UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI
5º Período de Engenharia Civil
HIDRÁULICA - Prof. Emmanuel Teixeira
1. Orifícios e bocais
1.1. Introdução
Orifício pode ser definido como uma abertura de perímetro fechado, de forma geométrica bem definida. Situa-
se, geralmente, na parede ou no fundo de um reservatório, pela qual o liquido escoa. Para classificar os orifícios
existem vários critérios que levam em consideração suas principais características, tais como forma, dimensão,
natureza das paredes, orientação do plano do orifício em relação à superfície livre do líquido, contração da veia e tipo
de escoamento.
Bocal ou tubo adicional é um dispositivo de mesma geometria do orifício com um certo comprimento de tubo,
que varia de 1,5 a 5 vezes o diâmetro do orifício. Ele tem como função dirigir o jato para uma determinada posição e
alterar o coeficiente de vazão de um orifício. Os bocais podem ser classificados de acordo com sua geometria e
dimensões relativas. Podem ser cilíndricos (externos ou internos) ou cônicos (convergentes ou divergentes) e bocais
curtos, longos ou padrão.
Ao fazer o cálculo da vazão deve-se levar em consideração alguns coeficientes para correção. Os coeficientes
utilizados para correção são o de contração, de velocidade e de descarga. O coeficiente de contração (Cc) é dado pela
razão entre a área da seção contraída e a área do orifício (Equação 1), além disso depende das paredes do reservatório,
do tipo de contração e do tipo do orifício, podendo variar entre 0,6 e 0,64. O coeficiente de velocidade (Cv) é dado
pela razão entre a velocidade real de saída do fluido - considerando o fluido real e efeito de parede - e velocidade
teórica com que o fluido deixa o orifício (Equação 2), em geral varia entre 0,97 e 0,985. O coeficiente de descarga
(Cd) é dado pelo produto entre o coeficiente de contração e o de velocidade, depende da forma geométrica, dimensões
e valor da carga, o valor médio prático é de 0,61 para orifícios circulares de parede delgada.
(1)
(2)
Orifícios afogados de pequenas dimensões em parede delgada com contração completa.
Neste caso, tem-se que vazão é dada pelo produto entre a área e velocidade, adotando área igual à área do
orifício e velocidade igual velocidade real de escoamento obtêm-se a Equação 3 para cálculo de vazão de um orifício
afogado de pequenas dimensões em parede delgada com contração completa.
√ (3)
Figura – Orifício afogado
Orifícios livres de pequenas dimensões em parede delgada com contração completa.
1
Analogamente ao caso anterior, vazão é dada pelo produto entre a área e velocidade, entretanto é igual à
zero, pois o orifício não é afogado. Desse modo, tem-se a Equação 4.
√ (4)
Figura – Orifício livre
Orifícios livres de pequenas dimensões em parede delgada com contração incompleta
Neste tipo de orifício é necessário corrigir o coeficiente de vazão, de um orifício com contração completa,
através de equações empíricas. Dessa forma, a vazão é dada pela Equação 5.
√ (5)
Onde, para orifícios retangulares, é dado pela Equação 6.
(6)
Sendo a razão entre o perímetro não contraído e o perímetro total. Abaixo está apresentado um exemplo de
como calcular o valor de K.
Orifícios retangular, descarga livre, de grande dimensão, em parede delgada, com contração
completa:
(7)
( )
Figura – Orifício retangular de grandes dimensões
2
Vazão descarregada por bocal
Do ponto de vista prático, o escoamento continua sendo considerado da mesma forma que em orifícios. Com
isso, a Equação 4 continua sendo utilizada, entretanto a carga hidráulica é a diferença de nível entre a superfície do
reservatório e a linha de centro da seção de saída do tubo, pois o bocal nem sempre estará na horizontal. Assim a carga
passa a ser , resultando então na Equação 7.
√ (8)
O do bocal varia de acordo com a Tabela 1.
Tabela 1 - Valores do coeficiente de vazão para bocais.
L/D 0,5 1,0 1,5 2,0 2,5 3,0 5,0
0,60 0,75 0,78 0,79 0,80 0,82 0,79
2. Comportas
2.1. Introdução
Um tipo de controle utilizado em canais é uma comporta plana, como na Figura 1, a maioria das vezes vertical e
de mesma largura que o canal (sem contrações laterais). Tal dispositivo controla as características do escoamento
fluvial a montante e torrencial a sua jusante. Trata-se, basicamente, de uma placa plana móvel que, ao se levantar,
permite graduar a abertura do orifício e controlar a descarga produzida. A vazão descarregada pela comporta é função
do tirante de água a sua montante e da abertura do orifício inferior, com o escoamento podendo ser considerado
bidimensional. Dependendo da condição hidráulica de jusante, o escoamento após a comporta pode ser livre, em geral
seguindo de um ressalto hidráulico, e submerso ou afogado, como será discutido adiante.
Figura 1 – Comporta plana vertical.
3
O escoamento pode ser tratado através da lei dos orifícios, observando que a lâmina líquida descarregada pelo
orifício de abertura (b), a partir do ponto A, sofre uma contração vertical até alcançar um valor y 2 = CCB a uma
distância L ≈ 1,3 b. Na seção contraída, as linhas de correntes são horizontais e têm uma distribuição de pressão
hidrostática. A montante da comporta, a energia disponível é a soma do tirante de água (y1) e da carga cinética de
aproximação (v12/2g).
A determinação da vazão descarregada pode ser feita através de um balanço de energia e continuidade, entre
as duas seções com alturas d’água substancialmente uniformes (distribuição hidrostática de pressão). Para o caso de
descarga livre e desprezando as perdas de carga entre as seções 1 e 2, chega-se na Equação 8.
q Cd b 2gy1 (8)
Os coeficientes de contração e de descarga, para uma comporta vertical, dependem da relação y1/b e têm sido
objeto de determinação experimental por vários investigadores.
Para propósitos práticos, o coeficiente de contração (CC) pode ser considerado constante, praticamente
independente da relação y1/b, e igual a 0,61.
O coeficiente de descarga (CD) para o caso de descarga livre pode ser calculado pela Equação 9.
0 , 072
y b (9)
C D 0,611 1
1
y 15b
Quando a descarga for afogada, o coeficiente de descarga (CDa) é dado pela Equação 10.
1
0 , 72
0, 7
y3 0, 7
C Da C D y1 y3
0, 7
0,32 0,81 y 3 y1 y1 y3 (10)
b
Para ser considerada descarga livre a condição na Equação 11 deve ser satisfeita.
0, 72
y
y1 0,81y3 3 (11)
b
2.2. Escoamento afogado
A característica do escoamento livre sob uma comporta de fundo é a existência do regime torrencial, com um
tirante d’água inferior à abertura (b). Se um condicionamento qualquer a jusante da comporta, como por exemplo, a
existência de uma soleira de fundo, impuser a ocorrência de uma ressalto hidráulico, dois casos podem ser analisados.
Se a posição de equilíbrio do ressalto for agastada da comporta, o escoamento se produzirá como veia livre e o
nível d’água a jusante, em regime fluvial, não exercerá influência sobre a vazão. Se a altura d’água (y3) no regime
fluvial for maior que a correspondente altura conjugada do escoamento na seção contraída (y2), o ressalto não
encontrará condição de equilíbrio no canal e se moverá para montante, até alcançar a parede do orifício e a veia
líquida, afogando o escoamento e produzindo uma zona de movimento turbilhonar, e a vazão resulta influenciada pelo
tirante a jusante (y3), como na Figura 2.
4
Figura 2 – Escoamento afogado sob uma comporta.
A para o caso de escoamento afogado a vazão pode ser calculada pela Equação 12.
q CDa b 2 gy (12)
Onde:
y y1 y
Sendo que (y) pode ser calculado pela Equação 13.
1/ 2
bCDa bCDa y3 y
2 2
y y (13)
21 41 4 1 1
bCDa y3 y3 bCDa bCDa y3
3. Escoamento sob carga variável
Durante o esvaziamento de um reservatório por meio de um orifício de pequena dimensão, a altura diminui com
o tempo. Com a redução de , a vazão também irá decrescendo. Admitindo o coeficiente de vazão do orifício de
área constantes e um reservatório com área da base igual a . Para determinar o tempo de esvaziamento total ou
parcial é utilizada a Equação 14, na qual h0 é a carga hidráulica inicial e h1 a carga hidráulica após um tempo t, sendo
que ela será zero quando se deseja esvaziar totalmente o reservatório.
[√ √ ] (14)
√
4. Determinação da velocidade real do jato de um orifício livre, parede delgada, pequeno, utilizando o
processo de coordenadas cartesianas
A velocidade real de um jato pode ser medida pelo método das coordenadas. A Figura 3 mostra um reservatório de
parede vertical. Devido a ação da força gravitacional, o jato tem uma trajetória do tipo parabólica. Considerando e
as coordenadas no ponto ( ) da trajetória do jato, podem-se utilizar as equações da cinemática para as direções
horizontal e vertical, desprezando-se a resistência do ar.
Figura 3 - Sistema de coordenadas em orifícios
5
Utilizando este método, a velocidade real do jato pode ser obtida pela Equação 15.
(15)
( )
Caso a parede do reservatório não seja vertical, a velocidade real do jato é calculada pela Equação 16.
1/ 2
x g 1
v 2 ( xtg y )
(16)
cos
Sabendo-se que é a razão entre a velocidade real e a velocidade teórica, a equação para o é dada por
[ ] (17)
Caso a parede do reservatório não seja vertical, o Cv é calculado pela Equação 18.
1/ 2
x 1 (18)
Cv h( xtg y )
2 cos