Freguesia da Encruzilhada*
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Em 1836 o povoado estava bem adiantado, existindo vários ranchos. Por essa época
foi assolado por uma epidemia de varíola, sendo a primeira vítima uma pobre criança. Não
havendo cemitério no povoado, trouxeram seus moradores o pequenino corpo para sepultá-lo
no da vila de Paraíba. No momento, porém, em que o enterro ia atravessar o rio na barca de
passagem os moradores da vila opuseram-se a isso, alegando o perigoso alastramento da
epidemia entre sua população, que então crescia rapidamente.
Resolveram os acompanhantes do enterro, depois de muitos protestos, seguir para a
fazenda do Governo, então de propriedade de Dão Linhares. Ai, também o proprietário pela
mesma razão não permitiu o sepultamento no cemitério da fazenda. Rumavam os
acompanhantes então para o cemitério da fazenda da Várzea quando em caminho, no lugar
onde é hoje o cemitério da Encruzilhada, Antônio Rodrigues de Andrade França, cavalheiro
culto, disse aos do cortejo que já tinham ido a dois cemitérios sem conseguirem o
enterramento: estavam arriscados a ter a mesma decepção na Várzea. Propunha assim que a
criança fosse enterrada naquele lugar, erigindo-se ai uma capela com cemitério dedicado a
Santo Antônio dos Pobres , por chamar-se Antônio o menino morto. Prometeu, mais , a
doação do terreno para construção. Os presentes comprometeram-se a coadjuvar na obra:
assim, o pequenino corpo foi sepultado do lado de baixo da estrada , em frente ao atual
cemitério. Mas seu enterramento ali provocou a ereção de cemitério na Encruzilhada, pois
Antônio Rodrigues de Andrade França obteve logo permissão para iniciar a obra. Surgiram
porém desavenças sobre o local, querendo uns que fosse onde se sepultara o pequenino
Antônio, outros no lugar chamado Pau-d´Alho.
Aborrecido, Andrade França desamparou a iniciativa, transferindo-a a José Inocêncio
de Andrade Vasconcelos, então vereador em nossa primeira Câmara, que reuniu os devotos
no sábado de Aleluia, ano de 1837, e fincaram os quatro esteios iniciais. E nada mais se fez na
ocasião pelo cemitério; mas, quando se pensou na Encruzilhada em construir-se capela no
povoado, a lembrança do pequeno morto a que fora negada sepultura em campo santo
vingou: o padroeiro escolhido foi Santo Antônio dos Pobres. E o lugar ficou para sempre Santo
Antônio da Encruzilhada.
Só no ano de 1843 João de Farias Nazaré, com subscrições principiou a capela
realizando-se a primeira festa em 1847. Era porém muito pequena e outras subscrições foram
feitas para seu aumento. João de Oliveira, fazendeiro na Várzea, ofereceu todo o
madeiramento, posto no lugar, e colonos alemães chegados a Petrópolis em 1845 executaram
os serviços de pedreiro e carpinteiro. Foi a construção terminada em 1852, faltando apenas
forrar e assoalhar.
O barão de Diamantina ¹, a suas expensas, mandou forrar e assoalhar a igreja, fazendo
também doação para patrimônio da capela.
Narciso José Soares por meio de subscrições mandou fazer o altar de Nossa Senhora da
Conceição e José Inocêncio de Andrade Vasconcelos doou a imagem de São José; e fez o altar
para a imagem.
Pela lei provincial n° 830 de 25 de outubro de 1855, foi criada a freguesia com o
pomposo título de Freguesia do Glorioso Santo Antônio dos Pobres da Encruzilhada do Lucas,
sendo o território desmembrado das freguesias de São Pedro e São Paulo da Paraíba e Santana
de Sebolas. O primeiro vigário da Encruzilhada Foi o padre Aureliano José de Carvalho.
A nova freguesia cresceu rapidamente e seus fazendeiros resolveram aumentar a
igreja, angariando novos donativos , não só no município de Paraíba do Sul como nos vizinhos
e até na Corte. Transformaram assim a pequenina capela em uma grande igreja, bem
ornamentada e confortável. Novos altares foram construídos à medida em que novas imagens
eram doadas. São as da Encruzilhada as mais belas imagens em Paraíba.
Esse empreendimento de ampliação começou em 1857, gastando-se avultada quantia,
além de vinte contos-de-réis doados pelos cofres provinciais, graças ao esforço do deputado
Marinho da Cunha.
As obras de ampliação terminaram em 18 de agosto de 1861, sendo nesse dia
entronizada a imagem do Senhor Crucificado, oferecida pelo barão do Piabanha. A imagem do
Senhor dos Passos foi oferta de Maria Joaquina Vieira e a Nossa Senhora da Soledade, do dr.
Jerônimo Macário Figueira de Melo.
Essas três belas imagens da Encruzilhada se tornaram tradicionais presenças nas
cerimônias da Semana Santa na cidade, quando a procissão do enterro atraia de todo o
município e de fora multidão de fiéis calculada em mais de 5 000 pessoas, tendo Paraíba em
torno de 3 000 habitantes então.
A igreja de Santo Antônio foi das mais ricas da Província, não só em metais preciosos
como pela pompa das cerimônias religiosas. De toda parte, até da corte, vinham pessoas
assistir às festas e devoções. No coro esplêndido tomavam parte os melhores músicos do Rio
de Janeiro, e oradores sacros de fama faziam as práticas.
O mais difícil de uma obra não é só a construção, mas a sua guarda e conservação.
Nisso foram felizes os paroquianos de Santo Antônio, que tiveram quem conservasse sua
grandiosa igreja, por muitos anos, na pessoa do vigário, padre Bernardino de Jorge ².
Depois da saída do vigário Bernardino, tudo ficou abandonado e, aos poucos, o rico
patrimônio da Irmandade foi desaparecendo não se sabe como. O pouco que ainda resta deve-
se aos cuidados de d. Maria Vieira Alves Souza ³.
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¹. Francisco José de Vasconcelos Lessa , titular mineiro que teve propriedade no município.
². Italiano de Potenza, extremo sul da cordilheira dos Apeninos, padre Bernardino de Jorge
(1833-1906) trouxe para o Brasil pais e irmãos, estes radicados na zona de Cantagalo. De
grande personalidade, foi muito operoso vigário de 1868 ao fim do século, o período de
esplendor da freguesia.
³. Esta senhora vivia quando a ela se refere o autor. Era viúva do médico Deocleciano Alvez de
Souza, e residia em chácara no então caminho da Encruzilhada de frente para o Inema, hoje o
Parque de Exposições.
*Texto extraído do livro Capítulos de História de Paraíba do Sul de autoria de Pedro Gomes da
Silva e notas e estudos de Arnaud Pierre. Páginas 100 – 103.