Quando a Vida é Uma Bobagem
Caio Fábio
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Quando a vida é uma bobagem
Palavra do Pregador, filho de Davi, rei de
Jerusalém:
Vaidade de vaidades! Diz o Pregador: “vaidade de
vaidades! Tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho
com que se afadiga debaixo do sol?" Eclesiastes 1:1
Essa é uma boa pergunta.
Se eu tivesse que colocar um nome nesse livro de
Eclesiastes enquanto o livro questiona a existência e a
expõe ao ridículo, eu colocaria o seguinte título:
"Quando a vida é uma bobagem".
Porque vaidade, segundo o entendimento de
Salomão, não é essa vida empavonada, nababesca e
brilhosa, conforme a conotação que a palavra vaidade
ganhou nos nossos dias. Quem lê Eclesiastes com um
pouco de atenção, observa que para Salomão, vaidade é
bobagem, é besteira, é tolice. Ele diz: 'Tudo é bobagem, a
vida é bobagem, tudo é tolice, é bobagem de bobagens."
Na realidade, o que Salomão está dizendo, é que a
vida humana, a existência humana, para se transformar
em vida, precisa encontrar significado, precisa encontrar
sentido, senão é apenas a trágica e lúgubre trajetória de
uma existência, mas que não se transforma em vida
porque não descobre profundo e real sentido para
existir.
Salomão buscou esse sentido .Talvez tenha sido um
dos homens no curso da história, mais frenéticos, mais
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desfrutadores nessa busca, nesse desejo incontrolável de
encontrar um significado real para a existência. Ele fez
isso olhando para a vida sem o referencial divino. A
preocupação de Salomão no livro de Eclesiastes, é ver a
existência sem metafísica, sem justificativas anteriores,
sem se preocupar tanto com aquilo que possa atribuir
ao que existe um significado que exista antes da
fundação de todas as coisas. Ele olha para a vida como
vida, para coisa como coisa, para os fatos como fatos.
Por causa disso, Salomão talvez tenha que ser
classificado enquanto está nessa busca filosófica como o
primeiro existencialista da história da humanidade,
olhando para as coisas como coisas, procurando sentido
para cada uma delas. Por isso, a análise, o destrinchar,
o bisturi do pensamento de Salomão que abre a vida, é
eminentemente filosófico e existencial. Salomão fez uma
viagem existencial à procura da vida, de algo que fizesse
sentido, ou de algo que desse significado à existência. E
nessa sua viagem, nessa sua peregrinação como viajor
da vida procurando algo que realmente desse significado
à nossa maneira de viver, ele diz que tentou pelo menos
sete caminhos:
O primeiro deles, foi a euforia descomprometida,
alegria, os festejos, o carnaval, o "reveillon", as
discotecas, ou seja, tentou tudo que podia produzir num
certo sentido, aquela euforia descomprometida na sua
vida, a alegria. (Ec 2.1-2)
E a conclusão que ele chegou é trágica. Do riso, ele
disse: "É loucura. Ficar achando graça é besteira". E
mais ainda. Da alegria ele perguntou: "De que serve?".
Em segundo lugar, ele diz que tentou a boêmia, o
vinho. Enchia a cara, mas sem perder a lucidez, (v. 3)
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Ele queria ver se aquele estado de embriagues podia
conduzi-lo a alguma percepção da sabedoria. Fez parte
de rodas de cerveja, sentou com os amigos e bebeu
muito vinho. Hodiernamente, Salomão teria sido um
indivíduo que fez uma incursão profunda no mundo das
drogas, do LSD, tentando ver se sua mente se
sensibilizava para descobrir alguma coisa pela sabedoria
em meio à embriagues, que lhe atribuísse significado à
sua existência.
Em terceiro lugar, ele diz que tentou as grandes
realizações, (vs. 4,5,6)
Empreendeu grandes coisas. Construiu casas,
plantou vinhas, plantou pomares, regou jardins,
construiu açudes, caiu na megalomania
desenvolvimentista e ficou com aquela ansiedade de se
transformar no maior de todos os empresários do
mundo.
Em quarto lugar, ele tentou se satisfazer na
existência como um grande empregador, (v. 7)
Teve servos, servas, muitos sob o seu comando.
Tinha poder, e os homens estavam sob o seu domínio.
Mas isso também não lhe satisfez o coração.
Em quinto lugar, tentou como especulador do
mercado financeiro. (v.8)
Amontoou ouro, prata. Se fosse em nossos dias, ele
estaria com uma caderneta de poupança rechonchuda,
aplicando no overnight, vivendo de juros. Mas isso
também não lhe satisfez o coração.
Em sexto lugar, Salomão diz que tentou na música
e nas artes. Que ele se proveu de cantores e cantoras,
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que os artistas freqüentavam a sua casa, que ele
assistiu shows e tinha todos os discos da moda, sabia
todos os estilos e conhecia o melhor de toda música e de
toda arte. Mas isso não lhe satisfez o coração.
Em sétimo lugar, ele diz que tentou no sexo livre,
no amor livre, nas inúmeras mulheres. "Mulheres e
mulheres" (v. 8). Casou, descasou, teve casos e amizades
coloridas. Ao todo, setecentas mulheres princesas e
trezentas concubinas, mas isso não lhe satisfez o
coração. E após cada experiência, Salomão, foi ficando
numa terrível nostalgia em relação à vida. E a sua
conclusão sobre a existência humana e a sua trajetória
debaixo do sol é que, a vida humana não passa de uma
bobagem. Para Salomão, ao olhar a. vida de todas essas
óticas, de todas essas maneiras, de todos esses prismas,
de todas essas situações as quais ele se colocou, tendo
tido acesso a todos esses observatórios existenciais,
depois de ter visto de todos os lados, de todos os
ângulos, ele diz: "A vida é uma bobagem". E o que foi
que ele viu na vida debaixo do sol, sem o referencial de
Deus, que o fez concluir que a trajetória humana,
enquanto homem, no curso da própria história, não
passa de vaidade de vaidades?
Em primeiro lugar, ele diz que a vida do sábio esta
sujeita às mesmas coisas que acontecem ao insensato, e
ambos são esquecidos após a sua morte. (Ec 2.14-17)
Tanto faz o sábio como o insensato, pois a ambos as
mesmas tragédias os acometem.
Em segundo lugar diz também que o trabalho do
homem pode ser herdado por um irresponsável que
desfaz o melhor dos seus labores, (vs. 18,19)
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De que adianta trabalhar, trabalhar, amontoar,
amealhar? Você morre, e ele diz: "Não sabe quem herda."
Pode ser um louco, e desfaz tudo o que você havia
construído com o melhor da sua vida, com a mais
intensa das suas forças.
Em terceiro lugar, o trabalhador nunca usufrui o
fruto do seu trabalho. (Ec 3.9,10)
Ele trabalha, dá de si, se esforça, mas vive nesse
continuísmo sem fim, nessa mesmice, nessa rotina que
não pára. Trabalha para comer, come para trabalhar,
trabalha para comer, come para trabalhar...e vai até a
sepultura nesse modelo de vida, cuja mesmice é a maior
força do enfado.
Em quarto lugar, ele diz que a maldade prevalece
sobre a justiça e sobre o juízo.
"Vi ainda debaixo do sol que no lugar do juízo
reinava a maldade, e no lugar da justiça, maldade
ainda." (Ec 3.16)
Em quinto lugar, o destino imediato e material dos
homens é exatamente idêntico ao dos animais, (vs.
19,20)
Homem e animal. Se nos abstrairmos do fato de que
um tem personalidade, e provavelmente de
materialidade e vida imortal, Salomão diz: "Olhando
para o homem como homem, como complexo orgânico e
para um cão, é tudo a mesma coisa".
Em sexto lugar, os oprimidos, são sempre os
oprimidos. E a história é sempre a mesma em relação às
opressões.
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"Vi ainda todas as opressões que se fazem debaixo
do sol: eis as lágrimas dos que foram oprimidos,
sem que ninguém os consolasse; vi a violência na
mão dos opressores, sem que ninguém os
consolasse." (Ec 4.1)
Em sétimo lugar, diz que a produtividade é o
resultado da competição e da inveja, e não do desejo de
construir coisas boas.
"Então vi que todo trabalho, e toda destreza em
obras, provém da inveja do homem contra o seu
próximo. Também isto é vaidade e correr atrás do
vento".
Em oitavo lugar, ele se decepcionou ao ver que o
poder não garante a boa lembrança na história. Ele
conta a experiência de um jovem político, que antes de
ser eleito era apreciado por muita gente. Mas depois de
eleito, foi inteiramente abandonado. Salomão parece
dizer que para alguns homens, o maior prestígio que se
lhes atribui à vida só acontece antes de serem eleitos,
enquanto são candidatos. Ele diz que o interminável
ciclo das explorações na política e na economia não tem
fim, e que todas as esperanças humanas sucumbem
diante dessa atroz realidade.
"Se vires em alguma província opressão de pobres,
e o roubo em lugar do direito e da justiça, não te
maravilhes de semelhante caso, porque o que está
alto tem acima de si outro mais alto que o explora,
e sobre estes há ainda outros mais elevados que
também exploram". (Ec 5.8).
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Ele constatou que as riquezas encontram sempre
corações insaciáveis, e que elas nunca satisfazem a alma
humana, (v. 10)
Em nono lugar, verificou o perigo da falência
financeira. Homens ganham, tornam-se ricos, guardam
fortunas, e num mau negócio podem por tudo a perder e
o trabalho de toda uma existência foi por água abaixo,
(vs. 13-15)
O rico pode ainda ser vítima de um golpe do baú.
Que adianta ser tão rico? Ele observou a experiência de
um homem que ganhou dinheiro, ficou muito rico, teve
bens e propriedades, mas foi um estranho que herdou
tudo aquilo. Quem sabe foi alguém que casou com a
filha dele?
Em décimo lugar, observou ainda o interminável
modelo existencial que vai do prato à boca.
"Todo o trabalho do homem é para a sua boca, e
contudo nunca se satisfaz o seu apetite." (Ec 6.7)
Foi a mesma coisa que o Sérgio Chapelin me disse
certa vez, numa conversa que tivemos sobre as coisas de
Deus, onde ao fim ele falou: "Estou cansado desse
modelo de vida que só vai do prato à boca. Preciso de
algo que dê significado maior à minha própria vida."
Exatamente a nostalgia de Salomão. Viver para comer e
comer para viver.
Salomão observou ainda outras contradições
humanas. Viu que a vida é bobagem por causa da ironia
da morte prematura do justo, ao passo que se observa
tantas vezes a longevidade do perverso. Essa ironia pôde
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ser observada de dentro de um carro há alguns anos
atrás. Meu irmão vinha de um sítio com outros dois
jovens da igreja, indo para o ensaio do coral, levados por
um motorista ao qual haviam pedido carona. Um
homem incrédulo, cheio de amantes, beberrão, a quem
eles não conheciam, mas em cujo carro entraram por
causa da carona. E no meio do trajeto o carro saiu da
pista. Meu irmão, que nunca se deitou com uma
mulher, morreu sem saber qual era o gosto de um beijo,
que nunca foi acariciado por uma pessoa a quem
amasse, que nunca teve experiências que podiam ser
marcadas e chamadas de devaneios e de coisas
estranhas a moralidade; morreu na hora. E o incrédulo,
amasiado, deixado da mulher, irresponsável com os
filhos, sobreviveu.
Salomão quando viu esse tipo de coisa disse: "A vida
é bobagem. Não faz sentido de maneira nenhuma." Disse
também que a vida não fazia sentido por causa da
frustração de que a grande descoberta do sábio, do
filósofo, é que a sabedoria está longe dele. (Ec 7.23,24)
Ficou frustrado quando descobriu pela sabedoria,
que a sabedoria das coisas dizia que a sabedoria era
inalcançável na sua totalidade. Que alguns homens têm
poder para fazer o que quiserem com a vida de outros
homens, de esmagá-los, e que o destino de certas
criaturas parece estar sendo manipulado e dirigido por
alguns poderosos. Ele diz que isso é irritante e loucura.
Grandes homens de Deus eram enterrados como
anônimos e que alguns corruptos eram sepultados com
honras de benfeitores. (Ec 8.10)
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Verificou a impossibilidade da filosofia e da
sabedoria humana descobrirem um sentido para a
existência.
"Então contemplei toda a obra de Deus, e vi que o
homem não pode compreender a obra que se faz
debaixo do sol; por mais que trabalhe o homem
para a descobrir, não a entenderá; e, ainda que
diga o sábio que a virá a conhecer, nem por isso a
poderá achar." (v. 17)
Todos os mergulhos de todas as ciências dão com o
fato de que a existência continua a fazê-los perplexos.
Ele viu que a ordem da vida é desordenada, de forma
que não é a justiça que distribui as coisas na existência.
"Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o
prêmio, nem dos valentes a vitória, nem tão pouco
dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes a
riqueza, nem dos entendidos o favor; porém tudo
depende do tempo e do acaso." (Ec 10.11)
Viu o arbítrio irracional dos governantes no
exercício da política de apadrinhamento. Alguns tolos
eram colocados em cargos elevados em detrimento
daqueles que podiam ter mais competência.
Em penúltimo lugar, viu a busca de satisfação da
juventude, e que ela era paradoxalmente a fonte de todo
desgosto e de toda dor que acometia o coração dos
jovens seus contemporâneos.
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"Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o
teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos
caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam
aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas
cousas Deus te pedirá conta.
Afasta, pois do teu coração o desgosto e remove da
tua carne a dor, porque a juventude e a primavera
da vida são vaidades." (Ec 11.1,2)
Alegria, satisfação, frenesi, busca de felicidade,
paradoxalmente desemboca na dor, na angústia, na
vergonha. E, ao moço que procura satisfação no sexo,
acaba encontrando estigmas de lembranças dolorosas de
rejeição. É o homem que no frenesi de encontrar
satisfação para a vida, acaba marcando e sendo
marcado. É o jogo da vida, a busca do prazer, que no
paradoxo da existência sempre traz dor, desgraça,
doenças, infelicidades, lembranças trágicas para
povoarem a nossa memória.
E em último lugar, Salomão viu que a busca pela
cultura é insaciável e jamais conclui sobre coisa alguma.
"Demais, filho meu, atenta: não há limite para
fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne."
Nosso irmão Salomão não era fácil. Que coisa
tremenda. Olhou para a vida de todas essas óticas, de
todas essas perspectivas, para a vida sem Deus. Queria
ver se encontrava sentido para a vida como vida, para a
existência como existência, à parte de Deus. Se alguma
coisa faz sentido na vida sem Deus. E ele disse: "Tudo é
bobagem." Em meio à terrível frustração de não
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encontrar razão para a existência, Salomão recebeu a
revelação de que o absurdo da existência só encontra
sentido em Deus. Aleluia!
Por isso eu digo que ele tem uma perspectiva
eminentemente existencial da vida. A vida é um
absurdo. O que se faz debaixo do sol é loucura. Homens
pisando homens, nada faz sentido, o pão não tem gosto,
o trabalho é desgraça, tudo é enfado, é suor, é canseira,
passa, a produção é roubada, o que se amealha é perigo,
vem falência, a injustiça campeia, a vida é um absurdo...
Mas, de repente vem uma revelação e Salomão
compreende que esse absurdo da vida é maravilho-
samente transformado de lagarta em borboleta, e passa
a fazer sentido quando Deus se imiscui como ingrediente
fundamental na existência de cada um de nós.
E a primeira coisa que ele compreende com relação
a isso é que Deus dá sentido ao prazer. Que o prazer
como prazer, destituído de Deus é desgosto. E que o
verdadeiro prazer para a vida só é obtido quando Deus
se mistura em tudo quanto possa ser chamado legítima
e santamente de prazer. É maravilhoso ver a beleza que
há nos versos 24 e 25 do cap. 2:
"Nada há melhor para o homem do que comer,
beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu
trabalho. No entanto vi também que isto vem da
mão de Deus, pois, separado deste, quem pode
comer, ou quem pode alegrar-se?”
Aleluia! Ele diz que essas coisas mais simples da
vida só encontram sentido em Deus. Que até comer,
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beber, se alegrar, ter prazer, aquilo que de mais
instintivo nos traz algum gozo, só faz sentido em Deus.
Isso me faz lembrar de uma charge com o Woody Allen,
aquele pateta existencial americano. Nessa charge, ele se
apresenta como um dos personagens conversando com
um parente seu. Ambos ateus. O primo, um ateu
convicto, pragmático, bem à moda do ateísmo
americano. Woody Allen, um ateu duvidoso, com
saudade do Deus desconhecido, um ateu sem rumo,
sem afirmações. E ambos conversam:
- Quer dizer que Deus não existe?
- Que Deus nada, isso é mito, coisa da Antigüidade,
conto da carochinha.
- Mas, e a complexidade da vida?
- A vida? A vida se originou de coisas muito simples
que apareceram fortuitamente no caldo quente
perimirão da existência. Nada mais do que isso.
- Escute, e como é que ela desembocou e
desencadeou toda essa coisa que existe no universo, no
cosmos, linda, complexa, maravilhosa, imensa?
- A evolução explica. Um braço para um lado, outro
para o outro, linhas evolucionárias e aí está esse mundo
absurdo que nos cerca.
- E coisas como o amor?
- Que amor? Amor não existe. Amor é combinação
casual de elementos químicos que compõem seu corpo,
nada mais do que isso, não há nenhum elemento de
imaterialidade em todo esse processo.
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- E esse sentimento de amizade que a gente tem um
pelo outro?
- Nada! Condicionamentos, simpatias que não fazem
sentido, superposições de imagens guardadas nas
nossas reservas de pensamento.
- Quer dizer, então, que tudo é assim?
- É, nada faz sentido.
Ai o primo olhou para o sol e disse:
- Que Sábado bonito. O mar deve estar azul, uma
brisa gostosa. Que tal nós irmos ao mar tomar um
banho? Eu estou indo. Vou entrar naquela água
gostosa, geladinha. Vou sentir um prazer gostoso
naquela água. Vamos comigo?
- Não. Eu vou para o meu quarto, fechar a porta e a
janela, fazer tudo ficar escuro e vou ter uma aguda crise
de angústia.
Só Deus pode atribuir prazer à existência. Entrar na
água com Deus é melhor, sair da água com Deus é
melhor, ir ao parque com Deus é melhor, atravessar a
rua, partir o pão, beber água com Jesus é melhor.
Aleluia! Separado dele, quem pode comer, beber ou se
alegrar de fato?
Em segundo lugar, Salomão diz também que
compreendeu que a insaciabilidade da alma humana só
se sacia em Deus. Ele diz que Deus criou tudo, pôs a
eternidade no coração do homem. (Ec 3.11)
Ele diz o que Dostoievski afirmou. Que no coração
de cada homem há um vazio que é do tamanho de Deus.
Sem Deus, só o que fica é a nostalgia. Em um texto
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assombroso, Friedrich Nietzsche declara a morte de
Deus. O que há na alma deste homem, no dia mais
escuro da sua vida, na maior da sua loucura, quando ele
diz que Deus está morto?
"Não ouvistes do louco que acendeu sua lanterna
nas horas mais brilhantes da manhã, correu para
o mercado e começou a gritar sem parar:
- Procuro Deus, procuro Deus! Para onde foi Deus?
E eu vos vou dizer. Nós o matamos. Vós e eu.
Todos nós somos seus assassinos.
- Mas como é que fizemos isso? Como fomos
capazes de beber o mar? Quem nos deu a esponja
para apagar o horizonte inteiro? Que foi que
fizemos ao quebrar a corrente que prendia a Terra
ao seu Sol? Para onde vai ele agora? Para onde
vamos nós agora? Para longe de todos os sóis, não
estamos mergulhando sem cessar? Para trás, para
o lado, para frente, em todas as direções? Restam-
nos ainda para cima e para baixo. Não estamos
errando por um nada sem fim? Não sentimos o
hálito do espaço vazio? Não é verdade que está
ficando frio? Não é verdade que a noite chega sem
cessar? As lanternas não devem ser acesas pela
manhã ?".
A alma do homem é insaciável. E quando ela não se
sacia em Deus, só o que sobra é essa terrível nostalgia.
Em terceiro lugar, Salomão compreendeu que as
relações interpessoais só se completam em Deus.
Ter amigos, ter mulher, ter filhos, ter companheiros,
tudo isso é bobagem, a menos que Deus seja o
ingrediente fundamental nessas relações.
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"Melhor é serem dois do que um, porque têm
melhor paga do seu trabalho.
Porque se caírem, um levanta o companheiro; ai,
porém, do que estiver só; pois, caindo, não haverá
quem o levante.
Também, se dois dormirem juntos, eles se
aquentarão; mas um só como se aquentará?
Se alguém quiser prevalecer contra um, os dois lhe
resistirão; o cordão de três dobras não se rebenta
com faculdade." (Ec 9.9-12)
Está falando de dois, mas diz que o único que pode
manter esses dois juntos, o único que pode dar liga a
essas relações interpessoais, seja do marido com a
mulher, do pai com o filho, do amigo com o outro, essa
terceira dobra é o Senhor. Louvado seja o nome do
Senhor, Aleluia!
Em quarto lugar, Salomão compreendeu que a
perfeição divina explica dialeticamente a desordem da
vida humana e com isso vem o sentido para a vida.
"Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o
homem reto, mas ele se meteu em muitas
astúcias." (Ec 7.29)
Ele diz que toda essa desordem que os homens
criam, é resultado da queda, da astúcia humana, do
pecado. É só quando Deus, que cria perfeito, que é
perfeito, é confrontado dialeticamente com o nosso
pecado, que fica claro uma coisa: Deus não é
responsável por essa miséria que nos cerca. Deus não
tem nada a ver com isso.
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Certa vez, estava almoçando com um rapaz muito
inteligente, criado na igreja desde a mais tenra infância
e que apostatou da fé na primeira juventude. No meio da
conversa ele me disse: "Olhe, eu rompi com o Senhor aos
18 anos de idade. Rompi com Deus, não quero saber de
Deus. Estava em casa quando alguém chegou dizendo
que uma pessoa muito piedosa, meiga, santa, membro
da minha família, tinha ficado louca. Entrei no banheiro,
e passei uma descompostura nesse "pseudo deus",
olhando no espelho disse:
- Deus, tu não prestas. Como é que tu permites que
uma mulher dessas possa ficar louca. Deus, tu não és
Deus. Entre nós não há mais nada. Não quero mais
saber de ti, se é que tu és alguma coisa.
Ele disse que fazia vinte anos que isso acontecera.
Falou que tem passado pela vida numa angústia terrível:
"É muito triste viver sem essa relação, exista ele ou não
exista", confessou ele. Mas não quis mais voltar para Ele
ou para a idéia de refletir sobre Deus, porque um Deus
que é Deus não faz isso.
Então, citei esse versículo "...tão somente achei: que
Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas
astúcias."
Deus não é o responsável por isso. Há uma queda
que desagregou tudo na existência, e toda maldade, toda
desordem, toda doença, todo câncer, toda injustiça, toda
calamidade é subproduto dessa queda moral e espiritual
de toda a raça humana, e isso inclui a mim e a você.
Salomão compreendeu ainda que a relação com
Deus, é a certeza de que um bem maior nos espera
apesar das tragédias do presente. (Ec 8.12). Que a
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presença de Deus empresta significado às relações
conjugais entre um homem e uma mulher.
"Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias
de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do
sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo
trabalho com que te afadigaste debaixo do sol." (Ec
9.9)
Quando Deus está presente, até as relações
conjugais do homem com sua mulher ganham sentido e
significado maior e mais profundo. E diz mais,
concluindo, que a justiça divina é a garantia de que os
nossos empreendimentos de amor terão recompensa no
futuro.
"Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de
muitos dias o acharás." (Ec 11.1)
Vale a pena fazer o bem hoje. Um dia tu vais
encontrar a recompensa. Deus te recompensará.
Em penúltimo lugar, ele compreendeu que Deus é
a melhor opção desde a juventude.
Gostaria de transmitir o texto que fala disso, através
da Bíblia Viva, para que o leitor fique com o significado
real e profundo desta afirmação.
"Não deixe o entusiasmo da mocidade fazer com
que você esqueça o seu Criador. Honre a Deus
enquanto você é jovem, antes que os dias maus
cheguem, quando você não vai ter mais alegria de
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viver, quando seus olhos estiverem tão fracos que
não poderão perceber a luz do Sol, da Lua e das
estrelas. Vai ser tarde demais para uma vida ativa
de serviço, e para você se lembrar de Deus. Vai
chegar um dia em que os seus braços tremerão de
velhice e suas pernas, que hoje são firmes e fortes,
ficarão fracas. Os dentes vão cair, e você não
poderá mastigar direito. Os seus olhos ficarão
cansados e fracos, os seus lábios murchos ficarão
bem fechados enquanto você tenta mastigar sua
comida. Você vai acordar com o barulho dos
pássaros, mas não vai ouvir direito e mal
conseguirá falar, com voz tremida. Você vai ter
medo dos lugares altos, medo de cair, vai ser um
velho de cabelos brancos, de rosto murcho, que
anda se arrastando. Não vai ter o vigor físico, e
verá a morte de perto aproximando-se cada vez
mais de sua casa eterna. Depois, atrás do seu
caixão muita gente vai seguir chorando. Sim,
lembre-se do seu Criador agora, enquanto você é
jovem, antes que o fio de prata da vida seja
cortado, antes que o copo de ouro se quebre, antes
que o vaso se quebre junto à fonte, e a roda se
parta junto ao poço, antes que o pó volte à terra de
onde veio, e o espírito volte a Deus que o deu." (Ec
12.1-7)
E em último lugar, Salomão compreendeu que
Deus deve ser o absoluto dos absolutos na vida de cada
homem. É uma coisa linda e forte que ele diz,
concluindo as suas palavras:
"De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a
Deus, e guarda os seus mandamentos: porque isto
é o dever de todo homem.
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Porque Deus há de trazer o juízo todas as obras até
as que estão escondidas, quer sejam boas, quer
sejam más." (vs. 13,14)
Salomão, depois de sofrer náuseas da solidão de
Deus na sua alma, afirma que o que você precisa
decisivamente para ter paz, um coração preenchido,
para vencer esse vazio, para descobrir significado para a
existência, para ter e ver significado nas suas relações
familiares, para que o seu pão tenha gosto, para que a
vida seja embalada na esperança, para que haja poder
para passar pela existência, é de um encontro com
Deus. E encontro com Deus não existe em nenhum
lugar desse universo, a não ser em Jesus Cristo.
Perguntaram a ele:
"Senhor, mostra-nos o Pai e isto nos basta!"
Jesus disse:
"Filipe, há tanto tempo estou convosco e não me
tens conhecido? Quem me vê a mim, vê o Pai.
Como dizes tu, mostra-nos o Pai? Não crês que eu
estou no Pai, e que o Pai está em mim? As palavras
que eu vos digo não as digo por mim mesmo, mas o
Pai que permanece em mim faz as suas obras.
Crede que eu estou no Pai, crede que o Pai está em
mim, crede ao menos por causa das mesmas
obras." (Jó 14.1-11).
Fim
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