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Revista Educar FCE - Março 2019

VOLUME 18 MARÇO DE 2019

EDUCAÇÃO INFANTIL E
PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
O lúcido na educação infantil como forma
de desenvolvimento

A brincadeira e a
Aprender ou não A importância da A importância de cultura na Educação
aprender, eis a contação de histórias na aprender brincando. Infantil.
questão. Educação Infantil.
P. 48 P. 516 P. 800
P. 994

1
Revista Educar FCE - Março 2019

2
Revista Educar FCE - Março 2019

Educar FCE / Faculdade Campos Elíseos


Vol. 18, n. 01 (Março, 2019), SP

Volume 18, n.01 (Março, 2019)


Mensal

1. Gêneros Infantis; 2. Práticas Pedagógicas; 3. Educação Infantil;


4. Inclusão; 5. Artes Lúdicas.

CDD 370

Os Conceitos emitidos nesta revista são de inteira responsabilidade dos autores.


É proibida a reprodução total ou mesmo parcial desta obra sem prévia
autorização dos autores.

3
Revista Educar FCE - Março 2019

Educar FCE-(CDD 370) - Volume 18 - Número 1 - Março de 2019

4
Revista Educar FCE - Março 2019

EDITORIAL CONSELHO EDITORIAL

Brinquedoteca – Possibilidades e Potencialidades Márcia Donizete Leite Oliveira


A Brinquedoteca é um espaço que reúne muitas possibilidades e potencialidades Cláudia Regina Esteves
Ivan César Rocha Pereira
para desenvolver trabalhos sérios e relevantes para as crianças através da brincadeira. Ela Paulo Malvestio Mantovan
é indicada para qualquer idade do zero aos cem anos ou mais, não se restringe a faixa Rodrigo Leite da Silva
socioeconômica de seus frequentadores. Esse espaço traz o resgate da importância do Maria Virgínia F. P. Couto Rosa
brincar para a criança. Na Brinquedoteca, a criança vivencia diversas atividades lúdicas e,
de acordo com Santos (1997) a “ludicidade” faz com que o ser humano de qualquer idade EDITORA-CHEFE
tenha diversas diversões. Para a autor, o desenvolvimento do aspecto lúdico facilita não só Márcia Donizete Leite Oliveira
a aprendizagem, como ainda, o desenvolvimento pessoal, social e cultural do indivíduo e,
colabora para uma boa saúde mental, preparando este ser, para um estado interior fértil. REVISÃO E NORMALIZAÇÃO
DE TEXTOS
Assim, esse processo facilitará a socialização, comunicação, expressão e construção do
Márcia Donizete Leite Oliveira
conhecimento. Em outras palavras, a criança passa a se conhecer melhor, a dominar suas
Rodrigo Leite da Silva
angústias e a representar o mundo exterior, usando para isso o brinquedo.
Assim, brincar é “coisa séria” e por isso, essa atividade deve ser tratada com PROGRAMAÇÃO VISUAL E
responsabilidade. Nesse sentido, brincar é fundamental, pois desperta a criatividade, o DIAGRAMAÇÃO
Keter Reis
raciocínio, o significado de ganhar e perder, o convívio com outras crianças de mesmo grupo,
e um maior conhecimento uma das outras, como ainda, do espaço físico.Entretanto, para PROJETO GRÁFICO
que tudo isto ocorra, a criança necessita ter liberdade para realizar suas brincadeiras, usar Elizandra Pires
sua criatividade para elaborar suas próprias regras, sendo verdadeiramente espontâneas.
Caso contrário, reproduzirá a sabedoria dos adultos, se tornando incapaz de expressar
suas próprias ideias. COPYRIGTH
Dessa forma, a Brinquedoteca assume uma grande responsabilidade, visto que é um Revista Educar FCE
espaço onde “o brincar” representa um fator importante no desenvolvimento infantil. Esse ISSN 2447-7931
espaço pode ser uma sala ou uma casa, pode ser simples ou muito incrementado, sendo Faculdade Campos Elíseos
assim, muito importante para oferecer às crianças, oportunidades para exercerem seu (MARÇO, 2019) - SP
direito de brincar e ter contato com as mais diversificadas brincadeiras.
Portanto, quando falamos em brinquedotecas instaladas em unidades da área da Publicação Mensal e
saúde, podemos pensar que elas podem estar sendo instaladas em espaços como, multidisciplinar vinculada
convênios médicos e laboratórios de atendimento e/ou unidades hospitalares. Entretanto, à Faculdade Campos Elíseos.
alguns cuidados devem ser tomados desde a escolha dos brinquedos e sua higienização, Os artigos assinados são de
até a atuação do profissional que estará na sala. Desse modo, é preciso preparar a responsabilidade exclusiva
Brinquedoteca como um espaço do “faz de conta”, para que seu ambiente seja impregnado dos autores e não expressam,
necessariamente, a opinião do
de criatividade, de manifestações de afeto e de apreciação pela infância, a tal ponto que a Conselho Editorial.
criança se sinta esperada e bem-vinda.
É permitida a reprodução total
Cláudia R. Esteves ou parcial dos artigos desta
revista, desde que citada a fonte.
Coordenadora Pedagógica Pós-Graduação FCE

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Revista Educar FCE - Março 2019

SUMÁRIO
121 A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE
APRENDIZAGEM
Alesandra Alencar Albuquerque

12 A PSICOPEDAGOGIA E SUA CONTRIBUIÇÃO 132 INCLUSÃO DE ALUNOS COM


PARA O ENSINO DA CRIANÇA SURDA SÍNDROME DE ASPERGER
Adriana Aparecida da Silva F. Armond Alessandra Vedolvello Brandão

24 O SELFIE PRESENTE NO MITO DE NARCISO 139 A RITALINA NO TRATAMENTO DE


SOB O CONCEITO DA MIMESE DE HIPERATIVIDADE E DÉFICIT DE
PLATÃO E ARISTÓTELES ATENÇÃO
Adriana Costa Lima Alessandra Ferrari da Fonseca Texeira
31 CONSUMISMO INFANTIL: EDUCAR
150 A CONTRIBUIÇÃO DA PSICOLOGIA
PARA A SUSTENTABILIDADE
NA ATUAÇÃO DOS PROFESSORES
Adriana Oliveira Cavalcante da Silva
EM EDUCAÇÃO INFANTIL
Alessandra Pires
40 JOGO, O BRINCAR E A EDUCAÇÃO
Adriana de Lima Navi Moreira 165 A ESCOLA, A FAMÍLIA, O BULLYING E
AS RESPONSABILIDADES
Aline Lopes Oliveira
48 APRENDER OU NÃO APRENDER,
EIS A QUESTÃO
179 ARTES E SUAS CONTRIBUIÇÕES
Adriana Santana de Silva Arruda
NA EDUCAÇÃO
Alzira da Silva
58 CONTRIBUIÇÕES DA NEUROCIÊNCIA NO
PROCESSO TERAPÊUTICO DE PACIENTES 190 AS HORTAS ESCOLARES NO CONTEXTO DA
COM DEPRESSÃO EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Adrilene Braga Tiba Amadeu Ribeiro dos Santos Junior

69 DIDÁTICA 201 QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA X FORMAÇÃO


Alan Carlos Coelho do Nascimento DOCENTE NO CURSO DE PEDAGOGIA: UM
ESTUDO ACERCA DAS INFLUÊNCIAS NEGATIVAS
NO ENSINO FUNDAMENTAL I
77 A GESTÃO ESCOLAR E O TRABALHO Amanda Menozzi
PEDAGÓGICO COLETIVO
Alcione Teresa Hechert
223 VANTAGENS DO ENSINO BILÍNGUE PRECOCE
86 INCLUSÃO DE ALUNOS COM
Ana Cláudia Arruda de Carvalho
DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
Aldair Calcanho de Oliveira
234 A NEUROPSICOPEDAGOGIA E OS
97 PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM
NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
Ana Lucia Budim de Oliveira
Aldivânia Santos do Nascimento
248 FORMAÇÃO DOCENTE E O ENSINO SUPERIOR
109 A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO DO
NO BRASIL: LEGISLAÇÃO E PRÁTICAS
EDUCADOR PARA A OFERTA DE UM
Ana Lúcia Teixeira de Freitas
ENSINO DE QUALIDADE
Aleciane Ferreira Nascimento da Silva 259 O ATO DE BRINCAR NA EDUCAÇÃO
INFANTIL - JOGOS E BRINCADEIRAS
Ana Maria Rodrigues Martim

6
Revista Educar FCE - Março 2019

289 O PAPEL DO PROFESSOR DE EDUCAÇÃO 417 A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS E


INFANTIL NA ATUALIDADE BRINCADEIRAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Ana Paula Marques Batista Angelita Faria Marques de Oliveira

300 ALGUNS ASPECTOS DA SURDEZ E O QUANTO PODEM 429 A IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE FÍSICA PARA
INTERFERIR NO DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES
Ana Paula Venegas Anita Rey Sinmon

312 AS TEORIAS DO CURRÍCULO E SUA RELAÇÃO COM 440 A RELAÇÃO DO PROFESSOR COM A
AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS NOS DIAS ATUAIS IDENTIDADE DA CRIANÇA NA PRÉ-ESCOLA
Ana Rosa Diniz Junqueira Antonia Leda do Nascimento Ximenes

320 A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NA 451 CONTRIBUIÇÕES DO LÚDICO


PSICOPEDAGOGIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Analu Pereira Ponciano Aparecida Lemos Hohmann

332 JOGOS E BRINCADEIRAS DA CULTURA 453 O QUE É O FRACASSO ESCOLAR E POR QUÊ
AFRICANA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA IMPLEMENTAR UMA NOVA PEDAGOGIA?
Anderson Gonzaga Lopes Correia Aparecida Rolim da Silva Rubinho

341 NEUROCIÊNCIA E APRENDIZAGEM 471 A INFLUÊNCIA DA LUDICIDADE PARA


Andrea Aparecida Tavares Alves O DESENVOLVIMENTO GLOBAL DO
ALUNO COM MÚLTIPLA DEFICIÊNCIA
351 A DIFICULDADE ENCONTRADA ENTRE A GESTÃO E O Arcângelo Rosa Junior
CORPO DOCENTE NO DESENVOLVER DO TRABALHO
Andrea Gomes Malta dos Santos
483 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
Arlete dos Santos Pacheco
346 A INFLUÊNCIA DA AFETIVIDADE NO
PROCESSO DE APRENDIZAGEM DE
502 ARTE E MUSICALIDADE: PERSPECTIVAS PARA
CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL
A EDUCAÇÃO BÁSICA
Anna Rita de Almeida
Berenice Montemurro Bueno
360 A INCLUSÃO EDUCACIONAL
Andrea Helena da Silva Bernardes 516 A IMPORTÂNCIA DA CONTAÇÃO DE
HISTÓRIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Bruna Mazerino
370 OS ESTUDOS EM PSICOPEDAGOGIA E A SUA
CONTRIBUIÇÃO PARA O PROCESSO 535 A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
DE ENSINO E APRENDIZAGEM Camila Cristina do Nascimento
Andréa Rodrigues Marin de Souza

381 A ESCOLA DO SÉCULO XXI NA FORMAÇÃO 545 GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL


SUPERIOR PELA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Camila Ueno
Andreia Alves Caires

394 O ENSINO DE ARTES NA EDUCAÇÃO INFANTIL 553 A CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO POR


Andreia Jodas Nogueira MEIO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Carla Ferreira de Araujo
408 A IMPORTÂNCIA DOS CONTOS DE FADAS NO
561 A GESTÃO DEMOCRÁTICA NO ENSINO PÚBLICO E
DESENVOLVIMENTO INFANTIL
AS SUAS PRINCIPAIS FORMAS DE CONSOLIDAÇÃO
Andreia Mangetti Riguetti
Carla Simone Vicente Tavares de Oliveira

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Revista Educar FCE - Março 2019

570 A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NO 725 O EDUCAR NA CRECHE


PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM Daniela Aparecida da Silva
Cibele Fabrício Sampaio Schroeider
733 DEFICIÊNCIA AUDITIVA NO
582 O PAPEL DO ESTADO FRENTE ÀS POLÍTICAS CONTEXTO EDUCACIONAL
PÚBLICAS EDUCACIONAIS Daniela Patricia Almeida Machado
Cibele Bento Santos
751 A NEUROCIÊNCIA E A DIFICULDADE
597 MODOS DE SUBJETIVAÇÃO NA EDUCAÇÃO DE APRENDIZAGEM
INFANTIL: UM OLHAR SOBRE O CURRÍCULO Débora Gomes Leal
Cintia Cristina Castro de Melo
766 DISCIPLINA DE CIÊNCIAS DA NATUREZA E O
COMBATE AO TRÁFICO E ANIMAIS SILVESTRES
610 BILINGUISMO NA EDUCAÇÃO DO SURDO
Diego Daniel Duarte dos Santos
Cíntia Dias de Souza

776 O BRINCAR E SUA IMPORTÂNCIA


619 A EVOLUÇÃO DA PRÁTICA PEDAGÓGICA NA NA EDUCAÇÃO INFANTIL
EDUCAÇÃO ESPECIAL E INCLUSIVA Dinair de Assis Antunes
Cintia Fernandes da Silva França
785 O PROCESSO DE APRENDIZAGEM ATRAVÉS DE
634 TRANSTORNO OPOSITOR E DESAFIADOR: UMA JOGOS, BRINQUEDOS E BRINCADEIRAS PARA
ANÁLISE DAS COGNIÇÕES E AÇÕES INFANTIS CRIANÇAS COM NECESSIDADES ESPECIAIS
Clarice Ribeiro dos Santos Nunes Edilene Costa Conceição Valentim

645 A SOCIALIZAÇÃO DO ALUNO COM 800 A IMPORTÂNCIA DO APRENDER BRINCANDO


MÚLTIPLAS DEFICIÊNCIAS Edileusa Santana dos Santos
Claudia do Amaral Pereira

656 A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NO 810 ALUNOS AUTISTAS NO ENSINO FUNDAMENTAL


DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DAS CRIANÇAS Edilson da Silva Santos
NOS ESPAÇOS DE EDUCAÇÃO INFANTIL
Cláudia Silva dos Santos
821 O USO DO LÚDICO NA ALFABETIZAÇÃO
669 A CONTRIBUIÇÃO DO DIREITO EDUCACIONAL Edna Aparecida da Costa
NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA DE QUALIDADE
Cleone Roberta de Souza 829 MEMORIAL DE FORMAÇÃO ACADÊMICA E A
RELAÇÃO COM A EDUCAÇÃO DE JOVENS E
680 OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO ADULTOS (EJA)
INCLUSIVA NO ENSINO REGULAR Edson Sernagiotto
Cristiane Amaro da Silva
848 DESAFIOS DA PROFISSÃO DOCENTE
688 PSICOMOTRICIDADE: O ESTÍMULO Elaine Aparecida Woszak
PELA ATIVIDADE LÚDICA
Cristiane Matos Ferreira
859 A CONTRIBUIÇÃO DO BRINCAR NA
702 OS TRANSTORNOS - NAS CRIANÇAS E EDUCAÇÃO INFANTIL
ADOLESCENTES LIDANDO COM FRUSTRAÇÕES Elaine Bento Silva
Daniele Nery Santos Lima
874 PSICOMOTRICIDADE E APRENDIZAGEM:
716 BRINCAR HEURÍSTICO CONTRIBUIÇÕES PARA AS PRÁTICAS
Débora Caetano da Silva Pinheiro ESCOLARES NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Elaine Cristina de Jesus Souza

8
Revista Educar FCE - Março 2019

884 AVALIAÇÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL 1032 MELHORIA NA APRENDIZAGEM


Elâine Lopes DO ALUNO DO EJA
Fernanda Sampaio Gomes

898 APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA: UMA 1044 O BRINCAR E A BRINCADEIRA


ABORDAGEM DA PRÁTICA PEDAGÓGICA DO DENTRO DA EDUCAÇÃO INFANTIL
PROFESSOR DO ENSINO FUNDAMENTAL I Gisele Mukai de Miranda Novais
Elizete C. Bento
1051 O REGISTRO COMO INSTRUMENTO
913 PRÁTICAS LÚDICAS DE APRENDIZAGEM AUXILIADOR DA PRÁTICA PEDAGÓGICA
NO CONTEXTO ESCOLAR Gleice Carvalho Martins
Evandro Fabrício Américo de Campos
1060 AS HERANÇAS DA CULTURA NEGRA NO BRASIL
922 A IMPORTÂNCIA DO USO DA TECNOLOGIA Ilza Rodrigues Ferreira
NO ENSINO DE HISTÓRIA
Evelin Pereira Montagnini
1069 SER PROFESSOR DE BEBÊS E CRIANÇAS
935 A NEUROCIÊNCIA APLICADA A APRENDIZAGEM PEQUENAS NAS CRECHES E CENTROS DE
DO DEFICIENTE INTELECTUAL EDUCAÇÃO INFANTIL; OS DESAFIOS DE
Fabiana Cristina Cirino PRÁTICAS DOCENTES NÃO CONTEUDISTAS
Inalda Maria de Lima Cordeiro
949 A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA NA FORMAÇÃO
DAS CRIANÇAS DE ZERO A TRÊS ANOS
Fabiana Ribeiro de Almeida 1079 GESTÃO DEMOCRÁTICA EM ESCOLAS PÚBLICAS
Isabel Aparecida Dias
965 RELAÇÕES ENTRE A DIVERSIDADE E O TRABALHO
COM AS NECESSIDADES EDUCACIONAIS
1088 SURDOCEGUEIRA E DEFICIÊNCIA MÚLTIPLA:
ESPECIAIS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
NECESSIDADES E PAPEL DO PROFESSOR
Fabiana Ribeiro de Macedo Costa
Janaína Aparecida de Oliveira Barbieri
974 A EXPERIÊNCIA DO ATO DE LER 1096 A PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA NA MELHORIA
NA EDUCAÇÃO INFANTIL DA APRENDIZAGEM DOS ALUNOS DO EJA
Fabiana Vieira de Mesquita Janaina Braga dos Passos de Almeida
984 O PAPEL DA ESCOLA NO COMBATE À 1109 CONTAÇÃO DE HISTÓRIA
IDEAÇÃO DO SUICÍDIO NA ADOLESCÊNCIA NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Fabio Roberto Manente dos Santos Jéssica Cheine Benato Lima
994 A BRINCADEIRA E A CULTURA 1118 VALORIZAÇÃO DO ENSINO TÉCNICO INTEGRADO
NA EDUCAÇÃO INFANTIL Jéssica Kastein Rodrigues
Fabio Valim dos Santos
1007 O DESENHO E AS CORES NA PRIMEIRA INFÂNCIA
NA PERSPECTIVA DA PEDAGOGIA WALDORF 1134 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
Fabíola Oliveira Dias Góes NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Joceslaine Gomes Campos
1016 AS CONTRIBUIÇÕES DA
NEUROPSICOPEDAGOGIA NO 1150 ASPECTOS EDUCACIONAIS BRASILEIROS E A
PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM FORMAÇÃO PARA A CIDADANIA
Flavia Cristina Pereira Figueiredo Jorge Fernando Inácio

1162 CONTOS AFRICANOS NO


1025 AVALIAÇÃO APRENDIZADO
ENSINO FUNDAMENTAL I
Fátima Regina da Rocha
José Jenilson Ferreira

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Revista Educar FCE - Março 2019

1171 DOMINOBIO: UMA FORMA DIVERTIDA 1324 AS CONTRIBUIÇÕES DAS MÚSICAS E


DE APRENDER BIOLOGIA, PROMOVENDO PARLENDAS PARA A APRENDIZAGEM
DISCUSSÕES E ENRIQUECENDO O PROCESSO Luana Kaina Santos
DE ENSINO-APRENDIZAGEM
José Oliveira dos Santos 1333 A EDUCAÇÃO INFANTIL E AS
APRENDIZAGENS LÚDICAS NA INFÂNCIA
Luciana Donato Oliveira
1192 JOGOS E BRINCADEIRAS
NO COTIDIANO ESCOLAR 1344 A IMPORTÂNCIA DA MÚSICA COMO MÉTODO
Joyce Santos de Souza Ferreira DE ENSINO E APRENDIZAGEM
Lucilene Daciulis Caetano
1201 AÇÃO SUPERVISORA NAS ESCOLAS DA
PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO: 1358 A LITERATURA INFANTIL E A
UM OLHAR SISTÊMICO SOBRE AS FORMAÇÃO DE LEITORES
CRECHES PARCEIRAS Luiz Fernando Nogueira Oliveira
Juliana Gouveia Miguel
1367 FORMAÇÃO, PRÁTICA E PROFISSÃO DOCENTE
1211 CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS – Luizelina Farias Lima
LER E OUVIR HISTÓRIAS INFANTIS
Juliana Leandro Feriance de Oliveira 1382 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E AS NOVAS
NECESIDADES DAS GERAÇÕES: UMA
1228 DEGRADAÇÃO DOS BIOMAS BRASILEIROS RELAÇÃO DE APRENDIZADO BILATERAL
Julio Cesar Polanchini Ligia Paperini Silva

1393 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E AS NOVAS


1242 A INFLUÊNCIA DA ARTE NO NECESSIDADES DAS GERAÇÕES: UMA
PROCESSO PEDAGÓGICO RELAÇÃO DE APRENDIZADO BILATERAL
Kátia Capelosa Silva Garcia Marcia Pereira de Andrade do Carmo

1253 A ORGANIZAÇÃO DOS CANTINHOS TEMÁTICOS 1406 CENTRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL:


NA ROTINA DA EDUCAÇÃO INFANTIL ESPAÇO DE APRENDIZAGEM,
Katia de Oliveira Alves EXPERIMENTAÇÃO E SOCIALIZAÇÃO
Marias das Graças Reis Bomfim
1267 O USO DO CONTO NA EDUCAÇÃO
INFANTIL E O DENVOLVIMENTO DA LÍNGUA 1419 A IMPORTÂNCIA DA PARLENDA NO PROCESSO
Kátia Medeiros da Silva
DE ALFABETIZAÇAO E LETRAMENTO
Maria Aparecida Feitosa
1280 JOGOS E BRINCADEIRAS
COMO RECURSO DIDÁTICO 1426 A INCLUSÃO DE CRIANÇAS PORTADORAS DE
Laís Lopes Prado NECESSIDADES ESPECIAIS NO CONTEXTO
ESCOLAR
1290 A VISUALIDADE ARTÍSTICA Maria Eulália dos Santos Neto
EM CRIANÇAS DE 0 A 6 ANOS
Kátia Katsue Nishio
1436 A IMPORTÂNCIA DO DESENHO INFANTIL NO
1302 A IMPORTÂNCIA DO MOVIMENTO PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM
CORPORAL E CRIATIVO NA EDUCAÇÃO INFANTIL Maria Simone da Costa Pondetdura
Laudiceia Oliveira
1453 PARTICIPAÇÃO DA FAMÍLIA NA CONSTRUÇÃO
1312 O GÊNERO CAUSO COMO INCENTIVADOR DA
DA GESTÃO DEMOCRÁTICA
LEITURA E DA ESCRITA NO ENSINO FUNDAMENTAL
Marilei da Silva Couto Lima
Leila Isabelita Pereira Ferreira de Oliveira

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Revista Educar FCE - Março 2019

1470 A MAGIA DA HISTÓRIA NA EDUCAÇÃO 1632 PERSPECTIVAS LÚDICAS DE BRINQUEDOS E


Neide Maria das Luz Santos BRINCADEIRAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL
Roberta Matiazzo Cappellani Silva
1481 A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NA
EDUCAÇÃO FÍSICA INFANTIL 1642 A PSICOMOTRICIDADE NA
Neiva Matos Sanches AQUISIÇÃO DO ESQUEMA CORPORAL
Roberta Rinaldi
1491 COMO AVALIAR NA FASE
INICIAL DE ALFABETIZAÇÃO
1649 OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO
Patricia Teixeira Cavallotti Silva
INCLUSIVA NO AMBIENTE ESCOLAR
1499 O PAPEL DO PROFESSOR Rosana Kirilauskas
DE EDUCAÇÃO INFANTIL 1661 PSICOPEDAGOGIA E OS DESAFIOS DA
Paula Renata Araújo Ferro APLICABILIDADE: AS FUNÇÕES SOCIAIS
1511 ARTE, MUSEU E EDUCAÇÃO: EM TORNO DO OBJETO DE ENSINO
UMA BREVE REFLEXÃO Rosania Borges do Santos Silva
Prescilla Guilhermina Bento
1672 A MÚSICA COMO INSTRUMENTO
1526 OS CONCEITOS DE GÊNERO DE APRENDIZAGEM NA
E SEXUALIDADE NA ESCOLA EDUCAÇÃO INFANTIL
Priscila Almeida Silva Rosiane Araujo Costa Santos
1542 A IMPORTÂNCIA DA CONTAÇÃO DE
HISTÓRIAS NA EDUCAÇÃO INFANTIL 1680 A RELEVÂNCIA E A MEDIAÇÃO DO
Patrícia Freitas Oliveira ENSINO DE MATEMÁTICA NAS
SÉRIES INICIAIS
1551 A INFLUÊNCIA DA LITERATURA INFANTIL
Sandra da Silva Domingos Lopes
FOMENTANDO O DESPERTAR LEITOR
NA EDUCAÇÃO INFANTIL 1696 O LÚDICO COMO FACILITADOR DO ENSINO
Patricia Meg Ayres Sousa DA MATEMÁTICA NA EDUCAÇÃO INFANTIL
1563 A NEUROPSICOPEDAGOGIA E A EDUCAÇÃO Sonia Silva Carmo Luiz
Rafael Andrade dos Santos 1710 PICHAÇÃO E GRAFITE: PROCESSOS
DE ASSIMILAÇÃO E OPOSIÇÃO
1574 HISTÓRIAS EM QUADRINHOS NA ESCOLA Simone Bueno de Freitas Souza
Rafael da Silva Pereira
1724 A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS E DOS
1583 O LÚDICO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E BRINQUEDOS NO DESENVOLVIMENTO MOTOR
ADULTOS: COMO TORNAR AS AULAS MAIS Tânia Aparecida Pardim Sena Delfino
DINÂMICAS PARA ESSA POPULAÇÃO
Renata de Carvalho Barra 1735 A IMPORTÂNCIA DA FAMÍLIA NO
PROCESSO EDUCATIVO
1602 JOGOS E BRINCADEIRAS COMO Tatiana Batista
ESTRATÉGIAS DE ENSINO EM LÍNGUA
INGLESA NO ENSINO FUNDAMENTAL 1747 O DESENVOLVIMENTO DO
Renata Simone do Bem Ramos Alves RACIOCÍNIO LÓGICO MATEMÁTICO
1609 O DESENHO INFANTIL E A IMPORTÂNCIA DA NO ENSINO FUNDAMENTAL
ARTE PARA CRIANÇA Thaisy de Castro Maia
Rizoneide Maria Dias
1758 A PSICOPEDAGOGIA E A APRENDIZAGEM
1621 JOGOS E BRINCADEIRAS NA
ESCOLA SIGNIFICATIVA NO “PROGRAMA DE ESTUDOS
Roberta Rodrigues da Silva DA RECUPERAÇÃO PARALELA”
Flávia Aparecida Miranda

11
Revista Educar FCE - Março 2019

A PSICOPEDAGOGIA E SUA
CONTRIBUIÇÃO PARA O ENSINO
DA CRIANÇA SURDA
RESUMO: A surdez não implica no desenvolvimento cognitivo-linguístico da criança,
tudo ocorrerá normalmente desde que não haja outro impedimento para isso. A ausência
ou a falta de acesso a uma língua tem consequências gravíssimas, tornando o indivíduo
solitário, além de comprometer o desenvolvimento de suas capacidades mentais. Através
da língua nos constituímos como seres humanos, nos comunicamos e construímos nossas
identidades e subjetividades, adquirimos e partilhamos informações que nos possibilitem
compreender o mundo que nos cerca. E para auxiliar nessa tarefa a psicopedagogia lança
mão de seus recursos tão próprios e tão essenciais, dentro de todo o processo investigativo
psicopedagógico. Analisaremos a seguir alguns aspectos e caminhos que nortearam e
facilitaram o desenvolvimento cognitivo e linguístico dentro da abordagem psicopedagógica.

Palavras-chave: Psicopedagogia; Aprendizagem; Língua; Surdo e Surdez.

12
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO A SURDEZ
Muitos foram os estudos e nas mais Ela é considerada como um estado de quem
diferentes épocas, com as mais diversas é surdo, ou seja, de quem não ouve nada. De
interpretações, algumas posições acordo com Biderman 2 (1998 apud Gesser,
demonstram que a ausência do som dificulta 2009, p.35) a surdez é uma deficiência física
a criança ter acesso à linguagem, implicando que impede a pessoa de ouvir. Mas então
diretamente no desenvolvimento abstrato podemos dizer que todo surdo é deficiente?
e reflexivo dos surdos, que por sua vez tem
seu pensamento voltado para o concreto. A definição que temos de deficiência
em alguns dicionários é a que consiste em
Outras pesquisas apontam que a uma falha, insuficiência e carência e será
competência cognitiva dos surdos é igual considerado deficiente aquele que é falho,
a das crianças ouvintes, elas passam pelas incompleto e imperfeito.
mesmas etapas do desenvolvimento, mas as
crianças surdas apresentam uma evolução Muitos surdos não acham e não querem
mais lenta. ser chamados de deficiente, pois para muitos
a surdez pode ser bem entendida e absorvida
Apesar da dificuldade em identificar quando é processada pela família, escola e
a surdez nos primeiros anos de vida, o amigos como algo natural.
desenvolvimento sensório-motor ocorre de
forma semelhante tanto nos ouvintes quanto Para muitos pesquisadores e para muitos
nos surdos. surdos chamá-los de deficientes é como uma
discriminação, pois a “deficiência” corrobora
Diante dos problemas de aprendizagem os uma atitude de desajuste social e individual.
primeiros passos para auxiliar o aluno dentro
do trabalho psicopedagógico é um olhar mais A forma como se deu a perda auditiva é
atento, a observação de sinais que a criança importantíssima, pois fatores como a idade
vem apresentando são fundamentais para da perda, a reação emocional dos pais e da
iniciar uma prática investigativa. família e, os possíveis transtornos associados,
ajudam a compreender e a buscar meios para
Nesse momento percebemos que o corpo auxiliarem no desenvolvimento da criança
e o comportamento da criança darão pistas de surda.
que algo está errado, o diagnóstico precoce
de uma surdez ou de alguma deficiência,
minimizam os reflexos negativos tanto para
a criança quanto para a família.

2
GESSER, Audrei. Libras? Que língua é essa? Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda.
1ª ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 35.

13
Revista Educar FCE - Março 2019

ENTENDENDO MELHOR Os objetivos da aprendizagem se tornam


A SURDEZ difíceis quando a criança surda precisa
adaptar-se a modelos educacionais criados e
A classificação do tipo de surdez voltados a crianças ouvintes.
possibilita um tratamento mais eficaz,
norteando o melhor tratamento a ser A criança precisa receber atenção e
seguido, favorecendo a escolha de meios estímulos voltados para a área educativa assim
que possibilitem a aquisição da linguagem de que detectada a surdez, uma estimulação
sinais ou a oral. sensorial com atividades comunicativas e
expressiva utilização da libras.
[...] o principal objetivo continua sendo a
aquisição de um sistema linguístico organizado
quando a criança perde a audição. Já depois Quando bebês os choros, os balbucios e
dos 3 anos, o objetivo é manter a linguagem arrulhos nos primeiros 04 meses são iguais
adquirida, enriquecê-la e complementá-la [...]. tanto nas crianças ouvintes quanto nas
(COLL et al., 2004, p. 175).3
crianças surdas, mas a partir dos 04 aos
06 meses de idade essas expressões vão
Ela pode ser classificada como condutiva, diminuindo nas crianças surdas.
que é caracterizada pela alteração na orelha
externa (meato acústico) e/ou orelha média A ausência do retorno de suas próprias
(membrana timpânica, cadeia ossicular, expressões vocais contribui decisivamente
janelas oval e redonda ou tuba auditiva). para a não aquisição da linguagem.

A surdez mista é na verdade, uma alteração A idade em que a criança tem a perda
condutiva e neurossensorial, que causa danos auditiva é um fato fundamental para o seu
nos ouvidos interno e externo e, dificulta a desenvolvimento, pois se for antes dos 03
passagem dos sons e traz prejuízos ao nervo anos de idade terá o que se chama de surdez
auditivo. pré-locutiva.

E por último a surdez neurossensorial, que Depois dos 03 anos há a surdez pós-
afeta a cóclea e/ou o nervo auditivo. locutiva que ocorre após a aquisição da fala,
isso produzirá um efeito diferente para o
Sea criança for surda profunda, desenvolvimento da criança.
o desenvolvimento simbólico e
acompanhamento dos pais ajudam a Nessa faixa etária a criança tem maior
favorecer um ambiente ideal para o seu domínio cerebral e já consegue manter sua
desenvolvimento e contribuirá também para linguagem interna.
a superação de suas limitações.

3
COLL, César et al. Desenvolvimento Psicológico e Educação (transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas
especiais). Trad. Fátima Murad. Vol.3. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2004, p.175.

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Revista Educar FCE - Março 2019

E é nesse sentido que de acordo com AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM


Vygotsky, que a linguagem ocupa “um DE SINAIS
papel essencial na organização das funções
superiores”. 4 (1984 apud GESSER, 2009, Sua evolução é parecida com a da
p.77) linguagem oral, na fase do balbucio tanto
crianças surdas quanto às crianças ouvintes
Diferente do que ocorre com os menores possuem aspectos semelhantes, embora a
de 03 anos, que ainda não conseguem criança surda apresente um balbucio manual
estabelecer uma organização neurológia e a ouvinte o balbucio vocal.
e apresentam uma fragilidade em sua
competência linguística. No processo que antecede a aquisição da
linguagem de sinais ou a fala há semelhanças,
pois o balbucio manual apresenta aspectos
DANDO VOZ AO SURDO: característicos que estão presentes no
AQUISIÇÃO DA LÍNGUA ORAL balbucio vocal, seja pela duplicação das
expressões (vocal e manual), pela etapa
Esse é um processo que não é natural para silábica ou pelo ritmo.
as crianças surdas e, precisa ser trabalhada
constantemente pelos adultos, de uma forma A evolução e as configurações que eram
planejada e direcionada. aprendidas com os pais e colocadas em
prática pelas crianças.
As palavras pouco a pouco serão
incorporadas ao vocabulário das crianças e Os surdos possuem um conhecimento
esse sem dúvida é um trabalho que requer da realidade muito restrito, pois eles têm
muito esforço e dedicação. dificuldade em receber informações e
comprovadamente as crianças surdas que
De acordo com algumas pesquisas adquirem a língua de sinais desde pequenas.
realizadas ainda na década de 80, crianças
com surdez profunda não conseguem ter dez Esses conseguem ter uma abordagem
palavras em seu vocabulário, já as crianças mais reflexiva diante dos questionamentos
ouvintes nessa mesma faixa etária teriam o em relação as outras que não sabem a língua
dobro de palavras, “[...] não é a surdez que de sinais.
compromete o desenvolvimento do surdo
e sim, a falta de acesso a uma língua [...]”. 5
(GESSER, 2009, p.76)

4
GESSER, Audrei. Libras? Que língua é essa? Crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda.
1ª ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2009, p. 77.
5
Idem, ibidem, p. 76.

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Revista Educar FCE - Março 2019

LIBRAS A ESTRUTURA DA LIBRAS


No Brasil a libras foi reconhecida como A língua de sinais tem sua gramática
língua na década de 60 e, diferente do própria, inicialmente os estudos fonológicos
que muitos pensam essa não é uma língua e morfológicos foram feitos na década de 60,
universal e, como qualquer outra língua é com a língua americana de sinais e, apontou
sinalizada cada uma de acordo com o seu os aspectos essenciais para a execução de
país de origem. um sinal e deu um nome a cada um deles.

Há uma língua de sinais chamada gestuno, • A configuração de mão (CM) traz o


nome esse de origem italiana que quer dizer formato da mão que deverá ser executado
“unidade em língua de sinais”, que também de acordo com cada sinal;
por sua vez, é tida como uma língua artificial,
criada por um determinado grupo de pessoas • o ponto de articulação (PA) e a locação
e com um objetivo específico. (L) que se refere a parte do corpo em que
os sinais são feitos;
A primeira vez que se o ouviu falar do
gestuno foi em 1951, em um Congresso • o movimento (M) é indicado por
Mundial da Federação dos Surdos (World uma seta ( ) e sinaliza a direção da
Federation of the Deaf - WFD), que objetivava movimentação que a mão fará, dando
integrar a língua de sinais no mundo todo. continuidade ao sinal. Mas vale lembrar
que nem todo sinal tem movimento;
A Comissão de Unificação de Sinais
através de seu comitê na década de 1970, Diversos outros estudos foram realizados
buscou selecionar alguns sinais objetivando e ao longo dessas pesquisas, outro ponto
padronizar um sistema de sinais universal. importante foi descoberto, a orientação da
mão (O), que se refere a direção dos sinais, ou
Grande parte dos surdos não é favorável e seja, o sinal pode ter a mesma configuração
receptivo a essa ideia, mas em contra partida, de mão mas, se tiver a orientação da mão
há um movimento gestunista, que procuram diferente serão dois sinais distintos.
divulgar esses sinais seja por vídeos, cursos
ou conferências mundiais dos surdos. No caso dos verbos alguns podem ser
flexionados como o verbo “ajudar” mantem-
se a mesma configuração de mão, mas há
alteração na orientação (O) da palma da mão
o que modifica o sentido do verbo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Na forma original o sinal quer dizer “ajudar Neste caso, a língua majoritária deve ser
alguém”, agora invertendo a orientação (O) ensinada ao surdo em sua modalidade escrita
da palma da mão passará para “ser ajudado e a sua introdução para os surdos deve ser
por alguém”, o mesmo ocorre com os verbos feito através da língua de sinais.
perguntar, cuidar entre outros.
Eles se apropriarão melhor do
No entanto, essa regra também é usada conhecimento, através da língua de sinais,
para algumas negativas, como querer e não facilitando a dinâmica do processo de
querer, saber e não saber, gostar e não gostar. ensino-aprendizagem e favorecendo a
Mas na libras há também sinalizações não transferência e agregando novos valores aos
manuais, que reforçam o sinal e colaboram conhecimentos já adquiridos anteriormente.
para a contextualização do mesmo, como as
expressões faciais, a velocidade, a entonação
e a hesitação. A AVALIAÇÃO
PSICOPEGAGÓGICA
Todos eles facilitam e contribuem para o
entendimento de um determinado sinal. Por Essa avaliação procurará informações
exemplo, os sinais dos verbos poder, precisar relevantes do ambiente familiar, condições
e possuir são extremamente parecidos, de aprendizagem e as condições educativas,
porém, a expressão facial, a intensidade e os favorecendo o processo de ensino-
movimentos pouco variados nos três sinais aprendizagem e pontuando uma solução
marcam a diferença entre eles. educacional mais indicada a ocorrência em
questão.
O que deve ficar claro é que a língua de
sinais não é uma mímica, não é um gesto, O papel fundamental do Psicopedagogo
nem uma pantomima ou um código secreto é manter uma relação interativa entre ele, a
que os surdos sabem. família, a criança e os professores, buscando
conhecer qual a origem dessa dificuldade
A falta de conhecimento levam as pessoas educacional, trazendo meios e experiências
a uma ignorância descabida, justamente por de aprendizagens que sejam incentivadoras
acharem que os surdos não podem falar a para as crianças.
língua oral.
A avaliação psicopedagógica utilizará
De acordo com Audrei Gesser, a língua como norte três eixos principais para as
de sinais não atrapalha a aquisição de outra intervenções: a família, a criança e a escola.
língua pelo surdo, ela garantirá ao surdo uma Ambos terão que passar por
maneira de relacionar-se com os outros e readequações objetivando auxiliar no melhor
favorecendo encontros intra e interpessoais. desenvolvimento da criança surda, aliando

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Revista Educar FCE - Março 2019

forças e traçando estratégias, que favoreçam Tudo Isso aliado a uma técnica mais
bons resultados em seus diferentes apurada, são importantes meios um
contextos. bom para desenvolvimento do trabalho
psicopedagógico.

A INTERVENÇÃO
PSICOPEGAGÓGICA O CURRÍCULO ESCOLAR
Quero destacar a importância dessa A comunicação manual é necessária para
ferramenta fundamental para um significativo facilitar a integração com a comunidade
processo de aprendizagem. escolar e, ter avanços em sua aprendizagem.
Mas é importante focar também na
Precisamos antes de tudo mensurar a comunicação oral para facilitar o “diálogo”
diferença entre dificuldade de aprendizagem, em sala de aula.
defasagem de conteúdos e imaturidade
neurológica. Como por exemplo:
• Cuidados com as condições acústicas
Existem varias definições que abordam e de visibilidade na classe;
essa temática, mas em sua maioria sempre
direcionam a culpabilização dessa não • Falar dirigindo o olhar para a criança;
aprendizagem a própria criança.
• Empregar todo tipo de meios de
As intervenções se fazem necessárias informações;
respeitando sempre a individualidade da
criança e as características do seu “problema”. • Facilitar a compreensão por meio de
mensagem escrita (lousa, transparência,
Devemos considerar essa criança como cartazes etc).
alguém capaz que vive em um contexto
familiar, escolar e social específico, que Na mudança curricular devemos incluir
vivencia situações e por isso, requer um conteúdos próprios da linguagem manual,
olhar mais atento. com os objetivos da área que se pretenda
estudar e unir um ao outro.
Tanto a avaliação como a intervenção
precisam ser feitas em caráter institucional, Precisamos levar em conta que, a
analisando os materiais utilizados pela criança surda têm de aprender elementos
criança, a metodologia utilizada pela unidade comunicativos e linguísticos, já as crianças
escolar, a avaliação escolar e a entrevista ouvintes aprendem espontaneamente.
com os professores.

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Revista Educar FCE - Março 2019

ESTRATÉGIAS O estímulo aos neurônios e as diferentes


PSICOPEDAGÓGICAS NA áreas do cérebro quando bem estimulados se
tornam mais rápidos e conseguem armazenar
APRENDIZAGEM DO SURDO uma maior quantidade de informações. Isso
possibilita maior habilidade na resolução de
A psicopedagogia dá caminhos para a problemas.
criança aprender conteúdos pedagógicos,
mas um dos grandes problemas nesse caso Com ferramentas pedagógicas adequadas
é grande quantidade de conteúdos que a o cérebro será potencializado e ampliará a
criança precisa aprender em pouquíssimo capacidade de utilização cerebral do aluno.
tempo. Toda essa parte biológica e cognitiva
devem ser levadas em conta, mas não é só
Nesse caso as coisas que ela está isso, aspectos emocionais, sociais e físicos
aprendendo precisa fazer sentido, caso influenciam diretamente na aprendizagem
contrário, ela não vai aprender e não vai se de qualquer criança.
apropriar desse conhecimento.
Muitas vezes a psicopedagogia tentar
O nosso sistema educacional preconiza a trabalhar todas essas dificuldades, se
memorização de conteúdos e não daquele esforçando ao máximo inibir as dificuldades
que se apropriou e consegue construir e de aprendizagem e um possível fracasso
compreender seu próprio conhecimento. escolar.

Isso inviabiliza uma qualificação dos E como a psicopedagogia pode auxiliar o


nossos alunos e um melhor aproveitamento ensino do aluno surdo?
do conteúdo aprendido em sala de aula.
Sabemos que esse processo ocorrerá
Questões emocionais e físicas precisam estar de uma forma e de um ritmo diferente em
integradas para que a questão cognitiva também relação ao aluno ouvinte, justamente porque
dê certo, para isso podemos fazer uma integração um utilizará sua percepção auditiva e o outro
entre as diversas disciplinas, favorecendo a sua percepção visual.
aquisição de novas habilidades e capacidades
para as crianças se desenvolver bem. A educação oralista não pode ser imposta
ao aluno surdo, obrigando-o a aprender como
Independente da faixa etária da criança os ouvintes e pontualmente será exatamente
o lúdico e o raciocínio lógico devem estar onde o psicopedagogo auxiliará.
presentes nesse processo de aprendizagem,
de uma maneira divertida o aluno Com alterações de planejamentos
desenvolverá melhor os conteúdos. escolares deverá também revisar atitudes e

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Revista Educar FCE - Março 2019

enaltecer o surdo em todos os seus aspectos, a enfrentarem da melhor maneira possível


principalmente na língua de sinais. todos esses entraves.

Esse será um papel de mediação entre o Dando aos pais, aluno e escola alternativas
surdo e tudo aquilo que o cerca e o faz se inibir e caminhos que possam ser percorridos
frente á sociedade. As questões estruturais, juntos, sem medo, sem pré-conceitos e sem
biológicas e emocionais dificultam tudo isso. dificuldades que prejudiquem a construção
desse elo que favorecerá a aprendizagem da
Ao Psicopedagogo cabe a tarefa de filtrar criança surda em todos os seus aspectos.
toda essa problemática e orientar a família

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo de nossas vidas temos convivido com padrões de
“normalidade” e tudo que foge a essa regra causa estranheza
e um certo desconforto, não pela “anormalidade” mas sim,
pela dificuldade que nós temos em se relacionar e conviver
com essa diferença.

E no caso do surdo isso fica evidente, pois a comunicação


se monta como uma barreira que impede essa integração,
então fica muito mais fácil eu ouvinte ignorar sua presença
do que tentar me comunicar ou aprender como me comunicar
com eles e quebrar esse obstáculo. ADRIANA APARECIDA DA
SILVA FELIX ARMOND
Esse tipo de pensamento facilita a propagação de Graduação em Pedagogia pela
preconceitos sociais, dificultando todo o processo de Universidade Braz Cubas-
aceitação e desenvolvimento do surdo em sociedade. UBC (2013); Especialista
em Psicopedagogia Clínica e
Institucional pela Faculdade
E a escola é a primeira etapa onde tudo isso acontece, Aldeia de Carapicuíba- FALC
por isso a participação da Psicopedagogia se torna tão (2017); Professor de Educação
Infantil e Ensino Fundamental I
importante, pois contribuirá para amenizar todos esses da Prefeitura do Município de
reflexos negativos que impedirão o desenvolvimento social e São Paulo - na EMEI Vila Natal –
cognitivo da criança surda, trabalhando integralmente com a Diretoria Regional de Educação
Capela do Socorro.
escola e com os pais, traçando com objetivos claros projetos
e planejamentos que venham satisfazer e comtemplar o
aluno surdo em sua totalidade.

Isso vai muito além de conquistar boas notas, de aprender,


de se comunicar e de fazer amigos.

O que os surdos buscam na verdade é conquistarem sua


real identidade, de serem respeitados e de conseguirem
como qualquer outra pessoa de se sentir parte do todo, de
não serem vistos como diferentes, “anormais” ou deficientes.

Essa indiferença está presente nos olhos daqueles que


veem, atitudes como essas nos independem de estreitar
laços e poder aprender mais com o outro rompendo todo o
silêncio que existe.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares-
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OLIVEIRA, Ivanilde A.de. Saberes, imaginários e representações na educação especial: a


problemática ética da “diferença” e da exclusão social. 2ªed. Petrópolis: Vozes, 2005.

PEREIRA, Maria Cristina da Cunha (Org.). Leitura, Escrita e Surdez. 2ª ed. São Paulo: FDE,
2009.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O SELFIE PRESENTE NO MITO DE


NARCISO SOB O CONCEITO DA
MIMESE DE PLATÃO E ARISTÓTELES
RESUMO: Este artigo aborda temas da Estética, campo que se relaciona com a sensibilidade.
Palavra de origem grega AISTHESIS que se define como sensibilidade: conhecimento pelos
cinco sentidos. É no estudo da estética que Platão e Aristóteles definem a mimese. E com a
mimese se pode analisar o mito de Narciso. Comportamento atemporal percebido hoje nas
selfies que são captadas por aparelhos celulares.

Palavras-Chave: Estética; Platão; Aristóteles; Mimese; Selfie;

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO O Selfie analisado perante o entendimento


de Platão e Aristóteles remete a reflexão sobre
O que achavam os primeiros pensadores os possíveis olhares neste comportamento,
sobre a estética? Para Platão o mundo se que busca eternizar momentos e ao mesmo
dividia em dois mundos: a) o mundo sensível, tempo a perfeição do ideal lugar e imagem.
o que é percebido pelos sentidos; e b) o
mundo inteligível, sendo o mundo das ideias Narciso, também praticou esta busca
perfeitas. Ou seja, para ele o mundo imitado interior de perfeição, o que o distanciou
nunca teria a exatidão do mundo real. do mundo real. Entretanto, a imagem do
lago, para Narciso, o seduzia mais do que as
Mais adiante, Aristóteles, seu aluno, imagens reais, a ponto de ficar olhando-se
discordava das ideias perfeitas da no reflexo do lago e abandonar o mundo real
representação do real, visto que a ilustração que o cercava.
está na possibilidade de criarmos o novo
com base em coisas que já existem.
A MIMESE
Diante desses entendimentos, surgem os
conceitos da mimese para Platão e Aristóteles, Dentro da área definida: estética, recorta-
que serão os embasamentos explorados e se as teorias a respeito da mimese na
elucidados nesta pesquisa para estudo do concepção de Platão e Aristóteles, posto
Mito de Narciso e o comportamento do que foram precedentes nesta temática.
selfie na sociedade contemporânea, visto
que ambos recorrem à imagem refletida de Do grego mímesis, pode ser entendido
si como busca de identidade e construção. como imitação; podendo ainda, haver outras
derivações: mimetikos como arte de poeta,
Sendo a poesia educadora da Grécia na escultor, pintor; ainda, mimos, ligados a
época de Platão, ele depara-se com a força da rituais místicos da dança; e também como
ilusão da imagem, percebendo que a imagem mimeisthai que pode ser entendido tanto
chama mais a atenção do que o real, possuindo como falsificar a encenar. (RUFINONI, 2013,
assim mais poder para convencimento. Por p. 162).
isso a filosofia adentra a questão estética e
analisa a verdade dentro do real e o refratado Platão em seu livro A República discute
do real (imagem). Para Sócrates a arte difere qual o modelo ideal de ensino na formação
da verdade por isso que dentro dela (arte) dos jovens para uma sociedade mais correta.
é possível criar tudo. Ou seja, para ele a É valendo-se dos questionamentos de
“mimese” não remete a vida real, pois a arte Sócrates a Glauco que surgem as reflexões
é apenas uma representação de imagem do a respeito da imitação. Sócrates questiona o
real, faltando outras vertentes do real. fato de a imitação ser uma não verdade da
realidade. Ou seja, a imitação da arte não

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Revista Educar FCE - Março 2019

pode representar a realidade, mas apenas a parte do processo da aprendizagem humana,


verdade disfarçada. Tomemos como exemplo declara:
disso o Sol, e uma pintura de um Sol sobre
uma tela, por mais bela, radiante, e idêntica A tendência para a imitação é instintiva
no homem, desde a infância. Neste ponto
à imagem verdadeira, a pintura nunca será distinguem-se os humanos de todos os outros
o Sol verdadeiro, não sendo capaz de dar seres vivos: por sua aptidão muito desenvolvida
luz e os benefícios que só existem no astro para a imitação. Pela imitação adquirimos
nossos primeiros conhecimentos, e nela todos
real, o que torna a pintura uma mentira da experimentamos prazer. (ARISTÓTELES, 2001,
realidade. E assim reflete: p. 4)

Sócrates — Apoiando-nos nestes exemplos, Este filósofo entende a mimese não


procuremos agora descobrir o que pode ser o
imitador. [...] como uma mentira do real, mas como uma
Sócrates — Sendo assim, a imitação está longe possibilidade de representação do real para
da verdade e, se modela todos os objetos, é despertar o conhecimento e reconhecimento
porque respeita apenas a uma pequena parte
de cada um, a qual, por seu lado, não passa de da realidade.
uma sombra. Diremos, por exemplo, que o pintor
nos representará um sapateiro, um carpinteiro Entretanto, a intenção não era reproduzir
ou qualquer outro artesão, sem ter o mínimo
conhecimento do seu ofício. Contudo, se for “a verdade” através da imitação, mas que
bom pintor, tendo representado um carpinteiro através do real se possa criar o novo, para
e mostrando-o de longe, enganará as crianças e criação do possível no mundo das ideias.
os homens tolos, porque terá dado à sua pintura
a aparência de um carpinteiro autêntico. [...] “É uma reposição de signos do mundo que
(PLATÃO, 2004, p.321/324, grifo meu) perfazem um outro mundo poético, cujo
estatuto não é o da cópia, mas o da criação”
Diante disto, neste livro Platão justifica (RUFINONI, 2013 p. 166). Por exemplo, o
seu pensar a respeito da mimese utilizada unicórnio, o duende, etc, todos os elementos
pelos poetas, pintores, e artistas em geral, utilizados para suas formações fazem parte
como forma de representação para o ensino, do real, embora de uma forma diferente.
sendo uma forma mentirosa para conceituar Foi então que surgiu a verossimilhança, que
assuntos e temas relevantes à formação de traz a aparência da vida real, mas com uma
uma sociedade ideal que eles almejavam, liberdade que só na arte é permitido.
“a mimese intervirá como fator de engano
e ilusão, ligado aos encantos da arte e à Portanto, Aristóteles discordava das ideias
ingenuidade dos ouvintes.” (GARGNEBIN, perfeitas transmitida através da mimese, já
1993, p.70). que acreditava que as ideias bela e o belo
já estão nas próprias coisas reais, sendo
Mas tarde, Aristóteles, um dos alunos de captadas pelo artista, em um método:
Platão se diverge neste raciocínio e traz nova proporcionalidade, claridade e na simetria.
ideia a este respeito. Para ele a imitação faz

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Revista Educar FCE - Março 2019

Ainda na visão do autor, a mimese é dada O selfie é mais uma representação da


como algo prazerosa realidade de forma a imitar e representar a
realidade. Posto que se pode registrar uma
Os seres humanos sentem prazer em olhar real ou não real imagem. Exemplo disso é tirar
para as imagens que reproduzem objetos. A
contemplação delas os instrui, e os induz a uma foto sorrindo estando interiormente
discorrer sobre cada uma, ou a discernir nas triste naquele momento.
imagens as pessoas deste ou daquele sujeito
conhecido.
Se acontece alguém não ter visto ainda o original, Palavra da língua inglesa que significa
não é a imitação que produz o prazer, mas a autorretrato de acordo com o Dicionário
perfeita execução, ou o colorido, ou alguma online Dicio (2018), o selfie passa a ser uma
outra causa do mesmo gênero. (ARISTÓTELES,
mimese no sentido platônico, pois distorce
2001, p. 5)
a realidade concreta, uma vez que a pessoa
escolhe aquilo que quer mostrar e a forma
Assim, entende-se as divergências de que quer mostrar de si mesma, além disso, a
pensares dos filósofos em relação ao mesmo imagem pode ser modificada com utilização
tema, sem deixar de contextualizar que Platão de um foto shop e ser utilizada como meio
buscava para mimese um significado de real de persuasão para imitação de beleza e
x imitação como exemplos de conceitos padrões.
para formação de uma sociedade perfeita,
sem vestígios de farsas e irregularidades. De outra forma, a selfie pode ser
Aristóteles compreende a mimese como compreendida como representação da
real x representação e a difere de uma realidade, na visão de Aristóteles. Não sendo
negatividade, mas atribui um patamar de a realidade, mas apenas uma demonstração
sensibilidade, subjetividade para criação do dela.
novo artístico.
Os homens nas cavernas faziam uso deste
recurso, com seus desenhos registravam
O SELFIE colheita, estação do ano, seu meio, entre
outros.
Utilizando estes conceitos da mimese como
base para análise do comportamento social e Os registros de uma imagem parece ter o
poder de apreender a realidade. [...] Ainda
mundial que é o selfie na vida das pessoas, que estes desapareçam, o fato de terem sido
podemos identificar que “a pessoa pode capturados sob a forma de imagem perpetuará
construir sua imagem, criar um personagem, sua existência, não permitindo que ele caia no
esquecimento, mas o traz a vida pela memória
uma nova identidade, mesmo que virtual, faz que evoca. (COHN, 2015 p.8)
recortes de fatos, e dispara aquilo que deseja
expor sobre si e seu cotidiano” (COHN, 2015
p. 7).

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Revista Educar FCE - Março 2019

São imagens usadas para testemunhar cenas do indivíduo e também acontecimentos


relevantes que representam uma realidade vivida.

O mito de Narciso alude à busca da eternização da beleza através da imagem, já que diz
à história que

[...] Narciso debruça-se sobre a água, tentando apaziguar a sede, mas, ao fazê-lo, uma outra sede cresce
dentro dele: enquanto bebe, fica seduzido pela imagem que vê refletida na água. Fica em êxtase diante de si
próprio e, sem se mexer, com o olhar fixo, parece uma estátua de mármore de Paros. Contempla, estendido
no solo, dois astros, os seus próprios olhos, os seus cabelos dignos de Baco, dignos também de Apolo, as
suas faces imberbes, o seu pescoço de marfim, a sua boca singular, o rubor que tinge a brancura nevada da
sua tez. Admira tudo aquilo que nele inspira admiração. Deseja-se, ignorando-o, a si próprio. Os desejos que
sente, é ele próprio que os inspira. É ele o alimento do fogo que o incendeia. Quantas vezes atirou beijos à
onda enganadora! Quantas vezes, para agarrar o pescoço que estava a ver, mergulhou os braços na água, sem
conseguir enlaçá-lo! Para quê esses esforços vãos para agarrar uma visão fugidia? O objeto do teu desejo não
existe! Afasta-te, e tu farás desaparecer o objeto do teu amor! Essa sombra que vês é o reflexo da tua imagem.
Ela não é nada em si própria. Foi contigo que ela apareceu, é contigo que persiste, e a tua partida dissipá-la-ia,
se tivesses a coragem de partir. (OVÍDIO, 2007)

O que é notável que ver-se refletido em uma imagem na contemporaneidade faz a junção
desses conceitos. Uma busca pela tentativa de capitar a realidade de forma a eternizar
momentos e ao mesmo tempo, apresentar este momento de forma prazeroso e belo, mesmo
que os sentimentos pessoais difiram disso.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A estética no Brasil ainda é recentemente explorada.
Sempre ficando em segundo plano, porque está ligada a
uma dimensão política (GAGNEBIN, 2013/vídeo). Uma vez
que trabalhar as sensações e os sentidos das artes, requer
entender os problemas políticos, sendo necessário o cidadão
entender da educação do seu meio e universal.

Estética como sensorial do homem e do mundo,


reflete sobre o que são as coisas belas; e, a epistemologia
(Conhecimento estético). É considerada como uma teoria das ADRIANA COSTA LIMA
artes, teorias das belas artes, teoria do belo do gosto, o valor
Graduação em Língua Portuguesa
do que sentimos. Vem do grego AISTHESIS com significado pela Universidade de Mogi das
de “percepção”. Cruzes (2003); Especialista na Área
de deficiência Auditiva/Surdez
pela UNESP (2016); Especialista
Ao equiparar o comportamento de Narciso com o selfie, em Ensino de Filosofia no Ensino
nota-se que ambos buscam o retrato representado de si, o que Médio pela UNIFESP (2018);
leva a perceber que a mimese nestes comportamentos, pode Professora de Ensino Fundamental
II e Médio - Língua Portuguesa -
ser apontada de forma a imitar (Platão) como a representar na EMEF Juscelino Kubitschek de
(Aristóteles) uma variedade de comportamentos existentes Oliveira, Professora de Educação
na vida real e que a vivência do real desperta a sensibilidade Básica – Língua Portuguesa - na
EE Joaquim Eugênio de Lima Neto.
para transpor à arte.

A beleza de Narciso, não era questionada pelas ninfas,


tão pouco por ele que se comparava ao padrão de Apolo-
deus da juventude. A beleza buscada atualmente é também
uma construção pessoal, na qual capta uma situação
conflituosa vivida na mente das pessoas para formação de
sua identidade, o que remete a mimese de Aristóteles, um
registro do pensamento humano. Mas por outro lado, não
abandona a mimese de Platão, que mesmo não fazendo parte
daqueles padrões de beleza impostos, buscam enquadrar-
se com apoio da tecnologia em aplicativos e programas de
computadores, cirurgia, procedimentos estéticos, que se
torne imitador do ideal e não do real.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Arte Poética. Disponível em: <http://saudedafamiliaufc.com.br/wp-content/
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COHN, Maria Cecília Falcão Mendes. Selfie, cultura do espelho: No espelho? Disponível
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2018.

DICIO. Dicionário online de Português. Selfie. Disponível em:< https://www.dicio.com.br/


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__________. A estética. Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio. Disciplina:


Estética e Filosofia da arte e seu ensino. 16’41” mim. Vídeo aula 2013. Postado em: <https://
fl.uab.unifesp.br/pluginfile.php/10881/mod_page/content/5/j_m_ bloco_1.mp4> acesso
em 19 out 2018

OVÍDIO. As Metamorfoses. Trad. Ana Garrido et al. In Antologia. Português. 10º ano/
Ensino Secundário. Editora Lisboa: 2007. Disponível em:<http://folhadepoesia.blogspot.
com/2014/11/como-narciso-se-perde-uma-historia.html>. Acesso em 11 de out de 2018.

PLATÃO. Trad. Enrico Corvisieri. A República. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

RUFINONI, Priscila Rossenetti. Estética como filosofia da arte: sobre a mimese. In CARVALHO,
Marcelo. CORNELLI. Gabriele (org). Filosofia: Estética e Política. Volume 3. Cuiabá, MT:
Central de Texto, 2013.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSUMISMO INFANTIL: EDUCAR


PARA A SUSTENTABILIDADE
RESUMO: O crescimento do consumismo infantil na contemporaneidade vem suscitando a necessidade
de gerar medidas educacionais que promovam a sustentabilidade do planeta e consequentemente uma
melhor qualidade de vida; a educação tem um papel relevante na formação das crianças, e tratar assuntos
de tal relevância se torna imprescindível para a conscientização acerca do consumismo e em combate aos
impactos causados pela mídia, essa que instiga ao consumismo sem medir os danos psicoemocionais e
ambientais que são lançados através de seus anúncios; atuações benéficas ao meio ambiente e sustentar
os recursos naturais, estimulando ações como a reciclagem e reaproveitamento da água e da luz solar são
conceitos que devem fazer parte do cotidiano escolar, assim como, a politização do consumo em prol de
mantermos os bens naturais para a atual e as futuras gerações. A escola tem poder de conduzir ações para
promover a sustentabilidade do planeta Terra e consequentemente possibilitar a continuação da vida,
levando os educandos a criticidade e consciência ecológica é o cerne da questão.

Palavras-Chave: Criança; Consumismo; Mídia; Sustentabilidade;

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO de anos de maus tratos ao meio ambiente


têm prejudicado a fauna, a flora, a camada
A situação atual do planeta Terra de ozônio, diminuição dos recursos naturais,
está caminhando para a escassez dos entre outros; as diversas possibilidades para
recursos naturais, provocando uma grande reverter esse quadro, porém só pode ocorrer
preocupação em buscar alternativas de vida por meio coletividade, alternativas conjuntas
sustentável; por meio da educação pode- visando uma melhor qualidade de vida e um
se gerar o pensamento crítico que reflita consumo consciente dos recursos naturais,
em toda sociedade, convertidas em ações que possibilitará as futuras gerações terem
de cuidados para com a natureza, como a acesso a esses bens naturais, para que isso
reciclagem e reutilização da água da chuva ocorra depende de intervenções educativas,
e da energia solar, tendo em vista que os compenetradas em mudar o quadro atual,
recursos naturais podem se esgotar, requer implantado projetos, pesquisas e atividades
medidas sérias e bem elaboradas para que a a respeito da sustentabilidade e de
vida no planeta continue a existir. conscientização a respeito do consumismo.

Influenciar o comportamento dos


educandos abordando esta temática no CONSUMISMO X OSTENTAÇÃO
cotidiano escolar requer um minucioso
estudo por parte dos docentes e um trabalho Os danos causados pelo consumismo
contínuo junto aos discentes, onde a pesquisa exagerado produzem efeitos nas crianças e
e prática devem ser relevantes, ou seja, a na vida familiar; os fatores psicoemocionais
prática orientada pela pesquisa, de modo estão presentes no ato de consumir,
que a conscientização das nossas ações e do onde possuir, seguir os padrões da moda,
consumo sem exageros e desperdícios, onde representa “status”, popularidade, aceitação
o respeito às espécies e a preservação dos entre os colegas e a sociedade, um mundo
recursos possam ser uma realidade. que através da estética dita padrões de
comportamento e consumo.
Há necessidade de uma politização do
consumo, discutindo os impactos causados A inversão de valores transforma conceitos
pelo excesso, levantando questões como a que torna o “ter” como essencial e o “ser”
grande produção de lixo, a falta de locais supérfluo são estimulados pela mídia, que
para acomodá-lo e os efeitos ao meio através do “marketing” atraente e sugestivo,
ambiente produzidos pelos gases poluentes instiga a competitividade e o consumismo
devem ser frequentemente discutidos em infantil, levando a baixa autoestima das
sala de aula, de forma interdisciplinar; a crianças, erotização, comportamento frívolo,
degradação a natureza acarreta malefícios robotização e atitudes precoces.
para todas as espécies, onde os resultados

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Revista Educar FCE - Março 2019

Instituto Alana (2010, p. 64) ressalta como ostentação e exibicionismo sejam


os problemas enfrentados pelas crianças desvalorizados, encontrando outras formas
através da indução ao consumo pela mídia, de interação, onde o que serão valorizados
onde a competitividade e aceitação na deverão ser as atitudes benéficas, o mútuo
sociedade são buscadas por meio do uso respeito e a convivência pacífica. No
de produtos famosos: “O consumo pode cotidiano escolar é comum observarmos a
ser uma tentativa de preenchimento de um comparação e competição ocorrer entre os
grande vazio”. alunos, o interesse por produtos de marcas
famosas ou de algo da moda, isso indica
Em um outro trecho do Instituto Alana como o consumismo é estimulado, surgindo
(2010, p.70), um relato demonstra a ideologia assim a necessidade de consumir cada vez
implanta pela mídia: “Todo mundo busca uma mais para sentir-se incluso(a) e aceito(a).
sensação de pertencimento. Bem ou mal,
os bens de consumo parecem facilitar esse A escola precisa promover uma
caminho. Às vezes ter um celular bacana, um investigação e o apontamento dos
tênis da moda que aquela atriz usa nos dá a problemas ocasionados pelo consumismo
sensação de estar na moda”. A fala da jovem infantil, às consequências no meio social e
citada, revela o quão crianças e jovens são nas interações, propondo ações reflexivas
influenciados pelos veículos de comunicação. de consumo e sustentabilidade, onde ela
tem papel fundamental, pois tem o poder de
A desigualdade social existente no Brasil promover a criticidade de seus educandos e
é visível, no setor escolar, assim como em conduzir a reflexão em prol de mudanças em
outros setores, observamos essa desarmonia relação ao consumismo e sustentabilidade.
em nosso cotidiano, porém, uma alternativa
é salientar os valores éticos e morais e sua Para Ortiza e Cortez (2009, p.35), o
importância, não permitindo que a rejeição, comportamento precisa ser trabalhado
discriminação e preconceito aos que não se através de uma política de consumo e dos
encaixam no padrão considerado normal, valores éticos.
seja uma atitude aceitável ou considerada
normal no ambiente escolar ou fora dele, O consumo envolve também coesão social,
produção e reprodução de valores e é uma
respeitando as diferenças, colocando em atividade que envolve tomada de decisões
prática a inclusão social. políticas e morais praticamente todos os
dias. Quando consumismos de certa forma
manifestamos a forma como vemos o mundo,
Compreender os conflitos sofridos pela há, portanto, uma conexão entre valores éticos,
criança frente à exibição de objetos pessoais escolhas políticas, visões sobre a natureza e
pelos colegas, e buscar maneiras de auxiliá-la comportamento relacionados às atividades de
consumo.
com esclarecimento, gerando uma reflexão
e critica para que esse tipo de atitude,

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Revista Educar FCE - Março 2019

Freire refere-se à educação como SUSTENTABILIDADE PARA


propulsora para a qualidade de vida, o PRESERVAÇÃO DA VIDA
que torna possível por meio da reflexão e
criticidade do mundo em que vivemos. Esse A sustentabilidade é um tema que parece
pensamento vai ao encontro da proposta atual, porém há algumas décadas os olhares
deste trabalho que é explanar a necessidade científicos e políticos se voltam para ela;
da reflexão dentro da sala de aula e que ela atualmente a sociedade tem sido alertada
possibilite retornos na sociedade para uma acerca de ações sustentáveis quanto a este
melhor qualidade de vida. problema de degradação ao meio ambiente,
a biodiversidade e ao esgotamento dos
O melhor caminho para o processo desta busca recursos naturais, consequência de anos de
de apreensão das inter-relações dos temas
tem como ponto de partida uma reflexão desrespeito ao meio ambiente e má uso de
crítica em torno de Educação e Qualidade. seus recursos.
Não propriamente uma reflexão crítica sobre
a educação em si ou sobre a qualidade, mas
em torno de educação e qualidade que nos Segundo o IBGE, no site da Sala de
remete à educação para a qualidade, qualidade Imprensa - Indicadores de Desenvolvimento
da educação e educação e qualidade de vida. Sustentável - Brasil 2010: indica que o
(FREIRE, 2001, p. 21)
desenvolvimento sustentável está em
evolução, mas, ainda não é o ideal para
O grande valor social da educação e o seu garantir as futuras gerações o atendimento
poder de transformação junto à sociedade as suas necessidades.
possibilitam rever os conceitos e guiar ações
que possam alcançar resultados significativos O país mantém o ritmo de crescimento
econômico e evolui nos principais indicadores
para uma vida sustentável e mais saudável sociais, mas persistem desigualdades sociais
para todas as espécies. e regionais. Apesar de melhorias importantes
em alguns indicadores ambientais, ainda há um
longo caminho a percorrer para a superação
A transformação se dar ao tratarmos o da degradação de ecossistemas, da perda de
assunto com a devida seriedade, auxiliando biodiversidade e da melhora significativa da
nossas crianças na formação de opinião qualidade ambiental nos centros urbanos. Em
linhas gerais, é esse o diagnóstico dado ao
e ações revertidas para o bem comum, Brasil pelos 55 Indicadores de Desenvolvimento
considerando a real relevância dessa Sustentável 2010 (IDS 2010), produzidos ou
problemática, pois, o que está em questão reunidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Dando continuidade à série
não é apenas uma melhor qualidade de vida, iniciada em 2002 (com edições também em
mas sim, a conservação da vida no planeta 2004 e 2008), a publicação tem o objetivo de,
ou a extinção dela. ao entrelaçar as dimensões ambiental, social,
econômica e institucional, mostrar em que ponto
o Brasil está e para onde sua trajetória aponta no
caminho rumo ao desenvolvimento sustentável.
A quarta edição do IDS revela, assim, ganhos
importantes, mas indica que ainda há uma longa

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Revista Educar FCE - Março 2019

estrada pela frente para o Brasil atingir o ideal da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo
previsto em 1987 pela Comissão Mundial sobre que nós, os povos da Terra, declaremos nossa
o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Comissão responsabilidade uns para com os outros, com
Brundtland): um desenvolvimento que atenda às a grande comunidade da vida e com as futuras
necessidades do presente sem comprometer a gerações (p. 61).
possibilidade de as gerações futuras atenderem
as suas próprias necessidades. (http://www.
ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_ A educação, representada pela escola como
visualiza.php?id_noticia=1703&id_pagina=1 –
Acesso: 21/02/2012) promotora de conhecimento, considerando
que este ambiente social possibilita reflexão
aos seus educandos, deve ter iniciativas
De acordo com Gadotti (2010, p. 61), para trabalhar de forma interdisciplinar
“Os princípios e valores da Carta da Terra tal problemática, como a vida sustentável,
são defendidos particularmente através dos qualidade de vida e a não extinção da vida
programas curriculares ligados à educação no planeta Terra.
ambiental, que existem na maioria das
escolas”. De acordo com Rifuela (2012, p.53),
a autora revela que a conscientização
A carta da Terra pode ser um recurso depende da educação, que pode buscar uma
utilizado nas escolas para levar a uma reflexão sensibilização acerca da degradação dos
das consequências que o planeta sofre com recursos naturais:
a degradação a natureza em decorrência das
nossas ações e da necessidade de mudanças O ponto de partida é a conscientização, a
sensibilização a respeito da magnitude do
de hábitos que levem a sustentabilidade. problema da degradação dos recursos ambientais
do planeta e suas consequências sobre a saúde e
Ainda no mesmo texto, o autor cita que o modo de vida dos humanos. Essa sensibilização
depende de iniciativas na área da educação.
o momento é crítico e que para garantirmos
o futuro da humanidade é preciso uma
mudança coletiva em prol da natureza. A vida no planeta Terra está comprometida
pelo uso desenfreado dos recursos naturais,
Estamos diante de um momento crítico na história a sociedade consumista e o mercado buscam
da Terra, numa época em que a humanidade
deve escolher o seu futuro. À medida que o seus próprios interesses; conscientização
mundo se torna cada vez mais interdependente é ponto fundamental para que possamos
e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, sobreviver, ter qualidade de vida e
grandes perigos e grandes promessas. Para
seguir adiante, devemos reconhecer que, no proporcionar as futuras gerações condições
meio de uma magnífica diversidade de culturas de vida dignas e saudáveis, para isso é
e formas de vida, somos uma família humana necessário ações coletivas e envolvimento
e uma comunidade terrestre com um destino
comum. Devemos somar forças para gerar de toda a sociedade de forma global. Temos
uma sociedade sustentável global baseada no a facilidade da globalização
respeito pela natureza, nos direitos humanos
universais, na justiça econômica e numa cultura

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Revista Educar FCE - Março 2019

Para Boff (2003), alega que, se não houver é vista como uma esperança em meio ao
parceria em prol dos cuidados para com o caos ecológico produzido pelo consumo
planeta, arriscaremos a vida das espécies: exagerado.

Estamos diante de um momento crítico O Poeta Carlos Drummond de Andrade


na história da Terra, numa época em que a
humanidade deve escolher o seu futuro: ou (2001) retrata o consumismo neste verso,
formar uma aliança global para cuidar da Terra e alegando que o homem se torna escravo
uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e do consumo em decorrência dos grandes
a diversidade da vida.
anúncios publicitários:

A educação pode buscar parceria com ... meu isso, meu aquilo, desde a cabeça até o
bico dos sapatos, são mensagens, letras falantes,
a comunidade local, promover eventos e gritos visuais, ordem de uso, abuso, reincidência,
diversas ações, ultrapassando os muros costume, hábito, premência, indispensabilidade,
da escola, instigar os alunos em trabalhos e faze de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
que visem a sustentabilidade, que eles
possam também conscientizar suas famílias
e população local. A coletividade tem força Trazer uma visão crítica para si mesmo, se
para mudar o quadro atual. enxergar em meio a sociedade de consumo,
onde marcas e rótulos são associados as
pessoas, são possibilidades que a educação
A INFLUÊNCIA DA MÍDIA AO pode conduzir o educando, por meio de
CONSUMISMO INFANTIL diálogo e reflexão, permitir que este faça
uma autoavaliação do seu papel social e de
A mídia padroniza estilos e robotiza si mesmo, ações, reações e comportamento
as crianças, recorrendo a recursos que revelam que ele é, se contribui ou não
diversificados para atrair os consumidores, para uma sociedade melhor e para sua vida
sem medir os danos causados a elas, seja ao particular, progresso e qualidade de vida.
seu emocional, cognitivo, comportamental
e na formação; a educação é um paradoxo Para Barros (2012):” A publicidade está no
a esses estímulos consumistas e persuasão, centro do comportamento infantil, levando
pois, procura estimular nelas a ética e os as crianças para onde quer, a partir de suas
valores importantes para o convívio social, necessidades de pertencimento e identidade,
promovendo criticidade e consciência explorando sua fragilidade psíquica e os
ecológica de vida sustentável, respeito a vida fracos laços que as ligam aos pais”.
e ao meio ambiente, se enxergando como
colaborador e também como protagonista A criança em pleno desenvolvimento físico
em ações para melhorar a vida em sociedade e mental se torna alvo fácil de manipulação,
e consequentemente no planeta. A educação em função disto a mídia investe nelas como

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Revista Educar FCE - Março 2019

fonte de lucro, sem medir os danos psicoemocionais que produzem dentro do âmbito familiar,
principalmente aos que não têm acesso a esses produtos.

A indústria do marketing enraizada na consciência das crianças estabelecendo o consumo


de materiais de terceira necessidade como se fossem fundamentais à qualidade de vida.
Para o Instituto Alana” (2010, p.31) “aprofundamento da diferença material gera um
aprofundamento não só das desigualdades, mas dos desníveis de democratização. Nós não
apenas consumimos, como a nossa consciência é tomada pelo consumo”.

As crianças passam por transtornos emocionais causados pela necessidade de consumo e


status induzido pela mídia:

O papel do marketing é exatamente escalar estrategicamente os caminhos de chegar próximo às demandas,


às ansiedades e aos gostos humanos, explorando-os na direção de certos produtos e padrões de consumo,
incutindo verdades de mercado que tornam os indivíduos prisioneiros de suas necessidades. (INSTITUTO
ALANA, 2010, p.24)

A questão da influência da mídia ao consumo exagerado ainda está atrelada ao tema


sustentabilidade, pois buscamos pela conscientização do uso responsável, porém o mercado
midiático tem como fonte de sobrevivência seus anúncios, estes que buscam o crescimento
através do consumo, e quanto mais venderem mais poder financeiro e social, terão, causando
danos, pois é impossível qualquer produto físico que não retirado de recursos naturais. É
de grande relevância que as crianças sejam críticas quanto ao consumismo, se protegendo
da influência da mídia, para isso requer o auxílio da escola e da família no despertar da
criticidade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A preocupação com a sustentabilidade surgiu mediante
o aumento da população mundial e consequentemente
também o aumento do consumo; criar uma política de
consumo, buscar alternativas e medidas de sustentabilidade
são fundamentais como meio de mantermos as espécies e
de prolongarmos a vida no planeta.

O mundo volta seu olhar, passando a enxergar as questões


relativas ao consumismo exorbitante, e em função disto a
grande produção de lixo e poluição, esgotamento dos recursos ADRIANA OLIVEIRA
naturais, além dos problemas de ordem emocional geradas CAVALCANTE DA SILVA
nas crianças pelo anseio ao consumo, esse instigado pela
Graduação em Pedagogia
mídia que apresenta poder de persuasão frente a elas, esta pela Universidade Cruzeiro
influência da mídia provoca apreensão e sucessivamente a do Sul (2011); Especialista em
necessidade de intervenção através medidas educativas, que Psicopedagogia pela Universidade
Cruzeiro do Sul (2013); Professora
visem analisar o prejuízo do meio ambiente e dos recursos de Educação Infantil no CEI Cidade
naturais, buscando promover a reflexão dessas ações, Pedro José Nunes.
levando a uma qualidade de vida melhor e a preservação dos
recursos naturais.

Educar para o consumo consciente e para ações em prol da sustentabilidade é mais que
uma necessidade, é uma questão de sobrevivência.

Sabe-se que o consumo é necessário à vida, mas, o excesso, produz consequências graves
ao meio ambiente. Como a escola é incumbida de promover educação, e essa se faz por
meio da preparação para a sociedade, de forma crítica, requer conscientizar os educandos
dos direitos e deveres sociais, devemos considerar a relevância da problemática, abordando
com maior frequência essa temática dentro da sala de aula, de modo que, os conceitos
desenvolvidos como, a ética, valores, consciência cidadã e ecológica possam ultrapassar os
muros da escola e tenha abrangência nos lares e em toda a comunidade, gerando reflexão e
promovendo mudanças de hábitos, onde o que realmente tenha significado seja os valores
humanos e não o poder aquisitivo das pessoas.

A criança tem como referências na construção da sua identidade e formação a família e


a escola; A escola objetiva desenvolver plenamente o aluno, ela pode contribuir para o seu
progresso e conscientização como cidadão ativo nas transformações necessárias ao mundo,
o que ocorre a partir de suas ações.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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BOFF, Leonardo. Ecologia e espiritualidade. In TRIGUEIRO, A. Meio Ambiente no século


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Janeiro: Sextante: 2003.

FREIRE, Paulo, 1921 – 1997 Política e educação: ensaios / Paulo Freire. – 5. ed - São Paulo,
Cortez, 2001 (Coleção Questões de Nossa Época; v.23- pg 21)
(Capra, Fritjof: As conexões Ocultas – Ciência para uma vida sustentável/ Pg 9)

GADOTTI, Moacir. A Carta da Terra na educação / Moacir Gadotti. -- São Paulo: Editora e
Livraria Instituto Paulo Freire, 2010. -- (Cidadania planetária; 3 – p. 61)

ORTIZA, Silvia aparecida e Cortez, Ana Tereza – Da produção ao consumo: Impactos


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RIFUELA, Rachel Biderman. “Educação para o Consumo Sustentável”. Ciclo de Palestras


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Revista Educar FCE - Março 2019

JOGO, O BRINCAR E A EDUCAÇÃO


RESUMO: Esta escrita deste artigo traz algumas considerações acerca da vida da criança, para
além do entretenimento, o jogo ganha espaço através da localização de suas propriedades
formativas, consideradas sob as perspectivas educacionais progressistas, que valorizam a
participação ativa do educando no seu progresso de formação. O jogo realiza-se através de
uma atuação dos participantes que concretizam as regras possibilitando a imersão na ação
lúdica na brincadeira, para que tudo isso aconteça de modo natural o olhar do professor
deve passar primeiro pelo amor, por que quem ama o que faz não precisa de coragem,
nem de bondade, nem de doçura, mas maturidade, atitude e comprometimento. Para o
embasamento teórico deste artigo foram realizadas pesquisas bibliográficas qualitativas
acerca do tema abordado.

Palavras-Chave: Jogo; Brincar; Educação

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO JOGO, O BRINCAR E A EDUCAÇÃO


Escolhi o tema “Jogos e Educação” porque Desde a época de Platão e Aristóteles,
acredito muito nos jogos como suporte o “brincar” era uma forma de educar,
pedagógico nas nossas escolas assim como associando a ideia de estudo e prazer.
acreditamos que em casa o “ato de brincar” Para uma melhor compreensão, torna-
da criança também se torna importante, se importante e necessário conhecer os
pois neste momento ela aprende já que este fundamentos teóricos, por meio de uma
“brincar” todo dia não deve significar brincar visão geral e histórica.
sempre do mesmo modo, há sempre variações.
Um dos objetivos é também demonstrar que Dados, guloseimas em forma de números
há muito que aprender com os jogos, por e letras eram utilizadas para educar essas
exemplo, que ele auxilia na passagem da crianças, segundo Wajskop (1995). Percebe-
fantasia para o rela da vida. Que, ao brincar, se que a importância da educação sensorial
a criança aprende a compartilhar para brincar nesse período determinou o uso do “jogo
mais, e com o tempo este “brincar” passa didático” por professores das mais diferentes
a ser de uma maneira mais complexa, mais áreas como da filosofia, matemática, estudo
plástica e expressiva, preparando-a então, das línguas e outros. Bem anteriormente a
para a vida adulta. essa época a brincadeira era considerada
uma fuga ou recreação e a imagem social
Em minhas pesquisas, com os autores e da infância não permitia a aceitação de um
suas experiências, percebi que não devemos comportamento infantil espontâneo, que
levar em consideração apenas à quantidade pudesse significar algum valor em si.
das horas de cada dia para as brincadeiras
infantis, mas principalmente na regularidade Com a ruptura do pensamento romântico
desse tempo, em casa sobre os olhares a valorização da brincadeira ganha espaço
dos responsáveis e nas escolas sobre a na educação das crianças pequenas. Surge
observação do professor. então o “sentimento da infância” que protege
e auxilia as crianças a conquistar um lugar
Sobre a temática “Jogar ou Brincar?”, a na sociedade, inicia-se aqui a elaboração de
pesquisa nos revela que ao brincar, acriança métodos próprios para sua educação, seja
constrói conhecimento. E para isso uma em casa, ou em instituições especificas para
das qualidades, mais importantes do jogo tal fim, tudo começou a partir dos trabalhos
é a confiança que a criança tem, quanto à de Comenius (1593), Rousseau (1712) e
própria capacidade de encontrar soluções. Pestalozzi (1746).
Confiante, pode chegar ás suas próprias
conclusões de forma autônoma. Wajskop (1995), em suas pesquisas, diz que
está valorização, baseada em uma concepção

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Revista Educar FCE - Março 2019

idealista e protetora da infância, aparecia dele a religiosidade e o amor pela natureza


em propostas educativas dos sentidos, que acabaram influenciando toda a sua obra
fazendo uso de brinquedos e centradas no educacional.
divertimento. A visão da criança que se criou
neste contexto possibilitou a expansão do Seu início na educação começou em
desejo de superioridade por parte do adulto, 1805, numa escola com os princípios
que mantinha sobre os pequenos um jugo educacionais de Pestallozzi. Tempo depois,
inquestionável, que crescia a medida que Froebel conhece o trabalho de Pestallozzi e
estes iam sendo isolados do processo de fica fascinado com os métodos empregados.
produção (Snyders, 1894). A criança passou a A partir daí, desenvolve sua concepção
ser cidadão com imagem social contraditória, pessoal de educação nos estudos do Método
uma vez que ela era, ao mesmo tempo, Pestallozzi.
o reflexo do que o adulto e a sociedade
queriam que ela fosse e do que temiam que No Método Pestallozzi, todo homem
ela tornasse. As crianças eram vistas, ao deveria adquirir autonomia intelectual para
mesmo tempo, livres para desenvolverem- poder desenvolver uma atitude produtiva
se e educadas para não exercerem a sua autônoma. A escola deveria promover o
liberdade. desenvolvimento de cada aluno em três
campos: o da faculdade de conhecer, de
O papel da mulher também foi desenvolver habilidades manuais e o de
determinante na força de trabalho, que desenvolver atitudes e valores morais. Para
apontava para soluções educativas Pestallozzi é assim que se iniciam: cérebro,
alternativas para o cuidado das crianças que mãos e coração.
ficavam abandonadas em suas casas ou pelas
ruas das cidades nascentes. Com seus estudos nestes métodos,
Froebel formula a Philosophie de la Sphére,
Inúmeros brinquedos educativos fundamentando-se na pedagogia com base
utilizando princípios da educação sensorial nos jogos iniciados para os jardins de infância.
com vistas a estudar crianças deficientes Este filosofia integra a autonomia intelectual,
mentais e cujos conhecimentos foram, a aprendizagem social, o aprofundamento
depois, utilizados para o ensino das crianças religioso em relação com a ação concreta.
normais partiram da influência das ideias de
Rousseau, na França. Froebel é conhecido como o criador dos
jardins de infância por sua preocupação
Em 1782 na cidade de Oberweibach na com a educação das crianças pequenas.
Alemanha, nasce Friedrich Froebel, órfão de Desenvolveu materiais e jogos que tornaram
mãe foi criado pelo pai e uma madrasta. Teve o ensino mais produtivo e forma lúdica.
uma infância isolada e triste que não tirou

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Revista Educar FCE - Março 2019

Sua pedagogia segue o modelo de O processo de interiorização consiste no


educação esférica, os alunos aprendem em recebimento de conhecimento do mundo
contato com o real, com as coisas, com os exterior, que passam para o interior, seguindo
objetos de aprendizagem. sempre uma sequência que deve caminhar do
mais simples ao composto, do concreto para o
Na pesquisa de Alessandra Arce (2004), abstrato, do conhecido para o desconhecido.
nos revela que Froebel dá seus primeiros A atividade e a reflexão são os instrumentos
passos rumo à utilização de uma psicologia de mediação desse processo não-diretivo, o
do desenvolvimento como fundamento que garante que os conhecimentos brotem,
da educação, por intermédio da divisão do sejam descobertos pela criança da forma
desenvolvimento humano em estágios: mais natural possível. O processo contrário
a primeira infância, a infância e a idade a este é chamado de exteriorização, no qual
escolar. Esses estágios são apresentados de a criança exterioriza o seu interior. Para que
forma muito mais detalhada do que o fizera isso aconteça a criança necessita trabalhar
Pestallozzi. Ele atrela a cada fase um tipo de em coisas concretas como a arte e o jogo,
educação que deve respeitar as características excelentes fontes de exteriorização. Uma
próprias da fase. Isso fica muito claro num vez exteriorizado seu interior, a criança
dos texto dessa obra, intitulada “O homem passa a ter autoconsciência do seu ser,
no primeiro período da infância”. Em certo passa a conhecer-se melhor, é assim que a
momento desse texto Froebel explica que, educação acontece. Para Froebel a educação
se o adulto observar, por exemplo, o jogo e deveria estar alicerçada na unidade vital
a fala de uma criança, poderá compreender (homem, Deus e a natureza), e os processos
o nível de desenvolvimento no qual ela se de interiorização e exteriorização precisam
encontra. Isso significa que a observação das da ação para mediá-los, necessitam de vida e
atividades espontâneas da criança, como a atividade, não de palavras e conceitos.
brincadeira e a fala, é de grande importância
para êxito da atividade educativa.
E ainda segundo Froebel, o jogo seria
Para Froebel, o jogo e os brinquedos a atividade pela qual a criança expressa
são instrumentos para a realização sua visão do mundo. O jogo seria também
do autoconhecimento com liberdade a principal fonte do desenvolvimento na
pelas crianças. Por meio do exercícios primeira infância, que para ele é o período
de interiorização e exteriorização da mais importante da vida humana, um período
essência divina presente na criança, o que constitui a fonte de tudo o que considera
jogo seria o mediador nesse processo de brincadeira uma atividade séria e importante
autoconhecimento. para quem deseja realmente conhecer a
criança.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O professor que trabalha com as crianças da primeira infância (educação infantil), deve se
atentar que nessa idade a criança é muito centrada nela mesma, como também autocentrada
com seu brinquedo, o que é plenamente admissível, não se deseja que essa autocentração
estenda-se por longo tempo, atravessando a segunda infância, a adolescência e a idade
adulta.

O papel do professor passa a ser muito importante, como também a utilização de jogos e
brincadeiras com o professor mediador e promotor da aprendizagem e do desenvolvimento
colocando o aluno diante de situações tais como: montando cantinhos de jogos, de
brincadeiras de faz-de-conta, fazendo surgir situações lúdicas primeiramente com estrutura
lógica da brincadeira e uma segunda concepção carregado de conteúdo cultural em um
tempo e espaço com uma sequência própria, com isso, a criança entra no mundo imaginário
para uma construção da representação mental e da realidade, sem esquecer a ludicidade.

Para Palangana (1994), a ludicidade é necessidade do ser humano em qualquer idade, não
devendo ser vista apenas como diversão. O desenvolvimento lúdico facilita a aprendizagem,
tornando mais fácil os processos sociais e culturais com prazer e motivação. Essa ludicidade
é uma boa estratégia no auxílio da aprendizagem.

Uma educação integrada deve ser utilizada para formar cidadãos do mundo, para viver
em sociedade, coletivamente com atitude, não só estar de acordo, mas uma atitude de agir
cooperativamente.
O espaço da escola permite que a criança vá se modificando pouco a pouco por que o ser
humano é uma entidade que não basta por si, mas no mundo fora dele, a tarefa fundamental
da escola é promover o fazer juntamente com o compreender para a estruturação de outros
atos motores.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após estudos e pesquisas levei meu olhar para que esse
trabalho identifique principalmente que jogos e brincadeiras
na Educação Infantil não devem ficar limitados à recreação,
ao passa tempo, ao não sério, mas a um exercitar intenso
com suas funções simbólicas, pois vimos que o ser humano
não é só instinto, mas conhecimento que construímos e
acumulamos ao longo de nossa existência com as práticas e
as ações motoras.

ADRIANA DE LIMA NAVI


MOREIRA

Graduação em Normal Superior


pela UNIARARAS. Professora na
rede municipal de São Paulo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

APRENDER OU NÃO APRENDER,


EIS A QUESTÃO
RESUMO: Este artigo tem como objetivo evidenciar a importância da intervenção do professor
no ensino de alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. Com base em uma pesquisa
bibliográfica, este texto aponta o fracasso escolar como decorrente de um sistema de ensino
de massa, o qual não considera as diferenças individuais, e discute uma das principais queixas
escolares: por que alguns alunos não aprendem. Esse problema, que nem sempre tem causa
específica, precisa ser bem analisado, tendo em vista o crescente número de encaminhamentos
ao serviço de saúde. Os avanços da Neurociência relacionados à Educação podem auxiliar no
diagnóstico de distúrbios de aprendizagem, contudo ratificam a importância da mediação do
professor junto ao educando no processo de construção de conhecimento.

Palavras-Chave: dificuldade de aprendizagem; fracasso escolar; diagnóstico; Neurociência;


intervenção.

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INTRODUÇÃO aos interesses e aptidões dos discentes,


desconsiderando sua individualidade.
O produto final do processo de ensino Com base em um conceito de criança
é a aprendizagem. Pelo menos é nisso ideal, a escola projeta na criança real a culpa
que muitos educadores acreditam. Mas, e por não atingir os fins a que se destina
quando ela não acontece? Se os professores, (BOSSA, 2008). Por isso, há uma tendência
os materiais e as condições oferecidas no em “medicalizar” o problema e encaminhá-
ambiente escolar são iguais para toda a lo a profissionais da área da saúde (médicos,
turma, por que os resultados dos alunos são fonoaudiólogos, psicólogos, etc.).
tão diferentes?
A Educação, assim como todas as áreas sociais,
vem sendo medicalizada em grande velocidade
Para tentar esclarecer essa dúvida, é (...). A aprendizagem e a não-aprendizagem
necessário analisar uma das principais queixas sempre são relatadas como algo individual,
escolares: as dificuldades de aprendizagem. inerente ao aluno, um elemento meio mágico,
ao qual o professor não tem acesso - portanto,
A dificuldade de aprendizagem surge também não tem responsabilidade. (COLLARES
no espaço escolar e nem sempre tem uma E MOYSÉS, 1994).
causa específica. Esse termo genérico que
engloba todos os problemas que impedem
ou dificultam o processo de construção de Para desmitificar que o baixo rendimento
conhecimento do educando. dos estudantes está relacionado a problemas
de externos ao sistema de ensino, este
O Manual de Diagnóstico e Estatística artigo propõe uma reflexão sobre como a
dos Transtornos Mentais - Quarta Edição, intencionalidade do trabalho pedagógico
o DSM-IV (1995), define que a dificuldade pode promover o aprendizado de educandos
de aprendizagem é caracterizada por um com diferentes tipos de dificuldade.
desempenho substancialmente abaixo
do normal nas áreas de leitura, escrita e Há vários estudos relacionados às
matemática, considerando que a inteligência dificuldades de aprendizagem. Contudo,
e a educação estão apropriadas à idade é preciso evidenciar que há dificuldades
cronológica da criança. (TORQUATO, 2012). transitórias e outras persistentes, as quais
precisam de encaminhamentos específicos.
As dificuldades de aprendizagem surgem Para tanto, faz-se necessário buscar na
em todos os níveis de ensino e em qualquer literatura já existente os esclarecimentos
idade. Ninguém está livre de enfrentá-las. Isso necessários para elucidar de que modo essas
é inerente ao processo de escolarização, pois, diferenças devem ser tratadas no processo
em alguns momentos, as exigências impostas de ensino e aprendizagem dos alunos que,
pela educação em massa para a construção por algum motivo, não aprendem.
e aquisição de conhecimento se contrapõem

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Pela natureza deste trabalho, a Outro tópico discutido é o motivo pelo


metodologia mais adequada para sua qual as dificuldades de aprendizagem se
realização é a pesquisa bibliográfica, que, de apresentam no ambiente escolar e suas
acordo com Gil (2002), é desenvolvida com implicações no fracasso e na evasão escolar.
base em material já elaborado, constituído
principalmente de livros e artigos científicos. Na sequência, o ponto de discussão
Ainda, segundo ele: consiste em relacionar o trabalho pedagógico
desenvolvido pelo professor com o
A principal vantagem da pesquisa bibliográfica desenvolvimento das potencialidades dos
reside no fato de permitir ao investigador a
cobertura de uma gama de fenômenos muito educandos que apresentam dificuldades de
mais ampla do que aquela que poderia pesquisar aprendizagem.
diretamente. (GIL, 2002).
O último assunto pontuado é a avaliação
Para Koche (2006, em GIANNASI- como parte do processo de ensino e
KAIMEN, 2008), este tipo de pesquisa tem aprendizagem e não como seu fim.
diferentes finalidades, dentre elas, serve
para dominar o conhecimento disponível e Para encerrar este artigo, as considerações
utilizá-lo como base ou fundamentação na finais trazem o parecer desta pesquisa,
construção de um modelo teórico explicativo com base na literatura estudada a partir do
de um problema. Portanto, com base na problema apresentado no início e tratado no
hipótese inicial de que, independentemente decorrer deste estudo.
da existência ou não de um laudo médico,
cada educando é capaz de desenvolver suas
potencialidades a partir de uma intervenção DIFICULDADE DE
pedagógica adequada, a metodologia APRENDIZAGEM X DISTÚRBIO
escolhida atende melhor aos objetivos
propostos. DE APRENDIZAGEM

Para o desenvolvimento do tema, Há vários motivos para o aluno deixar de


alguns assuntos correlatos a ele devem ser aprender: desafios que estão além de sua
considerados. estrutura cognitiva; a falta de vínculo afetivo
com seus pares; atividades repetitivas e que
Um deles é a delimitação entre o que não são de seu interesse etc. Tais situações
pode ser considerado uma dificuldade de são passageiras e facilmente reversíveis.
aprendizagem comum e o que deve ser
realmente tratado como um distúrbio. Se uma dificuldade de aprendizagem
ocasional é algo normal e até esperado no
decorrer da vida escolar, quando ela se torna

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Revista Educar FCE - Março 2019

duradora pode caracterizar um distúrbio de Quando isso acontece, o educador deve


aprendizagem. observar atentamente esse estudante,
fazer um relatório e encaminhá-lo para a
De acordo com Gimenez (2005), a avaliação de uma equipe multidisciplinar,
definição mais aceita nesse caso, por ser a qual é comum aos sistemas de ensino e
considerada a mais completa, é a apresentada pode, por meio de testes variados, exames e
pelo National Joint Comittee of Learning outros procedimentos que julgar necessário,
Desabilities (NJCLD): diagnosticar um possível distúrbio.

Distúrbio de aprendizagem é um termo genérico O Centro de Excelência para o


que se refere a um grupo heterogêneo de
desordens manifestadas por dificuldades na Desenvolvimento da Primeira Infância,
aquisição e no uso da audição, fala, escrita e Centre of Excellence for Early Childhood
raciocínio matemático. Essas desordens são Development (CEED), e o Grupo de
intrínsecas ao indivíduo e presume-se serem
uma disfunção de sistema nervoso central. Conhecimento Estratégico sobre a Primeira
(HAMMILL, 1990 em GIMENEZ, 2005.). Infância, the Strategic Knowledge Cluster
on Early Child Development (SKC-ECD),
definem que os “Distúrbios de aprendizagem
Segundo essa definição, o termo “distúrbio são problemas que afetam a capacidade da
de aprendizagem” refere-se a problemas criança de receber, processar, analisar ou
de aprendizagem que necessitam de armazenar informações. Podem dificultar
acompanhamento clínico. a aquisição, pela criança, de habilidades de
leitura, escrita, soletração e resolução de
Contudo, de acordo com Bossa (2007), a problemas matemáticos.”
identificação das causas dos problemas de
aprendizagem escolar não é tão simples. Para essas instituições (CEED & SKC-
ECD, 2017), distúrbio de aprendizagem é
O que se pode dizer até o momento é um problema grave de saúde pública que se
que as dificuldades dos educandos devem divide em:
ser analisadas sob vários ângulos. Além
da motivação reduzida pelo histórico de •Discalculia: dificuldade persistente
fracassos, o meio também desempenha uma para aprender ou entender conceitos
função na manifestação das dificuldades de numéricos, princípios de contagem e
aprendizagem. (DOCKRELL & MCSHANE, aritmética;
2007.). •Dislexia: dificuldade de leitura
prevalente e persistente, embora todos os
Há vários casos em que o aluno apresenta fatores necessários para a leitura pareçam
dificuldades recorrentes em uma ou mais estar presentes (inteligência, motivação e
disciplinas, sem uma causa aparente. uma instrução em leitura adequada);

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Revista Educar FCE - Março 2019

Vale ressaltar que, por essa definição, todas Diante disso, essa instituição não pode
as dificuldades relacionadas à compreensão se omitir. Ela deve cumprir sua tarefa na
e aquisição do código escrito fazem parte do transmissão da herança cultural e, mais
quadro de dislexia. que isso, preparar o indivíduo para viver
em sociedade. Deve torná-lo um cidadão
Há outros fatores que podem estar consciente de seu papel, para que ele cumpra
associados à não-aprendizagem, como, seus deveres e seja capaz de exigir seus
por exemplo, Distúrbio no Processamento direitos. Ela deve ensiná-lo não só a receber,
Auditivo Central (DPAC), Transtorno de mas a produzir conhecimento.
Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH),
problemas sociais e familiares, etc. Quando o educando não aprende,
ele fica à margem da sociedade e torna-
Com o avanço da medicina, os exames de se extremamente vulnerável a diversas
imagem já podem apontar alguns problemas situações desfavoráveis ao exercício de sua
de aprendizagem de base neural. Por isso, cidadania.
Willingham (2008, em Rato & Caldas,
2010) acredita que num futuro próximo os
diagnósticos poderão ter maior precisão. FRACASSO E EVASÃO ESCOLAR
De acordo com Cordié (1996, EM BOSSA,
O PAPEL DA ESCOLA NO 2008), o fracasso escolar é uma patologia
PROCESSO DE ENSINO E recente, que surgiu com a obrigatoriedade do
ensino no fim do século XIX. É caracterizado
APRENDIZAGEM por uma sequência de insucessos na escola,
que levam o indivíduo a abandonar os
Embora o indivíduo aprenda em todos os estudos.
lugares e momentos, ao longo de sua trajetória
de vida, a escola é, por excelência, a instituição Para Patto (1996, EM BOSSA, 2008.), o
responsável pelo ensino. É dela a missão de fracasso escolar é gerado por um sistema
transmitir a herança cultural produzida, sem educacional que cria obstáculos à realização
a qual a evolução humana ficaria estagnada. de seus próprios objetivos.

Os tesouros da cultura continuariam a existir A evasão escolar, proveniente da falta


fisicamente, mas não existiria ninguém capaz
de revelar ás novas gerações o seu uso. As de perspectiva de sucesso, pode acarretar
máquinas deixariam de funcionar, os livros subemprego e aumentar a possibilidade
ficariam sem leitores, as obras perderiam sua de afiliação a grupos marginalizados e
função estética. A história da humanidade teria
de recomeçar. (LEONTIVE, 1978, EM CAPELLINI a outras circunstâncias que restringem
E RODRIGUES, 2010.). o acesso a oportunidades favoráveis e

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Revista Educar FCE - Março 2019

aumentam a probabilidade de desadaptação. Se considerarmos que a aprendizagem é a


(MAUGHAN, GRAY & RUTTER1985, em reação do cérebro a estímulos do ambiente,
SANTOS E MARTURANO, 1999). ativando sinapses (ligações entre os neurônios
por onde passam os estímulos, tornando-
as mais intensas), como preconizam Flor &
AS INTERVENÇÕES DO Carvalho (2011), podemos dizer que se o
PROFESSOR educador promover situações estimuladoras
de novas sinapses, seus alunos conseguirão
É fundamental que o educador conheça obter novos conhecimentos.
as necessidades de cada aluno, para criar
um ambiente onde possam construir A Neurociência, quando associada
conhecimento, independentemente da à aprendizagem, traz importantes
existência ou não de um laudo médico. contribuições ao trabalho pedagógico,
pois observa o funcionamento do cérebro
Geake & Cooper (2003, em Rato & enquanto ele recebe esses estímulos. Uma
Caldas, 2010) afirmam que a aprendizagem delas, já comprovada, é de que “o educador
evidencia a capacidade de neuroplasticidade deve exercer habilidades de mediador da
do cérebro, ou seja, um processo por meio do aprendizagem, e mediar é intervir para
qual o sistema nervoso cerebral reestrutura promover mudanças no comportamento.”.
as funções de suas vias de processamento e (Flor & Carvalho, 2011).
representações de informação. Desse modo,
independentemente do nível de dificuldade, A mudança de comportamento está na
qualquer indivíduo pode aprender. crença de que, mesmo com dificuldades, o
educando é capaz de aprender. Assim, este
Nesse sentido, a neurociência associada se sentirá motivado e predisposto a adquirir
ao processo de cognição pode auxiliar. Ela “é novos conhecimentos.
a ciência que tenta compreender e explicar as
relações entre o cérebro, as actividades (SIC) Contudo, esses estudos ainda são muito
mentais superiores e o comportamento.”. incipientes e o uso de novas metodologias
ainda apresenta um grande obstáculo: os
Pode ainda ajudar a esclarecer casos de resultados de laboratório não podem ser
distúrbios ligados à formação das estruturas aplicados imediatamente na sala de aula,
cerebrais. Crianças com um sistema nervosos pois falta diálogo entre neurocientistas e a
organizado de uma forma variante podem vir comunidade escolar (inclusive pais e alunos).
a necessitar, posteriormente, de estratégias
pedagógicas especiais. (CONSENSA & Tendo em vista que o conhecimento é
GUERRA, 2011.). concebido como um todo, um facilitador
para o processo de aprendizagem é o diálogo

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Revista Educar FCE - Março 2019

entre as diferentes disciplinas, por meio de projetos interdisciplinares, os quais articulam as


diferentes áreas do conhecimento.

Para Amaro (2006), os recortes dados aos conteúdos pelas disciplinas escolares fazem com
que uma determinada situação possa ser lida de diferentes formas, ao passo que, quando os
diferentes olhares e perspectivas estão articulados, a compreensão é bem maior.

A AVALIAÇÃO
Para um atendimento adequado, deve-se respeitar a diversidade, ou seja, reconhecer que
cada aluno tem um ritmo próprio de aprendizagem e a avaliação deve refletir isso. Perrenoud
(1999) postula que:

Toda situação didática imposta de maneira uniforme a todos os alunos será totalmente inadequada para o
grupo, pois para alguns será fácil demais, para outros, difícil demais. Daí, então, a importância do ensino
diferenciado e, também, da avaliação diferenciada, para que possibilite a cada aluno ser avaliado de acordo
com suas habilidades orais, visuais e escritas (p.32).

Além disso, não adianta ter um olhar diferenciado e propor objetivos específicos às
dificuldades dos educandos, se eles forem avaliados de forma coletiva, sob os mesmos
critérios.

De acordo com Wilbrink (1997) citado por Capellini e Rodrigues (2010), o mesmo modelo
de avaliação usado há cem anos continua sendo reproduzido. Focado em uma educação de
massa, ele prejudica a maioria dos estudantes e gera um ensino de baixa qualidade.

Collares (1989, em BOSSA, 2008.) afirma que é preciso retificar a ideia de que as causas
externas ao ambiente escolar são as responsáveis pelo mau desempenho de um aluno, pois
mesmo com dificuldades de aprendizagem, ele pode obter êxito nos estudos, dependendo
da ajuda que recebe.
Nesse processo, “o que se espera que ele desenvolva e aprenda é estabelecido considerando
sua singularidade e não aquilo que é esperado para a maioria.” (AMARO, 2006.).

Uma avaliação inadequada não aponta diretrizes para uma atuação pedagógica eficaz e,
com isso, todo o trabalho está fadado ao fracasso.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante de um obstáculo, cada educando reage de forma diferente:
uns sentem-se motivados e fazem de tudo para transpor as barreiras;
outros atribuem a si a culpa, ficam tristes e acabam e desistindo.
Neste caso, o problema deve ser acompanhado, cuidadosamente,
para auxiliar o discente a superar as dificuldades de forma construtiva,
sem sofrimentos.

Quando as causas das dificuldades são evidentes e de fácil


resolução, apenas a intervenção pedagógica é suficiente.
ADRIANA SANTANA DA
No entanto, quando as dificuldades persistem apesar do uso de SILVA ARRUDA
diferentes metodologias de ensino, é necessário o encaminhamento
Graduação em Letras pelo Centro
para uma avaliação mais completa da queixa escolar. Universitário Fundação Santo
André (2001), em Pedagogia
Com base em exames de imagem, relatórios sobre o desempenho pela Uniban (2005), em História
pela Unimes (2018); Especialista
do educando nas atividades escolares e testes aplicados por diferentes em Psicopedagogia pela AVM
profissionais, é possível obter o diagnóstico de um distúrbio, seja ele Faculdade Integrada (2013);
de aprendizagem ou que cause problema na aprendizagem. em Arte Educação pela Escola
Superior de Administração (2013),
em Educação e Neurociência e
A partir dessa constatação, o estudante passa a receber os Educação Inclusiva, ambas pelas
acompanhamentos indicados ao seu problema. Faculdades Integradas “Campos
Salles”(2017); Professor de
Ensino Fundamental II - Língua
Todavia, isso não isenta o professor de suas responsabilidades no Portuguesa e Língua Inglesa - na
processo de ensino e aprendizagem desse indivíduo. EMEF Cidade de Osaka.

Com base no estudo realizado a partir da literatura existente, pode-se dizer que o educador
precisa reconhecer que problemas na aprendizagem são de cunho pedagógico, na maioria das vezes,
e que, portanto, devem ser tratados no âmbito escolar. Mesmo quando diagnosticado um distúrbio,
isso não impede o aluno de aprender. É preciso ter um olhar diferenciado e promover situações de
aprendizagem que valorizem o potencial do educando dentro de suas limitações.

Além disso, deve avaliar os avanços do aluno em todo o percurso de construção de suas
aprendizagens. Desse modo, a avaliação deve, portanto, ser usada como instrumento norteador do
trabalho pedagógico, de modo que ela não tenha um fim em si mesma.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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NO PROCESSO TERAPÊUTICO DE
PACIENTES COM DEPRESSÃO
RESUMO: O presente trabalho propõe um estudo de pacientes com depressão, levando em
consideração as alterações afetivas, as manifestações sintomatológicas atuais, bem como
descrever sua psicodinâmica, e desenvolver um estudo tendo como referencial a visão
das neurociências na contemporaneidade no processo terapêutico. O trabalho é do tipo
bibliográfico e a metodologia utilizada é análise de conteúdo. Com este estudo almejamos
explorar a importância das respostas que a neurociência obteve para os aspectos psicológicos
e biológicos nas doenças depressivas. Em um primeiro momento, buscou-se compreender e
qualificar o que é a depressão, suas dimensões e como a neurociência se relaciona à doença;
já em um segundo momento nos aprofundará no estudo da neurociência, citando campos

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de pesquisa, técnicas e descobertas, e assim do cérebro humano. Com as descobertas


exemplificar sua relevância no tratamento de sobre o funcionamento cerebral e cognitivo,
pacientes com depressão. Esta pesquisa visa tais investimentos foram expandidos
se dirigir tanto para os profissionais da saúde, gradativamente em todo o mundo.
como para os pacientes e leigos que desejam
uma explicação científica para a depressão Surgiu assim a visibilidade da neurociência,
que os acometem. que tomou importância global pela hipótese
da abranger novos conhecimentos sobre
Palavras-Chave: Depressão;Contemporaneidade; o funcionamento cerebral. Sensações,
Neurociências. emoções, pensamentos e atitudes,
comorbidades e distúrbios, aprendizagem
INTRODUÇÃO e ausência do conhecimento, sonhos e
ilusões, eventos psíquicos que determinam
A temática escolhida para o e organizam o indivíduo. Estes e diversos
desenvolvimento deste trabalho inclui um outros campos tornaram-se passíveis de
estudo bibliográfico específico, que envolve a novos estudos e aplicações.
saúde física e mental do paciente. Denomina-
se como pesquisa a neurociência diante do As descobertas da neurociência podem
acometimento de transtornos depressivos. beneficiar várias áreas do conhecimento
com informações peculiares que abrangem
Conforme o dicionário online de português a compreensão da mente humana. Estas
(2018) a etimologia da palavra neurociência descobertas têm importância significativa na
( neuro “nervo” + ciência) é uma ciência que vida humana, à coletividade, ao conhecimento,
estuda o sistema nervoso, a organização ao desenvolvimento psíquico, emocional,
cerebral, a anatomia e a fisiologia do dentre outros aspectos do comportamento
cérebro, além de sua relação com as áreas humano.
do conhecimento como aprendizagem,
cognição ou comportamento. Logo, pode-se As doenças degenerativas neuronais e
entender a neurociência como a reunião dos as lesões cerebrais de causa externa são
saberes e conhecimentos que se relacionam passíveis de uso medicamentoso, outros
com o sistema nervoso. casos admitem intervenções cirúrgicas.
Contudo o estudo da neurociência busca
Conforme a Revista Estudos Avançados respostas aos respectivos casos em que após
(2013) durante a década de 1990 os a utilização de tais métodos paliativos, pode
Estados Unidos da América aprimoraram ocorrer o surgimento de efeitos colaterais
incentivos financeiros para que estudos e desfavoráveis, como por exemplo: Delírios,
pesquisas fossem realizados com o intuito demências, insuficiência ou perda cognitiva,
de desenvolver o conhecimento a respeito depressão e alterações da personalidade.

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De um ponto de vista das neurociências, e atentar-se para a saúde mental. Isso


toda substância capaz de alterar parâmetros contribui para o bem-estar mental do
biológicos é uma droga, cujo efeito é produto indivíduo. A época agitada que o mundo
da interação de três fatores: a substância vive contribui para a importância da saúde
específica, o corpo em que ela atua, e o psíquica das pessoas. Ansiedade, estresse,
contexto físico e social em que ocorre o economia, incertezas perante os fatos da
uso. (RIBEIRO, p. 11, 2012; ET al. ZINBERG, vida, desgastes da energia mental graças ao
1984) excesso e acúmulo de informações, essas e
outras questões estão levando as pessoas ao
De acordo com a OMS a definição de saúde: sofrimento psíquico.
“saúde é um estado de completo bem-estar
físico, mental, social e não apenas a ausência Esse trabalho busca esclarecer e organizar
de doença”. Mesmo como alvo de críticas, conhecimentos sobre o tratamento das
consideramos esse conceito o mais próximo doenças depressivas na diretriz psicológica.
de uma visão de homem integral, porque Esta pesquisa bibliográfica irá sugerir
considera as influências biopsicossociais. métodos de tratamentos para doenças
depressivas, no entanto não descartará os
Em razão dessa definição a visão tratamentos médicos e medicamentosos
psicossomática já conquistou um espaço necessários para o tratamento físico
importante entre as práticas médicas. Isso psíquicos.
se deve aos médicos não encontrarem
uma causa específica para determinadas As doenças depressivas mostram-se como
patologias. Pelo contrário, neste caso um enigma para os pacientes crônicos e para
os médicos encontram vários sintomas profissionais da saúde. O sofrimento da
que corroboram para a permanência da doença para o paciente é o resultado do fim
depressão, a qual depois de instalada no do silêncio orgânico que se fazia em seu corpo
corpo físico, mesmo após tratar os sintomas, quando ainda saudável. Provavelmente este
pode retornar a qualquer momento, assim paciente não tem clareza do seu sofrimento
como também não deixar o corpo que a psíquico e tem a oportunidade de conhecê-
possui. Visto que a doença depressiva é uma lo quando o sofrimento se torna orgânico,
doença física correlacionada com a mente e porque é neste momento que o paciente
a alma. busca ajuda médica a princípio.

Baseado nesse conceito cabe aos Com o tratamento médico e medicamentoso


profissionais que recebem estes pacientes a os sintomas adormecem, porém, não se
se sensibilizarem para escutar suas queixas, curam em sua totalidade. Por este motivo há
tanto as físicas quanto as anímicas, assim a necessidade de tratar a origem da doença
como pesquisarem a vida do paciente psíquica para que a mente, o corpo e a alma

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tenham alívio da angústia sentida e haja o Por objetivo específico deste estudo,
silêncio orgânico que chamamos saúde. buscaremos abordar as reflexões sobre
a interação entre a neurociência e a
O seguinte trabalho busca respostas para depressão, tal qual corpo e mente e a
o problema em questão: Considerando a natureza das emoções. Pela perspectiva a
depressão uma doença que exibe sintomas neuropsicológica pode contribuir para um
tanto psicológicos quanto físicos, de que entendimento complementar da interação
forma a neurociência se relaciona ao entre o biológico, o psíquico e o social, e
tratamento da depressão? De como isto assim possibilitar uma nova perspectiva de
auxilia na recuperação de um paciente e como tratamento para o doente depressivo crônico,
a neurociência se diferencia do tratamento tal qual a compreensão de sua doença.
medicamentoso?
Será realizada uma pesquisa bibliográfica
Questiona-se: Quais são as intervenções sobre o tema “depressão” que almeja explicar
psicológicas utilizadas no tratamento das a importância das respostas da neurociência
doenças depressivas para pacientes crônicos para os aspectos psicológicos e biológicos
segundo as pesquisas da neurociência? nas doenças depressivas. Esta pesquisa visa
se dirigir tanto para os profissionais da saúde,
A doença depressiva como objeto de como para os pacientes e leigos que desejam
estudo da atual pesquisa bibliográfica uma explicação científica para a depressão
justifica-se pela sua relevância social e que os acometem.
também pelo fato de constituir uma realidade
vivenciada na contemporaneidade por um A revisão bibliográfica exibe uma ideia por
número considerável de pacientes, que meio de documentos já publicados. Uma vez
se tornou expressivo em todas as classes que se tem o escopo de conferir o referencial
econômicas. Segundo relatório oficial da teórico pesquisado, a pesquisa bibliográfica
OMS (Organização Mundial da saúde), compreende a globalidade do conteúdo
atualizado em março de 2018, a depressão é bibliográfico já publicado referente ao tema
um transtorno mental frequente. Em todo o de estudo, incluindo publicações avulsas,
mundo, estima-se que mais de 300 milhões boletins, jornais, revistas, livros, pesquisas,
de pessoas, de todas as idades, sofram com monografias e teses.
esse transtorno.
Esta é uma pesquisa qualitativa de
O objetivo geral do seguinte estudo é caráter descritivo porque observa, registra,
destacar as contribuições da neuropsicológica analisa e correlaciona fatos ou fenômenos,
e as várias formas de tratamento, para sem manipulação das variáveis. Para tal,
uma melhor compreensão das doenças busca encontrar a frequência com que um
depressivas. fenômeno acontece e sua correlação com

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outros fenômenos externos, tal qual sua Segundo Camon (2003), o sujeito em si é
natureza e características. Destaca-se que constituído pela subjetividade, ou seja, cada
a escolha desta espécie de pesquisa provém um possui seu próprio campo subjetivo que
da necessidade de se compreender mais é concebido valendo-se das experiências,
profundamente o fenômeno em questão. das vivências, e dos determinantes sociais
e biológicos. Assim, os sintomas das
alterações afetivas variam de acordo com
O TRANSTORNO DEPRESSIVO as vivências de felicidade e/ ou tristeza e
NA SOCIEDADE ATUAL dependem da subjetividade de cada um, a
qual é constituída a mediante a realidade
Considerado pela Organização Mundial de existencial desse sujeito, das vivências
Saúde como o país mais deprimido de toda psíquicas, das internalizações e das relações
a América Latina, o Brasil ocupa também o objetais. Estas determinam a percepção da
5º lugar no ranking mundial. Não é pouca realidade e que fazem ou não os sujeitos
coisa. Ao todo, são mais de 11 milhões de tristes, melancólicos, felizes ou maníacos.
brasileiros que sofrem com os sintomas
da depressão, isso contando apenas com Merquior (2004) menciona que o
os números registrados oficialmente nos mundo contemporâneo, por seus aspectos
centros de saúde. econômico-político e sócio-cultural, vive
momentos de constantes transformações
Segundo a OMS até 2020 a depressão que desnorteiam os sujeitos numa explosão
será o transtorno mental afetivo mais de referenciais. Referenciais estes, que
incapacitante em todo o planeta, podendo dificultam o processo de identificação que
atingir mais de 320 milhões de pessoas em nem sempre possibilitam “a construção de
todo o mundo, ou 4,4% da população da sujeitos capazes de criar sentido para a vida”
Terra. Nesse ranking assustador, o Distrito (Maciel, 2002, p. 112).
Federal aparece com 6,2% das pessoas,
com mais de 18 anos, diagnosticadas com Trata-se então de uma cultura marcada
esse distúrbio. São números que mostram pela “soberania do eu”, como cita Freire
à capital nos primeiros lugares quando o (2003), na qual há um controle manipulador
assunto é depressão. de tudo que cerca e pertence ao sujeito,
fazendo com que tudo seja voltado para
A depressão é a alteração afetiva mais si. Esta cultura é voltada para o imaginário
estudada e falada na atualidade. Classificada do narcisismo egóico que faz os sujeitos se
como um transtorno de humor, ela vem sentirem desamparados diante da frustração.
reger as atitudes dos sujeitos modificando a
percepção de si mesmos, passando a enxergar Este sujeito se vê perante as inúmeras
suas problemáticas como grandes catástrofes. possibilidades que provocam este vazio

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depressivo nas quais se inclui a falta correlações com as informações advindas de


do sentimento de existência autêntico, outros exames complementares, que aferem
resultante das constantes frustrações. Desta atividade eletro gênica, metabólica e os de
forma, o sentimento de existência buscado neuroimagem, fazendo uma ponte entre
dependeria de uma presença constante estes e o quadro clínico do paciente.
de outro (objeto gratificante), e esta
presença do outro acaba por se constituir O objetivo de relacionar o cérebro com
o problema da sociedade atual, que, pela a mente é tarefa da neurociência cognitiva.
excessiva permissividade e gratificações, É uma mistura entre a neurociência e a
paradoxalmente, as tornam insuficientes, em psicologia cognitiva. Essa última preocupa-se
razão de que o desejo permanece insaciável. com o conhecimento de funções superiores
como a memória, a linguagem ou a atenção.
Assim, o objetivo principal da neurociência
CONTRIBUIÇÕES DA cognitiva é relacionar o funcionamento
NEUROCIÊNCIA PARA do cérebro com as nossas capacidades
cognitivas e nossos comportamentos.
O DIAGNÓSTICO DA
DEPRESSÃO E TRATAMENTO O desenvolvimento de novas técnicas tem
DE PACIENTES PORTADORES sido de grande ajuda dentro desse campo
para tornar possível a realização de estudos
DE TRANSTORNOS experimentais. Os estudos de neuroimagem
DEPRESSIVOS têm facilitado a tarefa de relacionar
estruturas concretas com diferentes
A neurociência deriva da palavra grega funções, utilizando uma ferramenta muito
neurosque que significa nervos. Dela também útil para esse propósito: a ressonância
deriva o termo neurologia, neuropsicologia, magnética funcional. Além disso, também
neurose ou neurônio entre outros. A principal foram desenvolvidas ferramentas como a
função da neurociência é analisar o sistema estimulação magnética transcraniana não
nervoso central dos seres humanos e animais, invasiva para o tratamento de diversas
suas sua fisiologia, suas lesões, patologias patologias.
etc. Desta forma, se consegue conhecer
mais sobre seu funcionamento e agir mais A psicologia também realizou importantes
sobre ele, melhorando a qualidade de vida contribuições para a neurociência, por meio
de pacientes que sofrem de transtornos de teorias sobre o comportamento e o
emocionais como a depressão. Por intermédio pensamento. Ao longo dos anos, a visão foi
de testes, ela não só fornece informações mudando a com base em uma perspectiva mais
quanto à neuropsicologia, quanto enriquece localizacionista, na qual se pensava que cada
o diagnóstico clínico e ainda permite área do cérebro tinha como virtude concreta,

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até outra mais funcional na qual o objetivo é depressivos procuram atendimento médico
conhecer o funcionamento global do cérebro. sete vezes mais que quem não tem o distúrbio,
segundo a OMS. Menos da metade delas
A depressão é uma síndrome que pode cursar é diagnosticada corretamente e recebe
com alterações cognitivas. Investigações clínicas tratamento adequado. A literatura médica sugere
têm explorado a função neuropsicológica de que noradrenalina, neurotransmissor envolvido
pacientes deprimidos há pelo menos duas na regulação do humor, do ciclo de sono e na
décadas. No entanto, pouco se sabe sobre resposta de estresse, desencadeia eventos em
a especificidade dos distúrbios cognitivos cascata, que se manifestam em ansiedade, no
nesses quadros. A dificuldade observada início e depois, em depressão. Mais de 60%
no desempenho cognitivo de pessoas com dos episódios depressivos são precedidos
depressão é também critério para o diagnóstico por quadros de ansiedade, e a insônia crônica
de quadros em que lesões ou disfunções aumenta quatro vezes o risco de depressão. Já
cerebrais estejam em jogo. Desta forma, é o estresse crônico leva à diminuição do fator
importante reconhecer o perfil cognitivo tanto de proteção neuronal, afetando a ramificação
quantitativo quanto qualitativo da depressão dendrítica dos neurônios.
e tentar traçar a sua neuroanatomia funcional
e reconhecer seus subtipos (unipolar, bipolar, O tratamento mais comum e de fácil acesso,
primária ou secundária). ainda é o farmacológico. Os medicamentos
costumam proporcionar alívio para pacientes
Existem evidências que sugerem a com sintomas moderados ou graves, que
presença de déficits neuropsicológicos geralmente apresentam prejuízos no trabalho
acompanhando o Episódio Depressivo Maior e na vida pessoal. Em depressões leves,
(Laks, Marinho, Rosenthal e Engelhardt, a eficiência dos antidepressivos é menos
1999, p. 145). Observa-se que esses déficits nítida: eles têm desempenho equivalente ao
se apresentam de forma ampla e tendem placebo (substância neutra, mas que pode
a incluir anormalidades envolvendo a desencadear efeitos psicológicos). Para o
sustentação da atenção, função executiva, psiquiatra Duailibi (2013, p. 128) “A remissão,
velocidade psicomotora, raciocínio não a ausência total de sintomas, é importante
verbal e novas aprendizagens. Contudo, a para combater essa vulnerabilidade”.
disfunção neurocomportamental associada
ao Transtorno Depressivo Maior parece Hábitos diários saudáveis e terapias
depender de diferenças individuais, com complementares ajudam a combater o
somente alguns indivíduos deprimidos estresse e podem prevenir a volta dos
demonstrando comprometimento. sintomas: acupuntura, massagem, atividade
física, alimentação rica em nutrientes e
Dor e depressão têm uma via neuroquímica pobres em gordura animal.
comuns. Em média, pessoas com sintomas

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Recentemente, o Conselho Federal de Medicina aprovou a técnica de estimulação magnética


transcraniana (EMT) superficial. O tratamento consiste em aplicar ondas eletromagnéticas
sobre o cérebro, com o objetivo de modular o funcionamento de regiões (determinadas por
exames de neuroimageamento) que operam de forma alterada em pessoas com transtornos
neuropsiquiátricos.

O cérebro de pessoas com depressão está “habituado” a processos cognitivos que


desencadeiam o problema, como pensamentos depreciativos sobre si mesmos.

A meditação ajuda o paciente a se conscientizar de emoções, fantasias, lembranças e


situações que passam por sua mente consciente. Atualmente, cientistas estão comprovando
os benefícios da terapia cognitivo-comportamental (TCC) baseada na atenção plena (MBCT,
mindfulness-based cognitive therapy), isto é, o uso de técnicas de meditação para potencializar
os efeitos da terapia comportamental. É um programa de oito semanas que ajuda o paciente
a perceber os velhos hábitos de pensar que atiram sua mente em uma espiral descendente
de pensamentos negativos. Ele aprende a ser mais gentil consigo mesmo e leva o paciente
a atentar-se aos aspectos positivos de seu cotidiano, exercitando o julgamento baseado na
autocompaixão. Citando o dalai-lama Tenzin Gyatso: “A mente é como para quedas: funciona
melhor aberta”.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Depressão foi abordada, neste trabalho, pela a visão
da neurociência, possibilitando uma interação entre o
psicológico e o biológico. Assim, essas áreas não precisam
ser consideradas como excludentes, já que são enfoques
diferentes que lidam com o mesmo substrato. Com isso, a
depressão não deve ser considerada somente uma alteração
bioquímica ou psicológica, mas de ambos.

O cérebro humano ainda esconde diversos segredos, e a


razão para isso é o fato dele ser um órgão extremamente ADRILENE BRAGA TIBA
complexo. Entender seu funcionamento é mais complexo
Especialista em neurociências
ainda. Nossos cérebros possuem bilhões de neurônios que pela Faculdade Campos Elíseos
atuam em conjunto de uma forma dinâmica para modular (2018); Psicóloga, Psicopedagoga
nossas respostas às demandas do ambiente. Também existem e Professor de Educação Infantil
e Ensino fundamental I na EMEF
diversos neurotransmissores e hormônios. Portanto, existem Rodrigo Mello Franco de Andrade
diversas questões ainda a serem descobertas, mas penso que
já avançamos consideravelmente rumo ao entendimento de
como o cérebro humano funciona.

A depressão é uma doença cerebral, que pode ser tratada de diversas maneiras. O fato de
a psicoterapia ser uma dessas maneiras não significa que a depressão seja um fenômeno de
origem psicológica. Essa forma equivocada de pensar leva algumas pessoas a considerar que
poderia ser possível aos pacientes superar a doença apenas com a vontade de mudar, e esse
definitivamente não é o caso. Conforme mostrado pelo relatório de OMS sobre depressão,
as maiorias dos pacientes diagnosticados com a doença apenas procuram ajuda medica
apenas ao sentires os sintomas físicos. Essa redução da depressão como uma doença de
caráter unicamente físico ou unicamente psicológico leva tira seu caráter de doença.

Uma conclusão otimista pode ser tirada desta pesquisa: Apesar da alta taxa de pacientes
clinicamente diagnosticados com depressão, nas ultimas décadas, mais do que nunca, os
estudos na área da neurociência e afins ganhou grande impulso. Mais do que nunca, há
grandes incentivos para cientistas, além do acesso à informação para os pacientes afetados.

A variedade de novas técnicas e tratamentos disponíveis para pacientes com depressão,


somados ao entendimento da doença, não mostram apenas uma perspectiva otimista para
os estudiosos, mas para todas as pessoas afetadas pela depressão.

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Revista Educar FCE - Março 2019

DIDÁTICA
RESUMO: O presente artigo propõe uma reflexão sobre Didática e a sua importância para a
formação e trabalho docente, tendo-se em vista que a didática é um ramo da ciência pedagógica
que tem como objetivo ensinar métodos e técnicas que possibilitem a aprendizagem do
aluno por parte do professor ou instrutor. O trabalho docente deve considerar que teoria e
prática são caminhos indissociáveis, paralelos e convergentes que norteiam todo o ensino-
aprendizagem. Dessa forma a didática expressa uma prática pedagógica que decorre da
relação entre professor e aluno num determinado momento histórico. Sendo assim, o texto
tem como objetivo abordar a teoria e a prática como objetos de ensino com ênfase no
pensamento pedagógico.

Palavras-chave: Didática; Aprendizagem; Ensino; Docente; Prática e Teoria.

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INTRODUÇÃO cidadania de forma competente no mundo


do conhecimento. Para que isto ocorra a
No âmbito educacional, principalmente formação docente, a metodologia de ensino,
em escolas e em faculdades a palavra as técnicas, os conteúdos contextualizados
didática está presente de forma imperativa, com as necessidades e conhecimentos prévios
pois temos os livros didáticos, os materiais dos alunos, o projeto político pedagógico,
didáticos, os projetos didáticos e a própria os recursos didáticos, o planejamento, a
didática que permeia o trabalho docente em avaliação, a relação professor-aluno e a
sala de aula, qualificando-o. relação com a comunidade escolar, devem
ser levados em consideração.
A didática é vista como um caminho
programado pela teoria, considerada uma Deve-se sempre lembrar que a didática
sinalizadora na aplicabilidade dos conteúdos é uma norteadora teórica/científica,
programáticos que o professor usa para imprescindível ao trabalho pedagógico
ministrar suas aulas. Porém não se deve cotidiano, é ela que irá mostrar dia a dia
esperar que ela seja algo definido e delimitado um ensino/aprendizagem significativo. Não
garantindo uma prática eficaz. A didática de existe uma educação de qualidade se a
um professor é considerada flexível, tendo didática não for considerada como um objeto
em vista que cada turma e cada indivíduo essencial no processo educativo, pois ela
exigirá práticas diferenciadas. oferece embasamento para a efetivação do
ensino/aprendizagem, eliminando qualquer
Conhecer a didática como uma tipo de discrepância existentes entre teoria
concretização da teoria, ajudará o professor e prática.
a consumar aquilo que foi desejado durante
todo o planejamento, atendendo as diferentes
formas de educar, as diversas concepções O CONCEITO DE DIDÁTICA
e as reflexões docentes, considerando o
ensino/aprendizagem um processo em Criada por Jan Amos Komensky, mais
constante mudança. conhecido por Comenius, a didática, como
dito anteriormente, é um ramo da ciência
A didática, enquanto disciplina pedagógica que tem como foco a prática
fundamentada na pedagogia, tem de métodos e técnicas que possibilitam que
apresentado ganhos na formação teórica e o aluno aprenda por meio de um professor
prática dos educadores que já não concebem ou instrutor, fazendo assim jus ao seu
mais um ensino como apenas transmissão significado: “arte de ensinar”.
de conhecimentos, mas sim um ensino
capaz de dar total autonomia ao aluno A palavra didática vem da expressão grega
para que este possa aprender e exercer sua Τεχνή διδακτική (techné didaktiké), que pode

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Revista Educar FCE - Março 2019

ser traduzida com arte ou técnica de ensinar. A didática também pode ser observada
Na pedagogia, a didática se ocupa dos como uma disciplina que compõe a grade
métodos e técnicas de ensino, destinados curricular da formação de professores nos
a colocar em prática as diretrizes da teoria cursos de pedagogia, onde é constituída de
pedagógica. Ela (didática) estuda os diferentes conhecimentos teóricos e faz a mediação
processos de ensino e aprendizagem. entre o conhecimento científico e o trabalho
docente em sala de aula.
A didática é uma disciplina fundamental na
formação de um professor, mas não se falava Na perspectiva instrumental, pode
desse campo de estudo até o século XVII. ser concebida como um conjunto de
Já nos dias atuais compreender as relações conhecimentos técnicos o “como fazer”
entre o processo de ensinar e o processo de pedagógico, conhecimentos apresentados
aprender tem uma enorme importância. de forma universal e consequentemente
desvinculados dos problemas relativos ao
Para se desempenhar um processo sentido e aos fins da educação, dos conteúdos
significativo na formação de um educador, a específicos, assim como do contexto
didática, não poderá apenas tratar do ensino sociocultural em que fomos gerados.
de técnicas pelas quais se deseja desenvolver
um processo de ensino-aprendizagem. Ela Para que aconteça a relação de ensino-
não deve ser vista ou tradada como apêndice aprendizagem, consideramos que para
de orientações mecânicas e tecnológicas, mas se ensinar é necessário adotar diferentes
um modo crítico de desenvolver uma prática procedimentos, selecionar conteúdos e
educativa, por meio de um projeto histórico, livros didáticos, embora estes, não sejam
que não será feito apenas pelo educador, mas os únicos suportes do trabalho pedagógico
também pelo educando e outros membros do professor. É preciso complementa-los
dos diversos setores da sociedade. afim de ampliar o acesso as informações e
as atividades propostas, adequando-as ao
Para Luckesi (2001), a função da Didática grupo de alunos a quem se vai ensinar.
é a de criar condições para que o educador
se prepare através de técnicas cientificas, A dimensão linguística da relação
filosóficas e efetivamente para o tipo pedagógica é muito importante, pois a
de ação que vai exercer. Podemos dessa linguagem influência na aprendizagem dos
forma observar que o conceito vem sendo alunos e possibilita o diálogo, que por vezes
reformulado ao longo dos anos, dependendo expressa mensagens que nunca foram ditas
da ótica em que ela é observada e em forma de palavras.
contextualizada.
Dessa forma, propõe-se que a didática,
longe de ser um método ou uma receita,

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Revista Educar FCE - Março 2019

subsidie, por meio da relação pedagógica, conhecidas como Teorias de Ensino. Podemos
a oferta qualitativa do ensino em suas destacar entre elas a Pedagogia Tradicional, a
dimensões linguística, pessoal e cognitiva. Pedagogia Renovada, a Pedagogia Tecnicista
e a Pedagogia Crítica.
Como observado, o conceito da didática
é amplo e está constantemente sendo A Pedagogia Tradicional, revela um período
ampliado a partir das perspectivas que vão em que a educação era principalmente
surgindo entorno das reflexões sobre o seu religiosa, seu objetivo era transcender o
papel e sua função na educação. Através homem para ser o melhor de si. Ela sobrepunha
dessa amplitude, ela se apresenta como a teoria à prática, sendo o professor o centro
importante e capaz de influenciar no processo do ensino, “detentor do saber” e onde o
de educar, pois ultrapassa as relações foco era a exposição mecânica do conteúdo,
escolares, embora não possa ser considerada considerado por vezes enciclopédico. Seus
a única responsável pelo sucesso ou fracasso conteúdos eram separados das experiências
escolar. dos alunos e não estavam de acordo com as
realidades sociais.

DIDÁTICA E A ARTE DE A Pedagogia Renovada, conhecida


ENSINAR também como Escola Nova, tinha como
objetivo o “aprender a aprender’, partindo
Jan Amos Comenius (1592-1670), em sua do pressuposto de que o importante é a
obra Didática Magna (1651) relata as primeiras aquisição do saber, o que muitas vezes
interpretações a respeito da didática como desqualificava o saber em si. O conteúdo
a “arte de ensinar”. Ele reconhece o direito era flexível, aberto e espontâneo, partindo-
a educação e a importância da didática em se do conhecimento “vulgar” para chegar ao
relação ao ensino e ao aprendizado de todo conhecimento científico. O professor era
ser humano. visto como um mero auxiliar, e sua função,
era a de ajudar o aluno a reencontrar seu
A didática tem sido defendida e estudada raciocínio.
há séculos por diferentes teóricos, estudiosos
e autores que buscavam identificar e discutir A Pedagogia Tecnicista tem sua base
as várias técnicas e modelos de metodologias na teoria da aprendizagem behaviorista,
educacionais existentes, que teriam como orientada por objetivos instrucionais pré-
único objetivo a melhoria da educação. definidos e tecnicamente elaborados. A ela
cabe o termo “aprender a fazer” uma vez que
Encontramos na história da educação o produto final do ensino é mais importante
períodos em que se difundiram novas do que o aluno e o professor. Dessa forma, a
tendências educacionais que ficaram função da escola é a de produzir indivíduos

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Revista Educar FCE - Março 2019

para o mercado de trabalho, e ao professor Por isso, ao estudar a didática, como


cabe a responsabilidade de transmitir as disciplina no Ensino Superior, não teremos
matérias. um acumulo de informações sobre
práticas e técnicas do processo de ensino-
A Pedagogia Crítica valoriza a escola como aprendizagem, mas sim aprender como
parte de um contexto social, que busca acrescentar a cada sujeito a capacidade crítica
a transformação da sociedade através da em questionar e refletir sobre as informações
democracia. Os conteúdos ensinados aos que foram adquiridas no processo de ensino-
alunos são indissociavelmente a realidade aprendizagem.
do meio social em que estes indivíduos estão
inseridos, o que dá significado real, humano Para Masetto (1997, p. 13) “a didática
e social ao que é ensinado. Nesta pedagogia, como reflexão é o estudo das teorias de
encontramos uma didática preocupada com ensino e aprendizagem aplicadas ao processo
o trabalho docente, com a tarefa do ensino e educativo que se realiza na escola, bem como
com a aprendizagem do aluno. dos resultados obtidos”.

Em síntese, essa trajetória da didática na Durante muito tempo ensinar era visto
busca pela ressignificação, se apresenta com como a transmissão de conteúdos para os
características diversas, de acordo com o alunos, e estes eram considerados seres sem
momento histórico, político e social, sendo luz, incapazes de construírem conhecimentos
inspirada pelas mais diversas correntes, próprios. Hoje, no entanto, o aluno é visto
tendências e concepções pedagógicas. como um ser que possuem uma bagagem
de conhecimentos prévios e que os mesmos
devem ser respeitados.
DIDÁTICA E A FORMAÇÃO
DO PROFESSOR A didática deve ter como papel fundamental
na formação de um professor ser instrumento
A didática, considerada uma ciência que de uma prática pedagógica reflexiva e crítica,
estuda os saberes necessários à prática contribuindo para a formação da consciência
docente, é um dos principais instrumentos crítica.
para a formação de um professor, pois é
nela que o professor irá se basear para a Por esta interação, podemos perceber
aquisição dos ensinamentos de que precisa que a construção de novos conhecimentos
para a prática docente. acontece paralelamente na relação
professor-aluno, visto que o aluno, traz
Como disciplina, a didática, é entendida para o cotidiano escolar sua experiência do
como um estudo sistematizado, intencional, contexto social em que vive e o professor,
de investigação e de prática (LIBÂNEO, 1990). como mediador deve conhecê-lo enquanto

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Revista Educar FCE - Março 2019

ser social, considerando seus conhecimentos prévios e ajudando-o assim, a transformar


essas vivências em conhecimentos significativos.

Diante disso, o atuar educacionalmente, requer adequações ao mundo atual e suas


transformações ágeis que não permitem a estagnação, o que cobra do professor uma posição
dinâmica frente ao processo educacional.

A DIDÁTICA E A DOCÊNCIA
O docente precisa estar ciente sobre sua reflexão enquanto educador e do quanto é
importante que esteja sempre atualizado sobre os conteúdos aprendidos. Ele precisa estar
sempre em constante aprendizado, para assim melhorar suas competências profissionais e
sua metodologia de ensino.

É necessário que os professores repensem o modo pelo qual agem diante da sociedade
e qual é a sua contribuição, uma vez que a identidade não é inerente ao ser humano, mas
sim, uma posição que se constrói quer seja com certezas ou incertezas estabelecidas nas
relações com a realidade social.

Quanto a ação docente, Libâneo (2001, p. 36) diz:

“É certo, assim, que a tarefa de ensinar a pensar requer dos professores o conhecimento de estratégias de
ensino e o desenvolvimento de suas próprias competências do pensar. Se o professor não dispõe de habilidades
de pensamento, se não sabe “aprender a aprender”, se é incapaz de organizar e regular suas próprias atividades
de aprendizagem, será impossível ajudar os alunos a potencializarem suas capacidades cognitivas.”

Para ele, a formação docente é um processo pedagógico, que deve acontecer de forma a
levar o professor a agir de forma competente no processo de ensino.

Cabe ao professor ser mais do que um coadjuvante no processo de ensino, que cativa e
tem a atenção do aluno. É dever do docente promover situações em que os alunos sejam
capazes de construir-se e reconstruir-se a partir de uma educação epistemologicamente
cientifica, que garante ao aluno um ensino produtivo e significativo cognitivamente, buscando
o desenvolvimento humano enquanto ser social e histórico.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se então, que a didática é indispensável tanto na
formação como no trabalho docente, enquanto disciplina é
ela que deve desenvolver a capacidade crítica do professor
em formação, possibilitando analisar de forma clara e
objetiva a realidade do ensino e assim, possibilitar ao aluno,
construir seu próprio conhecimento.

Lembrando que o fazer pedagógico do professor não se


restringe apenas ao fazer acadêmico e que é necessário
analisar o projeto econômico, político e social para se atuar
no contexto atual.

Deve-se entender que a educação é um processo e


entender que a prática pedagógica é parte integrante do
todo social. ALAN CARLOS COELHO
DO NASCIMENTO

Graduação em Pedagogia pela


Universidade Bandeirante de
São Paulo (2010); Especialista
em Letramento pela Faculdade
Campos Elíseos (2017); Professor
de Educação Infantil na EMEB
Carlos Gomes

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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Revista Educar FCE - Março 2019

A GESTÃO ESCOLAR E O TRABALHO


PEDAGÓGICO COLETIVO
RESUMO: O objetivo principal deste estudo considera a importância da gestão escolar no
trabalho Pedagógico Coletivo na formação dos docentes. Para um bom desempenho da
escola e um trabalho com a equipe o gestor tem um papel fundamental, portanto o gestor é
considerado um componente importante para o êxito e conquistas de sua equipe. O gestor
também é muito importante para o aprimoramento da participação da família e comunidade.
O gestor tem que criar e produzir com a equipe motivações para o desenvolvimento de uma
escola e proporcionar momentos de formação dos docentes na escola como mediador e
atender as exigências do desenvolvimento de uma escola.

Palavras-chave: Gestor; Trabalho Pedagógico; Docente

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO O artigo apresentou também as


dimensões do Planejamento educacional
O gestor tem um papel no ambiente escolar como construção coletiva para superarmos
de proporcionar a equipe um ambiente de o controle por uma atuação crítica e
harmonia articulando suas funções, desafios emancipatória no contexto educacional,
e diversidades dentro do ambiente escolar, apresentou o papel do Gestor no
pois com isso é necessário ouvir muito e Trabalho Pedagógico e o papel do gestor
estar sempre atento ao relacionamento com desempenhando sua função na Unidade
as pessoas. Promover momentos de diálogo Escolar, seu desempenho e de sua habilidade
e dar oportunidades da esquipe escolar em influenciar o ambiente que depende
expor suas ideias, demonstrando confiança em grande parte, a qualidade do ambiente
dentro do ambiente de trabalho. e clima escolar, a formação dos docentes
na escola como mediadores destacando
O Objetivo geral do artigo foi abordar a a responsabilidade dos educadores e que
importância do gestor escolar no trabalho deverá renovar sua forma pedagógica,
Pedagógico Coletivo na formação dos assumindo o seu papel em realmente
docentes respondendo a questão da aprender e ensinar e a contribuição da
importância do envolvimento deste gestor gestão escolar para o trabalho pedagógico
frente ao grupo de docentes no pedagógico coletivo explorando o contexto escolar
escolar. desempenhando seu papel e a qualidade do
processo ensino e aprendizagem.
A pesquisa consiste em interpretar as
experiências vitais relacionadas à prática da E concluindo que o gestor é o primeiro
Gestão Escolar, envolvendo a organização do responsável nas articulações e mobilizações
conhecimento, a participação comunitária e em grande parte do ambiente e clima escolar
democrática, a coletivização das capacidades e deve ter como princípio o trabalho em
e potencialidades individuais e a visão conjunto entre todas as pessoas que fazem
dos gestores escolares sobre a sua própria parte do grupo escolar.
prática.

O conceito de Gestão Escolar e FUNDAMENTOS TEÓRICOS


suas características enfoca a estrutura E LEGAIS DA GESTÃO
organizacional da escola, desenvolve uma
breve exposição sobre a estrutura interna
DEMOCRÁTICA
das escolas, os elementos que constituem
o sistema de organização e gestão e a A Constituição Federal de 1988 dispõe
conceituação sobre gestão participativa e no artigo 205 que o trabalho conjunto
seus princípios. entre Estado e família norteará a educação

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Revista Educar FCE - Março 2019

pública brasileira. No artigo 206, inciso IV, XI - vinculação entre a educação escolar,
a Constituição Federal prevê: “a gestão o trabalho e as práticas sociais.
democrática na forma de lei e apresenta os
princípios sobre os quais se darão a educação É fundamental salientar que a gestão
formal no Brasil” (BRASIL, 1988). democrática é um avanço político em que
as pessoas interessadas no processo de
Lei de Diretrizes e Bases da Educação ensino e aprendizagem dialogam, deliberam,
Nacional, com destaque para o Fórum planejam e solucionam problemas
Nacional em defesa da escola Pública. Após voltados ao desenvolvimento da escola.
sucessivos impasses, a Lei de Diretrizes e Esse processo tem como sustentáculo a
Bases (LDB) foi aprovada em 20 de dezembro participação efetiva de todos os segmentos
de 1996 – Lei nº 9394/96. da comunidade escolar: alunos, professores,
funcionários, pais e demais segmentos, tais
A referida lei apresenta no artigo 3º a como, moradores do bairro no qual a escola
seguinte redação: se insere.

Art. 3º O ensino será ministrado com base As ações são definidas por meio de
nos seguintes princípios: planejamento que considera o respeito às
I - igualdade de condições para o acesso normas coletivamente construídas para os
e permanência na escola; processos de tomada de decisões e a garantia
II - liberdade de aprender, ensinar, de amplo acesso às informações aos sujeitos
pesquisar e divulgar a cultura, o da escola.
pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções A gestão democrática entendida como ação
que prevê a descentralização pedagógica e
pedagógicas; IV - respeito à liberdade e administrativa como um meio para alcançar
apreço à tolerância; a autonomia da escola, deseja e implanta o
V - coexistência de instituições públicas funcionamento de colegiados que garantam uma
participação mais decisória dos protagonistas
e privadas de ensino; escolares (FONSECA; OLIVEIRA; TOSCHI, 2004,
VI - gratuidade do ensino público em p.62).
estabelecimentos oficiais;
VII - valorização do profissional da A Gestão Democrática só é possível
educação escolar; por meio da interação entre a escola e
VIII - gestão democrática do ensino a comunidade onde a instituição está
público, na forma desta Lei e da legislação inserida, ou seja, é por meio do exercício da
dos sistemas de ensino; cidadania pautado na participação dos vários
IX - garantia de padrão de qualidade; segmentos da sociedade na administração
X - valorização da experiência extra- escolar, que a gestão democrática se efetiva.
escolar; É importante destacar que o foco da escola

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Revista Educar FCE - Março 2019

é o conhecimento científico, deste modo A GESTÃO DEMOCRÁTICA NO


todo esforço na implementação de uma COTIDIANO ESCOLAR
gestão democrática não pode perder de
vista a função social da escola, conforme nos Conforme Vitor Paro (2007), a gestão
adverte os autores: democrática proporciona a participação
da comunidade e acompanha as ações
A organização e gestão são meios para atingir pedagógicas, tendo influencia no Projeto
as finalidades do ensino. É preciso ter clareza de
que o eixo da instituição escolar é a qualidade Político Pedagógico (PPP) favorecendo o
dos processos de ensino e aprendizagem processo democrático, com isso ter um
que, mediante procedimentos pedagógico- envolvimento da comunidade escolar nos
didáticos, propiciam melhores resultados de
aprendizagem. São de pouca valia inovações diálogos propicio ao contexto educacional
como gestão democrática, eleições para diretor, refletindo o compromisso e responsabilidade
introdução de modernos equipamentos e com os objetivos e metas do Projeto Político
outras, se os alunos continuam apresentando
baixo rendimento escolar e aprendizagens não Pedagógico da escola.
consolidadas (LIBÂNEO; OLIVEIRA; TOSCHI,
2006, p.301). É necessário também enfatizar as
contribuições de Libâneo (2004) que destaca
Precisamos dizer também que essa o PPP como um importante instrumento
consolidação nem sempre é fácil, exige, contribuindo para participação de pessoas
sobretudo, exercício da cidadania, pois não críticas com responsabilidades atuando na
basta convocar a comunidade educativa para escola e na comunidade.
ouvir o que foi decidido, é preciso envolvê-
los nas decisões e, para isso, é necessária É importante destacar a ação do gestor
a disposição de saber ouvir e respeitar as pedagogo nas práticas coletivas de
diferentes formas de pensar. Portanto, só planejamento e na organização de um trabalho
é possível pensar em uma Gestão Escolar pedagógico favorecendo o fortalecimento de
Democrática mediante a articulação e uma escola com o compromisso com o papel
participação da comunidade educativa por político e social.
meio das instâncias colegiadas, as quais terão
a equipe diretiva como principal articulador.
Por isso, faz-se necessária aos futuros GESTÃO ESCOLAR
pedagogos uma discussão como esta que PARTICIPATIVA
considere a questão da democracia em sua
totalidade. A escola é um espaço para formação
e com capacidade para a participação na
vida social, interagindo com a sociedade,
buscando diálogos das famílias, docentes e
alunos para terem a responsabilidade por

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Revista Educar FCE - Março 2019

tomar decisões para que a escola funcione democrática, tendo um poder de decisão
melhor e com qualidade. e autonomia sobre suas necessidades e
metas, sua organização e administração
De acordo com Libâneo (2001, p.80): das finanças, trabalhando com o grupo,
expondo as ideias e experiências a todos da
O conceito de participação se fundamenta no de equipe. Quando a Gestão Escolar promove o
autonomia que significa a capacidade das pessoas
e dos grupos de livre determinação de si próprios, envolvimento de todos é porque ela possui
isto é, de conduzirem sua própria vida. Como a a perspectiva social, fazendo com que os
autonomia opõe-se às formas de autoritárias de sujeitos possam “participar no processo
tomada de decisões, sua realização concreta nas
instituições é a participação. de formulação e avaliação da política de
educação e na fiscalização de sua execução”,
salienta Libâneo (2001, p. 131).
A gestão escolar democrática e
participativa pode mudar o espaço da escola, Em busca de objetivos comuns, decisões
transformando as relações e os papeis que e execuções a avaliação compartilhada deve
cada sujeito tem para ajudar na elaboração da ser sempre uma ação do trabalho educacional
construção desse espaço com a participação junto com ações didáticas em uma avaliação
de todos diante de objetivos comuns, de toda equipe escolar. A valorização do
expressando a necessidade da organização trabalho de cada educador investindo em
escolar. relações baseadas no diálogo e na qualidade
e convivência no ambiente de trabalho.
A gestão da escola é fundamental para
a gomada de decisões e posições diante
dos objetivos sociais e políticos da escola O TRABALHO PEDAGÓGICO
cumprindo sua função social e contribuindo E O PAPEL DO GESTOR
na formação e no crescimento do indivíduo.
Segundo Libâneo, (2001, p.114-115): Para atuar como líder o gestor deve incentivar
a autoconstrução, de forma criativa com
“O caráter pedagógico da ação educativa consiste compromisso e responsabilidade dentro do
precisamente na formulação de objetivos sócio-
políticos e educativos e na criação de formas processo educacional. O Gestor tem a função
de viabilização organizativa e metodológica da de coordenar as relações dos profissionais
educação (tais como a seleção e organização de envolvidos na escola, alunos e toda a
conteúdos e métodos, a organização do ensino,
a organização do trabalho escolar), tendo em comunidade para que tenha um envolvimento
vista dar uma direção consciente e planejada ao democrático e participativo, desenvolvendo
processo educacional. ” estratégias para mobilizar e gerenciar a escola
com mais democracia, possuir uma visão em
A autonomia das escolas na comunidade conjunto, articulando e integrando os setores
escolar é um dos princípios da gestão administrativo e pedagógico.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Entretanto, para existir mudanças nessa organização, é essencial ter uma liderança
significativa para conseguir coordenar, tendo uma reação direta no comportamento desses
profissionais.

Conforme Luck (2005, p.33).

A gestão escolar atua como líder, são responsáveis pelo sucesso do que organiza. É chamado de líder a
dedicação, a visão, os valores, o entusiasmo, a competência e a integridade que expressa, que inspira aos que
trabalham em conjunto para atingirem as metas e os objetivos comuns na escola.

É fundamental um gestor que é líder possuir caminhos diferentes para desempenhar sua
função com qualidade e ter repertorio pertinente ao momento necessário e adequado a
cada situação, estabelecendo limites, a paciência e percepção dos acontecimentos ao seu
redor.

A gestão tem que inovar e promover envolvimento de todos favorecendo mudanças


na educação. Pois, assim a afirmação que inovar consiste em: “ trazer novidades, buscar
inovação, renovar, atualizar” (CEGALA, 2005, p 499).

De acordo com Freire (2000, p 67) “ Se a educação sozinha não transforma a sociedade,
sem ela tampouco a sociedade muda”. Assim sendo é necessário que o gestor propicie um
diálogo entre os envolvidos, fortalecendo as relações interpessoais, sendo o gestor o líder
e o maior responsável pela escola, deverá ter visão articulando em conjunto e integrando
todos os setores da Unidade Escolar.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A gestão escolar é considerada uma área de atuação na
qual se objetiva promover a organização, a mobilização
articulando todas as condições materiais e humanas
necessárias para garantir o avanço dos processos sócio
educacionais dos estabelecimentos educacionais, sendo o
grande articulador, o gestor é o primeiro responsável por
esse processo, gerenciando os conflitos, desempenhando
suas habilidades criando um ambiente e um clima escolar
para a qualidade do processo de ensino e aprendizagem. ALCIONE TERESA
HECHERT
O papel de um agente de transformação, o gestor deve
Graduação em Pedagogia pela
desenvolver e refletir sobre sua postura afetiva assumindo Universidade Bandeirantes de
uma responsabilidade da escola e do sistema atuando como São Paulo em 2011; Professora
líder, incentivando com compromisso, responsabilidade e de Educação Infantil no CEMEI
Capão Redondo.
qualidade a forma criativa o desenvolvimento escolar.

As ações específicas relativas à liderança de um gestor


estão diretamente associadas às escolas eficazes, àquelas
que fazem a diferença no aprendizado dos seus alunos. Para
tal, será essencial que exista uma comunicação também
eficaz entre os líderes e os seus liderados, criando um
ambiente útil de confiança e de interação, na motivação
buscando realizações de todos, tendo o aluno como norte
de crescer e trabalhar em conjunto na pratica escolar.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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85
Revista Educar FCE - Março 2019

INCLUSÃO DE ALUNOS COM


DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
RESUMO: Este artigo tem como objetivo trazer o tema deficiência intelectual e a sua inclusão
de pessoas com alguma deficiência acontece, pelo prisma da educação transformadora
e inclusiva, quando a qualidade acadêmica proposta poderá derrubar certas barreiras
tradicionais que presenciamos dentro das escolas brasileiras. A educação deve revolucionar
rumo à transformação inclusiva implicando em mudanças estruturais, tanto políticas
quanto nas propostas educacionais, e seu potencial para a inclusão perpassa pela adequada
incorporação das novas tecnologias no âmbito pedagógico e do desenvolvimento de novas
formas de ensinar. Sendo interessante dentro deste contexto trataremos da parte legal do
assunto traduzindo os direitos e deveres dos portadores de deficiência, tanto no contexto
social quanto no educacional. Tentando esclarecer e informar aos pesquisadores dessa área
as necessidades e dificuldades pelas quais passam os portadores de deficiência intelectual
dentro da sociedade, especialmente dentro das escolas da rede pública de ensino.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Palavras-chave: Educação; Integração; inerente às pessoas, busca perceber e


Necessidades Especiais; Respeito. atender a todas as necessidades educativas
especiais das crianças dentro de sala de aula
comum, em um sistema regular de ensino,
INTRODUÇÃO de forma a promover a aprendizagem e o
desenvolvimento individual de todos. Uma
O professor quando trabalha visando prática pedagógica coletiva, multifacetada,
uma educação inclusiva, que transforme a dinâmica e flexível que exige enormes
sociedade, busca ampliar a participação de mudanças na estrutura e no funcionamento
todos os demais alunos, todos os profissionais das unidades escolares, e na formação dos
da educação, os familiares e a comunidade professores e nas relações entre as famílias
ao redor da escola, para que realmente e a escola.
aconteça essa inclusão, promovendo com
isso uma inclusão de qualidade. A política nacional de educação espacial, na
perspectiva da educação inclusiva, assegura
É necessário que aconteça uma acesso ao ensino regular a educandos com
reestruturação da cultura, das práticas deficiência diversificada como: mental, física,
educativas e das políticas que são vivenciadas surdos, cegos, com transtornos globais do
dentro das escolas de modo que estas vão de desenvolvimento e a educando com altas
encontro à diversidade de todas as crianças. habilidades, superdotados, desde a educação
A educação inclusiva é uma abordagem infantil até a educação superior. No Brasil
mais humanista e democrática que acaba o ensino especial foi, na sua origem, um
percebendo o indivíduo e todas as suas sistema separado de educação das crianças
singularidades, visando o seu crescimento, a com deficiência não podendo ser supridas
satisfação pessoal e a inserção da vida em nas escolas regulares.
sociedade.
Dentro da perspectiva da educação
A inclusão transcorre por dimensões inclusiva, outras racionalidades estão
humanas, sociais e políticas, e vem surgindo sobre aprendizagem. Com o uso
gradualmente se expandindo na da concepção Vygostskyana especialmente,
sociedade contemporânea, ajudando no entende que a participação inclusiva de
desenvolvimento das pessoas em geral, alunos facilita o aprendizado de todos, deles e
contribuindo para a reestruturação de práticas dos demais educandos que convivem com as
e ações inclusivas e sem preconceitos. diferenças. Este entendimento esta baseado
no conceito da Zona de Desenvolvimento
A educação inclusiva se diferencia Proximal, que deve ser conquistada por meio
da educação especial, mesmo que se da mediação do outro, entre educador e
contemplem, configurando na diversidade educando e entre os educandos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Temos como objetivo mostrar como as de diversos atendimentos especializados


diferenças são tratadas e como tentar atender que numa escola normal não há, como
essas crianças da melhor maneira possível fisioterapia, fonoaudiologia e psicopedagogos
dentro das nossas escolas e aulas. E o que especializados e precisam com um convívio
o educador pode fazer para se preparar da com o restante da sociedade.
melhor forma possível para saber trabalhar
com essa criança que apresenta alguma Muitas vezes a família vê na escola uma
deficiência e trabalhar junto com os demais, forma de deixar a criança por algumas
mostrando a diversidade, o respeito e a horas, não pensando no que é bom para
solidariedade que devemos ter com pessoas a mesma. Algumas crianças nem fazem
que apresentam algum tipo de dificuldade outros acompanhamentos, apenas o que
intelectual. conseguimos na Escola, a escola faz alguns
encaminhamentos que às vezes nem levam as
Esse artigo tem como objetivo trazer crianças, e em muitos casos não recebemos
à tona como são as inclusões, as leis que resposta nenhuma desses encaminhamentos.
permeiam esse assunto e como a sociedade
atende essas pessoas, que por causas
diversas possuem alguma forma de limitação UMA ESCOLA INCLUSIVA
no campo intelectual e em alguns casos com
deficiências físicas também. Uma das grandes razões para ocorre a
integração dos educandos com necessidades
O objetivo específico desse artigo é mostrar educativas especiais, foi promover uma
como acontece a inclusão e o que poderia transformação na forma de organizar a
ocorrer, com auxílio de estudos e de pessoas educação especial, atendendo os alunos que
qualificadas para tanto nas escolas de ensino antes eram atendidos nas escolas especiais.
infantil e fundamental no Brasil, começando
desde a preparação das famílias que possuem Essa proposta fez crescer a integração a
alguém com necessidades especiais como os partir da reforma da educação especial.
educadores, gestores e demais funcionários
da escola, pois todos que trabalham dentro Mas não é suficiente só matricular os
das unidades escolares devem entender um alunos com necessidades especiais nas
pouco das limitações e como podem ajudar escolas regulares, não sendo levado em conta
a esse educando a crescer, respeitando e que eles necessitam de um atendimento
auxiliando os educadores. individualizado.

Devemos levar esse assunto a diversas Foram necessárias algumas formulações


esferas da sociedade para poder atender e propostas mais firmes que se articulam
todo mundo, pois essas crianças precisam em torno do movimento por uma escola

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Revista Educar FCE - Março 2019

inclusiva, esse movimento ficou marcado Há vários debates em relação às vantagens


pela exigência de educar todos dentro de e os inconvenientes que trazem a inclusão,
uma mesma escola e a necessidade de isso fez com que diversos estudos fossem à
reformar o sistema educacional. fundo nesse assunto.

O objetivo de termos escolas inclusivas


supõe uma profunda transformação do CRITÉRIOS PARA O ÊXITO
sistema educacional, que vai além de uma
reforma da educação especial. Procuramos Não é fácil tirar conclusões sobre o que
encontrar um sistema mais apropriado para é melhor para os alunos com necessidades
incorporar os serviços e os programas da especiais.
educação especial às escolas regulares.
Para se avaliar sobre a integração é
O principal objetivo é que se tenha necessário definir os objetivos se pretendem
escolas inclusivas com qualidade, que sejam ao incorporar alunos com necessidades
atrativas e valorizadas por toda a comunidade educativas especiais na escola regular.
educacional, mas exige muito mais que boa Sendo necessário ter o conhecimento geral
vontade, e não esteja apenas no papel. É da legislação, da política educacional que
necessário que se tome consciência de tudo se aplica e é preciso conhecer os objetivos
que isso implica. específicos da escola de integração, para
depois avaliar a escola como um todo.
A prática da educação inclusiva faz com
que as escolas precisem de mudanças Só podemos definir os critérios depois
profundas. É necessário ter consciência dos que os educadores definirem as metas e
problemas que existem, é necessário avaliar estabelecerem um programa par alcança-las.
os resultados e analisar a transição dos alunos
com necessidades educativas especiais da Os dois graus necessários para se avaliar
escola para a vida adulta. um programa de integração se referem às
mudanças no desenvolvimento das crianças e
Sabemos o quanto é difícil ensinar as que foram produzidas nas próprias escolas.
alunos com necessidades especiais, muitos Mas o que mais importa é a aprendizagem e
educadores possuem duas aulas, uma para o desenvolvimento dos alunos integrados.
os alunos ditos “normais” e outra para os de Analisando o desenvolvimento cognitivo,
integração, sendo de grande esforço essa o rendimento escolar, a integração social, a
preparação e a organização da aula, pois não autoestima, comparando os resultados com
há material de apoio para todas as situações ele mesmo, desde o inicio desse processo e
que podem existir. com outros alunos que possuem as mesmas
dificuldades de aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A escola precisa de mudanças que produzam as enormes dificuldades que supõe esse tipo
transformações na sua organização, no seu de enfoque impeçam o avanço da integração
funcionamento, na formação dos educadores, de pessoas com necessidades especiais.
no desenvolvimento do currículo integrador
e na construção de um planejamento de
aulas integradoras. AS CONDIÇÕES PARA A
INTEGRAÇÃO
São necessárias mudanças significativas
que produzam nas dimensões relativas aos São necessários diversos estudos para
processos da escola e das salas de aula, no saber se a integração é a melhor maneira de
qual consigam um resultado positivo. atendimento às pessoas com algum tipo de
necessidade, há crianças que não admitem o
Um critério é a integração das pessoas barulho que toda a escola faz, mas como toda
com alguma deficiência dentro da sociedade: pessoa tem o direito de viver e ter acesso à
como vive, qual sua independência, as educação pública, dentro do contexto o mais
relações sociais que estabelece, quais suas integrador possível. A escola precisa atender
reações à adversidade da vida e do meio em da melhor maneira possível essas crianças,
que esta vivendo. adequando tudo, para que a experiência
integradora contribua para uma educação de
O mais importante é como a escola pode maior qualidade.
ajudar na integração das pessoas com
algum tipo de necessidade especial dentro A escola que acolhe as crianças com
da comunidade em que vive, não apenas necessidades especiais precisam de
preparando-as, mas seus colegas também, adaptações, mas isso gera um crescimento
para que aceitem a todos, sem preconceitos, enorme, tanto para as pessoas que tratam
vendo que há a necessidade de integrar com essas crianças, quanto para elas, que
todas as pessoas, sendo elas portadoras acabam aumentando seus horizontes,
de necessidades, ou apenas com alguma não ficando limitadas dentro de casa e de
dificuldade de aprendizagem, mas que elas hospitais, pois geralmente crianças com
podem se tornarem um membro importante necessidades especiais, vão de casa para o
dentro da sociedade, mesmo que ela não hospital ou clínicas e voltam, mas a escola
consiga fazer tudo, mas algo ela pode acaba sendo um lugar no qual “brincam”,
aprender a fazer. conhecem pessoas da mesma idade, e
participam da melhor forma possível das
Podemos perceber que há algumas atividades propostas.
variáveis ambientais e familiares que influem
na competência social e na adaptação de tais É necessário que a escola crie um projeto
pessoas, sendo necessário que se reconheça educacional e um currículo integrador,

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Revista Educar FCE - Março 2019

não apenas mudando seu funcionamento, OS FATORES QUE


organização e planejamento de aula, é FAVORECEM A INTEGRAÇÃO
necessário que a família participe das
atividades escolares, para poder ajudar a Os fatores principais que favorecem a
formular um melhor atendimento, dando integração dentro das escolas são: projetos
opiniões, tentando junto com a escola fazer compartilhados, currículo adaptado, uma
com seu filho cresça como pessoa e aprenda organização flexível e atitudes positivas da
o que for possível para a sua vida fora da comunidade educacional como um todo.
escola.
O projeto educativo das escolas de
Não há uma fórmula pronta, cada integração precisa ter uma variável, que
necessidade é uma, cada dificuldade de prevê todos os processos na integração,
aprendizagem é diferente da outra, mesmo sendo elaborado em conjunto pela equipe de
quando o diagnóstico é o mesmo ou similar, professores, no qual a educação dos alunos
da para perceber que mesmo crianças com a com necessidades educativas especiais é
mesma síndrome possuem diferentes graus o seu maior objetivo, sendo um poderoso
de comprometimento, há casos que a família instrumento de mudança.
percebeu, antes mesmo de nascer que a
criança teria alguma necessidade especial Uma boa qualidade no projeto educacional
e estudou, para poder atender da melhor precisa ter uma equipe docente coordenada
maneira essa criança, a família e o modo com e com atitudes positivas, especialmente dos
que encara a dificuldade de seu filho em se educadores, facilitando a cooperação entre
integrar, é um dos pontos mais importantes todos os funcionários, trabalhando todos
para o sucesso da integração dessa criança em um projeto comum, a integração de
dentro da escola e da sociedade em que vive, pessoas com necessidades especiais. Nem
outro fator importante é o educador que sempre acontece isso dentro das escolas,
atende essa criança, pois quando o educador é necessária também uma direção eficaz,
sabe a importância da integração, e é reunindo esforços ajudando a resolver os
convicto que a criança tem o direito de estar problemas que aparecem.
dentro da escola regular com outras dezenas
de crianças, faz com que essa integração seja Um currículo adaptado é uma das
plena, sem tantos problemas. características mais importantes, pois o
objetivo da integração não é apenas a ficar
com esses alunos dentro da escola com
os demais, mas que consigam participar
de um currículo comum, esse é o principal
problema que a escola apresenta, pois é
complicado tentar montar um currículo

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Revista Educar FCE - Março 2019

que atenda todas as crianças, pois há um escola e todos precisam estar cientes disso,
número enorme de dificuldades, entre elas fazendo com que essa criança seja integrada,
os cadeirantes que não possuem problemas facilitando assim o acolhimento das mesmas.
no cognitivo, alunos com algumas síndromes
que atacam o sistema nervoso, alunos com Há professores que ainda mostram
espectro autista, surdez, cegueira, entre resistência ao receberem alunos com
outros problemas. algum grau de necessidade, pois se sentem
despreparados e a ausência de professores
Normalmente é preciso uma adaptação de apoio suficientes dentro das unidades
dos conteúdos de aprendizagem, dos regulares de ensino públicas, quando há
métodos pedagógicos e da atenção aos um apoio efetivo na escola, as atitudes
alunos. Esse problema está na combinação se modificam em direção positiva, pois
da diferenciação curricular com o objetivo os educadores não podem cuidar de tudo
de que todos os alunos participem de um sozinhos.
currículo comum.
A segurança do professor depende da sua
As escolas integradoras precisam buscar competência e quando há uma estabilidade
práticas que favoreça, a educação dos alunos profissional. Essa insegurança esta
com dificuldades de aprendizagem: instrução relacionada com as dificuldades que imagina
baseada nas suas necessidades; materiais que podem criar na sala de aula os alunos com
e procedimentos que permitem que os necessidades educativas especiais e com a
estudantes avancem no seu próprio ritmo; ajuda que receberá de outros educadores,
tempo adicional para os estudantes que coordenadores e demais funcionários da
necessitarem; aumento da responsabilidade escola.
dos estudantes por sua própria aprendizagem
e cooperação entre os estudantes para É normal que o ponto de vista inicial dos
alcançar seus objetivos de aprendizagem. educadores sobre a integração seja uma
variável, especialmente em função das
Uma organização que seja flexível para dificuldades dos alunos, pois a dificuldade de
atender os alunos com necessidade são um um apoio que existem dentro das escolas é
dos fatores que facilitam a integração, a uma questão que o educador leva em conta,
escola precisa mudar a cultura que o aluno as formações e a existência de programas
é de tal professor, e ele precisa ficar isolado específicos de atualização, são questões que
dentro da sua sala de aula, com esse aluno e os educadores levam muito em conta, pois é
mais tantos outros, trabalhando sozinho, às necessário que existam diversos cursos, para
vezes sem saber o que fazer e a quem procurar que o professor tenha um conhecimento
ajuda. Criando assim barreiras que dificultam sobre o problema do seu aluno, e ao conhecer,
a tarefa conjunta da integração. O aluno é da tentar junto com os demais aprender a lidar

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com isso da melhor maneira possível, fazendo Aqui no Brasil com a legislação que temos,
com que a integração seja plena e eficaz. na qual a criança tem o direito de frequentar
as escolas regulares, fez com que as famílias
Um fator importante também são as de coragem começassem a tirar seus filhos
disposições legais em favor da integração, de casa para que frequentassem as escolas,
que geralmente não é discutida entre todos mas isso era um pouco escolha da família,
os funcionários das escolas. agora com a obrigação de se matricular
todas as crianças dentro da escola, todas as
As atitudes dos pais que colocam famílias se viram obrigadas a fazerem isso,
seus filhos em escolas integradoras, é de mas na maioria dos casos as famílias fazem
fundamental importância para o processo valer seus direitos de transporte gratuito,
educativo como um todo, tanto das crianças solicitam o que podem, para que dentro da
que possuem alguma deficiência quanto das escola tenham todos os atendimentos.
demais. Os pais de crianças com algum tipo
de deficiência precisam confiar na unidade As atitudes das demais crianças frente
escolar e nos seus funcionários, e precisam ao aluno com alguma necessidade é um dos
ter atitudes positivas, cooperando com a fatores decisivos para a boa integração social
escola quando solicitado, trazendo laudos deles, é necessário que o professor trabalhe
médicos e acompanhando o andamento de isso, desde o inicio do ano, tanto com os
seu aprendizado é de extrema importância. pais, como com seus alunos, para que não
haja nenhuma forma de discriminação frente
Dentro das escolas quando a criança a esse aluno que tem os mesmos direitos de
apresenta pouca dificuldade dentro da sua todos de estarem na sala de aula.
condição, seus pais, geralmente acham positivo
a integração dela dentro de uma escola regular
integradora, mas quando a necessidade é OS EFEITOS DA INTEGRAÇÃO
mais séria e o comprometimento é maior, NOS ALUNOS
quando a dificuldade de aprendizagem
é maior, os pais demonstram uma certa Quando há alguns casos em que as crianças
resistência à integração e mostram um medo apenas apresentam pequenos problemas
em deixar seus filhos dentro de escolas de aprendizagem, nos quais podemos ver
“normais”, achando que haverá alguma forma que a integração é um dos fatores mais
de isolamento, um tratamento agressivo importantes para que aprendam mais, pois
das demais crianças, menos possibilidades colocando essas crianças junto de outras com
educativas, pois o número de crianças é problemas semelhantes, se acomodem, não
superior que uma sala de crianças especiais sabendo em quem se espelhar, mas quando
como havia antigamente, fora que acham os colocadas numa sala regular, verá crianças
recursos das escolas regulares inferiores. da mesma idade, podendo se espelhar no

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Revista Educar FCE - Março 2019

semelhante, buscando aprender e geralmente as crianças que não demonstram problemas


de aprendizagem depois de terminarem as suas tarefas buscam alguém que precise isso
faz com que se sintam importantes, e aprendam com o seu semelhante. A integração com
colegas mais competentes, isso acaba acontecendo nas salas regulares, e isso favorece no
processo nas aprendizagens.

Não é apenas a pessoa com necessidade especial que se desenvolve nesse processo de
integração, os outros indivíduos também crescem com essa forma de ensino, pois aprendem
a esperar, a respeitar as diferenças, o amor ao próximo, o companheirismo e muitas vezes a
amizade é levada para o resto da vida.

Dentro da escola é um ambiente neutro, no qual todos precisam cooperar para o andamento
das aulas, e as habilidades sociais nas quais há integração é tem mais consistência, em que o
aspecto mais importante é que os alunos com problemas de aprendizagem não apresentem
um autoconceito mais baixo que os demais colegas, independente da escola em que se
escolarizam.

A escola integradora é aquela que avalia seus alunos de acordo com suas possibilidades
e não em comparação com seus colegas e que trabalham particularmente em grupos
cooperativos heterogêneos, com mais possibilidades de melhoria e competência social e a
autoestima dos alunos.

A integração é uma opção educativa favorável para qualquer necessidade especial, mesmo
que a criança não aprenda muita coisa dentro da escola, ela sabe que será há mais pessoas
no mundo querendo ajuda-la, e para as demais, o ensinamento de atender ao próximo,
respeitando suas diferenças é algo que levará para o futuro, pois a vida pode mudar de uma
hora para outra, e podemos acabar precisando de atendimento especial algum momento da
vida.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não há dúvida que um conjunto de professores bons
que torna possível o ensino integrador em uma escola
integradora.

O educador precisa demonstrar compromisso e vontade


de ajudar todos os seus alunos, precisa se comunicar
demonstrando entusiasmo e carinho com seus alunos,
precisa dominar o conhecimento da didática da matéria,
facilitando a aprendizagem, ao dominar múltiplos modelos
de ensino: a flexibilidade e sua habilidade para resolver ALDAIR CALCANHO DE
imprevistos, refletir sobre sua prática faz com que seu OLIVEIRA
trabalho seja aprimorado, trabalhar em equipe, ensinando e
Graduação em Pedagogia pela
aprendendo com as experiências de seus colegas. Faculdade Uniararas, (2006),
Especialista em Musicoterapia
Um educador que gosta do que faz e é bom, manifestam- pela Faculdade Campos Elíseos
(2018). Professor de Educação
se com mais facilidade nas escolas que possuem condições Infantil e Fundamental I na CEI
adequadas para apoiar seus esforços, no qual criam um Parque Edu Chaves.
ambiente de extrema colaboração.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO
NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA
RESUMO: Atualmente a sociedade que vivemos enfrenta constantes mudanças em todos
os contextos, a educação contemporânea e os docentes buscam estratégias para modificar a
educação tradicional. Com os avanços tecnológicos a educação busca encontrar maneiras para
atender as demandas da sociedade moderna. E diante de inúmeras mudanças o professor tem
o papel importante de mediador, que busca despertar o interesse proporcionando desafios na
sala de aula. O discente precisa estar consciente sobre sua importância na transformação da
sociedade em que vive, precisa estar preparado para ser o protagonista da sua própria realidade.
E diante desses fatores o docente busca conhecer a realidade social dos alunos e da comunidade
escolar e o planejamento participativo é uma estratégia que permite ampliar esse conhecimento,
proporcionando aos alunos exercer suas opiniões, emoções e realidade, através de discussões
coletivas promovendo a formação de cidadãos pensantes, transformadores e conscientes da sua
responsabilidade para construção de uma sociedade mais digna e justa para todos.

Palavras-chave: Protagonista; Realidade Social; Planejamento Participativo;

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO para atender as reais necessidades de ensino


e aprendizagem.
Atualmente, compreendemos a
importância de inserir os educandos e suas Compreendendo a importância do
realidades sociais nos conteúdos aplicados conhecimento dos educadores na real
nas aulas, integrar os alunos no processo de necessidade de aprendizagem dos
construção do próprio aprendizado. educandos, o objetivo do planejamento é
buscar maneiras de introduzir o aluno na
Para conhecer as necessidades dos alunos elaboração do próprio processo de ensino,
é importante que o docente conheça suas através do planejamento participativo.
realidades e necessidades e para que isso
aconteça, o professor precisa realizar um O planejamento participativo tem como
planejamento que permita destacar as metas, principal objetivo uma tomada de decisões
objetivos e o papel social na escola. com uma visão integrada de todos os
envolvidos na comunidade escolar.
E para que haja sucesso ao incluir
suas necessidades de aprendizagem, é Ressaltando a importância em aguçar em
indispensável que o docente conheça as reais nossas crianças e jovens o protagonismo,
experiências de vidas dos seus alunos, e do que desenvolvimento da autonomia e o exercício
o mesmo observa e participa na comunidade da cidadania, ao promover diálogos, reflexão
que está inserido, um instrumento que pode e discussões coletivas, visando constituir
auxiliar o professor nesse conhecimento valores, criticidade e transformadores da
é analisar minuciosamente o Projeto própria realidade.
Político Pedagógico da escola, que possui
informações sobre a comunidade e sobre os
objetivos da escola para esses alunos. A INFLUÊNCIA DO PROJETO
POLÍTICO PEDAGÓGICO
O projeto político pedagógico é um
documento que auxilia diretamente na PARA O PLANEJAMENTO
elaboração do planejamento de ensino, porém ESCOLAR
constitui-se em um processo elaborado para
atender as necessidades da escola como um De acordo com Freitas (2015), o PPP se
todo, e cada turma possui sua particularidade tornou uma exigência dos artigos 12, 13,
e cada aluno sua individualidade, por isso o 14 e 15 da LDB/96, que estabelece que a
planejamento de ensino é importante, pois escola deve elaborar o PPP para que se dê
consegue envolver o cotidiano do aluno uma identidade para a escola, envolvendo os
diretamente com o professor e o mesmo é docentes, discentes, administradores, pais e
capaz de interagir e colocar em ação planos servidores. Que busca juntar a comunidade

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Revista Educar FCE - Março 2019

para a construção democrática do projeto O Projeto Político-Pedagógico visa


escolar. descentralizar e atribuir autonomia
para a comunidade escolar, refletindo
A participação de toda comunidade coletivamente sobre os problemas e
escolar para realizar a construção do PPP, é necessidades da escola, compreendendo a
de grande importância pois os funcionários, realidade social da comunidade, e através
os alunos, as famílias e a comunidade das decisões elaborar o projeto, que deverá
interferem diretamente no cotidiano escolar, ser colocado em prática diariamente na sala
e através de reflexões dessa comunidade o de aula, portanto o docente precisa inserir
projeto elaborado será capaz de retratar a essas necessidades e conhecimento da
realidade global da comunidade escolar e a comunidade no seu planejamento escolar,
equipe terá conhecimento dessa realidade para contribuir diretamente com o PPP.
em todos os seguimentos.

Segundo Veiga (2005), o Projeto Político- O PLANEJAMENTO


Pedagógico precisa estar articulado ao PARTICIPATIVO
compromisso e interesse reais e coletivos
da população, e deve considerar como De acordo com Santos, Ferri e Macedo
um processo para permanente reflexão (2012), a sociedade contemporânea regida
e discussão dos problemas da escola, pelo conhecimento, pela tecnologia e pelo
propiciando uma vivência democrática consumo, rompeu muitos paradigmas
de decisões, com participação de toda pedagógicos e colocou as escolas diante de
comunidade escolar e o exercício da novos desafios a serem enfrentados para
cidadania. que respondam as expectativas sociais e
potencializar o princípio de aprendizagem
Para Veiga (2005), alguns princípios devem para todos, abordando diferentes áreas
nortear a construção do PPP da escola e ciências, permitindo reflexões mais
democrática, pública e gratuita. A igualdade completas, complexas e críticas a educação
de condições de acesso e permanência e a sociedade.
na escola, a qualidade de ensino, não ser
privilegio de minorias econômicas e sociais, a Para Gandin (2011), os tipos de
gestão democrática que abrange dimensões planejamento que os coordenadores
pedagógicas, administrativas e financeiras, pedagógicos geralmente encontram, são
ser um compromisso na construção coletiva repetitivos e sem sentido (apenas para
para repensar os problemas da escola, satisfazer as formalidades burocráticas
liberdade e autonomia para construir da instituição), mas quando pensamos na
a identidade escolar e a valorização do educação escolar como um processo de
magistério através da formação continuada. (re) construção social e de formação do

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Revista Educar FCE - Março 2019

ser humano, buscamos um planejamento democráticas, com participação, interação,


comprometido com as ideias de transformação cooperação e responsabilidade, buscando
social, que constitui como ferramenta para promover as transformações necessárias
definir e transformar as realidades. almejadas no Projeto Político-Pedagógico.

Atualmente a sociedade que estamos O Planejamento Participativo é um


vivendo, os valores estão em crise, relações processo de organização do trabalho coletivo
sociais são injustas e apenas uma pequena da comunidade, onde a realidade da escola
parte da população participa do poder, se deve ser pensada e planejada, a participação
idealizarmos uma sociedade mais ética, de todos os envolvidos para decisões,
humana, solidária e justa, precisamos nos garante um debate democrático e favorece
preocupar com a construção de cidadãos, a execução dos compromissos construídos,
capazes de julgar a realidade e interferir de a participação deve ser entendida como
forma crítica e consciente Gandin (2011). um processo de aprendizagem que visam
a formação do cidadão e uma escola
De acordo com Ganzeli (2000), nos verdadeiramente democrática Ganzeli
últimos anos com os avanços das políticas (2000).
educacionais que visam a descentralização,
a gestão da unidade escolar passou a Nesse processo coletivo de pensar a escola,
faz-se necessário refletir sobre os indicadores
receber mais atenção e ampliar mais as educacionais: taxa de reprovação, taxa de
suas responsabilidades para a melhoria da aprovação, evasão escolar, rendimento dos
qualidade de ensino, através do processo alunos nas avaliações, nível de proficiência
dos alunos nas avaliações externas, índice
de planejamento que incorpore toda a de aproveitamento dos alunos nas aulas de
comunidade escolar. recuperação paralela, entre outros, que como
Para Ganzeli (2000), o planejamento é elementos técnicos próprios do processo
ensino aprendizagem sinalizam as dificuldades
caracterizado pelo processo contínuo de apresentadas pelos alunos no processo e
planejar, acompanhar, avaliar e replanejar. que servem para tomada de consciência e
Realizar um levantamento dos problemas encaminhamento de ações para sua superação
e, consequente obtenção do sucesso escolar de
que envolvam a comunidade escolar e que todos. (SANTOS, FERRI E MACEDO 2012, p.
afetam diretamente a escola, e após analisar 180)
com a colaboração de todos, refletindo e
discutindo sobre soluções propostas para Diante das complexas tarefas, dispondo
resolução desses problemas. com a colaboração e a participação coletiva
de toda comunidade escolar, os sujeitos estão
Para Santos, Ferri e Macedo (2012), o responsáveis pelas reflexões e tomadas de
planejamento é um recurso dialógico e um decisões, a instituição precisa reconhecer o
instrumento de organização do trabalho papel do protagonismo junto à comunidade ao
escolar, que visa empreender práticas promover as práticas democráticas capazes

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Revista Educar FCE - Março 2019

de envolver as pessoas e tornar os objetivos PLANEJAMENTO


comuns para assim causar transformações PARTICIPATIVO NAS AULAS
necessárias para atender as demandas da
sociedade e dos indivíduos que dela fazem DE EDUCAÇÃO FÍSICA
parte. Santos, Ferri e Macedo (2012).
No ensino fundamental II e no ensino
Uma ferramenta necessária e que deve médio, os professores de Educação Física
ser demasiadamente utilizada é a auto enfrentam alguns problemas quanto a
avaliação, que permite conduzir uma melhor participação dos alunos nas aulas, isso ocorre
organização do trabalho escolar, através devido à vários fatores como resistência da
dela será possível reconhecer os pontos pratica esportiva seja por falta de habilidade
fortes (potencialidades) e os pontos fracos ou afinidade ou até mesmo dificuldade em
(fragilidades) e utilizar indicadores de interagir com outros colegas.
metas a serem alcançadas, organizando as
expectativas, necessidades e atividades a Observando essas dificuldades
serem concretizadas. encontradas pelos docentes, o objetivo do
presente trabalho foi realizar uma revisão
bibliográfica que buscasse estratégias para se
aproximar da realidade dos alunos, e também
compreendesse as verdadeiras necessidades
de aprendizagem dos estudantes, através de
discussões e decisões, objetivando torna-los
protagonistas do processo de aprendizagem.

Com o intuito de minimizar essa falta de


interesse em participar das aulas, que são
de grande importância não somente para
o aprimoramento do acervo motor, mas
também para ampliar a diversidade cultural
através da cultura corporal de movimento.

Para Collier (2014), encontrou a


necessidade em buscar novas propostas
na educação física escolar, que considerem
as experiências e anseios dos alunos e da
sociedade, que valorizem o seu contexto
cultural e proporcionem conhecimentos que
colaborem com a conquista de uma melhor

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Revista Educar FCE - Março 2019

qualidade de vida no sentido de igualdade e importância em construir um currículo


democracia. escolar que valorize a igualdade, os direitos
sociais, a justiça social e a cidadania. E para
Os docentes buscam estratégias para propiciar reflexões nos alunos utilizou a
aproximar os alunos e ampliar o interesse em metodologia do planejamento participativo
participar efetivamente das aulas, discussões para organizar por conteúdo a disciplina de
e decisões, e para Collier (2014), a tentativa educação física, proporcionando aos seus
pedagógica aplicada nas aulas de educação alunos uma vivencia democrática, onde o
física foi o planejamento participativo, com mesmo é o responsável pelas consequências
intuito de atuar no processo de transição do das suas escolhas.
indivíduo passivo para o cidadão participativo
que contemplem a diversidade cultural com De acordo com Ott (1984 apud BOSSLE
ações que estimulem o envolvimento e a 2002 p.32) faz referência a três fases do
responsabilização nos processos de decisões. planejamento. A primeira tem como objetivo
atender as atividades da aula. A segunda é
Para Brasil, Corrêa (2011), inquietações instrumental, relacionada a solucionar os
relacionadas ao planejamento permeiam a problemas como falta de produtividade
pratica docente, uma dessas inquietações da educação escolar. A terceira é a fase
é a percepção dos alunos, por esse do planejamento participativo que busca
motivo questionamentos do por que não a mudança do modelo de reprodução, e
dialogar, planejar, ouvir e construir juntos o visa a valorização da construção coletiva,
planejamento, transformando-o numa ação participação e formação da consciência
coletiva e significativa para todos, através da crítica a partir da reflexão sobre a pratica
elaboração e implementação da proposta do transformadora.
planejamento participativo.
De acordo com Venâncio, Darido
Para Souza, Freire (2008), o planejamento 2012, a escola vem envolvendo praticas
participativo é visto como uma estratégia fragmentadas, individualizadas e
para aumentar o interesse dos alunos, reafirmadoras de uma sociedade injusta
utilizando esse recurso o estudante se sente e sem propósito para operar mudanças
pertencente à proposta de ensino e incluso necessárias. Responsabilizando a escola
nas decisões dos conteúdos que serão pelo compromisso político e pedagógico de
abordados em aula. garantir a educação de qualidade, visando
a busca da autonomia crítica e coletiva,
Collier (2014), a fim de resgatar na possibilitando os alunos de transformar a
sociedade atual o direito de todos de terem sociedade em que vivem.
uma vida com necessidades vitais, sociais
e históricas satisfatórias, compreende a

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Revista Educar FCE - Março 2019

Inicialmente o planejamento, tem como Na proposta desenvolvida por Brasil,


principal objetivo dialogar com o projeto Corrêa (2011), com o objetivo de
político pedagógico, uma vez que o mesmo implementar a proposta de planejamento
é a identidade da escola e uma exigência da participativo no ensino fundamental I,
LDB/96 e deve contar com o envolvimento foram encontradas algumas dificuldades em
dos docentes, discentes, administradores, relação ao tempo de aula (1 vez por semana),
pais e servidores visando a autonomia da resistência e aceitação do diálogo (os alunos
unidade escolar. caracterizaram as discussões como perda
de tempo, o que é compreensível, uma vez
Considerando que o PPP é construindo que esse tipo de abordagem precisa ser
através de proposta coletiva da unidade incentivado para tornar o diálogo um hábito).
escolar, que priorizam atingir os alunos de
forma coletiva. O planejamento de ensino Na participação e envolvimento no relato
tem como objetivo a individualidade dos de Brasil, Corrêa (2011), foi observado que
estudantes e atender as necessidades os alunos estão habituados a cumprirem
de aprendizagem, utilizando métodos de o que lhes é imposto, e alguns se sentem
sondagem e observação. inibidos em opinar, discutir e participar, afinal
esse tipo de processo deposita no aluno
Destacamos também a importância da uma responsabilidade com o grupo, sobre
construção e transformação das diversidades a conscientização e importância em tomar
incluídas no ambiente escolar, por isso decisões coletivas, despertando a criticidade
é necessária uma estratégia que consiga e reflexão, mas diante dessas dificuldades
alcançar o desenvolvimento coletivo na sala fica visível que essa construção precisa ser
de aula, com reflexões, discussões e decisões estimulada.
que visam solucionadas nas aulas.
Atualmente, enxergamos a necessidade
O planejamento participativo tem a da transformação e adequação dos métodos
capacidade de atuar em diversas propostas, tradicionais, se no momento atual proposito
desempenhando de maneira ativa a ação e é contribuir para formação de cidadãos
o protagonismo desses alunos, aumentando críticos, protagonistas transformadores da
o senso crítico e o respeito com culturas realidade social, cabe ao docente desenvolver
desconhecidas, compreendendo a uma proposta onde os alunos tenham
importância do conhecimento para alcançar voz para atuar funções na própria escola
o respeito às diferenças e valorização que exponham suas ideias, atuando como
dos valores, acabando com discursos mediador e incentivador desse processo
preconceituosos, rótulos e discriminatórios. educacional.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Na proposta de planejamento participativo realizada por Correia (1996) para alunos do 2º


grau, utilizando o conceito de cultura corporal e temas como dança, lutas, ginástica, jogos
e etc, o objetivo foi discutir o papel da disciplina e apresentar aos alunos temas para que
os esmos pudessem sugerir e opinar nas atividades. Através de debates, discussões e o
processo de votação para iniciar a construção do projeto, buscando proporcionar aos alunos
processo de decisão, organização e avaliação.

Correia, Freire (1996), após vivenciar o processo apresentou algumas vantagens:


participação e motivação dos alunos, valorização do componente curricular por parte dos
alunos e direção. Desvantagens: desgaste pessoal como providenciar maior diversidade de
materiais. O processo tinha como objetivo crianças e adolescentes, proporcionando a eles
entendimentos sobre a realidade, autonomia, reflexão crítica nas escolhas e tomadas de
decisões do próprio processo educativo para a formação da cidadania.

Portanto, para Brasil, Corrêa (2011), o planejamento participativo apresenta-se como uma
pratica incentivadora de ações protagonistas, mas, contudo, apresenta diversas dificuldades
como resistência ao diálogo e participação efetiva de todos, se considera um processo de
construção que deve ser conquistado, possibilitando uma educação democrática e que
tornem os alunos transformadores desse processo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Planejamento Participativo nas aulas de Educação
Física, mostraram ter alguns pontos negativos entre eles
o desgaste do professor em buscar referências, vídeos e
conteúdo teórico para atender a sugestões dos alunos nas
atividades e conteúdos das aulas, o que não parece ser
negativo quando observado de outra maneira, pensando que
essa tarefa irá agregar conhecimento do docente e também
dará oportunidade de vivenciar, conhecer e aprender com
seus alunos. Outro ponto negativo discutido no artigo é a
falta de participação e comprometimento de alguns alunos ALDIVÂNIA SANTOS DO
nas discussões e tomadas de decisão, porém esse fator NASCIMENTO
precisa ser desenvolvido, uma vez que é uma novidade e
Graduação em Educação Física
eles não estão preparados a essa responsabilidade, o que pela Universidade Nove de Julho
resultará em momentos de reflexão sobre as discussões (2012); Especialista em Fisiologia
quando se deparem com situações insatisfeitas e do Exercício Aplicada a Clínica
médica pela Universidade Federal
compreenderá que foi o responsável pelas escolhas. Porém de São Paulo (2014) Professor de
as vantagens sobressaem, com o planejamento participativo Ensino Fundamental II – Educação
é possível desenvolver aspectos que construam uma Física - na EMEF Professor
Ernesto de Moraes Leme.
escola democrática, com a comunidade escolar envolvida
ativamente, um maior interesse dos alunos nas aulas e ainda
o despertar do protagonismo, a formação da cidadania, do
individuo com autonomia e com consciência critica sobre a
transformação a sociedade atual suplica.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DA FORMAÇÃO DO
EDUCADOR PARA A OFERTA DE UM
ENSINO DE QUALIDADE
RESUMO: O presente artigo discorre sobre a formação dos educadores, refletindo sobre
a importância de uma formação qualificada no contexto escolar, permeada de práticas
pedagógicas adequadas que favoreçam a construção do conhecimento e aquisição de
aprendizagens significativas dos educandos. Inicia, refletindo sobre a formação do educador,
pontuando aspectos que a caracterizam como uma capacitação profissional. Em continuidade,
explana sobre a formação continuada como um tipo de formação necessária para manter o
educador contextualizado com as mudanças sociais, favorecendo práticas pedagógicas que
tragam conteúdos que atendam às necessidades reais dos educandos. Em sequência, pontua
a relação existente entre a formação e a prática pedagógica dos educadores no cotidiano
escolar, frisando sobre a importância de uma formação adequada que traga melhorias na
qualidade de ensino ofertado aos educandos. Por objetivo, o artigo traz uma compilação de
argumentos que com o intuito de favorecer uma reflexão-crítica sobre a importância de uma
formação qualificada na capacitação do educador. Como metodologia traz uma revisão de
literatura.

Palavras-chave: Formação; Qualificação; Educador.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO Neste contexto, este artigo servirá como um


importante contribuinte para a compreensão
O presente artigo disserta sobre a sobre uma formação inicial e/ou continuada
importância de uma formação qualificada qualificada, visando o desenvolvimento
dos educadores, capacitando-os para dos educandos nas diversas vertentes que
enfrentamento dos desafios que a sociedade o compõem (cognição, motricidade e sócio
tem apresentado, em virtude das velozes afeição).
transformações que inferem na constituição
das necessidades dos educandos. Como objetivo, o artigo apresenta uma
compilação de argumentos, visando a
A formação do educador é um requisito possibilitação de uma reflexão sobre o
fundamental para capacitar o indivíduo impacto da formação do educador nas
para ministrar aulas nas etapas básicas. Esta práticas pedagógicas e, consequente,
formação deve trazer subsídios diversos para desenvolvimento integral dos educandos.
que o educador compreenda a necessidade
dos seus educandos nos moldes em que se Para composição do teor do
encontra a sociedade nos dias atuais. Dessa desenvolvimento do artigo, foi utilizada a
forma, se torna perceptível que os momentos metodologia de revisão de literatura com
de formação educacional tenham como base análise crítica-reflexiva de artigos científicos
o perfil dos educandos contemporâneos que dissertam parcial ou integralmente
com análise sobre as práticas pedagógicas sobre a temática, trazendo uma abordagem
que sejam adequadas a construção de um qualitativa.
conhecimento que possa ser usufruído nas
relações de educando em sociedade.
FORMAÇÃO INICIAL E
A massificação na oferta de cursos CONTINUADA
superiores de licenciatura tem feito com que a
qualidade desta formação esteja diminuindo, A ação do educador, segundo Ferreira
não capacitando adequadamente os (2010), perpassa aprendizagens tecnicistas,
educadores. Com essa desqualificação conceituações e metodologias, requerendo
das práticas pedagógicas, os educandos que este se envolva de forma inter-
se deparam com conteúdos e dinâmicas relacionada com o currículo e planejamento
de aula que não atingem seus interesses, e prime pela capacitação das soluções de
não possibilitando a educação atingir seu problemas relativos a um contexto escolar
objetivo de desenvolvimento integral e que surgirão no futuro.
formação cidadã dos educandos.
De acordo com Bezerra e Medeiros (2016),
a formação não pode ser baseada em modelos

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Revista Educar FCE - Março 2019

de resoluções de problemas, mas sim, deve por objetivação o incentivo ao educador a


trazer a proposição de estratégias variadas apropriar-se de saberes que vão de encontro
que façam com que o educando pense em a uma autonomia, mediante uma prática
possibilidades de ações, mediante a análise, crítica-reflexiva. Nesta formação constante
a reflexão e a atuação, por meio de um dos educadores, o movimento fundamental
professor mediador que traga experiências é que eles consigam compreender a
e práticas que favoreçam a formação deste importância de uma reflexão crítica na sua
indivíduo. prática pedagógica. Com isso, o educador é
capaz de refletir sobre os pontos positivos
Na formação inicial, o educador, segundo e negativos da sua prática e reformulá-la,
Ferreira (2010) deve ser estimulado a uma a fim de melhorar cada vez mais o dia a dia
reflexão sobre mudar os paradigmas pré- da sala de aula. Infelizmente, na atualidade
existentes. Neste contexto, o educador deve é possível observar que alguns educadores
adquirir um conhecimento de formação se distanciam da reflexão de sua prática,
profissional que influa em uma formação de utilizando de metodologias teóricas que,
vida com modificações que, por vezes, são por vezes, não atendem às necessidades dos
lentas, pois necessitam experiências práticas. educandos.

Em relação à formação continuada, Por mais que o processo de formação


conforme Cunha (2013), esta é fundamental continuada ainda seja recente, como
para que existam iniciativas sobre uma prática cita Ferreira (2010), tem ganhado mais
relacionada a teoria aprendida na formação visualização da contemporaneidade, devido
inicial, que vai se reestruturando de acordo ao acompanhamento do desenvolvimento
com o tempo profissional dos educadores. mundial e suas modificações. Com isso,
Este tipo de formação pode ter formatos é perceptível que a formação continuada
e durações diferenciadas, tornando-se um permite o desenvolvimento de aptidões
processo de qualificação e capacitação do e valores relativos ao progresso social do
educador. Ela pode ter origem na iniciativa indivíduo e do meio em que ele está inserido,
dos próprios educadores quando eles buscam favorecendo reflexões sobre as tomadas de
formas de aprimorar-se, assim como pode ser decisões.
menos reativa de programas institucionais.
Dessa forma, a formação continuada pode Ao participar da formação continuada,
ser de responsabilidade das instituições Ferreira (2010) coloca que o educador passa
de ensino, assim como, das universidades, por um processo em que a curiosidade
sendo o agente mobilizador desta formação. o motiva a saber mais, mantendo uma
motivação por aprender a compartilhar
Freire (1996 apud Bezerra; Medeiros, esses conhecimentos que vem adquirindo.
2016) coloca que a formação continuada tem Dessa forma, é possível perceber a inovação

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Revista Educar FCE - Março 2019

educativa, na qual uma pesquisa educativa ser articulada com a sociedade em que os
realizada, mediante a observação da prática educandos estão inseridos, contribuindo
e da sua origem em virtude das necessidades para o desenvolvimento integral e formação
dos educadores, junto a educação, possibilita cidadã dos mesmos.
um novo rumo, novas resoluções de situações
problemas e incentivo ao educador que se Portanto, Bezerra e Medeiros (2016)
encontra inserido em um meio de trabalho evidenciam que qualquer programa de
atrelado as modificações sociais. formação continuada possibilita que o
educador esteja em constante construção,
Para desenhar melhor esta assertiva, por meio da articulação de teoria e prática.
Medeiros Bezerra e Medeiros (2015) Sendo assim, a formação continuada
afirmam que as ideias voltadas à formação tem como característica tendências que
continuada são vistas como um processo enriquecem o desenvolvimento e capacitação
único, apontando para a importância de profissional do educador.
avançar e criar novos paradigmas em que
o educador efetive-se continuamente no Segundo Azevedo e Magalhães (2015), a
processo de capacitação e qualificação da formação continuada é inerente ao trabalho
formação inicial, melhorando sua prática profissional do educador, se tornando parte
profissional, por meio de saberes inovadores de um processo de formação que ocorre
com articulação entre eles e a sua carreira durante toda a carreira e atuação profissional
profissional. com a utilização de pesquisas, produções
teóricas, realizações de cursos, inovações
A formação continuada, para Solarevicz práticas contextualizadas no ambiente em
(2018), é apontada como um importante que atuam, constituindo um procedimento
caminho para que a educação atinja a que complementa a formação inicial.
qualidade almejada. Neste contexto, Com isso, é perceptível que a formação
Ferreira (2010) coloca que compreende o continuada deve estar presente nos cursos
processo de formação continuada como formais e informais, com o intuito de suprir o
uma capacitação que surge para apoiar distanciamento entre teoria e prática, sendo
o educador na sua rotina diária no que observada uma metodologia de ensino
concerne as estratégias metodológicas de adequada que atenda às necessidades do
ensino e uma prática pedagógica adequada educando, com modificações relativas ao
que deve ser desenvolvida em articulação estudo de produção de novos conhecimentos
com os educadores e profissionais das relacionados às demandas econômicas sociais
instituições, contribuindo para o trabalho tecnológicas e cultural da humanidade.
do educador. Esses aspectos trazem
contribuição positiva, de forma a destacar Ainda na ótica de Azevedo e Magalhães
que a educação necessita ser modificada e (2015), é perceptível que o educador

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Revista Educar FCE - Março 2019

tem na formação continuada um subsídio que garante a formação continuada para os


para crescer profissionalmente e que as educadores, objetivando a continuação da
experiências que vivenciam no dia a dia fazem valorização das experiências profissionais que
parte da constituição da sua identidade necessitam de momentos que possibilitem a
docente. Isso é possível observar porque os reflexão e troca de ideias, que favoreçam a
educadores que se encontram inseridos em continuação da construção de conhecimento
instituições escolares por bastante tempo, acadêmico. Sendo assim, um bom educador
apresentam conceituações e as representam deve estar atualizado, conhecendo as
na prática pedagógica diária com um ensino transformações e informações que estão
que o caracterize. Tais vivências servem como à tona na sociedade, permitindo que essa
uma base para reflexão do que é possível capacitação seja permanente e infira na sua
melhorar para a próxima prática pedagógica, identidade profissional.
favorecendo uma qualificação no ensino
e uma capacitação profissional que traga Segundo Ferreira (2010), as instituições
projetos na trajetória docente, facilitando trazidas pelos gestores da escola devem
a construção de novas concepções, novas propiciar espaços onde essa formação
atitudes e valores sobre a docência. continuada ocorra maximizando o
desenvolvimento profissional dos seus
A formação continuada, para Azevedo educadores, sendo esta uma das melhores
e Magalhães (2015), não deve suprimir a formas de elevação da qualidade de ensino,
formação inicial, pois a formação inicial é a servindo como um incentivo ao educador e
base para o exercício profissional qualificado, permitindo que os educadores tenham um
enquanto a formação continuada traz as crescimento profissional.
múltiplas possibilidades de inter-relacionar
essa teoria com a sociedade em que os Dessa forma, é possível afirmar que
indivíduos estão inseridos, favorecendo a formação do educador não ocorre de
o atendimento das necessidades dos forma a acumular cursos, conhecimentos
educandos, devendo ser valorizada por um e técnicas, não desvalorizando esses
comportamento que incida em mudanças instrumentos na qualificação profissional
para o coletivo na construção da nação. do mesmo, mas é necessário que haja uma
reflexão sobre a prática pedagógica diária e
Ferreira (2010) pontua que não existe sobre a sua identidade pessoal e profissional,
formação definitiva, mas que ocorre um elencando as dificuldades que favoreçam a
processo de atualização constante e que busca de uma significação interior das suas
não se finda de forma fácil. Essa constante aprendizagens e do que aprende com a sua
reflexão reorienta e reavalia o diálogo entre prática pedagógica.
teoria e prática. Ainda na ótica do autor,
existem legislações como a LDB 9394/96

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Revista Educar FCE - Março 2019

FORMAÇÃO DOCENTE como a sua primeira base para uma prática


pedagógica. Dessa forma, reconhece-se que
Para Azevedo e Magalhães (2015), o ensino o indivíduo, na capacitação de educadores,
pode ser compreendido como um vício que tenta legitimar um repertório científico que
traz apoios a construção do conhecimento, construa e elabore uma formação adequada
mediante as experiências acumuladas nas para a prática pedagógica. Neste contexto,
práticas sociais e coletivas dos educadores. a formação continuada serve como uma
O saber-fazer profissional tem se relacionado ferramenta de especialização do educador,
com uma prática pedagógica que utiliza onde é possível verificar a luta por novas
a teoria sem nenhuma modificação, de significações diante das novas competências
forma mecânica, na sua prática pedagógica. que os educadores vão assumindo na
Este educador vai construindo ao longo sociedade contemporânea, favorecendo um
da sua carreira experiências e vivências saber-fazer que atenda às necessidades dos
que o permitem remodelar os esquemas educandos.
práticos apreendidos na formação inicial,
combinando-as de uma nova forma que A formação de educadores, segundo
favoreça as aprendizagens dos educandos, Azevedo e Magalhães (2015) reflete na
mas nem sempre isso é observado. Com isso, formação do educando, que deve servista como
é visível a necessidade de inter-relacionar uma formação que prime pelo crescimento
o pensamento e a ação, ou seja, a teoria e de sujeitos com autonomia. Porém, essa
a prática, adequando-as às necessidades formação encontra-se comprometida. Dessa
apresentadas pelo grupo em que o docente forma, é fundamental resgatar o conceito
está atribuído. Refletindo sobre a docência de autonomia defendida por Freire (1996
como uma formação profissional complexa, apud Azevedo; Magalhães, 2015) em que o
na qual os movimentos que a constituem autor coloca que a autonomia é um princípio
e a literatura específica da área trazem pedagógico para uma educação libertadora.
conformidade com propostas legalistas, que Essa educação deve propiciar as melhores
apresentam textos de redução a função do condições do educador e dos educandos
educador a parâmetros pré-moldados, leva- de desenvolver-se dentro da subjetividade
se a um questionamento sobre a legitimação e das representações de mundo, assim
das universidades como o espaço ideal de como, favorecer a construção e defesa
formação para o educador. argumentativa a partir dessa visão construída
do mundo. Sendo assim, formar perpassa o
Os pressupostos teóricos e metodológicos treinar o educando no desenvolvimento das
apresentados por Bezerra e Medeiros suas capacidades e habilidades, devendo
(2016) tem influência na forma de pensar ser visto como um domínio da decisão da
e fazer dos educadores, que adquirem avaliação da liberdade, da ruptura, da opção
as informações dos cursos universitários que são instaurados diante da necessidade

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Revista Educar FCE - Março 2019

de aquisição de valores éticos que se impõe como sujeito da sua prática pedagógica.
as responsabilidades. Dessa forma, refletir a formação continuada
é considerar os saberes constituídos dos
O local de formação, segundo Cunha educadores e os elementos específicos de
(2013), antigamente, era visto como um suas práticas pedagógicas.
espaço de formação único e posto que
com o tempo solicitou análises sobre É fato, como citado por Solarevicz (2018),
estratégias políticas que permitissem que que mudar é difícil e essa rebeldia apresentada
o docente verificasse aquele espaço como pelos educadores é o ponto de partida que
um embasamento fundamental para a sua mais atrapalha na evolução e capacitação do
prática pedagógica profissional, trazendo a profissional da educação. A mudança é difícil,
necessidade de modificações e acréscimos mas ela é possível. Portanto, o educador
de contingências que reformulassem essa atual deve conscientizar-se da necessidade
formação de uma maneira mais atual de de mudar, visualizando que a preservação
acordo com as necessidades sociais do de suas ações concretas não o engrandece
próprio educador, favorecendo as interações profissionalmente. Dessa forma, a educação
humanas e interações com o meio. deve modificar as suas concepções de
que o fracasso dos educadores que estão
Para Solarevicz (2018), é fundamental intimamente relacionadas apenas a sua
compreender o educador como um prática em si.
intelectual que procura sua própria
qualificação e capacitação por meio da sua Portanto, torna-se fundamental que o
formação. Porém, a formação acadêmica não educador se conscientize que existe grande
tem dado conta de suprir as necessidades importância em sua formação inicial e em
que o educador encontra em sua prática. sua formação continuada, servindo como um
Assim, existe uma credibilidade em relação instrumento de progresso contemporâneo
a importância do educador buscar novas na educação, favorecendo modificações
formas de conhecimento não apenas para nas formas de construção de conhecimento
repassar os conteúdos, mas para atuar como e atendimento das necessidades dos
um mediador do processo de aprendizagem educandos. Dessa forma, entende-se que as
dentro do ambiente escolar. aulas precisam apresentar-se de maneiras
diferenciadas para favorecer a motivação
Segundo Bezerra e Medeiros (2016), do educando e permitir a aquisição de
considerar o educador como sujeito da sua aprendizagens significativas e construção de
história significa dar a ele instrumentos conhecimento.
para uma atuação sobre a sua prática
que envolva todos os momentos de uma Isso pode ocorrer mediante a utilização
formação, permitindo que seja reconhecido de estratégias que favoreçam uma dinâmica

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Revista Educar FCE - Março 2019

de ensino mais adequada. Sendo assim, a que favoreçam reter ou rejeitar o velho diante
facilitação da aprendizagem dos educandos da sua reflexão de utilidade no novo. Solarevicz
leva o educador a refletir sobre sua prática (2018) acrescenta que ensinar traz exigências
pedagógica, propiciando que modifique as do educador sobre aceitar o novo e rejeitar o
estratégias de ensino, trazendo aplicação de que não é mais adequado à atualidade. Coloca,
instrumentos que favoreçam a articulação ainda, que a qualidade inerente ao educador
entre os conhecimentos passados e a sua está na inter-relação pessoal, onde deve
utilização social. atuar contra qualquer tipo de discriminação e
preconceito entre os indivíduos.

FORMAÇÃO QUALIFICADA Essa formação para humanidade segundo


Solarevicz (2018), possibilita a reflexão sobre
Na sociedade contemporânea existem a diferença entre dizer “que não sabe, mas
modificações, adaptações, atualizações e que pode aprender” ou “vou mentir afirmando
aperfeiçoamentos para que o educador que conhece para não perder a pose”. O bom
consiga atender as demandas dos educandos. educador, com certeza optará pela primeira
Neste sentindo, quem não está se atualizando resposta, porém o educador despreparado
não está favorecendo uma educação adequada e que não tem a vontade de aprender e
aqueles educandos que possuem contato atualizar-se sobre novidades sociais, utiliza
diário com o educador. Segundo Solarevicz essa primeira frase com constância. Neste
(2018), é possível que a globalização, a contexto, Solarevicz (2018) pontua que o
informática e todos os meios de tecnologia educador não é um sujeito omisso, mas sim
modernos se torne um desafio para aqueles um sujeito optativo, sendo da opção do
que se formaram há décadas, porém, essa educador buscar o novo conhecimento ou
tecnologia está inserida na formação dos não, mantendo-se atrelado a formas de ensino
educandos na atualidade. Este é apenas um que não condizem com as demandas sociais.
exemplo da importância de que o curso de
formação dos educadores, pensando sobre Segundo Solarevicz (2018), ao ensinar
a formação inicial, deve ser reestruturado é necessário o segmento de alguns
constantemente em uma formação critérios, nos quais um desses critérios
continuada que favoreça a reflexão sobre as abordados significa que ensinar necessita
novas tendências sociais, possibilitando que de um rigor metódico. Porém, esse rigor
entre no universo do educando e ofereça, a não está atrelado, simplesmente, ao
este, formas de construir um conhecimento ensino e explanação de conteúdos, sendo
que seja adequado à sua prática futura. correlacionado a possibilidade do educador
favorecer ao educando o desenvolvimento
O educador necessita discernir para ter uma da criticidade, da capacitação, do pensar
aceitação sobre o novo, utilizando de ações e do pensar correto. Dessa forma, quem

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Revista Educar FCE - Março 2019

ensina a pensar certo, só poderá ensinar Outro ponto levantado por Solarevicz
essa forma de pensamento caso pense desta (2018), significa que educar não é transferir
mesma forma, ou seja, tenha habilidade conhecimentos, onde o autor coloca que o
desenvolvida em si próprio. O bom educador conhecimento necessita ser vivenciado, pois
ensina seus educandos a conhecer e usar este ensinar o correto requer uma atuação exigente
conhecimento para inter-relacionar-se com difícil que necessita ser assumida e defendida.
e no mundo, favorecendo as transformações
sociais para a melhoria desse no coletivo. O educador segundo Solarevicz (2018),
deve ter consciência de que a curiosidade
Em complemento, Solarevicz (2018) pontua move, inquieta e insere o indivíduo na
que não é possível passar da ingenuidade busca de aprendizagens. Portanto, a aula
para a criticidade sem que exista um bom que educador ministrar deve desafiar os
trabalho sendo desenvolvido por meio de educandos e não permitir que se sintam
uma curiosidade crítica insatisfeita com desmotivados pelas apresentações dos
constância de busca do conhecimento. Com conteúdos. Neste contexto, a curiosidade,
isso, o autor quer colocar que o educador se bem estruturada e estimulada, durante
necessita ter conscientização de que ser a prática pedagógica, se torna a principal
ético e agir como tal é fundamental para a fonte de estímulo motivacional dos
observação e reprodução dos educandos educandos. Vale ressaltar que é necessário
em relação à sua atuação. Neste contexto, que o educador saiba lidar com a sua relação
o educador deve ter coragem para assumir de autoridade e liberdade, para que os
seus posicionamentos e modificar-se diante educandos compreendam o seu papel dentro
das atualizações sociais. da escola e dentro da sociedade, diante de
uma postura hierárquica, assim como seja
Ainda na ótica de Solarevicz (2018), perceptível o tratamento de respeito entre
ensinar exige consciência do inacabamento, ambos os indivíduos.
ou seja, o educador não é o dono da verdade,
construindo a sua própria aprendizagem Para Azevedo e Medeiros (2015), ao partir
nas inter-relações com os educandos que do pressuposto que a formação do educador
trazem óticas diferenciadas e favorecem deve orientá-lo a uma prática social crítica,
que o educador consiga visualizar coisas esta formação deve ser centralizada numa
que não via anteriormente. Isso faz parte prática social que estimule a movimentação
da construção de um conhecimento e entre agir-refletir-agir, se tornando a tomada
aprendizagem particular dos próprios de decisões e construção de conhecimento
educadores. Portanto um conhecimento pelo educador.
não se encontra acabado, se construindo,
se atualizando e reformulando a cada passo Conforme Freire (1983 apud Bezerra;
que o educador dá. Medeiros, 2016), a correlação entre teoria e

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Revista Educar FCE - Março 2019

prática se torna um processo articulado com uma práxis, ou seja, onde a ação leva a reflexão,
essa reflexão leva a uma reestruturação e uma nova ação. Isso favorece as mudanças na
forma de pensar e agir do indivíduo. Sendo assim, é importante que a teoria e a prática
estejam constantemente correlacionadas.

De acordo com Bezerra e Medeiros (2016), a práxis significa uma reflexão sobre a prática,
a qual é por uma ação, configurando uma forma circular. Esse processo vai orientando e
desenvolvendo a formação do indivíduo, porém, é necessário refletir sobre a práxis ser uma
atividade, mas nem toda atividade vem a ser uma práxis, pois a relação existente entre
a teoria e prática demonstram que a prática fundamenta a teoria, a teoria conduz a uma
prática, a prática pode ser vista como um critério de verdade, onde você verifica se a teoria
funciona a determinado espaço ou não, porém a prática pode modificar a teoria, mas todos
os elementos da teoria serão necessárias para uma prática.

Articulando a práxis a teoria e a prática é possível observar que a práxis é atividade do


indivíduo de refletir sobre a sua prática, utilizando os seus conhecimentos teóricos ou refletir
sobre a teoria, utilizando da sua prática, porém, quando você realiza uma atividade onde
você não faz esse tipo de reflexão não é possível observar uma práxis, confirmando então
a primeira frase descrita que “toda a práxis é uma atividade, mas nem toda atividade é uma
frase”.

Sendo assim, Ferreira (2010) coloca que a capacitação profissional do educador deve
trazer a valorização e o incentivo ao planejamento com envolvimento de estratégias de
ações onde apresente uma característica de facilitador do processo de ensino-aprendizagem
com o estabelecimento de metodologias que englobem o pensar e estimular, mediante uma
reflexão sobre a sua prática no contexto em que está inserido.

Para Azevedo e Medeiros (2015), a formação do educador não se finda nos cursos de
formação, pois o curso não se torna uma práxis para o futuro educador, sendo que um
curso não é uma prática docente mas é a teoria que este adquire para tentar qualificar a sua
prática docente e realizar a reflexão sobre a adequação dessa teoria na rotina escolar.

Dessa forma é fundamental centrar a formação educadora nos aspectos relacionados


ao desenvolvimento das competências e capacitação, possibilitando a articulação entre o
ensinar a fazer a prática pedagógica e a reflexão sobre essa atuação do educador, mediante
os resultados positivos ou negativos, apresentados pelo grupo de educandos, favorecendo
uma qualificação profissional que traga consequências a concepção de ensino.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das fontes argumentativas evidenciadas no
decorrer da composição deste artigo, foi possível observar
que a formação é a capacitação e qualificação necessária para
que o educador ministre suas aulas no contexto da educação
formal, devendo ser um instrumento de inovação sobre as
suas práticas pedagógicas que visem o desenvolvimento
integral dos educandos e a formação do cidadão, mediante
o atendimento de suas necessidades no que concerne a sua
atuação em sociedade.
ALECIANE FERREIRA
Isso se tornou visível por causa da verificação que muitos NASCIMENTO DA SILVA
elementos devem ser trabalhados durante o processo de
Graduação em Pedagogia
formação do educador, processo este, que deve ocorrer pelas Faculdades Integradas de
de forma contínua, trazendo subsídios que enriqueçam Ciências, Humanas, Saúde e
e adequem sua prática pedagógica de forma a articular Educação de Guarulhos (2014);
em Letras pelas Faculdades
currículo e interesse dos educandos. Integradas de Ciências, Humanas,
Saúde e Educação de Guarulhos
Dessa forma, a formação vem a engrandecer o educador (2006); Pós-graduada em Língua
e Cultura Portuguesa; Professora
e construir uma identidade que permita sentir-se realizado de Educação Infantil e Professora
ao dar suas aulas. Para isso, torna-se fundamental destacar a de Ensino Fundamental I na rede
necessidade da formação inicial e continuada, pois a primeira Municipal de São Paulo.
traz as bases teóricas e a segunda traz a reflexão sobre a
prática articulando essas duas ferramentas de grande valia
para qualificar o ensino.

Sendo assim, a formação deve ser adequada, trazendo


elementos que contextualizem o educador diante das
concepções de ensino que são defendidas na sociedade
contemporânea, garantindo ao educador um desempenho
favorável a construção de um conhecimento que seja
repassado aos educandos diante de práticas crítica-
reflexivas sobre a função da educação na atualidade.

119
Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

A MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE


APRENDIZAGEM
RESUMO: Esse artigo tem como objetivo trazer como a música pode se transformar num
instrumento muito importante no aprendizado das crianças, pois é uma forma de expressão
dos seres humanos, dentro das escolas a música está perdendo o espaço, sendo necessário
que refletimos sobre nossas práticas para conseguir trazer a música de volta no cotidiano das
escolas. Os professores precisam estudar sobre como a música pode ser trabalhada dentro de
sala de aula com as crianças, tomando sempre o cuidado de experimentar e vivenciar a música.
As crianças adoram trabalhar com músicas, sendo muito importante para o seu desenvolvimento
como um todo, aprendem muita facilidade, podendo com a música demonstrar sentimentos
e vontades, além de trabalhar também a sociabilidade das mesmas, a música trabalha com o
raciocínio lógico, e isso faz toda uma diferença no desenvolvimento das crianças. O professor
precisa buscar base teórica e diferentes atividades, que encaixe na sua sala de aula, ampliando
o campo de sugestões para desenvolver um trabalho sério dentro da sala de aula.

Palavra-chave: Aprendizagem; Desenvolvimento; Educação; Música.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO consideração o contexto sociocultural do local


em que a escola, podendo o professor contar
Os recursos usados para as aulas de música com a participação dos próprios alunos para a
são de natureza lúdica e por meio dos jogos e seleção.
brincadeiras, do nível sensorial, trabalhando o
corpo de maneira natural, atingindo o nível da Para as crianças o trabalho com música
sensibilidade, responsável pelo aprimoramento traz diferentes sensações, melhorando no seu
do trabalho, chegando-se ao nível mental, aprendizado, fazendo com que a sala de aula
momento em que as experiências vividas serão se torne um ambiente prazeroso, aumentando
compreendidas e teorizadas. o interesse das crianças em participar das aulas
como um todo.
É interessante buscar um tema como
fonte geradora, calcado no fato sociocultural, Com esse trabalho será mostrado formas de
começando com a canção que possui todo o como se trabalhar com música pensando na
material para o ensino da música por meio dos melhor formação do professor, especialmente
seus elementos som e ritmo. na educação infantil e nos primeiros anos do
ensino fundamental.
O trabalho com as artes e suas dimensões
requer profissionais dispostos a construir Fazendo com que os educadores
um projeto educacional em que o ensino da desenvolvam uma prática educacional voltada
música esteja interligado com todas as áreas do para seus alunos, tornando-os pessoas
conhecimento, bem como com as descobertas atuantes e críticos.
do mundo atual que se aceleram num processo
muito rápido, levando-se em conta que as Precisamos tomar consciência que
formas de comunicação e expressão do ser nossas atitudes como professores devemos
humano fazem parte da sua história e do seu pensar e repensar nossas práticas, elevando
modo de vida. o conhecimento do professor a respeito das
atividades lúdicas.
O comprometimento com o ensino deve
estar aliado à pesquisa, à função social, ao Devemos ter consciência que só com o
prazer, ao fazer musical e à construção de um estudo sobre determinados assuntos, teremos
mundo no qual as crianças possam conviver poder de mudar algumas atitudes que ao
socialmente com respeito mútuo, espírito passar do tempo foi se enraizando nas escolas
de organização pessoal, com higiene e muita como um todo.
alegria.

A escolha dos temas geradores ficará por


conta do planejamento escolar, levando em

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A LINGUAGEM MUSICAL cavidades de ressonância, fazendo parte desse


esquema a garganta, a boca e o nariz, que além
É importante ressaltar o entendimento de das suas funções primitivas funcionam como
que as linguagens e os códigos são dinâmicos ressonadores, ampliando e enriquecendo a
e situados no espaço e no tempo, com as sonoridade.
implicações de caráter histórico, sócio lógico e
antropológico que isso representa. Temos dois pares de cordas vocais: na
posição superior, as falsas; na posição inferior,
Devemos considerar as relações com as as verdadeiras, com as quais cantamos ou
práticas sociais e produtivas e a inserção das falamos, os bordos internos das cordas formam
crianças como cidadãos em um mundo letrado a fenda glótica, que é o espaço no qual passa o
e simbólico. A produção contemporânea ar.
é essencialmente simbólica e o convívio
social requer o domínio das linguagens como Ao inspirarmos, o ar entra para nossos
instrumentos de comunicação e negociação pulmões, que se enchem. Na expiração, as
de sentidos. pregas vocais cartilaginosas, situadas no
interior da laringe, abrem-se e vibram com a
Atualmente, o mundo está marcado por um passagem do ar, quando os sons são agudos,
apelo informativo imediatista, a reflexão sobre as cordas vocais se aproximam e se esticam;
a linguagem e seus sistemas, que se mostram nos sons mais graves, elas se afrouxam.
articulados por inúmeros códigos e sobre o
processo e os procedimentos comunicativos, Quando falamos ou cantamos, as cordas
é uma garantia de participação ativa na vida se aproximam e mudam o tamanho da fenda
social, a cidadania desejada. glótica, que terá sua espessura conforme a
altura e a intensidade do som a ser emitido,
As crianças vivem uma experiência de num som grave, as cordas vocais ficam mais
modo linear, dia após dia, sua aprendizagem grossas, mais compridas e menos tensas, pois
e a construção do conhecimento têm um a fenda glótica estará mais aberta, num som
curso mental próprio, repleto de reproduções mais agudo, as pregas vocais ficam mais finas,
mentais, reflexões e repetidas representações. mais curtas e mais tensas, de maneira que a
fenda glótica se apresentará mais estreita.

A VOZ HUMANA E A MÚSICA A diferenciação entre uma voz feminina


e uma masculina é a altura natural da voz
A voz humana é resultado dos ruídos e dos que decorre da sua frequência, que por sua
sons musicais que, produzidos no interior vez é, sendo resultado do comprimento das
da laringe pelas vibrações das cordas ou cordas vocais. Os homens por terem as suas
pregas vocais, são ampliados e timbrados nas mais alongadas, têm a voz mais grave que

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Revista Educar FCE - Março 2019

as mulheres e as crianças, sua frequência no música, ao nascer ouvimos diversas canções


canto varia de 80 a 500 vibrações por segundo, de ninar, na infância várias marchinhas e
enquanto a voz feminina varia de 200 a 1400 musiquinhas que nos ensinam deveres,
vibrações, ou às vezes ultrapassa. orientações e ensinamentos, na juventude e
adolescência já temos uma música ou estilo
A frequência mais baixa que pode dar preferido, que vai nos acompanhar pela vida
audibilidade a um tom é mais ou menos entre toda, geralmente as crianças vão escolhendo
20 vibrações por segundo, enquanto a mais seu estilo, por influência dos familiares, cabe
alta esta numa frequência que varia de 10.000 muito à escola introduzir outros estilos de
e 20.000. música para as crianças irem conhecendo,
pois só depois na adolescência que elas
Podemos estabelecer no que se refere poderão procurar estilos diferentes, podendo
ao tamanho e à tensão das cordas vocais ou não escolher outro estilo, fugindo um
comparações entre elas e a construção dos pouco do que ouviam quando pequenos.
instrumentos musicais. Quanto maior for o
instrumento, mais longas, mais espessas e A disciplina de Música foi muito discutida
menos tensas serão suas cordas, resultando e abordada em 2008, fazendo com que o
em sons mais graves. Os instrumentos que MEC (Ministério da Educação), no decreto
produzem sons agudos têm suas cordas mais de Lei nº 11.769, que determinava a música
curtas, mais tensas e mais finas. obrigatória dentro da educação básica
e fundamental, mas isso só apareceu no
papel, por ser muito difícil, tornando essa
ALGUNS ESTILOS MUSICAIS Lei facultativa e inserida em algumas poucas
escolas, utilizando parte das aulas de Artes.
Não basta simplesmente ouvir o som
(um processo fisiológico), para que sejam Em contato com essas produções, o estudante
pode exercitar suas capacidades cognitivas,
formados seres humanos mais reflexíveis, sensitivas, afetivas e imaginativas, organizadas
sensíveis, com senso crítico, “capazes em torno da aprendizagem artística e estética.
de perceber, sentir, relacionar, pensar, Ao mesmo tempo, seu corpo se movimenta, suas
mãos e olhos adquirem habilidades, o ouvido
comunicar-se” além de “apreender e e a palavra se aprimoram, quando envolve
compreender os diversos parâmetros atividades em que relações interpessoais
musicais (timbre, dinâmica, tempo, ritmo, perpassam o convívio social o tempo todo.
Muitos trabalhos de arte expressam questões
forma, etc.)”, sendo necessária uma escuta humanas fundamentais: falam de problemas
ativa, ou seja, estar atento, perceber os sons, sociais e políticos, de relações humanas, de
direcionar a audição conscientizando-se do sonhos, medos, perguntas e inquietações
artísticas documentam fatos históricos,
fato sonoro, sejam eles musicais ou não. manifestações culturais particulares e assim por
diante... (PCN- Arte II).
Mesmo dentro do ventre sentimos a

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Revista Educar FCE - Março 2019

A música tem o poder de adentrar no musicais acaba apresentando uma maior


hemisfério direito e esquerdo do nosso significação para o desenvolvimento da
cérebro, distinguindo sua importância no cognição e a interação entre as crianças.
sentido da razão e da emoção. Para que
ocorra um bom resultado no posicionamento A música estimula o aprendizado, tendo
do professor, pois precisam que o mesmo o poder de despertar a criatividade e a
tenha aptidão, se não seus alunos não atividade infantil, auxiliando a criança no
entenderão o mundo musical, um professor desenvolvimento de suas potencialidades,
apaixonado fará com que seus alunos se auxiliando no uso do corpo por meio de
apaixonem e assim usem os dois lados comunicação e expressão, conseguindo por
do cérebro, facilitando o aprendizado das meio dela alcançar diversos objetivos como:
demais disciplinas. a melhoria da linguagem, da coordenação, da
percepção auditiva, rítmica, das orientações
As artes ficam registradas do lado direito do temporal e espacial, do equilíbrio e
cérebro, junto com as intuições e as soluções, especialmente da comunicação, o ritmo das
geralmente as pessoas mais criativas usam canções induz as crianças ao movimento, à
bastante essa parte do cérebro. A parte da maior atividade cerebral, despertando com
analise e do raciocínio lógico fica do lado isso o gosto por cantar, dançar e melhorar
esquerdo. ou acelerar o desenvolvimento educacional
das crianças envolvidas.
Quando os professores apostam na
inclusão da música no currículo escolar A música pode ser um tema muito
geralmente conquistam bons resultados, interessante para os projetos escolares que
pois os alunos acabam aprendendo com estejam atrelados à aprendizagem, podendo
mais facilidade diversas disciplinas como: ser uma experiência harmônica dentro da
matemática, português, física, entre outras. sala de aula, destacando a importância de
se trabalhar a música enquanto modalidade
As crianças se desenvolvem textual, com objetivo de promover alguns
intelectualmente sozinhas, é uma atividade momentos de descontração por meio
do homem como sociedade, por meio da de algumas vivências com a música e
relação com o meio em que vive, por conta socialização de sugestões de atividades
das atividades musicais, promovidas pela que trabalhem a mesma, tendo em vista sua
socialização e por trocas de aprendizagem. extrema importância e significância para o
As crianças aprendem mais em matéria de desenvolvimento normal e sadio da criança.
leitura quando é ativo em todos os estilos
de atuação em diferentes linguagens, Podemos explorar a musica em diversas
com variados objetivos. Quando a prática formas, por inteiro, desde a sonoridade até
educativa está associada às linguagens a letra, facilitando o processo de educar

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Revista Educar FCE - Março 2019

a criança, desenvolvendo nas crianças o de outras maneiras, a possibilidade de ouvir,


senso crítico, passando essa a ter uma visão perceber, sentir, deixando que a imaginação
inteira completa, da realidade. A música trabalhe, com as emoções, pode ser uma
acaba traduzindo muita coisa, carregada de atividade muito interessante dentro de uma
emoção, e não de razão. aula de pintura, ou desenho, ou quando as
crianças precisam escrever um texto, uma
Os PCNs (Parâmetros Curriculares redação sobre qualquer assunto, ou o que
Nacionais) reconhece a importância da eles estão sentindo ao ouvirem essa música
participação construtiva das crianças e, em especial instrumental.
da intervenção dos professores para a
aprendizagem de conteúdos específicos Nosso país é rico em produção musical,
que favoreçam o desenvolvimento das favorecendo e muito o trabalho com
capacidades necessárias à formação do música, pois temos um vasto material a ser
indivíduo. desenvolvido com as crianças de qualquer
faixa etária.
Por vários anos a pedagogia focou no
processo de ensino no qual o professor, O professor tem um papel muito
supondo que, como decorrência, estaria importante nesse trabalho de resgate da
valorizando o conhecimento. O ensino música brasileira, precisando valorizar essa
vem ganhando autonomia em relação à aproximação das crianças com os valores
aprendizagem, criando métodos próprios culturais de nosso país.
e o processo de aprendizagem necessário
dando outro significado a unidade A importância dada aos conteúdos
entre aprendizagem e ensino, pois sem desponta uma obrigação da escola em
aprendizagem o ensino não acontece. garantir o acesso aos saberes elaborados
socialmente, pois estes se constituem
como ferramentas para o desenvolvimento,
A MÚSICA NO CONTEXTO a socialização, o exercício da cidadania
ESCOLAR democrática e a atuação no sentido de
refutar ou reformular as deformações dos
conhecimentos as imposições de crenças
A escola precisa oferecer aos alunos dogmáticas e a petrificação de valores.
oportunidades de ouvir música sem texto,
pois é de enorme importância, pois as músicas Desde a mudança na LDBEN (Lei de
letradas acabam remetendo sempre ao Diretrizes e Bases Nacionais de 1996),
conteúdo da letra, mas a música instrumental quando se começou a pensar numa educação
ou vocal sem um texto acaba abrindo a não mais focada na guarda, no cuidado e na
possibilidade dos professores trabalharem assistência social, que marcava a Educação

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Revista Educar FCE - Março 2019

Infantil dos anos anteriores, e a criação do para que os alunos se apropriem dos
RCNEI (Referencial Curricular Nacional conteúdos de maneira crítica e construtiva.
para a Educação Infantil), grandes avanços As escolas por serem instituições sociais com
foram experimentados na Educação do país, propósito explicitamente educativo tem o
no que diz respeita à Educação Básica. No compromisso de intervir efetivamente para
contexto da Educação Infantil, muitas vezes promover o desenvolvimento e a socialização
a música é vista como um pretexto para de seus alunos.
outras atividades, e dentro desta realidade as
músicas são usadas de forma inapropriada, e Essas propostas precisam entender como
em muitos casos por pessoas despreparadas. processo que inclui a formulação de metas
e meios, respeitando as particularidades
A escola precisa ser um espaço de formação de cada comunidade, por meio da criação
e informação, em que a aprendizagem de e da valorização de rotinas de trabalho
conteúdos deve necessariamente favorecer pedagógico em grupo e da responsabilidade
a inserção das crianças no cotidiano das de todos os membros da comunidade de
questões sociais marcantes e em um todos os membros da comunidade escolar,
universo cultural muito maior do que para além do planejamento de início de ano
estão acostumados em casa. A formação ou dos períodos de reciclagem.
escolar deve possibilitar o desenvolvimento
de capacidades, de modo a possibilitar Cada região do nosso país tem suas próprias
tradições: bumba-meu-boi, no Maranhão; boi-
a compreensão e a intervenção nos bumbá, no Pará; boi-de-mamão, em Santa
fenômenos sociais e culturais, assim como Catarina; o maracatu, em Pernambuco e no
possibilitar que as crianças possam usufruir Ceará; reisados, congadas, jongo, moçambiques,
pastoris, cavalo-marinho; frevo, coco, samba,
das manifestações culturais nacionais e ciranda, maculelê, baião, enfim, um universo de
universais. ritmos, danças dramáticas, folguedos, festas,
com características e significados legítimos
Nesse sentido, é aconselhável planejar as (BRITO, 2003, p.94).
atividades de escuta musical, o que difere
de simplesmente deixar uma música soando
enquanto cuidamos dos bebês ou enquanto as É interessante trabalharmos a cultura
crianças se entretêm com outras atividades. brasileira, mas é muito enriquecedor trazer
É importante valorizar a questão da escuta
musical, evitando deixar que a música, sem para dentro da sala de aula diversas obras
critério algum, tome conta do espaço durante o de diversos países, especialmente os que
tempo todo (BRITO, 2003, p.189). fizeram parte da nossa história, como músicas
africanas, indígenas, e estudar para mostrar
que muitas das nossas cantigas folclóricas
É necessário que a proposta pedagógica vieram desses dois povos ricos em cultura e
das escolas garanta um conjunto de práticas ricos de histórias para contar.
planejadas com o propósito de contribuir

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Revista Educar FCE - Março 2019

Cada povo tem sua cultura, tem uma linguagem muito própria e carregada de características
típicas que podem ser notadas também através da música; dessa forma, trazer essa diversidade
musical para a escuta das crianças para que possam conhecer outras formas de linguagem,
e assim, favorecer uma ampliação da sua percepção, do seu conhecimento e a descoberta
de elementos, incluindo fontes sonoras não convencionais, que servirão de materiais para
futuras criações.

Com esta crescente preocupação referente à poluição sonora, os alunos devem ser
estimulados a perceber e desfrutar o som, contudo, é também necessário ouvir, respeitar e
conscientizar-se da importância do silêncio.

É importante realizarmos dentro das escolas momentos especificamente destinados à


escuta musical e a execução de atividades que promovam uma conscientização do universo
sonoro existente, o que difere grandemente da simples existência de eventos sonoros na
presença da criança.

As atividades direcionadas à educação infantil devem estar em sintonia com a maneira


como essas crianças percebem e expressam-se. Nesta fase da infância, as conquistas e
evoluções são adquiridas por meio da percepção e dos movimentos, de todo o universo
prático que cerca a criança. A apreciação musical direcionada para esta faixa etária necessita
ser administrada integrando aluno e música de forma global.

A escuta de obras musicais sempre provoca emoções, sensações, pensamentos e comportamentos diversos.
Uma música que tem no ritmo o seu elemento mais determinante desperta a vontade de movimentar-se,
de balançar o corpo, de dançar, ao passo que certas melodias despertam sentimentos, emoções subjetivas,
únicas, distintas para cada um (BRITO, 2003, p.190).

As crianças pequenas ainda não dispõem de ampla autonomia motora, nesse sentido,
é sugerido que o adulto movimente os membros do corpo do bebê enquanto canta ou
enquanto escutam uma música.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O professor deve selecionar um material que contenha
diversos gêneros e estilos musicais, abrangendo diferentes
culturas e épocas. É notável a receptividade e familiaridade
dos alunos com as músicas mais ouvidas na sociedade; um
bom exemplo é a música popular, e isto também precisa ser
levado em conta aproveitando também as contribuições
que as crianças escutam em casa ou na rua, o que muitas
vezes significa trabalhar com músicas veiculadas pela mídia,
que muitas vezes são pobres nas letras, mas, não podemos
perder de vista uma das grandes metas da educação musical
que é proporcionar novos interesses, novas experiências e
novas visões para as crianças. ALESSANDRA ALENCAR
ALBUQUERQUE
A prática escolar diferencia-se de outras práticas
Graduação em Pedagogia
educativas, como as que acontecem dentro das famílias, pela Faculdade UNG, (2001),;
no trabalho, na mídia, no lazer e nas demais formas de Especialista em Educação Musical
convívio social, por constituir-se em uma ação intencional, pela Faculdade Campos Elíseos
(2018). Professora de Educação
sistemática, planejada e continuada para crianças e jovens Infantil no CEI Parque Edu
durante o período contínuo e extenso de tempo. Chaves.

Precisamos considerar sempre o que as crianças já


sabem o que já conhecem isso em todos os campos do
conhecimento, é necessário que ocorra uma escuta das
crianças, promovendo com isso uma valorização da sua
cultura, da sua bagagem como indivíduo.

Os professores precisam conhecer a realidade das


crianças, deixar que elas cantem as músicas que ela escuta
em casa, pois muitas crianças nem escutam rádio, só
assistem televisão e só escutam as músicas que aparecem
em programas e novelas, é necessário aumentar o repertório
das nossas crianças, trazendo especialmente músicas
adequadas e de diferentes estilos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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131
Revista Educar FCE - Março 2019

INCLUSÃO DE ALUNOS COM


SÍNDROME DE ASPERGER
RESUMO: Este artigo discute o processo de inclusão e aprendizagem de alunos com síndrome
de Asperger (SA). Traz uma síntese do que é, sintomas, causas e etc. O que pode ser feito
dentro do ambiente escolar para que o indivíduo portador, consiga aprender oportunizando
o desenvolvimento das capacidades de cada um. O estudo tem como objetivo investigar
as possibilidades de inclusão da criança com S.A na escola regular, verificar as formas de
atendimento nas políticas educacionais inclusivas, discutir as possibilidades e os limites da
educação destas crianças e ainda possíveis técnicas para aprendizagem. A S.A integra o grupo
dos Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGDs), é resultante de uma desordem genética
e apresenta semelhanças com o autismo. A família tem um papel relevante e indispensável
junto a medicina e a escola quando se trata de observar e diagnosticar a criança no campo
social, estabelecendo tratamento específico. No entanto, da mesma forma que é importante
a identificação da síndrome, trabalhar com a criança com esse diagnóstico dentro da escola
tem sido um desafio. Há a necessidade de profissionais especializados para acompanhar a
criança com Asperger. Como resultado, aponta-se que a inclusão é viável desde que atenda
às necessidades da criança com S.A e promova o acesso desta ao conhecimento, ou seja,
possibilite a aprendizagem de conteúdos socialmente valorizados para todos os alunos da
mesma faixa etária. Desse modo, a criança será incluída e poderá apresentar resultados
positivos em seu desenvolvimento educacional e social.

Palavras-chave: Inclusão; Ensino; Aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO muitos anos, uma condição distinta, porém


próxima e bastante relacionada ao autismo.
O desenvolvimento do trabalho pedagógico
cotidiano é fator essencial para a inclusão dos Em maio de 2013, no entanto, foi lançada
alunos com síndrome de Asperger. Para isso, a quinta edição do Manual Diagnóstico e
é preciso embasamento teórico e também Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V),
que a prática seja adequada, pois é assim que que trouxe algumas mudanças importantes,
se formará um indivíduo que se integre na entre elas novos diagnósticos e alterações
sociedade. Este trabalho tem que ter como de nomes de doenças e condições que já
ponto de partida uma inovação e mudança de existiam.
postura para que haja realmente a inclusão
destes alunos. Essa mudança leva a todos A Síndrome de Asperger, assim como
que pertencem a comunidade escolar uma o autismo, foi incorporada a um novo
transformação cultural e social, porém ela termo médico e englobador, chamado de
deve ser continuada, sempre aperfeiçoada. Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).
Cada aluno é único, um sistema em que a Com essa nova definição, a síndrome passa
massificação dos conteúdos e indivíduos a ser considerada, portanto, uma forma
não funciona mais. O sucesso para a inclusão mais branda de autismo. Dessa forma,
efetiva é a adequação do trabalho pedagógico os pacientes são diagnosticados apenas em
para a diversidade dos alunos. graus de comprometimento, dessa forma o
diagnóstico fica mais completo.
Alarcão diz que o papel da escola é:
O Transtorno do Espectro Autista é definido
[...] dinamizar comunidades educativas e pela presença de “Déficits persistentes na
acompanhar, incentivando, iniciativas nesse
sentido; privilegiar culturas de formação comunicação social e na interação social
centradas na identificação e resolução de em múltiplos contextos, atualmente ou por
problemas específicos da escola, numa atitude de história prévia”, de acordo com o DSM-V.
aprendizagem experiencial e, preferencialmente,
no contexto de metodologias de investigação -
ação; (ALARCÃO, 2003). Como a Síndrome de Asperger só foi
reconhecida recentemente como um
transtorno do espectro autista, o número
O QUE É SÍNDROME DE exato de pessoas portadoras da doença
ASPERGER ainda não é exato. Estimativas mostram que
a ocorrência do transtorno pode ser mais
A Síndrome de Asperger é um transtorno comum do que se acreditava: uma entre 250
neurobiológico enquadrado dentro da crianças aparentemente são diagnosticadas
categoria de transtornos globais do com a síndrome. Outros números dos
desenvolvimento. Ela foi considerada, por Estados Unidos mostram que a incidência da

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Revista Educar FCE - Março 2019

doença pode ser bem menor (uma em cada Portadores desse distúrbio geralmente não
dez mil crianças, aproximadamente). fazem amigos facilmente, pois têm dificuldade
para iniciar e manter uma conversa.

CAUSAS Comportamentos excêntricos ou


repetitivos
A causa exata da Síndrome de Asperger,
assim como do Transtorno do Espectro Crianças com essa condição podem
do Autismo, ainda não é conhecida. Os desenvolver um tipo de comportamento
cientistas, por outro lado, acreditam que anormal, que envolve movimentos repetitivos
uma anormalidade no cérebro das crianças e estranhos, como torcer mão ou os dedos.
portadoras seja a causa mais provável.
Práticas e rituais incomuns
Outras doenças, como depressão e
transtorno bipolar, também podem estar Uma criança com Síndrome de Asperger
relacionados à Síndrome de Asperger e ao pode desenvolver rituais que ele ou ela se
Transtorno do Espectro Autista. recuse terminantemente a alterar, como
se vestir obrigatoriamente em uma ordem
Ao contrário do que algumas pessoas específica, por exemplo.
costumam pensar, a Síndrome de Asperger
não é causada pela privação emocional ou Dificuldades de comunicação
por uma forma específica que os pais educam
seus filhos. As pessoas com este transtorno costumam
não fazer contato visual ao falar com alguém.
Elas podem ter problemas ao usar expressões
SINTOMAS faciais e ao gesticular, bem como podem
apresentar dificuldade para compreender a
Os sintomas da Síndrome de Asperger linguagem corporal e a linguagem dentro de
podem variar de pessoa para pessoa, e um determinado contexto e costumam ser
variam também de intensidade e gravidade. muito literais no uso da língua.
Os sinais mais comuns incluem:
Poucos interesses
Problemas com habilidades sociais
A criança com Síndrome de Asperger pode
Crianças com Síndrome de Asperger desenvolver um interesse intenso e quase
geralmente têm dificuldade para interagir com obsessivo em algumas atividades e áreas,
outras pessoas e muitas vezes comportam- tais como prática de esportes, clima ou até
se de forma estranha em situações sociais. mesmo mapas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Problemas de coordenação Presença de um padrão repetitivo


e restritivo de atividades, interesses e
Os movimentos de crianças com Síndrome comportamentos
de Asperger pode parecer desajeitado ou
constrangedor. Estereotipias (ecolalia, por exemplo),
insistência em uma atividade específica,
Habilidosos ou talentosos adesão estrita a rotinas, interesses restritos
e incomuns, hiper-reatividade ou hipo-
Muitas crianças com Síndrome de Asperger reatividade a estímulos sensoriais.
são excepcionalmente inteligentes, talentosas
e especializados em uma determinada área, Além disso, uma das dúvidas que
como a música ou a matemática. ainda permeia a mudança acontecida no
DSM é a conduta frente aos pacientes
já diagnosticados de acordo com os
DIAGNÓSTICO E EXAMES critérios anteriores, ou seja, se as pessoas
anteriormente diagnosticadas com Síndrome
Os diagnósticos em psiquiatra, em grande de Asperger devem ser reclassificadas ou se
parte, seguem as recomendações presentes o diagnóstico será mantido.
no Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês).
De acordo com a última versão publicada, TRABALHO PEDAGÓCICO
em que autismo e Asperger se englobam COM ALUNOS COM
em Transtorno do Espectro Autista, agora
só há dois grupos de sintomas necessários
SÍNDROME DE ASPERGER
para que o psiquiatra, em conjunto com um Os alunos com síndrome de Asperger
pediatra, possa realizar o diagnóstico. Antes apresentam características muito peculiares,
havia três. nas escolas eles são taxados como “alunos
problemáticos”, pois não seguem ordens e
Agora, os sintomas de interação e nem instruções, gostam de fazer as atividades
comunicação social foram agrupados em um no próprio ritmo e sem interferência dos
só grupo. Confira: docentes. Assim sendo, os trabalhos
pedagógicos tem que ser voltados para as
Déficits de comunicação/interação social capacidades e interesses destes alunos.
Quanto mais se puder trabalhar utilizando
Déficit na reciprocidade das interações materiais concretos e reais, melhor,
sociais, déficits nos comportamentos não construindo assim significados reais. Há
verbais, dificuldade de desenvolver e manter a necessidade de se compreender as
conversas, diálogos e relacionamentos. dificuldades cognitivas e comportamentais

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Revista Educar FCE - Março 2019

destes alunos para que a proposta pedagógica não o desestimule. Não existe uma fórmula
mágica para acolher, ensinar e preparar estes alunos, o que tem que existir é preparo teórico,
materiais diversos e estar ciente das especificidades de cada um. Para Vygostsky (2000), em
consonância com Orrú (2010):

A linguagem não é apenas o ato de comunicar, mas uma ferramenta do pensamento que encontra sua unidade
com o próprio pensamento no significado das palavras. Assim, o trabalho com o significado traz consigo a
realização do processo de generalização durante a busca da apropriação de conhecimentos por parte do
aluno. ( VYGOSTSKY, apud. ORRÚ, 2010, p. 09).

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O processo de inclusão escolar impõe desafios para
todos, principalmente para os professores. Estes desafios
desestabilizam, porém fazem pensar em novas possibilidades.
O aluno está na escola para aprender, ele não pode ser
negligenciado e se for, causa mais dificuldades ainda em
sala de aula. É natural criar uma expectativa frente ao aluno
“de inclusão”, mas tem que se objetivar na aprendizagem do
aluno. Encontrar a melhor maneira para que o aluno com
síndrome de Asperger aprenda demanda um percurso de
tentativas e erros. ALESSANDRA
VEDOLVELLO BRANDÃO
A família, a equipe escolar e os agentes da saúde
Professora de língua portuguesa
precisam trabalhar em consonância para que estes alunos se do Ensino Fundamental II e Médio
desenvolvam. na prefeitura de São Paulo, nas
EMEF Senador Miltom Campos.
As pessoas com esta síndrome, muitas vezes, são
estigmatizadas como alunos problemas, preguiçosos e
indisciplinados, porém o comportamento é apenas manifestação do doença. A escola como
espaço democrático não pode apenas rotular, tem que oportunizar a aprendizagem para
todos.

Benczik e Bromberg (2003, p.209) diz que na escola deve-se:

1) Estabelecer uma rotina diária clara, com períodos de descanso definidos. Usar reforços visuais e auditivos
para definir e manter essas regras e expectativas, como calendários, cartazes e músicas. As instruções
devem ser dadas de forma direta, clara e curta. 2) Estabelecer consequências razoáveis e realistas para o
não cumprimento de tarefas e das regras combinadas [...] 3) Focalizar mais o processo (compreensão de um
conceito) que o produto (concluir 50 exercícios. Certificar-se que as atividades são estimuladoras e que os
alunos compreendem a relevância da lição. 4) Adotar uma atitude positiva, como elogios e recompensa para
comportamento adequados.

Cabe aos professores adequarem os espaços e os currículos para todos os alunos. Cada
um tem aspectos diferentes. Em pleno século XXI, não há espaço para uma escola arcaica e
obsoleta que pensa em alunos homogêneos, a inclusão põe em cheque o pensamento que
todos são iguais e desafia a um novo posicionamento sobre como cada um aprende.

137
Revista Educar FCE - Março 2019

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1998.

138
Revista Educar FCE - Março 2019

A RITALINA NO TRATAMENTO DE
HIPERATIVIDADE E DÉFICIT DE
ATENÇÃO
RESUMO: O presente estudo é uma revisão de literatura a respeito do Transtorno do Déficit
de Atenção/ Hiperatividade (TDAH), bem como sobre a dificuldade de aprendizagem, e o
uso do metilfenidato (ritalina), medicamento amplamente indicado para o tratamento da
Hiperatividade e do déficit de atenção, por facilitar o aprendizado de crianças com TDAH.
Pretende-se discorrer sobre a definição e a tipologia, a indicação e os efeitos adversos da
ritalina, bem como sobre as implicações neuropsicológicas desse composto, perpassando
os efeitos farmacocinéticos e farmacodinâmicos a eles correlatos. Contudo, mesmo que
o tratamento seja rigidamente supervisionado em acompanhamento médico, verifica-
se que o uso incorreto ou abusivo do composto supracitado ocasiona efeitos adversos,
de ordem gastrointestinais, além de alterações adaptativas no Sistema Nervoso Central,
que constituem efeitos colaterais, sendo importante o enfoque desse estudo orientado à
indicação consciente do uso do medicamento.

Palavras-Chave: Hiperatividade; TDAH; Ritalina; Efeitos Adversos

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Revista Educar FCE - Março 2019

DEFINIÇÃO insuficientes. Pode ser indicado, ainda, em


alguns casos de narcolepsia (padrão de sono
O metilfenidato (Ritalina, Concerta e irreprimível) (TOASSA, 2012).
Quasym) é um psicoestimulante da família
das anfetaminas, indicado “no tratamento Pequenos atrasos na linguagem, habilidades
do transtorno de déficit de atenção e motoras ou desenvolvimento social não são
hiperatividade (TDAH) em crianças de 6 anos específicos do TDAH, mas geralmente estão
ou mais (GIRALDO & BERTEL, 2005). presentes. Se as crianças têm muita energia,
são distraídas, impulsivas ou irritadas serão
O metilfenidato pertence à classe de seguramente diagnosticadas com TDAH.
drogas das anfetaminas, como a fenfuramina A prescrição por certo será um a Ritalina
(ex-Ponderal) e o benfluorex (ex-Mediador). (TOASSA, 2012).
Esses, usados como supressores de apetite,
foram retirados do mercado, devido à Muitos especialistas acreditam que
ocorrência de hipertensão arterial pulmonar indicação de metilfenidato equivale a
e doença valvular cardíaca (GIRALDO & estimular o doping das crianças, mesmo que
BERTEL, 2005). em longo prazo, o uso de medicamentos
não faça diferença em seus resultados e
comportamentos, e podem até piorar os
INDICAÇÃO sintomas (TOASSA, 2012).

O fenômeno do TDAH literalmente Ocorre que muitos dos comportamentos


explodiu por trinta anos. No entanto, este apontados como sintomas de TDAH não são
é um diagnóstico altamente controverso: necessariamente sintomas doentios, haja
os critérios para identificá-lo não têm vista que mais da metade deles desaparecem
cientificidade e não há evidência de que na fase adulta (TOASSA, 2012).
esses sintomas sejam o resultado de um
desequilíbrio químico do cérebro (ORTEGA, A controvérsia recai sobre o fato de a
2010). Ritalina ser prejudicial quando não se sofre
de Transtorno de Déficit de Atenção com
O uso de metilfenidato e medicamentos Hiperatividade (TDAH), sendo, contudo,
psicossimilhantes é indicado para o necessária para crianças e adolescentes
tratamento de crianças, jovens e adultos que realmente apresentam esse transtorno
com Transtorno de Déficit de Atenção / (TOASSA, 2012).
Hiperatividade (TDAH) em crianças de 6 anos
ou mais, como parte do atendimento integral, Estudos realizados com ratos em
quando medidas corretivas psicológicas, laboratório sugerem que o diagnóstico
educacionais, sociais e familiares não são errado do transtorno de déficit de atenção/

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Revista Educar FCE - Março 2019

hiperatividade em crianças tratadas com e intervir efetivamente nessas causas


Ritalina pode promover a depressão na idade (ORTEGA, 2010).
adulta. Os ratos alimentados com Ritalina,
enquanto pré-adolescentes, quando adultos Para diagnosticar o TDAH, os seguintes
demonstraram evidente desinteresse a critérios devem ser analisados (VALENCIA &
estímulos agradáveis, em comparação com VASCO URIBE, 2009):
ratos saudáveis.
• Os sintomas devem ter persistido por
Esta pesquisa deve ser um incentivo para pelo menos 6 meses até um grau que tenha
garantir que o diagnóstico de transtorno um impacto negativo direto nas atividades
de déficit de atenção/hiperatividade seja sociais e acadêmicas (ou no trabalho);
cuidadosamente feito, usando testes
abrangentes e adequados. • Eles não devem ser apenas uma
manifestação de comportamento de
Pesquisadores norte-americanos oposição, desconfiança, hostilidade ou
conseguiram medir o impacto significativo incapacidade de entender tarefas ou
de um transtorno não tratado em ADHD. instruções;
Quando adultas, as pessoas com TDAH
têm problemas para manter um emprego, • Vários sintomas devem estar presentes
dificuldade em criar sinapses e em manter antes da idade de 12 anos;
relacionamentos duradouros, o que pode
ser observado pelas altas taxas de divórcios • Vários sintomas devem estar presentes
ou separações nesses indivíduos. Sofrem em pelo menos 2 situações (por exemplo,
com dificuldades de concentração, sofrem em casa, na escola, no trabalho, com
mais acidentes, e são mais propensos a amigos ou parentes, em outras atividades);
ceder à pressão e a pensar em suicídio ou
efetivamente cometê-los (ORTEGA, 2010). • Deve ser claro que os sintomas
interferem ou reduzem a qualidade do
O diagnóstico de DAH é complexo. A funcionamento social, acadêmico (e/ou do
desordem neurológica que condiciona o trabalho);
TDAH é, em grande parte, hereditária.
Outros distúrbios psicológicos (que são uma • Os sintomas não são melhor
adaptação ao ambiente familiar, por exemplo) explicados por outro transtorno mental ou
ou distúrbios neurológicos podem causar intoxicação por substância.
comportamentos e sintomas semelhantes à
TDAH. Portanto, é importante consultar os
profissionais certos para melhor identificar a
natureza e as possíveis causas do transtorno

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Revista Educar FCE - Março 2019

CRITÉRIOS PARA
DIAGNÓSTICO DE TDAH
PELO DSM-IV-R

As características associadas ao distúrbio


podem incluir pouca tolerância para a
frustração, irritabilidade e alterações do
humor. Mesmo na ausência de uma deficiência
de aprendizagem específica, o desempenho
acadêmico ou profissional é frequentemente
afetado (VALENCIA & VASCO URIBE, 2009).

É prudente usar metilfenidato somente


quando a hiperatividade ou a narcolepsia
perturbam seriamente o paciente,
procurando a dose efetiva mínima.

A Ritalina tem uma efetividade modesta,


conforme observado em crianças muito
transtornadas após o fracasso dos
cuidados multidisciplinares. Independente
dos métodos de tratamento utilizados,
metade das crianças com Transtorno de
Déficit de Atenção com Hiperatividade
(TDAH) apresenta sintomas persistentes na
adolescência e na idade adulta (VALENCIA &
VASCO URIBE, 2009).

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Revista Educar FCE - Março 2019

Nos Estados Unidos, os médicos PROTOCOLO,


preferem prescrever o estimulante durante MONITORAMENTO DOS
a adolescência e a idade adulta. Muitos
profissionais da área psiquiátrica sugerem
EFEITOS E CONTINUIDADE
que a prescrição de um estimulante DO TRATAMENTO
para o paciente com TDAH não deve ser
estritamente acadêmica, negligenciando a O uso do medicamento no Brasil continua
extensão do problema nas demais instâncias muito limitado em comparação com países
da vida do paciente (CALIMAN, 2008). europeus ou com os Estados Unidos e
o Canadá, sendo sua prescrição inicial
De fato, caso dos adultos, um número e renovação ou anulação reservada aos
crescente de estudantes está usando drogas especialistas e/ou aos serviços hospitalares
estimulantes, como o Ritalina (Metilfenidato) especializados em neurologia, psiquiatria
e Strattera (Atomoxetina), que normalmente ou pediatria, embora essas prerrogativas
são usados para tratar Transtorno de Déficit nem sempre sejam respeitadas, haja vista
de Atenção com Hiperatividade (TDAH), que, conforme estimado, cerca de 10% dos
para melhorar seu desempenho acadêmico. tratamentos iniciais sejam prescritos por
Conforme estimativas, cerca de 5% a 35% dos clínicos gerais. Somente cerca de 30% das
alunos das universidades canadenses tomariam iniciações de tratamento são realizadas por
esses medicamentos (CALIMAN, 2008). médicos, especialistas. No Brasil é observado
um número considerável de pacientes
A grande maioria dos estudos não mostra adultos com TDAH que inicia tratamento
melhora cognitiva com o uso de estimulantes sem prescrição médica, o que pode promover
em comparação com placebo em indivíduos a ocorrência de efeitos indesejáveis graves
saudáveis. E, a maioria dos alunos não parece estar (ORTEGA, 2010).
ciente dos potenciais riscos (CALIMAN, 2008).
O metilfenidato tem uma eficácia modesta.
O número de emergências relacionadas Crianças, cujo comportamento causa
ao estimulante entre pessoas com idades preocupações sociais, escolares e familiares,
entre 18 e 34 também aumentou. Estudos devem, em primeiro lugar, passar por um
revelam que o aumento é particularmente atendimento multidisciplinar, combinando
pronunciado entre 15 a 25 anos de idade. As análise de fatores psicológico, educacional e
pessoas que abusam desses medicamentos possivelmente social. Quando este cuidado
adquirem-nos de amigos ou familiares. As é insuficiente, no caso de crianças muito
causas dessas emergências incidem sobre transtornadas, indica-se que seja consultado
a ingestão de doses muito altas ou da um pediatra, um especialista em psiquiatria
combinação do medicamento com álcool infantil, para verificar se o diagnóstico
(CALIMAN, 2008). realmente se aplica. Excepcionalmente o

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Revista Educar FCE - Março 2019

medicamento em questão será indicado em • Agitação, ansiedade ou tensão


casos extremos de TDAH, devendo ser usado nervosa;
como último recurso por causa dos efeitos
colaterais sérios que pode desencadear • Falta de apetite ou recusa em comer;
(VALENCIA & VASCO URIBE, 2009).
• Alucinações (ver, ouvir ou sentir coisas
Pacientes submetidos ao uso de Ritalina que não são reais) ou ilusões (percepções
devem passar por monitoramento regular. A distorcidas de sensações reais);
reavaliação da necessidade de tratamento
continuado, bem como o cumprimento das • Sinais paranoicos (desconfiança,
condições de uso, são fatores que permitem susceptibilidade exagerada, falso
limitar a ocorrência de efeitos adversos e julgamento, interpretação precipitada);
colaterais graves em crianças e adultos,
que ocorrem especialmente durante o uso • Sinais sugestivos de depressão
prolongado, o que explica a importância de (grande tristeza, desespero, impressão de
reavaliar a necessidade de dar continuar inutilidade, culpa);
ao tratamento com Ritalina (GIRALDO &
BERTEL, 2005). • Mudanças de humor ou mudanças no
humor (incluindo sintomas de excesso de
excitação física e mental).
EFEITOS COLATERAIS
b) Riscos para os vasos do coração
A Ritalina apresenta uma lista de sintomas e do cérebro (riscos cardiovasculares e
e sinais de efeitos colaterais indesejáveis, cerebrovasculares), podendo desencadear:
cuja ocorrência ou agravamento deve ser • Palpitações, dores no peito, perda
imediatamente informado ao médico, dentre inexplicável de consciência, dificuldade
os quais (VALENCIA & VASCO URIBE, 2009): em respirar;

a) Riscos à saúde ou ao comportamento • Dor de cabeça grave, dormência,


mental (riscos neuropsiquiátricos): fraqueza ou paralisia de um membro,
• Tiques motores: contrações repetidas, comprometimento da coordenação, visão,
difíceis de controlar de certas partes do fala, linguagem ou memória.
corpo;
c) Riscos de redução do peso
• Tiques verbais: repetição de sons e • É necessário monitorar o peso e a
palavras; altura antes de iniciar o tratamento e, em
seguida, pelo menos a cada 6 meses.
• Agressão ou comportamento hostil;

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Revista Educar FCE - Março 2019

d) Riscos de uso indevido (uso associados do que em crianças. Contudo,


inadequado) e dependência doenças cardíacas foram observadas
• A droga pode levar à dependência inclusive em crianças, diagnosticadas com
(impossibilidade de permanecer sem risco provavelmente baixo, motivo porque há
consumir a substância sob pena de uma falta de estudos epidemiológicos para
sofrimento físico e/ou mental ou alteração estimar até que ponto ocorrem tais efeitos
do funcionamento social) e habituação nas crianças (ORTEGA, 2010).
(falta de eficácia de doses usuais
inicialmente prescritas sendo necessário Em última instância, os efeitos colaterais
o aumento gradual destas para obter o associados aos estimulantes incluem
mesmo efeito). hipertensão e arritmias com risco de vida,
overdoses severas, vícios e depressão. Uma
Conforme observado, os efeitos sobredosagem pode ser letal, já que resulta
colaterais verificados em relação ao uso de em efeitos comparáveis aos observados
metilfenidato (Ritalina) são principalmente com o uso de anfetaminas e cocaína,
de ordem neuropsiquiátrica (transtornos incluindo hipertensão grave, hiperpirexia
neuropsíquicos), cardiovascular e (aumento extremo da temperatura corporal),
cerebrovascular, dependência, com taquicardia, agitação grave e psicose
destaque para problemas relacionados à (ORTEGA, 2010).
pressão arterial, frequência cardíaca, altura
e peso (retardo de crescimento em crianças)
com influência sobre o crescimento, humor
e comportamento (VALENCIA & VASCO
URIBE, 2009).

A ocorrência de quaisquer sinais CONTROVÉRSIAS SOBRE O


sugestivos de efeitos colaterais, como a RISCO CARDÍACO
dificuldade de respirar, deve ser monitorada,
haja vista que dados sobre essas reações De acordo com estudo financiado pela
adversas em pacientes medicados com US Drug Administration, Food and Drug
metilfenidato revelaram que a hipertensão Administration ( FDA), e publicado no
arterial pulmonar ocorreu após ministração Journal of the American Medical Association
de doses usuais (ORTEGA, 2010). , os medicamentos utilizados para tratar
o transtorno de déficit de atenção e/ou
Os adultos correm maior risco de hiperatividade (TDAH) não desencadeariam
sofrerem eventos adversos cardiovasculares o risco cardíaco. Paralelamente, em estudo
e cerebrovasculares devido a comorbidades liderado por Laurel Habel do Laboratório
e ao uso mais frequente de tratamentos Kaiser, foram analisaram os registros médicos

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Revista Educar FCE - Março 2019

de quase 20 anos de 150.000 pessoas com um eletrocardiograma antes da prescrição


idade entre 25 e 64 anos que estavam de medicamentos estimulantes para o
tomando ou tomaram medicamentos para tratamento do TDAH. Em um editorial que
ADHD, como o metilfenidato (Concerta, acompanha o novo estudo, conclui-se que
Ritalina, Quasym, Metadata, Metilina), esta recomendação não é validada por dados
Atomoxetina (Strattera) e Dexamphetamina empíricos.
(Dexedrina, Dexamina) (HABEL et al., 2011).

Esses dados foram comparados aos de RECOMENDAÇÕES DA


quase 300 mil pessoas que nunca tomaram AAP PARA TRATAMENTO
essas drogas. Diante dos resultados, o
estudo não teria deixado evidente nenhum MEDICAMENTOSO DO TDA
vínculo entre essas drogas e o risco de
ataque cardíaco, acidente vascular cerebral Os adultos correm maior risco de
e morte cardíaca súbita, mesmo entre sofrerem eventos adversos cardiovasculares
usuários com histórico de doença cardíaca. e cerebrovasculares devido a comorbidades
Contudo, estudos anteriores mostraram que e ao uso mais frequente de tratamentos
essas drogas podem aumentar a pressão associados do que em crianças. Contudo,
arterial e a frequência cardíaca. Desta forma, doenças cardíacas foram observadas
se existe um risco de eventos cardíacos, o inclusive em crianças, diagnosticadas com
estudo em questão sugere que é muito risco provavelmente baixo, motivo porque há
leve. O estudo, no entanto, não verificou a uma falta de estudos epidemiológicos para
possível ligação entre a dose e o risco, nem estimar até que ponto ocorrem tais efeitos
se atentou à ocorrência de eventos cardíacos nas crianças (ORTEGA, 2010).
menos graves, como palpitações e arritmia
ventricular (HABEL et al., 2011). Em última instância, os efeitos colaterais
associados aos estimulantes incluem
Estudo realizado pela Universidade hipertensão e arritmias com risco de vida,
Vanderbilt, analisando dados de mais de overdoses severas, vícios e depressão. Uma
1,2 milhão de jovens usuários, mostrou sobredosagem pode ser letal, já que resulta
que metilfenidatos provavelmente não em efeitos comparáveis aos observados
aumentam o risco de graves problemas com o uso de anfetaminas e cocaína,
cardíacos em crianças e adultos jovens. incluindo hipertensão grave, hiperpirexia
(aumento extremo da temperatura corporal),
Em 2008, uma preocupação com o risco taquicardia, agitação grave e psicose
de doenças cardíacas levou a American (ORTEGA, 2010).
Heart Association a recomendar que
crianças e adolescentes passassem por

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Revista Educar FCE - Março 2019

A incidência de morte súbita relacionada ao uso de ao metilfenidato é de 0,2 por 100.000,


taxas consideradas baixas e similares às taxas nacionais gerais americanas, embora tais
compostos estejam associados a aumento sintomatológico compatível com problemas
cardíacos (VILLALBA, 2006; WINTERSTEIN, 2007).

CONTROVÉRSIAS SOBRE O RISCO CARDÍACO


As interações mais comuns observadas incluíram outros medicamentos prescritos,
utilizados juntamente com aqueles usados para tratar o TDAH, dentre os quais muitos
medicamentos sem receita médica contendo cafeína, além de bebidas energéticas contendo
cafeína. Não foram incluídos estimulantes como a metanfetamina ou drogas ilícitas. As
bebidas energéticas não condicionam efeitos adversos sérios.

É possível afirmar que uma parte significativa dos efeitos indesejáveis relatados está
associada ao uso do medicamento por adultos, porque estão sucetíveis a outras comorbidades,
e submetem-se a tratamentos com outros medicamentos em decorrência disso.

O número de jovens adultos que acabam em emergências hospitalares depois de tomar


medicamentos estimulantes, como Adderall, Concerta e Ritalina, quadruplicou nos últimos
anos nos Estados Unidos, de acordo com os dados do US Substance Abuse - Administração
de Serviços de Saúde Mental.

Quando combinados com álcool, os estimulantes podem ocultar os efeitos da embriaguez,


aumentando o risco de intoxicação alcoólica e lesões. Cerca de um terço das emergências
relacionadas ao estimulante envolvem também o consumo de álcool.

147
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A ritalina não deve ser utilizada por longos períodos devido
aos efeitos adversos que condiciona. O uso inadequado
desse medicamento gera efeitos colaterais principalmente
na esfera gastrointestinal e no sistema nervoso central,
porque interfere na produção de neurotransmissores.

Conforme observado ao longo do trabalho, se utilizados


de maneira inadequada podem causar dependência além de
promover alterações na neuroplasticidade, potencialmente
negativas, transtornos de personalidade graves, condutas ALESSANDRA FERRARI
agressivas, por que influenciam níveis distintos dos DA FONSECA TEXEIRA
mecanismos de neuroplasticidade, afetando a sinalização
Graduação em Letras pela
dos receptores e os mecanismos sinápticos. Universidade Paulista – UNIP –
Concluído em 1999; Especialista
Conclui-se com isso, que o fármaco mencionado nesse em Pedagogia pela Faculdade
Campos Salles – Concluído
estudo, apresenta efeitos colaterais consideráveis e em 2000; Professor de Ensino
potencial elevado para desencadeamento de dependência, Fundamental II - Língua
sendo altamente recomendável seu uso limitado a períodos Portuguesa – na E.E.Dr. Genésio
de Almeida Moura, Professor de
de tempo relativamente curtos para o fim que se designam Educação Básica – EMEF. Amadeu
no tratamento das patologias específicas. Em nenhum dos Mendes
processos patológicos tratados pela ritalina está garantida a
cura efetiva.

148
Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

A CONTRIBUIÇÃO DA PSICOLOGIA
NA ATUAÇÃO DOS PROFESSORES
EM EDUCAÇÃO INFANTIL
RESUMO: O presente trabalho tem como proposta tratar da formação e do exercício
profissional do professor na educação infantil, para isso lançando mão das contribuições
importantes que a psicologia tem a oferecer para essa área do conhecimento e de sua atuação.
Sendo professor uma formação que se utiliza de diversas outras áreas do conhecimento,
sobretudo da pedagogia e psicologia, delimitamos às contribuições que devem começar a
partir de uma perspectiva de aprendizado e desenvolvimento que considere o histórico dos
indivíduos e seus processos particulares de construção de conhecimento específicos da
psicanálise, permitindo aprofundar a reflexão da prática profissional.

Palavras-Chave: Educação Infantil. Psicologia. Psicopedagogia.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO para a dimensão individual, que é a base do


processo de aprendizagem.
A pesquisa que derivou neste trabalho
teve como finalidade incluir uma abordagem Sendo assim, o autor acredita que o
baseada na lógica da Educação Infantil na ambiente social historicamente construído
prática do professor em sala de aula e suas fornece as ferramentas físicas e simbólicas
aplicações nos indivíduos. que o organismo utilizará como mediador
nesse processo.
Deste ponto de vista, as estruturas do
conhecimento parecem ser construídas
pelo indivíduo ao longo do curso de sua CONTRIBUIÇÕES DA
interação com o ambiente social, embora PSICOLOGIA PARA A
sejam fundamentadas na inteligência como
capacidade humana (Pain, 1988). EDUCAÇÃO INFANTIL

Portanto, o avanço no desenvolvimento Para VERCELLI (2012) a Psicopedagogia


cognitivo também é considerado um processo é um campo do conhecimento que faz
único, de modo que, não necessariamente interlocução com as áreas da educação e
todos os indivíduos, invariavelmente da saúde e possui como objeto de estudo a
atingirão níveis cognitivos mais avançados aprendizagem humana.
(Becker & Marques, 2000).
Tem por finalidade compreender os
Para esses autores, esse é um erro padrões evolutivos normais e patológicos do
comum ao interpretar a teoria construtivista processo de aprendizagem, considerando a
de Piaget, pois o que o autor diz é que a influência da família, da escola e da sociedade
passagem de um estágio para outro “depende no desenvolvimento.
principalmente do ambiente social que pode
acelerar ou retardar o início de um estágio, A Psicopedagogia realiza seu trabalho por
ou até impedir sua manifestação” (Piaget, meio de processos e estratégias que levam
1973: p. 4). em conta a individualidade do indivíduo,
portanto é umas práxis comprometida com
Assim, o conhecimento é desenvolvido a melhoria das condições de aprendizagem.
pela colaboração entre ensinar e aprender
indivíduos (Pain, 1988). Poderíamos ainda citar outros tipos de
organizações que se beneficiariam desse
Para Vygotsky (1991), é na relação trabalho, mas nos limitaremos a pensar na
com os outros e através dela que ocorre a atuação do psicopedagogo nas instituições
conversão dos processos de dimensão social de ensino, principalmente nas escolas

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Revista Educar FCE - Março 2019

para trabalhar a coordenação motora, outra


públicas devido à crescente demanda para para as expressões plásticas, outra para o
atendimento de crianças com deficiência. corpo, outra para desenvolver o raciocínio,
outra para a linguagem, outra para brincar sob a
orientação do educador, outra para a brincadeira
Além disso, devemos pensar que não direcionada, e assim por diante. Essa
atualmente a escola tem como compromisso segmentação não vai ao encontro da formação da
e responsabilidade a oferta de educação para personalidade integral das crianças nem de suas
necessidades. Os indivíduos precisam construir
todas as crianças. sua própria personalidade e inteligência. Tanto
o conhecimento quanto o senso moral são
Sabemos que em outros tempos, não tão elaborados pelas crianças em interação como o
meio físico e social, passando por um processo
distantes, a evasão de alunos da rede pública de desenvolvimento (1994, pág. 44).
era ignorada pela maioria dos responsáveis,
que consideravam o ato de aprender limitado
a poucos, ou seja, o fracasso era visto no Podemos destacar, também, a definição
senso comum como algo natural e esperado. de Schimitt:

Esse cenário atual tem levado cada vez (...) dentro das possibilidades gradativas do
desenvolvimento, os bebês, desde que nascem,
mais as escolas a repensarem seus processos são capazes de estabelecer relação com o outro,
de ensino/aprendizagem, pois já é consenso incluindo seus coetâneos. É preciso endossar
que a aprendizagem se dá dentro de uma tal afirmação pelo fato de que as suas relações
são atravessadas por aspectos culturais que
relação que envolve diversos fatores, tanto diversificam as suas vivências e a fomentação de
ambientais como relacionais. suas infâncias, o que rompe com a ideia única
e evolutiva do “ser” bebê. Assim, a creche se
apresenta como espaço social, contexto onde
Nesse sentido todos os envolvidos têm os sujeitos se encontram cotidianamente,
um papel importante para o sucesso do se comunicam, produzem e compartilham
indivíduo, incluindo toda a sociedade e o significados e sentidos (2011, pág. 21).
ambiente que o cerca.
Sobre a aprendizagem, Friedmann afirma
Não avançaremos muito no nosso tema que:
se não tratarmos do conceito de criança
a aprendizagem depende em grande parte da
e, principalmente da escola, que é o local motivação: as necessidades e os interesses das
definido como de aprendizagem por crianças são mais importantes que qualquer
excelência. outra razão para que elas se dediquem a uma
atividade. Ser esperta, independente, curiosa,
ter iniciativa e confiança em sua capacidade de
Conforme a definição de Friedmann: construir uma ideia própria sobre as coisas, assim
como expressar seu pensamento e sentimentos
(...) as crianças são seres integrais, embora não com convicção, são características inerentes a
seja dessa forma que elas têm sido consideradas personalidade integral das crianças (2014, pág.
na maior parte das escolas, uma vez que as 45).
atividades propostas são estruturadas de modo
compartimentado: há uma hora determinada

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Revista Educar FCE - Março 2019

Conforme DALBOSCO (2006) citado Segundo o autor, quando a educação


por Kramer, Eloisa, a dimensão formativo- focaliza o cuidado na esfera da
educacional da pedagogia se encontra instrumentalidade, limita sua prática às
obliterada por um didatismo pedagógico. possibilidades do cotidiano, às restrições do
presente.
Educar no sentido de acompanhar o outro
vem sendo substituído com o sentido de Permanecendo nesse nível, o educador
dirigir o outro. “exerce o seu ofício afogado na familiaridade
do mundo cotidiano, desenvolvendo um
O autor afirma que o conceito de cuidado fazer pedagógico, sem poder alcançar o
poderia contribuir para a revisão desse âmbito do agir pedagógico” (ibid., pág. 18).
caminho. Nessa ótica, o cuidado diz respeito
a um modo prático do ser humano ser-no- Na esfera da existencialidade, o cuidado se
mundo, envolvendo responsabilidade e um refere a “estar-aí-no-mundo” na companhia
agir que não espera resultados. dos outros. Trata-se, para o autor, de formar
a si e ao outro por meio da postura dialógico-
O cuidado integra o mundo cotidiano compreensiva.
(presente, factual, instrumental) e o mundo
existencial (que envolve a indagação sobre o Nessa direção, o papel do educador é “não
sentido da vida, o futuro). intervir autoritariamente no desenvolvimento
cognitivo e moral da criança, mas contribuir
Nesse prisma “agir de acordo com o cuidado para que aspectos deste se desenvolvimento
significa viver um momento presente, mas simplesmente aconteçam” (ibid).
com a consciência da temporalidade; isto é,
de pertença a um passado e com capacidade A questão da inclusão na educação deve
de projetar um horizonte” (ibid., pág 13). passar por análise mais ampla sobre como
essa questão tem a ver como o seu inverso,
O sentido do cuidado diz respeito a algo ou seja, a exclusão.
que é do cotidiano e, ao mesmo tempo, que Segundo estudo da Universidade Federal
busca dar conta do fenômeno da vida em sua da Bahia realizada por Dazzani, Maria Virgínia
totalidade. Machado:

Consideremos aqui apenas a exclusão escolar. O


Cuidado exige a ocupação da vida humana
primeiro aspecto que se deve examinar é o fato
consigo mesma e com os outros, de uma de que, a partir de certos marcos, a exclusão na
perspectiva factual e existencial, de modo nossa sociedade é compreendida não como um
fenômeno isolado, anômalo, acidental, mas, ao
integrado.
contrário, diretamente ligada a certas formas
de organização institucional e de produção do
poder que fabricam engrenagens causadoras do
isolamento, do alheamento e da estigmatizarão

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Revista Educar FCE - Março 2019

de determinados cidadãos, ou seja, nem sempre


a exclusão se resume ao fato de que a criança b) qual a contribuição da Psicologia
está fora do espaço físico da escola, mas fora do para o entendimento da exclusão social e
espaço simbólico da cultura e da economia. educacional e para enfrentar e resolver os
problemas daí decorrentes?
Por isso, muitas vezes, a demanda de queixa
escolar e o fracasso ignoram os processos de Alguns teóricos 1 têm optado por não
integração cultural que as crianças vivem na mencionar a expressão educação inclusiva,
escola. mas simplesmente democratização da
educação e defesa e promoção dos direitos
A ideologia do dom, como explica Neves humanos.
(2005), já foi uma das explicações do
fracasso dos alunos: a escola teria oferecido Isso implica saber conceber uma escola
as mesmas condições para todos os alunos, e e uma prática do psicólogo que possa
o sucesso ou fracasso seria uma decorrência interpretar, acolher e responder às demandas
das aptidões e da inteligência de cada um. de todos os cidadãos em um ambiente
que respeite a subjetividade, a diversidade
Com esse breve sobrevoo baseado na cultural, étnica, religiosa e social.
pesquisa, queremos apenas ressaltar que a
exclusão social não é apenas um problema Aprofundando mais a questão da
social de extrema gravidade, mas que, além inclusão/exclusão ao firmar que o problema
disso, também existem diferentes modos de da inclusão/exclusão escolar (e todos os
compreendê-la. aspectos que orbitam ao seu redor, como
as diferenças culturais, as barreiras sociais e
A emergência da confluência entre econômicas) não é apenas um fato que pode
Psicologia e educação, de certo modo, tenta ser constatado pelas estatísticas.
oferecer leituras sobre esse fenômeno,
leituras essas que envolvem obstáculos Há, por assim dizer, uma construção
teóricos e ideológicos significativos. conceitual da inclusão/exclusão, e tal
construção tem certos contornos de ordem
Sob muitos aspectos, um amplo debate epistemológica e histórica que devem ser
se instalou no interesse de responder às destacados.
seguintes perguntas:
A reflexão específica sobre a relação entre
a) do ponto de vista epistemológico e as crianças e a escola e sobre os processos
prático, qual a contribuição da Psicologia de aprendizagem como um fenômeno que se
para a promoção da democracia e dos dá no sujeito psicológico ou indivíduo está
direitos humanos? relacionada com um determinado momento
da história da Psicologia e da história da
1
(Neves, 2005; Prieto, 2005)

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Revista Educar FCE - Março 2019

estaduais ou municipais buscam embasamento


educação, nas diretrizes propostas pela instância federal
na área da educação, isto é, o MEC. Este por
Mesmo porque a ideia de um sujeito como sua vez, inspira-se em documentos nacionais
e internacionais, particularmente aqueles
indivíduo portador de traços psicológicos, elaborados por organismos dos quais é
subjetividade, consciência, auto referência signatário. (2011, PAG. 102)
e autodeterminação, como agente humano,
self, é uma invenção da Modernidade (Taylor, Nesse sentido, conforme CARVALHO:
1997).
a elaboração do projeto político-pedagógico
Isso pode ser tudo, menos um truísmo: o para a escola que queremos, a escola com a qual
cruzamento dos percursos da ciência do sujeito sonhamos, exige que a gestão seja democrática.
psicológico e da educação forma o nosso quadro E como o conceito de educação inclusiva, precisa
de referência, o fundo conceitual contra o qual ser mais debatido, creio que convém iniciar as
temos avaliado, psicólogos da educação ou não, discussões para elaboração do projeto com esse
especialistas em educação ou não, a questão dos tema, procurando-se modernizar a cultura da
problemas de aprendizagem e das demandas de escola a respeito, em clima organizacional de
liberdade de expressão e de respeito às incertezas.
queixa escolar. Todos os que convivem na comunidade escolar
sabem que precisamos mudar. A questão é como
implementar as necessárias reformulações,
sejam administrativas, pedagógicas, culturais ou
atitudinais”. (2011, PAG. 105).

OS ESPAÇOS ESCOLARES
COMO COADJUVANTE NA Devemos também levar em consideração
baseado em CARVALHO no caso do
PRÁTICA PSICOPEDAGÓGICA planejamento e da administração escolar para
a educação infantil, parece-me indispensável
Analisaremos com o espaço da escola enriquecer a cultua da escola com práticas
deve ser pensado para que a aprendizagem tais como:
das crianças tenha garantido um ambiente
que permita a criatividade incluindo as (a) conhecer as recomendações de
inclusões escolares, mas mais do que isso organismos nacionais e internacionais;
ela faça parte do planejamento em todas as
instâncias hierárquicas que criam os planos (b) atualizar a revisão teórica sobre
de educação. aprendizagem e desenvolvimento
humano, examinando-se a concepção de
CARVALHO nos lembra que: diversos autores;

Ainda que as escolas sejam autônomas (c) analisar a base legal em vigência no
para elaboração de seus projetos político-
pedagógicos, devem inspirar-se no plano de Brasil, referente a educação;
ação elaborado pela secretaria de educação
à qual pertencem. Tais organizações sejam

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Revista Educar FCE - Março 2019

preparação do material didático; adequação


(d) discutir a filosofia de educação que do vocabulário do professor; mais escuta dos
se pretende adotar para estabelecer a alunos; adoção da pesquisa como estratégia
intencionalidade educativa, traduzida sob do ensino/aprendizagem; organização de
adaptações curriculares, principalmente as de
forma de finalidades e objetivos da escola acesso; substituição do “dever” de casa pelo
inclusiva; “prazer” de casa; revisão dos procedimentos
de avaliação do processo ensino-aprendizagem
(entendendo-se a avaliação como subsídio ao
(e) examinar as diretrizes curriculares planejamento...); a participação da família e da
nacionais, estaduais e municipais; etc. comunidade na condição de cúmplices que se
dispõem a organizar uma rede de ajuda e apoio
para alunos, seus pais e professores, se dela
A esse conjunto de informações a serem necessitarem. (2011, pág. 108)
criticamente analisadas costuma –se chamar
de cultura na escola, esperando-se que seja
absorvida em benefício da cultura da escola. Conforme o texto “O futuro de uma
ilusão” Freud (1927), nos fala da fundação
Mais à frente CARVALHO, ressalta que: da civilização como meio de proteção
dos homens contra a força destrutiva da
feita uma avaliação do contexto educacional natureza, mantida a custo de uma coerção
escolar e considerando-se a intencionalidade
educativa estabelecida pela equipe, será possível externa, e principalmente de uma coerção
estabelecer objetivos gerais e específicos bem interna que age no sentido de contenção
como as diretrizes gerais e específicas para os das pulsões, amparada na fundação das
grupos que a escola atende (educação infantil,
ensino fundamental, etc.). As diretrizes permitem instituições sociais.
nortear a prática pedagógica em classes comuns
para o trabalho na diversidade. Ainda devem Sua crítica à religião é estendida também
fazer parte do projeto político-pedagógico os
mecanismos de avaliação a serem adotados à política, relação entre homens e mulheres
para o acompanhamento do próprio projeto, (ao que acrescentamos também a ciência),
atualizando-o sempre. (2011, pág. 106). enquanto ilusões que proporcionam uma
certa sensação de apaziguamento do temor
Ainda citando CARVALHO, tratando do infantil de desamparo e procuram indicar,
planejamento da escola defende que: com seus saberes, caminhos para dominação
daquilo que é da ordem do desconhecido.
a proposta, é portanto, a de ressignificar a prática
pedagógica nas classes comuns, tendo em conta:
a sala de aula (aspecto físico/arquitetônico, A partir dessa premissa é importante
arrumação do mobiliário, o clima afetivo, etc.); transpô-la para o campo da educação, que no
a ação didático-pedagógica (planejamento dos campo da educação tal ilusão, descendente
trabalhos em equipe; atividades curriculares
“fora da escola”, como passeios, excursões, do âmbito científico, é parceira do constante
visitas; revisão da metodologia didática, mal-estar gerado pelo processo do dito
desenvolvendo-se mais trabalhos em grupo, fracasso escolar.
pois favorecem a aprendizagem cooperativa;
adoção de recurso da tecnologia informática,

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Revista Educar FCE - Março 2019

Por que há sujeitos que não conseguem sustenta numa ilusão, que pontua que:
aprender?
Podemos, portanto, chamar uma crença de
ilusão quando uma realização de desejo constitui
A busca de respostas para esta questão fator proeminente em sua motivação e assim
tem sido responsável pelo crescente procedendo, desprezamos suas relações com a
encaminhamento de alunos em situação de realidade, tal como a própria ilusão não dá valor
à verificação.” (1927, p.40)
dificuldade escolar para profissionais “psi”,
bem como pela procura frenética dos (psico)
pedagogos pela teoria/metodologia da Também faz referência a Lajonquière que
moda, que finalmente poderia orientar como aponta que:
ensinar ‘tudo a todos’.
As capacidades psicológicas fazem as vezes da
realidade última, de uma espécie de fundo do
Para que possamos lançar um olhar mais poço do mundo pedagógico, pois pensa-se que
crítico sobre a psicopedagogia que temos sempre estão presentes nos “problemas” tanto
observado atualmente encontramos uma de aprendizagem quanto de disciplina escolar.
Problemas que não seriam mais do que expressão
situação bastante preocupante no terreno da falta de ajuste ou adequação a esta última
da clínica. instância - ou primeira, dependendo do ponto
de vista. Assim sendo, as capacidades instam,
solicitam insistentemente, que o restante da
Ao finalizar o curso de psicopedagogia existência se adapte a elas ou, em outras palavras,
muitos profissionais iniciam atendimentos elas clamam por complementação aos olhos do
psicopedagógicos em consultórios, e discurso (psico) pedagógico hegemônico.” (1999,
p. 56).
as práticas clínicas costumam repetir o
“fenômeno” encontrado nos cursos de
especialização. Como se processou o cruzamento da
psicologia com a pedagogia no Brasil?
Com o invólucro de psicopedagogia pode-
se encontrar de tudo: aulas particulares, O trabalho de Jurandir Freire Costa (1999)
recreação, orientação de pais e professores, Ordem Médica e Norma Familiar analisa
massagem, escuta “psicanalítica” e várias que a entrada da psicologia no Brasil se deu
outras abordagens. através de uma relação muito próxima com
a medicina higienista, e juntas, ambas as
Colocamos uma pergunta intrigante, mas disciplinas legislavam sobre o que era o bem
necessária quando indaga: ‘Se não existe um viver.
campo conceitual da psicopedagogia, onde
esta prática se sustenta? Logo após o autor considera que:

Para responder recorremos a Freud (1927) “é realmente impressionante a quantidade de


teses que foram produzidas neste período que
para afirmar a psicopedagogia no Brasil` se se preocupavam em definir “como se deve ser e

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Revista Educar FCE - Março 2019

agir para ser considerado normal.” Percebemos


que a criação de um conceito de normalidade melhoria do processo de ensino?.
teve (tem?) uma função específica no sentido de
contenção pulsional, objetivo este que foi bem Carvalho faz uma consideração
sucedido, mais do que o uso da repressão policial,
que parecia não ter mais efeito na contenção da interessante acerca das produções teóricas
massa no Brasil do século XIX”. no campo da psicologia do desenvolvimento:

Este movimento de transferência da Embora estas modalidades de investigação


empírica possam ter relevância para professores
coerção externa para interna deu-se ou instituições educacionais, virtualmente
exatamente com base na tese apresentada nenhuma delas tem como objetivo uma possível
por Freud de que ao processo civilizatório compreensão do contexto escolar como um
todo, nem uma aplicação imediata neste âmbito
constitui-se sobre a coerção e a renúncia (...) Seu objetivo fundamental é a elaboração
pulsional. de teorias explicativas do desenvolvimento
cognitivo, e (...) não têm como objetivo a
compreensão do fenômeno da aprendizagem
Tal processo se torna mais efetivo graças como fruto de exposição ao ensino escolar, nem
à força do superego, e a constituição do buscam formas mais eficazes de ensino, mas
mesmo dá-se devido às exigências morais da pretendem descrever as características gerais do
desenvolvimento cognitivo na criança a partir de
civilização.
certos referenciais psicológicos. (2001, p.42/43)

Ora, neste movimento de passagem de


uma coerção estritamente externa para uma A questão trabalhada até aqui remete-
coerção interna na sociedade brasileira a nos às observações de Lacan (1992) em seu
psicologia e a medicina higienista contaram Seminário XVII-O avesso da psicanálise.
com uma aliada; a educação para propagação
de suas ideias. Não podemos negar que estamos
apalpando questões que se processam no
Qual seria então o benefício que o sujeito âmbito dos dramas humanos, atravessados
receberia pela renúncia de sua satisfação pela linguagem.
pulsional e adesão - aos agora - ditames
educacionais? Conforme o referencial lacaniano, a
pesquisa em psicanálise é uma pesquisa da
Seria o fato de poder ser distinguido dos linguagem, e o processo de psicologização do
demais com o rótulo da normalidade, com a cotidiano escolar é o indicativo da força do
vantagem deste conceito ser articulado a um discurso universitário e do saber (científico)
suposto respaldo científico. ocupando o lugar de verdade onde outrora
estivera o mestre (agora esvaziado) com o
Mas os avanços no campo da psicologia seu discurso.
não contribuíram justamente para uma maior
compreensão do aluno e consequentemente

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Revista Educar FCE - Março 2019

O processo de psicologização do cotidiano


escolar permite-nos demonstrar a força do Aqui se incluí o sujeito e o desejo, sendo
discurso universitário nas escolas. que do discurso científico a verdade do
sujeito é rejeitada em prol de tudo saber.
Podemos dizer que as escolas também
obedecem a lógica da ciência moderna, A medicina também compartilha junto
buscando o afastamento de práticas à psicologia e educação desta imersão no
“intuitivas”; afinal é preciso desenvolver um discurso universitário (como foi pontuado
método para que as crianças aprendam bem a partir das observações de Jurandir Freire
e de modo definitivo. Costa (1999)), onde o saber é agente
do discurso que se apresenta como um
Está aí o cerne do mal-estar da prática discurso do mestre moderno, mestre que foi
educativa, que junto com o ato de governar substituído pelo saber universal científico
e analisar lidam o tempo todo com a falta, abrindo margem para manifestação.
justamente no sentido contrário do discurso
da ciência moderna, onde a falta não deve Da tirania do saber, da obediência como
existir. mandamento do saber, e da ordem como
representante da verdade da ciência; com a
As ilusões (psico) pedagógicas seriam eleição do saber como meio de gozo, a busca
recursos fantasiosos numa tentativa de desenfreada por cursos, especializações,
obturação desta falta. títulos demonstra isso.

A ciência moderna constitui-se como É fato que o discurso universitário dá


paradigma da verdade, seguida de forma sustentação para o trabalho na escola, e é
religiosa por profissionais da educação produtor de pesquisas e circulação de saber.
sedentos por receitas de “como fazer o aluno
aprender”. O problema reside quando há uma
suplantação do discurso do mestre na escola,
É exatamente neste ponto que Lacan “põe que cede seu lugar a teses, informações,
o dedo na ferida”, destacando a impotência normas, e o esquecimento de que no âmbito
da verdade e o poder do impossível. escolar o que ocorre não é apenas uma
relação professor-aluno, e sim a relação
A ética da psicanálise se contrapõe a entre sujeitos desejastes, atravessados pela
da ciência moderna exatamente aí; não linguagem.
há uma única verdade, universal; uma vez
que a verdade seria não-toda, como nos Da maneira como os argumentos foram
diz Lacan(1992) e se apresenta de forma sendo apresentados, pode parecer que não
sinuosa, sulcada, intrincada. existe a necessidade de tratamentos, pois

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Revista Educar FCE - Março 2019

todos os sintomas apresentados pelos alunos possa escutar a equipe da escola, que esta
seriam institucionais. equipe possa se escutar, que o sujeito para
além do professor e do coordenador possa
Certamente há sujeitos que apresentam ter um espaço para escuta do desejo.
questões que demandam uma escuta
singular. Voltando ao texto que nos guiou nesta
reflexão, Freud pondera que no âmbito
Os sintomas que se apresentam na escola religioso (e aqui estamos também pensando
não devem ser entendido estritamente como no discurso científico podendo ocupar este
“sintomas escolares”, mas como sintoma de lugar), abrir mão de uma ilusão de uma
um sujeito. outra vida no futuro, que seria uma vida
melhor, permite-nos um maior investimento
Ocariz assinala que: (libidinal) no aqui e agora.

o sintoma é um fenômeno subjetivo que se Seguindo então o paralelo que


constitui não como sinal de doença, mas como
efeito, produto de um conflito inconsciente (...). desenvolvemos neste texto; ao abrir mão da
O sintoma não é contingente; possui um motivo ilusão de que é através de um tratamento
e um propósito. Tem causa, direção, finalidade que este aluno “anormal” poderia encaixar-
e função na vida psíquica; é sobre determinado,
e sua raiz se encontra na história do sujeito. se no padrão do bom aluno.
É portador do saber inconsciente recalcado;
é uma mensagem cifrada, um hieróglifo a ser Quem sabe possamos investir
interpretado (2001, p.9)”.
(pedagogicamente, e porque não
libidinalmente) numa relação transferencial
É a partir deste ponto que podemos refletir que produza efeitos benéficos na produção
sobre uma intervenção psico/pedagógica pedagógica do mesmo.
possível, ou seja, gostaríamos de pensar uma
possibilidade de atuação dos psicopedagogos Este poderia ser um espaço para o
no nível institucional. psicopedagogo atuar; não para sustentar
uma ilusão, mas para garantir um espaço de
O que propomos então é que o professor palavra: entre sujeitos, entre saberes.
possa “aproveitar” do poder que lhe é
atribuído (afinal seria o portador do discurso Dentro do segundo eixo a psicanálise é
científico) para fazer um movimento de giro no tomada como mais um modo de compreender
que diz respeito às queixas proferidas pelos o que acontece no cotidiano escolar.
professores e coordenadores sobre seus
alunos (queixas estas que podem motivar um Seus conceitos são considerados
encaminhamento), para possibilitar que este fundamentais, mas sua especificidade não é
seja um espaço de escuta; que o professor discutida.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Isso pode ser observado quando Andrade (2002) toma como pressuposto uma
“psicopedagogia psicanaliticamente orientada”, sem discutir como esse encontro se dá.

Também aparece no texto de Milmann (2003) a afirmação de que, num tratamento


psicopedagógico, a psicanálise é a lente através da qual toma o sintoma de seu paciente e
conduz o tratamento.

Ela diz que: “Situar a singularidade da estruturação psicótica abordada pelo saber da
psicanálise é um atravessamento necessário à clínica que se propõe a abordar a psicose”
(MILMANN, 2003, p. 48).

Já Levinsky (2006) propõe, a partir da psicanálise kleiniana, que os pedagogos tomem


conhecimento dos conteúdos psicanalíticos de modo a observar que certas dificuldades de
aprendizagem estão relacionadas com entraves no desenvolvimento psico-sexual da criança.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo descreveu sobre os fatores intervenientes no
processo de aprendizagem de alunos e / ou dificuldades de
aprendizagem, bem como identificar e delinear as principais
visões dos psicopedagogos perante um atendimento dos
professores na educação infantil sobre tais dificuldades.

Em geral, os resultados mostraram uma ênfase dada


aos aspectos emocionais como fatores intervenientes na
aprendizagem do aluno, embora também tenham destacado
o papel da história pessoal antes da dificuldade a ser tratada. ALESSANDRA PIRES

Graduação em Pedagogia pela


Além disso, a análise dos fatores que interferem na Universidade Nove de Julho
aprendizagem dos alunos demonstrou uma diversidade (2016); Bacharel em Ciências
de concepções de aprendizagem entre os estudantes, Biológicas pela Universidade
Guarulhos (2007); Graduação
provavelmente implica também uma diversidade de em Ciências Biológicas pela
inúmeras possibilidades de intervenções psicopedagógicos. Universidade Guarulhos (2005).
Professora de Educação Infantil
(CEI Jardim Japão) da Prefeitura
Nesse sentido, alguns professores precisam analisar a de São Paulo.
qual ponto devem abandonar o protocolo psicopedagógico
tradicional e, nesse contexto, a escuta e o apoio emocional
serem práticas possíveis para melhor desenvolver seu
trabalho e, assim, obter melhores resultados aos seus alunos.

A ênfase nessas práticas resultaria de uma compreensão simplificada do processo de


aprendizagem dos estudantes e, consequentemente, das possíveis estratégias de intervenção
psicopedagógica?

Essa questão merece mais atenção em estudos futuros na área.

Por fim, vale ressaltar, por outro lado, a diversidade de intervenções mencionadas pelos
autores pesquisados em relação á melhor atender as necessidades dos pacientes/alunos.

Essa diversidade parece revelar uma performance que reflete os muitos desafios que os
alunos enfrentam no contexto do ensino básico.

162
Revista Educar FCE - Março 2019

Daí a importância destes serviços que obviamente não podem atender a todas as
necessidades dos alunos, mas representa um ponto de partida para acolhê-los e guiá-los.

Do ponto de vista do processo de aprendizagem, que é o foco principal das intervenções


pedagógicas, é importante ressaltar que o presente estudo fornece algumas evidências de
que certas concepções e intervenções adotadas pelos psicopedagogos parecem originar
diferentes experiências para os alunos.

Portanto, mais estudos são necessários para avaliar a efetividade das intervenções, para
que seus resultados possam focar mais diretamente no processo de aprendizagem, no
sucesso acadêmico e na permanência dos alunos na educação infantil.

163
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
CARVALHO, Rosita Edler. Educação inclusiva: com os pingos nos “is”. 8. ed. Porto Alegre: Ed.
Meditação, 2006.

Kátia Cristina Silva Forli Bautheney.”Psicopedagogia: considerações sobre o futuro de uma


outra ilusão”. An. 4 Col. LEPSI IP/FE-USP Oct. 2002

KRAMER, Sonia & Rocha, Eloisa A.C. Educação Infantil: Enfoques em dialogo. 3. Ed. São
Paulo: Ed. Papirus, 2011.

LIGIA DE CARVALHO ABÕES VERCELLI é doutoranda e Mestre em Educação pelo Programa


de pós-graduação em educação da Universidade Nove de Julho – UNINOVE. An. 4 Col.
LEPSI IP/FE-USP Oct. 2002

Lomônaco, José Fernando Bitencourt. Psicologia e educação: hoje e amanhã. Psicol. Esc.
Educ. (Impr.), 1999, vol.3, no.1, p.11-20. ISSN 1413-8557

Maria Virgínia Machado Dazzani Doutora em Educação. Professora adjunta do Instituto de


Psicologia da Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA – Brasil.

164
Revista Educar FCE - Março 2019

A ESCOLA, A FAMÍLIA, O BULLYING


E AS RESPONSABILIDADES
RESUMO: O presente projeto abordará as definições de bullying, as responsabilidades com
relação à prática do mesmo pela administração escolar e pela família. O artigo também
abordará a reação e as consequências para a vítima e qual as providências para a punição do
agressor e os efeitos que podem causar no futuro das crianças que foram vítimas de bullying.
A execução do trabalho se dará por meio de pesquisas que foram realizadas em livros
publicados por especialistas na linha de estudo do assunto, assim como em artigos da
internet de fontes confiáveis.

Palavras-Chave: Educação; Bullying; Escola; Violência

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO recorrente. Mas é possível perceber que


este tipo de agressão já podia ser observada
Muitas vezes percebemos conversas nas escolas no século XVIII e XIX, porém era
entre pessoas ou em redes sociais que visto como um comportamento natural do
dizem que antigamente não existia bullying, ser humano.
pessoas que dizem que o bullying é mimimi.
Ainda é possível ler que os jovens de hoje Então o que se pode perceber é que
não aguentam uma brincadeira. Não seria antigamente as ações de constranger de
surpresa perceber que a pessoa que fala forma física ou mental um colega já existia,
desta forma tenha sido o autor de bullying porém, nenhuma atenção era dada ao
contra seus colegas de escola no passado. problema, estas ações eram consideradas
somente uma forma de brincar.
O bullying na escola não é um fenômeno
novo, ele tem uma longa historia, praticamente Há também a mudança na forma de ver a
nasceu com a escola, esta forma de tratar violência no nosso país, antigamente só era
erroneamente e de forma inconveniente os considerado violência o que feria e causava
colegas é muito antiga, acreditava-se que machucados e hematonas, hoje a forma de
este tratamento se alteraria drasticamente agressão verbal muitas vezes é mais usada
após o brincalhão atingir a maturidade, que a agressão física, sendo que as duas
que todos seriam adultos e as brincadeiras formas podem causar grandes problemas
cessariam. para o futuro de uma criança.

Por meio das pesquisas realizadas pela As pessoas sofriam bullying por diversos
Professora de Ensino Fundamental II – motivos lá pelos idos da década de 70. Era
Educação Física - na EMEF Joaquim Bento comum a violência física, apelidos perjorativos,
Alves de Lima Neto, Professora de Educação preconceito e outras formas de tratamento.
Básica – Educação Física - na EMEF Joaquim A pessoa era discriminada por ser pobre, por
Bento Alves de Lima Neto na Rede pública ser negra, por usar óculos, por usar roupas de
para a realização do presente trabalho, é segunda mão, por ser magra, por ser gorda,
possível conhecer um pouco mais sobre o por ser alta ou por ser baixa e ainda por
bullying. diversos outros motivos. Pode-se observar
que os motivos não mudaram com o tempo.
Em 1970 o pesquisador sueco Dan Olweus
passou a estudar sobre os casos de suícidio na Algumas pessoas que sofriam o bullying
infância e na adolescência, que se começou acreditavam piamente que ela era o
a descobrir os casos de agressão sofrida de realmente o problema e que ela precisava
maneira frequente que hoje chamamos de mudar para se adequar aos padrões que os
bullying, nos anos 80 o assunto se tornou outros consideravam certo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

impossibilitados de fazer frente às agressões


Grupos de alunos como os nerds, as sofridas. Tais comportamentos não apresentam
patricinhas, os esportistas sempre existiram motivações específicas ou justificáveis. Em
nas escolas e os que não se encaixavam em última instância, significa dizer que, de forma
“natural”, os mais fortes utilizam os mais frágeis
um grupo eram considerados inadequados como meros objetos de diversão, prazer e poder,
ou aberrações e sofriam com o que se com o intuito de maltratar, intimidar, humilhar e
costumava rotular como brincadeira de amedrontar suas vítimas. (Cartilha Bullying p.6)
criança.
Bullying é um termo que tem origem na
Era comum ver crianças totalmente palavra inglesa bully que significa valentão,
isoladas na hora do recreio por não conseguir brigão ou também aquele que se utiliza de sua
interagir com nenhum dos grupos. Este superioridade física para intimidar alguém. O
afastamente, isolamento e estas brincadeiras termo se refere aos gestos e ou palavras que
já eram o bullying se instaurando nas escolas agridem ou intimidem outras pessoas. Os
do Brasil, enquanto os pais e responsáveis que intimidam outros de forma verbal, física
pela escola encaravam estas brincadeiras ou psicológica são chamados de bullies, os
como parte do crescimento e fortalecimento agressores sentem prazer em humilhar suas
da indole da criança. vítimas e os ataques acontecem sem nenhum
motivo aparente.
Ninguém nunca percebeu que esta
criança estava sendo agredida diariamente Esta agressão é intencional, repetida
e que as palavras machucavam mais que diariamente e muitas vezes, e tenta
as palmadas que por ventura recebece em desqualificar a vítima por meio de
algum momento da infância. constrangimentos. Na maioria das vezes o
constrangimento é causado por se apontar
A violência que a criança recebe na infância características físicas, problemas motores e
não importa se de forma física ou psicológica de aprendizado da vítima, também podem
é carregada por toda a vida, muitos adultos ocorrer por meio do racismo.
hoje precisam de uma terapia por causa das
“brincadeiras” sofridas na infância. Os psicólogos brasileiros costumam
denominar esta pratica como violência
moral ou vitimização. A pratica do Bullying é
O QUE É BULLYING? recorrente e pode ser realizada por um único
indivíduo ou em grupo sempre confrontando
O bullying é um termo ainda pouco conhecido
do grande público. De origem inglesa e sem a vítima em locais no qual ela não pode
tradução ainda no Brasil, é utilizado para fugir. Normalmente a pratica é realizada na
qualificar comportamentos agressivos no âmbito frente de diversas pessoas para que todos
escolar, praticados tanto por meninos quanto
por meninas. Os atos de violência (física ou sejam testemunhas da humilhação, trazendo
não) ocorrem de forma intencional e repetitiva graves danos às vítimas.
contra um ou mais alunos que se encontram

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Revista Educar FCE - Março 2019

TIPOS DE BULLYING • Bullying Psicológico – É uma variação


do verbal ou moral faz com que a vítima
Partindo do princípio de que o bullying sempre se sinta culpada por coisas que
existe e sempre foi praticado no Brasil é muitas vezes não estão ao seu alcance
necessário apresentar os tipos de bullying para resolver, o agressor faz coisas
mais comuns aplicados pelos agressores. deliberadamente para poder culpar a
vítima. Este tipo de bullying pode trazer
• Bullying Físico – É o que traz danos distúrbios como depressão e mania de
físicos as vítimas, é o bater, beliscar, puxar perseguição.
cabelo, morder, arranhar, chutar, socar
entre outros, são atos que produzem • Bullying Sexual – É um bullying mais
hematomas ou machucados. Este tipo de comum de acontecer com meninas, o
bullying pode ir piorando no decorrer dos foco do agressor são as meninas mais
anos, pois, o agressor adquire mais força. atraentes e mais desenvolvidas que
são constantemente lembradas de seus
• Bullying Verbal – É o tipo mais comum de corpos. Pode acontecer também com as
acontecer e o mais difícil de provar, palavras vítimas bêbadas e ou indefesas.
o vento leva. Este tipo de bullying pode
ocorrer por meio de fofoca, mentiras, piadas, • Bullying Virtual ou Cyberbullying – É
apelidos, ameaças entre outras. As pessoas o pior de todos os tipos, pois, são todos
ao redor acham engraçado propagar este os tipos de bullying, porém divulgados
tipo de bullying, mas, a vítima sofre e muitas virtualmente para que todos possam
vezes a “brincadeira” vem de um amigo. acessar, o agressor por meio de perfil
anônimo faz o bullying e os observadores
• Bullying Material – É o ato de comentam sobre a vítima como se tivessem
danificar, rasgar, esconder, estragar, conhecimento de causa, transformando
sujar, pegar entre outros um pertence da uma ofensa em milhares de ofensas por
vítima. O agressor quer mostrar sua força meio da divulgação na internet.
e usa a destruição do bem da vítima para
demonstrar a sua suposta superioridade.
COMO AJUDAR UMA
• Bullying Moral ou Sentimental – CRIANÇA NA QUESTÃO DO
É bem parecido com o bullying verbal
só que neste caso não há provocações BULLYING
somente apelidos que afetam diretamente
o lado emocional da vítima. Este tipo de O comportamento de uma criança é
bullying pode causar distúrbios como o termômetro para o adulto perceber se
anorexia, bulimia entre outros. alguma coisa pode não estar correndo bem

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Revista Educar FCE - Março 2019

e que o adulto deve ter atenção. O adulto DADOS SOBRE O BULLYING


deve aguçar o seu instinto para perceber
como pode ajudar a criança. Uma pesquisa realizada pela ONU em 2016
aponta que 50% das crianças e jovens do
Alguns passos são necessários para que se mundo já sofreram bullying, para a pesquisa
proteja uma criança contra casos de bullying foram entrevistadas 100 mil crianças em 18
os principais são: países do mundo. Ainda segundo dados da
pesquisa estes são os índices nos países da
• Orientar América do Sul:
• Ter atenção
• Conversar • Argentina é de 47,8%;
• Confiar • Colômbia é de 43,5%;
• Denunciar • Brasil de 43%.
• Uruguai é de 36,7%;
O responsável deve orientar a criança • Chile de 33,2%;
sobre como os amigos devem proceder em
relação a ele, como ele deve tratar as outras Segundo informação do Programa
pessoas. Para que a criança possa entender Internacional de Avaliação de Estudantes
como isso deve ocorrer, os pais devem dar (PISA) em avaliação aplicada pela Organização
atenção para as dúvidas e incertezas da para a Cooperação e Desenvolvimento
criança, orientando-a sobre qual a forma Econômico (OCDE), um em cada dez
correta de agir em cada situação. estudantes no Brasil é vítima frequente de
bullying.
O diálogo é a melhor maneira de identificar
problemas entre uma criança e seus colegas No Brasil 17,5% dos entrevistados
de escola, os pais devem escolher um tempo disseram sofrer alguma forma de bullying
no seu dia para saber como foi o dia da algumas vezes por mês; 7,8% disseram ser
criança na escola observando suas respostar excluídos pelos colegas; 9,3% dizem ser alvo
para identificar futuros problemas. de piadas; 4,1% afirmam serem ameaçados;
3,2% afirmam ser empurrados e agredidos
A confiança é a base do relacionamento, fisicamente; 5,3% disseram que os colegas
é primordial que se tenha a certeza de que frequentemente pegam e destroem as coisas
a criança confia no responsável e conte os deles e 9% foram classificados no estudo
problemas que ocorrem na escola e nunca como vítimas frequentes de bullying.
se deve quebrar esta confiança. E finalmente
ensinar a criança que denunciar situações Segundo o site do G1 os casos de bullying
inadequadas que presenciar é dever do aumentaram 8% em escolas estaduais de SP,
cidadão de bem. os dados foram fornecidos pela Secretaria

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Revista Educar FCE - Março 2019

de Educação do estado, foram 564 casos Segundo matéria publicada no Jornal da


registrados em 2017, ou seja, 80 casos a mais USP, baseada em uma pesquisa realizada
do que no ano anterior. Ainda segundo o site pela Escola de Enfermagem de Ribeirão
o número de ocorrências pode ser maior, já Preto (EERP) da USP, o bullying na escola
que muitos alunos não denunciam a prática. está ligado à má relação familiar, indica que
relações ruins dentro de casa são um dos
Segundo o site Lumos Jurídico em seu artigo fatores que afetam o comportamento de
publicado em 1 de agosto de 2017, os casos crianças e adolescentes na escola.
de bullying cresceram consideravelmente no
Brasil e a aparência física é o principal motivo Segundo o psicólogo Wanderlei Abadio
de bullying na escola. As informações foram de Oliveira, pesquisador responsável pelo
baseadas na pesquisa do IBGE de 2016. estudo, tanto as crianças que sofrem bullying
A pesquisa mostra que 7,4% dos alunos quanto as que praticam têm histórico de
afirmam que na maior parte do tempo se más relações familiares. “Essas relações são
sentiram humilhados e 19% dos estudantes marcadas pela falta de diálogo saudável
reconhecem que fizeram bullying com seus e de envolvimento emocional. Também
colegas. está presente nessas famílias a má relação
conjugal entre os pais/cuidadores e, ainda,
Segundo o Blog Escola da Inteligência, as punições físicas exercidas pelos pais/
baseado em uma pesquisa realizada pelo cuidadores.”
ministério da Saúde, e aplicada pelo IBGE
em escolas públicas e particulares do Brasil, A pesquisa foi feita com 2.354 estudantes
20% dos estudantes já praticaram bullying. com idade entre 10 a 19 anos de escolas
públicas de Uberaba, Minas Gerais, os
Na pesquisa foi perguntado o motivo resultados apontaram que os estudantes
das agressões e para a surpresa dos sem envolvimento com o bullying tinham
pesquisadores, 51% dos entrevistados não melhores interações familiares e que as
souberam responder a razão do bullying, os famílias dos estudantes envolvidos com
outros implicavam com a aparência do corpo, bullying são consideradas menos funcionais.
rosto, cor da pele e orientação sexual.

Segundo o Jornal Correio do Povo em sua CASOS DE BULLYING QUE


edição do dia 11 de julho de 2018, o Brasil TIVERAM FINAL TRÁGICO
é o segundo país com mais casos de bullying
virtual contra crianças. A reportagem foi O garoto de 13 anos Ryan Halligan
baseada em pesquisa realizada pelo Instituto cometeu suicídio após sofrer bullying na
Ipsos, nesta pesquisa foram entrevistadas escola, ele estava na sétima série e entre os
20.793 pessoas de 28 países. motivos para a morte estavam os fatos de

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Revista Educar FCE - Março 2019

ter sido ridicularizado publicamente pela ataque o estudante tentou se suicidar, mas,
garota popular da escola; um amigo espalhou foi impedido por um funcionário da escola.
a notícia de que ele era gay, além disso, por
ele ter dificuldade motora e de aprendizado Há uma infinidade de casos de crianças
vinha sendo humilhado por uma professora. e adolescentes que tentaram o suicídio por
não suportarem a pressão de sofrer bullying
Dylan Stewart de 12 anos, em depressão diariamente e uma quantidade enorme
por causa do bullying sofrido na escola, se de pessoas que ainda acreditam que fazer
enforcou e foi encontrado por sua mãe e pai bullying é só uma brincadeira.
agonizando dentro de casa.

O garoto Jon Carmichael de 13 anos CYBERBULLYING A INTERNET


sofreu bullying por ser baixo e magro, foi AJUDANDO OS VALENTÕES
colocado diversas vezes na lata de lixo da
escola. Um dos seus colegas de sala disse Antigamente a criança sofria na escola,
que eram apenas brincadeiras e que todos o mas, estava a salvo em casa com sua família,
consideravam como amigo, Jon se enforcou. hoje com a internet, o bullying persegue a
vítima em todos os lugares em que ela vai.
Na grande São Paulo uma menina apanhou Por meio de mensagens de texto, aplicativos
de colegas que a perseguiam até desmaiar. para celular e sites de relacionamento em
Em Porto Alegre um jovem foi morto a tiros todos os minutos do dia o agressor está em
depois de um longo processo de bullying. contato com a sua vítima e esta não consegue
se esconder ou ter momentos de paz. A falta
Em 2010 pais de um aluno de um colégio de tranquilidade da vítima, muitas vezes é o
de Belo Horizonte foram sentenciados a estopim para o suicídio.
pagar uma indenização de R$ 8 mil para uma
garota que sofria de bullying, o juiz relatou Muitas pessoas pensam que a internet
que o autor do bullying não tinha limite. é terra de ninguém, é na internet mais
Também em 2010 em São Luiz um aluno especificamente em sites de relacionamento
foi espancado na saída do colégio por seis que as vítimas mais sofrem. Somente uma
estudantes armados com soco inglês. postagem na internet é suficiente para
desmoronar a vida de uma pessoa. Há leis
Um adolescente de 14 anos entrou em para proteger a privacidade das vítimas, mas,
no colégio particular na qual estudava em até a vítima ter coragem de denunciar e o
Goiânia e atirou, matando 2 garotos de 13 agressor ser responsabilizado o estrago já
anos e outros 4 foram feridos, segundo a está feito. Os compartilhamentos de fotos,
polícia o aluno tinha como alvo um único vídeos e notícias sai do controle e uma
aluno que fazia bullying contra ele. Após o inverdade postada vira verdade absoluta.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O COMPORTAMENTO DO O COMPORTAMENTO DA
AGRESSOR VÍTIMA
É possível que com a observação do Existem diversas formas de identificar
comportamento do agressor possa se uma pessoa que está sofrendo bullying até
entender a sua motivação e conseguir porque cada um reage de forma diferente,
ajudar e resolver o problema. Seguem porém a maioria apresenta pelo menos
alguns itens observados em vários bullies dois dos cinco sinais listados abaixo:
ou valentões.
1. Falta de interesse pela escola - é
• Muitos se comportam com total muito comum a criança não querer
falta de limites tanto na escola como contato com o agressor, por isso muitas
em relação com a família. Sua “valentia” vezes arruma desculpas ou doenças
muitas vezes é apoiada pelo pai, que não para não ir à escola;
vê problema na atitude do filho. Algumas
vezes o filho repete ações do pai. 2. Isolamento – a criança fica mais
retraída e se isolam se se escondendo
• Os agressores procuram na reação até mesmo de parentes e amigos;
violenta um meio de conseguir poder e
status na escola. Normalmente escolhem 3. As notas escolares caem – a vítima
vítimas mais fracas para demonstrar seu de bullying não consegue se concentrar,
poder. pois estão com medo de serem atacadas
e com isso suas notas caem.
• Há os que por problemas particulares
como separação ou morte procuram a 4. Não se valorizam – é comum a
violência como forma de extravasar a vítima de bullying estar sempre se
dor, é possível perceber que o agressor criticando, a autoestima da vítima cai e
não é acostumado com a pratica de ela se sente frustrada com ela mesma.
bullying.
5. Ataques de fúria e impulsividade
• É como último caso há os agressores – algumas vezes as crianças que
que tem prazer em agredir, faz parte de passam por bullying apresentam um
sua personalidade, falta-lhes o querer comportamento agressivo com amigos
bem a outra pessoa e sobra o desamor. e familiares

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Revista Educar FCE - Março 2019

LEIS SOBRE O BULLYNG É preciso entender o que se encaixa na lei,


o bullying é bem diferente de brigas comuns,
Em 14 de maio de 2018 o presidente que são consideradas normais e fazem parte
Michel Temer sancionou a lei 13.663 que do desenvolvimento humano.
altera o artigo 12 da lei 9.394 de 1996
(Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional - LDB). A atualização da lei incluiu A ESCOLA E O BULLYING
a responsabilidade das escolas na promoção
de medidas de combate ao bullying, além de Segundo o pediatra Lauro Monteiro
incluir a obrigatoriedade de implementação Filho, fundador da Associação Brasileira
de ações para a promoção da cultura de paz. Multiprofissional de Proteção à Infância
Segue abaixo a redação integral da lei: e Adolescência (Abrapai), todo ambiente
escolar pode apresentar o problema de
LEI 13.663, DE 14 DE MAIO DE 2018. bullying. “A escola que afirma não ter bullying
Altera o art. 12 da lei 9.394, de 20 ou não sabe o que é ou está negando sua
de dezembro de 1996, para incluir a existência”, cabe a administração escolar dar
promoção de medidas de conscientização, o primeiro passo e assumir que a escola é um
de prevenção e de combate a todos local passível de bullying, e informar a todos
os tipos de violência e a promoção da os envolvidos sobre o problema e deixar claro
cultura de paz entre as incumbências dos que a escola não admitirá a prática. “A escola
estabelecimentos de ensino. não deve ser apenas um local de ensino
formal, mas também de formação cidadã,
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA de direitos e deveres, amizade, cooperação
Faço saber que o Congresso Nacional e solidariedade. Agir contra o bullying é
decreta e eu sanciono a seguinte Lei: uma forma barata e eficiente de diminuir a
Art. 1º O caput do art. 12 da lei 9.394, violência entre estudantes e na sociedade”,
de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar afirma o pediatra.
acrescido dos seguintes incisos IX e X:
“Art. 12. Não há dúvidas de que a escola é
IX - promover medidas de conscientização, responsável pelos atos praticados dentro
de prevenção e de combate a todos os tipos dos seus muros, é dever da escola proteger
de violência, especialmente a intimidação seus alunos, identificar e coibir brigas, maus
sistemática (bullying), no âmbito das escolas; tratos e principalmente o bullying.
X - estabelecer ações destinadas a
promover a cultura de paz nas escolas.” (NR) De acordo com a nova lei 13.663 a escola
Art. 2º Esta Lei entra em vigor na data de é responsável pela promoção da cultura da
sua publicação. paz além de ser responsável também por
promover medidas de conscientização, de

173
Revista Educar FCE - Março 2019

prevenção e de combate a todos os tipos de se o responsável pela integridade do aluno


violência. perceba o quanto antes que a violência está
ocorrendo.
Ana Beatriz aponta em seu livro Mentes
Perigosas na Escola que a violência A partir do momento que a administração
vivenciada na escola reflete um contexto escolar reconhece que o problema do
social mais amplo: “A comunidade escolar bullying existe, ela pode começar a trabalhar
tende a reproduzir, em maior ou menor para resolvê-lo, desenvolvendo projetos
escala, a sociedade como um todo” (SILVA, que ajudem no combate das brincadeiras
2010, p. 79). vexatórias, propagação de falsas notícias e
violência física e psicológica.
Entende-se neste conceito que a autora
quer dizer que o aluno reproduz na escola O bullying deve ser visto como um
o que está acostumado a ver na sociedade. problema com solução por meio do trabalho
Quando a escola é omissa no caso de bullying conjunto de todos os envolvidos, os alunos a
ela está desrespeitando não só o direito da escola e os pais, que devem se mobilizar para
vítima, como também a sua responsabilidade buscar soluções para acabar com a situação
para com os outros alunos da escola que vexatória que pode acarretar em diversos
podem a ser a próxima vítima do agressor. problemas futuros. A melhor forma de iniciar
o projeto para a solução do problema é a
É responsabilidade da instituição conversa franca e envolver todos em busca
educacional o zelo pelo bem-estar físico e de uma solução conjunta.
psicológico dos alunos.
A Associação Brasileira Multiprofissional
Em decisão judicial o Supremo Tribunal de Proteção à Infância e Adolescência
Federal (RJTJSP 25/611), entendeu que (ABRAPIA) sugere as seguintes dicas para
a escola é responsável pela vigilância e identificar e solucionar possíveis vítimas de
disciplina dos alunos que se encontram em bullying.
seu domínio. Inclusive há casos em que as
escolas tomaram medidas insatisfatórias para • Conversar com os alunos e escutar
amenizar o problema de bullying e tiveram atentamente reclamações ou sugestões;
que arcar com indenização as vítimas.
• Estimular os estudantes a informar os
A compreensão do que é bullying é casos;
fundamental para que se possa combatê-lo
as denúncias são reais quando há a violação • Reconhecer e valorizar as atitudes da
da dignidade da vítima pelo agressor, a garotada no combate ao problema;
gravidade desta violação pode ser menor

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Revista Educar FCE - Março 2019

• Criar com os estudantes regras de disciplina para a classe em coerência com o


regimento escolar;

• Estimular lideranças positivas entre os alunos, prevenindo futuros casos;


• Interferir diretamente nos grupos, o quanto antes, para quebrar a dinâmica do bullying.

Segundo Aramis a prevenção de futuros incidentes pode ser obtida com orientações sobre
medidas de proteção a serem adotadas: ignorar os apelidos, fazer amizade com colegas
não agressivos, evitar locais de maior risco e informar ao professor ou funcionário sobre o
bullying sofrido.

NEM TUDO É BULLYING


É possível perceber que há uma onda de casos de bullying, é alguns especialistas advertem
que houve uma banalização do termo é toda ofensa está entrando nas definições de bullying.

Em uma brincadeira de criança uma chamar a outra de bobo não pode ser qualificado
como bullying, uma criança chamar a outra de chorão, se a outra é realmente chorona não é
qualificado como bullying.

Muitas vezes a criança não tem noção de que uma brincadeira pode ser ofensiva, cabe
aos pais ensinar como tratar o colega. E cabe aos pais entender o que é bullying e o que é
simplesmente uma brincadeira de criança.

O bullying é a forma de insultar, ofender e agredir a outra pessoa de forma rotineira


normalmente na presença de testemunhas para constranger o agredido.

O BULLYING NÃO ACONTECE SÓ NA ESCOLA


Os casos de bullying podem ocorrer com adultos e é mais comum do que se pensa, há
casos de bullying em empresa, academias, faculdades, porém estes casos acontecem entre
adultos que aprenderam a se defender, mesmo assim há formas para se denunciar e processar
pessoas pelo abuso de poder e o constrangimento e humilhação dos adultos valentões.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O fato é que a violência nas escolas tem se tornado
um caso de polícia e como os valentões não estão sendo
advertidos e nem punidos, estão sentindo a falda falsa
impressão de que estão agindo de forma correta.

A repetição de atos de violência física, verbal e psicológica


vem causando mais angústia nos jovens e por consequência
mais casos de suicídio tornando-se um caso de saúde
pública.
ALINE LOPES OLIVEIRA
Nos casos em que a vítima não chega ao suicídio, o bullying
ainda pode causar sequelas irreversíveis, prejudicando
a vítima na escola e em toda a sua vida futura. A vítima
normalmente tem baixo rendimento escolar e se torna uma
pessoa solitária, medrosa e reprimida.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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www.correiodopovo.com.br/Jornalcomtecnologia/2018 /07/11/brasil-e-o-2o-pais-com-
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Casos de bullying crescem consideravelmente no Brasil aparência física é o principal motivo


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casos-de-bullying-crescem-consideravelmente-no-brasil-aparencia-fisica-e-o-principal-
motivo-de-bullying-nas-escolas/. Acesso em 25 de jan. 2019.

IPOLITO, Tati. Como reconhecer os diferentes tipos de bullying e proteger seu filho.
Disponível em: https://www.familia.com.br/como-reconhecer-os-diferentes-tipos-de-
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LOPES NETO, A. L.; SAAVEDRA, L. H. Diga não para o bullying: programa de redução do
comportamento agressivo entre estudantes. Rio de Janeiro: Abrapia, 2003.

Pesquisa da ONU mostra que metade das crianças e jovens do mundo já sofreu bullying.
Disponível em: https://nacoesunidas.org/pesquisa-da-onu-mostra-que-metade-das-
criancas-e-jovens-do-mundo-ja-sofreu-bullying/. Acesso em 25 de jan. 2019.

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas. 1ª edição. Editora
Fontanar. 2010.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying. Disponível em: http://
agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2017-04/um-em-cada-dez-estudantes-no-
brasil-e-vitima-frequente-de-bullying. Acesso em 25 de jan. 2019.

Pesquisa mostra que 20% dos estudantes já praticaram bullying. Disponível em:https://
escoladainteligencia.com.br/pesquisa-mostra-que-20-dos-estudantes -ja-praticaram-
bullying/. Acesso em 25 de jan. 2019.

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Revista Educar FCE - Março 2019

ARTES E SUAS CONTRIBUIÇÕES NA


EDUCAÇÃO
RESUMO: O senso estético é uma maneira permanentemente válida de apreender o mundo
e atuar sobre ele, por meio de uma atividade dotada de sentido. Isto é especialmente válido
quando consideramos como objetivos da educação a realização das potencialidades do
ser humano e a sua preparação para a cidadania e o trabalho. A arte pode ser definida
como: “Conjunto de preceitos para a perfeita execução de qualquer coisa. Artifício, ofício,
profissão; indústria; astúcia; habilidade; travessura; magia; feitiçaria; complexo de regras e
processos para a produção de um efeito estético determinado”. Os conceitos de arte e de
ensino-aprendizagem da arte têm-se transformado ao longo do processo histórico e, nesse
percurso, ambos passaram e passam por momentos, muitas vezes, semelhantes.

Palavras-Chave: Arte, Educação, Brincadeiras, Desenvolvimento Artístico.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO realidade por meio da organização de linhas,


formas, pontos, cor, luz, sendo, portanto,
As artes visuais são linguagens e, portanto uma das maneiras mais importantes de
uma das formas importantes de expressão e se expressar e se comunicar, o que, por si
comunicação humana, que estão presentes só, justifica sua presença no contexto da
no cotidiano da vida infantil. Quando a educação e de modo especial na educação
criança desenha, rabisca, utiliza materiais infantil.
para construir algo, ao pintar objetos, entre
outros, ela está se utilizando das artes visuais Oferecer ao trabalho com artes visuais
para expressar experiências sensíveis. As uma conotação decorativa utilizá-lo como
artes visuais expressam, comunicam e passatempo ou reforço de aprendizagem, são
atribuem sentidos e sensações, sentimentos algumas das práticas correntes que devem
e pensamentos da realidade. ser evitadas.

Por isso, se faz questão de promover As artes visuais devem visar a um trabalho
momentos de descontração e confiança no que cumpra o seu papel de auxiliar no
qual o professor faz intervenções indiretas desenvolvimento pleno das capacidades
positivas, para que a criança possa se criadoras da criança. Nas atividades com
manifestar por meio de suas possibilidades desenhos ou criações artísticas as crianças
artísticas livremente, podendo assim exercer brincam, surgindo o faz-de-conta e
seu direito de cidadão de expressar-se, verbalizam a respeito de suas criações.
bem como de ter contato e refletir sobre as
produções artísticas.
A IMPORTÂNCIA DO
O desenvolvimento da imaginação DESENVOLVIMENTO DA
criadora, da expressão, da sensibilidade e das
capacidades estéticas das crianças poderá
ARTE
ocorrer no fazer artístico, assim como no
contato com a produção de arte presentes Pensar no ensino da Arte na escola requer
na comunidade. O desenvolvimento da uma análise profunda sobre a sua importância
capacidade artística está apoiado também, no desenvolvimento do homem. A educação
na prática reflexiva das crianças ao tem privilegiado na sua história, conteúdos
aprender, que articula a ação, a percepção, a escolares que propiciem aos alunos o
sensibilidade à cognição e a imaginação. domínio de informações e não a formação e
compreensão dos fatos e fenômenos sociais,
As artes visuais são linguagens que culturais e científicos que acontecem no
expressam, comunicam e atribuem sentidos mundo.
a sensações, sentimentos, pensamentos e

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Revista Educar FCE - Março 2019

A Arte na Educação brasileira passou a ser livre, sem a preocupação como processo de
considerada fundamental a partir de reflexões desenvolvimento artístico.
recentes que coincide com as transformações
educacionais que caracterizam o século XX Considerar a aprendizagem artística
em várias partes do mundo. como conseqüência automática do processo
de maturação da criança por meio da
Pesquisas desenvolvidas a partir do início expressão livre, levou educadores como
do século em vários campos das ciências Feldman, Thomas Munro ancorados em John
humanas trouxeram dados importantes Dewey, a refletirem sobre o processo de
sobre o desenvolvimento da criança, sobre o desenvolvimento do pensamento artístico; e
processo criador, sobre a arte e sua influência proporem mudanças no enfoque educacional
no desenvolvimento do homem. e afirmavam que o desenvolvimento
artístico é resultado de formas complexas
Na confluência da antropologia, da filosofia, de aprendizagem e, portanto, não ocorre
da psicologia, da psicanálise, da crítica da automaticamente à medida que a criança
arte, da psicopedagogia e das tendências cresce; é tarefa do professor propiciar essa
estéticas da modernidade, surgiram autores aprendizagem por meio de instrução.
que formularam os princípios inovadores
para o ensino das artes em geral. Tais O ser humano sempre organizou e
princípios reconheciam a arte da criança classificaram os fenômenos da natureza,
como manifestação espontânea e auto- o ciclo das estações, os astros no céu, as
expressiva: valorizavam a livre expressão diferentes plantas e animais, as relações
e a sensibilização para a experimentação sociais, políticas e econômicas, para
artística como orientações que visavam o compreender seu lugar no universo,
desenvolvimento do potencial criador, ou buscando a significação da vida.
seja, eram propostas centradas na questão
do desenvolvimento do aluno. Uma das primeiras referências da
existência humana na Terra aparece nas
Sabemos a importância da expressão livre imagens desenhadas nas cavernas, que hoje
como uma das maneiras de contribuirmos chamamos de imagens artísticas. Neste
para o desenvolvimento expressivo dos sentido, pode-se dizer que a arte está
alunos, porem a aplicação indiscriminada presente no mundo desde que o homem se
de idéias vagas e imprecisas sobre a fez presente.
função da educação artística levou a
uma descaracterização progressiva da A vida adquire sentido para o ser humano
área. A educação artística ficou restrita à medida que ele organiza o mundo. Por
durante muito tempo em atividades que meio das percepções e interpretações,
proporcionavam aos alunos a expressão os sistemas externos da realidade são

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Revista Educar FCE - Março 2019

mapeados nos sistemas internos do ser. Para propicia ao homem contato consigo mesmo
construir imagens, o homem não só deve e com o universo. Por isso, a arte é uma
ter sensibilidade para com o fenômeno, mas forma de o homem estender o contexto ao
necessita de memória e capacidade de tomar seu redor e relacionar-se com ele.
decisões.

Até mesmo no caso das imagens nas OS FUNDAMENTOS


cavernas, estas já são imagens transformadas CULTURAIS E ARTÍSTICOS
a partir de um olhar, com certo domínio do
espaço e do tempo. Elas estão ligadas não DA SOCIEDADE
só ao próprio sustento do homem, mas a
experiências coletivas e sociais, advindas Os fundamentos sociais, morais,
de rituais, crenças, gestos e danças, econômicos, culturais e políticos da
materializadas por meio de sistemas de sociedade antiga foram sendo superados
signos. desde a instauração da sociedade moderna
no século XVI. A constituição de modos
A arte, portanto, se faz presente, desde de vidas passou a ser exigência do novo
as primeiras manifestações de que se tem contexto social. A burguesia, classe em franca
conhecimento, como a linguagem, produto expansão passou a reivindicar formas mais
da relação homem/mundo. concretas de vida, não mais lhes bastava uma
educação dogmática, era preciso recorrer a
Neste sentido, não existe o homem puro, o uma educação que lhes dessem condições
ser biológico separado de suas especificidades de dominar a natureza.
psicológicas, sociais e culturais. Cada uma
dessas especificidades está presente e Houve por parte do papado católico e
sempre esteve na vida humana, e é por meio do império, reações contra as tentativas
delas que desde os tempos mais remotos o de inovação ocasionadas pela rejeição
homem foi se relacionando com a natureza ao mundo medieval. Nesse contexto, a
e com o mundo ao seu redor, construindo instrução passou a chamar a atenção, tanto
as possibilidades de sua sobrevivência e daqueles que desejavam manter, quanto dos
desenvolvimento. que almejavam subverter a ordem vigente.

A arte, enquanto linguagem, interpretação De um lado, os defensores da manutenção


e representação do mundo, é parte integrante da estrutura social e das prerrogativas
deste movimento. Enquanto forma da igreja reorganizaram suas escolas de
privilegiada dos processos de representação modo a garantir uma educação religiosa e
humana, é instrumento essencial para a instrução em disciplinas eclesiásticas; por
o desenvolvimento da consciência, pois outro lado, aqueles que se rebelou contra

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Revista Educar FCE - Março 2019

a estrutura social vigente, clamavam por primeiras preocupações com a educação


uma instrução mais democrática, calcada das crianças pequenas. Campanella (1568-
em modelos populares e modernos, que 1639), em sua obra “Cidade do Sol”, criticou
permitissem ao homem lidar com os novos o ensino servil da gramática e da lógica
modos de produção, subvertendo as velhas aristotélica e ressaltou a importância das
corporações artesanais, permitindo-lhes crianças aprenderem ciências, geografia, os
descobrir e conquistar a nova sociedade. costumes e as histórias pintadas nas paredes
das cidades, “sem enfado, brincando”.
Vamos localizar, então, na literatura
educacional, vários teóricos preocupados Podemos constatar que Campanella
em delinear uma nova proposta educativa já demonstrava uma preocupação com a
para adolescentes, jovens e homens. Uns educação da criança pequena e, desde então,
com o propósito de salvar-lhes as almas, por podemos verificar, surgiram às primeiras
meio do restabelecimento da disciplina e do propostas educativas contemplando a
ensino do cristianismo, outros na tentativa educação da criança de 0 a 6 anos.
de lhes garantir uma socialização e um
conseqüente domínio das ciências letras e
instrumentos de produção. O PANORAMA DA ARTE NA
EDUCAÇÃO
Foi no início do século XVII que surgiram
as primeiras preocupações com a educação Estudando o panorama da arte na
das crianças pequenas. Essas preocupações educação brasileira nas últimas décadas,
foram resultantes do reconhecimento e é fácil constatar o percurso acidentado e a
valorização que elas passaram a ter no meio falta de prioridade dada a essa questão nos
em que viviam. Mudanças significativas documentos legais e oficiais que nortearam
ocorreram nas atitudes das famílias em e continua orientando a educação no Brasil.
relação às crianças que, inicialmente, Cabe aqui registrar os avanços alcançados
eram educadas a partir de aprendizagens com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases,
adquiridas junto aos adultos e, aos sete sancionada em 1996: o ensino da Arte, a
anos, a responsabilidade pela sua educação partir da nova Lei “constituirá componente
era atribuída à outra família que não a sua. curricular obrigatório, nos diversos níveis
da educação básica, de forma a promover o
Apesar de uma grande parcela da desenvolvimento cultural dos alunos” (art.
população infantil continuar sendo 26, parágrafo 2°).
educado segundo as antigas práticas de
aprendizagem, o surgimento do sentimento Essa conquista é fruto da mobilização
de infância provocou mudanças no quadro daqueles que já estavam comprometidos
educacional. Começaram a surgir as com a arte-educação, em todas as suas

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Revista Educar FCE - Março 2019

manifestações, fomentando a criação de Os Parâmetros Curriculares Nacionais


novas metodologias para o ensino e a para o primeiro e o segundo ciclo do Ensino
aprendizagem da arte nas escolas. Fundamental e o Referencial Curricular
Nacional para a Educação Infantil (Brasil,
Apesar desse contexto, chegamos ao MEC/SEF, 1998), apesar das críticas que
século XXI sem que as mudanças tenham sofreram, dedicaram especial atenção às
sido tão significativas quanto desejaríamos. artes. Nos Parâmetros Curriculares do
Embora as preocupações com os aspectos Ensino Fundamental encontramos o volume
artístico-culturais tenham estado presentes seis, intitulado “ARTE”, que tem como
nos objetivos gerais dos documentos que objetivo expor o “significado da arte na
se seguiram à Lei, foram tratados de forma educação, explicitando conteúdos, objetivos
generalista ou negligenciados. e especificidades, tanto no que se refere ao
ensino e à aprendizagem, quanto no que se
Nos objetivos específicos e metas, que são refere à arte como manifestação humana”
o que mais nos interessa por se articularem (PCNs, 1997, p.15).
com a realidade do tentar pôr em prática,
do construir, do fazer acontecerem, as No Referencial Curricular Nacional para a
atividades artísticas e culturais continuam Educação Infantil encontramos, no volume
aparecendo como adorno, coisa supérflua, três, intitulado “Conhecimento do Mundo”,
para ser tratada quando em horário integral, os capítulos “Movimento”, “Música” e “Artes
complementar ao da escola. Visuais”.

Nas diretrizes norteadoras do Ensino Orientações didáticas, critérios de avaliação


Fundamental descritas no Plano Nacional e bibliografia especializada complementam
de Educação encontramos as atividades os documentos, transformando-os em fonte
artísticas relacionadas às intenções de de consulta valiosa para os arte-educadores
futura ampliação do “atendimento em tempo e para todos os professores que reconhecem
integral, oportunizando orientação no a arte não só como grande aliada, mas como
cumprimento dos deveres escolares, prática um conhecimento tão importante quanto
de esportes, desenvolvimento de atividades os outros conhecimentos atualmente
artísticas e alimentação adequada.” Ou senão legitimados como fundamentais para o
nas preocupações com possíveis “adaptações processo de formação de seus alunos.
adequadas a portadores de necessidades
especiais, até os espaços especializados de Reconhecemos que criar um referencial
atividades artístico culturais, esportivas, ou estabelecer parâmetros nacionais é um
recreativas e a adequação de equipamentos” tema polêmico e controverso. Críticas que
(BRASIL, 2001, p.71, 73). se fundamentam no caráter de imposição
cultural e controle políticos exercidos a

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Revista Educar FCE - Março 2019

partir de conteúdos e objetivos comuns que de observação e organização estética é que


não levam em conta a diversidade cultural e sairão ganhando.
social, precisam ser levadas em consideração.
Quanto à metodologia para a abordagem
Apesar dos Parâmetros terem a intenção das obras de arte pelos educadores, vejamos
de não se configurarem em “um modelo quais são os elementos mais essenciais a
curricular homogêneo e impositivo, que se serem explorados:
sobreporia à competência política-executiva
dos Estados e Municípios, à diversidade Os elementos estruturais da linguagem
sociocultural das diferentes regiões do País plástica: cor, linha, forma, ritmo, volume.
ou à autonomia de professores e equipes As relações históricas e sociais da
pedagógicas.” (Brasil, MEC/SEF, 1997, p.13), época em questão;
as múltiplas iniciativas que seriam necessárias
para que essa intenção fosse alcançada As formas de representação: desenho,
parecem não terem se concretizado. pintura, aquarela, mosaico, instalações
música e outros, em suma, os diferentes
Para isso, Parâmetros e Referencial suportes e os meios com que são realizadas
precisariam estar sendo analisados, as obras.
discutidos, criticados pelos professores e
agentes responsáveis pelo aperfeiçoamento A educação inovadora se apóia em um
da formação dos docentes. conjunto de propostas com alguns grandes
eixos que lhe servem de guia e de base. As
No lugar disso, em 1999, começa a ser tecnologias favorecem mudanças, mas os
articulada pela SEF/MEC uma tentativa eixos são como diretrizes fundamentais para
simplificadora denominada Parâmetros construir solidamente os alicerces dessas
em Ação que pretende uma transposição mudanças.
didática dos conteúdos dos Parâmetros,
utilizando exemplos homogeneizadores. A educação deve mostrar que não há
conhecimento que não esteja, em algum
grau, ameaçado. O conhecimento é causa
ARTE E EDUCAÇÃO de erros e ilusões. Devemos destacar, em
qualquer sistema educacional, as grandes
Se por meio do “olhar”, do “ver”, do “adaptar”, interrogações sobre nossas possibilidades
do “transformar” e do “criar” a criança estará de conhecer.
compreendendo e apreciando os métodos
que o artista pode escolher para organizar O conhecimento permanece como uma
as linhas, as formas e as cores presentes em aventura para a qual a educação deve
seu quadro, sua própria criatividade, poder fornecer o apoio indispensável. Conhecemos

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Revista Educar FCE - Março 2019

tudo menos o principal: de por meio viemos o sentido profundo do que fazemos e para
por meio nos encaminhamos. A informação é o primeiro passo para conhecer. Conhecer
é relacionar, integrar, contextualizar, incorporar o que vem de fora. Conhecer é saber,
desvendar, é ir além da superfície, do previsível, da exterioridade.

Conhecer é aprofundar os níveis de descoberta, é penetrar mais fundo nas coisas, na


realidade, no nosso interior. Conhecer é tentar chegar ao nível da sabedoria, da integração
total, da percepção da grande síntese, que se consegue ao comunicar-se com uma nova
visão do mundo, das pessoas e com o mergulho profundo no nosso eu. O conhecimento se
dá no processo rico de interação externo e interno.

Somos animais lingüísicos e todas as formas de linguagem nos servem de meio de


expressão oral, visual ou corporal. O fato de lembrarmo-nos do passado e imaginarmos o
futuro permite planejar e agir de um modo que nos torna únicos entre os animais. A verdade
é que somos capazes de produzir e, no qual da comunicação, fazer circular sentidos.

A arte, ainda nos tempos das cavernas, permitiu ao homem compreender a atribuir sentido
ao mundo e à sua atividade sobre ele.

A capacidade de configurar sua experiência passada e presente e discernir o seu futuro,


desde os primórdios da humanidade, é alguma coisa ligada indissoluvelmente à experiência
estética.

A vida, em geral, e o mundo do trabalho, em particular, valoriza e recompensa aqueles que


apreendem e incorporam em sua maneira de ver, entender a agir, os padrões novos que cada
vez com maior velocidade, emergem da experiência humana. Isso é particularmente válido
para uma época de transição no processo civilizatório, como a que presentemente estamos
vivendo.

Foi na qual da arte que, pela primeira vez, o homem entendeu e representou o mundo em
torno de si.

A idéia é de que esta atitude não é alguma coisa, que ficou esquecida em algum lugar do
nosso passado. Nós carregamos conosco essa capacidade de aprender a configuração do
nosso mundo interior ou exterior e objetivá-la em algo dotado de sentido, sem ter, para isso,
de recorrer à religião, à filosofia e à ciência. É nisto que consiste a experiência estética.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inclusão da Arte no currículo escolar foi instituída
pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, Lei
nº. 5.692/71, com a denominação de Educação Artística,
sendo considerada uma “atividade educativa” e não uma
disciplina. O fato representou certa conquista, em especial,
porque deu sustentação legal a essa prática educacional e
pelo reconhecimento da arte na formação dos indivíduos. O ALZIRA DA SILVA
resultado dessa proposição, no entanto, foi contraditório e
Graduação em Ciências
paradoxal. pela Faculdade UNIABC
(11/10/2006); Professor de
A criança tem sido educada e cuidada desde o início da Ensino Fundamental II - Ciências
- na EMEF Maria Lisboa da Silva.
humanidade, no qual de uma educação informal: educar e
cuidar eram responsabilidade das famílias.

Inicialmente não era feita nenhuma diferenciação entre a


educação das crianças pequenas e das mais velhas. Somente
nos tempos modernos é que se estabeleceram escolas
especializadas.

O século XIX é que trouxe métodos pedagógicos específicos para cada idade.

Ao fornecer informações e explicações a cerca das características e atividades da criança


nos vários períodos do seu desenvolvimento, Vygotsky e Wallon, ressaltam que ela aprende
a partir das múltiplas interações que estabelece com o meio histórico-cultural, constrói
conhecimentos que fazem parte do seu dia-a-dia e aqueles que ela reelabora nos centros de
educação Infantil.

As contribuições da teoria de Vygotsky nos fazem compreender o papel da linguagem, da


brincadeira e das interações no desenvolvimento infantil, apontando que a construção do
conhecimento acontece no desenvolvimento das funções psicológicas superiores, com a
apropriação de signos e instrumentos dentro de um contexto de interação.

Cada uma das linguagens que permeia o trabalho da educação infantil tem seu conjunto
de regras e princípios de funcionamento próprio. Elas são diferentes umas das outras,
requerendo investimentos diferenciados para serem apropriadas por crianças e professores.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Portanto, uma das formas da criança ler o mundo, de relacionar-se com ele, recriá-lo
é a expressão. Isso implica em entender a expressão com possibilidade de construção de
conhecimento, envocada uma das linguagens que permeia o trabalho da educação infantil
tem seu conjunto de regras e princípios de funcionamento próprio. Elas são diferentes umas
das outras, requerendo investimentos diferenciados para serem apropriadas por crianças e
professores.

Portanto, uma das formas da criança ler o mundo, de relacionar-se com ele, recriá-lo
é a expressão. Isso implica em entender a expressão com possibilidade de construção de
conhecimento, envolvendo crianças e adultos em diferentes contextos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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na Escola. 6ª. ed. São Paulo: Cortez, 2003.

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Dias. Cadernos Educação Infantil. Porto Alegre: Mediação. 1998.

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São Paulo: Cortez, 2004.

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MANACORDA, M. A. História da Educação: Da Antiguidade aos nossos Dias. São Paulo:


Cortez, 1989.

189
Revista Educar FCE - Março 2019

AS HORTAS ESCOLARES NO
CONTEXTO DA EDUCAÇÃO
AMBIENTAL
RESUMO: O presente artigo traz uma revisão bibliográfica da importância da Educação
Ambiental no ambiente escolar como um tema interdisciplinar e transversal com ênfase na
implantação das hortas escolares e seu impacto na vida dos alunos, comunidade escolar e
familiares. Com base em uma abordagem histórica, a partir da década de 70, no século XX, o
artigo mostra a evolução da Educação Ambiental e as hortas nas , bem como as dificuldades
que podem surgir em sua implementação, muitas vezes devido a impedimentos que podem ser
encontrados para a continuidade de projetos já em andamento, ou dos próprios professores,
que resistem à novas mudanças.

Palavras-Chave: Educação Ambiental; Hortas Escolares; Escolas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO preservação e utilização consciente dos


insumos, além de melhorar a alimentação
A problemática ambiental é uma das dos alunos.
principais preocupações da sociedade
moderna. Por isso, tem desencadeado uma
série de iniciativas que visam reverter o A IMPORTÂNCIA DA
processo de degradação do meio ambiente. EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Uma dessas iniciativas é a Educação Ambiental,
a qual as instituições de educação básica A questão ambiental é uma das temáticas
têm buscado, gradativamente, inserirem atuais de grande preocupação da sociedade
em seu currículo, como meio de formar desencadeando, por isso, uma série de
cidadãos conscientes e comprometidos com iniciativas a fim de reverter a situação
as principais preocupações da sociedade. atual de consequências danosas à vida na
(SERRANO, 2003). terra. Uma dessas iniciativas é a Educação
Ambiental que as instituições de educação
Tendo em vista essa preocupação básica estão procurando implementar, na
com a causa ambiental, a escola torna- busca da formação de cidadãos conscientes
se então, importante espaço para se e comprometidos com as principais
trabalhar a consciência ecológica e ações de preocupações da sociedade (SERRANO,
sustentabilidade. Nela, pode-se desenvolver 2003).
ações de maneira transversal e interdisciplinar
que visem a construção de comportamentos A relação do homem com a natureza
e atitudes de preservação do meio ambiente. começou a se modificar por meio da
Revolução Científica. Uma relação até
A horta escolar é uma proposta de projeto então harmônica, passa a ser de dominação
escolar que abrange questões ambientais por parte do homem. Com a Revolução
importantes e atuais, uma vez que desperta Industrial, a destruição dos recursos naturais
consciência ecológica nos alunos e familiares, se intensificou, o que provocou em algumas
além de ser uma ação com ramificações nas parcelas da sociedade reações contrárias a
casas e entorno da escola, por ensinar algo isso em torno da preservação da natureza.
prático e de fácil disseminação.
Mas é a partir da década de 70, do
A horta escolar inserida no ambiente século XX que os debates em torno
escolar é um laboratório vivo que irá das questões ambientais aumentaram e
possibilitar o desenvolvimento de diversas surgiram os movimentos ambientalistas, que
atividades pedagógicas e contemplará compreendiam a problemática ambiental
algumas das preocupações relacionadas como uma crise que já atingia toda a civilização
ao meio ambiente como sustentabilidade, diante da degradação ambiental. Após a

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Revista Educar FCE - Março 2019

realização de vários encontros nacionais Aliado a este fator, o rápido processo


e internacionais, envolvendo instituições de urbanização das cidades, que substitui
governamentais e não governamentais, foi espaços verdes por concreto, diminui o
indicado nos documentos resultantes destes contato direto do homem com todos os
eventos que uma das estratégias utilizadas elementos bióticos da natureza da qual é
para conter o processo de destruição da parte integrante. Dentro desse paradigma,
natureza seria a educação. Por intermédio de as crianças passaram a ter espaços cada
uma nova dimensão – a Educação Ambiental vez mais restritos para vivenciarem o prazer
– que surge como um processo educativo, natural de terem contato com elementos do
um conhecimento ambiental que se traduz ambiente da qual fazem parte (PMF/SME,
em valores éticos. 2004).

Cabe destacar que estamos falando da A questão ambiental neste momento


Educação Ambiental Crítica, cujo objetivo é da história humana surge, portanto, como
“contribuir para uma mudança de valores e um tema relevante que contribui para
atitudes, contribuindo para a formação de conscientizar o homem sobre seu papel
um sujeito ecológico” (CARVALHO, 2004, como elemento central dos processos
p.18 -19). Ou nas palavras de Guimarães socioambientais emergentes, o agente
(2004, p. 25) “capaz de contribuir com que transforma e é transformado e
a transformação de uma realidade que herdeiro de suas ações (PMF/SME, 2004).
historicamente se coloca em uma grave Segundo LEFF (2001) esse processo de
crise socioambiental”. A Educação Ambiental conscientização mobiliza a participação dos
Crítica também denominada Emancipatória cidadãos na tomada de decisões, junto com
(LOUREIRO, 2009, p. 32): a transformação dos métodos de pesquisa e
formação, com base em uma ótica holística e
É o meio reflexivo, crítico e auto-crítico enfoques interdisciplinares e não como uma
contínuo, pelo qual podemos romper com a
barbárie do padrão vigente de sociedade e coleção de partes dissociadas.
de civilização, em um processo que parte do
contexto societário em que nos movimentamos, No Brasil, a Educação Ambiental foi
do “lugar” ocupado pelo sujeito, estabelecendo
experiências formativas, escolares ou não, em regulamentada pela Política Nacional de
que a reflexão problematizadora da totalidade, Educação Ambiental (PNEA), instituída
apoiada numa ação consciente e política, pela Lei 9.795, de 27 de abril de 1999, que
propicia a construção de sua dinâmica. (...).
Emancipar não é estabelecer o caminho único estabelece e define seus princípios básicos,
para a salvação, mas sim a possibilidade de incorporando oficialmente a Educação
construirmos os caminhos que julgamos mais Ambiental nos sistemas de ensino.
adequados à vida social e planetária, diante da
compreensão que temos destes em cada cultura
e forma de organização societária, produzindo A Educação Ambiental representa uma
patamares diferenciados de existência. ferramenta fundamental para estabelecer

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Revista Educar FCE - Março 2019

uma ligação mais estreita entre o ser humano Na educação fundamental, os PCNs a
e a natureza. Uma transformação social inserem em diversos temas transversais,
de caráter urgente que busque, conforme sobretudo meio ambiente, saúde e consumo,
Sorrentino (2005), a superação das injustiças nas áreas do saber (disciplinas), de modo
ambientais e sociais na humanidade. que impregne toda a prática educativa, e
ao mesmo tempo, crie uma visão global
ANDRADE (2000) expõe que implementar e abrangente da questão ambiental,
a educação ambiental nas escolas tem se visualizando os aspectos físicos e histórico-
mostrado uma tarefa exaustiva, em razão sociais, assim como a articulação entre a
da existência de grandes dificuldades nas escala local e planetária desses problemas
atividades de sensibilização e formação, (MEC, 2005).
na implantação de atividades e projetos e,
notadamente, na manutenção e continuidade Os Parâmetros Curriculares Nacionais
dos já existentes. Fatores como o tamanho da (PCN) criados pelo Ministério da Educação
escola, número de alunos e de professores, em 1998, indicam que a aprendizagem
predisposição destes professores em passar de valores e atitudes deve ser mais
por um processo de treinamento, vontade da explorada do ponto de vista pedagógico e
direção de realmente implementar um projeto o conhecimento dos problemas ambientais
ambiental que vá alterar a rotina na escola, e de suas consequências desastrosas para
além de fatores resultantes da integração a vida humana é importante para promover
dos acima citados e ainda outros, podem uma atitude de cuidado e atenção com essas
servir como obstáculos à implementação da questões, incentivar ações preservacionistas
Educação Ambiental. (BRASIL, 1998).

A Educação Ambiental requer É de suma importância destacar a


conhecimento de caráter social como: preocupação demonstrada pela maioria
valores culturais, morais, justiça, saúde, a dos professores em trabalhar educação
noção de cidadania, entre outros aspectos ambiental nas escolas. Esta preocupação
que conformam a totalidade social. Deve torna-se ponto favorável para a implantação
ser tratada com base em uma matriz que de novas ideias e propostas ligadas à área
conceba a educação como elemento de (VALDAMERI, 2004).
transformação social apoiada no diálogo e no
exercício da cidadania. Mais, do que isto, “no
fortalecimento dos sujeitos, na superação AS HORTAS ESCOLARES
das formas de dominação capitalistas
e na compreensão do mundo em sua De acordo com Rodrigues e Freixo (2009),
complexidade e da vida em sua totalidade” a escola é considerada um espaço social,
(LOUREIRO, 2009, p. 24). local no qual o aluno dará sequência ao

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Revista Educar FCE - Março 2019

seu processo de socialização. Por meio da Segundo Capra (2003, p.14), a educação
potencialização de atividades desenvolvidas para uma vida sustentável é uma pedagogia
nesse ambiente, os alunos terão acesso a que facilita o entendimento das múltiplas
um novo caminho de saberes e descobertas relações entre atitudes humanas e seus
no processo de aprendizagem. À medida impactos e também entre as disciplinas
que os saberes são construídos de formas que compõem o currículo, pois ensina os
variadas, concomitantemente desenvolve-se princípios básicos da ecologia tendo como
nos alunos a capacidade de transformar sua base a experiência dos sujeitos.
própria realidade. A escola passa a ser assim
um local de importância social significativa, Por meio dessas experiências, nós também
tomamos consciência de que nós mesmos
contribuindo para a formação de cidadãos fazemos parte da teia da vida e, com o passar
envolvidos com a melhoria da qualidade da do 20 tempo, a experiência da ecologia na
vida planetária. natureza nos proporciona um senso do lugar que
pertencemos (CAPRA, 2003, p.14).

É notório que o desenvolvimento de


atividades desenvolvidas na escola e A escola é indiscutivelmente o melhor agente
sobretudo, na horta escolar, contribui para promover a educação alimentar, uma vez
diretamente para utilização de meios que é na infância e na adolescência que se
sustentáveis que posteriormente refletirá fixam atitudes e práticas alimentares difíceis de
em uma dieta mais saudável. Para Muniz e modificar na idade adulta (TURANO, 1990).
Carvalho (2007) as hortas se constituem num
instrumento pedagógico que possibilita o A finalidade da educação alimentar é
aumento do consumo de frutas e hortaliças, transformar o alimento em um instrumento
a construção de hábitos alimentares pedagógico, transpondo os limites do
saudáveis, o resgate dos hábitos regionais ato alimentar, fazendo com que este se
e locais e a redução dos custos referentes à transforme em um ponto de partida para
merenda escolar. novas descobertas (CASTRO, 1985).

De acordo com Serrano (2003), a horta Segundo Capra (2003), a horta


escolar é um elemento capaz de desenvolver reestabelece a conexão das crianças com os
temas relacionados à Educação Ambiental fundamentos da alimentação – na verdade,
e consequentemente a sustentabilidade, com os próprios fundamentos da vida – ao
uma vez que, além de relacionar conceitos mesmo tempo em que integra e tornam
teóricos a práticos, auxiliando o processo de mais interessantes praticamente todas as
ensino e aprendizagem, ela se constitui como atividades que acontecem na escola.
uma estratégia capaz de desenvolvimento
dos conteúdos interdisciplinarmente. A grande ênfase feita por Consea
(2004),é de que todos devem ter o direito

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Revista Educar FCE - Março 2019

de acesso regular e permanente a alimentos (2007), a horta promove a aquisição de novos


de qualidade, em quantidade suficiente, valores, boas atitudes, transforma a forma
sem comprometer o acesso a outras de pensar, valoriza o trabalho em equipe, a
necessidades essenciais, tendo como base solidariedade, a cooperação, desenvolve a
práticas alimentares promotoras de saúde, criatividade e a percepção da importância
que respeitem a diversidade cultural e que do cuidado, o senso de responsabilidade, de
sejam social, econômica e ambientalmente autonomia, além de sensibilizar para a busca
sustentáveis. de soluções para os problemas ambientais.

A implantação de hortas no ambiente Ainda de acordo com Cribb (2010),


escolar é considerada um instrumento as atividades realizadas em ambientes
dinamizador capaz de inserir os sujeitos abertos, como na horta escolar, contribuem,
diretamente em um ambiente diverso dentre outros fatores, para os alunos
e sustentável. Como enfatiza Capra compreenderem o perigo na utilização
(1996, p.231), “precisamos nos tornar de agrotóxicos para a saúde humana
ecologicamente alfabetizados, isso significa e para o meio ambiente; proporciona
entender os princípios de organização das uma compreensão da necessidade da
comunidades ecológicas (ecossistemas) e preservação do meio ambiente escolar;
usar esses princípios para criar comunidades desenvolve a capacidade do trabalho em
humanas sustentáveis”. equipe e da cooperação; e proporciona
um maior contato com a natureza, já que
A horta escolar permite o resgate dos crianças dos centros urbanos estão cada vez
valores éticos, sociais, culturais e ambientais. mais afastadas dela. Proporciona também
Além disso, possibilita práticas sustentáveis a modificação dos hábitos alimentares dos
que podem ser desenvolvidas dentro desse alunos, além da percepção da necessidade
“laboratório vivo”. Como garantem Rodrigues de reaproveitamento de materiais tais como:
e Freixo (2009), por meio do desenvolvimento garrafas pet, embalagens tetra pak, copos
da horta, é possível iniciar um processo de descartáveis, entre outros. Tais atividades
mudança de valores e de comportamento auxiliam no desenvolvimento da consciência
individuais e coletivos que promoverão a de que é necessário adotarmos um estilo
dignidade humana e a sustentabilidade. de vida menos impactante sobre o meio
ambiente bem como a integração dos alunos
Com base nessa iniciativa, a escola com a problemática ambiental vivenciada.
torna-se um local estratégico para o
desenvolvimento da horta, tendo em vista seu Numa horta escolar há, ainda, a
papel no desenvolvimento de novas políticas possibilidade de se trabalhar diversos temas,
voltadas para a construção de sociedades dentre os quais, os conceitos, princípios e
sustentáveis (DEBONI, 2009). Para Cribb o histórico da agricultura, a importância da

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Revista Educar FCE - Março 2019

educação ambiental e das hortaliças para casas, aumentando o consumo de hortaliças


a saúde, além das aulas práticas onde se e legumes em suas refeições. É importante
trabalham as formas de plantio, o cultivo e salientar que o benefício da horta em casa
o cuidado com as hortaliças (CRIBB, 2010). é maior por se tratar de alimentos sem
agrotóxicos. O contato com a horta e a
O trabalho com a horta escolar contribui participação nas atividades relacionadas
de maneira importante para o entendimento a ela desperta a valorização de estudos
de como se deve preservar o meio ambiente relacionados à educação ambiental. Nas várias
tomando-se por base pequenos gestos, etapas do processo de desenvolvimento do
sempre respeitando a pluralidade e a sistema de implantação da horta é trabalhada
diversidade cultural. Além disso, proporciona a interdisciplinaridade, que contribui para
o aprendizado de diferentes saberes e fazeres que haja um melhor entendimento dos alunos
e proporciona a compreensão do problema em relação aos temas tratados, assim como
ambiental em toda a sua amplitude. uma visão ampla da questão ambiental.

A horta escolar como processo educativo Há um envolvimento e a participação de


se refere ao aprendizado das técnicas diversos membros da comunidade escolar,
básicas de produção, dos cuidados especiais como notadamente os alunos e diversos
com a qualidade dos produtos, das formas, funcionários da escola, como também os
modos de preparo, consumo e dos aspectos pais dos alunos e moradores da comunidade
nutricionais relativos à alimentação composta ao redor da escola. Este tipo de trabalho
por diversas hortaliças. fortalece os laços entre a escola e a
comunidade a qual ela abrange. (MORGADO
A produção de hortaliças pela horta escolar e SANTOS 2008).
proporciona um melhor preparo da merenda
escolar, que fica enriquecida com alimentos A horta é um verdadeiro laboratório
agroecológicos. Sendo assim, incentiva- de aprendizagem viva, em que o trabalho
se a vivência de bons hábitos alimentares manual, o contato com a vida, a observação
que poderão ser incorporados mediante o e a oportunidade de formação de grupos
processo ensino/aprendizagem aos familiares informais oportuniza ainda a sensibilização,
dos envolvidos. “A ação educativa consegue como por exemplo, a necessidade de proteção
sair do marco escolar para interessar-se pela com as plantas e com o meio ambiente, o
comunidade e fazer que os alunos participem respeito aos colegas de trabalho e a alegria
das suas atividades”. (DIAS,1992, p. 123) da colheita. (MACEDO, 1987).

A horta escolar também tem o poder As atividades na horta são uma alternativa
de impactar os familiares dos alunos, de unir o lúdico ao meio ambiente, fazendo
incentivando-os a cultivar hortas em suas com que desperte o interesse dos alunos,

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diante desse tema. Há possibilidade de trabalhar com diferentes atividades envolvendo a


horta escolar. (MORGADO e SANTOS, 2008).

As atividades desenvolvidas na horta também promovem a oportunidade de muitas crianças


estabelecerem contato com a natureza, já que muitas delas perderam esta possibilidade, já
que muitas famílias residem em edifícios ou em casas cujos quintais são muito pequenos e
cimentados. Ao manipularem a terra muitos estudantes adquiriram também maior habilidade
manual, melhoram a coordenação motora, a habilidade manual além de adquirir mais força
nas mãos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Educação Ambiental inserida no cotidiano escolar por
meio de atividades incorporando teorias e práticas no fazer
pedagógico oferece uma ampla contribuição no processo de
ensino-aprendizagem, ao resgate de valores socioambientais
e na socialização da comunidade escolar.

A horta escolar pode ser uma ferramenta bastante


eficaz na formação integral do estudante, visto que o AMADEU RIBEIRO DOS
tema exposto aborda diversas áreas de conhecimento, SANTOS JÚNIOR
podendo ser desenvolvido durante todo o processo de
Graduação em Pedagogia pela
ensino/aprendizagem. Ademais, a horta escolar pode atrair Universidade Bandeirante de
a comunidade do entorno em parcerias com a escola, São Paulo (2010); Especialista
aproximando ainda mais as famílias do ambiente estudantil. em Docência do Ensino Superior
pela Universidade Bandeirante
As crianças cumprem o papel de multiplicadoras do projeto, de São Paulo (2012); Especialista
porque repassam o que aprendem para o seu contexto em Alfabetização e Letramento
familiar e, deste modo, a influência da horta não se restringe pela Universidade Nove de Julho
(2014); Professor de Educação
à escola. Infantil e Ensino Fundamental I
no CEU EMEF Senador Teotônio
O resultado dos projetos envolvendo a horta escolar são Vilela.

alunos mais preparados e conscientes, que levarão para


a vida ensinamentos ecológicos, além da oportunidade
de aproximação com a natureza, aprendendo a ainda os
benefícios alimentares advindos desta tarefa. Amplia-se
assim, a necessidade de uma mudança de postura que é preciso implantar na sociedade.

A horta propicia a reflexão e o desenvolvimento de novas atitudes e práticas que


corroboraram para uma sensibilização diante das questões ambientais e cooperação por
meio do trabalho em equipe, além de minimizar a visão fragmentada dos educandos a
respeito da Educação Ambiental, integrando-os nessa teia de relações ecológica com base
na reconstrução de valores mais humanizados.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Brasil: 1997. 103 p.

200
Revista Educar FCE - Março 2019

QUALIDADE DA EDUCAÇÃO BÁSICA X FORMAÇÃO


DOCENTE NO CURSO DE PEDAGOGIA: UM
ESTUDO ACERCA DAS INFLUÊNCIAS NEGATIVAS
NO ENSINO FUNDAMENTAL I
RESUMO: Tendo em vista de que atualmente muitos docentes saem despreparados das
Universidades para o âmbito do trabalho, este artigo pretende, através do desenvolvimento de
pesquisas bibliográficas com cunho qualitativo, compreender como se dá a formação no curso
de Pedagogia e traçar o perfil do professor e do aluno, além de apontar reflexões sobre como a
formação docente no curso de Pedagogia reflete no ensino Fundamental I. Além de apresentar
discussões acerca da formação docente, suas influências no sistema educacional e a qualidade da
educação básica atualmente com enfoque no Ensino fundamental I e assim desenvolver a questão
problema que trata de em que medida a formação docente interfere no Ensino Fundamental
I, bem como discorrer sobre o curso de Pedagogia, considerando sua importância diante da
temática apresentada e destacar as influências do Ensino Superior (curso de Pedagogia), no Ensino
Fundamental I, sendo elas o ponto inicial de reflexão deste, proporcionando ainda uma série de
reflexões sobre a importância da qualificação profissional docente concretizando a ideia de que
cursar um Ensino Superior em prol apenas de um diploma desqualifica a educação de nosso país.

Palavras-Chave: Ensino Fundamental I. Pedagogia. Formação docente.

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INTRODUÇÃO atenção voltada à educação em especial do


Ensino Fundamental I submetendo-o a uma
O presente artigo busca alcançar análise constante do fazer docente focando
contribuições na área de formação docente, a qualidade de seu exercício. Pretendi, neste
dando ênfase à necessidade de rever a contexto, referir-me as questões relativas
formação no curso de Pedagogia atentando à atuação e à formação docente no curso
às novas exigências educacionais da de Pedagogia, pois ao longo de dez anos
Educação Básica, destacando nesta o Ensino que venho analisando minha prática e dos
Fundamental I. demais profissionais docentes que mantive
ou mantenho contato durante minha
Para tanto será elaborado a partir de graduação, pós-graduações e ambientes de
uma linha voltada à análise deste ensino, trabalho, deparei-me constantemente com
enfatizando a busca por saberes necessários uma inquietação: Algumas Universidades
à prática educativa em prol da qualificação não têm preparado docentes qualificados no
profissional docente. Trata-se de um estudo curso de Pedagogia, estes, em sua maioria,
exploratório que se enquadra nas pesquisas tem chegado à sala de aula sem um mínimo de
de campo qualitativas, nas quais não haverá conhecimentos necessários para sua atuação,
preocupação com representatividade muitos nem se quer tomam conhecimento de
numérica, e sim com o aprofundamento da tal fato e exercem seu papel mediocremente,
compreensão através do estudo literário interferindo negativamente na formação de
de diversos autores que discorrem com milhares de estudantes que passam pelo
diferentes pontos de vista acerca do tema Ensino Fundamental I comumente, sem
discutido, tema este que se refere à formação grandes avanços em seu desenvolvimento.
docente no curso de Pedagogia, pois além
de envolver atualmente questionamentos, Neste caso desenvolverei um pequeno
remete-nos a reflexões e estudos constantes. estudo exploratório sobre o curso de
Pedagogia, discorrendo sobre sua trajetória
A formação docente precária, ou seja, a até os dias atuais e destacando as diretrizes
formação de docentes desqualificados para curriculares nacionais específicas ao curso,
o ambiente educacional tem sido temática além de diversas visões, embasadas em
atual de discussões e este requer uma diferentes autores dentre eles: Pimenta
atenção especial, já que em se tratando de (2000), Libâneo (2000), Ghiraldelli (2006),
Ensino Fundamental I, pode gerar efeitos Severino (2000), Arroyo (1991) e Gil (2011)
avassaladores no ensino. sobre o tema em questão.

Fato que nas últimas décadas muito se tem Assim sendo, me dispus a desenvolver
discutido sobre formação docente, mesmo esse artigo a fim de discutir os pressupostos
porque tem se aumentado gradativamente a da formação do professor e discutir como

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Revista Educar FCE - Março 2019

esta deve se dar para formar profissionais docente no curso de Pedagogia e traçar
qualificados, preparados efetivamente para meios e estratégias que proporcionariam a
enfrentar uma sala de aula, e desenvolver formação de profissionais adequados que
diferentes estratégias que enriquecerão contribuiriam, portanto eficazmente no
a formação de educandos “cursantes” do Ensino Fundamental I.
Ensino Fundamental I, possibilitando-os a
compreensão e a transformação positiva e Diante destas, observei a necessidade
crítica da sociedade em que vivem. de discutir a temática com profissionais
envolvidos com o Ensino Fundamental I com
Cabe aqui destacar que não pretendo o objetivo de compreender em que medida
impor ou apresentar modelos previamente a formação docente no curso de Pedagogia
estabelecidos que findem com os problemas reflete em tal. Portanto, em um momento
evidenciados que aparecerão no decorrer em que pude me reuni com sete professores
do meu estudo, porém proporei reflexões da rede pública no município de São Paulo a
acerca desta formação que possibilitem, qual estou atualmente inserida, propus uma
acredito eu, tais avanços. discussão a cerca do tema já mencionado,
para assim ampliar a visão do que os “outros”
Desenvolverei, portanto, o tema “Formação pensam sobre a temática apresentada, estas
docente no curso de Pedagogia” destacando destacarei ao longo do desenvolvimento
as influências desta no Ensino Fundamental deste artigo.
I. Para elucida-lo buscarei algumas respostas
e indagações tais como: O que é Pedagogia? Neste cenário, delineei a questão problema
Qual o perfil do professor universitário da pesquisa sendo ela: Em que medida a
do curso de Pedagogia? Qual o perfil do formação docente no curso de Pedagogia
estudante do curso de Pedagogia? Quais são reflete no Ensino Fundamental I? Sendo
as habilidades, competências ou recursos que assim, no primeiro momento será discutido
o professor do curso de Pedagogia deve ter simploriamente o termo Pedagogia, em
para minimizar os problemas que interferem seguida apresentarei um breve histórico sobre
no Ensino Fundamental I “profissional o curso, posteriormente traçarei o perfil do
competente”? professor universitário e do aluno do curso
de Pedagogia relacionando-os, destacarei
Nesta perspectiva, procurei levantar ainda o Ensino Fundamental I fazendo-lhe
dados para facilitar a análise e a construção uma relação nos dias atuais, mencionarei
interpretativa dos procedimentos adotados, as influências do curso de Pedagogia no
através de analise de documentos Ensino Fundamental I e apresentarei o perfil
pertencentes à educação, além de optar do profissional qualificado que denominarei
pela pesquisa bibliográfica para refletir e como “competente”, por fim destacarei a
entender melhor como se dá a formação necessidade de rever a formação docente no

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Revista Educar FCE - Março 2019

curso de Pedagogia, a fim de atrelar meios como filosofia da educação.


para amenizar os problemas que interferem Para Pimenta (2000), a Pedagogia pode
no Ensino Fundamental I. As reflexões ser definida como Ciência da Prática, diz
sobre as razões que levam os educadores que ela não se constrói como discurso sobre
a assumirem a postura “desqualificada” a educação, mas a partir da prática dos
de ensino. A importância de o docente, educadores sendo tomada como referência
constantemente refletir sobre sua prática, para a construção de saberes no confronto
buscar novos conhecimentos, inovar seu com saberes teóricos.
profissional. Além de exemplificar que a
formação no curso de Pedagogia, por sua Sobre o assunto Libâneo (in: Pimenta
vez, deve preparar profissionais que estejam 2000), diz que:
motivados e conscientes de seus afazeres
enquanto docentes, e proporcionar aulas A discussão sobre a identidade científica dos
estudos relacionados com a educação poderia
dinamizadas, assemelhando-as ao meio ser simplificada se bastasse definir os termos.
que o futuro profissional desenvolverá seu Com efeito, educação seria concebida como
trabalho, devendo-se assim atrelar teoria à uma prática social caracterizada como ação
de influências entre os indivíduos e grupos,
prática. destinada a configuração da existência humana;
pedagogia, a ciência que estudaria esse
fenômeno em suas peculiaridades [...] (p.78 –
O QUE É PEDAGOGIA? grifo meu).

Antes de discorrer o tema é evidentemente Neste caso podemos considerar


importante esclarecer como se define a atualmente a Pedagogia como um conjunto
Pedagogia. Segundo Ghiraldelli (2006), de saberes que mantem como objeto de
Paidagogia designava, na Grécia Antiga, o estudo a educação a partir das influências
acompanhamento e a vigilância do jovem. recebidas de diversas ciências, como a
O paidagogo (o condutor da criança) era o psicologia, a filosofia... Que estuda temas
escravo cuja atividade específica consistia em relacionados à educação na prática como
guiar as crianças à escola, seja a didascaléia, na teoria, estando ela correlacionada ao
onde receberiam as primeiras letras, seja o desenvolvimento e melhoria no processo de
gymnásion, local de cultivo do corpo. aprendizagem de diferentes sujeitos além de
conectada a aspectos sociais e as normas
Ainda segundo o autor, atualmente o termo educacionais do país.
Pedagogia ganha outras conotações na qual
os estudiosos contemporâneos da educação Sendo assim, o curso de Pedagogia deverá
utilizam-se do termo Pedagogia, alternada contemplar, portanto, tais estudos. A seguir
ou concomitantemente, como utopia apresento como se desenvolveu o curso de
educacional, como ciência de educação ou Pedagogia no Brasil.

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Revista Educar FCE - Março 2019

FUNDAMENTOS HISTÓRICOS Em meados de 90, as convergências


DO CURSO DE PEDAGOGIA quanto às funções do curso de Pedagogia,
tornaram-se mais presentes e abundantes
De acordo com Pimenta (2000), o curso principalmente a partir do estabelecimento
de Pedagogia foi instituído no Brasil das Diretrizes e Bases da Educação Nacional
em 1939, nesta época o curso formava por meio da Lei 9.394, em dezembro de 1996, o
bacharéis denominados “técnicos em curso passou a se apresentar dentre os temas
educação”. Nos anos 60, passou a formar mais polêmicos a serem regulamentados pela
bacharéis e licenciados (1962), assim o legislação complementar em andamento no
pedagogo passa a ser um professor para país. Assim é possível destacar os conteúdos
diferentes disciplinas dos então cursos de três artigos da nova lei, responsáveis pelos
ginasial normal. Nesta época o currículo impactos iniciais que se transformaram em
do curso compunha-se de disciplinas das discussões fervorosas relacionadas ao curso:
ciências da educação, das didáticas e da Art. 62 que trata sobre a formação docente
administração escolar. Em 1969 foi abolida que far-se-á em nível superior (licenciatura)
a distinção entre bacharelado e licenciados para a atuação na Educação Básica; Art. 63
em Pedagogia e instituída a ideia em formar que contempla que os institutos de formação
especialistas em administração escolar, superior manterão cursos de formação de
inspeção escolar, supervisão pedagógica e profissionais para a educação básica, bem
orientação educacional. Em finais dos anos como programas de formação pedagógica e
70, segundo a autora, emerge o movimento programas de educação continuada e Art. 64
de redefinição do curso, questionava-se que coloca que a formação de profissionais
a identidade do curso e do profissional para administração, planejamento, inspeção,
pedagogo, tal movimento contrapôs-se à supervisão e orientação educacional para
concepção tecnoburocrática oficial, que não a Educação Básica serão desenvolvidos em
incluía a participação dos educadores na curso de graduação em Pedagogia ou em
definição da política educacional. No decorrer nível de pós-graduação. (BRASIL, 1996)
dos anos 80, esse movimento recebeu
diferentes denominações até se firmar Segundo Severino (2000), no ano seguinte à
como Associação Nacional pela Formação aprovação da nova LDB que as Instituições de
dos Profissionais da Educação (ANFOPE), Ensino Superior (IES) passaram a se preocupar
produziu ampla reflexão e diferentes com a questão da elaboração das diretrizes
propostas com a participação de educadores curriculares referentes aos diferentes cursos,
de vários estados e universidades, sendo sua em atendimento à “convocação” feita pela
tendência predominante valorizar a formação Secretaria de Educação Superior do MEC
do professor no curso de Pedagogia e colocar (SESU/MEC), através de seu Edital 04/97,
as especializações após a graduação. no sentido de que as mesmas apresentassem
suas sugestões sobre o assunto.

205
Revista Educar FCE - Março 2019

Já de acordo com Arroyo (1991), houve Porém, segundo os autores Scheibe e


grande dificuldade em levar a frente a Aguiar (1999). Após renovação de seus
então “convocação” já que a mesma nem componentes, em 1998, Comissão de
foi precedida de alguma orientação através Especialistas do Ensino de Pedagogia teria
da qual os órgãos competentes pudessem que intermediar os conflitos históricos
conduzir as IES à revisão de suas estruturas decorrentes das diferentes posições a
organizacionais, de forma a adequar seus respeito das funções do Curso de Pedagogia.
cursos às necessidades criadas pela nova Apesar das dificuldades, a referida Comissão
LDB. Porém passaram então a apenas foi bastante habilidosa na condução dos
pensar em suas sugestões de diretrizes trabalhos. Além de examinar as propostas
curriculares para seus diferentes cursos provenientes das IES dos vários pontos do
inseridos num contexto ainda estruturado país, que no final somaram mais de quinhentas,
sob as orientações da reforma universitária estendeu o convite para apresentação de
de 1968. Cabe aqui ainda ser destacado propostas às demais entidades nacionais
que nem mesmo as estruturas do MEC não ligadas ao assunto.
haviam sido remodeladas para a nova tarefa,
sobretudo no que se refere à formação de Assim, em seis de maio de 1999, foi
professores para a Educação Básica. Sendo realizada a divulgação do documento
assim, tornou-se necessário a condução denominado “Proposta de Diretrizes
das propostas provenientes de cada um Curriculares” de autoria da Comissão de
dos cursos das IES para cada uma das Especialistas de Ensino de Pedagogia.
correspondentes Comissões de Especialistas
do Ensino que já vinham assessorando a A comunidade acadêmica recebeu bem o
Secretaria de Educação Superior do MEC então referido documento, isso porque nele
em suas tarefas referentes a eles. Porém foi adotado os princípios apresentados pela
não havia responsáveis neste departamento ANFOPE e contemplou as diferentes tendências
que referente aos cursos de licenciatura e que geraram em torno das funções do curso, e
Pedagogia, mesmo porque somente algumas numa proposta suficientemente abrangente, a
IES contemplavam a parte da Pedagogia em Comissão, seguindo a linha de encaminhamentos
suas propostas, assim a prática apresentada feitos por algumas grandes universidades e
resultaria numa inadequação em relação às também pelo Grupo de Trabalho Pedagogia do
licenciaturas e ao curso de Pedagogia, pelo V Congresso Estadual Paulista sobre Formação
fato de ambos carecerem de uma profunda de Educadores - ocorrido em Águas de São
e integrada revisão, em função da formação Pedro, em novembro de 1998, congregou
de educadores que a nova ideia de Educação as atuais funções do curso, abrindo também
Básica passou a exigir. a possibilidade de atuação do pedagogo em
áreas emergentes do campo educacional. Assim
definiu o perfil comum do pedagogo:

206
Revista Educar FCE - Março 2019

condiziam às disciplinas pertencentes


Profissional habilitado a atuar no ensino, na ao campo das ciências da educação não
organização e gestão de sistemas, unidades e
projetos educacionais e na produção e difusão do levando em consideração a prática para a
conhecimento, em diversas áreas da educação, formação docente, atualmente o cenário
tendo a docência como base obrigatória de sua se apresenta diferentemente, pois cabe
formação e identidade profissional (Comissão de
ao curso de Pedagogia propiciar aos seus
Especialistas de Ensino de Pedagogia, p.1).
estudantes da formação pretendida,
diferentes estratégias e metodologias que
Desta forma percebe-se que o envolvam a prática de ensino a qual estarão
desenvolvimento do curso de Pedagogia, no presentes após a formação, isso se dá
Brasil, foi acompanhado pelo questionamento também com o desenvolvimento de estágios
de sua identidade, dos profissionais que supervisionados pertencentes à grade
o mesmo formava e de suas funções, curricular do curso.
acompanhado também por inúmeras
mudanças e manifestações acerca de sua Desta forma a educação e a formação
estrutura até manter a forma que atualmente humana constituem a principal força do curso
apresenta pautado pela Comissão de de Pedagogia no Brasil, sua multiplicidade
Especialistas do Ensino da Pedagogia, pelo teórica dominante nos primórdios do curso
Ministério da Educação e pelas Resoluções constitui um dos elementos contributivos da
CNE que lhe são cabidas. Bem se diz que formação do pedagogo a serem levados em
até os dias atuais o curso de Pedagogia ainda consideração ainda nos dias atuais.
apresenta inúmeras crises de identidade,
conflitos referentes à sua atuação e a função Contudo, pode-se enxergar que a
do profissional concluinte do mesmo, porém Pedagogia busca ser, em si mesma, teoria
esse vem se afirmando no que se refere a sua e prática da educação que contribui para
especificidade e avanços significativos e vem o fortalecimento do domínio que lhe é
galgando espaço em sua estrutura teórica. específico.

Nesta perspectiva, o curso em questão Diante disso, cabe agora definir no item a
assumiu progressivamente a função de seguir, a importância da formação docente
habilitar professores para a atuação das séries destacando quais os perfis do professor
iniciais do Ensino Fundamental, podendo universitário e do estudante de Pedagogia,
ser realizado, atualmente, como uma das relacionando-os entre si.
possibilidades formativas desse profissional,
sendo outra o Curso Normal Superior.

Assim se o curso de Pedagogia considerava


prioritariamente os estudos teóricos que

207
Revista Educar FCE - Março 2019

FORMAÇÃO DOCENTE: das ações da nova estrutura organizacional


PERFIL DO PROFESSOR da educação, sendo ela adequada às novas
competências que lhes são atribuídas, afim de
UNIVERSITÁRIO X PERFIL DO melhor se adaptar às demandas do diferente
ESTUDANTE NO CURSO DE mercado de trabalho que se configura.
PEDAGOGIA
Neste caso, a profissionalização/ formação
Partindo do pressuposto de que a docente passa a ocupar papel central nas
formação do educador deve ser expressa discussões e reformulações educacionais,
por um conjunto de conhecimentos ligados e assim permanecem ate os dias atuais,
à Pedagogia e não restringir-se somente a nos quais ultrapassa a preocupação com a
docência, não devendo ser a única referência modernização pedagógica, e se desenvolve
para sua formação Libâneo afirma que: e se qualifica dentre as perspectivas de uma
nova proposta de ensino preocupada com a
A base de um curso de Pedagogia não pode ser melhoria da qualidade e uma busca acirrada
a docência. A base de um curso de Pedagogia
é o estudo do fenômeno educativo, em sua por soluções aos problemas relacionados
complexidade, em sua amplitude. Então, ao ensino- aprendizagem no Brasil
podemos dizer: todo trabalho docente é principalmente em se tratando de Ensino
trabalho pedagógico, mas nem todo trabalho
pedagógico é trabalho docente. A docência é Fundamental I.
uma modalidade de atividade pedagógica, de
modo que o fundamento, o suporte, a base, Tais mudanças ocorridas ao longo dos
da docência é a formação pedagógica, não o
inverso. Ou seja, a abrangência da Pedagogia é anos no curso de Pedagogia, destacando a
maior do que a da docência. Um professor é um formação docente, devem estar atreladas a
pedagogo, mas nem todo pedagogo precisa ser nova busca de modalidades e organização
professor. (2006, p. 220)
pedagógica que favoreçam a constituição
completa, nos futuros profissionais,
Já segundo Pimenta (2004), a docência desenvolvendo suas competências que
como base da formação fragilizou os serão fundamentais no ensinar e fazer
pedagogos em sua atuação profissional no com que os alunos aprendam de acordo
âmbito escolar, no âmbito dos sistemas de com os objetivos e diretrizes pedagógicas
ensino e no âmbito não escolar, uma vez traçados para o Ensino Fundamental I,
que retira do curso o campo pedagógico esses profissionais devem estar preparados
como área de atuação e produção de ao sair de um curso universitário, porém
conhecimento. Para a autora, a base necessitarão de diferentes metodologias e
da formação do pedagogo deveria ser estratégias que dependem do “formador”, ou
a pesquisa em educação. Sendo assim, seja do professor universitário.
destaca-se a formação docente que deve
ser compreendida, neste caso, como parte

208
Revista Educar FCE - Março 2019

Ao refletirmos sobre os professores doutorado em área afim, poderá suprir a


universitários, sua função e eficácia exigência de título acadêmico.” (p.20).
dentro do curso de Pedagogia alguns
questionamentos se fazem presentes: Quem Porém, cabe considerar que, acerca de
é esse profissional? Como são preparados estudos do autor Gil (2011) a maioria dos
no Brasil? Atualmente o que compete a eles? professores universitários, neste primeiro
Quais as características que lhe são cabidas? caso, não dispõe de preparação pedagógica,
ou seja, estes não estão devidamente
Questionamentos estes que por serem tão preparados para a função a qual são
amplos poderiam por si só contemplarem um submetidos. Segundo o autor, muitos
novo artigo, portanto trago-os apenas como profissionais exercem duas atividades: a
meios de proporcionar nossa reflexão diante de profissional de determinada área e a de
do tema abordado não pretendendo neste docente, com predominância a primeira.
caso dissertá-los. O Ensino Superior, aqui, esta sendo visto
como um complemento nas atividades do
Cabe aqui esclarecer, que o trabalho profissional, o qual deveria ser um trabalho
do professor universitário está pautado exclusivo em se tratando de que está
também nas leis e decretos que comportam a no estado de “formador de profissionais
educação superior no Brasil, desta forma Gil capacitados”. Assim o autor explicita que:
(2011), destaca que para ocupar os cargos
de carreira nas universidades públicas, ...no Ensino Superior é onde menos se verifica
menor diversidade ás práticas didáticas. As
sobretudo, com a edição da Lei nº 5.540, aulas expositivas são mais frequentes e o
de 28 de novembro de 1968, que instituiu professor de modo geral aprende a ensinar por
a reforma Universitária, os interessados ensaio e erro. O professor constituía principal
fonte sistemática de informações, e uma das
deveriam dispor de Graus de Mestre ou habilidades que mais incentivam os alunos é a
doutores, já em instituições particulares da memorização. A prática mais constante de
curso de especialização. Assim destaca na avaliação da aprendizagem consiste em aplicar
provas e dar notas, que com frequência também
Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, é usada como meio de estabelecer autoridade
que ampliou a exigências para o exercício no em relação ao aluno. (p.5 – 6)
magistério superior, o artigo a seguir, pois
estabelece: Neste caso, cabe rever essa atuação do
professor universitário, sendo que objetivo
“Art. 66. A preparação para o exercício do central é formar profissionais qualificados
magistério superior far-se-á em nível de pós-
graduação, prioritariamente em programas de devemos primeiramente rever a qualificação
mestrado e doutorado. dos “formadores”.

Parágrafo único. O notório saber, Gil (2011) destaca ainda que muitos
reconhecido por faculdade com curso de professores universitários não recebem

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Revista Educar FCE - Março 2019

preparação pedagógica específica e nem vivenciará seu aluno tendo-o como docente
ao longo de sua vida profissional tem a – com as devidas diferenças etárias. Assim a
oportunidade de participar de cursos, formação docente deverá contemplar como
seminários ou reuniões sobre os métodos ponto de referência a coerência entre a
de ensino e avaliação da aprendizagem que teoria e a prática.
seriam cruciais para enriquecer sua prática.
“A pedagogia fica, portanto, ao sabor dos É imprescindível que um profissional
dotes naturais de cada professor.” (p.9). formado pelo curso de Pedagogia, que
pretenda lecionar no Ensino Fundamental
Por outro lado, Gil (2011), coloca que, neste I esteja de acordo com as características
segundo caso, há professores que veem seus destacadas no Parecer CNE/CP 009/2001
alunos como agentes principais do processo homologado em 8/5/2001, características
educativo, estes se preocupam em identificar essas que constituem, segundo o
as aptidões, necessidades e interesses de desenvolvimento do texto, a atividade
seus educandos e visam auxiliá-los na coleta docente, entre as quais se destacam:
das informações de que necessitam para o
desenvolvimento das novas habilidades, para Orientar e mediar o ensino para a aprendizagem
dos alunos;
modificação de atitudes, comportamentos e
para busca de novos significados. Assim as Comprometer-se com o sucesso da aprendizagem
atividades desses professores centram-se na dos alunos;

figura do aluno e atuam como facilitadores Assumir e saber lidar com a diversidade existente
da aprendizagem. entre os alunos;

Incentivar atividades de enriquecimento cultural;


Certamente, estes do segundo caso
destacado pelo autor, deveriam ser os Desenvolver práticas investigativas;
grandes formadores nos cursos de Pedagogia Elaborar e executar projetos para desenvolver
conteúdos curriculares;
- deveriam ser os únicos - exercendo seu
papel explicitado pelo autor desenvolveriam Utilizar novas metodologias, estratégias e
profissionais de qualidade, capacitados que materiais de apoio;

iriam utilizar da sua experiência durante o Desenvolver hábitos de colaboração e trabalho


curso de graduação para desenvolver sua em equipe. (BRASIL, 2002 p. 4).
prática no ensino posteriormente.

Nesta perspectiva a situação da formação Fato de que atualmente muitos jovens


docente esta totalmente relacionada ao seu que ingressam no Ensino Superior não
exercício enquanto profissional. Quando um possuem condição mínima de ali estar, ou
docente esta sendo formado ele vivencia o porque resultam de uma formação precária
papel de aluno, assim futuramente o mesmo durante sua escolaridade anterior ou porque

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Revista Educar FCE - Março 2019

resultam de um mecanismo em que se é refaçam o percurso de aprendizagem a qual


posto que só poderão agregar-se ao mercado não foram submetidos satisfatoriamente
de trabalho aqueles que possuírem um curso e assim propiciar o desenvolvimento de
em nível superior de ensino. Mecanismo futuros bons docentes, que contribuirão
esse que desenvolve o interesse em cursar para a melhoria no Ensino Fundamental I.
um Ensino Superior de forma acelerada,
tal interesse, no entanto, nem sempre está Certa de que essa afirmação,
relacionado em possuir uma formação, aparentemente redundante, apresenta como
mas sim em possuir um diploma que abrirá objetivo evidenciar que a formação inicial
portas no mercado de trabalho por si só, docente constitui-se da permissa de que se
assim muitas universidades aproveitam é possível reverter à qualidade da educação
tal interesse e oferecem cursos que não atual no Brasil, simplesmente agindo sobre
formam verdadeiramente profissionais a educação. Onde professores universitários
apenas lhes garantem tal diploma. Assim, e alunos universitários falem uma mesma
tão acelerado quanto, crescem a formação linguagem e direcionem suas práticas e
de profissionais desqualificados, aqui serão estudos a um único objetivo aqui já proposto:
destacados apenas aqueles relacionados a a melhoria no Ensino Fundamental I.
áreas da Educação em especial a Pedagogia,
profissionais estes que nem sabem qual o seu
verdadeiro papel na sociedade, e interferem ENSINO FUNDAMENTAL I E
negativamente no processo de ensino e OS DIAS ATUAIS
aprendizagem no Ensino Fundamental I.
Nos anos posteriores a Constituição
Na realidade a qual estamos inseridos, Federal de 1988 e principalmente nos últimos
existe a necessidade frequente de novas oito anos a Educação Básica no Brasil foi se
metodologias e estratégias para que consolidando. Neste item a apresentarei
a aprendizagem se torne significativa sucintamente o Ensino fundamental I não
principalmente no Ensino Fundamental I, destacando por completo as leis, politicas e
porém em se tratando do Ensino Superior programas nacionais que o determinam pois
isso não é tão discutido, assim como a estes seriam movedores de discussões mais
formação docente a qual se responsabilizam. acirradas não cabendo neste momento como
objeto do estudo que apresento.
Ao discutir sobre a educação precária
em que muitos alunos são submetidos Como já mencionado anteriormente o Ensino
antes de ingressarem no Ensino Superior é Fundamental está articulado a Educação Básica
evidente tornar claro que caberá ao curso de Brasileira que é definida no art. 21 da LDB, a
Pedagogia e a formação docente proporem a ele farei uma analise que requer o estudo da
estes oportunidades e mecanismos para que Pedagogia que venho desenvolvendo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Cabe neste momento, ainda desenvolvendo antes dos sete anos de idade apresentam,
a abrangência da Educação Básica, destacar em sua maioria, resultados superiores em
o artigo 22 da LDB que estabelece seus fins: relação àquelas que ingressam somente aos
sete anos.
Art. 22. A educação básica tem por finalidades
desenvolver o educando, assegurar-lhe a
formação comum indispensável para o exercício Na medida em que as mudanças foram
da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir ocorrendo, as preocupações acerca delas
no trabalho e em estudos posteriores. (BRASIL, foram se tornando mais evidentes, é
1996)
importante ressaltar que o ingresso de
crianças de seis anos no ensino fundamental
Essa perspectiva, apresentada no artigo não pode constituir-se apenas de uma medida
acima, trata do desenvolvimento do educando administrativa, mas sim é necessário e requer
que irei me atrelar, pois este é o objetivo atenção ao processo de desenvolvimento e
principal no qual o profissional docente a ele aprendizagem destas crianças bem como o
disponibilizado deve lhe assegurar. respeito às características peculiares da faixa
etária, o social, o psicológico e o cognitivo
Antes disso, ressalvo a aprovação da Lei das mesmas.
nº 11.274/06, que contempla a duração do
ensino fundamental obrigatório passasse Ao discorrer sobre o Ensino Fundamental
a durar nove anos, iniciando-se aos 6 (seis) I, torna-se importante trazer os princípios
anos de idade. Aqui destacarei apenas dos traçados pelas Diretrizes Curriculares
seis aos dez anos, que constituem os cinco Nacionais para o Ensino Fundamental (Brasil.
primeiros anos do Ensino Fundamental. Ministério da Educação/Conselho Nacional
de Educação, Resolução CEB nº 2, 1998)
Assim sendo, as discussões acerca do que constituem o documento legal que
ensino e o seu desenvolvimento passaram apresenta uma direção para que as escolas
a ser constantes na área da educação. reflitam sobre suas propostas pedagógicas,
Destarte que o trabalho com tal faixa etária estes aparecem como eixos das propostas
(seis a dez anos) devem estar pautados pedagógicas das escolas e se definem nos
no desenvolvimento e nas aprendizagens seguintes princípios:
das crianças sem deixar de considerar a
abrangência da infância nessa etapa de a) Princípios Éticos da Autonomia, da
Responsabilidade, da Solidariedade e do
ensino. Respeito ao Bem Comum;
b) Princípios Políticos dos Direitos e Deveres
Alguns fatores contribuíram para tais da Cidadania, do Exercício da Criticidade e do
Respeito à Ordem Democrática;
mudanças sendo um deles os resultados c) Princípios Estéticos da Sensibilidade,
de estudos demonstrarem que, quando as Criatividade e Diversidade de Manifestações
crianças ingressam na instituição escolar Artísticas e Culturais.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A partir desses eixos o trabalho pedagógico Quando nos deparamos com um


com crianças nos anos iniciais do ensino professor desqualificado em sala de aula,
fundamental, deverá garantir o estudo possivelmente será evidente encontrarmos
articulado das Ciências Sociais, das Ciências alunos desqualificados também, inúmeros
Naturais, das Noções Lógico - Matemáticas e são os reflexos da formação docente na vida
das Linguagens. dos “cursantes” do Ensino Fundamental I,
estes contemplam desde as dificuldades
Desta forma, percebe-se que muitas são relacionadas a alfabetização, a leitura, ao
as questões relativas que giram em torno raciocínio matemático às relacionadas aos
do Ensino Fundamental I no Brasil, assim convívios sociais , aos termos direcionados
torna-se ponto crucial que os profissionais a indisciplinas entre outros, é evidente
relacionados a área da Pedagogia, que o que estes problemas aqui destacados não
terá como “campo” de desenvolvimento do resultam apenas de uma má formação
seu trabalho não considerem apenas seus docente, porém esta pode ser responsável
aspectos legais mas que desenvolvam um pelo enfraquecimento de tais. Como um
trabalho eficaz dentre a novas exigências profissional despreparado irá lidar, por
educacionais já apresentadas anteriormente exemplo, com problemas de alfabetização,
e que serão destacadas no item a seguir. onde em uma classe superlotada (que
atualmente é nossa realidade) existem
crianças que se encontram em diferentes
ABRINDO AS CORTINAS: AS hipóteses relacionadas a escrita e leitura?
INFLUÊNCIAS DO CURSO Este profissional certamente não terá
domínio para desenvolver um trabalho eficaz
DE PEDAGOGIA NO ENSINO que levará em consideração as diferentes
FUNDAMENTAL I formas do aprender e as diferentes formas do
ensinar. O mesmo ocorrerá se um profissional
Partindo da ideia de que a formação docente desqualificado se deparar com um ou
deve ser entendida como componente quem sabe alguns alunos que apresentem
estratégico na melhoria da qualidade do o raciocínio matemático evoluído, como
Ensino Fundamental, esta deve ser revista fazê-los ampliarem suas habilidades e
a partir do seu início na Universidade até desenvolverem competências a quem do
o momento de sua conclusão (que não que já sabem ao mesmo tempo em que
deveria existir já que a formação docente deverá proporcionar o desenvolvimento de
deveria contemplar toda a vida do professor habilidades e competências mais “simples”
enquanto atuante), a fim de constituir novas aos demais? Certamente que até mesmo
competências aos seus e proporcionar as um profissional dito como “qualificado”
melhorias cabidas na educação a qual se encontrará conflitos e dificuldades em
refere. lidar com tais itens destacados, então para

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Revista Educar FCE - Março 2019

um formado “desqualificado” podemos Assim, deve-se atrelar uma educação


considerar que tais tarefas seriam realmente voltada ao interesse de um ensino de
impossíveis e sendo assim esses alunos qualidade tanto para o futuro aluno do
somente passariam pelo Ensino Fundamental, docente (estudante dos anos iniciais do
sem nada a evoluir, a desenvolver, ensino fundamental) como para esse docente
simplesmente passariam... estudante de hoje, possível profissional
da Educação Básica, que esta cursando
Uma estratégia que possivelmente Pedagogia.
melhorasse a situação dos cursos
que proporcionam a formação desses É evidente que o processo de formação
profissionais é terem como referência, docente está correlacionado a teoria à
durante seu desenvolvimento, os planos prática, assim como o exercício futuro desse
curriculares e os projetos dos sistemas profissional deverá estar. Neste caso é
de ensino, estes estimulariam a formação fundamental que o formador desenvolva em
voltada para a adequação, necessidades seus formandos a capacidade de relacionar
e características das regiões e dos alunos. teoria à prática, é indispensável que, em
Assim tal experiência descrita agiria como sua formação, os conhecimentos que o
domínio para facilitar o desenvolvimento de professor construirá sejam contextualizados
um ensino que permitisse um aprendizado para promover uma permanente evolução de
adequado, respeitoso as diferenças e as significados destes fazendo referência a sua
diversas formas do aprender, desenvolvendo aplicação, em situações reais, sua relevância
um “novo profissional” atrelado a realidade, para vida pessoal e social, sua validade para
as mudanças da sociedade, mais dinâmico e análise e compreensão dos fatos da vida.
competente. Tal relação entre teoria e prática torna-se
decisiva para o profissional que estará sendo
Sobre essa ótica Libâneo (2006) menciona formado, pois, ele terá de refazê-la com seus
que: alunos.

Novas exigências educacionais pedem às De acordo com esse princípio desde o


universidades e cursos de formação para o
magistério um professor capaz de ajustar sua início do curso de Pedagogia, portanto,
didática às novas realidades da sociedade, do deve haver a preocupação de desenvolver
conhecimento, do aluno, dos diversos universos competências aos formandos para que estes
culturais, dos meios de comunicação. O novo
professor precisaria, no mínimo, de uma cultura adaptem os conhecimentos produzidos a
geral mais ampliada, capacidade de aprender a prática futura, pesquisando a área aplicada
aprender, competência para saber agir na sala ao ensino, refletindo sobre a atividade de
de aula, habilidades comunicativas, domínio da
linguagem informacional, saber usar meios de ensinar e formulando alternativas para seu
comunicação e articular as aulas com as mídias e aperfeiçoamento profissional adquirindo
multimídias. (p.10) assim uma “identidade profissional”.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Segundo Libâneo (2006), é preciso o despreparo profissional no tocante a


resgatar a profissionalização do professor, não subsidiar o professor com técnicas e/
reconfigurar as características de sua ou conteúdos. Interfere na aquisição da
profissão da busca da identidade profissional. autonomia essencial que o professor deve
Esta certamente não será uma questão fácil, ter em seu exercício acadêmico. O professor
porém necessária. mal formado é ingênuo, e a insegurança
gera muitas vezes despreparo que leva à
Atualmente muitos relacionam a equívocos na solução de conflitos. Só se
má formação docente aos problemas ensina bem se aprendemos bem”.
encontrados Ensino fundamental I, desta
forma, realizei uma discussão junto a Diante dos relatos apresentados e
professores da rede pública municipal de analisados é possível perceber que não existe
ensino em qual trabalho atualmente sobre um único culpado diante da má formação
essa temática, estes mencionaram diferentes docente, bem como não existe uma única
pontos de vista: influência deste no Ensino Fundamental I,
sendo assim torna-se evidente a revisão
Sobre a postura do profissional: “se o da formação docente preocupando-se em
responsável pela base do ensino não está formar novos profissionais capazes de se
preparado para intervir pedagogicamente adequar as novas exigências educacionais e
não terá subsídios para desenvolver melhorar a qualidade do ensino em nosso
competências básicas nos educandos”; país. Essa melhoria no curso de Pedagogia
“o ato de ser professor requer um estudo deverá acontecer de imediato para que em
constante, reflexão de sua pratica a fim de breve possamos galgar melhoras no Ensino
buscar novos caminhos para atingir o maior Fundamental I, na medida em que esses
número de alunos. O ato de ensinar requer novos profissionais ingressem nas redes
antes de tudo do professor ser um “detetive” de ensino, novos profissionais estes que
do conhecimento, buscar sempre, um denomino como “competentes” e assim os
eterno ato de aprender”; “O professor é um destaco a seguir.
formador de opinião, por isso precisa estar
atualizado, fazer diversos cursos dentro de
sua área de formação para não ficar alienado.
A sociedade muda e sentimos isso dentro das
escolas (sala de aula) o profissional que não
estiver preparado sentirá muita dificuldade
para contornar tal situação”.

Destacaram ainda o fato do fracasso


escolar: “A má formação docente provoca

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Revista Educar FCE - Março 2019

PROFISSIONAL ação que deve ser desenvolvida durante sua


COMPETENTE: REDUÇÃO formação e consolidada após ela.
DOS PROBLEMAS QUE Durante a formação docente, se o
INTERFEREM NO ENSINO profissional desenvolver tais ações descritas
FUNDAMENTAL I acima, estaria futuramente mais preparado
e qualificado para compreender e intervir
Assim como todos os outros profissionais, diante das dificuldades de aprendizagens de
o docente necessita realizar constantes seu aluno do Ensino Fundamental I assim seria
reajustes em sua prática, reajustes esses que um facilitador da aprendizagem. Para tanto
deveriam ser desenvolvidos desde o processo esse profissional deveria ainda aprender
de sua formação, tais auxiliariam a prática sobre o desenvolvimento e aprendizagem
de suas ações diante das intervenções no sem distingui-las entre si, de forma integra
processo de ensino e aprendizagem a qual atrelando aos conhecimentos curriculares
se submeter. pertencentes à sua formação.

Este profissional deverá levar em Sobre essa ótica Libâneo (2006) aponta
consideração que ensinar requer dispor e que:
mobilizar conhecimentos para improvisar,
intuir, atribuir valores e fazer julgamentos “o valor da aprendizagem escolar está justamente
na sua capacidade de introduzir os alunos nos
que fundamentem a ação mais pertinente significados da cultura e da ciência por meio de
e eficaz, além de estar diretamente ligado a mediações cognitivas e interacionais providas
comunicação, a convivência, ao trabalho em pelo professor.” (p.28).
equipe, a enfrentar e respeitar a diferença
e a solucionar conflitos e assim perceber Além disso, a prática pedagógica deve
que ensinar exige aprender a inquietar-se e estar presente desde o início do curso
questionar-se com os problemas, dificuldades superior para a formação desse profissional
e fracassos sem permitir destruir-se por eles. docente, através de vivências em escolas de
Ensino Fundamental I ou mesmo por meio
Tais atitudes traçam o perfil do profissional de vídeos, estudos de caso, depoimentos
competente a qual pretendo me referir, este que remetessem tais profissionais a
deve manter-se em uma postura reflexiva, realidade que fará parte de sua vida futura.
flexível possibilitando a integração entre Atualmente, tais ações são vivenciadas
teoria e prática, estando capaz de tomar somente nos meses ou ano final do curso
decisões qualificadas diante de contextos através de estágios supervisionados, estes,
instáveis, indeterminados e complexos. porém, não contemplam o que aqui exponho,
Profissional reflexivo este que seja capaz de pois as condições que lhe são impostas em
entender, rever e reformular a própria ação, grande parte não possibilitam o exercício

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Revista Educar FCE - Março 2019

social; em terceiro, a prática tem o sentido de


do profissional plenamente, não são ensinar, referindo-se à transposição didática
supervisionados adequadamente durante do conhecimento das ciências, das artes e das
o processo ou monitorado continuamente letras para o contexto do ensino de crianças e
adolescentes em escolas de educação básica.
por um tutor ou professor experiente que (2000- p.11).
permita um retorno imediato revendo suas
falhas e elevando seus progressos, mas sim
são utilizados como avaliações e imposições Portanto, a prática pedagógica docente
para que o graduando torne-se graduado deve contemplar os três sentidos descritos
através de análise de listas e relatórios frios pela autora acima, pois um profissional
que não remetem o ensino, a vivência e a competente deve julgar e fazer relevância,
prática. Prática essa que proporcionará ao relacionar conceitos básicos e necessários,
professor fazer o aprender e saber ensinar. realizar adequadamente a transposição
didática, saber discernir os conteúdos
Ao referir-me sobre o profissional necessários a serem ensinados bem como
“competente” tal expressão destacada nos sua sequencia e tratamento.
remete as competências já mencionadas
anteriormente e bem explicadas por É necessário levar em consideração ainda
Perrenoud (2000) que a tem como uma que este profissional antes de ingressar
mobilização sobre um conjunto de saberes no Ensino Superior não estava totalmente
para solucionar com eficácia diferentes nulo, sem conhecimento ou experiências de
situações. Assim pode-se dizer ainda que vida, pelo contrario, ele levará consigo uma
tais competências docentes advêm de bagagem que contemplará suas experiências
experiências vividas por este, portanto escolares vivenciadas durante o seu “cursar”
o processo no qual estará inserido, sua na Educação Básica que o servirá de meios
formação ou atuação, deve ocorrer em para analise, auto avaliação e evolução do
situações concretas, reais e contextualizadas. saber posteriormente.

De acordo com Guiomar Namo de Mello, Assim, o profissional competente deve


Diretora Executiva da Fundação Victor conscientizar-se e ser formado para estar
Civita e Membro do Conselho Nacional de em constante aprendizado e não se limitar
Educação: apenas a aplicar conhecimentos, mas sim
em proporcionar meios com diferentes
O termo prática na formação do professor tem metodologias e estratégias que permitam
três sentidos complementares e inseparáveis. O
primeiro sentido refere-se à contextualização, o seu aluno aprender, a galgar espaço no
relevância, aplicação e pertinência do ambiente educacional e a minimizar assim os
conhecimento das ciências que explicam o problemas que cercam o Ensino Fundamental
mundo da natureza e o mundo social; em
segundo lugar, identifica-se com o uso eficaz das I atualmente tais como: relacionados a
linguagens como instrumento de comunicação escrita e leitura (alfabetização); Indisciplina;
e organização cognitiva da realidade natural e

217
Revista Educar FCE - Março 2019

Fracasso Escolar; desmotivação; entre outros que se descritos aqui ampliariam tal estudo,
estes sem sombra de dúvidas servirão para análise e como suporte para um futuro estudo
pretendido por mim.

218
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Perceber e analisar em que medida a formação docente
no curso de Pedagogia reflete no Ensino Fundamental I
era questão central desta pesquisa. Assim delineei e tracei
inúmeros fundamentos acerca dela, porém perceber que
a má formação docente realmente interfere no Ensino
Fundamental I não necessitou de grandes e aprofundados
conhecimentos, pois se torna fácil perceber diante da
realidade que me encontro inserida (educação pública) que
esta se apresenta como uma das questões que degeneram a AMANDA MENOZZI
educação em nosso país. Desta forma essa pesquisa deu-se
Graduada em Pedagogia
através de estudos sobre os problemas que causam tal má pela Universidade do Grande
formação assim foram realizadas pesquisas bibliográficas e ABC (2003); Especialista em
estudo de documentos que norteiam e que tratam do termo Psicopedagogia pela Universidade
do Grande ABC (2010), Em
Pedagogia e o curso, tracei o perfil do profissional docente Docência do Ensino Superior
responsável pelo curso e do graduando do mesmo, e assim pela Universidade Bandeirante
foi possível perceber que inúmeros problemas giram em de São Paulo (2012) e em
Administração da Educação com
torno dessa educação em nosso país. Ênfase em Direito Aplicado na
Educação (2018) pela Faculdade
Diante do tema, que atualmente se encontra presente, Campos Elíseos; Professora de
Ensino Fundamental I (EJA)- no
realizei conversas informais com profissionais atuantes Centro Integrado de Educação
no Ensino Fundamental I da rede municipal de ensino, na de Jovens e Adultos (CIEJA)
qual estou inserida, durante uma reunião pedagógica a Iguatemi I e Professora de Ensino
Fundamental I na EMEF Rodrigo
fim de reconhecer outros pontos de vista que giram sobre Mello Franco de Andrade.
o tema desta pesquisa, sendo assim foram abordadas
questões relevantes como o perfil do profissional docente
qualificado e sobre o fracasso escolar colocado como
reflexo do despreparo desse profissional, assim delineei o
perfil de um profissional totalmente preparado que seria fruto de uma formação qualificada
denominando-o de profissional “competente” que ao atuar na educação traria benefícios
futuros ao desenvolvimento da aprendizagem no Ensino Fundamental I minimizando os
problemas que o degeneram atualmente.

Sendo assim, foi possível perceber que para atualmente haver profissionais adequados,
qualificados na educação será necessária uma reformulação imediata no curso que os
formam, Pedagogia, este necessariamente deve contemplar à formação de um profissional
que esteja altamente envolvido com o ato de ensinar, profissional comprometido que utilize

219
Revista Educar FCE - Março 2019

diferentes e atraentes metodologias e estratégias para estimular o avanço de aprendizagens


significativas em seus alunos, além de ser um profissional altamente reflexivo pronto
para o crescimento teórico e prático de suas ações, preparado para a ampliação de seus
conhecimentos e disponível para enfrentamento de momentos tumultuosos, complexos,
inconstantes e difíceis de solucionar.

Encerrarei este expondo as dez novas atitudes docentes apresentadas por Libâneo (2006),
que certamente servirão de reflexão acerca de todo este estudo e de posteriores a este:

“Assumir o ensino como mediação: aprendizagem ativa do aluno com a ajuda pedagógica do professor; Modificar
a ideia de uma escola e de uma prática pluridisciplinares para uma escola e uma prática interdisciplinares;
Conhecer estratégias do ensinar a pensar, ensinar a aprender a aprender; Persistir no empenho de auxiliar os
alunos a buscarem uma perspectiva crítica dos conteúdos, a se habilitarem a apreender as realidades enfocadas
nos conteúdos escolares de forma crítico-reflexiva; Assumir o trabalho de sala de aula como um processo
comunicacional e desenvolver capacidade comunicativa; Reconhecer o impacto das novas tecnologias da
comunicação e informação na sala de aula; Atender a diversidade cultural e respeitar as diferenças no contexto
da escola e da sala de aula; Investir na atualização científica, técnica e cultural, como ingredientes do processo
de formação continuada; Integrar no exercício da docência a dimensão afetiva; Desenvolver comportamento
ético e saber orientar os alunos em valores e atitudes em relação à vida, ao ambiente, às relações humanas, a
si próprios.” (p.29 a 50)

220
Revista Educar FCE - Março 2019

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222
Revista Educar FCE - Março 2019

VANTAGENS DO ENSINO BILÍNGUE


PRECOCE
RESUMO: O presente artigo pretende apresentar algumas vantagens do ensino bilíngue
precoce, ou seja, aquele que começa antes dos seis anos de idade. Para que estas vantagens
sejam devidamente compreendidas, será apresentado um levantamento bibliográfico
sobre o bilinguismo e a educação bilíngue, com suas diversas definições e classificações
e, posteriormente, as vantagens da educação bilíngue desde a infância. As vantagens mais
percebidas por diversos autores foram a antecipação do desenvolvimento cognitivo e
da percepção metalinguística, maior controle inibitório, maior habilidade de pensamento
divergente, antecipação do pensamento operatório e desenvolvimento hemisférico cerebral
bilateral mais evidente em bilíngues do que em monolíngues.

Palavras-Chave: Ensino Bilíngue; Bilinguismo precoce; Educação bilíngue; Educação Infantil Bilíngue.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO obtida valendo-se do levantamento


bibliográfico presente nos demais capítulos
A aprendizagem e a fluência em mais de acerca das vantagens observadas sobre o
um idioma são cada vez mais desejadas em ensino bilíngue desde a infância.
nossa sociedade atual e parecem ser fatores
essenciais para a obtenção de melhores
posições no mercado de trabalho. Em O BILINGUISMO
razão dessa visão, verifica-se atualmente
o aumento de escolas bilíngues no Brasil, Antes de falarmos sobre a educação
especialmente na cidade de São Paulo. bilíngue na Educação Infantil, precisamos
entender o que é o bilinguismo. Para
Já há muitas escolas que oferecem a Butler e Hakuta (2008), o bilinguismo é um
educação bilíngue desde o Ensino Infantil, comportamento linguístico, é a habilidade de
possibilitando às crianças o contato com se comunicar, entender e interagir em mais
atividades desenvolvidas na segunda língua de um idioma em determinado ambiente
e em sua língua materna, para que ambas social, como podemos notar na definição
sejam aprendidas concomitantemente. abaixo:

A fim de entender o crescente interesse [...] indivíduos ou grupo de pessoas que obtêm
habilidades comunicativas em diversos níveis
por escolas bilíngues, este artigo pretende de proficiência, nas formas oral e escrita, com o
apresentar algumas vantagens do ensino propósito de interagir com falantes de uma ou
bilíngue desde a infância por meio de revisão mais línguas em uma determinada sociedade. Do
mesmo modo, o bilinguismo pode ser definido
bibliográfica sobre o assunto. como o estado psicológico e social de indivíduos
ou grupo de pessoas que resulta das interações
Este artigo está estruturado em três via língua(gem) no qual dois ou mais códigos
linguísticos (incluindo dialetos) são utilizados
tópicos: o bilinguismo, com suas definições para a comunicação (BUTLER e HAKUTA, 2008,
de acordo com diversos autores; o ensino p.115).
bilíngue, na qual é apresentada a visão de
vários autores sobre a definição desse tipo A pesquisadora de bilinguismo Bialystok
de educação; e o ensino bilíngue na infância (2006) afirma que há diversos motivos
e suas vantagens, em que são apresentadas pelos quais as pessoas se tornam bilíngues,
as vantagens comprovadas por pesquisas entre eles estão a migração, a residência
realizadas por alguns pesquisadores e temporária, a educação pretendida, a família
autores sobre os benefícios do ensino estendida (tios, primos e avós), etc.
bilíngue precoce. Para Diebold (apud MELLO, 1999),
podemos chamar de bilíngue a pessoa que
Nas considerações finais está a síntese tem um mínimo de competência linguística
da pesquisa aqui apresentada e a conclusão em uma segunda língua que a possibilita

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Revista Educar FCE - Março 2019

fala uma de suas línguas. No entanto, a realidade


a produção de enunciações completas e não é bem assim: estima-se que o bilinguismo
significativas. O autor também considera está presente em quase todas as nações do
que há diferentes graus de proficiência mundo, em todas as classes sociais e em todas
as faixas etárias e a sua aquisição ocorre em
no segundo idioma, desde a construção diferentes fases da vida; por isso, dificilmente
de mínimos enunciados até a fluência o indivíduo é igualmente fluente em todas as
semelhante a de um nativo do idioma. línguas e em todos os níveis (GROSJEAN apud
MELLO, 1999, p. 18).

Macnamara (apud MEGALE, 2005), Por causa da existência de diferentes


assim como Diebold, considera diferentes tipos de bilinguismo, que podem ter efeitos
graus de conhecimento do segundo idioma diferentes no processo cognitivo, no
e se opõe ao entendimento de que, para funcionamento cerebral e no uso e maestria
ser considerado bilíngue, a pessoa precise dos dois idiomas, Flory (2009) acredita
compreender e utilizar-se perfeitamente da ser importante considerar diferentes
língua escolhida; ele acredita em uma escala classificações de bilinguismo, para os quais
gradativa de aprendizagem e que qualquer ele estabeleceu os seis critérios a seguir.
pessoa pode ser chamada de bilíngue
se possuir pelo menos uma das quatro O primeiro critério é a proficiência em
habilidades linguísticas (fala, escrita, leitura e cada língua, classificando os bilíngues em
audição) desenvolvidas, por menor que seja balanceados – com proficiência similar nos
o seu grau nessa habilidade. dois idiomas – e dominantes – aqueles que
dominam mais um idioma do que o outro.
Grosjean (apud MELLO, 1999) ainda
desmistifica a crença popular de que apenas O segundo critério é a idade de aquisição,
aqueles que dominam perfeitamente classificados em precoces – quando
dois idiomas concomitantemente podem aprendem o segundo idioma ainda na
ser considerados bilíngues, uma vez infância – e tardios – quando aprendem após
que há diferentes fases do bilinguismo a infância (a partir da adolescência).
presentes nas mais diversas culturas e
dificilmente encontraremos quem os domine O terceiro critério classifica o bilinguismo
perfeitamente, sem demonstrar sotaque ou de acordo com a organização dos códigos
características de sua língua materna, como linguísticos. São classificados em:
percebemos na citação abaixo: coordenado, em que se aprende as línguas
em ambientes separados; composto, em
(...) o bilinguismo é uma exceção e o falar que a aprendizagem da língua se dá em um
bilíngue é frequentemente associado à noção de
perfeição, ou seja, o bilíngue seria uma espécie mesmo contexto, na qual as línguas são
rara que fala, lê, escreve e compreende duas usadas alternadamente ou simultaneamente;
ou mais línguas de maneira igualmente fluente, ou subordinado, em que há o predomínio
sem sotaque e sem quaisquer outros traços que
permitam distingui-lo do monolíngue, quando de um sistema linguístico ao outro e, assim,

225
Revista Educar FCE - Março 2019

as palavras da língua subordinada são Aqui consideraremos o ensino bilíngue


entendidas por meio da língua dominante. como opção da família para garantir melhor
O quarto critério é o status social de cada e mais diversa educação aos seus filhos, em
língua na sociedade, classificado em popular escolas em que o currículo escolar é ministrado
e de elite, sendo popular o bilinguismo de em dois idiomas, assim, versaremos sobre o
grupos linguísticos minoritários e sem status ensino precoce, balanceado, composto, de
elevado em dada sociedade e de elite aquele elite, aditivo e bicultural, levando em conta
idioma que oferece prestígio ao bilíngue os critérios desenvolvidos por Flory.
entre as pessoas de sua sociedade.

O quinto critério é a manutenção da O ENSINO BILÍNGUE


língua materna, classificado em aditivo ou
subtrativo. No bilinguismo aditivo, a segunda Não há consenso sobre quando ou
língua é adquirida sem perder a proficiência quem implementou o ensino de línguas
da língua materna, ao passo que o bilinguismo estrangeiras, mas acredita-se que foi iniciado
subtrativo acontece quando a aquisição da pela necessidade de comunicação com outros
segunda língua compromete a proficiência povos e culturas e para estabelecer relações
da língua materna. comerciais, como acontecera, por exemplo,
durante a colonização do Brasil, em que
O sexto e último critério é a identidade alguns portugueses tiveram que aprender
cultural do indivíduo bilíngue, que os dialetos indígenas e índios nativos tiveram
classifica de acordo com sua bilingualidade que aprender português para estabelecer
bicultural, ou seja, levando em consideração parcerias, trocas comerciais e entender uns
se o indivíduo se identifica com ambos aos outros.
grupos culturais das duas línguas e é assim
reconhecido. Para Harmers e Blanc (2003), a escola
bilíngue pode ser qualquer sistema educativo
O autor ainda acredita que devemos em que em algum momento e período as
considerar o bilinguismo um processo aulas sejam ministradas em pelo menos duas
contínuo, independentemente da definição línguas, de forma consecutiva ou simultânea.
e classificação escolhida, em que o sujeito Sendo assim, a segunda língua não pode ser
bilíngue transita e alterna seu tipo de apenas mais um componente curricular, mais
bilinguismo à medida em que se desenvolve uma matéria, e sim uma parte das orientações
no idioma, destinando a proficiência, o e apresentações do currículo escolar regular.
entendimento e apropriação cultural de
ambas as línguas. Ainda de acordo com os autores
supracitados, a educação bilíngue por
imersão – escolas em que a criança recebe

226
Revista Educar FCE - Março 2019

parte da instrução escolar em seu idioma Adotaremos no presente artigo o conceito


materno e parte no segundo idioma – pode de escola bilíngue como aquela que oferece
ser dividida em três tipos: imersão inicial a educação formal e, concomitantemente,
total, inicial parcial ou tardia. o ensino de outro idioma por meio da
convivência diária em situações educacionais
Na escola de imersão inicial total as em que a segunda língua é utilizada não
instruções são apresentadas no Ensino somente como grade curricular, mas também
Infantil no segundo idioma e, a partir do como a linguagem utilizada na aprendizagem
terceiro ano do Ensino Fundamental I, a língua de outras matérias e situações escolares.
materna vai sendo introduzida gradualmente
até que metade das instruções sejam
oferecidas em cada idioma. Já na educação O ENSINO BILÍNGUE
por imersão inicial parcial, as instruções são NA INFÂNCIA E SUAS
expressas desde o começo do ensino nos
dois idiomas. E a imersão tardia, em que os
VANTAGENS
alunos recebem toda orientação até o Ensino
Médio no segundo idioma e gradualmente Para Katchan (1986), as pesquisas
introduz-se a primeira língua, sendo 85% das realizadas da década de 1960 que
orientações no segundo idioma a partir do concluíram que o bilinguismo precoce
primeiro ano do Ensino Médio e até 40% nos poderia apresentar algumas desvantagens a
demais anos, de acordo com a escolha do respeito do desenvolvimento cognitivo das
estudante. crianças foram realizadas com sérias falhas
metodológicas, que levaram a um resultado
Podemos encontrar outra forma de dúbio sobre a eficácia do ensino bilíngue e
classificar o ensino bilíngue em Cummings a desconsideração de fatores ambientais aos
(apud SOARES, 2009), que classifica a quais os alunos estavam expostos.
educação bilíngue em duas versões: a forte,
na qual a criança pode utilizar a língua Estas falhas não consideravam a avaliação
materna no começo de sua escolarização e, de variáveis como o nível socioeconômico
posteriormente, a língua majoritária para sua e a inteligência não verbal, nem o idioma
educação regular; e a leve, em que ambas as utilizado nos testes, de acordo com Butler
línguas são utilizadas concomitantemente, e Hakuta (2008). Quando avaliados esses
promovendo a alfabetização nos dois critérios durante os testes, o resultado
idiomas. O autor acredita ainda que uma passou a apontar vantagens do bilinguismo
escola é considerada bilíngue de acordo com precoce.
a intenção de ensino da instituição.
Diversas pesquisas posteriores à acima
referida passaram também a considerar

227
Revista Educar FCE - Março 2019

positivo o ensino bilíngue desde a infância, operatório acontecia antes em crianças


uma vez considerados os critérios ignorados bilíngues. Katchan (1986) corrobora
na primeira pesquisa aqui citada, como o essa ideia e explica que a antecipação
controle de variáveis e o idioma em que os do pensamento operatório acontece em
testes eram realizados, como relata Bialystok bilíngues em decorrência da antecipação
(2006). da consciência da relatividade entre signo
e referente do real, uma vez que ambas
A autora acima, em suas pesquisas situações demandam uma retomada mental
sobre aquisição de língua, habilidade de uma situação e a reflexão crítica sobre ela.
metalinguística, letramento e solução de Ao contrário da crença popular de que as
problemas, descobriu que o bilinguismo crianças confundem os dois idiomas quando
acelera o desenvolvimento geral de uma os aprendem simultaneamente, a aquisição
função cognitiva relativa à atenção e inibição, de conceitos lógicos não sofre prejuízos em
facilitando as tarefas em que essas funções decorrência da educação bilíngue.
são necessárias, uma vez que a criança presta
mais atenção à informações importantes e Katchan (1986, p.675) afirma que:
tem maior controle inibitório, especialmente
em situações em que as informações são Qualquer receio de que os bilíngues se atrasem
na formação de conceitos foi dissipado por Keats
aparentemente conflitantes. & Keats (1974) e Keats, Keats & Fan (1982),
que testaram crianças bilíngues polonês/inglês,
Para Baker e Prys-Jones (1998), há alemão/inglês, chinês/inglês e malês/inglês e
descobriram que os conceitos lógicos adquiridos
dois tipos de pensamento: convergente e em uma língua podiam ser transferidos para a
divergente. Quando uma questão apresenta outra.
apenas uma resposta correta, utilizamos o
pensamento convergente; o pensamento
livre, imaginativo, criativo, aberto para novos Mello (1999) estudou o discurso
desfechos é o divergente. De acordo com suas espontâneo de crianças brasileiras bilíngues
pesquisas, que levaram em conta fluência, precoces em inglês e português em idade
originalidade, flexibilidade e elaboração das pré-escolar e analisou o que chamou de
respostas, os autores chegaram à conclusão “falar bilíngue”, ela explica que a mudança de
de que a maioria dos bilíngues superaram código linguístico não significa aleatoriedade
os monolíngues no desenvolvimento e na escolha das línguas, tão pouco falta
aplicação do pensamento divergente, de proficiência nos idiomas, mas sim uma
diferença encontrada especialmente em estratégia linguística significativa, que pode
bilíngues balanceados. ser bem empregada na comunicação dos
bilíngues. Esse comportamento de crianças
Os autores supracitados também notaram bilíngues não indica confusão entre os
em suas pesquisas que o pensamento sistemas das duas línguas, percebe-se em

228
Revista Educar FCE - Março 2019

suas pesquisas que as crianças sabem diferenciar as duas línguas e que sua seleção vocabular
é uma resposta adaptativa ao contexto em que essas crianças estão inseridas.

Para Hull e Vaid (2006), há até vantagens neurológicas do ensino bilíngue precoce. Em
estudos sobre assimetria hemisférica funcional em cérebros bilíngues e monolíngues,
verificou-se que monolíngues e bilíngues tardios apresentaram predominância do hemisfério
esquerdo, ao passo que os bilíngues precoces apresentaram significativo envolvimento
hemisférico bilateral, quando a aquisição da segunda língua começa antes dos seis anos de
idade.

Um “sumário de conclusões confiáveis” foi apresentado por Diaz e Klinger (2000) após análise
de pesquisas sobre experiências bilíngues precoces e sua influência no desenvolvimento
cognitivo. Para eles, as crianças que participaram de ensino bilíngue têm vantagens
significativas em tarefas que envolvem as habilidades verbais e não-verbais; demonstram
capacidades metalinguísticas avançadas, especialmente no controle do processamento da
língua; vantagens cognitivas e metalinguísticas são depreendidas em situações bilíngues que
envolvem o uso sistemático da língua (aquisição simultânea ou ensino bilíngue); entre outros.
Ainda enfatizam que os benefícios do ensino bilíngue na infância aparecem relativamente
cedo, em diversos níveis de proficiência, mesmo sem a aquisição da mesma proficiência em
ambos idiomas.

Cabe acrescentar que:

[...] se as duas línguas forem suficientemente valorizadas, o desenvolvimento cognitivo da criança levará a um
benefício máximo da experiência bilíngue, que atuará como uma estimulação enriquecida levando a uma maior
flexibilidade cognitiva em comparação com os pares monolíngues (HAMERS e BLANC, 2003, p. 29).

Logo, ao falarmos das vantagens do bilinguismo precoce, para que as vantagens acima
expostas sejam efetivas, é necessário um programa de educação bilíngue aditivo bem
construído e implementado que contribua para a proficiência da criança em dois idiomas
e culturas sem desvantagens a longo prazo para o desenvolvimento de suas habilidades
linguísticas. O apoio contínuo dos pais e o incentivo da família de práticas de leitura e escrita
também são de grande importância e colaboram positivamente no letramento bilíngue
precoce.

229
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A busca por escolas de ensino infantil bilíngue tem crescido
nos últimos anos graças ao interesse dos pais em oferecer
aos seus filhos uma experiência cultural mais ampla e maior
familiaridade com um segundo idioma, a fim de possibilitar
melhores colocações no mercado de trabalho e de ascensão
social.

Com o intuito de justificar essa crescente demanda, o


presente artigo investigou possíveis vantagens do ensino
bilíngue, apresentando, para isso, os conceitos de bilinguismo
e educação bilíngue. ANA CLÁUDIA ARRUDA
DE CARVALHO
De acordo com a bibliografia estudada, o bilinguismo pode
Graduação em Letras pela
acontecer por diversas razões, como migração, residência Universidade Presbiteriana
temporária, família estendida, a educação pretendida, entre Mackenzie (2007); Especialista
outros, mas foi este último motivo o foco de estudo deste em Didática em Inglês pela
Faculdade Campos Elíseos (2018);
trabalho, tendo em vista que se pretendeu entender algumas Professor de Ensino Fundamental
vantagens do ensino bilíngue e do crescimento das escolas II - Inglês – no Ensino Municipal
bilíngues no Brasil. de São Paulo.

No geral, considerando as definições apresentadas no


primeiro capítulo, convencionou-se chamar de bilíngue a pessoa que possui um mínimo de
competência linguística em dois idiomas, que a possibilite produzir enunciações significativas
e completas em ambos.

Os seis critérios de Flory (2009) foram analisados para exprimir os diferentes tipos de
bilinguismo compreendidos pelo autor e justificar sua visão de que o bilinguismo deve ser
um processo contínuo, em que o estudante transita e evolui seu tipo de bilinguismo até
atingir a fluência e certa apropriação cultural na língua desejada.

Já as escolas bilíngues podem ser definidas como aquelas em que os alunos recebem as
orientações do currículo regular em duas línguas diferentes, em sua língua materna e em
uma outra de sua escolha. Para Hamers e Blanc (2003), essas escolas de ensino imersivo
podem ser de três tipos: inicial total, parcial ou tardia, seguindo a quantidade de exposição
à segunda língua oferecida pela instituição.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Cummings (apud SOARES, 2009) preferiu classificar a educação bilíngue em duas


categorias: forte e leve, sendo a primeira a introdução do segundo idioma após o começo
do estudo da língua materna e a última o aprendizado concomitante de ambas as línguas.
Foi neste segundo tipo de educação bilíngue que esta pesquisa se baseou, no ensino
concomitantemente lecionado em dois idiomas.

Após a apreciação dos resultados obtidos em diversas pesquisas realizadas pelos autores
analisados no terceiro capítulo, pode-se averiguar algumas relevantes vantagens da aquisição
de uma segunda língua ainda na infância, antes dos seis anos de idade.

O ensino bilíngue precoce pode acelerar o desenvolvimento geral da função cognitiva


relacionada à atenção e ao controle inibitório, facilitando as atividades em que essas funções
são utilizadas. Outro benefício é o maior desenvolvimento do pensamento divergente, que é
o pensamento criativo, imaginativo e livre. A antecipação do pensamento operatório também
foi observada em bilíngues precoces, além de maior consciência entre as relações dos signos
linguísticos com o real, ambas advindas de maior facilidade de retomada mental de situações
e de sua reflexão crítica, causadas possivelmente pela primeira vantagem aqui descrita.

Hull e Vaid (2006) observaram ainda vantagens neurológicas do ensino bilíngue precoce,
considerando o resultado de suas pesquisas em que verificaram que há predominância de
desenvolvimento hemisférico bilateral em crianças bilíngues em oposição à predominância
do desenvolvimento do hemisfério esquerdo em crianças monolíngues.

Enfim, em conformidade com a pesquisa bibliográfica aqui realizada, verifica-se que


o crescente interesse por escolas de ensino bilíngue desde a infância é justificado pelos
diversos benefícios cognitivos, neurológicos e sociais acima expostos, além dos benefícios da
proficiência em outra língua e conhecimento de outra cultura que poderão facilitar o acesso
dessas crianças a melhores posições no mercado de trabalho e ao sucesso profissional.

231
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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233
Revista Educar FCE - Março 2019

A NEUROPSICOPEDAGOGIA E OS
DISTÚRBIOS DE APRENDIZAGEM
RESUMO: Esta pesquisa trata do tema Neuropsicopedagogia e dos Distúrbios de
Aprendizagem. Com base neste tema temos como objetivos apresentar os principais conceitos
e definições que englobam o tema Neuropsicopedagogia, além deste aspecto, esta pesquisa
visa abordar as questões relacionadas aos principais distúrbios de aprendizagem. O fracasso
escolar, por muitas vezes, está relacionado a falhas da aprendizagem, esses distúrbios podem
estar relacionados a diferentes áreas como leitura, escrita, ortografia, dentre outras, além
destes aspectos podem relacionar-se a coordenação do movimento, organização espacial,
etc. O não aprender do indivíduo pode estar relacionado a um distúrbio ou a uma dificuldade
escolar, nos dois casos, o indivíduo apresenta rendimento escolar abaixo da média nas
diferentes áreas de aprendizagem. O objetivo do diagnóstico é compreender globalmente
a maneira como a criança aprende e o que está ocorrendo neste processo dificultando a
aprendizagem, depois de especificado o problema parte-se então para o encaminhamento
de ações para solucioná-los.

Palavras-Chave: Neuropsicopedagogia; Distúrbios de Aprendizagem; Aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO são necessárias múltiplas eficiências para a


ocorrência de uma educação inclusiva; que
Esta pesquisa trata do tema a Neurociências pode ser aplicada em sala
Neuropsicopedagogia e dos Distúrbios de de aula pelo funcionamento dos estímulos
Aprendizagem. Com base neste tema temos cerebrais, despertando inteligências com
como objetivos apresentar os principais aquilo que chama de biologia do afeto e
conceitos e definições que englobam o amor, pois estes criam vínculos e conquistas
tema em questão, além deste aspecto, no cotidiano, já que é fruto da observação,
esta pesquisa visa abordar as questões interação e acolhida a todos que aprendem.
relacionadas aos principais distúrbios de
aprendizagem. A neuropsicopedagogia é Antigamente os educadores e os
uma área do saber que integra a pedagogia, seus estudos não estavam relacionados
psicologia, neuropsicologia, psicopedagogia diretamente a pesquisas nas áreas cognitivas
e o trabalho clínico e estabelece a relação e os cientistas da área de neurociências
entre o cérebro e a aprendizagem. também não estabeleciam relação com a
educação e com a sala de aula. Atualmente,
Os estudos englobam o conhecimento os pesquisadores cognitivos estão dedicando
do comportamento e de aprendizagem mais tempo ao trabalho com os professores,
dos indivíduos, englobando os aspectos testando e refinando suas teorias em salas de
relacionados as funções motoras, linguagem, aula, podendo observar como as relações e o
memória, cognição e aspectos emocionais, ambiente escolar podem influenciar em suas
psicológicos e cerebrais. O fracasso escolar, teorias, surgindo assim, diferentes técnicas
por muitas vezes, está relacionado a falhas de pesquisa.
da aprendizagem, esses distúrbios podem
estar relacionados a diferentes áreas como O objetivo do diagnóstico é compreender
leitura, escrita, ortografia, dentre outras, globalmente a maneira como a criança
além destes aspectos podem relacionar-se aprende e o que está ocorrendo neste
a coordenação do movimento, organização processo dificultando a aprendizagem,
espacial, etc. O não aprender do indivíduo depois de especificado o problema parte-se
pode estar relacionado a um distúrbio ou então para o encaminhamento de ações para
a uma dificuldade escolar, nos dois casos, solucioná-los.
o indivíduo apresenta rendimento escolar
abaixo da média nas diferentes áreas de Os estudos na área de Neurociências,
aprendizagem. bem como a parceria entre educadores e
psicopedagogos é fundamental para que o
Quando Relvas (2011) relaciona a diagnóstico e o encaminhamento de cada
Neurociências com os Transtornos de caso seja realizado de maneira adequada,
Aprendizagem consegue demonstrar que definindo quais são os problemas de

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Revista Educar FCE - Março 2019

aprendizagem, suas causas e quais são as na sua capacidade de ser alterado e moldado
possibilidades de intervenção. pelas experiências ao longo da vida”.

A neurociência pode constituir-se como A neurociência cognitiva é a ciência que tenta


compreender e explicar as relações entre o
um apoio ao professor com o intuito de cérebro, as actividades mentais superiores
identificação da pessoa como ser único, que e o comportamento. Esta jovem disciplina
aprende de maneira diferente e se desenvolve das neurociências incide o seu estudo na
relação entre o funcionamento neurológico e
de maneira diferente. Com os estudos que a actividade psicológica, dando um particular
envolvem o cérebro e a sua relação com a enfoque a análise do comportamento, como a
aprendizagem, a neurociências pode trazer manifestação última da actividade do sistema
nervoso central [...] (RATO; CALDAS, 2010,
conhecimentos sobre a linguagem, a memória,
p.627)
o conhecimento e sobre o desenvolvimento
infantil, auxiliando no processo de ensino e
aprendizagem. De acordo com Houzel (2013) a
Neurociência mostra que as transformações
no cérebro duram por toda a infância e mesmo
OS CONCEITOS SOBRE A depois deste período o cérebro “ainda não
NEUROPSICOPEDAGOGIA está pronto” e continuam a ocorrer outras
transformações, que são responsáveis pela
Segundo Bartoszeck (2007) o mudança de comportamento na adolescência,
funcionamento e a formação da estrutura entre outros fatores, desta maneira, o
básica do cérebro se constitui no início estudo da Neurociência se relaciona com a
da infância, desencadeando diferentes educação por sua importante relação com
indagações sobre os estímulos externos, o aprendizado com as interações que se
as emoções e o estresse. Neste sentido, de estabelecem nas interações ocorridas no
acordo com o autor, o emocional se organiza processo de ensino e aprendizagem.
desde a mais tenra idade e quando mais idade,
mais difícil será a modificação destes padrões O trabalho do neuropsicopedagogo
estabelecidos no cérebro, algumas estruturas abrange o estabelecimento de relações para
completam o seu desenvolvimento no feto mediar e analisar as formas para contribuir
e outras podem se modificar (plasticidade no trabalho com as dificuldades de
neuronal) durante toda a vida. aprendizagem que as crianças apresentem.
A neuropsicopedagogia pode ser entendida
Ainda com base nas ideias de Bartoszeck como uma neurociência educacional, com
(2007) p.11: “a maioria dos neurocientistas o intuito de auxiliar os professores que
acredita que os “períodos críticos” não são envolvem o contexto escolar, neste sentido,
tão rígidos e inflexíveis e interpretam como integra os estudos do desenvolvimento, das
períodos “sensíveis” pelo que passa o cérebro estruturas, das funções do cérebro.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Na década do cérebro as ciências cognitivas se escolar é algo mágico, rico e desafiador. Todo
confundem com a neurociência, congregando ser humano pode encontrar esse caminho, basta
cientistas oriundos das áreas de filosofia, querer. As figuras abaixo nos alertam para tal
psicologia, antropologia, informática e direcionamento. (REZENDE, 2008, p.43).
computação, que procuram uma compreensão
extensiva da inteligência humana seja
descrevendo, simulando, reproduzindo, A Ciência e a Educação buscam esforços
replicando, ampliando, transferindo as para compreender como se aprende, tendo
capacidades mentais humanas. Abre-se um
campo de questões desafiadoras para a educação como principal processo a inter-relação
com uma nova ciência da aprendizagem. As do sistema nervoso, as funções cerebrais,
descobertas sobre a neuroplasticidade e a mentais e o ambiente. Por isso, a quantidade
melhor compreensão das funções mentais,
influenciam a prática educacional, as estratégias de pesquisas existentes em ambas as
em sala de aula e apontam para novas formas de áreas sobre a hipótese e possibilidade
ensinar. (OLIVEIRA, 2011, p.78-79) de que aprendizagem e comportamento
começam no cérebro e são mediados por
Segundo Rezende (2008), o nosso meio de processos neuroquímicos, fatos
cérebro (encéfalo) possui dois hemisférios, o dificilmente abordados durante a formação
esquerdo e o direito, com base nos estudos de educadores.
o hemisfério esquerdo é relacionado
aos aspectos cognitivos da linguagem e Segundo Rezende (2008), a escola busca
processamento verbal e o hemisfério direito uma forma de ensino e prática escolar que
seria responsável pela percepção de formas possa suprir as dificuldades de aprendizagem
e ortografia. Com base na autora esses dos alunos e não apenas seja responsável
dois hemisférios são diferentes e idênticos. pela transmissão de conteúdos, com isso, a
“São responsáveis pela inteligência e pelo neurociência pode contribuir na inclusão de
raciocínio, ou seja, atuam no aprender, saberes que auxiliem o professor e o aluno
lembrar, ler, agir por si mesmo e sobrevivem neste processo de ensino e aprendizagem.
à diferenciação da equipotencialidades. Um Neste sentido a autora afirma que “a
domina, com frequência, o outro”. (p.45). aprendizagem acontece sob dois aspectos:
de um lado, os conhecimentos construídos e/
A capacidade de pensar, organizar sistemas e ou reconstruídos e, de outro, os mecanismos
categorias, imaginar, sorrir, chorar, compreender,
aprender, é apenas um ponto de vista entre utilizados para construí-los”. (p. 29).
outros possíveis da capacidade cerebral.
Recuperar nos alunos esta percepção, conforme Quando falamos em educação e aprendizagem
mostram as figuras 03 e 04 abaixo, significa criar estamos falando em processos neurais, redes
estratégias de organização de uma metodologia que se estabelecem, neurônios que se ligam e
que avance em conhecimentos. Cada hemisfério fazem novas sinapses. É o que entendemos por
do nosso cérebro tem um comprometimento aprendizagem. Aprendizagem, nada mais é do
em algumas habilidades sejam elas, concretas, que esse maravilhoso e complexo processo pelo
analógicas, intuitivas, sintéticas, verbais, qual o cérebro reage aos estímulos do ambiente,
racionais, simbólica, analíticas ou abstratas. ativa essas sinapses (ligações entre os neurônios
Buscar entre professores e estudantes, no por onde passam os estímulos), tornando-as
tempo e no espaço, essas aptidões no contexto mais intensas. A cada estímulo novo, a cada

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Revista Educar FCE - Março 2019

repetição de um comportamento que queremos


que seja consolidado, temos circuitos que Diferentes fatores podem interferir no
processam as informações, que deverão ser processo de ensino e de aprendizagem, como
então consolidadas. (NASCIMENTO, 2011, o estímulo, a motivação e o ambiente no
p.28)
qual o aluno está inserido. A aprendizagem
pode ser mais significativa quando ocorre
De acordo com as ideias de Oliveira (2011) a interdisciplinaridade, diferentes saberes
nos diferentes momentos da história, os e conhecimentos, trabalhados de maneira
estudiosos e pesquisadores demonstraram interligada nas diversas áreas e disciplinas de
uma preocupação de como os ambientes conhecimento. O entendimento da maneira
educacionais poderiam ter sucesso em como o cérebro trabalha pode contribuir
realizar a seleção de crianças ou proporcionar para a aprendizagem na escola, realizando os
o seu desenvolvimento. Muitas crianças que encaminhamentos necessários com o auxílio
apresentaram algum tipo de dificuldade na de diferentes profissionais, conforme cada
escola poderiam ter avançado caso, nesta caso.
época, fossem conhecidas algumas práticas
corretas de instrução. Neste sentido, até
mesmo os alunos que conseguiram êxito OS DISTÚRBIOS DE
nestes modelos educacionais, poderiam ter APRENDIZAGEM
obtido melhores resultados e desenvolvido
diferentes habilidades e conhecimentos. O fracasso escolar, por muitas vezes,
está relacionado a falhas da aprendizagem,
Com base nas ideias de Rato (2010) a esses distúrbios podem estar relacionados
neurociência é a ciência do cérebro e a educação a diferentes áreas como leitura, escrita,
é a ciência do ensino e da aprendizagem, ortografia, dentre outras, além destes
podemos assim definir a Neurociência como aspectos podem relacionar-se a coordenação
um campo de conhecimento que procura do movimento, organização espacial, etc.
estudar as variações que acontecem entre
a atividade cerebral e o comportamento, O não aprender do indivíduo pode
abrangendo diversas disciplinas, destacando- estar relacionado a um distúrbio ou a uma
se entre elas a neurofisiologia, a pedagogia, dificuldade escolar, nos dois casos, o indivíduo
a neurologia e a psicologia, dentre outras. A apresenta rendimento escolar abaixo da
Neurociência é formada pelo conjunto destas média nas diferentes áreas de aprendizagem.
ciências e estuda como o cérebro funciona O distúrbio escolar tem origem orgânica,
interferindo em nosso comportamento e neurológica, que pode ser resultante de
em nossas emoções. Com o estudo em disfunções em diferentes áreas do cérebro.
Neurociências é possível compreender como Os principais problemas são dislexia (falha
ocorrem as interferências no cérebro humano, no processamento da habilidade da leitura
provocadas por lesões. e da escrita), disgrafia (falha na escrita)

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Revista Educar FCE - Março 2019

e discalculia (dificuldade para lidar com Segundo Tabaquim (2003) o estudo das
conceitos e símbolos matemáticos). questões neurobiológicas do comportamento
humano busca estabelecer relações entre os
O diagnóstico em psicopedagogia é processos mentais e as atividades celulares.
utilizado para avaliar quais fatores podem A Neuropsicologia estuda os distúrbios das
ocasionar as dificuldades de aprendizagem. funções superiores que são produzidos
De acordo com Ribeiro (2011) a dificuldade por alterações cerebrais e investiga os
de aprendizagem pode ser definida como distúrbios de comportamento adquiridos, é
um termo geral que se refere a um grupo uma ciência do conhecimento que estuda
heterogêneo de desordens manifestadas as relações entre cérebro e comportamento,
por dificuldades significativas na aquisição apresentando o funcionamento dos sistemas
e utilização da compreensão auditiva, da cerebrais individuais em seus diferente
fala, da leitura, da escrita e do raciocínio níveis, tanto em condições normais como
matemático. patológicas.

Segundo Tabaquim (2003) o estudo das O estudo em Neuropsicologia busca


questões neurobiológicas do comportamento realizar uma análise das alterações que
humano busca estabelecer relações entre os podem ocorrer nos casos de lesão cerebral,
processos mentais e as atividades celulares. explicitando como tais lesões podem
A Neuropsicologia estuda os distúrbios das interferir nos processos psicológicos e
funções superiores que são produzidos permite a análise da atividade mental, com
por alterações cerebrais e investiga os o acesso a informações a respeito das lesões
distúrbios de comportamento adquiridos, é em partes complexas do cérebro.
uma ciência do conhecimento que estuda
as relações entre cérebro e comportamento, A neuropsicologia estuda as funções
apresentando o funcionamento dos sistemas do sistema nervoso e o comportamento
cerebrais individuais em seus diferente humano, a aprendizagem é definida como
níveis, tanto em condições normais como uma mudança de comportamento resultante
patológicas. de uma experiência já vivenciada pelo
indivíduo, neste sentido, com a aprendizagem
O estudo em Neuropsicologia busca a ser constituída por processos neurais, a
realizar uma análise das alterações que neuropsicologia torna-se uma importante
podem ocorrer nos casos de lesão cerebral, ferramenta de estudo no contexto
explicitando como tais lesões podem educacional.
interferir nos processos psicológicos e
permite a análise da atividade mental, com Os transtornos de aprendizagem
o acesso a informações a respeito das lesões representam a consequência de um
em partes complexas do cérebro. transtorno na organização funcional do

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Revista Educar FCE - Março 2019

sistema nervoso central, em geral de caráter leve, as com consequências de considerável


importância para o futuro social da criança, já que perturbam a conduta pedagógica.

Dificuldades, transtornos, distúrbios e problemas de aprendizagem são expressões muito


utilizadas para se referir as alterações que muitas crianças apresentam na aquisição de
conhecimentos, habilidade motora e psicomotora. O processo de aprendizagem requer um
certo nível de ativação, atenção e seleção das informações recebidas, estes são elementos
fundamentais para toda a atividade neuropsicológica, que são fundamentais para manter as
atividades cognitivas.

240
Revista Educar FCE - Março 2019

O processo de aquisição de aprendizagem, na criança, pode ser influenciado de maneira


direta ou indireta por diferentes fatores, dentre eles podemos destacar: o ambiente no qual
ocorre a aprendizagem, as condições emocionais e orgânicas, além da estrutura familiar.
Neste sentido, pode-se afirmar que a aprendizagem está diretamente relacionada ao
desenvolvimento do indivíduo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Para o diagnóstico é importante que todas as regras de relacionamento, sejam bem


definidas desde o primeiro contato, sendo claras para o paciente e a sua família, por este
motivo é necessário um contrato de atendimento no qual serão definidas funções, número
de sessões previstas, horários e local de atendimento, etc.

A neuropsicologia, oferece os subsídios necessários para a investigação e compreensão


do funcionamento intelectual da criança, podendo desta maneira, auxiliar e instrumentar
diferentes profissionais, como médicos, psicólogos, psicopedagogos e fonoaudiólogos,
promovendo uma melhor e mais eficiente intervenção terapêutica. Desta forma as
dificuldades de aprendizagem podem ser melhor compreendidas e, consequentemente,
tratadas de maneira adequada caso a caso.

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Com base nas ideias de Ciasca (2003) sem uma organização cerebral integrada, intra e
interneurossensorial, não é possível que ocorra a aprendizagem normal, pois os processos
de codificação e decodificação são de extrema importância quando tratamos de problemas
de aprendizagem. As revelações de sinais neurológicos quase sempre são identificáveis nos
casos de crianças com dificuldades de aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As descobertas no campo da Neurociência são de
fundamental importância para a área de educação de
uma forma geral, pois estes estudos podem demonstrar e
explicitar como o cérebro funciona e como se estabelecem
as conexões e estímulos que geram as ações necessárias para
a capacidade de desenvolvimento da memória e apreensão
de conhecimentos, com o armazenamento de informações
recebidas neste processo.

O trabalho do neuropsicopedagogo abrange o


estabelecimento de relações para mediar e analisar as ANA LÚCIA BUDIM DE
formas para contribuir no trabalho com as dificuldades OLIVEIRA
de aprendizagem que as crianças apresentem. A
Graduação em Pedagogia pelas
neuropsicopedagogia pode ser entendida como uma Faculdades Campos Salles (2006);
neurociência educacional, com o intuito de auxiliar os Especialista em Letramento
professores que envolvem o contexto escolar, neste sentido, pela Faculdade Campos Elíseos
(2016); Especialista em Educação,
integra os estudos do desenvolvimento, das estruturas, das Diversidade e Inclusão Social
funções do cérebro. (2017). Professora de Educação
Infantil no Cei Ceu Paz. Professora
de Educação Infantil e Ensino
As dificuldades, transtornos, distúrbios e problemas Fundamental I – na Emei Ceu Paz.
de aprendizagem são expressões muito utilizadas para
se referir as alterações que muitas crianças apresentam
na aquisição de conhecimentos, habilidade motora e
psicomotora. O processo de aprendizagem requer um certo nível de ativação, atenção e
seleção das informações recebidas, estes são elementos fundamentais para toda a atividade
neuropsicológica, que são fundamentais para manter as atividades cognitivas.

Antigamente os educadores e os seus estudos não estavam relacionados diretamente


a pesquisas nas áreas cognitivas e os cientistas da área de neurociências também não
estabeleciam relação com a educação e com a sala de aula. Atualmente, os pesquisadores
cognitivos estão dedicando mais tempo ao trabalho com os professores, testando e refinando
suas teorias em salas de aula, podendo observar como as relações e o ambiente escolar
podem influenciar em suas teorias, surgindo assim, diferentes técnicas de pesquisa.

O processo de aquisição de aprendizagem, na criança, pode ser influenciado de maneira


direta ou indireta por diferentes fatores, dentre eles podemos destacar: o ambiente no qual

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Revista Educar FCE - Março 2019

ocorre a aprendizagem, as condições emocionais e orgânicas, além da estrutura familiar.


Neste sentido, pode-se afirmar que a aprendizagem está diretamente relacionada ao
desenvolvimento do indivíduo.

O fracasso escolar, por muitas vezes, está relacionado a falhas da aprendizagem, esses
distúrbios podem estar relacionados a diferentes áreas como leitura, escrita, ortografia,
dentre outras, além destes aspectos podem relacionar-se a coordenação do movimento,
organização espacial, etc. O não aprender do indivíduo pode estar relacionado a um distúrbio
ou a uma dificuldade escolar, nos dois casos, o indivíduo apresenta rendimento escolar
abaixo da média nas diferentes áreas de aprendizagem.

Alunos com distúrbios ou transtornos de aprendizagem podem receber intervenções em


prol do processo de aprendizagem a partir do recurso dos exercícios da plasticidade cerebral
e da experiência musical, as quais modificam estruturalmente o cérebro e são fatores de
estímulo para fins terapêuticos quanto ao raciocínio, atenção, concentração e memória,
além de atuar em prol da evolução dos processos cognitivos e emocionais ou para amenizar
as sequelas obtidas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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247
Revista Educar FCE - Março 2019

FORMAÇÃO DOCENTE E O ENSINO


SUPERIOR NO BRASIL: LEGISLAÇÃO
E PRÁTICAS
RESUMO: Este artigo tem como objetivo apresentar os principais aspectos da Formação
Docente em nível superior e os principais aspectos relacionados a legislação educacional que
trata do tema em questão. No campo educacional, com a expansão das Instituições de ensino
superior privadas, e com a exigência da qualificação do corpo docente na pós-graduação
como critério na Avaliação Institucional e como referencial de qualidade da educação, os
programas stricto sensu vêm se tornando uma necessidade competitiva para os profissionais
que atuam na área. A postura do professor em sala de aula vem mudando ao longo do tempo
com as mudanças nos conceitos sociais. Houve tempo em que ele possuía um papel definido,
possuía o conhecimento, no qual a intenção era suprimida pelo poder autoritário que o mesmo
exercia. Atualmente se consegue observar uma maior aproximação entre professor e aluno.
O conhecimento ideal é aquele que transforma o aluno em cidadão, capaz de refletir e dar
sua cota de contribuição nas transformações sociais. No entanto, para isso acontecer o papel
do professor deve ser o de um facilitador da aprendizagem, aquele que provoca no aluno um
estimulo que o faça aprender a aprender. E esse evento estará intimamente relacionado com
o processo de interação desenvolvido por esse professor com o educando.

Palavras-Chave: Formação Docente; Didática; Ensino Superior; Legislação.

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INTRODUÇÃO atender aos milhares de profissionais liberais,


professores e estudantes que concluíram
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação algum tipo de curso superior, e que desejam
Nacional – LDBEN 9394/96, ao se referir complementar seus conhecimentos ou
aos profissionais da educação, em seu artigo formação acadêmica, para atividades de
62, estabelece que a formação de docentes pesquisa e docência.
para atuar na educação básica ocorrerá em
nível superior, em curso de licenciatura, Segundo Pimenta (2003) temos três
de graduação plena, em universidades e aspectos que podem contribuir para o
institutos superiores de educação, admitida desenvolvimento profissional do professor
como formação mínima para o exercício do universitário: as questões relacionadas à
magistério na educação infantil e nas quatro sociedade, como seus valores e as formas
primeiras séries do ensino fundamental, a de organização; o avanço da ciência no
oferecida em nível médio, na modalidade decorrer dos anos; a consolidação de uma
Normal. ciência da educação, que possibilite o acesso
aos saberes fundamentais no campo da
De acordo com Gatti (2003) para que Pedagogia.
a profissão e a formação docente fossem
satisfatórias seria necessário que os O conhecimento ideal é aquele que o
mestrados, ao invés de aprofundar-se somente transforma em cidadão, capaz de refletir e dá
na especialização e nos conhecimentos das sua cota de contribuição nas transformações
áreas, tivessem uma formação didática, para sociais. No entanto, para isso acontecer
assim, poder articular a docência com a o papel do professor deve ser a de um
pesquisa, levando a “indissociabilidade entre facilitador de aprendizagem aquele que
ensino e pesquisa”. provoca no aluno um estimulo que a faça
aprender a aprender. E esse evento estará
No campo educacional, com a expansão intimamente relacionado desenvolvido por
das Instituições de ensino superior privadas, esse professor com o educando.
e com a exigência da qualificação do corpo
docente na pós-graduação como critério na
Avaliação Institucional e como referencial de O ENSINO SUPERIOR E A
qualidade da educação, os programas stricto LEGISLAÇÃO
sensu vêm se tornando uma necessidade
competitiva para os profissionais que atuam No Brasil, os primeiros cursos superiores
na área. tiveram início em 1812 e se limitavam ao
Direito, Medicina, Politécnica e Agricultura,
O sistema de pós-graduação brasileiro está as aulas eram avulsas ou particulares, e
dividido em lato sensu e stricto sensu, e visa com o tempo foram agrupadas nos liceus

249
Revista Educar FCE - Março 2019

provinciais. Em 1837, foi criado o Colégio 1934, pela então criada Universidade de
Pedro II, na Corte, que servia como modelo São Paulo, e, em 1935, pela Universidade do
para os demais. Os professores, nesta época, Distrito Federal.
ainda não tinham uma instrução específica e
nem havia fiscalização. O Ministério de Educação e Saúde
foi criado em 1930 por Getúlio Vargas
A primeira universidade brasileira foi e em 1931 foi aprovado o Estatuto das
criada em 1920 no Rio de Janeiro, resultante Universidades Brasileiras. Conforme este
do Decreto n° 14.343, desta universidade estatuto as universidades poderiam ser
faziam parte faculdades profissionais que pública (de esfera federal, estadual ou
eram voltadas ao ensino em detrimento da municipal) ou particular e deveria incluir ao
pesquisa e mantinham a sua autonomia. mínimo três dos seguintes cursos: Direito,
Medicina, Engenharia, Educação, Ciências
As primeiras faculdades brasileiras foram e Letras. Essas faculdades mantinham sua
a de Medicina, de Direito e Politécnica autonomia jurídica, mas eram ligadas por
e estavam situadas em grandes cidades meio da reitoria.
e tinham como base de orientação um
propósito voltado à elite. Baseavam-se nos A Universidade do Distrito Federal foi
modelos franceses que eram voltados muito criada em 1935 e era voltada à renovação
mais ao ensino do que a pesquisa. Os cargos e ampliação da cultura, mesmo com poucos
eram vitalícios e o responsável pelo campo recursos econômicos, as atividades de
de saber, tinha o poder de escolher seus pesquisa foram estimuladas com o apoio dos
assistentes e mantinha essa posição ao longo professores e aproveitamento dos espaços.
da vida.
Com o apoio de professores estrangeiros
Em 1931, o Decreto N° 19.852/31 de e pesquisadores foi criada a Universidade de
Getúlio Vargas, estabeleceu o Estatuto São Paulo, em 1934, reunindo faculdades
das Universidades Brasileiras, elevando a tradicionais e faculdades independentes,
formação dos professores secundários ao originando a Faculdade de Filosofia, Ciências
nível superior. Foi, então, criada a Faculdade e Letras, (USP), que se tornou um dos grandes
de Educação, Ciências e Letras, com a centros de pesquisa do país, conforme
finalidade de se ampliarem os conhecimentos idealizado pelos seus fundadores.
das ciências “puras”.
Durante a Nova República, cada estado
A Faculdade de Ciências e Letras foi brasileiro passou a contar com uma
criada, porém não foi instalada, no entanto, universidade pública federal em suas
instalaram-se modelos de organizações capitais. Neste período também surgiram
responsáveis pela formação docente, em universidades religiosas, católicas e

250
Revista Educar FCE - Março 2019

A LDB não concebe à docência universitária


presbiteriana, com este processo surge como um processo de formação, mas sim
a UNE, União Nacional dos Estudantes, como de preparação para o exercício do
como forma de organização dos alunos magistério superior, que deverá ser realizada
prioritariamente (não exclusivamente) nos
universitários. cursos de pós-graduação stricto sensu. Nestes,
ou mesmo nos cursos de pós-graduação
Na década de 1960, quando da criação lato sensu, em geral, essa preparação vem
ocorrendo por meio de uma disciplina de 45 a
da Universidade de Brasília, a formação 60 horas, com diferentes características. Apesar
de professores passa para a Faculdade de de restritas, conferem alguma possibilidade
Educação. A Lei de Diretrizes e Bases da de crescimento pedagógico aos docentes do
ensino superior. No entanto, é importante que
Educação de 1961, com base no Parecer N° se considere a exiguidade desse tempo para
292/62 do Conselho Federal de Educação profissionalizar qualquer profissional, incluindo,
estabeleceu que a preparação pedagógica portanto, a profissionalização para a docência na
não deveria mais se restringir ao último Universidade. (PIMENTA,2003, p.273).

ano do curso, convivendo com disciplinas


pertinentes à formação específica. As A Constituição Federal de 1988, a Lei de
disciplinas oferecidas para a formação Diretrizes e Bases da Educação Nacional
pedagógica eram: Psicologia da Educação, (LDBEN 9394/96) e a Lei nº 9.135/95,
Elementos da Administração Escolar, Conselho Nacional de Educação, definem
Didática e Prática de Ensino, sob a forma de a estrutura e o funcionamento do ensino
estágio supervisionado. superior, além de outros Decretos, Portarias
e Resoluções.
Com a promulgação da Lei n° 4.024/61,
a primeira Lei de Diretrizes e Bases da O sistema de pós-graduação brasileiro está
Educação Brasileira o modelo de instituições dividido em lato sensu e stricto sensu, e visa
de ensino superior no Brasil é reforçado, atender aos milhares de profissionais liberais,
mantendo a preocupação com o ensino em professores e estudantes que concluíram
detrimento da pesquisa. algum tipo de curso superior, e que desejam
complementar seus conhecimentos ou
O órgão responsável pelo planejamento, formação acadêmica, para atividades de
orientação, coordenação e supervisão pesquisa e docência.
da Política do Ensino Superior é a (Sesu)
Secretaria de Educação Superior, além da
responsabilidade de manutenção, supervisão
e desenvolvimento das (Ifes) Instituições
Públicas Federais de Ensino Superior e da
supervisão das instituições privadas de
educação superior.

251
Revista Educar FCE - Março 2019

A FORMAÇÃO E A PRÁTICA De acordo com Libâneo (2002, p.5) a


DOCENTE NO ENSINO didática é uma disciplina que estuda o
processo de ensino e os seus objetivos e
SUPERIOR conteúdos e a maneira como as ações são
organizadas no âmbito educacional para a
O aperfeiçoamento da docência universitária
exige, pois, uma integração de saberes garantia de uma aprendizagem efetiva e
complementares. Diante dos novos desafios significativa.
para a docência, o domínio restrito de uma área
científica do conhecimento não é suficiente. O A prática escolar, tem atrás de si condicionantes
professor deve desenvolver também um saber sociopolíticos que configuram diferentes
pedagógico e um saber político. Este possibilita concepções de homem e de sociedade e,
ao docente, pela ação educativa, a construção consequentemente, diferentes pressupostos
de consciência, numa sociedade globalizada, sobre o papel da escola, aprendizagem, relação
complexa e contraditória. Conscientes, docentes professor-aluno, técnicas pedagógicas, etc.
e discentes fazem-se sujeitos da educação. O
(LIBANEO, 1984, p.49).
saber-fazer pedagógico, por sua vez, possibilita
ao educando a apreensão e a contextualização do
conhecimento científico elaborado. (PIMENTA,
2003, p. 271) A década de 1980 caracterizou-se por
eventos locais e nacionais envolvendo a
A postura do professor em sala de aula formação do professor. Consolidavam-se
vem mudando ao longo do tempo com as as instituições democráticas; fortaleciam-
mudanças nos conceitos sociais. Houve se os direitos à cidadania, e elevava-se à
tempo em que ele possuía um papel definido, educação a responsável pela superação
possuía o conhecimento, no qual a intenção das desigualdades nacionais. Nos anos
era suprimida pelo poder autoritário que o 1990 ocorreram profundas modificações
mesmo exercia. Atualmente se consegue no sistema educacional brasileiro, a LDBEN
observar uma maior aproximação entre 9394/96 enfatiza as dimensões sociais e
professor e aluno. políticas da atividade educativa, incluindo a
dinâmica escolar, o relacionamento da escola
O conhecimento ideal é aquele que o com seu entorno mais amplo, a avaliação e a
transforma em cidadão, capaz de refletir e dá gestão.
sua cota de contribuição nas transformações
sociais. No entanto, para isso acontecer Com base nas ideias de Gil (2009,
o papel do professor deve ser a de um p. 33-34) o planejamento educacional
facilitador de aprendizagem aquele que prevê o funcionamento de todo o sistema
provoca no aluno um estimulo que a faça educacional, e em relação ao ensino superior,
aprender a aprender. E esse evento estará o MEC é o responsável por organizar os
intimamente relacionado desenvolvido por estudos e formular as diretrizes, identificando
esse professor com o educando. as necessidades. O planejamento curricular
ocorre no campo educacional e se concretiza

252
Revista Educar FCE - Março 2019

em planos e objetivos dos quais a universidade Com base nas ideias de Pimenta (2003)
pretende alcançar, todos voltados para o temos que é preciso que o professor
objetivo comum de favorecer o processo de do ensino superior aprenda a pensar e
aprendizagem. refletir coletivamente, expondo as suas
ideias, abandonando o hábito de executar
De acordo com Cunha (2004) o que se processos de planejamento, execução
espera dos docentes universitários é um e avaliação de suas atividades de forma
conhecimento aprofundado de sua área individual, tanto as relacionadas a pesquisa
de atuação, com base nas ciências e com quanto aquelas relacionadas ao ensino. Essa
profissionalismo, vinculando o saber com a mudança de concepção e prática docente
prática docente. Seria de grande importância deve ocorrer de maneira processual com a
conforme o autor, um aprofundamento construção de vínculos e com análise das
nos conhecimentos pedagógicos e uma situações vivenciadas, partindo assim para o
preocupação neste sentido, mesmo em se envolvimento com o grupo de trabalho.
tratando de alunos de nível superior, fato este
que não se encontra como uma preocupação Entendendo a Universidade como um serviço
de educação que se efetiva pela docência e
na história do ensino superior. investigação, suas funções podem ser sintetizadas
nas seguintes: criação, desenvolvimento,
O saber escolar é entendido como o conjunto transmissão e crítica da ciência, da técnica
dos conhecimentos selecionados entre os bens e da cultura; preparação para o exercício de
culturais disponíveis, enquanto patrimônio atividades profissionais que exijam a aplicação
coletivo da sociedade, em função de seus de conhecimentos e métodos científicos e para
efeitos formativos e instrumental. Longe de ser a criação artística; apoio científico e técnico ao
caracterizado como conjunto de informações desenvolvimento cultural, social e econômico
a ser depositado na cabeça do aluno, o saber das sociedades. (PIMENTA, 2003, p.270).
escolar constitui-se em elemento de elevação
cultural, base para a inserção crítica do aluno na
prática social de vida. (LIBÂNEO, 1990, p.12).
Segundo Veiga (2006) temos que estamos
diante de um processo de ampliação do
Segundo Pimenta (2003) temos três campo da docência universitária, desta
aspectos que podem contribuir para o maneira, é preciso considerar a docência
desenvolvimento profissional do professor como uma atividade especializada, à docência
universitário, as questões relacionadas a como profissão. A profissão é uma palavra
sociedade, como seus valores e as formas de construção social, segundo a autora,
de organização; o avanço da ciência no permeada por ações coletivas, nas quais os
decorrer dos anos; a consolidação de uma atores são os docentes universitários.
ciência da educação, que possibilite o acesso
aos saberes fundamentais no campo da As investigações sobre o processo de ensino
Pedagogia. e aprendizagem mostram novas formas,
novos desafios e demandas que requerem

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Revista Educar FCE - Março 2019

isso, é preciso considerar que a pesquisa é uma


novas capacidades e conhecimentos dos atividade da vida cotidiana que se sistematiza
professores. Dinâmica variada de aula e e amplia o conhecimento, mas que também
da função docente quanto às teorias e pode desenvolver muito o ensino, e, finalmente,
é necessário considerar que o ensino precisa
práticas educativas. Os professores devem apoiar-se na pesquisa. (CASTANHO, 2009, p.
ser capazes de adequarem-se às contínuas 103).
mudanças, tanto no conteúdo de seu ensino
como na forma de ensinar. Segundo Cunha (2004) a carreira universitária
se estabelece na ideia de que a formação do
A educação na sociedade da informação, professor requer esforços apenas na dimensão
o modelo de professor cuja atividade está científica do docente, ou seja, com a pós-
fundamentada na sala de aula, poderá graduação strictu-sensu, nos níveis de mestrado
se tornar ultrapassado se não houver e doutorado, desta forma temos que para
atualização didático-pedagógica contínua. ser professor universitário, o importante é o
As redes de telecomunicações poderão domínio do conhecimento de sua especialidade
chegar a substituírem os professores se e das formas acadêmicas de sua produção.
estes se conceberem e se limitarem a meros
transmissores de informação. De acordo com Gatti (2003) para que
a profissão e a formação docente fossem
A docência requer formação profissional para satisfatórias seria necessário que os
seu exercício: conhecimentos específicos para
exercê-lo adequadamente ou, no mínimo, a mestrados, ao invés de aprofundar-se somente
aquisição dos conhecimentos e das habilidades na especialização e nos conhecimentos das
vinculadas à atividade docente para melhorar áreas, tivessem uma formação didática,
sua qualidade. (VEIGA, 2006, p.2)
para assim, poder articular a docência com
a pesquisa, levando a “indissociabilidade de
Castanho (2009) afirma que além da aula ensino e pesquisa”.
expositiva a metodologia de ensino universitário
deve prever diferentes ações didáticas A criatividade e a inovação científica
utilizando recursos diversificados. A pesquisa é nos dias atuais, são fundamentais para o
fundamental para que o professor universitário desenvolvimento da sociedade e a educação
busque os conhecimentos necessários para a universitária deve atualizar-se para
prática docente em uma sociedade cada vez acompanhar estas modificações e esse novo
mais informatizada e imediatista. Em relação a contexto da sociedade atual. Para atender
didática o autor afirma: o papel do ensino, da aprendizagem e da
pesquisa, o professor universitário deve se
É uma atividade voltada para a formação de manter atualizado e em constante formação
um conhecimento que auxilie a descobrir o
mundo em que vivemos, incorporando as para atender as demandas atuais.
experiências de vida e o saber já acumulado
pela história humana, e ajudando a resolver os É inerente ao papel docente ensinar
problemas atuais que a vida apresenta. Para

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Revista Educar FCE - Março 2019

conteúdos de qualidade, com qualidade e significativos, estabelecer uma relação verdadeira


com os educandos e verificar se seus alunos estão realmente aprendendo e quais
aprendizagens estão desenvolvendo. O professor deve estar qualificado e capacitado para
o exercício das suas atividades; precisa ser criativo e ativo etc. Qualificação e formação
continuada impactam positivamente na preparação de um docente apto para exercer suas
atividades sobre a realidade que irá atuar.

A atividade de professor universitário necessita de uma adequada preparação, seja para


adquirir conhecimentos ou para atualização, buscando o aperfeiçoamento de sua prática
em relação aos diferentes contextos que a sociedade apresenta nos dias de hoje. As novas
tecnologias de informação promovem, no contexto educacional, transformações para que
atenda as necessidades e demandas atuais.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nos anos 1990 ocorreram profundas modificações no
sistema educacional brasileiro, a LDBEN 9394/96 enfatiza
as dimensões sociais e políticas da atividade educativa,
incluindo a dinâmica escolar, o relacionamento da escola
com seu entorno mais amplo, a avaliação e a gestão.

A formação docente ideal seria aquela que conciliasse à


docência com a pesquisa especializada e a pesquisa sobre a
ação docente, temos então que a Universidade é um espaço
para a busca e a construção do conhecimento científico. De
acordo com os autores pesquisados, à docência universitária ANA LÚCIA TEIXEIRA
exige a indissociabilidade entre ensino e pesquisa, buscando DE FREITAS
a produção e a socialização do conhecimento.
Graduação em Pedagogia pela
Pontifica Universidade Católica de
As investigações sobre o processo de ensino e São Paulo (1988); Pós-graduada
aprendizagem mostram novas formas, novos desafios em Psicopedagogia Clínica e
Institucional pelo Instituto Sedes
e demandas que requerem novas capacidades e Sapientiae (1993); Pós-graduada
conhecimentos dos professores. Dinâmica variada de aula e em Educação Especial pelo
da função docente quanto às teorias e práticas educativas. Centro Universitário Claretiano
(2014). Atua como Professora de
Os professores devem ser capazes de adequarem-se às Educação Infantil na Prefeitura
contínuas mudanças, tanto no conteúdo de seu ensino do Município de São Paulo na
como na forma de ensinar. Emei Marechal Odílio Denys,
atualmente nomeada Assistente
de Diretor de Escola no Cei Jardim
Espera-se dos docentes universitários um conhecimento Peri.
aprofundado de sua área de atuação, com base nas ciências
e com profissionalismo, vinculando o saber com a prática
docente, neste sentido seria de grande importância, um
aprofundamento nos conhecimentos pedagógicos e uma preocupação neste sentido, mesmo
em se tratando de alunos de nível superior.

De acordo com a legislação vigente o órgão responsável pelo planejamento, orientação,


coordenação e supervisão da Política do Ensino Superior é a (Sesu) Secretaria de Educação
Superior, além da responsabilidade de manutenção, supervisão e desenvolvimento das (Ifes)
Instituições Públicas Federais de Ensino Superior e da supervisão das instituições privadas
de educação superior.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O sistema de pós-graduação brasileiro está dividido em lato sensu e stricto sensu, e visa
atender aos milhares de profissionais liberais, professores e estudantes que concluíram
algum tipo de curso superior, e que desejam complementar seus conhecimentos ou formação
acadêmica, para atividades de pesquisa e docência.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Educação. Lei de diretrizes e bases da educação nacional nº 9.394/96.
Brasília: Secretaria da Educação, 1996.

CASTANHO, Sérgio & CASTANHO, Maria Eugênia (Org). Temas e Textos em Metodologia do
Ensino Superior. 6ª Ed. Campinas, São Paulo: Papirus, 2009.

CUNHA, Maria Isabel da. Diferentes olhares sobre as práticas pedagógicas no ensino
superior: à docência e sua formação. Educação Porto Alegre – RS. Ano XXVII, n. 3. 2006.

FREITAS, Helena Costa Lopes de. A reforma do Ensino Superior no campo da formação
dos profissionais da educação: as políticas educacionais e o movimento dos educadores.
Educação & Sociedade, Brasília, v.20, n.68, p.17-44, dez. 1999.

GATTI, Bernadete A. Formação do professor pesquisador para o ensino superior: desafios.


Psicologia da Educação. Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: Psicologia da
Educação. 2003.

GIL, Antônio Carlos. Metodologia do Ensino Superior. 4ª Ed. São Paulo: Atlas, 2009.

LIBÂNEO, José Carlos. Fundamentos teóricos e práticos do trabalho docente: estudo


introdutório sobre pedagogia e didática. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo. 1990.

LIBÂNEO, José Carlos. Didática: Velhos e Novos Temas. Goiânia: Edição do Autor, 2002.

PIMENTA, Selma Garrido, Léa das Graças Camargos Anastasiou, and Valdo José Cavallet.
Docência no ensino superior: construindo caminhos. Formação de educadores: desafios e
perspectivas. São Paulo: UNESP, 2003.

PIMENTA, Selma Garrido; ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos. Docência no Ensino
Superior. São Paulo: Cortez, 2002.

VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Docência universitária na educação superior. Docência na


Educação Superior. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira. 2006.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O ATO DE BRINCAR NA EDUCAÇÃO


INFANTIL - JOGOS E BRINCADEIRAS
RESUMO: A presente pesquisa tem como objetivo verificar a importância da construção da
aprendizagem da criança através do lúdico na educação infantil, e tem como objetivo mostrar que
o aprendizado construído através da ludicidade que traz benefícios para a criança se desenvolver
no seu ambiente escolar e social, compreender a relevância que o lúdico traz nesse processo
de ensino-aprendizagem através de jogos e brincadeiras. O trabalho se desenvolveu através
de pesquisas bibliográficas pautadas na realidade escolar. Apresenta um pouco da história do
início da educação e procura identificar que a introdução do lúdico nas práticas pedagógicas
pode transformar a aprendizagem infantil prazerosa, possibilitando assim resultados positivos. O
lúdico na educação infantil é conhecimento, construção de forma que as crianças melhorem seu
desempenho no aprendizado, demonstrando a satisfação e o interesse a cada jogo, brincadeira
e a cada novo desafio lançado. Constrói ideias, desafia a sensibilidade, a crítica e a criatividade,
cultiva um ambiente agradável para se construir a base para a formação da maturidade inicial
que auxilia no desenvolvimento educacional. Considerando como atividades lúdicas os jogos,
brincadeiras e músicas, fundamentadas por um expressivo referencial teórico, este trabalho
mostra a forma como devem ser aplicadas as atividades lúdicas na Educação Infantil para que
a criança se torne sujeito ativo do processo educacional, promovendo desenvolvimento físico,
mental e consequentemente, melhorando o desenvolvimento escolar e pessoal.

Palavras-Chave: Lúdico; Educação Infantil; Aprendizado; Criatividade;

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO devem ser aplicadas as atividades lúdicas


na Educação Infantil para que a criança se
A presente pesquisa tem como objetivo torne sujeito ativo do processo educacional,
verificar a importância da construção da promovendo desenvolvimento físico,
aprendizagem da criança através do lúdico mental e consequentemente, melhorando o
na educação infantil, e tem como objetivo desenvolvimento escolar e pessoal.
mostrar que o aprendizado construído
através da ludicidade que traz benefícios para
a criança se desenvolver no seu ambiente CONTEXTUALIZAÇÃO
escolar e social, compreender a relevância HISTÓRICA DA EDUCAÇÃO
que o lúdico traz nesse processo de ensino-
aprendizagem. INFANTIL

O trabalho se desenvolveu através A criança com toda sua imaginação e


de pesquisas bibliográficas pautadas na inocência consegue fazer tudo que tem
realidade escolar. vontade, não se prende a conceitos ou
preconceitos, simplesmente luta por sua
Apresenta um pouco da história do início satisfação. Segundo TIBA (2006, p.113) é
da educação e procura identificar que a possível ensinar os alunos as regras comuns
introdução do lúdico nas práticas pedagógicas da sociedade:
pode transformar a aprendizagem infantil
prazerosa, possibilitando assim resultados Criar uma criança é fácil; basta satisfazer-lhe
as vontades. Educar é mais trabalhoso. Trata-
positivos. se de prepará-la para viver saudavelmente em
sociedade. (TIBA, 2006, p.113)
O lúdico na educação infantil é
conhecimento, construção de forma que
as crianças melhorem seu desempenho no O SURGIMENTO DA
aprendizado, demonstrando a satisfação e o EDUCAÇÃO INFANTIL NO
interesse a cada jogo, brincadeira e a cada
novo desafio lançado. Constrói ideias, desafia DECORRER DOS ANOS
a sensibilidade, a crítica e a criatividade, cultiva COMO ERA VISTA A
um ambiente agradável para se construir EDUCAÇÃO INFANTIL NO
a base para a formação da maturidade
inicial que auxilia no desenvolvimento PASSADO
educacional. Considerando como atividades
lúdicas os jogos, brincadeiras e músicas, Em 1822 foi proclamada a independência
fundamentadas por um expressivo referencial do Brasil. A lavoura cafeeira vem com todo
teórico, este trabalho mostra a forma como vapor no início do século, e as cidades passam

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Revista Educar FCE - Março 2019

se tornam os polos dinâmicos do crescimento período republicano que podemos observar


capitalista interno. Neste contexto cria-se os registros de creches públicas no Brasil.
a primeira escola oficial do Rio de Janeiro
(1880). No ano de 1888 foi sancionada a lei A creche tinha o objetivo de proporcionar
Áurea, oficialmente Lei Imperial nº 3.353, assistência à criança que era privada dos
que acaba com o sistema escravo no país. cuidados maternos por conta do trabalho da
Com isso se deu o início do recebimento de mãe, possuindo como intensão primordial
um número cada vez maior de imigrantes que impossibilitar o abandono das mesmas por
vinham à procura de trabalho assalariado. seus responsáveis. O jardim de infância tinha
a intenção de exercer a função de moralizador
Com todas estas alterações nasce um da cultura, passando para as crianças os
impasse: o que deve-se fazer com a educação mesmos padrões utilizados na França e na
das crianças que possuem menos de 07 anos? Bélgica. Sendo então “um antídoto contra
Na época a escola primária apresentava-se as ameaçadoras práticas que ensejavam
organizada de duas diferentes maneiras: de solidariedade com os setores explorados de
07 a 13 anos compreendia o ensino primário nossa sociedade” (KUHLMANN, 2000, p.
e de 13 a 15 o secundário. Até então a mãe 476).
cuidava do filho e protagonizava a educação,
naquele momento, abalizada como inicial, No que diz respeito à educação infantil,
entretanto com a lei do ventre livre e a ela acabou sendo discutida com mais elevada
pobreza das famílias, diversas delas tendiam importância no 1º Congresso Brasileiro
a abandonar os seus bebês ou entregando- de Proteção à Infância, ocasião em que se
os a “Roda dos Expostos” que permaneceu divulgou um levantamento da quantidade de
até o ano de 1950. creches e jardins de infância, apresentando
um total de 30 no ano de 1921. Na estatística
No ano de 1875 nasceu o primeiro efetuada para o segundo congresso (1924)
jardim de infância particular brasileiro, podia-se observar cerca de 47 creches e
elaborado por Menezes Vieira no Rio de 42 jardins, entretanto, infelizmente este
Janeiro, e mesmo que sua escola atenda congresso acabou não acontecendo.
a elevada aristocracia da época, Menezes
saia em defesa de que os jardins de infância Na concepção de KUHLMANN (2000), O
precisariam dar assistência às crianças negras jardim-de-infância passa a apresentar uma
libertas por conta do ventre livre e às com definição:
pouca condição econômica. No decorrer do
ano de 1882, Rui Barbosa evidencia que os Aos poucos, a nomenclatura vai deixar de
considerar a escola maternal como se fosse
jardins de infância precisariam desenvolver aquela dos pobres, em oposição ao jardim-de-
de maneira harmônica a criança. Entretanto, infância, passando a defini-la como a instituição
mesmo com todo este discurso é somente no que atenderia à faixa etária dos 2 aos 4 anos,
enquanto o jardim atenderia de 5 a 6 anos.

261
Revista Educar FCE - Março 2019

Mais tarde, essa especialização etária irá se


incorporar aos nomes das turmas em instituições educativo, abalizada como sendo a primeira
com crianças de 0 a 6 anos (berçário, maternal, etapa da educação Básica. Ela passa a ter
jardim, pré).(KUHLMANN, 2000, p.482) um papel transcendental como o primeiro
e mais importante passo para a efetivação
Através da regulamentação do trabalho de uma educação integral, proporcionando
feminino no ano de 1932, as creches a fundamentação para a constituição de
em organizações que possuíam mais de seres críticos, participantes, criativos que
30 funcionárias passam a ser de caráter procurem fazer uma renovação constante de
obrigatório. Esta realidade passou a fazer si mesmo e da sociedade.
parte da Constituição de 1988 no tocante da
educação infantil, onde está previsto creches A referência nacional para educação infantil
gratuitas para crianças de zero a seis anos, (1998, p. 23), evidencia sua compreensão
que se destinam as mães trabalhadoras. sobre este assunto assim:
Na perspectiva da Revista HISTEDBR On-
line, Artigo A. Educação Infantil na Década É importante salientar que hoje a Educação Infantil
não pode ser mais considerada apenas como um
de 1990, a pré-escola no Brasil vivenciou lugar de cuidados básicos de higiene, mas deve-
três fenômenos muito relevantes: se considerar, portanto que cuidar e educar devem
estar agregados. (BRASIL, 1998, p.23)
Para o pesquisador Vital Didonet, entre 1980 e
1990 a pré-escola no Brasil passou por esses três
fenômenos marcantes: A expansão quantitativa; Já os dizeres de KUHLMANN JÚNIOR
a formulação de propostas pedagógicas para o (2007) evidenciam o seu parecer no contexto
trabalho com crianças nos centros pré-escolares; de que é necessário melhorar para que se
e o reconhecimento do direito da criança à
educação desde o nascimento. Nos anos 80 uma alcance o padrão suficiente de qualidade:
crítica à educação compensatória, entendida
como aquela que compensa a ausência materna, A rede de educação infantil é bastante
reforça a expansão da pré-escola e coloca heterogênea. Se pensarmos no Brasil inteiro
em discussão a necessidade de qualidade no em termos de creches e pré-escolas, veremos
trabalho pedagógico com as crianças de 0 a 6. que há diferenças marcantes entre estas duas
instituições e entre as regiões ou tipos de
sistemas. A Constituição de 1988 incluiu a
educação infantil no sistema educacional, mas
A EDUCAÇÃO INFANTIL VISTA a Lei de Diretrizes e Bases, que instituiu essa

NOS DIAS ATUAIS inclusão, só ficou pronta em 1996. Desde então,


11 anos já se passaram e não podemos dizer
que, efetivamente, a educação infantil esteja
Assim como se faz observar na Lei de integrada ao sistema educacional como a lei
Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina. Há muitas coisas ainda a serem feitas
para ver esta integração. Isto traz consequências
(Lei 93 94/96 – art.29), a Educação infantil para a qualidade das instituições. Falo no sentido
no Brasil no decorrer de inúmeros anos foi de haver uma estrutura de suporte dos sistemas
dar assistência, atualmente constitui um municipais para este tipo de rede. A educação
infantil custa caro, pois quanto menor a criança,
segmento de muita relevância no processo a proporção adulto/criança deve ser maior.

262
Revista Educar FCE - Março 2019

O que as prefeituras muitas vezes têm feito é


tentar escapar desta necessidade de incorporar Atualmente a Educação infantil começou a
as creches ao sistema educacional, lançando ser compreendida por uma nova perspectiva,
programas com a denominação de “alternativos”. dando mais valor a criança e sua cultura,
É claro que, do ponto de vista da assistência
social, é interessante que se desenvolva o maior considerando-a ativa e com capacidade de
número de programas para assistir às famílias, elaborar o seu próprio conhecimento. O
mas isto não pode ser feito em detrimento da professor se responsabiliza uma nova função,
organização do sistema de educação infantil. Há
certa resistência dos municípios em implementar a de mediador entre a criança e o mundo. A
esta rede de modo a atender a população em família participa em conjunto deste processo
uma escala mais ampla. (KUHLMAN, 2007, p.33) de ensino-aprendizagem e os conteúdos
são desenvolvidos de uma forma lúdica,
A realidade causa preocupações, propiciando respeito a bagagem cultural de
crianças queimam etapas importantes de cada um. Através deste objetivo que se criou
desenvolvimento e aprendizagem. Outro o Referencial Curricular Nacional para a
ponto importante e crítico é a falta de Educação Infantil, de modo a disponibilizar a
investimento público para desenvolvimento todas as escolas novas propostas pedagógicas
e a desvalorização dos profissionais. Vem se direcionadas para a criança tal como ela é.
discutindo a qualificação dos profissionais
que trabalham com educação infantil. A concepção de DIDONET (2001) leciona
Hoje não se pode continuar a deixar a que a criança é um ser pequenino, entretanto
educação infantil para segundo plano, onde exuberante de vida.
qualquer pessoa pode cuidar das crianças.
Cuidar não é suficiente, é necessário Falar da creche ou da educação infantil é muito
mais do que falar de uma instituição, de suas
desenvolver seu senso crítico e para isso os qualidades e defeitos, da sua necessidade social
profissionais precisam estar em constante ou da sua importância educacional. É falar da
desenvolvimento. Os profissionais que atuam criança. De um ser humano, pequenino, mas
exuberante de vida. (DIDONET, 2001, p.12).
nas escolas infantis devem possuir uma
formação sólida e consistente, acompanhada
de uma permanente e adequada atualização
em serviço, como é o caso das formações DEFINIÇÃO DO CONCEITO
continuadas que acontecem hoje nas escolas. DE LUDICIDADE
Sendo assim, é de responsabilidade das Surge através do “lúdico que é um adjetivo
redes de ensino fazer investimentos de masculino com origem no latim ludos que
maneira sistemática para a capacitação remete para jogos e divertimento” (BUENO,
de seus profissionais por meio de cursos dicionário Silveira Bueno).
de formação, assim como aproveitando as
experiências acumuladas daqueles que já A ludicidade é de extrema importância
trabalham com crianças há mais tempo. para o desenvolvimento mental da criança,

263
Revista Educar FCE - Março 2019

essas atividades deixam-nas livres para IMPORTÂNCIA DO CUIDAR


criar seu mundo de fantasias e estimular a E EDUCAR NA EDUCAÇÃO
imaginação. A sala de aula fica muito mais
leve e agradável, pois proporcionam às INFANTIL
crianças a oportunidade de ser livre para
criar. Com as brincadeiras o professor é capaz Realizar trabalhos com crianças pequenas,
de acompanhar o desenvolvimento cognitivo a primeira vista é de grande relevância
das crianças, pois o lúdico desenvolve conhecer seus interesses e necessidades.
atividades motoras e facilita a aprendizagem. Em outras palavras, saber na realidade quem
são e um pouco da história de cada uma,
Observando informações do conhecer a família, as peculiaridades que a
REFERENCIAL CURRICULAR NACIONAL sua faixa etária apresenta. Desta maneira
PARA A EDUCAÇÃO INFANTIL – (1998. 3v.: se torna possível compreender quais são
il. Volume 1: Introdução; volume 2: Formação as reais possibilidades destas crianças,
pessoal e social; volume 3: Conhecimento salientando que, para elas, a etapa inicial é
de mundo. 1. Educação infantil. 2. Criança a porta de entrada para uma vida social mais
em idade pré-escolar. I. Título. CDU 372.3), ampla, longe do ambiente familiar.
podemos ver que as crianças transformam
brincadeiras e conhecimento: A ação pedagógica de consciência é o
cuidar e o educar, estabelecer uma visão
Nas brincadeiras, as crianças transformam os integrada do desenvolvimento da criança
conhecimentos que já possuíam anteriormente
em conceitos gerais com os quais brincam, respeitando a diversidade, o momento e
por exemplo, para assumir um determinado a realidade de cada uma são fundamentais
papel numa brincadeira, a criança deve para o processo educativo.
conhecer algumas de suas características. Seus
conhecimentos provem da imitação de alguém
ou algo conhecido, de uma experiência vivida O educador precisa estar em permanente
na família ou em outros ambientes, por relato observação e vigilância, para que o dia a dia
de uma coleta ou adulto, de senas assistidas
na TV, cinema ou narradas em um livro. A fonte não se transforme em rotinas mecanizadas,
de seus conhecimentos é múltipla, mas estes em regras pré-determinadas. Cuidar e educar
se encontram, ainda, fragmentados. É o ato de significa que a criança compreende o espaço/
brincar que a criança estabelece.
tempo. Ela precisa do apoio dos adultos
auxiliando a superar progressivamente a sua
criatividade, desenvolvendo a curiosidade e
maturidade. Garantir situações de cuidado,
brincadeiras e aprendizagens, contribui
para o desenvolvimento da capacidade
infantil. Aumenta a relação interpessoal,
respeito, confiança e o acesso às crianças

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Revista Educar FCE - Março 2019

promoção da saúde. Para se atingir os objetivos


ao desenvolvimento das capacidades dos cuidados com a preservação da vida e com
de potencialidades corporais, afetivas, o desenvolvimento das capacidades humanas,
emocionais, estéticas e éticas, formando é necessário que as atitudes e procedimentos
estejam baseadas em conhecimentos específicos
seres felizes e saudáveis para uma sociedade sobre desenvolvimento biológico, emocional,
de base mais sólida. e intelectual das crianças, levando em conta
diferentes realidades socioculturais. (BRASIL,
1998, p.25)
Cuidar e educar passam a ser uma única
tarefa, o que no passado era tratado de forma
separada por instituições e profissionais Na função designada ao cuidar, é evidente
distintos, com este novo conceito, a o comprometimento do professor com a
educação infantil trata de forma unificada. criança, o contexto sócio-cultural surge como
No passado, as instituições organizavam determinante nas construções humanas e
seu espaço e sua rotina diária em função nas necessidades básicas de sobrevivência,
de ideias de assistência, de custódia e de diferentes em cada cultura. A compreensão
higiene da criança, esquecendo que educar do que a criança sente e pensa o que traz
fazia parte fundamental no processo de consigo, a sua história e seus desejos cria
desenvolvimento. Esse formato impedia que a capacidade de construção da grande
a criança sonhasse, fantasiasse e realizasse diversidade de experiências e brincadeiras
desejos. que se focam na linguagem infantil.

Alterar a concepção de educação Cabe ainda ressaltar que as instituições


assistencialista engloba que, especialmente, de educação infantil incorporem de forma
se responsabilizar pelas especificidades da integrada os papeis de cuidar e educar, não
educação infantil e rever princípios no que mais diferenciando, nem hierarquizando os
diz respeito à infância, as relações entre profissionais e instituições que trabalham
classes sociais, às responsabilidades da com crianças pequenas ou àqueles que
sociedade e a função do Estado diante de atuam com as de mais idade.
crianças pequenas.
Se fundamentando em dados do BRASIL, Informações do governo do BRASIL,
(1998, p. 25), as necessidades das crianças (1998, p.23) evidenciam que as crianças
precisam ser levadas em consideração, elas desenvolvem a identidade com a interação.
trazem dicas muito relevantes para nosso
meio educacional. A instituição de educação infantil deve tornar
acessível a todas as crianças que a frequentam,
indiscriminadamente, elementos da cultura
O cuidado precisa considerar, principalmente, que enriquecem o seu desenvolvimento e
as necessidades das crianças, que quando inserção social. Cumpre um papel socializador,
observadas, ouvidas e respeitadas, podem dar propiciando o desenvolvimento da identidade
pistas importantes sobre a qualidade do que das crianças, por meio de aprendizagens
estão recebendo. Os procedimentos de cuidado diversificadas, realizadas em situações de
também precisam seguir os princípios de interação. (BRASIL, 1998, p.23)

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Revista Educar FCE - Março 2019

Sendo assim, educar é proporcionar buscando construir junto com elas novos
às crianças, condições para que as recursos, novas tentativas, de maneira que
aprendizagens aconteçam nas brincadeiras a aprendizagem seja alcançada. Passa então
e precisam ser orientadas pelos adultos de a ser necessária uma parceria de todos para
maneira intencional com teorias que surgem o bem-estar do educando. Cuidar e educar
das orientações pedagógicas. Para que isto envolve pesquisa, dedicação, cooperação,
ocorra é necessário vivencia o sentido, a cumplicidade e, especialmente, amor de
percepção. todos os responsáveis pelo processo, que
apresenta-se dinâmico e em constante
Nessa concepção, “o professor precisa evolução.
saber selecionar as situações importantes
dentro da sala de aula, percebendo o Em todas as situações onde se relaciona
sentido de forma a auxiliar no processo de com outros indivíduos, se é educador e
aprendizagem e desenvolvimento de cada educando, isso porque se ensina, aprende-se
criança” (VYGOTSKY, 1991). Entretanto, trocando experiências e pratica-se o cuidar
cabe ainda salientar que estas aprendizagens, e o educar nas mais variadas atividades
de natureza variada, acontecem de maneira do dia a dia. As crianças pequenas ainda
integrada no processo de desenvolvimento estão desvendando o mundo, tudo é novo,
infantil. precisa ser trabalhado e aprendido, não são
independentes e autônomas para os próprios
Desta maneira, o processo educativo cuidados pessoais, necessitam de ajudada e
efetua-se diversas maneiras: na família, orientação para construir hábitos e atitudes
na rua, nos grupos sociais e, também, na corretas, fomentadas na fala e aprimoradas
instituição. Educar, nesta primeira fase da em seu vocabulário.
vida, não deve ser confundido com cuidar,
ainda que crianças de zero ano precisem Os dizeres de MACHADO (2001, p.51)
de cuidados muito importantes para que lecionam que brincar, construir e expressar-
se assegure sua própria sobrevivência. O se é a mesma coisa.
que precisa então ser discutido não são os
cuidados que as crianças precisam receber, Por volta dos cinco anos, então, brincar, construir
e expressar-se podem ser uma coisa só: a criança
entretanto as formas como elas precisam constrói cenas, objetos, cenários para sua
recebê-los, já que se alimentar-se, assear- brincadeira enquanto está se auto-expressando,
se, brincar, dormir, interagir são direitos da verbalmente e de outras formas também,
imaginárias ou simbólicas. (MACHADO, 2001,
infância. p. 51)

O educador necessita observar o


desenvolvimento e habilidade da criança como
uma formação inacabada, incessantemente

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Revista Educar FCE - Março 2019

O PAPEL DA LUDICIDADE seria capaz de transcender os sentimentos e


E DO BRINCAR NO emoções das crianças.
DESENVOLVIMENTO As atividades lúdicas são qualquer atividade
INFANTIL que propicia a experiência por completo
do momento vivenciado pela criança, com
Os primeiros anos de vida são de grande esse contexto a criança consegue assimilar
importância na formação de uma criança, melhor o seu ato, o seu sentimento e o seu
isso porque é nesse período que a mesma pensamento. E para isso essa atividade deve
começa a constituir a sua identidade, ser coordenada e dirigida de forma correta,
estrutura física, afetiva e intelectual, é para que a vivência da mesma propicie novas
nesta etapa que precisamos adotar muitas experiências estimulantes para a criança.
estratégias, dentre elas as atividades lúdicas
que propiciam o desenvolvimento positivo Nas brincadeiras de faz de conta é
da criança, assegurando-lhe condições mais notório o quanto as crianças são criativas,
corretas para aprimorar suas competências. desempenham papéis, constroem
personagens, respeitam limites e se interagem
Na concepção de VIGOTSKY, com o no grupo, sendo assim as brincadeiras é uma
brinquedo a criança constrói relações com aprendizagem social.
os objetos, veja o relato:
Ainda na concepção de VYGOTSKY, “O
Com o brinquedo a criança constrói suas relações brinquedo cria uma zona de desenvolvimento
com os objetos, relações de posse, de utilização,
de abandono, de perda, de desestruturação que proximal da criança”.
constituem na mesma proporção, os esquemas
que ela produzirá com outros objetos na sua No brinquedo, a criança sempre se comporta
vida futura. Cercar a criança de objetos, tanto além do comportamento habitual de sua
no quadro familiar quanto no quadro das idade, além de seu comportamento diário; no
coletividades infantis (creches, pré-escolas), é brinquedo é como se ela fosse maior do que
inscrever o objeto, de um modo essencial, no é na realidade. Como no foco de uma lente
processo de socialização e é também, dirigir em de aumento, o brinquedo contém todas as
grande parte a socialização para uma relação tendências do desenvolvimento sob forma
com o objeto. (VIGOTSKY, 1984, p. 64) condensada, sendo, ele mesmo, uma grande
fonte de desenvolvimento”. (VYGOTSKY, 1989,
p.117)

Atualmente se faz observar instituições


de ensino imobilizando as crianças atrás de A criança que participa das atividades
uma mesa sentadas em uma cadeira, e assim lúdicas absorve novos conhecimentos e suas
restringindo o desenvolvimento motor e habilidades são desenvolvidas naturalmente,
psicossocial, não levando em consideração a o que torna para ela algo bem agradável,
relevância do brincar e de que maneira ele prazeroso e interessante.

267
Revista Educar FCE - Março 2019

O educador possui a possibilidade de A criança encontra através do lúdico o


trabalhar jogos, brincadeiras, para que isto equilíbrio entre o real e o imaginário. Na
ocorra é preciso a vivencia, o sentido, a infância o ato de brincar e buscar experiências
percepção. É necessário ao professor saber em grupos envolve atividades físicas, mentais
selecionar as ocasiões mais relevantes e sociais que desenvolvem o emocional e a
dentro da sala de aula, observando o sentido comunicação estes seguem até a vida adulta
e de que maneira irá ajudar o seu processo onde a criança apresenta características
de aprendizagem. O lúdico, na educação desenvolvidas de regras sociais e morais
infantil é de extrema relevância para o adquiridas com a prática do lúdico.
desenvolvimento da criança, isso porque
é atividade primária, a qual resulta em Já na compreensão de HORN (2004),
um benefício e aspecto físico, intelectual que apresenta o brinquedo como satisfação
e social. Podendo brincar, a criança das necessidades básicas da aprendizagem
desenvolve identidade e autonomia, tal infantil.
como a capacidade de socialização, por meio
da interação e experiências de regras diante O brinquedo satisfaz as necessidades básicas
de aprendizagens das crianças, como, por
da sociedade. exemplo, as de escolher, imitar, dominar,
adquirir competências, em fim de ser ativo em
Na Educação infantil a criança brinca, um ambiente seguro, o qual encoraje e consolide
o desenvolvimento de normas e valores sociais.
joga, dança tudo isso através das atividades
(HORN, 2004, p. 71).
lúdicas, e com isso é propiciado o agir, o
sentir, o pensar, dentro desse contexto ela
se desenvolve social e cognitivamente. A criança compreende com as brincadeiras,
A educação lúdica não é passatempo, músicas, costumes e valores o gosto de
brincadeira vulgar, diversão superficial. O aprender, tornando interessante e prazeroso
brincar na ludicidade é algo sério, é uma ação o uso do lúdico para aprimoramento do
inerente na criança, e aparece sempre em seu desenvolvimento social, cultural e
busca de algum conhecimento e de forma psicológico. De modo que com o uso das
transicional, transformando o pensamento contribuições históricas, passamos a ver
individual em coletivo. Essa educação com a educação lúdica como possibilidade de
base no lúdico traz um significado profundo desenvolvimento intelectual e físico, que
e se faz presente em todos os segmentos será usado por toda a vida.
da vida. Por exemplo, a criança que brinca
de boneca não está apenas se divertindo, As palavras de NACHMANOVITCH
ela está desenvolvendo diversas funções (1993) lecionam que a criança é comparada
cognitivas, sensórias e até mesmo sociais, diante do trabalho criativo com os diversos
pois o brinquedo não determina a brincadeira materiais.
da criança.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O trabalho criativo e divertimento; é a livre


exploração dos materiais que cada um escolhe. É muito importante que o lúdico seja
A mente criativa brinca com os objetos que ama. sempre motivado, pois é essencial na vivência,
O pintor brinca com a cor e espaço. O músico no crescimento saudável e natural de todas
brinca com o som e o silêncio. Eros brinca com
as amantes. Os deuses brincam o universo. As as crianças, além de ser importante para a
crianças brincam com qualquer coisa que possam formação crítica e criativa. Portanto ele deve
pôr as mãos. (NACHMANOVITCH, 1993, p.43) estar inserido nas atividades curriculares já
no momento do planejamento das aulas.
O brincar tem um significado especial
para a educação, pois a criança percebe o
meio em que vive e passa a conviver com DESENVOLVENDO ATITUDES
suas limitações, favorecendo assim sua DE AUTONOMIA ATRAVÉS
autonomia.A atividade lúdica jamais deverá
ser imposta e muito menos obrigatória, ela DO LÚDICO
deve ter um caráter livre. O professor deve
ter a consciência de oferecer atividades O brincar é o impulso natural da criança,
adequadas a cada fase do desenvolvimento com jogos e brinquedos elas intercalam a
dos seus alunos para respeitar esta liberdade. realidade e o faz de conta. O processo de
É direito de toda criança brincar, os ensino-aprendizagem é embasado pelo uso
educadores têm o compromisso de do lúdico de forma a ser capaz de desenvolver
possibilitar essa vivência, assegurando a um impulso natural da criança, que aliado à
sobrevivência dos sonhos e promovendo aprendizagem torna-se mais fácil à obtenção
o prazer de viver. Dessa forma, para do aprender devido à espontaneidade das
conhecer cada criança é preciso começar a brincadeiras através de uma forma intensa e
percebê-la a partir do ponto de vista dela total.
própria, reconhecendo a necessidade de
um momento para atividades lúdicas na No mundo do faz de contas, sonhar é
escola, onde acontecem diferentes formas descobrir através do trabalho que é possível
de comunicação, uma vez que é através formar e desenvolver crianças brincando
das brincadeiras que a criança se conhece, e aprendendo no ambiente escolar,
relacionando-se com outros, explorando transformando estes jogos e brincadeiras
objetos, experimentando situações de vida, em atividades prazerosas. A vivência na
hora de competição, hora de cooperação. educação infantil merece uma atenção de
A criança nessa fase ainda não assimila a forma especial, a cada momento uma nova
consciência do outro, mas a mesma gosta de descoberta, com dinâmicas construtivas
brincar, conversar e compartilhar com alguém deixando e facilitando para cada momento.
as suas vivencias, e é a partir daí que elas A criança fantasia, sonha, mas tudo isso com
adquirem a socialização e a tão importante uma realidade vivida, na família, na escola.
convivência. De forma que desenvolve um processo

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Revista Educar FCE - Março 2019

construindo um novo jeito de brincar e de brincar na sua infância, mais possibilidades


saber. A criança pensa de forma satisfatória ela terá na sua vida adulta. Por isso o brincar
como trata tudo que faz como que pensa significa compreender o ato de pensar e de
e como ela brinca. Por isso a brincadeira aprender a pensar, dando sentido de estar
direcionada é importante no desempenho junto no mundo.
da ludicidade. O ambiente escolar deve
ser transformado de forma que os jogos
e brincadeiras passem a serem atividades A IMPORTÂNCIA DA
construtivas para o dia a dia de cada um, ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO
considerando que durante este tempo. O
espaço seja para que eles desenvolvam toda LÚDICO NAS SALAS DE
sua atividade motora, o lúdico precisa ser EDUCAÇÃO INFANTIL
visto como uma atividade prazerosa tornando
o trabalho em sala de aula um aprendizado. O espaço é importante para as
Para que isso aconteça é preciso trabalhar crianças, pois é nele que ocorrem muitas
em diversos temas interessantes, o espaço aprendizagens que se realizam nos primeiros
deve ser tranquilo e calmo, estimulando as anos de vida e, sendo assim, ele tem de
crianças a desenvolver suas atividades e ser disponível e acessível a elas. A escola
capacidades, a aprender, conviver e respeitar não deve ser apenas uma transmissora
regras. de conhecimentos, mas um ambiente
estimulador que valorize a descoberta e a
O mundo infantil é cheio de fantasia, invenção, e, se assim acontecer, a criança
sonhos, descobertas, as crianças com fica mais motivada a querer sempre mais
suas brincadeiras têm oportunidade de conhecimentos, desenvolvendo, desse modo
construir, conhecer e crescer socialmente. a sua criatividade e criticidade. O meio físico
As brincadeiras os normais tomam o maior onde a criança está inserida contribui com o
tempo na infância e é através delas que nasce desenvolvimento da autonomia, capacidade,
a espontaneidade, com elas as crianças se sensibilidade, experimentar, descobrir e usar
conhecem, se socializam no contexto familiar a criatividade. A instituição deve oferecer
e social. ambientes estimuladores, tornando, assim, o
espaço um instrumento essencial para uma
Assim, o lúdico é chave central na boa qualidade de ensino.
educação infantil e no desenvolvimento
das crianças. DRUMMOND (2003, p.99) O meio influencia a aprendizagem
explica a relação do brincar e aprender: “A da criança, elas interagem de maneira
dificuldade pedagógica está justamente espontânea, em meios lúdicos. Sendo assim,
em aceitar que brincar é aprender, e que a criança nasce precisando de espaços que
aprender é brincar.” Quanto mais a criança lhe ofereçam liberdade em movimentos

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Revista Educar FCE - Março 2019

que possibilitem sua socialização com o A brincadeira é um universo que envolve


mundo e com as pessoas que a cercam. O a criança, apresentar novos elementos
lúdico na sala de aula pode ser representado partindo do olhar que ela tem do mundo
por espaços decorados que possibilitem que a cerca, do mundo que pode ser criado
o desenvolvimento de atitudes relativas à através do faz-de-conta, oportuniza um
vida social das crianças. Trabalhar a ética, maior interesse por estas novas informações
cidadania, e trazer ao dia a dia uma formação e por consequência possibilita um maior
de conceitos enquanto brincadeiras aprendizado.
acontecem. A criança se estabelece no espaço
como uma relação natural e por intermédio Através da contextualização entre o
das brincadeiras que as crianças partilham, conteúdo que se pretende trabalhar e
de momentos prazerosos com o próximo, uma atividade lúdica, é possível acreditar
conhecem-se mutuamente. Também, nos no trabalho em educação sem haver a
espaços lúdicos, os jogos e brincadeiras ali dissociação entre o brincar e o aprender. A
desenvolvidos podem servir de apoio ao contextualização do conteúdo trabalhado em
professor, para diagnosticar as dificuldades jogos e brincadeiras pode ser uma estratégia
discentes, os seus desenvolvimentos nas para a construção de uma prática pedagógica
questões de estratégias, o respeito às regras através do ato de brincar sem que o professor
e ao colega. Sendo assim, pode-se afirmar separe a hora de “ensinar” e a hora de
que o educador estará mais próximo das “brincar”. Para ser possível separar o brincar
crianças, quando as atividades são lúdicas do ensinar o espaço precisa ser preparado
e mais dinâmicas. Pode-se constatar que para que o lúdico seja apresentado de forma
o lúdico vivenciado no contexto escolar, natural. A cada dia as crianças ficam mais
em relação às crianças, facilita-lhes a tempo na escola, para ser possível o uso do
aprendizagem e o desenvolvimento integral lúdico na educação é necessário que escola
em todos os aspectos. Enfim, desenvolve apresente um ambiente onde seja possível
o indivíduo como um todo, e, por isso, a ocorrer brincadeiras.
educação infantil usa este método como
fonte de formação para as crianças. Considerando-se as especificidades afetivas,
emocionais, sociais e cognitivas das crianças de
zero a seis anos, a qualidade das experiências
Para KISHIMOTO (1993) existe uma oferecidas que podem contribuir para o
esfera entre o social e o moral para a criança: exercício da cidadania devem estar embasadas
nos seguintes princípios: o respeito à dignidade
“Quando desenvolvido livremente pela e aos direitos das crianças, consideradas nas
criança, a brincadeira tem efeitos positivos suas diferenças individuais, sociais, econômicas,
na esfera cognitiva, social e moral” (1993, culturais, 32 étnicas, religiosas etc.; o direito
das crianças a brincar, como forma particular
p.102). de expressão, pensamento, interação e
comunicação infantil; o acesso das crianças
aos bens socioculturais disponíveis, ampliando
o desenvolvimento das capacidades relativas à

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Revista Educar FCE - Março 2019

expressão, à comunicação, à interação social, ao


pensamento, à ética e à estética; a socialização
LÚDICO EM JOGOS
das crianças por meio de sua participação
e inserção nas mais diversificadas práticas
EDUCATIVOS
sociais, sem discriminação de espécie alguma; o
atendimento aos cuidados essenciais associados A ludicidade possibilita também a criação,
à sobrevivência e ao desenvolvimento de sua aflora a imaginação das crianças, elas se
identidade (BRASIL, 1998, p.13). tornam capazes de transformar um objeto
em algo real, quantas vezes encontramos
As escolas de educação infantil podem crianças usando latinhas de refrigerante
ser vistas como um local que favorece o como se fosse um carrinho, ou também
desenvolvimento infantil em seus diversos pode ser citado um brinquedo que é bem
sentidos, e o referencial da Educação Infantil conhecido, o jogo de botão onde imaginam
ao contemplar a brincadeira como uma das que os botões são jogadores.
questões presentes durante a vivência para
as crianças que fazem parte deste universo, Jogos educativos, cantigas de roda,
já apontam a importância dessa ação para o exercícios que estimulem a competição e
desenvolvimento e para o aprendizado da cooperação, são exemplos bem simples
criança. Esse espaço para o brincar dentro de se trabalhar o lúdico na escola. O lúdico
da escola através da inclusão do lúdico transforma o âmbito escolar menos cansativo,
nas propostas pedagógicas, possibilitam ele foge do ritual tradicional de chegada à
o desenvolvimento infantil, sobretudo, escola, aprendizagem padrão na sala de aula,
quando se trata da questão do imaginário, ida ao recreio, retorno a sala de aula, e em fim
da aquisição dos símbolos quando a criança a volta para casa. Muitas vezes a criança não
faz associações e recria no momento em que consegue falar de si mesmo, o lúdico é também
brinca proporcionando novas vivências e por uma maneira de interação social da criança
consequência desenvolvimento. com o mundo. Estimula também a criatividade
e torna o ambiente escolar mais atraente
Por meio dos jogos, a criança desenvolve para a aprendizagem. Nos últimos tempos
o senso de companheirismo, aprende a o jogo se tornou objeto de interesse para
conviver, a respeitar regras. Os jogos devem psicólogos, educadores, pesquisadores, como
constituir-se em atividades permanentes, decorrência da sua importância na educação
seja de modo lúdico ou didático, podendo infantil e por ser uma prática que auxilia o
contribuir para o desenvolvimento do desenvolvimento da criança e a construção do
raciocínio lógico, ampliação do vocabulário e seu potencial de conhecimentos. Na educação
a descobrir conceitos matemáticos. configurou-se um espaço natural de jogos e
brincadeiras e muito tem favorecido o ensino
e a aprendizagem e acredita que os jogos e as
brincadeiras são condições favoráveis para a
aprendizagem matemática.

272
Revista Educar FCE - Março 2019

Com a participação ativa da criança e a dos profissionais de educação de seu


atividade lúdica tem servido de argumentação processo de ensinar, a partir da redescoberta
para favorecer a concepção segundo a qual do brincar e, concomitantemente, do
aprende matemática brincando. ensinar, é desenvolvido o jogo com base
no conceito filosófico de Rizoma 1 , que
consiste na percepção da realidade em toda
O BRINCAR PAUTADO NO sua complexidade, ou seja, nos permite
LÚDICO COMO AÇÃO E estabelecer conexões entre aspectos
aparentemente distintos. Essa nova
PRODUÇÃO PEDAGÓGICA ferramenta de trabalho possibilita mostrar
NA EDUCAÇÃO INFANTIL ao grupo de crianças que desde beber um
copo de suco, lavar as mãos, se alimentar, até
Há a necessidade da consciência do resgate brincar de bola e fazer desenhos são ações
do brincar para aprender, utilizando jogos, que despertam diferentes conhecimentos e
desenhos, linguagens, técnicas, atividades percepções no universo infantil. A percepção
estéticas diversificadas e temáticas dos resultados através da implementação do
culturais contemporâneas multifacetadas lúdico 2 como metodologia principal, garante
como possibilidades da evolução de sua aos professores um desenvolvimento
expressão e criatividade. O pressuposto é educacional superior.
que o processo de criação infantil deve ser
ponto de partida da rotina, encorajando os O processo de ensino verticalizado, com
educadores a descobrir que as situações conteúdos formais e desconectados da
diferentes do dia a dia, nada mais eram que realidade dos estudantes não traz tanta
momentos de descobertas, daí um conjunto riqueza de experiências como esta atividade
de iniciativas planejadas com começo, meio e que se apresenta recreativa, onde a criança
fim foram aplicadas para o aprofundamento aprende com as brincadeiras. Não adianta eu
destas questões. chegar com um conteúdo fechado e explicar,
porque não funciona.
Dessa forma, através da percepção da
organização em meio ao caos, da necessidade Diversas linguagens devem ser trabalhadas
de se extrair conceitos que estavam sendo nesta proposta, linguagens que levam em
exprimidos pelos alunos durante os momentos conta as particularidades que cada estudante
de brincadeira e de atividades rotineiras do trás para a educação formal, experiências
cotidiano, existe a própria redescoberta únicas que absorveram anteriormente em
1 Rizoma é um modelo descritivo ou epistemológico na teoria filosófica de Gilles Deleuze e Félix Guattari. A noção de rizoma foi adotada da estrutura de algumas plantas cujos brotos podem ramificar-se em qualquer ponto,

assim como engrossar e transformar-se em um bulbo ou tubérculo; o rizoma da botânica, que tanto pode funcionar como raiz, talo ou ramo, independente de sua localização na figura da planta, servindo para exemplificar um

sistema epistemológico onde não há raízes - ou seja, proposições ou afirmações mais fundamentais do que outras - que se ramifiquem segundo dicotomias estritas. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Rizoma_(filosofia).

2 Atividade lúdica é todo e qualquer movimento que tem como objetivo produzir prazer quando de sua execução, ou seja, divertir o praticante. Sumariamente teríamos as seguintes características sobre elas:- são brinquedos ou

brincadeiras menos consistentes e mais livres de regras ou normas;- são atividades que não visam a competição como objetivo principal, mas a realização de uma tarefa de forma prazerosa;- existe sempre a presença de motivação

para atingir os objetivos. Desde os filósofos gregos que se utiliza esse expediente para ajudar os aprendizes. As brincadeiras e jogos podem e devem ser utilizados como uma ferramenta importante de educação. Frequentemente,

as atividades lúdicas também ajudam a memorizar fatos e favorecem em testes cognitivos. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Atividade_l%C3%BAdica. Acesso em:

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Revista Educar FCE - Março 2019

suas residências, com seus responsáveis, em A AUSÊNCIA DO LÚDICO NA


sua comunidade, no relacionamento familiar, EDUCAÇÃO INFANTIL E SUAS
com amigos, através dos meios midiáticos e
de sua cultura particular, portanto valorizar
CONSEQUÊNCIAS
essas nuances de forma prática foi uma
oportunidade para os profissionais de A educação de modo geral, vem passando
repensar a metodologia que estava sendo por uma crise duradoura no sentido da busca
aplicada. Diante da amplitude da proposta, por um significado maior para a mesma. As
que abrange linguagens que vão dos respostas tradicionais já não resultam mais
movimentos corporais até a música e artes na concordância do coletivo.
visuais, é necessária a mudança na forma de
pensar e atuar desses profissionais no que se Diretores, coordenadores, pedagogos,
refere ao planejamento da educação infantil professores, pais, alunos, enfim, todos
que disseminam em suas instituições. envolvidos neste processo já não depositam a
mesma confiança nos resultados tradicionais
Agora, cada gesto, objeto, brinquedo na qual depositavam em períodos anteriores.
se transforma em motivo de curiosidade Há a necessidade de novos caminhos, pois
e descobertas. Porém, esta proposta de certos mitos vêm sendo descortinados
brincadeira não pode ser desvinculada de a passos largos. Como bem constatou
um objetivo educacional, não é o lúdico pelo VASCONCELLOS (1997, p.231):
lúdico, afinal, dentro da educação formal
espera-se certo desenvolvimento intelectual Na escola, esta crise se manifesta de muitas
formas, mas com certeza uma das mais difíceis
e de expressão dos estudantes. Sem uma de enfrentar é a absoluta falta de sentido para
organização, sem um início, meio e fim, um o estudo por parte dos alunos. A pergunta
fim que não seja brusco, que não seja tomado “estudar para quê”, nos parece, nunca esteve
tão forte na cabeça dos alunos como agora. A
daquela criança, mas sim preparado, aí sim famosa resposta dada por séculos, “estudar para
acontece a verdadeira aprendizagem. Deste ser alguém na vida”, chega a provocar risos nos
ponto inicial, desejamos a seguir utilizar como alunos, ante a clara constatação de inúmeras
pessoas formadas, porém desempregadas ou
metodologia a realização de uma revisão muito mal-remuneradas. Estamos vivendo a
de bibliografia relacionada à educação em queda do mito da ascensão social através da
artes, uso do lúdico, linguagens artísticas escola!

como o desenho e outras manifestações,


sendo representações e aprimoramento do Essa crise causa desafios disciplinares
desenvolvimento humano dos alunos. encontrados diariamente na sala de aula e
na escola como um todo. Há a necessidade
da construção de uma disciplina consciente
e interativa.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O professor se torna um refém diante Percebemos que essa crítica leviana,


de um cenário onde encontram alunos que transfere a responsabilidade individual
que não encontram sentido nas aulas de para um terceiro, é uma das principais
um lado, contra cobranças de melhoria de causas da crise, e que, por conseguinte,
desempenhos numéricos do outro. Como leva as constatações dos docentes da
ZAGURY (2009, p.85) citou, há um ‘pedido necessidade desta ‘ajuda’. É um pedido para
de ajuda’ dos professores para ajudar na que os estudantes os ajudem (Professores)
motivação e disciplina dos estudantes: a ajudá-los a tornarem-se cidadãos com
uma capacidade de expressão aprimorada e
Alunos desmotivados e/ ou indisciplinados consciente de seus direitos e deveres.
acabam resultando num só problema, que
deve ter outras causas. Não podemos atribuir
apenas ao professor a tarefa de superá-lo. É um pedido para que a família os ajude
Mas ainda quando eles próprios admitem que (Professores) a ajudá-los neste papel de
não estão dando conta da situação. E isto não
pode ser ignorado. É um recado e um pedido de socializar 3 e formar seus filhos e filhas, como
ajuda. Sem dúvida, com alunos desmotivados e bem notou ZAGURY (2009, p. 89), “A família
indisciplinados, a qualidade do ensino não vai abriu mão de seu papel essencial de geradora
melhorar.
da ética e de primeira agência socializadora
das novas gerações.” Notamos que esta crise
Este ‘pedido de ajuda’ é uma maneira de de significado, que gera esse pedido de ajuda
entendermos por que a educação coletiva docente, que é potencializado pela ausência da
fracassa no Brasil de modo geral. Depositar participação familiar no processo educacional,
toda a responsabilidade deste insucesso acaba tendo algumas consequências sérias
nas costas dos docentes, eximindo as para o educando. Não ter a oportunidade
políticas públicas, influência midiática, papel de se fazer ouvir individualmente de forma
educativo fundamental dos responsáveis e respeitosa, ao expressar-se de forma mais
responsabilidade individual dos estudantes madura, acaba com oportunidades futuras de
pelo seu futuro, causa discrepâncias melhores inserções sociais.
grandiosas e que não ajudam a solucionar
esta crise: Uma sala de aula caótica com vários alunos
indisciplinados, professores desmotivados
É fácil e confortável criticar dizendo, a quantos que passam laconicamente para cumprir
queiram ouvir, que cabe ao professor encantar,
fascinar, deslumbrar crianças e jovens; seu turno, acaba não considerando a
que é obrigação do docente moderno ser individualidade dos educandos. Há a
empreendedor e criativo; que deve variar os necessidade de uma prática pedagógica que
métodos e técnicas de forma pedagogicamente
correta e avaliar qualitativamente. (ZAGURY, respeite os indivíduos em suas experiências
2009, p.235). particulares, e os capacite para melhor
expressá-las para o coletivo:
3 Socialização significa aprendizagem ou educação, no sentido mais amplo da palavra, aprendizagem essa que começa na primeira infância e só termina com a morte da pessoa.

A socialização implica na adaptação a certos padrões culturais existentes na sociedade, ou seja, é a tendência para viver em sociedade, é a civilidade (conjunto de formalidades, observadas entre si pelos cidadãos, quando bem

educados). Por socialização, escreve o sociólogo pernambucano Gilberto Freire (1900-1987) “É a condição do indivíduo (biológico) desenvolvido, dentro da organização social e da cultura, em pessoa ou homem social, pela

aquisição de status ou situação, desenvolvidos como membro de um grupo ou de vários grupos.” Disponível em http://www.significados.com.br/socializacao/ acesso em: 2017

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Revista Educar FCE - Março 2019

[...] Do ponto de vista pedagógico, pressupõe-


irá se humanizar 4 e tornar-se aculturado5
se que a prática docente na Educação Infantil em cada parte de sua vida. Respeitar suas
tenha como ponto de partida a experiência e o características pessoais, identidade e
conhecimento prévios das crianças, considerando
suas ideias, hipóteses e explicações sobre si e
capacidade de cognição:
sobre o mundo que as rodeia. É importante
O trabalho com crianças da Educação Infantil
também que as salas de aula sejam organizadas
(0 a 6 anos) deve levar em conta o processo
de forma adequada às crianças, tornando-
de aprendizagem que se realiza de acordo
se ambientes prazerosos e agradáveis, que
com as fases de desenvolvimento da criança.
valorizem a criatividade e a espontaneidade dos
Contudo, é bom lembrar que cada criança
educandos, essas são condições importantes
é única, com identidade própria e um ritmo
para que as crianças possam, por meio de
singular de desenvolvimento. Portanto, além
situações pedagógicas dirigidas, desenvolverem-
de levar em conta o processo de maturação da
se em suas múltiplas potencialidades – corporais,
criança de modo geral e suas características
afetivas, emocionais, estéticas e éticas. (BRASIL,
individuais, é preciso propor situações que a
1998a, p.23) incentivem à conquista devagar da autonomia e
da individualidade em seus diversos contextos.
Detectar os conhecimentos prévios das crianças
Notamos que nos referenciais curriculares não é tarefa fácil. Implica que o professor
nacionais, já abarcaram essa perspectiva da estabeleça estratégias didáticas para fazê-lo.
consideração das experiências individuais, e (BRASIL, 1998c, p.33)

nós como docentes precisamos realizar essa


tarefa fundamental. As crianças precisam Durante a sua formação docente o
ser ouvidas para aprenderem a respeitar professor precisa ter em mente esses fatores,
a opinião alheia, e daí serem educadas de não só de caráter teórico, mas de preparação
maneira personalizada. prática de ferramentas didáticas que
identifiquem as características e interesses
O fato de incutirmos um conteúdo externo individuais, grau de maturação individual e
que muitas vezes não se relaciona com a adaptar estes dados ao conteúdo formal, daí
realidade cotidiana deste ser em formação, então planejar a estratégia dinâmica a cada
acaba produzindo uma educação estéril. Por plano de aula. Precisamos identificar o que é
mais ingênuas, fantasiosas e muitas vezes mais necessário ser dominado de modo geral,
equivocadas, a capacidade de se sentirem mas principalmente, o que é mais atraente e
acolhidas e terem a possibilidade de se prazeroso de modo individual.
exprimirem, propiciará uma condição afetiva
futura extremamente positiva. [...] as Artes Visuais devem ser concebidas como
uma linguagem que tem estrutura e as Artes
Visuais expressam, comunicam e atribuem
É necessário pensar as etapas de sentido a sensações, sentimentos, pensamentos
desenvolvimento humano, como esse ser e realidade por meio da organização de linhas,

4 Atribuir caráter humano a; conceder ou possuir condição humana: a narrativa humanizava os psicopatas; algumas entidades espirituais se humanizam na figura do ser humano. Tornar-se benéfico; fazer com que seja tolerável;

humanizar-se: humanizar um ofício, uma doutrina; o governo humanizou-se quando ouviu o povo. Tornar-se civilizado; atribuir sociabilidade a; civilizar-se: humanizar uma pessoa incivil; o Papa se humanizou através do convívio

com os fiéis. v.t.d. Regionalismo. Domar animais. (Etm. do francês: humaniser). Disponível em http://www.significados.com.br/?s=humanizar acesso em: 2017

5 Aculturação é o conjunto das mudanças resultantes do contato, de dois ou mais grupos de indivíduos, representante de culturas diferentes, quando postos em contato direto e contínuo. O termo assimilação é o que define todo

o processo que diz respeito às mudanças na personalidade das pessoas envolvidas no processo de aculturação. Disponível em http://www.significados.com.br/aculturacao/ acesso em:

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Revista Educar FCE - Março 2019

formas, pontos, tanto bidimensional como por meio das práticas artísticas; a apreciação
tridimensional, além de volume, espaço, cor e luz artística – que visa desenvolver a capacidade de
na pintura, no desenho, na escultura, na gravura, percepção e sentido das obras artísticas, tanto
na arquitetura, nos brinquedos, bordados, em relação aos elementos da linguagem visual
entalhes etc. (BRASIL, 1998c, p.85) quanto da linguagem material; a reflexão – que
promove o pensar sobre os conteúdos das obras
artísticas, a partir de questionamentos e dúvidas
Através destas organizações artísticas, levantadas pelos alunos sobre suas próprias
criações e também sobre outras produções.
podemos levar o educando tanto a refletir (BRASIL 1998c, p.89)
a realidade a sua volta, como também a
conhecermos mais da sua realidade, e Essas dimensões são fundamentais
adaptarmos os objetivos educacionais a para desenvolvermos e revertermos os
percepção dele, objetivando uma ampliação paradigmas educacionais 6 que identificamos
dupla: de sua capacidade de percepção e da nas passagens anteriores. Apenas com
melhoria da comunicação dessa percepção. soluções novas e criativas poderemos enfim
tocar intelectualmente os alunos, e o ensino
Por meio deste processo comunicativo, de artes pode proporcionar essas soluções.
podemos receber melhor as opiniões iniciais
destes educandos, e como eles percebem
suas relações com os pais/responsáveis, O LÚDICO COMO
professores, colegas de classe, instituições, ESTRATÉGIA DA AÇÃO
percepções midiáticas, e respeitando os
graus de maturação individuais, conseguimos
PEDAGÓGICA NO CONTEXTO
aprimorar nossa prática cotidiana. ESCOLAR
Precisamos utilizar várias dimensões para Após constatarmos as dificuldades do
o alcance do sucesso educacional, utilizando trabalho educacional, tanto as questões
o ensino de artes como uma solução criativa: rotineiras de preparação de aulas e
precisamos estimular o fazer artístico motivação para a aplicação das mesmas,
(para ouvirmos as opiniões e capacidades além de constatarmos mais especificamente
individuais), estimular a apreciação artística das particularidades no ensino de arte, como
(para ensinar os educandos a ouvirem a objetivação conceitual de ideias subjetivas
outras opiniões e possibilidades) e por fim, e difundidas de forma diferenciada em vários
estimular a reflexão artística (para confirmar, meios, percebemos uma crise de significado
desconstruir ou aprimorar as opiniões e que gera um pedido de ajuda docente.
capacidades individuais dos educandos):
Percebemos que esta crise se agrava à
[...] sugere que a prática das Artes Visuais, no medida que a participação familiar e a falta de
interior das instituições escolares, seja abordada
sob três dimensões principais: o fazer artístico espaço para a expressão individual dos alunos
– que busca desenvolver a criação pessoal é diminuída. Além de termos percebidos
6 Um paradigma educacional é um modelo usado na área da educação. Paradigmas inovadores constituem uma prática pedagógica que dá lugar a uma aprendizagem crítica e que causa uma verdadeira mudança no aluno. O

paradigma usado por um professor tem grande impacto no aluno, muitas vezes determinando se ele vai aprender ou não aprender o conteúdo que é abordado. A forma de aprendizagem das novas gerações é diferente das gerações

anteriores, e por isso um paradigma conservador não terá grande eficácia. Disponível em http://www.significados.com.br/paradigma/ acesso em:

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Revista Educar FCE - Março 2019

que o ensino de arte pode proporcionar práticas precisam fazer sentido para fazerem
essas soluções novas e criativas, tanto no os educandos identificarem qual relação elas
aspecto da expressão individual, quanto na têm com sua própria realidade:
admiração pelo trabalho do outro e mais
além na capacidade de reflexão do mundo. [...] as práticas educacionais surgem de
mobilizações sociais, pedagógicas, filosóficas, e,
no caso de arte, também artísticas e estéticas.
Vemos que os desafios identificados Quando caracterizadas em seus diferentes
podem encontrar como caminho a momentos históricos, ajudam a compreender a
questão do processo educacional e sua relação
comunicação. E a comunicação pode com a própria vida. (FERRAZ; FUSARI, 1993,
ser feita de diferentes formas, sendo as p.27)
diversas expressões artísticas das histórias
do mundo, oportunidades de discussão das Identificar essa responsabilidade do
mais variadas temáticas de desenvolvimento ensino lúdico, em especial o das artes visuais,
humano, por exemplo, desde a busca é tarefa fundamental para a tomada de
global desenfreada por bens materiais consciência da importância que o professor
(consumismo causado pelo capitalismo), até de artes tem na formação individual dos seus
a falta de recursos para a reforma estrutural educandos:
de várias partes da escola onde estudam.
As expressões artísticas diversificadas são [...] tal como a música, as Artes Visuais são
linguagens, e, portanto. uma das formas
um meio de comunicação fundamental para importantes de expressão e comunicação
aprimorarmos nossa didática e aprimorarmos humanas, o que, por si só, justifica sua presença
nossa ‘língua do mundo’: no contexto da educação, de um modo geral, e
na Educação Infantil, particularmente. (BRASIL,
1998c, p.85)
A comunicação entre as pessoas e as leituras de
mundo não se dão apenas por meio da palavra.
Muito do que se sabemos sobre o pensamento
e os sentimentos das mais diversas pessoas, Através de provocações estéticas,
povos, países, épocas são conhecimentos que é que se pode mediar à construção destes
obtivemos única e exclusivamente por meio de
suas músicas, teatro, pintura, dança, cinema, etc. saberes reflexivos diversos. Ao perceber as
(MARTINS; PICOSQUE; GUERRA, 1998, p.14) temáticas preferidas pelos alunos podemos
perceber suas principais indagações.
Ao discutir com a turma as produções
Essa construção semântica se aprimora no estéticas individuais, o aluno sente que suas
reforço contínuo das práticas educacionais. manifestações artísticas têm importância,
Essas práticas necessitam ser expressivas, que seu ‘conteúdo pessoal’ existe e pode ser
de reflexão social, da filosofia cotidiana, de compartilhado com outros iguais.
práticas pedagógicas visando o indivíduo,
da discussão e expressão de momentos Nós precisamos desta atenção constante,
históricos recentes e passados. Essas esta necessidade de nos colocarmos

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Revista Educar FCE - Março 2019

disponíveis para a escuta dos nossos alunos. em sua atuação, é preciso saber desafiá-los
E dentro destas possibilidades notamos intelectualmente, criar provocações que
uma que pode se sobressair ainda mais: o sejam encaradas como desafios a inteligência
uso do lúdico, da brincadeira, como forma individual:
de desenvolver a criatividade, apresentar
conhecimentos através de jogos, de forma Há brinquedos que são desafios ao corpo, à sua
força, habilidade, paciência... E há brinquedos
divertida e interativa com os outros. que são desafios à inteligência. A inteligência
Precisamos usar o lúdico como ferramenta de gosta de brincar. Brincando ela salta e fica mais
mediação dos conteúdos, segundo Martins: inteligente ainda. Brinquedo é tônico para a
inteligência. Mas se ela tem de fazer coisas
que não são desafios, ela fica preguiçosa e
A atitude mediadora exige de nós o estar emburrecida. Todo conhecimento científico
disponível e atento ao outro, seja como começa com um desafio: um enigma a ser
observador ou como ouvinte, percebendo
decifrado! (ALVES. 2004, p.39).
conceitos e pré-conceitos, as preferências
e o que causa estranhamento. Ludicamente
podemos chegar até nossos alunos por vias mais
ousadas, menos “escolares”, mais repletas de Essa citação do recém falecido Rubem
vida que a arte reflete. (MARTINS,2005, p.121). Alves nos deixa um conselho com várias
dicas: precisamos de brinquedo para
inteligência, pois brincando ela salta e fica
A partir do momento que conseguimos mais inteligente ainda, se não há um desafio
desconstruir os paradigmas educacionais intelectual, a inteligência fica preguiçosa e
que trazem o tradicional na educação para estimular essa busca científica, é preciso
vertical, que consideramos o individual para de um enigma que cause desejo em ser
a reconstrução do processo e utilizamos a decifrado. O professor deve trazer consigo o
educação em artes como ferramenta criativa desejo de ensinar coisas úteis para estimular
para um novo fazer, instrumentalizar essa a arte de aprender contínua.
atuação faz-se necessário.
A comunicação lúdica, sem aquele
Precisamos considerar a inteligência tom monótono tradicional, que estimula
individual para a aprimorarmos, e a à criatividade ao invés da imposição de
inteligência gosta de brincar, quando ela informações, que estimula a expressão
não encontra lugar para se expressar, ao invés da rispidez da imposição de
ela se deprime e míngua. Da mesma conhecimentos, que estimula os sorrisos ao
forma que exercícios físicos tonificam o invés da crítica inerte, que estimula os elogios
corpo material, brincadeiras intelectuais sinceros às atuações positivas intelectuais ao
tonificam a inteligência. E identificar o que invés dos comentários depreciativos, enfim,
estimula a inteligência dos educandos é um essa relação sincera e profunda, é à base de
desafio, é preciso ter mais do que dados e uma educação concreta e eficaz.
informações, é preciso ser inteligente e sábio

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Nesse faz-de-conta da brincadeira, A IMPORTÂNCIA DE SE


reconstrói-se uma nova realidade, realidade TRABALHAR LUDICAMENTE
construída coletivamente, da valorização
das inteligências ali inseridas, de irmos uma PARA O DESENVOLVIMENTO
camada além das opiniões superficiais tão DE UM MELHOR
divulgadas pelos meios de comunicação APRENDIZADO
em massa, de respostas prontas, rasas, que
desinformam. É preciso jogar, é preciso ser
espontâneo e criativo, tanto em família, Por mais inspirado que um professor
como nos grupos sociais e principalmente na esteja ao dar uma aula sobre determinada
escola, assim auxiliaremos os educandos em produção artística (Um quadro, por exemplo)
sua formação cidadã 7, para a construção de que ele conheça, admire e se emocione
indivíduos eloquentes 8, e esse jogo é uma ao falar sobre, não vai substituir o nível de
ferramenta fundamental: participação e o esforço cognitivo individual
na reflexão sobre esta produção.
(...) acontece neste momento uma comunicação
profunda, sem medos, nem ameaças, onde
cada um se expressa livremente no lúdico. O Ao perguntar através de brincadeiras o que
jogo é ficção e ao mesmo tempo realidade. os alunos acreditam ser a intenção do artista
(HOLZMANN, 1998, p.19). naquela produção, como ele se esforçou para
pintar e qual deve ser a reação das pessoas
aquele trabalho, são formas mais próximas
da realidade do estudante de aprimorar sua
inteligência.

Não se pode negar o universo de


representações lúdicas individuais, pois ele
deve estar acima das imposições conteudistas.
Precisamos conhecer a trajetória do aluno,
deixá-lo brincar e se expressar, convidá-
7 Cidadania é o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na constituição. Os direitos e deveres de um cidadão devem andar sempre juntos, uma vez que ao cumprirmos nossas obrigações permitimos

que o outro exerça também seus direitos. Exercer a cidadania é ter consciência de seus direitos e obrigações e lutar para que sejam colocados em prática. Exercer a cidadania é estar em pleno gozo das disposições constitucionais.

Preparar o cidadão para o exercício da cidadania é um dos objetivos da educação de um país. Disponível em http://www.significados.com.br/cidadania/ acesso em: 2017

8 Eloquente significa ser convincente, persuasivo e expressivo. Um indivíduo eloquente é aquele que possui a arte e o talento de convencer ou comover outras pessoas apenas falando. Ser eloquente é a arte de falar bem, é ter o

dom da oratória. Ser eloquente é uma característica muito importante nos dias atuais, as pessoas que tem facilidade em se expressar e convencer outras pessoas, acabam sempre tendo maiores benefícios em quem possui certa

timidez, ou não gosta de falar em público. Disponível em http://www.significados.com.br/eloquente/ acesso em: 2016

9 Cognitivo é uma expressão que está relacionada com o processo de aquisição de conhecimento (cognição). A cognição envolve fatores diversos como o pensamento, a linguagem, a percepção, a memória, o raciocínio etc., que

fazem parte do desenvolvimento intelectual. A psicologia cognitiva está ligada ao estudo dos processos mentais que influenciam o comportamento de cada indivíduo e o desenvolvimento intelectual. Segundo o epistemólogo e

pensador suíço Jean Piaget, a atividade intelectual está ligada ao funcionamento do próprio organismo, ao desenvolvimento biológico de cada pessoa. A teoria cognitiva criada por Piaget, defende que a construção de cada ser

humano é um processo que acontece ao longo do desenvolvimento da criança. O processo divide-se em quatro fases:

Sensório-motor (0 – 2 anos)

Pré-operatório ( 2 – 7 anos)

Operatório-concreto ( 8 – 11 anos)

Operatório-formal (a partir dos 12 anos até aos 16 anos, em média)A terapia cognitiva é uma área de estudo sobre a influência do pensamento no comportamento do indivíduo. A junção dos dois conceitos levaram à criação da

terapia cognitivo-comportamental (TCC), aplicada à psicoterapia. Disponível em http://www.significados.com.br/cognitivo/ acesso em:

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lo a participação cultural continuamente. É preciso reviver na escola aquele gostinho


Precisamos ajudá-lo a pensar por si mesmo, da infância que se divertia na rua e voltava
assumir seu papel crítico e ativo, valorizar para casa só ao pôr-do-sol, porém usando
sua criatividade: estas sensações diversas com objetivos
educacionais formais, utilizando mais a
Negar o universo simbólico lúdico, sob o ludicidade do que o rigor nestas construções.
argumento de que esse não é o papel da
instituição escolar, é negar o trajeto do
desenvolvimento humano e sua inserção Crianças felizes tornam-se adolescentes
cultural. É desviar a função da escola do mais participativos e menos ‘rebeldes’,
processo de construção de valores e de um
sujeito crítico, autônomo e democrático. É negar, apesar dessa ser uma característica comum
principalmente, as possibilidades da criatividade de maturação. A união de pais e educadores
humana (VASCONCELLOS, 2006, p.72). neste compromisso com a brincadeira irá os
estimular a se expressar e a se comunicar
Precisamos ousar brincar, ter humor com mais facilidade, sabendo que seus
e alegria na educação, ter como foco os sentimentos e pontos de vista têm espaço
universos simbólicos lúdicos que o ensino nas relações sociais:
de artes pode proporcionar. Na educação
Pais e educadores que respeitam as necessidades
infantil esta necessidade de brincar se faz da criança de brincar estarão construindo,
ainda mais presente. Ao desenhar, rabiscar portanto, os alicerces de uma adolescência mais
papéis, pintar, sujar-se de tinta, rir da sujeira, tranquila ao criar condições de expressão e
comunicação dos próprios sentimentos e visão
comparar resultados, rir de uma maçã pintada
de mundo (OLIVEIRA, 2000, p. 87).
de azul, embaralhar-se na explicação de sua
‘obra de arte’ são nesses detalhes que ela vai
se humanizando, se expressando, criando Para o desenvolvimento desta
vínculos e aprimorando seu relacionamento expressividade é necessária a construção
interpessoal 10 : desde a tenra infância deste arsenal
conceitual, é necessário a pintura com os
(...) é brincando que a criança se humaniza dedos, a explicação inocente do que estava
aprendendo a conciliar de forma efetiva a
afirmação de si mesma à criação de vínculos sendo representada, a escolha dos temas
afetivos duradouros. (...) o brincar abre caminho relevantes como o porquê do céu ser azul,
e embasa o processo de ensino/aprendizagem é necessária a imitação (cópia de técnicas
favorecendo a construção da reflexão, da
artísticas) de forma descompromissada, sem
autonomia e da criatividade (p. 7/8).
julgamentos, é necessário o exemplo do
10 Relacionamento interpessoal é um conceito do âmbito da sociologia e psicologia que significa uma relação entre duas ou mais pessoas. Este tipo de relacionamento é marcado pelo contexto onde ele está inserido, podendo

ser um contexto familiar, escolar, de trabalho ou de comunidade. O relacionamento interpessoal implica uma relação social, ou seja, um conjunto de normas comportamentais que orientam as interações entre membros de uma

sociedade. O conceito de relação social, da área da sociologia, foi estudado e desenvolvido por Max Weber. O conteúdo de um relacionamento interpessoal pode ser de vários níveis e envolver diferentes sentimentos como o

amor, compaixão, amizade, etc. Um relacionamento deste tipo também pode ser marcado por características e situações como competência, transações comerciais, inimizade, etc. Um relacionamento pode ser determinado e

alterado de acordo com um conflito interpessoal, que surge de uma divergência entre dois ou mais indivíduos. Por outro lado, o conceito de relacionamento intrapessoal é distinto mas não menos importante. Este conceito remete

para a aptidão de uma pessoa de se relacionar com os seus próprios sentimentos e emoções e é de elevada importância porque vai determinar como cada pessoa age quando é confrontada com situações do dia-a-dia. Para ter

um relacionamento intrapessoal saudável, um indivíduo deve exercitar áreas como a autoafirmação, automotivação, autodomínio e autoconhecimento. Disponível em http://www.significados.com.br/relacionamento-interpessoal/

acesso em: 2017

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Revista Educar FCE - Março 2019

professor (participar da brincadeira como um dos alunos deixando o papel de professor


de lado esporadicamente) para que os estudantes não mistifiquem as relações escolares,
enfim, passo a passo ele constrói sua própria definição do que se trata arte. Desta forma,
quando alguém der uma opinião depreciativa ou deturpada, quando ele ouvir alguma posição
superficial e equivocada na mídia, poderá criticamente expressar-se, reeducando-se e
auxiliando na educação geral da sociedade, fazendo-se ouvir, com eloquência e propriedade:

Ao pensar na palavra arte, por exemplo, o aluno precisa compreender o significado que esta palavra expressa.
Para aprender o significado, precisa saber relacionar outras informações mais simples. Quando for capaz de
dizer o que é arte usando o seu repertório simbólico é sinal de que foi capaz de perceber um conjunto de
aspectos de sua estrutura que, reunidos e interligados, deram a ideia do que constituí uma obra de arte. Neste
caso, o aluno ficou de posse de um conjunto significativo de informações inter-relacionadas que ajudam a
entender quando alguém fala sobre arte ou quando se expressa através dela. (SANTOS, 2006, p.21).

Por fim, se obteve que a educação carrancuda, vertical e que impõe conteúdos, não tem
mais espaço na identificação da crise que vivemos. Percebemos que a brincadeira com
objetivo, tendo os aspectos lúdicos mais relevância do que as lições formais, é um caminho
fundamental nesta solução, finalizamos com esta citação do poeta Carlos Drummond de
Andrade:

Brincar com crianças não é perder tempo, é ganhá-lo; se é triste ver meninos sem escola, mais triste ainda é
vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, sem valor para a formação do homem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste estudo pudemos constatar algumas considerações
finais. O lúdico é uma ferramenta que sempre foi usada no
ensino e tem eficácia, como vimos por muitos autores citados.
Também, vemos que é nos espaços lúdicos, nos jogos e nas
brincadeiras ali desenvolvidos que podem servir de apoio
ao professor, para diagnosticar as dificuldades discentes,
os seus desenvolvimentos nas questões de estratégias, o
respeito às regras e ao colega. Sendo assim, pode-se afirmar
que o educador estará mais próximo das crianças, quando
as atividades são lúdicas e mais dinâmicas. ANA MARIA RODRIGUES
MARTIM
Sabemos que utilizar menos o lúdico não é a resposta.
Graduação em Pedagogia pela
Saber como implementar o lúdico na educação infantil é Universidade Guarulhos (2004);
ainda a melhor forma de conquistar a criança. Pode-se Especialista em Psicopedagogia
assim com este estudo se constatar que o lúdico vivenciado pela Universidade .(2008);
Professor de Educação Infantil e
no contexto escolar, em relação às crianças, facilita-lhes a Ensino Fundamental - na EMEF
aprendizagem e o desenvolvimento integral em todos os Antonio Carlos de Andrada e
aspectos. Enfim, o lúdico desenvolve o indivíduo como um Silva, Professor de Educação
Básica I - na E.E. Prof. “Victório
todo, e, por isso, a educação infantil usa este método como Napoleão Oliani”
fonte de formação para as crianças.

283
Revista Educar FCE - Março 2019

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288
Revista Educar FCE - Março 2019

O PAPEL DO PROFESSOR DE
EDUCAÇÃO INFANTIL NA
ATUALIDADE
RESUMO: No decorrer das últimas décadas, a educação infantil no Brasil vem sofrendo mudanças
significativas, bem como o papel do professor e o que deve ser ensinado para os bebês e as crianças
pequenas. Importantes acontecimentos legais como a constituição de 1988 e a Lei de Diretrizes
e Bases da Educação marcam estudos e esforços para adequar as crianças de zero a cinco anos
de idade a educação básica no Brasil. Influências da proposta Construtivista, baseada na teoria
Piagetiana começam a desenhar um novo cenário para a educação infantil, vindo a romper com
a proposta tradicional mecânica de ensino, dando espaço para os jogos e brincadeiras como um
elemento fundamental para o processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Em face
ao novo contexto educacional, o papel do professor também precisou ser modificado abrindo
mão do controle absoluto pedagógico, e passando a adquirir um papel de mediador e facilitador
na aprendizagem de seus alunos, dando o devido valor a brincadeira como a ferramenta para a
criança se expressar, aprender e se desenvolver.

Palavras-Chave: professor, brincar, criança, aprendizagem, desenvolvimento

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO Com os objetivos de responder os


questionamentos colocados acima e elucidar
Na atualidade, cada vez mais a vivência a importância do brincar para a aprendizagem
da criança em programas de Educação de crianças na faixa etária dos zero aos cinco
Infantil de qualidade tem sido apontada por anos de idade, contextualizando a ação
pesquisas nacionais e internacionais como docente nessa perspectiva, discorremos nos
indicador básico de bom desenvolvimento, dois títulos do presente trabalho, uma análise
além de configurar um espaço positivo no bibliográfica sobre obras e contribuições
processo de escolarização básica. Oliveira de importantes autores da atualidade, bem
(et al, 2012 ). como leis de grande importância para a
construção da Educação Infantil brasileira.
Diante disso, se faz necessária a
adequação de sistemas de ensino, propostas
curriculares e planejamentos, considerando UMA ABORDAGEM
que as crianças necessitam envolver-se HISTÓRICA SOBRE
com diferentes linguagens, valorizando o
lúdico, as brincadeiras e as culturas infantis. AS CONCEPÇÕES DE
Nesse sentido, o trabalho dos professores APRENDIZAGEM E O
de educação infantil no contexto em que PAPEL DO PROFESSOR NA
o brincar é visto como recurso privilegiado
no processo de ensino e aprendizagem, EDUCAÇÃO INFANTIL
tem sido ao longo das últimas décadas
amplamente discutido e é tema para o A educação para as crianças pequenas, mais
trabalho de pesquisa em questão. Uma vez especificamente as crianças de zero a cinco
que a concepção contemporânea de infância anos de idade vem sofrendo modificações
e Educação infantil embasada no brincar ao longo das últimas décadas no Brasil e
mostra-se imprescindível, as perguntas que no mundo, bem como o papel do professor
se colocam são: nesse cenário que foi sendo constituído até
a atualidade.
• Quais são as características e
competências necessárias ao professor de Em uma breve explanação desse período é
Educação Infantil da atualidade? possível perceber que os enfoques dados ao
• Como o professor pode em suas aulas, que a criança pequena deve aprender e como
abrir mão do controle e tomar a criança como deve aprender, foram sendo modificados
protagonista do conhecimento? através da implementação de políticas
• Como contemplar em seu planejamento voltadas ao atendimento desse público e
a dicotomia educar x brincar sem favorecer a através da adoção de propostas educacionais
um ou desfavorecer a outro? alicerçadas em estudiosos e suas concepções.

290
Revista Educar FCE - Março 2019

No Brasil, novos olhares para essa Segundo Angott (1994, apud


etapa começam a ser adquiridos a partir SAMMERHALDER & ALVES, 2011) os
da promulgação da Constituição Federal professores observados [...] ocuparam todo
(1988) e da Lei de Diretrizes e Bases da o seu período de aulas com tarefas onde
Educação Nacional (1996). Segundo Oliveira as crianças deveriam manter-se sentadas,
(et al.,2012), consolida – se legalmente desenvolvendo atividades de recorte-
a educação em creches e pré-escolas colagem, modelagem com massa, desenho e
como primeira etapa da Educação Básica pintura e especialmente, treino ortográfico
e desencadeia-se um processo bastante com letras e números, onde suas mãos
complexo de debate, definição e consolidação trabalhavam o tempo todo. Nessas atividades,
das decorrências político- institucionais em normalmente a criança era conduzida a seguir
torno do caráter pedagógico da Educação com exatidão a orientação da professora. As
Infantil[...] tentativas de criação da criança em geral
eram tolhidas e tachadas de „erradas‟.
Agrega-se a esse cenário a necessária
reflexão das redes de ensino, das unidades O professor então ocupava o lugar de
educacionais e do professor de educação transmissor de conhecimentos e detentor do
infantil em torno do tema. saber e a aprendizagem, possível somente
através absorção desses conteúdos.
Mediante a esse contexto, muitas ações Com foco na busca pela alfabetização,
e contradições acerca do que as crianças o jogo e a brincadeira foram sucumbidos a
pequenas deveriam de fato aprender foram essa necessidade.
aplicadas.
Dessa forma, de acordo com Angotti
Para Sommerhalder e Alves (2011) as (1994, apud SOMMERHALDER & ALVES,
décadas de 80 e 90 apresentaram forte 2011) quando as crianças tinham a
interesse pelo desenvolvimento, como meta oportunidade de brincar de forma mais
da educação da criança traduzindo-se na espontânea não havia a participação da
busca pela alfabetização. professora. As intervenções aconteciam em
alguns momentos de desentendimento entre
Angotti (1994, apud SOMMERHALDER as crianças ou em situações que pudessem
& ALVES, 2011), ao observar duas classes gerar perigo.
de educação infantil pública na cidade de
São Paulo, no começo da década de 1990, Para a autora nesses momentos de
pôde constatar o quão mecânico tinha sido jogo e de brincadeira espontânea em que
o trabalho junto às crianças pré - escolares. interesses e descobertas poderiam emergir,
as professoras estavam distantes.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A partir da década de 1990 em contradição como, quando e onde o jogo deva acontecer,
a essa prática de ensino, muitas instituições estando atrelado ao horário do intervalo, ao
educacionais começaram a adotar a proposta término das atividades escolares ou até como
Piagetiana. jogo associado às atividades pedagógicas
com fins de transmissão de conteúdos, sem
Para Krammer, (1999, apud a manifestação espontânea da criança.
SAMMERHALDER & ALVES 2011), os
estudos de Piaget que se sustentavam sobre Ao tornar parte na Educação Básica,
a investigação do processo de construção a partir da LDB, em 1996, a Educação
do conhecimento nos indivíduos, foram Infantil é chamada a refletir sobre a questão
transpostos para o campo pedagógico como curricular ao mesmo tempo em que garante
no caso de Emília Ferreiro, que estudou a especificidade da educação e cuidado dos
a psicogênese da alfabetização, trazendo bebês e crianças pequenas.
contribuições extremamente relevantes à
questão da alfabetização e à compreensão Anos depois, essas questões foram
do processo de aprendizagem do sistema especificamente tratadas nas Diretrizes
da língua escrita. A proposta construtivista, curriculares Nacionais para a Educação
baseada na teoria piagetiana, é caracterizada Infantil. A mesma cita a importância do
por essa autora de Tendência Cognitiva, planejamento de um currículo de Educação
cuja proposta para a educação pré-escolar Infantil ter como eixos norteadores a
enfatiza a construção do pensamento infantil interação e a brincadeira.
no desenvolvimento da inteligência e da
autonomia. As experiências vividas pelas crianças em suas
brincadeiras e seus jogos passam a ser vistas
como momentos construtivos e de riqueza
Nessa direção, Sommerhalder e Alves ( para o enriquecimento de conteúdos, de
2011, p. 51) nos elucida que: comportamentos ou de interesses das crianças
(SOMMERHALDER E ALVES, 2011, p.52)
A abordagem construtivista considera o brincar
como um elemento fundamental para o processo
de desenvolvimento e aprendizagem da criança, Nesse contexto o professor de educação
dado que esse seria uma forma da criança infantil, passa a ocupar o papel de mediador
resolver problemas e/ou situações problemas entre as crianças e a aprendizagem, utilizando
que surgem a partir de sua interação com o
meio. Com isso valoriza-se a presença do jogo interações e brincadeiras como fonte rica e
educativo da criança na educação infantil. imprescindível para que novas aprendizagens
o corram.
A presença do jogo na educação infantil
passa a ser vista como importante, mas na As práticas vivenciadas no espaço de
prática, ainda ocupa um lugar em que é educação Infantil, passam a ser vistas como
o professor que detém o controle sobre um instrumento que possibilita à criança

292
Revista Educar FCE - Março 2019

o encontro de explicações sobre o que a tomar decisões, expressar sentimentos e


acontece ao seu redor e consigo mesma, valores, conhecer a si e ao outro, partilhar
enquanto desenvolvem modos próprios de brincadeiras, construir sua identidade,
resolver problemas, sentir e pensar. explorar o mundo dos objetos, das pessoas,
da natureza e da cultura na perspectiva de
Apesar das inúmeras divergências entre o compreendê-la, usar o corpo, os sentidos, os
jogo e a educação no decorrer das últimas movimentos e as várias linguagens. Enfim,
décadas, não se pode negar a íntima ligação sua importância se relaciona com a cultura
entre a criança e a intensa ação lúdica, o que da infância que coloca a brincadeira como
torna inevitável e indiscutível a presença do ferramenta para a criança se expressar,
jogo e da brincadeira no ambiente escolar. aprender e se desenvolver.
Embora indiscutível e inevitável, ainda é
muito comum, implícita ou explicitamente A autora nos traz uma considerável
a dualidade entre brincar e estudar nos definição sobre a importância do ato de
ambientes escolares. Contudo, concordamos brincar para o desenvolvimento da criança
com Régis de Morais (2005, apud nos mais diversos aspectos.
SOMMERHALDER & ALVES, 2011) quando
diz que para deixar nascer a disciplina, não Não por sem razão Winnicott (1975)
é necessário sufocar o jogo ou eliminar a refere-se ao jogo como uma experiência
alegria. na continuidade espaço-tempo, ou seja,
uma forma básica de viver. Para ele “é no
brincar, e talvez apenas no brincar, que a
PROFESSOR DE EDUCAÇÃO criança ou o adulto fruem sua liberdade
INFANTIL: A CONSTITUIÇÃO de criação”(Winnicott, 1975, apud
SOMMERHALDER & ALVES, 2011).
DO PROFESSOR BRINCANTE
Para Sommerhalder e Alves ( 2011, p.27)
Mediante as atuais concepções de “Na concepção Winnicottiana, a base do
aprendizagem infantil, dando destaque as viver criativamente, assim como sua origem,
brincadeiras e interações, vemos que as está no brincar. Daí sua importância para
atividades para a primeira infância devem o desenvolvimento da criança e seu valor
ser permeadas pelo jogo, brincadeira e as educativo”
interações ricamente demonstradas nesses
momentos. O jogo infantil é apresentado por Oliveira
(2010, apud PICCOLO e MOREIRA,
Para Kishimoto (2010, apud 2012) como um recurso privilegiado no
SOMMERHALDER & ALVES, 2011), Brincar é desenvolvimento da criança pequena. A
uma ação cotidiana para a criança que a impele autora defende a idéia de se ensinarem

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Revista Educar FCE - Março 2019

conteúdos por meio de jogos, porque eles espaços/ambientes e disponibilizando


facilitam a aprendizagem. materiais diversos dentro da proposta de seu
planejamento.
Uma situação vivida em sala de aula de
forma prazerosa certamente poderá se Para que as propostas sejam permeadas pela
ludicidade, é preciso que o ambiente preparado
transformar numa aprendizagem significativa seja um espaço de vivências alegres (inclusive
e, cada vez que se retomar aquele conceito se este ambiente for o interior de uma escola),
aprendido, virá junto uma sensação de de momentos de descobertas que permitam o
prazer em fazer novamente. Mas essa repetição
alegria, de prazer e de satisfação Toledo; do movimento deve acontecer por iniciativa da
Velardi; Nista-Picocolo, (2009, apud NISTA- própria criança, de querer sentir novamente a
PICCOLO, MOREIRA, 2012) emoção da alegria, a sensação de satisfação.
Isso exige que a proposta lúdica não possa se
distanciar das metas estabelecidas pelo professor.
Aqui vemos considerações de importantes Se ele quiser ensinar determinado conteúdo,
autores que reforçam a relevância do brincar esquecendo-se de oferecê-lo no mundo mágico
que a criança vive, isto é, desconectado da
no ambiente escolar. No entanto esses ludicidade, isso poderá significar para ela que a
momentos não devem possuir um carácter atividade não é brincadeira, afastando o prazer
puramente recreativo, mas devem unir- de brincar daquela situação ( NISTA-PICCOLO;
MOREIRA, 2012,p.70)
se ao oferecimento de propostas lúdicas
de intenção pedagógica pelas instituições
de educação infantil e seus professores. Nesses ambientes previamente pensados e
Aponta-se aqui, que o professor tem um planejados, Oliveira (et al,2012) acrescentam
papel fundamental na investigação de que professor deve se responsabilizar por
assuntos pertinentes às crianças de sua criar bons contextos de mediação entre
turma e na escolha em seu planejamento as crianças, seu entorno social e os vários
de atividades significativas e promotoras de elementos da cultura. Cabe-lhe a arte e
desenvolvimento. a competência de criar condições para
que as aprendizagens ocorram tanto nas
Entender o brincar, como a principal brincadeiras livres, quanto nas demais
linguagem da infância, compreende pensar situações orientadas intencionalmente,
práticas que envolvam jogos, brinquedos e considerando o desenvolvimento, a
brincadeiras e garantam o direito às crianças ação mental infantil, interações de maior
de se comunicarem e interagirem. É papel do qualidade envolvendo adultos e crianças
professor: planejar em suas aulas momentos e as interações que as próprias crianças
em que essa linguagem seja privilegia estabelecem enquanto brincam, produzem e
aprendem cooperativamente.
É preciso que o professor, enquanto
mediador, pense e planeje a atividade a É notório que um dos maiores estímulos
ser desenvolvida, considerando os tempos, para uma criança seja a companhia de outra

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Revista Educar FCE - Março 2019

criança, interagindo e aprendendo a conviver, Muito mais do que brincar/jogar


como uma oportunidade privilegiada de conjuntamente com as crianças, a atuação
aprendizagem e experiência. do professor aponta-se na direção de se
constituir um espaço favorável para que as
Uma proposta como essa, em um contexto crianças desenvolvam suas atividades lúdicas
de interações, demandará professores e imaginárias.
que entendam o valor desse momento e
o viabilizem, estimulando as diferentes Ter um espaço organizado para as crianças, do
qual elas se sintam realmente apropriadas e onde
interações entre as crianças no momento em estejam seguras, amplia as possibilidades de
que a brincadeira acontece . interações variadas, prolongadas, estimulantes,
afetivas, com diferentes parceiros, influenciando
o desenvolvimento de sua atividade criativa.
Nessas interações, as crianças põem à O espaço é assim considerado um elemento
prova seus saberes e podem ampliá-los. educador para essas crianças. (OLIVEIRA et al,
2012,p.82)
O professor, encoraja e incita a criança à
descoberta, à curiosidade e ao desejo de saber, Nessa direção, o professor pode também
quando acolhe suas vivência lúdicas e abre um contribuir para a ampliação das vivências
espaço potencial de criação, alegria e diversão. e experiências nas brincadeiras de suas
crianças, fornecendo-lhes materiais, ricos
A esse respeito, o professor não somente e variados, que favoreçam a criação da
acolhe as vivências lúdicas como também situação imaginária, mas sem exageros, uma
pode e deve participar delas. vez que elas são absolutamente capazes de
encontrar objetos e inventar brincadeiras
Fazemos referência a um professor que tenha com muita facilidade, o que lhes proporciona
sensibilidade para reconhecer a importância
do toque amoroso, do gesto de respeito e do imenso prazer.
acolhimento do imaginário e da fantasia da
criança[...] Propomos um professor brincante, Segundo Bacha (2002, apud
que se permita brincar junto com as crianças.
SOMMERHALDER & ALVES, 2011)
(SOMMERHALDER E ALVES, 2011, p.60)
ao explorarmos a dimensão imaginária
aprendemos a conhecer e a nos conhecer, o
Um professor brincante, não consiste que nos possibilita a descoberta e a elaboração
simplesmente em sugerir uma brincadeira ou do conflito que as angústias suscitadas
deixar que as crianças brinquem livremente, pela situação educativa instauram, e com
mas em brincar com elas, compartilhar suas isso, provocar uma mudança de postura do
criações, criar espaços para que possam professor frente ao processo educativo de
interagir e atribuir significados juntos e maneira que ele busque, em parceria com a
também de adentrar e se apropriar da cultura criança, um saber com sabor construído com
lúdica infantil. os fios da fantasia e da razão.

295
Revista Educar FCE - Março 2019

Nessa direção, Emerique (2004, apud SOMMERHALDER & ALVES, 2011) por fim nos
acrescenta:

[..]penso que o próprio processo de aprendizagem pode ser visto como uma grande
brincadeira de esconde-esconde ou de caça ao tesouro: tanto uma criança pré - escolar
brincando num tanque de areia, quanto um cientista pesquisando no laboratório de uma
universidade, estão lidando com sua curiosidade, com o desejo de descoberta, com a
superação do não saber, com a busca do novo, que sustentam a construção de novos saberes.

296
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Constituição Federal de 1998 reconheceu a educação
de crianças de zero a cinco anos como direito do cidadão
e dever do Estado. Tal concepção também aparece na na
Lei de Diretrizes e bases da educação Nacional(1996),
compreendendo a criança como sujeito histórico social e de
direitos.

Em virtude das mudanças no contexto da educação


infantil no Brasil e no mundo, novos desafios se colocaram
às funções das instituições de ensino para essa faixa etária, ANA PAULA
bem como as formas de trabalho pedagógico do professor. MARQUES BATISTA
Ao professor coube a tarefa de reinventar sua profissão,
Especialista em Ludopedagogia
refletindo sobre como é entendido atualmente o processo pela faculdade Campos Elísios
de aprender e seu papel e atuação nesse processo. (ano 2019); Professora de
Educação Infantil no Centro
de Educação Infantil CEI CEU
Para adequar- se aos novos saberes e teorias, como por Jaguaré
exemplo da proposta construtivista Peagetiana, o professor
em sua postura precisou abrir mão do controle absoluto e de
práticas de ensino obsoletas e mecânicas como exercícios
repetitivos e mimeografados, característicos da proposta tradicional de ensino. Ante as
novas concepções, os jogos e brincadeiras passaram a exercer papel fundamentalmente
importante para o processo de aprendizagem e desenvolvimento infantil.

Perante a dicotomia ensinar e brincar, a ação lúdica da criança por muito tempo foi
restringida pela total direção do professor, em momentos pré estabelecidos como jogo
educativo ou como momento de recreação sem a devida intenção e atenção pedagógica
como um momento de construção de novos saberes.

.Além das teorias de Piaget, autores como Kishimoto, Sommerhalder, Alves, Oliveira,
Winnicott, Piccolo, entre outros citados e abordados no presente trabalho, trouxeram
importantes considerações sobre a importância do jogo e da brincadeira como um recurso
privilegiado de ensino e aprendizagem, sendo definido por Winnicott como uma forma
básica de viver.

Em virtude das novas demandas e necessidades das crianças e de propostas pedagógicas


aceitas pela comunidade educativa, novas posturas e competências passaram a fazer parte

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Revista Educar FCE - Março 2019

do trabalho docente em educação infantil. Termos como professor mediador, facilitador,


investigador, viabilizador, entre outros, tornaram-se comuns entre os profissionais. Investigar
assuntos pertinentes à sua turma, entender o brincar como principal linguagem da criança,
pensar e viabilizar práticas, tempos e espaços que envolvam jogos, brinquedos e brincadeiras
e garantir a interação e comunicação entre crianças e adultos nesses espaços, passaram a
serem atribuições da função de professores de educação infantil.

Conquanto, Sommerhalder e Alves (2011) fazem referências a um professor que tenha


sensibilidade em reconhecer a importância do toque amoroso, do gesto de respeito e do
acolhimento ao imaginário e fantasia da criança, aproximando o educar muito mais de uma
arte do que de procedimentos técnicos e mecanizados. Propõem um professor brincante,
que se permita brincar junto com as crianças.

Por fim, unimos a elas nossos anseios, para que cada vez mais dentro das salas de aula de
educação infantil, tenhamos professores brincantes, envolvidos e comprometidos com uma
aprendizagem mais significativa para nossas crianças.

298
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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Cortez,2012.

SOMMERHALDER, A., ALVES, F., Jogo e a educação da infância: muito prazer em aprender-
1. ed.- Curitiba, PR: CRV, 2011.

299
Revista Educar FCE - Março 2019

ALGUNS ASPECTOS DA SURDEZ E


O QUANTO PODEM INTERFERIR
NO DESENVOLVIMENTO DAS
CRIANÇAS
RESUMO: Este artigo tem como objetivo o estudo sobre o atendimento das crianças que
apresentam algum tipo de deficiência auditiva dentro da rede pública de ensino e o que
o professor que pretende atender essas crianças precisa saber, deve estudar, para dar um
atendimento especial e de qualidade para essas crianças. O professor precisa conhecer alguns
motivos pelos quais as crianças nascem com essa deficiência, o que pode causar no decorrer
dos anos, como se dá o desenvolvimento dessas crianças, especialmente o cognitivo e as
suas formas de se comunicar. Descrevendo um pouco os graus da surdez e suas diferenças,
e quanto a idade da perda auditiva interfere no aprendizado das crianças, algumas formas e
intensidades, além de descrever alguns fatores que as crianças podem vir a apresentar, e como
a familia pode acabar melhorando ou piorando o desenvolvimento da criança que apresenta
uma deficiência auditiva.

Palavras-Chave: Aprendizagem; Comunicação; Deficiência Auditiva; Desenvolvimento.

300
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO alternativas e as práticas pedagógicas mais


adequadas para as crianças que apresentam
Esse trabalho tem como objetivo descrever esse quadro.
um pouco sobre a deficiência auditiva, ou
como a grande maioria fala surdez, fazendo Infelizmente algumas crianças que
com que as crianças procurem diferentes apresentam deficiência auditiva não são
formas para se comunicar, sendo um assunto diagnosticadas rapidamente, o que causa
importante para quem trabalha com crianças com que sua comunicação com o mundo
com esse tipo de deficiência. seja precária, e algumas famílias acham
que é normal as crianças não esboçarem
As professoras precisam refletir sobre muitos barulhos, nem tentem falar, e são
os processos de instrução e sobre as consideradas algumas vezes como deficientes
estratégias comunicativas que devem ser mentais.
mais adequadas às formas de aprender das
pessoas que possuem essa deficiência. Os objetivos desse trabalho é ampliar o
conhecimento sobre a deficiência auditiva, e
Muitos estudos foram feitos sobre esse alguns pontos que precisam ser trabalhados
assunto, ajudando a oferecer certo saberes dentro da escola, com crianças com algum
para serem compartilhados nem sempre grau de deficiência.
resolvem as controvérsias que acontecem
com o sistema de comunicação mais Mostrando ao professor, que mesmo
adequado para a educação das crianças com a criança com deficiência auditiva pode
deficiência auditiva e o tipo de escolarização aprender como as demais, só que é
que seria o mais correto nesses casos. necessário que se tomem várias providências
e devemos estudar, para poder atender da
O trabalho abordará várias diferenças melhor maneira, oferecendo à essas crianças
que existem entre os graus de surdez um apoio e um ensino de qualidade.
e alguns aspectos tecnicamente mais
médicos. Além de fazer uma pequena analise O objetivo geral é mostrar que as crianças
no desenvolvimento das crianças com com alguma deficiência auditiva podem ter
deficiência auditiva, especialmente do ponto um desenvolvimento como qualquer outra
de vista cognitivo, da sua comunicação e sua criança, se tomada várias providências logo
sociabilidade. que diagnosticado alguma perda auditiva.

O intuito maior desse trabalho é Como professor que somos precisamos


apresentar várias propostas e orientações saber do que se trata e a melhor maneira de
sobre a educação de crianças com algum atender e ajudar no seu desenvolvimento.
tipo de deficiência auditiva, e as diferentes

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Revista Educar FCE - Março 2019

A SURDEZ situações adversas podem ocasionar a perda


de audição em qualquer idade da vida.
A surdez é uma perda auditiva e pode
ocorrer no período pré-natal e também O diagnóstico da surdez pode acontecer
durante ou após o nascimento da criança. logo nos primeiros dias de vida da criança,
Podendo ocorrer durante a gestação e não por meio do teste da orelhinha, exame esse
é possível identificar se a criança nascerá que pode apontar suspeitas, que devem ser
com alguma deficiência auditiva por meio verificadas novamente, confirmando ou não,
de exames, somente após o nascimento. A até mais ou menos quatro meses de idade,
perda auditiva pode ocorrer por algum fator por meio da realização de outros exames e
hereditário, que pode manifestar ou não, testes.
numa família pode haver ou não casos de
crianças com deficiência auditiva, podendo Muitos são os casos que a surdez é
se manifestar ao longo de gerações, não é diagnosticada quando a criança tem por
previamente definido. volta de um a dois anos, quando deveria
estar falando e não consegue, no qual a
Em alguns casos pode acontecer por família inicia uma corrida a fim de entender,
causas de doenças que ocorreram durante a aceitar e procurar alternativas educacionais
gestação da mãe, como: rubéola, meningite, e de saúde adequadas, depois que passa o
toxoplasmose, citomegalovírus, sarampo, susto.
sífilis e herpes. Alguns casos no qual a criança
nasce prematuramente ou quando o bebê Em diversos casos as crianças surdas
passa do tempo de nascer pode acarretar chegam à escola por volta dos cinco ou seis
numa perda auditiva. anos de idade, com um atraso significativo em
relação à aquisição de uma língua, o ideal seria
Não podemos deixar de falar de alguns que a criança surda tenha acompanhamento
fatores de risco, quando a gravida faz uso educacional bem mais cedo que as crianças
de algum entorpecente, drogas, ou alguns sem problemas auditivos, considerando-se
medicamentos, alcoolismo, radiação, etc. que a falta de acesso a uma língua a impede
Durante o nascimento, fatores como de se comunicar, de viver e perceber o mundo
as infecções hospitalares, ou a falta de plenamente.
oxigenação no cérebro, podem acabar numa
perda auditiva da criança. O quanto antes for diagnosticado que a
criança possui alguma deficiência auditiva
O uso de alguns medicamentos tóxicos, será melhor para ela, que pode ser exposta
infecções, e doenças como a meningite, o a algum tratamento, ou caso seja irreversível
sarampo e a caxumba infantil, exposição que ela aprenda o quanto antes o uso da
excessiva a ruídos, traumas diversos e outras língua de sinais, trazendo efeitos benéficos

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Revista Educar FCE - Março 2019

para a criança surda, caso contrário, haverá Quando esse problema acontece no
um enorme risco dela se tornar atrasada no aparelho médio, costuma ser por causa de
seu desenvolvimento global. algum traumatismo, no qual houve uma
perfuração do tímpano ou alguma alteração
As crianças com deficiência auditiva grave na parte dos ossinhos, podendo ser
e não conseguirem se comunicar oralmente, decorrência de uma má formação genética.
quando nascem em uma família ouvinte, que Os médicos observam em que local é
desconhecem a LIBRAS (Linguagem Brasileira a alteração para diagnosticar se houve
de Sinais), acabam não ouvindo as conversas, ou não algum problema e com isso pode
as palavras carinhosas, várias atividades destacar três tipos diferentes: a condutiva
como ouvir uma história, canções de ninar, e ou de transmissão, a neurossensorial ou de
diversos momentos de prazer pela palavra de percepção e a mista.
um adulto da família. E com isso ocorre um
prejuízo na construção de conhecimentos A surdez condutiva ou de transmissão é
da cultura no qual esta inserida e da língua quando ocorre algum problema na região do
propriamente dita, disponível às crianças ouvido externo ou no médio, impedindo ou
que escutam, desde quando nascem. dificultando a transmissão das ondas sonoras
até o ouvido interno.
Quando ocorre a exposição em LIBRAS,
as crianças surdas podem usufruir de todas Esse tipo de surdez geralmente não é muito
essas atividades, diminuindo, ou melhor, grave e nem duradora, com um tratamento
anulando esse atraso, as crianças por serem médico ou quando necessário uma pequena
curiosas e atentas aprendem com muita cirurgia acaba resolvendo esse problema.
facilidade os sinais e conseguem se expressar
rapidamente com os adultos que fazem uso A surdez condutiva altera na quantidade
dessa linguagem. da audição, não na sua qualidade, o grau
de perda auditiva fica até 60 decibéis,
A deficiência auditiva pode ser qualquer e normalmente não são graves para o
alteração produzida ou no órgão em si ou desenvolvimento da linguagem oral.
na via auditiva. O nosso aparelho auditivo é
dividido em: ouvido externo, ouvido médio e Nos casos de surdez neurossensorial ou
ouvido interno. de percepção a área na qual o problema
esta situado é no aparelho interno ou na
Esses problemas algumas vezes ocorrem via auditiva para o cérebro. É um problema
por uma otite, malformações ou falta do de origem genética, geralmente produzida
pavilhão auditivo. por intoxicação (uso de medicamentos),
por alguma infecção (meningite é um dos
maiores causadores de problemas auditivos),

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Revista Educar FCE - Março 2019

ou por alterações vasculares e dos líquidos certa para ser implantado, para poder ajudar
linfáticos do ouvido interno. na formação da linguagem, entre outros
problemas.
Essa surdez afeta tanto a quantidade
como a qualidade da audição, fazendo com A implantação deve ser estudada caso a
que a pessoa escute menos, mas ouve caso, para que aconteça o melhor para essa
sons retorcidos, por causa aos possíveis pessoa que precisa.
resquícios auditivos de que a criança dispõe,
dependendo também da idade com que isso A surdez mista é quando a pessoa é
ocorreu, faz diferentes tipos de alterações, prejudicada tanto no ouvido interno ou na
ou seja, a frequência é diferente. via auditiva como no canal auditivo externo
ou médio. Sua origem pode ser por causa da
Costuma ser uma surdez permanente, pois surdez neurossensorial ou uma confluência
ainda não temos recursos para se tratar desse de causas próprias de cada tipo de surdez,
problema, nem mesmo com uma intervenção alguns casos uma alteração condutiva pode
cirúrgica para restabelecer a zona prejudicada acabar se estendendo ao ouvido interno e
e recuperar se quer parte da perda da provocando a surdez mista, várias alterações
audição; mas vem se desenvolvendo uma ósseas que podem afetar o componente
nova técnica, um implante coclear, que abre ósseo do ouvido de forma progressiva, à
uma grande possibilidade para as pessoas principio se manifesta em uma afecção
que apresentam esse problema. do ouvido médio podendo fazer com que
ocorra uma perda auditiva significativa ou
Esse implante consiste na introdução, até completa.
isso no ouvido interno, por meio de uma
operação, de um dispositivo eletrônico que O fator de variação do nível de surdez
transforma os sons externos em estimulação tem uma grande variabilidade, que muda
elétrica, fazendo com que as aferências conforme a idade da perda, a reação
sobre o nervo coclear, fazendo com que a emocional dos pais e parentes, com os
pessoa surda receba uma sensação auditiva transtornos que podem ocorrer junto, com o
e, reeducando de forma seu ouvido, para desenvolvimento da criança.
conseguir discriminar a linguagem e os sons.
Dois grandes fatores são as causas mais
Sabemos que uma intervenção cirúrgica, comuns que podem ser o motivo da surdez,
assim tão drástica tem seus prós e seus uma é a base hereditária e as adquiridas,
contras, e esse aparelho não estabelece a mas cerca de um terço das pessoas com
audição, significando que é necessário um deficiência auditiva não tem um diagnóstico
prolongado processo de reabilitação, e tem exato, sendo de origem desconhecida.
uma duração limitada , e tem uma idade

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Revista Educar FCE - Março 2019

Não é fácil determinar a causa da surdez, alguns sons e outros não. Entender toda essa
cerca de 30 a 50% é por causas hereditárias, complexidade inerente às perdas auditivas
sendo a principal razão, de origem genética é importante para perceber que diferentes
tem caráter recessivo. Em muitos casos a pessoas com perdas auditivas leves podem
perda da audição das crianças com pais escutar, ou não, sons diferentes.
ouvintes é genética, levando em conta que
apenas 10% das pessoas surdas têm pais O que merece muita atenção é o fato de que
também surdos. tanto a perda leve quanto a moderada pode
trazer algum prejuízo para a compreensão da
A surdez adquirida na maioria dos casos fala, visto que ambas concentram-se na faixa
esteja associada a outras lesões ou outros de percepção desse tipo de som.
problemas, sendo neonatal, várias infecções,
incompatibilidade de Rh ou rubéola, O grau pode ser avaliado por sua
podendo explicar vários casos em que as intensidade em cada um dos ouvidos em
crianças possuem surdez profunda, com função de diversas frequências, sendo
causa hereditária, com níveis intelectuais medidas em decibéis (dB).
mais elevados que os surdos com outro tipo
de etiologia. O grau de perda é classificada em quatro
níveis: leve, médio, sério e profundo.

OS GRAUS DA SURDEZ A frequência mostra à velocidade de


vibração de ondas sonoras, de grave a
Embora as pessoas entendam que agudas e é medida em Hertz (Hz), e são mais
existem graus distintos de perda auditiva, importantes para o entendimento da fala
um senso comum ainda possui a ideia de situam-se nas faixas médias.
que um indivíduo com uma perda auditiva
profunda, não é capaz de ouvir nada, e as Dentro da escola, costuma-se classificar
com perda leve, moderada ou severa ouvem de uma forma mais ampla, de acordo com
um pouco. Algumas pessoas consideram as necessidades educativas dos alunos:
surdas aquelas que não ouvem nada, e com hipoacústicas têm dificuldades na audição,
deficiência auditiva aquelas com algum tipo mas seu grau de perda não as impede de
de perda, o que no caso é um engano, pois adquirir a linguagem oral por meio da audição,
todas possuem uma deficiência auditiva, não mas precisarão da ajuda de prótese auditiva,
dependendo do grau, todas possuem algum pois ocorrem dificuldades na articulação
grau de deficiência auditiva. e na estruturação da linguagem e, por isso
se faz necessário algum tipo de intervenção
Quando a perda auditiva é leve, é possível logopédica.
observar que a criança consegue ouvir

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Revista Educar FCE - Março 2019

Quanto aos surdos profundos suas perdas A IDADE E SURDEZ


dificultam muito a aquisição da linguagem
oral por conta da audição, inclusive com A idade pela qual a criança tem perda
ajuda de amplificação, convertendo a visão auditiva tem uma grande repercussão em seu
como a principal forma de se comunicar. desenvolvimento posterior. Essa diferença é
divida em três tempos: congênita, quando
Em muitos casos o AASI (Aparelho de nasce, antes dos três anos de idade e depois
Amplificação Sonora Individual) ajuda a dos três anos de idade.
ouvir melhor, entretanto isso depende
muito do grau e do tipo de perda auditiva, Quando a criança sofre de uma perda
além da época da vida em que ocorreu a auditiva antes dos três anos de idade esse tipo
perda, significando que a pessoa com perda de surdez é denominada surdez pré-locutiva,
auditiva pré-linguística, ou melhor, antes pois acontece antes que a criança aprende a
da aquisição de uma língua oral, pode ter falar de forma clara e completa. Após os três
um aproveitamento bem diferente daquele anos de idade a surdez é denominada como
apresentado quando a pessoa surda pós- pós-locutiva, sendo após a aquisição da fala.
linguística, a que já teve a experiência
auditiva significativa, no que diz respeito Muito já foi estudado sobre quando
à construção de pensamento mediada por aconteceu a surdez, a forma e a intensidade
uma língua oraluaditiva. que ela apresenta em decorrência de uma ou
outra causa, e podemos perceber que a idade
Em alguns casos os aparelhos auditivos e o motivo diferem e muito no grau e nos
servirão apenas para pessoas com surdez problemas posteriores que podem acontecer
profunda perceberem ruídos e não para no desenvolvimento dessas crianças,
distinguirem os sons da língua de maneira especialmente se não é diagnosticado cedo.
fluida. Essas próteses em alguns casos de
surdez profunda podem se usados desde Estudos comprovaram que o nível de fala
pequenos, estimular as crianças a fazerem depende e muito do tempo em que foi a perda
uma escuta auditiva e o discernimento dos auditiva, pois com a pequena diferença no
sons vocálicos ou consonantais da língua, tempo em que a criança foi exposta à linguagem,
identificados somente pelos indivíduos que faz com que isso tenha pouca influência no
têm surdez moderada ou leve, mesmo assim, seu desenvolvimento com a linguagem, pois a
de forma gradativa de reabilitação auditiva competência da criança até três anos é muito
que vai desde a detecção, discriminação e pouca e não há uma organização da função
reconhecimento dos sons até a compreensão neurológica, as crianças que perdem a audição
da linguagem. depois dos três anos têm certa dominância
cerebral mais consolidada e conseguem manter
sua linguagem interna.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Quando atendemos crianças com dos pais diante desse fato, podendo ser o
problemas auditivos, precisamos levar mais e improvável, há pais que tentam negar a
em conta todos esses dados e estudos. existência de uma deficiência, tratando o filho
As crianças surdas pré-locutivas precisam como se fosse uma criança ouvinte, outros
aprender uma linguagem totalmente nova, desenvolvem atitudes de superproteção,
que nunca tiveram contato, pois não possuem colocando a criança dentro de um globo de
experiência com o som. Nas crianças que vidro, já os pais que tratam com uma forma
perderam a audição entre o segundo e o mais positiva, aceitam as consequências da
terceiro ano de idade conseguem chegar a surdez, criando um ambiente descontraído
um maior nível de competência linguística, de comunicação e se dispõem a aprender
mas sua estrutura ainda é frágil, mas o e a utilizar com seu filho uma comunicação
objetivo continua sendo a aquisição de um mais enriquecedora, fazendo com que a
sistema linguístico organizado quando a criança consiga desenvolver uma forma de
criança perde a audição. Quando a criança linguagem para se comunicar com as pessoas
perde a audição depois dos três anos, do seu circulo familiar e de amigos.
quando consideramos que ela consiga falar,
o objetivo é manter a linguagem já adquirida, Outro fator que diferencia e muito quando
enriquecê-la e complementá-la. a criança é surda e seus pais também são
surdos, pois aceitam com mais facilidade
a surdez da criança, compreendendo
ALGUNS FATORES melhor sua situação e oferecendo desde
QUE INTERFEREM NO cedo a criança um sistema adequado de
comunicação, a linguagem de sinais, que ela
DESENVOLVIMENTO adquirirá com maior facilidade.

Várias diferenças que as crianças com Os pais ouvintes, que são a maioria no
deficiência auditiva podem apresentar caso de crianças surdas, embora tenham
não dependem somente dos aspectos uma competência maior na linguagem
médicos, associados ao tipo, ou o grau e oral, demonstram maior dificuldade para
nem à época em que a surdez apareceu. encontrar um modelo de comunicação
Existem outros problemas capazes de adequada e o maior problema é que não
modificar substancialmente o curso do conseguem se colocar no lugar de seu filho,
desenvolvimento da criança. não compreendendo direito as experiências
vividas pela criança surda.
Muito depende da atitude os pais frente
da surdez de seu filho, influenciando A melhor forma de se garantir um
consideravelmente o seu desenvolvimento. desenvolvimento satisfatório é quando
É claro que ninguém pode prever a atitude a criança tem a possibilidade de receber

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Revista Educar FCE - Março 2019

a atenção adequada quando se detecta a surdez logo. A criança precisa de uma atenção
educativa que inclua a estimulação sensorial, com atividades comunicativas e expressivas, a
utilização da linguagem de sinais se a criança tiver uma surdez profunda, o desenvolvimento
simbólico, o envolvimento dos pais e a utilização dos resquícios auditivos da criança
favorecendo a superação das suas limitações decorrentes da surdez.

Uma educação adequada é a melhor maneira para um bom desenvolvimento nas crianças
surdas, quando é adaptada às suas possibilidades, com o uso de meios comunicativos de
que a criança necessita, facilitará e muito a sua aprendizagem, claro que esses objetivos são
mais difíceis de alcançar quando a criança com a deficiência precisa se acomodar a modelos
educativos que foram estabelecidos pensando apenas em crianças ouvintes.

O interesse da família em estabelecer, aprendendo a se comunicar com uma criança com


deficiência auditiva, faz com que a criança desde pequena tenha contato com a língua de
sinais, o que faz com que ela não tenham nenhuma perda no sentido da linguagem, pois
aprenderá a se comunicar, aprenderá tudo que uma criança ouvinte aprende, fazendo com
que se desenvolva de forma plena e saudável, não sofrendo tanto quanto uma criança que
fica excluída, já desde pequena em casa.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos perceber que quanto antes as crianças são
diagnosticadas com alguma deficiência auditiva, mas fácil
será a sua comunicação, pois percebido o problema o
quanto antes começar a ensinar a ela a língua de sinais, mais
fácil será a sua comunicação e não perdera nada no seu
desenvolvimento, pois crianças deixadas de lado por não se
comunicarem, vão perdendo o interesse na comunicação e
muitas vezes não se desenvolvem adequadamente.

Quando buscamos conhecer e estudar sobre deficiência ANA PAULA VENEGAS


auditiva, não importando o grau da perda, pois todos são
Graduação em Pedagogia pela
considerados deficientes auditivos, mas surdo é o indivíduo Faculdade Oswaldo Cruz, (2000).
que apresenta um grau profundo de perda auditiva, ou que Especialista em Psicomotricidade,
não escute nada mesmo. pela Faculdade São Marcos,
(2009). Especialista em Arte
Educação pelo Instituto Nacional
É necessário ter consciência que mesmo tendo perda de Educação, (2018). Especialista
auditiva nem todas as crianças apresentam problemas no em Neuropsicopedagogia pela
Faculdade Campos Elíseos (2019).
seu desenvolvimento cognitivo, mas é necessário que se Professora de Educação Infantil,
trabalhe com ela fazendo com que a perda no processo de designada na Diretoria de Ensino.
comunicação não se transforme em problemas maiores,
podendo fazer com que essas crianças alcancem as demais,
e mostrem que são iguais que as outras.

Não podemos considerar que as crianças com deficiência auditiva seja tratada como um
incapaz, pois não é.

Podemos perceber também que quando a criança é tratada por pais que apresentam o
mesmo problema que ela, eles são capazes de mostrar os sinais desde bem cedo, fazendo
com que a criança consiga se comunicar de forma clara, desde pequena, por isso é bom
destacar a importância em se diagnosticar com rapidez o problema auditivo.

Como professores, precisamos conhecer e estudar um pouco sobre a linguagem de sinais


e os cuidados que precisamos tomar quando trabalhamos com algum aluno com deficiência
auditiva, a principal atitude é sempre estar falando frente a frente com seus alunos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Crianças com algum tipo de deficiência auditiva não passam por várias experiências que
as demais crianças passam, mas conseguem se adequar e acompanhar facilmente uma sala
de aula dita normal, claro que várias atividades serão complicadas, mas tudo se olhando
do ponto de vista de uma pessoa com deficiência auditiva, depois acaba se tornando uma
prática inventar atividades que possam incluir a todos, sempre pensando em todos.

Dentro das escolas, podemos ter alguns alunos que possuem alguma forma de deficiência
auditiva e podem não terem sidos diagnosticados, e precisamos ter um pouco de tato,
observar e fazer alguns testes, especialmente com aqueles alunos que são desatentos, os
que quase não falam com mais de três anos de idade e até mesmo aqueles que falam alto
demais, mesmo estando do lado da pessoa com quem quer se comunicar.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais-
Libras e art.18 da Lei 10.098 de 19 de dezembro de 2000.

decreto nº 5626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei nº 10.436 de 24 de abril


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VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes,


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311
Revista Educar FCE - Março 2019

AS TEORIAS DO CURRÍCULO E
SUA RELAÇÃO COM AS PRÁTICAS
PEDAGÓGICAS NOS DIAS ATUAIS
RESUMO: Este artigo tem por objetivo apresentar através de pesquisa bibliográfica, demonstrar
mediante um panorama, as diferentes teorias do currículo e sua aplicabilidade nas escolas
promovendo uma análise das diferentes teorias curriculares e o cotidiano da sala de aula;
abordando o processo histórico destas teorias e a constituição do currículo oculto frente ao
currículo formal no processo de ensino – aprendizagem e nas relações professor – aluno. As
reorganizações curriculares afetam diretamente as práticas docentes, seja na didática como
no processo de avaliação do desenvolvimento da aprendizagem dos alunos. As pedagogias
participativas apresentam propostas que buscam promover consideráveis reflexões sobre as
práticas na sala de aula e na qualificação dos registros do processo educativo dos alunos.

Palavras-Chave: Currículo; Aprendizagem; Relação Professor- Aluno; Didática

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO implícita para aprendizagens sociais


relevantes (...) o que se aprende no currículo
Ao discutir sobre currículo e sua oculto são fundamentalmente atitudes,
reorganização nos sistemas de ensino é comportamentos, valores e orientações....’’,
preciso compreender a importância e a (SILVA, 1999).
teoria dos currículos e sua história. Diversos
autores definem currículo, sua terminologia O currículo tem seu papel no ambiente
e sua aplicabilidade dentro e fora da sala de escolar e no fazer pedagógico, porque
aula. cotidianamente os alunos trazem suas
vivências, experiências para a sala de aula em
Segundo Silva (2002) o currículo surgiu diversos momentos, por isso, a importância
incialmente nos Estados Unidos no início do da contextualização das aprendizagens.
século XX, com o objetivo de propiciar uma
melhor racionalização do trabalho escolar. A teoria curricular pós – crítica emergiu
nas décadas de 70 e 80 criticando as
O currículo escolar tem seus enfoques outras teorias, tendo como foco o sujeito
porque tem em vista o conjunto de enfatizando as competências e habilidades e
práticas vivenciadas na instituição escolar, não somente os conteúdos de forma linear,
considerando as formas do currículo (formal, valorizando o multiculturalismo.
real e oculto), tendo como base o que, e
em que tempo os conteúdos devem ser ‘’Cada modelo de ser humano, corresponderá a
um tipo de currículo’’, portanto, ‘’o currículo é
ensinados. Há diferentes teorias curriculares,
uma questão de identidade’’ (SILVA, 2010).
como a teoria curricular tradicional citada
abaixo:
É importante ter clareza das questões de
‘’O currículo aparece, assim como o conjunto identidade, de diversidade, de aceitação de si
de objetivos de aprendizagem selecionados
que devem dar lugar à criação de experiências e do outro, para que estabeleça – se relações
apropriadas que tenham efeitos cumulativos pautadas no respeito e principalmente no
avaliáveis, de modo que se possa manter o diálogo, considerar o que os alunos sabem e
sistema numa revisão constante, para que
nele se operem as oportunas recomendações’’. vivenciam no processo de aprendizagem.
(SACRISTAN, 2000, p.46).
As teorias Curriculares abordam os
registros do processo educativo e sua
As teorias curriculares críticas definem importância de forma que tenha qualidade e
que o ‘’currículo oculto é constituído sejam importantes fontes de dados sobre o
por todos aqueles aspectos do ambiente desenvolvimento do aluno ao longo de seu
escolar que, sem fazer parte do currículo percurso no processo educativo.
oficial, explícito, contribuem de forma

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O CURRÍCULO E O concepção de que era preciso decidir sobre


REFLEXO NAS PRÁTICAS o que ensinar ganha força e, assim nas
diferentes teorias, em comum encontrava-
PEDAGÓGICAS ATRAVÉS se uma definição do currículo como plano
DAS REORGANIZAÇÕES formal das atividades /experiências de
CURRICULARES ensino e aprendizagem.

Toda reorganização curricular reflete O currículo é uma questão de identidade,


nas práticas pedagógicas, ou seja, no fazer implica em relações de poder. Os autores
pedagógico dos docentes diretamente com diferem quanto ao significado e a teoria
seus alunos cotidianamente. As políticas curricular, sendo a teoria curricular o reflexo
de descontinuidade comum em nosso país da prática na escola. Teorias curriculares são
das diferentes gestões influenciam neste concepções diferentes sobre a aplicabilidade
processo e por vezes, muitos trabalhos são do currículo em sua essência ao longo da
interrompidos, programas são alterados história é a definição do que ser ensinado,
ou cessados, há sempre a interrupção e o portanto, tem vários sentidos e concepções.
recomeço.
‘’ Na realidade não temo suma definição única
‘’ As reformas curriculares que a educação tem de currículo, cada teórico tem o seu próprio
sofrido, especialmente nos últimos anos, têm conceito ou definição, de modo que TABA
gerado mais problemas que soluções. Não é (1974), MACEDO (2002), SAVIANI (2003), SILVA
bem isto o que educadores e pais esperam. (1999), e tantos outros teóricos, apesar de todos
Ao contrário uma reformulação do currículo terem seus pontos de vista diferentes na maneira
é vista pela maioria como possibilidade de de conceituar o referido termo, por unanimidade
reorganização das práticas escolares, de modo convergem em identificar o currículo como
que os problemas sejam superados e novas produto da seleção natural, onde estão
perspectivas se apresentem para alunos, incluídos avaliação, organização, distribuição
educadores e pais.’’ (MATE,2001). e conteúdos programáticos, compreendendo
não apenas um conjunto de conhecimentos
acadêmicos ou científicos e saberes organizados
estruturalmente através de uma grade ou
Atualmente muito se pensa em desenho curricular, acontecendo aí, também à
reorganização curricular na rede pública ligação dos saberes e conhecimentos científicos
de ensino, porém, é preciso ter claro que com o processo didático-pedagógico’’. (AGUIAR,
2017).
o currículo é identidade e que cada escola
está inserida em um contexto diferente, ou
seja, diferentes identidades e sujeitos de A aplicação do currículo na prática é na
aprendizagem em diferentes contextos. sala de aula (aplicação do currículo formal),
conteúdo programático, as disciplinas, e se
Primeiramente é preciso compreender entrelaça com outras práticas que não estão
o significado do currículo e seu sentido na inseridas no currículo formal, o que são
sala de aula. Segundo Lopes e Macedo, a chamados de currículo oculto que engloba

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Revista Educar FCE - Março 2019

os valores e os temas transversais, ou seja, acompanham o aluno no início do Ensino


as práticas curriculares são influenciadas Fundamental, onde de fato o aluno entra nos
pela sociedade, política, economia, cultura, processos avaliativos.
tecnologia, a escola é o reflexo da sociedade,
até mesmo do que ocorre no seio familiar ‘’Essas idéias percebidas nas orientações legais
que dispomos atualmente são muito próximas
das famílias. das concepções que encontramos das diferentes
propostas curriculares das pedagogias
‘’(...) o currículo faz parte, na realidade, de participativas, produzem segundo Oliveira-
múltiplos tipos de práticas que não podem Formosinho (2007, p.15), uma ruptura com
reduzir-se unicamente às práticas pedagógicas uma pedagogia tradicional transmissiva para
de ensino; ações que são de ordem política, promover outra visão de ensino aprendizagem e
administrativa, de supervisão, de produção dos ofícios de aluno e professor. A centralidade
de meios, de criação intelectual, de avaliação, das famílias participativas está na participação
etc. e que, enquanto são subsistemas em dos atores na construção do conhecimento,
parte autônomos e interdependentes, geram refutando assim a idéia presente nas pedagogias
forças que incidem na ação pedagógica’’. transmissivas de conhecimento a ser transferido’’.
(SACRISTAN,1998). (PINAZZA, 2018).

Os registros pedagógicos são importantes


fontes de dados para a construção do AS TEORIAS CURRICULARES
processo de ensino – aprendizagem,são
registros que não somente qualificam o As teorias curriculares são representações
processo de aprendizagem mas também quanto à aplicabilidade do currículo na prática
a forma da didática desenvolvida e das conforme citado anteriormente, segundo
propostas dos professores de acordo com silva (1999): ‘’ teoria é uma representação,
as Diretrizes Curriculares. Na educação uma imagem, um reflexo, um signo de
infantil os registros são fontes muito ricas uma realidade que – cronologicamente,
porque através dele é possível observar ontologicamente –a precede’’.
o seu desenvolvimento deste bebês nos
Centros de Educação Infantil, onde, no Iniciandocomasteoriastradicionais,abordando
município permanecem até os três anos de a partir de agora as concepções de alguns autores
idade, após, são transferidos para as EMEIS sobre currículo. A teoria tradicional é focada na
– Escolas Municipais de Educação Infantil organização, formação como um processo de
onde permanecem até os cinco anos e onze linha de produção, reprodutivo, repetitivo. Para
meses, e após, dão início em sua jornada no Bobbit o currículo era uma mecânica em que a
Ensino Fundamental. Os registros realizados escola funcionasse como uma linha de produção
no CEI são de extrema importância, são de uma indústria (fabril, por exemplo), baseado
relatórios que contém informações sobre no modelo de administração de Taylor, onde os
aquele aluno desde bebê. As EMEIs recebem resultados eram vistos de forma racionalizada, e
estes relatórios e após, ambos os relatórios com rigorosidade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

não é desenvolver técnicas de como fazer


John Dewey liderou uma vertente currículo, mas desenvolver conceitos que nos
progressista que ia de embate à Bobbit permitam compreender o que o currículo faz’’.
gerando um contraste, para Dewey as (SILVA, 2010).

experiências, os saberes dos alunos deveriam


ser considerados nos planejamentos, bem Na década de 60 teve início uma mudança
como seus interesses. Se preocupava com neste panorama, de forma que as teorias
a construção da democracia e não apenas críticas do currículo passaram a propor
com questões de economia e mercado discussões importantes sobre a formação e
de trabalho. Nos Estados Unidos a visão o papel do professor, sendo teorias críticas
curricular de Bobbitt permaneceu até a propondo transformações.
década de 80.
No Brasil o educador Paulo Freire teve um
‘’O modelo progressista, sobretudo aquele importante papel na luta contra a educação
centrado na criança, atacava o currículo clássico
por seu distanciamento dos interesses e das tradicional, reprodutora, tecnicista,
experiências das crianças e dos jovens. Por estar denominada por ele de ‘’educação bancária’’,
centrado nas matérias clássicas, o currículo onde os alunos eram vistos como recipientes
humanista simplesmente desconsidera a
vazios á serem preenchidos, propondo
psicologia infantil’’. (SILVA,2010.)
uma ‘’educação problematizadora’’ como
alternativa a concepção bancária, sendo
Nesta concepção o foco era a técnica, a o fazer pedagógico um ato de diálogo,
reprodução, os conhecimentos prévios e os considerando o contexto em que o educando
anseios dos alunos não era considerados, o estava inserido, sua realidade e a possibilidade
foco da formação eram as atividades laborais de intervenção nesta realidade, ao contrário
preparando somente para a vida profissional, da educação bancária em que o educando
cultura da reprodução, tecnicismo, a é passivo, na educação problematizadora o
formação para o trabalho reprodutivo. A educando faz parte do processo enquanto
partir da década de 70 passou-se a contestar sujeito ativo participativo, capaz de intervir
este modelo tradicional técnico. Segundo em seu contexto.
Silva: as teorias críticas do currículo efetuam
uma completa inversão nos fundamentos A crítica à teoria tradicional faz – se em
tradicionais. virtude como já citado acima, da reprodução
baseada na cultura dominante gerando
uma dupla violência: a dominação cultural
‘’As teorias críticas desconfiam do status-quo, (exclusão social) gerando uma dupla violência
responsabilizando-os pelas desigualdades e
injustiças sociais. As teorias tradicionais eram a alienação, e a imposição de crenças e
teorias de aceitação, ajuste e adaptação. As valores.
teorias críticas são teorias de desconfiança,
questionamento e transformação radical. Para ‘’o resultado é que as crianças e jovens das
as teorias críticas de como fazer o importante classes dominantes são bem sucedidas na escola,

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o que lhes permite o acesso dos graus superiores do sistema educacional. As crianças e jovens das classes
dominadas, em troca só podem encarar o fracasso, ficando pelo caminho’’. (SILVA, 2010).

As teorias críticas surgiram para transformar e romper com as teorias tradicionais


questionando o papel da escola no processo cultural e social. A escola atua ideologicamente
através do currículo, é fundamental que haja criticidade, e uma resignificação do processo
educativo. São três os conceitos centrais de uma educação libertadora: transformação,
direito a voz, esfera pública.

As teorias se direcionam para as Teorias Pós – Críticas, que trazem as relações entre o
currículo e o multiculturalismo, sendo um movimento de reivindicações das minorias, dos
excluídos, sendo um movimento legítimo de luta por igualdade de direitos, e por políticas
públicas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo deste artigo foi de explicitar a concepção de
currículo e sua prática nas escolas, de modo a favorecer a
compreensão do currículo pelos diferentes autores, bem
como as teorias curriculares e suas influências principalmente
para as classes menos favorecidas da sociedade.

As teorias tradicionais são focadas na técnica, na


reprodução, no mecanicismo, nesta teoria a escola é como
uma linha de produção/ reprodução; as teorias críticas e
pós- críticas surgiram para confrontar esta teoria curricular,
passando a considerar os conhecimentos prévios dos
alunos e seus interesses, é uma luta romper o paradigma
de reprodução das desigualdades, na qual a escola e o
currículo devem ser meios para estudantes e professores
exercerem suas habilidades, sua autonomia, sua criticidade
nos diferentes contextos da vida social, onde todos são ANA ROSA DINIZ
sujeitos ativos e envolvidos no ato de conhecer. JUNQUEIRA

Graduação em Pedagogia pela


Atualmente estamos vivendo um conturbado momento Faculdade Oswaldo Cruz, (2000).
político, econômico e social que refletem diretamente na Especialista em Psicomotricidade,
sala de aula através dos comportamentos dos nossos alunos pela Faculdade São Marcos,
(2009). Especialista em Arte
e, surgem muitas propostas de reorganização curricular, Educação pelo Instituto Nacional
porém, é preciso um olhar crítico, visto que, são inúmeros de Educação, (2018). Especialista
os desafios enfrentados pelos docentes e pelo atual sistema em Neuropsicopedagogia pela
Faculdade Campos Elíseos (2019).
educacional brasileiro, um dos grandes entraves é o choque de Professora de Educação Infantil,
gerações, por vezes, encontramos professores que insistem designada na Diretoria de Ensino.
em ministrar aulas como em décadas atrás, e o aluno de
hoje apresenta outro perfil, que reflete os comportamentos
atuais, mais que uma reorganização curricular (em termos
de conteúdos programáticos) é preciso formação docente
continuada, melhorias nas condições de trabalho e salários
dignos, colocando em prática um currículo flexível no qual
o aluno é um protagonista, sujeito ativo e participativo no
seu processo de ensino e aprendizagem, que seja capaz de
intervir na sua realidade social.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
AGUIAR, Francisco de Paula Melo. Revista científica multidisciplinar núcleo de conhecimento.
Ano 2, vol.1, p.508-526, abril de 2017. ISSN-2448-0959.

FREIRE, PAULO. O sentido da aprendizagem. In: Paixão de aprender. Petrópolis, RJ: Vozes,
1992.

MATE, Cecília Hanna. O coordenador pedagógico e o espaço da mudança. As reformas


curriculares na escola. Prof.ª. Drª. da faculdade de educação da USP, SP: Loyola, 2001.

SACRISTAN, J. Gimeno e GÓMEZ, A.I, PEREZ. O currículo: os conteúdos do ensino ou uma


análise prática? Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 1998: 119-148.

SEVERINO. Antônio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 23ª edição Revista e


Ampliada. São Paulo. Cortez, 2007.

SILVA, Tomás Tadeu. Documentos da identidade: uma introdução às teorias do currículo.


Belo Horizonte: autêntica, 2007.

PINAZZA, Mônica Apezzato; FOCH,Paulo Sergio. Documentação Pedagógica: observar,


registrar e (re) criar significados. Revista Linhas. Florianópolis, v.19. n.40, p. 184-19, maio\
agosto . 2018.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DO LÚDICO NA
PSICOPEDAGOGIA
RESUMO: Neste artigo correlacionarei o lúdico como ferramenta psicopedagógica. A
palavra lúdico pode ser definida de várias formas, do ponto de vista educacional, segundo
ANTUNES,2003,p.17.”.. essencialmente visam estimular o crescimento e aprendizagem”. O
jogo é uma atividade que pode ser expressiva ou geradora de habilidades cognitivas gerais e
específicas PIAGET (2005) relaciona o jogo com a aprendizagem e o define também com um
comportamento que distorce a realidade para servir de papel expressivo no desenvolvimento
de certas habilidades cognitivas, mas não gerador da constituição do pensamento na criança.
Atraves dos jogos a criança pode reviver suas alegrias, seus medos, seus conflitos, resolvendo-
as a sua maneira e transformam sua realidade naquilo que desejam, internalizando regras de
conduta e valores que orientarão seu comportamento, com uma proposta criativa e recreativa
de caráter físico, mental e social A criança que brinca esta desenvolvendo sua linguagem oral,
seu pensamento associativo, suas habilidades auditivas e sociais, construindo conceitos de
relações de conservação, classificação, seriação, aptidões visu-espaciais e muitas outras.
(ANTUNES, 2003, P.19). Ela desenvolve, ainda, sua imaginação, atenção, imitação e memória,
além de amadurecer algumas competências para a vida coletiva, por meio da interação e da
utilização de regras e papéis sociais Ao brincar, a criança explora tudo o que pode naquele que
lhe é oferecido, questionando ou entrevistando e buscando o que está vivenciando, explorando
ao máximo, desenvolvendo-se psicologicamente e socialmente. Trabalha sua comunicação,
envolvendo-se com o mundo exterior tendo liberdade de se expressar, se envolver em
diferentes situações de que ela resolva. O trabalho psicopedagogico deve ser estabelecido em
função das necessidades da criança. Veremos a seguir a importância da utilização do ludico no
atendimento psicopedagogico,conhecendo e identificando a influencia do mesmo.

Palavras-Chave: Psicopedagogia; Lúdico; Aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO vicio e ao azar.


Entretanto Wajskop (1990,p.62-69)
Segundo Wajskop (1995,p.62-69) nas afirma que essa atitude de reprovação
sociedades ocidentais atuais, sempre que total modificou-se ao longo do seculo XVII,
se pensa na criança e nos seus cuidados e principalmente sob a influencia dos jesuitas.
educaçao, faz-se uma referencia ao brincar. A partir do seculo XVI, difundiam-se duas
Normalmente, a aceitação da brincadeira representaçoes infantis que estavam na base
como parte da infancia é consequencia da educação das crianças indias e mestiças no
de uma visão social de que brincar é uma Brasil; o mito da criança-santa e o da criança
atividade inata, inerente á natureza da que imita Jesus, cujas brincadeiras serviriam
criança. A autora afirma que a concepção de base para uma educação disciplinar e
de educaçao da criança que a vincula a uma integradora.
determinada forma de brincar tem origem
nas concepções romanticas de homem e Wajskop (1990,p.62-69) ressalta que
educação, tendo contribuido tambem a é apenas com a ruptura do pensamento
crescente distinção entre criança e adulto, romantico que a valorização da brincadeira,
como categorias sociais com direitos e da forma como a entendemos hoje, ganhou
deveres diversos que vem sendo construida espaço na educação das crianças pequenas.
pelos homens depois da Idade Media. Essa Sendo que hoje há uma tendencia das
diferenciação entre criança e adulto, em pre-escolas brasileiras a utilizar materiais
nossa sociedade, é equivalente aquela didaticos, brinquedos pedagogicos e
estabelecida entre brincar e trabalhar, pelo metodos ludicos de ensino e alfabetizaçao,
menos teoricamente. Na antiguidade, as cujos fins encontran-se no próprio material,
crianças participavam tanto quanto o adulto, dessa forma descontextualizando seu
das mesmas festas, dos mesmos ritos e uso dos processos cogntivos e historicos
mesmas brincadeiras. experimentados pelas crianças. Assim,
a maioria das escolas tem didatizado a
Segundo Ariés (1981,p.94) nessa época atividade ludica das crianças, restringindo-a
o trabalho não ocupava tanto tempo do a exercicios repetidos de discriminação
dia e nem tinha o mesmo valor existencial visomotora e auditiva, mediante o uso de
que lhe atribuimos nesse ultimo seculo. brinquedos, desenhos coloridos musicas
Gradativamente, esses jogos, brincadeiras ritmadas.
e divertimentos passam a sofrer uma
atitude moral contraditoria. Por um lado, Segundo Wajskop (1995,p.62-69) após a
eram admitidos seem reservas pela maioria introdução das teorias da privação cultural
das pessoas, por outro, eram proibidos e no pais, as atividades se apoiaram em
recriminados pelos moralistas e pela igreja, materiais ludicos e brinquedos, que por
que os associavam aos prazeres carnais, ao si só deveriam ser capazes de ensinar ás

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Revista Educar FCE - Março 2019

crianças os conteudos programaticos. Por Para Wajskop (1990,p.62-69) o brincar, numa


ser atividade controlada pelo professor, a perspectiva sociocultural, define-se por uma
brincadeira aparecia como um elemento maneira que as crianças tem para interpretar
sedutor oferecido á criança, que não podia ter e assimilar o mundo, os objetos, a cultura, as
a iniciativa de escolher o tema, nem mesmo relações e os afetos das pessoas. Por causa
o conteudo didatico seja transmitido. Utiliza- disso, transformou-se no espaço caracteristico
se o interesse da criança pela brincadeira da infancia para experimentar o mundo
para orientá-la para a escola. do adulto, sem sdentra-lo como participe
responsvel. Na brincadeira, as crianças podem
Brougére (1993,p.227) afirma que as pensar e experimentar,situaçoes novas ou
relaçoes encontradas entre brincadeira mesmo do seu cotidiano, isentas das pressoes
e educaçao no decorrer da historia situacionais.
contemporânea foram importantes para
transformar a imagem de frivolidade e No entanto, Wajskop (1990,p.70) ressalta
gratuidade que se tinha da atividade ludica. que é importante tambem pelo seu carater
A brincadeira precisou ser concebida como aleatorio,a brincadeira tembem pode ser o
uma vantagem evolutiva para manter-se espaço de reiteração de valores retrogrados,
enquanto atividade infantil, ela serve para conservadores, com os quais a maioria
alguma coisa, não pode ser futil. A biologia das crianças se confronta diariamente. A
fundou o valor educativo da brincadeira e contradição dessa atividade só pode ser
a psicologia, distanciando-se de sua origem encontrada e resolvida a partir de uma decisão
biologica, reconstroi essa concepçao. pedagogica e objetiva sobre os caminhos
que se quer ampliar para as crianças.
Brougére e Henriot (1993,p.126) propoe
uma analise socio- cultural do brincar a Segundo Vygotsky (1984,p.117) é na
partir de suas representaçoes nas diferentes brincadeira que a criança sempre se comporta
épocas. E afirmam que mais do que um alem do seu comportamento habitual de sua
comportamento a ser observado, a brincadeira idade , alem do seu comportamento diario, no
requer uma forma de pensamento para brinquedo é como se ela fosse maior do que
poder existir, e que a brincedeira aparece é na realidade, o brinquedo fornece estrutura
como portadora de um potencial educativo, basica para mudanças das necessidades e da
isto se deve, provavelmente, menos ás consciência, A ação na esfera imaginativa,
caracteristicas intrinsecas do indivíduo numa situaçao imaginaria, a criaçao das
em desenvolvimento e mais ás estrategias intenções voluntarias e a formaçao dos
estabelecidas pelas sociedades para fazzer planos de vida real e motivaçoes volitivas,
da criança um ser social. tudo aparece no brinquedo, que se constitui
no mais alto nivel de desenvolvimento pré-
escolar.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Wajskop (1990,p.70) caracteriza essas • As crianças decidem sobre o que, com


atividades da seguinte forma: quem, onde, com o que e durante quanto
tempo brincam. Decidem, no processo,
• Existe um enredo ou situação mudanças nos papeis, no uso dos objetos e
imaginaria a patir da qual as crianças nas açoes imaginaveis que se desenrolam.
brincam e se comunicam, atribuindo • As brincadeiras são desprovidas de
significados diversos ações e objetos. finalidades ou de objetivos explicitos.
Essa caracteristica pode ser identificada
por uma forma singular de utilizaçao da Partindo desse pressuposto, é possível
linguagem, atraves do condicional verbal constatar que uma das formas de trabalho
ou de sinasi e gestos coporais próprios a psicopedagogico é fazendo uso do ludico, que
brincadeira. seja no diagnostico, quer seja no tratamento.
• Ao brincar, as crianças podem atribuir
a si próprias outras caracteristicas,
fantasiando-se e representando papeis O LÚDICO COMO
como se fosse um adulto, outra criança, MOTIVAÇÃO NO
um boneco, um animal, etc. Podem,
tambem, manupular objetos ou bonecos
DESENVOLVIMENTO
para os quais são atribuidas caracteristicas INFANTIL
singulares.
• As crianças podem utilizar-se de Vygotsky produziu um campo tecnico no
objetos substitutos, ou seja, podem qual privilegia a linguagem e o significado no
atribuir aos objetos significados diferentes desejo de brincar. Quando uma criança evoca,
daqueles que normalmente possuem, atraves de uma palavra, um determinado
transforando-os em brinquedos. objto, esta explorando, atraves de signo, as
• As criançasimitam e representam as possíveis relações deste objeto com outros
interaçoes presentes na sociedade na qual objetos, coisas e pessoas e construindo o
vivem. conceito referente aquele objeto. No nivel
• Toda brincadeira possui regras que mental, estará expandindo o imaginario
são definidas e respeitadas por aqueles ao substituir elementos concretos por
que brincam. abstratos, colocando-os numa condição de
• È durante o processo de interação movimentação espacial e temporal e mais
e negociação entre aqueles que brincam amplos estará expandindo os elementos
que são atribuidos significados ás ações, fundamentais para a imaginação. Ao
aos objetos e aos personagens com os brincar, a criança explora e expande o real.
quais as crianças brincam. Isto quer dizer Consequentemente, amplia o imaginario e
que as brincadeiras se constroem durante desenvolve a inteligencia. A expansão dos
o processo de brincar. conceitos, atraves das generalizaçoes que a

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criança faz, propicia o movimento criativo e A teoria Froebeliana proporciona subsidios


contribui para a construção a inteligencia. para a compreensão da brincadeira como
ação livre da criança, e o uso dos dons, objetos
O brinquedo cria uma regiao de tensao como suporte de açao docente, permitindo a
criativa, a qual Vygotsky denominou de aquisiçao de habilidades e conhecimentos.
zona de desnvolvimento proximal: “região” Froebel concebe o brincar como atividade
de dominio psicologico em constante livre e espontanea, responsavel pelo
transformção, representada pela distancia desenvolvimento fisico moral, cognitivo,
entre o nivel de desenvolvimento real e o emocional, e os dons ou brinquedos, como
nivel de desenvolvimento potencial. No objetos que subsidiam atividades infantis.
brinquedo, a criança sempre age como se
ela fosse maior do que é na realidade, “
como no foco de uma lente de aumento, o USO DO LÚDICO
brinquedo contem todas as tendencias do NO DIAGNÓSTICO
desenvolvimento de forma condensada,
sendo, ele mesmo, uma grande fonte de PSICOPEDAGÓGICO
desenvolvimento”, (VYGOTSKY,1989,p.117).
No brincar, a criança constroi um espaço de
A introdução da brincadeira no contexto experimentação, de transição entre o mundo
infantil inicia-se, timidamente, com a criação interno e o externo. O processo lúdico é
dos jardins de infancia, fruto da expansao fundamental no trabalho psicopedagógico.
da proposta Froebeliana que influencia O uso de situações lúdicas é mais uma
a educação infantil de todos os países. A possibilidade de compreender o funcionamento
teoria Froebeliana considera o brincar não dos processos cognitivos, afetivos e sociais
apenas como atividade livre e espontanea em suas interferencias mutuas. A utilização
da criança, mas um suporte para o ensino, do ludodiagnóstico, já estruturado dentro de
permitindo a variação do brincar, ora como uma visão teorica na Psicopedagogia, auxilia
atividade livre, ora orientada. As concepções o terapeuta na construção de sua forma
froebelianas de educaçao, homem e própria de agir. O diagnostico de forma ludica
sociedade estão intimamente vinculadas ao facilita a comunicação, as intervenvenções e
brincar. Concepçoes de homem e sociedade pode revelar um momento esclarecedor com
envolvendo a liberdade do ser humano de mais facilidade, por exemplo: frustrações,
auto determinar-se buscam o conhecimento desestimulo, inquietações, etc. Ao se abrir
para a humanidade desenvolver-se e definem um espaço de brincar durante o diagnostico,
a função da educação infantil que se reflete já se está possibilitando um direcionamento
no brincar. de avanço e progresso, pois brincar é
saudavel, rompendo, assim, a fronteira entre o
diagnostico e o tratamento.

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Para Winnicott (1975,p.59) : “ A fundamentais do processo de construção


psicoterapia se efetiva na sobreposição de do saber como capacidade de inventario;
duas areas do brincar juntas”. É mportante adequação do significante-significado;
apoiar a observação em alguns pontos, como organização e integração.
a escolha do material e da brincadeira, o
modo de brincar e a relação com o terapeuta. Para Kishimoto (1999,p.28), “(…) O
renascimento vê a brincadeira como conduta
A brincadeira é importante para a livre que fornece o desenvolvimento da
Psicopedagogia, pois, a medida em que se inteligencia e facilita o estudo”.
faz a intervenção, estar diagnosticando e
tratando no que diz respeito ao aprender. O Em cada brinquedo, sempre se esconde
brincar, como instrumento de tratamento, uma relação educativa. Para a criança,
cria um espaço compartilhado de confiança, a brincadeira é a melhor maneira de se
favorecendo o avanço para a aprendizagem comunicar, um meio para perguntar e
significativa e ajudando a recuperar o prazer explicar, um instrumento que ela tem para
perdido de aprender e a autonomia. A se relacionar com outra criança, alem de ser
psicanalise infantil centra-se no jogo como um espaço de conhecimento sobre o mundo
um possibilitador de elaboração de situaçoes externo. É na brincadeira que a criança pode
traumaticas, de possibilidades criativas, conviver com seus sentimentos internos.
de aprendizagem, de identidade e de Os sentimentos devem ser preservados
dominio, experiencia, controle de ansiedade, neste espaço para que a criança possa
estabelecimento de contratos sociais e se expressar e expor. A criança utiliza o
trabalho do prazer. O brincar possibilita brinquedo para experimentar o mundo,
o desenvolvimento das significaçoes de saciar a curiosidade, aprender a vencer os
aprender, compreender a instalação de medos, enfim, desenvolver-se criativamente
patologias no aprender e a inter-relação para enfrentar novas situações que a
entre inteligencia, desejo e corporeidade. interessem. A brincadeira é um espaço de
A brincadeira é um jogo onde o impossivel aprendizagem, ajuda a elaborar papeis que
pode ser experimentado. Para Pain terão de exercer no futuro, alem de superar
(1985,p.51) : “ (…) a atividade ludica nos limitações. Brincadeiras e brinquedos são
fornece informações sobre o esquema que estruturadores do saber porque consiste
organiza e integra o conhecimento num em recursos dinamicos para aprender.
nivel representativo”. Por isso considera- Estes recursos dinamicos para aprender.
se de grande interesse para o diagnostico Estes recursos aumentam a oralidade dos
do problema de aprendizagem a “ hora do alunos, a concentração, e a cooperação.
jogo”. O importante é descobrir como a As brincadeiras são verdadeiros estimulos
criança brinca. A atividade ludica é canal do desenvolvimento intelectual, mantém
de aprendizagem onde se observa aspectos relações sociais, refletindo experiencias e

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valores da própria comunidade em que estão do seu eu, deformando-o para atender os
inseridas. seus desejos e fantasias. Afirma tambem
que o jogo tem uma evolução, começando
Kishimoto (1999,p.28) afirma que a com exercícios funcionais ( correr, saltar,
brincadeira é terapeutica (libertaria, curativa) jogar bolinha, etc.) e seguidos pelos jogos
e pedagogica, facilita a aproximação dos simbolicos (imitar, dramatizar). Aparecem
indivíduos, criando um clima de harmonia, depois os jogos de construção, que vão
comunicação, alegria e confronto dos aproximando-se cada vez mais do modelo,
desafios através do espirito ludico. A criança e os jogos de regras, introduzindo a logica
se desenvolve atraves da atividade do brincar, operatória.
neste sentido, a brincadeira pode ser vista
como atividade condutora que determina o Sara Pain (1986,p.50) observa que o
desenvolvimento da criança num mundo rico exercício de todas as funções semioticas
e em continua mudança, com um intercambio que supõe a atividade ludica possiblita uma
permanente entre a fantasia e a realidade de aprendizagem adequada, na medida em que
acordo com a fase evolutiva. É tambem uma é atraves dela que se constroem os codigos
forma de avanço para novos dominios da simbolicos e significativos e se proccessa
vida futura. os paradgmas do conhecimento conceitual,
ao se possibilitar, atraves da fantasia e do
Segundo Freud (vol.XX) o jogo é uma tratamento de cada objeto nas suas multiplas
atividade criativa e curativa, pois permite circunstancias possíveis.
á criança (re) viver ativamente as situações
dolorosas que viveu passivamente, Bossa (1994,p.86) afirma que do ponto de
modificando os enlaces dolorosos e vista afetivo, os jogos infantis reproduzem
ensaiando na brincadeira as suas expectativas situações psicologicas estruturantes na
da realidade. constituição do eu . A autora cita como
exemplo, os jogos de esconder-aparecer.
Conforme aponta Fernandez (1990,p.165) Esses jogos significariam a expressão do
que não pode haver construção do saber vinculo, ou seja, o vinculo mãe-filho, e a
se não se joga com o conhecimento, pois descoberta pela criança da mãe como objeto
o saber é a incorporação do conhecimento de amor separado de si.
numa importante ferramenta terapeutica.
Do ponto de vista cognitivo, significa a via Freud (1920) faz considerações sobre
de acesso ao saber. o caso de uma criança de um ano e meio (
jogo fort-da) que repetia uma brincadeira na
Piaget (1986,p.50) afirma que o jogo qual arremessava um carretel amarrado por
simbolico, que surge ao redor dos dois anos, um cordão de forma que desaparece ao ser
permite á criança assimilar o mundo á medida arremessado e voltasse a aparecer quando o

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Revista Educar FCE - Março 2019

garoto o puxava pelo cordão, simbolizando desta forma as saidas da mae. Segundo Freud
(1920) em Além do principio do prazer, ao simbolizar dessa maneira a partida e o retorno da
mãe, o garoto pode integrar de forma positiva em sua realidade psiquica uma experiencia
dolorosa, elaborando-a.

Alicia Fernandez (1990,p.111) assinala que a contribuição simbolica pessoal de significado


ao processo de aprendizagem vai recorrer, como o faz o sonho, aos restos diurnos, a um
reservatorio de cenas em movimento que tem a ver com a alimentação: movimento de
incorporação, arrebatar, mastigar a presa como uma fera, tomar como um bebe a mamadeira,
mastigar o alimento com prazer.

Bossa (1994,p.87) cita que alem dos jogos orais, tambem os jogos com argila, água,
areia, tinta plastica, etc, como representantes excrementicios em forma de substitutos
socialmente aceitos; os jogos com bonecas e animais como expressão da fantasia da criança
sobre a relação dos pais e os jogos como veiculos simbolizando as fantasias de penetração
e representando a forma de controle pulsional fornecem ao terapeuta elementos de analise.
A autora afirma que todos esses jogos tomados como referencia ao campo da aprendizagem
dizem de como a criança aprende, que coisas aprende, qual o significado do aprender, como
ela se defende do objeto do conhecimento e que operações mentais utiliza no jogo.

Ao propor a hora do jogo psicopedagogico, Fernadez (1990,p.171) usa como estrategia


para compreender os processos que podem ter levado á estruturação de uma patologia
no aprender, afirma que tal atividade possibilita o desenvolvimento e posterior analise das
significações do aprender para a criança.

Pain (1986,p.54) aponta que conhecer a aptidão da criança para criar, refletir,
organizar,integrar. A autora considera que quatro aspectos fundamentais da aprendizagem
podem ser extraidos da observação do jogo, distancia de objeto, capacidade de inventario,
função simbolica, adequação significante-significado, organização, construção de sequencia,
integração, esquemas de assimilação.

Bossa (1994,p.92) salienta a importância de o psicopedagogo jogar o jogo da criança ,


sem no entanto perder de vista o seu compromisso com a aprendizagem e lembrando que
toda relação do sujeito com o mundo, depois que deixar de ser consequencia de um reflexo,
demanda aprendizagem.

327
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para uma criança o jogo é muito mais do que um simples
ato de brincar, é atraves dele que a criança se comunica com
o mundo e tambem se expressa. Para o psicopedagogo, ele
constitui um espelho, uma fonte de dados para compreender
melhor como se dá o desenvolvimento infantil e quais são
suas dificuldades de aprendizagem. Jogos e brincadeiras
não são somente divertimento ou recreação; são atividades
naturais e que satisfazem as necessidades humanas.

As crianças, muitas vezes, aprendem mais por meio dos


jogos do que por metodos tradicionais. Neles as crianças
são mais ativas mentalmente, pois essas atividades são ANALU PEREIRA
compativeis com o desenvolvimento das crianças, e isso PONCIANO
justifica seu uso na area da psicopedagogia e dentro da
Graduação em Pedagogia
instituição escolar. pela Faculdade Unicid (2015);
Professora de Educação Infantil
Weiss (2004) afirma que o espaço ludico durante o no CEI Pq. Edu Chaves.

diagnotico traz possibilidade de cura nas dificuldades de


aprendizagem, pois brincar é universal e saudavel e rompe
as fronteiras entre o diagnostico e o tratamento, uma vez
que o próprio diagnostico passa a ter um carater terapeutico. A sessão ludica diagnostica
se difere da terapeutica em alguns aspectos: enquanto o processo de brincar ocorre
esponteneamente na sessão terapeutica, na diagnostica há limites mais definidos e há uma
intervenção do psicopedagogo para observar a reação da criança em algumas situações do
jogo como: frustrações, desafios, entre outros comportamentos.

Em sintese, os jogos são adequados muito importantes para o desenvolvimento


harmonioso do ser humano. No campo da psicopedagogia, em função dos aspectos que se
pretende chegar, que é diagostico e tratamento das dificuldades de aprendizagem, os jogos
podem ser considerados uma excelente ferramneta tanto na clinica, como na instituição
escolar.

O jogo tem um papel fundamental, que deve ser aproveitado num trabalho psicopedagogico
e integrado com outras areas de desenvolvimento e aprendizagem infantil.

328
Revista Educar FCE - Março 2019

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331
Revista Educar FCE - Março 2019

JOGOS E BRINCADEIRAS DA
CULTURA AFRICANA NAS AULAS
DE EDUCAÇÃO FÍSICA
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo abordar a cultura africana e seus costumes,
assim como os jogos e brincadeiras que podem ser aproveitados nas aulas de educação física.
Mostrar que os jogos e as brincadeiras fazem parte da cultura e são criados pelas pessoas ao
longo do tempo, passando de geração em geração e podendo ser trabalhados nas aulas. Outro
fato a ser considerado é como a inclusão da cultura africana na grade curricular pode afetar a
socialização da criança na escola, de forma positiva.

Palavras-Chave: Cultura africana; Jogos e brincadeiras; Educação Física

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO UMA BUSCA DE IDENTIDADE:


COMO NOS APROPRIAMOS
A cultura africana está presente em nosso
cotidiano mais que imaginamos. Isso ocorre DA CULTURA AFRICANA
pela grande miscigenação dos povos. A
proposta desse estudo é realizar uma efetiva A formação do povo brasileiro é originada
pesquisa sobre a cultura africana e quais os pela miscigenação de diferentes povos
benefícios que ela pode nos trazer as aulas e etnias de todo o mundo e dos povos
de educação física. Sendo assim, o interesse indígenas, que aqui estavam antes mesmo do
pelo tema proposto neste projeto parte da processo colonizador e migratório. Depois
consideração de toda a problemática em da colonização dos portugueses, diferentes
torno da Lei n 10.639/2003 que faz incluir povos africanos vieram pelo processo
no currículo oficial da Rede de Ensino pública escravagista, por quase três séculos. Com a
e privada a obrigatoriedade da introdução da abolição da escravatura, no final do século
temática “História e Cultura Afro-brasileira” XIX, imigraram para o Brasil diferentes povos
nas disciplinas curriculares da escola. europeus e asiáticos.

O que podemos ver atualmente são poucas Contudo, devido aos povos africanos
instituições de ensino incluindo essa Lei em chegarem ao Brasil pela força da escravização,
seu currículo escolar, o que leva a questionar esses povos e seus descendentes nascidos
o porquê se dentro da nossa cultura brasileira no Brasil, os afro-brasileiros, se tornaram
tem tantos costumes, religiões, arte, música extremamente estigmatizados pelas classes
que já fazemos uso cultural. Ressaltando que burguesas, sofrendo ao final do século XIX
os jogos e as brincadeiras fazem parte da e durante todo o século XX um preconceito
cultura e são criados pelas pessoas ao longo racial e cultural, além da discriminação de
do tempo, passando de geração em geração classes sociais, comum em países capitalistas.
e podendo ser trabalhados nas aulas.
Para Souza (2006, p.47) “a escravidão é: (...)
Ressaltando os benefícios da Lei n situação na qual o escravo não é visto como
10.639/2003 e como fazer melhor proveito membro completo da sociedade em que vive,
dela em sala de aula, para inclusão social das mas como ser inferior e sem direitos (...)”
crianças. Assim, os resquícios de preconceito duram e
perduram até a atualidade. No entanto, para
O presente trabalho iniciará com um resgate a formação do povo e da cultura brasileira,
histórico da cultura africana, bem como, abordará não há como negar a importância das
discussões acerca de como nos apropriamos da culturas africanas e da sua contribuição para
mesma, pegando seus costumes, brincadeiras, a miscigenação do nosso povo.
jogos e diversos costumes.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A cultura é um sistema simbólico orientador práticas sociais referenciadas em princípios


das ações humanas. Foi a nossa capacidade ancestrais africanos. Estes princípios,
de simbolizar a experiência vivida que nos conforme esclarecem Mintz e Price (2003),
diferenciou das outras espécies. Os objetos têm funcionado na diáspora como elementos
empíricos, sons, gestos, rituais, instrumentos de uma sintaxe. Os referenciais simbólicos
de trabalho, alimentos, não são apenas são acionados de maneira seletiva e
respostas às nossas necessidades básicas, contextual, em um ambiente mutável. As
eles comunicam mensagens, possibilitam práticas culturais afro-americanas, embora
interações entre pessoas. A cultura orientadas pelos referenciais africanos, não
funciona em uma comunidade humana de são, portanto, reproduções ou cópias de
maneira análoga ao sistema linguístico. África nas Américas, mas reelaborações,
Enquanto conjunto de expressões sonoras, de caráter dinâmico, flexível, plástico e em
vocalizadas, a língua é descodificável apenas constante mutação.
pela comunidade de fala. Da mesma forma,
as ações humanas orientam-se pelos códigos A classificação dos povos a partir do
informados pela cultura. critério da língua se impôs como uma solução
importante no campo da Antropologia. Como
Os atos humanos são linguagens toda língua possui uma estrutura peculiar, foi
carregadas de sentido. Um tique nervoso, possível classificar diferentes povos a partir
mecânico, nada informa, mas uma deste critério, sem, contudo, hierarquizá-los.
piscadela apresenta múltiplos significados,
compreensíveis quando nos reportamos Sabe-se também que uma língua é sempre
ao contexto em que foi praticada (Geertz, derivada de um ramo ancestral comum,
1978). Os suportes empíricos da cultura, concebido como tronco linguístico. Percebeu-
roupas, anéis, brincos, pulseiras, amuletos, se igualmente que as línguas humanas se
são facilmente observáveis, mas os sentidos transformavam ao longo do tempo. Tornou-
que transmitem não podem ser apreendidos se possível identificar línguas mais próximas
diretamente, é preciso, situá-los no universo do tronco ancestral comum e outras mais
da cultura. Como nascemos e vivemos imersos distanciadas. As línguas aparentadas foram
em uma cultura particular raramente nos classificadas como pertencendo a uma
distanciamos para observá-la. Geralmente a mesma família linguística.
assumimos como um dado natural.
A partir deste critério foi possível aos
O conceito de cultura afro-brasileira estudiosos agrupar povos pertencentes ao
que propomos é tributário da concepção mesmo tronco linguístico, povos que falavam
de cultura enquanto linguagem simbólica. a mesma língua e povos que falavam línguas
Concebemos a cultura afro-brasileira aparentadas.
como um sistema simbólico orientador das

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Revista Educar FCE - Março 2019

O critério da língua nos auxilia a classificar Além das semelhanças linguísticas os


as diferentes sociedades africanas, a bantos compartilhavam semelhanças quanto
concebê-las como unidades na diversidade. à organização social e concepções religiosas.
Identificamos na África três grandes A religião banto possuía como característica
unidades linguísticas: A Afro-asiática, outrora a flexibilidade. Inexistia no sistema religioso
denominada camítico-semítica; A Niger- um controle sacerdotal ou ortodoxia rígida.
Congo (iorubá, fulani, ibo, fon e outras),
classificada historicamente como Sudanesa, O culto aos ancestrais apresentava-se,
universo este caracterizado pela grande porém, como um princípio geral. Nzambi
fragmentação linguística; A área Banto na Mpungo era “considerado o deus maior
qual se verifica maior unidade linguística; E a e criador do universo”, mas também era
Khoisan, pequena área na qual se encontram concebido como “ancestral original do
os hotentotes e bosquímanos. primeiro humano”. Seguindo-se a lógica da
descendência, os ancestrais estariam mais
A distribuição espacial dos povos próximos do ser supremo, por isso a razão
africanos coincide em grande parte com o em cultuá-los.
mapa linguístico. Para o estudo da cultura
afro-brasileira interessa-nos diretamente Os estudos históricos de Thornton (2009)
os grupos linguísticos iorubá, fon e banto, revalaram que a cosmologia religiosa banto
pois foram destes acervos sociolinguísticos convivia com a ideia de espíritos perigosos
que procederam, à época da escravidão, a ou inferiores. As concepções de ventura e
maioria dos africanos para o Brasil. desventura integravam este universo sagrado
(Mello e Souza, 2002), como consequência,
Os bantos se distribuem por toda a desenvolveu-se um complexo religioso
extensão da África, situada a partir da específico, que visava assegurar proteção
República dos Camarões até o extremo sul. contra os infortúnios. De acordo com
Apenas os bosquímanos e os hotentotes, Thornton, pequenos santuários contendo
presentes nesse amplo espaço geográfico, objetos de proteção (nkisi) foram edificados
falam línguas diferentes do tronco linguístico por diferentes povos bantos.
banto. O termo banto foi cunhado a partir
dos estudos de W. Bleck. Em 1860 este A cultura africana chegou ao Brasil com
pesquisador percebeu que existiam entre as os povos escravizados trazidos da África
línguas dos povos da África Central e Austral durante o longo período em que durou o
semelhanças estruturais. Notou também a tráfico negreiro transatlântico. A diversidade
presença de uma partícula comum, ntu, que cultural da África refletiu-se na diversidade
significava homem, enquanto o termo banto dos escravos, pertencentes a diversas etnias
era utilizado como plural, isto é, homens. que falavam idiomas diferentes e trouxeram
tradições distintas. Os africanos trazidos ao

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Revista Educar FCE - Março 2019

Brasil incluíram bantos, nagôs e jejes, cujas Decerto, o ensino de história e cultura afro-
crenças religiosas deram origem às religiões brasileira e africana, na escola da educação
afro-brasileiras, e os hauçás e malês, de básica, não se limita à discussão sobre o
religião islâmica e alfabetizados em árabe. preconceito racial. No entanto, mesmo que
crianças não tenham uma opinião formada
Os africanos contribuíram para a cultura acerca desse fenômeno, podem ou não
brasileira em uma enormidade de aspectos: reproduzirem estereótipos sobre a África, os
dança, música, religião, culinária e idioma. africanos, as pessoas negras no Brasil e suas
culturas, visto terem acesso à televisão e à
Outro ponto muito importante, que não internet, meios de comunicação nos quais os
pode ser esquecido, são as brincadeiras. estereótipos são constantemente veiculados
Mesmo que a vida dos escravos tenha e reproduzidos.
sido extremamente dura, quase sempre
em condições sub-humanas, a tradição Logo, em qualquer nível de escolaridade,
oral, aquela passada de pai para filho, é a é possível ao professor/a, a partir de
grande responsável por não deixar que essas um simples recurso, como uma gravura
brincadeiras sejam esquecidas. pertinente à história e a cultura afro-
brasileira e africana, trabalhar esses
conteúdos, sem necessariamente ter que
HISTÓRIA E CULTURA esperar o preconceito racial se manifestar
AFROBRASILEIRA E em sala de aula. Basta que tenha formação,
acesso ao material didático adequado e
AFRICANA: CONTEÚDOS E vontade política para reinventar sua prática,
ABORDAGENS NA SALA DE assim como a metodologia com que vai
AULA abordar esses conteúdos em sala de aula e
implementá-lo no currículo escolar.
Os conteúdos de história e cultura afro-
brasileira e africana podem ser trabalhados Para tanto, é imprescindível planejar as
em qualquer nível de escolaridade e a partir de ações a serem desenvolvidas, de modo que os
diversas abordagens. Geralmente, docentes conteúdos e as abordagens sejam compatíveis
dos anos iniciais do ensino fundamental I com os níveis de escolaridade das crianças e,
alegam que não trabalham os conteúdos de assim oportunizem a elas construírem outras
história e cultura afro-brasileira e africana referências acerca da África, dos/as africanos/
porque seus alunos/as são por demais as e das culturas que essa gente reinventou
crianças e ingênuos/as para entender tais no Brasil, como também perceberem e
conteúdos e não são preconceituosos. identificarem-se nas expressões culturais
afro-brasileiras, valorizando-as e respeitando-
as, pois também são suas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A escola tem um importante papel na educação étnico-racial como processo em


discussão do reconhecimento pelos povos construção, visto perpassar pela história de
não afrodescendentes dessa importância. vida do/a professor/a (Gonçalves, 2011),
Portanto, é na escola que deverá haver o reorganização da escola na perspectiva
(re) conhecimento e a valorização dos povos emancipatória, revisão da cultura escolar,
negro-africanos no desenvolvimento social e reinvenção do currículo e das relações sociais
na formação da cultura brasileira. estabelecidas entre estudantes e professores
(Gomes, 2012). Assim como pela mudança
Para tanto, uma lei federal (Lei n concreta na realidade social da população
10.639/2003), alterou a Lei de Diretrizes e negra (Amâncio, 2008).
Bases da Educação Brasileira n 9.394/1996,
para incluir no currículo oficial da Rede de Analisar os projetos e a sua relação com a
Ensino pública e privada a obrigatoriedade efetivação da educação étnico racial revelou
da introdução da temática “História e Cultura as seguintes questões: a necessidade de o/a
Afro-brasileira” nas disciplinas curriculares professor/a constantemente refletir sobre
da escola. Embora a publicação da Lei, a sua prática, rever o currículo escolar, rever
temática ainda não é realidade no chão o material didático, ter acesso a discussão
escolar. Os professores e alunos, por não historiográfica recente, o que lhe possibilitará
conhecerem a fundo esse tema, ou por temor fazer novas abordagens em sala de aula.
a reações negativas ao mesmo, preferem não Ainda que os projetos elaborados denotem
abordar esse assunto. a presença dos conteúdos de história e
cultura afro-brasileira e africana na prática
A Lei, à medida que institucionalizou dos docentes, eles são tratados de modos
o ensino de história e cultura afro- pontuais e descontínuos.
brasileira e africana no currículo escolar
vem, provocando mudanças no cotidiano Apesar da lei não ser uma realidade
da escola da educação básica, sobretudo cotidiana das escolas, não se pode negar
porque docentes passaram a questionar suas que a formação da cultura brasileira está
práticas e a rever tanto o currículo com que intimamente ligada à história do negro no
até então trabalhavam como, por extensão, o Brasil. Por exemplo, observa-se que vários
material didático. O propósito das mudanças jogos, brincadeiras, comidas, temperos,
é atender às demandas colocadas por essa ritmos, músicas, danças, compõem um basto
lei, o que nem sempre se faz a contento. espólio cultural brasileiro, que descendem
diretamente deste povo quando foram
Pesquisadores/ as discutem sobre as trazidos de suas terras na África. Assim, a
experiências desenvolvidas por professores/ escola tem a obrigação moral, além da legal,
as em sala de aula e apontam a relação entre de elencar e valorizar todas essas absorções
a implementação dessa lei e a efetivação da e conquistas desses povos na formação da

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Revista Educar FCE - Março 2019

nossa cultura, a fim de diminuir, e até mesmo erradicar, os preconceitos e desigualdades


observadas desde o fim da escravidão.

Apesar da obrigatoriedade legal de as escolas da educação básica oportunizar o ensino


de história e cultura afro-brasileira e africana, esse conteúdo nem sempre se faz presente
no cotidiano da sala de aula, mantendo-se ausente do currículo escolar. Quando na prática
a escola deveria

Conceber professores e alunos como autores dos currículos, permanentemente construídos


como ‘obra de arte’, intencionada, emocionada, prazerosa devolver aos sujeitos da escola sua
dignidade de criadores, sujeitos ativos dos seus fazeres saberes, prazeres, únicos, singulares,
embora mergulhados num mundo social (e cognitivo) que os ultrapassa, mas também é por
eles tecido.

Implementar a Lei 10.639/2003 exige dos docentes em sala de aula a postura de


construtor do saber e de pesquisador, de modo que transponham as fronteiras impostas
pelo eurocentrismo, para que construam outras perspectivas de compreensão da história
da humanidade. Estas ações superam o colonialismo europeu como o único caminho a
possibilitar a compreensão da história. “O que interessa a nós é expulsar os colonialistas,
não necessariamente mata-los” (Freire, 1985, p. 6).

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Podemos concluir que a cultura africana está mais
presente em nosso cotidiano há muitos anos e com mais
frequência que pensamos. Apresentamos cada jogo,
brincadeira, costumes, religiões e assim conseguimos ver a
importância dela em nosso dia a dia.

Os africanos contribuíram para a cultura brasileira em uma


enormidade de aspectos: dança, música, religião, culinária e
idioma.
A capacidade de resistência subjetivo e política das ANDERSON GONZAGA
nações negras que aqui chegaram, mostram seu potencial LOPES CORREIA
e vigor, que mesmo diante das adversidades e violências
Graduação em Educação Física
vividas, enxertaram no ventre de cada região do Brasil, seus pela Faculdade UNIFEV Centro
costumes e formas de interpretação do mundo. Formas estas Universitário de Votuporanga
que se expressam desde as canções de ninar, os cuidados (2008); Professor de Ensino
Fundamental II – Educação Física
com a saúde, nas ervas, medicamentos e práticas religiosas, - na EMEF República do Panamá,
às festividades danças e sabedoria diante da vida. Professor de Educação Básica –
Educação Física - na EMEB Paulo
Prado.
Diante destas discussões cabe uma pergunta: porque a
inserção da população negra na história oficial parece se dar
apenas como escravizado?

Apesar do pouco avanço com o passar dos anos vemos


que está mais suscetível trazer a cultura africana para as
crianças. Assim podendo aproveitar melhor cada pedaço de
nossa história, e conhecer os antepassados.

339
Revista Educar FCE - Março 2019

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340
Revista Educar FCE - Março 2019

NEUROCIÊNCIA E APRENDIZAGEM
RESUMO: Este trabalho é de natureza descritiva, e tem por objetivo apresentar brevemente
a relação entre neurociência e aprendizagem, como aprendemos, o que determina nossas
aprendizagens, que fatores influenciam esse processo, buscando explicar como se dá a
aprendizagem em cada indivíduo, o que determina que alguns indivíduos tenham facilidade
na assimilação de uma disciplina e/ou conteúdo e como a neurociência pode contribuir ou
explicar a aprendizagem e o desempenho de alguns indivíduos na escola ou fora dela.

Palavras-Chave: Neurociência; Conhecimento; Aprendizagem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO Umas das áreas de estudo do ser humano


que tem evoluído muito nas últimas décadas
Aprender tem em si especificidades é a neurociência. Inicialmente no estudo
e dimensões variadas, conhecer essas das patologias, mas ao longo do tempo e
dimensões é uma busca do ser humano para percebendo a vasta aplicação do aprendizado
o desenvolvimento de suas potencialidades as neurociências, tem contribuído e muito
que o tornam capazes de perceber, sentir e para que especialistas da área da educação
expressar suas palavras, diante do objeto de possam aplicar as teorias levantadas em prol
seu conhecimento, conhecer é superar as da melhoria da aprendizagem.
dimensões do físico, do mental, do social e
do espiritual na sua vida cotidiana. Esse artigo tem como finalidade apresentar
resumidamente o que é neurociência e sua
O sistema nervoso tem uma enorme relação com a educação, especialmente na
plasticidade, ou seja, um enorme potencial relação ensino-aprendizagem, como fator
em fazer e desfazer ligações entre as células orientador do trabalho docente.
nervosas como consequência das interações
permanentes com o ambiente externo e Alguns pesquisadores ao longo do tempo,
interno do organismo. A aprendizagem e a observando as diferenças apresentadas
mudança comportamental têm correlação pelos alunos na maneira como os mesmos
biológica, que é a formação e a efetivação das aprendem e se desenvolvem concluíram
ligações sinápticas entre as células nervosas. que a aprendizagem pode levar não só ao
aumento da complexidade das ligações em
O indivíduo aprende durante toda sua vida, um circuito neural, mas também a associação
quer seja em um processo de educação formal de circuitos até então independentes.
ou informal. Primeiramente aprende aquilo
que promoverá sua sobrevivência depois o A aprendizagem se define pela formação
que propiciará sua vida em comunidade. e consolidação das ligações entre as células
nervosas. É fruto de modificações químicas e
O desenvolvimento do ser humano passa estruturais no sistema nervoso de cada um,
por continuas transformações resultantes exigindo energia e tempo para se manifestar,
das interações com o meio. Tendo um sistema ou seja, a aprendizagem é um fenômeno
nervoso dotado de imensa plasticidade o ser individual e privado e vai obedecer ao
humano tem uma infinidade de caminhos e desenvolvimento histórico de cada um de
direções que seu desenvolvimento tomará em nós.
virtude do meio no qual nasceu, das práticas
culturais, das instituições que participa, do Todo indivíduo realiza aprendizagens
acesso a informação entre outros. durante toda a sua vida, quer no convívio
familiar ou fora dele e essas aprendizagens

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Revista Educar FCE - Março 2019

continuam em processo de transformação Mas seria possível medir a inteligência


devido as interações que realiza com o meio. de um indivíduo? A escola estaria apta a
O ser humano é dotado de uma infinidade classificar e trabalhar a inteligência de cada
de caminhos de desenvolvimento, porém a criança? E as avaliações aplicadas estariam
qualidade desse desenvolvimento depende de acordo com a inteligência de cada um.
dos estímulos do ambiente, da carga genética
dos pais. Durante muito tempo a escola utilizou-se
de testes padronizados para medir o que os
Cada indivíduo é único, consequentemente alunos aprenderam e para tanto atribuir-lhes
seria intuitivo se esperar que cada criança a quantidade de inteligência de cada um,
fosse observada ao entrar na escola, a fim classificando os que apresentassem melhor
de que suas dificuldades sejam avaliadas e desempenho em matemática como mais
classificadas, proporcionando ao docente as inteligentes.
informações necessárias para que as mesmas
possam ser sanadas, utilizando diferentes A avaliação focava os exames e sua
métodos de aprendizagem. função para identificar acertos e erros, o
que para muito significava fracasso pois
Entretanto, as escolas quantificam não conseguiam obter os tais acertos para
a capacidade do discente pelo seu garantir-lhes a aprendizagem, ou melhor
desenvolvimento em matemática e escrita não conseguiam mostrar sua inteligência,
(português), por conseguinte as crianças fator responsável por um grande número de
que não apresentam boas notas nessas duas evasão escolar, repetências e indisciplinas.
disciplinas não são inteligentes, ainda que
tenham bom desenvolvimento em educação
física, música, dança, artes visuais. NEUROCIÊNCIA E EDUCAÇÃO
Início do século XX, o psicólogo francês “A Pedra”
Alfred Binet em parceria com Theodore “O distraído, nela tropeçou,
Simon, desenvolvem um teste para avaliar o bruto a usou como projétil,
crianças com atraso mental, para que a o empreendedor, usando-a construiu,
partir desse pudessem receber atenção o campônio, cansado da lida,
especializada. O psicólogo Lewis Terman, dela fez assento.
adaptou o teste francês, rebatizando de Para os meninos foi brinquedo,
Stanford Binet, avaliando o desempenho em Drummond a poetizou,
aritmética, memorização de vocabulário, o Davi matou Golias...
exame foi o primeiro a classificar as pessoas Por fim;
por um quociente de inteligência (QI). o artista concebeu a mais bela escultura.
Em todos os casos,

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Revista Educar FCE - Março 2019

a diferença não era a pedra. ao comportamento tem origem no início


Mas o homem.” da ciência ocidental, quando os filósofos
(Pereira, Antônio (Apon); 2007). gregos começaram a especular as causas
do comportamento e a relacioná-las com a
Neurociência é a compreensão de como mente e o encéfalo.
sinais elétricos originados na mente humana
formam circuito neurais, determinando como René Descartes distinguiu corpo e mente.
percebemos, agimos, pensamos, lembramos. Na visão de Descartes o encéfalo medeia
Embora muitos estudos foram realizados a percepção, a ação motora, a memória, o
e ainda não há como determinar todos os apetite e as paixões, tudo o que pode ser
mecanismos utilizados pelo sistema nervoso encontrado nos animais inferiores. E a mente
de cada indivíduo. comanda as funções mentais superiores, a
experiência consciente do comportamento
Como o encéfalo se desenvolve? Como humano.
as células que o compõem se comunica
originando as informações? Qual a relevância No século XVIII, surgiram novas teorias, a
dessa comunicação na aprendizagem? de que o encéfalo seria uma tábula rasa que
seria preenchida com experiência sensorial.
O encéfalo, um órgão pensando pouco Immanuel Kant, acreditava que a percepção
mais de 1kg é capaz de conceber uma humana do mundo era determinada com
infinidade de possibilidades, descobrir novos características inerentes da mente ou do
pensamentos, sentimentos, aprendizagens, encéfalo.
criatividades, individualidades e ações
que nos definem como somos e como nos No século XIX Charles Darwin estabeleceu
relacionamos. o cenário para a compreensão do encéfalo
como a origem de todo o comportamento,
O encéfalo humano possui uma rede de o estudo da evolução se originou da
mais de cem bilhões de células nervosas investigação do comportamento dos animais
interligadas que constroem a percepção em ambientes naturais.
do mundo externo, a qualidade das
percepções sinápticas realizadas durante o No século XX Sigmund Freud introduziu
desenvolvimento do indivíduo representará a psicanálise como a primeira psicologia
a base da percepção, da ação, da emoção e cognitiva, a psicanálise estruturou os
do aprendizado não esquecendo que fatores problemas na tentativa de compreender a
genéticos e ambientais do comportamento mente humana. Em 1800 Franz Joseph Gall,
contribuem para essa formação. defendia que o encéfalo é o órgão da mente,
e que todas as funções mentais emanam
O pensamento psicológico em relação dele, afirmando que o córtex cerebral não

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Revista Educar FCE - Março 2019

funciona como um simples órgão, mas que informações a cerca do movimento dos
contém dentro dele muitos órgãos, Gall hemisférios cerebrais para o cerebelo.
enumerou inicialmente 27 regiões e muitas O Cerebelo modula a força e a amplitude do
outras foram adicionadas posteriormente. movimento e está envolvido no aprendizado
de habilidades motoras.
O sistema nervoso central é uma estrutura
bilateral, com duas partes principais, a medula Mesencéfalo – Controla muitas funções
espinal e o encéfalo. O encéfalo compreende sensoriais e motoras incluindo o movimento
seis estruturas principais: o bulbo, a ponte, dos olhos e a coordenação dos movimentos
o cerebelo, o mesencéfalo, o diencéfalo e o dos reflexos visuais e auditivos.
cérebro. No córtex cerebral, principalmente
ocorrem as operações da capacidade O Diencéfalo – Possui duas estruturas:
cognitiva humana, essa massa cinzenta cheia O tálamo que processa a maior parte das
de sulcos recobre os dois hemisférios, em informações que chegam ao córtex cerebral a
cada um dos hemisférios, o córtex que os partir do resto do sistema nervoso central e o
recobre é dividido nos lobos frontal, parietal, Hipotálamo que regula funções autônomas,
occipital e temporal. Cada lobo tem diversos endócrinas e viscerais.
dobramentos, para empacotar o maior
número de células nervosas em um espaço O Cérebro – compreende dois hemisférios
limitado. cerebrais, cada um deles consistindo em
uma camada mais externa e enrugada (o
O sistema nervoso central tem sete partes córtex cerebral) e três estruturas situadas
principais: mais profundamente (os núcleos da base,
o hipocampo e os núcleos da amigdala).
A medula espinal – Recebe e processa O córtex cerebral é dividido em quatro
informação sensorial da pele, das articulações, lobos distintos (frontal, parietal, occipital e
dos músculos dos membros e do tronco e temporal).
controla os movimentos dos membros e do
tronco. É subdividida nas regiões cervical,
torácica, lombar e sacral.

O Bulbo – diretamente rostral a medula


espinal, inclui diversos centros responsáveis
por funções autônomas vitais tais como:
digestão, respiração e controle dos
batimentos cardíacos.

A ponte – rostral ao bulbo retransmite

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Revista Educar FCE - Março 2019

O sistema nervoso funciona por meios do sistema nervoso é então a sua permanente
dos neurônios, células responsáveis pela plasticidade ou seja, a capacidade de fazer e
condução e processamento da informação, desfazer ligações entre os neurônios. O treino
os neurônios conduzem a informação por e a aprendizagem podem levar a criação de
meios de impulsos elétricos que passam novas sinapses e a facilitação de um fluxo de
para outras células por meio das sinapses, informação dentro de um circuito nervoso.
na qual é liberado um neurotransmissor.
Os neurônios formam circuitos completos Aprender não é memorizar informações,
entre si e se agrupam no interior do sistema como foi realizado por muito tempo nas
nervoso nas áreas de substância cinzenta. escolas. É preciso relacionar a informação
ressignificá-la e refletir sobre ela. A medida
As vias sensórias chegam ao cérebro em que aprende a criança e seu cérebro
por meio das cadeias neurais, que levam a se desenvolvem e constroem novos
informação até uma região do córtex. O córtex conhecimentos. A aprendizagem não é a
cerebral se organiza em unidades funcionais mesma para todos, ela também difere de
com regiões: primárias, secundárias e acordo com os níveis de desenvolvimento
terciárias que atuam de forma hierárquica de cada um, por isso quanto mais interações
para permitir a interação com o ambiente e o e estímulos uma criança sofrer mais
processamento das informações. aprendizagem ela apresentará, pois o cérebro
se modifica em contato com o meio durante
No processo de construção do cérebro toda a vida.
são formados em um número muito maior do
que será necessário para seu funcionamento
e muitas são descartadas porque não O CURRÍCULO E A ESCOLA
conseguiram realizar as ligações necessárias
ou por não estarem nos locais corretos. Um currículo escolar padrão entendia
a maioria dos alunos, se as crianças estão
Erros ocorridos na primeira fase do entediadas como é possível aprender
desenvolvimento do sistema nervoso, que por e desenvolver novos conhecimento e
problema genéticos ou ambientais, poderão participação das crianças?
trazer consequências para a vida toda.
Quando nascemos possuímos um circuito As escolas devem repensar seu currículo
básico que nos permite processar um tipo de ajudar seus alunos a desenvolver suas
informação, a medida que vamos interagindo inteligências, proporcionar atividades
e recebendo estímulos do ambiente nosso integradoras que favoreçam a interação e
sistema nervoso vai proporcionando a a aprendizagem dos alunos. Não podemos
formação de novas sinapses e manutenção esquecer em nosso dia a dia que:
das já existentes, uma característica marcante

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Revista Educar FCE - Março 2019

O cérebro humano é maleável e pode se modificar constantemente;

Todas as crianças independentes de sua classe social, com necessidades especiais ou não
podem melhorar;

Um currículo de maior contraste para todas as crianças, resultará em atividades menos


tediosas e integradoras, com mais desafios;

Acreditar que as crianças estando em um ambiente integrado, alcançarão melhores


resultados;

Estarmos abertos as possíveis mudanças em nossas rotinas poderemos criar um escola


modelos para nossa crianças;

Que cada criança é única, e que a forma como assimila o conhecimento pode ser
diferenciada necessitando de mais ou menos tempo.

Torne o currículo mais profundo por meio da organização dos conceitos de currículo e
estruturas do conhecimento;

Ao final de cada processo busque a avaliação dos seus alunos, elas trarão norte para o
desenvolvimento de novos conteúdos.

O cérebro humano é desenvolvido para interagir com o mundo e fazer as modificações


conforme a qualidade das interações. Se as interações forem positivas e mantidas, a criança
obterá um conjunto de modificações. Se as interações forem negativas e intensas, a criança
obterá um conjunto de diferentes modificações nocivas ao desenvolvimento infantil.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento do presente estudo possibilitou a
análise do que é neurociência e inteligência, e do mito de
que um QI elevado equivale a ter sucesso na vida.

É um mito a crença de que as escolas fazem bom uso


dos testes de QI quando os obtém, e mito também de que
podemos definir e medir coletivamente esse QI de maneira
que haja concordância entre a maioria das pessoas.

O ser humano realiza aprendizagens diversas durante ANDREA APARECIDA


toda a sua existência, resultantes de seu desenvolvimento TAVARES ALVES
biológico e das conquistas em função da vida social e da
Graduação em Pedagogia pela
cultura. Sendo dotado de um sistema nervoso de grande Universidade Federal de São
plasticidade, o ser humano segue o seu desenvolvimento Carlos (2012); Especialista em
acumulando experiências, e cada um tem seu ritmo, seus Neurociência pela Faculdade
Campos Elíseos (2018); Professor
pontos fracos e fortes na sua forma de aprender e se de Ensino Fundamental I - na
relacionar com o mundo. EMEF Gal Euclydes de Oliveira
Figueiredo, professor de educação
infantil – no CEU CEI Jaguaré.
A Inteligência é diferente de habilidade, pois ela pode ser
utilizada em vários domínios, e mesmo que cada um tenha
seu tempo é possível motivar o ser humano, de maneira a
mobilizá-la, para ajudar o indivíduo a aprender e não como uma forma de diferenciá-los.

A escola deve proporcionar um ambiente ideal para que haja aprendizagem de fato, para
isso algumas medidas seriam necessárias:

Relação mais próxima com o aluno, quando o educador conhece seus alunos ele saberá a
melhor forma de passar o conteúdo.

Além do quadro negro – o educador deve procurar outras formas de incrementar suas
aulas para torna-las mais atrativas utilizando histórias, debates, jogos, filmes, diagramas
exercícios.

Busca por projetos – A escolas consideradas modelos de educação apostam em projetos,


pois os alunos aprendem de forma interdisciplinar, desenvolvendo o raciocínio do aluno.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Avaliação da sala de aula – avalie constantemente não só o desempenho dos alunos nas
avaliações, mas seu processo de aprendizagem, ou seja todo o processo de assimilação e
participação em sala.

349
Revista Educar FCE - Março 2019

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vvRevista Mundo estranho. Editora Abril – fevereiro de 2017.

Revista Nova Escola. Editora Abril – Junho/Julho de 2012.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A DIFICULDADE ENCONTRADA
ENTRE A GESTÃO E O CORPO
DOCENTE NO DESENVOLVER DO
TRABALHO
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo realizar um panorama geral acerca dos novos
padrões de gestão da educação básica brasileira e a dificuldade encontrada entre a direção e
o corpo docente no desenvolver do trabalho. A intenção é apresentar o gerenciamento dos
estabelecimentos de ensino segundo a perspectiva da Gestão Democrática, demonstrando
seu funcionamento e evidenciando, por meio desse, os avanços que a educação vivencia
atualmente em termos de autonomia e participação social nos processos de gestão da escola,
bem como os desafios e/ou obstáculos que ainda vivemos no que diz respeito à efetivação de
todos os princípios propalados pela Gestão Democrática.

Palavras-Chave: Dificuldade; Gestão; Corpo Docente.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO mudanças cada vez mais acentuadas na


sociedade. Com isso, a responsabilidade da
É inegável o fato de que a sociedade gestão educacional vai muito além da simples
atual vive em processo de constantes administração de recursos financeiros, de
transformações econômicas, políticas, pessoal ou do patrimônio escolar.
sociais, culturais, de valores e na forma de
ver e interagir no mundo. Paro (2000), esclarece que administrar uma
escola pública não se reduz à aplicação de
A escola, por sua vez, se encontra no uns tantos métodos e técnicas, importados,
interior deste processo de mudança e tem muitas vezes, de empresas que nada tem a
o desafio de contribuir na formação de ver com objetivos educacionais.
uma sociedade cada vez mais dinâmica. Os
estabelecimentos de ensino são unidades Seguindo o pensamento de Paro, cabe
especiais, são organismos vivos que fazem salientar que a gestão escolar das escolas
parte de um contexto socioeconômico públicas compreende inúmeras ações, dentre
e cultural, marcado pela pluralidade e elas a condução do trabalho dentro da escola,
diversidade. levando em conta a função social da escola,
empregando meios claros e compreensíveis
Cabe trazer à discussão o entendimento para se alcançar determinados fins.
do que é gestão educacional, de acordo com
Lück, Para Lück (2000), a mudança de paradigma,
que passa da simples administração para a
A gestão educacional corresponde à área gestão da escola é marcada por uma mudança
de atuação responsável por estabelecer o
direcionamento e a mobilização capazes de de consciência a respeito da realidade e da
sustentar e dinamizar o modo de ser e de fazer relação das pessoas na mesma - se assim
dos sistemas de ensino e das escolas, para realizar não fosse, seria apenas uma mudança de
ações conjuntas, associadas e articuladas,
visando o objetivo comum da qualidade do modelos. Essa mudança de consciência está
ensino e seus resultados. (Lück, 2006, p. 25) associada à substituição do enfoque de
administração, pelo de gestão.
Desta forma, de acordo com a autora, as
ações dos gestores educacionais devem ser
articuladas entre si e com a participação
de todos no processo, do planejamento à A GESTÃO ESCOLAR E SUA
execução, caso contrário, não alcançarão IMPORTÂNCIA
o sucesso almejado. Destaca-se, nestas
palavras da autora, a dinâmica necessária De uns anos pra cá, as escolas têm
na ação dos gestores educacionais e das percebido a importância de aliar ao trabalho
escolas, necessária para acompanhar as de seus gestores, a mão-de-obra de um

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Revista Educar FCE - Março 2019

profissional qualificado que atenda às Essa preocupação fez levar instituições


demandas educacionais, mas que tenha perfil de ensino superior criar cursos de
gerencial, do tipo administrativo. Propostas especializações destinados à formação
governamentais, literatura especializada e dos diretores, inspetores, supervisores,
até mesmo debates na área de administração orientadores, coordenadores, cada um
escolar têm demonstrado uma evolução no dentro de suas específicas designações, mas
que se refere ao perfil do diretor escolar. com o objetivo eloquente de difundirem
Essas mudanças são identificadas como ferramentas operacionais para a gestão
resultado de constantes mudanças na rotina escolar. Mas isso não foi o suficiente para
administrativa e até mesmo pedagógica mudar a cultura a qual delega ao diretor: a
das escolas, partindo de um pressuposto função de um gestor multiuso, se tornando
de que, medidas centralizadoras na gestão um verdadeiro “coringa” escolar.
educacional estariam sobrecarregando o
diretor. Um órgão dirigente de uma escola poderia
ser constituído hipoteticamente da seguinte
O desenvolvimento de uma cultura forma: Diretor eleito sendo este voltado
democrática participativa na escola exige para assuntos pedagógicos, Vice-diretor
a participação de todos que acercam o podendo focar nos assuntos administrativos,
trabalho do diretor nas questões políticas, os Coordenadores Pedagógicos divididos
pedagógicas e administrativas da educação, por níveis escolares ou turnos, Supervisor,
para um propósito de que ele consiga Orientador Educacional e um Gestor escolar
contribuir da melhor maneira para a que cuidaria das demandas que requerem
elaboração e execução de propostas que execução administrativa. Acompanhado a
contemplem a maioria. isto, caso venha a tona a formação de um
Colegiado, algum destes poderiam ocupar
A visão de que um pedagogo, um educador o cargo de Presidente do Colegiado, que
físico, um orientador educacional ou até teria também a presença de um professor
mesmo um coordenador pedagógico não representante do corpo docente, um membro
possa exercer funções administrativas, é uma representante do campo administrativo,
visão que pode ser considerada radical. Porém um representante da comunidade escolar,
a hipótese lógica da questão é: para saber podendo ser este um pai de aluno, um
administrar bem, tem que ter uma formação morador do bairro, um ex- -estudante, e até
e uma experiência gerencial, administrativa; mesmo uma força política ou empresarial
e separar as funções, ambos os profissionais que seriam escolhidos democraticamente
acerca de uma instituição escolar ganharão entre seus membros.
com isso, tanto na qualificação profissional
quanto no exercício pleno de suas funções. Mas para que uma proposta desta se
torne exequível, é importante rever o atual

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Revista Educar FCE - Março 2019

modelo de gestão escolar das escolas desenrolava desde os anos de 1950 e, que
públicas, buscando como fonte de inspiração, se agravava nos anos de 1970 e 1980 nos
modelos de gestão de escolas privadas que países subdesenvolvidos.
são escolas de sucesso, e se adequando às
normas e regimentos, - claro, de acordo com A crise do capitalismo foi uma crise
as leis às quais são submetidas esta escola, estrutural da sua forma de produção que até
seja municipal, estadual ou federal. Uma então era direcionada com base no modelo
escola democrática não pode ser gerida fordista, onde o trabalho era organizado de
por uma única pessoa. Ela deve ser gerida forma a concentrar um grande número de
pelo coletivo, privilegiando os espaços mais trabalhadores, com hierarquias de cargos,
amplos de discussão e decisão. sem nenhuma participação dos funcionários
na tomada de decisões.
As primeiras discussões acerca de uma
forma de gestão que proporcionasse uma Esta forma de produção produziu um
educação mais democrática e igualitária acúmulo do capital, causando assim uma crise
ocorreram durante a redemocratização do no seu modo de produção, ou seja, a crise
Brasil, nos movimentos sociais que lutavam do capital. A partir deste momento torna-se
para por um fim no governo militar e, necessário uma reestruturação na forma de
portanto, na ditadura militar. produção do capital, sendo o toyotismo o
modelo escolhido para tentar superar a crise.
Era um desejo antigo dos educadores O modelo toyotista de produção propunha
alcançarem uma educação democrática, a produção flexível, ou seja, a produção
de qualidade, capaz de formar o indivíduo nas fábricas passaria a ocorrer conforme a
autônomo. Uma educação igual para todos, demanda de pedidos, sem acumulação de
com o direito de acesso e permanência na produção.
escola garantidos.
O trabalho passou a ser organizado em
Em prol desse desejo, lutaram e equipes, onde os trabalhadores poderiam
contribuíram para a adoção da Gestão discutir sobre o seu trabalho procurando
Democrática para educação. sempre a melhor forma de se alcançar altos
níveis de produtividade. Neste momento,
Paralelamente a isso, discutiam-se, os funcionários das fábricas passam a ser
em eventos internacionais, uma reforma chamados para discutir sobre assuntos
educacional para a educação dos países inerentes a seus postos de trabalho,
Latino Americanos e do Caribe, como um rompendo com a forma de administração
mecanismo necessário para a modernização do fordismo, sendo assim, a administração
da economia desses países. Isso se dava passa a ser denominada gestão, sendo
pelo cenário de crise do capital que se esta denominação devido à nova forma de

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Revista Educar FCE - Março 2019

organização dos trabalhadores no novo Percebemos que o conceito de gestão


momento de produção capitalista. escolar ultrapassa o de administração
por ser este mais dinâmico, participativo
Este novo modelo de gestão implantadas e por abranger uma série de concepções
nas empresas fez com que surgisse o não abarcadas por este outro [o conceito
conceito de “fazer mais com menos”, sendo de administração], podendo-se citar a
que este influenciou a administração pública democratização do processo de construção
de outras instituições, não ficando a escola social da escola e realização de seu trabalho,
fora desta nova forma de administração. mediante a organização de seu projeto
político-pedagógico.
A gestão educacional, no contexto
dinâmico em que o mundo se encontra, Lück (2006) defende que, paralelamente
tem a necessidade de desenvolver novos à adoção do termo gestão na legislação
conhecimentos, habilidades e atitudes, e nas organizações escolares, ocorre
de forma a ultrapassar esta concepção de principalmente a adoção de princípios e
gestão como mera administração escolar. valores mais democráticos no ambiente
escolar. Consequentemente, há maior
É necessário um esforço especial por parte abertura à participação da comunidade
da gestão escolar, no sentido de promover escolar no cotidiano da escola, assim como
a articulação entre seu talento e energia possibilita uma visão mais abrangente dos
humana, recursos e processos, visando à problemas e necessidades educacionais
transformação dos seus alunos em cidadãos e da própria organização escolar. Com
participantes da sociedade. esta análise, pode-se afirmar que Gestão
educacional significa a gestão de sistemas
O termo gestão escolar possibilita de ensino e a gestão escolar, onde a ideia
ultrapassar o enfoque limitado de de gestão passa por todos os segmentos do
administração, levando em conta que os sistema, tanto em nível de gestão do sistema
problemas educacionais são complexos e de ensinos, quanto em nível de gestão de
necessitam de visão global e abrangente, escolas.
assim como ações articuladas, dinâmicas e
participativas. Na gestão, os processos pressupõem uma
ampla e continuada ação que se estende
Esta mudança, que não é apenas uma a dimensões técnicas e políticas que só
questão terminológica, representa novas produzem um efeito real quando unidas
ideias e estabelece, na instituição escolar, uma entre si.
orientação transformadora, a partir da rede de
inter-relações que ocorrem, dialeticamente, Na gestão educacional democrática, pode-
no seu contexto interno e externo. se destacar a criação de conselhos dotados

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Revista Educar FCE - Março 2019

de autoridade deliberativa e decisória, a Para Lück (2001), o próprio conceito de


participação da comunidade escolar na gestão já carrega em si a ideia de participação,
escolha dos diretores e o repasse direto de onde pessoas trabalham de forma associada
recursos financeiros às unidades escolares analisando situações, trocando experiências
como sendo medidas que visam contribuir e tomando decisões de forma conjunta.
para a construção de uma escola autônoma.
Esta mesma autora evidencia que o
Percebemos, porém, que as relações do desempenho de uma equipe depende da
sistema educacional são tecidas no dia-a- capacidade de seus membros de trabalharem
dia, assumindo as características produzidas em conjunto e solidariamente, mobilizando
pelos distintos processos de gestão a que são reciprocamente a intercomplementaridade de
sujeitas, o que demonstra o papel essencial seus conhecimentos, habilidades e atitudes,
do diretor escolar na busca por empreender com vistas à realização de responsabilidades
um forte espírito de equipe para cumprir os comuns: [...]“Por outro lado, a mobilização
objetivos educacionais, a partir do trabalho e o desenvolvimento dessa capacidade
coletivo. depende da capacidade de liderança de seus
gestores”. (Lück, 2008, p. 97).
A gestão escolar deve ser democrática,
com destaque para o relacionamento entre Neste sentido, a participação consiste na
seus profissionais, que buscam valores atuação consciente dos sujeitos no cotidiano
como igualdade, liberdade, transparência, escolar, que assumem serem membros de
honestidade, comprometimento e uma instituição social e que têm poder de
participação, favorecendo um ambiente exercer influência nas tomadas de decisões
saudável, motivador e construtivo. da escola.

Sabe-se que o trabalho do diretor escolar A formação continuada é outra


é necessário, mas que este profissional não característica bem marcante nas falas dos
tem em suas mãos o controle da produção sujeitos pesquisados. Pode-se perceber
e das decisões a respeito das políticas do que todas as professoras que responderam
sistema de educação do qual faz parte, como à entrevista consideram a formação
por exemplo, das diretrizes, das metas, dos continuada dos professores como sendo
projetos e dos programas. um dos principais motivos pelo sucesso
alcançado pela escola.
A participação é um dos princípios
básicos da gestão educacional democrática, A gestão escolar consiste no processo de
mobilização e orientação do talento e esforço
devendo ser estendida a todos os segmentos coletivos presentes na escola, associados com a
da comunidade escolar: professores, alunos, organização de recursos e processos, instigando,
funcionários, pais e comunidade. mobilizando competências, superando o enfoque
administrativo a partir do reconhecimento da

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Revista Educar FCE - Março 2019

dinâmica humana, promovendo a formação


dos professores, dos alunos, inovando, criando reciprocamente a intercomplementaridade de
espaços de aprendizagens significativas, seus conhecimentos, habilidades e atitudes,
desempenhando de forma efetiva seu papel com vistas à realização de responsabilidades
social (Lück, 2012, p. 32).
comuns: [...]“Por outro lado, a mobilização
e o desenvolvimento dessa capacidade
Conforme a mesma autora, os conceitos depende da capacidade de liderança de seus
de liderança e gestão se complementam, pois gestores”. (Lück, 2008, p. 97).
não se pode exercer gestão sem liderança.
Desta forma, Lück (2012), coloca algumas Neste sentido, a participação consiste na
características dos gestores escolares atuação consciente dos sujeitos no cotidiano
que agem como líderes, como: liderança escolar, que assumem serem membros de
compartilhada entre os membros da uma instituição social e que têm poder de
organização e determinada coletivamente, exercer influência nas tomadas de decisões
tomada de decisões distribuída, mediante da escola.
processos de reflexão e disseminação de
informações, sucesso atribuído ao trabalho A formação continuada é outra
em conjunto, papeis e funções assumidos característica bem marcante nas falas dos
de forma compartilhada, segundo o sentido sujeitos pesquisados. Pode-se perceber
de responsabilidade comum. Por isso, os que todas as professoras que responderam
gestores da escola devem agir de certa forma, à entrevista consideram a formação
como líderes no processo de gestão, de modo continuada dos professores como sendo
a mobilizar e orientar os profissionais dentro um dos principais motivos pelo sucesso
da escola. alcançado pela escola.

A gestão escolar consiste no processo de


A GESTÃO E A ATUAL mobilização e orientação do talento e esforço
SOCIEDADE coletivos presentes na escola, associados
com a organização de recursos e processos,
Para Lück (2001), o próprio conceito de
gestão já carrega em si a ideia de participação,
onde pessoas trabalham de forma associada
analisando situações, trocando experiências
e tomando decisões de forma conjunta.

Esta mesma autora evidencia que o


desempenho de uma equipe depende da
capacidade de seus membros de trabalharem
em conjunto e solidariamente, mobilizando

357
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dada a importância e as particularidades do tema,
esse artigo procurou ressaltar alguns aspectos essenciais,
deixando em aberto outras questões que poderão ser
desenvolvidas posteriormente com maior profundidade.

A Gestão Educacional parece ser um movimento


político da União dos Estados Brasileiros para que ocorra a
efetivação do proposto pela legislação vigente. No entanto,
é importante fazer a ressalva de que a ação prescritiva
dos programas federais tem imprimido às escolas públicas ANDREA GOMES MALTA
brasileiras ainda um modelo que não trabalha exatamente a DOS SANTOS
gestão democrática da educação. O modelo organizacional
Graduada em Letras, pela
das instituições escolares nacionais ainda é o modelo Faculdade UNIP, em 2009.
administrativo baseado no positivismo e no funcionalismo, Professora de Educação Infantil e
Ensino Fundamental na Prefeitura
Municipal de São Paulo.
Observa-se que a administração escolar ainda é regida
pelos pressupostos da administração empresarial e é
emergente a necessidade de uma mudança de paradigma
para que se possa efetivar a gestão democrática da educação.
A mudança primordial estaria vinculada à superação do
modelo administrativo vigente durante muito tempo no
campo educacional, pelos princípios da gestão.

358
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, 1988.

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, 1996.

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FREITAS, Katia Siqueira de; GIRLING, Robert; KEITH, Sherry. Escola participativa: o trabalho
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PARO, Vitor Henrique. Gestão democrática da escola pública. São Paulo: Editora Ática, 1997.

VALERIEN, Jean. Gestão da escola fundamental: subsídios para análise e sugestões de


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SACRISTÁN, G. Os professores como Planejadores. IN: SACRISTÁN, Gimeno; GÓMEZ, Pérez


A.I. Compreender e transformar o ensino. 4º ed. São Paulo: Artmed, 1998.

SAVIANI, D; LOMBARDI, J. C. (orgs). Marxismo e educação: debates contemporâneos.


Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2005.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A INCLUSÃO EDUCACIONAL
RESUMO: O presente artigo analisa a inclusão na Educação, trazendo à tona discussões
pertinentes deste novo paradigma social, fundamentalmente para as crianças com alguma
deficiência, as quais têm seu processo de desenvolvimento cada vez mais estudado. O objetivo
desta pesquisa é verificar e analisar a interação social de crianças especiais. Neste estudo relata-
se a importância da educação especial para a formação e desenvolvimento dessas crianças
e a influência da estimulação precoce em relação à aprendizagem deste aluno. Pretende-se
com este artigo abordar algumas reflexões a respeito da inclusão na Educação, bem como as
experiências obtidas em sala de aula, sendo um dos objetivos refletir sobre as condições de
inclusão social a partir, e dentro da sala de aula. Outra preocupação presente diz respeito as
representações sociais, presentes na sociedade brasileira, ou melhor, no imaginário social, das
variadas formas de exclusão construídas e representadas por meio de estigmas e estereótipos.

Palavras-Chave: Educação; Inclusão; Interação

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO crianças e jovens com necessidades educativas


especiais é alcançada de forma mais eficaz em
escolas integradoras para todas as crianças
É um desafio grandioso iniciar-se uma de uma comunidade. É nesse ambiente que a
crianças com necessidades educativas especiais
reflexão sobre um projeto na área de inclusão podem progredir no terreno educativo e no
na Educação, objetivando uma educação da integração social. As escolas integradoras
voltada para todos, aproximando o aluno constituem um meio favorável à construção
da igualdade de oportunidades e da completa
e especialmente o professor numa relação participação; mas para ter êxito, requerem um
prazerosa com o conhecimento, nos moldes esforço comum, não somente dos professores e
idealizados pelos estudiosos da área em suas do pessoal restante da escola, mas também dos
colegas, pais, famílias e voluntários.
últimas propostas, como também, respeitar
as especificidades desses alunos: sua língua, As necessidades educativas especiais
seus anseios, sua relação familiar, etc. incorporam os princípios já comprovados de
uma pedagogia equilibrada que beneficia todas
as crianças. Parte do princípio de que todas
Nas últimas duas décadas, a tendência as diferenças humanas são normais e de que
educacional foi de fomentar a escola de a aprendizagem deve, portanto, ajustar-se às
necessidades de cada criança, ao invés de cada
qualidade para todos e lutar contra a criança se adaptar aos supostos princípios quanto
exclusão escolar de alunos com necessidades ao ritmo e a natureza do processo educativo.
especiais, de forma que todas as crianças Uma pedagogia centralizada na criança é
positiva para todos e, consequentemente, para
possam aprender juntas, independente de toda a sociedade.
suas dificuldades e diferenças.
As políticas educativas deverão levar em
conta as diferenças individuais e as diversas
O Brasil fez opção pela construção de um situações. Deve ser levada em consideração,
sistema educacional inclusivo ao concordas por exemplo, a importância da língua dos sinais
com a Declaração Mundial de Educação como meio de comunicação para os surdos,
e ser assegurado a todos os surdos acesso ao
para Todos e ao mostrar consonância com ensino da língua de sinais de seu país. Face à
os postulados produzidos em Salamanca necessidades específicas de comunicação de
(Espanha). surdos e de surdo-cegos, seria mais conveniente
que a educação lhes fosse ministrada em escolas
especiais ou em classe ou unidades especiais
A Declaração de Salamanca (Brasil, 1994), nas escolas comuns.
em seus pressupostos, afirma que:

A tendência da política social durante as duas Com base nesses dispositivos político-
últimas décadas foi de fomentar a integração
e a participação e de lutar contra a exclusão. filosóficos e nos dispositivos da legislação
A integração e a participação fazem parte da brasileira, o Conselho Nacional de Educação
dignidade humana e do gozo e exercício dos aprovou a Resolução nº 02/2001 que institui
direitos humanos. No campo da educação,
essa situação se refere no desenvolvimento as Diretrizes Nacionais para a Educação
de estratégias que possibilitem uma autêntica Especial na Educação básica.
igualdade de oportunidades. A experiência de
muitos países demonstra que a integração de

361
Revista Educar FCE - Março 2019

Contudo, a inclusão com garantia de o docente do seu papel fundamental de


direitos e qualidade de educação ainda é problematizador da realidade do educando,
um sonho a ser alcançado, um caminho a de modo que suas vivencias façam parte
ser construído, ao qual várias mudanças deste processo para que de fato se tenha um
serão necessárias: estruturais, pedagógicas significado na aprendizagem. Pois para Paulo
e sem dúvidas capacitação de professores Freire ensinar a pensar e problematizar sobre
no que se diz respeito a lidar com situações a realidade é a maneira mais correta de se
corriqueiras do dia a dia de sala de aula. produzir conhecimento, visto que, a partir daí
o discente terá a capacidade de reconhecer-
se como um ser social. “[...] aprender, é um
A INCLUSÃO, A SOCIEDADE E processo que pode deflagrar no aprendiz
A EDUCAÇÃO uma curiosidade crescente, que pode torná-
lo mais e mais criador”. (FREIRE, 1996, p.24)
Por meio da escola em que considera-se
como espaço privilegiado de construção de Desse modo, podemos dizer que diante
conhecimento e desenvolvimento de valores, dos métodos de alfabetização do autista, o
diante das crianças com necessidades aluno tem a necessidade de reconhecer-se
especiais tem deixado algumas indagações como um ser social, e essa tarefa fica a cargo
e desafios que não estão relacionados á do professor alfabetizador, que através de
deficiência dos alunos, mas sim ao descaso metodologias centradas no aluno, tenha o
de alguns profissionais docentes e algumas objetivo de conscientizá-lo como construtor
instituições, em relação à diversidade de seu conhecimento. Assim as estratégias
humana, a qual se constitui a população de alfabetização precisam ser trabalhadas de
brasileira. forma conjunta, incluindo a práxis. Segundo
Freire (1987, p.17) em sua obra nos faz refletir
Paulo Freire por exemplo, não discute sobre as condições de opressores e oprimidos
diretamente o tema de inclusão, mas no {...} Os opressores, falsamente generosos, têm
decorrer dos estudos percebe-se que sua necessidade, para que a sua “generosidade”
pedagogia é centralizada no sujeito. Diante continue tendo oportunidade de realizar-se,
desta concepção acreditamos que a educação da permanência injusta. (grifo do autor).
especial deva ser pensada de modo que o
discente seja visto como um ser construtor Diante de alguns artigos sobre educação
de seu conhecimento, capaz de interagir, inclusiva formam-se os elos de sabedoria
e que tenha materiais que estimulem suas e trabalho mútuo, tanto por parte dos
habilidades docentes, quanto da família que precisa
buscar materiais que estimulem o fazer
No contexto de seu livro “Pedagogia do da criança, levando em consideração o
Oprimido”, Paulo Freire procura conscientizar letramento que perdura por toda vida.

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Revista Educar FCE - Março 2019

É fundamental que a escola seja um defesa do direito de todos os alunos de


ambiente inclusivo e propício para o acesso estarem juntos, aprendendo e participando,
da pessoa autista e utilizar propostas sem nenhum tipo de discriminação”:
metodológicas de acordo com a necessidade
da criança. A educação inclusiva constitui um paradigma
educacional fundamentado na concepção de
direitos humanos, que conjuga igualdade e
Os profissionais da educação precisam diferença como valores indissociáveis, e que
estar preparados para lidar com esse tipo de avança em relação à ideia de equidade formal
ao contextualizar as circunstâncias históricas da
situação para que sejam tomadas medidas produção da exclusão dentro e fora da escola
cabíveis para a resolução do problema. (BRASIL, 2007, p.1)

Sabe-se que a participação da família tem


uma parte importante, pois muitas vezes a A educação inclusiva tem um passado de
rejeição começa dentro da própria casa. segregação, segundo a Organização Mundial
Santos (2008, p. 14) destaca que “Autismo da Saúde (OMS), 10% das pessoas têm algum
não é muito comum e a maioria das pessoas tipo de deficiência, o que representaria 15
não sabe nada sobre o assunto, levando os milhões de brasileiros, de acordo com o
pais a se sentirem muito sós e ignorantes Censo do IBGE de 2000. Em 2004, a fim de
a respeito da condição e o que devem aprimorar a formulação de políticas públicas,
realmente fazer”. o MEC passou a definir melhor as várias
categorias de deficiência (BIAGGIO, 2009,
É preciso levantar a discussão para o caminho p.21).
percorrido pela educação brasileira para
concretizar seu “projeto inclusivo”, que esbarrou
em “equívocos conceituais e dificuldades na Um novo desafio se impõe à prática docente
reorganização pedagógica”, os avanços da escola na contemporaneidade, o trabalho em equipe,
brasileira nessa direção têm acontecido de forma pois “o professor sozinho não pode de forma
lenta, pois ainda há “muita resistência por parte isolada transformar um centro educacional em
das instituições à inclusão plena e incondicional, espaço inclusivo, mesmo que sua sala de aula seja
e isso ocorre por causa da inexperiência com a um espaço inclusivo”, é necessário colaboração
e articulação entre toda a comunidade escolar,
diferença” (MANTOAN, 2010, p. 13). especialmente da família (DÍEZ, 2010, p. 21).

O sistema educacional brasileiro vem Percebe-se que a inclusão está presente


passando por significativas mudanças nas cada dia mais em nossos cotidianos, dessa
últimas décadas, e nesse contexto, o Ministério forma, a família e a escola devem caminhar
da Educação e a Secretaria de Educação lado a lado, para que o aluno com autismo
Especial (MEC/SEESP, 2007) ressaltam em possa ter um acompanhamento adequado
que: “o movimento mundial pela educação que contribuirá para o seu desenvolvimento
inclusiva é uma ação política, cultural, social integral e significativo.
e pedagógica”, que foi desencadeada “em

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Revista Educar FCE - Março 2019

A DEMOCRATIZAÇÃO Afora ações para garantir que as escolas


DA ESCOLA PÚBLICA E A se constituam em espaços de aprendizagem
para todos os alunos, na CF 88 (art. 205, inc.
INCLUSÃO III) está previsto que o Estado deve garantir
atendimento educacional especializado aos
Para BARROSO (2005, p.11) “a educandos com necessidades educacionais
democratização da escola pública, ou especiais (Res. 2/01), preferencialmente na
melhor, a sua refundação enquanto uma rede regular de ensino.
escola efetivamente popular - é uma tarefa -
desafio ainda em aberto para os educadores”. No Brasil, tradicionalmente, é a educação
O projeto - aparentemente irrealizável - é especial que tem se responsabilizado por
construir uma educação pública que seja, esse tipo de atendimento. Nesse sentido,
ao mesmo tempo, democrática (extensiva para Sousa e Prieto (2002, p.123), “tem-
a todos, indistintamente) e portadora de se previsto o ‘especial’ na educação
uma determinada qualidade, que seja referindo-se a condições que possam ser
socialmente referenciada e distante da lógica necessárias a alguns alunos para que se
excludente. Uma escola que consiga inserir viabilize o cumprimento do direito de todos
as novas gerações num mundo inteiramente à educação”. O que se tem como objetivo
transformado e distante daquele que precípuo, portanto, é a defesa da educação
originou a sua universalização. escolar para todos como um princípio.

Uma das tarefas é identificar Se o princípio da educação inclusiva vem


constantemente as intervenções e as ações se fortalecendo desde meados da década de
desencadeadas e/ou aprimoradas para que 1990, na prática é o modelo da integração
a escola seja um espaço de aprendizagem escolar que ainda predomina.
para todos os alunos. Isso exigirá novas
elaborações no âmbito dos projetos A educação inclusiva tem sido caracterizada
escolares, visando ao aprimoramento de sua como um “novo paradigma”, que se constitui
proposta pedagógica, dos procedimentos pelo apreço à diversidade como condição a ser
avaliativos institucionais e da aprendizagem valorizada, pois é benéfica à escolarização de
dos alunos. É importante ainda uma atenção todas as pessoas, pelo respeito aos diferentes
especial ao modo como se estabelecem as ritmos de aprendizagem e pela proposição
relações entre alunos e professores, além da de outras práticas pedagógicas, o que exige
constituição de espaços privilegiados para a ruptura com o instituído na sociedade e,
formação dos profissionais da educação, para consequentemente, nos sistemas de ensino. A
que venham a ser agentes co-responsáveis ideia de ruptura é rotineiramente empregada
desse processo. em contraposição à ideia de continuidade
e tida como expressão do novo, podendo

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Revista Educar FCE - Março 2019

causar deslumbramento a ponto de não ser criança, a construção de seus conhecimentos,


questionada e repetir-se como modelo que como cada uma reage e modifica sua forma
nada transforma. de sentir, pensar, falar e agir, o papel das
interações sociais e do ambiente nesses
Quando o objetivo é o atendimento de processos. Esses conhecimentos dariam aos
alunos com necessidades educacionais professores condições de pensar e agir com
especiais, muito desse novo discurso mais autonomia, de estruturar um ambiente
tem servido para condenar práticas da educativo que permita a construção efetiva
educação especial, sem, contudo ressaltar das competências consideradas importantes
que sua trajetória reflete em alto grau a na cultura e desenvolvimento global da
marginalização a que foi submetida pelas criança.
políticas educacionais, o que a fez constituir-
se também como alternativa com o poder Ao longo de sua história, muitos
de reiterar o isolamento social daqueles psicólogos vêm pesquisando e elaborando
em atendimento por essa modalidade de teorias sobre o desenvolvimento do ser
ensino. Tem ainda aparecido como a grande humano, o papel das interações sociais nesse
vilã, responsável quase que isoladamente desenvolvimento e sobre a aprendizagem.
pela perpetuação de fortes mecanismos Nesse contexto, poderia se apresentar pelo
de resistência à escolarização de todos em menos três concepções psicológicas: a
escolas regulares. O que se pode denunciar, inatista - que supõe que o desenvolvimento
com certa garantia de que seja posição humano é determinado por fatores genéticos,
consensual, é o descaso com que muitos de sendo que todas as características físicas e
nossos governantes ainda tratam a educação psicológicas de uma pessoa são herdadas
de pessoas com necessidades especiais. geneticamente de seus pais; a ambientalista
- que, ao contrário, acredita que a criança
Livros, artigos, seminários e congressos nasce sem que nada esteja determinado
sobre Inclusão Escolar, têm sempre um caráter biologicamente, de maneira que o meio
pedagógico em que quase nunca se fala das ambiente em que vive é que irá moldá-la,
questões psicológicas que envolvem e que estimulá-la e corrigi-la segundo um padrão
podem contribuir em muito para o sucesso ideal de comportamento; a interacionista -
da Inclusão Escolar. O curso de Pedagogia que, diferindo das duas primeiras, considera
tem pouquíssimas matérias de Psicologia. que tanto os fatores biológicos como
Quando há, apenas são repassadas de forma os ambientais são fundamentais para o
rápida as teorias tradicionais. Um conteúdo desenvolvimento humano e não podem ser
atualizado e maior de Psicologia poderá ajudar dissociados.
a melhorar as relações dos professores com
seus alunos por meio do conhecimento dos
processos e etapas do desenvolvimento da

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Revista Educar FCE - Março 2019

OS PROFESSORES E A INCLUSÃO
Para a maioria dos professores, assim como para grande parte da população, ainda há
aqueles velhos conceitos culturais referentes às pessoas com deficiência, como imaginar
que elas são doentes e/ou que não se desenvolveram ou aprendem como as demais. Ora,
a aprendizagem e o desenvolvimento humanos são individuais, ninguém tem um modelo a
seguir.

De fato, nenhum professor está preparado para trabalhar com a Inclusão Escolar até o
momento em que chegue à sua turma um aluno a ser incluído, ou seja, ninguém em nenhuma
situação está preparado para resolver algo que nunca vivenciou - o que muitas vezes exige
conhecimento de experiências anteriores. Será neste momento que veremos realmente
quem é o educador de verdade. O acomodado alegará não estar preparado, pois rejeitar um
aluno com essa alegação será muito mais fácil e rápido para se livrar da questão.

Mas o verdadeiro professor, consciente de seu compromisso e desafio ético de educar


a todos que pertencerem ao seu alunado, primeiro o receberá e somente depois irá se
informar, buscar o maior número possível de informações e recursos para promover
o desenvolvimento global daquele aluno. De modo geral, o bom educador reconhece
que sua formação é permanente, contínua e flexível e que ocorre em salas de aulas das
universidades, com o hábito e prática de leituras e de estudos, assim como também no
dia a dia das escolas, na convivência cotidiana com colegas de trabalho, com seus alunos,
com suas experiências familiares e na comunidade. O bom educador preocupa-se com
o seu processo de autoconhecimento, com a descoberta de conhecimentos e interesses
próprios, com suas motivações pessoais. Ele se permite autoconhecer em suas habilidades
e dificuldades, preparando-se bem para contribuir com a formação de qualquer aluno que
venha a integrar sua sala de aula.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante muitos anos, o conceito de Educação Especial
teve uma forte aceitação em nosso país. Era um modelo
educacional-médico, ou seja, instituições que mantinham
equipes multidisciplinares, formadas por professores
especializados, médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogas,
terapeutas ocupacionais, psicólogos e outros profissionais
menos comuns. Essa equipe tinha como meta habilitar
as pessoas que nasciam com algum tipo de deficiência
ou reabilitar aquelas que, ao longo de sua vida, viessem
adquirir alguma deficiência, seja por meio de doenças ou ANDREA HELENA DA
acidentes, dentre outros motivos. Eram os profissionais SILVA BERNARDES
que preparavam crianças ou pessoas com deficiência para
Graduação em Pedagogia pela
depois integrá-las na sociedade - e com muitos resultados Faculdade Campos Salles em
positivos. 1995 Professora de Educação
Infantil pela Prefeitura Municipal
de São Paulo.
Historicamente, pessoas com deficiência ficaram por
muito tempo escondidas do convívio social. Até que, cerca
de uma década atrás, nasceu o conceito de integração social.
Surgiram, por exemplo, entidades, centros de reabilitação,
clubes sociais especiais, associações desportivas, todas
dedicadas a pessoas com deficiência. A intenção principal
delas era preparar essas pessoas para ingressar e conviver
em sociedade.

A inclusão escolar está articulada a movimentos sociais


mais amplos, que exigem maior igualdade e mecanismos mais
equitativos no acesso a bens e serviços. Ligada a sociedades
democráticas que estão pautadas no mérito individual
e na igualdade de oportunidades, a inclusão propõe a
desigualdade de tratamento como forma de restituir uma
igualdade que foi rompida por formas segregadoras de
ensino especial e regular.

Fazer valer o direito à educação para todos não se limita


a cumprir o que está na lei e aplicá-la, sumariamente,
às situações discriminadoras. O assunto merece um

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Revista Educar FCE - Março 2019

entendimento mais profundo da questão de justiça. A escola justa e desejável para todos
não se sustenta unicamente no fato de os homens serem iguais e nascerem iguais.

As políticas educacionais não estabelecem uma remuneração descente para os


professores, que são obrigados a trabalhar dois e até três turnos, para conseguirem manter
sua sobrevivência, e a de sua família.

Por meio da convivência com as diferenças as crianças vão construindo o processo para
inclusão social, um mundo melhor, no qual todos saem ganhando, e com isso, possibilitando
falar em inclusão social real.

Acredita-se que o processo inclusivo deve permitir que o estudante desenvolva


suas potencialidades educativas com os outros estudantes, visto que a socialização não
necessariamente ocorre apenas na escola, pois é realizada em diversos ambientes.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, Brasília, 1994.

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possibilidade? Editora PAULUS. 2ª edição. SP, 2010. Pg. 8, 9, 11, 23 até 31.

DÍEZ, Anabel Moriña. Traçando os mesmo caminhos para o desenvolvimento de uma


educação inclusiva. Tradução Grupo Solucion-SP. Inclusão, Revista da Educação Especial.
Brasília, 2010. Vol. 5, nº. 1, p. 16-25.

FIGUEIRA, Emílio. Educação Inclusiva. Editora Brasiliense. São Paulo, 2011. Pg. 10, 11, 12,
13,14, 15,18, 19.

GUERRA, Alexandre; MORETTO, Amilton; FONSECA, Ana; CAMPOS, André; FREITAS,


Estanislau de; SILVA, Ronnie; RIBEIRO, Thiago. Organizadores: MANTOAN, Maria Teresa
Eglér; ARANTES, Valéria Amorim (Org.). Inclusão escolar: pontos e contrapontos. 3. Ed. São
Paulo: Summus, 2006.

MANTOAN, Maria Teresa Eglér; PRIETO, Rosângela Gavioli. Inclusão Escolar. Summus
editorial. 4ª edição. SP, 2006 Pg. 16, 17, 36, 37, 39, 40, 41

POCHMANN, Marcio; AMORIM, Ricardo. Atlas da Exclusão Social no Brasil. 2ª edição.


Editora Cortez. São Paulo, 2003. Pg. 09, 73, 74, 75, 76.

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Revista Educar FCE - Março 2019

OS ESTUDOS EM PSICOPEDAGOGIA
E A SUA CONTRIBUIÇÃO PARA
O PROCESSO DE ENSINO E
APRENDIZAGEM
RESUMO: Este estudo traz uma revisão bibliográfica com o tema voltado ao estudo da
Psicopedagogia e as suas contribuições para as práticas de ensino e para o processo de
aprendizagem na escola, no que diz respeito ao atendimento e acompanhamento dos alunos
que apresentam alguma dificuldade em assimilar os conteúdos. Dentro desse tema, o objetivo
deste trabalho é apresentar e refletir acerca da importância dos estudos em Psicopedagogia
relacionadas a Educação. O psicopedagogo institucional trabalha na instituição escolar e
realiza o levantamento e compreensão, analisando as práticas que acontecem no âmbito
escolar e a atuação da equipe escolar. O objetivo do diagnóstico é compreender globalmente
a maneira como a criança aprende e o que está ocorrendo neste processo dificultando a
aprendizagem, depois de especificado o problema parte-se então para o encaminhamento
de ações para solucioná-los. O profissional em psicopedagogia indicará a dificuldade de
aprendizagem, que foi diagnosticada na sessão e depois da devolutiva ao paciente inicia-se
o processo de intervenção para integração escolar e social.

Palavras-Chave: Educação; Inclusão; Interação

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO psicopedagógica é compreender de que


maneira o indivíduo aprende e como se dá
O atendimento psicopedagógico e a este processo.
psicopedagogia são aliados no processo
de ensino e aprendizagem na escola e o O método escolhido para a intervenção
conhecimento desta área de atuação pode psicopedagógica vai interferir e influenciar
auxiliar o trabalho do professor em sala de diretamente os resultados obtidos, é
aula e a escola de uma maneira geral e estes preciso que se tenha bem claro quais são
conhecimentos se tornam fundamental para os propósitos da intervenção e qual é o
a compreensão de questões relacionadas a melhor instrumento a ser utilizado naquele
aprendizagem no cotidiano escolar. momento, baseado nas informações que
se tem daquele indivíduo e das queixas ali
O psicopedagogo exerce a função de dar apresentadas. Neste sentido o objetivo
suporte clínico e/ou pedagógico na escola geral desta pesquisa é compreender de
ou na clínica especializada. Quando atua que maneira a psicopedagogia e os testes
no âmbito educacional realiza o trabalho para avaliação psicopedagógica auxiliam no
voltado a prevenção e análise dos principais processo de ensino e aprendizagem e em
problemas de aprendizagem. A prevenção quais contextos se dá a sua utilização.
neste tipo de atendimento atua voltada ao
suporte para que a aprendizagem efetiva A criança até os dez anos está em processo
ocorra e que todos os alunos possam constante de aprendizagem, aprendendo a
aprender. lidar com o mundo e a lidar com si mesma,
o cérebro da criança nesta fase, está em
A Psicopedagogia surge com a formação biológica e o ambiente que a cerca
necessidade de identificação e compreensão interfere nessa formação, neste sentido, a
dos problemas de aprendizagem, tem como família, a escola e as relações que estabelecem
função indicar maneiras de intervenção nesta fase, têm extrema importância nesta
que colaborem para que o aluno tenha um fase de desenvolvimento.
aprendizado significativo e seja capaz de
construir conhecimentos. O objetivo do diagnóstico é compreender
globalmente a maneira como a criança
Para a Psicopedagogia o meio no qual o aprende e o que está ocorrendo neste
indivíduo está inserido é de fundamental processo dificultando a aprendizagem,
importância nesta análise dos fatores que depois de especificado o problema parte-
podem acarretar prejuízos na aprendizagem, se então para o encaminhamento de ações
e neste meio social, encontra-se a escola, a para solucioná-los. O profissional em
família e a sociedade. O intuito dos estudos psicopedagogia indicará a dificuldade de
psicopedagógicos e dos testes de avaliação aprendizagem, que foi diagnosticada na

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Revista Educar FCE - Março 2019

sessão e depois da devolutiva ao paciente aprendizagem, logo depois, passam a pensar


inicia-se o processo de intervenção para na instituição escola e no nível de atuação
integração escolar e social. distinto do psicopedagogo clínico e do
psicopedagogo educacional.

A PSICOPEDAGOGIA E A A Psicopedagogia curativa utilizava um


SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A método que buscava favorecer a readaptação
pedagógica dos alunos, auxiliando-o a
APRENDIZAGEM adquirir conhecimentos e a desenvolver a sua
personalidade. Era conduzida em grupos ou
A psicopedagogia pode ser definida como individualmente e foi introduzida na França.
um campo do conhecimento que tem a sua
atuação nos âmbitos educacional e clínico De acordo com as ideias de Oliveira (2011)
e tem por objetivo estudar a aprendizagem nos diferentes momentos da história, os
humana e como essa aprendizagem evolui estudiosos e pesquisadores demonstraram
ou é prejudicada devido a diferentes fatores uma preocupação de como os ambientes
que podem influenciar a sua aquisição. educacionais poderiam ter sucesso em
realizar a seleção de crianças ou proporcionar
Os primeiros cursos de pós-graduação o seu desenvolvimento. Muitas crianças que
no Brasil surgem na década de 1970. apresentaram algum tipo de dificuldade na
Inicialmente, com o objetivo de aumentar escola poderiam ter avançado caso, nesta
a quantidade de psicólogos, pedagogos época, fossem conhecidas algumas práticas
e educadores em geral, auxiliando no corretas de instrução. Neste sentido, até
entendimento e auxilio das dificuldades e mesmo os alunos que conseguiram êxito
problemas de aprendizagem, consideradas nestes modelos educacionais, poderiam ter
como distúrbios. Os estudos na Argentina obtido melhores resultados e desenvolvido
estavam bem avançados quando surgiu a diferentes habilidades e conhecimentos.
Pós-graduação em nível de especialização
no Brasil, primeiro em nível institucional, Para efeito de estudo, a Psicopedagogia
com uma visão psicopedagógica, cursos pode ser agrupada nas seguintes categorias:
referentes à criança, aos problemas em sala Psicopedagogia e Pedagogia com o foco no
de aula, dificuldades escolares, etc. indivíduo Pedagogicamente; Psicopedagogia
e Psicologia, com o foco no indivíduo
Em 1979, é instituído o primeiro curso Psicologicamente; Psicopedagogia e
no “Instituto Sedes Sapientae”, enfocando a problemas de aprendizagem com o foco nas
reeducação sob a ótica piagetiana e na Teoria situações em que não ocorre aprendizagem,
da Gestalt. Este curso tinha um enfoque mas que deveriam ocorrer; Psicologia e
terapêutico sobre os aspectos afetivos da fracasso escolar com o foco no indivíduo

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Revista Educar FCE - Março 2019

que não adquire conhecimento traçando um ocasionar as dificuldades de aprendizagem.


paralelo com o contexto social e a escola. De acordo com Ribeiro (2011) a dificuldade
Releva fatores externos como mediadores de aprendizagem pode ser definida como
na aprendizagem. um termo geral que se refere a um grupo
heterogêneo de desordens manifestadas
No século XIX, na Europa, começa por dificuldades significativas na aquisição
surgir a preocupação com os problemas de e utilização da compreensão auditiva, da
aprendizagem e as discussões envolviam fala, da leitura, da escrita e do raciocínio
filósofos, educadores e médicos. Foi matemático.
constituída neste período uma equipe médico
pedagógica para estudar os problemas Segundo Tabaquim (2003) o estudo das
neurológicos que poderiam interferir no questões neurobiológicas do comportamento
processo de ensino e aprendizagem. humano busca estabelecer relações entre os
processos mentais e as atividades celulares.
O fracasso escolar, por muitas vezes, A Neuropsicologia estuda os distúrbios das
está relacionado a falhas da aprendizagem, funções superiores que são produzidos
esses distúrbios podem estar relacionados por alterações cerebrais e investiga os
a diferentes áreas como leitura, escrita, distúrbios de comportamento adquiridos, é
ortografia, dentre outras, além destes uma ciência do conhecimento que estuda
aspectos podem relacionar-se a coordenação as relações entre cérebro e comportamento,
do movimento, organização espacial, etc. apresentando o funcionamento dos sistemas
cerebrais individuais em seus diferentes
O não aprender do indivíduo pode níveis, tanto em condições normais como
estar relacionado a um distúrbio ou a uma patológicas.
dificuldade escolar, nos dois casos, o indivíduo
apresenta rendimento escolar abaixo da O estudo em Neuropsicologia busca
média nas diferentes áreas de aprendizagem. realizar uma análise das alterações que
O distúrbio escolar tem origem orgânica, podem ocorrer nos casos de lesão cerebral,
neurológica, que pode ser resultante de explicitando como tais lesões podem
disfunções em diferentes áreas do cérebro. interferir nos processos psicológicos e
Os principais problemas são dislexia (falha permite a análise da atividade mental, com
no processamento da habilidade da leitura o acesso a informações a respeito das lesões
e da escrita), disgrafia (falha na escrita) em partes complexas do cérebro.
e discalculia (dificuldade para lidar com
conceitos e símbolos matemáticos). A neuropsicologia estuda as funções
do sistema nervoso e o comportamento
O diagnóstico em psicopedagogia é humano, a aprendizagem é definida como
utilizado para avaliar quais fatores podem uma mudança de comportamento resultante

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Revista Educar FCE - Março 2019

de uma experiência já vivenciada pelo todos os métodos de investigação, partindo


indivíduo, neste sentido, com a aprendizagem da entrevista inicial com os pais e a criança,
a ser constituída por processos neurais, a anamnese e aplicando os testes específicos,
neuropsicologia torna-se uma importante para então poder chegar a um diagnóstico das
ferramenta de estudo no contexto reais dificuldades apresentadas por aquela
educacional. criança. O trabalho conjunto com o professor
também é de fundamental importância para
Dificuldades, transtornos, distúrbios e obter resultados positivos no processo de
problemas de aprendizagem são expressões intervenção e assim “agir” diretamente nas
muito utilizadas para se referir as alterações dificuldades de aprendizagem apresentadas.
que muitas crianças apresentam na aquisição
de conhecimentos, habilidade motora e A atuação do psicopedagogo clínico é
psicomotora. O processo de aprendizagem terapêutica, considerando que o aluno
requer um certo nível de ativação, atenção se encontra em um estágio avançado
e seleção das informações recebidas, estes de dificuldades de aprendizagens. O
são elementos fundamentais para toda atendimento psicopedagógico clínico ocorre
a atividade neuropsicológica, que são fora do ambiente escolar, normalmente em
fundamentais para manter as atividades um consultório local em que é realizado
cognitivas. a coleta de dados para uma avaliação
individualizada.
Para o diagnóstico é importante que todas
as regras de relacionamento, sejam bem O processo do diagnóstico psicopedagógico
definidas desde o primeiro contato, sendo clínico compreende diversas fases segundo
claras para o paciente e a sua família, por Pain (1985) o motivo da consulta é
este motivo é necessário um contrato de fundamental para diagnosticar qual é o
atendimento no qual serão definidas funções, motivo que levou o paciente a procurar o
número de sessões previstas, horários e local atendimento, o paciente pode ser indicado
de atendimento, etc. para o atendimento pela instituição escolar,
pela família ou pelo médico.

AS FORMAS DE O psicopedagogo institucional trabalha na


DIAGNÓSTICO E instituição escolar e realiza o levantamento,
compreensão e análise de todas as ações
O TRABALHO DO desenvolvidas na escola relacionadas
PSICOPEDAGOGO a aprendizagem. Para Weiss (2002), o
diagnóstico psicopedagógico tem como
O psicopedagogo deve conhecer a queixa objetivo identificar os desvios e os obstáculos
que levou aquela criança até ele e utiliza de básicos na Aprendizagem que o impedem

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Revista Educar FCE - Março 2019

aprender conforme o esperado dentro das concepções educacionais e do meio social.


Desta forma, o papel do psicopedagogo é realizar as intervenções e os encaminhamentos
necessários.

O psicopedagogo clínico realiza diferentes tipos de atendimento, segue abaixo a descrição


de alguns deles:

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Revista Educar FCE - Março 2019

A abordagem psiconeurológica está cognitivos, afetivos e sociais. Segundo


centrada na ideia de que o comportamento Fernandez (1991), o diagnóstico tem como
está desorganizado em função de problemas objetivo buscar um modelo de aprendizagem
neurológicos e a abordagem Behaviorista adequado. Por meio da atividade lúdica é
acredita que o indivíduo é controlado pelo possível adquirir conhecimentos sobre a
meio ambiente externo, do qual recebem os criança e compreender de que forma ela se
estímulos, os quais interferem no aprender. organiza e representa o conhecimento, por
meio de seus esquemas mentais.
Os diagnósticos psicopedagógicas
são compostos por diferentes etapas, Com este tipo de diagnóstico é possível
segundo Weiss (2002) podemos destacar: a observar impedimentos no processo de
Entrevista Familiar Exploratória Situacional ensino e aprendizagem, tomando como base
(E.F.E.S) que busca compreender a queixa, e referencial as ideias de Piaget sobre os
envolvendo a escola e a família, neste processos de assimilação e acomodação. O
sentido, são elencadas as expectativas Psicopedagogo clínico conta com a parceria
familiares em relação ao indivíduo referente de diferentes profissionais da área médica e
a sua aprendizagem escolar, a atuação do psicológica.
profissional psicopedagogo e de que forma
o paciente compreende a importância do A psicopedagogia no campo clínico tem
atendimento. Neste momento é esclarecido como recurso principal à realização de
ao paciente e a família quais são os entrevistas operativas dedicadas a expressão
propósitos do atendimento e do diagnostico e a progressiva resolução da problemática
psicopedagógico. individual ou em grupo daqueles que a
consultam. Procura descobrir os fatores que
A Anamnese é uma entrevista, que possui levam o sujeito a não aprender ou apresentar
um foco mais específico, buscando levantar dificuldades de aprendizagem mesmo com a
os aspectos importantes a respeito da história intervenção preventiva.
do indivíduo na família, compreendendo
as relações que permeiam este ambiente O psicopedagogo clínico tem como dever
familiar e como o indivíduo é influenciado por compreender o porquê de o sujeito ter
esse convívio. Na Anamnese, são levantados determinada dificuldade de aprendizagem e
dados relativos as primeiras aprendizagens, como ele pode vir a aprender, desta forma
ao desenvolvimento do indivíduo, história compreender como se dará esse processo
familiar, clínica e educacional. de aprendizagem neste sentido, e essa
compreensão iniciará durante o diagnóstico.
As sessões lúdicas centradas na
aprendizagem são realizadas com crianças O enfoque preventivo é importante na função
do psicopedagogo, pois identifica possíveis
e buscam compreender os processos distúrbios no processo ensino-aprendizagem,

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Revista Educar FCE - Março 2019

objetivando favorecer processos de integração e trocas, considerando as características do indivíduo ou grupo.


Neste sentido, o psicopedagogo é um profissional apto para diagnosticar as dificuldades de aprendizagem,
através de intervenções preventivas e curativas, além de evitar o surgimento de outros. (DANTAS, 2011, p. 4)

Segundo Weiss (2002) os profissionais devem trabalhar em conjunto para construção de


novas práticas que consequentemente produzirão uma melhora no aprendizado, o trabalho
em conjunto dos profissionais das áreas da saúde, educação e psicologia é de fundamental
importância para o sucesso da intervenção e do tratamento e no ambiente escolar a troca
de informações entre os profissionais possibilitará a intervenção adequada nas dificuldades
de aprendizagem e o encaminhamento correto para cada caso.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para compreender os problemas de aprendizagem são
realizados diagnósticos e intervenções, que devem considerar
os fatores externos tanto quanto os fatores internos,
promovendo desta maneira uma intervenção adequada
aquele indivíduo em questão. A psicopedagogia atua no
sentido de intervir no contexto educacional, posicionando-
se entre o indivíduo e os objetos de conhecimentos
que são apresentados a ele. Desta maneira é possível
avaliar e diagnosticar quais fatores estão interferindo na
aprendizagem e trabalhar no sentido de resolvê-los. ANDRÉA RODRIGUES
MARIN DE SOUZA
O trabalho da Psicopedagogia deve ocorrer em
Graduação em Pedagogia pelas
consonância e parceria com a escola, desta forma poderá Faculdades Metropolitanas
contribuir de forma positiva para amenizar as dificuldades Unidas – FMU (1997). Atua como
relacionadas a aprendizagem que surgem no contexto Professora de Educação Infantil
na Prefeitura do Município de São
educacional, de forma conjunta, envolvendo todos os Paulo No CEI Vereador Joaquim
profissionais de educação. Thomé Filho.

A atuação do psicopedagogo clínico é terapêutica,


considerando que o aluno se encontra em um estágio
avançado de dificuldades de aprendizagens e que o
atendimento psicopedagógico clínico ocorre fora do
ambiente escolar, normalmente em um consultório,
momento em que é realizado a coleta de dados para uma
avaliação individualizada, tendo como recurso principal a
realização de entrevistas operativas.

O psicopedagogo educacional trabalha na instituição


escolar e realiza o levantamento, compreensão e análise das
práticas escolares em suas relações com a aprendizagem,
junto com os demais profissionais da escola, auxiliando
professores e demais funcionários envolvidos neste
processo.

Diagnosticar, no sentido em que temos na psicopedagogia,


é uma maneira de constatar que o indivíduo apresenta

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Revista Educar FCE - Março 2019

alguma dificuldade na aprendizagem, dificuldade esta que, normalmente só é verificada


quando a criança chega a escola e passa a receber a instrução formal, com os parâmetros
impostos pela sociedade e meio cultural.

O psicopedagogo deve atentar-se as reações do indivíduo diante dos testes e das avaliações
propostas, a maneira como o sujeito se comporta durante a atividade é um facilitador no
processo de conhecimento dos fatores que estão prejudicando a aprendizagem. A avaliação
psicopedagógica deve ocorrer de maneira dinâmica e os instrumentos utilizados devem
abarcar as diferentes variáveis que se pretende avaliar e diagnosticar.

A psicopedagogia é um campo do conhecimento que se enquadra nas áreas da educação


e da saúde e tem como objeto de estudo a aprendizagem humana e seus padrões evolutivos
normais e patológicos, e para que o profissional psicopedagogo tenha êxito deverá considerar
o indivíduo em todos os seus aspectos, emocionais, psicológicos e sociais.

A criança está em processo constante de aprendizagem, aprendendo a lidar com o mundo


e a lidar com si mesma, o cérebro da criança nesta fase, está em formação biológica e o
ambiente que a cerca interfere nessa formação, neste sentido, a família, a escola e as relações
que estabelecem nesta fase, têm extrema importância nesta fase de desenvolvimento.

379
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
BOSSA, Nádia. A Psicopedagogia do Brasil. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

CHAMAT, Leila Sara José. Técnicas de diagnóstico psicopedagógico: o diagnóstico clínico na


abordagem interacionista. São Paulo: Vetor, 2004.

DANTAS, Viviane Andrade de Oliveira, and ALVES, Jamille de Andrade Aguiar. Dificuldades
de leitura e escrita: Uma intervenção psicopedagógica. V Colóquio Internacional: Educação
e Contemporaneidade, São Cristóvão – SE. 2011.

FERNANDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da


criança e sua família. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

NASCIMENTO, Fernanda Domingas do. O papel do psicopedagogo na Instituição Escolar.


2013. Disponível em: <https://psicologado.com/atuacao/psicologia-escolar/o-papel-do-
psicopedagogo-na-instituicao-escolar> Acesso em 07 fev. 2019.

OLIVEIRA, Gilberto Gonçalves de. Neurociências e os processos educativos: um saber


necessário na formação de professores. Dissertação de Mestrado. Uberaba, Minas Gerais.
2011.

PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes
Médias, 1985.

RIBEIRO, F. S.; DOS SANTOS, F. H. Avaliação neurocognitiva da discalculia do desenvolvimento.


In: ALVES, L. M.; MOUSINHO, R.; CAPELLINI, S. A. (Orgs.). Dislexia: novos temas, novas
perspectivas. Rio de Janeiro: Wak, 2011.

TABAQUIM, Maria de Lourdes Merighi. Avaliação neuropsicológica nos distúrbios de


aprendizagem. Distúrbios de aprendizagem: proposta de avaliação interdisciplinar, 2003.

WEISS, Maria Lúcia L. Psicopedagogia Clinica: uma visão diagnóstica dos problemas de
aprendizagem escolar. Rio de Janeiro: Lamparina, 2002. 13 ed.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A ESCOLA DO SÉCULO XXI NA


FORMAÇÃO SUPERIOR PELA
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
RESUMO: Questionando-se como foram criadas as escolas de ensino a distancia? Quem é o
educador destas instituições de ensino? O artigo foi desenvolvido na busca pela compreensão
sobre a história da educação à distância e o papel do educador universitário. Por meio da
revisão bibliográfica apresentaram-se as fundamentações e leis educacionais, que definem a
educação à distância e sua expansão, não deixando de comentar sobre o papel do Estado e do
governo na universalização brasileira. Considerando a fundamentação do tema pesquisado,
acredita-se na contribuição de saberes e valores oferecidos pelas instituições de ensino a
distância proporcionada pelas universidades por meio de seus pólos de ensino e educadores
de ensino superior. Considera-se necessário haver currículos e programas que proporcionem
uma educação de qualidade para todos.

Palavras-Chave: Educação; Inclusão; Interação

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO da educação superior no país, observou-se


que a legislação e as políticas educacionais,
Destacando-se a ênfase dada à educação organizadas ao longo da década de 1990
à distância (EAD), como forma de elevar até o presente, buscaram a ampliação do
às taxas de acesso a educação superior, acesso à educação superior no Brasil, não
apresentaram-se por meio de documentos só com a expansão das vagas e matrículas
divulgados pelo Banco Mundial Global nos cursos e tipos de Instituições de Ensino
Networked Readiness for Education Superior (IES) tradicionais, mas também via a
Preliminary findings from a Pilot Project to criação de novos tipos de IES, novos cursos
Evaluate the Impact of Computers and the e modalidades de educação.
Internet on Learning in Eleven Developing
Countries a discussão sobre o potencial da Acrescenta-se ainda que, os estudos sobre
aplicação dessa modalidade de ensino nos o pensamento do profissional de educação e
países em desenvolvimento. a reflexão, demonstram que o conhecimento
pedagógico gerado pelo educador do ensino
No Brasil, vem crescendo esse tipo de superior é um conhecimento ligado à ação
oferta, mesmo os cursos presenciais já podem prática, não podendo estar desvinculado da
ter 25% de sua carga horária ou créditos, relação teoria e prática.
realizados por meio de ensino não presencial.
Essa modalidade de ensino enquadra-se Acredita-se que os educadores contribuem
como uma das possíveis alternativas de com seus saberes, valores e experiências nessa
expansão do acesso, não só pelo aumento complexa tarefa de melhorar a qualidade do
de vagas nas Instituições de Ensino Superior ensino, sendo assim sua prática não deve ser
(IES) e cursos existentes, mas também com baseada na racionalidade técnica, mas sim na
novas modalidades de ensino, e novos tipos consciência de ampliar seus conhecimentos,
de cursos (sequenciais e tecnológicos). especialmente os pedagógicos, que facilitam
o confronto de suas ações cotidianas com
Dessa forma questiona-se como foram produções teóricas, contextualizando-as
criadas as escolas de ensino a distancia? Quem com um saber significativo.
é o educador destas instituições de ensino?

Para responder a essas perguntas HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO A


utilizamos como base a revisão bibliográfica DISTÂNCIA NO ENSINO SUPERIOR
em pesquisas teóricas sobre o tema
desenvolvido. Educação à distância (EAD), no Brasil não
é nenhuma novidade, pois se trata de um
Objetivaram-se mostrar que com base na processo de ensino aprendizagem na qual
análise realizada sobre o marco regulatório educando e educadores não ficam juntos

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Revista Educar FCE - Março 2019

fisicamente, mas podem manter contatos Em 1936, o início das atividades do


conectados por grandes tecnologias, como a Instituto Rádio Técnico Monitor, com
internet, e suas plataformas de redes sociais, programas dirigidos ao ensino da eletrônica;
podendo ser utilizado ainda por meio de Em 1941, a oferta dos primeiros cursos do
outros meios como: rádio, jornal, telefone e Instituto Universal Brasileiro, dedicado à
outros. formação profissional de nível elementar
e médio, utilizando material impresso; O
Existem três tipos de educação: projeto Minerva, que se iniciou em 1970
(PIMENTEL, 1995 e ALONSO, 1996 apud
1. Educação à distância, na qual RODRIGUES, 1998) irradiando cursos de
geralmente alunos e professores estão Capacitação Ginasial e Madureza Ginasial.
separados fisicamente no espaço ou
tempo, mas podem estar juntos por meio O projeto foi mantido até o início dos anos
de tecnologias de comunicação; 80; O projeto SACI de 1974, que atendia as
2. Educação presencial ou formal: Ensino quatro primeiras séries do primeiro grau. O
convencional, no qual professor e aluno projeto foi interrompido em 1977-1978; A
se encontram no mesmo lugar, acontece iniciativa da Universidade de Brasília (UnB),
nas escolas, em salas de aula, este tipo de nos anos 70, que pretendia ser a universidade
educação exige ambiente propício; aberta do Brasil, adquirindo todos os direitos
3. Educação Semipresencial: Em de tradução e publicação dos materiais do
determinados momentos são ministradas “Open University” da Inglaterra.
aulas presenciais e em outros momentos à
distância, por meio de tecnologias. Esta iniciativa não teve sucesso,
principalmente pela inadequação do discurso
A educação à distância é uma prática que de sua direção, que apresentava a educação
permite um equilíbrio entre as necessidades à distância como substituto da educação
e habilidades individuais e as do grupo, de presencial; O Tele curso 2° Grau, lançado em
forma presencial e virtual. 1978, e o Tele curso 2000, lançado em 1995,
pelas fundações Padre Anchieta (TV Cultura)
O marco inicial da Educação à Distância e Roberto Marinho, utilizando programas de
no Brasil foi em 1923, com a fundação da TV, vídeo e material impresso. Ainda está
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, por sendo ofertado com cerca de 8.000 Tele
Roquete Pinto, transmitindo programas de salas no Brasil (NUNES, 1993, p. 12),
literatura, radiotelegrafia e telefonia, de
línguas, de literatura infantil e outros de O programa Um Salto para o Futuro, de
interesse comunitário (ALVES, 1994 apud 1991, numa parceria do Governo Federal,
RODRIGUES, 1998, p. 26). das Secretarias Estaduais de Educação e
da Fundação Roquette Pinto, destinado à

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Revista Educar FCE - Março 2019

formação de professores; O Programa de ponto claro de ruptura com a expansão da


Capacitação de Professores (PROCAP), internet na metade da década de 90. O uso
que se iniciou em 1997, por uma iniciativa intensivo de tecnologias da comunicação
do Governo do Estado de Minas Gerais, e da informação transforma o conceito
através de material impresso, programas clássico de distância, até então de uma
em vídeo e tutoria; O Laboratório de separação física entre o aluno e o professor
Ensino à Distância da Universidade Federal ou a instituição de ensino, para um conceito
de Santa Catarina - UFSC, com cursos de de integração virtual entre os agentes do
Mestrado em Engenharia de Produção, processo de ensino-aprendizagem que se
Especialização e Capacitação, oferecidas por estabelecem.
meio de videoconferência, Internet, material
impresso, vídeo aulas e teleconferência, que Para Kearsley (1996) a tecnologia da
iniciou as atividades em 1996. internet e a criação de ambientes virtuais
de aprendizagem para interface world wide
Esta modalidade de educação assume web (www) tornaram possível um cenário
várias formas no País e é promovida de trocas de aprendizagem, de atividades
por diversas instituições. Já existem colaborativas, acesso a conteúdos e
Universidades totalmente dedicadas a bibliotecas virtuais complementares, a
Educação à Distância. O que acorre é que qualquer tempo e lugar.
alguns setores de universidades presenciais
modelam cursos à distância para atender O ensino a distância experimenta vertiginosa
expansão mundial, no Brasil, país de porte
diversas clientelas (RODRIGUES, 1998, p. continental com grandes disparidades
29). socioeconômicas e crônicos problemas
educacionais foi invocado como tábua de
salvação. [...] Beneficiado por novos dispositivos
Sucinta Nunes (1993) que a Educação legais adquiriu a legitimidade e a visibilidade
à Distância no Brasil é caracterizada almejadas por diferentes segmentos do setor
historicamente pela descontinuidade de educacional. [...] Com interesses distintos,
educadores e negociantes celebram a difusão da
projetos principalmente os vinculados
educação à distância. (NOLETO, 2014, p. 2).
à atuação governamental pela falta de
memória administrativa e receio em adotar
procedimentos rigorosos e científicos de Como todo processo social ou educacional,
avaliação dos programas e projetos. Em suma, essa modalidade de ensino possui facetas
existe ainda no meio educacional brasileiro ambíguas e controversas, comporta tensões
demonstração de ceticismo quanto à eficácia e desenlaces antagônicos. Pode ampliar
e qualidade dos projetos de Educação à e melhorar a rede pública; no entanto,
Distância. têm contribuído significativamente para
promover interesses restritos e a privatização
A história da educação à distância tem um do ensino. A educação à distância, como todo

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Revista Educar FCE - Março 2019

bem ou serviço apropriado pela economia de O regime militar esvaziou essa tensão
mercado, sofre pressões e digressões. por meio da expansão do ensino privado.
Paradoxalmente, até mesmo os artífices das
Não se pode ignorar que, em diferentes políticas do governo perceberam os riscos
contextos, a adoção do ensino a distância da degradação de padrões educacionais pela
e de modalidades educacionais similares foi educação a distância apropriada por setores
provocada por fortes pressões sociais. O privados (BRAGA, 2011).
Centre National Enseignement à Distance
(CNED), na França, surgiu como alternativa Newton Sicupira (1973), articulista de
para a oferta de educação a contingentes de políticas educacionais do regime militar,
refugiados da Guerra Civil Espanhola, no final produziu um substancioso relatório sobre o
da década de 1930. Na ex-União Soviética assunto. Registra sua visita à Open University,
e em países socialistas do leste europeu, a do Reino Unido, com o objetivo de instruir a
busca de qualificação técnica resultou em criação de uma universidade similar no Brasil.
políticas de articulação entre educação e Poucos meses depois, esta proposta foi
trabalho. abandonada. O autor, emérito conservador,
advertiu para possíveis conseqüências da
Por meio de diversos programas, operários privatização do ensino a distância.
graduaram-se sem se afastar do trabalho
graças à educação à distância. Instituições de O receio de que o ensino a distância
ensino a distância contribuíram para superar acarretasse a deterioração de padrões
barreiras geográficas e climáticas, bem como educacionais ou se convertesse em estuário
para superar entraves da diversidade étnica. para o proselitismo de esquerda levou o
No Reino Unido, o Partido Trabalhista Inglês, Ministro da Educação, Ney Braga, a aventar
em 1962, formulou a proposta do Open outras prioridades para sustar a organização
University. A instituição seria fundada em deste projeto.
1969, na vigência de um governo conservador,
para viabilizar o atendimento a trabalhadores No Brasil, ao contrário do direito de
egressos do sistema educacional. tradição Anglo-americana, a principal
fonte do direito é a lei. A palavra lei pode
Sucinta Braga (2011) que a perspectiva de significar tanto norma geral emanada do
criação de Universidade Aberta, no Brasil, no Poder Legislativo, como qualquer norma de
início dos anos de 1970, esteve associada à direito escrito, desde a Constituição até um
oferta de vagas no ensino superior para conter decreto regulamentar ou mesmo decreto
a pressão das camadas médias. Desejosas individualizado (JOAQUIM, 2006, p. 2).
de ascensão social viram-se frustradas pelo
limitado número de matrículas na rede de A forma escrita é a manifestação mais
ensino superior. característica da lei e igualmente, está é a

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Revista Educar FCE - Março 2019

concepção adotada pelo Direito Educacional: nº. 9.870, de 23 de novembro de 1999);


Lei em sentido amplo; Lei em sentido Direito Ambiental (Lei nº. 9.797, de 27 de
estrito. O Direito Educacional tem como abril de 1999); Plano Nacional de Educação
fonte várias legislações no sentido amplo: (Lei 10.172, de nove de janeiro de 2001);
decretos, portarias, regulamento, regimento “Bolsa Escola” (Lei nº. 10.219, de 11 de abril
escolar, resoluções e pareceres normativos de 2001); Decreto nº. 3.860, de 9 de julho
dos conselhos de educação, tratados e de 2001, que dispõe sobre a organização
convenções internacionais. do ensino superior e avaliação de cursos e
instituições; Programa de Diversidade na
Contudo, a fonte primeira e fundamental Universidade (Lei 10.558, de 13 de novembro
do Direito Educacional brasileiro está na de 2002); Lei n. 10.639, de 9 de Janeiro de
Constituição federal. Trata-se do Título VIII, 2003, que altera a Lei no 9.394, de 20 de
da Ordem Social, Capítulo III, intitulado dezembro de 1996, para incluir no currículo
Da Educação, da Cultura e do Desporto, oficial da rede de ensino a obrigatoriedade
com uma soma de dez artigos dedicados à da temática “História e Cultura Afro-
educação (art. 205 a 214), com os princípios Brasileira” Programa de Complementação
do Direito Educacional. (JOAQUIM, 2005, p. ao Atendimento Educacional Especializado
5) às Pessoas Portadoras de Deficiência (Lei n.
10.845, de cinco de março de 2004), Sistema
Julga-se importante lembrar que, dentre Nacional de Avaliação da Educação Superior
as muitas leis que fluem da Constituição de (Lei 10.861, de 14 de abril de 2004); PROUNI
1988 em direção ao ordenamento jurídico- (Lei 11.096, de 13 de janeiro de 2005).
educacional, podemos destacar: as Leis de Quanto à educação à distância tem o art.
Diretrizes e Bases da Educação Nacional - 80 da LDBEN, cujos regulamentos estão
Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que disciplinados nos Dec. 2.494, de 10 de
estrutura a administração, declara princípios fevereiro de 1998, Dec. 256, de 27 de abril de
e procedimentos, regulamenta os currículos, 1998, Portaria Ministerial 301, de 7de abril
o ano escolar, os conteúdos programáticos de 1998 e Portaria 2.253, de 18 de outubro
e a duração dos cursos; Estatuto da Criança de 2001. Aqui, a educação à distância
e do Adolescente (Lei 8.069, de 13 de julho pode oferecer relevante contribuição
de 1990); Código de Defesa do Consumidor como instrumentos de inclusão digital e
(Lei nº. 8078, de 11 de setembro de 1990); educacional daqueles que historicamente
Conselho Nacional de Educação (Lei nº. foram discriminados pelo poder público e
9.131, de 24 de novembro de 1995); Fundo de pela sociedade (JOAQUIM, 2005, p. 7).
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino
Fundamental de Valorização do Magistério Para tanto, se faz necessária à
(Lei 9.424, de 24 de dezembro de 1996); democratização do acesso às tecnologias da
Decreto 3274/99; Anuidades Escolares (Lei comunicação e da informação, bem como

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Revista Educar FCE - Março 2019

a organização de uma cultura digital no REGULAMENTAÇÕES PARA


contexto educacional. A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Conforme Joaquim (2006, p. 9) a
NO BRASIL
consagração do direito à educação tem No Brasil, as bases legais para a
sido constantemente lembrada nas modalidade de educação à distância foram
declarações, tratados, convenções, cartas estabelecidas pela Lei de Diretrizes e Bases
de princípios, compromissos, protocolos da Educação Nacional (Lei nº. 9394/96), que
e acordos internacionais, que buscam a foi regulamentada pelo Decreto n. 5622,
internacionalização do direito à educação. publicado no Diário Oficial da União - DOU
Esta tem como paradigma a Declaração de 20/12/05 (que revogou o Decreto nº.
Universal dos Direitos do Homem, aprovada 2494/98, e o Decreto nº. 2561/98 com
em Resolução da III Sessão Ordinária da normatização definida na Portaria Ministerial
Assembléia Geral das Nações Unidas, em n. 4361/04 (que revogou a Portaria
1948. Ministerial n. 301/98.

Nader (2011) se expressa dizendo ao Em 3 de abril de 2001, a Resolução n. 1 do


passo que a lei é um processo intelectual Conselho Nacional de Educação estabeleceu
que se baseia em fatos e expressa a opinião as normas para a pós-graduação lato e stricto
do estado, o costume é uma prática gerada sensu.
espontaneamente pelas forças sociais. Para
consolidação do costume como norma a) Educação Básica na modalidade de
obrigatória se faz necessária uma consciência Educação a Distância
social e jurídica da sua necessidade no
contexto social. O mesmo aplica-se ao De acordo com o Art. 30 do Decreto n.
Direito Educacional. 5.622/05, “As instituições credenciadas
para a oferta de educação à distância
Para Joaquim (2005) lei e costumes são poderão solicitar autorização, junto aos
formas de expressão do direito educacional. órgãos normativos dos respectivos sistemas
A lei seria a forma fundamental, principal e de ensino, para oferecer os ensinos
formal, nao passo que o costume uma das fundamentais e médios à distância, conforme
formas complementares, secundárias e § 4o do art. 32 da Lei no 9.394, de 1996”,
materiais. Em seguida, à jurisprudência, à exclusivamente para:
doutrina e aos princípios gerais do direito.
I - a complementação de aprendizagem;
ou
II - em situações emergenciais.
Para oferta de cursos a distância dirigida à

387
Revista Educar FCE - Março 2019

educação fundamental de jovens e adultos, da análise. Para orientar a elaboração de um


ensino médio e educação profissional de projeto de curso de graduação à distância, a
nível técnico, o Decreto nº. 5.622/05 delegou Secretaria de Educação a Distância elaborou
competência às autoridades integrantes os documentos Indicadores de qualidade para
dos sistemas de ensino de que trata o cursos de graduação à distância disponível
artigo 8º da LDB, para promover os atos de no site do Ministério para consulta.
credenciamento de instituições localizadas
no âmbito de suas respectivas atribuições. As bases legais são as indicadas no
primeiro parágrafo deste texto.
Assim, as propostas de cursos nesses
níveis deverão ser encaminhadas ao órgão do c) Pós-graduação à distância
sistema municipal ou estadual responsável
pelo credenciamento de instituições e A possibilidade de cursos de mestrado,
autorização de cursos a menos que se trate doutorado e especialização à distância foram
de instituição vinculada ao sistema federal disciplinadas pelo Capítulo V do Decreto n.
de ensino, quando, então, o credenciamento 5.622/05 e pela Resolução n. 01, da Câmara
deverá ser feito pelo Ministério da Educação. de Ensino Superior (CES), do Conselho
Nacional de Educação (CNE), em 3 de abril
b) Educação Superior e Educação de 2001.
Profissional na modalidade de Educação a
Distância O artigo 24 do Decreto n. 5.622/05, tendo
em vista o disposto no § 1º do artigo 80 da Lei
No caso da oferta de cursos de graduação n. 9.394, de 1996, determina que os cursos
e educação profissional em nível tecnológico, de pós-graduação stricto sensu (mestrado
a instituição interessada deve credenciar-se e doutorado) à distância serão oferecidos
junto ao Ministério da Educação, solicitando, exclusivamente por instituições credenciadas
para isto, a autorização de funcionamento para tal fim pela União e obedecem às
para cada curso que pretenda oferecer. O exigências de autorização, reconhecimento e
processo será analisado na Secretaria de renovação de reconhecimento estabelecido
Educação Superior, por uma Comissão de no referido Decreto.
Especialistas na área do curso em questão e
por especialistas em educação à distância. No artigo 11, a Resolução n. 1, de 2001,
também conforme o disposto no § 1º do art.
O Parecer dessa Comissão será 80 da Lei n. 9.394/96, de 1996, estabelece
encaminhado ao Conselho Nacional de que os cursos de pós-graduação lato sensu
Educação. O trâmite, portanto, é o mesmo a distância só poderão ser oferecidos
aplicável aos cursos presenciais. A qualidade por instituições credenciadas pela União.
do projeto da instituição será o foco principal Os cursos de pós-graduação lato sensu

388
Revista Educar FCE - Março 2019

diretamente ou mediante convênio com


oferecidos a distância deverão incluir, instituições nacionais, deverão imediatamente
necessariamente, provas presenciais e cessar o processo de admissão de novos alunos.
defesa presencial de monografia ou trabalho
de conclusão de curso.
Estabelece, ainda, que essas instituições
d) Diplomas e certificados de cursos estrangeiras deverão no prazo de noventa
à distância emitidos por instituições dias, a contar da data de homologação
estrangeiras da Resolução, encaminhar à Fundação
Coordenação de Aperfeiçoamento de
Conforme o Art. 6º do Dec. 5.622/05, Pessoal de Nível Superior (CAPES) a relação
os convênios e os acordos de cooperação dos diplomados nesses cursos, bem como
celebrados para fins de oferta de cursos dos alunos matriculados, com a previsão do
ou programas a distância entre instituições prazo de conclusão.
de ensino brasileiras, devidamente
credenciadas, e suas similares estrangeiras, Os diplomados nos referidos cursos deverão
deverão ser previamente submetidos à encaminhar documentação necessária para o
análise e homologação pelo órgão normativo processo de reconhecimento por intermédio
do respectivo sistema de ensino, para que da CAPES.
os diplomas e certificados emitidos tenham
validade nacional. Apesar de certas divergências pontuais,
começa se a chegar a um conjunto
A Resolução CES/CNE 01, de 3 de abril relativamente homogêneo de características
de 2001, relativa a cursos de pós-graduação, que acabam por conceituar a educação à
dispõe, no artigo 4º, que distância e dar-lhe uma dimensão prática
adaptada aos dias atuais e às demandas por
Os diplomas de conclusão de cursos de pós- universalização de processos de ensino.
graduação stricto sensu obtidos de instituições
de ensino superior estrangeiras, para terem Julga-se importante observar que a
validade nacional, devem ser reconhecidos e educação a distância não deve ser vista como
registrados por universidades brasileiras que substitutiva da educação convencional,
possuam cursos de pós-graduação reconhecidos
e avaliados na mesma área de conhecimento e presencial, pois, são duas modalidades do
em nível equivalente ou superior ou em área mesmo processo e a educação a distância
afim. não concorre com a educação convencional,
tendo em vista que não é este o seu objetivo,
Vale ressaltar que a Resolução CES/CNE e acredita-se que nem poderá ser.
n. 2, de 3 de abril de 2001, determina no
caput do artigo 1º, que Se a educação a distância apresenta como
característica básica a separação física e,
Os cursos de pós-graduação stricto sensu principalmente, temporal entre os processos
oferecidos no Brasil por instituições estrangeiras, de ensino e aprendizagem, isto significa não
somente uma qualidade específica dessa

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Revista Educar FCE - Março 2019

modalidade; mas, essencialmente, um desafio a ser vencido, promovendo-se de forma combinada, o avanço
na utilização de processos industrializados e cooperativos na produção de materiais com a conquista de novos
espaços de socialização do processo educativo. (ARAÚJO, 2011, p. 7).

Esta modalidade de ensino não pode ser encarada como uma panacéia para todos os
males da educação brasileira. Há um esforço muito grande dos educadores e pesquisadores
da educação em mostrar que os problemas da educação brasileira não se concentram
somente no interior do sistema educacional, mas, antes de tudo, refletem uma situação de
desigualdade e polaridade social, produto de um sistema econômico e político perverso e
desequilibrado.

Certamente que a educação, nas suas mais diversas modalidades, não tem condições de sanear nossos
múltiplos problemas nem satisfazer nossas mais variadas necessidades. Ela não salva a sociedade, porém, ao
lado de outras instâncias sociais, ela tem um papel fundamental no processo de distanciamento da incultura,
da criticidade e na construção de um processo civilizatório mais digno do que este que vivemos. (LUCKESI,
1989, p. 10).

Nesse sentido, a educação a distância pode contribuir de forma significativa para


o desenvolvimento educacional de um país, notadamente de uma sociedade com as
características brasileiras, na qual o sistema educacional não consegue desenvolver as
múltiplas ações que a cidadania requer.

390
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerando-se as reflexões sobre o papel do educador
de ensino superior proporcionada pelas universidades
representam um forte referencial para enriquecermos
nossas discussões e amadurecer nossa prática enquanto
educadores, pode-se considerar que o presente estudo
abordou questões, que de certa forma implicam num
repassar de nossa atuação, e que, favorecerá a inverter a
prática tradicional em prática construtiva capaz de oferecer
ao graduando subsídios para enfrentar os desafios da
profissão.

Em se tratando do papel do educador do ensino superior


deixou-se claro que o mesmo exerce suas funções na ANDREIA ALVES CAIRES
mais elevada das competências, buscando sempre atrair a
Professora de Educação Infantil e
atenção do aluno, por meio de sua postura e suas didáticas Ensino Fundamental na Prefeitura
pedagógicas diversificadas. do Estado de São Paulo No CEI
Américo de Souza, Licenciada
em Pedagogia pela Universidade
Embora a educação superior nos dias atuais seja baseada Guarulhos (UNG) e Pós-Graduada
em propostas impostas pelas leis educacionais sancionadas em Psicopedagogia pelo INEQ
pelo Ministério da Educação e articuladas pela lei de Email: andreiacaires2016@gmail.
com
diretrizes e bases não podem dizer que nossa pesquisa
encerra-se aqui, pois se deixa em aberto uma dimensão
universitária enorme sobre a educação a distância que
merece ser pesquisada e fundamentada, a fim de dar maior
ênfase a nossa pesquisa.

391
Revista Educar FCE - Março 2019

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393
Revista Educar FCE - Março 2019

O ENSINO DE ARTES NA
EDUCAÇÃO INFANTIL
RESUMO: As artes sempre estiveram presentes na vida humana de forma marcante
e acompanham a evolução do ser e sua interação com o meio, além de uma forma de
expressão e comunicação. Como um dos primeiros recursos que o ser humano adquire
para se expressar quando criança, as artes na educação são um importante recurso para
o desenvolvimento infantil. O ensino de artes ainda é recente e vem passado por diversas
alterações para promover um bom desempenho. Neste trabalho, através de uma revisão
bibliográfica, abordamos um pouco da historicidade do ensino de artes, de sua importância
na educação infantil, abordamos algumas limitações sobre o ensino de artes e analisamos as
perspectivas da BNCC para um novo ensino de artes. Por fim buscamos refletir sobre como
é possível contornar estas limitações enquanto educadores.

Palavras-Chave: Ensino de artes; Educação infantil; Expressão e comunicação;


Desenvolvimento infantil.

394
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO A arte não carrega consigo apenas a


intenção de transmitir uma mensagem. Ao
Seja como forma de comunicar-se ou longo da história a arte foi utilizada como
expressar-se, a arte é um elemento presente decoração, como adereço, para glorificar reis
na vida humana desde os primórdios e imperadores ou para louvar divindades,
da existência. A representação artística como material religioso, como objeto
antecede em muito a escrita, como nos contemplativo. Em alguns momentos da
apresentam as figuras rupestres. Até hoje história a arte foi utilizada como veículo
não há como afirmar se a arte rupestre foi da critica social, enquanto em outros foi
feita como uma pré-linguagem, como arte utilizada como o próprio objeto de repressão.
contemplativa, afresco religioso ou apenas
como hobbie para retratar aquilo que era Como elemento presente na vida de todo
visto. Provavelmente nunca tenhamos ser humano, direta ou indiretamente, a arte
uma resposta sobre aquilo que aconteceu tem papel significativo no seu cotidiano, e
eras atrás, porém ainda que estas figuras o ambiente escolar não seria exceção, uma
permaneçam como incógnitas, é interessante vez que uma criança desenvolve primeiro a
observar como a arte acompanha e participa habilidade de desenhar, e posteriormente a
da vida humana desde seus primórdios. de escrever. Estando amplamente presente
– na educação infantil principalmente - hoje
A arte está presente na vida das pessoas o ensino de arte, ou educação artística, é
desde que o ser humano passou a procurar uma matéria obrigatória segundo a LDB.
por linguagens escritas. A formação de
uma linguagem escrita formal e dotada se A Educação Infantil é um período marcante
significado é o que separou o ser humano na vida das crianças, por isso são muito
moderno do Homo sapiens a cerca de 350 importantes os primeiros conhecimentos
mil anos. A arte se transformou e reinventou que os alunos recebem. As artes devem
durante estes tantos anos à medida que ser trabalhadas de forma significativa pelos
surgem novas mídias, técnicas, tecnologias, professores, tanto por ser uma forma de
demandas e, principalmente, à medida que linguagem quanto por estar presente no
o ser humano se reinventa. A arte que era cotidiano de todos os indivíduos.
produzida há mil anos era extremamente
diferente daquela produzida há cem anos; Sendo assim, o trabalho a seguir apresenta
essa também é muito diferente da arte que uma revisão bibliográfica de livros, artigos e
é produzida há um ano; e essa arte feita um pesquisas acadêmicas, onde trabalharemos
ano é, provavelmente, bastante diferente sobre o ensino de artes na educação
daquilo que é produzido hoje. Com esse infantil. No primeiro capítulo faremos um
pensamento, buscamos elucidar como a arte breve levantamento histórico das principais
acompanha o ser humano. alterações e mudanças no ensino de artes

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Revista Educar FCE - Março 2019

no Brasil desde a fundação do modelo ensino de técnicas artísticas. Nesse ensino


tradicional de escola que conhecemos predominava a produção de figuras, do
hoje. Essa pesquisa é importante para desenho do modelo vivo, do retrato, da cópia
compreender o contexto histórico em que o de estamparias, obedecendo a um conjunto
ensino de artes se aplica, já que no terceiro de regras rígidas (SILVA e ARAÚJO, 2007).
capítulo retomaremos alguns fatos citados.
Formou-se o barroco brasileiro, a partir
No segundo capítulo, através das pesquisas da junção do modelo Barroco português
dos autores Duarte Junior, Barbosa, com a produção artesanal brasileira. A
Ana Mae e Lowerfeld, como base para a partir do século XIX, com a influência do
argumentação, buscaremos compreender neoclassicismo na Europa, o início da criação
qual é a importância do ensino de artes na de um curso superior acadêmico em artes.
educação infantil.
A partir de 1948 começou a difundir-se
Por ultimo, no terceiro capítulo deste no Brasil o movimento Escolinhas de artes.
trabalho, buscaremos citar algumas das Escolas particulares eram voltadas para a
principais limitações para o ensino de artes. formação de arte-educadores, em períodos
É através da reflexão sob as falhas do ensino de dois anos. Um período bastante curto para
que podemos buscar aprimorá-lo e construir transformar um estudante em educador.
um ensino cada vez melhor.
A escola tradicional iniciou-se com a
instauração da República e havia uma
ARTES COMO COMPONENTE preocupação com o Ensino da Arte, que se
CURRICULAR baseava no Desenho como fazer técnico
e científico, não como um aprendizado
Ao analisar a história do Ensino da significativo e de qualidade. O teórico Rui
Arte no Brasil, é que o mesmo passou por Barbosa buscava a implantação da Arte como
várias transformações. Antes, reduzia-se o disciplina obrigatória nas escolas primárias
conteúdo a um ensino mecanizado. Hoje, e secundárias. Um importante marco foi a
há uma grande preocupação em reconhecer Academia de Belas-Artes. A educação só
a Arte como disciplina indispensável na passou a ser mais democrática, valorizando
formação do ser humano (FERREIRA, 2015). os aspectos psicológicos dos alunos e o
processo de aprendizagem após o início da
O ensino de artes teve início no Brasil na Escola Nova, em 1930. Com o rompimento
era colonial por meio do contato dos nativos dos ideais da escola tradicional o educador
com os Jesuítas. Foi empregado o ensino de passou a enfatizar a livre expressão dos
artes literárias, com o objetivo catequizar alunos.
os povos e um dos seus instrumentos era o

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Revista Educar FCE - Março 2019

O ensino de artes tornou-se uma matéria disciplina nas escolas. Através da LDBN de
obrigatória a partir da criação da Lei Federal 96, ordenou-se o ensino de artes em três
nº 5692, denominada “Diretrizes e Bases da eixos principais e norteadores: A produção
Educação”. Essa lei estabeleceu uma educação artística, a contemplação – da própria
tecnológica que visava profissionalizar a produção, da produção de colegas ou dos
criança na 7ª série, sendo a escola secundária trabalhos de artistas.
completamente profissionalizante. Esta foi
uma maneira de profissionalizar mão-de- Propostas desta natureza têm como
obra barata durante o regime da ditadura objetivo que a criança construa conhecimento
militar de 1964 a 1983. na área de artes visuais DESENVOLVA a
criatividade, apresente uma postura de
Para Barbosa (1987), no currículo pesquisa, demonstre senso crítico e faça a
estabelecido em 1971, as artes eram atualização de informações visuais com seu
aparentemente a única matéria que poderia próprio trabalho (MORENO, 2007, p.40).
mostrar alguma abertura em relação às
humanidades e ao trabalho criativo, porque Depois dos estudos de alguns autores,
mesmo filosofia e história haviam sido compreende- se que o ensino de arte
eliminadas do currículo. está baseado na interdisciplinaridade, no
interculturalismo e na aprendizagem dos
Naquele período não tínhamos cursos de conhecimentos artísticos, a partir da inter-
arte-educação nas universidades, apenas relação entre o fazer, o ler e o contextualizar
cursos para preparar professores de desenho, arte (SILVA e ARAÚJO, 2007). Portanto,
principalmente desenho geométrico. o ensino de arte deve ser interdisciplinar
com ele mesmo, através das diferentes
A arte não era considerada como linguagens, assim também com outras áreas
disciplina, mas como “área generosa”; de conhecimento humano.
contraditoriamente, os professores tinham
de explicar objetivos, conteúdos, métodos e Segundo Gouthier (2008, p.19): “Com a
avaliações. Inseguros, apoiavam-se em livros nova LDBN, é extinta a Educação Artística e
didáticos de má qualidade. (IAVELBERG, entra em campo a disciplina Arte, reconhecida
2003, p.115) oficialmente como área do conhecimento”. O
autor destaca que:
Passado este período histórico, o ensino
de artes encontra uma nova transformação De acordo com o referencial curricular
nacional para educação infantil, a presença das
em 1996, com a Lei de Diretrizes e Bases Artes Visuais na educação infantil, ao longo da
da Educação Nacional (LDBN) nº 9394/96 história, tem demonstrado um descompasso
que determinou a obrigatoriedade e o entre os caminhos apontados pela produção
teórica e a prática pedagógica existente. Em
reconhecimento do conteúdo de Arte como muitas propostas as práticas de Artes Visuais são

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Revista Educar FCE - Março 2019

entendidas apenas como meros passatempos


em que atividades de desenhar, colar, pintar e Os alunos e os educadores são sujeitos da
modelar com argila ou massinha são destituídas aprendizagem. Sendo assim, é imprescindível
de significados (RCNEI, 1998, p. 87). a interação entre eles, onde o principal
produto seja o processo de criar e fazer
juntos, pois é nessa parceria que acontece
QUAL A IMPORTÂNCIA o desenvolvimento da criatividade. Ferreira
DO ENSINO DE ARTES NO (2015) afirma que o educador é mediador
entre o conhecimento e o aluno, é necessário
CURRÍCULO? que se aproprie das artes, explore-as e
produza-as de maneira significativa. Faz-
Atualmente as crianças estão indo para a se necessário sempre estimular os alunos
escola cada vez cedo, isso pode ser notado a serem pesquisadores, despertando sua
principalmente em famílias de classe média criatividade, incentivando habilidades como
ou inferior, onde ambos os pais trabalham observar, imaginar, criar, sentir, ver, admirar.
fora para suprir as despesas da casa, ou
mesmo quando a/o mãe/pai sustentam suas Para Chagas (2009), a arte é patrimônio
residências sozinhos. Partindo disto, pode-se da humanidade, e se manifesta nas diversas
afirmar que além do aprendizado adquirido culturas, o aluno desenvolverá, através do
pela família, as crianças também recebem contato com a mesma, a compreensão das
informações no ambiente escolar. Portanto é diferentes culturas existentes, valorizando
neste ambiente que a criança ficará boa parte o que é próprio de sua cultura. Em síntese,
de seu tempo e é este ambiente que deverá através da arte o aluno tem a possibilidade
proporcionar experiências significativas para de observar o mundo a sua volta, em toda a
o seu desenvolvimento. sua pluralidade e significados, refletir sobre
isto e aplicar esta reflexão em seu próprio
Segundo Valério (2011), nesta fase ambiente, conforme sua própria percepção.
as crianças precisam ser incentivadas a Um exercício de observação e reflexão
experiências lúdicas e significativas, que natural que acompanha o ser humano em
explorem a criação, emoção e sensibilidade. todo momento da sua vida.
É no ensino da arte que as crianças terão o
contato com estes elementos fundamentais Este processo de criação em que a criança
para a construção humana. Além de oferecer faz a seleção, interpretação e reformulação
oportunidade de auto expressão, as artes dos elementos, é de extrema importância, pois
visuais são consideradas um importante meio ela direciona para o trabalho artístico parte
para o desenvolvimento social, pois é através de si própria expressando seus pensamentos,
das aulas de artes que ocorrem importantes sentimentos e emoções. Portanto nesta fase
possibilidades de interações sociais e trocas é importante que a criança tenha a liberdade
de experiências. de se expressar sem que haja a interferência

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Revista Educar FCE - Março 2019

do adulto, no sentido de influenciar e O questionamento norteador desse


direcionar a criança a utilizar determinado estudo investigou a relevância do trabalho
esquema de cores ou até mesmo na maneira com as Artes na Educação Infantil. O saber
de pintar formas prontas. Sem perceber, o artístico das crianças na Educação Infantil é
adulto interfere no processo criativo e inibe cheio de concepções e ideias que revelam
a criança a utilizar a arte como meio de auto valores e significados. Desta forma, as Artes
expressão. (LOWENFELD, 1977, p.23). Visuais representam um saber artístico que
proporcionará o desenvolvimento estético,
Para Valério (2001), se defende que este criativo e expressivo da criança na Educação
processo de criação em que a criança faz a Infantil, auxiliando no seu processo de
seleção, interpretação e reformulação dos formação intelectual, afetivo e social.
elementos é de extrema importância, pois
ela direciona para o trabalho artístico parte Segundo Lowenfeld (1977), o ensino de
de si própria, e expressa seus pensamentos, artes não busca aplicar apenas saberes e
sentimentos e emoções. Logo nessa fase é conceitos artísticos, como também trabalha
importante que a criança tenha a liberdade com diversos campos do saber e proporciona
de se expressar sem que haja a interferência amplo desenvolvimento na educação
do adulto, no sentido de influenciar e infantil. Conforme sintetizado por Valério
direcionar a criança a utilizar determinado (2011), o ensino de artes também exerce
esquema de cores ou até mesmo na maneira desenvolvimento nos seguintes aspectos:
de pintar formas prontas. Sem perceber, o
adulto interfere no processo criativo e inibe Desenvolvimento social, pois é através das
a criança a utilizar a arte como meio de auto aulas de artes que ocorrem à possibilidade de
expressão. (LOWENFELD, 1977). interação social, há a trocas de experiências,
onde a criança é capaz de compreender
Para a pesquisadora Ferreira (2015), as e observar o mundo ao seu redor, além de
Artes Visuais estão presentes no cotidiano poder expressar-se livremente e aplicar suas
de forma marcante, atualmente é preciso observações em seu próprio universo.
notar a importância da imagem na cultura.
É vivenciando a Arte desde criança que a Desenvolvimento físico, onde se manifesta
sociedade aprenderá a valorizar a sua cultura. a capacidade de coordenação visual e
Toda a comunicação se baseia na imagem motora da criança, na maneira que controla
ou no som. Comunicar-se é fundamental seu corpo, orienta seu traço e dá expressão
para a convivência coletiva. O ensino de a suas aptidões. Vale lembrar que o ensino
artes é a primeira mediação entre a criança de artes não se limita ao desenho. As artes
e a compreensão do uso de imagens e sons podem se desdobrar em dança, canto,
como comunicação, uma vez que até então teatro, performances, esculturas, colagens,
essa expressão era instintiva. entre tantas outras. Um bom planejamento

399
Revista Educar FCE - Março 2019

de aula pode abranger um amplo leque de Desenvolvimento perceptual, onde a


possibilidades. conscientização da variação da cor, das formas,
dos contornos e texturas pode ser progressiva
Desenvolvimento intelectual, pode ser na medida em que o contato com essas e outras
demonstrado de acordo com o conhecimento experiências perceptuais lhe é apresentado. É
que está à disposição da criança quando possível utilizar do ensino de artes para ensinar
desenha, é apreciado na compreensão à lógica, com conceitos científicos, com palavras
gradativa que a criança tem de si próprio e do e números. O ensino de artes é uma matéria
seu meio. Através do ensino de artes também bastante abrangente neste sentido, uma vez
se pode abranger diversos conteúdos e que as artes são naturalmente voltadas para a
trabalhar de forma interdisciplinar. percepção do ser humano.

Desenvolvimento emocional, neste Desenvolvimento criador, pois desde os


caso o desenvolvimento está diretamente primeiros rabiscos as crianças são capazes
relacionado com a intensidade que a criança de inventar suas próprias formas e colocar
tem com sua obra, que pode variar entre nelas algo de si própria. Através do ensino de
baixo nível de envolvimento, com repetições artes, tanto educador quanto aluno podem
estereotipadas e alto nível de envolvimento ultrapassar os limites da teoria e utilizar das
quando está empenhada em retratar algo técnicas artísticas sem se engessar A padrões
realmente importante pra ela. “Somos seres ou regras. O escritor Koestler, Arthur cita
integrais, dotados de sentimentos, emoções, que a criatividade é um tipo de processo de
pensamentos e experiências, que fazem aprendizagem em que o professor e o aluno
de nós seres únicos e especiais, e desta se encontram no mesmo indivíduo.
forma levamos esta bagagem de vivencias e
emoções em todo e qualquer conhecimento Vale citar aqui um importante pensamento
e aprendizagem que agregamos.” (Trecho da de PEREIRA (2010) onde a autora nos
coluna publicada por Daniel Silva Santos). afirma que o ato de aprender, embora
sofra influência do meio, do coletivo, é
Desenvolvimento estético, pois são extremamente individual, visto que cada
capazes de organizar o pensamento, a sujeito aprende da forma como pode, no seu
sensibilidade e a percepção para a expressão tempo, no seu ritmo.
de um todo coeso. Através do ensino de
artes – principalmente na educação infantil Segundo Ana Mae Barbosa:
– a criança pode trabalhar sua concepção de
“belo”, experimentar e descobrir o que lhe é “É preciso que os professores saibam que não é
qualquer método de ensino da arte que corresponde
agradável aos sentidos ou não. ao objetivo de desenvolver a criatividade, da mesma
maneira que é preciso localizar a arte da criança no
complexo mais totalizante da criatividade geral do
indivíduo. (Barbosa, 1990, p. 89)”.

400
Revista Educar FCE - Março 2019

LIMITAÇÕES NO ENSINO DE Escolinhas. O Governo federal desenvolveu


ARTES em 1973 cursos de licenciatura em artes que
teriam um prazo de dois anos. Para Barbosa
Diversos fatores limitam o imenso potencial (1998), seria impossível passar para um
do ensino de artes na educação. Para Barbosa jovem universitário noções de didática, artes
(1998), este fator tem procedência histórica. visuais, teatro, música e dança em tão pouco
Para abordar este assunto, precisamos tempo.
retomar parte do que foi apresentado no
primeiro capítulo desta pesquisa. Em 1948 Em sua pesquisa, Barbosa (1998) comenta
iniciou-se o movimento escolinhas de artes. sobre como há a divergência entre o que
Movimento este que ocorreu paralelamente os arte educadores gostariam de ensinar
com a ditadura militar. O ensino de artes para o que realmente é ensinado. Enquanto
nas escolas era principalmente voltado estes acreditam trabalhar a criatividade dos
para uma metodologia engessada aos alunos, suas aulas são baseadas em desenhos
livros didáticos. Naquele determinado geométricos e repetições.
momento da história, o currículo escolar era
amplamente tecnológico, logo o ensino de É preciso que os professores saibam que
artes não poderia ficar muito atrás, sendo não é qualquer método de ensino da arte que
principalmente voltado para o desenho corresponde ao objetivo de desenvolver a
geométrico. criatividade, da mesma maneira que é preciso
localizar a arte da criança no complexo mais
Apesar de todas as alterações e mudanças totalizante da criatividade geral do indivíduo.
que o currículo sofreu nas ultimas décadas, (BARBOSA, 1990, p. 89)
principalmente em 1971, não podemos
desconsiderar as reações de todas estas A pesquisa de Ana Mae Barbosa tem 20
mudanças. anos, e as licenciaturas de artes já sofreram
diversas mudanças até os dias de hoje – seja
Em sua pesquisa, Barbosa (1998) aponta na duração ou no currículo – mas ainda é
aquilo que ela acredita ser um importante possível encontrar traços desta limitação no
ponto de partida para muitas das limitações ensino.
do ensino de artes: O movimento escolinhas
de artes e o século que sucedeu a LDB de Em uma reflexão mais recente, Valério
71 não preparavam o arte-educador para ser (1977) nos trás alguns pensamentos
um professor, mas sim um transmissor de interessantes e que dialogam perfeitamente
saberes artísticos. A Lei Federal que tornou com a pesquisa de Ana Mae Barbosa.
obrigatório o ensino de artes nas escolas, não
pôde assimilar, como professores de arte, os Para Valério (1977), um aspecto que
artistas que tinham sido preparados pelas contribui para essa visão de arte como

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Revista Educar FCE - Março 2019

produto esteticamente belo, é a não identificamos como maçantes, trabalhosas,


formação dos professores na área de arte. Ela em outros termos: são as obrigações que
observa como alguns professores estão mais temos que cumprir, mais ou menos a
preocupados com a beleza estética do que o contragosto, e que nos permitem sobreviver.
processo criativo das crianças como produto Já as agradáveis, prazerosas, são aquelas
final. O que deveria importar, segundo reservadas às nossas férias e feriados, isto
Lowenfeld, é o “processo da criança- o seu é, as que guardamos para usufruir após
pensamento, os seus sentimentos, em suas terem sido cumpridas as nossas maçantes
percepções, em suma, em suas reações ao obrigações. (DUARTE JÚNIOR, 2012, p.11)
seu ambiente”. (VALÈRIO, 1977, p19.) Para Valério (1977), na sociedade em que
Segundo Lowenfeld, este tipo de atividade vivemos deve-se separar os sentimentos e
é um fator inibidor no sentido de que “a emoções de nosso raciocínio e intelecção, há
criança obrigada a seguir determinado locais onde podemos nos expressar e a locais
contorno, acha-se impedida, por nós, de que devemos deixar de lado nossas emoções.
resolver, criativamente, suas próprias O mesmo aconteceria nas escolas, como
conexões”. (LOWENFELD, 1997) um microcosmo semelhante à sociedade,
ficamos “presos” dentro de quatro paredes,
Em muitas propostas, as práticas de não podemos expressar nossas emoções para
Artes Visuais são entendidas apenas como não atrapalhar no nosso desenvolvimento
meros passatempos em que atividades de intelectual.
desenhar, colar, pintar e modelar com argila
ou massinha são destituídas de significados Por este motivo, o trabalho com artes na
(RCNEI, 1998, p. 87). Muitas das vezes educação infantil deve ser bem planejado,
essas propostas pedagógicas são entendidas e as atividades propostas pelo professor
assim por falta de conhecimento por parte devem favorecer o desenvolvimento
do educador, pois para ele a criança está integrado das capacidades criativas das
pintando, desenhando, como se fosse um crianças, considerando a imaginação, o
passatempo. Quando um professor age pensamento, a percepção, a intuição e a
assim está desvalorizando a criatividade e o cognição inerentes a cada período escolar,
fazer artístico dessa criança. pois proporciona grandes descobertas às
crianças e o conhecimento é construído de
Segundo Duarte Junior, este pensamento modo criativo, lúdico e divertido. “A arte não
das artes como passatempo se origina possibilita apenas um meio de acesso ao
do suposto de que as respostas devem mundo dos sentimentos, mas também o seu
necessariamente passar por um conflito desenvolvimento, a sua educação” (DUARTE
básico em nosso estágio atual de civilização, JÚNIOR, 2012, p.66).
que entre o “útil” e o “agradável”; isso seria:
as coisas úteis, “sérias”, são aquelas que

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Para a autora Mirian Celeste Martins: No Ensino Fundamental, o componente


curricular Arte está centrado nas seguintes
“É do educador que nasce o brilho dos olhos linguagens: as Artes visuais, a Dança, a
dos aprendizes. Pois o educador é aquele que
prepara uma refeição, que propõe a vida em grupo, Música e o Teatro. Essas linguagens articulam
que compartilha o alimento, que celebra o saber.” saberes artístico e envolvem práticas de criar,
(MARTINS, 1998, p.129). ler, produzir, construir, exteriorizar e refletir
sobre formas artísticas. A sensibilidade, a
Ou seja, para contornar esta limitação intuição, o pensamento, as emoções e as
historicamente imposta sob as artes como subjetividades se manifestam como formas
um passatempo, o educador tem que ter de expressão no processo de aprendizagem
iniciativa de promover atividades instigantes, em Arte.
ser voraz ao pesquisar coisas novas, ter
o desejo de ensinar e fazer do ensinar um “Nesse sentido, as manifestações
momento mágico. Mas sabemos que para artísticas não podem ser reduzidas às
o ensino em artes ser de fato satisfatório produções legitimadas pelas instituições
depende de muitas variantes, como a culturais e veiculadas pela mídia, tampouco
formação dos professores, da metodologia a prática artística pode ser vista como
por eles utilizada, sendo que algumas vezes a mera aquisição de códigos e técnicas. A
própria instituição considera as aulas de arte aprendizagem de Arte precisa alcançar a
hora de lazer. Neste caso, o educador fica experiência e a vivência artísticas como
sem liberdade de inovar em seu ensino, pois prática social, permitindo que os alunos
está obrigado a seguir o currículo escolar. sejam protagonistas e criadores. A prática
artística possibilita o compartilhamento de
saberes e de produções entre os alunos por
PERSPECTIVAS TRAZIDAS meio de exposições, saraus, espetáculos,
PELA BNCC performances, concertos, recitais,
intervenções e outras apresentações e
A Base Nacional Comum Curricular eventos artísticos e culturais, na escola ou
(BNCC) é um documento de que define em outros locais.” (BNCC, 2017, p. 193).
o conjunto orgânico e progressivo de
aprendizagens essenciais que todos os alunos A BNCC propõe que a abordagem das
devem desenvolver ao longo das etapas e linguagens articule seis dimensões do
modalidades da Educação Básica, de modo conhecimento que, de forma indissociável
a que tenham assegurados seus direitos e simultânea, caracterizam a singularidade
de aprendizagem e desenvolvimento, em da experiência artística. Desta forma, com
conformidade com o que preceitua o Plano tais dimensões a BNCC busca incentivar a
Nacional de Educação (PNE). criação, a crítica, a estesia, a expressão, a
fruição e a reflexão.

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“A referência a essas dimensões busca facilitar o processo de ensino e aprendizagem


em Arte, integrando os conhecimentos do componente curricular. Uma vez que os
conhecimentos e as experiências artísticas são constituídos por materialidades verbais e
não verbais, sensíveis, corporais, visuais, plásticas e sonoras, é importante levar em conta
sua natureza vivencial, experiencial e subjetiva.” (BNCC, 2017, p. 193).

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
As crianças são extremamente curiosas e maravilhadas
pelo aprender. Ao longo de suas vidas adquirem várias
experiências, elas exploram, sentem, agem, refletem e
elaboram sentidos de suas experiências. Com base nisso,
a arte deve ser entendida como uma linguagem que tem
estrutura e características próprias.

Segundo Rubem Alves no seu artigo, para as crianças o mundo


é um vasto parque de diversões. As coisas são fascinantes,
provocações ao olhar. Mas, para que o ensino da arte faça ANDREIA JODAS
realmente sentido e estimule esta curiosidade é importante NOGUEIRA
que a experiência vivenciada seja realmente significativa.
Graduação Pedagogia pela
Universidade de São Paulo (2005),
Como apontado por diversos autores, o ensino de artes Lato-Sensu Especialista em
no Brasil passou por diversas mudanças. Seja de formado, de Psicopedagogia Institucional pela
Faculdade de Tecnologia Módulo
inserção no currículo escolar, de ideologia ou de influencia. As Paulista (2016), Professora
artes estão naturalmente ligadas ao mundo exterior, então é de Educação Infantil e Ensino
totalmente natural que sofra alterações para acompanhar o meio Fundamental I na Rede Municipal
de Educação de São Paulo – EMEF
daqueles que a estudam e a praticam. As artes são algo que Rodrigo Melo Franco de Andrade.
acompanha o ser humano em todas as suas alterações e nuances,
logo, mudanças em seu ensino são naturais. Porém algumas das
mudanças podem ser danosas para a educação ao longo prazo.

Neste trabalho abordamos como a tecnologização da disciplina em 1971 ainda afeta a


forma como se leciona artes. Ainda é bastante presente o pensamento de que o ensino de
artes é um segundo recreio, como um simples passatempo.

O ensino de artes na educação infantil é um tema amplo, onde é possível trabalhar de


forma interdisciplinar, e promover – direta ou indiretamente – muitos desenvolvimentos e
saberes. Além disso, é no campo das artes onde o aluno pode se expressar livremente, e
aprender valores importantes para vivência em sociedade.

Para superar este pensamento engessado das artes como mero passatempo, é
necessária, antes de tudo, a reflexão dos profissionais da educação, sobretudo daqueles que
lecionam ou fazem uso das artes na educação, sobre como estes abordam a matéria? Se o
conteúdo transmitido é baseado em promover a livre expressão e em expandir os horizontes
das crianças, ou se suas aulas são baseadas em modelos de repetição.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DOS CONTOS DE


FADAS NO DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
RESUMO: Esta pesquisa busca discutir a contribuição dos Contos de Fadas para o processo
de ensino e aprendizagem da criança, além de verificar como o professor pode fazer uso desta
ferramenta em sala de aula de forma a contribuir com o desenvolvimento infantil. Sabe-se que
no desenvolvimento da linguagem oral, a criança amplia suas possibilidades de comunicação
e inserção ao mundo letrado. Ao falar ela comunica seus sentimentos e ideias. A linguagem
da criança é desde o início social, pois ao se comunicar, relaciona-se socialmente. Ela não
pede permissão ao adulto para entrar no mundo da escrita, aprendem por meio de diversos
tipos de intercâmbios sociais e também quando presenciam familiares em diferentes atos
de leitura e escrita. Para alcançar a finalidade da escrita, a criança passa por um processo
biológico, cognitivo e social de aprendizagem. Por meio da leitura interage com o ambiente
letrado. Os Contos de Fadas possuem uma magia universal que é a capacidade de prender
a atenção das crianças. Sendo uma leitura que encantam as crianças, os professores podem
utilizá-los como recurso, por meio de diversas estratégias.

Palavras-Chave: Criança; Desenvolvimento; Escrita; Leitura; Professor.

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INTRODUÇÃO etapa aponto questionamentos relevantes


a respeito da importância dos Contos de
Esta pesquisa surgiu a partir da necessidade Fadas como recurso de leitura e produção
que senti em investigar a importância do faz de textual na alfabetização.
conta no processo de ensino e aprendizagem
da criança, em especial o conto de fadas.
Kishimoto e Formosinho (2013) afirmam OS CONTOS DE FADAS
que a criança no seu universo se utiliza das COMO FACILITADORES DE
brincadeiras infantis, da imaginação, da
categorização e das regras. Essas atitudes APRENDIZAGEM
servem para fundamentar a posição da criança
na sociedade e na realidade em que vive. Sabe-se que a criança aprende e se
desenvolve por meio do brincar e do
Este estudo tem como objetivos discutir imaginar. Sendo assim, o faz de conta
a contribuição dos Contos de Fadas para surge no imaginário infantil como uma
o processo de ensino e aprendizagem da importante ferramenta que contribui para
criança. Busca-se ainda verificar como o o desenvolvimento integral da criança, pois
professor pode fazer uso desta ferramenta esta possibilita que a criança altere sua
em sala de aula de forma a contribuir realidade, que viaje pelo mundo mágico da
com o desenvolvimento infantil. Sendo a imaginação de forma criativa. Kraemer (2008,
aprendizagem da linguagem oral e escrita um p.1), afirma que “os contos de fadas possuem
dos elementos mais importantes para que uma magia universal, que é a capacidade de
as crianças ampliem suas possibilidades de prender a atenção das crianças”. Nos Contos
inserção e participação nas diversas práticas de Fadas as crianças podem imaginar e viver
sociais, é de grande relevância que ainda na personagens de um mundo de fantasia. Essa
Educação Infantil a criança tenha acesso a fantasia poderá ser vivida durante a leitura de
livros infantis, que viaje pelo mundo mágico um livro ou por meio de um filme. Os Contos
da imaginação. Desta forma, ao utilizar de Fadas nos possibilita reviver agradáveis
os Contos de Fadas na aprendizagem e momentos vividos na infância.
desenvolvimento da linguagem oral e escrita
das crianças tem-se a intenção de promover Os contos de fadas desafiam o tempo
encantando as crianças. Têm aceitação garantida
experiências que tenham significado em seu
com o público infantil porque retratam paixões
processo de alfabetização. humanas e exploram temas que atraem as crianças,
como conflito entre o bem e mal, vida e morte,
medo e coragem etc., temas estes que exercem
A pesquisa está organizada em dois
misto de fascinação e temor. (KRAEMER, 2008 p.1).
momentos, no primeiro momento abordo
sobre a linguagem oral e escrita e sua
importância na vida da criança. E na segunda

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Ainda segundo a autora, os Contos de que em sua estrutura básica, sempre estão
Fadas têm a intenção de dar respostas aos presentes os elementos constantes, o número
anseios da humanidade como “segurança, e a sequência das funções. De acordo com
justiça, amor, rivalidade, medo e rejeição” Kraemer (2008, p.6): “nos contos de fadas
(KRAEMER, 2008 p.2). Trabalham os valores há sempre o herói, a busca, os obstáculos,
morais e contribuem para a formação do a conclusão baseada nas suas ações”.
adulto. Apesar de serem fantasiosas, retratam Percebe-se que a criança no seu imaginário
algo bem real. representado pelos personagens dos Contos
de Fadas, consegue superar obstáculos,
A criança intuitivamente compreende que, enfrentar problemas, resolver conflitos e ter
embora estas estórias sejam irreais, não são falsas;
que ao mesmo tempo em que fatos narrados não um amadurecimento emocional.
acontecem na vida real, podem ocorrer como uma
experiência interna e de desenvolvimento pessoal; É como se o conto de fadas, admitindo que
que os contos de fadas retratam de forma imaginária é humano sentir raiva, esperasse apenas dos
e simbólica os passos essenciais do crescimento adultos o autocontrole suficiente para não serem
e da aquisição de uma existência independente. arrebatados por ela, já que seus desejos raivosos e
BETTELHEIM (2004, p.89) apud KRAEMER (2008, grotescos tornam-se fatos - mas os contos frisam
p.2). as consequências maravilhosas para uma criança
se ela se empenha num pensamento ou desejo
positivo. A desolação não induz a criança, no conto
A autora afirma ainda que os Contos de fadas, a ter desejos vingativos. Ela deseja apenas
boas coisas, mesmo quando tem amplas razões
de Fadas estiveram presentes no folclore para desejar coisas ruins para os que a perseguem
europeu. As histórias eram contadas, [...] BETTELHEIM (2004, p.89) apud KRAEMER
recontadas e adaptadas em cada região e (2008, p.07).
a cada geração. Destaca que os escritores
recolheram esses contos e compilaram em Para Bettelheim (2004), os Contos de
obras. Quando esses escritores compilaram Fadas deveriam ser lidos ou narrados para
esses contos tornaram-se famosos. Entre dar oportunidade da criança a imaginá-
os autores mais famosos estão Charles los a partir de sua experiência pessoal. É
Perrault, Jacob e Wilhelm Grimm (irmãos necessário que o professor esteja sempre
Grimm). Ainda segundo Kraemer (2008), atento para os reais interesses dos alunos,
Hans Christian Andersen também escreveu conforme apontam os RCNEI’s (1998ª):
Contos de Fadas, mas diferentemente dos
outros autores, ele criou suas próprias Ao ler uma história para as crianças, que está
trabalhando não só a leitura, mas também, a fala,
histórias. Esse autor é considerado o pai da a escuta, e a escrita; ou, quando organiza uma
literatura infantil, pois escreveu Contos de atividade de percurso, que está trabalhando tanto
Fadas pensando nas crianças. a percepção do espaço, como o equilíbrio e a
coordenação da criança. Esses conhecimentos
ajudam o professor a dirigir sua ação de forma mais
Pesquisadores e estudiosos analisaram consciente, ampliando as suas possibilidades de
os Contos de Fadas e chegaram à conclusão trabalho. (BRASIL, 1998, p. 53).

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Revista Educar FCE - Março 2019

O papel do professor em todos os fazer uma leitura prazerosa, além de entrar


momentos de suas ações em sala de aula em contato com imagens que estimulam a
possui grande valor para a criança que a percepção visual.
cada instante solicita por uma educação
pautada em suas necessidades. É necessário Explorar a estrutura dos gêneros textuais é dar
ferramenta as crianças organizarem espacialmente
um constante olhar do professor para os suas escritas de forma adequada, de acordo com
interesses dos alunos para que sua prática a função que necessitam que ela adquira em cada
faça sentido para a criança. contexto [...]. Também pode propor que as crianças
pesquisem de que forma as pessoas trocavam
mensagens em outras épocas [...]. Uso de mapas
para localizar as cidades [...]. (PICCOLI; CAMINI,
A RELEVÂNCIA DO CONTO 2012 p.96)

DE FADAS PARA NO
Assim sendo, com essas práticas a criança
DESENVOLVIMENTO DA explora o espaço, o tempo, levanta hipóteses,
CRIANÇA PEQUENA pesquisa, levanta possibilidades de respostas,
organiza ideias e se alfabetiza. Corso (2006)
A criança ainda pequena poderá construir aponta para a importância do imaginário
uma relação prazerosa com a leitura e ao infantil está em constante desenvolvimento
compartilhar este prazer com seus colegas quando a criança vivencia as experiências de
ou familiares estará vivenciando situações imaginar por meio dos contos de fadas.
de aprendizagens positivas. Quando o
professor realiza com frequência leituras Boa parte das histórias infantis ocorre na floresta
ou inclui a tarefa de atravessá-la. É o espaço o qual
de um mesmo gênero está propiciando às passa a missão de sair para o mundo para provar
crianças oportunidades para que conheçam algum valor, como ser capaz de sobreviver aos seus
as características próprias do gênero, isto perigos, trazer um objeto ou tesouro, tarefas mais
usuais dos heróis dos contos de fadas. (CORSO,
é, identificar se o texto lido é, por exemplo,
CORSO, 2006, p.37).
uma história, um anúncio, etc.

São inúmeras as estratégias das quais o O posicionamento de Corso (2006)


professor pode lançar mão para enriquecer as
atividades de leitura, como comentar previamente possibilita a compreensão de que os contos
o assunto do qual trata o texto; permitir as crianças de fadas contribuem para o desenvolvimento
levantem hipóteses sobre o tema a partir do título; da capacidade de resolver problemas que
oferecer situações que situem a leitura; criar um
certo suspense, quando for o caso [...] RCNEI (1998, a criança começa a desempenhar por meio
p.141 v.3). dessas ações de imaginar a realidade da
forma que ela acha melhor, procurando
Sendo assim, os Contos de Fadas podem resolver os mistérios que aparece da forma
ser oferecidos pelo professor como gênero que em seu imaginário melhor compreende
textual, o qual a criança terá oportunidade de naquele momento.

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Os contos de fadas são ímpares, não só como


forma de literatura, mas como obras de arte
A IMPORTÂNCIA DA
integralmente compreensíveis para a criança como
nenhuma outra forma de arte o é. Como sucede
LINGUAGEM ORAL E ESCRITA
com toda grande obra de arte, o significado mais
profundo do conto de fada será diferente para a
mesma pessoa em vários momentos de sua vida. A Segundo o Referencial Curricular
criança extrairá significados diferentes do mesmo Nacional para Educação Infantil - RCNEI
conto de fada, dependendo de seus interesses e
necessidades do momento. (BETTELHEIM, 2002, (1998), ao aprender uma língua, a criança
p. 20). amplia suas capacidades de comunicação
e expressão e o acesso ao mundo letrado.
Essa ampliação relaciona-se com o
De acordo com a abordagem de Bettelheim desenvolvimento da criança em processo
(2002) os contos de fadas se constituem no gradativo das capacidades associadas às
imaginário infantil de diferentes formas no quatro competências linguísticas básicas,
decorrer da vida, o que hoje é uma história, ou seja, escutar, falar, ler e escrever. Ainda
em alguns anos terá outro contexto e para segundo o RCNEI (1998), a linguagem oral
a criança será uma nova história a cada está presente no cotidiano das crianças
experiência que vivenciar. e seu desenvolvimento serve, além de
comunicação entre os seres humanos,
É ouvindo histórias que se pode sentir também para as crianças expressarem seus
emoções importante, como a tristeza, a raiva, a
irritação, o bem-estar, o medo, a alegria, o pavor, a sentimentos e ideias.
insegurança, a tranquilidade, e tantas outras mais,
e viver profundamente tudo o que as narrativas De acordo com Silva (2015, p.5): “é
provocam em quem as ouve - com toda a amplitude,
significância e verdade que cada uma delas fez (ou justamente no ambiente que se pode atuar
não) brotar... Pois é ouvir, sentir e enxergar com os de forma eficaz para contribuir na aquisição
olhos do imaginário! (ABRAMOVICH,1999, p. 17). e no desenvolvimento do uso da linguagem
oral e da linguagem escrita”. É por meio da
É importante que o professor interação do indivíduo com o ambiente
disponibilize para as crianças a leitura de que a maturação biológica acontece. Para
livros de faz de conta, a leitura do professor Vygotsky, segundo Silva (2015), a linguagem
também possibilita que a criança viaje pelo da criança é desde o início social; pois ao
mundo da imaginação, criando sua realidade se comunicar, relaciona-se socialmente e
de acordo com o que ouve durante a leitura. influencia as pessoas a sua volta, visto que há
uma relação afetiva entre o desenvolvimento
do pensamento e o desenvolvimento social.

Segundo o RCNEI (1998), a criança não


pede permissão ao adulto para entrar em
contato com a escrita. Elas aprendem por

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meio de diversos tipos de intercâmbios sociais e também quando presenciam familiares em


diferentes atos de leitura e escrita. “ler jornais, fazer uma lista de compras, anotar um recado
telefônico, seguir uma receita culinária, buscar informações em um catálogo, escrever uma
carta para um parente distante, ler um livro de histórias, etc.” (RCNEI, 1998 p. 122 v. 3).
Sendo assim, a criança começa a elaborar hipótese sobre a escrita. Quanto mais contato ela
tiver com esses portadores textuais e quanto mais observar que pessoas a sua volta utilizam
a leitura e a escrita em seu cotidiano, melhor será sua compreensão e melhor saberá lidar
com as questões da linguagem escrita. Ao materializar a palavra, a criança escreve. Para
alcançar a finalidade da escrita, a criança passa por um processo biológico, cognitivo e social
de aprendizagem. Carvalho (2005) aponta que:

Nesta perspectiva, Vygotsky seleciona a escrita como um dos aspectos da cultura em que a ideia de progresso
cultural, é a princípio, evidente. A fala, os sistemas de escrita e de contagem servem a uma dupla função – a de preservar
a tradição e funcionar, também, como instrumentos para o controle crescente da vida humana [...] (CARVALHO, 2005
p.28).

Sendo assim, o crescimento social e interpessoal na evolução da história se deu por conta
da função da escrita no cotidiano e desenvolvimento da espécie humana. O desenvolvimento
da escrita percorre um caminho que passa pela história da civilização. Este caminho resume-
se na “substituição, primeiro, de linhas e rabiscos por figuras e imagens e posteriormente, de
figuras e imagens por signos”. (LURIA, 1998, p.168 apud CARVALHO, 2005, p.30).

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com este estudo foi possível discutir sobre a importância
dos Contos de Fadas para o processo de ensino e
aprendizagem da criança, sendo possível perceber que
os contos de fadas se constituem como uma importante
ferramenta que contribui para o processo de ensino e
aprendizagem da criança.

A linguagem da criança é desde o início social, pois


ao se comunicar, relaciona-se socialmente. Ela não pede
permissão ao adulto para entrar no mundo da escrita, ANDREIA MANGETTI
aprendem por meio de diversos tipos de intercâmbios sociais RIGUETTI
e também quando presenciam familiares em diferentes atos
Graduação em Pedagogia pela
de leitura e escrita. Para alcançar a finalidade da escrita, Faculdade Sumaré (2014);
a criança passa por um processo biológico, cognitivo e Especialistas em Educação
social de aprendizagem. Por meio da leitura interage com o Especial - Altas habilidades e
Superdotação pela Universidade
ambiente letrado. Estadual de São Paulo - UNESP
(2017); Professor de Educação
Os Contos de Fadas possuem uma magia universal Infantil e Ensino Fundamental I
na Prefeitura de São Paulo - EMEI
que é a capacidade de prender a atenção das crianças. Sendo Afrânio Peixoto.
uma leitura que encantam as crianças, os professores podem
utilizá-los como recurso, por meio de diversas estratégias.
Verificou-se ainda com a pesquisa que o professor pode
fazer uso desta ferramenta em sala de aula de forma a contribuir com o desenvolvimento
infantil, propondo estratégias que possibilitem a inserção dos contos de fadas na rotina da
criança em sala de aula, é no desenvolvimento da linguagem oral, que a criança amplia suas
possibilidades de comunicação e que ao falar ela comunica seus sentimentos e ideias.

Percebe-se que a criança no seu imaginário representado pelos personagens dos


Contos de Fadas, consegue superar obstáculos, enfrentar problemas, resolver conflitos e ter
um amadurecimento emocional. Ao realizar com frequência a leitura de um mesmo gênero
para as crianças, como Contos de Fadas, o professor está proporcionando oportunidades
para que as crianças conheçam as características próprias do gênero, ajudando a criança
a identificar os tipos de textos literários. Explorando os diversos temas que os Contos de
Fadas oferecem, é possível possibilitar as crianças em idade escolar exploração do espaço,
do tempo, levantamento de hipóteses, diversas pesquisas, possibilidades de argumentos e
respostas, organização de ideias.

414
Revista Educar FCE - Março 2019

É o constante olhar do professor sobre sua prática que torna a criança protagonista de
suas ações, possibilitando que vivenciem experiências de ensino e aprendizagem que faça
sentido para seu desenvolvimento integral.

415
Revista Educar FCE - Março 2019

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416
Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DOS JOGOS E


BRINCADEIRAS NA EDUCAÇÃO
INFANTIL
RESUMO: Esse artigo tem como objetivo descrever a importância dos jogos e das brincadeiras
nas escolas de educação infantil e na atuação dos professores como intelectuais, agentes
transformadores para a formação das crianças. Para as crianças é de extrema importância
todos os momentos lúdicos no seu desenvolvimento. Os professores precisam administrar o
tempo e os espaços pensando nesses momentos, no qual as brincadeiras livres sejam feitas
pelas crianças, sempre com um olhar observador, além de registar o que puder sobre esses
momentos, interferindo só quando necessário, podendo também brincar com as crianças.
Precisamos estabelecer diferentes relações sociais, exigindo da escola a formação de um
novo aluno, que seja capaz de atuar na sociedade, melhorando seu futuro de vida. O professor
precisa estar capacitado, promovendo uma prática educativa transformadora, se tornando
um pesquisador e construindo conhecimentos para uma promoção de igualdade, visto que
o ato de brincar com seus alunos, pode contribuir e muito nas atividades, enriquecendo à
dinâmica das relações sociais na escola.

Palavras-Chave: Brincar; Cidadania; Pesquisa-ação; Pós-formal; Professores transformadores.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO que a escola seja desafiada, buscando


formar um novo tipo de trabalhador, que
Esse artigo busca mostrar a importância haja criticamente dentro da sociedade,
que tem os jogos e as brincadeiras na priorizando sua formação, para que tenha
Educação Infantil e qual deve ser a atitude do capacidade intelectual, preparando para
educador no papel de agente transformador, enfrentar todas as transformações que
pois a nossa realidade mudou no decorrer ocorrem e que sempre irá evoluindo.
dos anos.
Veremos como pode ter ocorrido o inicio
Com a globalização vêm também as novas dos jogos e do brincar, e como podemos levar
relações políticos sociais, expandindo cada a brincadeira mais à sério dentro de nossas
vez mais a ciência, tecnologia e a informação. salas de aula.
E com isso a escola vai ficando para traz, pois
não há um acompanhamento disso dentro Devemos educar nosso aluno para
das salas de aula. ser um cidadão critico reflexivo e
dinâmico, capacitado intelectualmente e
A aceleração acaba produzindo mudanças profissionalmente para atender as exigências
na produção de bens de consumo, acabando do mercado. E para isso o professor precisa
com barreiras do tempo e do espaço, atuar também de maneira crítica e reflexiva.
referente à informação, mas interferem
em fatos e acontecimentos, sabemos que Como educadoras o objetivo desse estudo
as comunidades mais pobres são as que é discutir algumas atitudes e comportamentos
mais sofrem, não acompanhando todos os dos professores de educação infantil, em
avanços tecnológicos, fazendo com que relação ao brincar a partir de experiências e
ocorra mudanças nos valores culturais, de estudos sobre atividades lúdicas e como
transformando o meio ambiente, que sofre são importantes para o desenvolvimento
com a ação da ambiciosa do homem, que infantil.
só busca retirar riqueza da natureza, sem
reconstruir o que destruiu. Esse artigo tem como objetivo analisar a
importância do brincar e das dinâmicas na
Essas mudanças acabam precisando de educação infantil, com crianças de cinco
uma mão de obra diferente, fazendo com que anos juntos com os professores e observar
o trabalhador se torne obsoleto, precisando a utilização das brincadeiras e dinâmicas
buscar sempre novas qualificações, exigindo na capacidade de aprendizagem dos alunos
que seja capaz de pensar e agir de maneira pequenos.
cada vez mais eficaz frente às mudanças,
buscando um aperfeiçoamento pessoal e Com esse artigo tentamos mostrar que
profissional. Tantas mudanças fazem com o educador deve produzir o seu próprio

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Revista Educar FCE - Março 2019

conhecimento e deve assumir uma postura O educador que deixa as crianças livres
capaz de pensar e de examinar diariamente às vezes é visto como um marginal, pois não
suas aulas e suas atitudes cotidianas, apresenta uma ordem dentro de sala de aula,
ensinando com amor e dedicação, formando mas isso precisa ser trabalhado entre seus
alunos cidadãos. pares e superiores.

O objetivo específico desse artigo é


discutir atitudes e comportamentos do A IMPORTÂNCIA DOS
professor, em formação inicial e que atuam JOGOS E BRINCADEIRAS NA
na educação básica, em relação ao brincar e
a partir de sua experiência na participação
EDUCAÇÃO INFANTIL
em uma atividade lúdica.
A constante reflexão das práticas
Fazendo com que os educadores pedagógicas é uma iniciativa básica
desenvolvam uma prática educacional para que a escola possa se tornar um
voltada para seus alunos, tornando-os verdadeiro ambiente para a aprendizagem.
pessoas atuantes e críticos. Buscamos analisar sobre a contribuição das
brincadeiras e dos jogos no desenvolvimento
Precisamos tomar consciência que nossas da aprendizagem das crianças, pois a
atitudes como educadores de educação utilização deles estimula a aprendizagem na
infantil devem ser repensadas, elevando o educação infantil, por meio dos mesmos, a
conhecimento do professor à respeito das aprendizagem acontece de maneira lúdica
atividades lúdicas. e muito significativa proporcionando ao
educando o prazer de aprender.
O jogo e o brincar devem ser um tema
bastante estudado dentro das escolas de É por meio das brincadeiras e dos jogos
Educação Infantil, no qual a criança esta que a criança constrói o seu universo,
dentro da fase correta para aprender diversos manipulando-o e trazendo para a sua
valores e com isso aprendem de forma mais realidade, situações inusitadas do seu mundo
significativa. imaginário.

Devemos ter consciência que só com O brincar possibilita o desenvolvimento,


o estudo sobre determinados assuntos, não sendo apenas um instrumento didático
teremos poder de mudar algumas atitudes facilitador para o aprendizado, pois os jogos
que ao passar do tempo foi se enraizando e as brincadeiras influenciam em áreas do
nas escolas de Educação Infantil. desenvolvimento infantil como: motricidade,
inteligência, sociabilidade, afetividade e sua
criatividade. O brinquedo contribui e muito

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Revista Educar FCE - Março 2019

para a criança exteriorizar seu potencial Precisamos como educadores, entender


criativo. melhor as necessidades e dificuldades mais
imediatas do sujeito e utilizar as atividades
Percebemos que a criança brinca e lúdicas justamente na busca de possibilidades
joga, desde os primeiros anos e logo toma de aprendizagem e compreensão não só de
consciência do imaginário, da imitação conteúdos, mas de valores também.
e das regras, tornando também fonte de
prazer. Por meio do brincar, a criança tem Utilizar os jogos para ensinar é um
uma experiência vivenciada, uma vez que a caminho para o educador desenvolver
mesma descobre um mundo mágico, inventa, aulas mais interessantes, descontraídas e
cria, estimula habilidades, a curiosidade e em dinâmicas, podendo competir em igualdade
especial a sua independência. de condições com os inúmeros recursos a
que os alunos têm acesso fora da escola,
A criança constrói suas próprias ideias despertando ou estimulando sua vontade de
sobre o mundo que a cerca, mediante a frequentar com assiduidade a sala de aula e
realização dos jogos e brincadeiras, refletindo incentivando seu envolvimento no processo
com isso seu desenvolvimento psicológico e ensino-aprendizagem, já que aprende e se
cognitivo em que se encontra. diverte ao mesmo tempo.

No momento que o professor de Educação Nesse processo o professor é a peça


Infantil compreender a importância de fundamental, devendo ser um elemento
se avaliar os mecanismos e raciocínio essencial. Educar não se limita em repassar
empregados em cada brincadeira, deixa de informações ou mostrar apenas um caminho,
lado o certo e o errado. Passando a valorizar ajudando as crianças a tomarem consciência
todas as ideias elaboradas pelas crianças, de si mesmas, e da sociedade em que vive
competindo ao professor apenas conduzir e deve interagir. O professor deve oferecer
o aluno a refletir, para que a própria criança várias ferramentas para que a criança possa
faça suas reformulações e atinja de maneira escolher seus caminhos, construir valores,
significativa o seu aprendizado. ter uma visão de mundo e considerar as
circunstâncias adversas que cada um irá
Quando jogos e brincadeiras são utilizados encontrar.
dentro da escola, com uma visão pedagógica
estimula o desenvolvimento psicomotor,
emocional, afetivo, cognitivo entre outras O BRINCAR
áreas de aprendizagem, mas devemos
identificar as necessidades individuais de O conhecimento e entendimento dos
cada aluno para que possa estabelecer uma fatores etiológicos das dificuldades de
estratégia que supra essas carências. aprendizagem, bem como a significação

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Revista Educar FCE - Março 2019

emocional do problema na família e na desenvolve e enriquece sua personalidade e


escola, leva o professor a determinar qual simboliza um instrumento pedagógico que
o instrumento que poderá fazer com que o leva ao professor a condição de condutor.
aluno aprenda de maneira mais fácil, e os
jogos podem ser utilizados sempre que for
conveniente. O JOGO
Por meio do jogo conseguiremos estimular O jogo surgiu com o crescimento
a concentração, adequar estratégias, treinar intelectual da humanidade e a necessidade
a coordenação motora, proporcionar uma de passar o tempo ocioso. Não temos como
forma de treinar a perseverança e criar afirmar com certeza como se deu seu início
situações no qual o aluno desenvolva pois pode ter sido antes da escrita.
atitudes de cooperação com o grupo, e assim,
promover o processo ensino-aprendizagem A primeira aparição de jogos que temos,
em um ambiente favorável para que a são manuscritos milenares, que falam de
criança atinja os objetivos propostos em jogos praticados em todas as regiões do
cada atividade que fará. planeta. Claro que não poderemos dizer com
certeza quando, em que lugar e quais foram
A atividade do jogo, quando realizada os primeiros jogos da humanidade.
com certa frequência em sala de aula,
promove uma gradativa autonomia para a Algumas teorias afirmam que o primeiro
iniciativa, responsabilidade e organização jogo foi chamado de Jogo da Evolução, e foi
com as tarefas escolares, favorecendo o praticado pelos Neanderdhais. Era um jogo
desenvolvimento da autodisciplina, assim, bem simples e rude, jogado com um grande
não há desgaste na relação. osso, com esse jogo foram delimitando o
domínio de territórios, batia no adversário e
A ideia de um ensino despertado pelo ganhavam seu espaço.
interesse do aluno acabou transformando
o sentido do que se entende por material Algumas outras invenções foram
pedagógico e cada criança ou adolescente, influenciadas a partir dessas represálias, um
passou a ser um desafio à competência do outro tentou criar um jogo, no qual a Terra
professor e este percebeu que a força que era plana, e esse conceito ainda hoje perdura
comanda o processo de aprendizagem até os dias atuais. Na Idade Média chegaram
é o interesse. É assim que o jogo ganha a usar a cabeça de inimigos decapitados
um espaço como a instrumento ideal de para representar a forma terrestre, mas
aprendizagem, na medida que estimula a mostraram-se pouco práticas, porque
interesse do aluno. O jogo ajuda a criança e impediam a visão de todo o tabuleiro e as
adolescente a construir novas descobertas, peças caiam com muita facilidade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A história dos jogos tem seus períodos de para o processo do ensino-aprendizagem. O


altos e baixos, fazendo grandes nomes, hora jogo deve ser utilizado como facilitador da
produzindo verdadeiros algozes. Acreditasse formação do aluno.
que Júlio César criou diversos jogos de
estratégia, mas infelizmente este fato não As regras dos jogos devem ser simples e o
jogo se torna mais interessante à medida que os
pode ser confirmado, pois esses jogos se estudantes começam a criar estratégias elaboradas
queimaram no grande incêndio de Roma. e se aprimoram na antecipação das jogadas.
(SMOLE, 2004, p.59).
Apesar de tudo, os jogos proliferaram
pelo mundo, e com as grandes navegações Considerando que na pedagogia
as culturas se encontraram e trocaram tradicional existe uma grande dificuldade no
informações, nesta época foram criadas as aprendizado, então temos a convicção de
primeiras empresas de exportação de jogos, que a metodologia utilizada ainda nos dias
passo fundamental para o crescimento do de hoje não é a mais apropriada.
setor. Livros históricos dão conta de que
marinheiros jogavam diversos tipos de jogos O jogo apresenta algumas etapas no
de tabuleiros em suas demoradas viagens aprendizado, e ocorrem da seguinte forma:
rumo ao desconhecido.
Jogo livre - etapa da curiosidade; Regras do
Existem várias formas para que possamos jogo - as próprias crianças começam a impor
deixar o estudo da matemática mais amigável, regras: fazer montagens, classificar, ordenar,
algumas delas são as brincadeiras, os jogos, etc.; Jogo do isomorfismo - as crianças
etc. O brincar na fase inicial principalmente começam a perceber semelhanças entre
faz parte da vida, é um momento espontâneo, os diversos jogos praticados. Desenvolve-
no qual a criança pode expressar-se, se a parte quantitativa e semelhanças;
desenvolver o lado cognitivo, intelectual, Representação - conscientização de uma
social, etc. abstração por meio de um processo de
representação da situação; Linguagem
Na pedagogia tradicional, o uso de jogos inventada - a criança toma plena consciência
não era bem visto, uma vez que a escola da abstração. É capaz de descrever,
deveria ser um centro nos quais os alunos representar e verbalizar a abstração; e
devem sair preparados para enfrentar Teoremas - Última etapa, a criança já é capaz
o mundo do trabalho e tornarem-se de manipular sistemas formais.
cidadãos para a sociedade. Como trabalho
e brincadeiras não combinam então esta Utilizar jogos neste processo vai estimular
prática não era bem-vinda. Na pedagogia o aluno no desenvolvimento do seu raciocínio
atual, já temos outras vertentes, nos quais os lógico. O jogo desperta no aluno a vontade e
jogos passam a ter fundamental importância a curiosidade em tentar solucionar o desafio

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Revista Educar FCE - Março 2019

proposto. A atividade lúdica desenvolve o AS CONTRIBUIÇÕES DOS


raciocínio, as habilidades, o conhecimento, JOGOS E DAS BRINCADEIRAS
etc. A criança consegue aprender muito com
as brincadeiras, de forma saudável e prazerosa. NO DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
É por meio dos jogos que meninos tímidos
liberam as emoções reprimidas no seu Durante décadas as crianças brincavam
eu, tendo a oportunidade de se mostrar e a partir dos saberes que eram passados por
conhecer seus colegas. Esses conseguem seus pais, avós, tios ou até por vizinhos.
sentir-se seguros a partir do momento em Atualmente houve uma mudança nas formas
que se veem inseridos no grupo. A interação de brincadeiras, bem como nos próprios
é indispensável, pois i ponto de vista das brinquedos. Antigamente os brinquedos eram
crianças é diferente da de um adulto e a vida confeccionados pelos pais e avós, eram feitos à
social da mesma acontece na maioria do mão, agora há uma gama enorme de brinquedos
tempo com seus colegas. confeccionados pela indústria, que passou a
criar e a produzir brinquedos em todo o mundo.
O ser humano tem necessidades físicas e
sociais, estas supõem uma reestruturação da Os brinquedos e jogos, agora são
personalidade e respeito à heterogeneidade vinculados à algum desenho da televisão,
do mesmo. Similarmente acontece que a e esse modismo, faz uma grande parte das
criança que tem uma vida escolar, percebe crianças logo cedo serem consumistas,
a necessidade de agir em harmonia com querendo sempre ter todos os brinquedos,
outras. Por isso são estabelecidas as normas pois para a indústria, é fácil fazer vários
de convivência e compartilham: participação, modelos, mas que fazem o mesmo propósito
cooperação, interdependência e superação de um, mudando cores, figurinhas, e a
de conflitos. televisão trabalha vários personagens para
que isso se torne cada vez mais um círculo
Os jogos trabalham a ansiedade vicioso, inventam o carro, a casa, os animais
encontrada em muitas crianças, fazendo de estimação, tudo que podem inventar
com que elas concentrem-se mais e à partir de um personagem, esgotando a
melhore o seu relacionamento interpessoal criatividade e fazendo com que as crianças
e autoestima. Quando realizados de forma sintam a necessidade de “ter” e às vezes nem
prazerosa e atraente dentro da matemática, brincam com tantos brinquedos.
ajudam a diminuir problemas apresentados,
desenvolvendo relação de confiança entre Precisamos fazer com que nossas
professor x alunos x alunos, bem como crianças aprendam a fazer seus próprios
a comunicação de pensamento, corpo e brinquedos com a ajuda dos seus parentes,
espaço afim de interação no meio. desenvolvendo a criatividade e raciocínio.

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Revista Educar FCE - Março 2019

É preciso que os professores se apropriem em seu mundo, tentando recuperar o


do brincar, trazendo para dentro do universo lúdico no mundo adulto, sensibilizando e
escolar, utilizando essa ferramenta de conscientizando professores para viverem
maneira sistemática, reconhecendo que o um novo papel, o de facilitadores do lúdico
brincar aproxima da criança o aprendizado, o no ambiente escolar.
brincar é uma atividade fundamental para o
desenvolvimento das crianças, pois quando Essa formação lúdica que os professores
brincam desenvolvem diversas capacidades precisam ter, implica na necessidade de
como atenção, memória e sua imaginação. compreensão do brincar como parte de ser
educador, somente brincando é que se pode
Grande parte das crianças consideram saber sobre o que é brincar.
seus professores adultos afetivamente
importantes, especialmente quando acolhe O professor deve vivenciar o jogo e a
e aceita suas vivências lúdicas, ouvindo e brincadeira, sem se infantilizar, de modo
abrindo espaço para a criação, buscando que possa observar o seu ser brincante,
instigar a crianças à descobertas, provocando assumindo suas dificuldades iniciais, na
a curiosidade e o desejo de aprender, a perspectiva de provocar uma mudança de
criança pequena considera seus professores postura frente ao universo lúdico.
como parceiros na busca de um aprendizado.
O lúdico é de grande importância para
Quando brincam as crianças criam e as crianças, pois sem distinção de idade ou
recriam, e isso muito importante para seu classe social, estas atividades lúdicas devem
desenvolvimento educacional. A capacidade constar no contexto político pedagógico
de criação e o processo sublimação acabam da escola, compreendendo os jogos, as
exigindo uma enorme ocorrência de brincadeiras e os próprios brinquedos, tanto
satisfação compatível com o princípio da as brincadeiras de antigamente, bem como
realidade. as atuais, pois são de cunho educativo e
auxiliam na aprendizagem dos alunos, assim
A criatividade pode ser entendida como como no convívio social. É com a interação
a criação de uma nova realidade externa que as crianças vão desenvolvendo suas
com base numa realidade interna, podendo criatividades e liberdades, o brinquedo
alcançar ilimitados desejos no plano da traduz o real para a realidade infantil. Com a
criação simbólica, de maneira a potencializar brincadeira, a inteligência e sua sensibilidade
recursos intelectuais e emocionais para a estão sendo desenvolvidas. A presença
produção individual e social. de atividades lúdicas na prática educativa
articula-se na forma espontânea e dirigida,
Nosso maior desafio como educadores é em que ambas são educativas.
acolher a brincadeira da criança, entrando

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Revista Educar FCE - Março 2019

Na fase espontânea que se constitui o brincar cotidiano da criança, que flui e é mobilizado
a partir de questões internas do sujeito, sem nenhum comprometimento com a produção
de resultados pedagógicos. O caráter educativo do brincar é uma atividade formativa,
que pressupõe o desenvolvimento integral do sujeito quer seja, na sua capacidade física,
intelectual e moral, como também a constituição da individualidade, a formação do caráter e
da personalidade de cada um. Na fase dirigida há a presença das brincadeiras como atividades
cujo objetivo específico é o de promover a aprendizagem de um determinado conceito, ou
seja, além de serem marcados pela intencionalidade do educador.

Ao estudarmos vimos que a brincadeira se torna extremamente importante para o


desenvolvimento da criança, pois dessa forma que as crianças se relacionam de várias
maneiras com significados e valores, nas brincadeiras elas percebem o que vivem e o que
sentem. A brincadeira faz parte e sentido na vida das crianças, o faz de conta as crianças
reproduzem várias situações concretas de adultos.

O professor deve utilizar certas brincadeiras como ferramenta de suas aulas facilitando o
aprendizado, devendo sempre dar espaço para as brincadeiras lúdicas, pois assim auxiliará no
aprendizado das crianças. A partir do brincar as crianças se comunicam, interagem, consigo
mesma, com as outras e com o mundo em que estão inseridas.

O adulto tem um papel fundamental, de estimular a criança com músicas, sons de objetos,
animais e mostrando diversos elementos, materiais e cores. O ato de se brincar com as
crianças favorecem a descoberta e com o passar do tempo vai evoluindo conforme o interesse
delas e o valor que o objeto lhe interesse.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com todos os avanços tecnológicos e as mudanças
culturas, os professores precisam pesquisar e aplicar
novos conhecimentos, quando estamos munidos de novas
ferramentas enfrentamos os desafios do cotidiano com
mais facilidade, fazendo com que o trabalho se torne um
desafio, buscando maiores chances de desenvolverem novas
relações sociais que estão impostas pela sociedade.

Os professores precisam repensar na formação de nossos


alunos, buscando ajuda-los a tomar um rumo ideal para a
realização de um bom projeto e futuro de vida. A escola deve
resgatar o poder político da população para a elaboração de ANGELITA FARIA
melhores valores sociais, buscando a emancipação humana, MARQUES DE OLIVEIRA
em busca de uma verdade democrática.
Graduação em Letras pela
UNIESP (2008); Graduação em
Na perspectiva de trabalho em sala de aula, as atividades Pedagogia pela UNIARARAS
e os jogos não devem substituir as atividades escolares, mas (2012); Especialista em LIBRAS
pela UNINTER (2014) Professor
pode ser utilizado como recurso dentro do processo ensino- de Educação Infantil na EMEI
aprendizagem e como instrumento de diagnóstico quanto Antônio Pereira de Lima.
às necessidades e dificuldades de cada criança.

O jogo é uma estratégia muito simples e agradável e deve


sempre ser colocada em prática, pois é visível a motivação
que as crianças adquirem quando estão jogando. O jogo propicia recursos capazes de
contribuir para o desenvolvimento das funções cognitivas da criança.

O jogo é útil para a alfabetização, colabora para a aprendizagem e prepara a criança para
a vida em sociedade.

Devemos pensar na formação do individuo, para ser um critico, com consciência


reflexiva, capazes de imaginar um mundo menos cruel. Capaz de indagar diante as injustiças
sociais, discriminação das classes menos favorecidas, negros, índios, mulheres e todos que
injustiçados socialmente.

Queremos sonhar com um mundo melhor e para isso devemos ser capazes de cria-lo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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428
Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE
FÍSICA PARA AS CRIANÇAS E
ADOLESCENTES
RESUMO: Este presente trabalho tem como principal objetivo discutir a importância da
atividade física nas crianças e adolescentes, com dimensões biológicas, físicas, psicológicas e
até mesmo culturais. A prática de atividades físicas pode beneficiar todas as crianças, jovens
ou adultos, além da oportunidade para diversão, estar com amigos e manter-se saudável
e em forma. A atividade física também tem sido associada com os benefícios psicológicos
principalmente entre os jovens e crianças, melhorando o seu controle sobre sintomas de
ansiedade e depressão. Da mesma forma, a participação na atividade física pode ajudar no
desenvolvimento cognitivo, afetivo e social, oferecendo oportunidades de autoexpressão, a
construção de autoconfiança, interação e integração social. Também tem sido sugerido que
a atividade física nos jovens facilita a adoção de outros comportamentos saudáveis como,
por exemplo, evitar o uso de álcool, tabaco e drogas e demonstrar um melhor desempenho
acadêmico. A atividade física e o esporte são aliados à saúde das nossas crianças e jovens,
mantendo-os fisicamente ativos trará benefícios que durará uma vida inteira.

Palavras-Chave: Escola; Educação Física; Atividade Física; Saúde e qualidade de vida.

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INTRODUÇÃO por um lado o mundo globalizado facilita a


comunicação entre as pessoas, por outro,
Mas o que é atividade física? A atividade cada vez mais transforma esta comunicação
física é definida como um conjunto de ações em uma convivência virtual. Os jovens atuais
que um indivíduo ou grupo de pessoas pratica encontram-se muito mais pela internet ou pelo
envolvendo gasto de energia e alterações celular do que pessoalmente. As atividades
do organismo, por meio de exercícios que mudam de lugar e, consequentemente, a
envolvam movimentos corporais, com mobilidade, fator determinante do tipo de
aplicação de uma ou mais aptidões físicas, sociedade, atual torna-se reduzida.
além de atividades mental e social, de modo
que terá como resultados os benefícios à Atualmente, a atividade física é listada
saúde. como um dos principais indicadores de saúde.
“A Organização Mundial de Saúde (OMS,
No Brasil, o sedentarismo é um problema 2009) vem estimulando a participação e a
que vem assumindo grande importância. As prática a serem desenvolvidos em atividades
pesquisas mostram que a população atual físicas de lazer”. Dentre as quais reduzirem o
gasta bem menos calorias por dia, do que número de horas gastas com atividades que
gastava há 100 anos, o que explica porque incentivam o sedentarismo e a vida social
o sedentarismo afetaria aproximadamente reclusa das pessoas em geral. As tecnologias
70% da população brasileira, mais do que da informação e comunicação são realidade
a obesidade, a hipertensão, o tabagismo, o na sociedade vigente. A cada dia verificamos
diabetes e o colesterol alto. O estilo de vida ser impossível imaginar a vida sem ela,
atual pode ser responsabilizado por 54% do principalmente para as pessoas dessa
risco de morte por infarto e por 50% do risco geração. Essa realidade passa a contribuir
de morte por derrame cerebral, as principais para a formação de crianças, adolescentes e
causas de morte em nosso país. Assim, futuros adultos sedentários, já que desde as
vemos como a atividade física é assunto de crianças da mais tenra idade são seduzidos por
saúde pública. ela, e as atividades físicas, antes naturais da
fase da infância, geralmente são substituídas
A sociedade apresenta dados alarmantes por horas a fio de sedentarismo em frente à
em relação à juventude no mundo. São TV, computador e jogos de game.
estudos que enfatizam o crescimento da
obesidade infantil e juvenil, problemas de Portanto, faz-se necessário refletir sobre
saúde ligados ao sedentarismo dos jovens os benefícios dos avanços tecnológicos
e adultos. Sugerimos, portanto, que, a incorporados a nossa prática cotidiana.
integração entre o corpo e a mente na Reconhecer que a tecnologia tem um papel
formação integral da criança e do adolescente importante no mundo de hoje, é parte do
não está sendo devidamente valorizada. Se processo de evolução da sociedade, porém,

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Revista Educar FCE - Março 2019

cabe alertar que, quando esta é mal utilizada, novo olhar do professor de Educação Física,
poucos são os benefícios trazidos para o como agente de mediação entre a educação
desenvolvimento dos adolescentes, estando e a saúde, na busca de práticas educativas
os mesmos em processo de formação. E, a formativas. Considerando que a qualidade
escola, ciente dessa realidade deve cumprir de vida é um conjunto de relações essenciais
seu papel social de formar cidadãos, e essa favoráveis a saúde física, mental e social,
formação envolve corpo e mente, portanto a essa visão poderá ser ampliada se:
valorização da saúde física e mental precisa
fazer parte da proposta política pedagógica A atividade física, combinada com uma
das escolas, envolvendo educação e saúde alimentação adequada e uma maneira suave
como parte do processo de formação de de conviver com situações de tensão e
indivíduos com qualidade de vida. ansiedade evita a totalidade dos males ditos
modernos. Não é à toa que a Organização
Mundial de Saúde (OMS) considera a
QUAL A IMPORTÂNCIA DA atividade física como fator primordial na
ATIVIDADE FÍSICA E DA melhoria do bem-estar físico, emocional
e social. Ela também eleva a autoestima.
EDUCAÇÃO FÍSICA PARA A (NUNES, 2004, p. 20)
SAÚDE DOS NOSSOS JOVENS
E CRIANÇAS? Sendo assim, comportamentos
inesperados e ausência de comunicação são
A Educação Física Escolar deve ter como indícios de que o adolescente está tentando
proposta promover o desenvolvimento desenvolver uma identidade diferenciada
físico e cognitivo, a socialização, a educação dos adultos. Tal comportamento favorece
pelo movimento, o cuidado com o corpo, uma situação de carência e isolamento e o
tudo isso a partir de desenvolvimento de favoritismo pelos relacionamentos virtuais.
competências e habilidades propostas para O que deixa muito a desejar quanto às
cada série ou ciclo, respeitando o ritmo e manifestações motoras e lúdicas voltadas a
o desenvolvimento do aluno. E, levando atividades físicas. Conforme Mello e Tufik
em conta a importância de oportunizar (2004, p. 51) “na adolescência os transtornos
esse desenvolvimento e produção de de humor são caracterizados por condutas
conhecimento, por meio de atividades como: diminuição das atividades diárias,
lúdicas, jogos cooperativos, socialização do negativismo, comportamento social, perda da
conhecimento, desenvolvimento de hábitos autoestima, ansiedade e déficits cognitivos”.
e valores cidadãos e trabalho de equipe,
dentre outras habilidades. A concepção A maioria das doenças se desenvolve por
de qualidade de vida como resultado de meio de múltiplos fatores, dentre os quais
corpo e mente em movimento, exige um a inatividade física. Sendo essas e outras

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Revista Educar FCE - Março 2019

práticas favoráveis ao sedentarismo e a vida esportivas durante a adolescência


social reclusa das pessoas em geral. É preciso contribuem para a atividade física de lazer
estar atento, pois o reflexo desse tipo de na vida adulta” (ALVES, 2005, p.291), o que
comportamento influência negativamente, vem a favorecer uma maior sociabilidade
também, na aprendizagem das crianças entre pessoas de uma mesma faixa etária,
e adolescentes, gerando problemas de a prevenção e adequação a qualidade de
aprendizagem e/ou de comportamento. vida adulta, visando aspectos cognitivos,
motores, lúdicos, funcionais e sociais.
Nesta perspectiva, se torna relevante
associar a importância da atividade física O homem se apropria da cultura corporal
a um estilo de vida de melhor qualidade, dispondo sua intencionalidade para o lúdico,
visando à saúde física e mental, seja em o artístico, o agnóstico, o estético ou outros,
momentos de lazer ou mesmo em práticas de que são representações, ideias, conceitos
Educação Física. Considerarmos que a área produzidos pela consciência social...
de Educação Física hoje contempla múltiplos (COLETIVO DE AUTORES, 1992, p. 62).
conhecimentos produzidos e usufruídos
pela sociedade a respeito do corpo e do Por essas considerações, tais práticas
movimento. Entre eles são fundamentais devem coincidir com as expectativas do
as atividades culturais de movimento adolescente. O seu sentido de lazer com
com finalidades de lazer, expressão de a realidade de sua própria vida, com suas
sentimentos, afetos e emoções, e com motivações, podendo ser por meio de jogos,
possibilidades de promoção, recuperação e lutas, danças. O importante é fazer dessas
manutenção da saúde. práticas um meio de promoção a saúde física,
mental e um momento de lazer de qualidade.
Portanto, a atividade física auxilia em De acordo com Reverdito e Scaglia (2003,
prevenções quanto aos riscos de futuras p.137). “o homem poderá ser, depois, o que
doenças e favorece a interação social. Na foi a criança”.
maioria das vezes, ela deveria funcionar
como elemento motivador para o aluno A atividade física não está relacionada
participar de todas as práticas educativas e somente ao aspecto motor e físico, mas
sociais da escola. também ao sentido de abranger aspectos
positivos a vinculação de valores e
Por estar em uma face de transição, atitudes associados a manifestações de
o adolescente apresenta o estereótipo paz, justiça, liberdade, respeito, cidadania,
atual, interagem-se por meios virtuais e disciplina, cooperação, responsabilidade
tecnológicos, limitando sua convivência e e principalmente lazer. Sendo, portanto
uma maior interação social com pessoas favoráveis ações voltadas a essa proposta, o
de sua faixa etária. “Práticas de atividades estudo e a busca por informações relacionadas

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Revista Educar FCE - Março 2019

quanto às contribuições da atividade física a ATIVIDADE FÍSICA E AS


socialização do adolescente. CRIANÇAS DE HOJE
O que leva um adolescente de um
determinado grupo, em uma sociedade Na sociedade contemporânea, com o
na qual a tecnologia é tão avançada a não avanço do desenvolvimento das tecnologias
reconhecer a atividade física como um fator da informação, houve um retrocesso em
determinante para a qualidade de e ao lazer? termos de adesão aos movimentos corporais
No que a este fato, com ele poderá afetar e um aumento na inatividade física por parte
gerações futuras na perspectiva de um das pessoas. Neste cenário, o sedentarismo
estilo de vida saudável? Estando os jovens encontrado terreno fértil para a sua
em processo de transformação, de transição proliferação e tem potencializado muitas
social, o que os mesmos idealizam sobre as atenções quanto a ameaças a qualidade de
gerações futuras? O que pensam os alunos vida. Neste quadro o sedentarismo constitui-
de uma escola de Ensino Fundamental sobre se como um fator de risco determinante
essas necessidades para sua vida futura? para a saúde. Vieira, (2002), afirmam que
“a inatividade física constitui-se no fator
Desta forma, pesquisar a influência da mais importante para o desenvolvimento
atividade física na qualidade de vida dos da obesidade. Estudos recentes envolvendo
adolescentes das escolas municipais, a indivíduos jovens confirmam que o nível
partir da visão do professor, justifica-se por de atividade física está inversamente
oportunizar reconhecer na percepção do relacionado à incidência de sobrepeso e
docente como o tema tem sido abordado obesidade”.
em situações práticas de Educação Física
Escolar. Ao escolher o tema “A importância Assim como os adultos, o adolescente não
da atividade física para a formação social do está imune à realidade deste. Ele, por estar
adolescente”, foi com o intento de pesquisar em uma fase em que “fazer parte de um
possibilidades de dimensões teóricas e grupo” constitui um acontecimento de busca
práticas, tanto quanto às atividades físicas de identidade, em uma fase de transição
e ao seu desempenho dos alunos quanto ao da infância para o mundo adulto. Os
convívio social do mesmo. adolescentes procuram interagir por meios
de recursos tecnológicos, pois o mundo
virtual é uma realidade na qual os mesmos
se expressam. Deste modo, deixam a desejar
no que diz respeito à prática cotidiana de
atividade física.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Apesar das várias evidências, a maioria no desenvolvimento do adolescente e na


dos adolescentes leva uma vida sedentária. redução dos riscos de futuras doenças, além
Sendo a inatividade física fator determinante de exercer importantes efeitos psicossociais”.
a promoção de risco de doenças. Alves Os jovens tem como prioridades o grupo, a
(2005) cita estudos epidemiológicos que privacidade e a busca por uma identidade.
apontam forte associação entre atividade Eles estão mais atentos às novidades virtuais
física ou aptidão física e saúde. Pesquisas e tecnológicas, o que os afastam de uma
que apontam a inatividade física como convivência natural e ativa. Desta forma,
um fator de risco para doenças, tais como: buscam por se relacionar por meios virtuais,
cardiovasculares, hipertensão arterial e isto contribui para o estabelecimento de uma
obesidade, dentre outras doenças. E, que barreira entre os mesmos e o convívio social.
além de diminuir a incidência de fatores
de risco, para vários problemas de saúde, Devide (2002) faz referência a diversos
contribui ainda no controle da ansiedade, estudos e pesquisas que contribuem para
da depressão, das doenças pulmonares desmistificar a saúde, reconhecendo que,
obstrutivas crônicas, da asma, além de além do médico, o trabalho conjunto dos
proporcionar melhor autoestima e ajuda no diversos profissionais deve ter como objetivo
bem-estar e socialização dos cidadãos. A “educar” os indivíduos e adotar práticas que
partir dos dados estatísticos coletados, Alves aperfeiçoem sua saúde e da comunidade.
(2005) concluiu que ser fisicamente inativo Nesta perspectiva a saúde passa a ser uma
durante a adolescência pode aumentar a questão didático-pedagógica. Em virtude
probabilidade de hábitos sedentários na vida disto, a Educação Física no contexto escolar
adulta. tem a possibilidade de ampliar o alcance
de seus conteúdos, envolvendo aspectos
Guedes et al. (2001, p. 188) destacam que relacionados à educação para a saúde, por
os benefícios da prática de atividade física e meio de incentivos para melhorar o estilo de
riscos do sedentarismo associados a saúde e vida e os hábitos diários, visando à melhoria
ao bem estar são amplamente documentados da qualidade de vida dos alunos.
na literatura. No entanto, maior número de
estudos procura envolver sujeitos adultos. Para Lazzoli (1998) do ponto de vista
Pouco se conhece com relação aos hábitos de saúde pública e medicina preventiva,
de prática física de adolescentes. promover a atividade física na infância e
na adolescência significa estabelecer uma
Como esclarece o autor, apesar de todas as base sólida para a redução da prevalência
evidencias quanto à importância da atividade do sedentarismo 18 na idade adulta,
física regular, atualmente são poucos os contribuindo, dessa forma, para uma melhor
jovens que a tornam uma prática diária. qualidade de vida da população. Com isso
Para Vieira (2002), “a atividade física auxilia fica comprovado que para termos adultos

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Revista Educar FCE - Março 2019

saudáveis é necessário incutir nas crianças procurar movimentar-se mais no dia a dia,
e adolescentes os benefícios de hábitos subir escadas, correr, participar de atividades
saudáveis e atividades físicas pelos resultados de lazer ao ar livre. E, não necessariamente
positivos para a nossa qualidade de vida. deixar os relacionamentos virtuais, mas
dosar sua prática. Faz-se necessário construir
Caparro (2005) destaca que a preocupação mecanismos de combate a inatividade física
com a higiene e saúde vem desde a Escola entre os adolescentes na busca de uma
Nova, proposta que levava aos professores melhor qualidade de vida, que favoreça a
a pensar a Educação Física a partir de saúde e a vida social futura. Segundo Hallal
uma concepção biológica, ou seja, fica et al. (2006, p. 127) “estratégias efetivas de
comprovado que para termos adultos combate ao sedentarismo na adolescência
saudáveis é necessário incutir nas crianças são necessárias devido à sua alta prevalência
e adolescentes os benefícios de hábitos e sua associação com a inatividade física na
sadios e atividades físicas pelos resultados idade adulta”.
positivos para a nossa qualidade de vida.
Apesar de várias evidências, a maioria dos
adolescentes leva uma vida sedentária. ATIVIDADES MAIS
Sendo a inatividade física fator determinante INDICADAS PARA CADA
a promoção de risco de doenças.
FAIXA ETÁRIA
Quanto aos benefícios para os jovens em
termos de relações sociais, compreende-se É importante estar sempre atento e
que articular atividade física e vida social perceber o desenvolvimento de cada criança
é uma possibilidade que contribui para o independentemente da idade, mas de uma
desenvolvimento humano, especificamente forma geral podemos dizer que:
para o adolescente. Neste sentido, Barbosa
(1991) descreve algumas vantagens para a • Crianças em idade pré-escolar: precisam
prática do esporte: “estimula a socialização, de atividades próprias ao seu potencial para
serve como um antídoto natural de vícios o desenvolvimento da motricidade, sendo
ocasiona maior empenho na busca de fundamental que em todos os momentos as
objetivos, reforça a autoestima, ajuda a atividades sejam lúdicas.
equilibrar a ingestão e o gasto de calorias e
leva a uma menor predisposição a moléstias”. • 4 aos 6 anos: Os joguinhos começam a
ficar interessantes. As atividades deverão ser
realizadas com jogos e brincadeiras.
O que é essencial ressaltar é a mudança
de hábitos diários dos adolescentes, os • 7 anos em diante: Serão trabalhadas
mesmos devem se tornar mais ativos, atividades com diferentes exercícios de

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Revista Educar FCE - Março 2019

recreação e competição, o que estimula muito a criança. Já poderão ser introduzidos também
o atletismo (corridas, saltos e lançamentos – de forma simplificada), a natação, pequenos
jogos entre outros.

• 11 aos 14 anos: A proposta aplicada já inclui, além de muita recreação, os jogos


desportivos, não sendo aconselhado, no entanto, determinado tipo de desporto por faixa
etária e sim, seguindo o desejo da criança. Sempre estimulando o aprendizado variado para
que ela possa, no futuro, se dedicar ao que mais gosta a fim de ter qualidade de vida na fase
adulta.

• Acima dos 15 anos: o desporto propriamente dito, atividades físicas ligadas ao lazer,
danças, lutas, esportes de quadra, corridas, ginastica de academia.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Atividade Física tem como proposta contribuir para
a formação global da criança e do adolescente, tendo
em vista a área de atuação tanto no desenvolvimento de
habilidades cognitivas quanto na promoção da saúde e
qualidade de vida. O modo de vida atual, para a maioria das
crianças e adolescentes incentiva o sedentarismo, o que
comprovadamente traz repercussões negativas para a saúde
dos mesmos. Cabe as pessoas uma conscientização, para
que haja o desenvolvimento de situações do cotidiano ou
atividades destinadas à pratica de atividades físicas, visando ANITA REY SINMON
a proposta de saúde e qualidade de vida. A atividade física
Graduação em Educação Física
consiste em exercícios bem planejados e bem estruturados, pela Universidade Unisa (UNISA
realizados repetitivamente. Eles conferem benefícios 1991). Professora de Ginástica
aos praticantes e têm seus riscos minimizados através de Artística do Colégio Emilie
de Villeneuve, professora de
orientação e controle adequados. Esses exercícios regulares Educação Física do fundamental I
aumentam a longevidade, melhoram o nível de energia, a e II da Emef Prestes Maia.
disposição e a saúde de um modo geral. Afeta de maneira
positiva o desempenho intelectual, o raciocínio, a velocidade
de reação, o convívio social. O que isso quer dizer? Há
uma melhora significativa da sua qualidade de vida. O que
precisamos ressaltar é o investimento contínuo no futuro,
a partir do qual as pessoas devem buscar formas de se
tornarem mais ativas no seu dia-a-dia, como subir escadas,
sair para dançar, praticar atividades físicas regulares,
buscando a saúde e o convívio social. A palavra de ordem é
MOVIMENTO.

437
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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física de lazer na vida adulta. Esporte_ Vol. 11, N°5- Set/Out, 2005.

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CAPARRO, Francisco Eduardo. Entre a Educação Física na Escola e a Educação Física


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Centro Colaborador da OMS para a Família de Classificações Internacionais em Português.
Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 7. ed.,
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Silva Reverdito e Alcides José Scaglia. . Editora Phorte, São Paulo, 2009.

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VIEIRA, Valéria Cristina Ribeiro, PRIORE, Sílvia Eloiza y FISBERG, Mauro. A atividade física
na adolescência. Adolesc. Latinoam. [online]. Ago. 2002, vol.3, no.1

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Revista Educar FCE - Março 2019

A RELAÇÃO DO PROFESSOR COM


A IDENTIDADE DA CRIANÇA
NA PRÉ-ESCOLA
RESUMO: ENas atividades simples que ocorrem no dia a dia das crianças, percebemos o
desenvolvimento e a ampliação dos seus conhecimentos. O presente artigo se propõe a
discutir a importância do professor na construção da identidade da criança. Acreditando ser
a educação a base de um mundo melhor, entendemos que esta deve ser totalmente livre de
preconceito, e afirmando que cada um de nós tem uma personalidade diferente, viemos de
um contexto familiar, social e econômico distinto, e somos dotados de valores e concepções
diversas. Para a construção do artigo foi realizada uma pesquisa bibliográfica, auxiliando-nos
a ter um olhar observador e compreender a relação da escola com o desenvolvimento dessa
identidade.

Palavras-Chave: Criança; Identidade; Educação.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO cristaliza apenas no plano do conhecimento teórico,


mas também no da sensibilidade, da ação e da
comunicação (VANNUCCHI, 1999, p. 21).
Esse artigo se propõe a discutir a
importância do professor na construção No Brasil, infelizmente, não aprendemos
da identidade da criança. Com isto, nessa a valorizar a cultura do nosso país e sim
perspectiva, a atenção à diversidade é uma falsa ideia de igualdade de culturas. Ao
indispensável, e a educação, e principalmente invés de valorizarmos e reconhecermos as
a educação infantil, se constitui juntamente culturas regionais e brasileiras, defendemos
com o desenvolvimento das crianças, uma ideia de igualdade de uma única cultura,
que estão se constituindo como sujeitos ou seja, a escola defende essa ideia de que
autônomos, críticos e conscientes de seus todos somos iguais, desta maneira, a escola
direitos e deveres. Os objetivos específicos valoriza uma cultura uniforme.
desse artigo nos trazem a importância dos
educadores para a construção da identidade Desta forma, esta pesquisa questiona a
das crianças, a formação inicial e continuado prática docente voltada para a construção da
do professor como tema importante para a identidade da criança e o quão é importante
qualidade de ensino e por fim, o papel do a formação do professor.
educador na educação lúdica.

O Brasil é um dos países de maior OS EDUCADORES


diversidade cultural e racial do mundo, TRABALHANDO PARA
possuindo descendentes e imigrantes de
vários países, cada grupo humano constitui A CONSTRUÇÃO DA
suas próprias leis e organização, possuindo IDENTIDADE DAS CRIANÇAS
estilos diferentes de liderança e coordenação
da vida em comum. E é desta maneira que A educação não começa na escola.
nos diferenciamos dos demais países, pois Ela começa muito antes e é influenciada
vivemos numa suposta democracia racial, por muitos fatores. Ao longo de seu
religiosa, sexual, política e social. Não temos desenvolvimento físico e intelectual, passa
guerras civis, mas em compensação há o por várias fases, na qual a escola dá vida,
desprezo da cultura do outro. isto é, o ambiente familiar, as condições
socioeconômicas da família, o lugar onde se
A cultura não existe em seres humanos genéricos, mora. Os acessos aos meios de informação
em situações abstratas, mas em homens e mulheres
concretos, pertencentes a este ou àquele povo, a têm uma importância muito grande. Os
esta ou àquela classe, em determinado território, primeiros anos são decisivos, estudos
num regime político A ou B, dentro desta ou demonstram que a criança tem sua estrutura
daquela realidade. Somente se poderá conceituar
cultura como auto-realização da pessoa humana básica de personalidade definida até os 02
no seu mundo, numa interação dialética entre os (dois) anos de idade, muito antes, portanto,
dois, sempre em dimensão social. Algo que não se

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Revista Educar FCE - Março 2019

do período da escola obrigatória, e durante ou ignoraram, que estes espaços são


esse período é importante que os professores constituídos com as diferenças, que
e os pais busquem desenvolver nas crianças mediante essas, também adquirimos novos
atitudes, valores, estabelecendo regras e conhecimentos. Neste sentido, Costa nos
limites possíveis e necessários à estruturação aponta:
da personalidade e consequentemente uma
educação adequada ao convívio social. Para (...) a escola e o currículo como campos em que
estão em jogos múltiplos elementos, implicados
que assim, a criança possua desde cedo em relações de poder, compondo um terreno
a noção de respeito, igualdade e justiça, privilegiado da política cultural. Considero as escolas
conhecendo os seus limites e dos limites e seus currículos como territórios de produção,
circulação e consolidação de significados, como
do outro e do meio, participe na construção espaços privilegiados de concretização da política
coletiva de regras, reconheça as diferentes de identidade (COSTA, 2001, p.9).
formas de preconceito e injustiça, e a
capacidade de comunicação, expressão e A escola deve estar oportunizando
relacionamento. Não se tratando de uma conteúdos culturais, relacionados à
avaliação intelectual, matemática, mas de comunidade em que as crianças estão
um sentimento: o sentimento de não – inseridas, proporcionar o conhecimento
indiferença. de outras culturas, assim como promover
gincanas culturais, debates, palestras e outras
A educação por si só não é capaz de efetuar atividades deveriam ser metas principais ao
no mundo as mudanças necessárias, mas se pensar em trabalhar com a diversidade
pode contribuir para que elas aconteçam. cultural em nosso ambiente escolar;
Seu espaço é mais amplo que a escola em bem como trazendo para a escola toda a
si, pois a educação se dá na escola e fora comunidade, para que assim possa se realizar
dela, por toda a vida (KONDER, 2002). No o objetivo mestre: a integração das pessoas.
espaço desta pesquisa, no entanto, busco E é de uma forma solidária e participativa
compreender o processo que se dá dentro que a escola pode e deve contribuir para a
do ambiente das instituições de ensino, formação de cidadãos conscientes, críticos e
como um espaço privilegiado da educação solidários.
e fundamentalmente como um espaço
produtor e reprodutor de cultura e com No trabalho pedagógico o que é proposto
isso, produtor e reprodutor também de uma pelo adulto e vivido pelas crianças deve
rede de significados que corresponde a uma levar em consideração as manifestações
determinada realidade simbólica. das crianças, que é o seu tempo, suas
necessidades e sua cultura.
Relacionar cultura com as instituições
de ensino nos lembra exclusão, porque as As relações de afetividade vivenciadas
instituições escolares ainda não perceberam, entre as crianças; entre as crianças e

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Revista Educar FCE - Março 2019

os adultos e entre os adultos, também qualificação profissional era específica para


pode trazer confrontos em relação a suas contratar o adulto a cuidar das crianças e
convivências. O período de adaptação entre interagir com elas.
as crianças em relação a outras crianças e
aos adultos será em longo prazo, pois cada Deste profissional espera-se que tenha
um terá mais afinidade com uns do que paciência, capacidade para expressar afeto
com outros. O que não poderá acontecer é e firmeza para conduzir as crianças. Pouco
virar uma exceção porque a interação entre se exige de elementos mais elaborados
todos os atores da escola (desde a faxineira acerca do desenvolvimento infantil. Os
até a diretora) deve ser parte integrante cargos eram subdivididos em berçarista,
do processo de desenvolvimento com a com conhecimentos e habilidades voltados
realidade natural, social e cultural. ao desenvolvimento físico das crianças;
recreacionista, especialistas em lazer para
orientar à infância e professor polivalente
A FORMAÇÃO INICIAL que interajam com as crianças desde o
E PERMANENTE DOS nascimento.
PROFESSORES Dessa forma, o modelo idealizado
é traduzido em “tias” boas, pacientes,
A Educação Infantil é vista por alguns carinhosas, guiadas somente pelo coração e
educadores como uma etapa que não pela intuição.
necessita de planejamento. Este pensamento
é o reflexo da formação inicial do educador No entanto, essa concepção, baseada
de educação infantil. na feminização do magistério que atribuía
atributos de gênero, ao magistério infantil
A história da formação de docentes para vem se modificando, sobretudo, com base na
a Educação Infantil é bastante recente, pois regulamentação profissional e da inserção da
não havia uma preocupação com esse nível de Educação Infantil, como nível de ensino, na
ensino e, consequentemente, muito menos, nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação
com a qualificação de seus professores. Nacional (LDBEN).

Durante muito tempo, a professora A LDBEN foi um marco importante para


de Educação Infantil era identificada e o campo educacional, na ótica de alguns
reconhecida, principalmente, pela sua teóricos, pois instaurou um conjunto de
afetividade, pelo seu dom maternal. Assim, reformas que vêm sendo implantadas e
reforçava-se a concepção de educadora, mobilizando vários setores educacionais, de
“forjada” mediante o seu perfil como mulher, modo mais específico, a formação docente
com o seu “dom de educar” inato. Essa dos profissionais da educação básica.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Portanto, os professores que possuem cordiais, acolhedoras e estimulantes com os


a formação nesse nível estão garantidos seus alunos.
por lei, para exercer a sua profissão, nessas
etapas da educação. Na citada Constituição
Federal, no título II, Dos Direitos e Garantias O PAPEL DO EDUCADOR NA
Fundamentais, dentro do capítulo I se EDUCAÇÃO LÚDICA
refere aos Direitos e Deveres Individuais e
Coletivos, e em seu artigo 5º afirma: “XXXVI A decisão de se permitir envolver no mundo
– a lei não prejudicará o direito adquirido, o mágico infantil seria o primeiro passo que o
ato jurídico perfeito e a coisa julgada”. professor deveria dar. Explorar o universo
infantil exige do educador conhecimento
Por outro lado, na atualidade, há certo teórico, prático, capacidade de observação,
consenso sobre a necessidade de formação, amor e vontade de ser parceiro da criança
em nível superior, para os professores da neste processo. Nós professores podemos
Educação Infantil, pois o conhecimento, por meio das experiências lúdicas infantis
cada vez mais se torna complexo e diverso, obtermos informações importantes no
demandando a necessidade de professores brincar espontâneo ou no brincar orientado.
qualificados e competentes para atuarem em
todos os níveis de ensino. No brincar espontâneo, as crianças
brincam daquilo que lhe vêm à cabeça, e
Há uma grande preocupação em formar o neste momento podemos observar suas
educador pesquisador com posicionamento ações lúdicas, já no dirigido, podemos propor
crítico. Diante de qualquer leitura e desafios com propósitos específicos.
estudos voltados a diferentes abordagens
possam refletir e discutir o que está sendo Segundo Kramer (1989), todas as
informado. Enfatizam também a importância atividades desenvolvidas pelo educador
do planejamento do seu trabalho, pois devem ter objetivos claros contendo níveis
estabelecendo metas, estratégias não perdem diversos de dificuldades, afim de que as
o foco de seus objetivos. O planejamento aqui crianças participem e usem sua criticidade e
é entendido como instrumento orientador criatividade.
do trabalho docente, como norteador das
intencionalidades das professoras e como Embora, este trabalho seja o ideal a
possibilidade de proceder à ampliação e ser buscado, é difícil de ser atendida em
diversificação dos repertórios culturais das curto prazo, principalmente, no campo da
crianças. Neste novo modelo de formação Educação Infantil que integra, há pouco
também é exigido que o educador tenha tempo, a educação básica, no país. Mas isso
originalidade, habilidades para realizar não pode ser um impedimento para que o
atividades variadas, que mantenha relações educador não renove sua prática.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Estes dados são importantes para abordar espaços externos e até mesmo para dentro
a questão desta temática. da comunidade, mostrando as crianças os
riscos e perigos existentes em seu bairro e
O educador será um grande aliado da qual a melhor forma de lhe dar com estes,
criança quando permite que as atividades oferecendo-lhes alternativas de melhoria ou
propostas á elas sejam vivenciadas em dando espaços para que elas mesmas digam
diferentes espaços da instituição. o que fazer.

Desde sua infância a criança é Na pós-modernidade a criança deixa de


acompanhada pelo adulto e quando entra ser tabula vazia, de quem espera o adulto
no sistema de ensino suas particularidades preencher seus vazios, e passa a ser co-
entram em conflito com o que é proposto por construtor de conhecimentos, identidades
um novo adulto (até então desconhecido por e cultura, participando das tomadas de
ela). Novas regras, comportamentos atitudes, decisões democráticas contribuindo para os
gestos, entre outros, serão vivenciados pelas recursos e para as produções sociais.
crianças no cotidiano escolar fazendo parte
de sua jornada. A criança não precisa da autorização do
educador para se opor a algo, pois desde o
O educador solicitado a cuidar ou a brincar início de sua vida a criança é rica e engajada
com a criança deve ter um comportamento com o mundo para começar a aprender.
que condiz com a realização das brincadeiras.
Ele deve estabelecer uma ordem ou regras O adulto muitas vezes solicitado a cuidar da
para que não haja brigas (que é normal criança cuida do seu próprio vir a ser, podendo
entre crianças). Assim, deverá interferir nas até se sentir responsável pela vida da criança.
brincadeiras quando necessário, não poderá Esta responsabilidade é transformada em
dar opiniões ou interromper as brincadeiras cuidado preocupado de afastar tudo aquilo
com gritos e gestos indevidos, nunca que atrapalha, abrindo um espaço para um
deverá se mostrar impaciente ou ficar em caminho sem frustrações. Além de encontrar
constantes silêncios. O diálogo é importante na criança suas limitações e possibilidades.
para acrescentar o vocabulário e estimular a A criança tem sua própria maneira de
fala das crianças. O educador deve mostra- pensar, agir e vive o tempo todo exposto a
se atento, disposto, sensível e prestativo as riscos (que é natural do ser mortal). Assim, o
solicitações das crianças, além de criar novas educador responsável pela criança se adianta
brincadeiras e possibilitar a criatividade para ao acontecimento, impedindo-as de correr
novas invenções. maiores riscos, deve apenas proporcionar um
olhar estimulador que acompanha a criança
As brincadeiras devem se estender no seu desenvolvimento para a exploração
para além das salas de aula, explorando os do mundo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Por isso, a criança pequena deve ser levada ações lúdicas, já no dirigido, podemos propor
a sério. Ativa e competente, ela tem ideias e desafios com propósitos específicos.
teorias que não só valem ser ouvida, como
também merecem confiança e, quando for o Segundo Kramer (1989), todas as
caso questionamento e desafio. atividades desenvolvidas pelo educador
devem ter objetivos claros contendo níveis
Ela não existe apenas no lar da família, diversos de dificuldades, afim de que as
mas também nos ambientes mais amplos. crianças participem e usem sua criticidade e
Ela não é um inocente separado do mundo. criatividade.
Ao contrário disso, a criança pequena no
mundo como ele é hoje, incorpora este Embora, este trabalho seja o ideal a
mundo, é influenciado por ele, mas também ser buscado, é difícil de ser atendida em
o influencia e constroem significados. curto prazo, principalmente, no campo da
Educação Infantil que integra, há pouco
Assim, é de direito de cada criança tempo, a educação básica, no país. Mas isso
expressar-se e de viver plenamente sua não pode ser um impedimento para que o
infância, considerando suas características, educador não renove sua prática.
diversidade cultural, etnia, gênero e
sexualidade. Estes dados são importantes para abordar
a questão desta temática.

O PAPEL DO EDUCADOR NA O educador será um grande aliado da


EDUCAÇÃO LÚDICA criança quando permite que as atividades
propostas á elas sejam vivenciadas em
A decisão de se permitir envolver no mundo diferentes espaços da instituição.
mágico infantil seria o primeiro passo que o
professor deveria dar. Explorar o universo Desde sua infância a criança é
infantil exige do educador conhecimento acompanhada pelo adulto e quando entra
teórico, prático, capacidade de observação, no sistema de ensino suas particularidades
amor e vontade de ser parceiro da criança entram em conflito com o que é proposto por
neste processo. Nós professores podemos um novo adulto (até então desconhecido por
por meio das experiências lúdicas infantis ela). Novas regras, comportamentos atitudes,
obtermos informações importantes no gestos, entre outros, serão vivenciados pelas
brincar espontâneo ou no brincar orientado. crianças no cotidiano escolar fazendo parte
de sua jornada.
No brincar espontâneo, as crianças
brincam daquilo que lhe vêm à cabeça, e O educador solicitado a cuidar ou a brincar
neste momento podemos observar suas com a criança deve ter um comportamento

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Revista Educar FCE - Março 2019

que condiz com a realização das brincadeiras. Ele deve estabelecer uma ordem ou regras para
que não haja brigas (que é normal entre crianças). Assim, deverá interferir nas brincadeiras
quando necessário, não poderá dar opiniões ou interromper as brincadeiras com gritos e
gestos indevidos, nunca deverá se mostrar impaciente ou ficar em constantes silêncios.
O diálogo é importante para acrescentar o vocabulário e estimular a fala das crianças. O
educador deve mostra-se atento, disposto, sensível e prestativo as solicitações das crianças,
além de criar novas brincadeiras e possibilitar a criatividade para novas invenções.

As brincadeiras devem se estender para além das salas de aula, explorando os espaços
externos e até mesmo para dentro da comunidade, mostrando as crianças os riscos e perigos
existentes em seu bairro e qual a melhor forma de lhe dar com estes, oferecendo-lhes
alternativas de melhoria ou dando espaços para que elas mesmas digam o que fazer.

Na pós-modernidade a criança deixa de ser tabula vazia, de quem espera o adulto


preencher seus vazios, e passa a ser co-construtor de conhecimentos, identidades e cultura,
participando das tomadas de decisões democráticas contribuindo para os recursos e para as
produções sociais.

A criança não precisa da autorização do educador para se opor a algo, pois desde o início
de sua vida a criança é rica e engajada com o mundo para começar a aprender.

O adulto muitas vezes solicitado a cuidar da criança cuida do seu próprio vir a ser, podendo
até se sentir responsável pela vida da criança. Esta responsabilidade é transformada em
cuidado preocupado de afastar tudo aquilo que atrapalha, abrindo um espaço para um
caminho sem frustrações. Além de encontrar na criança suas limitações e possibilidades.
A criança tem sua própria maneira de pensar, agir e vive o tempo todo exposto a riscos
(que é natural do ser mortal). Assim, o educador responsável pela criança se adianta ao
acontecimento, impedindo-as de correr maiores riscos, deve apenas proporcionar um olhar
estimulador que acompanha a criança no seu desenvolvimento para a exploração do mundo.

Por isso, a criança pequena deve ser levada a sério. Ativa e competente, ela tem ideias e
teorias que não só valem ser ouvida, como também merecem confiança e, quando for o caso
questionamento e desafio.

Ela não existe apenas no lar da família, mas também nos ambientes mais amplos. Ela não é
um inocente separado do mundo. Ao contrário disso, a criança pequena no mundo como ele
é hoje, incorpora este mundo, é influenciado por ele, mas também o influencia e constroem
significados.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Assim, é de direito de cada criança expressar-se e de viver plenamente sua infância,


considerando suas características, diversidade cultural, etnia, gênero e sexualidade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tudo que ocorre no processo de desenvolvimento infantil,
apresenta se em contextos e cenários que favorecem o ato
de aprender, que pode expressar-se de modo problemático
ou não, e, para ter uma melhor compreensão do aluno e de
como aprende ou não, pode-se dizer que, para uma criança
se desenvolver educacionalmente é preciso que haja ajuda
de todo os sujeitos competentes deste processo – aluno,
pais e professores. Pois, uma criança não aprende sozinha,
é pelo trabalho que envolve primeiramente a família e a
escola, no qual os educadores são a base fundamental, mas ANTONIA LEDA DO
não a única para o desenvolvimento de uma criança. NASCIMENTO XIMENES

Graduação em Pedagogia pela


Quando o professor for oportunizar qualquer atividade, Universidade Metodista de São
ele deve aproveitar cada momento e resgatar as culturas das Paulo (2012); Especialista em
crianças, ele não precisa de um momento especial ou uma Educação Infantil pela Faculdade
Campos Elísios (2018); Professora
atividade especial sobre este tema, para estar abordando de Educação Infantil no CEI
este assunto, ele pode contribuir para o desenvolvimento Vereador Rubens Granja
integral da criança e oferecendo oportunidades para
que sejam alunos conscientes, tendo assim, um melhor
aprendizado.

Este trabalho abordou de maneira simplificada algumas


estratégias condutivas do professor, bem como padrões
comportamentais evidenciados pessoais e de condutividade.
Entretanto, é de grande valia perceber que só acabaremos
com os preconceitos culturais valendo se do momento em
que a escola estiver disposta a renovar as suas práticas
pedagógicas. As atividades devem proporcionar o resgate
das vivências da cultura de cada indivíduo, explicando e
valorizando as diferenças – de raças, religiões, políticas,
econômicas – existentes dentro de cada grupo, de cada
sociedade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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BRASIL, Lei de Diretrizes e Bases. Lei nº 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996.

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de Saúde. Área de Saúde do Adolescente. Cadernos, juventude saúde e desenvolvimento.
v.1. Brasília, 1999.

KAMII, C. Obediência não é o bastante: construindo a alfabetização. Belo Horizonte: Almeida


Publicidade, 1991.

KRAMER, S. A Política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. Rio de Janeiro: Achiamé,


1989.

KONDER, Leandro. A questão da ideologia. São Paulo, Companhia das Letras, 2002

VANNUCHI, Aldo. Cultura Brasileira: O que é, como se faz. Loyola, SP 1999.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONTRIBUIÇÕES DO LÚDICO
NA EDUCAÇÃO INFANTIL
RESUMO: Este artigo tem como base propor a discussão sobre a contribuição do lúdico
na educação infantil. As brincadeiras lúdicas ajudam na elaboração do saber, podendo ser
aprendidos como estado em que as crianças são capazes de ilustrar seus diferentes tipos de
sentimentos, assim sendo aos poucos entender a existência do outro. São as brincadeiras que
ajudam a aprimorar o contato entre as crianças, formalizando com que vivam momentos de
contribuição, grupos de trabalho e obediência. É necessário também explicar a importância
do educador nessa metodologia lúdica e ainda as melhoras que o brincar possibilita. Dessa
maneira, acredita-se disponibilizar uma leitura mais clara acerca da relevância do brincar na
vida da criança.

Palavras-Chave: Criança; Educação Infantil; Educador; Brincadeiras Lúdicas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO uma nova pedagogia, já que são muitas as


dificuldades que as escolas têm em realizar
Nossa intranquilidade está direcionada em um trabalho de qualidade e são inúmeros os
analisar como as atividades lúdicas ajudam desafios que os educadores enfrentam para
no desenvolvimento e na aprendizagem das desempenharem suas atividades escolares
crianças da Educação Infantil. As atividades e tornarem-se formadores de opiniões. A
e os jogos são a essência da influência e problemática que norteou o estudo foi:
seu uso deixa um trabalho pedagógico que de que maneira a prática educativa lúdica
autoriza a produção do saber de um jeito pode atuar como ferramenta facilitadora à
contextualizado no mundo infantil. aprendizagem?

As atividades lúdicas se ministradas de forma O presente estudo pretende mostrar a


adequada, possibilitam condições acertadas prática educativa lúdica como ferramenta
ao desenvolvimento físico, emocional, motor facilitadora na aprendizagem da educação
cognitivo e social. São lúdicas as atividades infantil e a importância em adquirir outras
que ajudam as experiências completas do estratégias de ensino, insistindo nas
momento, agregando o ato, pensamento e mudanças metodológicas da educação
o sentimento. A criança se expressa e capta infantil como uma das ações primordiais no
conhecimentos quando está praticando ensino educacional e quais as contribuições
alguma atividade lúdica. das brincadeiras e dos brinquedos para o
desenvolvimento integral das crianças.
A criança é automotiva para qualquer atividade,
em especial a lúdica, sendo que tendem a entender
a importância de atividades lúdicas para seu
desenvolvimento, deste modo, favorece a procurar A CRIANÇA E O LÚDICO
pelo retorno e pela continuação de algumas
atividades. (Schwartz - 2002, p. 139-168) Crianças menores provam desejos inimagináveis
de serem realizados na hora e, para determinar
essa tensão, a criança rodeia-se num mundo de
As atividades lúdicas são importantes imaginação em ação (Minestrina, 2006, p.185-188).
no desenvolvimento das crianças, e
agentes facilitadoras dos relacionamentos Diante disso, a criança tem um incremento
e das experiências no âmbito escolar. psicológico e cultural que se descreve ao
Porque a mesma ajuda na imaginação e, psíquico. Isso assemelhasse que a criança se
essencialmente, as mudanças do sujeito em organiza como uma pessoa de individualidade
relação ao seu objeto de aprendizagem. própria e como participante de um grupo.
No sentido de vista filosófica o brincar é
Diante desse contexto, nota-se que apresentado como uma engrenagem para
ao longo dos tempos a educação tem contestar a racionalidade. No tocante ao
apresentado a necessidade de implantar psicológico, o brincar está exposto em

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Revista Educar FCE - Março 2019

tempo e do espaço escolar, como garantia da boa


qualquer desenvolvimento da criança nas “arte de ensinar”, e da ideia de que fosse dada à
varias formas de mudança de seu costume. criança a oportunidade de aprender coisas dentro
Do ponto de vista sociológico, a brincadeira de um campo abrangente de conhecimentos.
tem sido percebida como a forma mais pura
de introdução das crianças na sociedade; Por meio de materiais pedagógicos como
brincando, a criança entende as crenças, quadros, modelos e atividades diferentes,
costumes, regras, roupas do ambiente em como passeios, deveriam ser realizadas
que mora. com as crianças de acordo com suas idades,
auxiliando-as a desenvolver aprendizagens
Através do lúdico e de sua história são recuperados abstratas e a estimular sua comunicação oral.
os modos e costumes das civilizações. As
possibilidades que o ele oferece à criança são
enormes: é capaz de revelar as contradições
existentes entre a perspectiva adulta e a infantil O DOCENTE DA
quando da interpretação do brinquedo; travar
contato com desafios, buscar saciar a curiosidade EDUCAÇÃO INFANTIL
de tudo, conhecer; representar as práticas sociais,
liberar riqueza do imaginário infantil; enfrentar e A ideia de Alves (1987 – p.22) sobre
superar barreiras e condicionamentos, ofertar a
criação, imaginação e fantasia, desenvolvimento o lúdico está ancorada quando ele diz: O
afetivo e cognitivo. (Feijó - 1992, p.185) lúdico se baseia na atualidade, ocupa-se do
aqui e do agora, não prepara para o futuro
O exame de textos básicos da educação inexistente. Sendo o hoje a semente de qual
escritos por filósofos revela que, desde germinará o amanhã.
a Antiguidade, havia quem defendesse a
ideia da atividade do próprio aluno como Podemos dizer que o lúdico favorece a
propulsora de seu crescimento intelectual utopia, a construção do futuro a partir do
(como Sócrates, Santo Agostinho e presente. O profissional da educação tem
Montaigne) e o valor da brincadeira na como papel ser um condutor das brincadeiras.
aprendizagem (já destacado por Platão em A Sempre que possível o profissional da
República). educação deve ser participativo nas
brincadeiras e valer-se do momento para
Segundo Oliveira (2011, p. 37), Comênio perguntar com as crianças sobre as mesmas.
afiançava que:

O cultivo dos sentidos e da imaginação precedia O PAPEL DA LUDICIDADE


o desenvolvimento do lado racional da criança.
Impressões sensoriais advindas da experiência NA EDUCAÇÃO INFANTIL
com manuseio de objetos seriam internalizadas
e futuramente interpretadas pela razão. Também A criança, por meio da brincadeira reedita
a exploração do mundo no brincar era vista como
uma forma de educação pelos sentidos. Daí sua o discurso para fora e o coloca para dentro,
defesa de uma programação bem elaborada, com elaborando seu próprio pensamento. A
bons recursos materiais e boa racionalização do

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Revista Educar FCE - Março 2019

linguagem tem fundamental papel no ajudam fortemente no amadurecimento total


incremento cognitivo da criança à medida da criança e que todas as dimensões estão
que organiza seus conhecimentos e ainda essencialmente vinculadas: a sabedoria, a
auxilia na estruturação dos processos em meiguice, a mobilidade e a sociabilidade são
andamento. indivisíveis, sendo a meiguice a que auxilia a
energia fundamental para o avanço psíquico,
De acordo com Vygotsky (1984, p.97): intelectual, moral, e motriz da criança.

A brincadeira incorpora para as crianças uma “zona Se divertir é o mesmo que aprender, pois
de desenvolvimento proximal” que não é outra
coisa senão o intervalo entre o momento presente se divertir e o jogar constitui um espaço para
de desenvolvimento estabelecido pela capacidade pensar, tendo em vista que a criança progride
de entender autonomamente uma questão, e o no raciocínio, aperfeiçoa o pensamento,
momento presente de desenvolvimento potencia
analisada através da solução de um questionamento determina contatos sociais, compreende
sob a inclinação de um adulto ou com o auxílio de o meio, correspondem desejos, fortalece
um companheiro mais gabaritado. habilidades, entendimento e capacidade
de criar. As relações que o brincar e o
Mediante as atividades lúdicas, a criança jogar oportunizam, ajudam a suplantação
reedita muitas circunstâncias vividas em seu do egocentrismo, favorecendo o auxílio e
dia a dia, as quais, pela imaginação e pelo faz a afinidade, e ingressam particularmente
– de- conta, são reconduzidas. na divisão de jogos e brinquedos, novos
sentidos para uso e aproveitamento.
Esta interpretação do dia a dia se dá por
meio do arranjo entre experiências passadas
e novas experiências de capacitação e BRINCADEIRAS E
reprodução do real, de conclusão com suas BRINQUEDOS
estimas, necessidades, e paixões. Estas
situações são primordiais para a atividade Entre os séculos XIII ao XVII, na sociedade
criadora do homem. ocidental as pessoas tinham as crianças
como adultos pequenos, aos sete anos a
O desenvolvimento não é sequencial, criança começava um estágio importante da
mas vem em um crescimento gradual e sua vida ou iniciava na escola ou entrava no
neste percurso, a imaginação se fortalece. mercado de trabalho.
Uma vez que a criança brinca e aprende se
capacitando para um determinado tipo de Antigamente na sociedade, as brincadeiras
conhecimento. e jogos eram a melhor maneira de encurtar os
laços e permanecer a sociedade junta neste
As colaborações das atividades lúdicas no tempo. O brincar é a primeira inicialização
desenvolvimento integral mostram que elas do mundo que se aparece na vida da criança.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Hoje a inicialização deste instante de brincar Por muito tempo nas escolas, isso era
esta se perdendo no tempo, porque os mostrado de maneira muito limitado pensava
caminhos cheios de tecnologia e robotizados somente em áreas particulares: matemática
levam aos seres humanos para caminhos (números), linguagem (ler escrever) não se
facilitados, seja no pensar como no agir. O dedicavam as dificuldades que incentivavam
professor tem que ser eficiente no processo o pensar lógico ou a capacidade de criar
de execução dos conceitos e significados por exemplo. O brincar se avulta em muitas
que são passados culturalmente. matérias do que outras em que a criança
não alcança. Portanto, o brincar auxilia nos
A imaginação aparece da ação momentânea obstáculos de aprendizagem.
da criança muito pequena e nunca aparece
nos animais. Na etapa pré-escolar manifesta Precisamos ser claro, que os brinquedos
na criança sonhos que não devem ser não necessitam ser usados como um artifício
prontamente realizados ou esquecidos, em dia de chuva, e sim como uma ferramenta
então ela e circunda num mundo de sonhos pedagógica.
e ilusório, o mundo dos brinquedos.
Segundo Kishimoto (Froebel, 1912c, p.55
O mundo da infância e do brincar é com apud KISHIMOTO, 1998, p. 68). Froebel,
certeza uma caixa de metáforas, na qual se filósofo do período romântico, conhecido
abre para o mundo imaginário, demonstrando como “psicólogo da infância”, foi o primeiro
um percurso metodológico. É o mundo em a colocar os jogos e brincadeiras como
que a criança se leva da realidade e voa pelas parte essencial do trabalho pedagógico,
asas da imaginação, maravilhando se com o para ele:
mundo colorido e abstrato das brincadeiras e
dos brinquedos, na análise do sentido literal A brincadeira é a atividade espiritual mais pura
do homem, neste estagio e ao mesmo tempo,
das coisas, de permanecer e de ficar. Uma das típico da vida humana enquanto um todo da
indispensáveis alterações é que hoje temos vida natural interna no homem e de todas as
consciência que nossas crianças se fortalecem coisas. Ela dá alegria, liberdade, contentamento,
descanso externo e interno, paz com o mundo...
cognitiva e carinhosamente a partir do brincar. A criança que brinca sempre, com determinação
auto - ativa, perseverando, esquecendo sua
Para Almeida (2011, p.1): fadiga física, pode certamente torna - se um
homem de terminado, capaz de auto sacrifício
para a promoção do seu bem e de outros.
A afetividade é estimulada por meio da vivência,
na qual o educador estabelece um vínculo de afeto
com o educando. A criança necessita de estabilidade
emocional para se envolver com a aprendizagem. O uso do brincar como objeto pedagógico
O afeto pode ser uma maneira eficaz de se chegar tem de ser olhado, com precaução e clareza.
perto do sujeito e a ludicidade, em parceria, um
carinho estimulador e enriquecedor para se atingir Brincar é um exercício necessariamente
uma totalidade no processo de aprender. lúdico. Como atividade infantil, pela qual há

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Revista Educar FCE - Março 2019

construção de conhecimentos, eles devem Para Kishimoto:


ser usados na escola.
A aquisição de novas informações depende do
método aplicado, sendo que as informações
Brincar é uma ação que acontece no devem ser transmitidas visando às descobertas
campo dos sonhos, senso assim, ao brincar, por meio da brincadeira, e, ocorre a partir
estar-se-á formalizando o emprego da dos conhecimentos prévios do educando.
“O ato lúdico representa um primeiro nível
linguagem simbólica. Poder brincar já é um de construção do conhecimento, o nível do
processo calmante. Na brincadeira a criança pensamento intuitivo, ainda nebuloso, mas que
trabalha-se cognitivamente, socialmente e já aponta uma direção” (1998, p. 144).
carinhosamente.
Entretanto não pode deixar a margem à
Ao passo que, ao brincar as crianças sistematização do ensino. O fato de brincar
concedem diversos significados aos objetos tem diversas funções, como um simples
definidos, uma colher vira um remo, sendo passa tempo à conquista de normas sócias,
um ato que ocorre por meio da metacognição. aquisição da linguagem, entre outras.
Quando a criança brinca, ela está exercitando
De acordo com Barros (2011, p.1): e especulando a sua cultura e as leis inclusas
nela.
Antigamente, as crianças não tinham tantos
brinquedos, como as de hoje e, por isso, tinham
que usar mais a criatividade para criá-los. Usando As culturas da infância não devem ser
tocos de madeira para fazer carinhos, pedrinhas, expressas de forma soltas e isoladas dos
legumes e palitos para fazer animais, palha para contextos sociais da vida das crianças, e sim
fazer bonecas, pano ou meias para fazer bolas.
como um contexto em volta do qual suas
relações sociais e culturais, consigam ser
As brincadeiras que alegravam expostas. Deste modo, é que amparamos
antigamente e que alegram hoje fazem parte as relações emocionais, sociais, culturais
da cultura popular. e materiais distintos das crianças que
representam exemplos diários das produções
As brincadeiras populares estão no das crianças.
momento em qualquer lugar e são passados
de geração em geração. O brincar também As brincadeiras de faz de conta, os jogos
auxilia para que as crianças consigam de construção e aqueles que possuem
desenvolver o ato de resolver problemas, regras, como os jogos de tabuleiros, jogos
ajudando para essa técnica a partir originais, etc., oferecem o aumento das
de três componentes: a conquista de sabedorias infantis por meio da atividade
nova informação, sua transformação ou lúdica. É o adulto, na figura do educador,
reaproveitamento e avaliação. por consequência, que, na escola infantil,
auxilia a estruturar o campo das brincadeiras

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Revista Educar FCE - Março 2019

na vida das crianças. Portanto é ele que Segundo o Referencial Curricular Nacional
estrutura sua base, segundo sua lembrança para a Educação Infantil (1998, p. 28):
de determinados objetos ou fantasias, da
demarcação e arranjo dos espaços e do A brincadeira é uma linguagem infantil que
mantém um vinculo essencial com aquilo que é
tempo para se divertir. o “não brincar”. Se a brincadeira é uma ação que
ocorre no plano da imaginação isto implica que
Por meio das brincadeiras os educadores aquele que brinca tenha o domínio da linguagem
simbólica.
devem olhar e constituir uma visão dos
métodos de desenvolvimento das crianças
em conjunto e de cada uma em particular, Portanto é necessário haver consciência
anotando suas aptidões de uso das da diferença que existe entre a brincadeira e
linguagens, bem como de suas aptidões o mundo real que lhe forneceu conteúdo para
sociais e dos recursos afetivos e emocionais se realizar. Nesse propósito, para brincar é
de que tem. necessário apoderar-se de elementos da
realidade atual de maneira que atribua novos
Brincando a criança descobre e entende o sentidos. Essa característica da brincadeira
mundo a sua volta, pela curiosidade explora ocorre por meio da articulação entre os
coisas e momentos novos, deste mundo sonhos e a imitação do mundo real. Toda
real tão pavoroso extraordinário ao mesmo brincadeira é uma reprodução transformada,
tempo. Comunicando ludicamente com o no esboço das emoções e das ideias, de uma
mundo real, por meio de desenhos, danças, realidade vivida antes. Isso quer dizer que
cantos, rabisco bagunça brincadeiras, etc, uma criança, por exemplo, bate com ritmos
a criança organiza uma harmônica sintonia nos pés e imagina - se subindo uma arvore,
entre os dois. está vendo sua ação pelo o que representa
da situação e por uma atitude mental e não
Entende-se que o brincar para a criança somente pela compreensão imediata dos
é algo essencial para o seu crescimento e objetos e situações.
aprimoramento, porque desta forma lúdica,
busca entender o mundo real da pessoa No momento das brincadeiras as crianças
adulta, brincando com ele abusivamente, de conseguem simbolizar a vida real mediante
várias maneiras simbólicas. do imaginário, usando o faz de conta
transformam - se em heróis, seres de
Na educação infantil todo o conhecimento outros planetas, animais diferentes, objetos
é adquirido mediante a forma lúdica, porque inanimados e assim conseguem experiências
assim a criança tem o prazer em aprender, de muitos conceitos quando estão brincando.
em virtude do entendimento que se mistura A brincadeira é uma linguagem infantil que
com a brincadeira. preserva um vínculo primordial com aquilo
que é o deixar de brincar. Se a brincadeira

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Revista Educar FCE - Março 2019

é um comportamento que aparece no plano Observamos educadores que se viram


do faz de conta isto provoca que aquele com lixo e materiais reciclados, fazendo
que brinca tenha o comando da linguagem trabalhos admiráveis. A dedicação e o
simbólica. encorajamento são primordiais quando o
tema é extremamente sério: brincar.
Para brincar é necessário que as crianças
tenham certa autonomia para decidir seus O brincar deixa, ainda, entender a lidar
amigos e os papéis que irão ter dentro de um com as emoções afetivas. Por meio do
determinado assunto e historia, do qual o brincar, a criança balanceia as tensões
desenvolvimento deriva somente da vontade originárias de seu mundo cultural, erguendo
de quem brinca. sua individualidade, sua identidade pessoal
e sua personalidade. Mas, é Piaget que nos
Piaget (1973 apud LA TAILLE, 1992, p.47): elucida o brincar, mostra uma dimensão
altamente evolutiva com as crianças de varias
A afetividade e a razão constituíram termos idades, mostrando habilidades específicas,
complementares:” a afetividade seria a energia,
o que move a ação é construída através da apresentando jeitos diferentes de brincar.
vivência, enquanto a razão seria o que possibilita
ao sujeito identificar desejos, sentimentos O brinquedo incita certas realidades. Uma
variados, e obter êxito nas ações. No entanto
quando a criança recebe afeto atenção carinho interpretação é algo presente no lugar de
ela consegue crescer e desenvolver - se com algo. Interpretar é atender a alguma coisa e
segurança e determinação. autorizar seu chamamento, mesmo em sua
exiguidade. O brinquedo põe a criança na
Pela chance de viver brincadeiras de faz de presença de réplicas: tudo o que tem no dia
conta e feitas por elas mesmas, às crianças a dia, na natureza e construções humanas.
devem incorporar seus pensamentos para Tem a permissão de dizer que um dos
a deliberação de problemas que lhes são propósitos do brinquedo é oferecer à criança
importantíssimos e significativos. Permitindo um suplente dos objetos reais, para que possa
a brincadeira, consequentemente, cria - se manuseá-los. Duplicando diversos tipos de
um espaço por intermédio do qual as crianças realidades, não mostrando simplesmente
conseguem mostrar o mundo e interiorizar objetos, mas sim, uma totalidade social.
uma assimilação particular sobre as pessoas,
os sentimentos e as muitas experiências. A realidade mostrada sempre adiciona
mudanças: tamanho, formas atenuadas e
Há algo importantíssimo para carregarmos simples, decoradas ou ainda, características
em nossa jornada pedagógica: não importa ou aspectos humanos a animais, deuses,
o tamanho ou a qualidade do material que elementos da natureza e constituintes da
temos, se nossa atividade na sala de aula não realidade em geral. Os brinquedos também
é incontestável. podem adicionar, um faz de conta preexistente

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Revista Educar FCE - Março 2019

feito por intermédio de desenhos animados, seriados de ficção científica com robôs, mundo da
televisão, mundo encantado dos contos de princesas, histórias de piratas e índios.

Ao apresentar realidades de faz de conta, os brinquedos exteriorizam, prioritariamente,


personagens na forma de bonecos, como brinquedos articulados ou super - heróis, misturados
de homens, animais, máquinas e monstros. O brinquedo recomenda um mundo de faz de conta
à criança e simboliza a visão que o adulto tem da criança. No caso da criança, o faz de conta
muda de acordo com a idade: para pré - escolar de três anos, está cheio de animismo; de 5 a
6 anos, constitui preferencialmente elementos da realidade. O adulto adota nos brinquedos
imagens que mudam por meio da sua cultura.

O brinquedo enquadra sempre alusão ao tempo de infância do adulto com interpretações


transmitidas pela memória e imaginação. O termo brinquedo não deve ser limitado à pluralidade
de sentidos do jogo, porque sugere criança e tem uma proporção material, técnica e cultural.
Como objeto, é sempre base de brincadeira. É provocante material para fazer provir o faz de
conta infantil, tendo vínculo justo com o nível de seu conhecimento.

Entre os pontos de vistas sobre o brincar, sobressai as de Froebel, o primeiro filósofo a explicar
seu uso para ensinar nas pré-escolares. Outros recorrem a deduções do autor para explicar o
aumento de escolas infantis, fazendo formas diferentes de projetar o lúdico na escola.

Compreende também que a criança precisa de inclinação para seu aperfeiçoamento. Os


programas froebelianos ajudam a incorporação de exercício orientado e livre mediante ao uso
de brinquedos e brincadeiras.

Nesta visão, a brincadeira pode deixar de ser apenas coisa de criança e passar a ser algo mais
séria, digna de ficar presente entre recursos didáticos qualificado de compor uma ação docente
vinculada com os alvos do processo de aprendizagem.

Portanto, mesmo nas formas de arte, como em outras maneiras do brincar, há uma riqueza
de melhorias e oportunidades criativas para que crianças e adultos mostrem seu pensamento e
contemple o talento dos outros.

É correto afirmar que todos, sem exceção, recebemos a arte, assim como a criamos, e quase
todos nós, sabemos do que gostamos e adoramos por intermédio de nossas experiências,
individualidades e eficiências, ou até mesmo sabe se mostrar de formas comunicáveis aos outros.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que na escola é admissível o educador se
desprender e usar os jogos como uma forma de aprofundar
os conteúdos pragmáticos. Para que isso seja possível
é necessário que o professor distingue momentos de
conteúdo com a atividade lúdica, mas, para isso, o jogo é
uma forma e não somente esta. Os jogos e os brinquedos
são hoje objetos importantes na Educação Infantil, desde
que coloquemos num argumento educativo que se apoia na
atividade e convívio entre elas.

É procurando novas maneiras de ensinar mediante do


lúdico que conquistamos uma educação de qualidade e APARECIDA LEMOS
que certamente possa ir ao encontro das importâncias e HOHMANN
inevitabilidade da criança. Porém é necessário dizer que
Graduação em Artes Visuais
uma atividade lúdica não é somente a soma de brincadeiras; pela Universidade Metropolitana
é, além disso, uma forma de ser, de ficar, de pensar e admirar de Santos – UNIMES (2012);
a escola. É necessário conhecer o mundo da criança, no seu Especialista em Educação
Inclusiva pela Faculdade Campos
sonho, na sua brincadeira e, a partir deste ponto, brincar Elíseos (2015); Professora de
com ela. Quanto mais espaços lúdicos, deixarão as crianças Ensino Fundamental II e Médio –
mais felizes, abertas as novas brincadeiras, criativas e Artes – na EMEF Professor Primo
Pascoli Melaré.
independentes.

Acreditamos que a ludicidade é importantíssima para o


aperfeiçoamento das competências motoras das crianças,
visto que, é por intermédio dos jogos e brincadeiras que
a criança se sente incentivada. Desta forma também,
a experiência da aprendizagem tende a ser um recurso
vivenciado divertidamente.

460
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
ALVES, Rubem. A gestação do futuro. Campinas: Papirus, 1987.

FEIJO, O. G. O corpo e movimento: Uma psicologia para o esporte. Rio de Janeiro: Shape,
1992.

MINESTRINA V. e BEYER M. A. O lúdico – Uma forma de educar na Ed. Infantil. In. Revista
de divulgação técnico _ científica do ICPG. Vol.3, n.9, p.185 – 188, 2006.

NEGRINE, Airton. Aprendizagem e desenvolvimento infantil. Porto alegre: Propil, 1994.

OLIVEIRA, Zilma de M. R. de. Educação Infantil: fundamentos e métodos. 7 ed. São Paulo;
Cortez, 2011.

PIAGET, Jean. A formação simbólica da criança. Rio de Janeiro: Zhar, 1975.

VYGOTSKY, L. S. A formação sócia da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984

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Revista Educar FCE - Março 2019

O QUE É O FRACASSO ESCOLAR


E POR QUE IMPLEMENTAR UMA
NOVA PEDAGOGIA?
RESUMO: O presente artigo tem por objetivo procurar explicar o que é o fracasso escolar
e como ele é associado não apenas ao desempenho negativo dos alunos no âmbito escolar,
mas também como acontece devido a problemas no processo de ensino-aprendizagem das
escolas, muitas vezes por falta de organização ou interesse por parte do corpo docente.
Como consequência deste fracasso recorrente, surgem as Pedagogias Diferenciadas que
visam trabalhar e entender as individualidades de cada aluno, como e porquê aprender o
que devem aprender e principalmente, focam em ensinar o que será útil e relevante na vida
escolar e social do aluno. Porém, ainda existem muitas questões acerca de como ou porquê
implementar uma nova pedagogia nas escolas, e é também sobre isso que discutiremos.

Palavras-Chave: Pedagogia Diferenciada; Fracasso Escolar; Aluno; Professor.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO Na pedagogia diferenciada há um tripé


inexistente até então no ensino tradicional:
A Pedagogia diferenciada surge para aluno – professor – saber, onde cada um
combater o insucesso escolar e pretende deles têm importância significativa na vida
organizar melhor o espaço e tempo dos escolar do aluno e este se torna também o
alunos para respeitar suas individualidades foco essencial do que será ensinado.
e traçar, a partir daí caminhos diferentes
que venham a desenvolver competências Cada linha pedagógica tem um porquê
comuns. e deve ser respeitada e compreendida. A
escolha por este tema se deu ao perceber que
A partir de estudos e novos programas a utilização das pedagogias diferenciadas tem
educacionais, tem-se notado que as crescido muito no Brasil e se espalhado por
pedagogias diferenciadas surgem para romper diversas escolas. De acordo com Clarapède
a visão de um ensino que considera que (1973) a escola sob medida acabou se
todos aprendem de forma igual, procurando tornando uma necessidade pois cada ano que
mudar esta formula, assim individualizando passa é mais difícil ensinar a mesma coisa, ao
cada aluno e seu aprendizado, tornando o mesmo tempo, para o mesmo aluno, afinal
ensino algo significativo e centrado em cada eles mudam constantemente. A preocupação
um. Diferente do que acontece no ensino em ajustar o ensino às individualidades
tradicional, onde todos os alunos aprendem dos alunos serve para respeitar cada um e
na mesma forma, ao mesmo tempo, e incluí-los ao ensino de forma mais humana e
precisam obter resultados de que este correta, cada um ao seu tempo.
conhecimento está sendo absorvido.
O presente artigo tem como objetivo
A preocupação em ajustar o ensino explicar o que é a Pedagogia Diferenciada
dentro das características individuais dos e porquê se fala tanto em adaptar o ensino
alunos diz respeito não só ao bom senso e focá-lo no aluno procurando assim
pedagógico, mas também é uma exigência conscientizar professores e escolas que
de igualdade diante da cultura e da existem diversas maneiras de ensinar e
aprendizagem, portanto, promover essas manter o aluno e o professor como foco.
pedagogias diferenciadas é um desafio que
envolve reflexão, conhecimento e mudança
na forma de pensar e ensinar, tendo em O FRACASSO ESCOLAR
vista que essas mudanças nos alunos podem
demorar a serem vistas, mas que serão bem O fracasso escolar pode ser, muitas vezes,
desenvolvidas e devem ser colocadas em gerado no interior das escolas partindo de
prática o tempo todo. uma falta de organização pedagógica, de uma
estruturação fraca e de práticas pedagógicas

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Revista Educar FCE - Março 2019

que já não funcionam mais tão bem. Porém, Segundo Perrenoud (1997), o fracasso
ainda hoje, as escolas buscam explicações escolar é a consequência de dificuldades
para este fracasso nos alunos ou em suas de aprendizagem, de uma falta objetiva de
famílias disfuncionais ou em seus problemas conhecimentos e competências, acreditando
sociais e pessoais e não focam o problema que todos devem ser e aprender igualmente,
no que realmente importa: o funcionamento portanto é necessário trabalhar com a
pedagógico da escola. realidade constante em que vivemos e
transformá-la em algo favorável para todos,
Podemos dizer que, por diversos motivos, procurando levar em consideração as
nem sempre a escola consegue atingir seus diferentes realidades em uma mesma sala de
objetivos institucionais e acaba se deparando aula.
com situações onde os alunos não conseguem
cumprir com o que se é esperado deles. Por Há uma luta para vencer esse insucesso
este motivo há o equívoco em acreditar que escolar que afeta diretamente as
este seja o porquê do fracasso escolar nas representações e práticas dos professores
escolas, sem levar em consideração suas por isso o corpo docente precisa proporcionar
realidades e dificuldades individualmente. condições adequadas às diferentes
características dos alunos e utilizar-se de
Para que haja um envolvimento da parte estratégias diferenciadas para alcançar o
dos docentes, o professor deve tomar uma objetivo proposto.
atitude, analisar seus alunos e os tipos de
dificuldades que eles podem ter, explorar Mas afinal, o que estaria causando esse
avaliações formativas que os ajudem no fracasso escolar? Podemos dizer que é
processo de aprendizagem, que pense em uma mistura da avaliação do professor
novas práticas de ensino, estando sempre junto a seu método de ensino, assim como
aberto a novas ideias que possam ajudá-lo. a estruturação institucional da escola ou
seria um problema causado pelo sistema
Mesmo que uma didática proposta seja educacional como um todo? O que se pode
aplicada à uma sala toda, será tão adequada concordar é que tudo depende do ponto de
quanto inadequada para pelo menos metade vista analisado e o mais importante aqui é
dos alunos. Isso se dá pelo fato de que uma entender que deve haver o descentramento
sala não aprende da mesma forma e não do problema apenas no aluno e começar a
alcança os mesmos resultados envolvendo avaliarmos também a escola como um todo,
suas habilidades afetivas, cognitivas, sociais afinal, se houve mesmo um fracasso escolar,
e motora, limitando assim o alcance destes o aluno não pôde ter causado isso sozinho
alunos para um “sucesso” escolar. tendo sofrido também com as consequências
da escola.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Podemos dizer então, que a dificuldade aprendizado, individualizando assim seu


de aprendizagem acaba gerando o insucesso percurso de formação.
escolar surge quando algo atrapalha o laço
entre o aluno e o aprender. E é justamente “Adaptar a ação pedagógica ao aprendiz não
é renunciar a instruí-lo nem abdicar dos objetivos
para diminuir o índice de insucesso e fracasso essenciais. Diferenciar é lutar para que as
escolar e com o intuído de acolher o aluno desigualdades diante da escola atenuem-se e para
em suas dúvidas e dificuldades que surgem que o nível de ensino se eleve simultaneamente.
(Perrenoud, 1997, p.7).”
as Pedagogias Diferenciadas, procurando
trazer novas ideias e objetivos tanto para o
benefício das escolas como dos alunos. A partir dos resultados de uma pesquisa
realizada na década de 1970, o professor
pode levar seus alunos ao sucesso se
PEDAGOGIA DIFERENCIADA: conseguir produzir uma diferenciação
O QUE É? pedagógica ao ajustar sua forma de ensinar
e os meios utilizados.
A Pedagogia Diferenciada implica em estar
atento às diferenças e ao mesmo tempo gerar Para Tomlinson, essa diferenciação
oportunidades iguais para todos baseadas pedagógica ocorre sempre que o professor
em suas diferenças. Para Gomes (2011, p. 47) responde às diversidades de seus alunos
“diferenciar é estabelecer diferentes vias”. e adapta ou modifica as aulas para criar
uma situação de aprendizagem favorável e
Quando falamos de Pedagogias possível. Os tipos de Pedagogia diferenciada
Diferenciadas falamos sobre igualdade foram surgindo e crescendo com o passar dos
o tempo todo e em todos os contextos, anos, ampliando ainda mais essa estratégia.
porém o tratamento de igualdade na sala
de aula é, na verdade, uma desigualdade na
aprendizagem dos alunos e os diferencia e MAS POR QUE DIFERENCIAR?
separa. Nos últimos anos têm-se procurado
introduzir as pedagogias diferenciadas nas Levando em consideração que cada aluno
escolas, procurando uma transformação que possui interesses, necessidades, pontos
responda bem às expectativas e necessidades fortes e fracos, estilo e ritmos diferentes
de cada aluno para que todos consigam atingir torna-se essencial essa diferenciação para
os objetivos propostos pelos professores e que o aluno compreenda melhor o que lhe é
impostos pela sociedade. Mas afinal, o que é ensinado e sinta-se valorizado pelo professor
essa Pedagogia diferenciada? que trabalha com essas individualizações.

Para Perrenoud (1997), a pedagogia Na Pedagogia Diferenciada procura-se


diferenciada foca no aluno e em seu integrar novos tutorias entre alunos e fazer

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Revista Educar FCE - Março 2019

com que eles colaborem nos estudos e nas instaurar uma nova pedagogia exige pesquisa
estratégias de aprendizagem. O professor e conhecimento, além de ter em mente que
aqui se torna um organizador de respostas as novas metodologias enfrentam muitos
enquanto os alunos discutem e trabalham problemas: como o aluno realmente aprende?
entre si para o entendimento da matéria. Como é possível criar uma relação entre o
O aluno se torna um autor ativo de sua saber e o instaurar dentro das instituições?
aprendizagem e parceiro do professor. Qual deve ser a relação professor/aluno?
Essas são questões que devem ser pensadas
Para que ocorra a Pedagogia Diferenciada e resolvidas antes de qualquer escola
é importante ter em mente que as aulas tentar implementar uma das pedagogias
devem ser pensadas para que os alunos diferenciadas em seu sistema de ensino,
aprendam coisas reais e que possam ser afinal, a pedagogia diferenciada deve servir
aplicadas em sua rotina, além disso, as aulas tanto para os alunos e seu aprendizado
devem atender à diversidade dos alunos e quanto para os professores que trabalharão
respeitar suas diferenças. com ela.

Para Tomlinson, há três motivos para que Para que seja possível implementar a
a pedagogia diferenciada aconteça: Pedagogia Diferenciada nas escolas é preciso
colher informações sobre os alunos em relação
1. Tornar a aprendizagem acessível ao seu conhecimento e competências, sobre
para todos, independentemente de suas o que ainda não estudaram e seus maiores
características cognitivas ou pessoais; interesses. Para que essa implementação seja
2. Tornar a aprendizagem algo eficaz e; realizada com sucesso, a UNESCO (2004)
3. Motivar os alunos a aprender sugere três perguntas básicas baseadas na
ativamente. técnica KWL:

Estudos também mostram que os principais 1. O que eu já sei? (K – What do I


motivos para aderir à uma pedagogia KNOW)
diferenciada é que a nossa inteligência varia, 2. O que eu quero saber? (W – What do
nosso cérebro tem sede de significação e I WANT to learn?)
conseguimos aprender melhor com desafios 3. O que eu aprendi? (L – What did I
realistas. Esses princípios são essenciais para LEARN?)
o professor planejar suas aulas e entender
melhor seus alunos e o que esperar de cada Segundo especialistas é acerca das
um. respostas à estas perguntas que será
possível determinar o interesse dos alunos
Portanto, essa diferenciação vem, na e dedicar-se a trabalhar com uma Pedagogia
verdade, para ajudar e incluir. Porém, Diferenciada.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Porém, esta não é uma fórmula que dará por obstáculos ou incidentes que podem
certo com certeza, é apenas uma maneira de acontecer e nos forçam a tomar decisões
trabalhar com o que os alunos se interessam mais importantes. O acompanhamento dos
e em procurar integrá-los no mundo escolar, alunos da parte do professor também é algo
tornando-os ativos em toda sua vida que não exige muito e que, portanto, se
acadêmica. não há um erro ou problema à vista, não há
porquê mudar a maneira que está utilizando
para ensinar. Isso não quer dizer que o
AFINAL, COMO professor esteja negligenciando seus alunos
IMPLEMENTAR UMA ou sua aula, mas apenas que não há motivo
para que aja diferente.
PEDAGOGIA DIFERENCIADA
NAS ESCOLAS? Porém, mesmo que o problema não
seja visível, é algo para o qual os olhos do
Julgando que o fracasso escolar realmente professor devem estar sempre atentos,
se dá por conta das práticas pedagógicas procurando a todo momento se desafiar e
das escolas e que, portanto, deve-se mudar aceitar que às vezes mudanças são boas e
a maneira de ensinar, fica a dúvida: quando beneficentes para ambos aluno e professor
sabemos se um aluno deve avançar ou regredir e, portanto, ser capaz de praticar um ensino
em alguma atividade ou matéria? Como mais estratégico e focado.
julgar se ele está realmente aprendendo
ou perdendo tempo? Para Perrenoud, esse Por outro lado, uma decisão frágil pode
problema “é uma situação didática e toma colocar todo este processo em um estado de
forma de uma regulação interativa e de uma erro constante. Como falamos anteriormente,
diferenciação integrada, fundada sobre os é importante fazer perguntas aos alunos
obstáculos encontrados e outros dados”. que seremos capazes de responder pois
saber suas dúvidas e questões que devem
Os desafios que existem acerca do ser trabalhadas é essencial para que haja
rendimento e interesse dos alunos são uma progressão no método de ensino.
didáticos, mas suas restrições são um A problemática nessa situação precisa
problema da gestão. Propor novas ideias e distinguir claramente os conhecimentos e
novas pedagogias para serem implementadas procedimentos que não são verbalizados ou
pode ser muito difícil. conscientizados através de uma observação
formativa que, segundo Perrenoud, possui
Primeiro existe a dificuldade de três competências, e é importante lembrar
encontrar um meio termo entre como agir que estes tipos de observação e registro
ativamente e passivamente. Normalmente devem ser complementares.
nosso funcionamento mental é ativado

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Revista Educar FCE - Março 2019

1. Observar para regular uma atividade que já está em andamento; algo que podemos
chamar de regulação interativa, que seria uma diferenciação interna de determinada
situação (Allal, 1988);

2. Observar para que possamos orientar os alunos a outros cenários de aprendizagem


dentro do mesmo espaço/tempo de formação; o que também pode ser chamado de
diferenciação interna em um dispositivo ainda mais amplo;

3. E, observar para que possamos orientar os alunos para outros espaços/tempos de


formação; o que podemos chamar de diferenciação interna a um ciclo de aprendizagem.

Claro que, além de realizar essa observação formativa, os professorem devem continuar
atentos às necessidades dos alunos e às mudanças que podem julgar ser necessárias.

Implementar uma nova pedagogia nas escolas vai além de apenas estudar e entender
novos conceitos, deve-se entender para que esta pedagogia serve e como ela será aplicada
aos seus alunos e desenvolvida pelos professores. A mudança de um tipo de ensino para
outro deve ser progressiva e natural para que todos aproveitem esta mudança de maneira
positiva.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Devido ao recorrente fracasso escolar, viu-se uma
necessidade em implementar novas formas de ensino e
aprendizagem e foi a partir de estudos sobre as Pedagogias
Diferenciadas que as escolas começaram a agir para superar
este fracasso.

O fracasso escolar acontece por diversos motivos e nem


sempre está ligado apenas ao desempenho dos alunos e, o
que foi sendo observado nos últimos anos, é que para que
haja um melhoramento no ensino e na maneira que o aluno APARECIDA ROLIM DA
adquire o conhecimento transmitido pelo professor, deve SILVA RUBINHO
haver não só a vontade de inovar e entender as dificuldades
Graduação em Letras pela
dos alunos como também compreendê-los como indivíduos Faculdade Campos Elíseos (2019);
e ensinar temáticas que vão além da escola. Especialista em Pedagogia pela
Faculdade Anhanguera (2013);
Professora de Educação Infantil e
As pedagogias diferenciadas surgem para diferenciar e ao Ensino Fundamental I - na EMEI
mesmo tempo incluir os alunos a partir de seus conhecimentos Dinah Silveira de Queiroz.
prévios, interesses e capacidades. Uma mesma sala de aula
possui diversos alunos que devem aprender a mesma coisa,
mas isso não significa que todos tenham o mesmo ritmo ou interesse que o outro, e é
justamente por isso que a implementação das Pedagogias Diferenciadas se torna essencial
no ensino hoje em dia.

Claro que, para que essa implementação seja realizada com sucesso as escolas devem
analisar seus alunos, suas dificuldades e interesses e fazer perguntas pertinentes ao que se
quer mudar e diferenciar. Não basta querer uma Pedagogia Diferenciada porque é diferente,
mas sim porque os alunos devem ser o foco total do ensino e integrá-los de maneira geral
acaba sendo a melhor escolha.

A mudança de uma pedagogia tradicional para uma diferenciada é trabalhosa e exige muito da
parte docente da escola, por isso deve ser pensada com antecedência e procurar integrá-la aos
alunos e professores de forma natural e progressiva, visando o aceitamento de ambas as partes.

Portanto, faz se necessário entender e compreender como e porquê introduzir uma


Pedagogia Diferenciada e entender como sua implementação será positiva para os alunos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
ANTUNES, Liliana. Qual o papel da pedagogia diferenciada no desenvolvimento de
aprendizagens significativas em crianças do contexto pré-escolar? 2016. Tese de Doutorado.

GOMES, Mário Henrique. A pedagogia diferenciada na construção da escola para todos:


Conceitos, Estratégias e Práticas. 2011.

PERRENOUD, Philippe. Pedagogia Diferenciada – Das Intenções à Ação. Porto Alegre.


ArtMed Editora, 2000.

REZENDE, Eva Maria Colaço; LOURENÇO, Cintia. Pedagogia das diferenças: Percepção
de professores e gestores dos anos iniciais do ensino fundamental sobre diferenças na
aprendizagem. 2013.

SANTANA, Inácia. Práticas Pedagógicas diferenciadas. Escola Moderna. 2000.

AQUINO, Julio Groppa. Erro e Fracasso na Escola. São Paulo. Grupo Editorial Summus, 1997.

SILVA, Aise dos Santos. Fracasso Escolar. Disponível em: <https://www.portaleducacao.com.


br/conteudo/artigos/direito/fracasso-escolar/26427>. Acesso em: 14 de mar. 2019.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A INFLUÊNCIA DA LUDICIDADE PARA


O DESENVOLVIMENTO GLOBAL DO
ALUNO COM MÚLTIPLA DEFICIÊNCIA.
RESUMO: A temática refere-se à influência de atividades lúdicas (jogos, brinquedos e
brincadeiras) no desenvolvimento global do aluno com múltipla deficiência na esfera
social, motora e cognitiva. A ludicidade pode ser uma possibilidade inovadora como
estratégias de aprendizagens. Elas baseiam-se em brincadeiras que despertam o desejo
de aprender brincando. Por isso, são consideradas importantes no processo de aquisição
e desenvolvimento de habilidades. Reconhecemos que as atividades lúdicas facilitam de
forma significativa na melhora da motricidade global e fina, no processo de aquisição de
conhecimento e na sociabilização de crianças com múltipla deficiência. Nesse contexto,
foram criados jogos lúdicos que desperta e instiga a imaginação; criatividade; memória;
socialização; expressão corporal e motora. Espera-se que essas atividades lúdicas possam
contribuir para o desenvolvimento global da criança com múltipla deficiência; ampliar a
compreensão e entendimento do outro; e de estreitar laços de afetividade.

Palavras-Chave: Múltipla Deficiência; Ludicidade; Desenvolvimento Global; Comunicação;


Educação Especial.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO bibliográfica em livros e pela internet,


tendo como referencial teórico, títulos
Este estudo diz respeito à influência da sobre ludicidade aplicada em crianças com
ludicidade para o desenvolvimento global deficiência.
do aluno com múltipla deficiência, definida
segundo Brasil. MEC (2002), como a criança Espera-se que este trabalho venha
que: contribuir para que crianças com múltipla
deficiência possa desenvolver-se suas
“…tem mais de uma deficiência associada. habilidades gerais com o apoio da ludicidade.
É uma condição heterogênea que identifica
diferentes grupos de pessoas, revelando
associações diversas de deficiências que FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
afetam, mais ou menos intensamente, o SOBRE DEFICIÊNCIA
funcionamento individual e o relacionamento
social “(MEC/SEESP, 2002). MÚLTIPLA

Este trabalho busca identificar a A investigação empreendida neste trabalho


importância das atividades lúdicas que perpassa por uma análise que necessita do
colaboram no desenvolvimento de entendimento claro do que se entende por
habilidades em crianças com deficiência deficiência múltipla. Para tal é apresentada
múltipla em seu desenvolvimento motor, a seguir a concepção do Ministério de
socialização e cognição. Educação.

Justifica-se, na compreensão que O termo deficiência múltipla tem sido


atividades lúdicas favorecem de forma utilizado, com frequência, para caracterizar
significante na melhoria da motricidade o conjunto de duas ou mais deficiências
global e fina, no processo de aquisição de associadas, de ordem física, sensorial, mental,
conhecimento e na sociabilização de crianças emocional ou de comportamento social. No
com múltipla deficiência. entanto, não é o somatório dessas alterações
que caracterizam a múltipla deficiência,
O objetivo deste estudo é analisar mas sim o nível de desenvolvimento, as
a contribuição da ludicidade para o possibilidades funcionais, de comunicação,
desenvolvimento global do aluno com interação social e de aprendizagem que
múltipla deficiência, tais como: jogos, determinam as necessidades educacionais
brinquedos e brincadeiras. dessas pessoas (MEC, 2006a, p. 11).

Para a realização, seguiu-se uma É importante destacar ainda as condições


metodologia orientada pela pesquisa médicas de crianças com deficiência

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Revista Educar FCE - Março 2019

múltipla, conforme estabelece o Ministério • deficiência física associada a


da Educação (MEC, 2006b, p.11). transtornos mentais;
• Sensorial e psíquica:
1. Apresentam mais dificuldades no • deficiência auditiva associada à
entendimento das rotinas diárias, gestos ou deficiência mental;
outras habilidades de comunicação; • deficiência visual associada à
deficiência mental;
2. Demonstram dificuldades acentuadas • deficiência auditiva associada a
no reconhecimento das pessoas significativas transtornos mentais.
no seu ambiente; • Sensorial e física:
• deficiência auditiva associada à
3. Realizam movimentos corporais sem deficiência física;
propósito; • deficiência visual associada à
deficiência física;
4. Apresentam resposta mínima a barulho, • Física, psíquica e sensorial:
movimento, toque, odores e/ou outros • deficiência física associada à
estímulos. deficiência visual e à deficiência mental;
• deficiência física associada à
Ainda no que concerne a definição do que deficiência auditiva e à deficiência mental;
seja deficiência múltipla, o programa TECNEP • deficiência física associada à
(2008) afirma que deficiência múltipla: deficiência auditiva e à deficiência visual.

é a deficiência auditiva ou a deficiência Esta mesma autora ao tratar das


visual associada a outras deficiências (mental causas da deficiência múltipla esclarece
e/ou física), como também a distúrbios que ela origina-se em fatores pré-natais,
neurológicos, emocionais, linguagem e perinatais ou natais e pós-natais. O quadro
desenvolvimento educacional, vocacional, a seguir, relaciona condições diversas
social e emocional, dificultando a sua que provocam múltipla deficiência. Os
autossuficiência. exemplos citados são alguns dentre muitos
outros e caracterizam condições individuais
Sem esgotar o assunto, cabe destacar diferenciadas de gravidade. Para o autor,
que a deficiência múltipla, de acordo com muitas das deficiências mencionadas nesse
Carvalho (2000, p.54), manifesta-se nas quadro podem ser evitadas, desde que haja
seguintes dimensões: iniciativas familiares e governamentais.

• Física e psíquica:
• deficiência física associada à
deficiência mental;

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Revista Educar FCE - Março 2019

Cabe salientar que o conhecimento sobre a deficiência múltipla, conforme afirmação de


Carvalho (2000, p 60),
[...] serve de base para evitar maior interferência adversa na vida da pessoa e reduzir seus efeitos sobre ela, bem
como mediar à promoção humana. Ajuda a prevenir deficiências decorrentes das já existentes e a instrumentalizar o
indivíduo para atuar eficientemente frente às demandas ambientais.

A família, a escola e a comunidade têm um papel relevante nesse processo.

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Revista Educar FCE - Março 2019

JOGOS LÚDICOS e autoestima. Através deles desenvolvem-


se habilidades como a atenção, a memória, a
É apresentada a seguir a definição imitação e a imaginação. Segundo Dallabona
Kishimoto apud Froebel (1988, p.74) sobre e Mendes (2004, s/ p):
jogos lúdicos:
As técnicas lúdicas fazem com que a criança
É a qualidade daquilo que estimula através da aprenda com prazer, alegria e entretenimento,
fantasia, do divertimento ou da brincadeira, trata- sendo relevante ressaltar que a educação lúdica
se de um conceito bastante utilizado na educação, está distante da concepção ingênua de passatempo,
principalmente a partir da criação da ideia de “jardim brincadeira vulgar, diversão superficial.
de Infância,” bem como o uso de jogos e brinquedos,
que deviam ser organizados e sutilmente dirigidos
pelo professor.
Além do mais, estudiosos reforçam a
Outra concepção relevante refere-se o relevância do ato de brincar na contribuição
significado do termo brincar, que pode ser para o aumento da atenção da criança
definida, por Ferreira (2007) na seguinte perante o brinquedo, como
elucidação:
Brincadeira é o ato ou efeito de brincar, é o
Brincar é uma necessidade básica assim como momento em que se utilizando o brinquedo, a
é a nutrição, a saúde, a habitação e a educação, criança brinca. Na brincadeira a atenção da criança
brincar ajuda a criança no seu desenvolvimento se prende ao brinquedo e ao ato de brincar, explorar
físico, afetivo, intelectual e social, pois, através integralmente os atributos do objeto da brincadeira,
das atividades lúdicas, a criança forma conceitos, como, por exemplo, sua cor, forma, sua textura, sua
relaciona ideias, estabelece relações lógicas, espessura, sua consistência, seu odor seu sabor,
desenvolve a expressão oral e corporal, reforça suas possibilidades, utilizando-se para isso dos
habilidades sociais, reduz a agressividade, integra-se sentidos do corpo como um todo.
na sociedade e constrói seu próprio conhecimento.
Os jogos lúdicos são de grande
Nas explanações do autor, percebe-se prestabilidade para o processo de ensino-
que a ação de brincar é uma necessidade aprendizagem, servem como estratégias
intrínseca e inata ao ser humano. Faz-se pedagógicas para potencializar as
necessário as atividades recreativas para aprendizagens e o desenvolvimento das
que as crianças possam desenvolver suas crianças.
habilidades socioemocionais, psicomotoras
e cognitivas. Segundo Kishimoto (1999, p. 13):

Os jogos lúdicos ainda possuem importante O jogo como promotor da aprendizagem e


do desenvolvimento passa a ser considerado nas
papel no desenvolvimento humano, pois práticas escolares como importante aliado para o
eles refletem as formas que se pensa e ensino, já que colocar o aluno diante de situações
age. São de extrema importância para o lúdicas como jogo pode ser uma boa estratégia
para aproximá-lo dos conteúdos culturais a serem
desenvolvimento da identidade, autonomia
veiculados na escola.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Os jogos lúdicos contribuem em diversos


aspectos na evolução das capacidades das Verifica-se que os jogos lúdicos contribuem
crianças. Destaca-se para o progresso dos de forma singular para o progresso global da
processos mentais. Outro aspecto substancial criança. Porém é recomendável que se crie na
refere-se à possibilidade de compreensão escola um lugar para refletir sobre as práticas
dos desejos das crianças com múltipla pedagógicas que envolvem o universo
deficiência. Os jogos lúdicos colaboram de lúdico. Conforme defende (BRENELLI apud
forma primordial para o entendimento da PAVANELLO; CAWAHISA, 2010, p. 9):
linguagem receptiva e expressiva feita pelo
locutor e receptor. Os progressos que as crianças podem apresentar
por meio de uso de jogos somente acontecem
quando, em sala de aula, se cria um “espaço para
Os jogos favorecem o domínio das habilidades pensar”. Ou seja, os desenvolvimentos cognitivo,
de comunicação, nas suas várias formas, facilitando afetivo e pedagógico só acontecerão se a criança
a autoexpressão. Encorajam o desenvolvimento encontrar na escola um lugar para experimentar
intelectual por meio do exercício da atenção, o prazer da atividade lúdica, o domínio de si, a
e também pelo uso progressivo de processos criatividade, a afirmação da personalidade e a
mentais mais complexos, como comparação e
valorização do eu.
discriminação; e pelo estímulo à imaginação. Todas
as vontades e desejos das crianças são possíveis de
serem realizadas através do uso da imaginação, que Foram criados jogos lúdicos que desperta e
a criança faz através do jogo. (GIOCA, 2001, p.22)
instiga a imaginação; criatividade; memória;
socialização; expressão corporal e motora.
As crianças com múltipla deficiência devem Espera-se que essas atividades lúdicas
ser estimuladas o mais precocemente possível possam contribuir para o desenvolvimento
para que possa promover o desenvolvimento global da criança com múltipla deficiência;
das percepções. Estas são aliadas para o ampliar a compreensão e entendimento do
desenvolvimento de mecanismos cognitivos. outro; e de estreitar laços de afetividade.
Os espaços lúdicos são imprescindíveis para
aguçarem as percepções sensoriais como
esclarece a afirmação de Machado, (2005, p. 34):

A criança portadora de necessidades educativas


especiais precisa desde muito cedo, estar com outras
crianças e aprender a desfrutar dessa oportunidade que
se constitui em um dos principais objetivos da inclusão.
Considera-se como espaços lúdicos de inclusão
aquele que contém equipamentos e brinquedos que
favoreçam a integração entre as crianças apesar de suas
diferenças. As crianças de deficiência sensorial física e/
ou mental poderão desfrutar desse espaço. Brinquedos,
jogos e brincadeiras ajudam as crianças portadoras de
deficiência a se prepararem socialmente 36 quando
estas por sua vez frequentam uma escola comum.

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Revista Educar FCE - Março 2019

BRINCADEIRA COM BOLAS DE SABÃO


Objetivo:

Promover a interação e socialização entre professor-aluno, estimular a criatividade e


trabalhar a coordenação motora e a expressão corporal. Instigar a habilidade cognitiva.

Materiais:

- Artefato de haste de bambu com lã;


- Água;
- Detergente;
- Recipiente Plástico.

Desenvolvimento:

Os alunos segurarão as hastes de bambu uma em cada mão. Depois, mergulharão a lã no


recipiente plástico, onde contém a mistura de detergente e água. Eles terão que levantar as
hastes com a película de sabão já formada entre o circulo de lã.

Feito esse procedimento, eles movimentarão para frente e para trás até que desprenda a
bola de sabão, também poderão assoprar ou aguardar o vento para o mesmo efeito. Podem
estourar as bolas de sabão, tentar manuseá-las ou apreciar o seu deslocamento.

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Revista Educar FCE - Março 2019

BRINCADEIRAS COM BARQUINHOS DE PAPEL E COM


AVIÕEZINHOS
Objetivo:

Promover a interação e socialização entre professor-aluno, estimular a criatividade e


trabalhar a coordenação motora e a expressão corporal. Instigar a habilidade cognitiva.

Materiais:

Barquinhos
- palitos de sorvete;
- caixinhas de suco recicladas;
- tesoura;
- bastão de cola quente;
- pistola de cola quente.

Aviõezinhos
- papel de sulfite colorido.

Desenvolvimento:

Num primeiro momento, conta - se histórias com barcos e aviões, em seguida são
confeccionados com dobraduras.

Os aviões de papel são soltos pela turma em que o aluno faz parte em um ambiente
aberto.

Os barcos são colocados em uma bacia com água e os alunos são estimulados a assoprar
os barcos, fazer ondas com a água para observar como os barcos se movimentam.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse estudo é importante para a formação profissional,
bem como para aumentar os conhecimentos do tema à
prática educativa lúdica: funcionando como ferramenta para
facilitar na educação infantil e de possibilitar ao professor e a
escola propostas de metodologias diversificadas por meio dos
jogos didáticos e brincadeiras. Também, da necessidade em
trabalhar novas metodologias de ensino que ajude despertar
o interesse do aluno contribuindo para a formação do mesmo.

Dessa maneira, o processo de desenvolvimento ARCÂNGELO ROSA


é necessário para que diferentes habilidades sejam JUNIOR
despertadas para desenvolver ações afetivas, cognitivas e
Graduação em Ciências Biológicas
corporais, pois isso fortalece as relações entre educadores pela Universidade Braz Cubas
e educandos através de atividades práticas, sendo que, (2000); Graduação em Pedagogia
é com brincadeiras que as crianças desenvolvem desde pela Uninove (2011); Professor de
Ensino Fundamental II na EMEF:
o seu nascimento até a fase adulta as relações afetivas Des. Achilles de Oliveira Ribeiro.
que são constituídas e possibilitam noções de limites e
espaços que poderão ser aprimoradas de acordo com seu
desenvolvimento.

O estudo sobre a utilização do lúdico na educação


infantil poderá abrir um caminho no cotidiano escolar
para que ocorra a reunião dos vários aspectos do ser
humano, tais como: corporal, emocional, mental e espiritual
proporcionando para os envolvidos, no caso professor e
alunos se conhecerem melhor, além de conseguir aprender
lidar melhor com as próprias dificuldades e com as do outro.

Por essa razão, o professor que costuma utilizar


as brincadeiras no seu cotidiano escolar reconhece a
importância destas por si só e proporciona aos seus alunos
a sua vivência com essas brincadeiras. Já, aquele professor
que não se entrega às atividades, que não tem que não gosta
de brincar, terá maior dificuldade em vivenciar o lúdico e em
ter um olhar sensível para a prática lúdica dos seus alunos,
impossibilitando-os de vivenciá-lo.

479
Revista Educar FCE - Março 2019

É importante compreender que atividades lúdicas nas aulas não são apenas uma brincadeira,
e sim um momento de socialização e aprendizado. O lúdico para ser significativo, quando
acaba tendo pontos em comum com a realidade do educando não sendo algo isolado. Assim,
a tarefa do professor é a de conciliar os objetivos pedagógicos com o lúdico a ser introduzido.

O professor deve ter consciência das vantagens do lúdico, e com isso adequará a
determinadas situações de ensino, podendo utilizá-las de acordo com suas necessidades.
Contudo, as aulas lúdicas devem ter a função de transmitir os conteúdos e combiná-los,
pois, dessa maneira, o aluno conseguirá perceber que não está apenas brincando em aula,
mas que estará armazenando conhecimentos, melhorando o desenvolvimento pessoal e
sociocultural, que é algo indispensável para o desenvolvimento da educação.

Por isso, seria interessante a realização de trabalhos futuros que investiguem um número
maior de estudantes e instituições, para que se obtenha informações importantes sobre
o assunto pesquisado. É importante constatar que a aprendizagem irá ocorrer, mas seria
relevante analisar a utilização do lúdico durante a aprendizagem e ao mesmo tempo conseguir
alcançar o controle emocional e o domínio afetivo dos envolvidos.

480
Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
RESUMO: A história de analfabetismo no Brasil remonta ao período colonial. Desde há
muito tempo o país vem lutando para a erradicação deste problema social. O contexto do
analfabetismo está rodeado por problemas sociais que contribuem para que os índices,
ainda nos dias de hoje, sejam alarmantes. A educação é um direito de todos e a própria
Constituição Federal (1988) garante isso no seu artigo 6º: “são direitos sociais a educação, a
saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta
Constituição”. O letramento leva o indivíduo a um outro estado no qual as suas capacidades
são potencializadas sob vários aspectos: social, cultural, cognitivo, linguístico, histórico,
entre outros. A pessoa passa a fazer parte das decisões de transformação e se torna um
agente impulsionador de mudanças. Passa a ser não mais um coadjuvante, mas autor da
própria construção da vida.

Palavras-Chave: Múltipla Deficiência; Ludicidade; Desenvolvimento Global; Comunicação;


Educação Especial.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO vários aspectos: social, cultural, cognitivo,


linguístico, histórico, entre outros. A
A história de analfabetismo no Brasil pessoa passa a fazer parte das decisões
remonta ao período colonial. Desde há muito de transformação e se torna um agente
tempo o país vem lutando para a erradicação impulsionador de mudanças. Passa a ser não
deste problema social. O contexto do mais um coadjuvante, mas autor da própria
analfabetismo está rodeado por problemas construção da vida.
sociais que contribuem para que os índices,
ainda nos dias de hoje, sejam alarmantes. LETRAMENTO E
Falar de problemas de escolarização é falar ALFABETIZAÇÃO
de problemas como desigualdade, miséria,
políticas públicas ineficientes e desemprego. Conceituar o termo alfabetização parece
Todos esses fatores contribuem para a não algo simples, algo que já é dado como
erradicação do analfabetismo. conhecido, familiarizado, é um termo que
já está no vocabulário de pessoas letradas e
Por outro lado, observa-se um esforço não letradas. Entende-se, dessa forma, como
crescente, por parte do Governo, para que um conceito definido e expresso na própria
tal situação seja menos degradante. Houve linguagem do senso comum. Não se torna
iniciativas muito positivas com programas assim tão difícil interpretar e conceituar o
sócias que propiciaram o ingresso de jovens termo no limite da consciência daqueles que
e adultos à educação. A educação é um não sabem ler e nem escrever.
direito de todos e a própria Constituição
Federal (1988) garante isso no seu artigo Para que se entenda de forma clara
6º: “são direitos sociais a educação, a saúde, e precisa, faz-se mister analisar o termo
a alimentação, o trabalho, a moradia, o Alfabetização dentro de uma compreensão
transporte, o lazer, a segurança, a previdência etimológica. O significa etimológico parte
social, a proteção à maternidade e à infância, do sentido de levar à aquisição do alfabeto,
a assistência aos desamparados, na forma isto é, ensinar a ler e a escrever. Assim, a
desta Constituição”. especificidade da Alfabetização é a aquisição
do código alfabético e ortográfico, por meio
Partindo desse princípio, compreende- do desenvolvimento das habilidades de
se que a educação e uma sociedade letrada leitura e de escrita.
são de fundamental importância para o
desenvolvimento e crescimento de um país. Segundo Magda Soares (2003) nas
Uma sociedade bem desenvolvida é uma palavras analfabetismo e analfabeto aparece
sociedade bem alfabetizada. O letramento o prefixo a(n). Nesse sentido, analfabeto é
leva o indivíduo a outro estado no qual as aquele que é privado do alfabeto, que falta
suas capacidades são potencializadas em o alfabeto, é aquele que não conhece o

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Revista Educar FCE - Março 2019

alfabeto, que não sabe ler e escrever. “Ao alfabetização – métodos sintéticos (silábicos
pé da letra, significa aquele que não sabe ou fônicos) e métodos analíticos (global),
nem o alfa, nem o beta – alfa e beta são as que padronizaram a aprendizagem da leitura
primeiras palavras do alfabeto grego; em e da escrita. No entanto, não se tem a
outras palavras: aquele que não sabe o bê-a- pretensão de discorrer sobre esses métodos
bá” (SOARES, 2003, p. 30). neste trabalho. Apenas elucidar os referidos
métodos no processo de alfabetização.
Na palavra analfabetismo, aparece
ainda o sufixo –ismo: indicando “o modo de Sendo assim, pode-se conceituar
proceder” como analfabeto. O analfabetismo, alfabetização da seguinte maneira:
nesta perspectiva, é um estado, uma
condição, o modo de proceder daquela que Nesse sentido, define-se alfabetização – tomando-
se a palavra em seu sentido próprio – como o processo
é analfabeto (SOARES, 2003). Alfabetizar, de aquisição da “tecnologia da escrita”, isto é, do conjunto
portanto, é ensinar a ler e a escrever. Ainda de técnicas – procedimentos, habilidades – necessárias
nesta palavra, observa-se o sufixo –izar: para a prática da leitura e da escrita: as habilidades de
codificação de fonemas em grafemas e de codificação
indicando “o modo de tornar, fazer com”. de grafemas e fonemas, isto é, o domínio do sistema
Alfabetizar, dentro desta compreensão, é de escrita (alfabeto, ortográfico); as habilidades motoras
tornar o indivíduo capaz de ler e escrever. Por de manipulação de instrumento e equipamentos para
que a codificação e decodificação se realizem, isto
sua vez, alfabetização é a ação de alfabetizar, é, a aquisição de modos de escrever e de modos de
de tornar “alfabeto” (SOARES, 2003). ler – aprendizagem de uma certa postura corporal
adequada para escrever ou para ler, habilidades de
uso de instrumento da escrita (lápis, caneta, borracha,
De princípio, pode causar “estranheza corretivo, régua, de equipamentos como máquina de
o uso dessa palavra ‘alfabeto’, na expressão escrever, computador...), habilidades de escrever ou ler
‘tornar alfabeto’. É que dispomos da palavra seguindo a direção correta da escrita na página (de cima
para baixo, da esquerda para a direita), habilidades de
analfabeto, mas não temos o contrário dela: organização espacial do texto na página, habilidades de
temos a palavra negativa, mas não temos a manipulação correta e adequada dos suportes em se
palavra positiva” (SOARES, 2003, p. 31). escreve e nos quais se lê – livro, revista, jornal, papel sob
diferentes apresentações e tamanho (folha de bloco, de
almaço, aderno, cartaz, tela de computador...) (SOARES,
Ao longo da história, essas ações 2003, p. 91).
foram tornando-se mais complexas, e
suas definições se ampliaram, passando a De maneira simplificada, afirma-se que
envolver, notadamente a partir da década alfabetização é o processo pelo qual se adquire
de 90, do século passado, um novo termo: o domínio de um código a das habilidades
o letramento. A alfabetização considerada de utilizá-lo para ler e escrever, ou seja, é o
como o ensino das habilidades de domínio da tecnologia, conjunto de técnicas,
“codificação” e “decodificação” foi transposta que auxilia na arte e na ciência da escrita. O
para a sala de aula, no final do século XIX, exercício efetivo e competente da tecnologia
mediante a criação de diferentes métodos de da escrita denomina-se letramento.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A palavra letrado e iletrado, assim como ajudando a entender o próprio fenômeno.


analfabeto, são de conhecimento comum, Ele vai indicar que se o termo “letramento”
não precisando buscar grandes explicações surgiu é porque um fato novo se evidenciou,
para conceituá-las. O letrado é aquele que no qual um nome era preciso. A palavra
é versado em letras, é o erudito. Versado letramento é uma tradução do inglês para o
em letras significa ser versado em literatura, português da palavra literacy.
línguas. O iletrado é aquele que não tem
conhecimentos literários, que não é erudito, Literacy deriva da palavra latina littera,
analfabeto ou quase analfabeto. que significa letra. O sufixo ¬–cy indica
qualidade, condição, estado. Litercy,
Para Soares (2003, p. 32), o sentido portanto, é condição de ser letrado. Aqui
que tem “atribuído aos adjetivos letrado e o termo literacy diferencia-se do termo
iletrado não está relacionado com o sentido empregado no português, tendo uma
da palavra letramento”. Isto porque a palavra conotação muito mais ampla do termo usual.
letramento ainda não está dicionarizada, visto A palavra literate, no inglês, tem a conotação
que a sua introdução na língua portuguesa de ser “educado”, não somente a fim de ser
se deu de forma muito recente. Não se sabe respeitoso ou gentil, mas, especificamente, o
precisar, exatamente, quando essa expressão sentido da habilidade de ler e escrever.
surgiu pela primeira vez.
Nesse sentido, o “literante” dentro de
Parece que a palavra letramento apareceu pela uma conotação inglesa é o adjetivo que
primeira vez no livro de Mary Kato: No mundo da
escrita: uma perspectiva psicolinguística, de 1986. [...] caracteriza a pessoa que domina a literatura
A palavra letramento não é, como se vê, definida pela e a escrita. Já o termo literacy “designa o
autora e, depois dessa referência, é usada várias vezes estado ou condição daquele que é literante,
no livro; foi, provavelmente, essa a primeira vez que a
palavra letramento apareceu na língua portuguesa – daquela que não só sabe ler e escrever, mas
1986 (SOARES, 2003, p. 32-33). também faz uso competente e frequente da
leitura e da escrita” (SOARES, 2003, p. 36).

Sobre isso, Mary Kato (1986, p. 45) Seguindo essa compreensão, torna-se
vai afirmar que “ainda que a chamada perceptível a diferença entre saber ler e
norma-padrão, ou língua falada culta, é escrever – ser alfabetizado – e a condição-
consequência do letramento, motivo por estado de quem sabe ler e escrever – o
que, indiretamente, é função da escola letrado –, que não significa, simplesmente, o
desenvolver no aluno o domínio da linguagem erudito. Isto é, a pessoa que aprende a ler
falada institucionalmente aceita”. e a escrever – alfabetizada – e faz uso da
leitura e da escrita no seu contexto sócio-
Por outro lado, Soares (2003) dá uma dica histórico, dando sentido ao seu mundo e
importante em relação ao próprio conceito, transformando as realidades – o letrado

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Revista Educar FCE - Março 2019

– é diferente da pessoa que não sabe ler social, cultural, cognitivo, linguístico,
e escrever – analfabeto -, ou, mesmo que histórico, entre outros. A pessoa passa a fazer
saiba ler e escrever – alfabetizada -, não faz parte das decisões de transformação e se
uso da leitura ou da escrita no seu contexto torna um agente impulsionador de mudanças.
sócio-histórico – não letrado -, não vive a Passa a ser não mais um coadjuvante, mas
condição-estado de quem sabe ler e escrever autor da própria construção da vida.
e prática e leitura e a escrita.
Soares, no livro Letramento no Brasil
Soares (2003, p. 36), nesta perspectiva, vai (2003, p. 91-92), vai definir letramento da
elucidar, de forma muito clara, o que significa seguinte forma:
essa condição-estado do ser letrado:
Ao exercício efetivo e competente da tecnologia
Estado ou condição: essas palavras são importantes da escrita denomina-se letramento, que significa
para que se compreendam as diferenças entre habilidades várias, tais como: capacidade de ler ou
analfabeto, alfabetizado e letrado; o pressuposto é escrever para atingir diferentes objetivos – para informar
que quem aprende a ler e a escrever e passa a usar a ou informar-se, para interagir no imaginário, no estético,
leitura e a escrita, a envolver-se em práticas de leitura e para ampliar conhecimento, para seduzir ou induzir, para
de escrita, torna-se uma pessoa diferente, adquire um divertir-se, para orientar-se, para apoio à memória, para
outro estado, uma outra condição. catarse...; habilidade de interpretar e produzir diferente
Socialmente e culturalmente, a pessoa letrada já tipos e gêneros de textos; habilidades de orientar-se
não é a mesma que era quando analfabeta ou iletrada, pelos protocolos de leitura que marcam o texto ou de
ela passa a ter outra condição social e cultural – não lançar mão desses protocolos, ao escrever; atitudes de
se trata propriamente de mudar de nível ou de classe inserção efetiva no mundo da escrita, tendo interesse e
social, cultural, mas de mudar seu lugar social, seu modo prazer em ler e escrever, sabendo utilizar a escrita para
de viver na sociedade, sua inserção na cultura – sua encontrar ou fornecer informações e conhecimentos,
relação com os outros, com o contexto, com os bens escrevendo ou lendo de forma diferenciada, segundo
culturais torna-se diferente. as circunstâncias, os objetivos, o interlocutor...

Há a hipótese de que tornar-se letrado é Por isso, fala-se muito, nos dias hodiernos,
também tornar-se cognitivamente diferente: em analfabetismo funcional. O analfabeto
a pessoa passa a ter uma forma de pensar funcional é aquele que aprendeu a ler, a
diferente da forma de pensar de uma pessoa escrever e a identificar números, mas que
analfabeta ou iletrada. não sabe decodificar, de forma simples, o
que se lê e o se escreve ou realizar operações
Ser letrado significa muito mais do que matemáticas simples. Fala-se, também,
saber ler e escrever; significa a condição de um analfabetismo absoluto, em que a
de possibilidade da transformação do pessoa não teve nenhum ou pouco acesso à
indivíduo no contexto sócio-histórico bem educação. As duas formas de analfabetismo
determinado. O letramento leva o indivíduo a comprometem o desenvolvimento pessoal e
outro estado no qual as suas capacidades são social do indivíduo.
potencializadas mediante vários aspectos:

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Revista Educar FCE - Março 2019

Portanto, a alfabetização e o letramento A IMPORTÂNCIA DA


são processos distintos, de natureza ALFABETIZAÇÃO NA
essencialmente diferente, entretanto, são
interdependentes e mesmo indissociáveis. APRENDIZAGEM
O letramento, nesse sentido, deveria ser o
processo natural da alfabetização. Porém, O conceito de aprendizagem é muito
a alfabetização não precede e nem é pré- amplo e sua definição permeia diversas
requisito para o letramento, ou seja, para a teorias. É muito corrente o uso dos
participação em práticas sociais de escrita. substantivos “ensino” e “aprendizagem” para
Uma pessoa não alfabetizada pode sim ter fazer referência aos processos “ensinar” e
níveis de letramento que foram adquiridos “aprender”. Mas nem sempre fica claro que as
ao longo da vida. São as pessoas que tem palavra referem-se a um “processo” e não a
“sabedoria”, muito mais que a teoria, elas “coisas estáticas” ou fixas. Nem sequer pode
têm a experiência vivencial. ser dito que correspondam a dois processos
independentes ou separados. As respostas
Dessa forma, a educação passa a ter tradicionais não satisfazem. Definições como
outra conotação. Educação, em sentido as de dicionário (ensinar é “dar instrução a”,
experiencial, completa-se na busca pelo “doutrinar”, “mostrar com ensinamento”,
“saber”. Saber é um vocábulo que vem do “demonstrar”, “instruir” etc.) são meros
latim sapere que significa ter gosto, exalar sinônimos ou redundâncias e não diferem
um cheiro, perceber pelo sentido do gosto. muito das definições entre profissionais
Em sentido figurativo, entende-se como ter da Educação (“transmitir conhecimento
inteligência, ter conhecimento, compreender ou conteúdo”, “informar”, “preparar”, “dar
etc. O saber, compreendido dessa forma, consciência” etc.).
não é sinônimo de erudição, mas, antes de
tudo, é expressão experiencial da vida, nos Paulo Freire denunciou que essas
seus mais diversos aspectos. É uma atitude expressões são compatíveis com o que define
de compreensão do homem e do mundo, uma “concepção bancária” de educação e
buscando alargar a mente e aperfeiçoar cada não permitem o desenvolvimento de uma
vez mais o conhecimento humano. “prática educacional” adequada. “Este é
um pensar que percebe a realidade como
processo, que capta em constante devenir e
não como algo estático. Não se dicotomiza a si
mesmo na ação. Banha-se permanentemente
de temporalidade cujos riscos não teme”
(FREIRE, 1996, p.47).

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Revista Educar FCE - Março 2019

Antes, contudo, de uma definição mais Numa linguagem mais neuropsicológica,


teórica e conceitual, faz-se mister uma pode-se entender todo o dinamismo
conceituação etimológica, até para bem de aprender como “uma mudança de
entender os diversos significados e a sua comportamento resultante de prática ou
relação dentro de uma compreensão mais experiência anterior. Também pode ser
formal. Aprendizagem vem de aprender, vista como a mudança de comportamento
do prefixo ad, que significa “junto”, mais viabilizada pela plasticidade dos processos
prehendere, com o sentido de levar para si. neurais cognitivos” (ROMERO, BEBER,
Aprendizagem, etimologicamente, significa BAGGIO & PETRY, 2006, p. 224).
levar para junto de si, ou, de forma mais
metafórica, levar junto da memória. “É algo Aprendizagem é condição de possibilidade
que se realiza dentro da cabeça do indivíduo de conhecimento de tudo aquilo que é
– no seu cérebro” (GAGNÉ, 1980, p. 4) externo, cultural e histórico. Ou seja, é um
Entende-se aqui “levar para junto de si” processo contínuo que ocorre durante toda a
como algo atribuído, algo que é agregado, que vida do indivíduo, desde a mais terra infância
passa a fazer parte. É processo. E esse passar até a mais avançada velhice. Assim, pode-se
a fazer parte é o processo de aprendizagem. definir esse processo como o ato de aprender
“A aprendizagem é chamada de um processo ou adquirir conhecimento por intermédio da
porque é formalmente comparável a outros experiência ou de um método de ensino.
processos humanos orgânicos, tais como
a digestão e respiração. Entretanto, a A natureza da aprendizagem humana
aprendizagem é um processo muito intrincado e o interesse constante em compreender
e complexo, algo apenas parcialmente como o homem constrói conhecimento já
compreendido atualmente” (Ibid., p. 4). eram objetos de estudo na Antiga Grécia:
na formulação socrática de que o homem
Evidentemente, a aprendizagem é um processo deveria, antes de tudo, conhecer a si
do qual são capazes certos tipos de organismos
vivos. Muitos animais, incluindo os seres humanos, mesmo e na convicção de Platão, de que os
mas não as plantas. É um processo que torna conhecimentos do homem foram adquiridos
estes organismos capazes de modificar seu de uma vida anterior.
comportamento de modo relativamente rápido,
de uma forma mais ou menos permanente, de tal
modo que não tenha que ocorrer frequentemente, O desenvolvimento das disciplinas
em cada nova situação. Um observador externo científicas no século XIX, entre elas a
pode reconhecer que houve aprendizagem quando
observa a ocorrência da mudança comportamental Psicologia, foi de fundamental importância
e também a permanência desta mudança. Inferindo para o esclarecimento e aperfeiçoamento
destas observações está um novo “estado de diferentes teorias sobre o processo de
permanente”, atingido pelo aluno (Ibid, p. 5).
construção do conhecimento e demais teorias
cognitivas que se preocupam em investigar o
desenvolvimento desta capacidade humana.

489
Revista Educar FCE - Março 2019

No século passado, muitas pesquisas baseadas no mundo a partir das interações por ele
em experimentos e observações contribuíram estabelecidas. Contudo, é importante que
para a abertura de um campo de estudos os processos para tais transformações se
que mais tarde iria se estruturar em torno façam com vistas a contar efetivamente com
de diferentes teorias cognitivas ou teorias o indivíduo, conforme por Agnes Heller: “[...]
de aprendizagem, ressaltando os aspectos o homem torna-se indivíduo na medida em
relacionados aos processos de construção e que produz uma síntese em seu EU, em que
desenvolvimento do conhecimento, o papel transforma conscientemente os objetivos
da educação e demais atividades relacionadas e as aspirações sociais em objetivos e
ao sujeito que aprende. aspirações particulares de si mesmo e em que,
desse modo, socializa ‘sua particularidade’”.
Este processo pode ser analisado por meio (HELLER, 1982, p. 80). Portanto, de forma
de várias vertentes, mas independentemente conceitual, a aprendizagem pode ser
da prioridade que dão a determinados definida como o processo de aquisição de
fatores, um ponto comum presente nas informações, conhecimentos, habilidades,
teorias da aprendizagem é o paralelismo valores e atitudes possibilitados por meio do
entre as representações e condições internas estudo, do ensino ou da experiência.
do indivíduo e as situações externas a ele.
A aprendizagem é um processo complexo,
O ambiente do aluno, frequentemente, inclui um pois sua fonte encontra-se no meio natural-
professor, assim como outros alunos. O professor
tem muitas coisas a fazer e pode estar ocupado em social, abrangendo os hábitos que formamos
atividades que promovam a aprendizagem em um e a assimilação de valores culturais ao longo
número de alunos diferentes, simultaneamente. do processo de socialização. Nele ainda
Os outros aprendizes na mesma situação,
interagindo com um grupo, em equipes ou pares, intervêm muitos fatores internos de natureza
ou como indivíduos, podem estar aprendendo psicológica e biológica que interagem entre
as mesmas coisas, coisas diferentes, ou podem si e ambos com o meio externo. Assim, a
mesmo não estar aprendendo. Para entender e
reconhecer a aprendizagem que se está realizando, situação em que ocorre a aprendizagem pode
é necessário que se relacionem estes vários tipos ser compreendida como o momento em que
de características do ambiente ao processo que a criança enfrenta uma exigência externa,
se espera que ocorra no aluno, individualmente
(GAGNÉ, 1980, p. 6). e, portanto, social, e consequentemente
mobiliza e desenvolve respostas para atender
de maneira satisfatória essa exigência.
Tendo em vista a ação do indivíduo
sobre o meio e a maneira como cada ser Ainda que não se possa se restringir aos
humano organiza, aprende e interioriza processos ocorridos exclusivamente no
as informações de uma dada realidade, a ambiente escolar, o reconhecimento de que há
aprendizagem resulta em uma transformação uma característica individual no modo como
que tem por base as experiências do sujeito cada pessoa aprende implica necessariamente

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Revista Educar FCE - Março 2019

em uma revisão crítica e constante avaliação da República (1889) houve grande interesse
dos processos de ensinar e aprender, em qualificar a mão de obra para atender o
reconhecendo a existência de diferentes estilos processo de urbanização e industrialização.
de aprendizagem, planejando e aplicando
estratégias de ensino de acordo com os ritmos Esse processo se deu de forma muito lenta
de aprendizagem de cada aluno. e muito segregaria. O acesso à educação não
era tão democrático e havia disparidade na
Portanto, a aprendizagem não se resume implementação de um projeto nacional. Em
apenas a adquirir conhecimento, “mas 1946, o país foi marcado por um período
criar as possibilidades para a sua própria importante na busca da erradicação do
produção ou a sua construção (FREIRE, analfabetismo. A UNESCO, no plano
1996, p. 21). Configura-se como processo internacional, tornou pública a sua luta
e produto inacabados e diferentemente contra o analfabetismo auxiliando os países
desenvolvidos. Compreender e intervir de subdesenvolvidos a reverter esse quadro.
forma propositiva sobre diferentes ritmos de Em princípio a entidade implementou vários
aprendizagem resulta, por parte do sujeito projetos em todos os continentes (de 1966
que aprende, na construção do conhecimento a 1973) e, mais tarde (em 1980), adotou a
e no aprimoramento do desenvolvimento promoção de projetos regionais. A partir desse
cognitivo, tornando-o o maior responsável momento surgiu a noção de alfabetização
pelo controle da própria aprendizagem, funcional, concebida pela UNESCO e que,
capaz de refletir e pensar com autonomia conforme Barbosa (1994, p. 29), “tem por
assim como aplicar o conhecimento a novas objetivo proporcionar condições efetivas
situações ao longo da vida. para que os indivíduos possam enfrentar
com competência satisfatória as diversas
situações que o mundo lhes propõe”.
RELAÇÃO ENTRE
ANALFABETISMO, POBREZA Fala-se em educação, nos tempos
modernos, evidenciando um caráter amplo,
E DESIGUALDADE democrático, plural e irrestrito. A escola
brasileira tem se esforçado por garantir
O analfabetismo está relacionado o ingresso do aluno à educação de base,
diretamente com a pobreza, desigualdade e cumprindo um dos pilares da sociedade
com políticas públicas que garantam o acesso moderna. Contudo, a permanência de
à educação de forma democrática. Nem crianças e jovens no espaço educacional, é
sempre a educação no Brasil foi tomada como um desafio crescente, demonstrando uma
primordial e de interesse público. Sempre triste realidade.
esteve relegada a questões de interesse
político. Contudo, depois da Proclamação

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Revista Educar FCE - Março 2019

O plano de valorização da educação poucos, vem sendo reduzido no Brasil. Em


e, consequentemente do aluno, permeia 2004 a porcentagem nessa faixa etária era de
problemas que envolvem uma ampla cadeia 11,5%, já em 2012 essa taxa passa a ser de
reflexiva, instaurando desdobramentos 8,7%. Essa redução é ainda mais expressiva
complexos, contraditórios e em alguns casos no Norte e Nordeste, onde estão localizados
assustadores. A educação não depende só os maiores índices de analfabetismo do
de novos incentivos, edifícios e materiais país. Entre a faixa de 15 a 19 anos, a Pnad
coloridos e atraentes, mas, também, de um de 2012 registra taxa de analfabetismo de
olhar clínico para diversos envolvimentos, 1,2%, índice muito inferior à média geral,
desenvolvimentos, rupturas e análises com o que demonstra a efetividade de políticas
resultados satisfatórios, como, por exemplo, públicas em curso para a educação básica.
o número considerável de analfabetos
funcionais no Brasil: uma realidade Desde os anos 80, do século passado,
preocupante. o Ministério da Educação tem construído
uma política educacional sistemática no que
Segundo Naoe (2012), as taxas de tange ao enfrentamento do analfabetismo.
analfabetismo no Brasil, normalmente Programas como Brasil Alfabetizado é uma
tratadas dentro do universo de números e ação do governo federal desenvolvida em
metas, deveriam, segundo especialistas em colaboração com estados, Distrito Federal
educação, ser também analisadas dentro da e municípios. O programa garante recursos
área de política social e econômica, já que a suplementares para a formação dos
população considerada analfabeta é a mesma alfabetizadores; aquisição e produção de
que sofre de outros problemas que afligem o material pedagógico; alimentação escolar e
país. O mapa do analfabetismo, dessa forma, transporte dos alfabetizandos. Prevê, ainda,
coincide com o mapa do desemprego, da bolsas para alfabetizadores e coordenadores
fome, e da falta de moradia. voluntários do programa.

A pessoa não é analfabeta porque ela deseja Incentivos nesse nível, é fundamental para
ser, mas por um sistema de desigualdade. Ou uma ação efetiva e comprometida com a
seja, a pessoa não nasce analfabeta, mas é o erradicação do analfabetismo, integrando a
próprio sistema social que a condiciona a ser alfabetização a políticas de jovens e adultos,
analfabeta. Esse sistema atinge, na maioria para que os estudantes tenham condições
dos casos, pessoas simples e de regiões mais de dar continuidade em seu processo
vulneráveis, como o Norte e Nordeste. educacional.

Segundo estudo do PNAD (Pesquisa Mas analfabetismo está intrinsicamente


Nacional por Amostra de Domicilio) (2012), relacionado com desigualdade social. E a
o analfabetismo de jovens e adultos, aos desigualdade, assim como a educação, é um

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Revista Educar FCE - Março 2019

problema endêmico no Brasil. Os problemas renda do país. No outro extremo, 40% dos
sociais do Brasil ficam evidenciados e mais pobres concentravam somente 13,3%
podem ser compreendidos com o auxílio e da renda do país. A disparidade é enorme, e
interpretação de indicadores sociais. Houve contribuí para o analfabetismo.
um progresso muito considerável destes
indicadores nos últimos anos, notadamente Em 2011, o Ministério do Desenvolvimento
em relação ao aumento da expectativa Social e Combate à Fome calculou, tomando-
de vida, queda da mortalidade infantil, se como base dados do IBGE e estudos do
acesso a saneamento básico, coleta de lixo Ipea, que existam 16,2 milhões de brasileiros
e diminuição da taxa de analfabetismo. (8,6% do total) vivendo na miséria extrema
Contudo, apesar dos avanços, há diferenças ou com ganho mensal de até R$ 70. Nesse
regionais ainda são enormes, especialmente panorama, as regiões Nordeste (18,1%)
em relação ao nível de renda. e Norte (16,8%) lideram o levantamento,
ao passo que o Sul tem menos gente
Os problemas sociais se evidenciam de extremamente pobre (2,6%).
forma clara, sobretudo, com o IDH (Índice
de Desenvolvimento Humano), o qual o De acordo com Vasconcellos et al (1999),
Brasil, entre 188 países e territórios, fica na entre os anos de 1950 e 1990, a divisão
79ª posição de acordo com dados de 2015 regional de renda ficou praticamente
divulgados pela ONU (Organização das inalterada, com algum crescimento da
Nações Unidas), embora tenha uma economia participação das regiões Centro-Oeste e
forte, sendo considerada a oitava economia Norte, em decorrência da expansão da
do mundo. Nota-se que condições e recursos fronteira agrícola. Em 1990, a região Sudeste,
para alcançar posições mais consideráveis, com 42% da população brasileira, respondia
tem, o que falta são políticas que propiciem por quase 60% da renda do país, ao passo
realmente esses avanços, especialmente na que o Nordeste, com 30% da população,
área da educação. possuía 15% da renda.

A base de dados do PNUD (2015) mostra De acordo com os dados do Ipea (2012)
que o Brasil está entre os 10 mais desiguais (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) a
do mundo. Há uma enorme desigualdade no concentração fez com que a riqueza ficasse
Brasil, e isso impede o avanço do país em concentrada em poucos municípios e foi
diversos setores. Segundo dados do IBGE ampliada em decorrência da centralização
(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de gastos e investimentos públicos, o que
(2012), houve uma redução na desigualdade causou o congelamento e desestímulo aos
social no Brasil nos últimos dez anos, mas não desenvolvimentos regional e local. “Em
muito expressiva, tendo em vista que 10% 1920, os 10% municípios economicamente
da população mais rica concentrava 42% da mais ricos tinham 55,4% de participação no

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PIB, ampliaram para 72,1% em 1970 e para do solo, são elementos que, de alguma
78,1% em 2007” (Ipea, 2012). forma, dificultam o progresso em aéreas já
debilitadas.
Ainda segundo dados do IBGE (2010),
seis capitais brasileiras concentram 25% de Agregado a esses fatores, a região
todo Produto Interno Bruto (PIB) do país: com maior concentração de pobreza é o
São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Nordeste, que possui áreas com altos índices
Belo Horizonte e Manaus. De acordo com o de miséria, analfabetismo, desnutrição, em
mesmo estudo, as diferenças regionais em virtude de uma estrutura socioeconômica
cada estado também são claras, visto que, frágil e marcada pela desigualdade social,
em 2008, os cinco maiores municípios do ocasionalmente agravada pelas secas
Amazonas eram responsáveis por 88,1% do periódicas da região e inexistência de
PIB estadual, assim como no Amapá (87,6%) rios, que impedem o desenvolvimento da
e Roraima (85,4%). agricultura.

Vasconcellos (1999) vai apontar alguns Todos esses aspectos contribuem não só
motivos como responsáveis pelas diferenças para a desigualdade social, mas também para
regionais: 1) falta de políticas públicas para a evasão escolar. No qual muitas crianças
a inclusão social da massa populacional ou jovens são levados a trabalharem muito
vinda abruptamente do processo escravista; cedo para ajudar no sustento da família.
2) o processo de industrialização de cunho Os últimos dados do IBGE (2010) sobre
concentrador; 3) a divisão de terras em analfabetismo configuram um mapa de
latifúndios e voltada para uma minoria; 4) desigualdades com base em fatores já
as baixas taxas de absorção e remuneração levantados acima: concentração de terra, de
da mão de obra e crises econômicas renda e de oportunidades. Esse é o preço
acompanhadas por longos períodos que o país paga pelo descaso do Estado em
inflacionários mais sentidas pelas classes muitas regiões do Brasil, e por uma série de
menos favorecidas. fatores que contribuem para o crescimento
da desigualdade.
Paralelo à essas dificuldades, algumas
áreas não conseguem se desenvolver em O Brasil tem quase 14 milhões de
decorrência do isolamento geográfico e da analfabetos, segundo o IBGE (2010). A
ineficiência do poder público para atender maior parte encontra-se na região Nordeste,
várias demandas, como desenvolver a em municípios com até 50 mil habitantes,
infraestrutura básica, atrair investimentos e na população com mais de 15 anos, entre
gerar empregos. Alguns municípios também negros e pardos e na zona rural, isto é,
não conseguem organizar-se localmente. encontra-se na população historicamente
Condições climáticas, assim como as marginalizada. O censo vai revelar que houve

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uma redução significativa de 29% em relação aos números apresentados em 2000, mas
ainda insatisfatória, especialmente, quando considerados os critérios utilizados pelo IBGE.
Considera-se alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever um bilhete simples. Esse conceito
é muito polêmico entre os pesquisadores, visto que se se for utilizado um critério um pouco
mais exigente, esse índice sobe drasticamente.

O analfabetismo no Nordeste chega a 28% na população de 15 anos ou mais, em


municípios com até 50 mil habitantes, onde a proporção de idosos não alfabetizados é de
aproximadamente 60%. Embora o número de analfabetos absolutos esteja diminuindo, como
aponta o IBGE (2010), outros índices, como o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf)
indicam que aumenta o número de pessoas que não conseguem utilizar o conhecimento
da língua para se inserir nas práticas sociais de uso da leitura e da escrita. Se levado em
consideração essa parcela da população chamada de “analfabetos funcionais”, o número
saltaria de 14 milhões para quase 35 milhões. É um número muito expressivo e que faz
repensar o modo como se ensina no Brasil.

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Diversos programas foram lançados, pelo Governo, na tentativa de erradicar o


analfabetismo: Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos de 1947; a Campanha
Nacional de Erradicação do Analfabetismo de 1958; o Programa Nacional de Alfabetização,
baseado no método Paulo Freire, de 1964; o Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral)
entre os anos de 1968 e 1978; a Fundação Nacional de Educação de Jovens e Adultos
(Educar) de 1985; o Programa Nacional de Alfabetização e Cidadania (Pnac) de 1990; o
Plano Decenal de Educação para Todos de 1993; e, no final do último século, o Programa
de Alfabetização Solidária, de 1997. Já neste século, tem-se o programa federal “Brasil
Alfabetizado”.

Portanto, nota-se que, em cada governo, foram promovidos esforços a fim decombater o
analfabetismo, que se mostra, ainda nos dias de hoje, um problema social crônico no Estado
brasileiro. Como já está confirmado, mediante diversos programas de incentivo, não basta
somente ensinar a ler e escrever, como se isso fosse sinônimo de alfabetização, é necessário
levar a pessoa a um desenvolvimento sócio-econômico-cultural. A educação deve perpassar
o todo da vida, levando o indivíduo a uma transformação sócio-histórico efetiva.

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Muitos Programas Federais sofreram Por fim, erradicar o analfabetismo é uma


críticas contundentes por não levar o meta válida, como tem tentado os programas
indivíduo à inclusão social, visto que por acima citados, porém, isso exige um esforço
participarem de tais programas eram ainda maior e traz consigo outro fantasma, o
estigmatizados como ignorantes. Outra da exclusão social, ligado a aspectos como a
crítica era quanto ao método e a duração do democratização dos bens culturais, o acesso à
programa: muitos desses programas tinham cultura, justiça, moradia e trabalho. Reduzir os
o intuito de ensinara a ler e a escrever num índices de analfabetismo até sua erradicação
curto período de tempo. Toda uma vida total é um compromisso assumido pelo
foi construída pelo indivíduo sem o uso da Brasil em diversas ocasiões e documentos,
leitura e da escrita e não é nada fácil mudar inclusive a própria Constituição garante isso
isso. Para os indivíduos que são analfabetos como um direito. É direito de toda cidadão
até os 15 anos ou mais, definitivamente não brasileiro ter acesso à educação, e educação
é hábito ler e escrever e é impossível se de qualidade.
mudar o hábito de vida de alguém somente
com um ano de curso de alfabetização. “Acabar” com o analfabetismo em números,
no entanto, pode não significar, em termos
Além da interrupção brusca, muitas vezes reais, uma mudança efetiva. O Brasil pode
“forçada” por diversos motivos, há outros até cumprir essas metas de alfabetização,
problemas nos programas de alfabetização de mas esses números nunca vão representar
jovens, ligados à condição de miséria social a real situação da exclusão educacional e
dessa parcela da população e que dificultam do analfabetismo no país. Sempre por trás
sua entrada e permanência em tais programas, dos números estão ocultas as atrocidades
como a falta de estrutura de transporte praticadas com a educação em relação aos
coletivo, falta de escolas no campo, fome, a seus aspectos qualitativos. O qualitativo é
necessidade de trabalhar etc. A formação dos sacrificado em prol do quantitativo para se
docentes também é um fator que preocupa. cumprir metas, para mostrar números aos
Não há a exigência que sejam profissionais organismos internacionais que fornecem
de educação para atuar como alfabetizadores recursos para a melhoria da educação em
nesses programas, basta ter o ensino médio países subdesenvolvidos como o Brasil.
completo para tal. Essa precarização acaba
afetando o processo, comprometendo os Nesse sentido, acabar com o analfabetismo
resultados esperados ou as metas pretendidas no Brasil significa acabar com a exclusão
com sua implantação. Também há o descaso social, acabar com as desigualdades que
nos cursos de magistério, pois nem todos assolam milhares de brasileiros e ferem o
(uma grande maioria) querem trabalhar com a princípio de igualdade e direito. Acabar com
educação de adultos, visto que isto exigiria uma o analfabetismo é possibilitar dignidade e
postura pedagógica totalmente diferenciada. respeito a cada cidadão; é dar condição de

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crescimento e possibilidade de participação nas decisões de transformação do país. Acabar


com o analfabetismo é possibilitar que um novo mundo seja criado ar redor de cada pessoa.
É possibilitar sonhos e transformações.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A educação é o bem mais precioso de uma nação. Um país
desenvolvido e transformado socialmente é um país que
optou por acreditar em cada ser humano como agente de
transformação e de sonhos. A alfabetização não só possibilita
o acesso ao entendimento de tetos, mas possibilita o acesso
à compreensão de mundo e a uma condição-estado de
interpretação da própria vida.

Verificou-se, portanto, que uma sociedade bem


desenvolvida é uma sociedade bem alfabetizada. O
letramento leva o indivíduo a outro estado no qual as
suas capacidades são potencializadas por meio de vários
aspectos: social, cultural, cognitivo, linguístico, histórico,
entre outros. ARLETE DOS SANTOS
PACHECO
Observou-se, também, a importância da alfabetização
Graduação em Pedagogia pela
para a aprendizagem. Aprendizagem vem de aprender, do UNISA – Universidade Santo
prefixo ad, que significa “junto”, mais prehendere, com o Amaro (2001); Especialista em
sentido de levar para si. Aprendizagem, etimologicamente, Educação Para a Diversidade
pela Faculdade Campos
significa levar para junto de si. Aprendizagem é condição de Elíseos (2011); Especialista em
possibilidade de conhecimento de tudo aquilo que é externo, Alfabetização e Letramento pela
cultural e histórico. Ou seja, é um processo contínuo que Faculdades Integradas Campos
Salles (2017); Professora de Sala
ocorre durante toda a vida do indivíduo, desde a mais tenra de Apoio Pedagógico em Língua
infância até a mais avançada velhice. Portuguesa na EMEF Prof. Leão
Machado.

Conclui-se, dessa forma, que o analfabetismo está


relacionado diretamente com a pobreza, desigualdade e
com políticas públicas que garantam o acesso à educação
de forma democrática. Ninguém nasce analfabeta, mas esse
processo é gerado por uma série de fatores que contribui para
tal evento. Erradicar o analfabetismo está intrinsicamente
relacionado com a erradicação da exclusão social e da
desigualdade. Acabar com o analfabetismo é possibilitar
dignidade e respeito a cada cidadão; é dar condição de
crescimento e possibilidade de participação nas decisões de
transformação do país.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Contemporânea. 3ª Ed. São Paulo: Atlas, 1999.

501
Revista Educar FCE - Março 2019

ARTE E MUSICALIDADE:
PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO
BÁSICA
RESUMO: Este artigo visa refletir sobre as questões que permeiam o universo da Arte na
educação, com ênfase na Educação Infantil, analisando suas particularidades, possibilidades
e o papel do educador na perspectiva da implantação de uma educação significativa e de
qualidade social.

Palavras-Chave: arte, educação infantil, desenvolvimento, educação musical.

502
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO com as relações da criança e do mundo que


a cerca, pois a educação é um dos alicerces
Em épocas passadas e sob o pensamento para esse caminho.
neoliberal, o que se aprende no ensino de
Arte tem pouco a ver com as reivindicações, O objetivo de pesquisa neste trabalho foi
estratégias de racionalidade produtiva e um estudo de questões fundamentais do
competitiva e da eficácia que a sociedade ensino de Arte para elaborar um currículo
reivindica. Hoje, as teses inatistas ou amplo desta área com crianças pequenas.
ambientalistas, constante nos debate Em seguida, abordamos o currículo de Arte
através dos séculos, há uma concepção, uma na Educação Infantil é descrito por meio dos
filosofia que sustenta que os seres humanos conteúdos de Artes Visuais e Música, formas
construindo o conhecimento a partir do fato metodológicas para realizar com eles nas
de viverem em contextos transformados salas de aula.
pelas concepções, ações e artefatos
produzidos pelas gerações precedentes. Neste momento do desenvolvimento, é
necessário que a criança experimente a Arte,
Essa concepção foi denominada de a importância do pensar, o agir, do criar, e do
construtivista. Em todas as culturas, os expressar de forma a construir não só própria
instrumentos não só são utilizados, mas história, mas a história do lugar onde vive, do
também se ensinam. O papel das atividades mundo, entendendo dessa forma o contexto
práticas que aprendemos a realizar em social, que participa ou que está inserida. O
diferentes contextos educativos e como educador tem extrema importância nesse
forma de relacionarmos e construirmos processo. É necessário definir com as crianças
significados é um ponto de partida para os o objetivo da atividade antes de qualquer
estudos sobre como os processos ocorrem coisa a fazer a “alimentação estética” por
psicologicamente. Pesquisas mais atuais da meio de observação de obras, conhecimento
psicologia do desenvolvimento manifestam de artistas que fizeram a história, materiais
que esse processo de construção de que possibilitem a criança o manuseio e a
significados se produz em função de um descoberta.
contexto que se constrói de acordo com uma
necessidade de interpretar a realidade. Para A manifestação artística tem em comum
explicar a construção de significado podem com o conhecimento científico, técnico ou
ser adotadas várias perspectivas. filosófico o seu caráter de criação e inovação.
Essencialmente, o ato criador, em qualquer
A arte enquanto processo de construção de dessas formas de conhecimento, estrutura e
conhecimento da criança é aprofundada neste organiza o mundo, respondendo aos desafios
trabalho de forma histórica e contextualizada que dele emanam, num constante processo
no Brasil. O processo artístico humaniza-se de transformação do homem e da realidade

503
Revista Educar FCE - Março 2019

circundante. O produto de ação criadora, a da cultura que vive e dos conhecimentos que
inovação, é resultante do acréscimo de novos adquire com a vivência diária. O processo de
elementos estruturais ou da modificação criatividade se dá de formas diferenciadas
de outros. Regido pela necessidade básica na prática humana, ora se dá através da
de ordenação, o espírito humano cria, capacidade criadora na combinação de
continuamente, sua consciência de existir elementos resignificados, ora se dá de forma
por meio de manifestações diversas. Desse a relacionar o cotidiano a situações de
modo, enquanto linguagem, a arte auxilia- aprendizagem que se redimensionam a partir
nos a “ler” nossas experiências ao lidar com da realidade de cada um.
o mundo externo em nossa organização
interna, contribuindo, por meio da expressão Quando se pensa em arte na escola, parece
dos conflitos decorrentes de nossa situação relevante refletir sobre valores, emoções,
no universo sociocultural a que pertencemos sentimentos e significações construídas
para a compreensão e interpretação do duplo por meio desta forma de comunicação e
que somos. Assim, além de “ler”, por meio de expressão.
um sistema simbólico “escrevemos”, via arte,
nossas experiências vividas. A Educação através da Arte vem se
caracterizando pelo posicionamento
idealista, direcionado para uma relação
PERSPECTIVAS SOBRE subjetiva com o mundo. Embora tenha tido
O ENSINO DE ARTES NO pouca repercussão na educação formal,
contribui com a enunciação de uma visão
ENSINO BÁSICO de arte e de educação com influências
recíprocas. Na educação artística nota-se uma
O ensino de Artes exige tanto do professor preocupação somente com a expressividade
como do aluno a criatividade, inventividade individual, com técnicas, mostrando-se, por
e busca constante de conhecimentos. outro lado, insuficiente no aprofundamento
Reconhece-se que no âmbito educacional do conhecimento da arte, de sua história e
muito se tem enfatizado a questão da das linguagens artísticas propriamente ditas.
criatividade, dando-lhe várias definições,
entre elas considerando os jeitos sociais, Outro ponto importante é a reflexão
em alguns outros pontos, estudiosos da quanto a Arte enquanto disciplina. Há que
criatividade humana tem tentado conceituá- se compreender que esta área de ensino
la de forma similar ou igualitária como conta com objetivos diversos que levam a
nascida das noções cognitivas. aprendizagem, como propõe os Parâmetros
Curriculares Nacionais:
A criatividade é a expressão de todas as
habilidades criativas do ser humano, diante

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Revista Educar FCE - Março 2019

O intuito do processo de ensino e objetiva o uso da criatividade de cada aluno,


aprendizagem de Arte é o de capacitar os pois ao desenvolver suas habilidades de
estudantes a humanizarem-se melhor como expressão artística a criança e ao adolescente
cidadãos inteligentes, sensíveis, estéticos, estarão aptos para a aprendizagem, também
reflexivos, criativos e responsáveis, no refletindo a relação da Arte com a construção
coletivo, por melhores qualidades culturais da história da humanidade.
na vida dos grupos e das cidades, com ética
e respeito pela diversidade (PCN, 1997, p. A atitude positiva do professor neste
173). sentido, é fundamental para a interação,
confiança na comunicação e construção de
Assim, o ensino de Arte não pode estar vínculos dentro do contexto da aprendizagem
relacionado a improvisação, mas deve primar através da arte no ensino fundamental. Para
pelo planejamento que englobe elementos isso é importante que o professor não use
advindos da cultura, valores, crenças, as dificuldades do aluno como referência. As
vivências, ideologias, metas e sentimentos de mensagens positivas podem ser transmitidas
diferentes alunos, não devendo ao educador de forma simples, direta, reforçando e
ferir ou menosprezar cada um desses elogiando as tentativas de acerto, utilizando,
aspectos. É importante ainda considerar as quando necessário, Artes Visuais como
potencialidades individuais e coletivas do forma de comunicação e interação.
grupo de alunos que se trabalhar.
O papel da arte na educação é grandemente
O trabalho do professor deve estar afetado pelo modo como o professor e o
voltado para uma metodologia embasada na aluno veem o papel da arte fora da escola.
criatividade, mas sem fugir ao entendimento [...] A arte não tem importância para o
da turma que atende. Lembrando que para homem somente como instrumento para
cada fase do ensino fundamental muda-se o desenvolver sua criatividade, sua percepção,
foco, a forma de ensinar e a linguagem utilizada. etc., mas tem importância em si mesma, como
É necessário que o educador também se assunto, como objeto de estudo (BARBOSA,
desprenda do que é extremamente teórico e 1995, p. 90-113).
busque instrumentos que relacione também
a prática cotidiana de arte, despertando em Partindo da importância da arte como
seus alunos todas as suas potencialidades. potencial de criatividade do aluno, percebe-
O respeito às ideias e a vontade artística de se que a escola deve colaborar no seu
cada um também é primordial. processo de ensino para que os alunos
aprendam a desenvolver habilidades que
Em suma, o ensino de artes na escola, ampliem o seu potencial, não só criativo,
tanto no ensino fundamental quanto ensino mas também, artístico.
médio, deve promover de maneira clara e

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Revista Educar FCE - Março 2019

É importante que o professor saiba A necessidade da Arte-Educação é:


organizar a gradação dos assuntos no âmbito ampliar o âmbito e a qualidade da experiência
do fazer e apreciar arte. Propor atividades estético-visual. Existem quatro hipóteses para
de ensino, considerando os mais simples e um currículo de arte-educação: experiência
os mais complexos. O professor deve estar estética e visual; as artes plásticas, as telas,
atento as faixas etárias, interesses e direitos artesanatos, arte popular, mídia eletrônica;
de acesso aos bens culturais artísticos no a produção de Arte para o crescimento em
mundo contemporâneo. O professor assume extensão e qualidade da estética visual;
papel de mediador no desenvolvimento informações sobre a experiência estética
cognitivo do aluno. facilitando o âmbito e a qualidade dessa
experiência.
Diante destes aspectos é relevante
citar que, como historicamente pode-se Citamos os estímulos que provocam
observar, a arte na educação possuía um esteticamente as artes de massa. De
perfil de recreação e de desenvolvimento qualquer forma a história em quadrinhos,
emotivo e motor. Todo o desenvolvimento pôsteres, televisão, filmes e todas as outras,
do aluno deve ter, como ponto de parida, a são informadas sobre arte por intermédio do
experimentação e sensibilização. A disciplina envolvimento com as Belas Artes.
de artes fará com que o aluno desenvolva
a percepção, a expressão corporal, musical, As artes populares e o artesanato na
de maneira natural que proporcionará uma sala de aula podem ser um fruto natural
estimulação permanente. dos interesses extraescolares dos alunos.
Existe na natureza visual maior quantidade
A arte Educação precisa de um forte de itens, como colcha da vovó, do que na
conceito central. A maioria das ideias que música folclórica. Os nós que estão nas
tendem fornecer uma direção curricular para artes plásticas deveriam ser mais rápidos do
a arte educação, não reflete suas ajudas que os que estão em outras formas de arte,
específicas. no sentido de explorar essas áreas para a
educação.
As experiências com a arte são meramente
um meio para algum fim mais importante, A colcha da vovó é a forma com que cada
admirável como veículo. aluno traz sua bagagem em particular que
poderá ser a colcha da vovó, pôsteres de
Os programas de Arte Educação tem sido artistas, mídia fílmica (cinema e televisão),
o uso da arte como meio de elucidar os etc. Devemos explorar esses interesses
meios onde os mundos sociais, econômicos pessoais.
e político agem, podendo ser desenvolvidos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Sendo contemporâneas no estilo as artes controle” são palavras-chave, de uma corrente,


da tela são dramáticas, musicais e visuais. “liberdade” e “iniciativa” são o lema da outra.
Sua popularidade é dividida pelas massas A lei é afirmada aqui, a espontaneidade é
e coletividade, em vez de ser limitada e proclamada ali (Dewey,1902).
elitista. Seu caráter artístico é comumente
mais óbvio que sutil. Dewey, afirma é uma lição que vale a pena
reaprendermos, a solução para a excessiva
Os caminhos podem ser através do qual rigidez não é o laissez-faire, e também não
a arte-educação possa atingir o jovem e é solução adotar o meio termo. Há quatro
incrementar o âmbito e a qualidade da coisas principais que as pessoas fazem com
sua experiência estética. Ao reduzirmos a arte: elas veem arte; elas entendem o lugar
isto a um ateliê de desenvolvimento de da arte na cultura através dos tempos; elas
atividades, teremos: produção da história fazem julgamento sobre suas qualidades;
em quadrinhos; produção de filmes e vídeos; elas fazem arte.
desenhos ou recriação de espaços urbanos.
Essas operações constituem no DBAE: a
Precisamos procurar outros meios para produção; a crítica; a história; estética da arte.
aumentar os conteúdos para que possamos A realização dessas intenções educacionais
promover uma reação maior a qualquer depende da existência de um currículo
forma das artes visuais. que crie probabilidade das experiências
nos quatro itens, na qual a sequência e a
A arte tem conteúdo específico a oferecer, continuidade são de suma importância.
algo inerente às artes. O aprendizado artístico
com materiais de arte, o papel do professor Os bons materiais curriculares, além
de forma ativa e exigente. A boa educação de guiar, libertam. Eles guiam e sugerem
significa mais que aprender a ler, escrever e conteúdos, atividades e objetivos. Para
trabalhar com computadores. À medida que Ana Mãe a crítica da Arte, História da Arte
a reforma curricular vai se consolidando, as a Estética são instrumentos que garantem
artes conquistam seu lugar nas escolas. a experiência que a arte torna possível.
A arte acomoda uma ampla ajuda ao
A Arte não pode ficar sem vida, como tem desenvolvimento das experiências.
ocorrido com o que ensinamos em todos os
níveis da educação. Os significados que a arte possibilita visam
como objetivos gerais expandir as formas de
A educação norte-americana na sua leitura e escrita. Em nossa cultura, as palavras,
história tem duas tensões: desenvolvimento números, movimentos, imagens, padrões de
e características. A visão centrada na criança formas e sons, são formas por meios das
enfatiza a idiossincrasia pessoal. “Orientação e quais os significados são representados.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Sem estrutura, não se atinge a A educação em arte propicia o


automaticidade. E, sem internalização não desenvolvimento do pensamento artístico
existe magia e da percepção estética, o educando
desenvolve sua sensibilidade, percepção e
imaginação, tanto ao realizar formas artísticas
ARTE E MUSICALIDADE NA quanto na ação de apreciar e conhecer as
ESCOLA formas produzidas por ele e pelos outros,
pela natureza e nas diferentes culturas.
Como um expressar humano, e como
expressão, a Arte, envolve todas as linguagens O fazer artístico é o processo resultante
(instrumento de exteriorização, revelação e da manipulação de um material, um
intercâmbio), possibilitando a captação e a objeto ou uma ideia com metas objetivas
interação entre o homem e o seu meio em expressivas e estéticas, desta forma capaz
busca do almejado equilíbrio. de conter e transmitir emoções. A forma do
processo criativo em arte tem sido abordada
Quando a pessoa se utiliza do processo por diferentes teóricos e as diferenças
de criação, o seu corpo, sua percepção, dependem da faceta do processo criativo
seus conceitos, sua emoção, sua intuição, que eles focalizam.
estão integrados em único momento. Jung
chamou a atenção para dois movimentos O mundo dos sons, das cores e do
básicos da consciência - um de fora para movimento marca presença junto às crianças.
dentro: introversão; outro de dentro para Queiramos ou não, é evidente que a criança
fora: extroversão. As obras de arte mostram já vivencia a arte produzida pelos adultos,
esses dois mundos, o interno e externo e a presente em seu cotidiano. É obvio que
interação destes dois. Nesse movimento, as essa arte exerce vivas influências estéticas e
polaridades humanas, descritas por Jung, artísticas na criança, e que a criança com ela
como: sensação, pensamento, sentimento e interage de diferentes maneiras.
intuição podem ser expressas e integradas.
Nos momentos de brincadeiras ou durante
Segundo Bruton, por meio da prática da os recreios escolares as crianças revivem seus
arte, o homem pode chegar mais perto da personagens favoritos da televisão, cantam
“alma”. A arte cumpre seu propósito mais as músicas ouvidas no rádio ou reproduzidas
elevado e adquire um significado mais na tradição regional.
valioso quando se torna veículo para a
beleza “espiritual”. Ela embeleza a existência Alguns autores apontam que os programas
humana, e, também, expressa a existência de televisão, são muito apreciados por
divina. crianças, em especial as propagandas, jingles
e desenhos animados. Portanto, aparecem

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Revista Educar FCE - Março 2019

nos desenhos e jogos infantis os super- tanto da natureza quanto da cultura


heróis, ou mesmo elementos contidos em como um todo. Para enriquecer as aulas é
programações para crianças e até naquelas necessário solicitar que as crianças levem
dirigidas aos adultos. para escola, por exemplo, elementos que se
refiram a um determinado assunto de arte a
As crianças apropriam-se das imagens, ser trabalhado.
sons e gestos contidos nas mensagens
veiculadas pelas mídias, reelaborando-os Desta maneira, havendo o interesse em
reutilizando-os na maioria das vezes de uma trabalhar a percepção de formas e seus
maneira pessoal. elementos, como textura, cores, pode-
se colecionar da natureza – flores, folhas,
Por isso, no trabalho de intermediação gravetos, pedras, etc. ou de materiais
educativa em arte os professores devem produzidos pelo homem como tecidos,
focalizar também as mídias, o universo pedaços de papéis, rótulos, embalagens,
tecnológico, as mais recentes produções de fotografias, ilustrações, objetos de uso
design e de comunicação visual, musical ou cotidiano, sons, canções de outros, que serão
outras que componham nossa ambiência. reunidos na classe como material auxiliar
para as aulas de Arte.
O objetivo é a ampliação dos saberes das
crianças em arte, podendo-se descobrir os Uma conversação interessante sobre esses
componentes artísticos por meio de leitura, materiais favorece os aspectos perceptivos,
apreciação, interpretação e análise mais sendo que esse processo dinâmico auxilia a
crítica dessas produções comunicativas. compreensão de formas, imagens, símbolos,
ideias.
O professor terá o trabalho educativo de
intermediar os conhecimentos existentes A música quando utilizada na Educação
da criança e oferecer condições para novos Infantil serve de ferramenta incentivadora
estudos, pois a criança está em constante da criatividade nas crianças, e um fator de
assimilação de tudo aquilo com que entra desinibição numa convivência coletiva. É
em contato no seu meio ambiente. Portanto, muito eficaz nesta fase da educação. Desde
é necessário saber lidar com os fatos em a gestação, as crianças antes de nascerem
sala de aula, constituindo a sua metodologia já possuem uma relação com os sons da voz
de trabalho. A principal tarefa do educador materna, fase em que se forma a memória
é auxiliar o desenvolvimento dessas sonora nas crianças.
observações e percepções das crianças.
Essa memória fetal é responsável por
Qualquer conceito estético ou artístico preparar o vínculo entre mãe e filho depois
pode ser trabalhado a partir do cotidiano, do corte do cordão umbilical. Depois do

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Revista Educar FCE - Março 2019

nascimento, as músicas que acalentam Ao se estabelecer na criança o jogo, o


e embalam o sono do bebê fortalecem a trabalho, a imaginação e a razão, solidificam-
memória sonora nos pequenos e a relação se o polo extremo da assimilação espontânea
com a mãe. do real, para o sistema lógico de significação,
organizadas no espaço e tempo.
Já no período pré-escolar as canções de
ninar ajudam a aproximar as crianças do A atividade lúdica se insere no
educador. As brincadeiras com palmas, rodas conhecimento baseado no fazer segundo
e cirandas ajudam no desenvolvimento da Bachelard. O indivíduo criador se expressa
percepção e atenção da criança desde cedo. intuitivamente complementando ao
conteúdo, conhecimento, vontade,
Passando a interagir e participar cada sentimento e a aparência. Há na fruição lúdica
vez mais intensamente com racionalidade uma interação nos jogos infantis, que por
na experiência, assimilando regras lógicas meio artístico, joga esteticamente revelando
gerais, o universo do adulto é o meio de um fator de conhecimento cultural.
desenvolvimento da criança. Criando
situações e espaços para o exercício da Todas as experiências e ações estéticas
liberdade, a criança age e faz sobre da resultam na: alegria do fazer, compreender,
matéria e o tempo momentos da ação. espontaneidade e concentração e como
adversário o inusitado e maravilhoso, com a
Três são os tipos de conhecimento beleza do momento.
figurativo: a percepção, a imitação e a
imagem mental, Piaget cita o fazer artístico Segundo o Referencial Curricular Nacional
do desenvolvimento da criança se estabelece “a música no contexto da Educação Infantil
nos jogos de ficção e jogos de construção. O vem, ao longo de sua história, atendendo
jogo de exercício é o primeiro que aparece a vários objetivos, alguns dos quais alheios
na criança, surge depois o jogo simbológico, às questões próprias dessa linguagem. Tem
que à medida que a criança cresce transforma sido, em muitos casos, suporte para atender
gradualmente em representações, a vários propósitos, como a formação de
bidimensionais e tridimensionais. hábitos, atitudes e comportamentos (...)
Essas canções costumam ser acompanhadas
Temos ainda o jogo das regras sociais por gestos corporais, imitados pelas crianças
ou interindividuais, diferentes do símbolo. de forma mecânica e estereotipada”, p.47
São nos jogos de construção que estão as
questões específicas da arte, que permitem O ambiente escolar para a criança deve
a transição entre as três categorias de estar repleto de repertórios musicais,
jogo, por envolver, transformar e acomodar principalmente com os sons da natureza e
simbolismos. a relação de entendimento entre o barulho

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Revista Educar FCE - Março 2019

e o silêncio, elementos diferenciadores no de passar pela experiência, pelo fazer, criar


entendimento de uma música verdadeira. e pensar sobre; o que envolve a realização,
a parte motora, a escuta, a reflexão, os
É necessário sempre diversificar os conceitos que a própria criança constrói.
repertórios do pré-escolar, as crianças
gostam de ter contato com diferentes estilos Em seus estudos e pesquisas Brito, pauta
musicais. As danças e rodopios é um bom o seu trabalho com as crianças em cima
exercício físico e ajuda no desenvolvimento do estudo do som e do silêncio. Para ela
da fala. para que a criança possa entender música
é necessário construir esse conceito. Brito
A música na Educação Infantil deve aponta “perceber gestos e movimentos sob a
ser uma importante fonte de estímulos, forma de vibrações sonoras é parte de nossa
equilíbrio e momento feliz para a criança. integração com o mundo em que vivemos”,
Cada momento musical deve incentivar a partir disso podemos entender a nossa
ações, comportamento motores e gestuais. paisagem sonora, um mundo musical ao qual
Entendemos a musicalidade como uma estamos sempre cercados.
tendência que leva o ser humano para a
música, quanto maior a musicalidade e mais Trazendo a criança para nossa discussão,
cedo a mesma é incentivada no indivíduo, podemos afirmar que esse mundo (paisagem
mais rápido será seu desenvolvimento. sonora), já faz parte muito cedo da vida
das crianças, ou melhor, esse contato com
A proposta de Brito para se trabalhar o mundo de vibrações já se dá desde a sua
a música na Educação Infantil vem se vida uterina”. Na escola de música desta
desenvolvendo há vinte anos na sua carreira educadora as crianças começam a fazer aulas
de educadora musical, possuindo várias a partir dos três anos, aproximadamente, pois
pesquisas sobre o assunto. Ela mostra ela acredita que a criança tem autonomia
uma visão da música não como objetivo para inventar e pensar sobre a música. Para
funcional, mas como elemento importante essas crianças, o primeiro exercício a ser
para a formação do homem. A música deixa trabalhado é a invenção de uma canção com
de ser só entretenimento, e passa a agir os nomes das crianças, com o objetivo de
como elemento para aprendizado, estímulo integração do grupo e a improvisação de
da percepção e desenvolvimento das instrumentos. Logo após, são explorados os
linguagens. jogos baseado no som e silêncio.

Para Brito, a educação musical para crianças Os primeiros anos de aprendizagem


é um processo continuo de construção, de são propícios para que a criança comece a
preferência ao longo prazo. Os processos de entender o que é linguagem musical, aprenda
construção do conhecimento musical tem a ouvir sons e a reconhecer diferenças entre

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Revista Educar FCE - Março 2019

eles. “Todo o trabalho a ser desenvolvido na Educação Infantil deve buscar a brincadeira
musical, aproveitando que existe uma identificação natural da criança com a música. A
atividade deve estar muito ligada à descoberta e à criatividade”, (2007), aponta Teca Alencar
em suas pesquisas.

Segundo Brito, o inicio do aprendizado da notação se dá partir do momento em que ela


faz sentido para as crianças. “Ler música é ler sons, caso contrário à leitura fica mecânica e
surda”.

O interesse mais definido por um instrumento em particular começa com a alfabetização,


quando a criança vai entrando no mundo da precisão, da consciência.

A criança se comunica como mundo desconhecido que a rodeia de diversas maneiras,


utilizando as expressões desde os seus primeiros meses de vida. De início, a linguagem é
movimento, é grito, é choro ou é riso, até transformar-se palavra. A partir daí a criança começa
outras formas de expressão: o salto, o gesto, sons, ruídos, a garatuja, ou seja, tudo que o faça
exteriorizar o que acontece em seu mundo interior, estimulado pelo mundo exterior.

Ao chegar até a escola, na Educação Infantil, a expressividade da criança é facilmente


perceptível ao professor. E este precisa estar atento para as mudanças comportamentais do
aluno, estimulando-o cognitivamente, desafiando sua psicomotricidade e, principalmente,
sua afetividade. Dessa maneira, ele estará garantindo o desenvolvimento integral da criança.

De maneira gradativa, a criança vai se soltando manifestando saltos e gritos, e as garatujas


vão se transformando em mímica, dança, canto, desenho e modelagem. A brincadeira lúdica
ou o jogo lúdico, pouco a pouco e naturalmente vai se transformando em jogo dramático.

É importantíssimo destacar que o professor, ao orientar as primeiras atividades de expressão


da criança, precisa considerar, antes de tudo, suas manifestações espontâneas, a única coisa
que permitirá a ela exteriorizar sua personalidade. Muitas sequelas podem ser deixadas por
uma condução irresponsável no que diz respeito à prática dessas atividades, dentre elas um
bloqueio, de que podem resultar em vários problemas, como timidez, agressividade, falta de
fluência verbal e gestual, dificuldade de relacionamento com os companheiros e outros mais.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As perspectivas curriculares de educação artística
para a compreensão da cultura visual distinguiram e
abordam produtos a partir de um novo campo de estudos
interdisciplinares.

A organização do conhecimento não pode admitir regras


universais, e a possibilidade de ordenação dos conteúdos
não pode ter uma forma única. Há maneiras de organizar o
ensino que favoreçam a aprendizagem para alguns grupos
de alunos, que se adapte melhor as finalidades educativas. BERENICE MONTEMURRO
BUENO
Sempre será necessário reorganizar cada trajetória
Graduação em Pedagogia
curricular estabelecendo diálogo com o que acontece nas Licenciatura Plena pela
diferentes experiências de sala de aula, da escola e de fora Faculdade Fundação Santo André
dela. Essas mudanças são levadas em conta o que propomos (09/12/1998); Pós Graduada em
Gestão Escolar pela Faculdade
para o ensino da cultura visual. Monte Alto ( 10/09/2011);
Professor de Educação Infantil e
Trata-se de desenvolver uma perspectiva de estudo que Fundamental I.

tem a intenção de estabelecer coerência entre problemas,


com a finalidade de opor-se ao potencial etnocentrista e
unidirecional das disciplinas atuais e de como se refletem
nos livros-textos.

Dessa forma, um currículo de educação para a


compreensão da cultura visual deve partir do conhecimento
crítico, tornando transparentes as concepções ocultas,
subjacentes, mediante a iniciação de um processo de
alteração criado para liberar e reforçar os diferentes grupos
de indivíduos. Os professores podem ajudar os alunos
a explorar as representações da cultura visual de uma
perspectiva transdisciplinar, com diferentes teorias sociais
e interpretações, e considerando a representação visual
como uma questão de convenções que se define por suas
condições históricas de origem.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A educação escolar é a formadora da reconstrução de sua própria identidade em relação às


diferentes construções da realidade que lhe cercam e que necessita aprender a interpretar.

Aprender é processo: social, comunicativo e discursivo, onde o papel do docente não deve
limitar-se a realizar uma intervenção ativa, planejada e intencional para formar aprendizagens
necessárias para o desenvolvimento global do aluno.

A aprendizagem da Arte é obrigatória pela Lei de Diretrizes e Bases -LDB - no Ensino


Fundamental e no Ensino Médio, no entanto essa obrigatoriedade não é suficiente para
garantir a existência da Arte no currículo. Somente a ação do professor pode torná-la
essencial para favorecer o crescimento individual e o comportamento dos cidadãos. Ao
Poder Público cabe propiciar meios para que os professores desenvolvam a capacidade de
compreender, e conceber a Arte.

A Arte-Educação tem sua missão de favorecer o conhecimento das diversas formas de


Arte. A Arte é um grande desafio pois, nos coloca questões que nos permite utilizar diversas
áreas do conhecimento, ela desafia, questiona, e levanta hipóteses.

A arte contemporânea é discutida por vários estudiosos e especialistas. Ela é complexa e


consequentemente seu ensino também. É necessário investimento na significação da Arte,
do artesanato e do design nas escolas, nas pesquisas, no artista e no educador juntos, e
rejeição da segregação cultural na educação como afirma Paulo Freire.

Uma mediação sempre será a articulação entre as histórias pessoais e coletivas dos
aprendizes de Arte. O educador deve ser capaz de criar situações que possam ampliar a
leitura e compreensão das pessoas, sobre sua cultura e seu mundo. No ensino da Arte é
preciso pensar em desafios instigantes e estéticos.

O papel da Arte na educação está relacionado aos aspectos artísticos e estéticos do


conhecimento. Expressar o modo de ver o mundo nas linguagens artísticas dando forma e
colorido é uma das funções da Arte na escola.

A educação estética tem como lugar privilegiado o ensino da Arte, entendendo por
educação estética as várias formas de leitura, de fruição que podem ser possibilitadas às
crianças no seu cotidiano. É preciso educar o olhar da criança desde a Educação Infantil. O
ensino da Arte contemporânea busca possibilitar atividades interessantes e acessíveis às
crianças.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
BARBOSA, Ana. MAE. (1981). Imagem no ensino da Arte: ano oitenta e novos tempos, São
Paulo: Perspectiva, 1981.

(ORG.). Arte-educação: leitura no subsolo. São Paulo: Cortez, 1997.

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Referencial Curricular Nacional para


Educação Infantil. Secretaria de Educação Fundamental, Brasília, 1998, vol. 3.

FONTERRADA, Marisa Trench de Oliveira. De tramas e fios: um ensaio sobre música e


educação. São Paulo: Editora da UNESP, 2008.

MARQUES, Isabel. A. Arte em Questões, São Paulo: Digitexto Editora, 2012

PILLAR, Analice Dutra (org.) A educação do olhar no ensino das artes. Porto Alegre: Mediação,
1999.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Divisão de


Educação Infantil. Parques sonoros da educação infantil paulistana. – São Paulo: SME /
COPED, 2016.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DA CONTAÇÃO
DE HISTÓRIAS NA EDUCAÇÃO
INFANTIL
RESUMO: Através de uma pesquisa realizada em livros e trabalhos acadêmicos que versem
sobre a temática ficou evidente que muitas crianças apresentam dificuldades de aprendizagem
durante o processo da alfabetização. O objetivo principal desta pesquisa foi o de investigar,
intervir, amenizar e estimular uma aprendizagem construtivista, envolto à afetividade,
com ações planejadas, dialogadas, significativas, e sistematizadas a partir do cotidiano e
dos interesses que envolvem duas instituições seculares: a família e a escola com o eixo
voltado às necessidades dos educandos. Todo este processo foi desenvolvido com leituras
e releituras de vários autores comprovadamente envolvidos com a problemática visando
que a criança apresente avanços com resultados positivos e significativos e família e escola
despertem para a importância de estreitar as relações no processo ensino aprendizagem.

Palavras-Chave: Dificuldade de Aprendizagem; Alfabetização; Criança; Família; Afetividade

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INTRODUÇÃO poderiam estar solucionados a partir de


uma ação mais competente, eficiente e
Atualmente, no cenário educacional abrangente da escola. Hoje, para além do
brasileiro, existem paradigmas que afetam fracasso escolar dos nossos educandos,
diretamente a atuação dos principais atores a escola passa a ser responsabilizada por
sociais na relação ensino-aprendizagem. É não conseguir oferecer alternativas que
cada vez mais recorrente a culpabilização alterem este quadro negativo, inclusive no
da ausência da família no acompanhamento avanço, acesso e permanência de crianças
do processo educacional da criança, o que e adolescentes em idade de frequentar o
gera, em alguns casos, a justificativa pela ensino regular.
inatividade da ação pedagógica do professor,
que, equivocadamente, ao menos em minha Foi com base nestas reflexões que, após
opinião e na opinião de diversos autores, um debate que objetivava a realização do
como perceberemos no transcorrer da leitura Planejamento Escolar 2012, achei oportuno
deste trabalho de pesquisa, não se sente realizar o trabalho, ora apresentado, para,
responsável pelo todo que compreende este a partir dele, provocar a problematização
processo. Segundo a afirmação de parte de outro viés presente no universo escolar:
destes profissionais, à escola cabe permitir o um recorte necessário sobre as dificuldades
acesso à leitura e escrita e, por conseguinte, de aprendizagem que tal situação – relação
ao conhecimento e, portanto, a socialização família-escola – ajuda ou dificulta o pleno
do indivíduo, sua conduta ética e moral, seus desenvolvimento do escolar.
anseios e inserção no mundo em sociedade
estaria a cargo da família, corresponsável Como profissional que atua na Educação
inclusive, pelo processo de desenvolvimento Infantil, a qual está contida na LDB, Lei de
das habilidades mínimas na trajetória escolar Diretrizes e Bases da Educação Nacional,
do aluno. como a modalidade que configura como a
primeira etapa da Educação Básica, a qual
Por outro lado, a divulgação de dados, deve ser considerada de suma importância
nas várias esferas de governo, geralmente e, justamente por isso está em perfeita
em forma de ranking, provoca um olhar consonância com o estudo deste tema,
desconfiado da sociedade para o universo acredito que esteja nela a possibilidade
escolar, ao mesmo tempo em que remete a em detectar vários problemas que possam
escola o rótulo de “salvadora da pátria”, vez facilitar a inserção da criança que realmente
que afirma que vários problemas sociais, possua alguma dificuldade e torne mais
econômicos, ambientais e de posturas branda a sua atuação no Ensino Fundamental.
mais sensíveis frente ao combate do
individualismo, dentre vários outros conflitos Desta forma, cumpre-me perguntar:
presentes na sociedade contemporânea, Como duas instituições que “supostamente”

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Revista Educar FCE - Março 2019

trabalham em separado podem se unir Conforme consta em Polity (1998, p.73),


frente à facilitação do processo ensino o termo Dificuldade de Aprendizagem é
aprendizagem das crianças? definido pelo Instituto Nacional de Saúde
Mental (EUA) da seguinte forma:
E para responder a esta questão/problema
tratei de não especificar ou conceituar esta Segundo a autora, esse termo é definido
ou aquela dificuldade de aprendizagem ou de várias maneiras, por diferentes autores,
distúrbios, com suas semelhanças e diferenças, diferindo-se quanto à origem: orgânica,
como denominam alguns estudiosos, mas intelectual/cognitiva e emocional (incluindo-se
tratá-la de forma ampla sem a presunção aí a familiar). O que se observa na maioria dos
de elaborar uma receita infalível para uma casos é um entrelaçamento desses aspectos.
convivência mais saudável e rentável, para o
aluno, entre as duas instituições. Para a compreensão das possíveis
alterações no processo de aprendizagem é
Sabemos que o processo de aprendizagem necessário considerar-se tanto as condições
é pessoal e a construção dessa internas do organismo (aspecto anátomo-
aprendizagem ocorre de diferentes maneiras funcional e cognitivo), quanto às condições
alterando-se de um sujeito para outro, as externas (estímulos recebidos do meio-
características individuais diferenciam-se ambiente) ao indivíduo. Fatores como
em particularidades pessoais que em alguns linguagem, inteligência, dinâmica familiar,
casos independem da aprendizagem. afetividade, motivação e escolaridade, devem
desenvolver-se de forma integrada para que
Esta dificuldade poderá acontecer o processo se efetive (ROGERS, 1988).
por vários motivos dentre eles destaco
a metodologia inadequada, ausência de Este trabalho refere-se ao papel da família
afetividade familiar e ou escolar e um olhar no desenvolvimento da aprendizagem da
mais cuidadoso perante as dificuldades criança quanto ao aspecto psicológico,
apresentadas pela criança durante o processo emocional, social e de estimulação dos
educacional. aspectos cognitivos.

As dificuldades de aprendizagem, Sabe-se que as crianças que apresentam


segundo Rogers (1988), podem significar dificuldades de aprendizagem, geralmente,
uma alteração no aprendizado específico possuem uma baixa autoestima em função
da leitura e escrita, ou alterações genéricas de seus fracassos e que esses sentimentos
do processo de aprendizagem, onde outros podem estar vinculados aos comportamentos
aspectos, além da leitura e escrita, podem de desinteresse por determinadas atividades,
estar comprometidos (orgânico, motor, tempo de atenção diminuído, falta de
intelectual, social e emocional). concentração e outros.

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Revista Educar FCE - Março 2019

A família, desconhecendo as necessidades são relevantes no desenvolvimento da


da criança e a maneira apropriada de lidar criança, havendo, portanto, a necessidade
com esses aspectos, muitas vezes, necessita de maior compreensão desse processo, por
de orientações que lhe dê suporte e lhe parte dos profissionais, para que possam
possibilite ajudar seu filho. Fatores como intervir de forma mais abrangente diante da
motivação, formas de comunicação, estresses problemática.
existentes no lar, influenciam o desempenho
da criança no processo de aprendizagem, e Em muitos casos, em um trabalho
os psicopedagogos, muitas vezes, sentem- especializado com crianças apresentando
se limitados quanto às orientações a dificuldade de aprendizagem, não é suficiente
serem dadas pela falta de conhecimento transmitir aos pais as atividades específicas
aprofundado sobre os diversos aspectos a serem realizadas; outros aspectos ligados à
familiares que podem contribuir para um família, à escola ou relacionados a dificuldades
resultado mais desejável. em outras áreas do desenvolvimento também
estão presentes, e é necessário ouvir os pais,
Vários comportamentos manifestados analisar a situação e buscar caminhos que
pelas mães também levam a questionar facilitem o desenvolvimento global da criança.
a respeito da influência familiar sobre a
aprendizagem. Segundo Marturano (1999), há Alguns pais confiam seus filhos com
mães que demonstram excessiva ansiedade dificuldade de aprendizagem aos professores
quanto a superação da dificuldade da acreditando que o mau desempenho da
criança; outras que se mostram impacientes criança seja proveniente apenas de si mesma,
quanto ao desempenho insatisfatório que o sem questionar sua possível participação
filho apresenta; mães que atribuem todo o nessas alterações.
problema à criança e a caracterizam como
“preguiçosa”, “lerda”, “distraída”; mães que A importância da participação da
negam a dificuldade que a criança demonstra; família no processo de aprendizagem é
mães que não acompanham as atividades de inegável e a necessidade de se esclarecer
seu filho e mães que punem a criança pela e instrumentalizar os pais quanto as suas
seu fracasso nas atividades escolares. possibilidades em ajudar seus filhos com
dificuldades de aprendizagem é evidenciada
Isso acontece pelo fato de os ao manifestarem suas dúvidas, inseguranças
pais desconhecerem como ocorre a e falta de conhecimento em como fazê-
aprendizagem e, portanto, necessitam de lo. Conforme Martins (2001, p.28), “essa
orientações específicas a esse respeito. problemática gera nos pais sentimentos
Sabe-se, também, que, muitas vezes, os de angústia e ansiedade por se sentirem
conflitos familiares estão associados a essas impossibilitados de lidar de maneira acertada
manifestações e que as relações familiares com a situação”.

519
Revista Educar FCE - Março 2019

Acredita-se que um programa de frequenta e pelas características próprias,


intervenção familiar seja de fundamental como temperamento.
importância para o desenvolvimento e
aprendizagem da criança. O relacionamento As crianças possuem uma tendência
familiar, a disponibilidade e interesse dos natural, instintiva que as direciona ao
pais na orientação educacional de seus desenvolvimento de suas potencialidades.
filhos, são aspectos indispensáveis de ajuda Os pais devem ter conhecimento desse
à criança. Em um trabalho de orientação a processo para que não dificultem ou impeçam
pais, de acordo com Polity (1998), é possível o crescimento espontâneo da criança.
despertar a sensibilidade dos mesmos para Pela falta de compreensão da natureza e
a importância destes aspectos, dando-lhes a necessidades básicas do ser humano, os
oportunidade de falar sobre seus sentimentos, pais, muitas vezes, prejudicam a busca do
expectativas, e esclarecendo-lhes quanto às próprio desenvolvimento, pela criança. O
necessidades da criança e estratégias que modo como os pais lidam com seus filhos
facilitam o seu desenvolvimento. pode ajudá-los no desenvolvimento das suas
potencialidades e no relacionamento com o
Através das experiências e relações mundo, possibilitando-lhes o enriquecimento
interpessoais, a família pode promover o pessoal através das experiências que o meio
desenvolvimento intelectual, emocional e lhes proporciona.
social da criança. Ela pode criar situações no
dia-a-dia que estimularão esses aspectos, O processo educativo (desenvolvimento
desde que esteja desperta para isso. Além gradativo da capacidade física, intelectual
disso, a participação da criança nas atividades e moral do ser humano) familiar deve ser
rotineiras do lar e a formação de hábitos adequado para possibilitar à criança o
também são importantes na aquisição dos sucesso na aprendizagem, proporcionando-
requisitos básicos para a aprendizagem, lhe a motivação, o interesse e a
pois estimulam a organização interna e a concentração necessária para a apreensão
habilidade para o ‘fazer’, de maneira geral do conhecimento.
(MARTURANO, 1998).
A adequação desse processo compreende
A família tem um papel central no o atendimento às necessidades da criança
desenvolvimento da criança, pois é dentro quanto à presença dos pais compartilhando
dela que se realizam as aprendizagens suas experiências e sentimentos, orientação
básicas necessárias para o desenvolvimento firme quanto aos comportamentos adequados,
na sociedade, como a linguagem, sistema possibilidade de escolhas, certa autonomia
de valores, controle da impulsividade. As nas suas ações, organização da sua rotina,
características da criança também são oportunidade constante de aprendizagem e
determinadas pelos grupos sociais que respeito e valorização como pessoa.

520
Revista Educar FCE - Março 2019

A criança necessita de equilíbrio e indisciplina ocorrem e podem ser causadas


entre condutas disciplinares e diálogo, pela ausência de limites. A primeira geração
compreensão e carinho. Num processo educou os filhos de maneira patriarcal,
educativo os pais experienciam a isto é, os filhos eram obrigados a cumprir
necessidade de um trabalho de autoanálise, as determinações que lhes eram impostas
de reestruturação de seus comportamentos, pelo pai. A geração seguinte contestou
crenças, sentimentos e desejos. Os pais esse sistema educacional e agiu de maneira
precisam conquistar em relação a si mesmos, oposta, através da permissividade. Os jovens
primeiramente, o que querem que os filhos ficaram sem padrões de comportamentos e
sejam: justos, disciplinados, honestos, limites, formando uma geração com mais
responsáveis (GRUNSPUN, 1985). Esse liberdade do que responsabilidade.
processo ocorre nas vivências do dia-a-dia,
na medida em que pais e filhos comunicam- Tanto na família quanto na escola,
se de maneira transparente e sincera, falando segundo Tiba (1999, p.45), há “a necessidade
de suas percepções, suas dúvidas, objetivos, de orientação às crianças quanto às
emoções, aprendendo uns com os outros. regras disciplinares, para que elas possam
desenvolver a capacidade de concentração e
Criar filhos não significa torná-los de apreensão dos conceitos”. A aprendizagem
perfeitos, pois os pais têm muitas dúvidas se dá de maneira gradativa e não será
e estão sujeitos a muitas falhas; mas o que possível sem a participação ativa do aluno,
é necessário é tentar identificar os conflitos de maneira disciplinada, orientada.
e desfazê-los, aprendendo a conviver com
essas situações. Através dos conflitos os Os pais devem preparar os filhos para
pais desenvolvem a percepção de si mesmos arcarem com suas responsabilidades. Na
e de seus filhos. Essas situações estimulam medida em que a criança vai aprendendo
pais e filhos a instalar um diálogo verdadeiro, a cuidar de si mesma, vai experimentando
expondo o entendimento e sentimento em a sensação gratificante da capacidade de
relação às experiências cotidianas. Por outro enfrentar desafios. E cada realização é um
lado, aspectos fundamentais do processo aprendizado que servirá de base para um
educativo revelam que os pais devem ter novo aprendizado. Assim, realizando suas
respeito sobre o que o filho sente, mas cabe vontades e necessidades, a criança vai
a eles negar com firmeza e determinação gostando de si mesma, desenvolvendo a
as atitudes que possam contrariar o que autoestima.
desejam para a educação de seus filhos
(TIBA, 1999). O relacionamento familiar também é
fundamental no processo educativo. A
Dificuldades escolares apresentadas pelas criança estará muito mais receptiva às
crianças, relacionadas à falta de concentração instruções dos pais, se os membros da

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Revista Educar FCE - Março 2019

família se respeitarem entre si, procurando prejudicam a aquisição de conhecimentos


conversar e colaborar um com o outro. como também, na maioria delas, são apenas
É importante a participação dos pais na resultantes de problemas educacionais ou
vida dos filhos, numa convivência como ambientais que não estão relacionados a um
companheiros, compartilhando emoções, o comprometimento cognitivo. Desse modo,
que contribui muito para a disciplina. faremos análises que não compreenderão
uma diferenciação entre dificuldades de
Todos esses aspectos citados e muitos aprendizagem ou dificuldade escolar e
outros são fundamentais para que o distúrbio de aprendizagem, embora existam
desenvolvimento da criança se efetive. autores que os diferenciem.
Portanto, a família necessita da ajuda
dos profissionais na aquisição desses Não se trata também de buscarmos
conhecimentos básicos e essenciais para aprofundamento nas questões voltadas a
que possa cumprir seu papel de facilitadora Dislexia, Disfasia, Disortografia, Disgrafia,
do processo de aprendizagem de seus Discalculia, Lesão Cerebral ou TDAH e sim
filhos, através de comportamentos mais levantarmos posicionamentos teóricos que
adaptativos. envolvem a temática relacionada aos atores
– público alvo – deste trabalho, quais sejam:
pais, alunos e professores.
O PAPEL DA FAMÍLIA
NO PROCESSO ENSINO- A aprendizagem é o processo por meio
do qual a criança se apropria ativamente do
APRENDIZAGEM conteúdo das experiências humanas, daquilo
que o seu grupo social conhece. Para que ela
Neste capítulo inicial é fundamental aprenda e supere as dificuldades precisará
delimitar como será entendido aqui, o interagir com outros seres humanos,
conceito “dificuldade de aprendizagem”, já especialmente com os adultos e com outras
que há na literatura científica, discordâncias crianças mais experientes. E esta primeira
e consensos entre distúrbio e dificuldade de convivência está inserida no contexto
aprendizagem. De acordo com Ciasca (2003) o familiar.
distúrbio de aprendizagem se caracteriza por
uma disfunção do sistema nervoso central, “A família é o lugar indispensável para a garantia
da sobrevivência e da proteção integral dos filhos
já a dificuldade escolar está relacionada e demais membros, independentemente do arranjo
especificamente à um problema de ordem familiar ou da forma como vêm se estruturando. É a
ou origem de método de ensino. Contudo, família que propicia os aportes afetivos e, sobretudo
materiais necessários ao desenvolvimento e bem-
Dockrell & McShane (2000) afirmam que estar dos seus componentes. Ela desempenha um
as dificuldades de aprendizagem podem papel decisivo na educação formal e informal, e é
ser decorrentes de déficits cognitivos que em seu espaço que são absorvidos o valor ético
e humanitário, em que se aprofundam os laços

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Revista Educar FCE - Março 2019

de solidariedade. É também em seu interior que


se constroem as marcas entre as gerações e são Existem fatores socioeconômicos,
observados valores culturais”. (Kaloustian, 1988, descritos pelos autores (Muñoz et. al,
p.65) 2005) dos quais os pais participam, sem
poderem facilmente modificá-los. Entre eles
A educação familiar é um elemento encontram-se as más condições de moradia,
imprescindível na formação da personalidade a falta de espaço, de luz, de higiene, assim
da criança, pois, é no seio familiar que como da alimentação mínima necessária para
constitui-se e desenvolve-se valores o crescimento e desenvolvimento infantil
morais, de juízo, éticos, sua criticidade adequado.
e cidadania que refletirá diretamente no
seu envolvimento escolar. É no contexto Conforme afirma Del Prette & Del Prette
familiar que se lapida e consolida na maioria (2005), os pais utilizam três alternativas para
dos casos o caráter da criança que virá a promover a competência social dos filhos:
tornar-se adulto. A família desempenha um o estabelecimento de regras através de
papel importante na formação do indivíduo, orientações, manejo de consequências por
pois permite e possibilita a constituição de meio de recompensas/punições e servindo
sua essencialidade. É nela que o homem como exemplo.
concebe suas raízes e torna-se um ser capaz
de elaboração alargador de competências Autores citados por Bolsoni-Silva &
próprias. Marturano (2002) apontam habilidades
parentais que interferem na aprendizagem
Muñoz, Fresnada, Mendoza, Carballo & e socialização dos filhos. Dialogar com os
Pestun (2005) descrevem fatores familiares filhos. Expressar os sentimentos dos pais
contribuintes citados por pesquisas para os seus filhos e aceitar os sentimentos
científicas para o transtorno da leitura, que dos filhos. Evitar o uso de punições,
acreditamos serem importantes para as privilegiando a utilização de recompensas
diversas dificuldades de aprendizagem. São aos comportamentos adequados. Ignorar
apontados como aspectos agravantes das o comportamento inadequado, não dando
dificuldades na aquisição de conhecimentos atenção a ele. Cumprir promessas, pois os
o alcoolismo, as ausências prolongadas, as pais ao prometerem e não cumprirem faz
enfermidades e o falecimento dos pais. A com que os filhos sintam-se enganados,
violência doméstica e a separação conjugal prejudicando o relacionamento familiar e
também afetam o ensino. Em relação aos servindo de exemplo de que não é obrigatório
irmãos, são ressaltadas as relações de cumprir com a palavra. Entendimento do
competitividade e rivalidade. Os maus hábitos casal quanto à educação dos filhos e a
(permitidos ou negligenciados pelos pais), participação de ambos os progenitores na
como assistir televisão demasiadamente e divisão de tarefas educativas. Habilidade
falta de descanso também contribuem. de dizer não, negociar e estabelecer regras

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Revista Educar FCE - Março 2019

para os filhos. Os pais precisam pedir tarefas outras atividades, que organizem um tempo
para os filhos de forma que sejam capazes mesmo que seja pouco, mas que seja um
de cumprir conforme idade e as habilidades tempo de qualidade, para uma relação com os
que possuem. A habilidade de desculpar- seus filhos de amor, respeito, compreensão,
se precisa ser considerada, pois os pais troca, socialização e crescimento. Neste
ao pedirem desculpas, estão admitindo sentido, precisam abrir mão da oferta de
os próprios erros e ensinando os filhos a brinquedos, televisão, videogame, para que
comportarem-se de forma parecida, o que é a atenção dessas crianças seja preenchida,
desejo dos pais. enquanto se ocupam com outras atividades
esquecendo-se de dar o carinho e o amor que
A participação dos pais nas atividades estas crianças necessitam tanto. E também,
escolares também é de suma importância, eles precisam ter a exata compreensão de
além das habilidades parentais. Sampaio, que não podem delegar para a escola o dever
De Souza & Costa (2004) acreditam que de educar com valores morais e afetivos, pois,
é relevante realizar um treinamento de além de propiciar fortes condições para as
pais para o auxilio do filho na realização dificuldades de aprendizagem, ainda trazer
adequada das tarefas de casa e com isso um grande prejuízo para a relação familiar.
estar atentos para condições antecedentes
aos comportamentos envolvidos no estudar,
os próprios comportamentos e as condições A CRIANÇA E SUA RELAÇÃO
consequentes a eles. As condições COM O UNIVERSO ESCOLAR
antecedentes são: ambiente organizado,
bem iluminado, silencioso, horário fixo de
estudo, material escolar completo e atraente. Muito tem se falado sobre as dificuldades
As respostas envolvidas compreendem: de aprendizagem que as crianças enfrentam
atenção aos prazos de entrega, postura na escola, os motivos que levam as mesmas
corporal adequada e métodos adequados a fracassarem e o papel fundamental da
de estudo. As condições após a execução do família. Mas e a escola? O que ela pode
ato de estudar são consequências positivas, fazer para ajudar seus alunos? O professor, a
como elogios e recompensas. coordenação pedagógica e outros membros
da equipe da escola? A escola deve ser
De fato, a família é o primeiro lugar que um lugar onde as crianças sintam vontade
passa segurança, que acolhe a criança após de ir, que peçam aos pais para levarem e
o nascimento. É importante que a criança acima de tudo, um lugar que possibilite o
encontre no lar proteção, segurança e apoio conhecimento, a aprendizagem. Por que
psicológico. Para um bom desenvolvimento então a escola, com tantas obrigações com
físico, mental e cognitivo, é necessário, seus alunos é uma das causas das dificuldades
mesmo que os pais tenham outros filhos, de aprendizagem?

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Revista Educar FCE - Março 2019

Segundo Piaget, à medida que o ser se situa sejam elas situadas no campo ou na cidade,
no mundo estabelece relação de significações, lugares estes geralmente descuidados pelo
isto é, atribui significados à realidade em poder público, discutir sobre a poluição
que se encontra. Esses significados não são dos riachos, dos córregos, os baixos níveis
faculdades estáticas, mas, ponto de partida de bem-estar das populações, os lixões
para atribuição de outros significados. Hoje, e os riscos que oferecem à nossa saúde.
os grandes objetivos da Educação são: Questioná-los fazendo comparações com
ensinar a aprender, ensinar a fazer, ensinar a estruturas e vantagens que bairros nobres
ser, ensinar a conviver em paz, desenvolver têm sobre os de periferia, dentre outras
a inteligência e ensinar a transformar questões pertinentes ao assunto.
informações em conhecimento. Para atingir
esses objetivos, o trabalho de alfabetização Desenvolvermos e construirmos com
precisa desenvolver o “letramento” das nossos alunos reflexões críticas sobre os
situações reais que estão vivendo. acontecimentos que envolvem o nosso
planeta em todos os aspectos sejam eles:
“O letramento é entendido como produto políticos, econômicos, educacionais,
da participação em práticas sociais que usam a
escrita como sistema simbólico e tecnologia [...]. ambientais, questões de cunho racial, de
São práticas discursivas que precisam da escrita etnias, ações discriminatórias, regionais,
para torná-las significativas, ainda que às vezes sociais entre tantos outros aspectos
não envolvam as atividades específicas de ler
ou escrever (Parâmetros Curriculares Nacionais relacionados a esta questão. Toda esta
BRASIL, 1998, p.19)”. dimensão sistematizada e dialogada de
forma significativa irá ajudá-los a entender
Os PCNs propõem um currículo baseado o seu contexto, incitando-o a pensar e agir
no domínio das competências básicas e que como um cidadão consciente, crítico, ativo
esteja em consonância com os diversos e participativo perante a sociedade na qual
contextos de vida dos alunos. está inserido.

Segundo Freire (1996), Ensinar exige Muitos estudos defendem o papel


respeito aos saberes dos educandos, da interação social no processo da
precisamos como educadores discutir com aprendizagem. Consequentemente, os
os alunos a razão de ser de alguns desses aspectos afetivos emergem como dimensão
saberes em relação com o ensino dos social do desenvolvimento humano.
conteúdos.
“Segundo GALVÃO (2000), Wallon
Como educadores devemos aproveitar argumenta que as trocas relacionais da
e respeitar as experiências que trazem os criança com os outros são fundamentais
nossos alunos, aproveitar os contextos e para o desenvolvimento da pessoa.” A
situações que se apresentam, em evidências, afetividade, o diálogo, a liberdade de

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Revista Educar FCE - Março 2019

expressão são elementos fundamentais para conseguem fazer uma leitura da corporeidade
os avanços que a criança pode apresentar e da expressão, percebendo dificuldades,
na sua forma de apreender a aprender. limitações. A partir de então estabelece
Sabemos que a realidade das salas de aula com este aluno uma relação de afetividade
nas escolas públicas, muitas vezes não nos facilitando a construção do conhecimento,
permite perceber simples gestos que podem tornando-o mais preciso e prazeroso.
tornar-se problemas futuros e ou até mesmo
presentes no contexto escolar, por isso, Wallon (1978) afirma que a criança acessa o
precisamos sempre nos auto avaliarmos para mundo simbólico por meio de manifestações
não sermos cúmplices em alguns casos, das afetivas que se estabelece entre elas e os
dificuldades de aprendizagem apresentadas adultos. Para ele, à medida que o indivíduo se
pelos nossos educandos. desenvolve cria-se uma forma de expressão
mais complexa. O docente passa ser um
As ideias de mediação e internalização ponto de referência para o aluno, por isso
encontradas em Vygotsky (1994) permitem deve-se redobrar o cuidado na relação entre
defender, que a construção do conhecimento o professor e o aluno. É importante ressaltar,
ocorre a partir de um intenso processo de que toda relação pedagógica tem dimensão.
interação entre as pessoas.
“Na relação pedagógica, o que se aprende não
é tanto o que se ensina, mas o tipo de vínculo
O papel do outro tem uma importância educador/educando que se estabelece na relação”.
fundamental enquanto formação do sujeito, (GARCIA.1998, p.41).
já que o outro é importante na construção
do que sou, pois, sozinho não há conflito Pela relação que estabelece na sala
e não terá modificação. A interação com de aula, o professor ao ensinar, exerce
o outro, desperta no sujeito a capacidade significativa influência sobre o aluno que
de buscar novas significações e trocas de aprende, levando-o a alterar, modificar e
conhecimento. E indubitavelmente, é no transformar atitudes, ideias habilidades e
espaço escolar que esta relação se intensifica. comportamentos. Sua atuação ultrapassa,
no entanto, a simples transmissão de
As escolas devem estar preparadas conhecimentos. Como professor preciso me
para receber os alunos, mas para que esse mover com clareza na minha prática.
“acolhimento” tenha sucesso integralmente
é preciso que os profissionais que atuam A relação ensinar e aprender não se limita
diretamente com os discentes tenham uma ao espaço da sala de aula. Ela é muito mais
formação adequada. ampla, estendendo-se além da escola na
medida em que as expectativas e necessidades
Quando os profissionais são capacitados sociais bem como a cultura, valores éticos,
e possuem uma formação continuada, eles morais e intelectuais, os costumes, as

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Revista Educar FCE - Março 2019

preferências, entre outros fatores presentes dialogada com os alunos, na construção coletiva
na sociedade, tem repercussão direta no do saber valorizando a realidade social do aluno.
trabalho educativo.

(...) saber que ensinar não é transferir CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS


conhecimento, mas criar as possibilidades para a
sua própria produção ou a sua construção . Quando PARA AS CRIANÇAS
entro em uma sala de aula de aula devo estar
sendo um ser aberto a indagações, a curiosidade, As estruturas familiares estão mudando a
as perguntas dos alunos, as suas inibições: um ser
crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que cada dia e isto está trazendo alguns reflexos
tenho – a de ensinar não de transferir conhecimento. para o desenvolvimento do aluno em sala de
(FREIRE. 1996, p 47). aula. Muitas vezes os pais delegam a função
de educar somente á escola se ausentando
Segundo Freire é necessário desmistificar das reuniões e atividades escolares fazendo
que a escola tem como função primordial com que o aluno se desinteresse de sua
transferir conhecimentos de uma geração a carreira estudantil.
outra, o oficio do professor vai, além disso. É
importante destacar que na relação professor/ A família em conjunto com a escola deve
aluno o conhecimento é construído dia a buscar bastante esforço e empenho para
dia, onde ensino e aprendizagem acontecem que a aprendizagem da criança seja em
concomitantemente. sua totalidade beneficiada. Almeida (1999,
p.107 apud Leite e Tassoni, 2002, p.127),
O discente no decorrer do processo diz que: as relações afetivas se evidenciam,
pedagógico precisa construir a capacidade pois a transmissão do conhecimento implica,
de perceber-se como ser atuante e não necessariamente, uma interação entre
apenas um ser passivo, sendo “sombra” do pessoas. Portanto, na relação professor
professor. Os alunos de diferentes meios aluno, uma relação humana, o afeto está
sociais chegam até a escola trazendo uma presente.
bagagem de características culturais e
pessoais, que influenciam diretamente na Pelo que foi citado acima, percebemos
sua relação pedagógica com o conhecimento, que a intervenção com pais é essencial e
e consequentemente determina a maneira deve permitir com que eles analisem os seus
pela qual responde as exigências próprias do comportamentos. É importante, também,
processo ensino aprendizagem. que se façam intervenções com a criança
para que se aumente o repertório dela em
Dessa forma, entendemos que o professor habilidades sociais.
deixa de ser o transmissor de conhecimentos
numa relação vertical, e assume a condição A criança deve ser capaz de pedir e aceitar
de educador que, num processo de interação auxílio na realização das tarefas escolares.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Iniciar, manter e terminar conversação que se percebam como únicos e valiosos,


com colegas, irmãos e pais. Expressar não necessitando se igualar a outros ou a
suas opiniões para professores, amigos e uma “normalidade”, mas sendo capazes de
familiares. Recusar-se a fazer o que não quer, aprender com as experiências vividas.
como: destruir materiais de outros colegas
e cabular aulas por influência de amigos. Os familiares comumente culpam a
Analisar situações conflitantes bem como criança pela dificuldade de aprendizagem.
formas de resolvê-las, tais como brigas entre Afirmam que os filhos são responsáveis
colegas e acusações injustas por parte de pelo problema, pois acreditam não eles não
professores e pais. tenham interesse pelos conteúdos escolares,
são preguiçosos para realizar as tarefas, são
O aumento das habilidades da criança distraídos, menosprezam os esforços que os
melhora não somente as relações familiares, pais fazem por eles e são “malcriados”.
como também o ser ajustamento em relação
à escola. Contudo, o trabalho com pais e Tal crença faz com que as crianças se
crianças, é comprometido por questões responsabilizem por algo que não compete
socioeconômicas ou pessoais. Há pais que somente a elas, o que prejudica a autoestima,
dizem: “Não posso faltar ao serviço para vir bem como gera reações emocionais de
toda semana, pois não terei dinheiro no final tristeza, irritabilidade, cansaço e, com
do mês.”, “Trabalhamos o dia todo, à noite, frequência, desinteresse pelo estudo. Além
cansados, é que não temos paciência para disso, essa ideia não oportuniza a busca de
ensinar ou ver as tarefas”. Outros pais ou auxílio adequado à criança, ou seja, uma
responsáveis, como avós, têm problemas de avaliação médica, psicológica e pedagógica
saúde, dentre tantos outros. Tais problemas que verifique os motivos da dificuldade e
comprometem o seguimento dos encontros, que direcione quais são as modificações
a execução das atividades pedidas, como necessárias, sendo estas no âmbito da
acompanhar a realização das atividades para família, da escola e da própria criança.
casa dos filhos, e conversar com professores
na escola. Os pais devem aprender a estabelecer
regras bem definidas e viáveis. É necessário
São informações que demonstram a que os pais dialoguem com a criança sobre
importância de se oportunizar que os sujeitos o motivo das regras, negociando com o filho
envolvidos reflitam sobre a história vivida em as que podem ser flexibilizadas. Os pais
relação à dificuldade escolar e ao estigma de devem também ser firmes na verificação
se ter ou de ser um filho que não aprendeu do cumprimento delas. No caso da
na mesma velocidade que outras crianças. desobediência à regra, antes de aplicar uma
Assim se pode atribuir um novo significado punição, como castigo ou bronca, deve-se
para as experiências de fracasso. É relevante investigar com o filho quais foram as razões

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Revista Educar FCE - Março 2019

para o não cumprimento dela, de modo José e Coelho (2002) colocam que as
que saibam evitar o desrespeito a norma. crianças não conseguem acompanhar o
Tais habilidades de refletir sobre as regras, currículo estabelecido pela escola e, porque
negociá-las e pensar sobre as consequências fracassam, são classificados como retardados
das mesmas no contexto da família, são mentais, emocionalmente perturbados ou
importantes para que a criança também simplesmente rotulados como alunos fracos
aprenda a respeitar as normas da escola, e multirrepetentes.
dialogar com os professores sobre elas e
explicarem-se e desculparem-se quando não Souza (1996) afirma que o ambiente de
foram capazes de cumpri-las. origem da criança é altamente responsável
pelas suas atividades de segurança no
Strick e Smith (2001) ressaltam que o desempenho de suas atividades e na
ambiente doméstico exerce um importante aquisição de experiências bem sucedidas,
papel para determinar se qualquer criança o que faz a criança obter conceito positivo
aprende bem ou mal. As crianças que sobre si mesma, fator importante para a
recebem um incentivo carinhoso durante aprendizagem.
toda a vida tendem a ter atitudes positivas,
tanto sobre a aprendizagem quanto sobre si Para Garcia (1998) é possível conceber a
mesmas. Essas crianças buscam e encontram família como um sistema de organização, de
modos de contornar as dificuldades, mesmo comunicação e de estabilidade. Esse sistema,
quando são bastante graves. a família, pode desordenar a aprendizagem
infantil, o mesmo que podem fazer os fatores
As autoras colocam que o estresse sociais tais como a raça e o gênero na escola.
emocional também compromete a
capacidade das crianças para aprender. A O autor ainda refere que as dificuldades
ansiedade em relação a dinheiro ou mudanças de aprendizagem devem ser diagnosticadas
de residência, a discórdia familiar ou doença de forma diferente em relação a outros
pode não apenas ser prejudicial em si mesma, transtornos próximos, ainda que, frente a
mas com o tempo pode corroer a disposição presença em uma pessoa de uma dificuldade
de uma criança para confiar, assumir riscos de aprendizagem e de outro transtorno, seja
e ser receptiva a novas situações que são necessário classificar ambos os transtornos,
importantes para o sucesso na escola. sabendo que se trata de dois transtornos
diferentes.
Para Fernandez (1990) quando o
fracasso escolar se instala, profissionais
(fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos,
psicopedagogos) devem intervir, ajudando
através de indicações adequadas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com o aumento do número de crianças nas escolas, as
estatísticas do fracasso escolar tornaram-se cada vez mais
evidentes. O que faz com que alguns alunos aprendam e
outros não? Encontrar explicações para o fato, bem como os
meios para sua superação constituíram-se em motivações
para a realização da pesquisa, ora em desenvolvimento,
concebida com os objetivos de detectar as causas geradoras
de dificuldades na área de leitura e de escrita em alunos de
5ª séries do Ensino Fundamental e verificar a eficiência das
atividades de reflexão e de operação sobre a língua como
meios de superação dessas dificuldades, onde pretendemos
provar que parte desse fracasso está diretamente relacionada
à questão socioeconômica, e a escola, como direito de todo
cidadão deve desenvolver mecanismos que possibilitem o BRUNA MAZERINO
sucesso do aluno com dificuldades de aprendizagem.
Licenciada em Pedagogia pela
Unicid em 2011. Pós-Graduada
O alcance social e prático deste trabalho está na em Educação Fundamental
possibilidade de se evidenciar que ao aluno de baixa renda, pela FCE em 2018. Professora
de Educação Infantil e Ensino
de certa forma sofre uma espécie de exclusão pedagógica, Fundamental da Rede Pública
em função das suas dificuldades de aprendizagem oriunda Municipal e Estadual.
da sua condição social, que acaba tornando-se uma
exclusão social, pois este aluno, caso a escola, não assuma
suas responsabilidades acabará sendo vítima da evasão
ou repetência, em função do seu padrão linguístico, o que
resultará na reprodução da exclusão social a que ele já está
submetido.

A importância das intervenções nas dificuldades de


aprendizagem e da participação familiar é frequentemente
apontada por outros projetos que buscam a família como
mediadora e ativa do processo de aprendizagem. Porém, há
ainda um vasto caminho de enfrentamento das dificuldades
como recursos financeiros, preparo técnico e as próprias
características das constituições familiares, fatores
estes fundamentais para a adesão e continuidade nestes
programas.

530
Revista Educar FCE - Março 2019

O presente trabalho nos mostrou que a construção do conhecimento através da


concepção construtivista, ou seja, que a educação deve acontecer a partir de um ato/ação
de humanidade e de amor entre educador educando. Ambos são cúmplices neste processo,
no qual trocam saberes, conhecimentos contínuos e ambos vão descobrindo e construindo
novos valores, conhecimentos, experiências de vida e de mundo, dentro do contexto social,
cultural e político em que vivem.

O processo da alfabetização deve ser significativo e condizente com a realidade do


educando, pois, o educador deve conhecer o seu educando, investigá-lo e entender o seu
contexto. A aprendizagem deve vir de encontro com o que o aluno vivencia, partindo de
elementos do seu cotidiano e que estes saberes adquiridos lhes sejam úteis, proporcionado
ao mesmo enfrentar, conquistar, amenizar e superar obstáculos, desafios, expectativas de
oportunidades, objetivos almejados e principalmente que esta criança torne-se um adulto
consciente, ativo e participativo junto á sociedade, dentro de um universo complexo e
dinâmico em que vivemos, que este ser tenha uma vida digna, provedor de ações críticas,
possuidor de uma ótica clara e objetiva de mundo, sabendo respeitar e ser respeitado e
que o diálogo seja sempre sua principal ferramenta para o alcance de êxitos em sua vida,
almejando-se que esta criança, seja não só um indivíduo alfabetizado e sim “Letrado”.
Ficou evidente a importância da família e da afetividade neste processo, de acordo com as
dificuldades.

Concluímos que a participação efetiva e afetiva dos educadores e da família no processo


de alfabetização é fundamental para que a criança desenvolva-se de forma positiva, cabendo
aos pais a tarefa de orientar seus filhos e encaminhá-los na vida escolar e do educador
auto avaliar-se constantemente em relação à sua postura e metodologia, proporcionando
experiências educacionais significativas de cunho qualitativo e servindo-lhes de espelho
com bons exemplos.

531
Revista Educar FCE - Março 2019

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534
Revista Educar FCE - Março 2019

A DEFICIÊNCIA INTELECTUAL
RESUMO: Este trabalho tem como objetivo elucidar pontos principais acerca do processo
de inclusão de pessoas com Deficiência Intelectual na escola comum que envolve o
oferecimento de condições físicas, pedagógicas e sociais para que esse aluno com
necessidades especiais possa aprender e a exercer seu papel de cidadão, tendo direito a uma
educação de qualidade, com oportunidades de aprendizagens que possam humanizá-los. E,
especialmente, a formação docente para o desenvolvimento do trabalho pedagógico, tendo
em vista que no momento as escolas comuns estão recebendo diversos alunos com as mais
variadas deficiências, mesmo alunos com Deficiência Intelectual, e o que podemos verificar
é que esses alunos com Deficiência Intelectual têm maiores dificuldades no seu processo de
aquisição de leitura e escrita o que acarreta o fracasso desses alunos ao concluírem o ensino
fundamental, muitos não estarão alfabetizados.

Palavras-Chave: Deficiência; Intelectual; Formação; Docente.

535
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO exclusivamente aos que tinham deficiência


intelectual, pois as pessoas superdotadas
Deficiência é o termo usado para definir também são excepcionais por estarem na
a ausência ou a disfunção de uma estrutura outra ponta da curva da inteligência humana.
psíquica, fisiológica ou anatômica. Diz
respeito a atividades exercida pela biologia De 1981 a 1987 aproximadamente, era
da pessoa. Esse conceito foi definido pela utilizado o termo “pessoas deficientes”.
Organização Mundial de Saúde (OMS). A Alguns líderes de organizações de pessoas
expressão pessoa com deficiência pode ser com deficiência contestaram o termo
aplicada referindo-se a qualquer pessoa que “pessoa deficiente” alegando que ele sinaliza
vivencie uma deficiência continuamente. que, a pessoa é inteira deficiente, o que era
Contudo, há de se observar que em contextos inaceitável para eles.
legais ela é utilizada de uma forma mais
restrita e refere-se à pessoa que está sob o Passou-se a utilizar então, “pessoas
amparo de uma determinada legislação. portadoras de deficiência”, é utilizado
somente em países de língua portuguesa, e
Deficiência é o nome dado a toda perda foi proposta para substituir o termo “pessoa
parcial ou permanente ou anormalidades deficiente” Pela lei do menor esforço, logo
de uma estrutura ou funções psicológicas, reduziram este termo para “portadores de
fisiológicas ou anatômicas. Até deficiência”.
aproximadamente 1960, o termo utilizado
era “os incapacitados” e significava de início O “portador de deficiência” passou a ser
“indivíduos sem capacidades” e, mais tarde, um valor agregado à pessoa. A deficiência
evoluíram e passaram a significar “indivíduos passou a ser um detalhe da pessoa. De
com capacidades residuais”. 1990, aproximadamente, até os dias de hoje,
o artigo 5º da Resolução CNE/CEB nº2,
Uma variação foi o termo “os incapazes”, de 11/10/01, explica que as necessidades
que significava “indivíduos que não são especiais decorrem de três situações,
capazes” de fazer alguma coisa por causa da uma das quais envolvendo dificuldades
deficiência que apresentavam. Na década de vinculadas à deficiência e dificuldades não
50 também surgiram as primeiras unidades da vinculadas a uma causa orgânica. “Pessoas
Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. com Necessidades Especiais” surgiram
Entre 1960 e 1980, aproximadamente, “os primeiramente para substituir “deficiência”
defeituosos” significavam “indivíduos com por “necessidades especiais”. Daí a expressão
deficiência intelectual”. “portadores de necessidades especiais”.
Depois, esse termo passou a ter significado
O movimento mostrou que o termo próprio sem substituir o nome “pessoa
“os excepcionais” não poderia referir-se com deficiência”. De início, “necessidades

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Revista Educar FCE - Março 2019

especiais” representavam somente um novo deficiência que apresentavam. Na década de


termo. 50 também surgiram as primeiras unidades da
Também nessa época, surgiram “crianças Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais.
especiais”, “alunos especiais”, “pacientes Entre 1960 e 1980, aproximadamente, “os
especiais” e assim por diante numa tentativa defeituosos” significavam “indivíduos com
de amenizar a contundência da palavra deficiência intelectual”.
“deficiente”. Independente da maneira
como são chamados, o mais importante é o O movimento mostrou que o termo
respeito mútuo e a consciência de que todos “os excepcionais” não poderia referir-se
nós somos imperfeitos. exclusivamente aos que tinham deficiência
intelectual, pois as pessoas superdotadas
Deficiência é o termo usado para definir também são excepcionais por estarem na
a ausência ou a disfunção de uma estrutura outra ponta da curva da inteligência humana.
psíquica, fisiológica ou anatômica. Diz
respeito a atividades exercida pela biologia De 1981 a 1987 aproximadamente, era
da pessoa. Esse conceito foi definido pela utilizado o termo “pessoas deficientes”.
Organização Mundial de Saúde (OMS). A Alguns líderes de organizações de pessoas
expressão pessoa com deficiência pode ser com deficiência contestaram o termo
aplicada referindo-se a qualquer pessoa que “pessoa deficiente” alegando que ele sinaliza
vivencie uma deficiência continuamente. que, a pessoa é inteira deficiente, o que era
Contudo, há de se observar que em contextos inaceitável para eles.
legais ela é utilizada de uma forma mais
restrita e refere-se à pessoa que está sob o Passou-se a utilizar então, “pessoas
amparo de uma determinada legislação. portadoras de deficiência”, é utilizado
somente em países de língua portuguesa, e
Deficiência é o nome dado a toda perda foi proposta para substituir o termo “pessoa
parcial ou permanente ou anormalidades deficiente” Pela lei do menor esforço, logo
de uma estrutura ou funções psicológicas, reduziram este termo para “portadores de
fisiológicas ou anatômicas. Até deficiência”.
aproximadamente 1960, o termo utilizado
era “os incapacitados” e significava de início O “portador de deficiência” passou a ser
“indivíduos sem capacidades” e, mais tarde, um valor agregado à pessoa. A deficiência
evoluíram e passaram a significar “indivíduos passou a ser um detalhe da pessoa. De
com capacidades residuais”. 1990, aproximadamente, até os dias de hoje,
o artigo 5º da Resolução CNE/CEB nº2,
Uma variação foi o termo “os incapazes”, de 11/10/01, explica que as necessidades
que significava “indivíduos que não são especiais decorrem de três situações,
capazes” de fazer alguma coisa por causa da uma das quais envolvendo dificuldades

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Revista Educar FCE - Março 2019

vinculadas à deficiência e dificuldades não estimular a reflexão e a discussão social a seu


vinculadas a uma causa orgânica. “Pessoas respeito, faz-se necessário que se localize o
com Necessidades Especiais” surgiram conjunto de mudanças de ideias que permear
primeiramente para substituir “deficiência” sua história.
por “necessidades especiais”. Daí a expressão
“portadores de necessidades especiais”. A esse respeito Aranha (1979) destaca que
Depois, esse termo passou a ter significado ao buscar dados sobre o tipo de tratamento
próprio sem substituir o nome “pessoa dado a pessoa com deficiência da idade
com deficiência”. De início, “necessidades antiga e na idade média, descobre-se que
especiais” representavam somente um novo muito pouco se sabe, na verdade. A maior
termo. parte das informações provém de passagens
encontradas na literatura grega romana,
Também nessa época, surgiram “crianças na Bíblia. Encontra-se uma recomendação
especiais”, “alunos especiais”, “pacientes feita por Mohamed, no quarto verso do
especiais” e assim por diante numa tentativa quarto suro, encorajando que se alimente
de amenizar a contundência da palavra e se abrigue aqueles desprovidos da razão,
“deficiente”. Independente da maneira tratando-os com amabilidade.
como são chamados, o mais importante é o
respeito mútuo e a consciência de que todos Aranha (1979, p.22), “enfatiza que o
nós somos imperfeitos. primeiro hospital psiquiátrico surgiu nessa
época e se proliferou, mas da mesma forma
que os asilos e conventos, usavam lugares
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA para confinar, ao invés de tratar as pessoas”.
INTELECTUAL: UM BREVE
Dessa forma entendemos que as novas
HISTÓRICO ideias foram sendo produzidas tanto na área
da medicina, como na filosofia e na educação.
Muitos nomes foram utilizados para a A relação da sociedade com a pessoa com
pessoa com deficiência intelectual: débil, deficiência, a partir deste período, passou a se
imbecil, retardado mental, deficiente diversificar, caracterizando-se por iniciativas
mental, dentre outros. De acordo com de institucionalização total, de tratamentos
Aranha (1979, p.17), não se pode ignorar o médicos e de busca de estratégia no ensino.
longo e importante processo histórico que
produziu configurado numa luta constante Historicamente, a primeira integração
de diferentes minorias, na busca de defesa e da área de estudos que lidam com pessoas
garantia de seus direitos ao passo que seres com deficiência passou a ser o assunto da
humanos e cidadãos. Tendo por objetivo área médica, psicológica, pedagógica, social,
favorecer a compreensão desse processo e política, econômica e de outras tantas cabíveis.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Para Mazzota (1994, p.36), a primeira luta a mental e só passamos a utilizar efetivamente
ser vencida pela pessoa com deficiência está o termo Deficiência Intelectual a partir da
em conquistar o seu direito de participação declaração de Montreal sobre Deficiência
em sua sociedade e não como participantes Intelectual, aprovada em 06/10/2004 pela
necessitando que alguém esteja com elas. É organização Mundial de Saúde (OMS, 2004).
certo que determinados graus de deficiência
físicas e mentais não lhe permitem autonomia Deficiência intelectual é o “funcionamento
e tenham que ser tutelados. intelectual significativamente inferior à
média, com manifestações antes dos 18 anos
A esse respeito Mazzota (1994) coloca e limitações associadas a duas ou mais áreas
que a participação consiste na intervenção de habilidades adaptativas”. Hoje, quando se
ativa na sua construção de uma sociedade, e fala de inclusão escolar, o maior debate gira
a realização mediante a tomada de decisões em torno do acesso do aluno com deficiência
e das atividades sociais e em todos os níveis. intelectual, especialmente quando ele
Assim sendo, observamos que os aspectos apresenta graves comprometimentos
sociais responsáveis pela discriminação cognitivos.
social da pessoa com Deficiência Intelectual,
não são somente os aspectos biológicos Considera-se deficiência intelectual
de sua deficiência, e sim, quando nossa segundo a definição da AAIDD,
mente refere-se a um inválido, um cego, um American Association on Intellectual
defeituoso ou um maluco. and Developmental Disabilities. Em
tradução para o português: Associação
Entendemos que a sociedade marginaliza Americana de Deficiências Intelectual e de
quando afirma que o indivíduo com Desenvolvimento: A deficiência intelectual é
Deficiência Intelectual não consegue uma deficiência caracterizada por limitações
modificar sua situação, levando a completa significativas tanto no funcionamento
omissão dessa sociedade em relação à intelectual e no comportamento adaptativo
organização de serviços oferecidos para em pelo menos duas das seguintes áreas de
aqueles que têm necessidades individuais habilidades: comunicação, auto-cuidados,
específicas. Atualmente, utilizamos o termo vida doméstica, habilidades sociais,
Deficiência Intelectual. relacionamento social, uso de recursos da
comunidade, auto- suficiência, saúde e
segurança, habilidades acadêmicas, lazer e
O QUE É DEFICIÊNCIA trabalho.
INTELECTUAL?
São muitos os conceitos de deficiência
A deficiência Intelectual foi conhecida intelectual, mas o atual modelo da Associação
durante muitos anos como deficiência Americana de Deficiência Intelectual e

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Revista Educar FCE - Março 2019

Desenvolvimento (AAIDD), nos traz uma os apoios, potencialmente durante o ciclo da


concepção funcional e multidimensional que vida.
facilita a compreensão e os planejamentos
dos apoios necessários à inclusão das pessoas Ressaltamos que, dependendo das
com deficiência intelectual na sociedade. condições pessoais, a situações de vida e
faixa etária, os apoios variação em duração
Entende-se como apoio: auxílios que e intensidade, podendo ser oferecidos por
melhore o funcionamento da vida da pessoa, qualquer pessoa, seja ela: professor, amigo,
em cinco dimensões: habilidades intelectuais, psicólogo, familiar, entre outros, destinadas
comportamento adaptativo, participação, a melhorar o funcionamento da pessoa
interação e papéis sociais, saúde e contexto. com deficiência intelectual no cotidiano,
favorecendo uma melhor qualidade de vida.
Essa visão amplia o foco na intervenção
nas seguintes áreas: ensino e educação, vida De acordo com o Decreto de nº 3.298, de
doméstica, vida em comunidade e, emprego, 20 de dezembro de 1999 (BRASIL, 1999):
saúde, segurança, desenvolvimento
humano, proteção e defesa, além das áreas A deficiência mental é um funcionamento
intelectual significativamente inferior à média, com
comportamentais e sociais. Para tanto, manifestação antes dos dezoito anos e limitações
considera-se quatro graus de apoios, associadas a duas ou mais áreas de habilidades
conforme o nível de comprometimento adaptativas, tais como: (a) comunicação, (b) cuidado
pessoal, (c) habilidades sociais, (d) utilização dos
intelectual manifestado: recursos da comunidade, (e) saúde e segurança,
(f) habilidades acadêmicas, (g) lazer e (h) trabalho.
Primeiro nível Intermitente, baseado (BRASIL, 1999, p.30)
em necessidades específicas e oferecidos
em certos momentos por um determinado O Funcionamento intelectual também
período (curto prazo), e com características chamada inteligência refere-se à capacidade
episódicas (a pessoa nem sempre precisa mental geral, como aprendizado, raciocínio,
de apoio) e com intensidade variável. resolução de problemas, e assim por diante.
Segundo nível Limitado: consistente durante O comportamento adaptativo é o conjunto
atividades específicas, oferecido ao longo de habilidades conceituais, sociais e práticas
de um período (longo prazo), porém com que são aprendidas e realizadas por pessoas
tempo limitado. Terceiro nível Extensivo: em suas vidas cotidianas a deficiência
é necessário apoio regular (diário) em pelo intelectual se manifesta antes dos 18 anos
menos alguns ambientes (escola, trabalho, de idade.
lar) sem limitação quanto ao tempo. E
Quarto nível Pervasivo: constante, de alta A Convenção da Guatemala, internalizada
intensidade, nos diversos ambientes, envolve à Constituição Brasileira pelo Decreto
uma equipe maior de pessoas administrando 3956/2001, no seu artigo 1º define

540
Revista Educar FCE - Março 2019

deficiência como [...] “uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou
transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida
diária, causada ou agravada pelo ambiente econômico e social”. Essa definição ratifica a
deficiência como uma situação.

Como o próprio nome aponta a deficiência intelectual pode ser entendida como o não
funcionamento da mente conforme os padrões normalmente encontrados em seres humanos.
Caracterizam-se pela parcialidade dos processos e/ ou do exercício das funções psicológicas
superiores. (Vygotsky, 1991).

A questão do diagnostico dessa deficiência ainda é hoje bastante desafiante má educação


de alunos com deficiência intelectual. No inicio do reconhecimento dessa população, houve
um predomínio de fatores orgânicos na etiologia de suas limitações, a crença da imutabilidade
do perfil apresentado e, consequentemente, a ausência de credibilidade na educabilidade do
sujeito.

Segundo Pessoti (1984), a hegemonia do saber médico a respeito da deficiência intelectual


assim como se apresentava: A deficiência mental, que após a inquisição se tornara um
problema médico e não mais teológico, passara de um enfoque supersticioso a um tratamento
naturalista, por parte de muitos médicos e raros pedagogos, essa atitude naturalista, porem
não implica necessariamente a abordagem cientifica da questão.

541
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao fim desta pesquisa podemos compreender melhor
os aspectos da deficiência intelectual, e sabemos que não
é fácil trabalhar com estes alunos, sobretudo pela falta
de informações disponíveis sobre os mesmos, muitas
vezes a família não busca o acompanhamento necessário,
e por meio deste artigo buscamos elucidar os pontos
principais sobre a deficiência intelectual, para viabilizar o
trabalho pedagógico docente, pois esse aluno exige mais
atenção, mais sensibilidade e compreendemos quando os
professores da sala regular da escola comum são tomados
pelo sentimento de angustia, pois ainda alguns desses
professores têm a visão de que irão “curar” o aluno com
deficiência intelectual, quando na verdade o objetivo não
é esse. E, o objetivo ao se trabalhar com o aluno com CAMILA CRISTINA DO
deficiência intelectual é de possibilitar a sua construção NASCIMENTO
de conhecimentos e aprendizagens para que esses alunos
Graduação em letras - Português/
sejam como um cidadão autônomo e independente. Inglês pela Universidade Nove
de Julho (UNINOVE), Graduação
em Pedagogia pela Universidade
Brasil, Especialização em
Docência no Ensino Superior, pela
Universidade Brasil. Professora
da rede municipal de ensino.

542
Revista Educar FCE - Março 2019

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544
Revista Educar FCE - Março 2019

GÊNERO NA EDUCAÇÃO INFANTIL


RESUMO: Este artigo trata das relações de gênero existente nos processos de socialização
de crianças pequenas na Educação Infantil. Buscou-se compreender como ocorrem as
desigualdades entre gêneros, bem como os processos de discriminação presentes. A escola
tem se apresentado como um local reprodutor de uma cultura que promove a desigualdade.
Nas brincadeiras, nos jogos e atividades é estimulada uma educação sexista, ou seja,
meninos e meninas se desenvolvem com conceitos discriminatórios sobre gênero, sobre
o que é esperado, reforçando os padrões de feminilidade e masculinidade pensados e
impostos por uma cultura predominante, em descompasso com a superação dos processos
de discriminação.

Palavras-Chave: Deficiência; Intelectual; Formação; Docente.

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INTRODUÇÃO uma formatação com espaços, tempos,


organizações e práticas construídas no seio
Nos dicionários de língua portuguesa, a das intensas relações entre crianças e entre
infância é tida como o período de crescimento crianças e adultos.
do ser humano, ou seja, se estende do
nascimento à puberdade. Assim, esta etapa Considera-se que as relações das crianças
se refere aos primeiros anos de vida que na educação infantil apresentam-se como
terão consequências positivas ou negativas forma de introdução de meninos e meninas
influenciando toda a vida do indivíduo. na vida social, quando passam a conhecer e
aprender seus sistemas de regras e valores,
O primeiro contato da criança com grupos interagindo e participando nas construções
sociais fora da família é a escola, mais sociais (FINCO 2003). Finco ainda aborda
precisamente na educação infantil. Neste que ao considerar as ligações entre as
local as crianças podem passar a maior parte crianças, é possível levantar a hipótese de
do tempo em contato com outras crianças. que os estereótipos dos papéis sexuais,
De acordo com Faria (2006, p. 285) os comportamentos pré-determinados,
os preconceitos e discriminações são
(...) neste espaço da sociedade vivemos as construções culturais, que existem nas
mais distintas relações de poder: gênero, classe,
idade, étnicas. Desse modo é necessário estudar relações dos adultos, mas ainda não foram
as relações no contexto educativo da creche e pré- “disseminadas” na cultura da criança.
escolas onde se confrontam adultos - entre eles,
professor/a, diretora, cozinheira, guarda, pai, mãe,
secretário/a de educação, prefeito/a, vereador/a, A Educação Infantil de qualidade inclui a
etc.-; confrontam-se crianças, entre elas: menino, discussão das questões de gênero. Faz-se
menina, mais velha, mais nova, negra, branca, judia, então indispensável pensar sobre práticas,
com necessidades especiais, pobre, rica, de classe
média, católica, umbandista, atéia, “café com leite”, habilidades e configurações corporais
“quatro olhos”, etc.; e confrontam-se adultos e infantis e também sobre os modelos nelas
crianças - a professora e as meninas, a professora e referenciados, como relações sociais de
os meninos, o professor (percentual bastante baixo,
mas existente e com tendência a lento crescimento) gênero, processadas, reconhecidas e
e os meninos, o professor e as meninas, o professor valorizadas na e pela cultura na qual se
e a mãe da menina. inserem. É importante perguntar como
esses mecanismos se fazem presentes na
Finco e Vianna (2009) traz em seu educação de meninas e meninos; de que
trabalho que é nessa relação singular que maneiras são inscritos em seus corpos,
o protagonismo da criança ganha destaque como normatizam, disciplinam, regulam e
e que a potencialidade do convívio em controlam seus comportamentos, posturas,
suas diversas formas de relações pode verdades e saberes.
propiciar uma nova interação. Trata-se de
um universo com características próprias,

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Revista Educar FCE - Março 2019

DESAFIO DA IGUALDADE e meninas não sejam incentivados a reprimir


seus sentimentos. Quando educamos
Escutar frases como “pilotar fogão é coisa crianças que expressam o que sentem,
de menina”, “jogar bola é coisa de menino”, fazemos com que elas tenham um diálogo
ou então, “deixe de ser mulherzinha”, é aberto com a família, estabelecendo uma
comumente em nossa sociedade educacional. comunicação para solucionar seus conflitos,
Quando crianças escutam frases nestes valorizando cada ser em nossa cultura (PLAN
sentidos elas diminuem as possibilidades de INTERNACIONAL, 2016).
ser menino ou menina. Desta forma, faz-se
necessário o incentivo para que brinquem Por oposição a frase “chorar não é coisa
juntos, dividam seus brinquedos e expressem de homem”, está sendo reforçado que chorar
seus sentimentos. é peculiar à mulher, logo, denota como um
ser inferior.
Não se deve estimular a exclusividade
de brinquedos apenas para meninas e A partir do momento que as crianças
meninos. Os educadores devem respeitar as entendem que chorar é algo comum e natural
preferências e singularidades de cada criança para ambos os sexos, ajudamos a educá-las
para que elas descubram as brincadeiras que sem relação de desigualdade.
mais gostam, assim poderão desenvolver
suas potencialidades. (FINCO, 2003)
UMA ARTICULAÇÃO
Fundada em 1937, a Plan International, NECESSÁRIA: EDUCAÇÃO
Organização não-governamental, não-
religiosa e apartidária que defende os direitos INFANTIL E GÊNERO
das crianças, adolescentes e jovens, com
foco na promoção da igualdade de gênero. Muitos dos trabalhos voltados para a
Em seu material educacional (2016) destaca educação da pequena infância têm aumentado
que, quando frisamos a divisão de brinquedo consideravelmente nos últimos anos. Grande
para menino ou menina, reforçamos parte deles remete-se especialmente às
estereótipos de gênero, deixando de lado questões de desenvolvimento motor,
as características individuais. Meninos afetivo e cognitivo da criança, bem como as
que brincam de casinha com meninas, por questões ligadas à formação de profissionais,
exemplo, terão maior facilidade de entender propostas pedagógicas e curriculares e
a divisão de tarefas domésticas por meio do políticas públicas para a faixa etária de zero
brincar. Repreender o choro de meninos com a seis anos. São relatos de experiências
frases como: “pare de chorar que isso não é vivenciadas no cotidiano das escolas infantis,
coisa de homem”, também é muito comum. porém não chegam a tratar das relações de
Muito importante que desde cedo meninos gênero ali presentes.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Constata-se, então, que a produção visual dos sexos e na utilização da linguagem.


acadêmica brasileira carece de estudos nesta Browne, por exemplo, analisa a história do
área. Como Fúlvia Rosemberg (1990) relata atendimento às crianças desde o século XIX
pouco se escreveu sobre a educação de até a década de 70, procurando demonstrar
meninos e meninas na educação infantil. Ela como algumas teorias científicas têm se
observa que alguns trabalhos têm se limitado preocupado em explicar as diferenças entre
a discutir a relação professor/a - aluno/a pessoas ou grupos tomando como base
ou então o sexismo nos livros didáticos. a herança biológica ou o ambiente. Elas
Contudo, importantes estudos têm sido feitos observam ainda que, desde o berçário as
em outros países, abordando as relações de crianças são tratadas de forma diferente em
gênero na infância, em especial nas escolas. função do sexo, listando uma série de áreas
Marina Subirats (1986) constatou que na ou situações em que isto se dá. Em relação
Espanha há poucos estudos sobre relações ao choro, por exemplo, as autoras observam
de gênero na escola. Ao pesquisar turmas de que os bebês masculinos são atendidos mais
crianças entre quatro e seis anos de idade, rapidamente quando choram, uma vez que
procurou mostrar que, desde a escola infantil, muitas atendentes acham que meninos não
a criança aprende a desvalorizar todas as devem/podem chorar, tratando, desta forma
atividades consideradas femininas. de suprir as suas necessidades.

Constatou-se também que o gênero Já o choro das meninas, ao contrário, é


feminino era afetado por uma negação mais tolerado.
constante, desde a linguagem utilizada,
referindo-se às crianças sempre no Trazendo também uma importante
masculino, até mesmo à negação sistemática contribuição para o entendimento das
de toda e qualquer conduta que pudesse questões de gênero e poder presentes nas
ser identificada com comportamentos escolas infantis está Valerie Walkerdine
considerados “femininos”. Ela concluiu que (1989). Em sua análise, feita em algumas
a suposta igualdade existente na escola não escolas inglesas, observou que os meninos
surgia pela integração das características costumavam assumir, por intermédio da
presentes em ambos os gêneros, mas pela linguagem, uma posição de autoridade
negação ou exclusão de um deles. A autora frente às meninas, e também entre eles, o da
afirma que é preciso aguçar o olhar para competitividade. Estes estudos nos permitem
perceber novas formas de discriminação, observar o quanto os comportamentos são
que têm se tornado cada vez mais sutil. construídos a partir das concepções presentes
Desenvolvidos na Inglaterra, os estudos numa dada sociedade, determinando assim
de Naima Browne e Pauline France (1988), efeitos de verdade que vão constituir os
enfatizam o quanto sexismo e racismo se indivíduos.
manifestam nas ações, na representação

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O QUE DIZEM OS Algumas profissionais levantam hipóteses


PROFESSORES como, meninos que não se expressam
corporalmente por meio da dança, ou
No vídeo “Educadoras falam sobre reprimem seus sentimentos; supõem que
igualdade de gênero na escola”, do Guia Fora são eles que têm medo de dançar por ser
da Casinha (2016), as professoras Elisa Cortez uma expressividade considerada “feminina”.
e Michele Mendonça, ambas educadoras da São citadas ainda situações de conflito na
Rede Pública de São Paulo relatam sobre rotina escolar, como a de um menino que
o cotidiano e as práticas que reforçam ou tem vontade de usar vestido e uma menina
desconstroem as desigualdades de gênero que tem vontade de jogar bola. Por que o
presentes na sociedade. Guia Fora da Casinha garoto não pode brincar de boneca? Afinal,
é um site de entretenimento e cultura o pai não cuida do filho? Não dá banho?
para pais, filhos e cuidadores ocuparem e Não alimenta?. As autoras refletem sobre
aproveitarem a cidade de São Paulo. o cotidiano desconstruindo ideias do que
é considerado socialmente como certo ou
Michele Mendonça (2016) expõe ainda errado.
que crianças pequenas que já dizem palavras
como “boiola”, “coisa de bichinha” entre Cortez (2016) aborda que, trabalhar a
outros adjetivos pejorativos, de forma expressão do afeto até o papel social de
geral, carregam esse tipo de concepção homem e mulher nas brincadeiras, se é
dos próprios responsáveis que fazem necessário.
comentários preconceituosos. Ela ainda
destaca que a criança pequena não possui Como proposta, foi sugerida uma inversão
um gênero formado, pois gênero é muito de papéis, propuseram quem gostaria de ser
mais uma questão social do que natural e é a pai e mãe e quem gostaria de ser a criança.
sociedade que impõe. As crianças se dispuseram das formas mais
variadas, na qual foi possível observar famílias
O rompimento de padrões socialmente com dois pais, com duas mães, apenas de
aceitos costuma ser socialmente mal visto e crianças e famílias com uma pessoa.
ridicularizado, uma das maneiras eficientes
de reafirmar que cada um teria que se Outra proposta abordada foi de oferecer
conformar aos padrões tradicionais de materiais não estruturados, como tecidos,
gênero e, especialmente, ao lugar que lhe ao invés de vestidos. Potes, ao invés de
cabe na sociedade. São preconceitos que utensílios domésticos. A criança fica livre
não resistem à razão, nem aos novos tempos para utilizar a imaginação e criar a finalidade
e que continuamos a considerar verdades de cada objeto. Cortez e Mendonça (2016)
intocáveis, nos costumes e nas regras definem o que buscam com suas práticas
inflexíveis. hoje: “Hoje tentamos criar espaços na qual a

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criança vive livre para expressar suas vontades e necessidades [...]”.

Na construção de cantinhos, as profissionais (CORTEZ; MENDONÇA, 2016) buscam não


separar cantinhos de boneca ou de carrinho deixando os espaços que propiciem a exploração
e não o reforço de padrões e regras pré-determinadas. Roupas podem virar brinquedos,
vestidos podem virar chapéus, entre tantas outras possibilidades. Os espaços devem ser
diversos e possibilitarem a escolha daquilo que despertar vontade, sem restrições.

Brincar de tudo é uma forma de você estimular a liberdade da criança. Sem imposições.
O enriquecedor dentro dessa prática não sexista é poder proporcionar uma gama de
oportunidades e vivências que refletirão ao longo de sua vida.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do que foi dito, pode-se dizer que abordar as
relações de gênero na escola é de extrema importância, pois
o sistema educacional brasileiro coloca como um de seus
objetivos os de combater a promoção da desigualdade de
gênero, uma vez que esta desigualdade não é condizente
com uma sociedade democrática.

Ainda que diante de diversas opressões, meninos e


meninas ainda praticam, experimentam, inventam e criam,
recordando que o modo como estão sendo educados pode
contribuir para limitar suas iniciativas e suas aspirações, mas
também para se tornarem felizes e autônomos.

Para a efetiva mudança em diferentes níveis da educação, CAMILA UENO


englobando não apenas a legislação, o sistema educativo,
Graduação em Pedagogia pela
as unidades escolares e os currículos, como também a Universidade Nove de Julho
capacitação e formação do profissional, a paridade do (2013); Professora de Educação
professorado, os livros didáticos e a interação entre Infantil - no CEI Inez Menezes
Maria.
professoras, professores, alunos e alunas. Delineia, assim,
um possível caminho para uma política pública de igualdade
de gênero a partir da unidade escolar.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
CORTEZ, Elisa; MENDONÇA, Michele. Educadoras falam sobre igualdade de gênero na
escola. Youtube, 06 jul. 2016. Disponível em <https://youtu.be/f0NdlxBvs2c>. Acesso em:
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PLAN INTERNACIONAL, Desafio da Igualdade | Episódio 02: Meninos podem chorar?


Youtube, 21 nov. 2016. Disponível em <https://youtu.be/_HywVjAhNmM>. Acesso em: 17
jan. 2019

VIANNA, Cláudia; FINCO, Daniela. Meninas e meninos na Educação Infantil: uma questão de
gênero e poder. Cadernos Pagu, Campinas, n. 33, p. 265-283, Dezembro 2009. Disponível
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rm=iso>. Acesso em: 17 de jan. 2019

GUIA FORA DA CASINHA. Entretenimento e cultura para pais, filhos e cuidadores ocuparem
e aproveitarem a cidade de São Paulo. Disponível em: <https://www.youtube.com/channel/
UC43eITfxedNKmpQVdz48zyg/playlists>. Acesso em: 17 de jan. 2019

FARIA, Ana Lúcia Goulart de. Pequena infância, educação e gênero: subsídios para um estado
da arte. Cadernos Pagu (26), Núcleo de Estudos de Gênero - Pagu/Unicamp, p. 279-288,
2006.

FINCO, Daniela. Relações de gênero e as brincadeiras de meninos e meninas na Educação


Infantil. Dossiê Gênero e Infância da Revista Pró-posições, n. 42, dezembro 2003.

ROSEMBERG, Fulvia e outras. Mulher e educação formal no Brasil: estado da arte e


bibliografia. Brasília: INEP/Fundação Carlos Chagas, 1990.

BROWNE, Naima e FRANCE, Pauline. Hacia una educación no sexista. Madrid: Morata,
1988.

SUBIRATS, Marina. Niños e niñas en la escuela: una exploración de los códigos de género
actuales. In: Educación e Sociedad, n. 4. Madrid: Akal, 1986.

WALKERDINE, Valerie. Counting Girls Out, especialmente no capítulo 5 - Power and gender
in nursery school. London: Virago, 1989

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Revista Educar FCE - Março 2019

A CONSTRUÇÃO DO
CONHECIMENTO POR MEIO DA
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
RESUMO: A educação à distância (neste artigo citada pela expressão EaD) no contexto
brasileiro ainda é um mar a ser desbravado por docentes e discentes, tendo em vista que se
trata de uma modalidade de ensino relativamente recente no cenário brasileiro, e, se tratar
processo de ensino-aprendizagem com alunos separados fisicamente bem como do professor,
circunstância pouco explorada na realidade brasileira. O trabalho aqui apresentado vem por
meio das leituras e reflexões sobre a bibliografia levantada acerca do tema (faz-se importante
ressaltar a escassez que estudos na área em comparação com outros temas da educação),
abordar o desenvolvimento do EAD no Brasil em prol da construção do conhecimento.

Palavras-Chave: Ensino; Distância; Modalidade; Educação.

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INTRODUÇÃO A CONSTRUÇÃO DO
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si CONHECIMENTO POR MEIO
mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados
pelo mundo”.
DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA
Paulo Freire
A EaD teve seu início com a definição de
As diversas modalidades de ensino qual nomenclatura no cenário internacional
são importantes para todo o processo de utilizar para esta nova modalidade de ensino,
aprendizagem das pessoas, com o avanço da e, como relata HACK (2011):
Educação no Brasil, a falsa ideia que temos que
estar presentes juntamente com o professor A busca da origem da expressão EaD nos leva
a um dos pioneiros no estudo da temática, o
no mesmo espaço físico para viabilizar o educador sueco Börje Holmberg, que confessou
desenvolvimento deste processo de maneira a Niskier (2000) ter ouvido a expressão na
eficiente e eficaz está se desmitificando ao universidade alemã de Tübingen. Para Holmberg
(apud NISKIER, 2000), em vez de citar “estudo
passo que a EAD está crescendo no cenário por correspondência”, os alemães usavam os
brasileiro cada dia mais. termos Fernstudium (Educação a Distância) ou
Fernunterricht (Ensino a Distância). Niskier (2000)
ainda destaca que o mundo inglês conheceu a
Este crescimento está diretamente ligado expressão a partir de Desmond Keegan e Charles
ao fato das pessoas desprenderem cada vez Wedemeyer. Para Aretio (1996), estudioso
menos tempo para se deslocar e custear um espanhol da EaD, apesar de existirem diferentes
denominações para a modalidade, atualmente
curso presencial no qual terá como despesas: se aceita, de forma generalizada, o nome de
mensalidades, transporte, alimentação e Educação a Distância. Inclusive o organismo
acima de tudo tempo. mundial que agrupa as instituições de EaD,
denominado desde a sua fundação em 1938
como International Council for Correspondence
Tempo este que se torna mais precioso e Education (ICCE) – Conselho Internacional de
caro com a modernidade e a velocidade das Educação por Correspondência –, trocou seu
nome na 12ª Conferência Mundial, no ano de
informações. 1982, para International Council for Distance
Education (ICDE) – Conselho Internacional de
Ademais, trazer e descrever a importância Educação a Distância. (HACK, 2011, p.13).

desta modalidade de ensino e seus desafios


neste trabalho significa colocar a qualidade No cenário brasileiro temos a
da educação como foco, na qual a otimização regulamentação desta modalidade de
do tempo e a qualidade do ensino é tarefa educação por meio do Decreto nº 2.494
desafiadora para as instituições bem como (1998) da Presidência da República, na qual
para os discentes. é destacado no seu artigo primeiro:

Educação a Distância é uma forma de


ensino que possibilita a autoaprendizagem,
com a mediação de recursos didáticos

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Revista Educar FCE - Março 2019

sistematicamente organizados, apresentados


em diferentes suportes de informação, utilizados Portanto, a EaD de acordo com Hack
isoladamente ou combinados, e veiculados pelos (2011):
diversos meios de comunicação. (BRASIL, 1998,
não paginado). A EaD será entendida, portanto, como uma
modalidade de realizar o processo de construção
do conhecimento de forma crítica, criativa e
Dando continuidade à definição da EaD, contextualizada, no momento em que o encontro
faz-se importante salientar a diferença entre presencial do educador e do educando não
ocorrer, promovendo-se, então, a comunicação
ensino e educação a distância, como afirma educativa através de múltiplas tecnologias.
Demo In. Hack (2011): (HACK, 2011, p. 15).

A educação à distância será parte natural Sendo assim, não são admitidas distinções
do futuro da escola e da universidade. Valerá
ainda o uso do correio, mas parece definitivo ou preconceitos entre as modalidades
que o meio eletrônico dominará a cena. Para se presencial e a distância, pois em ambas há
falar em educação à distância é mister superar a troca e o aluno não está isolado, ambas
o mero ensino e a mera ilustração. Talvez fosse
o caso distinguir os momentos, sem dicotomia. promovem a consolidação da aprendizagem
Ensino à distância é uma proposta para socializar significativa ao aluno, e o Ministério da
informação, transmitindo-a de maneira mais Educação em seus documentos oficiais deixa
hábil possível. Educação à distância, por sua
vez, exige aprender a aprender, elaboração clara esta posição, como relata Azevedo In.
e consequente avaliação. Pode até conferir Litto (2004):
diploma ou certificado, prevendo momentos
presenciais de avaliação. (HACK, 2011, p. 15). Os avanços do ensino a distância nos últimos
anos foram importantes para o Brasil e sabe
­se que atualmente o MEC não mais hostiliza
A EaD é uma modalidade concebida, esse ensino como ocorria há pouco tempo e
especialmente, para alcance dos alunos que até os ampara; isso é provado com a existência
de uma Secretaria de Educação a Distância no
não tem condições de frequentar os cursos MEC, o que era inconcebível há alguns anos. O
presenciais, por questões financeiras, em sua elevado número de alunos nos cursos de ensino
maioria dos cursos EaD tem o custo menor, a distância — mais de 2,5 milhões de alunos — e
o seu melhor desempenho nos exames do Enade
pois as caraterísticas do custeio desta em relação aos de cursos tradicionais são prova
modalidade são diferentes da modalidade disso. (AZEVEDO In. LITTO, 2004, p. 5)
presencial.
A qualidade do ensino está diretamente
Os cursos disponibilizados nesta ligada ao processo de troca entre os
modalidade têm poucos encontros envolvidos, em linhas gerais, o aluno da
presenciais, o que diminui o custo fixo da EaD tem que ser disciplinado e curioso no
instituição de ensino, e, em alguns casos não sentido de buscar outras fontes além das
há encontros presenciais. E, os materiais são disponibilizadas nos materiais referentes
disponibilizados virtualmente, diminuindo o ao curso que está estudando a fim de sanar
custo para o aluno. suas eventuais dúvidas bem como levado

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aprendiz. Ou seja, o conhecimento é construído


pelo professor a este comportamento pelo aprendiz em cada uma das situações em
de desbravador do conhecimento dando que ele está utilizado ou experimentado. Um dos
sugestões de leituras, vídeos etc., o que leva aspectos importantes do construtivismo está
no fato de que a realidade pode ser abordada
à construção do conhecimento de maneira sob várias perspectivas para possibilitar
prática o que viabiliza a consolidação da ao aprendiz a apropriação de tal realidade,
aprendizagem pelo aluno. segundo as diversas óticas sob as quais ela
pode ser considerada. Assim, os processos e
os resultados de uma prática construtivista são
Temos estudos disponíveis que mostram diferentes de um indivíduo e de um contexto
que o conhecimento é consolidado de a outro, pois a aprendizagem acontece pela
interação que o aprendiz estabelece entre os
maneira efetiva e positivo quando o aluno tem diversos componentes do seu meio ambiente.
papel ativo na construção do conhecimento. Ainda queremos adicionar à nossa definição
de EaD a compreensão que encontramos em
Vygotsky (1993, 1998) de que a interação
Como salienta Mauri In. Coll (2006): social é imprescindível para a aprendizagem e
o desenvolvimento do ser humano. Em outras
A aprendizagem, entendida como construção palavras: as pessoas adquirem novos saberes a
de conhecimento, pressupõe entender tanto partir de suas várias relações com o meio. Na
sua dimensão como produto quanto sua concepção do autor, a mediação é primordial
dimensão como processo, isto é, o caminho na construção do conhecimento e ocorre,
pelo qual os alunos elaboram pessoalmente os entre outras formas, pela linguagem. Assim,
conhecimentos. Ao aprender, o que muda não a singularidade do indivíduo como sujeito
é apenas a quantidade de informação que o sócio-histórico se constitui em suas relações
aluno possui sobre um determinado tema, mas na sociedade, e o modo de pensar ou agir
também a sua competência (aquilo que é capaz das pessoas depende de interações sociais e
de fazer, pensar, compreender), a qualidade do culturais com o ambiente. (HACK, 2011, p. 16)
conhecimento que possui e as possibilidades
pessoais de continuar aprendendo. Dessa
perspectiva, é óbvia a importância de ensinar Nesta modalidade o ensino o processor
o aluno aprender a aprender e a de ajuda-lo a
compreender que, quando aprende, não deve tem como papel primordial a mediação do
levar em conta apenas o conteúdo objeto da conhecimento, utilizando de materiais atrativos
aprendizagem, mas também como se organiza aos alunos. Estes materiais fazem parte de um
e atua para aprender. Por sua parte, o ensino é
entendido como um conjunto de ajudas de aluno grande desafio a ser superado pelas instituições
e à aluna no processo pessoal de construção escolares, como afirma Lobato (2009):
de conhecimento e na elaboração do próprio
desenvolvimento. (MAURI In. COLL, 2006. p. 88) Dessa forma, a EAD, por meio de diversos
recursos didáticos e com apoio de uma
organização tutorial, busca mecanismos que
Assim, temos que a abordagem propiciem a aprendizagem autônoma do
construtivista está diretamente ligada à EaD, estudante. Mas, para que esse processo se
legitime, vários fatores são levados em conta,
como reafirma Hack (2011): dentre os quais, um dos mais importantes vem
a ser o material didático, pois, na educação à
Com base na abordagem construtivista, distância, o material a ser usado didaticamente
entenderemos a EaD como uma prática não se resume apenas na escolha de um livro-
educativa que busca aproximar o saber do texto ou de textos avulsos. Faz-se necessário,

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nesse sentido, que o material venha a com diversas possibilidades de interação: chat,
proporcionar múltiplas interações ao discente e, aula web, fórum, portfólio, livros da disciplina
consequentemente, a aprendizagem qualitativa. produzidos por professores em parceria com
(LOBATO, 2009, p. 4) outros autores, email, biblioteca digital, física e
outros. (VAGULA, 2012, p. 8)

E, como salienta Vagula (2012), a


construção do conhecimento não é algo No que se refere a ampliação da EaD temos
desligado da realidade do aluno, para ter diversos fatores a favor desta modalidade,
significado a aprendizagem deve levar em especialmente, a flexibilidade de acesso aos
conta o contexto do aluno: conteúdos e ao tempo que aluno tem para
estudar dentro do seu cotidiano, o aluno
Assim, devemos partir do principio que o intercala sua vida social ou tempo que ele
currículo refere-se às situações vividas pelo
professor e aluno e suas relações sociais. Não pode pode disponibilizar aos estudos favorecendo
ser separado do contexto social, é um elemento o ingresso e a permanência no curso, o
que interfere na formação do aluno, um processo que muitas vezes não ocorre com o ensino
social, diretamente relacionado a um momento
histórico e as relações que a sociedade estabelece presencial que é rígido quanto a periodicidade
com o conhecimento.. (VAGULA, 2012, p. 3) e regularidade do desenvolvimento das aulas.

Esta flexibilidade é a grande bandeira da


Ademais, para consolidar a interação entre EaD, porém há alguns obstáculos que a EaD
professor e aluno, bem como com os outros deve transpor, como afirma Sousa et. al. (2013):
alunos, é interessante o uso de chats, vídeo
conferências, fórum, etc., estas ferramentas Apesar de a educação a distância ser uma
modalidade que vem ganhando cada vez mais
se apresentam para estimular a interação espaço no cenário educacional brasileiro, ela
entre todos de maneira significativa na também apresenta desvantagens, tais como:
troca de conhecimentos e a consolidação da alto custo da produção do material didático, que
requer profissionais especializados, excesso de
aprendizagem. conteúdos teóricos, falta de uma biblioteca real
aos alunos, preconceito por falta de pessoas mais
Como relata Vagula (2012): conservadoras e desinformadas, disponibilidade de
um computador com acesso a internet, o que nem
sempre é acessível a todas as regiões e a todos os
Concebemos a EaD como proposta de alunos e conhecimentos de informática e multimídia
ensino e aprendizagem que possibilita a
por parte dos alunos. (SOUSA, 2013, p. 34)
interação entre aluno, professor e tutor,
mediado por ferramentas da comunicação, que
rompe barreiras culturais, de tempo e espaço Obstáculos que estão sendo minimizados
geográfico. Envolve planejamento, a partir da
realidade dos alunos, um projeto pedagógico tendo em vista a disseminação do acesso
que possa orientar as ações dos docentes, com à internet bem como as tecnologias de
foco na interdisciplinaridade e atendimento às informação, levando o aluno ao acesso de
regionalidades. Nesse contexto, deve contar
conteúdos sistematizados e informações.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Contudo, a EaD ainda pode ser considerada como mar
a ser desbravado, pois sua história é recente e se encontra
em processo de aprimoramento do uso das tecnologias,
do currículo articulado com a realidade do aluno, nas
necessidades educacionais da sociedade moderna e na
velocidade da informação. Nestes aspectos é importante
salientar o dinamismo que esta modalidade exige do
professor em acompanhar as novas tecnologias e estudos
acerca dos temas que tratará em suas aulas e na bibliografia
em geral que cada dia tem descobertas significativas em
todas as áreas de conhecimento.

CARLA FERREIRA DE
ARAUJO

Graduação em Letras pela


Faculdade UNIMESP (2013);
Especialista em Metodologia
e Didática do Ensino Superior
pela FACITEP (Faculdade de
Ciências e Tecnologia Paulistana)
de São Paulo (2016); Professor
de Educação Infantil e Ensino
Fundamental I na EMEF
João Ramos – Pernambuco -
Abolicionista.

558
Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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TECNOLOGIA%20COMO%20CAMINHO%20PARA%20UMA%20EDUCACAO%20
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BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional: lei nº 9.394, de 20 de dezembro de


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560
Revista Educar FCE - Março 2019

A GESTÃO DEMOCRÁTICA NO ENSINO


PÚBLICO E AS SUAS PRINCIPAIS
FORMAS DE CONSOLIDAÇÃO
RESUMO: Esta pesquisa trata de uma revisão bibliográfica com o foco voltado à Gestão
Democrática na escola pública. Dentro desse tema, o objetivo deste trabalho é conhecer
os pressupostos da Gestão Democrática na escola pública e apresentar os aspectos da
legislação pertinente ao tema escolhido. Analisar e explicitar as definições e concepções
do Projeto Político Pedagógico e do Conselho de Escola, bem como o papel que estas duas
esferas desempenham na consolidação dos princípios de uma gestão democrática. Neste
tipo de gestão a participação de todos é fundamental para a democratização do processo
pedagógico. O papel do diretor de escola perpassa pelo pressuposto que o mesmo deve
atender as novas demandas em uma gestão que conta com a participação de todos, nas
decisões coletivas, nas definições e na análise de questões comuns dentro do ambiente
escolar. A existência do Projeto Político Pedagógico (PPP) é um dos pilares mais fortes na
construção da gestão democrática e participativa nas Unidades Educacionais, sendo um
plano orientador das ações e práticas pedagógicas.

Palavras-Chave: Gestão Democrática; Ensino Público; Projeto Político Pedagógico; Conselho


de Escola.

561
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO com todos os atores envolvidos no processo


educacional. Este documento por conter
Este estudo aborda a Gestão Democrática tantas informações que caracterizam e dão
na Escola Pública e traz como objetivo geral: “vida” a Unidade Educacional se converte
pesquisar e conhecer os princípios que em um instrumento de avaliação e de
regulamentam a Gestão Democrática na Escola planejamento das ações em que todos os
Pública e objetivos específicos: Identificar os membros da escola participam para a tomada
aspectos legais que fundamentam o tema em de decisões e definição dos caminhos a serem
questão; analisar e explicitar as definições e percorridos para uma prática pedagógica
concepções do Projeto Político Pedagógico pautada na aprendizagem efetiva e no
Educacional e do Conselho de Escola e o sucesso escolar.
papel que desenvolvem como elementos na
consolidação da Gestão Democrática. Com o Projeto Político Pedagógico, o
diretor escolar é capaz de concretizar a
Um dos princípios de gestão pode ser participação coletiva de todos que constituem
caracterizado pelo fato de reconhecer a a equipe educacional, na definição de metas
participação de todos, como de fundamental para a garantia dos direitos de aprendizagem
importância para o sucesso das ações e para e desenvolvimento dos bebês e crianças,
a democratização do processo pedagógico. A meninos e meninas, jovens e adultos,
gestão escolar é responsabilidade do diretor que são educados e cuidados na Unidade
de escola, porém, não só dele e tem como Educacional. Com um PPP bem estruturado
objetivo estabelecer a unidade e integração e elaborado num processo coletivo, tendo
de todas as ações da escola de modo que se o compromisso com a qualidade social da
concentrem na formação e aprendizagem educação, ganhando uma identidade.
dos alunos.

A mudança de paradigma de administração ESCOLA PÚBLICA X GESTÃO


para gestão vem ocorrendo nos sistemas DEMOCRÁTICA
de ensino e nas organizações, delineando
perspectivas para uma gestão competente Um dos princípios de gestão democrática
que garanta a participação das pessoas e participativa pode ser definido pelo
envolvidas no processo educacional, nas reconhecimento de que a participação
decisões, com o compromisso de melhoria de todos é fundamental para a sua
dos resultados educacionais. consolidação para a democratização do
processo pedagógico. A gestão escolar é
Cada Unidade Educacional tem autonomia responsabilidade do diretor de escola, porém,
para a formulação do seu Projeto Político não só dele e tem como objetivo estabelecer
Pedagógico de forma coletiva e conjunta a unidade e integração de todas as ações

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Revista Educar FCE - Março 2019

da escola de modo que se concentrem na entendimento ou participação, neste caso,


formação e aprendizagem dos alunos. os resultados nem sempre são satisfatórios,
por não haver envolvimento das pessoas.
A autonomia competente citada pela autora
pressupõe que todos os “atores” envolvidos, Pensar numa educação democrática é pensar
numa educação feita para todos e com
participem das decisões coletivamente, todos, que promova igualdade de condições,
respeitando a legislação vigente que rege observando as diferenças, as desigualdades, as
a gestão, neste sentido, é que podemos desigualdades, as diversidades culturais, étnicas,
sociais, políticas e econômicas. Nesse sentido,
afirmar que a autonomia é limitada pelo fato partir da democracia como valor maior da gestão
de o grupo tem o poder de decisão, desde pedagógica de uma instituição educacional
que amparados pela lei vigente. implica compreender o currículo como conjunto
de ações que, para além de planos, objetivos,
procedimentos e aspectos organizacionais,
A Gestão não se confunde com a ideia de compreendam como se configura o cotidiano,
mero gerenciamento de condições pessoais como são as práticas educacionais de cada
ou materiais, nem tampouco se reduz a instituição, quais são as crenças e os valores que
especificações estatutariamente estabelecidas habitam os lugares e como se dão as interações
a cargos e funções, que são legitimadas em entre os diferentes sujeitos da comunidade
forma de atribuições legais de um dado exercício educativa. (SÃO PAULO, 2019, p. 179-180)
profissional. Compreende-se aqui a possibilidade
de acolher um significado alargado ao termo,
em que todos estão implicados com a prática É importante haver um entendimento
educativa como prática social. (SÃO PAULO,
entre todos os profissionais (professores,
2019, p. 179)
alunos, funcionários e pais de alunos)
dirigindo a instituição de uma maneira mais
A escola possui uma autonomia relativa aberta necessitando que todos, em conjunto
para gerir as suas ações no que concerne dividem as tarefas e responsabilidades nas
a tomar decisões coletivas que estejam em ações e atuações no contexto escolar.
conformidade com a legislação em vigor.
A natureza do trabalho que o diretor
O que devemos ter bem claro é o sentido desenvolve na instituição escolar exige
de gestão destacando a diferença entre o trabalho cooperativo na organização e
autoridade e autoritarismo, autoridade refere- de autoridade na escola, a partir de uma
se à responsabilidade na execução de suas gestão com maior força diante do Estado e
ações e responsabilidades, já o autoritarismo maior legitimidade diante da comunidade
não leva em conta a competência e sim o educativa. Não basta mudar a terminologia
cargo que a pessoa ocupa. Quando o gestor ou apenas o termo utilizado é necessário
exerce uma posição autoritária ele não é que os gestores educacionais tenham um
capaz de mostrar a sua equipe quais são os novo olhar e compreendam as demandas
seus propósitos e objetivos e esta equipe atuais da sociedade. Neste sentido, todos os
passa a cumprir ordens, sem questionar e sem esforços devem ser desprendidos no sentido

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Revista Educar FCE - Março 2019

de garantia da aprendizagem e do sucesso O PPP pode ser definido como projeto


educacional, numa visão mais igualitária e porque traz as propostas de ação a serem
mais justa. executadas, como político por ser a escola um
local de formação de cidadãos conscientes
[...] a equipe gestora não é responsável e pedagógico porque organiza os projetos
exclusiva pelo currículo. Todavia, exerce papel
importante no trabalho colaborativo da escola, e atividades educativas relacionadas ao
como articuladora da avaliação institucional, da processo de ensino e aprendizagem. Este
formação permanente das(os) professoras(es), e documento constitui uma das maneiras mais
destes com a construção, o redimensionamento
e os registros coletivos e participativos do PPP. eficazes de auxílio na construção da gestão
(SÃO PAULO, 2019, p. 182) democrática e participativa nas Unidades
Educacionais, sendo um plano orientador
Com a Constituição Federal de 1988 a das ações e práticas pedagógicas.
educação passa por transformações em
seu papel na sociedade e uma nova visão A construção coletiva, participativa e
genuinamente democrática do Projeto Político
passa a vigorar neste sentido do processo de Pedagógico (PPP) como expressão das intenções
democratização política em que vivia o país. e como vivência de propostas pedagógicas que
Assim, termos como democracia, gestão traduzam a marca identitária de cada Unidade
é de suma importância para a concretização da
democrática e participação coletiva passam tão sonhada gestão democrática. Nas palavras
a vigorar neste contexto histórico. de Azanha (2006, p.104), “elaborar o projeto
pedagógico é um exercício de autonomia”. (SÃO
PAULO, 2019, p. 180)
A Constituição Federal Brasileira de 1988
traz em seu texto no Art. 206 que o ensino
será ministrado com base no princípio de Por meio do PPP o gestor reconhece e
gestão democrática do ensino público. concretiza a participação de todos os atores
envolvidos no processo educacional, na
definição de metas para a garantia dos direitos
FORMAS DE CONSOLIDAÇÃO de aprendizagem e desenvolvimento dos
DA GESTÃO DEMOCRÁTICA bebês e crianças, meninos e meninas, jovens
e adultos, que são educados e cuidados na
NA ESCOLA Unidade Educacional.
O Projeto Político Pedagógico (PPP)
constitui-se como um dos elementos de Com um PPP bem estruturado e elaborado
consolidação da gestão democrática da num processo coletivo, tendo o compromisso
educação. O PPP é um documento que traz com a qualidade social da educação, a escola
o conjunto de metas que se deseja alcançar ganha uma identidade clara e segurança para
para a concretização dos objetivos da tomar decisões.
unidade educacional.

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Revista Educar FCE - Março 2019

Para a concretização do PPP o diretor O Projeto Político Pedagógico deverá


de escola deve acompanhar e avaliar a sua prever as formas de organização da Unidade
execução de forma coletiva, em conjunto Educacional como os espaços e ambientes,
com a comunidade educativa, conselho de os materiais, garantindo o acesso e a
escola e supervisão escolar, garantindo os participação de todos os bebês e crianças,
princípios da gestão democrática. incluindo as com deficiências, transtorno
global do desenvolvimento, superdotação
O PPP deve se orientar para a escuta e o ou altas habilidades, de diferentes etnias,
protagonismo da criança, efetivando uma
proposta curricular que se concretize pela classes sociais, culturas e religiões.
participação e pelo diálogo permanente
com bebês, as crianças e as suas famílias/ As formas de avaliação e acompanhamento
responsáveis, no sentido de problematizar,
explicitar práticas e projetar novas possibilidades das aprendizagens das crianças constam no
de viver a infância. Nesse contexto, precisamos PPP e seguem as recomendações previstas
perguntar como as(os) professoras(es), as na legislação em vigor, contendo a descrição
crianças e os bebês, as famílias/responsáveis e
a comunidade participam da construção deste das formas e dos instrumentos de registro
documento. (SÃO PAULO, 2019, p. 183) que compõem a documentação pedagógica
utilizada pela Unidade Educacional,
A equipe escolar deve planejar estratégias inclusive controle da frequência, a avaliação
que possibilitem a construção de relações Institucional também em conformidade com
de cooperação que favoreçam a formação a legislação em vigor é parte integrante do
de parcerias, atendendo às reivindicações PPP.
da comunidade local em consonância com
os propósitos pedagógicos da unidade Assumir a gestão democrática do processo
pedagógico implica assumir que tanto bebês e
educacional e promovendo a efetiva crianças como famílias/responsáveis podem
participação de todos os envolvidos neste e devem fazer escolhas e são coautoras do
processo. planejamento da escola. Crianças, bebês,
famílias/responsáveis e comunidade são agentes
tão potentes na construção da proposta curricular
A Unidade Educacional deve prever em da instituição quanto as(os) educadoras(es).
seu PPP como será realizada a articulação Cabe salientar que isso não diminui e nem retira
o lugar das(os) professoras(es) no planejamento
da gestão da Unidade Educacional com e na proposta curricular. (SÃO PAULO, 2019, p.
os órgãos auxiliares, dentre eles temos o 185)
Conselho de Escola e a Associação de Pais
e Mestres (APM). No próximo capítulo desta A discussão do Projeto Político Pedagógico,
pesquisa falaremos mais detalhadamente sua elaboração, reelaboração e revisão
sobre as funções do Conselho de Escola e devem ocorrer nos momentos coletivos,
a sua contribuição para a concretização da como reuniões pedagógicas, conselho de
gestão democrática da escola pública. escola, conselho de classe, dentre outros.
O diretor de escola é o responsável em

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Revista Educar FCE - Março 2019

articular o Projeto Político Pedagógico diretor escolar também é responsável pelos


em colaboração com todos os envolvidos projetos com a comunidade e deve garantir
no processo educacional, deve fornecer e a execução de maneira eficaz dos planos e
subsidiar juntamente com o coordenador metas.
pedagógico, as ações necessárias para a
efetivação deste documento, para então O conselho de escola desempenha um
realizar as intervenções as alterações que importante papel no exercício da democracia
forem necessárias. da escola pública e pode ser entendido como
um dos elementos que contribuem para
Para a consolidação da gestão democrática a consolidação da gestão democrática na
do ensino público os gestores devem ter escola, conforme pressuposto inicial desta
consciência da importância do PPP como pesquisa.
um documento que vai nortear as ações ali
desenvolvidas, não tratando este documento Reúne os diferentes membros da equipe
apenas como um documento burocrático escolar e tem o propósito de discutir, definir,
cumprimento exigências legais. avaliar e acompanhar o Projeto Político
Pedagógico da escola que como vimos no
O envolvimento da comunidade no capítulo anterior é definido como projeto
trabalho de criação do PPP é de fundamental porque traz as propostas de ação a serem
importância para o atendimento de seus executadas, como político por ser a escola um
propósitos, contribuindo para que a escola local de formação de cidadãos conscientes
construa a sua identidade e tenha a segurança e pedagógico porque organiza os projetos
para tomar decisões, nos remetendo ao e atividades educativas relacionadas ao
conceito de autonomia relativa, sempre processo de ensino e aprendizagem.
respeitando a legislação vigente. Quando
a comunidade participa dos processos A Portaria 2565/08 da Secretaria Municipal
educativos, o trabalho do gestor é facilitado, de Educação normatiza a composição
no qual todos são parte integrante deste do Conselho de Escola nas Unidades
processo e as decisões tomadas no coletivo Educacionais da Rede Municipal de Ensino.
fortalecem as relações desenvolvidas neste De acordo com esta portaria o Conselho de
espaço educativo. Escola será composto pelo membro nato que
é o Diretor de Escola e pelos representantes
O diretor de escola é a pessoa responsável eleitos, formado pela equipe docente
por articular o PPP e deve garantir que (Professores) em exercício na Unidade
o processo de criação do projeto seja Educacional, pela equipe técnica (Assistente
democrático, é o responsável pelos recursos de Diretor e Coordenador Pedagógico), pela
que serão mobilizados para que se consiga equipe de apoio à educação (Secretário de
alcançar as metas e atingir os objetivos. O Escola, Agente de Apoio Agente Escolar,

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Revista Educar FCE - Março 2019

Agente da Administração/Vigilância e Auxiliar Técnico de Educação), pela equipe discente


(alunos a partir do 4º Ano do ciclo I) e pelos pais e responsáveis pelos alunos.

O Governo Federal, pela Portaria Ministerial 2896/2004 criou o Programa de


Fortalecimento dos Conselhos Escolares, no qual publicou cadernos contendo discussões
sobre as atribuições e o seu funcionamento.

A constituição da escola democrática não pode ser concebida sem a participação ativa de
professores e alunos, mas a sua realização demanda também a participação democrática de
outros seguimentos que compõe a equipe escolar e o exercício da cidadania crítica por seus
atores, sendo o produto de um processo de construção coletiva.

O estilo da gestão participativa acentua a necessidade de “prever formas organizativas e procedimentos mais
explícitos de gestão e de articulação das relações humanas” no ambiente escolar: interações entre pessoas
com cargos diferentes, especialidades distintas e histórias de vida singulares que compartilhem objetivos
comuns e decidam, de forma pública, participativa e solidária, os processos e os meios de conquista desses
objetivos. (LIBÂNEO, 2003, p.382).

De acordo com as orientações do Currículo da Cidade de São Paulo a gestão democrática,


que requer e remete às práticas participativas construídas no encontro e no diálogo entre
os diferentes sujeitos e os diferentes saberes, é consolidada na divisão de significados,
processos e ações do fazer pedagógico. Organiza-se numa ação situada, por meio da qual
os sujeitos envolvidos pensam sobre as suas próprias ações e realizações, perguntam sobre
elas, investigam os seus fazeres, expõem crenças, contradições e ambiguidades, para então
problematizá-las e transformá-las.

Segundo Sacristan (1999) o processo de gestão democrática na escola não se resume apenas
na participação e sim todas as práticas irão refletir quais valores são almejados e trabalhados
neste contexto. Para o fortalecimento da gestão democrática na escola é necessário garantir
reais possibilidades de participação e organização colegiada que são fundamentais para a
garantia da democratização das relações na unidade escolar. O fortalecimento do Conselho
Escolar, buscando formas de ampliar a participação ativa de professores, coordenadores,
estudantes, funcionários, pais de estudantes e comunidade local é muito importante para a
efetivação da gestão democrática.

567
Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Uma gestão democrática na educação prevê a divisão
de responsabilidades no processo de tomada de decisões
envolvendo todos os segmentos da unidade educacional
para a busca de soluções que se adequem as necessidades
reais da escola.

A mudança de paradigma de administração para gestão


vem ocorrendo nos sistemas de ensino e nas organizações,
delineando perspectivas para uma gestão competente que
garanta a participação das pessoas envolvidas no processo
educacional, nas decisões, com o compromisso de melhoria CARLA SIMONE VICENTE
dos resultados educacionais. TAVARES DE OLIVEIRA

Graduada em Pedagogia pela


O conceito de gestão de escola também se refere ao Universidade Metropolitana de
ambiente autônomo e participativo, no qual todas as Santos (2015); Especialista em
pessoas trabalham coletivamente em busca do alcance de Administração com Ênfase em
Educação, Diversidade e Inclusão
objetivos comuns. Para que isso ocorra na prática é preciso Social pela Faculdade Campos
definir os objetivos que se pretende alcançar e que todos os Elíseos (2018). Professora de
atores envolvidos neste processo estejam conscientes dos Educação Infantil na Prefeitura
do Município de São Paulo, atua
propósitos e objetivos que almejam. como Assistente de Diretor na
Emei Coronel José Canavó Filho.
A autonomia pressupõe que todos os “atores” envolvidos,
participem das decisões coletivamente, respeitando a
legislação vigente que rege a gestão, neste sentido, é que
podemos afirmar que a autonomia é limitada, no qual o
grupo tem o poder de decisão, desde que amparados pela
lei vigente.

Analisando a legislação vigente, fica claro que com a Constituição Federal de 1988 a
educação passa por transformações em seu papel na sociedade e uma nova visão passa a
vigorar neste sentido do processo de democratização política em que vivia o país.

Cada Unidade Educacional tem autonomia para a formulação do seu Projeto Político
Pedagógico de forma coletiva e conjunta com todos os atores envolvidos no processo
educacional. Este documento por conter tantas informações que caracterizam e dão “vida” a
Unidade Educacional se converte numa ferramenta de planejamento e avaliação.

568
Revista Educar FCE - Março 2019

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1988. Brasília, 1988.

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569
Revista Educar FCE - Março 2019

A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NO
PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM
RESUMO: Este Trabalho de conclusão de curso tem como objetivo conscientizar sobre a
importância da afetividade no processo de ensino e aprendizagem. Infelizmente, entre os
educadores da maioria das Instituições de Ensino, é forte a ideologia de que o aprendiz pode
ser dividido em duas partes: físico e mental, razão e emoção ou cognitivo e afetivo. Vamos
nos ater a este último citado: cognitivo e afetivo, focando precisamente na afetividade,
refletindo se podemos realmente pensar nessa dicotomia do ser humano no complexo
processo de ensino-aprendizagem. Inicialmente abordamos pareceres e teorias de renomados
estudiosos no campo da afetividade como Piaget, Vygotsky e Wallon, que embasam suas
teorias na psicogenética e na abordagem sócio-cultural, ambos, em seus estudos, mostram
a complexidade que se dá neste diálogo entre a cognição e afetividade, cada um discorre
em sua teoria com suas especificidades; um dando maior ênfase a um ponto que o outro, no
entanto percebemos que elas se entrelaçam, produzindo um efeito positivo para o estudo
sobre a relação da indissociação do indivíduo. Refletiremos no papel do psicopedagogo no
âmbito escolar como facilitador das interações e da promoção de uma afetividade eficaz na
aprendizagem, para tal reflexão, buscamos Nos estudos de Nádia Bossa mostraR a história
e evolução da psicopedagogia no Brasil. O trabalho apresentado dá impulso a um caminho
árduo e recompensador aos profissionais ligados a uma forma significativa de ensinar, pois
busca levar à consciência dos educadores que a criança é um ser integral que pensa, que age
e que, sobretudo, sente.

Palavras-Chave: afetividade; aprendizagem; desenvolvimento

570
Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO ouvir gritos e imposições de educadores


com discurso de disciplinar, mas que acabam
A relação entre afetividade e aprendizagem pela generalização de todo corpo discente.
é um tema raramente discutido e ocultado Ouve-se insultos e exposições de erros,
na esfera educacional. Pouco se fala deste que são comuns em que está em fase de
tema, mas a afetividade é um dos fatores de aprendizagem, como se não houvesse
sucesso ou fracasso no processo de ensino e tolerância nas relações, ou até como se não
aprendizagem. houvesse relações, separando a criança o seu
lado emocional, dizendo que os alunos não
Piaget, Vygotsky e Wallon já vinham, em vão à escola para fazerem dos professores
suas obras, apontando a importância da amigos, mas sim para aprenderem.
afetividade para o ser humano e para sua
aprendizagem. Aliás, foi por meio destes Esse discurso muito falado e pouco
autores que se deu o contato inicial com este pensado reflete o quanto bebemos da
assunto. fonte de teorias tradicionais e dicotômicas
do individuo, teorias estas que separam
O objetivo deste estudo é refletir que não a criança, com a afirmativa de que escola
há uma divisão do ser humano, somos feitos é só para estudar e aprender conteúdos.
integralmente de cabeça e coração, afeto e Tais situações são refletidas ao decorrer do
cognição. O lado da afetividade interfere no ano letivo dos alunos, como notas baixas,
processo de aprendizagem e é tão importante aumento da violência, falta de diálogo e
quanto o lado cognitivo. desinteresse para aprender, sendo mais fácil
lançar a culpa à toda sorte, menos ao fato da
A experiência no magistério permitiu a instituição olhar o aluno de forma integral –
observação das relações entre a afetividade corpo e mente, afeto e cognição.
e a aprendizagem das crianças. Em nossos
dias, grande parte do tempo que os alunos Tais impressões foram reforçadas no
passam com um adulto experiente que possa percurso deste curso de pós-graduação. O
lhe trocar saberes se dá na escola e com o contato com a psicopedagogia estimulou
professor, tempo este maior que com os um aprofundamento do assunto e surgiram,
pais, pois na maioria dos casos trabalham e então, alguns questionamentos como: O
a convivência quantitativa, no que se refere quanto a afetividade pode influenciar a
a tempo, é pouca, vemos aqui a importância aprendizagem de um indivíduo? Como a
que se tem os conteúdos e, também, relações psicopedagogia se posiciona neste tema?
emocionais nas escolas. Como o pedagogo pode facilitar este processo
de aprendizagem? De fato podemos separar
Ao passar por entre os corredores das o individuo entre afeto e cognição?
Instituições Educacionais não é incomum

571
Revista Educar FCE - Março 2019

Observa-se que tais questionamentos o profissional desta área tem ao reconhecer


levam justamente ao campo da o bom desenvolvimento da afetividade como
psicopedagogia, pois é uma área parte de um ensino eficaz e de qualidade.
interdisciplinar, um campo de atuação que
lida com o conhecimento, sua aquisição, Para uma melhor compreensão do tema,
distorções diferenças e desenvolvimento por foram utilizados autores como Arantes
meio de diversos processos e estratégias, (2003), Bossa (2000), La Taille, Oliveira,
considerando sempre a individualidade do Dantas (2016), Rego (2009), entre outros.
aprendiz.
A partir da leitura dos autores supracitados
Está comprometida com a melhoria das buscou-se a compreensão dos conceitos de
condições pessoais do sujeito que aprende. afetividade e aprendizagem dando subsídios
para uma reflexão sobre a importância
Desta forma, esta pesquisa delimita-se da afetividade no processo de ensino e
por desenvolver uma reflexão a cerca da aprendizagem sob o olhar da psicopedagogia,
afetividade e sua influência na aprendizagem. tendo como finalidade o incentivo ao diálogo
com os educadores para que assim como
O desenvolvimento deste trabalho exigiu evoluíram os estudos possam evoluir para
a realização de várias leituras e pesquisas uma forma contemporânea e eficaz de se ver
bibliográficas. O esclarecimento da o aluno, buscando uma formação integral
afetividade de acordo com os mais famosos do aluno que aprende, que emociona, que
autores da psicogenética é fundamental para pensa e que sente.
uma melhor compreensão do tema, desta
forma o trabalho está estruturado em dois Uma vez que o aprendizado se dá através
capítulos. de relações interpessoais e não apenas com
exposições de conteúdos, como muitos ainda
Neste estudo a afetividade será abordada pensam é necessário que repensemos nossas
à luz das teorias de Piaget, Vygotsky e Wallon, práticas. Conteúdos, temos facilmente
em suas abordagens singulares que, no divulgados por livros e hoje proliferado
entanto, se fundem quanto à importância da pelas redes midiáticas, agora relações de
afetividade no desenvolvimento do individuo, afeto se dá através de contato de gente com
num segundo momentos veremos o conceito gente. Assim se dá uma relação integral e
de psicopedagogia, buscando, também, efetivamente a integralidade do ser.
abordar de forma objetiva a introdução da
psicopedagogia no Brasil e seus desafios,
concomitantemente com os avanços das
pesquisas do ramo da aprendizagem, suas
aquisições e seus facilitadores, e o papel que

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Revista Educar FCE - Março 2019

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA A afetividade é comumente interpretada


como uma ‘energia’, portanto, como algo que
impulsiona as ações (...). O desenvolvimento
Para entendermos o papel da afetividade da inteligência permite, sem dúvida, que a
motivação possa ser despertada por um numero
no processo de ensino-aprendizagem cada vez maior de objetos ou situações (...) A
abordaremos concepções teóricas de afetividade é a mola propulsora das ações, e a
grandes estudiosos neste campo. razão está a seu serviço.

Wadsworth (1995) pondera ainda que


JEAN PIAGET na ótica piagetiana todo processo de
desenvolvimento inerente ao ser humano
Na teoria de Jean Piaget, o tema afetividade passa pela dimensão social e envolve
não é frequentemente relacionado. Ele cognição, afeto e moral. Segundo ele, durante
escreveu pouco sobre o tema, mas isso não os últimos 30 anos, tanto psicólogos, quanto
significa que ele não considerava importante. educadores, voltaram à atenção mais para
Para ele a afetividade não se resume às o papel dos conceitos cognitivos do que
emoções e aos sentimentos, mas envolve para os conceitos afetivos da sua teoria. Ele
também as tendências e vontades. próprio, mesmo reconhecendo o aspecto
afetivo como importante, concentrou sua
Para Piaget, como cita Souza(2003): atenção mais no aspecto cognitivo.

São centrais... os seguintes pressupostos: O interesse, para Piaget, seria o elemento


• Inteligência e afetividade são diferentes
em natureza, mas indissociáveis na conduta poderoso e comum de afetividade que,
concreta da criança, o que significa que não há por sua vez, influencia nossa seleção de
conduta unicamente afetiva; atividades intelectuais, ou seja, a seleção
• A afetividade interfere constantemente no
funcionamento da inteligência, estimulando-o ou não é provocada pelas atividades cognitivas,
perturbando-o, acelerando-o ou retardando-o; mas pela afetividade, o que Piaget chama de
• A afetividade não modifica as estruturas interesse.
da inteligência, sendo somente o elemento
energético das condutas.

Para Piaget (1976) o afeto é uma ferramenta CONTRIBUIÇÕES DE LEV


primordial para o desenvolvimento cognitivo. VYGOTSKY
A afetividade por sua vez, desempenha um
papel fundamental no funcionamento da Vygotsky vê o homem como um ser que
inteligência, sem ele, não existe motivação, pensa e raciocina, mas, também, como um
nem interesse, nem necessidade e por ser que sente, se emociona, deseja, imagina
consequência o desenvolvimento da e se sensibiliza.
inteligência pode ser prejudicado. Nas
palavras de La Taille (1992:65):

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Revista Educar FCE - Março 2019

Ele não separa o intelecto do afeto, O sujeito visto pelos olhos de Vygotsky
pois busca entender o sujeito como uma é um ser histórico-cultural, é produto do
totalidade. desenvolvimento de processos físicos e
“Referimo-nos à relação entre intelecto mentais, cognitivos e afetivos, internos e
e afeto. A sua separação enquanto objetos
de estudo é uma das principais deficiências externos.
da psicologia tradicional. Uma vez que esta
apresenta o processo de pensamento como Os processos cognitivos e afetivos como
fluxo autônomo de pensamentos que pensam
por si próprios, dissociados da plenitude da vida, o modo de pensar e o modo de sentir são
das necessidades e dos interesses pessoais, das carregados de conceitos, relações e práticas
inclinações e dos impulsos daquele que pensa.” sociais de um determinado fenômeno
(VYGOTSKY, 1998, P 6-7)
histórico e culturais, logo afetividade humana
é constituída culturalmente.
Segundo ele são os desejos, necessidades,
emoções, motivações, interesses, impulsos e “... por meio do modelo vygotskyano é possível
concluir que as funções psíquicas humanas
inclinações do ser humano que dão origem estão intimamente vinculadas ao aprendizado,
ao pensamento e este exerce influência à apropriação (por intermédio da linguagem) do
sobre o aspecto afetivo. legado cultural de seu grupo... O longo caminho
do desenvolvimento humano segue, portanto,
Em sua perspectiva, conhecimento e
do social para o individual (REGO, 2003)
afetividade não são separadas no individuo,
apesar de diferentes elas se inter-relacionam
no processo de desenvolvimento.
CONCEITO DE AFETIVIDADE
“Quem separa desde o começo o pensamento
do afeto fecha para sempre a possibilidade DE HENRI WALLON
de explicar as causas do pensamento, porque
uma análise determinista pressupõe descobrir A teoria de Henri Wallon é baseada numa
seus motivos, as necessidades e interesses, os visão não fragmentada do desenvolvimento
impulsos e tendências que regem o movimento
do pensamento em um ou outro sentido” humano, busca compreendê-lo do ponto
(VYGOTSKY, 1993:23) de vista do ato motor, da afetividade, da
inteligência e das relações que o individuo
Para ele, as dimensões do afeto e da estabelece com o meio. As suas investigações
cognição estão desde cedo dialeticamente foram concentradas nos primeiros anos de
relacionadas. Nesse contexto, o repertório vida.
cultural, as experiências e as interações
com outras pessoas são fundamentais para Em sua linha de estudo, dá destaque às
a compreensão do desenvolvimento com emoções e às contradições entre esta e outros
relação à afetividade. campos funcionais no desenvolvimento,
adotando para o estudo os fatores de origem
orgânica e social.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O principio das emoções, denominado para CONCEITO DE


Wallon como período impulsivo emocional, PSICOPEDAGOGIA
encontra-se nas primeiras relações que
o bebê estabelece com a mãe, ou adulto O termo psicopedagogia no Novo
próximo que interage com ele, justificando Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa
assim, que o surgimento das emoções precede é definido como “aplicação da psicologia
o da representação e da consciência de si. experimental na pedagogia” (1992, p.VIII). No
Por meio de gestos impulsivos, contorções entanto, a psicopedagogia é reconhecida por
ou espasmos corporais, bem como das mais ter caráter interdisciplinar, haja vista que são
primitivas expressões emocionais como vários os campos escolhidos para se tratar
choro ou o sorriso, o bebê chama a atenção da especialização tais como: Pedagogia,
das pessoas ao seu redor, ou seja, ele afeta Psicologia, Fonoaudiologia, Lingüística,
as pessoas que retornam o afeto a ele, uma Medicina, Psicanalise, Filosofia, entre outros.
ação reciproca afetiva.
O caráter interdisciplinar pode ainda ser
Com o desenvolvimento psíquico, a percebido em Scoz:
origem dos estados emocionais se alargam
e a afetividade vai desenvolvendo maior Psicopedagogia, área que estuda e lida com o
processo de aprendizagem e com os problemas
independência dos fatores corporais. A fala e dele decorrentes, recorrendo aos conhecimentos
a organização mental faz com que as emoções de várias ciências, sem perder de vista o fato
se organizem e se expressem através de educativo, nas suas articulações sociais mais
amplas (SCOZ, 1996:12).
palavras, essa organização ou reflexão mental
fará com que se reduzam as manifestações da
emoção, no entanto, quando a emoção não Podemos constatar por experiências e
conseguir ser convertida em ação motora estudos que a Psicopedagogia é uma área de
ou mental, quando ela fica pura e intensa, atuação, de estudo e aplicação que recorre
haverá desorganização, podendo ser esta à outras vertentes, mas o seu maior espaço
desorganização um gerador de problemas de de atuação é no campo da psicologia e da
aprendizagem. educação.

A história da construção do individuo na A Profª Mestre Sandra Regina Stanziani


teoria walloniana será constituída por uma Higino Mesquita em seus artigos do curso
alternância entre momentos dominantes de Psicopedagogia Institucional e Clinica da
afetivos ou dominantes cognitivos, mas não Universidade São Caetano do Sul – USCS,
são separados, apenas dominantes. diz:

Se acreditamos que o ser aprende à partir


das relações que estabelece com o outro e
que devemos considera-lo em sua globalidade

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Revista Educar FCE - Março 2019

e o mesmo deve ser observado dentro de


seu contexto. Estaremos preocupados com o para o problema. Por muitos anos até às
modo como ele aprende e assim responde ao ultimas décadas vemos desculpa de atribuir
que lhe é solicitado e não a respostas prontas o sucesso e fracassos dos alunos a fatores
e padronizadas a que muitos são submetidos
dentro do processo de aprendizagem. individuais, neste sentido:

Os problemas educacionais no Brasil têm


sido objeto de pesquisa de muitos estudiosos. A
Neste ponto, os estudos nos remetem à grande parte deles tem enfocado especificamente
preocupação de como a criança aprende, o tema fracasso escolar, e alguns deles, ainda
levando em consideração a sua totalidade, hoje, atribuem como causa do fracasso escolar
os problemas individuais dos alunos. Esta ideia
para isso é necessário que as áreas se cruzem lamentavelmente também é compactuada por
para entendo o ser em sua complexidade. alguns professores, revelando a existência de
um ensino conservador que, geralmente, impõe
todas as culpas ao próprio aluno. (CURONICI &
Logo, podemos entender a Psicopedagogia MCCULLOCH,1999:54)
como uma área interdisciplinar, que lida
com o conhecimento, sua ampliação, sua
aquisição, suas distorções, suas diferenças e Com essas preocupações, em 1958, surge
seu desenvolvimento, considerando sempre a primeira experiência psicopedagógica
a individualidade de quem aprende. Está com a criação do Serviço de Orientação
comprometida com a melhoria das condições Psicopedagógica (SOPP) da “Escola
pessoais de quem adquire o conhecimento e Guatemala” na extinta Guanabara. O
do ambiente que se estabelece na relação do SOPP buscava a melhoria da relação
processo de ensino e aprendizagem. professor e aluno, criando um ambiente
mais receptivo para a aprendizagem,
partindo das experiências anteriores dos
PSICOPEDAGOGIA NO alunos. Conforme essa experiência atuava,
BRASIL apareceram várias clínicas psicopedagógicas
pelo país atendendo demanda de crianças
O principal desafio do sistema escolar até que eram encaminhadas pelas escolas, por
a década de 60 era do acesso e permanência apresentarem baixo rendimento escolar.
do ensino à todos, tanto de crianças como de
adultos que não o obtiveram. Para superar Embora os estudos e serviços pedagógicos
esse desafios foi feito politicas publicas ara cresciam , Bossa (2000), revela que no Brasil,
o acesso, mesmo que não em sua totalidade por muito tempo se explicou o problema
em sua eficiência. Nessa mesma época da aprendizagem como produto de fatores
os altos índices de evasão e repetência, orgânicos, na década de 70 foi amplamente
refletindo, assim, o fracasso escolar, era tema difundida a ideia de que tais problemas teriam
preocupante para estudo de profissionais da como causa uma disfunção neurológica não-
educação buscarem estratégias e respostas detectável em exame clínico (...) chamada

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Revista Educar FCE - Março 2019

disfunção cerebral mínima. Ainda nas Em 1988, a “Associação de Psicopedagogo


palavras da autora: de São Paulo” transforma-se na “Associação
Brasileira de Psicopedagogia”. Pelo tempo de
O rótulo DCM foi apenas um dentre os sua existência a associação tem promovido
vários diagnósticos empregados para camuflar
problemas sociopedagógicos traduzidos encontros, congressos, com o objetivo da
ideologicamente em termos de psicologia reflexão da formação do psicopedagogo e
individual. Termos como dislexia, disritmia e repensar as possibilidades de intervenção da
outros também foram usados para este fim.
psicopedagogia no percurso educativo.
(BOSSA, 2000:49)

Atualmente, a oferta de cursos de


No principio da década de 70 surgiram psicopedagogia aumentou, tendo como
em nível institucional, diversos cursos com desafios uma formação psicopedagógica
enfoque psicopedagógico, antecedendo a de qualidade, a ampliação do campo de
criação de cursos formais de especialização e atuação para as instituições, a construção da
aperfeiçoamento. Em 1979, surge o primeiro identidade do Psicopedagogo e a delimitação
Curso Regular de Psicopedagogia, (criado do seu campo de atuação. Tendo como, ainda,
por Maria Alice Vassimon) e Madre Cristina a raiz de sua natureza e como objeto de
Sodré Dória, no Instituto Sedes Sapientiae, estudo o processo de ensino e aprendizagem
em São Paulo. A este respeito: e as dificuldades deste processo.

Maria Alice Vassimon, preocupada com a


perspectiva de um homem global, percebido
a partir de referencias intelectuais, afetivas e
O PAPEL DO
corporais, questionando o mito da psicologia na
época e com uma grande vontade de retomar
PSICOPEDAGOGO
a educação como área de conhecimento COMO FACILITADOR DO
mais atuante, faz uma proposta para que o
Instituto Sedes Sapientiae, até então ocupado DESENVOLVIMENTO À LUZ
por psicólogos e psicanalistas, abrisse o seu
espaço para um curso que valorizasse a ação DA AFETIVIDADE
do educador. (SCOZ e MENDES In BOSSA,
2000:55) Fora os saberes culturas familiares, a
educação formativa é o primeiro agente
socializador. Para que o psicopedagogo,
Em 1980, inicia-se uma reflexão sócio- no trabalho com o aprendiz, atue com
política do fracasso escolar, sendo um profissionalismo e competência é necessário
problema não apenas de aprendizagem, mas que se crie um ambiente afetivo de
de ensino e de como ele é feito. É criada, segurança onde a criança se sinta protegida.
nesta mesma década, a “Associação de É preciso que se tenha a consciência de que
Psicopedagogo de São Paulo”. ao primeiro contato a criança sinta-se bem
recebida, pois em um ambiente que ela seja

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Revista Educar FCE - Março 2019

respeitada em relação às suas emoções e aos esta sendo afetiva, mostrando o que está
seus sentimentos haverá um aprendizado sentindo, está se expressando, mas por falta
cognitivo mais significativo. de maturidade não consegue fazer de forma
como os adultos fariam com mais facilidade.
Cabe ao psicopedagogo, como parte É neste ponto que a criança estabelece laços
integrante do processo de ensino e de confiança, na ação de como o adulto,
aprendizagem, ter a responsabilidade e o que está disposto a me ajudar em minhas
compromisso com o aluno de dificuldade de dificuldades, agirá nos meus momentos de
aprendizagem, dando apoio, não somente desequilíbrio.
nos conteúdos de natureza cognitiva, mas
também, para que este se torne um cidadão De acordo com Saltini:
participativo na sociedade como um todo.
a serenidade e a paciência do educador,
mesmo em situações difíceis, faz parte da paz
Nas relações afetivas, tanto de que a criança necessita. Observar ansiedade, a
desenvolvimento coletivo, quanto ao perda de controle e a instabilidade de humor,
processo individualizado de aprendizado vai assegurar à criança ser o continente de
seus próprios conflitos e raivas, sem explodir,
é interessante que o psicopedagogo crie elaborando-os sozinha ou em conjunto com o
laços afetivos, no entanto deve ser mostrado educador. A serenidade faz parte do conjunto
que essa relação não é de fazer todas as de sensações e percepções que garantem
elaboração de nossas raivas e conflitos. Ela
vontades, mas agir com paciência, dedicação conduz ao conhecimento de si mesmo, tanto do
e afeto para que o aprendizado se torne educador quanto da criança. (Saltini1997, p.91):
muito mais prazeroso e efetivo, pois num
ambiente autoritário vemos facilmente um
desinteresse pela aprendizagem e o oposto Temos assim que o psicopedagogo, como
disso também, um ambiente sem limites educador, tome consciência de que suas
afetivos a criança pode ficar confusa nesse ações são fundamentais para que se tenha
processo sendo prejudicada no aprendizado, um bom trabalho e que a partir de atitudes de
até mesmo no exercício da cidadania e respeito consiga contagiar e levar uma ação
convivência com outros. reflexiva do ensino aos alunos facilitando a
superação das dificuldades de aprendizagem.
Em alguns momentos de hostilidade Tendo em sua filosofia de ensino que as
das crianças, desafiando o adulto em sua emoções e os sentimentos fazem parte e são
prática, alguns destes cometem atitudes importantes nessa relação e nesse processo,
equivocadas. No entanto, é necessário tanto para o sucesso quanto para o fracasso
manter a calma, dialogar para entender a raiz de cidadãos conscientizados do papel que
do problema, na maioria das vezes a criança exercem e exercerão na sociedade.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As teorias expostas no presente artigo quebraram a
tradicional divisão entre afetividade e cognição. Com
o embasamento teórico estudado foi mostrado que os
aspectos afetivos e cognitivos da mente humana não são
opostos, mas sim, articulados.

Uma realidade incontestável é que crianças aprendem


o tempo todo. O processo de ensino e aprendizagem
é constante e como vimos, ele se dá de forma integral e,
sobretudo, afetivo. Muitas vezes, a dificuldade em aprender CIBELE FABRÍCIO
está na forma em que o educador se coloca diante dos SAMPAIO SCHROEIDER
alunos, demorando anos para uma criança vencer esses
Graduação em Pedagogia pela
traumas. Universidade do Grande ABC.
– Uni ABC (2012); Especialista
À luz da dissociação do ser, mostra-nos a necessidade em Psicopedagogia Clinica
e Institucional pela USCS –
de inserirmos no cotidiano educacional, o trabalho com os Universidade de São Caetano
sentimentos e afetos, para isso precisamos ter a vontade do Sul (2019); Professor de
e o vigor para mudarmos a educação estabelecida e Educação Infantil no CEI (Centro
de Educação Infantil) Maria Cursi,
transformar os afetos, emoções e sentimentos em objetos Professor de Educação Infantil
de aprendizagem. Se tais objetos forem incorporados e Ensino Fundamental na EMEF
ao sistema educacional, a escola estaria mais próxima à Rodrigo Mello Franco de Andrade.

realidade dos alunos em sua vida cotidiana, em consequência


teríamos uma educação integral e de qualidade.

É inerente que se reconheça em todos ambientes


facilitadores da aprendizagem que uma boa afetividade é
um propulsor para desenvolvimento de um todo.

Caímos aqui numa forte questão: se não rompermos a


separação, infelizmente ainda aceita no meio educacional,
da aprendizagem centrada apenas nos aspectos cognitivos
da mente humana e da vida cotidiana do individuo atrelada
às emoções, como teremos uma qualidade?

A essa pergunta cabe uma reflexão: é necessário que nós,


psicopedagogos, nos comprometamos como educadores,

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Revista Educar FCE - Março 2019

facilitando o desenvolvimento integral das crianças, fazendo com que conheçam os conteúdos
científicos, reflitam sobre a aplicação deste na vida e conscientizá-lo do papel que exercem
na sociedade, exercendo a cidadania.

Precisamos romper o velho e mau discurso de que um bom desempenho educacional


depende de um estado afetivo saudável e atribuir qualquer dificuldade de aprendizagem a
um distúrbio afetivo devido às dificuldades familiares. De acordo com os teóricos estuados
sabemos que a família não é a única responsável pelo desenvolvimento afetivo da criança,
precisamos ponderar o nosso papel que no plano cognitivo ou intelectual terá impacto muito
positivo sobre a vida afetiva, não esquecendo a criança em sua integralidade.

Ao reconhecermos que não podemos dividir a criança em duas partes, tomaremos nova
posição em relação ao processo de ensino-aprendizagem. Sendo iminente a reflexão do
ser como integral. Ao mesmo tempo que auxiliamos em sua dificuldade de aprendizagem,
precisamos tomar uma posição de afetividade eficiente, como relata Wallon, preocupar-nos
com nossa postura frente ao aluno para que ele sinta em nós segurança para acertar, e até
mesmo errar, entendo que errar faz parte do processo de aprender. Construindo laços de
segurança.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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Paulo, 1996.

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BOSSA, Nadia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre:


Artmed, 2000.

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sistêmico sobre as dificuldades escolares. Bauru: Edusc, 1999.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário aurélio da língua portuguesa, São
Paulo: Nova Fronteira, 1985:

GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que define o que é ser
inteligente. 2ªed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

LA TAILLE, Yves. OLIVEIRA, Marta Kohl de. DANTAS, Heloysa. Piaget - Vygotsky – Wallon:
Teorias Psicogenéticas em discussão. 27ª ed. São Paulo: Summus, 2016.

LOUREIRO, Teresa Cristina; Afetividade, Conteúdo e Metodologia: Diagnosticando as


relações que se constroem em sala de aula na visão do aluno adulto. SP: UNICAMP, Disponível
em www.educacaoonline.pro.br 1996/2002, acessado em junho de 2008.

REGO, Teresa Cristina. VYGOTSKY: Uma perspectiva histórico-cultural da educação. 20ª\


ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

SCOZ, Beatriz J. L. & MENDES, Mônica H. A psicopedagogia no Brasil: Evolução Histórica,


1987. In BOSSA, Nadia. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto
Alegre: Artmed, 2000.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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Revista Educar FCE - Março 2019

O PAPEL DO ESTADO FRENTE


ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS
EDUCACIONAIS
RESUMO: O presente texto tem como objetivo discutir e analisar o papel do Estado com
a educação, à reforma do Estado nos anos 90. Apresenta as teorias de Estado e conceitos
utilizados por Jhon Ralws que são importantes e que podem fornecer indícios para refletir
sobre as políticas públicas educacionais à luz do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento
da Educação Básica e da Valorização dos Profissionais da Educação, Fundeb.

Palavras-Chave: Estado; Políticas Educacionais; Justiça.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento


da Educação Básica e de Valorização dos
Nos dias atuais muito se tem discutido Profissionais da Educação, o FUNDEB. Assim
sobre o futuro da educação pública e o poderemos então fazer nossas conclusões
papel dos diversos atores sociais para com finais sobre o presente artigo.
a mesma. Com ascensão do neoliberalismo
e as mudanças após a reforma do Estado,
o cenário educacional tem perdido sua TEORIAS DO ESTADO E SUA
relevância em relação à importância na INFLUÊNCIA NA EDUCAÇÃO
elaboração de políticas pelo Estado e, assim,
deixando o seu papel para terceiros. No
presente texto em um primeiro momento Para o entendimento do sistema político
iremos analisar a influência que as teorias do educacional, Torres (1995) afirmam que a
Estado exercem sobre a educação e partindo discussão das teorias do Estado é fundamental
desse pressuposto conceituaremos o Estado para a educação, pois, os debates para a
de Bem Estar Social e Estado Neoliberal, e resolução dos problemas educacionais
discutiremos brevemente suas ideologias e o dependem dessa teoria, bem como esse novo
futuro das escolas públicas com as reflexões modelo neoliberal reflete uma grande mudança
de Torres e Gentili. no caráter do Estado, dando espaço para novas
visões de educação considerando a globalização
Em um segundo momento abordará as mundial do capitalismo, destacam-se assim o
consequências da Reforma do Estado após estado de bem estar social e estado liberal. Do
os anos 90, na educação, especificaremos ponto de vista político, os liberais acreditam
segundo Bresser as atividades que são na necessidade do Estado e na sua função de
exclusivas do Estado, os serviços sociais proteger as liberdades individuais, impondo
e científicos do Estado e a produção de restrições aos indivíduos e ao mesmo tempo
bens serviços para o mercado e, assim, assegurando gozar da liberdade por intermédio
pontuando a delimitação de seu papel. das leis. O Estado é uma construção social e
Pontuaremos também as contribuições de a sociedade se organiza para organização do
Dermeval Saviani e seu posicionamento Estado. O governo como suprema autoridade
frente aos ideais da Reforma, a pedagogia política e considerando algumas tradições
corporativa e as políticas educacionais. Para contemporâneas como a constituição do
um terceiro e ultimo momento, abordaremos cidadão, questão da cultura política da
os conceitos de John Ralws partindo da nação; democracia liberal discute problemas
“justiça como equidade” para reflexões de e responsabilização; marxismo enfatiza a
políticas públicas educacionais justas para questão do poder do Estado; sociologia Max
uma sociedade. Partindo disso, faremos uma Weber, exercício de autoridade do Estado.
breve apresentação dos investimentos à luz Assim, segundo Torres (1985) o exercício de

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poder do Estado faz-se ao exercício de ato As teorias do Estado exercem influencia


de força sobre a sociedade civil, por meio de também sobre a Educação, já que uma
aparatos de força do Estado, muitas vezes depende da outra. Essas teorias de Estado
exercido com a finalidade favorecer algumas sustentadas pelas colisões governamentais
classes privilegiadas, política, econômica e pelas burocracias educacionais irão
e socialmente. O Estado não é um agente influenciar no planejamento e na operação do
exclusivo na luta das classes, mas também para sistema educacional. Por fim, toda a discussão
intervir no papel de legislador, sancionador e de reforma educacional, envolve competição
executor das leis sociais, supervisionando de pontos de vistas contraditórios. Em uma
sua aplicação e estabelecendo as praticas de perspectiva de Torres (1995), o Estado de
punição. (TORRES, 1982 apud OFFE) visando à bem estar social surgido na Europa representa
questão central da prática Estatal, contradição um acordo entre o trabalho e o capital. Nos
entre promover o acumulo de capital e ao Estados Unidos foi criado o New Deal,
mesmo tempo, promover a legitimidade do denominado por Roosevelt. Trata-se de uma
capitalismo como um todo, propõe um aspecto constituição de governo na qual o acesso aos
analítico, baseado na teoria dos sistemas. Para bens de saúde, educação, seguridade social,
o autor, o Estado é um mediador das crises no salário e moradia são entendidos como um
capitalismo e para lidar com as contradições direito do cidadão. Outro importante ponto
como a socialização da produção e a apropriação de vista é que o modelo funciona com a
privada da mais valia, ou seja, tem que se ideia de uma economia industrial de corte
expandirem suas funções institucionais. Na Keynesiano, ou seja, de pleno emprego e
visão de (TORRES, 1982 apud OFFE) O Estado maior intervenção do Estado na Economia.
é um sistema administrativo autorregulador Na América Latina, a sociedade civil tinha
que reflete um grupo de regras e convenções um forte intervencionismo nas formações
institucionais que se fortificam historicamente. estatais, havia pontos diferentes ao de bem
Uma vez que o Estado aparece como um estar social, principalmente ao que se refere
pacto de dominação que intermédia às crises à falta de um seguro desemprego. Este
recorrentes do capitalismo e tenta impedir último tem um significativo papel para a
que elas afetem as condições de produção evolução da sociedade e cultura e contribuiu
deste mesmo sistema, a perspectiva de classe também para o crescimento do mercado
do Estado não se baseia na representação de interno, substituindo a importação como
interesses de setores específicos. Em resumo, um modelo central. Ressalta-se ainda que
a ideia liberal de Estado se dá sobre a noção expansão em termos de educação ocorresse
de poder público e se difere do governo do sob os estados que eram similares ao de bem
ser governado. Assim, o Estado possui uma estar social.
independência da sociedade civil e serve de
conciliador entre as classes sociais. O papel e a função da educação pública
foram expandidos, ainda que segundo as
premissas estatais do passado. Na medida em

584
Revista Educar FCE - Março 2019

que a educação pública postulava a criação de


um sujeito pedagógico disciplinado, o papel, inúmeras ocasiões por governos neoliberais,
a missão, a ideologia e o treinamento de o melhor estado, é o estado mínimo”.
professores,assim como as noções fundamentais (TORRES, 1995, p.115).
do currículo escolar e do conhecimento oficial,
foram todos profundamente marcados pela
filosofia predominante no estado, Isto é, uma Os modelos neoliberais compartilham das
filosofia liberal, ainda que paradoxalmente premissas do capitalismo avançado, para
estatizante. (TORRES, 1995, p.113).
eles as atividades do setor público ou estatal
são vistas como ineficientes, improdutivas,
antieconômicas e como desperdício social, ao
AS PREMISSAS DE UM passo que o setor privado é eficiente, efetivo,
ESTADO NEOLIBERAL produtivo e por se menos burocrático atende
com maior eficiência as demandas do mundo
Segundo Torres os governos neoliberais moderno. Diferente do modelo de estado
propõem noções de mercados abertos e do bem-estar social, o estado neoliberal
tratados de livre comércio, redução do favorece apenas as necessidades do mundo
setor público e diminuição da intervenção dos negócios. Mas não há um total abandono
do Estado na economia e na regulação das políticas públicas, nem dos mecanismos
do mercado. Outro aspecto importante de disciplina e coerção, o desmonte é
deste modelo é a redução drástica do feito seletivamente dirigindo-se a alvos
setor estatal e a reorientação da produção específicos, pois há necessidade de pacificar
industrial e agrícola para exportação. Em áreas de conflitos. Para melhor compreensão
curto prazo, o objetivo deste pacote de do desenvolvimento do Neoliberalismo é a
política pública é a redução do déficit fiscal globalização do capitalismo, “a categoria
e do gasto público, da inflação e das taxas de globalização em mundo econômica
de câmbios e tarifas. Em médio prazo, o pós-fordista é fundamental para entender
ajuste estrutural baseia-se nas exportações as transformações do capitalismo e as
como motor para o desenvolvimento. Em transformações do modelo estatal neoliberal”
suma, os princípios do estado neoliberal são (TORRES, 1995, p. 117). Vale reiterar no
constituídos por um conjunto de teorias e principal paradoxo entre o modelo neoliberal
grupos de interesses vinculados à economia e o neoconservador que repercutirá em
da oferta, monetaristas, setores culturais domínios diferentes, uma vez que os
neoconservadores, grupos que se opõem às mesmos estimulam a autonomia individual,
políticas distributivas de bem-estar social mas por outro lado promovem as obrigações
e setores preocupados com o déficit fiscal. públicas de todos os cidadãos, inconciliáveis
Para os neoconservadores e neoliberais, com o individualismo possessivo. Não há
economicamente falando, as empresas possibilidade de conciliação neste modelo
estatais e parestatais só sobrecarregam de filosofia política, dado a diversidade das
o estado, “como tem sido assinalado em preferências individuais, e não é possível

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Revista Educar FCE - Março 2019

o Estado ser o local de negociação de agudo no Terceiro Mundo, é desejável na


tais referências e para que isso ocorresse perspectiva conservadora, fundamentada no
haveria que ter um conjunto de normas individualismo competitivo e nas ideologias
de comportamento estáveis, baseadas em fundadas no princípio da meritocracia, que
uma estrutura estatal madura, uma política legitimam a divisão hierarquizante e desigual
pública racional, baseada em um modelo das modernas sociedades de mercado.
legal-racional, e no contexto de bases Cidadania, neste contexto neoliberal, perde
consensuais amplamente aceitas na cultura seu conteúdo democrático, assim como se
política de uma sociedade. perdem a concepção da necessidade dos
direitos,inerente à cidadania no contexto
Gentili (1995) ressalta os regimes da democracia, que aparecem como causas
neoliberais investem em mudanças culturais para a acomodação e desvalorização do
e ideológicas que desintegrem a legitimidade mérito individual. Ainda que o neoliberalismo
da educação como direito e a existência da defenda como pressuposto a intervenção
escola pública, para assegurar a reestruturação mínima do Estado, o mercado livre coloca
política, econômica e social que lhes o Estado em um papel de exercício de
favoreça, por meio da redução das noções violência coerciva que garanta a legitimação
como as de democracia e de direito à mera do modo neoliberalista de conduzir o
formulação discursiva. A ofensiva Neoliberal mercado, “o Estado exerce a violência para
contra escola pública se dá por meio de garantir a violência do mercado” (GENTILI,
medidas políticas de caráter dualizante, e de 1995, p. 239). O Estado de Bem-Estar, em
uma série de estratégias culturais no intuito teoria, baseia-se por princípios democráticos
de romper a lógica do sentido sobre qual a com intuito de minimizar as desigualdades,
educação e escola torna-se genuinamente por meio de ações de caráter assistencial,
um direito de todos. Para Gentili (1995) o o que suscitou a reações contrárias dos
neoliberalismo é a alternativa histórica à conservadores e neoliberais, uma vez que
crise do capitalismo fordista, década de 60 tais intervenções políticas nesse sentido
e início da de 70, e seus níveis específicos, fomentam, ao invés de minimizar, os efeitos
culminando em uma reestruturação do não igualitários da sociedade.
capitalismo no sentido global e a imposição
de uma nova hegemonia político-ideológica. [...] as políticas de bem estar social têm como
objetivo lidar com problemas que eram tratados
O capitalismo atravessa historicamente por estruturas tradicionais como a família, a
diversas dinâmicas de crise, permanentes e Igreja ou a comunidade local. Quando tais
cíclicas. As contradições peculiares a esse estruturas se desmoronam, o Estado intervém
para assumir suas funções. Neste processo,
tipo de sociedade mantêm relativamente o Estado debilita ainda mais o que resta das
estáveis temporariamente, sendo estruturas tradicionais. Surge daí a necessidade
substituídas por novas em outros adventos maior de assistência pública do eu havia sido
prevista, e a situação piora, em vez de melhorar.
de crise. O caráter dualizado/dualizante, mais
(apud Hirrschman, 1992, p.35)

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Revista Educar FCE - Março 2019

O neoliberalismo precisa de uma nova que em outras palavras e de uma forma


ordem cultural, e o conceito de propriedade velada pretende apagar a Educação de
é reduzido na sociedade de mercado a qualidade como direito para as maiorias.
uma concepção materialista, individualista O neoliberalismo precisa incluir um novo
e integral de direito a algo, ainda que conceito de Educação em nossa sociedade,
negando o “direito de propriedade” a outros, para a construção de uma nova cultura
produzindo desigualdades de riqueza e voltada para a geração de outras formas
poder, contrariando os princípios de uma de consenso que possibilitem a reprodução
sociedade democrática. Nesse contexto, a simbólica de sociedades dualizantes. Duas
desigualdade assume a função de estimulo à estratégias discursivas fundamentam essa
competição e exercício da meritocracia, por mudança cultural: o discurso da qualidade
tanto, assumindo um papel positivo na lógica e o discurso que liga educação e trabalho
neoliberal, enquanto o Estado tem função de demasiadamente. A qualidade como
conservar e defender a propriedade e o direito propriedade, ou seja, tendo seu conceito
a ela. As organizações comunitárias, igrejas, reduzido ao conceito de propriedade, é
associações de moradores, e instituições um dos atributos no mercado dos bens
descentralizadas sem interferência estatal, educacionais. Sendo propriedade, fica sujeita
são apontadas como as melhores opções à condição de bem de mercado, o que legitima
para dar conta das desigualdades e a exclusão do acesso a ela e retira do estado
discriminações educacionais por meio da o dever de garanti-la, pressupondo que ao
caridade, na perspectiva da Nova Direita, democratizá-la produzirá justamente uma
que concebe a educação de qualidade educação de baixa ou nenhuma qualidade. A
como propriedade, demonstrando assim falta da qualidade passa a ser problema do
a tendência antidemocrática dessa forma mercado que, autocorretivo, deve resolver
de organização, que sujeita o bem-estar ao invés do Estado. A Nova Direita persegue
das maiorias aos interesses dos sistemas e obcecadamente a ligação entre o universo
interesses neoliberais e conservadores. do trabalho e o educacional, “na moderna
sociedade de mercado, o emprego (como
a educação de qualidade) não é direito,
O DESTINO DA nem deve sê-lo.” (GENTILI, 1985, P. 247).
EDUCAÇÃO PÚBLICA O emprego não é considerado direito no
sistema neoliberal, e está sujeito à lógica
Gentili (1995) afirma que neoliberalismo da competitividade do mercado. Por isso, a
invade a escola pública, usando de diversas educação de qualidade como propriedade,
estratégias políticas, na qual os serviços podendo ser comprada/vendida com a
públicos são prestados por terceiros, o finalidade de competir no mercado por
Estado atuando indiretamente, e ao mesmo empregos e no mercado político, torna o
tempo uma política de reforma cultural, discurso neoliberalista sobre o assunto

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Revista Educar FCE - Março 2019

ainda mais antidemocrático, uma vez que é o país em caso de guerras e promover o
possível apropriar-se do bem de educação desenvolvimento econômico e social, tem
de qualidade e não ter acesso a empregos. o poder de legislar, punir, tributar e realizar
Em um mercado dirigido a novas formas transferências financiadas pelos impostos,
de competição que produzem escassez ou seja, o conceito de Estado o torna uma
de empregos, essa marginalização dos entidade monopolista por acepção. No
indivíduos da sociedade a tornam cada vez entanto, além dessas atividades que próprias
menos democrática e mais desigual. do Estado liberal, há as atividades que próprias
do Estado entendido como Estado Social:
formular políticas na área econômica e social,
A REFORMA DO ESTADO por meio das transferências para Educação,
saúde, assistência social, previdência, defesa
Bresser (1997) salienta que a reforma do meio ambiente e estímulo à arte, tendo
do Estado dos anos 90, é vista como em vista que são atividades que envolvem
redefinição do papel do Estado, envolvendo direitos humanos fundamentais que toda
a delimitação de sua abrangência, dado ao sociedade deve assegurar a seus cidadãos.
grande crescimento do último século em Na reforma do Estado proposta por Bresser,
termos de pessoal, receita e despesas. O algumas atividades devem ser exclusivas
estado em termos de despesa varia quase do Estado, em um núcleo estratégico,
entre 30 a 50 % do PIB. Ao longo dos anos outras só servem para agravar as crises
foi reconhecendo que o Estado não deve fiscais tornando o Estado ineficiente sendo,
ser responsável por todos os setores e que portanto, a publicização (transferência para
sua reforma significa definir o seu papel e o o setor público não estatal) uma saída para
que não lhe é especifico deixar a cargo para superação da visão dicotômica (público e
o setor privado e para o setor publico não privado) tão enraizada em nossa sociedade
estatal. Para delimitar as funções do Estado e necessária para redefinir as relações entre
é necessário identificar nitidamente as três Estado e sociedade.
áreas de atuação: as atividades exclusivas
do Estado, os serviços sociais e científicos O reconhecimento de um espaço público não
estatal tornou-se particularmente importante e
do Estado e a produção de bens serviços momento em que a crise do Estado aprofundou
para o mercado, a partir daí fica claro que as a dicotomia Estado – setor privado, levando
atividades exclusivas do Estado advêm da muitos a imaginar que a única alternativa à
propriedade estatal é a privada. (BRESSER,
própria definição, ou seja,“ o Estado, que é a
1997, p 26,27).
organização burocrática que detém o “poder
extroverso” sobre a sociedade civil existente
em um território” (BRESSER, 1997, p.22), Entendendo que público é aquilo que está
cabe ao Estado garantir a ordem interna, voltado para o interesse geral, não devendo,
a propriedade e os contratos, defender portanto, ser limitado ao estatal, uma vez que

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Revista Educar FCE - Março 2019

o espaço público é mais amplo que estatal nos anos 90, que preconiza a redução do
pode ser ou não estatal, Bresser lembra que tamanho do Estado e inclusive a reforma do
a aceitação desse espaço é fundamental para ensino no Brasil, vem substituir o tecnicismo
que se redefina as relações Estado-sociedade inspirado no taylorismo-fordismo, adaptando
possibilitando novas formas de controle as ideias ao toyotismo.” Estamos, pois, diante
social direto e de parcerias abrindo um novo de um neotecnicismo: o controle decisivo
olhar para a democracia. Entre as atividades se desloca do processo para os resultados”.
que devem ser exclusivas do Estado: legislar, (SAVIANI, 2011, p. 168). A reforma do Estado
impor a justiça, manter a ordem, defender também influenciou as reformas educativas
e representar o país no exterior, policiar, incluindo a redução de custos e dividindo as
arrecadar impostos, regulamentar atividades contas e investimentos públicos com outros
econômicas, fiscalizar o cumprimento das setores. Com as novas mudanças houve
leis e a produção de bens e serviços para o uma substituição do controle do processo
mercado, encontra-se as atividades na área educativo para os resultados, ou seja, a
social e científica: como escolas, creches, eficiência e produtividade são garantidas por
hospitais, centros de pesquisas científicas, meio da avaliação desses resultados.
museus, assistências aos carentes, que
apesar de não serem próprias do Estado, não “Eis porque a nova LDB (Lei n.9.394, de
20/12/1996) enfeixou no âmbito da União a
justificando- se, portanto sua permanência responsabilidade de avaliar o ensino em todos
no Estado e não poderem ser direcionadas os níveis compondo um verdadeiro sistema
para obtenção de lucros, privatização, surge nacional de avaliação. E para se desincumbir
dessa tarefa o governo federal vem instituindo
a publicização como uma terceira forma exames e provas de diferentes tipos. Trata-se
de propriedade, a propriedade pública não de avaliar os alunos, as escolas, os professores
estatal, ou entidades do terceiro setor. e, a partir dos resultados obtidos, condicionara
distribuição de verbas e a alocação dos
Para Bresser (1997), as organizações recursos conforme os critérios de eficiência e
públicas não estatais são uma opção que a produtividade” (SAVIANI, 2011, p.168).
sociedade encontra para a privatização. O
crescimento das organizações públicas não Em suma, o autor faz uma critica a
estatais tem sido gigantesco e considerado “pedagogia corporativa” que só vem
um fator fundamental para o fortalecimento aumentando principalmente no ensino
da sociedade civil e o desenvolvimento superior com diversas instituições oferecendo
econômico da região ou país em que isso cursos em diversas áreas de acordo com os
ocorra embora não seja muito estudado. interesses do mercado, reduzindo o trabalho
Isso se deve ao fato das instituições serem do professor ao de treinador para os futuros
organizações mais adequadas habilitadas agentes do mercado, e a educação perde
para realizar serviços sociais e que podem seu papel no desenvolvimento do indivíduo
ser fiscalizados mais diretamente pelos e de sua consciência, ficando restrita a uma
cidadãos. “No entanto, a reforma do Estado educação para o trabalho. Dermeval Saviani

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Revista Educar FCE - Março 2019

elucida também que um dos fatores para o POLÍTICAS PÚBLICAS EM


fracasso nas políticas publica de educação UMA PERSPECTIVA DE
é a falta de uma ideologia definida e que
seja coerente com as reais necessidades da
RALWS
sociedade educativa. Não se trata apenas de
dobrar o valor do PIB, mas, transferir todos A justiça como equidade continua sendo
os recursos para a educação. Não se trata uma das principais preocupações teóricas, as
de colocar a educação para competir com questões das desigualdades que ocorrem no
outros setores, e sim usá-la como frente sistema liberal e a justiça, primeira virtude
para resolver os problemas da economia, das políticas sociais. A proposta de Rawls
ativando o comércio, e promovendo um (2000) começa com um contrato social, tenta
crescimento na arrecadação de impostos, juntar a liberdade individual e a justiça social,
que o Estado poderá utilizar para um maior na qual essas duas tendências uma tende a
investimento na área de abastecimento, complementar a outra, ou seja, se houver
energia e transporte. apenas a liberdade certamente à justiça
social será deficiente, portanto, um indivíduo
Queremos frisar que nos países que tem mais bens continuará com mais e os
subdesenvolvidos a educação não pode ser um
luxo, um instrumento destinado a preencher menos favorecidos com menos. No mesmo
o ócio. “Ela precisa responder a um apelo caso se apenas houver a justiça social, a
dramático; sim, educar para sobreviver, para liberdade ficará em déficit porque limita aos
subsistir, eis a primeira exigência que a análise
da estrutura do homem brasileiro nos impõe.” indivíduos a liberdade de possuírem mais
(SAVIANI, 2011, p 55). bens, logo, para uma sociedade justa teria
que haver a junção de ambas. Segundo Rawls,
Levando em conta essa linha de para o estabelecimento de um contrato social
pensamento, fica clara a importância de imparcial todos os indivíduos não poderiam
investimentos na educação, pois, sem ela, não colocar seus interesses particulares, o autor
é possível qualquer tipo de desenvolvimento define o que ele conceitua de “posição
econômico e social. O Estado é um importante original”, trata-se de uma situação hipotética
instrumento que pode ser utilizado para lutar de total desconhecimento de sua cultura,
contra as políticas educacionais vigentes. situação social e econômica para não interferir
em suas escolhas. Para tal imparcialidade
seria necessário que as pessoas fossem
cobertas pelo “véu de ignorância”, que
consiste no desconhecimento de quaisquer
condições de vida dos indivíduos. Esse
véu de ignorância seria necessário porque
as pessoas desconhecendo suas futuras
condições estabeleceriam critérios para

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Revista Educar FCE - Março 2019

as expectativas de longo prazo dos menos


organização de uma sociedade que favorecidos. Se tal fim for alcançado dando-se
fornecesse maior vantagem para todos e que mais atenção aos mais talentosos, é permissível;
promovesse os valores necessários mínimos caso contrário, não. E, ao tomar essa decisão,
não se deve aferir o valor da educação apenas
que permitissem a todos uma vida digna no tocante à eficiência econômica e ao bem-
com igualdade de liberdade para todos e o estar social. Tão ou mais importante é o papel da
mínimo possível de desigualdades sociais. educação de capacitar uma pessoa a desfrutar
da cultura de sua sociedade e participar de suas
Para promoção desses dois princípios o atividades, e desse modo de proporcionar a cada
Estado precisa aplicá-los. indivíduo um sentido seguro de seu próprio valor
(RAWLS, 2009, §17, p. 121).

Da mesma forma que o Estado deve


garantir o princípio da diferença e o da Nesse sentido, a educação não deve
igualdade de oportunidades, o princípio ser encarada apenas pelo ponto de vista
da diferença admite certas desigualdades econômico ou social, mas principalmente
econômicas e sociais desde que, os que como direito que todo indivíduo tem de
se encontram em melhores condições desfrutar do patrimônio cultural construído
beneficiem os menos favorecidos, assim, não pela humanidade, de participar de atividades
é injustos determinados grupos ascenderem culturais, de ter expectativa na realização de
econômica e socialmente tendo em vista seus planos, enfim de fazer parte da sociedade,
que, foram frutos de suas escolhas. E o e de uma sociedade norteada pelos princípios
princípio da igualdade de oportunidade é que da igualdade de oportunidades. Desta forma
o Estado garanta as mesmas oportunidades a educação cumpriria seu principal papel que
de acesso às variadas funções e posições de é emancipar o indivíduo e também por ser
uma sociedade. A Teoria da Justiça de Rawls um dos principais bens primários orientada
nos oferece a oportunidade de reflexão na pelos princípios da justiça. A educação e a
área da educação, partindo do princípio que cultura são fundamentais na construção
a mesma não é somente um direito, mas de da autoestima de um indivíduo, portanto
questionar qual o papel do Estado na garantia não deve ser vista somente pelo prisma de
do mesmo. John Rawls (2009) acredita que “preparação para o trabalho”, lógico que não
a educação é uma importante ferramenta há problema nisso, desde que esse não seja
na superação das desigualdades sociais seu único objetivo. É preciso considerar que
possibilitando que a pessoa possa usufruir um indivíduo que tem acesso a uma gama
de uma maior quantidade de bens primários, de cultura, literatura, música, atividades
assim mediante a oferta de oportunidades físicas, artísticas, produções científicas e
educacionais e de políticas sociais aumenta- tecnológicas entre outras, torna-se uma
se as perspectivas, inclusive dos menos pessoa com um nível maior de discernimento,
favorecidos. capaz de desenvolver-se, de traçar metas
até alcançá-las. Portanto como parte do
[...] o princípio da diferença alocaria segundo princípio, é papel da sociedade
recursos para a educação,digamos, para elevar

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Revista Educar FCE - Março 2019

democrática oferecer oportunidades iguais Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


de educação para todos, assim mesmo diante (IBGE) conforme as populações de cada
das desigualdades econômicas, sociais e município; as faixas populacionais são fixadas
culturais haverá possibilidade de equidade cabendo a cada uma delas um coeficiente
social. individual, o mínimo é 0,6 para municípios
com até 10.188 habitantes e no máximo
4,0 aqueles acima de 156 mil e na renda per
O FUNDEB capita do Estado, que também é divulgada
pelo IBGE; e dos impostos: Imposto sobre
Criado em 2006, pela Emenda Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS)
Constitucional n° 53 e normatizado pela Imposta sobre produtos Industrializados
Lei n° 11.494/2007 e pelo Decreto n° (IPI) Imposto sobre Transmissão de Causa
6.253/2007 o Fundo de Manutenção e Morte (ITCMD), Imposto sobre propriedade
Desenvolvimento da Educação Básica e de de Veículos Automores (IPVA) cota parte
Valorização dos Profissionais da Educação de 50% do Imposto Territorial Rural (ITR)
(FUNDEB) contempla toda educação básica, e transferências dos estados, do Distrito
da creche ao ensino médio, no intuito Federal e dos municípios, vinculados à
de substituir o Fundo de Manutenção e educação por força do disposto no Art.
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
de Valorização do Magistério (FUNDEF) que A União aplicará, anualmente, nunca menos
de dezoito, e os Estados, o Distrito Federal e os
esteve vigente de 1997 a 2006. Segundo Municípios vinte e cinco por cento, no mínimo,
o Ministério da Cultura (MEC), o FUNDEB da receita resultante de impostos, compreendida
representou um enorme ganho em relação proveniente de transferências, na manutenção
e desenvolvimento do ensino. (Constituição
ao FUNDEF, possibilitando aos municípios
Federal, 1988).
maiores investimentos nas etapas escolares
que estão sob sua responsabilidade. É
um fundo especial, de natureza contábil e Além desses recursos, ainda compõe
âmbito estadual, de acordo com o site do o Fundeb, a título de complementação,
MEC, composto por percentuais das receitas uma parcela de recursos federais, sempre
do Fundo de Participação dos Estados (FPE) que, no âmbito de cada estado, seu valor
e Fundo de Participação de Municípios por aluno não alcançar o mínimo definido
(FPM), que são uma das modalidades de nacionalmente. Independentemente da
transferência de recursos financeiros da origem, todo o recurso gerado é redistribuído
União para os Estados, prevista no art. 159 p O prazo estipulado para finalização do
item 1b da Constituição Federal. De acordo FUNDEB era do período de 2007-2020,
com Tribunal de Contas da União (TCU) e sua implantação iniciou-se em 1° de
compete a eles apenas calcular e fixar os janeiro de 2007 e foi concluído em 2009.
valores com base nos dados fornecidos pelo No site do Ministério da Educação – MEC

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está disponível o manual do FUNDEB com de ensino e os profissionais da educação,


informações em tópicos referentes ao fundo. defende o MEC. Segundo a Organização para
A fiscalização de contas dos recursos é Cooperação e Desenvolvimento Econômico
feita pelo Tribunal de Contas dos Estados e (OCDE), o Brasil em 2011 gastou 19% do
Municípios, os Estados que recebem recursos gasto público em educação, sendo que a
federais sofrem fiscalização também do média é de 13%, o que representou 6,1% do
Tribunal de Contas da União e Controladoria Produto Interno Bruto (PIB) e a média para
Geral da União. O Ministério Público atua em OCDE é de 5,6%. Porém o valor calculado
parceria com o Tribunal de Contas apenas por estudante em todos os níveis da
se for acionado em caso de irregularidades educação está abaixo da média, uma vez que
e para garantir os direitos educacionais a média da OCDE é de R$ 8.952,00 dólares
previstos na Lei. Os recursos do FUNDEB e o Brasil na distribuição desse valor institui
são distribuídos de acordo com os dados R$ 2.985,00 dólares, sendo o segundo
apontados pelo Censo escolar mais recente valor mais baixo entre todos os países da
realizado anualmente pelo Instituto Nacional OCDE. Fica claro que o Brasil investe muito
de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio em educação, até mais que alguns países
Teixeira – INEP, no site do MEC, o último desenvolvidos, no entanto, comparando a
censo escolar disponível para consulta é porcentagem do Programa de Avaliação da
o de 2012. A distribuição dos recursos Qualidade da Educação (PISA), o país acaba
obedece alguns critérios estipulados pela Lei em termos de qualidade, bem distante de
Ordinária 11494/10 conforme Art. 10 será seus investimentos, ou seja, o 60° posição
proporcional, levando em conta as seguintes ocupada pelo Brasil em 2015 no ranking
diferenças entre etapas, modalidades, e tipos mundial da educação está absurdamente
de estabelecimento de ensino de educação desproporcional ao investimento realizado.
básica, municipal ou estadual, rural ou urbana. Porém, as instituições públicas de ensino
Em 2015 o valor anual mínimo estabelecido superior é que ficam com a maior parte dos
por aluno foi de R$ 2.545,31, neste ano de investimentos, e entre os países que compõe
2016, alcança R$ 2.739,87. A meta é que a OCDE, no Brasil está à maior diferença
o FUNDEB propicie à redistribuição dos de gasto entre os níveis educacionais, o
recursos vinculados a educação, por meio gasto com o aluno da educação superior
de planos de distribuição de recursos pelo compreende 93% do PIB per capita brasileiro,
país de acordo com o desenvolvimento entretanto o valor gasto por aluno da
social e econômico de cada região. Desta educação básica vem aumentando, de 1995
forma o FUNDEB tem suas bases e a 2011 o acréscimo foi de 128%. Esses dados
diretrizes na promoção da inclusão sócio levantados pela OCDE sobre o gasto público
educacional abrangendo toda a educação em educação têm como meta oferecer um
básica permitindo sua universalização como instrumento que possibilite aos Gestores
direito dos cidadãos, valorizando a qualidade de políticas educacionais, uma avaliarem e

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compararem com os demais países seus sistemas de educação, para que possam refletir
sobre melhorias nas políticas educacionais. Para o professor da Universidade de São Paulo
(USP), José Marcelino Rezende investimento em educação é que pode colocar o Brasil em
outro patamar. Pinto (2007) destaca que, Funde teve significativos avanços, inclusive com
uma maior participação dos pais no conselho, essa nova legislação também abrange uma série
de medidas que impedem os membros do Executivo e parente dos mesmos, prestadores de
serviço, pais que ocupem cargos públicos de confiança atuar nesses conselhos. No intuito de
coibir o controle do Executivo nos conselhos. Além do papel do conselho de supervisionar
o Censo Escolar e fiscalizar os gastos do Fundeb, têm que supervisionar a elaboração da
proposta orçamentária anual, acompanhar a aplicação dos recursos e prestações de conta.
(Programa Nacional de Apoio ao Transporte- PNATE e a Educação de Jovens e Adultos- EJA).
Embora com esses avanços alguns problemas haja alguns fatores negativos, como a falta de
estrutura administrativa própria dos conselhos para auxiliar suas ações, não há um valor
mínimo por aluno para assegurar um ensino de qualidade e os alunos atendidos por duas
redes diferentes e com padrões de qualidades diferentes, certamente dificulta as parcerias.
Pinto propõe então que se amplie a parcela da União no financiamento da Educação Básica
e que ao invés de se ter escola Estadual ou Municipal, que se tenham escolas públicas, e os
recursos do fundo ficariam sob fiscalização dos conselhos fiscais locais, e não nas secretarias
municipais.

FORMAÇÃO
Fundeb também prevê a capacitação dos profissionais da educação utilizando as verbas
referentes aos 40%, não destinadas à remuneração dos mesmos na atualização e ano
aprofundamento dos conhecimentos profissionais, ou seja, formação continuada, no entanto
o MEC não credencia instituições para esse fim, os Conselhos Estaduais e/ou Municipais
de Educação é que deverão ser acionados para verificação de eventuais exigências para
credenciamento de qualquer instituição.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante das pesquisas realizadas, conclui-se que a
educação é de suma importância no desenvolvimento do
indivíduo em todos os aspectos, pois é só por meio da
educação que o homem pode transformar a si e a sociedade.
O patrimônio cultural construído até hoje, pertence a toda
a humanidade, portanto um direito inalienável, que não
pode ser exclusivo de uma pequena parcela de pessoas em
virtude de posições que ocupem na sociedade, negligenciar
esse direito não oferecendo equidade de oportunidades de
educação para todos, é impedir o indivíduo de desenvolver-
se integralmente, e o direito de gozar uma vida plena e
significativa. Partindo dessas premissas, e entendendo o CIBELLE BENTO SANTOS
Estado como organização burocrática e que cabe a ele entre
Graduação em Pedagogia pela
outras coisas, promover o desenvolvimento econômico e Faculdade Uniesp Santo André
social da sociedade, os investimentos em educação tornam- (2016); Especialista em Legislação
se prioridade do Estado. Alguns avanços já foram feitos, com Educacional pela Faculdade
Campos Elíseos (2018); Professor
a substituição do FUNDEF pelo FUNDEB, porém percebe-se de Educação Infantil - no CEI
que os recursos disponibilizados são insuficientes para uma Ângela Maria Fernandes.
educação de qualidade frente à demanda de nosso país, bem
como o gerenciamento que se faz desses recursos. Temos
um longo caminho a percorrer, uma vez que, a construção
de uma sociedade justa e democrática somente será possível
se pautada em princípios de equidade de oportunidades e
educação de qualidade para todos.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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controle. Brasília: Ministério da administração Federal e Reforma do Estado, v. 1, 1997.

GENTILI, Pablo. A Pedagogia da Exclusão: o neoliberalismo e a crise da escola pública.


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Revista Educar FCE - Março 2019

MODOS DE SUBJETIVAÇÃO NA
EDUCAÇÃO INFANTIL: UM OLHAR
SOBRE O CURRÍCULO
RESUMO: A compreensão da criança, de sua infância e cultura passou por inúmeras
transformações no decorrer da história em reposta às configurações sociais e aos diversos
vetores de força e poder, que também interviram em seu processo de educação. Na Educação
Infantil o cuidar e o educar são processos indissociáveis organizados em práticas educacionais
expressas no currículo. Este artigo procura discutir as propostas pedagógicas voltadas para
este nível de ensino, refletindo sobre a articulação entre os modos de subjetivação dos
infantis presentes em diversos currículos e a possibilidade de novas práticas na Educação
Infantil.

Palavras-Chave: Infância; Educação Infantil; Currículo; Culturas.

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INTRODUÇÃO sujeito e sociedade. Assim, entendemos


que os significados e sentidos atribuídos
Estudos sobre a Educação Infantil e suas às práticas nesta etapa da educação muitas
práticas tem crescido de forma significativa vezes reproduz uma ideia equivocada sobre
nas últimas décadas, uma vez que esta infância e currículo.
modalidade de ensino tem se apresentado
cada vez mais importante e necessária no Para tal, será utilizada a pesquisa
processo de formação dos sujeitos. Inúmeras bibliográfica, partindo de autores que tratam
leis e decretos regulamentam e garantem o da sociologia da criança e da infância, história
direito à educação em creches e escolas, como da educação infantil, teóricos do currículo e
por exemplo, a Lei de Diretrizes e Bases da prática docente por meio de livros, trabalhos
Educação Nacional (LDBEN), a Constituição acadêmicos (teses) e artigos científicos.
Federal de 1988, e o Estatuto da Criança e
do Adolescente (ECA), que asseguram esses A discussão se inicia com um breve histórico
espaços formativos como complementares sobre a educação institucionalizada e a
à educação familiar. Além do embasamento educação infantil, ressaltando as diferentes
legal, a produção acadêmica sobre este nível leituras da criança e sua infância na história.
de ensino tem refletido sobre a aprendizagem, Em um segundo momento reflito sobre a
desenvolvimento, cultura infantil, práticas articulação do currículo e a subjetividade das
pedagógicas, técnicas de planejamento, crianças, destacando as diversas relações
avaliação, dentre outros temas relevantes de poder presentes neste dispositivo
para maior compreensão deste fenômeno. pedagógico e buscando identificar o elo entre
o currículo, a sociedade e os sujeitos infantis
Considerando a importância desta da pós-modernidade. Por último, embasada
temática, este artigo propõe analisar e discutir nas teorias pós-críticas do currículo, busco
os inúmeros fatores que determinaram e sugerir caminhos e elementos a serem
influenciaram na elaboração dos currículos considerados na construção de uma proposta
e práticas pedagógicas da Educação Infantil, pedagógica para a Educação Infantil.
refletindo sobre os conceitos de educação,
sociedade, criança, infância e cultura infantil
que permeiam a ação docente neste nível PRA QUE EDUCAÇÃO
de ensino. Este debate pretende contribuir INFANTIL?
para a reflexão dos profissionais da área a
respeito da formação oferecida nas creches Definir a função social da escola, e
e pré-escolas, considerando a sociedade em específico da Educação Infantil, é um
contemporânea e suas configurações, uma vez processo complexo, pois está estritamente
que é por meio do currículo e suas propostas relacionado ás configurações sociais e
que projetamos um determinado tipo de ás relações de poder. No entanto, torna-

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se necessário compreendermos de forma Tais objetivos ainda são considerados na


breve a transformação da escola, e de seus escola contemporânea, no entanto esse
objetivos, e a inserção da Educação Infantil e antagonismo da educação escolar não
das crianças neste processo. atende mais as necessidades da sociedade
atual, como reforça Macedo (2010, p.14)
Paulatinamente, as práticas sociais e
as transformações políticas transferiram a educação perde em parte a sua importância
no momento em que o indivíduo deixa de ser
da família para a escola o papel de educar visto prioritariamente como um cidadão e passa a
as crianças e jovens. No final do século ser visto como um trabalhador. Quando, à mercê
XVIII, a escola se pautava em regras e do mercado, a escola não educa e preocupa-
se em treinar habilidades e competências
disciplinas rígidas, influenciada pela Igreja alienantes, pois não propiciam qualquer análise
e por moralistas e não se destinava apenas crítica da realidade e apenas invocam, mediante
às classes nobres, já que muitos nem a o controle e a submissão, para a reprodução
social (MACEDO, 2010, p.14).
frequentavam, pois continuavam com seus
preceptores familiares, responsáveis pela
sua educação (BARRICELLI, 2007). Para Pérez Gómez (1998), a escola não é
capaz de proporcionar a igualdade em uma
A “escola clássica” do final do século sociedade desigual, o desafio e o objetivo
XIX, frequentada pela nobreza, era da escola contemporânea estão em preparar
norteada por três princípios, de acordo cada indivíduo para intervir na sociedade,
com Touraine (1999): trazer a luz da razão desenvolvendo conhecimentos e condutas
e do conhecimento àqueles considerados para tal. Corroborando com as ideias de
desprovidos dos mesmos; a educação moral, Touraine (1999) quando coloca que a escola
atribuindo à educação um valor universal; na era da globalização e da cultura de massas
criação de uma nova ordem social baseada na deve dar importância à diversidade cultural
competência e no conhecimento. O modelo e histórica, com a valorização dos sujeitos,
clássico submetia-se aos ideais e valores da proporcionando o exercício da democracia.
classe dominante.
Dentro deste contexto, de forma geral, a
Com a ascensão das indústrias e do Educação Infantil acompanhou os mesmos
capitalismo, a escola se vê diante da conceitos da escola. Teve sua afirmação
necessidade da formação de trabalhadores. através das lutas dos movimentos feministas
Assim, segundo Pérez Gómez (1998) na busca por acesso ao trabalho. Assim as
sua função não era apenas transmitir creches tinham um papel de assistência e
conhecimentos e ideias, mas também controle das crianças, filhos de trabalhadoras,
procedimentos, atitudes e comportamentos, o que posteriormente se estendeu às demais
docilizando o sujeito para inserção no famílias, ainda que de forma precária e parcial,
mercado de trabalho e na vida pública. com caráter estritamente assistencialista ou

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sanitário, desconsiderando sua dimensão acerca do que é a criança, de como educá-


educativa, social e cultural. la e como desenvolvê-la, estabelecendo
inúmeras concepções e práticas destinadas
Historicamente, o processo de á elas. Essas condições colocam a criança no
escolarização das crianças passou por centro da família e como preocupação social,
intensas transformações, mas é a partir reforçando cada vez mais a necessidade de
do século XVIII que há uma crescente controle dos sujeitos infantis.
preocupação em estruturar dispositivos de
controle e socialização para a sua vida social, Apoiada pelas teorias da psicologia do
o que resultou na Educação Infantil atual. desenvolvimento, Macedo (2010) afirma que
na década de 1960 a Educação Infantil passou
Conforme Barricelli (2007) na sociedade a ter como objetivo treinar as crianças para
dos séculos XIII, XIV e XV não havia a educação escolar, em especial compensar
diferenciação entre a criança e o adulto. a defasagem cultural das crianças pobres,
A criança participava da vida social do em relação ás crianças da classe média,
adulto em iguais condições, assim que oferecendo assim conhecimentos prévios
adquirisse certo desenvolvimento físico e necessários ao processo de escolarização. Já
certa independência. Assim, por volta dos na década de 1980 os movimentos sociais
sete anos já compartilhava da vida adulta, urbanos passaram a focar o direito da
havendo pouco espaço para a infância. A criança à educação de qualidade, delegando
partir do século XV, a representação da à sociedade esta função, e passaram a
infância passou a ser a ingenuidade e a questionar a necessidade de incluir no
pureza, e posteriormente nos séculos XVI e currículo os conhecimentos e produções de
XVII houve um grande repúdio às práticas outros grupos culturais, além de considerar
infantis. Assim os adultos acreditavam que neste processo os diferentes marcadores
a criança precisava ser controlada e domada sociais. Dessa forma, nos anos de 1990
para o convívio em sociedade. Com a a criança deixa de ser objeto de análise
finalidade de promover uma educação mais somente da medicina, da psicologia ou da
adequada e disciplinada, a partir do século pedagogia e passa a ser considerada como
XVIII e XIX houve um grande interesse em uma categoria social, e a infância, como um
entender como funciona a mentalidade fenômeno analisável nas suas relações com a
infantil, em se apropriar da infância como estrutura social e cultural (MORUZZI, 2008).
objeto de atenção. Nesse momento a maior
preocupação era a sua educação moral, Com o ingresso da criança na escola
torna-la um “homem bom” e preservá-la retardou‐se o período em que as crianças
das sujeiras da vida (sua inocência), e os eram inseridas na vida adulta, e o intervalo
cuidados com a saúde e higiene pessoal. A entre os primeiros anos e a vida social
partir daí surge uma série de conhecimentos foi preenchido pelos anos de escola. Aos

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poucos, a família e a escola confinaram a além do ensinar, mas acolher e cuidar. Sendo
infância e a submeteram a um rígido controle assim, cabe refletirmos como a organização
disciplinar, iniciando também um processo curricular pode favorecer e reconhecer os
de padronização e homogeneização. diferentes sujeitos desse nível de ensino,
possibilitando uma formação democrática
Em conclusão, o confinamento da infância e cidadã desde os primeiros contatos com a
ocasionou-lhe sérios problemas sócio-
politico-culturais. A cultura produzida pela escola.
infância livremente nos espaços públicos foi
progressivamente sendo assimilada pelos A modernidade a partir de discursos
espaços privados à medida que a urbanização e a
vida burguesa avançavam. [...] Sem poder brincar científicos, pedagógicos, escolares, familiares
livremente pela cidade, a criança perde não etc. criou tecnologias de controle para a
apenas o espaço físico, mas, sobretudo, altera vigilância, treinamento e disciplinamento das
estruturalmente suas condições de produzir e
de se relacionar com a cultura, com a sociedade, crianças, traçando um modelo universal e
com a vida política (PERROTI, 1990, p. 92 apud idealizado de infância (DORNELLES, 2005).
MACEDO, 2010, p.19). Dessa forma,

A partir desse contexto, inicio aqui ainda se vive sob o efeito da produção da
infância moderna, contudo, não é mais possível
uma discussão sobre a necessidade de se tratar de uma só infância como a preconizada
reconhecimento da criança como sujeito pela modernidade. É preciso que pelo menos
cultural, de suas possibilidades, e de se leve em consideração que existem muitas
outras infâncias. Existem infâncias mais pobres
valorização de suas práticas e saberes dentro e mais ricas, infâncias do Terceiro Mundo e dos
do ambiente escolar. Assim, precisamos países mais ricos, infâncias da tecnologia e dos
refletir sobre as formas de subjetivação da buracos e esgotos, infâncias superprotegidas,
abandonadas, socorridas, atendidas, desamadas,
criança e da infância presentes nos currículos amadas, armadas, etc. Contudo, a modernidade
e práticas escolares, uma vez que as crianças ocidental, ao universalizar e naturalizar apenas
tornam-se objetos de uma intervenção uma destas infâncias como dependente e
necessitando de proteção, passou a deixar
calculada e interessante para inúmeros de lado a sua diversidade. Em função disso,
setores. (BUJES, 2000) se acaba esquecendo que as infâncias são
múltiplas e inventadas como produtos sociais e
históricos. Muitas das crianças que vivem suas
infâncias hoje fazem parte de um mundo em que
OS CURRÍCULOS E OS explodem informações (DORNELLES, 2005, pp.

SUJEITOS 71-72).

Vimos acima que a Educação Infantil A autora sugere que as crianças da


assumiu diferentes propostas e objetivos contemporaneidade “escapam” do modelo
ao longo da história. Entendemos que além proposto pela modernidade e nos apresenta
do processo de educação e socialização, a as crianças ninjas e as crianças cyber. As
pré-escola assumiu responsabilidades para crianças ninjas, referência ao desenho

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“Tartarugas Ninjas” que vivem no esgoto, são negociados constantemente, ou seja, o


são aquelas que vivem a margem das currículo não pode ser considerado como
tecnologias, do consumo, da família, do lar, um instrumento técnico, mas vinculado a
que se encontram em situação de abandono, uma forma de regulação política e cultural.
lutam dia-a-dia pela sobrevivência, escapam Portanto, se faz necessário pensarmos
da proteção e vigilância dos adultos, querem sobre as diversas formas de regulação que
fazer parte do modelo econômico e social, permeiam a Educação Infantil.
mas são diariamente excluídos. Já as
crianças cybers são altamente globalizadas, Quando pensamos em currículo
com acesso às tecnologias de informação, relacionamos diretamente aos conteúdos
conhecimento e entretenimento, não que serão desenvolvidos. Mas, pensar no
necessitam dos adultos para aprender, estão currículo está sempre vinculado a uma
sempre á frente sobre as novas invenções estratégia de política cultural, a um projeto
tecnológicas e também fogem, de certa de ser humano, já que interfere na produção
forma, do controle dos adultos. As crianças de representações e identidades e determina
pós-modernas aprendem que o poder está a formação de um tipo de sujeito. Como
diretamente relacionado à felicidade, que coloca Macedo (2010, pp. 29-30)
possuir certas coisas (inclusive marcadores
sociais) é uma forma de poder. Assim, “[...] [...] a escolha de determinados conhecimentos
é justificada com base nesse objetivo formativo.
são capturadas pelas regulações de poder” Se desejarmos formar uma pessoa para que ela
(DORNELLES, 2005, p.90). seja de determinada forma, devemos ensinar-
lhe como ser assim. Ser assim, e não de outra
forma, tem a ver com a formação da identidade
É preciso compreender que as crianças e e da subjetividade. Podemos afirmar então
os modelos de infância são produções sociais que as teorias do currículo estão relacionadas
e históricas, e todas elas se encontram no diretamente com as questões de identidade
e que a seleção de conhecimentos envolve
ambiente escolar: crianças sem pai, sem disputas de poder (as quais, por sua vez, se
mãe, com dois pais ou duas mães, com pais expressam nas teorias curriculares) (MACEDO,
presidiários, crianças bandidas, crianças 2010, pp. 29- 30).

hiperativas, crianças consumidoras, crianças


do funk, das favelas, do hip-hop, das músicas Dessa forma, é importante pensarmos de
infantis, dos carrinhos automatizados, dos que forma as diferentes teorias curriculares
tablets, crianças descendentes de bolivianos, contribuem para a formação de um tipo de
de brancos, índios e negros, enfim crianças sujeito, e não de outro.
diferentes. Mais do que isso, precisamos
refletir sobre o processo educativo desses Para Silva (1999) as teorias do currículo se
sujeitos. A escola, seu currículo e suas práticas dividem em três correntes desenvolvidas ao
são parte do complexo campo da cultura, longo do tempo: teorias tradicionais, teorias
onde os significados e as representações críticas e teorias pós-críticas. A primeira

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foca o processo de ensino-aprendizagem influência dos movimentos sociais, surgem


e a eficiência, baseada em uma concepção também vários estudos que discutem e
tecnicista. A segunda corrente discute as relacionam de forma mais ampla a escola
questões sociais presentes no currículo, e a sociedade. Assim, as teorias críticas do
com ênfase na classe social, libertação e currículo questionaram o caráter reprodutor
emancipação. E a terceira, teorias pós- da escola, alteraram o olhar sobre as práticas
críticas discutem conceitos como identidade escolares e influenciaram as discussões
e subjetividade, apontam outros marcadores sobre o currículo (MACEDO, 2010).
sociais no currículo como gênero, raça,
etnia, sexualidade etc. e se baseiam nos A partir desses estudos as teorias pós-
estudos sobre cultura e multiculturalismo. críticas permitiram entender que
Para Hall (1997) a subjetividade pode ser
entendida como o conjunto de significados o currículo nunca é apenas um conjunto
neutro de conhecimentos, que de algum modo
e representações que constituem os sujeitos aparece nos textos e nas salas de aula de uma
e suas identidades, por meio de práticas nação. Ele é sempre parte de uma tradição
culturais, sejam elas discursivas ou não. seletiva, resultado da seleção de alguém,
da visão de algum grupo acerca do que seja
Assim, esse campo teórico entende que os conhecimento legítimo. É produto das tensões,
sujeitos são formados pelos discursos que o conflitos e concessões culturais, políticas e
permeiam. econômicas que organizam e desorganizam um
povo (APPLE, 1995, p.7).

Nas primeiras décadas do século XX
a escola tradicional (modelo clássico de Pérez Gomes (1998) complementa esta
educação) centrada no conhecimento bom e ideia ao afirmar que os alunos ao assimilarem
belo produzido pelo homem recebeu críticas os conteúdos, discursos e práticas
severas. De um lado pelos que argumentavam presentes no currículo, configuram ideias
por um currículo mais técnico, mais útil para e representações subjetivas que afirmam e
a vida moderna, voltado para a formação reproduzem uma única ordem, conveniente
para o trabalho e vida prática; de outro para a manutenção do status quo.
pelos estudiosos que acreditavam em uma
educação centrada na criança, considerando Apesar dessa intensa argumentação á
sua realidade e seu cotidiano, um currículo respeito do currículo e sua contribuição
pautado na psicologia infantil. O movimento na formação dos sujeitos, na Educação
da escola nova surge a partir destas críticas, Infantil ainda persistem concepções á favor
propondo mudanças no currículo tradicional, do modelo clássico, considerando a escola
com diferentes propostas pedagógicas como espaço de uma única cultura, a cultura
que consideravam o interesse dos alunos dominante.
e uma maior participação dos mesmos
na aprendizagem. Nesse período, com a

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As propostas pedagógicas da Educação padronização da criança e do mundo infantil,


Infantil foram fortemente influenciadas e a concepção de uma única forma de
pela ideia de desenvolvimento “natural” aprendizagem não reconhecem a diversidade
dos sujeitos a partir da sua interação com presente na escola, as diferentes realidades
o ambiente, em especial pelos estudos econômicas e socioculturais, unificando as
provenientes da Psicologia em seus diferentes ações didáticas e as práticas voltadas para a
ramos, que normatizaram e normalizaram educação das crianças.
as crianças e seu desenvolvimento. Os
diferentes discursos sobre a criança e sua Lemos (2007) aponta um processo
infância atendem a interesses particulares de “pedagogização” da cultura infantil,
de cada campo do saber e tornam dominante transformando sua linguagem, textos e
um modo de concebê-las, construindo a produções em dispositivos instrumentais
ideia de um sujeito ideal. Tais concepções e didáticos, desprovidos de sentidos e
influenciam e justificam o surgimento de significados. A autora reforça que a cultura
teorias e práticas que devem ser dominadas infantil não é valorizada como artefato
para a educação e controle sobre os sujeitos cultural e social no espaço escolar, assim a
infantis e ao serem tomadas como universais música, as cantigas de roda, os desenhos, os
mascaram a existência de marcadores contos, o folclore, os brinquedos de montar,
sociais no processo educativo. As verdades os jogos de regras etc. que são permeadas por
construídas sobre a infância são reforçadas inúmeras relações e modos de subjetivação,
pelos dispositivos pedagógicos que operam são tratados com um caráter estritamente
na constituição destes sujeitos. técnico e determinista nas dinâmicas
institucionais.
Para Bujes (2001), as representações
criadas em torno do “ser criança”
(raciocinante e inocente) são narrativas TRAÇANDO OUTROS
culturais que colonizam as nossas CAMINHOS
percepções sobre o fenômeno e acabam por
orientar as práticas voltadas para a infância. A partir das discussões anteriores sobre
Assim, esses conceitos universalizados a função social da escola, em específico da
mascaram as diferenças culturais e reforçam Educação Infantil, e a importância de se
práticas de vigilância, controle e domínio da pensar o currículo como um artefato político,
subjetividade infantil. social e cultural que organiza o processo de
produção de sentidos e significados, é viável
Em geral, as propostas curriculares para refletirmos sobre propostas pedagógicas
a Educação Infantil desconsideram os que considerem estes conceitos, com base
aspectos sociais e culturais do conhecimento nas teorias pós-críticas do currículo.
e do desenvolvimento. A idealização e

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Para tal, é fundamental reforçar que essas mais complexa da sociedade e que se
teorias entendem que o sujeito é formado preocupe com a formação democrática dos
a partir das diversas práticas discursivas e alunos, desde a educação infantil.
não discursivas, e pelos diversos saberes
que o cercam. Assim, sua identidade não é Macedo (2010) aponta alguns fatores a
fixa, ela está em constante movimentação, serem considerados na construção de um
ou seja, os objetivos formativos não são currículo para a Educação Infantil atento
certezas, e sim possibilidades. Portanto, as à valorização das diferentes culturas e
teorias pós-críticas explicam e entendem experiências das crianças. Um primeiro
o currículo, o sujeito, a sociedade, o ponto sugerido pela autora é dar voz às
conhecimento, a pedagogia sob diferentes crianças, incluir nas propostas pedagógicas
leituras, questionando as relações de poder seus saberes, desejos e necessidades, se
e os processos de subjetivação presentes distanciando assim do adultocentrismo tão
na educação institucionalizada. Para essas presente ao longo da história e contrariando
teorias não existem modos certos de ensinar, a ideia de “adulto em miniatura”. O segundo
técnicas de planejamento, lista de conteúdos elemento está relacionado a organização dos
ou conhecimentos que devem ser legitimados, tempos e espaços nos currículos e valorização
mas é fundamental a problematização do da cultura infantil, reconhecendo-a como
currículo (MACEDO, 2010). Kramer (1997) forma de linguagem e expressão, rica
ainda ressalta a importância do papel em sentidos e significados culturalmente
do professor na construção da proposta construídos. Por último ressalta a necessidade
pedagógica, considerando a realidade da de superar a compreensão do conhecimento
sua escola, as necessidades, possibilidades e como algo fragmentado, tendo assim um
saberes do seu grupo. olhar integrado sob as diferentes áreas do
conhecimento. Moruzzi (2008) complementa
Neste sentido, a intenção aqui não é impor com outros aspectos relevantes para a
uma proposta como única e verdadeira, pois elaboração dos currículos e destaca a urgente
necessidade de reconhecer nas propostas
pensar uma proposta pedagógica única curriculares as diferentes infâncias e culturas
pressupõe pensar um conceito uniformizador
de criança, de jovem, de adulto; de professor de infantis, entendendo a criança como sujeito
educação e de sociedade, um conceito que por que interpreta o mundo, que age e modifica
generalizar, desrespeita as diferenças –seja de seu meio através de suas produções, ou
etnia, sexo, classe social ou cultura (KRAMER,
seja, compreendê-la como parte da dinâmica
1997, p. 21-22)
social e cultural.

A intenção deste tópico é refletir sobre


um currículo que possibilite a crítica e
transformação social, promova uma análise

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Para Neira (2008, p.59)

à escola de Educação Infantil cabe, portanto, elaborar currículos e práticas pedagógicas que tomem como
pressuposto a condição de cada sujeito enquanto sujeito cultural em constante produção e reconstrução. A
brincadeira a dança, a mímica, a arte e todas as formas de expressão conhecidas e com as quais as crianças se
envolvem devem ser compreendidas como produtos culturais aprendidos, ressignificados e construídos pelas
crianças, ou seja, componentes do repertório da cultura infantil, aquilo que as distingue dos outros grupos,
que delimita a sua singularidade (NEIRA, 2008, p. 59).

Bujes (2001, p.230) complementa essa ideia ao propor que

pensar as experiências de educação institucionalizada das crianças pequenas supõe estarmos atentos
para as demais práticas culturais em que elas estão inseridas, supões romper com uma visão “incontaminada”
do espaço e das práticas escolares, da sua “assepsia” e da sua “neutralidade”. Supõe, também, abandonar
várias narrativas românticas sobre a infância: a da sua inocência, a da sua bondade, a da neutralidade e da
espontaneidade de sua progressão cognitiva, entre tantas outras. (BUJES, 2012, p.230)

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das contribuições dos diferentes teóricos do
currículo, da educação e da educação infantil, é possível
repensarmos o currículo e suas práticas como sistemas
de significação, que atribuem determinados sentidos e
significados às experiências e compreensão da realidade,
neste caso das crianças.

Neste trabalho revelamos como a leitura da criança,


de seu mundo, sua cultura, suas necessidades etc. são
contaminadas pelo adultocentrismo, muitas vezes de forma
romântica e ingênua, negando-a como sujeito social. A partir
daí, levantamos de que forma as propostas educacionais, por CINTIA CRISTINA DE
meio de seus currículos, incidem sobre a subjetividade das CASTRO MELLO
crianças, ou seja, nesta concepção o currículo é entendido
Graduação em Educação Física
para além da ideia de lista de conteúdos ou técnicas de pela Universidade Estadual
aprendizagem, mas como um artefato político e cultural que Paulista (2006); Mestre em
reflete um projeto de sujeito e sociedade que pretendemos Educação pela Universidade Nove
de Julho (2014); Professora de
por meio das práticas pedagógicas. Educação Física na EMEF Franklin
Augusto de Moura Campos.
Apresentamos também outro olhar sobre a elaboração de
propostas para a Educação Infantil, levando em consideração,
especialmente, a voz das crianças, sua importância enquanto
ator social e a participação do professor na construção das
práticas.

Portanto, entendemos que uma escola para a cidadania e


para a democracia só será possível quando as vozes de seus
atores estiverem presentes em seus currículos e práticas,
desde sua inserção no processo de escolarização. A criança
produz saberes, constrói suas próprias experiências e
leituras do mundo, atribui significados aos elementos que
compõem sua cultura. Uma educação que coloque no centro
do trabalho pedagógico a criança e sua infância e reconhece
as diferentes culturas infantis, certamente está no caminho
de uma formação mais humana e integral.

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Revista Educar FCE - Março 2019

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Revista Educar FCE - Março 2019

AÇÃO EDUCATIVA: PROJETOS DE


MEMÓRIA DA UNIVERSIDADE DE
SÃO PAULO
RESUMO: O presente artigo pretende apresentar dois projetos de memória com idosos
da Universidade de São Paulo. Serão retratados o Estação Memória e o projeto do Museu
de Arqueologia e Etnologia da Universidade. Estas ações com a terceira idade mostram
a importância dos museus e da USP para preservar e difundir a Memória, especialmente
para esta parcela da sociedade que às vezes não é levada em conta em ações educativas.
Desta forma, estes projetos podem propiciar aos idosos a oportunidade de ter uma relação
prazerosa com os novos conhecimentos construídos e adquiridos no decorrer do trabalho
educativo. Além de incentivar entre os idosos a reflexão sobre si mesmos quanto ao papel
que tiveram e ainda têm na sociedade.

Palavras-Chave: Estado; Políticas Educacionais; Justiça.

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Revista Educar FCE - Março 2019

INTRODUÇÃO MEMÓRIA: A FUNÇÃO


SOCIAL DOS MUSEUS
Na Universidade de São Paulo (USP), existe
o Programa Universidade Aberta à Terceira
Idade da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Para muitas pessoas o museu é um local
da USP, que tem por objetivo possibilitar ao para guardar coisas velhas. Projetos de
idoso aprofundar conhecimentos em alguma memória servem para provar que museu é um
área de seu interesse e ao mesmo tempo local de memória viva e dinâmica. Trazendo
trocar informações e experiências com os também conhecimento e descobertas.
jovens. É aberto algumas vagas em diversas
disciplinas, regulares, da Universidade, onde Museus não tem mais apenas a função
o idoso pode se matricular e frequentar as de guardar, preservar e catalogar coleções,
aulas, possibilitando integração com os mas eles também investigam e comunicam,
alunos da graduação. produzindo conhecimentos que contribuem
tanto para a construção de memória como
Entretanto, na USP existem projetos para uma concepção crítica da sociedade.
específicos de memória com e para os idosos, (CHAGAS, 2005, p. 53)
como o Estação Memória do departamento
de Informação e Cultura (CBD) da Escola O museu é um lugar de memória e como
de Comunicações e Arte (ECA) e o projeto tal, esta instituição se propõe a dar espaço
de ação educativa com a terceira idade da para que diferentes grupos sociais tenham
professora Judith Mader Elazari (educadora suas histórias de vida preservadas, estudadas
do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE). e compartilhadas. Esta é a forma de o museu
reconhecer as identidades dos povos,
Neste trabalho, procurou-se dar um valorizando-as assim como as suas culturas.
panorama geral sobre estes projetos (ELAZARI, 2009. p. 338)
e a importância dos museus e da USP
para preservar e difundir a Memória, “Os bens culturais produzidos em diferentes
sociedades fazem parte do Patrimônio Cultural.
especialmente para esta parcela da sociedade É um dos papéis do museu guardar e preservar
tão importante, e às vezes esquecida, que estes bens [...]. Identidade e memória vão
são os idosos. garantir a produção e reprodução dessas
práticas”. (ELAZARI, 2009, p. 339)

Nos museus é praticado a educação não


formal, que procura considerar e recriar a
cultura dos povos envolvidos fazendo com
que a bagagem cultural de cada um seja
respeitada e esteja presente no processo

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Revista Educar FCE - Março 2019

educativo. Assim, os educadores tanto fato de algumas histórias sobre São Paulo
ensinam como aprendem, ressignificando serem divulgadas e outras não.
as identidades, desta forma, a memória tem
mais possibilidade de se colocar aberta a Com esta indagação, o professor que é do
ações transformadoras. (ELAZARI, 2009, p. departamento CBD/ECA, na época chamado
339) de Departamento de Biblioteconomia e
Documentação, criou o projeto “Memórias
Considera-se os idosos como criadores de do Baixo Pinheiros”, que reunia uma seleção
cultura ou agentes de um processo cultural e de depoimentos de pessoas da região. A
o museu como uma instituição cultural, com a proposta era dar voz a essas pessoas e suas
finalidade de resgate, comunicação, reflexão memórias, estabelecendo uma relação entre
sobre processos de produção cultural, por as experiências dos velhos com a vida dos
grupos diversificados. (ELAZARI, 1997, p. mais jovens que ali habitavam.
88)
A ideia ganhou espaço físico em 1997,
ESTAÇÃO MEMÓRIA com a chegada da professora Ivete Pieruccini
(docente e pesquisadora da ECA-USP).
Na época a professora atuava na Rede de
Os encontros acontecem todas às Bibliotecas infanto-juvenis da cidade de São
quartas-feiras às 14 horas em uma sala do Paulo, assim ela conseguiu apoio da Secretaria
CBD, no prédio central da ECA. Os velhos, Municipal de Cultura para criar um espaço
com idades entre 70 a 90 anos, se reúnem em Pinheiros que sediasse não apenas os
para relembrar suas memórias. Este grupo estudos e a coleta dos depoimentos, como
faz parte de uma iniciativa no estudo da também promovesse oficinas de memória.
memória pela comunidade acadêmica.
Em 2008, a Secretaria Municipal pediu
Além destas reuniões, o grupo faz a desapropriação do espaço, e o projeto
passeios para se reunir com jovens de encontrou apoio na ECA, que desde então,
escolas ou entidades parceiras e assim poder serve como sede para os encontros do grupo.
discutir seu passado eo presente dos alunos,
fazendo estes encontros uma oportunidade Hoje em dia a Estação conta com
de aproximação de gerações distintas. aproximadamente 40 participantes, entrando
8 ou 9 pessoas por ano vindos do Programa
A ideia nasceu de um projeto de pesquisa da Universidade Aberta à Terceira Idade,
do professor Edmir Perrotti (atualmente além de ter baixas de 1 ou 2 por ano, por
docente aposentado da USP) em 1986, motivos como falecimentos.
depois de uma conversa que o professor
teve com uma senhora que questionou o De maneira geral, o grupo é composto por

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Revista Educar FCE - Março 2019

pessoas com no mínimo nível fundamental atividade extramuros da universidade com


de educação, são de classe média, alguns um encontro prazeroso, educativo e de
imigrantes ou descendentes de famílias reflexão para ambas as partes. (ELAZARI,
europeias e moradores de Pinheiros e 1997, p. 93)
entorno.
De acordo com a professora Judith, os
A partir de 2013, foi possível, graças ao objetivos do projeto eram:
programa “Aprender com Cultura e Extensão”
da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da 1. Diversificar a clientela de atendimento
USP, acrescentar bolsistas alunos ao projeto. do Serviço Educativo;
Assim, além de ajudar nas organizações 2. Propiciar aos idosos uma maior
e dinâmicas do encontro, estes alunos convivência e um conhecimento mais
conseguem registrar e publicar postagens aprofundado sobre o trabalho realizado em
em um blog sobre os encontros. culturas antigas e atuais;
3. Incentivar entre os idosos a reflexão
sobre si mesmos quanto ao papel que tiveram
PROJETOS PROFª. JUDITH e ainda têm na sociedade;
ELAZARI (MAE/USP) 4. Trocar ideias sobre a importância
cultural e do museu e suas relações com a 3°
As primeiras atividades educativas com o Idade;
público da Terceira idade no MAE, ocorreram
em 1989, quando foram atendidos idosos Para a realização do projeto foram
da Faculdade de Saúde Pública da USP. contatados tanto grupos de 3° Idade
Foram trabalhadas questões relativas à independentes como institucionalizados
memória individual e coletiva, relacionadas (ligados ao Serviço Social da Indústria-SESI,
às experiências vividas por cada um, Secretaria Municipal de Cultural e Igreja
problematizadas as questões sobre a Católica). Participou cerca de duzentas e
preservação das minorias. (ELAZARI, 2009, trinta e cinco pessoas, quase todas mulheres
p. 94) (não chegando a dez homens).

Em novembro de 1994 foi proposto, pela Considerando este um projeto com êxito,
professora Judith Mader Elazari, o projeto onde possibilitou o contato com a memória
Piloto “Patrimônio Cultural e Memória: a coletiva de quem também faz a história, mas
3º idade no MAE/USP”, projeto este que que nem sempre é solicitado para contá-la.
funcionou até outubro de 1995.
A partir de 2005, o museu desenvolve um
Pretendia-se fazer da oportunidade do projeto em forma de oficina, com duração
trabalho com idosos no MAE/USP uma de um semestre e com reuniões semanais

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de duas horas. Este projeto chamou- Já a segunda oficina, chamava-se “Oficina


se inicialmente “Oficina da Memória: A da Memória: A terceira Idade Construindo o
Terceira Idade Construindo Conhecimento”, conhecimento no MAE/USP”. Este grupo se
entretanto algumas pessoas procuraram formou espontaneamente, após a divulgação
achando que era para melhorar a memória e feita pelo programa universidade aberta para
desistiram. Desta forma, em 2008 o projeto a terceira idade.
mudou para “Arqueologia e Memória: Oficina
para a Terceira Idade”. (ELAZARI, 2009, p. Os dois grupos se reuniram em 2006, o
100) primeiro grupo as reuniões aconteciam na
Associação de Moradores da Comunidade
No artigo intitulado Ação educativa de São Remo e o segundo grupo se reunia na
em museus: a Terceira Idade construindo sala de atividades Educativas do MAE.
conhecimento a partir de objetos no MAE/
USP (2009), a professora Judith faz um Os objetivos gerais destas oficinas foram
estudo de caso com duas oficinas que tiveram idênticos para ambos os grupos, sendo
metodologia de trabalho semelhantes e apenas os dois últimos itens dirigidos para o
resultados diferenciados. grupo da

Os dois grupos eram de origem bem Comunidade São Remo, conforme a seguir:
diferentes, a primeira oficina “Encontros com
Idosos: “Escavando” a memória a partir de 1. Tornar mais rica a vida dos integrantes
objetos”, projeto em parceria com o MAE e o da Terceira Idade;
Centro de Saúde Escola do Butantã (ligado à
faculdade de medicina da USP). Eram idosos 2. Propiciar aos idosos a oportunidade
que já se reuniam com a educadora de de ter uma relação prazerosa com os novos
saúde e agentes comunitárias de saúde do conhecimentos construídos e adquiridos
Centro de Saúde, na Comunidade São Remo, no decorrer do trabalho educativo;
comunidade esta que localiza-se a cerca
de 200 metros do MAE (vizinha da Cidade 3. Incentivar os velhos a refletirem sobre
Universitária da USP). seu papel na sociedade, tanto no passado
como hoje.
Constou da programação cultural deste
grupo, uma visita ao MAE, justamente no 4. Refletir sobre a memória individual e
dia da inauguração da exposição “Memória sua relação com a coletiva na medida em
e Vivências” montada por outros idosos de que forem reconstruídas e compartilhadas
uma outra oficina da terceira idade. Após, pelo grupo;
foram feitos algumas reuniões. (ELAZARI,
2009, p. 101)

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5. Desenvolver por meio de ação Sobre as características dos dois grupos,


educativa e do trabalho com a memória pode se observar bastante discrepância
relações do cotidiano de cada um com (ELAZARI, 2009, p. 102):
o sentimento de pertencimento e de
identidade; ● Escolaridade: todos os integrantes
da São Remo eram analfabetos ou semi-
6. Compreender que a instituição analfabetos, ao passo que os da oficina
museológica é um lugar de memória, onde da memória tinham no mínimo nível
se procura dar espaço a diferentes grupos fundamental, não sendo incomum nível
sociais; universitário;

7. Promover a troca de experiência ● Procedência geográfica: os da São


entre os velhos de modo que possibilite a Remo vieram todos de alguns estados do
sua valorização como seres produtores e Nordeste Brasileiro, chegando a São Paulo
consumidores de Cultura; na idade adulta, já os da outra oficina
eram da cidade de São Paulo, do interior
8. Possibilitar aos participantes dos do estado ou de outros países;
grupos que ressignifique o passado por
eles abandonado ou deixado de lado na ● Infância: os de São Remo só tinham
sociedade em que vivem; lembranças tristes, ao passo que os
da outra Oficina consideram esta fase
9. Discutir questões relacionadas à bastante positiva e faziam questão de
saúde, não apenas físicas, mas que também recordar;
possam desenvolver a valorização do ser
humano na sua totalidade; ● Envelhecimento: os de São Remo
encaram a velhice como um descanso e
10. Socializar com o público em geral, recolhimento merecido depois de tanto
em forma de exposição, os conhecimentos tempo de trabalho duro e desgastante,
construídos a partir de objetos biográficos; todos estão aposentados ou recebem
pensão alimentícia. Já o outro grupo, este
11. Conhecer, e dar a reconhecer, a período é de alegria, liberdade e de novos
história da Comunidade São Remo a partir conhecimentos;
da memória de alguns de seus habitantes
mais antigos e socializá-la entre os seus ● Saúde física: todos os integrantes de
moradores. São Remo tinham algum problema de saúde.
Tiveram que trabalhar prematuramente,
trabalho duro e pesado, má alimentação
e insalubridade. Os do outro grupo não

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Revista Educar FCE - Março 2019

precisaram trabalhar na infância, não executaram trabalhos braçais pesados e algumas


mulheres foram apenas donas de casa;

● Lazer: os idosos da São Remo tinham como lazer a televisão, atividades nas suas
respectivas Igrejas e visita a parentes, ao passo que os da oficina tinham o hábito de ir
ao cinema e teatro, viajar pelo Brasil e fora dele, participar de atividades especiais para a
terceira idade e etc.;

● Situação econômica: este item não foi aprofundado, mas era muito visível a discrepância
econômica entre os dois grupos.

Como conclusão destes projetos, a professora acredita que o museu cumpriu algumas de
suas funções, sobretudo a de ser um lugar de memória, desenvolver ações educativas em
suas práticas sociais como as que foram desenvolvidas nas oficinas apresentadas.

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Revista Educar FCE - Março 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS
É possível concluir que todos estes projetos apresentados
contribuíram e contribuem para que a autoestima dos
idosos seja estimulada na medida que procura desvendar a
potencialidade de cada um. Gerando um maior conhecimento
do outro e de si mesmos.

Os trabalhos com públicos especiais dão oportunidade


para que se compreenda sua importância dentro da
sociedade em que vivem, identifiquem-se como grupo social
e que seu processo de construção de conhecimentos seja
lúdico e prazeroso.
CÍNTIA DIAS DE SOUZA
Esta temática é muito rica e abre margem para diversos
Professora de Educação Infantil
trabalhos e recortes, não se esgotando o debate. Como na Rede Municipal de São
crítica, gostaria de ter comparado melhor estes projetos e Paulo. Artigo apresentado como
talvez fazer uma crítica ao projeto Estação Memória (onde requisito parcial para aprovação
do Trabalho de Conclusão
fui bolsista por um tempo) e o Oficina da memória que são do Curso de Especialização e
projetos muito importantes, entretanto com idosos de uma Educação Especial em Deficiência
classe social e realidade bem diferentes da do grupo de Intelectual.
São Remo, que são marginalizados em seu meio social e na
sociedade em geral.

O valor de todos os projetos é inegável, entretanto,


contribuir com a autoestima e se importar com a memória
desse grupo da São Remo tem uma importância e beleza
muito superior.

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Revista Educar FCE - Março 2019

REFERÊNCIAS
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NEIRA, Marcos Garcia. Educação física na educação infantil: algumas considerações para a
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Revista Educar FCE - Março 2019

A EVOLUÇÃO DA PRÁTICA
PEDAGÓGICA NA EDUCAÇÃO
ESPECIAL E INCLUSIVA
RESUMO: Este artigo busca refletir sobre a Educação Especial e Inclusiva sobre as fases
pelas quais a Educação Especial está evoluindo na prática pedagógica. Os principais desafios
da área da educação, as barreiras, a discriminação, as práticas pedagógicas, dentre outras,
que dificultam ou impedem o conhecimento e a aprendizagem de todos na escola. Para
tanto, por meio de pesquisa bibliográfica, o trabalho procura apontar que historicamente a
inclusão desde o seu surgimento passou por diversas etapas e movimentos que lhes trouxe
muitos desafios. O texto aborda, entre outros aspectos, a necessidade de se repensar a
prática pedagógica inclusiva como elemento fundamental de inclusão escolar na educação
infantil. Inclusão, portanto, não significa simplesmente matricular os educandos com
necessidades específicas, mas significa dar ao professor e a escola o suporte necessário à
sua ação pedagógica.

Palavras-Chave: Educação Inclusiva; Educação Especial; Prática Pedagógica.

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INTRODUÇÃO chama de auto formação. A escola pode ser


esse ambiente, a partir do que os educadores
O objetivo deste artigo é discutir a inclusão estejam buscando aprimorar suas práticas.
de alunos com necessidades especiais Este ato educativo está centrado na
nas escolas regulares. Debater este tema diferenciação curricular inclusiva, à procura
se sustenta no fato de que a mencionada de vias escolares diferentes para dar resposta
inclusão, não é uma realidade em todas à diversidade cultural, implementando
as escolas do país, visto que a educação uma práxis que contemple diferentes
inclusiva parte da intenção de que todos são metodologias que tenham em atenção os
iguais. ritmos e os estilos de aprendizagem dos
alunos.
Essa igualdade de direitos está implícita
na Constituição da República Federativa do Construção de espaços para reflexão
Brasil. Deve ser ressaltado que o conceito crítica, flexibilização e criação de canais de
da escola inclusiva conforme as Diretrizes informação nas escolas, alianças e apoios
Curriculares Nacionais para a Educação entre os profissionais e implementação de
Especial (MEC/SEESP, 1998, p.15),” implica políticas públicas de valorização e formação
uma nova postura da escola comum, que docente. Portanto, precisamos conceber a
propõe no projeto político pedagógico, formação continuada dos educadores como
no currículo, na metodologia de ensino, elemento crucial para a (re) construção da
na avaliação, e na atitude dos educandos”, instituição escolar.” (ALMEIDA, 2004, p.28).
ações que favoreçam a integração social e
suas opções por práticas heterogêneas. Mas existem práticas educativas que
estão em desacordo com o proposto pelas
A Educação Especial já não é mais diretrizes da Educação Especial, oferecem
concebida como um sistema educacional um ensino segregado que está longe de
paralelo segregado, mas como um conjunto possibilitar aos seus alunos o acesso ao
de medidas que a escola regular põe ao serviço currículo nacional comum.
de uma resposta adaptada à diversidade dos
alunos.
PARADIGMAS
Segundo Sadalla (1997), a formação do EDUCACIONAIS
educador que atua na Educação Especial
e Inclusiva precisa ir além da presença de A proposta da Educação Inclusiva ganhou
professores em cursos que visem mudar força, a partir da segunda metade da
sua ação no processo ensino-aprendizagem, década de 90 com a difusão da conhecida
é necessário que essa formação se torne Declaração de Salamanca, que entre outros
contínuo, pois segundo Mantoan (2004), pontos, propõe que “as crianças e jovens com

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Revista Educar FCE - Março 2019

necessidades educativas especiais devem ter Recursos e métodos de ensino mais


acesso às escolas regulares que a elas devem eficazes proporcionam aos deficientes
se adequar”. (UNESCO, 1994, p.15). maiores condições de adaptação social,
superando, pelo menos em parte, suas
A Educação Especial que por muito tempo dificuldades e possibilitando sua integração
configurou-se como um sistema paralelo e par
de ensino, vem redimensionando seu papel
antes restrito ao atendimento direto do A frequência regular da escola não basta
educando com necessidades especiais, para alcançar as metas de desenvolvimento.
para atuar, prioritariamente como suporte à Há alunos que avançam pelos diferentes ciclos
escola regular no recebimento deste aluno. de escolaridade sem adquirir as habilidades
necessárias para sua progressão. Este fato
Segundo Glat (1989), os médicos foram é preocupante, principalmente em relação
os primeiros que despertaram para a ao ensino direcionado ao aluno com NEE
necessidade de escolarização dessa clientela que, muitas vezes, é deficitário, inexistente
que se encontrava “misturada” nos hospitais ou inadequado, reduzindo inclusão à mera
psiquiátricos, sem distinção de idade, presença física em sala de aula.
principalmente no caso da deficiência mental.
Nas instituições especializadas o trabalho Cada caso deve ser observado e é vital que
era organizado com base em um conjunto de o professor compreenda as particularidades,
terapias individuais, e pouca ênfase era dada as limitações e as potencialidades de todos
à atividade acadêmica, que não ocupava os alunos, com especial as crianças com NEE
mais do que uma pequena fração do horário (necessidades educacionais especiais).
dos alunos.
É lícito afirmar que os alunos com
Apesar dos avanços, Bueno (1993) destaca necessidades educacionais mais específicas
que a Educação Especial funcionava como e urgentes deveriam ser contemplados por
um serviço paralelo, com métodos ainda de uma prática pedagógica particularmente
forte ênfase clínica e currículos próprios. As mais talhada e mais cuidada para atender
classes especiais implantadas nas décadas as essas normas específicas. É comum ouvir
de 70 e 80 serviram mais como espaços os professores alegando falta de tempo,
de segregação para aqueles que não se de condições, de recursos, de apoio ou de
enquadravam no sistema regular de ensino, formação profissional para não preparar
do que uma possibilidade para ingresso na material adequado, particularmente para
rede pública de alunos com deficiências, cuja alunos com necessidades especiais.
maioria ainda continuava em instituições
privadas. O professor nem sempre é capacitado
para lidar com situações adversas, o que

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Revista Educar FCE - Março 2019

Pode se considerar, portanto, que o


condiciona negativamente sua atuação paradigma que hoje conhecemos por Educação
enquanto mediador do processo ensino- Inclusiva não representa necessariamente uma
aprendizagem. A neurociência é uma ruptura, por toda parte, cantando e dançando
com as pernas. (GALLO, 1999, p. 92).
ferramenta valiosa na busca por soluções

que tornem os alunos capazes, à sua maneira,
de aprender e alcançar os objetivos que são Muito têm sido enfatizados sobre
propostos em cada etapa escolar. E apesar a educação voltada para o respeito às
dos avanços dos ideários e de projetos diferenças, convívio com as diferenças,
político-pedagógicos, muitas instituições de direito às diferenças. Mas se iniciam os
ensino ainda não implementarem ações que grandes desafios da educação inclusiva.
favoreçam a formação de seus professores
para trabalharem com a inclusão. Para tanto, Desde quando se instaurou um único
é importante que eles compreendam o sistema de escola regular, instituições
contexto sócio-histórico da exclusão e o da de ensino em geral começaram a rejeitar
proposta de inclusão. matrículas de alunos com alguma deficiência,
mesmo sendo proibido por lei, uma vez
A legislação brasileira prevê que todos que é dever da escola introduzir o aluno
os cursos de formação de professores, do às questões sociais, culturais e científicas,
magistério à licenciatura, devem capacitá-los sendo direito incondicional de todo ser
para receber, em suas salas de aula, alunos humano. As justificativas dessas instituições
com e sem necessidades educacionais se resumem a falta de recursos para atender
especiais, dentre os quais os alunos com as necessidades dos alunos. Este quadro vem
deficiências. mudando gradativamente.

Ainda há poucas oportunidades de A educação inclusiva requer mais do que


capacitação. Elas são fundamentais, pois recursos materiais adequados, é necessário
não servem apenas para influenciar os mão de obra qualificada para exercer o
sentimentos dos professores em relação à trabalho nas escolas. É extremamente
educação inclusiva, mas também para que importante que os professores se preparem
os educadores possam refletir as propostas para receber esses alunos e estejam aptos
de mudanças que podem mexer com os seus a ensinar igualmente e os alunos também
valores e crenças e até transformar a sua precisam de orientação adequada e tempo
prática educacional. para se adaptarem à nova realidade em
sala de aula. Tanto os chamados “normais”,
Silva (2009) declara que “incluir com quanto os alunos com necessidades especiais
a finalidade educacional exige atitude e passam por novas experiências de interação
colaboração dos colegas em relação aos e convivência que devem ser uma extensão
integrados”. das relações em casa. Éna convivência

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Revista Educar FCE - Março 2019

com um grupo de diferentes aptidões, outras, estão permitindo os cientistas


capacidades, sexo, cor e tantas outras que compreenderem mais claramente os
a criança constrói sua identidade, testa seus trabalhos do cérebro e a natureza da mente.
limites e consequentemente, aprende. Estas ferramentas de imagem funcional do
cérebro aliadas à integração de diversas
Mesmo com tantos desafios enfrentados disciplinas que investigam a aprendizagem
dia a dia, a educação especial inclusiva humana e desenvolvimento a fim de reunir
esta instalada no sistema educacional e educação, biologia e ciência cognitiva. Os
cabem agora aos pais, professores, gestores professores devem explorar formas indicadas
educacionais e governos se unirem para de responder a toda essa revolução que
garantir recursos, meios e instrumentos para dominará o cenário educacional no próximo
que as experiências sejam bem-sucedidas de milênio.
inclusão escolar em todo país.
Mesmo com tantos desafios enfrentados
Escola inclusiva é uma escola onde se dia a dia, a educação especial inclusiva esta
celebra a diversidade, encarando-a como uma
riqueza e não como algo a evitar, em que as instalada no sistema educacional e cabem
complementaridades das características de cada agora aos pais, professores,
um permitem avançar, em vez de serem vistas
como ameaçadoras, como um perigo que põe
em risco a nossa própria integridade, apenas O ato de aprender é um ato de plasticidade
porque ela é culturalmente diversa da do outro, cerebral modulados por fatores intrínsecos
que temos como parceiro social” (CESAR, 2003, (genéticos) e extrínsecos (experiências).
p.119).
Sendo assim, dificuldades, dificuldades
para a aprendizagem seriam resultados de
algumas falhas intrínsecas ou extrínsecas
NEUROCIÊNCIA NA desse processo.
EDUCAÇÃO ESPECIAL
Quando se fala em Neurociência, deve-se
compreender como o estudo ou um conjunto
O conhecimento proporcionado pela de conhecimentos relativos ao sistema
neurociência pode ajudar a escola e os nervoso.
professores a tornarem o aprendizado mais
eficiente e mais interessante para o aluno. É o conjunto de disciplinas que tratam do
sistema nervoso e que nasceu da busca das
bases cerebrais da mente humana. (LENT, 2008,
Várias disciplinas contribuem para o p. 02).
avanço do conhecimento. A neurociência
cognitiva é a mais recente estabelecida, e O cérebro é o responsável pelo raciocínio
provavelmente a mais importan