1° Período
Introdução à Educação a
Distância
Josias Ricardo Hack
Florianópolis, 2014.
Governo Federal
Presidente da República: Dilma Vana Rousseff
Ministro de Educação: José Henrique Paim Fernandes
Universidade Aberta do Brasil (UAB)
Universidade Federal de Santa Catarina
Reitora: Roselane Neckel
Vice-reitora: Lúcia Helena Martins Pacheco
Pró-reitora de Graduação: Roselane Fátima Campos
Pró-reitora de Pós-Graduação: Joana Maria Pedro
Pró-reitor de Pesquisa: Jamil Assreuy
Pró-reitor de Extensão: Edison da Rosa
Pró-reitor de Planejamento e Orçamento: Beatriz Augusto de Paiva
Pró-reitor de Administração: Antônio Carlos Montezuma Brito
Pró-reitora de Assuntos Estudantis: Lauro Francisco Mattei
Diretor do Centro de Comunicação e Expressão: Felício Wessling Margotti
Diretor do Centro de Ciências da Educação: Nestor Manoel Habkost
Curso de Licenciatura em Letras-Espanhol na Modalidade a
Distância
Diretor Unidade de Ensino: Felício Wessling Margotti
Chefe do Departamento: Silvana de Gaspari
Coordenadoras de Curso: Vera Regina de Aquino Vieira
Maria José Damiani Costa
Coordenadora de Tutoria: Raquel Carolina Souza Ferraz D’Ely
Projeto Gráfico
Coordenação: Luiz Salomão Ribas Gomez
Equipe: Gabriela Medved Vieira
Pricila Cristina da Silva
Adaptação: Laura Martins Rodrigues
Comissão Editorial
Adriana Kuerten Dellagnello
Maria José Damiani Costa
Meta Elisabeth Zipser
Vera Regina de Aquino Vieira
Liliana Reales
Equipe de Desenvolvimento de Materiais
Laboratório de Novas Tecnologias - LANTEC/CED
Coordenação Geral: Andrea Lapa
Coordenação Pedagógica: Roseli Zen Cerny
Produção Gráfica e Hipermídia
Design Gráfico e Editorial: Ana Clara Miranda Gern; Kelly Cristine Suzuki
Coordenação: Juliana Cristina Faggion Bergmann
Supervisão: Thiago Rocha Oliveira, Laura Martins Rodrigues
Adaptação do Projeto Gráfico: Laura Martins Rodrigues, Thiago Rocha Oliveira
Diagramação: Maiara Ornellas Ariño, Thiago Rocha Oliveira, Thiago F. Victorino
Figuras: Gustavo Barbosa Apocalypse de Mello
Capa: Gustavo Barbosa Apocalypse de Mello
Revisão gramatical: Mirna Saidy
Design Instrucional
Supervisão: Vanessa Gonzaga Nunes
Designer Instrucional: Maria Luiza Rosa Barbosa
2º edição (2011)/ 3º edição (2014)
Laboratório Multimídia/CCE - Material Impresso e Hipermídia
Coordenação: Ane Girondi
Diagramação: Letícia Beatriz Folster, Grasiele Fernandes Hoffmann
Supervisão do AVEA: Maíra Tonelli Santos
Design Instrucional: Paula Balbis Garcia
Revisão: Rosangela Santos de Souza
Revisão ABNT: Juliana de Abreu
Copyright@2014, Universidade Federal de Santa Catarina/LLV/CCE/UFSC. Nenhuma parte
deste material poderá ser comercializada, reproduzida, transmitida e gravada sem a prévia
autorização, por escrito, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Ficha catalográfica
H118p Hack, Josias Ricardo
1. período : introdução à educação a distância /
Josias Ricardo Hack. Florianópolis : UFSC/CCE/DLLE,
c2014.
136 p. : il., grafs., tabs.
Inclui bibliografia.
Licenciatura em Letras, Português na Modalidade à
Distância.
ISBN 978-85-61483-86-9
1. Ensino a distância. 2. Tecnologia educacional. I.
Título.
CDU: 37.018.43
Catalogação na fonte elaborada na DECTI da BU/UFSC
Sumário
Unidade A - A Educação a Distância em
detalhes............................................................ 11
Introdução.........................................................................13
1 Definições e características
da EaD................................................................................15
2 O ensino superior a distância no mundo......................21
2.1 A experiência da África do Sul.........................................................22
2.2 A proposta dos Estados Unidos .....................................................25
2.3 O investimento alemão em EaD no ensino superior...............28
2.4 As estratégias da University of the Air no Japão.........................30
2.5 A experiência consorciada de universidades canadenses....31
2.6 O ensino superior a distância via internet na Espanha..........33
3 O ensino superior a distância no Brasil........................37
3.1 A Universidade Aberta do Brasil (UAB).........................................39
Sugestão de leitura.................................................................................... 48
Unidade B - A comunicação educativa a
distância........................................................... 49
Introdução.........................................................................51
4 Múltiplas tecnologias em processos educativos............53
4.1 Reflexões sobre diferentes tecnologias no contexto
educacional brasileiro...............................................................................54
5 A construção do conhecimento a distância..................71
6 Comunicação dialógica na EaD....................................77
Sugestão de leitura.................................................................................... 83
Unidade C - O processo de ensinar e
aprender na EaD............................................. 85
Introdução.........................................................................87
7 Autonomia, cooperação e afetividade na EaD..............89
7.1 Autonomia e cooperação..................................................................97
7.2 Afetividade.......................................................................................... 104
8 Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem............113
8.1 A linguagem hipertextual no AVEA............................................ 116
8.2 Recursos dinamizadores em um AVEA...................................... 117
9 Organização do cotidiano de estudos na EaD............121
Sugestão de leitura..................................................................................128
Considerações finais........................................................129
Referências.......................................................................131
Apresentação
Iniciar sua graduação na modalidade de Educação a Distância exigirá alguns
conhecimentos e habilidades específicos, e o presente livro pretende ser uma
Introdução à Educação a Distância. Então, seja muito bem-vindo à experiência
de construção do conhecimento de forma autônoma e cooperativa, em um
processo de comunicação educativa com múltiplas tecnologias!
Nosso objetivo central com essa obra é proporcionar o contato com
importantes fundamentos, definições, características e curiosidades
históricas sobre a Educação a Distância no Brasil e no mundo. Para tanto,
apresentaremos conceitos e informações que o acompanharão durante
toda a sua graduação.
Em muitos momentos faremos uma retrospectiva histórica sobre o
uso de múltiplas tecnologias no processo educacional e a respeito de
experiências nacionais e internacionais de Educação a Distância no Brasil.
Nosso intuito é colocá-lo em contato com estratégias diferenciadas de
ensinar e aprender a distância.
Aqui, você perceberá que nossa compreensão sobre a construção do
conhecimento a distância está intimamente ligada à utilização crítica e criativa
da tecnologia em ambientes escolares. Algo que também se ancora em um
processo de ensino e aprendizagem que pretende promover a emancipação
dos estudantes.
Quando você concluir a disciplina, palavras como autonomia, cooperação
e afetividade, no contexto educacional mediado por tecnologias, farão
parte de seu vocabulário. Afinal, você será constantemente motivado a
pensar sobre como organizar sua vida acadêmica e seu cotidiano, para
potencializar sua formação de forma continuada.
Cada final de Unidade apresentará a “Sugestão de leitura” que contém dicas
de leitura, selecionadas dentre as obras que nos inspiraram durante a escrita
do livro. Você poderá consultá-las a fim de aprofundar seu conhecimento
sobre as temáticas.
Perceba que são muitos desafios! Mas você não está sozinho! Ao longo
da disciplina, ficará claro quem são os envolvidos com o curso e como
você pode trabalhar cooperativamente na Educação a Distância. Essa
disciplina foi, por isso, escolhida para introduzir seu curso de graduação.
Entendemos, todavia, que este livro é apenas uma das ferramentas
didáticas de sua Introdução à Educação a Distância. Seu estudo também se
dará nas discussões dos encontros presenciais, durante videoconferências,
no acesso a outros materiais audiovisuais e nas atividades disponibilizadas
no ambiente virtual de ensino e aprendizagem.
Nas páginas seguintes, você
entenderá, com detalhes, as Para encerrar nossa apresentação, gostaríamos de sugerir que você
características dos diferentes
materiais didáticos utiliza- organizasse seu estudo da seguinte forma:
dos no processo de ensino e
aprendizagem a distância.
• Leia as unidades pausadamente. Faça paradas ao final de cada
capítulo ou seção e aprofunde as reflexões propostas;
• Realize as tarefas práticas, as atividades e os exercícios propostos
para as três unidades, mesmo que não sejam de caráter obrigatório;
• Busque leituras complementares em outros materiais impressos ou
virtuais (livros, revistas, materiais da internet) e partilhe o resultado
de seus aprofundamentos com a equipe docente e com os colegas;
• Assista a audiovisuais (filmes, videoaulas, videoconferências) que
possam exemplificar com outras palavras e ilustrações as temáticas
que não ficaram claras;
• Participe intensamente do curso, envolvendo-se em uma
comunicação educativa dialógica com a equipe docente e com
os colegas. Envolva-se verdadeiramente em fóruns de discussão
virtual, participe de bate-papos, enfim, interaja;
• Execute com zelo todas as atividades planejadas pela equipe
docente para o curso.
Agora, elabore sua agenda de estudos, escolha um local agradável e inicie
o processo de aprendizagem! Quando precisar de ajuda ou de um compa-
nheiro para partilhar suas experiências e conquistas, entre em contato com
a equipe docente.
Vamos aos Estudos!
Prof. Josias Ricardo Hack
Unidade A
A Educação a Distância em
detalhes
Introdução
Você está pronto para iniciar seus estudos introdutórios sobre
a Educação a Distância? Está em um local agradável e propício à
aprendizagem?
A Unidade A do livro Introdução à Educação a Distância
proporcionará o contato com importantes fundamentos, definições,
características e curiosidades históricas sobre a Educação a Distância no
Brasil e no mundo. As informações talvez representem novidades para
você. Então, procure contextualizar as discussões dentro de sua própria
realidade formando grupos de estudo para aprofundar as análises.
A primeira parte da Unidade A trará as definições e características
da Educação a Distância, que a partir de agora chamaremos apenas de
EaD. Os conceitos aos quais você terá acesso são bastante difundidos,
e entendemos ser de suma importância apresentá-los, pois o
acompanharão durante todo o processo de formação a distância, desde
seu primeiro dia de aula até sua formatura. Perceba, então, como essa
disciplina é importante!
Dando sequência à sua leitura, você encontrará um histórico da
EaD no mundo e no Brasil. Nosso objetivo é demonstrar estratégias
diferenciadas de ensinar e aprender a distância. Não esqueça: abuse das
anotações e dos comentários sobre o texto. Para isso, utilize os espaços
disponíveis no próprio livro ou elabore um resumo. Depois, uma boa
estratégia para fixar os conteúdos estudados é compartilhar as suas
anotações, questionamentos e conquistas com os colegas, tutores e com
o professor da disciplina.
Boa leitura!
Definições e características da EaD
Capítulo 01
1 Definições e características
da EaD
A busca da origem da expressão EaD nos leva a um dos pioneiros
no estudo da temática, o educador sueco Börje Holmberg, que confessou
Como mencionamos ante-
a Niskier (2000) ter ouvido a expressão na universidade alemã de riormente, daqui para frente
utilizaremos apenas a sigla
Tübingen. Para Holmberg (apud NISKIER, 2000), em vez de citar
EaD sempre que quisermos
“estudo por correspondência”, os alemães usavam os termos Fernstudium nos referir à Educação a
Distância.
(Educação a Distância) ou Fernunterricht (Ensino a Distância). Niskier
(2000) ainda destaca que o mundo inglês conheceu a expressão a partir
de Desmond Keegan e Charles Wedemeyer.
Para Aretio (1996), estudioso espanhol da EaD, apesar de existirem
diferentes denominações para a modalidade, atualmente se aceita,
de forma generalizada, o nome de Educação a Distância. Inclusive o
organismo mundial que agrupa as instituições de EaD, denominado desde
a sua fundação em 1938 como International Council for Correspondence
Education (ICCE) – Conselho Internacional de Educação por Cor-
respondência –, trocou seu nome na 12ª Conferência Mundial, no ano
de 1982, para International Council for Distance Education (ICDE) –
Conselho Internacional de Educação a Distância. O mesmo autor (1997,
p. 15) define a terminologia da seguinte forma:
Podríamos, por tanto, definirla como un sistema tecnológico de
comunicación bidireccional, que puede ser masivo y que sustituye la
interacción personal en el aula de formador y alumno como medio
preferente de enseñanza, por la acción sistemática y conjunta de
diversos recursos didácticos y el apoyo de una organización y tutoría,
que propician el aprendizaje independiente y flexible de los estudiantes.
Es decir, en esta modalidad de enseñanza no existe una dependencia y
supervisión directa y sistemática del formador, aunque el estudiante se
beneficia del apoyo de una organización de asistencia que se encarga
de diseñar los materiales (impresos, audiovisuales, informáticos...),
15
Introdução à Educação a Distância
elaborarlos, producirlos y distribuirlos y guiar el aprendizaje de los
alumnos mediante las diversas formas de tutoría existentes (presencial,
postal, telefónica, informática...), que garantiza una fluida comunicación
bidireccional, en contra de la, supuesta por algunos, comunicación en
un solo sentido.
As palavras sublinhadas, na citação da página anterior, são
destaque do próprio Aretio, e a tradução livre do texto em
espanhol é: “Poderia, portanto, ser descrita como um sistema
tecnológico de comunicação bidirecional, que pode ser massivo e
que desvia da sala de aula a preferência da interação entre docentes
e estudantes, pela ação sistemática e conjunta de diversos recursos
educacionais e de apoio de uma organização tutorial que incentiva
a aprendizagem independente e flexível dos alunos. Isto é, nesta
modalidade de ensino não há dependência direta e supervisão
sistemática do docente, mas o aluno recebe o apoio de uma equipe
multidisciplinar que é responsável pelo planejamento do material,
seu desenvolvimento, produção e distribuição, além de guiar a
aprendizagem dos estudantes através das diversas formas existentes
de tutoria, que garante uma comunicação fluida em duas vias, ao
contrário da comunicação de sentido único, suposta por alguns”.
No Brasil, o Decreto nº 2.494 da Presidência da República, que
regulamenta o artigo 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB), destaca em seu primeiro artigo que
Educação a Distância é uma forma de ensino que possibilita
a autoaprendizagem, com a mediação de recursos didáticos
sistematicamente organizados, apresentados em diferentes suportes de
informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos
diversos meios de comunicação. (BRASIL, 1998, não paginado).
Um grupo interinstitucional de pesquisadores em EaD do Canadá
observou que os modelos conhecidos possuem todos o mesmo
16
Definições e características da EaD
Capítulo 01
alvo: facilitar o acesso ao saber para um número maior de pessoas,
privilegiando, para isso, caminhos de aprendizagem que aproximem o
conhecimento dos aprendizes. Seria uma maneira de facilitar e flexibilizar
o acesso ao saber, favorecendo a contextualização e a diversificação
das interações (DESCHÊNES, 1998). Em outras palavras, a EaD seria
uma forma de ensinar e aprender que proporciona ao aluno que não
possui condições de comparecer diariamente à escola a oportunidade
de adquirir os conteúdos que são repassados aos estudantes da educação
presencial. Uma modalidade que possibilita a eliminação de distâncias
geográficas e temporais ao proporcionar ao aluno a organização do seu
tempo e local de estudos.
Ao ressaltar a importância desta modalidade de educação, o
pesquisador brasileiro Pedro Demo faz uma distinção entre os termos
Ensino e Educação a Distância:
A educação à distância será parte natural do futuro da escola e da
universidade. Valerá ainda o uso do correio, mas parece definitivo
que o meio eletrônico dominará a cena. Para se falar em educação
à distância é mister superar o mero ensino e a mera ilustração. Talvez
fosse o caso distinguir os momentos, sem dicotomia. Ensino à distância
é uma proposta para socializar informação, transmitindo-a de maneira
mais hábil possível. Educação à distância, por sua vez, exige aprender
a aprender, elaboração e conseqüente avaliação. Pode até conferir
diploma ou certificado, prevendo momentos presenciais de avaliação.
(DEMO, 1994, p. 60).
Então, por considerarmos a definição de Educação a Distância
mais abrangente do que Ensino a Distância, ao implicar não somente
a transmissão de informação, mas também o processo permanente
de construção e avaliação do conhecimento adquirido, doravante será
presumida tal nomenclatura quando utilizarmos a sigla EaD. O termo
Ensino a Distância será usado unicamente onde for indispensável em
função do contexto ou em casos de citação literal de algum autor.
17
Introdução à Educação a Distância
A EaD será entendida, portanto, como uma modalidade de realizar
o processo de construção do conhecimento de forma crítica, criativa
e contextualizada, no momento em que o encontro presencial do
educador e do educando não ocorrer, promovendo-se, então, a
Feedback comunicação educativa através de múltiplas tecnologias.
Palavra em inglês que
significa “realimentação”.
É como se fosse um
processo de conferência
da informação, em que o
Não aceitaremos aqui a definição de EaD como uma educação
emissor busca certificar- distante, em que o aluno esteja isolado, pois entendemos que se manterá
se de que a mensagem
foi codificada por ele
a interatividade constante com os colegas, tutores e professores, em um
e decodificada pelo processo de comunicação dialógica. Mesmo que seja possível ensinar
interlocutor da forma
desejada. Para Berlo (1999),
a distância e considerar o aluno um mero receptor das mensagens
é um “bom” efeito na educativas, ratificamos o entendimento de Aretio (1996, p. 47) de que
comunicação humana, pois,
ao se comunicar, a pessoa
para existir educação deve se estabelecer comunicação completa, de
constantemente procura o mão dupla, com a possibilidade de feedback entre docente e discente:
feedback.
“La posibilidad de diálogo es consustancial al proceso de optimización
que comporta el hacer educativo”.
A tradução livre da frase em
espanhol é: “a possibilidade Em nossas reflexões também entenderemos a EaD como
de diálogo é consubstancial
ao processo de otimização
conscientização e práxis social, na perspectiva do educador brasileiro, de
que comporta o fazer renome internacional, Paulo Freire: um momento de reflexão rigorosa e
educativo”.
coletiva sobre a realidade em que se vive, de onde emergirá o projeto de
ação a ser executado. Uma compreensão de educação como um processo
permanente, porque a ação depois de executada deverá novamente ser
Práxis
O termo práxis é definido por
discutida, donde surgirá um novo projeto, uma nova reflexão e, assim,
Aranha (1996, p. 22) como: ininterruptamente. Nas palavras de Freire (1979, p. 78),
“união dialética da teoria e
da prática”, em que dialética
é entendida como “a relação A “educação como prática da liberdade” não é transferência ou a trans-
entre teoria e prática porque
missão do saber nem da cultura; não é a extensão de conhecimentos
não existe anterioridade nem
superioridade entre uma e técnicos; não é o ato de depositar informes ou fatos nos educandos; não
outra, mas sim reciprocidade.
é a “perpetuação dos valores de uma cultura dada”; não é o “esforço de
Ou seja, uma não pode ser
compreendida sem a outra, adaptação do educando a seu meio”.
pois ambas se encontram
numa constante relação de
troca mútua”. Para nós, a “educação como prática da liberdade” é, sobretudo e antes
de tudo, uma situação verdadeiramente gnosiológica. Aquela em que
18
Definições e características da EaD
Capítulo 01
o ato cognoscente não termina no objeto cognoscível, visto que se co-
munica a outros sujeitos, igualmente cognoscentes.
Com base na abordagem construtivista, entenderemos a EaD como
uma prática educativa que busca aproximar o saber do aprendiz. Ou O construtivismo é uma
seja, o conhecimento é construído pelo aprendiz em cada uma das teoria do conhecimento que
tem sua fundamentação no
situações em que ele está utilizado ou experimentado. Um dos aspectos contexto em que a aprendi-
importantes do construtivismo está no fato de que a realidade pode zagem acontece. Em síntese,
para a proposta construti-
ser abordada sob várias perspectivas para possibilitar ao aprendiz a vista, o conhecimento nunca
apropriação de tal realidade, segundo as diversas óticas sob as quais está pronto ou finalizado,
pois ele se constrói continua-
ela pode ser considerada. Assim, os processos e os resultados de uma mente, em um processo dia-
prática construtivista são diferentes de um indivíduo e de um contexto lético. Volte no comentário
anterior, se você ainda não
a outro, pois a aprendizagem acontece pela interação que o aprendiz entendeu o significado da
estabelece entre os diversos componentes do seu meio ambiente. palavra dialética. O construti-
vismo tem sua base principal-
mente nos estudos de Jean
Ainda queremos adicionar à nossa definição de EaD a compreensão Piaget e Lev Vygotsky.
que encontramos em Vygotsky (1993, 1998) de que a interação social
é imprescindível para a aprendizagem e o desenvolvimento do ser
humano. Em outras palavras: as pessoas adquirem novos saberes a
partir de suas várias relações com o meio. Na concepção do autor, a
mediação é primordial na construção do conhecimento e ocorre, entre
outras formas, pela linguagem. Assim, a singularidade do indivíduo
como sujeito sócio-histórico se constitui em suas relações na sociedade,
e o modo de pensar ou agir das pessoas depende de interações sociais e
culturais com o ambiente.
Também chamaremos a mediação na EaD por comunicação
educativa. Ao auxiliar o aluno na construção do conhecimento pela
comunicação dialógica com o uso de múltiplas mídias, o docente
está fazendo a mediação do conhecimento. Para tanto, podem
ser utilizadas ferramentas tecnológicas que auxiliem o aluno na
construção do conhecimento pela comunicação dialógica.
19
Introdução à Educação a Distância
Na EaD, o docente tem papel imprescindível na comunicação
Quando utilizarmos a pala- educativa que se estabelece no processo de ensino e aprendizagem a
vra docente em nosso texto, distância, pois ele coopera com o aluno ao formular problemas, provocar
estaremos nos referindo às
pessoas responsáveis pelo interrogações ou incentivar a formação de equipes de estudo. O docente se
ensino na EaD, quais sejam: torna memória viva de uma educação que valoriza e possibilita o diálogo
professores e tutores, que
podem estar em contato com entre culturas e gerações (MARTIN-BARBERO, 1997). Ao mediar
os alunos presencialmente ou a construção do conhecimento, com o uso de múltiplas tecnologias
virtualmente.
sem muitas vezes poder visualizar, ouvir as palavras nem perceber as
reações imediatas do interlocutor, o docente precisa potencializar os
processos comunicacionais para que haja dialogicidade, cumplicidade e
afetividade entre os envolvidos. Tais formas de lidar com a construção
do conhecimento e seus desdobramentos exigem metodologias e ações
diferenciadas, que são inéditas para algumas pessoas. Por isso, apesar de
muitos docentes compreenderem a importância dos meios de comunicação
e das múltiplas tecnologias na história social contemporânea, ainda é
necessário potencializar determinadas mediações que acontecem com o
uso de diferentes tecnologias no contexto educativo a distância.
Por fim, concordamos com Vigneron ao enunciar que não há
Mass-media
possibilidade de concretizar uma experiência de EaD no ensino superior
A palavra em inglês mass
media é uma forma utilizada se a criatividade não estiver no poder a fim de instituir os modelos. O
por alguns autores para se autor já destacava em seus primeiros textos sobre EaD que pensar no
referir ao conceito de meios
de comunicação de massa. ensino superior a distância, além de uma proposta ao trabalhador que
Alguns exemplos de meios estuda, “[...] é acreditar em novas possibilidades, em novos conteúdos,
de comunicação de massa:
cinema, jornal, revista, rádio, novos procedimentos e novos recursos. É acreditar no poder e no valor
televisão, etc. dos mass-media” (VIGNERON, 1986, p. 358-359).
Outros apontamentos poderiam ser destacados, mas nosso intuito,
no primeiro capítulo da Unidade A, foi apresentar uma breve definição e
caracterização da EaD, que servisse como prelúdio para as reflexões que se
Sabemos que você foi
seguirão. Por isso, daqui para frente, lembre-se de que nosso entendimento
apresentado a inúmeros
conceitos nessas poucas sobre EaD parte de uma visão de educação como um processo cultural de
páginas introdutórias.
construção do conhecimento, com o uso de múltiplas tecnologias e também
Mas não se preocupe! Tais
conceitos voltarão à tona como “prática da liberdade” (FREIRE, 1979). Algo que está intimamente
novamente, e teremos a
vinculado à apropriação crítica, criativa e contextualizada do conhecimento.
oportunidade de aprofundá-
los. Aquela que impele o aluno a se envolver na aprendizagem a distância.
20
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
2 O ensino superior a distância
no mundo
Podemos dizer que o ensino superior a distância é uma prática
ainda recente, se comparada às universidades presenciais. Os países pas-
saram a investir na EaD somente quando aconteceram o barateamento e
a regularização dos serviços postais, aproximadamente no ano de 1840,
quando foi lançado, na Inglaterra, o primeiro selo da história do correio.
Na oportunidade, inclusive, estabeleceu-se uma tarifa única para todo o
território britânico.
Dado o passo inicial que possibilitou o envio de correspondências,
começaram a surgir experiências com cursos de extensão a distância
nos Estados Unidos, na Austrália e no Canadá. Quanto aos cursos
de graduação por correspondência, o ponto de partida foi o final da
década de 1920, na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
e na África do Sul (RUMBLE, 2000). Atualmente, o ensino superior a
distância está bem difundido mundialmente, e existem grandes centros
localizados em todos os continentes.
Na sequência, destacaremos sete países e suas experiências
internacionais de ensino superior exclusivamente a distância. Os países
foram escolhidos por se caracterizarem como precursores nos estudos
da área, ao utilizarem diferentes métodos e tecnologias no processo de
ensino e aprendizagem a distância. A análise que faremos da atuação
que a África do Sul, a Inglaterra, os Estados Unidos, a Alemanha, o
Japão, o Canadá e a Espanha tiveram e têm na EaD será em sua maioria
referenciada em dois estudos: Peters (2001) e Hack (2009).
Importa salientar que a escolha da obra de Peters para basear a
explanação sobre as experiências que serão apresentadas deve-se ao
grande envolvimento do autor com a EaD. O professor Otto Peters
21
Introdução à Educação a Distância
fundou a primeira universidade a distância da Alemanha,
Fernuniversität, bem como foi o seu primeiro reitor. Os estudos de
Peters sobre a EaD na Alemanha e no mundo iniciaram em 1963.
Ele é autor de diversos artigos, capítulos e livros sobre a temática.
Você pode encontrar a referência bibliográfica de uma importante
obra de Peters no final de nosso livro.
Sobre a segunda obra: em 2009 foi publicado um livro de minha
autoria sobre Gestão da Educação a Distância. No texto abordo,
entre outras coisas, algumas experiências de gerenciamento de
instituições de EaD no mundo. Tal relato se originou de meus
estudos durante o doutoramento.
2.1 A experiência da África do Sul
A África do Sul é o país onde encontramos a instituição que atua
há mais tempo exclusivamente com o ensino superior a distância e até o
início da década de 1970 era a única universidade a distância autônoma.
A instituição leva o nome do seu país, University of South Africa, e
funciona desde 1946, antes mesmo que se estabelecessem as discussões
sobre a EaD no ensino superior com o emprego de mídias, como o
rádio e a TV, bem como do computador na educação. Sua tradição
e confiabilidade se originam da University of the Cape of Good Hope,
fundada em 1873, que apenas realizava exames.
A estratégia metodológica de ensino na University of South Africa
está baseada em cursos pelos quais são responsáveis exclusivamente
os respectivos professores, que fazem a redação das instruções para o
estudo e as cartas de aconselhamento, utilizadas geralmente para indicar
as partes a serem lidas nas obras selecionadas. Em cada curso existem
tarefas a serem executadas, para então serem corrigidas, avaliadas e
comentadas pelo docente. Caso os estudantes necessitem de auxílio
no estudo, eles podem procurar os docentes no campus, na cidade de
Pretória, bem como podem contatá-los por telefone ou por carta. Os
22
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
exames podem ser realizados em 400 centros de apoio da universidade,
espalhados pelo país (HACK, 2009).
As etapas utilizadas pelos docentes na condução de um curso na
University of South Africa são compostas, segundo Peters (2001), de:
• redação do material para o curso;
• correção das tarefas enviadas;
• compilação das tarefas para exame;
• atribuição de nota aos trabalhos de exame;
• prestação de assistência e aconselhamento aos alunos;
• mediação de grupos de discussão.
Como podemos observar, dos aspectos destacados anteriormente,
três estão intimamente ligados às estratégias comunicacionais utilizadas
pelo docente na comunicação educativa com o estudante, quais sejam:
• a redação do material para o curso – que exige do professor
a habilidade comunicacional escrita, para o planejamento e a
produção de materiais autoinstrutivos;
• o aconselhamento e a assistência – que trazem à tona a
importância da capacidade de conduzir de maneira diplomática
a comunicação interpessoal entre os envolvidos no processo de
ensino e aprendizagem a distância;
• a mediação de grupos de discussão – que envolve a habilidade de
administrar, conduzir e sintetizar os apontamentos levantados
pela equipe (HACK, 2009).
23
Introdução à Educação a Distância
Peters (2001) destaca que a University of South Africa foi
o lugar onde houve maior amadurecimento do estudo por
correspondência, a ponto de alcançar um método aceitável pela
comunidade internacional. A concepção e as estratégias de estudo
por correspondência ainda determinavam a estrutura didática
e as práticas comunicacionais a distância da universidade até o
momento em que se escrevia o presente livro – ano de 2010.
A procura pela Open University foi grande, desde sua fundação:
no primeiro ano se admitiram 24 mil estudantes, e o número de
candidatos era maior que o número de vagas. No início do século XXI,
30 anos após a fundação da universidade, havia 210 mil estudantes
matriculados (HACK, 2009).
As duas situações de ensino e aprendizagem que podem ocorrer na
Open University são caracterizadas por Peters (2001) como:
• o ensino que visa a uma conclusão (por exemplo, as gradu-ações),
que está baseado em cursos de EaD estruturados, planejados
e desenvolvidos por equipes multidisciplinares formadas por
docentes, cientistas e especialistas em tecnologia. As unidades de
estudo podem ser transmissões educativas na televisão, no rádio
ou no formato de vídeo e áudio. Em tais cursos o estudante tem um
tutor que o acompanha, dirige as atividades presenciais e mantém
comunicação constante por carta ou por telefone. A organização
do estudo conta ainda com a participação obrigatória em encontros
presenciais que reúnem docentes e discentes por cerca de uma
semana no campus de uma universidade. Em síntese, são os cursos
regulares de EaD, em que o processo de ensino e aprendizagem
consiste no trabalho pessoal com o material impresso e programas
veiculados por múltiplas mídias, bem como a participação em
fases presenciais nos centros de estudo e aconselhamento;
• os cursos de extensão, que introduziram o trabalho com
pacotes de estudo com material de trabalho em áudio, vídeo
24
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
e, se necessário, softwares didáticos. Nos cursos de extensão,
os estudantes têm a tarefa de trabalhar o pacote didático sem
a assessoria de tutores, mas podem formar grupos de estudo.
As possibilidades de uma elaboração autônoma do processo
de aprendizagem são maiores, os cursos não se estendem por
muito tempo e se concentram num tema específico.
A partir dos destaques anteriores, podemos concluir que as
características necessárias aos envolvidos com o processo de construção
do conhecimento a distância na Open University são: a) espírito
colaborativo, para atuar com equipes multidisciplinares que preparam
os materiais do curso; b) habilidade de comunicação dialógica via
tecnologias, para potencializar as estratégias utilizadas para socialização
e discussão de conteúdos; e c) capacidade administrativa e organizativa,
para gerenciar as atividades acadêmicas (HACK, 2009).
2.2 A proposta dos Estados Unidos
O Ministério da Educação do estado de Nova Iorque, nos Estados
Unidos, fundou o Empire State College no ano de 1971. O intuito era
ampliar o acesso ao ensino superior, principalmente aos adultos
profissionalmente ativos, donas de casa e membros de minorias étnicas.
A organização da universidade levou em conta as circunstâncias e
exigências dos futuros alunos: como os alunos estudariam em casa e em
seus locais de trabalho, não foi previsto um campus para a instituição,
porém foram instalados 26 centros de apoio no estado de Nova Iorque.
O desafio era motivar o estudante à aprendizagem autônoma. A
tarefa seria assumida por professores e monitores, que se adequariam
às situações iniciais e necessidades dos estudantes. Como conse-
quência, o diálogo se tornou o principal fundamento do processo
de ensino e aprendizagem no Empire State College, criando-se uma
estrutura de aconselhamento e ajuda no estudo autodirigido.
25
Introdução à Educação a Distância
A estrutura da instituição funciona a partir de um contrato as-
sinado pelo aluno quando ingressa na universidade. O documento visa
garantir a adesão do estudante e o envolve com um docente. O contrato
compromete as partes com serviços detalhadamente descritos: “[...]
o estudante com a elaboração autônoma de determinadas tarefas, o
docente com o aconselhamento e a assistência regulares, e a universidade
com o reconhecimento de créditos, se as tarefas de estudo determinadas
forem comprovadamente realizadas” (PETERS, 2001, p. 348).
Como estamos muito acostumados ao ensino expositivo e à
aprendizagem receptiva, a proposta de estudar de forma autônoma
encontra certas resistências e implica modificações no comportamento
de docentes e alunos. Como se trata de uma realidade desafiante ao
contexto brasileiro e que interessa muito a você, que ingressa agora em
uma experiência de EaD, a seguir destacaremos um panorama de como
ocorre a experiência de estudo autônomo no Empire State College.
Peters (2001), ratificado por Hack (2009), identifica algumas fases
seguidas no Empire State College para a execução bem-sucedida do
processo de ensino e aprendizagem de forma autônoma e algumas delas
inclusive antecedem a entrada do aluno na instituição:
• a exploração preparatória – que ocorre durante um diálogo en-
tre o assessor de estudos e o candidato à vaga acadêmica, quan-
do se discutem as oportunidades de desenvolvimento do futuro
acadêmico para verificar a existência das qualidades necessárias
ao estudo autônomo por contrato;
• a orientação – que acontece no momento em que os candidatos
participam de um seminário para conhecer a universidade e a
metodologia de trabalho. Ao mesmo tempo, a universidade tenta
entender a mentalidade e os interesses dos futuros alunos;
• o enquadramento – nessa etapa se verificam os conhecimentos
acadêmicos preliminares ou qualificações profissionais que o
candidato já possui, para adaptar o planejamento do estudo ou
talvez reduzir sua duração;
26
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
• a confecção do contrato de estudo – que deverá conter: a) os
objetivos do estudo; b) os temas científicos a serem trabalhados;
c) o tempo previsto para a execução do curso; d) a descrição da
maneira como o trabalho deve ser avaliado e julgado; e) uma lista
de bibliografia; f) os dados sobre o desempenho que se espera
do orientador; g) o número de créditos que serão reconhecidos
depois do cumprimento do contrato, entre outras informações
pertinentes;
• a execução do estudo autônomo – que será caracterizada pelas
seguintes atividades: a) estudo da bibliografia; b) participação
em cursos de EaD; c) dedicação a um conjunto de atividades;
d) conversas com profissionais da área; e) participação de
um seminário intensivo em uma escola superior local; f)
aconselhamentos regulares com o orientador ou com tutores
competentes na área;
• a avaliação – o trabalho do estudante é avaliado continuamen-
te durante os aconselhamentos, e na metade do curso uma co-
missão analisa se o estudo corresponde ao nível científico da
universidade, com o intuito de perceber se o caminho tomado
levará à graduação.
A análise anterior nos leva a perceber que a função do docente no
Empire State College passa a ser:
• assessorar o acadêmico na construção do conhecimento a dis-
tância;
• motivar o aluno, ou seja, ser um interlocutor presente, que mos-
tra interesse e boa vontade em auxiliar;
• intermediar a aprendizagem e todos os processos envolvidos na
vida acadêmica, ao fazer a ligação entre os estudantes individu-
almente e a universidade.
27
Introdução à Educação a Distância
Em suma, tanto docentes quanto discentes se concentram na
comunicação interpessoal, caracterizada pelo diálogo intensivo, em que
se constrói o saber, com a arte pedagógica e a experiência de vida de
cada professor ou tutor. Aqui é importante destacar uma característica
curiosa do modelo: os professores somente aconselham a pedido dos
estudantes individualmente. A iniciativa é dos alunos: eles planejam,
dirigem e controlam seu estudo.
Estamos em um bom mo-
mento para refletir sobre as
seguintes perguntas:
1) Você já pensou se tem as
2.3 O investimento alemão em EaD no
características necessárias ensino superior
para o estudo autônomo?
2) Você consegue planejar, di-
rigir e controlar seus estudos? Em 1974, por uma lei da Assembleia Legislativa do estado da
Pense sobre isso! Na Unidade Renânia, na Alemanha, foi criada a Fernuniversität. O objetivo era aliviar
C, aprofundaremos o assunto.
a superlotação das universidades presenciais. As atividades docentes da
Fernuniversität iniciaram em 1975 com financiamento do Estado, como
quase todas as universidades alemãs. A missão que a instituição recebeu
do Estado foi: o cultivo e o desenvolvimento das ciências por meio de
pesquisa, ensino e estudo.
Desde a criação da Fernuniversität há uma preocupação com as
pesquisas realizadas pelos professores que atuarão na instituição, e suas
nomeações dependerão dos estudos acadêmicos que desenvolvem.
Peters (2001), que foi o primeiro reitor da universidade, acentua que os
componentes desejáveis ao comportamento docente para a condução
do processo de ensino e aprendizagem a distância são:
• a habilidade de escrever materiais para a EaD;
• a disponibilidade de trabalhar com equipes multidisciplinares,
pois parte dos materiais, como softwares didáticos e outros pro-
dutos multimídia, serão produzidos em cooperação com outros
profissionais;
• a capacidade de administrar e acompanhar o processo de ensino
e aprendizagem a distância, em conjunto com os tutores;
28
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
• a dinamicidade para realizar aulas presenciais e dias de estudo
com pequenos ou grandes grupos de alunos.
Na Fernuniversität, o ensino acontece principalmente em cursos
enviados aos estudantes a cada duas semanas. Tais cursos possuem textos
didáticos, conteúdos teóricos, glossários e questões para autoavaliação.
O aluno também pode encontrar notas bibliográficas que incentivam o
trabalho autônomo para aprofundamento das temáticas. Para realizar
as provas escritas, que são aplicadas nos polos de apoio presencial, o
estudante precisa desenvolver metade das tarefas que compõem o curso.
A instituição também investe na complementação do ensino por meio
de produtos audiovisuais e eletrônicos, como: a) programas regulares na
televisão; b) softwares didáticos; c) arquivos didáticos em CD e DVD. A
Fernuniversität também possibilita a realização de atividades presenciais,
como seminários e dias de estudo sob a orientação de professores. Essas
atividades podem acontecer tanto no campus da universidade, quanto
nos centros de apoio ou em outros ambientes (PETERS, 2001).
Praticamente todos os componentes desejáveis ao comportamento
docente e discente na Fernuniversität se vinculam a habilidades para
a comunicação educativa do conhecimento a distância. Por isso,
entendemos ser imperiosa a formação continuada dos envolvidos
no processo de ensino e aprendizagem, para que se alcance uma
utilização potencializada das múltiplas tecnologias disponíveis na
construção do conhecimento a distância. Afinal, além da formação
para o manuseio de instrumentos computacionais que possibilitem
a confecção de produtos educativos e/ou sua utilização, o docente
e o discente precisarão aprender diferentes estratégias para a
otimização da comunicação educativa dialógica (HACK, 2009).
29
Introdução à Educação a Distância
2.4 As estratégias da University of the Air
no Japão
O governo japonês fundou a University of the Air no ano de
1983, com os seguintes objetivos: 1) desenvolver uma escola superior
que estimulasse o aprendizado permanente, flexível e para todos; 2)
possibilitar uma oportunidade aos formandos das escolas secundárias
que não foram admitidos em universidades presenciais; e 3) desenvolver
uma formação acadêmica que correspondesse às exigências da atualidade
e promovesse o progresso da pesquisa e das técnicas de ensino – por isso
foi escolhida a televisão como meio principal de difusão (PETERS, 2001).
O acesso à University of the Air não é livre, já que se exige a
conclusão do ensino médio. Contudo, aqueles que não concluíram o
ensino médio podem se inscrever como estudantes especiais e, depois
de completarem dezesseis créditos nessas condições (o que corresponde
a aproximadamente um ano de estudo), podem efetivar sua matrícula
como estudante do ensino superior.
Segundo Peters (2001), a atuação de um docente na University of
the Air é composta das seguintes ações:
• o planejamento dos cursos e a preparação das preleções, em co-
laboração com especialistas do National Institute of Multi Media
Education, que produz os programas televisivos e radiofônicos;
• a apresentação das preleções diante de uma câmera e um micro-
fone, em algum estúdio audiovisual;
• a redação dos textos complementares e a seleção das bibliogra-
fias que servirão de suporte às transmissões televisivas e radio-
fônicas;
• a direção de um grupo de estudos presencial em uma sala nos
centros de apoio espalhados pelo país;
30
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
• a correção dos trabalhos enviados pelos alunos;
• o aconselhamento dos estudantes, nas mais diversas etapas de
evolução do processo de aprendizagem.
Como se pode abstrair das informações anteriores, uma característica
marcante da University of the Air é a utilização estratégica do rádio
e da televisão. Ao contrário de outras instituições, como a Open
University, onde as programações didáticas por rádio e televisão
possuem uma função complementar em relação ao material
impresso, na University of the Air a função complementar é
atribuída ao material impresso. Sabemos que muitos professores
não possuem a habilidade para atuar espontaneamente na frente de
uma câmera de vídeo, mas, na University of the Air, tal habilidade
é requerida. É certo que tal diferença se reflete tanto na estrutura
didática da EaD praticada na universidade quanto na maneira
como se ensina e se estuda (HACK, 2009).
2.5 A experiência consorciada de
universidades canadenses
O norte do Canadá se loca-
liza em uma região muito
No Canadá, existe uma experiência consorciada entre fria do planeta e sofre com
baixas temperaturas que
universidades do estado de Ontário, chamada Contact North. O impedem as pessoas de
consórcio foi criado em 1986 e objetivava: a) melhorar o acesso à circularem livremente durante
alguns períodos do ano.
universidade na parte norte do estado, através da EaD; b) colher
experiências para melhorar o emprego de múltiplas tecnologias no
processo educacional. Como nenhuma universidade reunia todas as
características necessárias e suficientes para a concretização do projeto
isoladamente, o governo de Ontário convidou quatro instituições, por
isso um consórcio, para planejarem e implementarem o projeto, quais
sejam: Laurentius University, Lakehead University, Cambrian College e
Confederation College.
31
Introdução à Educação a Distância
A rede foi montada com o auxílio de diferentes tecnologias que
possibilitaram alcançar as localidades mais remotas, onde foi preciso
instalar postos de trabalho com o equipamento necessário para o
projeto. As tecnologias utilizadas pelo consórcio proporcionaram:
audioconferência, conferência audiográfica, videoconferência compacta e
conferência por computador. Na sequência, explicaremos cada estratégia.
No caso da audioconferência, a interação é de base auditiva:
professores e alunos se interligam pelo telefone e desenvolvem um
diálogo didático. Na conferência audiográfica, além da possibilidade do
diálogo didático, os estudantes dispõem de um quadro eletrônico, no
qual também podem ser apresentadas figuras. O uso da videoconferência
compacta ocorre para interações ao vivo, em aulas que interligam vários
grupos de estudo por meio de televisão a cabo ou por satélite. Nesses
casos, os estudantes e docentes recebem mais informações sobre as
pessoas que falam, pela possibilidade de direcionamento da câmera, mas
perde-se qualidade de imagem na apresentação de determinados objetos,
devido à utilização de vídeo comprimido, que diminui a resolução
das imagens. Por fim, a última estratégia utilizada é a conferência por
computador: o participante que dispõe do equipamento pode partilhar,
individualmente ou em grupos, informação sobre o processo de ensino
e aprendizagem, e o diálogo assume o caráter de uma troca de cor-
respondência (HACK, 2009).
Peters (2001) caracteriza a atividade docente no Contact North da
seguinte forma:
• ensino numa sala de estúdio, com a qual estão conectados os
polos de apoio onde se encontram os estudantes;
• planejamento, preparo e exposição de representações gráficas e
ilustrações que serão utilizadas no processo de construção do
conhecimento a distância;
• ensino por seminário virtual, conversações individuais com
grupos ou com todos os estudantes em conjunto;
32
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
• discussão pormenorizada e aprofundada de perguntas e mani-
festações dos estudantes.
Aqui consideramos relevante destacar que a saída utilizada
pelo norte do Canadá para se implementar o ensino superior a
distância, através do consórcio Contact North, encontra ressonância
nas neces-sidades de várias universidades que estão interessadas no
desenvolvimento e no aperfeiçoamento dos processos de ensino e
aprendizagem, principalmente nos países em desenvolvimento como
o Brasil. Afinal, existe um dilema a ser superado: ou as instituições se
satisfazem com suas propostas de EaD a custo baixo, mas tecnicamente
No Brasil, algumas experiên-
atrasadas e didaticamente pobres, ou desenvolvem materiais cias de consórcios interinsti-
tucionais de ensino superior
didaticamente adequados à EaD e empregam múltiplas tecnologias de
a distância já estão em
forma contextualizada, mas com gastos (financeiros e infraestruturais) andamento desde 1999. No
último capítulo da Unidade
geralmente acima das suas possibilidades.
A, você conhecerá o sistema
Universidade Aberta do Bra-
sil, uma proposta do Governo
Federal, pela qual instituições
Em nossa interpretação, a criação de consórcios e de um trabalho públicas se reúnem de forma
cooperativo entre as universidades pode ampliar consideravelmente consorciada para a formação
superior.
o número de alunos a serem atendidos, bem como serve para
incrementar a produção de materiais didáticos para a EaD, devido
ao aumento do número de docentes, especialistas e profissionais
diversos envolvidos com o projeto.
As informações sobre a Uni-
versitat Oberta de Catalunya
não se encontram na obra
2.6 O ensino superior a distância via de Peters (2001), apenas em
internet na Espanha Hack (2009). Parte das infor-
mações foi obtida no portal
eletrônico da instituição:
<www.uoc.edu/>.
A Universitat Oberta de Catalunya, na Espanha, foi criada em 1995
com o intuito de impulsionar a modalidade de ensino superior a distância
e com a missão de facilitar a formação ao longo da vida, tendo o estudante
como o centro do processo de ensino e aprendizagem. A UOC almeja
que cada pessoa possa satisfazer suas necessidades de aprendizagem e,
para tanto, emprega múltiplas tecnologias de maneira intensiva.
33
Introdução à Educação a Distância
O modelo educativo da UOC se baseia na personalização do estudo
e acompanhamento integral do aluno. Os interlocutores do processo
de ensino e aprendizagem a distância (estudantes, docentes e gestores)
interagem e cooperam em um ambiente virtual de EaD que denominam
Campus Virtual, por isso a instituição é considerada uma universidade
Os ambientes virtuais de en-
sino e aprendizagem (AVEA) virtual, sem um campus físico. A comunicação entre as partes baseia-se
são bastante difundidos atu- na interatividade possibilitada principalmente pela internet, através do
almente para a realização da
EaD. Na Unidade C, teremos Campus Virtual, e caracteriza-se pelo modelo assíncrono, que permite
um capítulo especial para ao estudante a independência de horários.
estudarmos as características
de um AVEA.
Vale lembrar que existem duas formas de se realizar a comunicação
educativa a distância: 1) a forma síncrona, que ocorre com sincronia
de tempo entre os interlocutores, por exemplo um chat ou sala de
bate-papo, onde as pessoas precisam estar conectadas ao mesmo
tempo para interagirem; 2) a forma assíncrona, que ocorre sem
sincronia de tempo entre os interlocutores, por exemplo, o fórum,
O sistema de avaliação conti- onde cada participante pode postar mensagens e comentários
nuada consiste na realização às mensagens dos outros em momentos distintos, enquanto a
de um conjunto de atividades
que serão acompanhadas e atividade estiver disponível.
avaliadas pelos professores
das disciplinas durante toda
a execução da disciplina
ou do curso. O sistema de
avaliação continuada permite Os alunos da UOC recebem um plano de ensino no início de cada
fazer um acompanhamento disciplina, no qual se explicita a metodologia de trabalho, a distribuição
constante do processo de
aprendizagem e do progresso temporal do estudo, bem como se orienta o trabalho do estudante
do aluno. durante o semestre e se expõe o sistema de avaliação continuada. Os
discentes também contam com o material didático, que apresenta
as propostas para a obtenção dos conhecimentos, competências e
habilidades de cada disciplina. Tais materiais são elaborados por uma
equipe multidisciplinar, composta de professores, técnicos e especialistas
nos diversos campos do conhecimento e da didática educativa.
Na UOC, existem dois personagens docentes:
• professor-tutor: é o primeiro contato do estudante com a
instituição e serve de guia em todos os processos, desde a
34
O ensino superior a distância no mundo
Capítulo 02
matrícula, condução da vida acadêmica e demais instâncias. O
professor-tutor ajuda o estudante a se adaptar à comunidade
universitária virtual e interage com os alunos pela internet, via
Campus Virtual;
• professor-consultor: é aquele que acompanha e avalia
continuadamente o progresso da aprendizagem dos estudantes
na disciplina sob sua responsabilidade. O professor-consultor
também estrutura os planos de ensino das disciplinas e elabora
materiais didáticos, em conjunto com a equipe multidisciplinar
de especialistas. Para interagir com os alunos e motivá-los em
sua aprendizagem, o professor-consultor utiliza as ferramentas
disponíveis no Campus Virtual.
Nitidamente se observa a importância do processo comunicacional
dialógico entre docentes e discentes na comunicação educativa do
conhecimento no modelo da UOC. Algo que ressalta a necessidade
de preparação dos interlocutores à efetiva e eficiente interação
em ambientes virtuais de ensino e aprendizagem. Afinal, além
de utilizar os meios necessários para o diálogo virtual, é preciso
também criar estratégias que promovam a permanência e a
manutenção do ritmo de estudo (HACK, 2009).
35
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
3 O ensino superior a distância
no Brasil
A abertura legal para o ensino superior a distância aconteceu na nova
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de
20 de dezembro de 1996. Em suas Disposições Gerais, Artigo 80, a LDB
atribuiu ao Poder Público o papel de incentivar “[...] o desenvolvimento
[...] de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades
[...], e de educação continuada” (BRASIL, 1996, não paginado). Essa
lei delegou à União a competência ao credenciamento das instituições
que oferecerão programas a distância e a definição dos “[...] requisitos
para a realização de exames e registro de diplomas relativos a cursos de
educação a distância” (BRASIL, 1996, não paginado). Então, a Lei no
9.394 apresentou à EaD um ponto de partida à busca de alternativas que
tornem viáveis a realização de cursos aos alunos que residem em locais
distantes das instituições educativas ou que estão fora do sistema regular
de ensino por algum motivo. A LDB também dispôs que a EaD deve
receber um tratamento diferenciado com “[...] custos de transmissão
reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e
imagens [...]” (BRASIL, 1996, não paginado).
A caminhada brasileira no ensino superior a distância parte de
uma experiência iniciada em 1998 e está conquistando espaços
paulatinamente. O primeiro curso universitário a distância em
nosso país foi encabeçado pela Universidade Federal de Mato
Grosso (UFMT). O projeto pioneiro criado pela UFMT em 1998
visava formar professores da rede pública a partir da Licenciatura
em Educação Básica, da 1ª à 4ª série a distância.
Mesmo com a abertura proposta pela Lei nº 9.394, ainda faltava
regulamentar e normatizar o Artigo 80, o que aconteceu pelo Decreto nº
37
Introdução à Educação a Distância
5.622, publicado no Diário Oficial da União (DOU), de 20 de dezembro
de 2005 (que revogou o Decreto nº 2.494, de 10 de fevereiro de 1998, e o
Decreto nº 2.561, de 27 de abril de 1998), e pela Portaria Ministerial nº
4.361, de 2004 (que revogou a Portaria Ministerial nº 301, de 7 de abril de
1998). Em 3 de abril de 2001, a Resolução nº 1, do Conselho Nacional de
Educação, estabeleceu as normas para a pós-graduação lato e stricto sensu.
Logo que o processo de regulamentação e normatização da EaD no
Brasil começou a ocorrer, o Ministério da Educação (MEC) produziu um
documento em parceria com a Secretaria de Educação a Distância (SEED),
com os Padrões de Qualidade para Cursos de Graduação a Distância. O
documento foi elaborado no segundo semestre de 1998 e tinha o intuito de
apresentar critérios às instituições que pretendiam elaborar seus projetos
de EaD, bem como servia para as comissões de especialistas analisarem
as solicitações. Nos anos de 2003 e 2007, tal documento recebeu revisões
e passou a se chamar Referenciais de Qualidade para Educação Superior a
Distância. Segundo a versão atualizada em 2007, existem oito referenciais
de qualidade que precisam estar expressos no Projeto Político-Pedagógico
dos cursos na modalidade a distância no Brasil, quais sejam:
• Concepção de educação e currículo no processo de ensino e
aprendizagem;
• Sistemas de comunicação;
• Material didático;
• Avaliação;
• Equipe multidisciplinar;
• Infraestrutura de apoio;
• Gestão acadêmico-administrativa;
• Sustentabilidade financeira (BRASIL, 2007).
38
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
Como podemos observar, os documentos que regulamentam a EaD
no Brasil deixam explícito que atuar com essa modalidade de ensino e
aprendizagem é um grande desafio.
Você pode aproveitar a
oportunidade para fazer uma
3.1 A Universidade Aberta do Brasil (UAB) pesquisa de aprofundamento
sobre a regulamentação da
EaD em nosso país. Sugiro
que você acesse o site: http://
Para ampliar o acesso e diversificar a oferta de ensino superior em
portal.mec.gov.br/seed.
nosso país, no ano de 2005 o MEC criou o sistema Universidade Aberta
do Brasil (UAB). Tendo como base o aprimoramento da EaD, a UAB
visa expandir e interiorizar a oferta de cursos pela ampla articulação
entre instituições públicas de educação superior, estados e municípios
brasileiros, para promover, através da metodologia da EaD, acesso à
formação especializada para camadas da população que estão excluídas
do processo educacional.
A UAB se orienta por cinco eixos fundamentais:
• expansão pública da educação superior, considerando os pro-
cessos de democratização e acesso às camadas da população
com dificuldade de acesso à universidade;
• aperfeiçoamento dos processos de gestão das instituições de en-
sino superior, possibilitando sua expansão em consonância com
as propostas educacionais dos estados e municípios;
• avaliação da educação superior a distância tendo por base os pro-
cessos de flexibilização e regulação em implementação pelo MEC;
• contribuições para a investigação em educação superior a dis-
tância no país;
• financiamento dos processos de implantação, execução e for-
mação de recursos humanos em educação superior a distância
(UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL, 2010).
39
Introdução à Educação a Distância
O sistema UAB vincula as universidades públicas a polos de
apoio presencial localizados em diversas localidades. Tais polos
são montados em prédios que pertencem ao poder público, e as
prefeituras municipais precisaram equipá-los com: computadores
com acesso à internet, equipamento de videoconferência, projetores
multimídia para encontros presenciais e biblioteca. Cada polo possui
coordenação, serviço de secretaria, serviço técnico de informática,
atendimento na biblioteca e tutores presenciais de cada curso.
São atribuições do coordenador de polo:
• representar o município/estado junto ao MEC e às instituições
de ensino superior, em relação às ações desenvolvidas no âmbito
da UAB;
• mediar a comunicação do município/estado com o MEC;
• participar de reuniões, encontros e eventos relativos ao sistema
UAB;
• coordenar a articulação e comunicação com os partícipes do
sistema UAB;
• coordenar a implantação de projetos e ações no âmbito do polo
de apoio presencial, bem como o contato com as instituições de
ensino superior que atuam no polo;
• criar mecanismos de articulação junto às instituições de ensino
superior, mantendo a comunicação com os coordenadores da
UAB dessas instituições;
• acompanhar e apoiar a execução das atividades pedagógicas dos
cursos ofertados nos polos de apoio presencial pelas instituições
de ensino superior, garantindo condições técnicas, operacionais
e administrativas adequadas;
40
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
• realizar reuniões periódicas com o corpo técnico do polo para
a avaliação do sistema UAB, a fim de promover e manter a qua-
lidade dos cursos e traçar estratégias para a melhoria dos ser-
viços oferecidos à população (UNIVERSIDADE ABERTA DO
BRASIL, 2010).
Para o gerenciamento e a viabilização das atividades de cada curso
do sistema UAB nas instituições de ensino superior, existe a figura do
coordenador de curso e o serviço de secretaria, ambos responsáveis pelo
estabelecimento do fluxo de contatos institucionais. A responsabilidade
da coordenação do curso está em:
• selecionar as equipes de trabalho;
• acompanhar a construção dos materiais didáticos do curso;
• definir os professores envolvidos no curso;
• organizar o processo de ingresso seletivo especial;
• organizar os procedimentos referentes à seleção, à matrícula e
ao acompanhamento acadêmico dos alunos do curso;
• presidir o colegiado do curso;
• realizar reuniões pedagógicas sempre que necessárias;
• assumir as demais funções definidas no regulamento geral dos
cursos de graduação das instituições de ensino superior (UNI-
VERSIDADE ABERTA DO BRASIL, 2010).
Pela UAB, os professores dos cursos presenciais das instituições
de ensino superior foram estimulados a se engajarem em projetos
de EaD. Para o planejamento e a efetivação do curso a distância, a
equipe docente recebeu o suporte de especialistas da área do design
instrucional, do audiovisual, bem como apoio pedagógico. Para
41
Introdução à Educação a Distância
executar uma disciplina, cada professor, acompanhado de seus tutores,
tem a possibilidade de fazer videoconferências e também de gravar
videoaulas ou arquivos de áudio sobre determinados conteúdos, para
disponibilizá-los aos alunos via DVD ou pela web. Os cursos possuem
o suporte de um Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem (AVEA)
com ferramentas que auxiliam na comunicação entre as partes.
Para a realização de videoconferências, os professores e seus
tutores são orientados a planejá-las com antecedência, elaborando
um roteiro para potencializar as duas horas disponíveis em cada
momento. Sugere-se que a primeira videoconferência seja utilizada para
detalhar a metodologia da disciplina e os principais objetivos a serem
alcançados, traçando um panorama dos conteúdos que serão abordados
e destacando as atividades avaliativas que o aluno precisará cumprir.
Na segunda videoconferência, sugere-se tratar sobre um assunto que
o professor julga merecer uma explanação aprofundada. A terceira
videoconferência de cada disciplina serve para esclarecer as dúvidas
sobre os conteúdos lecionados; tal evento ocorre geralmente alguns
dias antes da prova final presencial. O professor ou seus tutores também
podem gravar videoaulas ou arquivos de áudio sobre determinados
conteúdos, para disponibilizá-los aos alunos via DVD ou pela internet.
Para se adequarem à comunicação midiatizada do conhecimento
via AVEA, os professores, tutores e alunos precisam se adaptar ao uso
do ambiente virtual como um recurso didático em que todos são
cooperadores na construção do conhecimento pelo uso de múltiplas
tecnologias (PALLOFF; PRATT, 2002). Todos os envolvidos no curso são
motivados a fazer as interlocuções necessárias utilizando o AVEA, pois o
sistema registra todas as mensagens trocadas pelo ambiente virtual. Tal
procedimento permite a criação de uma memória histórica virtual do
curso e também serve para o esclarecimento sobre quais encaminhamentos
foram dados às dificuldades enfrentadas e levantadas pelos estudantes.
Em alguns cursos, as atividades iniciam sempre com uma disciplina de
Introdução à EaD, que insere o aluno no contexto do estudo autônomo
com o uso de AVEA e outras estratégias didáticas midiatizadas.
42
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
Para dar suporte à preparação dos materiais em múltiplas tecnologias,
a UAB definiu uma equipe multidisciplinar, na qual atuam: a) os
professores conteudistas de diversas áreas do conhecimento, encarregados
da elaboração do material didático, do conteúdo a ser ministrado nas
disciplinas, das aulas, da supervisão dos tutores a distância e presenciais;
b) a equipe de design instrucional, que planeja e confecciona o material
impresso e on-line; c) a equipe de produção gráfica e de hipermídia,
cuja função é o desenvolvimento e a manutenção do AVEA; d) a equipe
de videoconferência e videoaula, que dirige os passos relacionados ao
planejamento, execução e difusão dos produtos audiovisuais.
Existe uma coordenação pedagógica que gerencia tal equipe
multidisciplinar e orienta a produção dos materiais e o planejamento das
atividades desenvolvidas a distância. Essa coordenação tem as seguintes
atividades:
• criar a arquitetura pedagógica do curso dentro da modalidade
a distância;
• implementar a proposta pedagógica nos materiais didáticos;
• coordenar a produção dos materiais didáticos (impresso e
on-line);
• identificar problemas relativos à modalidade da EaD, a partir
das observações e das críticas recebidas dos professores, alunos
e tutores e buscar encaminhamentos de solução junto ao co-or-
denador do curso;
• organizar e executar o processo de pesquisa e avaliação do curso;
• realizar estudos sobre a EaD;
• participar do programa de formação das equipes de trabalho (pro-
fessores, alunos, tutores, técnicos) para atuarem na modalidade a
distância (UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL, 2010).
43
Introdução à Educação a Distância
Na concepção do sistema UAB, a figura do tutor é primordial e
atua como um mediador entre os professores, alunos e a instituição.
Em outras palavras, ele cumpre o papel de auxiliar no processo de
ensino e aprendizagem ao esclarecer dúvidas de conteúdo, reforçar a
aprendizagem, coletar informações sobre os estudantes e prestar auxílio
para manter e ampliar a motivação dos estudantes. Há dois tipos de
tutores: o tutor presencial, que fica no polo de apoio, e o tutor a distância,
que atua junto ao professor, na instituição de ensino superior. O tutor
presencial mantém contato com o aluno por ferramentas disponíveis
no AVEA, por telefone, softwares de comunicação instantânea e
diretamente, ao realizar encontros presenciais obrigatórios com seu
grupo ou atender solicitações individuais de alunos que se deslocam até
o polo à procura de orientação para seus estudos. O tutor a distância é o
orientador de conteúdo de uma disciplina específica e se comunica com
a comunidade que compõe o curso pelos mesmos meios que o tutor de
polo, com exceção da comunicação presencial.
A seleção dos tutores presenciais é feita por Edital público e compõe-
se de análise de currículo e prova. Após a seleção, os tutores presenciais
são chamados para exercer a função por tempo indeterminado, ou seja,
até que as atividades do projeto se encerrem na cidade onde exercerá a
função ou devido a alguma incompatibilidade com a proposta. As ações
que se esperam de um tutor de polo são:
• organizar grupos de estudo com os alunos que estão sob sua
responsabilidade;
• realizar as atividades de aprendizagem presenciais indicadas
pelo professor da disciplina, como apresentações de trabalhos
em equipe;
• acompanhar e gerenciar, juntamente com o coordenador do polo,
as interações entre os alunos e o professor nas videoconferências;
• esclarecer os alunos sobre regulamentos e procedimentos do
curso;
44
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
• representar os alunos junto aos responsáveis pelo curso;
• manter o contato constante com o aluno, ampliando relações
afetivas que potencializem o processo de ensino e aprendizagem;
afinal, comunicamo-nos melhor com aqueles que nos são
próximos;
• aplicar as avaliações presenciais das disciplinas;
• auxiliar o professor a dirimir dúvidas sobre o envolvimento
do aluno no cotidiano acadêmico, afinal, já o conhece há mais
tempo e pessoalmente;
• participar do processo de avaliação institucional do curso e
das formações que buscam potencializar seu trabalho (HACK,
2010b).
Os tutores a distância, que se encontram nas instituições de ensino
superior, também são selecionados por Edital público. As atribuições do
tutor a distância são:
• orientar os alunos no planejamento de seus trabalhos;
• esclarecer dúvidas sobre o conteúdo das disciplinas;
• auxiliar na compreensão de regulamentos e procedimentos do
curso;
• proporcionar feedback dos trabalhos e das avaliações realizadas.
O tutor a distância do curso deve devolver as atividades
corrigidas e comentadas em até dez dias úteis após o término do
prazo final de entrega da tarefa;
• manter o contato virtual constante com os alunos, pelo uso das
ferramentas disponibilizadas no AVEA. Os tutores a distância
são orientados a responder rapidamente os questionamentos
45
Introdução à Educação a Distância
dos alunos, mesmo que a resposta seja para dizer ao aluno que
a equipe docente se reunirá para conversar sobre a dúvida ou
solicitação do aluno. Em alguns cursos, o prazo máximo para
um tutor responder a uma mensagem eletrônica no AVEA é
quarenta e oito horas, devido aos finais de semana;
• participar do processo de avaliação institucional do curso e
das formações que buscam potencializar seu trabalho (HACK,
2010b).
No início das atividades do sistema UAB, a coexistência de
compreensões diferentes do papel do tutor presencial, também chamado
de tutor de polo, trouxe alguns conflitos. O tutor presencial é formado
na área de conhecimento do curso, mas sua função, geralmente, não é
ministrar aulas ou corrigir avaliações dos alunos. O tutor de polo organiza
as atividades planejadas pelo professor, assiste às videoconferências, às
aulas presenciais, interage com os alunos, conhece-os pessoalmente e
acompanha de perto sua vida acadêmica. É claro que o tutor de polo
também pode tirar dúvidas de conteúdo, no entanto essa não é uma
atribuição específica. O tira-dúvidas de conteúdos das disciplinas é
o tutor que está na instituição de ensino superior, junto ao professor,
chamado de tutor a distância.
Outra figura de destaque no sistema UAB é o coordenador de tutoria.
As atividades desenvolvidas por esse coordenador, que é um professor
da universidade, envolvem visitas aos polos regionais para acompanhar
o trabalho do tutor presencial, realização de reuniões virtuais com o
grupo de tutores do curso, proposição de processos de formação para
os tutores sempre que considerar necessário, coordenação das equipes
de tutores presenciais e acompanhamento qualitativo e quantitativo do
desempenho dos tutores.
A coordenadoria de tutoria realiza ações que visam fortalecer a
comunicação dialógica entre os envolvidos, quais sejam:
46
O ensino superior a distância no Brasil
Capítulo 03
• oportunizar as primeiras reuniões entre os professores das
disciplinas e os tutores para orientar sobre o uso do AVEA como
ferramenta didática, bem como para auxiliar no planejamento
das videoconferências e dar orientações para o encaminhamento
da disciplina;
• acompanhar os professores e tutores durante todo o período le-
tivo – desde a primeira semana de aula até a realização da de-
pendência – incentivando que se estabeleça um processo de co-
municação de mão dupla;
• visitar os polos de apoio presencial para tratar de questões ge-
rais com os alunos e tutores. Tal atividade promove a integração
entre a administração do curso, os discentes e tutores do polo ao
esclarecer a estrutura e organização do curso;
• manter uma comunicação estratégica constante com os tutores
dos polos, para orientar na resolução de possíveis conflitos;
• buscar, junto aos setores competentes, a resolução de problemas
técnicos relacionados ao AVEA (HACK, 2010b).
Em suma, no sistema UAB os tutores a distância e os tutores
presenciais desempenham funções complementares e não funções
sobrepostas: o tutor a distância é o responsável pelo conteúdo,
enquanto o tutor presencial ajuda o aluno a administrar sua vida A comunicação dialógica,
parte essencial do processo
acadêmica e se organizar para dar conta de todas as etapas de estudo. comunicacional que envolve
Enfim, todos os envolvidos no processo, desde o coordenador do as relações em um sistema
de EaD, será discutida com
polo até o tutor, desenvolvem suas atividades de amparo mútuo, em mais detalhes na Unidade B.
que a palavra-chave que sintetiza bem essa relação é: cooperação. E Mas, antes de continuar seu
estudo, descanse um pouco
cooperação no processo educativo se constrói pelo estabelecimento de ou faça um exercício físico!
uma comunicação dialógica.
47
Introdução à Educação a Distância
Sugestão de leitura
Para aprofundar seu estudo sobre as temáticas abordadas na Unidade A,
sugerimos as seguintes obras:
LITTO, F. M; FORMIGA, M. Educação a distância. São Paulo: Prentice Hall,
2008.
MOORE, M.; KEARSLEY, G. Educação a distância. São Paulo: Thomson
Pioneira, 2007.
PETERS, O. Didática do ensino a distância. São Leopoldo: UNISINOS,
2001.
48
Unidade B
A comunicação educativa a
distância
Introdução
Na Unidade B, apresentaremos reflexões sobre o processo
comunicacional com o uso de múltiplas tecnologias, que se estabelece
entre os envolvidos na construção do conhecimento a distância. Para
tanto, dividimos o seu estudo em três capítulos.
No primeiro capítulo, você conhecerá algumas experiências
nacionais de utilização de diferentes mídias e tecnologias no processo
educativo, como: o cinema, o rádio, a televisão, o computador, a
teleconferência, a videoconferência e a webconferência. Tal leitura
servirá como uma preparação para as reflexões que se seguirão sobre:
• a construção do conhecimento a distância – que ocorre com a
utilização crítica e criativa das tecnologias disponíveis;
• a comunicação dialógica – que deve ser a base do processo de
ensino e aprendizagem em um sistema de EaD que pretende
promover a emancipação dos estudantes.
Então, prepare-se para entender outras facetas que envolvem esse
universo do qual você passa a fazer parte ao ingressar em um curso na
modalidade a distância. Antes de iniciar a leitura da segunda Unidade do
livro Introdução à Educação a Distância, queremos lembrá-lo, contudo,
de que a interatividade é importantíssima no estudo autônomo. Sempre
que surgir alguma dúvida entre em contato com a equipe docente
(professor e tutores) através do ambiente virtual ou procure o polo
de apoio presencial. Converse com seus colegas e organize grupos de
estudo, pois sempre é uma motivação a mais.
Bom estudo!
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
4 Múltiplas tecnologias em
processos educativos
O desenvolvimento das mídias criou o contexto da “historicidade
mediada”, que, para Thompson (1998), torna o passado dependente Se você não lembra mais do
das formas simbólicas mediadas existentes e em crescente expansão. significado da palavra mídia,
volte à Unidade A.
Vamos explicar com outras palavras: o autor quer dizer que as pessoas
estão cada vez mais chegando ao sentido dos principais acontecimentos
através de livros, revistas, jornais, filmes, programas televisivos e
recentemente pela internet, entre outras tantas possibilidades que
avultam cotidianamente.
Mesmo que a tradição oral e a interação face a face continuem a
desempenhar um papel importante na elaboração da compreensão
do passado, a compreensão pessoal do mundo parece ser construída
cada vez mais por conteúdos midiatizados. Tais conteúdos dilatam
os horizontes espaciais, pois não é mais preciso estar presente
fisicamente aos lugares onde os fenômenos observados ocorrem.
Ser cidadão do mundo e ao
mesmo tempo estar isolado
Em nossa interpretação, o desenvolvimento das mídias modificou em seu quarto ou em sua
casa parece um parado-
o sentido de pertencimento dos indivíduos, pois eles passaram a ser xo, não é mesmo? Você já
cosmopolitas – ou cidadãos do mundo. Países, cidades e pessoas que pensou sobre isso? Reflita
sobre sua lida cotidiana com
anteriormente pareciam tão remotos, estão agora ligados a redes globais a tecnologia. Quem domina:
que podem ser acessadas em “um clique” e com velocidades cada vez você ou a tecnologia? Ainda
aprofundaremos esse assun-
mais rápidas. Contudo, também é certo que muitas dessas pessoas que to em outros momentos da
passaram a ser cosmopolitas estão ao mesmo tempo isoladas em seus nossa disciplina.
quartos, talvez até mesmo se sentindo sozinhas.
Se revisarmos historicamente a evolução da tecnologia,
verificaremos que essa mudança toda teve início com a revolução
eletromecânica, que possibilitou a produção e reprodução de linguagens
53
Introdução à Educação a Distância
– com destaque para a impressão, a fotografia e o cinema – e ampliou
exponencialmente o crescimento da complexidade da midiatização
do conhecimento. Tal crescimento ficou mais acentuado ainda com as
tecnologias da revolução eletrônica – como o rádio e a televisão –, capazes
de uma potência de difusão muito maior. No contexto atual, quando
se vivencia a passagem da revolução eletrônica para a revolução digital
a exponenciação da complexidade da midiatização do conhecimento
As tecnologias digitais aliam
as tecnologias da informática atinge múltiplas tecnologias ao mesmo tempo e em proporções globais
com as telecomunicações e
(SANTAELLA, 2001).
possibilitam o armazenamen-
to e a transmissão de texto,
áudio, vídeo, etc., através
Em síntese, a revolução digital modificou a vida em geral: até
de computadores, redes e
múltiplos acessórios, como o mesmo as populações mais carentes precisam aprender a lidar, por
CD, DVD, pen-drive, telefone
exemplo, com máquinas de autoatendimento bancário para, com seu
celular, etc.
cartão magnético, retirar os benefícios que recebem mensalmente. Com
a educação não foi diferente: a rede de computadores subverteu a clássica
noção da comunicação de massa em que há um emissor da mensagem
e um receptor apenas e ampliou as possibilidades de comunicação
midiatizada do conhecimento. Através da internet, o processo de
construção do conhecimento entrou em um sistema de trocas em que as
pessoas aprendem entre si e produzem uma concorrência dos diferentes
pontos de vista (LÉVY 1993, 2001). A utilização de recursos didáticos
e tecnológicos variados – que vão desde o ensino por correspondência,
programas de rádio e TV até a divulgação de cursos interativos pela
internet – permite a construção do conhecimento a distância.
Quantas informações em
poucas linhas, não é mesmo?
Então, faça uma pausa em
sua leitura e pesquise na
4.1 Reflexões sobre diferentes tecnologias
internet sobre o assunto. no contexto educacional brasileiro
Você pode buscar artigos e
livros no site da Biblioteca
Universitária da UFSC (www. Desde o início do século XX a mídia tem sido alvo de estudo de
bu.ufsc.br), onde você diferenciadas correntes de análise que, em sua maioria, entendem o
também encontrará o acesso
ao site Periódicos e outros processo comunicacional como integrador das sociedades humanas e como
que permitem o contato com o fator que possibilitará a gestão das multidões humanas (MATELLART;
textos acadêmicos. Depois,
partilhe o resultado de seu MATELLART, 1999; BERLO, 1999). Assim, o estudo dos meios de
aprofundamento com os comunicação social passou a ocorrer sob diversos prismas: tecnológico,
colegas e tutores.
linguístico, histórico, educacional, entre outros. Na retrospectiva
54
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
histórica sobre a introdução da mídia nos processos educativos em nosso
país (HACK, 2009, 2010), fica notório que o método que se utiliza da
correspondência assincrônica precedeu a forma sincrônica conseguida por
meio do surgimento e da utilização de mídias, como a televisão e o rádio.
Se você não lembra mais o
Entretanto, é certo que atualmente tanto a sincronia quanto a assincronia conceito de sincronismo e
o de assincronismo, volte à
nos estudos via tecnologia são permitidas com o computador.
Unidade A.
Então, motivados pela discussão sobre a introdução das mídias
contemporâneas no processo de ensino e aprendizagem, apresentamos
a seguir alguns exemplos do uso do cinema, do rádio, da televisão,
do computador, da teleconferência, da videoconferência e da
webconferência no contexto educacional brasileiro.
4.1.1 Cinema
A relação entre cinema e educação no Brasil ganha intensidade no
início do século XX, quando diversos segmentos sociais passam a defender
este vínculo, como: os regimes nacionalistas, setores da Igreja Católica e
os educadores da Escola Nova. A ideia de cinema educativo era defendida
em publicações da imprensa diária, artigos de revistas especializadas de
A Escola Nova foi um movi-
cinema, como também em alguns livros, como a obra de Joaquim Canuto
mento de renovação do ensi-
de Almeida, Cinema contra Cinema, publicada em 1931. no na Europa e na América,
na primeira metade do século
XX. No Brasil, o movimento
Quando Getúlio Vargas assume o poder em 1930, ele logo percebe era visto como a alternativa
que possibilitaria ao país
a ascensão e a corrente popularização de meios de comunicação social,
acompanhar o desenvolvi-
como o rádio e o cinema. Assim, ele inicia um intenso contato com mento industrial. Em obras
sobre didática, você poderá
organizações que obtiveram enorme sucesso na produção de filmes
encontrar mais informação
educativos de caráter nacionalista na Itália (L’Unione Cinematografica sobre a Escola Nova.
Educativa –LUCE –, criada por Mussolini com o intuito de se
transformar em um Instituto Internacional de Cinema Educativo) e na
Alemanha (Universum Film Aktien Gesellschaft – UFA –, que produzia
os Kulturfilms, filmes documentais e didáticos). No início da década
de 1930, os produtores cobravam do governo brasileiro uma postura
semelhante à adotada por países europeus que priorizavam a produção
nacional em detrimento do cinema estrangeiro. Era comum encontrar
55
Introdução à Educação a Distância
elogios à política audiovisual nacionalista de Hitler e Goebbels como
uma forma de legitimar algo do mesmo gênero no Brasil (HACK, 2010).
Joseph Goebbels assumiu o
Ministério do Povo e da Pro-
paganda no governo nazista
O primeiro incentivo à produção privada de filmes educativos no
de Adolf Hitler.
Brasil veio através do Decreto nº 21.240, de 1932. Mas a questão tomou
força em 1936, momento em que o governo de Vargas cria o Instituto
Nacional de Cinema Educativo (INCE). O INCE foi presidido por Edgar
Roquette Pinto, que convidou o cineasta Humberto Mauro para dirigir
grande parte dos filmes produzidos pelo instituto. Para Schvarzman
(2004), a filmografia de Mauro no INCE, que totalizou 357 filmes entre
1936 e 1964, pode ser dividida em dois momentos:
• Primeiro momento – de 1936 a 1947: período que coincide
quase em sua totalidade com o Estado Novo de Getúlio Vargas,
quando o INCE estava sob a tutela de Roquette Pinto, que era a
pessoa que definia os temas. São realizados 239 filmes;
• Segundo momento – de 1947 a 1964: são produzidos 118 filmes,
não mais sob a influência de Roquette Pinto. A partir de 1950,
o INCE perde força no cenário educativo e no próprio governo.
Durante o período em que o INCE esteve sob a coordenação de
Roquette Pinto, de 1936 a 1947, os temas eram selecionados ou por demanda
externa ou pela necessidade do governo. Segundo Schvarzman (2004),
as gravações eram feitas com o apoio de especialistas e personalidades
de destaque do estado getulista: Affonso de Taunay (Museu Paulista),
Agnaldo Alves Filho (Instituto Pasteur), Vital Brasil, Carlos Chagas Filho
e Heitor Villa-Lobos. A autora identificou quinze categorias na produção
do INCE: 1) divulgação técnica e científica; 2) preventivo-sanitário; 3)
escolar; 4) reportagem; 5) oficial; 6) educação física; 7) vultos nacionais;
8) cultura popular e folclore; 9) riquezas naturais; 10) locais de interesse;
11) pesquisa científica; 12) artes aplicadas; 13) meio rural; 14) atividades
econômicas; 15) outros. Os filmes eram pensados para uso educacional,
mas não mostravam ligações com programas pedagógicos.
56
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
O cineasta Humberto Mauro comungava dos princípios orientadores
da criação do INCE, que privilegiavam a necessidade de educar o
povo. Segundo o cineasta, o filme deveria transportar para a tela
o ambiente brasileiro, para assim disseminar os fundamentos da
nacionalidade em toda a nação, pois pelo cinema seria possível
conhecer os costumes, as riquezas e possibilidades econômicas das
diferentes regiões do Brasil. Para ele, o documentário seria o melhor
caminho para alcançar tal objetivo, já que poderia proporcionar um
intercâmbio cultural. Mauro defendia o filme educativo com arte,
sem amadorismo. Durante o período em que Humberto Mauro
permaneceu no INCE, suas produções não foram exclusivamente
de caráter pedagógico, já que defendia a produção de filmes
industriais de qualidade que poderiam ter grande alcance sobre o
público e servir à educação do povo.
No ano de 1961, o INCE passa à direção de Flávio Tambellini, que,
segundo Schvarzman (2004), remove o caráter educativo do instituto
para transformá-lo em Instituto Nacional de Cinema, em 1966,
abandonando definitivamente a realização de filmes educativos.
4.1.2 Rádio e dispositivos de áudio
A mídia radiofônica oferece as seguintes vantagens: a) cobre uma
vasta região geográfica; b) é de fácil transporte; c) não depende
da existência de instalações de energia elétrica. Geralmente
os automóveis possuem aparelhos de rádio que nos fazem
companhia quando ficamos algumas horas em viagens ou nos
congestionamentos das zonas urbanas. Além disso, a dona de
casa, a criança, o adolescente, a faxineira, o pedreiro; enfim, quem
quiser, pode ter ao seu lado o “radinho” como companhia em suas
atividades. Afinal, o rádio está disponível em dispositivos cada vez
menores, inclusive em celulares (HACK, 2009).
57
Introdução à Educação a Distância
O rádio passou a ser largamente empregado no processo educativo
a distância devido à sua versatilidade e ao seu alcance. O Brasil deu seus
primeiros passos em direção à radiodifusão com finalidades educativas
em 1923, quando Edgard Roquette Pinto e um grupo de amigos
fundaram a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. A emissora era operada
pelo Departamento de Correios e Telégrafos, que transmitia programas
de: 1) literatura; 2) radiotelegrafia e telefonia; 3) línguas; 4) literatura
infantil; 5) outras temáticas de interesse comunitário. No ano de 1936, a
emissora foi doada ao Ministério da Educação pelo seu fundador.
Nas décadas de 1950 e 1960, também foram feitas experiências com
radiodifusão educativa, mas os projetos naquele período não tinham
continuidade e foram interrompidos por motivos como a falta de
infraestrutura financeira ou administrativa e a ausência de avaliações
sistemáticas das propostas (NISKIER, 1993). Ao historiar a radiodifusão
no Brasil, Piovesan (1986) observa que a opção da erradicação do
analfabetismo via rádio foi tomada várias vezes no decorrer da história
brasileira, como se verifica nas seguintes experiências de caráter regional:
• o Movimento de Educação de Base (MEB), em 1961;
• a Fundação Educacional Padre Landell (FEPLAN), em 1967;
• a Fundação Padre Anchieta (FPA), em 1967;
• o Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB), em 1969.
Na década de 1970, tivemos um projeto de iniciativa da Rádio MEC,
o Projeto Minerva, que tinha o intuito de proporcionar a interiorização
da educação básica, buscando suprir as deficiências que existiam na
educação formal em regiões onde o número de escolas e professores
era escasso. Pelo projeto, pretendia-se preparar os radiouvintes para
provas de exames supletivos como os antigos “exames de madureza”. A
proposta do Projeto Minerva teve alguns resultados negativos, como: a)
a flutuação de matrícula; b) a evasão; c) a impossibilidade de avaliar o
rendimento dos alunos (HACK, 2009).
58
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
Hoje em dia, o rádio dificilmente é a mídia exclusiva de um curso
a distância, mas, indiscutivelmente, pode ser um dos elementos de um
conjunto de alternativas que permitirão ao aluno variadas formas de
acesso ao conhecimento midiatizado. Em alguns momentos de nossa
experiência com a EaD, tivemos a oportunidade de produzir programas
exclusivamente para áudio, e o planejamento de radionovelas com
conteúdos didáticos deu bons resultados.
Por fim, antes de encerrar o capítulo, queremos ressaltar que a di-
minuição do tamanho dos dispositivos de acesso ao rádio ou a arqui-
vos em áudio tem facilitado seu transporte aos mais diversos ambien-
tes. É possível acessar o rádio ou os arquivos de áudio em aparelhos
específicos pelo computador ou por tantos outros dispositivos portá-
teis que podem inclusive nos acompanhar em nossos exercícios físicos
diários. Por isso, entendemos que o uso de arquivos de áudio na EaD
pode ser um bom diferencial em determinados cursos, dependendo
do público-alvo que se pretende atingir: um aluno que precisa ficar
muitas horas em trânsito para o trabalho pode ouvir aulas, depoimen-
tos e outras exemplificações em áudio enquanto se desloca.
Como você observou nes-
te capítulo, o uso do rádio
4.1.3 Televisão como ferramenta didática
não é uma prática recente
em nosso país, e a análise
São muitos os brasileiros que possuem familiaridade com a dos exemplos expostos é im-
portante como ponto de par-
televisão desde que nasceram. Em muitos ambientes, o espaço físico tida à reflexão sobre o uso
onde a televisão está instalada é privilegiado, e algumas famílias de múltiplas tecnologias em
processos educativos. Agora,
possuem vários aparelhos distribuídos pelos cômodos da casa. você pode aprofundar seu
Alguns telespectadores gostam tanto de assistir à televisão que são estudo sobre rádio e produ-
tos de áudio na EaD fazendo
capazes de interromper conversas com amigos e familiares ou até uma pesquisa nos projetos
mesmo cancelar passeios para dar atenção ao seu programa predileto. governamentais e privados
que utilizam mídias sonoras.
Enfim, a televisão está efetivamente inserida em nossos lares e por tal Assim, sugiro que você inicie
motivo pode ser empregada com sucesso na EaD, desde que utilizada pelo site do Ministério da
Educação (www.mec.gov.br).
de forma adequada. Boa navegação!
59
Introdução à Educação a Distância
• Como é o hábito de assistir à televisão em sua casa?
• Onde o equipamento está instalado?
• Quanto tempo você e seus familiares dedicam às programações
televisivas?
• Mais uma pergunta: da totalidade do tempo dedicado à televisão,
quanto é dedicado a programas com cunho educativo?
Responda às perguntas anteriores como um estímulo à reflexão
pessoal sobre a temática!
Em nossa interpretação, a utilização da televisão no processo
educativo, privado ou público, precisa estar envolvida em um
ambiente crítico e criativo para que resulte em experiências
construtivas (HACK, 2009). Para Litto (1986), a televisão
educativa deveria envolver o desenvolvimento da mente e
do poder imaginativo do espectador. Segundo o autor, existe
uma diferença entre a televisão educativa e a não educativa: a
primeira tem o direito de transmitir apenas os conteúdos que
representam um passo à frente para o espectador, enquanto
a segunda reforça aquilo que é banal, de conhecimento
público e consequentemente não obriga a mente a trabalhar.
Ao fazer uma breve retrospectiva do uso da televisão em processos
educativos em nosso país, chegamos à experiência iniciada em 1962 para
preparar jovens e adultos para as provas do exame supletivo do antigo
primeiro grau, conhecidas como “exames de madureza”. Tal projeto,
denominado Universidade de Cultura Popular, produzia videoaulas
na extinta TV Tupi, com o patrocínio da Shell. Ainda na década de
1960, foi implantada a primeira emissora de TV educativa: a Televisão
Universitária do Recife, administrada pela Universidade Federal de
Pernambuco. Em 1967, surge a Fundação Centro Brasileiro de Televisão
Educativa, que em 1973 recebe a outorga do canal, denominando-se a
partir de então de Televisão Educativa (TVE).
60
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
Um exemplo bem conhecido sobre a utilização da televisão como
recurso educacional a distância em nosso país são os Telecursos, parceria
entre a Fundação Roberto Marinho e a Fundação Padre Anchieta. O
primeiro Telecurso da Fundação Roberto Marinho foi lançado em 1978
A Fundação Padre Anchieta
e sofreu importantes remodelações em dois momentos: 1) em 1994 é composta por Rádio e TV
Educativas, instituído pelo
e 1995, passando a se chamar Telecurso 2000; 2) em 2006, passando
governo do Estado de São
a se chamar Novo Telecurso. O público-alvo dos programas são os Paulo em 1967. Para saber
mais, acesse o site: www2.
milhões de brasileiros acima de 15 anos que por algum motivo foram
tvcultura.com.br/fpa/.
excluídos do sistema regular de ensino fundamental e médio (HACK,
2009). A proposta sistematiza o ensino produzindo e distribuindo
fascículos semanais, com o intuito de preparar o aluno especialmente
para os exames supletivos oficiais. A primeira versão do Telecurso foi
lançada no estado de São Paulo, em janeiro de 1978, mas a experiência
assumiu caráter nacional, com o envolvimento de emissoras de televisão
educativas e comerciais (NISKIER, 1993).
Agora, queremos chamar sua atenção a uma proposta que faz uso
de um canal de televisão exclusivo para atividades educacionais em nosso
país: a TV Escola. O projeto foi implantado no segundo semestre de 1995,
quando foram distribuídos os kits tecnológicos (um televisor, uma antena
parabólica, um videocassete e fitas) para cada escola pública, com mais de
100 alunos. Inicialmente, previa-se que as programações iriam partir de um
canal de televisão em circuito fechado, voltado para a escola brasileira. O
intuito era que cada instituição de ensino público, dotada do kit tecnológico,
gravaria os programas repassados pela TV Escola e utilizaria esse material
como uma biblioteca audiovisual. Entretanto, em matéria publicada pela
Folha de S. Paulo no dia 23 de fevereiro de 1997, o então secretário de
Educação a Distância do MEC, Pedro Paulo Poppovic, reconheceu que o
projeto TV Escola cometeu alguns equívocos. O principal deles foi o envio Até o momento da escrita do
presente livro, em 2010, mais
dos kits tecnológicos antes mesmo de preparar os professores e sem ter de 75 mil escolas haviam
informações precisas sobre as condições das escolas para adequar o projeto recebido o kit do projeto DVD
Escola, com aproximadamen-
às realidades específicas (HACK, 2009). Desde 2006, existe um projeto do te 150 horas de programas
MEC denominado DVD Escola, que visa incrementar a utilização da TV educativos.
Escola; para tanto, oferece às instituições públicas de educação básica: 1)
um aparelho reprodutor de DVD; 2) uma caixa com 50 mídias DVD, que
apresentam alguns excertos da programação produzida pela TV Escola.
61
Introdução à Educação a Distância
Poderíamos continuar citando outros exemplos nacionais de uso da
televisão no processo educativo, como: 1) o sistema nacional de emis-
soras educativas, a TV Educativa do governo, que opera em rede
nacional há anos; 2) o Canal Futura, criado em 1997 e financiado pela
iniciativa privada. Nosso objetivo, contudo, é encerrar a explanação
sobre a televisão no contexto educacional apontando que a introdução
da mídia no processo de ensino e aprendizagem é imperativa devido à
inserção do veículo em nosso cotidiano, porém é imprescindível discutir
e avaliar a melhor maneira de realizar essa tarefa desafiadora.
4.1.4 Computador
A utilização do computador como recurso tecnológico no processo
educativo encontra força em sua flexibilidade e amplitude de
recursos. A possibilidade de agregar múltiplas mídias e periféricos
em um mesmo equipamento torna o computador um grande
aliado do docente e do estudante da EaD. Assim, é possível
difundir mensagens e aulas completas aos alunos que residem
longe das instituições de ensino, seja através de CD, DVD, internet
ou em ambientes virtuais de ensino e aprendizagem, criados
exclusivamente para o acesso a atividades de formação. Atualmente,
existem cursos de extensão em que o estudante nunca precisa se
deslocar à instituição que está promovendo sua capacitação. Basta
adquirir o material, ter a tecnologia em sua casa para operar as
atividades e, naturalmente, investir no aprendizado.
No Brasil, a primeira tentativa de adaptar a informática na
educação de crianças partiu da Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP). O projeto iniciou logo após a visita de Seymour Papert,
criador da linguagem Logo, à UNICAMP, na década de 1970. No ano
de 1975, o professor Armando Valente, da Faculdade de Educação da
UNICAMP, foi ao Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos
Estados Unidos, com o intuito de pesquisar o uso de computadores
62
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
com a linguagem Logo na educação infantil, experiência que trouxe
posteriormente ao nosso país.
Motivado pelo movimento que ocorria em alguns países,
principalmente nos Estados Unidos, de inclusão do computador no
contexto educacional, o governo brasileiro criou, no ano de 1979, a
Secretaria Especial de Informática. O organismo visava não apenas
debater, mas também viabilizar a informatização das escolas brasileiras
com o apoio do MEC, do CNPq e da FINEP. Outro intuito era desenvolver
a pesquisa em hardware e software através da Política Nacional de
Informática. Como resultado dos encontros promovidos pela Secretaria
Especial de Informática, o governo brasileiro desenvolveu uma política
de informatização na educação.
É importante assinalarmos que o Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) é uma agência
do Ministério da Ciência e Tecnologia que financia pesquisas e
oferece bolsas de estudos. Os recursos do CNPq são distribuídos
por editais e contemplam desde a iniciação científica até o pós-
doutorado. O site do CNPq é: www.cnpq.br. Já a Financiadora
de Estudos e Projetos (FINEP) é uma empresa pública, também
vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, que surgiu para
institucionalizar o Fundo de Financiamento de Estudos e Projetos.
A empresa financia projetos ligados à ciência, tecnologia e inovação
através de chamadas públicas voltadas a empresas, universidades,
institutos tecnológicos e outras instituições públicas ou privadas.
O site da FINEP é: www.finep.gov.br.
O primeiro projeto oficial que visava à informatização da
educação no Brasil surgiu em 1984 e foi denominado EDUCOM. A
iniciativa partiu do MEC e outros órgãos federais, que tinham o
intuito de fomentar a pesquisa e a formação de recursos humanos
para a futura implantação de computadores nas escolas da rede
pública de ensino. No ano de 1986, o MEC criou um programa para
63
Introdução à Educação a Distância
capacitar professores através do EDUCOM: o FORMAR I, sediado na
UNICAMP. A capacitação pretendia dar suporte técnico às secretarias
estaduais de educação, escolas técnicas e universidades. A repercussão
desse primeiro curso oficial foi boa e resultou na criação de centros de
informática em diversos estados brasileiros.
Em 1996, o MEC anunciou o Projeto Especial de Informática, que
pretendia disponibilizar ao menos 10 computadores em cada escola
com mais de 300 alunos. O projeto foi alvo de críticas da imprensa
e de especialistas, levando-o a várias revisões, principalmente porque
previa a compra e distribuição dos computadores antes do treinamento
dos professores. Em 1997, o Programa Nacional de Informática na
Educação (PROINFO), da Secretaria de Educação a Distância do
MEC, estabeleceu diretrizes para iniciar o processo de universalização
do uso de tecnologia de ponta no sistema público de ensino. Para tanto,
enfatizou a capacitação dos docentes que utilizariam os recursos e
Como você pode perceber,
historicamente, a utilização propôs a implementação descentralizada do programa, para evitar
do computador na educação riscos por ignorar peculiaridades locais (HACK, 2009).
recebeu impulsos governa-
mentais e aqui destacamos
alguns projetos. Sugerimos
que você acesse o site do Mi-
nistério da Educação (www. 4.1.5 Teleconferência, videoconferência e webconferência
mec.gov.br) para conhecer
outras propostas.
Até aqui destacamos algumas experiências brasileiras de uso do
cinema, do rádio, da televisão e do computador no processo educativo.
Agora, queremos apresentar a definição de três tecnologias que são
largamente utilizadas na EaD em todo o mundo e das quais o sistema UAB
também faz uso: a teleconferência, a videoconferência e a webconferência.
Antes de expormos as particularidades de cada tecnologia,
queremos destacar que, independentemente do formato do produto
audiovisual, alguns cuidados serão sempre indispensáveis àqueles que
se propõem a tal produção, quais sejam:
• planejar o momento audiovisual com antecedência elaborando
um roteiro para potencializar o tempo disponível e organizar as
estratégias a serem empreendidas;
64
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
• respeitar os direitos autorais de imagens, sons, vídeos e outros
recursos que serão utilizados e porventura possam ter restrição
de uso;
• visitar, com antecedência, a sala onde será a gravação de áudio
e vídeo para conhecer o local e se ambientar, aproveitando para
pegar dicas sobre vestuário e maquiagem com os técnicos;
• testar na sala de gravação apresentações, esquemas, tabelas,
imagens e demais ilustrações, para verificar como será a recep-
ção na tela, observando aspectos como cores, tamanho de fonte,
quantidade de informação, entre outros (HACK, 2010).
Existem relatos sobre o uso da teleconferência, videoconferência e
webconferência em experiências nacionais de EaD na obra organizada
por Litto e Formiga (2008).
Teleconferência
A teleconferência possui algumas peculiaridades e sua
estrutura de produção e difusão geralmente envolve três
momentos distintos: a) a gravação da conferência ao vivo em
um estúdio de televisão; b) a transmissão, em sua maioria via
satélite; c) a recepção, geralmente via rede aberta de televisão
ou por antena parabólica, podendo ocorrer em telecentros,
com a presença de tutores que mediarão a discussão da
temática. Em termos de organização de tempo e estrutura
de execução, as teleconferências geralmente seguem um
padrão: a) iniciam com uma palestra, entrevista ou debate
entre um grupo de preletores; b) na sequência, cria-se a
possibilidade de participação da audiência, com perguntas ou
opiniões, por meio de telefone, fax ou e-mail (HACK, 2010).
65
Introdução à Educação a Distância
Com o surgimento da videoconferência, a teleconferência acabou
perdendo parte de seu espaço, pois é uma via de mão única, ou seja,
a audiência assiste ao conferencista, mas o conferencista não vê a
audiência. Contudo, a teleconferência continua sendo utilizada em
nosso país por várias instituições (ministérios, bancos, universidades,
etc.) para fazer o lançamento de novas propostas, projetos, bem como
para palestras em lugares remotos, sem a necessidade de deslocamento
do palestrante.
Videoconferência
Como destacado anteriormente, a diferença entre a teleconferência
e a videoconferência é que a segunda possibilita a conversa em duas
vias. Assim, as pessoas que participam de uma videoconferência
conseguem ver-se e ouvir-se simultaneamente. Tal benefício cria
a pos-sibilidade de tirar as dúvidas da audiência em tempo real. A
videoconferência foi amplamente utilizada por grande parte das
instituições do sistema UAB nos primeiros anos de implementação
do projeto.
Existem basicamente duas formas de realizar uma videoconferência:
1) ela pode ser ponto a ponto, quando liga apenas duas salas; 2)
ela pode ser multiponto, quando há três ou mais salas interligadas.
Na transmissão multiponto, é preferível que haja o gerenciamento
da videoconferência no local onde se encontra o professor. Assim,
mesmo que todos os demais locais possam enviar som e imagem para
os outros polos integrantes, haverá uma ordenação gerencial. Se uma
videoconferência é realizada com muitos polos ao mesmo tempo, o
professor ou gerenciador precisará interagir de maneira dinâmica com
todos os locais, para que se mantenha a motivação (HACK, 2010).
66
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
Webconferência
A webconferência tem algumas semelhanças com a
videoconferência, pois permite que todas as pessoas envolvidas se
vejam e se ouçam. Como o próprio nome indica, a webconferência
é transmitida pela web e pode ser acessada pelo aluno de qualquer
computador ligado à internet. É necessário que os computadores
tenham câmera e microfone para que todos possam utilizar tais
recursos, mas o aluno que não possui essas ferramentas poderá
interagir com a turma utilizando ferramentas de mensagens de
texto, disponibilizadas no próprio ambiente da webconferência,
semelhantes a uma sala de bate-papo da internet.
Em uma sala de webconferência existe sempre a figura do
gerenciador. Tal pessoa consegue habilitar ou desabilitar o vídeo, o áudio
e as mensagens de texto de todos os participantes. O gerenciador também
tem a possibilidade de utilizar e habilitar o uso aos demais participantes
de múltiplas ferramentas, à semelhança de uma lousa digital, que permite
projetar documentos, imagens, apresentações, vídeos, sites ou até mesmo
a tela do computador de quem está no comando da aula. O próprio
professor da disciplina pode ser o gerenciador da sala de webconferência,
pois a maioria dos recursos utilizados pode ser aprendida facilmente por
aqueles que possuem certa familiaridade com um AVEA. O sistema UAB
também utiliza a webconferência em algumas experiências nacionais.
4.1.6 Tantas outras coisas e-mais
O título acima é uma brincadeira com as palavras que apareceram
na atualidade, antecedidas pelo “e”, de “eletrônico”. Palavras como:
e-mail, e-learning, e-messenger, e-gov, etc. Isso é apenas uma provocação
à reflexão sobre as possibilidades de utilização de recursos tecnológicos
no processo de ensino e aprendizagem. Tais possibilidades são múltiplas
e certamente continuarão em constante avanço, pois a cada instante
67
Introdução à Educação a Distância
as empresas de tecnologia nos surpreendem com novas ferramentas e
dispositivos. Contudo, o uso eficiente de múltiplas tecnologias e seus
recursos no processo educativo é um aspecto que deve ser discutido
intensamente pelas equipes que os produzirão.
Como vimos até aqui, o cinema, o rádio, a TV, o computador, a
teleconferência, a videoconferência, a webconferência e tantas outras
tecnologias podem dinamizar o processo de ensino e aprendizagem na
EaD, pois
• quebram a monotonia;
• exemplificam a temática com recursos diferentes (texto, áudio,
imagem, etc.) e tornam mais claros os objetivos de aprendizagem
propostos pelo docente;
• motivam os estudantes a dar continuidade aos estudos, pois os
estimulam a ampliar as reflexões em outros materiais;
• ampliam e amplificam as possibilidades de comunicação
(HACK, 2010).
Queremos lembrá-lo de que
os textos didáticos na EaD
podem ser impressos, em áu- O primordial é a maneira como se combinam as funções do
dio, vídeo ou outros suportes. comunicar, do explicar e do orientar nos textos didáticos. Por isso, eles
precisam estar estruturados adequadamente, com vistas às necessidades
cognitivas dos estudantes (PETERS, 2001). Para tanto, entram em cena
aspectos como:
• a necessidade de todos os envolvidos dominarem a tecnologia,
sujeitando-a aos objetivos pessoais ou coletivos, sem se deixar
escravizar;
• a importância do uso crítico, criativo e contextualizado das
múltiplas tecnologias que nos cercam (HACK, 2009).
68
Múltiplas tecnologias em processos educativos
Capítulo 04
A tecnologia precisa ajudar o aluno a desenvolver suas próprias
estratégias de estudo, levando-o a conhecer sua estrutura e suas
habilidades cognitivas, ou seja, como ele aprende melhor. A
tecnologia deverá sempre ser um meio e não o fim do processo de
construção do conhecimento a distância.
69
A construção do conhecimento a distância
Capítulo 05
5 A construção do
conhecimento a distância
No capítulo anterior, foi possível verificar que existem múltiplas
tecnologias disponíveis à EaD, e elas estão sendo cada vez mais utilizadas
de forma integrada. Os materiais impressos, os produtos audiovisuais e
os ambientes virtuais têm liberado as pessoas da frequência cotidiana
e presencial a uma sala de aula, pois a educação tem chegado aonde o
aluno quiser estudar e quando lhe for mais conveniente. Segundo Rumble
(2000), a pressão para a adoção de múltiplas tecnologias no processo de
construção do conhecimento a distância surge de três fatores intimamente
ligados à comunicação necessária entre os interlocutores, quais sejam:
• proporcionar diálogo interativo com a maior rapidez possível;
• criar oportunidades para a interlocução e a interatividade;
• ampliar cada vez mais a velocidade na comunicação educativa
a distância.
Vale lembrar que os fundamentos da interatividade, segundo
Silva (2003, p. 58), podem ser encontrados em sua complexidade
na informática, no ciberespaço, na teoria da comunicação e em
outros espaços. Para o autor, é possível identificar três facetas na
interatividade: 1) a participação-intervenção, em que participar
não é apenas responder “sim” ou “não”, mas significa modificar
a mensagem; 2) a bidirecionalidade-hibridação, que entende o
processo comunicacional como produção conjunta e cocriação
entre emissor e receptor; 3) permutabilidade-potencialidade, que
aponta para a comunicação em múltiplas redes articulatórias de
conexões, com liberdade de troca, associação e significação.
71
Introdução à Educação a Distância
Assim, um cenário comunicacional diferenciado ganha centralidade,
e passa a ocorrer aquilo que Silva (2003) descreve como a transição da lógica
da distribuição, baseada na transmissão, para a lógica da comunicação,
baseada na interatividade. Tal transição provoca a busca por estratégias
diferenciadas daquelas utilizadas outrora por mídias, como o rádio e a
televisão, em seu planejamento e organização, que geralmente apontavam
para a transmissão unidirecional, não dialógica.
A televisão que conhecemos
até o momento da escrita A busca por tecnologias que promovessem a interlocução entre os
do presente livro, 2010,
é um exemplo de mídia envolvidos na EaD passou por algumas fases.
unidirecional e não dialógica,
afinal nós somos apenas
receptores das mensagens • 1ª fase – Segundo Rumble (2000), é o período em que o processo
e não podemos interagir comunicacional entre as partes acontecia via material impresso
com os conteúdos. No
entanto, as tecnologias ou escrito à mão. Tal fase distinguia-se principalmente pelo
evoluem! É possível que termo educação por correspondência e dispunha de uma indústria
dentro de algum tempo
as pessoas efetivamente gráfica relativamente barata, mas apenas pôde se desenvolver
possam interagir com os após o barateamento dos serviços postais, principalmente a
conteúdos veiculados por
mídias que hoje consideramos partir de 1840, momento em que o transporte ferroviário trouxe
unidirecionais. confiabilidade e agilidade ao correio. A 1ª fase da EaD recebeu
um incremento no século XX com a utilização do transporte
rodoviário e aéreo, bem como com a revolução causada pela
informatização da indústria gráfica. Para o futuro, o aumento de
tecnologias de impressão nas residências dos usuários e a criação
de dispositivos que facilitem a leitura em tela podem servir de
estímulo à substituição de determinados produtos impressos.
• 2ª fase – Para Rumble (2000), é a fase em que o processo
A amplitude de cobertura das comunicacional tem seu suporte principal na tecnologia da
redes terrestres de trans- rádio e teledifusão. Tudo começou com a captação e transmissão
missão de rádio e televisão
dependia de fatores como: via rádio e televisão de leituras ao vivo, na sala de aula onde
potência dos transmisso- se encontrava o professor, a grupos de alunos em salas de
res; número e alcance das
estações de repetição. A aula distantes. Em alguns casos, existiam linhas telefônicas à
existência de barreiras físicas, disposição do aluno para este se comunicar com o professor
como, por exemplo, monta-
nhas, causava problemas de durante o momento da aula. A 2ª fase foi impulsionada
recepção. quando as redes de transmissão terrestres começaram a ser
substituídas ou amparadas por sistemas de transmissão por
72
A construção do conhecimento a distância
Capítulo 05
satélite. As transmissões radiofônicas e televisivas por satélite
proporcionaram uma cobertura geográfica mais ampla e
trouxeram a possibilidade de criação de sistemas internacionais
de EaD.
• 3ª fase – É quando, segundo Rumble (2000), o processo
comunicacional começa a utilizar tecnologias multimídia: com
texto, áudio e vídeo ao mesmo tempo. Em suma, ela junta a
primeira e a segunda fase da EaD, e a transmissão audiovisual
tende a ser usada como um meio de apoio ao material impresso.
Existem contatos presenciais, mas o ensino é predominantemente
via mídias. Os sistemas da terceira fase da EaD evoluem conforme
a evolução da informática e contam com toda uma gama de
tecnologias – das mais baratas às mais dispendiosas. A utilização
das tecnologias é geralmente flexível, e o que pode ser feito com
uma tecnologia também pode ser obtido pelo uso de outra mídia.
• 4ª fase – É aquela que se baseia na comunicação mediada
por computador (RUMBLE, 2000). A quarta fase da EaD é
caracterizada pela utilização de conferência por computador,
correio eletrônico, acesso a bancos de dados, pesquisas em
bibliotecas eletrônicas, utilização de ambientes virtuais, entre
outras coisas. A quarta fase da EaD ganha impulso na década de
1990, e inicialmente os custos para a sua adoção eram elevados, já
que demandava a compra de computador, softwares específicos
e conexão com a internet. No ano de 2010, a velocidade da rede
para processar as transações ainda é um grande problema em
determinados locais, mas, indiscutivelmente, a quarta fase da
EaD é verdadeiramente global.
• 5ª fase – É o momento em que a EaD começa a utilizar processos
comunicacionais envolvendo agentes e sistemas de respostas
inteligentes, baseados em pesquisa no campo da inteligência
artificial (TAYLOR, 2001). A quinta fase da EaD precisa de
equipamentos sofisticados e linhas de transmissão eficientes
para funcionar adequadamente, mas a disseminação e o
73
Introdução à Educação a Distância
barateamento dessa tecnologia ocorrerão com o tempo. O uso
de agentes inteligentes na EaD proporciona ao aluno a interação
com personagens virtuais que respondem às suas questões de
forma personalizada e contextualizada, agindo como um tutor
virtual. Tais personagens virtuais podem assumir múltiplas
formas: homem, mulher, animal ou qualquer outra mascote. Os
agentes e sistemas de respostas inteligentes abordam os usuários
chamando-os pelo nome e identificam quais os caminhos
trilhados no ambiente virtual antes da dúvida se estabelecer.
Assim, utiliza um processo de comparação para identificar a
estratégia que levará o aluno a resolver o impasse pelo qual está
passando. As mascotes virtuais podem ser acessadas sempre
que necessário, criando inclusive rotinas de abordagem pelas
quais o usuário pode definir os momentos em que não quer ser
interpelado pelo agente virtual (HACK, 2010).
A ordem das fases da EaD que apresentamos anteriormente
determina as mudanças a partir das tecnologias utilizadas no processo
de construção do conhecimento a distância. Como o acesso a múltiplas
tecnologias acontece paulatinamente, sem seguir um padrão rígido e
conforme cada contexto, a possibilidade de que todas as fases da EaD
coexistam é real. Em alguns momentos, podem ocorrer situações em que
se desenvolva um curso multimídia para algumas localidades, enquanto
em outras realidades o mesmo curso precise ser aplicado apenas com
ênfase no material impresso.
Perceba, então, que a adoção de múltiplas tecnologias permite
que o processo de construção do conhecimento a distância seja
particularizado e personalizado. Por isso, é necessário que as
ferramentas tecnológicas estejam adaptadas a cada contexto e permitam
que docentes e discentes utilizem-nas de forma otimizada no ensino e
aprendizagem. Se o ambiente de estudo dos alunos a distância estiver
No próximo capítulo, apro-
equipado com as tecnologias necessárias e uma conexão rápida para
fundaremos a discussão a comunicação educativa, a distância será apenas física, pois alunos,
teórica sobre a importância
da comunicação educativa
tutores, professores, enfim, toda a comunidade acadêmica virtual estará
dialógica na EaD. conectada e construirá um processo comunicacional dialógico.
74
A construção do conhecimento a distância
Capítulo 05
Como visto, é certo que as tecnologias inovadoras podem trazer pos-
sibilidades de mediação cada vez mais imediatas da informação, mas ao
mesmo tempo adicionam complexidade ao processo, pois há dificuldades
a serem vencidas para uma utilização de múltiplas mídias como potencia-
lizadoras do processo de construção do conhecimento. Para Peters (2001),
muitos anos se passarão até que alcancemos o domínio das possibilidades
tecnológicas na EaD e muitos empecilhos precisarão ser vencidos.
Durante o tempo de escrita do presente livro, o segundo semestre
de 2010, a internet ainda era considerada como o prático caminho
que levaria à informação e à comunicação, pois ela integra telefonia,
radiodifusão, sistemas televisivos, mídia impressa, bem como
possibilita a manifestação daqueles que outrora apenas recebiam a
comunicação emitida pela mídia. Contudo, como se trata de uma
área em que a evolução tecnológica é constante, a forma de ensinar e
aprender a distância poderá ganhar, em breve, contornos e dimensões
nunca antes imaginadas. Se bem aplicadas, tais características tornarão
a aprendizagem mais atraente e eficiente para o estudante, enquanto
ao docente se apresentará a possibilidade de ampliação do espaço de
escolha e gestão de novas práticas didáticas (HACK, 2010).
Cabe ressaltar que a rapidez nas transformações e atualizações das
inovações tecnológicas traz a obsolescência quase imediata de de-
terminados equipamentos que, consequentemente, deixam de ser
“novos” logo que os compramos e levamos para nossas casas. Além
disso, para algumas pessoas, certas tecnologias ainda são “novas”, en-
quanto para outras já se tornaram ultrapassadas: para um adolescen-
te, a televisão analógica pode ser ultrapassada, enquanto uma pessoa
de 60 anos, que acompanhou a introdução da televisão na sociedade
brasileira, pode considerá-la como uma nova tecnologia. No entanto,
independentemente de ser “nova” ou não, na maioria dos lares, algu-
mas tecnologias, como a TV digital, estão em vários cômodos, e em
certas casas o computador já habita mais de um lugar.
Reflita um pouco sobre sua própria experiência. Esse é um bom
exercício de aprendizagem.
75
Introdução à Educação a Distância
Em suma, devido às suas características técnicas, as tecnologias
digitais oferecem cada vez maiores possibilidades de interação
midiatizada entre as partes envolvidas no processo de ensino e
aprendizagem, bem como permitem a interatividade com materiais
de boa e má qualidade, em grande variedade. As técnicas de interação
midiatizada (e-mail, listas, grupos de discussão, sites, ambientes virtuais
de ensino e aprendizagem, entre outros) apresentam grandes vantagens
no gerenciamento do processo de construção do conhecimento a
distância, pois permitem combinar a flexibilidade da interação humana
com a independência no tempo e no espaço.
Mesmo que o uso de ferramentas como o computador represente
saltos significativos na gestão do processo educacional, o ser humano
precisa sentir-se sujeito das mudanças, pois a tecnologia é apenas um
impulso para a humanidade empreender mudanças que objetivem a
ampliação da qualidade de vida de todas as pessoas (HACK, 2009).
Na discussão do papel das múltiplas tecnologias e também nas
muitas tentativas de experimentá-las, está em jogo sua utilização como
potencializadora da construção do conhecimento na EaD. Ninguém sabe
ao certo o que poderá ser realizado no futuro, seja por motivos financeiros,
logísticos, pragmáticos ou também pedagógicos. Todavia, são prementes
algumas providências técnicas, às vezes financeiramente dispendiosas, aos
que pretendem possibilitar a realização de determinadas midiatizações
de processos educativos a distância. Assim como existem outros tantos
A importância do senso críti- questionamentos no que tange ao tempo que os envolvidos com o
co, da percepção criativa, da conhecimento midiatizado precisarão para se acostumar à experiência.
autonomia e da cooperação
na EaD será abordada em Por isso, destacamos a importância que o senso crítico e a percepção
mais detalhes na Unidade C. criativa para o desenvolvimento de uma compreensão equilibrada têm
sobre as mudanças advindas ao processo de construção do conhecimento
a distância com o uso de múltiplas tecnologias.
76
Comunicação dialógica na EaD
Capítulo 06
6 Comunicação dialógica na EaD
As mudanças no processo comunicacional devido ao uso de múltiplas
tecnologias alcançaram a educação e trouxeram importantes desafios
à prática dentro e fora da sala de aula. Algumas literaturas sobre EaD
(PRETI, 2000; PETERS, 2001; MOORE; KEARSLEY, 2007) apontam que
a comunicação dialógica é a tônica das boas propostas de construção do
conhecimento a distância. Isso significa que a simples difusão de conceitos
não é suficiente para se instaurar o processo de ensino e aprendizagem.
Então, vamos entender o que é comunicação dialógica na EaD, partindo
da compreensão de como funciona o processo comunicacional.
Nossa concepção parte do entendimento proposto por Bordenave
(1998) para a comunicação: um processo natural, uma arte, uma
tecnologia, um sistema e uma ciência social. Para o autor, a comunicação
pode tanto ser o instrumento legitimador das estruturas sociais como
também pode ser a força contestadora e transformadora. Segundo
Bordenave, o processo comunicacional pode ser instrumento de
autoexpressão e de relacionamento pacífico entre as pessoas, ao mesmo
tempo em que pode ser um recurso de opressão psicológica e moral. Em
suma, através do processo comunicacional as pessoas dialogam, lutam,
sonham, choram, amam e constroem o conhecimento a distância.
Após as palavras introdutórias de Bordenave, queremos acrescentar
à nossa definição de processo comunicacional o ingrediente da interação
(feedback), que para Berlo (1999) é um “bom” efeito na comunicação
humana, pois, ao se comunicar, a pessoa constantemente procura o
feedback. Em outras palavras, o feedback é um processo de conferência
da informação: o emissor busca certificar-se de que conseguiu codificar
corretamente a mensagem e que o interlocutor decodificou-a da forma
desejada pelo emissor.
Prosseguindo em nossa conceituação de processo comunicacional,
além da significação dada por Bordenave (1998) e por Berlo (1999),
77
Introdução à Educação a Distância
adicionamos o pensamento de Freire (1997). Para o autor, o termo
comunicar assume o entendimento de uma filosofia voltada à troca
entre as pessoas envolvidas no processo educacional, inspirada nas
experiências culturais. O pensamento do educador brasileiro Paulo Freire
obteve difusão e repercussão mundial, pois abriga a proposta de que a
Além de Paulo Freire, esta-
mos apresentando, desde o educação deve ser um processo revelador e habilitador, ou seja, uma
início da Unidade A, vários permanente descoberta, um movimento para e pela liberdade, no qual
autores. Aos poucos você
está construindo sua própria o processo comunicacional é imprescindível e inseparável. Acrescentar
concepção sobre o processo o pensamento de Freire em nossa definição significa colocar subjacente
de ensino e aprendizagem na
EaD. Uma dica: a leitura de a perspectiva de uma prática comunicacional educativa voltada ao
alguma obra completa ou de gerenciamento do processo de ensino e aprendizagem de forma crítica e
capítulos de textos sugeridos
aqui é uma boa estratégia criativa, na transformação social (HACK, 2009).
para ampliar suas reflexões
sobre o assunto.
Após entendermos como funciona o processo comunicacional, fica
patente que: falar sobre comunicação dialógica na EaD significa falar da
potencialização das estratégias comunicacionais com múltiplas tecnologias
para a construção do conhecimento. A questão não é inteiramente nova,
pois de certa forma o professor presencial já midiatiza o conhecimento
ao preparar aulas e materiais, por exemplo, ao preparar os tópicos de
O docente midiatiza o co-
nhecimento ao codificar as sua exposição oral, organizá-los no computador, em slides com imagens
mensagens educativas e tra-
estáticas ou em movimento e depois projetá-los em uma tela, durante
duzi-las sob diversas formas,
conforme a mídia escolhida, a aula presencial. O que muda é a quantidade de mídias disponíveis,
em colaboração com uma
renovadas cotidianamente, que acarretam uma crescente exigência de
equipe multidisciplinar. Além
disso, ele também comunica conhecimentos técnicos da parte dos docentes e discentes, bem como a
o conhecimento midiatizado
capacidade de gerenciar de forma dialógica tal processo (HACK, 2009).
utilizando ferramentas sín-
cronas e assíncronas, tarefa
que também é chamada de
mediação do conhecimento.
Sabemos que a comunicação dialógica na EaD não é uma tarefa
fácil, porque um número significativo de docentes e discentes
ainda não dispõe das competências necessárias. O processo
comunicacional no ensino presencial está tão alicerçado na aula
expositiva que muitos professores e alunos avaliam com certa
descrença a utilização de múltiplas tecnologias em contextos
educativos. Por isso, aquele que pretende assumir uma postura
interativa na EaD precisará desenvolver habilidades como:
78
Comunicação dialógica na EaD
Capítulo 06
• identificar quais tecnologias são indispensáveis levando em
conta o contexto onde serão utilizadas;
• dominar as ferramentas tecnológicas envolvidas no processo de
ensino e aprendizagem a distância do qual está participando;
• fomentar estratégias que potencializem a aprendizagem com
múltiplos recursos tecnológicos (HACK, 2009).
Aqui é importante destacarmos a necessidade de valorizar cada vez
mais o lado humano para não cair no risco de conotar as tecnologias como
substitutas da comunicação dialógica entre os envolvidos no processo de
ensino e aprendizagem a distância. Afinal, mesmo com a rarefação do
contato presencial, o processo de obtenção do conhecimento não deixa
de ser uma via de mão dupla em que o aluno aprende com o docente e
vice-versa. O suporte da comunicação educativa na EaD será o estudo
A educação sempre foi e
sistemático, por intermédio de materiais midiatizados, facilitado pela continua a ser um processo
complexo que utiliza meios
interação do aluno com docentes e especialistas, em que o processo
de comunicação para fun-
comunicacional é repensado continuamente para a potencialização dos damentar, complementar ou
apoiar a ação do docente
momentos de troca dialógica entre os envolvidos.
em sua interação com os
estudantes. Na educação
presencial, o quadro negro,
o giz, o livro, entre outros,
Neste capítulo da Unidade B, trataremos de vários aspectos são instrumentos pedagógi-
relacionados ao processo comunicacional dialógico na EaD, com cos que fazem a ponte entre
o conhecimento e o aluno.
ênfase no papel do docente. Na Unidade C, você encontrará as Na EaD, a interação com o
reflexões referentes ao papel do aluno e a importância da autonomia docente passa a ser indireta,
por isso torna-se necessária
na construção do conhecimento a distância. Agora, antes de a comunicação dialógica por
continuar sua leitura, temos uma pergunta: você já parou para pensar uma combinação de diferen-
tes tecnologias.
que redimensionar o seu processo comunicacional para adequá-lo à
EaD exigirá um bom tempo de dedicação de sua parte? Afinal, é
uma forma de pensar a educação com a qual você pode não estar
habituado. Então, reflita sobre o assunto. Depois, volte ao estudo.
79
Introdução à Educação a Distância
No contexto apresentado, o conhecimento é construído coletivamente,
e o docente precisa repensar seu papel na gestão comunicacional. Nossa
experiência com a EaD, que iniciou em 1997, demonstra que as mudanças
no processo comunicacional docente devido à introdução das tecnologias
ocorrem tanto na EaD quanto no ensino presencial. Através de alguns
instrumentos de comunicação e interação, por exemplo, o e-mail, o
estudante pode, agora, receber com antecedência o roteiro da aula,
as apostilas, os vídeos digitalizados, os sons, entre outros recursos que
subsidiarão seu estudo para o encontro pessoal. Caso o aluno não possa
comparecer, terá material para estudar, e as dúvidas que surgirem serão
esclarecidas no contato com a comunidade virtual de interlocutores,
formada pelos colegas, tutores e professores que se reunirão virtualmente
utilizando ferramentas do AVEA, como o fórum ou a sala de bate-papo, e
também interagirão por e-mail (HACK, 2009).
Como tantos outros recursos educacionais (livros, apostilas, etc.)
constituem-se em instrumentos de auxílio no processo de construção
do conhecimento a distância, as múltiplas tecnologias servirão para
motivar, ilustrar e reforçar as atividades ou torná-las mais interativas.
Por isso, o papel do docente na EaD é redimensionado, e ele passará a:
• validar, mais do que anunciar, a informação;
• proporcionar momentos de triagem das informações, para a
reflexão crítica, o debate e a identificação da qualidade do que é
oferecido pelas múltiplas mídias;
• orientar e promover a discussão sobre as informações
selecionadas e validadas;
• auxiliar na compreensão, utilização, aplicação e avaliação crítica
das inovações;
• possibilitar a análise de situações complexas e inesperadas;
80
Comunicação dialógica na EaD
Capítulo 06
• permitir a utilização de outros tipos de “racionalidade”: a
imaginação criadora, a sensibilidade táctil, visual e auditiva,
entre outras (KENSKI, 2003).
Ao mediar o conhecimento, sem muitas vezes poder visualizar,
ouvir as palavras nem perceber as reações imediatas do aluno, o
docente buscará potencializar o processo comunicacional para
que se estabeleça uma relação dialógica que incentive o estudante
na construção do conhecimento a distância. Essas formas
diferenciadas de lidar com a construção do conhecimento e seus
desdobramentos exigirão metodologias e ações diferenciadas,
pois em ambientes virtuais de ensino e aprendizagem a aquisição
de conhecimentos deixa de se fazer exclusivamente por meio
de leituras de textos para se transformar em experimentos com
múltiplas percepções e sensibilidades. Para tanto, será indispensável
priorizar a comunicação fluida, constante e bidirecional.
Sedimenta-se, então, a necessidade de repensar as nuances da
comunicação educativa no processo de ensino e aprendizagem a
distância, afinal, o conhecimento será construído coletivamente e
cooperativamente, com a participação de todos. Algo que exigirá de
docentes e discentes a criação de um ambiente, mesmo que virtual,
propício ao diálogo e que:
• incremente a utilização de ferramentas de comunicação,
instantâneas ou não, para contato entre todos em um processo
mais objetivo, pontual e planejado, com feedback rápido;
• melhore a interação pelo uso de múltiplas tecnologias, com o
aumento das possibilidades de discussão a distância de algumas
temáticas em busca de uma comunicação dialógica constante;
• entenda a prática docente como articuladora, orientadora e
auxiliadora na construção do conhecimento através do processo
81
Introdução à Educação a Distância
de comunicação de mão dupla, em contraposição à antiga
visão do docente detentor do conhecimento, que repassava os
conteúdos exclusivamente de forma expositiva;
• abra novos horizontes, ao buscar a familiaridade e depois a
criatividade na utilização de múltiplas tecnologias na EaD, sem
modismos e rotinas descontextualizadas;
• mude a postura paternalista, tão comum no ensino presencial,
substituindo-a pelo incentivo ao estudo autônomo e cooperativo,
com base na pesquisa e na mediação multimidiática (HACK,
2009).
Enfim, ao assumirmos uma proposta de comunicação dialógica
na EaD, estamos aceitando a proposta de que o conhecimento é um
construto que resulta da ação de todos e precisa ser gerido. Nessa
visão, o processo de ensino e aprendizagem a distância passa a ser
caracterizado não pelo discurso expositivo, da distribuição, mas
pela perspectiva de participação e cooperação, na qual o estudante
contribui como um coautor ativo. A comunicação educativa deixa
de ser voltada especificamente para a oratória quase exclusiva do
“professor repassador de informações” e passa a ser guiado pelo diálogo
interativo entre as partes. O docente torna-se o agente organizador,
dinamizador e orientador da construção do conhecimento através do
auxílio crítico e criativo na seleção das inúmeras informações às quais
o aluno é submetido cotidianamente.
É uma reorientação dos papéis do docente e do discente, aos quais
são acrescidas funções relacionadas com a busca, seleção e exploração
de informações existentes nas múltiplas tecnologias disponíveis.
Em outras palavras, na caminhada educacional, docente e discente
estabelecem um diálogo constante de cooperação mútua na construção
do conhecimento.
82
Comunicação dialógica na EaD
Capítulo 06
Quantos autores nós apresentamos e quantos conceitos nós
definimos nessa Unidade, não é mesmo?
Inúmeras informações foram expostas e agora precisamos de um
tempo para processá-las da forma devida! Então, antes de fazer a
leitura da última Unidade do livro de Introdução à EaD, realize
alguma atividade diferente: pratique algum esporte, vá ao cinema,
vá ao teatro ou até mesmo prepare uma xícara de chá ou café para
um gostoso bate-papo com amigos ou familiares. O descanso
sempre é bem-vindo depois de longos períodos de estudo!
Depois de descansar, leia a próxima Unidade. Lá, você encontrará
o aprofundamento sobre algumas características importantes ao
aluno da EaD, como: a autonomia, a cooperação, a criticidade, a
criatividade, etc.
Sugestão de leitura
Para aprofundar seu estudo sobre as temáticas abordadas na Unidade B,
sugerimos as seguintes obras:
BERLO, D. K. O processo da comunicação: introdução à teoria e à práti-
ca. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
LÉVY, P. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era
da informática. São Paulo: Editora 34, 1993.
MARTIN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e
hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997.
THOMPSON, J. A mídia e a modernidade. Petrópolis: Vozes, 1998.
83
Unidade C
O processo de ensinar e aprender
na EaD
Introdução
Seja bem-vindo à última Unidade que compõe o livro da disciplina
Introdução à Educação a Distância.
Aqui, você terá acesso a reflexões relevantes para a efetivação
do processo de ensino e aprendizagem na EaD, que, em nossa
compreensão, pauta-se na construção continuada e ininterrupta do
conhecimento. Talvez as informações representem novidades, então
procure contextualizar as discussões levantadas dentro de sua própria
realidade, com os colegas de estudo, tutores e professores.
No primeiro capítulo desta Unidade, você compreenderá melhor
a significação das palavras autonomia, cooperação e afetividade, no
contexto educacional. Na oportunidade, estimularemos seu contato
com vários autores que refletiram sobre as características do processo
de construção do conhecimento a distância.
No segundo capítulo, abordaremos algumas características dos
ambientes virtuais de ensino e aprendizagem, tão largamente utilizados
na EaD em nossos dias. Além de entender como funciona uma
plataforma informatizada para ensinar e aprender a distância, queremos
arrazoar sobre o uso crítico e criativo de tal ferramenta educacional.
Na sequência, você será motivado a pensar sobre como proceder na
organização de seu cotidiano de estudos para otimizar sua aprendizagem
na EaD. No terceiro capítulo, apresentaremos algumas dicas que o
ajudarão a construir, cooperativamente, sua agenda de estudos.
Por fim, o último capítulo da Unidade C recebeu o nome de
Considerações Finais, pois é o momento em que pretendemos sintetizar
os principais eixos que nortearam a presente obra.
Então, você tem muitos desafios pela frente! Boa leitura!
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
7 Autonomia, cooperação e
afetividade na EaD
Para abrir o primeiro capítulo da Unidade C, gostaríamos de
apresentar o resultado de um estudo que desenvolvemos durante o
Mestrado em Comunicação Social, realizado entre 1997 e 1999, na
Universidade Metodista de São Paulo. Naquela oportunidade, enviamos
por e-mail sete perguntas abertas sobre EaD a alguns pesquisadores da
área e solicitamos que discorressem sobre as temáticas propostas. O estudo
também foi publicado em uma revista acadêmica (HACK, 2000), com
algumas características diferentes daquelas que destacamos na sequência.
A escolha dos nomes dos entrevistados se deu em função das
relevantes contribuições acadêmicas de tais estudiosos nas áreas que
abrangem Tecnologia, Comunicação e Educação, em ordem alfabética:
• Adilson Citelli – professor titular da Escola de Comunicação e
Artes da Universidade de São Paulo. Livre-docente com tese na
inter-relação Comunicação e Educação;
• Davi Betts – professor e diretor de Tecnologia e Informação
da Universidade Metodista de São Paulo. Atua em áreas que
envolvem tecnologias de informação principalmente no
contexto universitário;
• Domingo J. Gallego Gil – professor titular da Universidad
Nacional de Educación a Distancia da Espanha. Estuda assuntos
como tecnologia educativa, e-learning, gestão do conhecimento
e estilos de aprendizagem;
• Hermano Duarte de Almeida e Carmo – professor catedrático
da Universidade Aberta de Portugal. Tem diversos trabalhos nos
domínios das Ciências da Educação, Ciências Sociais e Ciências
Políticas;
89
Introdução à Educação a Distância
• José Manuel Moran Costas – doutor em Ciências da Comunicação
pela Universidade de São Paulo. Tem estudos sobre o apoio das
tecnologias na educação presencial e a distância;
• Tânia Maria Esperon Porto – pedagoga, com pós-doutorado
na Universidade Federal de Santa Catarina. Atua nas linhas de
pesquisa Educação, Comunicação, tecnologias e formação de
professores.
A seguir, destacam-se as perguntas que compuseram o estudo
e algumas das respostas obtidas. Salienta-se que os excertos não são
recortes reagrupados e respeitam a íntegra das respostas enviadas pelos
entrevistados.
Primeira questão: Quais as vantagens e desvantagens da EaD? Em que
circunstância deve ser aplicada? É desejável ser usada como complemento à
educação presencial, tendo em vista um mercado de trabalho cada vez mais
exigente com relação à formação permanente e continuada dos profissionais?
Adilson Citelli: As vantagens são de otimização de recursos na
área educativa, assim como permitir a formação permanente em
serviço, exigência profissional importante no mundo contemporâneo.
Considere-se, ainda, as possibilidades de atingir populações que
dificilmente teriam condições de se dirigir aos espaços escolares formais.
A desvantagem é um certo isolamento do educando, do mesmo modo
que a não presença – ou pelo menos a rarefação dela – do professor
cria problemas para o desenvolvimento de relações intersubjetivas mais
ricas entre os estudantes.
José Manuel Moran Costas: Hoje muitos cursos presenciais podem
ser ampliados com formas de comunicação a distância. E a tendência
no ensino presencial é para incorporar processos de educação e
comunicação a distância. Por outro lado, os cursos a distância também
estão transformando-se de cursos “a la carte”, onde cada pessoa acessa
individualmente quando quiser para aproveitar todas as formas de
interação que a internet propicia para que tenhamos muito maior
90
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
participação dos alunos, para que trabalhem em projetos colaborativos,
conversem com professores, tutores e colegas. Tanto o ensino
convencional como o a distância começam a experimentar mudanças
substanciais que se tornarão mais visíveis nos próximos anos.
As respostas dos estudiosos ratificam que a EaD, se bem planejada,
pode ser a resposta para atender várias camadas da população: aquelas
que estão excluídas do sistema regular de ensino, como os alunos e
trabalhadores que residem longe de uma instituição de ensino superior
e teriam muito desgaste físico, mental e financeiro para frequentar um
curso diariamente, além dos profissionais que precisam se atualizar
e não podem deixar suas funções cotidianas. Todavia, é preciso levar
em conta o isolamento ao qual se submete um aluno da EaD, o que
ocasiona a necessidade de buscar, com instância, alternativas que
promovam interatividade nas relações docente/aluno ou aluno/aluno.
É imprescindível a atenção às constantes mudanças que ocorrem nesta
área do conhecimento.
Segunda questão: Com a internet e as mídias via satélite, as fronteiras
do conhecimento foram derrubadas. De que maneira as tecnologias e a
EAD podem contribuir para a educação permanente?
Davi Betts: Responder a esta pergunta já foi e é tema para muitas
dissertações e teses. Sinteticamente respondendo, creio que as novas
tecnologias de comunicação simplesmente oferecem um meio mais Na oportunidade, a autora
enviou um artigo de sua
rápido e interativo para a construção do conhecimento. Existem autoria para explicitar melhor
algumas palavras-chaves que caracterizam o fenômeno: conectividade, algumas respostas. A refe-
rência do artigo enviado é:
acesso, autodisciplina e metodologia. PORTO, Tânia Maria Esperon.
A organização do trabalho
na escola: pedagogia da
Tânia Maria Esperon Porto: Acredito que em muito podem comunicação como espaço
contribuir, como um elemento a mais, não como único e exclusivo coletivo. In: Anais da Reu-
nião Anual da Associação
caminho de ensino. As novas tecnologias estão presentes na educação Nacional de Pós-Graduação
e na escola em geral, não apenas na forma de recursos auxiliares, e Pesquisa em Educação –
ANPED. GT Educação e Comu-
mas nas diferentes formas de expressão que compõem o universo nicação (disquete). Caxambu:
sociocultural de professores e alunos. Em minha atual pesquisa, observo ANPED, 1998.
que as tecnologias, apesar de fazerem parte do cotidiano dos cidadãos
91
Introdução à Educação a Distância
professores, não constam das falas dos professores como objeto de estudos
ou de trabalho. Aparecem, esporadicamente, em comentários aleatórios
sobre acontecimentos mostrados na televisão e comentados pelos alunos
nas salas de aula. A maioria das escolas públicas do Brasil recebeu do
Governo Federal equipamentos (TV, videocassete e antena parabólica)
para gravação, organização de videoteca e posterior utilização pelos
professores. As pesquisas indicam que, mesmo depois de dois anos de
implantação do Projeto denominado TV Escola (educação a distância),
este kit tecnológico encontra-se esquecido num canto, sem um plano de
trabalho efetivo que auxilie o professor a lidar com as tecnologias que
estão na escola ou na sociedade em geral. Eu trabalho com mídias como
formas de aprendizagem tanto como portadoras de conteúdo em si
mesmas, como veiculadoras de mensagens que precisam ser analisadas
segundo a concepção de quem as vê (consome) e de quem as produz e
como formas de satisfação e envolvimento emocional, que nos indicam
caminhos a serem desbravados. E acredito que a qualificação para que
o profissional amplie suas visões, adquira consciência de seu papel
sociopedagógico e modifique suas atitudes, implica, assim, uma ação
voltada para a (re)construção de conhecimentos a partir de investigações
na prática, discussão de teorias e narrativas por nós vividas como
indivíduos pesquisadores ou como grupo de estudos.
Como observamos nas ponderações anteriores, é indubitável a
contribuição que as múltiplas tecnologias podem trazer ao ensino
presencial e à EaD. Contudo, a introdução de ferramentas tecnológicas
deve partir de uma discussão inicial e da própria utilização crítica por
parte dos docentes. Os professores e alunos precisam ser os sujeitos
do processo, por isso a necessidade de qualificação e requalificação
constante do educador e do educando.
Terceira questão: O Brasil é um país de proporções continentais, com
discrepâncias de realidades econômicas e sociais, onde muitos professores
não sabem sequer usar equipamentos eletrônicos simples, quanto
mais os sofisticados. No caso das populações de baixa renda, que não
dispõem, em suas casas, dos equipamentos mínimos (telefone, televisão,
vídeo e computador) usados na EaD, como essa modalidade pode ser
92
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
implementada para acelerar e inserir esses grupos marginalizados no
processo educacional do país?
Adilson Citelli: Você está colocando um problema que não diz
respeito primeira e imediatamente às novas tecnologias, senão a uma
estrutura societária desigual e com aspectos dramáticos que conhecemos.
No entanto, creio que, mesmo no contexto que você corretamente
indica, seria possível, através de políticas públicas mais compromissadas
socialmente, implementar alternativas capazes de disponibilizar os
novos sistemas para a rede escolar ou entidades compromissadas com a
formação educacional dos grupos marginalizados.
José Manuel Moran Costas: É necessário que o governo e as
organizações sociais e empresariais se unam para providenciar a
infraestrutura tecnológica às escolas e aos centros comunitários para que
os cidadãos tenham acesso a essas tecnologias e invistam efetivamente
na formação dos professores para que as utilizem de forma criativa. Sem
isso, aumentará a distância que separa os poucos privilegiados no Brasil O EaD no Brasil atinge uma
da grande maioria. importância fundamental
face ao grande contingente
de estudantes que foram
É preocupante quando se observa a situação educacional de parte obrigados a parar de estudar
para trabalhar.
considerável da população brasileira que está excluída do sistema
regular de ensino por vários motivos. Sabe-se que a educação é a melhor
alternativa para o desenvolvimento de um país. A mudança não é
impossível, mas exige vontade política.
Quarta questão: O rendimento dos discentes da EaD, se
comparado com o ensino presencial, é melhor, igual ou inferior?
Apresente suas ponderações.
Davi Betts: As pesquisas que eu tenho visto não indicam um
diferencial qualitativo significativo entre as duas modalidades. Eu creio
que falta talvez uma compreensão melhor da tecnologia disponível e sua
utilização, tanto por parte do docente quanto do discente e das próprias
instituições educacionais. É um outro paradigma.
93
Introdução à Educação a Distância
Domingo J. Gallego Gil: Depende del profesor no de la modalidad
de enseñanza. Depende de sus actitudes y sus aptitudes. Puede ser mejor,
igual o inferior.
A tradução livre da resposta
em espanhol é: “Depende Hermano Duarte de Almeida e Carmo: Estudos diversos (ver, por
do professor e não da
exemplo, trabalhos de Lorenzo Garcia Aretio, da UNED – Universidad
modalidade de ensino.
Depende de suas atitudes e Nacional de Educación a Distancia) mostram que os resultados são
habilidades. Pode ser melhor,
semelhantes.
igual ou inferior”.
Os demais estudiosos entrevistados não quiseram se posicionar
por estarem desprovidos de subsídios que pudessem sustentar suas
colocações. Entretanto, fica saliente que uma EaD bem planejada,
dimensionada e gerenciada pode ter um rendimento igual ou até superior
ao ensino presencial, dependendo mais da qualidade dos grupos e das
instituições que as promovem do que das modalidades de ensino.
Quinta questão: Existe algum perfil de aluno e professor ideal para
que a EaD funcione? Por quê?
Adilson Citelli: Não me parece. Trata-se, apenas, de ajustar os
procedimentos da EaD aos educandos alvos (sejam eles professores/
formadores, sejam alunos a serem formados).
Davi Betts: Não poderia definir o que seria o perfil ideal de aluno,
mas creio que existem alguns fatores que certamente contribuem para
uma experiência bem-sucedida. A autodisciplina e a capacitação para
o uso das tecnologias são fundamentais. Além destas características
existem as necessárias a qualquer aluno, tais como: ter metodologia de
estudo, vontade de aprender, disponibilidade de tempo, etc.
Hermano Duarte de Almeida e Carmo: O aluno tem de ser
emocionalmente maduro para aguentar a solidão em que trabalha.
O professor tem de ter critérios, não só acadêmicos (rigor e clareza
científica), mas também empresariais (por exemplo, tem de saber
cumprir prazos e estimar custos).
94
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
Como observamos nas respostas anteriores, a questão da eficácia
da EaD e sua eventual relação com um perfil de aluno divide os
estudiosos. Concordamos com os apontamentos de Hermano Duarte de
Almeida e Carmo, da Universidade Aberta de Portugal, que apresenta
algumas características necessárias aos alunos e professores que estão
envolvidos com a modalidade de EaD. Aproveitamos para destacar que,
em sua maioria, os estudantes de cursos a distância com os requisitos
necessários para acompanhar um curso com essas características são
essencialmente adultos.
Sexta questão: Que dificuldades os alunos e professores podem
encontrar estudando e ensinando a distância? Como vencer essas barreiras?
Adilson Citelli: Trata-se, como já afirmei, de um problema de
adequação de formas novas de produzir conhecimento. Assim, passar
de mecanismos presenciais e muito centrados na cultura do livro, para
variáveis que podem incluir dimensões vocovisuais [sic] e que requisitam
envolvimentos diferenciados dos educandos, devem apresentar,
evidentemente, algumas dificuldades. Entendo, contudo, que se trata
de implementar procedimentos que reorientem o aprendizado, agora
considerando as mediações técnicas.
Hermano Duarte de Almeida e Carmo: A principal dificuldade é a
solidão do estudante. Para vencê-la, é necessário: bons materiais (com
qualidade científica e pedagógica) e boa interação (usando todos os
meios disponíveis quer presenciais – centros de apoio, cursos intensivos
de fim de semana ou de férias – quer a distância – correio, telefone, rede
de radioamadores, radiodifusão, televisão, etc.).
José Manuel Moran Costas: Falta de planejamento, falta de
orientação, dificuldades de acesso às tecnologias, concepções pedagógicas
ultrapassadas. A educação a distância de qualidade – assim como a
presencial – é cara, não pode se repetir o conteúdo do ensino presencial
somente. É caro para iniciar o processo e também é caro o acompanhamento.
Creio que cada universidade deveria investir em algumas modalidades de
ensino a distância onde fosse forte, onde tivesse alguma contribuição e não
95
Introdução à Educação a Distância
oferecer todos os cursos como no ensino convencional. As universidades
precisam associar-se a outras organizações empresariais e do trabalho
para estar mais perto dos alunos e ter mais recursos.
Tânia Maria Esperon Porto: Creio que as dificuldades inerentes à
falta de um grupo, de interação, de diálogo para reflexão.
Fica saliente que a solidão e a dificuldade em adaptar-se às
ferramentas utilizadas são, talvez, os maiores empecilhos que podem
levar um estudante de um curso a distância a desistir dos estudos.
Existem formas de repensar a interatividade entre docente e alunos,
bem como entre alunos e alunos (como as salas de bate-papo virtual e
aulas presenciais ou confraternizações esporádicas), que precisam ser
consideradas para que o isolamento seja rompido.
Sétima questão: Com a disseminação da internet, que oferece a
pos-sibilidade de interatividade (através de listas de discussões, troca de
e-mails entre alunos e professores), quais as reais mudanças no processo
de EaD?
Adilson Citelli: Trata-se, mesmo, de repensar os paradigmas
da EaD. Já não basta um televisor ou aparelho de rádio ministrando
aulas. Os fluxos dialógicos e interativos devem ser pensados nos novos
modelos de EaD, inclusive pelas facilidades técnicas que você aponta.
Hermano Duarte de Almeida e Carmo: A meu ver, não há mudança
de paradigma, mas apenas (e já é muito) um reforço do paradigma
existente que confere ao aprendiz o papel de gestor da sua própria
aprendizagem e ao ensinante a condição de orientador do aprendiz.
Tânia Maria Esperon Porto: As experiências que conheço permitem-
me apenas dizer que é uma forma a mais para ampliar o universo de
conhecimento dos sujeitos, com as devidas limitações da virtualidade.
Maior ou menor transformação, mudança ou não de paradigma:
a divergência entre os estudiosos entrevistados não é de fundo, mas
96
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
de matiz. São todos unânimes em argumentar que a disseminação da
internet é um auxílio importante para a EaD. Destacamos, entretanto,
que ainda falta a popularização da rede, permitindo o acesso às
camadas menos privilegiadas. Ou, pelo menos, a criação de centros de
atendimento, onde os estudantes a distância mais carentes possam dispor
da tecnologia necessária para a utilização da internet nos horários livres.
Percebemos novamente a importância da internet e seus recursos
na realização das mais diversas atividades. A própria entrevista realizada
via e-mail é um exemplo de como a rede aproxima pesquisadores que
se encontram em continentes diferentes e barateia os custos, além de
abolir o tempo gasto no deslocamento.
Em síntese, as entrevistas com os pesquisadores trazem à tona e
salientam os seguintes fatores:
• É imprescindível a introdução de múltiplas tecnologias nos
diversos níveis e modalidades de ensino, mas é preciso levar em
conta as peculiaridades de cada região;
• É necessário discutir de forma multidisciplinar e projetar
experiências que venham a contribuir na busca da excelência
na utilização de mídias, redes, softwares e outras ferramentas na
educação presencial e a distância;
• É preciso caminhar, permeados pela discussão crítica da
temática, evitando a simples reprodução de modelos já
existentes. As realidades locais devem ser respeitadas, e a
criatividade deve imperar nesta busca.
7.1 Autonomia e cooperação
Em sua obra sobre didática da EaD, Peters (2001) faz uma
retrospectiva histórica e destaca que a prática autônoma de
97
Introdução à Educação a Distância
aprendizagem ganhou importância na pedagogia alemã há muitos
anos. O autor salienta que na década de 1970 a definição de estudante
autônomo era: aquele que está em condições de decidir por iniciativa
própria sobre seu aprendizado. Tal concepção foi se aperfeiçoando
durante os anos ao se considerar o ensino e a aprendizagem como
processuais. Peters (2001) aponta que essa prática significa mais do
que estudo autodirigido ou meramente uma particularidade técnico-
organizacional da configuração do ensino. Para ele, os estudantes
são autônomos quando conseguem reconhecer suas necessidades de
estudo, formulam objetivos de aprendizagem, selecionam conteúdos,
planejam estratégias de estudo, selecionam materiais didáticos,
identificam fontes adicionais de pesquisa e fazem uso delas, bem
como quando eles ordenam, conduzem e avaliam o processo da
aprendizagem. A autonomia é uma característica muito importante
àquela pessoa que pretende gerenciar seu próprio estudo, mas ao
mesmo tempo deseja trabalhar de forma cooperativa na construção
do conhecimento a distância.
Peters (2001) aponta que buscar a autonomia é uma tarefa que poderá
assustar alguns alunos, pois estudar seguindo essa proposta implica: a)
construir ou transformar estruturas cognitivas; b) transformar estruturas
de superfície em estruturas de profundidade; c) refletir simultaneamente
sobre todo esse processo. O autor salienta que o estudo autônomo de modo
nenhum se trata de uma construção individual e isolada, pois leva a formas
de ensino e aprendizagem dialógicas, trabalhos em projetos coletivos e
aprendizagem cooperativa pela pesquisa. A proposta é retirar o docente
do primeiro plano para colocar o aluno nessa posição, modificando
relações tendenciosamente autoritárias entre ambos. Entretanto, como no
contexto educacional ainda se sobressai a influência do modelo expositivo
de ensino, a resistência leva muitos docentes e discentes a julgarem-se
despreparados para esses experimentos.
Em nossos estudos (HACK, 2009, 2010c) verificamos que um
aspecto primordial na busca da autonomia e da cooperação na EaD é a
criticidade. Castells (2000) afirma que as elites aprendem fazendo, e com
isso modificam as utilizações da tecnologia, enquanto a maior parte das
98
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
pessoas aprende usando e, assim, permanecem dentro dos limites do
“pacote” da tecnologia que compraram.
A pessoa que pretende estudar com autonomia e de forma
cooperativa precisa se predispor a mudanças que exigirão reflexão
e ação críticas sobre determinadas práticas que, em alguns casos,
ainda não estão incorporadas à sua postura no processo de ensino
e aprendizagem, por exemplo:
• participar efetivamente das atividades desenvolvidas em
ambientes virtuais (fóruns, salas de bate-papo, realização de
atividades online). Muitas pessoas não se envolvem nas propostas
de estudos virtuais e têm uma participação qualitativamente
superficial, com apenas comentários óbvios, mesmo que
quantitativamente a participação seja expressiva. Envolver-
se efetivamente no processo permitirá o desenvolvimento
de mecanismos que levarão à construção do conhecimento a
distância e não à mera reprodução de conteúdos;
• administrar o tempo e as atividades cotidianas com vistas
a dar conta das interações e conseguir um relacionamento
mais intenso com os colegas, tutores e professores. Tal atitude
aproximará todos os integrantes do sistema de EaD para a
formação de uma comunidade virtual relevante;
• aprender a selecionar as inúmeras informações midiatizadas
às quais é submetido diariamente, devido à introdução de
múltiplas tecnologias em nosso cotidiano. Os envolvidos no
processo de ensino e aprendizagem a distância precisarão
sujeitar a tecnologia às suas necessidades e não se sujeitar a ela,
para então construir uma compreensão crítica sobre a edição
do mundo pelas mídias.
Em síntese, pensar no perfil crítico do usuário autônomo e co-opera-
tivo em um sistema de EaD é pensar em pessoas que tenham sua prática
99
Introdução à Educação a Distância
fundamentada no pensamento desenvolvido por Freire (1975, 1979, 1997).
Para o autor, precisamos constantemente refletir sobre a realidade em que
vivemos para que nosso projeto de ação seja o reflexo de um pensamento
comprometido com o aprimoramento pessoal e da coletividade.
Meu orientador durante meu doutoramento em Comunicação
Social, na Universidade Metodista de São Paulo, era um francês:
o educador Jacques Vigneron. Suas experiências me ajudaram a
perceber, de forma mais refinada, a riqueza que encontramos
nas diferenças culturais e aperfeiçoaram minhas habilidades de
comunicação midiatizada. Em uma de suas obras, Vigneron (1997)
aponta que a sociedade precisa de docentes com uma nova postura
comunicacional, que objetivem ajudar o educando a mudar as suas
percepções, suas atitudes, e a chegar a uma compreensão mais
ampla da sociedade em que vive e das tecnologias que o rodeiam.
Qual seu pensamento sobre o assunto? Qual a importância da leitura
crítica dos conteúdos difundidos pela mídia em uma sociedade onde
a informação aumenta exponencialmente? Quem habilitará as futuras
gerações à árdua tarefa de filtrar as informações relevantes e válidas,
separando-as dos excessos e boatarias? Quem ajudará a interpretar
como acontece a edição do mundo pelas diferentes mídias?
Quem ensinará a desligar a tecnologia no momento certo e
desligar-se dela completamente em certas oportunidades, como
uma espécie de “desintoxicação” tecnológica? São boas perguntas
para o último capítulo de um livro sobre EaD!
Você sabia que uma boa forma de construir conhecimento
consistente é pelo questionamento? Sócrates gostava de ensinar
assim, na Grécia Antiga.
Outra característica essencial a quem quer desenvolver a autonomia
e a cooperação em sua prática na EaD, também destacada em nossos
estudos (HACK, 2009, 2010c), é a criatividade. Há alguns anos fomos
apresentados a um texto da consultora em Recursos Humanos Oleni
de Oliveira Lobo (2002), que em nossa interpretação permanece atual:
100
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
Criatividade é o que também está na em moda, inclusive ouvimos por
aí: “temos que ser criativos”. Nós não temos, nós somos, todos nós já
nascemos equipados para isto. O período mais criativo e rico de nossas
vidas se encontra quando temos entre quatro e cinco anos de idade. É
a idade em que estamos curiosos, que fuçamos, que perguntamos,
que mexemos procurando fazer algo diferente. Qual criança que já não
desmontou seu brinquedo para tentar conhecê-lo e modificá-lo? Pelo
lúdico, pela liberdade de ação e pelo livre pensar, a criança cresce, aprende
e amadurece. Com a idade, ficamos com medo de sermos audaciosos,
medo das críticas e acabamos nos transformando em uma grande massa,
patinando em conceitos antigos, alterando apenas os designers, e não
gerando novos conceitos. Criatividade é se utilizar da espontaneidade e da
visão holística, e dar vazão a loucuras de idéias, que lapidadas podem se
tornar grandes cúmplices e aliadas de nosso desenvolvimento.
Como visto, a criatividade precisa ser cultivada para que depois
de algum tempo dê bons frutos. Ela pode e deve fazer parte do nosso
cotidiano, tornando-se uma aliada importantíssima em nossa atuação
profissional, em nossos estudos, enfim, em todas as atividades,
representando até mesmo um diferencial. Por isso, ao introduzirmos
as práticas autônomas e cooperativas em nossa experiência de EaD,
precisamos também desenvolver a sensibilidade criativa.
É claro que não basta apenas “boa vontade” para fazer e acontecer.
Não podemos nos limitar àquilo que aprendemos nos bancos das
escolas ou com os técnicos dos mais diversos assuntos. Precisamos
ter coragem de ousar. É necessário acompanhar as mudanças e
torná-las significativas à nossa vivência. Contudo, ao mesmo tempo
é preciso cuidar para não cair em outro extremo, ou seja, aderir a
novos modelos somente por modismo. Por isso, o equilíbrio entre
criticidade, criatividade, cooperação e contextualização é essencial,
e, no centro de todo o processo, devem sempre figurar as pessoas,
com seus talentos e suas capacidades.
101
Introdução à Educação a Distância
Enfim, nosso entendimento é que, com uma boa e criativa base
humana, poderá se instituir uma dinâmica no processo educativo,
que permitirá a todos um maior envolvimento no sistema de EaD
para a construção do conhecimento de forma cooperativa, mesmo
longe fisicamente. É dessa forma que se tornará possível enunciar a
ação dialógica da comunicação educativa como um processo que é ao
mesmo tempo construção criativa do conhecimento, cultura e prática
da liberdade (FREIRE, 1975).
Ressaltamos que criar é um verbo de ação e pressupõe movimento
em busca de algo inovador. É claro que as pessoas podem
esbarrar na criatividade subjugada pelas cartilhas prontas e pelos
pensamentos copiados, ideias que apenas engendram a apatia e a
reprodução de fórmulas que deram certo em algum contexto. Mas
até mesmo aqueles que se sentem presos às velhas amarras podem
iniciar o processo de criar, já que a criatividade é um exercício e
quanto mais exercitá-la, melhor será seu resultado. Basta começar!
Uma última característica essencial a quem quer desenvolver a
autonomia e a cooperação em sua prática na EaD, igualmente referenciada
em nossos estudos (HACK 2009, 2010c), é a dialogicidade. Para Moore
e Kearsley (2007), o acesso à informação e às aptidões necessárias para
converter tais informações em conhecimento tem se tornado o grande
impulsionador do desenvolvimento pessoal, econômico, social e até
mesmo político em vários países. Segundo os autores, um dos resultados
mais imediatos da explosão de informações é que parte da informação
gerada se torna obsoleta com rapidez, criando a necessidade de frequente
atualização: “Metade daquilo que foi aprendido pelo aluno de engenharia,
por exemplo, fica desatualizado 18 meses após a conclusão do curso.”
(MOORE; KEARSLEY, 2007, p. 313). Com tanta necessidade de atualização,
vem à tona a importância da construção autônoma e ao mesmo tempo
cooperativa do conhecimento e, para tanto, a capacidade de desenvolver
uma comunicação educativa dialógica efetiva passa a ser essencial.
102
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
Na EaD, o docente tem papel imprescindível na comunicação educa-
tiva que se estabelece no processo de ensino e aprendizagem a distância,
Queremos lembrá-lo de que
pois ele coopera com o aluno ao formular problemas, provocar interroga- o docente na EaD pode ser o
professor da disciplina, autor
ções ou incentivar a formação de equipes de estudo. Em outras palavras,
do livro e dos conteúdos
ele se torna memória viva de uma educação que valoriza e possibilita o midiatizados, bem como
pode ser o tutor que faz a
diálogo entre culturas e gerações (MARTIN-BARBERO, 1997).
mediação do conhecimento.
Ao mediar a construção do conhecimento, com o uso de múltiplas
tecnologias sem muitas vezes poder visualizar, ouvir as palavras
nem perceber as reações imediatas do interlocutor, o docente
precisa potencializar os processos comunicacionais para que haja
cooperação, dialogicidade, cumplicidade e afetividade entre os
envolvidos.
É importante destacarmos que independentemente dos diferentes
contextos possíveis, o gerenciamento autônomo de processos de EaD
obterá sucesso se proporcionar a colaboração e a cooperação entre as
partes, o que se consegue com mecanismos de comunicação de mão dupla,
que potencializem a interação entre aluno/sistema, aluno/conteúdo,
aluno/docente, aluno/aluno. Em síntese, a dialogicidade potencializará a
prática autônoma ao promover a aprendizagem cooperativa a distância,
pois ao cooperar com outras pessoas se estabelecerão possibilidades
reais de comunicação educativa do conhecimento.
Enfim, tudo o que apontamos neste capítulo indicia o quanto é
primordial a dialogicidade, a autonomia e a cooperação no processo
de ensino e aprendizagem na educação superior a distância e traz aos
envolvidos em um sistema de EaD a premência de repensar nuances afetivas
de sua comunicação educativa. Em nossa interpretação, tal premência
poderá impulsionar a criação de ambientes motivadores e acolhedores,
onde o equilíbrio afetivo ajudará o aluno a vencer o medo de se comunicar
ou apresentar suas ideias, expondo-as à interpretação e ao questionamento
dos demais participantes do curso. No entanto, há de se ressaltar que o
equilíbrio nas relações afetivas que envolvem a comunicação educativa é
103
Introdução à Educação a Distância
imperativo. Cada envolvido no processo de ensinar e aprender a distância
precisa entender sua responsabilidade no sistema, para então encontrar a
devida equanimidade entre seus direitos e deveres.
Mas você deve estar se perguntando: que estratégia adotar para
criar um ambiente cooperativo entre os participantes do processo
de ensino e aprendizagem a distância?
Em nossa interpretação, essa questão apenas encontrará resposta
se buscarmos uma proposta contextualizada para cada situação. A
solução não está ancorada simplesmente na produção de vídeos,
utilização de rádio, canais de televisão, introdução de textos e outros
materiais didáticos na internet de forma combinada ou isolada.
A resposta está em conhecer as especificidades de cada contexto
e adaptar as estratégias de comunicação educativa para que a
construção do conhecimento aconteça em uma via de mão dupla.
Por exemplo, será inútil adquirir tecnologias de ponta para um
processo comunicacional de interação via rede de computadores
para uma realidade em que o acesso a bons provedores de internet
inexiste. Ao se estabelecer as estratégias de comunicação dialógica
é preciso levar em conta que um programa bem-sucedido no
Nordeste do país pode ser um fracasso no Sul se não forem
apuradas in loco as peculiaridades humanas, estruturais, climáticas,
culturais, etc.
No próximo capítulo, exploraremos com mais detalhes a
importância da afetividade na criação de um ambiente autônomo e
cooperativo na EaD.
7.2 Afetividade
Vygotsky (1993) enuncia que a interação social é imprescindível
para a aprendizagem e o desenvolvimento do ser humano, pois as
pessoas adquirem novos saberes a partir de suas várias relações com
104
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
o meio. Na concepção sócio-histórica (VYGOTSKY et al., 1988), a
mediação, que também chamamos de comunicação educativa em nosso
texto, é primordial na construção do conhecimento e ocorre, entre
outras formas, pela linguagem. Assim, a singularidade do indivíduo
como sujeito sócio-histórico se constitui em suas relações na sociedade,
e o modo de pensar ou agir das pessoas depende de interações sociais e
culturais com o ambiente.
No que tange à dicotomia entre o cognitivo e o afetivo, Vygotsky
(1993) aponta que a cognição possui estreita relação com a afetividade,
ou seja, se separarmos o pensamento do afeto, fecharemos a possibilidade
de explicar as causas do pensamento. Para o autor, quem separa o
pensamento do afeto nega a possibilidade de estudar a influência inversa
do pensamento no plano afetivo, bem como impossibilita a análise
que permitiria descobrir os motivos, as necessidades, os interesses, os
impulsos e as tendências que regem o movimento do pensamento.
Após essa breve contextualização, apresentamos o resultado de um
estudo (HACK, 2010a) cujo objetivo era identificar as bases afetivas
necessárias para se instituir uma dinâmica de comunicação dialógica na
EaD, onde o estudante se sinta cooperando com todos os participantes
do sistema educacional. Para encontrar resposta a tal questionamento,
algumas perguntas foram norteadoras: (1) o que se considera uma
relação baseada na afetividade entre docente/aluno, aluno/aluno?; (2)
qual a importância de relações educativas baseadas na afetividade?; (3)
o que é importante fazer para garantir um bom ambiente nos momentos
presenciais que ocorrem durante o período letivo de cada distância?; (4)
que manifestações de afetividade têm boa e má repercussão no processo
de ensino e aprendizagem?
A metodologia utilizada no estudo foi qualitativa (BAUER;
GASKELL, 2007), e a técnica de pesquisa para a coleta de dados foi a
entrevista semiestruturada, realizada por e-mail. A amostra foi composta
de tutores presenciais, aqueles localizados nos polos de apoio dos cursos
da UAB, especificamente da Licenciatura em Letras Português na
modalidade a distância, da Universidade Federal de Santa Catarina. No
105
Introdução à Educação a Distância
total, foram entrevistados 10 tutores, que serão identificados adiante por
T1 (tutor 1), T2 (tutor 2) e assim sucessivamente. Um dos tutores havia
iniciado suas atividades na EaD há sete meses, mas a maioria (70%)
estava na função há mais de dois anos. Na sequência, são destacadas
as perguntas norteadoras, algumas respostas apresentadas pelos
entrevistados e nossas reflexões sobre a temática.
Quando os tutores foram questionados sobre o que eles consideram
uma relação baseada na afetividade entre docente/aluno, aluno/aluno,
foram feitos os seguintes comentários:
T1: Considero aquela em que o educador não tem o aluno apenas
como clientela, mas o reconhece como um ser que sofre, chora, erra,
possui limitações e dificuldades em certos conteúdos que precisam
ser superados. O educador deve dar apoio constante, porém jamais
deixar a afetividade superar a ética educacional.
T4: Uma relação baseada no respeito mútuo, onde cada um, docente ou
aluno tem consciência de sua função e respectivas responsabilidades
próprias ou para o bem comum.
T6: Aquela que se constrói através do respeito, da compreensão, da
responsabilidade e do diálogo.
T8: Esta afetividade entre docente/aluno começa nas participações
de todos nos polos, cada um respondendo por suas obrigações
e respeitando suas funções. E entre aluno/aluno na partilha e no
companheirismo nas atividades obrigatórias em grupos.
Como se observa, há clareza sobre o que caracteriza uma relação
afetiva entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem.
Palavras como apoio, respeito, consciência, responsabilidade,
compreensão, diálogo e companheirismo foram chaves na construção
do discurso dos entrevistados.
106
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
Ao serem questionados sobre a importância de relações educativas
baseadas na afetividade, os tutores dos polos de apoio do curso de
Licenciatura em Letras Português a distância responderam:
T2: Considero importante sim, no entanto, é claro que o conceito de
afetividade muda um pouco quando se trata da EaD, já que o próprio
nome explicita a distância. Mas aí é que entram os polos, responsáveis
por estreitar um pouco mais os vínculos entre as pessoas que fazem
parte do processo.
T3: Acho importante e motivador, pois já que se trata de uma relação
distante fisicamente, o professor deve mostrar interesse pelo aluno,
acompanhá-lo mais de perto, questioná-lo, interessar-se em saber
como está este aluno, quais são suas dificuldades.
T5: Considero fundamental as relações educativas baseadas na
afetividade na EaD, pois assim o processo não parece tão distante e
aproxima mais o educando, motivando a continuar o curso.
T7: A afetividade é importante, porém na EaD fica um pouco mais
complicado devido à distância. O que podemos fazer sempre é motivar
os alunos dando abertura para sua expressão sempre que necessário.
As reflexões feitas pelos respondentes da entrevista ratificaram
a importância da relação afetiva entre os envolvidos no processo de
ensino e aprendizagem a distância. Segundo os entrevistados, com uma
comunicação educativa baseada na afetividade, o aluno se sentirá aceito
e pertencente a um grupo, mesmo que a distância física o separe de
colegas e docentes. Assim, ele inclusive se sentirá à vontade para cometer
equívocos de aprendizagem, pois entenderá que o erro não intencional
faz parte do processo de construção do conhecimento.
Na sequência, a entrevista buscava identificar o que era importante
fazer para garantir um bom ambiente nos encontros presenciais que
ocorrem durante o período letivo de cada disciplina. Algumas respostas
dadas pelos entrevistados foram:
107
Introdução à Educação a Distância
T1: Tenho a mesma disponibilidade e atenção com todos, procuro
conscientizá-los da importância das videoconferências e aulas por
serem os únicos momentos em contato direto com o professor
da disciplina. Não dispenso a conversa descontraída e o cafezinho,
mesmo muitas vezes estando sozinha para fazê-lo.
T2: Procuro mostrar alegria em estar no polo, mostrar disposição em
auxiliar. Ao voltarmos, no início do ano, eu e a minha colega de
tutoria fizemos um bilhetinho para cada aluno, com uma mensagem
de incentivo e também com um bombom, tudo muito simbólico,
mas com o intuito de renovar o ânimo dos alunos!
T5: Depende do que vamos fazer: se é um filme, nós combinamos
para trazer pipoca, café, refrigerante; se é um mural, apresentação,
procuramos sempre conversar com os alunos e animá-los.
T9: Tratando-os de igual para igual.
Aqui, ficou patente a importância de atitudes afetivas como a
preparação adequada do espaço onde os acadêmicos estudarão no polo,
bem como ficou saliente a necessidade de se estar aberto à conversa
informal, como aquela que ocorre no momento do “cafezinho”. Para
os entrevistados, tais práticas auxiliam na busca de uma comunicação
fluida, constante e bidirecional, que pode incentivar aquele discente que
Moodle (Modular Object- é relapso no diálogo do ensino e aprendizagem.
-Oriented Dynamic Learning
Environment) é o nome do
sistema computacional que Os últimos questionamentos apresentados aos entrevistados tinham
algumas universidades que
o intuito de identificar manifestações de afetividade com boa e má
aderiram à UAB escolheram
como AVEA. Desenvolvido repercussão no processo de ensino e aprendizagem. Algumas respostas
pelo australiano Martin Dou-
que apontaram manifestações com boa receptividade dos alunos foram:
giamas, o Moodle é consi-
derado um software livre. O
software livre é um programa
T1: Incentivar o estudo em grupo, mostrar interesse nas dificuldades
de computador que não pos-
sui nenhuma restrição ao uso. encontradas, auxiliar na assimilação de conteúdos e desenvolvimento
No próximo capítulo, esclare-
de atividades, estar sempre atento para evitar o afastamento e o
ceremos melhor o funciona-
mento de um AVEA. desânimo nos estudos, atendê-los diariamente via Moodle.
108
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
T3: Proporcionar momentos de recreação no polo, atividades extracur-
riculares, o interesse em saber como está o meu aluno, conhecer o
aluno, saber de seus problemas e tornar mais prazerosos e de fato sig-
nificativos os momentos em que ocorrem os encontros presenciais.
T4: Conversas coletivas, que envolvam todos, sem exceção. Interagir com
eles procurando colaborar com as mais diversas situações: dificuldade
em compreender ou realizar alguma atividade; sanar dúvidas referen-
tes ao andamento do curso, das disciplinas; e muitas vezes tentando
contribuir de forma saudável com aqueles que também trazem pro-
blemas pessoais e de relacionamento entre colegas do curso.
T7: Acredito que, no ambiente escolar, ter afetividade é aproximar-se do
aluno, saber ouvi-lo, valorizá-lo e acreditar nele, dando abertura para
a sua expressão.
As respostas apresentadas pelos tutores sobre manifestações de
afetividade com boa receptividade entre os alunos fortalecem o resultado
de outro estudo (HACK, 2010b), ao destacar a imprescindibilidade,
por parte do tutor, da administração do tempo e do gerenciamento das
atividades acadêmicas, para que os estudantes recebam os feedbacks
com a maior brevidade possível, sempre em busca de um processo
comunicacional dialógico, mesmo que distante fisicamente. Além disso,
ficou saliente que os momentos de recreação, de atividades extras, de
conversas coletivas e de colaboração ajudam a desenvolver o espírito de
equipe, bem como ampliam as habilidades de comunicação interpessoal.
Algumas respostas que apontaram manifestações de afetividade
com má receptividade entre os alunos no processo de ensino e
aprendizagem a distância foram:
T2: Acredito que as manifestações de afetividade que possam ter má
repercussão são aquelas em que o aluno confunde a tua disponibili-
dade em ajudar com a tua função de tutor em si. Muitos pensam que
o fato de você ser tutor pode “aliviar” o lado deles, que você vai per-
mitir coisas que a UFSC não permite, essas coisas. Mas nessas horas
109
Introdução à Educação a Distância
é preciso deixar bem clara qual a sua verdadeira função no processo,
porque é o teu profissionalismo que está em jogo. A partir daí tudo
transcorre muito bem.
T5: Se distanciar do aluno, não respondendo suas questões, não ouvin-
do. Não conhecendo sua realidade e também não deixando que nos
conheça.
T6: Proximidade excessiva, pois torna o aluno dependente.
T10: Falta de união entre diferentes grupos de alunos. Competitividade
de notas. Divergência de opinião e atitudes entre tutores presenciais.
Falha na comunicação entre tutor/aluno (demora ou ausência de res-
Como visto na Unidade A,
o tutor presencial da UAB é postas dos e-mails enviados, gerando dúvidas quanto ao recebimento/
aquele que desenvolve suas
conhecimento de determinadas situações).
atividades nos polos de apoio
presencial, localizados em
várias cidades.
Os comentários anteriores fortalecem a importância de algumas
manifestações de afetividade na construção das relações sociais em
processos de ensino e aprendizagem a distância, bem como expõem a
necessidade de os alunos entenderem o papel do tutor em um polo, já
que em certos momentos sua ação se assemelha à do professor em sala
de aula. É muito salutar que o aluno tenha clareza sobre qual é o papel
do tutor, para que não exista nenhum desconforto quando houver a
necessidade de repreensão ao estudante por alguma infração cometida.
Em muitos momentos, o tutor do polo será a extensão dos “olhos”, dos
“ouvidos” e da “boca” do professor.
As respostas aos dois últimos questionamentos da entrevista
apontam para resultados já identificados em outros estudos (BELLONI,
2001; MOORE; KEARSLEY, 2007; LITTO; FORMIGA, 2008; HACK,
2010c): que a EaD é uma modalidade de educação que exige maturidade
do público-alvo e o desenvolvimento de algumas características como o
autodidatismo, o comportamento autônomo e o trabalho cooperativo.
No entanto, geralmente tais características não são devidamente
estimuladas durante a formação do discente na educação fundamental
e média no Brasil.
110
Autonomia, cooperação e afetividade na EaD
Capítulo 07
Como percebemos nos relatos transcritos anteriormente, o
estudo permitiu a reflexão sobre a importância da interação social na
aprendizagem e no desenvolvimento do ser humano, bem como propiciou
a visualização dessa estreita relação existente entre a afetividade, o
pensamento, a comunicação e a construção do conhecimento.
Pelas respostas dos entrevistados que formaram a amostra do
estudo foi possível identificar as seguintes bases para se instituir
uma comunicação educativa dialógica com um grau equilibrado
de afetividade:
• Primeira base para uma comunicação dialógica afetiva – a
habilidade de conviver com as diferenças. A pesquisa apontou
a importância de se criar ambientes onde o aluno se sinta
pertencente a uma comunidade, bem como aprenda a se expor,
ouvir os outros e respeitar os pensamentos divergentes;
• Segunda base para uma comunicação dialógica afetiva – a
assiduidade na comunicação não presencial. Ficou saliente que
os tutores precisam administrar bem o seu tempo e as atividades
acadêmicas, para que os estudantes recebam os feedbacks em
tempo hábil. O aluno precisa perceber com clareza que há
alguém do outro lado da tecnologia e que essa pessoa é seu
interlocutor no processo de construção do conhecimento;
• Terceira base para uma comunicação dialógica afetiva – a
proximidade e a identidade entre as partes envolvidas. Os
respondentes destacaram a necessidade da conversa e do
contato informal com o discente (por exemplo, aquele bate-
papo acompanhado de um café, sobre assuntos corriqueiros e
cotidianos), para o estabelecimento de uma comunicação que
aproxime as pessoas pelo diálogo aberto entre pares, sempre de
forma respeitosa;
• Quarta base para uma comunicação dialógica afetiva – a
descontração eventual. Os momentos recreativos e as atividades
111
Introdução à Educação a Distância
• extracurriculares, espaços que referendam a existência de uma
comunidade, foram identificados como estratégias que auxiliam
todos os envolvidos a desenvolverem o espírito de equipe.
Tais práticas também ampliam as habilidades de comunicação
interpessoal;
• Quinta base para uma comunicação dialógica afetiva –
a maturidade e a responsabilidade individual. O estudo
identificou o quanto é imprescindível que cada pessoa entenda
sua responsabilidade e encontre o equilíbrio entre seus direitos e
deveres no sistema de EaD do qual faz parte. Docentes e discentes
precisam colaborar no desenvolvimento da autonomia.
Em suma, a pesquisa identificou que o processo comunicacional
dialógico na educação superior a distância, quando balizado por atitudes
afetivas equilibradas como as descritas anteriormente, incrementa a
interação social, até mesmo aquela que ocorre via tecnologia. Para
tanto, é importante que os envolvidos na EaD fomentem de forma
contínua a comunicação educativa, utilizando-se de estratégias variadas
para promover o diálogo construtivo e afetivo entre todos. Assim,
se valorizará o respeito às múltiplas interações sociais e culturais,
por movimentos individuais e coletivos, tão salutar no processo de
construção do conhecimento em qualquer nível ou modalidade.
112
Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem
Capítulo 08
8 Ambiente Virtual de Ensino e
Aprendizagem
Os processos de ensino e aprendizagem na EaD, em sua maioria,
não ocorrem em espaços físicos compartilhados por alunos e docentes,
bem como nem sempre há sincronicidade entre o tempo em que cada um
realiza suas atividades. Então, as disciplinas ou cursos oferecidos nessa
modalidade buscam se apoiar em materiais impressos ou em ambientes
virtuais, o que torna a leitura uma das atividades mais importantes para
que o aluno possa acessar as informações organizadas nesses meios e
transformá-las em conhecimento.
Como já enunciamos em outro estudo (HACK, 2010c), o
texto geralmente é a base para outros materiais didáticos, sejam
eles impressos ou não, e para cada meio há um tipo de linguagem
apropriada. O rádio e a TV, por exemplo, trabalham com padrões
que misturam linguagem formal e coloquial, dependendo do tipo de
programa e da mensagem que se procura transmitir. Com o Ambiente
Virtual de Ensino e Aprendizagem (AVEA) não é diferente. Para que
um AVEA alcance seus objetivos e estimule o aluno a desenvolver as
competências planejadas pelo docente, seu planejamento e elaboração
deverão levar em conta algumas características e cuidados iniciais
básicos, como:
• a adequação das estratégias de comunicação educativa
adotadas no AVEA com o perfil do aluno, seus interesses,
seus conhecimentos anteriores, suas preocupações, suas
dificuldades;
• a composição e organização das unidades textuais, atividades,
dos fóruns virtuais e outras estratégias a partir das habilidades e
competências que se pretende estimular;
113
Introdução à Educação a Distância
• a linguagem, que deve ser clara, direta e expressiva, ao ponto de
transmitir ao aluno a ideia de que ele está em interlocução per-
manente com o docente e que ambos participam da construção
do conhecimento a distância;
• a necessidade de organizar o AVEA de forma hipertextual, desa-
O hipertexto em um AVEA fiando o aluno continuamente, através de links, dicas de leitura
permite associar arquivos de complementar, atividades, etc. (HACK, 2010c).
um computador ou de uma
página da internet com uma
palavra, frase ou figura que Existem várias plataformas ou sistemas informatizados para EaD no
compõe o documento hiper-
textual. Assim, estabelece-se mercado e nem todos são gratuitos. Em linhas gerais, um AVEA é cons-
o rápido acesso a diferen- tituído de ferramentas que objetivam estabelecer relações comunicativas
tes recursos, como páginas
na internet, vídeos, áudios, entre os envolvidos no processo de ensino e aprendizagem a distância.
imagens e textos em um único
documento.
No AVEA, os alunos geralmente podem:
Link
• acessar os textos que compõem a página de apresentação da
Se fizéssemos uma tradução
livre da palavra link, uma boa disciplina e de cada tópico – espaços que dão ritmo ao curso
definição poderia ser “atalho”.
e aproximam o aluno dos demais envolvidos no processo de
Daí, a explicação sobre o que
um link seria: em uma página ensino e aprendizagem;
da internet, o link é um objeto,
um texto, uma figura, etc. que
ao ser selecionado serve de • administrar certos aspectos do layout do AVEA – ferramenta
atalho para levar o usuário a
que permite ao alunos personalizar seu ambiente;
outro objeto, texto, figura, etc.
na mesma ou em outra página
da internet.
• visualizar espaços que funcionam como murais de notícias
e novidades – ferramentas para a comunicação de recados e
As palavras on-line e offli-
ne, aqui, têm relação com avisos à turma;
sincronicidade. As atividades
on-line são realizadas com
sincronia de tempo, em um • participar de fóruns de discussão – ferramenta que possibilita a
horário preestabelecido. As criação de espaços para o aprofundamento e debate de temáticas.
atividades offline não care-
cem de sincronia de tempo O fórum virtual também pode ser utilizado como um tira-dúvidas,
para sua realização, e os alu- onde o aluno expõe seus questionamentos coletivamente;
nos apenas precisam respei-
tar o prazo final estipulado
para o envio da atividade. • realizar avaliações on-line e offline – ferramentas que permitem a
criação de questões objetivas, somatórias e discursivas para uma
avaliação on-line ou que permite o envio de trabalhos escritos
para uma correção offline;
114
Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem
Capítulo 08
• colaborar com as outras pessoas indicando materiais –
ferramenta disponível para a publicação de links e materiais
que possam interessar a turma. Os espaços de colaboração
funcionam como uma “cafeteria virtual”, onde, à semelhança
do que ocorre nas cafeterias das universidades, o aluno pode
postar assuntos extraclasse, que possam interessar os demais
envolvidos com o curso;
• organizar calendários, agendas ou cronogramas de atividades –
ferramenta que apresenta as datas de entrega das atividades, o
prazo para leituras, entre outros;
• participar de salas de bate-papo – ferramenta que permite a tro-
ca de mensagens entre os membros da turma de forma síncrona;
• enviar mensagens – ferramenta que permite o envio de recados
que, além de serem encaminhados ao e-mail do destinatário,
também ficam gravados no AVEA, como um histórico;
• acessar pastas virtuais com o material didático do curso – ferra-
menta que permite ao aluno visualizar apostilas, slides, gabari-
tos, leituras complementares, entre outros materiais disponibili-
zados pelo docente (HACK, 2010c).
Nosso entendimento de
O professor, tutor ou responsável pela confecção do AVEA possui to-
aprendizagem cooperativa
dos os recursos disponíveis aos alunos, com o acréscimo da possibilidade e interativa é: aquela que se
desenvolve em um ambiente
de edição e gerenciamento do curso. A atribuição do papel de editor de
que incentiva o trabalho em
um AVEA permite a visualização das ferramentas que criam os hipertex- equipe e respeita as diferen-
ças individuais. A vivência
tos e demais recursos que comporão o ambiente de estudos virtual. Tam-
em um grupo cooperativo
bém está disponível aos editores de AVEA a possibilidade de acompanhar e interativo deve permitir o
desenvolvimento de compe-
o progresso dos alunos em seus estudos, através de ferramentas que apre-
tências pessoais e, de igual
sentam estatísticas e relatórios de acesso ou participação nas atividades. modo, o desenvolvimento
de competências de equipe
como: participação, coorde-
Particularmente, gostamos de olhar para o AVEA como um sistema nação, acompanhamento e
avaliação.
computacional de aprendizagem cooperativa e interativa que ajuda
os alunos a comunicarem suas ideias e a cooperarem em atividades
comuns. Assim, todos os integrantes da equipe interagem entre si,
115
Introdução à Educação a Distância
em um processo em que o aluno é um sujeito ativo na construção do
conhecimento e o educador é o mediador.
8.1 A linguagem hipertextual no AVEA
Os materiais didáticos que compõem um AVEA praticamente
ocupam o lugar do professor e, por isso, a preocupação com a linguagem
dos hipertextos educativos é salutar. Na sequência, destacamos as
características da escrita hipertextual, algumas adaptadas da proposta de
Laaser (1997) para a produção de materiais impressos e outras advindas
de nossa prática com a EaD (HACK, 2010c).
• A linguagem hipertextual no AVEA tem um estilo conversacional.
O intuito é criar uma comunicação bidirecional, essencial na
EaD. Mas é preciso cuidar para não “infantilizar” a linguagem,
pois pode repercutir negativamente. O hipertexto “fala” com o
aluno, envolvendo-o em um diálogo que tem o intuito de fazê-
lo considerar as questões levantadas pelo professor, criticar
e complementar o que o curso está oferecendo, entre outras
coisas. Usualmente, o hipertexto de um AVEA chama o aluno
por “você”, buscando maior proximidade.
• A linguagem hipertextual no AVEA combina o estilo do docente
com o assunto, e cada temática pode ter uma forma diferente de
abordagem e ilustração. Por exemplo, um professor de Literatura
Brasileira poderá introduzir a temática com um conto, uma
história em quadrinhos, um filme ou uma música.
• A linguagem hipertextual no AVEA apresenta links com pistas
para que o aluno saiba onde pode encontrar informações
adicionais sobre determinados assuntos. Afinal, ele pode não ter
estudado aquilo que presumimos que ele conheça.
• A linguagem hipertextual no AVEA incentiva o aluno ao
questionamento, provocando-o à reflexão crítica sobre a temática
116
Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem
Capítulo 08
e à construção de novas inquietações sobre o assunto. Por exemplo,
os hipertextos educativos devem provocar o estudante a produzir
questões ao invés de respostas. Daí, os colegas podem trocar as
perguntas entre si ou postá-las em um fórum de discussão.
• A linguagem hipertextual no AVEA incentiva o aluno a se autoa-
valiar constantemente, com exercícios e jogos que não são obriga-
tórios. Alguns exemplos são: análise de casos, resolução de proble-
mas, jogos como palavras cruzadas, fóruns virtuais, wikis, blogs.
• A linguagem hipertextual no AVEA é desafiadora e instiga o
aluno à aprendizagem. Para tanto, são utilizadas alternativas
criativas de exemplificação aos alunos. Ou seja, é como “falar” a
mesma coisa usando recursos diferentes: apresentar o conteúdo
utilizando links internos, links externos, vídeos, áudios,
atividades, fotos, músicas, jogos, realidade virtual, fóruns
virtuais, salas de bate-papo, entre outros recursos.
Em linhas gerais, a linguagem dos textos didáticos no AVEA deve
ser estruturada adequadamente, com vistas às necessidades cognitivas
dos estudantes, combinando as funções do comunicar, do explicar e do
orientar. O hipertexto educativo precisa ajudar o aluno a desenvolver suas
próprias estratégias de estudo, levando-o a conhecer suas habilidades
cognitivas, ou seja, como ele aprende melhor.
8.2 Recursos dinamizadores em um AVEA
Os recursos dinamizadores utilizados em um AVEA são elaborados
geralmente com o intuito de promover a cooperação. Alguns exemplos:
jogos de perguntas, exercícios que provoquem a interação das equipes de
estudo, análises coletivas de audiovisuais, produção de blogs ou sites em
equipe. São provocações para que o aluno exerça o papel de pesquisador
ativo na EaD. Certas estratégias podem ser utilizadas para facilitar a com-
preensão de um hipertexto e até mesmo para dinamizá-lo, por exemplo:
figuras, fotos, gráficos, fluxogramas, áudios, vídeos, músicas e jogos.
117
Introdução à Educação a Distância
Um estudo que desenvolvemos sobre a temática (HACK, 2010c)
apontou que o uso eficiente de recursos dinamizadores é essencial em
qualquer curso que utiliza a linguagem hipertextual no processo de
ensino e aprendizagem. Produtos como imagem, som e vídeo podem
dinamizar um AVEA ao:
• quebrar a monotonia de um hipertexto que não utilize múltiplos
recursos audiovisuais;
• exemplificar de diversas formas uma mesma temática e tornar
mais claros os objetivos de aprendizagem propostos pelo
docente;
• motivar os estudantes a dar continuidade aos estudos;
• ajudar os alunos a criar relações para lembrar mais facilmente
de informações prioritárias;
A tradução da palavra clean é
• ilustrar e tornar o hipertexto mais atrativo.
“limpo”. Então, um ambiente
limpo é caracterizado pela
leveza, sobriedade e funcio-
Entretanto, o mesmo estudo (HACK, 2010c) enunciou que, ao
nalidade. Em um hipertexto se utilizar audiovisuais, figuras e outros recursos ilustrativos em um
clean encontramos espaços
em branco com funções
AVEA, é preciso tomar alguns cuidados, como:
específicas. Na composição
de um AVEA “limpo”, deve-se
cuidar para que a quantidade
• conhecer os direitos autorais da obra, obedecendo-os caso seja uma
de informações geradas pelos reprodução. Em alguns casos, é necessário pagar para se obter o
múltiplos recursos não crie a
sensação de poluição audiovi-
direito de uso de um produto audiovisual, uma figura ou ilustração;
sual. É melhor um AVEA clean,
com divisões claras entre as
seções, do que um ambiente
• verificar se o recurso escolhido não irá descaracterizar o
poluído, com uma quantidade hipertexto, pois figuras, sons, vídeos e ilustrações desconexas ou
de recursos que dificultam a
compreensão do objetivo que
apenas para preencher espaços vazios devem ser evitados. Não
se quer atingir. há qualquer problema em espaços em branco, pois o ambiente
clean é comum na contemporaneidade;
• não se esquecer de indicar a fonte onde o audiovisual, a figura
ou a ilustração está depositado, quando for utilizar recursos
118
Ambiente Virtual de Ensino e Aprendizagem
Capítulo 08
de domínio público. No entanto, nossa experiência tem
demonstrado que a inserção de figuras muito comuns, como
aquelas que acompanham alguns softwares de edição de texto,
devem ser evitadas.
O ideal é que os recursos dinamizadores de um AVEA sejam
caracterizados pela originalidade e criatividade. Confeccionar tais recursos
é uma tarefa que requer uma organização diferenciada, com o apoio de
uma equipe multidisciplinar que possa dar maior qualidade ao trabalho.
Produzir audiovisuais, imagens e ilustrações para fins educativos significa Uma equipe multidisciplinar
trabalhar informações e materiais de referência com metodologias próprias, para a produção de audiovi-
suais, imagens e ilustrações
sempre com a clareza sobre a tecnologia mais adequada às necessidades do educativas é formada por pe-
público que se pretende atingir (HACK, 2010c). dagogos, designers instrucio-
nais, especialistas no conteú-
do a ser abordado, técnicos
em informática, entre outras
Gostaríamos de destacar que o término das atividades de um áreas do conhecimento.
Existem projetos menos am-
curso em um AVEA não significa necessariamente a condenação biciosos, nos quais o próprio
do ambiente virtual ao esquecimento. Quando as atividades de professor edita seus materiais
audiovisuais e o AVEA. Aqui
formação no AVEA institucional finalizarem-se, alguns envolvidos é importante salientar que as
(alunos, docentes e técnicos) poderão dar continuidade à interação ferramentas de edição estão
cada vez mais intuitivas e isso
participando de listas, grupos de discussão ou comunidades facilita a aprendizagem de
virtuais criadas durante as disciplinas. Em nossa interpretação, seu manuseio aos novatos.
um curso a distância poderá inclusive se transformar em uma rede
social de aprendizagem aberta ou um espaço interdisciplinar onde
os egressos possam fomentar novos projetos.
119
Organização do cotidiano de estudos na EaD
Capítulo 09
9 Organização do cotidiano de
estudos na EaD
Belloni (2001) discute em sua obra que as características da
sociedade contemporânea que mais causam impacto na educação
são: a) a complexidade; b) a tecnologia; c) as mudanças nas relações
de espaço e tempo; d) a exigência de um trabalhador com múltiplas
competências e qualificações, capaz de gerir equipes e pronto a aprender.
Para a autora, por suas características intrínsecas, a EaD, mais do que
as instituições presenciais de ensino superior, poderá contribuir para a
formação de alunos mais autônomos. No entanto, a imagem que muitos
constroem do estudante típico da EaD não parece responder a este ideal,
pois muitos discentes tendem a realizar uma aprendizagem passiva e
sem comprometimento ao imaginar que conseguirão evoluir em seus
estudos sem muito esforço e dedicação.
Lembre-se de que, segundo Peters (2001), os estudantes são autô-
nomos quando conseguem reconhecer suas necessidades de estudo,
formulam objetivos de aprendizagem, selecionam conteúdos, plane-
jam estratégias de estudo, selecionam materiais didáticos, identificam
fontes adicionais de pesquisa e fazem uso delas, bem como quando
eles ordenam, conduzem e avaliam o processo da aprendizagem.
Queremos ratificar, aqui, também a compreensão que encontramos
em Belloni (2001), que na aprendizagem autônoma o estudante não
é objeto ou produto, pois atua como sujeito ativo ao realizar sua
própria aprendizagem. Mesmo que estejamos longe do ideal de um
aprendente com perfil autônomo, que abstrai os conhecimentos e
os aplica em situações novas, é necessário investir nessa proposta.
A formação ao longo da vida parece ser o melhor caminho para
alcançar ou manter condições de competitividade ao estudante
trabalhador adulto, que geralmente é o público que procura com
maior frequência o ensino superior a distância.
121
Introdução à Educação a Distância
Se o assunto ainda não está claro para você, volte ao primeiro
capítulo da Unidade C.
A EaD, se bem planejada e gerenciada, pode ser uma resposta viável
para atender várias camadas da população: a) as que estão excluídas do
sistema presencial de ensino, como os alunos e trabalhadores que residem
longe de uma instituição de ensino superior e teriam muito desgaste
físico, mental e financeiro para frequentar um curso diariamente; b) os
profissionais que precisam de formação permanente em serviço e não
podem deixar suas funções cotidianas; c) as pessoas que optam pela EaD
por gostarem da modalidade e se identificarem com o perfil autônomo.
Todavia, concordamos com Belloni (2001), que a prática da aprendizagem
autônoma é embrionária, pois o estudante verdadeiramente autônomo é
ainda uma exceção em nossas universidades.
Aquele que estuda a distância precisará passar de mecanismos
presenciais e muito centrados na cultura do livro e do professor para
variáveis que podem incluir dimensões audiovisuais. Tais mudanças
se apresentarão como desafios a alguns discentes, pois durante a
educação fundamental e média pouco se estimulam as características da
aprendizagem autônoma. Contudo, também precisamos levar em conta
o isolamento ao qual pode se submeter um aluno a distância, devido
à diminuição dos encontros presenciais com os docentes. Um estudo
que desenvolvemos (HACK, 2009) apontou algumas necessidades
primordiais para vencer o isolamento na EaD:
1. materiais com boa qualidade científica e pedagógica;
2. sistema de tutoria eficiente, que promova relações intersubjeti-
vas e a comunicação dialógica nas relações docente/aluno ou
aluno/aluno;
3. centros de apoio para a realização de atividades presenciais,
como aulas, grupos de estudo, videoconferências, etc.
122
Organização do cotidiano de estudos na EaD
Capítulo 09
Mesmo cercado de bons materiais, de um sistema de tutoria
eficiente e um centro de apoio presencial, o início de um curso superior
na modalidade a distância trará consigo alguns desafios, por causa
da adaptação à nova proposta de ensino e aprendizagem por parte de
professores, tutores e alunos, bem como devido à inabilidade de alguns
discentes em organizar o tempo e um ambiente propício aos estudos.
É fato que apenas ao ingressar em um curso de EaD alguns alunos
percebem que eles precisam estudar e participar de sua formação
efetivamente, pois uma EaD com qualidade não é sinônimo de
educação facilitada. Em nossa experiência com ensino superior
a distância já encontramos estudantes que desistiram de sua
formação nas primeiras semanas do curso e posteriormente
justificaram sua atitude dizendo que tinham pensado que não seria
necessário estudar para ter o diploma (HACK, 2009).
Certo! Mas, pontualmente, quais são as mudanças que se esperam
de um estudante da EaD para a efetivação do processo de
aprendizagem autônoma e cooperativa?
O perfil que se espera de um aluno que pretende ingressar no processo
de construção do conhecimento a distância é composto de requisitos
que também são fundamentais ao profissional da contemporaneidade.
Conforme nosso estudo (HACK, 2009), tais requisitos se ancoram em
14 aspectos.
4. Foco nos objetivos a alcançar – o aluno da EaD precisa aprender
a centrar forças na realização de todas as atividades para ob-
ter sucesso nas mais diversas etapas que compõem o currículo,
mesmo aquelas que não despertam grande euforia.
123
Introdução à Educação a Distância
5. Maturidade e consciência – o estudante a distância deve
encontrar o equilíbrio entre seus direitos e deveres como
estudante.
6. Dedicação e esforço para enfrentar os desafios com a certeza da
vitória – o discente autônomo deve persistir, mesmo diante de
dificuldades técnicas ou operacionais.
7. Capacidade de administrar o tempo disponível – é imprescindível
ao aluno a distância a habilidade de organizar sua própria agenda
de compromissos e horários de estudo para completar os alvos
estabelecidos em cada componente curricular.
8. Disciplina para cumprir os compromissos agendados – a prática
de estudo com autonomia precisa de cadência e fluência, pois
mesmo diante do cansaço cotidiano e dos insistentes apelos das
atividades de lazer, o discente precisará dar continuidade ao seu
plano de estudos.
9. Empenho na realização de pesquisa em novas fontes – o aluno da
EaD não pode ficar refém apenas dos materiais disponibilizados
pelo curso, e a iniciativa na busca de outras referências é essencial.
10. Motivação e estímulo para interagir com os colegas, docentes e
técnicos – para permanecer em um curso superior a distância
até sua conclusão, é necessário entender que todos são
colaboradores no processo de capacitação continuada.
11. Seriedade e honestidade – aquele que estuda em um curso de
EaD precisa compreender que o plágio de outros trabalhos ou a
cópia de respostas dos colegas é um engano para si mesmo, um
problema ético e uma infração contra os direitos autorais.
12. Iniciativa para sanar suas dúvidas – o aluno que almeja o perfil
autônomo deverá quebrar vícios como o de esperar respostas
prontas dos professores e tutores.
124
Organização do cotidiano de estudos na EaD
Capítulo 09
13. Autodidatismo, ou seja, a capacidade de estudar sozinho, sem a
cobrança de um professor ou uma lista de chamada – o discente
da EaD precisará identificar suas características pessoais e assim
incrementar suas próprias metodologias de aprendizagem.
14. Responsabilidade e pontualidade nas leituras, entrega de ativi-
dades e realização de exercícios – geralmente o AVEA encerra
a possibilidade de postagem ou acesso a uma tarefa depois da
data prevista pelo docente, obrigando os alunos a se organiza-
rem para cumprir as tarefas no prazo proposto.
15. Persistência e perseverança diante das dificuldades de estudo
que surgirem – o aluno da EaD busca o contato constante com
tutores, docentes, colegas, amigo e familiares que o incentivem e
ajudem a manter em alta a vontade de concluir o curso.
16. Cooperação – no ensino superior a distância, a estratégia de for-
mação de equipes de estudo ajuda na resolução de problemas e
dúvidas, pois um estudante motiva o outro e serve de apoio for-
talecendo laços afetivos que tendem a facilitar a aprendizagem.
17. Superação dos bloqueios pessoais de aprendizagem – o estudan-
te da EaD está atento às condições que facilitam sua aprendiza-
gem identificando, por exemplo, qual o melhor local e horário
de estudo em sua casa, entre outras coisas.
Quando uma pessoa inicia seu estudo na EaD, muitas vezes a
família e os amigos não entendem que em alguns momentos
será necessária certa reclusão para realizar leituras e atividades.
Já ouvimos depoimentos sobre filhos, esposas, esposos e amigos
que se sentiram deixados de lado pela pessoa que realizava seus
estudos a distância. Ou seja, faltou sensibilidade por parte do
cônjuge, dos filhos ou dos amigos para compreender que em certas
horas a pessoa estará em um local específico da casa dedicando-se
exclusivamente ao estudo. Mas é claro que precisamos encontrar
um equilíbrio, pois todos precisam de lazer.
125
Introdução à Educação a Distância
O que você pensa sobre isso? Sua família e seus amigos entenderam
sua opção pelo estudo a distância e têm respeitado os seus
momentos de estudo em casa?
Se tentarmos sintetizar tudo o que se pontuou anteriormente,
identificaremos dois grandes polos aglutinadores das mudanças
imprescindíveis ao aluno que pretende organizar seu cotidiano de
estudos na EaD (HACK, 2009).
O primeiro polo aglutina as mudanças relacionadas a aspectos
instrumentais, como a necessidade urgente de introduzir
criticamente e criativamente as múltiplas tecnologias na prática
cotidiana, nos mais diversos ambientes, para potencializar o
processo comunicacional.
O domínio mínimo de técnicas ligadas ao audiovisual e à
informática é indispensável em situações educativas cada vez
mais midiatizadas, nas quais a competência de interlocução via
tecnologia se faz necessária para a comunicação educativa dialógica
com a equipe docente e com os colegas das equipes de estudo.
O segundo polo aglutina as mudanças reflexivas, do pensamento, da
epistemologia, que acontecem pela reflexão sobre os conhecimentos
humanísticos, metodológicos e didáticos necessários para que
o processo de ensino e aprendizagem seja realizado de forma
crítica, criativa e promova a construção autônoma e cooperativa
do conhecimento. A capacidade de trabalhar com método, ou
seja, a habilidade para sistematizar e formalizar procedimentos e
métodos será necessária tanto para o trabalho em equipe como
para alcançar os objetivos de qualidade e de produtividade nos
estudos individuais. Nesse contexto, é imprescindível o poder de
síntese e apresentação de seus saberes e experiências de modo que
outros possam aproveitá-los em uma aprendizagem cooperativa.
126
Organização do cotidiano de estudos na EaD
Capítulo 09
Nosso intuito não foi apresentar uma lista de checagem de habilidades
necessárias ao aluno que pretende organizar seu estudo a distância. O que
queríamos era: proporcionar uma oportunidade para que você pudesse
identificar a importância do gerenciamento estratégico do processo de
ensino e aprendizagem na EaD para, assim, ampliar as possibilidades
de desenvolvimento de um perfil crítico, criativo, autônomo e
cooperativo, perfil esse indispensável a uma sociedade saudável.
Inclusive, alguns estudos (HACK, 2004, 2009; MOORE; KEARSLEY,
2007; LITTO; FORMIGA, 2008) apontam que, ao desenvolver tal perfil,
o desempenho do estudante da EaD no seu futuro mercado de trabalho
poderá ser superior ao do aluno do ensino presencial.
Você está ciente de que precisará encontrar espaço em sua agenda
para desenvolver com qualidade as atividades de aprendizagem
propostas pelo curso?
Em uma graduação a distância, geralmente se dedicam 20 horas
semanais ao estudo, por isso organize sua agenda pessoal e
profissional. Mas, atenção, não se esqueça da importância de se
divertir com as pessoas que você ama.
Em suma, podemos dizer que o aluno de um curso superior a distância
possui um perfil diferenciado do estudante de um curso universitário
presencial. Afinal, na modalidade de EaD, a responsabilidade do aluno
por sua aprendizagem é maior, pois ele próprio deverá coordenar seu
tempo de estudos, sem a imposição de uma lista de chamada, bem como
precisará desenvolver a autodisciplina e as estratégias motivacionais
para a permanência no processo de formação continuada.
127
Introdução à Educação a Distância
Sugestão de leitura
Para aprofundar seu estudo sobre as temáticas abordadas na Unidade A,
sugerimos as seguintes obras:
BELLONI, M. L. Educação a distância. 2. ed. Campinas: Autores Associa-
dos, 2001.
FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática edu-
cativa. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
PALLOFF, R. M.; PRATT, K. Construindo comunidades de aprendiza-
gem no ciberespaço. Porto Alegre: Artmed, 2002.
128
Considerações finais
Considerações finais
Nosso objetivo na presente obra era introduzi-lo na temáti-
ca: Educação a Distância. Para tanto, nos utilizamos de reflexões so-
bre o processo de ensino e aprendizagem com o uso de múltiplas fer-
ramentas tecnológicas, principalmente no ensino superior a distância,
em experiências nacionais e internacionais. Algumas das considerações
levantadas aqui nos ajudaram a perceber que a comunicação educativa
em cursos superiores a distância não pode ser entendida apenas como
um repassar de conteúdos pelas mídias, afinal o processo de ensino e
aprendizagem acontece pela discussão, pela conversa, pelo debate críti-
co, pelo diálogo. Ao romper com a prevalência da transmissão mono-
lógica de conteúdos, tão comum em algumas salas de aula e em certas
experiências de EaD, a comunicação educativa a distância inicia um
processo que valoriza e possibilita o diálogo entre culturas e gerações
(MARTIN-BARBERO, 1997).
Ao construir o conhecimento a distância, o docente e o discente
precisarão aprender a usar mídias interativas para que o diálogo
ocorra, sem fronteiras temporais e espaciais. Algo que, conforme
apontamos durante toda a obra, precisa estar baseado em pressu-
postos, como a criticidade, a criatividade, a autonomia, a coope-
ração e a afetividade. Somente uma boa e criativa base humana
poderá instituir a dinâmica da comunicação dialógica na EaD, em
que o estudante se sentirá envolvido no sistema educacional e cria-
rá laços afetivos que o auxiliarão no complexo processo de cons-
trução cooperativa do conhecimento em parceria com o professor,
o tutor e os colegas, mesmo longe fisicamente.
A partir dos aspectos pontuados nesta obra, ficou patente que os
envolvidos no sistema de EaD precisam estabelecer uma interlocução
constante através do AVEA e de outras tecnologias que permitam uma
comunicação de mão dupla entre as partes. Com o uso de uma varie-
dade cada vez mais ampla de dispositivos com múltiplas mídias, a aqui-
129
sição de conhecimento deixa de se fazer exclusivamente por meio de
leituras de textos para se transformar em experimentos também com
múltiplas percepções e sensibilidades. Por isso, se faltar o diálogo no
processo educacional, restringindo-se à comunicação escrita do saber
– com o estudo baseado apenas em provas, tarefas e trabalhos finais –,
se reduzirá sensivelmente a estrutura do estudo acadêmico (PETERS,
2001). Então, como ressaltado em outras seções, a ideia de processo
comunicacional educativo defendida constrói-se a partir da noção de
feedback (BERLO, 1999; BORDENAVE, 1998), em que o estudante con-
tribui como um coautor ativo.
Queremos dizer que foi um prazer partilhar parte dos resultados de
nossas pesquisas, bem como apresentar certas inquietações que ainda
nos comovem. Não tivemos a pretensão de apresentar roteiros prontos
de como alcançar o sucesso em sua experiência na EaD. Nosso intuito
final foi provocá-lo a leituras e reflexões que pudessem fazer diferença
em seu dia a dia e quiçá proporcionar anseios de mudança em sua busca
pela autonomia, cooperação e afetividade equilibrada em uma experi-
ência de EaD crítica, criativa e contextualizada.
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