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História e Cultura das Repúblicas da UFOP

O documento descreve a história da Universidade Federal de Ouro Preto no Brasil. Começa com a ideia de uma universidade no século 18 durante a Inconfidência Mineira. No século 19 foram criadas as primeiras escolas profissionais que mais tarde deram origem à universidade atual. A universidade está localizada na cidade histórica de Ouro Preto e as "repúblicas" estudantis desempenham um papel importante na cultura universitária.
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História e Cultura das Repúblicas da UFOP

O documento descreve a história da Universidade Federal de Ouro Preto no Brasil. Começa com a ideia de uma universidade no século 18 durante a Inconfidência Mineira. No século 19 foram criadas as primeiras escolas profissionais que mais tarde deram origem à universidade atual. A universidade está localizada na cidade histórica de Ouro Preto e as "repúblicas" estudantis desempenham um papel importante na cultura universitária.
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Universidade Federal de Ouro Preto

Pró-Reitoria de Administração
Coordenadoria de Saúde Integral e Assuntos Comunitários
Professor Jaime Antônio Sardi

Conhecendo a UFOP e as Repúblicas


Ouro Preto e a Universidade Federal
Recepção de alunos calouros
Palestras em 1999 e 2000

O que é singular no ambiente universitário extra sala de aula de Ouro Preto? Quais sãos
os fatores históricos e geográficos que conformaram este contexto? Como é a rotina e o mundo
das “repúblicas” ?
A UFOP é uma Universidade Pública Federal com origens no século XIX e possui cerca
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de 5000 alunos.
Em primeiro lugar é importante lembrar, em retrospectiva histórica, que a idéia de uma
universidade em Vila Rica (renomeada Ouro Preto em 1808), apareceu no tempo da Colônia com o
ideário da rebelião conhecida como Inconfidência Mineira, de 1789. Nesta época, a então Vila
Rica era capital da Província de Minas Gerais. No Século XVIII, Vila Rica chegou a concentrar o
apogeu do Ciclo do Ouro, razão pela qual, economicamente, se tornou a mais importante cidade
brasileira. Escravos africanos asseguravam o grosso do trabalho de exploração das minas de
ouro.
Mas a “Inconfidência Mineira” fracassou relativamente aos seus objetivos concretos
imediatos - os rebeldes foram presos e deportados e o líder Tiradentes foi enforcado.
Somente no Século seguinte, XIX, depois da Independência, ao tempo do Império, é que
surgiram as primeiras escolas profissionais: a Escola de Farmácia em 1839, a Escola de Minas em

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A UFOP possui 25 cursos de graduação, que, por ordem de antigüidade, são os
seguintes: Farmácia, Engenharia de Minas, Engenharia Civil, Engenharia Metalúrgica, Engenharia
Geológica, Letras, História, Nutrição, Ciências da Computação, Direito, Filosofia, Engenharia de
Produção, Matemática, Biologia, Química Industrial, Física, Artes Cênicas, Música, Direção Teatral,
Engenharia de Automação e Controle, Engenharia Ambiental e Turismo. A Universidade tem uma
história que remonta o Século XIX quando foram fundadas as suas primeiras unidades
constitutivas: Escola de Farmácia, 1839, Escola de Minas, 1876, e Escola Livre de Direito, em
1892. Fica situada nas sedes dos Municípios de Ouro Preto e Mariana, distantes 10 quilômetros
entre si, possuindo cerca de 60 e 45 mil habitantes respectivamente, e localizadas no interior de
Minas Gerais. A UFOP tem, no ano 2000, cerca de 400 professores, 650 funcionários
administrativos e uma folha de pagamento mensal em torno de 1,7 milhões de dólares, a maior
massa salarial paga por uma única organização no Município de Ouro Preto.
1876, e a Escola Livre de Direito, em 1892. A Escola de Farmácia e a de Minas foram pioneiras no
Brasil nas suas respectivas áreas científicas. Tal pioneirismo reforçou a imagem de cidade
culturalmente significativa.

Vários documentos registram que o Imperador Pedro II tinha especial interesse em


minerais e pedras preciosas, o quais não eram exploradas cientificamente, na visão dele. Este
capricho imperial, mesmo depois de passado o Ciclo do Ouro, fez surgir a Escola de Minas de
Ouro Preto.
Em 1897, a capital de Minas Gerais foi transferida para a cidade planejada de Belo
Horizonte, construída exclusivamente com o propósito de abrigar a sede administrativa dadas as
limitações do sítio geográfico de Ouro Preto, notadamente a acidentalidade do terreno. A Escola
Livre de Direito foi transferida para Belo Horizonte, mas as Escolas de Minas e de Farmácia
permaneceram em Ouro Preto. Sofreram forte esvaziamento de professores e recursos financeiros,
mas sobreviveram. As atas das respectivas congregações chegaram a discutir a hipótese de
fechamento e de transferência; discussões sempre proteladas e hipóteses não concretizadas
enfim.
Em 1922, ano do centenário da Independência, intelectuais paulistas supreendidos com o
grau de conservação da cidade, de arquitetura autêntica e quase inalterada desde o século XVIII,
divulgam-na com grande alarde durante a chamada Semana de Arte Moderna de 1922, composta
de um ideário de valorização da arte tipicamente nacional, em São Paulo. Mario de Andrade
encabeçou este movimento de redescoberta histórico-arquitetônica de Ouro Preto para a
sociedade brasileira.
A transferência da capital de Minas Gerais para Belo Horizonte, seguida de forte
esvaziamento econômico em Ouro Preto, ajudou a manter quase intactos, por falta de recursos
para reformas e reconstrução, os prédios públicos e casario. Várias casas abandonadas, ocupadas
por alunos da Escola de Minas e de Farmácia, viraram “repúblicas”, moradias de estudantes.
Entre 1930 e 1961 a Escola de Minas permaneceu vinculada à Universidade do Brasil
(Universidade Federal do Rio de Janeiro). A Escola de Farmácia, que era inicialmente estadual, foi
federalizada em 1950.
Mesmo distantes dos novos centros econômicos e de poder, todavia, estas duas
instituições sobreviveram, contando com o peso do significado de Ouro Preto, como cidade palco
de passagens históricas importantes, e de certa maneira, “símbolo representativo da nacionalidade
brasileira”.
Em 1933, Getulio Vargas, que fora estudante em Ouro Preto nos últimos anos do Século
XIX, declarou-a primeira Cidade Monumento Nacional, assessorado pelos intelectuais Rodrigo
Mello Franco e Mario de Andrade.
A partir da década de 60 passou a haver uma febril criação de universidades públicas no
Brasil. A burguesia delegou ao Estado nacional a tarefa de preparar mão de obra para emprego no
processo de acumulação de capital, estratégia plenamente exequível em regime de ditaduta militar.
Assim, em 21 de agosto de 1969, o General Presidente Costa e Silva assinou o Decreto-Lei de
criação da Universidade Federal de Ouro Preto, a qual passava a ser integrada pela Escola de
Farmácia, de Minas e o Instituto de Ciências Humanas de Mariana, este até então pertencente à
Universidade Católica de Minas Gerais.

Segundo estudo realizado através de depoimentos de pessoas que participaram da


fundação da UFOP, levado a cabo pelo professor Romerio Rômulo Cordeiro de Moura, a
integração em Universidade foi pensada como estratégia de sobrevivência, de salvação mesmo,
para as instituições. Mas, segundo aquele pesquisador, o fato de Ouro Preto ser, desde 1933,
“Monumento Nacional”, exerceu contribuição decisiva no convencimento do Ministério da
Educação, através de ex-alunos junto ao Ministro Tarso Dutra, no sentido de manter vivas as
instituições, instalando-as numa única universidade.
Em qualquer hipótese, efetivamente, não se pode considerar a trajetória do ensino
superior em Ouro Preto de uma forma desvinculada da condição de inserção em cidade
“Patrimônio Cultural Nacional” (a partir de 1933), e, ”Patrimônio Cultural da Humanidade”, por
declaração da UNESCO (a partir de 1980). Este status que lhe foi conferido é econômica e
culturalmente importante para Ouro Preto na medida em que contribui para atrair turistas, fazer
pulular eventos culturais, ser visitada por intelectuais renomados, afluir excursões de alunos do
Brasil e exterior, chamar atenção de autoridades que a convertem em cenário de espetáculos
políticos, etc.. Esta atmosfera cosmopolita, aliada à presença de milhares de estudantes, ligados a
UFOP, gera um ritmo frenético ao cotidiano e cria uma efervescência cultural mais ou menos
permanente.
No final da década de 70 a Universidade colaborou , através da contratação de de serviços
de arquitetos, com a UNESCO, quando aquela instituição internacional coletava dados para
subsidiar a declaração de Patrimônio Mundial.
A partir de 1997, a Administração da Universidade adotou uma política de duplicação do
número de cursos de Graduação e Pós-graduação, providência que aumentou número de
alunos, passando de 2.400 naquele ano, para mais de 5.000, no ano 2000 e fez crescer
significativamente novas “repúblicas”.
Como em nenhum outro lugar no Brasil, as “repúblicas” de moradia estudantil de Ouro
Preto são permanentes, no sentido de que não se dissolvem quando um grupo de alunos conclui
os estudos. Os ex-alunos, por tradição, visitam-nas, em retorno, regularmente, mesmo depois de
décadas de formados. Há esforços organizativos com o propósito de manter proximidade entre
formados e não formados, desenvolvendo compromissos de entrosamento na vida profissional.

Com uma trajetória de mais de um Século, as “repúblicas estudantis” adquiriram, no Brasil,


visibilidade em razão dos seus fortes traços característicos, tipificados em modus vivendi
específico, e citados frequentemente na imprensa nacional:

“A história das repúblicas de Ouro Preto é única no Brasil, e só em


Coimbra, Portugal, se tem notícia de algo parecido. Geridas pelos
estudantes, estão instaladas em casarões comprados pela Universidade, e
tem até presidente. Ali funciona uma rígida hierarquia comandada pelo
‘decano’, o morador mais antigo”. ( Revista Semanal Isto É de 21/10/98:
pp.70-71)

A direção da UFOP reconhece as “repúblicas” como território estudantil autônomo. Em


boletim oficial divulgado em 1999, por ocasião dos 30 anos de UFOP, assim se expressa:
“As ‘repúblicas’ estudantis são autogovernadas (res publica = coisa pública
= nenhum outro poder acima). Em 1897, quando a capital do Estado de
Minas Gerais transferiu-se para Belo Horizonte, muitas casas do centro
histórico de Ouro Preto foram abandonadas pelos seus moradores em
consequência do esvaziamento econômico, e, então, os estudantes das
Escolas de Minas e de Farmácia ocuparam-nas e conservaram-nas. A partir
dos anos 50, integraram-se ao patrimônio das instituições e hoje 72 delas
pertencem à Universidade. As ‘repúblicas’ de Mariana foram construídas na
década de 80”. ( UFOP:1999).

De uma forma descritiva, e sem conseguir ser esgotativo, traçamos um roteiro


característico do modus operandi das “repúblicas”. O texto a seguir está baseado em pesquisa
relacionada com uma pesquisa de Doutorado do professor Sardi, cuja Tese intitulou-se “Uma
Perspectiva Analítica sobre o Contexto Educacional da UFOP: Educação, Subjetividade e
Exacerbação dos Prazeres”. Foi discutido e reformulado pelos alunos.

Eis o inventário:

A – As admissões são semestrais, acontecem depois que novos alunos são aprovados no
vestibular. Diz-se “escolha”, processo no qual o candidato a morador deve obter a unanimidade
dos colegas em reunião interna à “república” , da qual ele próprio, em geral, não pode participar.

B – Os novos alunos, calouros, devem conquistar a simpatia dos veteranos, esmerando-se em


demonstra solicitude, principalmente através da prestação de pequenos serviços, compras, levar e
trazer recados.

C – Além das festas em datas tradicionais em Ouro Preto, como Carnaval, “Doze de Outubro”
(fundação da Escola de Minas) , “21 de Abril”, “Miss bixo”, há festas internas às “repúblicas”,
frequentemente - seja para comemorar a admissão, “escolha” de alguém, formatura de um
membro, seja para recepcionar ex-aluno, seja para começar ou terminar o semestre -, e os
alunos novos devem trabalhar na organização e serviços que tais festas demandam.

D – Há festas combinadas envolvendo mais de uma “república”, principalmente em comemoração


a resultados de campeonatos desportivos, festas juninas, e motivos específicos.

E - Semanalmente, às sextas-feiras, sábados, e véspera de feriados, O Centro Acadêmico da


Escola de Minas – CAEM é espaço tradicional de encontro de todos os alunos da Universidade e
de todas as “repúblicas”, ao promover , no seu prédio próprio localizado à Praça Tiradentes,
eventos musicais.

F - Há campeonatos desportivos de várias modalidades, entre grupos de “repúblicas”, entre


cursos, com a característica de terminar em uma festa.

G – As “repúblicas” cultivam uma espécie de “patriotismo”, estimulando o orgulho de pertencer


àquele grupo social. As “repúblicas” tradicionais possuem uma bandeira própria que é exibida em
eventos relevantes.

H – Na rotina comportamental da “república, os alunos mais velhos em geral têm sempre razão,
não cabendo ao aluno calouro questionar posições ou atitudes dos veteranos. Prestar serviços
nas inumeráveis festas realizadas, e até mesmo aprender a ingerir álcool, pode ser exigência
para manter o calouro incluído naquela “república” e naquele grupo.

I - Pode acontecer, às vezes, em festas, que os alunos calouros masculinos mais atraentes sejam
encarregados de encontrar namoradas para os veteranos considerados “feios” ou com
dificuldades em conseguir parceiras.

J – Os alunos “bons de bola” podem ser disputados entre as ”repúblicas” porque potencialmente
podem gerar vitórias nos campeonatos.

K – Em algumas “repúblicas”, os alunos calouros podem ser “convocados” a realizar o trabalho


operacional dos relatórios escolares dos veteranos.

L - Todo aluno recebe um apelido que passa a ser seu nome corrente. E, para se fazer conhecido,
o estudante precisa carregar um cartaz de cerca de um metro quadrado com o “novo nome”,
durante meses. O apelido independe da vontade do aluno e pode até ser humilhante, e em geral
é impactante. A natureza da “república” define a natureza do apelido. Exemplo: Na “República
Vaticano” evocam “papas”, na “ República Ninho do Amor” são todos pássaros, na “Arca de Noé”,
evocam animais, na “República Hospício” usam-se apelidos típicos de manicômios.
M – Há forte solidariedade entre os participantes, sendo que, uma vez escolhido, o estudante pode
contar com o apoio incondicional dos colegas de “república” em quaisquer situações de dificuldade.

N – A maior parte dos conteúdos lecionados nas aulas ficam disponibilizados por apostilas e cópias
reprográficas na “república” para que todos possam ter acesso fácil e estudar com a menor
dificuldade possível. Em geral, o desempenho acadêmico, nas conversas estudantis, é
mencionado com as expressões “tirei aquela disciplina”, ou “arranquei aquela cadeira”, denotando
libertar-se de um encargo. Nos últimos anos passou a ser usado um refrão “tá tudo dominado”,
empregado quando alguém tem controle sobre certa situação ou certo conteúdo, ou foi aprovado.

O - Não há, na maioria das “repúblicas”, preconceito e interdição relativamente ao emprego de


psicotrópicos de qualquer natureza. O uso é decisão de livre arbítrio pessoal. Já houve
providências institucionais para que, no ato de matrícula, recebessem folhetos indicativos sobre “o
que é importante saber sobre Tabaco, Cocaína, Álcool, Maconha, Ópio e Morfina”, produzidos pela
Coordenadoria de Saúde Integral e Assuntos Comunitários da UFOP, onde se esclarecem efeitos
orgânicos e psicológicos de cada produto. Os calouros são alertados também quanto à gravidez
precoce. Os psicotrópicos são amplamente acessíveis em Ouro Preto. Não há restrições
relativamente à recepção de visitas nos cômodos privativos das “repúblicas”.

P – A partir de 1997 surgiu no contexto da UFOP um movimento denominado Associação Bíblica


Universitária - ABU, de inspiração cristã, promovendo debates e reuniões nas quais se defendem
os valores da solidariedade, “amor ao próximo”, fazendo críticas ao rituais mais violentos de trotes
de admissão. Propõe um trote chamado: “Trote de Nosso Senhor Jesus Cristo” e tem significativa
adesão na comunidade estudantil universitária.

Q - O próprio calouro é que define em qual “república” pretende se candidatar a morador. Entram
no processo de sua definição, desde sugestões de terceiros até capacidade financeira> Cada
“república” tem taxa própria para o rateio das despesas, denominada “taxa da presidência”, fixada
pelo grupo morador. Alguns pais trazem os filhos, observa, consultam, e indicam o que
consideram a “melhor” opção.

R – Uma vez escolhido pelo grupo dos residentes, o estudante costuma permanecer até a
conclusão do curso na mesma “república”. São escassos os casos de transferências de alunos de
uma para outra “república”, mas o ato de transferir-se é aceito como normal.

S– Os estudantes que não pretendam se submeter às regras das ”repúblicas” estabelecidas


tratam de encontrar alternativas; alguns destes, inclusive, acabam instalando nova “república”
onde os códigos internos começam a partir deles próprios e onde se pode passar de uma posição
de submisso às regras, à posição de ditar as regras. Ao invés de se submeter às regras dos
outros, inventam-se regras a partir dos próprios valores.

T – Segundo dados de 1999, fornecidos pela Pró-Reitoria de Planejamento e Desenvolvimento da


UFOP, o tempo médio de estadia dos alunos na UFOP é 6,8 anos enquanto que o tempo ideal
para conclusão, conforme idealmente previsto é 4,8 anos. A nota mínima para aprovação em
disciplinas passou de 5,0 (cinco) para 6,0 (seis) em 1999.

U - A UFOP é uma instituição pública e, por conseguinte, não há cobrança de mensalidades. A


residência nas “repúblicas” da universidade é isenta de cobranças de aluguéis, restando aos
alunos os custos referentes a despesas pessoais e manutenção da casa, como luz, telefone,
empregados, reparos e obras.

V - As “repúblicas” são equipadas com recursos sonoros sofisticados e a maioria possui uma
“boite” para festas. O espaço coletivizado inter-“repúblicas” é o CAEM, Centro Acadêmico da
Escola de Minas, fundado em 1915, pelos alunos de Engenharia.

X – É opinião corrente entre alunos e ex-alunos que o sistema de “república” em Ouro Preto é
único no Brasil e que a “república” é “uma escola da vida tão importante quanto a própria educação
profissional recebida na Universidade”. Aqui elas são permanentes no sentido de que não são
extintas quando certo grupo de alunos se forma.

Y – Há cerca de 200 “repúblicas” estudantis universitárias em Ouro Preto e Mariana. E 72 das


casas que as abrigam são de propriedade da Universidade Federal de Ouro Preto. Há também
cerca de 25 “repúblicas” de alunos de Ensino Médio, vinculadas a estudantes da Escola Técnica
Federal de Ouro Preto. Existem “repúblicas” que incluem simultaneamente alunos universitários e
do Ensino Médio.

Z - Há três explicações, não excludentes entre si, para a adoção da expressão “república”. A
primeira se refere ao fato das organizações de moradia estudantil se considerarem soberanas,
autônomas, com “nenhum outro poder acima”, res pública=coisa pública. Intentam imitar a
soberania dos estados, como se fossem mini-países. A segunda versão diz respeito ao fim da
monarquia e do “Império do Brasil”. O último gabinete parlamentar imperial, encabeçado pelo
Ministro Ouro Preto, recebeu a rejeição dos estudantes locais, quando de uma visita à Capital de
Minas Gerais, através da expressão “república”, afixada nas fachadas das moradias estudantis. A
Monarquia no Brasil foi eliminada em 15 de novembro de 1889. A terceira versão, segundo o
professor Marco Antonio Tourinho Furtado, Vice-Reitor da UFOP no período de 1997-2000, diz
respeito ao fato de que na Idade Média, nas principais cidades da Europa, as casas de moradia
estudantil já eram denominadas “ repúblicas”.

W – O contexto da Universidade de Coimbra, academia portuguesa fundada em 1290, tem hoje


várias semelhanças com Ouro Preto; 1 – situa-se numa pequena Cidade convertida em Patriônio
Cultural” pela UNESCO; 2 – as “repúblicas” são autônomas relativamente à instituição, sem
ingerência, com leis e presidente próprios; 3 – são visitadas pelos ex-alunos regularmente,
mantendo um elo entre as gerações.

Observação: Estas informações sobre o cotidiano estudantil em Ouro Preto e das “repúblicas”
foram revisadas pelo estudante Maurício Rezende, apelidado de “DiPorco”, morador veterano da
“República Consulado”, e, em seguida, apresentadas aos estudantes da Disciplina Economia e
Administração, na Escola de Farmácia, em 03 de dezembro de 1999, para discussão e para que
cada qual assinalasse, item por item, concordância ou não. Os itens foram lidos e pedia-se que o
estudante assinalasse se o dado era ou não coincidente com a realidade, a partir de seu ponto de
vista. O texto acima incorporou modificações comentadas por aqueles estudantes.

Palavras finais

Em que medida de pode aventar a hipótese de que a “REPÚBLICA”, fenômeno particular


típico de Ouro Preto - pode ser espaço de amadurecimento pessoal, através da aquisição de
sociabilidade, solidariedade, flexibilidade em conviver e saber respeitar regras de grupo,
efetivação de renúncias, etc.? Com efeito, as “repúblicas” não foram criados com propósitos
pedagógicos, mas podem entrar no processo geral de educação. Lembremo-nos: a diferença
entre pedagogia e educação é que esta última pode ocorrer de forma ampla, na família, no
convício, no teatro, etc, enquanto que a pedagogia é uma ciência exclusiva para os processos do
interior mesmo da escola.
Atitudes pessoais como disciplinar-se, orientar vontades, exercícios volitivos,
conhecimento de si, autodeterminação, nem sempre são ensinados nas salas de aula da UFOP,
mas podem ser aprendidas no mundo das “repúblicas’.

No plano dos valores, pode, evidentemente haver aprendizagens em discordância com a


ética considerada saudável, decorrentes de experiências pessoais negativas. Assim, espaços de
fomento à democracia, mas também de arbitrariedades; espaços de cooperação, mas também de
competição doentia; de identificação, mas também de rejeição, também podem fazer parte do
cotidiano de uma “república” de Ouro Preto.

Há pontos de vista otimistas. Segundo o historiador Otavio Luiz Machado Silva,


coordenador de pesquisa de “Reconstrução Histórica das Repúblicas de Ouro Preto” , em 2000,
acredita que a “república” é :
“um lugar de grande aprendizagem, um dos poucos na vida universitária que
permitem o debate e uma vivência cultural, e onde o individualismo é reduzido e os
projetos coletivos estimulados”. E acredita ainda que a “república” é constituída de
estudantes que carregam uma história de rebeldia, de luta, de sonhos,
aprendizagens, ousadias, e, acima de tudo, cidadania, pois ali se aprende o
sentido da democracia, com todos os conceitos e atitudes que comporta:
participação, diálogo, reivindicação, busca de um consenso, respeito pelo outro e
pela diferença”. (O TEMPO; 2000).

O enfrentamento das regras burocráticas, dos rituais e regimentos escolares, as


solenidades, a convivência interpessoal dentro de uma multiplicidade de visões de mundo, o
exercício da autodisciplina, a moradia coletiva, a organização e usufruto de festas, são
experiências importantes no desenvolvimento dos jovens, e nem sempre são exclusivas do espaço
das salas de aula.
A influência de fatores que vão desde a atmosfera do campus, passando pela moradia,
cultura institucional, incluindo os valores ideológicos predominantes, sobre os estudantes, já foram
objeto de pesquisa.
Estudos antigos de referência, realizados por pesquisadores americanos, demonstram
que os processos educativos ultrapassam o espaço restrito das salas de aula e podem acontecer
no conjunto do ambiente de uma instituição escolar.

Theodore Newcomb, num estudo considerado clássico, de 1935 a 1939, fez uma análise
das transformações das atitudes dos estudantes durante a sua passagem pelo Bennington College
e concluiu que as modificações relacionavam-se diretamente ao convívio com a comunidade
universitária. (Newcomb;1943)

Em 1960, Newcomb voltou a estudar o Bennington College, focalizando sua atenção, junto
com Flacks e Warwick, na compreensão de seu contexto formal e informal, abordada a partir das
regras sociais dominantes na comunidade de localização do colégio, as quais se repetiam.
(Newcomb, Flacks and Warwick; 1967)

Gottlieb estudou processos de socialização em Universidades Americanas como


resultantes da congruência e incongruência entre a orientação individual e a orientação
institucional (docente) , concluindo que a congruência reforça a orientação individual enquanto que
a incongruência gera mudanças na orientação individual, aproximando o sujeito dos valores
institucionais e assimilando valores novos valores,. (Gottlieb; 1970)
Bibliografia
SIMÃO, Maria Cristina Rocha – Preservação do Patrimônio Cultural em Cidades. Belo Horizonte:
Autêntica, 2001.

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