015-Henrique Cazes PDF
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PALHETADAS ESTRUTURANTES:
O acompanhamento do samba ao cavaquinho
RIO DE JANEIRO
2019
Henrique Leal Cazes
PALHETADAS ESTRUTURANTES:
O acompanhamento do samba ao cavaquinho
Rio de Janeiro
2019
Dedico este trabalho a todos os cavaquinistas acompanhadores de samba,
heróis quase sempre anônimos que deram por um século o tom da batucada.
AGRADECIMENTOS
The objective of this research is to investigate and document the structural role of
cavaquinho in the accompaniment of samba, with emphasis on the period between 1964 and
1980, when a series of technological, cultural and commercial factors created the conditions for
the improvement, valorization and diversification of its practice. The term "palhetadas"
mentioned in the title, is designated here as the rhythmic pattern executed by the cavaquinho in
the samba accompaniment. The work initially shows the cavaquinho used in Brazil, its
constructive characteristics and functionality, as well as practical factors that boosted its
performance in the samba’s environment: low cost, portability and possibility of being played
in movement during the carnival parade. Once the link between samba and cavaquinho is
established, the research advances in the historiographic area, detailing the participation of the
instrument in samba recordings, from 1912 to 1980 and highlighting the points of inflection,
when relevant changes occurred. The appearance of the so-called "conjunto regional" was
detailed with the crossing of musical data extracted from recordings with information obtained
in the "Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional". This rhythmic-harmonic base consisted of
two or three guitars, cavaquinho and percussion, was the hegemonic instrumentation in the
samba accompaniment between the 1930s and 1960s. The musical work of a samba recording
at the studio using analog multichannel system was reconstructed through an ethnographic
allegory. Interviews with cavaquinho players and arrangers who worked in that period establish
a dialogue with the related authors showing the dynamic work of the collaborative chain that
emerges in the process of a samba recording. Five cavaquinho players who had outstanding
performances during the analysed period and their "palhetadas" were detailed described through
a notation model specifically developed for this purpose. In this notation system, in addition to
pentagram notes and chords, a picking line is added in order to specify the movement of the
pick. The rich diversity of cavaquinho’s accompaniment in samba has been largely documented
and the analysis of the transcribed material has revealed a universe of nuances.
Tabela 1: Quantidade de discos de Samba e MPB dentre os 50 discos mais vendidos no Brasil
entre 1965 e 1980 (Fonte: ABPD/NOPEM) ................................................................... 129
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 1
6 REFERÊNCIAS................................................................................................. 164
INTRODUÇÃO
violonista que usava esse pseudônimo (Roque Ricciardi, 1890-1976). Outra afinação que já
teve mais uso e hoje se restringe normalmente a solistas de cavaquinho é a Ré-Sol-Si-Mi,
melhor para o solo pois facilita o acesso à terceira oitava do instrumento. A afinação em quintas
como a do bandolim Sol-Ré-Lá-Mi também foi e é utilizada, sendo apelidada por alguns
cavaquinistas como "cavacolim".
Se na questão do timbre existe variedade, no campo rítmico isso se multiplica. Pelo
que pude observar ao longo de minha experiência como profissional do cavaquinho, para ser
funcional na condução do acompanhamento do samba, o instrumento deve executar as oito
semicolcheias do compasso 2/4, fazendo com que o tecido harmônico se encaixe na base de
percussão. As inúmeras possibilidades de acompanhamento foram exploradas pelos
cavaquinistas através de alteração de acentos, utilização de palhetadas para cima ou para baixo
(nem sempre atingindo todas as cordas) e do chamado staccato percussivo (termo que discutirei
mais adiante), ou seja, uma afrouxada nos dedos da mão que aperta as cordas, que gera ataques
surdos (na nomenclatura utilizada nos métodos de guitarra elétrica ghost notes). Combinando
esses elementos com maior ou menor habilidade e criatividade, os cavaquinistas multiplicaram
as possibilidades de acompanhamento no samba, criando verdadeiras "assinaturas" que se
tornaram identitárias do trabalho de diferentes intérpretes. Assim, quando escuta uma gravação
em que o cavaquinho "puxa" o samba, para usar a expressão usual no meio sambístico, um
ouvinte habitual do gênero pode identificar se a gravação que vai ser ouvida é de Martinho da
Vila (Martinho José Ferreira, 1938), Paulinho da Viola (Paulo César Batista de Faria, 1942) ou
Clara Nunes (Clara Francisca Gonçalves Pinheiro, 1942-1983), antes mesmo do canto se
iniciar. Com Martinho se ouviria Mané do Cavaco (Manoel Ferreira de Carvalho, 1931-2013),
com Paulinho o próprio cantor é o cavaquinista e com Clara a identidade da gravação seria
definida pelo cavaquinho afinado como bandolim e tocado por Carlinhos (Carlos Alberto da
Silva Ferreira, 1933-1991), do "Conjunto Nosso Samba". Essas "assinaturas" estarão transcritas
e tecnicamente analisadas no Capítulo 4.
A importância do ritmo executado pelo cavaquinho no acompanhamento do samba
vai além do simples apoio harmônico e tem influência decisiva na caracterização do estilo de
samba que está sendo executado (batucada, partido alto, samba choro, samba canção, etc.) e a
partir dessa caracterização, outras escolhas vão sendo feitas. O produtor e arranjador Rildo Hora
(1939) afirma que é a palhetada, ou seja, o padrão rítmico escolhido pelo executante do
cavaquinho, que define "a cor da percussão" numa gravação de samba.
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técnico para a valorização dos timbres percussivos nas gravações comerciais. Neste
momento, de forma prioritária, a sonoridade do pandeiro, do agogô, tamborim e surdo
de marcação passa a ocupar um papel de maior importância nas gravações; o
cavaquinho chega "pra frente" na mixagem e, ao mesmo tempo, os violões se
encarregam de fixar o ritmo, a harmonia e a condução do baixo. (TROTTA, 2011, p.
64)
Se compararmos uma gravação realizada em multicanal com uma feita pouco tempo
antes em 2 canais, poderemos perceber uma grande diferença de clareza em relação ao som do
cavaquinho. Essa clareza, obtida com o sistema multicanal, garantiu a confiabilidade das
transcrições detalhadas das palhetadas presentes no Capítulo 4.
Essa alteração de tecnologia mexeu ainda com a dinâmica das gravações, pois elas
deixaram de ser feitas com todos os músicos tocando simultaneamente e passou-se a gravar em
etapas: base (com harmonia e percussão reduzida), dobras de percussão, complementos de
arranjo, coro, voz e finalmente a mixagem. Isso fez com que cada etapa pudesse ser mais
cuidada e valorizada em termos de som e de execução, o que ajudou a colocar o cavaquinho em
destaque, assim como o naipe de percussão.
O segundo motivo para a escolha do recorte temporal é que se trata do momento de
maior protagonismo do instrumento, em que ocorreram mais mudanças no acompanhamento
de samba ao cavaquinho, com o surgimento de vários cavaquinistas de estilos muito diferentes
e marcantes. Duas condições de contorno abriram espaço para que surgissem as oportunidades
de trabalho que revelaram estilistas no acompanhamento do samba ao cavaquinho. A primeira
foi que naquele momento, o mercado fonográfico elegeu o samba como um de seus principais
produtos, fazendo com que houvesse um aporte considerável de recursos no segmento. Esse
investimento fez com que o número de gravações se multiplicasse, criando mais oportunidades
para o surgimento de cavaquinistas acompanhadores de destaque.
A outra condição de contorno que reforçou a escolha do recorte de tempo entre
1964-1980 foi tratar-se de um período no qual o discurso de valorização da autenticidade em
relação ao samba ganhou espaço. Esse discurso, que começou a tomar corpo na imprensa escrita
ainda antes do período do recorte, se fortaleceu como uma reação a bossa nova, considerada
americanizada e um desvio do samba original. A valorização de um samba pretensamente
autêntico abriu as portas para que músicos antes não profissionais fossem cooptados nos
ambientes informais do samba (escolas, blocos, rodas de samba) e passassem a participar das
gravações do gênero. O resultado valorizou a mão de obra de cavaquinistas que passaram a ter
suas palhetadas típicas escutadas e reconhecidas fora de seus ambientes comunitários de
origem.
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das palhetadas, com o uso de inúmeras combinações entre sons cheios, que soavam e sons
surdos, que complementavam os grupos de semicolcheias da palhetada, complementação essa
funcionalmente importante para o perfeito encaixe com as semicolcheias executadas pela
percussão aguda: platinelas do pandeiro, ganzá, reco-reco ou contratempo de bateria fechado.
É essa combinação de acentos e sons surdos e cheios que darão o toque original, característico
de um determinado instrumentista. Na verdade, como veremos no Capítulo 4, cada cavaquinista
estudado usava mais de uma palhetada, em função da necessidade de se adaptar aos diferentes
andamentos. Em média, em andamentos rápidos (acima de 130 bpm), o acompanhamento de
cavaquinho tende a ser mais um contínuo de semicolcheias palhetadas alternadamente, não
havendo tempo hábil para maiores acentuações ou variações.
Outra questão relevante a ser tratada aqui é de ordem historiográfica e diz respeito
a presença ou não dos instrumentos de harmonia (cavaquinho e violão) na gênese do samba
batucado, na virada das décadas de 1920 e 30. José Ramos Tinhorão afirma em sua "História
Social da Música Popular Brasileira" (2010), que a partir do conjunto "Gente do Morro",
fundado pelo flautista Benedito Lacerda (1903-1958) em 1930, teria se realizado "a fusão dos
velhos grupos de choro à base de flauta, violão e cavaquinho com a percussão dos sambas
populares". E acrescenta:
Sob o nome logo popularizado de conjunto regional, o que tais grupos vieram a
realizar [...] era o casamento da tradição do choro da pequena classe média com o
samba das classes baixas. Um casamento musical que se revelaria por sinal muito
fecundo porque, como ainda naquela virada dos anos 30 se comprovaria, pela
valorização da melodia os conjuntos regionais podiam chegar ao samba canção, [...].
(TINHORÃO, 2010, p. 312)
Penso que uma forma de sermos prudentes e nos aproximarmos mais da realidade
de cada momento histórico do acompanhamento de samba ao cavaquinho é buscando os pontos
de inflexão, os momentos em que as fórmulas mudam ou se diversificam, em que surge algo
novo que vai sendo adotado como modelo e identificado com um cavaquinista acompanhador
específico.
Para "tirar" a palhetada de determinada gravação realizada dentro do período do
recorte de tempo a ser transcrita, utilizarei cavaquinhos afinados em Ré-Sol-Si-Ré e Sol-Ré-
Lá-Mi e primeiro trabalharei no sentido de reproduzir fielmente o que está gravado,
identificando a montagem dos acordes, a utilização ou não do staccato percussivo, dando
especial atenção aos acentos rítmicos, o que permitirá deduzir precisamente o movimento
efetuado pela mão direita com a palheta, ou seja, o gesto da palhetada. Cabe ressaltar que,
embora exista sim uma correspondência entre a palhetada para baixo e o som cométrico e a
palhetada para cima e o som contramétrico, essa lógica vai sendo alterada na busca por
palhetadas originais e nessa busca, uma sutil alteração no gesto resulta em um novo equilíbrio
de acentuação. Essas mínimas diferenças vão criar verdadeiras assinaturas, palhetadas
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inconfundíveis, que serão transcritas da maneira mais completa possível através de um modelo
de notação que foi sendo desenvolvido e testado durante a pesquisa.
Esse modelo, apresentado abaixo, traz notação em partitura contendo a montagem
do acorde na pauta, a cifra harmônica correspondente e embaixo uma "linha de palhetada" em
que estarão descritos os movimentos de palheta, se eles geram sons cheios ou surdos e se em
cada movimento estarão sendo tocadas todas as cordas ou somente as duas de baixo ou as duas
de cima.
seja cantado: tonalidade, andamento, caráter. Também serão analisados fatores como
portabilidade, baixo custo e a possibilidade de o instrumento ser tocado em pé ou sentado,
parado ou em movimento. A terceira parte do capítulo tratará da relação dos sambistas com o
cavaquinho, indo desde o seu uso como ferramenta de musicalização na infância e adolescência
até as etapas de criação, memorização e divulgação de um novo samba.
O Capítulo 2, "O acompanhamento de cavaquinho nas gravações de samba", trará
um panorama histórico, dividido em três períodos cronológicos. O primeiro "Do lundu gravado
ao samba maxixado" focaliza uma fase em que o cavaquinho não era protagonista do
acompanhamento de samba e que ainda não haviam sido desenvolvidas no instrumento práticas
específicas, ou seja, o cavaquinho tocava ainda padrões rítmicos herdados do lundu e da música
dos chorões. A segunda parte, "A ascensão do samba batucado e a hegemonia de Canhoto do
Cavaquinho", abordará o longo período que se estendeu desde a consagração do samba
batucado, no início da década de 1930 até meados da década de 1960, e o aperfeiçoamento do
acompanhamento desse tipo de samba pelo chamado "conjunto regional". Ao final desse
período, uma série de fatores musicais, políticos, econômicos e tecnológicos mudaram a
percepção sobre o samba e acabaram abrindo espaço para a diversificação na forma de
acompanhar o gênero ao cavaquinho, revelando um leque de possibilidades bem mais amplo
do que se tinha consagrado na chamada Era do Rádio. A terceira fase cronológica será
demarcada pelo surgimento do conjunto "A Voz do Morro" em 1964 e se estenderá até 1980,
se configurando no período de maior protagonismo do instrumento.
Serão caracterizados momentos de maior ou menor relevância do papel do
cavaquinho no acompanhamento do samba gravado e como essa relevância variou de acordo o
posicionamento do gênero no mercado fonográfico. A todo tempo estarão sendo cruzadas
informações extraídas de pesquisas na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, depoimentos
de fontes primárias e dados musicais extraídos de gravações do repertório citado.
O Capítulo 3, "Pensando o acompanhamento de cavaquinho em gravações de
samba", será dividido em três partes. A primeira reconstituirá a participação do cavaquinho em
uma gravação de samba realizada em 1980, através de uma alegoria etnográfica em que estão
descritos os atores que interagiam na época, ao longo da cadeia de produção do samba na
indústria fonográfica. Essa opção de descrever etnograficamente a prática da confecção de uma
gravação de samba, desenvolvida a partir de um trabalho na disciplina "Música e trabalho em
etnografia" com o Prof. Dr. José Alberto Salgado em 2016, mostrou-se muito útil para o
detalhamento das negociações entre os vários profissionais envolvidos e que atuavam em
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cooperação. Foi importante empreender essa reconstituição de uma gravação de samba em 1980
pois, nos dias atuais, muitos profissionais ali descritos como copista, arregimentador, assistente
de estúdio, etc., simplesmente desapareceram, enquanto os trabalhos de músico, arranjador e
produtor passaram a ser acumulados por um só profissional. As bases de samba no século XXI
são normalmente construídas a partir de um metrônomo, com poucos músicos atuando juntos,
sem interação e negociação entre seus artífices. A segunda seção abordará o cavaquinho como
um elo na cadeia de produção do produto cultural gravação de samba, as oportunidades de
profissionalização e a realidade remuneratória desse mercado em diferentes fases. A terceira
seção deste capítulo tratará da percepção da sonoridade do cavaquinho como elemento
identitário indispensável na caracterização do gênero musical samba.
O Capítulo 4 concentrará o conteúdo musical da tese, com a transcrição e análise
das palhetadas de cinco estilistas que mudaram a maneira de acompanhar o samba ao
cavaquinho entre os anos de 1964 e 1980. As palhetadas aparecerão na notação analítica já
citada e sempre relacionadas a uma gravação, uma situação dinâmica de uso.
Serão transcritos e analisados os estilos de acompanhamento de samba ao
cavaquinho dos seguintes músicos: Jair do Cavaquinho (Jahyr de Araújo Costa, 1920-2006),
Mané do Cavaco, Paulinho da Viola, Carlinhos e Alceu Maia (Alceu Câmara Maia, 1953).
Nas Conclusões, será apresentado um balanço das práticas que continuam sendo
usuais e das que foram deixadas de lado ao longo do tempo, no campo do acompanhamento de
samba ao cavaquinho. A função mais ou menos estruturante do instrumento nas gravações de
samba será posta em perspectiva. Constará ainda um panorama sobre os avanços técnicos e
musicais que impactam o acompanhamento de samba ao cavaquinho no século XXI.
Este trabalho tem como objetivo global aprofundar a inserção acadêmica do
cavaquinho, iniciada com a criação do pioneiro Bacharelado do instrumento na Escola de
Música da UFRJ em 2012, além de investigar um período específico em que o cavaquinho teve
protagonismo no acompanhamento do samba em gravações (1964-1980), discutindo seu papel
estruturante e sua relevância como elemento identitário do gênero samba, transcrevendo e
analisando as práticas musicais relacionadas. Sintonizada com a chegada de cavaquinistas ao
ambiente acadêmico, esta tese procura também abrir campos de estudo relacionados ao
cavaquinho nas áreas de historiografia e educação musical.
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Juan Bermudo (El libro llamado Declaración de instrumentos musicales (Osuna, 1555/R, chap. lxv) described
the guitar as smaller (mas corto) than the vihuela and this is borne out both by contemporary iconography (fig.2)
and by the technical requirements for the left hand in much of the surviving music.
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Chama a atenção o fato de um machete custar cerca de 1/5 do preço de uma rabeca.
Esse baixo custo vai fazer com que o instrumento tenha muita circulação, como veremos a
seguir.
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Um cavaquinho com esse tipo de construção, sem uma estrutura de leques por
dentro do tampo, necessita que esse tampo seja de maior espessura para que suporte a pressão
das cordas no cavalete e terá necessariamente um timbre bem agudo, com muito ataque, pouco
corpo e bem pouca sustentação de som. Essa colocação é importante pois veremos mais adiante
que o instrumento se modificou no Brasil e que as mudanças em sua construção vão ocasionar
alterações na técnica de execução, decisivas para a diversificação das palhetadas utilizadas no
acompanhamento de samba.
Na segunda metade do século XIX começam a surgir no Centro do Rio de Janeiro
lojas de instrumentos que terão grande importância não só como fornecedoras de instrumentos,
fabricando e vendendo, mas também como pontos de encontro de músicos. Uma dessas casas
foi "Ao Cavaquinho de Ouro", fundada pelo português nascido no arquipélago dos Açores,
Francisco Garcia de Andrade em 1889. Desde a abertura de suas atividades, a loja se anunciava
como a maior do gênero na América do Sul. Além de trazer o cavaquinho no nome, "Ao
Cavaquinho de Ouro" produziu e vendeu o instrumento em grande quantidade, fixando um
modelo de cavaquinho bem similar ao usado em Lisboa, ou seja, sem leques e com a caixa
acústica de pequena profundidade. Sobre "Ao Cavaquinho de Ouro", Jota Efegê nos informa,
em uma crônica a respeito do famoso violão-bolacha pertencente a Donga (Ernesto Joaquim
Maria do Santos, 1889-1974):
A história do violão-bolacha do Donga tem como marco, mais ou menos provável o
ano de 1906 (ou 1907) quando ele o adquiriu na tradicional e especializada casa O
Cavaquinho de Ouro (sic) situada na Rua da Alfândega e de propriedade do seu
Andrade. Nesse estabelecimento trabalhava o velho Cunha, perito na fabricação de
violões e cavaquinhos e a quem se deve a criação do vulgarmente chamado violão-
bolacha. (EFEGÊ, 1979, p. 38)
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intervalos de segundas maiores e menores entre as notas, que antes soavam muito desafinados.
No livro "Escola Moderna do Cavaquinho" publicado em 1988, apresentei assim as partes de
um cavaquinho brasileiro moderno, contando com a assessoria de Mario Jorge e de seu
assistente na época, o hoje conhecido lutier e pesquisador de luteria Ricardo Dias.
cordas muito tensas do cavaquinho o escavam, especialmente as mais finas e sem encapamento,
criando sulcos que geram ruído. O terceiro problema é a diminuição do volume e da projeção
do som em função dessa "interferência" colocada entre a pestana e o rastilho.
O outro problema identificado na época foi a inadequação das mecânicas de pino
grosso de material plástico, muito usadas até então, que alguns fabricantes utilizam até hoje em
dia. A fixação de cordas muito finas e muito tensas como as do cavaquinho era prejudicada,
pois estas escavavam o pino plástico. A mudança para mecânicas de pino fino de aço foi uma
solução simples que evitou o problema. Hoje em dia essas alterações já foram incorporadas
pelos melhores construtores de cavaquinho no Brasil e em média os instrumentos tiveram uma
sensível melhora.
Observa-se que um instrumento popular como o cavaquinho é feito com as
madeiras disponíveis e mão de obra nem sempre qualificada e apurada. Sendo assim,
encontram-se cavaquinhos das mais diferentes madeiras e com os mais rudimentares erros de
construção até os dias de hoje. Um cavaquinho ideal teria, pela minha experiência como
cavaquinista e interlocutor constante de vários lutiers, fundo e laterais de jacarandá da Bahia,
tampo de pinho europeu, braço e cabeça de cedro e escala de ébano. Os trastes devem ser de
material bem resistente, não muito finos e as mecânicas independentes (uma para cada corda)
de pino de aço fino. Aos poucos, com a maior circulação de informações e possibilidade de
compra de madeiras e de acessórios proporcionados pela Internet, os instrumentos estão
caminhando para o padrão descrito acima.
Outro aspecto que apresentou uma sensível melhora foi a qualidade dos sistemas de
captação do som do cavaquinho, visando sua amplificação. A possibilidade de ligar o
cavaquinho direto em uma mesa de som foi sendo aperfeiçoada. Primeiro foram usados
captadores como os de guitarra elétrica, nas décadas de 1970 e 80, com resultados que não se
pareciam com o timbre do cavaquinho e sim com uma guitarra elétrica no agudo. Dai
começaram a ser usados microfones de contato presos ao tampo do cavaquinho por uma goma.
O resultado, apesar de se aproximar mais do som acústico era, como se podia esperar, muito
desequilibrado, pois dependendo de onde se colava o microfone, este captava mais som de uma
ou outra corda. Dai partiu-se para os captadores do tipo "piezo", colados ao cavalete por baixo
do rastilho. Dependendo da qualidade (e preço) do sistema instalado, o resultado se aproxima
mais ou menos do timbre do cavaquinho acústico. Para reforçar essa aproximação, surgiram
sistemas que combinam um captador de rastilho com um microfone interno, preso dentro do
cavaquinho. Resumidamente, embora não esteja totalmente solucionado, o problema de
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captação e amplificação do cavaquinho tem sido alvo de experiências que já fornecem soluções
razoáveis. O que não impede de ouvirmos algumas vezes em bares e escolas de samba,
cavaquinhos amplificados com um timbre agressivo, agudo, metálico mesmo e sem o corpo de
harmônicos que deveria caracterizar sua sonoridade.
No ano de 2009, a Universidade Federal do Paraná, em seu Setor de Educação
Profissional e Tecnológica, criou o primeiro curso superior de luteria no Brasil e nesse curso o
professor Rodrigo Mateus Pereira desenhou pela primeira vez, uma planta detalhada de um
cavaquinho modelo Waldir.
O que Renato Almeida estava colocando, a meu ver, é que no Brasil eram (e são)
usadas outras afinações. No citado "Méthodo Andrade" (1931) encontramos a seguinte
observação:
No Norte do Brasil é muito usado elevar-se a primeira corda Ré a tonalidade Mi o que
faz com que o cavaquinho venha a produzir um som idêntico ao violão deixando pois
de ter o som tão original da afinação usadas em nossos conjuntos. (ANDRADE, 1931,
p. 3, grafia e pontuação originais)
Aqui devemos atentar para que Norte signifique muito provavelmente Nordeste,
pois era comum naquela época essa forma de se referir a região. De fato, muitos cavaquinistas
nordestinos mais antigos utilizavam essa afinação, como é o caso do alagoano Índio do
Cavaquinho (Edinaldo Vieira Lima, 1924-2003). Quanto ao fato de soar igual ao violão é
absolutamente falso, pois soa oitava acima e nessa afinação, com a primeira corda em Mi, não
se aproveitam as montagens de acordes usuais no violão.
Outra afinação que já foi mais usada e perdeu adeptos é a Sol-Ré-Lá-Mi, em
intervalos de quintas exatamente igual à do bandolim. Sobre essa afinação, Waldir Azevedo
disse em entrevista ao crítico paulista Egas Diniz, reproduzida no livro "Waldir Azevedo - Um
Cavaquinho na História" (2004) de Marco Antonio Bernardo:
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Não é sopa, não, tocar na afinação de cavaquinho. Muitos por ai tocam com afinação
de bandolim - essa sim é sopa. Porém, orgulho-me da felicidade e da facilidade que
tive, nos começos, aprendendo pelo Método Paraguassú, que é um exímio - também -
nesse instrumento. Tenho respondido a uma média de dez cartas por dia, explicando
aos consulentes que toco, sim, na afinação ré-sol-si-ré. (BERNARDO, 2004, p. 32)
A questão de maior ou menor facilidade colocada aqui diz respeito ao solo, que era
a especialidade de Waldir e, sem dúvida, a afinação em quintas permite que com três posições
armadas na primeira, quinta e sétima casas, utilize-se toda a escala do cavaquinho. Há ainda a
vantagem de uma maior extensão, que abrange até o Sol2. Para acompanhamento, o resultado
dos acordes montados com intervalos maiores entre as notas no Sol-Ré-Lá-Mi, soa de forma
bem diferente e em média mais grave. Isso vai ser aproveitado para diversificar timbricamente
o acompanhamento de samba em muitas gravações, inclusive combinando dois cavaquinhos
acompanhantes com afinações diferentes, distribuídos na mixagem de lados opostos do estéreo,
como veremos mais adiante.
No artigo intitulado "O machete madeirense" (2012) o musicólogo Manuel Morais
da Universidade de Évora aponta indícios de que, pelo menos desde a primeira metade do século
XIX, conviveram no cavaquinho da Ilha da Madeira, também chamado de braguinha ou
machete, essas três afinações.
Foi graças à recente descoberta na ilha da Madeira de quatro novas compilações
manuscritas para o machete madeirense, três das quais datadas, respectivamente, de
1844 e 1845, que hoje podemos afirmar que nem sempre este pequeno cordofone, de
mão de caixa em forma de oito e braço longo, fez uso da tradicional afinação sobre o
acorde de sol maior. Segundo o que é expressamente indicado nestas fontes, o machete
devia ser afinado da seguinte maneira: ré2–sol2–si2–mi3. Até à descoberta destas
quatro compilações, a afinação do machete madeirense - para ser possível tocar
cabalmente o corpus do repertório que nos chegou entre c. 1846 e 1910 – era o
consensual: ré2–sol2–si2–ré3. Todavia, nos relatos que conhecemos de viagem ao
arquipélago madeirense, como, por exemplo, o do acima citado norte-americano, John
Adams Dix, que a visitou no inverno de 1843, podemos ler que o machete - que arma
com quatro cordas de tripa – era, segundo este autor, afinado por quintas, como o
violino, ou, posteriormente, como o bandolim. (MORAIS, 2012, p. 6)
Mesmo que somente o cantor escutasse o violão, isso poderia ser um ponto
importante e aqui cabe uma observação relevante sobre o cavaquinho e esse momento de
"puxar" um samba. O cavaquinho não tem a nota do baixo do acorde e nem há a preocupação
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entre os executantes de colocar a fundamental do acorde como nota mais grave numa
montagem. Isso faz com que, por vezes, após ouvir o cavaquinho, o cantor entre em outra
tonalidade, por não perceber auditivamente o tom correto. Ouvir o baixo do violão junto é uma
segurança nessas horas, assim como o cavaquinho alternar os acordes das funções tônica e
dominante sem alterações, para deixar claro a tonalidade.
Há ainda outra questão na hora de "puxar" um samba com o cavaquinho: definir o
andamento através de uma palhetada que mostre claramente onde está o 1º tempo e o 2º tempo
do compasso. No Capítulo 4, onde constarão transcrições detalhadas das palhetadas de vários
cavaquinistas, vamos ter oportunidade de observar que funciona melhor no samba quem toca
atacando na cabeça do compasso e "explicando" o andamento, seja pelo preenchimento das oito
semicolcheias ou apenas pela clareza dos acentos. O importante é a comunicação. Uma
palhetada dúbia, incompreensível ritmicamente, cria um hiato ambiente, com os outros
instrumentistas tentando entender o que se passa e os participantes que se movimentavam e/ou
dançavam na cadência do samba, parando seus movimentos.
As palhetadas que puxam um samba definem além do andamento, a tonalidade,
como já foi observado. Essa função estruturante do cavaquinho é viabilizada pelo fato das
frequências sonoras do instrumento estarem numa região acima das frequências mais comuns
da voz humana. Ou seja, mesmo num ambiente com muitos ruídos e falatório, é possível
distinguir o som. O cavaco consegue se comunicar, enquanto o violão, cujas frequências são
mais baixas, de sons mais graves, tende a desaparecer. Essa capacidade de fornecer as
informações indispensáveis para o canto de um samba, vencendo as adversidades acústicas, fez
com que o cavaquinho fosse o instrumento dos diretores de harmonia e mestres de canto das
escolas de samba pioneiras, como será detalhado na seção 2.2.
Ainda nesse campo da transmissão das informações indispensáveis ao canto,
acontece muitas vezes do cavaquinista mudar a palhetada depois que o samba se estabelece. Na
hora de "puxar" o samba, o desenho rítmico é mais simples para ser mais facilmente
compreendido; depois com o samba embalando, a percussão garantindo a manutenção do
andamento, o canto acertado tanto na afinação quanto na colocação das frases melódicas em
relação ao ritmo, o cavaquinho é liberado para "brincar mais", na expressão usual dos
acompanhadores de samba. Na imensa maioria das vezes, pelo que pude constatar observando
dezenas de cavaquinistas ao longo das últimas décadas, essa mudança acontece de forma não
premeditada e muitas vezes, se você pergunta a ele se houve mudança na palhetada, ele vai
dizer que não. O que acontece, a meu ver, é que ao "brincar mais", variando a palhetada, criando
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Uma experiência simples pode demonstrar na prática a eficiência acústica que está
por trás da escolha da base harmônica do regional, com dois ou três violões, cavaquinho e
pandeiro. Se colocarmos para acompanhar um samba, dois violões e pandeiro, por mais
habilidosos que sejam seus executantes, haverá dificuldade em se criar integração sonora entre
os instrumentos. Isso acontece devido a vários fatores: a distância entre as frequências agudas
das platinelas do pandeiro e as médio-graves e graves dos violões, as imprecisões inevitáveis
decorrentes do fato do violão no acompanhamento de samba ser tocado com a técnica que
divide o ritmo entre o polegar (nota do baixo) e os dedos indicador, médio e anelar (saque do
acorde), desequilíbrio de volume com o pandeiro soando bem mais alto, etc.. Acrescentado um
cavaquinho, o resultado muda sensivelmente. Desaparece a lacuna de frequências sonoras entre
os violões e o pandeiro. As frequências médio-agudas e agudas do cavaquinho preenchem esse
espaço e, na medida em que a palhetada se encaixa precisamente nas semicolcheias das
platinelas do pandeiro, a percussão se aproxima da harmonia e uma amálgama sonora se
estabelece. Não foi por acaso que essa base do regional foi consagrada como ideal para o samba
28
Até os dias atuais não foram encontrados documentos que demarquem com precisão
a chegada do cavaquinho ao Brasil, mas proponho aqui um exercício de hipóteses a respeito de
alguns aspectos relacionados ao quesito portabilidade. O primeiro deles é que, independente de
ter ou não chegado ao país junto com as violas dos jesuítas em meados do século XVI, é muito
provável que diferentes tipos de cavaquinho tenham aqui aportado, trazidos por portugueses
tanto do continente e do arquipélago dos Açores, quanto da Ilha da Madeira. Ao longo dos
séculos, contingentes de imigrantes portugueses das mais variadas regiões chegaram ao Brasil,
em diferentes pontos de sua costa. A busca por trabalho e prosperidade não permitia a esses
imigrantes que trouxessem muitos objetos d'além mar, mas o cavaquinho, devido ao fato de ser
portátil, conseguiu atravessar o Atlântico. Prosseguindo no exercício de hipóteses, é provável
que o cavaquinho tenha se espalhado tanto no ambiente urbano quanto no rural e que tenha sido
apropriado nesses ambientes pelas classes subalternas, não só os escravos de origem africana,
mas também os artesões e profissionais, como os barbeiros. Foi a portabilidade que garantiu o
espalhamento do cavaquinho pelo Brasil e pelo mundo. Já o que garantiu a presença do
instrumento nas classes mais pobres e marginalizadas foi o seu baixo custo, um fator muito
29
relevante quando falamos do cavaquinho no samba e no dia a dia dos sambistas, como veremos
na seção seguinte.
Desde a época dos fatos narrados até os dias atuais, quando uma grande quantidade
de cavaquinhos fabricados na China e na Indonésia são oferecidos no comércio popular, a
escolha pelo instrumento é decisivamente influenciada pelo baixo custo.
Por fim, outro aspecto que influenciou fortemente a escolha do cavaquinho para se
acompanhar o samba foi o fato do instrumento poder ser tocado em pé, andando ou desfilando.
Em alguns casos os cavaquinistas utilizam uma correia ou talabarte para segurar o cavaquinho
"à bandoleira", ou seja, com a correia por trás do pescoço ou a tiracolo, apenas pendurado no
ombro, como nos afirma Manuel Morais no texto a respeito do machete madeirense. É, no
entanto, muito comum que o instrumentista consiga boa estabilidade com o instrumento apenas
o empunhando como se pode ver nessa imagem de uma "rusga", tipo de desfile em que os
cavaquinhos, violas, violões e percussões saem pelas ruas no Norte de Portugal, normalmente
chamando para uma festa religiosa. Daí esses grupos serem chamados como "Rusga de São
Vicente" ou "Rusga de São Martinho".
Esta seção vai traçar um painel da relação entre o cavaquinho e os sambistas através
de depoimentos de fontes primárias, abrangendo desde o surgimento do samba batucado no
final da década de 1920, passando pela consolidação das escolas de samba e chegando até o
período do recorte temporal (1964-1980). A ideia é mostrar o cavaquinho na intimidade da
vida do sambista, participando de sua iniciação musical, servindo de ferramenta de criação e
memorização de novos sambas e sendo um vetor decisivo na primeira circulação desses novos
sambas, dentro dos ambientes comunitários.
Algumas vezes, o fascínio infantil pelo cavaquinho fez com que crianças
"inventassem" seus primeiros cavaquinhos. Tomemos como exemplo dois sambistas que
carregaram o cavaquinho em seus respectivos nomes artísticos: Nelson Cavaquinho (Nelson
Antônio da Silva, 1911-1986) e Jair do Cavaquinho. Nelson, que era filho de um tubista da
banda da Polícia Militar, fez o seu primeiro cavaquinho a partir de uma caixa de charutos em
que adaptou um braço. Colocou cordas velhas do violino que um tio tocava e assim iniciou seu
aprendizado. Mais tarde, quando foi morar no bairro da Gávea, Nelson aprendeu a tocar
cavaquinho de fato e ganhou desenvoltura no instrumento praticando com chorões. Na
contracapa do LP "Nelson Cavaquinho" de 1973 há uma entrevista de Nelson falando sobre seu
começo com o cavaquinho e sua convivência com os chorões. No disco ele gravou solando no
cavaquinho seu choro "Caminhando".
Comecei tocando cavaquinho, na Gávea. Meus primeiros cachês, de cinco mil réis
foram ganhos com o cavaquinho. Havia uma turma que fazia choro para derrubar, mas
eu fiz um que derrubei todo mundo. Ai, eles passaram a acreditar mais em mim.
(Nelson Cavaquinho, 1973, depoimento a Sérgio Cabral)
diretamente o modelo harmônico do samba batucado. O cavaquinho emerge então como uma
ponte entre o choro e o samba, por onde vão transitar informações de lado a lado, ao longo do
século XX.
Nelson Cavaquinho tocava na afinação de bandolim (Sol-Ré-Lá-Mi) e conhecia os
acordes na afinação Ré-Sol-Si-Ré também. Quando via um cavaquinho ou bandolim na mão de
um músico, pedia para experimentar o instrumento, tinha curiosidade e solava alguns choros de
sua autoria.
Voltando ao fascínio das crianças pelo cavaquinho, Jair do Cavaquinho descreveu
seu primeiro instrumento no filme "O mistério do samba" (2008):
Eu comecei a tentar aprender cavaquinho. Sabe como é que eu aprendi? A Portela
tinha uns velhinhos e esses velhinhos em Oswaldo Cruz se reuniam num bar com
cavaquinho. O Alvaiade tocando cavaquinho. Ai começavam a tocar ali, tocar partido,
entendeu? Minha mãe mandava eu comprar pão, eu esquecia que ia comprar pão,
ficava ouvindo, olhando aquilo ali, com olho no cavaquinho. Fui pra casa, não tinha
cavaquinho, não tinha dinheiro pra comprar cavaquinho, arranjei uma "taubazinha",
improvisei quatro aramezinho fininho, os arame fininho imitando corda. Ai, eu andava
com aquilo, quando parava no botequim olhava pra mão do cara que tava tocando, ele
fazia a posição e eu fazia naquela "taubazinha". Ai, quando eu arrumei um cavaquinho
já tava tocando direitinho e fui embora. (Jair do Cavaquinho, 1999, depoimento no
documentário "O mistério do samba")
Em seu depoimento de 1978 para o Museu da Imagem e do Som, Dona Ivone Lara
(Yvonne Lara da Costa, 1922-2018) contou seu primeiro contato com o cavaquinho que era
tocado pelo primo, Mestre Fuleiro (Antônio dos Santos, 1911-1997), ainda na infância.
Ivone Lara: Quando eles deixavam o cavaquinho eu pegava.
Entrevistador: A senhora aprendeu por conta próprio então?
Ivone Lara: Por conta própria, eu prestava bem atenção no que eles faziam, quando
eles saíam pra trabalhar, eu pegava o cavaquinho e aquelas duas cordas mesmo, eu ia
aprendendo, e ali eu já compunha porque quando eu pegava o cavaquinho já queria
acompanhar alguma música, alguma coisa, então eu começava a cantar, e o Tiê surgiu
assim. (Ivone Lara, 1978, depoimento ao MIS)
Vale ressaltar que a palhetada que Manacéa usava para compor não se parecia com
a de nenhum cavaquinista consagrado do samba. Era algo meio rural, lembrando o calango e o
maxixe e que seria incompatível com o samba batucado, mas quando ele cantava suas criações
tudo se encaixava. Os sambas nasciam e eram embalados por sua personalíssima palhetada.
Uma questão que aparece em vários depoimentos de sambistas é o medo de
esquecer uma melodia recém-criada. Monarco ao descrever seu pânico de esquecer um achado
melódico cita, nas entrevistas que me concedeu para o livro "Monarco: voz e memória do
samba" (2003), dois procedimentos que o ajudavam a fugir da interferência que ouvir uma
melodia no rádio poderia causar, confundindo e embaralhando sua memória. Algumas vezes,
no intuito de fixar uma ideia melódica ainda inacabada, recorria a caminhadas pela linha do
trem ou se isolava num terreno baldio, fugindo do som dos rádios. Dali só saia com a melodia
bem decorada e pronta para ser cantada para os companheiros da comunidade.
Nessa etapa de memorização de novos sambas, os compositores que tocavam
cavaquinho e que o tinham à mão, levavam vantagem. Muitas vezes vi sambistas titubearem
antes de mostrar um samba inédito e pedirem o cavaquinho emprestado. Mesmo sem saber
tocar, nem sequer segurar com firmeza a palheta, procuravam as notas dos primeiros passos da
melodia e daí a memória era refrescada e se tornava possível mostrar o samba novo.
As dificuldades com a memorização de novos sambas só foram superadas a partir
de meados da década de 1970, quando se popularizou no mundo do samba o gravador cassete
portátil, daqueles com 5 teclas brancas e uma de outra cor, que gravava. No mesmo depoimento
dado a Sérgio Cabral, já citado nesta seção e que figura na contracapa do LP de 1973, Nelson
Cavaquinho diz: "Agora, alguns amigos vão me dar um gravador de presente no dia do meu
aniversário, 28 de outubro. Vai ficar mais fácil."
Ainda falando da intimidade da criação do sambista, quero ressaltar uma passagem
ocorrida no contato com Elton Medeiros, no ano de 1998, por ocasião das homenagens pela
passagem dos 90 anos de Cartola, em que Elton era um dos intérpretes e eu o cavaquinista. Na
passagem de som do cavaquinho, reparei que Elton prestava muita atenção ao que eu estava
executando no instrumento, chegando mesmo a se aproximar para ver melhor. Eu sabia que
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Figura 8: Monarco ao cavaquinho faz o samba circular na comunidade (Fonte: Arquivo Nacional)
Dar o tom e o andamento, criar condições para que fosse possível o canto coletivo
de um samba nessas comunidades que deram origem as escolas de samba, foi um dos papéis
relevantes do instrumento. O trabalho dos diretores de harmonia, que cuidavam para que os
componentes de uma escola entoassem corretamente as melodias foi quase sempre amparado
pelo cavaquinho. Se buscarmos três exemplos de lideranças musicais na fase de transição
bloco/escola: um no Estácio, um em Mangueira e outro em Oswaldo Cruz (mais tarde Portela),
veremos o quanto a presença do cavaquinho era relevante nesses núcleos. No depoimento ao
MIS, Bide situa a criação do bloco "Deixa falar" no Estácio em 1926 e fala de quem tocava
cavaquinho e qual era a função do instrumento:
Antigamente eu fazia meu do maiorzinho. Era eu no cavaquinho e o Julinho no violão.
[....] O cavaquinho era só pra dar o tom, prá não ficar alto, depois parava pois a
batucada cobria. Usava só pra você tirar o samba e dar o tom. Depois que todo mundo
pegou você para, que não vai adiantar, vai fazer calo no dedo à toa. (Bide, 1968,
depoimento ao MIS)
Na Portela o cavaquinho era muito usado por autores que dificilmente eram vistos
com o instrumento fora daquele espaço, onde se sentiam à vontade. É esse o caso de Chico
Santana (Francisco Felisberto de Sant'Anna, 1911-1988), autor do hino da Portela e do hino da
velha Guarda da Portela. Chico era altivo e gostava de ser tratado com deferência. Lembro que
uma vez me convidou para sentar em sua mesa, num bar perto da quadra da Portela, em 1987.
Sentei e fui pedir uma cerveja e ele foi logo dizendo.
_ Você quando está comigo, bebe da minha cerveja, fuma do meu cigarro e toca no
meu cavaquinho.
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Figura 10: O autor com Chico Santana e seu cavaquinho azul e branco
O teatro do Teles era iluminado a velas e azeite; pegava-se 500 réis de entrada,
incluindo neste preço o bilhete da rifa; tinha, além da orquestra para a grande divisão
do cenário, uma outra de violão, flauta e cavaquinho, que tocava oculta quando
dançavam os bonecos. (MORAIS FILHO, 2002, p. 159)
Vale ressaltar que, já nessa época, o trio que daria origem aos grupos de choro,
atuava ali não como um simples acompanhamento numa festa, mas como uma trilha sonora
para a dança dos bonecos, o que exigiria relativa precisão na execução e um repertório
previamente selecionado e ensaiado.
Portanto, era natural que essa experiência de acompanhamento de violão e
cavaquinho fosse aproveitada algumas décadas depois no acompanhamento de solos
instrumentais e do repertório cantado, especialmente os lundus, que ganhavam maior
flexibilidade, mais balanço, em comparação a quando eram acompanhados ao piano. Mas tanto
o cavaquinho quanto a mão direita do piano que acompanhava o lundu antes dele em gravações,
executam quase o tempo todo, a mesma célula rítmica.
Cabe aqui explicar uma malícia dos acompanhadores de cavaquinho, que não se
sabe bem quando surgiu, mas que, possivelmente, tenha sido praticada desde os tempos da
barraca do Teles. Quando escolhe uma palhetada que começa por uma pausa, caso das variações
apresentadas nos exemplos 4 e 5, muitas vezes o cavaquinista está esperando para ver se a
harmonia vai mudar e para que acorde vai. Como o violão tem a obrigação de dar o baixo do
acorde, normalmente na cabeça do compasso, uma semicolcheia de pausa é tempo suficiente
para o cavaquinista perceber o caminho harmônico a ser seguido. Essa prática é observável até
hoje, embora boa parte dos cavaquinistas acompanhadores do século XXI conheça harmonia
funcional.
Já no repertório instrumental gravado com base de cavaquinho e violão, a partir de
1906/1907, o que podemos ouvir são palhetadas características da polca:
e uma variação dessa palhetada, que os cavaquinistas chamam até os dias de hoje de polca-
choro
Ilustrando esse momento em que pela primeira vez se pode escutar a base de
cavaquinho e violão tocando de forma ritmicamente articulada, como será usual a partir de
1930, período que abordarei na segunda seção deste capítulo, cito aqui três gravações
exemplares do "Choro Carioca". São três maxixes de autoria do professor Irineu: "Albertina"
[Audio 2.1.1], anunciado como polca e "São João debaixo d'água" [Audio 2.1.2] e "Morcego"
[Audio 2.1.3], anunciados como tango. Nas três faixas, gravadas entre 1910 e 1913, é notável
como os violões e o cavaquinho fazem uma base compacta e em perfeita sincronia com o
44
oficleide de Irineu, deixando a flauta livre para exercitar flexibilidades no ritmo da melodia, o
que Pixinguinha já dominava com tão pouca idade.
Embora funcionasse melhor que outros grupos da época, a forma de acompanhar
do "Choro Carioca" não se tornou um padrão, um modelo seguido por outros grupos, nem
mesmo para os "Oito Batutas", que a partir de 1919 iriam se tornar famosos e do qual faziam
parte dois dos irmãos Vianna: Pixinguinha e China.
Uma gravação que pode nos dar uma ideia bem aproximada de que tipo de
caracterização rítmica acontecia nos ambientes onde o samba foi gestado, ou seja, as casas das
tias baianas nas proximidades da Praça XI, é a que se intitula "Samba - em casa de baiana"
[Audio 2.1.4] de autoria de Alfredo Carlos Brício, citada no livro "Tia Ciata e a Pequena África
no Rio de Janeiro" (1983) de Roberto Moura. Trata-se do disco Favorite Record 1452216,
gravado em 1913 pelo "Conjunto da Casa Faulhaber". Aqui aparecem algumas particularidades
interessantes como a definição de gênero no rótulo como "partido alto", que é confirmada pelo
locutor que anuncia a gravação como "samba de partido alto". Mais curioso é o fato da faixa
ser instrumental e trazer um clarinete solista, acompanhado de violão e cavaquinho. O tema é
repetido à exaustão com pequenas variações e a levada se mantém praticamente inalterada
assim como o ritmo harmônico, que se modifica raramente para acomodar uma mudança na
melodia, mas continua em torno da tônica e da dominante, na tonalidade de Lá maior. A
palhetada do cavaquinho curiosamente não é de lundu, nem de suas variações e sim um contínuo
de semicolcheias, tocado em movimentos alternados de palheta, com acentos não muito
marcantes, algo que viria a ser exaustivamente usado décadas depois. Esse tipo de palhetada é
identificada nos dias de hoje como "calango" ou "calangueada" e associada a cavaquinistas
como Mané do Cavaco, que se projetou na década de 1960, mas como podemos ouvir, já estava
sendo usada em 1913.
Sucesso no Carnaval de 1915, provavelmente gravada no ano anterior, "Urucubaca
miúda" [Audio 2.1.5], cantada pelo Bahiano e sem identificação de autoria, aparece no selo
como maxixe. A letra oportuna e que despertou o interesse, falava da falta de sorte que cercava
o então presidente da república Hermes da Fonseca. O acompanhamento é mais bem articulado
que a média e algumas fermatas são usadas para valorizar o começo de cada quadrinha das
segundas partes. O cavaquinho oscila entre a palhetada do maxixe e a variação 1 do lundu.
Lembrado sempre como um marco, mais do que como um samba propriamente,
"Pelo telefone" [Audio 2.1.6] de Donga (Ernesto Joaquim Maria dos Santos, 1889-1974) e
Mauro de Almeida (1882-1956), gravado em 1916 e sucesso no Carnaval seguinte, não
45
Um dos que foram atraídos pelo samba foi Pixinguinha e sua participação como
autor de música para o Carnaval começou em 1918 com "O malhador" [Audio 2.1.7], não por
acaso, feito em parceria com Donga e Mauro de Almeida, os autores de "Pelo telefone" e
cantado pelo mesmo cantor, Bahiano. O gênero musical designado também foi o mesmo:
"samba carnavalesco". Mas o resultado geral é ainda mais próximo do lundu, assim como a
palhetada do cavaquinho. O que "O malhador" traz de mais original é o uso de uma percussão
apenas no refrão. Do mesmo ano é o primeiro samba de sucesso de Sinhô (José Barbosa da
Silva, 1888-1930) intitulado "Quem são eles" e também gravado por Bahiano, mas o
acompanhamento foi feito por um grupo de sopros, sem violão e sem cavaquinho.
No ano seguinte, em 1919, Pixinguinha colheu um sucesso em parceria com seu
irmão Octávio, o China. "Já te digo" [Audio 2.1.8] era uma resposta ao citado samba de Sinhô
do ano anterior e foi gravado também por Bahiano. Na gravação, Pixinguinha toca sem parar
desde a introdução, por sinal muito marcante e lembrada até hoje, até o fim, fazendo respostas
à melodia, efeitos variados como duplo staccato e frullato, numa presença que rivaliza com a
voz e o coro. O cavaquinho está presente de forma bem discreta, mas dá para perceber que a
palhetada varia da primeira parte tocada como lundu, para a segunda com acentos de polca. Na
introdução o cavaquinho dobra o desenho rítmico do violão junto com um reco-reco, num efeito
pouco comum. Do mesmo ano e com esse mesmo tipo de introdução é "A pombinha" [Audio
2.1.9], parceria de Pixinguinha e Donga cantada por Bahiano que, numa fórmula bem parecida
com o "Já te digo", tem uma flauta constante de Pixinguinha do início ao fim. O virtuose da
flauta no vigor de sua juventude utiliza até trechos da melodia de "Urubu malandro" em seu
improviso. A palhetada de cavaquinho aqui está mais nítida e é bem constante como lundu na
primeira e segunda partes. Na introdução, o cavaquinho e o reco-reco dobram o ritmo da flauta.
Mais bem executada que "Já te digo", "A pombinha" não obteve o mesmo sucesso.
46
A essa altura de nossa linha do tempo entram em cena os "Oito Batutas", grupo
organizado por Pixinguinha e Donga para tocar na sala de espera do Cine Palais, um espaço de
elite onde eles deixarão de lado os trajes de caipira que usavam no seu originário "Grupo do
Caxangá" e vestirão o smoking, causando admiração e também polêmica. Para o cavaquinho
foi escalado Nelson dos Santos Alves (1895-1960).
A discussão que houve quanto à adequação daquela música ao espaço, as críticas
elitistas nitidamente preconceituosas e a defesa dos "Oito Batutas" que, por vezes, recai no
mesmo tipo de preconceito, ao defini-los como "os rapazes morenos que ganham a vida com
brilho e aplauso", como escreveu Xavier Pinheiro na revista "Theatro & Sport", já foram
apresentados em destaque tanto nas biografias de Pixinguinha escritas por Sérgio Cabral e por
Marília Trindade Barboza e Arthur de Oliveira Filho, quanto em artigos e teses acadêmicas.
Há, no entanto, uma questão que julgo relevante e pouco abordada: por que "Oito Batutas" não
capitalizaram o sucesso de "Pelo telefone" e "Já te digo", de autoria de seus líderes Donga e
Pixinguinha? Por que o samba não fazia parte de sua palheta de ritmos, conforme podemos
verificar no anúncio do lançamento do grupo, publicado em "O Paiz" de 7 de abril de 1919 e
em vários outros jornais?
Convidamos V. Ex. a vir ouvir no Salão de Espera do Cine Palais a orchestra typica
dos OITO BATUTAS, última novidade do mundo artístico carioca, no seu admirável
repertório de música vocal e instrumental brasileira: maxixes, lundus, canções
sertanejas, corta-jacas, batuques, cateretês, etc., etc. (O Paiz, 07 de abril de 1919)
É claro que citando maxixes, lundus e batuques, o samba poderia estar presente
meio disfarçado com outro nome, mas até esse disfarce tem um significado mais profundo visto
que, até aquele momento, os líderes dos "Oito Batutas" eram também as lideranças do samba.
Em janeiro de 1919 o jornal "A Rua" noticiava como grande atração das festas carnavalescas
que se aproximavam o "Grupo Carioca".
É um quarteto admirável. As travessuras da flauta tocada por "Pixinguinha", são
"escoradas" por Nelson no "cavaco", enquanto Palmieri e China no violão fazem o
diabo! A "Pombinha" que "Pixinguinha" compoz, de colaboração com "Donga", já
está fazendo furor, outro tanto acontecendo com o samba "Já te digo" de
"Pixinguinha" e "China". Ambos já estão escriptos até para piano. (A Rua, janeiro de
1919, grafia e aspas da publicação)
Portanto, três meses antes da estreia dos "Oito Batutas", Pixinguinha e seus
companheiros estavam trabalhando para o sucesso dos seus sambas. No livro "A escuta singular
de Pixinguinha" (2010) de Virgínia Bessa encontramos a chave para compreender a ausência
do samba no repertório dos "Oito Batutas". Falando de um momento em que a construção da
identidade nacional causou interesse e valorização pelas manifestações culturais negras e
47
mestiças, em especial a música, a autora retrata a posição de nossa elite intelectual, política e
empresarial a respeito de um ponto importante.
Era como se os intelectuais (Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda), políticos
(como Rui Barbosa e Pinheiro Machado) e membros da elite (como Irineu Marinho,
Arnaldo Guinle, Floresta de Miranda e Prudente de Morais Neto), todos confessos
admiradores da "autêntica música brasileira" executada pelos Oito Batutas, pudessem
reproduzir, em solo pátrio, a atitude assimiladora dos parisienses em relação à cultura
africana. Por outro lado, se a raça, questão central dos estudos naturalistas do século
XIX, já não era mais problema para os intelectuais modernistas (antes uma solução: a
mestiçagem vista como singularidade, "cor local"), um novo dilema se instaura, que
é o da distinção entre o popular (autêntico, puro, incontaminado) e o popularesco
(vulgar, impuro, "influência deletéria" no dizer de Mário de Andrade). (BESSA, 2010,
p. 97)
Essa "distinção" fez com que os "Oito Batutas", para serem aceitos e admirados,
tivessem que deixar de lado o samba "popularesco", que pouco antes estava na mira de seus
líderes e certamente foi determinante para que o grupo não gravasse de imediato, não se
tornando algo "comercial". Isso não impediu que os componentes do conjunto continuassem
compondo e gravando samba, mas certamente teve um efeito negativo para os dois lados.
Enfraqueceu uma primeira onda do samba e deixou a impressão que a autenticidade dos "Oito
Batutas" era um tanto falsa, uma formatação para atender a determinado público, que os
interessava do ponto de vista profissional.
Somente em março de 1923, em Buenos Aires e para remediar os problemas de uma
viagem cheia de percalços causados pela briga do empresário brasileiro que os representava
com o argentino que os contratou, o grupo gravou 10 discos na Victor e o que podemos escutar
é de certa forma um retrocesso em termos de acompanhamento se compararmos gravações
anteriores de Pixinguinha. No livro "Os músicos transeuntes" (2013) de Luís Fernando Hering
Coelho, que traz muita informação nova sobre a viagem à Argentina entre dezembro de 1922 e
abril do ano seguinte, fica claro que o compromisso de parecer mais primitivo do que realmente
eram se estendia além da música. Na elogiosa crítica que se seguiu a estreia, temos no dia 8 de
dezembro de 1922 no jornal "Crítica", o detalhamento do clima que emanava da apresentação
de "Los Ocho Batutas" no Teatro Empire.
Contribui grandemente para o sucesso de Los Ocho Batutas as vestimentas do humilde
povo brasileiro, com seus adornos coloridos e também os seus gritos primitivos, que
imprimem à música que um natural sabor nativo e lhe dá aquela nota exótica, que
desperta nossa atenção e nos move à curiosidade. (Crítica, 08 de dezembro de 1922,
apud COELHO, p. 35, tradução do autor2)
2
Contribuye en gran forma al éxito de su número la vestimenta de la gente humilde brasileña con sus adornejos
multicolores y con sus gritos primitivos que imprimem a la musica ese sabor natamente populachero y le da esa
nota exótica que desperta nuestra atención e nos move a la curiosidad.
48
De toda forma, cavaquinho e violão não eram destaque na base da "Orquestra Típica Oito
Batutas".
A "Orquestra Típica Oito Batutas" e mais outros nomes como "Orquestra Típica
Pixinguinha-Donga", "Orquestra de Jota Thomaz", "Orquestra Brunswick", etc, serão muitos
rótulos para o mesmo produto: uma instrumentação com ampla predominância dos sopros e
usando piano e tuba na base. O formato que vai fazer com que Pixinguinha seja praticamente
hegemônico como arranjador de samba a partir de 1928 e por cerca de uma década. É uma fase
com pouco cavaquinho gravando samba, ficando o instrumento restrito ao acompanhamento de
choro, inclusive nas gravações de solos de Pixinguinha e de outros gêneros "regionais" tais
como a embolada e o cateretê.
Ao contrário do que acontecia no ambiente profissional das gravações, o
cavaquinho era valorizado nos núcleos onde um novo tipo de samba estava sendo gestado. Esses
ambientes, das classes mais pobres e situados em morros ou subúrbios, logo se tornariam
famosos como fornecedores de sambas e sambistas. Eram lugares como o Estácio, a Mangueira,
Oswaldo Cruz e Salgueiro, por exemplo, onde o acompanhamento de cavaquinho (e violão em
menor número) era executado pelas lideranças que criaram blocos carnavalescos. No fim da
década de 1920, esses blocos iriam se transformar nas escolas de samba ao mesmo tempo que
o samba batucado se tornaria conhecido e consagrado na cidade.
O cavaquinho vai assumir então um protagonismo na base rítmico-harmônica a
partir da chegada desse novo tipo de samba, que vai ter na junção da batucada com cavaquinho
e violão a sua identidade musical, sua sonoridade característica. As experiências que levaram a
uma fórmula consagrada de acompanhamento de samba com o chamado conjunto regional vão
ser detalhadas a seguir, na segunda seção deste capítulo.
Figura 12: Anúncio de discos na revista Radiocultura (Fonte: Hemeroteca Digital BN)
Outro ponto sempre explorado pela propaganda das gravadoras era a fidelidade ao
som natural de qualquer instrumentação. Nas palavras de um anúncio da "Victrola", o aparelho
produzido pela Victor Talking Machine, publicado em janeiro de 1928 no jornal "O Paiz":
"Canções, musica de dansa, symphonias, bandas - … o que você desejar - E QUANDO O
DESEJAR. Tudo tirado ao natural".
52
Estácio onde convivia com as lideranças do samba que surgia. No depoimento de Bide ao MIS,
o autor de "A malandragem" diz que ouvia a flauta de Benedito e o orientava, donde se pode
concluir algo a respeito do estilo dos sambas, já que em termos de teoria musical o flautista
possuia mais conhecimento. Já Benedito lembrou sua adolescência no Estácio, numa entrevista
dada algum tempo depois.
No dia 18 de fevereiro de 1933, Benedito Lacerda visitou a redação do Diário
Carioca em companhia de seu parceiro Gastão Viana (1900-1959). O motivo da visita era a
divulgação da marcha feita pelos dois, "Vai haver o diabo", mas sendo apresentados como
"bacharéis do samba", a entrevista revelou a ligação de Lacerda com o samba do Estácio, num
momento anterior a sua profissionalização como músico. Ao ser indagado sobre a "procedência
do samba", Benedito relembra:
A procedência do samba não affirmo ser da Bahia, ou da África, porém desde tenra
infância que resido no Estácio. Bem me lembro dos aureos tempos que, em companhia
do saudoso Rubem e Bide, seu irmão com o seu pandeiro e cavaquinho,
respectivamente, e outro amigo cujo nome não me ocorre, empunhando eu uma flauta
de "bambú", toscamente fabricada, saíamos do quartel-general. São os grandes
prédios que ainda hoje, na rua Estácio, existem e sob os ns. 27, 29 e 31. (Diário
Carioca, 18 de fevereiro de 1933, grafia do periódico)
O cavaquinista Júlio dos Santos é o mesmo Julinho do Violão, citado por Bide no
MIS e que na curta existência da Escola de Samba Deixa Falar exerceu a função de diretor de
harmonia. O cantor era Ildefonso Norat, um paraense que vinha se destacando no teatro de
56
Ou seja, além do que podemos apurar hoje, em uma audição atenta desse trabalho,
já na época havia a percepção de uma "autenticidade", garantida pela presença de músicos
oriundos "do meio do povo".
Na mesma época e na mesma gravadora Brunswick e com uma instrumentação
idêntica, ou seja: flauta, violão, cavaquinho e percussão aparece o "Grupo Prazeres". Trata-se
do conjunto formado por Heitor dos Prazeres, também conhecido como Lino do Estácio, que
tocava cavaquinho, tendo colaborado no "Méthodo Andrade" como observado no primeiro
capítulo. Nas três faixas gravadas na Brusnswick em 1930 o "Grupo Prazeres" acompanhou o
cantor P. Oliveira, que vem a ser Paulo Benjamin de Oliveira (1901-1949), o Paulo da Portela.
A fórmula era similar ao "Gente do Morro" mas o resultado bem menos articulado
ritmicamente. No repertório gravado constava o samba "Vou te abandonar" [Audio 2.2.5], a
embolada "Tia Chimba" [Audio 2.2.6] e "Trapaiada" [Audio 2.2.7] com a definição de gênero:
samba da Bahia; as três faixas de autoria de Heitor dos Prazeres. No catálogo da Brunswick
publicado na revista Excelsior de maio de 1930, aparece o nome do grupo e entre parênteses
"flagrantes de rua", o que pode ser interpretado como um reforço na embalagem de
autenticidade do produto fonográfico.
Voltando ao grupo "Gente do Morro", um detalhe que se destaca nas suas gravações
é que a flauta de Benedito faz arpejos que explicam cada grau da harmonia, possivelmente uma
forma do chefe do conjunto zelar para que tudo saísse certo o que sugere que Benedito tinha
desde o início a intenção de desenvolver esse acompanhamento de forma profissional, um
conjunto que tocasse certo para aproveitar esse campo de trabalho, como de fato aconteceu nos
anos seguintes. O resultado é ritmicamente mais bem articulado e acabado do que tinha sido o
acompanhamento do samba até então, mostrando que a adequação ao "novo estilo" estava em
rápido aperfeiçoamento. Outro indicativo do processo de adequação que pode ser nitidamente
observado nas primeiras gravações do "Gente do Morro" denota que, aos poucos, Benedito
deixa de usar elementos do maxixe e do choro nas introduções, passando a criar melodias que
já de início identificam o samba batucado.
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observação: para o músico que toca de ouvido é difícil alterar padrões, pois normalmente ele
desenvolveu o seu jeito de tocar intuitivamente e tem dificuldade de mudar. Então, para chegar
a um resultado que considerasse satisfatório, tanto para ele quanto para os intérpretes que
requisitavam o grupo para acompanhá-los, como também para a gravadora que os contratava,
Benedito alterou algumas vezes a equipe de músicos do "Gente do Morro". Havia ainda a
preocupação disciplinadora trazida da experiência como músico militar que será aplicada ao
grupo através de um conjunto de regras, que serão mais tarde focalizadas.
Nessa fase, do primeiro ano do "Gente do Morro", o que se ouve são experiências
com resultados irregulares. Mudanças de instrumentação com a inclusão de bandolim e piano,
a redução do naipe percussivo a apenas o pandeiro, foram testadas ao longo de 1930. Fechando
a fase Brunswick, até porque a gravadora encerra seus lançamentos no fim de 1930, o "Gente
do Morro" lançou ainda mais dois discos tendo Benedito Lacerda nos vocais. O disco com os
sambas "Preto d'alma branca" [Audio 2.2.12] de Bucy Moreira (1909-1982), neto da Tia Ciata
e outro da turma do Estácio que ia se revelando e "Como acabou o meu amor" [Audio 2.2.13]
de Lacerda e Gastão de Oliveira. O disco seguinte trouxe o partido alto de J. Machado "Tem
aguinha" [Audio 2.2.14], cantado em dupla por Lacerda e Silvio Caldas (1908-1998) e o samba
"A nega sumiu" de Lacerda. Nessas faixas cantadas por Benedito Lacerda e lançadas em janeiro
de 1931, fica patente a intimidade que o líder do grupo tinha com o ritmo do samba batucado.
Enquanto Benedito Lacerda aperfeiçoava seu conjunto e o acompanhamento do
samba batucado, Pixinguinha ia se adaptando e modificando a base de seu grupo orquestral com
a inclusão de cavaquinho em arranjos de samba. Dentre tantos casos em que o som do
cavaquinho fica pouco claro, encoberto por sopros, mais a base de piano, tuba e percussão,
pode-se identificar uma gravação em que a palhetada marcante de polca choro, já identificada
na seção 2.1 como sendo executada pelo Nelson Alves, companheiro de Pixinguinha desde os
tempos dos "Oito Batutas", é perfeitamente audível. Trata-se do samba de Bucy Moreira,
"Anda, vem cá" [Audio 2.2.15], cantado por Francisco Alves e Mário Reis e gravado na Odeon
em agosto de 1931.
A partir de 1931 o grupo de Lacerda vai passar a gravar na Parlophon e Benedito
aparece tocando também no "Grupo do Canhoto", dirigido pelo violonista Rogério Guimarães,
que gravava na Victor. É uma fase de pouca atividade fonográfica do "Gente do Morro", que
precede duas alterações na formação do conjunto que irão alterar profundamente o resultado
sonoro, atingindo o grau de articulação rítmico-harmônica necessário para elaborar o
acompanhamento perfeito do samba batucado. A primeira alteração, em meados de 1932, foi a
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saída do violonista Henrique Britto (1908-1935), um virtuose inquieto que vai para os Estados
Unidos com a orquestra do saxofonista Romeu Silva (1893-1958) para apresentações durante
os Jogos Olímpicos de Los Angeles, como nos informam João Máximo e Carlos Didier em
"Noel Rosa: uma biografia" (1990, p. 2017). A saída de um violonista solista, virtuose e a
entrada de um acompanhador mais sóbrio, Carlos Lentine (?-?), certamente ajudou a organizar
melhor a base rítmico harmônica. A segunda modificação no "Gente do Morro", que
influenciou decisivamente a história do cavaquinho, foi a entrada em cena do cavaquinista que
será o mais importante acompanhador de samba por quatro décadas: Waldiro Frederico
Tramontano, o Canhoto.
Figura 13: Canhoto na época em que entrou para o grupo de Benedito Lacerda
nas palavras de Canhoto em depoimento a Lilian Zaremba (1978) "é a parte principal do choro,
é o centro, é o que faz o centro". Penso que ao falar "choro", que era o tema central da entrevista,
Canhoto se referia à instrumentação do regional.
No mesmo depoimento, Canhoto conta que no início tocou com as cordas invertidas
e depois lhe chamaram a atenção, que assim ele não poderia tocar em outros cavaquinhos e
ninguém iria tocar no seu cavaquinho. Ele então aprendeu os acordes novamente com as cordas
em posição normal e assim se profissionalizou. Essa maneira de tocar, em que o primeiro
contato da palheta com a corda se dá com a corda mais aguda, a 1º Ré da afinação Ré-Sol-Si-
Ré, foi, a meu ver, o que deu maior equilíbrio ao conjunto de palhetadas alternadas que Canhoto
executava com perfeição. Esse maior equilíbrio é fruto de uma espécie de compensação entre
o corpo sonoro produzido em cada corda do cavaquinho. As cordas mais graves têm,
naturalmente, mais corpo que as mais agudas. O fato da 3º e 4º cordas serem encapadas e das
1º e 2º cordas serem de aço, a nu, colabora para essa diferença de corpo. No primeiro contato
da palheta com as cordas num acompanhamento, a força é aplicada de forma desigual, cabendo
a maior parte dessa força às cordas que recebem primeiro o impacto da palhetada. Por outro
lado, as palhetadas para baixo e para cima também não são rigorosamente iguais em termos de
força aplicada, tendendo a palhetada para baixo a ser mais forte, mais incisiva. Ao palhetar para
baixo atingindo primeiro as cordas mais agudas e palhetar para cima atingindo primeiro as mais
graves, Canhoto compensou as diferenças de força e corpo, obtendo um conjunto de sons
equilibrados que compactou a base harmônica, otimizando sua articulação com o naipe de
percussão. As palhetadas estruturantes do título desta tese, têm de fato seu marco inicial com a
experiência de Canhoto e seu "centro" de cavaquinho.
O sucesso de "Arrasta a sandália" no Carnaval de 1933 foi marcante até porque,
conforme Edigar de Alencar em "O Carnaval carioca através da música" (1985), foi um ano de
"carnaval sonoro inflacionário principalmente quanto a marchas" (ALENCAR, 1985, p. 224),
ou seja, a gravação de Moreira da Silva e "Gente do Morro" teve pouca concorrência no gênero
samba. Apesar desse destaque obtido no início do ano, ainda não seria naquele momento que o
som do regional passaria a ser identificado como o som do samba. Observando os sambas de
sucesso ao longo de 1933, gravados pelos cantores de maior circulação, não aparecem
gravações com regional, somente com orquestra, em alguns casos tendo o cavaquinho agregado
a uma base com piano e tuba, sem destaque para o violão. Mas isso não significa que o "Gente
do Morro" não estivesse atuando, por exemplo, na recém-inaugurada Rádio Guanabara. Nessa
emissora o grupo não usava o nome original sugerido por Sinhô, mas sim o de "Conjunto
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Guanabara", como consta em MÁXIMO e DIDIER (1990, p. 298). É com esse nome que o
grupo vai participar de um espetáculo em benefício do novíssimo Sindicato Brasileiro dos
Artistas de Rádio no dia 17 de janeiro de 1934 no Teatro Recreio. A formação anunciada conta,
além de Benedito Lacerda, com Carlos Lentine e Jacy Pereira nos violões, Canhoto no
cavaquinho e Russo do Pandeiro.
Dois meses depois, Benedito, Canhoto e Russo participaram de uma excursão em
direção ao Norte, começando por Campos dos Goytacazes, juntamente com Noel Rosa (1910-
1937) e alguns comediantes. Tratava-se de um projeto ambicioso que visava chegar ao
Nordeste, idealizado por um amigo de Benedito, João Cantuária, que sonhava em ser
empresário artístico. Uma viagem sem data de retorno, em princípio. Para começar, os violões
citados no parágrafo anterior não foram e os substitutos eram sensivelmente menos preparados.
Nas palavras de Canhoto:
Nessa época o conjunto era assim: no violão, Macrino que já morreu há muito tempo
e não era um violão muito forte. O outro era mais fraco ainda, porque era comediante,
o Coringa, um mulato. (Canhoto, 1977, depoimento a Zuza Homem de Mello no
encarte do disco “Chorinho e Chorões”)
Outro que considerava a prática do regional no rádio uma verdadeira escola, era
Dino 7 Cordas (Horondino Silva, 1918-2006) que assim detalhou:
Foi acompanhando calouros que eu aprendi a manejar com o violão. O calouro quando
canta ele às vezes atravessa e a gente que está acompanhando tem que atravessar junto,
senão vai atravessado até o final. A gente tem que pular junto, para chegar junto e o
ouvinte não perceber (Dino 7 Cordas, 1978, depoimento a Lilian Zaremba)
Regional organizado, regional fazendo as coisas, não com esse jeitão displicente, com
essa displicência, sem necessidade de ensaiar e de apurar, de melhorar as coisas eu só
conheci um, foi Benedito Lacerda e Gente do Morro. O resto é tudo conversa fiada,
me perdoem meus amigos. [...] A organização até hoje, inclusive o sistema de multas,
o sistema de caixinha de multas para ratear no fim do ano, quem chegar atrasado,
quem errar, quem der uma entrada errada. (Jacob do Bandolim, 1967, depoimento ao
MIS)
Nas gravações a partir de 1935, o grupo aparece com alguns nomes diferentes. Na
RCA Victor usava "Benedito Lacerda e seu Regional" ou "Regional RCA Victor" enquanto na
Odeon era usado apenas "Conjunto Regional", mas uma audição atenta comprova que era o
mesmo grupo. É o caso do disco gravado por Noel Rosa em julho de 1935 que trazia duas obras-
primas: o samba canção "João Ninguém" [Audio 2.2.19] e do outro lado o samba de breque
"Conversa de botequim" [Audio 2.2.20], este em parceria com Vadico (Oswaldo Gogliano,
1910-1962). Em ambas as faixas podemos perceber que o grupo não só tinha encontrado um
equilíbrio admirável, mas também que era capaz de mudar o jeito de acompanhar, de um estilo
de samba para outro, com destaque para a mudança na palhetada de Canhoto.
Essa capacidade de alterar o caráter do samba que está sendo acompanhado, como
se houvesse um arranjo para cada tipo de samba, uma combinação tácita entre os elementos da
base capaz de produzir um resultado compacto e articulado num andamento mais lento de um
samba canção ou no mais ligeiro de um samba batucado de intenção carnavalesca, foi sendo
desenvolvida no dia a dia das gravações e estações de rádio. Se na parte da base o centro de
cavaquinho comandou o processo, a flauta de Benedito Lacerda também se aperfeiçoou,
fazendo menos arpejos de acorde, passando a executar comentários melódicos apropriados e
marcantes.
No ano de 1936 o conjunto apareceu no filme "Alô, alô Carnaval" de Wallace
Downey, acompanhando Aurora Miranda (1915-2005) no samba batucado "Molha o pano"
[Audio 2.2.21] de Getúlio Marinho. O conjunto se apresentava com uma substituição em
relação ao período anterior, saindo Jacy Pereira, o Gorgulho e entrando Ney Orestes (1900-
1980). No mais, Canhoto, Benedito, Carlos Lentini, Russo do Pandeiro destacando-se um
adendo na cuíca, que faz os breques do samba e Bide.
Embora o resultado seja mesmo empolgante, com Aurora mostrando muito balanço
e o conjunto bem afiado, trata-se de uma mímica com vários problemas de sincronismo. E há,
no caso do cavaquinho, algo que não se encaixa: trata-se da postura de Canhoto com o
cavaquinho, muito diferente do que se pode observar em fotografias e do que assisti vendo-o
tocar ao vivo na década de 1970. No filme, Canhoto empunha o cavaquinho em posição quase
vertical (mais de 45º) e palheta as cordas por cima da escala. Uma explicação possível seria que
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a necessidade de dublar tocando em movimento fez com que ele "defendesse" o cavaquinho de
algum esbarrão, colocando-o na posição quase vertical. Esse palhetar por cima da escala é um
vício comum a amadores que não caberia num profissional como Canhoto, pelo motivo de que
a palheta ao bater nas laterais do espelho do cavaquinho produz ruído. Quem sempre trabalhou
com gravação, onde o ruído é indesejado e combatido, não tocaria desse jeito.
No mesmo ano de 1936, Benedito e seu regional estiveram na Argentina
acompanhando Francisco Alves e Alzirinha Camargo (1915-1982), uma viagem que vai
ocasionar mais mudanças no grupo. Canhoto narra:
Foi no mês de agosto, e ninguém tinha coragem de tomar banho frio de dia. Eu ficava
num apartamento com o Benedito. E esse gaúcho, o Nei, ficava no outro com o Russo
e o Lentini, que também bebia bem. Quando voltamos em setembro, ele já estava
doente, com os 2 pulmões afetados, e eu internei-o no Hospital de São Sebastião em
fevereiro. Foi quando o Dino veio para o conjunto: fevereiro de 37. Em julho o Lentini
saiu e aí veio o Meira que já tinha trabalhado na Casa de Caboclo com o conjunto do
Jararaca e Ratinho. (Canhoto, 1977, depoimento a Zuza Homem de Mello no encarte
do disco “Chorinho e Chorões”)
Aracy realmente não gravou "Aquarela do Brasil", que pouco mais tarde foi gravada
por Francisco Alves com arranjo de Radamés Gnattali (1906-1988). Esse arranjo representou
um divisor de águas na orquestração de música popular no Brasil, ocupando pela primeira vez
as duas faces de um 78rpm com uma única música. Na orquestração de Radamés, os desenhos
rítmicos da batucada eram distribuídos pelos naipes da orquestra, seguindo uma sugestão do
baterista Luciano Perrone (1908-2001) como nos informam BARBOSA e DEVOS (1984, p.
47). O resultado desse uso do ritmo do samba na orquestração foi uma espécie de coroação de
uma década de ascensão do samba ao status de música nacional, ao mesmo tempo em que a
identidade cultural do país era repensada, incluindo elementos antes marginalizados. Sandroni
resumiu assim no último parágrafo de "Feitiço decente" (2008):
Em 1939, [...], o compositor Ary Barroso exprimiu em seu emblema sonoro, de
maneira especialmente feliz, esta identidade repensada, através da introdução de seu
célebre samba "Aquarela do Brasil": o paradigma do Estácio em pessoa, tocado por
uma orquestra ocidental completa… e sem hesitações rítmicas. (SANDRONI, 2008,
p. 222)
Aluísio Dias, nominando as pastoras que brilharam no coro, mas não conseguiram identificar
quem tocou o cavaquinho, ou melhor dizendo, os cavaquinhos. Participaram da gravação dois
cavaquinhos, um afinado como bandolim que sola a introdução e depois segue acompanhando
e outro, afinado em Ré-Sol-Si-Ré que acompanha o tempo todo. Cartola parece muito à vontade
assim como a percussão, que começa mais leve com destaque para a cuíca de marcação e depois
cresce com a entrada das pastoras.
Ouvindo-se a gravação feita no navio e comparando a outra, feita por regional na
mesma época, dá para compreender que para tornar o produto fonográfico mais "limpo" e bem-
acabado, o acompanhamento das gravações comerciais simplificava a polirritmia do samba. E
essa "sujeira" das imprecisões de ritmo e de afinação acabava fazendo falta, tanto é que alguns
artistas tentavam levar para o estúdio um clima mais parecido do que seria o samba cantado em
seu habitat natural. E, às vezes, conseguiam grande êxito justamente por isso. Foi o caso de
Ataulfo Alves (1909-1969) que gravou em novembro de 1941 o samba feito em parceria com
Mário Lago (1911-2002), "Ai que saudades da Amélia" [Audio 2.2.24]. Como não encontrasse
cantor disposto a gravar a música, Ataulfo resolveu gravar ele mesmo e improvisou um
conjunto para acompanhá-lo a que deu o pomposo nome de "Academia de Samba". Para tocar
o cavaquinho, Ataulfo convidou em cima da hora seu amigo Jacob do Bandolim, que estava
sem instrumento e morava longe. Jacob contou detalhes dessa gravação no depoimento ao MIS.
Dei uma corrida na Rua do Senado e apanhei um cavaquinho muito ordinário que nem
verniz tinha. Pintado a pincel, com cordas de cobre, uns que geralmente vende-se até
em tempos de Carnaval pra fazer bagunça, cravelha de madeira. Era o único
cavaquinho que o homem podia dispor. Me dá esse cavaquinho ai. Cheguei lá e
perguntei: como é o negócio? [Ataulfo] Cantou Amélia. Eu com aquele cavaquinho
não podia fazer nada, solar não podia porque ia sair tudo desafinado. Então eu
improvisei aquela introdução que se tornou típica. (Jacob do Bandolim, 1967,
depoimento ao MIS)
do Rádio de janeiro deste ano trouxe a matéria falando da saída de Benedito e dois meses depois,
a mesma revista noticiava que os remanescentes, agora liderados por Canhoto, estavam em
entendimentos para firmar contrato com uma nova emissora. Canhoto abriu o jogo, contando
detalhes.
Ora, desde que começou a campanha política, Benedito Lacerda deixou de se
interessar pelo conjunto. Várias vezes fui chamado à direção para explicar as faltas
dêle e uma ocasião fomos surpreendidos com a multa afixada. [...] Ora, um chefe
multado por disciplina não pode dar bom exemplo (Canhoto, março de 1951,
entrevista a Revista do Rádio)
A liderança assumida por Canhoto lhe cabia por ser, naquele momento, o
componente mais antigo do conjunto, e também por já exercer uma função do que chamamos
hoje produtor executivo: tratava da agenda, recebia e repassava os cachês, administrava a
caixinha de multas, etc. Agora intitulado "Regional do Canhoto", o conjunto incorporou um
flautista que já vinha se destacando, Altamiro Carrilho (1924-2012) e assinou contrato com a
Rádio Mayrink Veiga. Por sugestão de Luiz Gonzaga, que tinha tocado e gravado com eles
antes e depois de 1946, quando estourou como cantor, veio de São Paulo o acordeonista Orlando
Silveira, que de início atuou como convidado antes de se incorporar definitivamente ao
"Regional do Canhoto".
Além de acompanhar artistas variados, o grupo passou a ter seu próprio programa,
"Noites Brasileiras", em que apresentavam choros, valsas e versões instrumentais de sucessos
originalmente cantados, em vários momentos com a participação de Jacob do Bandolim. A
entrada do acordeom no conjunto mudou o som do grupo e tirou um pouco do destaque que a
base cavaquinho-violões-pandeiro tinha até então. Os gêneros musicais que o grupo incorporou
como baião, música junina, e outros, fizeram sucesso e o conjunto continuou sendo o melhor e
mais requisitado regional. Jorginho do Pandeiro (Jorge José da Silva, 1930-2017), que mesmo
não sendo membro efetivo, gravou inúmeras vezes com o conjunto, descreveu como era a
demanda pelo conjunto ao longo da década de 1950.
Naquela época não tinha produtor, era o diretor artístico da fábrica e ele ligava pro
Canhoto, vamos dizer, numa sexta feira e dizia:
- Canhoto, gravação na segunda de manhã
- Não posso.
- Então, à tarde.
- Não posso.
- De noite?
- Temos show com o Silvio Caldas.
E ia tentando. E terça feira? E quarta? Nada feito. Só na outra semana é que a gente
ia gravar. E a gente gravava porque os cantores não queriam gravar com mais
ninguém. (Jorginho do Pandeiro, 2010, depoimento ao autor)
72
Uma outra modificação que alterou o som do conjunto nessa fase foi que Dino
passou a usar o violão de 7 cordas, instrumento no qual iria desenvolver uma verdadeira escola.
Contratados pela RCA Victor e depois pela gravadora Copacabana Discos, atuando na Mayrink
Veiga e muitas vezes tendo como solistas convidados nomes como o clarinetista e saxofonista
Abel Ferreira (1915-1980) e o trombonista Raul de Barros (1915-2009), o "Regional do
Canhoto" se manteve como padrão de excelência. Um exemplo da perfeição do grupo no
acompanhamento de samba nessa fase é a série de 4 LPs "Descendo o morro" gravados na
Copacabana entre 1958 e 61 pelo cantor Roberto Silva.
O produtor Rildo Hora, que trabalhou em muitos discos ao longo das décadas de
1960 e 70 com Canhoto e o grupo, afirmou em seu depoimento:
Canhoto era bom de orelha pra caramba! Quando o cara estava cantando ele já estava
pegando. Quando ele tinha dúvida, que tinha acorde dissonante, ai o Dino sugeria
normalmente fazer a tríade que casasse com a inversão do violão. Tinha um ouvido
maravilhoso, parecia que já conhecia a música. [...} Nunca me lembro de ter ido pro
estúdio com o regional e não ter saído a gravação, e sempre saia certo. (Rildo Hora,
2016, depoimento ao autor)
Era esse o segredo do grupo continuar a ser tão requisitado: a gravação dava sempre
certo.
Na seção seguinte veremos como, a partir de 1964, uma série de fatores vai
enfraquecer a hegemonia do modelo de acompanhamento de samba pelo conjunto regional,
fazendo com que este acompanhamento de diversifique. Foi um momento em que surgiram
oportunidades para que outras palhetadas, muito diversas entre si e também diferentes da prática
desenvolvida por Canhoto desde o início da década de 1930, passassem a ser ouvidas e
valorizadas. Isso não impediu que o "Regional do Canhoto" continuasse gravando, já fora da
chamada era do rádio, que se estendeu até meados da década de 1960. Diga-se de passagem,
para o "Regional do Canhoto" o fim dessa era foi claramente demarcado com o fechamento da
Rádio Mayrink Veiga, da qual o conjunto era contratado desde 1951. Algum tempo depois, em
1974 surgiu uma oportunidade para que o conjunto fosse reavaliado, redescoberto mesmo pelos
jovens músicos como exemplo de excelência no acompanhamento do samba. Tratava-se do
primeiro disco do compositor Cartola, gravado por uma gravadora alternativa, a Marcus Pereira.
Para cuidar da produção foi escalado um jovem que acabara de ser premiado pela produção de
um LP de Nelson Cavaquinho, o paulista João Carlos Botezelli, o Pelão (1942). Foi dele a
iniciativa de dar a Dino 7 Cordas a função de arranjador do disco e cuidar para que a gravação,
feita em 16 canais, trouxesse uma clareza para o som da base de regional como ainda não se
havia escutado. O estéreo foi mixado com o violão 7 cordas no centro, o violão de Meira de um
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lado e o cavaquinho de Canhoto do outro. O ouvinte era dessa forma colocado no meio do
regional, podendo perceber com absoluta clareza a distribuição de funções entre os
instrumentos da base rítmico harmônica, os detalhes da palhetada de Canhoto, o balanço
maduro de Meira e as baixarias perfeitas de Dino. O resultado deixou maravilhada uma
novíssima geração que naquele momento descobria o samba, o cavaquinho e o som do regional,
como o autor desta tese.
Numa audição minuciosa do LP "Cartola" (1974) encontrei uma faixa em que foi
possível colher exemplos das quatro opções de palhetadas mais usadas por Canhoto ao longo
do LP. Trata-se do samba "Amor proibido" [Audio 2.2.26], composto por Cartola sem parceiro,
faixa B4. Apresento aqui as palhetadas típicas de Canhoto, no modelo de notação proposto neste
trabalho, ou seja, utilizando cifra + partitura + linha de palhetada.
A música começa com a anacruse do violão do violão de 7 cordas e em seguida,
Canhoto toca 2 compassos em palhetada alternada e sem acentos, que denominei "contínuo sem
acentos".
É claro que, para um músico que gravou milhares de sambas, será possível
encontrar Canhoto executando padrões rítmicos diferentes dos citados, mas acredito que estes
são os que ocorreram na enorme maioria das gravações. Sem apelar para um grande número de
variações, Canhoto tocava simples e preciso, estabelecendo o "centro" que aglutinava a base e
proporcionava liberdade para o ritmo do violão de 6 cordas e os baixos do 7 cordas. Uma
fórmula perfeita, consagrada.
Antes mesmo do ano de 1964, quando um golpe civil militar estabeleceu a ditadura
que duraria mais de duas décadas, a maneira como o samba era percebido, especialmente pelo
público mais jovem e intelectualizado mudou, criando a impressão de que aquele som do
regional era algo muito antigo, datado mesmo. Um marco nesse sentido foi o surgimento de
João Gilberto (1931-2019) em 1959 com "Chega de saudade", que apresentava a bossa nova,
uma outra forma de se tocar o samba. Entre os violonistas passou a existir uma separação clara
entre dois grupos: os violonistas de regional, que tocavam com cordas de aço, usando a dedeira
no polegar da mão direita, acompanhando o samba com tríades, acordes de sétima da dominante
e diminutas e os violonistas de bossa nova, que tentavam copiar a batida de João Gilberto,
usando cordas de nylon que não exigiam o uso da dedeira e harmonizavam usando acordes
alterados, ou como se dizia na época "acordes dissonantes". Os primeiros eram chamados de
"quadrados" e os segundos de "modernos". Além da contraposição tímbrica: aço x nylon,
rítmica: batida de samba x batida de bossa nova, havia ainda a questão harmônica, que colocava
de lados opostos tradicionalistas e modernizadores. Pode parecer exagero, visto que músicos e
compositores como Radamés Gnattali, Ary Barroso, Garoto, dentre outros, já vinham
experimentando a utilização de acordes alterados há décadas, mas havia muita resistência e
muito debate a respeito. O jornalista João Máximo descreveu assim o clima de debate acalorado
da época:
Eram debates entre bossa nova e bossa velha, entre chorões e adeptos do chamado
samba-jazz, entre xenófobos e americanófilos, entre puristas e antropofagistas, entre
esquerda e direita, entre os que se diziam defensores da música do povo e os que
queriam uma redefinição, não só dessa música, mas do que vinha a ser povo
(MÁXIMO, 2002, p. 60)
É claro que esse clima provocava reações de parte a parte e, entre os sambistas, a
primeira notícia de uma iniciativa de revalorização do samba em seu formato tradicional surgiu
em setembro de 1961, com uma matéria no Jornal do Brasil intitulada: "Sambistas formam A
Voz do Morro", dentro da página "Música naquela base", assinada por Sérgio Cabral.
Oito sambistas de três escolas de samba resolveram reunir-se para formar um conjunto
que tem o nome de um famoso samba de um de seus componentes: A Voz do Morro.
O conjunto está ensaiando há quase um mês e já está quase pronto para fazer
apresentações. (Jornal do Brasil, 21 de setembro de 1961)
ligados a partir de fevereiro de 1964 ao "Zicartola", o bar e restaurante que Cartola e sua esposa
Zica (Euzébia Silva do Mascimento, 1913-2003) vão inaugurar num sobrado da Rua da Carioca
53. O sucesso imediato da casa, que ia das páginas sobre música até as colunas sociais, levou o
cantor, produtor e dono da gravadora Musidisc, Nilo Sérgio (Nilo Santos Pinto, 1921-1981) a
anunciar que gravaria ao vivo na casa. Em junho de 1964, a página "O samba cá entre nós" do
Jornal do Brasil publicou a seguinte nota:
Está em estudos na Musidisc um LP cujo título definitivo ainda não foi dado, mas que
princípio se chamaria Uma noite no Zicartola. As 12 faixas seriam gravadas no local,
com o som de palmas e tudo, para não perder a autenticidade. (Jornal do Brasil, 25 de
junho de 1964)
É difícil imaginar hoje, quando o samba é frequentemente gravado com o cuidado que
merece, o impacto que Roda de samba causou na ocasião. Nunca se ouvira, com tal
qualidade de som (no que a gravadora de Nilo Sérgio estava bem à frente das demais)
e com tal fidelidade ao espírito do samba, algo sequer parecido. (MÁXIMO, 2002, p.
60)
tarde diretor técnico da gravadora Polygram, Luigi Hoffer (1942) que, muito jovem, trabalhou
no estúdio da Musidisc. Ele explica:
As máquinas eram uma Ampex AG300 de 4 canais e uma Ampex AG 350 estéreo, as
duas a válvula. Quanto a história do som de lá ser melhor é verdade sim, o
equipamento era TODO a válvula desde os prés de microfone aos compressores,
equalizadores e monitores sendo que a mesa era customizada e já naquela época tinha
compressor e equalizador em cada canal. A Musidisc foi o primeiro estúdio de
multicanais da América Latina. (Luigi Hoffer, 2018, entrevista por email ao autor)
A clareza trazida com a nova tecnologia tornou as gravações de samba mais ricas,
mais atraentes. A polirritmia do samba que era "compactada" no regional agora aparecia em
detalhes, sendo inteligível e individualizando cavaquinho e violão. As palhetadas do
cavaquinho vieram "pra frente" na mixagem, como descreveu Trotta (2011, p. 64) em citação
apresentada na Introdução deste trabalho e a valorização do discurso de autenticidade abriu o
espaço para que o cavaquinho vivesse seu momento de maior protagonismo no
acompanhamento do samba em gravações.
Presente nos discos do conjunto "A Voz do Morro" (1964 e 65), no musical "Rosa
de Ouro" (1965) e nas gravações de dois dos três LPs do conjunto "Os 5 crioulos" (1967, 68 e
69), Jair do Cavaquinho foi o primeiro cavaquinista a se destacar na nova fase de oportunidades.
Seu som e seu estilo se diferenciavam muito dos cavaquinistas acompanhadores profissionais
de então, todos seguindo o modelo de palhetada de Canhoto. Cabe aqui dividir as observações
entre o som do cavaquinho de Jair e seu estilo de palhetada.
Os cavaquinhos mais baratos, de construção mais rudimentar são normalmente
percebidos pelo som agudo, ou como é o termo usual entre cavaquinistas, "som de lata". São
instrumentos de afinação precária que, se ouvidos fora do contexto da batucada, seriam mesmo
desagradáveis. Pois é exatamente esse o som do cavaquinho de Jair nos anos 1960 e mesmo
depois, tive oportunidade de ouvi-lo tocar muitas vezes, sempre usando um instrumento de
baixa qualidade.
Se este aspecto de timbre agudo e afinação precária jogavam contra Jair, ele tinha
a seu favor uma grande vivência no universo das escolas de samba, pois frequentava a Portela
desde menino e na época já tinha mais de 40 anos de idade. Tanta experiência resultava numa
palhetada simples, que dava o clima "autêntico", tão valorizado naquele momento. A respeito
dessa palhetada podemos colher indiretamente a observação de um estudioso do assunto, Jacob
do Bandolim. No programa "Ensaio" da TV Cultura gravado em 1990, para comemorar 25 anos
do musical "Rosa de Ouro", Paulinho da Viola vai apresentando um a um seus companheiros
de conjunto e ao apresentar Jair do cavaquinho diz:
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E também aqui ao lado o Jair do Cavaquinho, que Jacob do Bandolim dizia que era a
maior palhetada de samba que ele conhecia. Talvez Jair, eu nunca tenha falado isso
pra você mas o Jacob falava isso, que foi a maior bossa em termos de palhetada de
samba e que é um grande compositor da Portela também. (Paulinho da Viola, 1990,
depoimento no Programa Ensaio TV Cultura)
A palhetada elogiada por Jacob e que abriu uma nova fase para o cavaquinho nas
gravações de samba, era uma das variedades que compõe o estilo portelense de
acompanhamento de samba ao cavaquinho. Esse jeito de tocar, que divide o cavaquinho em
duas regiões: as cordas mais graves palhetadas para baixo e as mais agudas palhetadas para
cima está presente em Paulinho da Viola e Mauro Diniz, para citar dois estilistas que
customizaram e aperfeiçoaram a escola portelense de cavaquinho. Hoje em dia tocar dessa
forma é algo comum, mas em 1964 era considerado uma revelação, um valor trazido do seio de
uma escola de samba, dando àquela base harmônica um toque de autenticidade.
Certamente, nem todos apreciavam o padrão de execução de Jair, pois em várias
faixas do segundo LP do musical "Rosa de Ouro", como no terceiro LP dos "Os Cinco
Crioulos", o cavaquinho foi tocado por Canhoto. É interessante observar no segundo LP do
"Rosa de Ouro" o quanto é diferente o resultado na base dos sambas. Quando toca Jair, soa mais
"autêntico", próximo de um samba real, da roda. Quando é Canhoto que toca, o resultado é mais
limpo, mais certo e afinado, mas perde-se alguma coisa. Essa comparação pode ser feita entre
as faixas "Rosa de ouro/Quatro crioulos" [Audio 2.3.1] do 1º LP (1965) em que o cavaquinho
é tocado por Jair e a faixa "Degraus da vida/Só pra chatear" [Audio 2.3.2] do 2º LP (1967),
ambas constando do acervo de áudios desta tese.
Ouvindo-se atentamente a base de violão e cavaquinho do primeiro LP do conjunto
"A Voz do Morro", duas coisas chamam a atenção. Primeiro as "puxadas" do cavaquinho de
Jair não deixam claro onde está o primeiro tempo do compasso. É o caso da faixa "Intriga"
[Audio 2.3.3], que começa com cavaquinho e dá ao ouvinte uma sensação de dúvida a respeito
do pulso, do andamento do samba. Só quando Paulinho faz um baixo no violão é que fica claro
e então, o samba começa de fato. Outro detalhe que chama a atenção é que em músicas de
harmonia mais elaborada, caso de "Mascarada" [Audio 2.3.4] de Elton Medeiros e Zé Ketti, o
violão de Paulinho assume a dianteira e o cavaquinho submerge na mixagem. Mesmo escondido
atrás do violão, podemos perceber no cavaquinho umas notas fora da harmonia. Ao ser
perguntado sobre esse detalhe da gravação de "Mascarada", Paulinho da Viola primeiro deu
uma sonora gargalhada e depois explicou o que ocorria musicalmente.
Quando tinha um trecho da harmonia que ele não estava pegando, a gente parava e
repassava algumas vezes. Ai, num determinado momento, ele chegava e dizia: deixa
comigo. Quando chegava no trecho que a gente tinha repassado ele fazia exatamente
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o que tinha feito antes. O jeito era esconder o cavaquinho, mas ouvindo bem dá para
perceber, não é? (Paulinho da Viola, 2019, depoimento ao autor)
Na época o cavaquinho não estava em alta. Eu procurava alguém para tocar mas todos
os cavaquinistas vinham mais do chorinho, não faziam batida de samba. O Darcy da
Mangueira me disse que tinha um cavaquinista que eu precisava conhecer. Eu disse
que ia ver o Mané tocar com ele no Opinião. Gostei e passamos a gravar juntos. (Lucas
Nobile, Folha de São Paulo, 11 de abril de 2013)
Visto do ponto de vista de hoje em dia pode parecer um exagero a fala de Valmar,
mas ao conversar com cavaquinistas dessa geração, dá para se ter uma ideia do que ocorreu e
como essa novidade, trazida no corpo de um sucesso popular, motivou novas palhetadas no
acompanhamento de samba.
No LP de estreia de Martinho, a instrumentação é bem reduzida se comparada a
média das gravações de samba que se seguiram. A base harmônica contava com o violão do
Darcy da Mangueira e o cavaquinho de Mané. A percussão tinha surdo, pandeiro e tamborim.
O coro também era pequeno, apenas duas pastoras. Com mais um ou outro músico participando
em algumas faixas, como no caso do trombone e trompete com surdina de "O pequeno burguês"
[Audio 2.3.8], o disco era uma aposta na simplicidade, bem de acordo com o discurso da
valorização da autenticidade então em voga. Já o segundo LP, no ano seguinte, foi justamente
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o contrário, com arranjos de orquestra, tendo sido mal aceito pelo público e pela crítica,
chegando a causar a queda do produtor que também era o diretor artístico da gravadora RCA,
Romeu Nunes. Diante da situação que colocava em dúvida a durabilidade do fenômeno
Martinho da Vila, Rildo Hora assumiu a produção do artista e, a partir do disco de 1971, iniciou
uma série de experiências que além de ótimas vendagens para Martinho, trouxe diversificação
para as gravações de samba.
Figura 16: Mané do Cavaco e Martinho da Vila chegaram juntos ao sucesso em 1969
Cabe relembrar que essa maneira de solucionar harmonias descrita por Vespar é
eficaz em consequência de o cavaquinho não ter a nota do baixo do acorde. De uma forma ou
de outra, tocando "as músicas fáceis" escolhidas por Rildo ou lendo uma cifra diferenciada que
trazia as alterações dos acordes "traduzidas" por Vespar de forma a serem executáveis, o que
importava era a palhetada.
Ainda no disco de 1971 de Martinho da Vila, a faixa "Seleção de partido alto"
[Audio 2.3.10] mostra um momento de descontração com Mané do Cavaco dominando a cena,
preparando as trocas de tonalidade, fazendo contrapontos, enquanto Manuel da Conceição faz
sozinho a base e ainda termina a faixa brincando com baixarias deslocadas no violão. Tudo flui
num clima de informalidade e naturalidade, que convive com uma alta qualidade de gravação
e mixagem, uma junção que vai marcar o trabalho de Rildo Hora como produtor de sucesso.
A valorização do papel do cavaquinho nas gravações foi viabilizada pela gravação
em sistema multicanal, que deu uma nova possibilidade de leitura da polirritmia do samba. Essa
nova nitidez sonora ampliou o que Sandroni descreveu como "um compromisso possível entre
as polirritmias afro-brasileiras e a linguagem musical do rádio e do disco" (SANDRONI, 2008,
p. 222), se referindo às gravações de samba da década de 1930. As alterações tecnológicas
tornaram as gravações de samba mais abrangentes em termos rítmicos e harmônicos. O
resultado revelou uma riqueza tímbrica na percussão e a espacialidade proporcionada pela
mixagem em estéreo, com a distribuição panorâmica dos instrumentos, criou audibilidade para
que a baixaria do violão e a palhetada do cavaquinho fossem perfeitamente perceptíveis. Do
ponto de vista do cavaquinho, era como se um espaço se abrisse, libertando o instrumento de
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Apesar da preocupação da equipe que gravava, Mané chegou preparado e acertou de primeira.
A gravação teve bastante circulação e chamou a atenção de uma outra geração de cavaquinistas
para o estilo meio rural, meio malandro de Mané.
Na época do primeiro disco de Martinho, ou seja, 1969, o samba dava sinais que
teria um bom momento do mercado e as gravadoras faziam suas apostas. Foi nesse momento
que surgiu um grupo que marcou época, tanto em rodas de samba e espetáculos, quanto como
participante de gravações. A contracapa do primeiro LP (selo Beverly, discos Copacabana) do
grupo traz um texto que explica como o grupo surgiu e ganhou seu nome:
A necessidade de mostrar e ensinar suas músicas aos integrantes dos gigantescos
blocos carnavalescos por onde passaram, fez com que um grupo de compositores do
bairro da Saúde, na Guanabara, formasse um conjunto.
E porque não? Apesar da concorrência, eram todos vizinhos e amigos, frequentavam
os mesmos clubes, bebericavam na mesma "tendinha" e eram até parceiros em muito
samba bom. Além do mais, eram todos afinados e davam seu "recado" direitinho; cada
um tocava seu pandeiro, tamborim ou reco-reco, e o Carlinhos estava ali mesmo com
seu cavaquinho para garantir a harmonia. Foi só arranjar um nome e, se os sambas
eram dêles… pronto: NOSSO SAMBA. (Contracapa do LP "De onde o samba vem",
conjunto "Nosso Samba", texto sem assinatura, 1969, grafia original)
Pouco tempo antes do lançamento de "De onde o samba vem", outro grupo com
formação similar obteve uma forte projeção. Eram "Os Originais do Samba" que logo no
primeiro disco ganharam as rádios com uma versão de "Cadê Teresa?", de autoria de Jorge Ben.
A ideia desses grupos vocais masculinos que combinavam coro masculino em uníssono e muita
percussão e que tiveram papel importante nesse momento do samba, é definida por Felipe Trotta
no artigo "Mussum, Os Originais do Samba e a sonoridade do pagode carioca" de 2016.
O trabalho d"Os Originais" funciona assim como um referencial estético-sonoro que
articula duas ideias: de um lado, a ideia de "mercado" como espaço de disputas
comerciais por dinheiro e prestígio e, de outro, a ideia "autenticidade", estratégia para
ocupação estética do mercado pela legitimidade construída a partir de um
pertencimento presumido e reafirmado a um ambiente sociocultural
reconhecidamente válido. (TROTTA, 2016, p. 3)
seu toque marcante. A faixa do LP em que melhor se escuta o cavaquinho é "Viola e violão"
[Audio 2.3.13] de autoria de Nô e do próprio Carlinhos. Selecionei essa faixa como curiosidade
pois, além de marcar o surgimento de um novo estilista do acompanhamento de samba, mostra
um cavaquinho de timbre bem diferente. Olhando a capa do LP entendi o motivo do timbre do
cavaquinho ser tão incomum. Carlinhos tocava nesse começo de carreira um cavaquinho
dinâmico, instrumento fabricado em São Paulo pela Casa Del Vechio, com aquele sistema
acústico de amplificação descrito na seção anterior, quando citei o violão tenor dinâmico de
Garoto. Os cavaquinhos desse tipo foram usados por instrumentistas que atuavam em ambientes
de muito ruído e pouca ou nenhuma sonorização e certamente esse foi o caso de Carlinhos,
antes de se tornar um dos cavaquinistas preferidos em gravações.
metálicos era Nelson Cavaquinho, que cedia o banquinho a Cartola depois de cantar,
a cada semana, meia dúzia de diferentes obras-primas. Cartola repetia a receita: meia
dúzia de obras-primas, até que chamava o convidado especial. Que necessariamente
tinha que ter muito cacife para pisar naquele chão com força. (MOURA, 2004, p. 189-
190)
A extensa citação que descreve esse elenco de estrelas do samba, torna possível
compreender dois pontos importantes nesse início de carreira do "Nosso Samba" e
consequentemente de Carlinhos. O primeiro deles é que sendo o Opinião um ponto de encontro,
que reunia artistas, jornalistas e produtores ligados ao samba, foi para o jovem grupo a ponte
para o mercado de trabalho em shows e gravações. O segundo ponto é que o conjunto será
percebido como algo "autêntico" e não sofrerá os ataques da crítica que eram comuns ao "Os
Originais do Samba". Afinal, eles andavam em ótima companhia.
A primeira gravação de grande circulação a trazer o cavaquinho de Carlinhos em
destaque foi "Ê baiana" [Audio 2.3.14] na voz de Clara Nunes (Clara Francisca Gonçalves
Pinheiro, 1942-1983) de 1971. A partir desse sucesso, a cantora optou por trabalhar com o
grupo e sempre manifestou sua preferência por cantar acompanhada apenas por cavaquinho,
sem fazer questão de violão, algo bem incomum.
Em 1974 Clara lançou "Contos de areia" [Audio 2.3.15] (Romildo Bastos-Toninho
Nascimento) e essa gravação, que marcou a consagração do estilo de Carlinhos, tem um detalhe
curioso. Na introdução e na primeira vez do refrão, o cavaquinho que se escuta é de Mané do
Cavaco. Quando repete já é Carlinhos, que tem destaque até o final. O fato dos cavaquinistas
usarem afinações diferentes faz com que a mudança seja bem perceptível.
O que tornava o estilo de Carlinhos tão apropriado para gravar bases de samba é o
fato dele tocar bem staccato, controlando a duração das notas com a ajuda do dedo polegar da
mão esquerda, quando tocava as três cordas de baixo e abafando a corda mais aguda com a
falange do dedo indicador, quando tocava as três cordas de cima. O resultado assim obtido era
um som seco e bem definido e o fato de tocar acordes com somente três sons não incomodava
os arranjadores. Havia ainda a questão do cavaquinho de Carlinhos soar sempre afinado, em
função da pouca duração dos sons. O staccato radical, além de definir bem o ritmo, encobria
problemas de afinação. Em termos da mão direita, o som seco e incisivo era resultado de um
número menor de palhetadas e, quase sempre, em movimentos para baixo, algo totalmente
diferente do que se conhecia antes, quando cavaquinistas preenchiam todas, ou quase todas
semicolcheias, palhetando alternadamente. A maneira de tocar de Carlinhos "desembolava" a
base, facilitava a vida do arranjador e funcionava, de fato, muito bem. De todos os cavaquinistas
transcritos no Capítulo 4, é o que melhor se pode escutar em gravações.
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Figura 18: Carlinhos e Dona Ivone Lara ensaiando no stúdio. Ao fundo, no violão de 7 cordas, Darly Louzada
A associação do conjunto "Nosso Samba" com Clara Nunes rendeu muito trabalho
para o grupo e durou até a morte da cantora em 1983, mas Carlinhos participou de gravações
importantes com cantores como João Nogueira e Roberto Ribeiro, dentre outros. Na seleção de
repertório transcrito desta tese constam como exemplos os sambas "Mineira" [Audio 2.3.16] de
João Nogueira e Paulo César Pinheiro (Paulo César Francisco Pinheiro, 1949) , cantado por
João Nogueira e "Acreditar" [Audio 2.3.17] de Ivone Lara e Délcio Carvalho (1939), que
ilustram a atuação de Carlinhos no acompanhamento de sucessos de outros artistas e em
diferentes andamentos, do ligeiro (Mineira) ao cadenciado (Acreditar).
O fato de Carlinhos ter uma palhetada tão diferente dos demais cavaquinistas fez
com que lhe surgisse a possibilidade de gravar em bases com outro cavaquinho, pois não haveria
possibilidade de batimentos, ou seja, de embolar a base. Dentre muitos exemplos, escolhi,
seguindo o critério enunciado na introdução, de dar preferência a gravações que tiveram grande
circulação, a do samba de Gonzaguinha (Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, 1945-1991), "O
que é, o que é" [Audio 2.3.18]. Faixa do LP "Caminhos do coração" de 1982, a base traz de um
lado do estéreo o cavaquinho de Carlinhos e do outro lado, Alceu Maia, tocando num estilo
próximo ao de Mané do Cavaco. Postos em destaque na mixagem, os cavaquinhos diferem
também em timbre, em função das afinações, Carlinhos usando Sol-Ré-Lá-Mi e Alceu, Ré-Sol-
Si-Ré, e se complementam ritmicamente.
90
Ao longo das décadas de 1970 e 80, podemos afirmar sem medo de errar que
Carlinhos foi o mais requisitado cavaquinista para gravações e continuaria sendo, se não tivesse
morrido em 1991, ainda em plena atividade. Seu estilo tem inúmeros seguidores e o acervo de
gravações por ele realizadas daria em si uma tese, tal sua originalidade, eficiência e
produtividade.
O próximo estilista do acompanhamento de samba ao cavaquinho a entrar na
pesquisa é um personagem que já estava em destaque desde o início do período abordado nesta
seção, Paulinho da Viola. Na virada das décadas de 1960 e 70, Paulinho viveu uma situação
incomum entre os artistas da música brasileira: ter ao mesmo tempo prestígio e popularidade.
A popularidade foi atingida através do grande sucesso de "Foi um rio que passou em minha
vida" e o prestígio, que vinha sendo construído desde seu surgimento no Zicartola e no musical
"Rosa de ouro", atingiu um ápice com a vitória de "Sinal fechado" no Festival da TV Record
em 1969. Para desenvolver composições como as apresentadas em seus primeiros LPs,
Paulinho tinha uma base de estudo musical. Estudou violão pelo método de Mateo Carcassi e
foi aluno de solfejo e harmonia de Esther Scliar (1926-1978), como nos informa João Máximo
(2002, p. 34). Respeitado como compositor e cantor, tocando violão com desenvoltura,
Paulinho inicialmente, só tocava cavaquinho nos encontros da ala de compositores da Portela.
Sua atitude de assumir o instrumento a partir de 1973, tem ligação com o fato de que seu pai, o
violonista César Faria (Benedito César de Faria, 1919-2007), passou a tocar com o grupo que
o acompanhava. Pouco antes, César se aposentara como Oficial de Justiça e passou a ter
disponibilidade para viajar com o grupo. A partir do momento que passou a se apresentar
tocando cavaquinho, além de violão, Paulinho começou a desenvolver uma palhetada que se
tornou uma marca de seus trabalhos, aperfeiçoando o estilo que outros cavaquinistas portelenses
já praticavam. Nessa maneira de tocar, que descrevi ao introduzir nesta narrativa a figura de
Jair do Cavaquinho, se divide as cordas do cavaquinho, palhetando as cordas de cima para baixo
e as de baixo, para cima. O resultado é um diálogo de timbres e, para que isto seja possível,
exige que o movimento da mão direita seja de pequeno curso, resultando um toque delicado,
sem grande volume de som. Paulinho comentou sua escolha de palhetada, no depoimento para
o documentário "Apanhei-te cavaquinho" (2010):
A minha (palhetada), assim como a de outros músicos também e cantores, ela é
submetida à minha maneira de cantar. Se eu tenho que me acompanhar eu faço uma
estrutura que fique clara, uma estrutura binária para cantar um samba. [...] É a
essência, o necessário, se entrar mais alguma coisa vai estragar. (Paulinho da Viola,
2010, depoimento no documentário "Apanhei-te cavaquinho")
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Fazendo uma varredura nos LPs de Paulinho da primeira metade da década de 1970,
vemos que depois de aparecer com o violão na capa de dois deles, Paulinho aparece vestido
com a fantasia da ala de compositores da Portela e empunhando um cavaquinho, recostado na
porta azul de uma casa antiga. Uma linda foto e um prenúncio de que ele estava para assumir o
cavaquinho. No disco, a última faixa do lado B é "Um certo dia para 21" [Audio 2.3.19], e nela
aparece pela primeira vez o centro de cavaquinho com a palhetada característica. Por algum
motivo, o cavaquinho tocado por Paulinho na gravação estava afinado um tom abaixo e soa
meio estranho, mas a palhetada está lá. Além de ser o único instrumento de harmonia na faixa,
o cavaquinho de Paulinho vai ficando em destaque pois, a uma certa altura, os instrumentos de
percussão vão parando, restando somente cavaco e voz. Nesta gravação, é possível perceber o
quanto o cavaquinho de Paulinho está submetido a seu canto, fornecendo a estrutura que ele
descreveu no depoimento de 2010.
Nos anos seguintes, em gravações como "No pagode do Vavá" de 1972 e com o
solo de "Choro negro" de 1973, composto em parceria com o pianista Fernando Costa, percebe-
se que Paulinho estava se aperfeiçoando como cavaquinista. Esse aperfeiçoamento vai se tornar
muito claro no disco de 1975, em faixas como "Argumento" [Audio 2.3.20], em que o
cavaquinho puxa o samba e está no comando da base. No ano seguinte Paulinho gravou um
disco instrumental, "Memórias chorando", com solos divididos entre seu cavaquinho e os
sopros de Copinha, demostrando desenvoltura técnica no instrumento como solista. O
amadurecimento da palhetada, com direito a discretas variações nas pausas da melodia cantada,
pode ser constatado na gravação de "Coração leviano" [Audio 2.3.21] de 1978, com o
cavaquinho em destaque, bem integrado ao violão de César Faria, uma fórmula aperfeiçoada.
Nas décadas seguintes, Paulinho da Viola seguiu se apresentando e gravando com
o cavaquinho, e como perfeccionista que é, sofrendo com deficiências de afinação nos seus
cavaquinhos. Este ponto comum, o de se buscar melhoria nos instrumentos foi um canal de
aproximação entre o autor e o sambista e chorão, sempre na busca de melhores soluções para
instrumentos e cordas. Numa entrevista recente, por telefone, perguntei a ele sobre compor
sambas com o cavaquinho nas mãos e ele falou com toda a certeza, que nunca tinha ocorrido
com ele. Os sambas, independente do caráter, são criados ao violão, ficando o cavaquinho com
a função de dar suporte ao canto, como já foi citado. Figura icônica relacionada na mídia e no
imaginário popular com a tradição e a elegância, Paulinho ajudou a valorizar a figura do
cavaquinista ao longo das últimas décadas.
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estruturante dos outros cavaquinistas aqui estudados, mas ele tinha algo que atraía para si os
trabalhos. Rildo Hora, em seu depoimento assume uma questão transcendental envolvendo
Neco.
O Neco era o cavaco que fazia o Antônio Carlos & Jocafi todinho. Era bom de cavaco
de base pra caramba. Ele lia muito bem e gravou os discos do João Bosco. [...] Ele era
pé quente. Tinha esse negócio de eu achar que era pé quente. O Neco tocava, fazia
sucesso, tinha sorte. Fez muitos sucessos em cavacos de base com a Beth também.
(Rildo Hora, 2016, depoimento ao autor)
ter uma personalidade muito afável, sempre de bom humor e fazendo brincadeiras. Num
ambiente de tanta pressão quanto o estúdio de gravação daquela época, isso ajudava a relaxar o
ambiente e diminuir o estresse. Desse LP escolhi para transcrever a faixa "Te segura" [Audio
2.3.22] (Wilson Moreira-Neizinho) em que Alceu, apesar de pouco experiente em gravações,
está muito à vontade e utiliza dois procedimentos que serão suas assinaturas: as segundas
menores tocadas nas cordas mais agudas (que Mané também usava) e a condução de acordes
no extremo agudo do cavaquinho.
Mas nem tudo foi fácil nessa chegada de Alceu Maia ao mundo do samba. Se entre
os músicos de estúdio ele logo fez ambiente, os olhos da mídia o enxergavam de outro jeito.
Alceu descreve um descrédito, um preconceito da época:
Eu era uma novidade. Novidade até em termos de idade, de ser jovem, cabeludo e
branco. [...] Eu cabeludão, pinta de roqueiro, branco, garotão tocando samba, nego
olhava e ah.... Eu fui numa rádio uma vez com o cavaquinho, eu com a Beth que ia
acompanhar na rádio. [...] Quando chegou no estúdio o cara me apontou a sala da
técnica e estendeu a mão para pegar o cavaquinho dizendo:
_ Pode ficar aí que eu levo pra Beth.
Entreguei o cavaquinho, fiquei olhando e vi a Beth gesticulando lá dentro. Daqui a
pouco o cara saiu todo sem jeito, pedindo desculpas. Rolava esse negócio também.
(Alceu Maia, 2017, depoimento ao autor)
Figura 20: Por volta de 1976, Alceu Maia acompanhando Beth Carvalho na Rádio Jornal do Brasil
o produto fonográfico "disco de samba enredo" mudou, passando a ser valorizado e a disputar
as vendas de final de ano. O primeiro cavaquinista a gravar e se destacar na nova fase foi
Carlinhos e, a partir de 1983, Alceu passou a ser o nome mais constante nos discos do gênero.
Falando em samba enredo, esse foi o título do elogiadíssimo LP de Martinho da
Vila de 1980 e nele Alceu brilha na base junto com o violão de 7 cordas de Raphael Rabello
(Raphael Baptista Rabello, 1962-1995). A escolha de repertório para o disco não levou em
conta se este ou aquele samba enredo tinha feito sucesso e baseou-se na qualidade das letras e
melodias. Os andamentos são bem mais lentos do que os usados na avenida naquela época. Para
se ter ideia, no desfile das escolas do ano de 1980 os andamentos giraram em torno de 120bpm,
enquanto a faixa de abertura do LP de Martinho era cantada em 102bpm, uma sensível diferença
que abria mais espaço para caprichar na palhetada. E Alceu caprichou mesmo, como podemos
ouvir no antológico samba salgueirense "Chico Rei" [Audio 2.3.23] (Geraldo Babão-Djalma
Sabiá-Binha), em que o cavaquinho acompanha sozinho toda a primeira parte.
Aos poucos, Alceu passou a atuar como produtor e arranjador e seguiu gravando
como cavaquinista, conforme demonstram duas gravações que tiveram grande circulação na
primeira metade da década de 1980. A já citada "O que é, o que é" com Gonzaguinha, em que
se escutam perfeitamente os cavaquinhos de Mané e Alceu, um de cada lado do estéreo, em um
diálogo perfeito de palhetadas e "Vai passar" [Audio 2.3.24] com Chico Buarque, com o
cavaquinho bem na frente na mixagem.
Em 1980, no último ano de nosso recorte, entrou no círculo dos cavaquinistas que
gravavam mais um estilista: Mauro Diniz, que estreou no LP "Terreiro" de seu pai, Monarco.
Mauro aperfeiçoou o estilo portelense de cavaquinho e criou suas assinaturas que se tornaram
conhecidas especialmente pelas gravações de Zeca Pagodinho algum tempo depois. Mas a
grande maioria das bases de samba que Mauro gravou, em produções de artistas de grande
circulação, já não davam tanto espaço para o cavaquinho evoluir de forma mais criativa.
Dividindo o "centro" com o banjo cavaquinho e convivendo com um maior número de
instrumentos de percussão, o cavaquinho perdeu seu protagonismo, marcadamente a partir de
1981.
O período de 1964-1980 foi marcado por esses cinco estilistas descritos em detalhes
e que terão suas palhetas transcritas no Capítulo 4. Jair do Cavaquinho, Mané do Cavaco,
Carlinhos, Paulinho da Viola e Alceu Maia abriram o leque de possibilidades para o
acompanhamento de samba ao cavaquinho e até os dias de hoje são referências essenciais para
os jovens cavaquinistas.
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O copista, um músico com boa caligrafia musical e muita paciência para decifrar o
que os maestros escrevem nas grades, é de suma importância no dia a dia do estúdio de
gravação, um cargo de confiança. Normalmente contratado pela gravadora, trabalha numa
pequena sala e está "de plantão" para resolver rapidamente mudanças de tom e outras que
causem a necessidade de se reescrever as partes cavadas (em separado de cada instrumento) de
um arranjo.
Depois de cumprimentar um por um os músicos, com abraços e brincadeiras, o
cantor se aproxima do grupo e se prepara para cantar, segurando um papel com a letra
datilografada que lhe entrega o arregimentador.
Com todos a postos, o maestro conta e cantarola o que será, segundo o arranjo, uma
introdução de trombone e flauta. O cantor inicia meio frio, dá uma parada para pigarrear e pede
pra começar de novo. Então, canta uma vez inteira com grande satisfação e ao final tem duas
observações a fazer.
_ O tom é esse mesmo, tudo certo. Mas para aproveitar mais, podia ser um tantinho
mais devagar. Fica melhor para interpretar e valoriza esse balanço do cavaco que está muito
gostoso.
O maestro então expõe ao cantor a ideia de terminar a música em fade out, repetindo
as duas últimas frases da segunda parte, acrescentando palmas e valorizando o tal balanço do
cavaco que ele está curtindo. O cantor dá um sorriso, abraça o maestro e fala bem alto para os
outros músicos ouvirem.
_ Compro na hora essa ideia. Vamos em frente maestro.
O maestro então passa as instruções para a mudança de forma nas partituras e pede
a cada músico que anote na sua parte a nova forma.
_ Pessoal, anota aí. A forma ficou: introdução, duas vezes o "S" e vamos pra
segunda parte, voltamos mais duas vezes na primeira. Daí, quando for pra segunda, vai ficar
repetindo os quatro últimos compassos. Repete até eu mandar parar, ok?
O maestro pede a presença do produtor para opinar também. Quando o produtor
chega na sala de gravação o grupo toca na nova forma, com o andamento um pouco mais
relaxado e há um consenso que realmente ficou melhor. O produtor, que parece mais
preocupado com o fato de ter uma reunião no departamento artístico da gravadora em 15
minutos, concorda com tudo, diz que está ótimo, dá os parabéns ao maestro e se retira, avisando
que volta depois da reunião.
100
A base começa a tocar, mas antes mesmo de chegar ao fim da introdução, o maestro
manda parar e corrigir a afinação. O violão de 6 cordas tira um diapasão do estojo, pede silêncio
no estúdio, bate com o diapasão na beira do assento da cadeira e encosta a pecinha no tampo
do violão. Nesse momento todos ouvem no fone e no aquário o Lá de 440Hz, que será o padrão
de afinação usado. São feitas muitas correções nos violões, contrabaixo e no cavaquinho, o
último a se acertar. Quando finalmente o instrumento começa a soar afinado, o maestro retoma
o comando.
_ Tudo certo? Vamos lá que ainda temos outra pra fazer. Atenção, silêncio. Vamos
gravar. Dois em branco, o segundo com a anacruse. 1, 2, 1 e 2 e...
Agora a base soa afinada e o cantor entra, ainda meio inseguro, ao sinal do maestro.
O samba começa a ganhar a imagem sonora que vai identificá-lo dali para frente, com o
cavaquinista se soltando, explorando as variações possíveis na palhetada e influenciando a
levada dos violões e do pandeiro. Vão até o final com poucos problemas. Quando param, o
produtor reclama que está correndo um pouco o andamento e pede atenção para esse aspecto.
O maestro concorda e pede para darem uma última checada na afinação pois pretende fazer a
boa, já, já.
_ Atenção, vamos gravar, silêncio. Ah… lembrei de uma coisa importante. Tem
alguém sobrando naquele breque na entrada da segunda parte.
O pandeirista reponde que é ele e pergunta se o pandeiro está vazando nos violões.
O técnico diz que sim, que ele tem que acertar o breque, pois nos violões e no cavaco estará
soando um acorde e daria para ouvir a sobra do pandeiro. Resolvem então dar uma passadinha
no trecho, marcando o breque para o pandeirista com a palavra da letra na qual ele tem que
parar. Com tudo resolvido, o maestro reassume.
_ Agora vai! Silêncio, atenção, vamos gravar. "Meu samba" primeira. 1, 2, 1 e 2
e...
A gravação rola certinha, com muito balanço e o cantor se empolgando na voz guia.
Ao final todos comemoram. O produtor aperta o talkback e chama o pessoal para ouvir no
aquário. Os músicos vão saindo da sala comentando a performance, em geral bem satisfeitos.
A audição no aquário se dá com o volume bem alto e agrada a todos. É nessa hora
que o produtor cochicha alguma coisa no ouvido do maestro e ao final, enquanto o cantor e os
músicos dão risadas e se abraçam comemorando, surge a dúvida. Diz o maestro:
_ Realmente… deu uma corridinha, mas não me incomodou.
O produtor, que não é da turma do samba, observa.
102
_ É por isso que o pessoal do pop agora grava tudo com o metrônomo no fone.
Assim não tem esse papo de corridinha.
O cantor reage, diz que para ele aquela versão está valendo, que está com uma
energia boa, com muito balanço.
_ Deixa essa base como está. Não adianta ficar certinha e sem esse suingue. Tem
até um amigo meu que diz que "samba que não corre não vende disco".
Ouvem de novo, aprovando a base. O cantor manda buscar umas cervejas para o
pessoal "molhar a goela" antes do segundo samba. As cervejas e os copos chegam na sala de
espera. Os músicos vão se servindo e antes de beber, o cavaquinista olha o relógio e fala para
os companheiros.
_ Seis da tarde, já dá pra tomar um copinho.
Todos brindam ao samba gravado, ao sucesso que há de vir. O papo descontrai, se
estendendo até que o maestro chama.
_ Pessoal, vamos lá que a próxima tem umas convenções de ritmo meio marotas.
Vai dar um trabalhinho.
O técnico coloca mais cavaquinho na mixagem dos fones e os músicos fazem sinal
de positivo com o polegar. Os 2 tamborins vão encaixando direitinho e logo em seguida, com
o ganzá e o reco-reco será da mesma forma, ou seja, a acentuação do ritmo estará subordinada
a palhetada do cavaquinho.
A essa altura, o produtor entra no estúdio e vai logo perguntando se está tudo
correndo bem, pois está preocupado com a possibilidade de estourar a previsão de horas de
estúdio, o que poderia criar problemas com a direção da gravadora. Antes de dar meia volta e
sair, faz uma recomendação.
_ Não inventa muito, maestro! Acelera esse negócio.
Quando a porta do estúdio se fecha, o maestro comenta com os presentes no
aquário:
_ Esse pessoal que não é do samba acha que é fácil. Que todo mundo vem aqui,
acerta tudo, ganha o seu dinheiro e vai embora. Imagina se fosse assim? Vamos continuar que
quero completar a percussão dessa faixa e mais três.
Três horas depois os percussionistas vão embora felizes. Gravaram quatro faixas
dobradas, ou seja, vão receber 8 períodos por 3 horas de estúdio. Enquanto eles recolhem os
instrumentos vêm chegando o trombonista e o flautista, músicos experientes em gravações, que
atuam no samba e também em outros segmentos da indústria fonográfica. O auxiliar de estúdio
faz uma nova arrumação na sala de gravação, colocando um rebatedor entre as cadeiras onde
os músicos vão sentar. Passam o som já lendo o arranjo de "Meu samba" e quando já estão
prontos para gravar o maestro pergunta:
_ Vocês estão ouvindo bem o cavaquinho e os tamborins? Isso é importante na
segunda parte porque o trombone vai reforçar a divisão deles e a flauta vai responder. Vou pedir
para colocar mais cavaco no fone e vocês vão sacar logo como é.
Feita a alteração na mixagem do fone, os sopros foram se encaixando na base e tudo
funcionou. A palhetada do cavaquinho foi usada como referência rítmica o tempo todo, se
configurando na prática como o centro estruturante da música.
Nas etapas seguintes, colocação de voz, coro e mixagem, não será exatamente igual,
mas por outra via, o cavaquinho continuará sendo determinante. Primeiramente na colocação
da voz e do coro em uma gravação de samba acontece uma dificuldade prática que advém do
fato de os fones de ouvido, mesmo os de boa qualidade, não suportarem a soma das frequências
graves dos violões, contrabaixo, surdo e pedal de bateria. Por melhor que o técnico faça o
equilíbrio dos canais, ao se ouvir a base no fone o grave estará embolado, sem definição. Nessa
104
situação, as vantagens acústicas do cavaquinho descritas na seção 1.2 farão toda a diferença e
ele será a referência de tonalidade e afinação para o cantor e os integrantes do coro.
Finalmente, na etapa de mixagem o cavaquinho continuará em destaque e sua
posição dentro da panorâmica do estéreo vai determinar outras escolhas. Se o cavaquinho fica
no meio do estéreo os violões estarão abertos, um para um lado outro para o outro. Se o
cavaquinho ficar para um lado, o violão de 7 cordas irá para o meio, o que pode dar certo ou
não, dependendo de como ele e o contrabaixo tocaram. O importante numa mixagem de samba
é que, ao final, a batucada esteja bem explicada e com pressão e que o cavaquinho esteja bem
audível para que exerça seu papel de ponte entre a harmonia e a percussão. Já instrumentos
como o contrabaixo ou o violão de 6 cordas costumam ficar em planos menos destacados, ou
como definem os técnicos de gravação, "é só um recheio".
Ao ouvir o resultado já na fase final da mixagem de "Meu samba", o cantor se
levantou e colocou a mão sobre os ombros do técnico e do produtor e disse.
_ Tá tudo lindo, mas bota mais um pouco de cavaco. É pra balançar a galera!
Existem regras que têm um código escrito, em tratados teóricos ou manuais de ensino,
e outros, não menos importantes, que são transmitidas pela tradição oral ou através de
obras-modelo. Isso também é válido para aquelas regras que se referem a técnicas de
desempenho, características de instrumentação e avaliação da habilidade de um
músico. (FABBRI, 1981, p. 3, tradução do autor3)
Como citei na Introdução deste trabalho, penso ser mais apropriado em vez do
termo "oral" usar "aural-instrumental", para o que toca na questão do cavaquinho e seus saberes
associados, transmitidos de forma presencial ou através de gravações. A maioria dos
executantes de cavaquinho aprendeu "de ouvido", tentando copiar o que um cavaquinista mais
experiente estava tocando ou reproduzir o que ouvia em uma gravação, antes de ser cooptado
para os ambientes profissionais do samba. Com um aprendizado tão dirigido a um gênero
musical, é natural que ao se profissionalizar, o cavaquinista acompanhador de samba já siga,
mesmo sem perceber, as regras que definem aquele gênero. Isso vai direcionar suas "técnicas
de desempenho" e, como veremos ao longo da seção seguinte, ser a base da criação de códigos
que farão fluir a gravação de uma base de samba.
Cada cavaquinista trouxe de sua experiência na roda de samba, na roda de choro ou
na escola de samba, um acervo de saberes que será o ponto de partida para a avaliação de seu
desempenho dentro do ambiente de gravação. Esse prestígio vai crescer ou não devido a fatores
profissionais (pontualidade, engajamento) e artísticos (criatividade, precisão), mas um ponto
será especialmente sensível, para uma maneira de acompanhar samba ao cavaquinho se tornar
de fato valorizada: estar associada a uma ou mais obras-modelo. Na seção 2.3 vimos como o
aparecimento de Mané do Cavaco acompanhando os primeiros sucessos de Martinho da Vila,
fez um jovem de classe média, Alceu Maia, trocar o violão pelo cavaquinho, por exemplo. A
circularidade dos saberes construídos informalmente através das obras-modelo no samba vai
realimentar o repertório de possibilidades do cavaquinho acompanhante no período de estudo
e consolidar reputações e identidades, tanto entre os colegas de gravação quanto junto ao
público do segmento. Justamente por esse motivo, várias das gravações escolhidas para serem
transcritas no Capítulo 4 são justamente as percebidas como obras-modelo, ou mais
especificamente, consideradas pelos cavaquinistas como obras-modelo.
Os estilistas do cavaquinho descritos na seção 2.3, eram vistos como especialistas
de prestígio, capazes de colaborar decisivamente para uma boa gravação. Ao comentar a
construção desse prestígio no ambiente do samba, Roberto M. Moura resumiu assim a questão:
3
There are rules which have a written code, in theoretical treatises or teaching manuals, and others, no less
important, which are passed on by oral tradition or through model works. This is also valid for those rules which
refer to performance techniques, to instrumental characteristics, to a musician's ability.
106
O que vai determinar esse prestígio adquirido, essa autoridade, é o equilíbrio entre a
prática do padrão aceito pela comunidade e a capacidade de imaginar soluções
criativas dentro dele. (MOURA, 2004, p. 84)
O espaço para que sejam implementadas essas soluções criativas resulta do fato que
um arranjo de samba, por mais detalhista que seja o arranjador, vai chegar ao estúdio com
muitas indefinições. O arranjador então precisa trabalhar com uma equipe em que ele confie,
pois conta com as soluções criativas dos especialistas, coisas que o músico de samba propõe de
forma espontânea e que vão conferir fluência e originalidade aquele registro. O produtor e
arranjador Geraldo Vespar, que foi dos mais atuantes no período estudado, responsável por
muitos discos de João Nogueira, Clara Nunes e Roberto Ribeiro, dentre outros, define assim a
importância da contribuição que um especialista do samba dá na hora em que a música começa
a ser passada no estúdio, antes da gravação.
Quando o músico tem uma essência musical forte, o tocar dele já projeta coisas no ar
que chamam a sua atenção pra aquele músico. Tem um grupo de pessoas tocando,
dentro daquele grupo tem um que parece estar mais integrado com a música. [...] A
gente ia pro estúdio, começava a passar e no momento do ensaio você detectava onde
estava aquele núcleo em que a música estava mais centrada, muitas vezes no cavaco.
O cavaco tinha uma jogada que integrava, todo mundo ia nele. (Geraldo Vespar, 2017,
depoimento ao autor)
uma variação de 4 pontos em BPMs, por exemplo. Portanto, a negociação do andamento tem
que levar em conta, além do conforto para potencializar a performance do cantor, todo o encaixe
da polirritmia que constará daquela base, de maneira a soar fluente, como se fosse de fato uma
escolha espontânea, natural. Esse ponto é muito sensível e alvo constante de consultas entre o
maestro e os demais músicos, o cantor, o produtor e até amigos que por ventura estejam no
estúdio. A frase citada pelo cantor na alegoria etnográfica: "samba que não corre não vende
disco" é de autoria de Rildo Hora, que sempre a usou para argumentar que uma gravação
animada de um samba tende a acelerar um pouco o andamento em seu decorrer e que isso não
é defeito e sim um sinal de vigor, de capacidade de comunicação.
Se compararmos a gravação descrita na etnografia com a média das gravações
atuais de bases de samba, feitas a partir de um metrônomo, com menos músicos e um mesmo
músico tocando vários instrumentos, tudo no sentido de diminuir custos, não é difícil perceber
o quanto se perdeu no campo das colaborações criativas.
Numa base de samba, partindo de uma simples harmonia cifrada, às vezes com
alguma sugestão de levada ou convenções de ritmo, vai-se moldando algo bastante elaborado,
graças à experiência especializada dos músicos executantes, os artífices do samba. Essa
construção, não é simples e embora não seja apenas rítmica, é nesse campo que reside a
prioridade, o balanço, que está relacionado diretamente a capacidade daquela música se
comunicar. Se fôssemos transcrever detalhadamente numa grade o que cada instrumento faz
numa base de samba a partitura seria muito complexa, com a superposição de várias
polirritmias. Por isso mesmo é tão importante o papel do músico que lidera espontaneamente,
ou nas palavras de Geraldo Vespar, "o núcleo onde a música está mais centrada". Esse papel
estruturante nas bases de samba foi exercido com brilho no período 1964-1980 pelos cinco
cavaquinistas descritos na seção 2.3. Vários outros também gravaram, mas seja pelo aspecto de
não terem uma "assinatura" na palhetada, seja pelo fato de terem participado em gravações de
menor circulação, não impactaram sensivelmente na maneira de se acompanhar o samba no
cavaquinho desde então. Já as gravações de grande vendagem e execução e que tinham o
cavaquinho em destaque, funcionaram como o que Fabbri (1981, p. 3) definiu como "obra-
modelo" e influenciaram e influenciam até hoje os cavaquinistas acompanhantes de samba.
Tanto na questão da pontualidade na hora de chegar ao estúdio, quanto na conversa
flagrada entre os músicos quando seus "superiores" saem e eles podem falar mais francamente,
percebe-se que o aspecto prático, do quanto se vai ganhar com aquele trabalho, tem grande
importância. O trabalho de gravação naquele momento (1980) passava por uma fase altamente
108
profissionalizada, com uma constante pressão do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio
de Janeiro junto as gravadoras, para manter atualizada a tabela de cachês. E as regras a respeito
de dobras eram de fato cumpridas, resultando em boas remunerações, especialmente para
percussionistas e coristas. Embora o músico soubesse do lucro da gravadora, do poder que ela
tem para impor condições de trabalho e remuneração, ainda assim, o que sentimos no ambiente
é uma profunda identificação entre o trabalhador e seu produto. Não se trata de ingenuidade,
mas de um comprometimento que envolve de um lado uma remuneração considerada justa e de
outro o prazer compartilhado daquele trabalho, feito de forma colaborativa e com uma
hierarquia que se dilui no compadrio. Um trabalho em que se comemora o sucesso antes mesmo
dele existir e em que o discurso de entrega, de paixão pelo samba, convive sem constrangimento
com a busca de resultados práticos.
Não por acaso, os depoimentos de Rildo Hora em 2016 e Geraldo Vespar em 2017,
mediadores que atuaram intensamente no período em análise, obtendo reconhecimento da
crítica e sucesso nas vendagens de seus produtos, serão muito citados nesta seção. Além de
serem produtores e arranjadores consagrados de samba, um outro ponto em comum entre Rildo
e Vespar é que ambos tiveram no cavaquinho seu primeiro instrumento e depois,
profissionalmente, se tornaram conhecidos como gaitista e violonista, respectivamente.
Ao descrever o dia a dia da gravação em sua fase de produtor/arranjador na
gravadora Odeon, Geraldo Vespar ressalta a dificuldade de não perder de vista as soluções
criativas, apesar da rotina pesada.
Era uma lida, uma batalha, três períodos de estúdio: de nove às três, de três às nove e
de nove da noite às três da manhã. Às vezes eu ficava o dia inteiro dentro do estúdio,
ia dormir às três da madrugada e nove da manhã já estava lá, de novo. Foi uma
experiência de vida fantástica. (Geraldo Vespar, 2017, depoimento ao autor)
com os quais gostaria de contar e dirigia de fato a gravação. O artista, mesmo sendo o núcleo
principal, não interferia muito no processo de gravação, decidindo mais sobre a escolha de
repertório e sendo consultado sobre todas as definições, de forma e andamento, até a mixagem.
No caso da rotina de gravações do período estudado, o "padrão de atividades
coletivas" a que se refere Becker era algo que incluía um grau elevado de variações de
procedimento, uma espécie de concurso constante de ideias sobre ritmo, que eram colocadas
pelos músicos e selecionadas pelo arranjador. Uma cadeia de cooperação complexa e que em
sua etapa mais decisiva, a gravação da base, as ações aconteciam simultaneamente. Alceu Maia
chama a atenção para o quanto é diferente tocar sobre uma base construída a partir de um
metrônomo e uma com todos tocando ao mesmo tempo.
A maioria das vezes hoje em dia você grava aquela base diminuta e muitas vezes o
mesmo cara coloca pandeiro, tantan, surdo, tamborim. Você vai lá colocar o cavaco e
toca com um violão que nem está valendo. Toca junto, mas não ao mesmo tempo.
Antigamente você tinha aquela construção coletiva. (Alceu Maia, 2017, depoimento
ao autor)
No livro "O samba e suas fronteiras" (2011), Felipe Trotta chamou a atenção para
as mudanças ocorridas na sonoridade das gravações de samba no período, mudanças que
envolveram tanto a instrumentação quanto a maneira de executar e mixar os instrumentos da
base. Na próxima seção, veremos como essas mudanças estiveram relacionadas a uma maior
especialização e profissionalização dos envolvidos nas gravações de samba, um processo que
112
humana, um grande esforço de relativização para não perder o foco no objetivo final: um samba
que ao tocar prendesse o ouvinte, envolvesse as pessoas.
O "não embolar", ou seja, não acontecerem batimentos de ritmo, era um valor
máximo e também um limite prático para o tal concurso de ideias sobre ritmo que citei
anteriormente. O esforço para não embolar não era algo que o arranjador precisasse explicar ao
músico, era um hábito que aquela maneira de trabalhar desenvolvia na prática cotidiana. Nas
palavras de Becker, uma convenção.
Normalmente, as pessoas que cooperam para produzir uma obra de arte não partem
do zero. Pelo contrário, baseiam-se em convenções existentes e de uso partilhado, que
fazem parte dos habituais métodos de trabalho no domínio artístico considerado. As
convenções artísticas abrangem todas as decisões que se tomam para produzir uma
obra. (BECKER, 2010, p. 49)
músicos para se chegar a um resultado que permitisse a todos tocar sem se desencontrar do
restante da base. Alguns músicos desenvolviam o hábito de deixar uma orelha fora, ou meio
fora do fone, para poder controlar melhor a sonoridade e dinâmica que extraíam de seu
instrumento. Só que isso criava um problema de vazamento do som do fone no microfone do
próprio músico, algo que causava preocupação a técnicos e produtores. A adaptação a essas
condições de audição era um pré-requisito para um músico ser muito requisitado para
gravações, assim como o conhecimento das "convenções artísticas" e a atenção na aplicação
das mesmas.
A dificuldade do trabalho em estúdio de gravação, o desconforto nas condições de
trabalho e um orgulho dos músicos que dominam a situação, estabelecendo uma excelência em
condições desfavoráveis é descrito por Becker, quando fala na cadeia colaborativa da "arte
comercial". A citação retrata e avalia o trabalho de um músico em estúdio.
Não só a música que estes homens têm de tocar é difícil, como têm de tocá-la sob
condições extremamente adversas, sem qualquer preparação prévia e adaptando-se ao
que já existe gravado, sem ensaiar mais do que duas vezes antes do registro definitivo
e tudo isso devido a constrangimentos de ordem financeira. Estes músicos possuem
grandes competências técnicas. Eles sabem-no e orgulham-se disso. (BECKER, 2010,
p. 244)
instrumento e a sílaba "tá" correspondendo ao som do "tapa", obtido com os outros quatro dedos
no meio da pele. O maestro então dizia:
_ Atenção, silêncio, vamos gravar. Tum tum, tá, tum tum tum, tá.
O pandeirista imitava com o instrumento a divisão cantada pelo maestro e a
gravação começava certinha, precisa. Procedimentos parecidos eram utilizados para se
iniciarem bases que não tivessem o início usual com o surdo, que partissem de uma convenção
rítmica ou de uma antecipação de colcheia ou semicolcheia.
Alguns ritmistas tinham uma inteligência musical mais apurada como o Mestre
Marçal e Gordinho do Surdo (Antenor Marques Filho, 1946), este ainda em atividade, e eram
capazes de compreender passagens fora do usual sem perder a fluência. Geraldo Vespar
acrescenta um detalhe que a convivência com esses músicos o fez perceber.
Não é só o som do instrumento, é a maneira como ele sente e toca com emoção. Marçal
tocava tudo e tocava bem, tinha inteligência musical. Um ponto importante é você se
sentir dentro do estúdio como se tivesse em casa. É a inteligência emocional dentro
daquele contexto musical. (Geraldo Vespar, 2017, depoimento ao autor)
Nas gravações de samba, com bases feitas com vários músicos tocando
simultaneamente, como eram no período estudado, essa inteligência musical, aperfeiçoada em
centenas, milhares de horas de estúdio, dava ao músico a noção exata da sua colocação em cada
momento, sabendo a hora de propor algo ou de simplesmente aderir ao comando de outro
instrumento. Nessa negociação musical, o cavaquinho tinha a vantagem de soar mais claro no
fone que os instrumentos graves e, desempenhando o papel de ponte entre o ritmo e a harmonia,
definir na prática a estrutura.
Um outro aspecto que era muito exigido de um músico para atuar regularmente em
gravações de samba era não se importar de alterar sua maneira de tocar para seguir um modelo
mais simples, que funcionaria melhor para aquela gravação. Isso, no campo das harmonizações,
causava às vezes uma espécie de choque cultural entre aquelas mesmas facções descritas na
seção 2.3, ou seja, o pessoal "moderno" que gostava de usar acordes alterados e os "quadrados",
que harmonizavam com tríades, acordes de dominante e diminutas. A questão é que muitas
vezes, a opção pela harmonia "quadrada" era a mais apropriada na opinião do arranjador e o
músico tinha que abrir mão de suas concepções. Muitos não se adaptavam e não eram mais
chamados para gravar samba. A boa remuneração não era suficiente para que eles contrariassem
suas preferências estéticas. Dentre os arranjadores também ocorria algo parecido. Reconhecidos
como bons músicos, nomes como Severino Filho (Severino de Araújo Silva Filho, 1928-2016)
e Luiz Roberto Gomes (1940-1988), ambos oriundos do grupo vocal/instrumental "Os
Cariocas", tentaram trabalhar no mundo do samba, mas o gosto estético desenvolvido no
116
ambiente da bossa nova, fez com que seus arranjos fossem mal avaliados nas gravadoras e
abertamente criticados na imprensa. Isso ocorreu com Severino em arranjos para Martinho da
Vila em 1970 e com Luiz Roberto, alguns anos depois, em arranjos para um LP de Candeia. A
conciliação harmônica entre o samba e a bossa nova, entre quadrados e modernos, ainda não
havia ocorrido naquele momento.
Na virada da década de 1970 para 1980, o conhecimento sobre harmonia funcional
começava a se espalhar no meio musical, mas ainda era detido por poucos. Normalmente, o
músico popular que detinha esse conhecimento tinha preferência pelo jazz, muitos tendo
estudado no Berklee College of Music de Boston, e não enxergava valor nos saberes trazidos
por chorões e sambistas, que consideravam ultrapassados, ignorantes, primitivos. Posso
testemunhar esse preconceito, pois convivi com ele nesse período de tempo e o vi declinar no
final da década de 1990, quando o conhecimento sobre o choro e o samba começou a ter seu
reconhecimento. Uma passagem que marca de forma clara o que acontecia em 1980 diz respeito
a um arranjador, Dory Caymmi (Dorival Tostes Caymmi, 1943), que era contratado da
gravadora Odeon e gostava de contar, a título de piada, que tinha encontrado a solução para
acabar com as harmonias erradas no Brasil. Ia produzir uma gravação num estádio, chamar
todos os cavaquinistas e soltar uma bomba. Pronto, assim não teríamos mais harmonias erradas.
Parece chocante e é mesmo, mas serve para entendermos o fato que os especialistas nas bases
de samba tinham trabalho e eram prestigiados dentro do mundo do samba, mas fora dele eram
vistos como músicos primários. Cavaquinho, violão de 7 cordas, percussão, tudo fazia parte de
um passado primitivo e que não interessava a essa geração de músicos sintonizada com a MPB,
o fusion e oriunda da classe média alta. O preconceito tinha, portanto, vertentes sociais, de estilo
e até de instrumentação. Na época, com vinte anos de idade e tocando samba no "Conjunto
Coisas Nossas" e choro na "Camerata Carioca", ouvi muitas vezes de músicos mais experientes
que deveria largar o cavaquinho e tocar guitarra elétrica.
A descrição rápida do que acontecia no campo do preconceito nos ambientes de
estúdio, serve para valorizar ainda mais o trabalho de músicos mediadores como Rildo Hora e
Geraldo Vespar. Atuando como produtores e arranjadores, eles elevaram o padrão de
acabamento das gravações de samba no período, convivendo com as limitações de
conhecimento musical da turma do samba e extraindo um resultado que dava uma identidade
ao trabalho de cada artista, identidades essas que, com o correr dos anos, se transformariam em
narrativas de carreira, como veremos na seção seguinte. O fato de saberem conviver com as
limitações de conhecimento não significa que estes produtores/arranjadores não adotassem de
117
imediato músicos mais preparados que chegavam naquele final de década de 1970 ao mercado
de trabalho em gravações de samba. Foi o caso de Alceu Maia, como vimos na seção 2.3 e
também o de Rafael Rabello (1962-1995), que por essa época ameaçou a hegemonia de Dino 7
Cordas, pelo fato de trabalhar nas baixarias usando escalas de acordes dominantes alterados.
Por exemplo: num acorde com 7ª e 5ª aumentada, Dino apenas alterava o quinto grau, enquanto
Rafael utilizava a escala de tons inteiros. Essa novidade, bem como o vigor criativo do jovem
violonista, colocou Rafael rapidamente no caderninho de telefones dos arregimentadores. E
entrar para essa elite musical bem remunerada era, naquele momento, o objetivo principal de
todo músico profissional.
Esse campo da harmonia, o do uso de acordes dominantes com alterações,
representava uma dificuldade especial para os cavaquinistas que, diante de um acorde de cinco
ou seis sons, não sabiam quais notas omitir. Percebi que essa era uma demanda na época em
que comecei a dar aulas de cavaquinho, em fins de 1982. A partir dessa constatação, formulei
uma sistemática de supressão de sons e de superposições de montagens de acordes no
cavaquinho, apliquei essa sistemática com vários alunos para ver como era absorvida e
finalmente a publiquei no último capítulo do método "Escola Moderna do Cavaquinho",
lançado em 1988. A circulação dessas informações organizadas e codificadas, quase uma
década depois do fim do período estudado, impactou a geração de cavaquinistas que veio
depois. Antes disso, os profissionais do cavaquinho e arranjadores procuravam se acertar caso
a caso e, algumas vezes, apelando para cifras "decodificadas", como descreveu Geraldo Vespar
em depoimento citado no capítulo anterior.
Se na interface entre os músicos de samba e os demais músicos profissionais havia
um preconceito bem vocalizado na piada de Dory Caymmi, dentro do mundo do samba também
aconteciam tentativas de ridicularizar, de expor, a falta de conhecimentos de alguns músicos,
especialmente dos percussionistas, chamados na época pejorativamente de ritmistas. Um caso
que se tornou conhecido foi de uma gravação em que Mestre Marçal, muito seguro e altivo
dentro do estúdio, perguntou ao maestro, pouco antes deste contar para iniciar a gravação, se
aquele arranjo tinha anacruse. O rapaz do violão, mais jovem e querendo se afirmar, se
aproximou do microfone para que todos ouvissem e falou:
_ E você sabe lá o que é anacruse, Marçal?
A resposta veio sem pausa.
_ Sei sim! É quando o cara tem que dar um tempo para entrar.
118
dando oportunidade a que saberes construídos fora de qualquer arcabouço teórico, na prática e
no autodidatismo, tivessem espaço.
Esses saberes incluíam a solução de problemas que colocavam em risco a eficiência
do trabalho, atrasavam a gravação. Como foi detalhado na seção 1.1, os cavaquinhos tinham e
ainda têm, em sua grande maioria, sérias deficiências de afinação. Não se tratava de desleixo
dos instrumentistas, os instrumentos não afinavam pois tinham escalas imprecisas, mal
construídas. A solução que o cavaquinista experiente dava diante de uma dificuldade de ajustar
a afinação e sob pressão do maestro para gravar logo, era normalmente aumentar o uso do
staccato percussivo, aquele efeito de controlar a duração do som afrouxando os dedos da mão
esquerda. Quanto mais seco e curto o som, menos se percebem os problemas de afinação. Posso
afirmar que os cavaquinhos da marca Do Souto usados por Mané e Carlinhos, e que tive
oportunidade de experimentar, tinham basicamente as mesmas deficiências de afinação, mas
Carlinhos soava em média mais afinado, pois tocava sempre usando staccato percussivo de
forma radical.
Do ponto de vista do arranjador, às vezes era importante aproveitar alguma coisa
que o cavaquinista já trazia de sua convivência com o repertório a ser gravado e construir toda
a base a partir do cavaquinho. Mas para isso era necessário gastar mais tempo no estúdio, o que
nem sempre era possível. Rildo Hora resolvia a questão de modo pragmático através da escolha
das faixas que ele chamava (e chama ainda hoje) de "coringas". Tratam-se das faixas que o
produtor imagina terem maior chance de sucesso. Quando fala em seu depoimento "os coringas
eu fazia com os Manés", citando a dupla de craques do ritmo Mané do Cavaco e Manuel da
Conceição, que tocavam de ouvido, o produtor explicita a importância dada a capacidade que
aquela base construída intuitivamente teria de comunicar o samba no ambiente popular, de
passar o balanço. Um valor que o fazia "perder" mais horas de estúdio nessas faixas, certo de
que valeria a pena. A abordagem de Geraldo Vespar na construção de uma base a partir do que
o cavaquinho trazia de prática no acompanhamento de um samba era menos objetiva e mais
interativa. O arranjador descreveu o que acontecia quando João Nogueira achava que um
determinado arranjo deveria ser construído a partir do cavaquinho.
Muitas vezes o João chegava com o Mané do Cavaco e falava: tem um samba aí, eu
vou cantar com o Mané e você arma em cima do cavaco, pra não perder a
espontaneidade. Então a gente chegava e gravava com o Mané e eu só pedia pra mudar
alguma coisa que estivesse muito repetitiva, quando ele aceitava, achava natural. Às
vezes ele até me dizia "não tinha me ocorrido isso aqui, assim fica melhor". Houve
uma sintonia boa, uma resposta boa de quem tocava e se sentiu gratificado com a
possibilidade de ampliar seus limites. (Geraldo Vespar, 2017, depoimento ao autor)
121
Realmente, para o arranjador que vai trabalhar com um grupo de músicos lendo seu
arranjo e seguindo rigorosamente as instruções da partitura, o arranjo é a escrita de uma escuta.
Algo que ele ouviu em seu ouvido interno, em seu exercício de abstração e que colocou no
papel para depois materializar em sons. O nível de previsibilidade é bem alto, mesmo que
surjam no estúdio pequenas mudanças. No mundo do samba, a quantidade de variáveis fazia
com que o arranjador fosse ao estúdio apenas com uma ideia geral do resultado a ser buscado e
fosse construindo de maneiras diversas, muitas vezes abrindo mão de suas concepções,
negociando, até contrariando as convenções artísticas consagradas, em nome de um resultado
fluente e comunicativo. Essa flexibilidade com as convenções artísticas é observada por Becker:
Embora bastante uniformizadas, as convenções raramente são rígidas e imutáveis.
Não se constituem um corpo de regras intangíveis que cada um deve observar para
tomar decisões. Mesmo quando parecem fornecer indicações muito precisas, deixam
lugar a uma parcela de indeterminação que será dissipada pelo recurso aos modos de
interpretação habituais, ou através da negociação. (BECKER, 2010, p. 51)
Chamo aqui a atenção para esse aspecto pois, foi em função dessa dinâmica
colaborativa das gravações de samba do período pesquisado, que o cavaquinho alcançou
naquele momento um protagonismo que não se repetiria. Usando suas vantagens acústicas na
comunicação pelo fone de ouvido dentro do estúdio e sua posição estratégica de elemento de
ligação entre a harmonia e o rítmo, o cavaquinho se destacou naquele momento histórico com
4
I love them more than all the others, the arrangers. The ones who sign their names inside the work, and don’t
hesitate to set their name down next to the author’s. [...]Now, it seems to me that what arrangers are signing is
above all a listening. Their hearing of a work. They may even be the only listeners in the history of music to write
down their listen- ings, rather than describe them (as critics do). And that is why I love them, I who so love to
listen to someone listening. I love hearing them hear.
122
o prestígio obtido por aquele mecanismo descrito por Moura (2004, p. 84) e citado na seção
anterior: "o equilíbrio entre a prática do padrão aceito pela comunidade e a capacidade de
imaginar soluções criativas dentro dele". Essas soluções criativas, avaliadas e selecionadas pelo
arranjador, a partir das palhetadas dos cavaquinistas, foram a matéria prima essencial para a
rica diversidade do acompanhamento de samba no período 1964-1980. Uma atenção especial
na escolha do cavaquinista a ser chamado para determinada gravação era dada pelos
arranjadores, de acordo com as características do samba a ser gravado e o caráter que se
desejava forjar. Se era um samba mais cadenciado, normalmente o cavaquinho chamado era
Carlinhos, para um samba mais ligeiro, normalmente se escolhia Mané ou Alceu, sendo
determinante para essa escolha, o fato da música ter uma harmonia mais ou menos elaborada.
Para uma harmonia mais elaborada ou uma cifra com convenções de ritmo, Alceu era a pedida.
Para os sambas de harmonia simples ou de caráter mais rural, ou como se diz no jargão dos
cavaquinistas “calangueados”, Mané era a opção natural. Essa associação entre a caracterização
do samba a ser gravado e a escolha deste ou daquele cavaquinista, por si só, já confirma a
atuação estruturante do cavaquinho nas bases de samba deste período.
No escalão imediatamente superior da hierarquia da gravação, o arranjador era
escolhido conjuntamente pelo produtor e o artista, levando em conta afinidades artísticas,
amizades pessoais e sobretudo a capacidade de fazer funcionar a cadeia colaborativa no estúdio.
O arranjador deveria conhecer bem as preferências dos artistas, tanto no campo da
instrumentação quanto na questão estética da harmonia. Nos depoimentos para esta tese, Rildo
Hora lembrou que Martinho da Vila nunca gostou de violão de 7 cordas, nem de cuíca. Já Beth
Carvalho adorava violão de 7, mas não gostava de acordes fora do usual, preferia uma harmonia
básica. Geraldo Vespar lembrou que Clara Nunes gostava de cavaquinho bem alto, na frente
mesmo da base, enquanto Roberto Ribeiro incentivava o arranjador a utilizar sons fora do
contexto usual do samba e, em suas gravações, é possível ouvir tímpanos e catedral. Quanto a
João Nogueira, cujos primeiros discos ele fez todos os arranjos, Vespar acrescenta:
Ele assinou contrato e foi conhecer os estúdios na Odeon. Eu estava lá, por
coincidência, mixando um disco de orquestra que tinha uma música dele, "Tempo à
beça". Ele gostou do arranjo e me chamou para bater um papo. Tivemos uma boa
sintonia. Quase sempre ele trazia as músicas só com voz e caixa de fósforos e eu
harmonizava. Normalmente ele aceitava a harmonia numa boa. (Geraldo Vespar,
2017, depoimento ao autor)
prévia ou com uma harmonia bem precária, sendo preciso dosar o gosto do cantor, a
caracterização que se desejava dar ao samba e a capacidade de um determinado grupo de
músicos executar com fluência aquela harmonização. Para que tudo desse certo, os arranjadores
tinham que se equilibrar nesses parâmetros, prever dificuldades e soluções práticas para que
tudo acontecesse sem necessidade de gravar a base novamente, algo que só ocorria em casos
graves. A título de ilustração, volto aqui ao grande sucesso de Clara Nunes, "Contos de areia",
que teve a base gravada duas vezes, mas que acabou-se optando pela primeira gravação e
trocando o cavaquinho de Mané do Cavaco, que foi mantido só na introdução, pelo de
Carlinhos. Não temos a versão com Mané tocando na base, mas certamente ocorreram
dificuldades com a harmonia da segunda parte e a troca pelo cavaquinho de Carlinhos
solucionou a questão.
Interface entre o artista e a gravadora, o produtor nem sempre fazia parte do mundo
do samba. No período estudado, conviviam dois tipos de produtores: os que eram contratados
da gravadora e os que faziam trabalhos pontuais. Normalmente, os contratados da empresa eram
os que propunham a contratação deste ou daquele artista e, se a direção da gravadora aceitasse,
se tornavam produtores desses artistas. Em meados da década de 1970, houve uma mudança na
relação profissional entre produtores e gravadoras, desaparecendo a figura do produtor
contratado e reforçando a do produtor/arranjador. Rildo Hora, que começou como produtor
contratado, passou cada vez mais a escrever os arranjos de suas produções enquanto Geraldo
Vespar, que começou como músico e arranjador, passou a produzir. Surgiu a comissão de
produção, algo que variava entre 2 e 3% da vendagem e que funcionava como um bônus de
produtividade para o produtor, um incentivo na caça ao sucesso. A descrição acima completa a
cadeia colaborativa envolvida numa gravação de samba entre 1964-1980 e como podemos
agora observar, olhando o todo, essa cadeia era algo bastante profissionalizado, um
profissionalismo que se refletiu em resultados técnicos e artísticos. Diante da complexidade do
processo e da exuberância de resultados, o cavaquinho quase sempre foi visto como "pessoal
de apoio", para usar a expressão que Becker escolheu para contrapor à "atividade nuclear", mas
ao acompanharmos as etapas de uma gravação e conhecermos o conteúdo musical executado
pelos cavaquinhos, que estarão transcritos no próximo capítulo, é possível flexibilizar e
relativizar essas categorias, emergindo daí o cavaquinho estruturante. O pessoal de apoio na
gravação etnografada é, de fato, o grupo constituído pelo técnico de gravação e seu assistente,
o arregimentador, o copista, as pessoas que não atuaram diretamente na confecção do produto
artístico, que não participaram de seu processo decisório e criativo. A atividade nuclear conta
124
com o artista, o produtor e o arranjador e esse núcleo estará interagindo a todo momento com
os músicos da base, que participarão mais ou menos dos processos criativos de acordo com sua
reputação, seu prestígio naquele ambiente. Nesse processo que se auto alimenta, um músico de
maior prestígio vai ser mais ouvido e certamente influenciará mais as decisões e o resultado
final da gravação. Por outro lado, a qualidade percebida daquele trabalho também vai somar
prestígio aos músicos que atuaram, passando estes a serem identificados por suas "assinaturas",
seus hábitos recorrentes na execução. Ao longo de um período como a década de 1970, em que
se gravou muito samba e se publicaram fichas técnicas completas em contracapas e encartes, o
ouvinte vai passar a conhecer os músicos acompanhantes, vibrar com suas manobras e
transformar o que seria pessoal de apoio em artistas, mesmo que coadjuvantes. Nas palavras de
Becker: “o conjunto das atividades cooperativas que desembocam na produção das obras
também contribui para construir a reputação das obras, dos criadores e dos movimentos,
gêneros e disciplinas artísticas (2010, p. 295)”.
A mudança tecnológica introduzida com o sistema multicanal e a valorização do
discurso da autenticidade estabeleceram novas perspectivas sonoras e mercadológicas para as
gravações de samba, impactando diretamente na relevância do cavaquinho na imagem sonora
desse produto. Se antes, na era das gravações com o conjunto regional, o cavaquinho exercia
seu papel de amalgamar os sons de violões e a percussão, com pouco espaço para inovar, no
período do recorte temporal, o cavaquinho ganhou independência e destaque sonoro. Tudo
concorreu para a valorização do instrumento. A busca de um clima "autêntico" fez com que
produtores e arranjadores cooptassem nos ambientes informais do samba, músicos capazes de
levar a roda de samba para dentro do estúdio e, dentre esses músicos, estavam alguns estilistas
do cavaquinho que marcaram o período. Por outro lado, uma maior alocação de recursos,
decorrente da ampliação dos horizontes de vendagens dos produtos, viabilizou a alteração da
dinâmica interna de produção de uma gravação de samba. Isso fez com que houvesse um
significativo espaço para a experimentação e até para se gravar privilegiando o clima, a energia
e depois cuidar dos detalhes, como narrou Rildo Hora.
Às vezes eu gravava com o Mané e deixava rolar os erros de harmonia, não ficava
parando pra não estragar o clima. Aí eu combinava com ele pra voltar no dia seguinte
e refazer. Eu esquartejava, fazia por partes e ele ia acertando os trechinhos, deixando
limpinho. (Rildo Hora, 2016, depoimento ao autor)
Essa busca de um equilíbrio entre espontaneidade e rigor técnico musical foi uma
marca no mundo do samba no período pesquisado. Os recursos tecnológicos tornaram possível
aproveitar na gravação profissional, palhetadas menos comportadas que as dos cavaquinistas
dos regionais, que acompanharam por décadas o samba. Estes regionais por sua vez, acabaram
125
ficando mais restritos ao repertório de choro e serestas, quase sempre de viés nostálgico. O
grupo de acompanhamento do samba foi modificado em função da necessidade de reproduzir
ao vivo o som da gravação e isso fez com que a instrumentação ganhasse mais percussão,
também ao vivo, e o cavaquinho viesse a ter mais destaque.
Ao descrever e analisar uma gravação de samba de 1980, com sua particular cadeia
colaborativa, mesmo se tratando de uma alegoria, podemos identificar as convenções artísticas
desse mundo da arte e como a partir delas, respeitando ou contornando-as de forma criativa, os
atores desenvolveram códigos, sistemas de valores, negociações que relativizavam a hierarquia,
enfim, criaram uma rotina de produtividade. Mas dentro desse mundo da arte, conviviam
diferentes perfis sócio culturais, diferentes níveis de conhecimento musical, diferentes visões
da arte e do mundo. Unidos pela habilidade de executar o samba e pelo interesse profissional
imediato de ser recompensado por essa habilidade, esses atores interagiram de forma intensa e
profunda, colocando em contato no estúdio de gravação seus diferentes mundos culturais. Dessa
interação resultou um período diferenciado na história das gravações de samba, com a expansão
de limites de cada um desses diferentes mundos. No prefácio do livro "Choro do Quintal ao
Municipal", o antropólogo Hermano Vianna ressaltou a riqueza desse território entre mundos e
o papel dos mediadores.
[...] o traço mais interessante de tudo aquilo de vital que aconteceu e acontece na
cultura carioca e brasileira: nem o Quintal nem o Municipal. O melhor acontece
"entre", na possibilidade de ultrapassar as fronteiras rígidas que separam os vários
mundos culturais, na tradução entre as várias linguagens musicais, na genial atuação
de mediadores (entre-mundos, entre-linguagens) [...] (VIANNA in CAZES, 2010,
p. 9)
A mudança na indústria fonográfica foi bem abrangente, indo desde a gravação até
os mecanismos de divulgação e promoção dos artistas. Tudo ficou mais profissional, surgindo
dentro das grandes gravadoras a preocupação de caracterizar, por exemplo no segmento de
samba, o trabalho de cada artista para que eles não concorressem entre si e abrissem diferentes
espaços no mercado. Na gravadora Odeon, havia uma espécie de colegiado liderado pelo diretor
artístico e composto por produtores e arranjadores. Eles discutiam a caracterização musical de
cada contratado. Geraldo Vespar descreveu em seu depoimento para este trabalho, como foi
forjada a identidade sonora de João Nogueira.
128
Eu via o João como um cronista do samba. Nós tínhamos muita sintonia e um dia eu
olhei pra cara dele e comecei a associar a um som. [...] Com ele a gente fazia um
samba caricato, uma personalidade sonoro-musical que traduzisse a letra do samba,
que servisse de trilha sonora, de cortina sonoro-musical para o que o João estava
cantando e que ao mesmo tempo criasse uma identidade associada a figura artística
do João Nogueira. Isso era importante pra gente. (Geraldo Vespar, 2017, depoimento
ao autor)
Quando fala "pra gente", Vespar se refere ao colegiado. De fato, se colocarmos lado
a lado lançamentos de um mesmo ano na década 1970, de artistas da Odeon: Paulinho da Viola,
Clara Nunes, João Nogueira e Roberto Ribeiro, o resultado é bem distinto. Ou seja, dentro de
um mesmo segmento de mercado eram buscados diferentes públicos que se mobilizassem mais
por esse ou aquele tipo de samba, tanto na questão do tratamento musical, quanto no conteúdo
das letras. Na RCA, a outra empresa que investiu forte no samba na época, não era diferente,
Rildo Hora relembra:
Quando o Romeu (Nunes) saiu da RCA e eu assumi a produção do Martinho, comecei
a desenvolver minha habilidade de fazer discos de samba que não fossem parecidos.
Cada um tinha uma cara. Se você pegasse o disco de Antônio Carlos & Jocáfi tinha
um jeito de fazer, o do Martinho era outro, e quando a Beth (Carvalho) chegou, já era
outra coisa. Não tinha cara de Martinho nem de Antônio Carlos & Jocáfi. (Rildo Hora,
2016, depoimento ao autor)
Tabela 1: Quantidade de discos de Samba e MPB dentre os 50 discos mais vendidos no Brasil entre 1965 e 1980
(Fonte: ABPD/NOPEM)
de samba e seus produtos. Um exemplo dessa relação foi a incorporação imediata, no sucesso
popular de "Foi um rio que passou em minha vida" de Paulinho da Viola, do comentário "ai,
porém", feito por um dos coristas. O que era para ser uma transposição da informalidade da
roda de samba para o registro gravado, acabou sendo incorporado à letra do samba e o tal
corista, ganhou a alcunha de "Jorge Porém". Não bastava apresentar um samba de qualidade,
bem gravado e mixado, era desejado que o ouvinte interagisse, cantasse junto, dançasse, como
se não houvesse uma fronteira física entre o disco e a realidade.
Dentre os timbres que compuseram a sonoridade do samba nesse período, o
cavaquinho, como tenho reafirmado ao longo do trabalho, exerceu uma liderança cantada em
versos pelos próprios sambistas. Esses sambas abordavam diferentes aspectos da relação do
cavaquinho com o samba. Desde sua imprescindibilidade anunciada no primeiro verso do já
citado "Sem cavaco, não" de Ivone Lara e Mano Décio da Viola: "Samba sem cavaquinho não
é samba", passando pelo manifesto em favor da tradição de "Argumento" (Paulinho da Viola),
que reclama da falta "de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim" e chegando aos
superpoderes do "Kid Cavaquinho" de João Bosco e Aldir Blanc, que descreve o instrumento
como o som que "fere firme e dói que nem punhal", que é capaz de mover as massas, "quando
ele toca até parece um pega na geral". A valorização explícita do cavaquinho e sua associação
ao samba foi marcante no período de nosso recorte temporal e essa associação tímbrica tem um
significado mais amplo.
Os timbres acionam pertencimentos estéticos e repertórios culturais que se tornam
elementos da comunicabilidade da música, provocando adesões e recusas. Na música
popular midiatizada, as disputas estéticas e comerciais no mercado são travadas em
torno de sonoridades específicas, que ocupam posições variadas de legitimidade.
(TROTTA, 2011, p. 153)
ausência do mercado fonográfico, Paulinho discorreu sobre sua percepção das mudanças que
haviam ocorrido ao longo dos últimos anos, desde seu último lançamento.
Havia uma mudança nas gravadoras naquele momento. As gravadoras estavam
investindo maciçamente e acreditando num grupo emergente que era o pessoal do
chamado rock de garagem, pessoal novo que estava começando e alguns já com
sucessos, então os investimentos eram muito para ali. [...] Quando lancei o "Prisma
luminoso" e comecei a viajar, eu percebi que havia uma resistência muito grande em
relação a divulgação do trabalho que havia feito. [...] Eu comecei a encontrar um
ceticismo em relação ao samba. Determinadas rádios de FM, os programadores e os
responsáveis mesmo diziam "aqui a gente não toca samba e não está a fim". (Paulinho
da Viola, 1989, disponível em
< https://www.youtube.com/watch?v=8MT0WjCl5bI>)
Exemplo 15: Puxada de "Intriga" (Fonte: LP "Roda de Samba", 1964, transcrição do autor) [Audio 4.1.1]
Exemplo 16: Palhetada predominante de "Intriga" (Fonte: LP "Roda de Samba", 1964, transcrição do autor)
[Audio 4.1.1]
137
Exemplo 17: Puxada de "Vai saudade" (Fonte: LP "Roda de Samba", 1964, transcrição do autor) [Audio 4.1.2]
138
Exemplo 18: Palhetada predominante de "Vai saudade" (Fonte: LP "Roda de Samba", 1964, transcrição do
autor) [Audio 4.1.2]
Exemplo 19: Variação de "Vai saudade" (Fonte: LP "Roda de Samba", 1964, transcrição do autor) [Audio 4.1.2]
Observações - assim como na primeira faixa transcrita, nota-se que Jair toca quase
o tempo todo só nas três cordas mais graves do cavaquinho usando pouco a palhetada para cima
e quando a utiliza, o resultado tem um volume de som menor. As três cordas mais agudas são
usadas na variação de palhetada da segunda parte do samba (1'01-1'09 na gravação) e nesse
momento ele deixa de mudar a harmonia de volta à tônica da tonalidade (Sol menor) mantendo
o quarto grau menor com sexta, enquanto o violão toca o acorde da função tônica.
Exemplo 20: Puxada de "Rosa de ouro/Quatro crioulos" (Fonte: LP "Rosa de ouro", 1965, transcrição do autor)
[Audio 4.1.3]
Exemplo 21: Palhetada predominante de "Rosa de ouro/Quatro crioulos" (Fonte: LP " Rosa de ouro ", 1965,
transcrição do autor) [Audio 4.1.3]
instrumento muito tosco, apesar de tudo, sua palhetada estava lá. Nas homenagens aos seus 80
anos em 2000 e até sua morte em 2006, seu cavaquinho não foi diferente.
Exemplo 22: Palhetada predominante de "O pequeno burguês" (Fonte: LP "Martinho da Vila", 1969, transcrição
do autor) [Audio 4.2.1]
Exemplo 23: Palhetada predominante de "Casa de bamba" (Fonte: LP "Martinho da Vila", 1969, transcrição do
autor) [Audio 4.2.2]
Exemplo 24: Palhetada predominante de "Segure tudo" (Fonte: LP "Martinho da Vila - Memórias de um
sargento de milícias", 1971, transcrição do autor) [Audio 4.2.3]
Observações - nesse samba meio maxixe, meio calango, Mané se mostra muito à
vontade, confirmando sua intimidade com esse tipo de palhetada que remete a sua origem
interiorana, ao calango que cresceu tocando em sua cidade natal: Sapucaia (RJ). É muito
interessante o contraste entre a puxada inicial do violão de Manuel da Conceição, menos rítmica
e com acordes soando, com a palhetada que define bem o caráter maxixado da música.
Exemplo 25: Palhetada predominante de "Canta, canta minha gente" (Fonte: LP "Martinho da Vila - Canta,
canta minha gente", 1973, transcrição do autor) [Audio 4.2.4]
143
Exemplo 26: Palhetada predominante de "Saco de feijão" (Fonte: LP "Beth Carvalho - Nos botequins da vida",
1977, transcrição do autor) [Audio 4.2.5]
Exemplo 27: Palhetada predominante de "Devagar, devagarinho" primeira parte (Fonte: "Martinho da Vila - Tá
delícia, tá gostoso", 1995, transcrição do autor) [Audio 4.2.6]
Exemplo 28: Palhetada predominante de "Devagar, devagarinho" segunda parte (Fonte: "Martinho da Vila - Tá
delícia, tá gostoso", 1995, transcrição do autor) [Audio 4.2.6]
De uma maneira geral, a característica técnica que deu destaque a Mané do Cavaco
foi o fato de tocar muito firme, de forma vigorosa e regular, ocupando o espaço que havia
naquele momento nas gravações de samba. Seu estilo marcou profundamente as gerações de
cavaquinistas que vieram depois e até hoje é emulado.
4.3 Carlinhos
Transcrição Carlinhos nº 1
Título - Ê baiana
Autores - Baianinho, Ênio Santos, Fabrício da Silva e Ano - 1971
Miguel Pancrácio
LP "Clara Nunes"
Afinação - Sol-Ré-Lá-Mi Tonalidade - Lá maior Andamento - 124
Staccato percussivo - utilizado todo o tempo
Exemplo 29: Puxada de "Ê baiana" (Fonte: LP "Clara Nunes", 1971, transcrição do autor) [Audio 4.3.1]
Exemplo 30: Palhetada predominante de "Ê baiana" primeira parte (Fonte: LP "Clara Nunes", 1971, transcrição
do autor) [Audio 4.3.1]
146
Exemplo 31: Palhetada predominante de "Ê baiana" segunda parte (Fonte: LP "Clara Nunes", 1971, transcrição
do autor) [Audio 4.3.1]
Transcrição Carlinhos nº 2
Título - Contos de areia
Autores - Romildo Bastos e Toninho Nascimento Ano - 1974
LP "Clara Nunes - Alvorecer"
Afinação - Sol-Ré-Lá-Mi Tonalidade - Mi bemol maior Andamento - 79/82
Staccato percussivo - utilizado todo o tempo
Exemplo 32: Palhetada predominante de "Contos de areia" primeira parte, primeira vez, Mané do Cavaco
(Fonte: LP "Clara Nunes-Alvorecer", 1974, transcrição do autor) [Audio 4.3.2]
147
Exemplo 33: Palhetada predominante de "Contos de areia" primeira parte, segunda vez, Carlinhos (Fonte: LP
"Clara Nunes-Alvorecer", 1974, transcrição do autor) [Audio 4.3.2]
Transcrição Carlinhos nº 3
Título - O mar serenou
Autor - Candeia Ano - 1975
LP "Clara Nunes - Claridade"
Afinação - Sol-Ré-Lá-Mi Tonalidade - Ré maior Andamento - 84
Staccato percussivo - utilizado todo o tempo
Exemplo 34: Puxada de "O mar serenou" (Fonte: LP "Clara Nunes - Claridade", 1975, transcrição do autor)
[Audio 4.3.3]
148
Exemplo 35: Palhetada predominante de "O mar serenou" (Fonte: LP "Clara Nunes-Claridade", 1975,
transcrição do autor) [Audio 4.3.3]
Transcrição Carlinhos nº 4
Título - Mineira
Autores - João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro Ano - 1975
LP "João Nogueira - Vem quem tem"
Afinação - Sol-Ré-Lá-Mi Tonalidade – Mi menor Andamento - 128
Staccato percussivo - utilizado todo o tempo
Exemplo 36: Palhetada predominante de "Mineira" (Fonte: LP "João Nogueira - Vem quem tem", 1975,
transcrição do autor) [Audio 4.3.4]
149
Transcrição Carlinhos nº 5
Título - Acreditar
Autores - Délcio Carvalho e Ivone Lara Ano - 1976
LP "Roberto Ribeiro - Arrasta povo"
Afinação - Sol-Ré-Lá-Mi Tonalidade – Dó maior Andamento - 90
Staccato percussivo - utilizado todo o tempo
Exemplo 37: Puxada de "Acreditar" (Fonte: LP "Roberto Ribeiro - Arrasta povo", 1976, transcrição do autor)
[Audio 4.3.5]
Exemplo 38: Palhetada predominante de "Acreditar" (Fonte: LP "Roberto Ribeiro - Arrasta povo", 1976,
transcrição do autor) [Audio 4.3.5]
150
Exemplo 39: Palhetada predominante de "Um certo dia para 21" (Fonte: LP "Paulinho da Viola", 1971,
transcrição do autor) [Audio 4.4.1]
151
Exemplo 40: Palhetada predominante de "Argumento" (Fonte: LP "Amor a natureza", 1975, transcrição do
autor) [Audio 4.4.2]
Observações - Muito semelhante a palhetada utilizada em "Um certo dia para 21",
só que executada com muito maior segurança e clareza. A palhetada se mantém com poucas
alterações durante toda a faixa. O cavaquinho e a voz atingem aqui a unidade buscada por
Paulinho, que será uma marca em sua trajetória.
152
Exemplo 41: Puxada de "Coração leviano" (Fonte: LP "Paulinho da Viola", 1978, transcrição do autor)
[Audio 4.4.3]
Exemplo 42: Palhetada predominante de "Coração leviano" (Fonte: LP "Paulinho da Viola", 1978, transcrição
do autor) [Audio 4.4.3]
Apesar de não ter dado continuidade aos estudos de cavaquinho, que renderam
gravações como solista na década de 1970, Paulinho da Viola manteve inalterada sua palhetada
e ajudou significativamente na valorização do cavaquinho de acompanhamento ao assumi-lo
em shows e programas de TV.
Exemplo 43: Puxada e palhetada predominante de "Te segura" (Fonte: LP "Beth Carvalho - Mundo melhor",
1976, transcrição do autor) [Audio 4.5.1]
Exemplo 44: Puxada e palhetada predominante de "Chico Rei" (Fonte: LP "Martinho da Vila - Samba enredo",
1980, transcrição do autor) [Audio 4.5.2]
Exemplo 45: Palhetada predominante de "Vai passar" (Fonte: LP "Chico Buarque", 1984, transcrição do autor)
[Audio 4.5.3]
Figura 22: Imagem espectrográfica da puxada de "Seleção de partido alto", Mané do Cavaco, 1971
[Audio 4.6.1]
157
Figura 23: Imagem espectrográfica da puxada de "O mar serenou", Carlinhos, 1975
[Audio 4.6.2]
Analisando por partes, no desenho rítmico, Mané tende a algo mais regular,
estrutural mesmo. Carlinhos varia mais e usa os acentos radicais para dialogar com a melodia
cantada e criar riffs. Já Paulinho, estabelece o que considera ser o suporte ideal para seu canto
e esse suporte se mantém bem sólido, quase sem alterações, como elemento central da gravação.
Na questão da dinâmica, a imagem das palhetadas de Mané são bem explicativas
da clareza de seu estilo, bem regular e definido, com a palhetada para baixo sempre com o
mesmo volume. Em Carlinhos acontecem mais gradações de dinâmica e os acentos são bem
enérgicos, com muito mais volume que a palhetada para baixo sem acento, que aparece no
primeiro tempo do compasso. Em Paulinho a dinâmica é bem regular e, na média, a execução
é feita de forma mais delicada que nas outras "escolas". Quanto ao staccato percussivo,
verificamos na imagem de Paulinho que os acordes ficam soando o tempo todo, confirmando a
não utilização desse recurso.
A notação desenvolvida ao longo deste trabalho, se mostrou bastante eficiente para
descrever os detalhes das palhetadas e poderá servir de base, tanto para um futuro inventário de
outras palhetadas de samba ou de outros gêneros, quanto para uma metodologia de ensino
relacionada com o acompanhamento de cavaquinho. Para tais finalidades, o modelo de notação
será disponibilizado logo após a defesa e publicação desta tese.
159
5 CONCLUSÃO
consagrada. Foi o caso de Jacob do Bandolim com seu "Conjunto Época de Ouro" e também
do conjunto liderado pelo acordeonista Caçulinha (Rubens Antônio da Silva, 1940), que teve
intensa atuação em programas de televisão e gravações. Jonas (Jonas Pereira da Silva, 1934-
1997) no "Conjunto Época de Ouro" e Xixa (Bernardo Cascarelli, ?-?) no "Regional do
Caçulinha", respectivamente, foram cavaquinistas que ajudaram a moldar a base desses grupos
de forma bem distinta do "Regional do Canhoto". Esse papel de destaque do cavaquinho na
diferenciação de resultado entre conjuntos regionais é mais uma evidência do papel estruturante
da palhetada na construção da base rítmico harmônica.
Avançando na trajetória historiográfica, chega-se ao momento de maior
protagonismo do cavaquinho, escolhido por esse motivo como recorte deste trabalho: 1964-
1980. Um mergulho na intrincada confluência de fatores políticos, tecnológicos e econômicos,
que criaram as condições para esse momento de exuberância, revelou o quanto cada aspecto
contribuiu para modificar o samba, tanto nas performances e gravações, como na forma com
que este era percebido. No campo tecnológico, pude concluir que a chegada dos sistemas de
gravação multicanal deu leitura para a base do samba, libertando o cavaquinho do rígido
"centro" no conjunto regional para uma atuação mais livre e criativa. Essa oportunidade foi
potencializada pelo aporte de recursos da indústria fonográfica que trabalhou para atender a
demanda por um samba "autêntico", como era cobrado pela imprensa. A valorização do
discurso da autenticidade fez com que se buscassem músicos dentro dos ambientes informais
do samba e lançou uma luz sobre cavaquinistas como Jair do Cavaquinho, Mané do Cavaco e
Carlinhos. A incorporação de executantes de cavaquinho não oriundos do regional e do choro
ao mundo profissional do samba, multiplicou o leque de palhetadas usadas no acompanhamento
e estabeleceu um novo patamar de relevância para o instrumento.
Construída a perspectiva histórica, o trabalho passou à fase diretamente relacionada
a etnografia de uma prática musical. Nesse sentido, a alegoria etnográfica apresentada na Seção
3.1 foi extremamente útil, resgatando personagens e informações capazes de nos remeter a uma
gravação de samba realizada em 1980. Foi possível esmiuçar como o fazer musical dentro do
estúdio naquele momento potencializou uma espécie de concurso de ideias, com a polirritmia
sendo negociada a cada momento e a decisiva mediação do arranjador. O objeto construído
etnograficamente pode ser lido de forma muito natural e apropriada pelos conceitos de Howard
Becker, apresentados no livro "Mundos da arte" (2010). Os diálogos entre este modelo e as
falas de músicos e produtores/arranjadores mostraram-se bastante elucidativos, estabelecendo
os elos da cadeia colaborativa envolvida na produção de uma gravação de samba, suas
162
convenções e valores. Foi possível avançar ainda nas relações entre o timbre do cavaquinho e
a identidade do samba gravado no período, e concluir que além de atuar de forma definidora na
estruturação da base rítmico harmônica da gravação, o cavaquinho foi, naquele momento, o
vetor da inteligibilidade, viabilizando a proposta de trazer o ouvinte para "dentro do samba".
As transcrições de palhetadas apresentadas no Capítulo 4 documentaram de forma
categórica esse momento de protagonismo do cavaquinho e revelaram um universo de sutilezas,
que muitas vezes passam desapercebidas, encobertas pela batucada ou pelo canto. Estas
sutilezas, na medida que a pesquisa avançou ao longo dos últimos anos, se revelaram mais
numerosas do que eu supunha existir no início do trabalho, tanto nos aspectos técnicos, quanto
nos mínimos detalhes musicais. Detalhes que só uma exaustiva audição, reprodução do
conteúdo gravado ao cavaquinho e posterior transcrição, me fizeram perceber. O sistema de
notação desenvolvido na tese se mostrou bastante eficiente e flexível na representação das
palhetadas e um avanço no detalhamento da dinâmica interna destas, demanda surgida com o
aprofundamento do estudo, pode ser incorporado sem dificuldade.
Antes de finalizar e cumprindo o compromisso estabelecido na Introdução, resta
fazer um pequeno balanço do que mudou no acompanhamento de samba ao cavaquinho nos
dias atuais. Até cerca de 2005, as gravações de samba constituíram o mais cobiçado trabalho
para os profissionais do cavaquinho. A crise da indústria fonográfica fez tudo mudar
rapidamente e o samba, que tinha a produção envolvendo muitos músicos e custos, foi
frontalmente atingido. A mudança da gravação de sistema analógico para digital também
impactou e algumas convenções, como tocar sem embolar, com máxima precisão rítmica,
deixaram de ser prioritárias. Como o som gravado digitalmente em um canal pode ser
fragmentado e deslocado no tempo, simplesmente arrastando a parte selecionada da onda
sonora representada na tela com o mouse, se tornou habitual gravar e corrigir as imprecisões
rítmicas depois. A polirritmia deixou de ser negociada, passando a uma simples superposição
de sons, sincronizados pelo técnico de gravação. Na maior parte das produções, bases são
gravadas com poucos instrumentos e o metrônomo. É comum um mesmo músico tocar vários
instrumentos, desaparecendo ainda a mediação exercida pelo arranjador, tão importante para
potencializar as performances criativas. Fora do olhar vigilante do mediador, muitas vezes o
executante de cavaquinho se perde. Nas palavras de Alceu Maia:
O cavaquinho não pode ficar mudando de dois em dois compassos. Toca dois, muda,
toca mais dois, muda. O Carlinhos que era o mais alterado nessa onda era de um bom
gosto, ele ia na hora certa, fazia uns arpejinhos, tudo na hora certa. Hoje em dia os
caras querem tocar tudo que o Carlinhos gravou na carreira toda em uma faixa (risos).
Aí complica porque não tem levada. (Alceu Maia, 2017, depoimento ao autor)
163
A descrição da realidade atual acima apresentada, não tem caráter de juízo de valor,
nem tão pouco inspiração nostálgica. Trata-se de uma constatação que ajuda a compreender o
resultado do samba gravado no século XXI.
Enquanto no estúdio o cavaquinho perdeu uma parcela de seu espaço como
estruturador, nas performances ao vivo em shows e rodas de samba, o instrumento continua
exercendo plenamente sua função estruturante no acompanhamento.
Ao longo das quase quatro décadas que nos separam do recorte temporal deste
trabalho, o cavaquinho tem evoluído lenta, mas firmemente nos campos de qualidade
construtiva, sistemas de amplificação e oferta de metodologia. A melhoria do nível médio de
formação musical dos cavaquinistas de samba, com vários deles se tornando produtores e
arranjadores, tem mudado gradativamente a percepção a respeito do cavaquinho e de seus
profissionais. Boa parte dos jovens praticantes do instrumento almeja hoje se desenvolver como
acompanhador e solista, categorias que vão gradativamente se fundindo.
Falando ainda sobre a demanda por metodologia para o estudo do cavaquinho, cria-
se a expectativa que este trabalho seja publicado brevemente, em forma de um livro contendo:
uma versão resumida dos Capítulos 1 e 2, o Capítulo 4 ampliado, com palhetadas de estilistas
de atuação mais recente e áudios especialmente gravados das palhetadas transcritas e
analisadas.
Por fim, voltando aos "heróis quase sempre anônimos" a quem dedico esta tese: o
samba deve muito a esses músicos que suam a camisa e chegam a ferir a ponta dos dedos nas
cordas de aço. Atuando com paixão e esforço, eles desenham a estrutura, constroem a base,
comandam o centro. Não por acaso, o cavaquinho foi aqui chamado de motorzinho, de meio
de campo, de instrumento da definição.
Suas palhetadas colocam o samba em movimento: chora cavaco!
164
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DEPOIMENTOS CITADOS
7 GLOSSÁRIO
GESTO – termo genérico usado no trabalho para se referir ao movimento da mão que executa
as palhetadas.
LEVADA – termo usual na música popular relacionado neste trabalho ao resultado rítmico-
harmônico coletivo.
PALHETADA – termo que designa neste trabalho o padrão rítmico executado pelo cavaquinho
no acompanhamento.
PUXAR O SAMBA – executar uma palhetada para começar um samba, definindo tonalidade,
andamento e caráter.
RÉGUA DE GABARITO – pedaço de madeira em que o lutier copia a distância entre os trastes
de uma escala num cordofone.
PASTA CAPÍTULO 4
4.1.1 - 1964, Intriga
4.1.2 - 1964, Vai saudade
4.1.3 - 1965, Rosa de Ouro/Quatro crioulos
4.2.1 - 1969, O pequeno burguês
4.2.2 - 1969, Casa de bamba
4.2.3 - 1971, Segure tudo
4.2.4 - 1973, Canta canta minha gente - mix cavaco
4.2.5 - 1977, Saco de feijão
4.2.6 - 1995, Devagar, devagarinho
4.3.1 - 1971, Ê baiana - mix cavaco
4.3.2 - 1974, Contos de areia - mix cavaco
4.3.3 - 1975, O mar serenou
4.3.4 - 1975, Mineira - mix cavaco
4.3.5 - 1976, Acreditar
4.4.1 - 1971, Um certo dia para 21
4.4.2 - 1975, Argumento
4.4.3 - 1978, Coração leviano
4.5.1 - 1976, Te segura
4.5.2 - 1980, Chico Rei
4.5.3 - 1984, Vai passar
4.5.4 - 1982, O que é o que é
4.6.1 - Puxada Seleção de partido alto – Mané - cavaco isolado
4.6.2 - Puxada O mar serenou – Carlinhos - cavaco isolado
4.6.3 - Puxada Argumento – Paulinho - cavaco isolado