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Elias, o Profeta
Elias, que significa "meu Deus é Jeová", reflete seu caráter, um homem
totalmente dedicado ao Senhor. Devido a esse compromisso, Deus pôde usá-lo
poderosamente. Líder de uma família sacerdotal no tempo de Neemias (Ne 12.41). Foi
um dos tocadores de trombeta durante o culto de dedicação dos muros da cidade. Na
genealogia de Jesus, é listado como o filho de Abiúde e pai de Azor. No evangelho de
Mateus a linhagem real de Cristo é estabelecida de várias maneiras, inclusive por meio
dessa genealogia, a qual registra vários reis e príncipes, como Zorobabel, até José e
finalmente Jesus (Mt 1.13). Citado na genealogia que vai de Jesus até Adão, como pai
de Jonã e filho de Meleá (Lc 3.30). Sua biografia é uma das mais interessantes na
Bíblia. Sua história é contada no meio dos relatos dos reis de Israel e Judá, entre 1Reis
17 e 2Reis 2. Esses capítulos mostram três aspectos essenciais para se entender o papel
deste profeta e seu ministério: os milagres, a mensagem e o próprio homem.
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Elias, os Milagres
Os milagres que cercaram Elias compõem o mais vívido dos três aspectos de sua
vida. Seja diante do filho da viúva, que ressuscitou dentre os mortos, ou do fogo que fez
cair do céu, ou ao ser arrebatado para Deus, todos esses são quadros dos quais todas as
pessoas se lembram. Por trás dessas maravilhas, entretanto, está a maneira harmoniosa
em que o Senhor as utiliza para ensinar sobre a fé. Os milagres representam "sinais", os
quais desafiam os que os testemunham para um momento decisivo. Portanto, eles
precisam decidir se ficarão a favor ou contra Deus. Isso é muito claro no evento do
monte Carmelo (1Rs 18.16-46). Elias desafiou o povo: "Até quando coxeareis entre dois
pensamentos? Se o Senhor é Deus, segui-o; mas se Baal, segui-o" (1Rs 18.21). A
princípio, os israelitas nada responderam. Quando ouviram o desafio do profeta aos
sacerdotes de Baal, deram seu consentimento (1Rs 18.24).
Elias trouxe o povo para o seu lado, quando solicitou ajuda para consertar o altar
e jogar água sobre a lenha (1Rs 18.30-35). Somente quando o fogo caiu do céu,
contudo, foi que todos responderam com a confissão de fé: "O Senhor é Deus! O Senhor
é Deus!" (1Rs 18.39). Todos então participaram na captura dos sacerdotes pagãos.
Assim, o sinal miraculoso desafiou o povo a responder com fé. Um milagre semelhante,
no qual Elias fez cair fogo do céu para queimar duas companhias de soldados enviadas
para prendê-lo (2Rs 1.9-12), levou a uma confissão de fé no profeta como "homem de
Deus" e a uma súplica por misericórdia por parte do capitão da terceira companhia que
foi enviada (2Rs 1.13,14).
As atitudes demonstradas pela viúva de Sarepta (1Rs 17.7-24) também revelam
que ela confiava plenamente na mensagem do profeta. Quando entregou a Elias seu
último punhado de farinha e óleo, recebeu em retorno um suprimento inesgotável, que a
manteve viva durante todo o tempo da seca. Quando o profeta restaurou a vida de seu
filho, a acusação feita por ela: "Vieste a mim para trazeres à memória a minha
iniqüidade e matares a meu filho?" (1Rs 17.18) transformou-se numa confissão de
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confiança na missão e no ministério do profeta: "Agora sei que tu és homem de Deus, e
que a palavra do Senhor na tua boca é verdade" (1Rs 17.24).
Os últimos milagres de Elias ocorreram na companhia de seu sucessor espiritual,
Eliseu (2Rs 2.1-12). O profeta fez o caminho inverso pelo qual os filhos de Israel
entraram na Terra Prometida: da região montanhosa de Betel e Ai para a região de
Jericó e finalmente para o Jordão. Assim como aquelas águas se dividiram para o povo
ocupar a banda ocidental de Canaã, o mesmo aconteceu a fim de que Elias passasse
para o lado oriental do rio. Quando Eliseu contemplou aquele grande mila gre, rogou ao
seu mestre: "Peço-te que haja porção dobrada de teu espírito sobre mim" (2Rs 2.9). Do
outro lado do Jordão, como aconteceu com Moisés antes dele, foi concedida a Elias
uma bênção especial, no momento de sua partida desta vida: subiu ao Céu num
redemoinho. Seu sucessor então confessou o poder do Deus de Israel: "Meu pai, meu
pai, carros de Israel, e seu cavaleiros!" (2Rs 2.12). Suas atividades posteriores
demonstrariam a fé no Senhor de Elias que Eliseu agora possuía (2Rs 2.14).
Elias, a Mensagem
Os milagres de Elias serviram para chamar muitas pessoas em Israel de volta a
Deus. Sua mensagem, contudo, teve uma recepção diferente. Enquanto os prodígios
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inspiravam uma resposta dos israelitas desobedientes e mornos de todas as camadas
sociais, a palavra do profeta era dirigida especificamente aos reis (e rainha também,
como no caso de Jezabel) de Israel e Judá. Elias advertiu Acazias de que sua consulta a
Baal-Zebube, o deus de Ecrom, concernente à doença que tinha no pé, constituía grave
pecado, o qual seria punido com sua morte (2Rs 1.1-17). Acazias morreu sem
demonstrar sinais de arrependimento. A única menção de Elias em Crônicas ocorre
quando enviou uma mensagem ao rei Jeorão, de Judá (2Cr 21.12-20). O profeta adver-
tiu o rei de que suas práticas pagãs e assassinas, mais semelhantes às de Acabe do que
as dos seus predecessores em Judá, o levariam a uma morte horrível. A notícia de que
esse monarca morreu de uma enfermidade extremamente dolorosa nas entranhas e de
que seu falecimento não foi lamentado pelos súditos confirmou as palavras de Elias e
também demonstrou a falta de arrependimento do rei de Judá.
O relacionamento de Elias com Acabe ilustra a mais significativa mensagem do
profeta e a falta de arrependimento de um líder. Nenhum outro rei de Israel recebeu
tantas advertências e também nenhum outro governante caiu tão profundamente no
pecado. O ministério de Elias começou por meio de um aviso a Acabe, com respeito à
seca (1Rs 17.1). Ainda assim, tudo o que esse rei fez foi enviar patrulhas para tentar
capturar o profeta (1Rs 18.1-14). No final, dirigido por Deus (1Rs18.1,2,15-19), Elias
escolheu o tempo e o local para os dois se encontrarem. Em sua primeira explicação a
Acabe sobre as razões da seca, o profeta deixou claro que era devido aos erros do
próprio rei: "Eu não tenho perturbado a Israel, mas tu e a casa de teu pai. Deixastes os
mandamentos do Senhor, e seguistes os baalins" (1Rs 18.18). O milagre no monte
Carmelo provou a superioridade de Jeová sobre as falsas divindades. Embora fosse
dirigida a todo o povo, Deus usou Elias para dar essa demonstração individual do poder
divino para Acabe. Enquanto o rei corria em sua carruagem em direção a Jezreel para
comemorar a vinda da chuva, o profeta o ultrapassou (1Rs 18.45,46). Apesar de tudo, a
poderosa demonstração da fé de Elias ao reter e depois liberar as chuvas (Tg 5.17,18)
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não demoveu Acabe de sua falsa adoração.
A mensagem do profeta não causou nenhuma mudança no comportamento de
Acabe. Influenciado por sua esposa Jezabel, que era da cidade de Tiro (1Rs 21.25), o
rei continuou envolvido com a cultura cananita ao seu redor. Cobiçou a plantação de
uvas de um súdito, em Jezreel (1Rs 21). Embora fosse um patrimônio dado à família de
Nabote pelo próprio Deus, isso pouco significava para Acabe e muito menos para
Jezabel, sua esposa. Ela garantiu que o rei teria o que desejava, sem se importar com a
aliança entre o Senhor e seu povo. Nabote foi falsamente acusado e condenado à
morte. Acabe apossou-se da vinha. Por tudo isso, Deus enviou uma mensagem de
condenação transmitida por Elias. O rei em breve morreria. Jezabel também faleceria
e os cães lamberiam o sangue de seus cadáveres. Era um julgamento terrível, pois
significava que não descansariam com seus ancestrais, mas morreriam sem ser la-
mentados, além de amaldiçoados por Deus. De todos os reis para os quais Elias profe-
riu palavras de advertência, somente Acabe respondeu positivamente. Lemos que
rasgou suas roupas, vestiu-se de saco e jejuou. Humilhou-se diante de Deus e o Senhor
respondeu que retardaria a condenação até o reinado de seu filho (1Rs 21.2729).
Ainda assim, o castigo viria, conforme o profeta predissera. O rei foi morto e os cães
lamberam seu sangue (1Rs 22.34-38). Jezabel também teve o mesmo destino (2Rs
9.30-37). Finalmente, toda a dinastia de Acabe foi exterminada por Jeú (2Rs 10).
Exatamente como Deus dissera (1Rs 19.17), assim aconteceu.
Todas as mensagens de Elias se cumpriram. O verdadeiro propósito delas,
entretanto, era mais do que um pronunciamento de condenação. O seu ministério
profético levaria o povo ao arrependimento, numa época de apostasia nacional. Seus
milagres proporcionaram ajuda visual que desafiava as pessoas, as quais não estavam
preparadas para ouvir seus argumentos. A resposta que davam, contudo, contrastava
com a recusa e com o coração endurecido da maioria dos líderes que ouviram as
mensagens de Elias. As advertências sobre o juízo de Deus eram designadas para
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produzir arrependimento nos ouvintes e nas gerações posteriores, que lembrariam as
palavras do profeta quando suas mensagens se cumprissem (2Rs 9.36; 10.10,17).
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Elias, o Homem
A questão da apostasia nacional introduz o terceiro aspecto da vida do profeta,
preservado no texto bíblico: o homem Elias. Esse aspecto é dividido em duas partes: a
sua solidão e o arquétipo do papel profético que ele desempenhou. O primeiro exami-
na o relacionamento único entre Elias e Deus e entre o profeta e os que foram chama -
dos para ouvir suas mensagens. O arquétipo profético começa com seu sucessor,
Eliseu, e termina no Novo Testamento.
A solidão do profeta engloba todas as áreas de sua vida e ministério. Começa
com sua origem, pois veio de Gileade, a leste do Jordão (1Rs 17.1). Assim, na capital
e nas cidades principais do reino do Norte, seria considerado um provinciano.
Provavelmente era tido por muitas pessoas como um fanático procedente de uma
região subdesenvolvida. Mesmo assim, é de tais lugares desprezíveis que Deus
freqüentemente escolhe seus profetas e mensageiros, seja de Gileade seja da Galiléia.
Esse exemplo muitas vezes serve de testemunho contra pessoas que se consideram
superiores às outras; mas o Senhor não pode encontrar entre elas ninguém com fé
suficiente para agir como mensageiro da Palavra de Deus.
No caso de Elias, seu ministério o colocou em contato com os que não tinham
nenhuma consideração por sua maneira "simples" de cultuar apenas a Yahweh. Pre-
feriam a sofisticada religião urbana dos cananeus, que integravam deuses de grandes e
ricos centros comerciais, como Tiro. O monte Carmelo provavelmente era um san-
tuário na fronteira entre a Fenícia e Israel. Assim, implicava a introdução de uma
divindade pagã entre os israelitas como o deus principal. O chamado de Elias para
confrontar essa impiedade foi o exemplo de um ministro solitário, que permaneceu
firme contra o poder de centenas de oponentes apoiados pelo Estado (1Rs 18.19). A
eficiência de Deus não foi comprometida pela desigualdade dos dois lados. Na verdade,
tal disparidade serviu para mostrar de maneira ainda mais vívida o poder da fé em
operação. A experiência, entretanto, poderia apenas aumentar o sentimento de solidão
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que Elias sentia. Esteve escondido por dois anos, sem nenhuma outra companhia a não
ser a de uma viúva e seu filho (1Rs 17.1-24). Ainda que tivesse notícia de outros
profetas de Yahweh (1Rs 18.13), estavam todos escondidos e não lhe deram nenhum
apoio. Portanto, não é surpresa quando o profeta, temendo as represálias de Jezabel,
fugiu para Horebe, a fim de salvar a própria vida (1Rs 19.1-8). Seu sustento miraculoso
ali, por quarenta dias, evoca a imagem de Moisés em comunhão com Deus (Êx 24.18),
mas também confirma a imagem de uma figura solitária separada do meio de um povo
pecaminoso. Duas vezes o Senhor perguntou a Elias por que tinha ido ali e duas vezes
ele respondeu com as mesmas palavras de ressentimento (1Rs 19.10,14; Rm 11.2,3):
"Tenho sido muito zeloso pelo Senhor Deus dos Exércitos. Os filhos de Israel deixaram
a tua aliança, derrubaram os teus altares, e mataram os teus profetas à espada. Só eu
fiquei, e agora estão tentando matar-me também".
Até aquele momento estava acostumado a expressar a presença de Deus por
meio da utilização de magníficos milagres de "efeitos especiais". O Senhor, entretanto,
mostrou ao profeta que a presença divina não se apóia em tais demonstrações de poder,
mas na aparente fraqueza de palavras proferidas com brandura (1Rs 19.11-13). Dali em
diante, seu ministério enfatizaria a palavra, em lugar da ação. Além disso, seu trabalho
não seria solitário, mas desempenhado juntamente com outros profetas fiéis.
Tudo começou com a indicação de Eliseu, que levou o ministério adiante após o
arrebatamento de Elias e incluiu a unção de Hazael e Jeú como reis da Síria e de Israel,
respectivamente (1Rs 19.15-17). Esse cuidado em lidar com a solidão do profeta é
evidente pelos personagens piedosos que surgem nos capítulos que seguem a cena do
monte Horebe (1Rs 19). Diferentemente de 1Reis17e18, onde Elias trabalhou sozinho,
de agora em diante suas atividades são intercaladas com outros eventos e profetas. O
primeiro sinal foi o chamado de Eliseu (1Rs 19.19-21). Aparecem os servos de Deus
anônimos que trabalham em 1Reis 20. Elias reaparece no relato sobre a plantação de
Nabote (1Rs 21.1-29), em consonância com as profecias de Micaías, filho de Inlá (1Rs
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22.1-28), que confirmaram especificamente o que Elias já profetizara sobre a morte de
Acabe. Em 2Reis 1, o profeta reaparece com uma mensagem para Acazias, a qual
pronunciou quando estava sozinho; mas, em 2Reis 2, fazia-se acompanhar por Eliseu e
encontrou grupos de profetas em Betel e Jericó. O ministério de Elias é um exemplo do
que um indivíduo que obedece à Palavra de Deus pode realizar. Também é um exemplo
de como a fé pública de uma pessoa torna-se o elemento catalisador e leva outros a ter
a ousadia de também demonstrar publicamente a confiança em Deus.
Já notamos o simbolismo de Elias como sucessor de Moisés, o qual teve um en-
contro com Deus em Horebe e deixou esta vida de uma maneira especial. Elias também
representa Josué e o povo de Israel, que atravessaram o rio Jordão a pé enxuto. Muito
mais importante, porém, é o seu papel como um arquétipo profético. Embora já
existissem profetas em Israel antes dele, ele desempenhou um papel especial. Seus
milagres e sua mensagem foram levados adiante por Eliseu, o qual pediu porção do-
brada do poder que Elias possuía e começou seu ministério repetindo o último milagre
de seu mestre: a divisão das águas do rio Jordão (2Rs 2.14). A palavra de juízo de Elias
para o reino do Norte foi assimilada pelos profetas Oséias e Amós.
No NT essa profecia é lembrada e incorporada em parte com a vinda de João
Batista (Lc 1.17). Este, também um solitário, chamou o povo ao arrependimento, junto
às margens do rio Jordão. João recusaria a identificação (Jo 1.21,25), mas Jesus alegou
que ele era o "Elias" que havia de vir (Mt 11.14; 17.10-13; Mc 9.11-13). Posteriormente,
algumas pessoas confundiriam Jesus com Elias (Mt 16.14; Mc 6.15; 8.28; Lc 9.8,19).
Cristo, no entanto, nunca reivindicaria essa identificação, embora ligasse seu ministério
ao desse profeta, como alguém enviado aos que viviam fora de Israel (Lc 4.24-26). O
próprio Elias reaparece na Transfiguração, juntamente com Moisés, como representante
de todos os profetas que esperaram o advento do Messias (Mt 17.2-9; Mc 9.2-10; Lc
9.28-36). Elias conversaria com Jesus e o animaria a prosseguir no caminho de solidão e
auto-sacrifício que o levaria à cruz (Lc 9.31). Assim, fica claro o quanto era equivocado
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o escárnio dos que na crucificação sugeriram que Ele chamava por Elias e que o profeta
poderia livrá-lo (Mt 27.47-49; Mc 15.35,36). O sacrifício redentor de Cristo era o
propósito pelo qual Elias realizara seu ministério enquanto esteve na Terra. Era o
propósito de seu retorno simbólico, na figura de João Batista. E era também o alvo
sobre o qual Elias conversou com Jesus, na Transfiguração.
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Eliseu, o Profeta
No meio do século nono a.c., o reino de Israel foi assolado pela apostasia religiosa. A
casa real, representada pelo rei Acabe e sua esposa sidônia Jezabel (1Rs 16.29~2 Rs 10.17),
promovia a religião de Canaã, cultuando a Baal, e não hesitava em desarraigar a verdade por
meio da força. A queixa de Elias (1Rs 19.10,14) é um bom resumo da situação: a apostasia
nacional ("os filhos de Israel deixaram a tua aliança"), a perseguição religiosa ("derrubaram
os teus altares, e mataram os teus profetas à espada") e a determinação de destruir o culto de
Yahweh ("só eu fiquei, e agora estão tentando matar-me também").
Nesta situação, Elias e Eliseu (Heb. "meu Deus salva") encabeçaram "a revolta pro-
fética" e, quer soubessem disso quer não, originaram a linhagem de grandes profetas que
vieram depois deles. Por esta razão, o ministério dos dois foi marcado por notáveis obras
sobrenaturais. A Bíblia é bem frugal naquilo que chamamos "milagres". Eles não estão
espalhados por todos os lugares das Escrituras: realmente, em sua maior parte a Bíblia
concentra-se na providência ordinária de Deus, mais do que nas manifestações especiais ou
espetaculares que proclamam sua presença. Grupos de tais eventos, entretanto, sempre
marcam novos começos - Moisés, Samuel, Elias e Eliseu, o Senhor Jesus e os apóstolos. Ao
operar de forma inquestionável, o Senhor assim sela e sinaliza a natureza especial e única dos
tempos e de seus participantes. Isso nos ajuda a ver Eliseu, assim como Elias, como um dos
notáveis homens de Deus.
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Eliseu, o Chamado
As duas primeiras histórias relacionadas com Eliseu (1Rs 19.15-21; 2Rs 2.1-17), seu
chamado e sua exaltação como profeta do Senhor depois da ascensão de Elias, estão ligadas
pelas referências à capa do seu antecessor (1Rs 19.19; 2 Rs 2.13-15).
Três nomes figuram no chamado de Eliseu (1Rs 19.15-18). Concernente à apostasia
nacional, sobre a qual Elias tinha-se lamentado, o instrumento do juízo de Deus (Dt
28.25,32,33) seria Hazael (2Rs 8.10-13; 10.32; 12.17,18; 13.3-24). A vingança contra a casa
real pela destruição dos altares e pela morte dos profetas do Senhor seria operada por meio de
Jeú (2Rs 9 a 10); o ministério profético não terminaria com Elias: Eliseu iria sucedê-lo,
juntamente com os 7.000 remanescentes garantidos pelo Senhor. Dessa maneira o substituto
de Elias entrou em cena com um papel muito significativo: era o início de uma sucessão
profética cujo ministério separaria e sustentaria o remanescente fiel do povo de Deus. A
escolha de Eliseu foi uma expressão da soberania do Senhor (1Rs 19.16), mas exigia uma
resposta pessoal. Envolvia sacrifício, pois Eliseu pertencia a uma família rica e amorosa, na
qual tinha liberdade para fazer o que desejasse (1Rs 19.19-21); mas o senso do chamado era
muito forte. A capa peculiar do profeta (1Rs 19.19; 2Rs 1.8; Zc 13.4) o envolveu, separando-
o para a função profética, e ele abandonou a posição social e os privilégios, para tornar-se
"servo" do homem mais velho (1Rs 19.21).
Na época de 2 Reis 2, Eliseu já tinha conhecimento de Deus e estatura pessoal sufici-
ente para recusar as ordens de Elias (2Rs 2.2-6), quando o profeta acostumado à vida solitária
desejava encontrar-se com o Senhor sozinho. A história então se concentra no pedido de
Eliseu (2 Rs 2.9) e como foi atendido (13-15). Ao pedir uma "porção dobrada" do espírito de
Elias, não desejava ser "duas vezes mais" do que Elias! Esta quantidade era o que recebia o
filho primogénito na partilha dos bens (Dt 21.17), e o desejo de Eliseu era ser reconhecido e
equipado como o sucessor escolhido por Elias. Numa palavra, sua pronta decisão de
acompanhar o profeta (1Rs 19.21) não foi "um fogo de palha". Seguir Elias tornara-se sua
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prioridade de longo prazo. Deus honrou seu desejo: a capa derrubada pelo profeta que partia
caiu sobre o que surgia e Eliseu atravessou novamente o rio Jordão, de volta à Terra
Prometida, com a porção dobrada de Elias reconhecidamente sobre si (2Rs 2.15). Sua
autoridade, entretanto, não era baseada no autoritarismo, nem sua liderança simplesmente
baseada na tomada de decisões. Em sua imaturidade, o grupo de profetas queria procurar por
Elias e, embora Eliseu soubesse que seria tolice e perda de tempo, não reprimiu aquilo que,
afinal, era o produto de uma preocupação amorosa (v. 17); quando voltaram, não transformou
aquilo num assunto mais grave (v. 18). Esse espírito amável, gentil e ameno sempre foi a
característica de Eliseu.
15
Eliseu, a Mensagem
A associação de Eliseu com Hazael e com Jeú obviamente colocou uma espada
de juízo em sua mão, e podemos ver o brilho dela no decorrer de seu ministério. Esta
arma, entretanto, às vezes tem outra utilidade: é com o toque dela que um monarca
transforma um de seus súditos num nobre, e a espada de Eliseu foi utilizada de forma
similar exaltar o pobre e o necessitado para uma vida melhor.
As primeiras duas histórias sobre Eliseu mostram esses usos contrastantes da
espada: uma maldição removida (2Rs 2.19-22) e uma proferida (2Rs 2.23-25). Ambas
registram como ele era reconhecido publicamente como profeta do Senhor, nos dois
lados de seu ministério-espada: restaurando e condenando.
Jericó foi o primeiro obstáculo de Israel na possessão de Canaã e, como tal, foi
colocada sob uma maldição por Josué (6.26). Não é interessante que justamente nos
dias do rei Acabe um homem chamado Hiel achasse que podia ignorar a maldição,
apenas para descobrir (1Rs 16.34) que precisava pagar um horrível preço? A maldição,
porém, prevaleceu também contra os que viviam no lugar amaldiçoado: literalmente,
"as águas são más, e a terra é estéril" (2Rs 2.19) um manancial de água suspeito que
espalhava infecção mortal. Eliseu atravessara o Jordão no mesmo local que Josué o
fizera e, como ele, propusera um novo começo em Canaã. Chegara o tempo de indicar
o favor de Deus em prol da bênção. A "tigela nova" (2Rs 2.20) indicava que algo estava
para acontecer; o "sal" (embora as Escrituras não expliquem a razão) era o símbolo da
aliança eterna do Senhor (Lv 2.13; Nm 18.19; 2 Cr 13.5). Simbolicamente, esse ato
reverteu à maldição e trouxe a cidade e seus moradores para as novas bênçãos do pacto,
embora o poder não estivesse no ritual ou na mágica, mas na palavra do Senhor
proferida por Eliseu (2Rs 2.22).
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Betel (1Rs 12.28-33) estava no centro da religião herética de Israel. Ir até lá
exigiu grande determinação por parte de Eliseu, mas, se ele desejava exercer um
ministério sem restrições, seria essencial que desde o princípio estabelecesse domínio
onde fosse necessário. Semelhantemente, seria estratégico que os sacerdotes de Betel
recebessem o primeiro golpe, agora que Elias havia saído de cena e um novo homem,
que não fora ainda testado, estava no comando. Assim, quando Eliseu chegou, arranja-
ram-lhe um "comitê de recepção" de "rapazinhos" não crianças pequenas, mas, de
acordo com o contexto, "rapazinhos estúpidos" (2Rs 2.23, 24). O significado da zom-
baria (e sua gravidade) não é bem claro. O certo é que a cabeça de Eliseu deveria estar
coberta, de forma que, se ele fosse realmente calvo, isso não poderia ser visto. Pode ser
que ele usasse os longos cabelos de um nazireu (Nm 6.5) e os garotos na verdade
zombassem de sua consagração. De qualquer maneira, a situação era de confronto e o
futuro de seu ministério dependia do seu desfecho. Lutar ou fugir de qualquer maneira
significaria perder o dia; entretanto, existe um grande Deus que fica ao lado dos seus
servos quando estão acuados; o Senhor ouviu a zombaria, que para Ele pareceu muito
grave. A vitória foi de Deus e 2Reis 2.25 mostra a completa liberdade que Eliseu teve
para viajar por toda a terra em seu ministério.
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Eliseu, o Homem
O padrão das histórias restantes de Eliseu mostra a dimensão de seu ministério
em graça e poder. A derrota da Síria predita. Eliseu, doador de vida.
As pessoas colocadas entre parênteses indicam o alcance do interesse de Eliseu.
Ele podia intervir e influenciar o curso da história, pois seu ministério levou-o diante
dos soberanos. Na verdade, também ungiu alguns reis - embora devamos notar cuidado-
samente em 2Reis 9.1-10 a diferença entre o que Eliseu mandou o jovem dizer (v. 1) e o
que ele insensatamente acrescentou para satisfazer sua suposição pessoal de que possuía
o dom profético (vv. 6-10) Uma mais maiores qualidades do ministério de Eliseu,
contudo, era que sabia ser condescendente com as pessoas comuns com amor e poder,
cuidava de seus subordinados e identificava-se com seus desejos. Eliseu representava
uma mistura balanceada da "bondade e severidade de Deus" (Rm 11.22): por um lado,
ao sustentar os indignos (2 Rs 3.17), suprir as necessidades do pobre (4.1-7), alimentar
o faminto (4.38s), preocupar-se com uma ferramenta perdida (6.1s), chorar diante do
sofrimento (8.11s), restaurar uma criança (4.8-37) e a terra (8.1s) e usar o poder dado
pelo Senhor, para promover o bem estar do povo de Deus (6.8s); por outro lado, severo
em suas denúncias (3.13s; 2.23-25), resoluto na promoção dos justos juízos de Deus
(9.1,2) e na destruição dos inimigos de seu povo (13.14s). A peça central de toda a
apresentação conforme destacado acima, a história de Naamã e Geazi - é um perfeito
resumo da vida deste grande homem, sobre quem a "porção dobrada" de Elias veio tão
abundantemente.
Quando Naamã obedeceu à ordem de Deus em toda a sua simplicidade, ao subju-
gar seu orgulho diante da revelação divina e submeter suas necessidades à provisão
divina, foi abençoado (2Rs 5.1-19). Quando Geazi, entretanto, ao cobiçar privilégios
(2Rs 5.20) e contradizer a mente de Deus conforme revelada na atitude de Eliseu (vv.
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16,20), corrompeu a doutrina da graça imerecida expressa na recusa do profeta de
receber recompensas, mudou a verdade do Senhor numa mentira (vv. 21,22), dissi-
mulou (v. 25) e viu o ministério da graça de Deus como um meio de obter lucro
pessoal (v. 26), contraiu a contaminação do mundo com o qual tinha-se identificado
(v. 27). Nas mãos de Eliseu, a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus (Ef 6.17),
tanto enobrecia como destruía, trazendo vida aos obedientes e morte aos
desobedientes.
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Conclusão
Estes dois Homens foram tremendamente usados por Deus. Suas vidas trazem
desafios e exemplos para os lideres atuais, levando-os a uma vida mais dependente de
Deus. Confiança, determinação e fidelidade foram características predominantes neles
algo que tem faltado muitas vezes hoje no povo de Deus. O que se espera depois de um
estudo deste é a reflexão e o reconhecimento do povo de Deus, afim de que aja uma
restauração no seu relacionamento com o primeiro amor, JESUS.
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