mostrar como se conformó esta
modalidad peculiar de intervención profesional.
Nos propusimos localizar en el movimiento histórico las mediaciones que
nos permitan comprender como las demandas de una institución - el Poder
Judicial en este caso- determinan la forma del ejercicio profesional.
La investigación abarca el periodo que va de 1948 a 1988, los primeros
cuarenta años de inserción de la profesión en le Tribunal de Justicia del Estado de
São Paulo, órgano ejecutor de la justicia común estadual paulista, donde se
constituyó la primera y más importante experiencia de afirmación profesional del
Servicio Social en el Poder Judicial brasileño. Fue realizada a partir de
testimonios de sujetos significativos que se explayaron sobre su trayectoria
profesional, además del estudio de la literatura existente sobre el tema y de la
documentación disponible.
El referencial teórico construido versa sobre el Derecho y el Poder Judicial,
su importancia para el estado democrático de derecho y los limites para realizar
justicia social en una sociedad capitalista en crisis, buscando dar soporte al
análisis de los movimientos realizados por la profesión como respuesta a las
principales demandas planteadas por la organización judicial.
7
Sumário
INTRODUÇÃO 11
CAPÍTULO I – O DIREITO, A SOCIEDADE E A IDÉIA DE JUSTIÇA 30
SOCIAL
1.1. O Direito como pilar do liberalismo 30
1.1.1 A interdependência entre Direito e Estado 30
1.1.2 O Estado de Direito 38
1.1.3. Dos direitos individuais aos direitos humanos 43
1.2. A crítica marxista do Direito 49
1.2.1. Apontamentos de Marx e Engels sobre o Direito 49
1.2.2. O Direito proletário ou o fim do Direito 55
1.2.3. A construção da teoria geral do Direito em Pachukanis 61
1.3. A sociedade justa 75
1.3.1. Tomás de Aquino e a recuperação do conceito de justiça 75
econômica
1.3.2. Os limites da justiça econômica no marco do capitalismo 84
de monopólios
1.3.3. O Serviço Social e a justiça social 90
CAPÍTULO II – A FORMAÇÃO DO JUDICIÁRIO NO BRASIL E A 103
JUSTIÇA ASSISTENCIAL
2.1. A função social do Judiciário 103
2.1.1. A constituição do Judiciário em poder de Estado 103
2.1.2. A crise do Judiciário ou o Judiciário da crise 114
2.1.3. A busca pela superação da “crise do Poder Judiciário” 122
2.2. O Poder Judiciário no Brasil 132
2.2.1. A formação da consciência e das instituições jurídicas no 132
Brasil
8
2.2.2. A organização do Poder Judiciário a partir da República 148
2.2.3. A justiça de menores: construção de uma justiça 162
assistencial
CAPÍTULO III – A ENTRADA DO SERVIÇO SOCIAL NO PODER 183
JUDICIÁRIO
3.1. A proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de 183
Menores
3.1.1. O Juizado de Menores durante a era Vargas 183
3.1.2. As primeiras inter-relações com o Serviço Social 192
3.1.3. O período democrático e a retomada do protagonismo do 200
Juizado de Menores
3.2. A consolidação do Serviço Social no Poder Judiciário 210
3.2.1. O Serviço de Colocação Familiar 210
3.2.2. As alterações na conjuntura política e a reviravolta na 219
condução do Juizado de Menores
3.2.3. A ampliação das atividades do Juizado de Menores e o 231
Serviço Social
CAPÍTULO IV – O DESENVOLVIMENTO DE UMA PECULIAR FORMA 249
DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL
4.1. A conjuntura política, o papel do Juizado de Menores e o 249
Serviço Social
4.1.1. Os tempos áureos do Juizado de Menores 249
4.1.2. Os primeiros entraves da estrutura montada 261
4.1.3. O regime militar e a Política Nacional do Bem-Estar do 273
Menor
4.2. O juizado judicante: o desmonte da máquina assistencial e a 287
construção da função de perito para o Serviço Social
4.2.1. Crise e expurgos no interior do Juizado de Menores 287
4.2.2. A reestruturação do Juizado de Menores e a construção 301
da função de perito
4.2.3. A descentralização das Varas de Menores e a expansão 315
do Serviço Social
9
CONCLUSÃO 330
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 344
OUTRAS FONTES 351
10
INTRODUÇÃO
O tema deste estudo é a modalidade de ação profissional que o Serviço
Social desenvolveu no interior do Poder Judiciário, sua relação com a função do
Judiciário enquanto um poder de Estado e com o próprio Direito, instrumento da
ação judiciária.
Para ilustrar a relação da profissão com o Judiciário, começaremos por
relatar uma situação bastante comum para os profissionais dessa área.
Queremos com isso chamar a atenção para a importância da reflexão sobre essa
modalidade de intervenção profissional do Serviço Social.
O cenário em que se desenrola a situação é uma das dependências do
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, um pequeno auditório, onde alguns
profissionais se reuniram em um evento para discutir os problemas gerados por
uma série de crimes hediondos ocorridos recentemente, envolvendo adolescentes
como vítimas e como agressores, crimes que mobilizaram a opinião pública e
estavam exigindo um posicionamento do Judiciário1.
Coordenando os trabalhos estavam membros de uma das equipes técnicas
das Varas da Infância e Juventude da capital, formada por assistentes sociais e
psicólogos. Na mesa, juizes e promotores solicitavam dos debatedores e da
seleta platéia, - formada por outros juízes, mais promotores e vários profissionais
que atuam na área, entre os quais médicos, assistentes sociais, psicólogos,
pedagogos e sociólogos -, que se discutisse que encaminhamentos deveriam ser
1
O evento que inspirou esta ilustração intitulava-se “Saúde mental e justiça – controvérsias e impasses nos
diagnósticos de personalidade anti-social e similares”e realizou-se em 05 de dezembro de 2003 no Auditório
do Fórum das Varas Especiais da Infância e Juventude da capital, reservamo-nos o direito de apresentar aqui
uma visão bastante particular do ocorrido.
11
dados aos envolvidos naqueles casos de violência extrema que estavam se
tornando cada vez mais comuns.
Aos apelos iniciais da mesa seguiram-se as falas dos expositores que
abordaram as principais questões sobre o tema a partir de seus respectivos
enfoques profissionais. Alguns profissionais, representando autoridades, falaram
sobre o que estava sendo feito na esfera do Poder Executivo: quais programas de
atendimento estavam em andamento. Um desses profissionais, mais lúcido, fez
alusão a tudo que ainda estava por ser feito na área, que se sabia necessário
fazer para um enfrentamento minimamente sério da questão.
Na seqüência foi aberto o debate com a platéia que estava ávida para se
posicionar, e o fez através de questionamentos e ponderações sobre o tema. O
debate durou mais de três horas, dando origem a acaloradas discussões sobre a
realidade social e sobre as várias correntes explicativas da questão da violência.
Diante do prolongamento das discussões, os representantes do Judiciário
presentes começaram a demonstrar certa impaciência com as dificuldades em
chegar a um denominador comum sobre o que fazer nos casos específicos.
Porém, alguns profissionais lembraram-lhes que os problemas tratados ali eram
de difícil solução e que provavelmente precisassem de mais tempo para discutir e
encontrar saídas.
Foi então que um promotor de justiça levantou-se da plenária, tomou a
palavra e disse que compartilhava de todas as análises feitas ali,
complementando-as inclusive, numa demonstração de grande domínio das
teorias sociológicas e psicológicas que perpassam toda a problemática da
violência na sociedade de classes. Mas fez questão de ressaltar que não se
12
dispunha de muito tempo para discussões: os fatos já haviam ocorrido e aos
juízes e promotores cabia avaliar a situação e dar um encaminhamento concreto
para cada um dos casos. Quase num apelo, solicitou uma sugestão viável,
mesmo sabendo de antemão que se tratava de problema complexo e de difícil
solução.
A mesa retomou a palavra e pediu aos presentes, com especial atenção
aos profissionais como os assistentes sociais, os psicólogos e os médicos, que
sugerissem ao Judiciário o que fazer diante daqueles casos, pois aos juízes cabe
tomar decisões diante dos conflitos estabelecidos, e essas decisões já estavam
sendo tomadas. Não havia omissão por parte deles, sabiam que sobre o
Judiciário, e sobre cada um dos seus membros, recairia a responsabilidade por
qualquer conseqüência das decisões tomadas, mas pediam sugestões sobre a
melhor forma, a menos danosa, a possível, diante da realidade. E um dos
membros da mesa, um juiz, concluiu usando as palavras que reproduzimos aqui
aproximadamente: se vocês não souberem o que fazer, quem saberá?
Este comentário - quase um apelo – reflete sinteticamente as relações
entre o Serviço Social e o Poder Judiciário. Os assistentes sociais atuam no
interior do Judiciário prioritariamente como integrantes das equipes técnicas das
Varas de Infância e Juventude e de Família e Sucessões, fornecendo subsídios
aos juízes, assessorando-os na tomada de decisões e realizando outras tarefas
que auxiliam a aplicação da justiça2.
2
No caso específico do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo existem hoje diversas experiências e
propostas de intervenção do Serviço Social em outras áreas da ação judicante como as cíveis, as criminais e
os juizados especiais. Além disto, o espectro de intervenção dos assistentes sociais já extrapolou esse
universo judicante: há mais de vinte anos existem profissionais atuando em recursos humanos, junto aos
13
Atualmente todas as Varas de Infância e Juventude do Estado de São
Paulo, da capital e do interior, possuem uma equipe técnica formada por pelo
menos um assistente social3. Os profissionais atuam no atendimento ao público
que acorre aos fóruns solicitando algum tipo de intervenção da justiça nessa área,
elaborando estudos sociais e emitindo pareceres através de laudos periciais por
solicitação judicial. Também faz parte das atribuições profissionais a realização de
tarefas afins como o auxílio na fiscalização das entidades de atendimento, a
elaboração do cadastro de interessados em adoção, a seleção e treinamento do
comissariado da infância e juventude, o acompanhamento de casos, entre outras.
Como uma profissão que se tornou necessária para o andamento das
ações que correm na área de infância e juventude, o Serviço Social está inserido
na estrutura do Poder Judiciário de São Paulo há mais de cinqüenta anos. Sua
atuação ao longo desse tempo abriu caminhos para a entrada de outros
profissionais nessa área, como os psicólogos, e disseminou uma modalidade de
intervenção que hoje está presente em praticamente todos os tribunais de justiça
dos demais estados da federação.
A compreensão dessa modalidade de intervenção no Judiciário requer o
conhecimento das conseqüências do aprofundamento da “questão social”, da
agudização dos conflitos sociais gerados pela crise da ordem social capitalista e
pela forma como o Estado é mobilizado para dar respostas às seqüelas dessa
funcionários do Tribunal. A ação dos profissionais é também solicitada com bastante freqüência pelos
Tribunais de Alçada do Estado de São Paulo
3
Os dados fornecidos pela Associação de Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo – AASPTJ-SP, informam que 181 assistentes sociais e 133 psicólogos atuavam na comarca da
capital no ano de 2001. Os dados referentes ao interior são mais recentes, de dezembro de 2003, e informam
a existência de 586 assistentes sociais e 212 psicólogos divididos nas diversas circunscrições do interior.
Esses números, porém, já foram maiores, uma vez que já há alguns anos o Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo não realiza concurso público para substituição de aposentadorias e demissões.
14
crise. Requer o conhecimento do rebatimento disso no Poder Judiciário que,
como parte da estrutura de poder do Estado, se enfrenta com tais problemas de
uma forma singular: eles são apresentados de forma individualizada, como
conflitos entre partes, como litígios, cabendo-lhe aplicar as leis existentes,
estabelecendo as punições cabíveis e encaminhando soluções para as situações
de conflito. Nessa medida, torna-se necessário também a compreensão da
natureza do próprio Direito como conjunto de normas instituídas para regular a
vida em sociedade.
Porém, é necessário considerar que uma parte significativa dos litígios que
se apresentam ao Judiciário tem como causa direta a omissão do próprio Estado
na garantia dos direitos mínimos de cidadania. Sem entrarmos aqui, neste
momento inicial, na discussão sobre as possibilidades ou não de que esses
direitos sejam efetivamente garantidos, constatamos apenas que as seqüelas da
“questão social” chegam ao Poder Judiciário e por ele devem ser enfrentadas
numa conjuntura em que muito pouco daquilo que está estabelecido nas leis é
cumprido, e o maior transgressor dessas leis é o próprio Estado.
Evidentemente que os litígios que se apresentam ao Judiciário não estão
circunscritos a casos de violência cometidos por e contra crianças, como no
exemplo dado logo no início. Eles abarcam uma variada gama de conflitos cuja
natureza implica aspectos que se convencionou chamar de “sociais”, ou
psicossociais. Sob o rótulo de social, são designados os conflitos envolvendo
crianças, famílias, idosos, incapazes, comunidades carentes, entre outros.
Enquadradas em conflitos de natureza psicossocial estão as situações que
15
envolvem comportamentos delituosos, ou questões de relacionamento
interpessoal.
Nas varas cíveis, criminais, de infância e juventude, de família e
sucessões, na justiça do trabalho, nos juizados de pequenas causas/juizados
especiais, vemos acorrer toda sorte de litígios gerados pelo não-cumprimento ou
cumprimento inadequado da legislação social. Nos processos de despejo, de
abandono de crianças, de não-pagamento de direitos trabalhistas, etc. reflete-se a
falta de políticas sociais de habitação, de assistência social, de educação, de
saúde, de emprego, etc 4.
Assim os magistrados, cuja formação acadêmica os torna especialistas na
aplicação do Direito, vêem-se impotentes diante da incapacidade de aplicar a
legislação, e constatam a necessidade de contar com outros especialistas que os
auxiliem a compreender essa realidade, a realizar a leitura das diferentes
expressões individualizadas do “social” e a encaminhar as soluções cabíveis e
viáveis em cada caso.
Imprescindíveis para a tarefa de administração da justiça, esses
especialistas são profissionais que têm no trabalho do assistente social um
modelo de intervenção considerado tradicional no interior do Judiciário. O
assistente social foi o primeiro dentre todos os profissionais a fazer parte
formalmente da estrutura do Poder Judiciário e ter desenvolvido uma modalidade
de intervenção apropriada para dar as respostas demandadas pela organização
judiciária.
4
Um recente trabalho produzido como dissertação de mestrado, intitulado Crise, demandas e respostas fora
de lugar, (MATIAS, 2002), aborda especificamente esse tema e pode ser consultado para um
aprofundamento da questão.
16
Embora em 1925, no Decreto de criação do primeiro Juízo de Menores de
São Paulo, estivesse prevista a figura de um médico para auxiliar o juiz a
compreender o problema que se lhe apresentava, a intervenção desses
profissionais não se consolidou na estrutura do Judiciário. Foram os assistentes
sociais os profissionais que ocuparam efetivamente essa função desde a sua
entrada formal na organização em 1949 como gestores do Serviço de Colocação
Familiar, programa pioneiro no Brasil de transferência de renda a famílias pobres
e famílias substitutas.
Desde então o Serviço Social trilhou um caminho que consolidou a
profissão como o núcleo do que se chama hoje de “equipe técnica”, responsável
por oferecer subsídios para que o juiz possa tomar a sua decisão auxiliando-o a
operacionalizar a justiça através de atividades como triagem, encaminhamentos,
orientações, aconselhamentos, entre outros. Como exemplo podemos citar a
inserção dos psicólogos nessa área, que se deu somente trinta anos mais tarde
quando, na década de 1980, a Psicologia entra formalmente no Judiciário paulista
passando a compor com os assistentes sociais a equipe técnica.
Desde as primeiras Semanas de Estudos do Problema de Menores,
iniciadas em 1948, em uma parceria com a Escola de Serviço Social (PUC/SP), o
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo é reconhecido nacional e
internacionalmente por suas ações de vanguarda na justiça da infância e
juventude. Ao longo de mais de cinqüenta anos de atuação profissional, os
assistentes sociais auxiliaram o Judiciário paulista na sua função de aplicação das
leis. Além disso, disseminaram suas propostas implantando serviços iguais aos
de São Paulo no Estado do Paraná e no Estado de Goiás, somente para citar os
17
exemplos dados pelos profissionais por nós entrevistados como nos mostram os
relatos contidos neste trabalho, além de darem aulas em diversas faculdades e
difundirem essa modalidade de intervenção profissional em congressos e eventos
científicos.
O Serviço Social desenvolveu, a partir do Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo, no Juizado de Menores da Capital, uma modalidade de intervenção
que se tornou parâmetro de ação para os demais Tribunais de Justiça estaduais5.
Hoje, em praticamente todos eles, com maior ou menor número de profissionais,
melhor ou pior estrutura para o desenvolvimento dos trabalhos, os tribunais de
justiça possuem assistentes sociais atuando prioritariamente nas varas de
infância e juventude6.
Mais que isso, a modalidade de intervenção construída pelos assistentes
sociais no Judiciário paulista ao longo de sua história foi consagrada pelo Estatuto
da Criança e do Adolescente que, em seus artigos 150 e 151, prevê a
obrigatoriedade do Poder Judiciário manter equipe interprofissional para
assessorar a justiça da infância e juventude, instituindo nacionalmente um
reconhecimento da importância dessa modalidade de intervenção profissional
5
Como um dado ilustrativo de que esse movimento continua, vale informar que, por volta de 1991, ainda nos
primeiros momentos de implantação do Estatuto da Criança e do Adolescente, as equipes técnicas do Poder
Judiciário elaboraram um material interno para o treinamento dos novos profissionais que estavam sendo
contratados pelo Judiciário paulista. Esse material, intitulado Manual do Curso de Iniciação Funcional para
Assistentes Sociais e Psicólogos Judiciários (1991/1992) ,tornou-se uma referência nacional e, apesar dos
limites impostos pela sua produção, correu todo o país como um manual do fazer profissional de assistentes
sociais e psicólogos no Poder Judiciário
6
No X Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais – CBAS, ocorrido em 2001 na cidade do Rio de Janeiro,
os participantes do grupo de trabalho temático sobre o sistema sócio-jurídico, apontaram a necessidade de um
levantamento preciso sobre esses números. Como conseqüência dessa indicação o Conselho Federal de
Serviço Social criou um grupo de trabalho para debater a atuação do Serviço Social no sistema sócio-
jurídico, o que inclui o Serviço Social no Poder Judiciário.
18
que, embora não seja explicitamente definida como privativa do assistente social,
toma sua ação como modelo.
Estes indicativos da relevância do Judiciário como campo de atuação do
Serviço Social por si instigam a retomada do estudo de uma modalidade de
prática que não tem sido muito estudada na atualidade. Do ponto de vista
histórico, o Serviço Social no interior do Poder Judiciário, como uma prática
consolidada institucionalmente, teve seus momentos altos e baixos no que diz
respeito ao reconhecimento, pela categoria profissional, das possibilidades de
uma intervenção afinada com seus projetos profissionais mais gerais. Nos anos
de 1950 e 1960 era bastante valorizada no meio profissional como uma
modalidade de prática inovadora, tendo sido relegada como possibilidade de
prática criativa e engajada para os parâmetros profissionais da década de 1980,
em vista principalmente da sua natureza de intervenção individual e subordinada
à autoridade judicial. A partir dos anos de 1990, com a entrada em vigor do
Estatuto da Criança e do Adolescente e demais legislação social, essa
modalidade de prática ganhou novo reconhecimento no interior da categoria
profissional, configurando-se novamente como foco de reflexões.
Atualmente o fazer profissional do Serviço Social nesse significativo campo
de trabalho tem sido pensado como uma prática inserida no que se está
chamando de sistema sócio-jurídico7. Nesse campo a atuação dos assistentes
7
Segundo Eunice Terezinha Fávero o ...campo (ou sistema) sócio-jurídico diz respeito ao conjunto de áreas
em que a ação do Serviço Social articula-se a ações de natureza jurídica, como o sistema judiciário, o
sistema penitenciário, o sistema de segurança, os sistemas de proteção e acolhimento como abrigos,
internatos, conselhos de direitos, dentre outros. O termo sócio-jurídico, enquanto síntese destas áreas, tem
sido disseminado no meio profissional do Serviço Social, em especial com a escolha como tema central da
Revista Serviço Social e Sociedade n. 67 (Cortez Editora), pelo comitê que a organizou, tendo sido
incorporado, a seguir, como uma das sessões temáticas do X CBAS – Congresso Brasileiro de
Assistentes/2001 (FÁVERO, 2003, pág. 10).
19
sociais no Poder Judiciário tem suscitado uma série de discussões sobre a
natureza do seu papel como um perito judiciário, sobre o caráter auxiliar da ação
profissional em que esta sobressai como um meio, e sobre o relacionamento com
a estrutura institucional que é formal e hierarquizada, somente para citar algumas,
dentro do leque de questões que têm preocupado os profissionais que atuam na
área.
As peculiaridades da ação profissional no interior do Poder Judiciário estão
marcadas pela natureza diferenciada da organização cuja função não está
diretamente vinculada à prestação de serviços sociais. Estas peculiaridades são
vivenciadas pelos assistentes sociais – profissional cuja ação é eminentemente
interventiva e ligada à prestação de serviços – na forma de um conflito provocado
pela dificuldade de compreender e incorporar as ações demandadas pelo
Judiciário como atribuição profissional do assistente social e sem perder a
referência dos parâmetros ético-políticos construídos pela categoria profissional.
Esta problematicidade reforça a necessidade de conhecer como se deu a
construção dessa modalidade peculiar de ação profissional, longe de considera-la
um ramo ou uma especialidade do Serviço Social – daí a impropriedade do uso
da expressão Serviço Social Judiciário -, consideramos apenas um tipo de
resposta, uma adaptação da profissão às necessidades de uma organização cuja
função social determina uma forma de ação específica, menos conhecida dos
profissionais porque foge dos padrões comuns das organizações onde
majoritariamente atuam assistentes sociais, caracterizadas pela prestação direta
de serviços.
20
Acreditamos ser possível, através do conhecimento de como, ao longo dos
anos, foram sendo construídas pelos assistentes sociais as propostas de
intervenção, colocadas em prática, consolidadas, encerradas, recriadas, enfim,
nesse movimento de construção e reconstrução das ações profissionais, entender
como a prática dos assistentes sociais no interior do Poder Judiciário se tornou o
que é hoje: o que chamam de assessoria nas decisões judiciais, elaboração de
perícias, fornecimento de subsídios, ou simplesmente Serviço Social.
Para entender como se deu a formação do Serviço Social no Poder
Judiciário buscamos estudar a estruturação da profissão ao longo dos quarenta
primeiros anos de sua inserção no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,
órgão executor da justiça comum estadual paulista onde se deu a construção da
primeira e mais importante experiência de inserção profissional do Serviço Social
no Judiciário brasileiro.
Esses quarenta anos estão delimitados em seu início, 1948, pela I Semana
de Estudos do Problema de Menores, realizada pelo Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo, Procuradoria Geral de Justiça do Estado e pela Escola de
Serviço Social, em que a Profª. Odila Cintra Ferreira, representando a Escola de
Serviço Social formulou a proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de
Menores. Em seu limite final, 1988, o estudo é delimitado pela entrada em vigor
da atual Constituição Federal, marcando um novo período democrático para o
país, cuja orientação alterou os parâmetros estabelecidos para a legislação social,
reorientando boa parte das ações de profissionais nessa área em todas as
esferas do Estado.
21
Nossa intenção inicial não se constituía em elaborar uma história do
Serviço Social no Poder Judiciário de São Paulo, queríamos apenas compreender
como a profissão formatou essa modalidade de intervenção profissional. Não foi
possível, porém, fugir da reconstrução histórica da profissão no interior da
organização porque havia pouco dessa história já escrita e sem ela seríamos
incapazes de captar os movimentos gerais da profissão que nos permitissem
minimamente compreender a sua formação.
Assim, o estudo que ora se apresenta está calcado em uma pesquisa
histórica, mas não está centrado nela; nossa proposição foi encontrar, nesse
movimento histórico, alguns planos de mediações que nos permitissem
compreender como as demandas de uma instituição, no caso o Judiciário,
determinaram a forma de exercício da profissão com vistas a reproduzir num
plano pontual como se concretiza a determinação social da profissão. É um
estudo que pretende lançar algumas bases para a elaboração futura de uma
compreensão mais profunda da natureza do Serviço Social no Poder Judiciário
Nossa hipótese inicial estava baseada na percepção de que a natureza
eminentemente executiva do Serviço Social tinha alguma serventia para a função
judicante, própria do Poder Judiciário. Restava saber qual seria essa serventia e
como a profissão se adaptou às necessidades de operacionalização dessa função
por parte da organização, como ela criou um ethos profissional voltado para
responder às necessidades institucionais.
Para elaborar este trabalho partimos da identificação de alguns sujeitos
profissionais que nos pudessem auxiliar na reconstrução da história da profissão
no interior do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e que ao mesmo tempo
22
pudessem nos auxiliar a identificar esses grandes movimentos. Esses sujeitos
significativos foram identificados por nós sem maiores problemas, pois eram
reconhecidos por grande parte dos profissionais do Judiciário como tais. A
trajetória profissional de cada um deles diz muito da trajetória da própria profissão
no interior da organização judiciária.
Foram quatro os sujeitos diretamente entrevistados por nós no período
compreendido entre novembro de 2002 e junho de 2003, constituindo um conjunto
de dez horas de fitas gravadas, transcritas e aprovadas pelos respectivos
entrevistados sobre sua trajetória profissional no interior do Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo. A maior parte deles iniciaram sua ação como estagiários na
década de 50 e permaneceram no interior do Judiciário até a aposentadoria. São
eles:
Beatriz Cardoso Esteves Franco: assistente social formada pela Escola de
Serviço Social (PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiária de
Serviço Social em 1959 atuando no Serviço de Colocação Familiar. Atuou em
comarcas da capital e da grande São Paulo e, desde 1977, teve importante papel
na estruturação do Serviço Social junto às Varas de Família e Sucessões.
Aposentou-se em 1990 dentro da organização e continuou dando assessoria para
profissionais da área.
João Batista Adduci: assistente social formado pela Escola de Serviço
Social (PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiário de Serviço
Social em 1956 atuando no Serviço de Colocação Familiar. Foi assistente social
do Recolhimento Provisório de Menores-RPM e esteve à disposição da Secretaria
de Promoção Social do Estado quando da criação da Fundação Pró-Menor e da
23
Febem-SP. Foi o sucessor de José Pinheiro Cortez na coordenação do Serviço
de Colocação Familiar, assumindo o serviço por mais de dez anos. Atuou também
em programa de adoção e em Varas de Família e Sucessões. Aposentou-se
dentro da organização no início da década de 1990.
Suraia Daher: assistente social formada pela Escola de Serviço Social
(PUC/SP), iniciou sua carreira no Judiciário como estagiária de Serviço Social em
1957 atuando na Secção de Informações e de Serviço Social. Foi responsável
técnica do Pensionato Maria Gertrudes e posteriormente assistente social e
coordenadora do Centro de Observação Feminina - COF. Fez parte da equipe
que elaborou a minuta para a criação da Fundação Pró-Menor. Desligou-se do
Judiciário juntamente com o grupo de profissionais que foi transferido para o
Poder Executivo, em 1973/74, quando da passagem do COF e demais unidades
do Judiciário.
Therezinha Zabirowski Davidovich: assistente social formada pela Escola
de Serviço Social (PUC/SP), iniciou sua atuação no Judiciário como comissária de
menores do Juizado de Menores da capital, voluntariamente. Foi incorporada ao
quadro do Judiciário em 1962 e designada para a Fundação Dna Paulina de
Souza Queiroz onde exerceu a função de encarregada. Em 1969 passou a atuar
como assistente social do gabinete do juiz de menores permanecendo lá até
1979. Atuou nas Varas de Família e Sucessões, foi supervisora de profissionais
na Vara Central de Menores e membro da Comissão de Desenvolvimento
Profissional dos Assistentes Sociais e Psicólogos do Tribunal de Justiça.
Aposentou-se dentro da organização no início da década de 1990 e manteve
24
vínculos com o Tribunal realizando atividades de treinamento e capacitação para
profissionais, ainda por algum tempo.
Além das quatro entrevistas, tivemos acesso a íntegra da entrevista
concedida por Zilnay Catão Borges para Eunice Teresinha Fávero em junho de
1994, gentilmente cedida pela pesquisadora. Zilnay foi assistente social e
professora de Serviço Social, fez parte, juntamente com José Pinheiro Cortez e
Idalina Monteclaro César, do trio de assistentes sociais pioneiros responsáveis
pelos primeiros trabalhos do Serviço Social no Juizado de Menores da capital,
atuando lá de 1956 a 1977. A entrevista foi realizada como parte da pesquisa
para a elaboração de dissertação de mestrado que, mais tarde, foi publicada com
o título de Serviço Social, práticas judiciárias, poder: a trajetória do Serviço Social
no Juizado de Menores de São Paulo de 1948 a 1958 (FÁVERO, 1996).
O livro de Fávero é fartamente citado neste trabalho. Ele contém partes dos
depoimentos de Helena Iracy Junqueira, José Pinheiro Cortez (já falecidos) e de
Zilnay Catão Borges, e constituiu-se em uma importante referência para este
estudo no que diz respeito aos dez primeiros anos de atuação do Serviço Social
no Judiciário. O depoimento de Zilnay Catão Borges, que abrangeu um período
que extrapolou a pesquisa de Fávero foi de grande valia para compreendermos
alguns fatos ocorridos e sua significação.
Como fonte importante deste estudo contamos também com o valioso
material contido nos anais das 13 Semanas de Estudos do Problema de Menores.
Compreendidas entre 1948 e 1983 essas semanas de estudos foram
acontecimentos ímpares para o desenvolvimento da política para a área da
infância e juventude em São Paulo. Os textos contidos nos anais são a
25
cristalização de um movimento, dos pensamentos dominantes e dissonantes, da
posição das autoridades, do trabalho dos técnicos apresentados em estudos e
pesquisas.
Infelizmente, porém, além dos anais das Semanas de Estudos e de alguns
livros e artigos publicados por juízes e técnicos envolvidos nesse trabalho, não
existe material disponível sobre as atividades desenvolvidas no Juizado de
Menores ao longo dos quarenta anos estudados aqui. Provavelmente isso se
deveu a lamentável atitude do último juiz titular da vara única de menores da
capital, Dr. Antonio Luis Chaves Camargo, ele próprio autor de um dos poucos
livros sobre o tema, que, no afã de informatizar o Juizado de Menores, mandou
destruir toda a documentação existente nos arquivos da vara. O material utilizado
por nós, tais como portarias, estudos técnicos, relatórios de atividades, etc., foi
todo ele cedido pelos entrevistados que literalmente abriram os seus armários e
deles retiraram as provas do seu trabalho salvas da destruição.
O estudo da bibliografia foi complementado pelo levantamento realizado
em arquivos de jornais, de bibliotecas especializadas como a da Secretaria
Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social e a do Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo e pelo estudo de leis e decretos pertinentes à área.
A apresentação do trabalho foi dividida em quatro capítulos. O primeiro
reflete a nossa tentativa de compreender o Direito como o instrumento da ação do
Judiciário. Acreditamos que não seria possível identificar os movimentos do
Serviço Social no interior dessa organização se não compreendêssemos
minimamente a própria organização e sua função social. Para tanto consideramos
importante compreender a natureza do Direito e do Estado de direito na lógica
26
liberal, que é aquela que dá o suporte para a existência mesma do Poder
Judiciário.
Também consideramos importante reunir alguns elementos da crítica ao
Direito que possibilitassem extrapolar nossa análise para além da lógica liberal.
Essa crítica foi colhida dentro do universo do marxismo e é apresentada aqui
através da fundamental reflexão de Evgueni Pachukanis sobre a importância do
Direito como materialização das relações capitalistas de produção.
Ainda no primeiro capítulo consideramos importante destacar a idéia de
sociedade justa, como se construiu essa idéia, quais os seus limites de aplicação
na atualidade e como os assistentes sociais a incorporaram e sua importância
para o universo ideológico e político dos profissionais.
Feita essa primeira incursão pelo Direito, apresentamos no segundo
capítulo o resultado de nossa reflexão sobre a organização na qual se
desenvolveu a ação do Serviço Social: o próprio Judiciá[Link] destacar que este
é um poder de Estado desconhecido da maior parte dos brasileiros. Apesar de tão
próximo dos problemas sociais, o Poder Judiciário está muito distante do cidadão
comum. Os tribunais são grandes desconhecidos da população em geral e dos
assistentes sociais também, são labirintos processuais criados para dificultar o
acesso da população leiga, onde até mesmo advogados transitam com
dificuldades. Rogério Bastos Arantes chama a atenção para o fato de que o Poder
Judiciário é muito pouco estudado, ele diz:
Uma grave lacuna da ciência social brasileira é a parca produção
acadêmica sobre o Poder Judiciário...É verdade que podemos
encontrar vários trabalhos do ponto de vista jurídico sobre o
Judiciário e seu órgão de cúpula o Supremo Tribunal Federal.
Mas sua abrangência é quase sempre restrita à descrição dos
27
textos legais e constitucionais que dão forma à instituição
judiciária. Não que isso seja de pouca importância, mas a falta de
uma análise política, capaz de demonstrar as conseqüências mais
amplas do papel institucional do Judiciário, é uma lacuna que
esses trabalhos ainda não conseguiram preencher. (ARANTES:
1997; 21)
Acreditamos que compreender o Judiciário é fundamental para todos os
profissionais de Serviço Social uma vez que esse poder de Estado é importante
ator no cenário das decisões políticas, principalmente em períodos democráticos.
Mas, para aqueles que estão diretamente envolvidos com a prática profissional
em seu interior, essa compreensão é imprescindível para a decodificação das
demandas postas para a profissão na instituição e para a formulação de
propostas que reforcem a legitimação social da profissão.
Foram abordados temas como a própria constituição do Judiciário em
poder de Estado, sua estrutura e função social. Abordamos alguns aspectos
sobre o que se chama atualmente de “crise do Judiciário”, e as tentativas de
superação dessa crise com as alternativas construídas para facilitar o acesso da
população à justiça. Num segundo momento discute-se o Poder Judiciário no
Brasil e a criação da “justiça de menores” dentro de uma perspectiva assistencial.
No terceiro e quarto capítulos apresentamos o resultado de nossa pesquisa
sobre a construção dessa modalidade peculiar de ação profissional do Serviço
Social desenvolvida no interior do Poder Judiciário. O texto segue uma lógica
histórica abordando os principais movimentos que identificamos ao longo dos
quarenta anos estudados. O primeiro momento se constitui na inserção formal do
Serviço Social na estrutura do Juizado de Menores: dos primeiros contatos e do
movimento das Semanas de Estudos do Problema de Menores no qual a Escola
28
de Serviço Social teve intervenção decisiva, passa pela implantação do Serviço
de Colocação Familiar e pela contratação dos primeiros assistentes sociais.
No segundo momento tratamos da expansão e consolidação do Serviço
Social no interior do Juizado de Menores, onde é apresentada toda a estrutura
que foi montada tendo como modelo a proposta dos tribunais juvenis e discutidas
as particularidades que esse modelo assumiu entre nós dada a pobreza reinante
no País e as precárias ações na área de política social.
São abordados também a crise desse modelo, o desmonte da estrutura do
Juizado de Menores e a construção de uma nova modalidade de ação
profissional, que já existia, embora de maneira incipiente, desde o início da
inserção do Serviço Social no Judiciário, mas que adquire nesse momento uma
importância maior, passa a ser reconhecida e formulada pelos próprios
profissionais como atribuição profissional no interior do Judiciário. Tratamos da
consolidação desse modelo de intervenção mais claramente voltado para o apoio
à ação judicante e de sua extrapolação para outras áreas que não apenas o
Juizado de Menores.
No estudo desses principais movimentos está contemplada uma breve
contextualização da conjuntura política com ênfase nas questões que
influenciaram o posicionamento do Poder Judiciário diante dos demais poderes do
Estado. Nessa contextualização resgatamos também algumas das principais
questões relativas à política social, principalmente no que diz respeito ao
tratamento dado à infância e juventude e como o Judiciário se posicionava
perante elas.
29
Outra preocupação que permeia toda a exposição do terceiro e do quarto
capítulos diz respeito à relação entre o Poder Judiciário e o Poder Executivo. O
leitor poderá observar a importância da conjugação das funções executivas e das
funções judicantes exercidas pelos assistentes sociais no interior do Judiciário
para a formatação da modalidade de intervenção profissional que estudamos
aqui, além de obter alguns elementos para que possa analisar a importância que
as ações de natureza executivas desempenham na afirmação do Poder Judiciário
como poder de Estado em uma situação de crise da ordem social capitalista.
Por fim, está presente, em linhas gerais, a percepção dos profissionais
sobre a sua prática e de alguns membros do Judiciário sobre a prática do Serviço
Social, expressa através dos discursos dos entrevistados e dos documentos e
discursos oficiais de representantes do Judiciário.
Como conclusões, apresentadas ao final, estão algumas articulações entre
os três grandes temas tratados neste estudo: o Direito, o Poder Judiciário e a
formação do Serviço Social, com vistas a auxiliar a compreensão dessa
modalidade peculiar da ação profissional e indicar caminhos para o futuro.
30
CAPÍTULO I – O DIREITO, A SOCIEDADE E A IDÉIA DE JUSTIÇA SOCIAL
1.1 O Direito como pilar do liberalismo
1.1.1 A interdependência entre Direito e Estado
A modernidade tem como um dos seus atributos o vínculo essencial entre o
Direito e o Estado. Esta vinculação vem sendo construída desde Hobbes (1588-
1679) e Locke (1632-1704), passando por Montesquieu (1689-1755), Kant (1724-
1804) e Rousseau (1712-1778) e até por pensadores mais próximos ao nosso
tempo como Weber (1864-1920) e Habermas (1929). Aristóteles (384-322 a.C.)
já havia delimitado o poder político como o poder exercido na polis, como o poder
dos governantes sobre os governados, que age em nome de ambas as partes, no
interesse do bem comum.
O vínculo entre Estado e Direito comporta uma relação de
interdependência mediante a qual o Estado utiliza o Direito como instrumento de
sua ação política e, ao mesmo tempo, é regulado e limitado nessa sua ação pelo
próprio Direito.
Desta perspectiva, compreender a lógica de funcionamento do Estado é o
ponto de partida para compreender o próprio Direito e sua função na sociedade
moderna.
31
Norberto Bobbio (2000), em seu livro Teoria Geral da Política, busca definir
o poder político a partir de três critérios: o primeiro é o de sua função, o segundo
o de seu fim, e o terceiro e últimoo dos seus meios.
No que diz respeito à sua função recorre a comparações utilizadas desde a
antiguidade, da sociedade como um organismo social do qual o governo é a
cabeça, ou da sociedade como um barco onde o governo se personifica no
timoneiro, considerando-as metáforas válidas. Em ambos os casos o poder
político tem a função de dirigir, comandar, guiar.
Para exercer essa função o poder político necessita do poder de comandar,
ou seja, do poder de fazer com que os comandados obedeçam aos seus
comandos. Esse poder implica conseguir a obediência de todos, até mesmo
daqueles que resistem a obedecer e, portanto, implica também no poder de punir
aqueles que não obedecem.
No entanto, a função de dirigir, comandar, não é exclusiva do poder
político, podendo ser encontrada em outras formas de poder como o poder
patriarcal - o do pai sobre o filho -, ou o poder do chefe sobre o trabalhador. Assim
uma definição do poder político a partir de sua função torna-se insuficiente para
diferenciá-lo das demais formas de poder e explicitar a natureza do Estado.
Do ponto de vista dos fins, Bobbio novamente recorre aos clássicos como
ponto de partida, mostrando que estes definiam como o fim da política o bem
comum. Entendido o bem comum como o bem da comunidade, em distinção ao
bem dos indivíduos que a compõem. Ou seja, a idéia de bem comum só se torna
compreensível quando se explicita a oposição entre interesses públicos e
interesses privados.
32
O autor afirma que o conceito de bem comum é pouco claro porquanto é
encontrado de forma variável nas diferentes comunidades ao longo da história,
conforme cada sociedade considere necessária uma maior ou menor extensão da
esfera pública em relação à esfera privada (BOBBIO, 2000, p. 219). Assim, uma
sociedade, na qual as decisões são tomadas de maneira coletiva, poderia
considerar como fim do Estado a consecução daquilo que foi decidido pela
maioria. Já uma sociedade calcada na opressão de um grupo sobre outro, pode
sustentar interesses de um grupo como interesses de toda a comunidade; sendo
assim o Estado teria como fim satisfazer esses interesses. Além disso, fins
intermediários podem ser pleiteados pelos diversos estados através da história,
como, por exemplo, o comércio, o engrandecimento, o estímulo e preservação
das artes e da cultura, a expansão territorial, etc.
A definição torna-se ainda mais frágil ao constatarmos que tanto Maquiavel
(1469-1527) como Montesquieu afirmaram ser o fim do Estado a sua própria
conservação, ou seja, a perpetuação do poder. Desse modo torna-se difícil
sustentar a idéia de bem comum como fim do Estado.
Na tentativa de explicar o Estado segundo seus fins, ele parte para uma
definição ainda mais restrita. Bobbio busca um objetivo mínimo que possa ser
considerado como um limite, sem o qual a existência mesma do Estado estaria
comprometida.
Esse objetivo mínimo ...é a ordem pública interna e internacional (BOBBIO,
2000, p. 220). E esse fim mínimo é estabelecido tendo-se por base a constatação
de que o Estado constitui-se em um conjunto de normas garantidas, se
33
necessário, até mesmo pela força. E, portanto, constitui-se mais em uma estrutura
de organização social utilizada para fins diversos, do que qualquer outra coisa.
Contudo, é no critério para definir os meios utilizados pelo Estado que se
encontra a melhor maneira de diferenciar o poder político de qualquer outra forma
de poder. O meio utilizado pelo poder político, como já foi dito, é a força, mesmo
tendo-se em conta que ela pode ser utilizada apenas em última instância. Sendo
caracterizado pelo uso da força, o poder político é o poder maior, o poder
soberano, cuja posse indica qual é a classe dominante em dada sociedade.
A utilização da força caracteriza o poder político nas relações entre os
indivíduos em sociedade, isto é, mesmo que se levem em consideração as várias
formas de coerção tais como valores, a exclusividade do uso dos meios de
produção, etc., é somente o uso da força física que consegue dar fim à
desobediência. Também a força caracteriza o poder político na relação entre
grupos políticos distintos, como quando a vontade de um grupo é imposta à do
outro através da guerra, por exemplo.
Se o poder político é caracterizado essencialmente pela força, então qual é
o papel do Direito na sociedade? O Direito, ou o ordenamento jurídico, como
explicitaremos mais abaixo, tem como característica essencial exatamente o fato
de que recorre, em última instância, à força física para obter o respeito às normas.
Ou, nas palavras do próprio Norberto Bobbio:
...a conexão entre Direito entendido como ordenamento normativo
coativo e político torna-se tão estreita, que leva a considerar o
Direito como o principal instrumento através do qual as forças
políticas, que têm nas mãos o poder dominante em uma
determinada sociedade, exercem o próprio domínio (1998, p.
349).
34
Este é, então, o primeiro aspecto da relação entre o Direito e a política: o
Direito, a ordem jurídica, é fruto do poder político.
Estamos nos referindo aqui ao Direito como um conjunto de normas que
regulam a vida em sociedade, um ordenamento jurídico que tem como fim
estabelecer os limites mínimos nos quais a sociedade deve funcionar sem que
corra risco de autodestruição. Assim, excluímos aqui os vários outros significados
da palavra direito.
Esse ordenamento normativo em que se constitui o Direito compreende ...o
conjunto de normas de conduta e de organização, constituindo uma unidade, e
tendo por conteúdo a regulamentação das relações para a convivência e
sobrevivência do grupo social (BOBBIO, 1998, p. 349). São as normas que
regulam as relações familiares, de propriedade e demais relações de natureza
econômica, e mais ainda, são as normas que definem como a sociedade vai punir
ou coibir aqueles que infringem as próprias normas.
O Direito é fruto do poder político como se vê, pois onde não existe a
possibilidade de recorrer a um poder, no sentido de força, capaz de fazer valer as
normas estabelecidas por ele (o poder policial, o exército, os aparatos
penitenciários por exemplo), não existe a possibilidade da existência do Direito.
Ou utilizando-se da idéia de Hobbes: não é a sabedoria, mas a autoridade que
cria a lei (apud BOBBIO, 2000, p. 232).
Mas seria o Direito apenas o produto de uma autoridade capaz de impor as
normas pela força? Caberia então perguntar qual a diferença entre um Estado e
um bando de ladrões. Bobbio (2000) responde utilizando-se da reflexão de Santo
35
Agostinho, segundo a qual, o que distingue o Estado de um bando de ladrões é a
correspondência das leis ao ideal de justiça, isto é, as normas só são justas se
estiverem em conformidade com os princípios éticos daquela sociedade.
Sem entrar profundamente no mérito do que seria a idéia de justiça,
mesmo porque o Direito nesta perspectiva é compreendido como um direito
positivo - entendido como conjunto de normas estabelecidas -, admite-se que a
idéia de justiça está vinculada à moral, à ética de cada sociedade e, portanto, não
existe parâmetro para a definição de um ideal universal de justiça. Tomando a
possibilidade de que a justiça possa ser definida como “dar a cada um o que é
seu”, então quem define o que é justo ou injusto é aquele que tem o poder de
tomar as decisões, poder de decidir o que é de cada um.
Mas então volta-se à questão: Por que razão os indivíduos se submetem a
outros indivíduos? Qual o fundamento do poder? Por que razão um bando de
ladrões não se constitui um Estado?
A partir daqui a relação entre o Direito e a política mostra a outra face de
sua interdependência, face que se expõe na distinção entre poder de fato e poder
de direito, remetendo-nos ao conceito de legitimidade, ou nas palavras de Bobbio:
Um poder é considerado legítimo quando quem o detém o exerce
a justo título, e o exerce a justo título enquanto for autorizado por
uma norma ou por um conjunto de normas gerais que
estabelecem quem, em uma determinada comunidade, tem o
direito de comandar e de ter seus comandos obedecidos. (2000;
p. 235)
Os juristas vão afirmar que a legitimidade dos governantes está sempre
baseada num sistema de normas, escritas ou não. Sustentam-se na idéia de que
herdamos da antiguidade a concepção de que a lei é despida das paixões
36
próprias do homem, pois é impessoal. E seja qual for a sua origem – a natureza
das coisas ou a tradição – tem sido depositária da sabedoria popular acumulada
através da história, evitando mudanças exageradas ou bruscas num processo
contínuo de aperfeiçoamento que vem desde a antiguidade até os nossos
tempos.
É a legitimação do poder que possibilita a transformação de uma relação
baseada meramente na força em uma relação em que impor deveres é um direito
(do governante) e obedece-los é um dever (dos governados). Ou, retomando a
indagação sobre o que diferencia o Estado de um bando de ladrões acrescente-
se mais um atributo à resposta: a diferença está em possuir o poder de fato
(possuir o poder de exercer a força), como é o caso do bando de ladrões, e
possuir o poder de direito, ou poder legítimo, como é o caso do governante.
Kant por exemplo, não fazia distinção nem sequer entre um governo
autocrático e um democrático. Para ele não havia problemas para que um rei
governasse de maneira autocrática desde que ele ordenasse aos súditos aquilo
que os próprios súditos ordenariam para si mesmos se pudessem fazê-lo, o
essencial para Kant é a existência do consenso.
Mas é Max Weber, mais recentemente, quem vai aprofundar a importância
do tema da legitimidade do poder político. Para ele a definição de Estado como
poder fundado na força é insuficiente. Sua definição incorpora o conceito de
legitimidade, para ele o Estado é o “monopólio da força legítima”.
O tema de Weber é o fundamento da legitimidade. Nos três tipos puros de
autoridade legítima apresentados por ele - a carismática, a tradicional e a legal - a
aceitação da ordem estabelecida pode basear-se respectivamente, no carisma do
37
governante, na tradição ou na racionalidade da legalidade. Em todos os casos a
ênfase está nos processos de justificação interna dos sujeitos em aceitar o
comando e a ele se conformar.
Weber apresenta os estados de poder tradicional como pré-modernos.
Neles o Direito é fundamentalmente consuetudinário e as regras são transmitidas
por tradição através do corpo judiciário. A passagem para os estados modernos
caracteriza-se pela passagem do poder tradicional para o poder legal.
O poder legal é para Max Weber o que recebe legitimidade quando é
exercido em conformidade com regras preestabelecidas e vai construindo
organismos especializados na criação e modificação dessas regras, como é o
caso do legislativo, e na sua aplicação, como é o caso do judiciário (BOBBIO,
1998, p. 352). O Estado que desenvolve e se assenta no aparato burocrático é
considerado o mais racional na teoria weberiana.
1.1.2 O Estado de Direito
Na conjunção entre Direito e política, dessa complexa relação em que o
Direito não pode existir sem estar fundamentado no poder da força física, e o
poder político não pode prescindir de sua legitimação (e até mesmo regulação,
como veremos em seguida) através do sistema de normas, é que nasce o
conceito de “Estado de direito”.
A concretização do poder legítimo através do sistema de normas é a
chamada legalidade do poder ou, como diz Bobbio, ...o contrário de poder
38
legítimo é o poder de fato, o contrário do poder legal é o poder arbitrário (2000;
p.237) . O Estado de direito é para ele então a ...destinação final de todo grupo
político que se distingue de outro grupo social pela existência de um sistema
normativo, cujas normas, necessárias para a sobrevivência do grupo, se fazem
valer através da coerção (idem).
Coerção que, segundo Kant, não é incompatível com a liberdade, uma vez
que o princípio de liberdade deve ser igual para todos os indivíduos. A busca de
cada um pela sua felicidade, ou seja, o arbítrio de cada um, deve ser compatível
com o dos demais. Assim a utilização da força é válida para que se imponha um
limite à liberdade de cada indivíduo, limite suficiente apenas para que ele respeite
a liberdade do outro. Dessa maneira, legalidade e liberdade são idéias
compatíveis (CICCO, 1995, p. 186).
Aliás, é na fundamentação da idéia de liberdade individual que está
construída a noção de estado de direito. Para Kant a felicidade é algo muito
pessoal e cabe ao Estado reunir as condições para que cada indivíduo busque a
“sua” felicidade. Dessa maneira, ele se contrapõe às formas de estado
intervencionistas ou paternalistas que indicariam aos súditos caminhos para
atingirem essa felicidade. O seu estado ideal é aquele que garante a liberdade
pelo Direito, e essa liberdade é entendida essencialmente como não-impedimento
de usar ou fazer algo.
Agregado ao núcleo original de idéias desenvolvidas por ele está a noção
de garantia dos direitos individuais de Benjamin Constant, segundo a qual a
organização do Estado deve pautar-se na garantia da inviolabilidade das
39
liberdades individuais: a liberdade pessoal, religiosa, de imprensa e por fim, de
propriedade privada.
Para Constant, a liberdade política, isto é, a participação de todos nos
organismos de poder, é uma maneira de garantir unicamente as liberdades
individuais. E a divisão e separação dos poderes, a forma de operacionalizar essa
garantia.
Também Kant abordou a questão da divisão de poderes como essencial no
estado de direito, para ele
Todo Estado contém em si 3 poderes, isto é a vontade geral
unificada se decompõe em três pessoas, o poder soberano que
reside na pessoa do legislador, o poder executivo, que reside na
pessoa que governa conforme às leis, o poder judiciário, que
designa a cada um o que lhe é devido, e que reside na pessoa do
juiz. (apud CICCO, 1995, p.188)
Existe uma primazia da lei como encarnação da vontade popular – lembre-
se que Kant não considera essa vontade expressa necessariamente através de
mecanismos democráticos - e conseqüentemente do poder legislativo, que tem
mais importância do que o poder executivo. A este, Kant atribui o comando
concreto de seguir as normas estabelecidas. E ao judiciário cabe o poder de
concluir se o comando foi exercido de forma correta ou não, se está de acordo
com a norma ou não.
A primazia do Legislativo sobre os demais poderes é um pilar da
concepção da democracia moderna, seja a de Rousseau, seja a de Locke, Kant e
Benjamin Constant. A diferença essencial está no fato de que para o primeiro
compete ao povo, como um todo, fazer as leis, é a democracia direta de
Rousseau. Já para Locke e os demais, a participação na elaboração das leis é
40
feita pelo povo através de seus representantes, é o estado representativo
moderno.
A democracia tomada na ótica do liberalismo, desse estado representativo
moderno, vem sendo ampliada, segundo Bobbio (1998, p. 324), basicamente
através de dois mecanismos. O primeiro é a extensão do direito de voto a
segmentos cada vez maiores da população, até se chegar ao sufrágio universal.
O segundo é a ampliação dos órgãos de representação, com a criação de esferas
de poder local e divisão das câmaras legislativas. Nessa perspectiva a
democracia complementa o regime representativo.
Também em Weber podemos encontrar a questão da divisão dos poderes
como elemento do Estado de direito. Para ele, embora o estado de direito não
seja sinônimo de poder legal, guarda estreita relação com ele visto que a divisão
de poderes, na forma constitucional de organização do poder político, é o que
garante a sua legalidade em todos os níveis da sociedade, até os mais altos
níveis de comando.
Segundo Norberto Bobbio, a doutrina do constitucionalismo é a forma
perfeita de governo das leis, aprimoramento da idéia de que a lei, despida das
paixões próprias do homem, guarda a sabedoria popular através da história.
A constituição é, segundo Nicola Matteucci, ....a própria estrutura de uma
comunidade política organizada, a ordem necessária que deriva da designação de
um poder soberano e dos órgão que o exercem (In: BOBBIO, 1998, p. 247). Mas,
para além da sua definição, a doutrina do constitucionalismo propõe que ele se
constitua numa técnica jurídica de garantia da liberdade, assegurando aos
41
cidadãos o exercício dos seus direitos individuais e limitando a ação do Estado a
ponto de não permitir que esses mesmos direitos sejam violados.
Pensado por Locke, Montesquieu e Kant como uma forma de
contraposição ao poder absoluto dos reis, um sistema de freios ao governo
através da divisão dos poderes, o sistema constitucional prevê que o poder não
fique subordinado a uma pessoa ou a um grupo de nobres ou notáveis. Divide-se,
assim, o poder de fazer as leis do poder de executar as decisões, e ambos do
poder de punir e julgar as divergências entre particulares.
Contudo, reconhece-se a possibilidade de que um conluio entre os diversos
interesses individuais possa levar ao despotismo e busca-se avançar no intuito de
tornar mais complexas as formas de separação e divisão de poderes. São
propostas outras formas de poder como o poder regulador do rei que cuidaria de
que os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário funcionassem em harmonia, ou
o poder municipal/distrital, independente do poder central, numa proposta que se
coadune com a idéia de centros de auto governo, em sintonia com o federalismo
(BOBBIO, 1998, p. 250)
Segundo Matteucci, até a Idade Média o Direito era uma livre expressão da
evolução da sociedade ao longo da história e não deveria sofrer interferências. O
legislador apenas dá forma ao Direito que está dado. Mas nos nossos dias o
Direito é:
...expressão da exata e consciente vontade soberana do povo,
explicitada por meio de um órgão ad hoc, a assembléia
representativa. Outrora o direito era parte integrante de uma vida
social espontânea; hoje é um instrumento com que o Estado
democrático intervém na sociedade, para manter a paz social e
prevenir as necessidades [Link]....hoje é uma criação
consciente.... (In: BOBBIO, 1998, p.255)
42
O constitucionalismo caracteriza-se, em primeiro lugar, por uma
constituição escrita, com normas jurídicas, que guardam um arranjo lógico e
concatenado. Essas normas regulam o funcionamento do Estado, os limites do
seu poder: os direitos dos cidadãos. Sua legitimidade impõe-se pela racionalidade
e justeza de suas normas e também por emanar da vontade do povo que elege os
seus representantes na Assembléia Constituinte.
Uma segunda característica do constitucionalismo é a sua pouca
elasticidade, isto é, as normas constitucionais não podem ser alteradas ou
modificadas facilmente pela vontade do legislador. Alterações constitucionais
exigem procedimentos específicos com quóruns diferenciados das câmaras
parlamentares. A legislação constitucional é superior a todas as demais
legislações especificas e não pode ser alterada por elas.
E, por fim, a terceira característica do constitucionalismo é a existência do
Poder Judiciário, uma corte judiciária que atua para dirimir conflitos entre os
vários organismos do Estado e, sobretudo que trata de fazer com que as leis
tenham correspondência com as normas fundamentais.
1.1.3 Dos direitos individuais aos direitos humanos
Nessa perspectiva de compreensão da organização da sociedade, o
conceito de direitos do homem ou de direitos humanos, ganha importância e
merece ser melhor apreciado. Atualmente ele se apresenta como uma forma
desenvolvida da doutrina do direito natural. Esta nasceu da idéia de que o homem
43
possuía alguns direitos essenciais que carrega desde seu estado de natureza, ou
seja, pré-social, direitos que tem independentemente da organização social e do
Estado. São basicamente os direitos à vida e à sobrevivência, incluindo aí o
direito à propriedade. Também faz parte desse conjunto de direitos essenciais a
liberdade que, na concepção kantiana, tem o sentido de não impedimento de
realizar coisas.
Norberto Bobbio (1992), em seu livro A era dos direitos, defende a idéia de
que, apesar dessa origem, os direitos do homem constituem-se uma classe que
varia de acordo com a história da humanidade, com as necessidades e interesses
de cada sociedade em seus diversos momentos históricos. Assim, algo que hoje é
considerado um direito possivelmente nem sequer poderia ter sido cogitado como
direito no século XVIII.
Como o Direito é considerado historicamente determinado, Bobbio descarta
a idéia de que existe um direito natural, fundamental, do homem, e destaca quatro
processos importantes na evolução do conceito de direito do homem. São eles: a
positivação, a generalização, a internacionalização e a especificação.
A positivação consiste na transformação desses direitos em leis escritas,
em código de normas estabelecidas. As primeiras manifestações objetivas,
positivas, da idéia de direitos do homem estão contidas nas declarações de
direitos, das quais a mais famosa e emblemática é a Déclaration des droits de
l’omme et du citoyen (Declaração dos direitos do homem e do cidadão) aprovada
pela Assembléia Nacional francesa, em 1789, que em sua primeira frase
proclama a liberdade como direito natural: Os homens nascem e permanecem
livres e iguais nos direitos (apud BOBBIO; 2000, p. 484).
44
Um primeiro estágio desse processo evolutivo constituiu-se, assim, na
estruturação do estado de direito, na passagem de uma sociedade de deveres na
qual às pessoas cabia obedecer às leis, para uma sociedade que reconhecia os
direitos fundamentais do homem, direitos que nem mesmo o Estado poderia
subtrair. Essa passagem pressupunha a afirmação de uma concepção
individualista de sociedade, em que o indivíduo vem antes do Estado, não o
inverso, e a conservação dos direitos naturais do indivíduo é entendida como o
objetivo das associações políticas.
O reconhecimento formal por parte do Estado, através de uma
carta/declaração dos direitos individuais eleva esses direitos a uma esfera
pública. Assim, ensina Bobbio:
No Estado despótico, os indivíduos singulares só têm deveres e
não direitos. No Estado absoluto, os indivíduos possuem, em
relação ao soberano, direitos privados. No Estado de direito, o
indivíduo tem, em face do Estado, não só direitos privados, mas
também direitos públicos. O Estado de direito é o Estado dos
cidadãos. (1992, p.61)
No estado de direito o cidadão goza de direitos civis, que se constituem
nos direitos individuais através dos quais ele busca garantir o seu arbítrio, desde
que não fira o dos outros. São a liberdade pessoal, de religião, de pensamento,
de expressão, de reunião e também a liberdade econômica. Aqui o Estado se
obriga a salvaguardar essas liberdades principalmente abstendo-se de intervir
nessa esfera.
No entanto a construção dos direitos do homem, como fenômeno social e
histórico continuou e os direitos se ampliaram, expandiram e modificaram. O
processo de generalização dos direitos do homem guarda estreita relação com a
45
constituição da democracia em sua concepção liberal. Os direitos políticos foram,
dessa maneira, os primeiros a se afirmarem na seqüência dos direitos civis e
estão ligados ao surgimento do Estado representativo moderno. São os direitos
de associação, de organização partidária, de voto, que atingem contingentes cada
vez mais amplos da sociedade e implicam, segundo Matteucci, ... uma liberdade
ativa, uma participação dos cidadãos na determinação dos objetivos políticos do
Estado (In: BOBBIO, 1998, p. 354).
O terceiro processo na evolução dos direitos do homem é a sua
universalização, processo que pode ser observado em fenômenos como a
adoção, por diversos estados, dos princípios presentes na Declaração Universal
dos Direitos do Homem, que é para Bobbio ...apenas o momento inicial da fase
final de um processo, o da conversão universal em direito positivo dos direitos do
homem... (1992, P.32).
A criação de organismos internacionais como a Organização das Nações
Unidas e as assinaturas de pactos e convenções que envolvem vários países ao
redor do mundo, tais como as convenções sobre o trabalho adotadas pela
Organização Internacional do Trabalho – OIT e a Convenção para a Prevenção e
Repressão do Genocídio aprovada pela Assembléia Geral da ONU em 1958, são
vistas por Bobbio como tentativas de busca de implementação dos direitos do
homem no nível internacional.
Esse processo evolutivo que implica a positivação, a generalização e a
universalização dos direitos civis e políticos do homem, precipita, mais
recentemente, uma nova categoria de direitos: os direitos sociais, tais como o
46
direito ao trabalho, à educação, à saúde e à assistência, entre outros, direitos
criados sob a égide da sociedade industrial na sua forma mais avançada.
Em oposição aos direitos individuais, os direitos sociais são ... o conjunto
das pretensões ou exigências das quais derivam expectativas legítimas que os
cidadãos têm, não como indivíduos isolados, uns independentes dos outros, mas
como indivíduos sociais que vivem e não podem deixar de viver, em sociedade
com outros indivíduos (BOBBIO, 2000, p.501).
A tendência ao reconhecimento dos direitos sociais tornou-se mais clara
após a Segunda Guerra Mundial, embora já aparecesse em episódios jurídicos
isolados desde os primeiros anos do século XX, na constituição da República de
Weimar, por exemplo. Na década de 1940 e nas seguintes podemos observar a
introdução dos direitos sociais em constituições de vários países.
No entanto, o reconhecimento de tais direitos exige, por parte do Estado,
uma postura bastante diferente daquela tipicamente liberal. Se, para garantir os
direitos individuais, ao Estado basta não invadir os espaços pessoais de
liberdade, para garantir os direitos sociais sua postura deve ser ativa, exige-se
que o Estado intervenha com providências para que os mesmos sejam
respeitados.
Para Bobbio, a contradição entre os direitos individuais e os direitos
sociais, entre Estado de garantia de liberdades individuais e Estado que intervém
para promover direitos sociais é apenas aparente. Para ele, direitos sociais são
condição para o exercício do direito de liberdade já que ...o indivíduo instruído é
mais livre do que um inculto, um indivíduo que tem um trabalho é mais livre do
47
que um desempregado, um homem são é mais livre do que um enfermo (2000,
p.508).
Mais ainda, para ele o desenvolvimento dos direitos do homem de maneira
que abarque os direitos sociais indica uma possibilidade de superação da antítese
entre o liberalismo e sua priorização dos direitos de liberdade e o socialismo e sua
priorização da igualdade.
Nesse caminho de evolução os direitos do homem sofrem ainda um
processo de especificação, próprio dos direitos sociais. A especificação consiste
em superar a abstração da idéia de “cidadão”, determinando de maneira cada vez
mais específica: que homem é esse cidadão. Assim temos o reconhecimento das
especificidades desse homem genérico nas diferenciações de gênero (os direitos
da mulher), de fases de vida (direitos específicos para crianças, adolescentes,
idosos) e até mesmo no reconhecimento de condições peculiares (deficientes
físicos, doentes mentais).
Bobbio chama atenção para essa evolução no conceito de direitos
humanos e lembra que novos direitos estão por vir, direitos hoje talvez apenas
esboçados como o direito à vida das gerações futuras. No entanto, reconhece que
o grande problema da realização dos direitos humanos, sobretudo o dos direitos
sociais, não é de natureza filosófica ou jurídica, é um problema de
desenvolvimento da sociedade, colocando em cheque as constituições mais
progressistas e o próprio sistema jurídico.
Assim, para Norberto Bobbio, o modelo liberal, cujo fundamento se assenta
nas idéias de Locke, Hobbes e Kant, foi sendo aperfeiçoado através da história.
Criou mecanismos eficientes de limitação do poder absoluto. Incorporou a
48
democracia que, mesmo na sua forma representativa, vem desenvolvendo
estratégias de participação de segmentos cada vez maiores da população,
contemplando seus interesses. Vem se generalizando como modelo para todo o
planeta e constitui-se a esperança de uma sociedade melhor, resguardada a sua
premissa essencial: o direito às liberdades individuais, incluindo o direito à
propriedade privada, a base de todas as demais formas de liberdade.
1.2 A crítica marxista do Direito
1.2.1. Apontamentos de Marx e Engels sobre o Direito
A crítica ao Direito desenvolvida no âmbito do marxismo guarda estreita
relação com a crítica ao Estado e ao modo de produção e organização social
capitalista. Os temas referentes ao Direito e à justiça estão presentes na obra de
Marx e de Engels de maneira esparsa, no entanto é possível, desde os escritos
de juventude de Marx, verificar suas posições em face da relação do Direito com
o Estado.
Marx, em sua juventude, adota inicialmente a posição hegeliana segundo a
qual ...o “verdadeiro” direito é a sistematização da liberdade, das regras internas
das atividades humanas coerentes, ‘universais’ (In: BOTTOMORE, 1988, p.109).
Para Hegel, o Estado é a materialização do interesse geral da sociedade e o
responsável pela sua universalização. Quando o Estado se sobrepõe à sociedade
civil torna esta uma esfera ética e moral. Para ele somente o Estado é capaz de
universalizar a humanidade.
49
No entanto, já em 1843, Marx escreve a introdução à Crítica da filosofia do
direito de Hegel, contendo importantes elementos de sua crítica política em
construção. Neste texto, Marx desenvolve conceitos como o de que a sociedade
civil se expressa no Estado e não o contrário, como afirmara Hegel. Ou de que a
emancipação humana seria obra de uma revolução social com foco na supressão
da propriedade privada.
Ao contrário de Hegel que entende o Estado constitucional burguês como o
apogeu da evolução histórica, Marx desenvolveu sua crítica à economia política
na qual o Estado moderno é sinteticamente definido como ...um comitê para gerir
os negócios comuns de toda a classe burguesa8.
A teoria marxista considera o Estado instrumento de opressão de classe,
produto do antagonismo inconciliável das classes. Engels escreve:
O Estado não é pois, de modo algum, um poder que se impôs à
sociedade de fora para dentro; tampouco é “a realidade da idéia
moral”, nem “a imagem e a realidade da razão”, como afirma
Hegel. É antes um produto da sociedade quando esta chega a um
determinado grau de desenvolvimento; é a confissão de que essa
sociedade se enredou numa irremediável contradição com ela
própria e está dividida por antagonismos irreconciliáveis que não
consegue conjurar. Mas para que esses antagonismos, essas
classes com interesses econômicos colidentes não se devorem e
não consumam a sociedade numa luta estéril, faz-se necessário
um poder colocado aparentemente por cima da sociedade,
chamado a amortecer o choque e a mantê-lo dentro dos limites da
“ordem”. Este poder, nascido da sociedade, mas posto acima dela
se distanciando cada vez mais, é o Estado. (1980, p.191)
O Estado nascido na luta das classes é o representante daquela classe
dominante, que tem o domínio dos meios de produção, que é economicamente
8
Do Manifesto do Partido Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, In: Obras escolhidas, v. 1, p.23)
50
dominante. Através do Estado essa classe adquire também os instrumentos da
dominação política, cria uma determinada ordem que consolida a submissão de
uma classe por outra.
O poder político está assentado no aparelho coercitivo (exército, policia,
sistema prisional, entre outros), que detém o monopólio das forças armadas,
organizadas em separado da sociedade, pois uma sociedade dividida em classes
com interesses inconciliáveis não pode sobreviver a um sistema que se baseie na
organização espontânea dos seus membros em armas.
No que diz respeito aos mecanismos democráticos: os órgãos legislativos,
o sistema representativo moderno, os processos eleitorais, os direitos políticos,
etc., próprios do Estado democrático burguês, Marx escreve em As lutas de
classes na França
...que sua constituição sanciona o poder social da burguesia, ao
mesmo tempo em que retira as garantias políticas desse poder,
impondo-lhe condições democráticas que, a todo momento,
contribuem para a vitória das classes que lhe são hostis e põem
em risco as próprias bases da sociedade burguesa (apud
BOTTOMORE, 1988, p.98)
Mesmo admitindo que uma tal possibilidade de questionamento das bases
do próprio sistema de governo burguês exista, a democracia burguesa tem seus
limites como mecanismo de superação do sistema capitalista e é, antes de tudo,
um instrumento de legitimação da ordem burguesa. O Estado burguês quando
questionado de forma essencial não encontra problemas em assumir formas
opressivas e excluir os mecanismos democráticos, tal como nas várias formas de
Estado de tipo fascista.
51
No que diz respeito ao papel do Direito e de sua relação com o Estado,
Marx e Engels nos apresentam a tese do Direito como um reflexo das
concepções, das necessidades e dos interesses da classe social dominante,
produzido pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de
produção, e, portanto, parte da superestrutura, como podemos observar no texto
extraído do prefácio da Contribuição à Crítica da Economia Política:
Na produção social da sua vida os homens contraem
determinadas relações necessárias e independentes de sua
vontade, relações de produção que correspondem a uma
determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas
materiais. O conjunto destas relações de produção forma a
estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se
levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem
determinadas formas de consciência social. O modo de produção
da vida material condiciona o processo da vida social, política e
espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina
o seu ser, mas pelo contrário, o seu ser é que determina a sua
consciência. Ao chegar a uma determinada fase de
desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade se
chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é
senão a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade
dentro das quais se desenvolveram até ali. De formas de
desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se
convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de
revolução social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se,
mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida
sobre ela. Quando se estudam as revoluções, é preciso distinguir
sempre entre as mudanças materiais ocorridas nas condições
econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a
exatidão própria das ciências naturais, e as formas jurídicas,
políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as
formas ideológicas em que os homens adquirem consciência
desse conflito e lutam para resolvê-lo. (MARX, Karl)9
9
O trecho é extraído do Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política in Karl Marx e Friedrich
Engels Obras Escolhidas , v. 1, ed Alfa –omega, São Paulo, sem data, p..301.
52
Engels discute aspectos do Direito em três capítulos do Anti-Duhring, e
num deles aborda a questão da igualdade entre os homens, tema central em todo
o debate sobre Direito e justiça. Ele trata o Direito como um instrumento de
dominação de classe, como uma série de mandamentos sancionados pelo
Estado. Sendo assim, para ele, uma sociedade onde tenham desaparecido a
propriedade privada e a divisão de classes, o Estado e, por conseguinte, o Direito
igualmente desaparecerão, uma vez que ambos, como órgãos de dominação de
classe, perdem sua razão de ser (BOTTOMORE:1988).
Em A Crítica ao Programa de Gotha, escrito por Marx, podem-se encontrar
diversas observações importantes sobre o Direito burguês, sobre a questão da
igualdade e da aplicação da justiça burguesa, como parte da exposição da sua
concepção geral de sociedade, como podemos ver:
Na fase superior da sociedade comunista, quando houver
desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à
divisão do trabalho e, com ela, o contraste entre o trabalho
intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for
somente um meio de vida, mas a primeira necessidade vital;
quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus
aspectos, crescerem também as forças produtivas e jorrarem em
caudais os mananciais da riqueza coletiva, só então será possível
ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e
a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: De cada qual,
segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas
necessidades. (MARX, Karl)10
O problema da produção em si e da distribuição da riqueza produzida em
sociedade é tema fundamental da teoria marxista erigida sobre a crítica ao
modelo burguês. Para Marx, a natureza é fonte de toda a riqueza e o homem
10
O trecho é extraído de Crítica ao Programa de Gotha, in Obras escolhidas, v. 2 ed. Alfa-omega, São
Paulo, sem data. p. 214
53
passa a produzir riqueza quando se apropria da [Link], dito pelo próprio
Marx nas Grundisse: ...toda produção é apropriação da natureza por parte do
indivíduo. Mas a organização da produção e da repartição é feita ...no seio e por
intermédio de uma forma de sociedade determinada (1986, p. 7). Nas sociedades
divididas em classes, a produção e a repartição entre os seus membros são feitas
sob critérios daqueles que detêm o poder econômico. As relações econômicas
ditam as relações jurídicas e existe uma vinculação intrínseca entre o sistema
econômico baseado na propriedade privada e a forma jurídica.
Apesar de apontar aspectos centrais da questão, as proposições de Marx e
Engels sobre o Direito não atingiram um nível de sistematização e detalhamento
maior. Não se pode dizer que foi elaborada uma reflexão acabada sobre o Direito,
sobre seus vários ramos, suas formas de operacionalização, etc. Ou seja, as
reflexões de Marx e Engels sobre a ideologia jurídica burguesa não foram
utilizadas por eles, para um estudo específico da superestrutura jurídica
(PACHUKANIS,1977). O centro de suas atenções estava na afirmação da
concepção materialista da história, segundo a qual o que determina a consciência
é a existência e não no contrário como afirmava a maior parte da filosofia e
ideologias idealista de sua época. Deste ponto de vista era mais importante
mostrar o Direito como um epifenômeno e não como elemento determinante da
realidade.
Porém, durante a Revolução Russa de 1917, os bolcheviques tinham outra
tarefa: a construção do Estado operário. Essa circunstância explicará a
profundidade e centralidade do debate em torno do Direito e das formas que
54
tomaria durante a ditadura do proletariado, debate no qual Pachukanis e Stutchka
serão os mais altos expoentes.
1.2.2 O Direito proletário ou o fim do Direito
A produção de dois autores vinculados à Revolução Bolchevique de 1917,
Piotr Stutchka e Evgeni Pachukanis, avança sobre questões da natureza do
Direito num momento de desenvolvimento sem precedentes do tema.
A leitura dos textos de Stutchka11 atualiza a dramaticidade das tarefas
postas aos construtores do primeiro Estado operário da história, os gigantescos
desafios que implicavam a montagem de um Estado de novo tipo a partir dos
destroços do anterior.
Sua reflexão tende a demonstrar que a base e o conteúdo do Direito é o
interesse de classe. Seu esforço para definir o que é o Direito poderia resumir-se,
em última instância, à frase ...tantas classes, tantos conceitos de Direito!12.
A produção de Stutchka contempla panfletos e cartilhas explicativas
voltadas aos trabalhadores nas quais ele recupera as idéias de Marx e do próprio
Lênin, e embate com seus pares, advogados. O estilo sarcástico, direto e
combativo de Piotr Stutchka nos faz quase que sentir os dias da revolução. Seu
11
Piotr Stutchka foi dirigente do Partido Bolchevique, membro do Soviet de Deputados Trabalhadores,
Soldados e Camponeses de Petrogrado durante a revolução de outubro e, posteriormente, Comissário do
Povo para a Justiça. Foi o responsável pelo Decreto nº1 Sobre o Tribunal, de 24 de novembro de 1917
(STUTCHKA, 2001), que extingue os tribunais existentes até então e cria os Tribunais de Trabalhadores e
Camponeses, com juízes eleitos, além de extinguir a advocacia privada e juramentada.
12
Do texto “O problema do direito de classe e da justiça de classe” de 1922, in Stutchka; 2001, p. 75.
55
importante papel como Comissário do Povo para a Justiça, organizador do
sistema judiciário soviético e defensor de um Direito proletário, finda com sua
morte em 1932.
Em oposição à proposta de construção de um direito proletário, colocou-se
um eminente teórico bolchevique, Evgeni Pachukanis, autor da impressionante
obra intitulada A Teoria Geral do Direito e o Marxismo (1977), publicada em 1924,
que contém uma profunda reflexão sobre o Direito13.
Pachukanis enxergava uma estreita relação entre a forma jurídica e a
forma mercadoria e pleiteava o desenvolvimento de uma teoria geral do Direito
com o mesmo státus de uma teoria da economia política, utilizando-se para isso
do método de Marx.
Polêmicas, mesmo na sua época, as teses de Pachukanis negavam a
possibilidade de um direito socialista ou proletário e reafirmavam as proposições
de Marx e Engels a respeito da necessidade da extinção da forma jurídica
juntamente com a extinção do Estado. A defesa de suas teses custou-lhe a vida.
Ele foi executado em 1937 após ter sido forçado a fazer várias “autocríticas”, num
cenário em que o Direito soviético foi amplamente utilizado como instrumento de
reforço do Estado na era stalinista.
Levando-se em consideração a inexistência de uma concepção sistemática
do Direito na tradição marxista, foi no calor da tarefa prática de reorganização da
13
Em um ensaio publicado em 1930 e incluído A Título de Introdução na edição portuguesa de A Teoria
Geral do Direito e o Marxismo, Karl Korsch destaca que a obra de Pachukanis percutiu diretamente em G.
Lukacs, no que diz respeito ao seus estudos sobre reificação, isto é, sobre o disfarce fetichista da realidade
social na época da produção mercantil capitalista (KORSCH, In: PACHUKANIS:1977; p.11)
56
legislação e da estrutura judiciária que as formulações teóricas sobre o Direito
avançaram.
As principais influências sobre aqueles que participavam desse processo
de reorganização e se esforçavam para apresentar uma leitura marxista do
fenômeno jurídico, era de juristas burgueses. Segundo Marcio Bilharinho Naves
(2000), o pensamento de Petrajitskii, lido na versão “marxista” de Mikhail Reisner,
foi a maior influência nesse período14.
Reisner recupera a teoria psicológica do Direito de Petrajitskii, que sustenta
que a natureza do fenômeno jurídico não reside nas normas objetivas editadas
por uma autoridade, mas na esfera emocional, de modo que o cumprimento das
obrigações jurídicas e a observância das leis decorrem de uma “consciência
jurídica” intuitiva de que os homens são providos.
Para eles, o Direito não está assentado nas normas jurídicas, mas sim no
conceito do que é justo. A justiça possui um caráter universal e apriorístico e sua
essência está na capacidade de distribuir igualdade e em recompensar, dando às
pessoas iguais o que é igual, e às pessoas desiguais o que é desigual.
Nessa noção geral de justiça, Reisner introduz o conceito de classe social
e afirma que ...o que é justo de um ponto de vista, pode ser injusto de outro (apud
NAVES, 2000, p.35), sendo que cada classe social possui determinado tipo de
justiça, passando do campo da psicologia individual para a psicologia do coletivo.
14
A maior não quer dizer a única influência. Naves cita também “...Menger – o célebre representante do
‘socialismo jurídico’, combatido pelo próprio Engels -, Karl Renner, o funcionalista social-democrata
austríaco, e mesmo o ‘solidarista’ francês Leon Duguit...” (NAVES; 2000, p. 25).
57
Para ele, o Direito está associado aos diversos sistemas ideológicos de
classe ao longo da história, existindo, assim, vários tipos de direito. Durante a
revolução social a classe trabalhadora estaria vivenciando a construção do Direito
socialista, fruto dos estatutos jurídicos criados pelo novo poder.
Na tentativa de definir um conceito geral do Direito que abarcasse os vários
tipos de direito correspondentes às várias classes sociais ao longo da história,
Reisner estabeleceu a relação entre o Direito e a economia. A base do Direito
seria a economia, pois as classes sociais criam o seu direito a partir de sua
posição no processo de produção.
As formas ideológicas, incluído aí o Direito, consistem, para Reisner, em
reflexos, na consciência, das relações econômicas. A particularidade da forma
ideológica do Direito é o conceito de justiça subjacente a ele.
Desta maneira, Reisner submete a determinação econômica a um conceito
ideal preexistente. Esta questão gera um problema em seu pensamento, como
nos sugere Naves: Reisner acaba por reforçar a sua concepção idealista do
direito, pois, ao fundar o direito sobre a noção de justiça, ele torna ociosa a
determinação econômica (2000, p. 37).
A reflexão de Reisner funciona como um contraponto para o debate que
Pachukanis faz e ganha importância na medida em que ele influenciou todos os
juristas de formação marxista do período.
Mas é em Stutchka e nos demais juristas marxistas da época que
Pachukanis terá seus maiores interlocutores. Eram eles que estavam realizando
toda a reorganização jurídica do período revolucionário.
58
Essa reorganização tinha como característica a abertura da administração
da justiça às massas populares e estava centrada na criação dos tribunais
populares, nos quais os juízes eram eleitos entre operários e soldados e exerciam
a judicatura com competência limitada.
Essa era uma estrutura judiciária que estava sendo criada pela
Revolução15, e ela era identificada como popular e justa, capaz de realizar uma
“justiça proletária”, capaz de administrar o Direito conforme os interesses
revolucionários (STUTCHKA apud NAVES, 2000, p.26).
Para Stutchka, aparentemente não havia problema algum em criar
estruturas que poderiam significar o reforço de instâncias formais, com juízes
separados das massas, embora viessem delas. Ele identificava os tribunais
populares com um direito proletário, a sua existência mesma supõe que eles
defendiam os interesses do povo.
A busca de Stutchka é por uma formulação sobre o Direito que estivesse
em conformidade com a concepção de Marx e Engels. Ele parte inicialmente da
concepção de consciência jurídica revolucionária – conceito que vai buscar em
Petrajitskii e em Reisner .
Ciente de que, sob a consciência jurídica revolucionária, havia traços fortes
de uma consciência jurídica burguesa, Stutchka afirma que isso se deve ao fato
de que não havia uma outra consciência nem na natureza, nem na imaginação
humana e o fato dos tribunais serem formados por operários resolveria o
problema.
15
No Decreto nº 1 já citado, os juízes poderiam contar com os funcionários e técnicos da estrutura
preexistente para auxiliá-los nos processos, além de se pautarem em um rol de leis e de saberes especiais.
59
Em razão da necessidade de uma orientação básica na área penal,
Stutchka parte para a elaboração de um conceito de Direito. Para ele o Direito é:
... um sistema de relações sociais que corresponde aos interesses
da classe dominante e é tutelado pela força organizada de tal
classe. O direito penal soviético visa à proteção, mediante
instrumentos de repressão, do sistema de relações sociais
conforme os interesses das massas trabalhadoras, organizadas
em classe dominante no período de ditadura do proletariado, que
é a fase de transição entre o capitalismo e o comunismo. (apud
NAVES;2000, p. 29).
Para Pachukanis a definição de Stutchka desvenda o conteúdo de classe
das formas jurídicas e tem uma função prática imediata, mas não explica porque
esse conteúdo se apresenta dessa forma e qual a especificidade da forma
jurídica. Ainda não responde a uma pergunta fundamental: como é que as
relações sociais se transformam em instituições. Nessa medida criticava Stutchka,
atribuindo um caráter limitado à sua concepção do Direito.
Para nós, o camarada Stutchka equacionou corretamente o
problema jurídico, ao considerá-lo como um problema de relações
sociais. Porém, em vez de se por a investigar a objetividade social
específica destas relações, regressou à definição formal habitual,
ainda que a circunscreva através das características de
classe....Esta definição desvenda o conteúdo de classe das
formas jurídicas, mas não nos explica a razão porque este
conteúdo reveste semelhante forma. (PACHUKANIS, 1977, p. 92)
Apresentadas sob a forma de uma discussão essencialmente teórica, as
questões postas por Pachukanis, questionavam Stutchka e os demais dirigentes
do estado operário nascente, essencialmente no que diz respeito ao caminho que
vinha tomando a construção do aparato jurídico do Estado Soviético. O que
60
preocupava Pachukanis era a necessidade de discutir a natureza do Direito e
assim construir uma teoria geral do Direito a partir do método proposto por Marx
em O Capital.
Referindo-se ao período da história judicial soviética, que se abre
imediatamente após a tomada do poder pelos bolcheviques, as palavras de
Márcio Bilharinho Naves nos dão a dimensão da exata importância desse
enfrentamento teórico-político:
O que pensar desse “intervalo” que parece pleno de conteúdo,
preenchido por uma normatividade “revolucionária” e por uma
magistratura “proletária”?... O que pensar dessa “lucidez” que
parece, em nome da classe operária, reconstruir o aparelho
judicial sob a orientação de um princípio – a “consciência jurídica”
– inexistente no marxismo, e provinda do repertório ideológico
burguês?
Enganam-se, na verdade, os que acreditavam ver a crítica teórica
e prática do direito ali onde o tecido jurídico se recompunha e se
expandia, sob os signos e os emblemas da revolução. Nas leis e
nos códigos, nos saberes dos jurisconsultos, nos poderes dos
magistrados, em todos os poros, nos interstícios, nos silêncios e
na solene eloqüência das sentenças, o direito prosseguia o seu
trabalho. (NAVES, 2000; p. 15)
1.2.3. A construção da teoria geral do Direito em Pachukanis
Para Pachukanis o problema principal dos estudos sobre Direito baseados
na obra de Marx e Engels estava assentado na excessiva valorização do aspecto
coercitivo do Direito. Ele afirma que os poucos marxistas que se ocupavam do
tema consideravam ...o momento da regulamentação coativa social (estadual)
61
como a característica central, fundamental e a única típica dos fenômenos
jurídicos (PACHUKANIS,1977, p. 28).
Assim como Stutchka, outros marxistas davam ênfase à natureza coercitiva
do Direito. Pachukanis cita uma definição de Direito de Podvolockij, um discípulo
de Boukharine, para demonstrar que, mesmo considerando o vínculo existente
entre o conteúdo concreto da regulamentação jurídica e a economia, o Direito
aparece nessas formulações essencialmente como forma:
O direito é um sistema de normas coercitivas sociais que refletem
as relações econômicas e sociais de uma dada sociedade e que
são introduzidas e mantidas pelo poder do Estado das classes
dominantes para sancionar, regular e consolidar estas relações e
conseqüentemente para consolidar o seu domínio.
(PACHUKANIS,1977; p. 51)
O próprio Stutchka também reconhece essa vinculação. Ele diz que o
aspecto central de sua definição diz respeito ao caráter classista do Direito, mas
não ignora a polêmica sobre a relação do Direito com a economia. Para ele, as
relações sociais compreendem o conjunto das relações de produção e de troca.
Mas a questão é: onde se situa o Direito na estrutura social mais geral? A isto ele
responde:
A essência do debate, no entanto, não consiste na discussão
sobre a relação entre a base e a superestrutura, mas na
discussão sobre onde procurar o conceito fundamental de direito:
no sistema das relações concretas ou em uma esfera abstrata,
isto é, na forma escrita ou na idéia do direito não-escrito, na idéia
de justiça, ou seja na ideologia. Eu respondo: no sistema das
relações concretas. Com uma ressalva: se falamos do sistema e
do ordenamento das relações, assim como da sua tutela por parte
do poder organizado, então é claro que levamos em conta as
62
formas abstratas e a sua influência sobre a forma concreta.
(STUCHKA apud NAVES, 2000, p. 31)16
Porém, para Pachukanis, a utilização da análise de Marx acerca do sujeito
jurídico como uma derivação imediata da análise da forma mercantil foi
negligenciada pelos estudiosos. Ele atribui essa negligência à necessidade de
uma radical diferenciação por parte dos estudiosos do marxismo da atitude dos
sistemas idealistas, daquela filosofia do Direito cujo fundamento é representado
pelo conceito de sujeito e sua capacidade de autodeterminação.
Com isso esqueceram-se de que os princípios formais de liberdade e de
igualdade, ou seja, o princípio da subjetividade jurídica, não é apenas produto da
hipocrisia burguesa, um instrumento de luta contra o proletariado e sua missão
histórica, mas sim um princípio incorporado na sociedade burguesa desde o seu
surgimento.
...a vitória deste princípio não é apenas, e deste modo, um
processo ideológico (Isto é, um processo que pertence
inteiramente à história das idéias, das representações, etc.) mas
antes um processo real de transformação jurídica das relações
humanas, que acompanha o desenvolvimento da economia
mercantil e monetária (na Europa da economia capitalista) e que
engendra profundas e múltiplas modificações de natureza
objetiva. (PACHUKANIS, 1977; p. 30)
Para Pachukanis a forma jurídica não se constitui em um simples reflexo
ideológico. Ele diz: o direito, enquanto forma, não existe somente no cérebro e
16
Sob a denominação de formas abstratas ele distingue em primeiro lugar o direito expresso nas
normas jurídicas, nas leis (que podem ou não coincidir com a relação econômica) e a ideologia
jurídica. Já a forma jurídica concreta é aquela que coincide com a relação econômica, é a
expressão jurídica das relações econômicas, propriamente dita.
63
nas teorias dos juristas especializados; ele tem uma história real, paralela, que
não se desenvolve como um sistema conceitual, mas como um particular sistema
de relações (1977, p. 34).
Embora não negue que, no estabelecimento de qualquer relação jurídica,
os sujeitos envolvidos tenham representações ideológicas dos seus direitos e
deveres, dos limites das leis, etc., Pachukanis afirma que a mediação jurídica
somente se realiza no momento do acordo. Na sociedade de produção mercantil,
as relações de produção e a reprodução social se estabelecem através de
contratos jurídicos privados, este é o objetivo da mediação jurídica.
Assim, as condições para o desenvolvimento de uma superestrutura
jurídica (as leis, os tribunais, os processos, os advogados, etc.) surgem a partir do
momento em que as relações humanas são construídas como relações entre
sujeitos. Daí a importância do estudo da superestrutura jurídica como fenômeno
objetivo, o que não foi feito por Marx.
Ele se pergunta se seria possível analisar a forma jurídica da mesma
maneira que se analisa, na economia política, a forma valor. Se isto for possível
então, para ele, estão dadas as condições para a elaboração de uma doutrina
geral do Direito, uma disciplina teórica autônoma.
Pachukanis busca, assim, construir essa teoria geral do Direito, isto é,
busca a essência do Direito a partir da crítica dos conceitos jurídicos
fundamentais. O modelo metodológico utilizado é o apresentado por Marx em O
Capital, indo do abstrato ao concreto.
64
Nesse caminho ele lembra que toda a ciência, no estudo do seu objeto,
reporta-se a uma mesma realidade total e concreta. A diferença entre as várias
ciências é essencialmente a diferença entre seus métodos de abordagem da
realidade. Toda ciência busca reconstituir a realidade como resultado da
combinação de abstrações mais simples.
Na análise da economia política pareceria natural, diz Marx, começar as
investigações pela totalidade concreta: a população que vive e produz num dado
espaço, sob certas circunstâncias. No entanto, se não se consideram as classes
sociais que compõem a população, esta aparece como uma abstração vazia
(PACHUKANIS,1977, p. 66). As classes sociais, por sua vez, nada significam sem
se compreender a renda e o lucro, por exemplo, até se chegar às categorias
como o preço, o valor e a mercadoria.
No que diz respeito à teoria geral do Direito, essa lógica deve também ser
aplicada à totalidade concreta: a sociedade, a população, o Estado, não devem
ser o ponto de partida, mas sim o resultado das reflexões, diz Pachukanis.
Como primeiras aproximações e, a título de exemplos, ele apresenta as
definições de norma jurídica, relação jurídica e sujeito jurídico, como conceitos
jurídicos fundamentais, isto é, abstratos, utilizados pelo direito positivo e que,
independentemente do conteúdo concreto das normas jurídicas (das leis, por
exemplo), conservam a sua significação.
Para Pachukanis, esses conceitos abstratos são resultado de uma
elaboração lógica das normas do direito positivo e representam o produto tardio,
65
e superior, de uma criação consciente (1977, p. 40). São conceitos abstratos que
permeiam todo o pensamento jurídico. Ele diz:
Podemos, portanto, ter como ponto assente que o pensamento
jurídico evoluído independentemente da matéria à qual se dirige
não pode passar sem um certo número de definições muito
abstratas e muito gerais. Mesmo a nossa ciência jurídica soviética
não pode passar sem elas, pelo menos enquanto ela permanecer,
também, enquanto tal, uma jurisprudência, ou seja, dê resposta
às suas tarefas práticas imediatas.(197, p. 42)
Pachukanis ressalta um segundo aspecto metodológico, para ele
fundamental. Novamente reportando-se ao método em Marx, expresso na
Introdução à Crítica da Economia Política:
A sociedade burguesa é a organização histórica da produção
mais desenvolvida e mais variada que existe. Por este fato, as
categorias que exprimem as relações desta sociedade e que
permitem compreender a sua estrutura permitem ao mesmo
tempo perceber a estrutura e as relações de produção de todas
as formas de sociedade desaparecidas, sobre cujas ruínas e
elementos ela se edificou, de que certos vestígios, parcialmente
ainda não apagados, continuam alias a subsistir nela, e de certos
signos simples, desenvolvendo-se nela, se enriquecem de toda a
sua significação. (MARX, 1983, p. 223)
Seu objetivo é responder às críticas de que o direito proletário deveria
encontrar novos conceitos gerais e que encontrá-los seria a tarefa de uma teoria
marxista do Direito. Para ele, é fundamental a apreensão do Direito como uma
categoria histórica e não como um atributo da sociedade humana abstrata.
Propõe-se negar, portanto, a legitimidade histórica de um suposto “direito
proletário”.
A proposta de criação de novos conceitos para um direito proletário
proclama a invariabilidade da forma jurídica, destitui-a da sua vinculação com as
condições materiais e históricas que lhe permitiram constituir-se como tal, em seu
66
grau de desenvolvimento. Para Pachukanis, isso seria o mesmo que proclamar a
criação de categorias proletárias do valor.
Ele admite a existência da forma jurídica em uma sociedade de transição e
afirma:
A crítica da jurisprudência burguesa, do ponto de vista do
socialismo científico, deve tomar como exemplo a crítica da
economia política burguesa tal como Marx no-la oferece. Para tal,
esta crítica deve, antes de tudo, bater-se no terreno do inimigo, ou
seja, não deve por de parte as generalizações e as abstrações
que foram elaboradas pelos juristas burgueses, partindo das
necessidades do seu tempo e da sua classe, mas analisar estas
categorias abstratas e por em evidência a sua verdadeira
significação, por outras palavras, descobrir o condicionamento
histórico da forma jurídica. (PACHUKANIS, 1977, p. 63)
Estabelecido o problema do método, Pachukanis retoma a necessidade de
determinar se a essência do Direito deve ser buscada na base material da
sociedade ou na superestrutura, como o caminho para resolver a relação do
Direito com a ideologia.
Para Pachukanis, o Direito não deve ser estudado apenas enquanto
espécie particular de ideologia, como afirmavam alguns marxistas estudiosos do
tema, especificamente Rejsner. Ele admite a existência de uma ideologia jurídica,
mais que isso, para ele o Direito é para os homens uma experiência vivida sob a
forma de regras, princípios e normas, explicando sua posição a partir de uma
comparação com o estudo da economia política.
Categorias como valor e mercadoria também se constituem formações
ideológicas, ou seja, abstrações graças às quais pode ser reconstruída a
realidade econômica objetiva, pode ser elaborada teoricamente. No entanto a
67
categoria da mercadoria, por exemplo, reflete uma relação social objetiva. Sua
natureza ideológica não elimina a realidade e a materialidade das relações que
ela exprime.
Assim também os conceitos jurídicos, sem dúvida, fazem parte dos
processos e sistemas ideológicos. A questão não reside aí, mas em saber se as
categorias jurídicas, se esses conceitos, correspondem a relações sociais
objetivas; se sim, a quais relações?
Para Pachukanis ... tal como a riqueza da sociedade capitalista reveste a
forma de uma enorme acumulação de mercadorias, também, a sociedade, no seu
conjunto, se apresenta como uma cadeia ininterrupta de relações jurídica (1977,
p. 95).
Isto se dá, porquanto, na nossa sociedade, a troca de mercadorias
pressupõe uma economia atomizada, em que os vínculos entre as diversas
unidades econômicas, que são privadas e isoladas, são mantidos através dos
contratos que celebram entre si.
A unidade mais simples dessa cadeia repousa nas relações do Direito
privado e uma das premissas de toda a regulamentação jurídica é o antagonismo
entre interesses privados. É a partir do litígio, que estão estabelecidas as
condições para a criação da superestrutura jurídica.
Um dos exemplos dados por Pachukanis sintetiza sua concepção: a cura
de um doente pressupõe uma série de regras a serem observadas pelo médico e
pelo paciente. Essa cura pode mesmo prever alguma coerção sobre o doente
(como obrigá-lo a tomar injeções ou a se submeter a uma cirurgia). Quaisquer
68
ações que tenham por objetivo a cura do doente estão submetidas a uma
racionalidade técnica dada pela ciência médica no seu nível de desenvolvimento,
a unidade de fins exclui o Direito. A tarefa do jurista começa quando se adota o
ponto de vista dos sujeitos com interesses distintos, aí médico e paciente se
transformam em sujeitos de direitos e deveres, e as regras que os ligam se
transformam em normas jurídicas.
... a possibilidade de adotar um ponto de vista jurídico
corresponde ao fato de, na sociedade de produção mercantil, as
diferentes relações se decalcarem sobre o tipo das relações de
troca comerciais e assumirem, por conseqüência a forma jurídica.
... por mais racionalizada e irreal que possa parecer esta ou
aquela construção jurídica, ela assentará sobre uma base sólida
enquanto se mantiver dentro dos limites do direito privado,
principalmente do direito de propriedade.(1977, p. 91)
Disto desdobra-se uma outra polêmica importante: se a base de todo o
Direito está assentada nas relações privadas, como fica o poder público? E qual o
papel do Estado, de onde, em princípio emanariam as normas e demais
instrumentos coercitivos?
Do ponto de vista do jurista que defende o direito positivo, as normas
geram as relações jurídicas. Assim as pessoas cobram suas dívidas porque
existem normas que lhes permitem fazer isso e não o contrário, isto é, tais
normas/leis seriam criadas em função da prática de cobranças, própria do sistema
econômico. Para esse jurista a lei decorrente do poder estatal, emanada de uma
autoridade, é a fonte do Direito e dessa maneira o que realmente interessa são as
normas, o Direito é, portanto, norma e o Estado sua fonte e garantia.
69
Pachukanis por sua vez diz sobre este ponto: o poder do Estado confere
clareza e estabilidade à estrutura jurídica, mas não cria as premissas, as quais se
enraízam nas relações materiais, isto é, nas relações de produção (1977, p.108).
Contrapondo-se aos que defendem que o surgimento do Direito romano
estava assentado no direito público, ele vai fundo para negar essa tese e diz que
...no domínio do direito público, os esforços dos juristas são geralmente
arruinados sem contemplações pela realidade visto que o poder estadual não
tolera qualquer ingerência nos seus afazeres e não reconhece a força toda-
poderosa da lógica jurídica (1977, p.111).
O direito subjetivo, que origina o direito privado, é a expressão do indivíduo
egoísta (membro da sociedade burguesa), voltado para seus interesses e
vontades privadas, isolado da comunidade. O direito objetivo, ou público, é a
expressão do Estado burguês em sua totalidade, Estado que se revela como
poder político.
Em Pachukanis essa divisão existe e não pode ser eliminada facilmente,
uma vez que existe uma contradição entre os interesses egoístas do homem,
como membro da sociedade civil, e o interesse geral abstrato da totalidade
política. O bem comum, de maneira geral, não faz parte da lógica da sociedade
burguesa. Ele diz:
...o que caracteriza a sociedade burguesa é precisamente o fato
de os interesses gerais se destacarem dos interesses privados e
de se oporem a eles. E, nesta oposição, eles próprios revestem
involuntariamente a forma de interesses privados, ou seja, a
forma do direito (1977, p. 123).
70
A fonte desses interesses individuais está assentada na idéia de que todos
os homens são iguais, isto é, são capazes de dispor livremente seus bens no
mercado. A forma jurídica corresponde precisamente a essa relação social, o
contrato que se estabelece entre proprietários de mercadorias.
O sujeito aparece nessas relações essencialmente como o proprietário de
mercadoria, capaz de aliená-la. Se o escravo estava subordinado totalmente ao
senhor, não havia, portanto, necessidade de uma construção jurídica particular
nessa relação. O trabalhador assalariado, por sua vez ... aparece no mercado
como livre vendedor de sua força de trabalho e esta é a razão pela qual a relação
de exploração capitalista se mediatisa sob a forma jurídica do contrato (1977,
p.133).
Os conceitos de sujeito e de mercadoria encontram-se, nesse momento,
muito próximos. A mercadoria adquire valor independentemente da vontade do
sujeito, mas é no processo de troca que esse valor se realiza. O homem, aquele
que estabelece as relações sociais no processo de produção, apresenta-se como
sujeito cuja ... vontade habita nas próprias coisas17 .
Desta forma, o homem livre, quando procura o patrão, o mercado, para
vender sua força de trabalho, constitui-se sujeito de direito pois é proprietário e
estabelece uma relação jurídica. No entanto, nessa mesma ação, torna-se
também coisa. Ou nas palavras de Pachukanis:
A vida social desintegra-se simultaneamente, por um lado, numa
totalidade de relações coisificadas, nascendo espontaneamente,
(como o são todas as relações econômicas: nível dos preços, taxa
de mais valia, taxa de lucro, etc.), isto é, relações onde os
17
Karl Marx, O capital I, cap. II, citado por Pachukanis (1977;136).
71
homens não têm outra significação que não seja a de coisas, e,
por outro lado, numa totalidade de relações onde o homem se
determina tão só quando é oposto a uma coisa, isto é, onde é
definido como sujeito. Tal é precisamente a relação
jurídica...Deste modo o vínculo social, enraizado na produção,
apresenta-se simultaneamente sob duas formas absurdas, por um
lado, como valor de mercadoria e, por outro, como capacidade do
homem para ser sujeito de direito. (1977, p. 137)
Em síntese, a teoria de Pachukanis define o Direito como uma relação
social específica, a relação de troca de mercadorias. Desta relação a forma
jurídica é repassada para as demais relações sociais.
Todo o Direito está baseado na relação que estabelecem entre si os
proprietários de mercadorias, de maneira que o Direito é essencialmente privado,
as demais formas do Direito (criminal, constitucional, etc.) estão baseadas, ou
contaminadas, pela lógica das relações mercantis e, portanto, privadas.
Do ponto de vista de seu desenvolvimento histórico, o Direito atinge seu
apogeu como forma desenvolvida apenas no capitalismo, portanto, seu
fundamento é essencialmente burguês. E as formas anteriores de Direito,
inclusive o Direito grego ou o romano, são formas embrionárias de Direito.
O Direito cumpre uma função ideológica sem dúvida, no entanto este não é
o aspecto determinante ou central do Direito. O fetichismo jurídico é o mesmo
fetichismo da mercadoria. Assim também o papel do Direito como elemento de
coerção é minimizado; o elemento central de coerção de dominação de classe é o
Estado, e o Direito tem papel secundário na execução dessa função pelo Estado.
Para Pachukanis o Direito é essencialmente uma forma privada, baseada
nos interesses privados e na existência de litígio entre interesses individuais. ...
72
Qualquer tentativa que vise apresentar a função social pelo que ela é, isto é,
simplesmente como função social, e que vise apresentar a norma simplesmente
como regra organizatória significa a morte da forma jurídica (1977, p.123).
Desta maneira, o fim da forma jurídica e até mesmo do fetichismo jurídico
pressupõe um Estado social, onde não exista a contraposição entre os interesses
individuais e o interesse social.
Contrapondo-se a todos os juristas de sua época, Pachukanis sustentou a
impossibilidade de construção de um direito proletário. Isso não significava a
negação da necessidade da existência do Direito, este essencialmente burguês,
em uma sociedade de transição.
A transição para o comunismo evoluído não se apresenta,
segundo Marx, como uma passagem para novas formas jurídicas
mas como um aniquilamento da forma jurídica enquanto tal, como
uma libertação face a esta herança da época burguesa destinada
a sobreviver à própria burguesia.(1977, p. 61)
Chama a atenção sua forma de compreender a necessidade das formas
jurídicas numa sociedade de transição, pela lucidez que aparenta sua postura, se
considerarmos o momento de euforia dos primeiros anos da revolução. Ele diz:
Uma sociedade que é constrangida, pelo estado das suas forças
produtivas, a manter uma relação de equivalência entre o
dispêndio de trabalho e a remuneração sob uma forma que
lembra, mesmo de longe, a troca de valores-mercadorias, será
igualmente constrangida a manter a forma jurídica... Porém, daí
até se concluir que os tribunais e as leis terem de existir sempre,
já que, mesmo um estado de abundância econômica não fará
desaparecer todos os delitos contra a pessoa, equivalece a tomar
por essenciais e fundamentais momentos que são secundários e
derivados (1977, p. 62).
73
E responde àqueles que não acreditam na possibilidade de uma sociedade
onde não exista nenhuma forma de direito, reafirmando aquilo que a sociedade
burguesa já permite perceber em germe:
Mesmo a criminologia burguesa progressista, chegou
teoricamente à convicção de que a luta contra a criminalidade
pode ser considerada em si mesma como uma tarefa médica e
pedagógica e que os juristas com seus “corpos de delito”, os seus
códigos, os seus conceitos de “culpabilidade”, de
responsabilidade penal, plena ou atenuada, as suas sutis
distinções entre cumplicidade, participação, investigação, etc.,
não podem de modo algum prestar qualquer auxílio à solução da
questão (1977, p. 62).
Para Pachukanis, a tarefa de construir uma teoria geral do Direito é
essencial para desmascarar o Direito:
Toda a ideologia perece com as relações sociais que a geraram.
Porém, este desaparecimento definitivo é precedido por uma fase
onde a ideologia perde, sob os golpes desferidos pela crítica, a
capacidade de dissimular e velar as relações sociais das quais
nasceu. O pôr a nu as raízes de uma ideologia é o sinal certo de
que o seu fim se aproxima (1977, p. 63).
Se para o liberalismo a sofisticação cada vez maior da operacionalização
do Direito é um indício de aperfeiçoamento das relações sociais no sentido de
uma sociedade em que os homens gozem de maior liberdade, para o marxismo,
na concepção de Pachukanis, a sofisticação do Direito torna cada vez mais
fetichizada a relação do homem enquanto mercadoria, e mais distante ele está de
sua libertação.
1.3. A Sociedade Justa
74
1.3.1 Tomás de Aquino e a recuperação do conceito de justiça
econômica
Embora a reflexão sobre o Direito, sua natureza e função na sociedade,
seja fundamental para a compreensão do nosso objeto de estudo, há que se
ressaltar que, no universo profissional dos assistentes sociais, o tema do Direito
comparece, em boa parte de sua trajetória histórica, travestido pela discussão da
justiça, mais especificamente, da justiça social. Assim, introduzimos aqui algumas
questões referentes às possibilidades e limites da construção de uma sociedade
economicamente justa e da vigência dessa discussão nos dias atuais.
A possibilidade de construção de uma sociedade que seja justa do ponto
de vista econômico, isto é, do ponto de vista da distribuição das riquezas
produzidas, tem sido objeto de reflexão desde a antiguidade até os nossos dias.
Aristóteles foi quem primeiro formulou um conceito de justiça econômica
por volta do século IV a C. A sociedade da época vivia já um processo de
transição entre uma economia de mercado simples, na qual as trocas de
mercadoria se davam com vistas essencialmente ao consumo, para uma
economia de mercado mais complexa, em que os comerciantes utilizavam-se dos
seus recursos monetários para comprar as mercadorias e vendê-las com lucro.
Observando a necessidade de estabelecer limites para o mundo das
relações comerciais, Aristóteles desenvolveu um conceito de justiça específico
para a esfera da economia e, utilizando-se de princípios ético-morais, condenou
75
como contrária à natureza a prática dos comerciantes que obtinham lucros com
as suas transações.
Para tanto ele se utilizou de três argumentos básicos: primeiro, essa prática
tornava o comércio um fim em si mesmo e não um meio para a vida digna;
segundo, gerava uma possibilidade de acumulação que não tinha limites o que
contrariava o princípio de que, para viver com dignidade, o homem precisava
apenas de recursos limitados; e, finalmente, condenava essa prática porque ela
permitia que alguns ganhassem à custa de outros (MACPHERSON,1991, p.19).
A preocupação de Aristóteles estava marcada pelo fato de que a
acumulação que estava ocorrendo no mercado das cidades-estado gregas havia
separado a economia da sociedade, dos seus vínculos sociais, o que gerava
transtornos. Os comerciantes que acumulavam riquezas acabavam por modificar
as relações de troca e, conseqüentemente, a distribuição da renda entre os
cidadãos livres.
Vale ressaltar que ele considerava as relações de produção
preestabelecidas, isto é, não importava se as relações de produção envolvessem
o trabalho servil, o trabalho do camponês ou o do cidadão livre. Ele buscava
restabelecer os valores tradicionais da sociedade desenvolvendo um conceito de
justiça econômica, construindo uma ética comercial que evitasse o domínio de um
grupo de comerciantes e o caos na sociedade.
Nessa busca, ele desenvolveu dois conceitos que posteriormente foram
resgatados na Idade Média por Tomás de Aquino: o de justiça comutativa e de
justiça distributiva.
76
A justiça comutativa referia-se à troca, os preços das mercadorias
deveriam ser determinados socialmente. O importante era determinar quanto do
produto caberia a cada parte em troca do seu trabalho. O “preço justo” é aquele
que permite ao produtor da mercadoria viver de acordo com sua posição social
habitual, determinada pelo seu mérito. Nessa medida é condenada a atitude de
lucrar com a falta do produto no mercado ou com a ignorância do comprador
sobre o real valor da mercadoria.
A justiça distributiva é a que se refere à distribuição da riqueza produzida
pela sociedade entre os cidadãos. Era necessário assegurar que toda a família
tivesse uma renda que lhe permitisse gozar de uma vida com dignidade. A
questão é se Aristóteles teve sucesso em sua tentativa de refrear o processo de
acumulação nas cidades-estado gregas. Macpherson (1991) diz que não.
Desenvolvendo essa reflexão, o renomado cientista político mostra que o
conceito de justiça econômica surge nos momentos em que as sociedades
políticas tradicionais se vêem às voltas com a intromissão do mercado, como uma
reação a essa intromissão. Isso ocorreu no período em que Aristóteles formulou
esse conceito e ocorreu novamente na Idade Média, do século XII em diante.
Segundo Raquel Kritsch, o grande feito de Tomás de Aquino ... foi realizar
uma síntese entre a filosofia pagã aristotélica e a cosmologia cristã, despojando a
primeira daqueles elementos inaceitáveis a um crente (2002, p.263). Ele deu à
filosofia grego-romana uma nova leitura, mais aceitável ao gosto dos pensadores
da Idade Média, de maneira que é comum encontrarmos na literatura a expressão
“aristotélico-tomista”.
77
É no livro Tratado da Lei (questões 90 a 108 da Súmula Teológica) que
Tomás de Aquino aborda a questão da lei e da justiça. Para ele, assim como para
Aristóteles, a lei é algo que diz respeito à razão, no entanto ele concebe a razão
como uma mediação, entende que é ...por meio do conhecimento das leis que a
razão ou o intelecto humano podia apreender as verdades do intelecto divino
(KRITSCH:2002; p.303). Assim, o direito natural teria sido promulgado por Deus
que deu ao homem a capacidade de conhecê-lo através de sua natureza racional.
Por outro lado, as leis elaboradas pelo homem podiam regular a vida em
sociedade desde que estivessem de acordo com o direito natural.
A lei é definida por Tomás de Aquino como um ordenamento da razão,
sendo esta razão orientada para um fim específico: Deus. Desta maneira, a razão
prática vai operar tendo como princípio o fim específico da vida humana que é a
beatitude, a felicidade eterna e suprema, a bem-aventurança. O objetivo da lei,
portanto, dizia Tomás de Aquino, era a ordenação para o bem comum (KRITSCH,
2000, p.305).
Tomás de Aquino referiu-se às virtudes anexas à justiça que para ele
tinham a ver com o relacionamento humano. A justiça é apresentada como o
sentido que ordena a relação entre os homens e tem como implicação uma certa
igualdade.
Ele considerava como partes integrantes da justiça: fazer o bem e se
afastar do mal, cabendo ao ordenamento legal (as leis), ou justiça legal como ele
chamou, organizar a vida da cidade para o bem comum.
78
Também elaborou um conceito de justiça econômica. Estudando as
espécies de justiça que eram a comutativa e a distributiva, desenvolveu o
esquema de Aristóteles e articulou-o com seu princípio religioso. Sobre isso ele
diz:
As disposições de direito humano não podem derrogar as do
direito natural ou do direito divino. Ora, pela ordem natural,
instituída pela providência divina, as coisas inferiores são
ordenadas à satisfação das necessidades humanas. Por onde, a
divisão e a apropriação das coisas permitidas pelo direito humano
não obstam a que essas coisas se destinem a satisfazer as
necessidades do homem. E portanto as coisas que possuímos
com superabundância são devidas, pelo direito natural, ao
sustento dos pobres. (Súmula teológica apud KRITSCH:2000;
p.331)
Como se pode observar, Tomás de Aquino fazia referência à acumulação
de forma distinta da de Aristóteles. Sua idéia de justiça comutativa também
estabelecia que as coisas que fossem objeto de troca tivessem o mesmo valor e
que o preço justo em uma transação comercial era aquele que permitia ao
produtor manter sua posição social. No entanto ele foi mais tolerante no que diz
respeito aos ganhos obtidos pelos comerciantes.
Macpherson diz que o ...comércio com fins lucrativos era permitido desde
que o lucro não ultrapassasse um ganho condizente com o trabalho do
comerciante, o risco por ele assumido e as despesas com transporte (1991, p.20).
Desta maneira, era admissível que um comerciante obtivesse lucros por levar
uma mercadoria para um local distante, onde o acesso às mercadorias fosse
restrito ou perigoso, devido aos riscos a que ele se submetia para isso, mas não
eram aceitáveis os lucros obtidos em situações em que uma das partes estivesse
79
em desvantagem para negociar, lucros obtidos pela usura ou por práticas
monopolistas por exemplo.
A acumulação poderia existir no comércio desde que os ganhos fossem
moderados, ou seja, se limitassem a padrões aceitos socialmente e, sobretudo,
que houvesse benefício para a comunidade. O princípio subjacente estabelecido
aqui é o do bem comum, o do interesse da comunidade como um todo sobre os
interesses individuais.
Segundo Macpherson (1991) a aplicação dos princípios de justiça
comutativa durante a Idade Média não tinha a intenção de limitar a ação individual
dos comerciantes quanto ao seu poder de negociação, mas sim constituía-se num
mecanismo de defesa de uma sociedade cuja organização da produção e do
comércio estava sujeita a objetivos sociais, contra o avanço da lógica do
mercado, que já se fazia sentir naquele período histórico.
Até o final da Idade Média esses princípios de justiça econômica tiveram
validade e conseguiram, com o forte apoio da Igreja Católica limitar ou retardar o
rompimento do vínculo que o mercado estabelecia com a ordem social tradicional.
Mas a passagem da ordem feudal para a mercantil marca também o fim da
vigência do conceito de justiça econômica.
A sociedade mercantil estava organizada com o objetivo de promover a
acumulação de ouro e prata com vistas a reforçar o poderio dos estados-nação
ascendentes. A lógica da acumulação a partir de então passa a ser a lógica do
mercado e, portanto, os interesses da sociedade, representados pelo Estado,
estavam em sintonia com o movimento do mercado. Assim não importava se os
80
lucros obtidos através do comércio promovido pela Inglaterra, suas companhias
coloniais e até mesmo a pirataria, não estivessem lastreados em um conceito de
justiça qualquer.
Os principais pensadores do século XVII em diante fizeram a crítica aos
fundamentos da justiça econômica e consolidaram um ideário marcadamente
liberal. Para Hobbes, o valor justo de uma mercadoria era aquele determinado
pelos interesses e necessidades do contratante e, portanto o valor acertado entre
quem compra e quem vende. E, mais ainda, se a distribuição devia estar dada
pelo mérito de cada um na sociedade, diz Hobbes ...o valor ou mérito de um
homem, como de todas as demais coisas, é seu preço; ou seja, quanto lhe seria
dado pelo uso de seu potencial (HOBBES apud MACPHERSON: 1991; p.22).
A partir de então as relações econômicas ganharam uma autonomia
considerável na maior parte dos países desenvolvidos e a idéia de uma justiça
econômica, na qual as normas tradicionais asseguravam que o mercado não
dominasse sozinho as relações de produção, sucumbiu, dando por concluída a
ascensão do mercado. Como bem coloca Macpherson:
...o mercado mudou, e se percebeu que ele mudara
qualitativamente: as energias e aptidões humanas – a capacidade
dos homens de trabalhar produtivamente – tornaram-se
normalmente negociáveis. A partir daí, uma parte cada vez maior
da população trabalhadora passou a vender sua mão-de-obra em
vez de seus produtos.(1991, p. 23)
É importante destacar que essa transição para uma sociedade mercantil
não se deu sem tensões, ou de maneira linear. Medidas restritivas à expansão
desenfreada da lógica de mercado foram tomadas. Por exemplo, na Inglaterra o
81
governo mandou cercar algumas terras comunitárias, estabeleceu alguns
mecanismos que buscavam proteger a força de trabalho contra as agressões e
flutuações do mercado, como contratos trabalhistas, mas no início do século XIX
até essas medidas foram abolidas pela reforma da Lei dos Pobres.
No entanto, nesse mesmo século XIX, no âmbito da intensificação da luta
política da classe trabalhadora, o conceito de justiça econômica aparece
novamente, mesmo que não no centro da cena. Algumas correntes do movimento
socialista irão pleitear uma sociedade onde a riqueza produzida seja distribuída
de maneira eqüitativa. Exemplo desse pleito é o Programa de Gotha, programa do
Partido Social-Democrata Alemão escrito em 1875 na cidade de Gotha.
Nele os social-democratas alemães propunham: a emancipação do
trabalho exige que os meios de trabalho elevem-se a patrimônio comum da
sociedade e que todo o trabalho seja regulado coletivamente, com uma repartição
eqüitativa do fruto do trabalho18.
A reivindicação excluía o nível das relações de produção e se centrava no
nível do consumo; o que se buscava era uma forma dos trabalhadores serem
menos explorados ou, visto de outro lado, usufruírem um pouco mais da riqueza
produzida como fruto do seu trabalho.
Karl Marx já na época investiu criticamente contra essa modalidade de
reivindicação com o seu conhecido Crítica ao Programa de Gotha. Mesmo
considerando importante que o movimento dos trabalhadores se utilizasse desse
tipo de reivindicação com o intuito de melhorar as condições de vida da classe,
18
Extraído do texto Crítica ao Programa de Gotha op cit.
82
para ele o pleito, não propunha a eliminação do modo como a riqueza era
produzida no capitalismo, fonte da acumulação e da exploração.
Para Marx a luta dos trabalhadores deveria concentrar-se na luta pela
transformação do modo de produção capitalista e não na luta pela distribuição
eqüitativa da riqueza produzida. Embora a crítica de Marx não tenha impedido
que vários partidos, principalmente a social-democracia – continuassem
utilizando-se desse tipo de reivindicação, a tradição marxista a rejeita como
estratégia para se chegar ao socialismo19.
Durante os séculos XVIII e XIX pode-se dizer que o conceito de justiça
econômica não teve grande expressão. De um lado foi negado pelos liberais e de
outro foi rejeitado pelos marxistas. Segundo Macpherson, a razão disso está no
fato de que ...à medida que triunfava, a economia de mercado capitalista foi
tornando inúteis e obsoletas as noções de justiça distributiva e de justiça
comutativa: elas já não serviam para combater o domínio do mercado (1991,
p.27).
A lógica das relações de mercado invadiu todos os rincões e submeteu
todas as demais relações sociais. A economia de mercado foi considerada
funcional e satisfatória por aqueles que detinham o poder de decidir os rumos da
sociedade. E, novamente nas palavras de Macpherson : não apenas a justiça
econômica desapareceu: a justiça em geral foi reduzida ao cálculo da utilidade
máxima ou à observância dos contratos (1991, p. 28).
19
A temática foi aprofundada, entre outros, por Rosa Luxemburgo em Reforma Social ou Revolução
(1990).
83
1.3.2 Os limites da justiça econômica no marco do capitalismo de
monopólios
Para refletir sobre a utilização do conceito de justiça econômica na
atualidade é necessário primeiramente explicar como é possível que numa
sociedade submetida totalmente à lógica do mercado tal conceito tenha alguma
vigência.
Segundo Macpherson, a revitalização da justiça econômica a partir do
século XX está assentada no fato da economia de mercado não se apresentar
mais como viável. Ele diz: ...tanto os setores capitalistas mais avançados como os
movimentos de trabalhadores (e agricultores) consideram o mercado
incompetente para promover uma distribuição de renda justa (1991, p. 30).
Para o autor, a crise na crença do modelo de livre regulação do mercado
gerou a possibilidade da idéia de justiça econômica ser novamente invocada, e
isso se deu basicamente em razão de três fatores.
O primeiro diz respeito aos espaços políticos conquistados pela social-
democracia: partidos políticos e sindicatos utilizaram-se de reivindicações de
natureza distributivistas, do tipo de serviços sociais e previdenciários, em nome
de uma justiça econômica. E mais, governos social-democratas foram eleitos
desde os anos de 1920 tendo por plataforma eleitoral erigir uma sociedade em
que mecanismos de distribuição de renda e de controle dos níveis de exploração
das classes trabalhadoras limitassem os excessos do próprio capitalismo,
84
permitindo uma convivência menos tensa entre as classes; é o chamado pacto
social.
O segundo fator apontado diz respeito à concentração de capitais, típica da
fase monopolista, em que os níveis de concorrência diminuem e poucos grupos
monopolistas dominam todo o mercado. Nessas circunstâncias, o mercado não é
mais capaz de regular o comércio e a idéia liberal de que toda a troca é
necessariamente justa cai por terra, uma vez que os mecanismos reguladores de
mercado - tal como a lei da oferta e da procura -, que se reivindicavam neutros do
ponto de vista moral, são suprimidos. Segundo Macpherson, isso abre espaços
para o estabelecimento de algum tipo de padrão ético regulador dos sistemas de
trocas.
E, por fim, verificou-se que o mercado, também em razão da
monopolização, não se mostrou mais capaz de realizar a distribuição da renda, e
o Estado foi chamado para intervir na economia e realizar a distribuição
necessária para garantir a existência mesma do sistema capitalista.
Nos países capitalistas, o Estado altera o curso dos processos de produção
e distribuição da riqueza, cria incentivos, socorre o capital falido, impõe barreiras
protecionistas, leis de proteção trabalhistas, enfim, o Estado regula o mercado.
Além das explícitas necessidades do próprio capital a quem vai socorrer, a
intervenção do Estado na economia responde também às pressões dos
movimentos de trabalhadores. Desta maneira, quando um governo de tipo
democrático lança mão de uma política com base em princípios de justiça
econômica ele busca mostrar que sua ação está voltada para o bem comum.
85
Dadas as condições para que a justiça econômica se coloque novamente
em pauta, resta saber como ela se apresenta nos nossos dias e quais os limites
de sua vigência.
Do ponto de vista de uma justiça distributiva o que podemos observar é
que os governos do tipo social-democratas que nas décadas de 1940 a 1970
tiveram maior sucesso na aplicação de mecanismos de distribuição de renda –
notadamente nos países desenvolvidos - sucumbiram um após outro ao modelo
neoliberal20.
A resposta capitalista à crise econômica global que se instalou no último
quarto do século e que dura até os dias atuais foi o rompimento do pacto social e
uma guinada política à direita que afetou até mesmo os partidos da social-
democracia. Os governos que levaram a cabo políticas de bem-estar social viram-
se forçados a retroceder e a adotar medidas de cortes dos gastos públicos.
No que diz respeito a uma justiça de tipo comutativa, referente à esfera das
relações de troca, Macpherson nos aponta alguns fenômenos interessantes com
ênfase na legislação e nas sentenças judiciais. São mecanismos de proteção
contidos, por exemplo, em códigos de defesa de consumidores e códigos de
regulação comercial, que prevêem a anulação de contratos, se forem observadas
cláusulas consideradas abusivas ou extorsivas. Ele diz que: o conceito jurídico de
20
Até mesmo a teoria de John Rawls, formulador do conceito de equidade mais conhecido nos nossos dias,
que propõe uma justiça de tipo distributivista, não aceita que mecanismos de distribuição de renda interfiram
na eficiência do sistema econômico capitalista. (para mais informações ver A teoria da Justiça de John Rawls
de Marilda M.S Moreira (MOREIRA, 2003), ou a abra do próprio Rawls. Assim quando esses países se
viram diante da crise econômica que assolou o mundo a partir da década de 1970, priorizaram a eficiência do
sistema econômico em detrimento da qualidade de vida da classe trabalhadora, recortando seus programas
sociais.
86
contratos extorsivos parece incorporar o princípio comutativo da troca de valores
iguais, embora não se baseie somente nesse princípio. E certas legislações
recentes chegaram a fazer do “preço excessivo” um argumento para o não
cumprimento de um contrato (1991, p.33).
Mas o autor alerta que tais mecanismos, embora nos remetam a uma
modalidade de justiça econômica, não se têm constituído em uma regra, são
antes exemplos isolados. Além disso, se o princípio de anular contratos em que
uma das partes estivesse em desvantagem se tornasse uma regra largamente
aplicada, os primeiros contratos a serem anulados deveriam ser os contratos de
trabalho que, no caso brasileiro, submetem a maior parte dos trabalhadores a um
salário de duzentos e quarenta reais21.
Outro questionamento é o de que o parâmetro que, em geral, tem sido
utilizado para considerar se um contrato é extorsivo, é o do “preço normal de
mercado” que não é propriamente baseado na idéia de justiça comutativa como
formularam Aristóteles e Tomás de Aquino, de que o preço deveria estar
vinculado às necessidades sociais de acordo com padrões tradicionais, mas sim
está baseado no preço praticado já sob as regras de um sistema econômico
monopolizado.
A conclusão a que podemos chegar é que o conceito de justiça econômica
não tem sido aplicado, de fato, nos dias atuais, a não ser em situações pontuais e
em períodos e circunstâncias muito específicas, como no caso das três décadas
21
Salário mínimo vigente em fevereiro/2004
87
que sucederam à Segunda Guerra Mundial, e mesmo assim apenas em alguns
países do mundo.
Macpherson também se mostra cético quanto às possibilidades de uso
desse conceito nesta fase adiantada do capitalismo e afirma que ...o conceito de
justiça econômica parece fadado a não ter vida muito longa...(1991, p. 35)
permanecendo em uso apenas no discurso dos países mais pobres que invocam
a justiça econômica como instrumento em sua luta contra a dominação dos
países desenvolvidos, com o intuito de não se verem totalmente subjugados
diante dos acordos de comércio internacional, sempre lesivos aos seus
interesses.
E, ao contrário da avaliação que faz Norberto Bobbio sobre o futuro dos
direitos humanos, podemos concluir que as possibilidades de garantia dos direitos
humanos na atualidade, seja dos direitos individuais, seja dos políticos, seja,
ainda, dos direitos sociais e econômicos, são cada vez menores.
Ameaçados em todo o mundo, os direitos sociais como o direito ao
trabalho, à saúde, e à assistência, vêm sendo reduzidos de fato em benefício de
mecanismos de acumulação capitalista. Nos países onde o movimento dos
trabalhadores avança em suas reivindicações por direitos sociais fica cada vez
mais clara a incompatibilidade destes com o direito de propriedade capitalista que
almeja a acumulação de capital.
Embora não sejam, em teoria, incompatíveis entre si os direitos e garantias
individuais freqüentemente são colocados em confronto com os direitos sociais,
que pressupõem o direito à propriedade privada. Os choques de interesse entre
88
classes subjacente a esse confronto leva, na maior parte das vezes, à supressão
dos direitos de liberdade, de expressão e participação política das classes
subalternas.
As ditaduras latino-americanas das décadas de 1960 e 1970 fizeram larga
utilização de mecanismos de supressão dos direitos individuais e políticos
pregando a necessidade do desenvolvimento econômico para que a população
pudesse atingir níveis melhores de condições de vida.
Mas, mesmo quando se busca manter um estado democrático de direito,
como acontece em boa parte dos países da América Latina na atualidade, os
direitos sociais acabam reféns do desenvolvimento econômico sendo,
freqüentemente, vinculados os avanços, numa área, aos avanços na outra.É
comum os governos solicitarem que a população abra mão de direitos em
benefício da economia em geral. Exemplos disso são taxações de impostos
adicionais, reformas na legislação trabalhista e previdenciária que implicam cortes
de direitos adquiridos, etc.
Esse mecanismo de impor sacrifícios ou restrições à população para obter
benefícios pode parecer legítimo à primeira vista. Sobre isso Macpherson diz:
alguns moralistas fariam sérias restrições à troca compesatória de
certos direitos civís por benefícios, e muitos alegariam ao menos
que, numa troca desse tipo, é preciso levar em conta os custos e
benefícios para as futuras gerações. Mas conquanto possamos
divergir em tais pontos, todos certamente concordamos que uma
troca compensatória é injustificável quando um grupo de pessoas
colhe os benefícios e outro grupo arca com os ônus. (1991, p..45)
89
Outra faceta perversa do limite da aplicação dos direitos humanos está nos
movimentos de negação de direitos coletivos, como o direito de autodeterminação
dos povos, cuja situação atual do Oriente Médio é emblemática. Como afirma
Macpherson (1991, p.39), para povos que não têm o direito de escolher o seu
modo de vida e de dispor dos meios para mantê-lo, o direito à autodeterminação
pode ser mais importante que qualquer direito individual.
A luta pela manutenção e até ampliação dos direitos humanos se mostra
como um instrumento importante de resistência ao avanço dos níveis de
exploração capitalista, como bem coloca Macpherson ...em qualquer sociedade
dividida em classes, e sobretudo num mundo dividido em classes - quer dizer, um
mundo dividido em países pobres e países ricos -, o lema dos direitos humanos
está fadado a ser, como o atesta a história – uma ameaça à ordem estabelecida
(1991, p.38).
Mas vale ressalvar que, assim como Marx criticou os social-democratas
alemães e seu Programa de Gotha, alertando para a importância de não fomentar
ilusões quanto à capacidade dos mecanismos de distribuição de renda alterarem
o sistema de exploração capitalista, também as reivindicações por justiça
econômica e por direitos humanos não vão direto ao cerne da questão, não
interferem diretamente nos mecanismos de manutenção da propriedade privada
capitalista, fonte de toda a exploração.
1.3.3 O Serviço Social e a justiça social
90
Diante desse quadro vale apresentar alguns aspectos da concepção de
justiça, em especial de justiça social, presentes no universo ideológico e político
dos assistentes sociais ao longo da história da profissão. Antes de mais nada faz-
se necessário afirmar que essa concepção de justiça, construída e reconstruída
pelos agentes profissionais, tem um papel que não deve ser sobrevalorizado do
ponto de vista de sua influência na determinação dos elementos que conformam a
profissão.
O surgimento da profissão e a existência de um espaço profissional
consolidado na divisão sócio-técnica do trabalho dependem essencialmente dos
mecanismos desenvolvidos pelo Estado na fase monopolista do capitalismo. Essa
vinculação torna primordiais, para a conformação da profissão, as determinações
econômicas da organização social e subordina as formulações ideológicas dos
agentes a elas. Mesmo assim há que se considerar que, como diz José Paulo
Netto,
o erguimento da sociedade burguesa madura e consolidada,
assentada na ordem monopólica, não é um processo sem
protagonistas. A sua história não é um puro desenrolar de
requisições econômico-sociais que convocam respostas
automaticamente necessárias; como em toda a história da
sociedade, nesta também “nada acontece sem intenção
consciente, sem meta desejada” {Engels}. (1992, p. 48)
É na perspectiva de subsidiar nosso estudo sobre a prática profissional que
buscamos apresentar aqui a concepção de justiça dos assistentes sociais, com a
consciência da importância e dos limites que o universo ideológico e político dos
agentes profissionais possui para a compreensão da conformação dos caminhos
e das estratégias particulares do Serviço Social no Poder Judiciário.
91
O conceito de justiça predominante no discurso dos assistentes sociais
desde as origens da profissão no Brasil guarda estreita vinculação com os
documentos sociais da Igreja Católica, principalmente as Encíclicas Sociais, e
com a influência do pensamento tomista, mais forte nas primeiras gerações de
profissionais.
No contexto do surgimento da profissão, na década de 1930, a Igreja
Católica no Brasil vivia um período de afirmação institucional em contraposição à
grande perda de espaço que sofreu com a laicização do Estado no final do século
XIX, a partir da proclamação da República, de forte influência positivista. Novas
alternativas de ação pastoral e a formação de uma elite intelectual católica serão
os instrumentos dessa afirmação institucional.
Através das Encíclicas Papais, Leão XIII22 e Pio XI23 deram conformação à
Doutrina Social da Igreja Católica que, segundo Sergio Antonio Carlos (1993),
não se constitui propriamente uma ideologia, mas apenas uma visão de mundo de
um segmento específico de uma classe social, neste caso, da classe dominante24.
A Igreja buscava estabelecer novas bases de sua relação com o Estado
republicano atribuindo-se também um papel na manutenção da ordem pública
através da disseminação de valores morais e religiosos. Seu empenho nesse
sentido foi bem recebido pelos governantes. Esse novo arranjo entre Igreja e
22
Immortale Dei de 1884, Rerum Novarum de 1891 e Graves de Communi de 1901.
23
Divini Illius Magistri de 1929, Casti Connubii de 1930 e Quadragésimo Anno de 1931.
24
No estudo de Sergio Antonio Carlos sobre a gênese e a estrutura do Serviço Social brasileiro no período
doutrinário católico a expressão visão social de mundo é utilizada na concepção de Michael Löwy, assim
definido “um conjunto relativamente coerente de idéias sobre o homem, a sociedade, a história, e sua relação
com a natureza [....] esta visão de mundo está ligada a certas posições sociais, isto é, aos interesses e à
situação de certos grupos e classes sociais. A partir de um mesmo ponto de vista de classe as visões sociais
de mundo não são únicas, ao contrário são possíveis muitas visões.”(1993, p.58)
92
Estado ocorreu sob a égide da crise social e econômica da qual a revolução
socialista de 1917 e os movimentos sociais urbanos decorrentes do processo de
industrialização são fatos marcantes, assim como a quebra da bolsa de Nova
York em 1929.
Pode-se dizer que, como conseqüência desse arranjo, o positivismo vai
servir de inspiração às elites em busca de manutenção da ordem social e o
catolicismo, de sustentação ideológica popular para legitimar a mesma ordem
social burguesa.
A Doutrina Social da Igreja Católica estava ancorada no princípio da
prevalência do direito natural como derivação da razão divina. Ao homem cabe
desvendar quais são as “leis” escondidas na ordem estabelecida, que é natural e,
portanto, inspirada em Deus. Fazem parte dessa ordem a propriedade particular e
o capital, como afirma Sergio Antonio Carlos com base em Leão XIII:
A propriedade particular e pessoal é considerada como direito
natural para o homem. Esta propriedade não deve ser
sobrecarregada por encargo por parte do governo. A obrigação de
dar o supérfluo para os pobres está embasada na lei da mútua
caridade que obriga a dar à cada um o que é seu. Esta mesma lei
obriga a inviolabilidade do direito alheio e da propriedade
particular. (1993, p.126)
A ação social da Igreja Católica constituiu-se um movimento que visava a
recristianização da sociedade com vistas à manutenção da ordem estabelecida.
Essa ordem, fundada no modo capitalista de produção foi interpretada como
ordem natural, sendo necessárias apenas algumas “correções de rota” para
garantir o direito natural. As correções deveriam estar pautadas em princípios de
justiça econômica (comutativa e distributiva), como chamou Tomás de Aquino e
93
compreendiam a condenação do liberalismo, dos monopólios e dos sistemas
totalitários (principalmente o socialismo).
A justiça e a caridade cristã são consideradas as bases para a paz social.
A diferença entre os homens e as classes sociais são reconhecidas; no entanto, a
perspectiva é a da conciliação, como cita Sergio Antonio Carlos:
Cada um deve ter sua parte nos bens materiais e preocupar-se
para que a repartição seja pautada pelas normas do bem comum
e da justiça social. Daí decorre que é impossível, na sociedade
civil que todos estejam elevados ao mesmo nível. O homem deve
aceitar com paciência sua condição. (1993, p.127)
Os primeiros agentes profissionais do Serviço Social foram formados nessa
visão social de mundo. Os dois primeiros cursos de Serviço Social (São Paulo-
1936 e Rio de Janeiro – 1937) constituíram-se inicialmente como cursos de
aprofundamento da Doutrina Social da Igreja. Como parte da intelectualidade
católica, esses primeiros agentes profissionais assumiram a justiça social e o
modelo da democracia cristã como um postulado ético necessário ao equilíbrio da
sociedade, totalmente compatível com o pensamento liberal capitalista25.
A Igreja Católica assumiu para si a justiça e os assistentes sociais
constituíam-se em importantes agentes dessa tarefa. Nessa perspectiva, ao
Estado cabe organizar e regular a sociedade através de uma legislação que
garanta as liberdades individuais cabendo à Igreja a função de nortear
principalmente a legislação social.
25
O conflito entre a concepção de mundo liberal e a concepção católica permanece latente em todo esse
processo, a medida que o ideário da igreja católica remete a uma modalidade de organização social e
econômica de características pré-capitalistas, e o liberalismo é o ideário próprio do modo de produção
capitalista; no entanto, observa-se que a convivência é perfeitamente possível. Para um aprofundamento do
tema ver (NETTO:1992).
94
Para Vilmar Adelino Vicente, em seu estudo sobre a concepção de justiça
no Serviço Social (1992), a justiça social constituía-se na própria fundamentação
da ação profissional e nela estavam implicadas desde as questões relativas à
formação profissional, visto que os agentes entendiam a prática como uma
missão apostólica, até os aspectos do agir profissional. Uma forte visão
reformadora da sociedade embasava todo o processo de constituição da
profissão. Para ele existe:
uma ênfase muito forte na solução dos problemas sociais, a partir
de uma cosmovisão ética e suas implicações no ordenamento
institucional vigente, consistindo nisso o objeto da
profissionalização. Superam-se assim algumas atitudes
retrógradas na abordagem da questão social: o pietismo, a
compaixão e o assistencialismo das benemerências, buscando-
se uma ação social sistemática e eficaz, alimentada por ditames
técnicos, mas sobretudo por uma mística e ideologia cristã (1992,
p.633).
As práticas profissionais desses primeiros agentes estavam baseadas no
ver-julgar-agir, em que o julgar era utilizado no seu sentido do julgamento
moral/ético mesmo. Essa metodologia foi desenvolvida pelo movimento de Ação
Católica e suas principais preocupações estavam vinculadas aos impactos sociais
do sistema econômico que permitia lucros excessivos de um lado, e a ameaça do
comunismo, de outro.
A luta entre as classes sociais nada mais era do que um desvio, elas eram
compreendidas como pilares da sociedade. Nessa perspectiva, os interesses dos
diversos grupos sociais deveriam ser cotejados, sendo possível e necessário
trabalhar para o congraçamento entre a burguesia e o proletariado.
95
Essa concepção de mundo em que o bem comum e a justiça social são
possíveis e desejáveis persistiu no discurso dos assistentes sociais até a década
de 1960, mas ao longo dessa década houve uma série de transformações sociais
que alteraram sensivelmente o período seguinte. A década de 60 é marcada por
uma maior influência norte-americana e também por uma intervenção profissional
nos organismos estatais muito mais atuante.
Segundo Vicente (1992, p.645), a concepção de justiça dos assistentes
sociais a partir daí vai ser alterada por diversos fatores tais como a ampliação do
universo de profissionais e conseqüentemente um pluralismo teórico-
metodológico e ideológico-político na performance profissional; a incorporação
das polêmicas das ciências sociais pelos assistentes sociais num esforço de
superação de sua subalternidade intelectual; a mudança de postura do Estado
com relação às políticas sociais que passa a ser de uma maior intervenção
sobretudo depois do golpe de 1964; por fim a emergência de uma vanguarda
acadêmica que, a partir das escolas, irá consolidar novas perspectivas de
reconceituação da profissão.
Nos primeiros anos da década de 1960 já era marcante a criticidade dos
profissionais com relação ao enfoque tradicional da profissão cuja intervenção
priorizava fundamentalmente as abordagens individuais e de grupo. A introdução
de um enfoque comunitário se deu através do Desenvolvimento de Comunidade
que abriu possibilidade para expressão de várias tendências que vão buscar
desenvolver técnicas de intervenção26. Como conseqüências dessa nova
26
Vicente (1992:649) resgata o importante estudo de Safira B. Ammann para lembrar que nesse período o
Desenvolvimento de Comunidade contemplava ações profissionais inspiradas em práticas tradicionais que
96
modalidade de intervenção os assistentes sociais interagiram com diversos
grupos sociais organizados e foram ganhando autonomia em relação aos setores
mais conservadores da Igreja Católica.
A temática do desenvolvimento - também presente na Encíclica Populorum
Progressio do Papa Paulo VI – é incorporada pelos assistentes sociais, como se
pode perceber no Documento de Araxá publicado pelo Centro Brasileiro de
Cooperação e Intercâmbio em Serviços Sociais - CBCISS em 1967, que propõe
estimular o exercício da livre escolha e da responsabilidade das decisões, o
respeito aos valores e à cultura, o ensejo da mudança com relação à
autopromoção do indivíduo e da comunidade, a atuação dentro de uma
perspectiva de globalidade da realidade social.
O conceito de justiça utilizado pelos assistentes sociais passa a incorporar
o desenvolvimento como pauta essencial, a justiça social passa a ser
determinada pelas necessidades do desenvolvimento e, como expressão dos
valores éticos e morais dos assistentes sociais, vai desaparecendo do discurso
dos profissionais na mesma medida em que se impõe o projeto de
desenvolvimento nacional da ditadura militar, norteado pelo modelo norte-
americano. Sobre o conceito de justiça desse período Vicente diz:
Desta forma o termo Justiça desaparece progressivamente do
discurso profissional, e o caráter filosófico-humanista dos valores
profissionais são substituídos por sinonímias que assumem a
roupagem de uma linguagem tecnicista, pragmática, pertinente à
performance da ideologia estrutural-funcionalista sustentadora
apenas ampliavam a extensão dos grupos em que atuavam, também contemplava ações que buscavam criar
mudanças de comportamento das comunidades mas no marco da lógica capitalista e por fim contemplava
ações profissionais que buscavam transformações sociais que tinham como objetivo alterações estruturais
direcionadas à superação da sociedade de classes. Não é necessário alongar para dizer que a possibilidade
desta última modalidade se firmar como alternativa profissional foi frustrada pelo golpe militar de 1964.
97
dos projetos da elite nacional articulada aos interesses de
internalização de mecanismos de controle nacional. (1992, p. 651)
Esta tendência encontra-se já consolidada no Documento de Teresópolis
publicado pelo CBCISS em 1970, verificando-se lá uma priorização dos aspectos
técnico-metodológicos em detrimento dos valores filosófico-humanistas
fortemente presentes no período anterior. A função expressa dessa mudança no
discurso profissional era a da modernização baseada no arcabouço conceitual
dominante nas ciências sociais naquele período que era o estrutural-
funcionalismo.
Portanto, tratava-se de uma modernização de caráter conservador cujo
objetivo era a manutenção da ordem social e do sistema econômico, em que
caberia ao Serviço Social desempenhar um papel na busca pela superação da
pobreza extrema. Esse discurso possibilitou que uma parcela da categoria
profissional atuasse em conformidade com a lógica da Doutrina de Segurança
Nacional que pregava a integração dos segmentos marginalizados da população
sob a direção do regime militar.
No entanto, para Vicente, o discurso modernizador dos assistentes sociais
nesse período mantém os mesmos princípios de justiça social anteriores:
A concepção de Justiça persiste em nova roupagem transmutada,
em que desaparece o termo, mas a idéia persiste repensada em
novas possibilidades, no caso particular, na sistematização da
abordagem das necessidades humanas como perspectiva de
equidade social. Em outras palavras, a modernização dos
serviços sociais básicos constituem instrumentos de Justiça
Social, na medida em que concorrem para a superação dos
óbices ao desenvolvimento humano e social, representado nas
carências das necessidades humanas individuais e coletivas. O
Serviço Social, portanto, estaria determinado na sua prática pelos
98
condicionamentos básicos da sociedade brasileira
subdesenvolvida e em processo de transição (1992, p.656).
Em meados da década de 1970 a tendência modernizadora teve sua
influência bastante reduzida no universo profissional dos assistentes sociais. Isto
se deve, segundo José Paulo Netto, a dois movimentos distintos: o primeiro deles
diz respeito ao seu rebatimento nos segmentos tradicionais do Serviço Social que
resistiam ao processo de laicização da profissão. Sobre isto Netto diz que ....este
segmento, de extração e vinculação católica, privilegia os componentes mais
conservadores da tradição profissional e mostra-se refratário às inovações
introduzidas pela perspectiva modernizadora (1991, p. 156).
O segundo movimento está relacionado com uma parcela dos quadros
profissionais formados no período anterior ao golpe militar de 1964– estendendo-
se até os primeiros anos da ditadura - que sofreu a influência da tradição
marxista. Esses quadros profissionais ganharam espaços, principalmente no
interior da academia, a partir dos últimos anos da década de 1970 à medida em
que o regime militar ia perdendo seu poder de repressão e se instalava a abertura
política. Sobre a relação da tendência modernizadora com esse movimento, Netto
diz ...o traço conservador e sua colagem à ditadura incompatibilizaram-na com os
segmentos profissionais críticos quer em face da autocracia burguesa {...}, quer
em face dos seus substratos teóricos (1991,P. 157).
Assim, o debate profissional na década de 1980 é marcado por duas
tendências. A primeira, de menor expressão, reclama uma fundamentação
inspirada na fenomenologia. Resgata, sob nova roupagem, o universo ideológico
99
e político dos assistentes sociais das décadas de 1940 e 1950, opondo-se às
tendências modernizadoras de inspiração positivistas/funcionalistas e, ao mesmo
tempo, às tendências críticas de inspiração marxista.
Sobre a concepção de justiça subjacente a esta tendência, Vilmar Vicente
analisa textos expressivos dessa corrente teórica, presentes no Documento de
Sumaré, fruto de um Seminário promovido pelo CBCISS em 1978, e conclui que,
para este grupo:
A justiça é um valor humano essencial que depende de variáveis
fundamentais como: a evidência das essências, fruto da reflexão
do vivido; a intencionalidade da consciência; a significação e
compreensão da totalidade humana existencial intersubjetiva; da
possibilidade do encontro dialógico e da experiência de liberdade
humana. Em resumo, compreende-se a Justiça como uma função
da singularidade humana a partir de uma situação existencial
problemática, sua significação social e possibilidade de interação
entre a pessoa e sociedade (1992, p. 669)
Nem esta tendência nem a outra, que explicitaremos a seguir, incorpora em
seu discurso a temática da justiça que se mantém afastada do centro das
discussões. Desta maneira, o conceito de justiça tratado aqui, subjaz ao discurso
desses profissionais.
A segunda tendência influencia, de maneira mais significativa, o universo
profissional à medida que a ela se filia a vanguarda da profissão inscrita nas
escolas e nos movimentos organizados da própria categoria (associações
profissionais de natureza sindical e de estudos). Reclama a tradição marxista,
100
sendo fortemente influenciada pelo movimento de reconceituação latino-
americano27.
Segundo Marilda V. Iamamoto em seu significativo estudo Relações
Sociais e Serviço Social no Brasil, ... a reprodução das relações sociais é
reprodução da dominação: reprodução ampliada do domínio de classe (1982, p.
67). E o Serviço Social ...como profissão inscrita na divisão sócio-técnica do
trabalho, situa-se no processo da reprodução das relações sociais,
fundamentalmente como uma atividade auxiliar e subsidiária no exercício do
controle social e na difusão da ideologia da classe dominante junto à classe
trabalhadora (p.94).
Vale ressaltar que o debate profissional ao longo de toda a década de 1980
esteve polarizado por questões postas por este grupo, que, mesmo assim, não
demonstrou grande capacidade na elaboração de respostas de intervenção
profissional orientadas por sua perspectiva teórico-metodológica.
O fazer profissional é determinado pela capacidade dos profissionais se
situarem nas relações sociais tendo como objetivo um posicionamento ético-
político favorável aos explorados e oprimidos, como podemos perceber no texto já
citado de Iamamoto, que influencia gerações de profissionais formados desde os
primeiros anos da década de 1980:
A instituição Serviço Social, sendo ela própria polarizada por
interesses de classes contrapostas, participa, também, do
processo social, reproduzindo e reforçando as contradições
básicas que conformam a sociedade do capital, ao mesmo tempo
e pelas mesmas atividades em que é mobilizada para reforçar as
27
Sobre a forma como a tradição marxista influenciou o Serviço Social nesse período ver o magnífico estudo
do Professor José Paulo Netto (NETTO, 1991) e o trabalho de Lídia M.M.R. da Silva (SILVA, 1991).
101
condições de dominação, como dois pólos inseparáveis de uma
mesma unidade. É a existência e compreensão desse movimento
contraditório que, inclusive, abre a possibilidade para o Assistente
Social colocar-se a serviço de um projeto de classe alternativo
àquele para o qual é chamado à intervir. Sendo o agente
profissional um intelectual mediador de interesses de classes em
luta pela hegemonia sobre o conjunto da sociedade, a prática
profissional é, visceralmente, permeada por esse jogo de força ,
subordinando-se, historicamente, àquelas que são dominantes do
ponto de vista político, econômico, e ideológico, em conjunturas
históricas determinadas. (1982, p. 94)
Em seu comentário sobre as várias idéias de justiça que se encontram
subjacentes ao discurso dos profissionais nesta tendência, Vilmar Vicente diz
....justiça implica numa leitura histórica dos ardis do capitalismo e suas
determinações no âmbito do exercício profissional (1992, p. 683).
Os desdobramentos políticos dessa tendência, principalmente com o fim da
ditadura e o processo de democratização da sociedade a partir da segunda
metade da década de 1980 colocaram no centro das preocupações profissionais
a luta pelos direitos sociais. O engajamento da categoria profissional na luta por
saúde, educação, assistência social, habitação, etc., numa perspectiva de
construção de políticas públicas e de ampliação de direitos de cidadania foi
intenso e dominou o debate profissional a partir de então.
102
CAPÍTULO II - A FORMAÇÃO DO JUDICIÁRIO NO BRASIL E A JUSTIÇA
ASSISTENCIAL
2.1 A função social do Judiciário
2.1.1. A constituição do Judiciário em poder de Estado
O Judiciário é uma organização criada para operacionalizar o Direito. Como
organismo responsável pela aplicação das leis elaboradas pelos legisladores,
funciona como elemento de controle social: absorver tensões, limitar conflitos
evitando a sua generalização e reduzir as incertezas do sistema político são as
funções que exerce na sociedade (FARIA, 1997, p. 6). Sua constituição enquanto
um poder de Estado é, no entanto, um fenômeno relativamente novo do ponto de
vista histórico. É parte da organização do Estado moderno, mais especificamente
da organização do Estado liberal, como vimos anteriormente.
Para melhor compreender a organização e estruturação do Poder
Judiciário como o conhecemos no Brasil atualmente, julgamos necessário
resgatar um pouco das funções desse organismo ao longo do tempo até a sua
organização em um poder de Estado.
Segundo o eminente jurista Dalmo de Abreu Dallari, no livro O poder dos
juízes (1996), o papel atribuído à magistratura ao longo da história constitui-se em
um importante indicativo para análise da função social do Judiciário nas diversas
103
sociedades. Ao longo da história, a aplicação das leis na maior parte das
sociedades estava vinculada diretamente à figura particular de um juiz ou
magistrado, muito mais do que de uma instituição ou de um organismo social.
Esses magistrados, geralmente figuras proeminentes, tinham importante
papel na maioria das sociedades antigas. Porém, a idéia de que a magistratura é
uma carreira profissional, como a entendemos hoje, não é válida para outros
tempos. Ao longo da história formularam-se duas concepções sobre o que seja
um magistrado: numa ele era o representante do povo ou de um segmento da
sociedade e noutra, ele era um auxiliar do governo.
Nas cidades-estado gregas o magistrado podia ser escolhido dentre
quaisquer cidadãos, por eleição ou por sorteio. Sozinhos ou em colegiados, os
magistrados, cujos cargos podiam ou não ser vitalícios, atuavam para solucionar
conflitos em situações específicas que lhes fossem submetidas.
As diferenças nos sistemas de escolha dos magistrados, de acordo com
Dallari, estavam vinculadas aos sistemas de governo: nos democráticos todos os
cidadãos eram eleitores e elegíveis, nos oligárquicos somente os membros da
classe dominante podiam ser magistrados. De qualquer maneira, nos dois casos
... o magistrado decidia como representante dos que haviam participado de sua
escolha, recebendo desse processo sua legitimidade para decidir (1996, p. 9).
A palavra magistratus deriva de magister, que significava chefe na Roma
antiga, e foi utilizada inicialmente para designar um representante do povo que
ocupava uma posição de importância na organização política. A condição de
104
eletividade foi uma característica da magistratura romana por um bom período, a
escolha era feita por eleição e a investidura do cargo era por prazo de um ano.
Com a expansão territorial e a incorporação de novas culturas ao longo dos
séculos, a sociedade romana ganhou complexidade. As transformações sociais e
o notável desenvolvimento do direito romano acabaram por introduzir inovações
na magistratura, dentre as quais destacam-se a existência de categorias de
magistrados (patrícios e plebeus) e a necessidade de que o eleito possuísse
conhecimento do Direito. Mas, é com o império que a magistratura romana se
transforma, extinguindo-se as eleições, tornando-se os magistrados
progressivamente funcionários do imperador e perdendo-se o caráter
representativo da magistratura.
No período posterior, na Idade Média, torna-se muito difícil caracterizar a
magistratura, principalmente durante os primeiros séculos. Os reis continuavam
nomeando seus juízes e constituindo tribunais, mas seu poder estava limitado
diante da organização feudal, dando lugar a uma multiplicação de ordens jurídicas
sem a existência de uma hierarquia e de um entrosamento entre elas.
Somente no século IX, com o aumento de poder da Igreja, com o
desenvolvimento das corporações e com as alianças entre os senhores feudais
em torno dos reis é possível encontrar algumas estruturas judiciárias comuns em
vários pontos da Europa. Surgiram os tribunais corporativos e os tribunais
eclesiásticos, que mantinham sua independência em relação ao poder legal dos
reis, julgando certas causas específicas.
105
No final da Idade Média, com a concentração do poder nos reis e a
formação dos estados nacionais, começa a extinção dos tribunais corporativos.
Generaliza-se a escolha dos juízes feita diretamente pelos reis ...o que deixava
evidente que eles decidiam e praticavam outros atos, não decisórios, em nome e
com o respaldo dos chefes supremos (DALLARI, 1996, p. 11). Com isso a
magistratura ganha muito poder, mas ao mesmo tempo deixa de ser respeitada,
passando a ser temida pelo povo em razão das arbitrariedades cometidas pelos
juízes em nome dos interesses dos reis, como diz Dalllari:
No ambiente de lutas que caracterizou grande parte da Europa do
século dezessete, governantes absolutos utilizaram os serviços
dos juízes para objetivos que, muitas vezes, nada tinham a ver
com a solução de conflitos jurídicos e que colocavam o juiz na
situação de agente político arbitrário e implacável (1996, p.11).
Os reis buscavam obter dos magistrados as decisões legais de que
necessitavam. Nessa busca ignoravam setores organizados da comunidade e até
os conhecedores do direito consuetudinário. Assim o poder da magistratura
ampliou-se de tal maneira que chegou a ponto de ser temido até mesmo pelos
reis, levando-os a reconhecer a necessidade de controlar os juízes em seus atos.
Para ilustrar esse conflito, Dallari cita um ensaio de Francis Bacon no século
dezessete intitulado Da judicatura, que diz: ...é preciso que os juízes se lembrem
de que o trono de Salomão era sustentado por leões em ambos os lados: é
preciso que eles sejam leões, mas leões sob o trono (1996; p. 13).
Na Inglaterra desse período, os juízes dos Tribunais da Coroa exerciam o
papel de funcionários diretos do rei. No entanto, o sistema legal inglês tinha uma
característica marcante que combinava essa vinculação direta dos juízes com o
106
rei a uma outra estrutura de aplicação da lei mais popular, formada por leigos -
como os juízes de paz e os membros de júri. Estes eram os responsáveis por
dirimir os conflitos cotidianos da maior parte da população. Essa característica do
sistema inglês é forte até hoje mantendo separado o julgamento de questões
cotidianas, que dizem respeito à maior parte dos cidadãos comuns, e o de
questões que dizem respeito aos conflitos maiores que interferem no sistema de
governo.
Na França do ancien régime, o Judiciário organizou-se de maneira
diferente. A magistratura fazia parte do aparato da aristocracia, o ofício de juiz
tornou-se uma propriedade que podia ser comprada, vendida, transmitida por
herança ou até mesmo alugada. Mostesquieu, o escritor de O espírito das leis,
herdou de um tio o cargo de membro do Parlement de Bordeaux, órgão judiciário
coletivo, e depois de dez anos no exercício do cargo (de 1716 a 1726), vendeu-o
por não se interessar pela atividade e por estar precisando de dinheiro.
A prestação da justiça era paga pelas partes interessadas e as denúncias
de cobranças abusivas e insatisfação da população com a atuação dos juízes
eram muitas. Contra esse estado de coisas Mostequieu escreveu:
O poder de julgar não deve ser dado a um senado permanente,
mas deve ser exercido por pessoas tiradas do corpo do povo, por
um certo período do ano, de maneira prescrita em lei, para formar
um tribunal que não dure mais do que a necessidade o exija.{...}
desse modo, o poder de julgar, tão terrível entre os homens, não
estando ligado a um determinado estado, nem a uma certa
profissão, torna-se por assim dizer, invisível e nulo. Não se tem
continuamente os juízes diante dos olhos; e se teme a
magistratura, não os magistrados (apud DALLARI, 1996, p. 15).
107
Com a revolução francesa, o sistema de aplicação das leis foi
profundamente questionado e na Constituição francesa de 1791 ficou
estabelecida, então, a eleição para juízes e a investidura temporária do cargo,
alterando-se a estrutura do Judiciário na busca por maior representatividade dos
juízes em relação ao povo. No entanto, a Constituição de 1814 revogou esse
preceito e restaurou a nomeação dos juízes pelo rei. Mais tarde, com a República,
os juízes franceses passam a ser nomeados pelo presidente e institui-se a
vitaliciedade do cargo. Por isso, segundo Dallari, nem mesmo nos dias de hoje se
pode falar propriamente em um Poder Judiciário na França, a Constituição de
1958 fala em “autoridade judiciária”.
O sistema inglês foi constituído de maneira semelhante, pois, apesar de ser
predominantemente leigo e ter um caráter mais popular, convivia com juízes
diretamente nomeados pelo governo nos tribunais superiores decidindo sobre as
grandes questões que organizavam a nação. Em ambos os países, França e
Inglaterra, o Judiciário ainda hoje não existe como um poder de Estado, mas
como uma autoridade subordinada ao poder soberano, seja ele o do rei, o do
parlamento, ou o do presidente da República.
Foi nos Estados Unidos da América, após a independência, que se
desenvolveu e se aplicou com maior rigor uma proposta de organização de um
Judiciário independente como expressão mais acabada do modelo de Estado
liberal. Baseado no sistema de freios e contrapesos, a que fizemos alusão no
capítulo anterior, o Judiciário passou a exercer uma função de controle dos
108
demais poderes, extrapolando a tarefa de interpretação e aplicação pura e
simples das leis.
Nessa configuração de Estado a independência do Judiciário em face do
Executivo e do Legislativo adquire crucial importância. Diz Dallari ...a discussão
sobre a independência da magistratura aparece com freqüência ligada à
questões da liberdade, da justiça social e da democracia (1996, p. 45). A
existência de uma magistratura independente, de juízes imparciais para julgar os
conflitos de direitos com vistas a uma harmonização pacífica de interesses de
todo o povo, baseados unicamente na Lei construída democraticamente pelos
representantes desse mesmo povo, passa a ser premissa da organização do
poder do Estado.
Foi assim que, em 1803, uma polêmica entre o presidente da Suprema
Corte norte-americana, o Juiz John Marshall e o presidente da República, Thomaz
Jefferson, terminou por consolidar as funções da Suprema Corte, firmando como
sua competência o controle da constitucionalidade dos atos do Executivo e do
Congresso Nacional. Nesse ato ficou constituído o Judiciário como um poder de
Estado.
O fato é fundamental dado que Thomaz Jefferson era então o terceiro
presidente da República e se consolidava naquele momento o governo
constitucional dos Estados Unidos da América. Inicialmente ele havia pensado o
Judiciário como uma máquina de aplicação imparcial das leis formuladas pelo
povo, tinha restrições aos juízes permanentes e defendia, como no modelo inglês,
a prevalência de leigos e dos júris populares.
109
Marshall defendia uma magistratura atuante e completamente
independente dos demais poderes. Defendia também que os juízes se
constituíssem em um corpo permanente e que não pudessem ser removidos de
seus postos nem mesmo pelo presidente da República.
No entanto, Jefferson era um defensor da independência do Judiciário e
cedeu em grande parte aos argumentos do Juiz Marshall. Assim, do embate de
idéias entre Jeffersosn e o Juiz Marshall organizou-se o sistema Judiciário norte-
americano, cujas bases estão vigentes até os nossos dias. Dallari nos diz sobre
esse período:
...os criadores dos Estados Unidos da América achavam
necessária a existência de um Judiciário que funcionasse como
fator de equilíbrio, para impedir excessos do Legislativo ou do
Executivo. Consideravam fundamental a independência da
magistratura e pretendiam que os juízes fossem neutros na
disputa entre os dois outros Poderes. Por estarem fundando um
governo republicano, desejavam que o sistema judiciário tivesse
caráter democrático, compondo-se de juízes saídos do corpo do
povo ou designados por tempo limitado pelo chefe do governo,
excluindo a hipótese de um corpo de profissionais que julgasse
por critérios técnicos. Ao mesmo tempo, respeitando o princípio
federativo, jamais tentaram estabelecer um padrão uniforme de
magistratura para os Estados, deixando que cada um decidisse
sobre sua própria organização judiciária, desde que respeitados
os princípios republicanos (1996, p. 19).
Com modificações ao longo do tempo, o Poder Judiciário norte-americano
manteve esses princípios até hoje. Os juízes, em sua maioria, são escolhidos
dentre os membros mais destacados das profissões jurídicas, são advogados
militantes, professores ou funcionários públicos. A magistratura não se constitui
uma carreira. Em mais da metade do país, os juízes são eleitos pelo voto direto
do povo ou pelo voto do legislativo estadual. No âmbito federal, porém, eles são
110
indicados pelo presidente da República e seus nomes devem ser aprovados pelo
Senado. A magistratura não é cargo vitalício; em regra, os juízes são designados
para mandatos por tempo determinado, sendo possível a reeleição: a exceção,
mais uma vez, é para os tribunais federais; nestes os juízes são vitalícios.
Do ponto de vista de sua estrutura, o Poder Judiciário norte-americano
funciona com uma primeira instância, tribunais de apelação intermediários e uma
instância superior de apelação. Ao longo do tempo, e apesar da liberdade dos
estados da federação, houve uma certa uniformização e simplificação do sistema.
Mas, o mais importante para Dallari é que nos Estados Unidos ...existe respeito
pelos juízes, cuja independência é cuidadosamente resguardada, por se
considerar que o Poder Judiciário é peça fundamental no sistema de “freios e
contrapesos”, introduzido na Constituição para impedir que o poder concentrado
destrua a liberdade (1996, p. 20).
Segundo Rogério Bastos Arantes na obra Judiciário e Política no Brasil
(1997), a força política do Poder Judiciário norte-americano foi reconhecida por
Aléxis de Tocqueville que em meados do século XIX escreveu:
O que o estrangeiro com maior dificuldade compreende nos
Estados Unidos é a sua organização judiciária. Por assim dizer,
não há ocorrência política para a qual não ouça ele {o estrangeiro}
ser chamada a autoridade do juiz; e conclui, à vista disso,
naturalmente, que o juiz é, nos Estados Unidos, uma das
primeiras forças políticas. Depois, quando passa a examinar a
constituição dos tribunais, só descobre nela, a princípio,
atribuições e hábitos judiciários. Aos seus olhos, o magistrado
nunca parece introduzir-se nos negócios públicos a não ser por
acaso; mas esse mesmo acaso repete-se todos os dias (apud
BASTOS, 1997, p. 37).
111
Quando Tocqueville se referiu ao fato das atribuições e hábitos dos
tribunais serem apenas de natureza judiciária, isto é, não eram de natureza
diretamente política, ele estava falando dos princípios da atividade judiciária
próprios do Estado de Direito liberal que, segundo Bastos, são três: o primeiro é
que o juiz somente se pronuncia sobre casos concretos, não se manifesta sobre
leis abstratas ou que possam vir a existir, é necessário a existência de um litígio a
ser apreciado; o segundo é que o juiz somente se pronuncia sobre casos
particulares, suas sentenças dizem respeito a um caso, um litígio particular, e não
devem ser generalizadas automaticamente; e por fim, o terceiro princípio é que o
juiz só se pronuncia quando provocado, o Judiciário é um órgão passivo, sendo
impróprio que um juiz emita opiniões prévias acerca de qualquer tema ou
provoque ações ou ataques à legislação. Tocqueville considerava este último
princípio o mais importante da organização judiciária moderna, pois dizia respeito
às garantias processuais e à imparcialidade do julgamento (BASTOS, 1997, p,
38).
Mas, mesmo seguindo esses princípios básicos que colocam o Poder
Judiciário como o terceiro Poder, aquele ao qual cabe aplicar as leis e não
interferir na forma como elas são elaboradas, o Poder Judiciário norte-americano
interferia nos negócios públicos e nessa medida tinha grande poder. Tocqueville
observou o poder dos juízes comuns, das instâncias inferiores, eleitos. Na
estrutura do Judiciário norte-americano não cabe apenas aos tribunais superiores
uma função especial. Todos os juízes possuem, em princípio, o mesmo poder,
este é o segredo dessa estrutura, que a torna mais democrática.
112
Para Bastos, isso se deve ao modelo de controle constitucional norte-
americano, que ele denomina de modelo difuso, que se constitui essencialmente
...na faculdade que têm os juízes e tribunais de examinar antes os fundamentos
constitucionais da lei que devem aplicar (1997, p.39).
Não existe nos Estados Unidos uma Corte Constitucional ou órgão que o
valha – o que caracteriza o sistema concentrado em oposição ao difuso -,
responsável exclusivamente por garantir que a Constituição seja respeitada pelos
demais poderes do Estado. Todos os juízes e tribunais de qualquer instância
podem fazê-lo diante de qualquer ação que esteja sendo julgada. Ainda segundo
Bastos:
Os juízes americanos não têm o poder de fulminar a vigência das
leis que reputam inconstitucionais em seus julgamentos. Se
assim o fizessem, estariam comprometendo o equilíbrio e a
separação dos Poderes. Embora não perca sua vigência, a lei
censurada pelo juiz tem sua eficácia abalada. Uma vez atacada,
seguir-se-ão outros processos, pois, os que se encontrarem na
mesma situação serão incentivados a tomar o rumo dos tribunais.
No limite, se os casos se multiplicarem e as sucessivas sentenças
confirmarem os fundamentos inconstitucionais da lei, “ocorrerá,
então, uma destas duas coisas: o povo muda a sua Constituição
ou a legislatura revoga a sua lei” (1997; p. 40).
Assim, se por um lado é possível dizer, em termos gerais, que a força
política do Judiciário, isto é, o poder do Poder Judiciário, nas sociedades
contemporâneas é resultado da possibilidade e capacidade que lhe é dada de
garantir que a Constituição seja aplicada no que tange aos atos dos demais
poderes - o Legislativo e o Executivo -, é também necessário afirmar que, nos
exemplos dos países citados, as grandes questões que envolvem o sistema
político e a organização social, isto é, as questões constitucionais, são
113
deliberadas por juízes cuja escolha está fortemente determinada pelos demais
poderes, com exceção do modelo proposto pelos Estados Unidos da América.
A evolução dos organismos de aplicação das leis atinge no Estado
moderno o seu momento de maior sofisticação chegando a se constituir em poder
de Estado e ganhando atribuições fundamentais na estruturação do estado de
direito. No entanto, os limites de operacionalização dessa sofisticada estrutura
não se encontra na organização interna do próprio Estado, mas nas forças
externas a ele, na própria estrutura da sociedade organizada em classes sociais
com interesses antagônicos.
2.1.2. A crise do Judiciário ou o Judiciário da crise
O poder do Poder Judiciário está assentado ainda em mais um elemento
importante que, sob novo ângulo, lhe garante força e sustentação: o universo
ideológico liberal. Como estrutura de controle social, organismo
operacionalizador do direito positivo, o Judiciário está impregnado dos elementos
ideológicos que fazem do Direito um pilar da sociedade no liberalismo. Isto é
ainda mais significativo quando ele assume a forma de um Poder de Estado.
Para além de designar um sistema baseado na liberdade tutelada pela lei,
na igualdade formal, na certeza jurídica e no equilíbrio entre os poderes, o
liberalismo se toma como uma expressão retórica: ele utiliza a carga emotiva de
palavras como “liberdade” e “igualdade” para a defesa de valores abstratos, com
fins de manipulação social.
114
José Eduardo Faria, afirma que é a força de operar essa retórica que faz
do liberalismo jurídico um dos mais importantes estereótipos políticos do mundo
moderno, estereótipos estes largamente utilizados no espaço institucional do
Poder Judiciário. Para ele:
As expressões estereotipadas na linguagem política cumprem,
assim, um papel decisivo na reprodução das formas de poder. – e
é nesse sentido que o estereótipo “liberalismo”, produzindo o
efeito de distanciamento e o conseqüente espaço ideológico no
qual o Estado moderno monopoliza a produção do direito e
manipula os instrumentos normativos e políticos necessários à
manutenção de um padrão específico de dominação, provoca
uma alienação cognoscitiva entre os “cidadãos” formalmente
“iguais”: afinal, ao serem levados a acreditar na possibilidade de
uma ordem legal equilibrada e harmoniosa, na qual os conflitos
socioeconômicos são mascarados e, “resolvidos” pela força
retórica das normas que regulam e decidem os conflitos jurídicos,
tais “cidadãos” tornam-se incapazes de compreender e dominar
as estruturas sociais em que eles, enquanto indivíduos
historicamente situados, estão inseridos (1997, p. 21).
No entanto, apesar desses fortes elementos de alienação do próprio
Direito, analisados também por Pachukanis, a capacidade das estruturas como o
Poder Judiciário, criadas para garantir que as tensões sociais se mantenham em
níveis administráveis, continua subordinada à confiança dos “sujeitos de direito”
nos imperativos que todos os cidadãos devem cumprir e na autoridade,
legitimidade e imparcialidade dos agentes que aplicam a lei.
Assim, diz Faria, ...havendo alguma dúvida sobre esses imperativos, e
existindo interpretações ambíguas ou discrepantes quanto ao seu sentido, os
pilares básicos do sistema legal se desmoronam...(1997, p. 26). E, à medida que
o sistema tem demonstrado sua incapacidade para garantir esses imperativos
instala-se uma crise.
115
O sistema jurídico liberal foi pensado como estratégia de contenção de
conflitos num período histórico em que o crescimento da economia capitalista
permitia conceber o modelo de Estado e de organização das estruturas jurídicas
sendo amplamente disseminado por todo o globo. Porém, os choques entre os
interesses de classe tornaram-se cada vez maiores e mais profundos à mesma
medida em que se aprofundaram as crises da economia geradas pelo sistema
capitalista, afetando seriamente a capacidade de crença da maior parte dos
cidadãos no sistema jurídico liberal.
Os fenômenos da fase monopolista do capitalismo tais como a
concentração de capitais e o desemprego crescente gerado pela inversão em alta
tecnologia, levaram a um agravamento da “questão social”, e os choques entre
interesses de classes fugiram da esfera do controle do sistema jurídico visto que
esse mesmo sistema viu-se obrigado a criar e aplicar leis que resguardassem a
propriedade privada e limitassem o atendimento às reivindicações dos
trabalhadores.
Nesse regime, que já dura mais de um século, as relações sociais
tornaram-se cada vez mais conflituosas e cada vez menos reguláveis por
processos jurídicos e procedimentos judiciais com aparência de imparcialidade.
No plano político mais geral, o Estado capitalista nessa nova fase adquiriu
contornos explícitos de Estado intervencionista, abandonando sua função de
guardião das condições externas da organização social, para intervir diretamente
na economia. Isto é, o liberalismo deixou de ter função prática, embora seja
preservado no discurso quando pode ser útil.
116
As formas desse intervencionismo estatal comportam alternativas políticas
que vão desde os regimes ditatoriais até os modelos do tipo de “estado de bem-
estar” que prevêem um pacto entre as classes sociais em luta. Ou nas palavras
de José Paulo Netto que analisa em profundidade esta questão, ...onde não se
defrontou com um movimento democrático, operário e popular sólido, maduro,
capaz de estabelecer alianças sócio-políticas em razão de objetivos
determinados, a burguesia monopolista jogou em sistemas políticos desprovidos
de qualquer flexibilidade e inclusividade (NETTO 1992, p. 24)
O sistema jurídico e com ele as estruturas de sua operacionalização não
ficaram imunes às transformações sociais e econômicas geradas por essa
alteração essencial no modo de operar do Estado capitalista e, como parte do
Estado, adaptou-se enquanto instrumento para dar respostas a essa situação.
Os estudos de Boaventura de Souza Santos com relação aos fenômenos
que rebatem nos sistemas de administração da justiça28 em seu processo de
adaptação a essa nova conjuntura política e econômica, referem-se à explosão de
litigiosidade que acometeu os países capitalistas no século XX.
Para ele, essa explosão de litigiosidade se deveu à transformação do
Estado liberal em Estado-providência, que se envolveu na gestão dos conflitos
entre classes sociais buscando minimizar as desigualdades no âmbito do modo
de produção capitalista. Para o autor:
28
O autor utiliza o conceito de administração da justiça como uma concepção que vê nos tribunais ...um
subsistema do sistema político global, partilhando com este a característica de processarem uma série de
imputs externos constituídos por estímulos, pressões, exigências sociais e políticas e de, através de
mecanismos de conversão, produzirem outputs (as decisões) portadoras elas próprias de um impacto social e
político nos restantes subsistema. (SANTOS, 1997; p. 51).
117
A consolidação do Estado-providência significou a expansão dos
direitos sociais e, através deles, a integração das classes
trabalhadoras nos circuitos de consumo anteriormente fora do seu
alcance. Essa integração, por sua vez, implicou que os conflitos
emergentes dos novos direitos sociais fossem constitutivamente
conflitos jurídicos cuja dirimação caberia em princípio aos
tribunais, litígios sobre a relação de trabalho, sobre a segurança
social, sobre a habitação, sobre os bens de consumo duradouros,
etc. (SANTOS, 1997, p. 43).
Mas, se isso já traria problemas para a administração da justiça pelo
simples fato de ampliar, e muito, a demanda por seus serviços, esses problemas
foram agravados pela crise do modelo que ocorreu no início dos anos de 1970. A
crise econômica mundial que corroeu as bases do pacto social que sustentava o
modelo de bem-estar social provocou o corte nos gastos públicos e não permitiu
mais que os governos cumprissem com os compromissos assistenciais e
previdenciários assumidos com as classes populares, gerando nova motivação
para a busca por direitos nos tribunais, busca provavelmente infrutífera dada a
incapacidade desses tribunais de impor regras aos demais órgãos do Estado.
A formulação de Boaventura de Souza Santos aplica-se à realidade dos
países que viveram o pacto social, países cujos governos de inspiração social-
democrata ampliaram consideravelmente os serviços sociais num período
histórico bastante delimitado que vai do período após a Segunda Guerra até
meados da década de 70, como cita o próprio autor. No entanto, as circunstâncias
às quais a maior parte dos países capitalistas do mundo – incluindo-se a América
Latina - estavam e estão submetidas são diferentes.
Sob um mesmo ponto de vista, mas buscando abarcar a realidade dos
países atrasados, José Eduardo Faria identifica esse mesmo fenômeno – a
118
explosão de litigiosidade - e o relaciona a um movimento de despolitização dos
conflitos sociais, transformando esses conflitos em questões de natureza
econômico-administrativas.
Para ele, esses conflitos sociais, após serem retirados da esfera política da
luta de classes, são “repolitizados” no interior do aparelho estatal, através de
outros mecanismos de controle. O aparelho burocrático do Estado cria novos
centros de poder autônomos que escapam do sistema jurídico-político tipicamente
liberais, como podemos observar em suas palavras:
Ao “tecnificar” dessa maneira a política, convertendo
reivindicações oriundas de partidos, grupos profissionais,
associações e movimentos populares em demandas
“econômicas” e as transformando em seguida em meros
problemas “administrativos” com o objetivo de trazê-las para o
interior dos seus “anéis” burocráticos, a fim de melhor controlá-
las, o Estado dito ”intervencionista” acaba adotando uma
estratégia peculiar: ele respalda-se na aparente neutralidade
técnica dos interesses que organiza ao nível do Executivo,
procurando assim aliviar a sobrecarga das categorias jurídicas
tradicionais e das demais instituições (Judiciário e Legislativo)
deflagrada por pressões que elas não podem suportar, sob risco
de comprometimento da funcionalidade do sistema jurídico como
um todo (FARIA, 1997, p. 30).
Faria explica que a legitimidade do sistema liberal estava centrada na
garantia de que as leis seriam aplicadas para todos de maneira imparcial. Já no
modelo do Estado intervencionista, a legitimidade vem de sua capacidade de
ação regulatória, o que implica a sua habilidade em despolitizar os conflitos e
levá-los, de forma controlada para um âmbito no qual ele possa obter o
engajamento dos envolvidos na manutenção da ordem vigente.
119
Mesmo sendo esta uma nova estratégia, dadas as características
profundas da crise na qual está mergulhado o sistema capitalista, esse mesmo
Estado intervencionista não pode prescindir de nenhuma das fórmulas que lhe
permitam controlar essa explosão de litigiosidade e acaba lançando mão de todos
os meios disponíveis. Assim, utiliza tanto os elementos formais e característicos
do sistema normativo jurídico liberal - mesmo que esse formalismo seja apenas
“de fachada” -, quanto os recursos normativos mais abertos que permitem que as
regras do jogo sejam definidas de acordo com a força dos atores envolvidos,
buscando em todos os lados um nível qualquer de consenso social.
Essas duas lógicas convivem sem contradição, pois não são excludentes.
As formalidades das instituições de aplicação das leis como os tribunais
soberanos, as salvaguardas de direito, as determinações judiciais, continuam
sendo utilizadas, mas são refuncionalizadas no novo quadro político-institucional.
Nesse novo quadro destaca-se o fato do Estado utilizar como instrumento a
formalidade dos estatutos jurídicos, mas não se submeter a nenhum deles. Ao
mesmo tempo, ele é consciente de que a legitimidade de suas ações passa pela
utilização desses instrumentos formais na comunicação entre os que legislam e
aqueles para quem se legisla.
A solução para essa situação ambígua é a utilização de uma legalidade
difusa que admite uma legislação cada vez mais flexível e genérica, capaz de
encobrir as contradições e os conflitos sociais que a ela estão subjacentes. Uma
legalidade que se assenta numa concepção de “justiça” que não está baseada no
120
universo do direito positivo, mas num conceito abstrato que evoca valores
culturais e sociais também genéricos.
O Estado liberal utilizava-se de um discurso jurídico baseado na
racionalidade da norma como instrumento que define o que é lícito e o que é ilícito
e na neutralidade do Poder Judiciário: seu discurso jurídico era objetivo e
prescritivo. Ao contrário, no Estado intervencionista o discurso jurídico é ético e
pedagógico, uma vez que se baseia na capacidade de dar respostas mínimas às
contradições sociais.
Faria destaca que, em última instância, essa capacidade ...encerra um ato
de força e arbítrio mas uma força e um arbítrio mascarados por uma cosmovisão
garantidora da dominação, ou seja: a retórica da “justiça social”, a ideologia do
“progresso”, etc..(1997, p. 34)
A conseqüência da utilização dessa estratégia é o enfraquecimento do
sistema jurídico como um todo e, no caso do Poder Judiciário, a redução de sua
capacidade de colocar em prática o frágil e, muitas vezes confuso, sistema de
normas constituído por leis, decretos, portarias normativas, legislação dispositiva,
e instrumentos para-legais.
Em contrapartida amplia-se o poder normativo do Executivo através da
utilização crescente de decretos-lei, medidas provisórias, resoluções
administrativas, portarias, etc. que colocam em prática as decisões e os acordos
elaborados no interior da burocracia estatal através de câmaras de negociação,
de arbitragens, e outros mecanismos do tipo.
121
As expectativas no poder que o Poder Judiciário tem de dirimir conflitos,
expectativas estas alimentadas pela força ideológica do liberalismo, confrontam-
se com a incapacidade dos tribunais de dar respostas aos profundos problemas
que assolam cada vez mais pessoas na sociedade capitalista em crise.
É o agravamento das contradições próprias do regime capitalista que
inviabiliza a possibilidade de aplicação das leis. Contudo, é o Poder Judiciário
que, através de seus organismos (tribunais, juizados, etc.), experimenta
cotidianamente as conseqüências dos problemas sociais, e dele a sociedade
cobra soluções.
Diante da impossibilidade de resolver esses problemas que se expressam
como problemas individuais, mas são em realidade profundos problemas da
sociedade como um todo, impõe-se o reconhecimento da falência das estruturas
de operacionalização do Direito.
Esta é a questão que se encontra no fundo do que se chama de “crise do
Poder Judiciário”. Que nada mais é, a nosso ver, do que a expressão dos limites
do sistema jurídico, incluindo os órgãos de operacionalização, em administrar as
seqüelas da crise social que no capitalismo monopolista se aprofunda
continuamente.
2.1.3. A busca pela superação da “crise do Poder Judiciário”
122
Buscamos compreender aqui os movimentos que o Poder Judiciário faz
para responder às determinações macroscópicas que o colocam em “crise”.
Interessa-nos descobrir as formas que ele encontra para minimizar os problemas
que essa “crise” impõe aos usuários dos serviços de justiça.
Observadas a partir de dentro dos tribunais, pelos operadores do Direito,
pelos administradores do sistema de justiça, as dificuldades encontradas por
vários segmentos da população para obter justiça, podem apresentar-se como
problemas técnicos.
A solução para tais problemas, a nosso ver, está vinculada a respostas
estruturais, uma vez que eles são apenas mais uma das expressões de uma
ampla crise. Porém, as buscas para sua superação podem indicar caminhos que
permitam uma maior expressão política da população excluída do acesso ao
Direito, desmascarando mecanismos de alienação.
Vale ressaltar também que esta busca de respostas tem-se constituído
movimento mundial de enfrentamento da crise do Judiciário e que vem
influenciando alguns movimentos no Brasil nas últimas décadas.
Uma das mais importantes questões a ser considerada por aqueles que
buscam um melhor funcionamento do Poder Judiciário é a do acesso à justiça. O
conceito ingênuo de que todo o cidadão tem o direito formal de propor ou de
contestar uma ação nos tribunais foi questionado por aqueles que observaram
que a justiça, no Estado liberal, só podia ser obtida por aqueles que podem fazer
frente aos seus elevados custos.
123
No período áureo do liberalismo (1800 – 1914) utilizar os serviços da
justiça era uma possibilidade apenas disponível para aqueles que possuíam bens
suficientes para pagar advogados e custas judiciais. Já na segunda metade do
século XIX, Marx denunciava, em seu já citado Crítica ao Programa de Gotha,
que o caráter público da justiça estava restrito ao seu auto-acionamento em casos
de violação da lei burguesa, ...a justiça criminal é gratuita em toda parte; a justiça
civil gira quase inteiramente em torno dos pleitos sobre a propriedade e afeta,
portanto, quase exclusivamente as classes possuidoras29. Em sua denúncia está
implícita a compreensão de que os tribunais são parte do aparelho de Estado e
funcionam como instrumento de repressão e regulação da vida social e da
propriedade privada.
Mas, no marco da ampliação dos direitos sociais preconizado pelo modelo
do Estado de bem-estar social, desenvolve-se uma crítica aos limites de acesso
das pessoas à justiça. Mauro Cappelletti e Bryant Garth, em seu livro Acesso à
Justiça publicado originalmente na Itália em 1978, afirmam:
De fato, o direito ao acesso efetivo tem sido progressivamente
reconhecido como sendo de importância capital entre os novos
direitos individuais e sociais, uma vez que a titularidade de direitos
é destituída de sentido, na ausência de mecanismo para sua
efetiva reivindicação. O acesso à justiça pode, ser encarado como
o requisito fundamental – o mais básico dos direitos humanos –
de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda
garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos (1988, p.
12).
O acesso à justiça passa a ser encarado como o mais básico dos direitos
humanos e a preocupação por garantir esse direito e ampliar as formas de acesso
29
O texto pode ser encontrado em Marx, K e ENGELS, F. Obras escolhidas, São Paulo. Editora Alfa-
õmega, tomo 2 p. 223.
124
da população cresce à mesma medida que se constatam os vários limites para a
sua efetivação. Esses limites são de naturezas diversas como os obstáculos
culturais e administrativos, e não apenas de ordem econômica, o que impõe aos
estudiosos do tema uma crítica ao sistema jurídico e propostas de alterações de
todo o aparelho judicial. Este conjunto de críticas e propostas é conhecido como
“enfoque do acesso à justiça”, uma matriz de análise do sistema judicial.
Refletindo sobre alguns desses limites os autores organizam em três
grupos os principais problemas que afetam o acesso à justiça: as custas judiciais,
as possibilidades das partes e os problemas dos interesses difusos.
Examinaremos cada um deles.
As custas judiciais são um entrave primeiro para que as pessoas que se
encontram envolvidas em um litígio cheguem aos tribunais. Mesmo considerando
que a estrutura física e de pessoal sejam custeados pelo Estado existem os
gastos com advogados e com as custas processuais, isto é, as diligências e
ações que o juiz solicitar como intimações, estudos, pareceres, etc., serão pagos
pelas partes envolvidas. Existem países onde aqueles que perdem a causa ficam
responsáveis por todas as custas judiciais, mas existem outros em que cada uma
paga a sua parte. Em ambos os casos existe a necessidade de possuir condições
para, no mínimo, iniciar uma ação.
Os autores citam inúmeros estudos que indicam o alto custo dos processos
judiciais. Por exemplo, na França constatou-se que, nos casos de pessoas com
renda inferior a U$370, o custo médio das ações era de, no mínimo, 144% dos
seus ganhos mensais (1988, p. 16 n.r.). Mas a situação fica ainda mais séria
125
quando se leva em conta a situação de causas pequenas, que envolvem valores
mais baixos. Na Alemanha, por exemplo, uma causa que envolva um valor de
U$100 custaria ao requerente U$150 em custas e serviços advocatícios, isso se
for tramitada apenas em primeira instância. Esses custos tornam as pequenas
causas inacessíveis (idem, p. 19).
Um outro aspecto ainda vinculado às custas judiciais é a demora no
andamento dos processos. Na Bélgica, a média de duração de um processo em
1969 era de quase dois anos e na França chegava a dois anos e três meses.
Considerando os índices inflacionários e os gastos que se acumulam,
principalmente com honorários de advogados, esses prazos tornam a justiça
inacessível para muitas pessoas.
O segundo grupo de problemas apontados diz respeito às possibilidades
das partes que se envolvem nos litígios, quer dizer, existem indivíduos ou
instituições que possuem condições diferenciadas, vantagens estratégicas, que
lhes garantem maior acesso à justiça. Nessas condições estão os que possuem
recursos financeiros elevados que lhes permitem, por exemplo, gastar mais
dinheiro que a outra parte envolvida, pagar auxiliares mais capacitados e suportar
melhor as delongas do sistema.
Muitos desses podem tornar-se usuários sistemáticos do sistema judicial;
são os “litigantes habituais” como denominam os autores. A maior experiência no
trato do Direito e dos procedimentos judiciários também lhes é favorável; eles
possuem maior conhecimento das estruturas, dos atores do processo, podem
126
planejar as ações e diluir os riscos dos vários procedimentos impetrados.
Possuem, assim, claras vantagens sobre os “litigantes eventuais”.
Mas, existe ainda um outro diferencial que atinge a maior parte da
população de baixa renda, que é a capacidade das pessoas reconhecerem os
seus direitos. Essa capacidade tem relação com as condições financeiras, com o
nível educacional e de informação e até mesmo com o meio em que vivem. É a
capacidade de reconhecer, por exemplo, se um contrato assinado deve ou não
ser cumprido, independente de ter ou não cláusulas que ferem outros direitos.
Direitos já consolidados, como o direito ao divórcio, podem ser mais facilmente
reconhecidos pela população em geral do que o direito a um ambiente saudável,
sem a poluição.
Além disso, as pessoas não conhecem as maneiras de reivindicar
judicialmente seus direitos. Boa parte da população desconfia de advogados,
como mostra um estudo realizado na Inglaterra onde 11% dos entrevistados disse
que jamais procuraria um advogado (idem, p. 24). Os procedimentos utilizados
nos tribunais são complicados, os ambientes intimidadores, os agentes da justiça
são formais.
Por fim, o terceiro grupo de problemas que afeta o acesso à justiça está
relacionado aos direitos difusos, aqueles que representam interesses coletivos ou
fragmentados, tais como o direito à saúde, educação, o direito de proteção do
consumidor, direito a um ambiente saudável, etc. Dada sua natureza geral e
indivisível, em que os sujeitos são indeterminados, são direitos de todos, mas
correm o risco de não serem reivindicados por ninguém.
127
Caberia ao Estado garantir a maior parte desses direitos e, se ele não o
faz, um indivíduo sozinho terá dificuldades para levar a empreita. As dificuldades
residem na falta de interesse em solucionar um problema cujo benefício em si
pode ser muito pequeno como no caso da poluição causada pelos automóveis:
dificilmente um indivíduo pode avaliar os custos disso para sua saúde pessoal; ou
nas dificuldades de agregar um número maior de indivíduos que queiram buscar
coletivamente uma solução judicial para a questão. Ao mesmo tempo que não é
possível confiar apenas no Estado para a proteção dos interesses difusos, é difícil
mobilizar a esfera privada para superar a fraqueza da máquina governamental.
Cappelletti e Garth concluem indicando as tendências que esses
problemas apontam, para eles:
...os obstáculos criados por nossos sistemas jurídicos são mais
pronunciados para as pequenas causas e para os autores
individuais, especialmente os pobres; ao mesmo tempo, as
vantagens pertencem de modo especial aos litigantes
organizacionais , adeptos do uso do sistema judicial para obterem
seus próprios interesses.
Refletindo sobre essa situação, é de se esperar que os indivíduos
tenham maiores problemas para afirmar seus direitos quando a
reivindicação deles envolva ações judiciais por danos
relativamente pequenos, contra grandes organizações (1988, p.
29).
As iniciativas de criar mecanismos alternativos para superar os limites de
acesso à justiça começaram a ser tomadas de maneira sistemática no final da
década de 1940, embora já existisse o reconhecimento do problema desde o
século anterior. Na Inglaterra, na Alemanha e na Itália, por exemplo, desde o
século XIX a legislação estabelecia que os advogados atendessem gratuitamente
128
os pobres. A República de Weimar, na Alemanha instituiu pagamento para esses
advogados.
Os passos mais consistentes, porém, começaram a ser dados em 1949
com um programa inglês em que o Estado reconhecia a necessidade de
compensar os advogados pelos serviços de orientação e assistência judiciária
que davam aos pobres. Em 1965, nos Estados Unidos, um programa de
remuneração da ação comunitária incluiu a assistência jurídica como serviço
remunerado pelo Estado. Em 1972 a França adotou a remuneração dos serviços
dos advogados e, na seqüência, a Alemanha, a Holanda..., de tal maneira que
uma série de movimentos fizeram crescer a tendência pela criação de serviços
que buscavam ampliar o acesso da população à justiça.
Por isso o primeiro grande movimento do sentido de ampliação do acesso
à justiça foi a criação de sistemas de assistência judiciária que consistem
basicamente na prática do Estado remunerar advogados para que orientem e
prestem assistência àqueles que não possuem recursos financeiros para isso. Em
alguns países, esses sistemas funcionam com uma lista de advogados
particulares que se credenciam para atender essas pessoas. Os honorários
seguem tabelas mais ou menos atraentes conforme o país. Existem programas
que prevêem o pagamento de orientação jurídica sem que haja prévia autorização
dos órgãos públicos30 e a liberação do pagamento é automática. Em outros
existem sistemas de subsídios que cobrem todos os gastos para os mais pobres e
níveis decrescentes de auxílios conforme aumenta a renda do requerente.
30
Segundo Cappelletti &Garth na França uma legislação de 1972 previa que qualquer cidadão poderia
utilizar até 25 libras esterlinas em serviços jurídicos sem prévia autorização formal (1988, p. 36 nr).
129
Esse sistema acaba com a barreira dos custos da assistência jurídica, mas
não resolve o problema das dificuldades em reconhecer uma causa, por exemplo.
Para enfrentar esta dificuldade surgiu nos Estados Unidos, em 1965, um
programa que contratava advogados e os colocava em escritórios próximos às
comunidades mais pobres auxiliando essas comunidades a reconhecerem os
seus direitos e a reivindicá-los. O programa tinha limitações, pois não é possível
negar que para funcionar havia a necessidade de recursos públicos, recursos que
eram utilizados muitas vezes em ações contra o próprio governo. Além disto,
Cappelletti & Garth consideram que, dada a sua agressividade, havia muita
dificuldade em capacitar advogados para tal fim.
Sistemas mistos que oferecem os dois modelos combinados de assistência
judiciária podem ser encontrados na Suécia e no Canadá. O sistema inglês da
década de 1970, que criou os centros de atendimento jurídico de vizinhança, é um
exemplo. Agentes e advogados assalariados trabalham juntos buscando
identificar as causas e dando tratamento individual ou coletivo conforme o
necessário.
Mas a assistência judiciária tem seus limites, primeiramente os autores
apontam para o fato de que ...em economias de mercado,{...} a realidade diz que,
sem remuneração adequada, os serviços jurídicos para os pobres tendem a ser
pobres, também (1988, p. 47). Ela também não dá boas respostas às pequenas
causas, e os advogados contratados pelo Estado para as causas coletivas
negligenciam geralmente os problemas, como os direitos do consumidor, o meio
ambiente, dando mais atenção aos direitos individuais dos pobres.
130
Assim, um segundo movimento empenhado em melhorar o acesso à justiça
passa a se preocupar mais de perto com os direitos difusos. Trata-se de um
movimento que encontra mais dificuldades por exigir a transformação da
concepção do processo civil que precisa alterar o individualismo e incorporar uma
concepção coletiva que atenda questões de interesse social.
Nessa linha está a ação dos próprios agentes governamentais tais como o
Ministério Público. Conquanto tenha obtido grandes avanços, este encontra
entraves em sua atuação que vão desde as limitações que o obrigam a se munir
de auxiliares especializados para suprir a falta de qualificação de seus quadros
em questões como proteção à infância, meio ambiente, problemas dos idosos,
etc., até o maior dos problemas que é a sua vinculação com o Estado,
funcionando essencialmente como um órgão político.
Outras iniciativas nesse sentido são o incentivo, reconhecimento e apoio
aos grupos organizados de defesa dos direitos para atuarem como agentes
formais de defesa, e a possibilidade de impetrar ações coletivas de interesse
público. Existem experiências de organizações de advogados particulares
voltados para interesses públicos: são geralmente entidades sem fins lucrativos.
Em alguns casos, a combinação entre os advogados dos escritórios de vizinhança
com a ação dessas organizações surtem bons efeitos.
Esses dois grandes movimentos, a assistência judiciária e a defesa dos
direitos difusos, buscam ampliar o acesso à justiça através da garantia da
representação judicial de indivíduos e da coletividade, porém, por mais eficientes
que sejam esses mecanismos observa-se que as pequenas causas e os novos
131
direitos não encontram caminhos adequados de solução. Cappelletti &e Garth
afirmam ...cada vez mais se reconhece que, embora não possamos negligenciar
as virtudes da representação judicial, o movimento de acesso á Justiça exige uma
abordagem muito mais compreensiva da reforma. (1988, p 70)
Nessa linha encontra-se um terceiro e mais abrangente movimento que
combina o estímulo à assistência judiciária e à defesa dos direitos difusos com o
estimulo a uma gama de reformas no sistema de aplicação das leis envolvendo
mudanças de procedimentos, criação de novos tribunais, utilização de leigos e
para-profissionais, profissionais de outras áreas ou pessoas especialmente
treinadas como agentes de justiça (inclusive como juizes, intermediadores,
defensores) e mecanismos para evitar litígios ou resolvê-los em outras esferas
externas ao sistema judiciário.
A reforma dos procedimentos judiciais implica a modernização dos
equipamentos, a redução ou até eliminação das custas processuais; a introdução
de mecanismos de oralidade como as conversas envolvendo as partes, as
testemunhas, os advogados e o juiz para discutir o caso; e até mesmo a redução
da extrema neutralidade do juiz que, como diz Cappelleti &Garth se referindo ao
sistema norte-americano:
Atualmente admite-se em geral que a utilização de um juiz mais
ativo pode ser um apoio, não um obstáculo, num sistema de
justiça basicamente contraditório, uma vez que, mesmo em litígios
que envolvam exclusivamente duas partes, ele maximiza as
oportunidades de que o resultado seja justo e não reflita apenas
as desigualdades entre as partes (1988, p. 77).
132
Também se observa uma tendência à criação de tribunais especializados
voltados para causas específicas como os tribunais de consumidores e os de
pequenas causas, voltados para os litígios de pequeno porte que atingem a maior
parte dos cidadãos comuns. Esses tribunais são caracterizados pela maior
informalidade dos juízes, rapidez e baixos custos.
Os conselhos ou tribunais de vizinhança, inspirados nos tribunais populares
dos países socialistas, cuja tônica é o envolvimento da comunidade na facilitação
da solução de pequenos conflitos como furtos, desentendimentos e pequenos
danos à propriedade, envolvendo uma população estável como a de umbairro ou
um coletivo de trabalhadores.
Mecanismos de conciliação que evitam o estabelecimento do certo e do
errado, do culpado e do inocente também são utilizados, tanto dentro dos
tribunais de pequenas causas e dos conselhos de vizinhança, como instrumento
prévio de uma decisão, quanto fora deles. Fora dos tribunais também pode existir
o juízo arbitral, geralmente acordado pelas partes e pago por elas.
Se por um lado o movimento no sentido da ampliação do acesso à justiça
tem surtido efeitos positivos e levado um contingente de pessoas a ter alguma
esperança nos sistemas jurídicos modernos, é também verdade que as mudanças
nesse sistema não podem substituir as transformações necessárias nos sistemas
de seguridade social, no sistema político e econômico mais geral.
Em países pobres, com profundas desigualdades sociais, ou em situações
de opressão política, não existe técnica de ampliação do acesso à justiça que
minimize os efeitos perversos dessa situação. Esses efeitos podem, muitas
133
vezes, contaminar as próprias iniciativas de ampliação do acesso dos mais
pobres à justiça, transformando-a numa justiça pobre para pessoas pobres.
2.2. O Poder Judiciário no Brasil
2.2.1 A formação da consciência e das instituições jurídicas no Brasil
Uma justiça que tarda, e muitas vezes falha, assim se refere o jornal O
Estado de São Paulo31 ao Poder Judiciário brasileiro. Segundo dados
apresentados pelo jornal, nos últimos doze anos 113,7 milhões de vezes as
pessoas acorreram ao Poder Judiciário, em suas várias instâncias, para pedir por
justiça. Completa o jornal ...a justiça que está aí é vetusta, pesada, apática,
dominada por costumes e ritos seculares. E continua em outro trecho: processos
se eternizam e, quando o derradeiro registro é cravado nos autos, criminosos já
escaparam do castigo, beneficiados pela prescrição do prazo legal que o Estado
tem para punir. Direitos não são reconhecidos e danos ficam sem reparação.
A idéia de que o Poder Judiciário brasileiro vive uma crise é uma
unanimidade atualmente no Brasil. O governo, a imprensa e os juristas apontam
causas como a estrutura arcaica e ritualística dos tribunais, o excesso de
instâncias e graus de apelação, o volume de trabalho e a pouca estrutura e
recursos do Judiciário para contratar pessoal e comprar equipamentos, a
legislação ultrapassada e cheia de emendas, a falta de controle externo da
31
Reportagem especial intitulada “O Judiciário”, de 18/05/2003 (MACEDO, 2003, p. A6).
134
utilização dos recursos e do funcionamento administrativo do Judiciário, entre
outros problemas.
Está em estudo há mais de dez anos uma reforma do Judiciário, tendo
sido criada atualmente até mesmo uma Secretaria de Reforma do Judiciário no
Ministério da Justiça que listou centenas de projetos e propostas de emendas à
legislação sobre o tema em discussão no Congresso Nacional, dando conta de
que o Poder Judiciário brasileiro precisa ser repensado.
Os elementos da crise do Poder Judiciário em nosso país obedecem às
mesmas determinações da crise do Judiciário nos demais países capitalistas,
agravada pela condição de país periférico e dependente, exigindo respostas
claramente repressivas e comprometidas com a manutenção da ordem. Como diz
José Eduardo Faria:
...com a globalização, os “excluídos” do sistema econômico
perdem progressivamente as condições materiais para exercer
seus direitos básicos, mas nem por isso são dispensados das
obrigações e deveres estabelecidos pela legislação,
principalmente a penal. Com suas prescrições normativas, o
Estado os integra ao sistema jurídico basicamente em suas
feições marginais – isto é, como devedores, invasores, réus,
transgressores de toda natureza, condenados, etc. Diante da
ampliação da desigualdade, dos bolsões de miséria, da
criminalidade e da propensão à desobediência coletiva, cabe ao
Estado-nação – e, dentro dele, ao Poder Judiciário – funções
eminentemente punitivo-repressivas (2001, p. 14).
A operacionalização dessas respostas de caráter punitivo-repressivas
implica, no entanto, o aprofundamento das tensões sociais e a negação dos
direitos individuais, políticos e sociais da população em geral. O Poder Judiciário
brasileiro vê-se assim no meio de uma profunda crise e a sociedade assiste a um
135
fenômeno complexo que Faria chama de “tribunalização” ou “judicialização” da
política, explicado por ele da seguinte maneira:
Seja em virtude do conflito de competências entre os três poderes, seja
porque o Judiciário atua num patamar de complexidade técnico-jurídica
maior de que a do Legislativo e do Executivo, seja pela resistência de
determinados setores da sociedade à revogação dos direitos
fundamentais e sociais pelos processos de desregulamentação,
deslegalização e desconstitucionalização, o fato é que, quanto mais
cambiante é esse cenário [o autor refere-se à globalização econômica
e seus reflexos], mais o Poder Judiciário acaba sendo levado ao centro
das discussões políticas, mais tem de assumir papéis inéditos de
gestor de conflitos e mais dificuldades tem para decidir... (FARIA, 2001,
p.15).
Esse papel de ator político no cenário nacional não é novo para o Poder
Judiciário brasileiro que, desde os primórdios de sua organização, sempre o
exerceu e sempre com o mesmo objetivo: o de manutenção da ordem social,
embora de formas distintas. Para além das determinantes maiores, da ordem
capitalista mundial, existem especificidades da realidade nacional que merecem
uma apreciação mais detalhada para compreendermos as respostas concretas
que o sistema judiciário nacional deu ao longo do tempo.
Tais respostas assimilaram, de maneira muito peculiar - e em geral
tardiamente -, os debates internacionais sobre a administração do sistema de
justiça. Estes vêm insistindo na necessidade de melhoria no sistema de acesso
da população à justiça.
As particularidades do nosso sistema judiciário são decorrentes das
características próprias da formação do Estado brasileiro, sua herança colonial e
a constituição da sua classe dominante, temas que abordamos em linhas gerais
136
para melhor compreendermos a organização dessa instituição que vem sendo
fortemente criticada na atualidade.
As primeiras instituições judiciárias formaram-se no país no período
colonial, organizadas a partir das necessidades, objetivos e interesses
econômicos de Portugal. O monopólio do comércio por parte da Metrópole era o
centro de toda a organização social da Colônia e visava garantir que outros
países não usufruíssem os privilégios dos comerciantes portugueses. Na Colônia
somente se produzia aquilo que poderia ser revendido pela Metrópole com lucros
no mercado europeu. Demais produtos deveriam limitar-se a não concorrer com a
produção de Portugal: a Colônia deveria comprar tudo o que a Metrópole pudesse
vender.
A sociedade colonial constituía-se de uma elite agrária, organizada em
latifúndios e que se utilizava de mão-de-obra escrava, convivendo com alguns
pequenos proprietários, índios, mestiços e negros, sem nenhuma expressão
política, num sistema que juntava práticas do tipo feudal com uma economia de
exportação baseada no monopólio.
Uma situação conflituosa do ponto de vista do poder na Colônia colocava
de um lado os donos das terras e dos engenhos que possuíam grande poder em
consequência da profunda divisão de classes e da grande extensão territorial e,
de outro, a Coroa portuguesa que impunha seu poder centralizador através dos
governadores-gerais e da administração pública. Apesar dessa tensão, o poder
estava assentado em uma aliança entre a aristocracia da Coroa portuguesa e as
137
elites agrárias radicadas no país permitindo a organização de um poder estatal,
uma vez que o sistema colonial garantia os lucros das duas partes.
A organização do Estado consistiu na estruturação de um aparato
burocrático e profissional instalado como extensão do poder real na Colônia. Cria-
se um espaço institucional que foi evoluindo até se transformar em uma
burocracia legitimada pelos donos das terras e pelos proprietários dos escravos.
Sobre isso Antonio Carlos Wolkmer, em seu livro História do Direito no Brasil, diz:
A aliança do poder aristocrático da Coroa com as elites agrárias
locais permitiu construir um modelo de Estado que defenderia
sempre, mesmo depois da independência, os intentos de
segmentos sociais donos da propriedade e dos meios de
produção. Naturalmente, o aparecimento do Estado não foi
resultante do amadurecimento histórico-político de uma Nação
unida ou de uma sociedade consciente, mas da imposição da
vontade do Império colonizador. Instaura-se, assim, a tradição de
um intervencionismo estatal no âmbito das instituições sociais e
na dinâmica do desenvolvimento econômico (2002, p. 41).
Desconsiderando completamente os interesses de quaisquer outros
segmentos sociais que não a elite agrária, proprietária dos meios de produção, a
burocracia estatal nasce com caráter patrimonialista, organizando o poder público
em favor exclusivamente de um estrato social específico em aliança com a Coroa.
Durante o período colonial a legislação privada comum em vigor era
basicamente a transplantação da legislação portuguesa contida nas Ordenações
do Reino32 que eram aplicadas em todo o território brasileiro sem qualquer
modificação ou adaptação. Uma legislação específica foi criada para a
organização e direção da própria atividade colonial, composta, entre outras
32
As Ordenações do Reino eram compilações de leis e costumes e englobavam as Ordenações Afonsinas
(1446), as Ordenações Manuelinas (1521) e as Ordenações Filipinas (1603). (WOLKMER, 2002, p.. 48)
138
coisas, pelas cartas de doação de terras, alvarás e regimentos dos governadores-
gerais. Algumas leis promulgadas em caráter avulso diziam respeito
principalmente a questões comerciais e a questões relativas aos escravos e
índios, questões que as Ordernações não contemplavam, denominadas “Leis
Extravagantes”.
O Direito português que foi transplantado para o Brasil-colônia era herdeiro
da tradição do Direito romano predominante na Europa, mas ao contrário de
países como a França e a Inglaterra, Portugal mantinha-se impermeável, naquele
momento (século XVI e XVII), às transformações culturais ocorridas com o
Renascimento. O resultado desse isolamento cultural foi o distanciamento de
Portugal da modernidade científica e filosófica, do espírito crítico e inovador e
demais avanços propiciados pelo Renascimento e pelo capitalismo.
A legislação colocada em prática aqui tinha os traços da cultura da
Metrópole que era apegada ao dogma da fé e da revelação, à tradição e à
propagação de crenças religiosas baseadas na renúncia, no servilismo e na
disciplina: ...era uma cultura senhorial, escolástica, jesuítica, católica, absolutista,
autoritária, obscurantista e acrítica (WOLKMER, 2002, p. 43).
Essas eram as bases culturais da legislação que era, no entanto, pouco
aplicada, já que o governo português, instalado além mar, pouca importância
dava à aplicação da legislação voltada para o cidadão comum no interior do
território da Colônia, pois suas preocupações estavam centradas na arrecadação
dos impostos e tributos e no estabelecimento de um ordenamento penal que
impusesse barreiras às ameaças diretas à sua dominaçã[Link] Wolkmer:
139
Portugal não tencionava trazer justiça ao povo ou mesmo prestar
os serviços mais elementares à sua colônia. Numa administração
de cunho neofeudal e patrimonialista, o Direito da elite agrária não
era o Direito da maior parte da população, porém existia para
proteger os interesses do governo real e manter o poder dos
fazendeiros proprietários de terras (2002, p. 49).
A importância desse arcabouço legal está no fato de que ele se configurava
como a base ideológico-cultural dos operadores do Direito na Colônia. A
operacionalização do Direito seguia a lógica da Metrópole. Para tanto foi
designado um ouvidor-geral, que juntamente com o governador-geral e o
provedor-mor da fazenda eram os funcionários reais de confiança. Sua função era
resolver as questões de justiça e os conflitos de interesses, gozava de grande
poder, e suas decisões, na maioria das vezes, não eram passíveis de
questionamento.
Com o crescimento das cidades e conseqüentemente dos conflitos, foi-se
criando uma estrutura maior, copiada da estrutura portuguesa, que era composta
por juízes singulares e juízes colegiados, correspondendo à primeira e à segunda
instâncias respectivamente.
Os juízes singulares dividiam-se em juízes especiais e ouvidores. Os juízes
especiais estavam assim subdivididos:
Juízes de Vintena - eram nomeados pelas câmaras municipais, por prazo
de um ano e jurisdição que alcançava em torno de 20 famílias, julgavam causas
de baixo valor, infrações contra posturas municipais e prendiam criminosos;
Juízes Ordinários - faziam parte da Câmara de Vereadores e eram eleitos
por eles, dois para cada Câmara, julgavam juntamente com os vereadores causas
140
relativas a valores maiores, em comunidades maiores, e furtos praticados por
escravos;
Juízes de Fora – tinham as mesmas atribuições dos juízes ordinários, mas
eram nomeados por carta régia, geralmente como substitutos no início, e depois
iam fazendo carreira;
Juízes de Órfãos – podiam ser eleitos ou nomeados, cuidavam da
subsistência, nomeavam tutores e administradores de bens e realizavam os
inventários e questões correlatas que envolvessem menores ou incapazes;
Juízes de Sesmaria – eram escolhidos em cada vila pelo governador da
capitania e sua função era deliberar sobre demarcação de terras de sesmaria;
Os Ouvidores eram nomeados por carta régia para mandato de três anos e
competia-lhes conhecer todas as causas da comarca, decretar prisões,
inspecionar presídios, fazer correições, zelar pela observância dos regimentos,
entre outras coisas.
A segunda instância, composta por juízes colegiados nomeados pela
Coroa, dividia-se em:
Desembargo do Paço – nessa instância o juiz era encarregado de apreciar
matérias sobre liberdade (graça, indulto, perdão, comutação de pena), sobre
adoção, legitimação e emancipação, sobre reintegração de posse e sobre
censura de livros;
141
Mesa da Consciência e Ordens – tratava do provimento de benefícios, da
administração de comendas e dos negócios relativos à interditos, cativos,
ausentes e defuntos;
Conselho da Fazenda – ao qual estava afeto fiscalizar a arrecadação
tributária e os bens da Coroa, sobre cujas matérias tinha jurisdição privativa e
exclusiva;
Tribunal de Relação – julgava recursos ou embargos. Seus membros eram
os desembargadores e suas decisões eram os acórdãos. Segundo Walter Vieira
do Nascimento que apresenta toda esta estrutura em seu livro Lições de História
do Direito (1998, p. 225), este Tribunal, implantado pela primeira vez em 1609,
deu origem mais tarde, aos Tribunais de Justiça dos Estados.
Era possível recorrer de decisões na Metrópole, na Casa da Suplicação,
uma espécie de corte de apelação em Portugal.
Aos poucos, com a consolidação dessa estrutura e o fortalecimento dos
Tribunais de Relação, reduz-se o poder do ouvidor-geral e a administração da
justiça vai ficando a cargo de funcionários preparados e treinados em Portugal.
Esses funcionários eram recrutados dentre elementos de um certo estrato
da sociedade. Por se tratar de uma função privilegiada, a magistratura era
formada principalmente pela pequena nobreza (filhos de fidalgos) e pelo
funcionalismo (filhos de fiscais, inspetores, etc.). Era obrigatório ser graduado na
Universidade de Coimbra, ter exercido a profissão de advogado por pelo menos
dois anos e passar por um exame de seleção. Iniciavam a carreira como juízes de
142
fora, depois ouvidores e só posteriormente poderiam ser designados como
desembargadores, na Metrópole ou nas colônias portuguesas.
A designação para o Brasil era feita em geral para um tempo determinado,
geralmente seis anos. No entanto, a maior parte dos magistrados acabava ficando
por tempo indeterminado em razão do estabelecimento de relações pessoais e
profissionais na Colônia. Wolkmer chama a atenção para o fato de que essas
relações vão marcar profundamente a cultura jurídica institucional de nosso país:
...o “abrasileiramento” dos burocratas, ou seja, a inserção numa
estrutura de padrões rigidamente formais de práticas firmadas em
laços de parentesco, dinheiro e poder. {...} ...significava a
corrupção das metas essencialmente burocráticas, porquanto os
critérios de validade passavam a ser imputados à pessoas, à
posição social e à interesses econômicos. A corrupção cobria um
lastro de desvios da legislação e das regras burocráticas {...}
Freqüentemente o abuso do cargo se dava para a obtenção de
vantagens pessoais diretas o que implicava favorecimento e
suborno capazes de subverter a própria justiça (2002, p. 66).
A posse de terras era fonte de fortuna e poder social na Colônia, e boa
parte dos magistrados aspirava a isso. O estabelecimento de relações entre a
oligarquia agrária nacional, possuidora de grande riqueza, mas formada por não
nobres, e os magistrados, foi-se dando por interesses mútuos, através de
favorecimentos, casamentos, compadrio, e outros mecanismos, fixando uma boa
parte da magistratura portuguesa na Colônia.
Embora fossem formalmente proibidos de contrair matrimônio sem
autorização da Coroa, de adquirir terras em sua jurisdição e de exercer o
comércio em proveito pessoal, essas práticas eram absolutamente comuns entre
os magistrados. Elas eram toleradas pela Coroa pelo fato de esses funcionários
143
exercerem papel fundamental na administração da Colônia. Tal papel era de
tamanha importância que mal se podia distinguir a organização judicial da
administração geral da Colônia.
Dessa maneira, como agentes privilegiados do poder, os magistrados
adentram o período imperial. A partir de 1822, com a independência, inaugura-se
o período de construção de uma cultura jurídica nacional que sofre maior
influência do ideário liberal.
Alguns estratos da sociedade brasileira, formados por mestiços,
despossuídos e libertários, que participaram do movimento pela independência,
estavam de fato comprometidos com as liberdades individuais, com o fim do
preconceito racial e com a igualdade. Para esses setores as idéias liberais
significavam uma mudança na ordem social.
No entanto, as elites locais estavam muito distantes do liberalismo
revolucionário europeu que inspirou a Inconfidência Mineira e outros movimentos
pela libertação da Colônia, e que se assentavam na luta contra os privilégios da
nobreza articulando-se com a emergência da burguesia e do capitalismo. As
idéias liberais no Brasil foram sendo apropriadas e canalizadas por essa elite
dominante com o intuito de romper com o modelo colonial no sentido de
modernizar o Estado e adaptá-lo a formas mais apropriadas ao momento
econômico mundial imposto pelo domínio Inglês. Wolkmer cita a historiadora
Emilia Viotti da Costa para explicar essa particular modalidade do liberalismo
brasileiro:
144
Analisando sua especificidade histórica, Emilia Viotti da Costa
reconhece no liberalismo brasileiro uma “ideologia de tantas
caras”, que se estruturou ao longo do século XIX, sendo usada
em momentos distintos “por diferentes grupos sociais, com
intenções diversas”. Das várias facetas assumidas pelo
liberalismo, como o “heróico” (próprio dos movimentos
emancipatórios anteriores à Independência), o “antidemocrático”
(os revolucionários da primeira constituinte), o “moderado”
(adeptos da monarquia constitucional), o “radical” (reformistas do
período da regência), pode-se dizer que acabou impondo-se o
liberalismo de tendência “conservadora”, praticado por minorias
hegemônicas antidemocráticas, apegadas às práticas do “favor,
do clientelismo e da patronagem” (2002; p. 78).
O Estado liberal brasileiro surge sem revolução burguesa, a partir das
necessidades da elite dominante de reordenar o poder no país. O liberalismo é
utilizado como retórica que convive, sem grandes conflitos, com o poder
oligárquico, de tal maneira que era possível pregar a igualdade, a liberdade e
formas de governo representativas, em uma sociedade cujas estruturas
oligárquicas mantinham a escravidão, à qual estava submetida a maior parte da
população.
Esse liberalismo de tipo conservador foi a base ideológica sobre a qual se
assentou a passagem do Brasil Colônia para o período imperial, tornando-se
importante elemento cultural e influenciando sensivelmente a organização do
Estado naquele período em que a ordem político-jurídica do país começou a ser
organizada de maneira independente de Portugal.
O projeto liberal brasileiro com sua proposta de modernização e de
progresso, superadora do colonialismo, convivia com a escravidão e com uma
estrutura de poder patrimonialista, não se associava a práticas democráticas nem
buscava contemplar as aspirações dos setores populares urbanos e rurais.
145
A modernização proposta passava pela necessidade de reformas
institucionais que atingissem diretamente o sistema jurídico vigente. A maior parte
da magistratura atuante no país era formada pela Universidade de Coimbra e
havia sido preparada para, mais que aplicar a justiça, servir aos interesses da
administração colonial. Segundo Wolkmer (2002), enquanto uma parte desses
magistrados teria deixado o país após a Independência, outra parte significativa
permaneceu, comprometendo-se com as novas condições políticas que estavam
se implantando, e tornando-se ingrediente fundamental na construção das
instituições jurídico-políticas do Império.
As novas condições que estavam se implantando estavam concentradas
em três movimentos centrais que formaram a consciência jurídica nacional: a
constitucionalização do país com a outorga da Carta de 1824, as primeiras leis
nacionais de controle social - com destaque para o Código Penal de 1830 -, e a
criação das Faculdades de Direito em 1827.
A Constituição de 1824 foi redigida tendo por base os princípios do
liberalismo inglês e também sob influência das idéias constitucionais de Benjamin
Constant. O primeiro projeto da Constituição foi elaborado por uma Assembléia
Constituinte que foi dissolvida em seguida por [Link] I. Este nomeou uma
comissão para fazer outro projeto prometendo que posteriormente a submeteria
ao Legislativo. Finalmente a Constituição foi promulgada em 1824, sem que D.
Pedro I cumprisse a promessa de submetê-la a qualquer esfera de poder: foi,
assim, uma Constituição outorgada pelo Imperador.
146
Previa quatro poderes de Estado, o Poder Executivo, o Poder Legislativo, o
Poder Judiciário e o Poder Moderador, sendo dois deles exercidos diretamente
pelo imperador: o Poder Executivo e o Poder Moderador. Estes se sobrepunham
aos outros dois: o Legislativo e o Judiciário.
Vieira do Nascimento diz que a Constituição de 1824 estava ...impregnada
de um centralismo bastante acentuado, investia o Imperador de poderes que o
colocavam à frente de um governo de caráter absolutista (1998, p. 205). A Carta
proclamava direitos, mas tornava-os passíveis de serem suspensos, proclamava
a igualdade mas destacava as diferenças naturais entre os homens. Segundo
Wolkmer, a Constituição consagrava a aliança entre os vários segmentos da elite
dominante, permitindo a convivência entre a burocracia patrimonial e os liberais
conservadores:
Naturalmente, essa Lei Maior afirmava-se idealmente mediante
uma fachada liberal que ocultava a escravidão e excluía a maioria
da população do país. A contradição entre o formalismo retórico
do texto constitucional e a realidade social agrária não
preocupava nem um pouco a elite dominante, que não se cansava
de proclamar teoricamente os princípios constitucionais (direito à
propriedade, à liberdade, à segurança) ignorando a distância
entre o legal e a vida brasileira do século XIX (2002, p. 85).
Depois da Constituição, o mais importante arcabouço legal do Império foi o
Código Penal de 1830. Ele se inspirava nos princípios de proporcionalidade entre
o crime e a pena e de pessoalidade da pena, isto é, a pena não poderia ser
estendida aos descendentes do condenado. Mesmo mantendo a pena de morte, o
Código era um avanço em relação às Ordenações Portuguesas, mais cruéis nos
castigos, segundo Wolkmer (op. cit.). Porém esses avanços restringiam-se a uma
147
parte da população. O autor chama a atenção para o fato de que a legislação
penal não fazia alusões aos índios e aos negros escravos 33. No interior das
propriedades rurais a lei era ditada e aplicada pelo proprietário.
Na seqüência do Código Penal veio o Código de Processo Criminal,
aprovado em 1832, que instituía o sistema de jurados e implantava o habeas
corpus, criava também a figura do juiz de paz que, eleito, possuía atribuições
policiais e criminais. Com isso extinguia-se a figura dos ouvidores e dos juizes de
fora, e estruturava-se uma organização judiciária baseada nos juizes municipais
eleitos, nos juizes de direito e nos tribunais de relação com os desembargadores,
dando por extinta a estrutura baseada no modelo português, mas mantinha-se o
sistema judiciário fortemente vinculado com o policial.
A outra legislação significativa do período imperial é o Código Comercial
aprovado em 1850. Este vinha a regulamentar e disciplinar o processo comercial
sob novas bases que excluíam a intermediação da Coroa portuguesa, o que era
na época prioritário para a elite dominante. Sobre isso Wolkmer diz:
As necessidades imediatas, as atividades negociais e o
desenvolvimento comercial fizeram com que a principiante
burguesia latifundiária priorizasse a regulamentação da vida
econômica sobre a vida civil. Tendo em conta que, para a
burguesia, a ordenação do comércio e da produção da riqueza
era mais imperiosa do que a proteção e a garantia dos direitos
33
Ilustrativa a referência de Wolkmer (2002) a um ensaio publicado por Carlos F. Marés de Souza Filho na
revista Ensaios Jurídicos. Cutritiba: PUC, n. 1, 1993, intitulado O Direito Envergonhado em que o autor
diz sobre essa lei que: ” é muito reveladora, porque por um lado mostra uma omissão em relação aos índios,
não considera sequer sua “orfandade” {...} é estranho mas perfeitamente compreensível dentro do sistema:
a lei penal – dedicada integralmente aos marginalizados sociais – não registra referência à mais marginal
de todas as populações, os indígenas, porque ou estavam fora da sociedade, não lhes alcançando a ação
penal o simples revide guerreiro, ou dentro da sociedade não se diferenciavam dos pobres marginalizados”.
No que se refere aos negros escravos, Wolkmer diz que o Código fazia uma única referência a eles,
extinguindo os castigos de trabalhos forçados nas galés e a morte e substituindo-os por açoites, com o fim de
proteger a propriedade do senhor.
148
civis, nada mais natural do que o Código Comercial preceder em
67 anos o Código Civil (2002, p. 88)34.
Por fim, o terceiro movimento significativo para a formação da consciência
jurídica nacional foi a criação dos dois primeiros cursos de Direito no país: o de
Recife e o de São Paulo, cujo objetivo era funcionar como pólos de
sistematização do liberalismo enquanto ideologia formando o quadro
administrativo-profissional que iria compor as instituições nacionais. Porém, se de
um lado as escolas se propunham a ser defensoras dos princípios liberais, de
outro se comprometiam com a formação da elite burocrática que iria controlar o
poder.
A Faculdade de Direito de Pernambuco formava homens de ciência, que
tratavam o fenômeno jurídico a partir de leituras que incorporavam o naturalismo
e uma visão histórica e sociológica que criticava o jusnaturalismo e o
espiritualismo. Já a Faculdade de São Paulo foi responsável pela formação dos
principais políticos e burocratas de Estado, primou pela militância política de seus
acadêmicos, que eram formados no jornalismo, nas artes e na literatura.
Enquanto em Recife se forjava a teoria, os novos modelos, em São Paulo a
prática política se convertia em leis e medidas. Em Recife estudava um público
que se desvinculava aos poucos da oligarquia agrária nordestina que estava
deixando de ser o centro do poder oligárquico do país, e assim, partiam de lá as
críticas e os gritos de descontentamento. Em São Paulo a Faculdade recebia os
34
O primeiro Código Civil brasileiro foi promulgado em 1916. O projeto elaborado por Clóvis Bevilacqua
em 1899 a partir de estudos iniciados em 1855 por Teixeira de Freitas, levou ainda quinze anos para ser
debatido e entrar em vigor. Somente com a entrada em vigor do Código Civil é que deixam de ter validade
legal, em todos os âmbitos, na sociedade brasileira, as Ordenações do Reino de Portugal.
149
filhos da elite econômica ascendente mais recente e se preparava para se tornar
o centro de formação dos intelectuais destinados a compor a burocracia estatal.
São Paulo, já na segunda metade do século XIX, começava a experimentar a
concentração do domínio econômico e político e os quadros formados pela
faculdade foram gradativamente passando da contestação à defesa do discurso
oficial.
Parte dos magistrados da geração formada em Coimbra juntamente com a
elite intelectual do país formada nos primeiros cursos de Direito tornaram-se os
burocratas que atuaram na máquina do governo durante o Império. E sob a sua
influência e a das idéias liberais, no melhor estilo conservador, acaba sendo
realizada a última e mais importante reforma judiciária do Império, a reforma de
1871, que separou finalmente as funções policiais das funções judiciárias
reduzindo o poder dos juízes de paz. Os juízes municipais e juízes de órfãos
passam a ser escolhidos entre os bacharéis de Direito, podendo ser promovidos a
juízes de direito num esforço por profissionalizar a carreira judiciária, aumentando
aos poucos as restrições ao exercício diretamente político dos magistrados.
Para Koerner, a Reforma Judicial de 1871, que provinha de um programa
liberal e contava com o apoio dos conservadores:
...nada mais foi do que a tênue estratégia legal de transição do
escravismo para a produção liberal livre, ou seja, efetivou-se em
razão do estágio de desenvolvimento das forças econômicas e
sociais, que exigiam uma crescente profissionalização dos
magistrados, e de transição para o trabalho livre, no qual os
fazendeiros defendiam leis que obrigassem ao trabalho, ao
aumento do controle policial sobre os homens livres e pobres, aos
libertos e aos imigrantes (apud WOLKMER, 2002, p. 95).
150
A estrutura criada nos últimos anos do período imperial demonstra que o
ideário liberal de tipo conservador foi ganhando expressão, dadas as novas
condições do desenvolvimento econômico que permitiam extirpar a escravidão,
eliminando assim um dos elementos de maior contradição entre o discurso liberal
e a prática das elites dominantes do país. As condições para a proclamação da
República estavam dadas e as bases de organização das principais estruturas do
Estado nacional estavam fundadas sob uma estrutura de poder patrimonialista e
voltada para a manutenção de uma ordem social que desprezava os interesses
dos cidadãos como um todo.
2.2.2 A organização do Poder Judiciário a partir da República
A proclamação da República consolida um processo de transformações no
cenário nacional marcado pela degradação da economia agrária baseada nos
latifúndios que produziam cana-de-açúcar, com mão-de-obra escrava, localizados
principalmente na região nordeste do país. Essa degradação atingia também a
organização política, baseada no monopólio do poder político, voltado para sua
sustentação, no período imperial.
A mudança consistiu no deslocamento do poder para o sul e sudeste em
virtude da produção do café, que passou a ser o principal produto de exportação
do país a partir de fins do século XIX, necessitando de outro tipo de mão-de-obra
e propriedade agrária. A República, nos primeiros trinta anos, veio representar a
151
oligarquia cafeeira ascendente e ajustar as condições políticas e sociais do país a
suas necessidades.
A passagem do Império para um Estado liberal do tipo republicano, embora
tenha implicado em significativas alterações na estrutura institucional do Estado,
não alterou a correlação de forças e a estrutura do poder político no país.
Segundo Manoel Maurício de Albuquerque, ...as relações de subordinação com
as estruturas dominantes do Capitalismo Internacional não foram afetadas: o novo
Governo declarou que incorporava os compromissos assumidos com potências
estrangeiras e também as dívidas externas do regime monárquico (apud
WOLKMER, 2002, p. 108).
A primeira Constituição da República, a de 1891, expressava valores
pautados em uma filosofia positivista e republicana e incorporava os institutos
formais da democracia burguesa, baseados no liberalismo.
Do ponto de vista da organização do Estado, foi extinto o poder moderador
e adotado o sistema de divisão em três poderes autônomos e independentes
entre si: o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. Na mesma Constituição está
também definido o sistema de controle constitucional inspirado no modelo norte-
americano, de pesos e contrapesos. Inicialmente o Brasil adotou o sistema difuso,
como nos Estados Unidos da América em que todas as instâncias do Judiciário
teriam autonomia para questionar atos inconstitucionais.
No entanto, a organização social do período era incompatível com o
discurso liberal contido na Carta Constitucional. Sobre este tema Wolkmer diz:
152
Na realidade, a retórica do legalismo federalista, sustentando-se
na aparência de um discurso constitucional e acentuando o povo
como detentor único do poder político, erguia-se como suporte
formalizador de uma ordem sócio-econômica que beneficiava
somente segmentos oligárquicos regionais. Em tal contexto o
aparato oficial conferia legalidade necessária ao poder
hegemônico do Sudeste cafeicultor, sobretudo do seu pólo
dominante, que era São Paulo. Sob a aparência formal de uma
igualdade jurídica, na prática, a autonomia estadual se localizava
numa hierarquia dominada pelas desigualdades do
desenvolvimento econômico e financeiro regional e,
conseqüentemente, limitando, de fato, o poder das unidades da
Federação (2002, p. 109).
A Constituição de 1891, assim como a de 1824, manteve um modelo de
constitucionalismo que não levava em consideração os interesses da maioria da
população, estava baseado em formas clientelistas de representação política, na
manutenção das grandes propriedades rurais, na defesa do liberalismo
econômico e na introdução, apenas formal, de alguns direitos civis (o direito de
voto para as mulheres, por exemplo, só passa a ser contemplado na constituição
de 1934).
Mesmo assim, proclamava, formalmente, a independência do Poder
Judiciário em relação aos demais poderes, o que permitiu que, a partir daí, em
algumas circunstâncias especiais, segmentos da magistratura com mais forte
influência liberal reivindicassem essa independência, instalando-se, assim, um
conflito latente entre os poderes do Estado.
As Constituições seguintes, as de 1934, 1937, 1946, 1967 e de 1969,
pautaram-se por esse mesmo padrão filosófico-político, isto é, empenharam-se na
defesa de um constitucionalismo de base não democrática, eficaz como
instrumento retórico de sustentação de um legalismo apenas formal. Elas foram a
153
expressão, nos vários momentos da história política do país, dos interesses da
elite dominante. São o produto da conciliação entre um liberalismo conservador e
um patrimonialismo autoritário, quer representando interesses de uma incipiente
burguesia nacional, como na década de 30, quer representando os interesses
mais diretamente impostos pelo capital internacional em suas alianças com
segmentos nacionais, como nas décadas de 40 e 60.
A dicotomia entre a realidade e a legislação brasileira é um produto dessa
história, que nem mesmo a última Constituição, a de 1988, conseguiu superar,
mantendo-se muitas limitações. Os avanços obtidos com a consagração de
mecanismos de participação popular, maior autonomia municipal e com o
reconhecimento de direitos sociais e coletivos, vêm sendo bloqueados pela
política neoliberal das elites dominantes no país. Como diz Wolkmer ...Nessa
perspectiva, a atual constituição é atingida profundamente por restrições na área
social, por fluxos de desmobilização que sacodem a sociedade civil e por
diretrizes que conduzem à supressão do espaço político da cidadania (2002, p.
115).
Essa dicotomia reflete-se na estrutura organizacional do Poder Judiciário,
que foi se desenvolvendo ao longo de todo o período republicano e chega aos
dias atuais, como poderemos observar, como uma estrutura híbrida, repleta de
instâncias e com pouca abertura para mecanismos facilitadores de acesso à
população.
As diversas mudanças que ocorreram no sistema de controle constitucional
no Brasil, ao longo do tempo, desfiguraram, segundo autores como Rogério
154
Bastos Arantes, o modelo proposto pela Constituição de 1891. Ele diz: ...várias
mudanças inspiradas no sistema concentrado foram feitas pelas Constituições
posteriores, a ponto de transformar nosso sistema de controle constitucional num
sistema híbrido, sem similar no mundo contemporâneo (1997, p 203). Tal
singularidade cria obstáculos adicionais a que o Poder Judiciário resguarde sua
independência e atue como instrumento de controle constitucional.
Reproduzindo uma estrutura de poder concentrador em todas as instâncias
do Estado, essas mudanças caminharam rumo a uma maior concentração de
poderes no Supremo Tribunal Federal – STF. Realizadas a partir de alterações
feitas na Constituição de 1934, ampliadas pelo regime militar de 1964 e mantidas
pela Constituição de 1988, essas mudanças transformaram o STF numa espécie
de Corte Constitucional, que, no entanto, acumula também as funções de órgão
máximo da hierarquia judiciária.
Em nosso país, cuja estabilidade política é frágil e os governos
democráticos ocorrem como intervalos entre governos ditatoriais, o Poder
Judiciário encontra-se, até os nossos dias, muito fortemente submetido ao Poder
Executivo, apesar de tensões pontuais referentes à garantia de alguma
independência. Para compreender esse fenômeno em sua concretude é
necessário observar alguns princípios que regem a organização do Poder
Judiciário no Brasil.
O primeiro deles diz respeito à organização federativa da justiça. Essa
divisão entre justiça da União e justiças dos estados da federação tem apenas o
objetivo de definir competências, uma vez que, apesar de ter estabelecido um
155
modelo federativo e de cada estado ter sua própria Constituição, é na
Constituição Federal que está determinada a organização do Poder Judiciário,
inclusive no nível dos estados. Vale frisar que não existe hoje no Brasil uma
justiça municipal.
Assim, na esfera da União, além dos órgãos de cúpula citados, está
concentrada a justiça especializada (Federal, do Trabalho, Eleitoral e Militar) e na
esfera dos estados fica a chamada justiça comum, que é definida por exclusão,
isto é, julga tudo aquilo que não diz respeito a essas áreas especializadas.
O outro princípio a ser observado é o do duplo grau de jurisdição, que diz
respeito à existência de juízes de primeiro grau e tribunais de segundo grau para
os quais se pode recorrer em caso de se considerar a decisão injusta ou errada.
Com exceção dos órgãos de cúpula, em todos os demais casos pode-se recorrer
em uma instância superior de uma decisão tomada por um juiz. Existe a
pressuposição de que, sendo humano o juiz, existe sempre a possibilidade de ele
errar e, sentindo-se prejudicada, qualquer uma das partes pode-se recorrer da
decisão. Mas Rodrigues esclarece ...os órgãos aos quais compete julgar os
recursos ocupam posição de revisão, não de mando. Embora possam alterar a
decisão anteriormente proferida não podem impor aos órgãos de primeiro grau
que passem a adotar as suas posições (2003, p. 19).
As exceções a este princípio estão dadas pelas causas julgadas pelos
Tribunais de Júri (com júri popular) aos quais só cabe recurso em casos de erros
processuais, uma vez que o seu veredicto é soberano; outro caso em que não
existe recurso, como foi citado, é nas causas julgadas pelo STF, que por ser
órgão de cúpula não comporta grau superior.
156
Além desses princípios, é possível compreender o Poder Judiciário
brasileiro a partir de dois pontos de vista: o da sua organização vertical que diz
respeito à hierarquia dos tribunais divididos em órgãos de primeiro e segundo
graus e órgãos de cúpula, e o da sua organização horizontal, que diz respeito à
divisão entre justiça comum e justiças especializadas.
Do ponto de vista de sua organização horizontal existem quatro justiças
especializadas, três delas estabelecidas pelo critério da matéria a ser julgada, são
a Justiça do Trabalho, a Justiça Eleitoral e a Justiça Militar. Todas funcionam na
esfera da União, com exceção da Justiça Militar que pode ser exercida também
na esfera dos estados, voltada para as polícias militares estaduais.
A Justiça Federal é também uma justiça especializada pelo critério da
qualidade dos titulares dos interesses em conflito. Ela é competente ...para julgar
todas as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal,
for interessada na condição de parte, assistente ou oponente (RODRIGUES,
2003, p. 22).
A justiça comum, na esfera dos estados-membros é competente para
...julgar todas as ações que não forem de competência de uma das justiças
especializadas.{...} É o que se denomina de competência residual.(idem, p. 24)
Do ponto de vista de sua verticalidade, o Poder Judiciário está dividido em
órgãos de primeiro grau, de segundo grau e os órgãos de cúpula. Os órgãos de
cúpula são o Supremo Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça 35, além
35
Segundo Dallari (1996) este foi criado pela Constituição Federal de 1988 com o fim de reduzir a excessiva
carga de competências do Supremo Tribunal Federal. Ele tem como ...competência fundamental julgar os
recursos especiais contra decisões que contrariem a legislação federal, julguem válida lei ou ato do governo
estadual contestado em face de lei federal ou que visem a eliminar interpretação divergente, de lei federal,
existente entre tribunais estaduais (RODRIGUES:2003, p.25)
157
dos órgãos de cúpula específicos das justiças especializadas da União que são, o
Tribunal Superior do Trabalho, o Tribunal Superior Eleitoral e o Superior Tribunal
Militar.
O mais importante deles é o Supremo Tribunal Federal que, como já
dissemos, funciona como uma Corte Constitucional, tendo a competência de
julgar questões referentes à constitucionalidade das leis, dentre outras atribuições
gerais.
Na esfera federal, os órgãos de primeiro e de segundo grau organizam-se
de maneiras diferentes. Verificamos, assim, que a Justiça Federal funciona com
juízes federais distribuídos em varas36 federais pelo país, em todas as capitais e
nas demais localidades definidas por lei; o segundo grau de jurisdição é exercida
pelos tribunais regionais federais (hoje em número de cinco no país). Na Justiça
do Trabalho o primeiro grau é formado pelos juízes do trabalho em varas federais,
podendo, onde não exista, ser julgado por um juiz da justiça comum estadual; o
segundo grau é exercido pelos tribunais regionais do trabalho (existe pelo menos
um em cada estado). A Justiça Eleitoral se compõe de juntas e juízes eleitorais
em primeiro grau e nos tribunais regionais eleitorais em segundo grau. E,
finalmente a Justiça Militar é exercida pelos juizes e tribunais militares com o
segundo grau exercido diretamente pelo Superior Tribunal Militar com sede em
Brasília.
No nível dos estados-membros da federação, a chamada justiça comum, o
primeiro grau é exercido pelos juízes estaduais em varas espalhadas pelas
36
Vara é cada uma das unidades jurisdicionais de uma mesma comarca, nas justiças estaduais, e de uma
mesma seção judiciária, nas justiças da União.
158
comarcas37, nos crimes em que haja dolo contra a vida, através do tribunal de júri,
com os jurados leigos (neste caso específico não existe apelação). O segundo
grau é exercido pelos tribunais de justiça de cada um dos estados.
Entre o primeiro grau e o tribunal de justiça, existe, desde 1946, os
tribunais de alçada (cível e criminal) ...que são órgãos de segundo grau mas
inferiores aos Tribunais de Justiça. Sua principal finalidade era aliviar o Tribunal
de Justiça, reduzindo-se o número de recursos a este destinados, sem eliminar o
direito das partes ao segundo grau de jurisdição (DALLARI, 1996; p. 104). Os
tribunais de alçada são encarregados de determinadas matérias ou de causas
que envolvam interesses de menor valor econômico.
Como foi dito, a legislação permite que os estados mantenham uma justiça
militar estadual, voltada para suas polícias militares. Nesses casos em primeiro
grau se constituem conselhos de justiça sendo o segundo grau exercido pelo
tribunal de justiça do respectivo estado ou por tribunal de justiça militar cuja
criação é permitida em casos em que o efetivo policial seja superior a vinte mil
integrantes.
Paralelamente a essa estrutura, seguindo uma lógica um pouco diferente,
mas incorporado ao sistema, estão os juizados especiais cíveis e criminais. Eles
foram criados por uma lei ordinária em 1984 (Juizados de Pequenas Causas) com
o objetivo de agilizar e baratear a solução de pequenos conflitos. A Constituição
de 1988 incorporou essa tendência e previu sua existência na estrutura do Poder
Judiciário. Mais tarde, em 1995 suas atribuições foram redefinidas e ampliadas
pela Lei 9.095/95.
37
Comarca é cada uma das unidades em que se divide o território dos estados-membros para fins da
administração da justiça.
159
Nos juizados especiais existe a possibilidade de recorrer de uma decisão
ao próprio juizado. A lei prevê a criação de turmas formadas por três juízes a
quem pode se solicitar uma revisão da decisão.
A estrutura exposta aqui pode ser visualizada no quadro que apresentamos
na página seguinte, uma reprodução do quadro38 elaborado por Horácio
Wanderlei Rodrigues, com base na Constituição Federal de 1988 (RODRIGUES,
2003, p. 33).
No Brasil, hoje, a magistratura constitui-se uma carreira profissional. O
acesso ao nível de primeiro grau de jurisdição se dá exclusivamente por concurso
público de provas e títulos. No que diz respeito ao acesso aos tribunais e órgãos
de cúpula do Poder Judiciário, no entanto, ele se dá de formas diferenciadas em
cada um deles.
Dalmo de Abreu Dallari defende a constituição da magistratura como
carreira profissional. Mesmo alertando para os riscos do corporativismo e da
burocratização, ele defende que a profissionalização dos juízes ...permite uma
seleção mais adequada e amplia a possibilidade de aperfeiçoamento constante
dos juízes, além de proporcionar o aproveitamento de sua experiência acumulada
(1996, p. 24). Ele também defende o modelo brasileiro de concursos públicos
como forma de ingresso na carreira, dizendo:
O fato é que no sistema de indicação ocorre a influência das
conveniências políticas da autoridade que indica, o que
reduz a independência do juiz e tem levado, muitas vezes, a
escolhas prejudiciais à magistratura e ao povo. Mas a seleção dos
juízes pela via eleitoral não tem ficado isenta de críticas, sendo
oportunoressaltar que não é rara, na imprensa norte-americana, a
38
A linha pontilhada no gráfico indica os órgãos cuja criação é facultativa, dependendo da necessidade de
cada tribunal.
160
acusação a juízes por “comportamento eleitoral” em seu
desempenho judiciário (1996; p. 24).
A carreira da magistratura no Brasil assegura aos juízes a vitaliciedade (a
perda do cargo só é possível mediante processo judicial), a inamovibilidade (a
transferência só pode ser feita com a concordância expressa do juiz) e a
irredutibilidade de vencimentos. Na contrapartida, o magistrado está impedido de
exercer outro cargo, com exceção do de professor, de receber qualquer tipo de
custas processuais e de exercer atividade político-partidária. Rodrigues diz :
Possuem os juízes o que se denomina de independência jurídica,
que significa sua liberdade para decidirem em todos os casos sob
sua competência, nos limites do pedido e dos fatos e provas
trazidos ao processo, com plena liberdade de consciência. Em
outras palavras, não há hierarquia de mando entre os órgãos do
Poder Judiciário. Cada juiz, dentro de sua competência, exerce a
totalidade do poder estatal. Suas decisões podem ser alteradas
em grau de recurso, mas não pode ser imposto a eles que
decidam de forma diferente (RODRIGUES, 2003, p. 39).
O acesso aos tribunais e órgãos de cúpula do Poder Judiciário, no entanto,
não se dá da mesma maneira, existindo formas diferenciadas que contemplam,
na maior parte dos casos, a indicação por autoridades, em geral o próprio
presidente da República.
O Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do Poder Judiciário, é
composto por brasileiros natos, com mais de trinta e cinco e menos de sessenta
anos de idade, de reputação ilibada e notório saber jurídico, escolhidos livremente
pelo presidente da República, tendo sua nomeação realizada após aprovação do
Senado Federal.
161
Na maior parte dos demais tribunais da União seus membros são indicados
pelo presidente dentre juízes da carreira e membros do Ministério Público e da
advocacia.
No caso dos tribunais de justiça estaduais, a composição prevê quatro
quintos de juizes de carreira promovidos a desembargadores por critérios de
antiguidade e mérito e um quinto das vagas destinado a membros do Ministério
Público e da advocacia, indicados pela Ordem dos Advogados do Brasil, sob
critérios de notório saber jurídico, reputação ilibada e mais de dez anos de efetiva
atividade profissional (Artigo 94 da Constituição Federal).
Como podemos observar aqui, os órgãos de cúpula do Poder Judiciário, a
quem compete, em última instância deliberar sobre questões de natureza
constitucional e demais questões do ordenamento geral da sociedade, mantêm-se
diretamente vinculados ao Poder Executivo, garantindo o comprometimento
histórico desse poder de Estado e a sua autonomia como agentes aplicadores do
Direito no país.
Para além disso, é necessário ressaltar que ao longo de toda história da
República em nosso país, a independência do Judiciário tem encontrado
inúmeros obstáculos. Segundo Dallari, são quatro os principais obstáculos que se
lhe antepõem. O primeiro deles são as ditaduras que, por sua natureza totalitária
e seu caráter violento e arbitrário, não admitem limitações ao exercício do seu
poder. O autor diz ....nesses casos a lei suprema é a vontade do indivíduo ou
grupo que governa, e os juízes e tribunais são tolerados e respeitados na medida
em que são úteis para dar aparência de legalidade aos atos governamentais e ao
sistema político vigente (1996, p. 47). As ditaduras requerem um corpo de juízes
162
submisso e acovardado, quando não explicitamente favorável ao totalitarismo e,
quando não encontra cria os tribunais de exceção. É bom lembrar que em
praticamente um terço dos cem anos de república - se considerarmos o período
que vai de 1889 a 1988 - o Brasil viveu sob regimes declaradamente ditatoriais.
O segundo obstáculo à independência do Judiciário está nos governos
oligárquicos ou autoritários, como classifica Dallari. Mesmo não se caracterizando
como ditaduras, são tão antidemocráticos quanto estas, porquanto as decisões
políticas garantem a supremacia de um pequeno grupo social. Costumam utilizar-
se de formas democráticas e de uma aparente legalidade para praticar injustiças:
Um dos modos mais sutis para negar independência à
magistratura, aparentando exalta-la e defendê-la, é a manipulação
de elementos teóricos e doutrinários, utilizando-se a fachada de
altas indagações filosóficas e de sólido embasamento científico,
de tal modo que se reduz o direito a uma forma sofisticada, que
aceita o conteúdo mais conveniente aos dominadores, ficando
eliminada a preocupação com a justiça (1996, p. 48).
Nesse caso, Dallari ressalta a importância da conivência da magistratura
que, acomodada ou irresponsável, aceita a dependência política e financeira do
Judiciário o que ...tem reflexo nas decisões judiciais, que muitas vezes se ajustam
sem muita coerência às conveniências do governo ou, quando muito, fazem
aplicação estrita da legalidade formal manipulada pelos governantes (idem, p. 49)
Também constituem-se obstáculos à independência do Judiciário os
corruptos, os violentos, os imorais de várias espécies que, sustentados pelo poder
econômico, intimidam, ameaçam e hostilizam de várias formas os membros do
Poder Judiciário. Casos de ameaças, agressões e até assassinatos de juízes e
163
promotores são uma realidade, principalmente nos casos em que não se
consegue a submissão da magistratura pela corrupção.
Por fim, Dallari aponta como o quarto grande inimigo da independência da
magistratura os próprios magistrados que renunciam a essa independência. Ele
diz:
...afirmando-se “escravos da lei”, procuram ocultar o temor, o
comodismo, as conveniências pessoais ou a falta de consciência
da extraordinária relevância de sua função social. Adotando
postura de vestais e apregoando como virtude sua falsa
neutralidade, escondem-se atrás de uma solene, e quase sempre
hipócrita, máscara de “técnicos do direito”. Quando se cobra deles
o compromisso com a justiça, respondem que esse é um
problema para filósofos, não para juristas. E quando se chama a
atenção para o fato de que suas decisões agravam conflitos
sociais, alegam que essa é uma questão para a sociologia, não
para o direito (1996, p. 51).
Seja do ponto de vista da origem social dos seus membros, seja do ponto
de vista da sua estrutura organizacional ou seja do ponto de vista dos obstáculos
externos impostos a ele, o Poder Judiciário brasileiro vem encontrando enormes
dificuldades para atuar como um poder de Estado.
2.2.3 A justiça de menores39: construção de uma justiça assistencial
39
Utilizaremos a expressão ”Justiça de Menores” por se tratar da forma usual de fazer referência aos Juizados
de Menores, inclusive no ambiente judiciário. Essa forma, embora tecnicamente inapropriada vem sendo
utilizada até hoje em relação aos Juizados da Infância e Juventude. Mas cabe reproduzir a ressalva de
Rodrigues sobre o assunto, ele diz: Justiças são os conjuntos de órgãos de primeiro e segundo graus (e, em
alguns casos, um órgão de cúpula específico) que formam uma determinada divisão do Poder Judiciário,
expressamente prevista na Constituição Federal. Em seu sentido técnico só são justiças aquelas previstas
constitucionalmente e que se dividem em especializadas e comum (o Estatuto da Criança e do Adolescente
utiliza impropriamente o termo ao referir-se à Justiça da Infância e da Juventude – a legislação brasileira
utiliza a denominação juizados para referir-se a determinados órgãos da justiça comum de primeiro grau
que exercem a atividade jurisdicional em matérias específicas, tais como os juizados de pequenas causas e
os juizados especiais – teria sido mais adequado também a utilização dessa expressão para se referir ao
órgão encarregado da tutela jurisdicional da criança e do adolescente) (RODRIGUES, 2003, p. 18).
164
Desde o período colonial o Brasil contava com os juízes de órfãos,
responsáveis pela guarda e tutela dos órfãos e de seus bens conforme previsto
na estrutura judiciária portuguesa. Embora responsáveis pelos menores e
incapazes, sua atuação estava voltada prioritariamente para os órfãos que
possuíssem bens, normalmente não fazia parte do universo de intervenção
desses juízes a massa da população trabalhadora do país, formada em sua
quase totalidade por escravos e mestiços, os quais estavam submetidos
diretamente ao proprietário da mão-de-obra, no caso dos escravos, ou à “lei” não-
oficial dos proprietários das terras, no caso dos trabalhadores não-escravos.
As crianças pobres ou abandonadas nas ruas das cidades do Brasil-colônia
eram de responsabilidade da municipalidade, que contava com as santas casas
de Misericórdia que colocava as crianças em famílias que as criavam mediante
pagamento, por algum tempo.
A partir de 1726, com a criação da primeira Roda de Expostos, vinculada à
Santa Casa de Misericórdia da Bahia, essas crianças eram encaminhadas pela
municipalidade ou por qualquer outro que se dispusesse a fazê-lo (o sigilo era
garantido), para uma instituição, que se encarregava de batizar os abandonados e
encaminhá-los para essas famílias substitutas. Ao atingir a idade de sete anos, a
criança podia permanecer na família que a aleitou e criou, se esta quisesse, ou
ser encaminhada a uma casa de recolhimento - estas casas eram vinculadas a
outras ordens e irmandades da Igreja Católica - onde ficava até os doze anos de
idade para ser alfabetizada e preparada para o encaminhamento ao trabalho
como aprendiz de ofício, para servir como aprendiz marinheiro ou, no caso das
165
meninas, para o trabalho doméstico ou para o casamento, caso em que as casas
providenciavam o dote40.
A maior parte dessas crianças era branca e nem todas eram pobres como
afirma Eva Teresinha Silveira Faleiros (1995). As crianças pobres eram
amparadas em boa parte por um articulado sistema de compadrio e
doação/adoção entre famílias que as protegia do abandono. As crianças negras
também acabavam sendo “protegidas” do abandono pela sua condição de
escravas, em que a casa e a comida lhes era fornecida em vista de seu potencial
futuro de trabalho. Assim, deduz-se que as crianças abandonadas ou expostas,
como se intitulava na época, eram em sua maioria filhos da pobreza extrema, da
prostituição e de relações fora do casamento. Há que se destacar que o número
de expostos não era muito grande, correspondente, segundo a autora citada, a
0,4 por mil habitantes na Bahia até o século XVII.
Em 1775, um Alvará do Ministro Sebastião José de Carvalho e Mello viria
regular a relação entre as crianças enjeitadas, as santas casas de misericórdia e
os juízes de órfãos, excluindo as câmaras municipais dessa atribuição. O alvará
procurava estimular a criação de rodas de expostos como um mecanismo
assistencial. Sobre isso nos diz Eva Faleiros:
A Roda se constituía em todo um sistema legal e assistencial dos
expostos até a maioridade. Em realidade, “Roda” era o dispositivo
cilíndrico no qual eram enjeitadas as crianças e que rodava do
exterior para o interior da casa de recolhimento. A denominação
de Roda para o atendimento que era oferecido aos nela
enjeitados presta-se à confusão e ao entendimento de que a
assistência a estes resumia-se ao recolhimento imediato à
40
Existem vários estudos sobre as rodas de expostos e a atenção a crianças expostas nesse período, dentre os
quais destacamos os de PILOTTI e RIZZINI (1995), o de MARCÍLIO (1997) e o de PRIORE (1999).
166
exposição e deixa obscuras todas as etapas e modalidades de
assistência que os mesmos recebiam até a maioridade (1995, p.
230).
Por esse mesmo Alvará, os juízes de órfãos ficavam responsáveis por
essas crianças, por determinar onde ficariam até completar 12 anos, estipulando
que, após os sete anos de idade, a criança não estava mais sob a
responsabilidade da santa casa de misericórdia e deveria ser “curada” como
qualquer outro órfão ....podendo os referidos Juízes (de Órfãos) distribuillos pelas
Casas que os quizerem, até completarem doze annos,sem vencerem outro algum
Ordenado, que o da educação, sustento, e vestido (texto do Alvará, citado por
FALEIROS, 1995, p. 231).
Apesar dessas medidas, existiam instaladas apenas três rodas de expostos
ao final do período colonial - na Bahia, no Rio de Janeiro e em Recife - e a
questão das crianças expostas era uma preocupação secundária do governo.
Ainda nos primeiros anos do governo imperial manteve-se a mesma
estrutura anterior havendo apenas um incremento do número de rodas e uma
maior diversificação das instituições de atendimento. Os juízes de órfãos também
foram mantidos na estrutura judiciária do Brasil Império e ampliavam o volume de
suas intervenções na mesma medida em que se avolumavam os problemas de
crianças órfãs e abandonadas, principalmente a partir da segunda metade do
século XIX, com as transformações ocorridas pela gradativa extinção da
escravidão, pelo deslocamento do centro de poder econômico para o sul em
decorrência das lavouras de café e do aumento da população das cidades com o
incipiente processo de urbanização e industrialização do período.
167
A legislação criada pelo governo imperial como parte do projeto de um
Estado nacional começou a regular um pouco mais a vida das crianças. Em 1854
o governo imperial regulamenta a reforma do ensino primário e secundário no
Município da Corte. Nesse decreto estava prevista a criação de mais casas de
asilo para menores de 12 anos que se encontrassem vagando nos distritos em
situação de pobreza (RIZZINI, 1995), o que demonstra que o problema já
preocupava as autoridades. Até que se criassem esses asilos, os meninos
deveriam ser mantidos por um auxílio do governo e seriam entregues a padres ou
professores para, após os doze anos de idade, serem encaminhados para
trabalhar como aprendizes ou marinheiros, tudo sob a fiscalização dos juízes de
órfãos.
Porém, o primeiro desses asilos públicos só foi criado em 1875, chamado
de Asylo de Meninos Desvalidos, e com um objetivo específico: tinha a finalidade
de receber os filhos libertos de escravas após a Lei do Ventre Livre de 1871. A Lei
dizia que os filhos de escravos nasceriam libertos, mas deveriam ser mantidos
com a mãe até os 08 anos de idade, quando o senhor poderia entregá-lo ao
governo mediante indenização (nesses casos eles seriam encaminhados ao
asilo), ou usufruir do seu trabalho até os 21 anos como forma de retribuição por
seu investimento. Ora, é fácil supor que a maioria dos proprietários de escravos
preferiu manter essas crianças até os 21 anos. Irene Rizzini (1995, p. 107)
apresenta dados da época que dão conta que dos 400 mil filhos de escravos
nascidos livres de que se tem registro até 1885 apenas 118 haviam sido
entregues ao governo. Em conseqüência a autora informa que o Asylo de
Meninos Desvalidos, criado para atender essa população, acabou atendendo
168
basicamente crianças de famílias empobrecidas diante do falecimento do
provedor, em geral um marido com algum nível de qualificação e/ou posto na
estrutura funcional do Estado Imperial.
Outras leis do período, referentes aos abandonados apontam sempre para
a estreita vinculação entre o governo e a Igreja Católica no que diz respeito à
assistência aos pobres e às crianças, como é o caso dos Decretos n. 407 de
1846 e n. 994 de 1858 que tratam das subvenções às santas casas e a outras
irmandades para a criação de asilos e rodas.
No que diz respeito à prática de delitos por parte de crianças, a legislação
imperial tratava do assunto no Código Penal de 1830 que, em seu artigo 10,
estabelecia que os menores de 14 anos não deveriam ser julgados como
criminosos, mas fazia uma ressalva no artigo 13, para os casos em que os
menores de 14 anos tivessem agido “com discernimento”. Nesses casos eles
poderiam ser recolhidos à casa de correção (um presídio comum) pelo tempo que
o juiz - que não era o juiz de órfãos - considerasse necessário, desde que não
ultrapassasse a idade de 17 anos (SANTOS, 1999).
Mas foi a partir das duas últimas décadas do século XIX que esse
panorama começou a se transformar de forma significativa. Esses anos foram de
muitas mudanças na estrutura socioeconômica e política do país, com o final da
escravidão e a proclamação da República, e marcam a passagem também para
uma nova etapa na compreensão da criança e na legislação afeta a essa área.
O Brasil começa também a viver os problemas típicos dos grandes
aglomerados populacionais. Com a abolição da escravidão boa parte dos
169
escravos libertos acorre aos centros urbanos. A entrada maciça da mão-de-obra
do imigrante também auxilia no crescimento das cidades como espaços mais
dinâmicos, centros de integração regional e mercado distribuidor. A cidade de São
Paulo, por exemplo, passa de 30 mil habitantes em 1870 para 286 mil habitantes
em 1907 (SANTOS, 1999, p. 212).
Da Europa, já mais adiantada na convivência com os problemas gerados
pelos grandes aglomerados populacionais próprios do processo de
industrialização vem a influência da eugenia e do higienismo como práticas de
profilaxia social de caráter científico. Aqui, uma onda de preocupação com as
crianças se instala entre médicos e juristas diante do agravamento dos problemas
sanitários, da ampliação da pobreza, da vadiagem e da mendicância nos centros
urbanos e do agravamento da criminalidade, que até então não tinha muita
relevância no cotidiano das cidades.
As denúncias das péssimas condições de salubridade a que estavam
submetidas as crianças nas rodas e nos asilos de expostos, dos alarmantes
índices de mortalidade infantil da época e até mesmo da convivência perniciosa
de crianças com adultos nas casas de correção eram comuns nesse período. Um
bom exemplo dessas denúncias temos no trecho transcrito por Irma Rizzini da
obra do Dr. Moncorvo Filho, famoso higienista do início do século, onde se pode
observar também uma postura favorável à educação laica, própria da influência
liberal positivista:
O asilo, tal qual o concebiam os antigos, era uma casa na qual
encafurnavam dezenas de crianças de 7 e 8 anos em diante nem
sempre livres de uma promiscuidade prejudicial, educadas no
carrancismo de uma instrução quase exclusivamente religiosa,
170
vivendo sem o menor preceito de higiene, muitas vezes atrofiadas
pela falta de ar e de luz suficientes. Via de regra pessimamente
alimentadas, sujeitas, não raro, a qualquer leve falta, a castigos
bárbaros dos quais o mais suave era o suplício da fome e da
sede, aberrando, pois, tudo isso dos princípios científicos e
sociais que devem presidir a manutenção das casas de caridade,
recolhimentos, patronatos, orfanatos, etc, sendo,
conseqüentemente os asilos nessas condições instituições
condenáveis (1995, p. 249).
Outro exemplo ilustrativo foi a polêmica criada pelo jurista Evaristo de
Moraes que, após ter feito uma visita à Casa de Detenção da capital, em 1898, a
convite do Dr. Moncorvo, lançou-se em uma campanha contra misturar adultos e
crianças nessa instituição prisional. Ele declarou aos jornais o seguinte trecho
transcrito por Irene Rizzini, ao qual deu-se ampla repercussão:
Ora, si é certo que aquelle estabelecimento nem reúne as
condições d’uma boa prisão para adultos; si é innegavel que seu
regimento interno vai de encontro ás regras mais elementares da
“hygiene moral”, si ninguém ignora a influencia perniciosa das
prisões sobre o caracter dos detentos – como qualificar essa
remessa de crianças para a Detenção? (1995, p. 119).
A essas denúncias seguiu-se uma política de criação de instituições por
parte do governo, que utilizou os padrões médico-higienistas da época,
separando e classificando as crianças por idade, sexo e tipo de problema
apresentado. Era amplamente difundida a idéia de que os menores deveriam ser
educados em instituições apropriadas para sua idade, surgindo assim de maneia
mais clara a diferenciação entre menores abandonados e delinqüentes. Nesses
primeiros anos do século XX foram criados, entre outros, o Instituto Disciplinar
em São Paulo (1902), a Escola Quinze de Novembro no Rio de Janeiro (1903) e o
171
Instituto João Pinheiro em Minas Gerais (1909), como estruturas para
atendimento específico a menores delinqüentes.
Mas é necessário ressalvar que o Código Penal de 1890, o primeiro da
República, não havia mudado em praticamente nada a legislação com relação
aos delinqüentes, mantendo a possibilidade de crianças de 09 a 14 anos serem
responsabilizadas por seus atos e enviadas à casas de correção, desde que
“obrassem com discernimento” (SANTOS, 1999). Embora na legislação não
estivesse prevista, na prática, a separação entre delinqüentes adultos e menores
de idade começou a ser feita.
Nesse intenso debate sobre a criança ocorrido nas primeiras décadas da
República, os juristas tiveram papel fundamental nas transformações que viriam a
se realizar a partir dos anos de 1920. Advogados de renome como Evaristo de
Moraes, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, Candido Mota, Noé de
Azevedo, entre outros, emprestaram o seu prestígio para a causa da construção
de uma legislação específica para o menor de 18 anos, e para a constituição de
uma política assistencial que amparasse esse segmento da população.
Eles foram buscar fora do país o modelo que inspirou suas propostas de
não responsabilidade penal e de articulação da política assistencial com o sistema
legal. Afirma o Dr. Alberto Augusto Cavalcanti de Gusmão, em discurso proferido
por ocasião do centenário de nascimento de Mello Mattos:
Desde 1866 os Estados Unidos da América do Norte já possuíam
a Sociedade Protetora da Infância e, em 1901, começaram a
funcionar as chamadas “Children’s Courts”. Na Inglaterra, desde
1908, com o “Children Act”, estava proclamada a
irresponsabilidade absoluta dos menores de 16 anos. Na
172
Alemanha, desde 1905, na França, desde 1912, na Itália desde
1917, a jurisdição especial de menores já fora criada (GUSMÃO,
1964, p. 8).
Mello Mattos, por exemplo, havia estado em Portugal participando dos
debates, e foi inclusive membro da comissão para a reforma da legislação, logo
após a implantação da República naquele país. Embora a reforma não se tenha
concretizado em razão das alterações no governo, ele teve contato com o que de
mais avançado se debatia na Europa.
Noé de Azevedo é outro exemplo. Ele foi aos Estados Unidos da América
para conhecer as cortes juvenis que funcionavam desde 1899. De volta defendeu
sua tese em 1920 perante a Faculdade de Direito de São Paulo, com o título Dos
Tribunaes Especiaes para Menores Delinqüentes e como podem ser creados
entre nós, onde ele defendia o modelo:
Enfim, o tribunal para menores não é tribunal, mas um organismo
que centraliza toda a obra de assistência à infância abandonada,
criminosa ou em perigo moral, pondo todas as instituições de
amparo, preservação, educação, aperfeiçoamento e reforma
debaixo das vistas de um só magistrado, o juiz de menores. Onde
não há taes instituições não póde existir tribunal especial para
menores. Só se falsearem a instituição, para não falsear a
palavra. Penso que tenho assim respondido a these que me foi
proposta. Tratar os menores delinqüentes como nós fazemos, é
indigno de um povo culto. O nosso Código Penal, como a
generalidade dos códigos, trata o menor com muitas distinções,
ridículas, para depois applicar-lhes uma pena. Punir é uma
injustiça, punir creanças, uma iniqüidade. Precisamos não de
tribunaes especiais, para distribuir doses de prisão aos menores,
mas de instituições, com esse ou com outro nome, que sejam o
coroamento ou a concentração das múltiplas obras que se hão de
crear necessariamente, porque é um crime não cuidar uma nação
civilizada da assistência social aos menores. Mas para que não
venha logo a desillusão aos entusiastas, acompanhada do
descrédito da instituição mal comprehendida e applicada, é
preciso começar a reforma social pela base e não pelas cimalhas.
173
Não basta uma lei de alguns artigos estabelecendo um tribunal
conforme os modelos extrangeiros mais perfeitos. O problema da
infância abandonada e delinqüente é o reflexo da chamada
questão social. Esta não se resolverá, como ficou demonstrado,
com reformas políticas nem panacéias jurídicas. Não precisamos
de mais algumas leis para o monturo dos archivos. Precisamos
sim, de uma legislação completa, capaz de conter e dirigir,
quando se manifestarem entre nós, as forças de renovação social
que, desencadeadas, trazem o velho mundo em dolorosa
agitação (AZEVEDO, 1920, p. 145).
A proposta dos tribunais especiais, ou tribunais de menores, influenciou
gerações de juizes de menores pois que serviu de modelo para a organização dos
juizados de menores e da legislação de menores no Brasil e em vários outros
países do mundo. Vários estudiosos têm discutido esse modelo de inspiração
norte-americana, indicando, como um dos seus maiores problemas, o fato de que
mantinha uma identificação entre a infância carente e a infância delinqüente
criando um sistema de controle sócio-penal da infância marginalizada, separado
das demais estruturas de aplicação do Direito41.
A predominância do discurso jurídico sobre a questão da infância nesse
período é observada por Irene Rizzini que chama a atenção para o fato de que,
embora o debate alcançasse vários segmentos da sociedade como médicos,
pedagogos, políticos, filantropos, entre outros, foram os juristas que lideraram o
processo, que articularam tais forças sociais em torno da necessidade de uma
mudança na legislação. Para a autora ...a infância foi nitidamente “judicializada”
neste período. Decorre daí a popularidade da categoria jurídica “menor”, sem
qualquer tipo de problematização nos debates da época. (1995, p. 115). No
entanto, esse protagonismo dos juízes também pode estar relacionado ao fato
41
Sobre este tema ver (MACHADO, 2003) e (MENDEZ, 1998).
174
deles serem um segmento da sociedade profundamente articulado com a
ideologia liberal que a República buscava propalar, daí as suas vozes
encontrarem eco.
A expressão desse intenso debate protagonizado por juristas implicou em
várias tentativas de elaboração de uma legislação específica. A primeira foi em
1902 com um projeto de Lopes Trovão. Depois, em 1906, Alcindo Guanabara
submete à Câmara dos Deputados um projeto que contou com a participação de
Mello Mattos na sua elaboração, em que se propunha a tutela do Estado para
menores em situação de abandono, maus tratos, e delinqüência, regulava-se a
suspensão e até a perda do pátrio poder e propunham-se medidas de prevenção
e tratamento aos menores. Ainda segundo Rizzini, é difícil distinguir se a origem
do discurso contido nessas leis era policial ou jurídica: ...a autoria era
provavelmente conjunta, refletindo-se em decretos e na criação de
estabelecimentos que iam numa mesma direção: recolher menores, de acordo
com uma cuidadosa classificação, visando a prevenção e a regeneração (1995, p.
122). O aparelho judiciário do período estava ainda bastante impregnado de sua
ligação completa com o aparelho policial como nos períodos anteriores da história
do país. Basta dizer que o jurista Mello Mattos foi responsável, nesse mesmo
período, pelo projeto de reforma da polícia, projeto que foi transformado em lei
(GUSMÃO, 1964).
Mais tarde, em 1912, outro projeto apresentado, agora por João Chaves,
volta a propor a tutela do Estado para os menores em situação de abandono e
delinqüência, por decisão do Tribunal ou juiz competente. Seu projeto, no entanto,
175
inova ao incorporar as propostas que Noé de Azevedo já vinha divulgando, a de
tribunais especiais para menores, retirando-se os delinqüentes da alçada da
legislação penal.
Todo esse arcabouço de propostas de legislação e debates culmina com a
nomeação de Mello Mattos para elaborar um projeto substitutivo ao de Alcindo
Guanabara que havia sido retirado de pauta anos antes. Mello Mattos é nomeado
pelo presidente Epitácio Pessoa, num período marcado por pressões e revoltas
populares como a greve geral de operários em São Paulo (1920) e a revolta do
Forte de Copacabana (1922).
Em 1921 uma lei orçamentária, a Lei n. 4242 de 05 de janeiro de 1921,
inclui em um dos seus artigos recursos para a criação de um Juízo Privativo de
Menores e dispõe sobre a organização desse serviço de assistência e proteção à
infância abandonada e delinqüente. Essa Lei tratava também de definir o que era
abandono, como se poderia processar a suspensão e perda do pátrio poder,
regulava os processos a que estariam submetidos os menores de 18 anos e
determinava que em caso de co-autoria em crimes, os processos de adultos e
menores corressem absolutamente separados, o que era um grande avanço para
a época. Gusmão (1964) esclarece:
Vê-se em tudo isto o esforço conjunto de Mello Mattos e Alfredo
Pinto {do Ministério da Justiça na época}. Como o projeto geral,
com todas as suas inovações e implicações de ordem jurídica e
administrativa, encontraria obstáculos irremovíveis, a fórmula da
autorização legislativa orçamentária apareceu como o meio hábil
de realizar a grande transformação. Era o código de Menores
entrando como um Cavalo de Tróia no Orçamento Geral da
República (1964, p. 10).
176
Interessante que apesar da “manobra”, não houve recursos para efetivação
da ação e apenas em 1923, já no governo de Artur Bernardes, é que, por força do
Decreto Executivo 16.272 de 20 de dezembro de 1923, o Regulamento de
Assistência e Proteção aos Menores Abandonados e Delinqüentes, e do Decreto
Executivo 16.273, do mesmo dia, que trata da Justiça do Distrito Federal, se
constitui o que viria a se chamar de Juizado de Menores.
Em 02 de fevereiro de 1924, Mello Mattos é nomeado o primeiro juiz de
menores do país e fica extinta a estrutura anterior que vigorou, com algumas
alterações, durante a Colônia, o Império e os primeiros anos da República, em
que a infância era atendida pela municipalidade, por juízes gerais ou comuns, ou
por juízes de órfãos, conforme a natureza da situação.
Além do Distrito Federal, esse mesmo movimento pode ser observado em
São Paulo com menos de um ano de atraso. Em 31 de dezembro de 1924, o Dr.
Carlos de Campos, então presidente do Estado de São Paulo, sanciona a Lei
2.059 que dispõe sobre o processo de menores delinqüentes. Nesta Lei está
prevista a criação do cargo de juiz privativo de menores da capital paulista, suas
atribuições, bem como a estrutura do juízo, a organização do processo judicial e a
política assistencial para o segmento. Em 28 de março de 1925, instala-se o Juízo
Privativo de Menores da capital de São Paulo, sendo o primeiro juiz o Dr.
Francisco Cardoso Ribeiro.
É certo que o movimento que gerou a criação dos respectivos Juízos
respondia aos clamores de uma parte da intelectualidade nacional empenhada
numa assistência social de caráter profissional, mais avançada do ponto de vista
177
da proteção aos cidadãos da recém criada República. Mas é certo também que o
mesmo discurso que dava maior importância ao “menor”, como parte do ideal de
nação civilizada a que almejava a elite intelectual do país, embutia a necessidade
de constituição de uma classe trabalhadora formada por homens livres adaptados
ao sistema de trabalho capitalista, como podemos observar no trecho transcrito
do jornal O Estado de São Paulo numa série de matérias sobre a proteção à
infância, veiculadas no final de 1924, às vésperas de ser sancionada a Lei que
criava o Juízo:
Nenhum dos nossos serviços públicos, entretanto, mais do que o
da assistência à infância deverá merecer a solicitude geral, pois
nenhum mais do que esse de tão perto diz com a formação e a
estructura da população a que futuramente estarão confiados os
destinos da nossa terra. Organisado efficiemtemente e em
proporções condignas do nosso desenvolvimento econômico e
político, tal serviço viria resgatar um thesouro inapreciável de
vidas humanas, que todos os dias perdemos, nós que já não
somos nenhuns millionarios nessa espécie de valores, e que
vivemos a bater constantemente à porta de outros povos afim de
que nos mandem levas de filhos seus, por cujo labor anceia a
nossa palpitante actividade (OESP, 22/11/24, p. 6),
A mesma série de artigos, apontando para os elevados índices de
mortalidade infantil no Brasil comparados aos de outros países, estima o valor de
um trabalhador brasileiro em contos de réis e demonstra, através de cálculos, que
é mais barato que o governo invista em programas de prevenção e tratamento
dessa população do que se submeter às imposições dos países que fornecem
mão-de-obra. Não é sem motivo, portanto, que as primeiras iniciativas de
organizar a proteção à infância se dessem na capital federal e na capital do
Estado economicamente mais importante na época. Esse movimento tentava
reproduzir, entre nós, o que vinha acontecendo nos países capitalistas centrais,
178
em que a intervenção do Estado nas políticas sociais respondia à necessidade de
reprodução e regulação da mão-de-obra.
Também não é estranho que, apesar de uma notória valorização da
questão do menor na sociedade, essas primeiras iniciativas tenham sido
realizadas com dificuldades pelos seus defensores, uma vez que tal política não
era absolutamente uma prioridade dos governos, mas funcionava apenas como
medida coadjuvante na tentativa de organizar esse exército de mão-de-obra. As
críticas veiculadas por vários juristas no mesmo jornal O Estado de São Paulo,
em outra série de matérias publicadas logo após a promulgação da Lei paulista,
mostra a fragilidade com que nascia o Juízo. Thyrso Martins, por exemplo, em
artigo intitulado “O juízo de menores no Fórum Criminal”, criticava o local
escolhido para funcionar o, ainda não instalado, Juízo:
Em frente do juiz a criança precisa não sentir o pavor envolvente
das chamadas casas da justiça. Nada do que lhe possa perturbar
a natural sinceridade. Tudo quanto não seja a impressionante
lithurgia forense. Revestido de sua toga, sobre um estrado e sob
um docel, ladeado de officiaes de justiça, guardado pelo sabres e
pelos revólveres dos policiaes – no fórum Criminal – o Juiz de
Menores, severo, impassível, hierático, é um contrasenso (OESP,
26/01/25, p. 5).
Noé de Azevedo, em vários artigos assinados critica uma série de pontos
da Lei paulista. Primeiro, fazendo alusão ao espaço físico e aos recursos
disponíveis, ele diz:
Ao ler a recente lei estadual sobre a assistência e processo de
menores abandonados e delinquentes, tive a impressão de uma
obra modesta demais para a grandeza e opulência de São Paulo.
Pareceu-me até que o poderoso Estado ao confeccional-a, não
teve como directa intenção o amparo aos pequenos abandonados
179
e a regeneração dos pervertidos e delinqüentes. (OESP,
25/01/25, p. 5)
Ele criticava o fato de que a lei não era clara quanto à criação de um abrigo
provisório junto ao Juízo, a lei dizia que poderia ser criado, mas o prédio previsto
pelo governo nem sequer possuía espaço físico; criticava também o fato de que
na lei estava previsto o procedimento contraditório nos processos de
delinqüentes, e que esta era uma prática própria dos processos criminais,
incompatível com uma proposta tutelar; chamava também a atenção para o fato
de que a indicação do juiz para o cargo, que deveria ser feita pelo governador,
deveria obedecer a critérios de perfil apropriado e não a critérios políticos; enfim,
as críticas eram inúmeras. Sabe-se, no entanto, que o Juízo não foi instalado no
Fórum Criminal, mas no edifício do Tribunal de Contas, à Rua Álvares Penteado
n. 1042.
Mas o movimento para a elaboração de uma lei de abrangência nacional
continuava. Em 1925, Mello Mattos apresenta ao Senado um projeto de Código
de Menores subscrito por 16 senadores. O projeto transforma-se na Lei 5083 de
1º de dezembro de 1926, mas ainda não era o Código. Em seu artigo 1º, a Lei
autorizava o governo a consolidar as leis de proteção a menores. Em 12 de
outubro de 1927, era expedido o Decreto Executivo n. 17.943 – A, consolidando
as leis de assistência e proteção a menores, elaborado por Mello Mattos, com a
participação de várias outras figuras eminentes.
42
A informação consta da Ata de Instalação do Juízo reproduzida nas páginas seguintes. Cópia do arquivo
pessoal de Therezinha Z. Davidovich.
180
Do Código de 1927 Irene Rizzini diz:
A impressão que se tem é que através da lei em questão
procurou-se cobrir um amplo espectro de situações envolvendo a
infância e a juventude. Parece-nos que o legislador, ao propor a
regulamentação de medidas “protectivas” e também assistenciais,
enveredou por uma área social que ultrapassava em muito as
fronteiras do jurídico. O que o impulsionava era “resolver” o
problema dos menores, prevendo todos os possíveis detalhes e
exercendo firme controle sobre os menores, através de
mecanismos de “tutela”, “guarda”, “vigilância”, “educação”,
“preservação” e “reforma”. (1995, p. 130)
O advento dessa lei de abrangência nacional marca duas grandes e
importantes inovações. A primeira delas diz respeito à possibilidade do Estado,
através da figura do juiz, intervir na vida dos indivíduos, das crianças, das
famílias, mediante mecanismos como a suspensão do pátrio poder.
Embora estivesse claro no Código de 1927 que a lei estava voltada para
um segmento específico da população infanto-juvenil43, o Juiz Mello Mattos
entendeu que a Lei permitia uma interpretação relativa à condição de “abandono
moral” das crianças que gerou um episódio de muita repercussão, à época. Em
dezembro de 1927, o juiz baixou uma portaria considerando a exibição da peça
“Ouro a Bessa”, no Teatro João Caetano no Rio de Janeiro, imprópria para
menores de 18 anos.
Ele alegava que a revista, gênero de muito sucesso na época, tinha um ...
feitio escandaloso, suas danças lascivas, vestuários indecentes, trocadilhos
maliciosos e outros inconvenientes, que tornavam a peça, como todas as do seu
43
O texto do Código de 1927 diz quem é objeto da Lei em seu artigo 1º - O menor, de um ou outro sexo,
abandonado ou delinqüente, que tiver menos de dezoito anos de idade, será submetido pela autoridade
judicial competente às medidas de assistência e proteção contidas neste código.(BRASIL, 1927)
181
genero, um verdadeiro perigo moral, especialmente para os menores no crítico
período da puberdade (GUSMÃO, 1964, p. 14).
Considerando-se que era comum que pais levassem seus filhos a esse
tipo de espetáculos, que inclusive promoviam matinês voltadas para esse público,
a reação foi violenta. Uma greve dos teatros ocorreu em solidariedade aos
empresários que apresentavam o espetáculo censurado. Em São Paulo,
defensores da liberdade artística cobriram uma estátua de nu, instalada em uma
praça pública, e embaixo inscreveram: sobre a beleza artística do nú o manto
opaco do Código de Menores (idem, p. 17).
Em 1928, o Conselho Supremo da Corte de Apelação do Distrito Federal
considerou o Código de Menores inconstitucional por entender que feria o Código
Civil e opunha restrições ao pátrio poder. Mello Mattos foi punido com uma
suspensão de trinta dias, porém continuou defendendo o seu ponto de vista e
alguns meses depois a declaração de inconstitucionalidade do Código de
Menores foi revertida. O episódio é ilustrativo da abrangência que a intervenção
do Estado poderia ter sobre a vida dos cidadãos e da reação da sociedade da
época, que até admitia uma legislação voltada para a criança pobre, abandonada,
órfã ou delinqüente, mas não a intervenção do Estado na vida dos filhos das
famílias das classes média e alta. Tudo indica que os juízes de menores foram
mais cuidadosos a partir de então.
A segunda inovação importante diz respeito à inserção do Judiciário no
sistema de assistência social. O modelo inspirado nas cortes juvenis não foi
182
contemplado pela lei, no entanto, a corrente de juristas que defendia essa
proposta não se dissolveu, muito pelo contrário, manteve-se atuante.
Essa inserção começa a ser executada com a criação dos dois Juízos de
Menores e a possibilidade explícita constante na lei de que o juiz poderia intervir
nas entidades de assistência44. Mais tarde, principalmente após 1930, ela
ampliou-se bastante, inaugurando uma interseção entre Executivo e Judiciário
que viria a causar alguns problemas. Sobre isso faremos uma análise detalhada
mais adiante, contemplando o que diz Irene Rizzini ao analisar depoimentos de
juizes de menores das décadas de 30 e 40:
O problema dos abandonados e delinqüentes, apesar do repúdio
explícito a tais denominações, continuava sendo um desafio de
difícil solução. Parecia não haver dúvida de que cabia ao setor
jurídico resolvê-lo. A contradição era clara para os próprios atores
envolvidos, à medida que se tinha consciência da origem
eminentemente social do problema. {...} O verdadeiro conflito de
atribuições está no fato da impossibilidade de resolução de um
problema que, em sua essência, não se circunscreve no âmbito
estritamente jurídico (1995, p. 141).
Distanciando-se aos poucos de uma atuação policial, o Juizado de
Menores desenvolve uma inovadora maneira de intervenção do Poder Judiciário
na vida dos cidadãos brasileiros aproximando-se da assistência social e
subordinando o aparato executor de proteção e recuperação de menores à sua
tutela.
44
O artigo 126 do Código de Menores trata da questão da seguinte maneira: A autoridade pública
encarregada da proteção aos menores pode visitar as escolas, oficinas e qualquer outro lugar onde se
achem menores, e proceder a investigações, tomando as providências que forem necessárias. §1º Também
pode visitar as famílias a respeito das quais tenha tido denúncia, ou de algum outro modo venha a saber, de
faltas graves na proteção física ou moral dos menores; §2º Pode ordenar o fechamento dos institutos
destinados exclusivamente a menores, nos casos de infração das leis de assistência e proteção aos menores
e ofensas aos bons costumes, procedendo à verificação dos fatos em processo sumaríssimo, remetendo
depois os culpados ao juízo que couber; §3º As funções de vigilância e inspeção podem ser exercidas por
funcionários especiais sob a direção da autoridade competente.{grifo nosso}
183
CAPÍTULO III – A ENTRADA DO SERVIÇO SOCIAL NO PODER JUDICIÁRIO
3.1. A proposta de inserção do Serviço Social no Juizado de Menores
3.1.1. O Juizado de Menores durante a era Vargas
Apesar dos poucos registros sobre o andamento dos trabalhos do Juizado
de Menores no período imediatamente posterior à entrada em vigor das leis de
menores, durante a década de 1920, é de se supor que esses anos, posteriores à
implantação dos Juízos no Rio de Janeiro e em São Paulo, foram de organização
de seu funcionamento.
No Rio de Janeiro, as notícias são de que o Juiz Mello Mattos, que esteve
à frente do Juizado de 1924 a 1934, fez inúmeros esforços para organizar o
aparelhamento da instituição, promovendo a criação e adequação de
estabelecimentos de recolhimento de menores e realizando o que Gusmão
chamou de ...campanhas preventivas, reprimindo a mendicância infantil, a
vadiagem, a exploração de menores, fiscalizando as casas de diversões e os
locais de trabalho (1964, p. 27).
Em São Paulo sabe-se que a sede do juízo foi transferida, sem precisão da
data, para a rua Paraíso, e novamente transferida em meados de 1934, para a
Av. Celso Garcia, no mesmo prédio onde funcionava o Abrigo de Menores.
Por ocasião das comemorações do nono aniversário de instalação do Juízo
de São Paulo, em 28 de março de 1934, foi lavrada uma ata em que se apontava
184
o número de treze mil duzentos e trinta e um processos referentes a menores
assistidos pelo Juízo até então. Nessa mesma ata o curador de menores fez
constar:
...a satisfação com que constato o facto de, anualmente, o
governo vir melhorando a situação dos menores, dando ao
Juizado novos aparelhamentos, como o que foi dado há pouco
instalando a Vara neste prédio da Av. Celso Garcia onde
funciona, digo, onde se acha instalado também o Abrigo de
Menores com bastante conforto (extraído da cópia do Livro Ata do
Juízo, p. 92 –96, do arquivo pessoal de Terezinha D. Zabirowski).
Os poucos registros sobre suas atividades podem dar a impressão de um
funcionamento relativamente tranqüilo dos trabalhos do Juizado, não fosse a
situação de efervescência por que passava o Estado brasileiro. O período que vai
dos últimos anos da década 20 e se estende ao longo das duas décadas
seguintes é de grandes transformações sociais e políticas que marcaram
profundamente o país e, sem dúvida, influenciaram toda a máquina do Poder
Judiciário, uma vez que interferiram nas estruturas do poder estatal.
O crescimento das classes médias urbanas, ocorrida ao longo da década
de 20, introduziu novos atores no cenário nacional que contribuíram para alterar o
quadro de poder existente até então. Segundo Boris Fausto (1995), dada a sua
diversidade nesses tempos, a classe dominante paulista não cabia mais, toda ela,
no Partido Republicano Paulista havendo uma diversificação de partidos que
representavam interesses de grupos específicos.
Em meados de 1926, surgiu em São Paulo o Partido Democrático (PD),
com um programa liberal, saindo na defesa do voto secreto e obrigatório,
representação para as minorias, independência dos três poderes e atribuição da
185
fiscalização eleitoral ao Judiciário. Dele faziam parte profissionais liberais e jovens
filhos de fazendeiros do café. O autor cita que havia entre os membros do PD
vários professores da Faculdade de Direito como Waldemar Ferreira e Francisco
Morato, além de outras figuras proeminentes do meio jurídico, como o advogado
criminalista Marrey Junior, de uma tradicional família de juristas.
O PD fez parte da Aliança Liberal que sustentou a candidatura de Getúlio
Vargas em 1930 e posteriormente apoiou a Revolução e a tomada do poder por
Getúlio. Segundo Fausto, ...o Partido Democrático – porta-voz da classe média
tradicional – pretendia o controle do governo do Estado de São Paulo e a efetiva
adoção dos princípios do Estado liberal, que aparentemente asseguraria seu
predomínio (1995, p. 326).
No panorama político complexo daqueles anos o PD vai ter papel
importante na Revolução Constitucionalista de 1932 e no processo de
constitucionalização que deu origem ao frágil acordo entre as elites o qual
sustentou a Carta Constitucional de 1934 e a eleição indireta de Getúlio, refletindo
o pensamento dominante entre os advogados e demais figuras influentes no meio
jurídico. O discurso liberal desse segmento representado no PD encontrava algum
eco no ambiente republicano daquele período, lembrando tratar-se de um
discurso liberal conservador, conforme as observações já feitas neste trabalho
sobre o tipo de liberalismo dominante no país.
Tomando isso por base poder-se-ia ter uma idéia de que em 1934 o país
estava caminhando para um avanço das idéias liberais e de um projeto
democrático, no entanto isso não ocorreu. A profunda crise econômica por que
186
passava o país e o mundo desde o crack da bolsa em 1929 e a ascensão do
nazifascismo como alternativa ao liberalismo não favoreceram esse movimento.
De um lado, o governo respondeu às greves operárias ocorridas naquele
ano com uma proposta de Lei de Segurança Nacional, uma lei de exceção que
dava poderes extremos ao Executivo. De outro lado, surgiu a Aliança Nacional
Libertadora, de esquerda, que ampliava a sua influência sobre as massas
trabalhadoras. O golpe que deu origem ao Estado Novo, em 1937, coroou esse
processo conflituoso e teve o apoio das classes dominantes, como diz Fausto:
O Estado Novo foi implantado no estilo autoritário, sem grandes
mobilizações. O movimento popular e os comunistas tinham sido
abatidos e não puderam reagir, a classe dominante aceitava o
golpe como coisa inevitável e até benéfica. O Congresso
dissolvido submeteu-se, a ponto de oitenta de seus membros irem
levar solidariedade a Getúlio, a 13 de novembro, quando vários de
seus colegas estavam presos (1995, p. 365).
Os importantes atores políticos que foram os advogados, professores de
Direito e juristas foram relativamente subalternizados no período seguinte,
sobretudo após 1937 com a instalação de um governo ditatorial, muito embora
fizessem parte da elite dominante que apoiou Getúlio.
O Poder Judiciário perdeu muito de sua autonomia e possibilidade de
interferência na política visto que o projeto liberal perdeu espaço. Ainda assim foi
peça importante do jogo político do Estado Novo. Paulo Alves, em seu ensaio “O
Poder Judiciário no Estado Novo (1937-1945) diz que ...o projeto político de
Getúlio Vargas, alterando a ordem constitucional do País, implicava a
subserviência do Congresso Nacional, dos partidos e também da colaboração do
Judiciário, a fim de viabilizar a instauração do Estado autoritário. (1993, p. 270).
187
Mesmo sem grandes mudanças estruturais, a legislação imposta pelo
governo autoritário, deu nova orientação às atividades judiciárias e policiais no
período. A Constituição de 1937 previa a reeleição do presidente da República
por períodos sucessivos tornado-a legal, previa também a possibilidade do
Executivo baixar decretos-leis concentrando o poder de legislar e retirava da
esfera do Judiciário o caráter de julgar a constitucionalidade das leis.
Um tribunal de exceção, o Tribunal de Segurança Nacional, que já havia
sido criado em 1936 após o episódio da “intentona comunista”, foi transformado
em Tribunal de Justiça Especial e durou de 1938 a 1946. Era presidido por um
ministro do Supremo Tribunal Federal nomeado pelo presidente da República e
suas sentenças não eram passíveis de recursos.
No nível dos estados e municípios, os interventores nomeados pelo
presidente da República possuíam plenos poderes de atuação no âmbito da
administração pública, podiam processar ou demitir funcionários que fossem
suspeitos de participar de ações clandestinas ou desrespeitar superiores, também
suas decisões não eram passíveis de apelação nos tribunais de justiça estaduais.
Segundo Alves:
O Supremo Tribunal Federal foi, de certa forma, conivente com a
ordem jurídica que o Estado Novo implantou para o Brasil. O seu
papel histórico de defesa dos direitos dos cidadãos, os quais eram
atingidos pela repressão política do Governo Federal e dos
Estados, deixou de existir e não houve nenhuma reação por parte
dos magistrados que defendiam os princípios liberais no âmbito
do Judiciário no Brasil naquele momento da vida política brasileira
(1993, p. 258).
A subalternização do Poder Judiciário em relação ao Executivo não
contrariava essencialmente os interesses da elite dominante embora pudesse
188
causar alguns constrangimentos aos que defendiam o discurso explicitamente
liberal. Como seus legítimos representantes os magistrados foram auxiliares da
construção de um projeto forjado por uma parte da classe dominante que buscava
modernizar o país, promovendo um capitalismo nacional que tinha como suporte
as Forças Armadas, no âmbito estatal, e uma aliança com a burguesia industrial
e, com alguns setores da classe trabalhadora urbana, no âmbito da sociedade.
Boris Fausto aponta algumas características desse projeto:
...podemos dizer que, a partir de 1930, ocorreu uma troca da elite
no poder sem grandes rupturas. Caíram os quadros oligárquicos
tradicionais, os “carcomidos da política”, como se dizia na época.
Subiram os militares, os técnicos diplomados, os jovens políticos
e, um pouco mais tarde, os industriais. {....} Um novo tipo de
Estado nasceu após 1930, distinguindo-se do Estado oligárquico
não apenas pela centralização e pelo maior grau de autonomia
como também por outros elementos. Devemos acentuar pelo
menos três dentre eles: 1. a atuação econômica, voltada
gradativamente para os objetivos de promover a industrialização;
2. a atuação social, tendente a dar algum tipo de proteção aos
trabalhadores urbanos, incorporando-os, a seguir, a uma aliança
de classes promovida pelo poder estatal; 3. o papel central
atribuído às forças Armadas – em especial o Exército – como
suporte da criação de uma indústria de base e sobretudo como
fator de garantia da ordem interna (FAUSTO, 1995, p. 327).
Entre 1920 e 1940, em meio a conflitos sociais e políticos e sob mais de
uma década de ditadura, o Brasil mudou muito, a população saltou de 30,6 para
41,1 milhões, reduziu-se sensivelmente a entrada de imigrantes no país e a
substituição da mão-de-obra se deu pelas migrações internas.
O Estado passou a desempenhar um novo papel na economia 45. Os
investimentos estatais deram origem a uma indústria de base nas áreas de
metalurgia, mecânica, geração de energia, material de transporte, entre outras.
45
Para mais dados sobre esse novo papel ver o importante estudo de Alberto Cignolli intitulado Estado e
Força de Trabalho: introdução à política social no Brasil (CIGNOLLI, 1985).
189
Um processo de substituição de importações ocorrido primeiramente em
decorrência da crise de 1929 e mais tarde, em novo ciclo, pela Segunda Guerra
Mundial, auxiliou a expansão inicial da indústria nacional.
Na área social, investimentos estatais na educação, por exemplo, fizeram
saltar o número de alunos matriculados nas escolas públicas de 1.739.613 em
1933 para 2.740.755 em 1945. Nessa área instituiu-se também o ensino
profissionalizante com a criação de escolas técnicas federais e com a
obrigatoriedade das indústrias e dos sindicatos oferecerem cursos
profissionalizantes.
À criação do sistema previdenciário e de um sistema de saúde vinculado,
voltado para os trabalhadores, somou-se a organização da legislação trabalhista,
sindical e a decretação do salário mínimo como forma de organizar e disciplinar a
vida da classe trabalhadora que daria suporte ao processo de industrialização.
Um sistema de habitação e de assistência social voltado aos trabalhadores
também estava vinculado aos sindicatos e ao sistema previdenciário, mas, além
disso, o governo criou em 1938 o Conselho Nacional de Serviço Social e, no início
da década de 40, o Departamento Nacional da Criança, órgão responsável pela
coordenação das ações dirigidas à criança e à família vinculado ao Ministério da
Educação e Saúde, e mais uma importante instituição, a Legião Brasileira de
Assistência – LBA, tudo com vistas a promover e organizar a assistência social
pública.
O discurso de proteção social ganhou espaços entre os representantes
políticos da nova ordem social estabelecida a partir de 1930, e a interpretação dos
problemas dos menores passou a ser feita com base nessa ótica. A própria
190
Constituição de 1937 introduziu em seu artigo 127, o dever do Estado de prover
condições à preservação física e moral da infância e da juventude e o direito dos
pais miseráveis de invocar o auxílio do Estado para garantir a subsistência de sua
prole. Sobre esse novo enfoque Irene Rizzini diz:
O reconhecimento da situação da infância como um problema
social é explicitado nos discursos e nas leis, como conseqüência
óbvia da situação generalizada de pobreza da população. Neste
sentido, a conotação jurídica implícita na descrição do problema
dos menores (abandonados e delinqüentes), cede espaço para
uma caracterização de cunho social da infância e da adolescência
{...} A família, sobretudo a família do trabalhador, será o foco da
ação assistencial e legal que se desenvolve, através de medidas
macro, de abrangência federal, em torno da legislação
previdenciária e organização do sistema de pensões e
aposentadorias, consolidação das leis trabalhistas, refletindo a
intenção de combater os problemas mais prementes de miséria e
marginalização que atingiam grande parte da população (1995, p.
136).
Para a construção ideológica dessa orientação contribuiu, e muito, a ação
da Igreja Católica nesse período. A relação entre a Igreja e o Estado, que desde
meados da década de 20 já havia sido bastante estreitada, superando o laicismo
do período inicial da República, estreitou-se ainda mais após 1930. O Estado
passou a reconhecer o poder da Igreja como força social que poderia
desempenhar importante papel nos momentos críticos por que passava o novo
regime e, aos poucos, foi multiplicando as suas demonstrações de boa vontade
contemplando reivindicações como a introdução do ensino religioso facultativo
nas escolas públicas, por exemplo. A Igreja, por sua vez, mobilizou amplamente a
opinião pública católica em favor do novo regime e reorganizou o movimento
católico leigo com o intuito de formular um projeto afinado com as Encíclicas
191
Sociais, buscando disputar com o Estado um papel na condução da vida social do
país.
Uma gama de organismos foi criada pelo movimento leigo da Igreja
Católica a partir de 1932. Dentre estes organismos estão os Círculos Operários, o
Centro Dom Vital, a Ação Universitária Católica. Em 1935, a Ação Social Católica
Brasileira é fundada buscando-se exercer uma função centralizadora do
apostolado social. Desse amplo movimento surge a primeira Escola de Serviço
Social em 193646.
A proposta política da Igreja Católica baseava-se na recristianização da
sociedade, concebendo uma outra via para o capitalismo ...em que o liberalismo é
substituído pelo comunitarismo ético cristão (IAMAMOTO E CARAVALHO, 1982,
p. 162).
Dando seu apoio ao regime e ao mesmo tempo organizando o seu
movimento leigo, a Igreja Católica ampliou significativamente os seus espaços de
atuação durante todo o período em que durou o Estado Novo. Raul de Carvalho,
em seu estudo sobre “Aspectos da História do Serviço Social no Brasil (1930-
1960)” ([Link]), caracteriza a Ação Católica nesse período essencialmente como
um movimento reacionário e estabelece a proximidade de seu ideário com o
fascismo que inspirava também o getulismo. Igreja Católica e Estado estavam,
descontadas algumas divergências, imbuídos do mesmo propósito no que diz
respeito ao controle das massas de trabalhadores.
46
Conquanto o surgimento da Escola de Serviço Social esteja vinculado ao movimento de ação católica, é
necessário ressaltar que o espaço que se cria na divisão sociotécnica do trabalho para a profissão implica a
consideração desse outro movimento do qual estamos tratando, que é – e isso é o mais importante - a
intervenção do Estado nas políticas sociais. Para aprofundamento do tema ver IAMAMOTO e CARVALHO
(1982) e NETTO (1992).
192
3.1.2. As primeiras inter-relações com o Serviço Social
A Lei 2.059 de 31 de dezembro de 1924 que previa a criação do Juízo
Privativo de Menores na cidade de São Paulo estabelecia, em seu artigo 3º, como
este deveria se organizar para o cumprimento de suas atribuições:
Artigo 3º - O juízo privativo de menores se comporá, além do
respectivo juiz, dos seguintes funcionários:
1 curador e promotor;
1 médico;
1 escrivão;
1 escrevente habilitado;
3 comissários de vigilância (2 homens e 1 mulher);
2 officiaes de justiça;
1 servente e porteiro.
De acordo com o artigo 7º o juiz, o curador, o médico e o escrivão seriam
nomeados livremente pelo governador do Estado e os demais funcionários
nomeados diretamente pelo juiz. Ainda nessa mesma lei foram definidas as
atribuições do juiz, do curador, do médico e dos comissários, dentre as quais
destacaremos as duas últimas pela vinculação que terão com as atividades do
Serviço Social, anos mais tarde.
Assim, de acordo com o Artigo 5º - Ao médico incumbirá proceder a todos
os exames periciaes e observações dos menores sujeitos às decisões do Juízo, e
fazer às pessoas das famílias dos menores as visitas necessárias para as
investigações dos antecedentes hereditários e pessoaes dêstes.
A inserção do médico no corpo auxiliar do Juízo estava relacionada à
importância que era dada na época à hereditariedade e à eugenia. Os estudiosos
da hereditariedade defendiam que os filhos tendem a ser semelhantes aos pais,
193
que transmitem as características boas e más, inclusive as referentes à
personalidade e tendências de comportamento. Já a eugenia buscava a formação
de gerações sadias através da escolha de parceiros compatíveis, defendendo a
realização de exames pré-nupciais e outros instrumentos da medicina para evitar
a degeneração dos indivíduos através das gerações47.
No caso dos comissários, era-lhes atribuída uma função fiscalizadora,
claramente de natureza policial, como se pode observar no texto da lei:
Artigo 6º - Aos comissários de vigilância caberá procederem a
tôdas as investigações concernentes aos menores, ao meio em
que êstes viverem e às pessoas que os cercarem; deterem ou
apreenderem os menores abandonados ou delinqüentes,
apresentando-os ao juiz; cumprirem as determinações e ordens
que por êste lhe forem dadas.
§1º - Os comissários de vigilância serão de imediata confiança do
juiz.
§ 2º - Poderão ser admitidos como comissários, voluntários ou
gratuitos, pessoas de um ou outro sexo, que, pelo mesmo juiz,
foram consideradas idôneas.
O Decreto 3.828 de 25 de março de 1925 que regulamentava essa lei
reiterava todos os cargos e funções descritas e, no que diz respeito aos
comissários, detalhava mais a questão do státus funcional dos colaboradores não
remunerados. O texto do decreto diz ....como comissários de vigilância servirão
os officiais de justiça ou pessoas idôneas que, voluntariamente e sem retribuição,
a isso se prestem (Artigo 43). Ao que tudo indica, juntamente com os comissários
remunerados, eram recrutados outros, não-remunerados, para o exercício da
47
A eugenia surgiu como uma doutrina no final do século XIX e foi amplamente difundida no início do
século XX na Europa e nos Estados Unidos. Os estudos eugênicos serviram de base para encobrir ódios
raciais e étnicos, sendo a mais emblemática de todas as cruzadas eugênicas a empreendida pelos nazistas em
sua busca da raça matriz, na primeira metade do século XX, gerando a morte e esterilização de centenas de
milhares de alemães e posteriormente de judeus.
194
mesma função e até mesmo outros funcionários do Juízo, como os oficiais de
justiça, podiam realizar tal tarefa.
O Comissariado de Menores, como passou a ser chamado o corpo de
comissários alguns anos mais tarde, exerceu atividade essencial ao desempenho
das funções do Juízo desde o início de sua implantação. As tarefas de vigilância e
fiscalização sempre ocuparam grande espaço dentro das atividades do Juizado
naqueles anos.
Até meados da década de 30 o Juizado de Menores de São Paulo - e do
Rio de Janeiro também - baseava a sua intervenção nas grandes campanhas de
recolhimento de menores das ruas e de locais considerados impróprios. Boa parte
desses menores era devolvida às suas famílias e outra parte era encaminhada
para as instituições assistenciais que funcionavam em convênio com o próprio
Juizado, articulador de todo o sistema de recolhimento e internação.
Em 1935, através da Lei 2.497 de 24 de dezembro, foi criado o
Departamento de Assistência Social do Estado de São Paulo. Segundo Raul de
Carvalho, foi a primeira iniciativa desse gênero no país e a ele competia, além de
outras funções ...a estruturação dos Serviços Sociais de Menores, Desvalidos,
Trabalhadores e Egressos de reformatórios, penitenciárias e hospitais e da
Consultoria Jurídica do Serviço Social (IAMAMOTO e CARVALHO, 1982, p. 178).
Sua criação marcou o início da estruturação de uma política assistencial no
Estado de São Paulo que, a esta altura, já era o mais rico do país48.
48
Esse movimento ocorreu também no Rio de Janeiro, porém um pouco depois. Segundo Irma Rizzini o
governo federal criou o Serviço de Assistência ao Menor – SAM em 1941 no Distrito Federal com o objetivo
de centralizar a assistência ao menor. Ela diz que ...com a criação do Serviço de Assistência ao Menor
(SAM), em 1941, pelo Governo de Getúlio Vargas, as funções de organizar os serviços de assistência, fazer o
estudo e ministrar o tratamento aos menores, foram retiradas da alçada dos juízes. Mantiveram-se a cargo
195
Desde o início, o Comissariado esteve fortemente ligado ao Departamento
de Assistência Social e, não obstante estar vinculado à estrutura do Juízo de
Menores, passou a ser dirigido e organizado pelo Departamento de Assistência
Social, numa relação que começou a criar alguns problemas com o mesmo Juízo
de Menores, que até então era o único responsável pelas diretrizes no
atendimento aos menores.
À medida que os serviços de assistência social começavam a ser
organizados pelo Executivo, relações dúbias e conflituosas de poder passaram a
se estabelecer entre o ele e o Judiciário. Exemplo disso foi a reação do juiz de
menores da capital à ingerência do Departamento no Comissariado.
Em 1937 tramitava na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo um
projeto que visava reorganizar o Departamento Estadual de Assistência Social e a
Justiça de Menores. Esta iniciativa era uma clara evidência de conflitos, uma vez
que o Departamento havia sido criado há pouco mais de um ano. O então juiz de
menores da capital, Dr. Eduardo de Oliveira Cruz, apresentou suas sugestões ao
projeto dando ênfase à questão da organização do Comissariado e aos
problemas de relacionamento com o Departamento de Assistência Social. No
texto introdutório à sua proposta de reformulação da lei ele tece considerações
sobre a atuação do Comissariado:
....o Commissariado Geral de Menores, apezar da sua
dispendiosa organização, insufficiente, entretanto, para
desempenhar a sua finalidade, nos termos da lei, com dispensa
do auxílio da policia, tornou-se um verdadeiro entrave ao bom
andamento dos trabalhos affectos ao Juízo de Menores.
Além disto, com relação à organização do Commissariado, não
está certa a orientação adoptada, porquanto, estabelecendo a lei
destes a “fiscalização do regime disciplinar e educativo dos internatos, de acordo com a legislação vigente”
.(Rizzini, 1995, p. 276)
196
que os funccionários contractados do Juízo de Menores serão de
immediata confiança do Juiz, deveriam os mesmos ser nomeados
por indicação do Juiz, o que tem sido feito, entretanto, a sua
completa revelia (CRUZ, 1937. Do arquivo pessoal de Therezinha
Z. Davidovich).
Em sua proposta de texto legal o juiz dedica oito artigos ao Comissariado
propondo o retorno da subordinação direta ao Juiz de Menores, a remuneração
de todo o quadro - que deveria ser, segundo sugeria, de 25 comissários e mais
um comissário geral -, e a transferência dos comissários em exercício até então
no Departamento de Assistência Social para outras repartições. Ele conclui suas
considerações no texto introdutório dizendo o seguinte:
Com o augmento do numero de commissarios, devidamente
remunerados, sob a direcção e orientação exclusiva do Juiz de
Menores, fácil será a fiscalisação do Juizo com relação aos
cinemas, theatros, circos e mais diversões públicas, bem como a
vigilância dos menores nas ruas e praças da Capital. O
Commisariado gratuito, em grande escala, só é prejudicial ao
serviço e ao bom nome do Juízo de Menores (idem).
Com a organização dos serviços sob a égide do Poder Executivo, o Poder
Judiciário perdeu espaços na condução das diretrizes da, ainda incipiente, política
para a área. O Juizado continuou mantendo algumas de suas funções,
principalmente no que diz respeito ao delinqüente. O Decreto Estadual nº 9744 de
19 de dezembro de 1938, por exemplo, autorizava a criação, nas sedes das
comarcas, do Recolhimento Provisório de Menores ...destinado a secundar o
trabalho dos juízes (MEIRELES, 1952, p. 38). Porém, quando foi criado o
Recolhimento Provisório de Menores – RPM na Capital, ele passou a funcionar
como casa de recepção e triagem, voltada prioritariamente para adolescentes que
197
cometiam delitos, vinculado ao Juizado, mas sob a direção do Serviço Social de
Menores.
Voltando às críticas do Juiz Oliveira Cruz, é interessante observar na sua
proposta alternativa ao projeto de reorganização do Departamento de Estado de
Assistência Social e do Juizado de Menores, que segundo ele mesmo, ... nada
mais é do que a reprodução, em resumo, do estabelecido no Dec. nº 3.828, de 25
de março de 1925 (idem). De acordo, então, com a proposta do juiz, o Juízo
mudaria a sua composição passando a ser assim constituído:
O Juizo Privativo de Menores comprehenderá:
a) um Juiz de Menores;
b) um Juiz Adjuncto;
c) um Curador de Menores;
d) um Cartório {com seus respectivos funcionários},
e) um Commissariado Geral de Menores,
f) um Serviço Social de Assistência e Protecção aos Menores.
Mesmo em se tratando de uma proposta, o fato de ser formulada pelo
titular do Juízo confere a ela uma grande importância. A proposta sugere que,
para o juiz, esta seria a melhor estrutura de funcionamento.
Assim podemos perceber que a figura do médico, prevista na lei inicial,
seria abolida indicando que este já não exercia função importante no Juizado 49. O
Comissariado ganharia státus de setor e a referência ao Serviço Social de
Assistência e Proteção aos Menores, que compreenderia o Abrigo de Menores e
demais estabelecimentos de proteção e reforma, demonstra a intenção de manter
49
Segundo Irma Rizzini, em São Paulo havia na década de 30 o Instituto de Pesquisas Juvenis ...cuja
finalidade era efetuar pesquisas e investigações referentes aos problemas pedagógicos e de reeducação da
criança, que é estudada em seus aspectos biológico e social , tendo ainda medidas e instituição de
psicotécnica e de orientação profissional (1995, p. 265). No entanto, não existem registros nos documentos
por nós pesquisados de que os serviços de tal instituto tenham sido utilizados em grande escala pelos juízes
de menores.
198
sob a estrutura e subordinação do juiz de menores algumas instituições que
começavam a sofrer a intervenção da ação centralizadora e normativa do
Executivo.
Os primeiros contatos do Serviço Social, enquanto profissão, com o
Juizado de Menores em São Paulo50 deram-se mediante o Comissariado de
Menores justamente nesse período em que ele está vinculado ao Departamento
de Assistência Social do Estado. Raul de Carvalho, tratando dos campos de ação
e prática dos primeiros assistentes sociais, diz:
No Departamento de Serviço Social do Estado de São Paulo, a
mais ampla instituição de Serviço Social existente nesse
momento, os Assistentes Sociais atuarão como comissários de
menores no Serviço Social de Menores – menores abandonados,
menores delinqüentes, menores sob tutela da Vara de Menores,
exercendo atividades no Instituto Disciplinar de Serviço Social (do
Departamento de Serviço Social) no campo da “Assistência
Judiciária a fim de reajustar indivíduos ou famílias cuja causa de
desadaptação social se prenda a uma questão de justiça civil” e,
enquanto pesquisadoras sociais (o maior contingente de
Assistentes Sociais) e nos serviços de plantão. Além dos serviços
técnicos, de orientação técnica das Obras Sociais, estatística e
Fichário Central de Assistidos (IAMAMOTO e CARVALHO,1982,
p. 195).
Os protestos do Juiz Oliveira Cruz decerto não tiveram muito eco na época,
pois o Executivo, fortalecido pelo regime ditatorial que se instalava, continuou a
legislar sobre a questão. Em 1938, o Decreto (o de n. 9744 de 19-11-38), que
50
No caso do Rio de Janeiro, esse contato entre o Juizado de Menores e o Serviço Social nascente é ainda
mais estreito. O Juízo de Menores do Rio de Janeiro é o responsável pela criação, em 1938, da Escola
Técnica de Serviço Social em razão de suas necessidades específicas. Esta, juntamente com outras duas
iniciativas – uma da ação social da Igreja Católica e outra da Escola de Enfermagem Ana Nery – vão
constituir os cursos que darão início ao Serviço Social no Distrito Federal. O Juízo de Menores figura, junto
com a Prefeitura da cidade, como os primeiros órgãos públicos a empregar assistentes sociais. Em 1939 os
assistentes sociais diplomados pelo Instituto Social foram declarados aptos pelo Ministério do Trabalho para
atuarem como fiscais do trabalho de mulheres e menores. Para maiores informações ver “O Serviço Social
no Rio de Janeiro e a Sistematização da Atividade Social”, de Raul de Carvalho In: (IAMAMATO e
CARVALHO: 1982, p 183-191).
199
reorganizou o Serviço Social de Menores, determinou que os cargos de subdiretor
de vigilância, de comissários de menores e de monitores de educação passariam
a ser privativos de assistentes sociais. (idem, p. 192).
As funções de fiscalização e vigilância, seja de menores em situação de
abandono, de delinqüência, seja do trabalho do menor - que naquela época
começavam a ser normatizados pelo Estado - eram atividades exercidas
primordialmente pelo Comissariado de Menores. No entanto esta era uma forma
de ação tradicional e bastante conhecida do Judiciário brasileiro a qual, vinculada
às funções judicantes e policiais e à ação de fiscais da ordem pública,
subordinados ao juiz, remonta ao período colonial. É possível que também por
isso o Juízo reivindicasse a permanência desse organismo sob sua subordinação.
A introdução de assistentes sociais no exercício dessa função buscava
atenuar o seu caráter eminentemente policial, dando-lhe uma conotação técnico-
profissional e protetiva. Porém, o Juízo de Menores da Capital não partilhava
dessa opinião, dando preferência à constituição de um corpo de comissários “de
sua confiança” e sob sua subordinação. No entanto, a atuação dos comissários
voluntários e “de confiança do juiz” foi sempre alvo de críticas e fonte de
problemas para os juízes, como veremos mais adiante.
3.1.3. O período democrático e a retomada do protagonismo do Juizado
de Menores
O quadro político estabelecido na segunda metade da década de 1940,
com o fim da ditadura de Vargas, possibilitou a retomada de algumas discussões
200
na área da infância e juventude, novamente protagonizadas pelo Judiciário.
Mesmo mantida a influência do getulismo, que ditava os parâmetros das
discussões político-partidárias naquele período, respiravam-se ares de maior
liberdade tendo-se aberto espaço para as discussões dos problemas sociais em
geral.
Em 1948, o Comissariado volta à subordinação do Judiciário. A Lei nº
106/48 determinou que o Comissariado de Menores, antes vinculado ao Serviço
Social de Menores, retornasse à subordinação direta do Juizado de Menores,
indicando que o Judiciário retomava algumas de suas prerrogativas estabelecidas
em lei.
Porém, o mais importante movimento ocorrido em nível nacional sobre o
tema nesse período foi o que originou as Semanas de Estudos do Problema de
Menores. A I Semana de Estudos do Problema de Menores ocorreu em 1948 51
promovida pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, através do Juizado
de Menores da Capital, pela Procuradoria Geral do Estado e pela Escola de
Serviço Social.
Segundo Eunice Therezinha Fávero, que estuda a implantação do Serviço
Social no Poder Judiciário no seu livro Serviço Social, práticas Judiciárias, poder,
as Semanas foram ...um esforço de setores do Estado e da sociedade no sentido
do debate sobre questões referentes à problemática do menor e busca de
soluções práticas para o enfrentamento da mesma (FÁVERO: 1996, p. 50).
51
Foram realizadas ao todo 13 Semanas de Estudos do Problema de Menores, a primeira em 1948 e a última
em 1983. No entanto as oito primeiras que foram realizadas entre 1948 e 1958 tiveram uma importância
maior, pois eram protagonizadas pelas forças políticas que podiam determinar a política de menores na
época.
201
Nessa época, a Escola de Serviço Social contava já com doze anos de
existência e o Serviço Social, como profissão, possuía campos ou áreas de
intervenção profissional que eram consideradas prioritárias. Raul de Carvalho diz
que no final de1947, mais da metade das formandas da Escola já ocupavam
cargos de assistente social e outra parte era funcionária de instituições da
Previdência Social. Ele diz:
Já nesse momento, para os Assistentes Sociais não se colocava
um problema de mercado de trabalho – estando inclusive diversas
pioneiras em cargos de direção e organização, ou de docência –
mas de luta pelo reconhecimento da profissão e pela
exclusividade, para diplomados, das inúmeras vagas que se
foram abrindo no serviço público ou instituições para-estatais e
autarquias, no campo dos serviços sociais (IAMAMATO E
CARVALHO, 1982, p. 191).
A área de menores era uma das áreas consideradas como campo
profissional para os assistentes sociais que, em São Paulo, atuavam diretamente
nos equipamentos do Serviço Social de Menores, no Departamento de Serviço do
Estado e nas várias entidades filantrópicas que mantinham convênios com ele. A
discussão do tema e o engajamento da Escola de Serviço Social em movimentos
que se propusessem a discutir a questão era natural.
Além disso, o movimento que deu origem às Semanas envolvia uma série
de personalidades vinculadas à Igreja Católica, com influência tanto no Serviço
Social como no meio judiciário, dando-lhe uma sustentação política e ideológica.
No discurso de Abertura da I Semana o então subprocurador geral da
justiça e presidente da Associação Paulista do Ministério Público, Dr. João Batista
de Arruda Sampaio, um dos organizadores do evento (os demais eram o
presidente do Tribunal de Justiça Desembargador Theodomiro Dias, o juiz de
202
menores Dr. Ulisses Dória e as representantes da Escola de Serviço Social,
Professoras Helena Iracy Junqueira e Odila Cintra Ferreira) apontava as
vinculações políticas desse movimento:
Iniciada pelo Exmo. Sr. Presidente da República, a campanha
pela redenção da criança brasileira e anunciada pelo Exmo.
[Link] da Justiça, a atualização do Código de Menores e leis
complementares, pareceu ao grupo Economia e Humanismo,
constituído nesta Capital, à luz da doutrina cristã e sob a
inspiração dos ensinamentos do Padre Lebret, que seria
oportuno, pela sua Comissão Jurídica, tomar o encargo de
oferecer alguma contribuição ao estudo do problema de menores
abandonados e delinqüentes (SAMPAIO, 1948, p. 11).
Segundo Fávero “Economia e Humanismo” era um movimento que
mantinha, entre outras atividades um departamento de pesquisas denominado
Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos
Sociais – SAGMACS, que foi o responsável pela realização de uma ampla
pesquisa sobre menores publicada na revista Serviço Social e que serviu de base
para as discussões da I Semana. O SAGMACS buscava utilizar métodos
objetivos de análise, realizava pesquisas sistemáticas sobre o que considerava
serem os principais problemas humanos e intervinha com o fim de realizar ações
para sua solução.
A autora ressalta que, muito embora os membros do Judiciário
mantivessem uma posição formal de neutralidade com relação a partidos
políticos, em seu discurso ficava clara a vinculação com o projeto político da
Igreja Católica. Já, alguns quadros profissionais do Serviço Social não omitiam
sua vinculação com o Partido Democrata Cristão do qual participavam Helena
Iracy Junqueira e José Pinheiro Cortez, figuras fundamentais na construção do
203
projeto de intervenção do Serviço Social no Juizado de Menores. Analisando os
depoimentos dos dois assistentes sociais citados, Fávero diz:
Embora o discurso dos organizadores das Semanas de Estudos
fosse permeado pelo ideário da justiça social, numa clara alusão à
democracia cristã, os mesmos, segundo Helena Iracy Junqueira,
não tinham – enquanto organizadores -, nenhuma relação com a
política partidária ou com o Partido Democrata Cristão, ao qual ela
própria era vinculada. {...} Por sua vez, José Pinheiro Cortez
avalia que a participação no Partido Democrata Cristão
influenciou sua entrada no Juizado, havendo também influência
deste Partido na promoção das primeiras Semanas de Estudos e
na elaboração e implantação da Lei de Colocação
Familiar...(1996, p. 53).
Tal projeto de intervenção assentava-se na idéia de que os problemas dos
menores tinham como causa o desajustamento familiar. Este foi o tema da
palestra proferida por Odila Cintra Ferreira, na abertura da I Semana, como
representante da Escola de Serviço Social. Na ocasião ela disse:
O problema é tanto mais relevante quando todos nós sabemos
que o conceito “Família como célula básica da sociedade” não é
mero “slogan” para engodo das massas, pois que a ela compete
função primordial de proporcionar ao indivíduo o meio normal para
o seu desenvolvimento físico e psíquico.
Tanto assim que, aquilo que a criança encontrou ou deixou de
encontrar na família, em nenhuma outra instituição ela o obterá
em igualdade de condições (FERREIRA, 1948, p. 17).
A proposta que o Serviço Social indicava era que a saída para o problema
do menor consistia em auxiliar e reforçar a família como espaço privilegiado para
o ajustamento e o reajustamento do menor abandonado ou delinqüente. O
elevado índice de internações em abrigos e reformatórios era condenado e se
defendia a necessidade do desenvolvimento de programas preventivos que
pudessem fornecer às famílias as condições necessárias para que elas
204
exercessem o seu papel na sociedade a partir dos princípios cristãos. Tal
proposta ganhava importância diante do fato de que os abrigos e reformatórios
existentes vinham sendo sistematicamente criticados e noticiados na imprensa
pelas fugas e rebeliões, bem como pela incapacidade de dar um atendimento
humano aos seus internos.
Os discursos de Dna. Odila e do Dr. Arruda Sampaio eram convergentes,
ambos discorriam sobre os vários aspectos dos problemas do menor com base
em uma apreciação jurídica da questão, e trabalhavam com a idéia de
“momentos” em que o Juizado de Menores - como o agente central do processo
de intervenção nesses problemas, poderia atuar: o pré-judiciário (a prevenção do
problema), o judiciário (a adequação e aplicação da legislação a cada caso) e o
post-judiciário ( o acompanhamento).
Porém, enquanto Dna. Odila estava interessada em demonstrar em que
momentos o Serviço Social poderia contribuir com o Juizado de Menores, dando
ênfase ao momento pré-judiciário, isto é, à prevenção, o Dr. Arruda Sampaio
procurava justificar que a política de menores capitaneada pelo Executivo tinha
problemas e que o Juizado de Menores era o único capaz de conduzi-la com
propriedade. Em seu discurso ele dizia:
Dada a observação de que o problema {do menor} contém dois
pontos fundamentais: o social e o jurídico, era natural e lógico que
se examinassem, detidamente, êsses dois aspectos. De um lado,
se o desajustamento social se apresenta com feição mais grave
na Capital, ele existe também no interior do Estado. Observa-se,
entretanto, que as leis referentes à assistência aos menores teem
sido elaboradas por técnicos dos grandes centros, sem audiência
dos que devem aplica-la, resultando daí conflitos e ineficácia
absoluta de medidas legais, que não correspondem às
necessidades do meio. No entanto, dada a sua posição de mais
alta autoridade da comarca, está o Juiz de Direito em ótimas
205
condições de chefiar e orientar o movimento de proteção aos
menores, seja quanto ao seu aspecto jurídico, seja no plano mais
amplo de assistência social. Na verdade, a função do magistrado
não é apenas a judicante. Valiosa e decisiva é a sua ação social.
Cumpria, pois, ouví-lo. Pedir-lhe o indispensável depoimento
(SAMPAIO, 1948, p. 12).
Na continuidade de seu discurso o Dr. Arruda Sampaio deu inúmeros
exemplos de como os juizes e promotores tinham papel fundamental na criação
de entidades de assistência social pelo interior do Estado e deixava claro que o
movimento que gerava aquele evento tinha por objetivo reorganizar a intervenção
do Juizado na política de menores e contava com o apoio dos órgãos de cúpula
do Judiciário do Estado:
A Semana de estudos deveria ter se realizado em dezembro do
ano passado. Dada, porém, a falta do necessário preparo, ficou
adiada para estas férias. Contudo, numa demonstração
inequívoca de seu vivo interesse pelo empolgante tema, o Sr.
Desembargador Mario Guimarães {então Presidente do Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo}, no relatório que apresentou,
relativo aos trabalhos executados em 1947, dedicou-lhe especial
atenção, tecendo oportunas e judiciosas observações a propósito
de algumas respostas dos srs. juízes de direito. A seu ver, “o
problema precisa ser encarado de pronto e resolvido, com o
auxílio do Governo ou sem ele” (idem).
A Escola de Serviço Social, por sua vez, teve um importante papel no
auxílio ao Dr. Arruda Sampaio para a organização dessa I Semana e para dar
respostas aos seus desdobramentos. As assistentes sociais Maria Izabel Galvão,
Leopoldina Saraiva, Nair Coelho e Maria Olímpia de Andrade Morais foram
responsáveis pela análise de uma pesquisa realizada previamente junto aos
juízes e promotores de todo o Estado com relação aos problemas do menor. No
206
depoimento de Helena Iracy Junqueira fornecido a Fávero em 1994, essa
colaboração fica mais clara, ela diz:
A Escola ajudou muito na preparação, porque era alguma coisa
muito diferente dos hábitos e dos trabalhos do Tribunal. Na época
encontravam-se pessoas que tinham uma visão do social. Foi
realmente um trabalho de conscientização. Havia repercussão na
sociedade, em todo o Estado. Entidades que trabalhavam com
menores reconheceram a necessidade de se dar um melhor
preparo àqueles que trabalhavam com menores. A Escola
realizou um curso de dois ou três meses, para todas as entidades
que cuidavam de menores. Iniciou-se um processo de despertar,
de conscientizar, de provocar a melhor compreensão do problema
e a atitude, a ação, numa linha mais avançada, mais moderna.
Um dado que acho muito positivo, é que na primeira Semana,
quando os juízes se manifestavam, diziam: infelizmente eu não
tenho orfanato na minha comarca. Quando foi na segunda ou
terceira, foi muito interessante, pois vários deles diziam: agora
não há dúvida que a solução melhor não é o internato, não é isso
que nós precisamos, o melhor lugar é deixar na família. Quer
dizer que foi uma demonstração de assimilação mesmo da forma
de entender e procurar resolver o problema do menor. Houve uma
mudança de mentalidade por parte de juízes (apud FÁVERO,
1996, p. 53).
Como se pode observar pelo depoimento de Dna. Helena, o Serviço Social
desenvolvia uma proposta de intervenção profissional para ser realizada a partir
do Juizado. Esta proposta já se apresentava no discurso de Dna. Odila na
abertura da I Semana. Para ela, os problemas de desajustamento de menores
mereceriam a intervenção do Juizado quando requeressem uma intervenção nas
atribuições da família ou a sua substituição.
Ainda assim, o Juizado de Menores deveria tentar de todas as maneiras
preservar a família como o espaço para o reajustamento do menor, cabendo
assim uma diferenciação entre os três momentos que citamos anteriormente, o
207
pré-judiciário, o judiciário propriamente dito e o pós-judiciário. Explicando essa
idéia ela diz:
Assim sendo, e tendo em vista o papel primordial da Família na
vida do menor, é óbvio que as soluções mais perfeitas serão
aquelas que, de maneira mais rápida e completa conseguirão ou
prepararão a readaptação do menor ao meio familiar, ou a
situações que mais de perto dêle se aproximem, quando a família
não existe ou o ambiente familiar é prejudicial. Êsse trabalho de
readaptação tem que ser tentado antes de ser iniciada a ação
judiciária, deve inspirar a ação judiciária e precisa ser prosseguido
na ação post-judiciária (FERREIRA, 1948, p. 18).
Defendendo a ênfase na ação pré-judiciária, isto é, ...tentar soluções
sociais antes da abertura de um processo de menor, Dna Odila concluiu seu
discurso perguntando aos presentes:
1 - A atual legislação de Menores permite a separação entre a
ação pré-judiciária e a judiciária? Se não, há vantagem em
procurar consegui-la? 2 - Nas comarcas de grande movimento, é
possível colocar assistentes sociais sob a imediata dependência
do Juiz para desenvolver a ação social pré-judiciária – colher
dados para os processos na ação judiciária, dar os passos para
garantir a ação pré-judiciária. Os comissários de menores
realizam ou podem realizar essa função? Se não, como resolver a
questão? 3 O atual conceito de menor abandonado atende à
situação do nosso país? Há vantagem em restringir êsse
conceito? 4 – O problema da família econômicamente
necessitada deve continuar a ser solucionado através de
processos de abandono de menores (idem, p. 20).
No ano seguinte, em 1949, realizou-se a II Semana de Estudos do
Problema de Menores, organizada pelos mesmos agentes institucionais. Fávero
diz que na II Semana ...permaneceu a perspectiva da doutrina cristã permeando
cada discurso, cada proposta, com ênfase na necessidade de ampliar o
movimento de assistência social aos menores, numa direção de mudança de
208
mentalidade, de tomada de consciência para a realização da justiça social (1996,
p. 58).
Desta vez foi Dna. Helena Iracy Junqueira quem fez o discurso em nome
da Escola de Serviço Social no evento de abertura dos trabalhos, indo um passo
adiante na defesa da inserção do Serviço Social, como profissão, no Juizado de
Menores.
Dna. Helena defendia o deslocamento da visão eminentemente jurídica
para uma nova concepção “mais realista e humanista” do menor como um
problema social. Chamava a atenção para o fato de que esse deslocamento não
implicaria uma anulação do jurídico e nem uma redução do aspecto legal do
problema, ao contrário, indicava como uma tendência moderna a aplicação da
legislação de menores no intuito de ...ultrapassar as soluções meramente
jurídicas, em busca de uma solução social e quanto possível familiar
(JUNQUEIRA, 1949, p. 333).
Propunha o apoio às famílias ou, em caso em que estas não existissem,
famílias substitutas, ao invés de internação, para os casos de menores
abandonados. Propunha também a reeducação e o reajustamento do infrator
sempre que possível no seu próprio meio. Em ambos os casos, defendia a
importância da individualização dos casos, não apenas para uma averiguação de
cada situação em particular, mas ... um verdadeiro estudo da situação, e
conseqüente interpretação seguida do plano de tratamento social que requer o
caso (idem). Ela dizia:
Antes de deliberar-se sôbre o destino de qualquer menor, é
necessário o estudo de seus antecedentes, de sua família, de seu
meio. Após o seu encaminhamento, seja para uma instituição,
209
seja para uma família, é preciso acompanhar-se o seu
desenvolvimento físico, intelectual e moral. É indispensável ainda
que se prepare o seu futuro profissional, que se lhe auxilie a criar
laços afetivos, relações com as famílias do seu próprio meio, para
que tenha o seu ambiente, para que não se torne isolado (idem, p.
334).
A abordagem individualizada de cada caso, proposta pelo Serviço Social,
vinha ao encontro da natureza própria da instituição judiciária numa associação
lógica e facilmente operacional. Na continuidade de seu discurso Dna. Helena
defendia a entrada do Serviço Social no Juizado:
A quem confiar esta tarefa que constitui, por assim dizer a ação
social do juizado de menores na sua fase pré-judiciária e judiciária
propriamente? Nas primeiras tentativas realizadas no século
passado, recorreu-se a sacerdotes, a professores, a membros de
associações assistenciais, etc., à medida que a função se foi
especificando e que o Serviço Social definiu-se como atividade
metódica e baseada em conhecimentos científicos, os tribunais de
menores passaram a valer-se dos Assistentes Sociais, que são os
agentes especializados do Serviço Social. Assim é que hoje, tanto
na Europa como nos Estados Unidos e vários países da América
do Sul, é ponto pacífico que o Assistente Social é um colaborador
indispensável à ação dos juizados de menores. As denominações
podem variar de país para outro como delegado do juízo de
menores, “probation officer”, comissário de menores, etc. (idem, p.
334).
Apesar do empenho de Dna. Helena, a contratação de assistentes sociais
pelo Juizado de Menores não se deu imediatamente, e sua proposta de
intervenção profissional não se operacionalizou naquele ano. Mas, na seqüência
da realização da II Semana foi criada uma comissão, para estudar a colocação
familiar como alternativa à internação e elaborar o projeto de uma lei para
operacionalizá-la. Dna. Helena, representando a Escola de Serviço Social, teve
participação importante nessa comissão.
210
3.2. A consolidação do Serviço Social no Poder Judiciário
3.2.1 O Serviço de Colocação Familiar
A comissão, além de Dna. Helena, era formada também pelo procurador
geral do Estado, Dr. João Batista de Arruda Sampaio e pelo deputado estadual
Monsenhor João Batista de Carvalho. Juntos eles elaboraram o projeto que foi
submetido à Assembléia Legislativa e aprovado, segundo Fávero (1996), em
tempo recorde: 20 dias. Dessa maneira foi sancionada pelo governador Adhemar
de Barros e entrou em vigor de imediato a Lei Estadual nº 560 em 27 de
dezembro de 1949, cujos dois primeiros artigos tinham o seguinte teor.
Artigo 1º Junto aos Juízes de Menores fica criado o Serviço de
Colocação Familiar, que tem por fim proporcionar, a menores
necessitados, ambiente favorável ao seu pleno desenvolvimento.
Artigo 2º São colocados em casas de família, a título gratuito ou
remunerado, menores de 0 (zero) a 14 (catorze) anos que, por
força de fatores individuais ou ambientais, não tenham lar ou nele
não possam permanecer.
A comissão que elaborou o projeto de lei tomou como referência as
experiências das “Placement en Foyes Nourriciers” dos franceses e da “Foster
Home Care” dos ingleses e americanos. Pelos princípios desses programas o lar
substituto deveria proporcionar uma vida familiar ao menor: segurança,
alimentação, abrigo, vestuário, hábitos sadios, recreação, vida em comunidade e
aprendizado moral e religioso. Segundo Fávero, a Escola de Serviço Social vinha
mantendo um intercâmbio profissional com os Estados Unidos através do qual foi
211
possível conhecer o programa de colocação em família substituta que eles
adotavam, e consideraram-no interessante. A autora diz ...vislumbrando, na
colocação familiar, uma alternativa para intervir mais amplamente – e de maneira
considerada segura e eficaz -, contra a internação e o abandono de menores, a
Escola de Serviço Social participou de forma decisiva na elaboração e
regulamentação dessa proposta (FÁVERO, 1996, p. 65).
A lei dava conta de definir quem poderia receber as crianças e quais suas
obrigações para com elas. Declinava a documentação a ser exigida da família e
instituía um acompanhamento a ser feito pelo Serviço de Colocação Familiar.
Definia também que, em caso de remuneração da família, o valor não poderia ser
superior a Cr$300,00 (trezentos cruzeiros) por menor52. A lei definia ainda, no
artigo 6º, como deveria ser organizado esse serviço:
Compete ao Juiz de Menores organizar, com funcionários do
Juízo ou com pessoas estranhas, o Serviço de Colocação
Familiar.
§ 1º - Os funcionários serão designados pelo Juiz sem prejuízo
das vantagens do cargo efetivo; e as pessoas estranhas servirão
a título gratuito, sendo o serviço considerado de relevante valor
social.
§ 2º - Além do pessoal previsto no parágrafo anterior, o Juiz
poderá requisitar ao Poder Executivo, os funcionários técnicos de
que necessite.
§ 3º - Os componentes do Serviço devem ser pessoas de
reputação ilibada e, sempre que possível, assistentes sociais
diplomados por Escola de Serviço Social ou professores,
educadores sanitários, ou orientadores educacionais, com
certificado de curso intensivo de serviço social ou de higiene
mental.
§4º - O Serviço terá sempre que possível uma clínica de
orientação juvenil ou um médico e um psicologista.
§5º - Na comarca de São Paulo, o chefe do Serviço, de
preferência assistente social diplomado por Escola de
52
Segundo Fávero, o salário mínimo à época era de Cr$360,00 (trezentos e sessenta cruzeiros), (idem, p. 66)
212
Serviço Social, será designado pelo Juiz de Menores {grifo
nosso}.
Num primeiro momento, já no ano de 1950, o Serviço de Colocação
Familiar foi implantado em caráter experimental no Juizado de Menores da
Capital, com duas assistentes sociais cedidas pela Legião Brasileira de
Assistência. Estas atendiam as pessoas que compareciam ao plantão do Juizado
de Menores que era de responsabilidade do Comissariado de Menores.
Durante a III Semana de Estudos do Problema de Menores, realizada no
mesmo ano, José Pinheiro Cortez, presidente do Instituto de Serviço Social,
proferiu uma palestra polêmica cujo tema era “A Colocação Familiar e a Lei 560”.
Inicialmente ele enfatizava a defesa da colocação familiar como estratégia de
atenção à infância abandonada e criticava a internação de menores em
instituições:
Desejaria lembrar tão somente que a condenação das instituições
de assistência aos menores é mais do que constatação de
imperfeições graves em seu funcionamento... tais defeitos
poderiam ser removidos. Condenamos os asilos, os orfanatos, os
reformatórios, porque eles não se assemelham ao ambiente
natural da formação da criança. Por melhor instalado, grandiosos
que sejam os edifícios, mais perfeita a administração, nada
substituirá a família, ainda que pobre, sem grandes recursos
financeiros, sem grande instrução de seus membros (CORTEZ,
1950, p. 381).
Na seqüência criticava aspectos da lei nº 560 antevendo alguns problemas
para sua operacionalização tais como as diferenças existentes entre a realidade
da capital e do interior não contempladas pela Lei e o excesso de documentação
exigida das famílias. Tecia comentários sobre a importância de uma organização
213
séria do serviço sugerindo um funcionamento precário do serviço naquele seu
início de atividades:
...quero porém reafirmar o escopo do trabalho que supõe
pacificamente aceita a superioridade da colocação familiar e a
existência da lei. Com algumas falhas, ela já é um esplêndido
passo no sentido do progresso da orientação assistencial do
Estado e cumpre agora, em primeiro lugar, realiza-la. Sua sábia
aplicação contornará pequenos defeitos; sua não aplicação irá
aumentar o acervo das boas, mas inúteis leis que nós temos
(idem, p. 384).
O desdobramento imediato de seu pronunciamento durante a III Semana
foi o convite para chefiar o Serviço de Colocação Familiar. Em 30 de novembro
de 1950, ele assumiu o encargo em caráter voluntário. Em depoimento dado a
Fávero, Cortez aborda o episódio tecendo o seguinte comentário:
Minha palestra, no fundo, criticava o não cumprimento da lei, só
que não foi muito bem entendida. Então, um pouco ironicamente,
a título de represália, um juiz de menores convidou-me para por
em prática aquilo que eu tinha criticado. Na época eu estava
como chefe de gabinete do presidente da Assembléia Legislativa
– o presidente era Franco Montoro. Então comecei a trabalhar
voluntariamente na Lei 560. (apud FÁVERO, 1996, p. 72)
José Pinheiro Cortez organizou, de fato, o serviço que passou a funcionar
com uma assistente social encarregada do plantão e de visitas - Nair Coelho –,
uma assistente social encarregada dos serviços administrativos (o que incluía a
administração das verbas do setor) – Severina Basile -, e duas professoras
comissionadas exercendo função de visitadoras domiciliares. Em 1951, dados
apresentados na IV Semana de Estudos do Problema de Menores dão conta de
que o programa começava a funcionar: eram 34 casos atendidos na capital e
outros 136 processos em andamento (idem, p. 73).
214
Ainda na IV Semana, a de 1951, um juiz, o Dr. Aldo de Assis Dias, da
comarca de Capivari, interior de São Paulo, proferiu uma palestra demonstrando
notável conhecimento dos problemas dos menores e das famílias de sua
comarca. Relatou a experiência dele e de seu colega da comarca de Dois
Córregos, na instalação de um Serviço de Colocação Familiar nas suas
respectivas comarcas. Chamava a atenção para as diferenças entre a realidade
da capital e do interior, tais como: a falta de entidades de atendimento, a
necessidade do Tribunal de Justiça dotar as comarcas do interior de verbas para
a execução desses serviços, a necessidade de profissionais especializados no
interior. Mostrando já os primeiros resultados de sua arrojada empreita em
confronto com a fragilidade dos serviços sociais existentes no interior do Estado,
o Dr. Aldo dizia:
Na comarca onde exerço a minha jurisdição não existe nenhuma
instituição que se incumba única e exclusivamente, de assistência
à família, existindo apenas uma Associação de Proteção à
Infância e à Maternidade, sob cuja direção funciona o Pôsto de
Puericultura local, sendo que as famílias necessitadas, com
menores de 0 a 14 anos, antes da organização do Serviço de
Colocação Familiar, não recebiam, de forma eficiente e
permanente, qualquer espécie de assistência, quer da Legião
Brasileira de Assistência, quer da Assistência Social do Estado. A
esse respeito, penso, com a devida vênia, que com a organização
e o perfeito funcionamento do “Serviço de Colocação Familiar”, de
forma a assistir e a amparar a família-substituta e a família-
origem, em igualdade de condições, de forma que, por intermédio
da mencionada lei, possam ser exercidas, conjuntamente, tanto a
ação recuperativa, como a ação preventiva, não haverá
necessidade de se criar instituição que socorra as famílias
necessitadas, pois os esforços e trabalho de todos, quer do
Estado, quer das autoridades, quer de todas as pessoas de boa
vontade de cada município, poderão ser conjugados, para o
futuro, para o maior êxito e para a completa vitória do referido
Serviço, que, destarte, atenderia, com a mesma amplitude e
eficácia, não só os casos de colocação familiar, como os casos de
215
socorro às famílias necessitadas, com filhos menores de 0 a 14
anos (DIAS, 1952, p. 533).
Sua proposta era aproveitar-se de uma “brecha” da lei nº 560 que permitia,
através do artigo 13, que em não havendo na comarca instituição que atendesse
à família, o juiz poderia estender o benefício da remuneração à própria família de
origem da criança, desde que necessitada. Criada para casos excepcionais,
segundo o Dr. Aldo, essa possibilidade deveria transformar-se em rotina, dado
que ao Estado caberia ...a obrigação de educar e amparar economicamente a
família de prole numerosa e que luta com as dificuldades materiais que
apontamos (idem, p. 532). Dessa maneira ele propunha que o recurso voltado
para famílias substitutas funcionasse como um subsídio para famílias pobres na
tentativa de evitar a internação de seus filhos.
Sua proposta foi criticada por José Pinheiro Cortez no ano seguinte, na V
Semana de Estudos do Problema do Menor. Cortez chamava a atenção para um
provável desvirtuamento do programa, solicitava que a aplicação do artigo 13
fosse feita com o maior rigor e conclamava uma articulação entre o Serviço de
Colocação Familiar e as obras públicas e privadas. Ele dizia ...nossa
organização social e pública se ressente muito dessa separação excessiva entre
os vários órgãos da administração e dêsses com as instituições privadas
(CORTEZ, 1952, p. 75).
Cortez buscava aparar algumas arestas que estavam surgindo à medida
que o Juizado de Menores, através da Lei de Colocação Familiar, começava a
intervir concretamente na área de assistência ao menor e à sua família. Esse,
216
aliás, foi o mote da V Semana, na qual as palestras proferidas buscavam muito
mais prestar contas das atividades já realizados do que propor novas ações.
Sobre o Serviço de Colocação Familiar, Cortez prestava contas do
período em que organizou voluntariamente o serviço e informava que havia se
retirado em junho de 1952, deixando a coordenação para a assistente social do
Juizado, Dna. Nair Coelho. Defendendo novamente a colocação familiar como
alternativa ele disse:
E enquanto os demais serviços de menores, enredados em mil
problemas, exigem o esfôrço integral e a dedicação de uma
equipe numerosa de técnicos, a instituição familiar responde ao
apêlo do Estado permitindo que quatro funcionários, sem recursos
financeiros e sem instalações complexas, atendam a 174
menores, sem que se tenha ainda esgotado a capacidade do
Serviço (idem, p. 71).
O diretor do Serviço Social do Estado, por sua vez, dirige-se aos
participantes da V Semana dando conta dos esforços que o Executivo vinha
fazendo, através de seu próprio Departamento - responsável pelos convênios e
repasses de verbas para as entidades assistenciais – e, também, do Serviço
Social de Menores - responsável pelas unidades próprias do governo de
atendimento a menores no Estado -, com a finalidade de ampliar os serviços, dar-
lhe qualidade e abrangência maior. Numa posição claramente defensiva ele dizia
...temos consciência de que, ao lado da exposição do que já tentamos fazer, não
menos importante é, numa assembléia de estudiosos como esta, fazer e colher
sugestões para o aperfeiçoamento do nosso trabalho (ALVES, 1952, p. 76).
No entanto, os presentes tinham já opinião formada sobre a ineficiência
do sistema de assistência a menores no Estado, o qual estava baseado na
217
internação, a um custo alto para a sociedade, tanto do ponto de vista
econômico53 como do ponto de vista dos resultados na reabilitação e recolocação
dos menores às suas famílias54.
Os debates sobre a necessidade de ampliação da abrangência da Lei de
Colocação Familiar tanto do ponto de vista geográfico, no sentido de atender as
comarcas do interior do Estado, na maioria dos casos privadas de uma presença
mais forte do Executivo, como do ponto de vista do atendimento à própria família
do menor carente, funcionando como um programa de suplementação de renda,
encerram um período do movimento protagonizado pelos juizes de São Paulo
envolvidos com a questão do menor que deu origem às Semanas de Estudos do
Problema de Menores.
Durante o governo de Getúlio Vargas, que vai de 1930 a 1945, parte das
atribuições de gestão da política de assistência ao menor foi retirada das mãos
dos juízes de menores. O protagonismo ampliado do Executivo na formulação de
uma política assistencial – apesar de embrionária - traduziu-se na criação de
departamentos e demais organismos com o objetivo de centralizar o controle das
massas empobrecidas. Com isto, o Executivo reduziu o poder de ação dos juízes
de menores.
53
Dados disponibilizados pelos participantes da III Semana de Estudos do Problema de Menores dão conta
de que o per capita de um interno em estabelecimento governamental naquele ano era de Cr$1.000,00 (mil
cruzeiros), quando o salário mínimo vigente era de Cr$360,00 (trezentos e sessenta cruzeiros) e o repasse do
Serviço de Colocação Familiar por criança era de Cr$300,00 (trezentos cruzeiros).
54
As instituições assistenciais, que davam atendimento aos menores no Estado de São Paulo, estavam
articuladas desde 1935 - com a criação do Departamento de Assistência Social - ao Serviço Social de
Menores. No Rio de Janeiro essa responsabilidade era do SAM (Serviço de Assistência a Menores), que em
1944 ganhou abrangência nacional numa tentativa do governo federal de criar uma política nacional para o
setor. As unidades do SAM, também conhecido popularmente como “Sem Amor ao Menor”, eram duramente
criticadas pela corrupção de seu quadro de funcionários, pelas péssimas condições em que se alojavam os
internos e pela sua incapacidade em “recuperá-los”. Já em São Paulo, as críticas não eram muito diferentes,
embora o Serviço Social de Menores mantivesse suas unidades em melhores condições. Para
aprofundamento do tema ver Irma Rizzini (RIZZINI, 1995)
218
Já na segunda metade da década de 40, com o movimento protagonizado
pelos juízes de São Paulo, que contou com a importante contribuição da Escola
de Serviço Social, começou a ser gestada uma crítica a esse modelo assistencial.
Nesse momento os pontos de contato entre o Juizado e o Serviço Social
aumentaram significativamente. Terminado o Estado Novo e a ditadura de
Vargas, num panorama de maior abertura para o debate das idéias, em que o
fascismo havia capitulado em todo o mundo, e o discurso liberal encontrava um
pouco mais de espaço, o Judiciário do estado mais rico do país, São Paulo,
buscou retomar seu protagonismo.
Para essa retomada contribuiu um segmento específico do Judiciário,
aquele vinculado à democracia cristã que, com seu liberalismo conservador,
construiu um projeto considerado arrojado para a época – não é exagero dizer
que o projeto da colocação familiar pode ser considerado arrojado mesmo em
nossos dias. Era um projeto cujas características morais, baseadas na doutrina
cristã, associavam-se à técnica e ao profissionalismo do Serviço Social como
profissão emergente.
Dessa associação surgiu o Serviço de Colocação Familiar, uma proposta
voltado para a família e não para o menor, numa demonstração de que, embora
individualizada, a intervenção se assentava em um enfoque diferenciado do
“problema do menor”, este deveria ser invertido, dando prioridade para uma ação
de natureza preventiva.
O Judiciário paulista, através do Juizado de Menores credenciou-se,
assim, como elemento de vanguarda na compreensão “do problema do menor” e
iniciou, com o auxílio de um pequeno quadro profissional de assistentes sociais, a
219
sua trajetória na construção de uma estrutura própria de prestação de serviços,
paralela à estrutura organizada pelo Executivo. A inserção do Serviço Social no
Juizado de Menores estava concretizada, e a partir de então a profissão somente
cresceu e se consolidou no interior do Poder Judiciário.
3.2.2 As alterações na conjuntura política e a reviravolta na condução do
Juizado de Menores
No período compreendido entre 1952 e 1955 observou-se um
arrefecimento do movimento em torno das Semanas de Estudos do Problema de
Menores, que deixaram de ser anuais. O Juizado de Menores não absorveu
novas funções nem sofreu alterações significativas, além da criação de um
Recolhimento Provisório de Menores - RPM, diretamente subordinado ao Juizado
de Menores da Capital por força da Lei Estadual nº 2.705 de 23 de julho de 1954.
Este deveria “Abrigar os menores acusados de prática de fatos considerados
infrações penais e até que seja estabelecida a sua situação definitiva, de acordo
com a Lei”, como consta em seu artigo 1º55.
O Serviço de Colocação Familiar continuou ampliando o número de
atendimentos embora mantivesse estagnado o valor do auxílio mensal por
criança em até Cr$300,00 (trezentos cruzeiros) em vigor desde 1949, ...valor
então considerado irrisório, devido às altas constantes do custo de vida
(FÁVERO, 1996, p. 77). Em 1955 o setor estava organizado com nove
55
Prevista em lei desde 1938 a criação do RPM, diretamente vinculado ao Juízo de Menores, só veio a
ocorrer em 1954 em decorrência das articulações e discussões ocorridas ao longo das Semanas de Estudos.
As atividades do RPM vinham sendo realizadas até então pelo Serviço Social de Menores, do Poder
Executivo do Estado de São Paulo.
220
profissionais (uma chefe de serviço – assistente social -, uma escriturária, uma
encarregada de serviços internos e seis pesquisadoras que realizavam as visitas
domiciliares e os relatórios, uma das quais era assistente social e outra estagiária
de serviço social). Em seu trabalho de conclusão do curso de Serviço Social na
PUC/SP, intitulado Serviço de Colocação Familiar no Juizado de Menores da
Capital, Cora de Magalhães Correa informa que nesse mesmo ano 382 menores
recebiam o benefício da Colocação Familiar e outros 507 processos estavam em
andamento (apud FÁVERO, 1996).
Politicamente falando, esses anos foram marcados pelo retorno de Getúlio
Vargas ao poder, desta vez eleito sob uma plataforma de defesa da
industrialização e necessidade de ampliação da legislação trabalhista. Getúlio
procurou exercer novamente o papel de árbitro das diversas forças da sociedade,
que desempenhara durante a ditadura, agora sob um regime democrático
(FAUSTO, 1995). Porém, os conflitos entre nacionalistas e aqueles que
propunham um alinhamento irrestrito do Brasil com os Estados Unidos e com o
combate ao comunismo minaram as suas tentativas.
Ao mesmo tempo uma política de liberalização do movimento sindical
aliada à alta do custo de vida gerou uma série de greves que derrubaram as
forças getulistas do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB - e dos “pelegos”
sindicais, e aumentaram a força da oposição cujo expoente simbólico era Carlos
Lacerda. A tensão social e política do período culminou com o suicídio de Getúlio
Vargas em agosto de 1954, após o episódio da tentativa de assassinato de
Carlos Lacerda, que trouxe a público “o mar de lama” - assassinatos
encomendados e outros aspectos sombrios da máquina do governo.
221
Ao mesmo tempo, em São Paulo, um fenômeno eleitoral surgia: era o
janismo. Em 1953 Jânio Quadros elegeu-se prefeito da capital pelo Partido
Democrata Cristão com uma plataforma política populista, centrada na figura de
político honesto que buscava combater a corrupção e que não possuía por trás
de si um grande aparato partidário. Segundo Fausto ...o desejo de inovar,
derrotando as máquinas partidárias, e a crença nos poderes mágicos de um
homem no combate à corrupção uniram diferentes setores sociais – da massa
trabalhadora à classe média – em torno do nome de Jânio (1996, p. 414)
As bandeiras de combate à corrupção, que dominavam o ambiente político
na época, certamente contribuíram para dar maior destaque aos problemas que
ocorreram no Juizado de Menores referentes aos abusos e desmandos de alguns
comissários de menores. Era comum que membros desse corpo de voluntários
utilizassem, de maneira inadequada, as possibilidades de acesso irrestrito às
casas de prostituição, bares, festas e demais locais públicos, que a função e a
condição de estarem a serviço do juiz lhes permitia. Sobre isso Eunice Ferreira
Rodrigues, em seu trabalho de conclusão do curso de Serviço Social na PUC/SP
em 1959, intitulado Uma experiência de Serviço Social no Juizado de Menores de
São Paulo, diz: É de domínio público que a falta de idoneidade de certos
comissários chegou a tomar vulto calamitoso, de tal forma que a primeira portaria
do MM. Juiz Dr. Aldo de Assis Dias, datada de 27 de julho de 1956, veio exonerar
todos os comissários, auxiliares e estagiários do Juizado (apud FÁVERO, 1996,
p. 33).
No cargo até junho de 1956 o juiz anterior foi substituído pelo Dr. Aldo de
Assis Dias em meio a denúncias que envolviam seu nome e o de comissários de
222
menores. Suraia Daher, em seu depoimento, cita o episódio quando relata o dia
de sua entrada, ainda como estagiária, no Juizado de Menores em 1956:
Aí, chegamos lá, eu e a Beatriz, a televisão estava por todo lado,
imprensa, eu disse: “Beatriz, onde nós viemos parar!” Eram as
mudanças que o Dr. Aldo estava fazendo. Porque o escândalo
envolvendo o Juiz anterior havia estourado. {...} O Juiz foi
acusado, depois a gente não sabe nunca o fim {...} Então a
preocupação do Dr. Aldo era com a reformulação do
Comissariado de Menores. Realmente ele estava colocando o
dedo nas feridas, porque todo esse problema de envolvimento,
corrupção, etc., etc., que embora ficasse velado... (depoimento,
2003).
Incumbido pelo Tribunal de Justiça de colocar o setor em ordem, o Dr.
Aldo de Assis Dias tomou posse como juiz de menores da capital em 17 de julho
de 1956. Suas credenciais para o cargo incluíam a atuação como juiz de Direito
nas comarcas de Capivari e de Santos, onde, em ambos os casos, teve destaque
nas atividades que envolviam a área de menores. Além disto ele havia sido,
juntamente com outros juizes do interior, ativista na luta pela implantação do
Serviço de Colocação Familiar nas comarcas do interior do Estado, e teve papel
importante na polêmica sobre o assunto na IV Semana de Estudos do Problema
de Menores, em 1951, como já apontamos.
Quando da posse do Dr. Aldo, a situação política do país já podia ser
considerada mais estável. Após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e um
conturbado período de transição, foi eleito, democraticamente, o presidente
Juscelino Kubitschek para um mandato de cinco anos (1956-1960). Políticos
ligados ao getulismo, tanto Juscelino, como o vice, João Goulart, conseguiram
acalmar as diversas forças sociais e manter a ordem constitucional. Para isso
eles contaram também com o apoio de segmentos das Forças Armadas. Mesmo
223
sob ataque da oposição, Juscelino respondia ...defendendo a ordem instituída e
aos poucos se fazendo respeitar pela firmeza e pela habilidade na aplicação da
lei. Ele ofertava ao País, além de sua intensa simpatia pessoal, um projeto
otimista de desenvolvimento, que entendia ser capaz de levar o Brasil a seu
grande futuro (VIEIRA, 1995, p. 68).
O mundo vivia ainda os reflexos do final da Segunda Guerra com a
expansão do poderio econômico e militar norte-americano e a guerra fria.
Segundo Evaldo Vieira, em seu livro Estado e miséria social no Brasil:
O programa político de Juscelino, portanto, assentava-se na
conservação da ordem legal da época e na confiança no futuro de
grandeza nacional para o Brasil, comumente apresentadas
através de um clima onde o otimismo era difundido por atacado e
a varejo. Tais pressupostos ideológicos vinham acrescidos de
outros tantos, como a consolidação do regime democrático, o
alinhamento com o chamado “mundo livre”, a inevitabilidade do
auxílio do capital estrangeiro ao País e o desenvolvimentismo.
(1995, p. 70)
Do ponto de vista da política social e apesar do discurso
desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek, a estrutura assistencial voltada aos
menores durante toda a década de 50 e início da década de 60 manteve-se
intacta. Em realidade, a prioridade da política social do governo federal seguiu o
mesmo modelo dos anos anteriores, dando ênfase especial apenas à educação
em razão da necessidade de formação de mão-de-obra para o parque industrial
que se ampliava no país. Sobre a política social desse período diz Vieira:
Na verdade, a política econômica preponderou sempre, no tempo
de Kubitschek, sobre a política social, como se observa até em
seus pronunciamentos ao País. As metas econômicas do governo
federal não só conviveram com precárias condições de vida da
maioria da população brasileira, como ainda permitiam ocultá-las,
através da febre desenvolvimentista. Formou-se um círculo
224
pungente: o desenvolvimento vinha para acabar com as precárias
condições de vida. Mas, em certo sentido, às vezes terminava por
agrava-las e daí, dizia o Presidente da República, tornava-se
imperioso maior desenvolvimento. A esta altura da exposição,
cabe notar que a administração juscelinista mudou muito pouco a
organização responsável pela aplicação da política social. Afinal,
como ela não constituía algo predileto no conjunto da gestão de
Juscelino, manteve no geral o que herdara dos governos
anteriores neste campo, em especial desde Getúlio Vargas (1995,
p. 127).
Assim como no resto do país, a malha assistencial do Estado de São
Paulo manteve-se igual. Os serviços voltados para menores continuaram
centralizados pelo Serviço Social de Menores e pelo Departamento de Serviço
Social. Na VII Semana de Estudos do Problema de Menores, em 1956, a
assistente social Maria Nogueira Soares apresentou um relatório dos serviços
existentes no Estado mostrando existir, à época, 19 unidades de atendimento do
Serviço Social de Menores entre casas para deficientes mentais, educandários, e
casas de reeducação. Destas 12 estavam na capital e 07 no interior do Estado. O
relatório citava o RPM como única unidade vinculada diretamente ao Juizado de
Menores e mais uma malha de 578 obras assistenciais (277 na capital e 301 no
interior) divididas em creches, lactários, escolas56, obras de recreação, obras de
reeducação, assistência a anormais, entre outras categorias menos significativas
citadas. Boa parte dessas obras recebiam recursos do Departamento de Serviço
Social do Estado em sistema de pagamento per capita de atendimento. A relatora
dizia: Que no momento essas obras e serviços são insuficientes mostram-no a
avalanche de pedidos de internação ou amparo de crianças, feitos no Juizado de
56
Os dados não incluem as escolas públicas.
225
Menores, no Serviço Social de Menores, no Serviço Social do Estado, além de
outros serviços de assistência, públicos ou particulares (SOARES, 1956, p. 242).
Diante desse quadro, e considerando um ambiente democrático e um
pouco mais estável, as discussões jurídicas puderam intensificar-se, e o
Judiciário ganhou expressão. Os juízes de menores continuaram o seu
movimento de organização em torno da proposta de resgatar a centralidade do
Juízo na condução da política de atenção ao menor. Eles puderam ver também a
possibilidade de operacionalizar o projeto que vinha sendo forjado durante as
Semanas de Estudos desde 1948.
Em 1956 havia sido retomada a discussão da reforma do Código de
Menores (1927), com a formulação de uma proposta pelos juizes de menores,
reunidos em Porto Alegre no 1º Encontro Nacional de Juizes de Menores,
apresentada à Câmara de Deputados na forma do Projeto n. 1000/56. Segundo
Irene Rizzini, as proposições do projeto podem ser resumidas em quatro
aspectos gerais: a criação de uma fundação de âmbito nacional, a instituição de
um Conselho Nacional de Menores para orientar a assistência e proteção aos
menores, o restabelecimento da subordinação da instância executora 57 ao Juízo
de Menores e, por fim, o estabelecimento de um polícia especial para lidar com
menores (1995, p. 143).
Os juízes de menores defendiam em linhas gerais o projeto e, diante dos
conflitos que se estabeleceram a partir das décadas de 30 e 40 entre eles e a
57
A instância executora do atendimento a menores, em nível nacional era o SAM, que desde 1944 era o
responsável pela política para a área. Porém ele só possuía uma presença importante no Rio de Janeiro e não
se efetivava como um órgão centralizador ou coordenador de ações nessa área em todo o território nacional.
Em São Paulo essa tarefa estava claramente subordinada ao governo estadual através do Serviço Social de
Menores e do Serviço Social do Estado.
226
máquina executora dos recém-criados órgãos governamentais, enfatizavam a
sua posição de que o Judiciário era o órgão normativo e o Executivo deveria
cumprir as suas determinações. A idéia da criação de uma fundação para
operacionalizar os serviços era ainda incipiente, mas todos concordavam que o
SAM não era o órgão capacitado para tal fim. Irene Rizzini diz ...Nesse sentido,
os Juízes estabelecidos buscavam ampliar sua competência, abarcando serviços
auxiliares que complementassem sua ação (assistentes sociais, psicólogos,
comissários voluntários, etc.) (idem, p. 145) .
Por trás dessas ações estava o descaso das instituições que atendiam
menores - principalmente as vinculadas ao Executivo - com relação ao poder
normativo dos juízes de menores, como podemos perceber na fala do próprio Dr.
Aldo, citando um debate ocorrido em uma das Semanas de Estudos, no qual o
Dr. Hely Lopes Meirelles advertia:
... que a nenhuma autoridade administrativa é lícita a delegação
da função judiciária, consistente em “recolher, custodiar, internar e
desinternar menores abandonados ou infratores sob sua
jurisdição.” {...} “Por contingência de fato, ou errônea interpretação
das leis, se vêm distorcendo, dia a dia, as atribuições do Juiz de
Menores ao ponto de se lhe retirarem funções tipicamente
judiciais, como as de internamento e tutela dos menores
abandonados sob sua jurisdição, e de se lhe cometerem encargos
nitidamente assistenciais e, portanto da alçada executiva.” “Urge
se ponha um paradeiro a essa indiscriminação de atribuições,
delimitando-se, com precisão, as funções de cada poder estatal,
nesse setor.”
A verdade é que, em nosso meio, um número considerável de
menores, os denominados “assistidos”, são internados
diretamente pelos Diretores dos Serviços Sociais de Menores,
sem a intervenção da Justiça Especial de Menores, por
entenderem êles ter competência para prestar assistência ao
menor necessitado, no que laboram em completo equívoco (DIAS,
1968, p. 283).
227
Em 1957, juizes de menores de vários estados apresentaram, juntos,
propostas de emendas ao projeto n. 1000/56 que tramitava na Câmara Federal.
Seus esforços refletiam as idéias que vinham sendo debatidas nos fóruns
nacionais e internacionais da área e empenhavam-se em propor mecanismos de
administração de subsídios à família, programas de colocação familiar, legislação
sobre adoção, sempre com o propósito de reforçar a família diante do dramático
quadro de ampliação do abandono e da delinqüência juvenil.
É nesse contexto que se pode observar a importância do movimento que
deu origem às Semanas de Estudos do Problema de Menores, pois foi aí que se
forjou essa compreensão específica sobre como deveria ser a política de atenção
na área. Sobre isso Irene Rizzini diz: Reconhece-se neste {nas propostas ao
projeto apresentadas em 1957}, como em outros Projetos, o caminho tomado por
São Paulo desde 1949, no Governo Adhemar de Barros, que criou o Serviço de
Colocação Familiar, associado aos Juízes de Menores (1995, p. 148).
O Juizado de Menores da capital de São Paulo, em virtude da implantação
do Serviço de Colocação Familiar, já tinha se tornado uma referência nacional e
caminhava para, na prática, tornar-se o modelo de Juízo de Menores, segundo a
concepção que predominava então58. A entrada do Dr. Aldo de Assis Dias
significou assim, além da moralização do órgão desgastado com o escândalo que
58
Conquanto fosse a posição hegemônica entre os juízes militantes na questão do menor naquele momento,
esta não era a única posição existente. Segundo Rizzini, existia um conflito no âmbito da doutrina. Ela cita o
estudo de Marcelo G. Jasmim para diferenciar os dois grupos em conflito como os que defendiam um ...
“juizado-executivo” que atua em jurisdição ampliada, fornecendo subsídios à famílias pobres, distribuindo
bolsas de estudo, enfim, agindo em áreas que deveriam estar sujeitas à iniciativa do poder executivo... e
aqueles que defendiam um ... “juizado-judicial” que não se imiscui em nenhuma atividade administrativa,
não mantém nenhum serviço assistencial, reservando-se à área puramente judicial (apud RIZZINI, 1995, p.
146).
228
ocorrera, também a transformação do Juízo naquilo que os integrantes do
movimento que deu origem às Semanas de Estudos, imaginavam.
A partir de sua posse, o Dr Aldo buscou implantar procedimentos que
visavam restituir ao Juízo de Menores as atribuições previstas em lei, que lhe
cabiam por ser o responsável pelos destinos de cada uma das crianças
abandonadas ou que tivessem cometido infrações. Mais ainda, realizou ações
que visavam imprimir um sentido diferenciado daquele que marcou a ação das
instituições governamentais durante as décadas de 20, 30 e 40, que priorizaram
a internação como alternativa para o abandono, a pobreza e a delinqüência
juvenil. Ele usava o discurso da necessidade da prevenção e buscava dar ênfase
à família como o espaço privilegiado para a educação da criança e do jovem,
tornando-se porta-voz de um movimento que à época se apresentava como
progressista e moderno.
Defensor das teses de Noé de Azevedo sobre os tribunais especiais
juvenis, seguiu a tendência de defesa do Juízo de Menores, como o grande
órgão normatizador, e tratou de transformar o Juizado num organismo
centralizador da política para a área. Ou melhor, nas palavras do Desembargador
Francisco Pereira de Bulhões Carvalho, do então Estado da Guanabara, no
prefácio ao livro do Dr. Aldo ...um organismo que centralize em torno ao Juiz de
Menores tôda a obra de assistência ao abandonado ou infrator e coloque o
esfôrço de todas as instituições e da população em geral à disposição do Juízo
de Menores... (CARVALHO, In DIAS, 1968, p. 18).
Logo no primeiro ano em que esteve à frente do Juizado, 1957, o Dr. Aldo
intensificou seus estudos e sua militância em prol de tal modelo. Foi presidente
229
da 2ª Reunião de Juizes de Menores do Brasil – a reunião que organizou as
propostas de emendas ao projeto n. 1000/56 - e ainda nesse mesmo ano fez
uma viagem para os Estados Unidos, onde pode conhecer mais de perto a
estrutura dos tribunais juvenis daquele país, formulando respostas às críticas
daqueles que não aceitavam a interferência do juiz de menores em outras áreas.
Assim ele justificava o papel do juiz de menores:
Ao Juiz de Menores no Brasil, como executor que é de uma
Justiça Especial, a exemplo do que ocorre em todos os países
cultos, está confiada a assistência e a proteção de tôdas as
crianças, quer estejam ou não sob o pátrio poder. O insigne Clóvis
Bevilacqua já sentenciou que a ação do Juízo de Menores nesse
campo, é perfeitamente legal, pois, sendo a sua finalidade a
proteção dos menores contra o contágio dos vícios, atua o Juiz
dentro da esfera da função jurídico-social, indicando aos menores
o caminho do bem, dos sãos princípios da moral e bons
costumes, consultando e tutelando interêsses os mais lídimos de
ordem geral (DIAS, 1968, p. 36).
Dono de uma grande capacidade de articulação e aglutinação de forças o
Dr. Aldo conseguiu, em tempo recorde, fazer mudanças significativas no setor.
Para isso ele contou com o apoio dos dirigentes superiores do Tribunal de
Justiça. Transitava bem entre os organizadores das Semanas de Estudos,
participava ativamente dos eventos promovidos pelos juizes de menores em nível
nacional e internacional, tinha vinculações com o Instituto Interamericano Del
Niño, vinculado à Organização dos Estados Americanos - OEA. Sua formação
católica e suas posições claramente conservadoras no que dizia respeito à
família, como seu posicionamento militante contra o divórcio, por exemplo 59, lhe
59
Era bastante comum encontrar referências à questão do divórcio em seus discursos. Como exemplo
citamos sua fala no discurso de posse como ministro do Tribunal de Alçada em 1965. Lá ele disse:
Felizmente, no Brasil, não existe o divórcio que, como adverte Chaumette, constitui um mal, porque atenta
contra o caráter institucional do matrimônio, baseado na indissolubilidade: atenta ainda contra a natureza
230
davam também o apoio da Igreja Católica e de setores conservadores da opinião
pública.
A empreita proposta pelo Dr. Aldo era ambiciosa desde o início; para
realizá-la ele precisava de muitos apoios. Em 1957, em conferência na VIII
Semana de Estudos dos Problemas de Menores, em que fazia a prestação de
contas de seu primeiro ano no comando do Juizado, o pronunciamento deixava
claro que suas ações estavam respaldadas por vários segmentos:
Seja-me lícito ressaltar, desde já, que o pouco até agora
conseguido, se teve um mérito, devo-o ao constante amparo e
estímulo do colendo Tribunal, ao valioso concurso do Executivo e
do Legislativo estaduais, a entidades de natureza assistencial e
social e, em particular, à estimuladora colaboração dos órgãos de
nossa imprensa falada e escrita, além das demais forças vivas da
sociedade (DIAS, 1957, p. 283).
Em outro discurso, anos mais tarde, o Dr. Aldo se referiu àquele início no
Juizado de Menores e aos seus esforços de articular o que ele chamava de
“forças vivas da sociedade”, da seguinte maneira:
Ao investirmo-nos na jurisdição da Vara de Menores da Comarca
da Capital do Estado de São Paulo, encontramo-la sem recursos
e sem planejamento algum. De sorte que tivemos de
desdobrarmo-nos para que a sua ação se revestisse, desde logo,
de sentido positivo. Cuidamos, pois, de galvanizar na opinião
pública uma consciência do problema do menor. A par disso,
começamos o necessário trabalho de esclarecimento e a
indispensável elucidação dos meios suscetíveis de soluciona-lo.
Provocamos, assim, a atenção e a colaboração da imprensa,
despertamos o interêsse efetivo dos poderes públicos, há muito
esquecidos ou eqüidistantes do problema, conclamamos as
classes mais representativas de nossa sociedade, fazendo-lhes
sentir não só a valia de sua cooperação como também a sua
parcela de responsabilidade frente à situação de fato do menor.
(Posse no Tribunal de Alçada, 01/12/1965, p. 17)
religiosa da instituição. É contrário à ordem natural e ao bem da família. Fomenta paixões malsãs (Discurso
de posse – Tribunal de Alçada de São Paulo, 01-12-1965, p. 24).
231
Sem recursos vultuosos ele utilizou-se do prestígio pessoal e do prestígio
que o cargo lhe conferia para obter os primeiros recursos para sua empreita.
Articulou forças do próprio Judiciário, do Executivo, da sociedade civil
organizada, da polícia, da imprensa, enfim, interferiu em tudo que dizia respeito
aos menores e interagiu com todos os atores sociais na construção de sua
proposta num discurso que era consoante com o espírito ufanista daqueles anos.
3.2.3. A ampliação das atividades do Juizado de Menores e o Serviço
Social
As primeiras ações realizadas pelo Dr. Aldo demonstraram desde logo que
ele estava disposto a fortalecer o Juizado de Menores, o que fez transformando-o
numa máquina que foi ocupando os espaços vazios - que não eram poucos -
deixados pelo Executivo Nesse processo, os assistentes sociais tiveram uma
importante participação.
A defesa do Serviço Social como profissão capaz de auxiliar o Juizado de
Menores a desempenhar uma ação social mais efetiva, graças à prevenção e ao
acompanhamento sistemático de cada caso, vinha sendo feita pela Escola de
Serviço Social desde 1948, quando da I Semana de Estudos. Enfatizando o
caráter técnico-profissional da formação dos assistentes sociais, a Escola de
Serviço Social afirmava serem eles os profissionais melhor qualificados para uma
tarefa que quase nada tinha a ver com boa vontade, necessitando de preparo e
de qualificação. Nessa direção ia o discurso de Dna. Helena Iracy Junqueira já
em 1949. Ela dizia:
232
A generosidade, a dedicação, a simpatia pelos que sofrem são
indispensáveis mas não suficientes para a solução de problemas
tão complexos como os atuais. Para a realização dessa tarefa,
qual seja o Serviço Social, sentiu-se desde muito a necessidade
dos agentes preparados metódica e não apenas empiricamente
(JUNQUEIRA. 1949, p. 335).
Apesar da criação do Serviço de Colocação Familiar, dirigido por
assistentes sociais, não houve naquele momento a incorporação do Serviço
Social nas tarefas rotineiras do Juízo de Menores. As declarações de Dna. Helena
sobre a profissão somente tiveram maior eco após os problemas de denúncias
envolvendo o Comissariado de Menores, anos mais tarde, pois a falta de preparo
e de qualificação para a função sempre foram apontadas como problemas para
esse corpo de voluntários que necessitava desempenhar uma tarefa cada vez
mais distante da função policial, por pressões vindas dos segmentos mais
esclarecidos da sociedade, que propunham uma ação de natureza tutelar.
Mas, a militância do Serviço Social nessa área, desde as primeiras
Semanas de Estudos e o fato de já existirem assistentes sociais atuando no
Juizado, tanto no próprio Comissariado, na condição de voluntários, como no
Serviço de Colocação Familiar, contribuiu para que o Serviço Social fosse
escolhido como a profissão para operacionalizar os projetos do Dr. Aldo.
Provavelmente, os serviços que vinham sendo prestados por esses profissionais
eram considerados satisfatórios.
Assim, uma das primeiras ações nesse sentido foi convidar, ainda em
1956, o assistente social José Pinheiro Cortez para retomar a coordenação do
Serviço de Colocação Familiar, desta vez com remuneração, numa clara
tentativa de profissionalizar o quadro dos funcionários do Juizado de Menores,
233
cercando-se de auxiliares capacitados. Sobre isso, Fávero resgata o depoimento
dado a ela por Cortez em 1994, dizendo ... De acordo com o seu depoimento, o
Serviço de Colocação Familiar passou a ser exercido de forma mais organizada e
dinâmica, com maior número de funcionários, o que garantia a ampliação de
famílias atendidas (1995, p. 78)
No ano seguinte, o Dr. Aldo conseguiu ampliar também o montante de
recursos para a Colocação Familiar que saltou de um milhão e meio de cruzeiros
para um milhão e oitocentos mil cruzeiros, o que permitiu estender o benefício
para um número maior de famílias. Ainda no mesmo ano conseguiu novo
aumento de verbas possibilitando o reajuste do benefício, de trezentos para
oitocentos cruzeiros por criança60.
Com a ampliação dos recursos e a possibilidade de organizar o setor,
Cortez foi buscar estagiários na Escola de Serviço Social. Vários componentes
importantes do quadro do Serviço Social no Juizado começaram como
estagiários no Serviço de Colocação Familiar. É o caso de João Batista Adduci:
Eu fiquei na Santa Casa alguns anos {como estagiário de Serviço
Social}. Lá, no Pronto Socorro Infantil eu tinha contato com o
pessoal do Juizado de Menores porque havia abandono de
crianças. Eu fiquei conhecido do pessoal do Plantão da Vara de
Menores que naquele tempo se chamava Vara Privativa de
Menores, pela minha atuação no Pronto Socorro. Eu fiz contatos
com os plantonistas, uma delas era a Zilnay Catão Borges.
Quando o Cortez conseguiu do Dr. Aldo a ampliação do quadro
de Assistentes Sociais e de estagiários para o Serviço de
Colocação Familiar, a Zilnay me pinçou, ela disse: “João, sai da
Santa Casa, ou fica na Santa Casa meio período, e vem conosco,
vamos conseguir a nomeação de estagiários de Serviço Social.
Era 1956. Eu fui como estagiário para o Serviço de Colocação
Familiar, diretamente ligado ao Dr. Cortez e à Severina De Basile,
60
Ainda assim, dada a alta inflação do período, o valor significava menos de um quarto de salário mínimo,
que em 1957 era de Cr$3.700,00 (três mil e setecentos cruzeiros), bem abaixo do valor real do benefício
quando foi instituído em 1949 (FÁVERO, 1996).
234
que era Assistente Social, mas trabalhava como administradora
da verba do Serviço de Colocação Familiar. Eu fiquei trabalhando
diretamente com eles, naquele tempo o Serviço de Colocação
Familiar estava no centro da cidade... (depoimento, 2003).
O corpo profissional do Serviço de Colocação Familiar foi sendo ampliado
dessa maneira, com alguns profissionais, estagiários remunerados, funcionários
emprestados, à medida que o Dr. Aldo ia conseguindo recursos.
Outra área em que houve modificações logo nos primeiros meses após a
mudança na condução do Juízo foi a do Comissariado de Menores: o Dr. Aldo fez
uma renovação total dos seus quadros. É importante ressaltar que ele não abriu
mão da estrutura que tradicionalmente foi utilizada pelo Judiciário, mantendo o
Comissariado como um corpo formado essencialmente por voluntários, apenas
alterou os seus membros. Assim ele se fiou na capacidade pessoal de selecionar
elementos idôneos. Como ele mesmo disse:
Constituiu para mim, desde o primeiro instante de minha
investidura no Juízo Privativo de Menores, preocupação relevante
o renovo do quadro dos Comissários. Tenho procurado, por isso
mesmo, valer-me dos elementos humanos que se me afiguram
capazes de exercer essa espinhosa e delicada função como
verdadeiros apóstolos da cruzada em prol da infância e da
juventude desprotegidas e transviadas. Mercê do critério seletivo
a que me tenho dedicado, neste particular, já agora o Juizado
dispõe, a bem da tranqüilidade do nosso meio social, de uma
equipe de voluntários que vem realizando tarefa das mais
nobilizantes, quer na esfera fiscalizadora e repressiva, quer na
que se refere a ação assistencial e social (DIAS, 1957, p. 283).
Os comissários de menores eram responsáveis pelas atividades de
fiscalização (de bares, hotéis, casas noturnas, shows e demais espetáculos), por
realizar sindicâncias (averiguações a pedido do juiz), e também pelo Plantão do
Juizado de Menores que atendia à população que para lá acorria em busca de
235
internação para seus filhos, solução para a falta de moradia, problemas
conjugais, enfim, o Plantão recebia toda sorte de problemas que julgava-se, o
Juizado poderia solucionar61.. O plantão do Comissariado recebia também
menores que eram recolhidos pela polícia, geralmente mendigando ou praticando
pequenos furtos, e expedia autorizações para viagem.
Inicialmente o Dr. Aldo transformou esse Plantão, que atendia em horário
restrito, em um Plantão Permanente, com funcionamento ininterrupto, 24 horas
por dia. Nele já atuavam assistentes sociais, voluntariamente, algumas como
estagiárias. Mas, na seqüência, foi feita uma espécie de desmembramento das
atividades desse Plantão Permanente criando-se a Secção de Informações e de
Serviço Social. Para esse serviço ele recrutou a assistente social Zilnay Catão
Borges. Ela diz no depoimento recolhido por Eunice Terezinha Fávero, em 1994:
O Dr. Aldo precisava de gente, mas não tinha verba, não podia
gastar, havia encontrado tudo estourado. Na época eu estava
passando por uma situação muito difícil no Serviço Social de
Menores; o Abrigo havia mudado de direção..., minha situação era
difícil, mas era funcionária, não podia ser colocada na rua porque
não tinha motivo, mas também não tinha o que fazer. Como eu
não tinha serviço, não tinha onde ficar, participava de cursos e aí,
em uma das Semanas de Menores, ela {Zilnay se refere a
Leopoldina Saraiva a quem Dr. Aldo havia pedido auxílio como
professora da Escola de Serviço Social} encontrou comigo e me
convidou para o Juizado. Ela disse que o Dr. Aldo conseguiria. Na
própria Semana de Menores ela me apresentou para o Dr. Aldo e
na mesma semana ele me telefonou e disse: “já arrumei tudo com
o diretor do Serviço Social de Menores e você vem pra cá”. Eu fui
(depoimento a E. T. F., 1994).
61
Para esse fim existia na cidade de São Paulo também o Plantão do Serviço Social de Menores e o do
Serviço Social do Estado, além dos serviços de atendimento municipal. No entanto o plantão do Juizado de
Menores funcionava no centro da cidade e isso era um diferencial que facilitava, e muito, o acesso da
população. Um estudo apresentado na I Semana de Estudos dos Problemas do Menor por duas assistentes
sociais que atuavam como comissárias de menores, intitulado “Assistência Social”, apresenta um
levantamento detalhado desses casos que compareciam ao plantão do Comissariado de Menores.
236
A Secção de Informações e de Serviço Social foi criada com o intuito inicial
de dar atendimento aos casos de natureza “social” que apareciam no Plantão
Permanente, desviando-os do Comissariado para um atendimento técnico
especializado. Vale constar que o juiz de menores estava empreendendo uma
grande operação de repressão à mendicância que ele apresentava assim:
Não contemos o ímpeto de dizer-vos quanto sentimos a triste
sorte desses menores que, desassistidos e deslembrados das
camadas sociais superiores, andam a perambular pelas nossas
artérias principais, entregues à mendicância, à ociosidade e ao
infortúnio {...}Estamos procurando, na medida de nossas fôrças,
remediar, senão resolver, o problema angustiante dêsses párias
infanto-juvenis, cujos pais, de muitos dêles, de sua maioria
mesmo, atraídos pela miragem das cidades grandes, deixam suas
aldeolas, seus lugarejos, suas cidades pequeninas, de solo adulto
e inculto, das regiões menos desenvolvidas do País, e vêm, para
o nosso Estado, à busca de uma prosperidade quase nunca
alcançada (DIAS, 1957, p. 291).
Em vista da demanda que o Dr. Aldo lhe trouxe, a assistente social Zilnay
relata como o serviço foi organizado:
O Dr. Aldo me disse: “eu estou fazendo um serviço de prevenção
à mendicância com policiais femininas” (o corpo de policiais
femininas estava começando). Ele estava com um turma
trabalhando com ele. Eram do Estado, cedidas. Tudo com ele era
cedido, porque ele não tinha dinheiro para ninguém. Ele dizia: “eu
estou fazendo repreensão à mendicância, mas eu não posso
mandar soldados prender, então eu estou mandando as policiais
recolher.” Ele não tinha planos, não sabia o que iria fazer..., nem
eu sabia. Eu fui à Escola de Serviço Social, saber o que, como
era, o que eu deveria fazer. Eles disseram que também não
sabiam, que não havia experiência anterior nenhuma. Que tinha
que ir fazendo à medida que ia conhecendo. Então eu comecei
atendendo os mendigos que eram apreendidos com crianças, na
rua, e eram levados para lá. Eu fazia a triagem. {...} Eu atendia,
fazia triagem, se precisasse internar criança ficava mais fácil para
mim, porque eu conhecia bem o Abrigo de Menores, onde tinha
trabalhado bastante tempo (depoimento à E.T.F, 1994).
237
A Secção de Informações e Serviço Social logo passou a ser conhecida
pelos funcionários e demais pessoas como o Plantão do Serviço Social. Pouco
tempo depois, o Dr. Aldo conseguiu a contratação de outra assistente social para
o setor, era Idalina Monteclaro César, que havia trabalhado alguns anos na Liga
das Senhoras Católicas. Com ela as atividades do setor se ampliaram e foi
possível organizar um atendimento para os vários tipos de casos que
começavam a surgir, como explica Zilnay:
Vinha muita gente que não era apreendida, mais para saber,
perguntar onde é que poderia conseguir orientação. Era centro da
cidade. Então, fora a questão dos mendigos, era aquela
gentarada que vinha saber: “onde eu vou dar queixa do meu
marido, onde eu vou internar o filho, onde eu vou para conseguir
uma escola...Tinham os mais variados pedidos. Aí eu tinha que
atender. {...} ... começou também a surgir um outro tipos de casos
– gravíssimos , que vinham direto do gabinete do juiz, ou
enviados pelo curador de menores ou pelos plantonistas da noite,
ele chamava a gente e mandava que estudássemos o caso
(depoimento à E.T.F, 1994).
Ainda segundo Zilnay, ela mesma foi novamente à Escola de Serviço
Social pedir ajuda, desta vez juntamente com Idalina. Elas tinham uma demanda
ampliada e alguma idéia do que poderia ser feito. Ela diz: A Escola ajudou muito!
Nós fomos à Escola com tudo aquilo que a gente podia planejar e eles mandaram
a primeira turma {de estagiários} ... (depoimento à E.T.F, 1994). Suraia Daher,
uma das estagiárias desse primeiro grupo disse sobre a experiência:
...a preocupação do Dr. Aldo era instituir um plantão de Serviço
Social. Adaptou lá num porão “fedido”, os boxes onde ficavam
Idalina Monteclaro César e Zilnay Catão Borges coordenando os
trabalhos dos estagiários. E nós atendíamos ali de tudo: Vara da
Família, Colocação Familiar, menor delinqüente, a famosa “rapa”
das seis horas dos mendigos e das crianças com os pais, da
mendicância (depoimento, 2003).
238
A partir da entrada dos estagiários o atendimento foi dividido em duas
fases. Num primeiro momento, Zilnay realizava uma triagem de toda a população
que acorria ao plantão, auxiliada por funcionários administrativos e estagiários do
Curso de Direito. Aquilo que era competência do Juizado de Menores ou que o
Serviço Social podia realizar alguma intervenção preventiva, era encaminhado
para Idalina que atendia juntamente com os estagiários do curso de Serviço
Social. Zilnay explica o funcionamento:
Umas 50, 80 pessoas! Todo dia! Aquela primeira triagem era só
no sentido de saber se era ou não nossa competência. Se não
era, a pessoa era encaminhada. Se era competência nossa, a
pessoa recebia um número e ficava esperando a chamada, do
outro lado, onde estava a Idalina com o primeiro grupo de
estagiárias de Serviço Social que nós tínhamos conseguido. {...}
Bom, o serviço foi sendo organizado dessa maneira: assim, num
porão, nós tínhamos guardas que orientavam filas, duas salas, no
fundo tinha um pátio fechado. E aí nós começamos a atender
também os menores que eram apreendidos durante a noite, pelos
comissários e mandados para o abrigo, para pernoitar. Eles
vinham no dia seguinte, para saberem que fim devia ser dado a
eles (depoimento à E.T.F, 1994).
Com o trabalho dos assistentes sociais na triagem e atendimento dados à
população e considerada a experiência desses profissionais e seu conhecimento
da malha assistencial já existente, melhorou muito a articulação do Juizado de
Menores com os demais serviços assistenciais. O juiz tinha consciência da
importância desse trabalho e dessa articulação entre os serviços assistenciais
feita pelo Serviço Social, como podemos perceber em sua fala:
Note-se que, nessa Secção, se apresentam os casos mais
variados possíveis, indo dos pedidos de tutela aos de busca e
apreensão. Das denúncias diversas aos mais delicados pedidos
de internação. E os resultados obtidos no curto lapso de cinco (5)
meses animam-nos a esperar dessa nova dependência efeitos os
mais benéficos à sociedade. Começa que hoje existe, através de
239
sua atuação, um entrosamento exemplar com as demais
entidades assistenciais de nossa Capital (DIAS, 1957, p. 284).
Sobre a relação desse setor recém-criado com o Serviço de Colocação
Familiar, coordenado por Cortez, Zilnay diz:. Era completamente diferente. Ela
{assistente social da Colocação Familiar} recebia os casos, os pedidos das
instituições, das pessoas que iam diretamente para isso. Então, se a gente
encontrasse um caso que o Serviço de Colocação Familiar pudesse atender,
mandava lá para cima para conversar com a Madalena (depoimento à E.T.F,
1994).
Com a criação dessa secção foi ampliado o acesso da população em geral
ao Juizado de Menores; aliás esse acesso e a defesa dos interesses dos
menores era uma preocupação de fato para o Dr. Aldo. Para reforçar esse
aspecto ele criou o Serviço de Assistência Judiciária, em caráter experimental.
A criação de um serviço dessa natureza estava previsto no projeto n.1000/56 de
reforma do Código de Menores e ele buscou colocar em prática mesmo sem
estar aprovado em lei. O serviço estava voltado prioritariamente para a defesa de
jovens que praticavam delitos e para menores vítimas de violência, notadamente
abuso sexual, como ele mesmo disse:
Não havia, até então, um organismo que protegesse e assistisse
os menores transviados ou transgressores do estatuto penal, nem
tão pouco aquêles outros, de ambos os sexos, que figuram como
vítimas em processos criminais onde os indiciados sejam maiores
de dezoito (18) anos de idade. {...} Por essas razões é que
instalamos o Serviço de Assistência Judiciária, integrado por
brilhantes e dedicados elementos do Departamento Jurídico do
“Centro Acadêmico XI de Agosto” e dirigido pelo Assessor
Técnico-Jurídico da Vara, Dr. Sérgio Muniz de Souza, além de
Comissários de Menores que exercem a advocacia e de
bacharéis e solicitadores voluntários (DIAS, 1957, p. 286).
240
A iniciativa, de natureza experimental, como já dissemos, aparentemente
não prosperou, não existindo notícias de que o serviço tenha se consolidado na
estrutura do Juizado de Menores. Mesmo assim, vale a referência para
demonstrar que essa era uma preocupação na época62.
Mas, o Dr. Aldo não se limitou a utilizar os recursos assistenciais
disponibilizados pelo Estado e a criar serviços vinculados ao exercício da ação
judicante do Juizado, e começou a intervir diretamente na malha assistencial,
normatizando-a. Passou também a promover a criação de serviços inexistentes
ou cuja prestação ele considerava insatisfatória. No seu relatório de prestação de
contas do primeiro ano de atividades de sua gestão, o Dr. Aldo relata ter
procedido a visitas regulares às instituições de atendimento, onde constatou o
seguinte:
Trata-se de uma inspeção indispensável. Casas existem que
recebem menores abandonados, sem a competente autorização,
infringindo, assim, os arts. 29 e 36 do Código de Menores.
Estabelecem êsses dispositivos a obrigação de as associações ou
institutos ou particulares fazer declaração à autoridade judicial do
recolhimento de Menores sem a intervenção do pai, mãe ou tutor,
uma vez que os menores confiados a estas entidades ficam, “ipso
facto”, sob a vigilância do Estado, representado pela autoridade
competente. Entretanto, em diligências feitas, tivemos
oportunidade de verificar a presença de menores em casas
rotuladas como creches e abrigos, que, não obstante, vinham
funcionando clandestinamente. Estamos baixando instruções,
através de portarias, no sentido de evitar que irregularidades
dessa ordem continuem a ocorrer em nosso meio (idem, p. 290).
62
A defesa de adolescentes que praticam delitos é um problema presente até os nossos dias. Mesmo com o
Estatuto da Criança e do Adolescente, que resgatou o processo contraditório e garantiu a defesa técnica por
advogado (art. 110), na prática, a maior parte desses adolescentes não têm, de fato, aceso a esse serviço, uma
vez que não podem pagar por ele e os serviços criados pelo Estado nessa área são deficientes, quando não
inexistentes. No caso de vítimas de crimes a situação é semelhante.
241
Ainda no ano de 1956 ele criou a primeira entidade assistencial vinculada
ao Juizado, era a Casa de Estar, uma casa transitória para órfãos:
Problema sobremodo doloroso e que a cada instante vai-se
tornando mais grave, é o que diz respeito às criancinhas nascidas
de mães solteiras ou em lares desajustados ou, ainda, de infelizes
decaídas, que não contam sequer com a bênção do pão de cada
dia. São almas que, como assinalou o poeta, antes de andar e de
falar, já sofrem e já padecem, São órfãos de pais vivos. Para
corrigir-lhes, em parte a higidez de seus destinos, buscamos criar,
a princípio, no 12º andar do prédio onde funciona o Juizado, mais
tarde no Tatuapé, uma “Casa de Estar” que as abrigasse, com a
finalidade precípua de as encaminhar, posteriormente, a lares
onde sintam o carinho e o confôrto dos pais adotivos. Nessa
Casa, fundada a 28 de dezembro de 1956 e que vem sendo
mantida com o concurso da “Legião Brasileira de Assistência”,
“Lions Club” e da “Fundação São Domingos”, passaram,
ate´meados dêste mês, 183 menores, de 0 a 6 anos de idade.
Desse total 101 foram entregues a lares, sob têrmo de tutela; 55
restituídos aos pais, sob têrmo de advertência, guarda e
responsabilidade; 9 internados no “Serviço de Abrigo e Triagem”;
3 falecidos, continuando o restante sob os nossos cuidados
(DIAS, 1957, p. 295).
No final de 1957 o Juizado de Menores recebeu da LBA um novo prédio
para abrigar a Casa de Estar situado na Av. Brigadeiro Luís Antônio. No local
vago o Dr. Aldo criou o Pensionato Maria Gertrudes, em parceria com os
Diários Associados, destinado a receber meninas.
A criação do Pensionato Maria Gertrudes foi uma sugestão das estagiárias
que atuavam no plantão em vista do interesse daquele grupo empresarial em
auxiliar o juiz em sua cruzada pela infância. Sob a coordenação de Celina Celli,
assistente social comissionada do Serviço Social de Menores para trabalhar no
Juizado, as estagiárias haviam feito um levantamento sobre as dificuldades das
meninas com problemas de “conflitos familiares” ou “pré-delinquência”. Sobre
essa entidade relata Suraia Daher, estagiária na época:
242
Porque tinha o RPM para os meninos, mas e as meninas? Então
nós começamos a trabalhar em cima da incidência das
adolescentes que iam parar no plantão e que eram reincidentes,
porque não ficavam na Rua Traipu, em Perdizes, que era o
plantão do Serviço Social de Menores que colocava as meninas
ali como um depósito E tinha um corpo técnico bom, mas a
instituição era do Executivo. As meninas acabavam sendo um
ponto de evidência. Então nós fizemos um levantamento das
necessidades do Juizado, com a Idalina e a Celina, para que
fosse apresentada uma proposta para os Diários Associados,
para a criação de um pensionato para as meninas de 14 a 18
anos. {...} Era o Edmundo Monteiro, da TV Tupi e o
Chateaubriand, dos Diários Associados, que englobava a TV Tupi.
Como exemplo disso cito até o uso da limousine do Chatô para
fazer visita domiciliar. Então na hora de designar que função
caberia ao Juizado ficou estabelecido: o pensionato seria gerido,
administrado pelos Diários Associados, através de um corpo de
voluntárias, entre elas a “primeira dama “ do Edmundo Monteiro, a
primeira mulher dele, e outros artistas da TV Tupi. Coube ao
Juizado a parte técnica e a fiscalização. A Celina, na distribuição
dos estagiários designou a Beatriz para a Casa de Estar e a mim
para o Pensionato Maria Gertrudes....(Depoimento, 2003).
A política de estabelecer parcerias com as “forças vivas” da sociedade, fez
com que o Juizado tivesse influência direta sobre um grande número de
entidades assistenciais, assim foi, alguns anos mais tarde, em 1961, com a
Fundação Dona Paulina de Souza Queiroz, casa para meninas excepcionais em
grau educável, como se classificou na época, e que foi dirigida durante vários
anos por uma assistente social do Juizado de Menores: Therezinha Zabirowski
[Link] havia chegado ao Juizado de Menores em 1960 convidada para
63
A história dessa casa é relatada por Therezina em seu depoimento (2003) e é, no mínimo, curiosa. Dona de
boa parte do que é hoje o Vale do Anhangabaú, em São Paulo, Dna Paulina de Souza Queiroz, que não teve
herdeiros, deixou sua vontade expressa em um testamento em 1936, criando uma Fundação com o fim de
amparar crianças com problemas mentais leves. Doou a área para esse fim e nomeou o juiz de menores da
capital como o “vigilante” do cumprimento do seu testamento. Anos mais tarde o Dr. Aldo tomou
conhecimento do fato e constatou que a área havia sido desapropriada pelo Estado e vinha sendo utilizada
para fins diversos. Por outro lado, a Fundação estava em situação deplorável, com 30 crianças e sobrevivendo
dos parcos recursos de um convênio com o Serviço Social de Menores. De pronto resolveu assumir sua
função de “vigilante” e tratou de fazer com que o Estado desse melhores condições à Fundação para manter
as crianças e colocou uma assistente social de sua confiança para executar a tarefa.
243
atuar como comissária de menores, voluntária, devido a sua atuação profissional
com crianças: era assistente social da Organização Feminina Israelita de Bem
Estar Social64 e membro do Conselho Técnico do Centro Israelita de Assistência
ao Menor. Posteriormente foi contratada pelo Juizado e atuou na Fundação Dona
Paulina de Souza Queiroz até 1969 como “Assistente Social Encarregada da
Obra”.
Um outro serviço de atendimento direto mereceu uma atenção especial do
juiz de menores nesse processo de transformação do Juizado, foi o
Recolhimento Provisório de Menores –RPM. As atividades de recolhimento
provisório e triagem de adolescentes que cometiam delitos só passaram a ser
realizadas diretamente pelo Juizado de Menores a partir de 1954 (Lei 2075 de 23
de julho de 1954). Se bem que estivessem previstas em lei desde 1938, essas
atividades vinham sendo realizadas pelo Serviço Social de Menores, vinculado ao
Poder Executivo Estadual, como já foi colocado aqui.
Mesmo recém criado, o RPM já se tornara em fonte de problemas para o
Juizado, com denúncias de maus tratos aos menores, superlotação e fugas. As
alterações realizadas pelo Dr. Aldo, naquele momento inicial, visavam mudar
esse quadro e transformar o RPM em uma unidade de pesquisas sobre a
questão da criminalidade, a exemplo das existentes nos Estados Unidos,
vinculadas às Cortes Juvenis/Tribunais Especiais Juvenis. Em 1957 o Dr. Aldo
anunciava as primeiras mudanças no RPM, com o auxílio de parcerias, e
indicava a sua intenção:
64
Atualmente a entidade denomina-se UNIBES – União Brasileiro-Israelita de Assistência Social e mantém
inúmeras obras assistenciais no município de São Paulo.
244
De um autêntico depósito de menores transviados que era, está
se transformando, pouco a pouco, num legítimo laboratório de
recuperação humana. A terapêutica ocupacional ali se vem
aplicando, num cuidadoso programa da mais moderna
laborterapia vem apresentando a compensação que prevíramos.
{...} Revela salientar, nesse passo, a colaboração inestimável que
temos recebido do dedicado e operoso Diretor do Serviço Social
de Menores, Prof. Valério Giuli; dos Lions Clubs, que doaram ao
“RPM” a biblioteca, sala de recreação, consultório dentário e
vestuário; à “Legião Brasileira de Assistência” que tem fornecido
alimentação aos menores ali internados; ao “SENAI”, que instalou
uma oficina de carpintaria e doou os beliches que lá existem; ao
“SESI” que instalou uma escola de alfabetização e vem
fornecendo professôres para êsse curso e para o de educação
física e à tradicional “Fôrça Pública” que tem sido valiosa
colaboradora do Juizado (DIAS, 1957, p. 292).
Para ampliar essa estrutura ele conseguiu também que o Serviço Social de
Menores construísse, no ano seguinte, uma “Casa de Triagem” para funcionar
em frente ao RPM (todo o conjunto ficava na Av. Celso Garcia onde funcionou
posteriormente a FEBEM), com o fim de abrigar os menores mais “perigosos”,
separando-os dos demais. A edificação seguia padrões considerados adequados
ao trabalho educativo, não existindo celas.
Para administrar esse equipamento, que passou a se chamar Casa de
Plantão, o Dr. Aldo alocou a assistente social Celina Celli. Sobre o início desse
trabalho Zilnay Catão Borges relata:
Então ficou a Celina lá nos infratores e nós {Idalina e Zilnay}aqui
na sede do Juizado , que era na {rua}Asdrúbal do Nascimento (os
infratores era na Celso Garcia). Quando ela assumiu, os infratores
que eram apreendidos durante a noite não vinham mais para a
gente. Foi para a gente uma tomada de alento (depoimento a
E.T.F., 1994).
Suraia Daher também fala do início das atividades do Serviço Social na
área de infratores do Juizado quando se refere à distribuição dos estagiários
245
entre os vários serviços que foram sendo criados: Em 1958. Começo de 1959,
porque foi no ano seguinte. Aí com essas atividades, ficaram os mais antigos
estagiários nas casas que foram abrindo e já havia começado a formar a equipe
dos homens para o Recolhimento Provisório de Menores – RPM. (depoimento,
2003)
Juntamente com toda essa estrutura criada em pouco mais de um ano. o
Dr. Aldo montou uma grande operação de repressão e fiscalização iniciada pela
assinatura de uma série de portarias que proibiam a entrada de menores em
casas onde houvesse algum tipo de jogo ilícito; em salas de espetáculos onde se
exibisse conteúdo que atentasse contra a moral; em auditórios, estações de rádio
e TV após as 22 horas; portarias regulamentando a permanência de menores em
clubes e bailes; proibindo viagem e hospedagem de menores de 18 anos
desacompanhados. Sobre essa atribuição do juiz de menores o Dr. Aldo disse:
Na conformidade do art. 131 do Código de Menores, tem o Juiz
competência legiferante, o que o arma de poderes que lhe
permitem uma atuação individual mais precisa, consoante as
necessidades mais prementes verificadas no âmbito de sua
jurisdição. Valendo-nos dessa faculdade, não titubeamos em
adotar, sempre que oportuno medidas que nos parecem eficazes,
com o objetivo de proteger e assistir os menores, com isso
evitando venham êles a ficar moral ou materialmente em perigo
(DIAS, 1957, p. 287).
Para dar suporte, garantir a efetivação dessas portarias e pôr em prática o
restante da legislação de menores ele tomou uma série de iniciativas. Em
primeiro lugar, colocou os comissários de menores nas ruas para fiscalizar
principalmente os estabelecimentos comerciais e casas de espetáculos, obtendo
alguns resultados práticos que anunciou da seguinte maneira:
246
Em decorrência da atuação dessas turmas volantes, que se
conjugam entre si, num alto espírito de cooperação, podemos
sem receio afirmar que, hoje, São Paulo vive fiscalizada, assim no
centro como nos bairros próximos ou distantes. Os ambientes
menos recatados, que atentam contra os bons costumes e a
moral, têm sentido os efeitos dessa nova ordem repressiva. {...}
Como resultado dessa vigilância, só de multas aplicadas
apuramos a importância de Cr$277.000,00 (duzentos e setenta e
sete mil cruzeiros) (DIAS, 1957, p. 288).
Outra iniciativa foi a criação do Serviço de Comissões Técnicas, formado
por especialistas para, sob responsabilidade do Juízo, classificar os espetáculos
impróprios para menores e expedir as autorizações necessárias.
O Dr. Aldo também instalou um posto da Polícia Feminina no próprio
Juizado de Menores. As policiais, cedidas pelo Estado, encarregavam-se de um
Serviço de Ronda Urbana, sobre as quais ele diz ...têm elas retirado das ruas os
menores mendicantes e abandonados, os perigosos e os extraviados,
encaminhando-os ao Juizado para as providências cabíveis (idem, p. 286).
Além disso, ele criou um Serviço de Fiscalização do Trabalho de
Menores que contava com assistentes sociais do Juizado a fim de dar
autorizações para que menores de 14 anos pudessem trabalhar (o que somente
era permitido com autorização expressa do juiz) e realizar a devida fiscalização
nas empresas, do trabalho dos menores entre 14 e 18 anos, conforme a lei.
Sobre este serviço o juiz anunciava:
Criamos, então, o “Serviço de Fiscalização do Trabalho de
Menores”, que tem por missão exercer o contrôle em todos os
estabelecimentos industriais ou comerciais onde trabalhem
menores portadores de autorização do Juizado. Composto de
assistentes sociais, de alunos do Instituto de Serviço Social e de
elementos da Juventude Operária Católica (“JOC”), êsse Serviço
vem permitindo o decréscimo considerável no número de
menores de quatorze (14) anos, que trabalhavam
247
clandestinamente nas indústrias vidreiras, nas olarias e em outros
serviços perigosos. Estão, assim, a caminho da conveniente
regularização, as atividades exercidas por menores de quatorze
(14) anos em nosso meio (DIAS, 1957, p. 289).
Sobre o trabalho dos assistentes sociais nesse serviço, Zilnay fala ...a
equipe que trabalhava com autorização para o trabalho para menor, estudava o
caso, estuda as firmas. Geralmente eram assistentes sociais que tinham ligação
com o SESI também (depoimento a ETF, 1994).
Um outro serviço criado pouco tempo depois foi o Setor de Bolsas de
Estudos, em virtude de uma demanda levada ao Dr. Aldo por um diretor do
Sindicato das Escolas Particulares de São Paulo. Segundo Zilnay, a questão era
dar solução para uma lei que obrigava as escolas particulares a disponibilizar
vagas para menores carentes:
Existia uma lei. Eram poucas vagas, uma ou duas, conforme o
tamanho das escolas. E ele queria saber se o Dr. Aldo não podia
ajudar, encaminhar a pessoas, porque ele disse, “ é horrível, pois
vem uma criança que é filha da doméstica, órfã, vai para o colégio
grã-fino e não consegue nem comprar o material que o colégio
exige, o uniforme... eu vivo com essas vagas incompletas. Então
pediu-nos para encaminhar casos por exemplo, que não podiam
pagar a escola mas podiam pagar o uniforme. Então o Dr. Aldo
colocou uma assistente social fazendo esse trabalho...
(depoimento à ETF, 1994).
Mais tarde a captação dessas vagas em escolas particulares foi ampliada
com a ajuda dos comissários de menores65 e de alguns empresários, que
conseguiam obter verbas para pagar bolsas de estudos e/ou material escolar.
Por fim, o Dr. Aldo anunciava entendimentos com a Polícia Civil do Estado
de São Paulo para a criação de um “novo organismo” que ficaria subordinado à
65
Anos depois esse setor ficou vinculado ao Setor de Relações Públicas, subordinado diretamente ao
gabinete do juiz titular.
248
Vara Privativa de Menores, e que, formado por comissários de menores,
assistentes sociais, policiais femininas e investigadores, seria o responsável por
toda a intervenção direta junto aos menores, com o fim de reduzir ...a natureza
estigmatizante e traumática da intervenção policial (idem, pág, 294). Esta
proposta operacionalizou-se em 1958, pelo Decreto n. 32.766 de 24 de março de
1958, mas com características diferentes, era o Serviço Especial de Menores,
uma polícia especializada.
249
CAPÍTULO IV – O DESENVOLVIMENTO DE UMA PECULIAR FORMA DE
INTERVENÇÃO PROFISSIONAL
4.1. A conjuntura política, o papel do Juizado de Menores e o Serviço Social
4.1.1. Os tempos áureos do Juizado de Menores
O Dr. Aldo de Assis Dias esteve à frente do Juizado de Menores da Capital
de julho de 1956 até novembro de 1965, tendo deixado suas funções para, por
promoção, assumir o cargo de Ministro do Tribunal de Alçada de São Paulo. Ao
longo dos seus dez anos de atividades na área operacionalizou, através do
Juizado, o modelo mais próximo da proposta de Noé de Azevedo, de tribunais
especiais juvenis. Ele buscou fazer aquilo que o Juiz Mello Mattos, do Distrito
Federal, havia tentado desde 1927, conseguindo porém, resultados melhores,
principalmente porque viveu uma conjuntura política favorável na maior parte de
sua gestão. Ao final desses dez anos, o Juizado de Menores era uma imponente
estrutura, com o juiz coordenando uma grande equipe e vários serviços de apoio.
No discurso de prestação de contas realizado quando de sua posse no
Tribunal de Alçada em 1965, o Dr. Aldo forneceu dados que dão a dimensão das
mudanças realizadas por ele no período. Em 1956, a verba orçamentária do
Juizado de Menores da Capital era Cr$14.012.200,00 (catorze milhões, doze mil
e duzentos cruzeiros), em 1965 já era de Cr$[Link],00 (três bilhões,
250
seiscentos e oitenta e sete milhões, quatrocentos e trinta e nove mil e seiscentos
cruzeiros)66. Mesmo se considerarmos a alta inflacionária, os valores eram
significativos e havia uma previsão para que no ano seguinte a verba fosse
triplicada.
O quadro de funcionários também foi significativamente ampliado,
passando de 162 funcionários para nada menos do que 824, isso sem contar os
policiais civis e militares a serviço do Juízo e o imenso corpo de comissários e
estagiários voluntários (discurso de posse do Ministro, Tribunal de Alçada,
01/12/65 p. 18).
Até 1964, meados de 1965 foi mantido o intenso ritmo de crescimento e
ampliação das ações do Juizado. Com a saída do Dr. Aldo e a mudança da
conjuntura política após 1964, o ritmo de crescimento diminuiu, mas a estrutura
montada por ele manteve-se em funcionamento ainda por alguns anos.
O Serviço Social nesse período cresceu no interior do Juizado de Menores
na mesma proporção e ritmo, como o principal agente técnico, auxiliar do Juízo
em praticamente todas as ações jurídicas e assistenciais desenvolvidas.
Assim, em 1964 o Serviço de Colocação Familiar atendia 47.439
menores, colocados em 10.065 famílias, com uma verba de Cr$650.0000.000,00
(seiscentos e cinqüenta milhões de cruzeiros), e orçamentos maiores eram
66
A maior parte desses recursos provinha diretamente do orçamento do próprio Poder Judiciário do Estado
de São Paulo. Ao que se sabe, o Juizado de Menores recebia também 5% dos recursos arrecadados pelo
Fundo de Assistência ao Menor - FAM. Esse Fundo foi criado pela Lei Estadual n. 3.738 de 18 de janeiro de
1957 com a finalidade de ...cooperar financeiramente com as entidades públicas e privadas que tratam do
problema do menor abandonado ou infrator, colaborando nos estudos e na orientação da política social do
Estado relativamente aos menores, bem como na sua execução(art. 2º). (AMARAL, 1967, p. 6). O FAM
recebia doações de particulares e de empresas e era gerido por um Conselho Diretor formado pelo Secretário
da Justiça do Estado, o Juiz Titular da Vara de Menores e os diretores do Serviço Social de Menores e do
Serviço Social do Estado, além da 1ª Curadoria de Menores. Naquele ano, os recursos do FAM destinados ao
Juizado de Menores somaram Cr$125.557.677,00 (cento e vinte e cinco milhões quinhentos e cinqüenta e
sete mil e seiscentos e setenta e sete cruzeiros), em torno de 3% do orçamento do Juizado.
251
previstos para os anos seguintes. A maior parte desses menores recebia o
subsídio para permanecerem em suas próprias famílias (apenas 836 menores do
total estavam em famílias substitutas), consolidando a forte tendência inicial de
conceder o benefício para evitar que famílias pobres internassem seus filhos em
abrigos estatais ou filantrópicos67. Em 1964, através da Lei 8.435 de 03 de
dezembro ficou estabelecido que o valor do benefício a ser pago por criança
deveria estar compreendido entre o mínimo de 1/10 e o máximo de 1/3 do salário
mínimo.
O atendimento aos adolescentes que cometiam delitos sofreu uma
ampliação com a organização de um Centro de Estudos Juvenis - CEJ. A idéia
era formar, como já havia sido anunciado, um centro de estudos sobre a
delinqüência em que os casos fossem estudados individual e profundamente,
pelo tempo que fosse necessário, e por profissionais altamente especializados. O
CEJ seria composto de três unidades: um Centro de Recepção e Triagem – CRT
para a permanência por até 72 horas, um Centro de Observação Feminina - COF
para o estudo dos casos de meninas e um Centro de Observação Masculina –
COM para o estudo dos casos de meninos. Este último na realidade já existia,
era o RPM que deveria mudar de nome após a adequação do seu funcionamento
à nova proposta.
O Centro de Observação Feminina - COF foi criado em 1959 com base
nos estudos, feitos pelo Dr. Aldo nos Estados Unidos (mais especificamente na
Filadélfia) e na Bélgica, dos modelos para a sua organização. Foi a assistente
67
Apesar de essa ser a prática dominante, foi somente em 1968, através do provimento 36 do Conselho
Superior da Magistratura, depois transformado na Lei Estadual n. 10.069 de 09 de abril de 1968, que o artigo
13º da Lei de Colocação Familiar (n.560 de 27/12/49) é alterado extinguindo o caráter de excepcionalidade
através do qual esse benefício poderia ser estendido às famílias de origem da criança.
252
social Celina Celli quem iniciou a operacionalização da proposta. A unidade
começou funcionando na Av. Adolfo Pinheiro, em uma casa adaptada
pertencente à Liga das Senhoras Ortodoxas. Suraia Daher fala um pouco das
características de funcionamento do COF:
Era observação, um Centro de Observação para diagnóstico e
encaminhamentos. Ele passou a ter como suporte o Pensionato
Maria Gertrudes...{...} Nós começamos um projeto com o objetivo
do uso da liberdade gradativa. Fizemos o projeto com os objetivos
gerais, os operacionais, porque todo o nosso trabalho sempre foi
planejado, e nós tivemos a honra de sermos considerados uma
das instituições que forneciam casos para PUC para discussão de
supervisão. {...} Éramos considerados como modelar mesmo, de
intervenção de Serviço Social. {...} O COF era o momento da
recepção da delinqüente, para chegar à conclusão se ela era ou
não delinqüente, se era uma crise de adolescência, se ela era
mais vítima do que delinqüente, sempre ligada no conjunto. Dos
nossos estudos de casos nós mandávamos propostas para o
Juizado, para a criação dos serviços da comunidade...
(depoimento, 2003).
Com uma equipe interdisciplinar formada por psicólogo, psiquiatra, três
assistentes sociais, uma advogada, uma orientadora pedagógica e uma terapeuta
ocupacional, havia também um capelão, pois segundo Suraia Daher os ...projetos
da Bélgica e da França previam um Capelão na equipe. O COF chegou a ter 150
meninas em sua lotação máxima. Suas instalações foram posteriormente
transferidas para Av. Celso Garcia, em prédio construído especificamente para
seu fim, ao lado do RPM, já com a intenção de que aquilo se transformasse num
complexo.
O RPM, por sua vez, nunca chegou a se transformar no COM. Sua
estrutura funcional era muito mais complexa e os problemas referentes à
253
população atendida eram maiores; tratava-se de um número crescente68 e cada
vez mais violento de adolescentes do sexo masculino. Dadas essas
características, o RPM passou a funcionar com uma coordenação tripartite
formada pelo juiz de menores, pelo comandante do 14º Batalhão da Polícia, que
funcionava exclusivamente dentro do RPM, e pelo delegado do Serviço Especial
de Menores, delegacia especializada que também funcionava no RPM. João
Batista Adduci explica essa situação:
Aqui se trabalhou no RPM que era uma situação desastrosa, tinha
uma direção militar, com regras militares para os internos, que era
da Polícia Militar – 14º Batalhão. Existia dentro desse complexo –
RPM – uma Delegacia Especializada de Menores, que era o
poder de um Delegado de Polícia, com seus escrivães, com seus
investigadores, e existia o Juiz, que era outra direção, ele também
era responsável administrativamente pelo RPM. Todos tinham
funcionários, todos mandavam, então na vigilância ninguém leigo
tocava, era só a PM, no julgamento do menino era o Juiz e os
Curadores e os Assistentes Sociais. E a Polícia Civil tinha o poder
de prender ou não prender quem a Polícia Militar levasse lá
(depoimento, 2002).
A equipe interprofissional do RPM era formada por psiquiatra, médico
clínico, um religioso (um padre, no caso), assistente social e pedagogo. O grupo
de assistentes sociais que foi trabalhar no RPM era todo ele formado por
homens. Eles atuavam diretamente nos estudos dos casos, num plantão na
Delegacia Especializada e na Liberdade Vigiada. Sobre esse trabalho João
Batista Adduci diz: Quase todos os assistentes sociais que foram para o RPM
68
A lotação do RPM era de quatrocentos adolescentes, mas chegou a abrigar até seiscentos, segundo
informações do assistente João Batista Adduci (depoimento, 2002). Ao contrário do COF, a direção do RPM
cedia às inúmeras pressões e acabava superlotando a unidade o que aprofundava os problemas de levantes e
fugas, que eram comuns. As casas de retaguarda do RPM eram as unidade de Mogi-Mirim e Casa de
Custódia de Taubaté e a Liberdade Vigiada (regime aberto), as duas primeiras vinculadas ao Serviço Social
de Menores, apenas a Liberdade vigiada era operacionalizada pelas equipes do próprio Juizado, do
RPM/COF.
254
estudaram Direito, então o nível com o Juiz, o nível dos relatos apresentados ao
juiz – e aqui tinha uma característica: o Assistente Social falava com o Juiz, nós
falávamos com o Juiz e com os Promotores (idem).
A metodologia de trabalho com os adolescentes era inspirada no modelo
de Boscoville69, uma instituição canadense que João Batista Adduci descreve
assim: Quem chega fica num lugar, depois que é estudado, no Serviço Social, se
ele tem condições, ele passa para estágios A, B, C, D, até a rua. São estágios de
tratamento do menor...{...} Eu fui visitar na Bélgica uma instituição onde existia
esse mesmo modelo canadense... (depoimento, 2002)
Tanto a equipe do RPM quanto a do COF passaram por um intenso
processo de formação específico para a atuação na área de infratores, todos
foram estudar, especializar-se, tudo com vistas a operacionalizar a proposta de
organização de um verdadeira Centro de Estudos Juvenis como propunha o juiz.
Sobre isso fala Adduci:
Essa equipe (do RPM) exigia de cada membro, de cada
profissional, que se especializasse, que conhecesse
profundamente as razões pelas quais uma pessoa tem tendência
ao delito, ou comete um delito. Razão pela qual nós fomos todos
fazer curso de criminologia, então fomos para o {Instituto} Oscar
Freire e fomos nos habilitar: três anos de criminologia. E aqui
passamos a ver então, o trabalho científico.{...} Foi aí que a
equipe do CEJ {RPM e COF}que estudou criminologia, começou a
fazer trabalhos de pesquisa. Porque o jovem se tornou um
infrator? Qual é a causa mais profunda disso? Por que alguns
apresentavam tendência ao delito? Por que disso? E começaram
a aparecer trabalhos científicos envolvendo a universidade. Um
69
A Escola de Boscoville, em Montreal - Canadá, estuda e desenvolve metodologias de intervenção para o
trabalho com jovens que apresentam problemas de conduta. O modelo desenvolvido por eles é difundido e
reconhecido internacionalmente pelos estudos da Universidade de Montreal na área de psicoeducação, mais
especificamente pelo Professor Gilles Gendreau. Neste caso especificamente, João Batista Adduci está se
referindo à proposta de estágios socializantes que inspirou parte da legislação para a juventude que comete
delitos e que deu origem a programas como a semi-liberdade, liberdade assistida, entre outros. Para
aprofundamento do tema sugerimos o artigo de Marc Le Blanc, intitulado “Boscoville ou les paradoxes de la
reeducation” (LE BLANC, 1986)
255
dos mais notórios foi a influência da verminose na delinqüência
juvenil e a influência da criptorquidia em certas pessoas com
problemas. {...} Então tinha que falar com a Secretaria da Saúde
para pesquisar isso nos exames com as crianças, para evitar... A
idéia era científica, era um trabalho conjunto: educação, saúde e
criminologia e a área de menores. A visão era boa, o intuito do
trabalho nosso era válido.(depoimento, 2002).
As atividades dos assistentes sociais que atuavam na Secção de
Informação e Serviço Social também foram bastante ampliadas e o setor sofreu
algumas alterações importantes ao longo desses anos. A primeira delas foi o
desmembramento das atividades do Plantão com as atividades diretamente de
auxílio ao juiz no seu gabinete.
As assistentes sociais que atuavam nessa secção mantinham, como já foi
colocado anteriormente, uma proximidade muito grande com a pessoa do juiz.
Essa proximidade, essa linha direta dos assistentes sociais desse setor com o
juiz de menores, que se caracterizava pelo livre acesso ao juiz, era uma via de
mão dupla, isto é, também o Juiz tinha à sua disposição e solicitava diretamente
a intervenção delas em casos que ele considerava delicados ou especiais. Esta
peculiaridade fez com que o trabalho da Secção de Informações e Serviço Social,
conhecida como o Plantão do Serviço Social, ganhasse também a denominação,
entre os assistentes sociais, de Serviço Social de Gabinete.
A complexificação do serviço exigia a especialização das atividades, o que
foi feito então, com uma separação dessas atividades: de um lado ficou Zilnay
Catão Borges, coordenando toda a estrutura de atendimento de triagem e
plantão, de outro Idalina Monteclaro César, que foi trabalhar diretamente com o
juiz, numa espécie de assistência técnica exclusiva. Quem fala sobre isso é
256
Therezinha Zabirowski Dvidovich, que foi trabalhar no gabinete, juntamente com
Idalina, alguns anos depois:
O Gabinete na verdade era uma assessoria direta ao Juiz. No
Gabinete você conhecia o trabalho que estava sendo
desenvolvido por todos os setores. Todas as estatísticas vinham
para o Gabinete, então os Assistentes Sociais do Gabinete
examinavam, tomavam conhecimento das dificuldades, tomavam
conhecimento das necessidades. Então o Gabinete era uma
assessoria ao Juiz no conhecimento daquilo que estava sendo
desenvolvido e na apreciação das dificuldades e dentro da
medida do possível, daquilo que poderia ser atendido em termos
de necessidades. Então o Gabinete, na verdade eram dois ou três
Assistentes Sociais. Foi Idalina, depois eu, depois a Stela
Bardavid ficou um período muito curto. Na verdade a gente
estudava todo esse material que vinha para o conhecimento do
Juiz, emitia pareceres para ele daquelas solicitações que eram
feitas, era uma assistência técnica em relação, não a casos
individualmente, em relação à própria estrutura. {...} Era uma
assistência técnica, a gente não pode dizer que assessorava o
Juiz, porque Assistente Social não assessora, ele oferece
subsídios ao conhecimento da autoridade judiciária, o Assistente
Social não é assessor de Juiz, ele oferece subsídios, subsídios
esses que poderão ser reconhecidos como válidos ou não, você
dá o seu parecer. Então é isso que o Gabinete fazia, oferecia
essa assistência técnica em relação a estruturação dos serviços,
à projetos, à reformulações internas (depoimento, 2003).
Nesse Serviço de Gabinete, o assistente social exercia diversas tarefas.
Além da preparação de estatísticas, estudo e sugestão de alteração de
funcionamento dos diversos serviços existentes, o gabinete, que também contava
com um assessor de imprensa e um assessor militar, era responsável por:
atender as pessoas que solicitavam audiência com o juiz, estudantes, jornalistas,
etc.; redigir ofícios e comunicados; realizar estudos sobre a literatura publicada
na área; proferir aulas e palestras; participar de visitas realizadas aos recursos da
comunidade, entre outras atividades.
257
Além disso, as atividades gerais dos assistentes sociais do Gabinete
também incluíam atender, em caráter excepcional, alguns casos “diferenciados”,
tais como situações que envolviam pessoas famosas, ou situações muito
delicadas, de grande repercussão na comunidade, a pedido do juiz. Tal atividade
gerava uma certa confusão até mesmo entre o corpo de profissionais que muitas
vezes interpretava o trabalho do assistente social no gabinete como uma
atividade voltada exclusivamente para atender casos de pessoas ricas que
tinham acesso direto ao juiz.
Porém, sem dúvida, todos reconheciam que estas profissionais estavam
entre as mais influentes de todo o corpo de assistentes sociais do Juizado, em
razão da proximidade com o juiz e da possibilidade de visualizar toda a estrutura
assistencial do Juizado e, no diálogo, com o responsável por ela, o juiz titular,
sugerir alterações em seu funcionamento e até mesmo na forma como o juiz
interferia na política mais geral para a área.
As atividades do Serviço Social no plantão, coordenadas por Zilnay
continuaram crescendo em volume até que teve início o processo de
descentralização. A descentralização dos trabalhos do Juizado de Menores era
uma proposta que o Dr. Aldo já havia começado a realizar em caráter
experimental criando no Tatuapé, junto ao complexo do RPM, um posto
avançado do Juizado, denominado “Setor do Juizado de Menores da Zona
Leste”. Depois ele criou outro posto na Zona Sul, onde funcionou por um tempo o
COF. Ele começou descentralizando o Comissariado de Menores, depois o
Serviço de Colocação Familiar, os cartórios, mas ele queria descentralizar toda a
estrutura e dizia:
258
Essas agências já configuram, de certo modo, a presença do Juiz
nos próprios locais onde nascem os problemas, onde as famílias
se desajustam, onde os menores são abandonados, delinqüem e
são vítimas de delitos. As providências são tomadas mais
rapidamente, evitando que tarde a ação da Justiça e mais
complexo se torne o problema. Descentralizar o serviço
assistencial do Juizado significa torná-lo mais eficiente e mais
atuante com a aproximação da Justiça de Menores dos problemas
do povo (DIAS, 1968, p. 43).
O processo de descentralização da estrutura assistencial levou o Serviço
Social a atender em várias agências, chegando a ter nove delas espalhadas pela
cidade (Casa Verde, Penha, Santana, Vila Maria, Vila Prudente, Vila Matilde,
Pinheiros, Santo Amaro, Lapa) além do Centro70, onde funcionava junto com a
sede do Juizado. Zilnay fala sobre o surgimento dessas agências:
Aí o movimento começou a ficar muito grande, não cabia mais no
prédio, a gente nem podia atender todo mundo, ficava tão
desagradável – parecia INSS -, você tinha que mandar voltar no
dia seguinte. Então começamos a fazer levantamento para ver o
que poderia ser feito. E detectamos as áreas que apareciam mais
clientes. Aí foi aberta a 1ª Agência, aqui em Pinheiros. {...} se não
me engano era o Rotary quem pagava o aluguel da casa, e aí
traziam o material, mesas, cadeiras – e os funcionários. {...}Era
sempre assim: quando abria a Agência, ou eu ou a Idalina íamos
na primeira semana com a turma que trabalharia na Agência, para
treinar. Eu vim para Pinheiros com a 1ª turma, que acho que eram
três assistentes sociais (depoimento, a ETF, 1994).
Para comandar essa estrutura o juiz convocou José Pinheiro Cortez, e
todas as agências passaram a fazer parte do Serviço de Colocação Familiar,
unificando o programa de “Colocação Familiar”, regido pela lei 560/49 com as
atividades do “Plantão”, executado por Zilnay, e com as atividades do “Serviço
70
O complexo de atendimento no Centro, que incluía o Serviço de Colocação Familiar, o plantão do Serviço
Social e o Plantão Permanente, do Comissariado, mudou-se da Rua Asdrúbal do Nascimento, para a Rua
Francisca Miquelina, num prédio exclusivo, de dois andares, e posteriormente retornou para a Rua Asdrúbal
do Nascimento, onde funcionava a sede do Juizado.
259
Social”, coordenado por Idalina. Nas agências atuavam também os comissários
de menores e os demais serviços do Juizado, como a fiscalização do trabalho do
menor:
Então foi dividido assim (porque tinha algumas coisas que não
podiam ter nomes): havia um setor de plantão, um setor que
chamava Colocação Familiar Remunerada – que era a lei 560 -,
colocação Familiar Gratuita, que eram os casos de tutela, família,
adoção, todos esses casos chamados de “gabinete” – que então
iam para a agência, quando eram da área. A autorização de
viagem inicialmente também era dada nos plantões, mas depois
foi para a rodoviária, o aeroporto. As agências foram abrindo
assim, à medida que o Dr. Aldo conseguia verba, conseguia
alguém para pagar o prédio. {...} Quando eu tinha que fazer
supervisão na Agência, ficava quase louca, às vêzes viajava um
dia inteiro! Foi mais ou menos isso. Chegamos a ter 9, 10
Agências (Zilnay, depoimento à ETF, 1994).
Beatriz Cardoso Esteves Franco, que iniciou suas atividades no Juizado
em 1959, fala da dinâmica do Serviço de Colocação Familiar já nessa
configuração, incluindo as agências nos bairros:
E havia, o Plantão para o atendimento de todas as pessoas que
queriam alguma coisa do judiciário, ou imaginavam que queriam,
porque algumas pessoas iam lá para pedir uma vaga no hospital,
outra para pedir um documento, que não era feito lá! Então, o
pessoal do Plantão, era um pessoal muito bem qualificado, que
conhecia todos os recursos da comunidade e fazia um
encaminhamento muito bem feito e adequado. Quando a medida
proposta pelo cliente dizia respeito ao Juizado de Menores, ou à
atuação da Justiça de Menores, era encaminhada para o Serviço
de Colocação Familiar Gratuito que dava início ao processo
mediante uma representação, juntando o estudo do caso, a
documentação e ia para o Juiz despachar. Ele despachava, o
curador se manifestava e daí a decisão final do M.M. Juiz. Muitas
vezes o Juiz mandava o Assistente Social acompanhar o caso,
muitas vezes o caso era um termo de guarda, um procedimento
rápido, outras vezes não; as vezes necessitava usar os recursos
da comunidade para a colocação de menores, etc., apoio familiar,
encaminhamento para emprego, enfim, o que fosse necessário a
mais da medida judiciária proposta, e aceita pela parte e
determinada pelo Juiz (depoimento, 2003).
260
Embora a unificação dos vários setores de atendimento nas agências não
tenha sido simples, pois gerou tensões entre os vários profissionais. Nessas
agências, o Serviço Social chegou a desenvolver trabalhos utilizando-se das
técnicas do serviço social de grupo e do serviço social de comunidade, com
auxílio de profissionais comissionados ou vinculados às faculdades. Foram
citadas, como exemplo, pelos entrevistados a assistente social Arcelina Ribeiro
que trabalhou com grupos de famílias que recebiam o benefício da Colocação
Familiar e a assistente social Antonieta Guerreiro que desenvolveu trabalhos na
comunidade.
Essa grande estrutura montada pelo Dr. Aldo exigia muito mais que um
único juiz para ser [Link] isso ele contava com dois cartórios,
cada um com o respectivo escrivão e funcionários. Contava também com o setor
do Juizado de Menores da Zona Leste que já contava com um juiz auxiliar
responsável por todos os casos de adolescentes que passavam pelo RPM.
Mas aos poucos ele conseguiu outros auxiliares, de modo que em 1964,
através da Lei n. 8.101 de 16 de abril de 1964, que reorganiza o Serviço
Judiciário do Estado passaram a fazer parte da estrutura formal do Juizado de
Menores mais quatro juizes auxiliares, além do juiz titular.
Embora tenha formalizado apenas aquilo que já vinha acontecendo, a lei
organizou a abrangência da Vara Privativa de Menores, dando-lhe uma maior
71
O Juizado de Menores da Capital contava até mesmo com um serviço voltado à auxiliar os juizes das
comarcas do interior do Estado, chamado de “Serviço de Internação dos Menores do Interior”, que
centralizava os pedidos de internação de adolescentes infratores nas cidades do interior e precisavam ser
internados nas unidades dirigidas pelo Executivo. O setor buscava dar cumprimento às determinações desses
juizes, articulando-se com o Serviço Social de Menores na tentativa de dar encaminhamento às internações.
Esse serviço era realizado por um comissário de menores.
261
estrutura, bastante diferenciada das demais Varas do Tribunal de Justiça do
Estado de São Paulo. Em seu artigo 17, a lei determina: Quanto à Justiça de
Menores, a comarca se subdivide em quatro regiões: Norte, Sul, Leste e Oeste,
cujos limites serão fixados em decreto do Executivo, ouvido o Tribunal de Justiça.
E no artigo 39: Os Juizes de Direito Auxiliares da Vara de Menores classificados
de 1º a 4º exercerão, em caráter auxiliar, nas regiões Norte, Sul, Leste e Oeste
do Juízo de Menores, tôdas as funções pertinentes a êste, excetuados os atos de
julgamento (DIAS, 1968, p. 45).
Conforme os organogramas apresentados na página seguinte72 podem-se
observar as mudanças promovidas pelo Dr. Aldo na estrutura do Juizado de
Menores. Esta estrutura, que não era a sonhada por ele, foi o máximo a que
conseguiu chegar na montagem de um Juizado que centralizasse também
funções de natureza assistencial.
4.1.2. Os primeiros entraves da estrutura montada
Ao término da gestão do Dr. Aldo, o Serviço Social atuava em quase todos
os setores do Juizado que envolviam o atendimento direto à população: da
triagem dos casos à coordenação de unidades. A profissão foi peça chave na
edificação da estrutura montada pelo juiz de menores. Mais do que um agente
72
Os organogramas foram reproduzidos do livro O Menor em face da Justiça, do Dr. Aldo de Assis Dias
(DIAS, 1968, págs. 60-61)
262
que deu caráter técnico-profissional às atividades do Juizado de Menores --
criando parâmetros de triagem, elegibilidade e organizando o atendimento à
população -, foram os assistentes sociais que colocaram em funcionamento as
propostas de criação dos serviços existentes.
O Dr. Aldo formulou um projeto para o Juizado de Menores , mas foram os
assistentes sociais que o influenciaram na forma como este deveria ser
construído, de modo que quase tudo tinha um pouco da visão dos assistentes
sociais sobre os problemas que se apresentavam. João Batista Adduci fala disso
quando perguntado se o Serviço Social tinha influência sobre as decisões do juiz
de menores:
... mas sem dúvida nenhuma! Entusiasmando o Juiz, o Juiz
conseguia mobilizar o Presidente do Tribunal, o Presidente do
Tribunal compreendendo a situação ele ia permitindo isto tudo.
{...} de certa maneira, os Assistentes Sociais, frente às
dificuldades do dia a dia criaram recursos e expandiam aquilo que
o Tribunal não se apercebeu de pronto, de como se
avolumou...(depoimento, 2002).
Suraia Daher também fala sobre como a proximidade e o prestígio de que
os assistentes sociais gozavam junto ao juiz, que concentrava muito poder, fazia
com que eles influenciassem a criação de serviços:
A Celina era de planejamento mais do que a Idalina – ela levava o
projeto para ele {Dr. Aldo} e ele dizia: “não, porque não, porque
não”. Ela argumentava, defendia a proposta e ele dizia: “Vou
pensar”. No dia seguinte, ele mandava chamar a Celina e dizia
assim: “sabe Celina, eu pensei bem e eu acho que tem que ser
feito assim, assim, assim”, como se fosse idéia dele, que era a
proposta (depoimento, 2003).
Além disso, o Serviço Social tornou-se imprescindível no que dizia respeito
aos casos individuais, à medida que o Juizado ia-se tornando uma grande porta
263
aberta à população e que os problemas de natureza sociofamiliar iam-se
aprofundando, como se observa na fala de Beatriz [Link] referindo-se ao
juiz: Mas não trabalhava sem o Assistente Social! Ficava absolutamente “sem
pernas”. Não tinha como trabalhar sem o Assistente Social, porque não se
esqueça que a Vara de Menores foi e sempre será atendimento direto ao público,
ela não precisa de advogado (depoimento, 2003).
Com a colocação das atividades de triagem e plantão sob a
responsabilidade de assistentes sociais, o Dr. Aldo abriu as portas do Juizado de
Menores para a população mais pobre, dando ênfase ao caráter tutelar da Vara
de Menores. Ele limitou a ação do Comissariado de Menores que sempre se
caracterizou, e naqueles tempos não era diferente, pela fiscalização e repressão,
sendo mais temido que procurado para solucionar problemas. Isto ganha
relevância quando se tem em conta que o Poder Judiciário sempre foi uma
estrutura acessível a poucos, em que a figura do advogado é obrigatória na
maioria dos casos.
O juiz tinha consciência do que estava fazendo, como se pode perceber
por sua fala em 1957, quando se referia à Secção de Informações e Serviço
Social: Aí as partes são atendidas, entrevistadas e encaminhadas
convenientemente, segundo a natureza de seus casos, munidas das
representações indispensáveis que lhes são fornecidas gratuitamente. (DIAS,
1957, p. 284). O Serviço Social passou a substituir o advogado nesses casos,
representando a pessoa diante do juiz de menores, principalmente a população
mais empobrecida que encontrava no plantão um espaço onde podia contar a
sua história.
264
Um outro aspecto desse trabalho diz respeito ao relacionamento do
Juizado com os demais serviços assistenciais e recursos da comunidade. Os
assistentes sociais que assumiram o setor, assim como alguns dos estagiários,
possuíam um conhecimento da malha de serviços assistenciais, articulavam-se
com esses serviços, conheciam os profissionais que estavam à frente de boa
parte das casas, abrigos, departamentos do Estado e do Município. Conseguiam
assim, não apenas interpretar quais eram os problemas apresentados pela
população, dando uma orientação àqueles que não obteriam a solução no
Juizado de Menores, como também encaminhar ao juiz os problemas que ele
poderia solucionar, já indicando uma alternativa, como exemplifica o depoimento
de Zilnay:
Identificávamos as pessoas todas. E geralmente o relatório
constava disso: o motivo pelo qual a pessoa veio ali – apreendida,
ou isto, ou aquilo, ou por vontade própria, etc., o que a gente tinha
encontrado e sugerindo ou informando que tinha sido orientada,
dispensada... Quando você tinha que fazer internação, por
exemplo, então você procurava fazer o relatório mais detalhado...
{...} No final do expediente eu subia com aquele monte de papéis,
porque ele tinha que dar as ordens de internações, quando eu
tinha que internar... (depoimento à E.T.F, 1994).
Concretizou-se assim mais uma etapa da consolidação do Serviço Social
no Judiciário, as propostas da Escola de Serviço Social, formuladas desde 1948
nas semanas de estudo, de que a profissão poderia auxiliar a Justiça de Menores
nas ações pré-judiciárias (de prevenção), judiciárias propriamente ditas e pós-
judiciárias (acompanhamento dos casos).
Com os benefícios da Colocação Familiar, o Serviço Social agia na
prevenção, com o atendimento ao público, triagem e estudo dos casos realizados
265
no Serviço Social e nas unidades do COF e RPM, a profissão auxiliava
diretamente na ação judiciária, indicando quais as medidas cabíveis e
aconselháveis, por fim, no acompanhamento dos casos realizava uma ação pós-
judiciária.
Porém, à mesma medida que a estrutura foi crescendo e o Serviço Social
foi-se consolidando, os problemas começaram a surgir. A máquina era grande e
confusa, de difícil compreensão até para os assistentes sociais:
Não havia conhecimento do todo, da parte dos Assistentes
Sociais, cada um ficou encastelado no seu serviço, cada um
gostou do seu serviço e passou a trabalhar, sabendo da
existência do outro serviço, conhecendo os colegas do outro
serviço, alguns nem conhecendo, mas não trabalhando juntos,
este foi um grande erro nosso, como categoria profissional. Nós
não fomos unidos trabalhando juntos, criaram-se alguns
preconceitos... (João Batista Adduci, depoimento, 2002).
Mais complexa ainda era a dificuldade de formalização da entrada dos
profissionais. Boa parte dos setores criados pelo Dr. Aldo no Juizado de Menores
era informal. O que existia de fato na estrutura do Tribunal de Justiça era a Vara
de Menores, com seus cartórios e juízes auxiliares (a partir de 1964), o
Recolhimento Provisório de Menores e o Serviço de Colocação Familiar, ambos
criados por Lei. Esse aparato, que por si só já fugia dos padrões normais da
estrutura do Tribunal de Justiça, era insuficiente para abrigar o grande volume de
profissionais e de funções criadas.
Ao longo dos anos, os estagiários foram-se formando e precisavam ser
contratados e os profissionais comissionados necessitavam ser incorporados ao
quadro do Tribunal. As atividades de caráter voluntário ou a contratação precária
não eram mais compatíveis com o volume e importância do trabalho realizado.
266
Além disso a nova geração de profissionais não compreendia mais a atuação
profissional como parte do projeto político da Igreja Católica: exigia o devido
reconhecimento profissional. O relato de João Batista Adduci, que iniciou como
estagiário no Juizado, é ilustrativo dessa situação:
Quando eu me formei eu criei um caso. Eu disse: “eu me formei,
eu quero receber como Assistente Social”, pois era uma diferença
bastante grande. {...} Nós éramos cinco ou seis colegas formados
no mesmo ano e nós pedimos ao Dr. Cortez que ele interferisse
junto ao Dr. Aldo...{...} O Dr. Cortez demorou muito para conseguir
o que eu chamo de justiça, mas ele dizia o seguinte, ele tinha um
argumento que na ocasião eu tinha dificuldade de entender {...}
Ele disse: “João, você tem que trabalhar”. E eu dizia: “mas se eu
estou formado e eu me formei para ganhar mais, por que eu tenho
que continuar aqui ganhando menos e trabalhando igual a um
Assistente Social formado. Esse Assistente Social faz 30 visitas
por mês, eu faço 32, por que eu não ganho igual?” Ele dizia
assim: “moralmente você está errado, você está formado, é um
fato, mas você está trabalhando com gente e você foi formado
para trabalhar com essas pessoas, então eu não vou argumentar
que porque você se formou você deve ter menos casos enquanto
não receber mais” (depoimento, 2002).
A organização administrativa do Tribunal de Justiça não era adequada para
incorporar todas essas novas funções e cargos. Ela foi concebida para ser
compatível com sua função judicante, centrada na autonomia do juiz perante o
julgamento de cada caso. Assim cada Vara está sob o comando de um juiz, que
coordena e chefia a parte administrativa a ele subordinada (cartório e
funcionários), gozando de grande autonomia nesse sentido. Existem poucos
níveis hierárquicos na corregedoria, onde está alocada a maior parte dos
funcionários73.
73
Para mais informações sobre essa estrutura ver o Estudo realizado sobre a problemática social do
funcionário do Tribunal de Justiça, coordenado por Elizabeth de Melo Rico (RICO, 1983)
267
A solução dada ao problema foi precária, o Dr. Aldo utilizou-se
principalmente do RPM para realizar as contratações. Mas, na estrutura desse
órgão não estavam previstos muitos cargos, nem planos de carreira, o que foi
gerando insatisfação à medida que o trabalho se consolidava, principalmente
devido à natureza executiva e de grande responsabilidade. Suraia Daher, que
coordenou o COF por anos, por exemplo, nunca teve um cargo de chefia.
Therezinha Zabirowski Davidovich, que começou a trabalhar no Juizado em
1962, descobriu, em 1979, que precisava fazer um concurso público para se
efetivar no cargo. A situação foi objeto de tensão tanto entre os profissionais
quanto entre o Juizado e a alta administração do Tribunal de Justiça, como
veremos mais adiante.
Além dos problemas que surgiam no próprio espaço profissional do
Serviço Social outros foram se avolumando no que dizia respeito à atuação e à
proposta do Dr. Aldo. O primeiro deles dizia respeito às críticas feitas ao juiz de
menores com relação ao tamanho e complexidade da estrutura que ele havia
montado. Praticamente todos os entrevistados fizeram alusão a essas críticas:
A pessoa do Dr. Aldo: ele era um homem extraordinário, que
queria inovar, se você estudar dentro da maneira dele ser. Ele
queria fazer, ele era bom porque nasceu bom. Agora, ele adorava
contar as coisas que fazia. Então, a crítica que o Tribunal fazia à
ele é que ele estava transformando o Juizado numa árvore de
natal, toda enfeitada (Zilnay Catão Borges, depoimento à ETF,
1994).
Mesmo respondendo às solicitações do juiz de menores para que os
serviços fossem criados havia uma resistência no interior do Tribunal a toda
aquela estrutura:
268
O Tribunal tinha ojeriza pelo Serviço de Colocação Familiar {...}
porque ele exigia muito dinheiro, ele já começou com esse
estigma, mas o Dr. Cortez conseguia interpretar frente à cúpula
maior, pelos conhecimentos que ele tinha com o pessoal, o
benefício que era ajudar uma criança. {...} Nesse sentido os
Juízes, o Presidente do Tribunal de Justiça, aceitavam a
Colocação Familiar um pouco mais, mas havia nesse aparato
todo muito preconceito, eles gostariam de não ter tudo
isso...(João Batista Adduci, depoimento, 2002).
Além das críticas ao tamanho da estrutura, e obviamente ao seu custo -
que não parava de crescer -, existiam também as críticas ao excesso de
exposição do juiz de menores, o que não era visto com bons olhos pelo Poder
Judiciário, dada a tentativa permanente de mostrar-se neutro, isento, diante dos
problemas que deve julgar.
A projeção do Dr. Aldo era de fato muito grande, pois as ações do juiz
interferiam diretamente na vida do cidadão comum, fiscalizando, apreendendo,
multando e normatizando. Contribuía para isso a política de parcerias instituída
por ele e que lhe dava uma projeção muito grande diante da alta sociedade
paulistana. O juiz provou da popularidade daqueles que se envolviam com a
filantropia. Sobre essa popularidade fala Therezinha Z. Davidovich:
...mas o Juiz de Menores era uma figura que quando aparecia em
qualquer lugar público ele era mais aplaudido do que o
Governador e passou a ser mais conhecido que o Presidente do
Tribunal de Justiça. Aí já começou a ter, dentro do próprio
Judiciário também as críticas: extrapolou a parte judicante,
deveria se restringir a conhecer, processar, julgar e determinar,
não é? (depoimento, 2003).
Um outro problema foi a relação com o Poder Executivo, relação essa que
era de colaboração nos primeiros tempos após a posse do Dr. Aldo, e que se foi
deteriorando à medida que as funções executivas do Juizado de Menores foram-
269
se ampliando e que o Executivo foi recuperando a sua força, já nos primeiros
anos de 1960, com a instabilidade política após a renúncia de Jânio Quadros.
Na realidade o Poder Executivo possuía unidades e estruturas para
praticamente todas os serviços que o Judiciário criou, o que gerou uma
duplicidade de atendimento em várias áreas. No entanto, essas unidades
vinculadas ao Serviço Social de Menores eram muito criticadas, consideradas
ineficientes mesmo, viviam superlotadas, e não trabalhavam numa perspectiva de
desinternação, muito pelo contrário, como diz Adduci:
...o Serviço Social de Menores, ele mantinha as casas no interior
do Estado, se pegava um menino da capital, de São Paulo, se
colocava em Iaras porque era deficiente mental, em Taubaté
porque ele era normalzinho, em Batatais porque tinha um sistema
educacional muito bom, e as crianças iam para o interior do
Estado. Isso dificultava o contato com a família e fazer o que se
chamava o tratamento social, a inserção do menino de novo na
família. Essa dicotomia prejudicou, marcou significativamente
muitos menores, porque se julgava num lugar, internava num
outro. {...} A mãe, ignorante, dizia: “meu filho foi para o colégio do
governo”, e eles faziam de conta que estavam bem no colégio do
governo, o colégio do governo educava e os meninos cresciam e
chegavam aos dezoito anos, saíam até sem documentos. Então é
uma crítica que se faz ao atendimento da época, época que eu
vivi também (depoimento, 2002).
O Serviço Social de Menores estava desgastado, assim como estava
desgastado o SAM, do Rio de Janeiro. Os assistentes sociais do Juizado viram a
possibilidade de criar serviços de outro padrão, diferenciados, e acabaram
duplicando a estrutura de atendimentos. Adduci diz ...:o executivo não executava
rapidamente, não executava bem, segundo o que a gente pensava (depoimento,
2002).
270
A crítica não era feita diretamente aos profissionais do Executivo, mas à
sua estrutura de funcionamento, como afirma Therezinha Zabirowski Davidovich:
Eles tinham profissionais excelentes, de grande gabarito, mas
havia uma dificuldade, isso eu acho que tem que ser colocado,
eles tinham profissionais como Leopoldina Saraiva, como Célia
Rubinstein Eisembaum, Alice Arantes, Luiz Cava Neto, pessoas
de porte, de grande estatura profissional, acontece que na
execução eles eram achatados, quer dizer, para criar um serviço
era muita burocracia, era muita injunção política. Eles tinham,
vamos dizer, bons profissionais também, sem dúvida,mas a
dificuldade para executar aquilo acabava redundando em
resultados insatisfatórios... (depoimento, 2003).
Os serviços criados pelo Judiciário tinham todos uma característica
modelar, isto é, funcionavam dentro de parâmetros técnico-profissionais
considerados avançados para a época, numa perspectiva de evitar ao máximo a
internação. Os profissionais tinham liberdade para criar modelos de intervenção,
sendo inclusive estimulados pelo juiz para isso. Foram, assim, tornando-se
grandes especialistas em suas respectivas áreas (infratores, colocação familiar,
orientação e acompanhamento) e a máquina administrativa do Judiciário
facilitava o funcionamento de tudo isso porquanto era ágil 74 e menos permeável
às injunções políticas externas. Therezinha diz:
Não eram projetos feitos em função de agradar ou de imitar
modelos, eram estudados com muita [Link] {Dr. Aldo} teve
na pessoa dos Assistentes Sociais assessores mesmo, de
vanguarda, com iniciativa, responsáveis, que buscavam o
conhecimento, que buscavam realmente que esses projetos
fossem melhores, que esses projetos atendessem às demandas
{...} ...dificilmente um Assistente Social foi galgado para um posto
de diretor – nem havia isso – porque era amigo de quem quer que
fosse. Era em função mesmo da sua vivência, da sua prática
profissional (depoimento, 2003).
74
Dada a falta de um controle externo do Poder Judiciário, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
nunca necessitou de aprovação de orçamentos e licitações públicas, por exemplo, para a compra de
equipamentos ou material de manutenção, o que permitia que os serviços fossem mais ágeis.
271
João Batista Adduci aprofunda esse aspecto quando fala do Serviço de
Colocação Familiar:
...no executivo começam as pressões de deputados: “tem que
ajudar essa família, como que você não ajuda, você está
demitida, você não ajudou a família que eu mandei, ele é o
principal deputado do partido!” {O Judiciário} é protegido. Nunca,
no tempo em que eu fiquei na Colocação Familiar – e acho que o
Cortez diria a mesma coisa – nunca houve um Juiz que dissesse:
“João, coloque essa família que eu quero que dê quinhentos reais
para essa família”, nunca. Nunca houve injunção. (depoimento,
2002)
Protegidos pela menor permeabilidade do Poder Judiciário às injunções
políticas, comuns na máquina do Poder Executivo, os assistentes sociais do
Juizado de Menores contribuíram para o crescimento das animosidades com as
estruturas do Poder Executivo, criticando-as e criando estruturas duplicadas.
Essa animosidade foi crescendo, de modo que anos mais tarde a tensão era
explícita. Therezinha Z. Davidovich, refere-se a essa situação no final da década
de 60,, naqueles tempos ...tudo era comparativo, tudo era confronto, tudo era
crítica, sempre em cima dessa mesma ladainha: o Poder Judiciário está
extrapolando as suas funções. Ninguém falava que o Poder Executivo não estava
cumprindo as suas obrigações (depoimento, 2003).
Mas, ainda na primeira metade da década de 1960, a conjuntura que dava
sustentação às ações do Juizado de Menores começou a se alterar. Algumas das
forças que apoiavam o Dr. Aldo em sua empreita de resgatar o Juizado como
órgão centralizador da política para a área perderam espaços na política, como é
o caso do Partido Democrata Cristão, ou começaram a mudar de posição. Após
272
1964, com a mudança na conjuntura política e o retorno ao regime ditatorial, a
situação ficou pior. O Executivo voltou a monopolizar o poder. E o Judiciário
perdeu muito de sua autonomia.
Aliados a essas mudanças na conjuntura do país, os problemas criados
pela própria estrutura do Juizado, tais como o seu gigantismo, a falta de
formalidade, o alto custo da máquina e o excesso de exposição do juiz,
reforçaram a posição daqueles que entendiam que o Juizado de Menores não
deveria seguir o modelo dos Tribunais Especiais/Tribunais Juvenis. Do que se
depreende que, dada a cultura institucional do Judiciário, que não aceita bem a
publicidade, a promoção do Dr. Aldo para o Tribunal de Alçada, longe de não ser
merecida, foi também uma saída estratégica para frear o crescimento do Juizado
de Menores. Contribui para esta interpretação a ponta de sarcasmo encontrada
no discurso de saudação à posse do Dr. Aldo como ministro do Tribunal de
Alçada, de onde extraímos a fala do ministro Mario Hoepner Dutra: A par com
essas inovações, fruto do trabalho insano de todos os dias, sem que o
esmorecimento de um só instante afluísse ao seu espírito criador, explende-se a
materialidade do Juizado de Menores da Capital, que reúne em si, hoje a
grandeza de um departamento de Estado. (posse do Dr. Aldo no Tribunal de
Alçada, 01/12/65, p.13).
4.1.3. O regime militar e a Política Nacional do Bem-Estar do Menor
(PNBEM)
273
O governo de Jânio Quadros e João Goulart, o último do período
democrático que se iniciou em 1945, foi de grande instabilidade política. Eleito
pelo voto direto em outubro de 1961, Jânio Quadros foi o primeiro presidente da
República a tomar posse em Brasília, como uma promessa de futuro auspicioso
para o país. No entanto, menos de um ano depois ele já havia renunciado, num
episódio até hoje não esclarecido (FAUSTO, 1995). João Goulart, o vice, quase
não conseguiu assumir o cargo, e somente o fez quando se instalou o regime
parlamentarista que retirava da figura do presidente boa parte de seu poder.
Em meio às mudanças no regime político – de presidencialismo para
parlamentarismo e novamente retornando ao presidencialismo em 1963 – Goulart
dirigiu um País com altos índices de inflação, pressões do movimento estudantil,
operário e sindical, organização dos trabalhadores no campo, invasões de terras
e greves. A tensão social era grande e nos últimos meses de seu governo já
estavam articuladas as forças de oposição formadas pelos setores mais
conservadores da sociedade que defendiam um golpe, ou melhor, uma
“revolução” como eles a chamavam à época, com a tese de que ...só uma
revolução purificaria a democracia, pondo fim à luta de classes, ao poder dos
sindicatos e aos perigos do comunismo (FAUSTO, 1995, p. 458).
Em 31 de março de 1964, os militares assumiram o poder com o discurso
expresso de que iriam livrar o país da corrupção e do comunismo e restaurar a
democracia, mas começaram a governar através de decretos, os Atos
Institucionais (AI), que justificavam como instrumentos de um governo
revolucionário. O AI-1 tratou de concentrar poder no Executivo, suspendeu
imunidades parlamentares e autorizou a cassação de mandatos legislativos em
274
todos os níveis; suspendeu a estabilidade dos funcionários públicos e a
vitaliciedade dos magistrados. Foram objeto das primeiras ondas repressivas os
estudantes, os líderes rurais, os dirigentes sindicais, além de cinqüenta
parlamentares e quarenta e nove juízes somente no nível federal, além de
funcionários públicos civis e militares.
Apesar de todo esse quadro autoritário e repressivo, o regime militar
manteve, na maior parte do tempo, uma fachada democrática, isto é, as
instituições, como o Congresso e o Judiciário, sofreram alterações mas
mantiveram suas funções gerais, o que dava ao regime uma aparente legalidade.
Em abril foi eleito pelo Congresso, por indicação das Forças Armadas, o primeiro
presidente militar, o general Humberto de Alencar Castelo Branco.
O AI-2, de 1965, instituiu formalmente as eleições indiretas para presidente
e vice e deu poderes para que eles baixassem decretos-leis complementares
sobre matéria de segurança nacional, o que fez com que quase toda a vida do
país sofresse a intervenção direta do presidente, através de decretos, pois os
militares tinham uma compreensão bastante elástica do que era uma “questão de
segurança nacional”. Através do AI-3, em 1966, estabeleceram-se eleições
indiretas também para os governadores dos Estados.
Em outubro do mesmo ano o presidente fechou o Congresso, que havia
sido submetido a mais cassações, e logo depois convocou-o novamente, através
do AI-4 para “votar” a nova Constituição, o que foi feito em janeiro de 1967.
Segundo Fausto, a Constituição de 1967 incorporou esse aumento de poder do
Executivo, embora não tivesse mantido os dispositivos que permitiam cassações
e perda de direitos políticos. Sobre essa ordem constitucional o autor diz:
275
Uma das características do regime implantado em 1964 foi o de
não ser uma ditadura pessoal. Poderíamos compará-lo a um
condomínio em que um dos chefes militares – general de quatro
estrelas – era escolhido para governar o país com prazo definido.
A sucessão presidencial se realizava, de fato, no interior da
corporação militar, com audiência maior ou menor da tropa,
conforme o caso, e decisão do Alto Comando das Forças
Armadas. Na aparência, de acordo com a legislação, era o
Congresso quem elegia, descontados os votos da oposição,
apenas sacramentava a ordem vinda de cima (1995, p. 475).
Decretada a Constituição, o regime militar concluiu o seu processo de
institucionalização da “revolução”, sob o qual se pretendia garantir um “ambiente
democrático”, nas palavras dos dirigentes do país, como diz Evaldo Vieira:
Havia, pois, “harmonia, tranqüilidade e cooperação necessária à
recuperação da vida nacional”. Castelo Branco entendia que o
processo de redemocratização crescera desde o dia 31 de março
de 1964, indicando como provas disto “o funcionamento normal
do Judiciário e do Legislativo, a liberdade de Imprensa e a
liberdade sindical” (1995, p. 193).
O objetivo dos militares que assumiram o poder e que formavam um grupo
com fortes vínculos com a Escola Superior de Guerra,era organizar o país sob
uma democracia restrita e reunir condições para, no plano econômico, reformar o
sistema capitalista tornando-o mais moderno, o que, segundo eles, poderia
impedir que as idéias comunistas proliferassem em meio ao atraso e à pobreza
reinantes. Na prática, eles precisavam enfrentar a situação econômica herdada do
período anterior, controlar as massas trabalhadoras tanto no campo como nas
cidades e reorganizar o aparelho de Estado.
Dado o caráter autocrático do governo, desde o início foram adotadas
medidas impopulares sem problemas maiores, sem reações da sociedade. Logo
na gestão de Castelo Branco foram feitos cortes em subsídios, aumentos de
276
impostos, alterações na Consolidação das Leis Trabalhistas com o fim da
estabilidade no emprego, tudo visando conter a inflação, flexibilizar o emprego e
conter a força da organização dos trabalhadores. Após 1968, a repressão
aumentou como resposta às tentativas de reorganização dos movimentos sociais
e a perda de parte do apoio social ao regime.
No que diz respeito ao Poder Judiciário, além da perda da vitaliciedade e
da inamovibilidade dos magistrados ocorridas por força do AI-1 e AI-2, foi recriada
a Justiça Federal de primeira instância, com juízes indicados pelo presidente em
todos os Estados e no Distrito Federal e ampliado o poder do Supremo Tribunal
Federal, que passou a ser o responsável exclusivo pelo controle constitucional
das leis, centralizando o julgamento de qualquer representação de
inconstitucionalidade – o que, aliás, perdura até hoje. Após 1968 o número de
ministros do STF foi reduzido de dezesseis para onze e limitadas as suas
competências com relação ao julgamento de habeas corpus e recursos relativos a
mandados de segurança impetrados pelos tribunais inferiores (ARANTES, 1997),
demonstrando uma crescente concentração de poder e de controle do Executivo
sobre os demais poderes.
Na área da política social as ações do regime militar seguiram três
princípios básicos: a concentração de todas as diretrizes na esfera federal, um
predomínio da tecnocracia sobre outras formas de gestão e o estímulo às
estruturas que articulassem o público com o privado como forma de beneficiar o
privado. Esses princípios regeram a política dos Ministérios da Saúde e da
Educação por exemplo, e de órgãos como o Banco Nacional de Habitação - BNH,
277
a Legião Brasileira de Assistência - LBA e a Fundação Nacional do Bem-Estar do
Menor - FUNABEM, sobre a qual trataremos mais detalhadamente.
A Doutrina Brasileira de Segurança Nacional (DSN), formulada no interior
da Escola Superior de Guerra envolvendo quadros militares e civis, dava ênfase à
segurança interna como mecanismo de resguardar o país em meio a uma guerra,
a guerra fria, que envolvia todo o mundo. Fulvia Rosemberg fala sobre a DSN:
Para a DSN, a guerra total era sem quartel, não se restringindo
mais à esfera militar, envolvendo a vida política, econômica e
cultural. Uma forma de expressão da guerra total, a guerra
revolucionária era tida como estratégia do comunismo
internacional para penetrar na África, Ásia e América Latina,
principalmente através da variante da guerra psicológica. O
anticomunismo constituía o eixo ideológico básico das forças
armadas brasileiras e latino-americanas (ROSEMBERG, 1997, p.
140).
Consoante com essa análise da realidade, a DSN incluiu a “questão social”
como objeto expresso de intervenção do governo. Os grupos marginalizados, os
desassistidos, frutos de um processo social perverso, tendiam a se tornar
geradores de desarmonia. Entre esses grupos estavam as crianças e os jovens
pobres como diz Arno Vogel:
... a massa crescente de crianças e jovens marginalizados fazia
prever, a curto e médio prazo, prejuízos consideráveis, quer do
ponto de vista sócio-econômico, quer do ponto de vista político.
No primeiro caso, em virtude da riqueza que se deixava de gerar
e do dispêndio com o qual se teria de fazer face aos problemas
sociais decorrentes da marginalização. No segundo, em virtude
do risco de que o potencial constituído por esses “irregulares”
viesse a ser capitalizado por forças contrárias ao regime (VOGEL,
1995, p. 304).
A compreensão de que o problema do menor era uma questão de
segurança nacional e, portanto, deveria ser atacado de forma estratégica pode
278
ser observada em toda a sua lógica no pronunciamento do então ministro da
justiça, Alfredo Buzaid, por ocasião do III Encontro Nacional de secretários
estaduais, presidentes de Fundações Estaduais e diretores de Serviços de
Menores, realizado em 1973. Dizia ele:
Quando um país tradicionalmente agro-pecuário sofre, em virtude
do desenvolvimento, uma intensa industrialização, começa o
êxodo rural. Apesar dos esforços do Estado e do Município,
surgem daí graves problemas sociais, entre eles o dos menores.
Tais problemas importam, por sua vez, à segurança nacional,
entendida como “defesa da Pátria contra inimigos visíveis ou
invisíveis”. A marginalização do menor cria uma situação ampla
de desassistência para “milhares e milhares de menores” e, com
isso, abre caminho para o surgimento “no fórum mais profundo de
sua alma”, de um “natural sentimento de revolta”. Tal sentimento
não pode ser ignorado como campo fértil para a ação dos
mencionados inimigos da Pátria. {...} Dessa perspectiva são dois
os “inimigos invisíveis” da Pátria. O primeiro são as drogas –
meios utilizados para o “desfibramento da família cristã” – e os
traficantes. O segundo são os propósitos “contrários à moral e aos
bons costumes”, compreendendo-se aí os livros obscenos e as
leituras que afetam os valores da tradição cristã. Tudo isso a
serviço de “agentes internacionais” empenhados no cumprimento
de um suposto preceito leninista – “desmoralizai a juventude e a
revolução comunista estará ganha” (apud VOGEL, 1995, p. 310).
Incorporando o conjunto de críticas severas que eram feitas por vários
segmentos da sociedade ao sistema coordenado pelo SAM, o regime militar
propunha solucionar o problema através de mecanismos prioritariamente
preventivos. E o ministro Buzaid declarava, no mesmo pronunciamento, que a
prevenção ...Consiste “num conjunto de medidas legislativas, administrativas e
até mesmo políticas, tendentes a separar o menor que se encontra marginalizado,
recuperando-o e restituindo-o à vida social (idem).
Desde o início da década de 1960 a necessidade de extinção do SAM e
órgãos correlatos como o Serviço Social de Menores em São Paulo, era uma
279
unanimidade entre os profissionais envolvidos com a questão. A Declaração dos
Direitos da Criança, promulgada pelas Nações Unidas em 1959, constituindo-se
em uma carta internacional de direitos da criança, contribuiu para aprofundar o
mal estar reinante com relação às condições subuhumanas em que se encontrava
a maior parte da população infanto-juvenil no Brasil, incluindo-se aí os segmentos
assistidos pelo SAM. Assim, o regime militar procurou capitalizar esse
descontentamento geral mostrando-se apto a dar uma resposta radical, de
impacto: em 01 de dezembro de 1964 é aprovada a Lei n. 4.513 que “...autoriza o
Poder Executivo a criar a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, a ela
incorporando o patrimônio e as atribuições do Serviço de Assistência a Menores,
e dá outras providências”.
As diretrizes da FUNABEM para a política de assistência ao menor
estavam de acordo com tudo aquilo que havia sido debatido nos diversos fóruns
de profissionais e demais segmentos organizados da sociedade civil até então.
Estava previsto no seu estatuto, artigo 6º, que as diretrizes da política deveriam:
I - Assegurar prioridade aos programas que visem à integração do
menor na comunidade, através de assistência na própria família e
da colocação familiar em lares substitutos;
II - Incrementar a criação de instituições para menores que
possuam características aproximadas das que informam a vida
familiar e, bem assim, a adaptação, a esse objetivo, das entidades
existentes de modo que somente se venha a admitir internamento
do menor à falta de instituições desse tipo ou por determinação
judicial. Nenhum internamento se fará sem observância rigorosa
da escala de prioridade fixada em preceito regimental do
Conselho Nacional;
III - Respeitar, no atendimento às necessidades de cada região do
país, as suas peculiaridades, incentivando as iniciativas locais,
públicas e privadas, e atuando como fator positivo na dinamização
e autopromoção dessas comunidades.
280
Em pouco tempo as diretrizes constantes no Estatuto da FUNABEM se
tornariam letras mortas devido principalmente ao modelo altamente centralizado e
à priorização da internação como medida de segregação dos menores
marginalizados.
Organizada como uma Fundação, a FUNABEM foi criada para ser uma
entidade autônoma administrativa e financeiramente, com o fim de que tivesse
liberdade para a contratação de quadros profissionais adequados e sumária
substituição, no caso de inadequação do pessoal. Buscava-se evitar os
problemas do SAM, onde a corrupção e a falta de estímulo do pessoal aliada à
máquina administrativa pouco ágil, com dotações de recursos limitados,
dificultava a ação do órgão, que muitas vezes necessitava ser emergencial.
Segundo os princípios contidos no seu estatuto, a FUNABEM era um órgão
central, de caráter normativo, que tinha por incumbência básica repassar recursos
e know-how. Assim, foi criado um complexo central no Rio de Janeiro, conhecido
como Centro-Piloto Quintino, formado por antigas unidades pertencentes ao SAM
que foram remodeladas para se transformarem em centro de atendimento direto
onde se aplicavam e avaliavam modelos de atendimento. Foi pensado para ser
um centro de formação de recursos humanos especializados, de treinamento e de
difusão das bases científicas formuladas pela Fundação, capazes de sustentar
tanto conceitualmente como politicamente a sua estratégia de controle social.
Para operacionalizar essa proposta, a FUNABEM necessitava da adesão
dos estados que deveriam encarregar-se de aplicar os recursos e o modelo, in
loco. Assim, segundo Arno Vogel, foi desencadeado um ...processo de
281
sensibilização dos governos estaduais, que deu origem às Fundações Estaduais
do Bem-Estar do Menor – FEBEM’s. (VOGEL, 1995, p. 307).
A direção da FUNABEM, logo de início ficou a cargo do médico Mario
Altenfelder, designado pelo presidente da República, a quem a fundação estava
diretamente vinculada. Possuía também um Conselho Nacional formado por
representantes de várias entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, a
Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, o Conselho Federal de Assistentes
Sociais, a Legião Brasileira de Assistência, entre outras, cujos nomes eram
indicados pelas respectivas entidades e submetidos ao presidente da República.
Dez anos depois, a FUNABEM anunciava que mantinha 100 convênios,
destinando mais de 40 milhões de cruzeiros para financiar 605 projetos em quase
todos os estados da Federação. A maior parte desses recursos foram destinados
à criação de infra-estrutura para centros de recepção e triagem, centros de
reeducação e de prevenção das Fundações Estaduais, fora os recursos gastos
com treinamento e capacitação de recursos humanos (VOGEL, 1995).
A Política Nacional do Bem-Estar do Menor foi aclamada por muitos na
época, como a resposta que vinha sendo buscada há décadas para o problema
do menor, mas, apesar do ambiente repressivo daqueles tempos, algumas vozes
apontavam já os seus problemas. Uma dessas vozes, isolada mas contundente,
foi a do Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara, Dr.
Francisco Pereira de Bulhões Carvalho, que publicou uma série de artigos no
jornal O Correio da Manhã, ao longo dos anos de 1964 e 1965, com críticas ao
modelo da PNBEM e reiterou-as no prefácio ao livro do Dr. Aldo de Assis Dias, O
menor em face da justiça, datado de 06 de julho de 1967 (DIAS, 1968).
282
No texto do prefácio ele aponta alguns problemas graves da Fundação
como o fato dela não ter dotação orçamentária com fonte própria, ficando
subordinada aos interesses imediatos do governo, e de não aparelhar os Juizados
de Menores. Deixando clara a sua filiação ao modelo de Juizado de Menores
construído pelo Dr. Aldo de Assis Dias em São Paulo, o Desembargador Bulhões
Carvalho explicou quais seriam, na sua visão, as conseqüências do modelo
preconizado pela FUNABEM, citando partes dos seus artigos publicados nos
jornais cariocas:
O que irá acontecer será o seguinte: a Fundação não aparelhará
em nada os Juízos de Menores Estaduais; não lhes fornecerá
funcionários nem verba, nem estabelecimento algum para que
fiquem à sua exclusiva disposição e autoridade. Irá apenas
aguardar que os juízes de menores lhe enviem os menores
abandonados e infratores das leis penais, para que a Fundação
proceda em relação a êles como lhe pareça mais conveniente.
Será a ressurreição e a consagração da antiga estrutura do SAM,
precisamente no que tinha de mais condenável e mais
desconforme à sua finalidade, qual seja, a usurpação das funções
judiciárias. Desaparecerá a autoridade do juiz de menores, dado o
seu total desaparelhamento para uma ação pessoal eficaz, e será
substituído pela autoridade arbitrária da Fundação, que esta sim,
exercerá a verdadeira autoridade judiciária sôbre os menores.
Essa autoridade, entretanto, será falha e ineficaz, porque a
Fundação não tem poderes legais para ordenar as medidas
coercitivas e corretivas contra os menores ou seus responsáveis;
e o juiz, por seu turno, que detém legalmente tais poderes,
continuaria sem o poder de exercer, na prática, por falta de
recursos e instalações próprias de ordem material e funcional (In:
DIAS, 1968, p. 23).
A preocupação do Dr. Bulhões Carvalho era a mesma da maior parte dos
juizes de menores do país, no entanto a maioria deles não se opôs frontalmente à
PNBEM. Como parte do poder do Estado, o Poder Judiciário, em suas vozes
283
oficiais pronunciou-se favorável às medidas do Executivo e tratou de adaptar-se à
nova ordem.
Passados os primeiros anos das mudanças políticas foi retomado o debate
em torno da reforma da legislação de menores. Em 1968, o III Encontro de juizes
de menores apresentou um novo esboço de projeto para reformulação da lei, que
não foi levado adiante. Porém ficou clara pela carta de princípios aprovada no
Encontro ....a disposição dos juízes em não abrir mão do espaço de atuação que
a história lhes legou (RIZZINI, 1995, p.155).
Eles discutiam a reestruturação e o reaparelhamento dos Juizados de
Menores e a reformulação da legislação e buscavam garantir que os juizes de
menores não se restringissem ao mero controle da regularidade formal do
processo. No IV Encontro Nacional, em 1970, eles afirmavam que o juiz ....é o
intérprete das exigências formadoras e educativas dos jovens e dos reclamos dos
problemas sempre novos da família... (apud RIZZINI, 1995, p. 155).
Uma disputa polarizada pelos juizes de São Paulo e do Rio de Janeiro ao
longo desses encontros75 desvelava as posições técnicas e políticas que
envolviam a questão, de um lado um grupo mais liberal, de outro um mais
conservador. O grupo de São Paulo, que ao longo dos anos foi forjando suas
idéias nas Semanas de Estudos do Problema de Menores, defendia uma ação
restrita da esfera judicial, entendia o problema de menores como uma questão
75
Segundo Irene Rizzini, esses debates extrapolavam as fronteiras nacionais,. Eles aconteciam também no
âmbito das entidades de juizes de menores latino-americanas e internacionais. O oitavo e o nono congressos
da Associação Internacional de Juízes de Menores ocorridos em 1970 e 1974 respectivamente reforçavam o
papel do juiz como promotor do apoio à família e à comunidade, salvaguardando os direitos do menor e da
família e considerando o menor como sujeito de direitos e não objeto de direitos, mais em consonância com
as posições dos juizes paulistas que com a posição majoritária predominante aqui naquele momento
(RIZZINI, 1995)
284
vinculada a estrutura social injusta e acreditava numa ação preventiva e
assistencial do Juizado de Menores. O grupo do Rio de Janeiro, que nessas
alturas era majoritário, estava mais preocupado em formar as bases de um Direito
Menorista.
Os juízes de São Paulo apresentaram uma proposta para a reforma do
Código de Menores, redigida pelo Promotor Público João Benedito de Azevedo
Marques e que seguia a filosofia proclamada nas primeiras Semanas de Estudos
do Problema de Menores, de que o menor é vítima da sociedade e de que o
fenômeno da marginalização está ligado ao não-atendimento de suas
necessidades básicas e de sua família. Sobre esse projeto o Dr. Alyrio Cavallieri,
juiz de menores da Guanabara disse à época:
...um Código de Menores que atribua a um Juiz resolver
problemas de saúde, educação, profissionalização, recreação,
segurança nacional, ou é uma carta de princípios, uma declaração
de direitos ou é: a) um edito destinado a expor o Juiz de Menores
à irrisão; b) ou uma petição de princípios, sugestão a que se dê
aos Juizes de Menores os poderes dos ministros da saúde, da
educação, do trabalho, da justiça e de um ministério ainda não
existente, o do lazer (apud RIZZINI, 1995, p. 157).
Não é mera coincidência que a proposta dos juízes de São Paulo estivesse
tão próxima da que foi forjada anos mais tarde, o Estatuto da Criança e do
Adolescente, pois os debates em torno das Semanas de Estudos contribuíram
muito para que eles desenvolvessem uma visão mais ampla das questões sociais.
Eles se constituíam, de fato, em uma vanguarda nessa compreensão. Mas,
naquele momento, eles não tiveram condições de impor as suas idéias, contavam
com a oposição da maior parte dos juízes de menores do país e teriam ainda uma
285
oposição interna, no próprio Estado de São Paulo, dentro do próprio Poder
Judiciário, como veremos mais adiante.
Em 1977, a proposta dos juízes de São Paulo ainda tramitava no
Congresso quando, em1979, outra lei foi aprovada. O novo Código de Menores, a
Lei Federal N. 6.697/79 de 10 de outubro de 1979 veio substituir o Código de
Menores de 1927. O novo Código introduziu a doutrina da situação irregular, que
acabou com a clássica separação entre abandonados e delinqüentes; ampliou
sensivelmente os poderes do juiz de menores, dando-lhe entre outras atribuições
a de determinar, através de portarias, medidas de ordem geral e, no caso dos
infratores, reuniu no próprio juiz as funções de acusação, defesa e fiscalização
das próprias decisões.
Por outro lado, a Lei 6.697/79 manteve a maioridade penal aos 18 anos de
idade, resistindo às pressões vindas dos militares para reduzi-la e revogou alguns
dispositivos da Lei de Segurança Nacional que incidiam sobre menores de idade.
Mesmo assim o Promotor Azevedo Marques considerou que, em alguns aspectos,
essa Lei representou um ...retrocesso de mais de 50 anos, tendo em vista o
Código de 1927 (apud. RIZZINI, 1995, p. 158).
Felizmente o começo do fim do regime militar já despontava e o Código de
Menores não teve vida muito longa. Porém, no período de sua vigência, os juízes
de menores conseguiram, pela via do reforço de uma legislação que lhes dava
maiores poderes na esfera judicante, garantir um espaço de autonomia. Eles
abriram mão de seu protagonismo na área do menor, abriram mão do poder de
interferir diretamente na política de atendimento como propunha o [Link] de
286
Assis Dias e os demais defensores da proposta organizada em São Paulo e
obtiveram, em contrapartida, autonomia em sua função estritamente judicial.
A postura adotada pelo Judiciário nesse aspecto visava reduzir os pontos
de conflito entre Executivo e Judiciário, e acomodar as vozes discordantes
internas. Contudo, por trás do discurso da ação estritamente judicante do
Judiciário estava uma visão liberal conservadora, e naquele momento
subarternizante, que não se propunha enfrentar o Executivo em questões que
envolvessem, por exemplo, problemas sociais.
4.2. O juizado judicante: o desmonte da máquina assistencial e a
construção da função de perito para o Serviço Social
4.2.1. Crise e expurgos no interior do Juizado de Menores
A saída do Dr. Aldo de Assis Dias do Juizado de Menores da capital, em
novembro de 1965 foi o sinal de que o Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo apoiava, mesmo com restrições, a política nacional do governo para o bem-
estar do menor. O Dr. Aldo era um defensor, um ativista mesmo, da proposta de
um juizado assistencial, ou para utilizar uma outra denominação, um complexo
tutelar. Sua capacidade de articulação aliada à sua respeitabilidade, que eram
incontestáveis, não foram suficientes para mantê-lo à frente do Juizado de
Menores naqueles tempos difíceis.
287
Seu substituto, o Dr. Arthur de Oliveira Costa, já atuava como juiz auxiliar
no Juizado de Menores da capital, e procurou manter a estrutura em
funcionamento seguindo os mesmos princípios propostos pelo Dr. Aldo, mas a
conjuntura interna e externa ao Judiciário havia mudado bastante. As críticas à
estrutura do Juizado cresciam a cada dia e a política nacional para a área forçava
mudanças para a criação de uma Fundação em São Paulo. Therezinha
Zabirowski Davidovich fala mais sobre essas críticas:
As críticas que se fazia ao Dr. Aldo de Assis Dias é que ele era
megalomaníaco, que ele fez, insuflou a Vara de Menores, fez
daquilo uma árvore de natal! Não é verdade, não é justo dizer
isso! Ele precisava executar, ele era um homem muito sério, muito
consciente do seu papel, muito consciente! E ele realmente não
tinha retaguarda, agora, existem mil problemas pelos quais a
retaguarda não cumpria sua missão, se você me perguntar hoje,
por que não existe escola suficiente? {...} Mas ali na área da
Infância e Juventude também não existiam recursos e o Dr. Aldo
foi conseguindo mobilizar, foi conseguindo montar. Aí realmente
veio o problema do confronto, da comparação, e isso gerou, por
parte do executivo, uma atitude de crítica muito forte: que o Poder
Judiciário estava extrapolando as suas funções. Esse era o verso,
essa era a prosa (depoimento, 2003).
Da parte do Executivo, a justificativa para as críticas ao Juizado eram
formuladas de maneira a sugerir que, naquele momento, havia uma estrutura em
formação que tinha transformado o SAM na FUNABEM, constituindo-se esta em
um modelo de alta qualidade técnica. Em São Paulo o Serviço Social de Menores
e o Serviço Social do Estado haviam se fundido, criando em 1969 a Secretaria
Estadual de Promoção Social. Tudo no Executivo, federal e estadual, estaria
caminhando, segundo eles, rumo à construção de um verdadeiro aparato de alta
qualidade capaz de dar um atendimento aos menores. Assim não havia mais
necessidade do Juizado “extrapolar as suas funções”, ”invadir campo alheio”,
288
deveria, pois, se restringir à ação judicante e deixar a execução para o Executivo.
Mas no Estado de São Paulo as mudanças ainda não estavam completas, como
podemos observar na fala de João Batista Adduci:
...com a criação da Secretaria de Promoção, os técnicos do
Serviço Social de Menores e do Serviço Social do Estado
reorganizaram a assistência social pública. Eles fizeram uma
reorganização, eles estruturaram a Secretaria da Promoção com
várias coordenadorias, então aí passamos a ter Coordenadoria
para a Assistência Social Pública, Coordenadoria para a Ação
Social, aí foram várias coordenadorias, e no final uma lei foi criada
estabelecendo duas grandes coordenadorias, e a Secretaria e o
Secretário, e o Serviço Social de Menores ficou açambarcado
nessa estrutura. Mas continuava o problema: o Juizado de
Menores e a Secretaria da Promoção. De vez em quando os
Juízes visitavam Secretários, Secretários visitavam Juízes, mas
nós Assistentes Sociais não participávamos, nem as pessoas
mais influentes, desses acordos que periodicamente eles
faziam...{...} Eles não possibilitavam a interferência e quando
possibilitavam, nós, Assistentes Sociais, no desejo de atender à
população, criávamos recursos. Claro, havia faixas desassistidas
pelo Serviço Social de Menores. Quem é que fazia? O Juizado e
vice-versa. Então daí cada vez mais ia se consolidando a
necessidade de uma fundação, de uma coisa que só cuidasse de
criança, percebe? A gente ia sentindo muito isso (depoimento,
2002).
Além das críticas do Executivo também existia a crítica interna feita pelo
próprio Tribunal que não aceitava a estrutura do Juizado porque era onerosa,
administrativamente incompatível com a estrutura geral da instituição, gerava
problemas políticos, projetava excessivamente a figura do juiz de menores, além
de causar problemas de natureza administrativa como diz Suraia Daher: O
Presidente do Tribunal dizia que não queria ser acordado três horas da manhã,
para ver se tem alface nos depósitos do RPM (depoimento, 2003).
Apesar da grande força que possuía o grupo de juízes de menores
paulistas que defendia a ampliação da esfera de ação do Juizado de Menores,
289
mesmo no interior do Judiciário as forças favoráveis à redução de sua estrutura
foram ganhando cada vez mais expressão. Therezinha Z Davidovich em seu
depoimento diz: Dentro da área do Judiciário, dentro da magistratura, dentro dos
órgãos governamentais, aí ficou os que eram favoráveis e os outros, uns diziam:
mas ele {o juiz} tem que internar, onde é que ele vai por? Outros diziam: mas isso
não é função dele (depoimento, 2003).
Na alta cúpula do Tribunal de Justiça cresceu a influência dos que
defendiam a redução da estrutura do Juizado de Menores, como diz Beatriz
Cardos Esteves Franco:
Essa era a idéia dos Desembargadores, comandados pelo Dr.
Marrey que achava que o Juizado deveria ter única e
exclusivamente ação judicante, ele não deveria entrar na
execução. Não tinha nada contra, aliás achava muito bom, mas
era um ônus muito grande porque tinha que ter uma verba muito
grande, tinha que se administrar aquela verba toda, ele achava
que o Judiciário era para julgamento, não para execução
(depoimento, 2003).
O Dr. Adriano Marrey foi o responsável por fazer renascer as Semanas de
Estudos do Problema de Menores. Oito delas haviam sido organizadas entre 1948
e 1957, sendo interrompido esse primeiro ciclo com a colocação em prática de
uma parte das propostas, por intermédio do Juizado de Menores, no período em
que o Dr. Aldo assumiu a sua condução, tornando-o uma referência nacional e
internacional na execução de programas de atendimento modelo na área do
menor76. Sob o comando do Desembargador Marrey, filho do eminente jurista Dr.
76
Os entrevistados fizeram várias referências a isso, Zilnay Catão Borges, por exemplo, cita que vários
profissionais foram a Curitiba-PR para formar quadros para a implantação do Serviço Social no Poder
Judiciário daquele Estado; Suraia Daher relata o período em que ficou em Goiás auxiliando a implantação do
Serviço Social no Judiciário, sem falar na visitas que o complexo do CEJ (COF, RPM, Cassa de Estar)
290
Marrey Jr., as Semanas foram retomadas, mas agora com outro objetivo: o de
desmontar a estrutura do Juizado de Menores.
Foram quatro semanas realizadas em 1969, 70, 71 e 73, para as quais
foram convidados a participar da promoção os mesmos protagonistas das
primeiras semanas: o Tribunal de Justiça, a Procuradoria Geral da Justiça, a
Escola de Serviço Social da PUC/SP, dentre outros. Todavia o clima dos debates
era outro. Como presidente da Comissão Executiva, o Dr. Marrey fez a abertura
dessas semanas juntamente com o presidente do Tribunal de Justiça e demais
autoridades. Nos discursos proferidos nas solenidades de abertura e
encerramento ele deixava sempre muito claro o seu alinhamento e o da instituição
Tribunal de Justiça com a política do governo militar, como podemos observar:
Visando atingir o melhor rendimento, aproximando-se da solução
que, dentro das contingências, se afigura a melhor, já constituiu o
Governo da República, como obra do regime da Revolução de
1964, a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, confiada à
dedicação do melhor especialista brasileiro, que é o Dr. Mario
Altenfelder. O Poder Judiciário de São Paulo está concorrendo, na
medida do possível, a fim de que a providência se concretize
igualmente em nosso meio, tendo para isso tomado a iniciativa da
elaboração, pela Egrégia Corregedoria Geral da Justiça, de um
anteprojeto de lei, já entregue ao Poder Executivo, na
administração anterior, para a constituição da Fundação Estadual
do Bem-Estar do Menor (Anais da XI Semana de Estudos do
Problema de Menores, 1972).
Reproduzindo o discurso ufanista do regime militar e da FUNABEM, o Dr.
Marrey ignorou, nos seus pronunciamentos, os debates que vinham sendo
travados entre os juizes de menores do próprio Estado de São Paulo com outros
juízes de posicionamentos opostos, além de pouco citar os serviços construídos
recebia de delegações de vários países do mundo durante a década de 50 e primeira parte da década de 60,
também citados nos relatos.
291
pelo Juizado da capital. Ele dizia citando o general presidente Emilio Garrastazu
Médici:
Cumpre que em nosso Estado, como em todo o país, se realize,
no campo da assistência ao menor, a obra renovadora a que
aludiu o Exmo. Sr. Presidente da República, em memorável
pronunciamento, quando de sua visita à Fundação Nacional, em 5
de outubro do ano passado. Notou [Link]. que ela havia tomado
posição junto aos serviços sociais, trazendo “a mensagem de uma
nova política”, eliminando, no trato dos menores transviados, a
mentalidade presidiária do antigo e famigerado Serviço de
Assistência ao Menor. Falando do plano educacional a ser
empreendido através da Fundação Nacional, disse o Exmo. Sr.
Presidente da República – “desenvolveremos a mentalidade que
esta casa planta, voltada para o objetivo de escolas formadoras e
qualificadoras, que haverão de substituir, em definitivo, a
deformadora experiência de reformatórios e internatos
correcionais. Somente no aconchego de instituições que tenham
características de vida familiar e de observância às peculiaridades
regionais é que se há de processar a integração do menor à
comunidade, o encontro consigo mesmo, a consciência de suas
potencialidades geradoras e a realização de tanta vocação que
este país vem desperdiçando sem poder mais desperdiçar”
(idem).
Apesar dos discursos doutrinários das solenidades, a leitura da transcrição
de alguns extratos dos debates ocorridos ao longo dessas semanas de estudos
deu uma pequena idéia dos problemas e tensões existentes. Vários juízes de
comarcas do interior, em suas falas, continuavam solicitando do Tribunal a
implantação do Serviço de Colocação Familiar, e citavam casos, pediam solução
para problemas específicos. Houve também pronunciamentos marcando
posicionamentos: o Dr. Ítalo Galli do Tribunal de Alçada e ex-juiz de menores de
Apiaí, por exemplo, defendeu que toda a estrutura assistencial estivesse
subordinada ao Juizado, confrontando-se com a posição oficial da instituição ele
disse:
292
Entendo que o serviço do Juizado de Menores deveria
superintender todo o serviço atinente ao menor, desde a fase do
julgamento até a sua execução. {...} Então não posso entender
que o Juiz de Menores julgue abandonado o menor, ou então
estabeleça uma disciplina, uma sanção ao menor que dela
necessite, e depois o abandone a um outro Poder completamente
estranho, que seria no caso o Executivo, e que estaria sujeito a
outras injunções que não à estrita justiça como é a que orienta o
Juizado de Menores (idem).
E recebeu como resposta do Dr. Alyrio Cavallieri, juiz de menores da
Guanabara e proeminente membro do grupo de juízes que defendia um Juizado
de Menores de funções estritamente judicantes, a seguinte resposta:
O Tribunal de Justiça do meu Estado, sensível ao assunto,
ampliou, na nova organização judiciária que entrou em vigor a 1º
de janeiro deste ano, os quadros administrativos do Juizado de
Menores. No decorrer de cinco anos, o Juizado de Menores da
Guanabara poderá contar com cerca de 170 novos cargos, sendo
50 de comissários de menores, 50 de assistentes sociais, 4
juízes auxiliares, médicos, enfermeiros, etc. {...} Significa isso que
o Tribunal de Justiça do Estado da Guanabara, embora
estabelecendo desde logo que o Juiz não tenha sob seu cargo
estabelecimentos de abrigo ou de assistência, deseja ampliar as
funções não judicantes do Juiz de Menores. Nessa organização
judiciária atribui ao Juiz de Menores a fiscalização do trabalho do
menor, a fiscalização da freqüência a espetáculos, a fiscalização
de estabelecimentos de menores, assim como autoriza o Juiz de
Menores a se cercar de conselhos técnicos para estabelecer
censuras e para assessoramento de ordens técnicas {grifo nosso}
(idem).
O Dr. Alyrio Cavallieri sintetizava a proposta à qual havia aderido o Tribunal
de Justiça do Estado de São Paulo77. Em sua fala buscou demonstrar que nessa
77
Também no Estado de São Paulo, o Poder Judiciário procedeu a uma reforma da organização judiciária. O
Decreto-Lei Complementar N. 27 de agosto de 1969 alterou a organização judiciária do Estado de São Paulo.
A proposta era ampliar os serviços judiciários. Foram criadas novas comarcas, refeita a divisão territorial no
interior e a descentralização das Varas na capital com a criação de 12 Varas Distritais em pontos estratégicos
da cidade, com competência para julgar alguns tipos de casos (artigos 32 a 35). Por esse decreto o Juizado de
Menores manteve a sua estrutura, contando a capital com uma única Vara de Menores, dois cartórios, e
demais juízes auxiliares O Juizado foi dividido em cinco zonas: centro, norte, sul, leste e oeste, funcionando,
fora o centro, com juízes auxiliares (artigos 45 a 50). É importante frisar que a ampliação dos serviços de
293
nova proposta o juiz não perderia poderes, ao contrário, até poderia ampliar seu
espectro de ação, mas não na área assistencial. Diante do alinhamento do
Tribunal de São Paulo a esse modelo, a estrutura do Juizado de Menores da
capital estava fadada a ser desmontada. Porém, para que isso acontecesse, o
governo do Estado de São Paulo teria que tomar a iniciativa e criar a sua
Fundação Estadual, como já o havia indicado o próprio Tribunal de Justiça.
A idéia de uma Fundação vinha sendo vista, até mesmo pelos profissionais
que atuavam no Juizado de Menores como uma alternativa para a tensão que se
havia instalado entre Executivo e Judiciário, e eles até mesmo contribuíram nos
estudos para a sua criação, como diz Therezinha Z. Davidovich:
Eu me considero privilegiada porque eu vivi todo um clima de
conhecimento, de reflexão, dizendo assim: tudo bem, o judiciário
está extrapolando, o executivo não cumpre. Por que o executivo
não cumpre? Por causa da burocracia, das injunções políticas.
Então qual seria o ideal? {...} Não sei, era um órgão que tivesse
autonomia técnica e administrativa. Com esses dois ganchos o
problema de assistência ao menor estaria resolvido. {...} Então,
quando eu ouvi dizer que iam criar uma fundação, eu participei
disso com uma vibração imensa, porque em cima dessas
condições – autonomia técnica e administrativa – eu disse: pronto,
o problema está resolvido. Então tudo bem, não vai ficar no
judiciário? Tudo bem, está fugindo? Não é judicante? Mas não vai
para o executivo para se transformar naquilo que era o “[Link].
Auxiliadora”, o que era o Instituto Modelo de Menores, entendeu?
Que a gente sabia que era funcionário desestimulado, não podia
ser demitido porque era funcionário público, desinteressado, não
tinha élan (depoimento, 2003).
No entanto, as forças políticas paulistas não aceitaram facilmente filiar-se
ao projeto nacional; afinal, São Paulo era um Estado poderoso. Havia um projeto
educacional próprio, formulado por alguns dos segmentos que criaram o
administração da justiça não vinha acompanhada de ampliação da autonomia do Poder Judiciário, em um
momento em que se vivia o aprofundamento das ações repressivas durante o regime militar.
294
movimento das primeiras semanas de estudos, dentre os quais elementos da
própria Escola de Serviço Social e os juízes de menores paulistas. João Batista
Adduci fala sobre isso:
A fundação sonhada por nós era uma fundação que agilizasse o
trato com o menor e com a família, que não expusesse os
menores nas ruas em carros indo de lá para cá e que diminuísse
muito o número de menores internados e também que houvesse
uma regionalização: que as crianças de São Paulo não fossem
para Batatais e que as de Batatais não viessem para São Paulo,
ficassem perto de suas famílias.{...} Conclusão: o Laudo Natel
conseguiu que o Estado de São Paulo tivesse a sua fundação,
essa fundação, nós não queríamos em São Paulo que ela tivesse
como imagem, e fosse semelhante a Funabem, não. Nós
queríamos que ela fosse uma fundação nascida aqui do Estado
de São Paulo sem copiar modelos, sem copiar os modelos de
Serviço Social de Menores, sem copiar o modelo do Juizado de
Menores, muito menos da Funabem, que era vista por nós como
uma vitrine para a gente trabalhar, treinar gente. {...} ...porque
havia o Dr. Mario Altenfelder e ele queria usar a nomenclatura
Febem São Paulo, Febem Pará, Febem Bahia, e nós não
queríamos entrar nessa, nós queríamos a Pró-Menor: São Paulo
é diferente (depoimento, 2002).
Nessa perspectiva, em 27 de fevereiro de 1973, o Diário Oficial do Estado
de São Paulo publicava o pronunciamento do governador Laudo Natel
anunciando o início da reorganização da área, a matéria com o título “Governador
anuncia reformulação radical na assistência ao menor” dizia:
Uma radical reformulação no atual sistema de atendimento ao
menor abandonado ou infrator, com a implantação de uma política
estadual que defina concretamente os programas a serem
executados no setor, foi anunciada ontem pelo governador Laudo
Natel, durante inspeção que fez ao Recolhimento Provisório de
Menores e à Divisão de Atendimento aos Menores, da Secretaria
da Promoção Social. As novas diretrizes governamentais prevêem
a progressiva passagem da incumbência de cuidar do menor
abandonado a entidades particulares, sob a orientação do Estado
para que os estabelecimentos da Secretaria da Promoção Social
se concentrem na assistência ao menor infrator, funcionando
como centros de recuperação, capacitação profissional e
295
reintegração social, e não mais como locais de segregação. “São
Paulo não tolerará mais situações como esta, em que menores
desassistidos pela família e pela sociedade fiquem encarcerados,
tratados como delinqüentes incorrigíveis”, disse o governador
Laudo Natel ao percorrer, em companhia do secretário Mario
Romeu de Lucca, da Promoção Social, as superlotadas
dependências do Recolhimento Provisório de Menores (DIÁRIO
OFICIAL DO ESP, 23/02/73).
Nos meses seguintes tomou forma a proposta de criação da Fundação
Paulista de Promoção Social do Menor - PRÓ-MENOR com a colaboração de
vários profissionais de Serviço Social do quadro do Juizado de Menores, entre os
quais João Batista Adduci que atuava no RPM e Suraia Daher, do COF. Entre os
dias 22 e 26 de outubro de 1973, realizou-se em São Paulo a XII Semana de
Estudos do Problema de Menores. Em seu discurso na abertura dos trabalhos, o
Dr. Adriano Marrey anunciava a passagem da estrutura do Juizado para o
Executivo:
...como decorrência de quanto se tem discutido nestas Semanas
de Estudos, especialmente na XI Semana, o Egrégio Tribunal de
Justiça, por seu proclamo Presidente, Desembargador Tácito
Morbach de Góes Nobre, com a aprovação do Egrégio Plenário,
promoveu a transferência para a Secretaria da Promoção Social
do Estado, de todos os estabelecimentos destinados a menores,
que vieram, ao longo do tempo, sendo criados à ilharga do
Juizado de Menores, para suprir o descaso a que os órgãos da
administração pública, em sucessivos governos, votaram à
assistência social a eles devida (Anais da XII Semana de Estudos
do Problema de Menores, 1974, p. 45).
A Pró-Menor foi criada oficialmente em 12 de dezembro de 1973, através
da Lei Estadual N. 185 e assumiu todas as unidades executivas do Juizado de
Menores: as casas de recepção, triagem e permanência, incluindo infra-estrutura,
mobiliário, quadro de pessoal e dotação orçamentária. Permaneceu como única
296
atividade executiva no Juizado, o Serviço de Colocação Familiar, programa
pioneiro que resistiu ao expurgo naquele momento. O Dr. Marrey, no mesmo
discurso, falou sobre as funções do Juizado a partir daí:
Colocou, portanto, o Egrégio Tribunal de Justiça, em ocasião
azada, à disposição da Secretaria de Promoção Social, os
serviços e correspondentes dotações orçamentárias,
permanecendo o Juizado com o exercício exclusivo da
Corregedoria Permanente, mesmo em relação aos
estabelecimentos situados fora da Capital, ou seja, continuou o
Juizado da Vara de Menores com a competência própria de suas
funções, fixada no Código Judiciário e na Lei de Organização
Judiciária, com plena autonomia para orientar os serviços sociais,
sem com eles comprometer-se (idem, p.46).
Vale aqui chamar a atenção para o fato de que a criação da Pró-Menor não
passou despercebida pelos gestores da Política Nacional. Nessa mesma XII
Semana de Estudos, na solenidade de encerramento, para a qual foi convidado o
presidente da FUNABEM, Dr. Mário Altenfelder, podemos observar a maneira
polida mas contundente com que ele se referia à Pró-Menor e sua relação com a
política nacional:
No Brasil, a política nacional do bem-estar do menor foi planejada
e estruturada visando o atendimento da criança brasileira, onde
quer que ela se encontre, resguardando-a, protegendo-a . É uma
política ampla. Abrange a órbita estadual, municipal, respeitando
as fronteiras de suas autonomias. Há, sem dúvida, um direito de
natureza ordinária que a rege e disciplina, alicerçado na
Constituição Federal, mas, as unidades estaduais e municipais,
nos círculos de suas necessidades peculiares e próprias, podem
suprir as deficiências que por ventura se apresentem. Assim, não
são afastadas; são convocadas, pois, o objetivo e a finalidade a
que se propõe não se situa na parte, mas, no todo, ou seja, na
sociedade de um modo geral. Do esforço que for desenvolvido
nas três parcelas políticas, do ajuste e harmonia que nelas se
processar, no que tange ao bem-estar do menor, uma constante é
preciso não esquecer: trata-se de uma “política nacional” (Anais
da XII Semana de Estudos do Problema de Menores, 1974, P.
380).
297
No interior do Juizado, a mudança era esperada diante do quadro que se
estabeleceu. Os entrevistados falam sobre a decisão tomada pelo Judiciário.
Suraia Daher diz: ...o Dr. Arthur foi obrigado, pressionado a entregar as obras
para o executivo, sob a dita desculpa de sempre, o Poder Judiciário só julga..
(depoimento, 2003). E João Batista Adduci também fala sobre isso: Numa
“penada” ele passou os Assistentes Sociais, passou tudo para lá, funcionários
administrativos, passou tudo para a Secretaria de Promoção Social e ficou com
um Juizado esvaziado (depoimento, 2002). Therezinha Zabirowski Davidovich,
por sua vez, fala um pouco do “clima” que reinava entre todos:
Havia um momento político favorável, o Juiz não podia fazer
nada, absolutamente nada. Agora, havia todos aqueles cochichos
políticos, entendeu? Essa coisa, um que extrapola, o outro que
não faz, aquela coisa assim: eu não faço, mas tenho raiva de
quem faz, acho que era bem isso, eu não sei, não faço e tenho
raiva de quem faz. Acho que era esse o clima e a finalidade. Entre
o COF e o estabelecimento que fazia o mesmo atendimento,
então tinha rivalidade, tinha comparações e isso se estendia
também aos profissionais das equipes, quer dizer, não era uma
coisa que existia só ao nível de Juízes e Governador, Secretários
de Estado, não... {...} O pessoal do judiciário sempre foi visto
como um grupo de elite, eu não sei se a gente mesmo se
outorgava essa condição, eu acho que sim, a gente se sentia
melhor, a gente se sentia mais qualificado, tinha realmente isso,
sabia? Eu não sei se também era auto-estima, a gente sabia o
que estava falando, e o pessoal do executivo não tinha força
(depoimento, 2003).
E ela continua expondo como repercutiu entre os assistentes sociais do
Juizado toda aquela mudança para o Poder Executivo:
E aí foi um susto, de um lado ainda os Assistentes Sociais
pensavam assim: gente, vamos para o executivo, o executivo tem
quadro, pode ser que a gente possa fazer carreira. Não houve
nenhuma rebelião, não houve, foram, e eu acho que de uma
maneira tranqüila. Eu estava no Gabinete e o Juiz foi realmente
298
muito transparente. Um ou outro funcionário que a gente sabia
que tinha uma contribuição muito grande para com o que ia sobrar
foi pinçado, mas no todo 99,9% foi, eu acho que não foram
pinçados meia dúzia de funcionários (idem).
A passagem da maior parte dos equipamentos do Juizado de Menores,
primeiramente para a Secretaria de Estado de Promoção Social e, logo em
seguida, para a Fundação Pró-Menor contou com a colaboração da equipe
técnica do Juizado, que diante das pressões e críticas internas e externas viu, na
criação da Fundação, uma alternativa para o conflito que se havia instalado entre
Executivo e Judiciário. Eles colaboraram para que essa passagem fosse feita sem
maiores traumas visto que havia a perspectiva de que alguns elementos do
Juizado, de confiança do juiz de menores, passariam a integrar os quadros da
Fundação. Um deles foi João Batista Adduci que figurava entre os poucos
“pinçados” da estrutura que foi transferida para o Executivo, mas que, mesmo
mantendo-se como parte do quadro de funcionários do Judiciário, foi
comissionado para atuar na Secretaria Estadual de Promoção Social.
Eles acreditaram que a Pró-Menor poderia manter a flexibilidade
administrativa e a pouca permeabilidade às injunções políticas que possuía o
Judiciário, ao mesmo tempo que centralizaria ações da área, com dotação
orçamentária considerável, o que permitiria o desenvolvimento de uma proposta
de trabalho tecnicamente séria. A valorização excessiva dos aspectos técnicos -
no sentido do desenvolvimento de instrumentos e métodos de intervenção
profissional - era predominante no meio profissional do Serviço Social no início
dos anos de 1970 e o corpo técnico do Juizado de Menores não fugia à regra. A
299
falta de uma avaliação política mais ampla da situação acabou trazendo
conseqüências negativas para alguns deles.
A vitória parcial obtida pelos “paulistas” com a criação da Pró-Menor durou
muito pouco tempo: dois anos e meio. Com a mudança do governador do Estado
- assumiu Paulo Egydio Martins - mudou a condução da Secretaria Estadual de
Promoção Social. Para o cargo foi convidado ninguém menos que o Dr. Mario
Altenfelder, ex-presidente da FUNABEM, que tratou de extinguir a Fundação Pró-
Menor, transformado-a em Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor – FEBEM-
SP, através da Lei N. 985 de 26 de abril de 1976.
Com a mudança acirraram-se os problemas entre as equipes do antigo
Serviço Social de Menores e do Juizado de Menores no interior da Fundação
resultando na destruição das propostas de trabalho das unidades que tinham sido
do Juizado, destituição dos cargos de direção e subordinação total das unidades
ao modelo da FUNABEM. João Batista Adduci fala sobre o episódio:
Porque nós acabamos colocando os Assistentes Sociais nos
locais já existentes e, de certa forma comandados pelo pessoal do
Serviço Social de Menores, que era o velho pessoal do Dr. Mario
Altenfelder, que já havia sido Secretário desde 1964. ele já tinha
atuado no Plano de Desenvolvimento do Menor, com o Carvalho
Pinto. Eram os rivais da Vara de Menores. Eles passaram a
comandar isso tudo e ele, o Dr. Mario Altenfelder, investiu muito
em gente do Serviço Social de Menores na Funabem no Rio, eles
pagavam estadia durante um mês, dois meses (depoimento,
2002).
A retaliação atingiu pessoas como Suraia Daher que foi destituída da
coordenação do COF após o desmonte de parte das instalações da unidade. Boa
parte dos profissionais transferidos do Juizado de Menores para o Executivo foi,
aos poucos, adaptando-se à nova situação e se incorporando à estrutura da
300
FEBEM/SP e da Secretaria Estadual de Promoção Social. Vários foram treinados
nas instalações da FUNABEM e aqueles que eram dos quadros do Judiciário,
como João Batista Adduci, acabaram retornando ao Juizado de Menores algum
tempo depois.
4.2.2. A reestruturação do Juizado de Menores e a construção da
função de perito
Em virtude da passagem das unidades de atendimento para o Executivo, a
estrutura do Juizado de Menores da Capital ficou bem mais enxuta. Therezinha
Zabirowski Davidovich fala sobre a idéia que sustentou o que deveria e o que não
deveria passar para o Executivo:
Ficou Plantão, ficou a Colocação Familiar, ficou o Gabinete. Não
foram tantos os serviços dentro da Vara, foram mais os
equipamentos, os estabelecimentos é que foram. {...} ...a crítica
era aos estabelecimentos. Quem estava ficou onde estava, quem
foi foi o pessoal do COF, do RPM, do CRP, os estabelecimentos
que atendiam menores, todo o resto não foi considerado como
extrapolando a função judicante, nem a Colocação Familiar. Então
eu acho que pode por com absoluta certeza que o que
incomodava eram as casas, as casas é que foram (depoimento,
2003).
O relatório de atividades produzido pelo gabinete do juiz titular da Vara
arrolava os serviços existentes e explicava o funcionamento do Juizado de
Menores que ficou estruturado a partir de então com: um Serviço de Gabinete, um
Serviço de Plantão Permanente, um Serviço de Administração do Comissariado,
um Serviço de Colocação Familiar, um Serviço de Menores Desaparecidos, um
Serviço de Autorização e Fiscalização do Trabalho do Menor, um Serviço de
301
Relações Públicas, uma Seção Anexa à Curadoria, além da estrutura
administrativa de suporte e dos serviços de cartório.
Com exceção do Serviço de Relações Públicas, que nesse momento era o
responsável pela distribuição de bolsas de estudos, todos os demais serviços
contavam com assistentes sociais, incluindo o Serviço de Administração do
Comissariado cuja função era detalhada pelo citado relatório:
A denominação desse serviço não corresponde às atividades
realizadas pelo mesmo. Destina-se ele:
ao estudo e prosseguimento dos casos, quando
expressamente determinado no processo pelo Juiz de Menores.
Referido trabalho se realiza através de entrevistas e visitas
domiciliares que atingiram em 1974 a média de 242 mensais;
e o atendimento de menores apresentados com ofícios ao
Juiz de Menores e de partes que recorrem à sede da Vara
solicitando as mais diversas providências. A média desse
atendimento foi de 613 por mês, no exercício de 1974;
esse atendimento é sempre realizado por assistente sociais.
(Relatório de Atividades do Juizado de Menores, Serviço de
Gabinete, maio/1975, do arquivo pessoal de T.Z.D).
O Serviço de Colocação Familiar, em suas nove agências, manteve a
atribuição da concessão dos benefícios, que no ano de 1974 atingiram 44.781
menores e 12.103 famílias, além de outros atendimentos, como o relatório
informa: Ainda incumbe ao Serviço de Colocação Familiar o atendimento das
partes que recorrem ao Juizado de Menores para obter adoção, legitimação
adotiva, tutela, guarda, registro civil, suprimento de idade e de consentimento,
bem como, os pedidos de internação de menores (idem).
Mesmo com a saída de um grande volume de profissionais ligados às
unidades de atendimento, os assistentes sociais mantiveram-se presentes em
praticamente todos os setores restantes do Juizado que mantinham contato direto
302
com a população. Não encontramos dados disponíveis dos anos de 1974 e 1975
relativos ao número de profissionais que saíram e que ficaram, mas estima-se
que somente o Serviço de Colocação Familiar tinha perto de cinqüenta
assistentes sociais.
Essa estrutura permaneceu enquanto esteve à frente do Juizado o Dr.
Arthur de Oliveira Costa. Em novembro de 1977, quando ele deixa a função,
assume o cargo o Dr. Nilton Silveira, ex-juiz de menores de Bauru, que se
destacou como um defensor das atividades do Comissariado de Menores naquela
comarca.
A primeira ação do novo juiz de menores titular da capital foi exatamente
dar incremento às atividades do Plantão Permanente do Comissariado de
Menores, retomando o seu funcionamento em 24 horas78, excluindo dele os
assistentes sociais. Segundo Therezinha Zabirowski Davidovich, o juiz veio ..com
uma orientação do Tribunal do que ele poderia ou não fazer (depoimento, 2003).
Em janeiro de 1978 o Dr. Nilton fez uma palestra em que anunciou o seu
plano de trabalho para o Juizado de Menores. Propunha a redução do número de
comissários de menores e ao mesmo tempo uma ação mais atuante dos mesmos;
propunha a criação de uma bolsa de estudos para menores trabalhadores e
estabelecia uma portaria em que autorizava menores a trabalhar como
cobradores de ônibus. Sugeria o reforço das atividades do Serviço de Proteção ao
Trabalho do Menor e também anunciava uma série de portarias liberalizantes com
relação à freqüência de jovens em bailes e demais eventos.
78
O Dr. Arthur de Oliveira Costa havia reduzido o horário de atendimento desse Plantão que deixou de
funcionar durante a madrugada.
303
Com relação aos serviços técnicos e ao atendimento à população ele
determinou a ampliação do Serviço Social da sede com um novo nome: Serviço
de Administração do Comissariado, e com a seguinte orientação:
ampliação de suas atribuições permitindo-lhe o
atendimento de todos os casos encaminhados pelo Plantão
Permanente do Comissariado de Menores, tais sejam: os
pedidos de adoção, tutela, legitimação adotiva, internação,
além das denúncias contra responsáveis, contra menores
ou contra instituições, etc., cabendo-lhe ainda, o
prosseguimento dos casos cujos processos tramitam na
Vara (Transcrição da Palestra, Gabinete do Juiz, arquivo
pessoal de T.Z.D).
Foram, então, retiradas algumas atribuições do Serviço de Colocação
Familiar (adoção, tutela, internação, entre outras) que passaram a ser
desempenhadas pelo Serviço Social da sede. A Colocação Familiar sofreu
algumas modificações. Sobre essas modificações fala João Batista Adduci, que
passou a dirigir o Serviço no lugar de José Pinheiro Cortez:
Havia um interesse do Tribunal em acabar, naquele momento,
com o Serviço de Colocação Familiar, O Nilton Silveira não deixou
acabar. E exigiram a saída do Cortez...{...} O serviço já estava
meio acéfalo, os valores eram baixos. Aí o Dr. Nilton Silveira não
deixou se extinguir o serviço como o Tribunal queria. {...}... a
verba estava atomizada, a ponto de algumas pessoas, alguns dos
assistidos me darem um testemunho que o dinheiro não dava
nem para comprar a pipoca que as crianças pediam na fila da
Caixa Econômica. {...} Foi feito esse estudo e eu fiz uma proposta
ao Juiz: mudança das agências, de sete ou oito para só quatro,
agrupar pessoal dessas agências de acordo com o bairro de
residência ou que mais convinha a eles, e também a não
atomização da verba, quer dizer, zerar o auxílio permitindo que a
pessoa requisitasse novamente, ou começar a dar de novo, mas
dar uma quantia suficiente para a pessoa fazer frente à melhor
qualidade de vida da criança, E uma visão mais sistêmica da
família, não uma visão só assistencial, é importante na Colocação
Familiar dar o dinheiro, mas eu achava mais importante que os
Assistentes Sociais fizessem um trabalho mais profissional com
as famílias (depoimento, 2002).
304
Em conformidade com a proposta de Adduci, o Juiz anunciou as mudanças
para o Serviço de Colocação Familiar, limitando sua ação e voltando-o mais
especificamente para as famílias que recebiam os benefícios, como ele apontou
em sua palestra:
redução de suas atribuições para o atendimento exclusivo
dos casos previstos na Lei 560/49 (subsídios à famílias
numerosas, como forma de prevenir o abandono dos
menores visando sempre e prioritariamente, a promoção
dessas famílias);
revisão de todos os casos, pressupondo a sua reavaliação;
maior dinamização na sistemática de trabalho, com vistas a
uma maior rotatividade dos casos atendidos;
redução das 8 agências desfalcadas de pessoal técnico
administrativo, para 4 - nas zonas Norte, Sul, Leste e
Oeste do município – suficientemente agrupadas para fazer
face ao atendimento das famílias que necessitam desse
auxílio. (Transcrição da Palestra, Gabinete do Juiz, arquivo
pessoal de T.Z.D).
Segundo João Batista Adduci, o volume de pessoas atendidas pelo Serviço
de Colocação Familiar foi drasticamente reduzido, embora tenha ampliado, e
muito, a qualidade do benefício concedido e o acompanhamento da equipe
técnica. Passou de ...umas oito mil famílias para mil e quinhentas (depoimento,
2002), o que não evitou que surgissem novos problemas, como ele mesmo diz:
...a gente ia percebendo que se tornava um serviço elitista, de assistencialista
passou a elitista, porque atendendo com mais dinheiro às necessidades das
pessoa, feliz era aquele que entrava (idem).
Com as alterações realizadas pelo Dr. Nilton Silveira a partir de 1978, a
estrutura do Juizado de Menores sofreu uma redução que pode ser claramente
visualizada no gráfico que construímos a partir de um relatório produzido naquele
305
ano pelo Serviço do Gabinete do juiz (do arquivo pessoal de T.Z.D), e que
apresentamos na página seguinte79. Houve uma redução das atividades com
concentração nas ações propriamente judicantes e de fiscalização do trabalho do
menor.
No entanto o volume de atendimentos do Juizado não parou de crescer e o
juiz de menores continuou atuando como um importante agente de intervenção na
política social da área, uma vez que, a nova Lei de Menores (de 1979) ampliava
os seus poderes em relação a sua competência para interferir na vida da cidade,
no que diz respeito à normatização do trabalho do menor, das relações familiares,
etc.
Os assistentes sociais, tanto aqueles que atuavam diretamente no gabinete
do juiz, como os demais, continuaram atuando como assessores nessas
decisões, opinando, sugerindo, aconselhando o juiz nas questões que diziam
respeito às diretrizes gerais de sua ação, como diz Beatriz Cardoso Esteves
Franco:
...cada Juiz escolhe a sua diretriz, enquanto ele estiver na Vara.
{...} É claro que ele é que define a política social, especialmente
na Vara de Menores e no interior, e para isso o Assistente Social
é seu assessor e vai dizer para ele: “eu trabalho aqui em Aldeia
da Serra...” e ele vai dizer: “a partir de hoje eu acho que aqui em
Aldeia da Serra tem que ser assim”, e você vai dizer: “não Dr.,
não pode por isso, isso, isso”. Como eu fiz com aquele moço, o
Juiz tinha prendido o rapaz porque deu uns petelecos no menino,
o Juiz não conhecia a realidade daquele bairro, daquele local,
daquele trabalhador, que vai sem comer e que volta sem comer.
Para isso é que nós temos que dar subsídios. Quando o Juiz diz
assim: “a política de atendimento nessa situação eu gostaria que
fosse assim”, você vai dizer: “Dr, se fizermos assim vai acontecer
isto, isto e isto, se nós fizermos assado vai acontecer isso, isso e
79
No gráfico é possível visualizar a existência da COMENOR- Associação de Proteção ao Menor do
Comissariado de Menores de São Paulo, a quem ficou subordinada a captação e concessão de bolsas de
estudos. Nesse setor não atuavam assistentes sociais.
306
isso”. Daí a importância da assessoria ao Juiz (depoimento,
2003).
Passada a crise ocasionada pela saída das unidades de atendimento, as
atividades dos assistentes sociais foram ganhando nova expressão e, voltando-se
mais para a ação judicante, o Serviço Social investiu em novas modalidades de
intervenção. Uma delas foi a construção da idéia de que o assistente social era o
“perito do social”, feita por José Pinheiro Cortez a partir da demanda pela atuação
de assistentes sociais nas Varas de Família.
Segundo Beatriz Cardoso Esteves Franco, vários Juizes das Varas de
Família buscavam profissionais de fora do Judiciário para elaborar estudos sobre
situações que se lhes apresentavam. Ela diz:
Antes eles não contavam com Assistente Social do Fórum.
Nomeavam, era muito comum nomear Assistente Social da Santa
Casa, da Casa São José que tinha Assistentes Sociais
competentes {...} Em 1956 já tinha Assistente Social de Família,
por uma necessidade que os Juízes sentiam de saber um pouco
mais daquela situação familiar além do que os Advogados das
partes falavam (depoimento, 2003).
Embora em número pequeno, em situações extraordinárias ou mesmo
eventuais, desde a entrada do Serviço Social no Judiciário, em 1949, assistentes
sociais eram requisitados por alguns juízes de Varas de Família para elaborarem
estudos sociais de casos, principalmente em situações que envolviam crianças
como no caso de separação de corpos, guarda de filhos, regulamentação de
visitas, etc. Mas, foi somente por volta de 1978, 1979, que se discutiu a
formalização e ampliação desse trabalho.
Num movimento paralelo ao que ocorria no Juizado de Menores, José
Pinheiro Cortez - que era assistente social e advogado e havia saído da
307
coordenação do Serviço de Colocação Familiar-, contando com o apoio de alguns
juízes das Varas de Família construiu uma justificativa para propor a contratação
de assistentes sociais para as Varas de Família. Essa justificativa posteriormente
passou a constar como anexo do Provimento N. 136, de 15 de abril de 1980, do
Conselho Superior da Magistratura que fundamentava e normatizava a atuação
desses profissionais.
No documento ele estabelecia uma relação entre o Direito e o Serviço
Social como duas formas distintas de intervenção na realidade e ressaltava que o
Direito vinha superando a perspectiva individual e ampliando a perspectiva social
diante dos problemas sociais. O Serviço Social, assim como o Direito, se
posicionava a partir de parâmetros próprios, sobre esses problemas. No
documento consta:
Do mesmo modo que o Direito, o Serviço Social se posiciona ante
os fatos: considera-os como uma realidade, mas não se acomoda
a eles. Constata as distorções, investiga-lhes as causas e
analisa os efeitos, não, porém, no plano puramente
sociológico de verificação, mas ao nível de intervenção
deliberada. Intitulando-se agente de mudança, ou melhor, pondo-
se à disposição do homem para assessora-lo em suas intenções
e práticas de transformação, o Serviço Social possui, obviamente,
um quadro referencial com o qual mede as estruturas existentes.
E, se verifica, por exemplo, que a instituição familiar está em
crise, não se limita a afirma-lo, mas dispõe-se, por opção
profissional, a intervir nessa realidade.
Na convergência desses objetivos, o Serviço Social pode tornar-
se instrumento válido para o direito. Não se limitando ao campo
deste, é, por isso mesmo, adequado equipamento à disposição da
Justiça social {grifo nosso] (Anexo ao Provimento 136/80 do
C.S.M).
E José Pinheiro Cortez concluía dizendo:
Esta exemplificação, embora não exaustiva, serve para indicar as
possíveis modalidades de ação do Serviço Social no campo
308
jurídico, especialmente naqueles em que o significado social do
Direito se torna crescente.
Definido o papel do assistente social como perito do social a
serviço da função judicante, emitindo pareceres técnicos que
contribuem para a decisão do Juiz – que, no entanto, não lhes
está adstrito -, é, conveniente precisar as diferentes situações em
que é chamado a intervir. Anote-se, porém, que a enumeração
das ações ou simulações apresentadas é apenas exemplificativa,
pois com freqüência, novas ações podem pedir sua participação
técnica.
São assim enumeradas no campo da família e do menor: a)
destituição do pátrio poder; b) adoção; c) legitimação adotiva; d)
tutela; e) curatela; f) interdição; g) busca e apreensão de
menores; h) guarda de filhos; i) cláusulas de desquites; k)
regulamentação de visitas. {grifo nosso}
José Pinheiro Cortez formulou pela primeira vez a idéia de que, no interior
do Judiciário, o assistente social pode transformar-se num perito do social, mas
um perito com características especiais, pois visa a intervenção, não apenas a
apreciação da situação. Ele utilizou-se de uma terminologia própria do meio
jurídico (o perito) para justificar a abertura de uma nova frente de trabalho para o
assistente social. Segundo Therezinha Zabirowsli Davidovich a atuação do
“perito” está prevista em lei:
O Código Civil faculta à autoridade judiciária, ao Juiz, se valer de
conhecimentos de experts sobre determinadas áreas, é o
engenheiro, o contador, o médico, esses profissionais são
avocados pelo Juiz para subsidiá-los com conhecimento da sua
área específica, e nessa condição eles são chamados de peritos.
É o perito contador, é o perito engenheiro, é o perito médico. E o
Assistente Social quando passou a fazer o estudo social, até esse
termo foi usado pelo Dr. Cortez na justificativa do Assistente
Social na Vara da Família, ele disse que o Assistente Social era o
perito do social, essa expressão foi dele, consta de documentos,
perito do social, um era o perito da contabilidade, da medicina e
esse era o perito do social. Então os Assistentes Sociais
judiciários passaram a se nomear peritos do Juiz (depoimento,
2003)80.
80
As atribuições do perito judicial estão estabelecidas no Código de Processo Civil em seus artigos 145 e
421, e também na Lei 8455 de 28/08/1992, que introduz algumas modificações nesse Código.
309
As características específicas do assistente social apontadas por Cortez,
isto é, um profissional que aprecia a situação mas também intervém, se somaram
ao fato de que a profissão já mantinha uma atuação profissional reconhecida há
algumas décadas - diferentemente da Psicologia que somente obtém esse
reconhecimento na década de 1960 - e havia demonstrado sua capacidade de dar
respostas às necessidades do Judiciário. Beatriz Cardoso Esteves Franco fala
sobre este aspecto: Nós {Assistentes Sociais} estamos na ativa desde 1936 no
Brasil. Então éramos muito mais reconhecidos e já tínhamos um pouco de
tradição profissional (depoimento, 2003).
Como conseqüência da intervenção de José Pinheiro Cortez e da pressão
dos juízes interessados, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo abriu,
ainda em 1979, concurso público para o provimento de 22 cargos de assistente
social para as 10 Varas de Família e Sucessões do centro e mais 12 para as
Varas Distritais81. Sobre a entrada desses profissionais fala Therezinha
Zabirowski Davidovich:
Eu acho que para os 10 que foram para a Vara Central, que eram
10 Varas, e os 12 que foram para as Distritais, foi realmente um
desafio. Esse pessoal pioneiro é o pessoal que se formou em
1960, 70. Foram profissionais experientes. Tinha uma Beatriz
Cardoso Esteves Franco, tinha o Efraim Zular... {...} Agora, exigia
muito, eu acho que tinha profissionais muito bons nessas Varas,
nas Distritais também como uma Ana Célia Roland Guedes Pinto.
(depoimento, 2003)
O trabalho do assistente social nas Varas de Família abriu uma nova área
de intervenção para o Serviço Social no interior do Judiciário, um tipo de
81
Este constituiu-se no primeiro concurso público para assistentes sociais no Tribunal de Justiça do Estado
de São Paulo. Existem notícias da realização de um concurso anterior, em 1967. No entanto, o Departamento
Pessoal do Tribunal de Justiça não possui esses registros. A informação que nos foi dada é que, a partir de
1967, passou a ser exigido concurso público para admissão no serviço público e, é possível que alguns
concursos tenham sido feitos para formalizar a presença dos profissionais que atuavam até então.
310
intervenção mais voltada para a ação judicante, de caráter menos assistencial
como era a ação no Juizado de Menores, justifica Beatriz Cardoso Esteves
Franco:
...a Vara de Menores é uma Vara administrativa, não tem
necessidade do advogado! Quando o advogado entra com um
pedido de tutela, independente, ele entra porque o cliente quer,
porque não precisa. Você vai lá e pede a tutela do Joãozinho da
Silva no balcão, certo?! Agora, nas Varas de Família é diferente,
não entra nenhum processo, nenhuma ação sem a presença do
advogado, então nesse caso o Serviço Social e depois o Serviço
de Psicologia entravam para assessorar o Juiz e dar a ele
subsídios psicossociais para que ele melhor pudesse julgar, não
apenas se ater à fala de cada uma das partes através do
advogado. Ele tinha uma visão imparcial da situação quando era
nomeado uma Assistente Social e depois um Psicólogo
(depoimento, 2003).
Mas, além desse subsídio ao juiz, ao Serviço Social nas Varas de Família
coube também assumir outras atividades, como um plantão para orientação da
população que procurava a Vara, e o acompanhamento, nos finais de semana,
das visitas de pais e demais familiares, aos menores, realizadas por ordem
judicial. A justificativa para a realização dessas atividades de plantão foi assim
construída por José Pinheiro Cortez, no anexo ao Provimento N. 136/80:
A procura de orientação de pessoas, especialmente das classes
mais carenciadas, indica a conveniência de um plantão diário, das
13 às 17 horas, nos dias úteis, no edifício do Fórum, sala de
atendimento dos assistentes sociais. A esse plantão serão
encaminhadas as pessoas que procuram os Juizes, Curadores ou
simplesmente qualquer setor desejosas de orientação ou consulta
social. {...} O plantão terá assim uma função social relevante
pondo a Justiça em contacto direto com a população,
especialmente os grupos e classes carentes.
Ao mesmo tempo que se abriu essa nova frente de trabalho para o Serviço
Social nas Varas de Família, um outro movimento de afirmação profissional
ocorria no interior do Juizado de Menores. Em outubro de 1979, com o apoio do
311
juiz titular, foi elaborado um anteprojeto de lei, por um grupo de assistentes
sociais e demais funcionários do Juizado que seria apresentado para a
presidência do Tribunal de Justiça, visando estruturar os serviços técnicos e
administrativos do Juízo da Vara de Menores.
O anteprojeto previa a criação de setores, serviços e diretorias,
formalizando dentro da estrutura do Juizado de Menores e do Tribunal de Justiça
as atividades desenvolvidas, dando aos profissionais que exerciam funções de
coordenação o devido reconhecimento de suas ações de direção, inclusive do
ponto de vista da remuneração.
Não havia intenção de alterar a organização geral do Juizado, era apenas
uma tentativa de formalizar o que já existia de fato. As poucas mudanças se
resumiam a uma nova nomenclatura para alguns serviços já existentes e a
introdução de um Serviço de Psicologia82. Propunha também a ampliação do
número de assistentes sociais existentes no Juizado com o objetivo de completar
as equipes existentes, passando dos 80, que já se encontravam em atuação, para
106.
A reação da presidência do Tribunal de Justiça à proposta de estruturação
do Juizado de Menores foi intempestiva. A proposta estava claramente em
dissonância com o processo de descentralização e atomização das ações do
Poder Judiciário, pois tentava consolidar uma estrutura centralizada, que dava
82
Alguns meses antes - em julho de 1979 - um grupo de estagiários do curso de Psicologia iniciou um
trabalho no Serviço de Colocação Familiar com vistas a desenvolver uma proposta de intervenção no
Judiciário. Ao longo dos anos a atuação dos psicólogos no Judiciário foi-se consolidando, de maneira que
hoje eles compõem as equipes técnicas, juntamente com os assistentes sociais, em boa parte dos setores onde
estes atuam. Mais informações sobre o desenvolvimento desse trabalho encontram-se no texto “Histórico do
Serviço de Psicologia no tribunal de Justiça do Estado de São Paulo”, de Maria Antonia Pires dos Santos
Cerqueira e Renata Mancini Ferreira (In: MANUAL DE INICIAÇÃO FUNCIONAL PARA ASSISTENTES
SOCIAIS E PSICÓLOGOS JUDICIÁRIOS, 1991)
312
muitos poderes a um juiz único, o juiz titular da Vara de Menores, e reforçava uma
justiça de caráter assistencial. João Batista Adduci fala da reação do Tribunal: Aí
nós fizemos o quadro e entregamos o quadro. Quando se abriu o organograma no
Tribunal, o presidente, dizem, deu pulos. “Nunca! Isso tem que acabar, tem que
acabar!” Dizem que ele ficou bravo. Tinha que acabar. Aí foi o fim, Nilton Silveira
acabou saindo (depoimento, 2002).
O Tribunal de Justiça estava preparando uma nova reestruturação que
previa descentralizar ainda mais os serviços de prestação de justiça. Equipar o
Juizado de Menores e reforçar aparelhos assistenciais não estava nos planos da
organização, de maneira que os assistentes sociais continuaram exercendo
funções de direção, chefia e coordenação sem remuneração ou formalização e
somente foram obtendo esse reconhecimento através de ações judiciais, de forma
pontual e individualizada, como fez João Batista Adduci:
Entrementes, eu entrei com o processo. Eu fiz o pedido
administrativo de reconhecimento do meu cargo de Diretor da
Colocação Familiar, pedindo os vencimentos que me diziam
respeito. {...} Tendo eu ganho, fui o primeiro que ganhou, porque
eu tinha as portarias, a minha história no Juizado. Com esta
portaria abriu para o Juizado de Menores as portas das
reivindicações. Aí todos começaram a ganhar os processos,
menos os meus encarregados da Colocação Familiar. Eles não
foram à frente. {...} Porque eles foram criados dentro daquela
filosofia: vamos trabalhar, não dá certo, etc... Eles tinham
portarias de nomeação como encarregados das agências!{...}
(depoimento, 2002).
A ação individualizada de alguns desses profissionais forçou o
reconhecimento das funções de direção e chefia que o Serviço Social
desempenhou ao longo dos anos no Juizado e auxiliou a consolidação da
profissão na estrutura do Judiciário. Também contribuiu para a formalização do
313
trabalho profissional dos assistentes sociais no Judiciário a introdução, no Código
de Menores de 1979 (Lei 6.697/79), do artigo 4º, inciso III que indicava que a
aplicação da lei deveria levar em consideração também ....o estudo de caso,
realizado por equipe de que participe pessoal técnico, sempre que possível.
Independentemente disso o Tribunal de Justiça estava determinado a
concluir o desmonte da estrutura assistencial do Juizado de Menores e para essa
tarefa nomeou um novo juiz titular no final de 1980, o Dr. Antonio Luis Chaves
Camargo.
4.2.3. A descentralização das Varas de Menores e a expansão do Serviço
Social
No período em que o Juizado de Menores da capital esteve sob a direção
do Dr. Chaves Camargo foi concluído o processo de descentralização da justiça
na capital, e a Vara de Menores deixou de ser uma Vara única. Através da Lei N.
3.947 de 08 de dezembro de 1983, que altera parcialmente a organização
judiciária da comarca de São Paulo, foram criados os Foros Regionais da capital.
Em número de doze, distribuídos nas várias regiões da cidade, cada Foro
Regional foi dotado de Varas Cíveis, Criminais e de Família em números que
variavam de duas a oito Varas, conforme a demanda e a população de
abrangência de cada Foro. Cada um deles foi dotado também de uma Vara de
Menores83. Com a criação desses Foros ficaram extintas as antigas Varas
83
Foram criadas também quatro Varas Especiais de Menores situadas próximo ao complexo da Febem, no
Zona Leste, cabendo-lhes a competência nas infrações penais imputadas a menores de dezoito anos (art. 5º da
Lei 3974/83)
314
Distritais com atribuições limitadas, e a prestação da justiça comum na capital foi,
em boa parte, regionalizada.
Tendo por base essa descentralização, o Juizado de Menores deixaria de
existir como uma unidade central e o juiz de menores da Vara Central deveria
passar a ser apenar mais um juiz de menores, com as mesmas atribuições dos
demais juízes dos Foros Regionais, ou seja, atuando sobre uma determinada
área da cidade, sem a capacidade de determinar ações de abrangência muito
grande ou políticas para a área. Essa era a intenção do Tribunal já há vários
anos, mas para isso seria necessário ainda concluir o desmonte da estrutura
assistencial do Juizado, o que tornou o período que vai de 1980 até 1985 um
período de transição.
O Dr. Chaves, que havia atuado como juiz de menores na comarca de
Caconde, entrou no Juizado com a missão de modernizar o seu funcionamento. A
concepção de modernização do Dr. Chaves Camargo incluía desburocratização,
agilização dos serviços e redução do caráter assistencial dos trabalhos do
Juizado. Três eram as grandes linhas de intervenção propostas por ele: a
informatização do Juizado de Menores, a implantação de audiências
interprofissionais e a extinção do Serviço de Colocação Familiar. João Batista
Adduci fala das propostas do Dr. Chaves Camargo:
Aí veio para a Vara um Juiz com a determinação de acabar com
tudo, que era o [Link] Luis Chaves Camargo. Primeiro ele
veio querendo informatizar a Justiça. O primeiro setor
informatizado do Tribunal de Justiça foi o Juizado de Menores. O
Serviço Social, a Vara de Menores na rua Asdrúbal do
Nascimento, tinha. E tendo sido diminuído o número de serviços e
setores em funcionamento o Chaves ainda piorou mais quando
ele criou a audiência multiprofissional. Foi uma experiência
interessantíssima, ele estava correto, mas os Assistentes Sociais
315
se sentiram inseguros, porque ele era muito dinâmico e ele
impunha um certo receio. Os Assistentes Sociais tinham muito
medo do que ele pudesse vir a determinar em prejuízo da
categoria, porque ele verbalizava que ele não gostava dos
Assistentes Sociais. Ele verbalizava. Ele passou a gostar de
alguns no decorrer do tempo, e acho que ele saiu do Tribunal com
uma boa impressão da categoria profissional. Mas ele entrou meio
preconceituoso. Alguém disse para ele que Assistente Social
mandava no Juizado, então ele foi lá para por ordem, percebe?
(depoimento, 2002).
Na XIII Semana de Estudos do Problema de Menores, realizada em julho
de 198384, o Dr. Chaves Camargo apresentou o seu trabalho intitulado “O valor
social da informática no campo do direito do menor”, no qual comentava sobre o
programa de informatização da Vara de Menores que havia sido implantado em
1981, e anunciava os primeiros resultados, dos quais destacamos alguns:
A localização instantânea de quaisquer menores internados; a
pesquisa de localização ultra-rápida de quaisquer processos em
tramitação; a notável agilização nos processos de distribuição e
de controle de internações, prazos e medidas, e, de
acompanhamento dos feitos, bem como o cadastramento de
estabelecimentos responsáveis e das multas e eles impostas,
substituindo-se gradualmente a pesquisa nos arquivos
convencionais por pesquisa rápida e segura nos terminais de
vídeo (CAMARGO, 1983, p.73).
Segundo o Desembargador Adriano Marrey, em seu discurso de abertura
da XIII Semana ...Hoje, em quinze minutos uma família pode ter a guarda ou a
tutela de uma criança (ANAIS, 1983, p. 29). Os inegáveis avanços e o pioneirismo
do Dr. Chaves Camargo nessa área tiveram, porém, uma conseqüência nefasta
84
Entre os dias 26 e 31 de julho de 1983 realizou-se a XIII Semana de Estudos do Problema do Menor sob o
patrocínio do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Dez anos depois da última Semana de Estudos, a
de 1973,o Tribunal, sob a presidência do Desembargador Francisco Thomaz de Carvalho Filho, buscava
ressaltar sua gestão de caráter social e a preocupação com os problemas da família e do menor. Todos os
discursos proferidos na solenidade de abertura faziam referência à importância das semanas de estudos desde
1948, num tom mais saudosista que de proposições. Os conteúdos tratados não traziam grandes novidades
nem polêmicas significativas. Esta foi a última Semana de Estudos do Problema de Menores.
316
para a história do Serviço Social no Judiciário, pois ele incluiu em seu processo
de informatização a inutilização de toda a documentação do Juizado de Menores,
destruindo registros históricos importantes, como diz João Batista Adduci:
Eu soube que ele estava queimando, que ele havia mandado os
funcionários cortar todos os processos das sessões técnicas,
porque ele não queria nenhuma documentação, tudo tinha que
ficar no computador, nada de papel do Assistente Social, nada.
Então toda a história do Juizado de Menores estava naqueles
autos, naqueles processos. {...} Acabou com toda a
documentação. Todos os processos. Ele era avesso a papéis, a
processos, a coisas do passado, coisas velhas. Ele trouxe um ar
novo, um vento novo que não se consolidou. Mas o mérito dele foi
trazer essa visão moderna, mas o demérito foi não ter percebido,
não ter sido sensível para com a história. A documentação toda
ele poderia ter guardado, mandado para a Vila Leopoldina no
depósito do Estado. Ele não fez isso, ele destruiu simplesmente
(depoimento, 2002).
Lamentavelmente boa parte da documentação, de relatórios
administrativos e técnicos a processos de organização dos serviços, portarias e
decretos, quase tudo foi destruído. Salvou-se o que foi recolhido pelos
profissionais, estando até hoje em seus arquivos pessoais85.
Outra ação organizada pelo Dr. Chaves Camargo foi a implantação das
audiências interprofissionais. Estas visavam agilizar a tomada de decisões e
aplicação das medidas necessárias. A experiência consistia concretamente na
presença, em audiência, além do juiz e das partes envolvidas, também do
curador, do advogado, do assistente social e do psicólogo. Feitos os devidos
pronunciamentos, e emitidos ali mesmo os pareceres e opiniões de todos, era
dada a sentença. Com as audiências inter profissionais o juiz pretendia:
85
A biblioteca do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, situada no Palácio da Justiça, Praça da Sé s/nº,
possui pouquíssima documentação sobre o Juizado de Menores.A pesquisa nesse acervo de portarias e ordens
de serviços internas do Juizado, por exemplo, é praticamente impossível dada a falta de documentos de vários
anos seguidos.
317
...uma simplificação do serviço, a ponto de permitir-se que a Vara
de Menores seja o centro jurídico de proteção do menor e sua
família, como existe em outros países mais adiantados. Devemos
eliminar de nossa pauta de trabalho o número imenso de papéis e
impressos, todos destinados a transformar o menor em carimbo,
despacho, sentença, registro de sentença, protocolado, alvará,
mandado, ofício, carta, bilhete, relatório psicossocial, etc.
(CAMARGO, 1982, p. 11).
Ele, de fato, buscou dar ênfase à ação judicante do Juizado de Menores,
inspirou-se na modalidade de audiências comuns nas cortes juvenis norte-
americanos, onde um colegiado de especialistas, juntamente com o juiz,
determina a sentença em uma audiência ágil. O Dr. Chaves Camargo organizou
esse método de trabalho como uma crítica aos procedimentos adotados pelos
seus antecessores, procurando mostrar ser partidário da posição dominante nas
esferas dirigentes do Judiciário:
A Vara de Menores, durante sua existência, pretendeu viver sob
um pseudogigantismo, onde o Juiz de Menores era o centro das
atenções sociais, com funções meramente administrativas, alvo
de entrevistas em rádios e televisão, enquanto a parte judicante,
mais objetiva, ficava a cargo de Juízes Auxiliares, quase
subordinados ao primeiro, que tinha até a prerrogativa de avocar
qualquer processo, quando entendesse necessário. Houve,
portanto, um avanço na implantação de uma Justiça de Menores
com suporte filosófico e jurídico, evitando-se as medidas
casuísticas decorrentes de um Juiz apenas, o que melhor
amparará a infância e a juventude, integrando-se na comunidade
e socorrendo-se de outros movimentos e recursos dessa mesma
comunidade (idem, p. 22).
Apesar de suas críticas e da suposição de que ele não aceitava bem o
trabalho dos assistentes sociais, o Dr. Chaves Camargo, na defesa das
audiências interprofissionais, mostrou-se um defensor da atuação da equipe
técnica, composta por assistente social e psicólogo. Reforçando a figura do
318
psicólogo, ele criou a idéia de uma equipe técnica para subsidiar o juiz. Mesmo
assim, ele indicava ser fundamental a ação específica do assistente social:
Assim, os técnicos são indispensáveis não só à celeridade das
decisões na área do Direito do Menor, como também, para
acompanhamento dos casos e cumprimento das medidas
aplicáveis a menores em situação irregular. {...} Os assistentes
sociais desempenham relevantes funções não só no juízo
interprofissional, como também no acompanhamento dos casos,
para a execução das medidas previstas no Código de Menores.
{...} Os Assistentes Sociais ficam encarregados do
acompanhamento dos casos, bem como da integração social do
menor junto à família e à própria comunidade. O setor de Serviço
Social terá, em mãos, todo o material necessário para indicar às
partes interessadas, os recursos de promoção humana existentes
na comunidade.{...} Sua função na Vara de Menores é a captação
do momento social, do mundo do menor e de sua família,
transmiti-los aos Juízes para que estes apliquem as medidas
previstas em lei, regularizando a situação do menor (idem, p 25).
Pode-se observar nos extratos transcritos acima que ele atribuiu ao Serviço
Social uma função de levantar e relatar ao juiz dados sobre o meio e a realidade
social em que vive o menor e sua família, bem como indicar a essas famílias e ao
próprio juiz os recursos existentes na comunidade que podem ser utilizados para
a solução dos problemas apresentados. Estas duas finalidades da ação do
Serviço Social, já apontadas por José Pinheiro Cortez, foram ficando mais claras.
Por fim, dentro das prioridades do Dr. Chaves Camargo, veio o processo
de passagem do Serviço de Colocação Familiar para o Poder Executivo. Alguns
entendimentos entre o Judiciário e o Executivo, através da Secretaria da
Promoção Social, foram suficientes para solucionar o problema do Serviço de
Colocação Familiar. João Batista Adduci, que nesse momento estava atuando,
comissionado, na Secretaria da Promoção Social dá seu depoimento sobre a
passagem da Colocação Familiar para o Executivo:
319
...o Tribunal não queria mais, e a coisa ia acabar porque ele ia
dizer: “não aloco a verba para ninguém, a verba volta para o
Tribunal, acaba o serviço, esqueçam esse serviço, passado”. Para
continuar, para garantir a continuidade, mesmo sabendo o que
poderia acontecer, se aceitou que ele fosse para o executivo, e foi
criado o IAFAM, com pompa e circunstância. {...} Agora, acabou o
Serviço de Colocação Familiar, o IAFAM não o substituiu como
deveria substituir, poderia, mas no executivo existe o orçamento
programa que aloca as verbas, e não estava no orçamento. A
verba do Tribunal de Justiça passou no primeiro ano, depois não.
Aí não houve verba, não havia dinheiro, a proposta era outra...
(depoimento, 2002).
Através da Lei 4.467 de 19 de dezembro de 1984, na gestão de Franco
Montoro como governador, o Serviço de Colocação Familiar é transferido para o
Poder Executivo e passa a se denominar Instituto de Assuntos da Família –
IAFAM, que foi regulamentado pela Lei 23.625 de 01 de julho de 1985. Assim
como na passagem das unidades de atendimento em 1974, o Tribunal de Justiça
repassou o Serviço com dotação orçamentária e o quadro de pessoal.
O programa que introduziu o Serviço Social no Judiciário foi expurgado de
sua estrutura sem nenhuma resistência interna ou externa, marcando o
encerramento completo das ações de natureza assistencial executadas pelo
Judiciário na área de menores. Outro grupo de assistentes sociais foi transferido
para o Executivo, juntamente com os recursos para a execução do programa.
Mas, ao contrário do que se poderia pensar, diante do expurgo do Serviço
de Colocação Familiar, que simbolizou durante décadas uma ação de caráter
preventivo proposta pelo Serviço Social como alternativa para o problema de
menores, não foi um final melancólico para a profissão no Judiciário. Não houve
sequer redução das atividades do Serviço Social no interior do Tribunal de
Justiça: novas perspectivas estavam se abrindo.
320
Aqui cabe um aparte, para introduzir uma nova porta de entrada para a
atuação de assistentes sociais no interior do Judiciário: na área de recursos
humanos. Durante o ano de 1982 o Tribunal de Justiça, através de sua
presidência, procurou diretamente a Faculdade de Serviço Social da PUC/SP
solicitando um projeto para a criação de um Setor de Serviço Social voltado para
os seus funcionários, na época eram aproximadamente 12.000 somente na
capital. Os baixos salários e as condições precárias de trabalho fizeram surgir
grandes problemas no interior da organização e se buscava dar respostas a eles.
O trabalho coordenado pela Profª. Elizabeth de Melo Rico foi apresentado no
Estudo realizado sobre a problemática social do funcionário do Tribunal de Justiça
(RICO, 1983), já citado aqui, e deu origem à Unidade de Serviço Social do
Trabalho86.
Interessante notar que a presidência do Tribunal não procurou os
assistentes sociais de seu próprio quadro para executar tal tarefa, talvez em razão
dos conflitos e do desgaste com algumas equipes. No entanto, procurou
novamente o Serviço Social para dar respostas aos problemas vividos pelos seus
funcionários, e uma nova frente de intervenção profissional surgiu para o Serviço
Social, mais uma vez fora dos limites do Juizado de Menores.
Mas, voltando ao processo de descentralização, desde a criação dos Foros
Regionais no final de 1983, a Vara Central de Menores não possuía mais
atribuições especiais, tornou-se mais uma entre as 13 Varas de Menores
existentes na capital (12 regionais e uma central). A maior parte dos serviços
86
Após inúmeras reestruturações da máquina administrativa do Tribunal de Justiça, a Unidade de Serviço
Social do Trabalho não existe mais como foi criada. Suas funções, porém, permaneceram ativas existindo
hoje vários setores em que assistentes sociais desenvolvem trabalhos voltados para os funcionários da
organização, incluindo até mesmo os juízes, dentro da área de recursos humanos e de pessoal.
321
existentes como fiscalização do trabalho, distribuição de bolsas de estudos,
serviços de menores desaparecidos, já havia sido extintos ou regionalizados.
Dessa maneira cada juiz de menores em cada uma das Varas de Menores
situadas nos Foros Regionais tinha um Comissariado de Menores - de sua
confiança -, ou poderia optar por criar um setor de captação de bolsas de estudos
na região, por exemplo. A área de fiscalização do trabalho foi sendo
gradativamente assumida pelo Ministério de Trabalho, através das Delegacias
Regionais, contando apenas com o apoio das Varas de Menores.
O Dr. Chaves Camargo, a partir de então com o cargo de juiz da Vara
Central de Menores, manteve por algum tempo ainda sob sua direção alguns
serviços diferenciados, que os demais juízes de menores não possuíam: o
Serviço do Gabinete e o Serviço Social, que se mantiveram vinculados à Vara
Central de Menores.
Para concluir o processo de regionalização e a desmontagem do antigo
Juizado de Menores, em 1985 o Tribunal de Justiça abriu concurso público para o
provimento de 50 cargos de assistentes sociais para as Varas de Menores,
Família e Serviço Social do Trabalho.
A alocação do pessoal concursado deu-se prioritariamente nas Varas de
Menores dos Foros Central e Regionais, dotando-se todas elas de equipe técnica
formada por assistentes sociais e psicólogos. Juntos, os profissionais que já
atuavam nas Varas de Menores, somados aos novos profissionais, formaram as
equipes que passaram a desempenhar as tarefas que eram realizadas pelo Setor
de Serviço Social que ficava na sede do extinto Juizado de Menores. Também
322
realizavam algumas das tarefas do Comissariado de Menores como o plantão e
algumas que eram realizadas pelo assistente social do gabinete do juiz.
Enfim, esses profissionais passaram a realizar a triagem em cada uma das
Varas: central e regionais. Realizavam a representação dos casos quando
necessário, orientando e encaminhando as pessoas que não poderiam ser
atendidas na Vara de Menores. Também faziam os estudos dos casos com vistas
a subsidiar a decisão judicial, e os acompanhavam quando necessário. Sugeriam
e propunham ações para o juiz de menores.
De acordo com os entendimentos entre os juízes de menores e família, as
equipes foram unificadas nos Foros Regionais, o mesmo não acontecendo no
Foro Central em que se mantiveram equipes distintas para a Vara de Menores e
as Varas de Família87.
A nova face do Serviço Social começou a ser construída na somatória das
várias funções exercidas pelos assistentes sociais ao longo dos anos, como
respostas às demandas postas pelo Judiciário nos diversos momentos políticos e
diante da conjuntura social e econômica. Conforme afirma Therezinha Zabirowski
Davidovich:
Ele {o Serviço Social), tem uma influência de tudo o que foi a
atuação dos Assistentes Sociais na Vara de Menores. Então ele
traz repercussão daquilo que era a atuação dos Assistentes
Sociais do Gabinete, daquilo que era no Serviço de Colocação
Familiar, até nos próprios estabelecimentos de internação, no
Plantão Permanente, Plantão de Triagem! Então, na verdade, em
cada um desses setores tinha uma atuação específica e eu acho
que a atuação dos Assistentes Sociais é uma somatória de tudo
isso, de todas essas suas ações.... (depoimento, 2003).
87
Em uma outra linha de trabalho permaneceu a Unidade de Serviço Social do Trabalho, funcionando no
Departamento Pessoal.
323
Utilizando-se de instrumentos que lhe permitiam conhecer a situação que
se apresentava ao Juízo – como entrevistas, visitas domiciliares, visitas a
colaterais - e conhecedores dos limites da malha assistencial disponível, os
chamados recursos da comunidade, o assistente social reuniu as condições para
relatar de forma ordenada o problema que se apresentava ao Judiciário como um
caso individual e sugerir soluções de encaminhamento.
Diante do progressivo agravamento dos problemas sociofamiliares e da
dificuldade em obter saídas para as situações individuais, os assistentes sociais
foram se especializando em construir subsídios para que as decisões judiciais
fossem viáveis e adequadas à realidade, de tal modo que se tornaram
imprescindíveis. A fala de Beatriz mostra essa necessidade:
O Assistente Social tem obrigação de dar sugestão, e sempre.
Deve dar sugestão do que fazer na Vara da Infância e na Vara de
Família! Ele vai dizer o que é possível fazer de acordo com a Lei.
As pessoas é que devem decidir e o Juiz acata ou não a sugestão
do Assistente Social. Com a Lei e com a realidade de cada
pessoa (depoimento, 2003).
E a fala de João Batista Adduci mostra a relação com o juiz, nesses casos:
Talvez seja um exagero meu, mas raras vezes eles contrariavam
o parecer do Assistente Social, tão correto, tão bem
fundamentado que era o parecer do técnico. Eu nunca sofri por
ver alguma pessoa que eu atendi, que eu formulei uma impressão
diagnóstica sobre aquela pessoa, nunca vi o Juiz contrariá-la. Às
vezes ele me mostrou algum aspecto que eu desconhecia, mão
não havia confronto... (depoimento,2002).
Porém, essa modalidade de ação gerou alguns conflitos iniciais nos
profissionais mais identificados com a natureza eminentemente executiva da
profissão, como é o caso do próprio João Batista Adduci, quando relata sua
experiência nas Varas de Família:
324
...existe um problema que eu reputo muito importante e que eu
senti muito, eu tive uma experiência de três anos na Vara da
Família, eu me ressenti muito disso: você é usado para subsidiar
o Juiz, para ele dar uma sentença. Então você tem que levar o
maior número possível de dados para ele perceber onde mora,
com quem mora, como vê o mundo aquela pessoa, mas ele não
me possibilita continuar, eu paro (depoimento, 2002).
Por outro lado, a valorização da atuação do assistente social como um
assessor do juiz foi ressaltada pela maior parte dos entrevistados, como no
exemplo de Beatriz Cardos Esteves Franco:
Essa função é uma função que não se deverá perder nunca, a
função de assessoria, porque o juiz é um indivíduo que deve ser
preparado, etc., mas ele é preparado especialmente na área
jurídica, e na parte social, muitas vezes ele não tem tempo e nem
condições de conhecer mais a área que trabalha. Então, por
exemplo, o pessoal da área de Santo Amaro tem uma realidade
sócio-econômica absolutamente diferente do Centro, então
quando você pega um caso de uma Vara de Família de uma
pessoa que mora num cortiço é uma realidade completamente
diferente da favela do Buraco Quente. As duas são pobres, as
duas têm habitações sub, em todos os sentidos, mas é uma
problemática totalmente diferente (depoimento, 2003).
A variável denominação com que os assistentes sociais começaram a
identificar a função que passaram a exercer a partir de então – assessor, perito,
entre outras – demonstra a dificuldade de dar uma formulação mais acabada a
essa atividade de natureza diferenciada que o Serviço Social passou a
desempenhar no Judiciário. Enquanto João Batista Adduci se incomoda com a
falta de possibilidades de intervenção dessa modalidade de ação profissional,
Beatriz Cardoso Esteves Franco chama a atenção para a impropriedade do uso
da palavra perito:
Eu não sei porque você usa o termo perito? Perito das partes,
porque é o termo jurídico! Mas o Assistente Social é o Assistente
Social Judiciário! {...} ...ele é assessor do Juiz enquanto ele dá ao
325
Juiz subsídios para que ele conheça a realidade em que está
atuando, mas quando ele faz o laudo específico ele é um
Assistente Social Judiciário... (depoimento, 2003).
Therezinha Zabirowski Davidovich por sua vez diz que o assistente social
não assessora, mas oferece subsídios que podem ou não ser aceitos pelo juiz.
Ela diz:
Na verdade o cargo dele é de Assistente Social Judiciário, a
função que ele exerce é de Assistente Social, até que ponto você
pode dizer que ele é perito do juiz? Ele está fazendo um estudo
social por determinação do juiz e oferecendo isso através de
laudo. Quer dizer que aí eu acho que mesclou um pouco essa
linguagem forense, onde o Assistente Social procurou usar essa
linguagem para se identificar, mas eu acho que isso merece uma
discussão um pouco mais profunda (depoimento, 2003).
Apropriando-se da terminologia jurídica, ou forense, como fez José
Pinheiro Cortez quando denominou o assistente social como o “perito do social”, o
Serviço Social criou uma modalidade de ação apropriada para o Judiciário e a
partir de então ampliou ainda mais a sua atuação.
Com a realização do concurso de 1985 o número de profissionais foi
gradativamente sendo ampliado, criando-se também cargos nas cidades do
interior do Estado de São Paulo. Alguns profissionais já vinham sendo
requisitados pelos juízes ao longo dos anos e eram alocados através de
transferência principalmente88. Ao longo dos dois anos que se seguiram ao
concurso muitos profissionais passaram a atuar nas comarcas do interior do
estado usando desses expedientes da transferência, colocação à disposição, etc..
88
Diante da solicitação dos juízes das comarcas do interior e de suas pressões, o Tribunal passou a utilizar o
concurso realizado e, na medida das disponibilidades foi alocando profissionais nessas comarcas. Também
existiam casos em que profissionais chamados para atuar na capital, após algum tempo de serviço solicitavam
transferência para cidades do interior, contando com o apoio dos juízes locais.
326
Além disso, nesse momento, a conjuntura política nacional estava sofrendo
uma nova alteração. Com o fim da ditadura militar e a articulação dos movimentos
populares pelos direitos da criança e do adolescente, cresceu a organização em
torno à necessidade de inclusão na nova constituição, de cláusulas que
garantissem uma nova legislação voltada para esse segmento da população.
Gestava-se o movimento pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.
O Judiciário paulista estava pronto para enfrentar as mudanças que viriam
a acontecer e que estavam colocando a justiça da infância e juventude
novamente em foco, mas desta vez eles não estavam dispostos a desenvolver
uma proposta de justiça de caráter assistencial e enfrentar os problemas que
poderiam surgir dela. Buscaram reforçar o modelo clássico de Estado liberal e
com ele o próprio Poder Judiciário enquanto poder de Estado autônomo e forte no
controle da constitucionalidade do país e na garantia dos direitos humanos, daí o
engajamento na luta pela ampliação dos direitos de cidadania.
Os artigos de 226 a 230 da Constituição de 1988 deram os parâmetros
para o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei N. 8.069 de 13 de julho
de 1990), lei infraconstitucional que substituiu o Código de Menores de 1979. A
participação de agentes do Judiciário na reformulação dessa lei foi grande, e o
modelo implementado pelo Judiciário paulista para a atuação de técnicos nas
Varas de Infância e Juventude foi sacramentado pelo ECA em seu artigo 150:
Cabe ao Poder Judiciário, na elaboração de sua proposta orçamentária, prever
recursos para manutenção de equipe interprofissional, destinada a assessorar a
Justiça da Infância e Juventude.
E o artigo 151 detalha as funções dessa equipe:
327
Compete à equipe interprofissional dentre outras atribuições que
lhe forem reservadas pela legislação local, fornecer subsídios por
escrito, mediante laudos, ou verbalmente, na audiência, e bem
assim desenvolver trabalhos de aconselhamento, orientação,
encaminhamento, prevenção e outros, tudo sob a imediata
subordinação à autoridade judiciária, assegurada a livre
manifestação do ponto de vista técnico.
Desde a entrada em vigor do ECA, o Tribunal de Justiça do Estado de São
Paulo promoveu uma série de concurso públicos com o objetivo de dotar todas as
comarcas do estado de uma equipe técnica, com pelo menos um assistente
social, para atender casos de Vara de Infância e Juventude e de Família, objetivo
em que alcançou pleno êxito.
328
CONCLUSÃO
O estudo das respostas profissionais formuladas pelo Serviço Social em
seu processo de inserção e consolidação no interior do Poder Judiciário no
período compreendido entre 1948 e 1988 nos permitiu identificar alguns
movimentos importantes da profissão em relação à organização estudada, o
Judiciário, e a subordinação direta desses movimentos às relações políticas mais
gerais, por se tratar de uma organização que é parte do próprio Estado.
O Judiciário, estudado aqui através do Tribunal de Justiça do Estado de
São Paulo, constitui-se parte da estrutura de poder do Estado em nossa
sociedade, e como tal seu objetivo é a manutenção da ordem capitalista.
Responsável pela operacionalização do Direito, o Judiciário busca limitar os
conflitos e aliviar as tensões e incertezas do sistema político à medida que se
constitui instância que julga e enquadra os litígios ocorridos entre os atores
sociais, individualizando-os e institucionalizando-os.
Na operacionalização de sua função se vê, porém, envolto nos problemas
gerados pela sociedade capitalista em crise, nos conflitos cada vez mais
abrangentes e profundos que são fruto das contradições inerentes ao próprio
sistema. As dificuldades de colocar em prática, de aplicar o conjunto de leis, de
normas, criadas a partir das regras do próprio Estado burguês, isto é, o Direito,
são sintomas da profunda crise da ordem capitalista.
O Direito, como um sistema de normas de conduta e de organização que
regula a convivência e a sobrevivência da sociedade, se constituiu em pilar do
329
Estado liberal democrático moderno, cujo modelo mais acabado é o Estado de
direito. Este consagra a democracia representativa como a forma de participação
dos cidadãos na decisão do seu próprio destino através da eleição de seus
representantes no parlamento.
Esse mesmo Estado de direito reconhece a legitimidade dos governos no
cumprimento das leis elaboradas pelos representantes eleitos pelo povo e
organizadas em uma constituição. E se organiza internamente através da divisão
dos poderes do Estado entre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, num
sistema de freios e contrapesos que visa evitar a concentração de poderes numa
só esfera, evitar o absolutismo e o despotismo.
O Estado de direito é tido, na concepção liberal, como um sistema que
permite o avanço e o aprimoramento da sociedade, numa evolução que partiu da
busca pela garantia dos direitos civis (de liberdade de expressão, de reunião, de
religião, de liberdade pessoal e econômica) e dos direitos políticos (de voto, de
associação e de organização partidária), para uma modalidade mais recente, que
é a busca pela garantia dos direitos sociais (à educação, à saúde e aos demais
bens necessários para uma vida digna em sociedade) com o fim de reduzir as
desigualdades geradas pelo próprio sistema capitalista.
O Poder Judiciário, na lógica do Estado liberal democrático moderno, como
um elemento constituinte da estrutura do Estado, é a organização central do
sistema de operacionalização do Direito, e ganha mais importância e centralidade
quanto mais se pratica o modelo de Estado de Direito em uma sociedade, quanto
mais democráticas são as formas de gestão do Estado no capitalismo.
330
Porém, à medida que se aprofunda a crise da sociedade capitalista, os
limites com os quais ele se depara na sua função de operacionalização do Direito
são multiplicados, mesmo nas sociedades democráticas. As contradições geradas
pelo sistema capitalista são a expressão de que o Estado de Direito não comporta
essa lógica evolucionista de garantia de direitos civis, políticos e sociais, cada vez
mais amplos. Pelo contrário, a concentração de capitais e a monopolização
crescente dos meios de produção geram cada vez mais a exclusão de parcelas
inteiras da população do processo produtivo e sua conseqüente pauperização,
desmascarando os litígios como questões particulares, individuais, e
reestabelecendo as contradições e a luta de classes como o cenário da ação do
Judiciário.
Uma leitura crítica das relações de produção capitalista nos permite
compreender que, mais do que um sistema de normas coercitivas, pensado para
limitar aqueles que pretendem transgredir e garantir o bem comum, as leis, as
normas jurídicas, que compõem o Direito são, de fato, a forma que assumem as
relações de produção e reprodução social. Na sociedade capitalista, todas as
relações sociais estão organizadas na forma de contratos jurídicos e, desta
maneira, ser sujeito de direitos é poder estabelecer contratos, é poder comprar e
vender, mesmo que o único bem que se possua seja a própria força de trabalho.
O paradoxo dessa relação está no fato de que o homem torna-se cidadão pela
mesma condição que o transforma em coisa, passível de compra e de venda.
Nesse sentido, a existência mesma do Direito, e de um Estado baseado
nele, pressupõe que a condição desigual da sociedade se perpetua, e não o
oposto como acreditam os defensores do liberalismo. Segundo Pachukanis, uma
331
sociedade que visasse o bem comum de fato, não necessitaria do Direito,
estabeleceria as relações sociais em outras bases que não a de contratos.
Mas, ainda que se considere ser esta uma utopia socialista, é preciso
lembrar que, mesmo as tentativas de conciliação que buscaram garantir algum
tipo de justiça social e econômica no marco da ordem capitalista, como as
propostas de Tomás de Aquino resgatadas pela social-democracia européia na
segunda metade do século XX, não conseguiram, diante da realidade atual de
crise do capitalismo, aplicar mecanismos de contenção da agudização das
contradições da ordem capitalista mundial.
O Estado, representante dos interesses da classe dominante, já vinha
alterando a sua forma de administração dos conflitos entre classes sociais e, no
final do século XIX, passou a intervir sistematicamente nas várias esferas da
sociedade, na tentativa de limitar o aprofundamento da crise da ordem social
capitalista, relegando o discurso liberal à mais pura retórica. O Estado
intervencionista, que assume formas que vão das ditaduras ao Estado de Bem-
estar-social, estabeleceu novas correlações de forças internas ao aparelho do
Estado, desmontando o sistema de freios e contrapesos clássico e alterando o
modo de operar do Estado capitalista.
O Poder Judiciário e as demais estruturas de operacionalização do Direito
sofreram impactos significativos com essas alterações. Fenômenos como a
explosão de litigiosidade, identificado por José Eduardo Faria e Boaventura Souza
Santos, retiraram do sistema tipicamente liberal - e conseqüentemente daqueles
que o encarnam, como o Judiciário - sua legitimidade e reforçaram as estratégias
normativas que são próprias do poder concentrado e do Executivo, num claro
332
reconhecimento de que o Estado capitalista é consciente das limitações que a
estrutura tipicamente liberal de Estado de direito lhe impõe para enfrentar a crise
da ordem social. Um embate no interior do próprio Estado tem sido travado,
desde então, entre as forças liberais que propõem a manutenção do sistema
clássico de freios e contrapesos para limitar o poder concentrado de uma das
esferas do governo, e a necessidade cada vez maior do intervencionismo estatal
na sociedade capitalista como forma de administrar a sua profunda crise.
Do ponto de vista daqueles que estão no interior das estruturas de
operacionalização do Direito, têm sido tentadas medidas que buscam resguardar
a legitimidade dos mecanismos do Estado de direito, apesar da conjuntura
contrária. São tentativas como aquelas que buscam garantir o acesso da
população ao Judiciário, ou que visam uma forma de garantia de direitos difusos e
coletivos, mas que acabam se tornando experimentos marginais, ou iniciativas
colocadas em prática em caráter supletivo. Na maior parte dos casos todo o
sistema sucumbe aos limites de aplicação das leis democraticamente elaboradas
na sociedade capitalista em crise.
No caso brasileiro, de nação periférica e dependente, os limites para
aplicação do Direito são ainda maiores do que nos países capitalistas centrais.
Aqui nem mesmo tem sido possível a manutenção, por longos períodos, do
modelo de Estado democrático liberal, ou Estado de direito. Diante dos profundos
conflitos sociais os governos ditatoriais ou autocráticos têm se apresentado com
freqüência como uma alternativa para impor a ordem social. Eles concentram o
poder e executam as medidas necessárias à manutenção da ordem capitalista,
relegando os interesses da maioria do povo a segundo plano.
333
Nesse panorama, o Poder Judiciário brasileiro - que diferentemente do
Judiciário de países como os Estados Unidos, não nasceu de um processo de
independência nacional, mas de uma adaptação e acomodação dos quadros do
Judiciário do período colonial -, esteve sempre subordinado aos interesses do
Executivo, não obtendo nem sequer força suficiente para funcionar como
elemento independente dentro da lógica liberal da divisão de poderes no interior
do Estado.
Em nosso país as forças liberais se consubstanciaram desde sempre numa
modalidade de liberalismo conservador, como usou conceituar Emília Viotti, e, no
interior do Poder Judiciário, estas forças sempre tiveram grande expressão.
Assim, as formas de aplicação das leis, de administração do sistema de justiça
seguiram uma lógica conservadora de manutenção das estruturas de poder
oligárquicas herdadas do período colonial e perpetuadas durante a República.
Mesmo assim, nos poucos momentos históricos em que se instalou no país
regimes democráticos, essas mesmas forças liberais de caráter conservador,
buscaram ampliar os espaços de ação do Poder Judiciário e reforçar seu papel de
guardião de um sistema de governo baseado em leis democraticamente
elaboradas. Nesses poucos momentos foi possível observar como esse poder do
Estado tentou elaborar respostas aos conflitos sociais, limitando-os e
enquadrando-os institucionalmente, dentro de uma lógica liberal conservadora.
É em um desses momentos, após o fim do Estado Novo em 1945, que
algumas dessas forças liberais conservadoras, articuladas no interior do Judiciário
e na Escola de Serviço Social, dentre outras instituições, organizaram uma
proposta de intervenção, a partir do Judiciário, nas questões que afetavam
334
crianças, adolescentes e suas famílias, como uma particular expressão da
“questão social”. Essa proposta de intervenção pressupunha uma concepção de
mundo e de sociedade baseada na democracia cristã e na idéia da possibilidade
de obter justiça social no âmbito da ordem capitalista.
Naquele momento os interesses do Judiciário e da Escola de Serviço
Social convergiam, ambos buscando afirmação social e ampliação do seu
espectro de ação sob o mesmo referencial teórico e político. Numa união de
propósitos foram organizadas as Semanas de Estudos do Problema de Menores
e dado início a uma modalidade de intervenção do Judiciário em uma área que
vinha sendo objeto da intervenção de outra esfera do Estado, a do Executivo, há
pouco tempo no Brasil: a política social.
A formulação de que a modalidade correta de intervenção nessa área
deveria possuir caráter preventivo, foi o elemento vanguardista da proposta que
deu origem ao Serviço de Colocação Familiar, um programa de transferência de
renda que durante décadas atendeu a milhares de famílias empobrecidas com o
fim de evitar que as mesmas entregassem seus filhos às instituições de abrigo
que se constituíam a alternativa criada pelo sistema de assistência social
embrionário na época, para situações extremas de pauperização.
Com a colocação em prática do Serviço de Colocação Familiar pelo
Serviço Social no interior do Juizado de Menores da Capital de São Paulo,
começou a ser erigida uma estrutura que objetivava credenciar o Poder Judiciário
como órgão capaz de solucionar conflitos de natureza social que outras esferas
do Estado não estavam conseguindo resolver.
335
Assumindo, ele próprio, mecanismos assistenciais, o Poder Judiciário
buscava enfrentar as dificuldades de aplicação da lei de assistência e proteção a
menores de idade, aproximar do Judiciário a população carente, desprovida de
acesso à justiça, e tentar intervir nos rumos da política assistencial do Estado,
tendendo, no entanto, para uma ótica mais intervencionista e tutelar do que
propriamente liberal.
Ao implantar essa modalidade de ação, porém, nem o Poder Judiciário
nem os quadros profissionais do Serviço Social previram as dimensões que
poderia alcançar tal estratégia. A proposta de um Juizado de Menores que
coordenasse todo o sistema assistencial de atenção às crianças e adolescentes,
foi inspirada no modelo dos tribunais juvenis norte-americanos, mas a realidade
brasileira não era exatamente a mesma. A transposição daquele modelo para o
Brasil implicou o enfrentamento de problemas que não existiam na América do
Norte na década de 1950 e seguintes: lá uma economia poderosa não excluía
parcelas tão grandes da população como aqui.
Na lógica de enfrentamento dos litígios a partir do estudo e aplicação de
soluções específicas para cada caso, o Judiciário trouxe de maneira
individualizada, para o seu interior, o grande contingente de pobres que não
tinham seus direitos básicos garantidos. Em pouco tempo, o Juizado de Menores
desdobrou-se em uma grande estrutura assistencial, de controle e fiscalização,
tendo à frente da operacionalização desses serviços os assistentes sociais.
Como gestores de serviços sociais, especialistas em executar ações e
programas nessa área, os assistentes sociais encontraram no interior do
Judiciário um espaço privilegiado para operacionalizar suas propostas de
336
intervenção profissional. A cada caso, a cada situação particular que se
apresentava ao Juízo, era possível elaborar um estudo social aprofundado e
constatar que, em geral, a falta de equipamentos sociais, a falta de políticas
públicas que garantissem os mínimos sociais àquela criança, àquela família, eram
os responsáveis pelo problema.
Diante desse quadro propunham, para um interlocutor privilegiado, o juiz, a
criação dos equipamentos adequados e o auxiliavam a ampliar seu poder de
intervenção na política social. O poder conferido pela estrutura do Estado ao
Judiciário permitiu, em algumas conjunturas específicas, que essas propostas
fossem operacionalizadas como forma de demonstração da maior independência
e força do Judiciário.
No entanto, a administração dos mecanismos de reprodução da força de
trabalho, como as políticas sociais é, preferencialmente, uma tarefa do Executivo,
pois este sofre mais diretamente a interferência das contradições entre as
necessidades do capital e as necessidades sociais expressas pelas lutas dos
trabalhadores, numa lógica que extrapola a intervenção individualizada de cada
situação particular, como é próprio da lógica predominante no Poder Judiciário.
Nos momentos em que a conjuntura política permitiu a concentração de
poderes na esfera do Executivo, as tentativas de operacionalizar mecanismos
assistenciais, de política social, no interior do Judiciário foram reduzidas,
justificando esta redução pela necessidade de limitação do Poder Judiciário à
esfera judicante.
O avanço maior ou menor da interferência do Poder Judiciário nas esferas
de ação do Poder Executivo está limitado pela conjuntura política que regula a
337
modalidade de ação do Estado em formas mais ou menos democráticas. O
Judiciário, quando possível, e diante da crise social, busca dar respostas que
viabilizem a garantia dos direitos legalmente estabelecidos e nesse sentido sua
ação é em geral progressista. Porém, pelos quadros liberais nacionais
defenderem um liberalismo de tipo conservador, essas respostas não foram
elaboradas, no período estudado, como uma ampliação efetiva do acesso da
população ao sistema de justiça, mas traduziram-se em uma modalidade
assistencial de acesso de um segmento muito frágil da população: as crianças e
os jovens pobres, e suas famílias.
Ainda assim, mesmo diante das limitações ao trabalho de natureza
executiva no interior do Judiciário, o Serviço Social, como profissão, continuou
percorrendo um caminho na estrutura da organização, caminho que extrapolou a
sua vinculação com os serviços assistenciais prestados à população, mas
continuou sendo trilhado no contato direto desta com o Poder Judiciário.
A natureza eminentemente interventiva do Serviço Social foi sendo
gradativamente adaptada para dar as respostas institucionais necessárias ao
Poder Judiciário, aos problemas com que se deparava essa organização diante
da realidade com que crianças, adolescentes e suas famílias se defrontavam, e
diante da impossibilidade de aplicação das leis estabelecidas. Parte das
conseqüências das contradições do sistema capitalista, parte das seqüelas da
“questão social”, seja num sistema mais democrático seja num menos
democrático, chegam ao Judiciário na forma de casos individuais, de problemas
particulares que devem ser encaminhados, de litígios para os quais se pede
solução.
338
Articulados politicamente com o Judiciário através da democracia cristã e
presentes no interior da organização judiciária desde 1949 quando se deu início à
criação da estrutura assistencial no interior do Juizado de Menores, os assistentes
sociais mostraram-se profissionais competentes para criar e administrar tais
serviços. A qualificação dos seus quadros e a utilização de parâmetros técnico-
profissionais por parte dos assistentes sociais foram importantes para dar aos
serviços que estavam sendo criados a característica de seriedade e o
profissionalismo que o Judiciário buscava demonstrar na tentativa de se
diferenciar do Poder Executivo, na época, e se credenciar como ator na definição
de políticas públicas, como parte de um plano mais geral de demonstração de
força e independência.
Conquanto os primeiros contatos do Serviço Social com a organização
judiciária estivessem marcados pela ação assistencial, os profissionais desde
cedo não se mantiveram restritos a esse espectro de ação. Desenvolveram
mecanismos de apoio ao Judiciário na sua função de aplicação da lei,
mecanismos que eram vislumbrados por Dna. Helena Iracy Junqueira, desde as
primeiras Semanas de Estudos do Problema de Menores, indicando o assistente
social como possível colaborador nas ações judiciárias.
Essas ações diretamente auxiliares da função judicante foram sendo
construídas, muitas vezes à sombra das atividades de direção e execução dos
serviços assistenciais: das casas de permanência provisória ligadas diretamente
ao Judiciário (RPM, COF, Casa de Estar), das obras em que os profissionais do
Judiciário atuavam como técnicos em parcerias com a sociedade civil (Pensionato
339
Maria Gertrudes e Fundação Dna. Maria Paulina de Souza Queiroz), e sobretudo,
do Serviço de Colocação Familiar.
As atividades de plantão e triagem para definição dos casos elegíveis pelo
Juizado de Menores, bem como os estudos sociais com vistas a elaborar
pareceres para auxiliar o juiz em suas decisões já se delineavam como uma
demanda para o Serviço Social desde os primeiros contatos dos assistentes
sociais com o Judiciário, ainda através de sua ação como comissários de
menores.
Com a entrada formal do Serviço Social no Juizado de Menores para
organizar o Serviço de Colocação Familiar, essas atividades foram quase que
simultaneamente assumidas pelo Serviço Social e, ao longo dos anos, foram
recebendo denominações diversas, inserindo-se e confundindo-se com os
serviços assistenciais propriamente ditos. Implantando-se essas atividades,
através da Seção de Informações e de Serviço Social por Zilnay Catão Borges e
Idalina Monteclaro César, e passando a fazer parte das ações descentralizadas
do Serviço de Colocação Familiar, como parte dos plantões de Serviço Social na
sede do Juizado na rua Asdrúbal do Nascimento, com a denominação de Serviço
de Administração do Comissariado, ou simplesmente de Serviço Social, elas
foram-se configurando como atribuições dos assistentes sociais no Judiciário, no
auxílio a sua função judicante.
Os assistentes sociais tornaram-se profissionais imprescindíveis na
seleção dos problemas que poderiam ser solucionados pelo Judiciário, analisando
e interpretando as situações trazidas pela população carente para a organização
340
judiciária e estabelecendo uma relação com o restante da malha assistencial,
dando orientação à população e realizando encaminhamentos.
Desenvolveram uma modalidade de tratamento dos casos de crianças,
adolescentes e de suas famílias, dessa expressão individualizada da “questão
social” e mostraram-se aptos para estabelecer o vínculo entre essas situações
individuais apresentadas e a política social do Estado, atuando como elementos
de suporte para os juízes, auxiliando-os a compreender essa realidade individual
e sociofamiliar, bem como as modalidades de respostas que o Poder Executivo
dava a elas, os limites e possibilidades dessas respostas.
Estabeleceram por fim, uma modalidade de ação que ia desde o
levantamento da situação e a interpretação dos casos que se apresentam ao
Judiciário, até a intervenção na malha assistencial. Algo que José Pinheiro Cortez
definiu precisamente quando defendia que ser perito do social era mais do que
apenas interpretar as situações no plano sociológico, era posicionar-se diante
delas.
Entre definir, conhecer, interpretar e analisar o problema individual que se
apresenta para o Judiciário e auxiliar o juiz a tomar uma decisão viável, diante da
malha de serviços sociais precária, de um Estado que reduz a cada dia os
investimentos em políticas sociais públicas, os assistentes sociais desenvolveram
uma peculiar forma de ação profissional, funcional e, ao nosso ver, imprescindível
ao Poder Judiciário em sua tarefa de limitar conflitos e aliviar tensões e incertezas
de um sistema em profunda crise.
Chamada de assessoria, assistência, perícia ou oferecimento de subsídios,
essa modalidade de ação profissional, merece ser compreendida em sua
341
historicidade para que os caminhos que traça no presente e as proposições que
elabora para o futuro tenham a mesma ressonância que tiveram no passado,
ampliando as possibilidades de ação do Serviço Social no enfrentamento da
“questão social”.
342
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