Posteres Humanas PDF
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MALABARES DE FLORIANÓPOLIS
Liège Maria Martins Knoche; Tânia Welter
ANÁLISE DOS MAPAS HISTÓRICOS DOS SÉC. XVII E XVIII DE ACORDO COM A
TEORIA DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DE PIAGET
Vagner de Souza Serikawa; Fernando Luiz de Paula Santil
Deise Maria Szulczewski; Alessandra Jardim Marangoni Moita; Pedro Henrique Witchs
A INVISIBILIDADE DOS ALUNOS COM DIFICULDADE DE APRENDIZAGEM E
NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS DO CAMPO
Cláucia Honnef; Daiane Loreto de Vargas
ATIVIDADE EXPERIMENTAL:
AÇÕES PARA A APRENDIZAGEM E ESTRATÉGIA DE MOTIVAÇÃO
Gisele M. dos Santos; Luana Portilla de Mello; Divina Zacche Pereira
PROJETO ABRAPALAVRA
Rochele R. Andreazza Maciel; Flávia Brocchetto Ramos
FICTÍCIO E IMAGINÁRIO:
CONSIDERAÇÕES SOBRE A RECEPÇÃO TEATRAL
Cláudia Muller Sachs
MÍDIA E ESCOLA
Roselei Fistarol; Rejane Carminatti
Alana Claudia Mohr¹; Fabiane Adela Tonetto Costas²; Liziane Batista de Souza
HOMENS VOGUE: A CONSTRUÇÃO DO MASCULINO NA
CONTEMPORANEIDADE
Mariana Gomes Santos; Liliane Edira Ferreira Carvalho
1. Introdução
A ética kantiana tem como base a ideia do moralmente bom, i.e., do incondicionalmente bom. Para
Kant, “(...) todos os conceitos éticos tem sua sede e origem na razão totalmente a priori, (...) não podendo ser
abstraídos de nenhum conhecimento empírico” [1]. Desse modo, a ética kantiana não designa a mera
idoneidade funcional de ações ou objetos, situações, acontecimentos e capacidades para determinados fins e
tão pouco a conformidade com os usos e costumes ou com as normas legais de uma sociedade.
A filosofia moral kantiana é fundada no conceito de dever, o qual se expressa sob a forma de um
imperativo. Esta forma só tem sentido para os sujeitos que buscam dar-se para si a lei moral, cuja vontade é
boa incondicionalmente. Assim, a concepção kantiana de ética baseia-se no princípio da autonomia, segundo
o qual as normas morais são constituídas pela autolegislação de sujeitos que agem autonomamente.
O conceito de dever moral que corresponde a esta concepção é o conceito do dever categórico
autodeterminado (auto-obrigação). Além disso, a ética kantiana se pauta pelo caráter de universalidade e
necessidade dos princípios morais. Kant identifica a ética com a metafísica dos costumes, concebida como
ciência das normas morais universais e absolutamente obrigatórias.
2. Método
O trabalho foi desenvolvido através de leituras sistemáticas da obra: Fundamentação da Metafísica
dos Costumes, bem como fontes secundárias referentes ao tema. A partir desse referencial teórico, se
desenvolveu análises e interpretações dos textos específicos, concernentes a conceitos e argumentos
relacionados direta ou indiretamente com o trabalho, tendo em vista a reconstrução crítica da argumentação
kantiana frente ao problema da concepção do imperativo categórico.
3. Resultados e Discussão
O objetivo de Kant na Fundamentação da Metafísica dos Costumes é a busca de um princípio
supremo da moralidade. Kant pensa que os juízos morais devem ser derivados de um princípio fundamental
único, se eles constituem um todo consistente e bem fundamentado. Na segunda seção desta obra, tal
princípio único é apresentado pelo autor: “O imperativo categórico é, portanto só um único, que é este: Age
apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal” [2].
O imperativo categórico constitui um dos elementos mais importante para a filosofia moral kantiana,
se configurando no conceito de moralidade para os entes racionais finitos. Visto que entes racionais como os
homens não agem por si sós e necessariamente de modo moral, a moralidade assume para eles o caráter de
um dever-ser, i.e., um caráter de imperativo.
De acordo com Wood, “Um imperativo é qualquer princípio através do qual um agente racional
obriga-se a agir com base em fundamentos objetivos ou razões” [3]. Segundo Kant, todos os imperativos se
expressam pelo verbo dever (sollen), mostrando a relação objetiva da razão com a vontade. Kant caracteriza
os imperativos como fórmulas que apresentam a relação entre leis objetivas do querer em geral e a
imperfeição subjetiva de um ser racional, por exemplo, da vontade humana.
Conforme Kant, “(...) todos os imperativos são fórmulas da determinação da ação que é necessária
segundo o princípio de uma vontade boa de qualquer maneira” [4]. Sendo assim, os imperativos dizem ao
agente, qual ação das que lhes são possíveis seria boa, representando a regra prática em relação com uma
vontade.
Para Kant, os imperativos se classificam em hipotéticos e categórico. Os imperativos hipotéticos
representam à prática de uma ação possível como meio de alcançar um fim, que é possível que se queira.
Segundo Wood, um imperativo é hipotético se a obrigação é condicionada à adoção de um fim opcional pelo
agente. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes Kant descreve os imperativos hipotéticos associados
a uma ação que é boa em vista de qualquer intenção possível ou real. De acordo com Hoffe [5], a validade
dos imperativos hipotéticos encontra-se subordinada a um pressuposto limitante: “Se eu quero fazer x, então
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Acadêmica do curso de Pós-Graduação em Filosofia/Mestrado da UFSM. Bolsista CNPq. E-mail:
[email protected]
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tenho de fazer y”. Os imperativos hipotéticos apenas ordenam os meios para aquilo que se pressupõe como
fim.
O imperativo categórico por sua vez, não se baseia em qualquer intenção a atingir por certo
comportamento, mas ele ordena imediatamente tal comportamento. Não se relaciona com a matéria da ação e
com o que dela deve resultar, mas com a forma e o princípio do qual ela deriva. Kant salienta que o
imperativo categórico é o único que pode chamar-se de imperativo da moralidade, pois não se limita por
nenhuma condição e pode se chamar propriamente um mandamento absoluto, posto que é praticamente
necessário.
Dizer que um imperativo é categórico, significa que sua obrigação não é condicional à busca de algum
fim que se constrói independentemente dele. O imperativo categórico representa uma ação como
objetivamente necessária por si mesma, i.e., como boa em si, sem relação com qualquer outra finalidade.
Dessa forma, o imperativo categórico vale como princípio apodítico, possuindo o caráter de uma lei prática
que contém em si a necessidade que se exige na lei.
Kant descreve o imperativo como o autêntico critério moral, como a forma suprema de toda a
obrigatoriedade, o grau de consumação da racionalidade prática, contendo em si a própria lei moral:
Quando eu penso um imperativo hipotético em geral, não sei de antemão o que poderá conter. Só
saberei quando a condição me seja dada. Mas se pensar um imperativo categórico, então sei
imediatamente o que é que ele contém. Porque não contendo o imperativo, além da lei, senão a
necessidade da máxima que manda conformar-se com esta lei, e não contendo a lei nenhuma condição
que a limite, nada mais resta senão a universalidade de uma lei em geral à qual a máxima da ação
deve ser conforme, conformidade essa que só o imperativo nos representa propriamente como
necessária [6].
4. Conclusão
Em toda a sua teoria moral, Kant salienta que para constituir a comunidade ética é preciso que os
homens tenham uma educação racional, ou seja, direcionem os seus interesses e paixões da melhor forma
possível para o bem, através de uma conduta racional, a qual só é alcançável com o imperativo categórico.
Kant vê o imperativo categórico como o elemento primordial para a vida dos homens que compõem o
ideal de comunidade ética. É através de uma vida categoricamente exigida que o homem torna-se um sujeito
verdadeiro, autêntico, capaz de cumprir as condições de tal comunidade que tem como forma absoluta de
valor: uma vida consolidada na razão prática.
O grau relativo de perfeição da vida ética é sempre uma vida que se põe sob o imperativo categórico,
na medida em que o homem é concebido como um ser que possui consciência de sua faculdade racional,
tornando-se capaz de ser responsável por todas as suas atividades.
Referências
[1] KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Tradução de Paulo Quintela, Lisboa, Portugal:
Edições 70, LDA, 2008.
[2] Ibid.
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[3] WOOD, A. Kant. Tradução de Delamar José Volpato Dutra. Porto Alegre: Artemed, 2008.
[4] Op.cit.
[6] Op.cit.
[7] Op.cit.
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1. Introdução:
Há uma divergência entre os filósofos W. V. O. Quine e D. Davidson a respeito de onde
deve ser situado, na cadeia causal mundo-falante, o elemento que fornece o conteúdo empírico
de sentenças de observação doravante, chamar-se-á tal elemento de “estímulo”. De acordo
com Quine, que sustenta o que se pode chamar de “Concepção Proximal”, tal estímulo estaria
localizado na superfície sensorial do falante, ou seja, em posição próxima a este em referida
cadeia causal estímulo proximal ; Davidson, por outro lado, critica a Concepção Proximal,
alegando que a mesma conduziria, em última instância, ao ceticismo e à relativização da
verdade, e sugere a Quine seu abandono em prol da Concepção Distal, por ele próprio
sustentada, conforme a qual tal estímulo estaria situado nos próprios objetos e eventos sobre os
quais falam as sentenças, isto é, em posição mais distante do corpo do falante trata-se de um
estímulo distal.
Tendo em vista essa celeuma entre os dois autores, o presente trabalho tem como
objetivo apresentar a principal crítica que Davidson procede contra a Concepção Proximal de
Quine, a saber, a alegação de que a mesma conduziria ao ceticismo.
2. Método:
Proceder-se-á à leitura e análise dos escritos quineanos relevantes para o tema, bem
como do artigo “Meaning, Truth and Evidence” de Davidson, no qual é apresentada sua crítica.
Com base nisso, far-se-á, num primeiro momento, uma recapitulação da Concepção
Proximal de Quine alvo das críticas de Davidson e apresentar-se-á, na sequência, o principal
argumento de Davidson contra tal concepção.
3. Resultados e Discussões:
O núcleo da Concepção Proximal consiste em situar aquilo que determina o significado
das sentenças de observação, bem como o que serve de evidência para sua verdade (ou seja, o
conteúdo empírico das sentenças em questão), na porção proximal da cadeia causal mundo-
falante, isto é, na estimulação dos receptores sensoriais do falante. Esse núcleo, porém, está
inserido em um arcabouço teórico mais amplo a respeito do significado de sentenças e até
mesmo da própria linguagem como um todo.
Para compreender-se a concepção de Quine sobre a linguagem, há que se ressaltar,
primeiramente, que o autor adota uma postura metodológica naturalista. De acordo com tal
postura, a filosofia e, portanto, a própria semântica, deveriam adotar os métodos de investigação
intersubjetivos utilizados pelas ciências naturais.
Posicionando-se dessa maneira, ele acaba por contrapor-se ao que chama de
“concepções mentalistas da linguagem”, uma vez que a maneira como estas concebem o
significado inviabilizaria a utilização de referidos métodos. Para o autor, seria incorreto
proceder como ditas concepções e vincular às expressões lingüísticas alguma entidade como seu
significado, tenham tais entidades natureza mental (como idéias na mente de um falante),
platônica (como sentidos de expressões linguísticas em um terceiro reino, como para Frege) ou
mesmo física, material (como os próprios objetos aos quais as expressões se referem, como para
as teorias referenciais do significado). Postular tal associação seria construir a linguagem como
um “museu mental”, no qual o sujeito vincula mentalmente palavras a significados, sendo
aquelas as etiquetas e estes, as peças expostas. [1] Entendendo-se a linguagem sob esse viés
mentalista, ter-se-ia de recorrer ao procedimento introspectivo a fim de saber qual significado o
falante vincula às expressões lingüísticas que usa, o qual é epistemicamente privado e, portanto,
rejeitado por Quine, uma vez que os métodos que são utilizados pelas ciências naturais são
intersubjetivos.
*
Autora: [email protected]
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[...] imaginemos alguém que, quando um porco passa, tem precisamente os modelos
de estimulação que eu tenho quando há um coelho em vista. Suponhamos que a
sentença de uma palavra que o porco o inspira a assentir seja “Gavagai”. Indo por
stimulus meaning, eu traduzo sua “Gavagai” pela minha “Olha, um coelho” embora
eu veja apenas um porco e nenhum coelho quando ele diz e crê que (de acordo com a
Teoria Proximal) que há um coelho. [7]
Pode-se dizer que a tradução de uma sentença por outra é procedida quando se
considera que ambas possuem iguais significados ou muitos próximos, quando se substitui a
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noção tradicional de significado pela de stimulus meaning, a qual torna muito improvável, senão
impossível, dita igualdade. De acordo com isso, a tradução aludida acima estaria correta para a
Concepção Proximal, dado que ambas as sentenças possuem stimulus meaning aproximados. A
despeito dessa correção, surge o problema de, com essa tradução, estar-se atribuindo, conforme
Davidson, uma crença falsa ao sujeito, a saber, a crença de que o sujeito está diante de um
coelho, enquanto, na verdade, está diante de um porco.
Diante dessa hipótese, a Concepção Proximal acabaria por conduzir ao ceticismo, na
medida em que, no seu bojo, restaria aberta a possibilidade de serem falsas, em sua maioria, as
crenças de tal sujeito, possibilidade esta que pode ser estendida, por sua vez, a nossas próprias
crenças.
Davidson considera, ainda, uma possível reação de um defensor da Concepção
Proximal, segundo a qual a crença do sujeito de que ele está diante de um coelho poderia ser
considerada verdadeira pelo fato de que tal sujeito estaria tendo, de fato, a estimulação de um
coelho. Contudo, isso seria inaceitável para Davidson, uma vez que implicaria restringir a
verdade das sentenças a cada indivíduo, o que ele chama de “relativização da verdade”.
Diante dessas dificuldades, Davidson entende que a Concepção Proximal deveria ser
abandonada em prol de outra concepção que escape a tais problemas. A substituta adequada
seria, para esse autor, a própria Concepção Distal, por ele sustentada. No experimento mental
acima aduzido, a tradução correta para a sentença “Gavagai” daquele sujeito seria, não “Olha,
um coelho”, mas sim “Olha, um porco”, já que o sujeito está diante de um porco e que são os
próprios objetos no mundo que determinam o significado da sentença.
Após essa crítica, Quine poderia ter aceito a sugestão de Davidson e adotado a
Concepção Distal. Contudo, não foi assim que ele procedeu. Quine insistiu até o final de sua
obra em não adotar oficialmente a Concepção Distal e preferiu introduzir algumas modificações
em sua concepção a fim de escapar à crítica de Davidson.
4. Conclusão:
Diante da crítica de Davidson, há que se reconhecer a fragilidade da Concepção
Proximal de Quine. Ao que parece, ela enfrenta dificuldades até mesmo para explicar a natureza
pública que a linguagem possui. O fato de ela aparentemente implicar ceticismo poderia ser
considerado um problema intimamente relacionado a essas dificuldades. Quine mesmo parece
reconhecer tal fragilidade, já que procura introduzir nela algumas modificações.
Bibliografia:
[1] QUINE, W. Ontological Relativity. In: QUINE, W. Ontological Relativity and Other
Essays. New York: Columbia University Press, 1969, p. 139.
[2] QUINE, W. Word and Object. Cambridge, Mass: Technology Press of the Massachusetts
Institute of Technology, 1960, p. ix.
[3] GIBSON, R. The Philosophy of W. V. Quine: An Expository Essay. Tampa: University of
South Florida Press, 1982, p. 21.
[4] QUINE, W. Ontological Relativity. In: QUINE, W. Ontological Relativity and Other
Essays. New York: Columbia University Press, 1969, p. 139.
[5] QUINE, W. Ontological Relativity. In: QUINE, W. Ontological Relativity and Other
Essays. New York: Columbia University Press, 1969, p. 140.
[6] QUINE, W. Ontological Relativity. In: QUINE, W. Ontological Relativity and Other
Essays. New York: Columbia University Press, 1969, pp. 32-33.
[7] DAVIDSON, D. Meaning, Truth and Evidence, in: Perspectives on Quine, ed. by R. B.
Barrett and R. F. Gibson. New York: Oxford University Press, 1990a, p. 74.
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1. Introdução
Podemos dizer que há pelo menos duas formas de intuicionismo moral: á primeira daremos o nome de
intuicionismo da regra; enquanto que a segunda será chamada de intuicionismo do ato. Por intuicionismo da
regra pode-se entender uma teoria que declara: (1) o que é diretamente apreendido pelas intuições morais são
geralmente princípios éticos, por exemplo, o imperativo categórico kantiano; e (2) que estes princípios gerais
formam a base segundo a qual podemos avaliar o valor moral de ações, intenções ou qualidades e defeitos de
uma pessoa. Por outro lado, intuicionismo do ato propõe que o valor moral de determinadas ações, intenções
ou características de uma pessoa são, elas mesmas, diretamente intuídas. O intuicionismo de Brentano, como
será demonstrado, é melhor caracterizado como um intuicionismo do ato.
Franz Brentano (1838 – 1917) é conhecido principalmente por sua valiosa contribuição à
fenomenologia, devido sua formulação da noção de intencionalidade contida em sua obra fundamental,
Psicologia de um ponto de vista empírico (Psychologie vom empirischem standpunkte, 1874). Esta noção de
intencionalidade teve enorme influência no campo da fenomenologia, um exemplo disso é a obra de Husserl,
um de seus mais notáveis discípulos. Menos reconhecida é a significação e importância de sua única porém
brilhante obra sobre ética, inicialmente uma conferência, foi publicada sob o título Vom Ursprung sittlicher
Erkenntnis (1889) - para este trabalho será utilizada a tradução de Manuel García Morente para o espanhol,
intitulada El Origen del Conocimiento Moral, publicada em 2002 [1].
Segundo Moosa [2], esta obra sobre ética foi muito bem recebida, exercendo influência sobre filósofos
como Max Scheler e G. E. Moore. A ética de Brentano forma a base da Teoria do Valor de Scheler –
segundo a qual os valores são objeto de uma intuição que se identifica com o sentimento – e gerou
comentários bastante positivos de Moore na sua análise da tradução inglesa de 1902. Segundo Moore [3]:
“This is a far better discussion of the most fundamental principles of ethics than
any others with which I am acquainted. Brentano himself is fully conscious that he
has made a very great advance in the theory of ethics... [A]nd his confidence both
in the originality and in the value of his own work is completely justified... It
would be difficult to exaggerate the importance of his work.”
O presente trabalho visa estabelecer se a teoria ética de Brentano contida em El origen del
conocimiento moral pode ser considerada uma ciência propriamente dita levando em consideração a proposta
de um modelo de ciência. O modelo de ciência adotado para fazer a avaliação é o proposto por Willem R. de
Jong e Arianna Betti no artigo The Classical Model of Science: a millennia-old model os scientific
rationality [4]. Este modelo consiste no ideal axiomático tradicional do conhecimento científico
sistematizado de modo a tornar-se um sistema interpretativo cuja finalidade é a de contribuir com os debates
tradicionais sobre a especificidade da ciência.
Segundo este Modelo, ciência é um sistema S de proposições e conceitos (ou termos) que satisfazem
as condições. Estas condições podem ser divididas em dois grandes grupos: o primeiro se refere à ordem
ontológica; o segundo contém as condições referentes à ordem epistemológica. Este modelo deixa espaço
tanto para um sistema de proposições ordenado por relações fundamentais ou dedutivas (propriamente
axiomáticas) quanto para um sistema de termos ou conceitos ordenados por significados e definições
(voltado mais para questões de linguagem). Neste segundo sentido, a ciência como um sistema axiomático
abrange também a questão dos termos e seus significados. As condições que devem ser satisfeitas no Modelo
podem ser esquematizadas conforme a figura 1 [5].
Dado que não há uma demarcação clara entre o que pode ser dito ciência e as pseudociências e demais
teorias, parece interessante, por vezes necessário para fazer tal demarcação, tentar classificar teorias seguindo
determinados modelos de ciência. O Modelo Clássico foi aqui escolhido por ser o mais utilizado ao longo de
toda a história da filosofia, de Aristóteles a Kant, mas também por filósofos contemporâneos como Frege. As
1
Autor. Mestrando pelo Programa de Pós Graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria.
Bolsista Capes. E-mail: [email protected].
2
Orientador. Professor adjunto no departamento de filosofia da Universidade Federal de Santa Maria. E-
mail: [email protected].
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condições para considerar a teoria ética de Brentano como científica ou não científica serão as mesmas
exigidas pelo Modelo Clássico.
Fig. 1
(1) All propositions and all concepts (or terms) of S concern a specific set ordem ontológica:
of objects or are about a certain domain of being(s). (1)
(2a) There are in S a number of so-called fundamental concepts (or terms). Postulado de domínio.
(2b) All other concepts (or terms) occurring in S are composed of (or are (2a), (2b), (3a) e (3b)
Postulado de ordem.
definable from) these fundamental concepts (or terms). (4)
(3a) There are in S a number of so-called fundamental propositions. Postulado da verdade.
(3b) All other propositions of S follow from or are grounded in (or are (6)
provable or demonstrable from) these fundamental propositions. Postulado da
universalidade e da
(4) All propositions of S are true. necessidade.
(5) All propositions of S are universal and necessary in some sense or another.
(6) All propositions of S are known to be true. A non-fundamental P
ordem epistemológica:
proposition is known to be true through its proof in S. (6) e (7)
(7) All concepts or terms of S are adequately known. A non-fundamental Postulado do
concept is adequately known through its composition (or definition). conhecimento
2. Método
O procedimento adotado foi o de leitura e análise dos textos mencionados nas referências. Com base
nessas análises, primeiramente será apresentada uma noção geral do que se pode compreender por
intuicionismo ético, definindo onde podemos situar a teoria de Brentano. Em seguida será analisado o que,
em concordância com Moosa [6], pode ser considerado o núcleo do intuicionismo ético de Brentano. Este
núcleo é constituído de duas proposições básicas: apenas o amor pelas coisas boas, que são dignas de amor, é
amor correto; e somente as coisas que são boas ou merecedoras de amor podem ser amadas por um amor
correto.
Para que possamos avaliar se a teoria ética do autor pode ou não ser considerada como uma ciência,
demonstraremos de modo bastante geral em que consiste o modelo clássico de ciência. Por fim, a teoria ética
de Brentano será avaliada enquanto ciência, conforme o modelo proposto.
3. Resultados e Discussão
Visto que Brentano aceita a existência e a validade do conhecimento moral, afinal, segundo sua teoria,
temos a capacidade de saber quando uma coisa é boa ou má através da nossa intuição sobre a correção dos
nossos sentimentos para com as coisas, é possível sistematizar sua teoria de modo a que cumpra as condições
exigidas pelo Modelo Clássico a fim de ser reconhecida como uma ciência conforme este modelo.
O Modelo Clássico de Ciência oferece tanto uma teoria para a justificação quanto para a explicação do
conhecimento científico, explicação esta que envolve freqüentemente uma forma de fundacionalismo
epistêmico. Fundacionalismo é aqui tomado no sentido de que todo o conhecimento é, em última instância,
fundamentado ou justificado em termos de conhecimento mais básico, ou fundamental. Devido ao Modelo
Clássico possuir estas qualidades torna-se possível explicar o conhecimento ético em termos científicos sem
descaracterizar a teoria de Brentano.
4. Conclusão
Levando em consideração que o Modelo Clássico de Ciência não estipula quantos e quais de seus
postulados devem ser preenchidos, parece que podemos concordar que a teoria ética de Brentano pode ser
considerada científica segundo este Modelo.
Digo “parece”, porque a avaliação proposta neste trabalho não foi suficientemente profunda e
sistemática. Não foi feita uma análise exaustiva das teorias abordadas no trabalho de modo a não haver
possibilidade de extrair uma conclusão em um sentido forte. Porém, a análise aqui proposta possibilita uma
linha de interpretação e justificação para que se possa considerar a ética de Brentano como uma teoria
científica. Ficam abertas as possibilidades de aprofundamento do estudo e a para a busca de uma conclusão
mais robusta sobre a possibilidade de uma ciência ética baseada na fenomenologia.
Dado que o Modelo Clássico de Ciência pode ser utilizado tanto no contexto da justificação quando no
contexto da descoberta de teorias científicas, podemos utilizá-lo tanto para justificar teorias já estabelecidas
nos diversos ramos da filosofia quanto para descobrir novas teorias que ainda não vieram à tona. Portanto
fica em aberto sua utilização conforme o intuito do pesquisador, desde que respeite as condições propostas
pelo modelo.
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Referências
[1] BRENTANO, Franz; El Origen Del Conocimiento Moral. Editorial Tecnos (Grupo Anaya. S.A.).
Madrid, 2002.
[2] MOOSA, Imtiaz. Naturalistic Explanations of Apodictic Moral Claims: Brentano’s Ethical Intuitionism
and Nietzsche’s Naturalism. In: Ethical Theory and Moral Practices. pp 159 – 182. Springer Science.
Volume 10, number 2 / April, 2007.
[3] IDEM. p.173.
[4] JONG, Willem R. de; BERTI, Arianna; The Classical Model of Science: a millennia-old model of
scientific rationality. In: Synthese. Published Online: 18 November 2008. p.186.
[5] IDEM. p. 186.
[6] MOOSA, Imtiaz. Naturalistic Explanations of Apodictic Moral Claims: Brentano’s Ethical Intuitionism
and Nietzsche’s Naturalism. In: Ethical Theory and Moral Practices. pp 159 – 182. Springer Science.
Volume 10, number 2 / April, 2007. p. 161.
Agradecimentos
Agradeço a orientação do professor Dr. Albertinho Luiz Gallina e das dicas e ensinamentos do
professor Dr. Marcelo Fabri.
Agradeço também a Capes pela bolsa de mestrado concedida.
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1. Introdução
O presente trabalho buscou averiguar as inter-relações existentes entre o processo eleitoral e a
presença das religiões na eleição proporcional ocorrida em Campo Mourão, Mesorregião Centro Ocidental
do Paraná1. O objetivo da pesquisa pautou-se em analisar o desempenho eleitoral, o perfil, o apoio
institucional e as estratégias de campanha adotadas por candidatos que mantém, oficial ou oficiosamente,
algum tipo de vínculo com a religião.
A imbricação político-religiosa, evidenciada em tal projeto, é ratificada cada vez mais na
contemporaneidade e desprezá-la significa deixar de apreender alguns dos vetores de historicidade
(GIUMBELLI, 2008, p. 81). Uma das caracterizações desta imbricação é o crescimento constante de
candidatos, em geral a cargos eletivos, afirmarem ou se aproximarem de grupos religiosos nos períodos que
antecedem as eleições.
Interessante aludir quanto alguns contextos determinantes nesta discussão como as profundas
transformações que o campo religioso brasileiro sofreu nas últimas décadas, com a consolidação da liberdade
religiosa, a pluralização do cenário religioso, as mudanças na estruturação eclesiástica e a acelerada expansão
numérica dos evangélicos. Uma variante importante nesta recomposição é a dilatação das fronteiras entre os
campos religioso2 e político, além da presença de agentes religiosos em pleitos eleitorais.
A categoria agente religioso, no entendimento do antropólogo Ari Pedro Oro, é de candidatos “que
reivindicaram abertamente a sua condição de líderes religiosos (membros da hierarquia ou participantes
ativos de uma religião) ou que se apresentaram como representantes de uma organização religiosa” (ORO,
2001, p. 10). O cientista político Joanildo Burity complementa a noção estendendo para aqueles atores
sociais e políticos do qual sua identidade religiosa é ou tornou-se um componente especialmente relevante
(2008, p. 85).
2. Métodos
Com a finalidade de sustentar teórica e metodologicamente a pesquisa, desenvolveram-se atividades
de leituras, recolhimento de matérias e fotos publicadas em jornais, coleta junto aos comitês de campanha de
material de divulgação como panfletos e „santinhos‟ dos candidatos. Os procedimentos permitiram a
localização de diversas fontes que são fundamentais porque registraram o evento das eleições no ritmo
frenético da busca de votos perceptíveis através do investimento intensivo de propagandas eleitorais e
veiculação de jingles políticos. A metodologia adotada configurou na localização de documentos que
evidencia os recursos midiáticos utilizados e as estratégias de campanha adotadas.
Nas eleições proporcionais definem-se os partidos e/ou coligações que possuem o direito a ocupar as
vagas em disputa, quais sejam: eleições para deputado federal, deputado estadual e vereador. Entre os 76
candidatos registrados no Fórum Eleitoral da Comarca de Campo Mourão, a pesquisa optou pela
investigação de 9 candidatos que participaram das eleições para o legislativo municipal.
Os critérios selecionados para definir os chamados agentes, atores ou políticos religiosos, referem-se
à observância de, sobretudo, três aspectos. Primeiro aqueles que receberam apoio explícito de alguma
instituição religiosa. Segundo aqueles que se apresentaram pelas funções religiosas exercidas como a de
pastor, diácono, presbítero, ministro ou membro vinculado à instituição. Finalmente, aqueles que mesmo não
*
Acadêmica da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (FECILCAM), [email protected]
1
Cidade de Porte Médio, localizada na Mesorregião Centro Ocidental Paranaense, contando com uma população de
85.896 habitantes segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de eleitores
do município é de 60.386 e o grau de urbanização é de 92,89%, dados disponibilizados pelo Instituto Paranaense de
Desenvolvimento Econômico e Social – IPARDES. Disponível em
http://www.ipardes.gov.br/perfil_municipal/MontaPerfil.php?Municipio=87300&btOk=ok. Acesso em: 05 de jul. 2010.
2
O entendimento acerca da noção de campo religioso está ancorado nas discussões teóricas produzidas por Pierre
Bourdieu compreendendo como um espaço no qual agentes (padres, profetas, feiticeiros etc.) lutam pela definição
legítima não só do religioso, mas também das diferentes maneiras de desempenhar o papel religioso. BOURDIEU,
Pierre. A dissolução do religioso. _____. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 120.
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declarando explicitamente seu vínculo com alguma instituição utilizaram em sua campanha
símbolos/discursos religiosos como uso de mensagens, frases ou jingles.
A tabela a seguir apresenta os candidatos investigados pela pesquisa através de seus nomes políticos
utilizados, assim como suas filiações partidárias e o pertencimento religioso de cada candidato, observando a
variedade de instituições religiosas presentes e, ainda, as “funções” exercidas pelos candidatos.
Outro procedimento adotado pelo projeto é o das fontes orais, sendo uma metodologia de pesquisa e
de constituição de fontes para o estudo da história contemporânea surgida em meados do século XX. Este
procedimento consistiu na realização de entrevistas gravadas com pessoas que participaram de, ou
testemunharam, acontecimentos e conjunturas do passado e do presente (ALBERTI, 2006, p. 155). Tal
contexto metodológico sustentou a realização de duas entrevistas semi-estruturadas com os 9 atores
religiosos. A primeira seção de entrevistas ocorreu antes do processo eleitoral e a segunda seção foi realizada
pós-eleição. Este procedimento adotado foi de extrema importância porque as perguntas e respostas gravadas
permitiram conhecer a trajetória do candidato, as opções ideológicas, os apoios recebidos, a concepção de
política e as estratégias de campanha utilizadas. Para a definição do conteúdo das perguntas procurou-se
explorar a trajetória política e religiosa do candidato, informações sobre o pertencimento a determinada
instituição religiosa e ainda sobre concepções e valores averiguados.
A definição dos procedimentos metodológicos tornou possível visualizar o uso de mensagens e
apropriações discursivas que visavam produzir efeitos de sentido junto aos eleitores. Nas propagandas
veiculadas no horário eleitoral obrigatório as falas e apresentações tornam-se notáveis instrumentos de
persuasão para a fé no âmbito „corrompido‟ da política, com a construção de uma iconografia que remete a
bondade e a moralização, recorrendo também, a um poder maior, o de Deus. As campanhas eleitorais
analisadas revelam narrativas de percepções tanto político-ideológicas quanto religiosas.
3. Resultados e Discussão
No momento das eleições de 2008, em Campo Mourão, 76 candidatos pleitearam ocupar uma das 10
vagas para vereador na Câmara Municipal. Sabe-se que o cargo de vereança, em disputas eleitorais, pode
representar o ponto de partida para candidatos que pretendam atingir cargos de maior destaque na carreira
política. “O vereador de hoje pode se transformar no deputado federal de amanhã, assim como o prefeito de
agora pode ser o governador do futuro” (TEIXEIRA, 2000, p. 99). Sendo assim, por meio do poder
municipal, contextos e histórias políticas moldam-se e configuram-se em diversas perspectivas.
O município, sendo a instância local de governo, é administrado pelo poder Executivo, representado
pela prefeitura, e legislado pelo poder Legislativo, representado pela Câmara de Vereadores. A gestão de
unidades municipais, atualmente, tornou-se como tema determinante para a reflexão sobre a vida em
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comunidade. Afinal, “as atividades políticas no âmbito local são de fundamental importância, pelo fato da
esfera municipal ser o lócus onde os cidadãos se relacionam socialmente e vivenciam todas as situações do
cotidiano” (TEIXEIRA, 2000, p. 100).
Podendo ser investigada as especificidades da dinâmica local, cabe refletir também sobre a
relevância dos atores envolvidos, principalmente entender que os governantes representam uma variável
importante na forma pela qual é conduzida a política de uma dada comunidade. A fim de compreender a
relação dos candidatos com o contexto municipal, tornou-se possível constatar, por meio do desenvolvimento
da pesquisa, os diversos fatores que influenciaram os candidatos entrevistados a pleitearem uma vaga no
poder legislativo: história política, convivência no município, influência de pais ou parentes, convite de um
partido político, militância comunitária ou ligações com categorias específicas, como sindicatos ou
religiosos, inclusive, alguns alegam que, pertencer a uma instituição religiosa o torna mais preparado para
ocupar o cargo na Câmara Legislativa.
Outras constatações foram averiguadas pelo projeto, sendo perceptíveis alguns padrões de
relacionamento entre eleitores e elegidos, que buscam manter contato direto com os cidadãos, não só para
cuidar dos problemas apresentados pela comunidade, como também para tentar garantir sua reeleição.
Entretanto, a relação intra-partidária não parece ser tão próxima, verificou-se que antes das eleições de 2008,
reuniões e convenções foram realizadas entre os partidos a fim de organizar as legendas, porém após o
processo eleitoral, os candidatos declaram que a temporalidade de ocorrência diminuiu ou cessou, ainda
constata-se a falta de conhecimento sobre questões internas, como condições sobre quem pode ser candidato
no partido ao qual pertence;
As formas de articulação para atingir a simpatia dos eleitores modificam-se por meio de
movimentações das bases eleitorais com a busca de votos e apoios em diversos setores da sociedade, até
então desconsiderados pela macro-política de grandes partidos, como a busca de votos nos setores religiosos.
Conforme Franco e Meirelles, (2004, p. 169), “a política vê o campo religioso como um espaço para
expansão de sua base eleitoral, por outro lado, a religião passa a ter no político um espaço de interlocução
e disputa, numa constante busca de reafirmação e construção de seu espaço dentro da esfera púbica”. Deste
modo, representantes religiosos dos mais diversos credos disputam o voto do eleitor. Em Campo Mourão,
verificou-se a presença de candidatos de diversas instituições evangélicas e católica direcionando estratégias
para cativar eleitores que se identificam com tal sistema religioso.
A partir da necessidade de conquistar ambientes políticos e adquirir confiança dos eleitores, agentes
religiosos evocam um sentido a mais ao ato de votar. Além do dever cívico, princípios cristãos são utilizados
motivando cidadãos a votarem pelo bem comum. O voto passa da conotação racional e política para um
recurso de uma legítima batalha pela moralização na política permeada pela corrupção, baderna e
desonestidade. O pesquisador Carlos Alberto Steil, afirma que “a ação ritual do voto que exorciza o mal e o
demônio da política confere aos fiéis uma positividade que não encontramos naqueles que inscrevem o
exercício do voto no campo da racionalidade política” (STEIL, 2001, p. 81).
A partir da reflexão sobre as transformações sociais, políticas e religiosas cabe averiguar a forma que
as instituições agem em diversificados momentos. Cada instituição religiosa difere-se em pontos doutrinais e
nas alternadas formas de celebração ritual, porém todas possuem um carisma institucional podendo ser
utilizado (ou não) nos momentos dos pleitos eleitorais. Esse carisma torna-se um recurso à disposição, “a
maneira e a intensidade com que cada igreja vai se apropriar dele depende de seus mitos de origem, de suas
trajetórias históricas e da forma como elas vão se posicionar nas disputas” (STEIL, 2001, p. 76 – 77). Neste
sentido, cabe esclarecer a manifestação das instituições religiosas, sendo que o apoio ou a indiferença
institucional determinaram as estratégias de campanha adotadas pelos candidatos.
Entende-se que há uma ligação entre a forma de organização e o modelo institucional adotado pela
religião ou grupo religioso e o resultado das eleições, sem, contudo, desconsiderar o processo da
identificação pessoal e das trajetórias individuais de candidatos e eleitores. Nas eleições proporcionais de
Campo Mourão em 2008, nenhum dos candidatos político-religiosos investigados foram eleitos ao cargo de
vereador.
Por meio da entrevista realizada pós-eleição, os candidatos avaliaram o desempenho configurado no
processo eleitoral, e declararam os diversos motivos pelos quais não se elegeram como a compra de votos,
apoio de hierarquias políticas, falta de dinheiro para investir em material de campanha e para contratar cabos
eleitorais, atraso ou pouco tempo para realizar campanha, falta de liderança das Igrejas em que havia sido
feito propaganda, difamação política, entre outros.
Dessa forma, é possível conjeturar que as mensagens religiosas utilizadas em campanhas eleitorais
podem sim produzir efeitos de sentido a fim do convencimento especial, porém não garantem per si a
eficácia política desejada.
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4. Conclusão
A partir dos resultados demonstrados o projeto intenta iniciar na Mesorregião Centro Ocidental uma
tradição de leitura e interpretação acadêmica da participação e presença dos atores religiosos na esfera
política. As leituras preliminares da historiografia regional apontam para um grande vazio bibliográfico no
que toca a compreensão desta problemática proposta e, como as evidências apontam, há indícios não
somente locais, mas regionais, que flagram a participação efetiva de agentes religiosos na política o que
comprova, em grande medida, o deslocamento daquilo que seria propriamente o ethos religioso para o ethos
político. Ao trazer à baila a questão da religião, esta proposta ensaia iniciativas no sentido de chamar a
atenção para o aspecto de que a compreensão da sociedade, das lógicas de poder, das estruturas sociais, das
definições das identidades étnicas e grupais passa ou podem passar pelas interferências e alterações próprias
do campo religioso sobre/com o campo político.
As ações coordenadas entre leituras e pesquisas bibliográficas e ainda as realizadas in loco tornam-se
de extrema valia, porque a imbricação discutida exige um olhar apurado do pesquisador. Esta atividade
reflexiva, contudo, não está restrita à academia porque busca consolidar junto à comunidade, organizações
não governamentais, órgãos públicos e privados a prática da discussão e reflexão que pode trazer como seu
corolário o conhecimento histórico e os jogos de poder presentes na sociedade.
Referências
ALBERTI, Verena. Histórias dentro da História. In: PINSKY, Carla (org.) Fontes Históricas. 2ª ed., São
Paulo: Contexto, 2006.
BOURDIEU, Pierre. A dissolução do religioso. _____. Coisas Ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990.
BURITY, Joanildo. Religião, política e cultura. REVISTA TEMPO SOCIAL, São Paulo, v. 20, n. 2,
novembro de 2008.
GIUMBELLI, Emerson. Presença do religioso no espaço público: modalidades no Brasil. REVISTA
RELIGIÃO E SOCIEDADE, Rio de Janeiro, 2008.
MEIRELLES, Mauro. DI FRANCO, Aline. O político e o religioso nas eleições municipais de 2004 em
Porto Alegre: ou a metáfora do gre-nal. REVISTA DEBATES DO NER, Porto Alegre, ano 5, n. 6,
dezembro de 2004.
ORO, Ari Pedro. Religião e política nas eleições 2000 em Porto Alegre. REVISTA DEBATES DO NER,
Porto Alegre, ano 2, n. 3, 2001.
STEIL, Carlos Alberto. Eleições, voto e instituição religiosa. REVISTA DEBATES DO NER, Porto
Alegre, ano 2, n. 3, setembro de 2001.
TEIXEIRA, Marco Antonio Carvalho. O jogo político nos municípios e as eleições. In: CADERNOS
ADENAUER 4: Os municípios e as eleições de 2000. São Paulo: Fundação Konrad, junho de 2000.
Agradecimentos
Os méritos da conclusão deste trabalho devem ser divididos com a FECILCAM (Faculdade Estadual de
Ciências e Letras de Campo Mourão), pela disponibilização de espaço e auxílios em geral, e com Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), órgão de fomento à pesquisa, pelo auxílio
financeiro cedido. Além, é claro, da gratidão com o orientador deste estudo, que disponibilizou tempo e
dividiu seus conhecimentos em prol do instigante caminho da pesquisa científica.
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1. Introdução
O presente trabalho tem como objetivo apresentar a comparação feita por Martin Heidegger entre o
conceito de organismo e o conceito de máquina na obra Os Conceitos Fundamentais da Metafísica. Nesse
contexto, Heidegger estabelece a base para a ontologia da natureza viva a partir da comparação feita entre o
conceito de organismo, compreendido enquanto uma totalidade de órgãos, e o conceito de máquina,
entendido inicialmente como um conjunto de instrumentos. O ponto central deste trabalho consiste em
examinar a comparação entre tais conceitos e reconstruir a estrutura argumentativa apresentada por
Heidegger para afirmar a impossibilidade de se conceber os organismos como um tipo especial de máquinas
bem como para limitar a aproximação entre tais conceitos.
2. Método
Esta pesquisa baseia-se essencialmente na análise das obras e textos filosóficos devidamente indicados
na bibliografia, afigurando-se como uma pesquisa de caráter essencialmente teórico. Nesse sentido, nosso
primeiro passo consistirá em delinear o âmbito de discussão, a saber, o problema dos organismos, máquinas
e instrumentos no contexto da obra Os Conceitos Fundamentais da Metafísica de Martin Heidegger,
especificamente na segunda parte do livro. Em seguida, será abordado o modo como o autor concebe a
relação entre os conceitos de órgão e instrumento e a relação entre os conceitos de organismo e máquina,
através da leitura e exegese dos textos filosóficos e passagens referentes à temática em questão, com a
finalidade de reconstruir os argumentos apresentados pelo autor.
3. Resultados e Discussão
Na obra Os Conceitos Fundamentais da Metafísica Heidegger estabelece a base para a ontologia da
natureza viva a partir da comparação feita entre o conceito de organismo, compreendido como uma
totalidade de órgãos, e o conceito de máquina, entendido inicialmente enquanto um conjunto de
instrumentos. A noção de instrumento é apresentada na parte inicial do tratado Ser e Tempo, onde o autor
elabora uma ontologia das relações internas para a classe dos entes instrumentais, entendendo-os como “algo
para”, no sentido de servir para uma finalidade específica, ser útil para desempenhar uma função.
A noção de órgão, por sua vez, é entendida num primeiro momento no contexto dos Conceitos
Fundamentais da Metafísica como um instrumento, algo que tem uma finalidade para algo; por exemplo, se
pensarmos no caso de um animal, a garra como um órgão para pegar, o bico como um órgão para quebrar,
etc. O ponto central em questão nesse contexto é o seguinte: se a noção de órgão pode ser entendida a partir
de um caráter instrumental, com uma finalidade específica, em que medida um organismo vivo, enquanto um
composto de órgãos, cada qual subordinado a um fim específico não poderia ser compreendido enquanto um
tipo especial de máquina?
No entanto, apesar de um órgão ter um caráter de serventia, servir para algo, assim como o
instrumento, o conceito de órgão não é devidamente compreendido se equiparado ao conceito de
instrumento, pois um instrumento é algo produzido, fabricado especificamente para uma finalidade e está
disponível para o uso, ao passo que um órgão é fruto de uma aptidão desenvolvida pelo organismo. Tendo
apresentado tal distinção, Heidegger mostra que a complexidade de um organismo vivo não pode ser
entendida como um tipo especial de complexo de instrumentos, nem como uma mera associação de órgãos,
pois a estrutura ontológica do órgão entendido como instrumento é diferente da estrutura ontológica do
instrumento como parte ou componente de uma máquina.
4. Conclusão
A comparação feita por Martin Heidegger entre os conceitos de instrumento e órgão e entre as noções
de organismo e máquina resulta numa argumentação em favor da impossibilidade de se conceber o
organismo como um tipo especial de máquina, como um mero aglomerado de órgãos cada qual com uma
finalidade determinada. Além disso, a argumentação oferecida por Heidegger serve para limitar a
aproximação entre os conceitos de organismo e de vida às noções de instrumento e máquina, uma vez que
um organismo não pode ser entendido como um mero aglomerado, um complexo de órgãos que funciona
* [email protected]
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como uma máquina, um agregado de instrumentos, peças e ferramentas, cada qual cumprindo uma função
específica. Tal limitação justifica-se pelo fato de que a estrutura ontológica de um órgão compreendido a
partir de seu caráter instrumental difere da estrutura ontológica de um instrumento entendido enquanto
componente ou peça de uma máquina.
5. Referências
HEIDEGGER, M. Os Conceitos Fundamentais da Metafísica. Mundo - Finitude - Solidão. Trad. Marco
Antônio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. 4ª ed. Trad. Márcia de Sá Cavalcante. Petrópolis: Vozes, 1993.
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Viviane Catarini Paim1; Daniel José Crocoli, Prof. Dr. Paulo César Nodari.
Universidade de Caxias do Sul
1.Introdução
Este trabalho tem como finalidade investigar as ações da escola quanto à educação para valores, tendo
em vista a preocupação e as discussões em torno da função da escola, enquanto formadora, ou seja, qual o
seu papel frente aos diversos valores que se apresentam na sociedade contemporânea. Portanto, envolve
conceitos abrangentes: educação e valores. Educação, por sua vez, assumida no caráter formal de ensino,
mais restritamente, na escola.
Para poder investigar o trabalho da escola frente à educação para valores, é necessário contextualizá-
la, apresentando os aspectos pertinentes da sociedade atual que se apresenta e na qual a escola está inserida,
para após isto, verificar quais valores estão inseridos nesta sociedade. Para isso, será referenciado os estudos
de Zygmunt Bauman para caracterizar esta sociedade, definindo conceitos como instantaneidade, progresso,
individualidade, trabalho, competitividade, entre outros. Sabe-se que, ao longo do tempo, a sociedade vem
sofrendo algumas alterações em todos os âmbitos, quer sejam políticos, sociais, econômicos, culturais. Estas
alterações acabam invadindo a escola, sendo que a sua proposta pedagógica deve estar de acordo com as
novas demandas da sociedade.
Diante disto, Bauman (2001) apresenta a sociedade comparando-a com a denominada modernidade
líquida para explanar as mudanças ocorridas na sociedade, com o advento da modernidade mais sólida para a
chamada modernidade leve, líquida, ou seja, como o mundo funciona hoje e como podemos operar nele,
sendo que o autor define:
Essa parte da história, que agora chega ao fim, poderia ser chamada, na falta de nome
melhor, de era do hardware, ou modernidade pesada – a modernidade obcecada pelo
volume, uma modernidade do tipo “quanto maior, melhor”, “tamanho é poder, volume é
sucesso”. (p. 132) [grifos do autor].
Para este autor, vivemos atualmente, uma modernidade líquida, leve que é marcada pela
instantaneidade, que “conduz a cultura e a ética humanas a um território não-mapeado e inexplorado, onde a
maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido.” (p. 149).
Pode-se compreender que esta modernidade líquida demarca uma grande transformação nos âmbitos
social, político, econômico, ambiental, sempre no sentido de esquecer o passado, ou seja, aquilo que
significava importante nas ações dos indivíduos e que, agora, perde seu efeito. As possibilidades de criar
novas formas de vida são aceitas e o mundo movimenta-se conforme as demandas imediatas. É o mundo do
imediatismo, das coisas descartáveis. Vive-se para o momento e, muitas vezes, a responsabilidade da prática
momentânea não é requisito para limitá-la. A diferença da modernidade sólida para a modernidade líquida é
a duração da ação. Na modernidade líquida, a ação é imediata, a curto prazo. Neste sentido, o consumismo
passa a ser algo de desejo imediato. Consome-se mais e, muitas vezes, para satisfazer desejos instantâneos e
individuais. Ações coletivas passam a ser, de certo modo, inexistentes.
Ainda, ao que se refere aos modos de trabalho, o ser humano busca o progresso. Este é algo visto
como aquilo que não tem fim, que deve ser alcançado constantemente, através de seu esforço. A competição
e a individualização concorrem para o alcance deste progresso. Todos estes processos mudam
profundamente o modo de vida humana. É o que constata-se neste trecho:
[...] são homens e mulheres individuais que a suas próprias custas deverão usar,
individualmente, seu próprio juízo, recursos e indústria para elevar-se a uma
condição mais satisfatória e deixar para trás qualquer aspecto de sua condição
presente de que se ressintam. (p. 155).
O trabalho, na modernidade sólida era considerado uma virtude, sendo fundamental para a vida nos
tempos modernos. Com ele, o ser humano comandava seu próprio destino. Porém, na contemporaneidade, o
trabalho não é mais um projeto de vida, uma base sólida, mas um significado de satisfação. Assim, mudar de
emprego tornou-se algo comum, reafirmando o conceito de transitoriedade que marca a denominada
modernidade líquida.
Os conceitos de emancipação e individualidade ganham um peso maior nesta sociedade, sendo que o
coletivo e a comunidade passam a ser conceitos abstratos, aquilo que vem depois das escolhas individuais.
Diante desta breve explanação apresentada por Bauman, é necessário apresentar algumas definições de
valor para podermos relacioná-los ao processo educativo da escola.
1
E-mail: [email protected].
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É possível começar com uma definição simples, extraída de Ogien (In Canto-Sperber, 2003): “Nas
„teorias dos valores‟, fala-se mais sobre o bem, o mal, o melhor, o pior etc.” (p. 255). Para este autor,
entretanto, os valores não são exclusivamente morais, pois podem ser valores cognitivos, estéticos,
econômicos, sociais, etc. Porém, para a filosofia moral, é incontestável a integração das teorias do bem e do
dever nas teorias mais gerais do valor. O autor, ainda, explicita de maneira clara que as modernas teorias do
valor contribuem para legitimar as definições puramente subjetivas de valor, sendo que defensores destas
teorias estimaram que o “valor de um objeto ou de uma ação era uma função dos interesses ou das emoções
do agente [...].” (p. 258). Para os críticos da abordagem subjetiva, ou seja, os defensores das teorias objetivas
do valor, estimam que os valores são estáveis, não dependem da subjetividade, ou seja, dos interesses e
emoções. Porém, isto não significa que estes fatores não tenham relação com os valores.
Além desta curta definição de valores apresentada, alguns autores, dependendo de suas concepções e
teorias, ocupam-se em defini-los. Falcão (1997), por exemplo, descreve: “Ao cogitarmos dos objetos do
conhecimento e, no particular, quando tratamos dos objetos culturais, fizemos referências diversas a valor.”
(p. 18). Explicita, em sua obra, os filósofos existencialistas que consideram importante a vida humana, a
existência. Desse modo, o homem “está sendo” no mundo e, enquanto vive, usa sua liberdade de escolha,
liberdade que orienta suas condutas. Suas decisões tornam-se importantes para suas ações. Por isso, escolher
é valorar. Sua conduta é indissociável do valor.
Em conformidade com este pensamento, a obra que apresenta também definições de valores é a obra
de Hessen, intitulada Filosofia dos Valores (1980). Cabe ressaltar brevemente o que este autor apresenta
como conceito de valor, sendo que valor, no sentido mais simples, é dado da nossa “consciência dos
valores”, de nossa vivência, de nossa forma de vida. (p. 39). Voltamos a referenciar aqui que dependem das
nossas vivências, experiências, ligando-se às características que advém do ser humano. No conceito de valor
está embutido a relação com um sujeito. “Valor é sempre valor para alguém. Valor – pode dizer-se – é a
qualidade de uma coisa, que só pode pertencer-lhe em função de um sujeito dotado com uma certa
consciência capaz de a registrar.” (Hessen, p. 47). Ainda, os valores pertencem à classe dos objetos não
sensíveis, apontando que estes tem como características a irrealidade (têm ser, mas não tem existência); a
intemporalidade (estão para além do devir e da extinção temporais) e a objetividade, ou seja, os valores
independem da subjetividade. Eles não são subjetivos, não existem para um determinado sujeito ou grupos
de sujeitos.
De acordo com estas definições, referencia-se novamente Falcão (p. 20): “O valor não se confunde
com bem. Pelo contrário, é por causa do valor que surge a idéia de algo como sendo um bem. O valor é
primário. O bem é decorrência, é algo que vem em seguida.” Ainda, apresenta uma classificação que, quanto
à amplitude, podem ser universais, sociais, nacionais, populares e particulares. Quanto ao tempo, são
permanentes, duradouros e efêmeros. Quanto à legitimidade, positivos ou negativos e, quanto à matéria,
podem ser classificados de maneira quase ilimitada, lembrando os valores morais, jurídicos, éticos, políticos,
econômicos e, assim, por diante.
Destaca-se aqui que as obras e estudos de Max Scheler serão imprescindíveis para a realização desta
pesquisa acerca do tema proposto.
2. Método:
Diante deste cenário, é imprescindível verificarmos se a escola, além de desenvolver habilidades e
competências com seus alunos, deve formá-los através de valores e qual seu papel perante os valores que
vêm sendo apresentados na sociedade atual. Para isso, a contextualização da sociedade em que a escola está
inserida é importante, bem como, buscar um referencial teórico contemporâneo que apresente um estudo
mais aprofundado sobre valores, educação e ser humano. Também, descrever e analisar os aspectos
pertinentes que envolvem o processo educativo da escola, sua relação com valores e a concepção de ser
humano que visa alcançar. Este referencial será Max Scheler. Desse modo, o método será descritivo-
analítico, no sentido de apresentar uma descrição dos conceitos, enunciados e proposições de todos os
aspectos referenciados e analítico, por analisar estes conceitos e estas definições, sendo uma pesquisa
bibliográfica e descritiva. A partir da análise analítica dos valores a partir de Scheler, tentarei ver de que
modo é possível colocar em prática tais valores e se isto possível.
3. Discussão e resultados:
Os resultados deste trabalho serão apresentados depois de um amplo e profundo estudo sobre o
principal referencial teórico, Max Scheler, para então, podermos compreender a relação entre os processos
educativos escolares, a sociedade em que está inserida e suas transformações sociais e culturais com os
aspectos apresentados por Max Scheler sobre valores. Neste momento, apresenta-se uma breve definição do
que Scheler entende por valor e educação.
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Scheler é um dos defensores da teoria objetivista de valores, mas também considera a relação entre os
interesses e emoções com os valores. É o que podemos conferir em Ogien (In Canto-Sperber): “Segundo
Scheler, por exemplo, o valor de um objeto ou de uma ação não é função dos interesses ou das emoções do
agente, mas o agente pode conhecer ou descobrir este valor por meio de seus interesses ou de suas emoções.”
(2003, p. 258). Isto significa que sua teoria de valores será imprescindível na abordagem do tema
pesquisado.
Schaefer (1995), um dos principais comentadores das obras de Max Scheler, apresenta a concepção de
educação trazida pelo teórico, sendo que esta educação deve ser voltada para o homem. Este homem é um
ser total, resumindo em si a totalidade do mundo.
A educação, portanto, deve estar voltada para este homem total, apresentando-se como uma tarefa
contínua. É um processo de humanização. Esta humanização, porém, não se refere a um processo evolutivo,
sendo o homem o resultado complexo deste processo, mas enquanto essência, ou seja, o homem é um ser
natural, tendo em si as formas de vida próprias do mundo humano e também é um ser espiritual. É como ser
espiritual que pode participar da tarefa da educação. Diferencia-se do animal por ter consciência de si e do
mundo. Esta característica diz respeito sobre a capacidade do homem não estar submetido somente às
tendências e interesses vitais, mas superar todo o meio possível da vida e se elevar ao reino do ser e do valor.
(p. 49).
Portanto, para Scheler, a destinação fundamental da educação é a realização individual e singular do
homem. Para isso, é necessária a realização do projeto humano, a partir de si mesmo. Neste sentido, a
educação é um “fazer-se”. É a busca do homem em direção ao seu projeto de vida. “A educação é um
caminho para a liberdade.” (Schaefer, 1995, p. 129).
É importante, aqui, citar novamente Ogien (2003), quando explicita o pensamento de Scheler quanto
aos valores, ou seja, apesar de ser um defensor da teoria objetivista dos valores, acaba por considerar as
emoções e os sentimentos do ser humano na relação com os valores.
Scheler também apresenta uma hierarquia de valores. De acordo com esta hierarquia é possível julgar
se um ato é bom ou mau, belo ou feio, levando-se em conta a preferência de quem o pratica. A ordenação
dos valores passa a ser então a tarefa mais importante da reflexão ética. Esta hierarquia é referenciada por
Volkmer:
[...] as percepções sentimentais, como as percepções em geral, são atos
objetivadores da razão, e portanto seus objetos intencionais são „objetivos‟, e a
hierarquia dos valores também é objetivamente intuída a partir de certos atos do
espírito. Estes atos são os atos de preferir e de postergar. Se preferimos ou
postergamos um valor em relação a outro, é porque intuímos imediatamente uma
diferença de magnitude valorativa entre eles, e que portanto, há uma hierarquia
entre os valores. (p. 65).
Na obra de Scheler “Da reviravolta dos valores” (1994), o autor começa por reabilitar o conceito de
virtude, explicitando que, para os gregos, a virtude “é o que determina a expansão e completude da
responsabilidade para possíveis lidas.” (p. 21). Para Kant, a virtude a virtude é um efeito de vontade em
consonância com o dever. Scheler critica esta última definição por compreender que isto acarreta o peso de
uma responsabilidade. Apresenta a virtude como “uma consciência viva de potência para o bem, totalmente
individual e pessoal. [...].” (p. 22) [grifos do autor].
As virtudes são explicitadas em relação a outros conceitos, como por exemplo, o conceito de
humildade, sendo que esta, para o autor, é a mais bela das virtudes cristãs. A partir desta definição, faz uma
distinção entre humildade e orgulho, sendo que o orgulho é um valor que o homem confere à sua própria
imagem. Deste modo, o orgulhoso passa a ser também vaidoso, sendo a vaidade outro valor referenciado por
Scheler na sua obra. Para o autor, a humildade deve vencer o orgulho, para que abra “o olhar do espírito para
todos os valores do mundo.” (p. 28). Nesta obra, há a preocupação de apresentar alguns elementos da moral
moderna. O valor do trabalho pessoal é referenciado como um dos elementos. Através do trabalho, do
esforço, do sacrifício, os homens mostram-se como iguais em seus valores éticos. (p. 147). Para Scheler, na
Antiguidade, bem como no Cristianismo, esta valoração não era conhecida. Ele apresenta outros elementos
importantes da moral moderna, sendo o subjetivismo dos valores e a subordinação dos valores da vida
(essenciais) aos valores da utilidade, descrevendo os aspectos que se manifestam como determinantes nas
questões acerca de valores.
4. Conclusão:
Este trabalho de pesquisa envolve conceitos abrangentes: educação e valores.
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A educação, por sua vez, possui um conceito amplo que envolve vários aspectos: processos de
formação, conhecimentos, crenças, costumes, ensino. De maneira geral, assume caráter formal e informal.
Caráter formal quando assumida pelas instituições, como escola, igreja, sindicato, universidade. Informal
quando ocorre nos mais variados espaços da sociedade, sem um caráter de formalidade, ou seja, o indivíduo
se educa em todos os espaços, mesmo que estes não assumam regras, procedimentos, rituais. Pode-se dizer
que, mesmo sem freqüentar os espaços escolares, o indivíduo educa-se. .
Na escola, de maneira geral, a educação ocorre nas formas de ensino, de transmissão de
conhecimentos, de desenvolvimento de habilidades e competências. Estas formas de educar têm como
objetivo a formação do sujeito. Em conformidade com Scheler, educação é uma tarefa contínua em prol do
projeto de vida do sujeito, para sua realização plena.
A educação, por sua vez, tomará uma forma de relação com o conceito de valores. Os valores serão
aqui compreendidos como parte do processo educativo e como parte da sociedade.
Em conformidade com os conceitos apresentados por Bauman no que se refere à sociedade
contemporânea, podemos compreender que determinados valores estão inseridos nesta sociedade. Diante
disso, onde estaria o papel da escola? A escola está preparada para formar sujeitos oriundos desta sociedade?
A educação escolar dá conta de compreender estes processos de transformação e a partir do contexto atual,
ter espaço para uma formação de valores?
A partir daí, podemos relacionar todos os aspectos levantados pelo autor com as questões educativas
de nossos tempos atuais, ou seja, pensar sobre o reflexo desta sociedade presente na escola, exibindo alguns
aspectos, como por exemplo, de civilidade, convívio com as diferenças, relações entre tempo e espaço, sendo
que estas relações estão diretamente vivenciadas nos espaços escolares, na medida em que a escola deve, ou
então deveria, possuir um potencial para acompanhar os movimentos acelerados de produção de
conhecimento, pois a escola então, transmissora deste conhecimento, passa agora a não ser a detentora do
saber, pois as novas tecnologias oferecem as informações em um rápido espaço de tempo, no qual todos têm
acesso ao “conhecimento”.
É necessário destacar ainda que, como a pesquisa ainda está no princípio, um estudo aprofundado do
principal referencial teórico será imprescindível para obtermos melhores resultados e, assim, podermos
relacioná-los com as questões educativas atuais e sobre o papel da escola frente às transformações sociais e
frente à educação para valores.
REFERÊNCIAS:
ALMEIDA, Felipe Quintão de. BRACHT, Valter. GOMES, Ivan Marcelo. Bauman e a educação. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
OGIEN, Ruwen. Normas e Valores. Tradução de Ana Maria Ribeiro – Althoff. In: CANTO-SPERBER,
Monique. Dicionário de Ética e Filosofia Moral. Vol. 2. São Leopoldo, RS: Ed. Unisinos, 2003. p. 255-267.
FALCÃO, Raimundo Bezerra. Hermenêutica. 1ª ed. São Paulo: Malheiros Editores, 1997.
HESSEN, Johannes. Filosofia dos Valores. 5 ed. Coimbra: Arménio Amado, 1980.
SCHAEFER, Osmar Miguel. Antropologia filosófica e educação: perspectivas a partir de Max Scheler.
Pelotas: EDUCAT, 1995.
SCHELER, Max. Da Reviravolta dos Valores: ensaios e artigos. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994.
______. Ética: nuevo ensayo de fundamentación de un personalismo ético. 3ª edl, Madrid: Caparrós
Editores, 2001. 764p.
VOLKMER, Sérgio Augusto Jardim. O perceber do valor na ética material de Max Scheler. Dissertação de
Mestrado. Disponível em: http://tede.pucrs.br/tde_busca/aquivo.php?CodArquivo=23. Acessado em:
12/06/2010.
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1. Introdução
A partir da redemocratização brasileira iniciada em meados dos anos 1980, o cenário da
relação entre Estado e sociedade civil passa por grandes mudanças. De acordo com Dagnino [1],
ocorre o aumento de diversas formas associativas, emergem novos movimentos sociais e os
partidos políticos se reorganizam. Por sua vez, o Estado vai se democratizando mediante o
estabelecimento de vários procedimentos formais de participação que abre o acesso a novas
forças políticas. Dessa maneira, as transformações ocorridas no âmbito do Estado brasileiro e da
sociedade civil se expressam em novas relações entre eles. O confronto e a oposição que no
período de resistência contra a ditadura marcavam estas relações passam a ser caracterizadas
pela negociação e por uma aproximação que aposta na possibilidade de atuação conjunta,
expressa pela bandeira da participação social.
Por outro lado, a literatura sociológica comumente empregada na análise das relações entre
sociedade civil e Estado no Brasil parece não acompanhar tais evidência empíricas. Em virtude
de sua trajetória, que tendeu a enfatizar mais a função positiva da sociedade civil do que a
constituição dos atores que a conformam, as ciências sociais brasileiras, em grande medida, se
descolaram dos debates internacionais que buscavam desenvolver instrumentos analíticos mais
consistentes para o estudo dos processos de associação e mobilização presentes em âmbito
societário. Desta forma, a literatura sobre movimentos sociais no Brasil tem como uma
importante característica o seu “engajamento”; isto é, tende a ser uma literatura voltada,
predominantemente, não só à análise de seus objetos de pesquisa, mas também à defesa de
determinadas posições político-organizativas. Neste sentido, o primeiro aspecto destacado é a
forte presença de um enfoque normativo nesta literatura. Isto significa que uma parcela
significativa dos trabalhos que a integram adota determinados pressupostos normativos que
definem como “deve ser” o objeto de sua análise. Como desdobramento desta normatividade,
outra característica presente em parte desta literatura é o seu caráter prescritivo, ou seja, alguns
analistas tendem a assumir o papel de propositores de formas de organização e atuação dos
movimentos sociais a partir de determinados princípios considerados corretos, justos ou eficazes
[9].
Tais características dos estudos sociológicos brasileiros sobre movimentos sociais e
sociedade civil tendem a apresentar algumas defasagens analíticas na medida em que ao ater-se
a aspectos de caráter mais normativo, geralmente pecam na apreensão das dinâmicas reais de
associação e nas relações que os movimentos sociais estabelecem com o Estado para a conquista
de suas demandas. Esta é uma característica da literatura comumente empregada nos estudos
sobre Economia Solidária no Brasil. O debate que permeia as discussões entre a autonomia e a
institucionalização do movimento de Economia Solidária, muitas vezes acabam por transpor
categorias analíticas baseadas em outras realidades empíricas – como a européia, por exemplo –
mas que quando aplicadas ao caso brasileiro, não dão conta de suas especificidades. Uma das
características da relação entre movimentos sociais e Estado no Brasil é a fluidez de suas
fronteiras na medida em que o trânsito de atores entre o movimento e a esfera institucional é
intenso, ou seja, é comum encontrarmos a presença dos mesmos atores e grupos ocupando
posições ora nos movimentos sociais, ora na esfera institucional [3]. Tal peculiaridade do caso
brasileiro é marcante das relações estabelecidas entre movimentos sociais e Estado, das quais as
experiências associativas em Economia Solidária são emblemáticas. Neste sentido, o objetivo
1
Gerson de Lima Oliveira: [email protected]
21
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3. Procedimentos metodológicos
A fluidez das fronteiras que permeiam as relações entre sociedade civil e Estado no Brasil
impede que se possa compreender tais dinâmicas a partir da simples transposição de modelos
analíticos empregados em outras realidades empíricas. Portanto, se faz necessário o
desenvolvimento de ferramentas analíticas que possibilitem a melhor compreensão destas
dinâmicas relacionais. Visando este esforço, o método aplicado neste trabalho consiste na
análise de trajetórias. Foram realizadas entrevistas com dez militantes que cumpriram papéis
importantes na consolidação de um campo de práticas em Economia Solidária no Rio Grande do
Sul. Estes atores têm em comum o fato de ao longo de suas trajetórias individuais atuarem no
movimento de Economia Solidária a partir de organizações não-governamentais, entidades
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4. Conclusões
A partir da análise de documentos, do levantamento de parte da bibliografia acadêmica
existente e da análise das trajetórias individuais, é possível constatar que a consolidação de um
campo de práticas em Economia Solidária no Rio Grande do Sul foi possível quando grupos
organizados em entidades associativas e partidos políticos que defendem a Economia Solidária
enquanto bandeira política e estratégia de desenvolvimento econômico assumem o governo. Da
mesma forma, isto abre espaço para que as entidades de apoio e fomento tenham acesso a
recursos e relações com o poder público, consolidando seu papel de mediação na estruturação
deste campo de práticas, seja através da obtenção de recursos financeiros ou do fornecimento de
suporte humano.
Sabemos que o Estado controla grande parte dos recursos materiais capazes de prover a
sustentação deste campo de práticas e, em última instância, o monopólio dos mecanismos
capazes de atribuir legitimação e reconhecimento jurídico a estas iniciativas. Desta forma,
relações de maior negociação e proximidade entre movimentos sociais e Estado tem sido uma
importante estratégia de setores tradicionalmente excluídos para acessar recursos historicamente
fora de seu alcance. E esta não é uma característica exclusiva do movimento de Economia
Solidária. Movimentos como o ambientalista, o sanitarista e de luta pelos conselhos de saúde
também possuem como marca de sua trajetória este tipo de relação com o Estado [3, 10].
Tais evidências empíricas apontam para transformações ocorridas nas relações entre
sociedade civil e Estado no Brasil a partir do processo de redemocratização. Relações que antes
eram marcadas pelo confronto, passam a ser caracterizadas pela aproximação e pela negociação,
na qual os movimentos sociais passam a disputar canais de participação institucional e a ocupar
espaços institucionais através de seus representantes. O trânsito institucional que marca tais
relações nos leva a problematizar as fronteiras realmente existentes entre movimentos sociais e
Estado no Brasil, na medida em que simples transposição de modelos teóricos prontos para a
análise empírica, parecem não dar conta da complexidade destas relações.
Referências
[1] DAGNINO, Evelina (org.). Sociedade Civil e Espaços Públicos no Brasil. Rio de Janeiro:
Paz e Terra, 2002.
[2] DOIMO, Ana Maria. A vez e a voz do popular. Rio de Janeiro: Relume-
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Dumará/ANPOCS, 1995.
[3] FALLETI, Tulia G. Infiltrating the State: The Evolution of Health Care Reforms in Brazil,
1964-1988 In: Explaining Institutional Change: Ambiguity, Agency, and Power.
Nova York: Cambridge University Press, 2010
GOHN, M. G. M.. Abordagens Teóricas no Estudo dos Movimentos Sociais na América Latina.
Cadernos do CRH (UFBA), v. 21, p. 439-455, 2008
MARQUES, Eduardo. Estado e redes sociais: permeabilidade e coesão nas políticas urbanas
no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revan, 2000.
PINTO, João Roberto Lopes. Economia solidária: de volta à arte da associação. Porto
Alegre: Editora da UFRGS, 2006.
[7] SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1988.
[9] SILVA, M. K. De volta aos movimentos sociais?- Reflexões a partir da literatura brasileira
recente. In: Ciências Sociais Unisinos. São Leopoldo: UNISINOS, 2010.
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1. Introdução
O debate sobre o desenvolvimento da autonomia é central para a compreensão das reais
possibilidades da economia solidária. Uma parcela importante da bibliografia traz como pressuposto a
existência de uma racionalidade nos empreendimentos de economia solidária voltada à pessoa,
diferenciando-a da lógica capitalista de maximização dos ganhos [1-3]. O presente estudo busca
problematizar esse pressuposto por meio das contribuições – diferenciadas, mas complementares - de E.P.
Thompson [4,5] e François Dubet [6,7] no que concerne a noção de experiência.
A relevância da análise do desenvolvimento da autonomia em empreendimentos de economia
solidária reside no fato de que neste tipo de empresa abre-se a possibilidade do exercício da autogestão. No
entanto, a constituição desse sujeito autogestionário é histórica e atravessada pela socialização – passada e
presente – ocorrida em distintos espaços, a família, a escola e o trabalho. Estes processos socializadores,
como aponta Dubet [6], promovem valores heterogêneos e até contraditórios.
O viés heterogêneo da socialização é evidenciado pelas trajetórias laborais de trabalhadores inseridos
na economia solidária. A existência de um “antes” e um “depois”, isto é, de uma situação que delimita o
trabalho heterônomo do que se propõe autônomo nas histórias de vida não ocorre sem tensões e dificuldades.
Uma abordagem histórica capaz de perceber que durante o desenvolvimento de sua experiência social o
trabalhador desenvolveu padrões de apreensão da situação laboral influenciados por uma socialização
heterogênea - que tinha no trabalho heterônomo um elemento relevante de constituição de valores e condutas
individuais - faz-se necessária para problematizar os sentidos possíveis da autogestão em empreendimentos
de economia solidária.
Buscou-se, assim, a construção de uma definição do conceito de autonomia que pudesse abranger
essas questões e que permitisse a constituição de um modelo analítico com um triplo enfoque: a
heterogeneidade do processo de socialização, a reflexão do trabalhador sobre este processo e a possibilidade
da existência de uma ação correlata.
2. Problema e Método
1
Thales Speroni Pereira da Cruz: [email protected]
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tal por meio da experiência, ou seja, não é satisfatória uma análise que se limite a detectar a existência da
possibilidade de participação, é necessária a investigação de qual o significado de tal possibilidade, quais são
as decisões tomadas e sua relação com a experiência dos trabalhadores.
Levando em consideração os aspectos supracitados serão estudados empreendimentos de confecção,
este setor é uma realidade adequada à investigação proposta dada sua relevância para a economia solidária
atualmente (número de empreendimentos e a existência de casos modelo) e a presença de certa flexibilidade
no que tange a organização do processo produtivo. Sendo assim, serão investigados cinco empreendimentos
de Porto Alegre e região metropolitana, selecionados a partir dos seguintes critérios: mínimo de 20
trabalhadores, realização do trabalho – mesmo que em parte – de forma coletiva e ter iniciado seu
funcionamento há pelo menos oito anos.
Considerando as dificuldades geradas por tal problema, buscou-se, por um lado, o estabelecimento
de indicadores que dão conta de diferentes aspectos das realidades estudadas e, por outro, a adoção de
procedimentos metodológicos coerentes com o modelo analítico proposto e que se caracterizam, pelo contato
regular com os casos investigados e pela relevância conferida aos relatos dos trabalhadores realizados sob
seus próprios termos e estruturas de referência. Neste sentido, serão aplicadas três técnicas complementares:
1) Os grupos focais que têm como característica a produção de dados por meio da interação do grupo [8],
permitindo, assim, a exploração de “normas e dinâmicas grupais ao redor de questões e tópicos” [9]; 2) As
entrevistas não-estruturadas e biográficas que possibilitam uma “(...) profundidade qualitativa ao permitir
que os entrevistados falem sobre o tema nas suas próprias estruturas de referência. (...) Isso permite que os
significados que os indivíduos atribuem para os eventos e relacionamentos sejam entendidos nos seus
próprios termos” [10]. Os entrevistados serão selecionados buscando a diversidade de experiências laborais,
de tempo no grupo e de cargo ou função exercida atualmente; 3) A observação sistemática é uma técnica que
complementa as outras anteriormente referenciadas e que terá como foco a análise do processo de trabalho
existente. Este procedimento visará a compreensão do nexo entre crítica reflexiva (construída a partir dos
procedimentos anteriores) e arranjo do processo de trabalho.
Busca-se por meio desta complementariedade entre procedimentos metodológicos uma análise
caracterizada por uma “dupla hermenêutica” [11].
2
Dimensões construídas tendo como referência as lógicas de ação propostas por Dubet [6].
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Como fica expresso pela figura acima, o conceito de autonomia aqui vinculado pode ser concebido
como a articulação entre ação estratégica e subjetivação, ou seja, a existência de uma reflexão sobre a
socialização atual e passada, que sirvam de fundamento para ações individuais ou coletivas com vistas à
alteração do conjunto de normas e procedimentos do empreendimento.
A seguir serão destacados os obstáculos para o desenvolvimento da autonomia tal como é definida
aqui.
A economia solidária, no caso brasileiro, configura-se primeiramente enquanto economia de
subsistência (o que fica claro nos dados do mapeamento realizado pela Secretaria de Economia Solidária
[13]). Neste sentido, a participação dos sujeitos nesses empreendimentos tende a se concretizar mediante
uma situação emergencial e provisória. Isso fica evidente ao se constatar que grande parte dos
empreendimentos garante rendimentos mais baixos do que a média do mercado de trabalho [13] e sem
permitir, de maneira geral, o acesso a direitos equivalentes aos promovidos pela CLT.
Outro ponto de dificuldade é que, como qualquer empreendimento econômico no capitalismo, as
empresas solidárias têm de responder a parâmetros de eficiência produtiva, a fim de sobreviver à
concorrência, o que causa uma pressão sobre os trabalhadores. Esse fato pode tornar-se um empecilho para o
desenvolvimento da autogestão e de um trabalho com sentido.
A falta de apoio técnico e a pouca atenção acadêmica para o aspecto da organização produtiva deste
tipo de empresa estabelece uma dificuldade relevante no sentido do desenvolvimento da autonomia, pois não
incentiva a superação do modo de organização do processo de trabalho heterônomo, que tem tido
historicamente no controle sobre a força de trabalho sua meta primeira [14-18]. Este fato leva a maioria dos
empreendimentos solidários a não organizar a produção de forma substancialmente diferente das demais
empresas de mesmo setor.
Em suma, a autonomia – como é designada neste estudo - requer certo acúmulo de capital
econômico, suporte técnico especializado e a garantia de determinados direitos aos trabalhadores.
Considerando a atual condição da economia solidária no Brasil, tais requerimentos são dificilmente
preenchidos, e tal quadro agrava-se se considerarmos o efeito contingente da socialização heterônoma. A
identificação destes elementos colabora para a constituição de um esboço do complexo cenário enfrentado
pelos empreendimentos de economia solidária no que se relaciona ao desenvolvimento da autonomia.
4. Considerações finais
A presente investigação encontra-se em estágio inicial. Neste sentido, serão somente apresentadas
algumas observações construídas por meio da pesquisa exploratória de um dos cinco empreendimentos.
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Compreende-se que o modelo de análise proposto, o qual tem como foco a complexidade da
constituição do sujeito autogestionário por meio do nexo entre reflexão sobre a experiência passada e atual e
a transformação de processos de trabalho, tem o potencial de fundamentar uma abordagem que contribui
para o maior entendimento do cenário contingente em que se desenvolvem as iniciativas de economia
solidária.
Neste sentido, o estudo exploratório em um dos empreendimentos demonstra alguns elementos
relevantes para a análise proposta:
Paradoxo entre produtividade e gestão democrática. Em muitas das decisões demandadas é
presente tal paradoxo, já que a democracia é um custo que pode afetar a produtividade e a sustentabilidade
econômica. Esta problemática se realiza, por exemplo, quando da tentativa de se aplicar propostas de
transformação do processo de trabalho que terminam por não se concretizarem dada sua ineficiência
produtiva do ponto de vista do mercado.
Nexo entre crítica do trabalho heterônomo e proposições de reorganização produtiva do
empreendimento. Percebe-se, por vezes, a existência de tal relação. Os argumentos para as propostas de
reorganização produtiva tendem a se basear em um “antes” e um “agora”. No entanto, tal conjunto de
propostas é limitado por pressões externas, por dificuldades técnicas ou pela compreensão de alguns
trabalhadores de que o modo de organização experimentado “no passado” é o único possível ou portador de
uma ótima eficiência pouco contestável.
Gestão de quadros. Em estudos anteriores foi identificada uma tendência ao estabelecimento de um
modo de operação do poder por gestão de quadros [19-20] no interior dos empreendimentos de economia
solidária. Tal configuração se caracteriza pela substituição do líder que comanda (fator constitutivo do
trabalho heterônomo) pelo que organiza. O quadro dirigente acumula responsabilidades no sentido da
iniciativa de proposição de mudanças e de realização de um planejamento estratégico. A gestão de quadros
se fundamenta na passividade dos trabalhadores gerada por uma autocompreensão de incapacidade de
participação na gestão, por uma indisposição suscitada pela experiência heterônoma e por uma desigualdade
de prestígio. No entanto, não se pode entender que tal passividade é integral, ela tende a se constituir mais
especificamente enquanto abdicação da iniciativa de proposições e como conduta de monitoração dos
resultados das propostas realizadas pelos líderes.
Este estudo coloca como desafio para outras investigações a necessidade de uma compreensão da
economia solidária que vá além de aspectos normativos e de desejos pessoais do investigador, chegando às
formas particulares e concretas deste tipo de economia e problematizando sua capacidade em engendrar
experiências mobilizadoras e emancipatórias, elementos que não podem ser considerados como pressupostos.
Referências Bibliográficas
[1]. SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária, 1ª Ed., São Paulo: Editora Fundação Perseu
Abramo, 2002.
[2]. GAIGER, Luiz Ignácio. A Economia solidária diante do Modo de Produção Capitalista.
Publicado originalmente no site http://www.ecosol.org.br, 2002.
[3]. FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de e LAVILLE, Jean-Louis. Economia solidária: uma
abordagem internacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2004.
[4]. THOMPSON, E. P. A miséria da teoria: ou um planetário de erros. São Paulo: Zahar, 1981.
[5]. THOMPSON, E. P. A formação da classe operária inglesa. Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro:
1987.
[6]. DUBET, François. Sociologia da Experiência. Instituto Piaget: Lisboa: 1996.
[7]. DUBET, François. As desigualdades multiplicadas. Editora Unijuí: Ijuí.2003.
[8]. FLICK, U. Uma introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Bookman, 2004. P.132
[9]. MAY, Tim. Pesquisa social: questões, métodos e processos. Porto Alegre: Artmed, 2004. P.151.
[10]. MAY, Tim. Pesquisa social: questões, métodos e processos. Porto Alegre: Artmed, 2004. P.150.
[11]. GIDDENS, A. As consequências da modernidade. São Paulo: UNESP, 1991.
[12]. CATTANI, Antônio David. Autonomia-Emancipação Social. In CATTANI, Antonio David e
HOLZMANN, Lorena. [Orgs.]. Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: Editora da UFRGS,
2006.
[13]. MTE-SENAES. Atlas da Economia Solidária 2007. Brasília: MTE. Disponível em:
http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/sies.asp .
[14]. MARGLIN, Stephan. Origem do parcelamento das tarefas (para que servem os patrões?) in GORZ,
André. Crítica da divisão do trabalho. São Paulo: Martins fontes, 1980.
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1. Introdução
Esta pesquisa PIBIC/CNPq tem como objetivos gerais contribuir para com a discussão (no
âmbito das políticas públicas) do papel das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares
(ITCP’s), para a discussão da implantação da Economia Solidária (ES) como política pública
regional e contribuir na elaboração de uma metodologia para desincubagem de Empreendimentos
de Economia Solidária (EES) na região de Blumenau. Como objetivos específicos visa investigar
junto aos membros da Cooperttran (Cooperativa de Terraplanagem e Transporte) suas
representações sociais sobre cooperativismo, solidariedade e autogestão, isto é, sua visão e grau de
adesão aos princípios da Economia Solidária; realizar levantamento do seu perfil sócio-econômico e
investigar as possíveis mudanças na vida dos cooperados antes e depois da entrada na cooperativa;
contribuir para o processo de desincubagem do empreendimento. A Coooperttran é um EES
incubado pela ITCP/FURB desde 2000 e foi criada por demanda dos próprios trabalhadores que, na
época, buscavam melhorar seus rendimentos e condições de trabalho. Esses trabalhadores
apresentavam problemas de baixa auto-estima profissional relacionados aos baixos salários, carga
horária de trabalho excessiva, inexistência de garantia de proventos e condições precárias de
trabalho. Hoje, após dez anos, a Cooperttran está consolidada no setor de terraplanagem na cidade
de Blumenau e em todo o estado de SC e sem mais necessidade de intervenções da ITCP/FURB.
Neste sentido, colocou-se, para inicio do seu processo de desincubagem, a necessidade de
realização desta pesquisa com os objetivos acima citados. Como parte do processo de desincubagem
verificou-se ainda a oferta, para os membros da cooperativa, de um curso de Cooperativismo e
Autogestão em Economia Solidária, realização coletiva do regimento interno da cooperativa e do
seu planejamento estratégico. Estes procedimentos foram coroados, em maio de 2010, com a
realização de uma cerimônia publica de desincubagem durante a reunião mensal da Rede de
Economia Solidaria do Vale do Itajaí (RESVI). As ITCPs - programas de extensão universitária -
prestam serviços necessários para o início, desenvolvimento ou reciclagem de cooperativas ou
grupos de trabalho associativo: organizações coletivas de trabalhadores dos meios urbano e rural
que exercem coletivamente a gestão do trabalho e a alocação dos resultados. O trabalho de
assessoria da ITCP/FURB é realizado por docentes e alunos de diversas áreas do conhecimento:
Psicologia, Economia, Moda, Serviço Social, Ciências Sociais, Direito, Administração,
Contabilidade.
No Brasil a proposta da Economia Solidaria, que visa construir novos paradigmas nas relações
sociais de produção, surgiu durante a década de 80 na esteira da crise do modelo urbano-industrial,
iniciada no nível mundial, nos anos 70 e que tinha por base o aumento da concentração de riquezas
e de poder, o desemprego, a precarização das relações de trabalho, a produção da violência e a
destruição ambiental, entre outros problemas sócio-ambientais. A ES nasceu, portanto, de um sério
questionamento sobre o tipo de desenvolvimento que desejamos para a humanidade. É neste
contexto que a solidariedade torna-se um valor chave para a construção e preservação de uma
sociedade mais justa e de uma economia mais integrada com a natureza e com a sociedade. Singer
(2000) destaca, por isto, que a economia solidária surge como um modo de produção e distribuição
1
Apresentador – email : [email protected]
30
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alternativo ao capitalismo, pois possibilita uma economia (e uma vida em sociedade) baseada na
cooperação e na autogestão, tendo por base a reorientação da economia a serviço do ser humano.
2. Metodologia
3. Resultados e Discussão
A análise (ainda parcial) dos dados desta pesquisa revela que a autogestão, um dos princípios
fundamentais da Economia Solidária, ainda é um ideal a ser atingido pelos trabalhadores da
Cooperttran que buscam, desde a fundação da cooperativa (em 2000), relações profissionais mais
justas com o apoio da ITCP/FURB. Esses trabalhadores demonstram reconhecer sua liberdade
inicial pelo fato de fazerem parte de uma cooperativa, mas também sofrem a angústia de um
recomeço profissional sobre bases que não compreendem suficientemente. Andrada (2009) em sua
pesquisa também destaca o fato de que alguns cooperados referiram-se “à difícil ambigüidade que
esta realidade inicialmente encerra”. Nesse sentido, Arruda (apud CATTANI, 2003) argumenta que
os princípios da solidariedade como valor fundamental de uma outra ordem social, que têm
inspirado movimentos sociais e laborais ao longo da história do capitalismo, se contrapõem ao
reconhecido princípio da competição que o capitalismo transformou em um modo de relação único
e absoluto. Nesse sentido, Rautemberg (2008, p.56) também sustenta que “precisamos de um
modelo econômico que não leve as pessoas a um campo de batalha para tentar serem inseridas na
economia. Precisamos de uma economia que seja solidária. Essa economia tem como função
distribuir os meios de produção e as sobras desta produção precisam tomar espaço na sociedade
para podermos daí sim ter uma sociedade mais equilibrada economicamente”.
A Cooperttran iniciou suas atividades com 22 membros e, para manter-se financeiramente, os
cooperados nos primeiros meses, precisaram retirar dinheiro do seu próprio sustento e de suas
famílias para pagar contas de água, luz e aluguel da sede da cooperativa. Foi neste difícil começo
que sentiram a necessidade de procurar ajuda institucional junto à ITCP/FURB: “Começamos a
procurar a FURB e conseguimos montar a cooperativa, e nós acreditamos que iria dar certo! Nós
chegamos já a tirar dinheiro do próprio bolso para pagar contas da cooperativa no começo! E hoje
a nossa cooperativa é a que paga mais certinho [...]”. (entrevistado 21). Esses trabalhadores que, à
época, queriam modificar suas vidas, buscavam alternativas para os processos de dominação no
trabalho aos quais estavam submetidos e a sua conseqüente alienação profissional que afetava,
inclusive, seu bem estar psíquico. Isto porque seus direitos mínimos de trabalhadores (receber
salário ou receber no prazo previsto) não estavam sendo cumpridos por seus empregadores. Em
2001 houve uma grande conquista por parte dos cooperados que neste ano já contavam 60
trabalhadores: a Cooperttran conseguiu participar da licitação da prefeitura de Blumenau, tendo o
31
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direito dali por diante de ter seus serviços legalmente contratados como cooperativa. O numero de
cooperados da Cooperttran aumentou muito com o passar dos anos e hoje (2010) conta com cerca
de 200 trabalhadores (entre ativos e inativos).Assim, se no início da formação da cooperativa não
existia distinção específica de funções entre seus membros (onde “todos faziam tudo”), hoje se faz
necessário a especificação de funções entre os cooperados, o que é justificado por Singer (2008)
para o fato de quando um EES assume grandes proporções ser necessário atribuir funções
especializadas aos trabalhadores como as de presidente, tesoureiro e membros do conselho
administrativo. Assim, atualmente as funções exercidas pelos cooperados entrevistados são as de
motoristas (77,4%), membros do conselho administrativo (12,9%), administradores (4,3%), auxiliar
de serviços gerais (4,3%) e a de presidente da cooperativa. Paul Singer (2008, p. 02) define
Economia Solidária como um modo de produção que se caracteriza pela igualdade e pela
autogestão: “Ou seja, os empreendimentos de economia solidária (EES) são geridos pelos próprios
trabalhadores coletivamente de forma inteiramente democrática, quer dizer, cada sócio, cada
membro do empreendimento tem direito a um voto.” Neste sentido, afirma que a especialização de
funções não deve levar a uma diferenciação de poder dentro da cooperativa.
Quanto ao perfil dos cooperados, estes têm idade média de 43 anos (tendo o mais novo 22 e o
mais velho 66 anos), são predominantemente do sexo masculino (91,4%). Quanto à escolaridade,
43% possuem o ensino fundamental completo e 35,5% o ensino fundamental incompleto, 12,9% o
ensino médio completo e 4,3% o ensino médio incompleto. Apenas 4,3% possuem o ensino
superior completo. Dentre os cursos realizados pelos cooperados no sentido de se qualificarem para
o mundo do trabalho, destacaram-se: direção defensiva para 60,2% dos cooperados entrevistados,
primeiros socorros para 51,6%, transporte de cargas perigosas para 38,7%, relações humanas para
30,1%. Destaca-se que 18,3% dos cooperados não possuem cursos de qualificação, sendo que
47,3% não expressou vontade de fazer qualquer tipo de curso e o restante (53,7%) manifestou
vontade de fazer os mais variados cursos: fotografia, técnico em eletrônica, informática, segurança
no trabalho, línguas, mecânico e eletricista. Quanto à composição familiar, 77,4% dos cooperados
são legalmente casados e 14% afirmaram “viver junto” com seus cônjuges. Destes, 90,3% tem
filhos, sendo que, 9,7% relataram que além de filhos biológicos, possuem também filhos adotivos.
Quanto ao perfil sócio-econômico do grupo investigado, verificou-se que 69,9% possuem
casa/apartamento próprio, 17,2% casa/apartamento alugado e 12,9% casa/apartamento emprestado.
Com relação à renda salarial mensal verificou-se uma variação de rendimentos entre os cooperados:
21,5% recebem até 3 salários mínimos, 8,6% recebem de 3 a 5 salários mínimos, 44,4% de 5 a 10
salários mínimos, 12,9% recebem entre 10 e 15 salários mínimos e 12,9% recebem mais de 20
salários mínimos. 100% dos cooperados contribuem atualmente para o INSS, com tempo anterior
médio de 19 anos de contribuição. Esta análise aponta para o crescimento patrimonial dos
cooperados e a conseqüente melhoria nas suas condições de vida após a entrada na cooperativa, pois
a partir do seu ingresso nesta obtiveram a compra/troca de caminhão, compra/reforma de
casa/apartamento, compra/troca de carro, moto, eletroeletrônicos, móveis, piscina e cavalos.
Em relação à compreensão que demonstram ter do funcionamento de uma cooperativa os
entrevistados afirmaram que este modelo é a melhor opção para suas vidas, tanto no aspecto
profissional, quanto financeiro e na vida privada: - Agora eu durmo e como na minha casa. Bem
diferente de quando eu trabalhava na estrada e ficava longe de casa. Tinha que tomar banho frio,
dormir no caminhão e não me alimentava direito... Hoje eu estou perto dos meus filhos, da minha
esposa. Minha vida está maravilhosa! (entrevistado 12). Embora os trabalhadores apontem aspectos
positivos no fato de serem cooperados (liberdade e solidariedade; união do grupo; mais conhecimento;
influência e reconhecimento social) foi observado que grande parte não tem muito claro o que significa a
Economia Solidaria e o princípio da autogestão no trabalho, mas esta análise detecta que o grau de
dificuldade encontra-se talvez mais em conceituar estes princípios do que realmente entendê-los e/ou
vivenciá-los. Isto porque utilizam representações muito particulares para explicar, por exemplo, o que é uma
cooperativa: É o grupo que se uniu ali. Uma cooperativa no caso é uma Economia Solidária, porque um
ajuda os outros né? Porque a união faz a força e quanto mais união, mais cresce. Autogestão é que cada um
faz um capital, que faz a cooperativa, o cara cresce! Cada cooperado tá crescendo na autagestão (sic)
(entrevistado14). Como aspectos problemáticos destacaram-se ainda a desigualdade patrimonial (propriedade
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
de caminhões, seu principal meio de produção) que afeta a distribuição das horas de trabalho e, portanto, de
rendimentos e o fato da cooperativa depender no momento (75% do seu faturamento anual) apenas de um
grande cliente: a prefeitura de Blumenau.Os cooperados mostraram-se também contrariados em relação à
maneira com que a Prefeitura se posiciona em relação ao trabalho cooperativado: A prefeitura é um órgão
que dá muita prioridade para as empreitaras. Eles têm as costas quentes e na época de política eles soltam
um troco para a política eu entendo que também para os fiscais e os engenheiros, tem esse negócio de lavar
a mão, sim, deles. Eu mesmo já dei um leitão para um fiscal, recheei e assei na comunhão da filha dele para
garantir a minha vaga (entrevistado 22). Estes aspectos detectados como problemáticos na pesquisa serão o
foco de intervenção do planejamento estratégico da cooperativa a médio-longo prazo. Verificou-se, por fim,
que quando os cooperados percebem falhas no seu processo de trabalho e nas suas relações profissionais,
buscam unir-se em busca de soluções e geralmente chegam a algum tipo de acordo comum. Isto talvez seja o
que faz com que 91% dos entrevistados tenham como objetivo para o futuro permanecer na Cooperativa.
4.Conclusão
Referências:
ANDRADA, Cris Fernández. Encontro da Política com o Trabalho: um estudo psicossocial sobre a
autogestão das trabalhadoras da UNIVENS. Porto Alegre: ABRAPSO SUL, 2009.
CATTANI, Antonio David (orgs). A outra economia. Porto Alegre: Veraz, 2003.
1. Introdução
O propósito deste trabalho é apresentar as conclusões parciais, bem como, os percursos percorridos no
desenvolvimento de meu projeto de Iniciação Científica CNPq intitulado “De loucos e drogados: a
reinvenção do espaço da exclusão assistencial no Estado do Paraná”. A questão norteadora desse projeto é
referente ao processo de ocupação de leitos psiquiátricos por diferentes usuários na contemporaneidade,
sobretudo, por dependentes químicos. Seu desenvolvimento esteve atrelado ao projeto de pesquisa de minha
orientadora1, cujo tema é o processo de assistência psiquiátrica no Estado do Paraná considerando a história
de sua constituição e desdobramentos atuais, as instituições, a legislação e as principais políticas públicas.
Uma das etapas desse projeto foi o mapeamento das instituições psiquiátricas existentes no estado do Paraná
e subsequentemente a pesquisa de campo nas mesmas.2
Conforme revisão de literatura especializada, desde a sua implantação no início do século XX, a
assistência psiquiátrica no estado do Paraná, como em outros lugares passou por diversas transformações.
Principalmente no que tange as questões relacionadas ao movimento conhecido como Reforma Psiquiátrica,
deflagrado nas últimas décadas desse mesmo século no Brasil. Entre diversas discussões abarcadas pelo
movimento ressalta-se a luta antimanicomial, cujo ideário baseava-se na democratização das relações com a
loucura, sobretudo no que diz respeito aos direitos humanos dos sujeitos em sofrimento. Nesse sentido, a
crítica em torno dos sérios malefícios que o hospital psiquiátrico especializado traz e o incentivo para a
construção de novos “lugares sociais” para esses sujeitos, tais como, hospitais-dia, centros e núcleos
psicossociais, leitos em hospitais gerais, são inerentes aos discursos da reforma. No entanto, na atual
realidade do Paraná se percebe a permanência de vários hospitais psiquiátricos, isto é, os antigos manicômios
e/ou hospícios mais ou menos modernizados, conforme exigências legais conquistadas pelo movimento
político da Reforma Psiquiátrica. Dessa forma, pondera-se que, apesar das “sofisticações” pelas quais passou
a psiquiatria, a mesma não desfez seu principal instrumento – o hospital –, resguardando para esse, um papel
insubstituível de controle da periculosidade e da cronicidade psiquiátrica, mesmo sendo alvo de severas
críticas. [7; 10; 11] Perante essa realidade, um dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica – além da criação
de outras instituições voltadas a assistência psiquiátrica (como, por exemplo, os CAPS) e de leitos em
hospitais gerais – é ainda, a redução dos leitos psiquiátricos, bem como diversas adequações de infra-
estrutura e terapêuticas, uma vez que a extinção dos hospitais especializados não se efetivou. A percepção
inicial era que na atual realidade do Estado do Paraná, os grandes hospitais e clínicas psiquiátricas, a despeito
de sua adequação as normativas legais das políticas governamentais para a área da saúde mental mantém
grande parcela dos leitos outrora existentes. Contemporaneamente compreendem uma ocupação maciça por
dependentes químicos, os chamados adictos ou drogaditos, que ocupam parte significativa das antigas vagas
destinadas aos usuários tradicionais desses lugares, isto é, os portadores de transtornos mentais, comumente
conhecidos como doentes mentais ou loucos. Essa intensa relação da dependência química com as
instituições psiquiátricas especializadas provocou o interesse por esta pesquisa, a qual propõe historicizar o
processo de ocupação de leitos em hospitais e clínicas psiquiátricas especializadas por diferentes usuários
(transtornos mentais, usuários de álcool e outras drogas). O objetivo principal foi investigar a situação
contemporânea no estado do Paraná com relação aos lugares ocupados por dependentes químicos em tais
instituições.
2. Método
O desenvolvimento dessa pesquisa caracteriza-se como um desdobramento da agenda de projeto de
pesquisa mencionada inicialmente e, pretende ser um estudo exploratório a respeito da situação
contemporânea da ocupação dos leitos psiquiátricos por dependentes químicos. Dessa forma, utilizou
*
Attiliana De Bona Casagrande: [email protected]
1
Projeto “Assistência Psiquiátrica no Estado do Paraná: mapeamento e análise histórica das instituições, da legislação e
das principais políticas públicas”, desenvolvido com apoio financeiro do CNPq e da Fundação Araucária de Pesquisa –
PR, sob coordenação da professora Dra Yonissa Marmitt Wadi.
2
É de suma importância destacar que as instituições que foram pesquisadas são as instituições psiquiátricas
especializadas cadastradas na SESA e no DATASUS. Não foram pesquisadas as chamadas comunidades terapêuticas e
centros de recuperação em geral.
34
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
3. Resultados e Discussão
A análise da relação entre dependência química e instituições psiquiátricas privilegiou os estudos de
comentadores4 das obras de Lima Barreto escritor brasileiro que por uso de álcool foi internado em dois
momentos no Hospício Nacional de Alienados (antigo Hospício Dom Pedro II), o primeiro hospício
brasileiro situado na cidade do Rio de Janeiro, fundado na segunda metade do século XIX. Tais estudos
possibilitaram o entendimento de questões sobre a história do alcoolismo e sua relação com as instituições
psiquiátricas na sociedade brasileira. Atualmente a dependência química de outros tipos de substância
psicoativas – além da bebida alcoólica – cujo uso excessivo tende a gerar um grave problema de ordem
social e de saúde pública, tornou-se um fenômeno muito discutido. [6; 8; 9] Entretanto, principalmente o
alcoolismo esteve presente nos hospícios brasileiros e ainda, aparecia como uma das causas mais freqüentes
de internamento psiquiátrico, sobretudo, no Hospício Nacional de Alienados, desde sua criação. Mesmo
sendo uma “patologia social” recorrente, naquela época – século XX – não havia espaços físicos (alas,
pavilhões ou seções) destinadas exclusivamente para a acomodação e tratamento de alcoolistas. Esses
conviviam com loucos, leprosos, prostitutas, mendigos e diversos “indesejados sociais”. Houve inclusive,
reivindicações de psiquiatras para a criação de colônias destinadas ao tratamento desses sujeitos que
superlotavam as estruturas do Hospício Nacional. Os diagnósticos emitidos por psiquiatras da época,
orientados por princípios teóricos positivistas remetiam a propensão ao vício do álcool a fatores raciais,
sobretudo, com relação à raça negra; aos fatores de degeneração mental e de conduta imoral; e ainda, a
fatores hereditários (genéticos). [1; 2]
De acordo com os discursos institucionais presente nos depoimentos atuais,5 obtidos no âmbito da
pesquisa pode-se observar a unanimidade com relação à confirmação do aumento da demanda por tratamento
psiquiátrico entre dependentes químicos. A maior parte deles é do sexo masculino e encontram-se na
juventude. Referente a essa informação destaca-se aqui uma situação importante. Em algumas dessas
instituições psiquiátricas pesquisada, a Secretaria de Saúde do Estado do Paraná (SESA), ao invés de seguir a
normativa de redução de leitos ou transformar esses, em leitos de outras especialidades como previa o §1º
parágrafo do Art. 3º, da lei estadual n. 11189/956, proporcionou a criação de leitos psiquiátricos para
adolescentes com dependência química. Esses leitos foram criados em diversas instituições que atendem
também via convênio SUS. Pelos depoimentos indicam que estas vagas custeadas pela SESA servem como
um apoio financeiro para as instituições, uma vez que, segundo dirigentes e proprietários dos hospitais
3
Os depoimentos foram coletados durante o desenvolvimento do projeto “Assistência Psiquiátrica no Estado do Paraná:
mapeamento e análise histórica das instituições, da legislação e das principais políticas públicas”, já citado. As
referências de tais fontes são: A. A. Hospital San Julian. Depoimento concedido em 23/09/2009; V. M. Hospital San
Julian. Depoimento concedido em 24/09/2009; M. S.. Hospital Espírita de Psiquiatria Bom Retiro. Depoimento
concedido em 15/10/2009; O. R. Clínica Heidelberg. Depoimento concedido em 23/11/2009; M. L. Clínica Porto
Seguro. Depoimento concedido em 23/11/2009; F. F. Clínica Psiquiátrica HJ. Depoimento concedido em 25/11/2008.
N. M. Casa de Saúde de Rolândia. Depoimento concedido em 24/07/2009. É de suma importância ressaltar que tais
depoimentos foram cedidos por dirigentes e/ou proprietários das instituições.
4
Ressalta-se a especialidade sociológica e histórica de tais comentários.
5
Devido ao limite de páginas não serão feitas citações literais das entrevistas.
6
A Lei Estadual nº. 11.189 foi promulgada em 09 de novembro de 1995 e dispôs “sobre as condições para internações
em hospitais psiquiátricos e estabelecimentos similares de cuidados com transtornos mentais” no Estado do Paraná.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
especializados o valor da diária de pacientes SUS é ínfimo. No entanto, é interessante que apesar da
constatação da existência de uma espécie de “política pública” de abertura de leitos para adolescentes
dependentes químicos, não foi localizado nenhum programa ou mesmo, lei estadual que regule tal processo;
a informação obtida é que a Secretaria de Saúde procura e faz acordos via contratos diretamente com os
responsáveis pelas instituições. É também visualizada uma unanimidade no que tange a temporalidade em
que ocorre o aumento da demanda de internações psiquiátricas decorrente da dependência química; os
depoimentos indicam que ela ocorre a partir de dez anos e se intensifica nos últimos cinco anos. Essas
afirmações estão diretamente relacionadas com a questão sobre quais tipos de substâncias os usuários dessas
instituições geralmente usam para chegarem ao internamento. É também de acordo comum a ligação entre o
aumento dessa demanda já mencionada com a difusão do uso do crack. Entretanto, destaca-se que o
alcoolismo continua sendo a principal causa das internações psiquiátricas vinculadas às dependências
químicas. Por fim, vários depoentes indicam a constatação do grande numero de diagnósticos de
comorbidade, isto é, a coexistência de dois ou mais transtornos ou doenças; mais especificamente este
conceito médico supõe o desenvolvimento de outros transtornos mentais por decorrência do uso excessivo
das drogas. Alem disso, destacam também o fato da inexistência de “alcoolistas puros”, ou seja, atualmente
os alcoolistas que vão para o internamento psiquiátrico, frequentemente associam ao uso do álcool outros
tipos de drogas.
4. Conclusão
Percebe-se a emergência de uma nova “doença social”, isto é, a dependência química; a novidade
atrelada a esse acontecimento refere-se à delimitação clara dos espaços institucionais reservados ao
tratamento da dependência química, que outrora não existiam. Contudo, não se está assegurando a ausência
da dependência química nas instituições psiquiátricas – principalmente do alcoolismo – em temporalidades
passadas. Apenas, como se observou, atualmente os dependentes químicos tem seu espaço especificado nas
instituições psiquiátricas, como por exemplo, espaço físico (alas, unidades, seções) e projetos terapêuticos
distintos daqueles destinados aos demais transtornos mentais, profissionais especializados, cursos de
especialização voltados ao tema, bem como, residências médicas destinadas à formação voltada ao
tratamento da dependência química. Ainda que não haja no momento elementos suficientes para afirmar a
evidência levantada inicialmente – isto é, que a dependência química assume hoje o papel de substituta da
loucura, como essa fora da lepra – pode-se afirmar que a ocupação maciça por dependentes químicos dos
leitos psiquiátricos, antes destinados a “outras doenças” sugere a configuração de um quadro de “doença
epidêmica” na contemporaneidade, vinculada ao consumo de certos tipos de drogas, sobretudo, do crack.
Referências
[1] ARANTES, M. A. Para mim, Paraty – alcoolismo e loucura em Lima Barreto. SMAD, Revista. Eletrônica
Saúde Mental Álcool-Drogas, Ribeirão Preto, v.04, n.01, fev.2009.
[2] ENGEL, Magali G. A loucura, o hospício e a psiquiatria em Lima Barreto: críticas e cumplicidades. In:
Sidney Chalhoub et al (Org.). Artes e ofícios de curar no Brasil: capítulos de história social. Campinas, SP:
Editora da Unicamp, 2003.
[3] FOUCAULT, M. História da loucura na idade clássica. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1989.
[4] FOUCAULT, M. História da Sexualidade 2: O Uso dos Prazeres. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1984.
[5] FOUCAULT, Michel. A vida dos homens infames. In: O que é um autor? Lisboa: Vega, 1992, p. 89-128.
[6] PRATTA, E. M. M; SANTOS, M. A. dos. O processo saúde-doença e a dependência química: interfaces
e evolução. Psicologia: Teoria e pesquisa, Brasília, v.25, n.02 abr./jun. 2009.
[7] RUSSO, Jane; SILVA FILHO, João F. da S. F. (org.). Duzentos anos de psiquiatria. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 1993.
[8] VARGAS, E. V. Uso de drogas: a alter-ação como evento. Revista de Antropologia, São Paulo, USP,
v.49, nº. 2, 2006.
[9] VELHO, G. VII – Dimensão cultural e política do mundo das drogas. In: Projeto e metamorfose:
antropologia das sociedades complexas. 3ª edição. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edições, 2003.
[10] VENTURINI, E. Prefácio à primeira edição. In: AMARANTE, P. (Coord.). Loucos pela vida: a
trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1995, p.15-16.
[11] WADI, Y. M. Uma história da loucura no tempo presente: os caminhos da assistência psiquiátrica no
Estado do Paraná. Revista Tempo e Argumento, Florianópolis, v.01, n.01, 2009.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O presente trabalho tem por objetivo abordar a questão da ética ambiental e seus desafios, através dos
filósofos contemporâneos R. M. Hare (1981) e P. Singer (1994). Além disso, visa propor a análise de um
conflito ético-ambiental específico, abordado por P. Singer (1994) em seu livro Ética Prática. Tal conflito
versa sobre as implicações éticas da construção de uma represa no rio Franklin, localizado no sudoeste da
Tasmânia. P. Singer (1994) faz uso da corrente ética batizada por ele de “utilitarismo de preferências” para
resolver os dilemas ético-ambientais envolvidos na construção da represa, elucidando as melhores formas
pelas quais os seres humanos deveriam se comportar com relação ao meio ambiente. Na medida em que a
ética ambiental e a argumentação de P. Singer levantam polêmica a respeito de como resolver certos dilemas
morais (aqui, especificamente, com relação ao meio ambiente), é que o autor R. M. Hare (1981) vem
completar a argumentação deste trabalho. R. M. Hare (1981) ocupou-se de conceber uma teoria utilitarista
“crítica”, capaz de solucionar até os mais difíceis casos de conflitos éticos. Desta forma, as visões de R. M.
Hare (1981) e P. Singer (1994), complementam-se neste trabalho.
2. Método
Esta pesquisa caracterizou-se por ser um estudo bibliográfico de cunho filosófico, com vistas à
problematização conceitual de questões ético-ambientais que envolvessem algum tipo de conflito moral em
sua abordagem, e fossem resolvidas, especificamente, pela teoria moral utilitarista. Em um primeiro
momento foi realizada a leitura do livro Ética Prática, de P. Singer (1994), onde este autor realiza a
abordagem ética e filosófica de diversas questões polêmicas, tais como o aborto, a eutanásia e entre estes, o
meio ambiente. Optou-se por explorar mais detalhadamente a questão levantada pelo autor a respeito da ética
ambiental, em especial, focando no exemplo do problema da construção de uma represa que o mesmo cita no
capítulo 10 de seu livro. Nessa leitura foi possível notar que P. Singer (1994) faz uso do “utilitarismo de
preferências” para resolver as questões dilemáticas levantadas com relação ao comportamento do ser humano
e o meio ambiente. Em um segundo momento, realizou-se a leitura do artigo Moral Conflitcts, de R. M. Hare
(1981) no intuito de aprofundar ainda mais as soluções utilitaristas oferecidas na resolução de conflitos
morais.
3. Resultados e Discussão
O filósofo australiano P. Singer (1994) defende um utilitarismo de preferências que está fundamentado
na senciência, a capacidade que um ser vivo possui de sentir prazer ou dor e de estar consciente destas
sensações. Isso significa que o utilitarismo de preferências, também conhecido como utilitarismo econômico,
tem o sofrimento como parâmetro que define interesses morais, ou seja, é a característica básica que marca a
distinção entre seres que possuem interesses e seres que não os possuem [1]. Tal teoria moral defendida tem
como princípio regulador o Princípio da Igual Consideração de Interesses Semelhantes [2]. De acordo com
esse princípio, devemos atribuir o mesmo peso aos interesses de todos aqueles que são afetados por nossas
ações. Para tanto, temos de assumir a posição de um “espectador imparcial” e a partir daí analisar
cautelosamente a situação. Consequentemente, segundo essa versão do utilitarismo, uma ação é considerada
correta quando maximiza os interesses de todos e errada quando não pesa de maneira igual as preferências
e/ou interesses dos indivíduos [2].
Deve-se ressaltar que o Princípio da Igual Consideração de Interesses Semelhantes não tenciona,
necessariamente, um resultado igualitário, ele é um princípio mínimo de igualdade, ou seja, ele não impõe
um tratamento igual, mas sim consideração igual [2]. Contudo, uma questão surge com a aceitação de uma
teoria ética que tem como fundamento primeiro a senciência: existe valor além da vida senciente, isto é,
como é possível, então, considerar moralmente seres destituídos de interesses, como árvores, recifes de
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
corais e aglomerados de fungos? Para responder a esse questionamento, é explorado um exemplo baseado na
proposta da construção de uma represa no rio Franklin, a sudoeste da Tasmânia, território australiano [2].
Por um lado, a construção da represa no rio, cujas águas seriam aproveitadas para a geração de
energia, resultaria na criação de diversos empregos e implicaria também no crescimento econômico da
região, pois fomentaria a instalação de indústrias, grandes consumidoras de energia. Por outro lado, o terreno
acidentado do vale é formado por desfiladeiros e bosques com árvores muito antigas e raras, as quais
abrigam diversas espécies de animais que não foram devidamente estudadas, além disso, o local atrai
praticantes de trilhas e rafting, devido as quedas d’água do rio [2]. Esse exemplo mostra uma situação na
qual é preciso optar entre conjuntos de valores muito diferentes, ou seja, entre os interesses da comunidade e
o ecossistema do vale. Para resolver esse dilema, P. Singer (1994) afirma que, embora o ecossistema em
questão não possua interesses, isto é, seja incapaz de sofrer [2], isso não significa que possamos usá-lo ou
destruí-lo a nosso bel-prazer [3].
De fato, mesmo que não possuamos deveres diretos para com seres destituídos de sensibilidade e
consciência, ainda assim há um dever indireto que nos impede de destruí-los, a consideração que devemos a
outros seres sencientes que têm interesse naquele meio ambiente. Embora seres destituídos de senciência não
possuam valor intrínseco, eles possuem valor extrínseco, instrumental, pois são alvo dos interesses de outros
seres sencientes, os quais, por sua vez, não podem ser moralmente desconsiderados [2]. A preservação do
vale é interesse de todas as espécies de animais sencientes que o habitam, das pessoas que praticam esportes
naquele local e também das futuras gerações, pois os interesses daqueles que estão para nascer também
devem ser considerados indiretamente.
Desta forma, após esta breve abordagem acerca da solução utilitarista oferecida por P. Singer (1994)
para o conflito moral da construção da represa, pode-se adentrar na concepção moral de R. M. Hare (1981).
A visão de R. M. Hare (1981) é capaz de complementar a abordagem de como a teoria utilitarista oferece
soluções para casos de conflitos morais, no caso em questão, um conflito ambiental.
R. M. Hare (1981) foi um filósofo que atraiu leitores para seus trabalhos especialmente por tentar
inusitadamente conciliar teorias supostamente antagônicas como o utilitarismo e a teoria moral kantiana.
Essa suposta conciliação só foi possível porque R. M. Hare (1994) abordou a moralidade de maneira
sistemática, concebendo até mesmo uma linguagem da moral [4].
Através desta sistematicidade, a moralidade pode ser dividida em dois estágios de pensamento: o nível
intuitivo e o nível crítico [5]. Todos os seres humanos possuem o nível intuitivo de pensamento moral, que
apresenta um valor prático e psicológico e é formado por princípios morais gerais e prima facie. O nível
crítico do pensamento moral, por seu turno, se caracteriza pela realização da análise da moralidade sob o
jugo das propriedades lógicas dos conceitos morais. A evidência da existência de um nível crítico do
pensamento moral dá-se quando o agente enfrenta situações de escolhas morais difíceis, ou dilemas morais,
e ao recorrer aos seus princípios intuitivos não consegue resolver a situação [5]. Parece que os dois deveres
se aplicam à situação, ou então que o agente está frente a uma escolha errada o que quer que faça. Isso
ocorre porque o nível intuitivo do pensamento moral é formado por princípios prima facie, muito simples e
gerais, com um forte caráter prático, mas incapazes de solucionar toda a gama de situações dilemáticas que
podem surgir na vida moral dos indivíduos [5]. Já um princípio crítico, e por isso pertencente ao estágio
crítico do pensamento moral, pode ser ilimitadamente mais específico do que um princípio prima facie, sem
perder com isso, seu caráter universal. A universalidade de um princípio não é incompatível com a possível
especificidade que ele possa apresentar. Já a generalidade dos princípios prima facie sim, sempre será
incompatível com a especificidade, e é por isso que eles quase sempre apresentam exceções ao serem
aplicados a situações morais difíceis. É por isso que situações de conflito moral ocorrem precisamente entre
princípios prima facie (intuitivos) [5].
Entretanto, por vezes, um dilema moral é solucionado apenas no nível intuitivo do pensamento, mas
isso só deve ocorrer quando o agente não tenha tempo para utilizar o nível crítico de pensamento moral ou
seja incapaz de realizar tal tarefa [5]. Nessas circunstâncias, quando ele não se sente capaz de tomar uma
decisão crítica acertada, deve procurar alguém capaz de fazê-lo por ele. E como dividir do ponto de vista
filosófico os dois níveis de pensamento moral? O nível intuitivo pode ser considerado uma espécie de
“utilitarismo da regra geral” e o nível crítico uma espécie de “utilitarismo do ato” ou “utilitarismo da regra
específica”[5]. Além disso, é possível dividir o tipo de caráter do agente em cada um desses níveis. O nível
crítico seria formado por pessoas que fossem como arcanjos, capazes de visualizar cada aspecto da decisão a
ser tomada. E o nível intuitivo seria formado por pessoas com caráter semelhante ao dos “proles”, usando a
terminologia de G. Orwell [6] - pessoas que obedecem princípios morais gerais e bastante simples e jamais
refletem acerca dos mesmos. Essa é apenas uma divisão caricatural realizada por R. M Hare (1981), que tem
como objetivo demonstrar que nós compartilhamos tanto a característica do arcanjo quanto do prole.
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Quando assumir um ou outro papel? Não há resposta filosófica para tal questão, pois depende do
quanto se conhece de si mesmo para não desempenhar um ou outro papel erroneamente. A questão
realmente filosófica é perguntar como cada nível de pensamento se relaciona. O primeiro passo para
responder tal pergunta é admitir que a preocupação principal ao se dividir o pensamento moral em dois
níveis, não é saber o que é o certo, mas sim o que é racional [5]. Dessa forma, os princípios prima facie do
nível intuitivo devem ser selecionados pelo nível crítico de pensamento, e adaptados de acordo com a
especificidade de cada situação. O que importa nessa seleção é o cálculo racional utilitarista, que sai de um
utilitarismo mais geral do nível intuitivo e avança em direção a um utilitarismo da regra mais específico. O
melhor conjunto de princípios será aquele que mais se aproximará de ações que poderiam ser feitas caso se
utilizasse o nível crítico o tempo todo.
A divisão do pensamento em dois níveis soluciona o problema do aparecimento de conflitos morais
que não são passíveis de serem resolvidos por um conjunto simples e geral de regras prima facie intuitivas.
Retomando o caso da represa, quando P. Singer (1994) faz sua análise acerca do conflito moral ambiental,
coloca a questão nos seguintes termos: analisa os dois lados envolvidos, afirmando que aqueles que são a
favor da construção valorizam a oferta de empregos e uma maior renda per capita para o Estado em
detrimento da preservação da natureza. E aqueles que são contra a construção defendem o ponto de vista
oposto e valorizam a natureza bem como, por exemplo, atividades recreativas ao ar livre, que serão inviáveis
no caso da represa ser construída.
Para resolver uma questão ética desse tipo, recorrendo-se a R. M. Hare (1981), não basta que se realize
apenas uma análise utilitarista no nível de pensamento intuitivo, baseado em regras gerais. Regras gerais
como “não mate”, “não roube”, “não destrua”, podem ser de fácil compreensão, mas no caso complexo do
conflito moral envolvendo a construção de uma represa, não são suficientes para resolver a questão. Uma
reflexão crítica deve ser realizada, no intuito de se argumentar e calcular racionalmente as consequências de
cada ação a ser tomada, o que P. Singer (1994) realiza ao propor uma argumentação racional baseada no
utilitarismo de preferências.
Dessa forma, P. Singer (1994) estabelece os contornos gerais de uma ética ambiental, que em seu nível
mais fundamental incentiva a consideração dos interesses de todas as criaturas sencientes, inclusive das
gerações que habitarão o planeta num futuro remoto [2]. Acompanha-a uma estética da apreciação dos
lugares naturais não devastados pelo homem. Em um nível mais pormenorizado, aplicável à vida dos que
vivem nas grandes e nas pequenas cidades, essa ética também desestimula a existência de grandes famílias.
A ética ambiental proposta por P. Singer (1994) rejeita os ideais de uma sociedade materialista na qual o
sucesso é medido pelo número de bens de consumo que alguém é capaz de acumular. Incentiva a frugalidade
e condena a extravagância [2]. P. Singer (1994) só consegue construir os contornos de tal ética porque sai do
chamado nível intuitivo de pensamento moral abordado por R. M. Hare (1981) e adentra em um nível mais
profundo de argumentação crítica, que conduz ao seu utilitarismo de preferências, complementar ao
pensamento de R. M. Hare (1981) Dessa forma, P. Singer (1994) mostra que é possível, através de
argumentação e cálculo racional, chegar aos contornos de uma ética verdadeiramente ambiental.
4. Conclusão
O objetivo principal deste trabalho foi analisar a argumentação utilitarista na resolução de conflitos
morais, em especial, conflitos ético-ambientais. A análise das questões éticas envolvidas na construção de
uma represa, mencionada por P. Singer (1994) em seu livro Ética Prática foi realizada no intuito de tornar a
argumentação mais clara. Além disso, o autor R. M. Hare (1981) e sua concepção da existência de dois
níveis de pensamento moral (intuitivo e crítico) foi indispensável para explorar a própria argumentação de P.
Singer na resolução de conflitos ético-ambientais através da teoria utilitarista. Pode-se concluir que o
objetivo foi alcançado, em termos de discussão e contraposição dos argumentos dos autores acerca dos
dilemas morais em ética ambiental. Reconhece-se a amplitude do tema, e conclui-se ainda que outras
concepções mereceriam ser investigadas, pela importância que esta discussão oferece à filosofia moral e à
ética ambiental.
5. Referências
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[5] HARE, R, M. Moral Conflitcts. In: The Tanner Lectures on Human Values. Utah: S. McMurrin, 1981.
[6] ORWELL, G. 1984. Tradução de Wilson Velloso, 29ª. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 2005.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
O Papel Político do Cientista Social nos Conflitos sobre os Riscos de Mudanças Ambientais
Globais
Marcela da S. Feital1*
1
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – UNICAMP
1. Introdução
Essa pesquisa teve como idéia fundamental trabalhar com a presença dos cientistas, dos especialistas
e dos argumentos científicos em uma determinada arena estabelecida no litoral norte do estado de São Paulo.
Nessa região, mais especificamente nos municípios de Caraguatatuba, Ubatuba e São Sebastião, estão
ocorrendo vários investimentos ligados, direta ou indiretamente, à indústria petrolífera. O objeto empírico
aqui analisado foi o Projeto Mexilhão de extração, tratamento e transporte de gás, que está sendo implantado
desde 2006 pela Petrobrás, compondo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), proposto pelo
governo brasileiro. No entanto, devido à abrangência do empreendimento e à acessibilidade aos documentos,
a pesquisa foi centralizada nas audiências públicas ocorridas no processo de licenciamento da parte marinha
do Projeto Mexilhão.
Através dos conflitos ambientais decorrentes desse empreendimento, o presente trabalho buscou
entender a implicação política do cientista e dos argumentos científicos usados pelos diferentes atores na
organização da sociedade frente às questões de riscos e mudanças ambientais. Para isso, foi adotada uma
perspectiva construtivista proposta por Hannigan (1995) que, partindo de uma crítica à tendência de reduzir a
temática das mudanças ambientais globais a uma questão das ciências naturais, propõe analisar as
divergências e os conflitos sobre a natureza, as causas e a extensão dos problemas ambientais também no
âmbito dos diversos atores sociais. Desse modo, essa proposta de sociologia ambiental enfatiza o caráter
socialmente construído dos riscos ambientais e não os reduz a questões meramente técnicas.
2. Método
O desenvolvimento dessa pesquisa começou com a formação de um arcabouço teórico sobre o papel
político da comunidade científica no debate sobre mudanças ambientais. Foram realizadas análises de
referências em diferentes áreas: como a ecologia, a antropologia, a sociologia ambiental, a sociologia da
ciência, dentre outras; fortalecendo o caráter interdisciplinar do tema. As principais atividades consistiram
em: levantamento bibliográfico; visitas à região (para reconhecimento do local, levantamento e contato com
atores-chave e fontes documentais e para realização de entrevistas semi-estruturadas); análise dos EIA-
RIMAs; análise etnográfica do conflito ambiental, que necessitou de: 1) identificação dos elementos
predominantes do conflito, 2) identificação e análise dos principais atores sociais envolvidos, 3) tentar
explicitar os interesses em jogo de cada ator social, 4) verificação do que cada um dos atores percebe como
problema, 5) levantamento das interações políticas, análise dos recursos de poder (formal e informal) dos
atores, e 6) levantamento dos interesses, expectativas e objetivos cristalizados em torno do conflito;
sistematização dos dados e discussão teórica; e, por fim a redação do relatório final.
3. Resultados e Discussão
A perspectiva de Simmel (1995) sobre conflitos foi bastante importante para essa pesquisa. Para ele
os conflitos sociais não são patológicos e, muito menos, negativos; eles são uma das formas mais vivas de
interação, constituindo um processo de associação entre diferentes atores; eles são inerentes às relações
humanas e importantes para a geração de mudanças sociais. Por isso que, apesar dos conflitos ambientais
necessitarem de soluções efetivas, negociadas e democráticas, eles não podem ser negados ou mascarados. A
exteriorização e a discussão dos conflitos socioambientais são fundamentais para se alcançar as mudanças
que a sociedade moderna está precisando para sobreviver.
A concepção de Little (2004) sobre conflitos ambientais foi adotada durante a pesquisa. Para ele,
conflitos socioambientais são embates entre grupos sociais em função de seus distintos modos de inter-
relacionamento ecológico. Um conflito é socioambiental quando o cerne do conflito gira em torno das
interações ecológicas (sociedade-ambiente). Essa definição remete à presença de múltiplos grupos sociais em
interação entre si e com seu meio biofísico. Desse modo, podemos pensar que o conflito que se coloca na
área de pesquisa acima descrita é um conflito socioambiental, pois foram identificados diversos atores –
população local, ONGs, empreendedor, governos federal, municipal e estadual, dentre outros – preocupados
com que rumo a sua interação com o meio biofísico irá seguir. Ainda, mais especificamente com o objeto
empírico da pesquisa, um conflito socioambiental de administração da costa marinha, como ocorre com essa
*
Marcela da S. Feital: [email protected]
41
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
parte do Projeto Mexilhão, enfrenta desafios complexos. Além de se constituir como área pública da União,
os empreendimentos dessa área interferem em atividades econômicas e na organização do território costeiro
(CUNHA, 2003). E, com isso, seus efeitos se desdobram tanto no subsistema físico-ambiental, quanto no
econômico-produtivo e no urbano-relacional.
A parte marinha do Projeto Mexilhão interferiu nos espaços costeiros devido à construção do duto
que carrega o material extraído da plataforma até a UTGCA; interferiu nas atividades pesqueiras ao menos
na fase de instalação da plataforma, quando a pesca cessou no perímetro das obras; e, claramente, interferiu,
e irá interferir por um longo período, nas atividades econômicas de nível local, regional e internacional. A
nível local com o movimento migratório devido às gerações de empregos, aquecendo o mercado imobiliário,
hiper-saturando escolas e sistemas de saúde e transporte. Além disso, a atividade econômica fundamental do
município sofreu uma mudança drástica, deixando de ser essencialmente turística para ser industrial. Já no
nível regional e internacional, esses empreendimentos, por ser de grande porte, propunham a auto-suficiência
de gás natural do Brasil, que deixará de depender das importações desse produto, atingindo, assim, atividades
econômicas nacionais e internacionais.
Um fator importante que propõe mudanças e soluções a partir desses conflitos é a criação de fóruns
de debates participativos. Para isso, foi utilizado alguns textos de Beck (1995), que descrevem como esses
fóruns podem acontecer e qual a sua importância. De modo geral, esses fóruns devem promover o diálogo
entre os diversos tipos de conhecimento dos diferentes atores: cientistas (conhecimento técnico-científico),
empreendedores (conhecimentos econômico-administrativos), população local (conhecimento tradicional e
contextualizado).
BECK (1995) aponta algumas condições para estabelecer estes fóruns de debate:
1. A população deveria deixar de lado a noção de que os administradores e peritos sempre conhecem
exatamente tudo, ou, pelo menos, melhor, sobre o que é recomendável para todos. Isto implica numa
desmonopolização do trabalho dos peritos.
2. O círculo de atores que devem participar não pode permanecer fechado aos especialistas, mas aberto
a outros atores sociais que estejam diretamente envolvidos no problema em questão.
3. Todos os participantes dos fóruns devem aceitar que as decisões devem ter um caráter aberto, para
possibilitar ajustes posteriores.
4. Deve se garantir um espaço público para estes fóruns, de forma que as negociações não tenham lugar
a portas fechadas, entre peritos e atores chaves nos processos decisórios, passando a ser aceito o
caráter de incontrolabilidade dos processos de debate como elemento enriquecedor.
5. As normas dos fóruns devem surgir de um acordo entre os participantes e passar a ser auto-
legisladas.
Assim, Beck apresenta estratégias participativas de negociação e mediação numa perspectiva
pluralista chamada, por ele, de desmonopolitização da especialização. Desse modo, o autor defende que o
saber acerca do que é melhor e certo para todos não é mais exclusivo do saber especializado e de suas
instituições, mas uma visão integrada das diferentes perspectivas que há no nível local. Aqui ele propõe uma
nova simetria de relações que forneçam as pré-condições para a ação política mais participativa e efetiva.
Esses fóruns devem ser um forte elemento para ampliar a transparência e a confiança da sociedade
atingida frente ao que pode ser feito para evitar os riscos e diminuir a vulnerabilidade. A partir disso,
soluções negociadas e democráticas podem ser encontradas e o debate estimulado, já que esse é o motor mais
eficaz para as mudanças sociais de mitigação dos impactos sociais e ambientais do Projeto Mexilhão. No
entanto, como foi possível perceber ao longo das entrevistas, esse diálogo de mão dupla (especialistas e
sociedade) não ocorreu no momento das audiências públicas, inclusive a audiência da fase de licenciamento
da parte marinha do Projeto Mexilhão. Essas foram consideradas instrumentos meramente formais para que o
empreendedor mostrasse que estava cumprindo as leis, explicando à população o que estava sendo feito. A
participação da ciência nesse evento se limitava a esse papel explicativo, que seguia apenas um caminho:
transmitia o interesse dos empresários para a sociedade cristalizada.
4. Conclusão
Uma primeira conclusão ocorreu com a realização de uma análise sistemática do conflito encontrado
nessa arena. Para a realização dessa análise foi obrigatório evitar o reducionismo maniqueísta do conflito. Ou
seja, não se pode acreditar que o conflito socioambiental aqui envolvido se reduz a ambientalistas e
população de um lado – o da preservação – e os empresários de outro – o do desenvolvimento econômico.
Os interesses da população oscilavam ao longo do processo decisório. Ora grande parte da população era
contra o empreendimento devido aos riscos e impactos ambientais que a ameaçava, ou por causa da ameaça
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Agradecimentos
Essa pesquisa foi possível devido ao financiamento direto do CNPq/PIBIC. A pesquisa também
esteve, desde seu início, vinculada ao projeto temático “Expansão Urbana e Mudanças Ambientais Globais:
um estudo do Litoral de São Paulo”, coordenado por Lucia da Costa Ferreira, financiado pela FAPESP.
Além disso, devo agradecer às estruturas que o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e o Núcleo de
Estudos Ambientais da Unicamp me forneceram. Certamente, muitas pessoas foram fundamentais para a
execução dessa pesquisa. Devo agradecer à orientação e aos ensinamentos de Lucia da C. Ferreira e de todo
os integrantes do “Projeto Clima”.
Referências
SIMMEL, G. Conflict. New York: The Free Press, 1955.
CUNHA, I. Conflito ambiental em águas costeiras: Relação porto-cidade no Canal de São Sebastião.In:
Ambiente & Sociedade – Vol. VI nº. 2 jul./dez. 2003.
HANNINGAN, J. Environmental sociology. A social constructionist perspective. Londres, Routledge, 1995.
LITTLE, P. E. A Etnografia dos Conflitos Sócio-ambientais. In: II Edital ANPPAS, Indaiatuba, São Paulo,
2004.
BECK, U. "The reinvention of politics: towards a theory of reflexive modernization". ln: BECK, U.;
GIDDENS, A & LASH, S. Reflexive modemization. Politics, tradition and aesthetics in the modem social
order. Londres, Polity Press, 1995.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Em 2005, o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) elaborado pela Organização das Nações
Unidas (ONU), demonstrou que o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M)
entre negros e brancos, no período entre 1980 e 2000, teve grande influência da educação e longevidade,
respectivamente [1]. No ano de 2006, entretanto, o Brasil continuou em posição preocupante no ranking da
desigualdade e foi apontado como o 10º país mais desigual do mundo pelo RDH. A possibilidade de se
reverter este quadro depende de iniciativas do governo e de um amplo investimento em políticas públicas.
A proposta anunciada no país, voltada à educação superior, é evidenciada na flexibilização das formas
de ingresso e na criação de políticas públicas que buscam assegurar o direito ao acesso às minorias, em
especial, através da reserva de vagas a negros e indígenas e da criação do Programa Universidade para Todos
(ProUni). A inserção destes jovens neste nível de ensino, por sua vez, confere-lhe novas características e
possibilita a interação entre diferentes agentes.
O impacto ocasionado pela implantação do ProUni bem como as relações – de resistência ou de
cooperação - decorrentes da inserção destes novos alunos neste nível de ensino serão analisados ao longo
deste trabalho.
2. Método
Para a realização deste estudo, teremos por referência o conceito de equidade de Rawls [2] e
McCowan [3], a teoria de capitais de Bourdieu [4], a abordagem de Elias [5] que propõe as categorias de
estabelecidos e outsiders, e a contribuição de Goffman [6] para o estudo do estigma. Utilizou-se, também,
dados bibliográficos; pesquisas em sites de instituições de ensino superior (IES); consulta à base de dados do
Ministério da Educação (MEC/ProUni) [7], do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (INEP) [8] e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) [9]; e entrevistas semi-
estruturadas.
3. Resultados e Discussão
Criado no ano de 2004 através da medida provisória (MP n° 213/2004) e institucionalizado pela Lei nº
11.096, de 13 de janeiro de 2005, o ProUni integra o quadro de ações que compõem o Plano de
Desenvolvimento da Educação (PDE). Tendo por objetivo a reserva de vagas para estudantes de baixa renda
em IES privadas, com ou sem fins lucrativos, o governo oferece, em contrapartida, a isenção de alguns
tributos àquelas que aderirem ao Programa. O ProUni oferta bolsas de estudo integrais e parciais de 50% e
25% para cursos de graduação tradicionais (duração de 4 anos) e sequenciais de formação específica (2
anos).
De acordo com informações do Sistema do ProUni - SISPROUNI, desde a criação do
Programa foram beneficiados cerca de 600 mil alunos. Até o segundo semestre de 2009, também foram
beneficiadas 3.954 pessoas com deficiência. Constatou-se, assim, a redistribuição das oportunidades de
acesso a este nível de ensino a nível macro (nacional), o que vem assegurando a inserção de grupos
que antes tinham pouca ou nenhuma possibilidade de estudo.
O impacto ocasionado pela implantação do ProUni, desta maneira, deve ser percebido não só como
inserção de novos atores no interior de inúmeras instituições, mas também como favorecedor do contacto
entre sujeitos com distintas trajetórias e capitais (sociais, culturais, etc.). O processo de inserção deste
novo quadro de estudantes, no entanto, incita resistências que podem ser percebidas no interior das
IES - seja na tentativa de diminuir a importância da aprovação do beneficiado pelo ProUni, seja
através de práticas em sala de aula.
As primeiras análises de entrevistas, entretanto, permitem perceber que uma vez provada a
legitimidade de seu ingresso, o desempenho acadêmico do aluno bolsista será peça fundamental
para a desconstrução de possíveis resistências. A variável tempo, desta forma, incidirá de forma
positiva na aceitação por parte dos demais agentes e, por conseguinte, em sua inclusão.
*
Bruna Cruz de Anhaia: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
Dando continuidade à correção das injustiças sociais, o ProUni e as políticas afirmativas
apresentam-se como importantes iniciativas e agem através de mecanismos compensatórios a fim de
buscar reparar injustiças. Tais ações implicam na redistribuição de recursos, enfrentamento das
barreiras de acesso que asseguram privilégios e, portanto, suscitam resistências no plano micro e
macro.
Desta maneira, além do suporte material a estes jovens, mostra-se necessária a adoção de uma
série de medidas complementares que vão desde a ampla divulgação do funcionamento do
programa – em escolas, universidades, etc. – a fim de evitar a proliferação de discursos que se
baseiam na falta de informações até o fortalecimento da identidade e auto-estima do aluno bolsista.
Referências
[1] PNUD. Relatório de desenvolvimento humano – racismo, pobreza e violência. Organização
das Nações Unidas, 2005. Disponível em: <http://www.pnud.org.br/rdh/> Acesso em: 27 ago. 2008
[2] RAWLS, J. A Theory of Justice. Cambridge, Harvard University Press, 1976.
[3] MCCOWAN, Tristan. Expansion without equity: an analysis of current policy on access to higher
education in Brazil. In: Higher education (2007) 579-598.
[4] BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974.
[5] ELIAS, Norbert. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma
pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
[6] GOFFMAN, Erving. Estigma – notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Disponível
em: <http://www.4shared.com> Acesso em: 18 fev. 2008
[7] MEC/ProUni. Programa Universidade para Todos. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/prouni/>
Acesso em: 10 jul. 2010
[8] INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Disponível em:
<http://www.inep.gov.br/> Acesso em: 09 mai. 2010
[9] IBGE/PNAD. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. Disponível em: <www.ibge.gov.br>
Acesso em: 21 mar. 2010
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1.Introdução
O objetivo deste trabalho é pensar a sociologia contemporânea a partir de um ponto de vista muito
particular- os estudos sobre ambiente e sociedade- ao promover uma breve sociologia da sociologia
ambiental como uma espécie de recorte analítico útil na percepção dos possíveis caminhos da sociologia no
século XXI.
Para tanto, pretendo elaborar um estado da arte, é certo que provisório, mas que prima pela
visualização ampla do campo de estudos; o tema que alinhavou a escolha dos trabalhos e dos autores é o
status da sociologia ambiental e o impacto da sub-área de estudos na disciplina, nos EUA e Brasil.
2.Método
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica de amplo espectro. Arrolei alguns textos de autores que a
literatura tem apontado como cruciais na análise da institucionalização da sub-disciplina nos EUA e alguns
poucos trabalhos sobre o tema no Brasil- tema muito recente no debate nacional- e dedicarei minha atenção
ao tema ambiente e sociedade no interior da disciplina tentando perscrutar de que forma a “novidade” do
tema tem sido acomodada na história da disciplina, identificando os principais desafios levantados pela
literatura assim como as conquistas recentes da sub-área.
3.Resultados e Discussão
É possível perceber que a sociologia ambiental nos EUA tem uma história ainda curta: desde meados
da década de 1970 com o artigo revolucionário de Catton e Dunlap, a sociologia ambiental tem se firmado
como campo de estudos e pesquisa importante na academia americana; no Brasil, contudo, a sociologia
ambiental ainda ensaia seus primeiros passos como atenta a socióloga Leila Ferreira.
4.Conclusão
Gerar análises sociológicas da questão ambiental demanda toda uma labuta de cunho acentuadamente
teórico-metodológico e um trabalho inicial de levantamento do tema na história da disciplina, de
esclarecimento de suas possibilidades de formulação nas perspectivas atuais, de construção de um quadro
conceitual para abordá-lo, enfim, de torná-lo um ponto de preocupações destas disciplinas (integrando-o no
seu universo de reflexão) é o horizonte imediato de ação. Esse trabalho é um primeiro e humilde passo nesse
sentido.
Tal como a sociologia ambiental americana tem demonstrado, a sub-área de estudos entra,
vagarosamente, pela porta da frente da disciplina e tem mostrado como novos pontos de vistas na análise
sociológica podem oferecer originais e esclarecedores quadros compreensivos da sociedade no século
vindouro.
*
Bolsista FAPESP; [email protected]
46
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Reconhecidamente Aristóteles foi o primeiro a produzir uma teoria lógica, no sentido de uma teoria
formal do raciocínio ou da dedução. Ainda que o trabalho de Aristóteles dialogue, em alguns momentos, com
algumas teses platônicas, referentes a sua teoria da divisão principalmente, as noções lógicas elaboradas por
Aristóteles foram inovadoras e por isso lhe renderam a designação de “pai da lógica”. A palavra “lógica”
(logiké) não era empregada por Aristóteles no mesmo sentido técnico em que ela vem sendo usada por nós
habitualmente, para ele esta expressão tinha uma conotação mais ampla e variável. A palavra usada por ele
para expressar o que hoje entendemos por lógica formal é “analítica” (analytiké). A analítica era para
Aristóteles uma disciplina que englobava tanto os conteúdos referentes a sua teoria da dedução como aqueles
referentes a sua teoria da demonstração científica. As suas obras que versam acerca destes conteúdos são os
“Primeiros Analíticos” ou “Analíticos Anteriores” e os “Segundos Analíticos” ou “Analíticos Posteriores”,
respectivamente, apesar de que estes conteúdos encontram-se estreitamente relacionados e se misturam, por
vezes, nestas obras, ao ponto de em alguns momentos não conseguirmos distinguir se ele está se referindo a
uma dedução ou a uma demonstração. O certo é que estas duas obras e algumas outras que tematizam acerca
daquilo que atualmente entendemos por lógica foram classificadas e reunidas, dentro do corpus de textos
aristotélicos, sob o título de Organon.[3,6]
Gostaríamos de tratar aqui apenas da parte da analítica que se refere à teoria da dedução aristotélica e
não de sua teoria da demonstração científica. O núcleo desta teoria da dedução encontra-se, dentro do
Organon, no “Livro I” do “Primeiros Analíticos”. O objetivo deste nosso trabalho é, então, apresentar e
discutir, algumas das principais noções contidas neste livro, mais especificamente na parte deste livro que
versa sobre o sistema lógico assertórico criado por Aristóteles. Dessa maneira, não trataremos da teoria
silogística modal aristotélica, contida nos capítulos 8 a 22 deste mesmo escrito.
2. Método1
Iniciaremos, então, como o próprio Aristóteles faz no início do primeiro capítulo do “Livro I”,
tratando da noção de premissa. Posteriormente poderemos passar para a noção de termo, para vermos como
as diferentes relações entre os termos fornecem os diferentes tipos de proposições contidas na silogística.
Em seguida, abordaremos a primeira noção de silogismo encontrada na obra, assim como as noções de
silogismo perfeito e silogismo imperfeito. E por fim, trataremos das regras de conversão das premissas na
silogística. Como se pode notar, este nosso pequeno trabalho abrange realmente apenas os conceitos mais
básicos da teoria aristotélica da dedução, restando ainda muitos conceitos e conteúdos fundamentais neste
livro para uma compreensão mais global da silogística. Contudo, desejamos que as discussões e comentários
realizados acerca destas noções básicas forneçam um entendimento mais pormenorizado de algumas das
teses aristotélicas.
3. Resultados e Discussão
Uma premissa, parafraseando Aristóteles, é uma oração que predica algo acerca de um sujeito [1, 2,
4, 5 cf. An Pr 24a16]2, quer dizer, é uma oração que afirma ou nega alguma coisa sobre um sujeito. Ele
entende, então, que as premissas, ou seja, aquilo que serve de base para a argumentação, possui uma
estrutura lógica constituída por um sujeito e por um predicado. A premissa é uma predicação acerca de um
sujeito. Esta maneira de entender a estrutura lógica das proposições, cabe lembrarmos, foi mantida até
meados do século XX, momento em que surgiram novos estudos na área, estudos estes iniciados por Frege e
*
Autor Correspondente: [email protected]
1
A metodologia para a execução deste trabalho envolveu a leitura dos textos assim como a discussão dos
mesmos em sala de aula e com o professor orientador. Neste item apresentaremos a metodologia, quer dizer,
a ordem em que organizamos os conteúdos trabalhados neste texto.
2
Os primeiros numerais entre colchetes se referem às obras citadas na bibliografia deste trabalho;
posteriormente indicamos a passagem exata que pode ser consultada no Primeiros Analíticos (An Pr), como
é realizado canonicamente nos estudos de lógica. Cabe notar, então, que em todas estas obras encontra-se a
tradução deste texto aristotélico; assim para evitarmos uma redundância exaustiva, nas próximas referências
indicaremos apenas uma destas obras acrescida da especificação do trecho que queremos mencionar, como é
referido tradicionalmente.
47
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
por Russell principalmente, que irão alterar esta maneira de entender a estrutura lógica, isto é, a forma lógica
das proposições. De qualquer modo, o sistema lógico desenvolvido por Aristóteles se manteve como o
modelo para a lógica até o começo do século XX.
A premissa, então, é formada por um sujeito e por um predicado e aquilo que está pelo sujeito e pelo
predicado é chamado de termo, ou seja, os termos são as expressões que servem tanto de sujeito como de
predicado em uma premissa [2 cf. An Pr 24b17]. Esta não diferenciação destes dois elementos, isto é, esta
classificação dos dois sob o mesmo status lógico trará conseqüências importantes acerca da compreensão da
forma lógica das premissas na silogística. Vejamos por que. De modo geral, o predicado gramatical de uma
oração é composto, entre outros elementos, pelo verbo da oração; por exemplo, o predicado gramatical da
frase “Os estudantes de filosofia são bons alunos” é “são bons alunos”, o verbo ser está incluído no
predicado gramatical. O que Aristóteles faz é retirar o verbo do predicado, assim, a estrutura lógica das
premissas fica composta por dois termos, o termo sujeito e o termo predicado, e pelo verbo “ser” que
funciona como cópula. O predicado como um termo, então, não é composto, como o predicado gramatical,
pelo verbo da oração. Temos, dessa maneira, a seguinte estrutura formal: “S é P”, onde “S” está pelo termo
sujeito, “P” está pelo termo predicado e o verbo “é” está funcionando como a cópula.
Por enquanto definimos que Aristóteles considera que as premissas são formadas por dois termos:
pelo termo sujeito e pelo termo predicado. O termo sujeito, diz ele, pode ser considerado universalmente,
particularmente ou indefinidamente. Isso quer dizer que pode ocorrer nas premissas três situações diferentes,
a saber: pode ocorrer uma predicação ou uma não predicação universal; uma predicação ou uma não
predicação particular; ou uma predicação indefinida [2 cf. An Pr 24a17]. Vejamos como Aristóteles explica
isso. Quando existe uma predicação universal o termo sujeito está contido ou pertence totalmente ao termo
predicado e quando existe uma não predicação universal o termo sujeito está excluído ou não pertence
totalmente ao termo predicado. Cabe notarmos, que na realidade a relação de pertinência ocorre entre os
significados dos termos, assim quando dizemos que o termo sujeito pertence totalmente ao termo predicado
estamos afirmando que o significado do predicado encontra-se no significado do sujeito. Cabe notarmos
também, que quando ele fala de uma não predicação na realidade trata-se de uma predicação negativa, por
assim dizer, já que estritamente falando toda premissa contém um tipo de predicação. Feitas essas ressalvas,
podemos passar para a predicação particular, nela o termo sujeito está contido parcialmente no termo
predicado, e na não predicação particular o termo sujeito está excluído parcialmente do termo predicado.
Podemos dizer, dessa maneira, usando uma terminologia extensional, que existem quatro tipos de relações
entre os termos das premissas: a inclusão total, a exclusão total, a inclusão parcial e a exclusão parcial.
Apesar de Aristóteles não escrever desta forma, se convencionou apresentar as expressões que
indicam o tipo de relação entre os termos antes do sujeito. À medida, então, que temos uma predicação
universal, a expressão “Todo” é colocada antes do sujeito e quando existe uma não predicação universal, a
expressão “Nenhum” antecede o sujeito. Assim, quando o sujeito é universalmente considerado temos dois
tipos de premissas: a universal afirmativa que possui a seguinte forma “Todo S é P” e a universal negativa
com a forma “Nenhum S é P”. Por outro lado, quando existe uma predicação particular, a expressão
“Algum” antecede o sujeito, e quando existe uma não predicação particular, é também a expressão “Algum”
que vai antes do sujeito, porém é acrescentada a expressão “não” após o sujeito. Dessa maneira, temos duas
premissas particulares: a particular afirmativa com a forma “Algum S é P” e a particular negativa
formalizada como “Algum S não é P”.
Faltou explicarmos o que ocorre na premissa quando o sujeito é considerado indefinidamente, ou
seja, o que ocorre com uma premissa quando sua predicação está indefinida. Aristóteles diz que isso
acontece quando a predicação é realizada sem signo ou marca, quer dizer, sem uma expressão que indique
que a predicação ou é universal ou é particular [2 cf. An Pr 24a19]. Poderíamos dar o seguinte exemplo para
este tipo de predicação com a frase “Os homens são mortais”. Neste tipo de proposição, não aparecem as
expressões “Todo”, “Nenhum” ou “Algum” antes do termo sujeito. No entanto, esta falta de um signo, como
diz Aristóteles, caracteriza uma distinção gramatical desta frase em relação às demais, e não uma distinção
lógica. Já que do ponto de vista lógico essa proposição representa uma relação de inclusão total entre seus
termos, trata-se então de uma proposição universal afirmativa. Assim, se quiséssemos considerar apenas as
diferenças lógicas, as premissas deveriam ser distinguidas em universais (afirmativas e negativas) e
particulares (afirmativas e negativas) somente. Porém, Aristóteles mantém a distinção envolvendo premissas
indefinidas ao longo do livro.
Passemos agora para a noção de silogismo. A primeira definição que Aristóteles fornece de
silogismo, ainda no primeiro capítulo do livro [2 cf. An Pr 24b19], é uma definição, diríamos nós
atualmente, de argumento dedutivamente válido. Ele diz mais ou menos assim: que o silogismo é um
discurso, e podemos entender “discurso” no sentido de um argumento ou mais especificamente de uma
dedução, no qual são fixadas certas coisas, ou seja, são apresentadas algumas proposições ou premissas, e
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algo diferente daquilo que foi fixado inicialmente, quer dizer, outra proposição diferente das iniciais, surge
necessariamente; e esse surgimento se dá pela simples fixação daquelas coisas iniciais. Então, para tentar
esclarecer esta primeira definição da noção de silogismo, à medida que aceitamos certas premissas podemos
extrair ou concluir outra proposição diferente e esta conclusão surge apenas pelo fato de aceitarmos somente
estas premissas iniciais, isto é, a conclusão ocorre apenas em função destas premissas, não sendo necessário
o acréscimo de nenhuma outra; quando isso ocorre temos um silogismo, ou seja, um argumento
dedutivamente válido.
Podemos notar que esta primeira definição é ainda bastante ampla, Aristóteles não se refere, por
exemplo, a noção de termo ou, mais especificamente ao tipo de relação que deve ocorrer entre os termos em
um silogismo. Assim, a noção de validade formal, a qual talvez tenha sido a descoberta mais significativa de
Aristóteles acerca deste tema, ainda aparece em fase embrionária nesta definição.
Nesta definição, também, não é fixado o número de premissas que os silogismos devem conter, o que
fixaria também o número de termos nos silogismos; a definição afirma apenas que se trata de mais de uma
premissa. Disso podemos concluir que um argumento que contém apenas uma petição de princípio, ou seja,
um argumento que contém apenas uma premissa a qual corresponde justamente à conclusão do argumento
não entraria nesta noção aristotélica de argumento dedutivamente válido. Na realidade, nem mesmo um
argumento que contivesse mais de uma premissa e uma petição de princípio seria, para Aristóteles, um
argumento válido. Pois, as exigências que esta primeira definição de silogismo nos fornece são duas, a saber,
que são necessárias mais de uma premissa e também que a conclusão precisa ser distinta delas, para que haja
silogismo. No entanto, argumentos que contêm petição de princípio parecem surgir como contra-exemplos
para esta inicial definição aristotélica de argumento dedutivamente válido, já que estes argumentos são
formalmente válidos, diríamos nós.
Uma solução apresentada pelos lógicos contemporâneos para essa questão seria distinguir entre
argumento válido e inferência. Para os lógicos contemporâneos a petição de princípio seria uma inferência,
no sentido de um cálculo, que é válido para o sistema lógico, mas que não é um argumento. Funcionaria,
grosso modo, como um cálculo acrescentado ao sistema lógico com o intuito de simplificá-lo. Dessa
maneira, a definição aristotélica pode ser vista positivamente por excluir do seu escopo argumentos que
envolvem petições de princípios e não negativamente, no sentido de estar sujeita a contra-exemplos.
Logo após fornecer esta definição de silogismo Aristóteles define o que é um silogismo perfeito e o
que é um silogismo imperfeito [2 cf. An Pr 24b23]. Um silogismo perfeito, segundo ele, não precisa de nada
além de suas premissas para que a necessidade de sua conclusão seja evidente, ou seja, um silogismo perfeito
tem validade auto-evidente. Já um silogismo imperfeito precisa de algo mais para evidenciar a necessidade
de sua conclusão. Mas o que é este algo mais que põe em evidência a validade do argumento?
Antes de responder a esta questão, precisamos esclarecer que um dos objetivos do livro, por assim
dizer, é apresentar argumentos que tem sua validade evidente, ou seja, os silogismos perfeitos. No entanto,
também são apresentados silogismos imperfeitos, que são aperfeiçoados, tornando-se, por sua vez, perfeitos
também. Então, quando perguntamos por este “algo mais” estamos neste contexto da realização do
aperfeiçoamento dos silogismos imperfeitos. Podemos agora retornar à pergunta.
Como é sabido, Aristóteles definirá, primeiro através de exemplos, iniciados por “Barbara” [2 cf. An
Pr 26a1], e das figuras silogísticas; e posteriormente de maneira textual [2 cf. An Pr 42a32], que todo
silogismo é composto por duas premissas e pela conclusão. Assim, quando ele afirma que um silogismo
imperfeito precisa de algo mais, não se trata de acrescentar uma ou mais premissas diretamente na forma do
silogismo. Porém, se nos apoiarmos nesta mesma passagem apontada logo acima [2 cf. An Pr 42a32] iremos
constatar que uma nova proposição deve ser assumida nos silogismos imperfeitos para se tornarem perfeitos.
Podemos esclarecer essa discussão da seguinte maneira: a definição de silogismo imperfeito afirma que ele
carece de algo, uma ou mais proposições, para que sua validade seja evidenciada. Sabemos que não podemos
simplesmente acrescentar premissas ao silogismo, pois, todos os silogismos contêm apenas duas premissas.
Então, se queremos aperfeiçoar os silogismos imperfeitos, ou seja, tornar a sua validade evidente, precisamos
realizar um processo, podemos dizer, correndo o risco de sermos anacrônicos, que precisamos efetuar uma
prova, na qual se assumiria outras premissas para por em evidência a validade do silogismo. Este processo é
conhecido como a redução dos silogismos perfeitos aos silogismos imperfeitos.
Cabe notarmos que o aperfeiçoamento dos silogismos imperfeitos envolve este processo de redução,
mas não se tratam da mesma coisa, já que o aperfeiçoamento diz respeito a fornecer evidência da validade
dos silogismos imperfeitos, e sendo assim, situa-se em um âmbito epistemológico, por assim dizer. A
redução dos silogismos imperfeitos aos perfeitos, por sua vez, é um processo formal situado em um campo
lógico. Note-se também que, do ponto de vista lógico, ou mais especificamente da validade, os silogismos
perfeitos e os imperfeitos são indiferenciados, pois, os dois são argumentos válidos, já que são silogismos.
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Assim, a diferença entre eles situa-se também em um campo epistemológico e não lógico, os perfeitos não
são mais válidos que os imperfeitos.
Vimos que as definições de silogismo perfeito e de silogismo imperfeito nos levaram a
considerações acerca do processo formal de redução dos silogismos imperfeitos aos perfeitos. O próximo
tema abordado por Aristóteles logo após estas definições, no “Capítulo 2” do livro [2 cf. An Pr 25a1],
também está estreitamente ligado ao processo de redução, trata-se das regras de conversão das premissas. Ele
estabelece três maneiras, três regras, diríamos nós, em que a predicação que ocorre em uma premissa pode se
converter em outro tipo de predicação. Estas três regras, como se sabe, são as seguintes: “Nenhum A é B”
converte-se em “Nenhum B é A”; “Algum A é B” converte-se em “Algum B é A”; e “Todo A é B” converte-
se em “Algum B é A”.
Aristóteles, apesar de apresentar, ainda neste capítulo [2 cf. An Pr 25a14], as provas formais para
estas conversões e argumentar que não são possíveis outros tipos de conversão, não define qual o status
dessas conversões. Claramente elas não entram na definição de argumento dedutivamente válido, então o que
seriam do ponto de vista categorial estas conversões para Aristóteles? Este livro, pelo menos, não nos
permite dar uma resposta satisfatória a esta questão. Se buscarmos novamente uma resposta contemporânea,
podemos dizer que essas conversões são entendidas como regras de inferência, de novo no sentido de um
cálculo válido.
4. Conclusão
Vimos que uma premissa para Aristóteles é formada por um sujeito e por um predicado, e que estes
dois elementos constituintes das premissas são termos. Posteriormente, comparamos esta consideração
aristotélica dos predicados como termos com as regras gramaticais da linguagem. Em seguida, tratamos das
possíveis relações entre os termos nas premissas e através desta análise conseguimos extrair quais são os
quatro tipos de proposições da silogística assertórica. Na sequência, tentamos explicar a primeira definição
de silogismo contida em Aristóteles, que é, na realidade, uma definição de argumento dedutivamente válido.
A partir daí, pudemos definir o que é um silogismo perfeito e um imperfeito; além de discutirmos,
primeiramente, o aperfeiçoamento dos silogismos imperfeitos, e, logo depois, o processo de redução dos
silogismos imperfeitos aos perfeitos. Este último ponto foi tratado apenas de maneira superficial, já que não
entramos, de fato, nas considerações formais que envolvem a silogística. Por fim, apresentamos as regras de
conversão formuladas por Aristóteles. O passo seguinte seria abordar os conteúdos relacionados às figuras e
aos modos silogísticos, dessa maneira entraríamos realmente nestas considerações de cunho mais formal, e
assim poderíamos explicar de maneira mais satisfatória o processo de redução à primeira figura. Contudo, o
espaço aqui não nos permite avançarmos, de modo que deixaremos estes conteúdos entre outros para o tema
de um próximo trabalho. Esperamos, para finalizar, que as discussões levantadas neste trabalho tenham
ajudado a ter uma visão mais crítica de algumas das teses aristotélicas.
Referências
1. Aristóteles. Analíticos Anteriores (Tradução e Notas de Pinharanda Gomes). In: Organon. Lisboa:
Guimarães Editores, 1986.
2. Aristóteles. Prior Analytics (Tradução de A. J. Jenkinson). In: The Complete Works of Aristotle. Ed. J.
Barnes. New Jersey: Princeton University Press, 1995.
3. Correia, M. La lógica de Aristóteles: Leciones sobre el origen del pensamento lógico en la Antigüedad.
Santiago de Chile: Ediciones Universidad Católica de Chile, 2003.
4. Smith, R. Aristotle Prior Analytics. Indiana: Hackett Publishing Company, 1989.
5. Striker, G. Aristotle Prior Analytics Book I. Maine: Oxford University Press, 2009.
6. Vigo, A. G. Aristóteles: Una Introducción. Santiago de Chile: Instituto de Estudios de la Sociedad, 2007.
Agradecimentos
Gostaríamos de agradecer ao professor Dr. Frank Thomas Sautter pela orientação na execução e
correção deste trabalho.
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1. Introdução
A sociedade contemporânea vem atravessando uma crise radical de valores morais, conseqüência de
um sistema social e político que há décadas é regido pelo capitalismo. Este modelo de governo tem como
alicerce seus próprios interesses, ocasionando com isso, diversos problemas na vida humana, muitas vezes
irreparáveis, como vem acontece com o desejo desenfreado, exagerado e inconseqüente pelo consumismo
(ideologia do ter, ser e poder). E é neste clima que somos desafiados a questionar e criticar se “vale” mesmo
a pena nos mantermos submetidos a tais objetivos que nos propiciam avanços tecnológicos e científicos
como nunca visto antes, mas, esquecem a vida humana, a liberdade e os direitos. Podemos escolher em nos
opormos, e se esta for a nossa decisão, então, conseguiremos batalhar pela autonomia do homem e exigir do
Estado um sistema social pautado pela ética e responsabilidade social.
Contrapondo ao pensamento vigente, somos diretamente levados a refletir sobre um assunto que tem
perpassado toda a história da vida humana: será que podemos apenas ensinar a ética? Este tema já foi foco
de debates em 350 a.C, e hoje, no século XXI, permanece relevante, tornado-se não só atual, mas instigante
pensá-lo e repensá-lo. Analisando nosso contexto social, que tem apresentado este tema como uma aporia –
pretensão esta mantida pela tradição filosófica moderna – como questionar a viabilidade de ensino da ética,
se nossa sociedade não tem sido exemplo de uma conduta virtuosa? Estamos rodeados de corrupção, o meio
ambiente sofre com os danos ocasionados pelo nosso descuido, o processo educativo está sendo
desvalorizado cada dia mais, as expressões de violência (assaltos, homicídios, drogas) não param de
aumentar. Nesta atmosfera, será possível falar de ética?
2. Método
Utilizamos a prática da análise de conteúdo, sendo realizada uma análise descritiva das obras do autor.
Quanto às suas bases lógicas, a pesquisa é qualitativa, dado seu caráter exploratório e subjetivo, buscando o
entendimento acerca da natureza geral do tema proposto, sem a pretensão de generalização do mesmo.
3. Resultados e Discussão
Quando Sócrates, nos diálogos platônicos, questiona o que seria a virtude e o bem, surgem duas
interrogações. Por um lado, interroga a sociedade para saber se o que ela costuma considerar virtuoso e bom
corresponde efetivamente à virtude e ao bem; e, por outro lado, interroga os indivíduos para saber se, ao agir,
possuem efetivamente consciência do significado e da finalidade de suas ações, se seu caráter ou sua índole
são virtuosos e bons realmente. A indagação socrática dirige-se, portanto, à sociedade e ao indivíduo [1],
buscando renovar a Paidéia grega, entendida hoje, como sinônimo de cultura (conjunto de valores, de
padrões de comportamento e de instituições).
Tomando como referência o diálogo de Protágoras, lemos inicialmente sobre o desejo, à vontade e a
ânsia do jovem Hipócrates (discípulo de Sócrates) em conhecer a verdade ou essências das ciosas. Quando
este descobre que um grande sofista chamado Protágoras se encontra na cidade, não se demora a querer estar
junto dele para escutá-lo. Protágoras fora comparado com Orfeu, pois sua voz encantava aqueles que a
escutavam, sentiam-se como enfeitiçados e dispostos a segui-lo para onde ele fosse.
Os sofistas, conhecidos como “profissionais da educação ou pedagogos” [2], prometiam aos seus
ouvintes, independente de quem fossem, que ao voltarem para casa, chegariam sempre melhores do que eram
até então, formando-se bons cidadãos (arte política). Para Sócrates, a pretensão de ensinar era
demasiadamente elevada, pois como pode alguém dizer que ensina? Qual é especialidade deste sofista? É
perito na arte de tocar citará ou no ofício da medicina?
Neste diálogo, percebemos a posição socrática perante o sábio que ensina e sobre o conteúdo de seu
ensinamento. Quando nossa alma é que está em jogo, nada é simples, pois “corremos muito maior perigo na
compra de conhecimentos do que na de alimentos para o corpo” [3]. Estes, são recolhidos direto na alma,
ocasionando grandes benefícios ou prejuízos.
Protágoras consegue validar seu método de ensino apoiando-se no mito de Epimeteu e Prometeu, onde
Prometeu rouba de “Hefesto e de Atena a sabedoria das artes juntamente com o fogo” [4] e os entrega aos
homens, mas, a sabedoria política, que serve para organizar a cidade e defender-se dos perigos naturais,
como dos animais, permanece junto de Zeus. Quando este percebe, que o homem não consegue progredir em
1
Autor Correspondente: [email protected]
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sua vida, fica com medo de a espécie se extinguir, então, convoca Hermes para distribuir a todos os homens
o pudor e a justiça (arte política e a arte militar), como princípio ordenador das cidades e laço de
aproximação entre os homens.
Utiliza-se do exemplo do estado, que “puni os culpados” para provar a Sócrates, que é possível ensinar
as virtudes, pois seria de certa forma irracional, se a punição feita aos homens não ocasionasse nenhuma
melhora em seu caráter, pois toda punição tem como objetivo tornar os cidadãos corretos. Sendo assim, “essa
maneira de pensar implica a convicção de que a virtude pode ser ensinada.” [5]
Se quisermos educar as pessoas para serem virtuosas, seguindo o modelo Sofista, então, devemos nos
guiar por algumas características centrais, estas são: o castigo, sendo muitas vezes de forma violenta, pois
este faz com que o homem se torne novamente bom; enviar os filhos para serem cuidados pelos sábios, que
se responsabilizarão por ensinar a arte de governar tanto a si mesmo como as questões da polis; depois, são
enviadas as escolas, onde os professores cuidam rigorosamente dos costumes dos meninos do que do
aprendizado da práxis; e, “quando saem da escola, a cidade, por sua vez, os obriga a aprender leis e a tomá-
las como paradigma de conduta, para que não se deixem levar pela fantasia a praticar malfeitoria” [6];
trabalho resultante de uma coletividade.
4. Conclusão
Através deste diálogo, podemos concluir que a virtude pode ser ensinada, mas necessidade de diversas
pré-disposições do ser e do Estado para verdadeiramente efetivar-se. Temos que partir de um princípio onde
o homem almeja alcançar o “ser virtuoso” ou “ser ético”, pois esta é a característica principal do jovem
Hipócrates em sua incessante busca, tanto quando estava a dialogar com Sócrates, como com Protágoras, sua
meta era de se tornar um cidadão sábio.
Considerando nosso contexto atual, para realizar este tão almejado “sonho”, de uma polis sustentada
na democracia virtuosa, teríamos que falar aqui, de uma reestruturação governamental, mas, para não nos
iludirmos com tamanha pretensão, vamos pensar numa forma mais palpável de atingir este objetivo.
Poderíamos sugerir como passo inicial, nossas instituições de ensino, as Universidades, conhecidas como
guardiãs do conhecimento, conseqüentemente, locais pré-determinados a encontrar este fim.
Se os nossos centros de ensino, não só forem locais favoráveis para a compreensão teórica do ser ético,
mas também de “práxis”, conseguiremos fazer de nossos acadêmicos, seres humanos mais próximos da
excelência ética, pois a virtude é práxis comum que não pode ser ensinada só com palavras, mas que se
aprende através do modelo e da repetição.
Temos que encontrar nas academias o reflexo contrário daquilo que vemos no nosso cotidiano, pois se
caso não o for, será vã sua existência. Não podemos permitir que nossas universidades, mesmos as
particulares, tornem-se mais uma entre as tantas empresas existentes em nossa região/estado/país. Seus
momentos de entusiasmos não podem ser limitados as reuniões de colaboradores, sendo o assunto principal
da pauta, os resultados financeiros (receitas, despesas, lucro líquido), pois, a sua característica principal, que
a faz ser reconhecida pelos cidadãos como instituição de ensino, não pode ser diagnosticado nos balanços
patrimoniais, livros razões, DRE’s (Demonstrativo do Resultado do Exercício), mas somente, a parir de uma
analise reflexiva sobre a sociedade, vendo o que cada cidadão depois de formado, tem feito com seu diploma
e por sua nação.
Referências
1. CHAUÍ. Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1994, p. 340-341.
2. MARROU. Histoire de l’éducation dans l’Antiquité, op. cit., vol I, p. 86.
3. PLATÃO. Diálogos. [Belém]: Universidade Federal do Pará, 1973-1975. 14 v. (Coleção amazônica.
Série Farias Brito), 314a.
4. id., ibid, 321d.
5. id., ibid, 324b.
6. id., ibid, 326c.
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1. Introdução
É recorrente o número de trabalhos que tematizam a surdez sob uma perspectiva cultural, entretanto,
poucos são os que evidenciam de maneira clara o entendimento que se tem do conceito de cultura e quais
critérios inserem de fato os surdos dentro do que se pode chamar de grupo cultural minoritário. Neste
sentido, o presente estudo objetiva trazer reflexões sobre o conceito de cultura e de sua aplicabilidade no
contexto da surdez. Embora muitos investigadores tenham sugerido que cultura é um termo excessivamente
abrangente para ser conveniente como instrumento conceitual e se constituindo um tema tão amplo em
indagação, se pretende aqui, enunciar algumas questões que se julgam necessárias para conduzir o estudo de
cultura como abordagem introdutória de aproximação das relações decorrentes do conceito como estrutura
universal possibilitando indagar os pressupostos de que este termo é herdeiro e sua inserção no contexto
específico da “cultura surda”.
2. Método
Esta pesquisa desenvolveu-se mediante uma análise interpretativa das obras de autores dos Estudos
Surdos e Estudos Culturais buscando-se esclarecer os conceitos de cultura e surdez, levando em consideração
os elementos constitutivos ou características definidoras que se encontram no pensamento desenvolvido
pelos autores destas correntes de pensamento. No primeiro momento, foi feita uma breve contextualização
das posturas e transformações históricas do conceito de cultura, trazendo alguns elementos percebidos desde
a Grécia Antiga até estudos mais recentes, como os Estudos Culturais. Em seguida, foram trazidos elementos
que caracterizam a surdez a partir da ótica dos Estudos Surdos, procurando-se tecer argumentos que possam
justificar a viabilidade do emprego do termo cultura para referir-se aos surdos.
3. Resultados e Discussão
Cultura, conceito fundamental nas abordagens dos fenômenos políticos e sociais, transformou-se em
objeto de especulação e analises pertinentes na abordagem sobre os fenômenos históricos e políticos atuais.
Estes discursos se encontram no centro de debates, filosóficos, antropológicos, lingüísticos, políticos, éticos
e econômicos, assim como nos debates acerca dos processos e políticas educacionais. Pela própria
complexidade do conceito que a palavra cultura representa, considerou-se necessário realizar alguns
esclarecimentos sobre a utilização do termo cultura com a finalidade não somente de apresentar alguns dos
seus significados e transformações ocorridas ao longo da história, mas principalmente apontar a sua inserção
numa estrutura binária em oposição que oferece e garante seus próprios princípios de ordenação.
A palavra cultura na sua forma original latina indica a idéia de cultivar, vinculada à criação de vegetais
e animais, à agricultura. Deste processo de cultivar as plantações passa não somente a significar um estado
daquilo cultivado, mas uma ação de cultivar. Posteriormente seu significado é ampliado e refere-se também
ao refinamento, sofisticação e educação elaborada da pessoa humana individual. Neste sentido, encontra-se a
noção de “homem culto” ou o homem portador de uma “cultura” outorgadas na realização e como fim último
do homem na busca de uma excelência superior. Atualmente este julgamento corresponde ainda hoje ao que,
na antiguidade, os gregos denominavam Paidéia e que os latinos indicavam com a palavra humanita. A
Paidéia exprime um ideal de formação integral. Entre alguns filósofos, como Jaeger, por exemplo,
encontramos que o termo “cultura” se encontra eminentemente ligado à educação, e ainda estritamente
ligado à idéia de cultura a partir de uma herança que inicia na Grécia antiga. Esta idéia tradicional de cultura,
como processo de formação integral foi propagada em todo ocidente e mantida em todo o pensamento
filosófico tradicional. Embora, não somente desde a Grécia antiga se observa o fato de cultura e educação
estar fortemente ligados e indissociáveis, já desde as culturas “primitivas” é atribuído à relação educativa um
papel determinante, segundo Jaeger é a Grécia que representa um avanço fundamental com relação à vida
dos homens na comunidade, e ainda acrescenta: “por mais elevadas que julguemos as realizações artísticas,
religiosas e políticas dos povos anteriores, a história daquilo a que podemos com plena consciência chamar
[email protected]
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cultura só começa com os gregos”[1]. Ainda, segundo o autor, sem a concepção grega de cultura, não se
poderia ter a idéia de „antiguidade‟ como unidade histórica, nem a idéias de „cultura ocidental‟.
Com o Romantismo, especificamente na Alemanha, a idéia de cultura “se expressa no conceito
específico Bildung”[2]. A finalidade intrínseca e inerente ao homem caracterizado pela sua formação
intelectual, moral e estética. É no Séc. XVIII, época em que a razão passa a ser considerada um instrumento
privilegiado da aprendizagem humana, que o conceito de cultura adquire uma abordagem crítica e adota uma
visão de patrimônio universal e não somente restrito ou reservado aos círculos privilegiados. A cultura não se
reduz apenas ao aspecto formador da vida humana, mas também à totalidade do que é produzido pelo
homem, quer dizer aos modos de viver e pensar dos indivíduos.
Com a descoberta de novos territórios (considerados primitivos, quando comparados com a sociedade
ocidental) e pela sua ocupação por parte das potências européias era preciso uma ciência que auxiliasse esta
nova política imperialista. Deste modo, o conceito de cultura passou a ser desenvolvido também pela
Antropologia, especificamente pela Antropologia Cultural, a qual propôs estudar a „obra‟ humana a partir da
concepção de cultura como sendo um “conjunto complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral,
lei, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da
sociedade”[3].
Segundo Santaella[4], é Canclini quem explora o conceito de “culturas híbridas” disseminado
atualmente por vários países da Europa. Este conceito caracteriza a dinâmica cultural contemporânea que não
se solidifica em estruturas hierárquicas e estáveis, mas ao contrário, flui e se desloca ao longo de rotas
impossíveis de se prever anteriormente. Os conceitos tradicionais de cultura, aplicados às complexas
sociedades atuais, geram grandes conflitos. De acordo com Santaella, freqüentemente “tendemos a julgar que
a cultura está em crise e contamos com o seu retorno à normalidade”[5]. As noções tradicionais de cultura não
podem mais distinguir os fluxos e os deslocamentos das culturas atuais. “Aspecto importante para se
compreender o caldeamento denso e híbrido da cultura em deslocamento é o da simultaneidade de todas as
formas culturais do passado sincronizando-se com as do presente”[6]. Nos estudos contemporâneos,
especificamente nos estudos culturais, o conceito de cultura “inclui o reconhecimento de que todos os seres
humanos vivem num mundo criado por eles mesmos, e onde encontram significado”[7].
As abordagens teóricas direcionam-se para o questionamento das representações acerca da alteridade,
do outro como diferente frente a uma estrutura social fundada na modernidade, a qual operava como garantia
de uma identidade estável, fixa e homogênea. Uma sociedade cuja organização garante o controle de
normalização e normatização de seus membros; uma estrutura de ausência das diferenças ao se pensar a
cultura. Neste sentido, é indispensável uma re-organização do sentido do „eu‟, do „ser‟, do „sujeito‟, do
„individuo‟ e sua relação com o mundo, a sociedade, o ambiente e a natureza.
O homem afirma-se como ser distinto da natureza. Na sua autonomia reside a sua verdadeira
liberdade, em decorrência de sua formação. A passagem do ser natural para o ser cultural é dada pela ação
humana, “a cultura é a presença humana efetivada no espaço social e na história”[8]. O homem, ao interferir
no funcionamento da natureza, e ao assumir o controle de seus instintos, gera uma ruptura entre o universo
natural e as práticas humanas, denominadas também de universo cultural. Segundo Oliveira (2006, p. 13,14)
cultura “é o resultado da ação efetiva do ser humano no mundo. Por suas ações homens e mulheres
convertem a natureza em cultura, incorporando-a a história, transformam não só a natureza, mas modificam
continuamente o que já foi transformado”.
O século XX é caracterizado pelo questionamento de antigos paradigmas sedimentado na
temporalidade da história, cujo pensamento lógico-formal se encontra organizado em oposições binárias.
Estas oposições binárias sempre privilegiam o primeiro termo com relação ao outro, uma dependência
hierárquica secundária, de inversão negativa. Este elemento negativo teve variadas denominações na relação
cultural como: marginal, homossexual, estrangeiro, deficiente. Por mais significativos que sejam os estudos e
esforços em reconstruir suas distâncias e proximidades, esta relação continua ainda marcada pelo exercício e
[1]
JEAGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes< 2001. p. 5.
[2]
FALCON, Francisco. História cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002.
p. 61.
[3]
BEALS, Ralph; HOIJER, Harry. Introdução a la antropologia. Madrid: Aguilar, 1971. p. 707).
[4]
SANTAELLA, Lucia. O conceito de cultura revisitado. In: Conexão – comunicação e cultura. Caxias do Sul: Educs,
2002.
[5]
Idem, p. 178.
[6]
Idem, p. 181.
[7]
EDGAR, Andrew, SEDGWICK, Peter. Teoria Cultural de A a Z: conceitos-chave para entender o mundo
contemporâneo. São Paulo: Contexto, 2003. p. 75).
[8]
PAVIANI, Jayme. Cultura, Humanismo e Globalização. Caxias do Sul: EDUCS, 2007. p. 73.
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a prática de domínio e de poder. É neste contexto de questionamento de antigos paradigmas que surgem os
Estudos Surdos, conjunto de estudos na área da surdez que agregam pesquisadores surdos e ouvintes. Sua
principal característica é perceber a surdez como uma diferença que cria identidade e coesão por parte de um
grupo, e ao mesmo tempo, o situa dentro de determinados discursos, os quais permitem que seus membros
sejam percebidos e narrados de diferentes maneiras.
Segundo Lopes[9], a expressão “Estudos Surdos” é originária da tradução do termo Deaf Studies,
realizados principalmente nos Estados Unidos, tendo como um dos precursores o lingüista Willian Stokoe.
Ainda na década de 1960, Stokoe descreveu a Língua Americana de Sinais como língua natural dos surdos, e
posteriormente, na década de 1980, produziu estudos sobre as relações entre comunidade, cultura, língua e
comunicação. De maneira geral, os Deaf Studies foram bastante influenciados pelos Disability Studies, e
podem ser definidos como “um campo necessariamente irregular de estudos filosóficos, literários, políticos,
culturais, etc., que propõe inicialmente descolonizar e desconstruir o aparato de poder e de saber que gira em
torno daquilo que naturalizamos como o outro deficiente”[10].
Partindo do próprio sentido etimológico da palavra cultura como cultivo, conforme já mencionado
anteriormente, é possível afirmar que ela só é possível quando cultivada dentro de um determinado grupo e
na relação deste com os outros grupos. No caso dos surdos, o grupo que possibilita a troca intercultural e
intersubjetiva é a comunidade surda. Nesta comunidade podem estabelecer um processo de comunicação
entre si, compartilhar seus valores, suas crenças, a sua forma de percepção, bem como, narrar as suas
vivências, é um espaço privilegiado para a construção da identidade, mais do que na própria família, onde
muitas vezes vivem como estrangeiros, num território de ouvintes que não sabem sua língua.
Como se percebe, o pensamento ocidental, herdeiro da cultura grega, está baseado na falsa idéia da
identidade que exclui a diferença. Nesta concepção a diferença foi considerada como uma estrutura binária,
cujos elementos estariam em simples oposição, tais como, mente /corpo, natureza/cultura, presença/ausência,
normal/anormal, tendo como finalidade assegurar e garantir as identidades fixas, homogêneas, estáveis. No
discurso contemporâneo a diferença é abordada nas mais variadas relações, a saber: étnicas, geracionais, de
gênero, físicas e mentais. Tais estudos são realizados com a intenção de compreender a construção dos
processos identitários relativos à diferença.
4. Conclusão
Certos da necessidade de colocar o pensamento num contínuo movimento, obrigando a rever conceitos
sedimentados culturalmente, uma análise mais aprofundada permite visualizar outras estruturas de
sociedades consideradas como “minoritárias”, não a partir da possibilidade de torná-las iguais e homogêneas,
mas a partir de sua diferença, diferença esta, que difere dentro de si própria. Isto permite pensar que, se a
primeira bandeira a ser levantada pelos movimentos surdos era a de serem reconhecidos como grupo cultural
diferente, hoje já não basta olhar apenas para a diferença que os marca e os insere em determinados
discursos, mesmo porque, o próprio grupo de surdos difere dentro de si mesmo. Ou seja, o surdo não é
diferente somente do ouvinte, mas também de outros surdos, que também são marcados por outras
identidades. Daí a impossibilidade de se tentar caracterizar de maneira singular „uma cultura‟, „uma
identidade‟, „uma única forma de ser surdo‟. Desta maneira, é possível além de pensar estes grupos fora da
relação tradicionalmente binária, na qual normalidade e anormalidade tinham uma relação opositiva
hierárquica, pensá-los também, a partir da multiplicidade que os constitui.
Este pensamento direciona-se à coexistência dos termos em oposição. Isto não implica dizer que os
termos deixam de ter uma relação binária, mas sim, o que se estabelece é uma incessante alternância de
primazia de um termo sobre o outro, abrindo espaço para outras possibilidades e novos conceitos que não se
deixam apreender pela dicotomia tradicional, produzindo deste modo, uma situação de constante indecisão.
Este pensamento conduz a um âmbito não de contradição entre os pares opostos, nem a uma lógica que
sempre nos retêm no „isto ou aquilo‟, mas a uma transição constante e simultânea entre os elementos. Ou
seja, não é nem um, nem outro, são os dois ao mesmo tempo.
Referências
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EDGAR, Andrew, SEDGWICK, Peter. Teoria Cultural de A a Z: conceitos-chave para entender o mundo
contemporâneo. São Paulo: Contexto, 2003.
FALCON, Francisco. História cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro:
Campus, 2002.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Rochele Rita Andreazza Maciel*; Viviane Catarini Paim2; Orientadora: Prof. Dra. Flávia Brocchetto Ramos3
1
Universidade de Caxias do Sul
2
Universidade de Caxias do Sul
3
Universidade de Caxias do Sul
1. Introdução
Este trabalho tem o objetivo de apresentar um tema bastante de relevância para a educação: O
Projeto Político-Pedagógico da escola. A partir deste tema, tecer relações com a linguagem e com o conceito
de autonomia em Rousseau.
Sabe-se, porém, que o Projeto Político-Pedagógico já foi tema de estudos e referências por vários
teóricos do campo educacional. Estes estudos nos apresentam definições, conceitos, aspectos referentes à sua
construção, sua importância, sua relação tempo-espaço e outros fatores essenciais para a compreensão da
existência do mesmo, entendendo-o como um documento formal do processo educativo, ou melhor, como o
ponto de partida para os planejamentos e estratégias de ação. Entretanto, neste trabalho, não nos cabe repetir
estudos acerca do Projeto Político-Pedagógico, mas apresentá-lo de uma maneira no qual se possa
estabelecer relações com os estudos da Filosofia, especificamente em Rousseau e também com estudos na
área de Linguagens.
Justifica-se a escolha deste tema pelo fato de que, como educadoras presentes na escola, o Projeto
Político-Pedagógico torna-se o instrumento que dirige nossas ações e que indica que estratégias planejar para
uma determinada comunidade escolar, com sua realidade e seu contexto. Também, como estudantes nas
áreas de Filosofia e Linguagens, relacioná-lo a estes estudos torna-se bastante importante já que os teóricos
estudados apresentam conceitos e definições que podemos utilizar em várias ações e práticas cotidianas,
principalmente no processo educacional.
2. Método
O método utilizado neste estudo foi a pesquisa descritiva.
3. Resultados e Discussão
Rousseau (1999, p. 9) acredita que a educação é uma arte do indivíduo que começa no seu
nascimento e se prolonga por toda a vida, e tem como finalidade desenvolver um ser humano livre e
autônomo. Essa educação é fundamental e deve ser seguida desde a infância, porque a liberdade é definida
como possibilidade de independência e de autonomia. Ensinar o sujeito a viver e aprender a exercer a
liberdade. Pode-se dizer que a função da educação se caracterizava por uma concepção de mundo baseada na
igualdade, no respeito ao indivíduo, não impondo a este nenhum padrão institucional de aprendizado que o
moldasse ao ambiente social vigente. A educação deveria ser desenvolvida no cotidiano dos afazeres
laborais, sem restrições ou métodos preestabelecidos. A liberdade e a igualdade, propostas no método de
Rousseau, evidenciavam o sonho de construir uma sociedade democrática que só poderia ser concretizada
com o desenvolvimento de uma educação plena.
Neste sentido, a autonomia é constituída como prática político-pedagógica, prática essa cujo foco
central é o próprio fortalecimento da instituição escolar. Porém, se retomarmos ao significado etimológico do
termo autonomia, como nos ensina Bobbio (1986, p.26), verificamos que a discussão sobre o
* 2:
Rochele Rita Andreazza Maciel: [email protected] Viviane Catarini Paim [email protected]
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desenvolvimento e o exercício da autonomia no âmbito da política implica uma discussão sobre a própria
construção da noção de democracia desde Rousseau:
[...] para quem o princípio inspirador do pensamento democrático sempre foi a liberdade,
entendida como autonomia, isto é, como a capacidade de uma sociedade de dar leis a si
própria, promovendo a perfeita identificação entre quem dá e quem recebe uma regra de
conduta, eliminando, dessa forma, a tradicional distinção entre governados e governantes
sobre a qual se fundou todo o pensamento político moderno.
Portanto, o reconhecimento da autonomia como valor intrínseco à vida escolar funda-se na liberdade,
condição indispensável à prática democrática. Note-se que a escola, como instituição social inserida no
tecido da esfera pública da sociedade, não pode deixar de dar a si mesma as normas e as condições que a
conduzem à realização de seus fins político-pedagógicos. A autonomia pedagógica, compreendida como a
liberdade de cada escola construir o seu projeto pedagógico, tem caráter limitado já que, em muitos casos,
tais projetos são elaborados de acordos com critérios de produtividade definidos previamente pelos órgãos
centrais e garantidos pelos processos de avaliação.
Não se trata de fazer uma “anamnese” do conceito de autonomia, como se ele pudesse se revelar,
trazendo uma boa nova. Nem mesmo desencontrá-la, dado uma vontade errante e perversa. Uma exposição
sim, em cujo devir contemple singularidades num espaço público.
Por isso, a prática da autonomia não pode e nem deve ser auto-referente, mas referente ao contexto
do sistema educativo do qual a escola é parte constituinte, e ao contexto social, político, econômico e
cultural, no qual não apenas a escola está inserida, mas o próprio sistema de políticas educacionais. Assim, o
exercício da autonomia na escola na perspectiva da participação de seus indivíduos no processo de decisão
das políticas educacionais a serem implementadas no âmbito do sistema de ensino fazem parte de tornar um
dos objetivos de Rousseau: tornar o homem um cidadão.
4. Conclusão
A educação pela liberdade é, ao mesmo tempo, uma educação para a liberdade. Para conduzir uma
vida de homem livre é preciso superar as formas de dependência estabelecidas com os outros homens. Se a
dependência em relação às coisas não é incompatível com a liberdade, a submissão aos seres da mesma
espécie é um obstáculo que a anula.
A educação para Rousseau não é uma tarefa que se limita ao ambiente escolar, a programas ou a
instituições específicas, mas, sim, uma ação global de desenvolvimento do homem em todas as suas
necessidades. Desse modo, pensar somente na tarefa escolar, propriamente dita, especificamente àquela
inserida no Projeto Político-Pedagógico, torna-se insuficiente para educar o homem.
O Projeto Político-Pedagógico torna-se, neste sentido, um importante norteador das práticas
pedagógicas, mas não podemos reduzi-lo ao ideal de educação defendido por Rousseau. É obstante
considerá-lo como um documento legal da escola, mas, acima de tudo, como um planejamento das ações
educativas em prol da formação de homem que a escola pretende atingir.
Relacionado ao aspecto lingüístico, é construído com suas próprias características lingüísticas,
apresentando suas intenções e interesses específicos. Desse modo, pode ser claramente definido como um
gênero textual e, como gênero, possui uma função importante: informar e estabelecer uma comunicação
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social.
É importante ressaltar que, além de ser um instrumento comunicativo e intencional de futuras
ações, deve, ou deveria, por assim dizer, tornar-se, conforme Rousseau, um documento que contemple a
formação de um ser humano livre e autônomo. Porém, esta educação não se resume somente à tarefa escolar,
mas a escola, entendida como uma instituição formadora deve, no seu alcance, proporcionar esta autonomia,
estabelecendo e clarificando que a prática desta autonomia deve estar vinculada em respeito aos demais.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. 5ª ed. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1986.
COLETTI, Luciana. Sociedade e Política. Estudo sobre a natureza humana em Jean – Jacques Rousseau.
Passo Fundo: IFIBE, 2006.
CERIZARA, Beatriz. Rousseau: a educação na infância. Pensamento e ação no magistério. São Paulo:
Editora Scipione, 1990.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários á prática educativa. São Paulo: Paz e Terra,
1996.
MARCUSCHI, Luiz Antonio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONISIO, Angela Paiva.
BEZERRA, Maria Auxiliadora. MACHADO, Ana Rachel. Gêneros Textuais & Ensino. 3. ed. Rio de
Janeiro: Lucerna, 2005.
PAIVA, Wilson Alves de Paiva. Homem e cidadão na obra pedagógica de Rousseau. Cadernos de Educação
FaE/PPGE/UFPel | Pelotas [31]: 163 - 184, julho/dezembro 2008.
Projeto Político Pedagógico . Escola Estadual de Ensino Fundamental Jardim América. Vacaria, 2007.
ROUSSEAU, Jean Jacques. Emílio ou Da Educação. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro. FONSECA, Marília. (orgs.). As dimensões do projeto político-pedagógico:
novos desafios para a escola. 2. ed. Campinas, SP: Papirus, 2001.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro. Projeto Político-Pedagógico da escola: uma construção coletiva. In:
VEIGA, Ilma Passos Alencastro. (org.) Projeto político-pedagógico da escola: uma construção possível. 17ª.
ed. Campinas, SP: Papirus, 1995.
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RESUMO.
O objetivo deste artigo é chamar a atenção para os reflexos que a violência intrafamiliar contra
crianças e adolescentes pode acarretar na vida destes sujeitos, como a motivação para perpetuação
do ciclo da violência e ainda a inclusão no mundo da criminalidade. A apresentação da problemática
violência intrafamiliar se dará através da revisão bibliográfica visando embasar teoricamente o objeto
de estudo, bem como através dados levantados em pesquisas realizadas por diferentes teóricos. A
pesquisa realizada demonstrou que diversos estudiosos apontam á necessidade de se compreender
a relação entre subalternidade, violência e construção de identidade juvenil, uma vez que tal situação
é multiplicada quando trazida para dentro de casa, o que se denomina de violência intrafamiliar,
podendo tornar-se perpétua uma vez que os jovens tenderão a repassá-la para as gerações
seguintes com reflexos negativos na sociedade, formando um ciclo vicioso que precisa ser combatido
por todos.
1-INTRODUÇÃO.
Quando pensamos nas crianças e nos adolescente temos que ter em mente que se
tratam de seres humanos em fase de desenvolvimento de todas as suas aptidões e
capacidades e que para que possam atingir o máximo de suas potencialidades a ponto de
se tornarem adultos sociáveis e transformadores do mundo, é fundamental que tenham,
nesta fase, garantidos certos direitos considerados imprescindíveis, como o direito à saúde,
a habitação, a educação, a família, dentre outros inerentes a qualquer pessoa.
Partindo deste ponto, é fácil concluir que qualquer pessoa em fase de
desenvolvimento pessoal que sofra restrição nestes direitos terá reflexos negativos em seu
caráter. Os sentimentos de revolta social que se insurge em diversas famílias derivam das
suas condições materiais de existência, obviamente que tais condições não são
exclusivamente as determinantes da violência, mas somadas a outras podem levar a um
sentimento de ausência de pertencimento que pode desencadeá-la.
A família hoje é reconhecida como a primeira instância de socialização dos
indivíduos, independente das múltiplas configurações que possa se apresentar nos dias de
hoje, a família constitui-se como um ambiente onde se inicia o aprendizado e a construção
dos vínculos afetivos e sociais.[1]
2-METODO
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3-RESULTADOS E DISCUSSÕES
A pesquisa realizada indica que o mundo globalizado exige cada vez mais a
profissionalização das pessoas em diversos setores para que possam alcançar seus
empregos e assim a sua sobrevivência. Com isto, podemos concluir primeiramente que
somente conseguirá emprego e consequentemente a sua sobrevivência aquela pessoa que
tiver meios de profissionalizar-se, deixando à míngua aquelas cujas condições materiais lhe
impedem ou dificultam a profissionalização, bem como aquelas tem não tem acesso aos
serviços como escola, saúde etc.. Segundo esta lei ditada pelo mercado, quem pode
profissionalizar-se consegue os melhores empregos e sobrevive, ao contrário de quem não
tem a mesma sorte, ficando condenado ao desemprego e conseqüentemente à miséria.
Neste sentido, salienta Prates que:
Não há dúvidas de que a carência nutricional, resultado da situação de
extrema pobreza, ocasiona problemas muitas vezes irreversíveis ou no
mínimo limitadores ao processo de desenvolvimento físico e mental. Soma-
se a isto a mobilização da criança, prematuramente incluída nas ocupações
de baixa qualidade e insegurança, representando a supressão de seu
processo escolar e formativo, o que amplia a lesão ao seu desenvolvimento
físico, cultural e psicológico.[2]
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4-CONCLUSÕES
Quando pensamos na construção da identidade juvenil e o avanço da violência, nos
reportamos a alguns pesquisadores como Larissa Silva, a qual afirma que os adolescentes
de classe proletária pelo fato de terem que ir trabalhar mais cedo para ajudar no sustento da
casa não chegam nem a concluir o ensino fundamental. Sua adolescência é mais curta
tornando-se adulto mais cedo, com grandes responsabilidades, principalmente econômicas.
Estes adolescentes, não recebem quase nenhuma atenção e estímulos sobre os problemas
próprios da adolescência, passando despercebido aos olhos de muitos pais, tornando-se
carentes de afeto e atenção.[4]
As preocupações que incidem sobre o adolescente são de caráter imediato e
prático, de luta pela sobrevivência. Nesta caminhada de responsabilidades que são
transferidas para ele, muitas vezes não estando preparados, os deixam confusos e ao
mesmo tempo frustrados. Este amadurecimento precoce estimula uma série de fatores,
como fumar, beber, iniciar a vida sexual mais cedo, dentre outras características assumidas
por muitos adultos, tendendo a desenvolver sentimentos relacionados ao rebaixamento da
auto-estima, fator este definido pelos diversos autores estudados como precursor da
violência. (idem, op cit., p24)
REFERÊNCIAS
[1]-BRANT DE CARVALHO, Maria do Carmo. A priorização da família na agenda da
política social. In: KALOUSTIAN, S.M.(org.). Família Brasileira: a base de tudo. São
Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNICEF, 1998 p.93-96.
[2]-PRATES, Flávio Cruz. Adolescente infrator. 1ª Ed. (ano 2001), 7ª tir. Curitiba: Juruá, 2008pg.23.
[3]GOMIDE, Paula Inex Cunha. Menor infrator: A caminho de um novo tempo. 2ª Ed. (ano 1998), 9ª
reimpr. Curitiba: Juruá, 2009.p.39
[4}SILVA,Larissa.A importância dos vínculos familiares no processo de reinserção dos
adolescentes atendidos pelo PEMSE no município de Ponta Grossa-Pr,ao convívio Familiar
monografia de conclusão do curso de serviço social.Uepg,2009
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Natana Alvina Botezini¹*; Lucinéia Inês Weber 2; Maria Catarina Chitolina Zanini (orientadora)3
1
Universidade Federal de Santa Maria(UFSM)
2
Universidade Federal de Santa Maria(UFSM)
3
Universidade Federal de Santa Maria(UFSM)
1. Introdução
A proposta aqui apresentada faz parte do projeto de pesquisa denominado “Ferroviários em Cena:
etnicidade, trabalho e memórias operárias em Santa Maria-RS”, coordenado pela Profa. Maria Catarina
C.Zanini (CCSH-UFSM), ainda em execução e na fase de pesquisa documental no Arquivo Histórico de
Santa Maria e órgãos vinculados à Ferrovia na cidade.
O foco principal deste projeto de pesquisa está no estudo das relações étnicas no interior do universo
de trabalho ferroviário, de 1885, quando da criação da Rede Ferroviária, até os dias atuais. Pretende-se, por
meio desta perspectiva, contribuir para melhor conhecer as relações sociais locais e suas dinâmicas históricas
passadas e contemporâneas.
Este trabalho está centrado na pesquisa e análise das diferentes representações veiculadas
publicamente acerca da temática no jornal O Estado, no ano de 1903. A coleta de dados apresentados em tal
jornal, e sua posterior análise, mostram informações muito importantes, as quais trazem grande contribuição
para o projeto como um todo.
2. Método
O projeto se encontra em andamento, sendo que na fase atual a pesquisa está centrada nas análises de
material encontrado tanto no Arquivo Histórico de Santa Maria, no Museu Treze de Maio (antigo Clube de
trabalhadores ferroviários negros) e na Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea. Concluída esta fase,
partir-se-á para a fase onde serão ouvidas as “memórias” dos antigos trabalhadores da ferrovia.
Entendemos que a perspectiva de uma etnografia em arquivos é importante, pois nos remete a toda
uma série de estruturas de significado presentes na vigência do mundo do trabalho ferroviário na cidade.
Além da etnografia em arquivos (vide Castro, 2008), será realizada posteriormente a pesquisa
etnográfica nos espaços públicos da cidade, eventos, nas famílias de antigos ferroviários, para desta forma,
observar e analisar como se consolidava este “universo dos ferroviários de Santa Maria” e como ainda
mantém um forte poder de identificação e em que medida os critérios étnicos promoviam clivagens (ou não).
3. Resultados e Discussão
O projeto, neste momento apresenta uma quantidade significativa de material coletado, o qual foi
digitalizado e estará disponível para acesso de outros pesquisadores também interessados na temática.
Tomando que o jornal O Estado de 1903 apresentou 403 notícias acerca da temática “ferrovia”, o
exercício de análise do banco de dados tornou perceptível que as notícias referem-se constantemente à cerca
de dez categorias, como por exemplo, tomando a Estação da Estrada de Ferro por ponto de referência,
apresentando as linhas do trem (cidades por onde o mesmo fazia seu caminho), trazendo os horários das
viagens, entre outros.
A tabela abaixo mostra as dez mais frequentes situações onde é apresentada a temática e a quantificação
das notícias que foram apresentadas referentes à cada situação no decorrer do ano de 1903 pelo jornal O
Estado.
*
Autor Correspondente: [email protected]
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A categoria “outras” compreende várias situações que aparecem sem grande frequência, algumas sendo
presentes apenas uma vez em todo o ano de 1903.
4. Conclusão
A Estação Ferroviária pelo que se observou nas páginas do jornal O Estado no ano de 1903, era um
espaço privilegiado de trocas, de sociabilidade e também de circulação de pessoas, de recursos financeiros, de
prestígios e de preocupações.
Observando-se os casos onde figuras ilustres fazem suas viagens utilizando o transporte ferroviário,
percebe-se que, a ferrovia se torna símbolo de status social. Além disso, a sensação de “segurança” de que o
trem estaria em determinados horários na Estação e levaria seus passageiros para determinado local ou então,
que levaria ou traria suas encomendas, modifica muitos pontos da vida dos indivíduos direta ou indiretamente
envolvidos.
Na fase onde a pesquisa se encontra já se pode observar o quanto a Ferrovia e seus mundos (do
trabalho, de sociabilidade, de mercado, entre outros) representaram para a história da cidade de Santa Maria e
de seus habitantes.
Referências
CASTRO, C. Pesquisando em arquivos. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
FLÔRES, J. R. A. Profissão e experiências sociais entre trabalhadores da Viação Férrea do Rio Grande do
Sul em Santa Maria (1898-1957). 2005. 325 f. Tese (Doutorado em História) - Curso de História,
Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo. 2005.
FLÔRES, J. R. A. Fragmentos da história ferroviária brasileira e rio-grandense: fontes documentais,
principais ferrovias, Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Santa Maria, a “Cidade Ferroviária”.
Santa Maria: Pallotti, 2007.
FLÔRES, J. R. A. Os trabalhadores da V.F.R.G.S.: profissão, mutualismo, cooperativismo. Santa Maria.
Santa Maria: Edusfm, 2008.
Agradecimentos
Agradecemos às instituições de apoio à pesquisa (CNPQ, FAPERGS, FIPE) que através do apoio
financeiro deram condições para a realização de tal projeto.
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Agradecemos também aos atendentes do Arquivo Histórico de Santa Maria, do Museu Treze de Maio
e da Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea pela cooperação e ajuda, sem as quais a presente
pesquisa não seria possível. A todos nossos sinceros agradecimentos.
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1. Introdução
A economia solidária ao longo dos últimos anos vem ganhando destaque nos estudos acadêmicos.
Grande parte dos estudos produzidos no campo das Ciências Sociais sobre o tema advém de estudos
sociológicos. Após a leitura de diversos trabalhos produzidos, diferentes dúvidas surgiram, mas uma em
especial permaneceu sem resposta: Como os sujeitos inseridos na prática dita solidária dão sentido a ela?
Essa inquietação me conduziu a buscar respostas através de uma abordagem antropológica sobre o tema.
O tema deste trabalho são as representações acerca das noções e das práticas que são identificadas
como “economia solidária”. Procuro analisar os valores conferidos à economia solidária em suas diferentes
formas de expressão, que serão analisadas sob três formas distintas: as construções conceituais, os estudos
acadêmicos, tais como teses e artigos e, por fim, as práticas de trabalho. Analisar as diferentes formas de dar
sentido ao mesmo conceito nos permitirá compor um entendimento sobre o que é economia solidária para
seus agentes.
Segundo os autores que tratam o tema, tais como Paul Singer (2002) [1] Luis Inácio Gaiger (2004)
[2] e França Filho e Laville (2004) [3], o reconhecimento da existência da economia solidária como
fenômeno social é recente no Brasil. Os empreendimentos alternativos ganharam força somente a partir dos
anos de 19902, em consequência do agravamento do desemprego, resultante da abertura do mercado interno
às exportações. Já o conceito de economia solidária surge no Brasil apenas em 1996, sendo utilizado pela
primeira vez por Paul Singer3, no intuito de identificar os empreendimentos autogeridos, democráticos e
solidários existentes e classificá-los por um único nome. (Singer, 2002)
Não existe consenso sobre o significado da expressão “economia solidária”. Diversos autores
engajados na difusão dessa proposta travam debates teóricos em torno das diferentes interpretações. Porém,
Paul Singer (2002), Luis Inácio Gaiger (2004) e França Filho e Laville (2004) apresentam como traço
comum, a tentativa de resgatar os princípios cooperativistas formulados no início da Revolução industrial
pelos chamados Socialistas Utópicos4. Essa proposta inicial buscou a criação de cooperativas, geridas pelos
próprios trabalhadores, como forma de luta contra as precárias condições de trabalho e o desemprego em
massa existente na época. Essas ações deram origem, no início do século XIX, ao movimento Internacional
do Cooperativismo5.
Além dos trabalhos com caráter mais engajado, diversos trabalhos sobre o tema da economia
solidária já foram produzidos no campo acadêmico das Ciências Sociais no Brasil. Em sua maioria, eles
objetivaram estudar essa temática enquanto objeto empírico. Buscarei analisar esses tipos de trabalhos com
objetivo de identificar os elementos do debate sobre o tema no campo acadêmico.
A leitura dos diferentes autores que buscam refletir sobre os conceitos de economia solidária,
juntamente com as produções do campo acadêmico das Ciências Sociais nos ajudará a construir o contorno
deste objeto de pesquisa em sua dimensão conceitual. Nessas duas frentes de pesquisa utilizaremos o método
etnográfico, utilizando como técnica de pesquisa a análise documental das obras, livros e artigos sobre
economia solidária, tratados como informantes que se expressam na forma escrita.
Em outra frente de investigação, objetivamos revelar os sentidos conferidos pelos atores inseridos
em experiências concretas de trabalho, que são identificados ou se identificam com a economia solidária.
Propõe-se, assim, um estudo etnográfico que está sendo desenvolvido em duas cooperativas6 que habitam um
mesmo prédio no centro de Porto Alegre, a COOPERCOSTURA - Cooperativa de Trabalho em Costura e a
COOPUNIS - Cooperativa dos Universitários Solidários.
* (e-mail: [email protected]).
2
Antes do surgimento do conceito da Economia Solidária em 1996, esses empreendimentos eram
considerados pertencentes à economia informal.
3
Atualmente, Singer é o responsável pela Secretaria Nacional de Economia Solidária.
4
Robert Owen, Fourier e Saint-Simon.
5
Movimento Internacional do Cooperativismo compreende os seguidores dos princípios de Robert Owen, as
chamadas sociedades cooperativas ou também “aldeias cooperativas”. Também baseados nas concepções
de Fourier e Saint-Simon. (SINGER, 2002).
6
Tanto a COOPERCOSTURA quanto a COOPERUNIS são nomes criados para resguardar a privacidade
dos grupos estudados.
67
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2. Método
A divisão em três frentes de pesquisa nos permite compreender distintas fontes de dados, que nos
informam sobre as diferentes dimensões existentes. Essas dimensões serão entendidas como diferentes níveis
de representação. Segundo Magnani (1986) [4] representação é o resultado de uma imagem mental dos
atores, “(...) capaz de, uma particular combinatória – sintática e semântica – que junta esses pedaços e
constrói uma dimensão capaz de conferir sabor e autenticidade a esses depoimentos.” (MAGNANI, 1986).
Busco inicialmente compreender como é apresentada a economia solidária enquanto conceito. Para
isso objetivo mapear os principais significados atribuídos por diferentes autores. Os autores escolhidos são
Singer (2004), Gainger (2004) e Laville (2004), eles irão compor nossa primeira frente de investigação.
Os autores escolhidos para compor essa dimensão conceitual possuem como estratégia comum a
construção de seus conceitos através da oposição. Seja uma oposição aos valores considerados capitalistas,
seja a oposição de conceitos afins, tais como economia familiar, terceiro setor, economia informal, economia
popular, entre outros.
Com o objetivo de pensar esta estratégia de construção conceitual, é produtiva a referencia ao estudo
de Louis Dumont (2000) [5]. Esse autor nos permite propor um entendimento relacionado à noção “economia
solidária” em termos simbólicos. Buscaremos pensar “economia solidária” como um conjunto de valores
pensados em diferentes níveis de representação. Se pensarmos que por trás da formulação conceitual que
pretende os idealizadores da “economia solidária”, o termo “solidária” carregaria uma tentativa de inserir um
valor moral nessa definição. Seguindo esse raciocínio, é possível discutir essa noção em termos valorativos.
Isso nos permitiria apontar que a origem do próprio conceito “economia solidária” reflete uma tentativa de
diferenciação em relação ao conceito econômico tradicional. Isso nos permite pensar essas construções como
ideologia nos termos de Dumont. Reuniremos esses dados em uma categoria chamada de “especialistas
engajados”.
Além dos trabalhos com caráter mais engajado, diversos trabalhos já foram produzidos no campo
acadêmico das Ciências Sociais no Brasil. Em sua maioria objetivaram estudar “economia solidária”
enquanto objeto empírico. Nossa segunda frente de investigação incluirá esses debates sobre o tema
“economia solidária” produzidos no campo das Ciências Sociais, inserindo novas questões no plano
conceitual. Chamaremos essa categoria de “acadêmicos”. No presente trabalho, essas duas primeiras frentes
de pesquisa nos informam sobre o nível de representação: o dizem sobre economia solidária.
Em nossa terceira frente de investigação, objetivamos revelar os sentidos conferidos pelos atores
inseridos em experiências de trabalho. Propõe-se assim, um estudo etnográfico que ocorrerá em duas
cooperativas que habitam um mesmo prédio, a COOPERCOSTURA Cooperativa de trabalho em costura e a
COOPUNIS Cooperativa dos Universitários Solidários. A análise dos dados da nossa terceira frente de
pesquisa será apresentada com a utilização dos conceitos de Roberto DaMatta (1985) [6].
Os conceitos de “indivíduo” e “pessoa” de DaMatta (1985) serão de importância crucial, pois
identificam de onde partem os discursos e como são construídas as lógicas discursivas sociais permeadas por
questões valorativas. Esses conceitos nos remetem, portanto, a uma dimensão de classe. Essa dimensão é
muito importante para pensar a dimensão da prática da economia solidária na realidade brasileira, permeada
pelo fenômeno da exclusão e da desigualdade social. Chamaremos essa categoria de “práticas
cooperativas”. Essa nossa terceira frente de investigação, nos informa sobre a representação de: como
fazem economia solidária.
Buscaremos conduzir o presente trabalho, mapeando os diferentes fragmentos de representação, para
posteriormente hierarquizá-los e distingi-los, buscando assim identificar como é pensada Economia
Solidária. Será a busca pelos núcleos de questões presentes em cada esfera, que pensamos ser possível
identificar os elementos culturais e ideológicos, responsáveis por articular e combinar essa diversidade de
representações. Problematizar os princípios constituintes dessa noção chamada “economia solidária”,
perceber como esses elementos são arranjados na construção conceitual e prática e quais os valores surgem
no cotidiano do trabalho cooperativo é a contribuição antropológica a que este trabalho se propõe.
3. Resultados e Discussão
O presente trabalho encontra-se em processo de elaboração, porém é possível apontar alguns
resultados no que diz respeito a nossa primeira frente de pesquisa, que compreende o estudo sistemático de
três autores conceituais, que formam nossa categoria “especialistas engajados”.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Na categoria “especialistas engajados” é possível perceber que muitos valores utilizados pelos autores
coexistem nas três propostas conceituais, tais como: autogestão, autonomia, solidariedade, igualdade,
democracia, liberdade. Porém, o que os diferencia na leitura dos autores é a capacidade que esses valores
possuem de se confrontarem ou se inserirem na realidade, seja ela revolucionária (Singer), plural (Laville) ou
em processo de construção (Gaiger).
Quando comparamos as propostas conceituais, é possível revelar o que Dumont (2000) chamou de
“elementos implícitos da ideologia”. Ao revelarmos os valores que dão sentido às propostas de economia
solidária, é possível afirmar a centralidade da discussão da categoria “economia” nas propostas conceituais
desses autores. Essas propostas apontam para construções ideológicas comuns, existentes na ordenação e
hierarquização de alguns valores presentes nessa dimensão de representação, em relação ao que entendem
por “economia” e por “solidária”.
Mesmo os autores propondo concepções que se inserem de formas diversas na realidade social, a
centralidade na discussão do papel da “economia” é um dado extremamente revelador nas três propostas
conceituais de economia solidária.
Segundo aponta Dumont (2000), a economia é resultado de uma construção social, e para entender
em que ela consiste e buscar a sua essência, é necessário procurá-la “na relação entre o pensamento
econômico e a ideologia global, ou seja, no lugar do econômico na configuração ideológica geral” (Dumont,
2000: 38).
Assim, quando os três autores constroem seus conceitos de economia solidária, mesmo que
apresentem tentativas de inclusão ou articulação das dimensões moral e política, a economia permanece
ainda como uma categoria descolada do tecido social. Dumont (2000) apresenta que o valor principal da
ideologia moderna é o indivíduo.
Não é difícil perceber por trás das palavras “liberdade” e “igualdade” o substrato, a
valorização do indivíduo. O mesmo procedimento ocorre na maior parte do tempo:
somente os predicados são expressos, Não os sujeitos. Conseguimos pôr em
evidência este último, no caso presente, isolando o indivíduo como valor (...)
(DUMONT, 2000 p. 32).
No plano conceitual, é possível perceber, nas propostas de Singer, Gaiger e Laville, a busca pela
construção de novas práticas econômicas, orientadas por valores, mas que independente da sua capacidade
de superar o modelo econômico vigente, mantêm o indivíduo como valor principal.
Esse indivíduo não é mais concebido como individualista e egoísta, seguindo a concepção do homo-
economicus de Adam Smith (1896)7. Na atual proposta da economia solidária, existiria uma concepção de
“indivíduo solidário”. Ou seja, os valores “liberdade” e “igualdade” permanecem, mas agora somados a
valores que fazem referência à solidariedade.
(...) a emergência de uma “representação coletiva” no sentido de uma relação ou
de um conjunto de relações. Quer essas relações apareçam freqüentemente, quer
esclareçam outras relações ou representações, constituem, segundo todas as
aparências, uma manifestação particular – que pode ser inicial para nós – de um
fenômeno verdadeiramente ideológico. (DUMONT, 2000 p. 31)
4. Conclusão
Essa questão do “indivíduo”, elemento comum nas propostas conceituais do “especialistas engajados”
constitui exatamente nosso ponto de reflexão para pensar a realidade brasileira. Assim, essa primeira
dimensão de representação nos permite acessar as construções conceituais, captar os valores inseridos em
três propostas conceituais, que servirão de parâmetro para enxergar as práticas cooperativas. Além disso, nos
permite perceber que existe uma concepção de “indivíduo” comum nas propostas conceituais, e esse dado
constituirá um dos principais elementos para a construção das análises da dimensão prática no que diz
respeito ás práticas cooperativas.
Referências
[1] SINGER, Paul. Desenvolvimento Capitalista e Desenvolvimento Solidário. Estudos Avançados. São
Paulo, n.18. 2004.
7
Segundo Adam Smith (1896) o conceito de Homo-econômicos apresenta a definição de homem
naturalmente propenso à barganha, um ser egoísta e racional.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[2] GAIGER, Luiz Inácio. A economia solidária no Brasil e o sentido das novas formas de produção não
capitalista. CAPAYA Revista Venezoelana de Economia Social. No 8, Ano 8, Venezuela, 2004.
[3] FRANÇA FILHO, Gerauto Carvalho de e Laville, Jean-Louis. A Economia solidária: uma abordagem
internacional. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2004.
[4] MAGNANI, José Guilherme Cantor. Discursos de representação ou como os baloma de Kiriwana
podem reencarnar-se nas atuais pesquisas. In. CARDOSO, Ruth (Org.) A Aventura Antropológica Teoria
e Pesquisa. Paz e Terra. São Paulo, 1986.
[5] DUMONT, Louis. Homo Aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômica. São Paulo. EDUSC,
2000.
[6] DA MATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo,
Brasiliense, 1985.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A presente pesquisa “As representações sobre os novos migrantes brasileiros rumo a Europa:
gênero, etnicidade e preconceito” tem por objetivo analisar a dinâmica das novas migrações internacionais
(dando atenção especial ao caso dos novos migrantes brasileiros na Europa ) a partir das imagens e
representações construídas sobre os migrantes contemporâneos na mídia nacional e internacional e como
essas imagens na mídia nacional e internacional, tendo como objetivo analisar como as questões relativas à
migração são abordadas na imprensa e em que medida essas imagens reforçam ou não o processo de
criminalização das migrações, o qual tem se intensificado principalmente após os atentados de 11 de
Setembro de 2001 nos EUA. Em função de novas tecnologias e novas dinâmicas culturais, políticas e
econômicas, ocorre uma intensificação da fluidez de mercadorias, informações e pessoas de para
teoricamente, qualquer parte do mundo. Assim, é forte a argumentação dos que defendem que há um
enfraquecimentos das fronteiras. Por outro lado, teóricos como Helio Povoa Neto (2005) defendem que na
verdade esse fluxos populacionais estão extremamente cerceados e seletivos.
Apesar de o fluxo migratório ser mais intenso nos dias atuais do que no fim do século XIX, essas
migrações internacionais hoje são encaradas como ameaças principalmente na América do Norte e na
Europa. Para Povoa Neto (2007) e diversos autores, a criação de imagens negativas com relação aos
migrantes tem relação direta e fundamental com os meios de comunicação em massa.
A presente pesquisa utiliza este contexto para então analisar experiências dos imigrantes na Europa
e Estados Unidos, principalmente brasileiros. A pesquisa abrange em primeiro momento o caso da morte do
brasileiro Jean Charles de Menezes em Londres que suscitou discussão em relação a imigração na Europa.
Em seguida, foram analisadas as representações da mulher brasileira imigrante na Europa e como são
tratadas pela mídia de massa. Sobre a mídia, foram ainda analisados os históricas das principais fontes
jornalísticas dessas notícias, com o a BBC.
2. Método
A metodologia utilizada consistiu em revisão bibliográfica e discussão em grupo da literatura,
além de levantamento, análise e catalogação de reportagens e notícias disponíveis on-line.
3. Resultados e Discussão
Através da revisão bibliográfica, foi perceptível forte fator da negativização dos processos
migratórios, veiculados através da mídia de massa, presente através de grandes telejornais, jornais e revistas,
disseminando a imagem falsa de que esse fluxo migratório é algo novo, além de fortalecer a idéia de que a
migração é uma ameaça que deve ser combatida e legitimando o preconceito étnico, de gênero e discurso
xenófobo.
Bigo (2004) escreve sobre o fortalecimento de um discurso onde o imigrante aparece como invasor
e ameaça a segurança da sociedade. A mídia fortalece esse discurso fornecendo matérias onde se associa este
imigrante a terrorismo, criminalidade e crise do estado de bem social. Mas pouco se fala, porém que este
mesmos imigrantes são vítimas dessa criminalização em suas sociedades de acolhimento e enfrentam
conseqüências como salários cada vez mais baixos e sem ter como lutar por direitos trabalhistas. Afinal, este
processo de fragilização do migrante e sua cidadania atende aos objetivos de determinados de governos e
grupos econômicos que são favorecidos em sua busca de mão de obra barata.
Em pesquisa no website do www1.folha.uol.com.br, ou Folha Online, procurando por palavras
chaves como brasileiros, brasileiras, imigrantes, Europa, Espanha, Portugal, barrados, deportação, etc.
encontramos reportagens de 2008 que tratassem do tema dos migrantes na Europa, em especial os brasileiros.
Como resultado obtivemos cerca de mais de 200 reportagens. As matérias foram catalogadas e divididas em
categorias como Conflito Brasil-Espanha de 2008, Jogadores de Futebol, Leis e Políticas Migratórias,
Deportações, Prostituição, Xenofobia Etc.
A partir destas reportagens, podemos constatar que as imagens e representações das mulheres
brasileiras imigrantes na imprensa européia caracterizam uma mulher exótica e sexualizada de forma a
*
Kim Knoche: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
inferiorizá-las através da ligação das mesmas com estereótipos de trabalhadoras da indústria do sexo e
casamentos por interesse. Alguns exemplos de reportagens encontradas (as notícias podem ser encontradas
no site www.folha.uol.com.br) :
- PF prende suspeitos de levar brasileiras para prostíbulos italianos;
- Polícia italiana desmonta rede com prostitutas e travestis brasileiros;
- Procuradoria no ES denuncia quadrilha por exploração de prostituição na Europa;
- Brasileiros são presos na Itália acusados de explorar travestis;
- Prostitutas fazem promoção “pague 3, ganhe 1” na Itália.
4. Conclusão
Podemos concluir que o ano de 2008 pode ser classificado como um momento ruim em relação a
cidadania nos migrantes internacionais, que contraria o falso discurso democrático de um mundo dito
globalizado e de fácil acesso quando na verdade ressurge um certo nacionalismo.
No que tange a representação da mulher brasileira migrante, é perceptível que ao aparecerem na
mídia de massa, são associdas a questão de tráfico de mulheres, prostituição e passam a imagem de extrema
sexualização que gera desrespeito. Analisando históricamente, essa sexualização negativa da brasileira
associa-se diretamente a subordinação brasileira à Europa, preconceito étnico que acaba por fortalecer esse
discurso de ampliação das práticas de controle, vigilância e discriminação aos novos migrantes
internacionais.
Além disso, essa disseminação negativa da imagem dos imigrantes, gera um cidadão fragilizado e
incapaz de lutar por seus direitos sociais e trabalhistas e de forma preocupante, essa mesma mídia acaba por
corroborar o discurso xenófobo.
Defendemos, portanto, que se deve problematizar a atuação dos meios midiáticos para um melhor
entendimento de seus papel nos processos migratórios que ajudaria a combater desrespeitos aos direitos
humanos e liberdade dos migrantes.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Referências
BIGO, Didier. Criminalization of migrants: the side effects of the will to control the frontiers and the
sovereign illusion. University of Leicester, UK, June 2004. p.11.
POVOA NETO, H. Imigração na Europa: Desafios na Itália e nos Países da área mediterrânea. in Migrações
Internacionais: Desafios para o Século XXI – São Paulo: Memorial do Imigrante, 2007. (Série Reflexões, v.
1)
PÓVOA NETO, H. A criminalização das migrações na nova ordem internacional. In: Helion Povoa Neto;
Ademir Pacelli Ferreira. (Org.). Cruzando fronteiras disciplinares: um panorama dos estudos migratorios (no
prelo). 1 ed. Rio de Janeiro: Revan, 2005, v. , p. 297-309.
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Rúbia Machado de Oliveira [*]; Juliana Franchi da Silva1; Maria Catarina Zanini
1. Introdução
2. Método
A metodologia e estratégia usada para a pesquisa consiste pesquisa
etnográfica que esta sendo realizada no Arquivo Municipal de Santa Maria RS.
Entendemos, assim como Castro (2005, s.p.), que os arquivos devem ser
compreendidos como campos povoados por “sujeitos, praticas e relações
suscetíveis a experimentações sociológicas”. Ou seja, há muitas estruturas de
significado possíveis de serem empreendidas nos documentos. Pensamos o
jornal como um produto (Schwarcz 1987, p. 15), que descortina práticas e
relações sociais específicas em suas publicações. Foi por meio desta
perspectiva que lançamos um “olhar antropológico” nos escritos do O Estado
de 1902 com relação ao mundo ferroviário.
3. Resultados e Discussão
No momento a pesquisa se encontra em andamento, na fase de coleta
de dados, na qual estão sendo selecionadas, catalogadas e analisadas notícias
e reportagens impressas em periódicos que circulavam localmente. Por meio
[*]
Acadêmica do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Bolsista
CNPQ do projeto “Ferroviários em Cena”-etnicidade, trabalho e memórias operárias em Santa Maria-RS.
1
Mestre em Integração Latino-americana (MILA), pela UFSM, bacharel em Ciências Econômicas e em
Ciências Sociais, pela UFSM, especialista em Pensamento Político Brasileiro e em História do Brasil,
pela UFSM, licenciada em Filosofia, pela UFSM. Endereço Eletrônico: juliana. franchi@ hotmail.com
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4. Conclusão
A Estação Ferroviária pelo que se observou nas páginas dos jornais O Diário
do Interior 1919 e 1920, e o Estado 1902, era um espaço privilegiado de trocas,
de sociabilidade e também de circulação de pessoas, de recursos financeiros,
de prestígios e de preocupações, também foi possível observar, até o
momento, é que a Estação ferroviária e todo aquele universo ferroviário eram
uma referência para a cidade . Por meio dela se situavam os sujeitos, seus
locais de comércio, suas viagens, entre tantas outras referências. Com o passar
dos anos e surgem os problemas estruturais e financeiros e a ferrovia passa a
sofrer as conseqüências da crise dos transportes.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Referências
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MALABARES DE FLORIANÓPOLIS
1. Introdução
O presente trabalho foi elaborado para a disciplina de Antropologia ministrada na primeira fase do
curso de Biblioteconomia – Gestão da Informação da UDESC no ano de 2009 e consiste em uma observação
etnográfica. O trabalho de pesquisa com os malabares dos semáforos de Florianópolis ocorreu durante os
meses de maio/Junho de 2009, nos dias preferencialmente ensolarados.
O objetivo era conhecer os malabares (idade, naturalidade, grau de instrução), seu trabalho, o que
apresentam nas sinaleiras, como aprenderam, desde quando trabalham como malabares, quantas horas por
dia se dedicam, quantos dias por semana trabalham, quanto ganham em média, as motivações para este
trabalho e lugares que já conheceram..
A idéia era entrevistar o maior número de pessoas possíveis para que pudesse através dos dados
obtidos determinar o perfil dos malabaristas.
2. Método
Para a observação etnográfica realizada com os malabares dos semáforos de Florianópolis/SC, foi
utilizado entrevistas e registros fotográficos. Infelizmente não consegui entrevistar mais pessoas o quanto
gostaria, pois havia dificuldade em encontrá-los, ás vezes só encontrava um, em outras nenhum. Necessário
ressaltar que nesta época os malabares estavam sendo proibidos pela prefeitura da cidade de atuarem nos
semáforos, por isso a dificuldade em achá-los.
3. Resultados e Discussão
Durante as entrevistas, todos os participantes foram sempre muito solícitos. Os malabares de
Florianópolis são em sua maioria homens, entre os nove entrevistados somente 2 eram mulheres, paulistas,
uruguaios e chilenos, com idades entre 25/30 anos, 6 com 2º grau completo, um com nível superior, maioria
casados e com filhos. Alguns possuem outro emprego, como jardineiro e participantes de show em festas e
eventos .
De acordo com estes, trabalham como malabares, estátuas vivas, palhaços em sinaleiras, em virtude
da carência de emprego. Afirmam que através da arte nos semáforos, descobriram um meio honesto de
capitalizarem-se e sustentarem-se a si e suas famílias. Além disto, consideram esta atividade interessante,
onde se sentem livres, sem patrões, além de difundirem a cultura, a arte e terem oportunidade do contato
diretos com seus expectadores podendo avaliar através das contribuições seus trabalhos, ressaltando também
o conhecimento de novas pessoas, lugares e possíveis contatos para eventos futuros. Das desvantagens, os
entrevistados colocaram como dificuldades de viverem exclusivamente do malabarismo nas sinaleiras a
pouca lucratividade e o sofrimento com a chegada da temporada de verão, quando mais pessoas (que
segundo os entrevistados “nem são artistas”) vêm atrás do “dinheiro fácil” e apresentam-se nas sinaleiras,
crescendo a concorrência e deixando uma má impressão de seus trabalhos, pois muitos xingam motoristas,
sujam a cidade e depois vão embora.
Os malabares entrevistados foram unânimes em dizer o quanto ficam chateados por serem chamados
e confundidos com “vagabundos, maloqueiros”. Sentem-se insultados, afinal alguns tem outra ocupação,
além de serem artistas de rua trabalhando, que treinam e se apresentam sob condições não muito agradáveis
como o forte sol. Mesmo assim, com todo o bom humor eles dizem serem bem recebidos pelo público na
maioria das vezes, tendo nas crianças seus melhores e verdadeiros expectadores, sendo que estas são as que
geralmente querem entregar a contribuição.
Os artistas malabares esclarecem que a contribuição é espontânea e feita através de um chapéu ou
caixinha, nunca com as mãos. O simbolismo do chapéu é importante, através dele o artista não tem contato
com o dinheiro e a pessoa fica à vontade para fazer a contribuição, tendo-se o cuidado de jamais contar o
dinheiro em público, essa seria a ética de seus trabalho.
Com alegação de atrapalharem o trânsito e não possuírem licença, a Secretaria Municipal de Meio
ambiente e Desenvolvimento Urbano (SMDU) publicou uma portaria ainda em 2009, determinando a
inspeção nos semáforos da Avenida Beira Mar Norte, UFSC e UDESC, sendo assim através da Secretaria
1
Acadêmica do curso de Biblioteconomia da Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Email:
[email protected]
2
Professora da Universidade do Estado de Santa Catarina
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4. Conclusão
O número de malabares em Florianópolis é de aproximadamente 50 artistas. A arte do malabarismo,
além de ser um típico número de circo, iniciou-se por volta de 4.000 a.C, segundo relatos históricos,3 onde
cientistas encontram registros nas paredes de tumbas do antigo Egito através de desenhos de dançarinas
fazendo alusão de lançar objetos para o ar. Portanto, esta atividade é antiga e consiste em manipular objetos
com muita destreza, mantendo-os no ar, lançando e executando manobras.
A prática de malabarismos traz benefícios para o corpo e a mente, melhora musculatura, reflexo,
coordenação motora, concentração e desenvolve a consciência do ritmo, satisfação pessoal e aumento da
auto-estima proporcionado pela realização de uma nova manobra4. Recentes pesquisas apontam que aumenta
em até 3% o volume de 2 regiões do córtex, responsável pela visão de movimento dos objetos e a outra pela
localização espacial.
A experiência de ir à campo observar, conhecer, tentar entender o outro, fez-me questionar à mim
mesma, tendo uma visão diferente frente ao mundo, uma visão antes de estranhamento e julgamento que
foram testadas e colocadas de lado, traduzindo-se em exercício de generosidade, dando lugar ao respeito ao
outro E o mais interessante foi ver como esse trabalho acabou contagiando outras pessoas, como minha
própria família e amigos que através de meu trabalho de campo passaram a ver os malabares com “outros
olhos”.
Hoje nenhum sinal com malabares passa despercebido por mim.
3
Informação retirada do Site Artes do Circo: http://www.artesdocirco.com.br/index.php?A-Historia-do-Malabarismo-
1. Acesso em: 05 de Maio de 2009
4
Informação retirada do Site Malabares do Asfalto: http://www.overmundo.com.br/overblog/malabares-do-asfalto.
Acesso em: 05 de Maio de 2009
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1. Introdução
O presente projeto utiliza-se de uma abordagem antropológica, para analisar as histórias de vida e
trajetórias dos atores sociais envolvidos em conflitos ambientais na área de influência dos projetos da
Petrobrás que se localiza nos municípios de Caraguatatuba, São Sebastião e Ubatuba. Propôs-se para tanto, a
colher os relatos de história de vida dos moradores das comunidades locais que vivem nessa área, bem como,
de outros atores, e compará-los com os relatos obtidos na imprensa escrita regional e na localizada nos três
municípios selecionados. A questão é verificar se existem divergências nestes relatos e, caso existam, se
essas divergências podem apontar para conflitos sociais dos grupos envolvidos nessa arena, marcada pelas
mudanças ambientais decorrentes da expansão urbana.
Este projeto faz parte do Projeto Temático sobre Mudanças Climáticas Globais, com título “Expansão
Urbana e Mudanças Ambientais Globais: um estudo do Litoral de São Paulo”, conhecido também como
Projeto Clima, sob responsabilidade do Prof. Dr. Daniel Joseph Hogan, processo FAPESP n° 2008/58159-7,
a partir de um de seus componentes: “Conflitos entre Expansão Urbana e a cobertura vegetal e suas
consequências para as Mudanças Ambientais Globais: um estudo no Litoral Norte de São Paulo, Brasil”,
coordenado pela Prof.ª Drª Lúcia da Costa Ferreira.
O foco desta pesquisa está no conflito. Assumimos a definição utilizada por Georg Simmel[1], que diz
que o conflito é produtor de sociabilidade, uma vez que é a integração de aspectos negativos (a oposição de
grupos) e aspectos positivos (a integração no interior dos grupos) simultaneamente, produzindo de forma
dialética a dinâmica social.
E por que analisar essa dinâmica por meio dos relatos de histórias de vida, trajetórias ou memórias?
Essa questão não é exclusividade deste trabalho, mas tem ressoado no interior das Ciências Sociais há
muito tempo, sobretudo no âmbito da Antropologia que, uma vez centrada no estudo da alteridade, privilegia
então a etnografia como um de seus mais caros métodos de análise e coleta de dados.
O trabalho sobre histórias de vida, biografias e trajetórias, organizado pela antropóloga Suely Kofes[2]
evidencia a existência de um debate nesse sentido, mostrando a relevância da análise dos relatos pessoais
num contexto de dinâmica social. O debate existe não só entre teoria e pesquisa, mas principalmente no
interior da teoria social, como por exemplo, na aceitação e/ou na crítica do estatuto universalizável do
conceito de indivíduo como se tivesse uma relação oposicional ao conceito de sociedade. Há quem diga,
segundo Kofes (2004, p.7), que para se produzir teorias adequadas da realidade social, o primeiro passo é
“apreender pessoas como, simultaneamente, contendo o potencial para relações, sempre incorporadas em
uma matriz de relações com outros (sociality)”, argumentando que as relações sociais fazem parte da vida
humana, não são extrínsecas a ela. Também demonstra que usar a coleta, o registro e a análise de histórias de
vida, trajetórias ou biografias coloca em destaque a tensão existente não só entre indivíduo e sociedade,
como já mencionamos, mas ainda entre subjetividade e objetividade, possibilitando visualizar a presença ou
não de constrangimentos sociais, bem como o trânsito das pessoas e suas posições.
Naquilo que o trabalho pretende, admitimos a ideia de que por meio dos relatos é possível identificar
as filiações de cada pessoa, seu trânsito e posições assumidas ao longo de determinado período, e dessa
forma, conferimos ao projeto temático mais esse elemento de análise dos conflitos na região do Litoral
Norte: a coleta das histórias de vida e trajetórias, procedendo à análise dos discursos da população local e dos
da imprensa local escrita, no sentido de verificar a existência ou não de divergências nesses relatos, e se
essas apontam ou não para conflitos sociais vivenciados pelos grupos dessa arena.
Este projeto procura ainda conciliar a ideia de “memória em disputa”, utilizada por Michael Pollak,
quando propõe a existência de uma memória das minorias em oposição à memória hegemônica:
Ao privilegiar a análise dos excluídos, dos marginalizados e das minorias, a história oral ressaltou a
importância de memórias subterrâneas que, como parte integrante das culturas minoritárias e dominadas, se
[3]
opõem à „memória oficial‟.
*
Juliana Portes Thiago: [email protected]
[1]
SIMMEL, G. 1955. Conflict. New York: The Free Press.
[2]
KOFES, S. (org.). 2004. História de vida: biografias e trajetórias. Cadernos do IFCH. São Paulo: UNICAMP, n° 31.
[3]
POLLAK, M. 1989. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol.2, n. 3, p. 4.
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Pollak admite que a memória é um produto da coletividade, e acrescenta que ela é dinâmica e
potencialmente produtora de mudanças sociais, bem como o silêncio acerca de situações conflitantes.
Para ele, a memória que é uma “operação coletiva dos acontecimentos e das interpretações do
passado” [4] faz parte das tentativas de se definir ou reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais
entre grupos de diferentes tamanhos, ou ainda para manter a coesão dos grupos, e para definir seu lugar
respectivo. Podemos notar como essa “função” da memória para Pollak se encaixa naquilo que citamos
acima quanto à definição de conflito dada por Simmel. Parece-nos, então, possível apreender a dinâmica
social, produzida ou favorecida pelos conflitos, por meio dos relatos de memória e histórias de vidas ou
trajetórias. Veena Das também diz sobre a memória que:
A community trying to claim rights over its own culture can include several different kinds of objects as
constituting culture. Thus, objects of culture may include (…) the right to institute memory in the form of the
[5]
community's history and the right to live by laws that regulate the personal life of its members.
Com esse excerto, ressaltamos a importância que a memória pode assumir na cultura de uma
comunidade, lembrando ainda da constatação feita por Eunice Durham de que:
O sucesso recente da antropologia está certamente vinculado ao fato de que, hoje, essas minorias
desprivilegiadas emergem como novos atores políticos, organizam movimentos e exigem uma participação na
[6]
vida nacional da qual estiveram secularmente excluídos.
Nesse sentido pretende-se reforçar a ideia de “memória em disputa”, sugerindo que essa emergência
das minorias é um fato bem recente, o que pode proporcionar outro tipo de tensão, disputa ou conflito, que
acontece entre iguais, entre membros de um mesmo grupo social, entre aqueles que trazem na memória a
história de marginalização da comunidade e os outros que, de fato, emergem dela.
Como ponto de convergência entre os discursos pretende-se eleger ainda problemas ambientais
marcantes na região, como sendo “eventos críticos” (DAS, 1995), para facilitar a abordagem da questão nas
entrevistas. Para Veena Das tais eventos marcam um grupo ou comunidade, de forma que estes assumem ou
procuram assumir outras dinâmicas sociais.
2. Metodologia e resultados
Devido à alteração no tema da pesquisa, apenas no mês de novembro de vigência da bolsa, os trabalhos
dessa investigação iniciaram-se de fato, com o princípio da leitura da bibliografia.
Em dezembro aconteceu uma reunião do grupo de pesquisadores, tendo em vista uma viagem a campo,
proposta para o mês de janeiro de 2010. Nessa ocasião, foram divididas e orientadas as tarefas de cada
integrante. A mim coube passar a realizar o levantamento dos jornais locais das cidades selecionadas, e
também, via internet, iniciar a pesquisa e registro de matérias que fizessem alusão a eventos críticos
relacionados a alterações ambientais, como por exemplo, desastres provocados por chuvas.
Muitos sites no país tratam de questões ambientais, contudo escolhemos priorizar sites de jornais com
sede e circulação na região estudada, julgando que uma maior acessibilidade da população local às suas
informações, sobretudo no formato impresso, auxiliaria na comparação dos discursos.
Finalmente localizamos o site http://www.guiademidia.com.br que possui informações de cada estado
do Brasil, e dentro de cada estado, informações sobre cada região. Foi quando me acerquei de uma lista de
jornais do Litoral Norte. Mas a exemplo dos sites gerais, os sites específicos de cada jornal deixam muito a
desejar, não apenas por falta de informação, mas principalmente por disponibilizarem para pesquisa apenas
pequeno acervo de edições antigas. A maioria desses jornais não tem muitos anos de existência, mas de
qualquer forma, as informações na internet ainda são de um período pequeno e recente.
Outra questão foi o viés informativo assumido pela maioria desses jornais. Na homepage deles o que
mais se vê são anúncios e classificados, fotos e vídeos de apelo ao entretenimento e ao turismo, ao comércio
local, e sobretudo ao comércio imobiliário. Pouco se pode localizar de matérias e pesquisa, seja do tema que
for. Há, sim, uma parcela de informações úteis, sobre serviços das Prefeituras, dentre outras. O jornal
Correio do Litoral, por exemplo, apesar de já ter encerrado suas atividades, ainda é localizado nas listas de
jornais ativos.
Para facilitar o trabalho de pesquisa, nas três incursões que fiz a campo procurei observar e me
informar com os moradores qual ou quais jornais circulavam mais, tinham maior aceitação, ou eram mais
facilmente localizados. Reduzi, então, a lista a dois nomes: Imprensa Livre e Expressão Caiçara.
[4]
POLLAK, M. 1989. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos históricos. Rio de Janeiro, vol.2, n. 3, p. 9.
[5]
DAS, V. 1995. Critical events: an anthropological perspective on Contemporary India. Oxford University Press, p. 3.
[6]
CARDOSO, R. C. L. (org.). 1986. A aventura antropológica: teoria e pesquisa. São Paulo: Paz e Terra, p. 18.
80
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
O jornal Imprensa Livre tem sua sede na cidade de São Sebastião. Em seu site
http://www.imprensalivre.com, disponibiliza matérias a partir apenas de 2002. Já o Expressão Caiçara tem
sede em Caraguatatuba. Apesar de aparecer em sua capa que este é o ano XXVII do jornal, suas edições
disponibilizadas em arquivo tipo PDF no site http://www.jornalexpressaocaicara.com.br são apenas de 2009
até agora.
O método de buscas via internet, durante esse período, se deu por meio do uso de palavras que
pudessem localizar textos relevantes para este projeto, bem como para o projeto temático, por exemplo:
ambiente, calamidade, tragédia, acidente, conflito, dentre outras. Contudo essas palavras nos levaram a
notícias de toda espécie, desde violência doméstica a problemas internacionais. Outras palavras mais
específicas como chuva, enchente, deslizamento, desmatamento, por exemplo, propiciaram uma maior
proximidade com o foco do projeto, mas ainda assim traziam um rol muito grande de matérias e informações
aleatórias e díspares, desvinculadas da proposta da pesquisa.
Dessa forma o projeto, quanto à obtenção dos relatos oficiais sobre eventos críticos por meio da
imprensa local escrita via internet ficou extremamente restrito, nos colocando como solução evidente a
necessidade de conhecer e acessar tais informações diretamente nas sedes desses jornais, o que ainda não foi
possível. Quanto ao registro de relatos, no mês de janeiro, conforme mencionado, foi agendada e realizada
visita à região, entre os dias 24 a 29. Participar dessa viagem foi de grande importância, não apenas devido
aos contatos obtidos ali, ou à possibilidade de uma maior afinidade entre os membros do grupo e suas
pesquisas mas, sobretudo, por propiciar uma maior clareza do escopo da minha própria pesquisa. Após essa
primeira viagem procedi aos ajustes no foco da pesquisa, percebendo várias tensões que qualquer
antropólogo pode bem descrever quando da aproximação com o campo, por exemplo, quanto à dificuldade
de expor suas intenções acadêmicas sem macular ou influenciar os interlocutores, e vice-versa, ou ainda a
dificuldade de acesso às pessoas, especialmente alguns atores de influência legitimada na arena. Pessoas que,
por meio das posições que ocupam naquele lugar, passam a agir e falar com muito mais cuidado, escolhendo
claramente cada atitude ou conversa. Não só o fato de que a confiança entre pesquisador e interlocutor é uma
relação que demanda tempo para se estabelecer, e eu tenho ainda pouca proximidade com este campo, mas
também foi se tornando visível a influência de questões políticas sobre esse elo. Por mais que minha
pesquisa não tenha claramente esse viés mais político ou engajado, é evidente que por ela estar vinculada a
um grupo e a um projeto maior, que tem, sim, também essas linhas de trabalho, bem como o fato de estar ali
representando uma instituição de ensino que tem reconhecida influência na sociedade, são fatores que de
alguma forma contribuem e/ou prejudicam a aproximação. Outra questão que acredito influenciar nessa parte
de coleta de dados é o fato de eu estar ainda cursando a graduação. Isso quer dizer que, não apenas tive
dificuldade de ir mais vezes a campo, por precisar comparecer às aulas, mas sobretudo, até mesmo para
continuar mantendo a bolsa de pesquisa, meu desempenho acadêmico não poderia ser desconsiderado.
Levando em conta essa dificuldade, a primeira entrevista que pude efetivamente registrar foi realizada em
Campinas mesmo, tendo em vista que o entrevistado semanalmente está naquela cidade.
Trata-se do chefe do Escritório Regional do IBAMA do Litoral Norte, Sr. Leonardo Teixeira. Quero
ressaltar de seu relato as noções que ele nos passou quanto ao papel intermediário ocupado por um órgão
como o IBAMA nas arenas conflituosas em torno de questões ambientais. Disse-nos que em qualquer
situação o IBAMA está „entre‟ grupos com interesses distintos, mesmo que admita que não há uma realidade
maniqueísta de posições fixas. Disse-nos que todos transitam de um lado para o outro nas arenas. A cada
novo licenciamento ambiental, a cada nova etapa de um empreendimento, os atores se reposicionam. E o
IBAMA, mesmo sendo sempre o braço ativo do Governo, ora é visto como “mocinho”, ora como “bandido”.
Quando perguntei a ele sua opinião sobre a informação ou o envolvimento da sociedade civil nas questões
ambientais, me respondeu que quanto mais informada é a sociedade, mais ela se pronuncia de forma
decisiva, influenciando nas resoluções. Observou que no Litoral Norte há uma participação maior da
sociedade que a média de outras regiões que já trabalhou, isso por conta da grande quantidade de ONG‟s ali.
Outro entrevistado foi o Sr. Paulo André Cunha Ribeiro, Secretário Adjunto da Secretaria Municipal
de Meio Ambiente, Agricultura e Pesca. O que chama muito a atenção para seu relato de vida, além de seu
envolvimento precoce com questões políticas, já que desde o ensino médio participou de manifestações do
movimento estudantil, é a aparente satisfação em participar dos debates da cidade e em contribuir em várias
instâncias. Nascido em Poços de Caldas/MG, o Sr. Paulo adotou Caraguatatuba desde cedo como sua cidade,
e a partir daí tem um envolvimento político muito amplo. Seu discurso é tão visivelmente apaixonado, que na
primeira vez que o encontrei acreditei tratar-se de um legítimo filho da terra, caiçara provavelmente.
Foi então que uma realidade já comentada em conversas informais me saltou aos olhos: grande parte
da população que vive nessas cidades do litoral não são nascidas lá. E o secretário era mais um exemplo
disso. E essa é uma realidade que tem evoluído a passos largos. O Sr. Paulo relatou como isso tem sido uma
questão complicadíssima para a administração municipal, já que a velocidade dos investimentos em infra-
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
estrutura pública não é a mesma do crescimento da cidade, o que tem gerado e acirrado vários problemas
sociais. Lembrou de questões como as grandes enchentes na região. Em 1967, por exemplo, ele conta que a
cidade tinha cerca de 15 mil habitantes e houve uma enchente na qual mil pessoas ficaram desaparecidas. Se
hoje, quando a cidade conta com quase 100 mil habitantes, acontecesse um período de chuva semelhante
àquele, o problema seria na proporção da população atual. Esse crescimento populacional refletiu-se até
mesmo neste projeto, uma vez que das poucas entrevistas que realizei até agora, até mesmo contando com as
conversas informais, apenas uma pessoa é de fato nascida em Caraguatatuba.
Como, por exemplo, o Sr. Roberto Rodrigues, natural de São Paulo/SP, que possui uma banca de
jornais e revistas na rodoviária da cidade. Mesmo recusando-se a gravar a conversa, ou a dar maiores
detalhes pessoais, numa demonstração de ser alguém muito articulado e atento, foi falando sobre a cidade,
sobre aquilo que entende serem questões ambientais. Disse morar na ali há 15 anos, e que tem visto
mudanças na cidade, comparando-a as capitais do Rio de Janeiro e São Paulo, devido ao aumento da
violência. Criticou o governo pela decisão de implantar na região uma penitenciária e uma casa de
recuperação de menores. Disse que tudo isso era reflexo do falado “crescimento desordenado”, onde as
populações que se mudam para o litoral atrás de empregos nos empreendimentos em expansão, trazem
também suas famílias, e que por falta de recursos, vão morar na periferia da cidade, nas encostas dos morros.
É interessante notar que, a exemplo dessas entrevistas que menciono aqui, todas as pessoas que são de
fora da região não enxergam a si próprios como parte de problema, parte desse inchaço da cidade.
Finalmente, menciono a conversa que tive com a Sra. Vanessa dos Santos Silva. Nascida em
Caraguatatuba, cresceu, casou-se e cria seus filhos ali. Disse não se lembrar de nenhum acontecimento
marcante na cidade, ambientalmente falando, mas disse que imagina que existam. Já ouviu falar sobre os
empreendimentos na região, mas quanto a isso se manifestou apenas acerca da já mencionada “preferência”
dessas empresas por trabalhadores de fora da cidade. Ela própria trabalha na faxina de uma empresa
terceirizada que presta serviços para a Prefeitura. Recordo nessa hora, que o Sr. Paulo André mencionou em
sua entrevista que essa “preferência” se deve à baixa qualificação da mão-de-obra local. O que sobra para
eles são os menores cargos e salários, isso quando não é um subemprego. Disse que a situação está mudando
lentamente nesse sentido, por que antigamente os jovens tinham que deixar a cidade para estudar, e
acabavam constituindo famílias fora e não voltando mais. Hoje já existem cursos superiores no litoral, o que
possibilita que o jovem continue na cidade, e consiga elevar sua qualificação profissional.
4. Conclusão
Vários fatores contribuíram para o adiamento da obtenção de resultados mais substanciais: a mudança
de projeto no meio do período de bolsa, a dificuldade natural da aproximação com o campo, a continuidade
do curso de graduação, o adiamento das entrevistas já marcadas, são alguns exemplos.
Dentro de tudo o que foi realizado, salientamos como parte da conclusão que a busca, via internet, dos
dados e matérias que ilustrassem o discurso oficial a respeito de eventos críticos, a partir da imprensa escrita
local foi pouco frutífera, nos lançando à decisão de procurar pessoalmente as sedes dos jornais em questão e
tentar acesso a seus arquivos físicos. Ou ainda, nos faz pensar se não é o caso que localizar tais matérias em
outros locais, como biblioteca ou arquivo municipais, dada a pouca idade desses instrumentos midiáticos no
litoral. Essa iniciativa ainda não teve tempo hábil de ser concretizada, mesmo já possuindo informações de
contatos nesses jornais.
Mas por outro lado, as informações obtidas na pesquisa apontam para aquilo que supostamente seja o
oposto do senso comum quanto ao que se pensa sobre o uso e obtenção de informação, envolvimento e
discurso nas arenas decisórias, de alcance ambiental.
Poderíamos supor que a população das cidades do Litoral Norte, que se caracteriza por uma região
com amplos recursos naturais e pela existência de parques de preservação, seria uma população desconectada
das informações e da realidade de sua própria cidade, em oposição com uma imprensa detentora de
informação e, talvez, atuante de alguma forma.
O que vimos até aqui não foi isso. Ao contrário, há, sim, uma população que, bem ou mal, sabe do que
tem acontecido em sua cidade e em alguns casos, até tem se posicionado no debate, com intenção de
promover algum tipo de mudança. Ou ainda, uma população que sofre os embates do crescimento econômico
acelerado na região, e que passa a depender dele, mas mesmo assim tem uma postura de alerta aos problemas
que o desenvolvimento pode causar.
Do outro lado, vimos uma imprensa que não tem utilizado de seus recursos e influência na direção da
informação da população. Opostamente, parece fazer o jogo de quem quer esconder as questões sócio-
ambientais debaixo da capa do turismo e do desenvolvimento.
Ainda não temos como fazer uma melhor avaliação disso, se é mesmo uma estratégia política de
minimizar aquilo que, até os mais leigos já perceberam.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
No presente trabalho objetiva-se apresentar resultados parciais que estão sendo desenvolvidos no
Projeto “Ferroviários em Cena”: Etnicidade, trabalho e operárias em Santa Maria –RS. Sabendo-se da
importância da ferrovia para a cidade o projeto propõe –se analisar as relações interétnicas no interior do
mundo do trabalho ferroviário.Para isso, está sendo realizada pesquisa documental e etnográfica em
Arquivos e também entrevistas buscando as narrativas de indivíduos que trabalharam na ferrovia, ou de
seus familiares. No momento, o projeto esta na fase de analise da documentação no Arquivo Histórico. Em
especial, o projeto visa estudar o ingresso de negros de imigrantes italianos e seus descendentes no trabalho
Ferroviário.
2. Método
O projeto, neste momento de sua execução, está dando ênfase para pesquisa documental que esta se
realizando no Arquivo Histórico Municipal de Santa Maria, no Museu Treze de Maio e na Cooperativa dos
Trabalhadores da VFRGS. No Arquivo Histórico Municipal, por meio dos jornais, busca-se compreender
como estes tornavam públicos elementos acerca do mundo dos trabalhadores ferroviários. Vale ressaltar que
a pesquisa antropológica em arquivos é algo ainda esta em construção no interior da disciplina acadêmica
(vide Castro, 2005). Sendo que as reflexões sobre os registros se transformam em fontes essências de
pesquisa. Privilegiamos tal fase no início de execução do projeto “Ferroviários em cena” para entender que,
naqueles vários documentos presentes na historiografia regional e local acerca dos ferroviários, teríamos
melhores condições de entender e analisar as estruturas de significado circulantes em torno do universo
daqueles trabalhadores, de seu cotidiano e de como circulavam no contexto urbano de Santa Maria.
Em um momento posterior, realizaremos somente entrevistas que visam compreender como o grupo
percebia o seu significado em nível local. Baseados em Halbwachs (1990), pretende-se compreender como a
memória individual dos ferroviários, considerando que esta existe sempre a partir de uma memória coletiva,
posto que todas as lembranças são constituídas no interior de um grupo.
3. Resultados e Discussão
Até o momento foram lidos 5 jornais distintos: O Mercantil (1889);O Estado (1902); O
Estado(1903);O Estado(1904);O Estado(1905) .Esta em andamento a leitura dos Jornais A Razão (1940); A
Razão (1950) e A Razão (1960) Primeiramente lê-se cada exemplar desses jornais, quando se encontra
noticias sobre ferroviários é feita a digitalização desse material, logo após as reportagens são arquivadas e
classificadas as que abordam como o mundo ferroviário era retratado, sendo que elas falam, especialmente
do que acontece na Estação ferroviária enquanto um espaço público e de circulação de pessoas comuns e
prioritariamente, de indivíduos com algum prestígio e status social (políticos, comerciantes, entre outros).
Em todos os periódicos, observam-se anúncios comerciais que a ferrovia é citada como ponto de referência.
A ferrovia é um cenário central dos acontecimentos da cidade. Por ela, as pessoas que chegam na cidade,
hospedam-se nos hotéis próximos a esta, desenvolvem alguma atividade temporária e depois partem. Além
disso, o trabalho ferroviário é narrado também como algo que envolve “perigos” (acidentes de trabalho),
sendo noticiados os acidentados, revelando o prestigio que tal classe trabalhadora detinha.
Outras reportagens importantes destacar e são a dos Jornais O Estado (1904) e O Estado (1905). As
reportagens tratam de assunto como: arrendamento da estrada de ferro, avisos para a população; regresso de
pessoas pela estrada de ferro, questão importante isolamento das estradas de ferro, lotação para festas
religiosas, a recepção na gare, coisas perigosas transportadas pela estrada de ferro que devem antes chamar
atenção do publico, trem expresso para determinadas localidades,acidentes,aumento das estradas de
ferro,leilão de mercadorias, nomeados para trabalhar na estrada de ferro,edificação de casa para funcionários
da viação,na seção livre noticia,sobre obras das estradas de ferro, necrologia de funcionário da estrada de
ferro.
*
Autor Correspondente: [email protected]
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Essas reportagens devem ser destacas, pois sua ênfase está na chegada de pessoas, na construção, e
também sobre a construção de outras estradas que estão interligadas a cidade de Santa Maria. Sendo que
sobre os trabalhadores ferroviários, esses aparecem quando estão assumindo um cargo, ou com quando
sofrem algum acidente, a importância não esta sobre o operário e sim o enfoque esta na chegada da ferrovia.
A população em geral aparece quando vai a gare receber pessoas ou quando figuras importantes chegam e
passam por Santa Maria. Ao comparar essas reportagens com as dos Jornais A Razão a partir de 1940 e
possível observar que nesses jornais, o enfoque esta mais na questão do operário e da cooperativa, enquanto
naqueles do início do século, observa-se mais ênfase no espaço da Ferrovia em si.
4. Conclusão
Observa-se, por meio dos documentos, até o momento analisados, o quando o mundo ferroviário foi
importante para a construção urbana de Santa Maria. Sendo que nos jornais, tal movimentação tornava-se
clara. A urbanização e o desenvolvimento da cidade e de seus serviços estavam cruzando com o
desenvolvimento da ferrovia e das possibilidades de troca e de circulação de pessoas, recursos, informações,
mercadorias que tal meio de transporte e de “vida” proporcionava. A ferrovia trazia modernidade e
civilidade, transformando hábitos e costumes locais.
Referências
CASTRO, Celso. A trajetória de um arquivo histórico: reflexões a partir da documentação do Conselho de
fiscalização das expedições Artísticas e Cientificas no Brasil. IN Estudos históricos. Rio de janeiro. n.36,
julho-dezembro de 2005, p.33-42.
________, Celso. Pesquisando em Arquivos. Rio de Janeiro. Zahar, 2008.
________,Celso e CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Quando o campo é o arquivo.In Estudos Históricos.Rio
de Janeiro, n.36, julho-dezembro de 2005,p.3-5
FLÔRES, João Rodolpho Amaral . FRAGMENTOS DA HISTÓRIA FERROVIÁRIA BRASILEIRA E
RIO-GRANDENSE. 1ª. ed. Santa Maria/RS: Pallotti, 2007. v. 01. 320 p.
________, João Rodolpho Amaral . OS TRABALHADORES DA V.F.R.G.S. - profissão, mutualismo,
cooperativismo. 1ª. ed. Santa Maria/RS: Pallotti, 2008. v. 01. 456 p.
________, João Rodolpho Amaral . O PRAGMATISMO POLÍTICO DOS FERROVIÁRIOS SUL-RIO-
GRANDENSES. Santa Maria: Editora da UFSM, 2009. v. 01. 376 p
HALBWACHS, Maurice, A memória coletiva. São Paulo: Vértice , Editora Revista dos tribunais,
1990.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Maicon Mariano*
Mestrando em História pela UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CATARINA - UDESC
1. Introdução
As cidades e seus lugares, ou não lugares, ganham características, formas, sentidos, significados
pelas diversas relações socioculturais que seus habitantes cotidianamente praticam nas dimensões de seus
espaços. As cidades aonde a orientação de seu crescimento vai sendo norteada pelos discursos urbanos nas
operações estruturais, funcionais, de trabalho, prestação de serviços, transporte, lazer, ela também é cenário
de embates, lutas, conquistas, morte e vida, pelo direito à cidade, onde a gama de significados existentes é
inexistentes nos mapas e nos discursos oficiais.
A história em uma cidade é campo aberto de disputas, reivindicada por distintos grupos debatidos em
diferentes meios, e o que se disputa não é o passado e sim o presente, este encontra-se em movimento,
reinvestindo o passado , pois é no presente que se desenrola novos desafios e problemas onde o processo
histórico apresenta novas abordagens e perspectivas. Assim, a História do tempo presente tem trazido a voz
daqueles que aparecem as margens do processo: o carpinteiro, a empregada doméstica, o pequeno
comerciante, o jardineiro, o aluno, o aposentado, a professora, independente da geração ou gênero, são os
atores sociais que vivem o processo de fazer-se na e com a cidade.
O processo de migração e a acelerada ocupação urbana, que ocorreu, e ocorre, a partir da metade do
século XX nas cidades grandes, como também de porte médio, notadamente no sul e sudeste do Brasil
evidenciam a formação de novas redes urbana. Desta forma, a região oeste do Paraná tem se tornado nas
últimas décadas uma área de intensa atração populacional. De tal modo, que dos 50 municípios que forma a
região Oeste do Paraná boa parte é formada de migrantes naturais de outros estados da federação, bem como
de países vizinhos como o Paraguai. Com uma população que ultrapassa um milhão de habitantes,
praticamente metade deste contingente1 está concentrado nas cidades de Cascavel e Foz do Iguaçu.
No que se refere à cidade de Cascavel possui - segundo a contagem de 2007 do IBGE - 285.784 mil
habitantes, sendo que um considerável parcela da população é reflexo da chegada nas últimas décadas de
milhares de trabalhadores. Seu rápido crescimento contribui para projeção de uma cidade pólo em
desenvolvimento nos diferentes segmentos – Industriais, Comerciais, Educação especializada – o que na
romântica propaganda oficial a cidade é classificada como “Capital do Oeste”, terra das oportunidades.
Sobre o viver rural, ganha destaque o Agro-Negócio, evidenciado nas feiras tecnológicas como o Show
Rural2 e a Coopavel3.
O surgimento em Cascavel, nas décadas de 1970 e 1980, dos bairros populares Guarujá (1976),
Parque Verde (1978) e Jardim Floresta (1981), identificados como BNH expressam para o presente não
apenas um marco temporal de recentes migrações. Suas edificações uniformes emergidas nas extremidades
da cidade constituem no presente a essências de territórios distintos e de relações complexas, que diferem
nos múltiplos sentidos de viver na e pela cidade.
O presente texto aborda as lutas que se dão na trajetória dos diferentes sujeitos sociais, o modo como
atribuem os significados de suas experiências cotidianas, na maneira como se relacionam e vivenciam as
mudanças ocorridas na cidade e em seus bairros. Debatendo sobre processos sociais e culturais de produção
da memória, considerando os valores e significados, que permitem compreender a cidade de Cascavel. Pois o
processo histórico do movimento do migrar, morar, deslocar-se, entre outros, não se trata do passado, e sim
do presente, do presente em movimento.
Esses acontecimentos estão ligados ao interesse de pesquisa que busca apreender sobre as
experiências de migração e a tensa ocupação dos espaços, na perspectiva de evidenciar práticas coletivas e
individuais de reivindicações das diferentes necessidades e a precisão de reunir esses sentidos em seu mundo
habitual, nos conspícuos modos de viver o urbano.
*
[email protected]
1
Dados da Associação dos Municípios do Oeste do Paraná (AMOP).
2
O show rural Coopavel é promovido há 20 anos pela Cooperativa Agroindustrial de Cascavel (Coopavel) 72 hectares são
destinados a amostras de experimentos tecnológicos para os diferentes segmentos do setor rural. É um evento que atrai um grande
número de visitantes. Em que a cidade tenta passar a imagem de pólo tecnológico do Agronegócio.
3
A Expovel é um evento promovido pela sociedade Rural do Oeste do Paraná há 28 anos, e visa os setores do Agronegócio,
indústria e comércio. Este evento é mais uma feira de vendas dos setor pecuarista e do comércio. Contudo o caráter de promoção do
evento tem como pano de fundo deslegitimar o processo de luta do Movimento Social dos Trabalhadores Sem terra na sua luta
história pela reforma agrária. Pois os conflitos entre a Sociedade Rural e o MST não são nada harmoniosos nos últimos 20 anos.
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2. Método
A experiência da constituição dos conjuntos habitacionais, nas décadas de 1970 e 1980, não está
isolada de uma época expressiva e simbólica do surgimento de monumentos na cidade, construções que
expressam arquitetura modernista, como: a Catedral Nossa Senhora Aparecida, a extensão da Avenida Brasil
- principal via que cruza a cidade -, o estádio municipal Arnaldo Bussato, o centro esportivo Ciro Nardi, o
aeroporto municipal, o Hotel Copas Verde - primeira torre acima de 10 andares. Obras que não carregam
apenas o nome dos “pioneiros”, mas que são referências das etapas para progresso, obras estampadas no
Museu e Centro de cultura Gilberto Mayer.
O próprio conceito de pioneirismo emblema de muitas obras, é carregado de um sentido colonizador,
reflete no desdobramento frente à mata nativa, em que a construção do “pioneiro” é um agente heróico, para
o progresso que derrotou primitivismo. Embora, nesse estudo, o pioneiro apareça nas realidades múltiplas
construída pelos trabalhadores e, conseqüentemente, questiona qualquer discurso que tente negá-los da
participação na construção da cidade. Como nos lembra seu Antonio, natural do Rio Grande do Sul, migrante
da década de 1960: “Eu não sou um pioneiro da cidade lá dos famosos, mais me considero pioneiro de
Cascavel por que ajudei do começo a construir essa cidade” 4. Esse fragmento da narrativa é um bom
exemplo para mostrar como através da memória, a história da cidade é reivindicada. São modos percebidos
nas mudanças de práticas e na formação dos sujeitos político. Políticos em suas táticas nas diferentes
estratégias que nas ações vividas pelo conjunto, política no sentido ontológico.
Assim, compreendo que para pesquisar Cascavel é necessário conhecer os significados que seus
moradores atribuem as suas experiências cotidianas. No modo como se relacionam e vivenciam as mudanças
na cidade e nos bairros. A procura pelo diálogo com os sujeitos sociais vai de encontro como processo em
que a memória se produz e transforma-se em experiência social vivida, expressando valores e significados,
em que permitem compreender a cidade sob o olhar dos sujeitos históricos que a constrói, refutando as
imagens distorcidas que ocultam as diversas cidades existentes em Cascavel.
Os temas atrelados a memória tem como perspectiva evidenciar práticas coletivas e individuais de
reivindicações das diferentes necessidades, habitar, degustar, tocar, namorar e a precisão de reunir esses
sentidos em seu mundo habitual. Estes sujeitos sociais constroem suas expectativas e visões sobre a cidade e
como elas podem se expressar em tais experiências. Deste modo é possível recorrer ao historiador E.P.
Thompson (1981), através da sua discussão em A Miséria da Teoria:
E quanto à “experiência” fomos levados a reexaminar todos esses sistemas denso,
complexos e elaborados pelos quais a vida familiar e social é estruturada e a consciência
social encontra realização e expressão... parentesco, costumes, as regras visíveis e
invisíveis da regulação social, hegemonia e deferência, forma simbólicas de dominação e
de resistência, fé religiosa e impulsos milenaristas, maneiras, leis, instituições e ideologias
- tudo o que, em sua totalidade, compreende a “genética” de todo o processo histórico,
sistemas que se reúnem todos, num certo ponto, na experiência humana comum, que
exerce ela própria sua pressão sobre o conjunto.
Paralelo ao trabalho com fontes orais, a análise em outros modelos de documentos, como os jornais,
ofícios, atas de associações de moradores, plano diretor, decretos estará presente. Não estabeleço uma
hierarquia de valores em relação a documentos, ao mesmo tempo entendo que as fontes orais, há algum
tempo, tem se mostrado inovadora quando dialoga e conta com a contribuição dos sujeitos que fazem a
história do vivo e dos vivos. As fontes orais são privilégios do historiador do tempo presente: pesquiso a
questão das habitações populares, usufruindo de informação por aqueles que a habitam.
Bem como, não se trata de resgatar a memória coletiva, pois como diz Ulpiano Meneses: “nem há
como considerar que sua substancia é redutível a um pacote de recordações, já previsto e acabado. Ao invés,
ela é um processo permanente de construção e reconstrução” (MENESES, 1992). Em nosso trabalho
dialogamos com homens e mulheres que se constituem socialmente como sujeitos históricos, ajustando suas
realidades ao mesmo tempo em que são transformados por elas.
3.Resultado e Discussão
A proposta de trabalho procura refletir sobre as relações entre História, Cidade e Memória em
Cascavel, propondo representação crítica do passado, sendo as memórias fontes legítimas históricas, além de
expressões de fenômeno plural. Nesses primeiros meses de atividade no programa de pós-graduação da
UDESC, é possível apontar como resultado as rotas que se abrem no debate com a historiografia sobre a
questão dos espaços de convivência construídos e elaborados no decorrer do tempo por sujeitos individuais e
4
Depoimento de Antonio Aldair Rodrigues da Rosa, 57 anos, gravado em 20 de Março de 2008.
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coletivos que a eles se relacionam direta e indiretamente. Espaços formados por um conjunto de valores
socialmente convividos e partilham pelos moradores da cidade de Cascavel.
Os levantamentos das questões para o projeto surgiram durante período de pesquisa anteriormente
realizada sobre o bairro Jardim Floresta da cidade de Cascavel5, observado desde o período de sua
constituição no início da década de 1980, a produção da pesquisa proporcionou através das experiências dos
moradores dimensões do vivido e compartilhado. De tal modo, que posso refletir sobre os conflitos que se
dão na luta pela e na cidade. Ao passo que trouxeram a visualização de mais questões do que respostas. No
modo em que a trama das relações não são definidas pura e simplesmente no âmbito do visível. E para se
entender como as trajetórias e experiências estão presentes nos modos de viver o urbano.
Analisar o processo de relações de sociabilidade na ação de migrar e morar em é um novo
desafio para o desenvolvimento neste trabalho. Portanto, pude perceber durante o trabalho sobre o bairro
Jardim Floresta a ausência de estudos que possibilitam maior investigação e conhecimento sobre a
cidade de Cascavel. Ao passo que há a produção e circulação de documentos e obras cujo objetivo é a
legitimação da história oficial onde ressalta, sobremaneira, o papel das famílias pioneiras vencedoras em
uma terra de oportunidades
Pretendo apresentar os espaços da cidade como também sendo de encontros, programados ou não,
onde expressão tensões e conflitos cultivados pela sociabilidade. No dia a dia da cidade o deslocamento
casa-trabalho, centro-bairro, estabelece a circulação entre os espaços da cidade que aproxima e separa os
sujeitos, que cruzam fronteiras carregadas de tensões e conflitos gerados pela confluência de múltiplos
territórios, dos lugares e não lugares.
4. Conclusão
Nesses primeiros meses no mestrado estou longe de uma conclusão palpável, o que está cada vez
mais consolidado é a relação do projeto de pesquisa com a área de concentração do programa de pós-
graduação do mestrado em História pela UDESC. São vários os motivos para sustentar tal proposição. Entre
alguns fatores está o modo pelo qual não encerramos definitivamente o objeto ao período, bem verdade que
temos um recorte temporal a analisar. Toda via o presente também é considerado como passado, mas esse
passado é um passado inacabado. Desse modo pensando as relações de migração, ocupação e sociabilidades
em Cascavel, não apenas pelo que passou, mas o que seria necessário reter e de que modo podemos agir.
Assim, a História do Tempo Presente permite uma nova situação de aproximação com as últimas
décadas, relação direta com a pesquisa, não espero que um dado movimento esteja definitivamente encerrado
para construir interpretações sobre ele. Se corrermos o risco de cometer precipitações analíticas, cabe
assegura que não somos “especialistas” no sentido de fornecer respostas precisas a dados acontecimentos da
vida social. Surge um panorama de nova abordagem e questionamentos onde a complexidade crescente do
real no mundo contemporâneo nos desafia a interpretações, quando também somos sujeitos nesse mundo.
Mas desde já o empenho em analisar as experiências dos diversos sujeitos social, que compõe o
conjunto de moradores dos bairros Guarujá, Parque Verde, Jardim Floresta, vai de encontro a períodos antes
mesmo de suas ocupações. De onde as famílias vieram? Como vivenciam as transformações da cidade, como
convivem com as imagens projetadas à periferia? Que relações de pertencimento mantêm com o bairro e a
cidade? O esforço não é dado para responder categoricamente as questões levantam, elas é apenas o ponto de
partida no presente, para produção de uma versão sobre processos históricos da cidade. É uma pesquisa que
busca nas experiências dos trabalhadores suas representações individuais e sociais, a constituição de espaços
públicos e outras sociabilidades como uma dinâmica social vivida.
5.REFERÊNCIAS
ARANTES, Antonio Augusto. Paisagens Paulistanas: transformações do espaço público. Campinas:
Editora da Unicamp, 2000.
ASSOCIAÇÃO DOS MUNICÍPIOS DO OESTE PARANAENSE. Disponível em: www.amop.org.br.
Acesso em 15 de Abril de 2010.
DIAS, Caio Smolarek; FEIBER, Fúlvio Natério; DIAS, Solange Irene Smolarek. Cascavel: um pedaço no
tempo. A história do planejamento urbano. Cascavel: Sintagma Editores, 2005.
FENELON, Dea Ribeiro. Cidades: Pesquisa em História. Programa de Estudos Pós Graduados em História
da PUC / SP, coletânea. São Paulo: EDUC, 2000.
5
MARIANO, Maicon. Memória e cidade: A cidade de cascavel a partir das narrativas dos moradores do bairro jardim
floresta Cascavel 1980 – 2008. Marechal Candido Rondon, UNIOESTE. 2008 (Trabalho de Conclusão de Curso).
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1- Introdução
Este trabalho está inserido em um projeto de âmbito maior, denominado “A Província de São Pedro do
Rio Grande do Sul e o Império do Brasil: História Política e Historiografia”, que busca analisar os discursos
e as ações dos políticos sul-riograndenses que ocuparam cargos na Assembléia Provincial e Geral, no
Senado e em Ministérios entre 1869 e 1889. Nesse resumo será enfocado sobre a dissidência entre dois
políticos do Partido Liberal riograndense, que foram ministros do Gabinete Sinimbu (1878), que gerou
conseqüências e divisões políticas e partidárias na Província do Rio Grande do Sul.
Os políticos em questão são Manuel Luis Osório, o Marquês do Herval (1808-1879) e Gaspar Silveira
Martins (1870-1901). Os dois políticos eram sul-riograndenses. Osório foi um militar influente que atuou
nos conflitos platinos, considerado herói da Guerra do Paraguai. Após sua trajetória nos conflitos externos
brasileiros dedicou-se a política, ajudou na aproximação e união de duas correntes liberais riograndenses
antagônicas (o Partido Liberal Histórico e a Liga Progressista) e foi eleito senador em 1877. Gaspar Silveira
Martins foi magistrado e um rico estancieiro, deputado provincial, geral e senador entre 1881 e 1889.
2- Método
Nossa pesquisa está baseada na análise de fontes históricas como os Anais do Senado do Império, das
Assembléias Geral e Provincial, bem como a documentação do ministério do gabinete de Sinimbu (1878)
como, por exemplo, relatórios e avisos ministeriais. Além disso, estamos realizando uma revisão
historiografia das principais obras que discorrem sobre política no segundo reinado, a organização partidária
riograndense e a relevância e a visibilidade da província de São Pedro do Rio Grande do Sul no período final
do império.
Para esse trabalho especificamente utilizamos a biografia de Osório, intitulada “História do General
Osório”, escrita pelo o filho desse militar, Fernando Osório.
3- Resultados e Discussão
Através dessa pesquisa objetivamos analisar as trajetórias e o pensamento político de dois parlamentares
rio-grandenses. Parece no primeiro momento desnecessário discorrer sobre uma briga entre dois políticos
membros da elite, mas quando analisamos as fontes históricas e pesquisamos a historiografia sobre o
assunto, percebemos como a dissidência entre Osório e Silveira Martins gerou divisões partidárias na
província do Continente de São Pedro do Rio Grande do Sul. Pretendo abordar brevemente neste resumo
parte de nossas pesquisas e discussões.
O contexto histórico da nossa análise é ascensão do gabinete ministerial de Cansanção Sinimbu em
1878. A importância desse evento reside que pela primeira vez em dez anos, D. Pedro II escolhe um
representante do Partido Liberal e não do Partido Conservador para coordenar os ministérios brasileiros.
Entre os ministros escolhidos por Sinimbu para formar seu gabinete, estavam os dois políticos
riograndenses, Osório (ministério da Guerra) e Silveira Martins (ministério da Fazenda).
Esse evento tornou-se importante, porque demonstrou o crescimento do poder político dessa província
no final do Império, quando políticos riograndenses passaram ocupar cargos públicos importantes. A
nomeação dos dois riograndenses não foi aleatória, essa província possuía uma tradição liberal forte, sendo
que Assembléia Provincial era quase toda formada por liberais.
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A principal plataforma do ministério de 1878 era realizar uma reforma eleitoral e findar o senado
vitalício.
Silveira Martins defendia o direito de voto dos não-católicos e estrangeiros, mas o gabinete não quis
adotar essa medida, pois temia a reação da Igreja Católica, que era religião oficial do Império. Silveira
Martins, contrariado por não ter suas posições aceitas pelo o gabinete Sinimbu, pediu demissão do
Ministério da Fazenda.
Osório foi sempre apoiador e padrinho político de Silveira Martins, mas não acompanhou o afilhado na
saída do ministério. Existia entre eles uma divergência de interesses. Silveira Martins possuía contatos com
imigrantes alemães protestantes e italianos do norte da província, que podiam formar um importante
eleitorado para ele. Já Osório era mais ligado ao sul da província, que era formada por estancieiros, e achava
que defender o direito de voto dos não-católicos poderia gerar conflitos com a Igreja e o senado, como os
estrangeiros eram minoria no país, não era de vital importância aprovar essa medida.
A divergência de posições gerou um afastamento dos dois políticos e um cisma no Partido Liberal
riograndense. A maioria da Assembléia Provincial aliou-se com Silveira Martins, passando a hostilizar o
gabinete Sinimbu e Osório. Enquanto isso, Silveira Martins discursava na Câmara contra o projeto de
Reforma eleitoral.
Na Assembléia provincial, o advogado Fernando Osório defendia o pai das acusações de Silveira
Martins. Mesmo com a morte de Osório em 1879, as disputas entre as correntes que apoiavam Silveira
Martins e aquelas que estavam do lado do Marquês do Herval continuaram na província.
Fernando Osório, defensor do pai, não conseguiu ganhar mais nenhuma eleição na Assembléia
Provincial e quando conseguiu vencer, sua candidatura foi anulada por uma comissão de verificação de
poderes, composta por deputados gasparistas. Mesmo recebendo apoio de seguidores do seu pai e membros
do Partido Conservador, ele foi impedido de tomar posse por um grupo armados de apoiadores de Silveira
Martins.
Em 1883, Fernando Osório funda o Jornal “A Discussão”, que realiza uma oposição ao Silveira Martins.
Neste período, Silveira Martins passou a ter mais notoriedade pública, sendo um político e senador influente
no final do império. Crítico do Exército e de Deodoro Fonseca (presidente da província riograndense em
1883 e um antigo inimigo político), passa ser hostilizado por defensores desta instituição.
Fernando Osório e os seguidores de Osório aderiram ao Partido Republicano quando o exército e
Deodoro da Fonseca derrubaram a monarquia, apoiando o golpe militar. Enquanto Silveira Martins,
nomeado presidente de província, era destituído do cargo e obrigado a partir para o exílio.
Com a República, os seguidores e a família de Osório seriam importantes membros do Partido
Republicano riograndense, enquanto coube a Silveira Martins e seus partidários fazer a oposição através do
Partido Federalista.
4- Conclusão
A análise dessas fontes históricas nós permite analisar as práticas políticas e as ideologias dominantes do
Império, principalmente na província riograndense. Percebemos a ascensão do Partido Liberal no cenário
provincial e da Corte após 1878, mas também identificamos que nem todas as lideranças do citado partido
pensavam da mesma maneira.
O conflito entre Osório e Silveira Martins representou não só uma briga de facções elitista, mas também
um conflito de interesses entre estas duas ilustres lideranças, gerando tensões no interior do Partido Liberal
riograndense.
A necessidade de estudar a história política do Rio Grande do Sul nas últimas décadas do Império reside
no fato que esta é pouco pesquisada. Por esta razão, o projeto busca analisar e reconstruir a atuação e
trajetória de algumas lideranças políticas.
Referências
DORATIOTO, Francisco. General Osório. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
FRANCO, Sérgio da Costa. 170 Anos do Parlamento Gaúcho: Crônicas Históricas, 1835-1889- Império. Porto
Alegre: CORAG, 2004.
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PICCOLO, Helga. A Política Rio-grandense no II Império (1868-1882). Porto Alegre: Instituto de Filosofia e
Ciências Humanas da UFRGS, 1974.
OSÓRIO, Fernando Luís Osório. História do General Osório. Rio de Janeiro: Fundação Trompowsky,2008.
PORTO ALEGRE, Aquiles. Homens Ilustres do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ERUS, [19-?].
VARGAS, Jonas Moreira. Círculo dos Grandes: Os mediadores Políticos e as Famílias de Elite no Rio Grande
do Sul (1868-1889. IN. MILDER, Saul Eduardo Seiguer (org.) Recortes da História Brasileira. Porto Alegre:
Martins Livreiro Editor, 2008.
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1. Introdução
Quando o historiador se propõe a estudar períodos na história marcados por grandes conflitos, sua
tarefa demonstra-se complexa desde o início, a começar pela seleção das fontes. Devemos levar em
consideração a existência de discursos diferentes de ambos os lados do embate, sem que possamos deduzir a
priori, seja qual for o critério utilizado, qual seria aquele mais próximo de uma verdade histórica. É nesse
sentido que o trabalho do historiador demonstra-se de grande dificuldade, exigindo um olhar constantemente
crítico sobre os documentos em estudo e o contexto do qual eles fazem parte.
A Idade Média foi um período histórico marcado por vários conflitos entre cristãos e muçulmanos. Na
base da questão estava a alteridade religiosa, fator ideológico. As Cruzadas representam talvez o mais
dramático embate entre esses dois grupos, e isso fica claro tanto nas Cruzadas do Oriente (do século XI até o
XIII) quanto no movimento de Reconquista cristã na Península Ibérica (do século VIII até o XV). Mas ainda
que existissem tais períodos mais sérios de combate, devemos lembrar que não houve uma guerra incessante.
Na maior parte do tempo houve paz, e cristãos e muçulmanos relacionavam-se no cotidiano. O nosso tema de
estudo pertence à esse contexto histórico do Mediterrâneo, no qual uma sociedade híbrida foi formada pelos
constantes intercâmbios culturais entre cristãos, muçulmanos e também judeus. Entretanto, muito do que
conhecemos hoje sobre esse período adveio essencialmente da vertente histórica cristã e ocidental, parcial,
portanto.
Conhecer melhor, de uma forma mais abrangente e profunda esse momento histórico incorre dar
oportunidade também às vozes silenciadas, ao muçulmano, por exemplo, e à inserção dele na sociedade de
seu tempo. Nosso trabalho concerne ao estudo de um destacado erudito muçulmano, oriundo de Túnis, o
historiador ’Abd al-Rahman Ibn Khaldun (1332-1406). Em nossa Iniciação Científica em História (2007-
2009) procuramos pesquisar a vida e os feitos desse importante personagem por meio de sua obra
autobiográfica. Nesse momento do mestrado nossa problemática pauta-se na busca pelos motivos que
levaram esse homem, enquanto historiador, a ter uma relação muito próxima ao poder islâmico do século
XIV. Nosso objeto de análise irá compreender os aspectos constituintes da formação erudita de Ibn Khaldun,
nas quais buscaremos entrever no que esse personagem se destacava e a importância de sua função naquela
sociedade – em especial para os sultões, que faziam questão de tê-lo próximo. A fonte utilizada será a
Muqadimmah que foi escrita por Ibn Khaldun desde 1375 até a revisão de 1402. Neste escrito, apesar de
presenciar as ações de resistência militar dos muçulmanos no norte de África e Al-Andaluz (região sul da
Península Ibérica sob dominação islâmica), o autor demonstra-se mais interessado em apontar suas
observações a respeito da sociedade, da filosofia e da política de seu tempo.
Portanto, nosso estudo se vale de que Ibn Khaldun, um letrado do século XIV, foi representante de
uma erudição específica que teve como resposta a formulação de uma concepção de História e acabou por
ser o sustentáculo de importantes decisões políticas no Magreb, na Península Ibérica e no Oriente. Assim
propomos realizar uma análise da obra de Ibn Khaldun – a Muqaddimah [1] - buscando a compreensão de
como o conhecimento passou a ser uma ferramenta de legitimação das decisões do poder islâmico frente às
mudanças políticas e espirituais do século XIV.
2. Método
De acordo com o nosso presente estudo, buscamos uma metodologia que contribua para a crítica das
fontes e também auxilie nossa reflexão sobre o tema apresentado. Diante disso, muito dessa abertura ao
diálogo dos estudos sobre o Oriente se deve a Edward W. Said com a obra Orientalismo: o Oriente como
invenção do Ocidente [2]. Said esclarece nessa obra o interesse de se estudar o Oriente e o discurso do
orientalismo por meio do aspecto cultural.
O objetivo geral de nosso trabalho é identificar como o escrito de Ibn Khaldun – a Muqaddimah –
demonstra a formação de um historiador norte-africano muçulmano medieval (que possuía conhecimento da
esquemática de pesquisa histórica clássica) que conduzia indiretamente e algumas vezes diretamente as
decisões de seus sultões.
1
Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná – linha de pesquisa
Cultura e Poder, sob orientação da Professora Doutora Marcella Lopes Guimarães. Discente pertencente ao Núcleo de
Estudos Mediterrânicos (NEMED/UFPR) e ao programa REUNI/UFPR. Contato: [email protected]
92
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Para alcançarmos o objetivo mais amplo partimos de algumas ramificações específicas de análise.
Uma delas é conhecer a obra de Ibn Khaldun para estabelecer como se deu a formação desse erudito
medieval e qual sua importância no contexto em que viveu. Dessa forma, nos aprofundaremos nas lições por
ele recebidas através da educação sunita de sua época, da escola específica que estudou, entrevendo como
essa formação inicial se tornou base para suas ações políticas em momento posterior e fonte para a
formulação da Muqaddimah.
Ao mesmo tempo, estamos desenvolvendo o estudo acerca de sua teoria da História para alcançar a
metodologia de análise do próprio historiador muçulmano acerca da sociedade de seu tempo. A propósito,
entender o sentido da História para Ibn Khaldun é também compreender o estado social do homem. Esse
objetivo demonstra-se para nós como um salto e progresso na análise, pois a teoria da História de Ibn
Khaldun muitas vezes completa os dados por ele escrito em sua obra autobiográfica. A obra Muqaddimah
possui um quadro de estudos que abrange temas religiosos, da lingüística, do uso da oratória, sobre o sufismo
ou misticismo islâmico, acerca do desenvolvimento dos povos por meio da compreensão do termo ’asabiyya
– ou solidariedade tribal -, acerca da fundação das cidades medievais em contraponto com a vida no campo,
e enfim sobre a política, em que temos os “conselhos” de Ibn Khaldun ao governante, o qual deve usar de
seu poder por meio da espada e do imprescindível auxílio da pena.
A importância da obra Muqaddimah se deve também a demonstração do pensamento histórico de Ibn
Khaldun em seu tempo. Para nós termos uma idéia, o historiador, segundo Ibn Khaldun, deveria suspeitar de
cifras exageradas de bens e procurar em seus escritos diferenciar-se das lendas e fábulas, buscando através
das informações obtidas uma crítica aos documentos. O historiador assim deveria também se inter-relacionar
com a camada militar e política para verificar o desenvolvimento social e econômico das regiões. Dessa
forma, temos a perspectiva de que Ibn Khaldun estava envolvido em duas esferas: a teórica, quando analisa a
sociedade de seu tempo e coloca diante de nós um método da História, e a prática, quando ele atua através
dos cargos da burocracia política islâmica.
Nossa contribuição é em demonstrar como o personagem histórico Ibn Khaldun pode ser entendido
tendo por base sua formação como historiador e sua relação com o poder. Como o poder recebia e utilizava
os escritos de Ibn Khaldun em suas cortes? Qual era o interesse das cortes em manter ou buscar ter um
homem de prestígio como Ibn Khaldun? Para buscarmos as devidas respostas, partimos da ação do referido
historiador muçulmano, que causava alianças ou rupturas na política em crise do século XIV entre a
Península Ibérica e norte de África, dentre os sultanatos magrebinos e nas resoluções do Oriente Médio.
Portanto, nosso estudo pretende refletir sobre o entendimento das mudanças e permanências das
interpretações sobre as relações entre Oriente e Ocidente. Como já vimos, nos utilizamos de uma visão
inovadora quando colocamos em cena o personagem histórico Ibn Khaldun não somente por sua autoria na
formulação de uma teoria da História, mas conectando sua existência à importância do historiador para o
poder no medievo em sua época.
3. Resultados e Discussão
Khaldun inicia seu Prefácio da Muqaddimah com exaltações à Allah e ao Profeta. Em seguida o
escritor nos aponta seu objeto de estudo na obra: “Passemos agora ao nosso assunto – a História”[3]. Dessa
forma, podemos compreender o entendimento interno da História de Ibn Khaldun seguindo esses passos:
1. O exame e a verificação dos fatos.
2. Investigação cuidadosa das causas. Nesse ponto podemos lembrar do historiador Políbio: “Es
función propia de la historia, primero, conocer los discursos tal como fueron efectivamente
pronunciados; en segundo lugar, averiguar las causas que hicieron fracasar o tener éxito los planes
formulados en ellos, porque la simple narración de los hechos atrae al espíritu, pero es estéril; si se
añaden las causas, el recurso a la historia es fructífero” [4].
3. Conhecimento profundo da maneira como os acontecimentos se sucederam e como começaram.
De acordo com Rogelio Blanco Martínez, a concepção clássica de História [5] em Khaldun é notória,
o que a deixa mais à vista é a sua noção de tempo cíclico. Para Ibn Khaldun o tempo não é providencial, para
ele a História é feita pelos homens e tendo como objeto a sociedade. O tempo cíclico para Khaldun consistia
em uma equiparação com o movimento da sociedade e do poder com a História. Ou seja, um movimento que
busca uma ascensão, um apogeu momentâneo e uma inevitável queda. Também nos indica Juan Martos
Quesada [6], que Ibn Khaldun teve uma vida intensa, que a sociedade diante dele não era somente motivo de
observação, mas que ele estava mais interessado em encontrar leis que marcassem o nascimento, a vida e a
morte das sociedades humanas.
Ibn Khaldun rejeita a inclusão de fábulas em sua explicação histórica, e assim nos apresenta dois
discursos, um discurso racional e um discurso oriundo da fé. Khaldun pertence à gloriosa estirpe islâmica
racionalista. Essa estirpe malikita influenciou Khaldun em sua análise lúcida e rica de conhecimento
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metodológico acerca da História, que forjou um homem que diante das crueldades da vida soube se manter
dinâmico como pesquisador de racionalidade cosmopolita.
O século XIV é um tempo de transformações feito de uma identidade própria. Nesse contexto ocorre o
epílogo do Califado no mundo muçulmano. E é diante desse cenário que Khaldun formula sua metodologia
da História. Além disso, o historiador muçulmano forja uma dicotomia social: o contraste entre o árabe
(civilizado) e o berbere (bárbaro).
Os poderes que envolvem Ibn Khaldun em seu tempo são os Marínidas, o Governo de Tlemcen, os
Hafsidas, os Mamelucos no Egito, Granada e Sevilha (na Península Ibérica) e o Governo Mongol (sob
liderança de Tamerlão). A presença erudita de Khaldun nessas cortes justificava e legitimava suas
concepções e recomendações ao poder através da Muqaddimah. A busca por Khaldun de políticas tranquilas
nessa geografia reforça nossa idéia de que isso influenciou o seu entendimento cíclico da História.
4. Conclusão
A metodologia da História promovida por Ibn Khaldun deve ser estudada de maneira atenta e
profunda. Podemos entrever nas suas formulações de idéias concepções históricas e políticas, o que
indicamos como um entrelaçamento na pesquisa. Um caminho que percorre os acontecimentos políticos que
permeiam a vida do historiador muçulmano Khaldun e outro num sentido geral, que é sua maneira de
observar a História produzindo regras metodológicas para a análise histórica e esquemas do ofício de
historiador. De forma clara vislumbramos os vestígios dos escritos de um historiador atento à um mundo
prático e imediato do poder e outro teórico e universal (o espaço da erudição, da História).
O resgate de uma tradição historiográfica clássica na época de Khaldun e naquele espaço do Norte da
África, nos aponta que ocorria uma manutenção de uma herança grega através dos governos árabes (via
Oriente – Ocidente). Nossa pesquisa ganha dimensão ao demonstrar que, enquanto em parte do mundo
medieval escrevia-se em mosteiros, nosso autor produzia uma obra independente das instituições e que
indiretamente acabou por afetar o poder de sua época.
Portanto, o trabalho histórico de Khaldun produz um resgate de uma tradição grega transformada
pelos árabes, escrita em uma realidade vivida no século XIV. Assim Khaldun nos deixou uma nova maneira
de se ver o tempo, de modo cíclico, este tempo que orienta uma reflexão e uma justificativa para a própria
história muçulmana e universal.
Referências
[1] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I, II e III). Tradução integral e direta do
árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-
1960.
[2] SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. Tradução: Tomás Rosa
Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
[3] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por
José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958, pp. 3.
[4] POLÍBIO. Historias : livros V-XV. Traducción y notas de Manuel Balasch Recort. Madrid : Gredos,
1981, p. 503. Podemos indicar que Khaldun possivelmente era um leitor de Políbio. O referido historiador
grego, além de defender uma história universal como Khaldun, nos informa acerca da ciência histórica: “De
la misma manera la ciência histórica ofrece indudablemente tres modalidades. La primera consiste em el
examen cuidadoso de las fuentes documentales y en la yuxtaposición de los datos que suministran. La
segunda, en la inspección de las ciudades y de los parajes por donde discurren los rios, y los puertos. En
general, se deben observar las peculiaridades y las distancias que hay por tierra y por mar. El tercer tipo lo da
el conocimiento de la actividade política”. POLÍBIO. Historias : livros V-XV. op. cit., pp.506-507.
[5] BLANCO MARTÍNEZ, Rogelio. Ibn Jaldún: entre el saber y el poder. In: MARTOS QUESADA, Juan y
GARROT GARROT, José Luis. Miradas españolas sobre Ibn Jaldún. Madrid: Ibersaf, 2008, p.19.
[6] MARTOS QUESADA, Juan. Presentación. In: MARTOS QUESADA, Juan y GARROT GARROT, José
Luis. Miradas españolas sobre Ibn Jaldún. Madrid: Ibersaf, 2008, p. 11.
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1. Introdução
Partir do estudo da situação econômica interna nos casos de Argentina e Brasil no contexto das
primeiras décadas do século XIX - ou seja, a época de eclosão da maioria dos levantes independentistas
latino-americanos - e dos posteriores níveis de integração desses países ao mercado mundial, aparenta ser
um caminho factível para a reconstrução da realidade político-social das então jovens repúblicas. Em grande
medida, isto se deve à importância exercida pelas políticas econômicas no desenvolvimento de uma nação.
Para Bulmer-Thomas [1], desde o início da participação desses países no mercado mundial, logo após suas
respectivas independências - primeiramente como exportadores de produtos primários - os caminhos
traçados em cada caso foram influenciados por diferentes fatores. Estes fatores variaram em função de
questões geográficas, políticas, étnicas, acerca de recursos naturais, entre outras, e os pontos alcançados
foram também diversos devido às particularidades encontradas em cada caso. Segundo Skidmore & Smith
[2], após a Primeira Guerra Mundial e a Crise de 1929, muitos países da América Latina, inclusive os em
questão, retiraram-se do mercado mundial, adotando modelos inward-looking de desenvolvimento baseados
basicamente na industrialização com substituição de importações. De acordo com Lewis [3], as implicações
que tais mudanças tiveram no desenrolar histórico desses países são de grande importância para a
compreensão da atual realidade latino-americana, pois muitos dos problemas enfrentados hoje são
decorrentes de processos desencadeados desde o período objeto de nosso estudo.
De grande importância, dentre os fatores que influenciaram nos caminhos trilhados, encontra-se a
questão político-econômica. De acordo com Bulmer-Thomas [1] e Schoultz [4], após o desenrolar da
Primeira Guerra Mundial, o sistema de mercado mundial, até então, encabeçado pela Grã-Bretanha, passa
por mudanças, quando ao fim de tal processo, os Estados Unidos da América emergem como nação
dominante. Os caminhos doravante trilhados pelos países em questão passaram a sofrer em diferentes níveis
a influência desta nova potência. O objetivo deste trabalho consistiu em buscar esclarecer em que medida
essa influência se aplicou na formatação e adoção dos diferentes modelos econômicos no decorrer do
período em questão e as conseqüências que tais políticas exerceram nos níveis de desenvolvimento sócio-
econômico das nações que abarcam o estudo.
A escolha em analisar os casos de dois exemplos sul-americanos se deve à busca de uma possível
comparação entre os caminhos percorridos por esses países. Ora, em se tratando da América Latina, há
muitos pontos em comum entre as nações, uma espécie de pano de fundo, em grande medida, devido ao
período colonial em que toda a região esteve sob o domínio dos impérios Espanhol e Português, os quais
mantinham suas relações com as colônias baseadas em objetivos semelhantes. Ao mesmo tempo, o modelo
comparativo adotado buscou demonstrar as diferenças nos resultados apresentados pelos padrões econômicos
adotados em diferentes áreas, conforme a aptidão - ou falta dela - de cada região a determinadas políticas.
Além disso, o estudo proposto visou aclarar os diferentes resultados demonstrados pelos níveis de
desenvolvimento sócio-econômico no que diz respeito à transferência do desenvolvimento do setor
econômico para os outros campos da sociedade. Em adição, buscou-se a compreensão dos diferentes níveis
em que cada caso se mostrou vulnerável aos impactos externos e internos, e em relação aos externos,
especialmente a influência estadunidense, objeto deste estudo.
Os resultados das políticas econômicas adotadas no decorrer do século XIX e início do século XX, em
geral, demonstraram tanto suas debilidades quanto seus pontos positivos nos diferentes casos da América
Latina. Segundo Bulmer-Thomas [2], esta questão enfatiza uma contraditória problemática latino-americana
sobre o desenvolvimento: embora um continente repleto de recursos nos mais variados campos, mesmo após
aproximadamente duzentos anos de liberdade em relação aos antigos regimes coloniais, nenhum país latino-
americano conseguiu conquistar o status de país desenvolvido. Partindo dessa premissa, tornou-se importante
entender em que grau foi decisiva a influência estadunidense no fato dos países em questão - mesmo após
longo período e aparentemente, abundantes recursos – não haverem conseguido alcançar tal status. Esta foi a
proposta principal do presente trabalho.
2. Método
*
Antonio Battisti Bianchet Junior: [email protected]
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A metodologia adotada foi a pesquisa bibliográfica (historiográfica) envolvendo análises nos planos
textuais (dimensão interna, estrutura e lógica próprias de cada texto) e intertextuais (diálogo com outros
textos). Para tanto, a pesquisa lidou com as diferentes correntes de pensamento que trataram o assunto, de
modo a extrair de cada fonte o máximo possível do que é coerente, deixando de lado as motivações
implicitamente presentes nas obras. É importante levar-se em consideração que o objeto em questão já foi
abordado por diferentes correntes durante o século XX, cada uma assimilando de seu modo tal desenrolar
histórico. Uma dessas correntes, apenas para efeito de exemplificação, é a chamada desenvolvimentista, que
contou com autores como Raúl Prebisch [5].
3. Resultados e discussão
O tema proposto pelo presente trabalho é peça-chave para o entendimento do desenvolvimento
econômico da América Latina. Os diferentes modelos econômicos adotados pela região, durante o
desenrolar de mais de um século, ao tomar-se uma perspectiva de longo prazo, permeiam os tempos atuais
com desdobramentos e condições sociais que remetem ao período em questão.
O tema foi abordado de diferentes formas no decorrer dos tempos, cada uma problematizando de seu
modo o desenvolvimento – ou o não-desenvolvimento – do subcontinente. A proposta deste trabalho
consistiu em avaliar de um modo coerente, amplo e independente de correntes ideológicas, o desenrolar da
economia latina e seus diferentes níveis de integração ao contexto mundial, visando entender o fato de
nenhum sequer destes países haver ainda atingido um status de país desenvolvido; e, como os Estados
Unidos da América – após a virada do século XIX para XX, assumindo o posto de nação hegemônica na
economia mundial, antes ocupado pela Grã-Bretanha – exerceram influência nas economias das então novas
repúblicas.
4. Conclusão
Tendo como base Schoultz [4] e Skidmore & Smith [1], podemos concluir que os Estados
Unidos da América exerceram importante influência na América Latina como um todo no período
em questão. Suas políticas variaram desde estímulos econômicos à setores que entraram no mercado
latino-americano até intervenções militares. As políticas empregadas desde a inicial Doutrina
Monroe, passando por outras como a diplomacia do dólar, a política do “big-stick”, as posteriores
política da boa vizinhança, aliança para o progresso, dentre outras, afetaram claramente o
hemisfério ocidental.
Em se tratando de Argentina e Brasil, podemos ver o contraste de recepção e aversão às
medidas empregadas pelos Estados Unidos da América. No caso do Brasil, particularmente, houve
uma maior recepção e consentimento das políticas levadas a cabo pela nação dominante, sendo
inclusive, o nosso país, o maior aliado estadunidense na América do sul durante a Segunda Guerra
Mundial, servindo de ponto estratégico para as tropas enviadas à Europa. Já no caso argentino,
houve uma maior resistência às políticas estadunidenses, chegando, segundo Schoultz [4], à
proximidade de um enfrentamento bélico entre os dois países. Embora as políticas estadunidenses
tenham sido recebidas de diferente forma pela Argentina e pelo Brasil no contexto estudado, é
necessário levar-se em consideração o pano de fundo do hemisfério como um todo, no qual, mesmo
tentando resistir – como no caso argentino – não era possível uma total insubordinação à nação
hegemônica.
Referências
[2] BULMER-THOMAS, Victor. The economic history of Latin America since independence.
Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
[3] LEWIS, Colin M. Economics and the Latin American state: ideology, policy and performance,
C.1820-1945. Diálogos DHI/UEM, Maringá, v. 3, n. 3, pg. 63-92, 1999.
[4] SCHOULTZ, Lars. Estados Unidos: poder e submissão. Uma história da política norte-americana
em relação à América Latina. Tradução de Raul Fiker. Bauru: EDUSC, 2000.
[1] SKIDMORE, Thomas E.; SMITH, Peter H. Modern Latin America. New York: Oxford University
Press, 2005.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[5] PREBISCH, Raul. El desarrollo económico de la América Latina y algunos de sus principales
problemas. Desarrollo económico, Buenos Aires, v. 26, n. 103, pg. 479-502, oct./dec. 1986.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Antes de abordar as máquinas de propaganda da AIB e do NSDAP especificamente, devemos proceder
com a análise de que o integralismo é um movimento fascista de fato, para a partir daí compreendermos
melhor as semelhanças entre essas duas propagandas nos contextos diferentes em que se encontravam.
O nazismo, justamente por ser um tipo de fascismo, apresenta as características comuns a estes (a
indumentária, o forte senso de hierarquia, a intensa propaganda, o anticapitalismo, o antiliberalismo, o
anticomunismo, etc.). Entretanto o que mais diferencia o nazismo é a questão racial e o anti-semitismo tão
enfatizada e importante para compreendê-lo. Nesse sentido o integralismo não apresenta tanta semelhança
com o nazismo, quanto nos quesitos anteriores, apesar de apresentar anti-semitismo e racismo, devido
fundamentalmente à influência do nazismo sobre ele, principalmente através de Gustavo Barroso.
Demonstrado que o integralismo é um movimento fascista, além das várias semelhanças deste com os
fascismos europeus (especialmente o nazismo, que mais nos interessa) e algumas diferenças que o
caracterizam por estar no contexto brasileiro, não será surpresa nenhuma que muitos elementos, técnicas e
temas da propaganda integralista sejam semelhantes com os da propaganda nazista (talvez até mesmo o
ponto de maior convergência entre esses dois movimentos fascistas).
2. Método
Muito se foi discutido sobre o caráter fascista da AIB e atualmente existe um quase consenso de que o
Integralismo foi, de fato, um movimento do gênero fascista, por apresentar várias características em comum
com os fascismos europeus. Partindo desse pressuposto, defendido por Trindade [1] (entre outros autores),
podemos estabelecer várias semelhanças entre os métodos, técnicas e temas da propaganda nazista e
integralista e de como a primeira pode ter influenciado a segunda. Analisando a ‘‘Revista Ilustrada Anauê’’ é
perceptível que os temas ali abordados (o anticomunismo, o antiliberalismo, a defesa do corporativismo, a
simpatia pelos fascismos europeus e até mesmo o anti-semitismo) estabelecem muitas relações com os temas
apresentados em pôsteres e jornais da Alemanha nazista (disponíveis no German Propaganda Archive).
Assim ao proceder à análise dessas fontes sobre o prisma da bibliografia especializada no tema, torna-se
patente as semelhanças entre essas duas propagandas em diferentes contextos. Portanto, não pretendemos
aqui uma simplificação e aproximação grosseira entre a propaganda nacional-socialista e a integralista, mas
apenas ressaltar como ambas apresentam elementos em comum, que é um reflexo do caráter fascista da AIB,
levando em conta as diferenças de contexto desses dois movimentos.
3. Resultados e Discussão
Assim após observarmos os métodos, as técnicas e os temas que a propaganda integralista tinha em
comum com a propaganda nazista, a influência da última sobre a primeira, e pontuar algumas diferenças
podemos afirmar que, pelo fato de a AIB ser do gênero fascista, a propaganda integralista apresenta bem
mais semelhanças do que diferenças com a propaganda nazista. Da mesma forma o nazismo exerceu
considerável influência sobre a AIB, mas que essa influência era mais forte em certos círculos do movimento
(especialmente em torno de Gustavo Barroso) do que em outros em que o fascismo italiano e outras correntes
menos vinculadas aos fascismos europeus estiveram mais presentes.
Segundo Trindade [1] e Cavalari [2] ambas as propagandas foram eficientes em seus respectivos
contextos, mas à medida que os dois movimentos foram se aproximando de seu fim, sua eficácia também
diminuiu paulatinamente. Assim percebemos que a eficiência da propaganda está intimamente vinculada ao
contexto favorável vivido em determinado período (e não apenas a competência dos propagandistas) e que na
medida em que este contexto de altera, a propaganda não tem o poder para inverter a situação decisivamente
a favor dos citados fascismos. Assim, o mesmo contexto que foi determinante para o surgimento e
consolidação desses movimentos também foi determinante para seu findar, no caso do integralismo devido à
situação interna do país (com a instauração do Estado Novo) e no caso do nazismo devido à situação externa
de derrota militar.
4. Conclusão
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Para Paxton [3] e Bartonha [4] o fascismo entendido como a grande inovação política do século XX,
se alicerçou em um incrível e complexo sistema de propaganda, que foi o grande instrumento para sua
condição de movimento de massas. Destarte percebemos claramente, apesar das diversidades de contextos e
situações, que um padrão no formato da propaganda é evidente entre o integralismo e o nazismo.
Para além dos exemplos da propaganda nazista e integralista, devemos estar atendo para o poder que a
propaganda (comercial e política) exerce sobre nossas mentes. Luckert e Bachrach [5] afirmam que os usos
traiçoeiros da propaganda pelo regime nazista e pela AIB não são únicos na história, mas exemplificam bem
uma tendência que começou a se definir nesse período, de que a propaganda é indispensável para o governo
e para a política em geral. Ainda assim a liberdade de expressão, a imprensa livre e responsável, juntamente
com cidadãos informados e engajados é a melhor segurança contra os efeitos perversos de uma propaganda
nociva e insidiosa.
Referências
[4] BERTONHA, João Fábio. Sobre a Direita. Maringá: Eduem, 2008.
[2] CAVALARI, Rosa Maria Feiteiro. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa
no Brasil (1932-1937). Bauru: Edusc, 1999.
[5] LUCKERT, Steven; BACHRACH, Susan. State of Deception: the Power of nazi propaganda.
Washington: United States Holocaust Memorial Museum, 2009.
[3] PAXTON, Robert Owen. A Anatomia do Fascismo. São Paulo: Paz e Terra, 2007.
[1] TRINDADE, Hélgio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. São Paulo: Difel, 1979.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Entre aquilo que os nazistas idealizavam como sendo a propaganda eficiente e os métodos que
efetivamente aplicaram na prática há uma sutil diferença, todavia vamos encontrar uma profunda semelhança
entre as concepções nazistas de propaganda e os métodos práticos. É notável o esforço nazista para se
apresentar como uma vítima impotente dos ataques de seus inimigos (curioso notar como os nazistas se
mostravam como vítimas da violência comunista, sem nunca revidar com a mesma violência contra esses,
quando na verdade o partido agia de forma violentamente agressiva contra os comunistas através de suas
tropas paramilitares, as SA e SS) e que forçosamente e bravamente continuava na luta em nome da causa
suprema do nacional-socialismo e da nação alemã. Segundo Lenharo [1], a agressividade e as artimanhas da
propaganda nazistas são múltiplas e patentes, afinal os nazistas não tinham nenhum pudor em mentir para
atingirem seus objetivos. Bytwerk [2] afirma que os nazistas dependiam de discursos públicos tanto por
necessidade (principalmente nos primeiros anos do partido), quanto por princípio.
2. Método
Partindo da análise das fontes sobre propaganda nazista anterior a 1933 – incluindo pôsteres, textos de
jornais da época e fotografias – sobre o prisma da bibliografia lida, procurou-se dialogar com essas fontes
indagando-as sobre sua eficiência em convencer e arregimentar membros para o NSDAP, além de sua
importância para que os nazistas chegassem ao poder. É perceptível que a propaganda nazista foi realmente
eficaz em conquistar eleitores, todavia não foi o único fator para que o NSDAP chegasse ao poder, foi
preciso estabelecer alianças com os políticos que detinham o poder. Mesmo assim dentro das limitações de
cada situação a propaganda se mostrou eficiente em cumprir os propósitos que os nazistas desejavam.
3. Resultados e Discussão
Segundo Marcuse [3] é fácil constatar, que o nacional-socialismo não foi uma revolução, pois não
alterou as relações básicas do processo produtivo que continuou administrado por grupos sociais específicos
que controlavam os instrumentos de trabalho. A organização econômica da Alemanha nazista estava
construída em torno dos grandes conglomerados industriais.
Para Bartonha [4] os nazistas consideravam essencial a existência de em Estado forte que fosse capas
de fazer os interesses coletivos prevalecer sobre os interesses individuais, eles rejeitavam a sociedade liberal
e a democracia. Esse estado forte seria encarnado na figura de um grande líder infalível e perfeito e que
estaria em estreito contato com o povo por meio de um partido único. Todo o poder emanaria desse grande
líder que hierarquicamente enquadraria a sociedade. A visão de mundo nazista tinha por base a idéia de que
as diferentes ‘‘raças’’ que habitavam o planeta estariam engajadas em uma luta inevitável e inescapável entre
si e que a ‘‘raça’’ mais forte e determinada estava destinada a vencer essa luta, através da submissão e
destruição de todas as outras ‘‘raças’’. Essa ‘‘raça’’ superior seria a ‘‘raça ariana’’, a mais pura de todas as
‘‘raças’’, com pessoas de olhos azuis e cabelos loiros, ou seja, a raça germânica.
Essa mundividência era fortemente apregoada na propaganda do partido nazista, para Hitler a
propaganda era uma das bases para a criação da nova sociedade nacional-socialista. Por isso mesmo durante
o regime e principalmente durante o período da guerra a propaganda continuou sendo um elemento de
fundamental importância para os nazistas, devendo a propaganda ser popular e atingir o coração das massas,
sempre fomentando a capacidade combativa dos alemães.
Kracauer [5] afirma que os nazistas souberam captar os anseios e frustrações do povo alemão, eles
souberam satisfazer os desejos das massas, desejos estes que se refletia em muitos filmes do período de
1919-1933 (principalmente os filmes expressionistas) que deixavam transparecer essa situação. O que os
filmes refletiam não era um credo específico, mas dispositivos psicológicos. Os nazistas astutamente
souberam captar esses dispositivos e, através da propaganda, apelavam para as frustrações, desesperanças e
medos de muitos alemães. Para entender o sucesso da propaganda nazista e do partido nazista é preciso
compreender o estado psicológico em que se encontravam os alemães daquele período e como os nazistas
souberam manipulá-los.
4. Conclusão
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Por fim não há como afirmar que a propaganda não foi importante para os nazistas. Provas cabais
atestam que a propaganda, desde as origens do partido nazistas até o fim catastrófico em 1945, foi de crucial
importância para que os nazistas levassem a cabo seus planos de ‘‘fortalecimento’’ da nação alemã, de
conquista mundial e até mesmo de extermínio de milhões de seres humanos.
A propaganda nazista é um sucesso no sentido objetivo, pois fez com que a maioria esmagadora dos
alemães permanecesse fieis a Hitler e ao nazismo até o último momento. A propaganda nazista influenciou
decisivamente muitos alemães, deixando-os mudos para contestarem a tirania de Hitler e cegos para verem
os crimes atrozes perpetrados pelos nazistas. Os alemães que saudaram Hitler, Goebbels e outros oradores
nazistas, nos lembram de que o poder da retórica e da propaganda pode promover tanto o bem quando o mal.
Referências
[4] BERTONHA, João Fábio. Fascismo, Nazismo, Integralismo. São Paulo: Ática, 2006.
[2] BYTWERK, Randall. Landmark Speeches of National Socialism. Texas: A&M University Press,
2008.
[5] KRAKAUER, Siegfried. De Caligari a Hitler. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.
[1] LENHARO, Alcir. Nazismo: O Triunfo da Vontade. São Paulo: Ática, 1986.
[3] MARCUSE, Herbert. Tecnologia, Guerra e Fascismo. São Paulo: Editora da UNESP, 1999.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A presente pesquisa tem como foco central analisar a contribuição da cultura portuguesa e sua influência
na organização do espaço da Microrregião Geográfica de Cruz Alta – RS, como proposta de investigação a
respeito do desenvolvimento social no decorrer do seu processo evolutivo ligado à dinâmica espaço-temporal
pelo viés cultural.
Considerando a relevância da problemática em estudo afirma-se, portanto, a importância dos estudos
culturais para Geografia, particularmente no Brasil, onde esta tendência tem se efetivado mediante estudos de
caso e teórico-metodológicos, na busca de explicações para a diversidade étno-cultural e sua influência na
construção do espaço, nos distintos níveis de desenvolvimento, nas representações sócio-culturais, nos processos
identitários e na relação estabelecida entre a cultura e as categorias espaciais, como o próprio espaço, o território,
a região, a paisagem e o lugar.
2. Método
Metodologicamente, esse esforço teórico foi constituído, basicamente, por uma revisão nas matrizes teóricas
referentes aos estudos de Geografia Cultural.
Nesse sentido, o presente trabalho definiu como método que melhor se insere nessa perspectiva de estudo, o
fenomenológico, pois o mesmo valoriza o lugar como espaço carregado de simbologias e marcas definidoras da
presença de determinado grupo cultural.
3. Resultados e Discussão
A complexidade da relação sociedade-natureza na atualidade impõe alguns desafios à Geografia,
mediante a necessidade de identificar, interpretar e analisar a dinâmica espacial e os fenômenos a ela
relacionados. Desse modo, surgem tendências geográficas que procuram, justamente, explicar essa
complexidade socioeconômica, política, cultural e natural no atual estágio evolutivo da sociedade, denominado
por Milton Santos [1.3] de meio técnico científico-informacional. Nesta perspectiva, esta pesquisa insere-se nas
preocupações inerentes a Geografia Cultural, objetivando analisar a influência da etnia portuguesa e seus
descendentes na construção do espaço geográfico da Microrregião de Cruz Alta/RS, composta por 14
Municípios, nos quais estão materializados os códigos culturais representativos da cultura portuguesa.
Esse esforço teórico apresenta como resultado, o desenvolvimento de uma proposta de pesquisa que
demonstra a sua relevância ao destacar como eixo temático central a cultura e sua influência na organização do
espaço, através dos processos de identificação que se materializam mediante uma simbologia específica,
moldando paisagens e configurando regiões de acordo com as similaridades inerentes a um determinado grupo
social. Nesse sentido, a Geografia Cultural oferece subsídios teóricos para o desenvolvimento desse estudo,
destacando conceitos basilares como cultura, região e paisagem cultural, além dos códigos culturais. Para
compreender a complexidade da temática proposta, justifica-se a necessidade de recorrer as outras ciências,
como a Antropologia e a Sociologia, as quais também, possuem um arcabouço teórico referente a problemática
em estudo, o que lhe confere um caráter interdisciplinar.
Os estudos culturais, além de contribuirem para a compreensão dos aspectos sociais, simbólicos e sua
manifestação no espaço, permitem realizar um levantamento do patrimônio cultural local/regional, os quais
poderão fornecer subsídios para ações que promovam o desenvolvimento de determinadas porções do espaço
com potencialidades de “uso do espaço” através da cultura. Nessa perspectiva, acredita-se que a presente
proposta de pesquisa além de contribuir para a compreensão da organização do espaço pela cultura portuguesa,
Autor Correspondente: [email protected]
1
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
torna relevante o estudo do patrimônio cultural existente na Microrregião Geográfica de Cruz Alta/RS, a qual
tem suas origens no processo de ocupação por esta cultura.
Dessa forma, pretende-se que a população local valorize os elementos paisagísticos que representam a
etnia portuguesa como parte constitutiva da história de seu lugar de vivência, fazendo com que esses símbolos
não sejam esquecidos pelos moradores da Microrregião em análise. A valorização da cultura local é, portanto,
uma questão importante desta investigação, pois a cultura, de acordo com Brum Neto [1]
[...] tornou-se, então, um conceito chave para a Geografia Cultural, capaz de explicar a relação
que o homem estabelece com o seu meio, e sua influência na materialidade do espaço.
Entender a cultura tornou-se essencial para apreender a simbologia inerente a cada grupo
social, uma vez que a diferenciação é mediada pela mesma.
Destaca-se que a escolha da Microrregião de Cruz Alta ocorreu devido ao fato desta apresentar durante
seu processo de ocupação, a fixação de alguns grupos étnicos, dentre eles, os portugueses. Ressalta-se a
necessidade de estudos mais aprofundados sobre esta cultura e sua influência nesta porção do espaço rio-
grandense. Com relação à presença portuguesa e a introdução de sua cultura em Cruz Alta, Cavalari [1.2]
acrescenta que “Os muitos portugueses de origem, que vieram para Cruz Alta, nos primórdios de sua fundação,
trouxeram alguns hábitos de sua terra, como o intróito, uma orgia pagã que simbolizava a introdução à
quaresma”.
Essas peculiaridades inerentes à cultura a tornam instigante e foco da realização de um estudo mais
aprofundado sobre suas características, as quais permitem distinções quanto às similaridades e diferenças
socioespaciais. Além disso, destaca o importante papel que a Geografia Cultural atribui à (i)materialidade da
cultura, ou seja, os elementos representativos de determinado grupo social, visíveis na paisagem. Tuan [1.4]
define símbolo como
[...] uma parte, que tem o poder de sugerir um todo: por exemplo, a cruz para a Cristandade, a
coroa para a monarquia, e o círculo para a harmonia e perfeição. Um objeto também é
interpretado como um símbolo quando projeta significados não muito claros, quando traz à
mente uma sucessão de fenômenos que estão relacionados entre si, analógica ou
metaforicamente.
Pretende-se, desta forma, valorizar os aspectos (i)materiais da cultura, como aportes para seu
entendimento, mediante a significação destes para um determinado grupo social e para sua identificação. A
materialidade se expressa mediante códigos materiais como o estilo da casa, a vestimenta típica, as festividades,
a religiosidade (templos) os monumentos, a linguagem escrita, dentre outros. Contudo, é de fundamental
importância analisar, também, os aspectos imateriais, que orientam as ações humanas, como os valores, as
crenças, as ideologias e os códigos de conduta de cada grupo cultural. Desta forma, convém abranger a
complexidade cultural mediante uma análise que busque os significados das formas, perpassando simplesmente
o visível.
Dessa forma, esse esforço teórico salienta a necessidade de investigações que, assim como a proposta em
questão, dispõe-se a analisar de forma mais profunda e sob os aportes teóricos e conceituais da Geografia
Cultural, a presença da etnia portuguesa na Microrregião Geográfica de Cruz Alta, destacando os elementos
culturais presentes na paisagem.
A valorização do espaço geográfico da Microrregião de Cruz Alta demonstra, através da realização de
uma pesquisa minuciosa, a complexidade da(s) cultura(s) em âmbito regional, através da fixação de diversas
etnias, especificamente a portuguesa como precursora no processo de ocupação e formação desta região.
4. Conclusão
Considera-se, portanto, que relevância da problemática em estudo centra-se na importância dos estudos
culturais para Geografia, particularmente no Brasil, onde esta tendência tem se efetivado mediante estudos de
caso e teórico-metodológicos, na busca de explicações para a diversidade étno-cultural e sua influência na
construção do espaço, nos distintos níveis de desenvolvimento, nas representações sócio-culturais, nos processos
identitários e na relação estabelecida entre a cultura e as categorias espaciais, como o próprio espaço, o território,
a região, a paisagem e o lugar. Mediante estas preocupações, salienta-se que esta proposta de estudo tem na
categoria região seu conceito central, a qual será analisada mediante os aspectos culturais e identitários que
2
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
permeiam o espaço, atrelando-se ao conceito de paisagem, mediante a importância deste para se identificar os
aspectos (i)materiais da cultura no espaço.
Em meio a estas preocupações, pretende-se salientar, também, o sistema simbólico responsável pela
materialização dos códigos culturais portugueses na paisagem da Microrregião Geográfica de Cruz Alta. A
investigação deste sistema simbólico permite apontar quais os principais códigos culturais responsáveis pelo
processo de identificação, ou seja, a identidade cultural do grupo social em análise, como se efetiva esse
processo e sua evolução no tempo e no espaço, através das transformações implícitas a relação sociedade-
natureza.
Neste contexto, pretende-se afirmar a relevância dos estudos culturais que, assim como essa proposta de
pesquisa, constrói de forma abrangente e numa perspectiva multidimensional, a complexidade dos estudos
étnicos na Ciência Geográfica.
Referências
BRUM NETO, H. Regiões culturais: a construção de identidades culturais no rio grande do sul e sua
manifestação na paisagem gaúcha 2007. 319 f. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Geografia) –
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2007.[1]
TUAN, Y. F. Topofilia: Um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. Tradução de Lívia de
Oliveira. São Paulo: Difel, 1974.
.[1.4]
3
104
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O trabalho tem como objetivo compreender como se estabelecem as relações entre a configuração
espacial do pré-assentamento Emiliano Zapata e as representações sociais de seus moradores.
O pré-assentamento foi resultado da organização de trabalhadores rurais pelo Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e se estabeleceu na Fazenda da Empresa Brasileira de Pesquisa
Agropecuária (Embrapa). A ocupação ocorreu em maio de 2003 sob alegação de arrendamento dessa
área, por iniciativa privada para fins econômicos.
A área está localizada em Itaiacoca, distrito de Ponta Grossa, na Estrada do Talco.
Atualmente existem cerca de 50 famílias assentadas divididas em 6 núcleos, essa famílias estão
alocadas em lotes individuais e participam de uma associação para comercialização das sobras de
suas produções para consumo, dividindo proporcionalmente o dinheiro.
O termo pré-assentamento é utilizado porque eles estão organizados estruturalmente em
lotes, porém ainda não foi concedida a posse da terra, pelo INCRA, Instituto Nacional de
Colonização e Reforma Agrária, nem demarcado a divisão das áreas.
2. Método
Primeiramente levantamento bibliográfico nas diversas áreas que abrangem essa discussão.
Realizado trabalhos de campo, a fim de compreender o contexto do pré-assentamento Emiliano
Zapata, e diagnosticar diversos agentes que atuam no local.
Para a compreensão de como estão estruturadas as representações sociais construídas pelos
moradores do pré-assentamento, foi necessário identificar diferentes grupos e tensões entre os moradores
do local. Para tanto foi estabelecido um roteiro de entrevista semi-estruturada a fim de explorar os diferentes
significados sociais que dão sentido às representações sociais de diferentes grupos de assentados sobre o
espaço que constituem.
3. Resultados e Discussão
As discussões em torno de processos de assentamentos rurais são comuns na Geografia,
principalmente pela sua vertente crítica marxista. Dado as características do assentamento em
estudo, realizado pelo MST, expressando uma lógica de organização que se caracteriza pela
insubordinação à lógica da propriedade privada e propõe diferentes formas produtivas.
Essa pesquisa diferencia-se da abordagem clássica marxista pela utilização das
Representações Sociais e suas relações com o espaço, compreendendo de forma específica o
processo de ocupação da área, realizada pelo grupo, até o estabelecimento de possível
assentamento. Numa abordagem não marxista, se considerando a racionalidade capitalista,
reconhecendo a importância de entender os agentes produtores do espaço em sua função econômica
na estrutura capitalista, mas há inúmeras outras formas de interação entre pessoas, aparentemente
insignificantes, que marcam e qualificam as formas de relações mais evidentes da estrutura sócio-
espacial (SILVA, 2002).
O espaço é concebido como produto, condição e meio de reprodução das relações sociais,
conforme sustenta Lefebvre (1991), o espaço então, deve manifestar a dinâmica social que o
produz. Tornando-o categoria fundamental para compreensão dessa dinâmica, sendo entendido
como resultante das ações dos moradores do pré-assentamento, que possuem diferentes visões de
mundo, instituindo diferentes significações espaciais.
O MST se apresenta com uma estrutura de organização coesiva para os assentados, indicando uma
coletividade, expressando-se em certa homogeneidade de discurso, “sujeito Social é uma expressão
que indica uma coletividade que constrói sua identidade (coletiva) no processo de organização e de
105
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
luta pelos seus próprios interesses sociais.” (CALDART, 2004, p. 189) porém o espaço não é
construído em caráter fixo e unilateral, e sim socialmente, sob diferentes representações espaciais.
"As formas espaciais são produtos contingentes da articulação dialética entre ação e estrutura.
Elas não são manifestações puras de forças sociais profundas; em vez disso, constituem um mundo
de aparências que a análise deve penetrar" (Gottdiener, 1993, p.199).
A pertinência de trabalhar com representações sociais, conceito provindo da Psicologia
Social, a partir da teorias de Serge Moscovici definindo o conceito como “uma modalidade de
conhecimento particular que tem como função a elaboração de comportamentos e a comunicação
entre indivíduos” (MOSCOVICI, 1978, p.26). Para esse autor as “representações sociais”, são
teorias do senso comum, procedendo a uma interpretação e à construção da realidade social. As
Representações Sociais pode ser compreendida como um conhecimento socialmente construído e
socialmente compartilhado.
O ato de representar é uma reconstrução e não uma repetição ou reprodução, pois neste
processo a realidade desconexa, ao ser reconstruída, faz circular e reunir experiências dos
indivíduos, tornando o que é estranho em algo familiar para, assim, naturalizá-lo (SILVA,
2002, p.192).
4. Conclusão
A pesquisa apresenta-se em andamento, por isso em constante diálogo com as famílias
assentadas, através das entrevistas. O pré-assentamento constitui-se numa espacialidade de ações em
diferentes escalas de organização que envolve variados grupos de interesses, já que estão vinculados aos
interesses de uma Organização (MST) em nível nacional, mas possuem especificidades e redes com agentes
locais que configuram singularmente esse espaço.
106
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Referências
CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. São Paulo, Expressão Popular, 3a. Ed,
2004.
DUNCAN, J. The city as text. The Politics of Landscape Interpretation in the Kandyan Kingdom.
Cambridge, Cambridge University Press. 1990.
GOTTDIENER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo: Ed. USP, 1993.
SILVA, Joseli Maria. A verticalização de Guarapuava (PR) e suas representações sociais. / Joseli Maria
Silva. Rio de Janeiro: UFRJ. PPGG, 2002.
107
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Dentre os diversos escritos do grego Arriano de Nicomédia (cerca de 89 d.C. – após 145/6), aquele
que mais despertou interesse, desde os tempos antigos, foi sua obra Anábase de Alexandre Magno [1]. Nesta,
o grego de Nicomédia relatou a trajetória empreendida pela expedição militar de Alexandre, o Grande (356-
323 a.C), rumo à conquista do reino persa. Sem dúvidas, possui imenso valor para os estudiosos do rei
macedônio, pois é rica em detalhes, especialmente militares, da sua campanha. Acreditamos que uma fonte
histórica, seja relatando fatos de um passado recente ou distante, deve sempre ser analisada sob o prisma do
seu próprio tempo de composição. Levando em consideração tal perspectiva, nosso olhar investigativo sobre
a Anábase de Alexandre Magno não recai numa discussão e análise histórica dos feitos de Alexandre, o
Grande, mas sim contempla os motivos que levaram Arriano de Nicomédia, em seu tempo, a resgatar a
memória desse personagem através de uma composição narrativa.
Nesse sentido, o primeiro passo é situar essa obra no tempo: quando a Anábase de Alexandre Magno
foi composta? Surge aqui o primeiro problema de nosso estudo: não há qualquer evidência direta (não
subjetiva) que aponte para uma possível data. Diante desse quadro inicial, ressaltamos como ponto de apoio
um pressuposto que não poderia fugir ao nosso estudo e que certamente pode nos ajudar na busca de uma
solução para tal problema: compreender que a Anábase de Alexandre Magno, ainda que possua importantes
informações sobre determinados acontecimentos do passado (a expedição de Alexandre), é filha de seu
tempo e, desse modo, pode também nos relevar muito acerca do seu contexto de produção.
Portanto, iniciamos a seguinte reflexão: o pensamento de Arriano, em determinado momento de sua
vida, serve de guia e o direciona para o estudo de um personagem específico: Alexandre, o Grande. De um
modo básico, devemos então pensar no ambiente de possíveis interesses do autor para com o seu trabalho em
um dado momento que viveu. Por isso, impõe-se ao nosso estudo uma atenta observação à seguinte
problemática: quais seriam as possíveis motivações do autor, Arriano de Nicomédia, para escrever sobre um
personagem, tal como Alexandre, o Grande, em uma determinada época de sua vida?
2. Método
Reafirmamos o caráter históriográfico de nosso trabalho ao justamente questionar e problematizar,
através de uma análise mais profunda do personagem e de seu contexto, os possíveis interesses que o
levaram a compor uma obra. Estudar um personagem é compreendê-lo dentro de seu mundo – não como
sujeito à ele, mas sim enquanto personagem ativo, consciente e que o transforma constantemente.
Nosso percurso de análise envolveu, antes de tudo, um estudo sobre Arriano de Nicomédia: onde
nasceu e viveu, sua formação educacional, sua carreira na vida pública, com quem mantinha relações a nível
político e como foi sua produção intelectual. Nesse sentido, as obras de Stadter [2] e Bosworth [3] foram
valiosas leituras, pois tratam especificamente sobre a vida e o trabalho do grego de Nicomédia.
O passo seguinte foi direcionar nossos olhos para uma análise dos aspectos formais da Anábase de
Alexandre Magno: quais seriam as características de discurso sobre o passado que a obra apresenta e de que
modo esse discurso da obra ganha inteligibilidade em seu tempo? Para esse estudo, nosso apoio teórico veio
das obras Como se faz a história: historiografia, método e pesquisa, de autoria conjunta de François Cadiou,
Clarisse Coulomb, Anne Lemonde e Yves Santamaría [4]; As raízes clássicas da historiografia moderna, de
Arnaldo Momigliano [5]; e A pesquisa histórica: teoria e método, de Júlio Aróstegui [6].
Torna-se necessário igualmente um foco atento sobre o contexto em que viveu o autor. Optamos por
um estudo muito mais de caráter político-institucional, tendo em vista nosso conhecimento de que Arriano
era partícipe da vida pública no ambiente de poder do Império Romano. Tivemos de compreender os
mecanismos da esfera institucional daquela sociedade, ou seja, o modelo e os suportes básicos, inclusive
mentais, de caráter legitimador para o poder. Nesse sentido nos apoiamos nas obras Orbe Romano e Império
Global, de Alejandro Bancalari Molina [7]; História de Roma, de Michael Ivanovich Rostovtzeff [8]; e o
artigo Imperium et orbis: conceitos e definições com base nas fontes tardo-antigas ocidentais (séculos IV-
1
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná – linha de pesquisa
Cultura e Poder. Discente pertencente ao Núcleo de Estudos Mediterrânicos (NEMED/UFPR) e ao programa
REUNI/UFPR. Contato: [email protected]
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VII), de Renan Frighetto [9]. Para nosso conhecimento acerca do processo histórico propriamente dito, no
qual se incluem as vicissitudes da época de Arriano que, de uma forma ou outra, poderiam repercutir no
pensamento do personagem, buscamos apoio nas obras O Império Romano, de autoria conjunta de Engel e
Palanque [10]; Historia del mundo antiguo: una introducción critica, de Gonzalo Bravo [11]; e Historia de
Roma, de autoria conjunta de José Manuel Roldán, Jose Maria Blázquez e Arcadio del Castillo [12].
Como fica indicado, nosso trabalho desenvolveu uma linha de raciocínio em torno de três categorias
históricas básicas de análise: o autor, a obra e seu tempo. A relação entre esses três aspectos tornou possível
uma via de entendimento acerca dos interesses do autor na composição de sua obra, pois seu ato de escrita
somente ganha inteligibilidade quando entendida como uma forma de interação do indivíduo para com a
sociedade de seu tempo – demonstrando aquele que seria seu grau de consciência dentro dela.
3. Resultados e Discussão
Dentre as principais informações que levantamos acerca de Arriano de Nicomédia, destacamos as
seguintes: nasceu na província romana da Bítinia-Ponto, membro de uma importante família da aristocracia
local. Cidadão romano, seguiu o cursus honorum senatorial, tornando-se cônsul no ano de 129 d.C. e
chegando à notável posição, em 131/32 d.C., de legatus Augusti pro praetore na província da Capadócia,
região leste do Império. Foi nesse momento que, ao repelir tentativas de invasão bárbara, se destacou como
um grande estrategista militar. Dentre seus possíveis patronos na vida política, destacamos o senador C.
Avidius Nigrinus e o futuro Imperador Adriano. Porém, o grego de Nicomédia também se destacou como um
grande pensador em sua época. Dentre seus diversos escritos, encontram-se tratados militares e até mesmo
obras filosóficas. Mas e a Anábase de Alexandre Magno, pode ser considerada o que? Uma história, uma
biografia ou um relato literário?
Tivemos, inicialmente, de caracterizar e debater acerca da forma escolhida por Arriano para narrar
acontecimentos do passado. Partimos, portanto, do pressuposto de que o seu interesse na obra e o objetivo
que almeja com ela estão intimamente relacionados ao modo por ele escolhido para contá-la – ou seja, as
características do discurso adotadas pelo autor em sua composição. Uma análise do prefácio da obra é nosso
primeiro passo nessa discussão, pois se trata do momento no qual o autor coloca, de modo mais direto, seus
objetivos mais básicos com aquele seu escrito. Nesse momento de seu escrito, Arriano comenta que
considera e transcreve como verdadeiras as informações que encontra tanto na obra de Ptolomeu quanto na
de Aristóbulo – ambos companheiros de Alexandre em sua expedição [13]. Trata-se, nesse primeiro
momento, de claramente ressaltar o caráter de suposta verdade inerente ao seu escrito. Ao mesmo tempo,
percebemos a posição metodológica do autor que permite, primeiramente, esse alcance da verdade: a seleção
por determinadas fontes e uma análise comparativa entre elas. A racionalidade e busca pela verdade talvez
seja a principal característica que nos permita afirmar que Arriano pretendeu construir um discurso histórico
em sua obra, tendo em vista que o modelo historiográfico surgido com Heródoto e Tucídides pressupunha ao
historiador o dever de dizer a verdade sobre o que relatava. Ou seja, a proposta em torna da escrita da
verdade era um elemento constituinte do discurso histórico [14].
Portanto, o relato de Arriano, enquanto declaradamente verdade, se aproximaria de um discurso
histórico. Mas, exatamente, quais seriam as conseqüências disso? O que o discurso histórico possuía que o
diferenciasse, qualitativamente em sua função, de outros possíveis relatos sobre o passado. Segundo o
historiador Arnaldo Momigliano, os historiadores gregos quase sempre acreditavam que os acontecimentos
passados tinham certa relevância para o futuro, e sua lembrança constituiria uma espécie de lição aos
contemporâneos de tal escrito [15]. Dessa forma, o ímpeto de construção da Anábase de Alexandre Magno
converge então para o seguinte sentido: Arriano, em sua obra, desejaria fundamentalmente lembrar e
ressaltar o caráter exemplar de um grande personagem e a realização, por parte deste, de um
empreendimento épico, numa trajetória de incríveis e incomparáveis feitos. Tudo isso seria digno de
lembrança, tornando-se exemplo para a época do próprio Arriano.
Podemos pensar que a escrita da história, ao assumir sua função de mestre da vida, tornava-se
praticamente um instrumento de poder: ela revelava, com base na tradição, o que são os bons e maus
exemplos a serem seguidos. Em outras palavras, ela legitimava ações, comportamentos e personagens,
especialmente na vida política. De certo modo, as escolhas de determinados exemplos (seja para enaltecer ou
criticar) realizadas pelos autores antigos atendem à seus interesses e idéias sobre a política e o próprio poder
na época em que viveram e escreveram. Justamente por isso, podemos pensar que Arriano, ao compor a
Anábase de Alexandre Magno, poderia demonstrar, muitas vezes de modo implícito, concepções teóricas
acerca da política e do poder, as quais correspondem favoravelmente aos seus anseios e propostas frente aos
problemas e questões de importância, a nível político, em um determinado momento de sua vida.
A importância e alcance de uma obra como a Anábase de Alexandre Magno condiz e assume tal
função quando podemos pensá-la dessa forma, como expressão e defesa, por parte de seu autor, de idéias
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diretamente vinculadas à sua posição e vínculos com o poder. Portanto, seguindo esse pensamento, talvez
possamos pensar que Arriano tenha mais se motivado na construção de sua obra durante o período no qual
esteve diretamente vinculado à política, ou seja, enquanto esteve imerso e ativo nos interesses e
preocupações da vida pública, e no qual sua obra teria impacto positivo para ele e seu destinatário (s).
Buscando, portanto, esse referencial cronológico básico, delineamos um período a ser observado com maior
atenção: do ano de 117 d.C. à 138 d.C, ou seja, referente a entrada de Arriano no Senado até o fim de seu
governo na província da Capadócia – período correspondente também ao governo do princeps Adriano, seu
provável e principal patrocinador.
Sucessor de Trajano, Públio Élio Adriano foi princeps de 117 d.C. até 138 d.C. Prestigiado militar,
deve sua ascensão ao Principado à mulher de Trajano, Plotina, quem divulgara o suposto desejo de Trajano,
em seus últimos momentos de vida, da adoção de Adriano. Tal fato despertou uma grande desconfiança por
parte do Senado em relação à legitimidade de Adriano como princeps, tendo em vista a obscuridade dessa
nomeação. No entanto, como demonstra Gonzalo Bravo, “ni la condición de „adoptado‟ de Trajano ni el
apoyo del influyente Acilio Atiano fueron suficientes para que Adriano fuera aceptado emperador por el
Senado sin reservas”[16]. Portanto, fica presente a idéia de que havia naquele momento um questionamento,
por parte do grupo senatorial, em relação ao novo princeps.
Esse clima de desavença para com o Senado, no entanto, não foi característico apenas do inicio do
principado de Adriano. Pelo contrário, aumentou ao longo de seu governo devido às várias decisões que
tomou. Foi acusado de promover o assassinato de senadores, além de implementar reformas administrativas
e jurídicas que, de certo modo, enfraqueciam a prerrogativa social dos membros do Senado. Do mesmo
modo, as atitudes que Adriano adotou em relação à política externa também foram motivo de críticas: tão
logo no poder, buscou inverter a política externa de Trajano, preferindo a paz para com os partos. Dentre
aqueles que desejavam a guerra, como aporte financeiro ou moral, e que se viram prejudicados com tal
atitude, o descontentamento foi crescente.
De que modo poderíamos agora refletir a obra de Arriano de Nicomédia? Como ela pode ser um
documento revelador de noções acerca de seu período histórico de composição?
4. Conclusão
Devemos lembrar que a Anábase de Alexandre Magno, enquanto obra de discurso histórico, traria aos
contemporâneos de Arriano a memória de um acontecimento excepcional, a expedição de Alexandre, o
Grande. Nesta expedição, demonstram-se, na prática, as ações e comportamentos exemplares de um rei
soberano, um verdadeiro exemplo apoiado na tradição. Dessa forma, as características do monarca
macedônio, quando projetadas no presente de Arriano, tornar-se-iam um parâmetro de bom governante. No
entanto, essas mesmas características não poderiam fugir do modelo referencial de governante, ou seja,
princeps, da época do próprio Arriano – um modelo que era defendido e inerente ao universo mental do
grupo senatorial, a tradicional comunidade política. Caso fosse feito o contrário, o caráter de exemplo que a
própria escrita histórica forneceria perderia muito do seu efeito legitimador. Portanto, se o modelo ideal de
governante da época de Arriano é Alexandre, percebemos uma nítida relação da instituição Principado com a
tradição helenística de governo, personificada em Alexandre. Essa tradição, no entanto, é resgatada por meio
de aspectos que criam a idéia de continuidade (como Arriano deve ter atentado ao construir seu modelo
histórico de Alexandre), visando justamente adaptar um modelo às transformações inerentes ao seu próprio
momento histórico.
Sendo assim, enquanto potencialmente um instrumento de poder, as concepções teóricas que Arriano
constrói em sua obra estabelecem, necessariamente, um paralelo histórico com o seu presente: como não
comparar o ontem com o hoje? Seria esse governante do passado, um exemplo por suas ações, tão bom
quanto aquele que governa no tempo de Arriano? Nesse momento podemos sugerir, tendo por base esse
paralelo, quem seria esse governante, na verdade um velho amigo e patrono de Arriano: o Imperador
Adriano.
Portanto, tendo em vista a própria trajetória de vida de Arriano e as relações que manteve ao longo
dela, levantamos aqui a idéia de que a Anábase de Alexandre Magno fora uma construção histórica que
visava projetar a imagem de um grande monarca do passado, Alexandre, no princeps que acabou auxiliando
e mantendo relações próximas com o próprio Arriano, o Imperador Adriano. Os efeitos dessa projeção, sem
dúvida, seriam positivos para Adriano, legitimando e fortalecendo sua imagem e posição de princeps durante
o seu governo. Essa proposta, visaria especialmente o grupo senatorial [17], o qual se manteve em conflito
com Adriano desde sua ascensão e que, por isso, precisava ser convencido das qualidades desse novo
governante possivelmente por meio de algumas estratégias, dentro das quais a escrita da história compunha
parte importante também. A escrita da história, desse modo, demonstra-se movida por interesses políticos,
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Referências
[1] ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial
Gredos, 1982.
[2] STADTER, P. A. Arrian of Nicomedia. Chapel Hill, 1980.
[3] BOSWORTH, A. B. From Arrian to Alexander: Studies in Historical Interpretation. Oxford, 1988.
[4] CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a
história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007.
[5] MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Tradução de Maria Beatriz
Borba Florenzano. Bauru/SP: EDUSC, 2004.
[6] AROSTÉGUI, Júlio. A pesquisa histórica: teoria e método. Tradução de Andréa Dore. Bauru: EDUSC,
2000.
[7] BANCALARI MOLINA, Alejandro. Orbe Romano e Império Global. Santiago de Chile: Editorial
Universitária, 2008.
[8] ROSTOVTZEFF, Michael Ivanovich. História de Roma. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro:
Zahar, 1967.
[9] FRIGUETTO, Renan. Imperium et orbis: conceitos e definições com base nas fontes tardo-antigas
ocidentais (séculos IV-VII). In: Andréa Doré; Luís Filipe Silvério Lima; Luiz Geraldo Silva. (Org.). Facetas
do Império na História: Conceitos e métodos. 1ª ed. São Paulo: Editora Hucitec, 2008, v. 1, pp. 147-162.
[10] ENGEL, J. M.; PALANQUE, J. R. O Império Romano. São Paulo: Atlas, 1978.
[11] BRAVO, Gonzalo. Historia del mundo antiguo: una introducción critica. Madrid: Alianza Editorial,
1998.
[12] ROLDÁN, J. M.; BLÁZQUEZ, J. M.; DEL CASTILLO, A. Historia de Roma. Tomo II: El Imperio
Romano (siglos I-III). Madrid: Ed. Cátedra, 1989.
[13] ARRIANO. Anábasis de Alejandro Magno. Tradução de Antonio Guzmán Guerra. Madrid: Editorial
Gredos, 1982, p. 117.
[14] CADIOU, François; COULOMB, Clarisse; LEMONDE, Anne; SANTAMARIA, Yves. Como se faz a
história: historiografia, método e pesquisa. Tradução de Giselle Unti. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007, p.19
[15] MOMIGLIANO, Arnaldo. As raízes clássicas da historiografia moderna. Tradução de Maria Beatriz
Borba Florenzano. Bauru/SP: EDUSC, 2004, p. 38.
[16] BRAVO, Gonzalo. Historia del mundo antiguo: una introducción crítica. Madrid: Alianza Editorial,
1998, p.447.
[17] Segundo Stadter, “A book like the Anabasis was addressed to the elite of the Roman empire – those
administrators, senators, officers, and intellectuals who could appreciate the restrained classicism of his style,
the careful reconstruction of military operations, the interest in Alexander‟s moral development. […] the
intended audience […] is much more knowledgeable and refined” In: STADTER, P. A. Arrian of
Nicomedia. Chapel Hill, 1980, p.168.
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1. Introdução
2. Materiais e Métodos
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A análise do uso do solo para o ano de 1992 foi realizado através da interpretação visual
de fotografias aéreas verticais pertencentes ao levantamento de cobertura aerofotogramétrica
realizado no município de Santa Maria/RS. No SPRING 4.3, foram estabelecidas três classes de
uso do solo, de acordo com a textura apresentada nas fotografias: campos, vegetação arbórea e
área urbana.
Para o ano de 2009, foi realizada, no referido SIG, a classificação supervisionada da
imagem, onde foram elencadas duas classes: vegetação arbórea e área urbana.
Após as análises realizadas geraram-se os mapas, os quais foram finalizados no programa
Corel Draw 4x.
3. Resultados e Discussão
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Classes de Uso ha % ha %
Vegetação Arbórea 44 33 72 53
Campo 22 16 - -
Área Urbana 69 51 63 47
TOTAL 135 100 135 100
Fonte: SPRING 4.3
Elaboração: GALVÃO & OLIVEIRA, 2010.
A partir da classificação da imagem IKONOS do ano de 2009 (Figura 03), obteve-se duas
classes de uso do solo: vegetação arbórea e área urbana. Neste ano, observa-se o predomínio da
vegetação arbórea em relação área urbana. A vegetação arbórea abrange 53% da área total em
análise. A mesma encontra-se principalmente na porção centro-leste da microbacia, onde, mais
ao leste situam-se as maiores declividades, sendo esta, um dos fatores que propiciaram a
manutenção da mesma nessa região.
A área urbana corresponde a 47% da área total, situando-se preponderantemente na
porção oeste, onde ocorreu uma forte especulação imobiliária, em decorrência da inserção de
uma gama de serviços, que até então se concentravam no centro urbano. Esse processo resultou
na formação de um núcleo secundário de comércio e serviço, que no decorrer dos últimos anos,
passou a valorizar a área agregando infra-estrutura a mesma.
A partir das classificações do uso do solo do Alto Curso do Arroio Cancela, nos anos de
1992 e 2009, pôde-se evidenciar algumas transformações ocorridas nessa área. Observou-se que
as áreas cobertas por vegetação arbórea, apresentaram um acréscimo de 20% no período
analisado, principalmente na porção leste da microbacia, sendo que, em 1992, apresentava
grandes porções da classe campo. Em 2009, evidenciou-se a presença de pequenos fragmentos
de vegetação arbórea ao longo de toda a área em análise. As transformações de áreas de campo
em vegetação arbórea, nos últimos dezessete anos, pode estar associada à legislação ambiental
vigente, que nos últimos anos passou a ser implementada com maior rigor pelos órgãos
ambientais. Soma-se a isso, a maior conscientização da população local, que passou a evidenciar
a importância de áreas verdes dentro dos espaços urbanos, bem como nas encostas, como forma
de mitigar processos erosivos, assoreamento dos cursos d’água e movimentos de massa.
Fig. 2: Mapa de Uso do Solo, 1992. Fig. 3: Mapa de Uso do Solo, 2009.
Elaboração: GALVÃO & OLIVEIRA, 2010. Elaboração: GALVÃO & OLIVEIRA, 2010.
No que tange a área urbana, observou-se uma redução de 4% nesta classe nos últimos
dezessete anos, isto se deve, principalmente ao processo de verticalização urbana que a área
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vem sofrendo. A ocupação urbana em 1992 possuía características rurais, com a presença de
poucos edifícios e o predomínio de habitações do tipo casas, haja vista, que a mesma era uma
área residencial. Em 2009, observa-se o predomínio de edifícios nas áreas até então ocupadas
por casas, marcando assim, a densificação populacional e a verticalização. Este processo de
verticalização não ocorre em toda a área do Alto Curso do Arroio Cancela, mas sim, no entorno
do limite da mesma, ou seja, em pontos estratégicos como nas proximidades das vias principais
que conectam a área as demais porções do município. Outra constatação refere-se à
transformação de uma área essencialmente residencial para um núcleo secundário de comércio e
prestação de serviços, constituindo-se no que Corrêa (2002) denomina de “... uma miniatura do
núcleo central”, o qual possui uma gama de tipos de lojas e serviços, que atende uma população
de classe média-alta.
Constatou-se que a evolução do uso da terra nos últimos dezessete anos, teve um
acréscimo da vegetação arbórea em detrimento da área urbana. No entanto, o aumento da
população na área, em decorrência do processo de verticalização e de mudança de usos
propiciou inúmeros impactos na microbacia. Apesar do aumento da vegetação arbórea, o mesmo
não aconteceu com as áreas de APP, que atualmente se encontram impermeabilizadas, onde os
tributários da margem direita do Arroio são os mais comprometidos, pois em decorrência da sua
proximidade com as vias de acesso, sofreram forte especulação imobiliária e, hoje, praticamente
inexiste uma faixa de vegetação arbórea ao longo desta margem. Soma-se a isso, o
assoreamento do canal principal e a contaminação de toda a rede de drenagem por coliformes
totais e fecais, que em períodos de chuvas concentradas, ocasiona alagamentos no segmento a
jusante do mesmo, propiciando assim, a proliferação de doenças de origem hídrica.
4. Conclusão
5. Referências
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1
A UTILIZAÇÃO DO TURISMO DO MUNICÍPIO DE CRUZ ALTA/RS COMO TEMÁTICA
PARA O ESTUDO DO LUGAR
1. Introdução
O processo de ensino-aprendizagem da Geografia e a sua evolução enquanto ciência permite discussões
e a inserção de novos recursos pedagógicos sobre o objeto e a metodologia da sua abordagem, permitindo que o
professor em sala de aula construa os saberes, uma vez que esta ciência tem na interface sociedade e natureza um
dos seus focos de investigação [1]. Destaca-se a importância da temática do turismo no ensino de Geografia nas
escolas, uma vez que, a mesma constitui-se em uma atividade que tem suma importância na sociedade e na
economia pós – moderna.
Dessa forma, a presente pesquisa teve como objetivo geral contribuir com a ciência geográfica através da
compreensão da organização espacial do município de Cruz Alta-RS, enfatizando-a no âmbito educacional para
a construção do conhecimento proporcionado no processo de ensino-aprendizagem, utilizando-se para tal do
turismo como temática central.
Nesse sentido, a investigação elegeu como área de estudo Cruz Alta/RS, pois esse Município tem
grande importância em se tratando da atividade turística, como por exemplo o turismo religioso, o turismo
cultural, o turismo histórico, entre outros. Esses tipos de turismo materializam-se no Município através da
materialização da religiosidade da cultura portuguesa, através da devoção à Padroeira do Município, Nossa
Senhora de Fátima, o qual possui um monumento em sua homenagem, além de outras manifestações da fé
católica, como procissões e festividades.
O Município localiza-se na porção noroeste do Rio Grande do Sul, destacando-se como um importante
pólo regional integrando as mais diversas áreas, entre elas a comercial, a industrial, a agropecuária, a
educacional, a da saúde, a do turismo, e a da cultura. Possui importantes pontos turísticos, sendo eles;
Monumento de Fátima, Monumento ao Gaúcho, Prefeitura Municipal, Museu Casa de Érico Veríssimo, entre
outros que foram investigados com os educandos.
O Município tem importantes eventos que atraem turistas todos os anos, como a Coxilha Nativista, o
Festival de Música Gospel, a Romaria de Nossa Senhora de Fátima e o Carnaval Regional.
Desse modo a presente pesquisa foi realizada na Escola Municipal Marcos de Barros Freire, na 3ª série
do Ensino Fundamental, localizada na zona rural do município de Cruz Alta, e na Escola Estadual de Ensino
Fundamental Gabriel Álvaro de Miranda na mesma série, situada na área urbana do Município em análise, para
ter uma visão mais abrangente da percepção turística desses educandos, bem como a preocupação com a
compreensão e conhecimento que os mesmos detém sobre o turismo de Cruz Alta, promovendo atividades
pedagógicas, relacionando com a Geografia e o estudo do turismo quando for trabalhado o conteúdo do
Município.
2.Método
O presente artigo provém do Trabalho de Graduação de Licenciatura Plena em Geografia intitulado: A
inserção do turismo do município de Cruz-Alta/RS como temática para o estudo do lugar [1.2], sendo esse,
requisito parcial para a obtenção do grau de Licenciado em Geografia na Universidade Federal de Santa
Maria/RS.
Metodologicamente a pesquisa foi estruturada em etapas. Primeiramente realizou-se amplo levantamento
bibliográfico sobre os principais conceitos abordados na pesquisa, dentre eles destaca-se turismo, atrativos
turísticos, ponto turístico, evento turístico, entre outros.
Dessa maneira, para a realização dessa investigação utilizou-se o método fenomenológico. Nessa
perspectiva, foi analisada a organização espacial atrelada à percepção do lugar de vivência do educando,
1
Autor correspondente: [email protected]
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2
procurando, dessa forma, contribuir para a construção do conhecimento geográfico através do turismo. Além de
serem apresentadas as principais modalidades de turismo que têm relevância em Cruz Alta, entre eles: o turismo
cultural, o turismo religioso e o turismo histórico. Sendo assim, esses conceitos utilizados e enfatizados
juntamente ao processo ensino-aprendizagem e aos conhecimentos didático-pedagógicos.
Posteriormente, buscaram-se dados em fontes primárias e secundárias em instituições como a Casa de
Cultura Justino Martins e principalmente na Secretaria de Turismo (SETUR).
Outra fase da pesquisa foi direcionada ao trabalho de campo, pautado primeiramente na observação de
algumas aulas da 3ª série da Escola Estadual de Ensino Fundamental Gabriel Álvaro de Miranda, situada na área
urbana de Cruz Alta e na Escola Marcos de Barros Freire, localizada na área rural do mesmo. Paralelamente
foram elaboradas atividades pedagógicas com os educandos das 3ª séries dessas Escolas, sendo essas atividades
a construção de maquetes e painéis fotográficos para a melhor compreensão da temática turística em âmbito
municipal.
Posteriormente, foram feitas a análise e interpretação dos resultados obtidos nas etapas anteriores a
partir dos objetivos propostos, aliando teoria e prática onde foi verificada a compreensão da organização
espacial do município de Cruz Alta pelos educandos da Escola Estadual Gabriel Álvaro de Miranda e da Escola
Marcos de Barros Freire através da temática turística.
E, a última etapa centrou-se na elaboração do Trabalho de Graduação [1.2], bem como na publicação em
periódicos científicos que tratem dessa temática, visando divulgar a experiência obtida com a realização da
pesquisa.
2. Resultados e Discussão
Destacam-se como resultados obtidos no trabalho de campo, as confecções de maquetes pelos educandos
da 3ª série da Escola rural Marcos de Barros Freire de quatro pontos turísticos do município de Cruz Alta dos
seguintes pontos turísticos: do Quartel - 29º GAC “Grupo Humaitá”, da Igreja e do Monumento de Nossa
Senhora de Fátima, do Museu Casa de Érico Veríssimo e da Cruz-Marco inicial do município de Cruz Alta.
Tendo, esses educandos mostrado grande interesse em realizar essa atividade prática, apesar de ter sido
bastante trabalhosa e inovadora na visão dos educandos e da professora da turma que auxiliou também na
construção das maquetes dos principais pontos turísticos do município de Cruz Alta apontados após a construção
do painel fotográfico juntamente com os educandos.
Para uma maior aprendizagem da temática turística pelos educandos, foram confeccionadas maquetes
juntamente com os mesmos, do Quartel - 29º GAC “Grupo Humaitá”, da Igreja e do Monumento de Nossa
Senhora de Fátima, do Museu Casa de Érico Veríssimo e da Cruz-Marco inicial de Cruz Alta, tendo como base
as fotos desses pontos turísticos obtidas no trabalho de campo e que foram utilizadas como cartazes explicativos
para as maquetes. Cada maquete foi confeccionada por dois educandos e para a sua confecção foram utilizados
cola, tinta guaxe, lápis de cor, caixas de remédios, caixas de sapatos, brinquedos, gramíneas, entre outros
materiais.
Dessa forma, depois de prontas, as maquetes foram expostas na Feira de Ciências da Escola. Os
educandos mostraram-se satisfeitos e orgulhosos de suas maquetes expostas, o que comprova que a realização de
aulas práticas e interativas contribui para o processo de aprendizagem e para o melhor entendimento da temática
do turismo no ensino do Município.
Desse modo, destaca-se a importância dos professores de Geografia abordarem o desenvolvimento e as
características das atividades relacionadas ao turismo, bem como, os atrativos turísticos presentes no lugar de
vivência dos educandos [1.3].
Portanto, através das atividades pedagógicas realizadas nas Escolas localizadas na área Rural e na área
urbana do Município pode-se inserir a temática turística no estudo do Lugar com êxito, e assim, demonstrar que
é possível o educador utilizar novos recursos didáticos para a abordagem do turismo e sua conseqüente
valorização em âmbito local pelos educandos da 3ª série do Ensino Fundamental.
3. Conclusão
As abordagens atuais da Geografia têm procurado práticas pedagógicas que permitam inserir aos
discentes as diferentes situações de vivências com os seus lugares, de maneira que possam construir
compreensões novas e mais aprofundadas a seu respeito.
Dessa forma, se propôs a discussão e a abordagem da temática do turismo, na 3ª série do Ensino
Fundamental, como uma maneira de instigar a participação e de despertar o interesse dos discentes pelas
117
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
3
questões relativas ao seu espaço de vivência, de forma a contextualizar esse tema que vem sido negligenciado
pela Geografia, como disciplina escolar.
O turismo constitui-se em uma temática pouco abordada pelos professores de Geografia e pelos livros
didáticos.
Nesse sentido, destaca-se a importância de introduzir a sua discussão em sala de aula, pois o mesmo se
constitui em um fator social, econômico e cultural de extrema relevância, tendo destaque também, o seu papel na
organização do espaço. Nesse sentido, deve-se instigar os discentes a analisar a atividade turística criticamente
compreendendo a sua importância para o desenvolvimento local/regional.
Dessa forma, com a inserção de novos recursos didáticos para o ensino do lugar via turismo, por
exemplo, com a elaboração de questionários, a captura de fotos, construção de painéis fotográficos, construção
de maquetes e a realização de mapas mentais, foram notáveis o maior interesse e a maior aprendizagem dos
educandos acerca do Estudo do Lugar e da temática turística e, com isso, foi possível obter-se a percepção dos
mesmos sobre os atrativos turísticos de Cruz Alta [1.2].
Nesse sentido, a partir do Trabalho de Campo realizados na Escola Gabriel Álvaro de Miranda, situada
na área urbana do Município e na Escola Marcos de Barros Freire, situada na área rural do mesmo, comprovou-
se que os educandos das duas escolas detêm o mesmo conhecimento acerca dos atrativos turísticos de Cruz Alta,
identificando os mesmos pontos turísticos e eventos como sendo os mais significativos da área em estudo, sendo
esses: Monumento de Nossa Senhora de Fátima e Romaria de Nossa Senhora de Fátima, Monumento ao Gaúcho,
Monumento ao Ferroviário ou Viação Férrea, Monumento á Cuia, Quartel 29º GAC, Museu Casa de Érico
Veríssimo, a Coxilha Nativista, o Carnaval Regional, entre outros apontados pelos educandos [1.2].
Destaca-se que o educador deve oferecer ao educando a reflexão e construção do conhecimento sobre o
turismo, a partir do Município no qual os educandos residem, pois, desta maneira, facilitará o seu entendimento e
permitirá a valorização do espaço pelo aluno.
Salienta-se que, para auxiliar o educando a compreender o seu espaço vivido, o professor deverá
estimular a curiosidade e a percepção em relação ao local, mas também instigar a sua compreensão acerca dos
acontecimentos globais, que também, detêm importância.
Dessa maneira, enfatiza-se que a disciplina de Geografia não deve menosprezar o estudo do turismo,
mesmo que este não seja uma atividade de extrema importância no local onde os educandos residam, já que esta
é uma atividade que vem crescendo mundialmente e que merece, portanto, um maior destaque em âmbito
escolar.
Nesse sentido, comprova-se a importância do Trabalho de Graduação para a escola e para a comunidade
cruzaltense, pois ele enfatiza o turismo local como forma de dinamizar o Município e a abordagem dos
conteúdos de Geografia em sala de aula.
3. Referências
ALESSANDRI, A . F. (org). A Geografia na sala de aula. 5. ed. São Paulo: Contexto: 2003. [1]
CAETANO, G. N. A Inserção do turismo do município de Cruz Alta/RS como temática para o estudo do
lugar. 80 f, 2010. Monografia (Trabalho de Graduação II) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria,
2010. [1.2]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Heloisa de Campos Lalane1, Maria Paula Casagrande Marimon2, Larissa Corrêa Firmino3*
1
Mestranda do MPPT/UDESC
2
Departamento de Geografia/MPPT/UDESC, Dra.
3
Graduanda do Curso de Geografia/UDESC
1. Introdução
O presente trabalho tem como objetivo analisar a fragilidade ambiental na área do entorno do
Complexo Lagunar do Extremo Sul Catarinense, através da caracterização dos ambientes naturais e da
ocupação humana, utilizando como base de análise a delimitação das bacias hidrográficas das lagoas, de
modo a evidenciar as alterações antrópicas impostas a este ambiente costeiro, a partir da década de 1970 até
os dias atuais.
A área em estudo compreende parte da construção marinha e continental da Planície Costeira da
região do Extremo Sul do Estado de Santa Catarina até o início da escarpa da Serra Geral. Esta área
caracteriza-se por uma planície quaternária relativamente ampla, e por apresentar um conjunto de lagunas
costeiras localizadas entre os municípios de Araranguá e Sombrio, que são as lagoas do Caverá, Sombrio,
Mãe Luzia, Serra, Piritú, de Fora, Dourada e do Bicho. Associadas a estas lagunas ainda ocorrem extensas
áreas de marismas e banhados, que reúnem diversas singularidades geomorfológicas e biogeográficas.
As regiões litorâneas representam uma das áreas de maior intercâmbio de energia e matéria do sistema
Terra. Constituem áreas muito frágeis frente a dinâmica dos processos de construção e destruição marinha,
podendo ser afetadas em várias escalas de tempo e espaço e, ainda, sofrer importantes transformações que
podem, ou não, ser irreversíveis. São, portanto, bastante vulneráveis, visto que concentram grande parte da
população mundial, e também catarinense.
O litoral é uma zona de usos múltiplos, onde se observam diversas formas de ocupação e a
manifestação das mais variadas formas de atividades humanas, o que acarreta em conflitos pelo uso do solo.
Esses conflitos e a pressão sobre os ambientes naturais são constantemente observados ao longo do litoral
catarinense, visto que este vem sendo, nas últimas décadas, um grande pólo de atração populacional, tendo
como conseqüência um crescimento desordenado e com sérios impactos ambientais, pois nem sempre ocorre
o planejamento do território no sentido de buscar soluções de desenvolvimento social-ambiental, econômico
e espacial. O que frequentemente se observa é uma dicotomia entre as estratégias de desenvolvimento e de
ordenamento ambiental do território.
No litoral Extremo Sul do Estado de Santa Catarina ocorrem problemas graves, entre os quais,
ocupação com construções nas faixas de praias, áreas de preservação permanente estabelecidas pelo Código
Florestal (Lei 4.771/65), como campos de dunas ativas; restingas geológicas; marismas; manguezais e
banhados [1].
Este litoral caracteriza-se não só pela diversidade geográfica, mas também pela diversidade cultural,
resultado da miscigenação, de diferentes correntes migratórias que povoaram a região. A cultura herdada dos
antepassados se mistura as riquezas naturais. Os primeiros moradores foram os índios Carijó e Xocleng. A
ocupação por europeus no século XVII se deu com luso-brasileiros, vicentistas e posteriormente, açorianos
(século XVIII). Depois, no século XIX, chegaram os italianos, germânicos, poloneses dentre outras etnias.
Este conjunto de singularidades suscita vocações econômicas não industriais para a área. O acervo
histórico, de registros pré-históricos e a paisagem marcada pelo contraste entre praias, dunas, banhados,
lagoas e lagunas dispõem de um grande potencial para o turismo cultural e ecológico.
Percebe-se, pois, que existe, no Litoral Sul do Estado, uma carência de estudos e uma grande demanda
social aplicável visando a superação dos índices de baixo desenvolvimento da região. Com este estudo
pretende-se adquirir e organizar informações, a fim de formar um banco de dados sobre esta região que,
segundo Bittencourt (2008), talvez por estar localizada no Extremo Sul do Estado, longe do centro do poder,
ou pelo fato da maioria dos municípios não apresentarem índices positivos de desenvolvimento, tem ficado a
margem das iniciativas governamentais [1].
Através das inter-relações entre os componentes naturais e sociais que formam a paisagem, este estudo
pretende, portanto, realizar a síntese dos ambientes naturais que compõem o Complexo Lagunar Extremo Sul
Catarinense, com a finalidade de levantar as potencialidades e as fragilidades destes ambientes frente à
ocupação humana, apontando, assim alternativas que auxiliem numa melhor forma de ocupação, com o uso
racional dos recursos naturais, levando em conta a importância de sua preservação para o desenvolvimento
ambiental sustentado.
*
Larissa Corrêa Firmino: [email protected]
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2. Método
A metodologia empregada neste trabalho consiste na análise de fotografias aéreas de 1966, na escala
1:60.000, (anteriores as principais intervenções nesta região) e imagens orbitais recentes para a interpretação
dos ambientes naturais e da ocupação humana, bem como registros fotográficos, trabalhos de campo e
pesquisa bibliográfica. Como resultado deste estudo, buscou-se propor alternativas que auxiliem na gestão
territorial da área, que leve em conta a preservação dos ecossistemas costeiros e aponte áreas favoráveis à
preservação de ambientes naturais e ao desenvolvimento dos diferentes tipos de atividades humanas.
3. Resultados e Discussão
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das condições naturais das lagoas destacam-se a retirada de areia, mineração de turfa, aterros, assoreamento,
mudanças na geomorfologia, supressão da mata ciliar, lançamento de efluentes e eutrofização artificial.
Apesar desses exemplos de deterioração da paisagem, a região ainda mantém inegável vocação para o
turismo, pois apresenta grande beleza cênica ligada as lagoas e áreas próprias para atividades de veraneio.
No entanto, essas características têm gerado outro ponto de conflito: entre a ocupação humana e a dinâmica
dos sistemas deposicionais (dunas e praias). Nas praias, encontram-se exemplos de casas e de loteamentos
que modificaram a paisagem natural através da eliminação de ambientes eólicos, fato este comum no
município de Balneário Gaivota. Outro fato observado é a abertura de estradas à beira mar e implantação de
áreas de lazer sobre as dunas móveis, que são áreas de preservação permanente. Nota-se claramente, nessas
áreas, que as recentes tendências de desenvolvimento são baseadas na economia de turismo ecologicamente
predatório.
Devido às descaracterizações identificadas pode-se constatar que os municípios já vêm sofrendo com
os reflexos da ocupação sem contar com um planejamento ambientalmente adequado.
Na área em estudo ainda há locais bastante preservados. Portanto, ainda podem ser feitos trabalhos que
venham efetivar uma gestão ambiental sustentável dos seus ecossistemas. Pode-se constatar que uma parte
significativa das áreas de preservação permanente ainda apresenta suas características naturais preservadas.
No entanto, essas áreas encontram-se bastante fragmentadas, em meio a áreas rurais e urbanas.
Este processo de ocupação tem sido acentuado com as obras de duplicação da BR-101 Sul, pois estas
induzem uma utilização mais intensiva da terra ao longo da rodovia, além de propiciar o aumento do trânsito
local de veículos pesados e de passeio, que passam através dos diferentes ecossistemas, inclusive muito
próximo a marismas, banhados e lagoas.
4. Conclusão
Em vista desses fatos, torna-se necessário um estudo aprofundado no sentido de buscar alternativas
para o uso mais racional dos recursos naturais, para que estes possam ter garantia de sobrevivência e alcançar
gerações futuras. Por outro lado, o não enfrentamento desses conflitos poderá num futuro próximo
comprometer áreas ainda não contaminadas ou agravar as já degradadas.
Por todas estas questões, percebe-se a necessidade de promover um desenvolvimento que não destrua
os ambientes naturais e a cultura das populações tradicionais e para isso, é necessário que se construa uma
consciência de que as questões sócio-ambientais estão interligadas. Faz-se necessário resgatar os costumes
das populações tradicionais locais relacionados à pesca, à agricultura, às tradições e, ao mesmo tempo, evitar
os problemas causados pela ocupação desordenada, especulação imobiliária e turismo desorganizado.
Na região Sul do Estado de Santa Catarina o processo caótico de expansão da urbanização fortemente
influenciado pelo fenômeno da moradia temporária de verão, tem sido agravado devido ao grande nível de
vulnerabilidade e fragilidade dos ambientes naturais dos ecossistemas costeiros. Por este motivo, torna-se
fundamental e urgente o planejamento territorial desta zona litorânea, tanto preventivo quanto corretivo dos
problemas já apresentados.
A caracterização dos ambientes naturais e o levantamento do uso do solo levarão a variados
indicativos para uma gestão territorial que considere o valor ambiental das belas paisagens locais e suas
restrições e limitações frente ao uso do solo. Torna-se assim necessário, o desenvolvimento de pesquisas
visando à valorização e preservação tanto do ambiente natural, quanto do patrimônio histórico-cultural,
embasadas em instrumentos que contribuam a minimizar os efeitos negativos da ação antrópica.
Referências
[1] BITENCOURT, Neres L. R. Diagnóstico Sócio-Ambiental da Região Costeira Sul Catarinense, como
Instrumento de Apoio para Implementação da Área de Gestão Costeira no Núcleo de Estudos
Ambientais - NEA, da Universidade do Estado de Santa Catarina. Projeto de pós-doutorado –
MPPT/UDESC. Florianópolis, 2008.
[2] SILVA, Célia Maria. Formação Socioespacial de Sombrio: Gênese e Desenvolvimento. In: SCHEIBE,
Luiz Fernando; PELLERIN, Joel. Qualidade Ambiental de Municípios de Santa Catarina: O município
de Sombrio. 2. ed. Florianópolis: Fepema, 1997. Cap. 1, p. 15-27.
[3] LALANE, Heloísa C. Fragilidade dos ambientes naturais da Microbacia Hidrográfica da Lagoa de
Ibiraquera - Santa Catarina, frente às modificações do uso do solo. Trabalho de conclusão de curso –
Geografia/UDESC. Florianópolis, 2007.
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Heloisa de Campos Lalane1, Maria Paula Casagrande Marimon2, Larissa Corrêa Firmino3*
1
Mestranda do MPPT/UDESC
2
Departamento de Geografia/MPPT/UDESC, Dra.
3
Graduanda do Curso de Geografia/UDESC
1. Introdução
O presente trabalho tem como objetivo analisar a fragilidade ambiental na área do entorno do
Complexo Lagunar do Extremo Sul Catarinense, através da caracterização dos ambientes naturais e da
ocupação humana, utilizando como base de análise a delimitação das bacias hidrográficas das lagoas, de
modo a evidenciar as alterações antrópicas impostas a este ambiente costeiro, a partir da década de 1970 até
os dias atuais.
A área em estudo compreende parte da construção marinha e continental da Planície Costeira da
região do Extremo Sul do Estado de Santa Catarina até o início da escarpa da Serra Geral. Esta área
caracteriza-se por uma planície quaternária relativamente ampla, e por apresentar um conjunto de lagunas
costeiras localizadas entre os municípios de Araranguá e Sombrio, que são as lagoas do Caverá, Sombrio,
Mãe Luzia, Serra, Piritú, de Fora, Dourada e do Bicho. Associadas a estas lagunas ainda ocorrem extensas
áreas de marismas e banhados, que reúnem diversas singularidades geomorfológicas e biogeográficas.
As regiões litorâneas representam uma das áreas de maior intercâmbio de energia e matéria do sistema
Terra. Constituem áreas muito frágeis frente a dinâmica dos processos de construção e destruição marinha,
podendo ser afetadas em várias escalas de tempo e espaço e, ainda, sofrer importantes transformações que
podem, ou não, ser irreversíveis. São, portanto, bastante vulneráveis, visto que concentram grande parte da
população mundial, e também catarinense.
O litoral é uma zona de usos múltiplos, onde se observam diversas formas de ocupação e a
manifestação das mais variadas formas de atividades humanas, o que acarreta em conflitos pelo uso do solo.
Esses conflitos e a pressão sobre os ambientes naturais são constantemente observados ao longo do litoral
catarinense, visto que este vem sendo, nas últimas décadas, um grande pólo de atração populacional, tendo
como conseqüência um crescimento desordenado e com sérios impactos ambientais, pois nem sempre ocorre
o planejamento do território no sentido de buscar soluções de desenvolvimento social-ambiental, econômico
e espacial. O que frequentemente se observa é uma dicotomia entre as estratégias de desenvolvimento e de
ordenamento ambiental do território.
No litoral Extremo Sul do Estado de Santa Catarina ocorrem problemas graves, entre os quais,
ocupação com construções nas faixas de praias, áreas de preservação permanente estabelecidas pelo Código
Florestal (Lei 4.771/65), como campos de dunas ativas; restingas geológicas; marismas; manguezais e
banhados [1].
Este litoral caracteriza-se não só pela diversidade geográfica, mas também pela diversidade cultural,
resultado da miscigenação, de diferentes correntes migratórias que povoaram a região. A cultura herdada dos
antepassados se mistura as riquezas naturais. Os primeiros moradores foram os índios Carijó e Xocleng. A
ocupação por europeus no século XVII se deu com luso-brasileiros, vicentistas e posteriormente, açorianos
(século XVIII). Depois, no século XIX, chegaram os italianos, germânicos, poloneses dentre outras etnias.
Este conjunto de singularidades suscita vocações econômicas não industriais para a área. O acervo
histórico, de registros pré-históricos e a paisagem marcada pelo contraste entre praias, dunas, banhados,
lagoas e lagunas dispõem de um grande potencial para o turismo cultural e ecológico.
Percebe-se, pois, que existe, no Litoral Sul do Estado, uma carência de estudos e uma grande demanda
social aplicável visando a superação dos índices de baixo desenvolvimento da região. Com este estudo
pretende-se adquirir e organizar informações, a fim de formar um banco de dados sobre esta região que,
segundo Bittencourt (2008), talvez por estar localizada no Extremo Sul do Estado, longe do centro do poder,
ou pelo fato da maioria dos municípios não apresentarem índices positivos de desenvolvimento, tem ficado a
margem das iniciativas governamentais [1].
Através das inter-relações entre os componentes naturais e sociais que formam a paisagem, este estudo
pretende, portanto, realizar a síntese dos ambientes naturais que compõem o Complexo Lagunar Extremo Sul
Catarinense, com a finalidade de levantar as potencialidades e as fragilidades destes ambientes frente à
ocupação humana, apontando, assim alternativas que auxiliem numa melhor forma de ocupação, com o uso
racional dos recursos naturais, levando em conta a importância de sua preservação para o desenvolvimento
ambiental sustentado.
*
Larissa Corrêa Firmino: [email protected]
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2. Método
A metodologia empregada neste trabalho consiste na análise de fotografias aéreas de 1966, na escala
1:60.000, (anteriores as principais intervenções nesta região) e imagens orbitais recentes para a interpretação
dos ambientes naturais e da ocupação humana, bem como registros fotográficos, trabalhos de campo e
pesquisa bibliográfica. Como resultado deste estudo, buscou-se propor alternativas que auxiliem na gestão
territorial da área, que leve em conta a preservação dos ecossistemas costeiros e aponte áreas favoráveis à
preservação de ambientes naturais e ao desenvolvimento dos diferentes tipos de atividades humanas.
3. Resultados e Discussão
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das condições naturais das lagoas destacam-se a retirada de areia, mineração de turfa, aterros, assoreamento,
mudanças na geomorfologia, supressão da mata ciliar, lançamento de efluentes e eutrofização artificial.
Apesar desses exemplos de deterioração da paisagem, a região ainda mantém inegável vocação para o
turismo, pois apresenta grande beleza cênica ligada as lagoas e áreas próprias para atividades de veraneio.
No entanto, essas características têm gerado outro ponto de conflito: entre a ocupação humana e a dinâmica
dos sistemas deposicionais (dunas e praias). Nas praias, encontram-se exemplos de casas e de loteamentos
que modificaram a paisagem natural através da eliminação de ambientes eólicos, fato este comum no
município de Balneário Gaivota. Outro fato observado é a abertura de estradas à beira mar e implantação de
áreas de lazer sobre as dunas móveis, que são áreas de preservação permanente. Nota-se claramente, nessas
áreas, que as recentes tendências de desenvolvimento são baseadas na economia de turismo ecologicamente
predatório.
Devido às descaracterizações identificadas pode-se constatar que os municípios já vêm sofrendo com
os reflexos da ocupação sem contar com um planejamento ambientalmente adequado.
Na área em estudo ainda há locais bastante preservados. Portanto, ainda podem ser feitos trabalhos que
venham efetivar uma gestão ambiental sustentável dos seus ecossistemas. Pode-se constatar que uma parte
significativa das áreas de preservação permanente ainda apresenta suas características naturais preservadas.
No entanto, essas áreas encontram-se bastante fragmentadas, em meio a áreas rurais e urbanas.
Este processo de ocupação tem sido acentuado com as obras de duplicação da BR-101 Sul, pois estas
induzem uma utilização mais intensiva da terra ao longo da rodovia, além de propiciar o aumento do trânsito
local de veículos pesados e de passeio, que passam através dos diferentes ecossistemas, inclusive muito
próximo a marismas, banhados e lagoas.
4. Conclusão
Em vista desses fatos, torna-se necessário um estudo aprofundado no sentido de buscar alternativas
para o uso mais racional dos recursos naturais, para que estes possam ter garantia de sobrevivência e alcançar
gerações futuras. Por outro lado, o não enfrentamento desses conflitos poderá num futuro próximo
comprometer áreas ainda não contaminadas ou agravar as já degradadas.
Por todas estas questões, percebe-se a necessidade de promover um desenvolvimento que não destrua
os ambientes naturais e a cultura das populações tradicionais e para isso, é necessário que se construa uma
consciência de que as questões sócio-ambientais estão interligadas. Faz-se necessário resgatar os costumes
das populações tradicionais locais relacionados à pesca, à agricultura, às tradições e, ao mesmo tempo, evitar
os problemas causados pela ocupação desordenada, especulação imobiliária e turismo desorganizado.
Na região Sul do Estado de Santa Catarina o processo caótico de expansão da urbanização fortemente
influenciado pelo fenômeno da moradia temporária de verão, tem sido agravado devido ao grande nível de
vulnerabilidade e fragilidade dos ambientes naturais dos ecossistemas costeiros. Por este motivo, torna-se
fundamental e urgente o planejamento territorial desta zona litorânea, tanto preventivo quanto corretivo dos
problemas já apresentados.
A caracterização dos ambientes naturais e o levantamento do uso do solo levarão a variados
indicativos para uma gestão territorial que considere o valor ambiental das belas paisagens locais e suas
restrições e limitações frente ao uso do solo. Torna-se assim necessário, o desenvolvimento de pesquisas
visando à valorização e preservação tanto do ambiente natural, quanto do patrimônio histórico-cultural,
embasadas em instrumentos que contribuam a minimizar os efeitos negativos da ação antrópica.
Referências
[1] BITENCOURT, Neres L. R. Diagnóstico Sócio-Ambiental da Região Costeira Sul Catarinense, como
Instrumento de Apoio para Implementação da Área de Gestão Costeira no Núcleo de Estudos
Ambientais - NEA, da Universidade do Estado de Santa Catarina. Projeto de pós-doutorado –
MPPT/UDESC. Florianópolis, 2008.
[2] SILVA, Célia Maria. Formação Socioespacial de Sombrio: Gênese e Desenvolvimento. In: SCHEIBE,
Luiz Fernando; PELLERIN, Joel. Qualidade Ambiental de Municípios de Santa Catarina: O município
de Sombrio. 2. ed. Florianópolis: Fepema, 1997. Cap. 1, p. 15-27.
[3] LALANE, Heloísa C. Fragilidade dos ambientes naturais da Microbacia Hidrográfica da Lagoa de
Ibiraquera - Santa Catarina, frente às modificações do uso do solo. Trabalho de conclusão de curso –
Geografia/UDESC. Florianópolis, 2007.
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Análise do uso da terra e das áreas de conflitos da Bacia Hidrográfica da UHE no município
de Dona Francisca - RS
Franciele Francisca Marmentini Rovani1; Lueni Gonçalves Terra1; Diego de Almeida Prado1; Pedro
Madruga1
1
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
1. Introdução
2. Métodos
Diego de Almeida Prado: [email protected]
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3. Resultados e Discussão
Através da espacialização dos elementos naturais da paisagem, bem como do uso da terra e áreas de
conflito pode-se inferir algumas análises a respeito do recorte espacial. A bacia hidrográfica apresenta uma
área total de 240131.52 ha com a presença de 1493,94 km de rede de drenagem.
Analisando o mapa de declividade (Fig. 1), observa-se a definição de cinco classes respectivamente: 0
- 5%, 5 – 12%, 12 – 30%, 30 – 45% e >45%.
De acordo com a Figura 1 verificou-se que as declividades entre 5 e 12% que representam o limite
máximo para mecanização da agricultura, são as mais significativas, ou seja, representam 34% da área. As
áreas mais planas (0 – 5%) encontram-se principalmente na porção nordeste e oeste da bacia, possuindo um
total de 30%. As maiores declividades, instituídas naturalmente como áreas de preservação permanente onde
só é permitido o manejo do local, sem a derrubada de florestas (>45%) foram registradas em menor
proporção e em especial a jusante da bacia hidrográfica, totalizando uma área de aproximadamente 3%.
Com relação ao uso da terra (Fig. 2) foram identificados cinco principais usos: corpos hídricos,
campos, culturas, solo exposto (incluindo as áreas de preparo do solo para plantio) e áreas florestais.
128
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Diante das observações da Figura 2 pode-se constatar que as áreas com floresta representam a maior
parte do uso (48%), encontradas principalmente as margens do reservatório com predomínio na foz e na
porção leste da bacia hidrográfica. A segunda maior representação refere-se à presença de campos
delineando aproximadamente 30% total dos usos, identificados principalmente na porção nordeste e noroeste
da bacia.
No que tange a classe de culturas presentes na área estudada, esta representa em torno de 15% do total
e são encontradas na porção oeste e norte da bacia hidrográfica. Por último, a porcentagem de 1,3%
representando o total de solo exposto na porção oeste coincidindo com as áreas de culturas.
Quanto ao mapa de conflitos (Fig. 3) percebe-se áreas conflitantes quanto às culturas, ao solo exposto
e ao campo.
Observando-se a Figura 3, constatou-se que as áreas de maior conflito são aquelas com a presença de
campos (25%). Já o segundo maior conflito, deu-se em relação à presença de culturas, totalizando 10% da
área. Em menor proporção, o solo exposto apresentou-se conflitando 1% da área.
As áreas sem conflitos, com a presença de matas, podem ser encontradas em porções significativas na
bacia hidrográfica, ou seja, 45% da área analisada. Isso significa que um bom índice de área de preservação
permanente está sendo protegido.
4. Conclusão
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Diante dos aspectos analisados concluiu-se que a bacia hidrográfica da UHE de Dona Francisca
apresenta maior parte de sua área com declives de 5 a 12 %, seguido das áreas planas. As maiores
declividades (>45%) são observadas em pequena proporção e situam-se próximo a foz da bacia.
Quanto ao uso da terra destacam-se as áreas florestais, com um total de quase 50%, localizando-se as
margens do reservatório. Os campos apresentam-se como o segundo maior uso, seguido das culturas. A
menor presença é em relação ao solo exposto.
No que tange as áreas de conflito, a maior parte refere-se a campos num total de 25%, seguido das
culturas (10%). No entanto, destacam-se as áreas preservadas, ou seja, praticamente 50% das áreas de
preservação permanente encontram-se protegidas.
Referências
[1] ASSAD, Eduardo Delgado; SANO, Edson Eyji. Sistemas de Informações Geográficas. Aplicações na
Agricultura. Brasília: 2. ed. Embrapa-SPI/Embrapa-CPAC, 1998
[2] CURRAN, P. J. Principles of remote sensing. New York: Longman Scientific & Technical,1986.
[3] DE BIASI, Mário. A Carta Clinográfica: Os métodos de representação e sua confecção. Revista do
Departamento de Geografia. n. 6. São Paulo: USP, 1992, p. 45-60.
[4] LOCH, Ruth E. Nogueira. Cartografia: representações, comunicação e visualização de dados espaciais.
Florianópolis: Ed. da UFSC, 2006.
130
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ANÁLISE DOS MAPAS HISTÓRICOS DOS SÉC. XVII E XVIII DE ACORDO COM A
TEORIA DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO DE PIAGET
1. Introdução
Com o objetivo de compreender o processo de comunicação dos mapas do ponto de vista dos
cartógrafos dos séc. XVII e XVIII, a teoria do desenvolvimento cognitivo apresentada por Piaget, que visa
identificar e reconhecer o processo de construção do conhecimento espacial elaborado por esses cartógrafos a
partir de suas representações cartográficas. Em particular, foi analisada a similitude dessas representações
com as executadas por crianças, subsidiando os traços característicos desses profissionais em seus mapas.
Dessa análise, pode-se mencionar que os cartógrafos estão nos estágios operatórios concreto e formal.
O ser humano é capaz de representar internamente o ambiente, essas representações centralizadas nas
relações espaciais e socioculturais simulam o conhecimento sobre o mundo externo, esse é o objeto de estudo
da psicologia cognitiva (Gardner, 2003).
Na década de 1950, Piaget começa seus estudos nessa linha de pensamento, suas pesquisas feitas com
crianças de várias idades, vão dar origem a sua teoria do desenvolvimento cognitivo; é proposto por ele que
as crianças possuem fases ou estágios de desenvolvimento, e em cada um desses períodos vai haver
aprendizados e conservações. A inteligência vai ser igual a adaptação, ou seja, a criança aprende tendo
momentos de desequilíbrio, dificuldades para resolver um problema, depois que ela o soluciona, se adapta a
essa nova condição imposta pelo meio, passando por um período de equilibração até que apareça outra
problemática.
Na construção do espaço é primeiramente um processo perceptivo (órgãos sensoriais atuando) e,
posteriormente, um processo representativo („cognitivo‟). Isso significa que ocorre a ação, a interação com o
meio no qual a aquisição de conhecimento do ambiente se dá mediante os processos de assimilação – fruto
da ação do indivíduo sobre o meio – e acomodação – ação do meio sobre o indivíduo – “para posterior
representação, na qual comparece o objeto obtido pela ação e o construído mentalmente”, que compõem o
processo cognitivo (Petchenik, 1977).
Nesse contexto, as pesquisas em Cartografia têm mostrado preocupação na aprendizagem com a
leitura do mapa, mostrando que o indivíduo precisa agir para então construir o espaço, sendo enfatizada a
necessidade de formar os conceitos e relações para posterior representação mental e, conseqüentemente, uso
do mapa. A teoria apresentada por Piaget e seus colaboradores indica que a passagem da ação para a
operação pode habilitar as pessoas a compreenderem as informações contidas no mapa (Santil, 2008). Mas
deve-se lembrar que para os cartógrafos dos séc. XVII e XVIII existiam limitações técnicas, e como afirma
Almeida (2003, p.13): “os mapas só podem ser compreendidos se vistos no contexto histórico e cultural em
que foram produzidos”.
2. Método
Neste trabalho a discussão das análises dos mapas dos séc. XVII e XVIII, deu-se a partir da similitude
observada no processo de construção do espaço geográfico proposto pela criança e o realizado pelos
cartógrafos desses séculos. Os procedimentos adotados neste trabalho foram: (a) seleção e análise dos mapas
das coleções “Tesouro dos Mapas” e “Brasil Colonial”, levando-se em conta a semelhança com os desenhos
das crianças e, em seguida, (b) com base nas Relações e conservações espaciais apresentadas por Paganelli
(1982), definiu-se em qual estágio do desenvolvimento cognitivo se assemelha os mapas dos cartógrafos.
3. Resultados e Discussão
Observou-se que nos mapas avaliados aparece contraste entre os tipos de visão oblíqua e vertical,
que é característica da fase denominada por Piaget de operatório concreto; é a fase na qual a criança começa
a adquirir as relações euclidianas, por isso à dificuldade de representar (coordenadas gráficas, medidas
métricas e proporcionalidade), que aparece em evidência em alguns mapas. Por exemplo, as muralhas e
fortes aparecem maiores que as malhas urbanas (e plantas baixas) que representam os caminhos. O exagero é
bem destacado como mostra a Figura 1, no qual as casas, os animais e os índios em atividade não
correspondem à proporcionalidade do mapa.
Outra característica que aparece é uma variante do “plano deitado” – o fenômeno do reflexo – é
quando a criança representa uma imagem e a rebate imediatamente abaixo como se fosse vista no espelho, é
1*
[email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
o caso particular do castelo que a princípio é apenas uma casa cujos dois lados foram desenvolvidos e
representados sob a forma de torres (Mèredieu, 1974). A Figura 2 ilustra esse fenômeno.
A criança vai desenvolver as habilidades de desenhar conforme a sua ação com o desenho, na qual
poderá construir hipóteses sobre o meio em que ela vive. Luquet (1969) foi um dos primeiros a estudar o
desenho infantil do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo, e Piaget ao tratar o desenvolvimento do
desenho espontâneo, adota os estágios propostos por Luquet. Outros autores vão relacionar essas teorias
também a afetividade, a natureza dos seus pensamentos e as influências socioculturais, mas esses aspectos
fogem do escopo deste trabalho.
4. Conclusão
Há pouco estudo que retrate a representação cartográfica contida nos mapas históricos, e a psicologia
cognitiva pode auxiliar nesse estudo. Pode-se observar, pelos exemplos, a similitude entre as representações
dos cartógrafos com a representação do espaço geográfico pelas crianças. Os mapas avaliados não foram
encontradas em todos os estágios do desenvolvimento infantil, e as semelhanças estão nas fases operatórios
concreto e formal. Essas semelhanças também aprecem em outros períodos históricos, como nos mapas dos
séc. XV e XIX, e com erros nas representações gráficas, proporcionalidade e confusões entre planos.
Referências
ALMEIDA, R. D. 2ª ed. Do desenho ao mapa: iniciação cartográfica na escola. São Paulo: Contexto, 2003.
REIS, N. G. Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: EDUSP/Imprensa Oficial, 2000.
GARDNER, H. A nova ciência da mente – uma história da revolução cognitiva. Trad. Cláudia M. Caon. São
Paulo: EDUSP, 2003.
LUQUET, C.H. O Desenho Infantil. Porto: Editora, 1969.
MÈREDEU, F. Trad. Álvaro Lorencini e Sandra M. Nitrini. O desenho infantil. São Paulo: Editora Cultrix,
1974.
MICELI, P. et al. O tesouro dos mapas: a cartografia na formação do Brasil. São Paulo: Instituto Cultural
Banco Santos, 2002.
PETCHENIK, B. B. Cognition in cartography. Cartographica, n.14,p. 117-128. 1977.
PAGANELLI, T. I. Para a construção do espaço geográfico na criança. Rio de Janeiro: FGV, 1982.
SANTIL, F. L. P. Análise da percepção das variáveis visuais de acordo com as leis da Gestalt para
representação cartográfica. Tese de doutoramento, Universidade Federal do Paraná, 2008.
.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Letícia Celise Ballejo de Oliveira1*; Aline Carlise Slodkowski2; Heliana de Moraes Alves3
1
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
2
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
3
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
1. Introdução
Após a Revolução Industrial do século XVIII, iniciou um processo de migração de pessoas do campo
para as cidades, em busca de melhores condições de vida. Com isso, iniciou-se um crescimento urbano, que
no Brasil manifestou-se somente em meados do século XX, com o seu auge na década de 60, promovendo
assim, um processo de urbanização no país, como consequência do desenvolvimento tecnológico e científico
da época. Esse processo é resultado da estrutura econômica, através de relações sociais gerando assim
desigualdades.
A urbanização é decorrente da ação humana, ocorrendo muitas vezes de forma desordenada, o que
vem de encontro com a qualidade de vida da população urbana, pois, o governo apresenta dificuldade para
disponibilizar infra-estrutura adequada à essa demanda populacional, determinando assim, uma segregação
espacial e degradação ambiental nas cidades. Portanto, coexistindo espaços diferenciados, uns com infra-
estrutura e outros sem, determinando ou não uma boa condição de vida aos seus habitantes. Logo, torna-se
importante a existência de um planejamento, com o intuito de solucionar problemas sociais, como falta de
moradia infra-estrutura e serviços.
Nesse contexto, o presente estudo visou pesquisar a disponibilidade das variáveis que compõem infra-
estrutura urbana do Conjunto Habitacional (COHAB) Fernando Ferrari, Santa Maria/RS, onde também
elaborou-se mapas temáticos com a finalidade de espacializar as informações obtidas.
2. Método
Inicialmente foi necessário, a realização de um amplo levantamento bibliográfico como embasamento
teórico para a realização do estudo, na busca de conceitos para um melhor entendimento sobre os efeitos da
urbanização, bem como o planejamento e distribuição dos serviços públicos relacionados à infra-estrutura
urbana.
Para pesquisar a disponibilidade das variáveis relacionadas à infra-estrutura (coleta de lixo, sistema de
esgoto, coleta de águas pluviais, pavimentação das ruas, iluminação pública e segurança.) da COHAB
Fernando Ferrari, primeiramente aplicou-se entrevistas aos moradores, sendo que, a aplicação se deu em 75
das 500 residências da COHAB, abrangendo um percentual de 15% do total. Para que a amostra demonstra-
se resultados eficientes em relação à cobertura espacial, a amostragem selecionada foi distribuída de forma
similar e homogênea perante as quadras da COHAB, assim, as 75 residências selecionadas foram divididas
pelas 27 quadras existentes. Deste cálculo, resultou que três entrevistas fossem realizadas por cada quadra.
Ao término da aplicação das entrevistas, procurou-se quantificar as informações coletadas através da
organização das mesmas no programa Excel, a fim de tabular e gerar gráficos que melhor representam os
dados das condições da infra-estrutura.
A posterior elaboração dos mapas deu-se a partir das tabelas organizadas num primeiro momento, que
serviram como base para a confecção dos mapas temáticos da área em estudo, os quais têm como finalidade
primordial representar os possíveis pontos de fragilidade na infra-estrutura encontrados na COHAB
Fernando Ferrari. Os mapas foram produzidos por meio do software SPRING 4.3, utilizando como base a
imagem de satélite Google Earth 2009.
3. Resultados e Discussão
As altas taxas de crescimento populacional resultam em um adensamento urbano, ocasionando, muitas
vezes, uma má prestação de serviços públicos à sociedade, ocorrendo assim, um déficit na disponibilidade de
algumas variáveis que compõem a infra-estrutura das cidades.
Nesse contexto, esse trabalho buscou pesquisar a disponibilidade de algumas dessas variáveis, como,
saneamento básico, abastecimento de água, iluminação, pavimentação e segurança, na COHAB Fernando
Ferrari. Para realização dessa pesquisa utilizou-se, então, como principal instrumento um questionário
*
Letícia Celise Ballejo de Oliveira:[email protected]
134
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
aplicado a uma porção da população. Desse modo, as análises a seguir são feitas com base nas respostas
obtidas.
Assim, a primeira variável de infra-estrutura analisada se refere a serviços ligados ao saneamento
básico, o qual se restringe ao abastecimento de água, sistema de esgotos e coleta de resíduos sólidos.
No que diz respeito, ao destino dos resíduos sólidos, constatou-se que 100% dos entrevistados responderam
que o mesmo é coletado regularmente, 3 vezes por semana, por uma empresa privada, contratada pelo
governo municipal. Verificou-se também, que os moradores não realizam uma reciclagem desses resíduos,
mas sim, uma separação, ou seja, eles apenas separam papelão e plásticos (principalmente garrafas PET) do
restante dos resíduos, os quais são destinados aos catadores de materiais recicláveis, existentes na COHAB.
Isso comprova-se com a Figura 1, onde 58,33% realizam a separação e 41,66% não realizam nenhum tipo de
separação.
Entretanto, nas idas a campo detectou-se, a disposição dos resíduos para a coleta geralmente na frente
das residências, onde muitos ficam sujeitos a depredação de animais (Figura 2) e também jogados em
terrenos baldios e em espaços de lazer como na praça (Figura 3).
Fig. 1 Gráfico da Separação Fig. 2 Foto do lixo nas ruas Fig. 3 Foto do lixo na praça.
do Lixo
Em relação ao sistema de esgoto, identificou-se que 88,33% dos entrevistados utilizam a rede pluvial
para o escoamento do esgoto, e 11,66% utilizam fossa (Figura 04). A rede pluvial conforme conversas
informais com os moradores funciona da seguinte maneira: os encanamentos das residências são ligados as
tubulações das ruas que são direcionados ao arroio.
De acordo com o PNSB (2000) realizado pelo IBGE, quase metade dos municípios do Brasil não
contam com rede geral 47,8% e 80% não tratam o esgoto coletado. Isso vem de encontro com a realidade da
COHAB, onde os habitantes optam por outras formas para o destino de esgoto, como a rede pluvial e fossas.
Cabe salientar também a situação da região sul do país, onde mais da metade dos municípios (61,1%) não
possuem sistema de esgoto.
Da mesma forma evidenciou-se que na área de estudo uma parte significativa da população sofre com
problemas de esgoto, entre eles o principal é o mau cheiro e complicações com o encanamento da rede
pluvial. Na figura 5 tem-se a espacialização das áreas da COHAB que enfrentam esses tipos de transtornos,
sendo que, na porção norte os moradores reclamam do mau cheiro, devido a proximidade do arroio, onde é
depositado o esgoto a céu aberto. Já em algumas quadras da porção sul identificou-se problemas na
tubulação da rede pluvial, que segundo os habitantes possuem diâmetro insuficiente para o escoamento do
esgoto, entupindo facilmente.
Fig. 4 Gráfico demonstrando o tipo de sistema Fig. 5 Mapa dos Problemas de Esgoto.
esgoto.
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Procurou-se também constatar nesse estudo a satisfação dos moradores em relação a quantidade de
ônibus e horários disponíveis, com isso obteve-se um percentual de 70% que consideram esse serviço
suficiente e satisfatório e 30% insuficiente. Entre as insatisfações destaca-se a insuficiência de horários
disponibilizados aos domingos, e a preocupação dos moradores com a construção dos novos loteamentos, os
quais exigiram uma maior disponibilidade de horários.
A última variável diagnosticada foi a pavimentação das ruas, as quais apresentam 76,66%
pavimentação, entre paralelepípedos e asfalto, (Figura 08). Esses tipos de vias estão espacializadas na figura
09. A principal insatisfação dos moradores, além das ruas que ainda não são pavimentadas, é a largura das
mesmas pavimentadas com paralelepípedo, as quais são muito estreitas.
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4. Conclusão
O Conjunto Habitacional Fernando Ferrari foi um fruto do planejamento urbano nacional da década de
80, com o intuito de atender a demanda populacional da época. Inicialmente a população ocupou as
habitações construídas através desse planejamento e com o passar dos anos com o crescimento urbano houve
o aumento da implantação da infra-estrutura no local, mas também houve uma expansão de moradias
irregulares, as quais não são atendidas com os serviços públicos necessários para uma boa condição de vida.
Assim, com o presente trabalho pode-se constatar a situação da disponibilidade das variáveis que
compõem infra-estrutura pública da COHAB, onde de modo geral, pode-se afirmar que área em questão
apresenta uma satisfatória distribuição desses serviços de acordo com os questionários aplicados. Entretanto,
se observou locais que revelam problemas ligados principalmente ao sistema de esgoto e a pavimentação,
que se localizam especialmente nas áreas de irregularidades, próximas ao arroio.
Desse modo, algumas variáveis apresentam especificidades que precisam ser revistas para uma melhor
eficácia da prestação dos serviços públicos, a fim de atender a todos moradores da COHAB e proporcionar
uma completa qualidade de vida sócio-ambiental.
Referências
FERRARI, C. Curso de Planejamento Urbano Integrado. 5 ed. São Paulo: Livraria Pioneira, 1986.
MELARA, E. Infra-Estrutura urbana: Diagnóstico das diferenças sócio-espaciais nos bairros Camobi e
Salgado Filho, Santa Maria-RS. Trabalho de Graduação. Universidade Federal de Santa Maria – Santa
Maria, 2006.
137
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Desde o pós-guerra, o mundo abriu-se para uma discussão acerca da História Política e o Tempo
Presente, com a intenção de explicar os acontecimentos dos recentes eventos, como a ascensão dos
totalitarismos e os campos de concentração.[1] Essas duas determinações da historiografia dizem muito
sobre a minha filiação histórica. Acredito ser possível trabalhar o político no presente fazendo história. No
Brasil as discussões políticas advindas do fim do processo do regime autoritário e o início de um novo ciclo
de pluralismo político faz com que a História Política e o Tempo presente sejam relacionadas e se
evidenciem nas análises destes momentos da História Brasileira. Por esta razão a minha pesquisa no
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de Santa Catarina, na linha de pesquisa
Culturas Políticas e Sociabilidades, objetiva analisar as influências do marketing político na cultura política
brasileira.
2. Método
O objeto desta pesquisa são as propagandas políticas eleitorais das eleições presidenciais de 1989 e
1994, por isso a pesquisa e análise das imagens se tornam essenciais para a proposta da pesquisa. Também
como referente a uma metodologia da leitura do presente, o colhimento de variadas fontes como outros tipo
de mídia, principalmente a impressa, entrevistas (história oral), a legislação eleitoral também farão parte das
análises para melhor contextualizar e ajudar na construção de uma totalidade histórica, mesmo essa sendo
utópica. Assim a metodologia se baliza numa escala da macro-história[2], de forma alguma isso significa
uma história das elites, ou até mesmo das instituições, não veremos rostos como numa história vista de
baixo, mas também será importante entender como o marketing afeta a vida do eleitor.
3. Resultados e Discussão
Ainda como uma pesquisa em andamento não temos nenhum resultado efetivo. Mas algumas
discussões acredito pertinente não só neste momento de eleições, mas para pensarmos o sistema político de
representação.
A primeira discussão pertinente gira em torno do conceito de democracia. Clauss Offe indica que a
junção de liberdade econômica e política só foi possível devido ao welfare state Keynesiano.[3] E aí uma
reflexão é importante fazer: como fazemos no Brasil? Ou simplesmente não fazemos. Vivemos sobre um
regime econômico liberal, onde o mercado regula a sociedade. Existe democracia? Bem, não podemos
confundir o pluralismo político com democracia, pois o conceito desta vai muito além do político partidário.
No Brasil nunca alcançamos o Estado de Bem Estar Social, então fica difícil de empregarmos alguns
conceitos a nossa realidade.
Você já se perguntou se sente representado por alguma bandeira política no Brasil? Essa é uma das
implicâncias ou interferências do marketing político no debate ou nas ideias políticas. Quando o mercado
regula essas questões as ideias se dissolvem, assim como os conflitos ou alternativas que vão contra os
interesses do mercado.[4] Portanto o conceito de político que era a tomada de decisões , escolha ou até
mesmo de opinião se dissipa e o que é colocado no lugar? Mercado. Consumo. O ter além do ser, a perda de
valores morais a decadência da cidadania. A confusão dos direitos civis, com o direito do consumidor.
Nas eleições isso se destaca pela forma como os candidatos se colocam na disputa. O marketing acaba
com qualquer projeto de país e no lugar apenas resta a disputa pelo poder. Durante o regime autoritário,
quando se autoriza as eleições para prefeito e governador, ainda não há propaganda. O que ocorria era apenas
uma informação dos candidatos possíveis. De certa forma isso fazia com que as pessoas votassem de acordo
com as suas convicções políticas e votar em um candidato significava um conjunto de expectativas para o
país. Daí evidencia uma discussão também importante que é a diferença de propaganda e marketing. O
objetivo da propaganda é de seduzir as pessoas pelas ideias, é só lembrar das campanhas da Companhia de
Jesus no que para muitos é o surgimento da propaganda. O marketing como deriva do mercado anula as
ideias exatamente para conquistar o maior número de clientes ou consumidores possíveis. E isso é um
paradoxo tenebroso se pensarmos em termos políticos. Como pensar em sustentabilidade, que é o tema deste
1
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congresso, se não conseguimos uma organização política mínima, para podermos organizar um projeto de
país.
4. Conclusão
Em trabalhos de análise histórica como este, é difícil pontuarmos uma conclusão, pois o processo das
transformações humanas, que é o nosso objeto de estudo só se concluirá com a extinção da vida humana na
terra. Assim como a história é um processo não concluímos, mas sim realizamos algumas considerações
acerca de nossas análises.
Uma dificuldade deste trabalho é a sua aproximação da comunicação e da ciências política. Portanto o
perigo de sair de uma abordagem histórica é muito grande, assim o rigor metodológico se faz ainda mais
necessário e primordial para uma boa análise histórica.
Este trabalho visa a colaborar com as análises que pensam como se formou o sistema político do nosso
pais, e como podemos pensar soluções para que conceitos como sustentabilidade entre na pauta de debate
político.
Referências
1. TETART, Philippe. Pequena historia dos historiadores. São Paulo: EDUSC, 2000.
2. REVEL, Jacques. Jogos de escalas : a experiencia da microanálise. Rio de Janeiro: Editora Fundação
Getulio Vargas, 1998.
3. OFFE, Claus. Problemas estruturais do Estado capitalista. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
4. BAUMAN, Zygmunt. . Em busca da política. Rio de Janeiro (RJ): Zahar, 2000.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O desenvolvimento local tem sido abordado em suas relações com o desenvolvimento científico e as
inovações tecnológicas. Considerando que é nas universidades que se produz grande percentual da
produção científica brasileira, e que nelas se formam a cada ano novos pesquisadores e profissionais
qualificados, nesse trabalho procura-se ressaltar o papel das universidades no desenvolvimento local,
com suas possibilidades de territorialização do conhecimento e inovações tecnológicas que produzem.
2. Desenvolvimento local
A partir da década de 1980 introduziram-se novas formas de desenvolvimento, uma delas foi o
desenvolvimento local [2], impulsionados pela crise econômica mundial da década de 70 somado aos
movimentos ambientalistas.
O desenvolvimento local procura valorizar o social e as pessoas, dando prioridade a essas no
processo de desenvolvimento[2]. Há uma maior valorização da perspectiva espacial, busca-se entender o
desenvolvimento a partir do território e procura as especificidades locais para desenvolver.
Organizações, como as universidades, são pressionadas a compartilhar de valores globais e ao
mesmo tempo atuar de forma mais consistente e comprometida com a realidade a qual estão inseridas, assim
a relação entre universidades, sua produção cientifica e tecnológica, e o desenvolvimento local seria
automática [3]
Goulart ET AL [3] comentam que há organizações que por seu caráter institucional tem capacidade
de acesso e ação em todos os níveis de contextuais, como é o caso das universidades. A essas organizações
sempre foi atribuído papel central no desenvolvimento dos países por sua capacidade de produção e
transmissão do conhecimento de caráter universal e de formação e qualificação da força de trabalho.
Universidade Tecnológica Federal do Paraná, ambas com produção científica que podem ser
incorporadas em empresas se tornando inovações tecnológicas.
5. Algumas considerações:
Na década de 80 pensou-se de forma mais ativa a respeito da possibilidade de gestão local do
desenvolvimento, acrescentando dimensões sociais, políticas, culturais e ambientais ao enfoque econômico,
agregando alternadamente, as adjetivações local ou social ou constructo desenvolvimento. A dimensão local
visa delimitar um espaço mais estrito, ainda que variável e suscetível a dimensão global; a social, para
destacar a expansão da noção de desenvolvimento para alem de atributos econômicos.
As universidades públicas são um importante fator para a inovação tecnológica e também para o
desenvolvimento local. Há diversas maneiras em que ela acaba por influenciar tanto os fatores de inovação
quanto de desenvolvimento.
Sabe-se que são nas universidades que se produz grande percentual da produção científica brasileira,
e que nelas se formam a cada ano novos pesquisadores e profissionais qualificados. No entanto há
dificuldades de transferir o conhecimento gerado nessas instituições para as empresas na forma de inovação.
Comparando com outros países, as empresas brasileiras inovam muito pouco, e poucas registram
patentes, aqui inovação é considerada a introdução e melhorias nos processos e/ou produtos.
Com a Lei 10.973 [4], a chamada Lei de Inovação, pretende-se melhorar esse quadro, essa estimula
alianças entre universidades e empresas e também incentiva a incubação de empresas.
Uma alternativa de transferências de tecnologias das universidades para empresas é a formação de
tecnopolos e pólos tecnológicos, este depende da parceria entre universidades, governo, e empresas privadas,
e é buscado por cidades que segundo Benko [1] tem estratégias de desenvolvimento baseadas seu potencial
universitário e de pesquisa, com expectativa que gere industrialização nova por iniciativa de empresas de
tecnologia de ponta, atraídas para o local ou criadas ali.
Assim, acabam por ajudar no desenvolvimento local, com a geração de empregos diretos e indiretos
nas empresas e incubadoras, com a difusão do empreendedorismo, atração de investimentos para a
localidade.
6. Referências bibliográficas:
1 BENKO, G. Economia, espaço e globalização na aurora do século XXI. São Paulo: Hucitec,
1996.
1
Aluna do 2º ano de graduação em Geografia na Universidade Estadual de Ponta Grossa.
[email protected]
2
Professor Doutor adjunto do curso de Geografia na Universidade Estadual de Ponta Grossa.
[email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Éderson Dias de Oliveira1*; Márcia Cristina da Cunha²; Leandro Redin Vestena3; Edivaldo Lopes Thomaz4
¹ Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
² Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
³ Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
4
Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO)
1. Introdução
Os estudos envolvendo os impactos urbanos nos cursos fluviais com relação aos aspectos hidrológicos,
sedimentológicos e geomorfológicos são ainda insipientes nas regiões tropicais do planeta. Portanto é
relevante esse tipo de estudo haja vista sua deficiência, além de também contribuir no planejamento da
drenagem urbana, Vieira e Cunha (2006; 2008). As primeiras pesquisas envolvendo o conceito de geometria
hidráulica foram apresentadas por Leopold e Maddock (1953), tendo como base a identificação das margens
plenas. Estas se tratam do limite entre os processos fluviais que modelam o canal e os que constroem a
planície de inundação, e a descarga de margens plenas representa a vazão reguladora das dimensões físicas
do canal através dos processos erosivos e deposicionais.
No presente trabalho por se tratar de seções fechadas se tomou como base o limite de seção de
margens plenas a parte superior das mesmas. Cabe destacar que as obras de engenharia ao longo dos canais
urbanos além do período de retorno, tomam como base o nível de margens plenas e da descarga líquida
correspondente para sua instalação, sendo este nível de grande importância prática e científica, Fernandez
(2004). Com relação à geometria fluvial as suas dimensões não são arbitrárias estando às mesmas ajustadas à
quantidade de água que passa ao longo da seção. Dessa forma o aumento da descarga num sistema fluvial
equilibrado deve ser proporcional ao aumento da área de drenagem, assim como da largura e profundidade
média do canal, Vieira e Cunha (2006). Leopold e Maddock, (1953) definem que há correlação positivas
bem ajustadas entre os parâmetros geométricos do canal fluvial, contudo cabe lembrar que as maiores
correlações são encontradas em ambientes naturais, pois nos ambientes antrópicos a morfologia fluvial
muitas das vezes não condiciona um bom ajuste nessa relação. Portanto o levantamento desses parâmetros
em áreas urbanas é de grande importância para analisar os impactos fluviais urbanos e também poder
contribuir na gestão e planejamento dos canais fluviais urbanos. Dessa forma o presente trabalho busca
analisar o grau de ajustagem nas seções transversais do arroio Carro Quebrado com base nas seções
fechadas, que se trata de pontos onde há obras de infra-estrutura urbana.
* Email: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
severas nos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro. A pluviosidade média anual é de 1.960 mm,
com precipitações médias mensais superiores a 100 mm, sendo os meses mais chuvosos outubro e janeiro, e
os menos chuvosos, agosto e julho (THOMAZ e VESTENA, 2003). Quanto à base geológica da área de
estudo nesta afloram rochas pertencentes à Formação Serra Geral destacando basaltos e riodacitos pórfiros,
além de sedimentos aluvionares associados às planícies de inundação dos vales do rio Cascavel e tributários,
Guarapuava (1992);
2. Método
Entre as várias abordagens para avaliar o caráter morfológico do canal fluvial, a presente pesquisa se
pautou na análise geométrica em direção a jusante por meio do levantamento de sete seções transversais ao
longo do canal de alguns parâmetros com base nas margens plenas como: (Amp) Área da Seção Transversal
(m²); (Wmp) Largura do Canal (m); (Dmp) Profundidade média do Canal (m) sendo feito a seguir a
correlação dos mesmos com a Área da bacia correspondente a cada seção transversal. A base metodológica
foi inicialmente desenvolvida por (Leopold e Maddock, 1953), trabalhos similares também foram
desenvolvidos por Vieira e Cunha (2006), nos cursos fluviais da área urbana de Teresópolis/RJ; Fernandez
(2004) sobre ambientes urbanos no oeste do estado do Paraná; Thornton et. al. (2007) que estudou rios
poucos antropizados na Austrália e Harman et. al. (1999) que estudou rios naturais da Carolina do Norte /
EUA. A base cartográfica utilizada foram os dados vetoriais , Escala 1:2.000, e suas atualizações executadas
pela Prefeitura Municipal de Guarapuava. Os softwares utilizados nesta pesquisa foram: o SPRING - INPE©
Versão 5.1.5 – Sistema de Processamento de Informações Georreferenciadas, e a planilha eletrônica Calc. do
BrOffice.
3. Resultados e Discussões
Segundo Vieira e Cunha (1998) a capacidade do canal fluvial (Amp) é dada pela quantidade de água
que uma determinada seção transversal pode acomodar, sendo que a mesma deve aumentar gradativamente
de montante a jusante a fim de suportar o nível d’água. Acompanhando o aumento da área da seção, é de se
esperar que num sistema fluvial equilibrado as outras variáveis envolvidas na calha fluvial como a
profundidade média (Dmp) e a largura do canal (Wmp) também tenham suas dimensões acrescidas. A fim de
analisar essas varáveis foram traçadas sete seções transversais no arroio Carro Quebrado estando os dados
representados na Fig. 2 e Tab. 1.
Seções no sentido A
Amp (m2) Wmp (m) Dmp (m)
montante-jusante (km2)
1 1,799 2,77 1,86 1,5
2 2,076 6,28 2,00 *
3 2,153 9,7 6,00 1,62
4 9,181 10,18 4,10 2,47
5 9,363 9,07 5,21 1,76
6 9,436 16,74 9,71 1,64
7 9,974 11,74 4,92 2,28
Fig. 2 Variação na capacidade do arroio Carro Tab. 1 Valores da área da bacia até os pontos de
Quebrada a partir das margens plenas ao monitoramento (A), área da seção transversal (Amp),
longo do perfil longitudinal. Seções largura do canal (Wmp) e profundidade (Dmp) do
transversais fechadas indicam trechos do rio arroio Carro Quebrado. * se refere a uma seção onde
concretados e cobertos. Linha azul acima não foi possível determinar a sua profundidade
indica o nível da água. média.
Como se pode notar no sentido de jusante, essas seções transversais não mostraram um aumento
proporcional em suas capacidades máximas de vazão. Os valores obtidos com relação à área das seções
transversais ficaram entre 2,77 m² e 16,34 m² (Tabela 01), mostrando o decréscimo, em especial nas seções
transversais 1, 5 e 7. As seções 1 e 7 são as mais críticas, pois se tratam de locais totalmente concretadas
potenciais ao transbordamento das águas e com residências próximas ao canal, (Foto 1 e 2).
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4. Conclusão
O trabalho apresentou os resultados referentes às primeiras avaliações quantitativas das relações da
geometria hidráulica na direção de jusante em bacias hidrográficas da área urbana de Guarapuava. Nesse
foram encontradas baixas correlações nas relações de parâmetros da geometria hidráulica, esses valores
pouco expressivos de devem aos impactados do processo de urbanização que potencializa bruscas alterações
na morfologia fluvial. Contudo, o trabalho é preliminar e não possui tom conclusivo, havendo um amplo
leque de estudo a ser explorado a fim de determinar equilíbrio fluvial com base nas metodologias da teoria
da geometria hidráulica. E importante ressaltar que os pontos onde foram feitos os levantamentos se tratam
de seções canalizadas, como já destacadas por Fernandez (2004) essas obras tomam como base para sua
instalação a seção de margens plenas, dessa forma se não bem dimensionadas podem potencializar a
ocorrência de desastres naturais, ou seja, inundações.
Por fim, destaca-se que os dados da geometria hidráulica podem contribuir significativamente com o
planejamento urbano, à medida que possibilita ações no sentido de dimensionamento e redimensionamento
das seções fluviais em projetos urbanos. Pois, as obras de infraestrutura são primordiais ao desenvolvimento
urbanos, mas que se não planejadas podem reverter em perdas à população.
Referências
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Boletim de Geografia, Universidade Estadual de Maringá, 21 (1): 97-109.
______ Relações da geometria hidráulica em nível de margens plenas nos córregos de Marechal Cândido
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LEOPOLD, L. B. e MADDOCK, T. J., 1953, The Hydraulic Geometry of Stream Channels and Some
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_____ Mudanças na Rede de Drenagem Urbana de Teresópolis (Rio de Janeiro). In: GUERRA, A. J. T. e
CUNHA, S. B. Org. Impactos Ambientais Urbanos no Brasil – 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, p.111-
145, 2006.
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1. Introdução
O cenário religioso que encontramos em território brasileiro é permeado por inúmeras manifestações
que se dão sob as mais variadas formas. Nessa diversidade ocorrem alguns encontros impulsionadores de
atitudes e posicionamentos discursivos que merecem atenção. Optamos por escolher três representantes do
campo religioso brasileiro que detêm lugares importantes nesse contexto: Igreja Católica, Igreja Assembleia
de Deus (AD) e o “Espiritismo”. Sobre a palavra “Espiritismo” fazemos a ressalva de que utilizaremos a
mesma como abarcando todas as práticas mediúnicas, porque assim é entendida pelo catolicismo e pelos
pentecostais da AD. Contudo, sabemos diferenciar o Espiritismo de matriz kardecista das demais
manifestações mediúnicas, principalmente as afro-brasileiras, tão difundidas na nossa realidade cultural. As
religiões mediúnicas expandiram-se no Brasil e geraram críticas que encontraremos explicitadas nos
materiais impressos de divulgação da Igreja Católica e AD. É nosso objetivo observar as possíveis
similitudes e distanciamentos entre os discursos produzidos pelas duas igrejas cristãs, em épocas diferentes,
frente à mobilidade, fixação, ideias e práticas das religiões mediúnicas entendidas por pentecostais
assembleianos e católicos como um “outro”, um estranho, o que diz respeito diretamente à noção de “alter”.1
Iremos analisar os embates produzidos aí a partir do estranhamento de católicos e assembleianos em relação
às práticas mediúnicas.
2. Método
Optamos em investigar os posicionamentos discursivos da AD e Igreja Católica sobre o “Espiritismo”
tomando como corpus documental produções literárias das duas igrejas e documentos oficiais. Em relação ao
catolicismo tomaremos como referência documental obras de escritores católicos e documentos da cúpula da
igreja na primeira metade do século XX. Da AD utilizaremos produções literárias de autores assembleianos
sobre o tema Espiritismo da segunda metade do mesmo século, lançadas pela Casa Publicadora das
Assembleias de Deus (CPAD). As fontes priorizadas (livros e documentos oficiais) serviram como um canal
de comunicação do corpo de “intelectuais”2das duas igrejas para a massa de fiéis. No tratamento do material
impresso recorremos à contribuição de Chartier. Para ele toda fonte impressa deve ser entendida como uma
prática cultural.3 Essa modalidade de fonte histórica tem sua importância destacada pela possibilidade que os
impressos oferecem, na no próprio ato da sua produção, em construir determinadas sensibilidades, logo,
significados.
A perspectiva de abordagem teórica que utilizamos tem os seguintes pressupostos: vamos seguir a
postura de Berger4 quando discorre sobre a forma como o pesquisador deve encarar a religião. Nossa função
não dever ser postular conhecer a “essência” ou a “verdade” da religião, mas encará-la como um
empreendimento humano, um produto histórico5. Por outro lado, recorreremos à noção de campo6 encontrada
em Bourdieu, que será indispensável para reconhecermos a dinâmica hiper complexa envolvida nos
desdobramentos ligados à religiosidade. Ele entende a religião como um sistema de produção simbólica, um
campo específico de significações. Por sua vez, o campo religioso brasileiro tem espaço aberto para inúmeras
instituições produtoras de símbolos, de bens simbólicos. Aqui entra outra contribuição de Bourdieu. O poder
simbólico seria uma força estruturante (mas também estruturada), irreconhecível, que construiria a realidade
tentando estabelecer sentidos que precisariam se reconhecidos como naturais, legítimos: “O poder simbólico
como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a
visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo... só se exerce se for reconhecido, quer dizer, ignorado
como arbitrário”7. No campo religioso há uma luta pela acumulação de capital simbólico para se obter maior
performatividade e aceitação.
A idéia de capital simbólico na religião leva a pensar na noção de “mercado” religioso (com
demandas e ofertas). Outra vez recorremos a Berger que, analisando as conseqüências que a “secularização”
trouxe para a configuração religiosa no mundo, atenta para o fenômeno de pluralização que a tendência
secularizante provocou onde antes existiam instituições detentoras de monopólio religioso. Para o referido
autor, a situação pluralística acarreta em concorrência mercadológica entre as instâncias produtoras desses
bens simbólicos para corresponder a determinadas expectativas dependendo do contexto em que essas lutas
ocorrem.8
O discurso, a partir daqui, adquire uma importância fundamental, pois analisamos as formas pelas
quais assembleianos e católicos imprimiram em seus discursos significados altamente carregados de eficácia
para seus fiéis. Iremos nos ater à idéia de Eni P. Orlandi9 especificamente sobre o discurso religioso. Para
Orlandi o discurso religioso é marcado por características autoritárias. Nele não se estabelece uma relação de
interlocutores, antes, já existe uma fala de determinado interlocutor (Deus e aqueles que por ele falam), que
comanda essa relação. Daí decorre a não reversibilidade da capacidade dialógica no discurso religioso para
Orlandi. A propriedade de locutor e ouvinte alternarem o seu lugar no discurso religioso não ocorre, ou
ocorre o que chamamos de “ilusão de reversibilidade”: “No discurso autoritário (como o religioso), o
referente está „ausente‟, oculto pelo dizer; não há realmente interlocutores, mas um agente exclusivo, o que
resulta na polissemia contida (o exagero é a ordem no sentido em que se diz „isso é uma ordem‟, em que o
sujeito passa a instrumento de comando).”10 Aplicando esse conceito às atividades discursivas das igrejas em
questão, observaremos como os seus discursos estão impregnados de autoritarismo, e como os mesmos
influenciarão nas representações que são passadas à congregação de fiéis, porque, por estar o referente
ausente, o discurso torna-se dado e pronto, e é aceito dessa maneira pela grande maioria das pessoas. Logo,
tudo o que for dito vai ser encarado como infalível e verdadeiro por quem os recebe, facilitando assim a
adoção de uma identidade (não uma única identidade) que permeará as representações de mundo aí. Mas isso
também não se dará de qualquer maneira. Segundo Chartier: “As representações do mundo social assim
construídas, embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas
pelos interesses do grupo que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos discursos
proferidos com a posição de quem os utiliza.”11 Na mesma linha teórica, endossamos o pensamento de
Teves, segundo a qual: “O local de onde parte o olhar é espaço antropológico. Aquele que olha o faz a partir
de uma perspectiva e de um imaginário social.”12 Por imaginário entenderemos o que disse Baczko:
“Esquema de interpretação, mas também de valorização, o dispositivo imaginário suscita a adesão a um
sistema de valores e intervém eficazmente nos processos da sua interiorização pelos indivíduos...”13. Ou seja,
o imaginário seria um conjunto de representações que dá à coletividade um senso unificador onde ela própria
se reconhece: “...através dos seus imaginários sociais, uma coletividade designa a sua identidade; elabora
uma certa representação de si; estabelece a distribuição dos papéis e das posições sociais.”14 A recorrência a
autores ligados ao estudo das sinuosidades típicas do discurso, imaginário e poder simbólico como poderosas
ferramentas na constituição do sujeito e dos saberes foram de fundamental importância.
3. Resultados e Discussão
Entre os escritores assembleianos e católicos a ideia mais propalada para se referir às religiões
mediúnicas foi a recorrência a qualidades demonizantes para as mesmas. Quando não identificam as
manifestações mediúnicas como fraudes, são todas elas, então, produto de ações demoníacas. A constituição
desse quadro representativo envolveu toda uma estruturação imaginária sempre biblicamente legitimada.
O caráter demoníaco atribuído às práticas mediúnicas vem de construções pautadas, principalmente,
em aspectos teológicos. Nos argumentos observados nas falas dos autores princípios como reencarnação,
comunicação com os mortos e com entidades endeusadas são veemente combatidos e colocados como
práticas anti-bíblicas e anti-cristãs. Diante da presença crescente dessa realidade tão distinta da sua, a AD
empenhou-se em expor aos seus adeptos e público em geral os motivos pelos quais considerava negativa a
adoção de qualquer espécie de religião mediúnica. O que acontece então, é que essas exposições são bastante
incisivas. Vejamos alguns exemplos:
Eis o grande „consolo‟ que o espiritismo oferece a todos: proporciona meios de se poder
falar com os entes queridos que já morreram. Mas isto, quando não é fraude, truques do
médium ou do pai de santo, é a inegável manifestação do príncipe dos enganadores,
Satanás.15;
O grande plano idealizado por Satanás para prejudicar ocultamente a propagação do
evangelho no mundo recebeu sua colaboração fundamental de um francês, em 1857 ... 16
Ó Deus, tende misericórdia dos umbandistas e de todos a quem Satanás tem mantido
presos até agora nas diversas correntes do espiritismo, em suas diversas manifestações.
Nessas pessoas (e elas são milhões no Brasil) que „engoliram‟ essas mentiras inspiradas
pelo inimigo das nossas almas, é que se têm cumprido as palavras do apóstolo Paulo em 2
Coríntios 4.3,4: „Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem
que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos,
para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de
Deus.‟ O deus deste século é Satanás, o maioral dos exus.17
Em meio ao aparato discursivo demonizante, os fiéis da AD e sua hierarquia não vêem outra
atribuição de juízo para as religiões mediúnicas a não ser aquele. Na constituição do “outro” observada na
AD, a presença de pares dicotômicos é acentuadamente constante. Esse teor de antagonismos é fruto de uma
concepção de mundo já comentada aqui: quem serve a Deus tem que ser diferente do “mundo”. O mundo, tal
qual os assembleianos e pentecostais em geral mantêm seguras distâncias, é concebido como um espaço
atrativo para as forças diabólicas por não estar em concordância com os preceitos bíblicos de fé, regra e
moral da exegese feita aí.18 Por considerarem-se uma parcela de pessoas salvas da convivência mortal com o
“mundo”, os assembleianos vêem-se com algo à parte e demonstram essa firme convicção no modo como
organizam as palavras que utilizam para se oporem ao que foge do que já está estabelecido como vontade
divina para eles. Encontramos em relação às religiões de matriz espírita a presença dessa firme convicção
nos discursos produzidos pelos autores das fontes consultadas.
Analisando a discursividade católica sobre o mesmo tema, considerando o recorte temporal da
primeira metade do século XX, encontramos posicionamentos muito parecidos com os dos intelectuais da
AD em relação ao Espiritismo.
O advento da república trouxe a necessidade de uma adaptação da Igreja Católica ao novo estatuto
político. Deixando de ser religião oficial, a igreja precisava armar-se para fazer frente aos demais credos
tolerados o âmbito público e privado. Não que a república tornasse o país laico em si, não aceitando como
úteis e válidas quaisquer formas de religiosidade impreterivelmente, mas ela possibilitava a abertura de
novas ofertas de bens simbólicos para a população brasileira, já que o catolicismo não era mais suficiente a
religião da pátria por excelência. Buscando reestruturar-se, a Igreja Católica passava, então, por uma espécie
de reforma que acontecia desde a instalação da república e estendia-se na primeira metade do século XX. Era
a “romanização” do catolicismo introduzido no Brasil, que deveria submeter os católicos daqui às
disposições emanadas da Sé romana: “Este modo mais austero e conservador de catolicismo procurava
produzir fiéis disciplinados, piedosos, ordeiros, submissos à hierarquia clerical e civil e praticantes dos
sacramentos, que deveriam ser ministrados exclusivamente pelo clero.”19 Os esforços da igreja pautavam-se
em permanecer atuante como principal mediadora com o transcendente, além de retomar com mais vulto sua
influência nas decisões da esfera pública do país. Mas a hierarquia católica enxergava muitos obstáculos
[15] COSTA, Jéferson Magno. Porque Deus condena o Espiritismo. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. p.39.
[16] Idem, p.105. Nesta passagem o autor refere-se ao francês Allan Kardec – fundador do Espiritismo.
[17] COSTA, Jéferson Magno. Op.cit., p. 65.
[18] (...) o pecado é uma realidade presente no mundo que „jaz no maligno‟. Manual de Doutrinas da AD. Rio de
Janeiro: CPAD, 2000. p.29.
[19] DALLABRIDA, Norberto. Virtus et scientia: o Ginásio Catarinense e a (re)produção das elites catarinenses
na Primeira República. São Paulo: USP (tese de doutroramento em História), 2001. p.58,59.
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nesses seus esforços. Entre esses empecilhos apareciam as diversas religiões que se credenciavam como
agentes produtores de significados sociais. Aqui entra o embate com as religiões mediúnicas.
No período em que analisamos o discurso da Igreja Católica era anunciado um crescimento que se
verificava na disseminação cada vez maior das práticas mediúnicas entre a população brasileira. Esse
contexto preocupou a cúpula da Igreja Católica que se via ameaçada pela aceitação do “Espiritismo” no país,
inclusive entre os católicos. Inúmeros adjetivos desqualificantes foram elencados aos “espíritas” nas
documentações católicas a fim de esclarecer aos seus fiéis o “perigo” que rondava a comunicação com os
mortos. O Espiritismo é representado como dramaticidade por D. Antônio Mazzaroto, bispo de Ponta
Grossa, no intento de aprofundar sua origem satânica e perversa:
Vamos caridosamente advertir aos que, incautos, já se deixam enredar pelas malhas da
funesta superstição e dizer-lhes que, com a graça de Deus e um pouco de boa vontade,
ainda podem e devem desvencilhar da complicada trama em que se envolveram. Para
aqueles de nossos filhos que, até o presente, tiveram a felicidade de resistir a essa serpente
infernal, sem nunca se terem deixado inficionar pela sua baba venenosa, sejam estas
nossas letras um amoroso aviso paternal para que se premunam contra essa armadilha que
o demônio tem aprisionado tantas almas, desgraçando-as nesta vida e muito mais na outra.
(...) Levantamos, pois, a nossa voz, que tomáramos chegasse aos ouvidos e corações de
todos, contra essa magia que através dos séculos várias denominações tomou e sob
diversas formas se manifestou, e que nos tempos que correm vestindo-se à moderna,
recebeu o nome de „espiritismo‟.20
Esse inimigo precisava ser neutralizado, desmoralizado, execrado, a fim de que o seu
contágio pestilento não atingisse aos fiéis. (...) Em D. José Hermeto Pinheiro este aparece
como: contagioso, mortífero, contubérnio de superstição e blasfêmia, conventículo
indecente. Em D. Silvério Gomes Pimenta os espíritas são tratados como: filhos de satanás
e procuradores do demônio.21
Sendo desta maneira a forma de conceber e silenciar o seu “outro”, o catolicismo romanizado nos
apresentou uma característica básica: a recusa total para compreensão e aceitação das diferenças.
4. Conclusão
É interessante perceber como denominações conflitantes entre si tenham concordado, em épocas
diferentes, na formação de opiniões acerca de um “outro” que se destacava e avançava fronteiras. Colocamos
conflitantes entre si porque são históricas as divergências envolvendo católicos e as igrejas de raiz
protestante. Mas, apesar dos embates teológicos e doutrinários e das diferentes épocas tratadas, observamos
em ambas as igrejas que o exercício de qualificação das práticas mediúnicas esteve pautado na demonização.
No imaginário cristão a figura do diabo sempre esteve presente. Rodeghero, apoiada em Chartier (apud
Burguière, 1993:407), diz que a imagem do demônio utilizada para qualificar qualquer “perigo” é altamente
decifrável em determinadas comunidades por estar essa imagem incluída no cristianismo.22 Sobre a força
desse elemento no discurso, Dubois ressalta que uma possibilidade de apreensão do imaginário dá-se através
da “infusão de fantasmas dentro do discurso, que cultivam a função referencial e revelam de fato estruturas
imaginárias e um sujeito cultural.”23
Em uma situação de concorrência mercadológica, AD e Igreja Católica lutaram contra um inimigo
em comum lançando mão de recursos discursivos de representação que foram eficazes no que se propuseram
em construir, levando em conta as religiões mediúnicas. Funcionando segundo uma lógica de mercado, o
campo religioso brasileiro correspondeu a atividades que implicaram em comportar em si elementos que
tornaram (ou pelo menos tentaram tornar), essa ou aquela opção religiosa a mais significante.
[20] MAZZAROTO, D. Antônio. (bispo de Ponta Grossa). Carta Pastoral – A Magia Espíritica. 1932, p. 03,04.
[21] ISAIA, Artur César. APUD ISAIA, Artur César.
[22] RODEGHERO, Carla Simone. O diabo é vermelho. Imagináro anticomunista e Igreja Católica no Rio Grande
do Sul (1945-1964). Passo Fundo: EDIPUF, 1988. (capítulos I e IV). P.30.
[23] DUBOIS, Claude-Gilbert. O imaginário da Renascença. Brasília: Unb, 1995. p.12.
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André de Souza de Lima1*; Fabiano Antônio de Oliveira2; Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes3
1
Acadêmico do Curso de Geografia da UNIVILLE, bolsista de iniciação científica do CNPq
2
Professor do departamento de Geografia da UFPR
3
Professora orientadora do departamento de História da UNIVILLE
1. Introdução
A proposta de pesquisa está vinculada ao projeto “Atlas Histórico da Região da Baía da Babitonga”,
que tem como principal objetivo levantar e cartografar dados historiográficos sobre os seis municípios que
compõem a região: Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva, Itapoá, Joinville e São Francisco do Sul
(figura 1).
A historiografia que se tem da região nordeste do Estado de Santa Catarina, antes da chegada dos
imigrantes europeus para a Colônia Dona Francisca, atual Joinville, está centrada em São Francisco do Sul,
pois todo o território que hoje compõe os seis municípios pertencia àquela cidade. Assim, as histórias das
seis cidades naquele momento se misturam; não havendo uma identificação precisa dos espaços onde
determinados fatos ocorreram.
51°0'0" W
0°0'0"
23°27'0" S
46°54'0" S
51°0'0" W
Com relação a Joinville, município mais agraciado por trabalhos historiográficos, a presença de
ocupantes de origem luso-brasileira e de escravos negros, antes da chegada dos imigrantes germânicos,
apesar de já ser aceita e comentada pela historiografia mais recente, não está identificada e as informações
são vagas. Se considerarmos Araquari, Balneário Barra do Sul, Garuva e Itapoá, a situação é ainda pior, pois
além dos dados constantes na historiografia do início do século XX e que se reportava “às origens” de São
Francisco do Sul, onde dificilmente consegue-se reconhecer o território que hoje lhes pertence, só podem
contar com folhetos turísticos com informações duvidosas em sua maioria. Por essas razões, muitas vezes,
essa região do Estado de Santa Catarina é reconhecida historicamente apenas pela colonização germânica
promovida pelo Estado Brasileiro, ficando esquecidas as ocupações indígenas e a presença de escravos
negros, cujos descendentes ainda estão presentes na região.
Assim, o registro de material histórico em uma única base cartográfica georreferenciada moderna foi o
objetivo do trabalho aqui descrito e que constitui um avanço na pesquisa historiográfica da região, já que
permitirá não somente o melhor conhecimento da evolução espacial e temporal da ocupação regional, como
também a comparação entre registros até então impossibilitados pela diversidade de formatos e natureza das
fontes.
Um dos trabalhos que da sustentação à pesquisa com relação a mapeamentos históricos, foi organizado
por Franco Jr. & Andrade Filho (2006)[1], onde afirmam que os mapas são uma versão da realidade, mesmo
que essa seja parcial, e nunca exata. Cada cultura imprime em seus mapas além do conhecimento sobre o
território, os seus valores, crenças, problemas, e sua interpretação da realidade. A história expressa através de
mapas revela mesmo que distorcendo a realidade o ponto de vista da sociedade sobre o mundo para cada
momento histórico.
*
André de Souza de Lima: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
2. Método
Dentre as várias etapas que compõem o desenvolvimento do projeto “Atlas histórico da Região da
Baía da Babitonga”, em andamento desde o início de 2007 pelo Grupo de Pesquisas História Regional,
inclui-se a de localizar, selecionar e fotografar mapas históricos relativos à região em estudo. Foram
fotografados aproximadamente 65 mapas históricos que se encontravam disponíveis na Biblioteca Nacional,
no Arquivo Nacional e na Mapoteca do Itamaraty, todos localizados no Rio de Janeiro, assim como no
Arquivo Histórico de Joinville.
Os mapas fotografados foram georreferenciados com base no sistema de coordenadas da projeção
Universal Transversa de Mercator, tendo como referência o datum SAD 1969, fuso 22S. Como base digital
foi utilizado o acervo digital do IBGE [2] disponibilizado pelo Epagri [3], na escala 1:50.000, folhas São
Francisco do Sul (SG-22-Z-B-II-2), Garuva (SG-22-Z-B-II-1), São Miguel (SG-22-Z-B-I-2), Araquari (SG-
22-Z-B-II-4), Joinville (SG-22-Z-B-II-3) e Jaraguá do Sul (SG-22-Z-B-I-4). O processo adotado foi o de
atribuir pontos de controle para os mapas fotografados, encontrando áreas em comum nos mapas e nas bases
digitais do IBGE, transferindo assim as coordenadas já estabelecidas da base digital para os mapas.
O software utilizado, ArcGIS 9.1 trabalha com um sistema de informação geográfica, que permite ao
usuário utilizar de ferramentas que permitem, além de tratar de arquivos georreferenciados, atribuir um
número ilimitado de informações aos mesmos. O procedimento seguinte foi criar um banco de dados para
cada mapa. Foi criado um shapefile, um arquivo de vetor que possibilita além da geometria, estabelecer
informações através de um banco de dados no mesmo arquivo, tendo como limite as mesmas dimensões do
mapa. Neste arquivo é possível inserir informações como o autor do mapa, o ano em que foi elaborado, sua
escala, o título do mesmo e outras informações relevantes.
Outra tarefa desenvolvida foi transpor conteúdos de textos históricos pesquisados e selecionados pela
equipe do projeto Atlas para uma base cartográfica georreferenciada. Desses textos foram extraídas e
compiladas em uma tabela padrão informações que permitiam espacialização. As informações extraídas
continham dados de ocupação dos séculos XVII, XVIII e XIX contendo o nome de proprietários de
sesmarias, sua localização, o ano de registro, a fonte da qual a informação foi retirada e algumas informações
relevantes.
Concluída essa etapa foi iniciado o processo de layout, que possibilita compor uma figura (mapa)
unindo uma ou mais informações dependendo da necessidade do autor, e assim juntamente de um título, uma
legenda dentre outros elementos que compõem um mapa, espacializar as informações obtidas até o
momento.
3. Resultados e Discussão
A conclusão do estudo resultou num banco de dados digital que possibilita resgatar dados importantes
de cada mapa utilizado na pesquisa. Muitos dos mapas utilizados estão em péssimo estado de conservação,
rasgados ou com partes faltando, o que dá ainda mais valor ao trabalho, que deixará informações importantes
do passado para a posteridade.
Cerca de 25% das sesmarias cedidas no século XIX, localizadas pela equipe de pesquisadores, foram
espacializadas em forma de mapa, e estão identificadas por um ponto na figura 2. As demais sesmarias não
foram possíveis localizar em mapa, pois os documentos não possuíam informações suficientes para que isso
fosse feito. As unidades de medida utilizadas para a descrição daquelas propriedades no documento histórico
são chamadas braças, medida cuja unidade equivale a aproximadamente 2,2 metros. Porém, não são
especificadas nos mapas as orientações do terreno da maioria das sesmarias, pois nem todas possuem esta
informação. A figura 3 mostra algumas sesmarias, que por estarem desenhadas em mapas antigos, foram
passiveis de uma localização mais precisa.
Foi realizado também o estudo do crescimento da mancha urbana do município de Joinville (figura 4).
O primeiro levantamento considerado no mapa, aconteceu no ano de 1886, pouco mais de 30 anos após o
início da Colônia Dona Francisca, atual Joinville, quando a área total do município já contava
aproximadamente 2.505.311,79 m². O maior salto de crescimento da cidade ocorre entre as décadas de 70 e
80, quando num intervalo de um pouco mais de dez anos a mancha urbana de Joinville cresce mais de 70
milhões de m² (tabela 1). Esse maior crescimento ocorre pelo motivo de que a cidade estava se tornando um
pólo industrial, atraindo assim ainda mais migrantes principalmente de municípios próximos e estados
vizinhos, que pela falta de oferta de trabalho eram motivados a tentar a vida em Joinville.
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Fig.2 Espacialização das sesmarias mapeadas. Fig.3 Colônia Pirabeiraba e algumas sesmarias.
Quanto às sesmarias dos séculos XVII e XVIII, nenhuma delas foi espacializada, pois as informações
de localização apenas especificavam São Francisco do Sul, sem mais pontos de referências ou descrições da
área da sesmaria. Infelizmente quanto a isso não se pode fazer muito, pois a tentativa de elaboração de um
mapa apenas com as informações existentes não seria fiel ao que ocorreu efetivamente.
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4. Conclusão
A região nordeste do estado de Santa Catarina tem a maior parte de sua historiografia organizada a
partir da chegada dos imigrantes europeus para a Colônia Dona Francisca hoje conhecida como Joinville. O
projeto “Atlas Histórico da Região da Baía da Babitonga” reúne e espacializa através da cartografia
informações até então dispersas ou misturadas.
Grande parte do material que se tinha até então foi organizado e através dos resultados obtidos é
possível conhecer um pouco mais do passado da região da Baía da Babitonga, assim como a evolução urbana
do maior município da região, Joinville, o que contribui para o ensino da história e da geografia regional e
que poderá auxiliar em ações de planejamento e comparação entre registros já feitos.
Referências
[1] FRANCO Jr.; ANDRADE FILHO, Ruy de O. ATLAS. História Geral. São Paulo: Scipione, 2006.
[2] IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 1981. Cartas Topográficas Garuva (SG-22-Z-B-II-
1), São Francisco do Sul (SG-22-Z-B-II-2), São Miguel (SG-22-Z-B-I-2), Araquari (SG-22-Z-B-II-4),
Joinville (SG-22-Z-B-II-3) e Jaraguá do Sul (SG-22-Z-B-I-4), Diretoria de Geociências, escala 1:50.000.
Agradecimentos
Agradecemos ao CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pela
concessão de bolsa de iniciação científica. Agradecemos também ao Centro de Cartografia Digital e Sistemas
de Informação Geográficas da Univille pelo espaço concedido para realizar as atividades.
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HOLZMANN, Liza.
Mestre em Saúde Pública, professora do Curso de Serviço Social da Universidade
Estadual de Ponta Grossa-Pr e membro do Núcleo de Estudos ,Pesquisa, Extensão e
Assessoria na Infância e na Adolescência.
RESUMO.
O objetivo deste texto é trazer a tona uma reflexão sobre o processo de construção do conceito de
contracultura, visando seus primeiros ideais e práticas. As práticas sociais são características de
determinado tempo histórico, revela-lo é a nossa tentativa. A pesquisa realizada foi de natureza
teórica e para isso foram utilizados os seguintes procedimentos: revisão bibliográfica a partir de
Carlos Alberto M. Pereira e estudo documental. Ao final deste processo chegamos à conclusão
que a contracultura foi uma possibilidade de potencializar a emancipação coletiva através de um
processo lento e gradual, o qual inicia-se de maneira microscópica nos tecidos de determinada
sociedade.
1-INTRODUÇÃO.
1
Apresentador(a) do trabalho- e-mail :[email protected]
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encarar o mundo e a relação com as pessoas, ou seja, um outro universo de valores com
suas regras próprias.
2-METODO
Para atender ao propósito de apresentar uma discussão sobre a contracultura, utilizamos
a pesquisa teórica através da revisão bibliográfica baseado no autor Carlos Alberto M.
Pereira, a fim de embasar o objeto de estudo. A pesquisa bibliográfica e a revisão de
literatura permitiram organizar a documentação, fazendo com que o pesquisador estruture
sua pesquisa, e analise o que já foi publicado sobre o tema. Para cumprir com os
objetivos estabelecidos, a pesquisa foi orientada numa concepção de totalidade.Tal
concepção representa, a compreensão do real como um espaço total, organizado,
estruturado, no qual não se pode entender um elemento, um aspecto, uma dimensão,
sem estabelecer sua relação com o todo. Parte-se também de uma visão de homem e
mundo como ser social e histórico, que mesmo sofrendo as determinações sócio
econômicas é também um sujeito que transforma tais contextos.
3-RESULTADOS E DISCUSSÕES
Mesmo que seja num tempo bem próximo, o movimento de contracultura já faz
parte de um passado histórico e vai ficando cada vez mais distante do nosso dia-a-dia,
deixando para traz aquele “pique” do movimento nos anos 60.
De acordo com Pereira, o poder da imprensa é extremamente influente no
sentido de lançar rótulos ou modismos do fenômeno da contracultura. Mas entendemos
que o grande valor desse fenômeno não se atribuía apenas ao fato da sua expressão e
repercussão na imprensa, mas também porque continha em si uma considerável carga de
informação a respeito do movimento que designavam, ou seja, sabiam o que queriam e o
porquê. Assim, a juventude assumia ares de uma verdadeira contracultura.
Começou então a se formar um movimento social fortemente libertário, com o
apelo junto à juventude de camadas médias urbanas, que colocavam em cheque valores
da cultura ocidental. O autor afirma, que esse espírito questionador e libertário, já se
anunciava nos EUA desde os anos 1950 com uma geração de poetas. E nesta mesma
época (1956-1968) surge o Rock-n-roll na figura de Elvis Persley, que por sinal atingia um
público jovem que começou a fazer deste tipo de música, uma expressão de seu
descontentamento. Mas é nos anos 60, que esse fenômeno político cultural ganha uma
potência máxima, marcada de grandes concertos, festivais de rock como Monterey(1967),
156
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inclusive à sua mente. E na oitava e ultima anotação, vê-se que a fonte desse fenômeno é
sem dúvida a visão juvenil.
O termo contracultura pode se referir a um conjunto de movimentos de rebelião da
juventude que marcaram os anos 60, como o movimento hippie, a música rock, os
movimentos nas universidades, as drogas, etc. E isso tudo motivado por um espírito de
insatisfação, de contestação, a busca de uma outra realidade. Entretanto, o autor afirma
também que isso já faz parte do passado, que não tem o mesmo sentido, ou pelo menos
a mesma força.
4-CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
PEREIRA, Carlos Alberto M. O que é contracultura. Ed. Brasiliense. São Paulo, 1992.
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1. Introdução:
A de 1978 foi a XI edição da Copa do Mundo de Futebol. Pela quarta vez chegava ao
continente sul-americano, período no qual Argentina vivia o auge da sua ditadura, dirigida por Jorge
Rafael Videla, que liderava o Processo de Reorganização Nacional.
Esta Copa vinha num momento oportuno, pois pelo menos por um breve mês os argentinos se
esqueceriam das graves crises sociais, políticas e econômicas pelas que seu país atravessava. Esse
período de distração também seria importante para levar a mente nacional do plano do lazer a outros
imaginários, já que com o titulo se pretendia obter um salvo-conduto para que governo de Videla
consolidasse a ditadura.
De todos os modos, o contexto não era muito propício, já que a ditadura era duramente
criticada em âmbito internacional e no front interno já tinha grupos que lhe faziam frente
abertamente, os que começavam a ganhar auxilio estrangeiro. Por exemplo, dois dos principais
jogadores naquele momento, o holandês Johan Cruyff e o alemão Paul Breitner, a boicotaram por
convicções políticas. Inclusive, a seleção holandesa, finalmente vice-campeã, esteve a ponto de não
comparecer à partida final.
No interregno, outros fatos menos conhecidos também ofuscaram o brilho da conquista
argentina. No entanto, a ditadura conseguiu, talvez a um preço elevado, seu objetivo, e com o título
a população esqueceu por um longo período as mazelas à que estava submetida, em especial, a
concussão dos seus direitos políticos e a violação dos direitos humanos, dando seu apoio ao
governo.
2. Método:
Utilizando fontes da época tais como os jornais argentinos, Clarin e La Nación, revistas
desportivas locais, em especial o El Gráfico; entrevistas realizadas antes, durante e após o torneio; e
bibliografia pertinente, estudamos como a ditadura argentina utilizou a Copa de 78 para se legitimar
internamente e reduzir as críticas externas. Em especial, observamos os discursos que foram
construídos acerca do espírito nacional e os mecanismos para esconder da comunidade internacional
e local o desrespeito aos direitos humanos.
Nos casos das fontes hemerográficas nos interessaram tanto os textos quanto as fontes
icônicas que foram produzidas, nas que analisamos a forma como elas eram tratadas baseadas,
fundamentalmente no livro do Perte Burke (2004).
3. Resultados e Discussão:
As Copas do Mundo são momentos propícios para gerar um discurso nacional forte, que
movimentam vários elementos que em outros momentos estão algo adormecidos. Elas também são
propícias para incutir um determinado tipo de discurso, já que a maior parte da linguajem é velada,
é transmitida através de textos e imagens que entram no cotidiano das pessoas sem que elas
percebam. Em síntese, o discurso que ela gera é transmitido e consumido de uma forma menos
agressiva por uma enorme parcela da população.
Dessa forma, um regime ditatorial, que obteve o poder pela força, desalojando um governo
constituído por meio de eleições, procurava se legitimar. Através de bibliografia temos podido
compreender (2004) que tais regimes tinham pouco apelo popular e que eram produtos de alianças
instáveis, as que, uma vez conquistado o poder, tendiam a se desagregar. Por tal motivo, para se
legitimar, eles tentavam encontrar algum elemento de união e que, em determinados momentos,
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apelasse às massas populares, não como atores centrais do processo político, mas como
coadjuvantes. Desse modo, também procuravam romper elos preexistentes ou que podiam ser
tendidos entre esses e outros atores sociais que fizessem oposição direta às administrações
autoritárias.
Slogans cunhados naquela etapa ganharam as ruas, ficando estampados em outdoors ou
adesivos. Frases como “Argentina potencia”, “Somos Derechos y Humanos” não apenas foram
impressos aos milhões, eles também eram incorporados aos cânticos das torcidas (GOTTA, 2006) e
até brandidos como xingamentos impetrados contra figuras internacionais que não compactuaram
com o regime. Através delas, a população foi submetida a um intenso bombardeio midiático que
excutia no espírito festivo da comemoração de elementos ideológicos muito fortes por trás.
4. Conclusão
Apesar das tímidas vocês dissidentes e da pressão internacional, a ditadura argentina obteve
sucesso na perigosa empreitada que empreendeu. Por um breve período, o pesado protocolo militar,
imposto literalmente a sangue e fogo (LLONTO, 2005), foi rompido pela algaravia que
transbordava as ruas.
Na rua e nos carros, desde a TV e o rádio, o discurso nacionalista triunfal derrotava as vozes
que o tinham ousado contestar. O esforço feito pelo time era exemplo a imitar, os jovens tinham
modelos a seguir, modelos estes que despidos de vícios eram contrapostos com as figuras de outros
jovens que no passado recente tinham se levando em armas contra as autoridades, embora não
legitimas, de seu país.
Crianças, jovens e adultos, “25 millones de argentinos” como repetia incansavelmente seu
hino, tinham vencido o Mundial, e, com isso, eram convidados a fortalecer a ditadura que lhe tinha
permitido esse heróico feito.
Paralelamente a enaltecer as figuras do regime, esse discurso também serviu para deslegitimar
os seus detratores. Se os que tinham defendido o mundial eram patriotas, os que se lhe opuseram
eram antipatriotas, inimigos da causa nacional, contrários à imensa felicidade que a Copa tinha
trazido para o povo.
Referências:
Bibliografia:
BURKE, Peter. Testemunha Ocular: história da imagem. Tradução Vera Maria Xavier dos Santos; revisão
técnica Daniel Aarão Reis Filho. – Bauru, SP: EDUSC, 2004.
COGGIOLA, Oswaldo. Governos militares na América Latina. São Paulo: Contexto, 2001.
GOTTA, Ricardo. Fuimos campeones. La dictadura, El mundial 78 y el misterio del 6 a 0 a Perú. Buenos
Aires: Edhasa, 2006.
LLONTO, Pablo. La vergüenza de todos. El dedo en la llaga del Mundial 78. Buenos Aires: Asociación
Madres de la Plaza de Mayo, 2005.
SIDICARO, Ricardo. Coaliciones golpistas y dictaduras militares: el “proceso” en perspectiva comparada.
IN: PUCCIARELLI, Alfredo, ed., Empresarios, tecnócratas y militares. La trama corporativa de la última
dictadura. Buenos Aires, Siglo XXI, 2004.
Fontes Hemerográficas:
La Nación
Clarín
El Gráfico
________________________
[email protected]
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1. Introdução
Este projeto tem como problema de pesquisa a relação entre os ciclos de estudos da ADESG e os
embates em torno ao projeto de modernização do estado de Santa Catarina, na primeira metade da década de
1970, travados entre os diferentes setores das elites econômicas e políticas do estado. Entende-se que esses
ciclos, dos quais participaram intelectuais, políticos e empresários, eram um campo de disputa de projetos
que, embora sem se mostrarem antagônicos entre si ou como dissidências em relação ao projeto da ditadura
civil-militar, expressavam análises, objetivos e propostas dos diferentes grupos que há décadas vinham
controlando a política no estado.
Os ciclos de estudos constituíram-se em um espaço de aprofundamento dos conceitos e métodos
elaborados e difundidos pela Escola Superior de Guerra (ESG), sistematizados na Doutrina de Segurança
Nacional (DSN). Essa doutrina, discutida nos ciclos de estudos e aplicada às situações econômica, social e
política de Santa Catarina, serviu como ferramenta teórica e metodológica para a elaboração de políticas de
governos e para uma tentativa de homogeneização teórica, metodológica e conceitual dos projetos dos
governos e de parte da intelectualidade catarinense.
Os intelectuais que tomaram contato mais próximo e sistemático com os conceitos e objetivos
propostos pela DSN poderiam melhor influenciar as “massas” (conceito oposto ao de “elite”, na DSN),
visando a manutenção da hegemonia e a defesa da ordem social e dos interesses do regime. Essa forma de
garantir a hegemonia, pelo consenso e não pela coerção, possibilitaria com menos obstáculos a realização
dos objetivos nacionais, calcados no binômio segurança (nacional) e desenvolvimento (econômico). Os
intelectuais que de alguma forma defendiam o bloco hegemônico, utilizando os conceitos e métodos da ESG,
teriam a possibilidade de cumprir o papel de elaboradores de políticas voltadas para o desenvolvimento
econômico, além de atuar como responsáveis pelo planejamento e pelas ações dos governos.
Em Santa Catarina, os primeiros ciclos da ADESG ocorreram no começo da década de 1970, sendo
realizados em Florianópolis e reunindo pessoas de outras cidades do estado. Nesse período, participaram dos
ciclos de estudos membros da administração do governador Colombo Salles, o que teria contribuído,
segundo o próprio governador, para a elaboração do Projeto Catarinense de Desenvolvimento (PCD). Esse
projeto procurava se colocar em consonância com o Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), do governo
do General Emílio Garrastazu Médici (MICHELS, 1998, p. 194-6).
É possível identificar os ciclos de estudos da ADESG como espaços que visavam realizar análises e
elaborar projetos para Santa Catarina, a serem incorporados nos planos e ações da administração do
governador Colombo Salles. Contudo, esses espaços não podem ser considerados como homogêneos, pois
um conjunto bastante heterogêneo de pessoas participava dos ciclos, como palestrantes ou como
“estagiários”. Por outro lado, a terceira fase de cada um dos ciclos, quando os estagiários deveriam elaborar
respostas a problemas do estado e propostas de programas e ações governamentais, era um espaço em que
poderiam expressar caracterizações e propostas diversas, por meio das monografias escritas.
2. Método
Para esta pesquisa, utilizar-se-á um conjunto de materiais que inclui fontes impressas de diferentes
naturezas.
Primeiro, para investigar o contexto econômico, político e social, far-se-á uso da imprensa diária de
Santa Catarina, principalmente dos jornais O Estado e A Gazeta, de Florianópolis, e Jornal de Santa
Catarina, de Blumenau, entre 1970 e 1975. Esses jornais são destacados nesta pesquisa primeiro pela sua
grande circulação na época e, segundo, por expressarem as posições dos diferentes grupos econômicos e
políticos do estado.
Esses jornais também trazem informações a respeito da realização dos ciclos, sendo espaço de
divulgação das discussões realizadas, além de possibilitarem inferir o impacto exercido pelos ciclos na
sociedade e na parcela da intelectualidade que escrevia para esses jornais.
Outro conjunto de documentos a serem utilizados nesta pesquisa são os referentes aos ciclos de
estudos da ADESG. Esse material, a partir da própria organização interna dos ciclos de estudos, pode ser
dividido em três tipos:
*
Contato: [email protected]
161
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1) documentos doutrinários, em sua maior parte transcrições de conferências proferidas por membros
da ESG em seus cursos;
2) documentos de análise da conjuntura nacional e estadual, normalmente elaborados pela própria
ESG ou transcrições de conferências realizadas por intelectuais catarinenses da época;
3) os trabalhos realizados em grupos pelos estagiários ao final dos ciclos, de onde pode-se analisar sua
percepção do momento então vivido e as propostas que apontavam para a resolução desses problemas.
3. Resultados e Discussão
Esta pesquisa discute a relação entre os planos de modernização do estado de Santa Catarina e sua
relação com os ciclos de estudos da ADESG, realizados entre 1970 e 1975, ou seja, a contribuição desses
cursos para a elaboração de políticas econômicas, sociais e políticas no estado de Santa Catarina. Com isso,
são identificados alguns dos sujeitos que participaram da legitimação e sustentação dos governos durante a
ditadura e que permitem vislumbrar elementos acerca de manifestações políticas e culturais do período no
estado. Por outro lado, concomitantemente, pode-se analisar a DSN como doutrina que influenciou os
projetos e as ações do governo, verificando a aplicação desses conceitos para o estudo dos problemas
estratégicos e conjunturais de Santa Catarina.
Investigando a cultura política que se formava entre a intelectualidade no período, é possível estudar
as análises estratégicas e conjunturais apresentadas nas conferências e as propostas formuladas pelos
“estagiários” nos ciclos da ADESG, em seus trabalhos finais. Deve-se também investigar os conceitos
doutrinários e os problemas conjunturais levantados nesses ciclos, além das soluções que os “estagiários”,
por meio das monografias que elaboravam em grupos de trabalho, apontavam para esses problemas. Busca-
se com isso perceber como essa intelectualidade respondia aos problemas estratégicos e conjunturais do
momento, local e nacionalmente, e como os ciclos de estudos da ADESG contribuíram, de um lado, para a
caracterização dos problemas do estado e, de outro, para a elaboração de propostas que respondessem a esses
problemas.
Nesse sentido, pode-se verificar a relação dos intelectuais catarinenses na formulação de políticas
públicas e de planos de ação governamental, verificando, entre outros aspectos, qual o impacto que essa
colaboração tem nas políticas desenvolvidas principalmente ao longo do governo Colombo Salles. Com isso,
verifica-se quais as contribuições que esses intelectuais, encarados como sujeitos históricos, trouxeram para
uma cultura política no estado, as redes de sociabilidades por eles estabelecidas e sua participação na
manutenção do bloco hegemônico no poder naquela conjuntura.
4. Conclusão
Levou-se em conta neste trabalho que as ações mais aparentes do regime repressivo foram realizadas
pelos militares, que controlaram o executivo e realizaram não apenas ações repressivas como políticas e
administrativas. Contudo, o regime não foi apenas isso. Houve uma parcela significativa de civis que
colaboraram com o regime, consciente ou inconscientemente, velada ou abertamente, cujo papel passou por
apoiar o golpe e a ditadura, delatar militantes da resistência ou mesmo assumir funções de confiança em
governos ou nas universidades.
Referências
ARRUDA, Antônio de. ESG: história de sua doutrina. São Paulo: GRD/INL/MEC. 1980.
ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1989.
BRUM, Argemiro Jacob. O desenvolvimento econômico brasileiro. 18ª ed. Petrópolis Vozes, 1998.
CAVAGNARI FILHO, Geraldo Lesbat. Brasil: introdução ao estudo de uma potência média. In:
OLIVEIRA, Eliézer Rizzo (Org.). Militares: pensamento e ação política. Campinas: Papirus, 1987.
EARP, Fábio Sá; PRADO, Luiz Carlos Delorme. O “milagre brasileiro”: crescimento acelerado, integração
internacional e distribuição de Renda. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves
(Orgs.). O Brasil Republicano: o tempo da ditadura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, v. 4.
FICO, Carlos et al. (Org.). Ditadura e democracia na América Latina: balanço histórico e perspectivas. Rio
de Janeiro: Ed. da FGV, 2008.
FONTES, Virgínia Maria; MENDONÇA, Sônia Regina. História do Brasil recente (1964-1992). 4ª ed. São
Paulo: Ática, 2004.
GERMANO, José Willington. Estado militar e educação no Brasil (1964-1985). São Paulo: Cortez;
Campinas: Ed. da UNICAMP, 1993.
IANNI, Octávio. Estado e planejamento econômico no Brasil. 5ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1991.
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1. Introdução
Como apresentar um objeto tão singular e ao mesmo tempo esquecido? Revistas femininas
rapidamente caem no esquecimento devido à atribuição de um caráter de transitoriedade e de
inferioridade cultural, estabelecido academicamente. Bibliotecas as rejeitam, arquivos históricos não as
aceitam. Quase desapareceram da memória nacional devido ao silêncio formado sobre estas revistas. No
entanto, nos anos cinquenta, revistas como Capricho, Grande Hotel vendiam centenas de milhares de
exemplares. Mas qual, então, seria a sua significância? Antes de serem consideradas meros produtos da
indústria cultural, elas são expressões das representações sociais de milhares de leitoras acerca de si e do
mundo à sua volta. É pensando neste papel documental que tomaremos estas revistas como possibilidade
de reconstituir o universo de leitoras numa sociedade em mudança.
1. Método
A pesquisa se desenvolverá na leitura, ordenação e análise de material encontrado em revistas
femininas dos anos cinquenta do século passado. Duas revistas, compreendidas como as mais
significativas do período, serão investigadas: Capricho (o primeiro número apareceu em 1952) e Grande
Hotel (o primeiro número é de 1948). Nelas serão levantados os materiais que comporão o trabalho de
pesquisa.
O fundamento teórico utilizado será conceitos desenvolvidos por Norbert Elias em “A Sociedade de
Corte” e “A sociedade dos indivíduos”, relativos ao comportamento social e as relações desenvolvidas
em determinada estrutura social. A maneira pela qual o indivíduo se vê e se conduz em suas relações
com os outros depende da estrutura da associação a respeito da qual ele aprendeu a dizer “nós”. Através
da analise de formas da coexistência social compreender o autocontrole e a adaptação dos indivíduos
(mulheres) a uma estrutura social diferente,a da sociedade industrializada.
2. Resultados e discussões
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A sociedade brasileira nos anos cinquenta, do século passado, sofria intensas mudanças na sua
composição social, especialmente na urbanização. Migrantes vindos do interior se deslocam para as
principais capitais do país na busca de melhores condições de vida. Assim, há uma intensa urbanização
no período, que se estenderá pelas duas décadas seguintes.
As migrações trazem consigo o retalhamento do tecido social constituído anteriormente, exigindo
daqueles que chegavam às cidades a reconstituição dos laços sociais, que são refeitos de várias maneiras.
Uma é a manutenção das práticas anteriores ou simplesmente tomar determinados artefatos culturais
como identitários como danças, vestimentas, alimentação (isso é típico, por exemplo, com emigrantes
brasileiros que adotam a feijoada, o samba e o verde-amarelos como símbolos de sua identidade mesmo
que não os cultivasse quando estavam no país).
Além desses símbolos, podemos encontrar marcas identitárias em lugares mais sutis, como nas
revistas femininas, pelo menos para o período proposto. Nelas, vamos encontrar várias sessões que,
muitas vezes, correspondem aos anseios de leitoras desejosas de encontrarem ordem num mundo
desordenado, que é o delas próprio.
Revistas como Grande Hotel, Capricho, Ilusão, entre outras, para além da discussão sobre a indústria
cultural, traziam sessões que atendiam as representações sociais de mulheres sobre o seu lugar na
sociedade e a ordem do mundo. Daí a importância da etiqueta nestas revistas. Elas serviam também
como papel civilizador. Matérias como “Recebendo amigos”, “Como se maquiar para um jantar de
gala”, “O que vestir numa festa” auxiliam na constituição do mundo, ou melhor, respondem às
representações femininas de um mundo ordenado ou, no nosso caso, reordenado.
Assim, devemos compreender que as revistas, antes de serem simples veículos de uma ideologia
impositiva, é resultante de práticas sociais, apresentando formas de compreensão do mundo, inclusive
indicando modos de comportamento e de etiqueta. Porém, não é imposição, como foi dito, mas
expressões do que desejavam as leitoras.
As representações sociais femininas no Brasil dos anos cinqüenta colocam em discussão a cultura de
massa e o lugar da produção cotidiana, tirando das sombras algumas formas literárias. Elas nos
apresentam práticas da leitura que são ligadas às tradições orais. Assim, estas revistas femininas não são
uma queda do leitor aos infernos da subliteratura, mas uma maneira de permanências e também de
mudanças de práticas cultural.
3. Conclusões
A primeira hipótese compreende que a etiqueta nas revistas femininas atendia às representações
sociais femininas acerca da identidade, isto é, antes de ser uma imposição, as sessões nas revistas
emulavam anseios por ordem e lugar desejados por leitoras que se encontravam num mundo em
mudança. Em parte, isso explica o declínio destas revistas nos anos 80 do século passado, já que o
mundo que cercava as leitoras se encontrava, de certo modo, ordenado, isto é, os lugares sociais estavam
mais claros e, portanto, podiam ser melhor compreendidos, dando lugar a uma ação mais segura.
A segunda hipótese busca entender que estas revistas representam uma visão de mundo que se liga
diretamente à herança oral da sociedade, quer dizer, as revistas femininas são substitutos para as formas
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1. Introdução
Quando se fala em tecnologia é usual que se imagine computadores com multiprocessadores de última
geração, pessoal especializado e uma parafernália tecnológica altamente informatizada. Porém, sabe-se que a
criação e a apropriação de técnicas fazem parte do desenvolvimento da humanidade. Mesmo em seus
primórdios o homem inventa, inova, reinventa e renova.
Ao fazer alusão à sociedade do início dos tempos históricos, Santos (1994, p. 18[7]), ressalta que,
cada grupo humano construía seu espaço de vida com as técnicas que inventava para tirar
do seu pedaço de natureza os elementos indispensáveis à sua própria sobrevivência.
Organizando a produção, organizava a vida social e organizava o espaço, na medida de suas
próprias forças, necessidades e desejos.
Mas, afinal, o que é tecnologia? Etimologicamente, o termo tem origem grega, com a junção dos
termos tekne (técnica ou arte) e logos (conjunto de saberes). Sendo assim, pode-se entender tecnologia como
o conjunto integrado de conhecimentos, procedimentos e técnicas (CASTELLANO, 1996[2]), mas também
como o produto desse processo, constituindo as ferramentas que são utilizadas no dia-a-dia.
Na educação, das seculares técnicas, passando pelo simples uso do giz e do quadro negro até as
emergentes e atuais tecnologias educacionais foi um longo processo. O surgimento cada vez mais acelerado
de novos meios tem trazido certa confusão na maneira de pensar o ensino e a escola.
Nesse cenário de “incertezas”1 está o papel das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação
(NTICs). Oriundas principalmente da Terceira Revolução Industrial, as novas tecnologias possibilitaram o
advento do que se denomina “sociedade do conhecimento” ou “sociedade da informação”. Milton Santos
permite compreender melhor este período da história da humanidade ao caracterizá-lo como técnico-
científico-informacional. E, assim como em todas as épocas, sabe-se que,
Nesse contexto, este trabalho objetiva investigar o uso das novas tecnologias na prática educativa de
professores de Geografia do ensino médio da rede estadual de ensino de Ponta Grossa, Paraná. A pesquisa
se justifica pela presença cada vez mais acelerada desses novos meios – principalmente o computador e a
internet – na vida cotidiana dos alunos, dos professores e da escola.
Nesta investigação consideram-se NTICs o computador, a TV Multimídia, os dispositivos de
armazenamento de arquivos, os softwares utilizados no ensino e a internet. A preocupação central é refletir
sobre a maneira como os professores utilizam as novas tecnologias disponíveis na escola e quais habilidades
são necessárias para seu uso e domínio. E ainda, como o professor está sendo preparado para enfrentar esse
desafio.
*
Acadêmico do Curso de Licenciatura em Geografia da UEPG. Email: [email protected]
**
Doutora em Educação. Docente DEMET/UEPG.
1
Termo utilizado por David Harvey na obra “Condição pós-moderna” (2007[3]).
167
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2. Metodologia
3. Resultados e Discussão
Os resultados preliminares da pesquisa apontam que o computador (Fig. 1) se configura como uma
opção marcante no período de planejamento das aulas, pois o crescente número de softwares disponíveis,
além do uso da internet, permite que o professor torne sua aula mais dinâmica e atrativa. O reflexo está em
sala de aula, pois o professor afirma fazer uso de novas tecnologias disponíveis na escola ao ministrar aulas
de Geografia, como se pode constatar na Fig. 2.
Fig. 1 Gráfico sobre o uso do computador no Fig. 2 Gráfico sobre o uso de novas tecnologias
planejamento das aulas no ensino de Geografia
Constatou-se ainda que no planejamento das aulas, os livros didáticos se configuram como a principal
fonte de consulta (96%), mas pode-se perceber que o professor de Geografia utiliza outros recursos, dentre
eles jornais (74%) e revistas (83%). Deduz-se que o intenso uso de jornais e revistas deve-se ao acesso
facilitado a informações atuais. Livros paradidáticos e revistas científicas (61% e 43%) também são citados.
Apesar do computador ser utilizado por 100% dos professores, a pesquisa revelou que a internet não tem
expressão significativa no planejamento das aulas.
O uso de novas tecnologias permite que o professor de Geografia utilize vários materiais e linguagens
em sua prática pedagógica. Vídeos/filmes são utilizados por 91% do grupo, pois além de aguçar a
curiosidade dos alunos, permitem uma melhor compreensão do conteúdo, quando atendem aos objetivos
propostos. A grande maioria dos professores também utiliza imagens/fotografias (96%). Quanto a esse
material Pimentel (2002, p. 23[4]) salienta que
Quanto aos recursos existentes nos colégios, descobriu-se que nem todos estão disponíveis aos
professores para uso com os alunos, como revela a Fig. 3. Fica evidente que os recursos disponibilizados em
grande quantidade são utilizados por todos os professores, como é o caso da TV Multimídia. O laboratório de
168
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
informática é utilizado por mais da metade do grupo, contudo ainda não permite acesso a totalidade. Dentre
os fatores que dificultam o uso do laboratório pode-se considerar a falta de: profissional disponível para
auxiliar o professor, domínio por parte do professor sobre as ferramentas, manutenção dos equipamentos,
dentre outros. Os recursos adquiridos pela escola como Datashow/Projetor Multimídia e Softwares são
utilizados em menor escala.
4. Algumas Considerações
Os resultados preliminares desta pesquisa demonstram que as novas tecnologias estão presentes na
escola e são utilizadas pelos professores como suporte para sua ação pedagógica. Não se trata do profissional
que saiba fazer uso do computador, navegar na web ou utilizar o e-mail, mas daquele que utilize esses
recursos para atingir seus objetivos.
Moran (apud RÖRIG e BACKES, 2010, p. 4[5]) salienta que “o professor, com o uso das novas
tecnologias em sala de aula pode se tornar um orientador do processo de aprendizagem”. Porém, é preciso
que esse profissional reconheça sua importância no processo de ensinar e aprender, buscando atualizar-se
constantemente.
Fazer uso de novas tecnologias não significa excluir as tradicionais, mas possibilitar uma maior
aproximação à temporalidade dos alunos. Não se pensa mais um mundo não-plugado. Não se imagina o
mundo sem a utilização da informática. Por conseguinte, não se concebe mais uma escola fora da realidade
informacional, muito menos um professor temeroso frente a esses novos desafios.
Referências
[3] HARVEY, D. Condição pós-moderna. 16. ed. São Paulo: Loyola, 2007.
[4] PIMENTEL, C. S. A imagem no ensino de geografia: a prática dos professores da rede pública estadual
de Ponta Grossa, Paraná. Dissertação (Mestrado em Geociências) – Universidade Estadual de Campinas,
Campinas, 2002.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[5] RÖRIG, C.; BACKES, L. O professor e a tecnologia digital na sua prática educativa. Disponível em:
< http://www.pgie.ufrgs.br >. Acesso em: 17 abr. 2010.
[6] SANTOS, M. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: USP, 2006. (Coleção
Milton Santos; 1)
[7] ______. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico-informacional. São Paulo,
Hucitec, 1994.
170
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O processo de urbanização causa necessariamente a transformação das características naturais do
espaço, pois requer a substituição do sistema natural – formado de elementos bióticos e abióticos – por um
sistema artificial, marcado por edificações que impermeabilizam o solo e reduzem a quantidade de áreas
verdes. O sistema urbano é, portanto, muito alterado em suas condições naturais básicas [1]. Em função
disso, especialmente após a década de 1970, tem sido dada maior atenção à qualidade ambiental urbana [2], a
qual contribui diretamente na qualidade de vida das pessoas.
Neste contexto, tem sido dada atenção ao Planejamento Ambiental das cidades e à necessidade de
arborização destas, já que as árvores prestam um grande serviço à saúde física e mental dos cidadãos. Para
Troppmair “as áreas verdes desempenham papel importante no mosaico urbano, porque constituem um
espaço encravado no sistema urbano” [3]. Muitas são as vantagens que as árvores prestam às cidades e às
pessoas: são fundamentais para a permeabilização do solo contribuindo para evitar enchentes, atenuando o
microclima citadino, reduzindo as partículas de poeiras no ar, além de deixar o cenário mais bonito e
agradável [4].
Santa Maria, cidade de porte médio no interior do Rio Grande do Sul, localizada entre as coordenadas
29° 39’ e 29° 43’ de latitude sul e entre 53° 50’ e 53° 45’ de longitude oeste (figura 1), teve como
conseqüência do seu processo de urbanização, a retirada total ou parcial da formação florestal que ocupava o
rebordo do planalto, e à medida que a expansão urbana foi densificando nas áreas mais planas, isolou os
fragmentos florestais à margem da cidade e nos topos de morros, resultando num processo de isolamento da
área florestal [5].
O bairro Itararé, localizado a norte da zona urbana do município, possui ainda remanescentes de
vegetação integrante do bioma mata atlântica concentrada principalmente no Morro Cechella, sendo,
portanto, área de preservação. Este bairro é tipicamente residencial em que moram cerca de 10.000 pessoas,
a maior parte em residências unifamiliares [6].
Pesquisadora do Laboratório de Geoecologia e Educação Ambiental (LAGED) da UFSM
[email protected]
171
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Este estudo focou a situação do Bairro Itararé quanto as suas características de vegetação arbórea
ainda existente. Estas características foram comparadas com as de dois outros bairros: o Bairro Perpétuo
Socorro, também localizado ao Norte do município e marcado pela presença de morro testemunho; e o bairro
Centro, vizinho àqueles e onde se concentra a maior parte das edificações e pessoas. O objetivo do trabalho é
avaliar comparativamente como está distribuída a vegetação arbórea no Bairro Itararé e nos demais bairros
analisados, verificando se esta vegetação cumpre com os serviços ambientais correspondentes, incluindo a
função de lazer da população, o que implica no bem estar das pessoas.
2. Metodologia
Para a análise da distribuição de vegetação arbórea no Bairro Itararé utilizou-se a imagem disponível
no software Google Earth Pró do ano de 2010, de alta resolução. A identificação dos fragmentos florestais
foi feita manualmente, a partir da interpretação da imagem, apoiada em saídas a campo. Com isso foi
possível distinguir tanto fragmentos florestais quanto árvores isoladas. O trabalho não diferenciou vegetação
nativa e exótica, mas salienta que a vegetação do Cechella é composta predominantemente de espécies
nativas. A vegetação arbórea foi representada com o apoio do programa Arcgis 9.3. Os mapas de vegetação
dos bairros Centro e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foram adaptados de trabalhos anteriores [7- 8].
3. Resultado e Discussão
Após o processamento das imagens, o mapa de vegetação obtido está demonstrado abaixo:
Fig. 2 Mapa de cobertura arbórea dos bairros Perpétuo Socorro, Itararé e Centro, Santa Maria/RS.
Elaborado por: SOUZA, L. D.
Em geral, tem-se que o bairro Perpétuo Socorro possui aproximadamente 80% de sua área composta
por vegetação arbórea e o Itararé com 25%. Em ambos os bairros a concentração desta vegetação ocorre nos
seus morros. O bairro Centro possui apenas 10% de sua área em cobertura arbórea, justamente o bairro que
possui maior concentração de prédios e pessoas.
O Bairro Itararé possui vegetação arbórea distribuída em todo seu perímetro, com especial
concentração no Morro Cechella. Apesar disso não há parques ou reservas delimitadas e as árvores que estão
distribuídas ao longo do bairro não possuem ligação a ponto de estabelecerem um corredor ecológico para
deslocamento da fauna. Pelo mapa podemos notar que existem corredores arborizados, mas ficam restritos
172
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
aos seus próprios bairros. A existência desses fragmentos vegetacionais na área habitada decorre mais da
população querer manter certas árvores em seus pátios do que de uma política pública de preservação.
Porém, o Morro Cechella tem sido cada vez mais ocupado por moradias de pessoas de baixa renda, que ali se
instalam sem qualquer infraestrutura, o que coloca em xeque a permanência daquela vegetação.
O Bairro Perpétuo Socorro é semelhante ao Itararé no quesito vegetação, pois ambos possuem
característica comum quanto a aspectos de habitação – bairros residenciais com predomínio de casas – e de
relevo, dada a existência de morros testemunhos onde o avanço da urbanização ainda apresenta um ritmo
controlado. As áreas vegetadas na parte norte do município prestam um grande serviço para a circulação do
ar no Centro, garantindo a renovação do ar e o transporte das poeiras acumuladas, ajudando na regulação
térmica do bairro. Estes fatores também agem positivamente na saúde das pessoas.
Já o Centro possui pouca vegetação, decorrente da concentração de prédios. Apresenta uma única área
verde para lazer das pessoas, o chamado Parque Itaimbé, onde muitas pessoas freqüentam para caminhar,
tomar seu chimarrão ou para estar em contato com um local mais arborizado. Além disso, as árvores do
bairro Centro têm a sua funcionalidade ambiental reduzida, em função do alto grau de impermeabilização do
bairro.
Pela figura 2, percebe-se que há a possibilidade de fazer com que haja contato entre concentrações
arbóreas dos três bairros, não apenas pela proximidade destes bairros como também pela localização dos
seus corredores arborizados.
4. Conclusão
A partir da realidade do bairro Itararé é possível afirmar que não tem existido política pública para
áreas verdes na cidade, o que é um grande desperdício, pois este bairro possui uma bela paisagem cênica,
além de um potencial inegável para a prestação de serviços ambientais relacionados a circulação do ar,
permeabilidade e refúgio da fauna, principalmente de aves.
Os bairros da zona Norte, Itararé e N. Sra. Perpétuo Socorro, são bastante parecidos no aspecto de
vegetação, e ambos prestam serviço ambiental para a fauna local. Também colaboram para a infiltração da
água e reabastecimento do lençol freático. Concluí-se que estas características de vegetação colaboram tanto
com a função ecológica quanto para a melhor qualidade da saúde, logo, de vida, das pessoas.
Porém, no bairro Centro, as árvores presentes, mais esparsas que nos outros dois bairros, atendem
muito mais a uma função estética do que a funções ecológicas que seriam esperadas da vegetação arbórea,
pois isolada como se encontra e, não raro, cercada de cimento, o papel de absorção da água da chuva é
bastante limitado. Torna-se clara a relação entre ocupação urbana e redução de vegetação na cidade de santa
Maria.
A falta de atenção do poder público para a importância de áreas verdes nas cidades é um fator
preocupante no que toca a um ambiente saudável para as pessoas viverem. A falta de planejamento urbano
eficiente associado ao crescimento da população, tende a por em risco as poucas áreas de vegetação que o
município possui.
[1] Troppmair, H. Biogeografia e Meio Ambiente. Rio Claro: SP Ed. Graff Set, 1987.
[2] Nucci, J. C. Qualidade Ambiental e Adensamento Urbano: um estudo de ecologia e planejamento da paisagem
aplicado ao município de Santa Cecília. 2ª ed. - Curitiba: O Autor, 2008.
[3] Troppmair, op. cit., p. 150.
[4] Nucci, op. cit.
[5] Figueiró, A. S. Aplicação do zoneamento ambiental no estudo da paisagem: uma proposta metodológica.
Dissertação de mestrado Florianópolis: UFSC, 1997.
[6] IBGE, Censo Demográfico. Rio de Janeiro: IBGE, 2001.2001.
[7] Lucas et tal. Ocupação Irregular em Áreas de Preservação Permanente no Bairro Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro, Santa Maria/RS: Legislação e Conflitos. In: XV Encontro Nacional de Geógrafos, 2008. Anais... São Paulo:
USP, 2008a.
[8] Lucas et tal. Caracterização e Conflitos entre Vegetação Urbana e Qualidade ambiental no Bairro Centro da Cidade
de Santa Maria/RS: Uma Primeira Aproximação. Geografia: Ensino & Pesquisa, v.12, p.986-1007, 2008b.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
5. Referências
NUCCI J. C. Qualidade Ambiental e Adensamento Urbano: um estudo de ecologia e
planejamento da paisagem aplicado ao município de Santa Cecília. 2ª ed. - Curitiba: O Autor, 2008.
TROPPMAIR H. Biogeografia e Meio Ambiente. Rio Claro: SP Ed. Graff Set, 1987.
FIGUEIRÓ, A. S. Aplicação do zoneamento ambiental no estudo da paisagem: uma proposta
metodológica. Dissertação de mestrado Florianópolis: UFSC, 1997.
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico. Rio
de Janeiro: IBGE, 2001.
LUCAS, C. A.; ANTUNES, R. L. S.; MARTELLI, G. V.; GUARESCHI, V. D.; FOLETO, E. M.
Ocupação Irregular em Áreas de Preservação Permanente no Bairro Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
Santa Maria/RS: Legislação e Conflitos. In: XV Encontro Nacional de Geógrafos, 2008. Anais... São Paulo:
USP, 2008.
LUCAS, C. A.; ANTUNES, R. L. S.; FIGUEIRÓ, A. S. Caracterização e Conflitos entre Vegetação
Urbana e Qualidade ambiental no Bairro Centro da Cidade de Santa Maria/RS: Uma Primeira Aproximação.
Geografia: Ensino & Pesquisa, v.12, p.986-1007, 2008.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
PARREIRA, Sinara Fernandes ; DAL SANTO, Mariane Alves; FURTADO, Thales Vargas
Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC
Centro de Ciências Humanas e da Educação – FAED
Laboratório de Geoprocessamento – GeoLab
1. Introdução
As imagens geradas pelos sensores orbitais tem se apresentado como importantes instrumentos para
avaliação e interpretação da superfície terrestre e vem, cada vez mais, sendo utilizadas para o planejamento
territorial. Existem diferentes tipos de sensores que, consequentemente, geram vários tipos de imagens, cada
uma com suas características específicas. Para definir qual a imagem mais adequada a cada trabalho
devemos analisar as suas características. Dentre as principais características a serem analisadas estão: as
resoluções espectral, temporal e espacial da imagem. A resolução espectral refere-se ao poder de resolução
que o sensor tem para discriminar diferentes alvos sobre a superfície terrestre. Já a resolução temporal indica
o intervalo de tempo que o satélite leva para voltar a recobrir a área de interesse. E, a resolução espacial,
segundo Moreira (2001) [3], baseia-se na habilidade de distinguir os alvos entre si e a capacidade de medir a
periocidade de alvos repetitivos e as propriedades espectrais de pequenos alvos.
Assim, considerando a relevância do uso das imagens de satélite para diversas atividades socio-
economicas e ambientais, esse artigo tem como objetivo apresentar um processo metodológico de fusão de
imagens, buscando melhorar a sua qualidade espacial e espectral visando o estudo de catástrofes naturais.
As imagens utilizadas nesse trabalho foram do satélite CBERS-2B, que faz parte de um convênio entre
os governos brasileiro e chinês. As imagens geradas por esse satélite podem ser adquiridas gratuitamente no
site do Instituto Nacional de Pesquisas Escpaciais – INPE. As imagens escolhidas foram: uma CBERS obtida
pela câmera CCD, multiespectral e com resolução espacial de 20 metros; E, outra CBERS gerada pela
câmera HRC ( High Resolution Camera), sendo que esta última opera numa única faixa espectral que cobre o
visível e parte do infravermelho próximo e produz imagens de uma faixa de 27 km de largura com uma
resolução de 2,7 m. Isso permite a observação com grande detalhamento dos objetos da superfície.
Considerando que a faixa de cobertura da CBERS- HRC é de 27 km, são necessários cinco ciclos de 26 dias
para que os 113 km padrão da imagem CCD sejam recobertos pela HRC (FREITAS, 2009) [1]. A tabela 1
especifica as características de cada câmera que compõe o satélite CBERS – 2B.
Várias técnicas de fusão de imagens vêm sendo desenvolvidas desde a década de 80, com o objetivo
de produzir uma imagem com alta resolução espacial e espectral, visando também uma distinção mais
completa e acurada do objeto sob observação. No caso desse trabalho, a área escolhida para observação foi a
sub-bacia do Rio Luis Alves- SC. A escolha dessa área acompanha o desenvolvimento de um projeto de
pesquisa vinculado ao Grupo Técnico Científico (GTC) do estado de Santa Catarina, que desenvolve técnicas
175
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
de prevenção e apoio às areas afetadas por catastrofes naturais, pois essa bacia foi uma das mais atingidas
pelas fortes chuvas de novembro de 2008. Logo a utilização da imagem CBERS com uma boa resposta
espacial e espectral busca facilitar a identificação dos deslizamentos em encostas já ocorridos e caracterizar
os aspectos geológicos, geomorfológicos, pedológicos e de uso do solo para a geração de mapas temáticos de
risco e suscetibilidade para essa bacia.
2. Método
Segundo Wald (1997) [4], a fusão de dados pode ser definida como uma estrutura de trabalho onde
ferramentas e técnicas são desenvolvidas com o objetivo de combinar informações advindas de diferentes
sensores. A utilização dessa técnica permite a obtenção de uma imagem de melhor qualidade, ou seja, a
produção de uma única imagem que possua mais informações do que cada imagem individual utilizada na
sua geração. De acordo com Leonardi et al. (2005) [2], para que o método de fusão seja eficiente é
imprescindível preservar a informação espectral da imagem original e incorporar a informação espacial da
banda pancromática para o produto híbrido.O software Erdas Imagine 9.3 foi o escolhido para desenvolver
todas as etapas do procedimento. Primeiramente foi feito um pré-processamento da imagem CBERS –CCD
que encontrava-se bruta, as três bandas dessa imagem foram fornecidas separadamente. Logo foi necessário
uni-las em uma imagem só por meio da ferramenta layer stack do Erdas. A composição da imagem com as 3
bandas pode ser observada na figura 1:
Após a junção das bandas o próximo passo foi fazer o recorte da área de estudo na imagem CBERS-
CCD já que a mesma cobria uma área mais extensa do que o necessário para esse estudo. O recorte foi feito
selecionando a área de interesse por meio do ícone Create Rectangle AOI que esta no menu RASTER do
software Erdas. A área recortada já apresentou uma melhora na resolução espacial como pode ser observado
na figura 2.
Feito o recorte, a próxima etapa foi fazer a correção geométrica da imagem CBERS-CCD. Entende-se
como correção geométrica a reorganização dos “pixels” da imagem em relação a um determinado sistema de
projeção cartográfica (WOSNY, 2008) [5]. Como referência para essa correção foi utilizada a imagem
CBERS-HRC que já estava georreferenciada e corrigida (figura 3).
A correção geométrica foi feita com a ferramenta Image corretion geometric, onde inseriu-se os
pontos de controle na imagem a ser corrigida (CBERS- HRC) e correlacionou com os da imagem
ortorretificada (CBERS-CCD). A figura 4 ilustra os views de cada imagem uma do lado da outra, prontas
para inserir os pontos de controle.
176
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Fig. 2 Área recortada da imagem CBERS-CCD Fig. 3 Imagem CBERS – HRC (Pancromática)
Após a correção geométrica foi feito finalmente a fusão das duas imagens. A técnica de fusão utilizada
foi a fusão por componentes principais, vale ressaltar que existem outras técnicas de fusão como Intensidade-
Matiz- Saturação (IHS), Transformação Wavelet e Transformação de Brovey. Na fusão por componentes
principais ocorreram três transformações, cada uma envolvendo a imagem pancromática e uma banda
multiespectral. Tendo como resultado uma composição colorida gerada a partir da combinação das três
bandas. A ferramenta que possibilitou essa fusão no Erdas foi o resolution merge.
3. Resultados e Discussões
Como resultado notou-se uma melhora considerável na qualidade da imagem obtida pela fusão tendo uma
melhor definição e distinção dos alvos em relação a imagem multiespectral sem a fusão (figura 5).
177
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
É importante justificar que a não obtenção de um resultado ainda melhor se diz respeito ao fato da
razão entre as resoluções espaciais das imagens pancromática e multiespectrais ser superior ao valor de razão
máxima recomendada de 5:1 (ZHANG, 2002) [6].
4. Conclusão
A fusão das imagens CBERS-CCD e CBERS- HRC aprimorou a visualização dos detalhamentos,
facilitando o entendimento da dinâmica do espaço geográfico a ser estudado. As feições foram realçadas
contribuindo para o delineamento das formas do relevo, apresentando bem as rugosidades das encostas e
planície de inundação no entorno do rio Itajaí – Açu.
Referências
[1] FREITAS, D. M de. Et Al. Fusão de Imagens Cbers- CCD com Cbers- HRC para obter uma melhor
interpretação das sub-regiões e áreas antrópicas do Pantanal. In: Anais 2° Simpósio de Geotecnologias no
Pantanal, Corumbá, Brasil, 2009, p.412-421.
[2] LEONARDI, S. S.; Ortiz, J. O.; Fonseca, L. M. G. Comparação de técnicas de fusão de imagens para
diferentes sensores orbitais. XII Simpósio Brasileiro de Sensoriamento Remoto. In: Anais... Goiânia, Brasil,
2005, p. 4111-4113.
[3] MOREIRA, Mauricio Alves. Sistemas Sensores (apostila). INPE. São José dos Campos. Agosto. 2001
[4] WALD, L.; Ranchin, T.; Mangolini, M. Fuison of satellite images of different spatial resolution:
assessing the quality of resulting images. Photogrammetric Engineering & Remote Sensing 63 (6), p. 691-
699, 1997.
[5] WOSNY, Guilherme Clasen. Erdas 9.1: Aplicações Correção Geométrica e Classificação de imagens
(apostila). FAED/UDESC. Florianópolis. Julho . 2008.
[6] ZHANG, Yun. Problems in the fusion of commercial high-resolution satellite, Landsat 7 images,
and initial solutions. ISPRS, Vol. 34, Part 4, “Geospatial Theory, Processing and Applications”, Ottawa,
2002.
178
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Márcia da Silva
Profª Drª. do Departamento de geografia
Universidade Estadual do Centro-Oeste
1. Introdução
A partir de meados da década de 1950, o Brasil passou por um processo de industrialização bastante
acelerado, sendo necessários grandes investimentos em infra-estrutura básica para auxiliar o crescimento da
indústria nacional.
Servindo de apoio ao processo de industrialização brasileira, projetos, como as grandes hidrelétricas,
além da produção de energia elétrica, tornaram-se o meio de expansão de novas técnicas para a produção
nacional. Entretanto os efeitos advindos dessa modernização trouxeram consigo problemas econômicos,
sociais, ambientais e políticos.
Ao discutir a implantação de grandes projetos, volta-se às usinas hidrelétricas que se configuram
como a melhor e mais viável forma de se produzir energia elétrica.
Portanto ao construirmos esses grandes empreendimentos várias relações são estabelecidas, e muitas
vezes conflituosas. No caso da usina hidrelétrica de Itá, estas relações de poder estão presentes até hoje, pois
ainda ocorre uma disputa política entre os municípios de Aratiba e Itá pelos royalties desta usina.
179
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Esta usina se caracteriza por ter sido umas das primeiras no Brasil a ter a participação efetiva de um
movimento organizado reivindicando melhores indenizações, o MAB (Movimento dos atingidos por
Barragens) e conseguiu grandes melhorias no processo indenizatório.
Por outro lado as relações de poder estabelecidas neste processo geram algumas alterações no
território, e é nesta categoria espacial que iremos estabelecer as nossas análises.
O território é este emaranhado de forças de poder que agem e proporcionam a (re) construção das
territorialidades. Forças essas ligadas à natureza, de ordem econômica, política e/ou cultural. Todas estão
imbricadas na composição do território contribuindo para seu arranjo heterogêneo.
As hidrelétricas, ao ocuparem um espaço, ao territorializarem-se causam um forte impacto nas
territorialidades pré-existentes, sejam elas sociais, políticas ou econômicas.
Dessa forma a construção desses grandes empreendimentos tem sentido não apenas como processo
de artificialização da natureza ou de substituição de um meio natural por um meio técnico, mas
principalmente, como processo de des-territorialização e reterritorialização, o que significa fazer menção à
dinâmica de criação de um novo território e do surgimento de novas territorialidades.
3. A usina
A história da Usina Hidrelétrica Itá, ou UHE Itá, remonta ao início da década de 80 quando a
Eletrosul - Centrais Elétricas do Sul do Brasil S.A. começou a realizar estudos sobre a exploração energética
do rio Uruguai. Em 1983, a estatal obteve concessão de 30 anos para o primeiro aproveitamento no rio. O
início da operação deveria ocorrer em quatro anos. Ainda em seus movimentos iniciais, a obra entrou em
ritmo lento. Apenas serviços secundários e de proteção continuaram sendo realizados. Motivo: falta de verba.
A estatal conseguiu até aquele momento otimizar o projeto do reservatório, em uma iniciativa que
envolveu até a realocação da cidade de Itá para fora da área alagada.
Enquanto isso, outras atividades prosseguiam, tais como a realocação de estradas e redes elétricas,
como o remanejamento de famílias para fora da área alagada.
Em 1993 a Eletrosul reativou o projeto e, em julho de 1994, divulgou o edital de licitação para
conclusão do empreendimento sob o regime de concessão.
As águas represadas ocupam área de 145 km², equivalentes à metade da área de Porto Alegre.
Abaixo figura que demonstra a localização da usina hidrelétrica de Itá e a sua área de abrangência
nos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
180
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Os Grupos de poder
Após um levantamento bibliográfico sobre a usina hidrelétrica de Itá constatamos que os atores que
se destacaram no processo de implantação desta usina foram: a empresa Tractebel, as prefeituras municipais
de Aratiba/RS e Itá/SC, e o movimento dos atingidos por barragens.
A seguir uma breve descrição destes grupos.
A empresa Tractebel (Tractebel Energia S.A) adquiriu em 1998 a companhia estatal Gerasul, com
capacidade instalada para gerar 3.719 MW. A partir desse momento a empresa com capital Belga, começou a
atuar no sistema de produção e distribuição de energia elétrica no Brasil e é quem controla a produção da
usina de Itá.
As prefeituras municipais de Aratiba e Itá tiveram que dar a maior contrapartida, pois foram os 2
municípios que mais tiveram áreas alagadas, por outro lado hoje elas recebem os royalties desta usina, o qual
será um dos nossos objetivos, investigar como é o processo de divisão destes royalties, pois até hoje geram
grandes disputas judiciais por esses valores mensais.
O MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) é um movimento social que reúne pessoas
atingidas ou ameaçadas direta ou indiretamente pela construção de barragens e que se constitui como reação
organizada diante de tais eventos. O Mab foi criado em meados de 1989 com a realização do 1º Encontro
Nacional de Trabalhadores Atingidos por Barragens, este evento contou com a participação de representantes
de várias regiões do País. E reivindicavam além de indenizações justas e reassentamentos, a reflexão sobre a
construção de novas barragens.
Como dados importantes a formulação da dissertação, foi apurado o númmero de famílias atingidas e
municípios atingidos. As famílias atingidas que foram deslocadas moravam em Itá, Alto Bela Vista, Arabutã,
Concórdia, Ipirá e Peritiba municípios em Santa Catarina, e Aratiba, Mariano Moro, Severiano de Almeida e
Marcelino Ramos no Rio Grande do Sul. As famílias totalizavam 4000 ou aproximadamente 16000 pessoas
deslocadas.
O pré-levantamento realizado deu base para a formulação do projeto e nos dá subsídios para a
realização da pesquisa.
5. Procedimentos metodológicos
6. Considerações Finais
A atuação do MAB (Movimento dos atingidos por barragens) como ator social, em alguns territórios
rurais atingidos pela construção de UHEs, em especial na de Itá-SC representou a possibilidade de
agricultores e trabalhadores rurais garantirem as condições básicas para sua reprodução enquanto grupo
social, bem como de reorganização dos seus territórios construídos.
Como bem ressalta Vainer (1993), quando da implantação de um empreendimento de infra-estrutura
de grande porte, verifica-se uma gama de relações conflituosas nas esferas intra e inter escalares, tanto no
plano nacional quanto local, que passam a interferir no arranjo do espaço. No entanto, como lembra Reis
181
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
(1998), esta situação que é extremamente complexa, passa a se expressar e ser entendida de forma simplista,
como um relacionamento assimétrico, com a confrontação de apenas duas lógicas que seriam diferentes e
conflitantes: a lógica da empresa construtora e a lógica das populações locais.
Segundo Pecqueur, um dos meios para se atingir o desenvolvimento territorial é a transformação do
território dado em território construído, por meio da ativação de recursos genéricos e/ou específicos em
ativos, através da ação dos atores sociais de seu tecido social.
Devido ao processo de construção histórico social local e regional, da fragilidade de rede de relações
entre os atores locais que configura aquele tecido social, bem como da também frágil articulação entre estes
atores quando do processo de construção da hidrelétrica, não foi possível identificar indícios que indicassem
a existência de um processo de transformação do território dado em um território construído.
Com a pesquisa o que se verificou foram ações significativas do movimento social que representou a
população atingida - MAB, de entidades ambientalistas que a este movimento se associou, em defesa da
proteção da vegetação local, e ainda, do poder público federal. O resultado, entretanto de suas ações, não se
firmou como um “acordo” conjunto, ou seja, o que se viu foram termos de Acordos realizados em separado,
estando os interesses da empresa privada ainda na posição central de todo o processo.
7. Bibliografia
SANTOS, Milton. Por uma Geografia nova: da crítica da Geografia a uma Geografia Crítica. São
Paulo: Hucitec, 1996.
________et al. O papel ativo da Geografia: um manifesto. Florianópolis: XII Encontro Nacional
de Geógrafos- AGB-, 2000.
VAINER, Carlos B. A inserção regional dos grandes aproveitamentos hidrelétricos - uma discussão
das posições emergentes no setor elétrico. In_ GOMES, Marco A. F. Velhas e Novas Legitimidades
na Reestruturação do Território. (Org.) Anais do IV Encontro da Anpur/Salvador 1991. Salvador:
ANPUR/UFBA. Faculdade de Arquitetura. Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, 1993
182
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Este trabalho é fruto da pesquisa para elaboração de dissertação de mestrado em história.
Pretendemos discutir brevemente as relações de gênero no Movimento Negro em Criciúma nas
décadas de 1970 e 1980.
Discutiremos sucintamente a atuação de homens e mulheres no Movimento Negro no país,
para que desse modo possamos compreender como vão se dar as interações em Criciúma.
2. Método
O presente texto foi elaborado a partir de uma revisão bibliográfica acerca ao tema; através de
pesquisas nos jornais: “Tribuna Criciumense”, “Correio do Sudeste” e “Jornal da Manhã”, e com a
documentação do Arquivo Histórico Municipal de Criciúma (Estatuto e Atas de Reuniões).
3. Resultados e Discussão
Nas diversa formas de atuação e organização, o Movimento Negro tem contado com a participação de
homens e mulheres. Inicialmente as mulheres desempenharam um papel secundário no interior do
Movimento, ocupando-se com o enfrentamento do racismo e representar os homens, a estes cabia a
representação política nos eventos.[1]
Na primeira metade do século XX houve uma preocupação por parte de algumas instituições do
Movimento Negro em definir os papéis masculinos e femininos procurando adequar os/as afrodescendentes
aos padrões sociais da elite dominante.[2]
Essa característica vai marcar fortemente o Movimento Negro até a década de 1980. Período no qual
surgem Movimentos de mulheres afrodescendentes visando combater o racismo e o sexismo.
Em Criciúma o Movimento Negro surgiu enquanto organização na década de 1970, através da criação
da Associação da Etnia Negra de Tradição e Cultura, essa entidade era voltada para manifestações culturais
africanas e afro-brasileira, além de combater as manifestações racistas ocorridas na cidade.
Os homens ocupavam os cargos administrativos e as mulheres organizavam festas e combatiam o
racismo.[3] Podemos destacar em especial Clotilde Maria Martins Lalau, que juntamente com seu
companheiro Wilson Lalau fundou a Associação, que tinha como sede a casa de ambos e quando as reuniões
contavam com um número elevado de pessoas eram realizadas na Sociedade Recreativa União Operária.
Clotilde em sua atuação como militante além da organização de festas, escrevia artigos para jornais da
cidade denunciando as práticas racistas, na maioria das vezes utilizava o pseudônimo de Tulipa Negra, além
de fazer pronunciamento na rádio da cidade sempre que ocorria situações discriminatórias. Um fato
interessante a ser destacado eram suas vestes, nas reuniões do Movimento utilizava túnicas e turbantes, e no
cotidiano apenas turbantes combinando com a roupa utilizada..
Havia por parte da Associação uma preocupação muito grande com a educação das populações de
origem africana, não apenas com os/as alunos/as mas também com as/os professores/as , procurando sempre
vagas para os/as mesmos/as lecionarem. Eram realizados encontros entre professores/as afrodescendentes
para discutir as relações étnico-raciais na escola.
4. Conclusão
Compreendemos ser imprescindível para uma melhor compreensão da militância nos diversos
movimentos sociais, propiciar a visibilidade aos homens e mulheres contribuindo desse modo com múltiplos
olhares sobre esta temática.
Referências
[1] FONTOURA, 2004. p. 131.
[2] DOMINGUES, 2007. p. 368.
[3] MANENTI, 2005. p. 4.
183
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
ANDREWS, George Reid. Negros e brancos em São Paulo (1888-1988). Bauru: EDUSC, 1991.
BERNALDO, Pedro Paulo. Sociedade Recreativa União Operária: um espaço de luta, lazer, identidade e
resistência da comunidade negra criciumense (1950-1970). Monografia, UNESC, 2005.
CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco. A vida na escola e a escola da vida: experiências educativas de
afro-descendentes em Santa Catarina no século XX. In____. ROMÃO, Jeruse (Org.). História da Educação
do Negro e outras histórias. Coleção Educação para todos. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de
Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. 2005.
CARNEIRO, Sueli. Mulheres em Movimento. Estudos Avançados. São Paulo, USP. 2003. p. 117-132.
ESTATUTO da Associação da Etnia Negra de Tradição e Cultura, acervo do arquivo Público e Municipal de
Criciúma.
FONTOURA, Maria Conceição Lopes. A produção escrita das mulheres negras. In_____. Revista de Estudos
Feministas. Florianópolis. 12 (N.E): 264, setembro/dezembro/2004. p. 131-141.
GOSS, Karina Pereira. Identidades Militantes em ações coletivas contemporâneas em Florianópolis (SC).
Dissertação de Mestrado em Sociologia Política. UFSC, 2003. 142 p.
NASCIMENTO, Elisa Larkin. O Sortilégio da Cor: Identidade, raça e gênero no Brasil. São Paulo: Selo
Negro, 2003.
ROSA, Júlio César. União Operária: resistência e manifestação cultural negra em Criciúma na década de
30. TCC, UNESC, 2006.
SCOTT, Joan. Gênero uma categoria útil de análise histórica. In_____. Educação e Realidade. Porto Alegre.
V 16, nº 2. jul./dez. 1990. p. 5-22.
SILVA, Cristiani Bereta. Homens e Mulheres em Movimento: Relações de Gênero e Subjetividades no MST.
Florianópolis: Momento Atual, 2004.
SOUZA, Florentina da Silva. Afro-descendência em Cadernos Negros e Jornal do MNU. Belo Horizonte:
Autêntica, 2005. 270 p.
184
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O processo global de fluxos de capital se dá sobremaneira via empresas transnacionais e, ilustram o
processo de globalização que cada vez mais se encontra manifestado na sociedade atual. Entende-se a
globalização “como a intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes
de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância
e vice-versa” (GIDDENS apud Videira, 1991, p.69).
Dentro do processo de evolução da globalização alguns elementos podem ser identificados, como
auxiliares para a intensificação do processo. As inovações tecnológicas e apropriações de tecnologias
avançadas como a fibra ótica possibilitaram maiores ações num curto período de tempo, proporcionando a
evolução desses processos que hoje se tornaram tão importantes para a expansão das indústrias, serviços e
capitais por todo o mundo.
Diante da globalização, que se encontra dentro do processo evolutivo dos mercados externos, a
questão da procura por novos mercados consumidores se faz presente, gerando uma grande expansão do
mercado mundial, tanto em países subdesenvolvidos como nos desenvolvidos. A busca por novos lócus de
investimento e consumo, além de mão-de-obra barata fez com que gerasse uma expansão da circulação do
capital estrangeiro ao redor do mundo. O aumento da circulação do Investimento Estrangeiro Direto (IED)
quanto à definição será tratada no item a seguir, se torna possível não só pela grande liquidez mundial mas
também pela melhoria na esfera tecnológica que permite maior capacidade de transmissão de informações
em tempo real, facilitando as negociações que a cada minuto ocorrem no mundo todo.
No Brasil o Investimento Estrangeiro Direto (IED) aumentou exponencialmente a partir da década de
1990, passando de US$ 426, 854 milhões de dólares em 1985 para US$ 41, 695, 624 milhões de dólares em
1995, impulsionados principalmente pelo número de privatizações geradas por políticas neoliberais,
inserindo neste processo uma acentuada desnacionalização da economia, como aponta Gonçalves (1999).
O Investimento Estrangeiro Direto (IED) contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento
econômico no Brasil tendo como origem principalmente os países com economias mais avançadas como
Estados Unidos e Inglaterra1. Os setores que mais recebiam estes investimentos estrangeiros eram aqueles
que demandavam maior tecnologia (GONÇALVES, 1999).
2. Método
A metodologia do trabalho foi calcada num referencial teórico que fornecesse subsídios para a
interpretação correta do objeto de estudo. Posteriormente, a pesquisa se direcionou ao levantamento
de dados, junto do site do Banco Central (informações sobre Censo de Capitais Estrangeiros),
KPMG (empresa de consultoria), revista Exame e Carta Capital, proporcionando a formulação da
redação final da pesquisa desenvolvida.
3. Resultados e Discussão
Diante do processo global de expansão do capital, questões como fusões e aquisições são cada vez
mais aparentes nas gestões econômicas. Nesse sentido, despontam o interesse quanto ao entendimento da
evolução dos Investimentos Estrangeiro Direto (IED), que segundo Gonçalves (2003, p. 30), é “todo fluxo de
capital com o intuito de controlar a empresa receptora do investimento. O principal agente da realização do
IED é a empresa de grande porte que controla ativos em pelo menos dois países”.
A busca por serviços como marketing e propaganda e regiões com fortes atrativos a inserção do
capital estrangeiro no país, fazem com que ocorra incessantemente a evolução e desenvolvimento do capital,
num processo expansivo sem limites. Dentro dos processos de fusões e aquisições, Gonçalves (2003, p.32)
aponta que
*
Autor Correspondente: [email protected]
1
A participação desses países foi representativa até meados da década de 1930, após o período da segunda
guerra os anos o EUA se tornou hegemônico na participação de IED no Brasil, hegemonia essa que reside até
os dias de hoje.
185
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
De acordo com o fato citado acima, podemos perceber que a reestruturação do processo produtivo
acarreta maior competitividade no mercado, refletindo em constante processo de mudança devido aos fluxos
e redes que se interligam.
Os processos de fusões e aquisições no Brasil apresentam maior volume no início dos anos de 1990 e
tem seu ápice entre 1992-1994 (Gonçalves, 1999), tais processos não têm em sua maioria participação de
empresas nacionais, o que acaba acarretando num processo de “desnacionalização” do capital, Videira (2009,
p.119) afirma que “Entre 1995-1997 as empresas estrangeiras envolveram-se em 154 fusões e aquisições,
enquanto as empresas nacionais, apenas em 103”, diante disso fica claro que o processo de inclusão das
empresas internacionais cada vez mais se acentua pelo fato de sua agressividade expansionista.
Países como Estados Unidos, Alemanha, França e Japão despontam pelo maior número de
Investimentos Estrangeiro Direto (IED), entre o período de 1995 á 2000 setores como de indústria totalizam
nesse período US$ 62, 632, 712 milhões de dólares, despontando as indústrias de produtos químicos e
automobilísticos e US$ 78, 751, 351 milhões de dólares2 em serviços como correio e telecomunicação,
seguro e previdência, aumentando ainda mais durante o período de 2005. Apresentando um total de US$
53.763.053 milhões de dólares na indústria e US$ 102, 820, 255 milhões de dólares no setor de serviços,
despontam novamente indústrias de produtos químicos e serviços de correio e telecomunicações, como os
setores com o maior número de investimentos. Porém, países como Japão e França perdem lugar para os
Países Baixos e México, não deixando de serem grandes investidores, o que nos mostra a intensa mobilidade
nos investimentos estrangeiros no país.
Dentro destes processos aquisitivos, o número de transações nos mais diferentes setores cresce de
forma acelerada. Conforme a KPMG3 em 1995 o número de transações chega a 212 no total geral, setores
como o de alimentos, bebidas e fumo, instituições financeiras, elétrico e eletrônico, produtos químicos e
petroquímicos, são os com maiores números de transações.
O avanço do fluxo de IED a partir de 1995 é relevante na história nacional Videira (2009, p.114)
aponta que:
[...] o inusitado está atrelado, além do montante, ao fato do enfraquecimento dos
blocos de capitais nacionais em oposição à crescente importância dos grupos
estrangeiros, isso não quer dizer que os grupos nacionais perderam seus postos de
mando, mas, sim, que o número destes grupos diminuíram dada a crescente
concentração do capital e também a associação destes grupos ao capital estrangeiro
[...]
Decorrente disso, o número de transações aumenta cada vez mais e diferentes setores passam a ser
envolvidos nesse complexo processo de (re)estruturação econômica calcado numa centralização do capital.
Em meados ano 2000 o volume de transações chega a 353 operações, cerca de 60% a mais do que no ano de
1995, setores como tecnologia da informação e telecomunicações incluem-se como áreas de maiores
transações (KPMG, 2000). Gonçalves (2003, p. 76) coloca que:
2
Os valores apresentados nos setores de indústria e serviço são a soma dos anos de 1995 e 2000.
3
A KPMG Corporate Finance corresponde a uma empresa de auditoria e consultoria de atuação
internacional.
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4. Conclusão
A evolução gradativa do investimento estrangeiro direto (IED) no Brasil proporcionou uma
internacionalização da economia nacional, as suas atuações nos diferentes setores de serviços e
indústrias nos demonstram como é intensa e flexível sua atuação nesse processo que cada vez mais
evolui e incorpora áreas que até então não se tinha uma relação de trabalho direta entre ambas.
Os acontecimentos que fluem desde o inicio das grandes navegações, a apropriação da infra-
estrutura, mão-de-obra e serviços, ligados a políticas neoliberais desencadearam uma intensa
internacionalização da economia não só nacional, mas de todo território influenciado pelo
expansionismo financeiro e industrial, isso fez com que se tornasse possível, juntamente com o
processo globalizatório a evolução dos Investimentos Estrangeiro Direto em todo o pais, não
somente nos maiores centros, mas em todo território nacional mesmo que não sendo de forma
homogênea.
Referências
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A Historiografia Joinvilense até pouco tempo dedicava- se em pesquisar apenas
vivencias e histórias que remetessem aos primeiros migrantes germânicos, para de alguma
forma reforçar o discurso de que estes migrantes fundaram a cidade ordeira de pessoas
trabalhadoras. Porem em meado dos anos 80 a cidade passa a receber uma leva de migrantes/as
de outras regiões do Brasil, principalmente do interior do Paraná e Santa Catarina. Nesse
período a cidade está passando por alguns problemas socioeconômicos, o que para muitos é a
conseqüência das migrações recentes. Esse discurso ainda está presente no cotidiano dos
moradores da cidade de Joinville migrantes/as ou não migrantes/as. O Bairro Jardim Sofia
situado na região norte de Joinville, é uma das regiões em que recebe um grande número de
migrantes/as principalmente os/as que migraram nos últimos anos (final do século XX até o
século em que estamos situados).
Segundo relatos de antigos moradores a região denominada hoje bairro Jardim Sofia já
havia sido habitado desde o começo do século XX por algumas famílias germânicas. O nome
dado ao bairro é em homenagem a Sophia Nass esposa do dono de parte das terras que mais
tarde se tornou o Jardim Sofia. O bairro se apresenta enquanto um índice de uma Joinville
migrante, os seus moradores/as são peças chave para se pensar a pluralidade de histórias e
memórias que contrapõem a construção saudosista da história oficial da cidade. Este pedaço da
cidada é de extrema importância para se entender a inserção dos/das migrantes/as na cidade e
todo os emaranhados problemas da cidade contemporânea, pois grande parte dos nossos
interesses partem justamente da história do tempo presente, de nossa vivências cotidianas na
cidade.
Situado acerca de sete quilômetros do Centro de Joinville, o bairro abrange uma área
aproximada de três quilômetros quadrados e conta com uma população estimada de quatro mil
pessoas. Na paisagem cotidiana da região, destacam-se o Rio do Braço, o Rio Cubatão, a EEB
Senador Rodrigo Lobo e o cartódromo de Joinville. (ibidem) Também é conferida,
especialmente pela imprensa joinvilense, ampla visibilidade aos índices de miserabilidade e
violência em que se encontram uma significativa parte de sua população. Segundo dados do
IPPUJ (2006), 34% da população sobrevive com uma renda de até 3 salários mínimos e a renda
per capita do bairro é de R$243,95 ao mês. O Sofia é também um dos bairros de Joinville que
mais sofre com as enchentes e alagamentos, isso esta muito presente na vivência dos
moradores/as que ali já perderam muito de seus pertences e tiveram que reconstruir suas vidas.
O projeto memórias do Jardim Sofia: cenas da cidade migrante preocupa-se em através
de narrativas de memórias analisar a trajetória Histórica do bairro um dos pedaço da cidade
considerado periférico, marginalizado e muitas vezes esquecido pela historiografia tradicional
Joivillense. Assim a proposta do projeto é criar um documentário que conte a história do bairro,
sendo que os/a moradores/as do bairro vão ser os/as próprios/as protagonistas do áudio visual,
narrando memórias e histórias do Jardim Sofia. Desse modo, fechamos uma parceria coma
escola Senador Rodrigo Lobo onde durante esse ano estamos fazendo oficinas de memórias que
oferecem subsídios para a criação do vídeo-documentario . Pretendemos também construir um
livro que estimule a reflexão dos moradores da localidade sobre questões sócio-históricas do
1
* Estudante do terceiro ano do curso de História da Univille, bolsista do Projeto Memória do
Jardim Sofia: Cenas da Cidade Migrante apresentara o projeto no evento,
[email protected].
2
Estudante do terceiro ano de História da Univille, voluntário do Projeto Memórias do Jardim
Sofia: Cenas da Cidade Migrante, [email protected].
3
Estudante do Segundo ano de História da Univille, voluntário do Projeto Memórias do Jardim
Sofia: Cenas da Cidade Migrante, [email protected].
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
bairro. Para que isso aconteça os livros que serão também suporte para o DVD do
documentário, serão doados a instituição escolares de Joinville, para que seja usado como
material didático. O vídeo será exibido para a população do bairro e para os acadêmicos/as da
Univille.
Com isso pretende a interligação da universidade aos bairros visinhos, além de
possibilitar a participação dos acadêmicos/as da Univille em trabalhos educativos junto aos/as
moradores/as do bairro através das oficinas e das filmagens. Essa aproximação dos acadêmicos
e os moradores será feita de forma pedagógica.As discussões de transformação sócio-ambientais
também estão presentes no desenrolar do projeto pois estão bastante nítidas nas narrativas
dos/das moradores/as do bairro.A partir disso passamos a refletir sobre a paisagem do bairro
como documento Histórico , e perceber as varias mudanças que ocorrem e ocorreram nesse
pedaço da cidade de Joinville. Assim pretendemos levar adiante as discussões dos pedaços
esquecidos pela historiografia da cidades, e valorizar as narrativas da população desses pontos
considerados periféricos.
2. Método
O grupo realiza reuniões, toda semana na Univille a onde são definidos os afazeres dos/as
integrantes/as através de planos de trabalho, podendo assim cumprir as metas propostas para o
desenvolvimento do projeto. Além disso as reuniões tem como objetivo o debate de textos
relacionados ao tema do projeto e aos desafios e questionamentos pertinentes ao grupo. Assim
através das leituras e debates tentamos suprir as lacunas teóricas encontradas no decorrer das
tarefas. Esses momentos servem para o ajuste de agenda e orientações de planos de trabalhos da
bolsista e voluntários, esse planos são discutidos com todos os membros do grupo possibilitando
a troca de idéias e a participação de todos/as na construção do projeto.
Estão sendo feitas oficinas de memórias para incentivar os moradores do bairro a
repensar a trajetória histórica do bairro e da própria cidade. As oficinas também estão gerando
subsídios para a produção do vídeo-documentario e do livro.
Além das filmagens das oficinas serão filmadas também as entrevistas feitas pelos
voluntários/pesquisadores sobre seus devidos planos de pesquisa. Nessas entrevistas será
utilizadas a metodologia de História oral. Essa método se refere ao ato de coletar entrevistas
orais , gravar depoimentos de pessoas para registrar as memórias explicitas através da
oralidade. A metodologia de história oral nos permite análise das vivencias sociais através de
outra forma de linguagem que extrapola as pesquisas feitas em livros e documentos tácitos. Essa
linguagem é um vetor que pode nos levar a identificar diferentes formas de expressões, ela
indica o nível de sentimento explicitado pelo entrevistado, pode também falar muito sobre o
meio social em que o narrador transita, onde vive seu cotidiano isso pode ser identificado nos
trejeitos da fala no sotaque.
3. Resultados e Discussão
Foram feitas três oficinas que foram muito construtivas que possibilitaram pensar novas
perspectivas de análise sobre o bairro, como por exemplo a carência de espaços de lazer no
bairro, algo que estavam explicitas nas narrativas de memória dos alunos. Só foi possível pensar
melhor essa e outras abordagens através das oficinas feitas na escola. Na primeira atividade
realizada foi utilizada a dinâmica da “teia da memória” onde é formada duas filas paralelas de
alunos/as e dessa forma os participantes jogam um rolo de barbante para o colega e relatam suas
memórias, assim as memórias dos/as alunos/as se interligam direta e indiretamente, formando
uma teia da memória. A segunda oficina feita com base em uma tarefa dada aos alunos/as a qual
eles/as mesmos seriam os pesquisadores/entrevistadores. A tarefa destinadas aos alunos/as foi
fazer com que eles/elas, procurassem um morador mais velho do bairro e solicitassem uma
fotografia ao entrevistado/a, desse forma os alunos/as fizeram alguns questionamentos ao
morador/a do bairro sobre as memórias que as fotografias despertam, através das entrevistas foi
constatado que a maior parte dos entrevistados eram migrantes, e que já moravam a algum
tempo na cidade. O debate foi interessante pois, a medida que os alunos falavam das memórias
dos entrevistados/as despertavam lembranças de suas próprias vivencias no bairro, a partir
disso os assuntos debatidos passaram a ser a igreja, as enchentes, a associação de moradores
189
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
(que não existe mais ), as ruas não asfaltadas e cheias de lama, a escola e a questão das drogas
no bairro. A terceira oficina se constituiu em duas fazes, a primeira, dividiu os alunos em grupos
e foi distribuído uma imagem para cada grupo, e a partir desta imagem deveria ser construída
uma historia, no segundo momento foi passado para uma abordagem mais pratica, os estudantes
saíram em grupos com um monitor/a para fotografar as paisagens que faziam parte da historia
do bairro e na volta ao colégio precisaram responder um questionário sobre a imagem.
As discussões feitas giram em torno dos planejamentos de trabalho e de pesquisa dos
voluntários e bolsista do projeto e as oficinas, atividades e filmagens feitas. Os textos
trabalhados nos debates do grupo foram sobre História do tempo presente, História e Memórias,
história da cidade, História Oral, Cinema e História, além das leituras e discussão dos
documentos que foram até agora pesquisados sobre o Bairro Jardim Sofia. Os voluntários que
tem plano de pesquisa fizeram levantamento bibliográfico sobre os seus temas estão
desenvolvendo suas pesquisas, os temas trabalhados são sobre catadores de lixo, geo-
processamento,o lar da mãe Abgail e Juventude no Bairro aliando assim, o projeto de extensão a
pesquisa
4. Conclusão
Desse modo os acadêmicos envolvidos no projeto estão tendo um amplo aprendizado em
pesquisa com as reflexões recorrente no desenrolar das filmagens, oficinas, leituras, discussões.
Com o projeto os acadêmicos/as da Univille podem ter as vivencias e os enfrentamento dos
conceitos e problemas que estudam em sala de aula, assim podendo ter um vasto conhecimento
sobre história e memória viabilizado outras maneiras de pensar a cidade onde vivem.
Pretendemos também garantir benefícios para comunidade externa a universidade, benefícios
não assistencialistas são características centrais do projeto. A criação de um livro,
documentário, oficinas, especificamente sobre o Jardim Sofia pode levar os moradores da
cidade principalmente do próprio bairro a refletir sobre os problemas do bairro. Com esses
materiais que serão doados a comunidade podemos também valorizar as narrativas de memórias
muitas vezes consideradas relatos sem importância. Finalmente, salientamos que o projeto
também é amplamente relevante para a Univille uma vez que promove atividades de extensão
de forma integrada à pesquisa e também, por esquivar-se de práticas meramente
assistencialistas. Tentando assim quebrar as barras existentes entre universidade e mundo
externo.
Referências
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1. Introdução
Os primeiros registros da história indicam vestígios de vida da espécie vegetal e animal sobre a terra há um
bilhão de anos, na era pré-cambriana. A espécie humana apareceu no último milhão de anos, sendo
considerada recente em relação à história da vida na terra. E a sobrevivência desta espécie se dá em função
da retirada de alimentos da natureza.
Sendo o homem o maior predador da natureza através da retirada de alimentos, também utiliza-se da
natureza para realizar suas atividades nos mais diversos ramos, tanto no meio rural como urbano, tornando-se
cada vez mais degradador da natureza.
Ross diz que: “A mudança de simples agricultor e criador de subsistência para um estágio de agricultores-criadores
com finalidades comerciais implantou uma significativa alteração de comportamento das sociedades humanas em frente
da natureza. A partir do momento em que os animais criados, os cereais cultivados e os vegetais coletados no campo ou
nas florestas são explorados para comercialização, deixam de ser simplesmente alimentos para se transformarem em
mercadorias que levam à riqueza de alguns e à pobreza de outros”. (1985, p. 213).
Para além da exploração da natureza para a retirada de alimentos, o homem a utiliza para produção de
culturas com a finalidade de comercializá-las e, dessa forma, buscar o lucro, ou seja, gerar acumulação de
bens. Passou, então, de simples coletor e caçador a um grande explorador dos recursos naturais.
A evolução do conhecimento tecnológico dos séculos XVIII, XIX e XX possibilitou a expansão do
capitalismo pelo mundo, colocando os interesses da sociedade capitalista em primeiro lugar. A preservação
da natureza ficou para depois. Devido ao grande desenvolvimento que se projetava até praticamente os anos
de 1970, pouco se pensou nas questões de conservação e preservação da natureza.
As atividades agrícolas e pecuárias são as que mais degradam os recursos naturais. Isso porque há uma
crescente demanda pela produção de alimentos, a fim de atender a demanda da população, principalmente
das zonas urbanas, porque dependem exclusivamente da produção do campo. Cada vez mais se recorre a
tecnologias as com relação a maquinários e equipamentos, bem como à busca de sementes mais produtivas e
resistentes a pragas e ao uso de produtos químicos que favoreçam a produtividade. O aprimoramento da
genética bovina na busca de maior rendimento também é notório. Enquanto esse processo evolui
rapidamente, obtendo-se os resultados esperados em relação à produção de alimentos e retorno financeiro,
por outro lado as questões ambientais se agravam rapidamente, pois a natureza sofre alterações e
degradações.
Na busca de mitigar esse processo de devastação dos recursos naturais iniciou-se várias discussões e
implantações de Leis e programas com vistas à recuperação e conservação dos recursos naturais. Cita-se o
Programa Nacional de Microbacias Hidrográficas criado através do Decreto de Nº 94.076 em 1987 pelo
Governo Federal, “que tinha por objetivo eleger as microbacias, mil na primeira etapa, onde seria aprovada
uma série de atividades voltadas para a prática de manejo e conservação dos recursos naturais renováveis
pelo estímulo da participação dos produtores e incentivo à fixação das populações no meio rural”. (Paulo
Roberto Mrtui, 2004).
O Programa Nacional de Microbacias Hidrográficas de 1987 revogava o Plano Nacional de Conservação dos
Solos – PNCS instituído pelo Decreto Nº 76.470 de 16 de Outubro de 1975, o qual desenvolvia práticas de
conservação e preservação do solo.
Dentre esses Planos de Conservação do Solo e Programa de Microbacias Hidrográficas, a Cotrijuí –
Cooperativa Agropecuária & Industrial S/A do município de Ijuí, desenvolvia um projeto que se denominava
Plano de Conservação do Solo, e implantou alguns projetos de recuperação de microbacias hidrográficas no
município de Ijuí, e em outros municípios de sua região de atuação. Em 1988 reuniram-se algumas entidades
do municipio, a Cotrijuí, Prefeitura Municipal de Ijuí, EMATER - Associação Riograndense de
Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural, onde discutiram a intensificação do programa de
recuperação das microbacias hidrográficas. Isso ocorreu devido ao Programa Nacional de Recuperação de
Microbacias Hidrográficas de 1987. As entidades mencionadas formaram uma parceria com o objetivo de
implantar o Programa de Recuperação da Microbacia Hidrográfica Três Negrinhos de Ijuí. O Programa teve
duração de quatro anos. Os objetivos principais eram a recuperação dos recursos naturais da área da
microbacia hidrográfica e a mitigação de algumas práticas agrícolas que estavam sendo desenvolvidas na
1
[email protected]
192
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área. A escolha desta Microbacia ocorreu em função de que na área da microbacia existe uma estrada que
dava acesso ao antigo Centro Tecnológico da Cotrijuí, local onde eram desenvolvidas atividades técnicas,
cursos de capacitação, experimentos, dias de campo, etc. Assim, a microbacia serviria de exemplo para os
agricultores que trafegavam até o Centro Tecnógico. Com o intuito de analisar todo esse processo de
implantação e recuperação da Microbacia Hidrográfica Três Negrinhos é que se desenvolveu a pesquisa na
área, com o objetivo principal de averiguar quais os resultados obtidos com a implantação do projeto, visto
que os agricultores residentes na área foram assistidos com a implantação de técnicas que favoreceriam o
melhoramento da produção, da recuperação dos recursos naturais, da diversificação da propriedade, entre
outros.
O Município de Ijuí localiza-se na região noroeste do estado do Rio Grande do Sul (Mapa 01), encontra-se
na latitude 28º 20’S e longitude 53º 55’W. Sua área total é de 689km². População total de 76.739 habitantes
(IBGE/2007). Distante 395km da capital Gaúcha.
O município de Ijuí é um polo regional, em função de ser um centro de referência, nos atendimentos de
saúde, por dispor de educação qualificada, como cursos técnicos em diversas áreas e ensino superior. As
potencialidades são expressas através da economia baseada no setor agropecuário, no comércio, indústrias e
serviços.
A história de formação do município teve início em meados de 1890, quando foi fundada a Colônia de Ijuí,
passando para município em 1912. Segundo Callai, “o município de Ijuí foi uma colônia oficial, a primeira
das Colônias Novas nas terras de cima do planalto, recebendo imigrantes europeus que vieram diretamente
da Europa, ou que saíam das colônias velhas. Como foi Colônia Oficial, houve um planejamento rigoroso na
disposição da zona urbana e das colônias na zona rural. A partir da Linha Base (hoje é a Rua 13 de maio),
para oeste e para leste, a cada quilômetro é contada uma linha. Perdeu-se um pouco essa característica nos
dias atuais em função da expansão, do crescimento desordenado. É uma cidade conhecida como Terra das
culturas diversificadas, em função da diversidade étnica que chegaram às terras ijuienses, mas as etnias mais
numerosas foram os italianos e alemães.
Aspectos físicos do município, a formação do solo do município de Ijuí é reflexo da estrutura geológica, com
predomínio do solo argiloso, latossolo roxo. Localiza-se no planalto sobre rocha de basalto vulcânica. O
relevo apresenta-se com ondulações moderadas, com colinas alongadas. A vegetação original predominante
no município era de áreas florestais subtropicais, de mata de galeria e formações campestres. Devida a
intensa ocupação humana para exploração do uso do solo com as atividades agropecuárias e o processo de
urbanização, a vegetação foi extinta, permanecendo alguns remanescentes em pequenas porções, nas partes
mais altas das encostas, cobrindo lugares mais declivosos e em alguns trechos ao longo dos rios. O clima do
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
município é sub-tropical, com quatro estações distintas, temperaturas altas no verão e invernos frios ou
moderadamente frio. A temperatura média anual é de 20°C e as chuvas se distribuem regularmente durante o
ano. No verão, predominam as chuvas sazonais, e no inverno, as chuvas frontais, com bastante uniformidade.
Os ventos predominantes sopram do quadrante Sudeste. O município dispõe de uma vasta rede de drenagem,
é banhado por três importantes rios que compõem a bacia hidrográfica do Rio Ijuí, que são os rios Ijuí,
Conceição e Potiribú. A área da pesquisa faz parte deste contexto, localiza-se na porção sudoeste do
município de Ijuí. O mapa 02 representa a área da Microbacia Hidrográfica Três Negrinhos. O mapa
apresenta as informações básicas da área; a rede de drenagem que escoa no sentido sudoeste, sendo afluente
do Rio Conceição; a distribuição do sistema viário; e as localidades. O sistema viário mostra as linhas como
foram divididos os lotes coloniais na época da colonização do município, todos com orientação norte/sul e
leste/oeste.
A Microbacia Hidrográfica Três Negrinhos é uma das maiores microbacias do rio Conceição, com área total
de 1.154ha. O rio Conceição é um afluente direto do Rio Ijuí, pertencendo a Bacia Hidrográfica do Rio Ijuí.
2. Método
Os procedimentos metodológicos utilizados foram: levantamentos bibliográficos, referente ao tema.
Trabalhos de campo na área da microbacia em estudo, para compreender processo de ocupação; Resgate do
projeto junto às entidades envolvidas; Visitas as propriedades que se envolveram com o projeto, a fim de
entender como os agricultores participaram das atividades durante o período de execução do projeto;
Utilização do GPS de navegação para atualização das estradas, bem como da sede das propriedades que
fizeram parte do projeto; Elaboração de mapas com utilização do AutoCAD com representar as informações
levantadas a campo.
3. Resultados
Levantamento bibliográfico na área da pesquisa possibilitando o aprimoramento dos conhecimentos e
discussões sobre o tema para a fundamentação teórica. Visita as entidades envolvidas, nas propriedades da
microbacia e com os técnicos que trabalharam durante a execução do projeto, possibilitando compreender as
atividades desenvolvidas no período, o envolvimento dos agricultores, as mudanças que se processaram com
a execução do projeto, e a efetivação dos objetivos propostos pelo projeto. Levantamento fotográfico que
demonstram como está sendo utilizada a área da microbacia.
4. Conclusão
O estudo realizado na área da microbacia encontra-se em fase de conclusão. No decorrer da pesquisa
verificou-se que o projeto de recuperação da microbacia hidrográfica teve grande importância no período que
foi desenvolvido. Depois de quase 20 anos da execução constatou-se que atualmente as entidades envolvidas
e os próprios agricultores que permanecem nas propriedades não deram continuidade nas técnicas e práticas
desenvolvidas. Segundo relatos dos agricultores e das entidades os maiores problemas que existiam na área
da microbacia eram em relação ao uso do solo, mas após a implantação do programa de recuperação da
microbacias, foi implantado o sistema de plantio direto que resolveu a questão com relação ao solo. Mas é
importante salientar que o projeto desenvolvido naquele período teve grande repercussão no município e
região, servindo de exemplo para várias entidades e agricultores. Sabe-se que as microbacias hidrográficas
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
são unidades territoriais que devem ser trabalhadas como unidades gestoras dos recursos ambientais, assim
proporcionando melhor qualidade ambiental.
Referências
CALLAI, Jaime. Estudos Sociais – História de Ijuí. 5. ed. Ijuí: Ed. Unijuí. 1989.
MRTVI, Paulo Roberto. As Transformações e Perspectivas Geradas pelas Atividades ma Microbacia do
Ribeirão Jacutinga, Região Norte do Município de Londrina, PR, 1989 a 2002. Londrina/PR. 2004.
Plano Nacional de Recursos Hídricos. Síntese Executiva. Brasília. MMA, 2006.
ROSS, Jurandyr L. Sanches (Org.). Geografia do Brasil. São Paulo. Edusp, 1995.
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CONORATH, Gabriel Daniel*; DAL SANTO, Mariane Alves; OLIVEIRA, Francisco Henrique de
Mestrado em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Sócio-Ambiental - MPPT
Universidade do Estado de Santa Catarina - UDESC
1. Introdução
A pesquisa proposta toma como conceito norteador a modelagem dinâmica em bacias hidrográficas. A
utilização da modelagem para a simulação de eventos extremos, como por exemplo as enchentes, pode
auxiliar na tomada de decisão imediata (CHRISTOFOLETTI, 1999) [1]. Desta forma, o presente projeto de
pesquisa busca como foco de estudo a modelagem dinâmica da bacia hidrográfica do rio Cachoeira em
Joinville. As enchentes ocorridas em novembro de 2008 agravaram a situação dos problemas sociais de
Joinville, deixando marcas irreparáveis às famílias que sofreram a sua ação direta nesta bacia. Assim, tendo
em vista a importância do conhecimento acurado desta área, pois 80% da população joinvillense vive
próxima a esta região, a modelagem dinâmica na bacia hidrográfica do rio cachoeira é fundamental, pois, o
crescimento da cidade Joinville estendeu-se sobre um amplo sítio composto por planícies, com alguns
pequenos morros distribuídos nesta extensão onde a Bacia Hidrográfica do Rio Cachoeira abrange 84 Km2
da região urbana do município, apresentando altos índices de poluição e ocupação de áreas protegidas, como
os fundos de vale.
Para compreender melhor área de estudo é importante conhecer um pouco sobre este município.
Joinville tem como coordenadas geográficas 26º18’05” de latitude Sul e 48º50’38” de longitude Oeste. A
altitude da sede é de 4,5 m, e o ponto culminante é o Pico da Serra Queimada, com 1.325 m. Possui área de
1.135,05 km² e 496.051 habitantes. A sede do município possui 38 bairros, 1 Distrito (Pirabeiraba) e 2 Zonas
Industriais (Norte e Tupy), (IPPUJ, 2007) [3]. Está localizado na região nordeste do Estado de Santa Catarina
e representa o maior pólo industrial do Estado. Além disto, destaca-se pela sua fisiografia, já que envolvem
áreas remanescentes de Mata Atlântica, manguezais, restingas, campos e a Baía da Babitonga, importante
complexo estuarino da região sul do país.
O relevo de Joinville se desenvolveu sobre o terreno cristalino da Serra do Mar e uma área de
sedimentação costeira. Segundo Gonçalves (1993) [2], a cidade se desenvolveu numa região extremamente
adversa, do ponto de vista urbanístico, pois esta localizada em fundo de baía, tendo a leste os manguezais e a
20 km para oeste os contrafortes da Serra do Mar.
Os primeiros imigrantes de língua alemã chegaram a Joinville em 1851, alguns rios tinham nome,
como o Cubatão, a Cachoeira, o Quiriri, o Pirabeiraba. Os dados históricos destacam o processo de ocupação
que partiu da confluência do rio Matias com o rio cachoeira, onde foi o primeiro acesso para adentrar o
continente. A ocupação de Joinville desenvolveu-se a principio no entorno destes rios sendo que a maior
parte das margens do Rio Cachoeira esta apenas a 2 metros acima do nível do mar. Desta forma o traçado
urbanístico de Joinville se deu ao longo do rio Matias, que fazia então ligação com o interior e com a maior
parte das terras a colonizar. Já ao longo do Rio Cachoeira, a cidade manteve ligação estreita com o porto e
com São Francisco do Sul. A colônia, cuja base estaria calcada na agricultura, deveria ter em um centro
urbano o seu ponto de apoio (SAMA, 1997, p. 4) [4]. Isso faz com que a cada 3 ou 4 anos, na época da lua
cheia ou lua nova; ocorra no mínimo, uma forte cheia, fazendo com que a cidade fique inundada tanto com a
cheia do rio quanto pelo nível das marés.
Para Schmalz (1989) [5], é licito supor que o aumento gradativo da devastação das matas primaria, á
medida que novas levas de imigrantes eram introduzidas na colônia, tenha diminuído a precipitação e
elevado a temperatura. A cada inundação vêm à tona as causas do fenômeno que não são apenas naturais,
mas a intervenção do homem neste meio ambiente. A evolução do perímetro urbano em áreas de risco
contribuiu para o aumento dos prejuízos com cheias (VALLE, 1996) [7].
Este sítio apresenta pela sua natureza hidromórfica, elevado teor de argila no solo e pouca
profundidade do lençol freático, dificultando as soluções individuais para o tratamento dos esgotos. Alem
disso, no processo de crescimento do núcleo urbano ocorreram ocupações urbanas inadequadas do ponto de
vista do ambiente natural. Além dos mangues, a ocupação dos morros urbanos, através de corte de platôs
escalonados com a destruição da camada de vegetação, vem ocasionando inúmeros problemas de erosões e o
conseqüente assoreamento dos rios da planície. Esse tipo de urbanização vem destruindo de forma bastante
rápida os elementos marcantes da paisagem, o que amplia ainda mais os problemas de drenagem urbanos já
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
agravados pela ocupação dos leitos secundários dos córregos, dos rios e das valas de drenagem (SAMA,
1997, p. 27) [4].
2. Método
A metodologia adotada para realização do presente projeto busca como base o foco geossistêmico e a
utilização do software Símile. O Símile foi desenvolvido pela Simulstic Ltda, companhia de software
irlandesa e pode ser utilizado para desenvolvimento de qualquer sistema dinâmico descrito por equações
diferenciais. Assim, podem ser modelados processos como crescimento, competição, colheita e rendimento,
dinâmica da água e nutrientes, entre outros.
A base sobre a qual se assentam os elementos da paisagem chama-se geossistema. Portanto, o
geossistema é um sistema natural físico que congrega fatores sócio-econômicos e atividade humana
influência na organização espacial do geossistema e a altera com alguma rapidez.
O estudo do geossistema tem como meta a compreensão do complexo da paisagem o espaço
geográfico organizado que resulta da sua dinâmica e da sua estrutura. Ao compreender o geossistema, chega-
se naturalmente, à sua delimitação, particularizada por certa homogeneidade de características e
propriedades. Assim a partir da compreensão da bacia hidrográfica do rio Cachoeira e suas condicionantes,
podeer-se-á utilizando as ferramentas do software símile, desenvolver modelos que auxiliarão a gerar
resultados inéditos e cabais para serem aplicados nas questões de planejamento urbano através da
metodologia sistêmica.
3. Resultados e Discussão
O presente trabalho ainda está em andamento, mas já se buscou dados que podem assim expressar
algumas das condicionantes que impactam a bacia hidrográfica do rio cachoeira.
Os problemas decorrentes com as enchentes no rio cachoeira (figuras 1 e 2) são históricos, além disso,
o rio é totalmente urbanizado e recebe uma grande carga de esgoto doméstico, trazendo sérios problemas de
saúdes para a população. Assim, a modelagem que será realizada no software, levará em conta os dados
históricos desta bacia, como também os números recentes que serão repassados pela prefeitura das estações
meterológica que estão sendo implantada nesta bacia hidrográfica.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
O uso de modelos dinâmicos auxilia no entendimento dos mecanismos causais e processos de
desenvolvimento de sistemas ambientais, e assim a determinar como eles evoluem diante de um conjunto de
circunstâncias. Os resultados preliminares ainda são incipientes, pois até o momento, foram levantadas
algumas condicionantes sobre a presente bacia, além da parceria com a Prefeitura Municipal para coletas de
dados que possam auxiliar na aplicação da modelagem. O presente trabalho possibilitará a compreensão e
dará sugestões que minimizem os problemas com as constantes enchentes nesta área de estudo, além de
servir como modelo para aplicação em outras bacias hidrográficas.
Referências
[1] CHRISTOFOLETTI, A. Modelagem de Sistemas Ambientais. São Paulo: Edgard Blücher, 1999.
[7] VALLE, D. Enchentes se tornam rotina no bairro Jativoca. A Notícia, Joinville, 22 jan. 1996,
p. A-10.
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Resumo
O litoral Sul do Estado de Santa Catarina encontra-se inserido dentro do bioma Mata Atlântica, onde
ocorrem ecossistemas característicos das planícies quaternárias costeiras, formando um mosaico que inclui as
restingas herbácea, arbustiva e arbórea; campos naturais; lagoas costeiras e banhados. Diante da fragilidade
desses ambientes e a escassez de estudos científicos, o presente trabalho objetivou analisar as modificações
na paisagem decorrentes da ação antrópica. Procurou-se identificar os usos e impactos antropogênicos, assim
como averiguar a evolução da condição ambiental ao longo do tempo. Os procedimentos metodológicos
desta pesquisa basearam-se em entrevistas, registros fotográficos e levantamentos bibliográficos e
cartográficos. Constatou-se que a paisagem apresenta-se fortemente marcada pela presença humana, com
intenso uso do solo para agricultura, principalmente de fumo e arroz, culturas fortemente subsidiadas com
produtos químicos como agrotóxicos. Também se verificam extensas plantações de árvores exóticas.
Percebe-se a necessidade da realização de estudos ambientais e a imediata promoção da conectividade dos
remanescentes dos ecossistemas naturais, visando à recuperação e garantia de qualidade ambiental.
1. Introdução
Na zona costeira de Santa Catarina ocorrem conflitos decorrentes de ações antrópicas sobre o
ambiente natural, entre os quais se destacam construções irregulares em praias, privatização ilegal
principalmente de trechos da orla marítima e orla lagunar, incluindo áreas de preservação permanente.
Simultaneamente, constata-se a insuficiência na fiscalização das áreas de preservação o que acarreta
prejuízos para a qualidade ambiental.
De acordo com o Plano Estadual de Gerenciamento Costeiro (GERCO/SC), Lei nº 13.553/2005,
regulamentada pelo Decreto nº 5.010/06, o litoral está dividido em cinco Setores: Norte, Centro-Norte,
Central, Centro-Sul e Sul, envolvendo trinta e seis municípios, abrangendo 9.094 km2 e uma projeção da
população de 180.065 habitantes (IBGE, 2009).
O presente estudo abrange a zona costeira do extremo sul catarinense, fazendo parte desta os
municípios de Araranguá, Balneário Arroio do Silva, Balneário Gaivota, Içara, Passo de Torres, Santa Rosa
do Sul, São João do Sul e Sombrio.
A pesquisa faz parte do projeto em desenvolvimento para um diagnóstico socioambiental, no âmbito
do Programa Nacional de Pós-Doutorado (PNPD) da CAPES, que objetiva fortalecer o curso de mestrado em
Planejamento Territorial e Desenvolvimento Socioambiental da UDESC.
É importante destacar as modificações na paisagem natural decorrentes de ações antrópicas que vem
sendo aceleradas com as obras de duplicação da estrada BR 101, o que pode resultar num grande
adensamento dessas áreas, assim como foi verificado, no passado, para outras localidades servidas por essa
estrada, como nas microrregiões central e norte do litoral catarinense.
Neste sentido, justifica-se uma pesquisa que tenha como alvo a análise das alterações na paisagem
pelos diferentes usos, em uma perspectiva que insira a questão ambiental, uma vez que o local ainda
apresenta áreas nas quais podem ser desenvolvidas pesquisas que resultem em uma gestão ambiental
sustentável do território. A pesquisa pode contribuir para a busca de soluções dos problemas decorrentes dos
usos múltiplos e simultâneos geradores da degradação dos ambientes naturais.
2. Método
O levantamento de campo foi realizado entre os meses de outubro de 2008 e junho de 2010. Durante
as saídas a campo, procurou-se identificar os diferentes usos, ocupações e impactos antropogênicos, assim
como averiguar o estado atual dos ambientes naturais. Para tanto, foram realizados registros fotográficos,
filmagens, entrevistas abertas com moradores e autoridades locais. Os resultados foram complementados
com levantamentos bibliográficos e cartográficos.
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3. Resultados e Discussão
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A superfície do solo da área de estudo, encontra-se seccionada por uma extensa rede de canais de
drenagem artificiais; retificação e canalização de cursos de água naturais e interconexão por canais dos
sistemas lagunares, resultando na sensível redução da profundidade da água das lagoas, o que por sua vez
ocasiona a diminuição da superfície de ocupação do plano de água, trazendo como conseqüência a
dessecação do solo. Isso tem efeitos prejudiciais para a própria atividade de agricultura que cada vez mais
precisa de irrigação artificial. O principal efeito é a contaminação da água do lençol freático por lixiviação
originada pelo uso de insumos da agricultura, principalmente de fumo. Paralelamente, a redução do nível das
lagoas favorece a expansão da vegetação ribeirinha das margens em direção ao centro das lagoas costeiras,
acelerando a tendência ao desaparecimento.
O processo de adensamento da urbanização é mais evidente na orla do município de Içara e de
Balneário Arroio do Silva (fig. g). Nestes locais as dunas cederam lugar para as construções de residências
de veraneio, bares, restaurantes e estradas. Em outros municípios, principalmente, Balneário Gaivota, Passo
de Torres e Araranguá a orla apresenta trechos preservados (Fig. b e h), e outros em recuperação ambiental,
por parte das municipalidades, que encontram-se obrigadas, por força de lei por parte do Ministério Público
Federal (BITENCOURT et al., 2009).
a) Lagoa de Fora com ocupação e cultivo de b) Vegetação preservada nas margens da c) Lavoura de arroz em São João do Sul.
eucalípto em seu entorno, Balneário Gaivota. Lagoa do Sombrio, Passo de Torres.
d) Lavoura de arroz em Santa Rosa do Sul. e) Criação de gado em Araranguá. f) Plantação de eucalipto e fumo em Içara.
g) Ocupação de dunas frontais em Balneário h) Vegetação fixadora de dunas em Morro i) Margens da Lagoa de Sombrio, Sombrio.
Arroio do Silva. dos Conventos, Araranguá
Fig. 1 – Constatação em campo de aspectos ambientais do litoral sul de Santa Catarina
4. Conclusão
Em comparação com as demais regiões costeiras do Estado de Santa Catarina, o litoral sul é o melhor
preservado, principalmente pela baixa densidade demográfica e a modalidade de ocupação. Isso resulta
principalmente das atividades principais que são a agricultura, a silvicultura e atividades de veraneio, este,
sem grandes impactos sobre o meio ambiente, como edifícios e infra-estrutura.
É alarmante a carência de informações científicas sobre a região, sendo que em áreas básicas do
conhecimento, pouco se sabe. Diante da situação apresentada, conclui-se a necessidade da realização de
estudos ambientais mais aprofundados na área de estudos e a promoção da conectividade dos ecossistemas
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Referências
BITENCOURT, N. L. R. ; MARIMON, M. P. C. 2009 . Ações de Resolução de Conflitos de Uso da Orla
Marítima no Extremo Sul do Brasil. In: CoastGIS 2009: V Congresso sobre Planejamento e Gestão das
Zonas Costeiras dos Países de Expressão Portuguesa - CZCPP, Itajaí, SC. p. 189-189.
BRASIL. 2004. Decreto nº. 5.300, de 7 de dezembro de 2004. Diário Oficial [da União]. Brasília, DF.
Ministério do Meio Ambiente. 2001. Diagnóstico da Gestão Ambiental nas Unidades da Federação -
Relatório Final: Estado de Santa Catarina, Brasília-DF, Programa Nacional do Meio Ambiente II (PNMA).
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. 2009. Estimativa Populacional para o ano de 2009.
Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao. Acesso em: dez. 2009.
SANTA CATARINA. (ESTADO). 2005. Lei nº 13.553 de 16 de novembro de 2005: Institui o Plano
Estadual de Gerenciamento Costeiro. Palácio Barriga Verde. Florianópolis, SC.
Apoio
Pesquisa financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES/PNPD)
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Os bancos públicos no Brasil sempre desempenharam importante papel para o Estado,
atuando como financiadores de programas socioeconômicos voltados à educação, habitação,
agricultura, indústria, infra-estrutura urbana, entre outros. No entanto, os processos aquisitivos
ocorridos durante a onda de privatizações da década de 1990 fizeram com que após isso se limitasse
aos poucos bancos públicos restantes o papel de fomentadores de programas sócio econômicos.
Assim para que os mesmos continuassem competitivos dentro do mercado financeiro nacional foi
autorizado que os mesmos passassem a inserir-se nesses processos a partir de 2009, para que
obtivessem a partir disso um crescimento na estrutura patrimonial, maior abrangência territorial,
melhoria no corpo administrativo entre outros benefícios. Nesse sentido, buscou-se por meio desta
pesquisa saber como estão ocorrendo as negociações entre o Banco do Brasil e os demais bancos
para uma compreensão da abrangência desse processo e quais as suas implicações sócio-
econômicas.
2. Método
Inicialmente o trabalho foi pautado em uma ampla pesquisa bibliográfica para a busca de
subsídio para fundamentação teórica, o que nos permitiu fazer uma melhor leitura do objeto
estudado. Posteriormente a pesquisa compreendeu levantamento de dados e informações junto a
revistas, ao Banco Central e a demais sites especializados e de instituições financeiras envolvidas
nos processos aquisitivos com o Banco do Brasil com o objetivo de qualificar e quantificar os
agentes envolvidos nos processos.
Ainda foram organizados gráficos e mapas que possibilitaram uma sistematização dos dados
para melhor compreensão facilitando assim a análise das inter-relações dos mesmos e sua
visualização sobre o território.
3. Resultados e Discussão
O mundo financeiro pode parecer assustador, no sentido de sua complexidade, para a
maioria das pessoas. Geralmente ele é associado aos bancos, o que não está totalmente errado já que
eles são um dos principais agentes desse mundo, porém ele é muito mais amplo e complexo, além
de estarmos inseridos nele o tempo todo. De acordo com Singer (2000, p. 8) esse é um mundo onde
os projetos e sonhos de muitos dependem da confiança das instituições que compõe o mesmo, para
que assim possam ceder crédito e tornar os mesmos realidade. O Banco do Brasil então, como os
outros bancos públicos, são de grande importância para o país já que são os principais responsáveis
por financiamentos na área de habitação, agricultura e outros bens duráveis que são primordiais
para a população.
A reforma bancária que foi formulada na década de 1940 e instituída na década de 1960 teve
a preocupação de conter o desenfreado número de sedes bancárias que proliferavam no país. Assim,
aos poucos o número das mesmas iam-se reduzindo, mas por outro lado, o número de agências se
expandia. Videira (2009, p. 169) nos diz que nesse período, o sistema bancário, exercia apenas uma
função tradicional de banco comercial, não possuindo um banco de desenvolvimento que trouxesse
financiamentos para os setores produtivos. Essa diminuição no número de sedes pendura até o final
da década de 1980, que com a criação dos bancos múltiplos, passa-se a ter então um aumento no
número de bancos que segundo Barbachan e Fonseca (2004, p. 3) passa de 106 em 1988 para 246
em 1996. Então com as privatizações, vários bancos passam a ser comprador por grandes grupos
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tanto nacionais como internacionais, a exemplo desses compradores temos o Itaú, Bradesco, HSBC
e Santander, ocorrendo novamente uma diminuição dos mesmos. Recentemente com a aprovação da
Medida Provisória nº 433, o Banco do Brasil passa a adquirir alguns bancos, a exemplo do banco
estadual paulista Nossa Caixa, ou a formalizar o controle que vinha exercendo já a algum tempo
sobre outros, a exemplo do Banco do Estado de Santa Catarina - BESC, do Banco do Estado do
Piauí - BEP, do Banco Regional de Brasília – BRB e a metade do Banco Votorantim
(NAKAGAWA, 2008, p.1). Assim o Banco do Brasil passa a crescer mais ainda, se consolidando
como maior banco em atuação no Brasil. No gráfico a seguir podemos ver que o crescimento na
rede de atendimento do Banco do Brasil foi modesta entre os anos de 2005 e 2007. Após a
incorporação dos bancos citados anteriormente, o banco passou a ter um crescimento maior que nos
outros anos, passando a ter, no ano de 2009, 3000 pontos de atendimento a mais em relação a 2008.
Organizado e elaborado pelo autor a partir de dados coletados no site do Banco do Brasil
Esse crescimento não se restringe apenas a esses postos, mas também a um crescimento
patrimonial, na área que ele abrange e no número de funcionários, porém por outro lado, o número
de empregos que era gerado anteriormente com os demais bancos provavelmente era superior á
esses registrados pelo Banco do Brasil, essa é uma das características da concentração bancária, que
além de concentrar o poder na mão de poucas instituições também faz com que muitos empregos
sejam perdidos.
Mais recentemente, o Banco do Brasil se lançou às compras no exterior, e já vem negociando o
Banco da Patagônia, que atua na Argentina e analisa investimentos nos Estados Unidos,
principalmente porque uma série de bancos americanos encontram-se deficitários diante a crise de
2008, facilitando assim a entrada no país, e também na Ásia e na África, tentando assim se
internacionalizar-se, que é uma característica das grandes empresas nessa fase do capitalismo que
vivemos, onde muitas fronteiras deixam de existir, permitindo que os grandes grupos estejam
inseridos em cada vez mais países.
4. Conclusão
O Banco do Brasil, como uma empresa de capital aberto, ou seja, não é totalmente pública, se
insere nesses processos para uma maior rentabilidade proporcionando assim um maior ganho a seus
acionistas. Também visa nas aquisições uma saída para os impactos que a crise econômica de 2008
gerou no sistema financeiro, apesar de não ser um impacto tão grande como em outras crises ou
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como ocorreu em outros países. Assim o banco pode se consolidar na liderança do ranking dos
maiores bancos brasileiros, abrangendo todo o território nacional, e como vimos, até se
internacionalizar-se. A análise da localização das agências dos bancos comprados que
possivelmente fecharão após as negociações com o Banco do Brasil ainda não pode ser realizada, já
que isso requer um pouco mais de tempo até que a aquisição seja totalmente efetuada, ou até mesmo
que se acabe algum tipo de prazo de funcionamento descrito em contratos de compra dos bancos.
Referências
BARBACHAN, José F. S.; FONSECA, Marcelo M. Concentração Bancária Brasileira: uma análise
microeconômica. Ibmec. São Paulo: 2004. 24 p. Disponível em:
<http://ibmecsp.edu.br/pesquisa/download.php?recid=2796> Acesso em: 28 dez. 2009.
SINGER, Paul. Para entender o mundo financeiro. São Paulo: Contexto, 2000. 158 p.
VIDEIRA, Sandra. Globalização financeira: um olhar geográfico sobre a rede dos bancos
estrangeiros no Brasil. Guarapuava: Unicentro, 2009. 344p.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Marcia Alves Soares da Silva*; Thiago Alberto Coloda; Luiz Alexandre Gonçalves Cunha
Universidade Estadual de Ponta Grossa
Resumo: O objetivo do artigo é abordar questões referentes à caracterização do Sistema Faxinal enfocando o
Faxinal Taquari dos Ribeiros em Rio Azul - PR, as mudanças nesta forma tradicional de organização
camponesa que resultam, principalmente, de sua subordinação à agroindústria do fumo, com a introdução do
Sistema Integrado de Produção e como esse sistema afeta as tradições do povo faxinalense.
1. Introdução
Inicialmente busca-se refletir sobre o entendimento conceitual do Sistema Faxinal. Alguns autores
como Sahr e Cunha conceituam Faxinal como uma forma auto-sustentável de ocupação camponesa, no
Centro-Sul do Paraná, dentro da região das Matas de Araucária e com baixa inserção no mercado capitalista.
A estruturação de um Faxinal consiste basicamente em três unidades: as terras de plantio, criadouro comum e
cercas. Essas unidades tornam esse modelo peculiar, com tradições e costumes específicos.
As terras de plantio são de uso privado, encontram-se fora da área do criadouro comum e é onde se
cultivam os produtos tradicionais, principalmente feijão e milho. No criadouro comunal acontece a pecuária
extensiva de forma coletiva, visando, principalmente, a atividade silvo pastoril, com destaque para criação de
gado miúdo (suínos) e a extração de erva-mate.
Esta organização vêm sofrendo um processo de desagregação, em grande parte relacionada à
introdução da agroindústria do fumo, no caso do Faxinal Taquari dos Ribeiros, que submete os faxinalenses
envolvidos aos seus padrões produtivos. Com isso, observa-se a quebra de diversas tradições dessas
comunidades, dentre eles a autonomia que tinham na definição dos tempos de trabalho e não trabalho.
Diversos faxinais estão introduzidos no sistema integrado de produção, que é visto como uma grande
ameaça a auto-sustentabilidade do Faxinal, principalmente no que se refere à preservação dos seus recursos
naturais e na manutenção da cultura tradicional.
2. Método
O trabalho teve como método a análise de bibliografia específica, bem como a utilização de dados da
entrevista realizada em 2008 na comunidade Taquari dos Ribeiros em Rio Azul – PR pela Rede Faxinal
Pesquisa. Em julho de 2010 também foi realizada uma entrevista com os moradores da comunidade, que
puderam elucidar melhor as questões discutidas neste trabalho.
3. Resultados e Discussão
Segundo Tavares (2008), o Sistema Faxinal tem a origem relacionada ao início do século XVII,
quando a união no uso comunal de terras por índios, a atividade de pecuária exercida pelos escravos e o
cultivo de erva-mate praticado por ambos, constitui a gênese desse Sistema. Um fato bastante interessante
nessa formação é a superação adquirida pelos indígenas em serem capazes de unirem tribos: “Para a
construção dessa fração do território comunitário camponês faxinalense foi necessário que no princípio
ocorressem alianças entre os povos indígenas (...)” (TAVARES, 2008, p.386).
Mas, a consolidação do Sistema Faxinal no Paraná estima-se que tenha acontecido no final do século
XIX, graças à migração dos europeus ocorrida nessa época. E para compreender o ciclo de crise dessa
cultura tradicional que se estende até os dias atuais, recorre-se mais uma vez a Tavares quando este salienta
que:
(...) a crise dos faxinais começou no final do período econômico da erva-mate e no
inicio do período econômico onde passa a predominar a industrialização da
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Com isso, pode-se identificar que em meados do século XX já era iniciado com grande força uma
mudança nesse sistema nativo do estado do Paraná.
Os modos tradicionais de agricultura e pecuária realizados nos Faxinais sobreviveram até hoje
superando os processos de modernização rural e, com isso superando também a homogeneização imposta
pelas políticas de desenvolvimento regional, projetadas a partir da década de 1950 para o Paraná (LÖWEN
SAHR, C. L. e CUNHA, L. A. G., 2005).
Com relação à importância ambiental desse sistema, levando em consideração a opinião de Löwen
Sahr e Cunha (2005), pode-se dizer que os Faxinais contribuem para a proteção e preservação das Matas de
Araucária. Isso ocorre devido à característica de ser um das formas mais antigas de utilização da terra no
Brasil, e por apresentar características que englobam a preservação desta vegetação para a execução das
atividades do Faxinal. Sendo assim, o impacto ecológico seria menor que o impacto causado pela
agroindústria, pois não são utilizados insumos modernos para a fertilização do solo, nem é feita a derrubada
de árvores desnecessariamente apenas visando o aumento da extensão de plantio agricultável, como ocorre
no sistema capitalista rural.
Porém, devido à agricultura moderna, os Faxinais vêm sofrendo uma re-configuração territorial e
isso se deve a subordinação ao capital à qual estão sendo submetidos. Alguns faxinais introduziram o cultivo
de fumo em sua estrutura, caso do Faxinal Taquari dos Ribeiros, e esse fator segundo autores1, é
extremamente negativo para a manutenção e existência desse sistema em dias atuais. Um dos motivos
apresentados é a degradação ambiental, que consiste em desmatar áreas onde contem a vegetação de
Araucária para duas finalidades: a primeira seria para aumentar a área de plantação de fumo, já a segunda
seria a utilização da madeira para abastecer estufas (LEMES, E. C.; LÖWEN SAHR, C. L., 2005). Contudo,
essa prática vem sendo fiscalizada, onde os moradores do Faxinal vêm utilizando a madeira do eucalipto para
abastecer as estufas e para o consumo próprio.
Outro fator negativo com a introdução do fumo nos Faxinais segundo Lemes e Löwen Sahr (2005)
seria o rompimento da sustentabilidade econômica:
Isso significaria uma alteração no modo de vida dessas pessoas, uma vez que a cultura faxinalense se
mostra como algo onde o morador trabalha em comunidade, sem um horário pré-estabelecido ou horas a
cumprir. Portanto, pode-se verificar um rompimento cultural com relação aos costumes dos faxinalenses,
devido à introdução de novos parâmetros de produção, impostos pelas grandes empresas fumageiras, porque
esse sujeitos sociais necessitam quitar as dívidas com a empresa que se iniciam desde a fase primordial do
cultivo do fumo. Assim, esse tipo de comunidade tradicional corre o risco de desaparecer. Por isso, a
importância de políticas públicas de resistência a extinção da cultura e do modo de vida faxinalenses é de
crucial significância.
Por fim, para justificar essa “aceitação” por parte dos faxinalenses para que seja introduzida a cultura
fumageira na estrutura dos Faxinais, recorre-se, mais uma vez a Lemes e Löwen Sahr (2005) quando citam
Eteges (1991): “(...) um dos fatores que caracterizam a subordinação do trabalho do agricultor familiar à
agroindústria fumageira é o preço do fumo (...)”. Isso pode ser comprovado também em Monteiro (2009)
quando este cita a resposta dada por um faxinalense, em entrevista, quando perguntado sobre o motivo dele
exercer o cultivo de fumo: “o preço porque para o plantador de fumo sobra dinheiro, e o feijão ainda tinha
que pagar a conta né” (p.92). Além disso, segundo Vargas e Bonato (2007), existem outros benefícios
indiretos associados ao cultivo do fumo como empréstimos, apoio técnico ou outras formas de apoio (entre
eles o governo) e o sistema de comercialização do tabaco bem desenvolvido, onde o Brasil é o segundo
maior produtor mundial.
Contudo, o preço citado acima, muitas vezes não cobre nem sequer a valor da produção, onde os
1
LEMES, E. C. e LÖWEN SAHR, C. L.
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líderes comunitários recebem valores adicionais pela sua produção, influenciando os demais a prosseguir o
cultivo do fumo. Quem inicia o cultivo também recebe um valor adicional com o mesmo intuito de mantê-lo
nesse sistema, até o ponto em que as dívidas se acumulam e a dependência se torna irreversível, e assim o
fumo se consolida como principal atividade agrícola (LEMES, E. C.; LÖWEN SAHR, C. L., 2005).
O sistema integrado de produção pode ser considerado como uma forma de cooperação entre
indústria e produtores. Consiste no estabelecimento de vínculos entre as empresas e o universo dos
produtores, baseando-se na exclusividade do fornecimento e adoção dos padrões de produção estabelecidos
pelas empresas (VARGAS e BONATO, 2007), onde esse tipo de cooperação teria benefícios e obrigações
equilibradas. Iório (1994) afirma que o sistema integrado de produção conceitualmente consiste em ser:
Esse modelo de integração foi adotado no Brasil por dois principais motivos: de um lado, a
necessidade dos produtores em contarem com uma assistência adequada, técnica e financeiramente, com a
garantia de poderem vender toda a sua produção por preços rentáveis para ambas as partes e por outro lado, a
garantia das empresas fumageiras em contar com a matéria-prima em quantias e preços programadas
antecipadamente.
Alguns defendem essa cooperação, porque acreditam ser uma segurança para o produtor, recebendo
subsídios das empresas, que repassam insumos, assistências técnicas, maquinários, sementes, auxílio no
transporte do produto, financiamentos para produzirem e através do contrato firmado, o fumo tem um
comprador legal, muitas vezes tornando a empresa integrada exclusiva na obtenção do produto final. Os
produtores se comprometem com os padrões de cultivo, produção, colheita, impostos pela empresa, já que
aquele está subordinado ao sistema agroindustrial.
Outros acreditam que existam comportamentos oportunísticos por parte dos agricultores que
inicialmente procuram segurança nessa aliança, mas que após o nível de especulação do produto no
momento da comercialização esteja certo e a insegurança não mais existir, ocorre o rompimento dos
contratos firmados com as empresas integradoras sendo que haviam obrigações contratuais firmadas
inicialmente.
Embora, sob determinado ponto de vista, essa ligação entre produtor-indústria seja viável, há
evidências que apontam para os efeitos nocivos desse controle exercido pela indústria do fumo sobre a
organização da cadeia agro-industrial do tabaco nos países em desenvolvimento, como o Brasil (VARGAS e
BONATO, 2007). Esse sistema traz vantagens e desvantagens para o produtor e para empresa,
principalmente no que diz respeito à manutenção da composição dos preços dentro da lógica do custo de
produção. (DALLAGO FILHO, 2003).
De acordo com uma pesquisa realizada pela Rede Faxinal Pesquisa (2008), 50% dos entrevistados no
Faxinal Taquari dos Ribeiros - PR afirmam que a compra do fumo é feita por empresas fumageiras, onde na
maioria das vezes, o tipo de contrato firmado é por quantidade de produção. Afirmam ainda, que o transporte
do fumo é realizado pela empresa integrada e há contratos em que o tempo de comercialização com a mesma
empresa varia de até cinco anos e a mais de vinte anos.
O controle exercido pela agroindústria fumageira mostra-se visível no Faxinal, já que os faxinalenses
subordinados produtores de fumo deixam de lado certos padrões tradicionais da sua cultura para se dedicar
exclusivamente a produção, que demanda mão-de-obra exaustiva, desde a semeadura, a plantação, a colheita
e a secagem nas estufas, até a classificação das folhas do fumo, de acordo com os parâmetros da empresa
integrada, com a ajuda dos “orientadores” que sempre estão em contato com os faxinalense. Nessa
organização, todas as hierarquias familiares estão envolvidas e alguns ainda contratam mão-de-obra
assalariada para o trabalho na lavoura.
Esse controle é possível graças à monopolização do território pelo capital, onde as empresas não se
territorializam e sim injetam capital na produção faxinalense, monopolizando toda a sua produção, sendo
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nesse processo a subordinação e apropriação da renda da terra dos faxinalenses transformada em capital.
Com isso, vê-se a expansão do capital em meio aos faxinais.
Conclusão
Conclui-se, portanto, que embora essa aliança entre produtor e empresa tenha vantagens financeiras e
produtivas, esse tipo de cooperação torna o faxinalense produtor de fumo subordinado em todos os níveis aos
parâmetros impostos pelas empresas, o que em longo prazo certamente desagregará todo um modo de vida
secular, e que dificilmente poderá recuperar suas bases tradicionais. Sendo assim, a paisagem tradicional será
a mais afetada já que o fumo antes da modernização da agricultura, não era o cultivo prevalecente. Além da
paisagem, questões econômicas, culturais e políticas, estão em desagregação nos faxinais, tornando-o alvo
fácil da extinção.
Referências
LÖWEN SAHR, C. L.; Os “mundos faxinalenses” da floresta com araucária do Paraná: racionalidades duais
em comunidades tradicionais. Revista Terra Plural. Ponta Grossa. v.2, n.2, p. 213-226, jul/dez, 2008.
LÖWEN SAHR, C. L.; CUNHA, L. A. G. O significado social e ecológico dos faxinais: reflexões acerca de
uma política agrária sustentável para a região da mata com araucária no Paraná. Revista Emancipação.
Ponta Grossa. v. 5, n. 1. p. 89-104. 2005.
TAVARES, L. A. Campesinato e os faxinais do Paraná: as terras de uso comum. 2008. 756 f. Tese
(Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo 2008.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A questão cultural relacionada ao lugar atribui aos códigos culturais materiais e imateriais extrema
relevância, pois, os mesmos, manifestam muitas características ligadas ao espaço de vivência.
O presente esforço teórico reconhece como método mais apropriado para realização desse estudo, o
fenomenológico, também conhecido como método fenomenológico hermenêutico.
A fenomenologia centra-se, portanto, na descrição das vivências e considera a concepção, o ponto de vista
do sujeito sobre determinado objeto.
Entre os diversos conceitos abordados pela Ciência Geográfica, o lugar oferece ao sujeito a possibilidade de,
através do contato com a sua realidade, construir suas próprias considerações a respeito desse lugar. A
valorização das concepções individuais possibilita uma reflexão mais profunda sobre o local onde determinada
pessoa vive, a sua realidade, começando com o bairro onde mora e seu município.
Portanto, a capacidade de cada sujeito de compreender o mundo em que vive, não só no âmbito local, mas,
também, no global, é possibilitada pela Geografia e seus conceitos-chaves como lugar, região, território e
paisagem.
Cabe, ainda, ressaltar que esses conceitos são conhecidos como de natureza operativa da Geografia, porém,
são compreendidos de forma extremamente abstrata não atingindo, muitas vezes, o entendimento adequado.
2. Método
Metodologicamente, esse esforço teórico foi constituído, basicamente, por uma ampla revisão nas matrizes
teóricas referentes à Geografia do Lugar e Geografia Cultural.
Nesse sentido, o presente trabalho apresenta como proposta central uma contribuição teórica para o estudo
da Tendência Humanística na Ciência Geográfica, relacionando o estudo do lugar pelo viés da Geografia
Cultural centrada, portanto, no conceito de cultura e na importância dos códigos culturais para a construção da
paisagem.
Dessa forma, o método que melhor se insere nessa perspectiva de estudo, é o fenomenológico, pois valoriza a
vivência do sujeito e os significados que o mesmo atribui para seu espaço de vivência.
3. Resultados e Discussão
Como resultado desse esforço teórico, enfatiza-se, que Geografia Humanística valoriza a percepção de cada
indivíduo sobre o local onde vive, considerando suas experiências cotidianas no espaço que o rodeia.
Bezzi; Marafon [1] destacam
Autor Correspondente: [email protected]
1
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Nesse sentido, de acordo com Cavalcanti [1.3] “Na Geografia Humanística, lugar é o espaço que se torna
familiar ao indivíduo, é o espaço vivido, do experenciado. Esse conceito está, na verdade, no cerne da
problemática discutida nessa orientação teórica”.
A Geografia Humanística, ao valorizar a percepção e as experiências do indivíduo em seu lugar de vivência,
oferece, portanto, uma melhor análise sobre o lugar, destacando a relação subjetiva entre sujeito e objeto, ou
seja, considera a experiência direta que a pessoa tem com o seu lugar, antes mesmo dela conceituá-lo.
Dessa forma, a importância do lugar para a Ciência Geográfica não está alicerçada, apenas, na definição do
conceito de lugar, mas como o mesmo poderá ser assimilado pelos sujeitos de forma adequada, buscando
compreender essa concepção dentro de suas realidades e de tudo que tem real significado para suas vidas.
Graças à fenomenologia, o espaço geográfico passou a ser compreendido não apenas pelo estudo da
adaptação do ser humano na natureza ou pelo viés econômico. Os fatores culturais passaram a ter relevância,
principalmente, quando relacionados ao cotidiano do sujeito em seu espaço de vivência.
A temática cultural foi introduzida pela Geografia Humana, com Friedrich Ratzel (1844-1904) e,
posteriormente, na França com, com Paul Vidal de La Blache (1845-1918) e nos Estados Unidos com Carl Sauer
(1889-1975).
As pesquisas realizadas por Ratzel basearam-se, principalmente, no determinismo. Claval (1999, p. 23)
salienta que “A seleção dos seres vivos pelo meio que Darwin postulava, é substituída por Ratzel pela seleção
das sociedades pelo espaço: a política impõe-se, assim ao cultural”.
As obras de Alexandre Humboldt e Carl Ritter serviram como inspiração para Ratzel escrever sua famosa
Antropogeografia (1882-1891). Outros alemães, assim como Ratzel, enfatizaram seus estudos para a
materialidade dada pela paisagem, pelas técnicas e pelos utensílios.
O geógrafo francês Vidal de La Blache, assim como outros defensores do possibilismo geográfico, contestou
o determinismo ratzeliano. La Blache considerou a ação humana sobre o meio, enfatizando o papel das técnicas
e de sua difusão. A Geografia Francesa desenvolveu sua ótica mais complexa sobre a cultura, considerando os
aspectos materiais (a técnica) e os imateriais (os costumes). A exploração da natureza foi evidenciada com a
finalidade de explicar os meios capazes de empregar armas e possibilitar o domínio de um grupo sobre o outro.
Brum Neto [1.2] salienta que “A geografia francesa procurou interpretar as diferenças expressas na paisagem
pelos grupos humanos, orientados por distintos hábitos culturais”.
Carl Sauer, ao fundar a Escola de Berkeley, nos Estados Unidos, reavivou a Geografia Cultural, já esquecida
pela escola de Middle West de 1910 que desconsiderava as relações entre cultura e espaço. Assim como a
Geografia Alemã, a Geografia Cultural norte-americana considerou a materialidade da cultura, o que é visível na
paisagem.
A partir da década de 1970, depois de declinar por sua temática ser considerada ultrapassada por alguns
autores, a Geografia Cultural começou a ser reconstruída através da concepção de que os lugares estão repletos
de sentimentos por seus habitantes, ou seja, evidenciou o quanto o espaço vivido é significativo pra os
indivíduos.
Atualmente, a Geografia Cultural moderna destaca-se sendo uma linha de pesquisa renovada na Ciência
Geográfica, transmitindo, enriquecendo e difundindo a cultura pelos homens. Nesse sentido, sua valorização é
importante para que os indivíduos consigam compreender a organização espacial do território onde vivem.
Dessa forma, pode-se acrescentar que a Geografia Cultural contribui de forma significativa para a
compreensão do espaço vivido, pois considera que os lugares estão repletos de sentimentos pelos indivíduos que
neles habitam, ou seja, o sentido de pertencimento é enfatizado através das investigações relacionadas à temática
cultural. O lugar de vivência é estudado a partir da observação da paisagem que, através da intervenção humana,
transforma-se em paisagem cultural, repleta de símbolos relacionados à identidade de determinado grupo social.
4. Conclusão
Considera-se, então, que Ciência Geográfica possibilita ao sujeito, a partir do período em que o mesmo se
insere na escola, uma leitura da realidade que tenha sentido e significado para o seu cotidiano. A vivência diária
desse indivíduo no lugar onde habita deve ser compreendida através de sua interação com as diversidades dos
lugares, fortalecendo seu espírito solidário como cidadão e agente modificador da paisagem do seu espaço de
vivência.
Com o crescimento da Ciência Geográfica no sentido epistemológico, foi possível compreender o espaço
através de suas categorias analíticas (forma, função, estrutura e processo), além dos conceitos-chaves da
Geografia, de natureza operativa, como lugar, região território e paisagem. Observa-se, então, que o lugar não
2
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deve ser compreendido isoladamente, ao contrário, as considerações sobre o espaço de vivência ampliam as
possibilidades de discussão de novos conceitos relacionados à Ciência Geográfica.
Portanto, é necessário atribuir à Geografia, relevante papel para a compreensão e reflexão do sujeito sobre
seu espaço de vivência. No entanto, é urgente a constante revisão dos conceitos relacionados ao espaço
geográfico, porque os mesmos modificam-se rapidamente, principalmente, com o acelerado desenvolvimento da
globalização e das tecnologias.
Referências
BEZZI, M. L; MARAFON, G. J. Historiografia da Ciência Geográfica. 2005. Apostila Didática.[1]
BRUM NETO, H. Regiões culturais: a construção de identidades culturais no rio grande do sul e sua
manifestação na paisagem gaúcha 2007. 319 f. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Geografia) –
Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2007.[1.2]
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Thiago Alberto Coloda1*; Prof. Dr. Luiz Alexandre Gonçalves Cunha (orientador)2
1
UEPG
2
UEPG
1. Introdução
O objetivo do artigo é refletir sobre embasamento teórico-conceitual acerca de uma alternativa mais
efetiva para o subprograma Vilas Rurais do programa Paraná 12 Meses considerando algumas características
do Sistema Faxinal. Essa relação entre as Vilas Rurais e os faxinais é pertinente uma vez que, um dos
objetivos das Vilas Rurais era o de diminuir as disparidades sociais. O método empregado no programa para
se alcançar essa meta foi o de dar a oportunidade ao pequeno produtor de ter a possibilidade de superar a
questão da renda sazonal. Outras finalidades desse programa eram evitar a continuidade do êxodo rural no
estado e assentar os chamados trabalhadores rurais “bóias frias”. As Vilas Rurais proporcionavam aos
beneficiários lotes com aproximadamente 5.000 m², para que ali executassem uma atividade produtora de
subsistência e que pudessem trabalhar em fazendas próximas como trabalhadores contratados.
Alguns problemas identificados nesse programa com relação a diminuição das disparidades sociais é
o fato de que isso não se evidenciou na prática. O público alvo, que eram os “bóias frias”, não foram os
atingidos pelo programa em alguns casos. Isso ficou claro quando pessoas beneficiadas foram, na verdade,
aquelas inscritas em programas municipais. Esse foi o caso da Vila Rural Santa Rita em Curitiba – PR
(SANTOS, 2007). Outro fato é a questão da renda das famílias visadas pelo programa. Segundo Souza: “(...)
o programa não se apresenta capaz de superar as condições (...) de pobreza e consequentemente de exclusão
social (...) porque não estimula a emergência de atividades não agrícolas” (2000, p. 200). Identificado por
Souza (2000) também a questão das comunidades dessas vilas, onde em várias delas não foi encontrado um
“espírito comunitário”.
Nesse sentido da falta de comunitarismo, é que se inicia a proposta do Sistema Faxinal como
alternativa. Os faxinais têm como característica o uso comunal de terras, uma forma tradicional de atividade
rural. Este sistema se configura em três partes: uma se remete a área de plantio; outra é a área de criadouro
comunal; e por fim a terceira se refere às cercas (CHANG, 1982). Os faxinais são exclusivos do Paraná,
encontrados segundo Löwen Sahr desde o início do século XVIII em meio a mata de araucária.
Esse modelo possui uma cultura tradicional, que mesmo em meio ao século XXI ainda resiste às
inovações tecnológicas da mecanização agrícola. Por se tratar de um modelo muito antigo de uso da terra,
seu impacto ambiental é muito restrito, e, sendo assim, colabora na preservação da Mata de Araucária.
2. Método
Faz-se necessária uma crítica a falta de rigor do planejamento das Vilas Rurais em alguns aspectos.
O primeiro refere-se à questão dos locais em que as vilas são criadas. É comum o relevo do lugar escolhido
ser muito fraturado, e, com isso, impróprio para a realização de atividades produtivas de plantio. O segundo é
a questão das pessoas beneficiadas que, muitas vezes, não preenchiam os requisitos da proposta do
programa, pois os “bóias frias”, normalmente, têm conhecimento em lidar com a terra, ou seja, sabem como
realizar as atividades rurais. Quem não tem este conhecimento, compromete o objetivo proposto pelo
programa. O terceiro aspecto está relacionado à proposta do presente artigo e se refere a ausência de
comunitarismo nas Vilas, conforme especificado por Souza (2000).
Contudo, há que se considerar o Paraná 12 Meses, e mais especificamente o subprograma Vilas
Rurais, como uma proposta territorial de desenvolvimento.Os Programas de Desenvolvimento Rural
anteriores, PRO-RURAL e Paraná Rural, mas principalmente este primeiro, apresentaram-se como
alternativas de caráter setorial.
Considerando a proposta territorial, verifica-se que os faxinais incorporam a questão da
pluriatividade. Dessa forma, um plano de desenvolvimento rural fundamentado nos faxinais tornaria os
beneficiários em agricultores pluriativos. Os faxinalenses que preservaram seu modo de vida tradicional
apresentam diversificação de culturas, cultivando culturas alimenticias e criação, combinados com o
extrativismo da erva-mate, que é encontrada naturalmente em meio a Mata de Araucária. As Vilas Rurais
poderiam seguir este exemplo, buscando uma maior variedade de produções agrícolas em uma mesma Vila.
Isso também é valido não só para a agricultura, mas para a pecuária também, onde num faxinal se tem a
criação de gado miúdo como exemplo.
*
COLODA, T. A.: [email protected]
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3. Resultados e Discussão
O sistema integrado de produção em meio ao faxinal é visto como negativo, pois desestruturaria a
questão da identidade cultural desse sistema. Já nas Vilas Rurais, pode ser visto como uma alternativa, uma
vez que poderia beneficiar a produção destes pequenos agricultores. Faz-se necessária uma política
integradora por meio do Estado, para que este proponha ao pequeno produtor, a necessidade da organização
comunitária. A comunidade atingida pelo programa deve estar organizada de forma associativa ou
cooperativa, visando o trabalho coletivo. Essa proposta apresenta-se como viável desde que os atores do
Estado, ao selecionarem as famílias não se desvinculem do objetivo do programa de assentar os pequenos
produtores e acabem beneficiando pessoas não ligadas às atividades rurais. Existindo um maior dinamismo
comunitário, o que é verificado em poucas Vilas, a proposta tornar-se-ia realmente uma alternativa viável
para melhorar a eficácia do programa (SOUZA, 2000). Para isso, o papel do Estado é fundamental,
fomentando a organização comunitária.
4. Conclusão
O que se verifica nas Vilas Rurais é que os objetivos originários não foram atingidos. Contudo, esse
programa se mostra muito mais eficiente que os PDRI’s 1 anteriores, pois parte de uma análise territorial e
não setorial. Algumas de suas falhas se dão mediante a falta de rigor em seguir o plano original do programa,
que visava as “bóias frias”. Entretanto, a questão da renda sazonal nas Vilas Rurais parece ter como
alternativa a pluriatividade do meio rural, alternativa que pode seguir o exemplo dos faxinalenses, onde cada
morador ou membro do faxinal tem um tipo específico de cultivo e faz uma troca com os demais para que
assim todos possam ter acesso a todo o produto cultivado no faxinal. O mesmo pode ser proposto para as
Vilas Rurais, porém a questão da extensão dessas vilas pode se considerada como um empecilho ao cultivo
de determinadas agriculturas. Relevo também é outro obstáculo, mas esse era um problema que num
1
Programas de Desenvolvimento Rural Integrado.
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processo bem feito de planejamento seria identificado. Mas prevaleceu a improvisão e a falta de visão
técnica.
A proposta alternativa às vilas estende-se também a pecuária, não obstante as dificuldades
relacionadas às pequenas áreas disponíveis as famílias. Havendo um aumento das áreas das vilas, abrir-se-ia
possibilidades de se aproveitar os aspectos positivos da proposta contida no Programa das Vilas Rurais.
Assim, espera-se contribuir com as discussões sobre a busca por alternativas de desenvolvimento rural que
contemplem a melhoria nos padrões de vida dos trabalhadores rurais.
Referências
CHANG, M. Y. Faxinais no Paraná. Informe de Pesquisa, Curitiba, v. 12, n. 80, mar. 1988a.
ESSER, J. V. ; WADI, Y. M.; STADUTO, J. A. R.; SOUZA, M. As vilas rurais na Região Oeste do Estado
do Paraná: uma política pública de desenvolvimento e seu impacto na vida dos trabalhadores rurais volantes.
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do XLIV Congresso da Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural. 2006. p. 1-19.
IPARDES (1992). Projeto Integrado de Apoio ao Pequeno Produtor Rural – PRO-RURAL: avaliação
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LÖWEN SAHR, C. L.; CUNHA, L. A. G. O significado social e ecológico dos faxinais: reflexões acerca de
uma política agrária sustentável para a região da mata com araucária no Paraná. Revista Emancipação.
Ponta Grossa. v. 5, n. 1. p. 89-104. 2005.
LÖWEN SAHR, C. L.; Os “mundos faxinalenses” da floresta com araucária do Paraná: racionalidades duais
em comunidades tradicionais. Revista Terra Plural. Ponta Grossa. v.2, n.2, p. 213-226, jul/dez, 2008.
SOUZA, M. Atividades não-agrícolas e desenvolvimento rural no estado do Paraná. 2000, 320 f. Tese
(Doutorado em Engenharia Agrícola) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2000.
Agradecimentos
Agradece-se a UEPG pela oportunidade de pesquisa por meio de uma Iniciação Científica e a Fundação
Araucária pela bolsa como auxilio.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
2. Método e Prática
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
maior troca de experiências sócio-culturais. Cabe ressaltar, que o trabalho de campo realizou-se em toda a
área urbana da cidade, sendo assim foi uma semana de atividades práticas com os alunos até a elaboração do
vídeo patrimonial, confeccionado pelos mesmos.
3. Resultados e Discussão
A oficina multimídia realizada teve o intuito de facilitar e auxiliar o ensino dos conteúdos de
geografia cultural, consistiu em formular aulas extras classe com base em recursos áudio visuais e a
informática, para obter informações sobre o patrimônio material e imaterial e a identidade cultural da cidade
de RestingaSeca. Cabe enfatizar, que trabalhar com o espaço de vivência do aluno é essencial para os
educadores, pois o trabalho com o cotidiano motiva o educando que torna-se agente do processo de ensino-
aprendizagem e não somente um objeto. Salienta-se que entre o homem e o espaço existe uma dinâmica
complexa, onde o espaço contribui para a formação do humano, esse último por sua vez, com suas atividade
modifica intensamente e constantemente o espaço, ou seja, o espaço é produzido a partir de práticas sociais ².
O educando também é agente modificador da paisagem e da sua cidade, sendo um cidadão este deve saber
quais são seus direitos e deveres perante espaço. Essa integração cidadã com o espaço somente é possível no
momento em que o educando conhece e compreende as relações e organização sócio-espacial do seu espaço
da vivência, para isso ele necessita conhecer a história de sua cidade e interpretá-la. Diante disso, conhecer o
Patrimônio Cultural Material do município é uma maneira de (re)contar a história cultural do mesmo e
proporcionar uma interação deste aluno com o lugar de vivência de forma significativa, fomentando
questionamentos e levando-o a evocar sua identidade cultural, seu conhecimento cognitivo e seu
pertencimento territorial.
Identificou-se que no momento que o educando coloca-se como ativo no espaço, ele consegue
formular sugestões e ações para transformar esse lugar, por exemplo, nos trabalhos de campo, os educandos
começaram a discutir sobre sugestões para recuperar e melhorar os patrimônios culturais da cidade que
estavam em condições arquitetônicas precárias, bem como, notou-se o ímpeto de proteção, pois os educandos
ficavam indignados com as pichações e maus cuidados. Dentre as sugestões para recuperação patrimonial
evocadas pelos educados estão: fazer um “Trem de Turista” que passe em todas as estações do município de
Restinga Seca, para (re) vitalizar a estrada de ferro (Porto Alegre – Uruguaiana) para transporte de
passageiros turísticos, com o intuito que estes visualizem e valorizem os patrimônios naturais do município;
(re) vitalizar o prédio Miguel da Patta (Figura 1) instituindo no local uma casa cultural que preserve a
arquitetura e sirva para a prática de oficinas culturais de artesanato, música e dança (alemã, italiana e
africana); ocorreu também a sugestão de recuperar a Estação Férrea de Restinga Seca (Figura 2) para ser um
museu histórico-cultural, pois até mesmo o acervo fotográfico da cidade encontra-se nos corredores da
Prefeitura Municipal um local desapropriado para guardar essas relíquias; entre outros.
Essa motivação e interação dos educandos da 5ª série da Escola de Ensino Fundamental Francisco
Manuel/Restinga Seca/ RS, advêm não somente do instinto de pertença territorial, mas também pelo
incentivo proporcionado pelo uso de instrumentos multimídias. Isso verificou-se, pois os educandos puderam
trazer para a escola e utilizar nos trabalhos de campo objetos antes proibidos no ambiente escolar, como
maquinas digitais e mp3, o que entusiasmou os mesmos. Observa-se então, que foi pelo estimulo de utilizar
os instrumentos multimídia para a elaboração de um vídeo patrimonial, que os mesmos foram provocados a
entender a organização espacial cultural da cidade, ou seja, eles foram estimulados pela tecnologia, sendo
que no inicio para os educandos o mais importante era as filmagens e gravações, o intuito de pertença
territorial e a identidade cultural vieram surgindo aos poucos nos trabalhos de campo, e acabaram por ser o
ponto central do trabalho deles. Diante disso, o ensino no geral necessita de ferramentas que proporcione
uma maior interação entre o educando, o espaço de vivência e os conteúdos curriculares para que os
educandos se interesse pelo assunto curricular a partir do seu próprio sentimento social de pertencer ao lugar
realizar uma leitura cultural da realidade que o cerca.
Sendo assim é imprescindível o uso de recursos, tanto multimídia quanto manuais para fomentar
questionamentos aos educando perante a sua realidade, o seu lugar de vivência, pois é nesse espaço que
perfazem as significações, a identidade cultural, esse é um lugar carregado de emotividade, memórias que
devem mantidas³. Essa identidade cultural e emotividade também foi observada nos educandos, pois muitos
expressavam em palavras e gestos a alegria e prazer quando estavam visitando a casa onde seus avós
moraram durante anos ou a casa onde seus pais nasceram, essas coincidências aconteceram e gratificam mais
ainda o trabalho com o patrimônio, por que são experiências memoriais e individuais que foram socializadas
e compartilhadas com o professor em formação e com os demais estudantes.
Cabe salientar que os trabalhos de campo não foram focados somente nas construções
arquitetônicas antigas, mas também aos monumentos da cidade (Figura 3) e o acervo fotográfico,
217
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
que também são patrimônios e facilitam na identificação da história cultural da cidade de Restinga
seca/RS. Outro resultado relevante foi a identificação que existem patrimônios preservados e
cuidados, por exemplo, a Caixa d’água/1885 (Figura 4), um dos patrimônios mais antigo do
município em questão, que foi (re) vitalizado. Essas identificação do patrimônio, sua história, sua
preservação deixam a história “viva”, tanto que a partir destes pode-se realizar uma leitura cultural
da cidade e evidenciar sua organização sócio-espacial, entre outras questões. Perante isso, o
trabalho de leitura cultural é importantíssimo, pois proporciona a interação entre o teórico e o
prático que se configuram nas paisagens dos lugares e dinamicamente molificam-os no tempo e no
espaço.
Fig. 1 Prédio Miguel da Patta, Restinga Seca/RS Fig. 2 Estação Férrea de Restinga Seca/ RS
Fig. 3 Prédio Monumento em Homenagens a Eugenio Fig. 4 Caixa d’ Água Restinga Seca/RS
Gentil Muller, primeiro prefeito de Restinga Seca/RS.
4. Conclusão
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
maior interesse através de perguntas, pois as animações dos recursos multimídia, de forma lúdica,
complementam o ensino do professor, porém apesar de serem excelentes instrumentos didáticos os recursos
multimídia não substituem a presença do professor que é provedor dessas motivações.
A receptividade dos educandos à oficina multimídia de leitura cultural foi excelente, pois o contato
com os instrumentos multimídias e também com os patrimônios culturais de sua cidade através nas saídas de
campo os proporcionou um maior interesse pelo conteúdo, por causa da interatividade entre estes e o os
instrumentos multimídia tanto na elaboração do vídeo a partir de registros das saídas de campo, quanto na
primeira aula expositiva.
Sendo assim, é evidente que o estudo de geografia torna-se mais cativante quando o espaço
trabalhado é o vivenciado pelo educando, como foi o caso deste trabalho, pois desta forma o mesmo é agente
construtor e modificador do espaço. Ressalta-se com isso a devida importância do trabalho de campo
realizado, pois através deste foi possível uma interação dos pesquisadores com o ambiente de vivência dos
educandos, até mesmo para eles próprios que puderam interagir com o seu espaço de vivência que é a cidade
de Restinga Seca. Assim esse processo de contato com a realidade da área estudada, torna o trabalho de
investigação sobre a conservação patrimonial mais prático, pois os educandos entraram em contato com o
patrimônio e foram influenciados a formularem sugestões para a preservação patrimonial, reforçando a
ligação destes com a história da cidade.
Cabe salientar a importância de se trabalhar com aspectos relacionados com a leitura cultural na
escola, pois, é um tema que está presente na realidade dos educandos, através de crenças, costumes e hábitos
culturais, mas que pouco tem sido trabalhado em sala de aula. Desta forma, os educandos não conseguem
expressar suas culturas no ambiente escolar e se caso conseguem, não entendem o significado das expressões
de outras culturas, assim torna-se necessário tanto para o educando quanto para a escola, trabalhar com as
abordagens culturais, para que no ambiente escolar possa haver uma troca de saberes entre os educandos e os
educadores a respeito dos diversos hábitos culturais, as diversas crenças, os vários costumes, ou seja, é
importante que a escola seja um ambiente que prime pela pluralidade cultural e trocas culturais. Deve-se
primordialmente valorizar a diferenças através do respeito pelas múltiplas culturas que se demonstram nesse
ambiente escolar de forma tão intensa. É importante reforçar a identidade cultural dos educandos, pois é a
partir dela que as culturas vão sendo mantidas, apesar das transformações históricas, essas noções de
identidade cultural devem ser vitalizadas e ressaltadas em todo o município de Restinga Seca para que a
história cultural continue viva e evocada pela sua pluralidade étnica.
Referências
VESENTINI, J.W. Educação e ensino da geografia: instrumentos de dominação e/ou de libertação. In:
CARLOS, A.F.A. (Org.). A Geografia na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2003, p.20. [1]
CÔRREIA, L. R. Geografia cultural: passado e Futuro: uma introdução. In:. Manifestações da Cultura no
Espaço. Rio de Janeiro: EdUERJ, 1999.[3]
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Anna Paula Lombardi: [email protected]; Adelita Staniski: adelitasta@ Hotmail.com2 Maria Ligia
Cassol Pinto: [email protected]
Resumo
1)Introdução
As comunidades tradicionais caracterizam-se pelo seu modo de vida na qual apresenta aprofundado
conhecimento da “natureza e de seus ciclos que se reflete na elaboração de estratégias de uso e manejo dos
recursos naturais”, onde a família apresenta grande importância no exercício da atividade econômica
(DIEGUES, 2000).
As comunidades tradicionais são grupos humanos culturalmente diferenciados que historicamente
reproduzem seu modo de vida, de forma mais ou menos isolada, com base de modos de cooperação social e
formas especificas de relações com a natureza, caracterizadas tradicionalmente pelo manejo sustentado do
meio ambiente. Essas comunidades se adaptaram a nichos ecológicos específicos. (ARRUDA, 1996).
Ainda de acordo com o autor em todas as regiões do Brasil, com menor ou maior intensidade, os padrões de
uso da terra sofrem drásticas alterações à medida que se desenvolvem as frentes de expansão, criando-se
necessidades de manejos mais intensos. As populações tradicionais são postas diante de um dilema insolúvel
do ponto de vista de seus interesses e os de preservação ambiental. As comunidades tradicionais estão
sujeitas as dinâmicas sociais e a mudança cultural. Porém nem todos são conservacionistas natos, e há entre
eles grande conhecimento empírico do mundo em que vivem e das particularidades do ecossistema regional.
Os conhecimentos pedogeomorfológicos da comunidade do Faxinal Taquari dos Ribeiros podem a vir
contribuir tanto nas questões da qualidade dos alimentos e o aumento da produtividade do local, outro fator
importante é as observações feitas nas terras de plantar pelos próprios faxinalenses, que seria os processos
erosivos atuantes devidos o uso e tipo de manejos empregados pelos agricultores, e de certa forma os
faxinalenses com o saber local minimizam esses problemas e assim estabelecem a cultura que ao longo dos
anos vem se mantendo como comunidades tradicionais.
2) Materiais e métodos:
O Faxinal Taquari dos Ribeiros está situado dentro do município de Rio Azul na região sudeste do Paraná,
no domínio do Segundo Planalto Paranaense, distante 193 km a oeste de Curitiba e 547 km a leste de Foz do
Iguaçu, O município abrange uma superfície de 614,300 km2. A população é de 12.559 habitantes divide-se
entre 8.887 residentes na zona rural e 3.672 na zona urbana, com uma densidade demográfica de 20,44
hab./km2. (MINEROPAR, 2001).
1
Acadêmica do curso de Geografia Bacharelado da Universidade Estadual de Ponta Grossa -PR. Pibic-
Fundação Araucária.
2
Acadêmica do curso de Geografia licenciatura da Universidade Estadual de Ponta Grossa -PR. Provic.
3
- Professora do Degeo – Coordenadora do projeto da Universidade Estadual de Ponta Grossa –PR.
220
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7169000
7169000
7168000
7168000
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7167000
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Paraná Rio Azul
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Sub bac ia hidrografica do rio Boles. # ####
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Sub bacia hidrografica do rio B oles. Dr enagem fluvial da Sub bacia hidrográfic a do Rio Boles
Acess o principal as terras de plantar Topossequencias # 1 # 2 # 3 # 4 # 5 # 6 # 7
De acordo com a Carta Climática do Estado do Paraná (Godoy & Correia, 1976), e baseado em Koeppen,
Rio Azul está sob a influência do tipo climático Cfb - clima subtropical úmido mesotérmico, com verões
frescos, com ocorrência de geadas, temperatura média anual variando entre 17ºC e 18ºC. Precipitação
pluviométrica média anual em torno de 1500 mm e excedente hídrico anual variando de 500 a 800 mm.
O município de Rio Azul apresenta uma altitude média de 856 m acima do nível do mar, o relevo de Rio
Azul é dominado pela escarpa da Serra da Esperança, no extremo noroeste, onde as altitudes máximas estão
cotadas em 1.245m no Faxinal dos Moura e 1.168m no Marumbi do Elias. Nas proximidades da Serra da
Esperança empresta a metade noroeste aspectos de relevo mais acidentado, e os declives ao longo da metade
sudeste. (MINEROPAR, 2001).
O município de Rio Azul situa-se sobre terrenos sedimentares da Bacia do Paraná, cujas unidades ocorrem
dentro do seu território às formações Teresina, Serra Alta, Rio do Rasto, Serra Geral e aluviões recentes.
(MINEROPAR, 2001).
Procedimentos metodológicos: O trabalho de pesquisa inclui revisão de literatura, os trabalhos de campo
voltados aos dados sobre tipo e manejo do solo bem como os tipos de “terras” encontrados, foram obtidas
com conversas informais, as quais permitiram ampliar os conhecimentos sobre “os saberes faxinalenses. As
vertentes foram subdivididas em toposseqüencia georreferenciadas, usando a Ortoimagem do sensor SPOT5
de 2005. Para confecção do mapa de localização da topossequencia foi utilizado a ferramenta Software
arcview 3.2 . A cada ponto foram analisadas as seguintes categorias: Ordem do solo, textura, profundidade,
pedregosidade, forma da vertente, litologia e uso atual. Para cada ponto usou-se o trado holandês, cortadeira,
faca, receptor ”Global positioning system”, GPS Garmim II”. As cenas mais significativas do dia a dia nas
221
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
terras de plantar foram registras em fotografias bem como os vestígios de erosão e os pontos de coleta de
solo.
3)Resultados
Para os Faxinalenses a terra é um elemento muito importante em suas vidas, pois é dela que depende sua
sobrevivência, assim os faxinalenses são uma comunidade a qual preserva os ecossistemas, principalmente a
mata da Araucária Angustifólia, o pinheiro do Paraná, que foi extinta em muitas regiões Paranaenses e nos
faxinais ainda encontra-se preservada (LEFF, 2000).
Nas terras de plantar do Faxinal Taquari dos Ribeiros encontram-se principalmente o cultivo de fumo e
milho. Os Faxinalenses relatam que na década de oitenta na região se plantava milho, feijão, cebola, já havia
alguns moradores que cultivavam fumo, porém em pequena quantidade e na época as propriedades eram
menores sendo ampliados os terrenos depois que introduziram o cultivo do fumo.
Os critérios utilizados pelos agricultores faxinalenses para classificar os solos são principalmente: a cor, a
existência de matéria orgânica, vegetação existente no local e a consistência ( terra batumedeira). É através
desses fatores que ele vai decidir quais áreas serão próprias para cultivo em suas terras de plantar e da
necessidade de correção para o uso. Eles fazem o preparo do solo de forma tradicional, com equipamentos de
tração animal, arado e Grade e baseado no revolvimento do topo do solo (Figura 1).
Assim os faxinalenses contam que quanto à cor, a terra branca, roxa não precisa por nada para que se
obtenha uma boa produção; Já a terra preta é ruim tem muita acidez, muita matéria orgânica (gordura da
terra), porém pondo calcário produz tão bem quanto a outra. O fumo suporta mais acidez que o milho e que
dá para se conhecer qual é o tipo de terra pela vegetação que se encontra nela, e dá alguns exemplos:
tupichava branca, pessegueiro bravo, guaçatunga, tomateiro, guamirim aparece em terra boa. Já se tem
tupichava preta, samambaia, bracatinga a terra é seca, fraca, agindo como “um tijolão” chove encharca, mas
já enxuga. Pelo olhar eles conseguem saber se a terra está “gorda” ou o se está ruim. Pegando na terra ele
também consegue determinar a sua qualidade, “terra com liga é terra “boa”, e terra solta é mais fraca”.
Nas lavouras foram observadas e registradas as distintas formas de erosão linear, ravinas e sulcos
transversais a declividade, seguindo a linha do cultivo pelo tipo de manejo (Figura 2). Para diminuir a
erosão nas suas terras os agricultores usam o sistema de pousio ou descanso, onde algumas áreas são
mantidas sem cultivo durante um período de “um a dois anos”, ou seja, fazem um tipo de rodízio
(afolhamento) com as terras. Incluem a “palhada de proteção”, depois da colheita, a partir de restos de
cultura anterior ou ao “mato Braquiária”, para diminuir a velocidade da água favorecendo sua infiltração.
Tais atitudes ajudam a aumentar a fertilidade e aproveitamento na produção agrícola.
4)Conclusão:
222
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
5)Referências bibliográficas:
GODOY, H.; CORREA, A.R.; SANTOS, D. Clima do Paraná. In: IAPAR (Londrina), PR). MANUAL
AGROPECUÁRIO PARA O PARANÁ. Londrina, 1976. p.16-37.
223
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Ronan Max Prochnow1*; Conrado Locks Ghisi2; Getúlio Silva Filho3 ; Paulo Roberto Vela Junior4
1;3
UDESC/FAED/GEOLAB
2;4
UDESC/FAED
1. Introdução
Quando nos remetemos à origem do pensamento geográfico moderno, não há como deixar de fazer
referência aos relatos dos viajantes europeus, notadamente aqueles dos séculos XVII e XIX. A própria
Geografia, quando emerge como uma disciplina específica nas universidades alemãs do século XIX,
debruça-se sobre as informações e impressões coletadas por viajantes, as quais serviram de base empírica
para a discussão teórica em que a Geografia acadêmica passava a se defrontar, unindo assim, teoria e prática
de campo, como muito bem vem materializar a obra de Alexander Von Humboldt. No mesmo sentido,
Andre Cholley, da escola francesa de Geografia, em seu Guia do Estudante (1942) [1], enfatizou a
relevância, dentro da formação universitária, dos trabalhos práticos e excursões. Já inseridos na Geografia
brasileira, vale destacar o Congresso da UGI (União Geográfica Internacional) de 1956 no Rio de Janeiro,
dentro do qual se realizaram expedições que contaram com a participação de renomados geógrafos
brasileiros, entre eles Aziz Ab`Saber e Orlando Valverde. Esses trabalhos de campo acabaram materializados
nos guias de excursões. Nesse sentido, para Vela Junior (2009) apud Milton Santos (1978) [1.1] , o relatório
é o momento em que se efetua a descrição e, conseqüentemente, a análise das distintas formações sócio-
espaciais que integram a realidade geográfica.
Como se pode perceber, a interação com o objeto de estudo geográfico, o espaço, é de suma importância,
sendo esse o objetivo geral da expedição que se traduz nesse trabalho, o qual pretende traduzir o que foi
apreendido em campo e ressaltar o valor da expedição de campo. Partindo de Florianópolis, Santa Catarina,
mas com ênfase na análise do espaço paranaense, a excursão cortou o território do referido estado no sentido
leste-oeste, partindo de Curitiba e alcançando Foz do Iguaçu já na fronteira brasileira com Paraguai e
Argentina. A excursão envolveu as disciplinas de Análise e Gestão de Bacias Hidrográficas, de
Geoprocessamento e Sensoriamento Remoto, e também de Planejamento Regional e Urbano; e para
contemplar diferentes elementos das combinações geográficas, sejam eles da natureza, da sociedade ou da
geografia instrumental, o roteiro contou com visitas ao IPPUC – Instituto de Pesquisa e Planejamento
Urbano de Curitiba e à Mineropar – Minerais do Paraná em Curitiba, ao Parque Estadual de Vila Velha em
Ponta Grossa, e já em Foz do Iguaçu, à Usina Hidrelétrica Binacional de Itaipu, ao Refúgio Biológico Bela
Vista e também ao Marco das Três Fronteiras.
2. Método
A metodologia de trabalho empregada na estruturação deste trabalho baseou-se nas analises visuais
realizadas no decorrer do desenvolvimento das atividades de campo, apoiadas pelo registro fotográfico local
e posterior descrição das experiências vivenciadas e características observadas com apoio de consultas a
bibliografia especializada.
Para a geração dos mapas, foi empregada a ferramenta ArcGis 9.3, informações geológicas adquiridas
do portal do CPRM – Compania de Pesquisa em Recursos Minerais, atual Serviço Geológico do Brasil
3. Resultados e Discussão
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Parque Estadual de Vila Velha possui uma área de 3.122 ha, sendo seus principais atrativos os arenitos, as
Furnas e a Lagoa Dourada.
De acordo com o Folheto Ilustrativo do parque, Os monumentos geológicos encontrados em Vila
Velha são constituídos por uma rocha denominada arenito. O Arenito Vila Velha é formado pela
compactação e endurecimento das camadas sucessivas de areia, pertencentes à unidade geológica
denominada de Grupo Itararé. A origem das areias que, posteriormente formaram o Arenito Vila Velha,
remonta ao Período Carbonífero, 300 milhões de anos atrás. A paisagem era muito diferente da atual,
dominada pela presença de geleiras, rios e lagos glaciais, compondo um ambiente chamado de flúvio-glacial.
A movimentação das geleiras para as áreas mais baixas do terreno carregava sedimentos, os quais eram
depositados nessas áreas, formando depósitos sedimentares flúvio-glaciais chamados de varvitos. Ao longo
dos 300 milhões de anos, eventos geológicos soterraram estes sedimentos e mais recentemente, por erosão,
colocaram os mesmos na superfície. Durante o Período Quaternário, processos erosivos esculpiram os
arenitos, principalmente a ação das águas pluviais associadas às falhas e fraturas e intemperismo químico,
gerando as atuais formas pontiagudas, torres, pilares, etc.
Ainda de acordo com o referido Folheto, as furnas são poços de desabamento, depressões semelhantes
a crateras, de forma circular e paredes verticais. Estas feições encontram-se no Arenito Furnas, localizado
abaixo do Arenito Vila Velha. As furnas ocorrem na região dos Campos Gerais, sendo conhecidas 14 delas.
Muitas delas estão interconectadas pelo nível de água do lençol subterrâneo. Formaram-se pela ação da
circulação das águas superficiais que acidificadas pela presença de ácidos orgânicos foram lentamente
desagregando a rocha em suas fraturas, carreando os sedimentos e promovendo assim seu colapsamento,
formando os poços de desabamento.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
ITAIPU BINACIONAL
A Usina Hidrelétrica Itaipu, a maior do mundo em produção de energia, é um empreendimento
binacional desenvolvido pelo Brasil e pelo Paraguai no Rio Paraná, na fronteira entre os dois países. Itaipu
Binacional é a empresa binacional responsável pelo gerenciamento do complexo construído pelo Brasil e
pelo Paraguai no referido rio. O projeto encontra-se entre Foz do Iguaçu, no Brasil e Ciudad del Este, no
Paraguai. A capacidade instalada de geração da usina é de 14 GW, com 20 unidades geradoras fornecendo
700 MW cada. Esta imensa obra possui 196 metros de altura, 7919 metros de comprimento e ocupa uma área
alagada de 1350 Km2. No ano de 2008, a usina geradora atingiu o seu recorde de produção, com 94,68
bilhões de quilowatts-hora (kWh), fornecendo 90% da energia consumida pelo Paraguai e 19% da energia
consumida pelo Brasil de acordo com informações disponibilizadas pela Assesoria de Comunicação da
empresa no website da empresa.
O Refúgio Biológico Bela Vista é uma unidade de proteção criada para receber milhares de plantas e animais
desalojados pelo reservatório da usina. Trata-se de um antigo projeto, muito bem sucedido, em meio aos
Parques Nacionais do Iguaçu e da Ilha Grande.
A TRÍPLICE FRONTEIRA
Entende-se por Tríplice Fronteira a região aonde fazem divisão territorial no mesmo ponto os Estados
do Brasil, Argentina e Paraguai. O Marco das Três Fronteiras é um ponto turístico localizado na cidade de
Foz do Iguaçu, Estado do Paraná, Brasil, a cidade brasileira que faz fronteira com as referidas nações. Puerto
Iguazú e Ciudad del Este, respectivamente na Argentina e Paraguai tratam-se dos demais municípios
limitrófes. O marco brasileiro, localizado na localidade de Porto Meira, foi inaugurado em 1903 e é símbolo
da igualdade, complementaridade e respeito entre as três nações. Seus autores foram o Marechal Cândido
Rondon e o então Ministro das Relações Exteriores e General Dionísio Cerqueira, responsável por demarcar
a fronteira Brasil-Argentina. O Marco argentino situa-se às margens do Rio Iguaçu e o marco paraguaio fica
às margens do lado direito do Rio Paraná. Os três formam um triângulo eqüilátero que fixa o limite territorial
e a soberania dos três países, igualmente pintados com as cores nacionais.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
A excursão a campo mostrou que para uma análise verdadeiramente completa, o elemento empírico
precisa necessariamente estar presente, pois o conhecimento é construído de forma dialética entre o campo e
a sala de aula, respectivamente, prática e teoria, visto que na excursão, em contato com a realidade, o
estudante vê traduzidos em imagens os termos de seu vocabulário geográfico (CHOLLEY, 1951) [1].
Através das palestras que o grupo de estudantes e professores tiveram a oportunidade de participar, objetivos
complementares também foram alcançados, enriquecendo a assimilação conjunta dos elementos da
combinação geográfica sociedade/natureza. Em Curitiba, na visita ao IPPUC foi possível ver como a
geografia instrumental, ou técnica, tem cada vez mais importância no processo de planejamento urbano, visto
a sua ampla utilização no caso de Curitiba. Dentro dos próprios de planejamento, seja urbano, mais
especificamente na visita ao IPPUC, ou mesmo regional, todas as visitas trouxeram contribuições práticas
que enriqueceram a formação dos estudantes. O roteiro percorrido permitiu um claro entendimento sobre a
construção do relevo composto por uma sequência de três planaltos. As visitas ao Refúgio Biológico Bela
Vista e à Usina Binacional de Itaipu contribuíram para uma reflexão mais profunda a respeito da gestão dos
recursos naturais e a sua importância para a sociedade.
Mais do que visualizar paisagens, o contato empírico com o seu objeto de estudo, é um aporte à teoria,
e esta, no caminho de volta, subsidia a melhor análise em campo, o que demonstra a relação dialética entre
teoria e prática, perfazendo assim a verdadeira ciência geográfica.
Referências
MAACK, R. Geografia física do Estado do Paraná. 3. ed. Curitiba: Imprensa Oficial, 2002.
PRESS, Frank; SIEVER, Raymond; GROTZINGER, John. Para Entender a Terra. 4ª São Paulo: Artmed,
2006
227
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1
PLURALIDADES CULTURAIS, SEXUALIDADES E RECONHECIMENTO SOCIAL EM
SANTA MARIA/RS: O CASO DAS DEMANDAS SOCIAIS DA ONG IGUALDADE
1. Introdução
Os estudos culturais emergem na Geografia contemporânea em virtude da necessidade de entender a
complexidade do espaço geográfico como conteúdo e forma das diferentes qualidades dos grupos humanos que o
habitam [1.2]. De acordo com [1.3]; [1.4], o espaço urbano, levando em conta esta realidade, apresenta-se, por
um lado, unificado por uma materialidade e um conjunto de práticas sociais que se repetem na reprodução das
condições funcionais do modo de produção e dos procedimentos cotidianos definidos por ele. Por outro lado,
este espaço urbano também apresenta diversas realidades de convivência de pequenos grupos de interesse. Estes
grupos se segregam alterando a funcionalidade das práticas sociais, as próprias condições materiais dos lugares e
os códigos de identificação e representação de si mesmos e dos outros a que mantêm contato de proximidade.
A diversidade de identificações/diferenciações de agregados humanos se apresenta em decorrência dos
seguintes processos: das condições de localização das interações sociais; das autenticidades intersubjetivas
negociadas entre diferentes sujeitos sociais e as multiplicidades culturais que fazem dialogar culturas locais; das
divulgações midiáticas das estéticas e formas de interação produzidas por novas determinações globais de
consumo cultural do capitalismo tardio.
A pluralidade de culturas urbana é produto complexo das relações descritas acima e fundam agregações
humanas diversas que definem sua existência pela localização e segregação de suas interações. As convivências
são negociadas internamente na agregação tênue (no espaço e no tempo), mas apresentam fronteiras definidas
pelos próprios interesses negociados na interação, nos gostos estéticos e na identificação dos comportamentos e
interesses discursivos.
Em relação ao que argumentamos até então, ocorre uma especificidade na qualidade das interações baseadas
nos desejos homoeróticos [1.5]; [1.6]; [1.7], ou seja, relações afetivas e sexuais entre sujeitos do mesmo sexo. Os
desejos homoeróticos foram banidos historicamente da sociedade: na inquisição; na polarização médica entre
homossexual e heterossexual, com a médica húngara Karoly Benkert, em 1869; na constituição da família
burguesa do século XIX, em que são acentuados os comportamentos e papéis sociais de masculino e de feminino
[1.9]; no nazifacismo (o triângulo rosa dos campos de concentração, vide filme “Bent”); na estigmatização da
AIDS, nos anos 80, que culpabiliza os relacionamentos homossexuais [1.6]; [2.1].
A partir dos anos 60, em virtude a emergência dos movimentos culturais [2.3] (como o feminista, o
ecológico e o das diversidades de expressões humanas), os indivíduos orientados para o mesmo sexo reclamam o
direito ao público (espaço). Dentre suas estratégias, ocorreu à assunção de uma identidade, a gay, que hoje, na
efemeridade da pós-modernidade [2], se torna difícil de ser definida como singular e específica. Mesmo assim,
as homoafetividades ainda são repudiadas em espaço público, assim como são negados a elas determinados
mecanismos condizentes à cidadania e benefícios sociais.
Nesse sentido, a cidade contemporânea abriga uma diversidade de expressões culturais. A cidade de Santa
Maria-RS, por ser um centro universitário e regional, se identifica pela convergência e concentração das
pluralidades culturais. Na mesma, existem grupos políticos organizados que se ocupam com os direitos civis
dessas pluralidades, como a ONG Igualdade, que trabalha, além de outras expressões culturais, questões
envolvendo as pessoas orientadas para o mesmo sexo. A partir da atividade de extensão (FIEX – UFSM) que
está em andamento, projeta-se participar das atividades desta ONG para entender as questões culturais e políticos
dos diferentes sujeitos sociais em Santa Maria. Pretende-se também, promover atividades de divulgação dos
trabalhos da ONG e a discussão destas temáticas entre juventudes do ensino médio de escolas públicas da
cidade.
1
Autor correspondente: [email protected]
228
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
2
O principal objetivo deste projeto (FIEX – Fundo de Incentivo á Extensão) é promover a interação, a
reflexão e a ação pública pautada no entendimento crítico e na defesa política dos problemas e interesses das
diversidades culturais na cidade de Santa Maria-RS. Objetiva-se promover a ação/reflexão sobre as questões
pertinentes a realidade cotidiana e sobre os problemas de interação pública das pluralidades culturais e das
orientações sexuais, principalmente aquela referente aos sujeitos orientados para o mesmo sexo (as
“homoafetividades”). É, neste sentido, que a extensão se concentrará no acompanhamento e na
contribuição/participação sobre as ações sociais compostas nas demandas em que a ONG Igualdade (Santa
Maria-RS) se envolve. Tem-se como meta contribuir à reflexão social sobre a problemática das diversidades
culturais na cidade contemporânea, promovendo uma ação de ensino sobre a temática em escolas da rede pública
da cidade de Santa Maria-RS.
2. Método
Em primeiro momento, o processo se efetiva pelo acompanhamento descritivo e reflexivo das demandas
das alteridades sociais que integrantes da ONG Igualdade (Santa Maria-RS) possuem e em que se baseiam suas
atividades. Isso se dá pela participação efetiva semanal nas reuniões que ocorrem na “Casa 13”, Rua Treze de
Maio, centro da cidade de Santa Maria-RS. Além da participação nessas reuniões, ocorre também o
acompanhamento junto a ações promovidas pela ONG, como reuniões e intervenções públicas sobre temas
contidos nas demandas.
Esta fase se estabelece no andamento do projeto conforme procedimentos contidos na pesquisa
etnográfica [1.8], que se baseia, fundamentalmente, na participação efetiva perante o grupo cultural e entidade
social, inserindo-se no cotidiano “das coisas a fazer” e na “reflexão sobre condições individuais e coletivas sobre
tais afazeres”. Tal postura remete a necessidade do pesquisador vivenciar o dia-a-dia das ações dos sujeitos que
atenta à pesquisa, nas tramas de suas interações cotidianas, nos dramas de suas dificuldades e das táticas que
formulam para conseguir vencê-las. O caráter presencial é fundamental, assim como a indagação sobre o que
acontece, para fins de interpretação efetiva. O conjunto de descrições e interpretações contidas em “caderno de
campo” constituirá a base das reflexões pelas quais se produz a pesquisa. Além das anotações interpretativas
sobre os fatos que se presencia, na dialógica ação-reflexão-interpretação-ação [2.2], outros recursos, como a
fotografia e a arte sobre o contexto em que ocorrem os eventos, são necessários, para contribuir na percepção
sobre a complexidade do que ocorre. Os elementos descritivos se tornam fontes de dados sobre o que se pesquisa
e neles estão representados:
a) os fatos como ocorreram;
b) as discussões com os sujeitos em que, ao mesmo tempo, determinam e são determinados pelos fatos
- dessa forma suas percepções e interpretações singulares;
c) a percepção e interpretação ativa do pesquisador, como sujeito da pesquisa e também sujeito dos
produtos e resultados dela.
A outra fase da pesquisa se estabelece pelo estudo dos dados obtidos em trabalho etnográfico, para fins
de articular uma intervenção social mediante conteúdos selecionados do material constituído. Esta fase se
estabelecerá a partir da discussão frente aos dados que se tem e o público em que se atuará. Inicialmente o
propósito da ação educativa é divulgar e tornar público, perante outros setores sociais, as demandas das
alteridades culturais de Santa Maria-RS, fundamentalmente aquelas em que a ONG Igualdade trabalha. O
público que a pesquisa procura atingir é algumas turmas de ensino médio de alguma escola pública da rede
estadual (ou municipal) de ensino da cidade. Nesse sentido, serão construídas as estratégias de intervenção
educativa, junto com os professores e grupos de lideranças estudantis, mediante articulação crítica das bases
curriculares nacionais [1] e suas discussões sobre temas transversais, principalmente aqueles que versam sobre
diversidades culturais e educação sexual.
Após intervenção educativa estabelecida, será então feito o trabalho reflexivo final que constituirá o
relatório da pesquisa. Este relatório será apresentado tanto para lideres da ONG Igualdade como para os
professores e estudantes de ensino médio da escola em que ocorreu a ação educativa. Após discussões coletivas
críticas do relatório, será feita uma versão final para publicação.
3. Resultados e Discussão
Por se tratar de uma investigação que se encontra em andamento, espera-se que seja possível
contribuir com a ONG Igualdade Santa Maria no reconhecimento sistemático das demandas socioculturais que
foi mantido na primeira fase da ação de extensão (acompanhamento das atividades da ONG pelo Bolsista);
229
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
3
Para que, dessa forma, seja possível gerar uma proposta de atividade de ensino que possibilite a divulgação das
ações sociais de ONG´s vinculadas à discussão da pluralidade cultural e orientação sexual, promovendo assim, a
aproximação da ONG Igualdade e a divulgação de suas atividades e demandas perante estudantes de ensino
médio das escolas públicas de Santa Maria-RS.
Dessa maneira, a relação entre padronização moral, estigmas identitários, preconceitos e fobias
culturais devem ser tratados socialmente, para a construção de uma convivência mais pacífica no espaço urbano,
assim como para a defesa da cidadania e da democracia na atualidade. Os PCN´s [1], prevêem a importância da
temática da pluralidade cultural e da orientação sexual a ser tratada na educação formal e informal. Na escola
pública isso se torna eminente, em virtude das diferentes expressões juvenis que se concentram nela e que
influenciam a realidade das interações formais e afetivas nestes ambientes. Muitos conflitos se tecem na escola e
eles são expressões dos cotidianos diversos que seus sujeitos constroem dentro e fora dela. Neste sentido, se
torna fundamental este debate na escola, como temática de ensino, em prol da melhoria da convivência entre os
sujeitos que a compõem e para um aprendizado responsável, ético e democrático da sociedade e da inserção do
individuo nela.
Nesse sentido, incentiva -se a articulação da ONG Igualdade com a juventude da cidade de Santa
Maria a partir do vinculo com o ambiente escolar formal, estimulando o debate da temática da pluralidade
cultural e da orientação sexual com enfoque local.
4. Conclusão
A investigação, remete, então, ao entendimento da cidade contemporânea na perspectiva da diversidade de
culturas e expressões de sujeitos, grupos e agregados sociais que a compartilham, a disputam e a experienciam,
tecendo suas vidas e seus propósitos. A cidade é um campo de jogos de alteridades culturais constituídas
historicamente. Tais alteridades são balizadas por um campo identitário hegemônico [2.2], cujos aspectos
apontam para os determinantes da sociedade moderna (européia-branca-heterossexual-masculina), definida por
uma estrutura racional (trabalho), moral (condutas aceitas) e lingüística (conceitos e formas de pensar e agir).
Mas além desse campo hegemônico, diversidades baseadas em aspectos da espontaneidade humana e da forma
em que entendem seus desejos e incompatibilidades quanto ao racional, ao moral e as identidades “normais” e
“naturalizadas”, também produzem historicamente algumas formas de identificações, de valores e de referenciais
de disputa em relação ao direito de ser e viver na cidade.
Os dramas dos sujeitos estigmatizados e banidos do espaço público, composto no campo hegemônico das
identidades possíveis, se traduzem em lutas sociais: ora micropolíticas inseridas nas interações sociais
cotidianas, ora em eventos emergentes como movimentos organizados. Atualmente estes movimentos
constituem “organizações não-governamentais”, ou seja, instituições não vinculadas ao Estado, mas que
apresentam um estatuto de legalidade pública que a permitem agir perante o Estado, pautando a defesa daqueles
oprimidos pelo campo social hegemônico e exigindo novas perspectivas de direito para a plena existência de
suas espontaneidades.
Dessa forma, conclui-se que é de exímia importância a atuação acadêmica para a reflexão das demandas
sociais das ONG’s que atuam no Movimento LGBT’S, cita-se a ONG Igualdade – Santa Maria/RS, muito
principalmente, na Educação para a construção de uma sociedade menos preconceituosa e homofóbica.
Referências
CLAVAL, P. “A volta do cultural” na Geografia. Mercator. Ano 01, número 01. Florianópolis: UFSC, 2002.
[1.2]
COSTA, B. P. da. Microterritorializações urbanas: pockets of social relations – produtos das relações
multiterritoriais no cotidiano urbano em virtude da dialética entre ordens e desvios sociais na modernidade. In:
SIMPÓSIO NACIONAL DE GEOGRAFIA URBANA, 9. Anais... Manaus: UFAM, 2005a. [1.3]
230
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4
_______. A relação dialética entre funcionalização e afetividade na construção do espaço social urbano: a
produção microterritorial e o caso das convivências homoeróticas subterrâneas ao social. Caesura: Revista
Crítica de Ciências Sociais e Humanas, Canoas: ULBRA, n. 27, jul./dez. 2005b. [1.4]
______. Por uma geografia do cotidiano: território, cultura e homoerotismo na cidade. 2008a. Tese (Doutorado
em Geografia) – Programa de Pós-Graduação em Geografia, UFRGS, Porto Alegre. [1.6]
COSTA, J. F. A inocência e o vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1992.
[1.7]
LOURO, G. L. Teoria Queer: uma política pós-identitária para a educação. Revista Estudos Feministas.
Florianópolis: CFCH/CCE-UFSC. V. 9, n. 2, 2001. Disponível em http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8639.pdf.
Acesso em maio de 2007. [2.1]
MACLAREN, P. Multiculturalismo crítico. São Paulo: Bebel Orofino Schaefer, 2000. [2.2]
WALLERSTEIN, I. As agonias do liberalismo: as esperanças para o progresso. In: SADER, E. (Org.). O mundo
depois da queda. São Paulo: Paz e Terra, 1995. [2.3]
231
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A intensa urbanização que vem ocorrendo no Brasil tem sido acompanhada por um processo de
metropolização, isto é, concentração demográfica nas principais áreas metropolitanas do país. Esse fenômeno
iniciou a partir do momento em que a indústria passou a representar o setor mais importante da economia
nacional. Entre suas características aparecem aspectos da passagem de uma economia agrário-exportadora
para uma economia urbano-industrial, fato esse que só ocorreu no século XX e que se tornou mais
pronunciado a partir da década de 1950 (Vesentini, 1994). Compreende-se que os processos de urbanização e
industrialização têm tido um papel fundamental nos danos ambientais ocorridos nas cidades. O rápido
crescimento causa uma pressão significativa sobre o meio físico urbano, tendo as conseqüências mais
variadas, tais como: poluição atmosférica, do solo e das águas, deslizamentos, enchentes. A expansão das
cidades é acompanhada pela necessidade crescente de fornecer alimentos às famílias que nelas residem. Os
índices de pobreza das populações urbanas também têm crescido bem como a dificuldade de acesso à
alimentação básica.
No cenário atual das cidades, sua expansão é acompanhada pela necessidade crescente de fornecer
alimentos às famílias que nelas residem. Diante desta conjuntura, Itajaí desenvolve algumas iniciativas de
Agricultura Urbana/Periurbana promovendo a discussão referente à segurança alimentar, fomentando a
agroecologia e debatendo, ainda que timidamente, políticas públicas.
Neste sentido, entende-se por Agricultura Urbana/Periurbana o uso de espaços públicos ou privados,
de forma individual ou coletiva, que se destinam à produção de alimentos, plantas medicinais, ornamentais
ou criação de pequenos animais para consumo ou comercialização local. Dependendo da localização desses
espaços, no interior ou na periferia dos centros urbanos, poderá surgir a denominação de agricultura urbana e
periurbana (Van Veenhuizen, 2006, p.01).
A expansão das áreas urbanas, as atividades de construção de obras civis, a expansão das atividades
agrícolas e pastoris, entre outras atividades desenvolvidas pelas sociedades ao longo dos séculos, no Brasil e
no mundo, vem alcançando estágios de desenvolvimento, eficiência e domínio tecnológico que, na maioria
das vezes, não vem acompanhados do processo de organização e planejamento, necessários para a
sustentabilidade da natureza (Guerra & Marçal, 2006, p.13). Como estratégia de Planejamento Urbano
Sustentável, algumas cidades brasileiras recentemente desenvolvem projetos de fomento à prática de
Agricultura Urbana (AU) em diversas comunidades, em alguns casos com apoio do Poder Público.
A prática da AU vem sendo realizada tanto no hemisfério Norte como no Sul e tem recebido apoio
governamental em vários países, entre os quais podemos destacar Tanzânia, Zâmbia, Cuba, Filipinas e
Indonésia. No Brasil, cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília possuem bons exemplos deste
movimento de produção (Machado & Machado, 2002). Um forte incentivo à AU é a tendência da
concentração da população mundial em grandes cidades e a utilização de espaços domésticos, coletivos ou
públicos para produção de alimentos. Na América Latina, América do Norte e Europa, três quartos das
respectivas populações já vivem nos centros urbanos.
Fazendo parte deste movimento chamado Agricultura Urbana e Periurbana, Itajaí se insere e realiza
algumas ações neste sentido. O município pertence à mesorregião do Vale do Itajaí e faz divisas ao sul com
os municípios de Balneário Camboriú e Camboriú, a sudoeste com Brusque, a oeste com Gaspar, a noroeste
com Ilhota e ao norte com Navegantes. A BR-101 corta o município e faz a ligação com a capital do estado
(Florianópolis), que está localizada 90 km ao sul. O município em 2007 estimava uma população3 em torno
de 163.218 habitantes. Essa população distribui-se na área rural e urbana na proporção de 5.554 habitantes
2
*Autora correspondente: [email protected]
3
IBGE. Contagem da População 2007. Tabela 1.1.22. População recenseada e estimada segundo os
municípios – Santa Catarina – 2007. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/contagem2007/default.shtm, Acessado em: 21/05/ 2009.
232
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(4%) e 141.950 habitantes (96%), respectivamente. A economia é sustentada pelo tripé porto, comércio
atacadista de combustível e pesca, mas o setor de produção industrial também exerce importante papel na
arrecadação do município, bem como a comercialização de gêneros alimentícios.
Desta forma, a presente pesquisa objetiva apresentar seus dados preliminares, realizando um
levantamento das práticas de Agricultura Urbana desenvolvidos no município de Itajaí/SC, com o intuito de
pontuar os principais potenciais e obstáculos para a construção de um processo de desenvolvimento
territorial. Como referencial teórico, o conceito norteador é o de Desenvolvimento Territorial – a partir de
diferentes abordagens, entendendo que através dos atores, das pessoas de um determinado território, de seus
ativos, de suas potencialidades e vocações, é possível construir um projeto de desenvolvimento com mais
participação social, mais equidade e sustentabilidade.
2. Método
3. Resultados e Discussão
Com base em dados preliminares coletados segue um breve detalhamento dos principais projetos
desenvolvidos no município, relacionados à Agricultura Urbana ou Periurbana. Dentre os proponentes: poder
público municipal através de Secretarias, instituições religiosas, comunidades e Ongs.
Imagem 1 : Hortaliças sendo produzidas num terreno cedido a um produtor urbano, toda produção será
comercializada na própria comunidade.
233
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Imagem 2: Horta comunitária: produção de diversos alimentos, envolvendo famílias e com destino a
comercialização na comunidade local.
Imagem 3: Quintal com diversidade de alimentos, sua função será alimentar a própria família que planta.
- Ação Social Arquidiocesana/Paróquia São Vicente: O espaço da Horta foi cedido em 2007 via
termo de comodato da Prefeitura de Itajaí para Ação Social - que mobilizou um grupo de 15 famílias para
iniciar o projeto de Agricultura Urbana tendo como sonho a implementação de uma Horta Comunitária.
Atualmente o grupo está se reorganizando para dar continuidade ao projeto.
4. Conclusão
4
MDS/FAO, REDE e IPES. Panorama da agricultura urbana e periurbana no brasil e diretrizes políticas
para sua promoção (adaptado). 2007. Disponível em: <www.rede-mg.org.br>. Acesso em: 16.03.2010.
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Referências
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1. Introdução
Em meados do ano de 2005 o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis (IBAMA), através de seus representantes do Escritório Regional de Santa Maria apresentou um
projeto visando à criação da Área de Proteção Ambiental (APA) do Vacacaí-Mirim. Este propunha a
instituição da mesma a nível federal, que não foi concretizada, sugerindo-se que os municípios integrantes
deste espaço a fizessem.
O presente trabalho visa apresentar uma proposta de delimitação para a futura Unidade de
Conservação (UC) APA do Vacacaí-Mirim, abrangendo os municípios de Santa Maria e Itaara, na porção
central do estado do Rio Grande do Sul. Isto, devido ao contexto atual, onde se tem discutido novamente, nos
meios político-administrativo, social e acadêmico, sobre a efetiva criação desta UC.
A APA é uma UC de Desenvolvimento Sustentável e admite certo grau de ocupação humana em seu
território, possuindo como objetivos proteger a diversidade biológica, disciplinar o processo de ocupação e
assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais [1]. Especificamente sobre o objeto de estudo, dois
aspectos demonstram tamanha importância da instituição de uma UC desta categoria: a presença de áreas
tombadas como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica [2] e a existência de um lago artificial que abastece
parte da população de Santa Maria.
2. Método
A partir de uma abordagem dedutiva, a delimitação da APA baseou-se em algumas etapas do
procedimento sugerido por Cabral e Souza em 2005 [3], listadas na sequência:
● Recorte amplo da área, considerando os atributos ambientais que motivaram a criação da APA para,
a partir disso, realizar os ajustes necessários no sistema em estudo.
● Identificação da ocorrência de atributos ambientais que se deseja proteger em áreas onde é permitido
e desejável o desenvolvimento econômico de atividades dentro dos limites de capacidade de suporte dos
ecossistemas naturais.
● Localização espacial desses atributos ambientais dentro do sistema em estudo, separando-os em
mapas temáticos.
● Cruzamento de informações espacializadas, por meio de análise integrada dos recursos ambientais.
● Identificação das áreas de ocorrência de interseção dos atributos ambientais que motivam a criação
da unidade de conservação.
● Priorização de divisores de bacias hidrográficas como delimitadores da unidade de conservação,
garantindo que em seu interior seja contemplado o maior número possível das áreas anteriormente
mencionadas.
● Identificação de elementos físicos, por exemplo, vertentes como divisas da unidade de conservação,
incluindo em seu perímetro, por meio da legislação que a criou ou regulamentou, as Áreas de Preservação
Permanente instituídas pelo Código Florestal.
Para fins de geoprocessamento utilizou-se o software SPRING (Sistema de Processamento de
Informações Georreferenciadas) versão 5.0.6 [4], criado em 1991 pelo Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE) e disponibilizado para download gratuitamente em sua home Page. As cartas topográficas
Santa Maria-SE, Santa Maria-NE, Santa Maria-SO e Camobi-SO, elaboradas pela Diretoria do Serviço
Geográfico do Ministério do Exército Brasileiro em 1980, foram inseridas no SPRING onde foi realizado um
mosaico destas quatro cartas devido à abrangência da área de estudo, e após, a digitalização de suas curvas
de nível. Ambas possuem escala 1:25.000 e equidistância entre as referidas curvas de 10 m.
Parte da delimitação da APA foi efetuada a partir da análise da imagem de satélite disponível no
software livre Google Earth, sendo que a cena data do dia 29 de julho de 2009 e também foi manipulada no
SPRING 5.0.6. A finalização dos mapas foi feita nos softwares Power Point e Paint, permitindo melhor
apresentação visual das representações geradas.
*
Mestranda em Geografia, contato: [email protected]
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3. Resultados e Discussão
A APA do Vacacaí-Mirim traz em seu nome uma alusão ao Rio Vacacaí-Mirim, já que a primeira
proposição a respeito de sua criação tinha como sugestão de território a bacia hidrográfica deste rio, à
montante de seu lago artificial, popular Barragem do DNOS (Departamento Nacional de Obras e
Saneamento). Se o divisor de águas continuasse como o único critério à sua delimitação, áreas que
apresentam concentração de acentuados declives, mata e beleza cênica ficariam fora da APA. O Morro
Cechella é um exemplo, seu flanco sudoeste assim como aproximadamente metade de seu topo não seriam
contemplados com a proteção da UC. A figura 1 demonstra a delimitação proposta e facilita a identificação
de alguns elementos da paisagem, como os morros existentes no Rebordo do Planalto [6], unidade do relevo
existente na transição entre o Planalto das Araucárias e a Depressão Central Gaúcha [5].
Fig. 1 Delimitação proposta para a abrangência da APA do Vacacaí-Mirim.
237
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Com a conclusão da delimitação foi possível obter a área que esta proposta de unidade poderá
proteger: 6.415,50 ha ou 64,15 km². Sendo que 23,28% encontram-se no território municipal de Itaara e,
76,72% no de Santa Maria. Ainda, nota-se que o limite proposto inclui todas as nascentes do Rio Vacacaí-
Mirim à montante de seu lago artificial, como também as existentes no Morro do Elefante, que em sua
encosta norte/nordeste abarca nascentes do Arroio do Meio. Nascentes da Sanga do Ferreira, do Arroio do
Tigre e do Passo das Águas Negras, na porção oeste da APA, também são contempladas.
As belezas cênicas imperam na área, principalmente devido à mata nativa presente no Rebordo do
Planalto. A fotografia que segue, confirma tal declaração.
Fig. 2 Vista da cidade de Santa Maria a partir do topo (oeste) do Morro Cechella.
A foto revela um potencial ecoturístico para a APA, já que ainda possui significativos remanescentes
de vegetação nativa, que “bordam” os belos morros da região. Um dos caminhos para um desenvolvimento
sustentável poderá estar baseado na exploração do ecoturismo no interior desta UC.
4. Conclusão
A APA desmitifica a ideia que as UCs são áreas naturais intocáveis, que não colaboram para o
desenvolvimento do país. Elas podem sim gerar desenvolvimento, mas de um modo sustentável, aliando uma
exploração econômica dos recursos naturais à qualidade ambiental.
O procedimento de delimitação utilizado nesse trabalho possibilitou a inclusão de áreas muito
importantes na APA, que anteriormente restringia-se à bacia hidrográfica do Rio Vacacaí-Mirim à montante
de seu lago artificial. A inclusão de nascentes e cursos d’água de outras bacias hidrográficas, morros
testemunhos e demais morros cobertos pela Mata Atlântica, validam os critérios dessa metodologia.
Enfim, espera-se que esse estudo auxilie nas discussões referentes à APA do Vacacaí-Mirim,
estimulando novas pesquisas e sugestões sobre qual a delimitação mais adequada a ser considerada para a
mesma.
Referências
1. BRASIL. Lei n. 9.985, de 18 de julho de 2000. Institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação
da Natureza. Presidência da República, Casa Civil, Brasília, DF, 18 jul. 2000. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L9985.htm> Acesso em: 5 ag. 2009.
238
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4. CÂMARA, G.; FREITAS, UM; GARRIDO, J.; SOUZA, RCM. SPRING: integrating remote
sensing and GIS by object-oriented data modelling. Computers & Graphics, Amsterdam, v. 20, n. 3, p.
395-403, may-jun. 1996. Disponível em: <http://www.dpi.inpe.br/geopro/trabalhos/spring.pdf> Acesso em:
26 out. 2009.
5. MAPA de unidades de relevo do Brasil. Brasília, DF: IBGE, 2006. 2. ed. Escala 1:5.000.000. Disponível
em: <ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas/tematicos/mapas_murais/relevo_2006.pdf> Acesso em: 27 abril 2009.
239
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1. Introdução
O presente trabalho consiste num subprojeto de uma pesquisa maior intitulada “A Reintegração Social
dos Veteranos da Segunda Guerra Mundial: estudo comparativo dos ex-combatentes do Brasil e dos Estados
Unidos”1 No referido projeto maior, a reintegração social dos veteranos da Segunda Guerra Mundial, do
Brasil e dos Estados Unidos é analisada a partir de cinco variáveis: a) as experiências anteriores de
reintegração dos veteranos de guerra; b) as formas de recrutamento e natureza dos combatentes; c) a
preparação do Estado e das forças armadas dos dois países, para o encaminhamento da desmobilização e
ressocialização pós-guerra de cidadãos civis convertidos em soldados; d) a recepção da sociedade não
combatente; e) as formas de organização política e social de veteranos de guerra. Neste subprojeto, é
analisado o impacto da guerra e de sua mobilização na sociedade civil dos Estados Unidos e a recepção desta
aos seus milhões de ex-combatentes.
Neste país, a Segunda Guerra Mundial marca o início da era contemporânea, acabando com a década
da Depressão (“Hungry Thirties”) e lançando as bases econômicas, sociais e culturais dos “anos dourados”,
nome atribuído principalmente à década de 1950. No campo econômico, os resultados são estimados em
superação àqueles alcançados pelo New Deal, a política econômica adotada pelo presidente Franklin Delano
Roosevelt na década de 1930, chegando praticamente à eliminação da taxa de desemprego com o
desenvolvimento dos grandes setores, como por exemplo, o tecnológico e o industrial. Em 1945, os Estados
Unidos já tinham a supremacia econômica em relação a qualquer outro país [3,9].
Com relação à sociedade e à cultura, pode-se notar mudanças como, por exemplo, o relativo aumento
de integração e participação de mulheres, afro-americanos, nativos e outros grupos minoritários na sociedade
americana. Além disso, no campo político, ocorre a institucionalização de órgãos de defesa nacional.
[5,6,8,9]
Nessa sociedade em transformação, surge o problema da reconversão, de como proceder quando o
conflito se findasse e a desmobilização dos aproximadamente 16 milhões de homens e mulheres tivesse de
ser feita. A maioria desses cidadãos-soldados, quando da mobilização, tinha idade entre 17 e 20 anos: seu
regresso aconteceria em sua fase mais produtiva e em uma sociedade já “adaptada” à sua ausência. Por esses
motivos, antes de a guerra dar sinais de vitória aliada, pessoas de diversas esferas sociais (políticos,
empresários, militares, etc.) iniciavam estudos sobre projetos a serem executados quando a hora da
reconversão chegasse, mesmo porque ainda se tinha na memória os resultados da quase desastrosa
reconversão e ressocialização após a Primeira Guerra Mundial.
Uma das principais medidas tomada para a desmobilização e ressocialização foi a assinatura, em 22
de Junho de 1944, do GI Bill of Rights, um conjunto de leis criadas por uma comissão de planejamento
designada pela American Legion (maior associação de veteranos dos Estados Unidos) juntamente com outras
comissões governamentais. O GI Bill visava estimular o aperfeiçoamento educacional e profissional do ex-
combatente pagando cursos superiores e/ou profissionalizantes e o ajudando a encontrar empregos
adequados à suas habilidades, além de um ano de indenização de US$20 por semana para os desempregados
e empréstimos para compra de casas ou abertura de pequenos negócios. O programa foi considerado o
modelo de melhor preparação e ação no retorno de um grande contingente de soldados, embora apresentasse
algumas falhas de produção e aplicação [4].
As mudanças ocorridas eram em grande parte resultados do grande esforço interno de guerra, que de
certa maneira foi a vitória conquistada pela forte propaganda político-ideologica disseminada pelo governo
através de suas agências e a própria carga idealista contida na natureza do combate (“The war against
fascism”). Tudo isso contribuiu para a formação do mito da “guerra justa”, da “Guerra boa” (“The Good
War”). Tal visão pode formar reflexos tanto na reintegração dos combatentes quanto na forma como essa
sociedade vai lembrar a guerra, por exemplo, nos memoriais [1,5-8].
O objetivo desta pesquisa é, em um primeiro momento, analisar as bases da construção histórica da
imagem da Segunda Guerra como “the Good War” e dos seus soldados como “the Greatest Generation” a
*
Autor Correspondente: [email protected]
1
Este projeto de pesquisa é contemplado com recursos do Conselho Nacional de Pesquisa Científica
(CNPq).
240
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
partir do estudo de como a sociedade estadunidense vivenciou o conflito, todas questões importantes para
compreender como os veteranos de guerra foram recebidos e como se relacionaram com a sociedade civil.
2. Método
O recorte temporal é de duas décadas a partir do fim da Segunda Guerra, o postwar period (“The
Golden Age”), tempo suficiente para permitir perceber as conseqüências da reintegração (ou a ausência
desta).
Acerca da metodologia, tem sido feitas pesquisas e análises da produção historiográfica acerca do
tema e discussão de métodos e fontes primárias utilizadas pelos autores. Também são utilizados os
documentos disponibilizados online por organizações como a Veterans Administration (órgão governamental
americano que administra assuntos referentes aos veteranos de guerra) e American Legion (associação
unificada de ex-combatentes), bem como o uso de fontes alternativas como filmes, documentários,
depoimentos, etc.
3. Resultados e Discussão
Durante a pesquisa, algumas hipóteses estão sendo trabalhadas e outras podem ser elencadas para
futuros trabalhos. Em primeiro lugar a relação direta entre a concepção que a sociedade como um todo
possui da guerra e o processo de reintegração social, e a mobilização dessa sociedade para o conflito e o
relativo sucesso dessa reintegração. Assim, como os Estados Unidos encararam a guerra como justa, contra a
agressão nazifascista e japonesa, seus combatentes tiveram menos dificuldades em retornarem à uma
sociedade que percebia positivamente a guerra lutada.
A importância do impacto da guerra na sociedade também pode ser avaliada pela reação da mesma
população às guerras pouco populares, ou sem a união nacional em torno dos objetivos e da justeza da
guerra, como no caso das guerras da Coréia e do Vietnã [5,7].
Do que foi pesquisado até o momento, sobressai um ambiente cultural de valorização da participação e
da vitória dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Por maior que tenha sido a propaganda a que os
civis norte-americanos foram submetidos durante a guerra, é difícil negar que essa cultura positiva sobre a
guerra nasceu e cresceu de maneira natural, como resposta aos sacrifícios e ansiedades da guerra. A leitura
dos depoimentos orais de vários segmentos da população do país (combatentes e não-combatentes), reunidos
no livro “The Good War”, de Studs Terkel (1984), mostra que o fato de quase 10% da população do país
estar mobilizado diretamente para a guerra afetou profundamente a percepção do conflito para esta geração.
Esse foi elemento essencial na construção ideológica dos significados positivos da guerra para a nação
americana, principalmente porque se iniciava outro tipo de conflito, que requeria outro tipo de mobilização: a
guerra fria.
4. Conclusão
De forma geral, embora não unânime, a Segunda Guerra é vista pelos americanos como “The Good
War”, quase um épico do triunfo moral e nacional; no entanto é preciso levar em conta que o país não sofreu
com os ataques diretos e com a dura política econômica de um país em guerra (com os racionamentos, por
exemplo). Além disso, essa visão positiva do combate esconde, muitas vezes, tensões e conflitos em questões
de classes sociais e étnicas. Se a Segunda Guerra Mundial foi boa, não foi para todos, nem o foi sem custos a
curto e a longo prazos. Além disso, e o que é pouco conhecido, é o fato de que para essa imagem de boa
guerra se solidificasse, foi preciso preparar a sociedade e os veteranos para a paz do pós-guerra por meio,
seja da propaganda, ou de articulações políticas. O trabalho busca discutir esses aspectos visto que foram o
ponto de partida para a reintegração social dos veteranos estadunidenses da Segunda Guerra Mundial.
Referências
1. BALLARD, Jack Stokes. The shock of peace. Military and economic demobilization after World
War II. Washington: University Press of America, 1983
2. BURNS, Ken; WARD, Geofrey. The War: an intimate history, 1941-1945. New York: Knopf, 2007.
3. GARRATY, John A. CARNES, Mark C. A Short History of the American Nation. New York:
Longman, 2000.
4. GREENBERG, Milton. The GI Bill. New York: Lickle Publishing Inc, 1997.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
5. HUEBNER, Andrew J. The Warrior Image: soldiers in American culture from the Second World
War to Vietnam Era. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2008.
6. ERENBERG, L. A; HIRSCH, S. E. (org). The War in American Culture: Society and Consciousness
during World War II. Chicago: The University of Chicago Press, 1996.
7. PIEHLER, G. K. Remembering War the American Way. Washington: Smithsonian Books, 1995.
8. TERKEL, Studs. “The Good War”. New York: The New Press, 1984.
9. WYNN, Neil A. The “Good War”: The Second World War and Postwar American Society. In: Journal
of Contemporary History. SAGE Publications, 1996.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Por entender a Universidade de Coimbra como instituição datada historicamente, este projeto de
pesquisa teve por objetivo identificar as diferentes fases porque passou o Estudo Geral (Universidade)
português, relacionando-as com o contexto histórico de cada período investigado, particularmente no que se
refere aos séculos XVII e XVIII.
Nesse sentido, no século XVII, serão abordadas as reformas ocorridas nos estatutos universitários, as
relações da Universidade para com o movimento da Restauração Portuguesa (1640) e o papel do Estudo no
referido período. Da mesma forma, no século XVIII será apresentada a reforma da Universidade sob a égide
de Marques de Pombal a fim de sintonizar a instituição com o movimento iluminista. Posteriormente, serão
apresentados os resultados obtidos sobre as universidades no período moderno, especificamente nos séculos
XVII e XVIII.
2. Métodos
O desenvolvimento da pesquisa requereu, basicamente, a investigação bibliográfica em três frentes:
obras que versam sobre o contexto histórico de Portugal e Europa Ocidental nos século XVII e XVIII, como,
por exemplo, os textos de França [1], Pomer [2], Hanson [3] e Oliveira [4]. A outra parte dos livros
consultados discorreu sobre as universidades no período moderno, como as obras de Rossato [5] e Charlés;
Verger [6]. A terceira frente de pesquisa pautou-se em obras relacionadas com a Universidade de Coimbra,
como, o texto de Almeida; Brandão [7], e especialmente a obra História da Universidade em Portugal [8],
que é uma obra volumosa, escrita por diversos autores, que a Universidade de Coimbra publicou em 1997.
3. Resultados e Discussão
Por meio da pesquisa historiográfica percebeu-se que a Universidade de Coimbra nos séculos XVII e
XVIII esteve relacionada com o contexto histórico e social de sua época, tanto no que se refere a conjuntura
da Europa Ocidental como do território português.
Assim, as reformas estatuárias ocorridas durante o século XVII foram regulamentadas pelos Estatutos
Filipinos de 1597. Em 1612, foi entregue à Universidade uma reformação contendo 162 artigos que
complementariam os estatutos de 1597. Em 1653, os estatutos aceitos por D. João IV (1640- 1656) foram os
mesmos de 1597 e as reformulações de 1612.
Nessa perspectiva, verificou–se que o Estudo de Coimbra colaborou para a libertação do território
lusitano do domínio espanhol. A corrente filosófica ensinada por mestres jesuítas na dita Universidade foi a
base em que se consolidou a soberania portuguesa. Além da cooperação intelectual, houve auxilio financeiro
e militar, para as guerras da Restauração que se iniciaram em 1640.
Nesse contexto, o fator que pode revelar a importância nacional que a Universidade de Coimbra
obtivera no século XVII era o valor que seus graus acadêmicos possuíam na sociedade portuguesa. A carreira
universitária foi um dos caminhos oferecidos para a burguesia ascender socialmente. Graduar-se em Direito
ou Medicina era o primeiro passo que muitos deveriam seguir para obterem títulos de nobreza.
Percebeu-se que embora o século XVII a Universidade tenha desempenhado importante função no
território lusitano, a partir do século XVIII as autoridades portuguesas passaram a ter consciência de sua
situação periférica na Europa. Nesse período houve diversas iniciativas governamentais no sentido de
aproximar a cultura, instrução pública e economia portuguesa do que estava sendo processado no restante da
Europa. Demonstração disso são as diversas reformas empreendidas especialmente na administração de
Marquês de Pombal. A intervenção do Estado no campo cultural ocorreu por meio da interferência na
instrução pública, tema que se relaciona diretamente com a Reforma da Universidade de Coimbra em 1772.
O fator que esteve estritamente vinculado a reforma da instrução pública foi a expulsão dos padres da
Companhia de Jesus do reino e colônias portuguesas em 1759. A reforma empreendida na instrução pública
iniciada na referida data, estava relacionada ao objetivo de instituir no solo lusitano instrução pública
(estatal) e laica em contraposição a instrução jesuíta que embora fosse pública era religiosa. A política
pombalina para a instrução pública rompeu com o humanismo aristotélico tomista que era professado pelos
padres jesuítas e introduziu o método indutivo experimental do empirismo do século XVIII.
Das reformas realizadas por Marquês de Pombal no campo da instrução pública, a reforma da
Universidade de Coimbra pode ser considerada a orientação mais próxima do Iluminismo europeu. Assim,
no ano de 1770 foi formada uma comissão, denominada Junta de Providência Literária, que tinha por
objetivo averiguar e propor soluções para a situação em que se encontrava a Universidade de Coimbra.
Mediante ao relatório dessa Junta foram outorgados os novos estatutos baseados em escritos modernos no
século XVIII. Além disso, foi no referido período que houve diversas reformas estruturais na Universidade
como, construção de laboratórios, fundação das faculdades de Filosofia e Matemática e contratação de
professores estrangeiros com renomado prestígio internacional.
Nesse sentido, é possível relacionar a história da Universidade de Coimbra nos séculos XVII e XVIII
com a história das universidades européias na época moderna. Igualmente às universidades modernas, no
século XVII a história da Universidade de Coimbra esteve ligada à formação de letrados para servir a Coroa
e a Igreja. Já no século XVIII, no contexto internacional, houve intensas reformas para situar o ensino
oferecido pelas instituições com o movimento científico e filosófico. Da mesma forma ocorreu na
Universidade de Coimbra com as Reformas de 1772, baseada em escritos iluministas, contrapondo à filosofia
escolástica fundamentada em Aristóteles e São Tomas de Aquino.
Nessa perspectiva, percebe-se que assim como nas universidades modernas, existiu na Universidade
portuguesa as fraudes e corrupções no referido período. Porém, houve também a criação de mecanismos para
extinguir as contravenções. Além disso, da mesma forma que nas universidades estrangeiras os graus
acadêmicos passaram a ser uma das vias de acesso para a nobreza, o mesmo ocorreu na Universidade
lusitana. Circunstância que permite constatar a mobilidade social que essa instituição propiciava aos que
pertencia ao Terceiro Estado.
4. Conclusão
Considerando as afirmações feitas até o momento, foi possível perceber, de acordo com a
historiografia produzida, que a história da Universidade de Coimbra nos séculos XVII e XVIII, além de estar
relacionada aos acontecimentos históricos e sociais ocorridos tanto no território português como no restante
da Europa Ocidental, esteve vinculada a história das universidades no período moderno.
Assim, em ambos os séculos a história da instituição esteve relacionada a contextos históricos que
extrapolavam os muros institucionais da Universidade, como, por exemplo, com a colaboração para o
movimento da Restauração em 1640 e a Reforma de 1772, que tinha por objetivo modernizar o estudo
português de acordo com os ideais do movimento Iluminista.
Além disso, verificou-se que a história da Universidade de Coimbra nos referidos séculos esteve em
concordância com a história das universidades do período moderno, ou seja, se no século XVII a história das
universidades estrangeiras baseavam em relações diretas com o Estado e Igreja, como, por exemplo, na
formação de sujeitos para servir a essas duas instâncias. O mesmo ocorreu na Universidade de Coimbra. Da
mesma forma, no século XVIII, ocorreram diversas reformas nas universidades da Europa Ocidental com a
finalidade de modernizar o ensino oferecido. O estudo lusitano também sofreu diversas reformas de cunho
legal, estrutural e pedagógico que tinham por objetivo sintonizar o ensino oferecido pela Universidade com o
movimento científico e filosófico do período.
Referências
1 FRANÇA, Eduardo d’ Oliveira. Portugal na época da Restauração. São Paulo: Hucitec, 1997.
2 POMER, Lenon. O surgimento das nações. Tradução de Mirna Pinsk. 7. ed. rev. atual. São Paulo: Atual,
1994.
3 HANSON, Carl A. Economia e sociedade no Portugal barroco (1668-1703). Tradução de Maria Helena
Garcia. 1.ed. Rio de Janeiro: D. Quixote, 1986.
4 OLIVEIRA, A. H de Marques. História de Portugal das origens as revoluções liberais. Lisboa: Palas
Editores, 1974. v.1.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
5 ROSSATO, Ricardo. Universidade nove séculos de história. 2. ed. rev. ampl. Passo Fundo: UPF, 2005.
6 CHARLES, Chistophe; VERGER, Jacques. História das universidades. São Paulo: Ed. da Unesp, 1996.
7 ALMEIDA, Mario Lopes; BRANDÃO, Mario. A universidade de Coimbra: esboço de sua historia.
Coimbra: Oficinas Gráficas Atlânticas, 1937.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Pensar o urbano no Brasil tem significado privilegiar as temáticas da cidade e suas periferias urbanas mais
imediatas. Contudo, parcela expressiva da população brasileira ainda vive dispersa em áreas rurais e
comunidades distritais em municípios de pequeno porte e médio porte, afastadas da sede do poder municipal.
O forte desejo emancipatório presente em muitas dessas comunidades indica uma deficiente oferta de
serviços públicos e um suposto déficit de “capital político”(1) (BOURDIEU, 1989). O Estado do Paraná têm
gestado políticas públicas para comunidades tradicionais e trabalhadores rurais, mas os distritos carecem de
uma maior presença das esferas administrativas. Segundo a Constituição Brasileira(2) as esferas com poder
político-administrativo competem a Federal, Estadual e Municipal (Brasil, 1989). Portanto, os distritos são
territórios em que se subdividem os municípios e que pertence a uma gestão político-administrativa
municipal. Na pesquisa busca-se estipular uma relação de infra-estrutura a partir de densidade demográfica,
questionando a noção de distância como principal fator na baixa disponibilidade de infra-estrutura.
2. Método
Na pesquisa buscou-se a caracterização da infra-estrutura das comunidades urbanas e rurais distantes das
sedes dos municípios dos Campos Gerais a partir da base de dados do Censo IBGE (2000). Foram análisadas
as seguintes variáveis socioeconomicas: Número de moradores por domicílio, abastecimento de água, tipo de
esgoto sanitário e destino do lixo coletado. Após a fase de gabinete foi realizado a ida campo para a
constatação dos anseios das comunidades distritais e uma verificação da atual tipologia do quadro das
políticas geridas. A delimitação dos Campos Gerais segue a base do recorte territorial adotado pelo Degeo
(UEPG), amparado nos seguintes critérios: a) presença de campos naturais; b) identidade histórica do
tropeirismo; c) influência da UEPG.
3. Resultados e discussão
A distância das comunidades distritais de suas sedes municipais, não caracteriza a principal dificuldade no
desenvolvimento de infra-estruturas. Segundo Santos(3) “os transportes se difundiram e à criação de grandes
autopistas se soma, nessas regiões mais desenvolvidas, uma criação tão grande ou maior de estradas vicinais;
desse modo, a circulação se torna fácil e o território fluído”. Portanto, os distritos estão interligados a rede de
transportes dos Campos Gerais do Paraná. A noção de distância caberia a distritos pertencentes a Região
Norte do Brasil (não constitui uma rede e ocupação integradas). O processo de desenvolvimento estrutural e
econômico passa pelos mercados “desde os centros cosmopolitas até as aldeias perdidas na floresta, os
mercados são o centro da vida”(4) (Santos, 1979). A análise e interpretação dos dados censitários revelaram
disparidades entre os distritos e as sedes municipais, sendo menor a disponibilidade de infra-estrutura nas
comunidades distriais urbanas e rurais, pricipalmente onde a concentração demográfica era menor.
Com o levantamento dos dados censitários foram verificadas algumas disparidades de infra-estrutura entre os
distritos e suas respectivas sedes municipais. Na variável números de moradores por domicílio a maioria dos
domicílios dos distritos da região vivem até seis moradores (nesse grupo estariam cerca de 90% dos
domicílios). Esse índice diminui para 70% quando se considera os domicílios com até quatro moradores. Foi
possível notar uma maior variabilidade nas áreas distritais urbanas em comparação com as rurais, com média
de 72,8% no meio urbano e 68,3% no meio rural. quando considerado os domicílios com quatro moradores.
Para o abastecimento de água predominou nas áreas distritais urbanas uma melhor infra-estrutura de
abastecimento de água em comparação com as áreas distritais rurais (onde se destaca o uso de
poços/nascentes). Apenas quatro áreas distritais rurais dos campos gerais possuem mais de 30% dos
domicílios ligados à rede geral, o que demonstra a precariedade do serviço nas áreas distritais rurais.
Entretanto, vinte e duas áreas distritais urbanas tem 70% de seus domicílios ligados á rede geral.
O tipo de esgoto sanitário constituindo-se na pior variável analisada nesta pesquisa. Nas áreas distritais
urbanas e rurais os domicílios ligados à rede geral de esgoto apresentam índices baixos ou nulos. Dos 28
distritos analisados, 25 apresentaram índices de 0% a 2,8% de domicílios (urbano/rural) ligados à rede geral
de esgoto. Houve casos de moradias sem forma alguma de banheiro sanitário, a maioria localizada em áreas
distritais rurais. No geral, destaca-se o uso de fossas rudimentares e fossas sépticas.
A coleta do lixo esteve presente na metade das áreas distritais urbanas, com mais de 70% dos domicílios
atendidos. A outra metade das áreas distritais urbanas depende da queima e enterro do lixo na própria
propriedade. Já as áreas distritais rurais apresentam índices mínimos do serviço, onde o descarte do lixo é
realizado através da queima e enterro do lixo na própria propriedade.
A média das variáveis esta disposta e comparada à disponibilidade de infra-estrutura as sedes urbanas dos
municípios. A coleta de lixo não chega a 50% e rede de água a 70% nas áreas urbanas distritais, o tratamento
de esgoto encontra-se abaixo de 5%. As áreas distritais rurais obtiveram índices muito inferiores comparados
as escalas urbanas distritais e urbanas municipais. O contexto histórico de ocupação da região dos Campos
Gerais paranaenses é um fator que corrobora para o entendimento desta diferença entre comunidades
distritais e suas sedes municipais. Analogicamente a base da “estrutura fundiária do Paraná Tradicional
baseia-se no sistema latifúndio-minifúndio”(5) (Cunha, 2003). A presença latifundiária dificulta o
desenvolvimento dos pequenos agricultores que vivem na circunvizinhas “precisando vender sua força de
trabalho aos latifundiários”(5) (Cunha, 2003), é o que acontece com a comunidade distrital urbana de Guaragi
(distrito de Ponta Grossa). Num período de seis meses ao ano a maioria da população trabalha na colheita da
batata em grandes fazendas na área do distrito de Guaragi. No restante do tempo desenvolvem outras
atividades para sua sobrevivência, ou seja, a atividade do latifúndio rege a principal fonte de renda da
comunidade (comunidade subalterna).
4. Conclusão
A oferta de serviços públicos básicos é inferior nas comunidades distritais dos campos gerais em relação as
suas sedes municipais. Esta diferença pode ser explicada pela baixa concentração demográfica e pela
dificuldade de mobilização de capital político, onde a força de atração que as densidades demográficas e
técnicas exercem, não é suficiente para efetuar por si só uma melhoria na infra-estrutura. Mediante a esta
tipologia, fica evidente a demanda por infra-estrutura e uma atuação de aproximação das esferas
administrativas na ação por políticas públicas que venham a melhorar as condições estruturais da
comunidade dos distritos. Como ressalva fica a constatação da ida a campo, que revelou estarem “assentado”
os distritos, numa base de ocupação histórica que atribui características de monopolização do território. Dado
que a área de estudo em questão tem municípios com grande espaço territorial, onde existem extensas
propriedades agrícolas.
Referências bibliográficas
(1)
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa, Rio de Janeiro: Difel, Bertrand Brasil, 1989.
(2)
BRASIL, Constituição da República Federativa do. São Paulo: Editora Ática, 1989.
(3)
SANTOS, M. Materiais para o estudo da urbanização brasileira no período técnico-científico. In: Boletim
Paulista de Geografia, n. 67, 1989, pp. 5-16.
(4)
SANTOS, Milton. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1979.
(5)
CUNHA, L.A.G. Desenvolvimento rural e desenvolvimento territorial: o caso do Paraná Tradicional.
Tese de Doutorado. CPDA/UFRRJ, Seropédica, 2003.
Agradecimentos
A UEPG, a Fundação Araucária pela bolsa de iniciação científica e ao meu orientador Edu Silvestre de
Albuquerque.
1. Introdução
A proposta deste artigo é analisar a migração em direção ao município de Joinville, principalmente a
partir da década de 1970 – período em que ocorreu o grande crescimento industrial do município –, além de
fazer uma relação entre a industrialização, a migração e o desenvolvimento urbano do município. A questão
que pretendemos discutir é: quais os impactos da migração no processo de urbanização e desenvolvimento
industrial da cidade? Para tanto, situaremos brevemente a importância do processo de colonização para a
constituição da cidade e de seu caráter de cidade industrial e analisaremos o impacto das recentes
migrações no seu processo de urbanização.
Neste artigo, as migrações em direção a Joinville são analisadas em dois momentos históricos. O
primeiro, com a fundação e colonização do município, que proporcionou sua industrialização, foi marcado
por um movimento de migração internacional, constituído de imigrantes europeus que vieram ocupar a
região. O segundo ocorreu a partir do crescimento industrial da década de 1970, período caracterizado pela
intensa mobilidade da população brasileira, movimento constituído por migrantes internos que viviam no
campo e partiram rumo à cidade.
Com a colonização de Joinville, década de 1850, a oportunidade de trabalhar em sua própria terra
atraiu a mão-de-obra imigrante vinda da Europa. Centenas de pessoas acabaram se instalando em Joinville
com a intenção de transformá-la na maior colônia agrícola da América do Sul [5]. Como o resultado não foi
o esperado, pois o terreno pantanoso era impróprio para o cultivo de qualquer produto, as pessoas que
permaneceram nessas terras acabaram buscando novas alternativas para a sobrevivência no local. Neste
momento, final do século XIX, foram fundadas as primeiras manufaturas, mais tarde, algumas delas, se
tornariam grandes indústrias [3].
Com o passar das décadas e com o fortalecimento dessas e de novas indústrias que surgiram, a
economia do município passou a sustentar-se na produção industrial. Na década de 1970, com o
crescimento industrial do período do “milagre brasileiro” e com um parque fabril já formado e
diversificado, o município começa a atrair mão-de-obra de outros municípios de Santa Catarina e também
de fora do estado, principalmente do estado do Paraná. Nesse momento, Joinville emerge como um pólo de
atração desses migrantes.
Nos anos 1970 e no início da década de 1980, havia a falta de empregados para trabalhar nas linhas
de produção das indústrias joinvilenses. Mesmo com a mão-de-obra migrante vinda de outros municípios
da região, havia um grande déficit de trabalhadores. Essa necessidade de mão-de-obra conduziu algumas
indústrias a incentivar a vinda de trabalhadores de outros locais, principalmente no interior do estado do
Paraná, através de incentivos que atraíam os migrantes. Havia uma divulgação em rádios de alguns
municípios ofertando emprego em Joinville e transporte até o município. Ônibus contratados pelas
indústrias transportavam os migrantes até Joinville [4].
A chegada desses novos migrantes ao município acabou causando problemas de infra-estrutura
urbana como a falta de moradias. Uma parte das pessoas que chegava à cidade não tinha onde morar, então,
a “solução” encontrada para estas famílias foi ocupar uma área de mangue que ficava na zona Leste do
município, próximo à empresa que idealizou a busca de trabalhadores no estado do Paraná. Essa ocupação
foi, em alguns casos, apoiada pelo poder público na época, entre eles vereadores que, em troca de
transferência do título de eleitor para Joinville e de voto, “autorizaram” a construção no local, em alguns
casos doando material para a construção das casas [2]. Mais tarde, já na segunda metade da década de
1980, esse local acabou sendo urbanizado pela prefeitura com argumento de que a urbanização impediria
novas invasões [1].
2. Método
Para este conclusão deste artigo, faz-se necessário, então, um estudo do processo de migração, através
da colonização, e, conseqüente, industrialização do município de Joinville. Para isso, serão analisadas
bibliografias – livros, periódicos locais e dados disponibilizados pela prefeitura municipal e pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Como se pretende trazer as trajetórias dos migrantes, e são
1
* Marco Aurelio Dias: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
poucas as bibliografias disponíveis que relatam suas vidas desde seu município de origem até a chegada em
Joinville, foram realizadas entrevistas com alguns migrantes que chegaram ao município a partir de seu
crescimento industrial na década de 1970.
3. Resultados e Discussão
Os dados analisados até o momento indicam que: os ciclos migratórios em direção a Joinville
possibilitaram o seu povoamento, a sua industrialização e seu crescimento econômico. Mas também indicam
que houve falta de um planejamento integrado, entre as indústrias e a prefeitura, que beneficiasse a
população de baixa renda com moradias ou alugueis mais acessíveis às condições de cada família migrante.
Foi observado também que a falta de uma política pública habitacional em todo o país permitiu, e continua
permitindo, a instalação de residências e a urbanização de áreas de risco ou de preservação ambiental. São
tragédias anunciadas que poderiam e podem ser evitadas com um programa habitacional adequado para cada
família de acordo com suas rendas.
4. Conclusão
A partir dos dados coletados e entrevistas realizadas, procuraremos demonstrar o percurso dos
migrantes, seu processo de inserção na cidade, enfocando o acesso ao trabalho e moradia, buscando
identificar como chegaram a morar nessas localidades, quais suas reivindicações e como percebem os
espaços onde vivem atualmente.
5. Referências Bibliográficas
1. FIGUEIREDO, Ruben; LAMOUNIER, Bolívar. As Cidades que dão certo: experiências inovadoras na
administração pública brasileira. Brasília: MH Comunicação, 1996.
2. FISCHER, Gert Roland. Mangues - Conseguiremos Salvá-los? Joinville: Gráfica Manchester, 1983.
3. MAMIGONIAN, Armen. Atlas de Santa Catarina. Rio de Janeiro: Aerofoto Cruzeiro, 1986.
4. ROCHA, Isa de Oliveira. Industrialização de Joinville-SC: da gênese às exportações. Florianópolis:
UFSC, 1997.
5. TERNES, Apolinário. História econômica de Joinville. Joinville: Meyer, 1986.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O desafio de Ensinar Ciências e Matemática aos alunos da EJA – Educação de Jovens e Adultos -
perpassa pelas dificuldades oriundas dos longos anos de afastamento dos bancos escolares. O não hábito de
leitura e da escrita contrapõe-se à experiência de vida marcada pelas responsabilidades do trabalho e da
família. No entanto, a experiência adquirida ao longo da vida propicia a construção, por esses jovens e
adultos, de modelos que explicam os fenômenos da natureza com a presença bastante forte do intuitivo, do
não científico, do não escolar. Ao contrário do que possa parecer, o conflito entre o intuitivo e o a acadêmico
nem sempre se apresenta como um obstáculo para a aprendizagem, uma vez que tais concepções pode se
tornar um ponto de partida das discussões em sala de aula, numa expectativa de (re)construção de conceitos
e modelos aceitáveis pela academia. Esse caráter de informalidade e de intuitivo na explicação dos
fenômenos naturais, em turmas de EJA, também é verificado no Ensino de matemática. As facilidades
encontradas no cotidiano pelos alunos na execução das operações matemáticas geralmente não se refletem no
ambiente escolar; o formalismo matemático e as diferentes formas de representação dos objetos matemáticos
parecem distantes ou desconhecidos para a maioria dos alunos.
Numa tentativa de encontrar alternativas para o ensino e aprendizagem na EJA, professores do
CEFETSC (atual IF-SC – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina) optaram
por uma prática pedagógica diferenciada na EJA, adotando um trabalho interdisciplinar entre física e
matemática. Tal procedimento permitiu que os professores atuassem concomitantemente em sala de aula,
tendo como elemento articulador a atividade experimental.
Neste cenário lançou-se a possibilidade do trabalho interdisciplinar entre Física e Matemática em
turmas de EJA, numa ótica de vivências experimentais, que pudessem conduzir a efetiva discussão e
aplicação de conceitos de Física e a utilização das diferentes formas de representações dos objetos
Matemáticos.
Essa possibilidade de interdisciplinaridade visou atender às expectativas de alunos do PROEJA1, que
em sua maioria são adultos com idade mínima de vinte e um anos; grande parte deles trabalhadores de tempo
integral, com família constituída que vêem no PROEJA uma chance de completar o Ensino Médio e
conquistar uma formação profissional técnica de nível médio, melhorando assim, suas condições de
empregabilidade. Outra parcela dos alunos se constitui de donas de casa que interromperam seus estudos a
fim de se dedicarem aos filhos, maridos e lar e agora, com a prole já encaminhada, voltam aos bancos
escolares para se atualizarem, ou por uma questão de satisfação pessoal.
O objetivo deste artigo, portanto, é descrever parte da pesquisa realizada pelos autores deste trabalho,
ocorrida durante o segundo semestre letivo de 2006 no CEFETSC – Unidade Florianópolis, em uma turma
de PROEJA do Módulo I. O trabalho completo pode ser encontrado na monografia intitulada “Possibilidades
Interdisciplinares de Física e Matemática com o uso da Prática Experimental em turmas do
PROEJA/CEFETSC” e pode ser pesquisada em (Queiroz e Ramos, 2007).
2. Método
Os longos anos afastados da vida acadêmica apresentam-se como barreira inicial a ser vencida, os
modelos concebidos intuitivamente, durante anos, as formas de leitura e de escrita, muitas vezes são
conflitantes com o que é entendido como conhecimento escolar. Neste cenário, surge a questão: Como
podemos contribuir, minimamente, para que o ensino de Ciências e Matemática possa ocorrer de forma
*
Autor Correspondente:[email protected]
1
Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de
Jovens e Adultos – abrange cursos que, como o próprio nome diz, proporcionam formação profissional com
escolarização para jovens e adultos. Foi instituído via Decreto nº 5.478, de junho de 2005, e revogado pelo Decreto nº
5.840, de 13 de julho de 2006.
253
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
menos impactante na EJA? Entre as alternativas optou-se por uma prática interdisciplinar de Física e
Matemática tendo como elemento motivador a prática experimental numa perspectiva de re-construção dos
conceitos de Física e da compreensão dos diferentes registros de repreentações dos objetos matemáticos.
Neste contexto é importante destacar a não imposição dos experimentos, como algo fixo dentro da
discussão do conteúdo acadêmico, mas sim algo que surgisse como instrumento motivador de re-construção
de conceitos e de linguagem, de representações, de significados. Assim, os experimentos surgem das
discussões de sala de aula, contextualizados, fazendo parte do todo.
Assim, durante as atividades experimentais, buscou-se propiciar aos estudantes o manuseio de
instrumentos de medidas, a percepção das dimensões de algumas unidades de medidas, a organização dos
dados e o contato com as diferentes formas de representações e suas interpretações.
Na tentativa de estabelecer parâmetros que permitissem verificar as contribuições da prática
experimental e do diálogo ocorrido durante todo o processo, foram realizadas comparações dos conceitos que
os alunos possuíam antes e após cada experimento.
Os experimentos foram realizados nos laboratórios de Física e Química ou nos corredores do CEFET-
SC, procurando-se seguir um caminho flexível, mas tendo como referencial: planejamento da atividade pelos
professores, execução das atividades experimentais com os alunos, coleta e organização dos dados, leitura de
textos contendo a fundamentação teórica do assunto que estava sendo estudado e a representação das
relações entre as grandezas nos diferentes registros matemáticos. Além disso, os alunos prepararam e
socializaram suas produções com os colegas e professores produzindo um material contendo título, objetivos,
hipóteses, descrição do aparato experimental, o gráfico da função gerada por meio do experimento
juntamente com as considerações finais e conclusões.
O fato dos alunos terem como uma das atividades escreverem seus conceitos antes e depois de cada
experimento, bem como socializar suas conclusões com os demais colegas, facilitou a avaliação dos mesmos
por parte dos professores, já que se pôde realizar uma avaliação mais global dos alunos, verificando aspectos
como: iniciativa, participação, capacidade de se expressar escrita e oralmente, facilidade de trabalhar em
grupo, capacidade de síntese, entre outros.
Resultados e Discussão
A compreensão das características dos estados em que se apresenta a matéria e as suas relações entre
dois fatores relevantes, temperatura e pressão, têm sido apresentadas nas discussões iniciais das nossas aulas
interdisciplinares de Física e Matemática. Embora esse tema seja discutido no ensino fundamental, a sua
inclusão no Ensino Médio da EJA objetiva, principalmente, a construção de um vocabulário e de uma
linguagem básica e científica entre professores e alunos. Assim, parece-nos rico e propício nas aulas iniciais
da EJA/PROEJA, a apresentação, discussão e diferenciação de conceitos como matéria, corpo, substância,
sólido, líquido, gasoso, massa, peso, molécula e átomo.
A experiência docente na EJA tem nos mostrado claramente, e de forma interessante, o conflito
explícito entre o científico e o empírico, este último apresentado na ótica do aluno.
Sobre esses conflitos destaca-se a contribuição de Driver (1999, p. 36)
“... alunos, do mesmo modo que cientistas trazem para as aulas de ciências
algumas idéias ou crenças já formuladas. Estas crenças afetam as observações que
eles fazem, bem como as inferências daí derivadas. Alunos, do mesmo modo que
cientistas constroem uma visão do mundo que os capacita a lidarem com
situações. Transformar esta visão não é tão simples, quanto fornecer aos alunos
experiências adicionais ou dados sensoriais. Envolve também ajudá-los a
reconstruir suas teorias ou crenças, a experimentar, por assim dizer, as evoluções
paradigmáticas que ocorreram na história da ciência”.
É sob a luz desse conflito que emergiram alguns questionamentos, quase que espontâneos, no
ambiente de sala de aula, levando à elaboração de um problema que geralmente não está respondido de
forma explícita nos livros didáticos.
Assim, ao se discutir sobre as mudanças de estado físico da matéria uma das perguntas relevantes que
normalmente se faz presente é: “Qual o comportamento da temperatura em função do tempo quando
uma determinada massa de água é aquecida?”
Desse questionamento destacam-se palavras como: comportamento, temperatura, função, massa; as
quais foram amplamente discutidas e construídas conceitualmente em sala de aula. Tais discussões, por sua
vez, levaram às novas indagações tornando o processo dinâmico, permitindo assim, um diálogo enriquecedor
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
entre os interlocutores a respeito do objeto de estudo, do conhecimento e do que ainda estava por se
descobrir.
Questionamento 1: O que ocorre com a temperatura d’água no decorrer do tempo? (antes do experimento)
Questionamento 2: O que acontece com a temperatura em função do tempo quando se coloca um
recipiente com água sobre uma chama? (depois do experimento).
Um interessante debate fica por conta das comparações entre as explicações apresentadas pelos alunos,
antes e após o experimento. A organização dessas informações está explicitada na tabela 1.
Ocorre que a temperatura da água vai subir, e Conforme o tempo, a água começa a ferver e até entrar
a água vai evaporar. em ebulição.
A temperatura sobe aos poucos até chegar a Com o decorrer do tempo a água vai evaporar.
100oC.
À medida que o tempo passa a temperatura aumenta, até
que a água alcança seu estado de ebulição com que a
temperatura permaneça contínua.
Tab 1: Respostas de alguns alunos em relação aos questionamentos 1 e 2
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
Foi objeto de investigação deste trabalho o uso da prática experimental nas aulas interdisciplinares de
Física e Matemática numa turma de Proeja, assim como a análise das questões que emergiram dos estudantes
durante os diálogos em que professores e alunos se propuseram a expor suas concepções sobre alguns
fenômenos que ocorrem na natureza.
Verificou-se que a prática experimental propiciou que emergissem diálogos que perpassaram as
diversas áreas do conhecimento, sobretudo entre Física e Matemática. Esses diálogos, geralmente
estruturados nas relações entre questionamento, atividade experimental, coleta e tratamento de dados,
possibilitaram a construção dos conceitos a partir da experiência cotidiana dos alunos, bem como o
entendimento e a discussão das formas de registros matemáticos. Além disso, possibilitou que os alunos
tivessem uma visão integrada da matemática, reconhecendo, entre outras possibilidades, sua utilidade para
resolver problemas do cotidiano.
Esta forma de trabalho colocou a disposição dos alunos um conjunto de recursos que lhes permitiu
entender de forma mais ampla a aplicabilidade dos conceitos e processos matemáticos, realçando o aspecto
formativo da matemática estimulando, dessa maneira, o interesse pelo seu descobrimento.
Esse aspecto de reconhecimento, valorização e utilização da matemática escolar é de fundamental
importância já que uma das dificuldades na aprendizagem em matemática nos parece ser o estranhamento da
mesma, ou seja, a não compreensão e utilidade dos conceitos, quando estes são apresentados fora de um
contexto familiar ao aluno.
Portanto, enquanto educadores, nos compete, como que garimpeiros em um rio, buscar alternativas
que possam conciliar num mesmo espaço e tempo o saber intuitivo e o escolar, o empírico e o científico, a
informalidade da matemática utilizada nas tarefas cotidianas e a ensinada na escola. A investigação aqui
apresentada nos deu indícios de que a atividade experimental juntamente com os diálogos que emergiram
antes e depois dela se mostraram bastante eficientes no ensino de física e matemática quando se está
trabalhando nesta Modalidade de Ensino.
Referências
DRIVER, R. et al.. Construindo conhecimento científico em sala de aula. Química Nova na Escola. São
Paulo: n.9, p.31 - 40, 1999.
QUEIROZ, C. A.; RAMOS, E. E. L. Possibilidades Interdisciplinares de Física e Matemática com o uso
da Prática Experimental em turmas do PROEJA. Florianópolis, 2007. Monografia - (Especialização em
PROEJA) - Centro Federal de Educação Tecnológica de Santa Catarina .
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
John Dewey (1859-1952) foi um importante filósofo norte-americano que, por meio de suas ideias,
exerceu uma grande influência sobre a atual concepção pedagógica de educação que se estrutura em nossa
sociedade, embora isto tenha sido mais contundente nos movimentos educacionais ocorridos na primeira
metade do século passado. Este teórico, tentando intervir na sociedade de uma forma mais produtiva, buscou
trazer os problemas práticos da vida para a reflexão filosófica. Desta forma, além de suas reflexões
abarcarem o campo da educação, sua obra contribuiu na sistematização do Pragmatismo Clássico, o qual por
sua vez cooperou com o desenvolvimento do movimento escolanovista realizado principalmente nos anos
30. Tendo em vista estas considerações, a partir das discussões realizadas no grupo de pesquisa “Positivismo
e pragmatismo e suas relações com a educação”, e dos estudos realizados até então no projeto de pesquisa
“Estudo do contexto filosófico-educacional pragmatista e positivista do início do século XX nas obras dos
seus principais representantes: interrelações, influências e implicações no pensamento brasileiro”,
decidimos estudar as concepções fundamentais do pensamento pragmatista de John Dewey, com base em
seus próprios escritos, tendo como foco o conceito de educação.
2. Método
O presente trabalho pode ser formulado a partir de uma revisão bibliográfica que ocorreu por meio de
leituras sistemáticas sobre o livro do próprio autor, “Democracia e Educação”, o qual foi traduzido por um
dos seus discípulos mais importantes, Anísio Teixeira (1900-1971), e por Godofredo Rangel. Para a
realização da pesquisa e a estruturação do texto, simultaneamente à realização das leituras, realizávamos
fichamentos, anotações e discussões, de forma que ao final pudemos elaborar uma análise final sobre todo o
conteúdo estudado. Como subsídio complementar, utilizamos outras fontes de leitura secundária, priorizando
alguns autores selecionados que nos informaram acerca das idéias deweyanas e também acerca da Escola
Nova, como o livro de Fátima Cunha intitulado “Filosofia da Escola Nova: do Ato Político ao Ato
Pedagógico” e o livro “Fundamentos Filosóficos da Educação” do Howard A. Ozmon e Samuel M. Craver.
3. Resultados e Discussão
A princípio, Dewey, em seu livro, “Democracia e Educação”, nos explica que a seu ver, a educação
se constitui literalmente como vida, e que, por consequência, elas - a vida e a educação - formam uma coisa
só. Ele nos explica que a vida está sempre se auto-renovando e também que isto ocorre por meio de
determinadas ações dos indivíduos sobre o meio ambiente sendo possível, desta forma, que esta auto-
renovação da vida somente seja viável à medida que a experiência é vivida, repassada e continuada, tanto nos
aspectos físicos, quanto nos aspectos sociais da educação. É esta experiência vivida pelos indivíduos em uma
sociedade que dará um sentido significativo à existência da escola, tendo em vista que esta instituição, por
meio de seu papel de transmitir as experiências, se constitui num instrumento eficaz no processo de
manutenção do estilo de vida característico de uma determinada comunidade.
Todavia, continuando sua reflexão, Dewey nos explica que tendo em vista que o futuro é incerto, a
vida, da mesma forma, se constitui em constante mudança. Desta maneira, devemos sempre estarmos
buscando transformar as condições presentes nas mais significativas, o quanto conseguirmos, pois o
ambiente e o meio também fornecem condições necessárias para que determinadas ações e atividades sejam
estimuladas a se desenvolverem ou sejam inibidas. Por esta lógica, há a necessidade de os adultos
construírem espaços inteligentes para interferirem no meio em que os jovens imaturos pensam, sentem e
agem, a fim de obtermos uma melhor qualidade na educação destes. Para Dewey, os jovens devem ser
ensinados que, antes de agirem deverão levar em consideração as opiniões e as atividades das outras pessoas
ao seu redor. Assim, ao construir espaços inteligentes, a escola deverá procurar, o quanto for possível,
eliminar todos os aspectos ruins presentes no ambiente, para que estes aspectos não influenciem o
desenvolvimento de seus alunos. A escola deverá também buscar ampliar a esfera de contatos sociais entre
os alunos, a fim de superar suas limitações culturais, pois, considerando que haja a convivência de diferentes
grupos sociais em uma sociedade e que a educação de cada indivíduo varia em consonância com os estilos de
vida dos grupos sociais, as ações verdadeiramente educativas serão maneiras de aperfeiçoar
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
progressivamente a sociedade. Segundo Dewey, entre as funções da educação, podemos notar que ela
desempenha um papel especial pela sua função de direcionar, de controlar e de guiar, uma vez que por meio
de uma constante direção, que acontece de forma simultânea e sucessiva – haverá coordenação em
consequência de uma explícita focalização de um objetivo. Pois, ao guiar o indivíduo ao alvo, a educação
estará mantendo o equilíbrio para as ações posteriores. Entretanto, considerando que, por meio das normas e
dos costumes estabelecidos em um grupo social, que se constituem como estímulos, os indivíduos acabam
sendo influenciados na direcionalização das atividades dos jovens mais novos, diante disso, nosso filósofo
deixa claro que se faz necessário diferenciar-se na educação os resultados físicos e os resultados educativos,
para que cada um reflita consciente e inteligentemente sobre seus atos, tendo em vista os resultados e as
possíveis consequências sobre suas ações.
Numa comunidade social, as coisas serão significativas a partir de sua utilização em atividades
conjuntas, visto que assim será uma maneira de compartilhar os valores mentais estabelecidos. Segundo esta
lógica e considerando que pela concepção do autor, um dos maiores objetivos da educação deve ser o
aperfeiçoamento da sociedade, esta educação deve ser refletida e planejada com cuidado, pois o futuro da
sociedade dependerá de como as crianças são educadas. Dewey também nos explica que a dependência e a
interdependência sempre andam juntas, visto que a dependência subentende a interdependência. Por este
motivo, ele critica o costume que, nós adultos, temos em prestar mais “[...] atenção naquilo que a criança não
tem, e que não terá enquanto não se tornar um homem” [2], visto que o autor define positivamente o
significado de “imaturidade” como uma capacidade e como uma aptidão de desenvolvimento. Quanto a este
processo educacional de crescimento, o autor nos explica que a plasticidade constitui-se numa aptidão
especial em que as pessoas manifestam sua capacidade para “[...] poder modificar seus atos tendo em vista os
resultados anteriores [...]” [3], de forma a aperfeiçoarem sucessivamente suas práticas por meio do
desenvolvimento progressivo de atitudes mentais.
No âmbito curricular, Dewey nos explica que a escolhas das matérias devem ser feitas tendo como
foco o desenvolvimento das aptidões naturais de cada educando e, por consequência, a produção de
resultados úteis para a sociedade. O educador deverá possibilitar que o educando, no processo educacional,
consiga adquirir os hábitos que são indispensáveis para a sua sobrevivência na sociedade, mais
especificamente no ambiente que está inserido. Segundo nosso filósofo, tendo em vista que o processo
educativo está consecutivamente se reorganizando, se reconstruindo e se transformando em conformidade
com o passar dos anos, podemos concluir que o crescimento nunca terá limites. Em suas próprias palavras
Dewey diz que “Quando se diz que educação é desenvolvimento, tudo depende do como se concebe êste
desenvolvimento. Nossa conclusão essencial é que vida é desenvolvimento e que o desenvolver-se, o crescer
é a vida” [4].
Uma das grandes funções da educação é estar constantemente reedificando e reorganizando a
experiência, de forma a tentar reduzir os esforços do passado ao máximo possível, com o fito de tornar a
sociedade futura a mais perfeita o quanto pudermos: “O problema consiste em extrair os traços desejáveis
das formas de vida social existentes e empregá-los para criticar os traços indesejáveis e sugerir melhorias”
[5]. Todavia, nas concepções do autor, a perfeição social está relacionada às práticas democráticas, e, sendo
assim, a instauração de um governo democrático, será um dos requisitos essenciais para que a sociedade
progrida, tendo em vista que, a democracia, concebida como um modo de vida, estará possibilitando o mútuo
e pleno intercâmbio de experiências entre os distintos grupos sociais que convivem juntamente na sociedade.
4. Conclusão
A concepção de Dewey sobre educação, que é contrária aos dualismos, permite-nos entender o
ensino associado à moral, no sentido de que jamais se ensina apenas os conteúdos, mas que estes, se bem
aprendidos, se revelam na conduta do aprendente de modo que haja continuidade de sua aprendizagem na
ambientação social através dos seus atos. Nota-se assim que Dewey proclama ações de cada um amparado
numa visão democrática de sociedade, uma vez que é na escola que se vivencia a democracia e se forma
seres verdadeiramente democráticos. Considerando que a educação é vida, e que, a vida está em meio às
constantes mudanças, Dewey nos adverte que a educação em si não deve ter nenhum objetivo, visto que os
objetivos são variados e mutáveis, e, por este motivo, quem os tem são as pessoas. Assim, os objetivos
pessoais, por mais válidos que sejam, não devem ser apresentados como objetivos da educação, mas sim
como sugestões, pois, ao contrário, eles podem se tornar mais prejudiciais do que benéficos – como por
exemplo “[...] preparar tal classe para estudar medicina [...]” [6]. É por este motivo que a educação sempre
varia de acordo com os tipos diversos de estilos de vida que são adotados no grupo social. Os objetivos
educacionais devem ser elaborados a partir das necessidades próprias dos educandos, sejam elas inatas ou
adquiridas, cooperando simultaneamente com suas práticas e atividades cotidianas, a fim de expandir e
organizar suas aptidões. Em suma, a educação se processa por meio de uma constante reconstrução e
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
reorganização da experiência, a qual terá seu sentido elucidado e acrescido, proporcionando então, por
consequência, o aprimoramento da aptidão, para que o indivíduo consiga conduzir o processo contínuo e
subsequente das suas próximas experiências. Desta forma, a experiência só pode ser enriquecida por meio da
compreensão das conexões e das continuidades existentes naquilo que está sendo empreendido, as quais não
eram percebidas anteriormente – por meio do aprendizado. A democracia deve se manifestar por meio de
uma mútua retribuição social, na qual seja possível proporcionar a todos os integrantes da comunidade o
desenvolvimento das suas respectivas aptidões naturais. Sendo assim, uma das importantes tarefas da
educação consiste em ensinar o verdadeiro significado da concepção de eficiência social, correlacionando-a
ao desenvolvimento da consciência acerca da necessidade de se prestar serviços a outras pessoas, de forma a
utilizar as habilidades naturais de uma maneira socialmente útil, bem como, com a intencionalidade de
enriquecer a experiência pessoal de cada um.
Referências
[1] CUNHA, F. Filosofia da Escola Nova: do Ato Político ao Ato Pedagógico. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro; Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1986.
[2] DEWEY, J. Democracia e Educação. Trad. Godofredo Rangel; Anísio Teixeira. 3. ed. São Paulo:
Companhia Editora Nacional. 1959, pp. 44-45.
[3] Ibidem, p. 47.
[4] Ibidem, p. 53.
[5] Ibidem, p. 89.
[6] Ibidem, p. 116.
[7] OZMON, H. A.; CRAVER, S. M. Fundamentos Filosóficos da Educação. Trad. Ronaldo Cataldo
Costa. Porto Alegre: Artmed, 2004.
Agradecimentos
Agradeço à minha orientadora por me conceder a oportunidade de estar crescendo e me desenvolvendo no
meio acadêmico, e por toda a força e apoio que ela me oferece. Agradeço também à minha família pela
compreensão, pelo apoio e pela paciência para comigo. E agradeço a Deus pela direcionalização e pela força
que Ele me provê.
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Rosa Venice Curti Crozatto1; Leslie Felismino Barbosa2; Lucinéa Aparecida De Rezende3
1
Universidade Estadual de Londrina
2
Universidade Estadual de Londrina
3
Universidade Estadual de Londrina
Resumo: O presente artigo apresenta discussões sobre o processo de leitura crítica e interativa nas
séries/anos do Ensino Fundamental. Investiga o processo de apreensão da leitura sob a abordagem tradicional
e socointeracionista, destaca aspectos conceituais que podem contribuir para a formação de leitores. Tem
como objetivo provocar no professor um olhar crítico reflexivo acerca das ações didáticos pedagógicas,
desenvolvidas em sala de aula. Refere-se a uma pesquisa bibliográfica, a luz dos estudos de Emília Ferreiro,
Ana Teberosky e Paulo Freire.
1. Introdução
O aprendizado da leitura pelos alunos das séries/anos do Ensino Fundamental tem sido alvo de
discussões permanentes entre estudiosos da educação. Isso porque a não apropriação da leitura, muitas vezes,
resulta em reprovação e ou evasão, nesta fase de escolarização.
Esse fracasso escolar pode estar relacionado à forma como as escolas concebem o ensino da leitura
dos textos trabalhados na alfabetização. Levando os alunos à decodificação de símbolos linguísticos de
forma mecânica e repetitiva, numa visão tradicionalista de ensino. Nesta abordagem tradicional o processo
de ensino parte da idéia de que o aprendiz deve unicamente conhecer a estrutura da escrita, sua organização
em unidades e seus princípios fundamentais, os quais incluem basicamente algumas noções sobre a relação
entre escrita, oralidade e a leitura desses códigos linguísticos.
No entanto, entendemos que a leitura ultrapassa a estruturação técnica. O ato de ler exige construção
do pensamento lógico e argumentação. Proporciona ao aluno a capacidade de construir suas relações frente
ao mundo que o cerca.
Diante destas observações, cabe à escola, uma análise crítica reflexiva quanto à apresentação da leitura
aos alunos em nível de alfabetização. É possível propor aos alfabetizandos uma leitura crítica e interativa? A
compreensão da leitura, no início da escolarização, possibilita ao aluno uma relação com o seu contexto
histórico? Os aspectos conceituais centrados nas propostas de ensino contribuem ao desenvolvimento de
leitores críticos?
No contexto educacional, o processo de aprendizagem da leitura deve ser significativo, crítico e
prazeroso. Principalmente, nas séries/anos iniciais do Ensino Fundamental, pois é nesse período escolar que
a criança acentua a sua percepção que a leitura e a escrita fazem parte de sua vida; que é essencial ao seu
convívio social e que por meio dela pode expressar suas idéias, socializar-se com os autores numa relação
dialógica e interativa.
Cabe aos professores propor o desenvolvimento do hábito da leitura em sala de aula, fazendo o uso
funcional da linguagem verbal como instrumento de comunicação e de apropriação da leitura Isso de forma
criativa, com autonomia de compreensão, visando a formação de um ser humano expressivo, competente,
crítico e transformador.
Portanto, é importante enfatizarmos o trabalho pedagógico do educador como mediador no processo
de compreensão da leitura, numa construção baseada na proposta sócio interacionista, em que o aluno se
coloque como sujeito da própria aprendizagem. Ferreiro afirma que “[...] a alfabetização não é um estado ao
qual se chega, mas um processo cujo início, na maioria dos casos, dá-se anterior a escola e que não termina
ao finalizar a escola primária”[2], sendo dessa forma, essencial a valorização dos conhecimentos prévios que
o aluno traz quando chega ao espaço escolar.
Em decorrencia da valorização do contexto sócio histórico do aluno nos processos de ensino e de
aprendizagem, a formação de leitores implica, sobretudo, que os professores trabalhem a língua escrita em
atividades que fomentem o prazer de ler e que permitam aos alunos experimentar o poder da leitura. Esse
trabalho se dá na relação professor/aluno, num diálogo de confiança múltipla.
Diante de abordagens tradicionais e sociointeracionistas que permeiam os processos de ensino e de
aprendizagem das escolas, o artigo apresenta uma discussão respaldada nas proposições de Emília Ferreiro,
Aluna de Pós Graduação em Educação pela Universidade Estadual de Londrina. E-mail: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Ana Teberosky e Paulo Freires sobre a apropriação da leitura crítica e interativa no processo de
alfabetização, nesta perspectiva faz uma comparação de métodos que embasam as práticas pedagógicas. O
presente documento não tem a pretensão de indicar caminhos para a superação das deficiências do processo
de leitura na fase de alfabetização, mas sim de proporcionar aos professores dessas séries/anos, um olhar
reflexivo acerca das ações didático-pedagógicas no trabalho com a formação de leitores.
2. Leitura Crítica
O ato de ler e escrever são processos abrangentes e complexos que exigem do aluno a compreensão do
mundo a partir de uma característica particular do homem: sua capacidade de interação com o outro por meio
das palavras, que por sua vez estão sempre submetidas a um contexto.Dessa forma, a recepção de um texto
nunca poderá ser entendida como um ato passivo, pois quem escreve o faz pressupondo a compreensão do
outro. Neste sentido, podemos dizer que a alfabetização é uma prática social que está sujeita aos interesses
das relações de poderes, que ocorrem em diferentes contextos: sala de aula, comunidades, locais de trabalho,
lares e outros
Portanto, devido a estes aspectos, o ensino e a aprendizagem na alfabetização exigem a formação de:
habilidades para interpretar e escrever corretamente textos em contexto diferentes e heterogêneos;
capacidade de análise crítica em relação ao texto e linguagem de diferentes grupos sociais. Desse modo,
compreendemos que a interação leitor-texto se faz presente desde o início do processo de construção da
leitura e da escrita.
Em conseqüência desta visão de processo de aprendizagem, a alfabetização crítica tem ganhado
espaço no campo da educação. Vários autores têm fornecido definições que descrevem o que este processo
significa. Para Ferreiro:
As atividades de leitura sempre tem uma finalidade. [...] Em cada situação a maneira de ler
é diferente e determinada pela finalidade da leitura [...] Trata-se então de introduzir práticas
habituais de um leitor nas situações escolares e a ajudar as crianças a descobrir como ler em
cada caso.[3]
Concordando com a autora, entendemos que para buscar na leitura finalidades específicas o leitor
precisa desenvolver a leitura crítica, dialogar com o texto, associando o texto lido com o seu conhecimento
de mundo. Este processo de leitura crítica acontece nos primeiros anos de escolarização da criança. Dessa
forma, podemos dizer que o processo de leitura crítica inicia-se com uma alfabetização crítica.
Teberosky e Tolchinsky consideram o processo da alfabetização crítico e afirma que: “[...] pela leitura
crítica o sujeito abala o mundo das certezas (principalmente as da classe dominante), elabora e dinamiza
conflitos, organiza sínteses, enfim combate assiduamente qualquer tipo de conformismo, qualquer tipo de
escravização às idéias do texto”.[8]
A autora discute a necessidade do professor desenvolver estratégias didáticas em que o aluno consiga
compreender a leitura de forma crítica e por meio dessa leitura, formar a sua visão de mundo que possibilite
ao indivíduo atuar criticamente em seu espaço social.
Paulo Freire foi um defensor da autonomia e da participação ativa do indivíduo na sociedade. A
alfabetização significativa com leitura crítica foi uma de suas defesas: “leitura não se esgota na decodificação
pura da palavra escrita, mas se antecipa e se alonga na inteligência do mundo”.[6]. Assim, conceber a crítica
como a principal energia para movimentar as leituras é definir uma atitude de fazer uma ponderação
apreciativa. Ponderação que reflete argumentos diferenciados, de acordo com o ponto de vista: estético,
lógico ou intelectual.
3. Metodologia
As escolas de alfabetização, em sua maioria, asseguram-se em métodos de ensino com o objetivo de
desenvolver em seus alunos o letramento necessário a toda sua vida quer seja escolar ou social. No entanto,
muitos professores utilizam-se de métodos que levam a uma formação com ideologias dominantes, em que
os alunos passam a ser meros repetidores de frases desconectas e sem significado. É provável que isso
aconteça não por intenções claras dos professores, mas pela falta de análise de um contexto político, social e
cultural que permeia os processos educacionais existentes.
Na busca de fundamentações que possam conduzir os professores a este repensar crítico, buscamos
nos autores que fundamentam esse artigos, aportes teóricos que fazem uma comparação de métodos e
abordagens educacionais.
Segundo Ferreiro:
261
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Com base nesses pressupostos, Emilia Ferreiro critica a alfabetização tradicional, porque julga a
prontidão das crianças para o aprendizado da leitura e da escrita por meio de avaliações de e de motricidade.
Dessa forma, dá-se peso excessivo para um aspecto exterior da escrita (saber desenhar as letras) e deixa-se
de lado suas características conceituais, ou seja, a compreensão da natureza da escrita e sua organização. O
aprendizado da alfabetização não ocorre desligado do conteúdo da escrita.
Esses métodos de ensino da leitura e da escrita utilizados por muitos professores, apontam dois
grandes grupos aos quais podem ser aglutinados em: sintéticos e analíticos.
Os métodos sintéticos desdobram-se em processos alfabéticos, silábicos e fonéticos, ou seja, partem de
segmentos menores da fala para chegar a palavras, frases e textos. A leitura mecânica precede a leitura
compreensiva, estabelecendo o total esvaziamento contextual da mensagem.
Enquanto que o método analítico desdobra-se em processos de palavração, sentenças e contos.
Adotam procedimentos opostos aos métodos sintéticos, partindo de unidades maiores, para chegar a unidade
menores. De certa forma buscam uma alfabetização com sentido, significativa, mas centram a atenção em
estratégias visuais, cristalizando o processo de alfabetização em etapas e procedimentos que, via de regra,
nada tem a ver com o processo de aprendizagem do aluno.
É por não levar em conta o ponto mais importante da alfabetização que os métodos tradicionais
insistem em introduzir os alunos à leitura com palavras aparentemente simples e sonoras, mas que, do ponto
de vista da assimilação das crianças, simplesmente não se ligam a nada. Segundo o mesmo raciocínio
equivocado, o contato da criança com a organização da escrita é adiado para quando ela já for capaz de ler as
palavras isoladas, embora as relações que ela estabelece com os textos inteiros sejam enriquecedoras desde o
início. Compreender a escrita interiormente significa compreender um código social. Por isso, segundo
Ferreiro e Teberosky, a alfabetização também é uma forma de se apropriar das funções sociais da escrita.
Porém, do ponto de vista pedagógico, é indispensável que a afabetização seja pautada em um método
que possa ser seguido passo a passo. Nessa busca constante por um caminho que possa conduzir a um
processo de alfabetização, que forme alunos capazes de desenvolver uma leitura crítica e interativa, muitas
vezes, o professor acaba por criar um terceiro método mesclado por fragmentos do método sintético e do
analítico.
Essa busca por um método eficaz e completo pode contribuir para o esvaziamento do conteúdo do
aprendizado do aluno, deixando a escola à deriva em meio a fragmentos de métodos que não definem os
reais objetivos da formação escolar. Não se aprende por pedacinhos, mas por mergulhos em conjuntos de
problemas que envolvem vários conceitos simultaneamente.
Frente a estas preocupações, Freire [7] compara um método rígido de trabalho, onde todos os passos
devem ser seguidos à risca, a uma receita que precisa conter todos os ingredientes para despejar o saber de
quem sabe ao suposto vazio de quem nada sabe.
A forma como alguns professores encaram a questão do método, para atingir um fim frente atividades
programadas, pode levar a um reducionismo da aprendizagem, com limitações e repetições.
Ainda em relação aos métodos, Ferreiro e Teberosky [5] assinalam no método sintético, a ênfase em
habilidades auditivas e, no método analítico, a ênfase em habilidades percepto-visuais, demonstrando que a
prioridade dada aos métodos de ensino descuida dois aspectos fundamentais na aprendizagem da língua oral
e escrita: a competência linguística da criança e a sua capacidade cognoscitiva.
[...] não estamos cientificamente preparados para falar de prontidão para a leitura, e, até que
isso aconteça, seria melhor supor que todas as crianças que temos na sala estão maduras
para a leitura, ao invés de supor que podemos classificar aquele que não tem o que supomos
que sabemos que devem ter.[1]
[...] temos uma imagem empobrecida da língua escrita: é preciso reintroduzir, quando
consideramos a alfabetização, a escrita como um sistema de representação da linguagem.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Temos uma imagem empobrecida da criança que aprende: a reduzimos a um par de olhos,
um par de ouvidos, uma mão que pega um instrumento para marcar e um aparelho fonador
que emite sons. Há, atrás disso, um sujeito que pensa cognoscente, alguém que constrói
interpretações, que age sobre o real para fazê-lo seu.[5]
Neste contexto, é importante destacarmos que não se trata de negar a importância da intervenção
didático-pedagógica do professor no processo de aprendizagem da leitura e da escrita, mas redimensioná–la,
verificando que tipo de ação docente pode colaborar nesta aprendizagem.
As contribuições da psicologia cognitiva, e, mais especificamente, os pressupostos da psicogênese da
língua escrita podem colaborar neste redimensionamento, provocando descentralização de como se ensina
para a sua composição como se aprende a ler e escrever e em que contexto esse processo se dá.
Compreendemos que a criança constrói sistemas de representação para a compreensão do mundo em
que vive e, à medida que a escrita é um objeto cultural produzido historicamente pela humanidade e presente
nas situações do seu cotidiano, ela elabora e desenvolve esquemas cognitivos para compreendê-lo. Este
processo de apropriação inicia-se antes da entrada à escola, na relação da criança com a língua escrita. Para
Freire [7] a relação pedagógica consiste no diálogo entre educador e educando, como sujeitos mediatizados
pelo mundo.
As propostas teóricas dos autores citados valorizam o processo interativo como espaço de construção
dos sentidos do texto, confrontando situações a partir do contexto histórico, político, e social dos
alunos.Desse modo, o que seria correto na concepção de Ferreiro, seria interrogar, “[...] através de que tipo
de prática a criança é introduzida na linguagem oral e escrita, e como se apresenta esse objeto no contexto
escola”.[4]. Ferreiro afirma que “nenhuma prática pedagógica é neutra. Todas estão apoiadas em certos
modos de conceber o processo de aprendizagem e o objeto dessa aprendizagem”.[4]
O professor que pretende desenvolver uma alfabetização com processos de leitura crítica e interativa,
não pode se tornar um prisioneiro de suas próprias convicções, as de um adulto já alfabetizado. Para ser
eficaz “deverá adaptar seu ponto de vista ao da criança. Uma tarefa que não é nada fácil”.[4]
Neste contexto, não cabem receitas prontas que resultam em formação de leitores que repetem
decodificações, mas análises, compreensão da realidade do aluno e de como se dá a apropriação do
conhecimento de cada um. No caso da alfabetização, utilizar textos do cotidiano é muito mais produtivo do
que seguir uma cartilha. Porém, isso não quer dizer que o ensino não deva ser objeto de planejamento e
sistematização
4. Conclusão
Conclui-se que a leitura é um processo dinâmico e social, resultado da interação da informação
presente no texto e o conhecimento prévio do leitor, possibilitando a construção do sentido, ou, em outras
palavras, a compreensão textual.
Quanto mais oportunidades tenham os alunos de ouvir, ver e sentir leituras alheias, maior será o prazer
e a sensibilidade para compreender o que leem e ouvem. É por meio da leitura que se tem acesso aos
significados da cultura em que vive, estabelecendo relações entre as informações e construindo sentido para
si e para o mundo. A escola, um dos lugares de construção dos saberes sociais, precisa considerar a
diversidade de significados sociais e culturais que as crianças compartilham.
Não basta oferecer às crianças livros em quantidade, ou ficar apenas nas leituras obrigatórias do livro
de apóio didático. É necessário levá-la a perceber e sentir que a leitura é um elemento essencial para a vida.
Referências
[1] FERREIRO, E. Alfabetização em processo. São Paulo: Cortez, 1986. p. 14.
[2] ______. Com todas as letras. São Paulo: Cortez, 1999. p. 47.
[3] ______. Desenvolvimento da alfabetização: psicogenêse. In: GOODMAN, Yetta M. (Org.). Como as
crianças constróem a leitura e a escrita: perspectivas piagetianas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. p.
234.
[4] ______. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 1985. p. 9, 30, 31, 61.
[5] FERREIRO, E.; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986. p.
40.
[6] FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez, 1986. p.
11.
[7] ______. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. p. 33.
[8] TEBEROSKY, A.; TOLCHINSKY, L. Além da alfabetização: a aprendizagem fonológica, ortográfica,
textual e matemática. São Paulo: Ática, 1995. p. 26.
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1. Introdução
Pensar em desenvolvimento escolar não se restringe apenas ao professor e ao educando dentro da sala
de aula, contudo a vida social de cada criança.
Ser educador é ter uma visão macro do espaço da sala de aula e ao mesmo tempo uma visão micro da
criança, como sujeito participante, com sua história, cultura, modo de ser e fazer, levando em consideração o
seu dia a dia.
Saber utilizar diferentes métodos avaliativos e de análise faz-se necessário dentro da sala de aula.
Apresentações escritas, orais, expressões faciais, gestos e desenhos, podem e devem ser utilizados como
instrumentos para o professor conhecer a aprendizagem de seus alunos.
Ao apresentar papéis em branco, lápis de cor ou giz de cera, a professora propõe para a criança uma
forma de transmitir os seus sentimos e a sua vida social, podendo analisar o cotidiano familiar das crianças,
através de um desenho direcionado.
O educador não necessita todas às vezes direcionar o tema, porém quando ele percebe uma atitude
considerada fora do padrão de desenvolvimento da criança, vai buscar no desenho uma fonte de pesquisa.
De acordo com Becker [1]
[...] o desenho é uma linguagem para a criança, é uma forma de estabelecer comunicação
com o mundo, de expressar suas ideias, medos, conflitos, descobertas e alegrias.
Desenhando, a criança brinca e, brincando, vai imprimindo as suas marcas no papel, nas
paredes, nos muros e calçadas, contando, ao seu modo, a sua história.
As crianças costumam expressar suas emoções ao desenhar, podendo através de formas, tamanhos e
cores darem significado a suas formas ou rabiscos.
2. Método
3. Resultados e Discussão
Desde o tempo dos primórdios o desenho já existia. Desenhavam em paredes animais, pessoas e a
agricultura da época, tendo em vista que cada uma continha um significado.
Utilizar o desenho como “ferramenta”, faz-se muito comum hoje em sala de aula. Contudo, se não
estiver contido em um plano de aula coerente, não tiver um objetivo e não for analisado com seriedade, este
perderá o seu respectivo valor.
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Desenhar não são apenas rabiscos, formas e cores. É todo um conjunto de desenvolvimento
psicomotor, onde o professor deve analisar a coordenação motora fina das mãos levando em consideração o
seu aspecto emocional, físico e psíquico.
Sobre essa questão, Derdyk [3] diz que:
Existe no ar uma imagem de que a Educação Artística é algo que “mexe com a mão”. Já as
atividades mais sedentárias são relacionadas com a cabeça, como se mão e cabeça não
fizessem parte de um mesmo corpo.
Nesse processo, a criança utiliza as mãos como meio de comunicação entre o seu pensamento, o lápis
e a folha. Cada obra de arte feita pela criança, é uma expressão. Assim o desenho infantil, também é
considerado como função de linguagem.
A intervenção pedagógica nesta perspectiva pode ocorrer através de propostas com desafios, a fim que
a criança sinta-se motivada ao desenhar em lugares não comuns para elas.
Assim, pisos, paredes, pedras tornam-se lugares de desenhos, onde a criança manifesta sua
imaginação.
Para Ostrower [5]
Nas crianças, a expressão artística equivale a um experimento direto. Com quanto ocorra na
área do sensível, o fazer não se coloca para a criança num plano diferente de qualquer outra
experiência de vida – apenas é feita com materiais que por nós são considerados artísticos.
Assim, a tensão psíquica corresponde à experiência, a criança a extravasa no momento da
ação.
Desta maneira, Becker [1] irá complementar este pensamento afirmando que “desenhando, a criança
brinca e, brincando, vai imprimindo as suas marcas no papel, nas paredes, nos muros e calçadas, contando,
ao seu modo, a sua história”.
É comum escutarmos a expressão desenho livre no ambiente escolar. Pois muitos educadores, pais e
ate mesmo alunos e pesquisadores, acreditam que ao não direcionarmos uma atividade artística com um
tema, o educando estará fazendo um desenho livre.
Entretanto, a personalidade da criança não poderá ser observada ou ate mesmo analisada em um
desenho. Pois esta encontra-se em processo de desenvolvimento intelectual e afetivo, havendo mudanças em
suas atitudes a todo momento.
Considerando o meio em que a criança está inserida e levando em consideração a cultura, etnia e
outros aspectos relevantes à sua formação pessoal, pode-se dizer que não há desenho livre.
Desta maneira, Cruz [2] se contradiz, pois o mesmo afirma que:
Assim, a criança X ao desenhar a família conforme solicitado pela professora Y, do primeiro ano do
ensino fundamental da rede municipal, esta retrata seus pais, ambos em uma cadeira de rodas. Após este
momento, a professora pergunta à aluna porque desenhou seus pais assim, e esta responde que eles são
paraplégicos.
Desta forma, pode-se dizer que o desenho auxilia no desenvolvimento cognitivo, afetivo e facilita
muitas vezes para que o professor conheça a realidade de seus alunos.
Segundo Ostrower [5]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Atividade intensa e envolvente para as crianças, o desenho na pré - escola tem uma
presença constante. É visto como possibilidade de expressão, como incentivo à criatividade.
Ou ainda como indicador do nível de desenvolvimento cognitivo e afetivo das crianças.
Cada criança desenvolve no seu desenho um potencial diferente, conforme a proposta sugerida. Seus
desenhos vão tendo formas cada vez mais personalizadas, de acordo com o seu nível cognitivo e de
maturação.
Conforme as crianças vão mudando, o desenho também vai sendo modificado. A maturação do
desenho desenvolve-se de acordo com as transformações que a criança vai passando.
Para Ostrower [5]
[...] o homem não somente percebe as transformações como sobretudo nelas se percebe. A
percepção de si mesmo dentro do agir é um aspecto relevante que distingue a criatividade
humana. Movido por necessidades concretas sempre novas, o potencial criador do homem
surge na história como um fator de realização e constante transformação.
Desta maneira, a criança se percebe nas transformações que ela realiza em seus desenhos. Antes o que
era um risco, no processo de maturação transforma-se em carrinhos, casas ou até mesmo em pessoas.
4. Conclusão
Desenhos, garratujas e palavras são condições que as crianças encontram de expressar seus
sentimentos e suas visões sobre e do mundo. É o momento em que eles demonstram o seu contato com a
sociedade, com as diferentes culturas e suas próprias convicções.
No mundo em que habitamos a cada dia surgem milhões de informações em que são repassadas
através de imagens. O educando ao desenhar transmite o seu pensamento, a sua emoção e seus sentimentos.
Devido a este fator, toda imagem feita, ou seja, todo desenho, expressa algo.
Cores, formas, traçados, profundidade são aspectos relevantes, quando analisamos desenhos.
Deste modo, o professor necessita ter e manter uma postura coesa e ao mesmo tempo confiável para
seu educando, para que ele consiga aproveitar estes instrumentos de avaliação a seu favor. Entender a
importância do desenho no desenvolvimento da criança é o primeiro passo para esta construção e para esta
significação que o professor deve dar para as expressões artísticas de seus educandos.
Referências
[1] BECKER, Rosana. A constituição da infância: o que dizem as crianças de uma escola publica
catarinense sobre a experiência de ser criança e de ser aluno. Florianópolis, 2006, p. 53. Dissertação
(Mestrado em Educação). Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC.
[2]CRUZ, Roseli Fontana Nazaré. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1997, p. 144, p.
150.
[3]DERDYK, Edith. Formas de pensar o desenho: desenvolvimento do grafismo infantil. São Paulo,
Scipione, 1989, p.14. (Série Pensamentos e Ação no Magistério)
[4]GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999, p. 43.
[5]OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 23. ed. Petrópolis, Vozes, 2008, p. 10, p.12,
p.74.
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Deise Maria Szulczewski1*; Alessandra Jardim Marangoni Moita2; Pedro Henrique Witchs3
1
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS
2
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS
3
Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS
1. Introdução
A profissão de intérprete de língua de sinais (ILS) vive um momento de grande visibilidade no
cenário atual. O projeto de lei 4673/04 foi aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS) no
dia 07 de Julho de 2010. Este projeto regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Língua Brasileira
de Sinais (LIBRAS). Os ILS já vêm há muito tempo lutando pela regulamentação da sua profissão. A
oficilialização da LIBRAS em 24 de Abril de 2002, pela lei 10.436, como língua oficial da comunidade
surda foi uma grande conquista para os surdos e consequentemente para os ILS.
Através da perspectiva teórica dos Estudos Surdos em Educação, buscamos refletir e problematizar a
participação do ILS na comunidade surda, principalmente o ILS que atua na área da Educação, dentro da sala
de aula. Autores como Lacerda [3], Leite [4], Lopes [5, 6, 7], Vieira [11] nos ajudaram a fundamentar
teoricamente este estudo.
A profissão de ILS não é recente, porém a inexistência de registros oficiais que comprovem a atuação
do ILS dificulta uma pesquisa mais aprofundada. A interpretação tanto da língua oral como de língua de
sinais (LS) era raramente documentada. Segundo Leite [4]:
A presença de intérprete, na mediação entre surdos e ouvintes, deve ser tão antiga quanto a
existência das pessoas surdas pelo mundo. Aqui, no Brasil, temos notícia da convocação
oficial de intérprete, por órgão judicial, ao então Instituto Nacional de Surdos-Mudos, ainda
no final do século XIX, conforme documentos existentes na biblioteca do INES. (p. 37)
As primeiras pessoas que se dedicaram a essa prática, na maioria dos casos, eram filhos de pais surdos,
conhecidos como Children of Deaf Adults (CODA), também parentes ou amigos de pessoas surdas que
tinham como principal objetivo estabelecer a comunicação entre os surdos e os ouvintes. Enfim, pessoas que
de uma maneira ou outra estavam envolvidas com grupos e organizações de surdos. Isso acontecia de
maneira voluntária e sem expectativa de remuneração, principalmente em instituições religiosas.
Segundo Vieira [11], somente no ano de 1964 inicia-se, nos Estados Unidos, um processo bastante
lento que visa uma profissionalização dos intérpretes de língua de sinais. Esse movimento é realizado pelo
povo surdo, que procura mostrar à sociedade a importância desse profissional que além de atuar nas
instituições religiosas, pode também atuar em outras situações, como em palestras, seminários, congressos e,
inclusive, atuar na área da Educação, em escolas, universidades, etc.
2. Método
Este estudo é um recorte de uma pesquisa maior intitulada Os Intérpretes de Língua Brasileira de
Sinais (LIBRAS) no Rio Grande do Sul. Como a pesquisa está em fase inicial da coleta de dados, utilizamos
para este estudo 19 questionários respondidos por ILS de diferentes regiões do Rio Grande do Sul. Mas por
que utilizamos questionários?
Há um momento em que é preciso escolher qual o instrumento a ser utilizado para a coleta de dados e
o questionário foi o que melhor atendeu as nossas necessidades. O questionário é um instrumento mais
rápido que a entrevista e que permite respostas fechadas e abertas . Porém, é importante lembrar que o que é
dito ou escrito é uma representação momentânea do significado da enunciação, ou seja, as perguntas foram
respondidas pelos ILS de acordo com a representação que os mesmos faziam do assunto e de acordo com as
experiências por eles vivenciadas. Segundo Pires e Nobre (2004 apud LACERDA [3]): É necessário nos
remeter aos discursos preexistentes na experiência do intérprete e também de nos assegurar que há questões a
serem consideradas em relação à sua subjetividade. Cada sujeito que respondeu as perguntas do questionário
pertence a uma determinada cultura, participa do grupo surdo de sua comunidade, as suas vivências são
diferentes, e seus trabalhos ocorrem em locais distintos. Alguns trabalham em escolas, outros em
universidades, enfim, todas essas questões vão constituindo os sujeitos a serem de um jeito e não de outro.
*
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[...] ou seja, dar a palavra não é, como parecem alguns discursos democratizantes, uma ação
tão singela de ser levada a cabo, já que essa palavra só passa a ser reconhecida como tal, se
ultrapassar, de alguma forma, as restrições que pesam sobre a enunciação de discursos
naquele momento, naquele lugar, naquela situação definida, com aqueles interlocutores... E
são tais restrições – móveis, é claro, mas com um peso suficiente para não serem eliminadas
pura e simplesmente por decreto ou intenção – que ditarão a possibilidade de que uma
determinada manifestação, fala, enunciado... seja, digamos, levada em conta pelos
interlocutores. (SILVEIRA [9], p. 66)
Não quero dizer com isso que as respostas dadas não são fiéis ao que os ILS responderam no momento
do questionário, apenas alerto para a importância de se considerar as questões anunciadas anteriormente.
Podemos dizer que não foi fácil elaborar perguntas que contemplem ou que minimamente respondam
as nossas inquietações. Com a entrega e a devolução dos primeiros doze questionários (chamados pelo grupo
de pesquisa de “questionários piloto”) preenchidos pelos intérpretes, percebemos que muitas questões
ficaram de fora do questionário e que havia a necessidade de reformulá-lo.
Para a elaboração da segunda versão do questionário tomamos algumas precauções e cuidados que
julgamos necessárias para diminuirmos a chance de erros na elaboração do mesmo. Não que não tenhamos
feito isso na primeira versão, porém redobramos os cuidados nessa segunda versão. Segundo Chagas [2]:
Em outras palavras, não é tarefa fácil elaborar um questionário e que, de acordo com Parasuraman
(1991 apud CHAGAS [2], p. 1), “aplicar tempo e esforço adequados para a construção do questionário é uma
necessidade, um fator de diferenciação favorável”. O nosso objetivo com este questionário é contemplar três
eixos sobre os intérpretes: dados pessoais; dados de formação; e dados de atuação. A partir desses três eixos,
formulamos perguntas que nos ajudariam a conhecer melhor esses profissionais, qual a sua formação
acadêmica, onde eles estão atuando e em qual função.
Desses questionários, 12 foram entregues aos ILS no Fórum Estadual de Educação de Surdos (V
FEES) realizado na Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) na cidade de Santa Cruz do Sul/RS, no dia
27 de Novembro de 2009. Este evento foi organizado pelo Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação
de Surdos (GIPES/CNPq) com o objetivo de dar continuidade às discussões que vem sendo feitas nos fóruns
anteriores e apresentar resultados de pesquisas e de projetos educacionais cujo foco seja a inclusão e a
educação de surdos. Como a presença de ILS é garantida nesses eventos, aproveitamos a oportunidade para
entregar alguns questionários aos intérpretes interessados em participar da pesquisa. Vale lembrar que
entregamos o questionário em um fórum estadual, ou seja, intérpretes de várias localidades do Rio Grande do
Sul responderam as perguntas. Entre as cidades estão: Grande Porto Alegre, Porto Alegre, Novo Hamburgo,
Caxias do Sul, Farroupilha, Pelotas e Passo Fundo. Nesse primeiro momento, não tivemos muitas
dificuldades, conversamos com os intérpretes, explicamos o motivo do preenchimento do mesmo. Dos 15
questionários entregues, apenas três não foram devolvidos. Além dos 12 questionários recolhidos no V
FEES, trabalhamos também com sete questionários que foram enviados via correio eletrônico para os ILS,
no período de Março à Julho de 2010 das seguintes localidades: Porto Alegre, Grande Porto alegre, Brasília,
Caxias do Sul e Esteio.
3. Resultados e Discussão
Dos 19 questionários preenchidos pelos ILS, 85% deles, ou seja, 16 ILS responderam que é
importante para a sua formação a participação na comunidade surda. Muitos ILS são bastante enfáticos
quando se referem a sua participação na comunidade surda, muitos assumem a luta e a militância surda no
sentido de reivindicarem os seus direitos como pessoas de uma cultura diferente e não como deficientes
auditivos. Podemos perceber isso, pois vários ILS assumem cargos executivos na Federação Nacional de
Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), na Associação Gaúcha de Intérpretes de Língua de Sinais
(AGILS), na Associação de Pais e Amigos de Surdos (APAS), etc. Abaixo algumas respostas dos ILS
quando questionados sobre a importância de participarem ou não de uma comunidade surda.
“Sim, muita, há 20 anos que atuo na educação de surdos e participo de forma ativa na comunidade,
tendo inclusive assumido cargo no executivo da FENEIS, em POA”. (I1)
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
“Sim em todos os segmentos; amigos, frequentam minha casa, igreja, justiça, acompanho e
encaminho ao trabalho”. (I6)
“Participo da APAS. Colaboro na confecções de camisetas, banners, projetos, apostilas, etc ...”(I7)
“Sim. Além de obviamente das amizades, há um convívio no meio acadêmico onde discutimos
teorias da educação”. (I11)
Essa inserção do ILS na comunidade surda é mais importante do que podemos imaginar. Existe uma
necessidade grande por parte deles em serem “aceitos” na comunidade a qual pertencem. De acordo com
Santos [8]:
Outro fato interessante é justamente a necessidade que esses profissionais sentem em ser
“aceitos” no grupo surdo para poderem atuar profissionalmente, pois, caso contrário, a
credibilidade desse profissional poderá ser ameaçada. Pertencer ao grupo surdo, estar
inserido nas discussões que esse grupo realiza, conhecer suas formas de entender o mundo,
funciona como um “sinal” para a atuação profissional [...]. (p. 99)
Não basta apenas que o ILS faça parte de uma comunidade, é necessário que ele se sinta parte desta
comunidade e que a comunidade o aceite como membro. Ainda segundo Santos [8]:
Estas estratégias de pertencimento, este querer estar junto, ser acolhido pela comunidade surda e de
acolher é o que faz com que a inclusão deste sujeito aconteça. Esta inclusão ética que nos fala a pesquisadora
Stumpf [10] do cuidar de si e do outro é o que torna este sujeito „aceito‟ na comunidade.
4. Conclusão
Podemos perceber que o convívio do ILS com a comunidade surda é muito importante para este
profissional. Desde o início da atuação dos ILS até hoje podemos perceber através dos questionários
respondidos que a maioria deles além de trabalhar como intérprete sente a necessidade de pertencer a uma
comunidade surda. Essa participação do ILS lhe garante uma qualidade linguística, porque ele tem a
possibilidade de “treinar” o seu vocabulário e também de aprender novos sinais, o que acontece a todo o
momento, tendo em vista a circulação cada vez maior de pessoas surdas nos mais variados espaços sociais.
Para os surdos também é fundamental o convívio com o ILS, porque além de interpretar da Língua
Portuguesa para a Língua de Sinais e vice-versa, o ILS torna-se um mediador cultural.
Referências
1. BRASIL. Presidência da República. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua
Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Disponível:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil/leis/2002/L10436.htm>. Acesso em 13 de junho de 2010.
2. CHAGAS, Anivaldo Tadeu Roston. O questionário na pesquisa científica. Administração on line. v. 1, n.
1, janeiro/fevereiro/março 2000. Disponível em: <http://www.fecap.br/adm_online/art11/anival.htm>.
Acesso em 6 de março de 2010.
3. LACERDA, Cristina Broglia Feitosa de. Intérprete de Libras: em atuação na educação infantil e no
ensino fundamental. Porto Alegre: Mediação, 2009.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. LEITE, Emeli Marques Costa. Os papéis do intérprete de LIBRAS na sala de aula inclusiva.
Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada). Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da
Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2004.
5. LOPES, Maura Corcini. Inclusão escolar currículo, diferença e identidade. In: LOPES, Maura Corcini;
DAL‟IGNA, Maria Cláudia (Orgs.). In/exclusão: nas tramas da escola. Canoas: Editora da ULBRA, 2007.
6. ______, Maura Corcini. Surdez & Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.
7. ______, Maura Corcini. A natureza educável do surdo: a normalidade surda no espaço da escola de
surdos. In: THOMA, Adriana; LOPES, Maura Corcini (Orgs.). A invenção da surdez: cultura, alteridade,
identidade e diferença no campo da educação. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2004, p. 33-55.
8. SANTOS, Silvana Aguiar dos. Intérpretes de Língua Brasileira de Sinais: um estudo sobre as
identidades. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós Graduação em Educação da
Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2006.
9. SILVEIRA, Rosa M. Hessel. “Olha quem está falando agora!” A escuta das vozes na educação. In:
COSTA, Marisa Vorraber. Caminhos investigativos: novos olhares na pesquisa em educação. Rio de
Janeiro, DP&A, 2002.
10. STUMPF, Mariane Rossi. Mudanças estruturais para uma inclusão ética. In: QUADROS, Ronice (Org.)
Estudos Surdos III. Petrópolis, RJ: Arara Azul, 2008, p. 14-29.
11. VIEIRA, Mauren Elisabeth Medeiros. A auto-representação e atuação dos “professores-intérpretes”
de línguas de sinais: Afinal... professor ou intérprete? Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de
Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2007.
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1. Introdução
A educação é apontada e valorizada como balizadora para o desenvolvimento desde o pós-Segunda
Guerra Mundial. Após esse período conturbado da história mundial, a educação é vista, relativamente, como
forma de alcançar crescimento econômico - sinônimo de desenvolvimento na época.
No entanto, esse caminho para o desenvolvimento econômico por meio da educação tomou rumos
estritamente técnicos, em que o enfoque era a formação de trabalhadores, os quais pudessem colaborar para o
crescimento da produção e, conseqüentemente, para os ganhos econômicos. Nessa perspectiva, muitas vezes,
o desenvolvimento do indivíduo era deixado de lado. Como afirma Oliveira [5] (apud STOER, 2000):
Hoje a educação possui relação íntima com a questão do desenvolvimento, não só econômico, mas
também social..
Tanto no contexto rural como na sociedade em geral, encontra-se bastante difundido o termo
desenvolvimento sustentável, o qual apresenta-se como um processo que permite as gerações do presente
crescerem em aspectos de qualidade de vida, sem impedir ou comprometer esse crescimento nas gerações
futuras.
Neste sentido, sobre o desenvolvimento ainda tem-se uma importante colaboração de Martinelli e
Joyal [4]
Observa-se na afirmação dos autores acima que quando fala-se em desenvolvimento, este necessita
suscitar melhorias para as pessoas, para a sociedade, tanto no hoje quanto no amanhã. Assim, ele se efetivará
a partir do momento em que também possa desencadear um desenvolvimento humano, social e
conseqüentemente sustentável.
Sendo assim, a educação possui papel crucial na construção da cidadania –desenvolvimento pessoal,
social, humano e econômico. Encontra-se hoje em várias teses e dissertações a questão da educação como
sendo fator de considerável influência sobre a qualidade de vida das pessoas.
Nesse contexto, este trabalho tem por objetivo apresentar e analisar aspectos da questão educacional
no meio rural, mais precisamente aspectos relacionados ao desamparo, por parte do poder público, que as
escolas e crianças do campo ainda encontram, visto que a educação é direito de todos. Ela é um bem comum
e crucial no que tange o desenvolvimento individual e social.
A motivação para se dispender um olhar acima das questões da educação no meio rural, partiu dos
dados do documento “Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população
brasileira”, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [2], em 24 de setembro de 2008.
Este documento destaca a existência de três vezes mais analfabetos no campo do que na cidade.
Além disso, também outros dois fatores motivaram a escrita deste trabalho. O primeiro foi o relato
de professores de uma escola localizada no meio rural de um dos municípios da Associação dos Municípios
do Centro do Estado do Rio Grande do Sul AMCENTRO e os resultados de uma pesquisa realizada na
instituição. E o segundo foi um dos resultados obtido em um trabalho final de graduação, no qual verificou-
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
se, nesse mesmo município que, apesar da maioria das escolas localizarem-se no ambiente rural, existe um
descaso quanto aos alunos com dificuldade de aprendizagem e necessidade educacionais especiais destas.
2. Método
Nesse sentido, para a realização das análises da realidade referida anteriormente, as quais dão forma
a este estudo, utilizou-se como metodologia basicamente a pesquisa bibliográfica, a qual [3] tem a “...
finalidade de colocar o pesquisador em contato direto com tudo aquilo que foi escrito sobre determinado
assunto”. Desse modo, este trabalho caracteriza-se como descritivo, uma vez que procura conhecer,
descrever, analisar [6] as realidades educacionais do meio rural.
Sendo assim, nos relatos dos professores da uma escola do meio rural percebeu-se uma
preocupação, angústia em relação ao elevado índice de reprovação dos alunos, o qual levou a instituição a
procurar um órgão público, composto por uma equipe multidisciplinar que está realizando estudos com as
crianças. Estes verificando seu cotidiano em sala de aula e em casa a fim de identificar a causa do alto grau
de reprovação. As investigações ainda não estão finalizadas, porém, como a região é produtora de tabaco, há
a suspeita da influência dos agrotóxicos nessa realidade.
No entanto, até o momento a pesquisa mostrou um alto número de alunos com necessidades
educacionais especiais ou dificuldades de aprendizagem na instituição. Esses estudantes necessitam de
atendimento educacional especializado, o qual não existe nas escolas do meio rural deste município.
Pode-se verificar o subscrito no trabalho final de graduação realizado em 2009, com este município
e também com outros quatro municípios da AMCENTRO. Nestes, apesar de a grande maioria de suas
instituições de ensino localizarem-se no campo, nenhuma delas possuí um profissional que possa realizar um
atendimento educacional especializado com esses alunos supracitados.
3. Resultados e Discussão
Dessa forma, tal fato mostra como resultado o descaso do poder público com a educação no meio
rural, o qual, pensa-se, é oriundo de uma bagagem histórica na qual “[...]a escola brasileira, de 1500 até o
inicio do século XX, serviu e serve para atender as elites, sendo inacessível para grande parte da população
rural” [7].
Percebe-se assim, que a questão da educação no campo é uma questão preocupante, pois ela ainda é
pouco valorizada, visto que os alunos com dificuldade de aprendizagem ou necessidades educacionais
especiais do campo não estão tendo suas necessidades atendidas. Essa realidade pode fazer sim que esses
estudantes sejam os analfabetos ou analfabetos funcionais de amanhã.
Além disso, no que diz respeito à especificidade da região, do uso de agrotóxicos, uma pesquisa no
município de Bento Gonçalvez-RS, mostrou que “A escolaridade revelou efeito protetor contra a ocorrência
de intoxicações...”[1]
Desse modo, com a colaboração da autora acima fica explicita a questão de que a educação pode
colaborar para a melhor qualidade de vida das pessoas do meio rural e conseqüentemente, para o
desenvolvimento.
Acredita-se importante salientar aqui a necessidade de um olhar especial sobre a educação básica nos
ambientes rurais, ou seja, sobre as séries iniciais. Pois é nessa fase,quando as crianças estão se alfabetizando,
que aparecem suas dificuldades, suas necessidades especiais, as quais se não forem sanadas nesse período,
fazem com que todo o processo posterior de aprendizagem fique comprometido.
Quando fala-se aqui em processos posteriores de aprendizagem está-se referindo tanto aos do meio
escolar, como os que ocorrem após o período escolarização. Por exemplo, os encontros promovidos por
ações extensionistas, na busca por alternativas de renda, por desenvolvimento econômico, se está falando nos
encontros realizados pelos movimentos sociais, está se falando na constituição de lideranças. Por tudo isso
perpassa a educação.
4. Conclusão
Por fim, como conclusão deste trabalho, pode-se verificar que ainda é grande a desatenção do poder
público com a educação nos ambientes rurais. No que diz respeito às necessidades educacionais especiais, as
dificuldades de aprendizagem dos alunos do campo, observa-se um total desamparo, desvalorização, o que
pode trazer conseqüências para o posterior desenvolvimento dessa criança.
Assim, acredita-se cabe as entidades organizadas, aos atores locais motivarem-se no sentido de
exigirem seu direito a educação, ao atendimento educacional especializado, a fim de buscarem uma melhor
qualidade de vida para seus filhos e conseqüentemente, para eles próprios.
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Referências
[1] FARIA, N. M. X. Intoxicações por agrotóxicos entre trabalhadores rurais de fruticultura, Bento
Gonçalves, RS. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003489102009000200015. Acesso em : abril/2010.
[2] IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2000: Características da
População e dos Domicílios: Resultados do universo. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/default.shtm . Acesso em 27 de outubro de
2008.
[4] MARTINELLI, D. P.; JOYAL, A. Desenvolvimento local e o papel das pequenas e médias empresas.
Barueri: Manole, 2004.
[6] RUDIO, F. V. Introdução ao projeto de pesquisa científica. 29 ed. Petropolis: Vozes, 2001.
[7] SILVA, M.S. Educação do Campo e Desenvolvimento: uma relação construída ao longo da história,
2004. Disponível em:
<http://www.contag.org.br/imagens/f299educacaodocampoedesenvolvimentosustentavel.pdf.Acesso em :14
de janeiro de 2009.
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1. Introdução
Pretendemos desenvolver neste estudo um senso educacional, partindo de uma amostragem inicial de
algumas escolas municipais de Santa Maria para levantar quais os problemas que percebem com as crianças
e como encaminham tais problemas. A real intenção é identificar como estão sendo entendidos e
encaminhados tais problemas: a) o que consideram problemas nas crianças (comportamento, aprendizagem,
fracasso, doenças, problemas de articulação fono-articulatório ou ainda motores, sócio-afetivos etc.) e, b)
com que abordagem a pedagogia escolar, em sua prática, efetivamente enfrenta tais situações. Nosso
referencial teórico encontra-se estruturado a partir dos autores que estudam os problemas de aprendizagem e
escolares tais como Paín [9], Parente e Renña [10], Ajuriaguerra [1], Patto [11], Freitag [4], Collares e
Moysés [3], Skliar [12], Mittler [8] e Vidor[13]. A importância da pesquisa reside no fato de que a
universidade precisa compreender melhor a realidade a qual está inserida. Por isso, quando orientamos a
formação dos alunos do curso de pedagogia e de educação especial a intervir em um contexto educacional
precisamos compreende-lo em suas especificidades. Por isso, faz-se necessário investigar os diferentes
problemas que as crianças apresentam no contexto escolar, porque a atuação educativa se faz em sentido de
responder de algum modo a tais necessidades. Levantar o que e como se percebe é revelador de concepções e
ações que apontam para a real pedagogia que se faz nos primeiros anos da educação básica. De todo modo,
podemos dizer, que a universidade deve cumprir com seu papel social de auxílio às novas demandas. Para
nós, pesquisadores, também é desafiador pensar sobre esta realidade, como enfrentá-la e, principalmente
confrontar o perfil profissional que estamos formando nossos alunos. Além da realidade da inclusão as
escolas ainda possuem muitos desafios, que nós, com esta pesquisa, pretendemos identificar para pensar
como podemos auxiliar as escolas, os professores e especialmente os novos profissionais.
2. Método
Adotamos para esta pesquisa a abordagem quali-quantitativa. Esta pesquisa caracteriza-se como pesquisa
exploratória, que conforme Gil [5], visa conhecer uma realidade ainda não explorada, o que responda ao
problema e aos objetivos de pesquisa. A pesquisa social entendida por Minayo [7], como atividade da ciência
na construção da realidade, sendo que, nada pode simplesmente se tornar um problema, se não for, em
primeiro lugar, um problema da vida diária. Neste sentido entendemos que esta pesquisa tem como objeto de
estudos os reais problemas que as escolas enfrentam.
Compreende-se que o pesquisador possui máxima importância e responsabilidade na execução de sua
pesquisa. Ele intervém diretamente no andamento e nos resultados do estudo, por isso, não é neutro, é
profundamente implicado em seu modo de olhar e proceder científico. Por isso, ele precisa tomar consciência
e tratar eticamente de seu objeto investigado, sua atitude deve ser de máxima responsabilidade para não
distorcer o real que investiga Meneghetti [6]. Na primeira etapa da pesquisa está prevista a coleta de dados
em 10 escolas da rede municipal de educação básica, da cidade de Santa Maria/RS, a grande maioria das
escolas, localizam-se em comunidades carentes. Os dados serão coletados através de questionários com
questões abertas, Bicudo [2]. O questionário contém questões a respeito da identificação da realidade escolar,
os profissionais que atuam na escola, qual a visão desses profissionais frente aos problemas que envolvem a
aprendizagem e de que forma a universidade pode intervir nas situações de aprendizagem na escola. Os
sujeitos que estão sendo pesquisados são os educadores especiais que trabalham em salas de recurso das
escolas. Isto porque, pretende-se realizar um trabalho de pesquisa em profundidade. Posteriormente, a
intenção é expandir a amostra e chegar até a 100% da rede municipal de educação.
3. Resultados e Discussão
O referido estudo está em andamento, portanto os resultados que possuímos são parciais. Dessa forma
pretendemos finalizar a coleta de dados até o fim deste mês a fim de apresentá-los no evento. Inicialmente
entramos em contato com a Secretaria de Educação do Município e solicitamos a lista das escolas municipais
que possuem salas de recurso e educador especial atuando. Definimos que faríamos a pesquisa com este
profissional por entendermos que ele pode nos oferecer as informações mais precisas que buscamos junto às
escolas. Em um segundo momento contatamos com as escolas para levantar a sua disponibilidade de
participar da amostra e proceder a coleta de dados através dos questionários, estamos ainda em fase de coleta
1
* [email protected]
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de dados e indo até as escolas. Nesta fase nos deparamos com a dificuldade de coletar os dados pois nas
escolas, os professores possuem pouco tempo para dedicar-se a responder a pesquisa, e por isso, nossa coleta
de informações está sendo mais lenta do que o planejado. Em uma das escolas de nossa pesquisa, onde
iríamos encontrar o educador para dar suporte à nossa pesquisa, nos deparamos com a falta deste profissional
e também dos espaços educativos para a realização do trabalho. Para nós torna-se um desafio pensar sobre
esta realidade, como enfrentá-la e confrontar o perfil profissional do educador especial ou pedagogo que a
universidade forma. Além da realidade da inclusão as escolas ainda possuem muitos desafios. Com esta
pesquisa, pretendemos identificar estes desafios para pensar, discutir e encontrar alternativas que auxiliem as
escolas, os professores e especialmente os novos profissionais a enfrentarem situações como os problemas
das crianças e demais momentos de dificuldade.
Os estudos que exploram a temática das dificuldades de aprendizagem escolar dentro das relações
familiares são basicamente estudos que enfatizam a área psicológica, pedagógica e psicanalítica. Tentamos
analisar alguns elementos que nos elucidam o contexto familiar em relação as dificuldades escolares das
crianças, entendendo o contexto familiar como família nuclear, ou seja, constituída por pai, mãe e filhos. [1].
Parente & Renña [10], também abordam que as dificuldades de aprendizagem podem ser geradas
pelo contexto familiar:
[...] a origem do problema de aprendizagem pode estar relacionada com o modelo de
relação vincular que cada criança estabelece e que foi desenvolvido e articulado nas suas
primeiras relações com a mãe, num determinado contexto familiar. Este modelo, de
relação vincular tende a ser reproduzido na escola.[...] [10, p.51].
Nesse sentido, Vidor [13], contribui quando cita o desenvolvimento da autonomia da criança,
entendido aqui como parte importante do processo de aprendizagem e desenvolvimento do sujeito. Para
Vidor [13] “a figura materna tem a função de servir de ponte para relacionar o filho com o mundo externo,
mas tem a missão de levar o educando a atingir sua plena autonomia”.
O autor compreende que o educando necessita confiar em si mesmo e precisa inserir-se no meio
social com sua própria autonomia. Do contrário pode-se atribuir a ideia de Parente e Renña [10] acima
citada, sobre o modelo familiar, essa falta de autonomia tende a ser reproduzida na escola, podendo ser uma
das causas das dificuldades de aprendizagem. Vidor [13], ressalta ainda que quando um filho se apóia
demasiadamente em sua mãe, acaba por acomodar-se em uma atitude infantil e se nega a esforçar-se para
crescer.
Ainda sobre o vinculo familiar, Ajuriaguerra [1] ressalta que para o desenvolvimento da criança,
tanto o pai quanto a mãe desempenham papéis importantes. Contudo, os pais criam certas expectativas que
poderão ser abaladas, gerando assim sentimentos de afeição ou antipatia pela criança, no que nos alerta o
autor:
[...] além do amor que se passa ter pelo filho, existe em todo genitor um certo ideal de
filho que corresponde quase sempre a um modelo social determinado, a um modelo
pessoal feliz ou a um ideal de si mesmo que se quer viver na criança, por não ter sido
possível realizá-lo. Se é humano desejar um futuro feliz para a criança, deve-se sempre
temer que o modelo estático de uma criança ideal torne-se uma regra, impedindo o
desenvolvimento específico de cada um.[...] [1, p.763].
Dessa forma, os autores buscam esclarecer que, o contexto familiar tanto pode auxiliar no
desenvolvimento da criança, como pode, também impedir que este transcorra normalmente. Não é o contexto
familiar em si que contribui para o problema de aprendizagem e sim o que ocorre neste contexto.
Patto [11], analisa o problema de aprendizagem a partir do contexto escolar e tenta mostrar que,
através de mitos, a escola “produz indivíduos para o fracasso”. Segundo ela, sobre as crianças da classe
trabalhadora recaem vários mitos e preconceitos que acabam agravando tal quadro. É nesta perspectiva que
Paín [9], fala sobre um rigoroso diagnóstico que responda às reais dificuldades, que são encontradas tanto
pelo sujeito como também as condições externas a ele, tais como a escola e a família. Neste sentido, o
fracasso escolar ou as dificuldades de aprendizagem são produzidas dentro do sistema escolar por uma série
de mecanismos que dificultam e até impedem que a aprendizagem ocorra normalmente. Vemos que crianças
cujo potencial para aprendizagem é normal, fracassam porque as instituições escolares não cumprem seu
papel, não analisam a estrutura social maior. [4,11].
A partir disso, também podemos citar a problemática dos rótulos e preconceitos que recaem sobre o
aluno em sala de aula. Sabemos que trabalhar com as diferenças de aprendizagem na sala de aula compete ao
professor uma grande tarefa, pois as classes estão se tornando cada vez mais heterogêneas, e fugindo do
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padrão, da normalidade, tirando do comodismo os profissionais da educação. Porém, percebe-se que há uma
certa relutância por parte dos professores para aceitar e aprender a lidar com essas diferenças.
Levando em consideração que para o atendimento à diversidade existente nas escolas, é necessário
que se revisem as práticas pedagógicas, assim como os problemas apresentados sejam discutidos pelo círculo
de educadores, para que encontrem uma solução ou encaminhamento correto para esses alunos, cabe a este
estudo abrir espaço a uma breve discussão sobre o processo de inclusão de crianças com necessidades
educacionais especiais nas escolas, tendo em vista que a Educação Inclusiva deva atender as necessidades de
todos os alunos, respeitando suas diferenças individuais.
Segundo Mittler [8], a inclusão ou exclusão iniciam na sala de aula, pois são as experiências vividas
em sala de aula que vão definir a participação dos alunos dentro do grupo. Neste estudo, a exclusão pode se
transformar em uma causa dos problemas de aprendizagem, por isso a relevância de uma breve discussão
sobre a relação dos problemas de aprendizagem com a educação inclusiva.
4. Conclusão
A investigação aqui exposta, ainda que nesta fase, em seu aspecto teórico tendo em vista que estamos na
fase da coleta dos dados, teve como objetivo, a partir da concepção dos professores, levantar que tipo de
problemas eles estão enfrentando com as crianças e que de alguma forma estão interferindo no processo de
aprendizagem.
Entendemos a partir do exposto, que a real necessidade das escolas está em realizar um trabalho que
atente as diferenças individuais, isto é, a aprendizagem não é linear e sim entendida com um processo,
envolvendo todas as áreas do conhecimento. A universidade como espaço de construção do conhecimento
dessas áreas pode intervir, trazendo para a escola novas alternativas para a aprendizagem, como demonstram
os resultados iniciais. As escolas estão buscando acadêmicos que desenvolvam trabalhos práticos na área das
artes, acadêmicos dos cursos de licenciatura que possam contribuir com o trabalho dos profissionais que já
atuam no espaço escolar, como também serviços de psicologia e fonoaudiologia. Assim podemos afirmar,
que as escolas não querem apenas servir de espaço para coleta de dados, mas também para o retorno dessas
pesquisas, contribuindo de fato com a aprendizagem dos alunos.
O estudo apresentado ainda está em andamento, já que os dados ainda estão em fase de coleta e análise.
Até este momento observamos que muitos dos problemas das crianças encontrados, segundo as respostas
levantadas nos questionários, provém do ambiente familiar e do contexto social em que estão inseridas essas
crianças, as escolas percebem que a falta de interesse e participação da família na educação dos filhos, reflete
diretamente na aprendizagem dos mesmos e também no comportamento, vivência e valores sociais destas
crianças. Outras escolas, não analisam como sendo problemas de aprendizagem, mas como ritmos
diferenciados de aprendizagem, o que levamos também em consideração neste estudo, já que defendemos
alternativas e meios de aprendizagem que atendam a essas diferenças. A maior parte das escolas atende
crianças carentes, desse modo o trabalho realizado deve compreender estes aspectos e suas, interferências
nos diferentes ritmos de aprendizagem. Intenciona-se, a partir da análise dos questionários, voltar às escolas
com o intuito de dar retorno dos resultados, atendendo aos objetivos da nossa pesquisa.
Referências
[1] AJURIAGUERRA, J. Manual de Psiquiatria Infantil. São Paulo: Masson, 1983.
[3] COLLARES, C. A. L. Preconceitos no cotidiano escolar: ensino e medicalização. São Paulo: Cortez,
1996.
[4] FREITAG, B. Alfabetização e Psicogênese: um estudo longitudinal. Cadernos de Pesquisas. São Paulo,
(72), fevereiro, 1990.
[5] GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisas. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2008.
[6] MENEGHETTI, A. Genoma Ontico. 2.ed. Recanto Maestro: Ontopsicologia Editrice, 2003.
[7] MINAYO, M. C. S. (org) Peaquisa social- Teoria, método e criatividade. 23ª ed. Petrópolis: Vozes,
2004.
[8] MITTLER, Peter. Da exclusão à inclusão. In: Peter Mittler. Educação Inclusiva: contextos
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[9] PAÍN, S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas,
1985.
[11] PATTO, M. H. S. O fracasso escolar como objeto de estudo: anotações sobre as características de um
discurso. Cadernos de Pesquisa. São Paulo, (65), maio, 1988.
[12] SKLIAR, C. Pedagogia (improvável) da diferença: E se o outro não estivesse ai?. Rio de Janeiro:
DP&A, 2003.
[13] VIDOR, A. Relação entre pais e filhos e origem dos problemas. Passo Fundo: Berthier, 1977.
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1. Introdução
A pesquisa “A Prática Pedagógica e suas Representações: um Estado da Arte no XIV ENDIPE”
realiza-se no âmbito do Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, dentro da linha de
pesquisa “Formação de Professores para Educação Básica” e integra o projeto matriz “A Construção do
Professor Reflexivo: um Estudo sobre os Indicadores da Simetria Invertida e Transposição Didática –
ISITRA”.
O estudo é realizado desde agosto de 2008 e conclui-se em julho de 2010. Tem financiamento da
Fundação de Amparo da Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS). Seus objetivos são: reunir, organizar e
analisar os dados apresentados no XIV Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino de 2008, a fim de
construir o estado da arte sobre a prática pedagógica, a partir dos trabalhos de pesquisadores de diferentes
instituições do país. Também, pretende compreender as representações produzidas pelos pesquisadores, de
diferentes níveis de formação e atuação, sobre o conceito de prática pedagógica e como ele transita nestas
produções. A problemática dessa pesquisa é procurar entender como a prática pedagógica é estudada,
expressada e analisada pelos vários olhares dos pesquisadores que tiveram seus trabalhos publicados no XIV
ENDIPE/2008.
O interesse por esse tema de pesquisa deve-se à necessidade de compreender o que é a prática
pedagógica e como ela é apreendida no decorrer do curso de Licenciatura em Pedagogia, visto que é tema
central na formação docente. A leitura dos resumos e trabalhos completos dos pesquisadores que estudam a
prática pedagógica possibilitou muitas reflexões relacionadas aos conteúdos que integram o currículo de um
curso de graduação em Pedagogia, permitindo um olhar sobre o que significa ser professor nos dias de hoje.
A prática pedagógica é um tema que interessa a todos que ingressam ou atuam na área da educação,
independentemente do nível de formação em que se estão. Também interessa àqueles profissionais que
trabalham na área e desejam aperfeiçoar sua formação com novos conhecimentos e práticas que podem ser
levadas para a sala de aula. Afinal, a formação do professor nunca se completa e necessita ser
constantemente renovada.
A pesquisa foi desenvolvida a partir da leitura dos trabalhos publicados no XIV ENDIPE/2008, que foi
realizado em Porto Alegre, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. O evento recebeu
Pesquisadores, alunos de graduação, de pós-graduação, e professores de todo país, da América Latina e de
outros países. No total, teve cerca de 3.200 participantes, reuniu 418 painéis, 681 pôsteres e 34 salas de
conversa.
2.Método
Quando a pesquisa foi iniciada, estabeleceu-se uma forma de organização dos dados, que facilitasse
o manuseio e análise das informações, devido à grande quantidade de trabalhos que resultou do evento. Para
isso foi definido um método de trabalho que possibilitasse a organização dos dados e a posterior análise. A
metodologia “Estado da arte” foi a opção escolhida, cujo caráter de revisão bibliográfica permite mapear e
discutir a produção acadêmica resultante daquele evento. Para chegar a essa definição foi necessário uma
pesquisa inicial sobre estado da arte nas publicações indexadas a base de dados Scielo e em autores que não
somente utilizam, mas explicam o estado da arte como uma metodologia de pesquisa. Entre essas referências
a que mais contribuiu para os objetivos da pesquisa foi o artigo da revista “Educação e Sociedade”, ano
2002, da autora Norma Santos de Almeida Ferreira denominado: “Pesquisas denominadas Estado da Arte ou
Estado do Conhecimento”. A primeira parte da pesquisa visou compreender melhor o que é estado da arte
com metodologia de pesquisa.
Num segundo momento, foi realizada a leitura dos resumos que constavam nos anais do XIV
Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino/2008, no formato cd-room. Primeiramente, foram lidos
cerca de 300 resumos que estavam distribuídos em 7 eixos temáticos: condições de produção da didática:
tendências e trajetórias; práticas de ensino e as didáticas específicas; formação de professores e saberes
docentes; sujeito do processo de ensinar e aprender; políticas públicas e institucionais e os processos
*1 [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
educativos; currículo, cultura e diferença nos lugares e espaços educativos; ensinar e aprender no meio
virtual e outras linguagens.
Simultaneamente à leitura dos resumos, procurava-se pela expressão prática pedagógica, a fim de
detectar os trabalhos que enfocavam mais diretamente o objeto da pesquisa em curso. Durante esse processo
percebeu-se a necessidade de criar categorias que orientariam a organização do que estava sendo lido.
Estabeleceram-se assim cinco categorias: “formação do professor”, “prática pedagógica”, “relação ensino-
aprendizagem”, “relação entre teoria e pratica” e “inclusão escolar”. As categorias serviram para organizar
os trabalhos selecionados de modo que fosse mais fácil localizá-los posteriormente. Para poder categorizar os
resumos foi necessário ler mais de uma vez o trabalho porque, à primeira vista, ele relacionava-se a mais de
uma categoria. Uma segunda ou terceira leitura dava mais segurança na sua categorização. Durante a leitura
e categorização dos resumos, também foi criada uma tabela, segundo os eixos temáticos do evento, o que
possibilitou a organização dos dados do trabalho quanto a: título, autoria, instituição de origem, palavras-
chave e categorias.
Dos cerca de 300 resumos, foram selecionados 163, que estavam distribuídos nos seguintes eixos
temáticos: condições de produção da didática: tendências e trajetórias (7 trabalhos); práticas de ensino e as
didáticas específicas (15 trabalhos); formação de professores e saberes docentes (10 trabalhos); sujeito do
processo de ensinar e aprender( 15 trabalhos); políticas públicas e institucionais e os processos educativos ( 8
trabalhos); currículo, cultura e diferença nos lugares e espaços educativos ( 66 trabalhos); Ensinar e aprender
no meio virtual e outras linguagens (42 trabalho).
À medida em que os trabalhos eram lidos, os trechos mais importantes eram destacados em negrito
para novas leituras e análises posteriores. Durante as leituras, foi possível perceber que muitos trabalhos
selecionados não se aproximavam dos objetivos da pesquisa e, por isso, foram descartados. Mas, para chegar
a essa conclusão, foi necessário ler e reler muitas vezes. Nesse processo, foi sendo construída uma pasta de
arquivos com os textos completos dos trabalhos que seriam analisados. Ao mesmo tempo em que se montava
uma tabela pelos eixos temáticos com os dados que interessavam à pesquisa (título, autor, formação do autor,
contexto do projeto, objetivo da pesquisa, referenciais teóricos, número de vezes em que a expressão
prática(s) pedagógica(s), prática(s) educativa(s) e as ideias principais). Com isso, foi possível encontrar os
dados relevantes para a pesquisa, permitindo a observar quais eram as representações de prática pedagógica
mais significativas para os autores.
Ao final dessa etapa, apenas 62 trabalhos foram utilizados para fazer as análises que interessavam à
pesquisa. Os 62 trabalhos pertenciam aos seguintes eixos temáticos do evento: Condições de produção da
didática: tendências e trajetórias (4 trabalhos); Práticas de ensino e as didáticas específicas (7 trabalhos);
Formação de professores e saberes docentes (6 trabalhos); Sujeito do processo de ensinar e aprender (4
trabalhos); Políticas públicas e institucionais e os processos educativos ( 5 trabalhos); Currículo, cultura e
diferença nos lugares e espaços educativos ( 27 trabalhos); Ensinar e aprender no meio virtual e outras
linguagens (9 trabalhos).
3. Resultados e Discussão
Durante a leitura dos artigos foi possível perceber que a prática pedagógica não tem mais os mesmos
significados, que tinha quando aconteceu o I ENDIPE, em 1982, na PUC/RJ. Naquela época, a prática
pedagógica era relacionada à didática e a uma prática de ensino. Vinte e seis anos depois, a partir da
produção dos pesquisadores do XIV ENDIPE, observa-se que a temática prática pedagógica está mais
relacionada: à formação de professores, ao processo de ensino-aprendizagem, ao planejamento, às aulas fora
dos muros escolares (classe hospitalares, educação no campo, visitas e atividades extracurriculares), à teoria
versus prática, às práticas em sala de aula e à inclusão.
Através das leituras podemos compreender que a prática pedagógica está presente desde o momento
em que o professor organiza a sua aula e reflete sobre as suas práticas em sala de aula. Conforme
PERRENOUD [1] discute no seu livro, “A Prática Reflexiva no Ofício do Professor: profissionalização e
razão pedagógica”, o professor tem que refletir sobre a ação, durante a ação e na ação. Ao preparar e
modificar o seu planejamento, na verdade, ele modifica a sua prática e reflete como pode melhorar as suas
aulas. A autora RIBEIRO [2] explica no seu trabalho, que a reflexão da ação e sobre a prática do professor é
contínua, ou seja, é a partir dela que se constrói e reconstrói os significados e sentidos sobre os saberes que
constituem a profissão do professor. O autor TARDIFF [3] ao discorrer sobre os saberes do professor, no seu
livro “Formação profissional e saberes docentes”, diz que eles podem ser profissionais (saberes transmitidos
nas instituições de ensino ou escolas normais), pedagógicos (doutrinas ou concepções provenientes das
práticas educativas), disciplinares (saberes que dispõem da nossa sociedade integrados na Universidade),
curriculares (visto nas disciplinas dos cursos, nas Universidades) e experienciais (que surgem das práticas e
experiências do professor em sala de aula).
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4. Conclusão
As leituras e análises realizadas permitem concluir que a prática pedagógica é um tema que interessa a
todos, por isso, tem crescido o número de eventos científicos na área, assim como cresce o número de
participantes e, consequentemente, o número de trabalhos publicados. Só para ilustrar essa afirmação em
1982, o primeiro ENDIPE recebeu 60 pessoas e o último, realizado em 2010, na cidade de Belo Horizonte,
teve a participação de 6 mil pessoas. Isso pode ser visto como uma grande preocupação que aflige o
educador, independentemente, do nível em que ele atua ou da região onde se dá a sua atuação.
A preocupação com a prática pedagógica ultrapassa os eventos científicos da área e os cursos de
formação de professores, estando presente nas escolas, da educação infantil ao nível superior. Também
chegou às telas do cinema, com a produção de vários filmes que abordam a temática do professor em sala de
aula, como, “Escritores da Liberdade”, de Richard Lagravenese, “Entre os Muros da Escola” de Laurent
Cantet, “Ser e Ter” de Nicolas Phillibert e o brasileiro “Pro Dia Nascer Feliz” de João Jardim.
Ao final da leitura dos 62 trabalhos é possível sintetizar que a prática pedagógica é mais uma reflexão
que os professores fazem para melhorar a sua prática, para superar os obstáculos, para organizar conteúdos
que sejam significativos aos alunos, ou seja, vai muito além da prática do professor e não está somente
relacionada à transmissão de conhecimentos. Também é necessário se observar que não é possível
reconhecer somente uma definição de prática pedagógica, pois, nos trabalhos analisados aparecem diversas
representações sobre o tema. É possível afirmar que grande parte dos professores deseja aperfeiçoar sua
prática pedagógica e continuar a sua formação profissional.
Referências
1.PERRENOUD, Philippe, A Prática Reflexiva no Ofício do Professor: Profissionalização e Razão
Pedagógica . 1ed. Porto Alegre: ARTMED, 2002, 232p.
2.RIBEIRO, M. G. Márcia. A Reflexão no processo de formação continuada: ressignificando a prática
pedagógica In XIV Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008
3.TARDIFF, Maurice. Saberes Docentes e Formação Profissional. 9ºed. Petrópolis. Vozes, 2008, 325p.
4.FERREIRA, R. S. Nali - Interdisciplinaridade e autonomia na construção de significados na prática
pedagógica.In XIV Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2008
Agradecimentos
FAPERGS e UCS
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A concepção althusseriana da escola como Aparelho Ideológico de Estado (AIE), segundo a qual ela
atuaria como instrumento de reprodução da sociedade capitalista mediante a inculcação massiva da ideologia
dominante e o ensino de saberes práticos e teóricos necessários ao bom funcionamento do sistema produtivo,
parece ganhar novo significado quando confrontada com o crescente rebaixamento do ensino destinado às
camadas populares, evidenciado pelos recentes resultados obtidos nos diferentes processos de avaliação
oficial da educação brasileira. Assim, o presente trabalho procurou estudar de forma rigorosa e sistemática a
referida teoria, mergulhando mais profundamente nas obras do próprio autor e de alguns de seus
comentadores e confrontando-a com os dados levantados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP) através do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), da
Prova Brasil e do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), a fim de investigar se e em que medida ela
ainda pode ser considerada um referencial teórico pertinente e eficaz para a compreensão do papel
desempenhado hoje pela escola na sociedade brasileira.
2. Método
A pesquisa teve, ao mesmo tempo, um caráter bibliográfico e quantitativo.
Enquanto pesquisa bibliográfica, optou-se pela leitura analítica e sistemática das obras previstas no
projeto, destacando-se “Sobre a Reprodução” [2] e “Aparelhos Ideológicos de Estado” [1], de Althusser,
além de outras que contribuíram para a elucidação da teoria althusseriana da escola enquanto AIE. Enquanto
pesquisa quantitativa, foram utilizados dados levantados pelas avaliações educacionais e exames nacionais
realizados e divulgados pelo MEC/ Inep nos últimos cinco anos, a fim de contextualizar o momento atual da
educação brasileira.
Primeiramente, procurou-se compreender mais profundamente a teoria da escola como AIE,
mediante estudo rigoroso e sistemático de algumas das principais obras de Althusser, bem como de seus
comentadores a partir dos quais essa teoria tornou-se mais elucidada e problematizada. Dentre os
comentadores, salientam-se Saviani [18], Snyders [19], Cury [11], Rosenberg [16], entre outros. Em um
segundo momento, foi realizado um estudo a fim de compreender os processos e instrumentos oficiais de
avaliação da educação brasileira, bem como o significado político e pedagógico dos resultados por eles
obtidos nos últimos cinco anos. Para tanto, foi realizado um levantamento bibliográfico de autores que
discutem e problematizam esses processos e instrumentos, destacando as obras “A avaliação da educação
básica no Brasil” [12] e “Avaliação: construindo o campo e a crítica” [13]. Na terceira etapa do trabalho,
foram utilizados dados levantados pelas avaliações educacionais e exames nacionais realizados e divulgados
pelo MEC/ Inep nos últimos cinco anos, através do SAEB (2003 e 2005) [7,9], do ENEM (2003 a 2007) [5] e
da Prova Brasil (2005 e 2007) [6,8]. Posteriormente, essas informações foram decompostas por meio do
estabelecimento de categorias analíticas que permitiram traçar um perfil da educação no Brasil. As categorias
utilizadas foram relacionadas ao desempenho escolar dos estudantes, sua situação sócio-econômica,
informações relativas aos professores, diretores e às escolas. Em seguida, os dados obtidos foram tabulados e
organizados em tabelas e gráficos para que pudessem ser interpretados e tomados como referência para a
reflexão sobre o sentido da teoria althusseriana da escola enquanto aparelho ideológico de Estado em face da
realidade da escola pública brasileira.
3. Resultados e Discussão
Pudemos verificar, através dos dados do ENEM, do SAEB e da Prova Brasil, levantados pelo INEP,
o crescente rebaixamento do ensino brasileiro, o que parece sugerir que a escola continua cumprindo o papel
de AIE a serviço da classe dominante, como um meio de reprodução e perpetuação da sociedade de classes.
Contudo, as formas pelas quais a escola realiza este papel, em certa medida, se modificaram.
Atualmente, parece que ela cumpre essa função de forma mais eficaz pela inculcação da ideologia dominante
(valores, idéias, crenças, comportamentos, etc. em conformidade com os interesses da classe dominante) do
que pela inculcação dos conteúdos, ou seja, dos saberes construídos e sistematizados historicamente [18],
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
pois se assim fosse, as médias nos exames nacionais não ficariam aquém do esperado. A ideologia difundida
na escola continua tendo uma dupla função: garantir a submissão para os operários e assegurar a dominação
para os capitalistas, pois “é nas formas e sob as formas da sujeição ideológica que é assegurada a reprodução
da qualificação da força de trabalho” [1].
Desse modo, a qualificação da força de trabalho continua garantida através do sistema escolar, uma
vez que a instrução relaciona-se com o posto a ser ocupado no trabalho, havendo, na prática, diferentes
escolas para atender a diferentes classes sociais. Sabemos que a maioria dos alunos das escolas públicas no
Brasil pertence às classes populares. A escola pública, nas condições atuais, parece estar relegada a um papel
quase meramente figurativo, dado o descaso da classe dominante para com o ensino público. Tal descaso
deve-se, ao menos em parte, ao fato de essa classe não se utilizar desse ensino para educar os seus membros,
recorrendo ao ensino privado. Isso fica evidente quando comparamos o desempenho dos estudantes de
escolas públicas e escolas privadas nas avaliações nacionais, que expressa o dualismo presente na educação
brasileira.
4. Conclusão
A escola, assim, parece continuar desempenhando um papel dominante dentre os Aparelhos
Ideológicos de Estado para a inculcação massiva da ideologia da classe dominante, principalmente porque a
educação é obrigatória, gratuita, goza de uma enorme audiência e apresenta-se como um meio aparentemente
neutro, desprovido de ideologia [2]. Contraditoriamente, a mesma escola que recebe a quase totalidade das
classes populares, nega-lhes o acesso a um ensino de qualidade.
Esse trabalho também nos permitiu desenvolver uma outra interpretação da obra de Althusser,
tomando-o como um referencial teórico que não apenas evidencia a reprodução da sociedade que se dá
através dos AIE, mas também destaca as possibilidades de luta e as contradições presentes nesses aparelhos,
que viabilizam uma participação efetiva das classes populares e dos intelectuais (no caso, os professores) que
com ela verdadeiramente se identificam e solidarizam, em prol da transformação social.
Referências
[1] ALTHUSSER, L. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.
[2] ______. Sobre a reprodução. Petrópolis: Vozes. 1999.
[3] BRASIL. Mec. Inep. ENEM – Documento Básico. Brasília, 1998. Disponível em:
<http://historico.enem.inep.gov.br/arquivos/Docbasico.pdf >. Acesso em: 29 jan. 2009.
[4] ______. Mec. Inep. História da Prova Brasil e do SAEB, 2009. Disponível em:
<http://provabrasil.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=15&Itemid=14>. Acesso em
25 mai. 2009.
[5] ______. Mec. Inep. Microdados do ENEM 2003-2007. Brasília, 2008. Disponível em:
<http://www.inep.gov.br/basica/levantamentos/acessar.htm>. Acesso em: 21 jul. 2009.
[6] ______. Mec. Inep. Microdados da Prova Brasil 2007. Brasília, 2009. Disponível em:
<http://www.inep.gov.br/basica/levantamentos/acessar.htm>. Acesso em: 21 jul. 2009.
[7] ______. Mec. Inep. Microdados do SAEB 2003-2005. Brasília, 2008. Disponível em:
<http://www.inep.gov.br/basica/levantamentos/acessar.htm>. Acesso em: 21 jul. 2009.
[8] ______. Mec. Inep. Resultados da Prova Brasil (Acesso ao Sistema), 2009. Disponível em:
<http://provabrasil.inep.gov.br/index.php?option=com_content&task=view&id=82&Itemid=99> Acesso em
06 set. 2009.
[9] ______. Mec. Inep. SAEB - 2005 Primeiros Resultados: Médias de desempenho do SAEB/2005 em
perspectiva comparada. Brasília, 2007. Disponível em:
<http://www.inep.gov.br/download/saeb/2005/SAEB1995_2005.pdf>. Acesso em: 23 mai. 2009.
[10] CHAUÍ, M. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1981.
[11] CURY, C. J. Educação e contradição. São Paulo: Cortez/Autores Associados, 1985.
[12] FREITAS, D. N. T. de. A avaliação da educação básica no Brasil. Campinas. Autores Associados,
2007.
[13] FREITAS, L. C. et al. (Org.). Avaliação: construindo o campo e a crítica. 1ed. Florianópolis: Insular,
2002. 264 p.
[14] MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã: (I-Feuerbach). 4ª ed. São Paulo: Hucitec, 1984.
[15] ______. Textos sobre educação e ensino. São Paulo: Moraes, 1992.
[16] ROSENBERG, L. Educação e desigualdade social. São Paulo: Loyola, 1984.
[17] SANFELICE, J. L. Da escola estatal burguesa à escola democrática popular: considerações
historiográficas. In: LOMBARDI, J. C., et all. (orgs.). A escola pública no Brasil: história e historiografia.
Campinas, SP: Autores Associados: HISTEDBR, 2005.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
No mundo globalizado contemporâneo, as informações são obtidas em tempo real e a
tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano da sociedade.
Percebe-se que os alunos já chegam à escola sabendo utilizar o computador, navegam na internet,
jogam online e manuseiam brinquedos eletrônicos. Com isso tendo acesso a este vasto mundo da tecnologia
digital, pois já são nativos digitais [4], já nasceram imersos neste mundo de tecnologia, que cresce e se
desenvolve cada vez mais.
Porém, quando estas crianças nativas digitais vão à escola, se deparam muitas vezes com um sistema
de ensino formal onde o professor ainda passa o conteúdo no quadro e os alunos o copiam no seu caderno,
como se somente o professor fosse o único detentor do conhecimento.
É possível observar uma incongruência entre as práticas de trabalho dos professores – imigrantes
digitais – e a realidade vivenciada pelos nativos digitais. Apesar de tantas mudanças e avanços tecnológicos,
não se permite mais que as escolas deixem de lado as novas tecnologias educacionais, pois estas são
ferramentas de extrema valia para o processo de ensino/aprendizagem dos alunos.
Todo novo recurso utilizado para a facilitação do processo de produção de conhecimento pelo o
aluno tem muita importância. É uma porta nova que se abre, são novos horizontes que se ampliam.
Não se pode deixar o uso da tecnologia dependente fora dos muros das escolas ou deixar o
laboratório de informática fechado, pois os alunos, que já sabem criar seus próprios blogs, são os mesmos
que ainda estão recebendo um conhecimento em forma de depósito, fato que implica negativamente para a
sua busca e criação de novos conhecimentos, a partir da formulação de suas idéias e concretizando suas
opiniões e sua visão crítica.
2. Método
Ao proceder esta pesquisa é necessário classificá-la como uma pesquisa participante, de viés
qualitativo, baseada no método dedutivo, onde a coleta de dados se dá a partir da observação sistemática, que
de acordo com Lakatos e Marconi [1]
3. Resultados e Discussão
Os recursos tecnológicos já fazem parte da realidade e do cotidiano da sociedade atual estes recursos
vão desde a utilização de água encanada, luz elétrica, eletrodomésticos, até o uso da internet.
Nota-se que cada vez mais a humanidade torna-se dependente dos recursos tecnológicos, tanto os
dependentes quanto os independentes que são utilizados, para se comunicar, trabalhar, estudar, se divertir e
realizar tantas outras atividades que tais recursos permitam.
Os recursos tecnológicos estão cada vez mais presente em nossas vidas, mediando o
relacionamento com o sistema de governo, negócio, saúde, educação. Através da internet, é
possível obter informações relacionadas ao sistema de saúde pública, solicitar a emissão de
documentos, comprar, vender, e aprender pela educação a distância. Isso significa que a
internet está se tornando um meio indispensável para a organização de nossas vidas. [5]
*
Autor Correspondente: [email protected]
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Contudo o âmbito escolar, ainda mantém-se em alguns casos resistente e alienado ao uso das
tecnologias dependentes como instrumentos pedagógicos no processo e ensino-aprendizagem, que em
conformidade com Leite [2], são as tecnologias que dependem de um ou vários recursos elétricos ou
eletrônicos pra serem reproduzidas e/ou utilizadas, como por exemplo, o computador, DVD, internet,
televisão, entre outros. Já as tecnologias educacionais independentes são as que não dependem destes
recursos eletrônicos e elétricos para a sua reprodução e /ou utilização.
O despertar do professor para o uso das novas tecnologias e do ciberespaço, faz-se necessário, para que ele
atenda as expectativas educacionais da sociedade contemporânea, contudo de acordo com Prensky [4], esta
se torna uma tarefa de múltiplos obstáculos, uma vez que este profissional é considerado pelo autor um
imigrante digital.
Aqueles de nós que não nasceram no mundo digital, mas estiveram em contato em alguns
momentos atrás em nossas vidas, tornando-se fascinados e adotando muitos ou alguns
aspectos das novas tecnologias são e sempre serão comparados a eles, IMIGRANTES
DIGITAIS. [4]
Observa-se que é de suma importância o professor adotar um planejamento flexível, que esteja
propício ao uso dos recursos tecnológicos, como mais um ótimo recurso didático a sua disposição, recursos
estes que já são utilizados pelos seus alunos.
Acredita-se que as crianças, que frequentam as escolas de educação infantil estão mais integradas e
hábeis no manuseio de equipamentos eletrônicos, mesmo nas crianças do berçário, já é possível notar
preferências por brinquedos eletrônicos, ao invés dos tradicionais chocalhos e mordedores.
Para Valente [5]
Elas nasceram no mundo onde esses recursos tecnológicos já existiam e foram assimilados
como parte de seu cotidiano. Neste sentido, a escola – mais especificamente a educação
infantil – não pode ficar destoante da realidade dessas crianças.
Ao realizar o processo de integração das tecnologias digitais, já na educação infantil as escolas estão
permitindo uma maior inserção e domínio das práticas tecnológicas, pois parte-se do princípio de que as
crianças, mesmo pequenas já possuem habilidades no domínio do celular, do controle remoto e de
videogames, também têm acesso ao computador e a internet.
Diversas propostas pedagógicas para a educação infantil baseiam-se na brincadeira e nos jogos. Oliveira [3]
defende que o jogo infantil, deve ser utilizado como um recurso para a aprendizagem e desenvolvimento das
crianças na educação infantil.
4. Conclusão
Esta pesquisa tem relevância no sentido de alertar aos professores sobre a importância do uso das
tecnologias digitais no processo de ensino/aprendizado dos alunos, pois fazer uso desde material didático é
muito importante para aproximar e dar um maior respaldo para os alunos no entendimento dos conteúdos
abordados.
Referências
[1]LAKATOS, Eva Maria. MARCONI, Maria de Andrade. Fundamentos de Metodologia Científica. 4. ed.
São Paulo: Atlas, 2001.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[2]LEITE, Ligia Silva et al. Tecnologia educacional: descubra suas potencialidades na sala de aula.3.ed.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
[3]OLIVEIRA, Zilma Ramos. Educação infantil: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2002.
[4]PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants. On the Horizon. MCB University Press, v. 9, n. 5,
out. 2001. Disponível em: <http://www.marcprensky.com/writing/Prensky%20-
%20Digital%20Natives,%20Digital%20Immigrants%20-%20Part1.pdf>. Acesso em: 22 fev. 2010.
[5]VALENTE, José Armando. A inclusão das tecnologias digitais na educação infantil. Revista Pátio
Educação Infantil. Rio Grande do Sul, n.3, Nov./Fev. 2003, p. 15-18.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1.Introdução
São muitos os fatores responsáveis pela formação de pessoas não conscientes de seus deveres e
direitos como cidadãos, tais como: analfabetismo, métodos não adequados e as dificuldades de
aprendizagem.
Por isso, este artigo vem de indagações feitas a partir de um olhar individualizado de crianças que
tem dificuldades de aprendizagem, em uma escola estadual da cidade de Santa Maria, no estado do Rio
Grande do Sul. Onde nesta instituição, está inserido o projeto chamado de “Laboratório de Alfabetização:
Repensando a formação de professores”, criado pelo Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação Inicial,
Continuada e Alfabetização.
O foco foi dado nos métodos utilizados na alfabetização, com seus respectivos processos de
construção e sobrepostos nas dificuldades de aprendizagem e no papel individualizado que o educador
oferece para cada educando. Tendo como referencial teórico, Bogdan; Biklen (1994, p.9), Emília Ferreiro
(1987, p.34), Guyton (1993, p. 89) e Nunes ( 2004,p.25 ).
Abordarei os métodos de alfabetização, utilizados neste projeto de pesquisa, em particular os
métodos de Emilia Ferreiro (1987) e a utilização de jogos no processo de ensino-aprendizagem e por fim o
papel individualizado do educador com estas crianças.
Farei algumas considerações sobre os métodos utilizados por Emília Ferreiro ( 1987)[1], no processo
que cada criança deveria passar para alcançar o nível alfabético.Onde também é utilizado pelo grupo para a
realização do trabalho individualizado com os educandos.
Neste processo de construção, Emilia Ferreiro (1987) [1,1] define quatro níveis na psicogênese da
alfabetização (pré-silábico, silábico, silábico alfabético e o alfabético).
No nível pré-silábico, segundo Emília Ferreiro (1987) [1,2], “a criança não estabelece vínculo entre a
fala e a escrita, supõe que a escrita é outra forma de desenhar”.
Por isso, acreditamos que as crianças devam conviver mais com a leitura e com a escrita, para
apropriar-se do processo critico e reflexivo da leitura e escrita. Na escola o que muitas vezes podemos
observar, é que crianças estão aprendendo de uma forma mecânica e artificial, desprovida de conteúdo,
significação e expressão.
No nível silábico, segundo Ferreiro (1987) [1,3], “a criança já supõe que a escrita representa a fala,
tenta fonetizar a escrita e dar valor sonoro às letras, já supõe que a menor unidade da língua seja a sílaba”.
Pela primeira vez, a criança percebe que a escrita representa a fala. O aluno do nível silábico é um sujeito
que resolveu temporariamente o problema da escrita, mas que vai se defrontar mais tarde com o problema da
leitura.
No nível silábico-alfabético, conforme Ferreiro (1987) [1,4], “o aluno coexistirá duas formas de
corresponder sons e grafias”. É neste momento que o professor deve estar atento, para através de métodos
diferenciados e com o seu auxílio, à criança volte a ser estimulada e consiga passar para o próximo estágio.
No nível alfabético, segundo Ferreiro (1987) [1,5], “a criança já compreende que cada som
corresponde a uma letra, que letras se combinam em sílabas e palavras e que cada fonema é representado por
uma letra”.Após tudo isso já abordado, que conseguimos perceber a importância de conhecer o
desenvolvimento dos níveis da lecto- escrita.
Conforme Emilia Ferreiro (1987)[1,6] nos fala, “alfabetizar significa adquirir a habilidade de
codificar a língua oral em língua escrita e de codificar a língua escrita em língua oral, mas ao mesmo tempo,
ler e escrever significa apreensão e compreensão de significado”.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Por isso, o objetivo deste artigo é mostrar que as dificuldades de aprendizagem vão além da
utilização de diferentes métodos utilizados na alfabetização, com um olhar mais individualizado sobre os
educandos é possível que uma criança com dificuldades consiga se desenvolver melhor ou até mesmo reduzir
ao mínimo estas dificuldades.
A partir de problemáticas que foram encontradas por nós, na prática do projeto já mencionado a
cima, pois muitas vezes crianças tolhidas por uma dificuldade de aprendizagem na maior parte das vezes têm
comprometido seu desempenho escolar. E isto, é visto muito claro por nós, na prática nesta escola.
Na verdade, o que se sabe é que nunca há uma causa única para as dificuldades de aprendizagem,
mas sim uma conjunção de fatores que interagem para que isto aconteça.
Segundo Guyton (1993, p. 89) [2], “a origem da categoria das dificuldades de aprendizagem, como
hoje é conhecida, desenvolveu-se a partir do conceito de crianças com lesão cerebral”. Há várias
multiplicidades de fatores que envolvem uma pessoa com dificuldades na aprendizagem, sendo a família
uma delas.
Reconhecer quando uma criança apresenta dificuldade de aprendizagem, já é o primeiro passo para
não rotulá-la. Os rótulos exercem efeito negativo entre as crianças, mas reconhecer que existe capacidade e
que algo pode ser feito já é de grande relevância.
Para que aconteça esse desenvolvimento, dependerá da efetivação de um ambiente alfabetizado e
facilitador, que devam se adaptar as necessidades constantes do indivíduo. E para isto acontecer, uma pratica
muito relevante é os jogos educativos, muito utilizados pelo projeto.
Para o processo de alfabetização o jogo é considerado a atividade mais importante no âmbito
educacional. Através dele a criança promove sua imaginação, além de ser uma das melhores formas de
socialização e interação das crianças entre si, sendo importante para o desenvolvimento humano.
De acordo com Nunes (2004, p.25) [3], “a ludicidade é uma atividade que tem valor educacional
intrínseco, mas além desse valor, que lhe é inerente, ela tem sido utilizada como recurso pedagógico”. Ele
tem um papel de relevante importância, pois é à base do desenvolvimento cognitivo e afetivo do ser humano.
A brincadeira e os jogos pedagógicos ganharam mais saliência nos aspectos cognitivos, pois de uma
atividade lúdica passaram a dar contribuições importantes na área de aquisição do conhecimento.
No mundo do brinquedo e dos jogos, no qual o educando aprende a ditar as regras ou a respeitá-las, a
brincadeira não é uma atividade inata, mas sim uma atividade social e humana que supõe contextos sociais, a
partir dos quais o aprendiz comanda uma nova realidade e estabelece suas normas.
É de fundamental importância o papel do educador neste processo,pois o mesmo auxilia de forma
individualizada o educando,dando assim maior atenção às dificuldades presentes em cada um. Sendo
possível trabalhá-las de forma a chegar em resultado mais satisfatórios para o aluno.
2.Método
A metodologia utilizada foi a pesquisa qualitativa, segundo os estudos de Bogdan; Biklen (1994,
p.9)[4].O trabalho realizado pelo grupo de pesquisa consiste em dar aulas individualizadas para crianças
consideradas com dificuldades de aprendizagem em uma escola municipal localizada no municio de Santa
Maria.
Onde educadoras participantes do projeto, realizam atividades com o apoio de jogos educativos
individualmente com as crianças. Trabalhando assim as dificuldades especificas que cada criança tem na
lecto-escrita.
3.Resultados
Apesar de todos estes relevantes problemas, consideramos que além da individualização do trabalho
que está sendo realizado pelo grupo, consideramos de alta relevância a importância dos métodos utilizados
para o ensino destas crianças.
A pesquisa esta em processo de conclusões de resultados, por isso, eles estão em aberto. E é nesta
perspectiva, que foi possível verificar a importância que tem o apoio pedagógico individual para as crianças
com dificuldades de aprendizagem.
Com os estudos realizados até o momento, verifica-se a grande importância de conhecer o processo
de construção da leitura e da escrita, bem como dos jogos e o apoio pedagógico realizados com as crianças
que possuem dificuldades de aprendizagem. Em nosso trabalho realizado pelo Projeto Laboratório de
Alfabetização cujo está dentro do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação Inicial, Continuada e
Alfabetização (GEPFICA), percebe-se a grande satisfação das crianças em terem como recurso didático os
jogos e as brincadeiras, pois é através desse meio que elas podem socializar-se e organizar seus
conhecimentos.
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4.Conclusões:
A escola deve tratar cada criança com suas particularidades, pois o processo de alfabetização se da
de maneira diferenciada de criança para criança. Cabe ao professor perceber essas diferenças e ver se certo
aluno está com dificuldades de aprendizagem e procurar conhecer os níveis da lecto-escrita para auxiliar no
processo de construção de conhecimento do aluno, para que o mesmo consiga aprender o conteúdo.
Além disso, achamos importante a escola e a família terem um papel crítico durante todo o período
de alfabetização da criança, para que ela consiga sanar suas dificuldades. Portanto, a escola deve tratar cada
criança com suas particularidades, pois o processo de alfabetização se dá de maneira diferenciada de criança
para criança. Cabendo ao professor perceber a importância do seu papel no processo de ensino-
aprendizagem.
Referências
[1],[1,1],[1,2],[1,3],[1,4],[1,5],[1,6]FERREIRO, Emília. Psicogênese da língua escrita. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1987. 34p.
[2]GUYTON, A. Neurociência básica: anatomia e fisiologia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1993. 89p.
[3]NUNES, Ana Raphaella Shemany. O lúdico na aquisição da segunda língua. Disponível em:
http://www.linguaestrangeira.pro.br/artigos_papers/ludico_linguas.htm. Acesso no dia 16 de dezembro de
2009.
[4]BOGDAN, R. C.; BIKLEN, S. K. Investigação qualitativa em educação: uma introdução à teoria e aos
métodos. 4ª ed. Porto: Porto, 1994.9p.
289
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
ATIVIDADE EXPERIMENTAL:
AÇÕES PARA A APRENDIZAGEM E ESTRATÉGIA DE MOTIVAÇÃO
Gisele M. dos Santos 1*; Luana Portilla de Mello 2; Divina Zacche Pereira3
Instituto Federal de Santa Catarina (IF-SC)
1. Introdução
De acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) 1, os conhecimentos devem ser
construídos como algo que não envolva a simples memorização de conceitos, ideias ou leituras. Seu
aprendizado exige vivência e atividade, não só de atividades direcionadas por livros, mas de caráter ativo
como atividade experimental voltada para práticas contextualizadas.
Ao delimitar a proposta desta pesquisa na experimentação como instrumento motivacional e facilitador
do processo de ensino e aprendizagem, optou-se como foco o início da escolarização, ou seja, no Ensino
Fundamental. A proposta desta pesquisa foi direcionada para o Ensino Fundamental para auxiliar os
educandos a atingirem níveis mais elevados de cognição nesta fase de escolarização, facilitando a
aprendizagem de conceitos científicos, através das contribuições da abordagem sócio-histórica de Vygotsky
para as aulas de ciências.
Dentre deste contexto, presente estudo objetiva mostrar algumas contribuições teóricas de estudos
realizados recentemente, para a análise das questões relacionadas à motivação e à aquisição de
conhecimentos através de aulas experimentais e como os aspectos emocionais presentes nestas atividades
podem favorecer a elaboração e a assimilação do conhecimento científico, tendo como referencial a teoria
Vygotskyana Sócio-histórica. Deste modo, procura-se problematizar o modo como as atividades
experimentais despertam a motivação dos educandos e proporcionam a construção do conhecimento, a
assimilação dos conceitos científicos de forma contextualizada, através de problemas reais explorados nas
aulas experimentais.
2. Método
Neste artigo busca-se analisar, por meio de uma revisão da literatura, a contribuição das aulas
experimentais no Ensino de Ciências Naturais, como uma estratégia motivacional e como forma de
favorecer o aprendizado. Portanto, pretende-se discutir a importância das atividades de experimentação no
ensino de Ciências Naturais, através da motivação e como essas atividades podem ser compreendidas,
assimilando conceitos científicos em situações em que os estudantes aprendem ao envolver-se
continuamente com manifestações dos fenômenos naturais, criando hipóteses, experimentando, errando,
interagindo com seu grupo, elaborando suposições e analisando os resultados experimentais para perceber
sua exatidão e validade.
Em relação às dimensões para este estudo, optou-se por analisar os dados sob os dois fatores principais
envolvidos na aula de experimentação: a motivação e a aprendizagem.
A disciplina de Ciências, desde que foi inserida no currículo escolar, vem sofrendo modificações de
acordo com o período histórico, cultural, econômico, político e social. A partir de 1990, documentos como
os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), de âmbito nacional, estadual e municipal têm sido elaborados
para orientar professores de Ciências do Ensino Básico. De acordo com os PCNs 1, os conteúdos
ensinados em Ciências são aqueles relacionados à compreensão do universo, da vida e ambiente, saúde,
tecnologia e sociedade. A proposta de trabalho dos conteúdos se dá em três dimensões: conceituais,
procedimentais e atitudinais. Já no contexto estadual, em Santa Catarina, as Diretrizes Curriculares para o
Ensino Fundamental, apontam alguns pontos que são considerados as habilidades e competências
necessárias aos alunos do Ensino Fundamental: a capacidade de conhecer, de agir, de criar, de relacionar, de
contextualizar, de conviver e de se relacionar, de interpretar, de entender, de interagir com o mundo, de ter
domínio, de apropriar-se do conhecimento e desenvolver soluções para problemas. Com o desenvolvimento
dessas competências, o aluno estabelece relações entre as várias áreas do conhecimento e constrói novos
significados. 2
*1
Gisele M. dos Santos: [email protected]
1
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
A escola, por sua vez tem a responsabilidade de formar cidadãos críticos, conscientes e participativos
na sociedade. A legislação brasileira para educação, na Lei no 9.394/96 de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDB) e os PCNs orientam as escolas a valorizarem a aprendizagem, a capacidade de construção
do saber e crítica do educando, fazendo com que os conteúdos de ensino deixem de ter importância em si
mesmos. No entanto, a implantação destas medidas requer mudanças no sistema de formação de professores
para que os mesmos agreguem a seus planos de ensino aulas práticas de experimentação.
Zanon e Freitas (2007) acreditam que as atividades experimentais devem ser desenvolvidas através da
orientação do professor. Além disso, segundo esses autores tais atividades devem oportunizar as vivências
de questões investigativas que possibilitem aos alunos fazer relação com suas vivências, sendo constituídas
por problemas reais e desafiadores. Sendo assim, as atividades experimentais possibilitam aos alunos
levantar questões e hipóteses, testar suas ideias sobre os conhecimentos científicos, motivando-os,
mediando-os, propondo que percebam questões não observadas pelo grupo e assimilando os conhecimentos
teóricos científicos de maneira significativa e produtiva.
Esse processo de experimentação necessita de uma sequência organizada, como: 1) criar um problema;
2) ouvir as hipóteses dos alunos; 3) introduzir e desenvolver a atividade experimental; 4) mediar os alunos
nos debates científicos e auxiliar na organização das ideias para internalizarem; 5) exemplificar as ideias
científicas na expansão e seu uso no dia-a-dia, transferindo para os alunos o controle e a responsabilidade do
uso desse conhecimento.
Para Bevilacqua e Coutinho-Silva (2007), a época em que vivemos da informação, exige reflexão
sobre o que é ensinado e sobre as estratégias realizadas em sala de aula. Para que o aluno se desenvolva
cientificamente, percebendo a evolução da ciência, das transformações da natureza e dos seres vivos, os
estímulos e o desenvolvimento da Educação Científica se fazem necessários. Com as atividades
experimentais, cria-se nas aulas de ciências um ambiente de estratégias investigativas, local de exprimir
ideias, planejar, prever, executar e rever procedimentos. No entanto, não se objetiva nas atividades
experimentais rever conceitos, aplicar processos científicos, recriando e comprovando experimentos, através
de atitudes positivistas, face à ciência, objetiva-se estimular, dialogar, pesquisar, descrever hipóteses que se
confirmam ou não com os conceitos estudados. Além disso, estimula-se a interação entre os colegas e com o
professor de modo que eles discutam tentativas de explicar um determinado conceito ou fenômeno
científico. Em seu estudo, Zanon e Freitas (2007) diferenciam metodologicamente o ensino convencional ou
tradicional do ensino com atividades experimentais e investigativas. Esclarecem que o ensino convencional
acontece através do desenvolvimento do conteúdo programático através do livro didático. O conteúdo e o
roteiro são direcionados pela professora, a conclusão dos experimentos (quando há) e os conceitos são feitos
pelo próprio livro, as hipóteses são obtidas através de conversas curtas sem contextualização com o dia-a-
dia. Já no ensino com atividades experimentais e investigativas consideram em seu estudo, tudo o que o
aluno supõe, suas hipóteses e questionamentos nas aulas, o professor organiza e oportuniza a oralidade e a
escrita dos alunos, instiga o interesse do aluno nas questões desafiadoras e como as atividades de
experimentação são constatados os resultados através de vivências. Consideram os levantamentos de
hipóteses como necessárias e estas são anotadas, para após a aula de experimentação, ter um momento para
os educandos e educadores debaterem as conclusões dos assuntos estudados. Pontuam que o trabalho é
essencial, mas precisam contar com os imprevistos para replanejar e solucionar problemas, além de
proporcionar motivação e entusiasmo nos alunos a cada atividade experimental proposta. Consideram que a
forma dinâmica que se procede em aulas experimentais favorecem o diálogo e às manifestações espontâneas
dos alunos, se comparadas com aulas convencionais ou tradicionais.
Para Bevilacqua e Coutinho-Silva (2007) a realização de experimentos na disciplina de Ciências,
permite que o aluno faça relação entre a teoria e a prática. Desta forma, possibilita um maior significado do
que está sendo ensinado, trocando o tradicional, a memorização da informação, por uma metodologia
concreta, eficiente e motivadora nas salas de aula. A atividade experimental nas aulas de ciências representa
para o educando uma forma interessante e lúdica de compreender o conteúdo, permitindo desenvolver seu
aprendizado a partir da motivação que se estabelece com as atividades atrativas, sendo esta a ferramenta
essencial para se obter concentração, interesse e participação de todos.
No estudo de Panarari-Antunes, Defani e Gozzi (2009) definem a importância das aulas práticas para o
ensino de ciências como a forma de oportunizar vivências e as atitudes científicas, através de métodos
científicos. Percebem as aulas experimentais como uma oportunidade para desenvolver habilidades e
promover o desenvolvimento da criatividade e da criticidade, além da resolução de problemas.
2
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Zanon e Freitas (2007) apontam a necessidade das atividades experimentais acontecerem em conjunto
com práticas discursivas e, as apresentam como ferramenta para permitir as trocas de informações e a
contextualização com significados dos conhecimentos de Ciências. Desta maneira, os alunos aprendem ao
socializar com professores e colegas, ao experimentar, ao supor os conhecimentos científicos e de maneira
progressiva desenvolvem ainda mais sua cognição, facilitando seu aprendizado. O sucesso deste processo
reside na criação de um ambiente motivador, um clima agradável e de confiança a fim de revelar através de
experiências, forças e fraquezas, sentimentos, pensamentos, habilidades e ser capaz de convencer e orientar
para um determinado propósito, e estimular a realização de competências nos alunos (Fig. 1 e 2)
Segundo Murray (1973) a motivação está relacionada com todos os tipos de comportamentos, sejam
eles de: aprendizagem, desempenho, percepção, atenção, recordação, esquecimento, pensamento,
criatividade e sentimento. As atividades motivadoras são necessárias em todas as fases da vida, sejam em
aulas para adultos ou para crianças, pois favorecem o bom relacionamento entre aluno e professor,
melhoram a disciplina em sala e criam um ambiente agradável, motivador, organizado e enriquecido com
ideias e debates, possibilitando assim alcançar o objetivo maior, o aprendizado.
Para Libâneo (1994), a motivação e a aprendizagem têm influência uma na outra. Libâneo (2003) se
refere ao significado da contextualização do ensino, como sendo uma forma de relacionar o cotidiano do
educando com os conhecimentos explorados pela cultura escolar, interligando a teoria com a prática, de
maneira atrativa.
Para Vygotsky (1984), a sala de aula deve ser interativa, ou seja, uma sala que permite que todos os
alunos falem, criem hipóteses, participam dos debates e se fazem ativos em seu processo de aprendizagem,
percebendo a construção de seu conhecimento. Aprender, não significa decorar conceitos formais pré-
determinadas, mas criar conceitos de vários ramos da ciência, de modo que cada conceito apropriado pelo
educando, se promova uma transformação cognitiva ou desenvolvimentos mentais, reflexo do aprendizado
motivacional e a participação intensa deste.
Para Vygotsky (1998), a formação de conceitos tem uma grande influência sob o papel mediador e da
palavra. O conceito tem uma origem social e seu desenvolvimento se faz primeiramente na relação com os
outros e, posteriormente com o aluno. Primeiro, o aluno é dirigido pela palavra do outro, depois ele utiliza as
palavras para orientar o seu pensamento. Situações que relacionam interesse dos alunos, debates de idéias e
dúvidas entre professor e aluno, favorecem o desenvolvimento da capacidade de elaborar novos significados
e conceitos, permitindo uma organização ou reorganização dos conceitos já estabelecidos. A atividade
experimental é um ambiente de troca de informações, frente a idéias e concepções, tanto dos professores
como dos alunos. Se esta ferramenta didática de ensino estiver apoiada em objetivos pertinentes, os
professores terão sucesso em suas práticas pedagógicas.
As atividades que motivam os alunos e possibilitam aprendizado e compreensão de conceitos, são
explicadas por Vygotsky (1998), como um processo histórico-cultural que resultam do processo de ensino
aprendizagem e das relações subjacentes a isto. Promovendo a motivação como um dos fatores principais
para o sucesso da aprendizagem e para as relações sociais.
6. Considerações Finais
Portanto, a partir de reflexões teóricas e da prática pedagógica dos estudos pesquisados, foi
desenvolvida uma estratégia de ensino baseada em aulas de ciências na qual a experimentação é condutora
do conhecimento teórico, o trabalho em grupo é valorizado, a construção do conhecimento a partir da
investigação científica é determinante e a troca de informações entre os próprios alunos é estimulada.
3
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Referências
VYGOTSKI, L.S. O desenvolvimento psicológico na infância. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
ZANON, D. A. V. e FREITAS D. A aula de ciências nas séries iniciais do ensino fundamental: ações que
favorecem a sua aprendizagem. Revista Ciências & Cognição. Vol 10: 93-103. 2007. Disponível em
<http://www.cienciasecognicao.org> Acesso: 20 de abr. de 2010.
4
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2.Método
Os dados foram coletados com a aplicação do Instrumento de Avaliação de Leitura -
Repertório Inicial (IAL-I), com o auxílio do Software Mestre. Apoiando-se no paradigma
de equivalência de estímulos, o IAL-I avalia o desempenho dos alunos, a partir de relações
entre três modalidades de estímulos: Som (A), imagem/figura(B), Texto (C). Além de
avaliar a leitura, o IAL-I avalia dois repertórios relacionados à escrita: a cópia e a
construção de palavras ditadas.
3. Resultados e Discussão
Os dados coletados pelo referido instrumento mostraram que os participantes identificaram,
de modo satisfatório, as letras do alfabeto e os itens da relação (CC) (palavra escrita-
palavra escrita). Um nível de baixo desempenho foi apresentado quando os alunos foram
submetidos às tarefas da relação (BC) (figura- palavra escrita), (CB) (palavra escrita -
figura), (AC) (palavra ditada - palavra escrita); foi constatado um índice de maior
dificuldade quando os itens de tais relações apresentavam palavras com sílabas complexas.
O pior desempenho ocorreu na relação (CD) (palavra escrita palavra falada),
correspondente à leitura expressiva; apenas um participante alcançou desempenho
satisfatório e somente quando as palavras eram compostas por sílabas simples. Na relação
de avaliação de escrita (CE) (Texto-Letras), correspondente à cópia, os participantes
alcançaram desempenho satisfatório tanto nas palavras com silabas simples quanto nas
palavras com sílabas complexas. O mesmo resultado não ocorreu quando os alunos fizeram
a relação (AE) (Som-Letras), correspondente à construção de palavras ditadas, na qual
nenhum participante alcançou desempenho satisfatório seja em palavras compostas por
sílabas simples, seja nas palavras que continham sílabas complexas. Quanto aos erros
observados, verificou-se que alguns participantes confundiam as letras b, p, e d e também
as letras m e n. Os participantes invertem o uso do s e do z, em palavras com sonorização
semelhante; há também troca de letras nas palavras compostas por /s/, /ss/, /ç/ e por /r/, /rr/.
Foi constatado que há interferência do aspecto fonológico das palavras e que há o
desconhecimento dos alunos sobre as regras ortográficas que envolvem o uso das referidas
letras, na leitura e na escrita.
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4. Conclusão
A avaliação detalhada do repertório de leitura dos alunos possibilitada pelo IAL-I e a
análise dos erros de leitura e de escrita decorrentes das complexidades da língua portuguesa
podem servir como subsídio para que o professor planeje atividades de ensino visando à
superação das dificuldades existentes.
5. Referências Bibliográficas
GOYOS, C & ALMEIDA , J. C. B. (1994). Mestre® (versão 1.0), Mestre Software: São
Carlos, SP, Brasil: Mestre Software.
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Maureline Petersen1*
1
Universidade Federal de Santa Maria
1. Introdução
Com tantas discussões, leis e situações permeadas pela temática da educação inclusiva, é ampliada a
necessidade de aperfeiçoar e criar novas maneiras de tornar essa prática condizente com as necessidades
educacionais de todos os alunos promovendo seu desenvolvimento global e aprendizagem satisfatória.
Nesta perspectiva, uma das temáticas que vem sendo discutida é a possibilidade de um trabalho
bidocente, proposta essa utilizada inicialmente em países europeus, mas que acredito que possa ser
implementada no Brasil, já que vem ao encontro da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva
da Educação Inclusiva e do desejo de uma prática inclusiva satisfatória.
Este modelo tem como proposta o acompanhamento semanal de um segundo professor
(preferencialmente Educador Especial) como promotor e auxiliador deste processo de inclusão na sala
regular e em todos os ambientes escolares. Com relação a está prática, trago neste trabalho, uma reflexão a
cerca desta possibilidade de trabalho bidocente na minha prática profissional no acompanhamento de uma
aluna com Síndrome de Down, hoje com 15 anos que está incluída em uma sala regular de ensino de uma
escola do município de Santa Maria/RS. Realizo acompanhamento desta aluna a algum tempo e a maneira
como venho trabalhando, em conjunto com a professora regente da classe regular, pode ser considerada
dentro da proposta de bidocência.
2. Método
Utilizei para a realização deste trabalho um levantamento bibliográfico juntamente com um estudo de
caso, pensando assim em corroborar teoria e prática em prol da possibilidade de uma reflexão a cerca da
inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais.
3. Resultados e Discussão
Temos que ampliar as possibilidades de atuação para a tentativa de realizar um trabalho inclusivo de
qualidade, e neste momento, a tentativa de realizar na minha prática este trabalho bidocente aguça em mim a
necessidade em aprofundar meus estudos nesta temática.
A bidocência abre uma nova possibilidade para a Educação Especial, onde o profissional bidocente,
teria como ênfase, o acompanhamento e atenção pedagógica que o aluno com necessidades educacionais
especiais, incluído na sala regular necessita, respeitando sua dinâmica e auxiliando no desenvolvimento real
das suas potencialidades. Esse profissional pode trabalhar trazendo e auxiliando o professor da classe regular
com subsídios conceituais e também instrumentais ao professor regente, como também auxiliar na inclusão
deste aluno não só na sala de aula, mas também em todo contexto escolar (como no recreio, na informática,
na educação física, etc) fazendo com que ele possa desfrutar de tudo que lhe é oferecido neste ambiente.
A preparação para um ensino bidocente deve ser bem estruturado, pois o trabalho dos professores deve
ser bem integrado e ter como cerne o desenvolvimento global de todos os alunos, pois como ressalta Mittler
[3] (2003, p.172) “A presença de um segundo adulto na sala de aula é uma experiência nova para a maioria
dos professores nas escolas regulares e para a qual esses profissionais talvez não estejam preparados [...].” o
que ressalta a importância de, no caso de ser implementado este paradigma, a necessidade de um bom
processo formativo, para que cada profissional tenha clareza das suas responsabilidades frente a dinâmica
escolar.
Este panorama pode reforçar-se nas palavras de Beyer [1] (2005), quando ressalta que:
Toda a classe que se propõe inclusiva deve dispor do suporte de um segundo professor, em
regra com formação especializada. Com isto, torna-se possível uma orientação individual
conforme as possibilidades e necessidades de cada criança. O conceito do professor isolado
perante a tarefa docente fragmenta-se positivamente diante da possibilidade de compartilhar
com outro colega as experiências do cotidiano escolar. Embora esta situação possa provocar
ansiedades nos professores envolvidos em tal experiência, constitui também uma excelente
oportunidade para o aperfeiçoamento profissional e pessoal.
Na minha prática a relação com a professora regente da sala de aula é na maioria das vezes eficaz, não
realizo o acompanhamento todos os dias, mas em média 2 ou 3 vezes por semana, e desta maneira acredito
*
Maureline Petersen: [email protected]
299
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que a inclusão da aluna, tanto na sala de aula como nos outros ambientes escolares tornou-se mais efetiva,
além de sua aprendizagem desenvolver-se mais facilmente através de um planejamento realizado no início
do ano letivo com a professora regente e sempre sendo reformulada conforme as possibilidades reais da
aluna. A possibilidade de realizar um trabalho conjunto, trocando experiências e conhecimentos tem servido
enormemente para a inclusão desta aluna.
Porém, sei de relatos de outros casos em que este modelo não obteve sucesso, pois depende muito do
perfil de cada professor, alguns sentem-se invadidos em ter outro profissional influenciando na sua maneira
de trabalhar. Então trago novamente a necessidade de um bom preparo para a ocorrência da implementação
da bidocência, podendo ser realizada de formas diferenciadas dependendo do perfil de cada professor, tendo
mais ou menos a presença do segundo professor em sala; o que também depende das necessidades de cada
aluno.
Porém, ainda acredito na riqueza deste trabalho em conjunto, pois através de diferentes olhares, os
professores podem aprender conjuntamente ampliando as maneiras de trabalhar com toda a turma
possibilitando assim o bom desenvolvimento de todos. Como afirma Beyer [2] :
Desta forma, o trabalho pode ser muito mais prazeroso para o professor e também para o aluno, já que
os dois terão sucesso. O aluno sente quando o professor está preocupado em realizar um trabalho de
qualidade, e assim, através de tentativas de ensino diferenciado, o aluno vai aprendendo e se desenvolvendo
plenamente.
Destaco então que o segundo professor não trabalha exclusivamente com os alunos com necessidades
especiais, mas transita entre todos os alunos, o que corrobora-se com as palavras de Beyer [2] quando
destaca que:
[...] tal atendimento jamais deve concentrar-se explicitamente sobre a criança com
necessidades especiais, porém os educadores com atuação pedagógica especializada devem
trabalhar sempre no contexto do grupo, procurando também atender necessidades eventuais
que os demais alunos possam demonstrar. Com isto, se estará evitando o sempre possível
processo de segregação do aluno especial e se estará fugindo de uma prática docente
orientada por uma abordagem terapêutica. (2005)
Na minha prática com relação a esta questão sinto maior dificuldade, pois minha atuação não
originasse do meu trabalho como servidora pública concursada, mas através do contrato dos pais da referida
aluna e do consenso da escola através de um projeto. Então, meu trabalho centra-se em uma aluna e na
necessidade de atendê-la plenamente, mas sempre interagindo com os demais alunos, sempre estou envolvida
também com eles que sentem-se a vontade para tirar dúvidas comigo, conversar, etc. enfim, acredito que
meu trabalho mais centrado nas necessidades desta aluna, neste contexto, não a torna extremamente
dependente de mim nem a exclui da interação com os colegas.
Neste momento posso trazer a tona brevemente a fragilidade da política inclusiva nacional, já que
neste período deparo-me com a carência de profissionais nas escolas, fazendo com que os pais tenham a
necessidade de contratar particularmente outros profissionais para atuar proporcionando uma melhor
inclusão para seus filhos. O que contraria a visão que Duk [4] traz ao dizer que:
Essa fragilidade e falta de recursos humanos e profissionais é o que me decepciona ao tentar realizar
pesquisas e trabalhos em prol de uma educação inclusiva que muitas vezes considero utópica. Porém, ao
menos nos espaços que trabalho tento realizar práticas diferenciadas na tentativa de obter sucesso, como
nesta proposta de bidocência.
Voltando ao trabalho bidocente, outra parte interessante deste trabalho é com relação à adaptação de
materiais para os alunos com necessidades educacionais especiais, onde o segundo professor que para mim
deve ser o Educador Especial, como refere Duk [4] (2006), deverá, juntamente com o professor da classe
300
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inclusiva, planejar e revisar os materiais didáticos, verificando se eles são acessíveis a todos os alunos da
classe em termos de conteúdo, aprendizagem e participação das atividades oferecidas. O que vem ao
encontro de uma atuação que tem como viés o aluno e suas possibilidades.
4. Conclusão
No âmbito discursivo que me encontro e também através de pesquisas bibliográficas, noto que as
discussões com relação à bidocência ainda são poucas mas que trazem consigo a expectativa de ser uma
possibilidade de atuação na escola como proposta que possa possibilitar maior sucesso na inclusão de alunos
com necessidades especiais.
Essa possibilidade pode, além de auxiliar o desenvolvimento global de alunos com necessidades
educacionais especiais, também possibilitar a outros alunos maneiras diferenciadas de aprendizagem através
de outros meios, interação com a diferença propondo uma formação mais humana. Propostas que podem
diminuir a evasão escolar e a crescente decepção com a inclusão que venho acompanhando hoje em dia.
Sendo assim, este trabalho de bidocência, Educador Especial e professor regente da classe comum,
visa uma parceria que auxilie e facilite o processo de ensino-aprendizagem dos alunos inseridos nas escolas,
sejam eles com ou sem necessidades educacionais especiais. Proporcionando por meio desta iniciativa, um
modelo que possa ser seguido e aperfeiçoado, futuramente, por outros educadores que comprometidos com o
processo inclusivo queiram ter essa parceria em suas salas de aula. O que acredito ser uma pesquisa bem
interessante, pois beneficiaria não somente a atuação do professor, mas principalmente a aprendizagem e
desenvolvimento global do aluno incluído.
Referências
[1] BEYER, Hugo Otto. Inclusão e avaliação na escola: de alunos com necessidades
educacionais especiais. Porto Alegre: Mediação, 2005. 128p.
[3] MITTLER, Peter. Educação inclusiva: contextos sociais. Trad. Windyz Brazão Ferreira.
Porto Alegre: Artmed, 2003.
[4] DUK, Cynthia. Educar na diversidade: material de formação docente. 3. ed. /Brasília :
[MEC, SEESP], 2006.
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1. Introdução
2. Método
A metodologia utilizada é a pesquisa historiográfica com fontes documentais pesquisadas
no Centro de Documentação da Universidade de Caxias do Sul (CDOC). Para isso foram
analisados diversos tipos de conventos, entre eles pode-se relacionar: Convites de
formaturas,comunicados, editais, relatórios, atas, decretos, currículo mínimo do curso de
Pedagogia, provas de concurso vestibular, exames,boletins,ofícios,decretos e leis, diretivas,
projetos e anteprojetos de reestruturação universitária e do Curso de Pedagogia, entre os anos de
1950, ano de sua criação até 1989, anos que o CDOC tem disponível as fontes documentais
analisadas. Os documentos relativos aos anos seguintes estão disponíveis no arquivo morto.
Frente a tantas fontes diferentes, é importante lembrar, segundo afirma Bacelar que "A
paciência é a arma básica do pesquisador" ( Bacelar, 2006, p. 53).
No primeiro momento fez-se uma pré-seleção dos documentos e esses foram catalogados
em forma de tabela por décadas, especificando a localização e o assunto tratado nos
documentos. Feito isso deu-se inicio a uma investigação mais profunda sobre cada documento,
em que as primeiras anotações foram sendo feitas. Depois alguns documentos foram digitados e
outros fotografados com a autorização do CEDOC, com o propósito de utilizar os documentos
digitalizados em uma exposição das Memórias dos Cinquenta Anos do Curso de Pedagogia da
Universidade de Caxias do Sul. Os documentos digitalizados facilitaram o processo de revisitar
as primeiras anotações.
3. Resultados e Discussão
A análise de diferentes fontes sobre o curso de Pedagogia da Universidade de Caxias do
sul, possibilitou que algumas informações e reflexões , entre elas pode-se destacar que; o curso
de Pedagogia da Universidade de Caxias do Sul teve suas origens na antiga Faculdade de
Filosofia de Caxias do Sul, sua incorporação se deu em 1967 tendo seu nome alterado para
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras. Em 1970 o departamento de educação não era mais
302
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
suficiente para atender a demanda de alunos e, pois as áreas de licenciatura haviam se ampliado
assim, ela foi desmembrada em institutos e faculdades.
A Faculdade de Filosofia, foi criada em 8 de julho de 1959, tendo como mantenedora a
Mitra Diocesana de Caxias do Sul. No dia 17 de julho, Padre Plínio Bartelle, foi nomeado como
primeiro diretor da Faculdade. Em 22 de setembro de 1959, o Bispo de Caxias do Sul, Dom
Benedito Zorzi, encaminhou ao Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação e Cultura, um
comunicado anunciando que a Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul estava iniciando os
cursos de Filosofia, Pedagogia, Letras Neolatinas, Geografia e História. A Faculdade de
Filosofia foi autorizada a funcionar pelo Decreto Federal nº47668 de 19 de janeiro de 1960. Em
1965 foi reconhecida pelo Decreto Federal nº55 655 de 1º de fevereiro de 1965. As atividades
escolares iniciaram em março de 1960, o curso de pedagogia tinha trinta e nove alunos
matriculados. Nesta época, o curso era dividido em quatro séries, no primeiro ano foram
oferecidas nove disciplinas. A primeira formatura do curso de Pedagogia foi no ano de 1963
com 34 formandos. Nesta época o curso tinha 130 alunos matriculados.
A Faculdade de filosofia funcionou junto a Escola Normal São José até 1962. Em 1963
foi transferida para o prédio Santa Tereza. Com a criação da universidade de Caxias do Sul, em
1967 a Faculdade de filosofia passou a fazer parte dessa, tendo seu nome alterado para
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (CF. Decreto de Lei nº 60.200 de 10/02/67). Em 4 de
maio de 1970 transferiu-se para o Campus Universitário, ocupando as instalações do ex-colégio
"Sacre-Coeur de Marie".Em 30 de junho de 1970 aconteceu o desmembramento formal da
Faculdade de Filosofia Ciências e Letras em Institutos e Faculdades de Educação.
Inicialmente, na Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul era oferecido o curso de
habilitação para magistério em Pedagogia, além da habitual preparação pedagógica para as
demais licenciaturas. Com a criação da Faculdade de Educação passaram a ser oferecidos
também cursos para as habilitações específicas.
4. Conclusão
Nesse primeiro momento os dados coletados são de ordem mais numérica, em
levantamento de datas e de percurso cronológico. No decorrer da pesquisa o trabalho de
investigação se voltará para as relações entre a instituição e a comunidade, possíveis conflitos,
acordos relações de poder, construção identitárias e diferentes aspectos que compõem a História
das instituições na perspectiva da História cultural.
Assim, muito do que ocorre, e do que se passou, no mundo da educação ainda é pouco
conhecido pelos pesquisadores e pelos professores que, imersos nele, nem sempre conseguem
alcançar um conhecimento mais fecundo das memórias da profissão docente. O Curso de
Pedagogia da UCS tem um passado que se entrelaça à história de uma comunidade, comunidade
essa que se caracteriza pelo compartilhamento de um mesmo espaço geográfico, por suas
características imigratórias, traduzindo-se em uma cultura vinculada, ainda hoje, aos primeiros
colonizadores da região. É neste contexto que o Curso foi criado em 1959, nascendo a partir da
integração de cinco faculdades, entre elas a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, sua
missão era formar professores para atender a expansão do sistema escolar de Caxias do Sul e da
região. Ao longo dos anos, o Curso de Pedagogia constituiu-se como referência e lugar de
discussão e de produção de saberes relacionados às questões que envolvem a educação formal.
Referências
[1]
SHARPE, Jim. A História vista de baixo. In. BURKE[2.1], Peter. A escrita da História:
novas perspectivas. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992.
[2]
PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & História Cultural. 2. ed. Belo Horizonte:
Autêntica, 2004.
[3]
NÓVOA, António (org.) Vidas de professores. Porto: Editora do Porto, 1995. ____. História
da Educação. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1994. Tese de livre docência.
PRINS, Gwyn. História Oral.In: BURKE[2], Peter (org.). A escrita da História: novas
perspectives. São Paulo, Editora da Universidade Estadual Paulista, 1992, p. 163 a 198.
303
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
[4]
BACELAR, Luiz Carlos. Usos e mau usos dos arquivos. In PINSK, Carla Bassanezi (org.),
Fontes historiográficas, São Paulo,Abdr, 2006.
[5]
LARROSA, Jorge. Literatura, experiência e formação. Uma entrevista de Jorge Larrosa
para Alfredo Veiga- Neto, em julho de 1995. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.). Caminhos
investigativos: novos olhares na pesquisa em educação .Porto Alegre: Mediação, 1996.
Obras consultadas.
STURTZ, Luiz carlos. Os Primeiros passos da Universidade de caxias do Sul. Chronos:Uma
história de 40 anos. Caxias do Sul. EDUCS, jan,jun.2007, volume 34, nº1
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
A prática docente tem sido foco de inúmeras investigações que procuram esclarecer como o
professor constrói sua prática desde os primeiros contatos com a escola, quais as preocupações que
estão presentes junto a sua intenção, bem como os constrangimentos enfrentados na realidade
escolar. A idéia de realizar um projeto de pesquisa sobre os sentimentos dos professores com
formação no curso de pedagogia em um primeiro contato com a sala de aula após o término da
faculdade, surgiu através de conversas informais com alunos do último ano do curso de pedagogia
que expressavam em suas falas certa insegurança no que tange a prática docente, sentiam-se
despreparados para atuar em sala de aula. Nessa perspectiva chegamos a uma indagação: Existem
dificuldades em relação à prática docente após o término do curso de Pedagogia? Nosso objetivo
geral foi o de contribuir para uma reflexão sobre faculdade, formação adquirida e experiência
profissional, junto a isso ainda procuramos dentro dos objetivos específicos: Definir o que é a
prática docente, enumerar possíveis dificuldades encontradas por professores na realidade escolar e
verificar se existem diferenças entre as dificuldades dos professores que já atuavam e os que não
atuavam em sala de aula antes do término da formação. É necessário refletir sobre a carreira dos
professores bem como, resgatar experiências profissionais a fim de averiguar possíveis dificuldades
antes e depois da formação.
2. Método
Para alcançarmos os objetivos propostos acima, nossa metodologia consistiu em entrevistar
com questões abertas doze professores recém-formados em pedagogia, com no máximo dois anos
de prática em sala de aula após sua formação sendo: seis professores que cursaram pedagogia sem
atuarem em sala de aula e seis professores que fizeram o curso atuando. As indagações feitas aos
professores consistiram nas seguintes questões: Você enfrenta dificuldades em sua prática? Que tipo
de dificuldades? Como você as enfrenta?Com o decorrer da prática cotidiana essas dificuldades têm
diminuído?A teoria recebida no curso de Pedagogia condiz com a prática? Quando assumiu a sala
de aula sentiu as mesmas dificuldades que imaginava ter quando cursava pedagogia? Ao deparar
com a realidade em sala de aula, pensou em desistir de sua profissão? Em algum momento
necessitou de ajuda de terceiros ou cursos complementares para auxiliar em sua prática? Para os
professores que já atuavam em sala de aula durante o curso de pedagogia foram acrescidas mais
duas questões: Percebeu mudanças em sua prática profissional após a formação? Mesmo já sendo
atuante, sentiu-se mais seguro após o término de sua formação acadêmica? Posteriormente os dados
encontrados foram analisados e registrados, conforme constatações nas falas dos professores e os
objetivos da pesquisa.
3. Resultados e Discussão
Ao estudarmos a história da educação brasileira podemos observar o grande desinteresse por
parte daqueles que governaram ou governam este país pela formação profissional dos educadores.
Todavia, hoje em dia a procura pela formação com qualidade tem sido motivo de importantes
discussões em todo o país. Bernadete A. Gatti (1996, p. 1), aponta a formação do docente como um
quadro de carências a ser superado, para ela “até aqui, os administradores públicos, em diferentes
níveis, não têm contemplado a educação e a carreira dos professores com políticas coerentes, com
as necessidades de um país que se quer socialmente avançado”. Mas, quais as dificuldades
enfrentadas por professores em sala de aula quando estes partem para o campo de trabalho logo
após sua formação acadêmica? Será que as dificuldades são as mesmas para quem já atuava em sala
de aula no decorrer do curso e para quem só o fez após sua formação? Estas indagações permeiam a
1
[email protected]; Professora de Educação Infantil do Município de Londrina, mestranda em Educação.
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2
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3
experiência ajuda muito na hora de resolver os problemas “As dificuldades sempre são as mesmas,
porém conforme enfrentamos uma situação fica mais fácil enfrentar as próximas”, enquanto alguns
acham que estas tem aumentado “Sinto que elas tem aumentado [...]”, há ainda os que afirmam não
estar a encargo deles as soluções para algumas dificuldades, mas em outras pessoas “[...] Existem
situações que estão fora do meu alcance, com por exemplo, fazer com que os pais dêem mais valor
na escola e nos professores que trabalham em função dos seus filhos”. Nota-se que embora a
experiência traga maior bagagem e facilite o trabalho do professor, nem sempre, somente esta é
suficiente para diminuí-las. Quanto a teoria recebida no curso de pedagogia condizer com a
realidade encontrada em sala de aula, 70% declararam que nem tudo visto no curso condiz com a
prática e que muitas coisas não são utilizadas sendo até uma “utopia”, uma professora declarou que
“o grande problema da academia é que os autores que escrevem para nós já não se encontram na
sala de aula”. Dentre os 70% que acreditam que nem tudo no curso é utilizado em sala de aula, de
qualquer forma atribuem grande importância ao curso, ao dizerem que este contribui
significativamente para o seu trabalho “Olha é difícil especificar sim ou não sobre o que recebemos
na faculdade, houve disciplinas que recorro aos textos estudados com freqüência como
Metodologia da Matemática e alfabetização, porém acho que muita coisa do curso [...] em sala de
aula não são muito úteis, embora seja bom para conhecermos o processo e como tudo isso se deu
[...] foi muito bom estarmos na faculdade”. Em torno de 20% dos entrevistados foram radicais ao
afirmarem que “De maneira nenhuma, a teoria é uma coisa e a prática completamente diferente”,
somente 10% declararam que o curso e a prática estão em completa sintonia “Ajuda muito, pois
através dela observamos a maneira correta de agir”. Tais dados nos levam a refletir sobre a
questão da formação do professor e pensar que mediante tais respostas fosse imprescindível iniciar
discussões mais aprofundadas com o objetivo de aproximar mais as teorias recebidas nos cursos de
pedagogia com a prática encontrada em sala de aula. Ainda sobre a formação e as expectativas
desses docentes quando ainda cursavam pedagogia, 30% disseram que nunca imaginaram ter as
mesmas dificuldades que encontraram em sala de aula na prática “Durante o curso sonha-se com a
sala de aula ideal, sala perfeita, sem problemas ou problemas fáceis de serem resolvidos e que tudo
que se ensina aprende, e não é” outra diz “Na prática é totalmente diferente”, 10% imaginaram
algumas, mas nem todas “Esperava que as dificuldades que encontraria seriam somente com as
crianças em relação ao desenvolvimento pedagógico”, e outros 60% já haviam imaginado
encontrar as dificuldades descritas acima “Sabia das dificuldades que teria e todas se
concretizaram” . Talvez pela grande maioria imaginar as dificuldades que se deparariam na sala de
aula, estes afirmam que o curso não prepara para a prática, também deve se levar em consideração
que 50% dos entrevistados já se encontravam em sala de aula ao cursar pedagogia. O grande X da
questão neste momento é: se o curso de pedagogia não prepara para a sala de aula, prepara para
quê? A resposta a esta indagação não foi respondida por nenhum dos entrevistados e ficará aberta
neste estudo para futuras pesquisas. Quando questionados sobre a possibilidade de deixar a
profissão ao se depararem com as dificuldades, 30% algum dia já pensaram em desistir da carreira
docente ou ainda pensam “Pra falar a verdade penso muito, pois a educação desgasta bastante”,
40% não cogitaram esta possibilidade “Realmente não, pois eu gosto do que faço [...]”, 20%
pensam em continuar no setor educacional, porém não com o ensino de crianças, sendo a educação
de jovens e adultos, o ensino médio, e a gestão pedagógica como diferentes opções “[...] na
realidade gostaria de usar a minha pedagogia numa empresa ou no caso de sala de aula com os
alunos da Educação de Jovens e adultos”. Uma professora entrevistada diz nunca ter pensado em
desistir da profissão, mas declara já ter se sentido desestimulada “Não nunca pensei em desistir,
mas já me senti desestimulada em algum momento”. 100% dos professores já buscaram ajuda de
terceiros, colegas de profissão e de cursos complementares fora da faculdade para auxiliar em sua
prática “Ajuda de terceiros tem sido primordial e os cursos complementares ajudam muito”, outra
forma encontrada por eles para atualizarem-se profissionalmente é a busca por leituras que tratem
da educação e abram horizontes maiores quanto a sua atuação profissional “Sempre procuro estar
buscando em fontes, livros, sites da Internet, revistas e especialmente na área de atuação”, muitos
ressaltaram a importância de estar constantemente fazendo uma reciclagem, pois declaram que esta
ajuda a diminuir ou a sanar as dificuldades “É sempre necessário estar em contato com o universo
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
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acadêmico para refletir a prática”. Dentre os 50% do total de entrevistados que já atuavam em
sala de aula antes da formação acadêmica, 90% declararam que a faculdade foi muito importante
para a sua formação trazendo mais segurança na sua prática “Proporcionou grande ajuda, pois
trouxe o conhecimento do processo, mas nem sempre a teoria condiz com a prática, embora a
maioria do que estudamos podemos ver ocorrer e dar certo na prática”, Outra professora relata
“Foi muito bom estar na faculdade, eu não estou dizendo que deva jogar tudo o que aprendi na
teoria com a faculdade, mesmo porque melhorou muito a minha prática após a formação e cada
vez mais vejo aquilo que aprendi na faculdade ocorrendo na prática, a formação foi ótima, acho
que estar na faculdade foi a melhor coisa que ocorreu na minha vida, pois não trouxe
conhecimento só para a minha profissão, mas também para a vida como uma pessoa social e
atuante dentro de uma sociedade[...]” , 50% perceberam mudanças relativas na metodologia
utilizada “Algumas atividades que eu dava deviam ser jogadas no lixo, as de agora são mais
coerentes e mais reais para os alunos”, 10% disseram que o curso não ajudou em nada e que este
também não mudou a sua metodologia “Não. Já conhecia a realidade dos alunos”. Pelos números
percebemos a grande influência que o curso obtém na vida dos professores e que este contribui
efetivamente para uma mudança na prática desses profissionais.
4. Conclusão
Ao realizarmos esta pesquisa e averiguando o relato dos entrevistados, concluímos que a
prática pedagógica antes de tudo não é uma missão fácil, uma vez que a grande maioria admite a
necessidade de ajuda para conseguir realizar suas atividades. Percebemos também que as
dificuldades vão além daquelas relacionadas às questões de conteúdos. Outro aspecto a ser
lembrado é que apesar dos conteúdos adquiridos na faculdade serem muito importantes em nossa
prática pedagógica, devemos estar em constante renovação para que possamos enfrentar as
dificuldades que surgem no decorrer do trabalho. A desvalorização do professor, principalmente no
que diz respeito a sua remuneração muitas vezes desmotiva alguns profissionais e é um dos
principais motivos que levam estes a pensar ou mesmo abandonar a profissão. Pelos resultados da
pesquisa observamos que o curso de pedagogia em si não traz grandes mudanças em relação à
atuação em sala de aula, mas proporciona uma mente mais voltada para questões epistemológicas
no processo de ensino-aprendizagem do que aquelas voltadas ao senso comum, também ajuda a
perceber o relacionamento perante o mundo e ao outro, amplia a nossa visão de educação, do sujeito
a ser educado e dos vários caminhos a serem percorridos para alcançarmos determinados objetivos
frente à aprendizagem. Cabe ao pedagogo trazer para a sala de aula toda a bagagem que o curso lhe
proporcionou, pois caso isso não ocorra o curso não terá validade, será como aquelas pessoas que
conseguem uma habilitação para dirigir, e depois que o fazem pegam o documento e guardam na
gaveta e nunca dirigem um carro, não colocam em prática o que aprenderam e acabam por esquecer
como fazê-lo. Paulo Freire (2001, p. 32) em seu livro “A importância do ato de ler” declara, “uma
das qualidades mais importantes do homem novo e da mulher nova é a certeza que têm de que não
podem parar de caminhar e a certeza de que cedo o novo fica velho se não se renovar”. Da mesma
forma o pedagogo deve trazer para a sua atuação o que aprendeu no curso e estar sempre estudando,
pesquisando, conhecendo novos caminhos, se reciclando, buscando ajuda de outros profissionais
quando necessário, para que do curso de pedagogia não reste apenas o diploma (certificado), mas a
certeza de que o professor não se cansa de aprender.
Referências
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 42º edição. São
Paulo: Cortez, 2001.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Um mapa traçado com a situação atual do campo de atuação do(a) pedagogo(a) na região Litoral Norte
pode ser usado como uma ferramenta de projetação para os cursos de Pedagogia e das atividades de Extensão
e Pesquisa a serem realizadas para atender às demandas da Região Praieira. No artigo a seguir veremos os
resultados de uma pesquisa interdisciplinar de campo, da Turma 2008/1 de Pedagogia da Uergs, que
investigou esse campo de atuação na modalidade Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
2. Método
Esta é uma pesquisa qualitativa de campo. Os dados foram coletados diretamente nas escolas
pesquisadas e comparados com os dados do censo escolar As análises foram feitas com base na bibliografia
estudada no terceiro e quarto semestre do curso de Pedagogia.
3. Resultados e Discussão
É relevante observar que existem poucos profissionais em sala de aula em relação ao número de
alunos. Na rede estadual são 1.721, na municipal 2.222 e na particular 524, totalizando 4.467 professores,
para atender a todo o alunado dos municípios da 11ª CRE, sendo que destes, 57.143 alunos são do ensino
fundamental, no total são 88.191 estudantes. Reduzindo o foco para Cidreira, são apenas 138 professores em
sala de aula, para 3.446 alunos. Importante lembrar que este número de docentes pode ser ainda mais
reduzido, uma vez que o mesmo professor pode estar atendendo em mais de uma Dependência
Administrativa, Municípios e Escolas. Na região da 11ª CRE, existem no total 390 estabelecimentos de
ensino, destes 277 atendem ao Ensino Fundamental, nas três Dependências Administrativas: estadual,
municipal e particular. O total de funcionários nas redes estadual, municipal e particular é 9.352, sendo que
esse número corresponde ao total de pessoas que desempenham funções docentes, técnicas e administrativas
nas escolas da região litoral norte.
4. Conclusão
A partir dos resultados obtidos na pesquisa é possível observar que o campo de atuação do Pedagogo
na Região é bastante amplo, considerando o número reduzido de docentes para o número crescente de
discentes. É necessário considerar também que existem outras formas de atuar na educação que não apenas a
regular institucional.
Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. História da Educação e da Pedagogia: Geral e Brasil. São Paulo.
Moderna, 2006.
FLORES, Moacir. Colonialismo e missões jesuíticas. Porto alegre, EST/Instituto de Cultura Hispânica do
rio Grande do Sul, 1983.
SCHNEIDER, Regina Portella. A instrução pública do Rio Grande do Sul: 1770-1889. Porto alegre, Ed.
Universidade/UFRGS/EST edições, 1983.
THERRA, Ivan. Praia da Cidreira, história, cotidiano, cultura e sentimento. Cidreira: Casa de Cultura do
Litoral, 2007.
LIBÂNEO, José Carlos. Organização e Gestão da Escola – Teoria e Prática. Goiânia: Alternativa, 2004.
*
Apresentadora: [email protected]
309
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
DEMO, Pedro. Formação Permanente de Professores: educar pela pesquisa. In MENEZES, L.C. (org)
Professores: Formação e Profissão. Campinas, SP: Autores Associados, 1996.
BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Fundamental, Brasil MEC / SEF, versão Agosto
de 2006.
BRASIL. Lei n. 11.274, de 6 de fevereiro de 2006. Altera a redação dos arts. 29, 30, 32 e 87 da Lei no
9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, dispondo sobre
a duração de 9 (nove) anos para o ensino fundamental, com matrícula obrigatória a partir dos 6 (seis) anos de
idade. D.O.U. de 7.2.2006.
Agradecimentos
Agradecemos imensamente à Prof. Liliane Madruga Prestes que com sua dedicação ao curso e a nossa
Unidade sempre nos incentiva a pesquisar e comunicar os dados.
310
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Gustavo Piovezan2
Universidade Estadual de Maringá
1. Introdução
A Biologia inicia sua história com as investigações teóricas sobre hereditariedade na Grécia Antiga.
Contudo, foi somente a partir do surgimento das teorias de evolução, no século XIX, que as investigações do
conhecimento biológico tenderam para um aprimoramento e estruturação de seu corpo teórico ou, nas
palavras de Kuhn, iniciou-se o processo da ciência normal. Durante o período que compreende os anos 1920-
1980, inúmeras pesquisas em biologia deixaram, graças ao pensamento causal/determinista, marcos na
história da sociedade ocidental, no caso particular deste estudo: preconceitos de gênero e o reforço de uma
ideologia dominante, pautados no modelo heteronormativo de sociedade remanescentes da educação
científica – um pensamento com raiz eugênica, apoiado em pesquisas sobre sexualidade, comportamento, QI
e genética [LEWONTIN, 1987; STEPAN, 2005]. Entretanto, a partir da década de 1960, com a elaboração
de um corpus teórico dos estudos feministas, a sexualidade passou a compreender fatores como, por
exemplo, o conceito de gênero, o qual mostrou a complexidade de questões correlatas ao gênero e à
sexualidade e, ao mesmo tempo, a ideologia da dominação masculina na sociedade até então [LOURO,
1999]. Neste contexto, a Biologia foi a ciência na qual os estudos feministas e de gênero tiveram maior
impacto. No sentido epistemológico, um exemplo se constitui no fenômeno da reprodução bacteriana: a
leitura e descrição deste fenômeno podem ser comprometidas quando realizadas numa perspectiva
heterossexual. Já numa perspectiva política, o gênero prevê a igualdade entre mulheres e homens [SCOTT,
1995; SHIENBINGER, 2001].
2. Método
Neste sentido, apoiados na ideia de que a influência do gênero na ciência – e, consequentemente, na
educação científica – constitui-se um fenômeno, a presente pesquisa teve como objetivo realizar uma análise
retórica da concepção de sexualidade em manuais didáticos de ciências. O motivo é o mesmo: a sexualidade,
as diferenças de gênero e sua representação nos conteúdos que envolvem a sexualidade nos manuais de
Ciências e Biologia. Tal ideia surge a partir das propostas curriculares expressas nos Parâmetros
curriculares Nacionais para o Ensino Médio (doravante PCN). Ao discutir gênero, sexualidade e educação
dentro do contexto escolar os PCN constituem o primeiro documento de referência na política brasileira. À
luz dos estudos de gênero o conceito de sexo é substituído pelo conceito de gênero como resultado de
inúmeras implicações. O conceito de gênero está conectado às diferentes orientações sexuais, aos diferentes
gêneros feminino e masculino, às diferentes identidades dos sujeitos. Foi sob esta fundamentação teórica que
passamos à análise, utilizando a retórica como método. Centramo-nos na tradição retórica francesa,
estruturada a partir das obras de Chaïm Perelman. O objeto de análise, por sua vez, foi encontrar o sentido
que os argumentos e as figuras de retórica dos manuais didáticos de ciências e biologia continham.
3. Resultados e Discussão
Com base nas teorias feministas e de gênero, podemos concluir que o conceito de sexo é substituído
pelo conceito de gênero. Tal substituição visa uma compreensão fenomênica da realidade que permiti inferir
com maior precisão aquilo que nossa realidade social é. Tal como afirma Butler [2008], o sujeito do sexo não
é o sujeito do gênero. Isto porque, o sexo biológico não é condição para a existência e vivencia do gênero, ao
contrário, o gênero se faz no corpo biológico, vivendo-o e não sendo condicionado por ele. Assim, uma
identidade de gênero pode ser um cruzamento de vários fatores – um sujeito pode ser feminino, negro,
lésbico e biologicamente macho, inúmeras são as possibilidades. No ethos discursivo da ciência por meio dos
manuais didáticos, fornece um conceito de gênero que – pensado em conexão à idéia de sexualidade em
movimento – se apresenta unicamente sob condições heteronormativas da sociedade do século XXI. Tal
compreensão implica num emaranhado de conexões com outras representações de mundo – por exemplo, o
1
Esta pesquisa foi desenvolvida no curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência e a
Matemática da Universidade Estadual de Maringá – Paraná. Alguns aspectos da pesquisa trabalho foram apresentados
no VIII Congresso Iberoamericano de Ciência, Tecnologia e Gênero, Curitiba – Paraná.
2
Endereço eletrônico: [email protected].
311
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
cristianismo, idéias eugênicas da história e filosofia da ciência, o sexo compreendido sob a perspectiva do
terror, entre outras – que se mostram problemáticas para a constituição do sujeito com atitude científica e
crítica sobre a natureza [AYRES, 2002; REBOUL, 1998; PERELMAN e TYTECA, 1996]. Pensar os
conteúdos que envolvem gênero e sexualidade na educação científica implica em promover uma reflexão
sobre a natureza, e o modo como ela pode nos auxiliar a ver o mundo [SHIENBINGER, 2001].
4. Conclusão
A naturalização que os manuais didáticos pressupõem da heterossexualidade desconsidera e
descaracteriza o mundo como ele tem se apresentado em nossa história, limitando o sujeito e impondo um
modo de viver. Com exceção de um livro didático, o restante analisado significa a sexualidade como algo
sujo, impuro e que deve ser higienizado. Tal tratamento é válido se considerarmos doenças sexualmente
transmissíveis, combate da epidemia HIV/Aids e controle de natalidade. Entretanto, tal perspectiva é
insuficiente uma vez que a sexualidade não diz respeito somente ao ato sexual e os problemas biomédicos a
ela correlatos. Ao contrário, como reforçam nossas políticas públicas, a sexualidade transcende o biológico e
se mostra no social e nas relações estéticas do ser humano, constituindo-se, desta forma, como uma
sexualidade plástica, movente, não unidimensional e de direito igual a todos os seres humanos. Ao deixar de
lado este último aspecto de discussão, os manuais didáticos restringem não somente a sexualidade, mas,
também o que é ser humano [AYRES, 2002; SWAIN, 2002].
Referências
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AYRES, José Ricardo Carvalho Mesquita. Práticas educativas e prevenção de HIV/Aids: lições aprendidas e
desafios atuais. In: Revista Interface, v. 6, n. 11, p. 11-24, 2002.
FROTA-PESSOA, Oswaldo. Os caminhos da vida: biologia no ensino médio: ecologia e reprodução. São
Paulo: Scipione, 2001.
LEWONTIN, R.C.; ROSE, S.; KAMIN, L. J. Genética e política. Tradução de Inês Busse. ________:
Europa-América, 1987.
LINHARES, Sérgio; GEWANDSZNAJDER, Fernando. Biologia: programa completo. São Paulo: Editora
Ática, 1999.
LOURO, Guacira Lopes (Org.). O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica,
1999.
PERELMAN, Chaïm e TYTECA, Lucie. Tratado da argumentação: a nova retórica. Tradução de Maria
Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
REBOUL, Oliver. Introdução à retórica. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes,
1998.
SCHIENBINGER, Londa. O feminismo mudou a ciência? Tradução de Raul Fiker. Bauru: Edusc, 2001.
SCOTT Joan. Gênero: uma categoria útil para a análise histórica. In: Educ Real. v. 20; n. 2;
1995.
SILVA JÚNIOR, César da. Ciências: entendendo a natureza. São Paulo: Saraiva, 2001.
312
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
STEPAN, Nancy Leys. A hora da eugenia: raça, gênero e nação na América Latina. Rio de Janeiro:
Editora Fiocruz, 2005.
SWAIN, Tânia Navarro. As teorias da carne: corpos sexuados, identidades nômades. In: Labrys, estudos
feministas. n. 1-2, 2002.
VALLE, Cecília. Ser humano e saúde, 7ª série: manual do professor. Curitiba: Nova Didática, 2004.
313
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
Esse trabalho de pesquisa traz as considerações de uma acadêmica do 5º semestre de Pedagogia, da
UERGS em Cidreira, sobre dois casos de dificuldades de aprendizagem observados numa instituição escolar
que recebe somente deficientes mentais.
Nessa pesquisa foram levantadas uma série de questões sobre as formas de ensinar e sobre os muitos
estudantes que tem um diagnóstico médico baseado numa falha ou incapacidade do queixoso. Para embasar
as análises feitas, foram utilizados os conteúdos da bibliografia básica da cadeira de Dificuldades de
Aprendizagem trabalhados em aula. A bibliografia levanta alguns pontos de discussão bastante relevantes
para que haja uma mudança de abordagem nos métodos de ensino e nas práticas pedagógicas, bem como nos
diagnósticos dessas dificuldades. Além de propor que sejam reavaliadas as formas de encaminhamento
médico desses estudantes que, supostamente, tem uma dificuldade de aprendizagem.
2. Método
Esta é uma pesquisa qualitativa de campo. Seu início foi conhecer alguns casos de dificuldades de
aprendizagem relatados na bibliografia sugerida pela orientadora, que foi bastante clara ao dizer que preferia
que fosse feito uso de apenas um livro como base, pois dessa forma teríamos um maior aprofundamento do
tema, e, somente, após essa etapa poderia utilizar bibliografias de apoio.
Uma vez fundamentado o tema passamos aos casos reais, que deveriam ser analisados sob uma ótica
educacional baseada nos seminários feitos me aula. Os métodos utilizados para a coleta dos dados de
pesquisa consistem em uma observação dos alunos em aula, bem como uma entrevista semi-estruturada com
a Psicóloga da instituição e o depoimento do Instrutor de capoeira angola.
3. Resultados e Discussão
O resultado da observação, segundo o entendimento da acadêmica, foi contrário ao diagnóstico
apresentado, trazendo algumas possíveis diferenças de critério médico nas avaliações. Os dois casos têm
diagnósticos iguais, porém descrições diferentes. Entretando é importante salientar que as análise feitas são
embasadas por conceitos da área da educação e que não é intenção contestar diagnósticos médicos. É preciso
lembrar que as análise são feitas por uma graduanda de pedagogia, a ciência da educação, o que pressupõe
um olhar para todo o contexto apresentado e sendo assim a opinião e reflexão acerca dos diagnósticos fazem
parte da pesquisa. As questões levantadas são direcionadas para quais deveriam ser as práticas docentes em
casos de dificuldade de aprendizagem, uma vez que nos casos observados a maior deficiência é a não
alfabetização em 14 anos de escola e 10 anos de tratamento psicológico e multidisciplinar.
4. Conclusão
A pesquisa levantou questões que não permitem uma conclusão sobre o assunto, mas sim propõe uma
nova retomada nas discussões sobre práticas inclusivas e olhares mais humanos para os alunos. E deixa uma
pergunta fundamental para a Pedagogia: O que as teorias de aprendizagem não ensinam?
É premente que sejam revistas as práticas e os métodos oferecidos pelas escolas, pois os casos de
dificuldades na aprendizagem têm aumentando significativamente e a eles são dadas soluções médicas. Sem
que as instituições escolares tenham a necessidade de assumir a responsabilidade por esse crescimento.
Torna-se fácil o jogo de empurra entre educação e medicina, num processo de sabotagem constante às nossas
crianças, jovens e adultos.
Referências
BERGÈS, Jean., BERGÈS-BOUNES, Marika., CALMETTES-JEAN, Sandrine. O que aprendemos com as
crianças que não aprendem?, Porto Alegre: CMC, 2008. 250 p.
SILVA, César Augusto Venâncio da. Anatomofisiologia do Mapeamento Cerebral: Identificação dos
Distúrbios de Aprendizagem e sua intervenção Psicopedagógica. UEVA: Fortaleza, 2010. Retirado do
site: http://www.scribd.com/doc/28400800/MAPEAMENTO-CEREBRAL-CONCLUSO-PARA-REVISAO
- em 10/07/2010.
*
Apresentadora: [email protected]
314
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Agradecimentos
Agradeço imensamente às Professoras Martha Hoppe, que neste trabalho foi minha orientadora e Liliane
Madruga Prestes que com sua dedicação ao curso e a nossa Unidade sempre nos incentiva a pesquisar e
comunicar os dados.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Natiele Follmann 1*; Bruna Pereira Alves 1; Eliziane Tainá Lunardi Ribeiro1; Gabriely Muniz Siqueira1;
Leonice Elci Rehfeld Nuglisch1; Liliana Soares Ferreira1
1
Universidade Federal de Santa Maria
1. Introdução
Este estudo busca identificar os espaços de trabalho e emprego dos pedagogos que concluíram o
curso de Pedagogia na UFSM de 1997 a 2008, justificando-se pelo fato de que, embora a Pedagogia seja uma
das licenciaturas mais procuradas, não há número significativo de pedagogos nas escolas. Realiza-se esse
estudo a fim de identificar os espaços de trabalho dos pedagogos através de interlocuções com egressos do
Curso de Pedagogia. Nesse contexto, esta proposta visa a entender onde estão os pedagogos egressos dos
cursos de Pedagogia da UFSM: empregados, desempregados ou abdicaram da prática da Pedagogia? Busca-
se, dialeticamente, entender as condições/relações de emprego/não-emprego no contexto contemporâneo,
especialmente as relativas ao trabalho do pedagogo, tendo a escola como potencial ambiente de trabalho
desses profissionais.
2. Método
Os aportes teórico-metodológicos fundamentam-se em pressupostos científicos, tendo como
abordagem a pesquisa de cunho qualitativo, acreditando que esta, responde melhor ao que se propõe
desenvolver.
Como procedimento, realizar-se-á um amplo Estudo de Caso. O Estudo de Caso tem por
objetivo “[...] apresentar os múltiplos aspectos que envolvem um problema, mostrar sua relevância,
situá-lo no contexto em que acontecem e indicar as possibilidades de ação para modificá-lo” [3].
A técnica de coleta utilizada nesta investigação é pesquisa survey (entendida como um método de
coleta rápida de dados, possibilitando análise quantitativa e qualitativa), questionário, por e-mail, com os
egressos dos cursos desde 1997 e grupos de interlocução (por meios tecnológicos ou presenciais). Os
questionários são compostos por quatro questões relacionadas aos espaços de trabalho e emprego do
pedagogo egresso. Além disso, está-se realizando a análise dos Projetos Pedagógicos do Curso de Pedagogia
da UFSM dos anos de 2004 e 2007.
A análise dos questionários e dos Projetos Pedagógicos baseia-se na Análise de Conteúdo de Bardin
[2]. Tanto para a formulação dos questionamentos, quanto para a análise destes e dos PP, partiu-se das
categorias Trabalho, Emprego e Pedagogia como Ciência da Educação. Para a compreensão das categorias
estabelecidas o grupo de pesquisadores baseia-se em Antunes [1], Ferreira [4] e Pimenta [5].
É com base neste caminho metodológico que se desenvolve a investigação aqui apresentada.
3. Resultados e Discussão
Em um primeiro momento analisou-se o Projeto Pedagógico do Curso de Pedagogia do ano de 2007.
Percebeu-se que as categorias destacadas não aparecem com o sentido que se busca. A palavra trabalho
aparece como referência a uma ação, a realizar algo, não se relacionando ao trabalho dos professores e nem à
situação do Pedagogo profissional, apenas aparece no projeto relativo à área em que o pedagogo trabalha:
Educação Infantil, Anos Iniciais, EJA, e em demais áreas que necessitem conhecimentos pedagógicos. Além
disso, o Projeto Pedagógico traz outras palavras e expressões que podem ser/estar relacionadas ao trabalho
dos professores, entendido como a produção da aula e, nesta, a produção do conhecimento de estudantes e
professores [4].
Retomando as categorias, observou-se que a palavra “Pedagogia” aparece somente junto com “Curso
de” ou “Licenciatura em”, não sendo definida a Pedagogia como ciência da Educação, apenas a palavra
Pedagogia como referência ao tipo de Curso que os acadêmicos irão cursar. Dito de outra forma, Pedagogia é
utilizado em locuções adjetivas qualificadoras, não como substantivos que revelem a centralidade da ciência
a ser estudada pelos acadêmicos. O Curso é Licenciatura em Pedagogia, mas a Pedagogia é estudada apenas
ilustrativamente, parecendo implicitar que tudo é Pedagogia e, nesta imprecisão, fica-se sem saber
exatamente de qual Pedagogia se fala.
Em relação ao “emprego e desemprego”, percebe-se que o Projeto Pedagógico não apresenta
questões relativas ao Pedagogo em diversas áreas. Com base na análise do PP, entende-se que o Pedagogo é
*
[email protected]
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“preparado” para trabalhar nas escolas, em salas de aulas, sendo, efetivamente, professores, já que o Curso
não aprofunda a Pedagogia voltada para a Orientação, Supervisão ou trabalho em Empresa.
Na etapa seguinte, foram enviados os e-mails aos Pedagogos que concluíram o Curso de Pedagogia,
explicando-lhes o projeto e questionando seu interesse em participar da pesquisa. A partir do momento em
que o pedagogo responde que quer participar da investigação lhes é enviado o questionário. Posteriormente,
foram tabeladas as respostas dos entrevistados e iniciou-se as análises das mesmas. Até o momento,
percebeu-se que muitos pedagogos encontram-se trabalhando em áreas distintas da Pedagogia. Constatou-se,
ainda, que a maioria dos egressos está trabalhando como professores em escolas, acreditando que esta uma
das maiores possibilidades de emprego para este profissional.
4. Conclusão
Entende-se, a partir do exposto, que o Pedagogo deverá ter muitos conhecimentos na área da
educação, adaptando-os de acordo com a situação vivenciada por ele na sala de aula e o contexto em que a
escola e os estudantes estão inseridos. Tais conhecimentos lhe permitirão, nos contextos educacionais, não
somente produzir aula, mas contribuir para a compreensão, análise e proposição de projetos e políticas
educacionais.
Nesse sentido, a investigação aqui relatada objetivou caracterizar, com base nos discursos dos
egressos dos cursos de Pedagogia, desde 1997, quais os contextos, faces, perspectivas e desafios quanto ao
trabalho/não-trabalho e emprego/não-emprego desses profissionais e como se pode estabelecer relações entre
estes aspectos e o projeto pedagógico destes cursos.
Na análise das respostas dos questionários foi possível perceber que muitos pedagogos não estão
trabalhando na área da educação por estarem estudando em cursos de pós-graduação, por falta de
oportunidade, por insatisfação em relação ao salário ou por opção pessoal. Tem-se observado que alguns
pedagogos acreditavam que teriam uma vantagem em relação a outros por terem um diploma de nível
superior, porém, perceberam que a obtenção deste título não foi suficiente para garantir-lhes um emprego na
área da Pedagogia.
O estudo apresentado ainda está em andamento, já que os questionários e o Projeto Pedagógico de
2004 ainda estão sendo analisados. Até o momento, percebeu-se que o Pedagogo não está sendo pensado
como profissional no âmbito do trabalho e emprego, enfrentando dificuldades quando se refere a trabalhar na
área da Educação. Intenciona-se, a partir da análise, reunir os interlocutores-pedagogos entrevistados para
discutir sobre as condições de emprego e trabalho na área da Pedagogia.
Referências
[1] ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho – Ensaio sobre a afirmação e negação do trabalho. 7ª
reimpressão. São Paulo: Boitempo Editorial, 2005.
[3] CHIZZOTTI, A. Pesquisa em ciências humanas e sociais. 8ª ed. São Paulo: Cortez, 2006.
[4] FERREIRA, L. S. Gestão do pedagógico: de qual pedagógico se fala? In: Currículo sem Fronteiras.
v.8, n.2, p.176-189, Jul/Dez 2008.
[5] PIMENTA, S. Pedagogia Ciência da Educação? – 5. ed. – São Paulo: Cortez, 2006.
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1. Introdução
O trabalho, vinculado ao projeto de pesquisa “Matemáticas e currículo escolar em cursos de
Pedagogia: um estudo Etnomatemático”, tem como objetivo estudar as enunciações produzidas por
colonos descendentes de alemães sobre a escola e a matemática escolar da Colônia de São Leopoldo
(RS), no período da Campanha de Nacionalização (de 1939 a 1945), no qual houve a proibição do
uso da língua alemã.
2. Metodologia
Os aportes teóricos que sustentam o estudo estão vinculados ao projeto maior no qual se insere:
o campo da Etnomatemática, formulado com o apoio do pensamento de Foucault e das ideias de
Wittgenstein desenvolvidas em “Investigações Filosóficas”. Até a presente data, o estudo envolveu
quatro participantes, todos residindo atualmente em Dois Irmãos. Eles freqüentaram escolas de
localidades vizinhas, pertencentes à Colônia de São Leopoldo, a qual Dois Irmãos fazia parte, até
1959, quando se emancipou politicamente. O material de pesquisa é composto por entrevistas feitas
com esses participantes: duas senhoras que, no período da Campanha de Nacionalização, eram
alunas naquela Colônia; um senhor, que ali exerceu a docência a partir de 1944; e um senhor que,
tendo sido estudante no final do período da Campanha, a partir de 1961 atuou como professor,
vivendo os resquícios da Campanha de Nacionalização em uma comunidade de descendentes
alemães no interior do Estado do Rio Grande do Sul. As entrevistas tiveram como foco suas
experiências com relação à escola, em especial no que se refere à matemática, e os materiais
didáticos que ali circulavam.
3. Resultados e Discussão
A análise preliminar do material de pesquisa indica que houve uma grande repercussão da
Campanha de Nacionalização na vida cotidiana dos descendentes de alemães, em particular, na
escola; que, as aulas de matemática tinham como centro a tabuada e as quatro operações, havendo
diferenças no desempenho escolar e nas atitudes de meninos e meninas
4. Conclusões
Como o projeto ainda não foi concluído, não se pode apontar as conclusões do mesmo.
_______________________________________
*Autor: Ana Cristina Wiest: [email protected]
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1. Introdução
Essa pesquisa, de cunho investigativo, estudou o tema relacionado ao Estágio Curricular
Supervisionado (ECS). O ECS é do ponto de vista de formação, importante para a constituição do formar-se
professor (a). Quando se fala em ECS várias são as compreensões efetuadas pelas pessoas envolvidas nesse
processo de formação. Com isso, sendo ele uma ação muito esperada pela pesquisadora e ao mesmo tempo
uma etapa onde se concretizam ideias, ideais, tristezas, alegrias e demais processos que fazem parte do
formar-se professor, investigar a visão de estágio dos (as) demais acadêmicos (as) em formação foi uma
pesquisa muito requerida e instigante. Partindo disso, a presente pesquisa surgiu com o intuito de procurar
encontrar definições do que é o estágio curricular supervisionado para os (as) acadêmicos (as) em formação.
Autores como Pimenta & Lima [6], Freitas [4], Felício de Oliveira [3] Wielewicki [10], , estudam o
que é o estágio e qual a sua relevância à formação docente. Segundo Wielewicki [9, p. 19], “uma das
premissas concernentes ao estágio curricular supervisionado é que ele pode ser visto como um movimento
formativo, um continuum ou caminhada que vai do contato inicial com os contextos educativos até o
exercício reflexivo da docência”. Sabe-se que o mesmo presta colaboração aos acadêmicos envolvidos no
processo de formação, uma vez que assim, estes possuem a oportunidade de perceber como é ser docente e o
que é ser docente. Freitas [4, p. 18], expressa também a importância do estágio, dizendo que o mesmo
proporciona momentos de reflexão em relação ao profissional que o acadêmico que ser, uma vez que esta
“oportunidade gera conflitos, questões, dúvidas e problemas que necessitarão ser pensados através de uma
busca teórica”.
Essa pesquisa partiu de questionários efetuados a um grupo de acadêmicos (as) do 8º semestre do
Curso de Pedagogia Diurno/2010 da Universidade Federal de Santa Maria- UFSM e de buscas por
referências bibliográficas que embasaram os resultados encontrados. Discute-se o estágio curricular
supervisionado por meio de três perspectivas: A primeira refere-se ao entendimento do que é estágio
curricular supervisionado para as acadêmicas. Por meio de algumas teorias estuda-se o que é estágio e como
estas acadêmicas o conceituaram. A segunda liga-se a questão do estágio como uma experiência significativa
para estas acadêmicas. Neste momento pretende-se entender como as acadêmicas sentiram-se no estágio de
formação profissional. A terceiro refere-se às mudanças e aprendizagens oriundas do estágio, pois o mesmo
requer muitos momentos de reflexão e busca por entendimentos mais profundos.
Os (as) alunos (as) que efetuam os ECS conseguem visualizar por alguns momentos a ação docente
dentro do âmbito educacional, uma vez que assim, apreendem o que é realmente ser professor. De acordo
com Anastasiou e Alves [1, p. 19] “o apreender do latim apprehendere, significa segurar, prender, pegar,
assimilar mentalmente, entender, compreender, agarrar”. Partindo disso, o presente estudo proporcionou
resultados significativos ao meio acadêmico, pois o fato de investigar discentes em formação sempre é um
modo de perceber como o próprio Curso está trabalhando com esta visão ao longo da graduação. Acredita-se
que por meio dessa pesquisa os estágios curriculares supervisionados tiveram importantes colaborações, uma
vez que estas percepções dos acadêmicos (as) em formação, em muitos casos, são desconhecidas.
2. Método
A pesquisa foi realizada com 12 discentes do Curso de Pedagogia do 8º semestre do Curso de
Pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria, as quais estão em contato com o ECS, procurando
identificar as concepções de ECS que estes (as) possuem, as aprendizagens oriundas do ECS e se este é
significativo para que assim possa colaborar na constituição do ser professor. Utilizou-se uma abordagem
quali-quantitativa e desenvolveu-se uma pesquisa de estudo de caso. Triviños [8, p. 133] diz que o estudo de
caso “é uma categoria de pesquisa cujo objeto é uma unidade que se analisa aprofundadamente”, deste
modo, a unidade principal analisada no contexto da pesquisa, foi o Estágio Curricular Supervisionado. A
investigação foi delineada por meio de questionários com perguntas abertas, os quais tinham por objetivo
saber quais as compreensões que as acadêmicas possuem sobre o estágio curricular supervisionado, as
aprendizagens e se o mesmo é significativo. Após as respostas obtidas com os questionários, desenvolveu-se
a análise de conteúdo temática para encontrar as respostas aos questionamentos efetuados. Segundo Holsti
[p. 608 apud 2, p. 115] a análise de conteúdo é “uma técnica de fazer inferências sistemáticas e objetivas,
*
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identificando as características especiais da mensagem”. Com isso, a maior importância da mesma, é o seu
conteúdo, o que as respostas trazem e representam ao investigador.
3. Resultados e Discussão
A pesquisa possibilitou reflexões relevantes acerca do ECS, uma vez que por meio dos
questionamentos efetuados chegou-se a importantes respostas e visualizou-se o modo pelo qual estes (as)
acadêmicos (as) perceberam o ECS. A primeira e principal pergunta efetuada estava diretamente relacionada
com a concepção de Estágio Curricular Supervisionado que os (as) acadêmicos (as) em formação possuem.
Verificou-se que esta concepção não está clara para os (as) acadêmicos (as), uma vez que de todos (as) os
(as) pesquisados (as), a grande maioria revelou ser o ECS o momento de colocar em prática aquilo que se
apreendeu ao longo do Curso de Graduação. Conforme Pimenta & Lima [6], o modo pelo qual as acadêmicas
percebem o estágio curricular supervisionado é equivocado, uma vez que por meio dessa visão “a atividade
do estágio fica reduzida a hora da prática, ao “como fazer”, às técnicas a ser empregadas em sala de aula, ao
desenvolvimento de habilidades específicas do manejo de classe, ao preenchimento de fichas de observação,
diagramas, fluxogramas” [6, p. 37]. O ECS deve ir muito além da prática, ele deve colaborar com o discente
que se encontra em estágio por meio das reflexões efetuadas, por meio da observação, do estudo diário,
enfim, o ECS deve sim ser uma unidade entre teoria e prática [7].
Partindo para o segundo questionamento que interligava-se com a experiência do Estágio, teve-se
como resultado o fato do ECS ser sim rico e significativo, pois proporcionou o desenvolvimento de
habilidades, aprendizagens e reflexões. Veras [7, p. 53] “conclui em sua dissertação que o “microensino”
(iniciativas de estágio empregando inovações técnicas no desenvolvimento de atividades) é um poderoso
instrumento para a aquisição de um repertório de habilidades de ensino e prepara o professor para ser
dinâmico e interativo”. Desta maneira para a autora isto contribui para a redução da maioria dos problemas
que os alunos enfrentarão na prática de ensino. Com isso, por meio destas atividades os alunos chegam ao
ECS com um repertório de atividades e experiências, as quais colaborarão para o êxito da formação na
escola. Deste modo, a presente pesquisa demonstrou que os (as) acadêmicos (as) em formação acreditam que
o Estágio propicia momentos significativos que serão lembrados para sempre, pois, para muitos, este foi o
primeiro momento de vivenciar a ação docente.
O terceiro, e último questionamento, tinha por objetivo saber quais foram as aprendizagens oriundas
do ECS. Neste, porém, ficou evidente a preocupação central dos (as) discentes perante o planejamento
efetuado. Planejar não é algo simples, objetivo. O ato de planejar requer tempo, dedicação, reflexão,
dialogicidade com alunos e professores (orientador e regente), criatividade, disponibilidade, atenção,
criticidadee também requer um “jogo de cintura”, uma “carta na manga”. Ao planejar o docente precisa
pensar em cada aluno que encontra-se dentro da sala de aula, cada particularidade, cada indivíduo que
apresenta, da sua maneira, o seu modo de ver o mundo a sua volta. Com isto, de fato, planejar requer uma
gama de habilidades, conhecimentos e atitudes. Leal diz que
Deste modo, o planejar está direcionado ao organizar-se. Quando planeja-se, tem-se em mente um
objetivo efetivo que revele o que quer ser efetuado e também para que deve-se ser efetuado. Assim, quando o
docente expõe aquilo que pretende realizar está fazendo o seu planejamento. Saber planejar não é apenas
colocar no papel o que se quer apresentar aos alunos, planejar é também pensar no que se vai falar, como se
vai falar, de que maneira atingir a compreensão do aluno (a). Enfim, planejar é algo extremamente complexo
que com certeza leva tempo para ser apreendido.
Partindo disso, percebe-se que a preocupação constante destes (as) estagiários (as) perante o ato de
planejar é relevante, uma vez que, assim demonstram-se interessados (as) em fazer com que seus alunos (as)
apreendam o conhecimento que está sendo trabalhado.
4. Conclusão
Após a realização da pesquisa, pode-se dizer que o ECS é um momento que deve ser mais estudado,
mais experienciado pelos (as) acadêmicos (as) em formação. É por meio dele que os (as) acadêmicos (as)
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
“compreendem a complexidade das práticas institucionais e das ações aí praticadas por seus profissionais
como alternativa no preparo para sua inserção profissional” [6, p. 43]. Deste modo, o ECS quando
visualizado como uma práxis [7] apresenta contribuições mais significativas aos envolvidos no processo,
uma vez que, ao atuar o (a) discente reflete, pensa e observa àquilo que está sendo realizado.
Portanto, a pesquisa proporcionou uma visão mais ampla dos pensamentos dos (as) acadêmicos (as)
em formação sobre a real inserção no mundo do trabalho em que escolheram efetuar. Mostrou também as
principais dificuldades encontradas e desta maneira as principais aprendizagens que estas dificuldades
proporcionaram. Contudo, o que mais ficou evidenciado foi a percepção que estes (as) acadêmicos (as)
possuem do ECS, a qual deve ser retomada, deve ser revista, uma vez que o ECS, o trabalho docente, não é
somente prático e é sim uma práxis [7]. Finalizando o trabalho pode-se perceber que o ECS é muito mais que
apenas a prática, o ECS é a práxis, é a união entre teoria e prática [7].
Referências
[1] ANASTASIOU, Léa das Graças Camargos; ALVES, Leonir Pessate. Processo de Ensinagem na
Universidade: pressupostos para as estratégias de trabalho em aula. Joinville, SC: UNIVILLE, 2009.
[2] CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa Qualitativa em Ciências Humanas e Sociais. Petrópolis, RJ: Vozes,
2008.
[3] FELICIO, Helena Maria dos Santos e OLIVEIRA, Ronaldo Alexandre de. A formação prática de
professores no estágio curricular. Educ. rev. [online]. 2008, n.32, pp. 215-232. ISSN 0104-4060.
[4] FREITAS, Deisi Sangói & PANIZ, Catiane Mazocco. A contribuição da Reflexividade do Profissional
Professor por Meio do Diário da Prática Pedagógica. In: FREITAS, Deisi Sangói; GIORDANI, Estela Maris;
CORRÊA, Guilherme Carlos (Orgs). Ações Educativas e Estágios Curriculares Supervisionados. Santa
Maria: Editora da UFSM, 2007.
[5] LEAL, Regina Barros. Planejamentos de Ensino: Peculiaridades significativas. Revista
Iberoamericana de Educación, (ISSN: 1681-5653). Disponível em <
http://www.rieoei.org/deloslectores/1106Barros.pdf> Acesso em 17/07/2010.
[6] PIMENTA, Selma Garrido & LIMA, Maria Socorro Lucena. Estágio e Docência. São Paulo: Cortez,
2004.
[7] PIMENTA, Selma Garrido. O Estágio na Formação de Professores – Unidade, teoria e prática?. São
Paulo: Cortez, 2010.
[8] TRIVIÑOS, Augusto N. S. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais: a pesquisa qualitativa em
educação. São Paulo: Atlas, 1987.
[9] WIELEWICKI, Hamilton de Godoy. Estágio curricular supervisionado: concepções de supervisão. In:
FREITAS, Deisi Sangoi; GIORDANI, Estela Maris; CORRÊA, Guilherme Carlos e BARICHELLO, Marta.
Textos do Segundo Seminário sobre Estágios Curriculares Supervisionados “Enfrentando Desafios”
da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, 2005.
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1. Introdução
2. Método
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matemáticos propostos nas coleções selecionadas foram definidos os seguintes critérios de análise para
os livros didáticos:
- apresenta os conteúdos conforme proposto nas Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná;
- desenvolve o eixo Tratamento da Informação como conteúdo estruturante;
- estimula e trabalha a coleta e organização de dados em todas as séries;
- apresenta e integra a análise e interpretação de dados em tabelas e gráficos;
- propõe situações problemas que envolvam contagem, raciocínio combinatório, e
porcentagens.
- apresenta 10% dos conteúdos totais de cada volume dedicado ao Tratamento da Informação.
3. Resultados e Discussão
TOTAL 44
323
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Após a análise dos livros, conforme os critérios estabelecidos, foi constatado uma diversidade
muito grande na organização dos conteúdos do bloco Tratamento da Informação. A análise de cada
coleção é apresentada de forma resumida nos itens abaixo:
Projeto Araribá - desenvolve os conteúdos de uma forma muito estruturada, dedicando 15%
dos assuntos totais a Estatística e Probabilidade, sendo estes apresentados no final de cada capítulo do
livro. Em todas as séries conceitua a organização, construção, leitura e interpretação de dados em
tabelas e gráficos, de diferentes formas. Estimula o cálculo de porcentagens, de juro simples e
composto, de medidas de tendência central, bem como a construção do espaço amostral e do conceito
de amostra. Enfatiza o desenvolvimento do raciocínio combinatório.
Para Saber Matemática - apresenta um capítulo no final do livro de cada série em média 12%
do que é proposto para o bloco tratamento da informação e se dedica muito ao cálculo de porcentagem
e de juros em todas as séries. Trabalha com a organização e interpretação de dados utilizando vários
tipos de gráficos, estimula o cálculo de possibilidades e chances, mas trabalha os cálculos de medidas
centrais apenas ma 8ª série.
Novo Praticando a Matemática - apresenta uma boa parte dos conceitos de Estatística e
Probabilidade, mas numa pequena quantidade em cada série. Dedica-se na 5ª série a coleta e
organização de dados, na 6ª com porcentagens, gráficos e cálculo de medidas de tendências, na 7ª às
possibilidades e na 8ª série ao conceito de Probabilidade, chances em um evento, população e amostra.
Não trabalha resolução de situações-problemas e construção de gráficos.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
A análise dos livros selecionados permite concluir que algumas coleções ainda não focalizam
devidamente o eixo Tratamento da Informação como conteúdo estruturante da Matemática para a
Educação Básica. A coleção mais bem estruturada de acordo com os critérios de análise utilizados na
pesquisa foi a coleção Projeto Araribá que se dedica em todas as séries, numa porcentagem além da
média proposta. As coleções: Para Saber Matemática, Matemática e Realidade e Matemática na
Medida Certa, apresentam o eixo na forma de blocos bem distribuídos em todas as séries, mas deixam
de abordar muitos conteúdos importantes que integram o Tratamento da Informação. As outras
coleções não atendem ao proposto com relação à quantidade de conteúdos, forma de apresentação e
dedicação ao eixo proposto. No entanto, isso não significa que os livros não são adequados para a
utilização pelos alunos, pois a análise desenvolvida na pesquisa foi apenas do bloco de conteúdos
Tratamento da Informação. A análise efetivada neste trabalho permite concluir que há uma diversidade
de interpretações e formatos organizativos para as coleções de Matemática adotadas nas escolas
públicas quanto aos conteúdos propostos para o eixo Tratamento da Informação.
Enfim, faz-se necessário que os livros didáticos se dediquem mais a esta área de estudos nas
suas coleções, pois no mundo de hoje é de suma importância que um aluno saiba interpretar e analisar
as informações cotidianas, além de aprender a explorar seus próprios raciocínios matemáticos.
Referências
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Luana Rosalie Stahl1*; Andréia de Mello Buss2; Louise Bertoldo Quatrin3; Marciele Taschetto da Silva4;
Silvia Maria de Aguiar Isaia5
1
Universidade Federal de Santa Maria
2
Universidade Federal de Santa Maria
3
Universidade Federal de Santa Maria
4
. Universidade Federal de Santa Maria
5
Universidade Federal de Santa Maria; Centro Universitário Franciscano
1. Introdução
Este trabalho apresenta os resultados da pesquisa Ciclos de vida profissional de professores do ensino
superior: estudo comparativo sobre trajetórias docentes. A opção por docentes de ensino superior respalda-se
no fato de que estes são formadores iniciais de futuros profissionais e, no entanto, não receberam formação
específica para exercer a função neste nível de ensino. De acordo com Isaia e Bolzan (2007), torna-se
pertinente a reflexão sobre quem forma e como são formados estes docentes. Nesta perspectiva, uma
possibilidade de resposta, está vinculada aos movimentos construtivos da docência superior constituídos por
marcadores que possibilitam uma maior compreensão da trajetória docente. A pesquisa em questão tem por
objetivo investigar quais são estes movimentos construtivos da docência superior, e detectar seus principais
marcadores. Desta maneira, neste trabalho, nos propusemos a explicitar os marcadores e os movimentos
construtivos das duas instituições investigadas, uma pública e outra confessional.
2. Método
A pesquisa deu-se em diferentes fases. Na primeira fase buscou-se esboçar a trajetória institucional
dos professores envolvidos, procurando-se atingir o maior número de docentes das duas instituições
participantes, usando-se para tanto um questionário cujas questões foram trabalhadas, em sua maioria, de
forma quantitativa, através do Programa Statistica. Os resultados foram interpretados em um viés
quantitativo sem desconsiderar a dimensão qualitativa destes, aproximando as tendências quantitativas e
qualitativas e atendendo, assim, as exigências do problema da presente investigação na sua fase inicial.
(COOK; REICHARDT, 1986).
É contudo, a segunda fase que se discute em maior profundidade neste artigo. Os professores foram
selecionados, tendo em vista os resultados advindos dos questionários respondidos. Para tanto, levou-se em
consideração o número de professores que responderam ao questionário da primeira fase e o tempo de
experiência na instituição. Quanto a este segundo parâmetro de seleção, dividiu-se a carreira docente em três
etapas: inicial 0-5 (PAI); intermediária 6-15 (PAT); final 16 em diante (PAF). Tendo em vista investigar os
ciclos de vida profissional de professores do ensino superior optou-se por uma abordagem de cunho
narrativo. (CONNELLY; CLANDININ, 1995; McEWAN, 1998). Optou-se por este viés na medida em que
não só são dadas voz e vez aos professores envolvidos, mas também pela possibilidade de tomarem distância
de suas vidas profissionais, convertendo-as em objeto de auto-reflexão, podendo assim [re]significá-las e
transformá-las. (HUBERMAN, 1998; McEWAN, 1998).
Assim buscou-se, a partir das narrativas dos professores, em suas entrevistas, interpretar os relatos
que os mesmos fazem dos acontecimentos vividos ao longo da carreira docente. Tratou-se, portanto, de
construir novos significados sobre o processo construtivo dos professores, partindo de um duplo movimento
interpretativo, envolvendo por um lado os pesquisadores e por outro os docentes, sujeitos da pesquisa.
(ISAIA, 2005a). Tal procedimento, dentro da tradição narrativa, compreendeu não só como os professores
relatavam suas vidas, mas também como os pesquisadores narravam estes relatos. (CONNELLY;
CLANDININ, 1995). Em termos de interpretação analítica das narrativas dos professores, escolheu-se o
método de análise de conteúdo (BARDIN, 1977; MORAES, 1998; BAUER e GASKELL, 2004).
Considerou-se que um dos aspectos significativos desta abordagem está no resgate de um
conhecimento mais próximo ao mundo da vida dos professores e da realidade educativa em que estão
inseridos, compreendendo-os como pessoa e profissional.
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Para tal, os instrumentos utilizados nesta fase foram auto-reconstrução biográfica e entrevista
narrativa. A primeira, entendida como um procedimento escrito voltado para os professores reconstruírem,
via memória, suas trajetórias docentes, demarcando as fases das mesmas, suas principais características e a
temática que as orienta. (ISAIA, 2005a). A segunda foi utilizada como um procedimento capaz de considerar
o fluxo de recordações de cada docente. Tal fluxo foi orientado pela auto-reconstrução biográfica e não pelas
questões prévias do entrevistador. Coube a este apenas formular questões para aclarar algum ponto obscuro
da narrativa. (HUBERMAN, 1998; ISAIA, 2005a).
A terceira e última fase da pesquisa, resultante da anterior, refere-se à comparação das trajetórias
formativas dos professores das duas instituições de ensino superior participantes da pesquisa.
3. Resultados e Discussão
....quando eu me formei eu pensei que jamais ia ser docente porque eu tenho pai e mãe professores o que eu queria era
clínica mesmo (...)(PAI)
(...) eu tive esta formação também na minha caminhada na pública então na graduação primeiro semestre eu já me
enfiei numa pesquisa e de lá nunca mais saí, entrei numa pesquisa e nunca mais saí, então eu sempre tive bolsa da
FATEC, CNPq, da CAPES. (PAT)
A aula e eu levava os três dias envolvida daquela aula, criatura de Deus as vezes eu fico pensando, mas é o início
mesmo né? Mas aí além de toda esta parte... (PAT)
327
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
E os colegas muito distantes, distantes mesmo. E institucional, imagina, eu lembro era o meu primeiro semestre era um
problema mandar e-mail para uma pessoa, para vir para a aula todos os dias e as duas vezes da semana que eu dava
aula na semana, horista, oito horas. Então era muito engraçado eu dava aula segunda e sexta, por um lado eu achava
maravilhoso porque eu tinha terça, quarta e quinta para preparar. (PAT)
Porque eu sou uma pessoa que trabalha em grupo sempre né, apesar dessa independência, eu sou uma pessoa que não
consegue viver longe das pessoas. Então dentro da universidade eu sempre atuo em grupo. Então hoje eu sou
coordenador de um grupo, um grupo de pesquisa onde nós trabalhamos de fato juntos e o grupo hoje que eu coordeno
são em torno de 60 pessoas. (PAF)
A última fase e a pós-doutorado, logo que eu cheguei foi uma grande diferença, porque você trabalha com teorias
atualizadas, então você vem aqui cheia de pique para tentar trabalhar em um novo pique com novas teorias e tudo.
Você vem e fica falando chinês enquanto todo mundo fala português. Então você vai esquecendo o chinês e volta a
falar português, e ao mesmo tempo, quando eu voltei, tinha uns problemas de recursos humanos no departamento.
Então quando eu voltei eu tinha que fazer as mesmas coisas que eu fazia, com uma carga horária mais pesada do que
eu tinha antes, então eu realmente não pude de imediato dar continuação ao que eu pretendia trabalhar quando eu
voltasse do doutorado. (PAF)
Eu espero continuar aqui na universidade, é uma proposta diferente, até porque a gente vem com uma visão de
graduação, de especialização e mestrado e daí tu cai num curso diferente, tu até te questiona, mas algumas coisas tu
tem que mudar sim e realmente a gente sente isso até no contato com os alunos, a minha perspectiva são bastante
motivadoras, eu pretendo ficar no que depender de mim. (PAI)
Acho que ser docente principalmente na profissão da gente é a gente se preocupar com a forma com que a gente se
coloca. A gente se preocupa com uma forma mais alternativa, mais integral. É uma oportunidade muito legal que a
vida dá pra gente, embora tenha todos os problemas do sofrimento. (PAT)
4. Conclusão
Tendo em vista os resultados encontrados a partir das narrativas/vozes dos professores participantes
foi possível à compreensão de que os marcadores compõem os movimentos construtivos da trajetória desses
docentes, o que permite iluminar a compreensão do processo construtivo dos docentes de ensino superior.
Desse modo, o primeiro movimento é de cunho preparatório para a efetiva atuação na universidade. As
experiências prévias de caráter pedagógico que eles vivenciam têm a função de iniciá-los na atividade
docente futura. Delineia-se assim uma iniciação em direção a uma função que mais tarde irá se concretizar.
O segundo movimento envolve a efetivação na docência superior na qual a característica mais marcante é a
falta de preparação específica para este nível de ensino. Grande parte das escolhas é acidental na busca de
328
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
iniciar uma atividade laboral após a graduação. O terceiro movimento que os professores explicitam como
marcante em sua trajetória docente é a realização de Cursos de Pós-Graduação, entendendo-os não apenas
como oportunidade de formação para a pesquisa, mas também para a docência. Essa experiência se
caracteriza para muitos dos entrevistados como um caminho formativo em andamento. A partir dos Cursos
de Pós-Graduação, os nossos sujeitos passaram a sentirem-se mais preparados para atuarem como
professores, percebendo que suas atividades docentes, muito mais do que técnicas, são de natureza
pedagógico-formativa em relação aos alunos e eles próprios. O último movimento construtivo demarcado
pelos professores envolve o que podemos denominar de autonomia docente, ou seja, os professores estão
engajados em atividades educativas voltadas para o efetivo desenvolvimento de seus alunos. Neste
movimento parece surgir uma concepção de docência mais madura, à medida que os saberes por eles
acionados estão marcados pela dimensão humana, ou seja, os alunos são os focos de atenção docente,
levando-nos a indicar o caráter gerativo desta atividade.
Referências
COOK, T. ; REICHARDT, CH. Hacia uma superación del enfrentamiento entre los métodos cualitativos y
los cuantitativos. In: COOK, T. ; REICHARDT, CH. Métodos cualitativos y cuantitativos em investigación
evaluativa.Madrid: Morata, 1986, p.25- 58.
McEWAN, H. Las narrativas en el estudio de la docência. In: McEWAN y EGAN (comps.) La narrativa en
la enseñanza, el aprendizaje y la investigación. Buenos Aires: Amorrortu, 1998.
BAUER, M. ; GASKELL, G. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som. Petrópolis: Vozes, 2002.
HUBERMAN, M. Trabajando con narrativas biográficas. In: McEWAN y EGAN (comps.) La narrativa en la
enseñanza el aprendizaje y la investigación. Buenos Aires: Amorrortu, 1998, p. 183-235.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Rúbia Schlickmann1*
Universidade do Sul de Santa Catarina
1 INTRODUÇÃO
Este estudo tem em vista discutir as receitas destinadas ao financiamento da educação da
rede pública de ensino do estado de Santa Catarina, entre 1996 e 2008. Enfatizo nesse estudo a
Constituição Federal de 1988 (CF/88) a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional (Lei
9394/96) e a Constituição Estadual de Santa Catarina de 1989, bem como as alterações legais
posteriores que implantaram o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e
de Valorização do Magistério (Emenda Constitucional nº 14 e lei 9.424, ambas de 1996) e o Fundo
de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica de Valorização dos Profissionais da
Educação (Emenda Constitucional nº 53, de 2006 e a Lei 11.494, de 2007).
Ao compreender essas leis, pretendo examinar a evolução e o comportamento das receitas
que o governo estadual tem de aplicar na educação pública, já que seus recursos são vinculados por
intermédio das leis citadas. Segundo a CF 88, no art. 212, os Estados, Distrito Federal e Municípios
devem aplicar anualmente em educação pelo menos 25% da receita de impostos que compõem os
seus orçamentos. Essa legislação também regula as receitas do Salário-Educação, do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef), que
esteve em vigência de 1998 a 2006, e do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação
Básica e Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), vigente a partir de 2007.
O presente estudo é integrante da pesquisa nacional intitulada Remuneração de Professores
de Escolas Públicas da Educação Básica: Configurações, Impactos, Impasses e Perspectivas, que
abrange o período de 1996 a 2012, aprovada pelo Observatório da Educação, do Ministério da
Educação, e financiada pela CAPES. A pesquisa está sendo realizada em 10 estados brasileiros por
universidades públicas e uma comunitária e busca compreender o comportamento da remuneração
dos professores a partir da criação do Fundef, Fundeb e agora do Piso Salarial Profissional
Nacional. A UNISUL, por intermédio do Programa de Pós Graduação em Educação-Mestrado,
realiza a pesquisa em Santa Catarina.
2 MÉTODO
Os dados sobre as receitas estaduais destinadas ao financiamento da educação foram
extraídos dos Relatórios e Pareceres Prévios sobre as Contas do Governo do Estado elaborados
anualmente pelo Tribunal de Contas do Estado de Santa Catarina, disponíveis na forma impressa,
1996 a 1999, e virtualmente (http://www.tce.sc.gov.br/web/publicacoes/relatorios), de 2000 a 2008.
Os dados foram organizados em séries históricas em planilha Excell e atualizados para Reais de
2008, através da Calculadora do Cidadão (disponível no site do Banco Central do Brasil). Os
gráficos elaborados a partir destas tabelas possibilitaram a visualização do volume e das tendências
das diferentes fontes de receita.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
As receitas destinadas ao financiamento da educação pública advêm da arrecadação de
impostos, taxas, transferências e contribuições. Apesar de a arrecadação acontecer nas diferentes
unidades de Governo, grande parte das receitas tributárias são repartidas entre a União, os Estados,
Distrito Federal e os Municípios.
Os impostos próprios arrecadados pelo Governo Estadual de Santa Catarina que tem parte de
sua receita vinculada ao financiamento da educação são o IRRF, o IPVA, o ITCMD e o ICMS. A
esses se soma a receita das transferências do FPE, do IPI Exp. e da Lei 87/96. Sobre a receita de
330
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Ao observar o gráfico verifica-se que a receita de impostos próprios é bem superior que a
das transferências da União para o Estado. Estável até 1999, a arrecadação inicia um processo de
contínuo crescimento a partir de 2001, devido ao desempenho dos impostos próprios. A arrecadação
total de 2008 ultrapassou a casa dos R$7,5 bilhões e foi 51,16% superior a de 1996.
Após realizar as distribuições tributárias cada unidade governamental deve vincular um
percentual de recursos para educação. O artigo 212 da CF/88 determina que a União deva aplicar
anualmente 18%, no mínimo, da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino,
enquanto os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, no mínimo, 25% da sua receita de
impostos e transferências em suas respectivas redes de ensino. Esse artigo também indica o salário-
educação como fonte adicional para o financiamento da educação básica.
A Constituição Estadual de Santa Catarina de 1989, no artigo 167, sustenta o que está
definido na CF/88, ou seja, de que 25% da receita de impostos e transferências do Governo Estadual
devam ser destinados à manutenção no desenvolvimento de seu sistema de ensino.
Em 1996, foi aprovada a Lei nº 9.394 que estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (LDB/96) que no artigo 68 ratifica a CF/88 nas fontes de recursos para a
educação. Nesse mesmo ano, foi implantado o Fundef em cada estado brasileiro, com o objetivo de
canalizar parcela importante da receita arrecada pelos estados e municípios ao ensino fundamental.
Assim, o Fundef fez com que 15% das receitas do ICMS, FPM, FPE, IPI Exp. e da Lei Kandir
fossem redistribuídos para os sistemas de ensino dentro de um mesmo estado que mantivessem
matrículas de ensino fundamental em suas redes. Os 10% restantes permaneceram para aplicação na
educação básica conforme a competência de cada nível de governo. Esse mecanismo de
redistribuição das receitas e acordo com a localização das matrículas induziu os governos
municipais a ampliar o número de matrículas para obtenção de receita do Fundef. Na maioria dos
estados, incluindo o de Santa Catarina, a elevação das matrículas municipais de ensino fundamental
fez com que receita do governo estadual fosse transferida e redistribuída aos governos municipais.
Esse processo de transferência permaneceu durante toda a vigência do Fundef e continuou
com a entrada em vigor do Fundeb. O Fundeb estendeu a cobertura do financiamento redistribuindo
receita a todos os níveis e modalidades da educação básica (creche, ensino pré-escolar, ensino
fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos). Para que isso fosse possível também
foi ampliado o percentual dos impostos e transferências a serem redistribuídos, bem como o número
deles até atingir 20% da arrecadação.
Os efeitos do Fundef e do Fundeb no Governo do Estado de Santa Catarina está
331
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
representado no Gráfico 2. Ao longo do período, foi crescente o volume dos recursos movimentado
pelos fundos, porém o governo estadual desde o primeiro ano cedeu recursos da sua arrecadação
que foram redistribuídos aos municípios do estado. Enquanto a transferência era de apenas R$ 12
milhões e 1998, no último ano pesquisado as transferências alcançaram quase R$ 210 milhões.
Mesmo assim, as matrículas da rede estadual asseguraram o retorno da maior parte dos recursos
redistribuídos pelos fundos.
Gráfico 2 – Recursos do Fundef (1998 a 2006) e do Fundeb (2007 e 2008) na receita estadual.
Desde sua criação, o SE sofreu várias alterações mas manteve a sua divisão em duas cotas,
1/3 da arrecadação fica com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), órgão do
MEC, que financia programas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE),
Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (PNATE), entre outros, junto às redes
estaduais e municipais de ensino. Os outros 2/3 voltam para o estado de origem da arrecadação
332
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
como Cota Estadual e Municipal onde é redistribuído ao governo estadual e aos municípios de
acordo com o número de matrículas de educação básica em suas redes.
As receitas do SE em Santa Catarina (Gráfico 3) oscilaram significativamente ao longo do
período estudado, resultado das várias alterações legais. O ano com menor arrecadação foi em 1999
com um pouco mais de R$ 50 milhões, em 2004 também um queda surpreendeu o recurso beirando
R$ 63 milhões. Em valores atualizados, a receita de 2008 foi 19% inferior a de 1996.
Portanto, a vinculação da receita de impostos, os recursos do Fundef/Fundeb e do salário
educação são as fontes que compõem os recursos que financiam a educação estadual (Gráfico 4). A
partir de 2001, o conjunto dessas receitas cresce gradualmente, alcançando cerca de R$ 7 bilhões
em 2008, quase o dobro da de 1996.
Gráfico 4 – Total das receitas destinadas ao financiamento da educação básica – 1996 – 2008.
4 CONCLUSÃO
O estudo das receitas mostrou que o Governo do Estado de Santa Catarina destinou recursos
substanciais e crescentes para a sua rede de ensino. A entrada em vigor do Fundef, seguido do
Fundeb contribuiu para este crescimento. Ainda assim o estado teve parte de suas receitas
redistribuídas pelos fundos Fundef e Fundeb para os municípios de Santa Catarina que detinham um
maior número de matrículas.
Embora possa parecer que o Governo do Estado de Santa Catarina tenha contado com
recursos substanciais para a sua rede de ensino será necessário aprofundar os estudos e avançar na
análise das despesas realizadas de forma a verificar o cumprimento das determinações legais e a
qualidade da aplicação dessas receitas.
5 REFERÊNCIA
TCE - SC. Parecer prévio sobre as contas prestadas pelo governador do Estado. Florianópolis:
Tribunal de Contas. 1996-2008.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO:
REMUNERAÇÃO DOS PROFESSORES NAS ESCOLAS PÚBLICAS EM SUAS FORMAS,
CONFLITOS E PERSPECTIVAS
1. Introdução
Este trabalho apresenta o resultado da análise dos recursos financeiros do Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) do Fundo de Manutenção
e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb)
direcionados pelo governo do Estado de Santa Catarina à remuneração do magistério e dos profissionais da
educação das escolas públicas de educação básica de sua rede entre os anos de 1998 e 2008.
O presente trabalho é resultado do Programa Unisul de Iniciação Científica “PUIC” destinado
acadêmicos de graduação da Unisul para inserção na iniciação científica. E foi elaborado com base no
segundo capítulo do relatório do PUIC, que apresenta a análise dos dados levantados através de uma série
histórica que relata a movimentação dos recursos do Fundef/Fundeb pelo Governo do Estado de Santa
Catarina com a remuneração dos profissionais da educação.
A pesquisa da qual resulta este trabalho é um desdobramento da pesquisa nacional intitulada
Remuneração de professores de escolas públicas da educação básica: configurações, impactos, impasses e
perspectivas desenvolvida, em Santa Catarina, por professores do Programa de Pós-Graduação em Educação
– Mestrado, da UNISUL. Essa pesquisa nacional foi aprovada no âmbito do programa Observatório da
Educação do MEC, cujo objetivo é analisar as repercussões decorrentes da implantação do Fundef, do
Fundeb e do Piso Salarial Profissional Nacional na estrutura de remuneração dos professores da educação
básica de 12 estados brasileiros entre 1996 e 2010. Além do PPGE-Mestrado da UNISUL participam da
pesquisa os programas de Pós-Graduação em Educação da USP, UFPR, UNISUL, UFPB, UFMS, UFPA,
UFPI, UFRN.
2. Método
Usando uma metodológica aplicada de natureza quantitativa foram analisados dados sobre a execução
orçamentárias dos recursos do Fundef e do Fundeb aplicados pelo Governo do Estado registrados
anualmente nos Relatórios e Pareceres Prévios sobre as Contas do Governo do Estado de Santa Catarina
publicados pelo Tribunal de contas do Estado de Santa Catarina entre 1998 e 2008, disponibilizados por
meio impresso (1998-1999) e digital (2000-2008). Os dados foram lançados e organizados em planilha
Excel, gerando tabelas e gráficos que permitiram a análise comparativa da evolução e dos gastos com
educação e remuneração dos profissionais da educação, formando uma série histórica entre os anos
supracitados. Além disso, os valores foram atualizados em seu poder de compra para reais de dezembro de
2008 por meio do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE, conforme a metodologia
desenvolvida pelo Banco Central.[1]
3. Resultados e discussão
O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério
(FUNDEF) criado e aprovado pela Emenda Constitucional n° 14 [2] e regulamentado pela Lei nº 9.424.[3]
Tinha por finalidade a reorganização da redistribuição dos recursos para a manutenção e desenvolvimento do
ensino fundamental, dando ênfase à valorização do magistério.[4] O Fundef é um fundo de natureza contábil,
instituído em cada um dos estados que captura 15% da receita das transferências de impostos (FPE, FPM,
ICMS, IPIexp e Lei Kandir) repassados aos governos estaduais e municipais pelo governo federal e pelo
governo estadual aos seus municípios. O total arrecadado é redistribuído às redes estadual e municipais em
cada estado proporcionalmente ao número de matrículas no ensino fundamental, beneficiando as redes que
de maior atendimento. De acordo com a lei, 60% da receita recebida do Fundef devem ser destinados
remuneração de professores do ensino fundamental em efetivo exercício no magistério.
O Fundef foi substituído pelo Fundeb em 2007, pela Emenda Constitucional n° 53 (EC 53) e
regulamentado pela Lei 11.494.[5,6] O Fundeb passou a financiar toda a Educação Básica (educação infantil,
ensino fundamental, ensino médio, educação especial, educação de jovens e adultos). É também de natureza
contábil e terá duração de 14 anos, até 2020.[7] Captura 20% da receita das transferências de impostos
(receita total), são mantidas as mesmas fontes de recursos do Fundef, acrescentando o Imposto de
1
E-mail: [email protected]
334
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1.286.594
1.063.313
896.618
872.710
824.070
789.000
736.578
713.715
589.862
550.506
-141.168
-154.707
-183.605
-132.619
-188.909
-152.373
-12.017
-63.371
-26.009
-88.598
1998 1999 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008
Na figura acima o gráfico aponta uma “perda” para o fundo de R$12.017 milhões no primeiro ano
(parte inferior das colunas em cor vermelha), para R$188.909 milhões do último ano. Valores que
representam um aumento de 12,5% na diferença entre o que se é repassado ao fundo e o que retorna desse
recurso. O que evidencia o aumento do número de matrículas nos estabelecimentos de ensino fundamental
municipais, e a redução de matriculas nos estabelecimentos estaduais, demonstrados na fig. 2.
400.000
300.000
200.000
100.000
-
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006
2007
2008
335
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Deve-se levar em consideração o fato de que o Fundef atingia apenas o Ensino Fundamental e a
captura de recursos era de 15%, e o Fundeb atinge todas as etapas e modalidades da Educação Básica, com o
aumento da captura de recursos para 20%. A captura de recursos aumenta, mas também aumenta o número
de matrículas municipais considerado para recebimento da receita do Fundeb. O que significa que o estado
de Santa Catarina obteve menos recursos do que efetivamente destinou ao fundo.
A fig. 3, abaixo, apresenta a aplicação dos recursos do Fundef/Fundeb na remuneração dos
profissionais da educação. Os valores referentes ao Fundef estão classificados entre os anos de 2000 a 2006,
e Fundeb nos anos de 2007 e 2008. Nos relatórios do TCE/SC de 1998 e 1999 não foram encontrados esses
dados do Fundef.
O gráfico da fig. 3 apresenta as diferenças entre as aplicações dos recursos repassos pelos fundos na
remuneração do magistério, evidenciando que o governo estadual não aplicou o percentual mínimo de 60%
de repasse obrigátorios para a remuneração do magisterio nos anos de 2000 a 2005 (anos referentes ao
Fundef) como determinou a lei, com uma sobra de recursos no primeiro ano pesquisado (2000) de 22.009
milhões, e de 1.713 milhões em 2005. Entretanto, nos anos de 2006 a 2008 (anos referentes ao Fundeb)
foram investidos recursos da receita acima dos 60%, com investimento de 67.492 milhões no primeiro ano
do Fundeb, e 133.827 milhões no último ano pesquisado. Ou seja, o gráfico apresenta o não cumprimento da
lei nº 9.424/96 no que se refere a valorização do magistério no período do Fundef até 2005, situação depois
revertida.
Os relatórios do TCE/SC [8] em suas discussões apresentaram o problema da não aplicação do
percentual mínimo de 60% nos anos do Fundef, bem como, a plicação de recursos acima do percentual
mínimo no periodo do Fundeb mínimo. Embora, não identifiquem como o montante restante dos 60% foi
efetivamente aplicado nos anos do Fundef.
APLICAÇÃO DOS RECURSOS DO FUNDEF/FUNDEB NA REMUNERAÇÃO DOS PROFISSIONAIS
DO MAGISTÉRIO (Despesas Empenhadas) Em milhões
13.455
17.315
41.676
22.009
1.713
45.473
Total Aplicado em
Rem. Dos profs. do
424.513
395.867
395.415
344.818
355.382
366.037
Magistério
591.181
480.850
792.438
(empenhado/liquida
do)
Aplicado em Rem.
400.855
413.183
366.828
408.871
426.227
658.611
(3 * 60%)
Diferença
(52.918)
(67.492)
(133.827)
4. Conclusão
A pesquisa possibilitou a verificação do comportamento do Governo do Estado de Santa Catarina na
aplicação de uma parcela importante de recursos tributários destinada à manutenção de sua rede de ensino.
Com a análise das séries históricas referentes aos recursos destinados aos fundos, pode-se observar
que houve o crescimento progressivo dos recursos pertencentes ao Governo do Estado de Santa Catarina
movimentados pelo Fundef e Fundeb ao longo do período. Contudo, fundamental parcela crescente desses
recursos foi sendo transferida aos municípios ao longo do período devido à municipalização do ensino
fundamental, redistribuídos pelo Fundef e pelo Fundeb, na medida em que a redistribuição acompanha a
realização de matrículas.
No que se refere à remuneração do magistério e dos profissionais da educação, o Governo Estadual
não aplicou o percentual mínimo de 60% dos recursos recebidos do Fundef entre 1998 e 2005, deixando
assim de cumprir a exigência legal. A partir de 2006, último ano do Fundef e início do Fundeb, passou a
aplicar valores acima do mínimo de 60% atendendo a lei.
Esse comportamento do Governo Estadual na aplicação dos recursos dos fundos na remuneração dos
profissionais da educação aponta para a necessidade de outros estudos que examinem detalhadamente o total
da folha de pagamento, para possível análise dos fatores que acarretam essa transformação entre os anos de
vigência dos fundos.
336
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
5. Referências
1. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Calculadora do cidadão. Disponível em:
<https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/exibirFormCorrecaoValores.do?method=exibirFormCor
recaoValores>. Acesso em: 25 maio 2010.
4. ______. Ministério da Educação e do Desporto. Fundef: manual de orientação. Brasília: MEC, 1998.
7. PINTO, José Marcelino de Rezende. Noções gerais sobre o financiamento da educação no Brasil. Eccos -
Revista Científica, São Paulo, v. 8, n. 1, p. 23-46, jan./jun. 2006.
Agradecimentos
Ao professor e orientador Doutor Marcos Edgar Bassi por toda a atenção dispensada durante o
processo de elaboração da pesquisa.
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1. Introdução
Este projeto de pesquisa ao nível de Mestrado tem como objetivo principal a análise do espaço escolar de
uma escola privada e católica de Florianópolis: o Centro Educacional Menino Jesus - CEMJ, fundado em 1955 e
dirigido pela congregação das Irmãs Franciscanas de São José. A partir de 1973 esta escola mesclou ao traçado
curricular de viés católico os pressuspostos do Método Montessori, desenvolvido pela médica italiana Maria
Montessori no início do século XX. Surgido no contexto da Escola Nova, este Método propõe, dentre outras
especificidades, um novo desenho espacial para a escola e, especificamente para a sala de aula, adaptando-o as
necessidades infantis e tornando-o auto-educativo, ou seja, capaz de produzir a autonomia na criança.
Tendo como ferramenta de análise as teorizações dos historiadores espanhóis Agustín Escolano Benito e
Antonio Viñao Frago (1998), parto do pressuposto de que o espaço escolar é um mediador cultural em relação a
gênese e formação dos primeiros esquemas cognitivos e motores ou seja, um elemento significativo do currículo,
uma fonte de experiência e aprendizagem”, ou seja, o espaço escolar constitui-se numa “forma silenciosa de
ensino” e, portanto, como currículo. (ESCOLANO BENITO, 1988, p.26-27).
Assim, a forma como o espaço é projetado e utilizado na sala de aula e em outros “lugares” da escola,
contribui para o engendramento de uma determinada cultura escolar, capaz de produzir subjetivações e
identificações bastante particulares. E são justamente estes dois aspectos que pretendo analisar: a produção de
subjetivações e identificações nas crianças a partir de uma determinada configuração espacial, ou seja, que tipo
de significados/sentidos o espaço escolar projetado para o Centro Educacional Menino Jesus pretendia produzir
nos seus alunos e alunas no período recortado para a análise: de 1973 a 1997. A delimitação deste período se
justifica pelo fato de que foi a partir de 1973 que a escola optou pelo método montessoriano, o que resultou
numa reorganização didática do espaço escolar. E termina em 1997, pois este período foi marcado pelo início da
construção de um novo edifício sede, o que sinaliza uma nova ordem na dimensão espacial da instituição.
.
2. Método
Trata-se de uma pesquisa de base documental. A base empírica para tal investigação é constituída de
fontes documentais tais como os programas de ensino e Projetos Pedagógicos da escola, bem como as obras de
autoria de Maria Montessori, fontes iconográficas e entrevistas com as Irmãs da Congregação e corpo docente
que atuou na escola no período estudado.
3. Resultados e Discussão
A partir de leituras sobre a teoria escolanovista e a obra de Maria Montessori em particular, estamos neste
momento realizando sínteses acerca dos pressupostos do método montessoriano, especificamente no que se
refere a concepção acerca do espaço escolar. Num segundo momento analisaremos o currículo do Centro
Educacional Menino Jesus, especialmente os projetos pedagógicos, programas de ensino e outros documentos
produzidos pela Escola, bem como as entrevistas realizadas, sempre focando o olhar na questão específica da
1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Santa
Catarina – UDESC.
2
Orientadora – Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do
Estado de Santa Catarina – UDESC.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
nossa pesquisa, qual seja, o espaço escolar, de modo a compreender como esta instituição se apropriou da teoria
montessoriana, incorporando os postulados do método montessoriano em seu currículo e em sua cultura escolar.
Por último, tentaremos desentranhar os sentidos e significados que a incorporação do novo desenho espacial
deveria produzir nas crianças, ou seja, as subjetivações e identificações desejadas.
Fig. 3 Tapete e Bíblia como instrumento pedagógico Fig. 4 Materiais de vida prática
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
4. Conclusão
Trata-se, como já foi afirmado, de uma pesquisa em andamento, iniciada neste ano de 2010, não havendo,
portanto, conclusões a serem socializadas.
Referências
ESCOLANO BENITO, Agustín & VIÑAO FRAGO, Antonio (1998). Currículo, Espaço e Subjetividade: a
arquitetura como programa. Rio de Janeiro: DP&A.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução:
As tensões existentes entre Educação e Trabalho e o alargamento da lacuna entre o Professor
Especialista e o Educador, inserindo-o em um contexto de preocupações humanas e socais perpassando o
desenvolvimento científico tecnológico, faz parte da conjuntura do ensino profissionalizante. A visão
unilateral que garanta a formação tecnológica também distancia os professores de uma educação com
perspectiva de desenvolvimento humanista, solidário e includente. As TICs e sua penetração no ambiente
escolar criam embates conflitantes mas não excludentes entre formação, competência e confiança dos
docentes nas multimídias. Analisar estes fatores no cotidiano do IFSC faz parte do projeto de mestrado,
sendo a principal ênfase do artigo uma síntese desta proposta.
Em países como o Brasil, onde desigualdades sociais, sistemas de educação e saúde pública precários, baixa
cidadania, entre outros problemas, normalmente busca-se soluções (emergenciais) para a solução ou redução
dos mesmos.
“Poucos países juntaram, como o Brasil, tijolos e cimentos tão díspares em seu processo de constituição.
Poucos também experimentaram vicissitudes que mostram de forma tão clara os caminhos elos quais uma
nação constitui-se não para servir a si mesma, mas para atender os interesses alheios”.[1]
As características do processo produtivo, a informatização, a grande velocidade de processamento e
transmissão de informações, dentre elas, ocasionam sucessivas e contínuas transformações na sociedade,
particularmente em suas relações sociais e profissionais, trazendo a tona questões que, além de afetar a
escola, agitam, desestabilizam e estratificam a vida pedagógica dos professores.
Os professores incluem-se dentre um dos grupos protagonistas no processo de mudança (ou não) social, por
esta razão é primordial a consciência do lugar e do papel que representam no contexto histórico. A
profissionalização docente envolve a formação inicial e continuada, neste aspecto alertamos para o hiato que
ocorre entre a formação acadêmica e a prática pedagógica. Os currículos dos cursos de formação de
professores são desenvolvidos distanciados da realidade das escolas, principalmente daquelas onde se oferta
a educação profissionalizante, onde o modelo tecnicista esta impregnado no processo de ensino e currículo.
Os conteúdos ministrados são carregados de teorias e práticas que desconsideram a conjuntura vivenciada
pelos alunos e professores, em seu contexto social.
“No ensino técnico, na atual educação profissional, é um fato constatado que os profissionais graduados em
engenharias e os de nível técnico não apresentam, de modo geral, uma opção pelo magistério. Ingressam no
sistema educacional, com relativa experiência profissional, em sua maioria, porém sem tempo disponível
para desenvolver ou receber uma formação adequada na sua atuação pedagógica.” [2]
É importante apresentar algumas considerações sobre a formação de professores para a Educação
Profissional, a insistência em propostas paliativas, onde em sua maioria nem mesmo essas são utilizadas, é
descaracterizar o contexto em que vivemos. A formação de docentes para a educação profissional exige
neste momento, não só reflexão, mas ações políticas e pedagógicas, ações de governo integradas com ações
nas escolas, impulsionando a educação profissional, numa vertente não só técnica, mas também humanista.
Nas atividades docentes, quando nos propomos a usar novos artefatos tecnológicos, consideremos que eles
possam trazer latente em seu bojo uma possibilidade de mudança, pela sua especificidade e pelos desafios
particulares que produz. Se avaliarmos sua positividade as TICs (tecnologia de informação e comunicação)
constituem ferramentas que, de alguma maneira, virtualizaram o homem. Tal consideração não exclui
reflexões que vêm crescentemente apontando para os inúmeros problemas com os quais se defronta a
humanidade na modernidade, desde as primeiras máquinas a vapor até essa era midiática. O mundo natural
do homem é um mundo com as tecnologias, conscientes da ideologicidade das mesmas devemos ter sempre
o olhar crítico, para que possamos adequadamente incorporar os artefatos tecnológicos no processo de
ensino aprendizagem e não por eles ser incorporados. Ponderando sobre a utilização destas novas
tecnologias de informação e comunicação na formação de professores, pois não raras às vezes sua
*
[email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
adequação ao modelo educacional e curricular não é avaliado. Os novos Parâmetros Curriculares Nacionais
(PCN) indicam a necessidade de se incluir o ensino de tecnologia nas escolas, tanto do nível médio como do
fundamental, porém, os professores têm que estar preparados, com competência e confiança para assumirem
seu papel neste processo.
Esta conjuntura ocasiona e as tensões existentes entre educação e trabalho, acarretam transformações sociais
políticos e econômicos, particularmente em suas relações profissionais, trazendo a tona questões que, além
de afetar a escola, agitam, desestabilizam e estratificam a vida pedagógica dos professores.
2. Metodologia:
O ambiente da pesquisa será o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina
– IFSC serão analisados a formação docente, as relações e tensões entre educação, trabalho e as TICs
emergentes, em várias turmas de cursos profissionalizantes integrados presenciais e semipresenciais.
A coleta de dados será realizada por dois métodos:
Entrevistas semi-estruturadas;
Questionários;
Realizada a coleta de dados, seguem-se as tarefas da análise e discussão dos resultados obtidos;
O método de aquisição das informações será realizado de forma diferenciada, adequadas a professores e
alunos; resultando em um sistema de amostragem posteriormente organizadas em planilhas e gráficos;
Os resultados tabulados terão uma avaliação comparativa, analisando a evolução das turmas com a
utilização das experiências nos ambientes virtuais, reais e ambos;
Para obtenção de um diagnóstico realístico, a coleta das informações será feita em um semestres (4 meses);
Após a obtenção dos vários fatores influentes nas amostras, serão definidos quais os mais relevantes para o
projeto;
Produzir uma modelagem do diagnóstico, propondo uma reavaliação conjunta com a Instituição de Ensino
pesquisada.
Desenvolvimento:
A docência exige um permanente olhar atento para a realidade da escola, para seu momento histórico-
social, onde a prática docente e pedagógica é dinamizada. Portanto, a identidade do professor é
constantemente construída a partir da compreensão da realidade social e da investigação de sua própria
atividade docente.
“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção
é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da eqüidade e não da injustiça, do direito e não do
arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho se não viver
plenamente a nossa opção. Encarná-la, diminuindo assim a distância entre o que fizemos e o que fazemos.”
[3]
Os saberes da docência são constituídos da experiência, do conhecimento e dos saberes pedagógicos. O
professor, através da própria experiência como aluno, vai criando imagens de diferentes professores que
passaram por sua vida escolar, formando representações, somando ainda o próprio exercício profissional em
diversos ambientes escolares, os estereótipos criados pela mídia, por outros profissionais e pelos próprios
colegas de trabalho.
Os saberes da experiência também são formados a partir da ação e da reflexão sobre sua própria prática. O
conhecimento não se limita a um processo intelectual sistematizado, alcança uma perspectiva mais
abrangente enquanto prática social, humanizadora, e através de um trabalho coletivo e interdisciplinar
fornece subsídios para uma inserção social crítica e transformadora. Toda problemática que envolve a
formação de professores para o ensino técnico está numa relação complexa que se estabelece através do
binômio educação/trabalho, imposição causada pela sociedade industrial que valoriza a operacionalização
do conhecimento. Para tornar-se um docente do ensino técnico é necessária a interação dos saberes
construídos através das práticas sociais desenvolvidas no ambiente escolar com os de sua prática
profissional do mundo do trabalho, cujo resultado proporcionará uma maior compreensão de sua ação
educativa como profissional do mercado de trabalho.
A Resolução CNE/CEB n.º 02/97 é o documento que regulamenta e exige uma formação específica para
profissionais que já possuem um diploma de nível superior, de modo a atuarem na educação profissional
através de programas especiais de formação pedagógica. A resolução ainda facilita esta formação,
flexibilizando através da metodologia semipresencial, na modalidade de ensino a distância, a parte teórica
do programa.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Conclusão:
A partir da crítica da realidade vigentes na prática escolar brasileira, pretende-se evidenciar
possibilidades de uma formação pedagógica desaguada em uma didática crítico-social dentro de um
contexto concreto das contradições e lutas da sociedade.
“A ciência da educação deve centrar-se na análise das condições concretas de vida dos homens, das suas
necessidades e interesses concretos, assim como de suas contradições e lutas concretas”. [4]
Querer separar a realidade da sociedade e a escola é exigir neutralidade no trabalho docente, neutralidade da
educação em relação à conjuntura político-social e econômica, é “crer” que a escola consegue ficar em uma
redoma só de conteúdos propedêuticos.
A contribuição da escola para a democratização e redução das desigualdades sociais, passa pelo
cumprimento da função que lhe é própria: transmissão-assimilação ativa-reavaliação crítica, para o saber
sistematizado. A incorporação das TICs no processo ensino aprendizagem não deve passar só por
incorporação do artefato tecnológico deve sim fazer parte de um projeto político pedagógico articulado entre
currículo, formação dos professores e capacitação dos outros profissionais da educação envolvidos com a
dinâmica do processo.
Referências Bibliográficas:
DRUCKER, Peter F., A sociedade pós-capitalista. 2ª ed. São Paulo: Pioneira, 1993.
FERNANDES, Maria Nilza de Oliveira, Líder-educador: Novas formas de gerenciamento. Petrópolis:
Vozes, 2001.
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1. Introdução
Impossível falar de qualidade do ensino sem falar da formação dos professores. As transformações
sociais geram transformações no ensino. Baseada nas diferentes áreas de formação dos alunos da turma da
especialização: física, matemática, letras, administração, moda, engenharia, biologia, ciências, história,
pedagogia e fundamentada na percepção e sentimento de que não basta o professor ter o conhecimento
técnico e cientifico de sua área, mas que também precisa de muita pedagogia, andragogia e didática para
conseguir exercer o papel de docente, é que proponho o desenvolvimento deste estudo sobre a importância
desta especialização na atuação do professor PROEJA.
Quais as concepções que os docentes têm a respeito de PROEJA? Até que ponto conhecem o
documento base e lei que estabelecem esta modalidade de ensino? Quais suas concepções sobre a educação
profissional? Como estes profissionais da educação compreendem sua atividade de docência junto aos jovens
e adultos? Como conduzem sua atuação para a reflexão do contexto vivenciado? Será que os profissionais
estão preparados para avaliar os sujeitos da EJA? Em que as reflexões promovidas em sala de aula têm
contribuído para a atuação? O objetivo principal é mostrar a importância da formação dos docentes que já
atuam ou pretendem trabalhar nesta modalidade. São grandes os desafios que o docente PROEJA enfrenta,
mas manter-se atualizado, e desenvolver práticas pedagógicas eficientes, são os principais. .
2. Método
Tive a oportunidade de participar da pesquisa realizada pelo Instituto Federal de Educação Ciência e
tecnologia para definição do projeto do curso de PROEJA a ser realizado no Campus. Ao entrar na Vila,
pode-se perceber a diversidade de “problemas” enfrentados pela comunidade, e isso nos conduz a uma
reflexão ainda maior sobre o que é educação, como mudar esse quadro, como incentiva-los a alfabetização e
o letramento.
Essa experiência foi lembrada em sala de aula e algumas vezes citada como exemplo de prováveis
alunos que estarão freqüentando nossas classes em breve, e isso nos leva a um posicionamento sobre até que
ponto estamos realmente preparados para ajudar a promover essa transformação. A partir deste momento é
que começaram a surgir as concepções e conceitos sobre PROEJA e também o interesse neste assunto.
3. Resultados e Discussão
Este profissional vai conviver com as mais variadas experiências, são alunos que se encontram em
diferentes contextos e que buscam na sala de aula uma oportunidade para melhorar suas relações familiares,
sociais e de trabalho. Este profissional precisa saber lidar e compreender diversos problemas e necessidades
vividas por este tipo de aluno, que na grande maioria foge de suas dificuldades ou encaram de forma errada,
são os marginalizados, excluídos, perseguidos, envolvidos com o tráfico de drogas, prostitutas, bandidos,
pais e mães desempregados, muitos sem dignidade.
Afinal aprendemos na especialização que estes alunos são especiais e que trazem consigo uma grande
bagagem que é experiência de vida, embora muitas vezes fracassadas ou desmotivadas, pelo sistema social
em que vivem. Eles estão na escola, mas envoltos de vários outros problemas e dificuldades que impedem de
terem sucesso. Falta planejamento familiar, oportunidade de trabalho, saneamento, saúde, higiene.
Encontram-se excluídos da sociedade. Este profissional enfrenta o desfio de ensinar muitos que tem idade de
serem seus pais, que tem muito mais experiência de vida que o próprio professor, mas que vive escondido,
calado, perdido no mundo, sem educação, sem escolarização, sem muitas perspectivas. São alunos que
chegam cansados, outros muitas vezes desmotivados com a miséria e a falta de estrutura, vítimas da
ignorância, a classe fica cheia de homens e mulheres em diferentes situações, mas com o mesmo objetivo
neste momento: aprender.
O PROEJA é uma oportunidade para jovens e adultos darem continuidade a sua formação que por
hora e por vários motivos foram interrompidos, é uma oportunidade para aprender a sonhar mais, a lutar
pelos direitos, a querer viver, a buscar melhorias, aprender a reinventar seus caminhos e mudar sua história
de vida, um programa que veio para integrar a escolaridade com a profissão.
Não é tarefa fácil para o professor, que se torna para a maioria destes sujeitos, o exemplo, precisa dar
muita atenção, ter muito cuidado com as palavras, com as citações, estar com olhos e ouvidos voltados as
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
expectativas destes alunos e saber conduzi-los para que através da aprendizagem estes sonhos se
concretizem.
O aluno PROEJA é protegido e amparado por Lei. O PROEJA foi instituído pelo Decreto nº 5.840,
de 13 de julho de 2006 e manifesta uma determinação governamental de atender à demanda de jovens e
adultos pela oferta de educação profissional técnica de nível fundamental e médio.
[...] o preparo de um docente voltado para a EJA deve incluir, além das exigências formativas
para todo e qualquer professor, aquelas relativas à complexidade diferencial desta modalidade de ensino.
Assim esse profissional do magistério deve estar preparado para interagir empaticamente com esta parcela de
estudantes e de estabelecer o exercício do diálogo. Jamais um professor aligeirado ou motivado apenas pela
boa vontade ou por um voluntariado idealista e sim um docente que se nutra do geral e também das
especificidades que a habilitação como formação sistemática requer [1].
A formação do professor deve ser um processo contínuo, e segundo Nóvoa [4]: “A troca de
experiências e a partilha de saberes consolidam espaços de formação mútua, nos quais cada professor é
chamado a desempenhar, simultaneamente, o papel de formador e de formando.” O conhecimento que
permite o desenvolvimento mental se dá na relação com os outros. Nessa perspectiva o professor constrói sua
formação fortalecendo e enriquecendo seu aprendizado. A busca por uma formação baseada em teorias traz
para o professor não só o saber em sala de aula, ele aprende as questões da educação, as diversas práticas
analisadas na perspectiva histórico, sócio-cultural. O professor precisa também, enxergar e reconhecer o
desenvolvimento do seu aluno nos seus múltiplos aspectos: afetivo, cognitivo, e social, bem como refletir
criticamente sobre seu papel diante de seus alunos e da sociedade. Estudos mostram que existe a
necessidade de que o professor seja capaz de refletir sobre sua prática e direcioná-la segundo a realidade em
que atua, pois somente assim poderá, compreender e agir melhor nesta complexa atividade de ensinar e
aprender. Donald Schön, foi idealizador do conceito de professor prático-reflexivo, percebeu que em várias
profissões, não apenas na prática docente, existem situações conflitantes, desafiantes, que a aplicação de
técnicas convencionais, simplesmente não resolvem os problemas, em cada caso se faz necessária reflexões
profundas, buscando a melhor saída.
E Paulo Freire [3] reforça: “Por isso é que, na formação permanente dos professores, o momento
fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem
que se pode melhorar a próxima prática. O próprio discurso teórico,necessário à reflexão crítica, tem de ser
de tal modo concreto que quase se confunda com a prática. O seu “distanciamento” epistemológico da
prática enquanto objeto de sua análise, deve dela “aproximá-lo” ao máximo.”
Neste mesmo sentindo cita-se Pimenta [5]:“O saber docente não é formado apenas da prática, sendo também
nutrido pelas teorias da educação. Dessa forma, a teoria tem importância fundamental na formação dos
docentes, pois dota os sujeitos de variados pontos de vista para uma ação contextualizada, oferecendo
perspectiva de análise para que os professores compreendam os contextos históricos, sociais, culturais,
organizacionais e de si próprios como profissionais.”
A formação do docente voltado para a EJA, deve ir além da formação dos demais professores. É
preciso conhecer e refletir sobre quem é o educando PROEJA: suas marcas, sua vida, sua história, suas
características e anseios. Este profissional deve propiciar o diálogo, a acolhida e a orientação.
"O que se pretende é uma integração epistemológica, de conteúdos, de metodologias e de práticas
educativas. Refere-se a uma integração teoria-prática, entre o saber e o fazer. Em relação ao currículo pode
ser traduzido em termos de integração entre uma formação humana mais geral, uma formação para o ensino
médio e para a formação profissional"[2].
A especialização proporciona o aperfeiçoamento e desenvolvimento do pensamento e atuação do
professor neste contexto. Vários foram os momentos de reflexão sobre o tema na sala de aula e não podemos
concluir dizendo apenas que a especialização seja importante, mas também que ela enriquece a cada um dos
professores que dela participam. Essa formação deveria ser formação continuada, acompanhando todas as
mudanças que esta profissão precisa enfrentar, tornando o professor capaz de lidar com as transformações
econômicas, sociais, políticas, culturais e locais. É grande a responsabilidade do professor, pois a missão é
ser transformador, através da alfabetização e principalmente do letramento, conduzir este processo de ensino
aprendizagem aos jovens e adultos. A especialização promoveu em vários momentos a troca de experiências,
a reflexão e tratou as expectativas dos alunos. Baseada em toda essa reflexão, tomo a liberdade de citar
minha colega Cleusa que relata sua experiência e afirma que:
“esta especialização veio nos completar no entendimento e compreensão do que realmente é a educação de
jovens e adultos. Pois eu sou formada em Pedagogia séries iniciais, mas desde o primeiro semestre trabalhei
como voluntária na alfabetização de Jovens e Adultos por dois anos, e dois anos no Brasil Alfabetizado. Hoje
a dois anos trabalho com teles sala (Ensino Fundamental e médio), para jovens e adultos e reafirmo então
que a especialização veio me trazer mais uma oportunidade de me manter na educação de Jovens e Adultos “
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Cito também o colega Jucelio quando diz que “esse curso de pós-graduação dá incentivo e
esclarecimento para que continuemos na busca de aprimoramento em nossas áreas de atuação, melhorando
assim, a formação do nosso aluno”. Com base no diálogo e a partir das concepções a respeito da prática de
alguns participantes da especialização, através de experiências e saberes como educador, podemos observar
através das atividades em sala que esta especialização tem proporcionado diferença na vida dos professores..
Cada disciplina tem levado a construir uma nova forma de pensar e agir nas diversas situações, desde o
estudo dos documentos, leis e diretrizes até o estudo das atitudes, comportamentos e desenvolvimento do
professor.
4. Conclusão
Não consigo imaginar um professor atuando na EJA sem ter antes feito a especalização. Pois além do
conteúdo, a sensibilização e os sentimentos desse professor deve ser despertado e acompanhado, para que
possa na escola dar conta de compreender e ajudar seus alunos nos desfios ensio/aprendizagem de cada um.
Referências
[1] BARCELOS, Valdo. Formação de Professores para educação de Jovens e Adultos. Petrópolis. RJ:
Vozes, 2006.
[2] DOCUMENTO BASE PROEJA. Disponível em: http://forumeja.org.br/pf/files/doc_base_25_01_07.pdf
acesso em: 02 jun.2009.
[3] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 34ª edição. São Paulo:
Paz e Terra, 2006.
[4] NÓVOA, Antonio. (coord). Os professores e sua formação. Lisboa-Portugal, Dom Quixote, 1997.
[5] PIMENTA, Selma Garrido, GUEDIN, Evandro (Orgs.). Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de
um processo. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2005
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1. Introdução
Trabalhar com teoria e prática é uma perspectiva que nos traz a possibilidade de analisar
significativamente como uma implica significados e expectativas à outra. Com este trabalho foi esse
confronto que realizamos, analisando a Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva
[1] e como a mesma vem sendo contemplada nas realidades escolares dos municípios da AMCENTRO -
Associação dos Municípios do Centro do Estado do Rio Grande do Sul. Teve-se como foco central da
pesquisa saber como esta ocorrendo o atendimento das pessoas com déficit cognitivo e alto
comprometimento neuropsicomotor (que no decorrer do trabalha chamarei de alunos com ACN) em tais
municípios através da resposta ao questionário, instrumento utilizado para obtenção de tais dados.
Sendo assim, com esse trabalho formulou-se um panorama sucinto de como esses atendimentos estão
ocorrendo em 7 cidades da região central do estado do Rio Grande do Sul e como esse cenário tem relação
com a política, seus consensos e dissensos.
2. Método
Para o desenvolvimento desta pesquisa, então, buscamos nos debruçar sobre dados que foram
coletados junto as secretarias municipais de educação da região centro do estado do Rio Grande do Sul,
sendo que o instrumento de coleta de dados versava sobre o atendimento de pessoas com alto
comprometimento neuropsicomotor no espaço e tempo que a escola pública se projeta na perspectiva
inclusiva.
Neste sentido, foi organizado um instrumento de coleta de dados em forma de questionário com 8
questões, sendo este enviado por e-mail para os 34 municípios pertencentes a AMCENTRO. Para confirmar
o recebimento dos instrumentos e sanar dúvidas que se apresentassem em torno da pesquisa foi feito contato
telefônico com todos os municípios.
Elaboramos o questionário com perguntas de múltipla escolha, que apresentavam possibilidades
distintas de respostas, pois compreendia que a realidade não podia se situar na simplicidade binômica de uma
tese e antítese simples. Além das alternativas fechadas, as questões a serem respondidas foram combinadas
com questões abertas, possibilitando que as mesmas pudessem ser justificadas ou respondidas de outra
maneira caso as opções não favorecessem a resposta que o município gostaria de dar.
3. Resultados e Discussão
Sabemos que atualmente o movimento inclusivo está amplamente difundido, e muitas pessoas vem
lutando por esse ideal educacional e social para que as pessoas com necessidades educacionais especiais
possam assim fazer parte da rede social em que todos estamos incluídos. Para tanto, já foram elaborados
vários decretos, leis, artigos, etc. que pretendem dar suporte para esses ideais, sendo uma delas a Política
Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI) que foi elaborado pelo
Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria nº555/2007, prorrogada pela Portaria nº. 948/2007, entregue ao
Ministro da Educação em 07 de janeiro de 2008.
Abordaremos a política citada acima juntamente com algumas reflexões realizadas a partir dos
questionários respondidos por 7 cidades da AMCENTRO que nos auxiliaram nesta jornada investigativa.
Para tanto, será formulada uma discussão breve sobre o porquê de cada uma das perguntas, e então como
elas foram respondidas por alguns dos municípios, fazendo assim uma discussão sobre os tópicos mais
relevantes de algumas das cidades.
Ressaltamos que não estamos aqui para criticar ou idolatrar nenhum dos municípios, mas sim para
realizar uma análise crítica com relação a discrepância do que vem sendo imposto através das políticas e do
que vem sendo realizado na prática. Não temos contato com nenhum dos municípios, então acreditamos que
os mesmos estão realizando seu trabalho da forma possível e que acreditam ser a adequada, não cabendo a
nós produzir juízo de valor.
*
Maureline Petersen: [email protected]
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Iniciamos então as análises; a questão A refere-se ao encaminhamento dos alunos com ACN para
atendimento educacional especializado1 (AEE), pensando em determinar assim qual o panorama de cada
cidade, se eram ainda atendidos na APAE, em escolas regulares, etc.
Analisando os dados, observamos que a maioria dos encaminhamentos de crianças com ACN é
realizado para as APAEs (5 dos 7 municípios), contrariando as determinações da PNEEPEI. Das 7 cidades,
apenas 3 salientaram que realizam encaminhamento para atendimento educacional especializado nas escolas
regulares, o que seria o ideal, mas não expuseram se esses alunos estão incluídos nas salas regulares, se só
recebem o AEE separadamente como substituto ao ensino regular ou se ainda se mantêm salas de Educação
Especial.
Um dos municípios ainda salienta o encaminhamento somente para uma escola especial do mesmo, o
que não deveria mais ocorrer depois da política de inclusão. Com isso podemos notar como a política ainda
não dá conta de ser realizada na realidade dos sistemas de educação e o quanto é limitada nas orientações
sobre o atendimento das especificidades destes alunos.
Na questão B, quisemos saber quem está realizando a avaliação destes alunos, tanto para saber qual a
maneira como isto está ocorrendo nos municípios, como para verificar também se ainda temos resquícios da
concepção clínico-terapêutica da Educação Especial nos discursos de alguns municípios.
Nesta questão, pudemos constatar que a maioria dos municípios afirmou que a realização da avaliação
destes alunos ocorre através do Educador Especial, porém, na maioria delas aparece a preocupação em
salientar que também ocorria algum atendimento clínico, por ex: “O educador especial realiza sua avaliação,
procurando trabalhar em equipe multidisciplinar com psicólogo e fonoaudiólogo e outros profissionais,
conforme a especificidade da deficiência, em regime de parceria.” O que muitas vezes traz uma visão
clínico-terapêutica com relação ao atendimento e ao trabalho com este público.
Infelizmente estes panoramas são comprometedores, pois a avaliação inicial e continuada destes
alunos é fator importante para um bom atendimento e também para um encaminhamento adequado, como a
própria política ressalta mas com certeza não preocupa-se em assegurar.
Porém, um dos municípios tem outra visão, que se refere ao trabalho em equipes multidisciplinares,
que é um fator bem importante com relação a avaliação e ao atendimento desses alunos, ela cita que:
Em virtude dessa “parceria” com a APAE a criança já vem com uma avaliação prévia de
diversos profissionais como Educador Especial, Psicólogo, Fonoaudiólogo, Fisioterapeuta e
também Assistente Social. Porém quando a criança chega à escola sem passar pela APAE a
educadora especial responsável procura a APAE ou a saúde pública (SUS) a fim de buscar
maiores informações sobre o caso em questão e assim auxiliar nos atendimentos
necessários, porém essa tarefa se torna difícil, pois não temos uma equipe formada para tal.
Essa visão de um trabalho multidisciplinar é interessante, pois assim pode ter-se um desenvolvimento
mais satisfatório de cada aluno através da conversa e da troca de experiência entre profissionais.
Voltamo-nos então para a pergunta C, que questionava quem seriam os responsáveis pela realização de
atendimento dos alunos com alto comprometimento, pudemos notar que a maioria dos municípios citou que
a realização dos atendimentos está ocorrendo pelo Educador Especial, o que é muito bom, pois seria o que
idealizamos e o que a política inclusiva almeja. Porém, pode-se ainda notar a grande presença de
atendimentos realizados somente por psicólogo, ainda ressaltando atendimentos como fonoaudiólogo e
fisioterapeuta; além de um dos municípios ressaltar que esses alunos não recebem atendimento algum. Neste
sentido nota-se a visão clínico - terapêutica como balizadora da visão de alguns destes municípios com
relação ao atendimento destes alunos.
Iniciamos a análise da questão D, a qual questiona a maneira como a Secretaria de Educação de cada
município considera que está ocorrendo a implementação de atendimentos especializados dos alunos com
ACN.
As respostas foram diferenciadas, com uma porcentagem de 60% dos municípios respondendo que não
ocorre este atendimento e 40% ressaltando que considera que este atendimento está ocorrendo de forma
satisfatória em seu município. Porém, as justificativas foram as mais diversificadas, vejamos uma:
1
[...]esse atendimento refere-se ao que é necessariamente diferente da educação em escolas comuns e que é necessário
para melhor atender às especificidades dos alunos com deficiência, complementando a educação escolar e devendo estar
disponível em todos os níveis de ensino. (BATISTA e MANTOAN, 2006, p. 9) [2]
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Analisando esta resposta, podemos notar que o município está tentando se especializar para melhor
atender aos alunos, mas que não relatou nada de como está ocorrendo este atendimento já que os alunos já
estão incluídos.
Essa questão demonstra claramente que o panorama de educação inclusiva que está sendo imposto
pelas políticas não vem sendo oportunizado, pois os municípios admitem, na maioria das vezes não ter
condições para realizar um bom atendimento, não tendo profissionais capacitados, local e material para um
bom atendimento, etc. tudo o que está previsto na política não está ocorrendo na prática na maioria das
vezes.
Com relação à questão E, a qual questionava sobre as condições que tem as escolas do município para
receber alunos com ACN e de dar a esses alunos condições de aprendizagem e desenvolvimento global,
notamos que 4 dos municípios responderam não ter condições para realizar um atendimento satisfatório e 3
responderam considerar ter condições para tal.
Das que responderam considerar não ter condições, duas se justificam pela falta de preparação do
professor, sendo que uma delas ainda ressalta a ausência de material adequado; uma das cidades justificou
sua resposta salientando que “ainda não temos equipe técnica completa na rede para estes atendimentos, as
salas multifuncionais demandadas no PAR ainda não chegaram e os professores inscritos para capacitação
aguardam o início da mesma.” Estas respostas completam o que foi evidenciado em algumas respostas à
questão D, já que as condições adequadas para o atendimento dos alunos com ACN não é evidenciado nos
mesmos.
Das escolas que responderam positivamente, considerando ter capacidade para realizar um bom
atendimento para estes alunos uma ressalta que “Temos professores cursando especialização em AEE e a
Secretaria de Educação promove formação continuada de professores. Considero que o preparo para o
atendimento ainda não é completo, ainda é preciso muito estudo e comprometimento de toda equipe de
profissionais da educação e parcerias para termos um resultado positivo na inclusão desses alunos.” É um
relato positivo, mas que demonstra o desejo destes municípios em realizar um bom trabalho, porém, também
destacam que agem com o que tem, sempre almejando a melhoria deste trabalho.
A questão F questionava se os municípios tinham alguma política que legitimasse a Educação Especial
no mesmo, e nesta questão somente um dos municípios respondeu positivamente. Sendo então, o único que
respondeu a questão G, pois a mesma era somente para aqueles que responderam Sim na questão F.
A questão G questionava o que nestes documentos regulamenta o atendimento de alunos com ACN e a
resposta do município foi de que o mesmo “possui seu sistema próprio, representado através do Conselho
Municipal de Educação, que normatizou a Educação Especial, bem como o público alvo para o atendimento
nas salas de recursos multifuncional.” Porém, mesmo sendo o único município a responder, e sabendo que é
o único que tem uma normatização com relação a Educação Especial, a resposta restrita do município não
possibilitou saber quais são estes parâmetros e se eles colaboram para o atendimento do alunado em questão.
Seguimos então para a última questão, que era somente para se os municípios quisessem ressaltar
algum assunto que considerassem relevante, somente os municípios 1, 2, 3 e 7 responderam.
O que ressaltou um dos outros municípios foi o seguinte:
A principal questão a ser levantada é a recusa dos professores em aceitar as mudanças que
a inclusão prevê, isso trava de certa maneira o trabalho dos educadores especiais, é
necessário salientar que não são todos, alguns são verdadeiros parceiros nessa caminhada.
Outra questão é a difícil tarefa de buscar a participação dos pais na vida escolar dos filhos
com necessidades especiais.
Também em nosso município a falta de uma equipe multidisciplinar para que consigamos
agilizar tarefas que não são da ossada do educador, mas que se fosse trabalhado em
conjunto daria maior resultado.
OBS: Nosso município está implementando um projeto que busca esta equipe.
O que é relatado acima é com certeza a reclamação de muitos Educadores Especiais, problemas
decorrentes do processo inclusivo, como a falta de interesse de alguns professores e pais, além da falta de
recursos para contratação de pessoal especializado para que possa ser realizado um trabalho multidisciplinar
que possa dar suporte real aos alunos incluídos.
O último município a responder só salientou que “estamos procurando melhorar nossas condições de
atendimento, buscando um espaço adequado para o trabalho desenvolvido.” O que também foi ressaltado
pelos outros municípios, já que o problema de falta de profissionais e de espaços adequados pelos mesmos é
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um panorama estabelecido em todos os municípios que participaram da pesquisa e com certeza de muitos
outros que encaixam-se nos mesmos problemas.
4. Conclusão
O panorama inclusivo encontrado nestes municípios infelizmente é muito precário e a maioria dos
municípios relata não ter condições de recursos materiais e humanos para o bom atendimento das demandas
desses alunos, o que vem contra as bases da política inclusiva que tem como foco a inclusão de qualidade de
todos os alunos na rede regular de ensino. Portanto, este trabalho traz um levantamento sobre dados da
política, realidades dos municípios e suas interligações, seja em viesses positivos ou negativos concluindo
então como este panorama instaura-se.
Pudemos constatar com esta pesquisa, além de muitos outros aspectos importantes trazidos no decorrer
deste artigo e de outros que não cabe aqui ressaltar, que os discursos referidos na PNEEPEI que deveriam
estar ocorrendo nas escolas infelizmente não estão, pois ao entrar em contato com o que nos foi relatado
através dos questionários a discrepância do ideal e do real ficou mais clara.
Porém, nota-se que os municípios estão tentando realizar seus trabalhos da melhor forma possível,
com os recursos que lhe estão sendo disponibilizados, mantendo a expectativa em conseguir melhorar seu
trabalho para receber de forma mais satisfatória estes alunos.
Falando então dos alunos com alto comprometimento neuropsicomotor, infelizmente podemos notar
que o panorama para a inclusão destes alunos é insatisfatório. O que observamos, é que a maioria dos
municípios respondeu a pesquisa ressaltando o panorama geral de inclusão, sem considerar especificamente
estes sujeitos. E mesmo assim, notamos que o panorama para a inclusão não é favorável, pois além de, a
maioria dos municípios não ter profissionais especializados, não tem também recursos materiais e
arquitetônicos mínimos para a chegada destes alunos a escola.
Findando e restringindo a discussão sobre tal pesquisa, pois não cabe aqui estender-nos muito,
ressaltamos que infelizmente,
Esperamos que esta discrepância “ideal X real” um dia termine e que esta pesquisa tenha servido para
gerar reflexões a cerca deste panorama insatisfatório que se instaura hoje nas escolas da região central do
estado do Rio Grande do Sul, para que possamos assim resgatar estas políticas através de debates exigindo o
que nela está dizendo ser oportunizado, para que assim as escolas tenham pelo menos recursos humanos,
pedagógicos, materiais e arquitetônicos para assim poder tentar realizar um trabalho de qualidade.
Referências
[1] BRASIL. Ministério de Educação. Secretaria da Educação Especial. Política Nacional de Educação
Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. MEC/SEESP, Brasília, 2008.
[3] OMOTE, Sadao. A formação do professor de educação especial na perspectiva da inclusão. In:
BARBOSA, Raquel Lazzari Leite. Formação de educadores: Desafios e perspectivas. São Paulo: Editora
UNESP, 2003. P. 153-169.
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1. Introdução
2. Método
No site do EDUCS, o Jornal da Ciência está sendo organizado em categorias: Educação; Cultura;
Sociedade; Relações Culturais e Históricas na Educação; África e Etnia. Cada categoria é organizada em
documentos diferentes, onde eles são alinhados de forma cronológica (de 2005 até atualmente). Para que haja
essa divisão é necessário fazer a análise de cada artigo, percebendo em que classe ele se encaixa. Por
exemplo: No ano de 2008: “CNE e SBEM se reúnem para discutir currículo de licenciatura em matemática.”
Este artigo foi, obviamente, selecionado para a categoria de “Educação”. Porém, se um item condiz com
mais de uma categoria, como por exemplo: “Desenvolvimento Sustentável.” (12 de novembro de 2007), ele
é lido e selecionado para a classe com maior compatibilidade. Essa separação é feita para facilitar a pesquisa
e o acesso dos internautas (leitores) aos conteúdos divulgados pelo veículo. Pois, entendemos que “para
homens e mulheres comuns o direito a informação é o direito de saber como se conduzir, segundo regras e
normas legítimas de sua sociedade, diante de problemas que ensejam, para sua solução, o concurso de
agências e agentes públicos.” (ADORNO et al., 2008, p. 63).
1
E-mail: [email protected]
2
Professora Doutora Neide Almeida Fiori concluiu o mestrado em Ciências Sociais pela Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo e é Doutora em Sociologia (e Livre-Docente) pela Universidade Federal de Santa
Catarina. Sua trajetória acadêmica principal foi na Universidade Federal de Santa Catarina, aposentando-se como
Professor Titular. Desenvolveu muitos projetos de pesquisa sob os auspícios do CNPq, tendo sua Bolsa de
Produtividade em Pesquisa se situado a nível I, A. Atualmente é membro da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Publicou 19 artigos em periódicos especializados e 42 trabalhos em anais de eventos. Possui 7 capítulos de livros e 5
livros publicados. Orientou 11 dissertações de mestrado, além de ter orientado 13 trabalhos de iniciação científica na
área de Sociologia. Recebeu 3 prêmios e/ou homenagens. Atua na área de Sociologia, com ênfase em Outras
Sociologias Específicas. Em suas atividades profissionais interagiu com 1 colaborador em co-autorias de trabalhos
científicos. Em seu currículo Lattes os termos mais freqüentes na contextualização da produção científica, tecnológica e
artístico-cultural são: Nacionalismo, Estado Novo, Brasileiros em Portugal, Imigração-Emigração, Politica Educacional,
Políticas Públicas, Segunda Guerra Mundial, Educação de Emigrantes e Educação de Imigrantes.
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3. Resultados e Discussão
Para obter os resultados e os dados encontrados na pesquisa para serem selecionados em categorias,
foram feitas buscas no site do SBPC (Sociedade Brasileira de Pesquisa Científica) pelo nome de cada classe
especificada no projeto. Nos resultados das buscas feitas até agora, foram encontradas para o item Educação:
nenhum dado encontrado entre 2005 e 2006; dois registros encontrados no ano de 2007; vinte e três
encontrados em 2008; foram encontrados dez registros no ano de 2009; por enquanto, não encontramos
nenhum dado para o tema Educação em 2010. Para a palavra Cultura: nenhum dado foi encontrado em 2005
e 2006; foi encontrado apenas um registro no ano de 2007; em 2008 foram descobertos 48 registros; 51
registros para 2009 e nenhum dado encontrado no ano de 2010 no site da SBPC. Na categoria Sociedade:
também nada foi encontrado nos anos de 2005 e 2006; em 2007 temos nove registros; 90 registros para o ano
de 2008; 68 achados em 2009 e mais uma vez, nenhum dado encontrado no ano de 2010. Na categoria
Relações culturais e Históricas, descobrimos apenas nove registros entre 2006 e 2009 e nada foi encontrado
no site através do método de busca por palavras, nos anos de 2005 e 2010. Para o termo África, nenhum
registro foi achado. Com a palavra Etnia não foram localizados nenhum registro entre 2005 e 2008; já em
2009, há quatro registros; porém nenhum em 2010. É importante ressaltar que o início da pesquisa é bastante
recente, e por essa razão ainda não houve tempo para buscar em outras fontes mais artigos do Jornal da
Ciência para serem selecionados. Por enquanto, a equipe ainda está dividindo em categorias os materiais que
já foram encontrados. Podemos citar alguns exemplos, como em Educação: “SBPC quer incentivar mutirão
pela Educação” (05 de junho de 2008) http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/mostra.php?id=694;
“Comissão de Educação aprova Lei Arouca por unanimidade.” (27 de agosto de 2008)
http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/mostra.php?id=803; “Educação indígena: mais de 25 mil inscritos no
vestibular da UEA.” (17 de junho de 2009). http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/mostra.php?id=1005. Há
exemplos também para a categoria Sociedade: “Reunião Regional da SBPC em Maceió: reflexão sobre
diversidade e desenvolvimento”. (10 de outubro de 2008); “Comitê Orientador do Fundo Amazônia deve se
reunir em 24 de outubro”. (13 de outubro de 2008.) “Para diretor do Insa, desenvolvimento do semi-árido
depende da quebra do paradigma da miséria.” (24 de outubro de 2008.)
http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/mostra.php?id=866. É importante lembrar, que mesmo que
determinado artigo seja conveniente para mais de um grupo, ele será revisado e passará a fazer parte da
classe que melhor lhe caber.
4. Conclusão
O Jornal da Ciência é uma publicação mantida pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência), ao mesmo tempo, o Jornal serve como uma ferramenta que compõe o site do Grupo de Educação,
Cultura e Sociedade (EDUCS). Através dele, poderemos divulgar os trabalhos desenvolvidos enquanto um
serviço prioritário do grupo de pesquisa para a grande população. Espera-se realizar uma mediação com a
sociedade em geral com o objetivo de auxiliar no ensino-aprendizagem dos leitores no sentido duplo. Ou
seja, aproximar a comunidade não acadêmica das divulgações veiculadas na SBPC e, ao mesmo tempo,
divulgar os trabalhos desenvolvidos no EDUCS enquanto um serviço prioritário do grupo de pesquisa para a
sociedade como um todo. Portanto, temos como objetivo último, “promover a disseminação de informações
a respeito de direitos fundamentais [como] condição para construção da cidadania e participação no Estado
democrático”. (ADORNO et al., 2008, p. 68).
Referências
ADORNO, Sergio et al. Direitos humanos, acesso à informação e inclusão digital. In: RIFIOTIS,
Theophilos e RODRIGUES, Tiago Hyra (Org.). Educação em direitos humanos: discursos críticos e
temas contemporâneos. Florianópolis : Ed. Da UFSC, 2008, (p. 59-78).
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Thaiana Dalmazo Brunhauser1; Elizandra Aparecida Nascimento Gelocha, Francine Bopp Pereira;
Universidade Federal de Santa Maria
1. Introdução:
O presente artigo apresenta uma reflexão das experiências vividas no projeto de extensão intitulado
“Laboratório de Alfabetização: repensando a formação de professores”, vinculado ao Grupo de Estudo e
Pesquisa sobre Formação Inicial, Continuada e Alfabetização (GEPFICA). Esse artigo aborda uma discussão
sobre a inclusão dos alunos com dificuldade de aprendizagem no ambiente escolar, enfatizando a prática de
ensino do projeto “Laboratório de Alfabetização”, o qual vem sendo realizado em uma escola da rede estadual de
ensino da cidade de Santa Maria/RS
A inclusão dos alunos com dificuldade de aprendizagem é uma questão bastante abrangente, visto que está
relacionada a diversos fatores, sejam eles externos ou internos. As dificuldades de aprendizagem não têm sua
origem apenas nas características individuais de cada sujeito, envolvem também fatores relacionados à família, à
escola e ao meio social em que o aluno está inserido, analisa Weiss (2004) [1]. Porém, sabemos que muitas
crianças não possuem esse auxílio da família, não apresentam vínculos de afetividade com a mesma e, muitas
vezes, sofrem agressões e maus-tratos. Todas essas questões podem estar relacionadas às dificuldades de
aprendizagem e conseqüentemente gerar o fracasso escolar.
Durante as visitas e atuações na escola, através do projeto “Laboratório de Alfabetização: repensando a
formação de professores”, coordenado pela Profª. Drª. Helenise Sangoi Antunes, vinculado ao Grupo de Estudos
e Pesquisa sobre Formação Inicial, Continuada e Alfabetização (GEPFICA), observou-se a precária participação
da família na vida escolar dos educandos. Crianças pequenas que, muitas vezes, possuem responsabilidades da
vida adulta. Outras com elevado índice de carência social e afetiva e, além disso, muitos alunos que apresentam
dificuldade para aprender. Conforme Carvalho (2000, p. 71) [2],” Parece impossível, pois, compreender ou
explicar as dificuldades de aprendizagem sem levar em conta os aspectos orgânicos, psicológicos ou sociais,
banalizando a importância de cada um, isoladamente ou desconsiderando suas intrincadas inter-relações”.
Dessa forma, é importante destacar que cada criança aprende em tempos e de formas diferentes dos
exigidos pela escola, essas crianças vivenciam experiências distintas, não estando, muitas vezes, em condições
adequadas para aprender. A constante exclusão desses alunos dentro da instituição escolar pode desfavorecer a
personalidade e a autonomia dos educandos, visto que, muitas vezes são rotulados por colegas e professores.
O trabalho com os educandos, que possuem dificuldade em aprender, precisa ser inovador, diferente,
algo que chame a atenção dessas crianças. Dessa forma destacamos a importância dos jogos e do brincar no
processo de ensino-aprendizagem, pois esses favorecem no atendimento a cada criança. O projeto “Laboratório
de Alfabetização: repensando a formação de professores” integra, dentre outras, atividades de alfabetização e
letramento através de jogos didáticos e construção de jogos com os alunos que possuem alguma dificuldade no
processo de aquisição da lecto-escrita. Esse projeto vem sendo desenvolvido desde o ano de 2002 e tem sua
continuidade devido à percepção que se tem da importância dele tanto para as acadêmicas e professoras
participantes, quanto para as crianças que dele participam.
Outro aspecto importante, com relação à inclusão dos alunos com dificuldade de aprendizagem, é a
constante socialização com os demais colegas. Vygotsky (1989) [3] analisa, em sua abordagem sócio-histórica e
sócio-cultural, que a aprendizagem é o resultado da interação dinâmica da criança com o meio social, na
constituição de sua capacidade cognitiva e é produto do entrelaçamento do pensamento e da linguagem. Dessa
forma, é essencial que a escola trabalhe com todos os alunos de forma integral e valorize constantemente a
diversidade presente na sala de aula. O educador precisa fazer com que esses alunos, que muitas vezes são
rotulados, interajam com os demais da classe elaborando trabalhos em grupo, jogos em equipe, para que os
alunos saibam acolher e respeitar a diversidade presente no ambiente da escola.
No processo de ensino-aprendizagem, as atividades lúdicas ajudam a construir uma práxis emancipadora
e integradora, ao tornarem-se um instrumento de aprendizagem que favorece a aquisição do conhecimento em
1
Thaiana Dalmazo Brunhauser: [email protected]
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muitas vezes, “fala” mais alto, no entanto cabe a todos nós, pessoas críticas e capazes de refletir sobre nossas
ações, propiciar ao mundo mudança. E mudar não significa apenas aceitar o diferente significa respeitar,
valorizar e aprender com a heterogeneidade.
O desenvolvimento escolar do educando se dá de maneira contínua e particular, não dependendo
somente do aluno o sucesso diante das aprendizagens. A base familiar também contribui para a plena promoção
dos educandos. Dentre esses aspectos enfatizamos, ainda, o papel primordial do educador na carreira escolar de
cada indivíduo. O professor querendo ou não repercute algo no seu aluno, diante disso, é importante que tenha
cuidado das marcas que deixará. Sabemos que, atualmente, o educador não é valorizado como deveria ser, não
recebe contribuições a altura do seu papel na sociedade e, muitas vezes, ainda sofre preconceito. No entanto, não
pode deixar que esses aspectos negativos desfavoreçam o desenvolvimento da sua classe discente.
É relevante que o educador foque seu olhar para a diversidade sócio-cultural presente dentro da sala de
aula trabalhando e diversificando assuntos presentes na realidade de cada aluno. Esses aspectos tornam-se
instigantes para a prática educativa, visto que todos nós possuímos individualidades, culturas próprias, tradições
e costumes. Uma aula diversificada contribui positivamente para o crescimento intelectual de cada indivíduo.
Durante exposições de idéias e diálogos, todos podem contribuir livremente, sem preconceito, sem medo, e
enriquecendo cada vez mais suas culturas. Aprender implica necessariamente uma retomada na história de vida
de cada um, dessa forma, no momento que aprendemos, ensinamos e, no momento que ensinamos, aprendemos.
Todos nós somos capazes de aprender e ensinar, o educador não é educador porque simplesmente ensina, pelo
contrário, se este não é humilde para dizer que todos os dias aprende com seus alunos, ele não é um bom
educador. Conforme as palavras de Freire (1996, p. 86) [4.1], “O fundamental é que professor e alunos saibam
que a postura deles, do professor e dos alunos, é dialógica, aberta, curiosa, indagadora e não apassivada,
enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que o professor e alunos se assumam epistemologicamente
curiosos.”
Diante dessas contribuições, a instituição escolar necessita estar preparada para reinterpretar o
significado de ensinar e aprender em um mundo ao mesmo tempo globalizado e cada vez mais diversificado. A
diversidade sócio-cultural está presente em todos os lugares trazendo consigo aprendizagens novas e um mundo
repleto de diferenças. Não queremos um padrão de homogeneidade, um ideal manipulando as pessoas e sim
poder viver em um mundo diversificado, em que através dos diferentes povos, das distintas raças, religiões e
culturas possamos aprofundar os processos de ensino-aprendizagem.
2. Conclusão
Por intermédio desse artigo, constatamos que as crianças que apresentam algum grau de dificuldade na
aprendizagem, não podem ser rejeitadas ou reprimidas. Esses seres humanos necessitam de uma constante
valorização de suas qualidades e experiências. Os educadores, formadores de sujeitos reflexivos e autônomos,
não devem agir de forma mecânica e repetidamente, sem observar a capacidade individual de cada aluno. A
adoção de métodos adequados refletirá no grau de envolvimento do estudante com a questão da aprendizagem. O
bom ensino deve integrar o seu aluno nas atividades da escola, nas aulas mais dinâmicas e nos eventos. É
importante que esse ensino favoreça o educando, seja ele com problemas de aprendizagem ou não. A instituição
escolar, juntamente com a família e a comunidade, necessita promover a permanente inclusão de todos os alunos
na rede de ensino, sem demonstração de preconceito ou desfavorecimento, com aqueles alunos que possuem
dificuldade na construção intelectual.
Mencionamos, novamente, a necessidade de formular planos metodológicos inovadores e criativos, a fim
de despertar no aluno o interesse pelas aulas. Dessa forma, cabe a instituição de ensino promover a constante e
digna inclusão dos alunos com dificuldade de aprendizagem. Essas crianças precisam, muitas vezes, do afeto e
do carinho do educador. Esses aspectos, durante as visitas e intervenções na escola, foram evidenciados com
clareza, esses alunos não possuem somente carência social possuem carência afetiva. Eles precisam de estímulo,
novidades, metodologias interessantes e instigadoras. A criança gosta de aventurar-se, de sentir que suas
opiniões e suas falas serão valorizadas, mencionadas. Dessa forma, a instituição de ensino, juntamente com a
classe docente, precisa visualizar esse lado afetivo dos educandos e, da melhor forma possível, trabalhar com
isso, enriquecendo a prática educativa cotidiana.
Referências
[1] WEISS, Maria Lúcia L. Psicopedagogia Clínica: uma visão diagnóstica dos problemas de aprendizagem
escolar. Rio de Janeiro: DP&A, 2004, 10. ed.. 18 p.
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[2] CARVALHO, Rosita Edler. Removendo barreiras para a aprendizagem: educação inclusiva. Porto
Alegre: Mediação, 2000 VYGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 71 p.
[3] VYGOTSKY, L. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 109 p.
[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra,
1996. 41 p.
Agradecimentos
Queremos agradecer ao Centro de Educação (CE), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e por fim a
Profª. Drª. Helenise Sangoi Antunes, orientadora do trabalho, professora associada I do Departamento de
Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) no Rio Grande do Sul (RS) e líder do
Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação Inicial, Continuada e Alfabetização (GEPFICA).
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1. Introdução
A literatura infantil é um referencial na vida de uma criança, ela pode
desencadear um aprendizado prazeroso, que possibilitará obter conhecimento
de uma forma divertida, lúdica.
Sendo assim, gostar de ler e obter esse hábito é de importância
fundamental na vida de qualquer pessoa.
Ler além de incitar o conhecimento, também possui outros papéis
essenciais na vida da criança, pois oferece a oportunidade de conviver e viver
com o imaginário, fornecendo uma visão original à criança, proporcionando a
aquisição de um conhecimento do real e também do não-real.
Ao ter contato com livros literários, seja com pequenas gravuras e textos
simples ou mais sofisticados, a criança pode criar seu próprio mundo, vivendo
seus sonhos, fantasias, o que oportuniza o conhecimento de si mesmo e do
ambiente que a cerca.
Deve-se iniciar a fruição pela leitura desde pequeno, e o professor bem
como o contexto sociocultural da criança é que ajudarão a desenvolver esse
hábito. Desse modo, o professor tem papel essencial nesse aprendizado, e
esse precisa usar sua criatividade e conhecimento para proporcionar a criança
momentos prazerosos de leitura. E, no âmbito familiar, a criança aprende a
gostar de ler com o incentivo dos pais ao ler, por exemplo, um conto de fadas
ou até mesmo trechos da bíblia.
A leitura é uma prática social de várias vertentes de conhecimento,
através dela é possível informar-se de um assunto: fazer pesquisas; ensinar;
aprender, portanto gostar de ler é fundamental para proporcionar à criança e
também ao adulto, uma forma de gostar de aprender.
2. Método
O levantamento teórico foi elaborado a partir de uma pesquisa
qualitativa, por meio do método bibliográfico e que busca a explicação do
problema a partir de referências teóricas e documentos que se relacionam,
direta ou indiretamente, com o tema pesquisado. Segundo Cervo; Bervian
(2002) “A pesquisa bibliográfica procura explicar um problema a partir de
referencias teóricas publicadas em documentos e busca conhecer e analisar as
contribuições culturais ou cientificas do passado existentes sobre um
determinado assunto, tema ou problema”.
Usar-se-á neste trabalho também, a pesquisa de campo que segundo
Gil (1992) procura-se o aprofundamento das questões propostas.
Fachin afirma que:
A pesquisa de campo detém-se na observação de contexto no qual é
detectado um fato social (problema), que a princípio passa a ser
*
Autor Correspondente: [email protected]
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3. Resultados e Discussões
A literatura infantil é de essencial importância para a formação de um
leitor, pois escutá-las é o início dessa aprendizagem e ser um leitor é ter um
caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão do mundo.
(ABRAMOVICH, 2008).
A literatura também possui um papel essencial de informação, sobre
acontecimentos inevitáveis da vida que as crianças ainda não conhecem, como
por exemplo, a morte. A literatura traz também, assuntos referentes à realidade
das crianças sobre problemas de crescimento, ou conhecimento do corpo, sua
relação com os outros ou até mesmo sobre a sexualidade. (ABRAMOVICH,
2008)
A curiosidade, os medos, as aflições, os sentimentos bons ou ruins, são
sentidos a todo o momento pelas crianças, e elas muitas vezes não os
entendem ou não conseguem lidar. A literatura abre os caminhos desse
conhecimento, ajudando assim a criança a se fortalecer, e a construir uma
segurança melhor com relação à realidade que existe ao seu redor. A literatura
mostra de forma suave as situações reais da vida, ela leva o leitor ou quem a
escuta, a usar a imaginação de forma poética, ou mesmo bem humorada,
divertida, irônica.
Porém, ler uma história não significa pegar qualquer livro da prateleira,
sentar-se, muitas vezes, de má vontade e abordar uma história de modo
superficial e dessa forma, sem sentido, apenas por ser obrigado ou cobrado a
fazê-lo, ou por não se sentir a vontade em discutir algum assunto. Ler deve
significar para quem está lendo ou escutando, um aprendizado, um contato
com uma verdade imaginária, deve significar magia, fantasia, pois por mais que
não sejam reais, naquele momento as palavras se tornam vivas em sua mente,
elas criam sentido e assim, de certa forma se tornam reais.
Inserir em um planejamento de aula, a literatura e abrangê-la de maneira
estratégica é essencial, faz com que a criança, não crie apenas o hábito de ler,
mas utilize esse instrumento como um fator humanizante. Sendo assim,
mostrar de maneira sutil os problemas enfrentados por ele naquele momento
ou em seu futuro, contribui para transformá-lo.
Escutar histórias e logo após aprender a ler, se faz importante no
desenvolvimento psicointelectual da criança, pois o domínio desse sistema
complexo de signos fornece novo instrumento de pensamento, na medida em
que aumenta a capacidade de memória, registro de informações e organização
das mesmas. (VYGOTSKY, 1988)
Percebe-se assim como a criança, com a literatura, vai se inteirando de
verdades, entendendo-as e assimilando tudo o que a sua realidade lhe mostra
e o livro, a história, a ajuda a se conformar e lidar com essas situações.
Segundo Carvalho (s.d., p. 147) “A literatura infantil caracteriza-se por
certos requisitos psicológicos e literários, destinados a satisfazer e agradar ao
pequeno leitor, dentro de seu âmbito de interesses.”
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4. Conclusão
A iniciativa de realizar o projeto de pesquisa: “Literatura infantil:
instrumento de ensino/aprendizagem e transformação” desenvolveu-se a partir
da dificuldade encontrada por muitas pessoas ao ler e da observação da
prática profissional de professora de educação infantil, sendo relevante que as
crianças sentem prazer ao escutar histórias, dessa forma procura-se nesse
trabalho entender onde e por que esse prazer se perde.
5. Referências
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1. Introdução
2. Método
A metodologia é de caráter qualitativo a partir dos estudos realizados por [2]Bogdan; Biklen (1994),
e utilizará os seguintes instrumentos para a coleta de informações: relatos autobiográficos orais e
escritos, as entrevistas semi-estruturadas e os registros em Diário de Campo do cotidiano escolar das
professoras alfabetizadoras das escolas rurais, assim como conhecer as cartilhas que circularam no
meio rural. Através da pesquisa estamos com a oportunidade de interagir com o espaço físico local e
pedagógico da escola rural, com o trabalho destas professoras. Buscando conhecer, através das
memórias o uso das cartilhas de alfabetização em sua escolarização bem como a utilização destas
“mesmas” cartilhas no processo de construção da lecto-escrita dos seus alunos, através da aplicação
dos instrumentos já mencionados.
3. Resultados
1
Francine Bopp Pereira: [email protected]
362
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Maior estudo dos integrantes do GEPFICA (Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação Inicial,
Continuada e Alfabetização) sobre o tema pesquisado, durante as reuniões semanais; A oportunidade
de participar de eventos de iniciação científica para divulgar os resultados da pesquisa.
4. Conclusão
Como nossa pesquisa encontra-se em andamento, ainda não obtivemos os resultados concluídos, mas
com as informações já coletadas é possível perceber que as alfabetizadoras continuam utilizando das
cartilhas com seus alunos. Pois acreditam que esse método no qual elas foram alfabetizadas ainda
pode ser recursos para a alfabetização de seus alunos Neste sentido, afirmamos que estes materiais
precisam ser objetos de estudo na formação inicial e continuada de professores. Entendemos ainda
que as lembranças de escola permitam estas professoras rememorarem com que facilidade e rapidez
foram alfabetizadas por suas professoras através do uso das cartilhas, bem como também recordam
com clareza das primeiras lições, frases e palavras que aprenderam na escola.
5. Referências
[1] ANTUNES, Helenise Sangoi. Ser Aluna, ser professora: uma aproximação das significações
sociais instituídas e instituíntes construídas ao longo dos ciclos de vida pessoal e profissional.
Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa
de Pós-Graduação em Educação, Porto Alegre: UFRGS, 2001.
[2] BOGDAN, Robert C; BIKLEN, Sari Knopp. Investigação qualitativa em Educação: uma
introdução à teoria e aos métodos. 4 ed. Porto: Porto, 1994.
[3] REVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO. Dossiê: Formação de professores e
Profissionalização Docente. V. 29, n. 02, 2004.
[4] REVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO. Dossiê: História da Educação. V. 30, n. 02, 2005.
[5] REVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO. Dossiê: Alfabetização e Letramento. V. 32, n. 1,
2007.
[6] REVISTA DO CENTRO DE EDUCAÇÃO. Dossiê: Educação no Campo. V. 33, n. 1, 2008.
Agradecimentos
FIPE/UFSM
CENTRO DE EDUCAÇÃO
363
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O projeto “Mulheres e EJA: O que elas buscam?”, é um desdobramento da pesquisa matriz que o
origina, intitulada “Da vitimação afirmativa à reconstrução identitária: trânsitos de mulheres pela violência
de gênero” e financiada pelo CNPq. Tem a pretensão de analisar e compreender as relações existentes entre
as questões de gênero e a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A pesquisa em andamento envolve a
participação de mulheres, a partir de 18 anos de idade, que frequentam as modalidades de EJA equivalentes
ao Ensino Fundamental e Médio em escolas da rede pública de Caxias do Sul. Numa análise preliminar da
pesquisa podemos perceber que questões como o casamento, a maternidade e o trabalho, permeiam a vida da
mulher e, na maioria das vezes, são imprescindíveis para determinar suas escolhas. Compreender estas
escolhas e como elas se relacionam com a EJA é um desafio à nossa pesquisa, que tem como fio condutor
investigar de que modo as relações de gênero interferem no processo de escolarização das mulheres da
Educação de Jovens e Adultos. Busca-se também analisar os entraves em sua inclusão e como estas
mulheres, antes conduzidas à invisibilidade, romperam com o silenciamento a que eram submetidas e se
fizeram presentes em novos espaços de socialização.
2. Método
A metodologia utilizada no estudo é a pesquisa de opinião, a partir das aprendizagens construídas no
curso de extensão “Escola e Pesquisa: um encontro possível”, tendo como sujeitos de pesquisa as alunas de
EJA com idades acima de 18 anos de duas escolas públicas na modalidade de Educação de Jovens e Adultos
equivalentes ao ensino fundamental e médio. O tipo de amostra foi definido pelo método não-probabilístico
pelo fato de não termos uma informação precisa dos elementos do público alvo. Portanto, utilizamos a
seleção de forma acidental, ou seja, escolhemos as escolas com maiores chances de encontrar o público alvo
de estudo, totalizando cinquenta mulheres entrevistadas. O trabalho de campo se realiza com aplicação de
questionários contendo perguntas abertas e fechadas indagando, entre outros aspectos, o que as mulheres que
abandonaram a escola no período da escolarização obrigatória, buscam na EJA. Acreditamos que estes
procedimentos metodológicos são adequados para apurar opiniões e atitudes explícitas e conscientes dos
entrevistados e permite realizar projeções para a população representada. Ela testa de forma precisa as
hipóteses levantadas e fornece índices que podem ser comparados com outros. Entretanto, traz também o
caráter qualitativo e exploratório, pois estimula os entrevistados a pensar e falar livremente sobre o tema,
fazendo emergir aspectos subjetivos atingindo motivações não explícitas ou mesmo não conscientes de
forma espontânea [3].
3. Resultados e Discussão
Os primeiros contatos com o campo da pesquisa indicam que a busca das mulheres pela formação
nas classes de Educação de Jovens e Adultos vem tendo um crescimento significativo, é o que comprova
também os dados do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), referente à Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (PNAD) [1]. Segundo esta pesquisa realizada no ano de 2007, 54% dos alunos de
EJA, são mulheres, com baixa renda e na faixa etária entre 18 aos 39 anos, frequentando principalmente, o
segundo segmento do Ensino Fundamental ou Ensino Médio. Evidencia-se, portanto, que fatores ligados às
questões de gênero têm grande interferência na formação das turmas de EJA. Louro (1994) [2], ao se referir
a construção escolar das diferenças afirma que a escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna
começou por separar adultos de crianças, católicos de protestantes. Ela também se fez diferente para ricos e
para pobres e ela imediatamente separou meninos e meninas. Historicamente, a mulher teve um acesso
restrito a escolarização devido a cultura patriarcal que valoriza a ascensão social do homem, sendo
submetida a atuar em outros papéis, onde não favorecia o contato com a cultura e o uso do código linguístico
e letrado. Para a mulher bastava apenas saber sobre os cuidados da casa e dos filhos. Numa análise
preliminar da nossa pesquisa podemos observar que questões como o casamento, a maternidade e o trabalho,
permeiam a vida da mulher e, na maioria das vezes, são imprescindíveis para determinar suas escolhas.
Assim, tendo o casamento como “destino” muitas dessas mulheres abandonaram a escola na adolescência e
posteriormente foram frustradas ao retorno a ela, seja pela oposição do companheiro e/ou pelas atribuições
*
Amina Ciandra Oro: [email protected]
364
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
da maternidade. A procura da mulher pela EJA também tem se intensificado com o objetivo de preparar-se
para o mercado de trabalho, associando seu retorno à escola a procura de melhoria nas condições de vida,
uma vez que, muitas das mulheres são oriundas das camadas sociais de menor poder aquisitivo. A maioria
delas tiveram que abandonar os estudos precocemente para poderem se dedicar ao trabalho, em serviços
atribuídos ao papel da mulher, como doméstica, cuidadora de crianças e cozinheira. Outras questões
importantes que parecem determinar a busca das mulheres pela EJA é atualizar-se para ensinar as tarefas
escolares aos filhos e/ou incentivá-los a permanecerem na escola; a conquista por um novo espaço de
socialização, bem como o fortalecimento de sua auto-estima.
4. Conclusão
A pesquisa encontra-se em andamento, estando na fase de organização e análise dos dados, mas já é
possível perceber, pelas entrevistas realizadas, que os discursos das participantes da pesquisa estão
arraigados por representações da naturalização dos papéis de gênero construídos culturalmente pelas
sociedades patriarcais, colocando a mulher em situação de submissão e/ou opressão. Percebe-se que embora
as mulheres tenham conquistado um espaço significativo nas relações sociais, no mercado de trabalho e
efetivação de seus direitos, há ainda muitos caminhos a percorrer para que sejam realmente respeitadas e
reconhecidas em nossa sociedade. Talvez a EJA seja um dos percursos que podem ser percorridos
favorecendo no processo de emancipação e construção da autonomia feminina.
Referências
[1] IBGE – Censos, contagem populacional, Pesquisa Mensal de Emprego/PME e Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílio/PNAD-2006. Brasília.
[2] LOURO, G.L.. Gênero, Sexualidade e Educação: uma perspectiva pós- estruturalista. Petrópolis, RJ:
Vozes, 1997.
[3]MONTENEGRO, Fábio; RIBEIRO, Vera Masagão. Nossa escola pesquisa sua opinião: manual do
professor. São Paulo: Global, 2002.
Agradecimentos
365
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Martha M W Hoppe 1 *
Liziane da Silva Barbosa 2
1 Universidade Estadual do Rio Grande do Sul
2 Universidade Estadual do Rio Grande do Sul
1. Introdução
O presente artigo traz um relato de caso com as maiores dificuldades de aprendizagem apresentadas
por dois estudantes de uma escola de educação especial em Tramandaí – RS, com diagnósticos de deficiência
mental, e como principal queixa a não alfabetização, bem como aquelas apresentadas pelo docente que os
atende, na perspectiva de quem relata os casos. O artigo consiste numa tentativa de inovar as concepções e
abordagens de ensino no sentido de que é necessário lançar um olhar para as situações de aprendizagem que
não estão contempladas pelas teorias da aprendizagem. Não é novidade para os docentes que essas teorias de
aprendizagem são orientadoras das práticas escolares e da construção dos métodos de ensino, sendo assim
buscamos identificar o que essas teorias não ensinam. O que está fora do alcance dos pensadores antigos,
está presente nas escolas diariamente: os números dos censo escolar e do Ideb evidenciam que os métodos
estão equivocados. Ao tecer suas concepções sobre as etapas do desenvolvimento, Piaget, observou e
analisou o desenvolvimento de seus netos. Crianças que tiveram infâncias idealizadas, numa outra época.
Essa crianças serviram de modelo padrão para todas as outras, no mundo inteiro. Ainda hoje são os modelos
ideais. Esses modelos faliram, j´não sevem mais. As crianças que estão dentro de um contexto diferente,
numa realidade muito abaixo dos padrões estudados pelos teóricos, além de não figurarem nos escritos da
academia, ficam a mercê de uma educação padronizadora que não respeita as individualidade e diferenças.
2. Método
Esse artigo deriva de uma pesquisa qualitativa de campo. A pesquisa consistiu em observar dois
estudantes com diagnóstico de deficiência mental, que tem por principal queixa da escola a Não
Alfabetização. A observação é seguida por uma entrevista semi-estruturada com a professora da turma de
EJA, a qual eles freqüentam.
Após coletados os dados a foi feita uma análise dos métodos utilizados pela professora identificando
os pressupostos que guiam o seu trabalho, bem como as soluções que ela projeta para a resolução dos
problemas enfrentados no dia-a-dia escolar.
3. Resultados e Discussão
Como resultado principal dessa pesquisa da observação, surgiu a reflexão de como são tratadas as
diferenças de modos de aprender numa escola de educação especial. A reflexão se estende ainda para os
poucos resultados obtidos pela escola no tangente à alfabetização dos estudantes observados. Uma vez que
estes passaram muitos anos na escola regular e mesmo após o diagnóstico e a mudança para uma escola
especial não conseguiram aprender. Partindo da premissa que todos podem aprender e que todos são
diferentes não é concebível que os estudantes sejam enquadradados em uma ou outra abordagem de ensino
pré-definida e padronizado.
4. Conclusão
A questão inicial, que intitula o artigo ficou ainda mais pulsante, pois as teorias de aprendizagem não
ensinam a lidar com as diferenças de aprendizagem, não ensinam a perceber que as realidades não podem ser
padronizadas. As teorias desconsideram os contextos, pois foram escritas em outros tempo, outro século,
outro país. Não servem mais. Já não serviram, mas os educadores continuam insistindo em se manter à
sombra dos velhos mestres.
É premente que sejam revistas as práticas e os métodos oferecidos pelas escolas, pois os casos de
dificuldades na aprendizagem têm aumentando significativamente e a eles são dadas soluções médicas. Não
é possível que o sistema continue educando para o trabalho fabril e quem não se enquadra é excluído e
condenado a viver eternamente em instituições que lhes serve de bengalas.
Referências
BIGGE, Morris L. Teorias da Aprendizagem para professores. São Paulo, EPU, Ed. Universidade de São
Paulo, 1997.
*
Apresentadora: [email protected]
366
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O presente trabalho apresenta uma proposta inicial de estudo, vinculada ao Programa de Iniciação
Científica, acerca da relação entre o uso de tecnologias em escolas públicas de Educação Básica e a
organização do trabalho pedagógico.
O objetivo principal do estudo está em investigar o uso das tecnologias educacionais disponíveis em
uma escola pública de Educação Básica, do município de Campo Mourão, Estado do Paraná. Dentre outros
elementos da pesquisa, destaca-se a análise do Projeto Político Pedagógico e Proposta Pedagógica
Curricular.
Entende-se que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) expressa a própria organização do trabalho
pedagógico da escola (VEIGA, 2005; VASCONCELLOS, 2002a; VASCONCELLOS, 2002b). “É um
instrumento teórico-metodológico para a intervenção e mudança da realidade. É um elemento de organização
e integração da atividade prática da instituição neste processo de transformação” (VASCONCELLOS,
2002b, p. 169). O trabalho pedagógico, por sua vez, deve ser entendido como o elemento que permite
planejar, executar e avaliar as ações educativas. “[...] o trabalho pertence a quem o concebe, executa e avalia.
Não se aceita que alguém planeje o que o outro irá realizar, pois retira-se do executor suas possibilidades de
domínio sobre o processo de trabalho[...]”(VILLAS BOAS, 2005, p. 181). É por meio do trabalho
pedagógico organizado, pensado e refletido pelo coletivo da escola que se pode pensar mudanças necessárias
no processo educativo. No entanto, observa-se que muitas ações no âmbito das escolas permanecem
cristalizadas, mesmo com a “presença” das novas tecnologias e dos PPPs. Observa-se que, este se constitui
em mais um documento da escola e que, muitas vezes, não expressa e orienta as ações planejadas pelo
conjunto dos profissionais da educação.
Nesta perspectiva, se observa a necessidade de rever as práticas educacionais, tomando a própria
realidade escolar como objeto de estudo, em que a opção pela inserção de tecnologias na educação depende
de discussões teóricas e ações construídas de modo coletivo pelos profissionais da educação.
O uso de tecnologias na educação não é recente. Todavia, no contexto atual, percebe-se a presença
cada vez maior dos recursos e tecnologias de comunicação e informação em diferentes ambientes, e também,
no espaço escolar. Introduzir “novas” tecnologias na educação requer estudo e planejamento. Nesta
perspectiva algumas questões problematizadoras podem ser levadas em consideração. Quais são os objetivos
educacionais que orientam o uso dos computadores TVs, videocassetes e DVDs nas escolas? De que modo
os gestores e os professores pensam e/ou planejam ações para o funcionamento de tais tecnologias na escola?
A pesquisa aponta para a necessidade de investigação do papel da gestão educacional na escola e da
importância do Projeto Político-Pedagógico (PPP), enquanto expressão da organização do trabalho
pedagógico das escolas públicas (VEIGA, 2005; VASCONCELLOS, 2002a). Neste sentido, é possível
levantar as seguintes questões. As ações dos professores nos ambientes informatizados estão planejadas,
previstas, refletidas no PPP da escola? Qual é a relação entre a formação dos professores e o trabalho
desenvolvido com os alunos nos ambientes informatizados? Em que medida as mudanças nas relações
humanas, mediadas constantemente por tecnologias, são compreendidas e articulam-se às discussões sobre a
prática escolar?
Deste modo, o problema de pesquisa se expressa na seguinte questão: quais são os fundamentos
teóricos-metodológicos, presentes nos Projetos Políticos-Pedagógicos, e na ação pedagógica dos professores
da Educação Básica para o uso de tecnologias na educação em uma escola da rede pública de ensino do
município de Campo Mourão?
2. Método
*
[email protected]
368
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
3. Resultados e Discussão
A presente proposta de pesquisa encontra-se em fase inicial, mas já se pode entender a relevância da
temática, uma vez que, as tecnologias de informação e comunicação fazem parte do cotidiano da sociedade
contemporânea. Os jovens têm acesso a muitas informações, especialmente, pelo uso da internet. Observa-se
ainda, que as escolas recebem programas do governo que visam a inclusão digital. Para tanto, é importante
que o currículo escolar, a partir da reflexão de professores e de gestores, apresente uma proposta de
utilização pedagógica das ferramentas tecnológicas.
Entende-se que a grande relevância do uso de computadores, e de outros meios, nas escolas está na
forma de utilização pelos professores. A opção de utilização de determinada tecnologia de ensino, pelo
professor, demanda planejamento, o que, por sua vez, envolve a pesquisa, a seleção e a organização de
conteúdos. A utilização de tecnologias tem sentido para os professores que buscam novas iniciativas com
seus alunos, que estudam, pesquisam e discutem coletivamente novas possibilidades de ensino e de
aprendizagem. A relevância do uso de qualquer tecnologia de ensino está necessariamente ligada à
concepção de educação que o professor possui. A inserção de uma tecnologia de ensino, por si só, não gera
mudanças no processo educacional.
Deste modo, as tecnologias educacionais podem se constituir em um instrumento pedagógico, que
auxiliam na exposição de conteúdos e que estão disponíveis nesse espaço. Assim, o uso de computadores,
por exemplo, pode ser de grande benefício aos professores e alunos que pesquisam conteúdos e que se
utilizam de produções das mídias, especialmente.
Pensar uma escola de qualidade inserida numa realidade tecnológica requer uma “nova
mentalidade”, exige mudanças nas estruturas e no funcionamento não somente dos espaços informatizados,
como as Salas de Informática, mas no processo de ensino como um todo. (KENSKI, 2006). As mudanças
implicam fundamentalmente, além da ampliação das possibilidades de aprendizagem, o envolvimento de
todos os que participam do processo de ensino. Essa situação demanda mudanças na gestão educacional, que
pode adotar “[...] novas formas de decisão, mais rápidas e menos burocráticas, garantindo maior autonomia
369
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
aos departamentos e áreas específicas da instituição [...]” (KENSKI, 2006, p. 223.), contrariando um sistema
linear e centralizador de decisões.
4. Conclusão
Acredita-se que os problemas que a educação tem a resolver não serão solucionados pela simples
introdução de computadores nas escolas. A formação dos professores para utilização dos computadores e
Salas de Informática parece não ter tomado parte das prioridades educacionais na mesma proporção da
aquisição de equipamentos, “[...] deixando transparecer a idéia equivocada de que o computador e o software
resolverão os problemas educativos” (ALMEIDA, 1998, p. 65-66). Neste caso, destaca-se a necessidade de
investimento na formação do professor, não somente em instrumentalizá-lo para o uso da máquina. Tentar
“modernizar” a educação com máquinas em um contexto de velhas concepções não é significativo.
Dessa forma, este projeto de iniciação científica, visa realizar a pesquisa em uma escola de Educação
Básica da rede estadual de ensino de Campo Mourão, para compreender como se dá o uso dessas
tecnologias. Primeiramente, haverá a análise no Projeto Político-Pedagógico da escola, campo da pesquisa.
Na seqüência, será realizada a observação, as entrevistas e questionários com a comunidade escolar.
Pretende-se compreender se os recursos tecnológicos já empregados e a implantação de novas tecnologias
contribuem para o processo de ensino-aprendizagem e modo como está planejado pela escola.
Referências
ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini. Da atuação à formação de professores. In: BRASIL. Secretaria de
Educação a Distância. TV e Informática na educação. Brasília, DF: MEC, 1998.
ANDRÉ, Marli Eliza D. A. de. Etnografia da prática escolar. Campinas, SP: Papirus, 1995.
GANDIN, Danilo. GANDIN, Luis Armando. Temas para um projeto político-pedagógico. 4. ed.
Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2001, pp. 159-166.
KENSKI, Vani Moreira. Caminhos futuros nas relações entre novas educações e tecnologias. In: SILVA,
Aida Maria Monteiro et al (Orgs.). Políticas Educacionais, tecnologias e formação do educador:
repercussões sobre a Didática e as práticas de ensino. Recife: ENDIPE, 2006. p. 213-226.
LÜDKE, Menga; ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São Paulo: EPU,
1986.
VEIGA, Ilma Passos Alencastro; RESENDE, Lucia Maria Gonçalves de. (Orgs.). Escola: espaço do projeto
político-pedagógico. 8. ed. Campinas, SP: Papirus, 2005.
VILLAS BOAS, Benigna Maria de Freitas. O projeto político-pedagógico e a avaliação. In: VEIGA, Ilma
Passos Alencastro; RESENDE, Lucia Maria Gonçalves de. (Orgs.). Escola: espaço do projeto político-
pedagógico. 8. ed. Campinas, SP: Papirus, 2005. p. 179-200.
Agradecimentos
Agradecimentos, em especial, à Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão e ao
Grupo de Estudo e Pesquisa Educação Trabalho, Tecnologias e Subjetividades (GEPETTS), no qual o
presente trabalho está vinculado.
370
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O presente trabalho apresenta resultados curta uma observação etnográfica realizada no Centro de
Umbanda Exumaré, localizado próximo ao centro da cidade de Florianópolis-SC, durante os meses de abril a
junho de 2010. Esta observação foi realizada na disciplina de Antropologia da Educação do Curso de
Pedagogia da UDESC, sob orientação da professora Tânia Welter. A proposta da professora foi fazer com
que os alunos desta disciplina experimentassem a vivência etnográfica em um contexto não-familiar, de livre
escolha, a fim de trabalhar com a questão do etnocentrismo e os diversos tipos preconceitos em nossa
sociedade. A partir da observação etnográfica foi feito um relato desta experiência e, ao final do semestre,
houve um momento de compartilha com os alunos onde cada grupo expôs e discutiu seu trabalho.
O Centro de Umbanda Exumaré localiza-se na comunidade Nova Trento, em uma das encostas do
Morro da Cruz, onde se abrigam diversas comunidades constituídas majoritariamente por cidadão afro-
brasileiros, entre elas, Nova Descoberta, Nestor Passos, Serrinha, Morro do 25, Mocotó, Mont Serrat, entre
outras. Ao escolher este contexto para a observação, o nosso objetivo foi de entender esta prática religiosa e
desmistifica a idéia comum de que as práticas religiosas afro-brasileiras, entre elas, a Umbanda, estão ligadas
a “feitiçaria” ou ao mal (TRAMONTE, 2010).
2. Método
1
Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina. [email protected]
2
Acadêmica do Curso de Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina. [email protected]
371
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Assim, a proposta metodológica desta observação etnográfica foi investigar as práticas do Centro de
Umbanda Exumaré e registrar os momentos vivenciados pelos/as adeptos/as. As técnicas utilizadas para a
coleta foram análise e interpretação dos dados, observação participante, registros em diário de campo,
entrevistas livres, fotografias e gravações em áudio e vídeo. Os interlocutores da pesquisa foram os
integrantes e freqüentadores Centro de Umbanda Exumaré, especialmente a Mãe-de-santo.
Durante todo o processo de observação procuramos conhecer sobre a Umbanda, fazendo perguntas –
algumas preparadas através de conversas entre os integrantes da equipe e outras conforme as dúvidas iam
surgindo no momento da observação. Participamos também de rituais festivos como a celebração de Ogum a
de Oxum. Estas duas festas foram registradas com vídeos, fotos e diário de campo. Com isso, procuramos
conhecer esta prática religiosa através da aproximação e impregnação de suas práticas.
3. Resultados e Discussão
A Umbanda, assim como outras práticas religiosas afro-brasileiras, são freqüentemente relacionadas
à feitiçaria, macumba, coisa-feita, trabalho, despacho (TRAMONTE, 2007; MAGNANI, 1986). Esta forma
de definir encontra sua fundamentação no etnocentrismo, ou seja, julgar um costume, uma crença, um modo
de vida em função dos valores de sua própria cultura (MAGNANI, 1986, p. 10). Inúmeras vezes olhamos o
diferente com menosprezo e desdém. Mas, ao nos aproximarmos daquilo que está distante, que não
compreendemos e que não faz parte da nossa vivência, o diferente passa a fazer parte de nós, possibilitando
uma maior abertura para o mundo e a vida. Naturalmente, fazemos e julgamos diversas culturas por não
conhecer suas práticas, seus costumes, seus valores. Para Queiroz (1995), quando consideramos e julgamos
uma sociedade ou cultura diversas da nossa a partir de critérios e interesses transmitidos pela nossa própria
cultura, estamos procedendo de forma etnocêntrica.
A observação etnográfica realizada no Centro de Umbanda Exumaré, embora curta, possibilitou para
nós enquanto acadêmicas conhecer um pouco da riqueza desta prática, o cotidiano, os rituais, as motivações
dos integrantes, as músicas, os ambientes, e principalmente sensibilizou nossa maneira de olhar questões
relacionadas à alteridade. O privilégio de experimentar este outro segmento social, de partilhar a sua
realidade, sua descrição do mundo, seus significados e seus valores, nos possibilitou rever nossa visão
anterior a respeito desta prática religiosa. Ao compartilhar essa experiência em sala de aula, acreditamos que
os demais alunos da turma também puderam rever seus conceitos pré-estabelecidos. Por exemplo, ao
apresentar em sala de aula nossa experiência etnográfica, percebemos logo uma reação de estranhamento e
repúdio da turma, muito disso em função de ser uma prática religiosa que muito se ouve falar (geralmente
sob o pejorativo de „macumba) mas, de fato, pouco se conhece realmente. Ao final da apresentação, foi
apresentado aos acadêmicos um vídeo caseiro da festa de Ogum, mostrando um pouco da visita que foi feita
no centro de Umbanda Exumaré. Depois de ver o vídeo abrimos para o debate para conversar e tirar dúvidas
da turma. Ao vermos o vídeo alguns colegas ficavam comentando sobre cenas como a “Gira” e até mesmo
ficavam rindo nestes momentos por que achavam engraçado. Outros perguntavam curiosidades e/ou
acrescentavam coisas que sabiam ou que viram em seu quotidiano. No debate apareceram varias perguntas
entre elas, é claro, a questão da Umbanda como feitiçaria e, associando-a a uma religião que “faz o mal às
outras pessoas”. Percebemos, com isso, o quanto a Umbanda congrega em si uma camada da sociedade
marginalizada, cujo reconhecimento é objeto de pouco interesse das classes dominantes.
4. Conclusão
O trabalho contribuiu para que nós acadêmicas – e os/as demais colegas de classe – pudéssemos
conhecer um pouco mais as práticas, costumes e valores da religiosidade afro-brasileira e desmistificar a
idéia que Umbanda é coisa de “feitiçaria”, propiciando um outro olhar para está realidade. Conhecer uma
manifestação cultural diferente contribuiu significativamente para nossa formação como futuros/as
educadores/as, uma vez que a acreditamos que a escola, um espaço de afirmação das identidades, necessita
reformular as práticas educativas no sentido de conceber os fundamentos dessas religiões como códigos
sócio-culturais e educativos referentes a uma outra forma de sociabilidade. Este pode ser um dos caminhos
para afastar atitudes como a indiferença, a intolerância e o preconceito na educação.
Referências
CRESWELL, John W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Tradução: Luciana de
Oliveira Rocha. 2. ed. – Porto Alegre: Armed, 2007.
372
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
LAPLANTINE, François, Especificidade da prática antropológica. In: Aprender Antropologia. 6 ed. São
Paulo: Brasiliense, 1993. p.149 a 159.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. Umbanda. São Paulo: Editora Ática, 1986.
QUEIROZ, Renato da Silva. Não vi e não gostei: O fenômeno do preconceito. São Paulo: Moderna, 1995.
TRAMONTE, C. Educação Intercultural e Práticas Afro- Brasileiras: Construindo a Tolerância na
Diversidade. Disponível em <http://www.ufsm.br/linguagemecidadania/02_02/CristianaLC8.htm> Acesso
em: 15/07/20010.
373
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Evandro Both1*
1
Universidade Federal de Santa Maria
1. Introdução
O trabalho visa divulgar as atividades e experiências obtidas durante as aplicações de oficinas que
envolvem a disciplina de História, realizadas no Colégio Estadual Rômulo Zanchi, localizado na cidade de
Santa Maria – RS. Faço parte do PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência) no
subprojeto de licenciatura em: “História e Educação: os meandros do ensino formal”. Nas atividades
trabalham grupos formados por acadêmicos do curso de História da Universidade Federal de Santa Maria, do
Estado do Rio Grande do Sul (RS). Com o uso das oficinas, pretendemos “fugir” do método tradicional de
ensino, pois, através delas, evidenciamos aos estudantes que eles também fazem parte da história, sendo eles
os agentes históricos, quebrando com a questão de que existem heróis históricos, e que, desta forma, são os
heróis que fazem a história e nós somos apenas sujeitos passivos. As oficinas trabalham com a chamada
“Arte de Rua” - Fanzine, Grafitte, Stêncil, etc. As oficinas não visam substituir as aulas do Ensino Formal,
pois as mesmas ocorrem em horários extra classe, sendo realizadas paralelamente ao Ensino Formal. O
Projeto teve início no mês de abril de 2010, e tem prazo de conclusão em abril de 2012.
2. Método
Quanto ao método, pretendo deixar claro que na perspectiva de oficina, método não cabe. Nós
utilizamos ações educativas que não se repetem na medida em que pessoas não são máquinas para repetir
com exatidão tarefas mecânicas. São seres vivos com sensibilidade, com emoção, com prazeres, com
instabilidades e, principalmente, com potencialidade e singularidades a constituir uma diferença que em
coletivo, não homogeneíza e nem padroniza. Assim as oficinas buscam potencializar o ver, o escutar, o sentir
e o agir, a partir de uma decodificação do objeto de estudo. Num primeiro movimento, o observador ou
aquele que está interessado em estudar algum tema quer com vontade decodificar para si mesmo o objeto em
estudo. Num segundo movimento se disponibilizar para em coletivo dialogar com os interessados na
temática, desaprender as verdades absolutas sobre a mesma e, a partir da desaprendizagem, reaprender outros
percursos possíveis sem absolutizar verdades, mas sim, identificar os elementos que constituíram
historicamente os conceitos a caracterizar o respectivo tema em um determinado espaço-temporal. Com esta
estratégia procuramos valorizar a nômades necessária a mobilizar o pensamento na direção do criador não
ficar refém da sua própria criação o que potencializa a releitura. Esta proposição em termos da historiografia
aponta para um inacabamento a violar as verdades absolutas e, assim, violar o conhecimento a vegetar no
silencio das academias.
Para divulgar o evento, passamos em sala de aula e entregamos aos estudantes os convites feitos com
fanzine (técnica de recortes de revistas, jornais, etc, e colagem em outras folhas para fazer o próprio método
de divulgação de ideias, notícias, propagandas, protestos, etc), para que, assim, eles tivessem uma noção de o
que estávamos querendo trabalhar com eles. Depois pedimos a eles como queriam trabalhar a história de uma
maneira alternativa, para sairmos da maneira tradicional de ensino, com livros e professor explicando o que
está nos livros, etc. A partir daí surgiram várias hipóteses de o que trabalhar, entre elas, cinema, fanzine,
grafitte, stêncil.
Depois de analisar qual era a necessidade dos estudantes, perante a nossa proposta de trabalhar a
história de maneira alternativa com eles, começamos a efetuar as oficinas nos encontros que se sucederam.
Com essas oficinas, os estudantes estarão fazendo parte do processo histórico, fugindo, dessa forma, da
escola tradicional, que segundo Saviani, tem o papel de “difundir a instrução, transmitir os conhecimentos
acumulados pela humanidade e sistematizados logicamente”[1]. Neste ponto vemos que a escola tradicional
tem uma visão muito limitada, achando que os estudantes não tem uma carga de conhecimento acumulado
com a sua trajetória de vida. A escola acha que eles vem vazios para a sala de aula onde eles aprendem os
conteúdos de que precisam para viver. Efetivamente isso significa desconsiderar a parte diversificada dos
currículos, prevista pelas políticas públicas em termos da construção curricular, ou seja, valorizar o saber que
os estudantes trazem consigo da vivência cotidiana nos seus respectivos espaços temporais. Tanto assim que
o Ministério da Educação criou os temas transversais para superar a fragmentação e descontextualizarão da
formação dos estudantes. Por estes motivos, estamos trabalhando com a técnica de oficinas, para que os
estudantes se sintam parte integrante dos acontecimentos que se fazem na história, e, também, dessa forma
superando, pelo menos em parte, os problemas da educação atual.
* [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Muitas vezes o conhecimento trazido pelo estudante não tem a ver com o conteúdo passado em sala de
aula, mas é um conteúdo que deve ser levada em conta, pois é aquilo que o estudante traz para a sala de aula
que ele vive, é a sua realidade que ele traz como bagagem. Por estes motivos, escolhemos como tema geral
de nossas atividades “O sujeito histórico na intervenção política” e temos como base teórica os seguintes
questionamentos: Quem Faz História? Quem Vive a História? e, Pra quem Serve a História?. A partir destes
questionamentos os estudantes começam a ver a história de outra forma, uma vez que se sentem parte do
processo que ocorre nas atividades e enxergam que são eles, também, que fazem história, vendo que a sua
trajetória de vida tem, sim, peso no tempo em que ele está vivendo.
3. Resultados e discussão
Até o momento, tivemos uma boa participação dos estudantes nas atividades desenvolvidas. Em parte,
essa participação se deu devido à forma como foram realizadas as oficinas, uma vez que foram eles que
puderam dizer o que queriam trabalhar, diferenciando esta ação de ensino, daquela em que os professores
chegam à sala de aula e começam a simplesmente despejar o conteúdo, muitas vezes sem preocupar-se se
estão trabalhando da maneira correta com os estudantes ou se estão apenas repassando o conteúdo para os
estudantes, como se eles fossem sujeitos passivos na história, sem a chance de poderem interferir nos
acontecimentos de seu tempo.
Na realização das oficinas, nós, abrimos os espaços das mesmas e fizemos uma análise histórica em
cima de como surgiu e para que serviu cada uma das formas de comunicação (fanzine, grafitte, stêncil...), às
vezes mostrando vídeos sobre as oficinas a serem realizadas, e, apenas depois dessa parte teórica é que
partimos para a prática, deixando eles trabalharem da sua forma, apenas dando algumas dicas, quando
necessário.
A partir do que os estudantes colocam no papel, é que nós buscamos perceber o que os estudantes
desejam trabalhar, por exemplo, a sexualidade, o dinheiro e a beleza, são assuntos que apareceram em todos
os fanzines feitos pelos grupos. A partir disso nos reunimos para ver o que trabalhar, com eles, a respeito
desses assuntos. Esse trabalho foi realizado na segunda oficina, na qual problematizamos o que eles
colocaram nos fanzines da primeira oficina, e depois disso, pedimos para eles reconstruírem seus trabalhos
para ver o que havia mudado na concepção deles em relação aos assuntos abordados.
As oficinas não são obrigatórias aos estudantes, e esse é mais um dos motivos pelos quais temos que
tomar cuidado para que as mesmas não se tornem maçantes e repetitivas, e assim os estudantes acabem
desistindo de participar das mesmas. Porém, mesmo elas não sendo obrigatórias, sabemos que são muito
importantes para contribuir com o conhecimento da disciplina de História trabalhada em sala de aula, e isso,
nós temos como objetivo deixar bem claro para os estudantes, pois dessa maneira, também, eles acabam
levando as oficinas a sério, caso contrário, elas poderiam se tornar um lugar de distração, apenas.
Outro fator que devemos saber trabalhar, também, devido a não obrigatoriedade das oficinas, é o
improviso, pois, muitos estudantes podem vir a uma oficina e não ir à outra, como, também, outros
estudantes podem vir a ingressar nas oficinas depois de percorrido um tempo de atividades, aí que entra o
improviso, pois, temos que saber trabalhar para que os dois estudantes fiquem interados no que estamos
querendo trabalhar com eles, e, dessa forma se sentirem sujeitos interventores. Pois, devemos saber trabalhar
de acordo com a necessidade deles, e para isso devemos ter a sensibilidade em cada oficina, para ver se os
estudantes estão gostando da maneira que queremos trabalhar ou não. No caso de não estarem gostando,
devemos saber improvisar algo que faça eles se sentirem bem no espaço onde estão ocorrendo as oficinas.
Através das oficinas, temos como objetivo trabalhar de forma dinâmica com conteúdos paralelos, mas
nem por isso menos importantes, ao do Ensino Formal da disciplina de História. As mesmas cabem, muitas
vezes, como complementos das aulas dadas em sala de aula, que muitas vezes são passadas superficialmente
devido ao pouco tempo que os professores têm para trabalhar cada conteúdo em sala de aula com os
estudantes.
4. Conclusão
O trabalho realizado nessa escola tem o objetivo de trazer uma outra forma de aprendizagem do
conteúdo histórico, que supera o chamado ensino tradicional que há na maioria das escolas de hoje, o
objetivo maior é trazer o debate de quem é o sujeito histórico, evidenciando aos estudantes que eles também
fazem parte da história, fato muitas vezes ocultado nas escolas tradicionais. Isso faz com que os estudantes
participem mais das oficinas, e, também, começam a olhar a história de outra forma, pois, muitos estudantes
não gostam de história na escola, justamente, pela forma que os conteúdos são passados, que, na maioria das
vezes, não tem a ver com a realidade em que os estudantes estão inseridos. Esse ensino conteudista não traz o
prazer de aprender e se relacionar com a história, e, nossa meta para esse PIBID é fazer com que os
estudantes mudem a visão a respeito da história, e, com isso acabem fazendo as tarefas diárias sabendo que
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estão fazendo parte da história, pois para nós vale muito mais uma educação voltada para a realidade do
estudante do que o simples repasse de conteúdo sobre algo que os estudantes nem reconhecem como parte de
sua história.
Referências
[1] SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a
educação política. 39. ed. Campinas, SP. Autores Associados, 2007.
CORRÊA, Guilherme Carlos. Oficina: Novos Territórios em Educação. IN: Pedagogia Libertária.
Experiências Hoje. São Paulo, Ed: Imaginário, 2000.
PEY, Maria Oly. Oficina como Modalidade Educativa. IN: Perspectiva. Florianópolis, Ed: Centro de
Ciências de Educação da UFSC, 1997.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
1. Introdução
O aumento da violência apresentado nos noticiários e jornais nos assombra cada vez mais. Não existe
nenhum espaço na sociedade que escape de situações violentas, assim a escola, como um segmento dela é
também cenário de violências causadas na, por ou contra ela. Os conflitos são inerentes à condição humana,
entre tanto entendemos que não se configuram como uma violência em si, mas esses momentos carregados
de tensão e sentimentos podem acabar tendo desfechos com atitudes agressivas e violentas sejam elas física,
verbal, moral, ou psicológica, quando não resolvidos positivamente.
O presente trabalho resulta na discussão sobre a resolução de conflitos dentro da instituição escolar, a
partir de um recorte dos dados obtidos em pesquisas que vem sendo realizadas pelo Grupo Afetos Morais
desde 2004, sob coordenação da Prof.ª Dr.ª Lúcia Salete Celich Dani. Destas destacamos o trabalho realizado
no ano passado (2009), o qual teve como objetivo compreender e investigar qual o entendimento dos alunos
do Ensino Fundamental sobre os sentimentos que afloram nos conflitos, especialmente, no bullying.
Os resultados obtidos na investigação além de terem apontado para o crescente aumento da violência
na escola indicam a ausência de estratégias que resultem em resoluções positivas dos conflitos e que
contribuam para a formação da personalidade moral fundada na autonomia, em valores éticos, no respeito
mútuo e em noções de justiça o qual conduzem a relações interpessoais embasadas no diálogo.
Muitas vezes somos cúmplices de violências que passam despercebidas ou que não são identificadas
como tais por faltar-lhes agressões que ferem fisicamente, porém é preciso lembrar que existem inúmeras
formas de violências. Algumas delas acabam acontecendo veladas como é o caso do bullying, caracterizado
por atitudes agressivas intencionais e repetitivas entre pares, havendo um desequilíbrio de poder, e causando
dor e sofrimento nas vitimas, muito comum no cenário escolar.
Em uma escola entendida como espaço de aprendizagem e formação do sujeito cidadão vê-se
necessária uma prática pautada no diálogo, valorização do sujeito, respeito mútuo, para que se construa uma
sociedade mais harmoniosa e menos violenta. Neste sentido buscamos refletir sobre a maneira de agir dos
alunos e professores diante dos conflitos que surgem na sala de aula e/ou escola, procurando compreender
quais as repercussões dessa ação no processo de construção da personalidade moral. Realizamos este estudo
em relação aos conflitos e suas formas de resolução percebendo a escola como parte da sociedade que gera
um cenário de múltiplas possibilidades de relações com o outro e de grande importância na discussão dessa
problemática. Os conflitos podem ser grandes oportunidades de aprendizagem. Buscar uma resolução
positiva dos conflitos presente no cotidiano escolar abre-se espaço para o entendimento do outro e dos
sentimentos que afloram nessas situações.
2. Método
Os dados obtidos na pesquisa contaram com a colaboração de 100 alunos de 7º e 9º ano do Ensino
Fundamental de uma escola do município de Santa Maria, no ano passado (2009), através de um questionário
que continha nove perguntas com opções de múltipla escolha, com orientação de que podiam ser marcadas
todas as alternativas que julgaram verdadeiras. Por fim, havia uma questão aberta, onde os alunos puderam
apontar o que viviam ou presenciavam na escola em relação aos conflitos e seus sentimentos que ainda não
haviam sido contemplados.
Esse questionário foi elaborado a partir da revisão de literatura e constatações em pesquisas anteriores
(2008), realizadas pelo grupo Afetos Morais com todos os alunos desta mesma escola o qual indicaram: que
as situações conflituosas são geralmente descritas na forma de violência, relatadas em situações de brigas
envolvendo agressão verbal ou física e muitas vezes uma como conseqüência da outra; a quase naturalização
do sofrimento com apelidos que não gostam, nas relações interpessoais aluno-aluno e professor- aluno, na
escola e/ou dentro da sala de aula; demonstram desconforto, mágoa, ofensa, vergonha e desgosto perante
estas situações, mas dificilmente falam sobre seus sentimentos; em algumas tentativas este é resumido
apenas em considerar a violência como algo ruim. Optamos realizar esta investigação através de um
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
questionário de múltiplas escolhas, afim de que os alunos pudessem expressar algum tipo de situação
conflituosa que possivelmente não teria sido lembrada caso não estivesse listada no questionário.
Sobre o tema violência escolar, muitas pesquisas são realizadas de forma quantitativa, apresentadas em
índices, tabelas e gráficos que possibilitam uma visão geral sobre a realidade, abrindo caminho para uma
série de discussões. Como por exemplo, os que são apresentados em estudos do MEC1, e em estudos da
FANTE sobre o bullying escolar, entre outros autores. Tognetta e Vinha (2008, pág. 222) completam ao
perguntarem o que se ganha ao aplicar um questionário: “O primeiro ganho é de fato o conhecimento da
realidade e, muitas vezes, uma grande surpresa ao saber o que os alunos pensam. O questionário na verdade,
abre um espaço de discussões”. E era exatamente este espaço de discussões que pretendíamos criar.
3. Resultados e Discussão
O que tem se constatado vem ao encontro das idéias de Sastre e Moreno (2002) quando diz que:
“Nossa razão não foi exercitada na resolução de conflitos” como também “Não desenvolvemos a
sensibilidade necessária para interpretar a linguagem de nossos sentimentos”. Estamos habituados a não
resolver nossos conflitos, delegando está função a pessoas que possuem maior autoridade, na escola aos
professores e direção. Segundo os dados da pesquisa realizada em 2009, temos um quadro da realidade que
nos mostra que ações agressivas violentas e/ou ofensivas estão presentes em todos os segmentos da escola,
sendo de maior ocorrência entre os alunos. Segundo as indicações dos alunos no questionário, é através do
encaminhamento para a direção, que os conflitos são resolvidos, 40% apontando o diretor como quem
resolve os conflitos, seguido por 28% nas opções “mandado para a secretaria”, “assinando a ata” e
“chamando os pais ou responsáveis”.
A violência torna-se um dos grandes vilões da educação, porém os conflitos costumam ser negados,
recebendo atenção, muitas vezes, apenas quando tem um desfecho violento. Neste sentido cabe lembrar, as
palavras de Morais (1995, p.55), quando ressalta que “as violências sutis têm logrado passar indiscutidas,
exatamente por faltar-lhes o impacto da brutalidade sangrenta”. Assim como já falado, a violência explícita
e/ou sutil que se faz presente no cenário escolar, não deve ser entendida como um conflito em si mesma, mas
como estratégias equivocadas na resolução de problemas interpessoais.
Quando a pergunta foi quanto ao tipo de violência, foram indicados em um índice geral como primeira
opção “agressão física” com 49% de indicações, mas em seguida, com apenas uma indicação a menos
encontramos “xingamentos” (48%), depois “deboches” (41%), “brigas envolvendo agressão verbal” (41%),
“brincadeiras de mau gosto” (40%), “pessoas sendo chamadas por apelidos ofensivos” (39%). Nota-se que
todos esses elementos fazem parte das características de uma violência velada, simbólica, tão ou mais
perigosa que as agressões físicas, que muitas vezes são conseqüências dessas.
O bullying foi uma opção que ocupou o nono lugar nesta questão com 14% das indicações. A palavra
Bullying é de origem inglesa adotada por vários países para representar a violência psicológica e moral.
Fante (2005, p.27) ressalta que nas atitudes de violência encontram-se presentes “o desejo consciente e
deliberado de maltratar uma outra pessoa e colocá-la sob tensão; termo que conceitua os comportamentos
agressivos, anti-sociais, utilizado pela literatura psicológica anglo-saxônica nos estudos sobre violência
escolar”.
A autora escreve que:
por, definição universal, bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e
repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra
outro(s), causando dor, angústia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis,
gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que
hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além
de danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do comportamento
bullying (FANTE, 2005, p. 28-29).
1
Ministério da Educação e Cultura
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assim agir no sentido de menosprezar o outro, a fim de comprovar a si mesmas de que são superiores. Neste
sentido, conclui a autora, “as imagens de si podem favorecer a formação de vítimas ou de agressores”.
A auto-imagem que cada sujeito constrói de si mesmo influencia a construção da personalidade moral
autônoma. E cabe ressaltar ainda a importância de ouvir tanto vítima e quanto agressor para descobrir as
causa do problema e a partir deste ponto tomar as decisões adequadas para criar projetos de intervenção ao
bullying e perceber que ambos enfrentem conflitos, sofrem e precisam de ajuda.
Nota-se que existe pouca ou nem uma problematização dos momentos conflituosos em sala de aula.
Vemos que muitas vezes esta preocupação está ligada apenas à resolução objetiva dos problemas concretos
que se apresentam, e a tarefa de “resolver-los” é delegada a direção que se utiliza de mecanismos tais como
chamar os pais ou responsáveis, e fazer com que assinem uma ata. Ou ainda quando delgadas a função aos
professores, estes parecer concordar com a idéia e acabam mandando os alunos para fora da sala, para
secretária ou para direção. Na sociedade o que se discute é a punição que o responsável deve receber, e nas
escolas busca-se as razões do ocorrido na família ou nas questões sociais que são amplamente divulgadas
pela mídia. Dificilmente são construídas experiências positivas a partir de momentos conflituosos.
Os conflitos são oportunidades de aprendizagem, de construção de valores e capacidades, de
conhecimento de si e do outro, do exercício do diálogo e da democracia. No entanto, quando não
problematizados podem agravar-se gerando, muitas vezes, conseqüências destrutivas ou trágicas para os
envolvidos. A respeito disso, Sastre e Moreno (2002) nos falam que:
quando não há uma aprendizagem, o sujeito recorre a “contar com os dedos”. No caso dos
conflitos, isto supõe deixar-se levar pelas emoções e pelos impulsos sem nenhuma reflexão
prévia, o que conduz a respostas primitivas, tais como agredir, inibir-se para agir, esconder-
se no ressentimento e respostas afins (p.51).
Assim como as autoras citadas anteriormente Vinyamata (2005, p. 15) especifica que violência e
conflito apresentam significados distintos afirmando que “O conflito é inerente ao desenvolvimento
humano” e esclarece que “as intervenções do docente durante os conflitos consistirão, basicamente no
desenvolvimento de processos pedagógicos, de negociação, mediação, arbitragem ou tratamento utilizando
os recursos adequados”. Os conflitos que surgem neste ambiente deveriam ser momentos, onde os
professores e alunos pudessem dialogar, negociar, acordar e construir saberes necessários à convivência
cotidiana na vida escolar, familiar e social.
Araújo (2007, p. 50), enraizado por este ideal da UNESCO, ao analisar as situações de conflitos no
contexto da comunidade escolar, enfatiza que é preciso conhecer o “lado de fora da escola” com projetos
interdisciplinares e transversais. Em suas pesquisas sugere as assembléias escolares como espaço para a
resolução de conflitos pela democracia participativa.
A concepção de educação defendida por Morais (1995) reafirma o princípio da responsabilidade
docente em educar para a autonomia do pensamento em prol da humanização. O autor pronuncia que “educar
é intervir em vidas” (p.45), mas alerta que esta intervenção se faz pelo convite, pelo princípio da autoridade,
do equilíbrio, e nunca pela invasão, apoiada pelo princípio da competição, do desequilíbrio docente. O
educador ao intervir em vidas com suporte do autoritarismo acaba sufocando a ação criadora causando a
hipertrofia do pensamento autônomo e deforma o educando (re)produzindo a violência.
Na opinião dos alunos da escola investigada sobre como gostarias que os conflitos fossem resolvidos a
maioria externou que gostariam que fosse por meio do diálogo (46%) e de grupos de conversa (25%), porém
não negam que seria de responsabilidade das autoridades, direção, buscar soluções justas para estes
momentos com medidas de coação, com 26% de indicações para opção “a direção é responsável por
solucionar os conflitos e 24% e 21% respectivamente para as opções “os envolvidos devem ser suspensos” e
“os envolvidos devem „pagar‟ pelo mal que fizeram”.
Fernández (2001) explica que somente pelo diálogo podemos construir (re)construir e (des)construir
ações concretas para o enfrentamento das violências por intermédio da autonomia e autoria do pensamento
que é construído pelas relações de cooperação,de troca mútua e, não de passividade diante de informações
impostas e massificadas no nosso cotidiano.
4. Conclusão
Os conflitos, bem como os sentimentos envolvidos nestes momentos, devem ser trabalhados na
relação pedagógica. Se os conflitos produzidos em sala de aula não forem trabalhados na condição que
favoreçam a sensibilidade moral, a tomada de consciência, o desejo de superar limites, a compreensão do
respeito aos limites, a internalização de sentimentos, de cooperação, reciprocidade, tolerância e abertura ao
diálogo: a construção de personalidades morais autônomas não será concretizada, e continuaremos assistindo
o assombroso aumento das violências dentro do ambiente escolar e na sociedade como um todo.
Entendemos que nosso trabalho demonstra que não podemos ser indiferentes perante essas situações
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de violências e nem ser intimidados pela complexidade do assunto em meio à realidade posta no ambiente
escolar. Acreditamos ainda que ele possa vir a contribuir com debates sobre as práticas pedagógicas que
vivenciamos, e alertar sobre a necessidade de se consideram os conflitos que surgem dentro da escola como
momentos de aprendizagem, buscando um ambiente mais harmonioso e menos violento.
Referências
ARAÚJO, Ulisses; PUIG, Josep; AMORIM, Valéria (org). Educação e valores: pontos e contrapontos. São
Paulo: Summus, 2007.
CUNHA, Jorge Luiz da e DANI, Lúcia Salete Celich (orgs). Escola, conflitos e violências. Santa Maria: Ed.
da UFSM, 2008.
FANTE, Cleo. Fenômeno Bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. 2.ed.
Campinas, SP: Verus, 2005.
SASTRE, Genoveva & MORENO, Montserrat. Resolução de conflitos e aprendizagem emocional: gênero
e transversalidade. São Paulo: Moderna, 2002.
TOGNETTA, Luciene Regina Paulino; VINHA, Telma Pileggi. Estamos em conflito: Eu,comigo e com
você! Uma reflexão sobre o Bullying e suas causas afetivas. IN: CUNHA, Jorge Luiz; DANI, Lúcia Salete
Celich (orgs). Escola, conflitos e violências. Santa Maria- RS: UFSM, 2008.
VINYAMATA, Eduard. Aprender a partir do conflito: conflitologia e educação. Tradução Ernani Rosa.
Porto Alegre: ArtMed, 2005.
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Maria Cecília Martins Manckel1*; Aimara Vilane Bolsi 1; Caroline Foletto Bevilaqua1 ; Eliziane Tainá
Lunardi Ribeiro1 ; Gabriel dos Santos Kehler 1 ; Letícia Ramalho Brittes1; Liliana Soares Ferreira1
1
UFSM- Universidade Federal de Santa Maria
1. Introdução
2. Método
3. Resultados e Discussão
Com base nas análises das entrevistas, percebeu-se nos discursos dos pedagogos a maneira como
descrevem o cotidiano de seu trabalho, referenciando as dificuldades encontradas na realidade da sala de
aula. Considerando o fato de que, a categoria dos pedagogos pesquisados constituem-se predominantemente
pelo sexo feminino, percebe-se, mesmo que não de forma explicita o modo como as professoras
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Quero propor uma escola como um lugar de síntese entre a cultura experienciada que
acontece que acontece numa cidade, nos meios de comunicação, e muitos outros aportes
culturais, e a cultura formal. (...) Ver a escola como “espaço de síntese” é considerá-la
como lugar onde os alunos aprendem a razão crítica para poderem atribuir significados às
margens e informações recebidas das mídias e formas d intervenção educativa urbana. A
escola deve ir se tornando uma estrutura possibilitadora de contribuição de significados à
informação, propiciando aos alunos meios de buscá-la, analisá-la, para derem-lhe
significado pessoal.[2]
O grupo considera como parciais esses resultados, pois os grupos de interlocução ainda continuam a
acontecer abalizados nesse primeiro momento da pesquisa, considerando os discursos dos pedagogos
verificamos que o “ser” professor em si já é motivo da representação dessas professoras como sujeito
trabalhador e possui maior prestigio do que o trabalhador da educação. Nota-se que se o entendimento do
que é trabalho acontecesse como afirma [ 3],
Questões evidenciadas nos discursos das professoras como, incompletude, falta de auto-
reconhecimento, individualismo, não se fariam presentes em sua prática pedagógica no seu projeto
pedagógico individual. Em razão disso, o grupo continua estudando esta “dissociação”, por entender ser
necessário um maior entendimento das relações intrínsecas entre ser professor e trabalhar como professor.
4. Conclusão
Ao sistematizar o entendimento que se tem sob o trabalho dos pedagogos e da Pedagogia como
ciência, pode-se previamente concluir que os sujeitos da pesquisa possuem um entendimento diferenciado
sobre a Pedagogia como Ciência uma concepção que se aproxima de um entendimento positivista, vindo de
encontro com os autores estudados pelo grupo de pesquisadores e também não se percebem como
trabalhadoras, compreendendo seu trabalho apenas como algo quase que “mecânico”.
Enfim, após o desenvolvimento das primeiras etapas do presente projeto, conclui-se que se faz
necessária a continuidade dos estudos relativos à Pedagogia como Ciência e o trabalho dos professores.
Justifica-se porque se observou a falta de entendimento sobre os aspectos mencionados logo acima e a
carência de um espaço-tempo para os professores dialogarem, refletirem sobre suas práticas no grupo
(escola) e de forma individual (sala de aula), ou seja, se enxergarem como pesquisadores de sua própria
práxis.
Referências
[2] LIBÂNEO, J.C. “Ainda as perguntas: o que é pedagogia, quem é o pedagogo, o que deve ser o curso de
Pedagogia” IN: PIMENTA, S. G. (Org.) Pedagogia e pedagogos: caminhos e perspectivas. São Paulo:
Cortez, 2002
[3] FERREIRA, L. S. “Gestão do pedagógico: de qual pedagógico se fala?” In: Currículo sem Fronteiras,
Currículo sem Fronteiras, v.8, n.2, p.176-189, Jul/Dez 2008.
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1.Introdução:
As crianças das camadas populares têm a mesma capacidade de aprender. Não significa que só
porque seus pais não valorizam a aprendizagem da leitura e da escrita, que o aluno por este motivo não
consiga ser alfabetizado, daí a relevante importância da escola e do professor para suprir essas carências.
Cabe a escola cobrir essas lacunas na educação dessas crianças e o quanto mais cedo melhor, para
que não cheguem ao ponto de serem consideradas com “dificuldades de aprendizagem”, por simplesmente
não terem sido incentivadas desde cedo pelos seus pais ou profissionais da educação.
Por isso, este artigo vem de indagações feitas a partir de um olhar individualizado de crianças que
tem dificuldades de aprendizagem, em uma escola estadual da cidade de Santa Maria, no estado do Rio
Grande do Sul. Onde nesta instituição, está inserido o projeto chamado de “Laboratório de Alfabetização:
Repensando a formação de professores”,desenvolvido pelo Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação
Inicial, Continuada e Alfabetização.
O foco foi dado nos métodos utilizados na alfabetização, com seus respectivos processos de construção e
sobrepostos nas dificuldades de aprendizagem, como a exclusão, o insucesso escolar e o fracasso e no papel
individualizado que o educador oferece para cada educando, onde muitos estão sendo violentados na escola
ou na família. Tendo como referencial teórico, Aquino (2005, p.7), Azevedo e Guerra (1997, p.30), Bogdan;
Biklen (1994, p.9), Cardoso, (1999, p.44), Ferreiro (1987, p.34), Guerra (1997, p.17), Guyton (1993, p. 89),
Grando (1999, p.7), Nunes (2004, p.25), Soares (1986, p.45) e Souza (1995, p. 25)
Abordaremos algumas problemáticas que foram encontradas por nós, na prática do projeto já
mencionado acima, pois muitas vezes crianças tolhidas por uma dificuldade de aprendizagem na maior parte
das vezes têm comprometido seu desempenho escolar. E isto, é visto muito claro por nós, na prática nesta
escola. Por isso, o objetivo deste artigo é mostrar que as dificuldades de aprendizagem têm inúmeras causas
relacionadas com vários fatores que são desde as relações familiares, a metodologia adotada em sala de aula,
como as violências que as crianças são submetidas e as privações sócio-culturais de várias esferas.
A partir de problemáticas que foram encontradas por nós, na prática do projeto já mencionado a
cima, pois muitas vezes crianças tolhidas por uma dificuldade de aprendizagem na maior parte das vezes têm
comprometido seu desempenho escolar, com o conseqüente fracasso escolar. Houve vários nomes técnicos,
mas acreditamos que isso não vem ao caso, neste momento. Na verdade, o que se sabe é que nunca há uma
causa única para o fracasso escolar, mas sim uma conjunção de fatores que interagem para que isto aconteça.
Segundo Guyton (1993, p. 89) [1], “a origem da categoria das dificuldades de aprendizagem, como
hoje é conhecida, desenvolveu-se a partir do conceito de crianças com lesão cerebral”. Reconhecer quando
uma criança apresenta dificuldade de aprendizagem, já é o primeiro passo para não rotulá-la. Os rótulos
exercem efeito negativo entre as crianças, mas reconhecer que existe capacidade e que algo pode ser feito já
é de grande relevância. Quando pais e escola oferecem compreensão e ajuda adequada, muitas crianças
demonstram melhora acentuada e sensível redução nos conflitos emocionais resultantes do contínuo fracasso.
Por isso, com a alfabetização não é diferente, não é colocando as crianças muito novas na escola,
sem nenhum suporte para a alfabetização que se terá uma criança alfabetizada, isto acaba só reforçando a
exclusão e o insucesso escolar. A criança talvez seja vista em situação de fracasso pelos professores e
colegas, tendo como conseqüência o insucesso escolar e a exclusão dos mesmos.
No campo educacional, segundo Souza (1995, p. 25) [2], “a palavra insucesso escolar, significa
insucesso num exame, bem como o afastamento definitivo da escola provocado por repetências sucessivas”.
Podemos considerar que muitos fatores podem interferir no insucesso escolar de uma criança, a
família, o meio em que vivem a escola, a cultura, a sociedade e a desigualdade existente, que já chega ou é lá
dentro descoberto que ela tem algum tipo de dificuldade em aprender determinadas coisas, que acabam não
fazendo a mesma passar para um próximo nível.
383
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Poderíamos dizer que o educador, tem que ser observador, crítico, amigo e saber entender e passar
para seus alunos mais adiantados que eles podem ajudar seus colegas, mostrando para aquele que repete o
ano, que tem dificuldades que ele não é inferior aos outros e que ele tem suas individualidades e qualidades
próprias para transmitir para os outros colegas.
É de significativa importância à contribuição de Soares (1986, p.45) [3], “o trabalho escolar, segundo
a maneira como fosse praticado, poderia diminuir ou aumentar a discriminação social e o insucesso escolar,
com as devidas conseqüências, a exclusão”.
Uma das conseqüências, consideradas por nós, foi à exclusão social e na escola, que com estas
crianças está acontecendo. Por mais que ela comece muito cedo, ela tem raízes na pobreza, na moradia
inadequada, mas algumas ainda enfrentam obstáculos adicionais, como a dificuldade na aprendizagem, a
repetência que vem juntamente com o insucesso escolar, onde vivem alguns tipos de violência praticados
dentro da família e da escola.
A criança deve ter motivação, pois a motivação atua na aquisição e consolidação da memória, e se
esta estiver desviada para um lado de desprazer e desmotivação a aprendizagem da criança será prejudicada,
tendo como resultado o insucesso escolar e a exclusão. Por isso, educadores e pais devem motivar seus
filhos, com didáticas e materiais diferenciados ou construídos por eles próprios.
Neste momento, mostraremos algumas ressaltas que devem ser reconhecidas e trabalhadas pelos
alfabetizadores com seus educandos. Explorarei um pouco dos aspectos sociológicos, funcionais e estruturais
para a formação da alfabetização no contexto da criança, conforme a autora Ferreiro (1987),nos traz.
No aspecto sociológico, segundo Ferreiro (1987) [4], “a função da alfabetização é diferente”. A
classe média urbana necessita muito da alfabetização, valoriza e incentiva seus filhos, normalmente os pais
são seus primeiros professores. Nas camadas populares, eles não convivem com pessoas leitoras e não são
incentivadas a se alfabetizar, antes de entrar na escola. “O sistema escolar pode aumentar ou diminuir, as
probabilidades de sucesso, mas o papel da família e do professor é de fundamental importância diante do
insucesso escolar”.
Nos aspectos funcionais, segundo Ferreiro (1987) [4.1], “é necessário saber o que a linguagem
escrita representa e para que serve, muitas crianças acreditam que se escreve como o desenho”, pois
dificilmente as crianças de camadas populares convivem com pessoas que lêem para elas, aumentando assim
esta dificuldade de compreensão. Por isso, é importante que na escola eles encontrem profissionais dispostos
a fazer este papel (leitor) e tenha mecanismos e recursos didáticos para que isto aconteça da melhor forma e
mais prazerosa possível para o aluno.
Como diz Ferreiro (1987) [4.2], “no aspecto estrutural, é de grande relevância considerar os aspectos
da linguagem escrita, conhecimentos lógicos”. O alfabeto de parede é o primeiro livro do aluno e deve conter
todas as variantes ortográficas possíveis para que o mesmo não construa no futuro hipóteses erradas e muito
difíceis, como nos encontros consonantais.
Outra reflexão importante e que deve acontecer com cada educador, é a violência que está ocorrendo
com as crianças no âmbito familiar e escolar, onde a infância está sendo destruída e deixada apenas como
um mundo imaginário para os pequenos. Paralelos a este sonho encontram-se crianças sendo violentas de
várias formas. Sendo mostradas neste trabalho, através destes tipos de violência as conseqüências que as
mesmas podem causar para a criança.
A escola tem sido reconhecida como um lugar de diferentes manifestações da violência. Em
oposição à família, não é um espaço privado, e, portanto toda a manifestação de violência que nela ocorra
merece ser objeto de atenção e cuidado dos profissionais envolvidos na atividade pedagógica. Onde Aquino
(2005, p.7) [5] nos lembra, “que ambas as instituições, família e escola, são estruturas historicamente
reconhecidas como as principais responsáveis pela educação de crianças e jovens”.
É possível perceber que a violência, em sentido amplo, esta sendo um elemento comprometedor da
plena realização das atividades pedagógicas na escola. Devemos considerar que a escola é um dos espaços
que se manifestam todos os tipos de violência, trazendo para as mesmas conseqüências como a bullying, que
é um fenômeno multicausado, pode ser encontrados casos em diferentes ambientes. Existem muitas crianças,
que experimentam pressões, opressões, intimidações, e não esquecendo daquelas que estão sendo cometidas
no lar e que são levadas suas conseqüências para dentro dos muros da instituição escolar.
A escola e seus profissionais precisariam trabalhar mais as relações intra-pessoais de cada estudante
e de si próprios. Uma boa atividade para os professores seria fazer atividades que seus alunos pudessem falar
sobre o que sentem e como se sentem. O maior papel do professor contra a violência cometida sobre as
crianças, é de se conscientizar que ele é uma peça fundamental para a dissolução e tentar acabar
definitivamente com estes tipos de violência. Sendo que, o objetivo da escola atual é para a preparação para
o exercício da cidadania, mas o que as escolas deveriam cuidar é como os seus alunos estão enfrentando a
sua própria infância, para só depois se preocuparem em formar cidadãos para uma cultura de paz.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Podemos imaginar que uma criança possa sofrer vários tipos de violência, podendo ser sexual,
psicológica, física ou até mesmo negligência de seus responsáveis. Por isso, além de conhecer seus conceitos
devemos dar maior importância às conseqüências que serão levadas para este grupo de inocentes.
A violência física seria a forma mais praticada no convívio doméstico, podendo começar com alguns
tapinhas dados pelo familiar com a justificativa de levar aquela criança a ter uma boa conduta, frente à
sociedade. Para Grando (1999, p.7) [6], “a criança vitima de violência física representam uma infância ou
adolescência em perigo porque costumam correr riscos de vida em função das medidas disciplinares
impostas”. Ocasionando agressão, temor dos pais, mudança de atitude.
A violência sexual não pode ser entendida somente na relação agressor - vitima; ela é uma questão
de contexto familiar, onde todos os seus membros estão envolvidos e comprometidos. Para Azevedo e
Guerra (1997, p.30) [7], “a violência sexual é todo o ato ou jogo sexual, relação heterossexual ou
homossexual, entre um ou mais adultos e uma criança menor de 18 anos, a finalidade estimular sexualmente
a criança ou o adulto”. É constante o problema de aprendizagem na escola, e visivelmente o seu
comportamento na sala de aula, que muda constantemente.
A violência psicológica apresenta-se de diversas formas, é também chamada de “tortura
psicológica”, evidencia-se como a interferência negativa do adulto sobre a criança e sua competência social,
conformando um padrão de comportamento destrutivo. A violência psicológica, não tem um gênero
determinante, mas é uma das formas mais comuns de violência praticados contra crianças e uma das mais
difíceis de ser detectadas.
Muitas vezes é negligenciado, é que a violência psicológica, embora também ocorra de forma
isolada, esta sempre presente em toda e qualquer caso envolvendo outras formas de violência, no sentido de
que nessas situações haverá sempre o sofrimento psíquico para a criança.
Este tipo de violência constantemente é considerado como uma forma mais leve de violência, mas
como Cardoso nos fala ela também consiste em conseqüências extremas. No entanto sabemos como “os seus
efeitos podem ser nocivos sobre a saúde física e mental de uma criança, com conseqüência de um grave
distúrbio psicológico, que pode comprometer vários aspectos da vida da criança ou futuro adulto”
(CARDOSO, 1999, p.44) [8].
Já a negligência presente em muitas famílias é um tema controvertido, pois esta relacionada com as
condições estruturais da sociedade. Para Azevedo e Guerra (1997, p.17) [9], “definem negligência quando os
pais ou responsáveis falham em termos de alimentar, de vestir adequadamente. E quando tal falha não é
resultado das condições de vida além de seu controle”.
As crianças negligenciadas sem tratamento podem sofrer a ausência ou a insuficiência crônica de
cuidados nos níveis de saúde, psicológico, afetivo e cognitivo. Elas podem ser mal alimentadas, sujas, mal
vestidas, deixadas sem supervisão durante longos períodos, privada de afeto dos pais, ignorada e rejeitada.
Acriança negligenciada com falta de higiene,assim como sua roupa suja,desperta rejeição por parte dos
adultos e, sobretudo de seus colegas de escola,seu aspecto e seu odor podem afastar todos que estão à sua
volta,ampliando as conseqüências da negligencia afetiva intra-familiar pelo isolamento social. Elas acabam
sendo vitimas prediletas de abusos sexuais e outros tipos de violência.
2.Método
A metodologia utilizada foi à pesquisa qualitativa, segundo os estudos de Bogdan; Biklen (1994,
p.9) [10]. O trabalho realizado pelo grupo de pesquisa consiste em dar aulas individualizadas para crianças
consideradas com dificuldades de aprendizagem em uma escola municipal localizada no municio de Santa
Maria.
Onde educadoras participantes do projeto, realizam atividades com o apoio de jogos educativos
individualmente com as crianças. Trabalhando assim as dificuldades específicas que cada criança tem na
lecto-escrita. Tentando amenizar essas dificuldades citadas acima, onde varias crianças participantes vivem
no seu dia-a-dia.
3. Resultados e Discussões
Apesar de todos estes relevantes problemas, consideramos que além da individualização do trabalho
que está sendo realizado pelo grupo, consideramos de alta relevância a importância dos métodos utilizados
para o ensino destas crianças.
A pesquisa esta em processo de conclusões de resultados, por isso eles estão em aberto. E é nesta
perspectiva, que foi possível verificar a importância que tem o apoio pedagógico individual para as crianças
com dificuldades de aprendizagem. E para aquelas que sofrem violência no âmbito familiar.
Com os estudos realizados até o momento, verifica-se a grande importância de conhecer o processo
de construção da leitura e da escrita, bem como dos jogos e o apoio pedagógico realizados com as crianças
385
I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
que possuem dificuldades de aprendizagem. Em nosso trabalho realizado pelo Projeto Laboratório de
Alfabetização cujo está dentro do Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação Inicial, Continuada e
Alfabetização (GEPFICA), percebe-se a grande satisfação das crianças em terem como recurso didático os
jogos e as brincadeiras, pois é através desse meio que elas podem socializar-se e organizar seus
conhecimentos, ganham atenção e compreensão dos educadores.
4. Conclusão
A análise feita até aqui, reforça a idéia de que a violência infantil deveria receber uma maior atenção
dos profissionais da educação e receber não apenas o apoio de outros educadores, mas de toda a
comunidade, mais também que eles juntos consigam encontrar soluções para a disseminação deste
problema.
Acho importante esta reflexão por permitir enxergar além dos tipos de violência que são cometidos
sob as crianças, mas também conseguir ver suas conseqüências no âmbito educacional e familiar.
Por fim, o enfrentamento dos problemas relacionados à violência, tanto na escola como na família,
sugere uma reflexão sobre o papel que cada individuo envolvido está desempenhando e que deveria estar
desempenhado na sociedade. Papéis este na família, na escola e conceitos que cada um tem de infância,
família e violência.
Seria ingênuo procurarmos receitas para a erradicação total da violência, mas tenho a convicção de
que se faz urgente a busca por alternativas para a sua superação mesmo que parcial. O comprometimento
docente e da família faz-se senhor neste processo que não deve ser pensado em curto prazo, mas sim em
espaço de tempos duradouros que contemplem todo um contexto de formação humana.
Além disso, acredito ser importante a escola e a família terem um papel crítico durante todo o
período de alfabetização da criança, para que ela consiga sanar suas dificuldades. Portanto, a escola deve
tratar cada criança com suas particularidades, pois o processo de alfabetização se da de maneira diferenciada
de criança para criança. Cabe ao professor perceber essas diferenças e ver se certo aluno está com
dificuldades de aprendizagem e procurar métodos mais adequados para que aquele aluno consiga aprender o
conteúdo.
Referências:
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
Resumo
O objetivo deste trabalho é o de apresentar a perspectiva dialética que Vigotski utiliza para
compreender o processo de desenvolvimento humano. Este autor considera que este processo se
efetiva a partir das relações que as pessoas estabelecem com seu meio sócio-cultural, internalizando e
desenvolvendo uma série de instrumentos simbólicos – as funções psicológicas superiores – que
passam a mediar o comportamento. O desenvolvimento de todas as funções psicológicas superiores, é
um processo extremamente pessoal e, ao mesmo tempo, um processo profundamente social. Esta
experiência – social, cultural, histórica - possibilita à criança dominar e apropriar-se dos instrumentos
culturais como a linguagem, pensamento, conceitos, ideias, etc. que se desenvolvem ao longo da sua
história, da história das relações que estabelece com o universo social. Disto resulta o resgate da
importância do educador em criar as condições para que tais processos se consolidem.
Palavras-chave – Desenvolvimento humano. Dialética. Vigotski
Abstract
The objective is to present a dialectical perspective that Vygotsky uses to understand the process of
human development. This author believes that this process is effective from the relationships that
people establish with their socio-cultural, internalizing and developing a series of symbolic
instruments - the higher psychological functions - which are mediating the behavior. The development
of all higher psychological functions, is an extremely personal and at the same time, a profoundly
social process. This experience - social, cultural, historical - enables the child to master and
appropriate the cultural tools such as language, thought, concepts, ideas, etc.. that develop throughout
their history, the history of the relations established with the social universe. It follows the rescue of
the importance of educators to create the conditions for such processes are consolidated.
Keywords – Human development. Dialetic. Vygotsky.
1. Introdução
O olhar deste estudo tem a intenção de explorar a perspectiva dialética que Vigotski utilizou
para estudar o processo de desenvolvimento humano. No contato com a obra deste autor vamos
encontrar vários conceitos que são apresentados de forma esparsas e aparentemente desconexos.
Assim, nosso objetivo é de articularmos alguns conceitos vigotskianos, o que nos ajudará a
compreender um pouco melhor a proposta de Vigotski acerca dos estudos deste processo.
Cabe lembrar, num primeiro momento, que um dos principais objetivos da obra de Vigotski
foi caracterizar o desenvolvimento das funções psicológicas superiores (VYGOTSKY, 1991). Suas
preocupações estavam postas no estabelecimento das diferenças entre os processos de
desenvolvimento das funções psicológicas elementares (próprias dos animais) e das funções
psicológicas superiores (aquelas que se desenvolvem ao longo do processo do desenvolvimento
humano tendo em vista as relações que se estabelecem entre os seres humanos). Em suas
considerações, e sob a influência da obra de Marx/Engels e do materialismo histórico dialético,
assinala que as origens das formas superiores do comportamento (lembrar, comparar, falar, pensar,
*
Autor Correspondente: [email protected]
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
2
memorizar, etc.) deveriam ser estudadas a partir das relações sociais que os indivíduos estabelecem
com o meio social em que vivem.
Para ele (VYGOTSKY, 1994) o meio social é fonte de desenvolvimento. Ele oferece os
momentos de experiências e aprendizagens resultantes da interação da criança com a cultura, com os
adultos e da apropriação dos signos e símbolos. Esta relação se amplia e se modifica num processo de
construção e reconstrução do pensar mais elementar ao mais complexo, estabelecendo-se, assim,
modificações no desenvolvimento tanto no sentido quantitativo quanto no qualitativo.
Isto significa dizer que ao longo do processo de desenvolvimento, na medida em que as
crianças vão se apropriando dos “instrumentos culturais”, elas deixam de responder impulsivamente às
estimulações do meio, suas respostas passam a ser mediadas por símbolos ou “instrumentos”
simbólicos, apropriados a partir das relações sociais.
Esse desenvolvimento representa uma ruptura fundamental com a história natural do
comportamento e iniciam a transição das funções elementares do comportamento para as atividades
intelectuais superiores. As mudanças na estrutura do comportamento da criança relacionam-se às
alterações básicas de suas necessidades e motivações com o auxílio da fala. As operações com signos
aparecem como resultado de um processo prolongado e complexo.
Tais transformações, segundo Vigotski, criam novas condições para o aparecimento de novas
mudanças, próprias de uma determinada etapa do desenvolvimento, que são em si mesmas
condicionadas pelos estágios anteriores; desta forma, as transformações estão ligadas como estágios de
um mesmo processo e são, quanto a sua natureza, históricas. A história do comportamento da criança
nasce do entrelaçamento de duas linhas – entre o nível elementar e os níveis superiores. Neles existem
sistemas psicológicos de transição, que Vigotski estuda dialeticamente.
A compreensão de Vigotski acerca do contato da criança com o meio denota a sua concepção
dialética do desenvolvimento, caracterizada por conexões, avanços e retrocessos, por fases de
estabilidades entrecortadas por momentos de crises, de idas e vindas.
Com base nas idéias de Blonski, Vigotski afirma: os períodos de desenvolvimento são
marcados por períodos de estabilidade (caracterizados por mudanças graduais e lentas) e por períodos
de crise. Estes períodos – de estabilidade e de crise – se intercalam ao longo do processo de
desenvolvimento, caracterizando-se enquanto um processo dialético, onde a superação de um estágio
para outro se efetiva de forma revolucionária. Vigotski (1995) caracteriza o desenvolvimento infantil
identificando os momentos de estabilidade e os momentos de crise.
O desenvolvimento humano é para ele um “processo contínuo de auto-propulsão
caracterizado, principalmente, por um aparecimento contínuo de novos estágios que não existiam em
fases anteriores” (VYGOTSKI, 1995, p. 254). Cabe registrar que estes momentos de mudanças e crise,
muitas vezes considerados de forma negativa, têm para Vigotski um caráter positivo, uma vez que tal
situação potencializa o desenvolvimento, uma vez promove a reorganização processo de
desenvolvimento em novos patamares, diferentes daqueles que era posto anteriormente.
A partir das considerações anteriores podemos dizer que o processo de desenvolvimento é
marcado por uma série de mudanças ao longo da vida dos indivíduos, marcado por momentos de
estabilidade e momentos de crise, o que nos indica o olhar dialético e histórico de Vigotski sobre o
desenvolvimento. Dizer que a relação da criança com o meio se modifica, significa assinalar que o
próprio meio já é distinto e, portanto, o curso do desenvolvimento da criança mudou – pois se tem
chegado a um novo momento em seu desenvolvimento.
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I Congresso de Iniciação Científica de Pós-Graduação - Florianópolis (SC) - setembro 2010
3
ambiente – com o adulto, pares mais desenvolvidos – passa por determinadas situações em que ela
se desenvolve, ela se modifica.
A partir do início da vida da criança, os adultos, de certa forma, determinam os modos como à
criança se relaciona com o meio: eles a carregam de um lado para o outro, mostram esta ou aquela
“paisagem”, oferecerem um conjunto de palavras e significados – apesar do comportamento infantil
indicar uma forte necessidade de se comunicar, a criança não tem o discurso que atinja este comunicar.
Com o domínio progressivo da linguagem, esta relação com o adulto se modifica, a criança começa a
dirigir a sua própria ação e a interferir na vida dos adultos – ela desenvolve a fala autônoma, ela pode
se comunicar com os adultos em um novo patamar de compreensão. A situação social do
desenvolvimento – representada pelas situações onde a criança se apropriou da linguagem – mudou a
relação que a criança estabelece com o meio social uma vez que a fala autônoma infantil, embora
limitada, abre as portas no desenvolvimento da criança para dialogar com o adulto.
Vigotski descreve a situação social de desenvolvimento como a gênese, um „momento inicial‟
para todas as dinâmicas de desenvolvimento das mudanças em um determinado período. Esta situação
de desenvolvimento determina as relações entre a criança e o meio, dela surge e se desenvolve as
novas formações próprias da idade. Isto significa dizer que nos períodos das idades, ocorre uma
reconstrução no processo de desenvolvimento infantil, marcada inicialmente por uma situação social
de desenvolvimento, e que ao final de uma idade dada, a criança se converte num ser completamente
distinto do que era ao princípio da mesma.
“As forças que movem o desenvolvimento da criança, em uma ou outra idade, acabam por
negar e destruir a própria base de desenvolvimento de toda idade” (VYGOTSKI, 1995, p. 265),
gerando crises, pois o avanço no desenvolvimento expressa um processo interno e externo de
mudanças. A crise resume-se na reestruturação das necessidades da criança com o meio. Os novos
motivos, as novas necessidades e impulsos ganham novos significados e valores para a criança que
promoverão arranjos e rearranjos da etapa seguinte. Fatalmente, surgirão novas atividades, novos
valores e sínteses como motores da próxima etapa.
Ao longo deste processo de desenvolvimento vão ocorrer mudanças nas relações das funções
psicológicas superiores. Cada idade vai se caracterizar por um tipo de relação diferente. As situações
de crises revelam a dinâmica do processo do desenvolvimento ao promover mudanças radicais nas
articulações entre as funções psicológicas que estão em jogo.
Em 1930, Vigotski vai introduzir em suas reflexões uma noção que redireciona seu olhar sobre
as relações entre as funções psicológicas superiores e, consequentemente, sobre sua compreensão do
processo de desenvolvimento infantil. Trata-se da noção de sistema funcional (VIGOTSKI, 2004).
[...] o que muda não são tanto as funções [...], nem sua estrutura, nem sua
parte de desenvolvimento, mas o que muda e se modifica são precisamente as
relações, ou seja, o nexo das funções entre si, de maneira que surgem novos
agrupamentos desconhecidos no nível anterior (VYGOTSKY, 2004, p. 105).
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4
de mudanças de conexões entre as funções psicológicas. É dentro deste contexto que ele afirma a
importância dos signos no processo de articulação das funções psicológicas.
Isto significa dizer, no que tange ao processo de desenvolvimento, essas mudanças expressam
não só uma nova forma da criança se relacionar com o meio social e consigo mesma, mas também um
novo arranjo entre as funções psicológicas superiores – novas conexões serão produzidas.
5. Considerações Finais
6. Referências
VIGOSTSKI, Lev S. Sobre os sistemas psicológicos. In: Teoria e método em psicologia. 3ª. ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2004.
VYGOTSKI, Lev S. El problema de la edade. In: Obras escojidas IV: Psicología infantil. Madrid:
Visor, 1995. p. 251-273.
VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. 3 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
VYGOTSKY, Lev S. The problem of the environment. In. R. van der Veer & J. Valsiner (Eds.) The
Vygotsky Reader. Cambridge, M. A.: Backweell, 1994. p. 338-354.
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1. Introdução
Com o presente trabalho, busca-se tornar público os resultados preliminares do grupo de pesquisa
Aquisição, aprendizagem e processamento da linguagem oral e escrita, vinculado ao Departamento de
Pedagogia da Universidade do Estado de Santa Catarina e devidamente cadastrado no Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq. Dentre as atividades desenvolvidas no primeiro
semestre de 2010, realizou-se, junto às instituições da educação básica, mediante ações realizadas nas
disciplinas de Didática II e Prática e Pesquisa Pedagógica II, uma pesquisa envolvendo os conhecimentos
didáticos e os processos de alfabetização e letramento, visando a observar como os professores das séries
iniciais do ensino fundamental percebiam a (não) importância de métodos e técnicas para ensinar as crianças
a ler e a produzir textos de maneira autônoma e criativa, procurando refletir acerca da relação entre educação
e sociedade, bem como verificar as atuais contribuições da Didática para esses processos.
Qual (is) metodologia (s) é (são) utilizada (s) pelos professores para possibilitar a aquisição da leitura
e a produção de textos? É a Didática relevante para o alcance de tão complexa tarefa? A partir dessa
problemática, intencionalmente, considera-se imprescindível que, através de trabalhos dessa natureza, os
professores possam criar alternativas didático-pedagógicas capazes de contribuir para a resolução da seguinte
situação:
Alunos brasileiros estão entre os mais reprovados de ano no mundo, só perdendo para as turmas de
Suriname, Nepal e um grupo de 12 países da África; 597 mil crianças permanecem fora da escola; índices de
analfabetismo funcional são em torno de 76 % entre os adultos de 15 e 64 anos. [2, 3]
Isto posto, ressalta-se que, além de difundir os trabalhos do supramencionado grupo de pesquisa, a
expectativa é contribuir para a melhoria dos processos de ensino e aprendizagem no que se refere à aquisição
da lecto-escrita na educação básica, especialmente no ensino fundamental.
2. Método
Adotou-se a abordagem qualitativa, sendo o método dialético o fio condutor de todo processo,
entendendo o conflito, a dissidência e a escola – espaço de negociação constante – como elementos
constitutivos do ato de pesquisar.
Vale ratificar que o objetivo principal foi compreender como as professoras entrevistadas, numa
instituição escolar da rede municipal de ensino da cidade de Florianópolis, percebiam a importância, ou não,
dos conhecimentos didáticos para alfabetizar crianças do ensino fundamental, séries iniciais. Foram
realizados seis encontros de três horas semanais, entre o segundo semestre de 2009 e o primeiro semestre de
2010. Utilizou-se para os registros das informações, dados, saberes e conhecimentos do grupo um diário de
campo, o qual também se constituiu num instrumento de análise e reflexão das pesquisadoras.
A seguir, os resultados, ainda preliminares, dessa investigação.
3. Resultados e Discussão
As mudanças nos pensamentos sobre educação e nas práticas educativas acompanham o pensar e o
agir da sociedade. Sociedade esta que, em um mundo globalizado e dividido em classes, toma proporções
imensuráveis. Se for admitido que, historicamente, a educação sempre teve como horizonte um modelo de
cidadão ou de homem a ser formado em determinados “tempos” históricos, então se faz premente pensar
sobre a educação que se pretende para a sociedade deste tempo e, mais pretensiosamente, para os anos
futuros mais longínquos da humanidade. Eis aí um dos grandes desafios da Didática: pensar procedimentos
de ensino para além da aplicação de métodos e técnicas. [4, 5, 6, 11, 21]
Nesta perspectiva, admitindo que a educação e a sociedade estabelecem relações diretas, a Didática
transcende seus limites tradicionalistas arraigados apenas ao modo como se faz educação e passa também a
refletir sobre para que sociedade se faz educação, ou a que sociedade a educação deve servir. Aliado a essas
preocupações do campo da Didática, associa-se a atual e histórica centralidade da educação no bojo das
preocupações, das mazelas e das esperanças sociais.
Considerando-se que os tensionamentos entre educação e sociedade recaem, sobremaneira, sobre as
atuais demandas do campo da Didática, nota-se que o modo como se faz educação tem relação direta
também com o objetivo desta educação. Isto significa estabelecer um diálogo profícuo entre objetivo e
*
[email protected]; [email protected]
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metodologia. A Didática, portanto, está para além da busca por procedimentos e métodos de ensino ou por
classificação de tendências pedagógicas. Além dessa preocupação, certamente há aquela referente aos
conteúdos a serem trabalhados, aos objetivos (à intencionalidade pedagógica), à relação professor-aluno, às
atividades promovidas, às interações estabelecidas entre objeto de estudo, aluno e professor, entre outros
aspectos fundamentais vinculados ao ato de se ensinar e de se promover a aprendizagem.
Não obstante, as professoras entrevistadas – embora não demonstrando uma clara percepção dessa
nova configuração da Didática –, manifestaram um interesse por uma didática capaz de traduzir a relação
extremamente complexa entre a educação e a sociedade, principalmente quando se tratar da formação de
indivíduos pertencentes à classe social menos favorecida ou de ambas as classes num mesmo espaço de
ensino, tendo em vista que a cultura escolar instituída “pertence” ao grupo mais favorecido economicamente.
Para algumas dessas professoras, porém, independente da discussão de classes, é uma tarefa árdua fazer os
estudantes aprenderem a ler a e escrever, entre os motivos estão as mudanças cruciais na estruturação da base
familiar, a falta de exemplos/modelos de leitores e escritores próximos às crianças, a escola sem condições
de atender a esses novos desafios e demandas.
Segundo as professoras, muitas críticas são feitas aos livros didáticos em relação aos textos e ao
exercício de compreensão dos mesmos, por exemplo, no entanto poucas são as iniciativas que as ajudam a
ensinar os estudantes pobres, do ponto de vista econômico, à difícil arte de ler e (re)escrever criativa e
autonomamente o mundo e as palavras, compartilhando e ressignificando o mundo e as palavras lidas em
prol de uma transformação que tenha como foco uma vida melhor para todos. Para elas, falta material
referente ao como fazer para alfabetizar as crianças, que não priorizem o aprendizado mecânico, repetitivo e
sem sentido para os alunos ou que abordem questões não desafiadoras, acríticas e sem ludicidade.
No bojo do debate acerca dos métodos e técnicas para a alfabetização e o letramento, as professoras
também apontaram como relevante pensar sobre a diferença entre o professor-alfabetizador e o educador-
alfabetizador. Pergunta-se: – Há de fato diferenças consubstanciais entre ser professor e ser educador? Tais
termos portam ideias diferentes acerca do que constitui um profissional da educação? Para as professoras, o
modo como pensa um professor diverge do modo como pensa um educador. Elas acreditam que um
professor poderá buscar apenas métodos e técnicas pelos métodos e técnicas pura e simplesmente, enquanto
que um educador, ao buscar uma metodologia diferenciada, pensará nas questões que a envolve, se ela
promoverá ou não a criatividade, a liberdade de expressão entre outras questões, ou seja, para elas um
educador pensa sempre na relação entre o método, o conteúdo e a recepção destes por parte dos alunos.
Pedagogias e publicações diversas proclamam um novo perfil de professor, com uma percepção de
mundo mais abrangente, uma ação política mais engajada, humanizada, libertadora, um professor que seja a
um só tempo-espaço professor e educador, pesquisador de sua própria prática. Independentemente de se
assumir este ou aquele papel, não é difícil constatar que, de fato, muitas escolas e seus respectivos
profissionais ao ensinar a prática da leitura e da escrita ainda seguem o modelo educacional instituído pelos
jesuítas, no século XVI, insistindo numa educação mecânica e de transmissão linear, isto é, no dizer de Paulo
Freire, “educação bancária”. [7, 8, 9]
Considerando que, segundo Pimenta [15, 16], a Didática enseja uma profícua reflexão sobre o trabalho
pedagógico, estimulando questionamentos em torno da prática docente articulada à teoria, ao mesmo tempo
em que ela favorece uma ressignificação da identidade do professor e busca procedimentos para
aprimoramento de sua prática político-social, acredita-se que, para a sua consecução, há de se efetivar um
trabalho imbricado entre o exercício docente e o desenvolvimento intenso de pesquisas, incorporando nas
práticas dos professores os resultados por eles conseguidos no âmbito escolar.
Isso significa que os professores não serão meros “objetos” ou participantes indiretos de um trabalho
de investigação sobre os processos de alfabetização e letramento, pelo contrário, é preciso que a escola tome
para si tal incumbência e se impregne dos sentidos produzidos pela pesquisa realizada pelos seus próprios
agentes. É preciso, então, ensinar os professores a pesquisar sobre como ensinar o outro a ler e a escrever,
primando-se sempre por uma prática emancipatória.
Propõe-se, portanto, uma Didática para a alfabetização e o letramento, tendo como fundamento a
relação intrínseca entre a docência e a pesquisa realizada pelos próprios professores em atuação. Essa
perspectiva, de certa maneira, colabora no entendimento das reais demandas para o profissional da educação
do século XXI, considerando que se faz premente reconhecer com plenitude a humanização da educação que,
por trabalhar com pessoas, não se limita apenas à sua face tecnicista.
A Didática, portanto, tem um papel fundamental nas reflexões em torno dos métodos e técnicas
voltadas para a alfabetização e o letramento como práticas sociais – promotoras de ações libertárias e
inventivas [1, 10,12, 13, 18, 19,20], tendo em vista que, além dos elementos técnico-pedagógicos necessários
ao exercício da docência, o professor precisa desenvolver atitudes primordiais que visem contribuir para o
efetivo desenvolvimento das capacidades humanas.
2
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4. Conclusão
Não é possível supor mudanças com um processo de alfabetização descontextualizado da realidade,
faz-se necessário estabelecer diálogos e reflexões frequentes acerca da educação que se faz e da educação
que se pretende. Voltar os olhares de professores-educadores para a escola e para além dos seus muros, isto
é, para o contexto histórico-social da atualidade. Qual seria o fracasso de um trabalho educativo que se
deseja a constituição de leitores e produtores de textos livres, criativos e éticos? Os resultados desta pesquisa,
entre outras questões, revelaram que a educação fracassa quando não estabelece uma relação direta com a
vida em sociedade, com os movimentos de seu tempo, quando ignora os seus sujeitos e não garante o livre
exercício da criação e da arte, quando não investe em processos formativos significativos e contínuos.
Apareceu também, muito fortemente, a discussão em torno da diferença conceitual entre ser
professor-alfabetizador e ser educador-alfabetizador. O termo educador parece se aproximar de uma
concepção de docência diferenciada daquela que por séculos embasou (e ainda embasa) as práticas de
inúmeros professores, arraigados a uma educação que prima pela disciplina e pelo castigo, na qual a
comunicação representa uma via de mão única (professor-aluno), colocando o sujeito e a dimensão humana
às margens do processo de ensino e aprendizagem. Por outro lado, ficou evidenciado que ambas as
percepções se complementam e sinalizam as singularidades do profissional da educação, que precisa se
perceber como professor-educador, ciente da amplitude de seu papel na formação humana, dando especial
atenção às manifestações subjetivas que permeiam o seu trabalho e que dão sentido à docência.
Finalmente, observou-se que, embora todos os indícios apontaram para o livro didático como sendo
ainda o maior aliado do professor na tarefa de alfabetizar, os sujeitos desta pesquisa reconheceram a
importância dos conhecimentos didáticos para fazer-aprender a arte da lecto-escrita, no entanto, observaram
que muitos trabalhos são publicados numa perspectiva crítico-destrutiva e não crítico-propositiva,
mostrando-se interesse por obras que tratem sobre a temática pelo viés dos métodos e das técnicas
apropriadas às demandas atuais de uma sociedade de classes, com interesses, necessidades e desejos, muitas
vezes, bem distintos.
Referências
[1] ABAURRE, M. B. M.; FIAD, R. S. Cenas de aquisição escrita: o sujeito e o trabalho como o texto.
Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil – ALB, 1997.
[2] BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolingüística na sala de aula. São
Paulo: Parábola Editorial, 2004.
[3] BORTONI-RICARDO, S. M. Falar, ler e escrever em sala de aula : do período pós-alfabetização ao 5o
ano / Stella Maris Bortoni-Ricardo, Maria Alice Fernandes de Sousa. São Paulo : Parábola Editorial, 2008.
[4] CANDAU, V. Rumo a uma nova Didática. Petrópolis, Vozes, 1988.
[5] CANDAU, V. (Org.) A Didática em Questão. Petrópolis: Vozes, 1983.
[6] FAZENDA, I. et al (Org). Didática e interdisciplinariedade. Campinas, São Paulo: Papirus, 1998.
[7] FREIRE, P. Pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. SP: Paz e Terra, 1996.
[8] FREIRE, P. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.
[9] FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.
[10] GERALDI, J. W. (Org.). Leitura: Um Con/s/certo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2003.
[11] KARLING, A. A. A didática necessária. São Paulo: IBRASA, 1991.
[12] KLEIMAN, A. B. Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da
escrita. Campinas, São Paulo: Mercado de Letras, 2001.
[13] KOCH, I. V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 2003.
[14] OLIVEIRA, M. R. N. S. et al (Orgs). Didática: ruptura, compromisso e pesquisa. SP: Papirus, 1993.
[15] PIMENTA, S. G. (Org). Saberes pedagógicos e atividade docente. São Paulo: Cortez, 2000.
[16] PIMENTA, S. G. A Didática como mediação na construção da identidade do professor - uma
experiência de ensino e pesquisa na licenciatura. IN: ANDRÉ, M. E. D. A. de e OLIVEIRA, M. R. N. S. de.
(orgs) Alternativas do ensino de Didática. Campinas, São Paulo: Papirus, 1997.
[17] SCHOLZE, L.; RÖSING, T. M. K. (orgs.) Teorias e práticas de letramento. Brasília: INEP, 2007.
[18] SMOLKA, A. L. B. et al. Leitura e desenvolvimento da linguagem. São Paulo: Mercado Aberto,
1989.
[19] SOARES, M. Linguagem e escola: uma perspectiva social. São Paulo, Ática, 1997.
[20] SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
[21] VEIGA, I. P. A. (coord.) Repensando a Didática. Campinas, SP: Papirus, 1991.
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1. Introdução
Esta comunicação apresenta o relato parcial de uma pesquisa em andamento que objetiva diagnosticar
e analisar as percepções e práticas pedagógicas dos professores de Matemática sobre os conteúdos que
integram o bloco “Tratamento da Informação”, nas séries finais do Ensino Fundamental. A investigação está
sendo desenvolvida numa abordagem qualitativa, revestindo-se de um caráter bibliográfico e interpretativo,
em torno da seguinte questão norteadora: Quais concepções de ensino-aprendizagem têm os professores das
séries finas do ensino fundamental quanto ao conhecimento estatístico, combinatório e probabilístico e
como estas se refletem nas suas práticas pedagógicas?
A Educação Matemática e a Educação Estatística estão relacionadas, manifestando uma relação
reciprocamente dependente, sendo que a Educação Estatística tem como objetivos o desenvolvimento do
pensamento probabilístico, combinatório e estatístico. Muitas pessoas consideram a Estatística como parte da
Matemática, pensam que Matemática e Estatística são a mesma coisa. Gal e Garfield (1997), porém apontam
que as duas disciplinas se distinguem: para a Estatística os dados são vistos como números num contexto, o
que motiva os procedimentos e é a base para a interpretação dos resultados. A indeterminação ou
variabilidade dos dados é o que diferencia uma investigação estatística de uma exploração matemática, que é
mais precisa e com natureza finita.
A Educação Estatística, por um lado, é uma área de conhecimento que objetiva estudar e compreender
como se ensina e aprende Estatística, o que envolve a compreensão de fatores cognitivos e afetivos do
ensino e da aprendizagem. Por outro lado, defende-se uma visão de Educação Matemática que possibilite às
pessoas a obtenção de uma cultura que lhes permita aplicar os conhecimentos matemáticos em suas
atividades profissionais e pessoais.
Atualmente existe uma deficiência conceitual na formação das pessoas no que diz respeito à
compreensão das incertezas e suas possibilidades de tratamento matemático. Mas no mundo contemporâneo
é importante destacar que o acaso tem um aspecto essencial na percepção de mundo das pessoas, e é
essencial para desenvolver o pensamento probabilístico.
O mundo contemporâneo está em constante mudança, às pessoas são bombardeadas por uma série de
informações, vindas de diferentes tipos de mídias, tornando-se assim imprescindível a necessidade de que
todos os indivíduos precisem dominar alguns conhecimentos referentes à Estatística, Probabilidade e
Combinatória para atuarem na sociedade, como cidadãos capazes de tomar decisões com base nas
informações que chegam até ele de maneira consciente, crítica e reflexiva. São conhecimentos fundamentais
para analisar, por exemplo, índices estatísticos como o crescimento populacional, taxas de inflação,
desemprego, índices de custo de vida, interpretar pesquisas eleitorais, entre outras situações do dia-a-dia.
Considera-se que a competência nesses assuntos permite aos alunos uma sólida base para
desenvolverem estudos em outras áreas científicas, ou seja, tais conteúdos podem ser trabalhados de forma
interdisciplinar, proporcionando aos alunos estabelecer relações entre diversas áreas do conhecimento,
podendo assim contribuir para o aprofundamento de relações sólidas entre os seres humanos.
As reflexões acima apresentadas justificam a proposição da presente pesquisa para analisar as
percepções e práticas pedagógicas dos professores de Matemática das séries finais do Ensino Fundamental
sobre o ensino do conteúdo estruturante “Tratamento da Informação”.
* 1*
Acadêmica do Curso de Licenciatura em Matemática da UEPG e integrante do PIBIC – Programa Institucional de Bolsas de
Iniciação Científica. E-mail: [email protected]
2
Professora Doutora do Departamento de Matemática e Estatística e do Mestrado em Educação da UEPG. Orientadora do projeto de
pesquisa PIBIC cadastrado na Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação da UEPG. E-mail: [email protected] .
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2. Método
A primeira etapa da pesquisa constituiu-se num estudo das concepções propostas para o ensino da
Matemática para o conteúdo estruturante Tratamento da Informação, considerando-se os Parâmetros
Curriculares Nacionais de Matemática - PCNs e as Diretrizes Curriculares de Matemática do Estado do
Paraná. Depois se realizou o levantamento do marco teórico relativo à emergência da área de Educação
Estatística no contexto da Educação Matemática. A partir do referencial teórico construído foi organizado
um roteiro de entrevista, para diagnosticar as percepções de ensino dos professores atuantes nas séries finais
da rede pública estadual, e verificar como estas se refletem nas práticas pedagógicas desenvolvidas. As
questões desencadeadoras da entrevista foram: (a) realiza práticas que envolvem metodologias para o ensino
dos conteúdos referentes ao Tratamento da Informação, que utilizam recursos como: laboratório de
informática, jornais, revistas, calculadoras? (b) possibilita aos seus alunos: coletar e organizar dados,
construir tabelas e gráficos e posteriormente realizar discussões sobre a interpretação e análise dos mesmos?
(c) consegue articular e integrar os conteúdos do bloco “Tratamento da Informação” com os demais
conteúdos da disciplina de Matemática? (d) consegue trabalhar com os conteúdos propostos para essa área da
Matemática de forma contextualizada, envolvendo situações da realidade de seus alunos? (e) Considera
importante a integração entre estatística, probabilidade, combinatória, e, as demais áreas do conhecimento
para desenvolver a interdisciplinaridade? (e) Utiliza metodologias para o ensino de estatística, probabilidade
e combinatória nas aulas de matemática como proposto nos PCNs e/ou DCEs? Quais? (f) Considera que os
conhecimentos referentes aos conteúdos do Tratamento da Informação contribuem para a formação do seu
aluno enquanto cidadão crítico? (g) Como você avalia sua prática docente em relação aos conteúdos do bloco
Tratamento da Informação?
3. Resultados e Discussão
Os dados estão sendo analisados e interpretados, e uma análise preliminar do depoimento dos docentes
nos permite fazer algumas observações.
Quando indagados se conseguem trabalhar com os conteúdos propostos para essa área da Matemática
de forma contextualizada, envolvendo situações da realidade de seus alunos, a maioria dos docentes
respondeu que sim, conseguem trabalhar com os conteúdos do bloco Tratamento da Informação de forma
contextualizada, embora alguns relatem que tentam fazê-lo, mas que isso nem sempre ocorre da forma como
deveria. Os depoimentos dos docentes confirmam:
“Sim. Porque o tratamento de informações faz com que o aluno/professor pense sobre
aquele determinado assunto e não simplesmente fique repetindo de acordo com a
explicação(resolução de exercícios).”
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Ao serem questionados sobre a forma como avaliam sua prática docente em relação aos conteúdos
que integram o bloco Tratamento da Informação, nota-se que os docentes sentem dificuldade em admitir que
existe deficiências em suas práticas pedagógicas. Os professores que revelam-se mais abertos a pesquisa tem
a ousadia de dizer que tentam desenvolver suas práticas da melhor forma possível, mas admitem que podem
melhorá-las, de forma a vencer os obstáculos que surgem no dia-a-dia.
“Tento trabalhar bastante, mas sabemos que temos que "vencer" conteúdos. E nem sempre
dá tempo de trabalhar com pesquisas leituras de jornais e revistas em todos os conteúdos.”
“A prática está ainda engatinhando, pois somente de alguns anos para cá é que se deu o
devido valor a esse conteúdo que é de suma importância no mundo de hoje.”
“Acho que posso melhorar, já que só trabalho com Tratamento da Informação em alguns
momentos, quando há tempo hábil.”
“Em relação à minha prática docente, a análise e a interpretação crítica estão presentes
para resolver ou utilizar os conteúdos do bloco que devem ser abordados de forma
articulada, conforme as DCEs (...). Gosto muito de ser questionada, agradeço a
oportunidade embora tenha muitas tarefas e sempre falta tempo, mas sempre é bom saber
que estou comprometida com a qualidade da educação.”
4. Conclusão
As questões acima apresentadas foram aplicadas com 20 docentes selecionados nas escolas estaduais
do município, atuantes nas séries finais do ensino fundamental. Os depoimentos são ricos de significados e
sentidos, refletindo as concepções e de que forma elas interferem nas práticas que estão sendo ou não
desenvolvidas nas escolas públicas paranaenses.
No presente momento os dados coletados estão sendo organizados e uma análise preliminar dos relatos
docentes revela que os conteúdos matemáticos referentes ao bloco Tratamento da Informação, quando
trabalhados, são contextualizados e estão integrados aos demais conteúdos estruturantes de matemática. É
possível perceber também que muitos docentes apesar de considerar importante trabalhar com os conteúdos
que estão propostos para o bloco Tratamento da Informação, admitem sentirem que ainda podem melhorar
suas práticas ao abordá-los, acreditando serem tais conteúdos de suma importância para se ter uma visão de
mundo na atualidade.
Referências
[2] PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Diretrizes Curriculares da Educação Básica.
Matemática. Paraná. SEED/DEB, 2008.
[3] LOPES, Celi A. E. A probabilidade e a estatística no ensino fundamental: uma análise curricular.
Campinas: FE/UNICAMP. Dissertação de Mestrado, 1998.
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PROJETO ABRAPALAVRA
1. Introdução
A proposta desse projeto, enfoca a leitura literária a partir de práticas pedagógicas que
envolvem, entre outros aspectos, a exploração do corpo, a convivência em grupo, o jogo/brincadeira
e a construção de conceitos, preocupando-se com o progresso cognitivo, motor, social e afetivo dos
alunos.
Nesse contexto, entende-se a linguagem literária como um elemento peculiar e
potencialmente construtivo para os alunos. Por isso, a progressiva valorização do ato de ler como
prática social na formação de leitores constitui uma preocupação que vem gerando discussões e
iniciativas de vários segmentos da sociedade, desafiando especialmente o âmbito educacional. Os
novos parâmetros de educação enfatizam o abandono das práticas tradicionais centradas na
transmissão de saberes e o compromisso com a constituição de sujeitos autônomos e pesquisadores,
consolidando-se, assim, um lugar imprescindível à competência leitora.
Dessa forma, pensar na competência leitora é pensar na literatura na escola que, segundo
Saraiva & Mugge (2006 p.13), pode formar leitores através das práticas pedagógicas sem deixar de
preparar o aluno para a vida prática porque desenvolve a expressividade verbal e a imaginação
criadora. Diante disso, a proposta desse projeto é criar uma cultura leitora nas atividades extra
curriculares através do Projeto Tempo Integral , para ajudar a desenvolver nos alunos práticas
sociais de leitura. Acredita-se que a infância é o melhor momento para o indivíduo iniciar sua
emancipação mediante a função liberatória da palavra, pois é importante oferecer sistematicamente
a criança a experiências positivas com a linguagem para desenvolver sua capacidade de
comunicação com o mundo para promoção do seu desenvolvimento como ser humano.
Enquanto arte, a Literatura apresenta uma qualidade libertadora, estabelecendo uma forma
para os conflitos e desvelando, assim, o que é próprio do humano. Sustenta-se, assim, a necessidade
da arte para o autoconhecimento e para a constituição subjetiva, já que a interação com o objeto
artístico viabiliza a realização de um encontro do receptor consigo mesmo e com os outros,
formando uma coletividade. Nesse ponto de vista, a produção literária desempenha, essencialmente,
uma função humanizadora, conforme assinala Candido (1995, 256), ao