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Antropologia dos Sentidos na Educação

O documento resume um livro sobre os cinco sentidos humanos de acordo com uma perspectiva antropológica. Discorre sobre como cada sentido - visão, audição, tato, olfato e paladar - é percebido de forma diferente cultural e historicamente. Também resume os pontos de vista de Aristóteles sobre cada um dos cinco sentidos de forma fisiológica.
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Antropologia dos Sentidos na Educação

O documento resume um livro sobre os cinco sentidos humanos de acordo com uma perspectiva antropológica. Discorre sobre como cada sentido - visão, audição, tato, olfato e paladar - é percebido de forma diferente cultural e historicamente. Também resume os pontos de vista de Aristóteles sobre cada um dos cinco sentidos de forma fisiológica.
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RESENHA: OS CINCOS SENTIDOS

Antonio Souza, d’aprés Le Breton

Resenhamos aqui, no sentido crítico e informativo do conceito, para os alunos e/ou


leitores do blog IC FAMA – A Iniciação Científica da FAMA na Web, o livro de
David Le Breton: “La saveur du monde – une anthropologie des sens” (Éditions
Métailié, Paris, 2006). Sabor do mundo – uma antropologia dos sentidos.

Para alguns a visão é o mais importante dos sentidos. Os olhos como o espelho da alma?

Como se trata de uma abordagem antropológica sobre os cinco sentidos e/ou sensações
humanas, claro, há no livro de Le Breton muitas comparações históricas e culturais. Ou
seja, a percepção dos sentidos, ou mais importante ainda, a história no sentido
diacrônico, sem linearidade. Assim, povos primitivos, ou os da Antiguidade clássica, e
os da Idade Média e ainda os modernos e/ou atuais teriam, naturalmente, costumes e
formas de sentir próprias ao contexto em que vivem. Bom, isto é óbvio ou claro.

Do gosto na boca ao gosto de viver. O sentido relacionado com a boca é para comer e ter prazer.

Na visão antropológica de Le Breton os sentidos e as sensações, por exemplo, de uma


tribo de índios primitivos da Amazônia difere, por vezes, em gênero, número e grau dos
de uma comunidade aristocrática do Império Romano no sentido do gosto de comer que
é muito mais sofisticada na segunda do que entre os índios vivendo num estado de
civilização menos complexo.

Os cortes culturais e históricos, também nesse caso, caracterizam o relativismo da visão


antropológica de Le Breton. Relativismo de valores, já que não seria cientificamente
correto caracterizar tal ou qual cultura ou época histórica como superior ou inferior.
São juízos de valores que não cabem em tal análise. No máximo, como mais complexa
e/ou mais elaborada, segundo seu acúmulo de referências.

Sentir, se sentir. Um sentido de cheiros e odores agradáveis e por vezes desagradáveis.

As mãos humanas, o toque ou o sentido do contato estão na origem da civilização.

No fundamental, entretanto, vale o que disse Aristóteles (384 – 322 a.C.), filósofo e
gênio da Ciência, sobre os sentidos e as sensações: “Não existe outros sentidos senão os
cinco já estudados” (Il n’existe pas d’outres sens que des cinq déjà étudies – p. 16).
Ou seja: (1) a visão (ver, olhar); (2) a audição (ouvir, escutar); (3) o toque, o contato
(tocar com as mãos, principalmente); (4) o odor (cheiro bom ou mal); e (5) o sabor (o
gosto, o prazer).

Ouvir, ser ouvido. Além do gestual os sons e significados da comunicação.


Aristóteles fez a classificação dos sentidos do ponto de vista fisiológico, do que
poderíamos chamar hoje de Ciências Naturais. De acordo com Le Breton, nas páginas
23, 25 e 27 do d’histoire “Petit traité naturelle”, Belle Lettres, Paris, 1953 pode-se
confirmar esta visão reducionista de Aristóteles. Traduzimos abaixo alguns trechos
referentes a cada um desses cinco sentidos.

1. Du voir au savoir – Do ver ao saber (Do olho)

A visão projeta o homem no mundo, mas ela não é um sentido de superfície. Não se vê
senão as coisas que se mostram; para vê-las sobre um ângulo mais favorável é preciso
inventar maneiras de contornar, de se aproximar ou de se afastar delas para ver melhor,
o que se nos escapa geralmente se difere do visível. O nevoeiro se dissipa, o dia nasce e
uma mudança qualquer modifica o ângulo do que é visto e oferece uma nova
perspectiva. A atividade do olhar tem seus limites. Não é tudo que se pode ver: o
infinitesimal, o longínquo escapa à visão, sem instrumentos apropriados. Por vezes as
coisas estão muito longe ou muito próximas, são vagas e imprecisas, mutantes. A visão
é um sentido ingênuo, pois ela é prisioneira das aparências (la vue est um sens naif car
elle est emprisionnée dans les apparences), contrariamente ao odor, a audição, que
revelar o real sob as tintas que as dissimulam. (P. 63)

2. Entendre, s’entendre – Ouvir, se ouvir (Do ouvido)


A audição introduz uma sucessão, um ritmo que dá lugar à surpresa, a fugacidade; ela se
confunde com o passar do tempo (l’ecoulement du temps). O som se apaga assim que
se deixa de se ouvir, tem uma existência efêmera. Diz-se “preste atenção” como se
ouvir o som não fosse provisório. Escapa ao poder do homem escutar quando há falta
de som. Uma vez ouvido, o som desaparece. A visão está em princípio sempre
disponível, ou se encontra no espaço. A sonoridade do mundo, ao contrário, se limita a
sua contingência, a sua falta de controle, diferente dos outros sentidos, que podem ser
solicitados novamente: rever uma paisagem de outono ou o pôr do Sol sobre a colina;
provar hoje ou amanhã do sabor de um prato ou de um vinho; recorrer ao mesmo
perfume; acariciar sempre a pele do (a) amado (a). O som se perde e escapa ao controle
do homem, como a sua vontade de ouvir novamente, salvo pelo recurso dos
instrumentos técnicos, que controlam e definem à vontade, restabelecendo a
soberanidade do homem. Impõe-se um corte entre o antes e o depois. A audição da
sonoridade do mundo força o sentimento do passar do tempo. (P. 117)

3. Le toucher ou le sens du contact – O toque ou o sentido do contato –


A fleur de peau – A flor da pele (Das mãos)
O sentido tátil engloba o corpo em sua inteira espessura e superfície, ele emana da
totalidade da pele, contrariamente aos outros sentidos mais estritamente localizados.
Permanece sobre todos os lugares do corpo, mesmo dormindo nós sentimos o mundo
em volta. O sensível é primeiramente um ato tátil sobre as coisas, o contato com os
outros ou com os objetos, o sentimento de ter os pés na terra. Através de inúmeras
peles, o mundo nos ensina sobre seus conteúdos, volumes, texturas, contornos, pesos,
temperatura. Como disse o poeta e filósofo Lucrécio (99 – 55 Ac.): “O tocar, grandes
deuses, é o sentido mesmo do corpo todo inteiro: ele imprime em nós as impressões de
fora, ele revela todo sofrimento interior do organismo, ou bem, ao contrário, o prazer do
ato de Vênus (le plaisir de l’acte de Vénus). (P. 175)

4. Sentir, se sentir – Cheirar, cheirar-se (Do nariz)


A asnomia (incapacidade de sentir os odores) é uma desvantagem penível que subtrai à
existência uma parte da sua graça. Ela constrange a se viver num mundo insípido e
inodoro, privando do cheiro dos pratos, do sabor dos alimentos ou dos vinhos (de la
saveur des aliments ou des vins). As bebidas, os alimentos têm um mesmo gosto
indiferente. As pessoas que sofrem de asnomia são mais vulneráveis, não podem
avaliar um odor de fumaça ou de gás, pondo em risco suas vidas, elas comem às vezes
alimentos já passados, vencidos, sem sentir nem o cheiro nem seu gosto. Assim,
convém a elas ter sempre um “bom nariz”, um auxiliar, para a boa condição de suas
existências. (P. 246)

5. Le sens des saveurs – O sentido dos sabores (Da boca)


Ao inverso dos outros sentidos, o gosto exige a introdução em si de uma parcela do
mundo. Os sons, os odores, as imagens nascem fora do corpo. A gustação dos
alimentos ou de uma bebida (la gustation d’un aliments ou d’une boisson) implica na
imersão em si. Ela aparece na boca no momento da destruição de seu objeto que se
mistura, então, à carne, deixando seu traço sensível. Como os outros sentidos, o gosto é
uma emanação do corpo inteiro, segundo a história pessoal do indivíduo. Grande parte
do gosto provem das mensagens olfativas. Se a agelsia é a perda da percepção dos
sabores ou paladar, a asnomia, depois de um acidente, por causa da destruição do nervo
ótico, leva a não mais sentir o gosto dos alimentos. Toda comida fica insossa. Sem a
visão ou a consistência dentro da boca, não se sabe o que ele come. Mesmo se ele
conservou o sentido do doce, do salgado, do ácido e do amargo (le sens du sucré, du
salé, de l’ácide et de l’amer), todo alimento fica insosso (reste fade). Sem os aromas,
a alquimia do gosto não presta. Come-se tanto com o nariz quanto com a boca. A
apreciação dos sabores solicita não somente o olfato, mas também na maneira a qual os
pratos são apresentados, bem como a sua manipulação no momento em que eles são
comidos. (P. 329)

Finalizando,
A arte de viver é enriquecida com a arte dos sabores do mundo, de Le Breton. Os
significados para todos os gostos são culturalmente e historicamente determinados, para
os que quiserem ir além do sentir as ações do cotidiano. Compreender o que é sentido
por si pelo outro. Afinal, o sensualismo é somente uma filosofia do corpo, através dos
sentidos, mesmo quando levado às últimas consequências, como por exemplo, na
filosofia de Epicuro (341 – 270 AC.).

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