Disciplinas Espirituais
Ministério Fiel D. A. Carson
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Há quase duas décadas, escrevi um artigo intitulado "Quando a espiritualidade é espiritual? Reflexões
Sobre Alguns Problemas de Definição". Aqui, eu gostaria de analisar um aspecto deste tema.
A estrutura mais ampla da discussão precisa ser lembrada. "Espiritual" e "espiritualidade" se tornaram
palavras notoriamente indistintas. No uso comum, elas quase sempre têm conotações positivas, mas
raramente o significado delas se encaixa na esfera do uso bíblico. Pessoas acham que são "espirituais"
porque têm certas sensibilidades estéticas, ou porque sentem algum tipo de conexão mística com a
natureza, ou porque adotam uma versão altamente personalizada de uma das muitas religiões. (Mas
"religião" tende a ser uma palavra de conotações negativas, enquanto "espiritualidade" tem conotações
positivas.)
No entanto, nos termos da nova aliança, a única pessoa "espiritual" é aquela que tem o Espírito Santo,
derramado sobre indivíduos na regeneração. A alternativa, na terminologia de Paulo, é ser "natural" –
meramente humano – e não "espiritual" (1 Co 2.14). Para o cristão cujo vocabulário e conceitos sobre
este tema são moldados pelas Escrituras, somente o cristão é espiritual. E, por uma extensão óbvia,
aqueles cristãos que mostram virtudes cristãs são espirituais, porque essas virtudes são fruto do Espírito.
Aqueles que são meras "crianças em Cristo" (1 Co 3.1), se estão verdadeiramente em Cristo, são
espirituais, porque são habitados pelo Espírito, mas sua vida pode deixar muito a desejar. Apesar disso, o
Novo Testamento não designa os cristãos imaturos como não espirituais, como se a categoria
"espirituais" fosse reservada apenas para os mais maduros, a elite dos eleitos. Isso é um erro muito
comum da tradição de espiritualidade da Igreja Católica Romana. Nesta, a vida espiritual e as tradições
espirituais estão frequentemente ligadas com fiéis que desejam ir além do que é comum. Essa vida
"espiritual" é muitas vezes ligada com ascetismo e, às vezes, com misticismo, ordens de freiras e monges
e uma variedade de técnicas que vão além do cristão comum.
Devido ao amplo uso das palavras da família de "espiritual", muito além do Novo Testamento, a linguagem
de "disciplinas espirituais" tem se estendido, igualmente, a arenas que tendem a deixar preocupados
aqueles que amam o evangelho. Em nossos dias, as disciplinas espirituais podem incluir leitura da Bíblia,
meditação, adoração, doar dinheiro, jejuar, solidão, comunhão, obras de beneficência, evangelização, dar
esmolas, cuidado da criação, escrever diários, obra missionária e mais. Pode incluir votos de celibato,
autoflagelação e cantar mantras. No uso popular, algumas dessas supostas disciplinas espirituais são
totalmente divorciadas de qualquer doutrina específica, cristã ou não. Elas são apenas uma questão de
técnica. Essa é a razão por que, às vezes, as pessoas dizem: "Quanto à sua doutrina, comprometa-se,
por todos os meios, com as confissões evangélicas. Mas, no que diz respeito às disciplinas espirituais,
volte-se para o catolicismo ou, talvez, para o budismo". O que é universalmente admitido pela expressão
"disciplina espiritual" é que essas disciplinas têm o propósito de aumentar a nossa espiritualidade.
No entanto, à luz da perspectiva cristã, não é possível alguém aumentar sua espiritualidade sem possuir
o Espírito Santo e submeter-se à sua instrução e ao seu poder transformadores. As técnicas nunca são
neutras. Estão sempre carregadas de pressuposições teológicas, frequentemente não reconhecidas.
Como devemos avaliar essa maneira popular de abordar as disciplinas espirituais? O que devemos
pensar sobre as disciplinas espirituais e sua conexão com a espiritualidade definida pelas Escrituras?
Algumas reflexões introdutórias:
(1) A busca do conhecimento direto e místico de Deus não é sancionado pelas Escrituras; é, também,
perigoso em várias maneiras. Não importa se esta busca é realizada, digamos, no budismo (embora
budistas instruídos provavelmente não falem sobre "conhecimento direto e místico de Deus" – as duas
últimas palavras talvez precisem ser omitidas) ou na tradição católica, à maneira de Julian de Norwich.
Nenhum desses exemplos reconhece que nosso acesso ao conhecimento do Deus vivo é mediado
exclusivamente por Cristo, cuja morte e ressurreição nos reconciliam com o Deus vivo. Buscar o
conhecimento direto e místico de Deus é anunciar que a pessoa de Cristo e sua obra sacrificial em nosso
favor não são necessárias para o conhecimento de Deus. Infelizmente, é fácil alguém deleitar-se em
experiências místicas, prazerosas e desafiadoras em si mesmas, sem conhecer nada do poder
regenerador de Deus, alicerçado na obra da cruz de Cristo.
(2) Devemos perguntar o que nos garante incluir algum item numa lista de disciplinas espirituais. Para os
cristãos que têm algum senso da função reguladora das Escrituras, nada, certamente, pode ser reputado
como uma disciplina espiritual se não é mencionado no Novo Testamento. Isso exclui não somente a
autoflagelação, mas também o cuidado da criação. Esta última é, sem dúvida, uma coisa boa que
devemos fazer; é parte de nossa responsabilidade como administradores da criação de Deus. Mas é
difícil pensarmos em uma base bíblica para que entendamos essa atividade como uma disciplina
espiritual – ou seja, uma disciplina que aumenta a nossa espiritualidade. A Bíblia fala muito sobre oração
e guardar a Palavra de Deus em nosso coração, mas diz muito pouco sobre o cuidado da criação e o
cantar mantras.
(3) Algumas das coisas incluídas na lista são levemente ambíguas. Em um nível, a Bíblia não diz nada
sobre escrever diários. Por outro lado, isto pode ser apenas uma designação conveniente para referir-se
a autoexame cuidadoso, contrição, leitura bíblica meditativa e oração sincera. E o hábito de fazer
registros em um diário para fomentar essas quatro atividades não pode ser descartado da mesma
maneira como temos de rejeitar a autoflagelação.
O apóstolo declarou que o celibato é uma coisa excelente, se a pessoa tem o dom (tanto o casamento
quanto o celibato são designados carismata – "dons da graça") e o celibato contribui para um ministério
aprimorado (1 Co 7). Por outro lado, nada sugere que o celibato é um estado intrinsecamente mais santo;
e nos termos da nova aliança nada existe que sancione o retirar-se para mosteiros de freiras ou monges
celibatários que se separaram fisicamente do mundo para se tornarem mais espirituais. A meditação não
é um bem intrínseco. Grande parte da meditação depende do foco da própria pessoa. O foco é um ponto
escuro imaginário em uma folha de papel branco? Ou é a lei do Senhor (Sl 1.2)?
(4) Até aquelas disciplinas espirituais que todos reconheceriam como tais não devem ser mal
compreendidas ou abusadas. A própria expressão é potencialmente enganadora: disciplina espiritual,
como se houvesse algo intrínseco no autocontrole e na imposição da autodisciplina que qualifica alguém
a ser mais espiritual. Essa suposição e essas associações mentais só podem levar à arrogância. E o que
é pior: elas levam frequentemente ao hábito de julgar os outros como inferiores. Os outros podem não ser
tão espirituais como eu, visto que sou tão disciplinado que tenho um excelente tempo de oração ou um
ótimo esquema de leitura da Bíblia. Mas o elemento verdadeiramente transformador não é a disciplina em
si mesma, e sim o valor da tarefa realizada: o valor da oração, o valor da leitura da Palavra de Deus.
(5) Não é proveitoso fazer uma lista variada de responsabilidades cristãs e rotulá-las de disciplinas
espirituais. Isso parece ser o argumento que está por trás da teologia introduzida inapropriadamente, por
exemplo, no cuidar da criação e no dar esmolas. Mas, pela mesma lógica, se motivado por bondade
cristã, você faz massagem nas costas de uma senhora que tem pescoço rígido e ombro inflamado, este
massagear as costas se torna uma disciplina espiritual. Por essa mesma lógica, uma obediência cristã é
uma disciplina espiritual, ou seja, ela nos torna mais espirituais.
Usar a categoria de disciplinas espirituais desta maneira tem duas implicações infelizes. Primeira, se cada
instância de obediência é uma disciplina espiritual, não há nada especial nos meios de graça, ordenados
e bastante enfatizados nas Escrituras, como, por exemplo, a oração, a leitura séria e a meditação na
Palavra de Deus. Segundo, essa maneira de pensar sobre as disciplinas espirituais nos induz sutilmente
a pensar que o crescimento em espiritualidade é uma função de nada mais do que conformidade com as
exigências de muitas regras, de muita obediência. Certamente, a maturidade cristã não é manifestada
onde não há obediência. Contudo, há também grande ênfase no crescimento em amor, em confiança, em
entendimento dos caminhos do Deus vivo, na obra do Espírito de encher-nos e capacitar-nos.
(6) Por essas razões, parece ser sábio restringir a designação "disciplinas espirituais" a aquelas
atividades prescritas na Bíblia, que são declaradas explicitamente como meios de aumentar nossa
santificação, nossa conformidade com Cristo, nossa maturação espiritual. Em João 17, quando Jesus
rogou que seu Pai santificasse seus seguidores por meio da verdade, ele acrescentou: "A tua palavra é a
verdade". Não é surpreendente que os crentes tenham há muito chamado de "meios de graça" coisas
como o estudo da verdade do evangelho. "Meios de graça" é uma expressão agradável e menos
susceptível a mal-entendidos do que "disciplinas espirituais".
Tradução: Wellington Ferreira
Do original em inglês: Spiritual Disciplines. Publicado no site The Gospel Coalition.
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