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Reclamação 42.446: Decisão do Supremo

O documento trata de uma reclamação movida pela Mesa da Câmara dos Deputados contra decisão de um juiz eleitoral que autorizou busca e apreensão no gabinete e residências de um deputado federal. O relator negou seguimento à reclamação, afirmando que a competência do STF para processar deputados se restringe a crimes cometidos no exercício do mandato e que a localidade da diligência não atrai a atuação da Corte.

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  • ato administrativo,
  • direito do consumidor,
  • direito de acesso,
  • decisão colegiada
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Reclamação 42.446: Decisão do Supremo

O documento trata de uma reclamação movida pela Mesa da Câmara dos Deputados contra decisão de um juiz eleitoral que autorizou busca e apreensão no gabinete e residências de um deputado federal. O relator negou seguimento à reclamação, afirmando que a competência do STF para processar deputados se restringe a crimes cometidos no exercício do mandato e que a localidade da diligência não atrai a atuação da Corte.

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RECLAMAÇÃO 42.

446 SÃO PAULO

RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO


RECLTE.(S) : MESA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS
ADV.(A/S) : ROBERTO CARLOS MARTINS PONTES
RECLDO.(A/S) : JUIZ ELEITORAL DA 001ª ZONA ELEITORAL DE
SÃO PAULO
ADV.(A/S) : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS
BENEF.(A/S) : PAULO PEREIRA DA SILVA
ADV.(A/S) : SEM REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS

DECISÃO

RECLAMAÇÃO – INADEQUAÇÃO –
SEGUIMENTO – NEGATIVA.

1. Os assessores Hazenclever Lopes Cançado Júnior e Vinícius


Machado Calixto prestaram as seguintes informações:

A Mesa da Câmara dos Deputados assevera haver o Juízo


da Primeira Zona Eleitoral de São Paulo, no procedimento nº
0600046-07.2020.6.0001, usurpado a competência do Supremo e
inobservado o decidido na ação direta de inconstitucionalidade
nº 5.526.

Segundo narra, foram cumpridos, em 14 de julho último,


mandados de busca e apreensão no gabinete parlamentar e
residências do deputado federal Paulo Pereira da Silva, por
determinação da autoridade reclamada. Assinala decorrerem as
operações de investigação policial destinada a apurar o
cometimento de crimes previstos nos artigos 350 do Código
Eleitoral e 1º da Lei nº 9.613/1998, tendo em conta fatos
ocorridos nos anos de 2010 e 2012.

Afirma usurpada a competência deste Tribunal, a teor do


artigo 102, inciso I, alínea “b”, da Constituição Federal, uma vez
implementadas, por Juízo de primeiro grau, medidas cautelares
RCL 42446 / SP

em face de Deputado Federal. Ressalta cumprir ao Supremo


determinar, no âmbito penal, essas providências. Realça a
problemática alusiva à formalização das referidas decisões por
juízes de primeira instância, reportando-se ao princípio da
separação de poderes. Evoca a imunidade parlamentar.
Sustenta ameaçados o direito à privacidade e a garantia de
sigilo da fonte ante acesso a documentos relacionados à atuação
na Câmara dos Deputados.

Alega inobservado o proclamado no processo objetivo, no


qual assegurada a remessa, à Casa Legislativa, de decisão
determinando cautelares a mitigarem o pleno exercício do
mandato parlamentar. Argumenta assentada, na ocasião, a
competência do Supremo, e não, genericamente, do Poder
Judiciário. Transcreve trecho do voto do ministro Gilmar
Mendes. Salienta conveniente o exame desta reclamação com os
embargos declaratórios interpostos na ação direta. Aduz que a
busca e apreensão realizada no Gabinete revela risco ao
exercício das funções legislativas. Cita jurisprudência.

Sob o ângulo do risco, aponta a necessidade de definir-se


o foro competente. Diz comprometido o regular exercício do
mandato.

Requer, no campo precário e efêmero, a suspensão do ato


atacado. Postula a remessa, a este Tribunal, do processo
revelador da reclamação e dos elementos de prova colhidos.
Busca, no mérito, a cassação do pronunciamento questionado e
a fixação de tese no sentido de competir ao Supremo a
determinação de cautelar a afetar o exercício da função
parlamentar.

2. O Supremo, ao apreciar a questão de ordem na ação penal nº 937,


relator ministro Luís Roberto Barroso, com acórdão publicado no Diário
de Justiça eletrônico de 11 de dezembro de 2018, procedeu à
reinterpretação da Constituição Federal, considerada a prerrogativa de

2
RCL 42446 / SP

foro, assentando que o instituto pressupõe crime praticado no exercício


do mandato e a este, de alguma forma, ligado.

Por dever de coerência, cumpre reiterar: a competência do Tribunal é


de direito estrito, estando delimitada, de forma exaustiva, na Carta da
República. As regras respectivas não podem merecer interpretação
ampliativa. A Lei Maior, no que prevê cumprir ao Supremo julgar
Deputados e Senadores, há de ter abrangência definida pela conduta
criminosa.

O que houve na espécie? A tomada de providência, no âmbito de


investigação a tramitar na primeira instância, para ter-se busca e
apreensão em endereços vinculados a parlamentar, inclusive em gabinete
na Câmara dos Deputados.

Conforme pronunciamento da ministra Rosa Weber, formalizado na


petição nº 8.664, envolvendo Deputada Federal, o local da diligência não
enseja campo à atuação do Supremo. Confiram trecho do ato:

Em resumo, medidas cautelares penais visando às


dependências das Casas Legislativas terão de ser submetidas ao
crivo da Suprema Corte apenas quando tenham como alvo
parlamentares federais cujos atos se amoldem aos critérios
definidos por ocasião do julgamento da Questão de Ordem na
Ação Penal 937. É dizer, as diligências somente demandarão
pronunciamento do Tribunal naquelas hipóteses em que seja ele
o juiz natural para a ação penal que venha a ser aforada para o
processamento e julgamento dos mesmos fatos. Afinal, é a
“competência penal originária por prerrogativa de função [que]
atrai para o Tribunal respectivo a supervisão judicial do
inquérito policial” (Reclamação 555, Rel. Min. Sepúlveda
Pertence, Plenário, DJ 07.06.2002).

Também não surge viável, no plano da lógica, a tentativa de


compatibilizar, com a prerrogativa de foro preconizada no artigo 102,

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RCL 42446 / SP

inciso I, alínea “b”, da Constituição Federal, a determinação, por Juízo de


primeira instância, de medida cautelar. A levar em conta ensinamento do
acadêmico Jacob Bazarian (O problema da verdade. São Paulo: Editora Alfa-
Ômega, 1985. p. 117), há de recorrer-se aos princípios lógicos formais
consagrados desde Aristóteles: o da identidade – a revelar ser tudo
idêntico a si mesmo (A é A) –; o da não contradição – segundo o qual uma
coisa não pode ser e não ser ela mesma, ao mesmo tempo e do mesmo
ponto de vista (A não é não-A) –; e o do terceiro excluído – a demonstrar
que uma coisa é ou não é, não havendo espaço para o meio termo (A é B
ou A não é B).

Considerado o princípio do juiz natural, ou bem se tem competência


para atuar no processo, praticando atos que entender cabíveis, ou não se
tem. Mostra-se impróprio cogitar da existência de terceira opção, na qual
afetada a determinação de diligência em processo de competência do
Juízo de origem, conferindo-se, ao Supremo, papel avalizador.

No que tange ao decidido na ação direta de nº 5.526, apontada como


desrespeitada, inexiste identidade material com o versado no ato
questionado, uma vez assentada, no paradigma, a competência do Poder
Judiciário para determinar, contra parlamentares, as medidas cautelares
previstas no artigo 319 do Código de Processo Penal.

3. Nego seguimento à reclamação.

4. Publiquem.

Brasília, 29 de julho de 2020.

Ministro MARCO AURÉLIO


Relator

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