Os Contos de Cantebury
Os Contos de Cantebury
CANTERBURY
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OS CONTOS DE CANTERBURY
A OBRA
Geoffrey Chaucer, nascido em Londres por volta de 1340, escreveu os Contos de
Canterbury no período que abrange os anos de 1384 a 1400. Considerada como a sua obra máxima,
a novela corresponde ao último período literário do poeta, antecedida por uma fase Francesa e outra
Italiana, da qual fazem parte “The Parlement of foules” e II Filostrato”, entre outras. Em sua
terceira e última fase, especifiamente em Os Contos de Canterbury, Chaucer revela todo o seu
gênio criador, construindo um vasto painel da vida medieval inglesa, através de quase três dezenas
de histórias de reconhecido valor artístico e cultural. Não nos é possível enumerar aqui todos os
méritos da obra, com versos de variedade rítmica incomum na época e com imagens e descrições
precisas da sociedade e dos costumes do cotidiano no período. Mais que tudo isso, porém, é uma
análise profunda da natureza humana, realizada com muito humor e simpatia, retratada não com a
parcialidade do moralismo rigoroso, mas com a objetividade da observação perspicaz. Seus temas,
oriundos das mais diversas fontes, apresentam a realidade multifacetada da vida, através de todas as
camadas sociais e diferentes profissões, com ironia maliciosa e segundo uma doutrina erótica
encarada como natural, posta em prática por personagens puramente terrenos. Com isto, Chaucer
transforma o cotidiano em diversão média, aliada a uma visão crítica que mantém uma distância
entre narrador e ouvinte, de um lado, e o objeto narrado, de outro. Seu realismo está repleto de
motivos da farsa medieval, tendo como fio condutor o divertimento, com seus vários recursos
estilísticos de efeito rítmico e melódico.
SINOPSE
Vários peregrinos, que pretendem visitar o túmulo de Santo Tomás Becket em
Canterbury, reúnem-se por acaso na taverna do TABARDO, ao sul de Londres, e, por segurança,
resolvem viajar juntos. Para que a viagem transcorra mais agradavelmente, o taverneiro sugere que
cada um conte uma história, prometendo um belo jantar ao melhor narrador.
A ENCENAÇÃO
A encenação de Os Contos de Canterbury dará ênfase às características estéticas do
teatro medieval, em consonância com a estrutura narrativa do texto, abordando duas categorias
básicas: o religioso e o profano. Levando-se em conta a variedade de gêneros em que se enquadram
os diferentes contos (milagre, moralidade, farsa, lais fablieaux, balada) a concepção geral da
montagem privilegiará as misturas de tons e estilos, fundindo-se os contrários: elevado e popular,
sublime e humilde, passado e presente. Ainda, pretende criar um panorama amplo da cultura do
medievo, representado pelas diversas categorias sociais da época, do clero, da burguesia e das
chamadas classes inferiores, através dos artifícios da verossimilhança moral e da alegoria. Assim,
representando o clero, temos as personagens da Prioresa, do Frade Hubbert, do Padre John e da
freira, somando-se, ainda, àquelas do oficial de justiça eclesiástica e do vendedor de indulgências. A
burguesia se faz representar pelo Mercador, pela mulher de Bath e pelo próprio Chaucer, que
acumula as funções de narrador e personagem. Por fim, representando as classes populares temos o
Moleiro, o Feitor, o Albergueiro e a criada da Prioresa.
Dos quase trinta contos que compõe a novela, a adaptação selecionou sete, à partir
de um critério de diversificação de gêneros, assim estabelecido: Farsa, (contos do Moleiro e do
Feitor) Milagre, (Conto da Prioresa) Moralidade, (conto do vendedor de Indulgências) Fablieaux,
(conto do Padre John) Lais (conto da mulher
de Bath) e Balada (cantada por Chaucer). Cada narrador conta uma história sempre de acordo com
sua profissão, nível cultural e temperamento, contribuindo para a unidade e conseqüência da ação.
De acordo com as características do teatro medieval, todos os temas serão tratados
num estilo simples, objetivando uma perfeita integração entre emissor e receptor, numa vertente de
teatro popular e de feira, com realismo, bem ao gosto das confrarias, dos “mímos” e dos “jograis”
ambulantes da época.
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PRÓLOGO
Em cena, o “TABARDO” uma hospedaria da cidade de Southwark. Ali, reunidos, peregrinos de
várias localidades comemoram seu casula encontro. O destino de todos é a cidade de Canterbury,
ao Santuário de Sto. Tomás Beckett. A comitiva é formada de Frade Hubbert, uma mulher da
cidade de BATH, o moleiro, uma freira Prioreza, com sua criada e outra freira; um mercador, um
feitor, Padre John, um vendedor de indulgências, um oficial de justiça Eclesiástica e Chaucer, o
narrador.
MÚSICA
Quando na taberna estamos
livres de toda preocupação
ao jogo nos aplicamos
com grande dedicação
um joga, outro bebe
soltam-se todas as amarras
nos jogadores se percebe
que entre apostas e farras
fica rico o esfarrapado
perde a roupa o bem trajado
lá ninguém teme a morte
lança-se por Baco a sorte
A primeira bateria
é por todo o povo cristão
A Segunda, não vazia
é pelos que sofrem aflição
bebe o homem, bebe a mulher
bebe o rude, bebe o meigo
bebe até quem não quer
CHAUCER – Quando abril, com as suas doces chuvas, corta pela raiz toda a aridez de março,
quando o sol percorre metade de seu curso em Áries e os passarinhos, ficando a noite inteira de olho
aberto, gorjeiam melodiosamente, com os corações espicaçados pela natureza, então, sentem as
pessoas vontade de peregrinar, de buscar plagas estranhas, com santuários distantes. E rumam
principalmente, de todos os Condados da Inglaterra, para a CANTERBURY, à procura do bendito e
mártir Sto. Tomás Beckett, que os auxiliará nas doenças.
Aconteceu que uma vez, achando-me em Southwark, no TABARDO, pronto a partir em
peregrinação a CANTERBURY com o coração cheio de fé, chegou àquela hospedaria uma comitiva
de bem umas onze pessoas diferentes, que haviam se reunido por acaso.
E todos os seus membros eram peregrinos que, assim como eu, se dirigiam a CANTERBURY com
o mesmo santo objetivo. Não passou a hora e meia, eu já havia conversado com cada um deles,
agregando-, e à sua comitiva. De acordo com o que me foi dado a perceber, todos eram pessoas de
bem, praticantes das coisas da cristandade conforme mandam as santas escrituras.
Estava lá uma freira, uma Prioresa chamada Senhora Eglantine. A maior praga que rogava era “por
Santo Elói!” Além disso, era muito educada à mesa: jamais deixava cair pedaços de comida da
boca, nem mergulhava demais os dedos no molho. Falando agora de que seria capaz de sua
consciência, era tão caritativa e piedosa que seria capaz de chorar se visse um rato morto.
Estava acompanhada de outra freira, sua secretária, e mais uma criada E havia um mercador que,
para dizer a verdade, não sei como se chamava. Manifestava sempre as suas opiniões em tom
solene, dando a impressão de que só tinha lucros. Conduzia os seus negócios com tamanha
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dignidade, com seus empréstimos e o lucro do câmbio ilegal de seus escudos, que ninguém diria
que estava cheio de dívidas.
Havia também um frade mendicante chamado Huberto, Folgazão e alegre, não havia ninguém que
conhecesse melhor as artes do galanteio e da linguagem florida: e para as mocinhas que seduzia ele
arranjava casamento às próprias custas. Era um nobre pilar de sua irmandade! Ouvia sempre com
grande afabilidade os pecadores e toda a vez que esperava polpudas doações, eram leves as
penitências que impunha.
Outro que fazia parte do nosso grupo era um Padre chamado John. Muito discreto, dele, no
momento, nada posso dizer.
E havia lá uma mulher da cidade de Bath. Só que era meio surda, coitada. Havia sido em toda a vida
uma mulher de respeito: tivera cinco maridos à porta da igreja, além de alguns casos em sua
juventude. Mas disso não é preciso falar agora.
Também faziam parte da comitiva um feitor, um vendedor de indulgências, um moleiro, um oficial
de justiça eclesiástica, eu próprio... e ninguém mais.
O moleiro era um gigante. Enorme de músculos e ossos, mostrava muito bem sua força nas lutas
que disputava. Não havia porta que não pudesse arrancar do batente ou quebrar com a cabeça.
Sendo tagarela e boca suja, vivia contando história de pecado e sacanagem.
O feitor era um homem extremamente magro. Cuidava tão bem dos caixotes e dos celeiros, que
nenhum auditor era capaz de incrimina-lo. Como entendia de negócios mais que o seu empregador,
amealhara muitos bens secretamente.
O oficial de justiça, bem, ele gostava muito de cebola, alho porro e, mais ainda, de vinho forte, tinto
como o sangue. Quando bêbado, só falava em latim. Mas se alguém o inquirisse mais a fundo, veria
que sua sabedoria não passava de três palavras que aprendera em algum decreto. No exercício de
sua profissão, quando apanhava um pecador em flagrante, aconselhava-o a não recear a
excomunhão, a menos que tivesse a alma em sua bolsa, pois, no seu entender, era na bolsa que
recaía o castigo.
Como não podia deixar de ser, em sua companhia estava sempre o gentil vendedor de indulgências
do hospital de RONCESVALLES, seu amigo e compadre, recém chegado da Santa Sé de Roma.
Esse vendedor de indulgências trazia sempre consigo uma sacola de viagem, recheada de perdões
papais ainda quentes do forno. Em sua atividade, não havia vendedor que se igualasse a ele. Levava
em seu malote uma fronha de travesseiro que garantia ser véu de Nossa Senhora; e afirmava possuir
também um pedaço da vela do barco de São Pedro no dia em que ele resolveu andar sobre as águas
e teve que ser amparado por Jesus. Com essas relíquias, quando calhava de topar com algum pároco
do campo, coletava mais dinheiro num só dia do que o outro durante um ano inteiro.
Agora que fielmente lhes descrevi em resumo o número e a condição dos peregrinos, chegou a hora
de contar-lhes como se passaram as coisas no dia em que nos encontramos naquela pousada.
(CHAUCER se junta aos peregrinos. O albergueiro festeja a chegada da comitiva. Todos bebem,
comem e cantam).
Música:
Bebo eu, bebe o mundo
bebem cem, bebem mil
bebe todo vagabundo
até secar o barril
Bebem cem, bebem mil
Bebe todo vagabundo
até secar o barril.
ALBERGUEIRO- Agora meus senhores, sinceramente quero dar-lhes as boas- vindas de todo o
coração; pois asseguro-lhes, sem mentira, que este ano ainda não tinha visto reunida neste albergue
tanta gente simpática como agora. Gostaria de descobrir um modo de entretê-los, e acho que já sei
como faze-lo: acaba de ocorrer-me a idéia de uma boa distração, que nada vai lhes custar.
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(A comitiva pula, grita e faz algazarra).
ALBERGUEIRO- Todos vocês estão indo para CANTERBURY... Ótimo, Deus os ajude, e que
possam receber do bendito mártir a devida recompensa! Mas sei muito bem que, no caminho, irão
com certeza conversar e fazer pilhérias, pois ninguém acha graça caminhar o tempo todo calado
como uma pedra. Assim sendo, o que pretendo é ajudar a comitiva a divertir-se, tornando mais
agradável o trajeto. Se não gostarem do que vou propor, juro-lhes, pela alma de meu pai que já
morreu, podem cortar-me o pescoço.
PRIORESA- Senhor albergueiro, rogamos por Santo Elói, que nos faça o favor de anunciar de uma
vez o que pretende.
ALBERGUEIRO- Senhores, para encurtar a estrada, proponho que na viagem de ida a Cantuária
cada um de vocês conte um conto sobre algum caso antigo do passado; e quem narrar a história
mais rica de conteúdo e de mais graça, ao regressarmos receberá de prêmio uma bela ceia, oferecida
por todos nós, aqui mesmo na estalagem, sentado junto a este pilar.
(A comitiva grita, dando “vivas” ao albergueiro).
ALBERGUEIRO- E, para que haja mais animação, estou disposto a reunir-me a vocês às minhas
próprias custas, para ser seu guia e juiz. E quem contradisser meu julgamento terá que pagar as
despesas de viagem de todos nós. Se estiverem de acordo, digam-me logo e, sem mais conversa, em
menos de um minuto estarei pronto.
(A comitiva discute entre si, fazendo grande balburdia).
FRADE- Senhor albergueiro, como a todos pareceu que não valia a pena discutir, concordamos em
atendê-lo com muito prazer e solicitamos-lhe que cumpra a sua parte no trato, ou seja, que assuma a
chefia de nossa comitiva, sendo o juiz e marcador das histórias.
ALBERGUEIRO- Sendo assim, vejamos, então, quem vai contar a primeira. Vamos tirar a sorte:
quem ficar com o pedaço da palha mais curto é quem começa. Aproxime-se Senhora Prioresa; e o
senhor também, Senhor mercador. Deixe a modéstia de lado, homem dos perdões... venham todos!
(Um a um, todos vão tirando a sorte. Ao fim, o albergueiro mede os fiapos de palha e chega ao
resultado).
ALBERGUEIRO- Sendo por acaso ou ventura, o fato é que foi sorteado o Sr. Moleiro. Em vista
disso, deve ele, por direito e por dever, submeter-se às regras, apresentando a sua narrativa.
MULHER DE BATH- Um brinde ao senhor Moleiro.
(A comitiva brinda alegremente).
ALBERGUEIRO- Já que me coube dar início ao jogo, ordeno que nos ponhamos a caminho e,
pelos ossos de Jesus, louvado seja o destino:
(Os peregrinos vão deixando o albergue, que vai se desfazendo para a preparação da cena seguinte.
Enquanto saem, o moleiro vai introduzindo sua narrativa).
Música:
MOLEIRO- Vivia antigamente em Oxford um camarada rico, carpinteiro de profissão, que aceitava
pensionistas em casa. Com ele morava um estudante conhecido como o “belo Nicholas”, que vivia à
cata de prazeres e aventuras amorosas, agindo sempre com esperteza e discrição. Quanto ao
carpinteiro, casara-se, não fazia muito, com uma moça de dezoito anos de idade, mas bonita de se
ver do que a pereira nova. Ciumento como só, o homem mantinha-a sob sete chaves, pois, como era
velho, e ela fogosa e jovem, tinha medo de ser corneado. Deu-se a coisa que um dia o belo
Nicholas, aproveitando-se de que o marido estava fora, em Oseney, resolveu apanhar a jovem pela
boceta, dizendo:
NICHOLAS- Meu amor, se você não me der o que desejo, esta paixão vai me matar.
ALISON- Eu é que não vou beijar você.
NICHOLAS- (Agarrando-a pelos quadris). Alison, venha comigo agora mesmo, senão, que Deus
me ajude, vou morrer.
ALISON- (Se desvencilhando dele). Ora, deixe disso, Nicholas, ou começo a gritar socorro,
acudam. Faça-me o favor de não pôr mais as mãos em mim.
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NICHOLAS- (Se ajoelhando aos pés dela). Meu bem, eu te imploro! Pelo potente Marte rubicundo,
não posso mais continuar vivendo sem a suavidade do seu corpo esbelto, da sua boca gostosa, das
suas coxas de infinita redondez...
ALISON- Como você fala bonito, Nicholas...
NICHOLAS- (Se levantando). Alison, sua “coisa” deve ser mais suave do que lã do cordeirinho:
mais bonita do que urna grega: mais cheirosa do que cerveja doce...
ALISON- Nicholas, tu sabes bem que essa “coisa” a que você se refere, é lugar de serventia de meu
marido.
NICHOLAS- Fosse ele mais instruído, não desconheceria Dionísio Catão, que recomendava
casamento entre iguais. (beijando as coxas dela) Meu amor a juventude e a idade muitas vezes
entraram em atrito. Mas, estando nós nas mesmas condições, eu te prometo o céu. (abraçando e
beijando Alison).
ALISON- Meu marido é tão ciumento... se ele descobrir...
NICHOLAS- (abraçando e beijando Alison). Meu amor, eu sofro do mal de Eros!
ALISON- Mal de que?
NICHOLAS- A doença dos apaixonados. Uma obsessão que o humor melancólico gerou na parte
anterior do meu cérebro, onde está a célula da fantasia... (tirando a roupa de Alison).
ALISON- Que Santa Fridesvida nos proteja! Este homem deve estar sofrendo de algum tipo de
loucura ou angústia!
NICHOLAS- (tirando a roupa e levando Alison para cama) Que tormento, que angústia!
ALISON- (Com Nicholas, na cama) Meu marido... se ele descobrir será o nosso fim...
NICHOLAS- Que eu me dane, mas o caso está indo que é uma beleza!
ALISON- Nicholaaaaaassss! (Os dois ficam entretidos por um bom tempo. Por fim, ficam deitados
na cama, abraçados).
ALISON- Oh, que coisa poderosa é o sentimento! Você falou tão bonito, fez tentas promessas e eu
acabei cedendo.
NICHOLAS- Por minha alma, meu favo de mel, que só de olhar para você eu já gozo o paraíso.
ALISON- Juro, por Santo Tomás de Kent, que estarei a seu dispor assim que surja outra
oportunidade.
NICHOLAS- Oh, minha canela perfumada, você nem se preocupa com meu sofrimento. Essa
espera vai me matar.
ALISON- Meu marido é tão ciumento que, se você não tiver muita paciência e muita discrição,
tenho certeza de que será meu fim.
NICHOLAS- Temos que pôr em prática uma estratagema para enganar esse simplório do seu marido.
ALISON- Neste caso, precisamos agir com o máximo de cuidado, senão...
NICHOLAS- Ora, pode deixar! Por certo teria desperdiçado meu tempo de estudante, se não fosse
capaz de enganar a um carpinteiro. (Entra em cena Absalon, sacristão da igreja local, velho
admirado de Alison. Se posta sob a janela da casa e começa a cantar).
ABSALON- (cantando)
“ Se teu querer, oh dama, for assim, volta o teu pensamento para mim.
NICHOLAS- O que é isso? Você está ouvindo?
ABSALON- (cantando)
‘Sei que teu marido está ausente, e, como tal é evidente, posso cortejar-te, enfim!
ALISON- (Se levantando da cama e indo até a janela) É Absalon! Esse sacristão não cansa de me
desejar?
ABSALON- O que você está fazendo, meu lindo passarinho? Acorde, meu amor, e venha falar com
quem, por você, está sempre derramando o seu suor. Não é de admirar que eu sue e chore por você,
pois acho balindo como um carneirinho atrás da teta. É tão grande minha paixão, que meu lamento é
igual ao da fiel pombinha.
ALISON- (Abrindo a janela) Saia daí, grande idiota. Que Deus me ajude! Por Jesus, Absalon, amo um
outro bem melhor do que você. Por isso, com vinte diabos, caia fora, ou jogo-lhe uma pedra. E deixe-
me dormir em paz.
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(Fechando a janela).
ABSALON- Ai, pobre de mim: como o amor sincero é maltratado. Então, já que não posso ter coisa
melhor, me dê pelo menos um beijo, pelo amor de Jesus.
ALISON- (abrindo a janela) Mas depois você vai-se embora?
ABSALON- Claro, meu grão de cardamono.
ALISON- Então prepare-se que eu já vou. (Para Nicholas) Agora preste atenção, que você vai
morrer de rir. (Para Absalon) Absalon, você só me beija com uma condição.
ABSALON- Tudo o que você quiser, meu gentil passarinho.
ALISON- Que seja de olhos vendados.
ABSALON- Mas, sua graça, meu amor...
ALISON- (ameaçando fechar a janela) Então, nada feito.
ABSALON- Espere! Está bem, eu concordo.
ALISON- Vamos, acabe logo com isso, antes que os vizinhos vejam.
(Absalon bota uma venda nos olhos, enxuga os lábios e sobe num banquinho para alcançar
Alison. Ela põe a bunda para fora da janela e, Absalon que não enxerga nada, dá-lhe um beijo no
meio da bunda).
ABSALON- (Saltando do banquinho, como se alguma estivesse errada). Pelo que sempre soube,
mulheres não tem barba. (Absalon, tira a venda ainda a tempo de ver Alison sentada no parapeito da
janela). Oh, meu Deus, o que é que eu fiz?
ALISON- (Fechando a janela) Uma barba, uma barba, AH, AH, AH.
ABSALON- Pelo santo corpo de Deus, você vai me pagar. Mesmo que eu tenha que entregar minha
alma a Satanás, prefiro vingar essa afronta a ser dono de toda esta cidade. (Saindo)
(Nicholas e Alison ficam deitados na cama rindo de Absalon e do fato ocorrido. Neste instante,
John, marido de Alison vem chegando de viagem. Enquanto se aproxima, já vem gritando).
JOHN- Alison, minha bonequinha, seu papaizinho chegou.
ALISON- (pulando da cama ) Meu marido! Depressa Nicholas vista-se e suma.
NICHOLAS- (vestindo as roupas). Sangue de Jesus, já estou indo.
JOHN- (Do lado de fora, batendo na porta). Alison, é o papaizinho...
ALISON- (Para Nicholas). Pela janela, saia pela janela. (Nicholas, salta para fora). E não se esqueça
do nosso plano: e seja discreto. (Alison fecha a janela e corre para abrir a porta, sem dar conta de
que ainda está nua).
JOHN- (batendo na porta, já impaciente com a demora). Alison! Abra essa... (Alison abre a porta e
John dá com ela nua). Minha primavera. (Alison percebe que está nua e corre para a cama, se
escondendo debaixo das descobertas). Não fuja, meu potro brincalhão. (Imaginando que Alison
estava nua para ele, John corre para a cama e se enfia debaixo das cobertas, Alison tenta evita-lo,
sem sucesso).
ALISON- Corpo de Cristo!
JOHN- Meu pedaço de alcaçuz, o papaizinho vai benzer você contra duendes e maus espíritos.
(Enquanto isso, do lado de fora da casa, Nicholas ouve tudo o que acontece e, tentando dar um fim
naquilo, resolve por em prática seu plano para enganar o marido. Silenciosamente, se aproxima da
janela do quarto e começa a gritar).
NICHOLAS- (gritando).
O mundo vai ser todo destruído!
O mundo vai ser todo destruído!
JOHN- Pela minha fé, que diabos é isso?
(John se levanta e vai até a porta; abre e vê Nicholas, sentado olhando para a lua, imóvel).
JOHN- (Para Nicholas). Ei! Que se passa? Que faz aí, Nicholas? O que está olhando? (Se dirigindo
a ele) Por que toda essa gritaria?
NICHOLAS- (Olhando para a lua). Ai, outra vez o mundo terá que ser destruído?
JOHN- Que é isso Nicholas? Que é isso agora? Vamos! Olhe para mim! Acorde e pense na paixão
de Cristo!
NICHOLAS- O mundo todo vai ser destruído!
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JOHN- O que você está dizendo? Ora, pense em Deus, como nós que trabalhamos.
NICHOLAS- O mundo todo...
JOHN- Cristo- Rei! É o estudo em demasia. Sempre achei que essa história iria acabar assim. Tudo
por causa do estudo de “ASTRONOMIA”. A gente não pode querer saber os desígnios de Deus.
Abençoado é o ignorante, que só conhece o próprio Credo!
NICHOLAS- (Para John) Quero falar-lhe em particular de uma coisa que interessa a mim e a você.
É algo que não pretendo contar a mais ninguém.
JOHN- O quê?
NICHOLAS- É um segredo de cristo o que lhe vou contar. E se você não guardá-lo para si, você
estará perdido, por que se me trair, o castigo que irá sofrer é a loucura.
JOHN- Não, Deus me livre, pelo sagrado sangue de Jesus, não costumo dar com a língua nos
dentes. Pode falar o que quiser, não vou contar para ninguém... Juro por aquele contra quem o
inferno não pôde prevalecer.
NICHOLAS- Descobri, por meio da minha astrologia, enquanto examinava a lua nova, que hoje,
um pouco depois do anoitecer, vai cair uma chuva tão pesada e violenta que, comparado com ela, o
dilúvio de Noé não chegou nem a metade. O mundo, em menos de uma hora, ficará inundado; e a
humanidade inteira vai se afogar e morrer.
JOHN- Oh, minha mulher! Ela também vai se afogar? Oh, minha Alison! Não há nenhum remédio
para essa desgraça?
NICHOLAS- Claro que sim, por Deus. Basta orientar-se pela ciência e por conselhos. O que você
não deve é seguir a própria cabeça.
JOHN- Nunca, nunca.... vamos, diga-me, o que eu devo fazer?
NICHOLAS- Já ouvi falar de como Noé se salvou, ao ser avisado por Nosso Senhor de que o
mundo inteiro se perdera sob as águas?
JOHN- Sim, há muito tempo atrás.
NICHOLAS- Pois bem... a situação exige rapidez... Não devemos perder tempo com palavreado e
com demoras.
JOHN- Não, não...
NICHOLAS- Traga depressa a esta casa tinas de madeira para cada um de nós ... Mas que sejam
grandes. Elas nos servirão de barcos.
JOHN- Sim, sim... e o que mais?
NICHOLAS- Quando tiver arranjado aquelas três tintas, coloque-as no telhado da casa para que
ninguém descubra os nossos preparativos. Quando as águas subirem, lá de cima flutuaremos felizes
como a patinha branca atrás do pato. Agora vá fazer o que é preciso... Não tenho tempo para
alongar este sermão.
JOHN- (Saindo) Eu vou, eu vou...
NICHOLAS- Por São Neot, nunca vi idiota assim... (gritando) Alison, Alison...
ALISON- Eu ouvi, eu ouvi tudinho.
NICHOLAS- Oh, minha doninha, esta noite poderemos nos refocilar à vontade, sem preocupação
com nada. (Beijando e apalpando Alison). Preste atenção! Assim que o simplório pegar no sono,
deslizamos para a sua cama e...
JOHN- (Voltando com as três tintas). Ai de mim. Oh, Alison...
ALISON- Meu maridinho, não diga mais nada. Nicholas me contou sobre o dilúvio. Ajude-nos a
escapar, senão morremos todos.
NICHOLAS- Vamos, John, leve tudo para cima do telhado; logo logo vai anoitecer e não temos
tempo a perder.
JOHN- (Subindo no telhado). Já estou indo, não precisa dizer duas vezes (choramingando). Ai, meu
passarinho não tenha medo. Garanto-lhe que, mesmo sem velas ou mastros, hei de salvar a você e a
mim.
NICHOLAS- (Subindo para o telhado com Alison) John! Ponha a sua tina e a de sua mulher bem
afastadas uma da outra, para que não haja pecado entre vocês dois... senão por atos, por simples
trocas de olhares.
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ALISON- (Entrando na tina). Oh, meu abordado maridinho, logo logo seremos donos de nossas
vidas e de todo o mundo, como Noé e sua mulher.
(Nicholas e John entram nas tintas).
JOHN- (Para Nicholas) Não vejo a hora de isto tudo acabar. Depois que passar a grande chuva, aí
eu vou chamá-los: “Ei, Alison! Ei Nicholas! Bom dia. Já posso vê-los, amanheceu!”
NICHOLAS- (Para John) Não diga mais uma palavra, nem apelos, nem gritos; devemos apenas
rezar, pois esta é a preciosa determinação de Deus.
JOHN- Agora, um Padre Nosso e...
ALISON- Psiu! Você quer que alguém nos veja aqui em cima? Fique em silêncio e se concentre nas
orações.
JOHN- Oh, sim: me desculpe.
(Os três ficam em silêncio um bom tempo. Nicholas e Alison se entreolham impacientes. John
continua suas orações. Os dois amantes fingem pegar no sono. John termina suas orações e vê os
dois dormindo. Faz menção de acordar Alison, mas, lembrando-se dos votos de silêncio, desiste. Os
dois amantes se entreolham algumas vezes. John, nervoso, se mexe dentro da tina sem encontrar
uma posição mais confortável. Por fim, John, cansado de todo aquele nervosismo, cai num sono
profundo. Dá alguns gemidos agoniados, se vira de um lado para o outro e começa a roncar. Os dois
amantes, sentindo-se em segurança, silenciosamente vão descendo em direção à cama de Alison. Os
dois caminham na ponta dos pés e já vão tirando as roupas. Finalmente, deitados, se entregam aos
prazeres da carne. Durante algum tempo, só se ouve o ruído do ranger da cama. Quando tudo parece
estar indo bem, surge o sacristão Absalon, resolvido a vingar-se de Alison).
ABSALON- (Sussurrando). Alison, você vai me pagar! Ai, por que naquela hora não virei o rosto?
Mas deixa estar, Alison, que eu tenho uma surpresa para você. Com esse ferro em brasa a minha
vingança vai ser completa. (Batendo na janela e sussurrando). Meu doce amor, é o seu Absalon,
minha adorada.
ALISON- (Assustada). Pela salvação de minha alma! O que é isto agora?
ABSALON- (sussurrando). Vim trazer-lhe um anel de ouro. É de grande valor, e todo trabalhado.
Será seu, se você me der um beijo.
ALISON- (Pulando da cama e pondo a roupa). O meu marido; ele vai acordar!
NICHOLAS- (Pulando da cama também). Depressa, volta para a sua tina que eu vou dar um jeito
nesse sacristão. (Alison, sai correndo para o telhado).
ABSALON- (sussurrando). Por Deus, meu doce amor, não deixe seu novelozinho de lã esperando.
(Nicholas vai até a janela, que está fechada, e imita a voz de Alison).
NICHOLAS- (Imitando a voz de Alison). É você, Absalon?
ABSALON- Sou eu de volta, meu pudim de leite...
NICHOLAS- (Imitando a voz de Alison). Você quer me beijar? Então abra a boca, feche os olhos e
prepare-se pois esse beijo você jamais esquecerá. (ABSALON prepara o ferro em brasa e fecha os
olhos).
ABSALON- Já estou pronto, carneirinho.
(NICHOLAS abre a janela e põe a bunda toda de fora).
NICHOLAS- Então beija, meu amor.
(Absalon abre os olhos e atinge Nicholas, com o ferro em brasa, bem no meio da bunda).
NICHOLAS- (Gritando de dor) AAAAA!!!!! Socorro! Água, Água, Água!
(John acorda e, ao ouvir alguém gritando “água”, imagina que o dilúvio já começou).
JOHN- (Assustado). Ai meu Deus, ai de mim, aí vem o dilúvio de Noé!
(Quanto mais Nicholas grita, mais o carpinteiro fica assustado. Desesperado, John despenca do
telhado, com tinta e tudo. Nicholas nu, gritando feito louco . Alison corre atrás de Nicholas e John,
atrás de Alison. Os vizinhos, assustados com aquela gritaria, saem para ver o que está acontecendo.
Absalon, sem nada entender, corre para o lado contrário e os quatro saem de cena).
MOLEIRO- (Se destacando no meio dos vizinhos, que são, na verdade, os peregrinos) Dessa forma,
apesar de toda a vigilância e todo o ciúme, comeram a mulher do carpinteiro. Absalon lhe beijou o
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olho de baixo e Nicholas queimou a bunda. E assim chega ao fim esta história, e Deus nos abençoe
a todos.
PIORESA- Por Santo Elói! Onde vamos parar com tanta libertinagem?
ABERGUEIRO- (Irônico) O que esperava V. Santidade? Que ficássemos o dia inteiro discutindo as
Santas Escrituras?
MERCADOR- Os anos que vivi estão escritos nestes cabelos brancos. Sei reconhecer, portanto,
quando existe verdade em uma história. Por isso, eu digo que na história do Moleiro existe muita
verdade. “SÓ NÃO FICA CORNUDO QUEM NÃO TEM MULHER”.
PRIORESA- Por Santo Elói! Se eu gostasse de libertinagem, poderia melhor ainda dar-lhe o troco.
ALBERGUEIRO- (Para a Prioresa). Com sua permissão, senhora Prioresa, não desejando
incomodá-la, eu diria, então, que chegou a sua vez de brindar-nos com uma história. Será que a
prezada dama poderia narrar alguma coisa que enlevasse os nossos espíritos?
PADRE JOHN- É, alguma bela história que expresse grandes virtudes.
PRIORESA- Com prazer. (Os peregrinos se acomodam para ouvir o relato da prioresa).
PRIORESA- Havia uma vez, uma grande cidade habitada por cristãos. Nessa cidade havia um
bairro judeu, mantido apenas de causa do lucro e da usura, coisas odiosas para Cristo e seus
verdadeiros seguidores. Na outra ponta do bairro havia uma escolinha de cristãos, onde, uma porção
de criancinhas de famílias cristãs vinha aprender o que normalmente se ensinam nas escolas: ler e
cantar. Uma dessas crianças era o filhinho de uma viúva, um pequeno coroinha, de apenas sete anos
de idade; Vejam bem, senhores! Sete anos de idade. Essa criança, toda vez que via a imagem da
mãe de Cristo, tinha por hábito ajoelhar-se e rezar a AVE MARIA, conforme a viúva ensinara a ele,
e que ele jamais havia esquecido. Aliás, toda vez que toco neste assunto, sempre me lembro a
história de São Nicolau, que também reverenciava a Cristo quando era pequeno. Mas, voltando
àquele menino, uma vez, quando ele estava na escola, ouviu o hino ALMA REDEMPTORIS,
cantado por um grupo de crianças que estudava o antifonário. Então, devagarzinho, foi se
aproximando, para escutar melhor a música, e, dessa forma, acabou aprendendo de cor o primeiro
verso. Como o coitadinho ainda era muito criança e muito novo, pediu a um coleguinha que lhe
explicasse para que tipo de serviço religioso ele servia. O outro, que era um pouco mais velho,
respondeu: “Pelo que ouvi dizer, esse hino foi feito para louvar nossa querida mãe do céu e, ao
mesmo tempo rogar a ela que nos socorra na hora de nossa morte.” “ Quer dizer então que esse hino
foi feito em louvor da mãe de Cristo?” perguntou o inocentinho. “Nesse caso, vou fazer de tudo
para arrepende-lo antes que chegue o Natal. Para honrar a nossa mãe do céu, não vou deixar de
fazer isso nem que tenha que levar três sussurras por hora por descuidar-me da cartilha”. Notem
bem, senhores, o espírito de fé desta criança! Daí em diante, todos os dias o menino se punha a
ouvir a máxima atenção aquele hino, até que ele o aprendeu inteirinho, de cor. Duas vezes por dia
aquelas notas vibravam em sua gargantinha, quando ia e quando voltava da escola, pois estava
sempre com a atenção posta na mãe de Deus. Como eu disse, todo o dia o menininho atravessava o
bairro judeu, indo e vindo, sempre cantando com alegria e em voz cada vez mais alta o ALMA
REDEMPTORIS, com a doçura da mãe de Cristo lhe atravessando o coração. Agora, prestem
atenção senhores! Foi então que, nosso primeiro inimigo, a serpente Satanás, ergueu-se e disse: O
povo hebreu, que desgraça! Vocês acham certo deixar que esse garoto ande por aí a vontade,
cantando aí à vontade, cantando palavras contrarias às suas leis? Desde então puseram-se todos a
conspirar contra a vida daquele inocentinho, enfebriados que estavam pela sedução da besta- fera.
Certo dia, um assassino malvado ficou escondido num beco, e quando o menino passo por ali, o
atroz saltou sobre ele, agarrou-o com força, cortou-lhe a garganta e jogou dentro de um poço. Sua
mãe, a pobre viúva, não dormiu a noite inteira, a esperar pelo filhinho, sem nada de voltar. Quando
o dia clareou, com o rosto pálido de preocupação e temor, foi procura-lo na escola e em toda parte,
como que desvairada, com todo aquele amor maternal reprimido no peito, investigando todos os
recantos onde houvesse a menor possibilidade de encontrar seu filhinho. Com lágrimas nos olhos,
perguntava e suplicava a todos a quem encontrava, se não tinham visto passar sua criança; a
resposta era sempre “NÃO”. Mas não demorou muito e Jesus, na sua piedade, levou-a a chamar por
seu filhinho exatamente no lugar onde seu corpo havia sido atraído no poço. Foi então, Senhores,
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que aquela gema de castidade, aquele cintilante rubi do martírio, de lá onde jazia escondido, com a
garganta secionada pelo trabalho pelo talho profundo, pôs-se então a cantar ALMA
REDEMPTORIS tão alto que as notas escoavam por toda a região. Todos que por ali passavam
acorreram de pronto, admirando-se do que viam. Com lamentos comovedores, retiraram do poço a
criança, sempre a entoar pelo hino, e, numa solene procissão, a levaram até a abadia mais próxima,
depositando o esquife do pobre inocentinho na frente do alto-mor.
O abade, sendo um homem santo, conjurou então o menino, dizendo: “Oh amada criança, eu a
conjuro em nome da Santíssima Trindade! Diga-me: como pode cantar, se, pelo que se vê, está com
a gargantinha cortada?” “Minha garganta foi cortada até o osso”, respondeu o menininho, e pelas
leis da natureza, eu deveria estar morto há muito tempo. Mas Jesus Cristo quer que sua glória
perdure e seja sempre lembrada; por isso, permitiu a mim que, cantando o ALMA, venerasse a santa
sua mãe, a quem sempre amei, com todas as minhas forças. E ela me retribuiu o afeto, pois, quando
eu estava para morrer, apareceu à minha frente e pediu-me que cantasse o hino que ouviram; e,
quando terminei, colocou um grão sobre a minha língua. Desde então tenho cantado e continuarei a
cantar em louvor da virgem, enquanto não me tirarem da língua aquele grão. E ela me assegurou:
“Filhinho meu, virei busca-lo assim que o grão for retirado...”. Então o santo abade, tocou-lhe a
língua e retirou-lhe o grão; e ele mansamente, entregou sua alma.
(Durante um tempo, toda a comitiva fica em silêncio. Por fim, o Albergueiro quebra o silêncio).
ALBERGUEIRO- Boa gente, escutem todos! Foi mesmo um conto edificante mas, agora, basta!
Um pouco de tristeza é suficiente.
FRADE- ( Para a Prioresa). Minha senhora, que Deus lhe dê tudo de bom! Pode crer, a senhora
tocou em questões de grande complexidade. Mas a verdade, senhora, é que, ao andarmos aqui pelo
caminho, não precisamos falar de coisas sérias.
OFICIAL DE JUSTIÇA- Aí está, boa gente. É como se costuma dizer: “em cada prato e em cada
conversa sempre caem uma mosca e um frade”.
FRADE- Falou comigo, senhor?
OFICIAL DE JUSTIÇA- Pelos dois braços de Cristo! Por que é que vocês, os frades, tem que se
intrometer em tudo? Vá mijar, faça qualquer coisa, mas não venha perturbar a nossa diversão.
FRADE- (Irado) Ah, é o que quer, senhor oficial? Pode deixar, que nesta viagem ainda hei de
contar uma história de oficial de justiça eclesiástica que vou fazer todo mundo aqui morrer de rir.
OFICIAL DE JUSTIÇA- E eu, Frade, vou lhe amaldiçoar a face, e a mim mesmo, se, antes de
chegarmos a Sittingbourne, eu não narrar um caso de frade que vai seu coração gemer.
ALBERGUEIRO- (Gritando). Silêncio agora mesmo! Pelos sinos da igreja de São Paulo, onde
vamos parar com toda essa conversa? Senhor Frade, Deus o abençoe... mas basta, por favor. (Para o
oficial de justiça). Que tal contar-nos uma história alegre, senhor?
OFICIAL DE JUSTIÇA- Não, não estou com vontade. Chame outro, já falei com demasia.
ALBERGUEIRO- (Para o padre acompanhante da Prioresa). Padre John! Conte-nos algo divertido.
Vamos, anime-se... o que vale é ter o coração alegre.
PADRE JOHN- É verdade senhor. Deixe comigo, senhor albergueiro, e pode me condenar, se
minha história não for engraçada. (A comitiva se acomoda para ouvir a história). No tempo em que
os bichos falavam, morava numa certa cidade, junto a um bosque no meio de um vale, numa
pequena cabana, uma pobre viúva. Sua casinha tinha um quintal cercado por ripas, onde criava um
galo chamado Chantecler, que cantava melhor do que qualquer outro da região. Esse galo era
senhor de quatro galinhas, toda ali para servi-lo. A de mais belos matizes no pescoço era a famosa
Demoiselle Pertelote, que, desde os seus sete dias de idade, aprisionara por completo o coração de
Chantecler. Quando fúlgido raiava o sol, que alegria era ouvi-los cantar juntos. (Cantando) “co-có-
có-có...”. Aconteceu então que, numa madrugada enquanto Chantecler dormia no galinheiro,
rodeado por todas as esposas e tendo ao lado a bela Pertelote, começou a gemer como alguém
perturbado por um pesadelo.
CHANTECLER- UI! AI! OH! AH!
PERTELOTE- Coração! O que te dói, que gemes dessa forma?
CHANTECLER- (Acordando assustado) Oh, que vergonha!
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PERTELOTE- O que é homem?
CHANTECLER- Não me leves a mal, madame, sonhei ser vítima de tal desventura que ainda agora
meu coração sente pavor. Sonhei que perambulava pelo nosso quintal, quando súbito surgiu-me à
frente uma fera parecida com um cão, querendo abocanhar-me e trucidar-me. Foi essa , sem dúvida,
a razão por que gemi.
PERTELOTE- Vai-te daqui, oh covarde! Pelo Senhor do Céu, acabaste de perder meu coração e
meu afeto! Ai, por minha fé, como poderei amar um poltrão? Que vexame! Será que tu não tens
barbas na cara? Ai, como podes ter medo de sonhos? Os sonhos não passam de ilusão. Em geral,
são provocados pelo excesso de comida e, muitas vezes, pela abundância de gases ou de certos
humores do corpo. Por Deus, estou certa de que o sonho desta noite proveio de uma superfluidade
de bílis vermelha, que faz as pessoas sonharem com flecha, fogo, feras que querem morder,
contendas e cães; ursos vermelhos, touros negros, ou negros diabos, que vêm para busca-los. Pois
bem, senhor, assim que nós descermos do poleiro, toma um laxante, pelo amor de Deus. Em nosso
próprio quintal encontraremos as plantinhas apropriadas para purgar-te, em cima e embaixo. Mas,
pelo Rei dos Céus e por teu pai, não tenhas medo de sonhos.
CHANTECLER- Grato, madame, pelos conselhos eruditos. Mas devo dizer que existem várias
obras antigas, escritas por homens de muita autoridade, que mantêm opinião de que os sonhos são
prenuncias das alegrias e das atribulações por que passamos nesta vida. Por exemplo, li, na vida de
São Anselmo que ele, um pouco antes de ser assassinado, teve um sonho que lhe mostrou a própria
morte. Por Deus, eu teria dado as penas do corpo para que tivesses lido, como eu, a sua biografia.
PERTELOTE- Animo, caro esposo.
CHANTECLER- Olha a história de Creso, rei da Líbia: sonhou estar sentado no alto de uma árvore;
e não é que depois foi enforcado? Para concluir, estou certo de que meu sonho é prenúncio de
desgraça.
PERTELOTE- Senhor, deixemos esse assunto e falemos de outros mais agradáveis.
CHANTECLER- Por minha alma, senhora Pertelote, em uma coisa pelo menos o criador me
concedeu sua graça, pois, quando contemplo a beleza de seu rosto, todos os meus temores se
esvaecem. De fato, à noite, quando sinto o calor de teus flancos macios tenho tal prazer que desafio
sonho e pesadelo.
(Os dois se beijam. Chantecler trepa em Perlote e, rapidamente, fazem sexo. Quando acabam, os
dois pulam do galinheiro para o quintal, seguido das outras esposas, que acabam de acordar. Todos
começam a ciscar e, enquanto isso, cantam).
Música:
Co,có,co,có,có!
Co,có,co,có,có!
(Enquanto cantam e ciscam, surge uma raposa, que fica escondida, sem ser vista. Quando acaba a
cantoria, Chantecler, que continua ciscando, dá de cara com a raposa).
CHANTECLER- (Gritando e apontando). Raposa! Raposa! (Todas as galinhas fogem para o
galinheiro. Chantecler continua gritando).
RAPOSA- (Com voz tranqüila, acalmando o galo). Ah! Onde pensais ir, senhor gentil? Temeis a
mim, que sou amiga vossa? Sem dúvida eu seria pior do que o demônio, se cometesse contra vós
qualquer vileza. Não vim espionar vossos segredos; a razão da minha vinda foi para ouvir-vos
cantar, pois tendes uma voz maravilhosa, como a dos anjos nos corais do céu. Que sensibilidade
musical! Supera a de qualquer cantor. Juro-vos, pela luz de meus olhos, que jamais ouvi alguém
canta com vossa mercê, assim com o coração. Que agudos! Que interpretação! Que grande canoro é
vossa senhoria! Mas, por caridade meu senhor, cantai uma vez mais! (Chantecler, deslumbrado e
todo prosa com os elogios, bate as asas de contentamento. Põe-se na ponta dos pés, estica o
pescoço, fecha os olhos e quando vai começar a cantar, a raposa salta sobre ele, mordendo-o.
Segue-se uma luta e Chantecler é arrastado entre os dentes da raposa. As galinhas gritam
desesperadas).
PERTELOTE- Oh destino cruel, como és inexorável!
GALINHA 1- Ai, porque, Chantecler, deixas-te o galinheiro?
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GALINHA 2- Ai, que tormento!
GALINHA 3- Que morte horrível!
(A raposa sai arrastando Chantecler, fugindo para o bosque).
PERTELOTE- Socorro! Socorro, meu Deus! (As galinhas correm atrás da raposa, gritando-
co,co,co,co! Chantecler, desesperado, tenta enganar a raposa).
CHANTECLER- (Para a raposa) Por Deus, se eu estivesse em vosso lugar, bradaria aos que nos
perseguem: “Voltai, oh vilãs presunçosas! Oxalá vos leve a peste! O galo é meu, não importa o que
façais. Vou devora-lo num instante!”
(A raposa para, se vira para trás e quando vai gritar, conforme a sugestão de Chantecler, o galo
consegue se livrar e volta correndo para o galinheiro, seguido de suas esposas).
RAPOSA- Ai, Chantecler, meu caro! Reconheço que não agi com correção, e vos dei um grande
susto. Mas, senhor, não foi má minha intenção. Vinde aqui, e eu vos juro por Deus que hei de
explicar-vos tudo, contando toda a verdade.
CHANTECLER- Oh não! Maldição para nós dois, e maldição para mim, se eu me deixar cair em
alguma outra esparrela. Nunca mais a bajulação vai me induzir a cantar de olhos fechados. Quem
fecha os olhos quando tem que ver, jamais merece a proteção de Deus.
RAPOSA- O meu caso é pior, porque merece a punição de Deus quem é tão desajeitado na conduta,
e fala quando deve se calar.
(Entram em cena os peregrinos).
PADRE JOHN- (Concluindo sua história) Eis aí o que acontece aos descuidados e negligentes que
falam demais. Os que acham que este conto é uma tolice, reparem na moral que ele contém.
ALBERGUEIRO- Senhor Padre John, benditas sejam suas pedras preciosas! Foi mesmo engraçada
a história de Chantecler. Deus o recompense, senhor, pelo seu belo conto. 3
MERCADOR- Sem dúvida! Pela bendita Cruz de Cristo, o conto do Santo Padre é muito revelador.
Tolice, qual nada! Chamo a atenção dos senhores para a moral de conto, que demonstra o quanto é
perigoso aceitar conselhos de mulheres.
PIORESA- Por Santo Elói! O que tem o senhor contra as mulheres?
MERCADOR- “IN PRINCÍPIO, MULIER EST HOMINIS CONFUSIO”.
PIORESA-(indignada). A mulher é a ruína do homem?
MERCADOR- Os conselhos das mulheres quase sempre são fatais. Acaso não foi conselho de Eva
que nos trouxe o sofrimento? Fez Adão perder o paraíso, onde vivia contente e muito bem.
FREIRA- Que Deus lhe amaldiçoe os ossos, senhor! Depois que o Altíssimo fez Adão, Ele o viu tão
sozinho e pelado, com a barriga de fora, que, em infinita bondade exclamou: “Vamos fazer para
esse homem uma companheira à sua semelhança!” A mulher é o esteio do homem. E sendo ela tão
virtuosa, os dois só poderiam mesmo viver em união.
MERCADOR- Matrimônio? Santa Maria, que atropelo. Quem me dera eu fosse livre! Só dores e
cuidados formam a vida do homem casado. Por Santo Tomás da Índia, quem desejar que elogie a
vida de casado! Quanto a mim, só encontrei nela gastos e preocupações.
FEITOR- Ora, parece que temos entre nós um luminar da retórica.
MOLEIRO- (Para o mercador) Parece mesmo que o senhor pendurou seu coração no cabide da
alegria.
MERCADOR- Também não se case por economia, pensando em reduzir os seus gastos. Um servo
de confiança poupa os seus bens com mais diligência que sua esposa, que passa a vida a reclamar
sua metade. E se você adoecer, proteja-me Deus! Seus amigos sinceros cuidarão de você melhor do
que ela, que passa os dias a aguardar a sua herança.
PADRE JOHN- Senhores, o meu conto trata apenas de um galo que, para seu azar, seguiu o
conselho da mulher e foi passear no terreiro.
MULHER DE BATH- Senhor mercador, ainda que neste mundo não existissem os ensinamentos da
autoridade celeste, a mim bastaria a experiência para falar dos benefícios do casamento, porque
desde os meus doze anos de idade já tive cinco maridos à porta da igreja; todos homens de bem, à
sua maneira. Como não pretendi fechar-me numa vida de castidade só porque quis o céu que todos
deixassem este mundo...
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MERCADOR- As mulheres se livram da vergonha assim que se livram das roupas!
FREIRA- (com raiva). É melhor casar que ader!
MERCADOR- Não quero julgar mal mulher alguma, mas, ao contrair núpcias, nada impede o
homem de se tornar cornudo!
ALBERGUEIRO - (Gritando) Chega! Pela égua que os pariu, não agüento mais tanta ignorância.
FEITOR- Por Deus e por São João, meus ouvidos já estão doendo com essa lenga lenga.
ALBUERGUEIRO- (Para a mulher de Bath) Senhora, Deus que a ajude! Mas se vossa senhoria
conhece tão bem o matrimônio, conte-nos alguma coisa a respeito dele.
MULHER DE BATH- Pois não, senhor, como queria... Nos velhos tempos do Rei Artur, em toda
esta terra pululavam os duendes e rainha das fadas. Deu-se então que este rei tinha em sua corte um
ardoroso jovem solteiro, que um dia, praticando a arte da pesca às margens de um rio, avistou uma
donzela que caminhava à sua frente. Sem perder tempo, não obstante tudo o que ela fez para resistir,
ele arrebatou-lhe a virgindade. Essa violência fez chegar ao Rei Artur tais clamores e tantos apelos,
que aquele cavaleiro foi condenado à morte. E teria sido decapitado imediatamente, se a rainha e
outras damas não tivessem interferido junto ao soberano, suplicando-lhe com insistência a graça. O
Rei por fim houve por bem atende-las, entregando o culpado à esposa para que ela própria, a seu
critério, decidisse se deveria viver ou morrer.
(Em cena, a Rainha, o cavaleiro e três damas).
RAINHA- A situação ainda lhe dá qualquer certeza de quem te salva a vida. Prometo-lhe, no
entanto, livra-lo da morte, se puder dizer-me o que é que as mulheres mais desejam.
Cuidado! Não exponha o pescoço ao ferro do carrasco. Se ainda não souber, concedo-lhe um ano e
um dia para que saia pelo mundo à procura de uma resposta satisfatória para a questão. E, antes que
se vá, deverá jurar-me que há de voltar, dentro do prazo, para se entregar.
CAVALEIRO- Vossa Majestade, por minha vida, que sei não a merecer, é com angústia que parto
agora para retornar no prazo estabelecido. Rogo a Deus que me ilumine e que a fortuna me
acompanhe. (Sai da cena).
MULHER DE BATH- (Para os peregrinos). Assim sendo, tomou a estrada, indo de cidade em
cidade, recanto e recanto, inquirindo em todas as casas e lugares, onde quer que tivesse esperança
de encontrar a mercê, a fim de descobrir o que as mulheres mais amam. Mas em parte alguma pode
achar duas criaturas que estivessem de acordo a esse respeito. Diziam alguns que aquilo que mais
amam as mulheres é a riqueza; diziam outros que a honra; e outros que a futilidade. Alguns
afirmavam que o que elas mais querem são as belas roupas; outros, os prazeres do leito,
enviuvando-se e casando-se muitas vezes. Alguns pensavam que o que mais nos alegra o coração
são os elogios e os agrados. Outros, porém, acreditavam que o que mais apreciamos é a liberdade, é
fazer as coisas do nosso jeito, sem que nenhum homem venha apontar as nossas imperfeições, pois
gostamos de ser consideradas inteligentes e espertas. E alguns, enfim achavam que nosso maior
prazer é sermos tidas como pessoas discretas e confiáveis, que sempre se mantêm firmes em seus
propósitos e que jamais revelam os segredos que nos contam.
FRADE- Minha senhora, guarde-me Deus, mas que longa apreciação da alma feminina.
OFICIAL DE JUSTIÇA- Pela alma de meu pai, deixe que a senhora conte a sua história. (Para a
mulher) Por favor, senhora, continue.
MULHER DE BATH- Com a devida licença do ilustre Frade.
FRADE- Concedida, minha senhora.
MULHER DE BATH- Então, o cavaleiro, vendo que não chegava a qualquer conclusão, sentiu-se
abater-se o ânimo no peito entristecido, sabendo que o prazo se esgotara e que tinha que retornar à
corte. No caminho de volta, passava ele por uma floresta quando avistou uma velha, feia como
ninguém imagina outra igual. A megera, vendo aquele jovem tomado pela melancolia, veio ao
encontro e disse:
VELHA- Senhor Cavaleiro, aqui termina a estrada. Diga-me o que procura, e talvez sua sorte
melhore: os velhos sabem muitas coisas.
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CAVALEIRO- Ai, anciã, tudo o que posso dizer é que logo estarei morto, se não descobrir o que as
mulheres mais desejam. Minha vida está nas mãos da Rainha, e da resposta que eu puder dar. Se
revelar-me o que quero saber, recompensarei o seu favor.
VELHA- Se jurar atender ao primeiro pedido que eu lhe fizer, hei de contar-lhe o que é, antes do
anoitecer.
CAVALEIRO- Aceito. Tem a minha palavra.
VELHA- Nesse caso, posso garantir-lhe que sua vida está salva, porque estarei a seu lado. Ninguém
ousará contradizer a resposta que lhe vou ensinar.
(A velha sussurra a resposta no ouvido do cavaleiro).
VELHA- Alegre-se e não tema mais nada. Tenho certeza de que a rainha dirá a mesma coisa que eu.
CAVALEIRO- Assim sendo, boa anciã, vamos adiante, pois não tenho nenhum tempo a perder.
(Saem da cena).
MULHER DE BATH- (Para os peregrinos) De volta à corte, anunciou o cavaleiro que cumprira o
prazo prometido e que estava preparado para dar a sua resposta. As damas reuniram-se sob a
presidência da Rainha, para o julgamento do cavaleiro, que foi a seguir convocado ao recinto.
Depois que se impôs o silêncio, a rainha novamente indagou do cavaleiro, o que é que as mulheres
mais apreciam. Em vez de ficar parado, atônito como um idiota, ele de pronto respondeu à questão,
que toda a corte pode ouvir:
CAVALEIRO- Majestade, de modo geral, o que as mulheres mais ambicionam é mandar no marido,
ou dominar o amante, impondo ao homem a sua sujeição. Ainda que me mate, digo que é esse o seu
maior desejo. Vossa majestade agora pode fazer de mim o que quiser: estou ao seu dispor.
(Toda a corte fica em silêncio. Por fim, a rainha dá o seu veredicto).
RAINHA- O jovem merece viver! Em toda esta corte, não existe nenhuma mulher que discorde de
sua afirmação. Você está livre.
VELHA- Soberana Rainha! Antes que se dissolva o tribunal, faça-me justiça!
RAINHA- O que deseja, boa velha?
VELHA- Fui eu quem ensinou a resposta ao cavaleiro e ele, em troca, deu-me a sua palavra de que
atenderia ao primeiro pedido que eu lhe fizesse.
RAINHA- Pois bem, velha, prossiga. Cobre sua dívida.
VELHA- (Para o cavaleiro) Senhor cavaleiro, peço-lhe agora, perante a corte, que se case comigo já
que lhe salvei a vida.
CAVALEIRO- Ai de mim, que desgraça! Pelo amor de Deus, peça-me qualquer outra coisa, peça-
me tudo que possuo, mas não me tire a liberdade.
VELHA- De modo algum. Posso ser velha, feia e pobre, mas, nem por todos os metais preciosos
que se escondem no ventre da terra, eu perderia a oportunidade de ser sua esposa e seu amor.
CAVALEIRO- Meu amor? Não minha ruína! Porque alguém da minha nobre estirpe tinha um dia
que sofrer tamanha desventura?
VELHA- Você fala de modo estranho! Salvei a sua vida e nunca lhe fiz nada de mal. Que fiz de
errado? Diga-me, que, se possível, tudo farei para corrigir.
CAVALEIRO- Não; é coisa que não se pode corrigir. Você é tão velha, tão repulsiva, e de
procedência tão baixa... Quisera Deus que meu coração estourasse!
VELHA- Sua arrogância de nada vale. Ainda há pouco você mencionou sua nobre estirpe; nobreza
essa em que se baseia toda a sua fidalguia e da qual derivam todas as suas posses. Permita-me dizer-
lhe que maior fidalgo deve ser considerado aquele que, em público e em particular, age sempre de
maneira virtuosa, entregando-se constantemente à prática da bondade. De nossos antepassados só
podemos herdar a fortuna e o direito de reivindicar a nossa linhagem, mas não a sua conduta
virtuosa. A nobreza não está vinculada à posse de heranças, pois, se estivesse, os herdeiros agiriam
sempre de acordo com os princípios naturais da fidalguia. Quem deseja que sua fidalguia seja
reconhecida apenas porque nasceu em berço ilustre, não demonstra a verdadeira fidalguia. Por isso,
a sua nobreza não é mais que a reputação de seus antepassados, uma virtude alheia ao seu
temperamento. Só é nobre quem pratica nobres feitos, fato legítimo que vem de Deus. Quanto à
pobreza que você reprova em mim, ainda que meus ancestrais tenham sido humildes, Deus há de
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garantir-me a graça de viver virtuosamente, pois pobre é o ambicioso insatisfeito, que cobiça o que
está de fora de seu alcance. Você também critica-me a idade. A fidalguia de espírito nos ensina que
se deve respeitar o idoso, chamando-o educadamente de pai... Mas pelo que sei você me acusa de
velha e feia. A velhice é guardiã da castidade, e sendo assim, você deveria alegrar-se, visto que não
precisa ter nenhum receio de um dia ser traído. Aceite-me como sou e viverás feliz.
CAVALEIRO- Sim, minha senhora.
VELHA- Então, beije-me.
(O cavaleiro levanta o véu que cobre o rosto da anciã e a beija).
VELHA- De agora em diante, dou-lhe minha palavra de honra, nunca mais brigaremos, pois serei
para você a esposa mais fiel e mais encantadora que já existiu no mundo desde que ele começou.
(A velha levanta o véu que lhe cobre o rosto e o que se vê é uma linda jovem).
MULHER DE BATH- (Para os peregrinos) E quando o cavaleiro olhou, e viu que de fato ela se
transformara numa jovem deslumbrante, envolveu-a em seus braços, transbordante de alegria. E
assim viveram felizes para sempre, em perfeita harmonia.
FRADE- (Para a mulher de Bath) Minha senhora, pode crer, a senhora tocou em questões
filosóficas de grande complexidade.
MERCADOR- Por minha fé e pelo precioso corpo de São Madriano, eu daria um barril de cerveja
para que minha patroa tivesse ouvido essa história! Ela não tem nem um pingo da paciência da
velha anciã. Palavra de honra, a única pessoa que tenho medo de enfrentar é essa minha patroa, com
aqueles seus braços enormes.
FRADE- (Para o mercador) Por Cristo que derramou seu sangue por nós, dê-me o seu punhal e
fique com esta roca de fiar, homem.
OFICIAL DE JUSTIÇA- (Para o Frade) Que Deus castigue quem o encaminhou para a religião,
Frade!
FRADE- (Para o oficial de justiça).
Oh novo Iscariotes! Novo Ganelão! Oh hipócrita! Oh Grego Sinon...
ALGERGUEIRO- (Gritando) Pela paixão de Cristo, silêncio agora mesmo! Até parece que vocês
tomaram uma bebedeira de cerveja!
(O Albergueiro se volta para Chaucer).
ALBERGUEIRO- E então, senhor! Quem é você afinal?
CHAUCER- Chamo-me Geoffrey.
LBEERGUEIRO- Venha até aqui. (Para a comitiva) Dêem passagem ao homem. Vejam só a
cinturinha dele; é grande como a minha. Aí está um boneco que toda mulherzinha bonita gostaria de
abraçar! Como é estranho o jeito dele; nunca fala com ninguém. (Para Chaucer) Porque está sempre
com os olhos pregados no chão, como se procurasse uma lebre? Levante a cabeça, ânimo! Vamos,
faça como os outros e narre alguma coisa. Conte-nos uma história engraçada!
CHAUCER- Senhor Albergueiro, não me leve a mal, mas a única história que conheço são uns
versos que aprendi de cor há muito tempo.
ALBERGUEIRO- Ótimo, vá em frente! (Para a comitiva) Pela cara dele, parece que aí vem coisa boa.
CHAUCER- Pois muito bem. Vou contar-lhes, em forma de canto, uma historinha que, a menos
que sejam muito exigentes, irá com certeza agradar a todos.
MÚSICA:
Calai-vos todos agora,
Nobre fidalgo e senhora,
Atentos a meu cantar!
De cavaleiros valentes
E de mulheres ardentes
Ora pretendo falar.
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E a Sir Guy e Pleindamour...
Mas Sir Topázio era a flor
Da real cavalaria!
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a avareza e outras maldições, para ensina-los a serem generosos com o seu dinheiro. Afinal, meu
interesse não é castigar os seus pecados, mas obter lucros. Pouco me importa se, depois de
enterrados, eles vaguem pelo mundo como almas penadas! A seguir, ilustro a pregação com muitos
exemplos de histórias antigas, dessas que podem ser repetidas a guardadas na memória. Afinal, o
que mais querem? Eu o livro de suas culpas, os faço se arrependerem sinceramente, e, em troca,
tenho a minha paga. Acham que, enquanto eu posso pregar e ganhar ouro e prata, vou viver
voluntariamente na pobreza? Não,não vou imitar os apóstolos. Não tenho pretensão de ganhar a
vida fazendo serviços manuais. Os senhores gostariam de me ver em ação, postado no púlpito como
um padre. “Aproximem-se, senhores. Quem nesta igreja cometeu algum pecado tão horrível que se
envergonha de confessa-lo? Quem estiver contaminado que se aproxime e, em nome de Deus, faça
a sua oferta, que eu o absolverei com a autoridade que esta bula me concede”. Senhores, não tem
sentido mendigar por nada. Quero dinheiro, trigo, queijos e lãs. Eu quero é o néctar do vinho e uma
bela garota em cada cidade.
PIORESA- Por Santo Elói!
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- (Interrompendo) Consumo pregar também sobre a gula e a
embriaguez: “tomo a Sagrada Escritura como testemunha de que a lascívia reside no vinho.
Lembrem-se do caso de Lot, que, depois de beber, dormiu com as próprias filhas, sem ter a
consciência do seu ato antinatural. Herodes, por sua vez, quando deu ordem para que matassem o
inocente João Batista, achava-se à mesa do banquete, empanturrado de bebida e comida. Oh gula
tão cheia de maldade! Oh causa primeira de nossa queda! Oh de origem de nossa perdição! Foi
devido a esse pecado que nosso pai Adão e sua mulher foram expulsos do paraíso para uma vida de
trabalho e sofrimento. Enquanto Adão jejuava, permaneceu ele no reino do Éden; mas assim que
comeu do fruto proibido, foi condenado a viver de suores e prantos. Oh gula, é mais que justo o
nosso lamento! Quando alguém se enche de bebida e comida, simplesmente transforma sua
garganta numa privada. São inimigos da cruz; o inimigo deles é a perdição; o Deus deles é o ventre.
Oh ventre, oh barriga, o saco fedorento, cheio de esterco e podridão, e com ruídos indecentes em
cada extremidade! Quantos trabalhos e gastos para satisfazer a você! O vinho e a devassidão, e a
embriaguez ainda cheia de atritos e misérias. Oh ébrio, que desfigurado é seu rosto! Que azedo e o
seu hálito e que asqueroso é seu abraço! Mas estejam certos de que aquele que procura tais prazeres
já morreu, porque a gula é a sepultura da inteligência e da dignidade. Por isso, pelo amor de Cristo
que morreu por nós, quem estiver contaminado por esse vício maldito que se aproxime e, pelos
valiosos ossos do Senhor, faça a sua oferta”.
Depois de discorrer sobre a gula, condeno da mesma forma a prática do jogo:
“O verdadeiro vício, mãe verdadeira das mentiras, dos engodos e dos malditos perjúrios, de
blasfêmias contra Cristo e também de assassinatos. Esse vício acarreta a destruição e a negação da
honra, desperdício de tempo e dinheiro. São estes os frutos dos dados, daqueles dois ossinhos
polidos de cadela: o perjúrio, a cólera, a mentira, o assassinato. Por isso, pelo sangue de Cristo, não
permitam que esse vício manche o valor e a fama de seus nomes. Por isso, pelo manto rubro do
Senhor, quem estiver contaminado por esse vício maldito, que se aproxime e faça uma oferta.
Tenho, no meu malote, relíquias e indulgências com poucos na Inglaterra, e que o Papa me entregou
com suas próprias mãos. Se alguém aqui desejar, por devoção, fazer um donativo e receber minha
absolvição, por favor, pois posso conceder o perdão a todos, humildes e poderosos, quando a alma
tiver que deixar o corpo”.
E assim, senhores, vou cuspindo os meus venenos com ar de santidade. Mas, vamos ao ponto: é
desejo de todos que eu conte uma história. Agora que já confiei-lhes todas as minhas intenções
secretas, espero poder narrar-lhes algo que seja deveras do seu agrado.
Há muito tempo atrás havia, na Flandres, um grupo de rapazes que só vivia à cata de folias e
algazarra nos bordéis e tavernas da cidade. Eles viviam de excessos abomináveis, dançando ao som
de harpas, alaúdes e violas e arriscando a sorte nos dados dia e noite. Bebiam mais do que podiam,
blasfemavam a torto e a direito e riam dos pecados um do outro, oferecendo sacrifícios ao demônio
em seu próprio templo. Se faziam acompanhar por dançarinas bonitas e graciosas, jovens fruteiras,
cantoras com harpas, meretrizes, vendedoras de bolo... todas verdadeiras servas do diabo, peritas
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em acender o fogo da luxúria, esse vício tão próximo da gula. Acontece que certa feita, antes
mesmo que a hora prima soasse, achavam-se aqueles três rufiões sentados numa taberna a beber,
quando ouviram o toque fúnebre de um sino que acompanhava um caixão sendo levado à sepultura.
(Em cena, na taverna, três rapazes, o taverneiro e o criado de um dos três rapazes).
RAPAZ 1- (Para o criado). Animal! Depressa, vá correndo perguntar de quem é o corpo que está
passando aí em frente, e venha dizer-me o nome direitinho.
CRIADO- Não é preciso, senhor. Já estou a par de tudo. Trata-se de um velho companheiro seu,
que foi morto inesperadamente ontem à noite, quando bebia vinho sentado num banco. Entrou lá
uma tal de morte, que anda matando todas as pessoas do lugar, e com sua lança, partiu o coração do
homem em dois e foi-se embora sem nada a dizer.
RAPAZ 1- Braços de deus! Pelos valiosos ossos do Senhor, que vou procurar esta tal de morte por
todas as estradas e trilhas das redondezas.
CRIADO- Meu amo, se o senhor tem intenção de enfrenta-la, é melhor tomar cuidado, porque ela
sempre ataca de surpresa. Só na última epidemia de peste levou por volta de mil.
TARVERNEIRO- Por Santa Maria, o rapaz tem razão, pois num grande povoado, a poucas milhas
daqui, ela matou este ano muitos homens e mulheres, crianças e o diabo.
RAPAZ 2- (Para o taverneiro) Cale a boca, taverneiro imbecil, e cuide de fazer o seu trabalho.
RAPAZ 1- Escutem, amigos. Nós três pensamos do mesmo modo, não é? Não temos medo de nada,
certo?
RAPAZ 3- Pelos cravos da cruz, é claro que não temos!
RAPAZ 1- Então vamos erguer os braços e jurar que sempre seremos irmãos: depois iremos dar um
fim naquela desgraçada traidora. (Erguem os braços e juram)
OS TRÊS- (Gritando) Morte à Morte!
RAPAZ 1- Agora vamos! Vamos procurar esta vagabunda. (Saem da taverna).
RAPAZ 2- (Gritando) Morte dos infernos, apareça!
RAPAZ 3- Mostre-nos a sua cara putrefada, cadela infeliz.
RAPAZ 1- Pela dignidade do Senhor! Que você apodreça nos confins dos infernos, maldita!
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Os três rapazes dirigiram-se então para o povoado de que
falava o taverneiro. E no trajeto iam lançando pragas e juras horríveis e prometendo que quando a
encontrassem, a morte morreria. Quando haviam andado já quase uma milha, encontraram um
homem muito velho e maltrapilho.
VELHO- (Para os três rapazes) Senhores, que Deus os proteja.
RAPAZ 2- Quem é você, velho imbecil?
VELHO- Sou um pobre ancião que vive a esmolar.
RAPAZ 1- Porque você anda desse jeito, todo embrulhado e só com o rosto de fora?
RAPAZ 2- É, e porque você continua vivo nessa idade? Há muito tempo que sua hora já passou,
coisa rota. ( Os três riem do velho).
VELHO- Tenho viajado a pé por todas os lugares, e em nenhuma cidade ou vila pude encontrar até
agora quem quisesse trocar sua juventude pela minha velhice. Por isso, enquanto Deus o desejar,
sigo a viver com a minha idade.
RAPAZ 2- Ora, camponês estúpido, e quem iria querer trocar de vida com você? Olhe-se no
espelho. Você não passa de um trapo velho e envocado.
VELHO- Devo lembrar-lhes, senhores, que não é educado dirigirem-se a um velho de modo tão
grosseiro, a menos que ele os tivesse ofendido.
RAPAZ 3- Cale a boca, velho sujo! Saia do nosso caminho e vá cuidar da sua morte.
VELHO- Ai, senhor, nem a morte aceita a minha vida. Já estive com ela, implorei que me levasse,
que desse fim à minha existência, mas ela não me concedeu essa graça. Nada me resta fazer, senão
andar por aí como um escravo atormentado. Agora preciso ir. Que Deus os acompanhe.
RAPAZ 1- Espere! Não pense que vai se livrar de nós tão facilmente, velhaco! Você mencionou
aquela traidora, a morte, que anda matando todos por aqui. Sei que você é seu espião.
VELHO- Está enganado, senhor.
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RAPAZ 2- Diga-nos logo onde ela está, ou terá muito de que se arrepender, juro por Deus e pelo
Santo Sacramento!
RAPAZ 3- É evidente que você está mancomunado com ela para matar todos os jovens como nós,
velho infame.
VELHO- Bem, senhores, se fazem tanta questão de conhecer a morte, tomem aquela estrada, pois,
por minha fé, não faz muito que a deixei debaixo de uma árvore. E lá deve estar ainda, porque não
se assusta com as suas ameaças. Estão vendo aquele atalho? É lá que irão encontra-la. Adeus.
(O velho sai de cena e os três rapazes seguem para o local indicado).
RAPAZ 2- Morte dos infernos, apareça.
RAPAZ 1- Para de gritar, meu irmão. Temos que pega-la de surpresa.
RAPAZ 3- Deve ser este local.
RAPAZ 2- Não vejo nada. Nem sombra dela.
RAPAZ 1- Vamos procura-la. Você por ali e você, por lá.
(Os três procuram a morte sem nada encontrar).
RAPAZ 3- (Gritando) Pelos cravos da cruz! Vejam o que eu encontrei, irmãos.
(Os outros dois correm ao seu encontro).
RAPAZ 3- É ouro! Moedas de ouro.
RAPAZ 2- (Gritando) Pela salvação da minha alma, estamos ricos!
RAPAZ 1- Parem de gritar. Vocês querem que alguém nos ouça?
(Os três examinam o tesouro encontrado).
RAPAZ 1- Irmãos, prestem muita atenção ao que vou dizer, porque, se é verdade que gosto de folia
e de jogos, também tenho a cabeça no lugar: a fortuna nos deu este tesouro para passarmos o resto
da vida na diversão e na alegria...
RAPAZ 3- Pelos ossos do Senhor, quem diria que hoje iríamos receber tamanha graça?
RAPAZ 1- ...No entanto, a nossa felicidade só será completa quando pudermos levar este ouro para
a minha casa.
RAPAZ 2- Para sua casa?
RAPAZ 3- É, porque para a sua casa?
RAPAZ 1- Ou para a de vocês, não importa. A verdade é que não podemos fazer isso durante o dia.
Se formos pegos, seremos acusados de ladrões e enforcados por estarmos com o que é nosso.
RAPAZ 2- Então temos que transporta-la à noite, às escondidas.
RAPAZ 3- É, e com o máximo de cuidado.
RAPAZ 1- Muito bem, se vamos passar todo o dia por aqui, é de bom grado que um de nós vá
correndo à cidade, o mais depressa que puder e sem dizer nada a ninguém, comprar pão e vinho
para nós. Enquanto isso, os outros dois ficarão discretamente por aqui, tomando conta do tesouro.
RAPAZ 2- De acordo.
RAPAZ 1- Então, vamos tirar a sorte na palha.
(O rapaz nº2 é sorteado).
RAPAZ 1- (Para o Rapaz 2) Irmão, você foi o escolhido.
RAPAZ 3- É.
RAPAZ 2- Já entendi. Vou e volto, o mais rápido que puder. Muito cuidado com o nosso ouro,
irmãos. (O rapaz nº2 sai se cena).
RAPAZ 1- (Para o rapaz 3) Você sabe que jurei ser seu irmão, e que, por isso mesmo, farei o que
puder para ajuda-lo a progredir na vida, não sabe?
RAPAZ 3- Sei, sim.
RAPAZ 1- Estive pensando. Nosso companheiro se foi, e aqui está todo este ouro, esta pilha
enorme, que tem que ser repartida entre nós três.
RAPAZ 3- É.
RAPAZ 1- Estive pensando. Você não acha que eu já lhe estaria prestando um favor se lhe
mostrasse um jeito de dividirmos tudo isso apenas entre nós dois, que tal?
RAPAZ 3- Não consigo imaginar como. Ele sabe que o ouro ficou conosco. O que poderíamos
fazer? E o que diríamos a ele?
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RAPAZ 1- Você jura guardar segredo?
RAPAZ 3- Pela dignidade do Senhor, é claro que sim. Eu não iria trair a sua confiança.
RAPAZ 1- Vou dizer-lhe, em poucas palavras, como fazer as coisas e resolver o problema. Preste
atenção:
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Enquanto isso, o outro rapaz, a caminho da cidade, levava na
lembrança a beleza daqueles florins novinhos e brilhantes, que passavam e repassavam em sua
mente. E quanto mais lembrava, mais os desejava. E quanto mais os desejava, mais queria-os só
para si. Achava que ninguém seria feliz mais feliz do que ele, se pudesse ter todo aquele ouro, sem
ter que reparti-lo com mais ninguém. “RADIZ MALORUM EST CUPIDITAS”. Foi então que o
demônio, o nosso inimigo, incucou-lhe a idéia de como se livrar de seus camaradas, realizando,
assim, todas as suas ambições. Com isso em mente, apressou o passo em direção à cidade, à taverna
mais próxima, onde comprou o que lhe havia sido encomendado. Isso feito, e após ter
providenciado o necessário para a execução de seu plano maléfico, rumou de volta para junto de
seus companheiros.
(O rapaz 2 entra em cena carregando duas garrafas de vinho e dois pedaços de pão).
RAPAZ 2- Irmãos, estou de volta.
RAPAZ 1- Alvíssaras!
RAPAZ 3- É, alvíssaras.
RAPAZ 2- Trouxe o pão e ovinho. Vamos comemorar.
(Assim que o rapaz 2 dá as costas, o rapaz 3 lhe enfia uma faca nas costas, seguido pelo rapaz 1,
que lhe esfaqueia a barriga).
RAPAZ 1- Morreu como um passarinho.
RAPAZ 3- É, morreu mesmo.
RAPAZ 1- Agora vamos sentar-nos um pouco e comer e beber e festejar.
RAPAZ 3- E o corpo?
RAPAZ 1- Depois enterraremos.
RAPAZ 3- É.
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- E assim fazendo, entre pragas e risos de escárnio, os malditos
se refastelaram, comendo e bebendo à farta, sem saberem que em muito pouco tempo ambos
estariam mortos. O vinho estava envenenado. “RADIX MALORUM EST CUPIDITAS”. “cobiça é
a raiz de todos os males”. E assim, senhores, acabaram-se as vidas daqueles dois homicidas, e
também a de seu envenenador traiçoeiro. Oh pecado maldito de completa danação! Oh maldade!
Indecente e perjuro blasfemador de Cristo, nascido do vício e da soberba! Ai, humanidade, como
pode você ser tão cruel para com o criador? (interrompendo) E agora, senhores, que Deus perdoe as
faltas de vocês. Mas acautelem-se todos contra o pecado da avareza. Aproximem-se, senhores, basta
que ofereçam algumas libras que seus nomes serão incluídos aqui na minha lista, e suas almas
entrarão na glória do Paraíso. Minhas santas indulgências poderão salva-los... Creio que o primeiro
a ser atendido será o nosso Albergueiro. Dê um passo a frente, senhor, e permitirei que beije todas
as minhas relíquias.
ALBERGUEIRO- Fora, ichacorvo! Isso é que não. Não quero a maldição de Cristo sobre mim!
Pelo Deus que me vê, nessa eu não caio.
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Que Jesus Cristo, o sanguessuga espiritual que cura as nossas
almas, lhe garanto o seu perdão.
ALBERGUEIRO- Você quer que eu beije as suas velhas relíquias? Pela cruz de Cristo encontrada
por Santa Helena, em vez de relíquias, o que eu gostaria de ter nas mãos são seus culhões. (Para os
peregrinos) Vamos cortá-los?
CHAUCER- Agora deixem disso; vocês já foram longe demais. Senhor vendedor de indulgências,
acalme-se, volte a sorrir. Senhor Albergueiro, a quem tanto prezo, vamos, dê um beijo no vendedor.
Homem dos perdões, aproxime-se, por favor.
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Ora, está bem. (Os dois se beijam).
ALBERGUEIRO- Prometo que não vou nunca mais fazer brincadeiras com você, nem com
ninguém mais que fique zangado com qualquer coisinha.
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VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Está perdoado.
FEITOR- Senhor Albergueiro, quer dar-lhe os parabéns. O senhor recebeu o perdão de um
vendedor de indulgências sem nada pagar em troca.
(Todos riem).
ALBERGUEIRO- Agora chega! Vamos, senhor Feitor, agora é sua vez. Conte-nos alguma história
engraçada. Vamos nos divertir.
MOLEIRO- Que seja uma história obscena. Já estamos cansados de pregações e assuntos morais.
MERCADOR- Isso mesmo, apoiado. Quanto mais indecente melhor.
MOLEIRO- Sexo! Queremos ouvir histórias de sexo.
PIORESA- Por Santo Elói! Porque isso agora? Há muitas outras coisas sobre o que falar.
FEITOR- Acontece, senhora Prioresa, que para nós, os velhos, há prazeres que a idade não permite
mais. Assim, como não mais podemos fazer sexo, divertimo-nos falando dele, como que a revolver
as cinzas em busca do fogo antigo.
MERCADOR- Alto lá, senhor Feitor. Nossos velhos membros podem estar entravados, mas os
desejos lá dentro não fraquejam nunca, e é isso que interessa. Enquanto o mundo tocara para nós,
nós dançaremos.
ALBERGUEIRO- Onde vamos parar com toda essa conversa? (Para o feitor) Conte logo a sua
história, homem. Chega de perder tempo.
FEITOR- Bem, senhores, espero que ninguém se zangue, mas é chegada a hora. Estive quieto todo
o tempo esperando uma oportunidade para retribuir as caçoadas que recebi. Este Moleiro nos
contou como um carpinteiro foi corneado. Provavelmente fez isso para mofar de mim, porque sabe
muito bem que eu exerci aquele ofício. Agora, com sua permissão, vou devolver o que lhe devo, e
nos mesmos termos chulos que ele usou, porque é com a brutalidade que se repele a brutalidade.
Pois vou contar como passaram a perna em um moleiro metido.
Em Trumpington, não longe de Cambridge, vivia um moleiro exibicionista e vaidoso como
um pavão. Além disso, era também um sorrateiro ladrão de trigo e de farinha, useiro e vezeiro em
lesar os seus fregueses. Era casado com uma mulher de família nobre. O pai dela era nada menos
que o pároco da cidade. No dia em que se casou, trouxe como dote uma grande coleção de panelas
de cobre. O casal tinha uma filha de vinte anos e nenhum filho mais, exceto uma criança de seis
meses, um bebê gorducho que ainda não saíra do berço. Este Moleiro, sem dúvida, auferia bons
lucros da moagem do trigo e do malte de toda aquela região. Um de seus melhores fregueses era
uma grande escola da Universidade de Cambridge, conhecida como “SOLAR HALL”. Um dia,
porém, aconteceu que o provedor encarregado de levar o trigo e o malte daquela escola para a
moedura,caiu doente da noite para o dia, ficando impossibilitado de cumprir suas funções. Em vista
disso, o moleiro, que tinha por nome Simon, passou a roubar trigo e farinha cem vezes mais do que
antes roubava. O diretor da escola protestou, mas o moleiro Simon não fez o menor caso de suas
queixas. Foi então que dois estudantes da escola de que falei, John e Alan, jovens turrões que
gostavam de aventuras e diversão, pediram ao diretor que lhes desse autorização para irem ao
moinho supervisionar a moagem de trigo, garantindo que dariam seus pescoços se o moleiro ficasse
com meio punhado de trigo a mais do que permitia a taxa de serviço. Com a autorização do diretor,
puseram-se a caminho, levando no dorso dos cavalos dois sacos de trigo. Assim que chegaram,
Alan, com intimidade, foi logo dizendo. “Bom dia, Simon. Como vai?”
(Em cena, no moinho, John, Alan, Simon e sua mulher).
SIMON- Alan! Bem vindo. Por minha vida! E John também?
JOHN- (Para a mulher) Bom dia, senhora. E como está sua linda filha?
MULHER- Cada vez mais linda.
SIMON- Que novidade é essa? Que fazem por aqui?
ALAN- Por Deus, Simon, a necessidade não tem amigos.
JOHN- Como é de costume se dizer, “quem não tem quem o sirva deve ser o seu próprio criado”.
MULHER- Não entendi.
ALAN- Nosso provedor, coitado, pelo jeito como range os molares está mais morto do que vivo.
JOHN- Por isso é que eu e o Alan nos encarregamos de trazer o trigo e levar a farinha.
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MULHER- Agora entendi.
JOHN- Será que você poderia apressar o serviço?
ALAN- Não podemos nos atrasar.
SIMON- É claro que sim. Mas os que vão ficar fazendo enquanto trabalho?
ALAN- Por Deus, acho que vou ficar aqui mesmo, grudado à tremonha, olhando o trigo escorrer lá para
dentro. Juro por meu pai que nunca vi uma tremonha funcionando, com seu balanço para cá e para lá.
JOHN- Então eu vou ficar mais embaixo, vendo a farinha cair na gamela. Esse vai ser o meu
passatempo. Palavra, Alan, nesse ponto somos iguais. Eu também nunca vi como é que um moleiro
trabalha.
MULHER- É nisso que dá estudar.
SIMON- Está bem, rapazes, podem ficar.
MULHER- (Para os dois com ironia) E que Jesus fique convosco.
SIMON- (Para os dois) Se me dão licença, tenho algo que resolver lá fora. Mulher, me acompanhe.
(O casal se afasta).
MULHER- (Sussurrando) Você vai deixar que eles fiquem? E o nosso lucro, homem?
SIMON- Estão querendo bancar os espertinhos, não é? Pensam que ninguém é capaz de tapeá-los,
mas vão ver. Escute bem, e faça o que eu disser. Lá estão os seus cavalos, atados naquela árvore.
Vá até lá, tire o cabresto dos animais e solte-os no brejo, junto ás éguas selvagens. O resto faço eu.
MULHER- E o que vai fazer?
SIMON- Você vai ver. Os homens mais sabidos não são os mais estudados. Estou pouco me
importando com a sua cultura. Quanto mais artimanhas arquitetarem, mais farinha vou roubar deles.
Agora vá e faça o que eu mandei.
(A mulher sai de cena. O moleiro volta para junto dos estudantes).
SIMON- E então, estão se divertindo?
JOHN- Maravilha!
ALAN- Quanto mais se vive, mais se aprende.
SIMON- Ah, meu rapaz, o melhor ainda está por vir.
(Entra em cena Molly, a filha do moleiro. A moça é rechonchuda, tem quadris largos e seios
grandes).
MOLLY- Paizinho, a mãe mandou dizer que os ca...
SIMON- (Interrompendo) Rapazes, vejam, é minha filha, Molly.
JOHN- Como vai, senhorita?
MOLLY- Bem, obrigada. (Para o moleiro). Paizinho a mãe mandou dizer...
SIMON- (Interrompendo) E o senhor Alan, filha? Cumprimente o senhor Alan.
MOLLY- Como vai?
SIMON- Ela não está linda? Vamos, diga a verdade, Alan.
ALAN- Linda como uma flor.
JOHN- Como uma flor do campo.
MOLLY- (Vaidosa) Os senhores acham?
SIMON- Em nome de Cristo, é claro que sim, filha. (Para os dois) Rapazes, esta minha filha é o
meu maior tesouro. Pura de corpo e alma, virgem como pão de trigo refinado. Uma coisinha nova,
na flor da existência, prontinha para ser moldada no formato que se quiser. Feliz do homem que a
desposar. Enquanto isso, eu a guardo a sete chaves. Não a quero por aí, junto às más companhias.
JOHN- Pela estirpe de meu pai, você está coberto de razão, Simon.
ALAN- Cristo, por certo, há de recompensar quem pensa assim.
SIMON- Afinal, as meninas podem esperar um pouco, deixando para perder o acanhamento quando
se casam.
MOLLY- Paizinho, a mãe...
SIMON- Não nos interrompa, filha. Não vê que estamos trabalhando? Vá lá para fora ajudar a sua mãe.
(Molly sai da cena).
SIMON- Prontinho, rapazes. Todo o trigo já está moído.
ALAN- John, vá lá fora e traga os cavalos, enquanto ensacamos a farinha. (John sai da cena).
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ALAN- Amigo Simon, não sei como lhe agradecer. Se não fosse por sua boa vontade...
SIMON- Ora Alan, para que servem os amigos, afinal? Só recomendo que se apressem, pois já está
anoitecendo.
(John entra em cena gritando).
JOHN- Socorro! Socorro! Oh, que azar! Nossos cavalos fugiram. Alan, pela Santíssima Trindade,
corra até aqui, mexa-se!
ALAN- O que? Para que lado eles foram?
(Entra em cena a mulher de Simon).
MULHER- Que pena! Os cavalos de vocês correram a todo golpe para o brejo, atrás das éguas
selvagens. Maldita a mão que os prendeu! Deviam aprender como se amarra uma rédea. É nisso que
dá estudar.
JOHN- Bendito seja Nosso Senhor que me deu alma e vida. Perdemos os cavalos do diretor.
ALAN- Pela santa mãe de Cristo, você é mesmo um burro! Não fique aí parado. Vamos para o
brejo procura-los.
(Os dois saem de cena).
SIMON- (Para a mulher) O homem mais inteligente do mundo é aquele que não se preocupa em
saber quem tem o governo do mundo.
MULHER- Deixe de conversa, homem, e trate de retirar o que nos cabe desses sacos.
(Entra em cena Molly. Simon e a mulher retiram parte da farinha dos sacos).
MOLLY- O que está acontecendo por aqui? Aqueles dois estudantes correram em direção ao brejo,
mais rápido do que cabrito montês.
MULHER- Vamos, menina, ajude-nos com isso. Temos que tirar o que nos pertence antes que eles
voltem.
SIMON- Acalme-se mulher, não vai ser fácil pegar aqueles bichos.
(Molly ajuda-os a retirar parte da farinha dos sacos).
SIMON- (Para a mulher) Pronto. Faça um grande bolo com essa farinha. (Para Molly) Os
estudantes estavam muitos desconfiados. Mesmo assim foram tapeados por um moleiro, apesar de
toda a sua leitura.
(Os estudantes entram em cena, ficando afastados, como se do lado de fora do moinho. Com as suas
roupas sujas e encharcadas do brejo, vem arrastando os cavalos de volta).
MULHER- Bem feito! Olhe, lá estão eles. (para os estudantes) Divirtam-se, crianças.
(A mulher sai da cena, levando a farinha roubada).
ALAN- (Tentando acalmar seu cavalo) Ô, Ô, devagar!
JOHN- (Tentando acalmar seu cavalo) Pare! Pare! Venha cá! (Para Alan) Cuidado, atrás!
ALAN- (Para John) Assobie de lá que eu cerco por aqui! Maldito o dia em que nasci!
JOHN- Ô, Ô, Ô! Que desgraça! (Para Alan) Depois desse fracasso, tudo o que nos espera é o pouco
caso e o desprezo.
ALAN- Não adianta ficarmos reclamando, John. Vamos prender os cavalos e pedir pousada ao
moleiro, pois já está anoitecendo.
JOHN- Ele vai é rir de nós, Alan.
ALAN- Todo mundo vai rir de nós. O diretor, os colegas e, principalmente, o moleiro. Não temos
outra saída, amigo. Nosso trigo foi roubado, nossas roupas estão encharcadas e, ainda por cima,
vamos ter que pagar pelo pernoite.
JOHN- Isto é, se o moleiro nos der abrigo.
ALAN- Não pense no pior, John. Prenda logo este animal e vamos enfrentar nosso destino.
(Os dois estudantes entram no moinho e encontram Simon e Molly os esperando).
SIMON- E então, rapazes? Nossa, como estão encharcados. (Irônico) Assim vocês acabam pegando
resfriado.
ALAN- Não brinque conosco, Simon. Nossa situação é crítica.
JOHN- Só agora conseguimos capturar os cavalos. Já está anoitecendo e não podemos mais seguir
viagem, a não ser pela manhã.
SIMON- Coitados, sinto pena de vocês. Parece que a noite será bem fria.
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ALAN- Pela Santa Mãe de Cristo, Simon, deixe-nos pernoitar por aqui, amigo.
JOHN- É só por uma noite Simon.
SIMON- Não sei não, amigos, a coisa não é tão simples assim.
MOLLY- Ajuda eles, paizinho.
SIMON- Oh, que santa criaturinha, confirmada na virgindade. Vejam, rapazes, como flui fácil a
piedade nos corações gentis. Os inocentes nada sabem das coisas práticas da vida.
ALAN- Nós pagaremos por este benefício, Simon. Temos conosco o suficiente.
SIMON- Então, vá lá, está bem. (Para a filha) Tudo o que meu tesouro quiser.
ALAN- Obrigado, amigo. Pelas chagas de Nosso Senhor, não permita Deus que sua alma se dane.
SIMON- O que tenho é pouco, mas, se não fizerem questão está às suas ordens.
JOHN- Não se preocupe, caro amigo, não somos exigentes.
SIMON- A casa é pequena, mas, como vocês estudaram filosofia, devem estar acostumados, com
seus argumentos sutis, a transformar lugarzinhos de vinte pés em recintos com uma milha de
largura. Se o que ofereço não bastar, criem espaço com o palavreado, como de hábito.
JOHN- Foi uma boa resposta, Simon. Gosto de gente brincalhona.
ALAN- É como dizem: “Não há muito o que escolher; ou se toma o que se traz, ou se toma o que se
encontra”.
MOLLY- Não entendi.
JOHN- Virgem Maria!
SIMON- Vamos deixar as figuras de retórica e os floreios para os documentos de estilo, amigos.
Por Deus, agora não é hora de pensar em estudo. (Chamando a esposa) Mulher! (Entra em cena a
mulher).
MULHER- Chamou, Simon?
SIMON- Mulher, nossos amigos vão passar a noite conosco.
MULHER- O quê? Você ficou louco, homem?
SIMON- Acontece, mulher, que a quarta parte deste dia já se foi. Não é mais possível que eles
sigam a viagem a estas horas.
MULHER- Que o raio enfurecido e o relâmpago de fogo lhes partam os pescoços. Você não sabe
que só temos um quarto nesta casa, homem? Onde, acaso, pretende que eles durmam? Em nossa
cama? Não é não. Que o diabo mais vermelho e medonho os levem. É a minha palavra final.
SIMON- Eles pagarão pelo pernoite.
ALAN- Veja, senhora, dê uma olhada em nosso dinheiro. Temos tudo isto para gastar.
MULHER- Pela alma de meu pai, parece que já está tarde mesmo, não é? (Para Molly) Vamos,
menina, não ouviu o que seu pai disse? Nossos amigos vão passar a noite conosco. Vá até o quarto,
arrume tudo e providencie o necessário para que eles durmam bem confortáveis. Vá logo, vá.
(Molly sai de cena).
MULHER- (Para os estudantes) Ah, rapazes, as mulheres nasceram para a servidão e o sofrimento,
tendo que curvar-se aos desejos do marido. (Para o moleiro) E então, Simon? O que faz aí parado?
Vá pegar uma cerveja bem forte para os nossos convidados. Acaso quer que eles morram à míngua,
homem? (Simon sai de cena).
MULHER- (Para os estudantes) Ah, rapazes, os homens só sabem mandar, mas se não fosse por
nós, mulheres, pelo amor de Cristo, nada seria feito.
(Simon entra em cena, trazendo cerveja).
SIMON- Aqui está. Cerveja forte da melhor. Alan, John, não façam cerimônia, sirvam-se. Temos
que retemperar nossas forças. Vamos, mulher, molhe o bico você também.
(Molly entra em cena).
MOLLY- Mãe o quarto já está pronto. Enchi a caixa de feno e um saco de palha. O bebê já está no
berço e os lençóis bem estendidos.
MULHER- Pelo visto, nossos convidados vão dormir num colchão de penas.
JOHN- Obrigado, senhora, não sabemos como agradecer tanta gentileza.
SIMON- Não se preocupem, rapazes. Tudo já está acertado.
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MULHER- É como eu sempre digo; “O juízo é sempre misericórdia para aquele que não usou de
misericórdia”. Eu, da minha parte, sempre optei para dar auxílio a quem precisa.
ALAN- (Pensando alto) Bendito seja Nosso Senhor que me deu alma e vida!
SIMON- O que foi que você disse, Alan?
JOHN- (Disfarçando) Nada, nada, Ele está só... orando.
SIMON- Muito bem, isto quer dizer que já é hora de todos irmos dormir.
ALAN- É! Acho uma ótima idéia. Amanhã teremos uma longa jornada pela frente.
(Se dirigem para o quarto).
MULHER- É como dizer, no seio da arraia miúda. “A farra e a responsabilidade nunca entram em
acordo”.
JOHN- A senhora tem toda razão.
(Entram no quarto, onde se vê, três camas. Uma para o casal, outra para Alan e John e outra para
Molly. O bebê está deitado num berço de madeira).
MULHER- Aqui estamos! É apertado mas haveremos de nos arrumar.
(Puxa o berço do bebê para junto de sua cama. Com o movimento, o bebê acorda e, assustado,
começa a berrar. Enquanto todos trocam de roupas, a mulher, com o bebê no colo, embala-o,
tentando faze-lo dormir. Todos se deitam, menos a mulher, que continua embalando a criança, que
não para de berrar. Alan e John, apertados numa mesma cama, se viram de um lado para o outro,
sem conseguir dormir. Após algum tempo de choradeira, o bebê vai se acalmando. Simon e Molly
já adormeceram. O bebê pega no sono e a mulher o põe de volta no berço, indo se deitar em
seguida. Depois de um breve silêncio, Alan e John, que a pouco haviam adormecido, são
despertados com o ronco de Simon, seguidos pelos da mulher).
ALAN- (Sentado na cama) Pela bendita cruz de Cristo! (cutuca John, que continua deitado) Você
está dormindo?
JOHN- (Sentado na cama) E como eu poderia?
ALAN- Escute só. Já ouviu alguma vez um ORGANUM com esse? Acho que estão rezando as
orações da noite.
JOHN- Tomara que a erisipela tome conta deles!
(Molly começa a roncar também).
ALAN- Agora é um TRIPLUM! É possível uma coisa dessas? Oh, John, a nata da desgraça é pouco
para esta família.
JOHN- Que Jesus lhe encurte os dias!
ALAN- Sei que esta noite não vou conseguir pregar o olho.
JOHN- Será mais fácil a vida deixar este meu corpo.
ALAN- Mas não faz mal. Pelo contrário, isso até poderá ser muito bom.
JOHN- Você ficou louco?
ALAN- Por minha alma, John, se eu puder, vou dar uma trepada na moçoila.
JOHN- Você ficou louco!
ALAN- John, é a própria justiça que nos dá direito à desforra. Roubaram trigo e, além de termos
passado maus bocados neste dia, ainda vão levar nossas economias. Eu tenho mesmo é que tirar
minha desforra. Por Deus, é assim que vai ser!
JOHN- Alan, cuidado! O moleiro é um homem perigoso e, se de repente ele acordar, vai ser o fim
do mundo para nós.
ALAN- Estou pouco me importando!
(Alan se levanta e se esgueira para a cama da jovem que, deitada de costas, dorme profundamente.
Sobe em cima dela e começa a “trabalhar”).
JOHN- Ai de mim, que enrascada! Agora ficou bem claro que eu sou mesmo um idiota. Meu
companheiro pelo menos, vai ter uma compensação pelo mal que lhe fizeram, enquanto eu continuo
jogado nesta cama como um saco de merda. Por Deus, eu também tenho que tentar a sorte.
(Nesse momento, a mulher se levanta da cama, ainda sonolenta, e passa pela cama da filha, sem
nada a perceber, em direção ao banheiro. John se levanta, vai até o berço do bebê e arrasta-o de
mansinho para o pé de sua cama, voltando a se deitar. Quando a mulher volta, vem tateando na
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escuridão, até encontrar o berço do bebê, aos pés da cama de John. Confiante de haver chegado em
sua cama, levanta a coberta e se deita ao lado do estudante, se ajeitando bem juntinho a seu corpo.
O rapaz, então, sobe em cima da mulher e começa a “trabalhar”).
MULHER- (Sussurrando) Ai, querido, faz tempo que você não paga seu tributo de forma tão
vigorosa. O que deu em você, Simon? Continue pare não.
(Os dois estudantes ficam, durante um bom tempo, “trabalhando”, mãe e filha. Alan, então, dá-se
por satisfeito, enquanto John continuava se divertindo).
ALAN- (Para Molly) Adeus, Molly, minha doçura! Logo o dia vai raiar, não posso mais ficar aqui.
Mas quero que você saiba que não importa onde estiver, sempre vou ser o seu fiel estudante!
MOLLY- Então vá, meu amor! Antes, porém, preciso dizer-lhe uma coisa; quando você for, ao
passar pelo moinho, lembre-se de que, atrás da porta dos fundos, irá encontrar um bolo, feito com a
farinha que meu pai roubou de vocês. Meu amorzinho, que Deus o acompanhe e proteja.
(Alan se levanta e se dirige para a cama. Ao chegar, esbarra no berço do bebê, ao lado dela).
ALAN- (Achando estar na cama do Moleiro) Por Deus, errei o caminho! Acho que o exercício
desta noite me deixou com a cabeça atordoada! Ainda bem que o bercinho me alertou.
(Alan dá meia volta e se dirige para a cama do casal, pensando, então, ser a sua. Enquanto isso,
John e a mulher de Simon, continuam se divertindo).
ALAN- (Deitado na cama do Moleiro) Oh, cabeça de porco, acorde John. Escute só a história que
tenho para lhe contar. (O moleiro desperta, sem nada entender) Juro por São Tiago que nesta curta
noite consegui dar nada menos três belas trepadas na filha do moleiro, enquanto você ficou aqui
tremendo de medo como um patife.
SIMON- (Agarrando Alan pelo pescoço) O quê? Você fez isso, vagabundo? Pela honra de Cristo,
vou mata-lo! Como teve coragem de conspurcar minha filha, uma moça de família? (Os dois se
agarram e começam a brigar).
MULHER- (Interrompendo o divertimento) Com mil demônios! (Para John) O que está
acontecendo, Simon?
(Alan e Simon caem da cama e rolam, engalfinhados, pelo chão).
MULHER- Santa Cruz de Bromeholm! São os malditos estudantes que estão brigando! Eles me
pagam.
(A mulher salta da cama, vai tateando até a porta do quarto, e pega um cajado que está encostado na
parede. Em seguida parte para cima dos dois, desferindo um golpe violento que atinge a cabeça do
marido).
SIMON- (Levando uma bordoada na cabeça) Socorro! Estou morrendo. Acudam-me !
(John pula da cama, pega suas roupas e as de Alan e arrasta o companheiro, ainda meio atordoado,
para fora da casa. Os dois saem de cena, enquanto o moleiro continua gritando).
FEITOR- Depois de vestirem suas roupas e apanharem sua farinha, os dois montaram os cavalos e
se afastaram dali, rapidamente. Ainda por cima, ao passarem pelo moinho, levaram aquele bolo,
assado com tanto capricho pela mulher. Dessa forma, o moleiro espertalhão levou uma bela tunda.
Além de ter moído a farinha de graça, ficou sem o dinheiro do pernoite e, ainda, teve que arcar com
a despesa das cervejas de Alan e John. E, o que é pior, comeram a mulher dele e a filha dele
também. Eis aí no que dá ser um moleiro desonesto.
(Todos os peregrinos riem).
FRADE- (Para o feitor) Peço a Deus que nos traga muitas dores e desgraças se não for verdade que
nunca ouvi falar de um moleiro que tivesse sido tão judiado.
OFICIAL DE JUSTIÇA- O homem levou mesmo uma bela lição nesse negócio de hospedagem.
PIORESA- Por Santo Elói! Pobre criatura.
FREIRA- Se já não bastasse o pagamento na mesma moeda, tinham ainda que macular os corpos de
suas mulheres? Com isso não podemos concordar.
FEITOR- O que esperava, Senhora? Que eles rezassem o terço?
FREIRA- Consciência boa e fé! Eis o que eu esperava.
PADER JOHN- Senhores, não tem decência um homem que se diverte com uma mulher sem o
propósito de procriar, nas virtudes do matrimônio.
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MERCADOR- Por São Simão, Padre, e quem falou em matrimônio? Nossa carne, maldita seja, está
sempre pedindo novidades, de modo que não achamos graça nas coisas que, de alguma forma,
condizem com a virtude.
CRIADA- Feche a boca, homem, pela alma de seu pai, senão o diabo do inferno vai acabar
entrando por aí adentro.
MOLEIRO- (Para a prioresa, a criada e a freira) Qual a causa, Senhoras, de tanto alvoroço? Eu
mesmo, que fui o alvo do escárnio, não estou importando. É só uma fábula e nada mais.
FREIRA- Pois saiba, senhor, que São Paulo, na epístola a Timóteo, condena quem se afasta da
verdade, contando fábulas ou outras bobagens sem sentido.
VENDEDOR DE INDULGÊNCIAS- Em minha opinião, senhores, acredito, por Santo Urbano e
seus diáconos, que o moleiro desonesto teve o merecido.
PIORESA- Por Santo Elói! O senhor está dominado pelo signo da bebida. De todas as espécies de
vício, a pior é a embriaguez, que é horrível sepultura da razão.
MULHER DE BATH- É como se costuma dizer: “Quem conserva a língua muda, conserva as
amizades”.
FEITOR- O que quis nos dizer com isto, senhora?
MULHER DE BATH- Que uma língua ferina é pior que mil demônios. O Criador, na sua infinita
bondade, cercou a língua com dentes e com lábios, para que o homem pudesse melhor controlar a
emissão de suas palavras. Portanto, a maior virtude consiste em guardar e dominar a língua: “Pouca
conversa, muito sossego”.
FRADE- E acaso, senhora, não temos o direito, então, de expressarmos nossas opiniões?
OFICIAL DE JUSTIÇA- Por que é que os Frades têm que se intrometer em tudo?
ALBERGUEIRO- Por Santo Egídio! Que a luz da razão me abandone! (Todos discutem ao mesmo
tempo; o Frade, com o oficial de Justiça; o Feitor, coma mulher de Bath; a prioresa, com o
mercador; as duas freiras, com o vendedor de indulgências. Padre John fica observando o
Albergueiro que tenta acalmar os ânimos. Chaucer se dirige para a platéia.)
CHAUCER- (Para a platéia) E foi assim, senhores, que nossa alegre comitiva seguiu sua viagem,
até Cantebury, ao Santuário do bendito São Tomás. No caminho, ainda pudemos ouvir muitas
outras histórias interessantes que, devido ao avanço da hora, não poderei aqui vos contar, pois é
certo que os senhores tem muito o que fazer, e, de uma certa forma, eu também. Agora, peço a
todos que ouviram este pequeno tratado que, se alguma coisa de seu agrado houve aqui, agradeçam
por isso a Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual procede todo talento e toda virtude. E, por outro lado,
se houve algo que os desagradou, peço que os debitem às limitações de minha competência, e não à
minha vontade, pois eu certamente teria me expressado melhor se soubesse como faze-lo. Tudo o
que está escrito, está escrito para a nossa edificação, e foi isso que pretendi.
(Chaucer volta para junto dos peregrinos, que continuavam discutindo).
ALBERGUEIRO- (Interrompendo as brigas com um grito) Chega! Vamos parar com isso! (Todos
se calam, assustados com os gritos) Pela Rainha do Céu, a misericordiosa mãe de Deus, eu lhes
suplico, não vamos perder mais tempo!
CHAUCER- Senhor Albergueiro, é seu o bastão de comando!
ALBERGUEIRO- Então vamos em frente, senhores, pois ainda temos muito o que caminhar.
(Toda a comitiva segue cantando).
MÚSICA
BEBO EU, BEBE O MUNDO
BEBEM CEM, BEBEM MIL
BEBE TODO O VAGABUNDO
FIM
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