Teorias não
essencialistas
Uma teoria é não essencialista se defende que o
que faz com que um determinado objeto seja um
objeto de arte, tenha de ser encontrado fora do
objeto e não no objeto em si.
As teorias não essencialistas surgem num contexto social e
filosófico especifico
Social porque os artistas criam cada vez obras mais
desafiadoras e desconcertantes, o que acabam por não
“caber” dentro de teorias.
Filosófico porque novas tentativas de definir uma obra de
arte por meio de condições necessárias e suficientes surge
como reação às insuficiências das teses céticas.
A arte e os desafios filosóficos
O filósofo Morriz Weitz (1916-1981) ficou conhecido
por defender o antiessencialismo da arte, o que
significa que qualquer teoria essencialista fracassou o
seu propósito.
Para tal considera-se que:
Propriedades Propriedades
intrínsecas e Obra extrínsecas e
manifestas relacionais
Ora se as condições necessárias e suficientes não referem
características essenciais da arte, o que elas podem referir?
Que propriedades
essenciais possui esta obra
considerada de arte?
1964, Caixa de Brillo, Andy Warhol
Ao contrário dos essencialistas que olham para as obras de arte de
acordo com a função que a arte deve desempenhar (representar,
expressar emoções ou despertar as emoções), os não essencialistas
elaboram um conjunto de características das obras de arte que não
estão apenas relacionadas com a sua funcionalidade, tais como:
Alargar o conhecimento Exprimir e explorar emoções
Proporcionar boas experiências Divertir e entreter
Comunicar ideias Criticar aspetos da sociedade Transformar
o mundo Criar beleza Dar sentido às nossas vidas Etc.
Ou seja, uma obra de arte pode
servir muitas e diferentes funções.
E essa definição para os não essencialistas tem de ser
procurada fora da própria obra. Tem de ser procurada
no seu contexto (fora da obra).
Além disso a definição não tem de ser valorativa
(distinguindo as boas das más obras) mas talvez e
apenas classificativa (distinguindo o que é e não é
uma obra de arte, ou quando um objeto adquire o
estatuto de arte)
Pergunta a fazer
Como é que um objeto adquire o estatuto de obra de arte?
ou
Qual o contexto específico que faz com que um objeto se revele arte?
Não
Essencialismo Contextualismo
Uma conversa sobre arte
Mariana: Olha, não acho isso arte! Não gosto nada disso. Não
passa de um objeto vulgar.
Joaquim: Sim, também não gosto, é até estranho que seja
arte. Mas é!
Mariana: É porquê? Porque dizes que é?
Joaquim: Repara! Este objeto é arte porque estamos numa
galeria de arte e as coisas que estão expostas numa galeria de
arte são arte.
Mariana: Então aquele extintor que ali está ao canto também
é uma obra de arte?
Joaquim: Não, aquele extintor está ali apenas para apagar
incêndios.
Este pequeno diálogo de certa maneira expressa uma das
duas teorias não essencialistas da arte que vamos analisar.
Quando o Joaquim refere que um objeto estando no mundo
da arte (galeria) pode ser considerado arte, estamos a falar
da teoria institucional da arte
Mas há uma outra teoria que tenta remendar as
imperfeições da teoria institucional que é a teoria histórica
da arte.
Uma teoria institucional da arte
George Dickie , 1926,
defendeu que as
propriedades comuns das
obras de arte não são
visíveis nas próprias obras.
São invisíveis.
Assim para que um objeto seja uma obra de arte
tem de satisfazer duas condições necessárias:
Ser um artefacto
Pertencer ao mundo da arte
O artefacto mede-se pelo uso que damos ao
objeto
“suponhamos que se recolhe um pedaço de madeira flutuante e, sem o
alterar de forma alguma, o usamos para cavar um buraco ou abaná-lo
perante um cão que nos ameaça. O pedaço de madeira inalterado foi
convertido em ferramenta ou arma pelo uso que lhe foi dado. Em
nenhum dos casos o pedaço de madeira é por si só um artefacto. O
artefacto, nos dois casos, é o pedaço de madeira manipulado e usado
de um certo modo”
G. Dickie, Introdução à estética, Bizâncio, 2008 (adaptado)
Atribuir um estatuto é pertencer ao mundo
da arte
“O núcleo fundamental do mundo da arte é um conjunto vagamente
organizado, mas nem por isso desligado, , de pessoas, que inclui
artistas (pintores, escritores, compositores), produtores, diretores de
museus, visitantes de museus, espetadores de teatro, jornalistas,
críticos de todos os tipos de publicações, historiadores da arte, teóricos
da arte, filósofos da arte e outros. São estas as pessoas que mantém
em funcionamento o mecanismo do mundo da arte, permitindo assim a
continuidade da sua existência.”
G. Dickie, O que é a arte?, In Carmo D`Orey, O que é a arte?, Dinalivro, 2007, pp.106,07
4 condições para pertencer ao mundo da
arte
1ª Agir em nome de uma instituição
2ª Atribuir um estatuto
3ª Ser Candidato
4ª A avaliação
E então? O extintor na galeria de arte é
uma obra de arte ou não?
E A fonte de Marcel Duchamp?
Será que a teoria institucional funciona bem
e é uma boa teoria?
Será que uma boa obra de arte precisa da
aprovação do mundo da arte?
Vamos conhecer Alfred Wallis ( a questão da
arte adventícia)
Segundo a teoria institucional será que as pinturas de Alfred Wallis
reúnem as condições necessárias e suficientes para serem consideradas
obras de arte?
Outra questão
Como é que as pessoas do mundo da arte sabem avaliar um objeto
para que ele entre no mundo da arte? Que critérios usaram para
aceitar um objeto no mundo da arte?
Parece faltar um elemento qualquer à teoria
institucional que um outro filósofo procura
resolver.
Jerrold Levinson e a
teoria da arte como
renovação da tradição
histórica.
Em resposta à teoria institucional Jerrold Levingson procurou
desenvolver uma teoria da arte que possibilitasse a existência de arte
solitária, arte fora do contexto institucional do mundo da arte.
“De acordo com Levinson, o que conta não é, como na teoria
institucional, o ato de alguém propor um objeto para apreciação em
nome de uma suposta instituição, mas antes a intenção de um
indivíduo independente – isto é, que não pensa ou decide em nome de
ninguém -, o próprio titular ou criador do objeto. Assim, em vez de um
ato manifesto, há uma intenção manifesta; e em vez de alguém que
age em nome de uma entidade misteriosa, há o autor da obra que
procede de forma independente.”
Aires Almeida, A definição da arte, o essencial, Plátano, 2019
Mas que intenção é esta?
Já temos aqui dois elementos:
Então isso implica que
a definição da arte
Arte exige terá de passar por
estes dois elementos.
X é um objeto de arte
se o artista tem a
intenção de que o seu
produto de arte seja
inserido numa dada
tradição e tem essa
História intenção.
intenção Se existe a intenção
(critério recursivo que uma obra seja
encarada como arte,
então ela é arte.
Mas há um 3º elemento na definição
Vamos imaginar que alguém ao olhar para uma cidade refere: esta é a minha
obra que resulta do modo como eu olho a cidade.
Então Levinson fala em PROPRIEDADE
Assim, vamos apurar a definição:
Um objeto é um objeto de arte se e somente se uma pessoa, com direitos
de propriedade sobre o seu objeto, tem a intenção séria de que tal seja
encarado como arte como outros objetos foram ao longo da história da
arte.
Resumindo, a PROPRIEDADE (O
criador é proprietário
arte é: dos objetos que cria)
Arte
HISTÓRIA (uma obra
é arte em virtude de INTENÇÃO (tem a clara
uma relação com as intenção de que o
coisas já produto artístico seja
reconhecidas como visto como obra de arte)
arte)
Serão as propriedades estabelecidas na
teoria histórica os adequados para uma
definição de arte que reúna em si tanto
as condições necessárias como as
suficientes para uma boa definição?
Como é que um marciano olharia para estes
objetos?
Objeção à “Propriedade” como condição
necessária para uma boa definição
Objeção à tradição histórica (ao critério
recursivo)
Objeção à intencionalidade
O caso Franz Kafka
Excesso de inclusividade
O caso dos retratos e fotos tipo passe
CHRISTIAN MACLAY
PINA BAUSH
Para “O artista belga Francis Alys escolheu mandar
um pavão vivo para a Bienal de Veneza em vez
pensar de comparecer pessoalmente. A atividade do
pavão é apresentada como uma obra de arte
intitulada O Embaixador. Os galeristas
britânicos do artista forneceram um
comentário útil sobre o significado desta obra
de arte: A ave irá pavonear-se em todas as
exposições e festas como se fosse o próprio
artista. É burlesca, insinuando a vaidade do
mundo da arte e remetendo para velhas
fábulas com animais.”
Nigel Warburton, O que é a arte?, Bizâncio, 2007
Betsy
Para
pensar
Exemplos de questões que poderiam sair em
exame (escolha múltipla)
Uma definição essencialista da arte significa que:
A. A arte se define pelas suas propriedades extrínsecas.
B. A arte não se define pela sua essência.
C. A arte define-se pelas suas propriedades intrínsecas.
D. A arte define-se subjetivamente.
A teoria expressivista da arte defende que:
A. Um objeto é um objeto de arte se e somente a expressão de
sentimentos que são captados pelo público.
B. Um objeto é um objeto de arte se e somente se é a expressão do
contexto onde a obra se insere.
C. Um objeto é um objeto de arte se e somente se exprime as ideias do
artista e essas ideias são captadas pelo público.
D. Um objeto é um objeto de arte se e somente se exprime a vontade
moral do artista e essa vontade é compreendida pelo público.
Uma das objeções que pode ser feita à teoria da representação é que:
A. A representação não capta os sentimentos do artista.
B. É demasiado restritiva pois há obras de arte sem qualquer conteúdo
representacional.
C. É demasiado restritiva uma vez que a arte não é apenas a expressão
de sentimentos.
D. É bastante ampla pois qualquer objeto que emocione é arte.