Orientação Educacional e Pedagógica
Orientação Educacional e Pedagógica
1ª Edição
Brasília/DF - 2018
Autores
Fernanda Sansão Ramos Mattos
Produção
Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e
Editoração
Sumário
Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa...................................................................................................... 4
Introdução.............................................................................................................................................................................. 6
Aula 1
Orientação e educação................................................................................................................................................ 9
Aula 2
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea.............................................................................21
Aula 3
O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola........................... 37
Aula 4
As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico........................................................ 51
Aula 5
Orientação vocacional e educação........................................................................................................................ 63
Aula 6
Orientação vocacional na prática.......................................................................................................................... 82
Referências........................................................................................................................................................................ 101
Organização do Caderno de
Estudos e Pesquisa
Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos,
de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com
questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável.
Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras
e pesquisas complementares.
A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de
Estudos e Pesquisa.
Provocação
Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.
Para refletir
Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa
e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio.
É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus
sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas
conclusões.
Atenção
4
Organização do caderno de estudos e pesquisa
Saiba mais
Sintetizando
Cuidado
Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.
Importante
Observe a Lei
Conjunto de normas que dispõem sobre determinada matéria, ou seja, ela é origem,
a fonte primária sobre um determinado assunto.
Posicionamento do autor
Importante para diferenciar ideias e/ou conceitos, assim como ressaltar para o
aluno noções que usualmente são objeto de dúvida ou entendimento equivocado.
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Introdução
Olá! Seja bem-vindo à disciplina de Orientação Educacional e Pedagógica! É com muito entusiasmo
que, ao longo deste curso, acompanharemos você através das principais discussões que constituem
o campo de atuação do orientador educacional.
Nosso objetivo neste caderno é que você tenha contato com as principais questões teóricas
relacionadas à atividade do orientador educacional e pedagógico, para que com isso seja capaz de
compreender o seu papel na estrutura escolar e no bom desenvolvimento do projeto educacional.
No futuro, se for seu interesse atuar no Serviço de Orientação Educacional, o debate iniciado
nesta disciplina será muito enriquecedor para que você fundamente sua prática. Da mesma
forma, enquanto estiver ocupando outros postos de trabalho dentro de uma instituição de ensino
em que exista o serviço do orientador, você estará bem informado a ponto de compreender o
trabalho desenvolvido por esse profissional para tirar proveito dele no aprimoramento de suas
próprias atividades.
Bons estudos!
Objetivos
»» Definir que, além de trabalhar diretamente com os alunos, cabe ao orientador Educacional
e Pedagógico auxiliar a equipe gestora a planejar, implementar e avaliar o projeto
político-pedagógico da escola.
6
»» Refletir a respeito da orientação vocacional desenvolvida nos dias de hoje, salientando
sua relação com o conceito pós-moderno de identidade.
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8
Orientação e educação
Aula
1
Introdução
Na primeira aula desta disciplina, trabalharemos a relação existente entre educação e orientação,
contextualizando o surgimento da figura do Orientador Educacional e Pedagógico nas instituições
de ensino. Veremos também os diferentes modelos de orientação que predominaram no cenário
educacional ao longo dos anos, identificando a forma como cada um deles buscava priorizar o
interesse social ou individual e o protagonismo oferecido ao aluno em cada um dos modelos.
Por fim, deteremo-nos mais detalhadamente na análise do modelo de orientação centrado no
desenvolvimento individual, que predomina no cenário educacional dos dias de hoje.
Objetivos
9
AULA 1 • Orientação e educação
Orientação e Educação
Se eu sei que o sol nasce todos os dias no leste e vai caminhando gradativamente pelo céu até
morrer no oeste, fica fácil saber em que direção estou indo a qualquer hora do dia e para que
lado devo caminhar se pretendo chegar a um local determinado!
Naquela época, a professora provavelmente iniciou a busque outras fontes para saber mais
sobre ele!
apresentação deste conteúdo falando sobre os pontos cardeais
e a forma como eles se organizam no espaço. Começamos então a pintar as tais rosas dos
ventos, para memorizar que o norte fica sempre em cima, o sul embaixo, o leste do lado
direito e o oeste do lado esquerdo. Depois disso, aprendemos que o sol nasce sempre no leste
e, quando chegamos ao pátio, munidos de nossa rosa dos ventos colorida, as coisas tomaram
seu lugar como mágica! Não importava mais o quanto caminhássemos para um lado ou para
o outro, podíamos até rodopiar pelo espaço, e pela simples observação do sol éramos capazes
de identificar novamente onde estávamos e em que direção se localizava qualquer coisa ao
nosso redor.
Essa memória infantil nos lembra do momento em que aprendemos a orientar nosso corpo pelo
espaço mediante o estabelecimento do sol como nosso ponto de referência. Se continuarmos
relembrando aqueles dias, você vai perceber como, na sequência, aprendeu a aplicar este
conhecimento para formas cada vez mais sofisticadas de se localizar, como a leitura de bússolas
e dos mapas. A partir deste ponto, ficou mais difícil se perder, pois você entendeu que os pontos
de referência estariam sempre no mesmo lugar, e a partir deles você poderia calcular a melhor
rota para levar seu corpo ao local em que gostaria de estar.
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Orientação e educação • AULA 1
Quando não é simplesmente o corpo que precisa chegar a algum lugar? E quando a necessidade
de orientação torna-se mais subjetiva, referindo-se aos rumos que desejamos tomar em nossas
vidas ou à necessidade de traçarmos uma rota para atingirmos nossos objetivos, metas e sonhos?
Nesta disciplina de Orientação Educacional e Pedagógica, veremos que, da mesma forma que é
possível utilizarmos referências sólidas, planejamento, e o estabelecimento de metas e objetivos
para levar o corpo até o local onde ele deseja chegar, somos capazes de utilizar convenientemente
todas essas ferramentas e técnicas para auxiliar o indivíduo a se desenvolver plenamente e
realizar tudo aquilo que pretenda, seja como cidadão, profissional ou pessoalmente. Isso é
auxiliar a mente a chegar ao ponto em que se pretende estar, ancorar as atitudes e o pensamento
em referenciais sólidos, para que, dessa forma, eles caminhem em direção ao ponto que
estabelecemos como meta.
Orientação e educação são dois processos que sempre caminharam lado a lado. Pode-se dizer
inclusive que, no sentido de guiar e aconselhar, a orientação sempre fez parte do processo
educativo. Mesmo quando a formação dos jovens para a vida social e o mundo do trabalho
acontecia dentro da própria família ou era conduzida por um membro mais experiente da
comunidade, esse processo incluía não somente o ensino de conceitos e atividades específicas,
mas, também, a tarefa de orientar o pupilo pelas questões e dilemas da época, participando,
assim, de sua formação integral e futura inserção na vida social.
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AULA 1 • Orientação e educação
melhor trabalharem tais questões no planejamento e na execução de suas aulas, bem como em
suas interações com os alunos.
As autoras Giacaglia e Penteado (2015) apontam a Revolução Industrial como primeiro fator decisivo
para o surgimento da orientação nas escolas, porque, à medida que as fábricas se fortaleceram
exigindo cada vez mais mão de obra para garantir seu funcionamento, um número cada vez maior
de adultos acabou sendo afastado do convívio com os próprios filhos e com os demais jovens da
comunidade. Isso ocasionou o agrupamento dos educandos em instituições formais de ensino,
permitindo, desse modo, que os pais se dedicassem ao novo trabalho na indústria.
Como destacam Giacaglia e Penteado (2015), esses dois fatores fizeram com que as escolas fossem
obrigadas a aumentar muitíssimo o número de alunos que nelas se inscreviam, o que as forçou
a aprimorar também a infraestrutura existente nas instituições para atender adequadamente a
esse novo contingente de alunos, que não só era maior em número de pessoas como também
em sua heterogeneidade. A escola se defrontava agora com uma diversidade grande de origens
étnicas, religiosas, socioeconômicas e, até mesmo, de saúde mental e física, o que trouxe consigo
um novo dilema para a prática educativa: como cuidar de um número tão grande de indivíduos
tão diferentes?
A saída mais adequada para atender a essa população escolar tão diversificada em suas
especificidades e necessidades era a formação de uma equipe interdisciplinar, composta de
médicos, enfermeiros, psicólogos, conselheiros, assistentes sociais, que atuariam em cada uma
das escolas para garantir que as crianças fossem cuidadas e atendidas. No entanto, o investimento
financeiro para a manutenção de um quadro de funcionários tão grande em cada uma das
instituições de ensino era inviável.
Surge, nesse contexto, o profissional de orientação como encarregado de não só auxiliar professores
e alunos no desenvolvimento das atividades escolares, mas, também, como responsável por
buscar o auxílio de outros especialistas sempre que necessário. Ele seria, mediante a avaliação
dos casos específicos e do encaminhamento, a ponte entre as necessidades da comunidade
escolar e as diferentes especialidades de atendimento a essas necessidades.
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Orientação e educação • AULA 1
foi assumindo diferentes formas de atuação. Segundo Giacaglia e Penteado (2015), podemos
dividir essas constantes transformações em quatro modelos mais significativos: o pragmático, o
terapêutico, o preventivo e, por fim, o modelo centrado no desenvolvimento individual.
Como vimos anteriormente, um dos principais fatores que concorreram para o surgimento da
Orientação Educacional e Pedagógica nas escolas foi a Revolução Industrial, bem como seus
efeitos diretos e indiretos sobre a organização social, a educação e o trabalho.
Sendo assim, podemos dizer que o novo mercado de trabalho desenhado pela Indústria possuía
uma demanda de trabalhadores muito diferente daqueles que trabalhavam anteriormente de
forma artesanal, e parte significativa da responsabilidade pela formação dessa nova mão de obra
especializada foi atribuída às escolas, mais especificamente ao Orientador Educacional e Pedagógico.
Atenção
Você conhece o significado da palavra “pragmático”? Ao dizer que algo ou alguém é pragmático, estamos querendo dizer que
seu foco está sempre direcionado à praticidade e à objetividade, sem rodeios ou desvios em seu caminho. Com isso, podemos
dizer que a Orientação Educacional e Pedagógica que se confundia com a Orientação Vocacional era pragmática, pelo fato de
ela ter o objetivo muito prático de encontrar e formar pessoas para preencher as vagas de trabalho oferecidas pela indústria.
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AULA 1 • Orientação e educação
O modelo de Orientação Vocacional adotado nesse período, que influenciava diretamente o modelo
de Orientação Educacional e Pedagógica desenvolvido nas escolas, tinha como preocupação
fundamental conhecer o indivíduo, suas capacidades e habilidades, para encontrar a ocupação
profissional na qual ele teria maior sucesso. O método utilizado para esse fim ficou conhecido
como estatístico psicométrico, que se baseava no conceito de que todo indivíduo possuiria aptidões
inatas que poderiam ser descobertas por meio dos instrumentos psicométricos adequados.
Com isso, podemos dizer que a orientação se limitava à aplicação de testes que mensuravam as
aptidões de cada aluno para alocá-los na função profissional em que seriam melhor sucedidos.
Perceba que em nenhum momento estamos falando sobre sonhos, metas, desejos ou inclinações
do indivíduo para esta ou aquela profissão. O principal interesse da Orientação Educacional e
Pedagógica deste período, em paralelo com os objetivos da própria Orientação Vocacional, não
era o de encontrar a tarefa que melhor se adequasse ao indivíduo ou aquela na qual ele poderia se
realizar em nível pessoal, mas, sim, o de encontrar o candidato que teria o melhor desempenho
em determinada função ou cargo. Como bem define Pimenta (1993, p. 24), “A preocupação não
era com as aptidões individuais (com o indivíduo), mas com a identificação destas, para que o
indivíduo pudesse ser colocado (selecionado) nos lugares onde seria mais produtivo”.
Para utilizarmos um exemplo prático, imagine que a aluna Maria tem o sonho de tornar-se
arquiteta. Ela almeja de todo coração cursar arquitetura, planeja seu futuro com base nesse
sonho e está decidida a investir todos os seus recursos e esforços para concretizar tal projeto.
No entanto, através dos diversos testes aplicados no processo de orientação, verificou-se que
a aluna possui melhor desempenho nas disciplinas biomédicas que nas exatas. Sendo assim,
Maria será orientada a desistir da arquitetura para dedicar-se à medicina ou à enfermagem, visto
que seu potencial para ser um bom profissional de saúde é estatisticamente maior do que o de
ser uma boa arquiteta.
Partindo desse exemplo, fica claro que a preocupação fundamental da Orientação Educacional
e Pedagógica neste modelo não era o desenvolvimento do aluno ou de suas potencialidades,
mas, sim, o interesse social de corrigir e adaptar o indivíduo de forma que fosse assegurado o
bem-estar da sociedade como um todo, mesmo que para isso os interesses pessoais daquele
aluno estivessem em segundo plano. Usando novamente o exemplo hipotético da aluna Maria,
poderíamos dizer que a sociedade como um todo se beneficiou do processo de orientação por
ter conseguido uma profissional de saúde competente, mesmo que, para isso, Maria tenha tido
de abrir mão do seu desejo íntimo de ser arquiteta.
Outro ponto a ser destacado é a forma como, neste modelo de orientação, o aluno desempenha
um papel completamente passivo no processo de orientação. Ele é analisado, estudado e
encaminhado de acordo com o que se acredita ser o melhor para ele e para a sociedade, mas
em nenhum momento ele é chamado a opinar sobre os rumos que gostaria de dar a sua própria
vida. O importante era modelar o aluno para que ele se encaixasse naquilo que o educador e a
sociedade esperavam dele.
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Orientação e educação • AULA 1
Este modelo de Orientação Educacional e Pedagógica, assim como o anterior, possuía uma atuação
muito mais centrada no interesse social do que nas expectativas e necessidades do indivíduo,
porque o intuito de adaptar os alunos ao convívio no ambiente escolar não tinha como princípio
o bem-estar destes ou o aumento de sua produtividade acadêmica individual. O objetivo era o
de criar um ambiente harmônico em que a coletividade fosse atendida de forma bem-sucedida
e os indivíduos fossem, de certa maneira, adaptados para conviver em sociedade.
Imagine, por exemplo, um aluno violento, que constantemente se envolve em brigas com colegas
e professores. Neste modelo de orientação, o foco seria utilizar os instrumentos psicológicos
disponíveis para tratar esse quadro de agressividade, visando à adaptação deste aluno para
que o bom andamento do processo educativo não fosse prejudicado. Em nenhum momento
existia a preocupação de auxiliar o indivíduo para que ele tivesse um aumento produtivo,
melhor qualidade de vida ou autoconhecimento a ponto de trabalhar subjetivamente a questão
da violência. Em outras palavras, podemos dizer que tudo o que importava é que ele parasse
de se comportar de determinada forma, seja por real melhora ou por coerção e imposição
de conduta.
Da mesma forma, é importante destacar que neste modelo de orientação o aluno também era
visto de forma passiva, como alguém que deveria ser moldado e encaminhado pelo orientador
de acordo com as regras de normalidade e adaptação estabelecidas socialmente. O aluno visto
como adaptado e normal era aquele que se configurava com facilidade ao sistema educativo,
sem apresentar qualquer desvio de comportamento. Enquanto o aluno problema, aquele que se
comportava de maneira desviante, era visto como desajustado e precisava ser tratado e corrigido
para se enquadrar ao modelo.
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AULA 1 • Orientação e educação
No entanto, percebeu-se que o esforço em remediar o problema depois que ele já havia se
instaurado despendia muito mais esforços e causava muito mais transtornos do que encontrar
uma maneira de impedir que os problemas de comportamento surgissem. Foi criado assim o
modelo preventivo de Orientação Educacional e Pedagógica, no qual todos os alunos seriam
doutrinados igualmente a se comportarem de forma adequada, buscando, dessa maneira,
prevenir o surgimento do comportamento indesejável.
Mais uma vez podemos identificar o interesse social como foco essencial do processo de
orientação, pois a expectativa deste modelo era garantir de forma eficaz, por meio da prevenção
do surgimento do aluno desviante, que o grupo inteiro se comportasse de maneira adequada e
sintonizada com os protocolos sociais.
Neste caso, o aluno também era entendido como elemento passivo do processo de orientação,
porque, da mesma forma que no modelo anterior, o indivíduo problemático deveria ser moldado
para corrigir o comportamento desviante, agora o grupo inteiro seria adequado e orientado para
se adaptar ao modelo e prevenir o surgimento de elementos problemáticos.
Não é por acaso que em todos os modelos analisados o interesse social se sobrepõe ao interesse
individual e o aluno é visto como elemento passivo do processo educativo, que deve ser formatado
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Orientação e educação • AULA 1
e padronizado independentemente de sua vontade. O educador, por sua vez, e neste sentido
incluiremos o orientador, é tratado como hierarquicamente superior aos educandos, considerando
a sua própria visão de mundo como verdade absoluta e referência a ser seguida.
Este é um modelo educativo que faz sentido dentro de uma lógica durkheimiana de educação, na
qual a proposta do processo pedagógico é produzir uma nova geração de indivíduos exatamente
igual à anterior, preocupando-se unicamente em torná-los aptos a serem funcionais dentro da
sociedade, sem jamais questionar os valores e as práticas dessa sociedade.
Para o sociólogo francês Émile Durkheim, um dos nomes mais significativos para a sociologia
da educação, a escola deveria operar na vida dos indivíduos como um local privilegiado de
socialização, no qual a criança, entendida como folha de papel em branco, seria levada para
receber do professor todos os conhecimentos necessários para se tornar um adulto funcional
para a vida dentro da sociedade da qual faz parte. Nas palavras do autor:
A educação é a ação exercida pelas gerações adultas sobre aquelas que ainda não
se encontram preparadas para a vida social; tem por objeto suscitar e desenvolver
na criança um certo número de estados físicos, intelectuais e morais reclamados
pela sociedade política, no seu conjunto, e pelo meio especial a que a criança,
particularmente, se destina (DURKHEIM, 1978, p. 41).
A partir desse ponto de vista, a equipe pedagógica poderia ser entendida como o molde pelo
qual as futuras gerações seriam formadas, sendo responsáveis pela transmissão aos pequenos
dos elementos que definem o que é ser um membro da vida social, de suas atribuições e
responsabilidades. Neste contexto educativo, podemos dizer que somos como somos porque
quando éramos crianças aprendemos com os adultos a ser como eles, e agora seria o nosso dever
fazer com que os pequenos aprendam a ser como nós somos.
Você percebe como nesta visão de mundo não existe espaço para a individualidade do aprendiz
ou para a transformação social através da educação? A escola seria um local de mera repetição
de práticas para a manutenção do status quo, ou seja, para que tudo permaneça exatamente
como está.
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AULA 1 • Orientação e educação
Perceba que, pela fala das autoras, identificamos pela primeira vez um momento em que a
felicidade do indivíduo é considerada no processo de orientação educacional e pedagógica.
Pela primeira vez, o sujeito e suas especificidades se tornaram elementos de interesse para o
orientador, mesmo que o interesse social nunca tenha sido deixado completamente de lado.
Percebeu-se, neste modelo, que o bem-estar do aluno e o bom funcionamento da sociedade são
complementares entre si, e o aluno deixou de ser visto como elemento passivo a ser moldado
para tornar-se protagonista em seu próprio desenvolvimento.
Nesta busca por auxiliar os alunos a solucionarem seus problemas da melhor forma possível, o
Orientador precisa atuar em diversas frentes dentro das instituições de ensino. Não basta que ele
fique restrito ao seu gabinete esperando ser procurado. É preciso que ele caminhe pela escola,
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Orientação e educação • AULA 1
Vejamos então quem são esses atores do cotidiano escolar com os quais o Orientador Educacional
e Pedagógico interage e em relação aos quais ele deve estar preparado para atuar:
Alunos: são o foco central da atividade de orientação, que tem como objetivo auxiliá-los a
se desenvolver plenamente. Os autores Pascoal, Honorato e Albuquerque definem muito
acertadamente a tarefa do orientador diante do corpo discente da escola da seguinte maneira:
Professores: são parceiros importantes do orientador, que deve atuar em conjunto com o corpo
docente, intermediando o relacionamento entre professores e alunos, auxiliando os educadores
a entenderem o comportamento dos estudantes e, desse modo, encontrarem as melhores
estratégias para lidar com eles.
Míriam Grinspun (2011) salienta, ainda, que cabe ao orientador educacional e pedagógico auxiliar
os professores a trabalhar as questões pedagógicas do processo educativo, especialmente no
que se refere a fazer com que as reflexões contidas no Projeto Político-Pedagógico da instituição
sejam postas em prática. Segundo ela:
Colaborar com a direção significa estar junto tanto nas decisões tomadas pela
direção como na obtenção de dados inerentes aos aspectos administrativos.
O Orientador deve participar da organização das turmas, dos horários, da
distribuição dos professores em turmas, do número de alunos em sala de
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AULA 1 • Orientação e educação
Parte da função do orientador seria, então, a de dar visibilidade a esses indivíduos da importância
do trabalho que desenvolvem para o bem-estar de toda a comunidade escolar. É importante ouvi-
los, valorizá-los e intermediar a relação destes com alunos, professores, gestores e responsáveis.
Como bem define Grinspun (2011):
Famílias: cabe ao orientador manter aberto um canal de diálogo com pais e responsáveis, para,
desse modo, ser capaz de entender as vivências, os saberes e as expectativas que o aluno traz de
casa para a escola e que influenciam significativamente seu processo educativo.
Na próxima aula, analisaremos algumas posturas e práticas importantes, que devem ser adotadas
pelo profissional de orientação para que o seu trabalho com os alunos e com todos os demais
grupos envolvidos no projeto de desenvolvimento dos educandos seja bem-sucedido.
20
Aula
A Orientação Educacional e
Pedagógica contemporânea 2
Introdução
Na segunda aula desta disciplina, apresentaremos a noção de que não existem qualidades ou
aptidões naturais para que se exerça de forma adequada e eficiente a Orientação Educacional e
Pedagógica, sendo fundamental que todas as posturas e competências necessárias a esta atividade
sejam refletidas, aprendidas e praticadas. Apresentaremos em seguida algumas das principais
posturas do Orientador Educacional e Pedagógico para o bom desenvolvimento do trabalho de
orientação: a postura respeitosa diante da autonomia do aluno; a flexibilidade e imparcialidade no
tratamento do aluno; a busca constante por atualização e formação continuada; e o respeito aos
limites específicos da atividade de Orientação Educacional e Pedagógica. Por fim, apresentaremos
alguns dos dilemas mais recorrentes do cotidiano escolar, sobre os quais o orientador precisa atuar.
Objetivos
»» Entender os principais conceitos das teorias de Carl Rogers e Paulo Freire, que podem
ser aplicados à prática da orientação.
»» Reconhecer alguns dos dilemas mais recorrentes do cotidiano escolar, sobre os quais
o orientador precisa atuar.
21
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
Com isso, queremos dizer, por exemplo, que não estaremos mais preocupados em inserir nossos
alunos no mercado de trabalho, mas os auxiliaremos a desenvolver suas potencialidades e a
compreender seus próprios desejos e metas de forma que estejam prontos para atuar no mercado
de trabalho de maneira responsável e consciente.
O foco da orientação costumava ser o mundo fora dos muros da escola e as formas como
deveríamos moldar nossos alunos para estarem de acordo com o que esse mundo esperava dele.
Agora, no entanto, os objetos centrais da Orientação Educacional e Pedagógica passaram a ser
o próprio aluno e as formas como podemos auxiliá-lo a se desenvolver para atuar no mundo.
Em seu livro “Orientação Educacional e suas ações no contexto atual da escola”, Mary Rangel
(2015) se questiona sobre a existência de “qualidades naturais”, que poderiam ser consideradas
como requisitos para o exercício da Orientação Educacional. Neste sentido, a autora destaca
o risco deste raciocínio que defende a existência de aspectos naturais da personalidade do
indivíduo que o qualifiquem para o desempenho da atividade, pois algo que nasce conosco
é algo que não se aprende. Assim, ficaríamos presos ao pensamento de que algumas pessoas
nascem para desempenhar esta atividade e aquelas que não foram abençoadas pela natureza
com as qualidades certas não poderão nunca trabalhar com orientação.
Imaginemos o exemplo hipotético de duas educadoras que atuam em suas respectivas escolas
como Orientadoras Educacionais e Pedagógicas. Carolina é ríspida no trato com os colegas, se
comunica com os alunos de forma autoritária e não estabelece boas relações interpessoais na
escola. Amanda, por seu turno, é calma e paciente, está sempre disponível para dialogar com os
alunos e recorrentemente auxilia os professores com suas dúvidas e questionamentos.
O comentário geral a respeito de Carolina é que ela “não serve” para ser orientadora, porque
não “tem” paciência, não “é” agradável e “tem um temperamento” autoritário. Enquanto
Amanda é vista como uma pessoa que “nasceu para ser” orientadora, porque “é” agradável,
“se dá bem” com todo mundo e “tem um temperamento” amistoso. Você percebe que todas as
considerações a respeito da qualificação para o trabalho dessas duas profissionais se embasam
em traços naturais da personalidade das duas? Com isso, poderíamos dizer que Amanda é e
sempre será uma boa orientadora enquanto Carolina não tem a menor chance de aprimorar
seu trabalho.
22
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
No entanto, o próprio fato de estarmos aqui neste momento discutindo qual deve ser a forma
mais adequada para lidarmos com nossos alunos é uma prova de que a postura do profissional
de educação é uma prática sobre a qual refletimos e para a qual nos condicionamos de acordo
com as reflexões que fazemos e os conceitos novos que aprendemos. Carolina, neste sentido,
depois de estudar sobre o assunto, e percebendo a importância do relacionamento interpessoal
no processo educativo, poderia aprimorar sua forma de se posicionar diante da comunidade
escolar e de interagir com as pessoas com as quais trabalha.
Por esse motivo, Rangel (2015) salienta que, em vez de falarmos sobre qualidades ou características,
devemos refletir a respeito das competências necessárias ao desempenho da Orientação
Educacional, porque, dessa maneira, estamos dando ênfase à possibilidade de formação do
profissional, que se constrói mediante a prática e o estudo continuado das questões que se
apresentam no cotidiano.
A seguir, vejamos algumas dessas posturas e competências que devem ser desenvolvidas e
praticadas pelo profissional que atua na área de Orientação Educacional e Pedagógica.
23
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
mundo, e não apenas aquilo que se convencionou ser importante que ele conheça, saiba fazer
ou seja.
Para construir esse olhar, apresentaremos a teoria de dois autores que nortearam sua visão de
educação pela valorização da autonomia do aluno e buscaram, ao longo de suas trajetórias
acadêmicas, despertar o interesse de outros educadores para a importância de empoderarmos
nossos educandos para serem conscientes de suas escolhas e de seu papel no mundo.
Rogers foi um importante representante da corrente humanista, que buscou construir toda a sua
teoria acadêmica em torno da possibilidade de facilitar o crescimento pessoal do indivíduo. Para
isso, partia de uma visão otimista do ser humano, acreditando que todos nós possuímos uma
tendência natural para o aprendizado e para a construção de relações interpessoais construtivas.
Veja o que defende o autor em suas próprias palavras:
Resta-me indicar uma lição que aprendi e que está, talvez, na base de tudo
quanto venho dizendo. Ela se impôs a mim ao longo desses vinte e cinco anos
em que tentei ser de algum préstimo para indivíduos com perturbações pessoais.
A lição é simplesmente esta: a experiência mostrou-me que as pessoas têm
fundamentalmente uma orientação positiva. Nos meus contatos mais profundos
com indivíduos em psicoterapia, mesmo com aqueles cujos distúrbios eram mais
perturbadores, cujos sentimentos pareciam muito anormais, a afirmação continua
sendo verdadeira. Quando consigo afetivamente compreender os sentimentos
que exprimem, quando sou capaz de aceitá-los como pessoas separadas em todo
seu direito, nessa altura vejo que tendem a orientar-se em determinadas direções.
E quais são essas direções que os seus movimentos subentendem? As palavras que
julgo descreverem com maior veracidade essa direção são: positiva, construtiva,
tendente à autorrealização, progredindo para a maturidade e para a socialização.
Acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e
aceito, maior sua tendência para abandonar as falsas defesas que empregou para
enfrentar a vida, maior sua tendência para se mover para a frente.
Não gostaria de ser mal compreendido. Não tenho uma visão ingenuamente
otimista da natureza humana. Tenho perfeita consciência do fato de que, pela
necessidade de se defender dos seus terrores íntimos, o indivíduo pode vir a se
comportar e se comporta de uma maneira incrivelmente feroz, horrorosamente
destrutiva, imatura, regressiva, antissocial, prejudicial!
24
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
De acordo com Rogers (2001), para obtermos sucesso em qualquer projeto em que lidemos
diretamente com o outro, auxiliando-o a desenvolver-se, seria necessário transformar a forma
como nos relacionamos, extinguindo o autoritarismo existente nessa interação e assumindo
uma postura não diretiva, ou seja, sem interferir diretamente nas escolhas do indivíduo e na
forma como ele soluciona seus problemas. É criar um ambiente propício para que a própria
pessoa se desenvolva, amadureça e seja capaz de resolver seus próprios problemas, em vez de
simplesmente oferecer-lhe as respostas ou dizer-lhe qual caminho seguir.
Essa verdade, segundo Rogers, pode ser aplicada na relação entre terapeuta e paciente, professor
e aluno, pai e filho, ou qualquer outra relação em que o objetivo seja auxiliar o outro a tornar-se
pessoa. Por isso, suas reflexões se adéquam tão bem a nossa análise sobre a orientação educacional
e pedagógica, já que, neste contexto, o orientador educacional e pedagógico seria um facilitador,
responsável por auxiliar os seus orientandos a encontrarem, de forma livre e responsável, os
melhores caminhos para a sua própria construção de conhecimento.
Para que esse projeto educacional centrado no desenvolvimento da pessoa seja bem-sucedido,
Rogers aponta três características fundamentais a serem cultivadas em qualquer relação
interpessoal, e que traremos aqui para a relação existente entre o orientador e seus orientandos:
Segundo o autor, uma vez que se reúnam esses três elementos no trato com a pessoa que se
pretende auxiliar – seja ela um paciente, um aluno, um filho, um funcionário, etc. – a própria
relação interpessoal oferece ao indivíduo as ferramentas necessárias para que ele se torne mais
25
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
autoconfiante, maduro e apto a auxiliar a si mesmo. Carl Rogers sintetiza esse ponto de vista da
seguinte maneira:
Se eu posso criar uma relação caracterizada da minha parte: por uma autenticidade
e transparência, em que eu sou meus sentimentos reais; por uma aceitação afetuosa
e apreço pela outra pessoa como um indivíduo separado; por uma capacidade
sensível de ver seu mundo e a ele como ele os vê. Então o outro indivíduo na relação:
experienciará e compreenderá aspectos de si mesmo que havia anteriormente
reprimido; dar-se-á conta de que está se tomando mais integrado, mais apto a
funcionar efetivamente; tomar-se-á mais semelhante à pessoa que gostaria de ser;
será mais autodiretivo e autoconfiante; realizar-se-á mais enquanto pessoa, sendo
mais único e autoexpressivo; será mais compreensivo, mais aceitador com relação
aos outros; estará mais apto a enfrentar os problemas da vida adequadamente e
de forma mais tranquila (ROGERS, 2001, p. 26).
Partindo dessa importância central que o autor confere ao respeito e à aceitação que devemos
ter diante daquele que auxiliamos, chegamos a outro conceito importante para a orientação
educacional e pedagógica que pode ser extraído da teoria rogeriana, que é o de escuta sensível.
De acordo com Rogers, a escuta sensível é aquela em que não há julgamentos ou preconceitos
por parte do educador com relação àquilo que é dito e à forma que é dito pelo educando.
É desenvolver um ambiente em que o orientador respeita e acolhe o seu orientando, promovendo,
assim, uma relação de confiança entre os dois.
Imagine, por exemplo, uma situação em que o aluno utiliza-se de gírias e expressões do seu
cotidiano para comunicar suas percepções e sentimentos diante de uma dada circunstância e é
respondido pelo orientador com frases do tipo «fala direito», ou «isso não é jeito de falar». Você
acha que esse aluno se sentirá acolhido e respeitado a ponto de se sentir motivado a continuar
falando? Claro que não! Provavelmente ele se sentirá inibido a prosseguir e o diálogo, que poderia
ter sido enriquecedor na busca de uma solução para o problema, extingue-se exclusivamente
pela falta de uma escuta sensível por parte do orientador.
Por essa razão, Rogers defende a todo custo que respeitemos o outro e suas características
individuais, mostrando a ele que nos importamos e que não estamos ali de forma autoritária
tentando moldá-lo ou direcioná-lo, mas, sim, buscando auxiliá-lo a encontrar seu próprio caminho
de maneira confiante e autônoma. Dentro dessa visão rogeriana de mundo, podemos dizer que,
ao oferecermos a cada um dos indivíduos a possibilidade de autonomia e completude, a relação
geral do grupo torna-se mais positiva e tranquila.
O pernambucano Paulo Freire foi um dos mais importantes pensadores da educação brasileira,
e tornou-se conhecido, inclusive internacionalmente, por defender um modelo de educação
no qual o aluno não recebe passivamente os conhecimentos transmitidos pelo professor, mas
26
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
participa ativamente da construção dos seus saberes. De acordo com Freire, o papel do educador é
oferecer ao aluno as ferramentas necessárias para que ele seja capaz de ler o mundo, compreender
o papel que ele mesmo desempenha na sociedade e, com isso, seja capaz de transformar a
realidade em que vive.
O método freireano, aplicado especialmente à alfabetização de adultos, tem como cerne o respeito
e a valorização pela realidade de vida do aluno e por aquilo que ele traz para a sala de aula, ou
seja, os saberes que ele constrói socialmente na prática comunitária. Freire acreditava que uma
educação significativa seria aquela que compreende que o aluno não é uma conta bancária vazia
na qual o professor passa todo o período letivo fazendo depósitos de conteúdo para, ao final
do processo, utilizar a prova como uma espécie de extrato bancário, em que verificará se tudo
aquilo que foi depositado continua lá. Esse modelo educacional foi chamado por Paulo Freire
de educação bancária.
Este autor defendia um modelo educacional em que o aluno, especialmente aquele oriundo das
classes populares e oprimido por um sistema sociopolítico desigual e injusto, torna-se consciente
da realidade em que vive a ponto de ser capaz de agir sobre ela, transformando-a. Para que isso
seja possível, Freire aponta como elemento fundamental da pedagogia o respeito à autonomia
do ser do educando. Nas palavras do próprio autor:
Freire reconhece, assim, que o educando – seja ele criança, jovem ou adulto – é um ser autônomo,
que deve ser tratado com o devido respeito, para que o projeto educacional seja capaz de estimular
o seu desenvolvimento e não somente para adestrá-lo a se comportar da maneira que se espera.
Parte fundamental desse processo respeitoso de interação com o aluno reside em uma maneira
diferenciada de falar com ele, na qual a comunicação se baseia em um senso de igualdade e
respeito entre as duas partes. Quando o autor afirma que ensinar exige saber escutar, ele está
defendendo o seguinte:
Se, na verdade, o sonho que nos anima é democrático e solidário, não é falando
aos outros, de cima para baixo, sobretudo, como se fôssemos os portadores
da verdade a ser transmitida aos demais, que aprendemos a escutar, mas é
escutando que aprendemos a falar com eles. Somente quem escuta paciente
e criticamente o outro, fala com ele, mesmo que, em certas condições, precise
27
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
falar a ele. O que jamais faz quem aprende a falar com é falar impositivamente.
Até quando, necessariamente, fala contra posições ou concepções do outro,
fala com ele como sujeito da escuta de sua fala crítica e não como objeto de
seu discurso. O educador que escuta aprende a difícil lição de transformar
o seu discurso, às vezes necessário, ao aluno, em uma fala com ele (FREIRE,
2011, p. 111).
Essa fala tão significativa de Freire nos ensina uma importante lição que todo Orientador
Educacional e Pedagógico deve levar para a sua prática diária. É a diferença entre falar a e falar
com. De acordo com o autor, o educador que fala ao aluno está se colocando diante dele em
uma posição hierarquicamente superior, na qual a comunicação é autoritária e acontece de
cima para baixo por subentender que o educador é o detentor da verdade absoluta e o educando
deve se colocar passivamente diante dessa verdade. De outro lado, o profissional que se dispõe
a falar com o aluno está propondo a ele um tipo de comunicação democrática, na qual a fala do
educando é respeitada e valorizada.
Freire defende ainda que a prática de escutar e falar respeitosamente com o educando pressupõe
do educador o desenvolvimento da capacidade de ficar em silêncio, pois, ainda que ele tenha
muito a dizer, parte de sua responsabilidade é motivar seu interlocutor a falar, a responder o que
lhe foi dito. É justamente nesse processo de elaborar a resposta que o educando reflete sobre
aquilo que foi apresentado, aplica o conceito a sua realidade e faz com que a fala do educador
se torne verdadeiramente significativa para a sua vida.
O diálogo democrático, portanto, intercala momentos de fala e de silêncio, nos quais o momento
de silêncio de um é o momento de fala do outro. Ao se colocar em silêncio e dar ao aluno a vez
da fala, o educador demonstra que se importa, que aquilo que o educando tem a dizer é valoroso
e que ele possui autonomia para construir sua própria visão de mundo.
Como pudemos ver, o respeito ao aluno, aos seus sentimentos, ideais e história de vida, estão
no centro das teorias de Rogers e Freire. Para os dois autores, o aluno não é uma entidade
meramente passiva sobre a qual o educador possa agir e manipular para fazê-lo trilhar um caminho
predeterminado. É um sujeito capaz de autodirigir-se se lhes forem oferecidas as ferramentas
adequadas para que ele entenda a si mesmo e ao mundo em que vive.
Outro ponto de encontro na fala desses dois autores diz respeito à importância que ambos atribuem
à prática diferenciada de escutar o seu aluno com respeito e sem julgamentos. Tanto Rogers
quanto Freire reconhecem que, ao impor seu discurso de forma autoritária sobre o educando,
o educador está esgotando suas possibilidades de auxiliar este aluno a entender-se melhor, de
construir um conhecimento verdadeiro sobre aquilo que se fala e de encontrar o caminho que
faz mais sentido dentro de suas expectativas e da realidade em que vive.
28
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
Transpondo o pensamento dos dois autores para a prática cotidiana do orientador educacional
e pedagógico, é possível dizer que o trabalho se tornará mais eficiente à medida que deixemos
de tentar nos impor diante de nossos orientandos e passemos a vê-los como responsáveis por
encontrar seu próprio caminho, como indivíduos livres e autônomos com os quais devemos nos
conectar de forma respeitosa e ética e não através do autoritarismo. Não é por acaso que um dos
principais trabalhos de Rogers se intitula «Liberdade para aprender» e um dos mais importantes
livros de Paulo Freire se chama «Educação como prática da liberdade».
Por intermédio das propostas de Carl Rogers e Paulo Freire, podemos afirmar com segurança que
o papel do orientador dentro de uma instituição de ensino seria o de participar na construção de
um ambiente propício ao pleno desenvolvimento dos alunos. Isso seja trabalhando diretamente
com os estudantes ou dando suporte ao corpo docente para que o projeto educacional da
instituição seja posto em prática de forma efetiva e baseado no respeito aos alunos e às suas
características específicas de grupo e de indivíduos.
Imparcialidade e flexibilidade
Dessa forma, é fundamental que o orientador vocacional tenha em mente que sua tarefa é orientar
o processo, e não direcionar o orientando para aquilo que ele julga mais adequado. Como vimos
anteriormente, essa era a função do orientador em um período em que o indivíduo não era o
foco principal da orientação.
A flexibilidade também é um traço importante para o profissional que se dedica a este ofício,
porque, à medida que o viés adotado nos dias de hoje pela OEP salienta o fato de que o foco da
orientação deve ser o orientando e suas demandas, temos de ter em mente as idiossincrasias
e particularidades desse indivíduo ao elaborar para ele um programa eficaz de orientação.
É fundamental considerar que cada caso é um caso, ou seja, cada pessoa possui certas especificidades
subjetivas e uma história de vida que a tornam única, por isso as técnicas utilizadas com outra
pessoa talvez não sejam adequadas para ele.
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AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
Toda escola espelha, em certa medida, a realidade sociocultural em que está inserida. Com isso,
podemos dizer que, no ambiente escolar, encontramos representados os valores, as normas e
os comportamentos típicos daquela comunidade e do momento histórico em que se encontra.
Por esse motivo, é tão importante que o educador esteja muito atento para compreender esta
realidade e se adaptar para lidar com ela da melhor forma. De nada adianta nos atermos a velhas
práticas e conceitos, por mais eficazes que tenham sido, se o mundo se modifica cada vez mais
rapidamente e com ele nossos alunos.
Quantas vezes você já ouviu dizer que os jovens e as crianças de hoje em dia já não são mais como
os de antigamente? Esta, infelizmente, ainda é uma reclamação recorrente em muitas salas de
professores, o que causa espanto pela obviedade da afirmação. É claro que as crianças e os jovens
dos dias de hoje são diferentes do que eram nas gerações passadas, pois o mundo muda – sua
tecnologia, valores, padrões de consumo e de comportamentos – e com ele mudam as pessoas.
O fato de os nossos alunos terem mudado não apresenta, em si, qualquer problema. A dificuldade
está em querermos lidar com eles da mesma forma como costumávamos lidar com as gerações
anteriores. Tentar utilizar com meus alunos de hoje as mesmas estratégias de orientação que
eram utilizadas há trinta anos é tão inútil quanto tentar assistir a uma fita VHS em um aparelho
de blue-ray.
Tendo em vista a necessidade de estarmos atualizados, podemos dizer que uma característica
fundamental para o Orientador Educacional e Pedagógico é a busca constante por formação,
como afirma Lilian Chimentão (2009):
Para que as mudanças que ocorrem na sociedade atual possam ser acompanhadas,
é preciso um novo profissional do ensino, ou seja, um profissional que valorize
a investigação como estratégia de ensino, que desenvolva a reflexão crítica da
prática e que esteja sempre preocupado com a formação continuada.
Outro ponto importante a ser destacado é a necessidade de que essa formação continuada
tenha sempre um olhar multidisciplinar, pois são muitas as áreas do conhecimento que podem
contribuir com o preparo do profissional de orientação para lidar com a realidade cotidiana das
instituições de ensino. A sociologia, a psicologia e a neurociência são algumas das disciplinas
30
A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
que, segundo Rangel (2015), podem fundamentar o trabalho de orientação, informando sobre
diferentes aspectos da prática cotidiana ou dando enfoques variados sobre uma mesma questão.
Tão e às vezes mais importante que saber quais são as atribuições do Or.E. é
conhecer quais atribuições não são da alçada dele, isto porque ele poderá vir
a ser solicitado a executar funções ou tarefas não só que não lhe competem,
como também que lhe são vedadas por lei. Dado o caráter assistencial de sua
atuação profissional, o Or.E. pode ser solicitado e/ou sentir-se no dever de prestar
alguns tipos de atendimento que são próprios de outros profissionais. Entre tais
tarefas podem-se mencionar, pela frequência com que são solicitados a fazê-lo,
atendimentos de saúde, como fazer curativos, ministrar medicamentos e realizar
diagnósticos e terapias de natureza psicológica. Embora a recusa do Or.E. em
ministrar medicamentos possa ser tida como má vontade dele, sabe-se que
existem sérios riscos em administrar qualquer medicamento, como possível troca,
dosagem errada, reação alérgica ou de outra natureza (GIACAGLIA; PENTEADO,
2015, p. 67).
Com isso, pretendemos estabelecer uma regra de ouro, que você, quando estiver desempenhando
a atividade de orientação em uma instituição de ensino, deverá ter em mente: apesar de trabalhar
em parceria com profissionais de diferentes especialidades, o trabalho do orientador continua
sendo o de um educador, que deve encaminhar para atendimento especializado os casos
em que isso seja necessário, mas nunca fazendo, ele mesmo, diagnósticos ou apresentando
sugestões de tratamento.
Essa afirmação pode parecer um tanto óbvia, uma vez que as palavras “diagnóstico” e “tratamento”
nos remetem imediatamente às atribuições da área médica. No entanto, infelizmente é comum
que alguns orientadores acabem ultrapassando esses limites profissionais, porque, às vezes, a
experiência na atividade docente e de orientação, o contato prolongado com os alunos e suas
problemáticas, a interação com profissionais de outras áreas e mesmo os estudos que devemos
realizar para estarmos atualizados e confiantes em nossa prática cotidiana nos permitem identificar
certos indícios do problema enfrentado pelo aluno.
No entanto, devemos ter muita clareza de que esta percepção e conhecimento prático, por mais
acertados que tenham se mostrado, são benéficos apenas para que melhor encaminhemos
31
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
nossos alunos ao profissional mais adequado para cuidar do seu caso específico, sem, contudo,
nos autorizar a falar por este profissional.
Vejamos um exemplo prático para que você compreenda melhor sobre o que estamos falando:
Abordagem I: Janaina conversa com os pais da aluna a respeito das dificuldades que ela vem
enfrentando na escola, enumerando todos os comportamentos descritos pelo corpo docente e
seus respectivos impactos sobre o desempenho acadêmico da menina. A orientadora afirma que,
a partir de suas observações, foi possível identificar o quadro da aluna como uma manifestação
do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, e por isso seria interessante que os
pais procurassem a ajuda de um profissional da área de saúde, que poderá prescrever o uso de
medicamentos e psicoterapia.
Abordagem II: Janaina conversa com os pais da aluna a respeito das dificuldades que a discente
vem enfrentando na escola, enumerando todos os comportamentos descritos pelo corpo docente
e seus respectivos impactos sobre o desempenho acadêmico da menina. A orientadora sugere,
então, que a melhor forma de auxiliar Alice seria encaminhá-la para um profissional de saúde,
que avaliará com cuidado o caso para apresentar aos pais um diagnóstico preciso e o melhor
tratamento a ser realizado.
Como você pode perceber, a diferença entre as duas abordagens é bastante sutil. Nos dois casos,
a orientadora conversou com os pais sobre aquilo que a equipe pedagógica percebeu a respeito
do comportamento de Alice, e sugeriu o encaminhamento da aluna a um profissional de saúde.
No entanto, no primeiro caso, Janaina toma a liberdade de apresentar suas próprias conclusões
a respeito do diagnóstico e os possíveis métodos de tratamento a serem empregados.
O problema é que a orientadora, neste caso, não possui a formação necessária para analisar o
caso de Alice e chegar a um diagnóstico, tampouco para opinar sobre formas de tratamento.
Ainda que ela estude sobre o assunto, seu papel na interação com o aluno e sua família deve se
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A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
restringir à esfera pedagógica, pois o risco de perdermos o limite em nossa prática profissional
é grande e pode trazer grandes malefícios ao discente.
Você já sentiu uma dorzinha qualquer e decidiu procurar por esse sintoma na Internet?
Todos nós já fizemos isso alguma vez e na maior parte dos casos nos deparamos com um
diagnóstico terrível associado ao sintoma que estamos apresentando. Um pequeno desconforto
abdominal, depois de uma consulta ao Doutor Google, muitas vezes acaba se tornando
uma úlcera ou coisa pior. Interiorizamos em nossa mente o tal diagnóstico de Internet e, ao
chegarmos ao consultório médico, em vez de narrar o que sentimos, vamos logo dizendo o que
acreditamos ter e às vezes modificamos inconscientemente nossos sintomas ao descrevê-los para
o médico.
Um diagnóstico feito por um profissional da escola que não possui a qualificação necessária pode
funcionar da mesma forma que o diagnóstico da Internet, criando uma expectativa desnecessária,
influenciando a interação da família com o médico e dificultando, assim, a análise objetiva do
caso do aluno.
Não temos, no entanto, a intenção de estabelecer um manual sobre como solucionar esses
problemas, pois eles assumirão aspectos diferenciados de acordo com o contexto em que
estejam inseridos. Portanto, sua solução também deverá ser desenvolvida de acordo com cada
caso, avaliando todas as variáveis e os aspectos específicos do problema como ele se apresenta
na sua escola.
O importante é ter em mente que a melhor solução para qualquer uma dessas situações está no
olhar e na postura do orientador, na forma como ele se mantém atento aos problemas enfrentados
por alunos, professores, equipe gestora e mesmo a comunidade, na maneira como ele acolhe
seus orientandos e dialoga com eles para juntos encontrarem uma saída.
Problemas familiares: em seu cotidiano, o Orientador Educacional e Pedagógico pode ter de lidar
com diferentes questões familiares que influenciam, direta ou indiretamente, o comportamento e
o desempenho acadêmico do aluno. A separação dos pais, os casos de doenças graves ou mortes
na família, situações de desemprego dos responsáveis ou o nascimento de um novo irmão são
apenas alguns exemplos das diversas circunstâncias familiares para as quais o orientador deve
estar atento ao se deparar com mudanças de comportamento ou desempenho do aluno.
33
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
Quando dizemos que “nenhum homem é uma ilha”, estamos querendo dizer que ninguém pode
viver isolado do mundo em que está inserido. Tudo aquilo que vivemos e as pessoas com as quais
nos relacionamos refletem em nossa vida como um todo. A família, dessa forma, desempenha
um papel importante – com efeitos positivos ou negativos – sobre a vida escolar dos alunos.
educacional e pedagógico, pois, em muitos Leia com atenção o relato abaixo, em que a autora Mary
contextos, esse profissional é visto como mero Rangel apresenta um exemplo de problema familiar
disciplinador, responsável por vigiar a conduta diante do qual o Orientador Educacional e Pedagógico
pode ter de atuar. Após a leitura do caso, tente se
dos alunos e prescrever castigos e punições, o
imaginar no lugar desse orientador, e reflita a respeito
que não é verdade. No entanto, também não das estratégias que você utilizaria para auxiliar o aluno.
podemos dizer que seja possível ignorar a questão “Vale lembrar a expressão de um aluno do 2º ano do
da indisciplina, porque ela também faz parte das Ensino Fundamental de uma escola da rede municipal
sala de aula, atraso, enfrentamento ao professor, O sentimento de “perda” pela desunião do casal, o
etc. – para que se construa coletivamente o roteiro sentimento de “perda do pai”, que saiu de casa, o
sentimento de frustração, por “não ter ajudado, ou
de conduta a ser seguido diante dos casos que
até ter colaborado para essa separação” compõem
se apresentem. um cenário sombrio e confuso e ideias que invadem
o pensamento dos filhos, prejudicando, inclusive, sua
No que diz respeito à violência, é importante autoestima.
considerarmos que ela representa uma forma de O que pode fazer o orientador, a orientadora
expressão e comunicação, muitas vezes a única de educacional? Não há resposta simples, mas há um
núcleo principal de atenções e atitudes que facilitam
que o indivíduo é capaz naquele momento. Seria
e promovem a relação de ajuda. Nesse núcleo,
interessante, dessa forma, incentivar o diálogo,
encontram-se, essencialmente, o afeto, o diálogo, o
trabalhando com os alunos a habilidade de conhecimento que esclarece o significado de família,
exprimir suas ansiedades, frustrações ou qualquer ressaltando que ela permanece, na presença e no amor
dos pais, para além da sua separação” (RANGEL, 2015,
tipo de sentimento por meio de outros veículos,
p. 16-17).
tais como o esporte, a arte, a escrita, etc.
Com isso, não estamos desconsiderando o fato de que muitas escolas estão localizadas em
comunidades violentas, em que, por vezes, sentimo-nos impotentes diante de uma realidade
tão dura. Nessas ocasiões, especialmente, cabe-nos lembrar o papel transformador da educação,
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A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea • AULA 2
apresentando a nossos alunos outras estratégias de ação no mundo e educando-os sempre pelo
exemplo. O confronto muitas vezes é a forma mais fácil de lidar com eles, mas é também a única
linguagem que muitos conhecem e para a qual estão prontos para reagir.
Bullying: este é um tema recorrente no cenário educacional nos dias de hoje, muitas vezes
utilizado para tratar qualquer tipo de problema de interação entre os colegas, ou mesmo alguns
casos isolados de indisciplina. Bullying, no entanto, é uma palavra inglesa utilizada para designar
apenas os casos em que um indivíduo sofre atos repetidos e continuados de violência física ou
psicológica, que podem ser desempenhados por uma pessoa ou um grupo e causam danos
graves à sua autoestima, ao seu equilíbrio emocional e psicológico, bem como à sua capacidade
de interação social e ao seu desempenho acadêmico.
Rangel (2015) salienta inclusive o fato de que os abusos que caracterizam o bullying em muitos
casos podem escalar ao ponto de tornarem-se crimes e nos lembra que tais atos não ocorrem
somente na relação entre alunos, mas, também, entre eles e os professores, entre eles e os
funcionários ou mesmo entre os próprios membros do corpo docente ou da gestão da escola.
A autora sugere que um dos caminhos possíveis para combater o bullying é a criação, em cada
escola, de um grupo, comitê ou comissão que receba e investigue todas as queixas relatadas de
abuso. Esse grupo seria responsável por identificar os responsáveis por tais atos e promover o
acompanhamento e aconselhamento das pessoas envolvidas.
Um primeiro passo para tanto é trabalhar com os próprios professores e gestores a melhor maneira
de receber, acolher e respeitar as diferenças, para que as situações de desrespeito e intolerância
não se iniciem justamente no comportamento dos educadores.
Provocação
A rotina de ir à escola virou motivo de constrangimento para um aluno que estava se iniciando no candomblé. Aos 12 anos,
o estudante da quarta série do ensino fundamental da Escola Municipal Francisco Campos, no Grajaú, na Zona Norte do
Rio, foi barrado pela diretora da instituição por usar bermudas brancas e guias por baixo do uniforme, segundo a família. A
denúncia foi publicada nesta terça-feira (2) pelo jornal “O Dia”.
35
AULA 2 • A Orientação Educacional e Pedagógica contemporânea
“Antes de ele entrar para o candomblé, eu avisei para a professora e ela logo disse que ele não entraria no colégio. Eu
expliquei que ele teria de usar branco e as guias, mas ela não aceitou”, contou indignada a mãe do estudante, Rita de Cássia,
ao G1.
O G1 entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Educação e até o horário de publicação
desta reportagem não obteve resposta.
No dia 25 de agosto, depois quase um mês sem ir à escola, o jovem tentou voltar. “Eu levei o meu filho e, na porta da escola,
ela [diretora] não viu que eu estava atrás e colocou a mão no peito dele e disse: ‘Aqui você não entra’. E eu expliquei que ele
teria de usar as guias e o branco por três meses e aí ela respondeu: ‘O problema é seu’”, disse Rita de Cássia.
Rita ressaltou que o filho se sentiu humilhado diante dos amigos do colégio e chorou muito. “Se ela estivesse esperado todo
mundo entrar e me chamasse no canto para tentar encontrar uma forma para colocar ele para dentro seria uma coisa. Mas,
não. Ela barrou ele na frente de todo mundo. Eu discuti, falei palavrão feio para ela, eu admito, mas ela não poderia ter feito
isso com ele. Ele foi muito humilhado”, afirmou a mãe.
O jovem de 12 anos foi definido pela mãe como uma criança determinada. Apesar do constrangimento, Rita contou que o
filho em momento algum pensou em abrir mão dos ideais do candomblé.
“A escolha de entrar para o candomblé foi dele. Ele sabe o que quer, é muito firme nas decisões. Por nada ele larga a religião
dele. Quando aconteceu isso tudo ele disse: ‘Se eu fosse muçulmano ou qualquer outra coisa eu deveria ser respeitado, isso é
discriminação’”, lembrou a mãe.
Segundo Rita, o jovem caminhou até em casa de cabeça baixa, teve febre e perdeu o interesse de retornar à escola. “Se o meu
filho estivesse com drogas, se tivesse arma, tenho certeza de que eles iam tampar os olhos”, reclamou.
Depois de quatro dias do episódio, ele foi transferido para a Escola Municipal Panamá, também no Grajaú, onde foi bem
recebido pela diretoria, professores e estudantes.
“Depois que eu fui lá para pedir a transferência, a diretora disse que não gostaria que eu levasse ele porque ele era um ótimo
aluno. Mas o que ela não poderia era ter feito meu filho passar vergonha. Depois que ele foi tão humilhado, meu filho foi
muito bem aceito na escola nova. Todo mundo me apoiou. Para quem é mãe, é muito difícil ver um filho sofrendo esse
preconceito”, disse emocionada Rita de Cássia.
Disponível em: <http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/09>.
No exemplo anterior, fica salientada a importância de que o próprio corpo docente e a equipe
gestora estejam preparados para o respeito à diversidade. Que todos estejam aptos a lidar com
situações em que nossas próprias crenças, preferências e opiniões são confrontadas com o direito
do outro de ter crenças, preferências e opiniões diferentes das nossas.
Da mesma forma, a inclusão de alunos com deficiência, seja ela física ou intelectual, deve começar
pela preparação do corpo docente para receber tais discentes de forma que eles não estejam
apenas “incluídos fisicamente” no ambiente escolar, mas que, de fato, possam fazer parte do
processo educativo, desenvolvendo-se plenamente e interagindo com os demais colegas.
Vale ressaltar que a presença do aluno com deficiência em salas de aula do ensino regular é
enriquecedora também para o restante da turma, uma vez que os alunos que têm a oportunidade
de conhecer e interagir com um aluno nessas condições estarão mais aptos a reconhecer o
outro pelas suas potencialidades, independentemente de suas limitações. Esse é o passo mais
importante para que a inclusão de fato aconteça.
36
Aula
O papel do Orientador
Educacional e Pedagógico nas
atividades gerais da escola 3
Introdução
Na terceira aula desta disciplina, analisaremos de que forma o Orientador Educacional e Pedagógico
participa do planejamento, da execução e do desenvolvimento do projeto educativo da escola.
Você perceberá que, além de dedicar-se à tarefa específica de orientar os alunos, o orientador é
também um personagem importante da equipe gestora, que tem como missão auxiliar a direção
a cuidar de diferentes aspectos da vida escolar.
Objetivos
»» Entender a multiplicidade de tarefas desempenhadas pelo orientador em diferentes
áreas da vida escolar.
»» Definir que, além de trabalhar diretamente com os alunos, cabe ao Orientador Educacional
e Pedagógico auxiliar a equipe gestora a planejar, implementar e avaliar o projeto
político-pedagógico da escola.
»» Compreender as principais etapas que compõem o Plano Anual de educação de uma escola.
37
AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
Por ser chamado a atuar nos mais diversos aspectos do cotidiano escolar, é fundamental que o
profissional de orientação tenha uma versatilidade grande em termos de saberes teórico sobre
as questões pedagógicas, conhecimentos técnicos sobre o funcionamento escolar e um bom
relacionamento interpessoal com todos os personagens que fazem parte da vida da instituição.
O cotidiano escolar tem uma organização, uma estrutura, um sistema que rege seus
acontecimentos. Há uma vida cotidiana em que todos convivem na complexidade
que a caracteriza, vivendo também com as vontades, preocupações, dificuldades,
ambiguidades e conflitos de sua própria complexidade interior. Esse espaço do
cotidiano, além de privilegiado pela vivência (por ser único para cada um de nós),
pode reproduzir o que os outros esperam que aconteça ou pode transformar o
que os outros acreditam que não seria possível acontecer. Se o cotidiano, como
diz Certeau, é um espaço estratégico de usos e táticas (arte de falar, arte de fazer,
arte de silenciar), eu diria que, para a Orientação, o cotidiano escolar é a arte de
ouvir e de saber agir para melhor se disponibilizar para o outro e a instituição
(GRINSPUN, 2011, p. 65).
A orientação se realiza no encontro com o outro e, por isso, o orientador deve ir onde o outro está.
Podemos dizer com isso que as atividades do orientador, por estarem relacionadas às práticas do
cotidiano, se estendem por toda parte, fazendo com que ele possa ser encontrado “em sua sala,
na sala de aula, nos recreios, à entrada da escola, recebendo os alunos, e até nas próprias casas
dos alunos, em situações que requerem atendimento domiciliar” (RANGEL, 2015, p. 108). É um
profissional que desempenha o papel de chave-mestra para o bom funcionamento da escola,
de sua rotina e de suas práticas pedagógicas.
Muitas vezes, no entanto, por essa versatilidade em atender a diferentes demandas, o orientador
educacional é chamado a desempenhar atividades que não fazem parte de suas atribuições, como
substituir professores faltosos, realizar tarefas típicas do coordenador pedagógico, fiscalizar a
ordem e a disciplina nas áreas comuns da escola, ou dar suporte à equipe de funcionários em
atividades como distribuição de material, oferecimento de merenda, etc.
Diante dessa realidade, torna-se fundamental que estabeleçamos um recorte daquilo que
realmente é de atribuição do Orientador Educacional e Pedagógico, para que possamos discutir
mais detalhadamente suas atividades. Para tanto, é fundamental termos em mente que a
atividade-fim do Orientador Educacional e Pedagógico é o pleno desenvolvimento do aluno, e
ele pode buscar concretizar esse objetivo por meio de duas abordagens distintas:
38
O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
»» Trabalhando diretamente com os alunos ou dando suporte aos professores para que
eles promovam este desenvolvimento em suas atividades docentes.
Nesta unidade, trabalharemos essas duas abordagens. Nesta aula, focaremos nossa atenção na
participação do orientador nas atividades que fazem parte da estruturação do projeto pedagógico
e, para isso, levaremos em conta cada uma de suas etapas, a saber:
»» Execução: momento em que aquilo que foi planejado é colocado em prática, seguindo
sempre o roteiro estabelecido durante a elaboração do plano, mesmo que em alguma
medida seja necessário criar estratégias de flexibilização para que o desenrolar do projeto
não fique engessando diante de qualquer contratempo.
Planejamento
O autor Danilo Gandin (1995) defende que este planejamento, enquanto processo vivo e
dependente de diferentes atores, não pode ser encarado como procedimento mecânico de
preencher formulários e desenhar planilhas com metas e intenções que acabarão não sendo
tiradas do papel. É fundamental que o planejamento seja feito de forma consciente, ancorado
na realidade para que seja possível de ser desenvolvido da forma como foi concebido.
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
Vale ressaltar que o planejamento, ainda que deva ser seguido com disciplina para a obtenção
de resultados, precisa ser revisitado e revisto ao longo de todo o processo, pois inúmeras vezes
nos deparamos, ao longo do desenvolvimento, com situações anteriormente imprevistas que
nos obrigam a repensar nossas estratégias, a recalcular o caminho que percorreremos até nosso
objetivo final, que é o pleno desenvolvimento de nossos alunos.
Pense no sistema de GPS do seu celular ou de seu carro, que planeja uma rota para a sua viagem e
vai dando as instruções de caminho à medida que você vai se locomovendo. Se ele te orienta a entrar
à direita e você ignora o comando e segue em frente, imediatamente o sistema precisa retornar à
fase de planejamento e calcular uma nova rota possível para que você atinja o destino desejado.
Âmbito nacional
O planejamento da educação realizado pelo governo federal tem como objetivo estabelecer metas
e normas de conduta que abranjam a realidade de todo o território nacional, sendo rígidas o
bastante para estabelecerem um padrão a ser seguido em todas as regiões do país, mas flexíveis
o suficiente para que possam ser adaptadas diante das idiossincrasias das diferentes localidades.
Perceba que, em um país com extensão territorial tão grande e com a diversidade social e cultural
que se apresenta em cada região, estabelecer parâmetros norteadores que sejam comuns a todos os
Estados é uma tarefa realmente complexa. Por isso, nesta esfera de planejamento, são apreciadas
questões mais gerais da educação, norteadas pelo que determina a Constituição Federal, a Lei
de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e sistematizadas em um documento intitulado Plano
Nacional de Educação (PNE).
Saiba mais
Vejamos a relação com as 20 metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação, elaborado em 2014, para serem atingidas
ao longo de uma década.
Meta 1: universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade e
ampliar a oferta de educação infantil em creches, de forma a atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de
até 3 (três) anos até o final da vigência deste PNE.
Meta 2: universalizar o ensino fundamental de 9 (nove) anos para toda a população de 6 (seis) a 14 (quatorze) anos e garantir
que pelo menos 95% (noventa e cinco por cento) dos alunos concluam essa etapa na idade recomendada, até o último ano
de vigência deste PNE.
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O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
Meta 3: universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 (quinze) a 17 (dezessete) anos e elevar, até
o final do período de vigência deste PNE, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85% (oitenta e cinco por cento).
Meta 4: universalizar, para a população de 4 (quatro) a 17 (dezessete) anos com deficiência, transtornos globais do
desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, o acesso à educação básica e ao atendimento educacional
especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, com a garantia de sistema educacional inclusivo, de salas de
recursos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, públicos ou conveniados.
Meta 5: alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3º (terceiro) ano do ensino fundamental.
Meta 6: oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a
atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos(as) alunos(as) da educação básica.
Meta 7: fomentar a qualidade da educação básica em todas as etapas e modalidades, com melhoria do fluxo escolar e da
aprendizagem, de modo a atingir as seguintes médias nacionais para o Ideb: 6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental; 5,5
nos anos finais do ensino fundamental; 5,2 no ensino médio.
Meta 8: elevar a escolaridade média da população de 18 (dezoito) a 29 (vinte e nove) anos, de modo a alcançar, no mínimo, 12
(doze) anos de estudo no último ano de vigência deste plano, para as populações do campo, da região de menor escolaridade
no País e dos 25% (vinte e cinco por cento) mais pobres, e igualar a escolaridade média entre negros e não negros declarados
à Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.
Meta 9: elevar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos ou mais para 93,5% (noventa e três inteiros e
cinco décimos por cento) até 2015 e, até o final da vigência deste PNE, erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50%
(cinquenta por cento) a taxa de analfabetismo funcional.
Meta 10: oferecer, no mínimo, 25% (vinte e cinco por cento) das matrículas de educação de jovens e adultos, nos ensinos
fundamental e médio, na forma integrada à educação profissional.
Meta 11: triplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta e pelo
menos 50% (cinquenta por cento) da expansão no segmento público.
Meta 12: elevar a taxa bruta de matrícula na educação superior para 50% (cinquenta por cento) e a taxa líquida para 33%
(trinta e três por cento) da população de 18 (dezoito) a 24 (vinte e quatro) anos, assegurada a qualidade da oferta e expansão
para, pelo menos, 40% (quarenta por cento) das novas matrículas, no segmento público.
Meta 13: elevar a qualidade da educação superior e ampliar a proporção de mestres e doutores do corpo docente em efetivo
exercício no conjunto do sistema de educação superior para 75% (setenta e cinco por cento), sendo, do total, no mínimo,
35% (trinta e cinco por cento) doutores.
Meta 14: elevar gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, de modo a atingir a titulação anual de
60.000 (sessenta mil) mestres e 25.000 (vinte e cinco mil) doutores.
Meta 15: garantir, em regime de colaboração entre a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, no prazo de 1
(um) ano de vigência deste PNE, política nacional de formação dos profissionais da educação de que tratam os incisos I, II
e III do caput do art. 61 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, assegurado que todos os professores e as professoras da
educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento
em que atuam.
Meta 16: formar, em nível de pós-graduação, 50% (cinquenta por cento) dos professores da educação básica, até o último ano
de vigência deste PNE, e garantir a todos(as) os(as) profissionais da educação básica formação continuada em sua área de
atuação, considerando as necessidades, demandas e contextualizações dos sistemas de ensino.
Meta 17: valorizar os(as) profissionais do magistério das redes públicas de educação básica, de forma a equiparar seu
rendimento médio ao dos(as) demais profissionais com escolaridade equivalente, até o final do sexto ano de vigência
deste PNE.
Meta 18: assegurar, no prazo de 2 (dois) anos, a existência de planos de carreira para os(as) profissionais da educação básica
e superior pública de todos os sistemas de ensino e, para o plano de carreira dos(as) profissionais da educação básica
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
pública, tomar como referência o piso salarial nacional profissional, definido em lei federal, nos termos do inciso VIII do art.
206 da Constituição Federal.
Meta 19: assegurar condições, no prazo de 2 (dois) anos, para a efetivação da gestão democrática da educação, associada
a critérios técnicos de mérito e desempenho e à consulta pública à comunidade escolar, no âmbito das escolas públicas,
prevendo recursos e apoio técnico da União para tanto.
Meta 20: ampliar o investimento público em educação pública de forma a atingir, no mínimo, o patamar de 7% (sete por
cento) do Produto Interno Bruto (PIB) do País no 5º (quinto) ano de vigência desta Lei e, no mínimo, o equivalente a 10%
(dez por cento) do PIB ao final do decênio.
Disponível em: <http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne_conhecendo_20_metas.pdf>.
Nesta etapa, é importante que o ente regional sirva como ponte para o diálogo entre as diretrizes
nacionais e as necessidades cotidianas da realidade local. É reunir todas as metas estabelecidas
pela federação com vistas a discuti-las com gestores e professores, para, dessa maneira, entender os
pontos em que tais expectativas se encontram e aqueles em que serão necessárias a flexibilização
e a adequação do planejamento de modo que todos os resultados sejam alcançados.
Lembre-se de que as propostas do PNE são as mesmas para municípios ricos e pobres, para Estados
do Sul até o Norte do país, para localidades urbanas e rurais. Partindo da realidade amplamente
abrangente do PNE, o filtro estabelecido pelas redes de ensino é fundamental para que a proposta
que chega às escolas esteja mais alinhada às necessidades de cada localidade regional.
Âmbito escolar
Imagine, por exemplo, a realidade de uma rede estadual como a do estado de São Paulo, que
contém em si regiões de extrema riqueza, de extrema pobreza, de culturas típicas de populações
imigrantes, de territórios quilombolas, de instituições prisionais, etc. Você pode imaginar que
um único planejamento dará conta de todas essas realidades?
Para estabelecer um novo filtro e adequar as expectativas da rede à realidade da comunidade local,
cada escola deve realizar o seu próprio planejamento, utilizando o Plano Nacional de Educação
e os planos estabelecidos pelo seu Estado ou município para chegar a um planejamento realista
e possível de ser desenvolvido naquela instituição de ensino específica.
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O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
Esse é um passo importantíssimo para que as políticas públicas de educação sejam incorporadas
ao cotidiano escolar, tendo a participação de toda a equipe pedagógica – gestores, coordenadores
e professores.
Por fim, todo esse planejamento, que teve início na esfera nacional, com especialistas das mais
diversas áreas da educação refletindo sobre as metas a serem atingidas pelo país como um
todo, e que foi sendo filtrado e adaptado até atingir a medida exata de cada escola, deve ser
novamente interpretado e posto em prática à medida que cada professor realiza o planejamento
de suas aulas.
Infelizmente, esse planejamento ainda é uma tarefa encarada por muitos professores como prática
mecânica de distribuir conteúdos de acordo com a quantidade de dias letivos. Uma atividade
burocrática, desempenhada sem muita reflexão e com pouco interesse pelas discussões propostas
pela gestão da escola.
Com isso, o planejamento – tão refletido, repensado e adaptado – jamais se concretiza de fato
nem surte os efeitos dele esperados, pois não é implementado no cotidiano das salas de aula.
Para que o planejamento educacional como um todo atinja as metas para ele estabelecidas, é
fundamental o engajamento dos professores e facilitar esse processo é uma das responsabilidades
que podemos atribuir ao Orientador Educacional e Pedagógico.
Na árdua tarefa de fazer com que as reflexões e diretrizes das políticas públicas para a educação
cheguem até os bancos escolares de cada sala de aula, o orientador educacional e pedagógico
desempenha um papel fundamental, pois caberá a ele, enquanto membro da equipe gestora
da escola, certificar-se de que as discussões pedagógicas não sejam soterradas no cotidiano por
questões de ordem prática como a elaboração do quadro de horário, a divisão das turmas, etc.
Cabe, portanto, ao orientador servir de elo entre as diretrizes da rede de educação e o planejamento
da escola, atentando para a necessidade de elaboração e atualização democráticas de dois
documentos de planejamento distintos, o Projeto Político-Pedagógico da escola e o seu Pano
Anual de atividades, bem como no auxílio ao professor na elaboração de seu planejamento.
Projeto Político-Pedagógico
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
No entanto, muitos gestores ainda encaram este documento como mera formalidade, desenvolvem
textos formatados, sem a participação da comunidade estudantil, e que pouco refletem a realidade
cotidiana da escola. Infelizmente, é comum encontrarmos PPPs em que o que está escrito no
papel não reflete em nada os desejos da comunidade escolar ou a realidade do que ocorre no
cotidiano da instituição de ensino.
Imagine, por exemplo, que o Projeto Político-Pedagógico de uma escola aponta o posicionamento
laico como um dos fundamentos de identidade da escola. Isso significa que, na prática cotidiana
desta instituição, não poderão ser considerados dogmas de qualquer igreja nas tomadas de
decisão ou na implementação de projetos. Esta escola, por exemplo, não poderá justificar a
recusa em desenvolver projetos de controle de natalidade com base na reprovação que algumas
igrejas fazem desta prática.
No entanto, se estivermos nos referindo a uma escola confessional, que deixa claro em seu
Projeto Político-Pedagógico a sua orientação dogmática e a medida em que essas referências
influenciarão as práticas cotidianas da escola, o posicionamento contrário às políticas de controle
de natalidade seriam perfeitamente aceitáveis.
»» Missão, visão e valores: neste tópico deve ser descrita a missão que a escola pretende
desempenhar diante da comunidade por ela atendida. Aqui será explicitada a visão de
mundo e de sociedade à que se alinha a instituição, bem como os valores que nortearão
as suas práticas.
»» Recursos: este tópico deve incluir os recursos de que dispõe a instituição e o uso que
planeja ser feito deles no processo de desenvolvimento do projeto pedagógico. Neste
ponto, vale ressaltar que os recursos podem ser materiais, como equipamentos e
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O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
Para que o PPP se mantenha condizente com a realidade da escola, de seus alunos, da comunidade
e dos profissionais que nela trabalham, é importante que este documento esteja em constante
processo de revisão e atualização, não sendo um documento estático para ser guardado em uma
gaveta ou em arquivos isolados e inacessíveis.
Para refletir
Em uma instituição específica de ensino particular que tem como característica e objetivo de suas atividades pedagógicas a
aprovação de alunos no vestibular, as turmas são divididas de acordo com o desempenho acadêmico dos alunos e existe um
sistema de mobilidade entre turmas de um bimestre para o outro. Ao final de cada bimestre, os alunos são ranqueados por
suas notas e alocados na turma referente ao seu posicionamento no quadro geral de desempenho.
Uma aluna recém-chegada à escola, de acordo com suas notas do primeiro bimestre do ano letivo, foi transferida da turma
de desempenho B para a turma de desempenho A, o que a deixou intensamente contrariada e desmotivada por tê-la
separado do grupo de amigas que acabara de formar. A mãe dessa aluna procurou então a direção da escola e o setor de
orientação educacional para reclamar deste sistema de mobilidade, solicitando que a filha fosse transferida novamente
para a turma em que havia iniciado seus estudos, pois seu perfil de motivação para os estudos estava muito mais
associado ao ambiente de companheirismo com os colegas de turma do que com a competitividade incentivada
pela escola.
Esta é uma situação complexa, que poderia ter sido evitada por uma leitura atenta por parte dos pais do Projeto Político-
Pedagógico da escola, no qual está sistematizada a proposta educativa em todos os detalhes, inclusive o ranqueamento dos
alunos por turma. Esses pais, ao buscarem uma nova escola para matricular a filha, deveriam ter-se preocupado em entender
a proposta da instituição para avaliar se ela estaria de acordo com o perfil de estudante da menina e tal trabalho poderia ter
sido feito com o acompanhamento do Orientador Educacional.
Plano Anual
Antes do início de um novo ano letivo, toda escola deve desenvolver o seu Plano Anual, que
conterá as metas, os objetivos e os procedimentos a serem seguidos ao longo de todo aquele
ano. Para isso, a equipe gestora da escola deverá realizar uma semana pedagógica com seus
professores e funcionários para que o Plano Anual seja discutido e construído em conjunto.
Esse plano para o ano seguinte deverá ser iniciado já na conclusão do ano letivo anterior, na
avaliação do Plano Anual construído para o ano que está terminando. Por meio do debate, deverão
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
ser destacados os pontos que foram positivos e negativos, quais metas foram alcançadas, quais
precisam ser revistas, que novos desafios se apresentaram ao longo do caminho e como podem
ser solucionados.
Outro ponto que necessariamente deverá fazer parte da fundamentação do Plano Anual é o
Projeto Político-Pedagógico da escola, que sempre deverá ser considerado como ponto de partida
para tudo o que se pretenda realizar na escola. Este é um bom momento para rever e rediscutir
o PPP, atualizando-o sempre que necessário.
Nesta semana pedagógica em que se realizará o planejamento do ano que se inicia, o orientador
educacional e pedagógico assume papel fundamental, pois ele será o responsável por conduzir as
atividades e orientar as discussões, abarcando os seguintes tópicos na organização deste evento:
Recepcionar os novos professores que estejam ingressando na equipe docente, fazendo com
que eles se sintam confortáveis para tirar todas as suas dúvidas sobre os procedimentos adotados
na escola. Vale lembrar também que esses indivíduos chegam de realidades diferentes e podem
trazer um olhar novo para os dilemas que a escola enfrenta, podendo, inclusive, sugerir saídas
inovadoras para problemas.
Facilitar o diálogo entre professores e gestores, de maneira que a apreciação de qualquer questão
seja feita por diferentes ângulos e perspectivas. Esse diálogo nem sempre é fácil, especialmente se
a relação entre os gestores e sua equipe não for harmoniosa, mas cabe ao orientador, enquanto
integrante da gestão que trabalha de forma mais próxima com os professores, criar um momento
propício para que essas duas esferas conversem e troquem experiências.
Propor leitura e avaliação dos resultados do ano anterior, destacando os pontos do planejamento
que foram atingidos e aqueles que ainda precisam ser melhorados. Ressalta-se que, em um
contexto educacional em que a culpa pelo fracasso escolar é comumente atribuída ao professor,
este debate sobre o desempenho do processo educativo no ano anterior deve ser conduzido de
forma leve e objetiva, em que os resultados sejam analisados sem que se busquem culpados.
O planejamento das atividades do ano é uma realização coletiva, que deve também ser executado
coletivamente. Se algo não deu certo, a responsabilidade é de todos, inclusive dos alunos, das
famílias e da comunidade!
Elaborar, juntamente com a equipe, objetivos e metas que deverão ser conquistados ao final
do ano letivo. Vale lembrar que metas vagas ou muito abstratas dificilmente são cumpridas, pois
não se tem clareza a respeito do resultado a ser atingido.
Não é produtivo, por exemplo, estabelecer como meta “mudar o comportamento dos alunos”,
porque, ao final do ano letivo, a discussão dos resultados será baseada na impressão pessoal de
cada um, o que dificilmente gera consenso. Como fazemos isso? Como sabemos se conseguimos
realizar esta meta?
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O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
Seria mais adequado, neste caso, refletir sobre quais transformações seriam indicativas da
mudança que pretendo ver no comportamento dos alunos e, a partir dessas considerações,
estabelecer as metas a serem atingidas, como a diminuição das ocorrências de indisciplina nas
salas de aula, a diminuição dos casos de indisciplina no momento do intervalo, a diminuição
dos casos de depredação de patrimônio da escola, etc. Todos esses exemplos sinalizam uma
mudança no comportamento dos alunos, mas, diferente da meta abstrata, a equipe será capaz
de verificar objetivamente se as metas foram cumpridas.
Criação de planos de ação com base nas metas e nos objetivos elaborados. Depois de definir o
que se pretende realizar ao longo do ano, esta etapa visa a estabelecer um roteiro a ser seguido
para a concretização do planejamento. Se minha meta é diminuir o número de evasões, por
exemplo, precisarei avaliar detalhadamente os motivos causadores da evasão, para, a partir
deles, criar um plano de ação com estratégias que busquem aumentar o interesse do aluno
pelas atividades escolares, solucionar problemas internos e externos que o levam a abandonar
os estudos, encontrar medidas junto às famílias para conscientizá-los sobre a importância da
permanência do aluno na escola, etc.
No que diz respeito à elaboração prática dos planos de ação, é importante que estes abranjam
as seguintes questões:
Neste item, você deverá apresentar ao seu leitor o problema para o qual
Problema
está buscando uma solução. Qual é exatamente a questão a ser trabalhada?
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
Estabelecer a divisão das turmas, levando em consideração que não se trata de uma atividade
meramente distributiva, mas de uma decisão político-pedagógica que influenciará diretamente
o trabalho dos professores e o desempenho dos alunos. Como defende Bernardo (2013):
A medida de estabelecer a divisão de turmas por habilidades e desempenhos pode ser positiva
por organizar grupos mais homogêneos, facilitando, assim, o planejamento do professor.
E potencializando a aprendizagem dos alunos em defasagem. O que ocorre, no entanto, é uma
divisão hierárquica entre as turmas em que os professores mais qualificados e experientes são
alocados nas turmas de melhor desempenho e os alunos em defasagem são entregues aos
professores iniciantes ou recém-chegados. Cria-se, desse modo, um sistema cruel de manutenção
da diferença entre os alunos, em que dificilmente os em defasagem conseguirão alcançar o
desempenho esperado.
Outra medida questionável é a criação das “turmas problema”, em que são colocados todos os
alunos com problemas de comportamento, desvio idade-série, dificuldades de aprendizagem,
etc. Esta é uma decisão pedagógica pobre, pois cria um depósito de alunos vistos como sem
solução, para os quais nenhum professor quer lecionar.
Divididas as turmas, é importante apresentar aos professores o calendário escolar para aquele
ano, considerando as determinações da Secretaria de Educação. A partir desse cronograma,
já contendo a quantidade de dias letivos, os feriados que cairão em dias úteis e os possíveis
pontos facultativos deverão ser estabelecidas as grades horárias para cada disciplina, cada
turma e cada professor. Este é um momento complexo, em que nem sempre é possível agradar
a todos. É comum que os professores não queiram trabalhar nas sextas-feiras ou nos primeiros
tempos do turno da manhã, por exemplo. Cabe ao orientador auxiliar a gestão da escola
a encontrar um meio termo entre as demandas de todos os professores e as necessidades
da escola.
A organização física do ambiente escolar para o início do novo ano letivo também não pode
ser deixada de lado. É preciso preparar as salas de aula, os espaços compartilhados, organizar
os materiais que serão utilizados pelos professores e aqueles que serão entregues aos alunos.
Por fim, deverá ser preparada a recepção dos alunos, que deve contar com a distribuição de
tarefas entre os membros da equipe gestora, sobre quem receberá os alunos e seus responsáveis,
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O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola • AULA 3
quem fará a acolhida dos novos alunos, como serão estabelecidos e transmitidos os combinados
pedagógicos em vigor durante o ano letivo. É interessante conversar também com os professores
sobre as melhores estratégias para acolher os alunos que estão chegando.
No entanto, ainda que a intenção seja encontrar um padrão de conduta a ser seguido em todas
as esferas da vida escolar, não podemos ignorar que esta equipe, por mais coesa e harmônica que
seja, é composta de indivíduos singulares, que possuem características, valores e direcionamentos
próprios e, em certas ocasiões, o encontro dessas singularidades pode gerar conflito.
Diante dessa diversidade de indivíduos singulares que formam o todo da vida escolar, o papel
do Orientador Educacional e Pedagógico ao longo da execução do PPP deve ser administrar as
diferenças individuais para que, respeitando as características de todos, o objetivo geral e as
metas coletivas sejam atingidas.
Da mesma forma, ao longo do planejamento, a clientela atendida pela escola pode – e deve – ser
analisada em sua totalidade para que se possa desenhar um perfil do grupo que servirá como
fundamentação para planejar as ações que serão implementadas na escola. No entanto, por mais
fiel que este perfil seja da realidade dos alunos enquanto grupo, não podemos perder de vista
que cada aluno é um indivíduo único, que possui necessidades específicas e responde melhor
a determinadas medidas e estratégias do que a outras.
Avaliação pedagógica
A avaliação em educação não pode ser entendida apenas como um evento único que ocorre ao
final da execução de qualquer processo. Na verdade, a avaliação deve ocorrer continuadamente, ao
longo de todo o desenvolvimento do projeto educativo, para que, no caso de eventuais desalinhos
entre o que foi planejado e a realidade, seja possível replanejar as estratégias e ações para que
não nos distanciemos das metas e dos objetivos que buscamos alcançar.
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AULA 3 • O papel do Orientador Educacional e Pedagógico nas atividades gerais da escola
Tendo em vista esse aspecto múltiplo, é interessante definirmos as três facetas do processo
avaliativo que devem constar no planejamento e na execução de qualquer projeto.
»» Avaliação somativa: aquela que ocorre ao final do projeto. É mediante ela que analisaremos
os resultados obtidos, verificando se o que foi planejado foi executado adequadamente
e o que poderia ter sido feito para obter melhores resultados.
Como podemos ver, a avaliação é um projeto cíclico que se inicia antes do próprio planejamento
e atravessa todo o desenvolvimento do projeto. Nesse sentido, cabe ao orientador auxiliar a gestão
da escola a executar os diferentes momentos de avaliação, estabelecendo sempre um paralelo
entre os resultados do projeto educativo da escola com os resultados do projeto de orientação
educacional elaborado por ele.
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Aula
As atividades específicas do
Orientador Educacional e
Pedagógico 4
Introdução
Nesta quarta aula da disciplina, você vai conhecer as atividades de responsabilidade específicas
do Orientador Educacional e Pedagógico. Em um contexto profissional de multiplicidade de
demandas, discutiremos a importância da organização para o bom desempenho do trabalho
e estabeleceremos um fluxo de atividades que servirá como fio condutor para que todos os
aspectos de todas as atividades sejam contemplados ao longo do serviço. Dessa forma, buscamos
estabelecer um sistema de melhores práticas para otimizar o desempenho e os resultados do
trabalho de orientação.
Objetivos
»» Estabelecer um fluxo de trabalho para que todas as etapas das atividades sejam cumpridas.
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AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
Na aula anterior desta disciplina, discutimos a forma como o Orientador Educacional participa
do planejamento, da execução e da avaliação do projeto educacional da escola como um todo.
Vimos que ele é peça importante para a manutenção da engrenagem da escola funcionando,
ou seja, seu auxílio é precioso para que a direção consiga fazer com que o cotidiano escolar
funcione adequadamente.
No entanto, não podemos esquecer que este profissional possui também atribuições específicas
que são de sua responsabilidade e, por isso, devem ter espaço privilegiado no cronograma de
atividades do Orientador Educacional e Pedagógico. Do contrário, o trabalho desenvolvido na
escola nunca atingirá todo o seu potencial, e a presença deste profissional perderá o sentido.
Neste contexto, muitos gestores acabam não criando vagas para este profissional em suas escolas,
e as instituições que contam com a presença do orientador enfraquecem seu poder de atuação,
limitando seu espaço de atuação e, consequentemente, seus resultados.
Lück (2015, p. 55) destaca as seguintes circunstâncias como dificultadoras do bom desenvolvimento
do trabalho do orientador:
Diante desse quadro, traçaremos nesta aula um modelo de conduta em que cada um dos
elementos contribuirá para que a prática do orientador educacional se torne mais segura e
eficiente, atingindo os resultados esperados no desenvolvimento dos alunos e sendo reconhecida
pela equipe pedagógica e pela comunidade escolar. É o estabelecimento inicial dos pilares que
dará sustentação ao trabalho de orientação, para, a partir deles, lidar com qualquer situação
específica que se apresente.
52
As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico • AULA 4
Isso ocorre devido à multiplicidade de atividades desempenhadas por este profissional, que
se relacionam com todas as ocorrências do cotidiano e se estendem pelas mais variadas áreas
da vida escolar. Sendo assim, torna-se necessário refletirmos a respeito das atribuições que de
fato constituem o trabalho do Orientador Educacional e Pedagógico, porque como apontam
Giacaglia e Penteado (2015):
Pelo fato de ser uma profissão pouco conhecida, mesmo no ambiente escolar, é de
extrema importância que o Or. E. tenha pleno conhecimento de suas atribuições
para que possa não só atuar com segurança, de conformidade com elas, como
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AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
Tanto nas redes estaduais, municipais e federal quanto nas instituições de ensino privadas existe
certa flexibilidade na decisão sobre o que constará em seus regimentos internos a respeito das
atribuições do orientador. Como salientam Giacaglia e Penteado (2015), as redes de ensino
público podem definir as atribuições que serão conferidas a cada profissional da educação. Da
mesma forma, as escolas da rede particular possuem autonomia para determinar o que cada
profissional por ela contratado irá desempenhar dentro das atividades da instituição.
No entanto, é importante destacar que o Decreto nº 72.846, de 26 de setembro de 1973, criado para
regulamentar a Lei nº 5.564, de 21 dezembro 1968, define a atividade de Orientação Educacional,
estabelecendo quais são as atribuições escolares que só poderão ser desempenhadas por este
profissional (privativas) e aquelas das quais ele deverá participar juntamente com a equipe
pedagógica (participativas).
Observe a lei
Os artigos 8º e 9º do Decreto nº 72.846/1973 definem as atividades privativas e participativas a serem desempenhadas pelo
Orientador Educacional.
1 - Escola;
2 - Comunidade.
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As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico • AULA 4
O Serviço de Orientação Educacional, também conhecido pela sigla SOE, é o setor ou departamento
da escola em que atuará o orientador educacional e pedagógico. Será neste espaço que ele
reunirá seu material de trabalho e concentrará as suas atividades de atendimento aos alunos,
responsáveis, professores, funcionários, etc.
Sendo assim, é interessante que exista na escola uma sala de uso exclusivo deste profissional,
onde será organizado o Serviço de Orientação Educacional (SOE) da escola. Este espaço deve
ser composto, sempre que possível e dadas as proporções e condições da escola, de uma área
de trabalho com mesa com gavetas e espaço para acomodar um computador e/ou arquivos em
que possam ser colocadas informações de consulta a respeito dos alunos e da própria escola.
Deve haver ainda um espaço mais reservado para o atendimento, que pode ser formado por um
sofá ou uma mesa com cadeiras, na qual não devem ser organizados materiais de trabalho. Este é
um espaço de acolhimento e escuta sensível, que deve ser planejado para transmitir sensação de
calma e tranquilidade. Vale ressaltar a importância de um aviso que possa ser colocado na porta
todas as vezes que um atendimento estiver ocorrendo, de maneira que a equipe pedagógica e
os funcionários saibam que o profissional não deve ser interrompido.
55
AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
compreender, dialogar. Nesse lugar, encontra-se alguém com quem se pode partilhar
sentimentos, dificuldades, problemas, e encontrar receptividade e parceria.
A ambiência é o que flui do ambiente através das relações humanas que ali se
estabelecem e se constroem. Uma ambiência positiva e estimulante traz energia,
ânimo, esperança. Assim é a sala do Orientador Educacional. Ali encontra-se um
profissional que está disposto a atender e a ouvir (RANGEL, 2015, p. 108-109).
Tendo isso em mente, é fundamental que se estabeleça um limite rígido quanto à utilização
da sala do SOE para finalidades que não sejam o atendimento do Orientador Educacional e
Pedagógico. Como destacam Giacaglia e Penteado (2015, p. 68), é preciso evitar que “o SOE se
transforme em refúgio de alunos que cabulam aula ou são tirados da classe por problemas com
os professores, como indisciplina e falta de lição de casa ou de material”.
Para refletir
Você se lembra do profissional de Orientação Educacional e Pedagógica das escolas em que estudou? Quais são as principais
memórias que você possui dessa pessoa? Se o encontrasse hoje na rua, sua primeira reação seria lhe dar um abraço ou
atravessar rapidamente a rua?
As escolas em que você estudou possuíam uma sala específica destinada ao Serviço de Orientação Educacional? Tente se
lembrar deste espaço, das impressões que você tinha dele e das ocasiões em que esteve lá. Você é capaz de perceber alguma
conexão entre as suas memórias desta sala do SOE e as memórias do Orientador Educacional?
As autoras Giacaglia e Penteado (2015) salientam a importância de que se evite construir imagens extremas do Orientador
Educacional e Pedagógico. De acordo com elas,
O Or. E. também não deve dar ensejo a que se incorpore à sua imagem o papel de
“bonzinho”, “da tia”, do “protetor de alunos” ou, por outro lado, de “dedo duro”,
de “disciplinador”, bem como o de “controlador” e “delator” de professores, de
funcionários ou de alunos (GIACAGLIA; PENTEADO, 2015, p. 68).
Acreditamos que o aspecto geral do espaço de trabalho do orientador se relaciona e contribui para a construção da imagem
do próprio orientador. Portanto, é tão importante a criação de um espaço clean, sem excesso de informações, limpo,
organizado, que transmita uma imagem profissional e acolhedora, sem ser excessivamente austera ou demasiadamente
colorida e infantilizada.
Os saberes teóricos são aqueles que dizem respeito à reflexão sistemática acerca das questões
que fazem parte do universo de atuação do indivíduo. É a reunião de construções filosóficas e
científicas elaboradas através dos tempos por todos aqueles que se inquietaram e investigaram
o mesmo assunto que hoje desperta nosso interesse.
56
As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico • AULA 4
Se me deparo com um caso de indisciplina, por exemplo, e recorro mentalmente aos esforços
teóricos do filósofo alemão Kant para compreender aquele caso e tentar buscar a melhor forma
de resolvê-lo, estou acionando um saber teórico para fundamentar a minha tomada de decisão
diante de uma situação real.
Os saberes práticos, por sua vez, são aqueles da ordem do “saber fazer”, ou seja, de empregar
minhas habilidades práticas no desempenho de determinada atividade. Retornando ao caso de
indisciplina mencionado anteriormente, podemos dizer que, ao orientar os alunos em conflito
por meio de uma técnica de respiração controlada para que eles retornem ao estado de calma
necessário de maneira que possamos discutir e resolver o problema que gerou a situação de
indisciplina, estou acionando um saber prático para me auxiliar nesta tarefa.
Ressalte-se que esses dois tipos de saberes independem um do outro. Eu posso ser profunda
conhecedora de Kant, mas não conhecer qualquer técnica de respiração, ou posso ser versada
em diferentes estratégias para o controle da raiva, e nunca ter lido as reflexões kantianas a
respeito da indisciplina. No entanto, vemos por esse exemplo que, diante de uma situação real,
foi extremamente útil articular os dois tipos de saberes para a solução do problema.
Com isso, ao dizer que, para a boa prática da orientação, o indivíduo deve possuir domínio
sobre os saberes teóricos e práticos de sua disciplina, estamos indicando a importância de que o
profissional aprofunde seus estudos a respeito das situações cotidianas com as quais costuma se
deparar, e, mediante a prática e a experimentação, reúna um arcabouço de saberes que poderão
ser postos em prática em um momento de necessidade.
Diagnosticar a realidade
O primeiro passo a ser dado para o tratamento eficiente das questões específicas da realidade
escolar na qual atua o orientador educacional e pedagógico é a elaboração de um diagnóstico
realista e objetivo a respeito desta realidade.
57
AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
das avaliações dos planejamentos dos anos anteriores realizados na escola, sejam eles o PPP, o
Plano Anual ou o Plano de Orientação Educacional.
Reúna todos os dados referentes ao resultado desta avaliação diagnóstica da escola e elabore
um mapa contendo todos os elementos a serem considerados, as relações de causa e efeito que
podem ser estabelecidas entre eles, as estratégias anteriormente implementadas em relação a
esses problemas e os resultados obtidos.
Afixe este mapa em um local visível de sua área de trabalho, para que você possa retornar a
ele sempre que estiver planejando uma ação pedagógica, replanejando uma atividade em
desenvolvimento ou quando se deparar com um novo problema a ser enfrentado.
Planejar a ação
Partindo do mapa diagnóstico da realidade da escola, o orientador elencará todos os problemas
a serem solucionados e elaborará um plano de ação para cada um deles. A princípio, este pode
parecer um esforço demasiadamente elaborado, que consome muito tempo que poderia estar
sendo empregado diretamente na solução dos problemas. No entanto, como defende Lück (2015),
O planejamento é, sem dúvidas, um dos elementos mais importantes para ancorar a prática
profissional – em qualquer área de atuação – sobre bases sólidas, garantindo, assim, maior nível
de segurança para o profissional, que passa a ter uma visão mais ampla da realidade com a qual
está lidando e dos melhores caminhos para a solução dos problemas que se apresentam.
Nesse sentido, além de todos os planejamentos escolares em relação aos quais o OEP foi convidado
a refletir, é importante que se desenvolva um planejamento geral para a área de Orientação
Educacional e Pedagógica, dentro do qual estejam descritos todos os planos de ação individuais
juntamente com os aspectos mais gerais da área.
Salienta-se que não existe, como em qualquer outro planejamento, um modelo único que deve
ser seguido para elaborar o Plano de Orientação Educacional e Pedagógica, indicaremos aqui
uma adaptação do modelo sugerido pelas autoras Lia Giacaglia e Wilma Penteado (2015), por
ser de fácil compreensão e implementação.
58
As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico • AULA 4
Instâncias superiores às Estas informações são úteis, especialmente nos casos de escolas da rede
quais a escola e a Orientação pública, pois será possível identificar rapidamente as instâncias superiores a
Educacional e Pedagógica serem contatadas em casos de emergências.
estão subordinadas
Nome do diretor ou gestor Esta informação é fundamental em casos em que o diretor e/ou seus
da escola e de seu vice ou substitutos estejam ausentes em um momento em que ocorra algo que só
assistentes pode ser resolvido por ele.
Nome e contato do Esta é uma informação que pode facilitar o contato com o orientador em
orientador Educacional e casos em que ele esteja ausente em um momento de necessidade.
Pedagógico
Síntese das principais Esta seção pode ser um resumo da descrição existente no Projeto Político-
características da Pedagógico da escola.
comunidade escolar
Objetivos da escola e do Os objetivos gerais da escola podem ser retirados do PPP e do Plano Anual
Serviço de Orientação e os objetivos da OEP devem estar de acordo com as expectativas deste
Educacional planejamento da escola como um todo.
Quadro de recursos humanos Estes quadros, que normalmente se encontram no planejamento da escola,
da escola, professores, devem ser reproduzidos no planejamento da OEP e disponibilizados na
conselheiros, alunos e croquis sala do Serviço de Orientação Educacional para consulta rápida e para
da escola atualização imediata sempre que houver uma mudança.
Para que fiquem registrados todos os saberes teóricos acionados por você
no desenvolvimento do plano, registre todas as referências bibliográficas
Referência bibliográfica utilizadas. Assim você dá o devido crédito aos autores consultados e permite
que qualquer pessoa que consulte seu plano possa reconstruir o trajeto
intelectual que você percorreu para chegar às suas conclusões.
Nos anexos, você pode incluir os Planos de Ação que desenvolveu para os
Anexos problemas específicos, bem como os modelos de fichas e relatórios e roteiros
de entrevistas que serão utilizados no desenvolvimento do trabalho.
59
AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
Avaliar a ação
Como vimos anteriormente, a avaliação é um processo cíclico que deve ser implementado ao
longo de todo o desenvolvimento o projeto de ação e ao final deste. Assim, é possível perceber
ao longo do caminho se existem pontos a serem replanejados para potencializar os resultados
ou corrigir eventuais desvios com relação às metas e aos objetivos que se pretendam alcançar.
Neste estágio do tratamento eficiente das questões específicas da realidade escolar na qual
atua o orientador educacional e pedagógico, é possível que o profissional se dê conta de que a
dificuldade em solucionar determinado problema está atrelada à sua própria incapacidade em
encontrar saídas para ele.
Ressalta-se, ainda, que, ao dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pelo Serviço de Orientação
Vocacional, você estará contribuindo para tornar esta área mais interessante e compreensível
para os demais membros da comunidade escolar. Como defende Lück (2015):
60
As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico • AULA 4
o esforço e o seu resultado não são conhecidos, eles não são valorizados (LÜCK,
2015, p. 57).
Saiba mais
Existem atualmente diversas premiações para projetos inovadores na área de Orientação Educacional e Pedagógica. O
evento “Educador nota 10”, da Fundação Victor Civita, é um bom exemplo de premiação para projetos bem-sucedidos que
tenham sido desenvolvidos por diretores, coordenadores pedagógicos e orientadores educacionais de Educação Infantil, de
1º ao 9º ano do Ensino Fundamental e de Ensino Médio (incluindo Educação de Jovens e Adultos – EJA).
Veja abaixo alguns projetos premiados que poderão servir de inspiração para suas atividades. Nem todos foram
desenvolvidos exclusivamente pelo Serviço de Orientação Educacional, mas indicam de que forma um bom projeto
elaborado pela equipe gestora pode atingir resultados surpreendentes.
Edição: 2013
Cidade: Seabra, BA
A avaliação foi o foco do projeto de formação desenvolvido por Janaina Oliveira Barros com os docentes da EM Professora
Ivani Oliveira, em Seabra, a 456 quilômetros de Salvador. A equipe refletiu sobre os baixos índices de acertos verificados nos
diagnósticos feitos no início do ano e, ao longo de um semestre, reviu suas práticas. Encontros de planejamento e oficinas de
estudos foram pautados pela análise do que estava no caderno dos alunos e, com base nisso, o que poderia estar nas provas.
Edição: 2012
Pensadas para reduzir a indisciplina, as assembleias de classe mediadas por professores acabaram se transformando em um
grande processo de democratização da gestão na EMEF Francisco Cardona, em Artur Nogueira, a 142 quilômetros de São
Paulo. A diretora, Débora Del Bianco Barbosa Sacilotto, esperava que a ideia da professora Ariane Tagliaferro Molina evitasse
que os alunos fossem mandados à sua sala. No entanto, uma vez aberto o canal de comunicação, as inquietações trazidas
por eles foram além dos conflitos com colegas: questões como o excesso de ruído nos corredores, o destrato por parte de
uma funcionária, o desperdício de alimentos e a falta de materiais estavam entre as queixas. Débora, então, mobilizou a
comunidade escolar e a rede de ensino para atender às demandas. Como resultado, foram providenciados colchonetes
novos para a aula de Educação Física, talheres, como garfo e faca, para as refeições, a reforma das torneiras e muito mais.
Os professores passaram a incentivar as assembleias semanais com os alunos. E Débora introduziu também reuniões
semelhantes para os docentes, que têm a oportunidade de expor suas críticas e sugestões nesses encontros.
61
AULA 4 • As atividades específicas do Orientador Educacional e Pedagógico
Edição: 2009
Cidade: Samambaia, DF
O diretor Amarildo Reino de Lima e sua equipe decidiram enfrentar a distorção idade-série buscando a aprendizagem
de todos. O quadro era alarmante: 400 dos cerca de mil alunos estavam fora da turma adequada para a idade. Após um
diagnóstico inicial, os estudantes defasados foram agrupados em turmas de aceleração. Para atender à demanda, os
professores criaram currículos enxutos e específicos, além de mudarem a forma de avaliar e dar aulas. O resultado veio em
um ano e de forma consistente: mais de 90% dos estudantes das classes de aceleração foram aprovados.
Edição: 2011
Cidade: Ibitinga, SP
Para garantir a aprendizagem dos alunos, a coordenadora pedagógica desenvolveu uma proposta de acompanhamento
das aprendizagens das turmas. O objetivo era fazer com que a escola atingisse a meta de 4,58 nas séries iniciais do Ensino
Fundamental, no Índice de Desenvolvimento da Educação no Estado de São Paulo (Idesp), de 2010. Para tanto, ela usou
como instrumentos de avaliação os dados dos diagnósticos em Língua Portuguesa e Matemática, a observação de sala de
aula e os resultados dos simulados do Saresp para implementar a formação de professores.
Edição: 2015
O diretor abraçou o desafio de transformar uma escola que era noticiada nos jornais locais e televisivos como a mais
violenta, com as piores notas nas avaliações, com as maiores taxas de evasão e repetência escolar da cidade e da região,
deixando os pais receosos em realizar a matrícula dos filhos. Ao longo de um ano e quatro meses, ele conseguiu modificar
o clima escolar, iniciando com uma grande reforma, contando com doações e ajuda de membros da comunidade escolar.
Depois, professores, pais, funcionários, alunos, o Conselho Escolar e a Associação de Pais e Mestres foram convidados
a elaborar coletivamente normas escolares para serem discutidas com os alunos. A gestão democrática mudou a forma
como todos enxergam a instituição. Nos finais de semana, acontece o Projeto Camerata Jovem Beethoven, que ensina
gratuitamente música clássica aos alunos e a outros interessados, além de aulas de artes plásticas e práticas esportivas.
A escola passou a ser reconhecida pela comunidade como pertencente, conservando-a e ajudando em sua manutenção.
62
Aula
Orientação vocacional e
educação 5
Introdução
Objetivos
63
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
Na sociedade em que vivemos, a importância da escolha profissional torna-se cada vez mais
evidente, porque, se no princípio o trabalho garantia a sobrevivência do indivíduo e de sua
família, com a crescente especialização de tarefas, o trabalho desenvolvido por uma única pessoa
se tornou indispensável à sobrevivência de toda a sociedade.
Em outras palavras, é possível dizer que, enquanto professora, eu me dedico com exclusividade
à minha tarefa, porque tenho a confiança de que outras pessoas estão se empenhando com
exclusividade para a produção de alimentos, a confecção de vestimentas e sapatos, a descoberta
de novas curas para as doenças que possam me afligir, entre tantas outras atividades sem as
quais eu mesma não poderia viver. Da mesma forma, estes profissionais se dedicam às suas
atividades, pois têm certeza de que pessoas como eu garantirão a educação formal de seus filhos
e deles mesmos.
Essa divisão de tarefas gera a interdependência social que garante a sobrevivência de toda
a comunidade, mas, para que isso ocorra de forma eficiente, é preciso que cada um esteja
sinceramente comprometido com a sua parte. Neste ponto, a orientação vocacional apresenta
seu importante papel social, à medida que contribui para que as pessoas descubram aquelas
atividades com que mais se identificam, e nas quais, por consequência, seus resultados serão
os melhores possíveis para todos nós.
No que diz respeito aos aspectos subjetivos do trabalho, podemos dizer que a identidade
profissional de uma pessoa representa, também, uma porção significativa de sua identidade
pessoal, pois a vida profissional do sujeito define boa parte da vida que ele levará fora do
trabalho. Quando o indivíduo decide o que fará profissionalmente, ele está definindo também
o estilo de vida que terá, as atividades sociais que desempenhará e o tipo de pessoas com
as quais se relacionará. Como podemos ver através do exemplo apresentado por Mariza
Lima (2007):
Alguém que opte por fazer medicina terá certamente que se submeter a plantões
e atendimentos em horários não convencionais, trabalhará especialmente em
ambientes hospitalares, terá que conviver com a doença e aprender a se deparar
com a morte com maior frequência que outro tipo de profissional; conviverá
ainda, principalmente, com outros profissionais da área de saúde e viajará para
participar de congressos, entre outras coisas (LIMA, 2007, p. 30).
Outro fator a ser considerado diz respeito à saúde mental do sujeito que, em certa medida, está
diretamente relacionada aos sentimentos de prazer e de realização pessoal que ele é capaz de
extrair das atividades que desempenha cotidianamente. Estes sentimentos o auxiliam a dar um
sentido de coerência à sua própria vida e a ver como significativo aquilo que faz. Quando visto
apenas como recurso de sobrevivência, o trabalho não prazeroso passa a comprometer a saúde
64
Orientação vocacional e educação • AULA 5
mental do indivíduo, podendo inclusive comprometer a sua saúde física. Como afirma Fernando
Mello (2002):
Dessa forma, é possível dizer que uma escolha vocacional bem-sucedida é importante tanto para
o bem-estar do sujeito, que se realizará pessoalmente por meio de sua atividade profissional,
quanto para o bem-estar da sociedade, que usufruirá dos melhores resultados garantidos por
um trabalho bem feito e comprometido. Contudo, apesar da importância da escolha profissional
e por mais natural que ela nos pareça nos dias de hoje, nem sempre nos foi possível decidir o
tipo de atividade à qual iríamos nos dedicar ao longo da vida. Por isso, é fundamental para a
compreensão da atividade de orientação vocacional que aquele que se dedica a esta tarefa reflita
sobre as condições que garantiram ao sujeito de nossos tempos a possibilidade de escolha.
O trabalho sempre fez parte da vida do homem em sociedade e, no princípio dos tempos, estava
estreitamente associado à necessidade de sobrevivência. Os homens em seus grupos locais próximos,
geralmente baseados no parentesco, aliavam-se para prover o sustento, o abrigo e a proteção contra a
violência da natureza e dos demais grupos humanos. Neste tipo de organização social mais simples, os
homens viviam e trabalhavam em prol da comunidade e a divisão do trabalho era muito rudimentar,
separando apenas as tarefas destinadas aos homens das tarefas próprias das mulheres.
Na baixa Idade Média, contudo, a produção familiar deixou de ser autossuficiente, pois não era
mais possível trabalhar nos campos e simultaneamente produzir para seu uso pessoal produtos
como tecidos, instrumentos de trabalho, utensílios domésticos, entre outros. Assim, alguns
sujeitos, com a permissão de seus senhores, passaram a se especializar na produção artesanal
de determinados produtos, como roupas, sapatos, armas e utensílios variados, dando origem
aos primeiros profissionais liberais e aos primeiros comerciantes.
65
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
Contudo, é importante ressaltar que, mesmo que a possibilidade de escolha profissional tenha
surgido neste momento da história, ela só alcançava um número muito reduzido de pessoas e
não se estendia aos seus descendentes. Nessa época, o que existia eram empresas familiares em
que todos os membros da família deviam trabalhar juntos para vender produtos nos mercados
e perpetuar o ofício familiar.
Assim, da mesma forma que o filho de nobre seria nobre e o filho de plebeu seria plebeu, o filho
do ferreiro seria ferreiro e o filho do alfaiate também se tornaria um alfaiate. De acordo com
Norbert Elias (1994), é apenas quando as funções relativas à proteção e ao controle deixam
de estar nas mãos dos pequenos grupos, como a família, o feudo ou a paróquia, e se tornam
responsabilidade dos Estados, cada vez mais centralizados e urbanizados, que o indivíduo pode
começar a se desprender das escolhas predefinidas para tomar suas próprias decisões.
Dentro desse processo gradativo, em que os indivíduos se afastaram das decisões preestabelecidas
pelo grupo e se tornaram cada vez mais autônomos, Mariza Lima (2007) destaca dois momentos
fundamentais que possibilitaram o surgimento da Orientação Vocacional: a Revolução Francesa
e a Revolução Industrial.
A Revolução Francesa
66
Orientação vocacional e educação • AULA 5
Revolução Industrial
Essa transição de uma economia agrária para uma economia industrial surtiu efeito principalmente
sobre o mundo do trabalho, pois as fábricas modernas exigiam uma mão de obra cada vez
maior, que devia estar preparada para desempenhar as atividades apresentadas pelo novo modo
de produção.
Neste período, surge, também, maior especialização do trabalho que faz com que um único
indivíduo não seja mais responsável por todo o processo de produção de determinado bem, mas seja
especialista em uma das etapas deste processo. Isso fez com que se ampliasse consideravelmente
o número de ocupações existentes, tornando, assim, a escolha profissional mais difícil.
A história da orientação vocacional até os dias de hoje pode ser dividida em dois momentos
principais, que se distinguem fundamentalmente pelo foco dado à orientação. No primeiro
momento, que perdurou até a década de 50, a preocupação da orientação vocacional estava
nas características da profissão, e seu objetivo era, mediante o método estatístico-psicométrico,
identificar o homem certo para ocupar determinado cargo.
67
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
A partir da década de 50, no entanto, o foco da orientação vocacional se transferiu das características
da profissão para as necessidades e expectativas do próprio indivíduo, e seu objetivo passou a
ser, mediante o método clínico-operativo, auxiliá-lo a encontrar a profissão que melhor se
adequaria a ele.
O método estatístico-psicométrico
Como vimos anteriormente, a Revolução Francesa fez surgir a possibilidade de escolha profissional,
ao passo que a Revolução Industrial ofereceu um novo leque de opções profissionais para serem
escolhidas. Por meio da combinação desses dois fatores, foram criados os primeiros serviços de
orientação vocacional.
Em 1908, Frank Parsons fundou em Boston, nos Estados Unidos, o Serviço de Orientação
Profissional na Associação Cristã de Moços, primeiro Centro de Orientação Profissional oficialmente
reconhecido. A partir das experiências ali desenvolvidas, Parsons publicou, em 1909, as bases de
seu modelo de orientação profissional que se pautava na combinação harmônica das aptidões
e características do indivíduo com as exigências específicas da ocupação.
Nos anos seguintes, foram criados por toda a Europa escritórios de orientação profissional
semelhantes ao de Parsons, como o de Binet na França, o de Claparède na Suíça, o de Myra y
Lopes na Espanha, o de Meyers na Inglaterra e o de Gemelli na Itália.
No ano de 1917, com o início da participação dos Estados Unidos na 1ª Guerra Mundial, tornou-se
fundamental selecionar homens para o exército norte-americano. Com esse objetivo, foi iniciada
a aplicação dos testes coletivos de inteligência Army Alfa e Army Beta, cujos resultados levaram
à composição do “Informes da Academia Nacional de Ciências”, o primeiro trabalho publicado
a analisar as diferentes aptidões vocacionais a partir dos traços de inteligência.
Ao longo da década de 30, durante a recessão que assolou o mundo, e principalmente os Estados
Unidos, o nível de desemprego chegou a um ponto alarmante e, na tentativa de minimizar o
problema, o Instituto de Investigação para a Estabilização de Desempregos de Minnesota deu
início a um programa de escolha e adaptação vocacional, no qual uma equipe de psicólogos se
dedicou a desenvolver novos testes de aptidões profissionais.
Ainda durante esse período de crise econômica, foi organizado, em 1933, o Serviço de Empregos
dos EUA, com o objetivo de funcionar como uma “bolsa de empregos”, que procurava estabelecer
um equilíbrio entre a oferta e a procura de trabalho. Para que isso fosse possível, uma série de
medidas tiveram de ser tomadas, entre elas a investigação das necessidades apresentadas pelos
cargos e as características necessárias para que os candidatos preenchessem essas vagas de forma
adequada. Tais investigações forneceram informações preciosas para que os testes se tornassem
ainda mais completos e específicos.
68
Orientação vocacional e educação • AULA 5
Posteriormente, com a participação dos EUA na 2ª Guerra Mundial, mais uma vez se fez necessário
selecionar e classificar homens para as forças armadas. Essa necessidade fez com que a orientação
vocacional crescesse rapidamente na tentativa de verificar quais as capacidades e as principais
aptidões que cada um possuía e quais os requisitos que uma ocupação exigiria para que esta
escolha fosse a mais adequada.
É importante notar que, até este ponto, o principal interesse da orientação vocacional estava
centrado nas características da ocupação e seu objetivo não era encontrar a tarefa que melhor
se adequasse a determinado indivíduo, mas encontrar o candidato que melhor preencheria
determinada vaga de emprego. Como bem define Pimenta (1993, p. 24), “A preocupação não
era com as aptidões individuais (com o indivíduo), mas com a identificação destas, para que o
indivíduo pudesse ser colocado (selecionado) nos lugares onde seria mais produtivo”.
Sendo assim, podemos dizer que, até a década de 50, não é possível falar em orientação vocacional,
e sim em determinismo vocacional. O método utilizado então era o estatístico-psicométrico, que
defendia que as aptidões eram inatas e que bastaria criar instrumentos psicométricos precisos
(testes) para identificar essas aptidões e colocar o homem certo no lugar certo. Dentro desse
projeto, o indivíduo não tinha qualquer participação em sua escolha profissional.
O método clínico-operativo
Com o final da 2ª Guerra Mundial, a orientação vocacional passou a ser vista a partir de um
novo enfoque, que colocava em segundo plano os testes psicométricos que até então tinham
sido o ponto central desta prática, e passava a considerar com maior cuidado as características
subjetivas do indivíduo durante seu processo de escolha.
Um dos maiores incentivadores para essa transformação foi Carl Rogers e sua “Terapia Centrada
no Cliente”, que defendia que o processo psicoterapêutico deveria ser constituído por um trabalho
de cooperação entre o psicólogo e o cliente, para, dessa forma, liberar, por meio de técnicas
facilitadoras, o potencial de crescimento que toda pessoa possui. Uma das ideias mais importantes
na obra de Rogers é a de que a pessoa é capaz de controlar seu próprio desenvolvimento e de
que isso ninguém mais pode fazer por ela.
Baseando-se nesta nova tendência da psicologia, no início da década de 50, Eli Ginzberg e seus
colaboradores começaram a formular a teoria desenvolvimentista, que definia a escolha vocacional
como um processo de desenvolvimento que se iniciava no final da infância e só chegava ao fim na
idade adulta. Esta nova teoria mudou completamente os rumos da orientação vocacional, pois,
no lugar de enxergar a escolha vocacional como um dado fixo que bastava ser mensurado, ela
definia esta escolha como um processo contínuo que deveria ser identificado e compreendido.
A orientação vocacional de nossos tempos começa a ser delineada justamente neste momento
em que o foco de suas preocupações se desloca das características da ocupação para as
69
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
características do sujeito, tendo como principal elemento o método clínico-operativo, que visava
a instrumentalizar o indivíduo para a escolha.
De acordo com esse método, a orientação vocacional é um processo no qual o orientador escuta
e dialoga com seu cliente para ajudá-lo a “escutar-se e a dialogar consigo mesmo, promovendo a
reflexão e elaboração de suas questões” (LIMA, 2007, p. 18). Ainda de acordo com Lima (2007), é
possível afirmar que a orientação vocacional, segundo o método clínico-operativo, possui quatro
objetivos específicos, que devem ser o foco de preocupação de qualquer um que se dedique a
esta tarefa:
»» promover o autoconhecimento;
Assim, podemos dizer que, onde antes se praticava o determinismo vocacional, no qual o orientador
direcionava a escolha do indivíduo, temos agora a verdadeira orientação, ou aconselhamento
vocacional. Sob esse enfoque, o papel do orientador vocacional passou a ser ajudar o orientando
a conhecer a si mesmo e as diversas possibilidades de escolha que ele possui, com vistas a tomar
uma decisão consciente e responsável.
No final do século XX, a maioria dos cientistas sociais percebeu uma mudança considerável nas
sociedades ocidentais, que fez com que o momento histórico em que vivemos passasse a ser
conhecido como pós-modernidade. O ritmo acelerado do crescimento científico, a aproximação
de pessoas e culturas em todo o mundo por intermédio das novas tecnologias de comunicação,
o desenvolvimento vertiginoso da informática e a reorientação econômica do sistema político
mundial ocasionaram uma transformação significativa, tanto na relação entre os Estado, quanto
na mente dos indivíduos.
Neste contexto, a questão da identidade pessoal vem sendo extensamente discutida na teoria
social com base no argumento de que, com as transformações advindas da pós-modernidade, a
identidade, que anteriormente era vista como algo fixo, que acompanhava o sujeito do nascimento
até a sua morte, teriam entrado em declínio dando lugar a um novo tipo de identidade que possui
as seguintes características:
»» Múltipla: O indivíduo não possui mais uma única identidade que se mantém
permanentemente inalterada, mas diversas identidades que são construídas e
reconstruídas ao longo da vida;
70
Orientação vocacional e educação • AULA 5
Um dos elementos que mais contribuíram para a multiplicidade que encontramos nos dias de
hoje é a possibilidade de escolha oferecida pela pós-modernidade. Como vimos no início desta
aula, a orientação vocacional está diretamente relacionada à possibilidade de escolha presente
em uma dada sociedade, e na pós-modernidade essa possibilidade alcançou seu ponto mais alto.
Como salienta o autor Colin Campbell (2006), a ênfase dada nos dias de hoje ao individualismo
e à ideologia a ele associada, fez surgir todo um aparato ideológico e legal, que transformou o
sujeito no ponto central das instituições e das situações, fazendo com que a sociedade opere de
acordo com vontades e não mais de necessidades, ou seja, aquilo que importa é o que a pessoa
quer ou deseja, e não aquilo de que ela necessita.
71
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
Este é um fator importante, pois transfere toda a responsabilidade da escolha ao próprio indivíduo.
Lembre-se de que os especialistas das diversas áreas de nossas vidas, como médicos, advogados,
economistas, professores, podem nos dizer o que nós precisamos para atingir determinado
resultado, mas nenhum deles pode nos dizer o que nós queremos e desejamos. Esta é uma
escolha profundamente pessoal.
Um bom sinalizador desta tendência é o fato de a Orientação Vocacional em nosso país ter-se
desenvolvido em um período em que o Brasil passava a se preocupar cada vez mais com a educação
voltada para o trabalho, criando iniciativas voltadas ao ensino profissional. Basta lembrar que seu
grande marco fundador foi a criação do Serviço de Seleção e orientação Profissional destinado
aos alunos do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (SPARTA, 2003). Esta instituição “era uma das
poucas escolas que procuravam atender às exigências da produção fabril, oferecendo ensino de
tornearia mecânica e de eletricidade (ARANHA, 2006, p. 308).
A formação desta união entre Orientação Vocacional e escola aconteceu em 1942, durante a ditadura
Vargas, quando o então ministro da Educação, Gustavo Capanema, promulgou as leis orgânicas
do ensino, também conhecidas como Reforma Capanema. Com isso, tornou-se obrigatória a
atividade de orientação nas unidades escolares e foi atribuída ao orientador educacional a tarefa
de auxiliar os estudantes a escolherem suas futuras profissões.
Em 20 de dezembro de 1996, no entanto, através da Lei nº 9.394, a escola perdeu seu caráter
profissionalizante, sem, contudo, deixar de lado o ideal de preparar o indivíduo para o mercado
de trabalho. A principal mudança, nesse sentido, diz respeito à visão de trabalho muito mais
ampla, que não leva em conta apenas a preparação técnica do aluno para o desempenho de uma
atividade profissional específica e sim toda a formação moral e ética necessária ao desempenho
cidadão e responsável de qualquer atividade profissional.
Vejamos como exemplo dessa preocupação uma das finalidades estabelecidas pela LDB de 1996
para o Ensino Médio:
72
Orientação vocacional e educação • AULA 5
Como demonstra essa passagem, a preocupação para o Ensino Médio deixou de ser preparar o
aluno para desempenhar uma atividade específica, passando a ser orientá-lo a se mover com
desenvoltura no mercado de trabalho, independente da profissão escolhida. Em alguns aspectos,
essa transformação trouxe grandes perdas, principalmente para as camadas mais populares que
tiravam proveito do caráter profissionalizante do Ensino Médio e hoje são obrigados a recorrer
a instituições específicas para a profissionalização. No entanto, como salienta Mônica Sparta
(2003), tal mudança de foco na organização da educação brasileira foi extremamente benéfica
no que diz respeito à orientação vocacional dos alunos, por permitir a criação de uma série de
novos projetos nesta área, integrados ao próprio currículo da escola. Nas palavras da autora,
Essa nova ordem socioeconômica mundial citada por Sparta é responsável pela criação de um
mercado de trabalho cada vez mais diversificado, competitivo e cheio de especificidades, para
as quais o indivíduo que entra na vida adulta deve estar preparado. Isso leva a uma necessidade
premente de instrumentalizar este jovem em vias de escolher a sua ocupação profissional, para que
ele possa tomar esta decisão de forma mais consciente e responsável possível. Por que fazer isso
nas escolas? O que torna o ambiente escolar propício a esse debate sobre a escolha profissional?
Quando falamos sobre a importância da Orientação Vocacional na escola, não estamos nos referindo
exclusivamente a um espaço físico, mas, também, a um espaço social que, em certa medida, reproduz
os principais aspectos da sociedade a que pertence. Como defende Nelson Piletti,
A escola é o local onde são feitos os primeiros contatos fora da família, as principais interações
com crianças da mesma idade, bem como a introdução do indivíduo a uma série de regras e
normas sociais que orientarão sua conduta ao longo de toda a vida.
De acordo com Claude Rivière (1997), existe no cotidiano escolar uma variedade de ritos
importantes que auxiliam na construção da identidade e das práticas cotidianas do indivíduo, como
os ritos de chegada e saída, o controle do tempo, os ritos de ordem, a organização das atividades,
a familiarização com o conteúdo das disciplinas e tantos outros elementos de socialização que,
73
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
depois de interiorizados pelo indivíduo, passarão a nortear a forma como ele interage com o
mundo à sua volta, bem como a percepção que ele possui de si mesmo.
Pense a respeito dos diversos ritos presentes na sua escola e tente pensar sobre as formas como
esses elementos preparam o aluno para a vida em sociedade. Você vai ver que tudo o que acontece
no interior da escola pode ser transportado para o cotidiano fora dela!
No que diz respeito ao desenvolvimento cognitivo, devemos levar em consideração a teoria das
inteligências múltiplas de Howard Gardner (1995), de acordo com a qual todos os indivíduos
possuem diferentes tipos de inteligência que estão ligadas, cada uma delas, a diferentes áreas
do cérebro. Segundo o autor, existe uma certa dominância de umas inteligências em relação às
outras, que faz com que cada pessoa possua um endereçamento cognitivo distinto, ou seja, um
arranjo específico destas inteligências.
De acordo com o pensamento de Vygotsky (LA TAILLE, 1992), mesmo enquanto espécie biológica,
o ser humano só se desenvolve no interior de um grupo social. De acordo com o autor, mesmo
que o desenvolvimento psicológico do indivíduo possua bases biológicas, ele só se dá na interação
com o outro, momento em que vários processos neuronais são postos em movimento, produzindo,
assim, o desenvolvimento mental.
Partindo dessa reflexão, torna-se visível a importância tanto dos fatores biopsicológicos quanto
dos fatores socioculturais na escolha vocacional do sujeito, pois é a interação deles que produz
o conhecimento e a interpretação que o indivíduo faz do mundo ao seu redor. Por isso, a
subjetividade e o pertencimento social do orientando devem ser considerados, ao longo do
processo de orientação, de forma equilibrada e conectada, para que ele possa refletir sobre todos
os aspectos de sua vida e tomar uma decisão mais consciente e realista.
74
Orientação vocacional e educação • AULA 5
Assim sendo, podemos dizer que a importância da escola está justamente no fato de ela ser um
espaço que incentiva simultaneamente a autodescoberta e a integração social do aluno. Em
outras palavras, a escola é um ambiente que abarca as duas dimensões da escolha vocacional:
a subjetiva e a social.
A escolha vocacional não é orientada por um único fator. Apesar da importância dos aspectos
psicológicos e subjetivos, não podemos desconsiderar que o homem é um ser social, que interage
constantemente com uma imensa quantidade de informações que chegam a ele por diversos
meios. Através da família, da mídia, dos colegas e dos professores, o jovem recebe informações,
dados e opiniões variadas que colaboram para que ele forme o seu próprio juízo sobre as diversas
opções de escolha que se apresentam a ele.
Tendo definido a importância da escola ao influenciar tanto os aspectos sociais quanto os subjetivos
da escolha vocacional, torna-se fundamental estabelecer de que forma cada um dos personagens
presentes no ambiente escolar são significativos para a tomada de decisão do indivíduo.
Os colegas
Com base nos estudos de Arnold Van Gennep (1997) sobre os ritos de passagem, é possível dizer
que este momento de ruptura existente entre a infância e a idade adulta pode ser visto como um
estado de liminaridade, em que não se é jovem o suficiente para manter algumas das regalias
reservadas às crianças, mas ainda se é muito jovem para usufruir de determinados benefícios
próprios da idade adulta.
Gennep (1997) salienta que, dentro de uma multiplicidade de formas conscientes ou meramente
implícitas, existe, nos ritos de passagem, um padrão típico recorrente, que consiste em um primeiro
momento de separação do indivíduo e um último momento de incorporação que, inevitavelmente,
são intercalados por uma fase de liminaridade, ou seja, um estado intermediário, fronteiriço,
marginal, paradoxal e ambíguo, em que o sujeito ritual se encontra destituído dos atributos próprios
de sua antiga condição, mas ainda possui aquelas características particulares de sua condição futura.
Essa noção, proposta por Gennep (1997), do estado liminar existente nos ritos de passagem
foi largamente discutida entre os antropólogos e levou outros autores a criarem novas teorias,
sendo a noção de communitas desenvolvida por Victor Turner (1974) e a distinção entre pureza
e perigo apresentadas por Mary Douglas (1966) duas das mais significativas.
Para Turner (1974), a noção de communitas define o tipo de interação que se estabelece entre
os indivíduos que se encontram no estado liminar e é caracterizada por um modo de vida que
75
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
se opõe à vida ordinária, ou seja, um tipo de interação não estruturada, em que indivíduos
igualmente ambíguos se submetem em conjunto à autoridade dos “anciãos rituais”.
Douglas (1966), por sua vez, percebia a liminaridade como um momento especial de ambiguidade
classificatória que, em seu limite, tornava-se perigoso por desafiar um sistema de classificação
previamente concebido como fixo, inquestionável e construído por categorias isoladas que não
permitiam meio termo.
Tanto o afastamento do indivíduo que constitui o momento liminar descrito por Gennep (1997)
quanto o modo de vida singular percebido por Turner (1974) e a ambiguidade salientada por
Douglas podem ser exemplificados pelos estudos de Norbert Elias (1994) acerca do processo
civilizador. De acordo com esse autor, quando as sociedades tornam-se mais complexas e
centralizadas e os sujeitos tornam-se mais individualizados, como aconteceu na sociedade
ocidental moderna, a especialização profissional aumenta e as possibilidades de carreira se
diversificam fazendo com que a preparação necessária para o desempenho das tarefas adultas,
também, torne-se mais prolongada e complexa.
Durante esse período de liminaridade, os jovens são afastados do ambiente infantil onde é
permitido o comportamento espontâneo incivilizado sem, contudo, serem aceitos nos círculos
adultos. Os adolescentes são isolados em institutos especialmente organizados para a preparação
dos moços, como as escolas, internatos e universidades, e passam a levar “uma vida social distinta,
tendo uma “cultura jovem” – um mundo próprio, que diverge marcantemente do dos adultos”
(ELIAS, 1994, p. 104).
Neste contexto, a escola desempenha um papel importante, pois é o lócus onde se desenvolve esta
cultura jovem, e onde estes indivíduos começam a questionar os juízos dos pais, anteriormente
vistos como detentores da verdade e, portanto, inquestionáveis, e passam a dar especial valor à
opinião de seus pares.
Essa construção de mundo em parceria com seus iguais, também chamada de socionomia, é
um momento fundamental do desenvolvimento moral do sujeito apresentado por Piaget (1994),
em que o indivíduo aos poucos desenvolve o controle lógico e moral de seus sentimentos e
pensamentos. Esta valorização da opinião dos pares é uma etapa intermediária importante entre
o estado inicial de anomia, em que a criança não possui juízo próprio sobre o mundo e é incapaz
de compreender normas e regras coletivas, até o estado final de autonomia, no qual o sujeito é
capaz de utilizar o raciocínio hipotético-dedutivo para construir seu próprio juízo moral sobre
a realidade em que está inserido.
Os professores
Mantendo o foco de sua atividade na transmissão de conteúdos, alguns professores não se dão
conta da influência que exercem diante de seus alunos. Como defende Henry Giroux (1997),
76
Orientação vocacional e educação • AULA 5
atualmente os professores são vistos de forma pejorativa e simplista, como técnicos administrativos
que servem apenas como intermediário entre um conteúdo pronto e o aluno, quando na verdade
deveriam ser vistos como intelectuais que refletem a respeito de sua área de atuação e produzem
conhecimentos. Como reflete Said (2005, p. 26) a respeito de sua própria prática, “(...) como
intelectual, apresento minhas preocupações a um público ou auditório, mas o que está em jogo
não é apenas o modo como eu as articulo, mas também o que eu mesmo represento”.
Ao ter consciência do alcance e das consequências sociais, éticas e políticas de sua prática, o
professor torna-se muito mais apto a desempenhar a função que vem sendo cada vez mais
delegada pelos pais à escola, de formar aprendizes da cidadania e sujeitos críticos, que saibam
conviver e respeitar as diferenças, além, é claro, de desempenhar seu papel no mercado de
trabalho e na sociedade da melhor forma possível.
No que diz respeito à orientação vocacional, esta influência exercida pela figura do professor diante
de seus alunos é de fundamental importância, pois o professor passa a atuar como embaixador
da disciplina que leciona. De acordo com Mariza Lima (2007):
Tendo em vista o importante papel que desempenha, o professor deve estar sempre aberto
ao diálogo com seus alunos sobre as possibilidades de carreira e sobre os interesses que eles
apresentam, sem, contudo, deixar-se levar pela vaidade ou mesmo pelas frustrações que possua.
Certa vez, por exemplo, por ocasião da minha pesquisa de doutorado, me foi contado o caso
de um professor de biologia que se ressentia imensamente em não ter sido aprovado no exame
vestibular para o curso de medicina. Quando sua melhor aluna disse animada que pretendia
cursar biologia, ele reagiu de forma negativa dizendo que não fazia sentido cursar biologia sendo
capaz de cursar medicina. De acordo com ele, a menina era boa demais para ser bióloga. A menina
sentiu-se desmotivada por ouvir tal afirmação daquele que era a sua imagem de biólogo, mas
felizmente não se deixou influenciar por isso e hoje é uma bióloga competente e realizada em
sua carreira.
77
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
exageros o que é positivo e o que é negativo em sua profissão. É essencial haver diálogo entre
professor e aluno de forma a esclarecer as dúvidas relacionadas a esses aspectos.
Sendo assim, podemos dizer que, para que a escola cumpra o dever que lhe foi atribuído pela
LDB de preparar o indivíduo para o trabalho e a cidadania, é fundamental que seu corpo docente
esteja consciente de que tudo o que transmite aos seus estudantes reflete na percepção que
eles terão das carreiras à disposição para sua escolha. O entusiasmo ou desinteresse com que
se relacionam com a própria disciplina influenciam de forma significativa a imagem construída
pelo aluno da matéria que ele leciona e das carreiras a ela associadas.
A família
A família é sempre o ponto de partida para a escolha vocacional do indivíduo, pois é a partir
dela que ele receberá sua primeira socialização, que, por ocorrer na primeira infância, torna-se
mais arraigada e, portanto, muito mais difícil de ser desconstruída. Esta é a primeira instituição
social com a qual o indivíduo estabelecerá relação e será ela a responsável pela transmissão de
ideias, valores, crenças e significados que, posteriormente, serão encontrados pelo indivíduo
nos demais contextos sociais em que estará inserido. No que diz respeito à escolha profissional
feita pelo jovem ou adulto, Silva (2006) afirma que:
Utilizando os estudos de Bohoslavsky (2003) como referência, Silva (2006) defende que devemos
considerar a família como principal grupo de referência do jovem ao escolher a carreira que seguirá,
pois, mesmo de forma inconsciente, as primeiras orientações recebidas dos pais e parentes, os
conflitos vividos no interior da família e mesmo as diversas identificações estabelecidas com as
atividades profissionais de seus familiares emergem no momento de escolha influenciando de
forma significativa a tomada de decisão do indivíduo.
78
Orientação vocacional e educação • AULA 5
A integração entre família e escola nem sempre é simples, mas apresenta vantagens significativas
ao desenvolvimento do aluno. No caso da orientação vocacional, vimos como a família é uma
influência significativa no momento de escolha profissional do aluno, e isso faz com que a
empreitada de trazê-la para mais próximo da escola seja válida.
Vejamos, então, os cuidados que devem ser tomados pelo orientador educacional em relação
aos diversos atores sociais com quem interage ao longo do processo de orientação vocacional
dos alunos:
O aluno
Muitas vezes, a figura do orientador educacional é associada pelos alunos apenas a questões
disciplinares, e isso acaba criando uma barreira na comunicação com o orientador. Para isso, é
preciso que o profissional esteja sempre atento para possuir autoridade diante dos alunos, sem,
contudo, ser autoritário e com isso eliminar as possibilidades de diálogo.
79
AULA 5 • Orientação vocacional e educação
muitas ocasiões este fator influencia todas as esferas de sua vida. Portanto, enquanto responsável
por acompanhar a vida estudantil do aluno, o orientador educacional deve estar sempre atento
a eventuais discrepâncias no rendimento, alterações no comportamento e problemas de
disciplina, que podem, em algumas circunstâncias, estar atrelados a este momento tenso em
que se encontra o aluno.
Nunca podemos perder de vista que a escolha final é sempre do indivíduo, mas cabe ao
orientador apresentar caminhos e facilitar a compreensão das opções, para que esta decisão não
seja traumática ou aleatória, mas sim consciente e responsável, visando o bem-estar e a plena
realização das potencialidades do aluno.
A família
O melhor caminho para isso, no entanto, não é o enfrentamento direto com pais e responsáveis,
nem mesmo a desqualificação de seu julgamento diante do aluno. É preciso trabalhar em parceria
com a família em prol do aluno, conscientizando a todos sobre os efeitos nocivos que uma escolha
malfeita pode trazer à saúde mental do jovem.
Esta orientação familiar deve ser feita ao longo de todo o processo, seja nas reuniões bimestrais
próprias do calendário escolar, seja em reuniões individuais agendadas com o intuito específico de
discutir o desempenho do aluno para trabalhar colaborativamente o seu processo de orientação
vocacional. Muitas vezes, as dificuldades de escolha do aluno ultrapassam o alcance da atuação
da orientação educacional, e nestes casos, cabe ao orientador um diálogo franco com os familiares
sobre o encaminhamento do aluno a um profissional de psicologia que possa acompanhá-lo.
Os professores
80
Orientação vocacional e educação • AULA 5
termos profissionais em nossa sociedade para que os professores possam compartilhar estes
conhecimentos com seus educandos e buscar sanar suas dúvidas da melhor forma possível.
Vale lembrar, ainda, que, para o professor estar bem informado, não representa apenas conhecer
de uma forma geral os rumos do mercado de trabalho, mas principalmente buscar o máximo de
dados sobre as profissões às quais sua matéria está associada. Anteriormente, analisamos o papel
desempenhado pelo professor enquanto embaixador de sua disciplina e figura de referência diante
de seus alunos. Sendo assim, o orientador deve estimular esta consciência de si nos professores,
propondo que seja sempre realizado um paralelo entre os conteúdos ministrados e a prática das
profissões a eles relacionados.
O trabalho de orientação educacional na escola deve ser encarado como um trabalho de equipe, e,
neste sentido, o orientador educacional deve atuar como técnico, criando estratégias, planejando
ações e, principalmente, preparando sua equipe de professores para o desempenho de tais
atividades. Para isso, todas as ocasiões devem ser aproveitadas, como reuniões de professores,
conselhos de classe, reuniões de curso, eventos da escola e assim por diante.
81
Aula
Orientação vocacional
na prática 6
Introdução
Objetivos
»» Analisar questões referentes à orientação de grupos típicos, que podem ser encontrados
no ambiente escolar.
82
Orientação vocacional na prática • AULA 6
Por esse motivo, é tão importante compreendermos melhor como se dividem as modalidades que
podem ser utilizadas para a elaboração de uma Orientação. Será por meio das modalidades que
cada orientador delimitará seu perfil de trabalho, definindo suas técnicas e seu direcionamento.
Modalidade Estatística
Nesta modalidade, o profissional deverá, em um primeiro momento, conhecer as aptidões e os
interesses do orientando, para depois elaborar um trabalho que correlacione os gostos desse
indivíduo com as chances existentes no mercado.
»» Interesse: neste caso, o cliente ainda não possui muita noção de seus gostos. Precisa
começar a se conhecer;
Modalidade Clínica
Na modalidade clínica, o profissional poderá auxiliar o orientando à proporção que as
responsabilidades da escolha sejam assumidas por este. Para que o orientador conheça melhor
83
AULA 6 • Orientação vocacional na prática
o seu cliente, a entrevista acaba sendo utilizada como um dos principais instrumentos. Sem
dúvida, a autonomia é sempre enfatizada.
»» Papel do Orientador: ele deverá caminhar junto com o orientando, buscando ajudar a
sanar suas dúvidas e incentivar sua autonomia;
Todo processo de orientação vocacional possui uma estrutura com determinados itens que
sempre estarão presentes e deverão ser definidos através dos encontros com os clientes.
Uma boa delimitação, tendo consciência das principais características destes tópicos, determinará
um bom caminhar no processo de orientação vocacional. Vamos ver os principais itens.
Início
Enquadre: Quando falamos de enquadre, nos remetemos à “cara” que o processo vai apresentar.
Em todo serviço de orientação vocacional, precisamos delimitar o que será oferecido.
Quando sabemos qual o foco, fica mais fácil acertar o processo, e esse foco será definido de
acordo com determinadas questões que precisam ser respondidas, tais como: o que, para que,
como, com quem, onde, com o que e quando.
Modalidade de Trabalho: Neste ponto, o orientador deve buscar conhecer como será desenvolvido
o seu trabalho, se de maneira individual, em grupo, na escola, no consultório, na clínica, em
uma ONG, em organizações, em instituições, entre outras. Devemos lembrar que não existem
melhores formas de se trabalhar, em todas elas cabe ao profissional pesar os pontos positivos e
negativos que estarão diretamente relacionados ao contexto de cada uma.
84
Orientação vocacional na prática • AULA 6
Entrevista Inicial: Durante a entrevista inicial, procura-se conhecer qual a demanda do orientando.
Buscamos compreender o que espera o orientando ou quem está contratando nosso serviço.
Quando atuamos em uma instituição, como a escola, esta entrevista não se faz necessária, pois
a demanda já está definida, por exemplo: orientação vocacional com alunos do 3° ano do ensino
médio: voltados para o vestibular.
Meio
Material Informativo
Todo e qualquer tipo de Orientação utiliza materiais básicos para desenvolver-se. Será por
intermédio deste material que o profissional possibilitará ao orientando estabelecer contato
maior com o mundo das profissões. O material informativo pode ser utilizado enquanto:
Objetivos: Estimular um contato ativo com a informação profissional, por meio de um exercício lúdico, de modo a
estabelecer as possíveis relações existentes entre as ocupações e a situar as próprias identificações profissionais.
Material: Conjunto de cartões nos quais são escritas as diversas profissões/ocupações surgidas ao longo do processo
de Orientação Vocacional.
Proposta: Apresentar ao orientando uma quantidade de cartões em que cada um tem o nome de um curso ou
profissão.
1ª etapa: entregar os cartões ao cliente, pedindo a ele: “Faça de conta que cada cartão representa uma pessoa. O que
você deve fazer é estabelecer relações entre as diferentes pessoas, como se se tratasse de definir quais são as famílias
a que elas pertencem”.
2ª etapa: pedir ao cliente que faça uma apresentação das famílias; descrevendo de maneira detalhada as
características de cada uma.
85
AULA 6 • Orientação vocacional na prática
3ª etapa: fornecer a seguinte instrução: “Imagine que você dê uma festa em sua casa, para a qual não pode convidar
todas as pessoas. Quais você convidaria com certeza, quais não convidaria, e em relação a quais ficaria em dúvida?”
Essa sugestão da festa é para o orientando utilizar a fantasia com vistas a imaginar possíveis relações entre as
profissões.
4ª etapa: pode-se solicitar ao orientando que crie conversas entre os possíveis profissionais; para que o orientador
consiga perceber os pensamentos do sujeito em relação a interesses, gostos, características pessoais, simpatias e
antipatias.
Desenvolvimento: Nesta etapa, o orientando terá conhecimento do valor que atribui às profissões. O orientador deverá
observar como o orientando se posiciona com relação ao meio profissional, percebendo suas possíveis distorções,
estereótipos e identificações do mesmo com as carreiras.
Fonte: Elaboração da autora com dados de BOHOSLAVSKY, 2003, apud LIMA, 2007, pp. 118-120.
Técnicas Lúdicas
Correspondem a atividades que promovem um levantamento de dados sobre cada sujeito frente
a determinadas situações e sobre o grupo. Entre as possíveis técnicas, temos:
Material: Espaço reservado com cadeiras, almofadas, papéis coloridos, canetas e outros itens que o orientador perceba
serem necessários para a representação.
Desenvolvimento: O orientador propõe um cenário simulado, ajudando o grupo ou o sujeito a estabelecer os papéis,
facilitando depois para que ele(s) relate(m) seus sentimentos e percepções da vivência, elaborando sua parte.
86
Orientação vocacional na prática • AULA 6
Entrevistas
São os principais recursos utilizados para conhecer o orientando e entender quais seus gostos e
interesses. Será pelas entrevistas que o orientador conseguirá auxiliar o sujeito a conhecer suas
capacidades e saber lidar com suas dúvidas. As entrevistas apresentam resultados subjetivos,
com características específicas do momento vivido pelo orientando.
Momento de conhecimento
Objetivos: Investigar as capacidades do orientando, proporcionando um momento para que este possa perceber o que
espera de si mesmo e de seu futuro profissional.
Proposta: O orientador deverá formular questões abertas e fechadas, facilitando o momento de reflexão do orientando.
Perguntas como as que estão abaixo, são algumas que podem ser utilizadas durante a entrevista:
1 quais profissões você se vê exercendo no futuro?
2 como se sente em relação ao trabalho de seus pais?
3 você já decidiu que carreira quer seguir?
4 quais suas dúvidas em relação às profissões?
Testes
São os instrumentos utilizados para que o orientador possa conhecer um pouco mais sobre
a personalidade do orientando. Não existem testes específicos de orientação vocacional, eles
devem ser utilizados de maneira consciente. Quanto mais o orientador conhecer o orientando,
melhor poderá determinar o uso de testes específicos.
Frases Incompletas
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
Desenvolvimento: Observar as respostas do orientando e procurar conversar com ele sobre suas projeções, aspirações
e conflitos que surgem com as respostas das questões acima.
Questionários
Desiderativo Vocacional
Objetivos: Investigar as possíveis identificações presentes nas escolhas profissionais.
Material: Folha impressa com cinco questões indicadas a seguir, lápis ou caneta, borracha.
Desenvolvimento: Solicitar que o orientando responda às questões da melhor maneira possível. Assim que o
orientando acabar, pedir a ele que explique suas respostas, investigando cada uma das pessoas que ele citou.
Também deve ser observada a vida profissional de cada uma das pessoas citadas nas respostas, onde o orientando
poderá refletir o que o vincula a cada uma dessas pessoas. Através desses diversos materiais coletados ao longo do
desenvolvimento da orientação, o trabalho poderá ser delineado e cada orientando será capaz de reagir aos que
melhor provocarem seu interior; em busca de seu melhor conhecimento sobre si mesmo.
Fonte: Elaboração da autora com dados de MULLER apud LIMA, 2007, p. 115.
88
Orientação vocacional na prática • AULA 6
Final
Após todo o processo, o orientador estará com diversas informações referentes ao perfil profissional
de seu orientando. Caberá ao orientador perceber qual a melhor maneira de dar um retorno ao cliente
sobre seu resultado. Nesta etapa do processo de orientação vocacional, dependendo da modalidade
escolhida, o profissional pode utilizar a entrevista de devolução e/ou a elaboração de laudo.
Entrevista de devolução
A entrevista de devolução pode ser realizada de forma individual ou em grupo. Quando a primeira
opção é escolhida, as questões pessoais do orientando podem ser abordadas. Normalmente, a
modalidade estatística centra sua devolução nos resultados dos testes, enquanto a modalidade
clínica opta por discutir questões mais subjetivas do processo.
Laudo
O laudo é um dos itens que podem estar presentes no processo de devolução e o orientador deve
voltar sua atenção a ele. Todo profissional deve ter cuidado ao elaborar o laudo para seu cliente, pois
o documento apresentará informações específicas que deverão ser explicadas cuidadosamente,
evitando interpretações erradas. Cada laudo deve apresentar determinados dados específicos:
identificação do orientando; identificação do orientador; a demanda; o procedimento adotado;
análise e conclusão. O profissional precisa estar atento para desenvolver um laudo da forma mais
ampla possível, procurando não rotular o orientando com aptidão apenas para determinadas
profissões. Deve-se mostrar ao cliente que ele possui determinadas áreas de interesse, que podem
direcioná-lo a diferentes carreiras.
Cada processo de orientação vocacional precisa levar em conta determinados aspectos que
delimitarão as diferenças do trabalho. O orientando está sujeito a sofrer diversas influências e
determinados fatores podem agir diretamente no momento de escolha.
O orientador precisa estar atento para diversos aspectos como: histórico escolar – o rendimento
do orientando irá demonstrar algumas de suas preferências; história familiar – a partir dela o
orientador poderá compreender inclinações para profissões específicas; e maturidade – cabe
ao profissional perceber em que grau de maturidade está seu orientando.
Segundo Bohoslavsky (2003, p. 91), cada profissional precisa basear-se em alguns questionamentos
para melhor delimitar o perfil de seu orientando. Seriam perguntas como:
»» O orientando tem capacidade de assumir sua escolha profissional sem mudar sua
personalidade?
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
»» Ele já apresenta maturidade para tomar uma decisão quanto ao seu futuro profissional?
»» Esse é o melhor momento para que ele inicie sua orientação vocacional?
Por essas essas perguntas, o profissional poderá entender melhor a situação que se apresenta e
agir corretamente com seu cliente.
Outro ponto que sempre deve ser observado atentamente pelo profissional é que tipo de
informações, como e a quem devem ser transmitidas. Seus clientes geralmente apresentarão
conhecimentos sobre as carreiras e sobre o meio científico. Este contato durante o processo
escolar proporciona uma absorção de conhecimento de maneira passiva, em que muitas vezes
o orientando não consegue perceber todas as informações que já adquiriu.
Sendo assim, caberá ao orientador fornecer informações ao seu cliente da forma mais clara e
objetiva possível, apresentando as diferentes atividades profissionais. Ainda de acordo com
Bohoslavsky (2003, p. 147), existem quatro recomendações básicas que todo orientador deve
estar atento ao trabalhar com cada orientando. São elas:
»» Caberá ao orientador estar atento ao nível profissional a que o orientando almeja chegar.
Cada cliente possui um ideal de como gostaria de trabalhar e o orientador precisa estar
atento para passar as informações adequadas ao perfil de cada orientando.
90
Orientação vocacional na prática • AULA 6
A autora questiona:
Mas é apenas para isso que serve a Orientação Profissional? Será que este campo
não seria mais amplo? Particularmente parece-me extremamente limitante
encarar a área de Orientação Profissional como: teorias, técnicas, programas
para ajudar o aluno de 3º colegial a escolher uma faculdade. Com isso não
considero desnecessário ou sem valor este tipo de trabalho, mas é apenas uma
das possibilidades de intervenção do orientador (UVALDO, 1995, p. 216).
Ampliando a discussão da autora, acho importante salientar que, nem mesmo quando
desempenhado dentro da escola, o projeto de orientação vocacional pode centrar-se apenas
nas turmas de terceiro ano ou pré-vestibular. É fundamental que este projeto se inicie o quanto
antes e abarque todos os grupos presentes na escola, para que acompanhe todo o processo de
amadurecimento e desenvolvimento vocacional dos alunos.
Vale lembrar ainda que, apesar de representativo em nossa sociedade, o vestibular não é o único
momento de escolha profissional que se apresenta ao jovem, pois o desempenho de uma atividade
profissional não está necessariamente atrelado a um curso de nível superior.
Outro ponto importante, e que deve ser observado com muita atenção pelo orientador vocacional,
é estar atento aos meios e instrumentos utilizados em cada contexto, pois, como discutimos
na primeira aula deste caderno, não existe uma fórmula mágica que funcione igualmente bem
com todos os orientandos. Cada projeto de orientação, tendo em vista as idiossincrasias e
especificidades do sujeito ou grupo orientado, torna-se único.
A seguir, veremos alguns grupos típicos com os quais o orientador vocacional que atua no
ambiente escolar pode se deparar. Discutiremos suas principais características e sugeriremos
atividades interessantes que podem ser utilizadas em cada caso. Vale ressaltar, no entanto, que
tais atividades não são exclusivas para estes grupos específicos. Você pode utilizá-las em outros
contextos, desde que isso seja coerente e sejam feitas as devidas adaptações quando necessário.
A idade pré-escolar é um momento bastante frutífero para a orientação vocacional, pois, como
salientam Pasqualini, Garbulho e Schut (2004), é quando a criança começa a reproduzir em
seus jogos as funções sociais e as atividades desempenhadas pelos adultos. O jogo, suas regras
e os papéis a serem desempenhados nele, em certa forma, reproduzem a vida social e suas
possibilidades, oferecendo à criança a possibilidade de vivenciar as atividades que percebe ao
seu redor. Nas palavras de Andrade,
91
AULA 6 • Orientação vocacional na prática
A partir dessa prática, a criança dá início ao processo de desvendar a realidade social em que
está inserida, e isso deve ser feito com o auxílio de ações educativas que estimulem as facetas
positivas da realidade reproduzidas nos jogos e desencorajando as interpretações de mundo
vistas como negativas.
De acordo com Pasqualini, Garbulho e Schut (2004), é justamente esta possibilidade de intervenção
precoce na interpretação e representação que a criança faz do mundo que indica a importância da
orientação vocacional nesta faixa etária. Segundo as autoras, a orientação vocacional combinada
com ações educativas sistemáticas poderiam evitar a apropriação dos papéis adultos de forma
estereotipada, com vistas a favorecer “a desconstrução de preconceitos e estereótipos relacionados
às diferentes atividades profissionais” (PASQUALINI; GARBULHO; SCHUT, 2004, p. 74).
A visão do trabalho em si, também, deve ser construída com a criança para que ela compreenda esta
atividade como algo prazeroso e realizador e não como algo imposto e sacrificante, que desqualifica e
anula o sujeito sendo desempenhado apenas para garantir a subsistência material do indivíduo. Essa
visão é recorrente principalmente entre as camadas populares da sociedade e é outra representação
estereotipada que precisa ser desconstruída no imaginário infantil para que a criança se torne um
adulto que busque prazer e realização em sua atividade profissional, seja ela qual for.
Paralelo a isso, a orientação vocacional com crianças tem também o benefício de preparar o
indivíduo para lidar de forma positiva com a escolha. Ainda consoante Pasqualini, Garbulho e
Schut (2004, p. 75), “Escolher (com maior ou menor autonomia) supõe a oportunidade de viver
situações no cotidiano que favoreçam a aprendizagem da escolha. Ela não acontece de repente,
descolada da história do indivíduo, como um fato isolado”.
Proposta: Pedir aos alunos que desenhem ou façam uma colagem sobre o local onde moram e as pessoas com quem
eles convivem neste local como sua família, os vizinhos, o carteiro, o funcionários do mercado.
Desenvolvimento: Durante a elaboração dos desenhos, é importante dar liberdade à criança para desenhar aquelas
pessoas que para ela sejam importantes em sua redondeza. Depois dos trabalhos prontos, o orientador vocacional
deve pedir à criança para apresentar sua produção, identificando cada uma das pessoas retratadas e as atividades
desempenhadas por elas.
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Orientação vocacional na prática • AULA 6
Preocupe-se em enfatizar a importância de cada uma dessas atividades, seja a do médico do posto de saúde ou a
do varredor de rua, para a vida na comunidade. Assim, pretende-se desconstruir representações estereotipadas ou
preconceituosas, salientando a interdependência dos indivíduos e a importância das partes para o bom funcionamento
do todo.
Devido ao fato de a escolha profissional se dar neste período da vida, o adolescente é o cliente
mais comum da orientação vocacional. No entanto, muitas vezes olhamos com tanta atenção para
os alunos que estão finalizando o Ensino Médio e se preparando para ingressar na universidade,
que acabamos negligenciando outros momentos importantes de escolha com os quais o jovem
se depara.
O término do Ensino Fundamental é uma etapa importante na vida escolar do aluno, pois a
entrada no Ensino Médio traz com ela o contato com novas disciplinas, como a química, a física
e a biologia, que podem ter grande impacto sobre a escolha de carreira do adolescente. Nesta
etapa, apresenta-se também um novo leque de modalidades de estudo e instituições de ensino
que anteriormente não estavam disponíveis ao sujeito.
Como sinaliza Fabiano Silva (1995), neste período muitos alunos apresentam dúvidas sobre
ingressar ou não em cursos técnicos. Para alguns, esta seria uma especialização de nível médio
que lhe garantiria uma atividade profissional; para outros, o curso profissionalizante é visto como
uma espécie de preparação para a universidade, no qual o indivíduo começa a se familiarizar
com as questões próprias da área de atuação a que pretende se dedicar.
O mais importante a ser considerado, aqui, é que nos dois casos apresentados já existe uma
demanda de escolha muito forte, que precisa ser levada em consideração, desmistificando a
ideia largamente disseminada no senso comum de que a opção profissional só é feita ao final
do Ensino Médio.
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
Material: Lápis, borracha ou caneta e uma folha impressa com os seguintes itens:
1 Falta absoluta de energia elétrica por seis meses.
2 Falta absoluta de água no planeta durante três meses.
3 Greve geral de todos os meios de transporte por um mês.
4 Falta absoluta de frutas e legumes por dois anos.
5 Greve total de médicos por seis meses.
6 Greve total de policiais e bombeiros por oito meses.
7 Falta absoluta de todo e qualquer anestésico por quatro meses.
8 Greve geral da imprensa falada, escrita e televisionada por dez meses.
9 Falta absoluta de petróleo por três anos.
10 Proibição total à prática de qualquer religião por cinco anos.
Proposta: Solicitar ao orientando que escolha, entre as dez catástrofes listadas, as cinco que causariam maiores danos
à humanidade, ordenando-as em ordem decrescente de gravidade, da mais grave para a menos grave.
Marcar aproximadamente dez minutos para que o cliente resolva o problema apresentado. No caso de orientações
individuais, saia da sala durante os dez minutos. No caso de orientações em grupo, impeça as conversas paralelas e
mantenha-se distante e inacessível. Depois, justifique-se, dizendo que a tomada de decisão é uma atitude solitária e
implica toda reflexão possível.
Desenvolvimento: Concluída a produção, questionar os passos seguidos para a tomada de decisão. Por meio de
perguntas, favorecer para que o sujeito perceba as etapas da realização da atividade.
Ajudá-lo a refletir que:
1 Teve de se confrontar com o problema e equacioná-lo – disposição para a tomada de decisão.
2 Necessitou de esclarecimentos e informações sobre o assunto – importância das informações para a elaboração da
tomada de decisão.
3 Baseou-se em critérios gerais e específicos/ individuais – importância do autoconhecimento.
4 Teve que refletir em busca de soluções alternativas para escalonar suas escolhas – necessidade das informações +
autoconhecimento.
5 Empenhou-se no encontro da melhor alternativa para a tomada de decisão – realização da escolha.
Esclarecer que a “tomada de decisão” é, na verdade, uma consequência de todo um processo de elaboração e
questionar em qual momento o cliente pensa se encontrar: está-lhe faltando informações? Seus critérios são claros?
Que ajuda acredita necessitar ainda para sua tomada de decisão?
O Vestibular, exame pelo qual devem passar todos aqueles que estão pleiteando uma vaga no
ensino superior, é um momento crucial na vida desses alunos. Neste período, o indivíduo sente-se
pressionado não só pela necessidade de escolher uma carreira, mas também por provar seu
valor sendo aprovado no exame.
Como salientam Geruza D´Avila e Dulce Soares (2003, p. 114), “[...] os motivos levantados como
geradores de ansiedade, o medo da reprovação, o excessivo número de matérias para estudar e
o medo de decepcionar alguém, elevado número de candidatos por vaga são os mais indicados
pelos vestibulandos”.
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Orientação vocacional na prática • AULA 6
Destarte, podemos dizer que, ao elaborar um projeto de orientação vocacional direcionado aos
alunos do 3º ano do ensino médio ou do pré-vestibular, é preciso não só utilizar todas as técnicas
discutidas ao longo deste módulo para auxiliar o aluno a escolher uma opção de carreira, mas,
também, ficar atento para lidar com a ansiedade característica deste momento da vida.
Para que isso seja feito, é importante frisar ao aluno que a tomada de decisão vocacional não
é definitiva, podendo ser mudada ou reorientada ao longo da vida. Isso ameniza o fardo que
muitos jovens vivenciam ao pensar que estão definindo de forma permanente aquilo que serão
ao longo de toda vida.
Dobradura
Objetivos: A dobradura é uma técnica expressiva. Pode ser usada como objeto intermediário que facilite ao cliente
verbalizar necessidades, receios, conclusões. É mais apropriado que seja usado em uma fase de conclusão do trabalho
de Orientação Vocacional.
Material: Folhas de papel de tamanhos, tipos e texturas diferentes (pelo menos cinco folhas), tesoura e cola.
Proposta: Espalhar as folhas sobre a mesa de forma que o cliente possa ver pelo menos uma parte de cada uma
delas. Dizer: “Você vai escolher um desses PAPÉIS (enfatizar essa palavra) e fazer com ele um objeto, uma dobradura
ou montagem qualquer. Esse objeto deverá representar o que foi para você este trabalho ou o que você está sentindo
neste momento final do processo de OV ou a que conclusão você chegou a partir dele”.
Desenvolvimento: Terminada a produção, o orientador solicitará ao cliente que explique o que ele executou. Perguntas
podem ser feitas para facilitar a verbalização e as conclusões. É importante que seja investigada a questão da escolha
de papel e o sentido do objeto confeccionado, relacionando-os à escolha do curso/profissão (a questão da escolha do
papel profissional, motivos, objetivos, expectativas).
O orientador deve facilitar a reflexão por meio do questionamento com perguntas tais como:
- Por que você escolheu este “papel”?
- Quando o escolheu, sabia o que iria fazer com ele?
- Sabe o que está escolhendo em relação à sua vida profissional, qual será o seu papel profissional, o que vai
desempenhar?
Quadro 11.
Folha de finalização
Objetivos: Verificar se o orientando concluiu o processo fazendo a sua escolha profissional. Caso não tenha sido feita
uma escolha profissional, verificar os motivos e os possíveis encaminhamentos. Por esta atividade, deve-se também
avaliar a condução do atendimento e os efeitos do processo no orientando.
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
Proposta: Solicite ao orientando que leia atentamente cada questão, respondendo-as em seguida.
Desenvolvimento: Solicitar ao orientando que comente as suas respostas e avaliar, com ele, a sua escolha profissional.
Caso a escolha profissional não tenha sido concluída, avaliar os possíveis motivos para isso e o encaminhamento do
aluno a um profissional de psicologia caso seja necessário.
Durante muito tempo, a reorientação de carreiras foi vista pela sociedade como uma demonstração
de instabilidade e inconstância daquele que decidia seguir um novo rumo. No entanto, estamos
nos deparando cada vez mais com uma realidade em que a mudança de rumo profissional é vista
como um aspecto positivo do currículo do indivíduo que, através desta iniciativa, demonstra não
só flexibilidade como a vontade de ampliar suas experiências. Como salienta Mariza Lima (2007):
O orientador vocacional que atua na escola se depara com esta situação de reopção vocacional
ao lidar com os alunos do supletivo que, depois de um percurso de vida determinado, decidem
retomar seus estudos para reorientar suas vidas.
Ao lidar com esses casos, o orientador vocacional deve considerar que, na maior parte das vezes,
esses adultos são desempregados, subempregados, ocupacionalmente instáveis ou insatisfeitos
com a atividade profissional que desempenham. Sendo assim, o processo de orientação vocacional
deve seguir os procedimentos usuais tendo como preocupação adicional identificar as causas
que o levaram a esta situação profissional instável. De acordo com Fernando Mello (2002, p.
147), o orientador vocacional nestes casos deve sempre se perguntar se esta nova escolha “se
deve apenas a condições adversas de mercados de trabalho ou se deve também a uma opção
ocupacional inadequada”.
Satisfação no trabalho
Objetivos: Levantar a questão da satisfação e da motivação no trabalho e relacionar esses conceitos com os aspectos
sociais, culturais e pessoais.
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Orientação vocacional na prática • AULA 6
Proposta: Solicitar aos alunos que busquem em revistas imagens de profissionais. Em uma folha de papel dividida
ao meio, pedir a eles que colem do lado direito os profissionais que parecem satisfeitos com o trabalho e do lado
esquerdo os que não estão.
Desenvolvimento: Pedir ao aluno que explique, pormenorizadamente, a escolha de cada uma das figuras e a inclusão
dela em um ou outro lado da folha. Na exploração da técnica, o orientador deve atentar para os detalhes mencionados
a seguir:
1 Que fatores levaram o aluno a escolher a imagem como a de um profissional?
2 Que aspectos fizeram com que ele identificasse esta imagem como a de alguém satisfeito ou insatisfeito com a sua
profissão?
3 Essas respostas estão, de alguma forma, conectadas com a atual situação profissional do aluno?
4 Essas respostas refletem as expectativas dele com relação ao futuro profissional?
5 Tendo discutido tais questões, reflita junto com os alunos o que pode ou deve ser feito para que as pessoas alocadas
no lado dos insatisfeitos possam migrar para o dos satisfeitos.
Na sociedade em que vivemos, as pessoas com algum tipo de deficiência são comumente vistas
como incapazes, que devem viver condenadas a depender da boa vontade e da produtividade
das pessoas “normais”.
No entanto, esta é uma visão preconceituosa e equivocada, que não considera toda a contribuição
que pode ser dada por estes indivíduos à sociedade, bem como a necessidade que possuem de
fazer parte ativamente do mundo que os cerca de forma útil e digna.
Certamente, a orientação vocacional dos portadores de necessidades especiais tem como base
um leque reduzido de opções, em virtude de suas limitações específicas, sejam elas auditivas,
visuais, físicas, neurológicas ou intelectuais. O importante, no entanto, é estar consciente e
conscientizar o próprio orientando de que, apesar de ser limitado para algumas atividades, ele
é plenamente capaz de desempenhar uma série de outras.
Ao conduzir um projeto de orientação vocacional com essas características, Mello (2002) afirma
que o orientador deve ter as seguintes preocupações:
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
Como em qualquer outro caso de orientação vocacional, o foco é fornecer ao indivíduo todas as
informações de que necessita para encontrar a atividade ideal para ele.
Material: Lápis e borracha ou caneta; folha de papel A4 ou ofício dividida em quatro partes iguais, no topo das quais o aluno
escreverá “Gosto e faço”, “Gosto e não faço”, “Não gosto e faço” e “Não gosto e não faço”, como indicado no modelo abaixo:
Proposta: Solicitar que o orientando preencha os quadrantes com as atividades que realiza em seu dia a dia,
procurando lembrar-se do maior número possível delas. Vale salientar que geralmente a pessoa lista atividades da
vida diária e não apenas aquelas que podem ter conexão com atividades profissionais.
OBS.: Esta tarefa pode ser realizada em casa e trazida pronta para a discussão durante a sessão.
Desenvolvimento: Ouvir a exposição feita pelo aluno, auxiliando-o a perceber em qual dos quadrantes se concentra
um maior número de atividades. Quanto mais atividades nos quadrantes “Gosto e faço” e “Não gosto e não faço”,
tanto melhor. Enfatize o quanto isso pode estar tornando a pessoa feliz, por estar fazendo aquilo de que gosta em
detrimento daquilo que não gosta.
Caso o maior número de atividades esteja nos outros dois quadrantes, ajude seu orientando a refletir sobre como pode
fazer para mudar a situação. É possível mudar as atividades de quadrante e passar a fazer o que gosta ou deixar de
fazer o que não gosta?
Favoreça para que a pessoa pense o que isso pode estar significando em sua vida e o ajude a refletir sobre o que a
atividade profissional que está selecionando para si envolverá em termos de tarefas e atividades a serem desenvolvidas.
Este é um bom momento para verificar os conhecimentos do orientando sobre informações profissional/ ocupacional.
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Orientação vocacional na prática • AULA 6
As emoções são a matéria-prima para os projetos de vida juntamente com uma combinação
única de fatores sociológicos, psicológicos e históricos que agem sobre a biografia pessoal do
indivíduo tornando-a única e impossível de ser repetida. Dessa forma, o projeto individual passa
a ser uma forma consciente e emocional de atribuir sentido a uma experiência de vida que é
fragmentadora, permitindo que o sujeito a vivencie como algo coerente e único.
Contudo, mesmo que os projetos sejam vivenciados pelos indivíduos como algo profundamente
pessoal, é preciso ter em mente que eles são elaborados dentro de um campo de possibilidades
que é definido pelo contexto social e histórico no qual está inserido. Como exemplifica Gilberto
Velho (2004):
É preciso ter em mente que, à medida que os valores e as expectativas dos indivíduos de classes
diferentes são distintos, as motivações que norteiam a elaboração de um projeto individual e,
consequentemente, a escolha profissional, também são distintas. Como argumenta Gilberto
Velho (2004, p. 22) a esse respeito, “Para uma família que vive em situação de penúria pode ser
relativamente pouco importante a reprovação do filho na escola comparada com sua necessidade
de dispor de mão de obra para atender às necessidades mais elementares de sobrevivência”.
Não está sendo defendido um “fatalismo sociológico” pelo qual, uma vez que o indivíduo
nasce em uma classe social determinada, seu desenvolvimento intelectual e emocional estaria
definido e marcado de uma vez por todas. Contudo, devemos apresentar todas as opções de
carreira ao aluno sem ignorar a influência representativa da questão de classe na escolha
profissional do indivíduo.
A partir dessa reflexão, podemos dizer que, ao iniciar um projeto de orientação vocacional com
camadas populares, o orientador vocacional deve ter atenção às seguintes questões, que podem
parecer ambíguas, mas são fundamentais para este tipo de atuação:
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AULA 6 • Orientação vocacional na prática
Nos dois casos, a informação será o principal veículo para instrumentalizar o aluno para a escolha.
Por isso, o orientador vocacional deve se manter a par dos programas de auxílio universitário,
bem como dos programas de formação técnica e profissionalizante que estejam à disposição
do aluno.
Exercício de Introspecção
Objetivos: Promover a introspecção, levando o indivíduo a pensar sobre as atividades que executa, as que desejaria
executar e sobre o que lhe falta para que isso aconteça. Com isso, pretende-se favorecer a elaboração de um plano de
ação para o alcance de objetivos.
Proposta: Solicitar ao cliente que leia atentamente todas as questões, respondendo-as a seguir.
Desenvolvimento: Terminado o registro das respostas, o orientador deverá lê-las silenciosamente. A seguir, pedirá ao
orientando que comente cada resposta com detalhes, solicitando que, se possível, amplie suas colocações. Enfatizar os
aspectos positivos apontados, procurando ajudar o cliente a buscar soluções para suas dificuldades e limitações.
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