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Conflitos Prisionais no Recife (1930-1935)

Esta tese de doutorado analisa as negociações, embates e enfrentamentos coletivos entre presos comuns na Casa de Detenção do Recife entre 1930 e 1935. O trabalho argumenta que o contexto político da Revolução de 1930 no Recife influenciou as interações entre presos e gestores da prisão, assim como entre diferentes tipos de presos. A tese utiliza documentos para mostrar como os presos comuns interpretaram as tensões políticas da cidade e desenvolveram formas de organização e luta política no cárcere.

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Conflitos Prisionais no Recife (1930-1935)

Esta tese de doutorado analisa as negociações, embates e enfrentamentos coletivos entre presos comuns na Casa de Detenção do Recife entre 1930 e 1935. O trabalho argumenta que o contexto político da Revolução de 1930 no Recife influenciou as interações entre presos e gestores da prisão, assim como entre diferentes tipos de presos. A tese utiliza documentos para mostrar como os presos comuns interpretaram as tensões políticas da cidade e desenvolveram formas de organização e luta política no cárcere.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
TESE DE DOUTORADO

AURÉLIO DE MOURA BRITTO

“O GERME DA INDISCIPLINA”:
NEGOCIAÇÕES, EMBATES E ENFRENTAMENTOS COLETIVOS NA
CASA DE DETENÇÃO DO RECIFE (1930-1935)

RECIFE
2019
UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
TESE DE DOUTORADO

AURÉLIO DE MOURA BRITTO

“O GERME DA INDISCIPLINA”:
NEGOCIAÇÕES, EMBATES E ENFRENTAMENTOS COLETIVOS NA
CASA DE DETENÇÃO DO RECIFE (1930-1935)

Tese de doutorado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em
História da Universidade Federal
de Pernambuco como requisito
parcial para a obtenção do título de
doutor.
Orientadora: Prof. Dra. Maria do
Socorro Ferraz Barbosa.

RECIFE
2019
AGRADECIMENTOS

Durante os últimos quatro anos, período em que estive envolvido com a elaboração desta
tese, muitos foram os que contribuíram, ainda que inconscientemente, para torná-la viável. Há
aqueles que o fizeram de forma acadêmica e outros que, indiretamente, foram igualmente
imprescindíveis. Não há porque separar esses níveis da existência. Ao tentar nomear essas pessoas,
seguramente, omitirei outras. A essas, antecipo minhas desculpas.

Este trabalho é dedicado in memorian ao meu pai, Francisco Britto, pelo grande entusiasta
que foi de minha formação e pelas lições fundamentais sobre a dignidade humana que me legou.
Dona Regina, minha mãe, ao seu modo, contribuiu de maneira fundamental ao passo que mesmo
sem compreender exatamente do que se tratava sempre acreditou em minha competência, assim
como meus irmãos: Otávio e Taís, com os quais ando em falta. Prometo: vou aparecer mais!
Também ao meu sobrinho, Leonardo, que do alto de seus dois anos, conseguia me fazer sorrir
mesmo quando os prazos acadêmicos ameaçavam estourar. Ainda no seio da família gostaria de
registrar in memorin meus agradecimentos a minha tia Maria do Carmo por toda ajuda despendida e
esperança que depositou em mim desde a primeira hora.
No âmbito acadêmico, gostaria de registrar meu mais sincero agradecimento à professora
Socorro Ferraz que, desde os albores da pesquisa ainda no mestrado, emprestou-me sua
inteligência, e paciência, na medida em que foi uma interlocutora fundamental. Compartilho com
ela os possíveis méritos que, por ventura, este trabalho possa conter. Assumindo integralmente as
muitas lacunas presentes.
Aos professores Wellington Barbosa e Susana Cavani tenho que agradecer pela participação
nos exames de qualificações e defesas. A maneira séria e crítica, por conseguinte, produtiva, que
se debruçaram sobre esse trabalho foi digno de nota. Suas contribuições também estão
incorporadas neste texto final. Aos professores Marcos Bretas e Carlos Miranda pelas sugestões e
contribuições na defesa deste trabalho que o tornaram, seguramente, algo mais consistente.

Nos arquivos que passei tive a sorte de encontrar pessoas competentes e dedicadas, a
despeito de toda fragilidade estrutural que, infelizmente, ainda caracterizam essas instituições de
memória em nosso país. No Arquivo Público Jordão Emerenciano gostaria de agradecer à
Emerson, pupilo de Hildo Leal, pela sua imensa paciência e repetidas viagens com calhamaços
enormes. Assim como, no Memorial da Justiça de Pernambuco, Jamerson pela sua rotineira
atenção.
Agradeço à Maicon Maurício, amigo “mais certo das horas incertas”. Poderia agradecê-lo pela
pesquisa documental que realizou, sob minha demanda, no arquivo do CPDOC no Rio de Janeiro,
mas sua importância é tão mais vasta nesta e outras jornadas que essa menção não vai lhe faria jus.
Valeu, por tudo, “meu caro”.

Recentemente, a Polícia Militar de Pernambuco recebeu um reforço valioso: Cristiano


Duarte, KiKi, o “dorme no lixo”. Apesar da distância que a vida adulta impõe é uma das pessoas
que, outrora, foi um verdadeiro achado e sua presença redimensionou a minha vida. O movimento
anarco-punk passou, nós ficamos! Não diria ilesos, é claro.
Aos amigos da favela do Detran aqui faço as minhas reverências. A lista é enorme!
Enumerá-los impossível. Registrar ao meu amigo João Gabriel pelas memórias de tempos felizes e
boas caminhadas até à UFPE. Sua companhia sempre traz boas energias, sobretudo, por se tratar
de alguém de opinião abalizada, exceto quando trata do futebol pernambucano. Ao amigo Magno
Roberto, por tudo que compartilhamos juntos, ontem e hoje. Também ao meu compadre, Lael
Filho, e toda sua família, pelos momentos felizes e “aloprados”. Contrapartida necessária para uma
atividade extenuante chamada trabalho.

À pelada dos Dominados Futebol Clube, em especial ao “Bebe +”, espécie de seita etílica
encrustada nas atividades futebolísticas do domingo. Quase uma década história, diversão e
afinidades.
Aos docentes e discentes do curso de licenciatura plena em História das Faculdades
Integradas da Vitória de Santo Antão pela intensa interlocução e aprendizado constante.

Gostaria de agradecer a pessoa que mais diretamente conviveu com as restrições impostas
pela elaboração desta tese de doutorado e que, igualmente, mais contribui com ela: minha esposa,
minha companheira e amada, Jessika Adrielly, desde novembro de 2015, oficialmente, também
Britto. Ao seu lado, sempre me sinto fortalecido e, de tão feliz, um menino. Trata-se de uma
coautora deste trabalho na exata medida em que vivenciou todas as agruras e dificuldades - e não
foram poucas - que envolveram a sua elaboração. Agradeço pela sua cumplicidade e pela
oportunidade de desfrutar todos os inúmeros momentos felizes que vivo ao teu lado: te amo.

Por fim, gostaria de registrar que essa pesquisa contou com o imprescindivel financiamento
público da Capes sem a qual não seria exequível.
LISTA DE IMAGENS

Imagem 1: Multidão na cidade do Recife em comício promovido pela Aliança Liberal 73


Imagem 2: Ulysses José dos Santos abraça o busto de João Pessoa 89
Imagem 3: Claudino Augusto da Silva. 140
Imagem 4: José Ferreira da Silva. 157
Imagem 5: Familiares dos presos políticos 159
Imagem 6: Pedro Callado 171
Imagem 7: O funcionamento de uma aula da Escola de Detentos 110
Imagem 8: Vista superior de um dos raios da Casa de Detenção do Recife 294
Imagem 9: Vista inferior de um dos raios da instituição 294
LISTA DE QUADROS E GRÁFICOS

Quadro 1: Criminosos recolhidos à Casa de Detenção do Recife (1929 – 1935) 163


Gráfico 1: Faixa etária dos detentos 225
Gráfico 2: Faixa etária dos detentos 225
Gráfico 3: Faixa etária dos detentos 225
Gráfico 4: Índices de alfabetização 228
Gráfico 5: Índices de alfabetização 228
Gráfico 6: Índices de alfabetização 228
Gráfico 7: Motivo das prisões (1930 – 1936) 231
Gráfico 8: Profissão dos presos 233
Gráfico 9: Pareceres do Conselho Penitenciário de Pernambuco (1930-1936) 241
Resumo: Esta tese de doutorado se insere no âmbito dos trabalhos que investigam a história
das instituições prisionais no Brasil durante a Era Vargas. Nosso proposito é, ao enfatizar uma
dimensão parcamente explorada pela historiografia, dimensionar as correlações entre a
conjuntura política vivenciada no Recife e a organização e luta política dos presos comuns na
Casa de Detenção. Esta pesquisa, por conseguinte, esta lastreada no entendimento de que a
instituição prisional não é alheia às dinâmicas sociais que a circundam. Ao contrário, reputamos
que na Casa de Detenção do Recife as dinâmicas cotidianas de acomodação e conflito estavam
conectadas e contíguas, por diversos e complexos modais, aos eventos políticos situados além
de seus muros. Tendo isso em conta, pretendemos analisar - a partir do manuseio de variadas
tipologias documentais - as negociações, embates e enfrentamentos coletivos que os presos
comuns forjaram a partir de uma leitura peculiar das tensões vivenciadas na cidade. Portanto,
sustentamos ao longo destas páginas que o contexto político conformado pela Revolução de
1930 no Recife funcionou como um elemento desencadeador de novas interações verticais
(entre os presos e gestores da prisão) e horizontais (entre os diversos tipos de presos) no
cotidiano da Casa de Detenção do Recife na medida em que produziu expectativas e
inconformismo entre os presos. Ao salientar os confrontos políticos de criminosos comuns, a
partir da adoção de uma cronologia alternativa, este trabalho opera alguns deslocamentos
significativos no que concerne à abordagem historiográfica predominante sobre as prisões na
década de 1930.

Palavras-chave: Casa de Detenção; presos comuns; negociação; rebelião.

Abstract: The present PhD thesis is part of the scope of work that inquires about the history of
prison institutions in Brazil during the so-called “Era Vargas”. It is aimed, by emphasizing a
dimension sparsely exploited by history bibliography, to sketch the correlations between the
political situation experienced in the city of Recife and the organization and political struggle
of the common prisoners serving time at the Detention House. Furthermore, this research is
based on the understanding that the prison institution is not unfamiliar to the social dynamics
that surround it, but otherwise we believe that in the Detention House in Recife the daily
dynamics of accommodation and conflict were connected, by diverse and complex modalities,
with political events going beyond its walls. Taking this into account, and from different
documentary typologies, it is intended to analyze the negotiations, clashes and collective
confrontations that the common prisoners forged from a peculiar reading of the tensions
experienced in the city. Therefore, it is thoroughly kept that the political context shaped by the
Revolution of 1930 in Recife played a triggering element role of new vertical interactions
(between prisoners and managers of the prison) and horizontal (among different types of
prisoners) in the daily life of the in Recife Detention House to the extent that it produced
expectations and non-conformity among prisoners. By highlighting the political clashes of
common criminals, from the adoption of an alternative chronology, the present work operates
some significant shifts in the prevailing historiography approach to prisons in the 1930’s.

Keywords: Detention house, common prisoners, negotiation, insurrection.


Sumário
INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................. 10
Do tema ao problema: delimitando um objeto .................................................................... 10
Aporte documental, perspectivas teórico-metodológicas e estrutura da tese................... 21
As prisões na Era Vargas: abordagens, sujeitos e lacunas ................................................... 38

1. A CASA DE DETENÇÃO DO RECIFE E A REVOLUÇÃO DE 1930:


PERMEABILIDADES, IMPLICAÇÕES E APROPRIAÇÕES POLÍTICAS ............. 60
1.1 Conjuntura política e cotidiano prisional: uma reflexão preliminar.............................................. 60
1.2 A “masmorra estacista”: a temática prisional e a campanha da Aliança Liberal no Recife ....... 71
1.3 “O último reduto estacista”: a Casa de Detenção em meio aos conflitos revolucionários ....... 91
1.4 O regime revolucionário e a Casa de Detenção .......................................................... 100
1.5 A Revolução de 1930 vista a partir da Casa de Detenção: a interpretação dos
presos comuns ....................................................................................................................... 113

2. “REDUZIDOS À CONDIÇÃO DE ESCÓRIA DA SOCIEDADE”: OS PRESOS


POLÍTICOS DO LEVANTE DE OUTUBRO DE 1931 NA CASA DE DETENÇÃO .... 145
2.1 Além dos muros da prisão: tensões e conflitos no Recife revolucionário ................................. 145
2.2 Os presos políticos de outubro de 1931 .............................................................................................. 165
2.3 Insubmissão e contestação à ordem prisional: os presos políticos em ação ............................ 177
2.4 Elitismo e associação no cotidiano da Casa de Detenção .......................................... 197

3. OS PRESOS COMUNS DA CASA DE DETENÇÃO: “PÉRFIDOS”,


“IGNORANTES” E “TURBULENTOS”? ...................................................................... 214
3.1 Deferência e alienação: os presos comuns vistos pelos presos políticos ............................. 214
3.2 Os presos comuns vistos a partir dos Livros de Inquéritos ........................................................ 222
3.3 “A vida carcerária é um campo aberto para observações”: os presos comuns vistos a partir dos
pareceres do Conselho Penitenciário de Pernambuco........................................................................ 234

4. A REBELIÃO DE 19 DE JANEIRO DE 1932 ............................................................ 275


4.1 Os O enfrentamento coletivo de 19 de janeiro de 1932: entre nomeações e tipologias conceituais
.................................................................................................................................................................... 275
4.2 Na tessitura do conflito: as estratégias de mobilização ................................................................ 284
4.3 “O movimento sedicioso da Casa de Detenção”: da greve à rebelião, do continente à ilha .. 300
4.4 A “senha da sedição”: a rebelião na ótica dos rebelados .......................................... 315

Considerações finais ................................................................................................................... 334


Referências bibliográficas ........................................................................................................... 339
9

Eu tenho uma teoria! Os indivíduos se


dividem em duas categorias: os ordinários e
os extraordinários. Os ordinários são
pessoas corretas que vivem na obediência e
gostam de assim sobreviver. Já os
extraordinários são as pessoas que criam
alguma coisa nova, todos os que infringem a
velha lei, os destruidores! Os primeiros,
conservam o mundo como ele é. Os outros,
movem o mundo para um objetivo, mesmo
que para isso tenham que cometer um crime,
se aventurar!”

(Fiodor Dostoiévski – Crime e Castigo)


10

Introdução

Do tema ao problema: delimitando um objeto.

Esta tese de doutorado se insere no âmbito dos trabalhos que investigam a história das
instituições prisionais no Brasil durante a “Era Vargas”. Nosso desígnio é dimensionar as
possíveis correlações entre a conjuntura política vivenciada nas ruas do Recife e a organização
política dos presos comuns na Casa de Detenção. Adotamos como baliza cronológica os anos
de 1930-1935, isto é, da intensificação da mobilização da Aliança Liberal na cidade até a
transformação da instituição em Presídio Especial, quando será destinado ao encarceramento
em massa de presos políticos oriundos da “Intentona Comunista” fazendo com que os presos
comuns fossem transferidos para Fernando de Noronha.1
Naturalmente, essa delimitação temporal está associada à hipótese que alicerça e
estrutura este trabalho. Sustentamos ao longo destas páginas que a conjuntura política da
Revolução de 1930 no Recife - cujos eventos agitaram as ruas e instituições - funcionou como
um elemento desencadeador de novas interações verticais (entre os presos e gestores da prisão)
e horizontais (entre os diversos tipos de presos) no cotidiano da Casa de Detenção. Em termos
conceituais, entendemos que aquela conjuntura política foi mais que um simples cenário inerte,
ou contexto amorfo, e erigiu uma estrutura de oportunidade política oxigenando a organização
e a luta dos presos comuns.2

1
A emergência da denominação Presídio Especial do Recife não foi aleatória e tampouco estava relacionada com
o fato de prisão recifense receber presos oriundos do interior do estado ou de outras unidades da federação, como
sugeriu o historiador Humberto Miranda. Segundo ele, “a Casa foi construída com o objetivo de abrigar os
“elementos nocivos à sociedade”, onde deveriam estar abrigados os “delinqüentes” do Recife, do interior
Pernambuco e dos estados vizinhos, por isso a Casa de Detenção também se chamava Presídio Especial”.
MIRANDA, Humberto da Silva. Meninos, moleques, menores... faces da infância no Recife 1927-1937.
Dissertação (Mestrado em Historia). Recife-PE: Universidade Federal Rural de Pernambuco, 2008, p.137.
Diversos jornais divulgaram a substituição da nomenclatura da instituição e a partir deles é possível perceber que
as razões que impulsionaram a mudança estavam sintonizadas com o recrudescimento da repressão política,
principalmente, com o grande contingente de presos políticos oriundos da “Intentona Comunista”. Vejamos, por
exemplo, como o jornal oficioso noticiou o acontecimento que foi implementado em 05 de dezembro de 1935 pelo
ato governamental nº 1.369. “De acordo com o sr. Capitão Malvino Reis Netto, secretário da segurança pública, o
sr. Governador interino do Estado resolveu transformar a Penitenciária e Detenção do Recife em Presídio Especial
do Recife destinado aos detentos por crimes contra a ordem pública. Para o cumprimento desta resolução os presos
comuns recolhidos aquele estabelecimento, em número de 400, seguiram ontem para a ilha de Fernando de
Noronha.” Cf. Diário da Manhã. Recife, 06/12/1935, p.4.
2
Estamos utilizando o conceito de estrutura de oportunidade na acepção que lhe conferiu Sidney Tarrow para
quem a expressão designa as oportunidades fornecidas pelo ambiente político, em diferentes conjunturas, para que
as pessoas se organizem, ou não, coletivamente na medida em que altera as expectativas de sucesso ou falha dos
diferentes atores políticos. Cf. TARROW, Sidney. Power in Movement: Social Movements, Collective Action
and Mass Politics in the Modern State. Cambridge: Cambridge University Press. 1994, p.85.
11

Esta tese, por conseguinte, está lastreada em uma percepção da instituição prisional que
a reputa como sendo interligada e conectada à vida social por diversos e complexos modais. A
prisão é interpretada não como um mundo integralmente apartado, indiferente às circunstâncias
e conflitos que a circundam. Ao contrário, nossa perspectiva enfatizará as diversas porosidades
institucionais de onde advém uma série de reverberações políticas e sociais para o cotidiano da
prisão. Deste modo, determinados acontecimentos sociais podem esboroar as fronteiras físicas
que caracterizam a vida reclusa e influir na maneira como os sujeitos aprisionados interpretam,
vivenciam e confrontam a realidade do encarceramento. Entendemos que o contexto
revolucionário vivenciado na cidade do Recife suscitou a produção de diversos recursos que os
presos comuns utilizaram, a partir de uma leitura seletiva e instrumental, para confrontar a
“prisionização”, isto é, o processo pelo qual, gradativamente, os detentos são impelidos a
assimilar um conjunto de normatizações que devem balizar a vida institucional.3 Em vista disso,
a concepção de prisão que consubstancia este trabalho considera premente visualizar além dos
muros da instituição e do seu perímetro imediato e perceber também “as redes que a atravessam
e a ligam permanentemente ao exterior”.4
Ao escrutinar os confrontos políticos de criminosos comuns antes de 1935 e interpretá-
los como estando conectados à conjuntura política, mas também decorrentes da ação proativa
daqueles sujeitos, este trabalho opera alguns deslocamentos significativos quando comparado
com a abordagem historiográfica usual sobre as prisões da década de 1930. Enfatiza outros
sujeitos e, por conseguinte, adota uma cronologia alternativa aos recortes temporais
hegemônicos mobilizados para analisar as prisões no período.
Foi com bastante perspicácia que Elizabeth Süssekind aludiu que no atinente “ao preso
comum sabemos que sua história tem recebido poucas referências e escuta”.5 A maior parte dos
historiadores que tematizou o universo da reclusão na Era Vargas optou por abordar os presos
políticos como sujeitos centrais de suas narrativas. Comumente, aparecem como vítimas da
tortura desferida pelo regime varguista ou, alternativamente, como protagonistas de uma
“formidável e precursora” resistência política no interior das instituições prisionais. Neste
último caso, predomina o entendimento de que os presos políticos foram os verdadeiros agentes
articuladores de uma organização política consciente e eficaz nos diversos cárceres nacionais.

3
CLEMMER, Donald. Prision Community. 2. ed. Nova Iorque: Holt, Rinehart And Winston, 1958.
4
CUNHA, Manuela Ivone. (org.). Aquém e Além da Prisão. Cruzamentos e Perspectivas, Lisboa: Editora
Noventa Graus, p.22.
5
SÜSSEKIND, Elizabeth. Estratégias de sobrevivência e de convivência nas prisões do Rio de Janeiro. Tese
– (Doutorado em História) - Centro de Pesquisa e Documentação em História Contemporânea da Fundação Getúlio
Vargas, Rio de Janeiro, 2014, p.1.
12

Quando apresentados na condição de alvos preferenciais do regime “fascista” de Getúlio


Vargas, os trabalhos tendem a realçar o sofrimento e as torturas que foram submetidos esses
presos políticos em função de, supostamente, representar um perigo ao ordenamento social.
Como bem percebeu a historiadora Janete Leiko Tanno, parte significativa da “historiografia
que analisou o período e abordou essa temática geralmente enfatiza o sofrimento daquele que
foi preso e torturado”.6
Nessa leitura, as prisões e os aparatos policiais, engendrados pelo crescente
fortalecimento do poder estatal na década de 1930, foram instituições nodais para a perpetração
de uma política alicerçada na repressão aos grupos reputados perigosos ao ordenamento social.
Para Maria Luiza Tucci Carneiro foram perseguidos e presos, sobretudo, os “anarquistas,
comunistas, integralistas, fascistas, antifascistas, nazistas, feministas, terroristas etc”.7
A prisão seria o lócus, por excelência, da violência institucional que caracterizava a
diretriz do regime vitorioso com a deposição de Washington Luís e seus alvos mais recorrentes
foram os grupos políticos dissidentes organizados, sobretudo, vinculados às tendências de
esquerda. Deste modo, “legitimadas por códigos, normas, leis e discursos, as práticas
repressivas atacaram diretamente os comunistas, os “subversivos e extremistas”, por meio de
prisões e torturas”.8
Sabemos, entretanto, que o governo Vargas no que tange às prisões políticas não se
restringiu a reprimir os sujeitos ligados ao ideário comunista, mas também diversos grupos
sociais que eram concebidos como extremistas e que punham em questão o projeto de
fortalecimento do Estado como instrumento de conciliação entre o capital e o trabalho. A esse
respeito o historiador Pedro Ernesto Fagundes salientou, ironicamente, que essa repressão
política foi bastante “democrática” tendo em vista que “não demonstrou qualquer tipo de
discriminação, pois a maioria dos ex-integralistas foi cumprir pena dividindo celas, privações e
torturas com seus “companheiros” antifascistas que atuavam na Aliança Nacional
Libertadora”.9

6
TANNO, Janete Leiko. “Cartas de presos políticos e de seus familiares: violência e atuação feminina no governo
vargas. 1930-1945”. Patrimônio e Memória, UNESP – FCLAs – CEDAP, V.1, n.1, p. 45-55, 2005, p.50.
7
CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. “Os Arquivos da Polícia Política brasileira: intolerância, repressão e
resistência”. In: VIANNA, Marly de Almeida Gomes; SILVA, Erica Sarmiento da; GONQALVES, Leandro
Pereira (Orgs.). Presos políticos e perseguidos estrangeiros na era Vargas. Rio de Janeiro: Mauad X/Faperj,
2014, p. 15.
8
TANNO, Janete Leiko. Op. cit. p. 47.
9
FAGUNDES, Ernesto Pedro. “Todas as cores da repressão: os “camisas verdes” e as perseguições polticas
durante a Era Vargas. In: VIANNA, Marly de A. G; SILVA, Érica S; GOLÇALVEZ, Leonardo P. Op. cit. p.
p.160.
13

Outra abordagem bastante comum correlaciona diretamente o encarceramento dos


presos políticos e a emergência das lutas nos cárceres da Era Vargas. Aqueles sujeitos que
acabaram presos em função de suas ideologias foram capazes de se organizar politicamente em
condições vis e adversas. Lutavam, sobretudo, para manter a identidade de presos políticos e
auferir as prerrogativas imediatas que derivavam desta condição, afinal, não eram criminosos
comuns. Suas batalhas eram, nesta acepção, pela afirmação de sua humanidade e dignidade. Na
leitura de Jorge Ferreira, cujo trabalho tipifica bem esta abordagem, os presos comunistas
forjaram, pioneiramente, diversos mecanismos de luta na medida em que “criaram formas de
resistência, normas de sociabilidade e estratégias de sobrevivência”.10
A intersecção mais evidente entre essas duas abordagens é, sem dúvida, de ordem
cronológica. Ambas adotam, majoritariamente, o ano de 1935 com um marco e um ponto de
partida dos trabalhos sobre as prisões na Era Vargas. Subjacente ao recorte temporal está o
entendimento de que a instituição prisional passa a ser relevante enquanto objeto de análise no
exato momento em que recrudesce a presença dos presos políticos entre o contingente de
encarcerados. Essa data demarcaria com nitidez um ponto de inflexão na organização política
dos detentos visto que teria proporcionado uma guinada, quantitativa e qualitativa, decorrente
da presença massiva de militantes de esquerda na prisão. Teríamos aí um ponto de clivagem na
eclosão de confrontos políticos organizados no interior dos cárceres e esses presos políticos
seriam os precursores da luta na medida em que teriam sido os verdadeiros “artífices” da
resistência.
Admite-se, ainda que talvez de modo irrefletido, que após os episódios da repressão à
“Intentona Comunista” as prisões se politizam, ou melhor, é nesse momento que as lutas
prisionais passam a desabrochar em função de um processo de politização do cárcere conduzido
por militantes ideologicamente orientados.
É somente quando os indivíduos vinculados às organizações políticas de esquerda -
como o Partido Comunista do Brasil ou frente única conhecida como Aliança Nacional
Libertadora (ALN) - adentram as prisões e organizam seus “coletivos” é que passariam a
emergir diversas formas de protestos.11 Gregório Bezerra numa tentativa de estimar esse afluxo

10
FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1994, p.124.
11
O termo “coletivo” refere-se a uma célula de organização política desenvolvida pelos presos políticos durante
suas passagens pelos cárceres nacionais. Na Casa de Detenção do Recife a existência do coletivo está narrada de
maneira bastante detalhada no livro de memórias de Gregório Bezerra. Entre fins de 1935 e inicio de 1936 Gregório
Bezerra afirma que os presos políticos fundaram dois organismos políticos para resistir às arbitrariedades do diretor
da Casa de Detenção do Recife. Em suas palavras: “Nos os presidiários tinham duas organizações na Detenção.
Uma de massas, que tinham as seguintes iniciais: CCC, Comissão Central dos Coletivos e outra partidária que
orientava CCC, e se preocupava com os problemas políticos. Os camaradas ex- militantes eram mais numerosos
como massa e como eu era membro do Partido, fui escolhido presidente da CCC e membro do secretariado da
14

de presos políticos conjectura que, depois da repressão a Aliança Nacional Libertadora, só “em
Recife foram presos mais de trinta mil revolucionários e pseudo-revolucionários. Diariamente
entravam e saíam da Casa de Detenção do Recife centenas e centenas de prisioneiros políticos,
uns feridos na luta e outros feridos no ato da prisão”.12
Suas orientações ideológicas e as práticas disciplinadas oriundas da militância partidária
haviam permitido a instauração de uma conduta coesa e contestadora, supostamente, em
contraste com a deferência e desintegração que caracterizavam os cárceres onde predominavam
os presos comuns.
Na pena dos presos políticos consta a sugestão, que obteve impressionante guarida e
ressonância no âmbito da historiografia das prisões, de que a guinada na organização política
dos presos foi produzida pela chegada de um material humano de maior estirpe. Comumente
sustenta-se, por um lado, que os presos comuns se portavam de modo anuente às autoridades
prisionais até que os presos políticos convertessem alguns deles em sujeitos críticos do mundo
e da realidade carcerária. Em suma, a intensa repressão implementada pelo regime varguista
teria oportunizado uma aproximação entre os presos. Por outro, patente também é o
entendimento de que se houve qualquer incipiente organização dos presos comuns ela foi
legatária de um processo unilateral de formação política conduzida pela ação conscienciosa dos
presos políticos. De modo que os embates perpetrados pelos presos comuns são apreendidos
como um epifenômeno da mobilização dos militantes nas prisões do período.
O recrudescimento da presença dos presos políticos nos cárceres nacionais a partir de
1935 – viabilizado, sobretudo, pela decretação da Lei de Segurança Nacional, a repressão à
Intentona Comunista, o Estado de Sítio e a criação do Tribunal de Segurança Nacional em 1936
- convulsionou as principais prisões nacionais que, doravante, ter-se-iam tornado agitadas e
rebeldes posto que passou a existir no seu interior “uma ebulição constante. Reunindo presos
comuns e políticos, tornou-se perigosa por concentrar esses detentos num mesmo espaço
físico”.13
Sem ter a pretensão de refutar a capacidade organizativa dos presos políticos a partir de
seus “coletivos”, entendemos que se faz imprescindível adicionar algumas complicações a esta
interpretação e demonstrar aquilo que nela nos parece infundado. As balizas cronológicas deste
trabalho são particularmente apropriadas para demarcar a fragilidade da cronologia e da

direção politica”. BEZERRA, Gregório. Memórias. (Primeira parte: 1900-1945). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1980, pp.261-262.
12
Ibidem, p. 247.
13
PEDROSO, R. C. “Sob o olhar do poder: Notas sobre o DEOPS e o aprisionamento de presos políticos no
Brasil”. Seminários, São Paulo, nº 3, p. 53-67, 2003.
15

interpretação adotada comumente. Primeiro, se erigirmos o ano de 1935 como uma inflexão
absoluta na organização dos presos incorremos no equívoco de negligenciar as variadas formas
de luta dos presos comuns que foram implementadas imediatamente após a ruptura institucional
de 1930. Ao deixar nossa análise totalmente parametrada pela narração dos próprios presos
políticos podemos ignorar o protagonismo político de outros sujeitos, bem como, preterir
formas alternativas de expressão e confronto político existentes no mundo carcerário antes do
ingresso massivo de presos políticos.
Ora, nossa leitura distancia-se deste entendimento e enfatiza a maneira como os presos
comuns agiram politicamente tomando como elemento propulsor de suas ações as
oportunidades erigidas pela ruptura institucional de 1930. Nesse sentido, diferente dos presos
comunistas que pautavam suas ações de contestação em princípios racionalmente formulados
“os comuns” foram pragmáticos. A partir do confinamento, elaboraram uma leitura do
desenrolar do processo revolucionário e das inúmeras manifestações dos próceres da Aliança
Liberal na cidade, situação que precipitou e ensejou suas formas de contestação política
naqueles anos.
Inicialmente, a atuação política desses presos esteve atrelada a elaboração de cartas e
petições que eram remetidas às diversas autoridades. No primeiro momento a retórica ali
contida é caracterizada pela deferência e, gradativamente, se converte em cobrança explícita de
coerência com a pregação aliancista de denúncia das arbitrariedades e malversações existentes
na instituição. Em seguida, diante da inércia dos diretores nomeados pelo interventor de
Pernambuco, os presos comuns passaram a organizar confrontos coletivos violentos, ocasião
em que os presos políticos mantiveram-se deliberadamente afastados. Deste modo, o recorte
“natural” de 1935 quando utilizado para explicar a situação da Casa de Detenção do Recife no
que tange à luta política dos presos é, no mínimo, arbitrário na medida em que concorre para
obscurecer um conjunto amplo de ações políticas, individuais e coletivas, efetivadas pelos
presos comuns.
Seguramente, estes presos não eram papéis em branco que foram preenchidos pela
experiência prisional ou pela maneira de interpretar o mundo fornecida pelos presos políticos.
Esses sujeitos eram detentores de saberes e práticas que contribuíram para oxigenar as lutas no
interior da instituição no momento em que surgiram as possibilidades advindas da ruptura
institucional em 1930. Esses homens foram capazes de, por meio de um processo de
coalescência que fundia experiências sociais e aprendizados institucionais, pressionar as
autoridades pela prática da escrita e organizar levantes coletivos, ponderando os riscos e ganhos
envolvidos em cada uma dessas circunstâncias.
16

Diferente do que querem nos fazer crer os administradores da Casa de Detenção por
meio de seus lacônicos ofícios, aqueles eventos não foram decorrência de um “surto” irracional
e espamódico que possa ser explicado pelo presumido gregarismo comum à vida prisional.
Essas ações foram articuladas e pensadas em conexão com aquele contexto de ebulição social
que era vivenciado pelo Recife. Na leitura dos presos comuns aqueles atos eram adequados para
confrontar as crescentes agruras cometidas por um governo que, pouco antes, se notabilizou por
denunciá-las quando, então, ocupava o campo da oposição política.
Além disso, ao identificar o ano de 1935 como um ponto inaugural da repressão política
do regime varguista pode-se obnubilar o caráter nitidamente repressivo que o Estado adquire já
desde os primeiros momentos em que os aliancistas chegam ao poder.14 Poderíamos incorrer
numa leitura que acentua demasiadamente a descontinuidade entre a Revolução de 1930 e o
Estado Novo. De fato, se o golpe de 1937 não é um “desfecho natural” já inscrito na fratura
institucional de outubro de 1930 tampouco é um evento inteiramente estranho e deslocado
dentro do processo de fortalecimento do Estado como ator social nodal na vida dos cidadãos.
Na verdade, como propõe Pandolfi, o golpe de 1937 pode ser interpretado como uma depuração
promovida no seio das elites que convergiram circunstancialmente em 1930.15 Até mesmo o
chamado anticomunismo, elemento central da ideologia repressiva do governo, já estava
contido nos discursos das elites dirigentes bem antes de 1935. Acerca deste aspecto o trabalho
de Carla Lucia Silva é relevante posto que permite detectar uma profunda continuidade
autoritária e alerta-nos para o fato de que manifestações “anticomunistas são encontradas na
plataforma da Aliança Liberal”.16
Com bastante acuidade Paulo Sérgio Pinheiro percebeu que imediatamente após a
Revolução de 1930 as ações do governo discricionário já estavam eivadas de um caráter
nitidamente repressivo e autoritário. Segundo ele “esse período tem sido tratado com enorme
leniência por muitos historiadores, mas na realidade trata-se de um estado de exceção, de uma

14
Os usos sistemáticos da violência política por parte dos governos republicanos, notadamente, nos períodos de
maior convulsão social deixam claro que “a implantação da violência aberta como mecanismo da política de Estado
não esperaria a transformação do regime constitucional em ditadura. [...] Desde os anos 20 com a legislação de
repressão ao anarquismo e depois ao “bolchevismo”, abrem-se na prática da repressão espaços cada vez mais
alargados de arbítrio: a legalidade do aumento da repressão implica em contrapartida de maior ilegalidade para
seu funcionamento”. PINHEIRO, Paulo Sérgio. Estratégias da ilusão: a revolução mundial e o Brasil, 1922-
1935. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p.87.
15
PANDOLFI, D. C.; GRYNSZPAN, M. Da revolução de 30 ao golpe de 37: a depuração das elites. Revista de
Sociologia e Política, n. 9, p. 7–23, nov. 1997.
16
SILVA, Carla Luciana. Onda vermelha: imaginários anticomunistas brasileiros (1931-1934). Porto Alegre:
EDIPUCRS, 2001, pp.38-39.
17

ditadura como nunca se havia visto antes”.17 De maneira semelhante Ângela de Castro Gomes
sustentou que esse período foi caracterizado por:

[...] uma grande violência junto ao movimento sindical. O fato é rememorado


por vários depoentes que ressaltam o impacto destas primeiras medidas, uma
vez que os trabalhadores haviam sido sensibilizados pela campanha da
Aliança Liberal e estavam na expectativa de tempos melhores.18

Percepção semelhante foi sublinhada por Astrogildo Pereira, militante e um dos


fundadores do Partido Comunista, que experimentou concretamente a intensa repressão durante
a República Velha. Segundo ele, “em nenhum momento, no Brasil, foi o movimento operário
sujeito a tamanhas violências como depois de 24 de outubro de 1930”.19
A repressão à Intentona Comunista resulta na ampliação de presos políticos nos cárceres
nacionais, entretanto, eles já se faziam presentes desde os albores da república e,
particularmente, após a Revolução de 1930. Nem mesmo os anos finais do Governo Provisório
– momento reputado como de abertura política em função do processo de elaboração de uma
nova constituição – alterou a constante repressão junto aos diversos segmentos sociais e
tampouco retrocedeu o cotidiano de arbitrariedades no interior das prisões. Para Myrian
Sepúlveda dos Santos, dentro deste contexto ocorre uma dilatação dos poderes repressivos da
polícia concomitante à “abertura política” que se processava ao nível institucional. A autora
alerta para o fato de que essa conjuntura, embora, “tenha pouco influenciado a situação dos que
se encontrava no cárcere, convivia com a denúncia do que lá acontecia”.20
Sabemos que muitos desses queixumes versavam sobre a ilegalidade das detenções, bem como,
expunham a intensa perseguição perpetrada pela polícia política, cujas ações eram capitaneadas
na pessoa de Filinto Strubing Müller, que já em “abril de 1933 até junho de 1942 [...] foi chefe
de polícia de Vargas na antiga capital nacional do Rio de Janeiro”.21
No Recife muitos presos políticos desse período eram sindicalistas, militares e civis
descontentes com os rumos da Revolução. A eclosão da revolta dos militares do 21º Batalhão

17
PINHEIRO, Paulo Sérgio. Op. cit. p. 269.
18
GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2005, p.163.
19
PEREIRA, Astrogildo. URSS, Itália, Brasil, São Paulo, 1985, pp. 131-2 apud PINHEIRO, Paulo Sérgio. Op. cit.
p. 29.
20
SANTOS, Myriam Sepúlveda dos. Os porões da República: a barbárie nas prisões da Ilha Grande 1894-
1945. Rio de Janeiro: Garamond, 2009, p.207. Em outra passagem bastante elucidativa a historiadora afirma que
“alguns elementos que se tornaram a marca do regime ditatorial que se seguiu, isto é, a arbitrariedade das prisões,
que eram realizadas sem qualquer compromisso com os critérios formais da Justiça, o emprego da violência e
tortura, bem como a conjunção entre a corrupção e impunidade já estavam presentes em 1933,com a concentração
de poder permitida ao chefe de polícia”. Cf. Idem, pp.181-182.
21
ROSE, R. S. O homem mais perigoso do país. Biografia de Filinto Müller. Rio de Janeiro, 2017, p.15.
18

de Caçadores, em 1931, abarrotou a Casa de Detenção. Nesse episódio foi notória “a liderança
de sargentos e contou com a participação de operários”.22 Um dos envolvidos diretamente nos
acontecimentos relatou que o “princípio essencial do movimento era o retorno do país a
legalidade constitucional”.23 É José Murilo de Carvalho quem nos lembra que aqueles anos
foram caracterizados por um profundo estado de indisciplina que tomou conta da caserna nos
diversos estados da federação. Sabemos que entre 1930 e 1934 ocorreram cerca de 50
movimentos militares, incluindo aí revoltas, protestos, conspirações e agitações variadas.24
O terceiro aspecto que gostaríamos de ressaltar concerne ao procedimento metodológico
utilizado por muitos historiadores que adotam o ano de 1935 como ponto de partida de suas
interpretações. Uma prática muito recorrente nesses trabalhos consiste em mobilizar como fonte
predominante - ou mesmo exclusiva - os livros de memórias produzidos pelos presos políticos.
Esses estudos, geralmente, se abasteceram com “as narrativas de presos políticos, privilegiados
no que diz respeito às possibilidades de produzirem, em função do grau de alfabetização, suas
memórias do cárcere”.25
Diante da escassez ou inexistência de outras fontes, os escritos memorialísticos
tornaram-se uma espécie de fonte por excelência da historiografia que versa sobre as prisões no
período. Não é o caso de objetar contra o uso de memórias, suporte documental fundamental
que pode e deve fornecer informações imprescindíveis. Mas é de salientar a forma acrítica que
alguns historiadores têm manuseado este tipo de fonte e assumido as afirmações ali contidas
como verdades irrevogáveis o que concorre para tornar suas conclusões bastante enviesadas.
Vários trabalhos sobre a história das prisões na Era Vargas se limitam a extrair e coligir
fragmentos dessas obras e findam por passar a impressão que basta ao historiador agrupar um
conjunto de citações para mobilizar a seu favor um argumento de autoridade de quem
presenciou os acontecimentos. É, portanto, esse uso superficial e cômodo das memórias de
presos políticos que tem levado alguns historiadores a reiterar essa narrativa que concorre para
obnubilar a presença dos presos comuns e suas multifacetadas histórias nas prisões na década
de 1930.
Muitos trabalhos que abordam a repressão política e a situação das prisões neste período
têm presumido, deliberadamente ou não, a inexistência de qualquer organização e de resistência

22
TAVARES, Claudio. Uma Rebelião Caluniada: o levante do 21º BC em 1931/Pernambuco. Recife Editora
Guararapes, 1982, p. 22.
23
Ibidem.
24
CARVALHO, José Murilo de. “Forças armadas e política, 1930-1945”. In: A Revolução de 30. Seminário
Internacional. Brasília, Ed. UnB, 1988, p. 107 –187. p. 113.
25
CANCELLI, Elizabeth. “Repressão e controle prisional no Brasil: prisões comparadas” In: História: Questões
& Debates, Curitiba, n. 42, p. 141-156, 2005. Editora UFPR, p. 147.
19

política antes da chegada massiva de presos políticos. Nesta acepção, deferência, resiliência e
violência seriam os adjetivos mais apropriados para caracterizar o comportamento dos presos
comuns. Ao proceder deste modo, reputam os livros de memória como dotados de uma
transparência e autossuficiência que julgamos enganosa. Não é preciso aqui retomar as sobejas
discussões e a quase inesgotável produção historiográfica que tem se dedicado a delinear as
cambiantes fronteiras e interseções entre a memória e a História. Nesta altura basta explicitar
que assumimos neste trabalho que memória e História não se confundem, ainda que interajam
constantemente na produção de um discurso acerca do passado. De modo que “a História não
deve ser o duplo científico da memória, o historiador não pode abandonar a sua função crítica,
a memória precisa ser tratada como objeto da História”.26
Assim sendo, esse trabalho realiza três sensíveis deslocamentos quando comparado com
as tendências majoritárias na historiografia das prisões na década de 1930. Por um lado, dedica-
se a investigar os presos comuns enquanto objeto central da narrativa e os reputa como agentes
políticos ativos que forjaram lutas tão significativas quanto aquelas implementadas pelos presos
políticos. Isso não implica afirmar que os presos políticos estarão ausentes neste trabalho.
Afinal, a presença destes a partir de 1931 na Casa de Detenção do Recife é um elemento
importante para entendermos a ação política dos sentenciados. Entretanto, nos afastamos de
outro lugar comum que consiste em afirmar que os presos políticos teriam se aproximado dos
criminosos e lhes ensinado formas de contestação oriundas das ideologias de esquerda. Este
tipo de leitura torna-se insustentável para analisar a instituição prisional da capital
pernambucana, onde o escrutínio das fontes demonstrou a existência de vigoroso elitismo por
parte dos presos militares que lutaram, ininterruptamente, para afastar-se do convívio direto
com os criminosos comuns.
Por outro lado, sustentamos nesta tese que a presença destes presos políticos, de origem
militar e civil, atuou como fator de politização do cárcere, ainda que de maneira indireta. Esses
indivíduos nutriam vínculos sociais importantes na cidade e pertenciam aos extratos sociais
médios e alguns deles detinham vinculações significativas com membros da elite local. O
encarceramento deste tipo de preso na Casa de Detenção acabou por canalizar a atenção pública
para o mundo prisional, processo no qual a imprensa de oposição ao governo de Carlos de Lima
Cavalcanti teve papel basilar.
Além disso, a condição jurídica peculiar destes sujeitos – que estavam subordinados à
Justiça Militar – garantiu-lhes certa autonomia frente ao diretor da instituição o que explica, em

26
MENESES, Ulpiano. T. B. “A história, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das
Ciências Sociais”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, nº 34. p. 09-23, 1992.
20

parte, o fato destes presos, corriqueiramente, afrontar o ordenamento prisional.27 Nesse sentido,
a constante desídia frente às normas regulamentares da instituição funcionou para os presos
comuns como elemento de propulsão para demandar questões próprias. Além disso, uma vez
mais, a Casa de Detenção ocupava diariamente as páginas dos jornais de oposição onde
denunciava-se que “homens de família” – isto é, indivíduos com certo prestígio social e que
não eram criminosos comuns – estavam sendo submetidos diariamente a constantes tormentos
e sevícias no interior da prisão. Naquele contexto, essa foi uma oportunidade ímpar para os
jornais de oposição publicar uma série de notícias que caracterizavam o governo de Carlos de
Lima Cavalcanti como truculento e opressor, ironicamente, em termos correlatos aos que os
próprios aliancistas mobilizaram na sua “cruzada regeneradora” contra as “tiranias” do governo
de Estácio Coimbra.
Dado o panorama de agudização dos conflitos, dentro e fora dos muros da Casa de
Detenção, os presos comuns consideraram que aquele era o momento propício para demandar
das autoridades melhorias no cotidiano da prisão. Fundamentado nesta leitura, a hipótese que
norteia este trabalho sustenta que a Revolução de 1930 – e suas decorrências imediatas, na qual
inscrevemos o “levante” de outubro de 1931 – é a condição conjuntural mais importante para
entendermos o advento de um conjunto de enfrentamentos políticos que foram perpetrados
pelos presos comuns até a transformação da Casa de Detenção em Presídio Especial, em
dezembro de 1935. Ainda que essa percepção contextual seja imprescindível para mensurar
adequadamente aqueles eventos ela não deve nos levar a preterir os sujeitos concretos que
forjaram as articulações políticas propriamente ditas e que souberam captar as possibilidades
que o contexto franqueava. Nesse sentido, o trabalho estará particularmente atento ao perfil
desses presos comuns e busca apreendê-lo como um dos elementos que permitem avançar na
compreensão dos conflitos que emergiram no mundo carcerário nos anos iniciais da década de
1930.
Pretendemos analisar, a partir de variado corpus documental, as negociações, embates
e enfrentamentos coletivos que os presos comuns lograram organizar a partir de uma leitura -
fugidia e enigmática, mas também ardilosa e hábil - das tensões políticas vivenciadas na cidade
e que, ao reverberarem no âmbito da prisão, puderam ser mobilizadas como um mote original
para a formulação de demandas, bem como, modularam diversas estratégias de luta.

27
Sobre o período posterior a 1935, Gregório Bezerra sustentou, em depoimento, que a afirmação dos presos
políticos junto aos presos comuns processava-se de maneira igualmente indireta. Segundo ele, “a influência dos
prisioneiros políticos se dava basicamente pela força do exemplo, pelo idealismo e altruísmo, pelo fato de que,
mesmo encarcerados, continuávamos mantendo organização e a disciplina revolucionárias.” Cf. AMORIM,
Carlos. Comando Vermelho: a história secreta do crime organizado. 5 ed. Rio de Janeiro: Record, 1996, p.64.
21

Aporte documental, perspectivas teórico-metodológicas e estrutura da tese.

É escusado insistir que é em função do objeto que deseja investigar que o historiador
estrutura sua periodização, coligi as suas fontes e elabora seu enfoque teórico-metodológico.
Para conseguir avançar nas questões interrogadas ao passado e articular com legitimidade suas
respostas o historiador necessita, inexoravelmente, das evidências. No entanto, as fontes não
“falam” por si, isto é, para fazê-las responder às questões propostas é necessário adotar
procedimentos heurísticos adequados aos seus interesses analíticos.
Aqui se torna necessário discutir, ainda que de modo panorâmico, nosso aporte
documental e suas tipologias, demonstrando sua pertinência para abastecer os questionamentos
que direcionam a pesquisa, assim como, é oportuno demarcar algumas abordagens e conceitos
que a sustentam, pois, para o historiador “a escolha do universo documental deve estar
intimamente ligada às hipóteses de trabalho, ao ‘problema’ levantado, aos objetivos da
pesquisa”.28
Como demonstrou Paul Ricoeur, o documento não existe previamente às interrogações
do historiador, afinal, são estas que instituem e validam os registros do passado posto que eles
são “mudos e órfãos”, pois, os autores e as circunstâncias que os produziram deles já foram
desligados espacial e temporalmente. Assim sendo, estão aptos a auxiliar quem quer tenha
competência para inquiri-los. De modo que o testemunho se acopla a função de uma prova
heurística que confere legitimidade ao trabalho do historiador. Apesar de todo rastro do passado
ser potencialmente um documento é a questão que o conforma enquanto tal. Para Ricoeur,
“torna-se documento tudo que pode ser interrogado por um historiador com a ideia de nele
encontrar informações sobre o passado”.29
Como salientamos anteriormente, esta tese alicerçar-se na premissa de que a Casa de
Detenção esteve no proscênio do debate político durante os anos que sucederam a Revolução
de 1930, circunstância que proporcionou repercussão significativa daqueles eventos entre os
detentos comuns. Ter por perímetro sensível os bulícios urbanos ensejou uma acentuada
contiguidade da instituição com as dinâmicas cotidianas da cidade. Não era novidade que os
principais fatos da cidade chegavam ao conhecimento dos presos e, concomitantemente, os
tumultos na prisão nunca passaram integralmente despercebidos pelos transeuntes,

28
BARROS, José Costa D’assunção. “A fonte histórica e seu lugar de produção”. In: Cad. Pesq. Cdhis,
Uberlândia, v.25, n.2, jul./dez. 2012, p.411.
29
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007, p.189.
22

comerciantes e moradores da área central. Uma das marcas que distinguiam a instituição desde
os seus albores era justamente o fato de que “abrigava um mundo bem menos isolado do que
se pretendia da cidade do Recife”.30 Como sublinhou Manoela Ivone Cunha, podemos sustentar
que as prisões e as localidades onde elas estão edificadas passam a estar conjugadas em um
sentido bastante tangível na medida em que “qualquer episódio interno tem quase de imediato
repercussões externas, e vice-versa”.31
Além disso, coadunamos as proposições de Michelle de Perrot quando defende que o
cotidiano da prisão e a organização política dos presos são influenciados pelas mobilizações
políticas externas, sobretudo, em momentos de intensa agitação e ruptura da ordem social. A
historiadora torna patente que “apesar, de todos os encerramentos, a prisão não é um mundo
fechado e subtraído. A revolta dos homens livres estimula a dos encarcerados”.32
Esta tese fundamenta-se na perspectiva que reputa que a prisão é uma instituição
atravessada por fluxos de informações, ainda que seus gestores e regulamentos prescrevam o
isolamento e a imersão do detento numa socialização interna e individualizante. Nesse sentido,
sustentamos que a ação política dos detentos foi oxigenada por zonas de interseção – estreitas,
mas efetivas – que articulavam os dois lados do muro prisional.
Essa maneira de pensar o cotidiano da prisão ainda é francamente minoritária nos
trabalhos historiográficos no Brasil. Por isso, iniciamos o primeiro capítulo desta tese com um
breve levantamento de obras com as quais dialogamos e nos permitiram pensar as correlações
e contiguidades entre dois lados do muro prisional. Nosso desígnio, portanto, foi apresentar
alguns autores que nos auxiliaram a dimensionar as conexões entre as rupturas políticas e o
cotidiano da prisão. Em suma, traçamos um levantamento propedêutico de pesquisas que, em
alguma medida, inspiram e lastreiam esse trabalho.
Em seguida, temos como propósito demonstrar ao leitor o lugar proeminente que o
debate sobre a repressão política e a Casa de Detenção auferiu na agenda da Aliança Liberal no
Recife. Não sendo parte de sua plataforma política, essa temática vai sendo incorporada como
elemento central da propaganda contra o governador Estácio Coimbra na medida em que ele
recorreu de maneira sistemática à repressão policial e ao encarceramento para debelar os
crescentes ajuntamentos públicos realizados pelo bloco oposicionista.

30
MAIA, Clarissa Nunes. “A Casa de Detenção do Recife: controle e conflitos (1855-1915)” In: MAIA, Clarissa
Nunes; NETO, Flávio de Sá; COSTA, Marcos; BRETAS, Marcos Luiz (orgs.). História das Prisões no Brasil.
(Vol. 2). Rio de Janeiro: Rocco, 2009, p. 130.
31
CUNHA, Manuela Ivone. Aquém e Além da Prisão. Cruzamentos e Perspectivas, Lisboa, Editora Noventa
Graus, 2008, p.26.
32
PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1988, p. 292.
23

Como parte desse estratagema político os aliancistas vão investir na criação simbólica
de um mártir que fosse capaz de expor o cariz repressivo e intolerante do governo de Estácio
Coimbra. Nestas circunstâncias, o indivíduo de nome Ulysses José dos Santos foi forjado como
um “herói popular”, representante máximo dos desmandos e arbitrariedades da polícia e
“hóspede” habitual das lúgubres prisões de Pernambuco.
Uma maneira viável para constatar a consolidação dessa estratégia é perscrutar as
páginas dos periódicos que eram “próceres dos aliancistas”, sobretudo, o Diário da Manhã que
foi o veículo principal da divulgação da agenda dessa coligação. Além disso, a prática dos
jornais antagonistas do governo de publicar cartas de presos denunciando as agruras do
cotidiano carcerário credencia-os como uma fonte incontornável para a elaboração da parte
inicial do primeiro capítulo. Depois de outubro de 1931, o Jornal do Recife passou a compor o
grupo de oposição ao governo revolucionário e auferiu importância particular na medida em
que, no decurso de sua campanha, publicou inúmeras cartas de presos onde vicejavam
denúncias sobre os desmandos, torturas e diversas outras irregularidades que vigoravam na
instituição.33
A orientação política deste periódico - que chegou a saudar a campanha aliancista -
parece ter sofrido uma guinada substantiva quando eclodiu o levante do 21º Batalhão de
Caçadores no Recife, perpetrado por militares e civis descontentes com os rumos que a
Revolução de 1930 tomava.
O Jornal do Recife foi acusado de cooperar com os amotinados e foram “presos no dia
31, vários redatores, inclusive Filemon, Aprígio e outros acusados como implicados na
intentona. O diretor-proprietário ficou preso na própria residência, enquanto os demais foram
parar na Casa de Detenção”.34
Essa dissidência no âmbito da elite letrada concorreu para erigir um canal importante
que os presos vão utilizar para denunciar as arbitrariedades vigentes na instituição. O
surgimento de uma sessão intitulada “factos que merecem severa punição” é uma das
implicações deste processo e converteu-se em um espaço de acerbas críticas ao cotidiano da
Casa de Detenção, notadamente, no que concerne às torturas desferidas contra os presos

33
Os editores do jornal haviam sido entusiastas da Aliança Liberal e veementes defensores da Revolução de 1930.
Porém, quando a rebelião do 21º Batalhão de Caçadores do Recife eclodiu a folha teve sua circulação suspensa e
foram “presos no dia 31, vários redatores, inclusive Filemon, Aprígio e outros acusados como implicados na
intentona. O diretor-proprietário ficou preso na própria residência, enquanto os demais foram parar na Casa de
Detenção”.33 A partir de 1932, surge uma sessão intitulada “factos que merecem severa punição” que se tornou
um espaço de acerbas críticas ao cotidiano da Casa de Detenção, notadamente, no que concerne às torturas
desferidas contra os presos políticos.
34
NASCIMENTO, Luiz do. História da imprensa de Pernambuco. Diários do Recife (1821-1954). Vol. II
Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1966, p.154.
24

políticos. Os jornais têm, de fato, um lugar de destaque entre os suportes que viabilizaram a
emergência de uma interpretação dos presos comuns sobre aqueles acontecimentos, embora,
não sejam fonte exclusiva e nem tampouco integralmente reproduzidos. Os presos tinham
acesso frequente a esses periódicos e por meio da escrita muitas vezes demonstravam que
estavam atentos ao contexto de ebulição política que despontava na cidade.
Pensamos o uso dos jornais como sendo, simultaneamente, objeto e fonte de pesquisa.
Estaremos atentos em “decodificá-los a partir de seus usos e finalidades”.35 Apesar de seu
emprego corrente como registro para escrita da História nunca é demais ressaltar os equívocos
em que podemos incorrer ao tomá-los como “receptáculo de verdades”. É preciso atentar para
“o grupo que o edita, das sociabilidades que este grupo exercita nas diferentes conjunturas
políticas, das intenções explícitas ou sutis em exaltar ou execrar atores políticos”.36
O verborrágico discurso dos aliancistas que sublinhava a existência de irregularidades
na prisão da capital chegou até os presos comuns, sobretudo, por meio dos jornais que apesar
de proibidos nunca deixaram de adentrar os muros da prisão. Observando e interpretando a
conjuntura política da cidade, pelas estreitas fissuras que a interligava a prisão, muitos daqueles
detentos julgaram que a vitória dos revolucionários poderia ser benéfica tendo em conta a ênfase
discursiva que haviam conferido meses antes nos aspectos da vivência prisional. Vitorioso o
movimento no Recife, não tardaria que esses presos mobilizassem parte da retórica utilizada
contra o então governador Estácio Coimbra a fim de auferirem ganhos concretos.
Os documentos redigidos pelos próprios presos são o arcabouço principal que utilizamos
para constatar o impacto da conjuntura revolucionária na prisão. Perquirindo as evidências
torna-se nítido um processo de apropriação do vocabulário dos aliancistas pelos presos, assim
como, é a menção explícita aos periódicos oficiosos como mecanismo de legitimação frente às
autoridades instituídas. Nessas leituras - materializadas em requerimentos, cartas, petições e
habeas corpus encontrados em meio ao extenso fundo documental atinente à Casa de Detenção
do Recife - é da Revolução de 1930 e da ruptura institucional por ela propalada que falam os
presos. Normalmente, utilizavam como argumento recorrente o mesmo que foi mobilizado
pelos próprios aliancistas que consideravam aquele acontecimento como uma ruptura efetiva e
irreversível com os princípios e rotinas indecorosas da “política decaída”.

35
SAMARA, Eni de Mesquita; TUPY, Ismênia S. S. T. História & Documento e metodologia de pesquisa. Belo
Horizonte: Autêntica, 2007, p. 61.
36
SILVA, Márcia Pereira da; FRANCO, Gilmara Yoshihara. “Imprensa e política no Brasil: considerações sobre
o uso do jornal como fonte de pesquisa histórica”. In: Revista História em Reflexão: Vol. 4 n. 8 – UFGD -
Dourados jul/dez 2010, p. 5.
25

O cotidiano da prisão é apresentado sob o prisma do vocabulário político empregado


pelos aliancistas antes da Revolução. A interpretação dos presos foi abastecida também pelos
rumores e informações distorcidas que chegavam à prisão, mas ainda assim estavam conectadas
ou foram produzidas em consonância com contexto de efervescência política disseminado pela
cidade. Não é o caso de assumirmos como integralmente verdadeiros os argumentos veiculados
pelos jornais ligados à Aliança Liberal, mas demostrar como foi a partir da utilização dessas
narrativas, vocabulários e personagens que os presos comuns esperaram angariar vantagens do
governo revolucionário. Isso ocorria, sobretudo, por meio da denúncia do que entendiam como
injustiças praticadas pelos gestores e funcionários da prisão que, nesta estratégia, eram
apresentados como “perrepistas” e “estacistas”, em suma, eram indivíduos com ligações
espúrias com os antigos governos que, em tese, a Revolução de 1930 se propunha a extinguir.
Devemos lembrar, em consonância com a historiadora Régine Robin, o quanto é
arriscado apreender a palavra emitida pelos agentes como um índice inequívoco de seu
comportamento ou mesmo de sua vinculação política efetiva. Somente uma leitura incauta
poderia atribuir ao:

[...] locutor a incapacidade de utilizar de performance dos outros. O locutor,


numa dada conjuntura, pode ter interesse em utilizar o modelo adverso. É que
um discurso político, sempre polêmico, acarreta um jogo de contradanças
léxicas, que podem conceitualizar sob os termos da simulação, de
mascaramento, da conveniência.37

Do ponto de vista teórico, reputamos que essa leitura não resultou de mera reprodução
do discurso emitido pelos aliancistas, mas de ardilosa apropriação. Trata-se de uma percepção
elaborada em condições peculiares, dotada de nuanças e significados originais. Filtrando,
combinando e subvertendo o sentido da argumentação dos periódicos aliancistas os presos
perfizeram sua argumentação. Como bem demonstrou Roger Chartier “a leitura de um texto
pode escapar à passividade que tradicionalmente lhe foi atribuída. Ler, olhar ou escutar são
efetivamente, uma série de atividades intelectuais que [...] permitem na verdade a
reapropriação, o desvio, a desconfiança ou resistência”.38 Desse modo, estamos distantes de
uma leitura passiva das mensagens emitidas pelos discursos aliancistas e, em consonância com
as formulações de Michel de Certeau, procuramos perceber uma manipulação criativa na
recepção desses conteúdos. Ora, sabemos que os enunciados propalados pelos periódicos não

37
ROBIN, Régine. História e Lingüística. São Paulo: Cultrix, 1977, p.45.
38
CHARTIER, R. História cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988, p.59.
26

eram unívocos, espécie de letra morta, ao contrário, prestavam-se a diversas e inesperadas


utilizações. Segundo Certeau, a interpretação “é o lugar onde se produz o encontro, sempre
diferente, entre a palavra já escrita e os novos sentidos que os leitores lhe vão dando”.39
Esse momento é o da negociação. Combinando a vaga retórica de moralização das
instituições pregada pelos aliancistas antes da Revolução com as notas oficiais emitidas pelo
governo revolucionário que conclamava a sociedade a denunciar as autoridades destituídas, os
presos vislumbraram uma senda pela qual poderiam viabilizar a formulação de suas queixas. A
partir da deferência buscavam sensibilizar as autoridades para que observassem a prisão e, agora
que estavam no poder, realizassem as transformações prenunciadas. O caráter anuente presente
nas cartas dos presos parece ser mobilizado em consonância com o entendimento que este era
o caminho mais adequado para angariar melhorias. Contra a objeção de que a ausência de
radicalidade destas correspondências possa significar subserviência por parte dos presos
comuns devemos nos lembrar das formulações de Carlos Aguirre para quem as:

[...] respostas dos presos as suas condições de encarceramento não podem ser
reduzidas a uma dicotomia entre resistência e acomodação. Muito mais
produtivo é conceber suas condutas, tanto individuais quanto coletivas, como
uma série de complexos, ambíguos e cambiantes mecanismos para enfrentar
as condições de vida dentro da prisão.40

Aliás, a transformação das estratégias de luta política dos presos é um dos pontos que
nos importa tornar tangível ao leitor. Diante da ineficácia desses mecanismos de negociação
esses presos passam a erigir uma série de enfretamentos coletivos violentos na medida em que
o governo revolucionário se mostrava cada vez mais indiferente aos queixumes e demandas que
emergiram naqueles anos na Casa de Detenção.
As expectativas dos presos de conseguir barganhar melhores condições junto ao governo
revolucionário puderam ser percebidas também nas comunicações oficiais exaradas pelos
gestores da prisão. Por isso, mobilizamos como documentação ancilar deste capítulo os
relatórios do Conselho Penitenciário de Pernambuco. Na leitura fornecida por Joaquim
Amazonas, presidente da instituição, o aumento exponencial de requisições de liberdade
condicional redigidas pelos presos comuns era decorrência de uma interpretação distorcida da
realidade, posto que em seus “delírios” acreditavam que a Revolução de 1930 poderia conceder-

39
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. p.264.
40
AGUIRRE, Carlos. “O cárcere na América Latina, 1800-1940”. In: MAIA, Clarissa Nunes; NETO, Flávio de
Sá; COSTA, Marcos; BRETAS, Marcos Luiz (orgs.). Op.cit. p.64.
27

lhes a liberdade.41 Esse é seguramente o caso de, relembrando as lições fundamentais de Walter
Benjamim, trilharmos um caminho inverso – “a contrapelo”42 - do que propõe a narrativa
oficial. Essa também é a sugestão de Ginzburg para quem somente a prática de tresler a
documentação pode dar conta de explicitar as relações de força que produzem e condicionam
as fontes.43 Esse entendimento não deve ser tomado como a expressão da ignorância dos presos
comuns, mas como uma evidência que reforça a hipótese central deste trabalho que postula a
emergência de uma leitura política do mundo carcerário elaborada a partir das intersecções entre
a prisão e o mundo circundante.
O segundo capítulo pretende delinear o clima de ebulição na cidade, sobretudo, a partir
da descrição de uma crescente mobilização das forças de oposição ao interventor Carlos de
Lima Cavalcanti. Ao passo que as greves operárias se disseminavam pelas ruas o aparato
policial respondia com o encarceramento sistemático dos opositores. O apogeu deste processo
ocorre no final de outubro de 1931 e teve como protagonistas os militares vinculados ao 21º
Batalhão de Caçadores que, aos moldes das práticas políticas do tenentismo, enveredam na
tentativa de deposição do interventor por meio de um golpe de estado.
Em seguida, a partir do escrutínio sistemático de informações sobre o cotidiano da
prisão, investigamos a presença e a conduta dos presos políticos. A documentação que
compulsamos está contida na Coleção Casa de Detenção do Recife e na Série Correspondências
do Diretor. Nesses registros, além das diversas banalidades burocráticas, podemos encontrar
comunicações exaradas pelo diretor às diversas autoridades informando sobre os eventos que
implicavam a ruptura da normalidade institucional, isto é, ações de transgressão disciplinar por
parte dos presos. Esses testemunhos nos permitem captar a interação entre o ordinário e o
disruptivo no ambiente carcerário.
Na perspectiva adotada neste trabalho, entre as práticas de enfrentamento à ordem
carcerária inexiste, a priori, antagonismo ou hierarquia entre as táticas cotidianas e as ações
coletivas. Ao contrário, essas modalidades de luta interagiam e se abasteciam reciprocamente
na medida em que eram articuladas a partir das experiências compartilhadas de opressão.

41
Arquivo Público Jordão Emerenciado (APEJE). Impressos, Caixa 2, vol. Secretaria de Justiça. Relatório do
Conselho penitenciário 1933, p. 6.
42
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e crítica cultural. Trad. Sergio
Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1994, p.225.
43
Para Carlo Ginzburg, “ao avaliar as provas, os historiadores deveriam recordar que todo ponto de vista sobre a
realidade, além de ser intrinsecamente seletivo e parcial, depende das relações de força que condicionam, por meio
da possibilidade de acesso à documentação, a imagem total que uma sociedade deixa de si. Para “escovar a história
ao contrário”, como Walter Benjamim exortava a fazer, é preciso aprender a ler os testemunhos às avessas, contra
as intenções de quem os produziu. Só dessa maneira será possível levar em conta tanto as relações de força quanto
aquilo que é irredutível a elas”. Cf. GINZBURG, Carlos. Relações de força: história, retórica e prova. São Paulo:
Cia das Letras, 2002, p. 43.
28

Assim, entendemos que no âmbito da prisão “o acontecimento não é assim o inesperado, o


imprevisto, não surge do nada, mas é um produto do cotidiano. Não há por que separar os dois
planos ou, dito de outro modo, talvez seja útil pensá-los conjuntamente”.44 Caso contrário,
incorremos no risco de reproduzir integralmente a grade de leitura contida na documentação
oficial que insiste em nos fazer acreditar que os momentos de ampliação das mobilizações
coletivas equivaliam a “surtos de indisciplina” e não guardavam qualquer tipo de conexão com
as agruras do cotidiano.
Em meio ao discurso predominantemente lacônico do escrivão mapeamos situações que
engendravam extensas comunicações e que alteravam o ritmo insípido do relato burocrático.
Quase sempre a mudança do tamanho do relato é indício da existência de circunstâncias que
convulsionaram o mundo da prisão. Interessa-nos recompor as ações dos presos políticos que,
gradativamente, esboroaram a autoridade do diretor Miguel Calmon. A desídia e afronta pública
foram componentes rotineiros de suas condutas e, não raro, eles manifestavam explicitamente
o entendimento de que não deveriam ter seu comportamento norteado pelo regulamento da
prisão, afinal, eram militares e não integravam “a escória da sociedade”, como os sentenciados.
Essas indisposições e afrontes para com os diversos funcionários da instituição – do chaveiro,
função que era exercida por presos comuns, até o diretor – eram muitas vezes realizadas em
público, nas zonas comuns de convivência entre os dois tipos de presos.
Não devemos esquecer que os presos políticos estavam respondendo seus processos sob
a jurisdição da Justiça Militar, o que ensejava uma série de constrangimentos e dificuldades
para a direção conseguir submeter esse grupo de presos às regras elementares que balizavam a
vida na prisão.
Para delinear o perfil dos presos políticos e suas ações de agitação no cotidiano
carcerário foram bastante úteis as informações arquivadas pela incipiente polícia política que
atuava na cidade do Recife. Para tanto, utilizaremos acervo da DOPS – Delegacia de Ordem
Política e Social– especialmente, os prontuários individuais que são constituídos por dossiês
organizados pelos agentes da polícia com vistas a abastecer investigações sobre a vida e atuação
política dos presos. O manuseio deste registro revelou a constante espionagem a que foram
submetidos alguns desses indivíduos mesmo após serem anistiados pelo Governo Provisório
nos idos de 1933. Neste aporte documental são fundamentais as correspondências pessoais que
os detentos tentavam fazer sair ilegalmente da Casa de Detenção e acabavam sendo apreendidas
pelos agentes de segurança. Nelas estão expressos fragmentos de suas ideias e relatos de ações

GUARINELLO, Norberto Luiz. “História científica, história contemporânea e história cotidiana” In: Rev. Bras.
44

Hist. vol.24 no.48 São Paulo 2004.


29

deflagradas no interior da prisão. Esse material do DOPS, que Bertonha considerou “uma
verdadeira mina de ouro para o historiador que trabalha os anos 30”, deve ser examinado à luz
de uma metodologia crítica e foi utilizado para rastrear a vida desses indivíduos dentro e fora
da prisão, suas vinculações políticas e suas ideias. 45
Avultam na documentação perquirida queixumes da direção requisitando a remoção dos
presos políticos da Casa de Detenção, afinal, sua presença na instituição implicava na redução
da autoridade do diretor, uma vez que, este não poderia impor o mesmo regime de normas sem
que o auditor militar o repreendesse formalmente. Essa situação peculiar dos presos políticos –
tanto os civis como os militares - conferiu-lhes certa autonomia que ensejava, não raro, atitudes
insubordinadas.
Essas ações eram observadas atentamente pelos presos comuns. Desse modo,
entendemos que essas manifestações de desagravo dos presos políticos concorreram – ainda
que indiretamente - para influir nas ações dos presos comuns. Portanto, efetivando-se mais pelo
exemplo do que por um processo educativo direto que teria sido viabilizado por uma fortuita
aproximação entre os presos. Nos registros que compulsamos não conseguimos mapear
quaisquer elementos que possam sustentar a interpretação de uma influência imediata dos
presos políticos sobre a conduta dos comuns de modo a torná-los contestadores das regras que
balizavam a vida na prisão. Ao contrário, fundamentados em profundo elitismo, os presos
políticos insistiram no distanciamento físico e na afirmação de sua condição social e cultural
superior frente aos demais. Nesse sentido, inexistiram ações conjuntas e cooperação sistemática
entre os dois grupos de presos.
Por isso, não é o caso de sugerirmos que os presos comuns copiaram, ipsis litteris, as
ações perpetradas pelos presos políticos no cotidiano da prisão. Trata-se antes de perceber, em
consonância com as contribuições de Charles Tilly, que determinadas ações de protesto coletivo
podem se tornar modelares na medida em que logram alcançar seus objetivos. Esses
“repertórios de confronto” nunca são uma simples emulação de ações de protesto na medida
em que as performances políticas são sempre constrangidas e moduladas a partir das
circunstâncias concretas e pelas experiências políticas de seus praticantes.46 Não obstante, a

45
BERTONHA, João Fábio. “Os arquivos policiais e judiciários: fontes para a história social e política brasileira
do século XX.” In: História Social, Campinas - SP, nº2, 1995, pp. 193-195.
46
Segundo Charles Tilly: “Se olharmos de perto uma reivindicação coletiva, veremos que casos particulares
improvisam a partir de roteiros [scripts] compartilhados. [...]. A metáfora teatral chama a atenção para o caráter
agrupado, aprendido, e ainda assim improvisado das interações [...]. Reivindicar usualmente se parece com jazz
e commedia dell´arte mais do que com a leitura ritual de uma escritura sagrada. Como um trio de jazz ou grupo de
teatro de improviso, as pessoas que participam em política confrontacional normalmente podem atuar em diversas
peças, mas não numa infinidade delas” Cf. TILLY, Charles. Regimes and repertoires. Chicago: University of
Chicago Press, 2006, p.35. Tradução nossa.
30

tendência ao isolamento e distinção dos presos políticos as ações políticas implementadas por
eles foram producentes e capazes de sugerir aos presos comuns um novo modal de negociação.
Lembramos ainda que é preciso operar com prudência e estabelecer delimitações quando
mobilizamos as classificações presos políticos e comuns, caso contrário, podemos utilizá-
las como categorias autoexplicativas e perder de vista o seu caráter dinâmico e histórico.
Assumir uma associação imediata entre o tipo de preso e um dado padrão comportamental é
trilhar na contramão das múltiplas evidências que analisamos. Já na primeira metade do século
passado, Marc Bloch atentava para os inúmeros perigos que poderia incorrer o historiador ao
reproduzir acriticamente os termos impostos por um conjunto documental. No seu clássico
Apologia da História salientou que:

[...] reproduzir ou decalcar a terminologia do passado pode parecer, à primeira


vista, um procedimento bastante seguro. Choca-se, porém, na aplicação, com
múltiplas dificuldades [...]. Para resumir, o vocabulário dos documentos não
é, a seu modo, mais do que um testemunho, imperfeito; portanto, sujeito a
crítica. [...] Estimar que a nomenclatura dos documentos possa bastar
completamente para fixar a nossa seria o mesmo, em suma, que admitir que
nos fornecem a análise toda pronta.47

Entendimento similar é sustentado por Michel de Certeau para quem um dos


procedimentos fulcrais da pesquisa histórica é, precisamente, a manipulação e transformação
das classificações do passado. Em função disso, Certeau adverte que “não podemos denominar
“pesquisa” o estudo que adota pura e simplesmente as classificações do passado [...]”.48
Pensamos que a apreensão do cotidiano carcerário por meio da simples reprodução da
grade de classificação contida nas fontes - “preso comum” e “preso político” - pode concorrer
mais para obnubilar do que para esclarecer as sociabilidades e dinâmicas ensejadas naqueles
anos na Casa de Detenção. Em suma, qualquer uma dessas classificações não deve nos levar a
minorar a diversidade de interações possíveis desses indivíduos entre si e com o ordenamento
prisional, afinal, ao manuseá-las podemos assumir como verdadeira a existência prévia de
“denominadores comuns”, ou seja, de interesses compartilhados conscientemente que
encaminham para a coesão e convergência num processo de unificação grupal.
Para a historiadora Simona Cerutti essa maneira de enquadrar os sujeitos “reifica grupos
sociais. Através dela, desliza-se assim do indivíduo em relação ao grupo já que a classificação

47
BLOCH, Marc. Apologia da história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001, pp.136-143.
48
CERTEAU, Michel. “A operação histórica”. In: LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre (orgs.). História: novos
problemas. 4. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995, p.32.
31

subentende a noção de um interesse comum para os membros da mesma categoria”.49 Dessa


forma, devemos lembrar que a classificação binária que enquadra as práticas reputadas como
delituosas em “comuns” ou “políticas” advém de um esforço jurídico para esquadrinhar o crime
e não pode ser considerada como guia inequívoco para a compreensão dos criminosos e de sua
experiência política no mundo carcerário.50 Incorrer na prática dos mesmos delitos não desloca,
necessariamente, os indivíduos para grupos unificados e coesos de onde se possa extrair um
comportamento médio a ser efetivado na prisão.
Outro risco, ainda maior, consiste em supor uma prática política necessária para cada
um destes grupos e, equivocadamente, sustentar uma homogeneidade da conduta a partir de um
enquadramento jurídico do crime. Por conseguinte, não podemos supor que qualquer tipo de
comportamento esteja intrinsecamente associado às classificações preso comum e preso
político.
Nessa medida, como corretivo a essa uniformização tentamos reter nossa atenção na
atuação concreta dos atores, evitando assumir que a ação política dos presos é uma derivação
do enquadramento legal de seu crime e que a eficiência dela comporta um nexo inextricável
com o grau de letramento dos seus praticantes.
É, portanto, no conceito de experiência que vamos buscar guarida. Simona Cerutti
sugere ainda que “partindo dos indivíduos, recompondo-lhes o percurso social e tentando
explicar as escolhas, o pesquisador interroga sobre a experiência social deles e, por conseguinte,
sobre o modo de formação de sua identidade social”.51 A partir das formulações de Thompson,
hoje já sobejamente conhecidas, consideramos que é pela experiência concreta que homens e
mulheres definem e redefinem suas práticas e pensamentos. Aspectos sociais, culturais e
institucionais, em conjunto, condicionam as ações de homens e mulheres na concretude de suas
experiências históricas. É o próprio Thompson quem indica que essas experiências não se
desenvolvem, exclusivamente, em meio ao mundo do trabalho, pois, segundo ele, “pessoas são
presas: na prisão pensam de modo diverso sobre as leis. Frente a essas experiências, velhos
sistemas conceituais podem desmoronar e novas problemáticas podem insistir em impor sua
presença”.52

49
CERUTTI, Simona. “A construção das categorias sociais”. In: BOUTIER, Jean; JULIA, Dominique (orgs.).
Passados recompostos: campos e canteiros da História. Rio de Janeiro: Editora UFRJ/Editora FGV, 1998, pp.
233-242, pp.236-237.
50
Para um debate mais detido sobre os chamados “crimes políticos” durante a Era Vargas remetemos o leitor para
seguinte obra: NUNES. Diego. Do Direito Penal político italiano ao Direito da Segurança Nacional brasileiro.
Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências Jurídicas. Programa de Pós-
Graduação em Direito, 2010.
51
CERUTTI, Simona. Op.cit, p. 240.
52
THOMPSON, Edward P. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. p. 17.
32

A forma consagrada pela narrativa dos presos políticos, e reiterada em parcela da


historiografia, que insiste em diferenciar os dois tipos de presos em termos binários e estanques
- de consciência/alienação; ativismo/deferência; organização/dispersão - é insuficiente para dar
conta da complexidade das associações políticas que foram erigidas na Casa de Detenção. De
fato, muitas vezes, como no levante dos presos comuns de 1932, o protagonismo das ações de
contestação não coube aos presos políticos que mesmo sendo convidados a participar do levante
julgaram “contraproducente” se vincularem àqueles embates por serem alheios as suas
motivações.
No terceiro capítulo da tese tomamos como objetivo inicial esquadrinhar o que seria um
perfil social dos indivíduos que até aqui chamamos genericamente de presos comuns. Entramos
num terreno onde predomina o obscuro e o silêncio. Aqui as fontes são exíguas e,
inexoravelmente, indiretas, onde quase tudo está por fazer. Como sustentou com eloquência
Jacques Le Goff, não basta constatarmos as lacunas e “os espaços em brancos da história” é
preciso ir mais adiante e “fazer o inventário dos arquivos do silêncio, e fazer a história a partir
dos documentos e das ausências de documentos”.53
A ausência dos presos comuns na historiografia na década de 1930 é decorrência de, ao
menos, dois fatores conjugados. Tanto a ausência de documentos que informem diretamente
sobre a experiência dos presos comuns quanto à relativa abundância dos relatos produzidos e
autocentrados nos presos políticos. Assim, não basta à crítica ao uso açodado dessas memórias
é preciso ainda mapear fontes alternativas e, à luz de uma metodologia apropriada, demonstrar
sua proficuidade para efetivar uma escrita da história alternativa.
Diante desta empreitada coligimos duas tipologias documentais que, até o presente
momento, permanecem inexploradas pelos historiadores que estudaram a Casa de Detenção do
Recife. A primeira delas é composta por três Livros de Inquéritos produzidos pela
administração prisional com o fito de investigar os meandros da organização de um “grande
motim” realizado em 1932. Em sua totalidade coligem 359 depoimentos de presos comuns e
24 de presos políticos. Quantitativamente, isso equivale a mais de 40% dos presos existentes na
instituição, se tomarmos como referência o contingente carcerário que havia no dia que eclodiu
o motim.54
Antes da transcrição dos depoimentos propriamente ditos esses inquéritos apresentam
um histórico do preso a partir de uma estrutura fixa da oitiva. Ali é anunciado o nome do preso,

53
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, SP Editora da UNICAMP, 1990, p.109.
54
APEJE. Fundo CDR. Registro. Correspondência do Administrador/Diretor. Fevereiro de 1932- janeiro. (4.1/49),
p. 178.
33

sua filiação, instrução, crime e, em apenas um dos livros, a profissão. Diante disso, tornou-se
possível a quantificação destes dados no intuito de delinear um perfil, ainda que bastante
aproximativo e geral, dos presos comuns. Neste sentido, os Livros de Inquéritos permitem
vislumbrar esses sujeitos e suas experiências sociais anteriores ao mundo do cárcere.
Entendemos que é preciso delimitar o perfil e a prática concreta daqueles homens que,
efetivamente, foram capazes de perceber e manipular as oportunidades ofertadas pelas
circunstâncias políticas que os presos julgaram favoráveis.
A delimitação de um quadro em que possamos nos aproximar das vivências sociais
destes detentos antes da prisão é fundamental. De modo que é preciso ter em conta que a
experiência prisional desses detentos está articulada com os valores e aprendizados exógenos à
instituição. O repertório sociocultural dos prisioneiros não é apenas um produto decorrente das
condições internas ao cárcere ou mesmo mera resposta adaptativa a elas. Esses sujeitos foram
capazes de organizar levantes coletivos ponderando as correlações de força com a diretoria e
isso ocorreu a partir da mobilização dos recursos intelectuais e simbólicos que portavam. Suas
experiências anteriores e exteriores ao encarceramento e, que são transportadas de forma
adaptativa para a vida na cadeia, são também uma modalidade de conexão entre os dois lados
do muro prisional e permanecem como elementos que orientam suas ações no cotidiano
institucional.55
Ainda inexplorada pela historiografia, a segunda modalidade de fonte que nos servimos
foram os pareceres do Conselho Penitenciário de Pernambuco que deliberavam quanto à
pertinência da requisição do instituto do Livramento Condicional dos detentos. Compulsando
a documentação conseguimos coligir e analisar 560 pareceres emitidos pelos conselheiros entre
os anos de 1930-1936.56
A partir do uso desta tipologia foi possível adentrar nas leituras que as autoridades
criminais de Pernambuco realizavam sobre os criminosos comuns, notadamente, no que
concerne às conexões entre criminalidade e analfabetismo. Esses homens de ciência,
comumente chamados à época de penitenciaristas, não poderiam considerar que sujeitos de
parco letramento fossem capazes de organizar consciente e consequentemente qualquer tipo de
articulação política propositiva. Nesse sentido, quanto a este aspecto suas interpretações não

55
CUNHA, Manuela Ivone. Op. cit. p.26.
56
No decurso da elaboração deste trabalho o fundo Documental do Conselho Penitenciário de Pernambuco
custodiado no Arquivo Público Jordão Emerenciano (APEJE) encontrava-se interditado em função de ainda não
ter sido submetido às classificações arquivistícas. O acesso foi franqueado mediante uma requisição formal emitida
pela coordenação do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco ao qual
reitero os meus agradecimentos.
34

permitem dúvidas: aquelas ações eram produtos da ignorância e insipiência, decorrência do


gregarismo comum à vida na prisão.
Devemos lembrar que se coube à polícia política reunir informações sobre os presos
políticos e seu comportamento “subversivo” foi ao cargo destes homens - juristas e médicos,
sobretudo - que ficou a missão de escrutinar a vida e o comportamento dos presos comuns. É
por isso que nesses pareceres, a despeito de todas as distorções e filtros, estão contidas
informações valiosas sobre fragmentos de suas vidas na prisão. Como sublinhou Elizabeth
Cancelli, de certa perspectiva, o livramento condicional representou, naquele contexto, “o
movimento científico para o conhecimento da pessoa sentenciada”.57
Entre as exíguas fontes que se prestam a fornecer informações sobre os presos comuns
da Casa de Detenção, os pareceres do Conselho Penitenciário são fulcrais. Isto não significa
assumir que as apreciações contidas ali – sobre a conduta dos presos e de seus índices de
“regeneração” – deixam transparecer automaticamente um perfil unívoco e incontroverso. Ao
contrário, nesses pareceres existem ao menos três interlocutores claramente atuantes. Primeiro,
aparece a solicitação do preso, que se fosse alfabetizado escrevia sua própria requisição o que
sempre causava uma boa impressão do requerente junto aos conselheiros posto que o
analfabetismo era entendido como um elemento que fomentava a recidiva da prática
delinquente. Quando se tratava de um sujeito analfabeto a solicitação era remetida “arrogo”, ou
seja, escrita pelo escrivão da instituição. Outra voz presente nesta documentação é a do diretor
da Casa de Detenção que tinha por incumbência descrever o comportamento do preso no
cotidiano prisional para que a autoridade do Conselho Penitenciário, por fim, formulasse um
parecer que seria enviado ao Juiz que deveria analisar a indicação dos conselheiros, que por ser
um órgão consultivo, dependia da aquiescência final desta autoridade, o que normalmente
acontecia.
Interessam-nos mais as descrições da conduta dos presos do que as digressões analíticas em
que, não raro, enveredava o diretor do estabelecimento prisional, pois, a partir delas
pretendemos delinear uma regularidade nos comportamentos dos presos comuns. A necessidade
de o diretor descrever minuciosamente as ações, abonadoras ou desabonadoras, dos presos
comuns para abastecer o conselheiro de informações é, sem dúvida, uma das potencialidades
dessa fonte.
Por fim, encerramos o capítulo utilizando um cruzamento onomástico de dados em
diferentes tipos documentais a fim de escrutinar a presença de práticas violentas na vida destes

57
CANCELLI, Elizabeth. Carandiru: a prisão, o psiquiatra e o preso. Brasília: UnB, 2005, p.24.
35

sujeitos. Assim, pretendemos sugerir uma interpretação capaz de captá-las como forma
elementar das sociabilidades destes homens antes e durante a reclusão e que, portanto, não
podem estar ausentes de qualquer debate sobre as formas de resistência e ação política dos
presos comuns na Casa de Detenção. Nesse sentido, nos afastamos da percepção segundo a qual
a violência é um elemento abrupto e, necessariamente, desagregador posto que era também uma
forma elementar de diversas interações desses homens. Para explicitar essa dimensão do mundo
prisional cotejamos a vida pregressa dos indivíduos listados como partícipes de motins na
instituição e que, portanto, constam como depoentes nos Livros de Inquéritos. Procuramos
cruzar essas informações com alguns rastros encontrados nos inquéritos policiais e processos-
crimes que hoje se encontram custodiados no arquivo do Memorial da Justiça de Pernambuco.
Essa modalidade de registro tem tido crescente utilização por parte da historiografia e
permitiu mapear uma miríade de questões caras ao nosso objeto. Entretanto, sabemos que as
falas contidas ali são elaboradas pela perspectiva da Justiça Criminal e dos seus mecanismos de
produção da verdade, por conseguinte, nunca devem ser tomadas como índices transparentes
da realidade que o historiador pretende investigar, afinal, são mediadas pelos diversos filtros
interpostos pela atuação dos “operadores da Justiça”. Dos atos aos autos toda uma série de
reduções, ressignificações e distorções se operam na produção da verdade construída. Apesar
de todas as armadilhas e sinuosidades que vicejam neste tipo de documentação,
indubitavelmente, “os autos penais constituem fonte privilegiada para o estudo da vida
cotidiana no passado”. 58
A partir do diálogo com autores que se esforçam para pensar conceitualmente a
correlação entre violência e política - como Foucault, Charles Tilly, Slavoj Zizek, etc -
entendemos que a violência era, por vezes, uma das formas de manifestação política e estava
presente tanto em ações individuais, como a quebra da infraestrutura da prisão, quanto nos
enfrentamentos coletivos em que o desígnio era assassinar os funcionários reputados mais
opressores.
O quarto e último capítulo da tese aborda, a partir do estudo de um episódio, a maneira
como presos comuns foram capazes de articular mobilizações coletivas antes de 1935. Nosso
objeto precípuo será investigar uma rebelião deflagrada em 1932, momento em que os detentos
adotam uma nova estratégia de pressionar o governo revolucionário. Reputamos que aqueles
enfrentamentos foram decorrentes de uma articulação política propiciada, sobretudo, pela

58
MONSMA, Karl. “Histórias de violência: inquéritos policiais e processos criminais como fontes para o Estudo
de relações interétnicas”. In: DEMARTINI, Zélia de Brito Fabri; TRUZZI, Oswaldo (org.). Estudos migratórios:
perspectivas metodológicas. São Carlos: EDUFSCAR, 2005, p. 159-221.
36

conjunção de três elementos: a conjuntura política revolucionária, a presença de presos políticos


no interior da Casa de Detenção e a capacidade de mobilização dos presos comuns. Esse é um
momento em que surgem enfrentamentos coletivos protagonizados pelos presos comuns.
A documentação oficial, produzida pelos inquéritos, tem por desígnio demonstrar que
além de irracional aqueles acontecimentos eram aleatórios. Nos termos da documentação eram
episódios que manifestavam “surtos de indisciplina”. Este posicionamento deve ser interpretado
em consonância com o próprio objetivo da prisão na medida em que explicar aqueles
enfrentamentos coletivos como produto de uma associação cotidiana era, para os gestores da
Casa de Detenção do Recife, admitir sua incapacidade de individuar a pena e evitar os
ajuntamentos coletivos. Lembremos aqui que a reclusão moderna deve operar por meio de uma
taxionomia dos criminosos. É com acuidade que Michelle de Perrot nos lembra que “no interior
da prisão o sistema visa destruir qualquer comunidade, a impedir qualquer forma de
sociabilidade [...] Ele se funda primeiramente na classificação”.59 Longe de um surto irracional
supostamente demonstrativo da ignorância dos presos comuns, compreendemos aqueles
eventos como produzidos pela articulação política. Assim, pretendemos dimensionar suas
demandas, métodos de organização, lideranças e implicações.
Para tanto, nossa fonte basilar são os três Livros de Inquérito já mencionados acima. O
primeiro procedimento indispensável é discutir a validade deste suporte como instrumento que
permite reconsiderar a história das prisões na década de 1930. Esse é o momento que
problematizamos a pertinência deste suporte para viabilizar esta empreitada salientando os
limites e possibilidades que esses registros ofertam. Esses inquéritos não são, obviamente, uma
tipologia documental destituída de seleções e filtros, ao contrário, todo procedimento desta
natureza é proveniente de uma ação deliberada para estabelecer responsabilidades. Não
devemos nos aturdir demasiadamente diante dessa constatação, visto que as reformulações da
ciência histórica e as apropriações interdisciplinares têm ofertado um manancial de
procedimentos que permitem ao historiador trabalhar com essas fontes oriundas de instituições
e práticas repressivas.
Devemos atentar para o momento de produção daqueles relatos. Isso significa investigar
em que medida as respostas dos detentos são ecos das perguntas daquele que interroga.
Sabemos que “as perguntas por vezes, já comportam respostas, ou se abrem a certos padrões de
respostas e não a outros”.60 Ademais, a intervenção do escrivão adotando certo padrão prévio

59
PERROT, Michelle. Op. cit.p.266.
60
BARROS, José Costa D’assunção. Op. cit. p. 27.
37

de maneiras de redigir pode estar entre os elementos capazes de distorcer as vozes que
pretendemos escrutinar.
No entanto, mesmo considerando “os filtros que a justiça impõe não se deve considerar
que a narrativa não contenha o modo como determinada pessoa vivencia sua realidade”.61 As
opiniões dos detentos não serão tomadas como “a verdade em si”, são informações e “devem
ser tratadas antes de tudo como materiais, como acontecimentos a serem analisados”.62 A
veracidade delas foi testada com o cruzamento de dados com outras tipologias documentais que
abastecem este trabalho e nos permitiram obter uma compreensão mais lapidada da atuação
política dos presos comuns.
Para organizar as informações extraídas desses inquéritos utilizaremos uma abordagem
inferencial indutiva, isto é, a partir de uma série de explicações individuais e do trabalho
interpretativo construiremos explicações mais abrangentes, num procedimento analítico de
redução da escala de observação que tanto frutos têm gerado na história social. Deste modo, os
relatos individuais dos detentos “representam antes, um ponto de partida para um movimento
mais amplo em direção à generalização”.63
Outra fonte que permite rastrear informações sobre este episódio são os jornais da
cidade. Esses embates no estabelecimento prisional não passaram despercebidos aos olhares da
imprensa recifense. Cada jornal, em função da linha política que defendia, enfatizou e nomeou
aqueles embates de forma peculiar: greve, motim, revolta, mazorca. Aqui temos por objetivo
apurar a cobertura pela imprensa desses conflitos coletivos na detenção e os meandros da
repercussão de uma mobilização coletiva feita por “criminosos”, ou seja, encarcerados que não
tinham o estatuto de preso político.
Por fim, inserimos esse acontecimento no âmbito das mobilizações prisionais da década
de 1930 a fim de fazermos emergir contrastes e semelhanças. De saída, podemos indicar certa
inadequação no modelo teórico que entende as rebeliões desse período como decorrências de
embates cujas origens são as precariedades estruturais da prisão. A partir da documentação que
compulsamos é perceptível que as condições de repressão e habitabilidade da Casa de Detenção
mantiveram-se estáveis. Além disso, nada havia de inaudito na prática de tortura aos presos
comuns. Por que, então, os presos comuns passaram a se posicionar de maneira mais ostensiva
e coletiva contra os diretores da prisão e as próprias autoridades públicas?

61
OLIVEIRA, Fabiana Luci de; SILVA, Virgínia Ferreira da. “Processos judiciais como fonte de dados: poder e
interpretação”. In: Sociologias, Porto Alegre, ano 7, nº 13, jan/jun 2005, p. 244-259.
62
BARROS, José Costa D’assunção. Op. cit. p. 427.
63
LEVI, Giovanni. “Sobre a Micro-História” In: BURKE, Peter. A Escrita da História: novas perspectivas. São
Paulo: UNESP, 1992, p.135.
38

Os enfrentamentos coletivos eram produzidos em consonância com a realidade aquém


e além da prisão. As transformações que julgamos mais fecundas para interpretar aqueles
acontecimentos emergiram alhures, fora do perímetro da instituição. As cesuras quase invisíveis
existentes na prisão a punham em contiguidade com as tensões externas e condicionaram as
interpretações dos presos. Elementos de fora e de dentro do mundo carcerário, a partir de um
processo de sinergia, os tornaram aqueles embates efetivos. Ao alterar as projeções
sentenciados e elevar suas expectativas sobre a possibilidade de avanços no funcionamento da
Casa de Detenção, os acontecimentos políticos externos produziram no seu cotidiano as
condições favoráveis para que se disseminassem entre os presos - o que um articulista coevo
denominou pejorativamente de - “os germes da indisciplina”.

As prisões na Era Vargas: abordagens, sujeitos e lacunas.

A historiografia sobre as prisões no Brasil avançou consideravelmente nas últimas


décadas, notadamente, impulsionada pelos debates suscitados pelas contribuições de Michel
Foucault em seu, sobejamente debatido, Vigiar e Punir. Vários trabalhos foram desenvolvidos
em consonância com a expansão dos cursos de mestrado e doutorado disseminados pelo país.
Parcela predominante dos trabalhos pioneiros dedicou-se a realizar o mapeamento das
origens do sistema carcerário no Brasil. Portanto, tematizaram a reforma prisional no Brasil
oitocentista. É sempre bom lembrar que, nesta conjuntura de construção e consolidação do
Estado Nacional, o movimento de reformas das prisões era um dos símbolos da modernidade e
progresso social e, por isso, penetrou significativamente na agenda política de parcela da elite
imperial, entretanto, em função da onerosidade destas edificações, nem todas as províncias
lograram de imediato construí-las. De certo modo, tem razão Fernando Salla quando salienta
que, naquela conjuntura de meados do século XIX, “a construção da civilização passava
necessariamente pela modernidade penal”.64
Decorreu desta necessidade de levantamento exploratório, mas também da característica
notadamente protocolar e lacônica de parte significativa das fontes disponíveis aos
pesquisadores da temática, o fato de prevalecer nestes trabalhos um enfoque voltado ao debate
institucional. Os objetos destes trabalhos pioneiros são, grosso modo, os projetos de controle e
modernidade que viabilizaram a edificação destas instituições e os enormes imbróglios que
envolveram a execução efetiva dos regulamentos penitenciários no cotidiano. O historiador

64
SALLA, Fernando. As prisões em São Paulo. São Paulo: Annablume, 1999, p. 24.
39

John Conley de maneira bastante oportuna nos adverte que é preciso avançar para além da
retórica dos administradores e penetrar no funcionamento efetivo da instituição para que assim
possamos mensurar as complexas funções sociais do encarceramento.65
Vários historiadores puderam constatar uma sensível defasagem entre o prescrito nas
normas e o efetivamente vivenciado no cotidiano carcerário. A partir das diversas realidades
provinciais, foram mapeados as pretensões e usos efetivos que as elites dirigentes esperavam
obter com estas modernas instituições na medida em que elas representaram reforços
consideráveis na ossatura de controle social vigente à época. Geralmente, são estudadas as
modernas prisões construídas nos centros decisórios das províncias e relativamente pouco se
tem investigado acerca da dinâmica do encarceramento nas frágeis cadeias do interior do Brasil.
Uma característica marcante da historiografia das prisões no Brasil é seu caráter
cronologicamente circunscrito visto que enfatiza, sobremaneira, o Oitocentos e poucos são os
trabalhos que analisaram essas instituições no decurso do século XX.
Realizado a contento, este mapeamento inicial tem possibilitado os pesquisadores da
temática adentrar em outros recortes, esferas e problemáticas da temática. Ainda é amplamente
dominante o estudo das dinâmicas internas da prisão e insólitos são os trabalhos que se propõem
a analisar as multifacetadas relações entre os dois lados do muro prisional. Uma abordagem que
procure enfatizar como os fluxos de pessoas, informações e mercadorias entre os dois lados da
prisão pode influenciar as formas de vida e luta na prisão é muitíssimo incipiente na
historiografia brasileira.66
Por isso, pensamos que ainda permanecem atuais as ressalvas elaboradas por Michael
Ignatieff quando sublinhou os riscos que incorriam os historiadores que, ao estudar a prisão,
acabam por confinar as suas investigações ao seu perímetro tornando-as “prisioneiras das
mesmas paredes”. Ao contrário, o autor postulou que o objeto precípuo “da história das
instituições não é [...] o que acontece dentro das suas paredes, mas a relação histórica entre o
dentro e o fora”. 67

65
CONLEY, John A. “L'histoire de prisons aux Etats-unis. Proposition pour une méthode de recherche”. In:
PETIT, Jacques G. (Org.) La prison, le bagne et l'histoire. Genève, Librairie des Méridiens, 1984.
66
No campo da sociologia da punição, um trabalho interessante e com essas características metodológicas pode
ser encontrado na tese de doutorado de GODOI, Rafael. Fluxos em cadeia: as prisões em São Paulo na virada dos
tempos. Tese (Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de
São Paulo, São Paulo, 2015. Uma dissertação, recentemente publicada, que enfatiza a relação entre a prisão e a
dinâmica política mais ampla é: FERREIRA, D. F. Rebelião e reforma em São Paulo: aspectos socioeconômicos
e desdobramentos políticos da primeira fuga em massa de um presídio brasileiro (Ilha Anchieta, 1952). Dissertação
(Mestrado em História Econômica). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São
Paulo, São Paulo, 2016.
67
IGNATIEFF, M. Instituições totais e classes trabalhadoras: um balanço crítico. Instituições – Revista Brasileira
de História, 7(14):185-193, São Paulo, Marco Zero/Anpuh, mar.ago. 1987.
40

Em um balanço acerca da produção acadêmica sobre as prisões no Brasil Fernando Salla


reputou que um dos maiores desafios para os pesquisadores deste campo de estudos era romper
com a “pouca criatividade” teórica que ainda predomina. Segundo ele, muito “trabalhos
utilizam os principais referenciais teóricos sem avançar no debate sobre sua capacidade ou não
de dar respostas aos materiais empíricos levantados”.68 Além disso, predominaria uma agenda
de estudos bastante “tradicional” em que são incipientes as reflexões sobre “os movimentos de
revolta, como as fugas e as rebeliões; as ligações do espaço prisional com o espaço exterior na
reprodução da economia do crime.”69
Atualmente, multiplicam-se os objetos, métodos e recortes na historiografia das prisões.
É completamente fora de nossa intenção mapear e analisar a totalidade desta já vasta produção.
O que fazemos aqui é elaborar um balanço historiográfico deliberadamente seletivo. Trata-se
de um guia que permita explicitar ao leitor os diálogos, convergentes e divergentes, que foram
travados no percurso desta pesquisa.
Na condição de um balanço parcial é preciso, então, demarcar os critérios que
presidiram a inclusão/exclusão das obras. Elencamos aqui os trabalhos a partir de quatro
parâmetros que visam estabelecer graus distintos de aproximação com esta tese: primeiro,
apontamos os trabalhos sobre o sistema prisional que se dedicam a analisar temática da
organização política dos presos durante a década de 1930 (portanto, essas pesquisas detém
relevância cronológica e temática); segundo, as pesquisas que abordando as formas de luta dos
presos comuns se dedicaram a outra fase da história republicana (afinidade temática); terceiro,
agrupamos algumas investigações que mesmo enfatizando outros problemas convergem quanto
ao período (coincidência cronológica); e por fim, todas as produções que, independente das
temáticas e recortes, tomaram como objeto a Casa de Detenção do Recife.
Do ponto de vista das obras que se dedicam a estudar a prisão e a atuação dos presos
durante a Era Vargas o trabalho pioneiro é a tese de doutorado de Elizabeth Cancelli intitulada
O mundo da violência: repressão e estado policial na Era Vargas que estudou os mecanismos
de controle social e a repressão política viabilizada pelo fortalecimento das instâncias policiais.
No concernente ao mundo da prisão propriamente dito, objeto da reflexão de seu último
capítulo, sobressai o entendimento da prisão como um local da barbárie e da tortura, símbolo
de um governo autoritário. De forma que “o sistema penitenciário assumia gradualmente,

68
SALLA, Fernando Afonso. “A pesquisa sobre as prisões: um balanço preliminar”. In: KOERNER, Andrei. (Org.). História
da Justiça Penal no Brasil: pesquisas e análises. São Paulo: Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, 2006, pp. 107-127, p.115.
69
Ibidem, p.119.
41

depois de 1930, seu papel radicalizador [...] As prisões tornaram-se um verdadeiro inferno.
Funcionavam como lugar de reclusão, suplício e dor”.70
Convém registrar que a percepção das prisões da Era Vargas como lugar de tortura e
suplícios infernais tem como linhagem as narrativas dos próprios contemporâneos, onde um
lugar destaque cabe às críticas do jornalista David Nasser no seu conhecido Falta alguém em
Nuremberg, publicado em forma de livro em 1947.71
De uma visão panorâmica, elaborada a partir de dados atinentes às várias instituições
nacionais, Elizabeth Cancelli enxerga um efeito desumanizador a que foram submetidos os
sujeitos que habitavam as prisões. Superlotados, os cárceres nacionais eram uma inequívoca
evidência da “onipotência e onipresença do Estado” e essas condições adversas concorriam para
esmaecer “todos os contornos de civilidade, assumindo cada vez mais sua condição animal”.72
Entendemos como inconsistente parte das conclusões da autora. Nossa pesquisa não
corrobora, por exemplo, a ideia de que “o cárcere conseguia esvaziar as eventuais formas de
solidariedade”.73 Aqui já está presente o uso da memória dos presos políticos como fonte
importante, entretanto, a autora demonstra muita acuidade no manuseio metodológico de sua
documentação e a todo tempo busca combinar e criticar o uso dos testemunhos de presos
políticos com outras fontes históricas. Talvez, essa seja uma das razões que permite explicar o
fato da historiadora não incorrer na prática, comum a muitos pesquisadores, de ignorar a
realidade prisional durante o Governo Provisório.
Outra historiadora que abordou a temática de maneira central foi Regina Célia Pedroso
no seu livro Os signos da opressão. A abordagem proposta pela historiadora é ampla e parte
desde os debates penais europeus até aportar no Brasil republicano. No enfoque proposto pela
autora o ano de 1935 emerge como um divisor central da organização política dos presos na
medida em que ocasiona uma “uma espécie de “reorganização da vida” nos presídios”. 74 Em
outro trabalho de sua autoria insiste que “a intensificação da ação policial alterou o cotidiano
carcerário, principalmente após 1935, em decorrência da prisão em massa dos comunistas”.75
Mas é na parte final de Signos da opressão intitulada de “a memória da instituição pelos
presos políticos” que podemos perceber mais nitidamente uma abordagem em que o relato do

70
CANCELLI, Elizabeth. O mundo da violência: repressão e estado policial na era Vargas (1930-1945). Tese de
doutorado em História. São Paulo: Unicamp, 1991, p.366.
71
NASSER, David. Falta alguém em Nuremberg, Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1966.
72
CANCELLI, Elizabeth. Op.cit. p.390.
73
Ibidem, p.395.
74
PEDROSO, Regina Célia. Os signos da Opressão: História e violência das prisões brasileiras. São Paulo:
Arquivo do Estado, imprensa oficial do Estado, 2002, p.192.
75
PEDROSO, Regina Célia. Estado autoritário e ideologia policial. São Paulo: FAPESP, 2005, p.137.
42

preso político emerge como evidência autossuficiente. O recurso à citação de fragmentos das
memórias daqueles sujeitos basta para reconstituir o cotidiano das prisões e, apresentados em
sequência, dão a ver um mundo no qual são pioneiros e desbravadores, em tudo protagonistas,
sobretudo, a partir das ações coordenadas pelo chamado “coletivo”.
Em toda a narrativa elaborada pela historiadora encontra-se um incomodo silêncio
acerca da organização política dos sujeitos que habitavam os cárceres antes da chegada dos
presos políticos. Até a chegada destes na prisão sua analise é, exclusivamente, institucional e
não trata de sujeitos concretos. Apresentam-se, inclusive de maneira rigorosa do ponto de vista
metodológico, códigos, regulamentos, tabulações de crimes, doenças e alimentação dos
detentos; número de entrada e saída de detentos; denúncias das condições sub-humanas em que
viviam os presos comuns. Tudo fartamente documentado, mas não trata dessas pessoas como
agentes políticos. Este ainda não era o tempo das lutas políticas no interior da prisão.
A guinada é o ano de 1935. Aqui a narrativa translada de uma abordagem cuja ênfase
é a instituição e passa a sublinhar os sujeitos, doravante, ativos e transgressores. Os presos agora
são agentes e através da nomeação e da descrição de suas ações ganham personalidade e
identidades próprias. Este é o momento em que passará a discutir a resistência dos presos.
Segundo propõe a historiadora:

O confinamento em massa de opositores políticos durante os anos 30 fez


crescer as organizações de presos, cuja finalidade era a união em torno de
princípios básicos de convivência, de defesa de requisitos mínimos de
sobrevivência na prisão e resistência ao governo. A prisão além de ser o local
de confinamento propriamente dito dos presos, assumiu características de uma
minisociedade. Os detentos políticos se organizavam no coletivo.76

Pouco mais adiante, quando se trata de descrever e contrapor as formas de organização


política entre os diferentes tipos de presos Pedroso não hesita em concluir, em notória
convergência com a memória dos presos políticos que utiliza como fonte basilar, que “havia
um contraste nítido entre a organização dos presos políticos e o submundo das relações
vivenciadas pelos outros presos”.77
Nessa leitura ela não está desacompanhada. Uma análise com essas mesmas
características pode ser encontrada em Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular (1930-
1945) de autoria do historiador Jorge Ferreira. Nesta obra, o autor inicialmente se esforça para
evidenciar o que entende como os limites do conceito de populismo que, em sua percepção,

76
PEDROSO, Regina Célia. Op. cit. 2002, p.192.
77
Ibidem, p.194.
43

encobre o protagonismo político dos trabalhadores sob a égide do regime varguista. Segundo
Ferreira, eram eles sujeitos ativos que “não apenas dispunham de informações, interpretavam
os acontecimentos políticos de acordo com suas experiências, expectativas, necessidades e
tradições, formulando desse modo, uma história política recente do país”.78 Entretanto, mais
adiante quando se trata de analisar a vida nas prisões durante o mesmo período, a instituição
carcerária parece conseguir sustar abruptamente a agência histórica desses indivíduos, que antes
de entrarem nas prisões eram ativos intérpretes da realidade. Como sói acontecer, sua
interpretação da vida nas prisões varguista inicia-se em 1935 e é fundamentada,
exclusivamente, nas memórias de presos políticos.
Contrariando a noção de agência histórica que confere sustentação a sua argumentação
inicial, o historiador defende a incapacidade dos presos comuns de entender o mundo a sua
volta e sustenta que “na maioria das vezes, as revoltas nos presídios surgiam por questões que
os presos comuns, particularmente dos grupos mais marginalizados da sociedade, não podiam
compreender”.79
Outro trabalho que aborda o tema da prisão e sublinha o protagonismo dos presos
políticos comunistas na Era Vargas é a dissertação de mestrado de Giovanna de Abreu
Antonacci. No seu trabalho os presos comuns aparecem de relance e sua incidência guarda
relação diretamente proporcional com a quantidade de interações que travaram com os
militantes. Quanto aos presos comuns, a historiadora praticamente se limita a sublinhar, com
razão, os inúmeros percalços para mapeá-los em outras fontes que não a memória dos presos
políticos. Segundo ela, “infelizmente é muito difícil tecer alguma biografia dos presos
comuns, visto que não foi possível encontrar qualquer forma de testemunho sobre eles além
de pequenas aparições nas narrativas dos presos políticos”.80 Grosso modo, nestas narrativas
quando mencionados é pelo prisma da barbárie e repugnância que os presos comuns são
apresentados. Na ausência de outras evidências é a narrativa extraída dessas memórias que
empresta o enredo, os personagens e a própria fiabilidade do texto.
Não é nossa pretensão questionar o ativismo dos presos políticos por onde passaram,
mas alternativamente perceber como a narração que os reputa, quase invariavelmente, como
epicentro da história das lutas prisionais concorre para obnubilar outras experiências de luta
engendradas pelos presos comuns. A bem da prudência metodológica e das regras básicas que

78
FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1994, p. 47.
79
Ibidem, p. 123.
80
ANTONACCI, Giovanna de Abreu. Os presos comunistas nos cárceres da Ilha Grande (1930-1945).
Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2014, p.13.
44

fundamentam o nosso ofício, devemos nos interrogar em que medida o protagonismo dos presos
políticos não guarda relação com a adoção exclusiva de uma tipologia documental como fonte
privilegiada. Ou melhor, em que medida a narração autocentrada, segundo parâmetros de um
grupo específico, não tem obscurecido outras experiências de lutas coetâneas perpetradas pelos
presos comuns?
Sabemos que não é mais que uma platitude afirmar a necessidade que tem o discurso
historiográfico de entrecruzar incessantemente diversas tipologias documentais para avançar na
construção de um discurso histórico plausível e verossímil, constituído a partir do que
poderíamos entender, consoante às contribuições de Ginzburg, como “fragmentos de
verdade”.81
Nas diversas modalidades de relatos autobiográficos o narrador constrói-se por meio de
filtros e instituindo sentido e direcionamentos. Nestas operações, que Philippe Artières chamou
de técnicas de “arquivamento da vida”, é notório que “não só escolhemos alguns
acontecimentos, como os ordenamos numa narrativa; a escolha e a classificação dos
acontecimentos determinam o sentido que desejamos dar às nossas vidas”.82 Essas narrações da
realidade prisional são textos autorreferenciais e não devem ser usados de maneira a tentar fazer
emergir aquilo “o que realmente aconteceu”, mas para dimensionar “a ótica assumida pelo
registro e como o autor a expressa”.83 É um tipo de narração que se alicerça em uma vertente
performática, em cujos discursos ocorrem a constituição destes sujeitos enquanto protagonistas
da história. Uma das questões, portanto, que devemos atentar é que, por vezes, o indivíduo pode
“construir para si mesmo uma identidade dotada de continuidade e estabilidade através do
tempo”.84
Alfredo Bossi salienta que nestas narrativas é perceptível que “o testemunho quer-se
idôneo, quer-se verídico, pois aspira a certo grau de objetividade. Como tal, casa memória
individual com história”.85 Ora, esse caráter naturalmente “fronteiriço” e sinuoso do
testemunho, combinado com a escassez de fontes documentais alternativas, consolidou em
diversos trabalhos históricos a tendência de tomá-los como fontes suficientes para narrar o
cotidiano prisional. O conjunto de citações de fragmentos sobre a vivência desses presos
políticos nas instituições tem o intuito de produzir um efeito de verdade. Como nos lembra

81
GINZBURG, Carlo. O fio e os rastros. São Paulo: Cia. das Letras, 2007, p. 11.
82
ARTIÈRES, Philippe. “Arquivar a própria vida.” In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 11, n.21, p. 9-34,
1998, p.11.
83
GOMES, Angela de Castro. “Escrita de si, escrita da História: a título de prólogo”. In: GOMES, Angela de
Castro (Org.). Escrita de si, escrita da História. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 15.
84
Ibidem, p.17
85
BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p. 222.
45

Arlette Farge, é preciso sempre despojar os testemunhos, pois, “a história não é jamais a
repetição do arquivo, mas desinstalação em relação a ele, inquietação suficiente para interrogar
incessantemente.”86
O historiador Marcelo Badaró sugere que entre as diversas memórias escritas por esses
presos políticos é possível perceber uma distinção geral. Segundo ele, as que foram escritas sob
a vigência do Estado Novo, e não tiveram um vínculo partidário, são mais direcionadas a
descrever as diversas arbitrariedades vivenciadas no mundo carcerário. Por outro lado, “as que
foram escritas em meio a ditadura militar, sob encomenda partidária, tenderam a heroicizar de
forma mais explícita a militância comunista”.87
Para o historiador um elemento que permite pensar conjuntamente essas memórias é a
convicção dos militantes que havia uma correlação necessária entre uma vida revolucionária e
a iminência do encarceramento. Subjacente a essas narrativas pode-se mesmo perceber um
“orgulho da militância” em ser alvo da repressão do governo, o que era um indício de uma vida
autenticamente revolucionária. Por fim, Marcelo Badaró destaca ainda que “a organização
política no cárcere seria destacada em todas as demais memórias de militantes sobre a
experiência da prisão política sob o regime de Vargas”.88
Mesmo diante do crescente ceticismo presente em parte da produção historiográfica
coeva em que se esboroam completamente as fronteiras entre História e Literatura e do fato de
que “palavras como verdade e realidade tornarem-se impronunciáveis para alguns”, nos parece
ainda imprescindível afirmar a incessante necessidade que tem o historiador de coligir a maior
variedade de registros possíveis para tentar acessar a multiplicidade de aspectos que conformam
a realidade e, assim, legitimar seu discurso.89
Sabemos que a lacuna, indisponibilidade e/ou precariedade de fontes é um desafio
incontornável do ofício e os historiadores sociais conhecem há muito tempo as inúmeras
dificuldades que estão subjacentes à tentativa de mapear registros que permitam investigar os
grupos mais depauperados de uma dada sociedade e, nos lembra Michelle de Perrot, a
“informação sempre difícil no que tange às classes populares, é ainda pior no que tange ao
mundo carcerário”.90 Contudo, é a mesma historiadora que destaca o fato de que a ausência de
relatos acerca da luta dos presos não deve nos levar, forçosamente, a incauta conclusão de que

86
FARGE, Arlette. O sabor do arquivo. São Paulo: Edusp, 2009, p.75.
87
MATTOS, Marcelo Badaró. “Memorias da prisão política sob o regime de Vargas”. In: Anais do XXVI
Simpósio Nacional de História – ANPUH, São Paulo, julho 2011, p.4.
88
Ibidem, p.8.
89
GINZBURG, Carlo. Op. cit. 2007, p.17.
90
PERROT, Michelle. Op. cit. p.276.
46

não houve conflitos e resistências nas prisões. Segundo ela, “a carência de arquivos oferece, a
seguir, estabelece uma paz provavelmente enganadora”.91 Devemos ainda questionar se “esse
silêncio se deve à força do encarceramento, à resignação do lado de dentro ou à indiferença do
lado de fora”.92
Com isso, não pretendemos objetar quanto ao caráter relevante da utilização de
memórias na construção da narrativa historiográfica – fonte que inclusive recorremos ao longo
deste trabalho – mas a sua manipulação de maneira açodada e autossuficiente. Apesar de úteis
esses relatos memorialistas carecem, no fundo como todo testemunho histórico, de uma
confrontação. Carlo Ginzburg tem em diversos trabalhos nos lembrado dessa condição precária
das informações presentes na construção do conhecimento histórico: Testis unus, testis nulos!
A manipulação da documentação de forma intensiva suscita a necessidade do cruzamento
incessante de informações e tipologias documentais diversas a fim de tentarmos recuperar as
complexas possibilidades que conformavam a vida social.
Uma obra de fôlego é Os porões da República: a barbárie nas prisões da Ilha Grande
(1894-1945) da historiadora Myrian Sepúlveda dos Santos. Diagnosticando a repressão política
muito antes da Era Vargas a autora acompanha os presos políticos desde os albores do regime
republicano o que concorre para tornar seu trabalho mais consistente e abrangente na medida
em que propõe outra cronologia e, por conseguinte, outros sujeitos. Portanto, conclui que
algumas mudanças no encarceramento “a partir de 1937, que não representam necessariamente
aumento da repressão”.93
A partir dos relatos de memórias combinadas com outras fontes documentais, a autora
sustenta que os presos políticos tiveram um tratamento muito mais ameno que os presos
comuns, muito embora tenham sido os seus relatos que foram tomados como modelares do
sofrimento no mundo da prisão. Seguramente, isto está relacionado com o fato de que “diversos
daqueles que foram presos por seu envolvimento com o comunismo tiveram suas histórias
escritas ou foram eles mesmos autores de suas memórias”.94
Outra contribuição significativa desta obra é destacar que mesmo antes da Intentona
Comunista quando havia um clima de “abertura política” em função da constituinte, as
instituições prisionais continuaram a encarcerar trabalhadores e sindicalistas. Ou seja, durante
a vigência do período constitucional (1934-1937) a repressão política não arrefeceu e continuou

91
Ibidem, p. 241
92
Idem.
93
SANTOS, Myriam Sepúlveda dos. Op. cit, p.240.
94
Ibidem, p.188.
47

a receber opositores do governo. Ao longo do seu trabalho os presos comuns vão ganhando
nomes e protagonismo na medida em que são sujeitos capazes de negociar com as autoridades
e demandar a observância dos trâmites legais e das formalidades jurídicas dos seus respectivos
processos judiciais. A historiadora sublinha as diversas reações aos maus tratos e nos informa
que encontrou na documentação “notícias de um plano que fora realizado pelos prisioneiros
para destruir a CCDR por explosão”.95 Para o desígnio do nosso trabalho, a maior contribuição
da autora é relativizar a cronologia consagrada que sempre se inicia após a chegada dos presos
políticos oriundos da Intentona Comunista.
Em artigo recente Myrian Sepúlveda dos Santos sistematizou suas reflexões sobre a
convivência de “vagabundos” e presos políticos nas prisões da Ilha Grande. Para ela, não resta
dúvida que os livros de memórias ignoram o cotidiano e vida dos presos comuns. Na medida
em que “nesses relatos, presos comuns aparecem apenas quando os militantes querem ressaltar
a influência dos coletivos sobre eles, sem que a violência a que estivessem submetidos chegasse
a ser uma questão”.96
Em artigo muito interessante Alzira Lobo de Arruda Campos e Liana Sálvia Trindade
estudaram a constante repressão política a que foram submetidos os militantes trotskistas e
investigaram a presença deste grupo pelos cárceres nacionais. Rejeitando o ano de 1935 como
um marco natural para suas análises, as autoras propõem um recorte cronológico alternativo
(1931-1936) para estudar essa repressão política e sustentam que a Revolução de 1930 tem
implicações imediatas no recrudescimento da perseguição a esses militantes. Para elas “a
ascensão de Vargas ao poder, em 1930, acarretou consequências funestas aos revolucionários
de esquerda, que se organizavam em diversas correntes [...]”.97 Ainda que enfatizando o
protagonismo dos presos políticos e sem sequer mencionar a existência de presos comuns, o
trabalho indica o caráter arbitrário das cronologias que estudam a repressão política na Era
Vargas e tomam 1935 como um marco naturalizado. A partir de fontes documentais como
prontuários produzidos pela polícia e jornais ligados à imprensa operária, o trabalho é exitoso
em demonstrar que, no tange à repressão política, é um equivoco ignorar os anos iniciais do
regime discricionário de Vargas.
Outro trabalho que merece menção é a dissertação de Izabel Lopes Aragão que
escrutinou a conduta dos militares que se envolveram em levantes políticos ao longo da década

95
Ibidem, p.246.
96
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. “O encontro da militância com a vadiagem nas prisões da Ilha Grande”.
TOPOI (online): Revista de História, v. 18, p. 356-380, 2017. pp. 374-375.
97
CAMPOS, Alzira Lobo de Arruda; TRINDADE, Liana Salvia. “Trotskistas nas prisões de Vargas (1931-1936).
In: Pesquisa em Debate, edição 8, v. 5, n. 1, Jan/jun 2008, p. 3.
48

de 1930 e, em função da repressão, estiveram reclusos em diversas prisões republicanas. Tendo


por recorte o período anterior a Revolução de 1930, a autora sustenta a ideia que essas diversas
idas e vindas às instituições prisionais formaram nestes sujeitos uma “identidade militar
rebelde”. Segundo ela, “para os revoltosos, as adversidades nas prisões e no exílio
representaram mais um ultraje do governo contra a sua condição de militares, muitos de alta
patente, e mais que isso, promoveram uma reelaboração em sua identidade militar rebelde”.98
Os presos comuns que são mencionados em seu trabalho aparecem na condição de sujeitos
detestados pelos militares, situação correlata ao que encontramos na passagem dos militares do
21º Batalhão de Caçadores pela Casa de Detenção do Recife.
No que tange à luta dos presos comuns durante a Era Vargas a produção é,
absolutamente, escassa. Pouquíssimos trabalhos têm sublinhado momentos em que os presos
comuns demonstraram capacidade de organizar mobilizações de confronto ao ordenamento
prisional. Mas a exiguidade desses trabalhos não deve ser tomada como um indicador capaz de
demonstrar a inexistência de enfrentamentos coletivos nas prisões. Ao contrário, deve ser lida
como uma manifestação, por um lado, da carência de fontes que permitam estudar estes eventos
minuciosamente e, por outro, da parca atenção dispendida pela historiografia que se debruçou
sobre as temáticas prisionais da década de 1930.
Em sua dissertação de mestrado Anita de Souza Lazarim registou a ocorrência de uma
revolta de presos na Casa de Detenção no Rio de Janeiro já em 1883. Um dos aspectos de maior
reverberação pública foi a participação ativa dos escravos encarcerados na instituição que
atuaram no sentido de debelar a revolta dos prisioneiros livres. Infelizmente, a autora não
conseguiu mapear uma agenda de reivindicações que fomentou a mobilização daqueles sujeitos,
mas ainda assim sugeriu que “os presos não deixaram nada escrito, embora seja bastante
provável que eles soubessem os seus direitos, o fato deles exigirem a presença do Ministro da
Justiça é um indicativo disso”.99
Já nos albores do período republicano a historiadora Marilene Antunes Sant´Anna,
mesmo não as tendo como objeto de investigação central, assinalou a existência de
“manifestações coletivas nas Casas de Correção e principalmente na Detenção, estendendo-se

98
ARAGÃO, Isabel Lopes. Da caserna ao cárcere – uma identidade militar-rebelde construída na
adversidade, nas prisões (1922-1930). Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de Formação de
Professores, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, São Gonçalo, 2010, p.343.
99
LAZARIM, A. S. Rotinas do Cárcere: Uma história social da Casa de Detenção da Corte entre 1856 e 1889.
Dissertação (Mestrado em História). Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São
Paulo, 2017, p.135.
49

inclusive por mais de um dia e não raramente ocupando as primeiras páginas dos periódicos”.100
A historiadora menciona a ocorrência de uma revolta, em Janeiro de 1905, que reputou ser “uma
das primeiras revoltas coletivas de presos noticiadas pelos jornais cariocas no início do século
XX”.101
No que se refere à década 1930, um dos raros trabalhos que abordaram o tema é a tese
de doutorado de Clóvis Gruner que enfatizou o cotidiano da penitenciária do Ahú em Curitiba
e registou a ocorrência do que julgou ser a primeira rebelião do Estado do Paraná, ocorrida em
1931. Para ele tratou-se de uma rebelião “breve e intensa”. Foram, sobretudo, as privações
alimentares que teriam impulsionado a revolta e o objetivo central dos presos era a perpetração
de uma fuga em massa. De maneira bastante arguta o autor sustenta que diante da inviabilidade
de execução do plano os detentos optaram por transformar aquela ocasião em momento de
protesto e isso só foi viável pelo fato de ter se verificado “ampla repercussão que o evento
mereceu na imprensa, especialmente nos editoriais e colunas que acusavam as condições
precárias da penitenciária”.102
Em nossa leitura, o maior mérito de sua abordagem da temática consiste em resgatar o
protagonismo dos presos comuns e suas formas de confronto com o cotidiano de opressão da
vida prisional. Longe de atos irracionais e explosivos, a rebelião é apresentada como uma
confrontação política. O episódio era uma decorrência da articulação empreendida por dois
líderes: Roldolpho Kindermann e João Papst, criminosos comuns, parceiros antes e durante a
reclusão. Por outro lado, uma das insuficiências do trabalho decorre da própria natureza lacunar
das informações sobre o mundo prisional. Não conseguindo coligir variadas tipologias
documentais para abordar a rebelião a partir de diversos ângulos, o autor limitou-se a utilizar
os jornais como fonte exclusiva. Aliás, de maneira bastante lúcida, o próprio historiador
reconhece essa limitação na medida em que adverte o leitor para o fato de que “a inexistência
destas fontes limitou a leitura da insurreição ao que dela se disse na imprensa”.103
Embora abordem outros recortes do período republicano, alguns trabalhos merecem
atenção particular, pois, estudam a estratégia de lutas coletivas implementadas pelos presos

100
SANT´ANNA, Marilene Antunes. A imaginação do castigo: discursos e práticas sobre a Casa de Correção do
Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: (tese de doutorado). UFRJ/ IFCS, 2010, p. 137.
101
Ibidem.
102
GRUNER, Clóvis. Paixões torpes, ambições sórdidas: transgressão, controle social, cultura e sensibilidade
moderna em Curitiba, fins do século XIX e início do XX. Tese (Doutorado em História). Universidade Federal do
Paraná, Curitiba, 2012, p.289.
103
GRUNER, Clóvis. Paixões Torpes, Ambições Sólidas: transgressão, controle social, cultura e sensibilidade
em Curitiba, fins do século XIX e início do XX. Tese (Doutorado em História) – Setor de Ciências Humanas,
Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2012, p. 32
50

comuns. Não raro, esses trabalhos enfatizam a segunda metade do século XX e realizam apenas
alusões ou comparações com a situação dos presos políticos e comuns da Era Vargas.
Entre eles destacaria a tese de doutorado de Elizabeth Süssekind que esboça um
mapeamento da interação entre presos comuns e políticos na Era Vargas nas prisões do Rio de
Janeiro. Antes disso, inicia seu trabalho indicando que a ausência de pesquisas sobre a luta dos
presos comuns não deve ser apreendida como evidência irrefutável de sua deferência ou
insipiência. Segundo ela, “durante o século passado, os presos comuns também
“contrabandearam” cartas, organizaram-se precariamente em grupos heterogêneos, e
confrontaram permanentemente o poder do Estado, desafiando a administração prisional, como
apresentaremos adiante”.104
Quanto aos presos comuns a autora tenta rastrear o convívio entre os tipos de presos
durante o Estado Novo e a possibilidade deste contato ter suscitado uma cultura política no
interior das prisões vigente até os anos de 1950. Segundo ela, no Complexo Frei Caneca esta
interação existiu somente com os presos faxineiros e, ainda assim, de maneira esporádica,
portanto, insuficiente para estabelecer resultados mais duradouros. Já na Ilha Grande, na
Colônia Correcional de Dois Rios, houve esse contato e teria implicado em uma experiência
educadora e de formação política para os presos comuns.105 Esse tipo de conclusão está presente
também quando revisitamos a Casa de Detenção do Recife à luz das memórias do militante
Gregório Bezerra. Segundo ele, “as nossas velhas experiências de luta grevista nos anos de
1935 e 1945 foram úteis para os presos comuns em sua luta reivindicatória em 1965”.106
Em dissertação pioneira e, posteriormente, publicada como livro, Eda Góes se dedicou
a estudar a eclosão de rebeliões nas prisões paulistas no governo de Franco Montoro (1983-
1987).107 Utilizando uma abordagem bastante original ao abordar aqueles acontecimentos em
sua conexão com a mudança de conjuntura que se processava no cenário político brasileiro, a

104
SÜSSEKIND, Elizabeth. Op. cit, p. 2
105
Para fundamentar sua percepção a autora utiliza, além de indicações bibliográficas como Regina Celia Pedroso,
e o depoimento de André Borges para quem: “Por onde passaram, deixaram uma cultura política, principalmente
dentro das prisões. Essa semente foi adubada por alguns presos comuns, politicamente mais interessados. Depois,
desenvolvida e difundida nas celas e pátios das prisões. A preocupação de muitos presos comuns, a partir desse
início de conscientização, passava a ser uma profunda reflexão do por que das prisões, das diferenças sociais e da
justeza das leis vigentes”. Cf. BORGES, André. A Fuga: presos políticos fogem para participar da luta contra
a ditadura. Rio de Janeiro: Urbana, 2008, p.34.
106
BEZERRA, Gregório. Op cit, p. 220. Processo semelhante foi salientado por Wiliam da Silva Lima, preso
comum, que é apontado como um dos criadores da facção Comando Vermeho: “Aqui no Brasil, por exemplo, a
massa carcerária extraiu muitas lições do contato havido na década de 1930 com os membros da Aliança Nacional
Libertadora [ANL] encarcerados na Ilha Grande.” In: LIMA, William da Silva. Quatrocentos Contra Um: uma
história do Comando Vermelho. 2ª ed. Labortexto: São Paulo, 2001, p. 36.
107
GOES, E. M. A recusa das grades. Rebeliões nos presídios paulistas: 1982 - 1986. São Paulo: Instituto Brasileiro de Ciências
Criminais - IBCCRIM, 2009.
51

historiadora defende que os limites e a suspensão definitiva da política de humanização nas


prisões implementada pelo governador Franco Montoro, primeiro governador civil eleito no
curso da redemocratização, é uma das chaves interpretativas imprescindíveis para entendermos
aqueles embates coletivos. Do ponto de vista interno da instituição, uma das causas mais
importantes daquelas rebeliões estava situada “principalmente na ausência de canais
reivindicatórios capazes de canalizar o natural descontentamento da população
penitenciária”.108
Uma contribuição oriunda dos estudos antropológicos, mas em franco diálogo com a
historiografia, é a dissertação de Felipe Horta que apresenta o caso da rebelião que ocorreu na
Ilha-Presídio de Anchieta em São Paulo destinado, a partir de 1942, exclusivamente para presos
comuns. Fazendo uso da “descrição densa” o trabalho enfatiza os indivíduos e as categorias que
operavam tanto no cotidiano quanto no momento de evento crítico da rebelião. Segundo ele, no
momento de ruptura da ordem - do “evento crítico” - podemos perceber na prática dos rebelados
uma violência política direcionada. Isto por que “a definição de quais militares e funcionários
seriam mortos durante a rebelião é nada mais do que uma transferência objetiva e prática do
cotidiano para o momento de ruptura [...]”.109
Dirceu Franco Ferreira elaborou um estudo bastante rigoroso e consistente sobre a
mesma rebelião e, de modo assemelhado com o procedimento metodológico adotado nesta tese,
teve que empreender uma crítica dos relatos de memorialistas sobre a rebelião. Dialogando e
divergindo do trabalho de Felipe Horta, o historiador adverte, com bastante lucidez, por
construir uma narrativa da rebelião reproduzindo integral e acriticamente as memórias
produzidas pelo antigo diretor do Instituto Correcional da Ilha Anchieta, Paulo Vianna. Para
contornar esse tipo de leitura Dirceu Ferreira procurou cotejar esta versão com “as falas dos
encarcerados registradas no Inquérito Policial”.110 A eclosão da rebelião estava relacionada, em
última instância, com as “péssimas condições em que se encontravam os encarcerados”, de modo
que o historiador defende que para entender aquela rebelião não basta olhar para os conflitos
existentes entre os agentes estatais, mas também devemos captar as vinculações informais entre os
próprios presos e funcionários no cotidiano prisional.111

108
GOES, E. M. Op. cit. p.119.
109
HORTA, Filipe Moreno. Dia de Rebelião: As margens do estado no cotidiano civil-prisional da Ilha Anchieta
(1942-1955). Dissertação de Mestrado. Instituto de Estudos Sociais e Politicos- Universidade do Estado do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2013, p. 154.
110
FERREIRA, Dirceu. Ferreira. Rebelião e reforma em São Paulo: aspectos socioeconômicos e desdobramentos
políticos da primeira fuga em massa de um presídio brasileiro (Ilha Anchieta, 1952). Dissertação (Mestrado em
História Econômica). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2016, p. 22.
111
Ibidem, p.225.
52

Parte relevante do seu trabalho está contida no esforço de correlacionar a rebelião na ilha e
suas implicações com as instâncias políticas mais amplas. Segundo o autor, aquele evento está na
origem de uma nova política de distribuição espacial das prisões em São Paulo de modo que
“houve acentuada expansão física das estruturas prisionais, acompanhada pelo crescimento
contínuo da população prisional do estado ao longo dos anos cinquenta”.112
Um aporte teórico relevante para pensar os enfrentamentos coletivos nas prisões
brasileiras é fornecido pelo sociólogo Fernando Salla que propôs uma periodização para
explicá-los. Em sua divisão tripartite, as rebeliões situadas cronologicamente da reforma
prisional dos Oitocentos, em meados do século XIX, até a década de 1980 teriam como
fundamento “a reação à precariedade das condições de encarceramento, envolvendo a
alimentação, habitabilidade em geral, os maus-tratos”.113 Apesar de útil, seu modelo parece-nos
demasiadamente esquemático e esmaece o conteúdo político-ideológico dos protestos, afinal,
nem sempre se articulavam motins em função de privações vivenciadas nas prisões. Uma das
dificuldades colocadas a essa abordagem é explicar o advento dos enfrentamentos coletivos
visto que as condições adversas nas prisões foram uma constante, mas apenas em momentos
pontuais ocorreram protestos coletivos dos presos. Nem sempre as privações tinham que
recrudescer para ampliar a organização e luta dos presos comuns.
Ainda que seja tema largamente preponderante, nem todos os historiadores que abordam
as prisões na Era Vargas tematizaram em seus trabalhos os presos políticos. Temos aqueles
trabalhos que, em relação à proposta desta tese, a convergência é apenas cronológica e se
debruçam, majoritariamente, sobre os debates institucionais e normatizações federais que foram
produzidas naquele contexto.
No atinente a década de 1930, temos o trabalho de Sandra Figueira de Almeida que ao
enfatizar os projetos e as normatizações nacionais sobre o universo carcerário fornece um
panorama bastante detalhado da crescente importância na agenda do estado varguista.
Emblemático nesse sentido foi a elaboração do Código Penitenciário da República que teria
representado “na realidade a primeira tentativa para a regulamentação de uma lei de execução
penal que atendesse a toda a nação”.114 Por outro lado, ao se deter demasiadamente nas
prescrições legais pouco podemos depreender do cotidiano concreto da prisão e muito menos

112
Ibidem, p.222.
113
SALLA, Fernando. “As rebeliões nas prisões: novos significados a partir da experiência brasileira”.
Sociologias, 2006, 16: 274-307, jul.-dez.
114
FIGUEIRA, Sandra de Almeida. O olhar inverso: as relações de poder no complexo de prisões da Rua Frei
Caneca (1930-1960). Dissertação (Mestrado em Memória Social) – Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, 2012, p.137
53

da vida dos presos a partir da leitura desse trabalho. Nesse mesmo viés cabe mencionar ainda o
trabalho de Fernanda Rebelo que tematiza a instalação Penitenciária de Santa Catarina sob a
ótica do pensamento médico-higienista e suas interfaces com o pensamento jurídico. A autora
destaca o esforço da direção para enquadrar a penitenciária nos ditames dos saberes da
criminologia, sobretudo, a partir da introdução das técnicas de identificação criminal como a
datiloscopia. Segundo a autora, uma importante “medida adotada pelo diretor foi a proibição
da entrada de presos políticos na instituição, devido ao inconveniente que estes causavam por
receberem tratamento desigual por parte dos vigias em relação aos outros presos comuns”.115
Em nossa pesquisa, qualquer leitor minimamente atento constatará que umas das
principais lacunas é o silêncio quanto às mulheres existentes na Casa de Detenção do Recife.
Conforme os relatórios oficiais, entre 1929-1935 teriam entrado 18 mulheres.116 Entretanto,
delas quase nada encontramos na documentação além de informações esparsas e alguns pedidos
de livramento condicional. Não pudemos constatar se durante o motim de 1932 elas
participaram e tampouco quantas seriam. Mas o fato é que, neste contexto, as mulheres
criminosas habitam as mesmas instituições que os homens.
Uma vertente promissora da historiografia das prisões na Era Vargas é, justamente, a
que tem se empenhado em investigar as demandas sociais que impulsionaram a edificação das
primeiras prisões destinadas exclusivamente às mulheres no Brasil. Apesar do encarceramento
de mulheres criminosas constituir uma prática antiga, sua institucionalização foi relativamente
tardia. Somente entre os fins da década de 1930 e o início de 1940 começa a se esboçar, por
parte do Estado brasileiro, iniciativas mais sistemáticas e efetivas para a edificação de presídios
destinados exclusivamente para mulheres.
Merecem alusão particular três trabalhos que se debruçam sobre a temática. A primeira
contribuição pioneira é a dissertação de Bruna Soares Angotti Batista Andrade. Sua pesquisa é
vinculada ao campo disciplinar da antropologia e procurou escrutinar as origens do
encarceramento feminino no Brasil. Para a autora, a criminalidade feminina deste período
estava relacionada diretamente aos desvios da moralidade da época que passava por um
discurso de controle sobre a sexualidade pervertida em oposição a uma sadia que, em última
instância, só poderia ter vigência no âmbito do casamento monogâmico e heterossexual. De
modo que a opção pelo gerenciamento das prisões femininas pelas freiras da congregação do

115
REBELO, Fernanda. A Penitenciária de Florianópolis e a Medicalização do Crime (1935-1945). Dissertação
de Mestrado, Universidade Federal de Santa Catarina, 2004, p.110.
116
APEJE, Anuário Estatístico, ano VIII- 1934, p.94. Para o ano de 1935 estão em: APEJE, Anuário Estatístico,
ano X 1937-1938, p.326.
54

Bom Pastor tinha a conotação de uma “salvação moral e educação para uma ética cristã a mais
adequada para o trato com essas mulheres desviantes”.117
A tese de doutorado de Thaís Dumet Faria é outro trabalho que explora as origens e o
funcionamento das prisões femininas. Segundo ela, no Rio de Janeiro foi inaugurada a primeira
prisão de mulheres construída, exclusivamente, para esta finalidade, ou seja, não se tratou, como
em São Paulo, de adaptar prisões já existentes para encarcerar as mulheres. Um aspecto que
desejo salientar de seu trabalho é, a despeito das informações lacunares, o esforço de elaborar
um esboço do perfil das mulheres que eram, predominantemente, encarceradas e o tipo de crime
que cometeram, a partir dos dados do Rio de Janeiro, então, Distrito Federal. Uma das
conclusões salientadas pela autora é que “até a década de 1940, o que se via era um número
pequeno de presas e quase todas elas em virtude de crimes contra a vida”.118
A esse propósito também é oportuno registrar a contribuição de Angela Texeira Artur
que vem estudando as origens do encarceramento feminino em São Paulo, mas o panorama por
ela delineado oferece um interessante indicativo dos encaminhamentos da questão ao nível
nacional. Segundo ela, “foi apenas a partir de 1940 com, então novo, Código Penal que se
decretou a separação física entre homens e mulheres no interior do sistema prisional
brasileiro”.119 Interessante notar que as questões disciplinares eram permeadas e sobrepostas
por princípios e orientações religiosas. Para a autora, a impressão positiva que a gestão da
congregação Bom Pastor causou junto ao governo brasileiro fica evidente se tomarmos em
conta o fato de que sendo contratadas para ocupar um cargo de confiança “durante a ditadura
do Estado Novo, permaneceram no cargo durante a experiência democrática, mudaram os
governos e mudaram os regimes políticos. Entretanto, a confiança na execução do cargo, por
elas, seguia inabalável”.120
Por fim, cabe apresentar ainda as obras que tomaram como objeto de investigação a
Casa de Detenção do Recife. O trabalho pioneiro e que continua sendo referência incontornável
para o estudo da instituição é a tese de doutorado de Clarissa Nunes Maia. Neste trabalho a
autora analisa a prisão em apenas um dos capítulos de seu trabalho, mas de forma ampla e
consistente.

117
ANDRADE, Bruna Soares Angotti de. Entre as leis da Ciência, do Estado e de Deus: o surgimento dos
presídios femininos no Brasil. Dissertação de Mestrado. Universidade de São Paulo, 2011, p.213.
118
FARIA, Thaís Dumêt. Memória de um silêncio eloquente: a criminalização das mulheres no Brasil na primeira
metade do século XX. Tese (Doutorado em Direito) — Universidade de Brasília, Brasília, 2013, p.191.
119
ARTUR, Teixeira Angela. Práticas do encarceramento feminino: presas, presídios e freiras. Tese (doutorado
em História Social). Faculdades de Filosofia, letras e ciências humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2017, p.23.
120
Ibidem, p.158.
55

Temos aqui o debate acerca das demandas sociais que legitimaram a construção de uma
moderna prisão no Recife, bem como, seu funcionamento cotidiano.121 Além disso, a partir da
manipulação da documentação oficial, sobretudo, dos relatórios apresentados pelo diretor ao
chefe de polícia, a autora se esforça para delinear um perfil social dos presos que estavam
presentes na Casa de Detenção. Uma das maiores originalidades de sua abordagem sobre a
prisão consiste em analisar os conflitos entre senhores e os seus escravos a partir das dinâmicas
da reclusão. A historiadora salientou que a instituição prisional vai se imiscuindo nesta relação
como decorrência do fortalecimento do poder público. Segundo ela, “o que parece interessante
é que o desempenho da Casa de Detenção em relação aos escravos não era de sorte a sempre
fazer valer a vontade do senhor”.122
Flavio de Sá Cavalcanti de Albuquerque Neto estudou em sua dissertação a reforma
prisional do Brasil oitocentista. Neste trabalho, sua atenção esteve voltada ao registro dos
embates em torno da construção da Casa de Detenção. Trata-se de um estudo sobre os albores
da reforma prisional no império que, a partir do mapeamento dos debates legislativos,
dimensionou as pretensões da elite provincial ao erigir esse moderno aparato de controle social.
Associando a reforma das prisões à elite saquarema, o autor esboça um quadro comparativo do
encarceramento na antiga cadeia do Recife e na Casa de Detenção. Trata-se de um trabalho
voltado mais para escrutinar as prescrições e as normas do que o cotidiano propriamente dito.123
Outro trabalho sobre a instituição durante o século XIX foi a minha dissertação de mestrado.
Diferente dos trabalhos anteriores, nossa ênfase foi depositada mais no vivido do que no
prescrito. Em Fissuras no ordenamento procurei demonstrar a sensível defasagem que foi se
erigindo entre as expectativas da elite provincial com o funcionamento da penitenciária e o
seu uso efetivo pelos segmentos pobres do Recife oitocentista. Já estava ali esboçada a premissa
analítica de pensar a prisão em correlação com o mundo exterior. Por isso, ressaltamos que o
constante fluxo de pessoas – para dentro da instituição, pois, diariamente, as visitas eram
permitidas, inclusive com o fito de manter parte dos presos que não recebiam alimentação
fornecida pela província; mas também para fora, pois, os escravos e presos incumbidos da
faxina tinham a prerrogativa de sair do perímetro da prisão para carregar matérias primas e etc
- concorreu para alterar as normatizações que eram almejadas pelos gestores da prisão. Desse
modo, a partir de múltiplas fontes primárias, sustentamos que durante a gestão do administrador

121
MAIA, Clarissa Nunes. Os Policiados: controle e disciplina das classes populares na cidade do Recife, 1865-
1915. Tese de doutorado. Recife: UFPE, 2001.
122
Ibidem, p.205.
123
ALBUQUERQUE NETO, Flávio de Sá Cavalcanti de. A reforma prisional no Recife oitocentista: da Cadeia
à Casa de Detenção (1830-1874). Recife, Dissertação de Mestrado, CFCH, UFPE, 2008.
56

Augusto Rufino de Almeida a Casa de Detenção não logrou ser exatamente a “instituição
tranquilizadora” que idealizou a elite provincial. Ao lado desta e conectada ao mundo do
trabalho prisional, emergiu também uma penitenciária que era reputada como sendo uma “casa
de mercado”. Por isso, defendemos que “verdadeiras redes de sociabilidades foram construídas
por intermédio da constante circulação de pessoas que diariamente adentraram os imponentes
muros da instituição”.124
Em 2015, Flávio de Sá Cavalcanti de Albuquerque Neto defendeu sua tese de doutorado
e, uma vez mais, estudou a Casa de Detenção. Desta feita, seu objetivo central foi estudar as
oficinas de trabalho coletivo. O autor inicia seu trabalho retomando todo o debate da reforma
prisional e salientando o lugar que o trabalho prisional ocupou na agenda dos reformadores,
num esforço análogo ao já realizado na sua dissertação. Exemplo disso foi o estudo das críticas
emitidas pelo administrador Augusto Rufino de Almeida, em relatório contundente em 1875.
Parece-nos que a parte mais inovadora do seu trabalho é o mapeamento sistemático do debate
das oficinas prisionais no âmbito do legislativo pernambucano após as experiências de trabalho
coletivo da década de 1860. O historiador demonstra como a maior parte dos legisladores
provinciais estava convencida do caráter regenerador do trabalho no âmbito da prisão. Segundo
ele, “era unanimidade entre os deputados a função moralizadora do trabalho, que só através
dele, o criminoso poderia se readaptar ao convívio social, disciplinado, morigerado, sabendo
receber e cumprir ordens”.125
Em balanço sobre as pesquisas atinente às prisões no âmbito da sociologia, Fernando
Salla salientou a necessidade de trabalhos que avançassem para além da análise local e, a partir
de configurações regionais mais amplas, fossem capazes de elaborar um quadro comparativo.
Ora, esse caráter “provincial” tem predominado também na historiografia das prisões.126
Um dos maiores méritos do trabalho de Flávia Mayra de Araújo Gonçalves é romper
com essa tendência e propor uma história comparativa das prisões imperiais. A partir de um
esforço notório e valoroso, a autora coligiu dados sobre o encarceramento em São Paulo, Mato
Grosso e Pernambuco buscando estudar três realidades distintas do encarceramento no Brasil.
Outro ponto muito relevante do seu trabalho foi abordar a temática prisional em Pernambuco
para além da Casa de Detenção, dando algum relevo às cadeias do interior e ao presídio de
Fernando de Noronha. Essas edificações conviveram, por muito tempo, com fragorosas

124
BRITTO, Aurélio de Moura. Op. cit.p.5.
125
ALBUQUERQUE NETO, Flávio de Sá Cavalcanti. Punir, recuperar, lucrar: o trabalho penal na casa de
detenção do Recife (1862-1879). Tese (doutorado), Recife: Universidade Federal de Pernambuco, 2015, p.181.
126
SALLA, Fernando Afonso. Op. cit. 2006.
57

fragilidades estruturais. Para além das questões orçamentárias, uma das dificuldades indicadas
pela autora para a construção destas instituições no interior da província era decorrente da falta
de operários e engenheiros para execução das obras. Ainda segundo ela, “as cadeias do interior
começaram a ser feitas por arrematação. Segundo o diretor de obras públicas, tal prática
facilitava a organização da repartição, que não conseguia dirigir, administrar e fiscalizar todas
as obras, preferindo delegar a execução para terceiros”.127 Mesmo com contratempos e
morosidades, em 1856 havia sete cadeias com capacidade para comportar, ao menos, 25 presos.
Ainda assim, as cidades e lugarejos mais recônditos de Pernambuco permaneciam alheios à
proliferação das prisões, o que é um indicativo do caráter parcial da reforma prisional dos
Oitocentos. Afinal, “das sete maiores cadeias pernambucanas em bom estado, três ficavam na
mata norte, uma na mata sul e três no agreste. Não havia nenhuma cadeia central no sertão”.128
Ainda em conformidade com a autora, diante da mudança das regras de arrematação, ocorrida
em 1875, a construção de cadeias ganhou maior agilidade na medida em que se ampliaram os
mecanismos de vigilância sobre os arrematantes.
No que concerne ao estudo da Casa de Detenção propriamente dita, poucas inovações
podem ser atribuídas ao seu trabalho, que é neste aspecto mais uma reapresentação de dados já
presentes nos trabalhos acima mencionados. Ao longo de sua argumentação são ressaltados os
debates legislativos; os argumentos técnicos que legitimaram a escolha do terreno para a
construção da prisão, sob a alçada do engenheiro Mamede Ferreira; os custos da construção e
apresentação de cifras orçamentárias. Ao término da leitura do segundo capítulo de seu trabalho
sabemos bastante sobre o que debatiam os deputados acerca da Casa de Detenção do Recife e,
relativamente, pouco como viviam os presos e suas experiências de vida ordinária.
Para o período republicano foram produzidos alguns trabalhos que de maneira colateral
podem fornecer informações sobre a Casa de Detenção do Recife, ainda que não a tenham como
objeto nodal de sua narrativa. Um deles é o trabalho de Mozart Vergetti de Menezes cuja ênfase
não é propriamente a instituição prisional e nem mesmo os presos habituais. Seu trabalho se
debruçou sobre a experiência da Escola Correcional que funcionou no interior da Casa de
Detenção entre os anos de 1909-1929 e cuja função precípua era sanear o ambiente urbano dos
menores que vagavam pelas ruas do Recife. Segundo o autor, as crianças que eram remetidas

127
GONÇALVES, Flávia Maíra de Araújo. O sistema prisional no Império brasileiro: estudo sobre as províncias
de São Paulo, Pernambuco e Mato Grosso (1835-1890). Tese de doutorado, Departamento de História da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2016, p.196.
128
Ibidem, p.207.
58

ao cárcere deveriam receber rudimentos de uma iniciação profissional, assim como, os


fundamentos do ensino básico e uma educação física rigorosa.129
Outro procedimento bastante comum é abordar a prisão como um recorte capaz de
captar uma determinada trajetória individual que o historiador almeja reconstituir. Isso se torna
possível na medida em que a passagem pela instituição produz certa quantidade de informações
que podem ser mobilizadas para esse fim. A prisão, nesta acepção, é um cenário e não objeto.
Esse é o caso do trabalho de Rômulo José Francisco de Oliveira Júnior que, a partir do uso de
diversos periódicos, tentou demarcar a trajetória do cangaceiro Antônio Silvino. No último
capítulo de sua dissertação, o sujeito de seu interesse é caracterizado como “governador da
Detenção” e, infelizmente, só apresenta informações esparsas sobre a prisão propriamente
dita.130
Por fim, cabe registrar a dissertação de Thayana de Oliveira Santos que tem por objeto
as presas políticas que foram encarceradas na Casa de Detenção durante a vigência do regime
civil-militar instalado com golpe em 1964. A ênfase nas mulheres é, em si mesma, um fator que
confere originalidade e relevância ao trabalho posto que pouco sabemos sobre o encarceramento
feminino no Brasil. A autora logrou mapear a trajetória de um grupo de mulheres militantes e
as motivações que suscitaram seu encarceramento, bem como, o trânsito destas no âmbito dos
aparatos da justiça criminal. Essa empreitada é viabilizada, com acuidade e minúcia, pelo
intenso uso de prontuários da instituição, documentação ainda pouco explorada, e que é um dos
poucos registros à disposição do historiador que pretender investigar as dinâmicas do
encarceramento naqueles anos. Outro tema abordado são as violências sistemáticas praticadas
contra essas mulheres durante a reclusão e a repercussão pública que auferiram. Entretanto, é
de notar o local marginal que a instituição propriamente dita ocupa ao longo da narrativa
atuando mais como um cenário do que como elemento explicativo, fato evidenciado na ausência
completa de qualquer diálogo com a historiografia das prisões. Nesse sentido, o trabalho versa
mais sobre a passagem das mulheres pela penitenciária do que sobre como funcionava
efetivamente o cotidiano do “Raio Leste” naqueles anos.131
Ora, diante desse mosaico de relevantes contribuições e abordagens entendemos que a
proposta desta tese apresenta algumas inovações significativas, de onde provém parte de sua

129
MENEZES, Mozart Verguetti. Prevenir, Disciplinar e Corrigir: as Escolas Correcionais do Recife (1909-
1929). Dissertação de Mestrado, Recife: CFCH/UFPE, 1995.
130
OLIVEIRA JÚNIOR, Rômulo José Francisco de. Antônio Silvino: “De Governador dos Sertões a
Governador da Detenção” (1875-1944). Dissertação (Mestrado) - Curso de História Social da Cultura Regional,
Departamento de História, Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife, 2010.
131
SANTOS, Thayana de Oliveira. As mulheres do Raio Leste: as presas políticas da Casa de Detenção do
Recife (1964-1967). Dissertação (mestrado) – CFCH, Universidade Federal de Pernambuco, 2016.
59

relevância. Primeiro, do ponto de vista do método, nossa abordagem procurará demonstrar a


proficuidade de pensar a prisão investindo na relação entre os dois lados do muro prisional, um
contraponto a ênfase interna e institucionalizante ainda predominante na historiografia.
Segundo, ao se inserir na história das prisões durante a Era Vargas, refuta a “naturalidade” com
que parte dos historiadores vem erigindo uma cronologia dominante para o estudo das prisões.
Ao enfatizar o estudo da Casa de Detenção na primeira metade da década de 1930, opção
decorrente do manuseio de outras fontes documentais, a tese busca retorquir parte das ilações
provenientes das memórias dos presos políticos que foram acriticamente reproduzidas. Esses
dois procedimentos combinados permitiram mirar o mundo prisional a partir de um ângulo que
não coaduna com o protagonismo irrestrito que é atribuído aos presos políticos quando
pensamos em resistências e lutas políticas na prisão durante a Era Vargas. Essa espécie de
paralaxe, em suma, permitiu-nos vislumbrar outros sujeitos e, por conseguinte, outras formas
de viver e atuar politicamente. Trazer à baila esses sujeitos, seus repertórios e experiências
políticas cotidianas, é o que pretendemos realizar nas linhas que se seguem.
60

1º CAPÍTULO:
A Casa de Detenção do Recife e a Revolução de 1930:
permeabilidades, ressonâncias e apropriações políticas.

1.1 - Conjuntura política e cotidiano prisional: uma reflexão preliminar.

A pretensão desde capítulo é demonstrar como a Casa de Detenção esteve envolta aos
acontecimentos e conflitos políticos ensejados antes, durante e imediatamente após a Revolução
de 1930 na cidade do Recife. Nesse sentido, investigaremos em que medida podemos falar de
um impacto daquela conjuntura de transformações políticas nas diversas formas de viver na
prisão recifense. Os dados coligidos a partir das fontes primárias nos permitem sustentar que
aqueles acontecimentos concorreram para engendrar, em parte significativa dos detentos
comuns, uma crescente expectativa de obter melhorias no cotidiano da prisão. Esse
entendimento estava atrelado, ainda que de forma bastante difusa, à intensa campanha de crítica
aos estabelecimentos prisionais de Pernambuco ensejada pelos correligionários da Aliança
Liberal na cidade do Recife.
A Casa de Detenção foi inaugurada em 1855, embora, suas obras só tenham sido
finalizadas plenamente em 1867. Poucas províncias puderam construir as modernas prisões
durante o Império e aquelas que conseguiram jactavam-se pelo feito. Neste contexto, as prisões
ainda não eram instituições que envergonhavam o governo, longe disso, a inserção no mundo
civilizado passava, necessariamente, pelo ingresso na modernidade penal, cuja pedra angular
era a reforma penitenciária no mundo Ocidental.
Diferente de outras prisões, também construídas nos Oitocentos, a Casa de Detenção do
Recife estava localizada no centro da cidade e não por mera coincidência. Na época de sua
construção o terreno escolhido para a edificação estava situado na “margem direita do
Capibaribe, um pouco acima da ponte da Boa Vista, por trás da rua da Concórdia em um terreno
da marinha”.132 Tratava-se de um alagado, o que viria a dilatar sensivelmente o valor alçado e,
além disso, convertia-se num verdadeiro desafio para a Repartição de Obras Públicas.

132
Diario de Pernambuco. Recife, 21 de janeiro de 1850.
61

Inaugurado em 1855 o Raio Norte, põem-se em funcionamento a Casa de Detenção e


rapidamente passa a figurar como um orgulhoso título no rol dos “palácios de Chumbos da
Veneza Americana” que tanto envaidecia a elite local.
Alguns fatores explicam sua localização. Primeiro, por ser idealizada como uma
instituição voltada exclusivamente para a detenção de criminosos – não correcional - deveria
ficar perto das instituições da justiça para que os presos pudessem se apresentar periodicamente
e, assim, se inteirar do andamento de seus respectivos processos nas instituições judiciais;
segundo, era um sinal evidente do nível de civilização e modernidade auferida pela capital de
Pernambuco, portanto, deveria ser ostentada como um dos “melhoramentos modernos”
símbolos do progresso; terceiro, deveria sempre reiterar aos sujeitos desviantes os riscos que
incorriam ao enveredar pela carreira criminosa.133 Como sugeriu Maia, a Casa de Detenção era
“imponente, com sua forma em cruz às margens do Capibaribe, devia imprimir um temor e um
aviso àqueles que julgassem poder fugir ao domínio da Justiça sem quitar devidamente suas
dívidas”134
Independente das razões que podem ser mobilizadas para explicar sua localização, o
fato é que essa realidade não tardou a fomentar diversas interações entre os habitantes da cidade
e a Casa de Detenção. A prisão estava na margem direita do Capibaribe, no bairro de Santo
Antônio, em meio às ebulições do centro. Essa não é, absolutamente, uma informação acessória.
A intensa contiguidade com as dinâmicas da cidade e a rápida reverberação que os fenômenos
externos alcançavam no interior da prisão foram, em diferentes conjunturas, fatores importantes
para a configuração da penitenciária. Deste modo, não reputamos que essa prisão possa ser
analisada com profundidade se adotarmos integralmente o paradigma que sustenta que o
cotidiano prisional é um “mundo à parte”, capaz de extirpar os vínculos e as múltiplas conexões
que aproximavam essa instituição do cotidiano da cidade.135 Sabemos, a partir das formulações
de Philippe Combessie, que o perímetro externo imediato das instituições prisionais é um

133
O engenheiro Mamede Ferreira explicava que nas suas projeções a instituição teria finalidades de uma Casa de
Detenção, mas sabemos que prática funcionou desde sua inauguração, simultaneamente, como uma instituição
também com finalidades correcionais. Segundo ele: “Cada uma dessas prisões tem forma muito particular muito
diferente uma da outra [...] não convém de maneira nenhuma que as prisões de detenção sejam colocadas fora da
cidade: as prisões de detenção tem que ser colocadas no centro da cidade, o mais próximo possível dos tribunais
porque os homens contidos nestas casas tem por vezes que ir aos tribunais não só para presenciarem a formação
de seu processo como para se defenderem na ocasião de serem julgados, as prisões penitenciárias ao contrário não
convém que sejam dentro da cidade, devem ser construídas fora da cidade devem ser colocadas por assim dizer
nos arrebaldes e isto por muitas razões. Para satisfazer as regras de higiene, estabelecer um bom sistema de
ventilação [...] devem haver oficinas e estas não se poderão estabelecer dentro da cidade. Diario de Pernambuco.
06.07.1848
134
MAIA, Clarissa Nunes. Op. cit. 2001, p.189.
135
Para uma analise destas conexões entre cidade e prisão no Recife oitocentista confira: BRITTO, Aurélio de
Moura. Op.cit.
62

componente significativo na conformação de sua dinâmica interna. Essa perspectiva de análise


dar a ver que um conjunto de relações sociais são marcadas pela presença da prisão em dado
espaço e podem, em troca, marcar o seu funcionamento alterando as normas institucionais e
moldando o cotidiano.136 De certo modo, é plausível pensarmos que “a vida cotidiana carcerária
se reproduz dentro e fora dos muros da prisão. Como num jogo de espelhos, aspectos do mundo
exterior se reproduzem no interior das unidades prisionais e questões próprias da vida carcerária
se refletem fora das prisões”.137
Em 1930, a Casa de Detenção do Recife já era septuagenária e havia se enraizado no
cotidiano da cidade. Aquela era uma prisão marcada por intensos fluxos e, não raro, as mais
variadas informações rapidamente chegavam aos presos. Por outro lado, tensões vivenciadas
no interior da prisão sempre eram noticiadas pelos jornais ávidos pela exploração política, ainda
que a ênfase conferida a esses episódios estivesse relacionada com a notoriedade dos agentes
envolvidos.
O principal argumento mobilizado quando se efetivou a desativação da instituição
sublinhava a inconveniência de sua localização no centro comercial da capital, em flagrante
imersão com as dinâmicas urbanas. Vale frisar que a mesma prisão que em 1857 era apresentada
sob o mote da modernidade – listada como um “monumento penitenciário dos tempos
modernos” - representava nos idos de 1973 um “espetáculo quase circense”.138 Entendemos que
essa foi uma das características que tornava bastante singular aquela prisão e que nos força a
repensar alguns modelos explicativos predominantes na historiografia das prisões, sobretudo,

136
COMBESSIE, Philippe. “The Sensitive Perimeter of a Prison. A Key to Understanding the Durability of the
Penal Institution”. In: V. RUGGIERO (et al). The New European Criminology, Londres e Nova Iorque. Routledge,
1998.
137
ARRUDA, Raimundo Ferreira de. Geografia do Cárcere: Territorialidades na vida cotidiana carcerária no
sistema prisional de Pernambuco. (Tese de Doutorado), São Paulo, USP, 2014, p.103.
138
Em 1857 um articulista do Diario de Pernambuco assim descrevia a percepção social que causava a Casa de
Detenção do Recife: “quase todos os estrangeiros que por aqui passam visitam este monumento penitenciário
dos tempos modernos, cujo asseio, ordem e regularidade são documentos eloqüentes da atividade, zelo e
inteligência do respectivo administrador (...) aqueles que lá entram por um tempo mais considerável, quando
saem levam para o meio da sociedade outros hábitos de moralidade, um ofício de que tiram meios de subsistência
e o amor ao trabalho”. Cf. MELLO, José Antônio Gonçalves de. Op cit. p. 832. Já em 1973, publicava outro
articulista no mesmo periódico: “O presídio da Capital não mais se localizará no centro da cidade, transferindo-
se para a periferia. [...] Com o decorrer dos anos, e por força mesmo de circunstâncias as mais diversas, sobretudo
as relativas ao crescimento demográfico do Recife, a Casa de Detenção foi evidenciando ser demasiado acanhar
e tomando vulto a inconveniência e sua localização em pleno centro urbano. De mais a mais, sua existência
configurava o espetáculo quase circense: as grades, os prisioneiros, a rede elétrica da segurança, os guardas
armados, em pleno centro da cidade, espetáculo visto diariamente por milhares que chegam das cidades
circunvizinhas ou do interior, pelo povo em geral, das ruas, dos escritórios, das lojas, dos ônibus. Diario de
Pernambuco, Recife, 16/03/1973, p. 9 apud CÔRTES, Joana Santos Rolemberg. Dossiê Itamaracá: Cotidiano e
resistência dos presos políticos da Penitenciária Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá-PE (1973-1979). São
Paulo, Dissertação de Mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2012, p.28.
63

aqueles que se caracterizam pela ênfase excessiva nas dinâmicas internas da prisão, apartando-
as da sociedade na qual estão inseridas.
Portanto, nesse capítulo estaremos particularmente atentos a investigar se e como os
presos interpretaram aqueles conflitos ensejados no Recife a partir de 1930 e de que maneira
aqueles eventos correlacionavam-se com as ações de contestação no âmbito prisional. Importa-
nos investigar como os presos, especialmente os de “direito comum”, interpretaram a dinâmica
política do extramuros e se tais leituras puderam impactar no seu cotidiano.
Não devemos explicar às dinâmicas internas da prisão, exclusivamente, do ponto de
vista regulamentar e sugerir a existência de um microcosmo, em tudo indiferente e autônomo
do mundo de extramuros. Como argumenta de modo perspicaz Manuela Ivone P. Cunha, esse
entendimento da prisão como uma realidade intervalar tem se constituído uma espinha dorsal
das reflexões e tem orientado o modo de olhar o problema da reclusão, portanto, constituindo-
se em uma verdadeira unidade de análise pela qual a maior parte dos pesquisadores tem
examinado a prisão. Subjacente a essa perspectiva nota-se uma insistente negligencia com a
possibilidade de forças exteriores e experiências sociais anteriores dos presos contribuírem para
o estabelecimento das configurações cotidianas que caracterizam a instituição. Não se trata de
adotar a percepção - igualmente frágil - segundo a qual o cotidiano carcerário é um mero
reflexo, portanto, moldado pelas dinâmicas de fora da penitenciária. Jamais devemos nos
esquecer que a prisão é, por definição, voltada para extirpar a mobilidade e vínculos com o
mundo exterior e, por isso, os muros da instituição são bastante tangíveis para os encarcerados.
Ainda assim, é prudente ampliarmos nossa grade de leitura e perceber a dinâmica do
encarceramento para além do perímetro sensível da prisão.
Entendemos que é preciso investir na complexidade analítica e rejeitar perspectivas
simplistas para que possamos avançar no entendimento das redes e dinâmicas que entrecruzam
e conectam os dois lados do muro prisional, e isso não será possível se descartarmos, a priori,
as influências do “mundo de fora” nas dinâmicas internas da prisão. Para Cunha essa “noção-
paradigma” da prisão como um hiato social acabou por produzir nos trabalhos historiográficos
um “ângulo morto onde se foram acumulando escondidas, ou despercebidas, realidades que,
pela sua natureza, escapavam a uma categoria assim constituída”.139
É essa perspectiva que o presente trabalho adota para mirar a Casa de Detenção enquanto
um espaço de fluxos de ideias e informações, sendo estes, possivelmente, capazes de influir no
cotidiano prisional. Já Erving Goffmam salientava a importância do debate sobre a

139
CUNHA, Manuela Ivone. As organizações enquanto unidade de observação e análise: o caso da prisão. In:
Etnográfica, Vol. VIII (1), 2004, pp.151-157.
64

permeabilidade das instituições de controle, ou seja, o grau em que os padrões sociais e culturais
anteriores à reclusão conseguem ser mantidos no interior da instituição e influenciam
diretamente a conformação do ordenamento prisional e pode ter consequências variáveis para
seu funcionamento interno e sua coesão.140
Além disso, nossas indagações estão ancoradas no entendimento de que os detentos
comuns foram sujeitos capazes de interpretar e agir em consonância com a realidade política
circundante e aproveitar os momentos em que recrudesceram as porosidades institucionais e
intercâmbios com o mundo adjacente para pressionar e redefinir as hierarquias que
caracterizavam a vida na prisão recifense.
Sabemos que a organização de ações de contestação política no interior das prisões
encontra-se ligadas à capacidade de repercussão pública. A existência de “aliados” ou
circunstâncias externas favoráveis é, como demonstrou o historiador Pedro Olmo Oliver, um
fator importantíssimo para abastecer as ações internas dos presos e concorrem para condicionar
a eclosão desses fenômenos.141 Essa é a mesma percepção sustentada por Michel Foucault para
quem muitas rebeliões deflagradas no sistema penitenciário francês, ao longo do século XX, só
podem ser explicadas se tivermos em conta o ressurgimento de uma ligação política entre o
lado de dentro e fora do mundo da prisão.142
É plausível conceber que as prisões estão conectadas de modo profundo e abstruso às
dinâmicas e conjunturas políticas do seu entorno e que a existência de movimentos políticos
externos à prisão pode trazer implicações significativas para seu funcionamento efetivo.
Entretanto, correlacionar a conjuntura política externa e o cotidiano do mundo carcerário sem
enveredar em esquematismos não é uma tarefa simples, sobretudo, quando nos reportamos aos
contextos de ruptura da ordem ou transição política. Alguns autores - ainda minoritários é bem
verdade - têm sublinhado a proficuidade deste viés analítico e estudado as diversas maneiras

140
GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Editora Perspectiva, 1961.
141
OLIVER OLMO, Pedro. “La acion colectiva em las prisiones y el cambio social. Los presos comunes como
sujeitos históricos”. Proyeto de Investigacion inserto em La Propuesta académica e investigadora, inédita,
Departamento de História da Universidad de Castilla-La Mancha (UCLM), 2005.
142
Segundo ele “foi exatamente uma sucessão de fenômenos - politização no interior das prisões graças aos
maoístas e, anteriormente, aos argelinos, e politização do problema da prisão no exterior delas cristalizou uma
certa situação. Em seguida à campanha conduzida pelo GIP, o governo, pela primeira vez na história, concedeu
aos detentos o direito de ler os jornais, jornais que, até julho de 1971, não eram autorizados a penetrar nas prisões.
[...] Nesse exato momento, uma mudança muito importante se produziu nas prisões francesas: os detentos tomaram
consciência de que os meios de luta individuais ou semi-individuais - uma fuga a dois, a três, ou mais- não eram
os bons meios, e que se o movimento do s detentos queria alcançar uma dimensão política, ele devia, em primeiro
lugar, ser um movimento realmente coletivo que incluísse uma prisão inteira e, em segundo lugar, apelar à opinião
pública que, os detentos o sabiam, começava a se interessar pelo problema.” Cf. FOUCAULT, Michel. Estratégia,
Poder-saber”. Ditos e Escritos. Vol. IV. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2006, pp.62-63.
65

pelas quais o cotidiano dos presos pode ser afetado pelas conjunturas de acirramento nas lutas
políticas externas.
De um modo geral, as conjunturas em que recrudescem as lutas políticas pela hegemonia
e gerência do aparato estatal podem alterar substantivamente a percepção social sobre a prisão
e os presos, por outro lado, também pode transformar a leitura dos presos sobre as suas
estratégias cotidianas – práticas e discursivas – para resistir ao processo de prisionização e
auferir ganhos concretos. São múltiplas as formas com que a conjuntura de radicalização
política pode interagir com o aparato prisional ao longo do tempo.
A generalização da prisão, enquanto pena de privação da liberdade e punição por
excelência no mundo Ocidental, esteve imbricada a momentos dramáticos de ruptura social e
abalos na ordem do Antigo Regime, na medida em que é um dos “subprodutos” da Revolução
Francesa.143 Para Michelle de Perrot essa gênese deve ser considerada como um desdobramento
daqueles eventos, destarte, ao “inventar a liberdade, a Revolução gera simultaneamente o seu
contrário”.144 E não seria mais que um truísmo lembrar que a Queda da Bastilha é revestida de
toda uma tradição simbólica que consolidou, no mundo Ocidental, a imagem daquela prisão
como espelho refletor do mal e materialização da tirania. Porém, devemos ressaltar que,
ironicamente, foi no exato momento em que sua utilização na contenção de adversários políticos
arrefecia e que os índices de “embastilhamento” decaiam abruptamente que aquela prisão
emerge no discurso dos insurgentes de Paris como um lugar por excelência da opressão
monárquica.145 Essa sensível alteração da percepção social da prisão era inversamente
proporcional à realidade carcerária.

143
Michel Foucault nos mostra como naqueles anos ao lado da prisão ocorria uma persistência das práticas
supliciantes típicas do Antigo Regime. Por isso, não se trata de uma transição rápida e necessária entre a prisão e
os espetáculos públicos da punição. Segundo Foucault: “Tudo isto torna bem irregular o processo evolutivo que
se desenvolveu na virada do século XVIII ao XIX. A isto tudo acresce que, embora se tenha alcançado o essencial
da transmutação por volta de 1840, embora os mecanismos punitivos tenham adotado novo tipo de funcionamento,
o processo assim mesmo está longe de ter chegado ao fim. A redução do suplício é uma tendência com raízes na
grande transformação de 1760- 1840, mas que não chegou ao termo. E podemos dizer que a prática da tortura se
fixou por muito tempo — e ainda continua — no sistema penal francês. A guilhotina, a máquina das mortes rápidas
e discretas, marcou, na França, nova ética da morte legal. Mas a Revolução logo a revestiu de um grandioso rito
teatral. Durante anos, deu espetáculos.” FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: história da violência nas prisões.
Petrópolis: Vozes, 2012, pp.19-20.
144
PERROT, Michelle. Op cit, p.238.
145
Quando a multidão conseguiu apoderar-se da fortaleza “para muitos, em seu idealismo, a preocupação primeira
foi a de libertar as vitimas que estariam a ferros, nos calabouços daquele bastião do absolutismo. Encontraram
apenas sete criminosos [...]. Dissipada a embriaguez da vitória vieram a tona o nome dos prisioneiros e os motivos
pelos quais estavam na Bastilha. Soube-se então que dois deles eram doentes mentais: o primeiro, Tavanier, o
ancião de longas barbas brancas que tanto comovera a todos fora segregado na Bastilha como cumplice de
Damiens, o fanático que atentará contra a vida de Luís XV e que fora esquartejado, na praça de Grève; o segundo
o conde de Whyte de Mallevile, que devia estar no hospício de Charenton, mas fora recolhido na Bastilha por
privilegio, a pedido de sua família. O terceiro o conde de Solanges encontrava-se na Bastilha desde 1784,
transferido da prisão de Vincennes cumprindo pena por odiosos crimes sexuais. E finalmente, os quatro
66

Como nos lembra o historiador Guy Chaussinand-Nogaret esse entendimento da


Bastilha como um lugar do autoritarismo estava muito mais relacionada com a conjuntura
política vivenciada fora do mundo da prisão do que propriamente com o seu cotidiano, pois, na
medida em que “a autoridade que aprisionava perdia sua legitimidade, os prisioneiros
tornavam-se vítimas ou mártires perseguidos pela vingança e tirania: só podiam ser inocentes e
seus sofrimentos se tornavam pois insuportáveis”.146 Deste modo, sabemos que a imagem da
prisão de uma dada época pode ser alterada fundamentalmente sem que seu funcionamento
cotidiano tenha experimentado qualquer mudança substancial.
Por outro lado, muitos choques políticos de proporções consideráveis demonstraram-se
incapazes de alterar as normas que regem o sistema carcerário e obtiveram efeitos discretos nas
diretrizes que norteavam a gestão institucional. Philippe Artières salienta que muitos momentos
intensos de ruptura política na maioria das vezes têm implicações lentas, aleatórias ou pouco
147
significativas nas regras que balizam a administração prisional. A prisão, portanto, tem
demonstrado uma peculiar capacidade de reprodução institucional na medida em que conseguiu
atravessar diversas conjunturas de crises, rupturas e transformação políticas sem que tenha sido
visceralmente contestada como instituição basilar para o funcionamento dos aparatos da justiça
criminal.
Imprescindível neste ponto é a reflexão de Pierre Lascoumes que estudou acuradamente
as possíveis correlações entre rupturas políticas e as diretrizes que regem o sistema
penitenciário. A partir do escrutínio e comparação de diferentes realidades nacionais, o autor
indicou uma incrível inércia do funcionamento cotidiano das prisões mesmo quando, ao nível
do regime político, se processaram mudanças importantes na orientação vigente e até nos
grupos que conduziam o Estado. Pierre Lascoumes sugeriu que mesmo quando eram os antigos
adversários políticos dos regimes derrubados que chegaram ao poder - e que, portanto,
conheciam particularmente bem as prisões em função da repressão política a que haviam sido
submetidos - isso não implicou uma atenção significativa para a temática da prisão.
Paradoxalmente, nos momentos de luta política foi recorrente a inserção da temática prisional
como modal estratégico de ataque aos diversos regimes então estabelecidos.148

prisioneiros restantes eram estelionatários à disposição do tribunal de Grand-Châtelet, havia dois anos por
falsificarem letras de câmbio”. Cf. NUNES, Danilo. A Bastilha e a Revolução. Rio de Janeiro: Record, 1989.
pp.97-101.
146
CHAUSSINAND-NOGARET, Guy. A Queda da Batilha: o começo da Revolução Francesa. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1989, p.70.
147
ARTIÈRES, Philippe; LASCOUMES, Pierre. Gouverner, enfermer. La prison, un modèle indépassable?
“Prison et changement démocratique”. In: Critique internationale, vol. no 16, no. 3, 2002, pp. 118-120.
148
LASCOUMES, Pierre. “Ruptures politiques et politiques pénitentiaires, analyse comparative des dynamiques
de changement institutionnel”, Déviance et Société, vol. 30, no. 3, 2006, pp. 405-419.
67

Não obstante, se direcionarmos nossa atenção para outro nível de análise, menos
institucional e normativo, é possível constatar que os presos estão mais suscetíveis a captar as
reverberações políticas advindas do mundo externo, sobremaneira, quando essas parecem-lhes
suficientemente capazes de viabilizar melhorias concretas. Dessa forma, se as diretrizes e
normas regimentais que balizam o funcionamento prisional demonstram muitas continuidades
diante de transformações políticas significativas que se processavam no mundo exterior, os
indivíduos encarcerados tem se mostrado particularmente atentos a esses momentos
conflituosos em que a temática da prisão emerge, ainda que de modo evanescente, no proscênio
dos debates políticos.
Ao longo dos Oitocentos, por exemplo, era absolutamente comum que uma
manifestação contra o poder instituído dirigisse suas exprobras e ataques às prisões. Essas
circunstâncias também explicitavam um grau significativo de permeabilidade destas
instituições com relação às agitações externas e, não raro, os presos confrontaram o
ordenamento prisional nestes momentos, seja em solidariedade aos agitadores de fora das
prisões ou simplesmente pelo caráter estratégico que a situação oferecia na medida em que
fragilizava as forças repressivas existentes na instituição. Em consonância com as formulações
de Michel Foucault, podemos observar que:

Em todas as revoluções políticas do século XIX – 1830, 1848 e 1870 – era de


tradição existirem revoltas quer fossem no interior das prisões, em que os
detentos se solidarizavam com o movimento revolucionário que se
desenrolava no exterior quer os revolucionários fossem em direção as prisões
para abrirem suas portas à força e libertar os detentos. Isso foi uma constante
no século XIX.149

Não se trata de uma peculiaridade da França. Nesse mesmo contexto, a resistência


política dos Cipaios utilizou de ataques às prisões como mecanismo da luta anticolonial na Índia
e, como demonstrou Clare Anderson, não raro, acabaram influenciando a eclosão de diversas
mobilizações nas instituições de aprisionamento.150 Histórias correlatas a essa não são inauditas
no Brasil Oitocentista. Nas diversas ocasiões em que eclodiram revoltas nas províncias, as
cadeias eram um dos alvos mais habituais. Eventos desta natureza foram registrados em
Pernambuco no contexto da tensão vivenciada em 1817 quando “os revoltosos promoveram a
libertação de detidos políticos e criminosos comuns, ao que se seguiram ataques de libertados

149
FOUCAULT, Michel. Ditos e Escritos. Op.cit. p.61.
150
ANDERSON, Clare. The Indian uprising of 1857-8: prisons, prisoners and rebellion. London: Anthem Press,
2007.
68

das cadeias, de mulatos e de negros livres e escravos aos que tentavam fugir do Recife”. 151

Sabemos ainda que na reunião das Cortes de Lisboa, em 1821, “rompe uma Revolução na Bahia
promovida de dentro da cadeia pelos presos políticos de Pernambuco em favor da Constituição
Portuguesa proclamada na cidade do Porto”.152 Também durante as chamadas rebeliões
regenciais as cadeias foram invadidas e presos soltos. Convém frisar que o “assalto a prisão de
Manga foi logo visto pelas autoridades, e a subsequente historiografia, como o inicio da
Balaiada (1838-1841)”.153 Na Cabanagem, revolta dotada de um crescente grau de
radicalização, “as cadeias, símbolos do despotismo, foram abertas e os presos libertados”.154
Essa ligação mais direta e imediata entre os movimentos de contestação política e o
mundo prisional não esgota as multifacetadas possibilidades dessa complexa relação. De modo
geral, momentos de fratura na ordem social e de acirramento das lutas em torno da gerência do
Estado no Brasil republicano costumaram afetar imediatamente as instituições prisionais
brasileiras no atinente aos seus índices de encarceramento. Basta aqui lembrar-nos dos albores
do regime republicano brasileiro quando o aparato carcerário foi utilizado de maneira recorrente
com a finalidade de reprimir diversos opositores em virtude de suas organizações políticas ou
mesmo da simples oposição ideológica.155
Sendo uma instituição de controle social não deve nos surpreender o fato das prisões
explicitarem sua função de manutenção da ordem na exata medida em que são utilizadas com
o fito de segregar indivíduos considerados como inimigos do status quo. Em certo sentido, a
prisão funciona como um termômetro, relativamente eficaz, para aferir a intensidade dos
conflitos sociais que põem em questão os fundamentos do ordenamento social. Por si só, esse
aumento no contingente populacional das instituições prisionais é suficiente para erigir ou
refundar padrões costumeiros de convivência no interior da prisão. Mas ainda não é essa relação
que desejamos investigar em nossa pesquisa.
Para Philippe Artières ainda são escassos os trabalhos historiográficos que procuram
entender as conexões entre a prisão e o universo da política ultrapassando essa ênfase no uso

151
VILLALTA, Luiz Carlos. “Pernambuco, 1817: ‘encruzilhada de desencontros’ do Império Luso-Brasileiro.
Notas sobre as ideias de pátria, país e nação”. Revista USP, São Paulo (58): 58-91, jun./ago. 2003, p.71.
152
PEREIRA DA COSTA, F. A. Anais pernambucanos. Recife: Fundarpe, vol. 8, p.107.
153
ASSUNÇÃO, Matthias Röhrig. “Sustentar a Constituição e a Santa Religião Católica, amar a Pátria e o
Imperador.” Liberalismo popular e o ideário da Balaiada no Maranhão. In: DANTAS, Monica Duarte (org.).
Revoltas, Motins, Revoluções: Homens livres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo. Alameda, 2011, p.
299.
154
PINHEIRO, Luís Balkar Sá Peixoto. Cabanagem: percursos históricos e historiográficos. In: DANTAS, Monica
Duarte (org.). Op. cit. p.206.
155
SAMIS, Alexandre. Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil. São Paulo:
Imaginário, 2002; GASPARETTO JUNIOR, Antônio. “Perseguições políticas e desterros na república brasileira
(1889-1937)”. In: Projeto História, São Paulo, n. 52, pp. 280-294, jan.-abr. 2015.
69

repressivo da instituição que fazem os governantes nas mais variadas conjunturas. Segundo ele,
a abordagem mais comum é aquela que recupera a história dos militantes revolucionários e de
sua atuação no interior do cárcere, em suma, a prisão surge apenas como o cenário de um
momento específico das suas trajetórias individuais de luta, não como um fator de politização
e explicação central. Ainda segundo Philippe Artières, é preciso considerar o cárcere como um
ambiente de plena luta política, atentando especialmente para as aproximações intermitentes
entre o interior e o exterior e mapear a produção, importação e adaptação de diversos modos de
resistir.156
Alguns autores postulam a existência de uma relação de causalidade entre esses conflitos
políticos externos e a eclosão de tumultos na prisão. Em determinadas circunstâncias históricas
– como na transição política da ditadura franquista na Espanha - surgiram movimentos externos
de apoio aos presos que reforçaram e remodelaram as estratégias e intensidades da luta.157 Outra
leitura, bastante consagrada na historiografia brasileira, entende que o fator de politização do
cárcere nos momentos de crise política é o massivo encarceramento de presos políticos, o que
possibilitaria a disseminação de sua “consciência revolucionária” no ambiente prisional que
tende a pulverizar-se entre os detentos comuns, retirando-os da condição de despolitização.
Uma leitura bastante sofisticada está presente na análise de Michelle de Perrot que
estudou as relações entre a Revolução de 1848 e o sistema penitenciário francês. A autora
argumenta o quanto estranho pode parecer aos leitores menos familiarizados com as temáticas
revolucionárias que se escolha como mote analítico o mundo encerrado e apartado das prisões
para observar esses fenômenos sociais mais amplos. Perrot nos alerta para as dificuldades
envoltas na tarefa de mensurar “o impacto da conjuntura política e sua apreensão” por parte dos
presos. Desse modo, devemos estar cônscios que nem sempre existe uma congruência entre as
revoltas externas e suas plataformas de luta e a recepção e seleção do conteúdo por parte dos
detentos. Dado o controle institucional exercido sobre os detentos, notadamente, no que
concerne aos fluxos de pessoas e canais de comunicação com o mundo exterior, “certos
acontecimentos parecem ter sido percebidos com atraso ou em sentido contrário. A notícia
chega à prisão como boatos ou rumor”.158
Analisando o contexto francês, a historiadora afirma “que há um eco da Revolução de
Fevereiro no mundo carcerário, sem dúvida limitado, mas nítido. O impulso para o exterior é

156
ARTIÈRES, Philippe; LASCOUMES, Pierre; SALLE Grégory. “Prison et résistances politiques. Le
grondement de la bataille”. In: Cultures & Conflits, 55, 2004, 5-14.
157
LOURENZO RUBIO, Cesar. Cárceles en llamas. El movimiento de presos sociales en la transición.
Barcelona: Virus Editorial, 2013.
158
PERROT, Michelle. Op. cit. p. 292.
70

visível, nas primeiras revoltas”.159 Uma das ressonâncias desse movimento na prisão foi a
expectativa de liberdade entre os presos, funcionando como um vetor do “contágio do espírito
de revolta, preocupação em se fazer ser ouvido, impaciência diante de uma possível
mudança”.160 Nesta ocasião, um dos diretores elucidativamente sublinhava que:

Há algum tempo a linguagem dos presos assumiu um colorido que é o reflexo


dos acontecimentos de Junho. Tivemos que admoestar energicamente vários
prisioneiros por ocasião de um dos nossos interrogatórios. Parece a todos que
as portas da prisão vão se quebrar imediatamente e que não deve tardar sua
vez de devolver a sociedade que ela lhe fez. Eles têm a convicção profunda de
que a pena de morte está abolida e que nada é mais fácil do que obter uma
comutação de pena e mesmo um perdão integral, por qualquer condenação
que seja.161

A autora sugere que, a partir deste caso, é possível reter que o movimento de contestação
externa propiciou aos detentos formularem suas próprias leituras da conjuntura política externa
e inferir possíveis implicações para o mundo da prisão. Em conformidade com as formulações
de Michelle de Perrot, entendemos que esses momentos de ruptura, transição ou agitação
política podem ser fecundos para propalar um clima de insubordinação no cotidiano prisional.
Nesse sentido, a conjuntura política vivenciada na cidade é mais que um cenário – ou
contexto histórico amorfo162 - é aporte explicativo importante para entender as estratégias de
luta política articuladas pelos presos na Casa de Detenção do Recife. Entretanto, a fim de
refinarmos nossa análise devemos ponderar que nem sempre as ações foram de natureza
coletiva e, sobretudo, que diversificadas eram as formas mobilizadas pelos presos para negociar
e pressionar a direção prisional. Primeiro, deu-se a apropriação do discurso revolucionário e
formulação de demandas fundamentadas na deferência a partir da emissão de petições e
requerimentos; também expediram diversas cartas aos jornais onde realizavam denúncias às
novas autoridades e, só por fim, eclodem as mobilizações coletivas no interior da prisão.

159
Ibidem, 291.
160
Idem.
161
Ibidem, p. 292.
162
O uso da noção de contexto histórico precisa ser matizada e diversos historiadores tem se esforçado em
aprimorar sua utilização. Para Jacques Revel: “trata-se de uma noção que muitas vezes foi objeto de um uso
cômodo e preguiçoso nas ciências sociais principalmente na história. Uso retórico: o contexto, em geral
apresentado 1início do estudo, produz um efeito de realidade em torno do objeto de pesquisa. Uso argumentativo:
o contexto apresenta as condições gerais nas quais uma realidade particular encontra seu lugar, mesmo que nem
sempre se vá além de uma simples exposição dos dois níveis de observação. Uso interpretativo, mais raro: extraem-
se às vezes do contexto às razões gerais que permitiriam explicar situações particulares. Uma boa parte da
historiografia dos últimos 20 anos, muito além da micro-história manifestou sua insatisfação diante desses diversos
usos e tentou reconstruir, segundo modalidades diversas, as articulações do texto com o contexto.” REVEL,
Jacques. “Microanálise e construção do social.” In: REVEL, Jacques. Jogos de Escala: a experiência da
microanálise. Rio de Janeiro: FGV, 1998, p.27.
71

Não sendo a instituição prisional um mundo a parte, na medida em que diversos canais
erigiam fissuras e porosidades nos seus muros, e tampouco sendo os presos comuns sujeitos
inermes, demonstraremos a seguir que foi a partir de uma interpretação peculiar da Revolução
de 1930 que os presos construíram argumentos para demandar do poder público uma série de
melhorias e, no limite, a liberdade por meio do expediente da requisição do livramento
condicional.
Nenhuma dessas abordagens acima apresentadas parece dar conta de decifrar
plenamente os sentidos que impeliram os detentos naqueles episódios que aproximaram a Casa
de Detenção e os conflitos da Revolução de 1930 na cidade do Recife. Por outro lado, tomadas
em conjuntos essas contribuições permitem, em graus dessemelhantes, iluminar aspectos
significativos e avançar no entendimento daqueles anos, banais e tumultuados, que
caracterizaram a vida na principal prisão da capital pernambucana entre 1930-1935.

1.2- A “masmorra estacista”: a temática prisional e a campanha da Aliança Liberal no


Recife.

A chamada Revolução de 1930 tem sido um tema recorrente na historiografia brasileira.


Acerca de sua natureza, abrangência e implicações para a história nacional muito já se debateu.
É, absolutamente, fora de nosso propósito explorar esse fenômeno político como objeto de
nossa análise.163 No entanto, entendemos que se torna imprescindível uma breve digressão
sobre essa conjuntura política para elaborarmos uma leitura mais acurada da discussão que
pretendemos apresentar neste tópico, qual seja, os usos, releituras e apropriações que os
detentos empreenderam no discurso revolucionário de 1930 a fim de angariar diversas
melhorias no cotidiano prisional. No entanto, a nossa abordagem se processará de maneira
deliberadamente seletiva e pretende delinear um conjunto de possibilidades políticas ofertadas
aos presos comuns da Casa de Detenção do Recife em meio à conjuntura política dos anos de
1930. Tendo isso em conta, a questão premente é justamente mensurar como a temática da
prisão inseriu-se no debate político que se processou no Recife no período imediatamente
anterior à Revolução de 1930.

163
É fora de nosso desígnio enveredar na vasta discussão sobre a Revolução de 1930 ao leitor interessado neste
debate o remetemos às seguintes obras: FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930. História e historiografia. São
Paulo: Brasiliense, 1970; DEDECCA, Edgard S. 1930: O Silêncio dos Vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1981;
TRONCA, Ítalo. A Revolução de trinta: a dominação oculta. São Paulo: Brasiliense, 1982.
72

A coligação política conhecida como Aliança Liberal foi decorrência de uma cisão
oligárquica. Divergências sucessórias entre as elites hegemônicas no cenário nacional – paulista
e mineira - permitiram que as pretensões de forças, até então, marginais pudessem emergir no
jogo político e se projetar como alternativa viável. Essa situação era uma demonstração
inequívoca de que os fundamentos que geriam o sistema político da Primeira República estavam
seriamente desgastados, como já indicavam diversos episódios ao longo da década de 1920,
dentre os quais salientamos a Reação Republicana.164
Conforme Edgar Carone, uma das forças conjunturais que permitiram a fecundidade das
criticas da Aliança Liberal foi “a cisão da oligarquia dominante em virtude do crescimento e
expansão dos Estados politicamente relegados a segundo plano com a união do café-com-
leite”.165 A partir da articulação das oligarquias dissidentes com as demandas dos tenentes,
emergentes no cenário político, formou-se uma coalisão de interesses difusos e justapostos, cuja
função precípua era arregimentar votos e dar sustentação e viabilidade à candidatura de Getúlio
Vargas e João Pessoa, na ocasião da décima segunda eleição republicana a ser realizada em
março de 1930.
Oriunda, sobretudo, das dissidências oligárquicas do Rio Grande do Sul, Minas Gerais
e Paraíba, a Aliança Liberal investe, num primeiro momento, todas suas forças em uma massiva
campanha de mobilização política do eleitorado brasileiro, do qual ainda não faziam parte as
mulheres e os analfabetos. É, portanto, sob o signo do vago lema “representação e justiça” que
a sua plataforma vai se estruturando. Nesse sentido, é preciso salientar que foi a partir de uma
crítica estritamente contra o sistema eleitoral e o funcionamento desvirtuado das instituições
políticas que a Aliança Liberal foi auferindo projeção. Suas questões centrais eram a
moralização do sistema político e a integração de novas frações da elite no bojo do sistema de
governo. Segundo Boris Fausto, é por isso que a Aliança Liberal é oriunda de grupos
desvinculados da oligarquia cafeeira e só parcialmente incorporou as suas reinvindicações
econômicas. Para ele, “a reforma política é o centro de seu programa [...]. A grande arma e o
denominador comum da Aliança é a defesa da representação popular, através do voto secreto e
da designação de magistrados para a representação das mesas eleitorais”.166
Assim, sua articulação foi capitaneada “por homens de marcada atuação na República
Velha, muitos deles representantes das oligarquias dissidentes, que pouco ou nada tinham de

164
Confira: FERREIRA, Marieta de Moraes; PINTO, Surama Conde Sá. A Crise dos anos 20 e a Revolução de
Trinta. Rio de Janeiro: CPDOC, 2006.
165
CARONE, Edgar. Revoluções do Brasil Contemporâneo: 1922-1938. São Paulo: Ática, 1989, p. 66.
166
FAUSTO, Boris. “A revolução de 1930”. In: MOTA, Carlos Guilherme. Brasil em perspectiva. Rio de Janeiro:
Bertrand, 1995, p.235.
73

revolucionários”.167 Por outro lado, a progressiva aproximação dos tenentes às fileiras da


Aliança Liberal significou a incorporação de outras pautas tais como as reformas politico-
administrativas na máquina estatal e o princípio da centralização política como mecanismo
imprescindível para superar as forças locais. É, por conseguinte, da acomodação de interesses
diversos que esse instrumento de pressão vai se equilibrar ao menos até que as forças se
dispersassem e divergissem quanto à condução do Estado e a reconstitucionalização do país.
Diante da derrota no âmbito institucional para o Candidato Júlio Prestes - e da
oxigenação política advinda do assassinato do presidente do Estado da Paraíba nas ruas do
Recife - restou aos aliancistas optar pela estratégia de uma conspiração a partir de um golpe de
estado, solução que estava sendo articulada nos bastidores e era encabeçada, sobretudo, pela
ala dos tenentes. A partir deste momento a Aliança Liberal sofrerá uma mutação significativa:
de uma frente liberal passará a ter uma atuação armada. De modo que a morte de João Pessoa
é um marco que serve para delimitar uma transição entre as estratégias, pois, sinalizou o
encerramento de um ciclo onde “a vibração popular e difusa cede lugar à conspiração e aos
preparativos da revolução armada”.168
Em sua fase de ampla mobilização social é aos grandes centros urbanos do país que se
dirige a pregação política dos próceres aliancistas. No Nordeste, apoiaram-se largamente na
difusão de ideias por meio das caravanas e da intensa campanha contra os governos locais
vinculados ao situacionismo federal. No Recife, as passagens da caravana da Aliança Liberal
demonstraram a força de mobilização que a impressa oposicionista detinha na medida em que
foi a partir da convocação emitida pelos correligionários locais que os “aliancistas”
conseguiram reunir milhares de pessoas nas ruas do Recife. A imagem abaixo nos fornece um
exemplo dessas ocasiões.
Imagem 1:

167
PANDOLFI, D. C.; GRYNSZPAN, M. Op. cit. p.8.
168
CAMARGO, Aspásia. “A revolução das elites: conflitos regionais e centralização política”. In: A Revolução
de 30. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1983, p.30.
74

Multidão na cidade do Recife em comício promovido pela Aliança Liberal.

Fonte: Diário da Manhã. Recife, 29.01.1930, p.1

Em Pernambuco, de uma forma geral, foi bastante significativa a penetração das ideias
aliancistas junto aos segmentos populares, sobretudo, a partir da imprensa e dos comícios
realizados na capital. De fato, é consenso na historiografia que a intensa participação de
indivíduos populares nos conflitos da Revolução é uma das características que distinguem o
caso de Pernambuco, o que não implica admitir que os seus interesses fossem norteadores
daquelas ações.169 No entanto, dificilmente poderíamos caracterizar aqueles conflitos como
uma simples quartelada, absolutamente desprovida de elementos da sociedade civil. Para
Frederico Pernambucano de Mello “foi aqui, aliás, que a ação revolucionária mais nitidamente
assumiu as feições de um levante civil. O povo – a estudantada e a “linha azul” da Tramways,
principalmente – tornado como aríete arrementendo contra a Soledade e o Derby”.170
Já na época dos acontecimentos, a participação de elementos civis em Pernambuco foi
destacada como um diferencial pela imprensa. Em um jornal governista da Paraíba Juracy
Magalhães, futuro interventor da Bahia e figura de prestígio na Revolução que empossaria o
Carlos de Lima Cavalcanti, destacou a ação do povo em Pernambuco. Segundo ele, os
pernambucanos eram uma:

169
O historiador Edgar Carone sustentou que “em Pernambuco a revolução é popular, a vitória militar e das classes
operárias, que ajudam a tomar o Quartel do Derby, põem em fuga o governador do Estado, mas quem se apossa
da interventoria é Carlos de Lima Cavalcanti, usineiro, político da oposição a Estácio Coimbra e elemento da
Aliança Liberal”. Cf. CARONE, Edgar. A República Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1976, p. 299.
170
MELLO, Frederico Pernambucano de. A tragédia dos blindados: um episódio da Revolução de 30 no Recife.
Recife: Fundarpe, 1991, p. 31.
75

[...] gente extraordinária, quando chegamos a cidade já encontramos as forças


mais eficientes do governador Estácio encurraladas pelo povo. Apesar de não
dispor de armamentos bons e não ter um comando único que o dirigisse, o
elemento civil comportou-se de maneira a quebrar completamente a
resistência dos pretorianos do palácio. Foi, portanto, inestimável senão
decisiva para a sorte da Revolução o apoio armado que nos deram os
intrépidos pernambucanos.171

Precisamos estar cônscios do contexto político e econômico vigente no estado de


Pernambuco para entendermos a maneira como ele concorreu para facilitar a adesão de parcela
da população do Recife aos discursos aliancistas. Para Boris Fausto, um dos fatores que
permitiram a rápida aglutinação em torno das ideias aliancistas foi o contexto de grave recessão
econômica no ano de 1929. Segundo ele, mesmo se consideramos que a crise só repercutiria
plenamente no ano de 1931, essa situação promoveria os primeiros desencontros importantes
entre o Estado e a cafeicultura paulista, assim, advoga o historiador que “a depressão
internacional é um dos elementos explicativos para a Revolução de 1930 [...]”.172
No caso específico de Pernambuco, outros elementos nos parecem mais substanciais.
Um dos aspectos que explica essa imediata penetração da agenda política dos aliancistas é a
condição de Pernambuco no quadro da política nacional. Além disso, as crescentes dificuldades
econômicas da lavoura canavieira, principal produto econômico do Estado, suscitaram em
fração significativa da oligarquia local um crescente descontentamento com as diretrizes da
política nacional. Sabemos que, de uma forma geral, o período que se convencionou denominar
República Velha significou para Pernambuco um declínio econômico associado a uma retração
no seu poder de barganhar recursos junto ao governo central. Conforme assinalou Dulce
Pandolfi, a chamada “política dos governadores” instituída por Campos Sales concorreu para
promover a ininterrupta marginalização dos estados menores nos ditames da política nacional.
O quadriênio de 1926-1930 em Pernambuco é representativo desse cenário de crise da
economia açucareira e “o governador do estado, apesar de usineiro, recebe forte oposição da
lavoura canavieira – inclusive do setor com ele mais identificado – por não conseguir propor
alternativas para a situação”.173 Nesse sentido, o impacto da propaganda política dos aliancistas
foi bastante facilitado. De modo que “essa situação cria um terreno fértil para o fortalecimento
das oposições e explica o impacto da Revolução de 1930 na região”.174

171
A União. João Pessoa, 08.10.1930, p.1.
172
FAUSTO, Boris. “A revolução de 1930”. Op. cit, p.244.
173
PANDOLFI, Dulce Chaves. “A trajetória do Norte: uma tentativa de ascenso político” In: GOMES, Angela de
Castro (org.). Regionalismo e centralização política: partidos e constituinte nos anos 30. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1980, p.342.
174
Idem.
76

Por meio dessa breve digressão procuramos demonstrar que não havia nenhum conteúdo
da plataforma política oficial da Aliança Liberal que tematizasse direta ou indiretamente o
mundo da prisão ou a condição de existência dos presos. Em vão procurar-se-á na agenda
propalada em discursos qualquer alusão ao sistema prisional. Essa lacuna não significa de modo
algum que em Pernambuco o cárcere esteve ausente naqueles debates inflamados que
diariamente se disseminavam pelo Recife.
Na cartografia deste debate não é em sua plataforma oficial que podemos mapear essa
dimensão, mas nas ações locais que visavam deslegitimar o governo estadual. Essa não era uma
função do grupo político nuclear da Aliança Liberal, mas estava a cargo das chamadas frentes
estaduais que tinham por função basilar “complementar à frente parlamentar, alinham-se os
jornalistas e homens de imprensa, que propagam as idéias da AL, dando-lhes a necessária
cobertura contra as investidas governistas”.175
É por meio dos debates e da intensa propaganda local que o sistema prisional e a política
repressiva do governo emergem como uma senda estratégica por meio da qual poderia se operar
a sua deslegitimação e, concomitantemente, promover a apologia dos aliancistas para o pleito
eleitoral vindouro. Assim, em meio às acerbas disputas contra o situacionismo de Pernambuco,
é justamente contra a ação policial e o funcionamento da Casa de Detenção do Recife que os
argumentos mobilizados incidem majoritariamente. A ênfase recorrente nos casos – reais e
fictícios – de torturas e desmandos perpetrados pela administração de Estácio Coimbra foi, sem
dúvida, uma das formas mais recorrentes que os partidários da Aliança Liberal mobilizaram
para sensibilizar a opinião pública no Recife e explicitar as ineficiências e arbitrariedades
cometidas pelo governo.
Dessa forma, articulou-se uma campanha de veemente denúncia de modo a constituir
junto à população da cidade um clima de crescente insatisfação e desprestígio do governo. Parte
significativa das evidências arroladas pelos aliancistas para demonstrar a “tirania estacista” foi
extraída das arbitrariedades da força policial e sistema prisional no estado, notadamente, a Casa
de Detenção do Recife e o presídio insular de Fernando de Noronha.
Uma verdadeira guerra narrativa foi urdida para convencer a opinião pública do estado
policialesco que vigorava no Recife. Porém, é preciso lembrar que toda estratégia de
mobilização política – mesmo ampliando certos aspectos da realidade e minimizando
seletivamente outros – deve captar alguma camada do real para torna-se plausível e reverberar
na percepção dos diversos grupos sociais. Nesse caso, a opção deliberada por uma propaganda

175
CAMARGO, Aspásia. “A revolução das elites: conflitos regionais e centralização política”. In: A Revolução
de 30. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1983, p.24.
77

política diretamente voltada para denunciar a repressão e perseguição política foi decorrência
dos aspectos da conjuntura política.
Uma preocupação central do governo Estácio Coimbra foi, justamente, um reforço nos
mecanismos de controle social. Nesta direção convergem as descrições de historiadores,
memorialistas e das próprias fontes primárias. Frederico Pernambucano de Mello, por exemplo,
salienta que:

Vivíssima foi a ação do governo no plano da segurança pública. [...] A capital


se acalma numa atmosfera de chumbo. No sertão, o esforço por vezes
arbitrário contra os protetores de bandidos, contra os coiteros do cangaço.
Fazendeiros e chefes políticos importantes são presos e descem para a capital
na cela batida da Casa de Detenção.176

Conforme as observações de Gregório Bezerra, a repressão política foi uma diretriz


basilar do governo Estácio Coimbra. Segundo as recordações do líder comunista, “em
Pernambuco, o governo de Estácio Coimbra era tipicamente policial, o povo e a classe operária
viviam sob um terrorismo nunca visto até então”.177 Para ele, uma das piores ocorrências que
presenciou se deu na ocasião de uma das passagens da caravana da Aliança Liberal pelo Recife
no teatro de Santa Izabel. Após os comícios dos correligionários e aliancistas a polícia reprimiu
intensamente o público presente.178
Para os membros da oposição, não restava dúvidas que “as prisões numerosas, cada qual
mais arbitrária, que se verificam nesta capital e no interior para cercear as expansões
entusiasmáticas do povo pela causa liberal demonstram as apreensões do reacionarismo
estacista [...]”.179
Eurico de Souza Leão, a frente da chefatura de polícia, coordenava uma forte ação
policial. Para o historiador José da Costa Porto, este homem era um autêntico “fanático do

176
MELLO, Frederico Pernambucano de. Op. cit. p. 75.
177
BEZERRA, Gregório. Op. cit. p.216.
178
Em seus termos: “Lembro-me de que, de uma feita, a caravana da Aliança Liberal chegada do sul do país
realizou um ato público no Teatro de Santa Izabel, atraindo uma grande multidão. Antes de terminar a solenidade,
as polícias civil e militar, cercaram todas as entradas e saídas da praça de Santa Izabel e quando o público deixou
o teatro a polícia o espancou violentamente. Foi o espancamento coletivo mais bárbaro que assistir em toda minha
vida. A polícia fez carga sobre o povo, desde o teatro até as ruas da Florentina, do Imperador, Nova, do Sol e as
pontes de Santa Izabel, Buarque de Macedo e Boa Vista e em toda praça de Santa Izabel, diante do Palácio do
Estado. A tudo assistiu o próprio governador que se encontrava na sacada do palácio. Era um governo de sangue,
ódio e torturas. O pau cantou na multidão indiscriminadamente. Homens, mulheres, moças e rapazes, jovens e
velhos nunca passaram ali momento de tamanha selvageria. O povo, apavorado, atirava-se do cais e das pontes ao
rio. Eu assisti àquele bandistismo cheio de ódio e revolta. Desgraçadamente o partido não soube tirar proveito de
semelhante fato, o que me deu a impressão de que em Pernambuco, o PCB não estava à altura da situação política
existente no Estado.” Cf. Idem.
179
Diario da Manhã. Recife, 25 de janeiro de 1930, p.1
78

princípio da autoridade e da disciplina, não aguentando arranhões na dignidade do cargo


reagindo, por vezes, em explosões desvairadas”.180 Some-se a isto o fato de que era coadjuvado
pelo inspetor de polícia José Ramos de Freitas, indivíduo notabilizado naqueles tempos pela
utilização de métodos bastante violentos na condução das ações policiais. No juízo elaborado
em seu livro de memórias políticas, Paulo Cavalcanti não hesita em caracterizá-lo como:

[...] aquele que vindo do Rio e, dizia, ‘estar com a mão calejada de tanto dar
na cara de pernambucano’; o terror dos marginais e dos agitadores políticos,
tratando uns como outros no mesmo pé de igualdade. Seu Freitas, o “Beiçola”
era o símbolo da reação dominante, sempre de bengala na mão, como o feitor
com seu azorrague. 181

Esse quadro de intensa repressão policial é delineado também nas fontes primárias. Ao
perscrutar um conjunto de habeas-corpus elaborados pelos próprios presos o tema das
arbitrariedades emerge de forma patente. Um destes presos, de nome João florentino, estava
cumprindo pena na Casa de Detenção no ano de 1929 e insurgia-se contra os excessos da
polícia. Em suas palavras:

O suplicante se acha submetido a uma prisão ilegal [...] deu entrada nesta
penitenciária com a nota de gatuno. No entanto nenhum crime praticou o
suplicante, não tendo em tempo algum atentado contra a propriedade de quem
quer que seja. O que há, o que se verifica é a insistência da polícia neste estado,
a quem a todo instante está atirando ao fundo do cárcere homens como o
suplicante que jamais se fizeram criminosos. Basta uma indisposição com um
agente de polícia para que o pobre diabo seja logo preso e recolhido às prisões
como desordeiro, gatuno, etc.182

Não se trata, absolutamente, de um caso fortuito ou pontual. Inúmeros habeas-corpus


tematizavam a questão de modo que sugerem o caráter sistemático dessas práticas. Nesse
sentido, não é árduo intuir a razão pela qual os aliancistas direcionaram parte expressiva de sua
campanha para a exploração dos diversos episódios de repressão política que foram
protagonizados pelos agentes da chefatura de polícia na capital. Um dos investigadores da
polícia, em depoimento realizado pelo governo revolucionário em Pernambuco após outubro
de 1930, denunciava a existência de uma multiplicidade de técnicas utilizadas para obter a
confissão na chefatura de polícia. Segundo ele “um suspeito denominado Izaias de tal foi

180
PORTO, José da Costa. Os tempos de Estácio Coimbra. Recife: Editora Universitária, 1977, p.159.
181
CAVALCANTI, Paulo. Op. cit.p.78
182
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 699, processo
19.554, p.2.
79

submetido a diversas torturas que foram implementadas pelo próprio Ramos de Freitas e o
doutor Eurico de Souza Leão, chefe de polícia, colocavam um peso de 5 kilos nos testículos
para dele arrancar a confissão”.183 Já o investigador Xavier Cavalcanti de Albuquerque relatava
que era costumeiro que os presos fossem retirados das prisões da capital e interrogados sob
tortura, salientando ainda “que os instrumentos próprios para seviciar eram cacete, bengalas,
palmatórias e etc”.184
Na verdade, esse esquema de retirada de presos comuns da Casa de Detenção para
torturá-los – posto que o perímetro da instituição era um local de grande visibilidade - foi
minuciosamente descrito nesta ocasião. Segundo as oitivas funcionava do seguinte modo:

[...] na ocasião em que eram presos indivíduos acusados de furtos o inspetor


Ramos de Freitas mandava que os investigadores levassem os mesmos para
diversos lugares a fim de serem os mesmos seviciados, que tal serviço era feito
a noite e os lugares escolhidos eram Pau seco em Boa viagem, Peixinhos e
encanta moça no Pina, que tal incumbência somente uma vez lhe fora
confiada.185

Seguramente, ocorreu um intenso processo de instrumentalização daqueles eventos. A


repercussão auferida pelos casos de espancamentos e prisões arbitrárias de homens “de boa
família” mostrou-se um combustível muito eficiente para inflamar os ânimos de diversos grupos
da cidade. Exatamente em função disso, a temática dos presos e das prisões – tanto a Casa de
Detenção do Recife como o presídio de Fernando de Noronha – emerge na ordem do dia como
uma pauta que deveria ser paulatinamente explorada. Gradativamente, consolida-se o
entendimento entre os principais aliancistas do Recife que as críticas que tinham como mote as
prisões eram uma forma privilegiada de demonstrar o caráter exclusivamente autoritário e
policial do governo instituído.
Coube aos jornais de oposição um papel central na execução do estratagema, o que os
converte em fonte privilegiada para mapear o lugar da prisão na propaganda dos aliancistas em
Recife. Na verdade, muitos são os autores que sustentam o papel decisivo dos periódicos de
oposição na orquestração de forças que participariam ativamente dos confrontos da Revolução
de 1930 em Pernambuco e, particularmente, no Recife.
Para José da Costa Porto, o protagonismo que a imprensa teve na ebulição social que
engendrou os acontecimentos de outubro de 1930 é inquestionável. Em sua interpretação foi “a

183
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, p. 31
184
Ibidem, p.102.
185
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, fl.100.
80

imprensa [...] que, praticamente, fez vitoriosa no Estado, a Revolução de 1930”.186 Conforme
as memórias de um observador coevo é plausível sustentar que “através da campanha
jornalística e partidária que Carlos de Lima dirigira e que fizera a Revolução no Estado”.187
Convergindo com os relatos acima, Paulo Cavalcanti sublinha a capacidade dos noticiários
inflamar o ânimo dos citadinos. Segundo ele:

Os editoriais do Diário da Manhã candentes redigidos pelo jornalista José de


Sá, repercutiam na cidade. O verbo era a arma da revolução, cada orador, cada
conferencista, cada homem de imprensa burilando suas frases de efeito [...]
Mais do que os fuzis, abalaram mais que terremotos, corriam mais depressa
do que o vento, iluminavam mais do que raios.188

Os jornais dos irmãos Caio e Carlos de Lima Cavalcanti – este último será nomeado
interventor de Pernambuco após a vitória dos aliancistas – representavam o principal
instrumento que veiculava os ataques ao governo ao passo que realizava explícita campanha
em prol da bandeira aliancista. É, sobretudo, nas páginas do Diário da Manhã que
encontraremos uma campanha sistemática que tinha em vista atacar o governo pelo prisma do
mundo prisional. Nas penas de seus articulistas a prisão emergirá com os contornos
característicos de uma “masmorra estacista”. Cabe salientar ainda que quando noticiavam a
Casa de Detenção do Recife não mobilizavam uma crítica acerca da estrutura física da prisão
ou mesmo do regime penitenciário implementado. Tampouco era um debate sobre as
deficiências da instituição. Os alvos desses ataques eram seus gestores que sempre eram
caracterizados como agentes da barbárie cotidiana vivenciada na Casa de Detenção, ou melhor,
na “masmorra estacista”.
A estratégia era demonstrar que a concepção política em que se pautava o governo é que
era o núcleo primordial dos problemas que se reproduziam na instituição, reflexos dos valores
deturpados que, nesta perspectiva, eram componentes inerentes à prática política da oligarquia
“perrepista”. Assim, é possível constatar que alguns articulistas que faziam veemente oposição
ao governo chegavam mesmo a reputar a prisão do Recife como sendo uma referência e
salientavam que “a Casa de Detenção ainda é um edifício que faz inveja à quase totalidade das
cadeias, inclusive a da capital Federal”.189 Mas desde que gerida por uma política equivocada e
imoral, tornava-se a representação de um governo tirânico e antipopular. Segundo um articulista
do Diário da Manhã:

186
PORTO, José da Costa. Op. cit. p.158.
187
DELGADO, Luiz. Carlos de Lima Cavalcanti: 'um grande de Pernambucano. Recife: CEPE, 1975, p.37.
188
CAVALCANTI, Paulo. Op. cit. p. 83.
189
Diário da Manhã. Recife, 01de janeiro de 1930, p 3.
81

A memória dos fatos está bem viva, jamais serão esquecidos como ilustração
do quadriênio de arbitrariedades próximo a extinguir-se, os bárbaros
espancamentos da multidão [...]. O Sr. Estácio Coimbra não subiu ao poder
fazendo alarde de semelhante despotismo. As surras e prisões entraram no
programa fielmente executado pelos correligionários do governo.190

A partir da temática da repressão se articulavam as críticas ao governo e o seu ponto de


maior incidência são as condutas dos principais agentes responsáveis pela estrutura repressiva
do Estado: o chefe de polícia Eurico de Souza Leão e o inspetor Ramos de Freitas. Ironicamente,
os redatores salientavam que “Ramos de Freitas desenvolvia extraordinária atividade” na
medida em que de modo recorrente vivia “interrogando, aconselhando e ameaçando os presos
a não comparecerem à recepção da Caravana Liberal”.191 Nesse sentido, os argumentos
constantemente enfatizavam que:

As perseguições políticas fazem parte da alta benemerência do governo do Sr.


Estácio Coimbra. [...] Na capital e nos municípios do interior, com raras
exceções, as violências culminaram em desmandos inclassificáveis. A
insensatez do inspetor Ramos de Freitas recambiado da favela, do Rio de
Janeiro, para insultar aqui o caráter e o brio dos pernambucanos que não
aplaudem o predomínio funesto da oligarquia.192

Geralmente, nesses relatos que antecedem imediatamente a Revolução de 1930, a Casa


de Detenção do Recife é apresentada como uma instituição de notório uso político e sua função
precípua seria debelar a atuação dos adversários do governo. A temática da prisão é inserida de
forma genérica e se os presos são eventualmente nomeados nestas narrativas é para ampliar a
repercussão das notícias, muito em função do status social do detido. Um desses relatos dava
conta da prisão de um dos “auxiliares do periódico” aliancista que nenhum crime havia
cometido e ainda assim foi preso, exclusivamente, em função de não compartilhar com o regime
de irregularidades vigorantes nas instituições públicas. O periódico insistia que na Casa de
Detenção deveriam estar trancafiados “em vez de homens pobres e honrados” aqueles que
afanavam os cofres e a moralidade pública. Sobre o repórter afirmava-se que foi:

Levado para à Casa de Detenção e recambiado para a Central de Polícia,


Hamilton Ribeiro foi atirado no fundo de uma geladeira infecta. Triste sinal
dos tempos, essa estúpida e covarde agressão define a que extremos de

190
Diário da Manhã. Recife, 22 de abril de 1930, p. 1.
191
Diário da Manhã. Recife, 25 de janeiro de 1930, p. 4.
192
Diário da Manhã. Recife, 22 de abril de 1930, p. 1.
82

insegurança individual chegamos em Pernambuco, sob o governo tolerante e


culto do Sr. Estácio Coimbra.193

Em outra passagem, a menção ao uso político da prisão se torna ainda mais explícito.
Para o articulista essa ação de repressão à oposição local demonstrava uma atitude de desespero
e era o prenúncio da vitória dos aliancistas. Assim, entediam que “as prisões numerosas, cada
vez mais arbitrárias, que se verificam nesta capital e no interior para cercear as expansões
entusiasmaticas do povo pela causa liberal demonstram as apreensões do reacionarismo
estacista prevendo sua derrota.”194
Quando se tratava de homens oriundos das classes populares e cujo nome nada
simbolizaria em nível de uma exploração política costumava-se enfatizar não a “qualidade”
social ou honra do indivíduo aprisionado, mas o destaque recaia sobre a quantidade de presos.
Certa feita, o periódico denunciou justamente o papel arbitrário da prisão, pois:

Agora mesmo segundo queixas e denúncias trazidas a nossa redação há


dezenas e dezenas de pessoas presas nesta capital, sem outro motivo que não
o de mesquinhas vinganças. [...] Na Casa de Detenção entram e saem inúmeras
pessoas arrastadas até ali para sofrer o castigo de não terem votado nos
candidatos oficiais.195

Uma mudança significativa se processa na estratégia com que se abordava o mundo da


prisão nos periódicos vinculados à oposição. Novos acontecimentos na cidade abriram a
possibilidade para os aliancistas forjar um mártir com o fim a promover uma teatralização da
luta política, prática muito comum naquele período.196 Thompson nos lembra que “uma grande
parte da política e da lei é sempre teatral”.197
A estratégia era forjar um nome que ao ser mencionado colocasse em funcionamento
toda uma rede de associações entre Estácio Coimbra, Casa de Detenção e a tirania. Em suma,
alguém cujo sofrimento era a evidência irretorquível da brutalidade do governo instituído.
O historiador Eric Hobsbawm certa vez sugeriu que “em tempos de revolução nada é
mais poderoso do que a queda de símbolos”.198 Acrescentaríamos que a derrocada deles se dá,
por vezes, já mediada por uma relação dialética de construção de outros. Para José Murilo de
Carvalho é importante perceber que a criação de símbolos políticos e mártires está

193
Diário da Manhã. Recife, 01 de janeiro de 1930, p.3.
194
Diário da Manhã. Recife, 25 de janeiro de 1930, p. 1.
195
Diário da Manhã. Recife, 22 de abril de 1930, p. 1.
196
PARANHOS, Adalberto. “História, política e teatro em três atos”. In: PARANHOS, Kátia. (org). História,
teatro e política. São Paulo/Belo Horizonte: Boitempo/FAPEMIG, 2012.
197
THOMPSON, E.P. Costumes em Comum. São Paulo: Companhia das. Letras, 1998, p. 48.
198
HOBSBAWM, E. J. A era das revoluções. São Paulo: Paz e Terra, 1977, p.79.
83

inexoravelmente associada ao “processo de heroificação” que “inclui necessariamente a


transmutação da figura real, a fim de torná-la arquétipo de valores ou aspirações coletivas”.199
Além disso, a fabricação de mártires é um dos elementos importantes que compõem um
contexto de acirrada luta política, servindo também como estratégia de contestação ao poder.
Na trilha das contribuições de Girardet, caberia acrescentar que esse mecanismo permite “às
sociedades interpretarem sua realidade social e refletirem sobre a legitimidade do poder que as
rege – ou então desqualificar esse mesmo poder”.200
Podemos dizer que Ulysses José dos Santos cumpriu esse papel de mártir, heroificado e
fabricado pelas tensões políticas da época que antecederam a Revolução de 1930 no Recife,
portanto, servindo como um símbolo na batalha narrativa empreendida pelos correligionários
da Aliança Liberal em torno das explorações que envolviam as instituições prisionais e policiais
do Estado. Seu nome funcionou como a própria personificação do autoritarismo do governo,
sobretudo, como um mote argumentativo para tematizar as prisões arbitrárias e o regime
“nefando” que, supostamente, existia nesta instituição. Sua função notória foi formar e
sedimentar um consenso na população em torno da ilegitimidade do governo.
A partir de então foi em torno do nome de Ulysses José dos Santos que se canalizou
todo o debate que pautava o tema da prisão e da repressão política. Tal qual ocorreu com João
Pessoa, o popular Ulysses José dos Santos será, ao nível local, a personalização do caráter
repressivo e truculento do governo Estácio Coimbra.201 Notabilizou-se como vítima máxima do
aparato repressivo do governo.
Acompanhemos mais de perto os meandros desta fabricação. Na ocasião das exéquias
pela missa do sétimo dia da morte de João Pessoa uma verdadeira multidão se aglomerou para
homenagear e se despedir do líder político. Ao término da celebração religiosa, não tardou
surgir os tribunos mais exaltados que aproveitaram a circunstância, de notório furor da
população, para vituperar contra o governo.
Um deles foi João Barreto de Menezes - filho de Tobias Barreto – que se projetou na
sacada de um prédio e iniciou uma preleção junto aos populares ali presentes. Em represália, o
inspetor Ramos de Freitas o interpelou e o convocou para findar seu discurso. Conforme é
possível depreender do seu depoimento havia mesmo uma orientação da polícia local para

199
CARVALHO, José Murilo de. A formação das Almas. São Paulo, 1991, p.14.
200
GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. São Paulo: Cia. Das Letras, 1987, p.15.
201
Sabemos que “João Pessoa, mais do que um mártir, foi santificado na tradição de formação dos heróis
republicanos, perspectiva anunciada pelos relatos bibliográficos que começam imediatamente após o seu
assassinato” Confira: DINARTE, Bezerra Valela. 1930, a Paraíba e o inconsciente político da Revolução: a
narrativa como ato socialmente simbólico. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Norte,
Natal, 2008, p.29.
84

recrudescer a repressão na ocasião desses eventos. Ramos de Freitas isentava-se de


responsabilidade pessoal pela intensidade da repressão que a polícia desferiu naquela ocasião,
afinal, “tinha recebido ordens do governo através do chefe de polícia Litto de Azevedo para não
consentir em passeatas e em comícios nas imediações da igreja da Boa Vista, após a missa pela
alma do presidente João Pessoa”.202
Na ocasião a população esboçou uma reação no sentido de impedir a ação do inspetor
que, prontamente, “sacou do revólver. O tumulto generalizou-se. Aí, ouviram-se tiros para o ar,
[...]. A cavalaria aproximou-se, célere, os soldados espaldeirando o povo. E a multidão
espalhou-se em correrias”.203 Em seguida, a população reagia atirando pedras na tropa que
recuou momentaneamente o que concorreu para ampliar a euforia popular, que logo foi
arrefecida quando chegaram vários soldados da Força Pública, fortemente armados, e fecharam
o cerco contra os populares. Um indivíduo foi particularmente perseguido, uma vez que, sob
ele recaía a acusação de ter ferido um tenente. É a utilização do processo-crime como fonte que
nos abastece com informações e possibilita escrutinar os meandros deste acontecimento a fim
de rastrear a atuação do indivíduo. Tratava-se de indivíduo com 21 anos de idade, solteiro,
analfabeto, que trabalhava na bilheteria do cinema de Santo Amaro: seu nome era Ulysses José
dos Santos. Ao que parece, para realizar sua captura foi preciso algumas diligências dos
investigadores da polícia, pois, Ulysses ainda tentou evadir-se no que não logrou êxito. Ele
abrigou-se num prédio que ficava na rua Imperatriz “aguardando que serenassem os ânimos”,
mas foi encontrado. Após sua captura ele foi conduzido até a delegacia de polícia. Segundo o
depoimento do próprio Ulysses na ocasião de sua prisão “foi então espancado, que entre estes
que o espancaram conhece o guarda civil conhecido por Formoso e atualmente servindo ao
posto de Santo Amaro”.204 O depoimento de Ulysses salienta que durante sua estada na cela da
delegacia foi intimidado, pois:

[...] esteve no xadrez até as quatro horas quando foi retirado para o xadrez
superior e colocado em um quarto; que quando estava no xadrez foi injuriado
por um soldado conhecido por Brás; que o ameaçava de morte, alegando que
o declarante tinha ferido o tenente João Francisco; que o declarante não foi
fotografado tendo tirado apenas os sinais digitais, conforme a ordem que viu
o inspetor Ramos de Freitas dar ao encarregado do serviço.205

202
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, fl.107.
203
CAVALCANTI, Paulo. Op. cit. p.78.
204
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, p.50.
205
Ibidem, p.49.
85

No mesmo dia, no período noturno, foi enviado para a principal prisão da capital. Antes
de sua transferência, entretanto, foi interrogado e “depois de ser ouvido [...] levou uma bofetada
do inspetor Ramos de Freitas; que às nove horas da noite foi transportado para a Casa de
Detenção em companhia de cerca de vinte e quatro presos que estavam também recolhidos ao
xadrez”.206 Na instituição prisional sua sorte em nada melhorou, tendo sido mantido em um
austero sistema de isolamento, completamente distante dos demais presos. Assim, “permaneceu
com a nota de ‘guardado’ e incomunicável até 9 do mesmo mês sem que lhe fosse dada a nota
de culpa constitucional ou instaurado processo algum”.207
Segundo podemos arrolar na documentação compulsada, o preso foi remetido ao
famigerado “quarto escuro” da Casa de Detenção. De modo que foi colocado “no raio do norte
no terceiro andar; que neste quarto esteve durante sete dias que domingo pela manhã até sábado
– nove de agosto recebia de boia um pão por dia e um caneco de água”.208
Sua trajetória nos cárceres pernambucanos ainda estava distante de findar. Após uma
semana na Casa de Detenção do Recife, Ulysses teve como destino, por via do mecanismo da
deportação, o presídio de Fernando de Noronha. Ramos de Freitas e o então diretor da polícia
marítima, Renato Medeiros, coadjuvados por “vários investigadores e guardas civis o levaram
a bordo pelo vapor Jacuhype. Este barco, a esta hora já desatracado, rumava em seguida para a
ilha de Fernando de Noronha com uma leva de correcionais e sentenciados”.209
Para dificultar a localização do preso em Fernando de Noronha foi utilizado um método
ardiloso para eludir as rotinas burocráticas de registro dos presos. Remeteram o detento com o
nome trocado. Conforme os depoimentos:

Chegando Ulysses a Fernando com o nome de Manoel Gomes dos Santos,


aliás assinalado por uma cruz na relação dos correcionais, foi recomendado ao
então diretor do presídio Manoel Pinheiro de Menezes Filho, como indivíduo
perigoso sobre quem se deveria exercer severa vigilância, mantendo-o em
absoluta incomunicabilidade. Aí permaneceu ele sofrendo os mais duros
castigos – incomunicabilidade, peso aos pés, meia ração e etc.210

Nesse autêntico périplo o popular percorreu em curto espaço de tempo todas as


instâncias prisionais do Estado de Pernambuco, o que certamente concorreu para conferir ao
caso de Ulysses um grande potencial para uma instrumentalização política. Por algum tempo,

206
Ibidem, p.50
207
Ibidem, p. 4.
208
Ibidem, p.50
209
Ibidem, p. 5.
210
Idem.
86

o paradeiro de Ulysses era incerto e que abria margem para especulações diárias da oposição.
O seu nome passou a ser pedra angular por meio da qual as críticas se encaminham ao governo.
Um relato publicado no Jornal do Recife nos fornece um exemplo acabado dessa estratégia
utilizada pelos periódicos contrários ao governo. Segundo um articulista:

O caso de José Ulysses dos Santos é conhecido, em seus detalhes, de toda


opinião publica de nossa terra, que não encontra expressões para condenar
mais esse monstruoso atentado da polícia estacista contra os direitos
populares. [...]. Os suplícios de José Ulysses dos Santos não condoem sequer
o coração dos mais poderosos que são felizes e não receiam, nem por sonhos,
as grades da Detenção ou as costas inóspitas de Fernando.211

O desaparecimento do indivíduo em meio aparato prisional de Pernambuco era


combustível que abastecia matérias inflamadas em que se interrogava o paradeiro do “herói”
popular. Numa dessas, indagava-se:

O ruidoso caso do popular Ulysses José dos Santos deportado pela polícia de
Recife para a ilha de Fernando de Noronha despertou em todas as camadas de
livre opinião o mais veemente protesto. [...] É o caso de formularmos a
seguinte pergunta: senhores da polícia que fim deram ao infeliz Ulysses José
dos Santos? Atirado em alguma praia do Rio Grande do Norte? Metido nos
sombrios poços da ilha maldita? Encarcerado na Casa de Detenção? A
sociedade pernambucana precisa de uma resposta em tempo.212

Uma leitura incauta nos levaria a atribuir uma excepcionalidade ao episódio que
envolveu Ulysses no âmbito do sistema prisional. No entanto, é preciso ter em conta que por
mais truculenta que se afigure a ação do governo esse raciocínio é falso. Posteriormente, quando
as autoridades policiais e prisionais do governo de Estácio Coimbra envolvidas no caso de
Ulysses foram processadas pela “justiça revolucionária” usaram como argumento central para
suas defesas justamente o caráter habitual dessas práticas. Um deles chegava a afirmar “que a
deportação de Ulysses para Fernando de Noronha não o surpreendeu, pois, em se tratando de
desordeiros e elementos nocivos à sociedade recolhidos a critério do chefe de polícia, não só na
administração do senhor Estácio Coimbra como em todas as outras”.213
O mesmo fundamento argumentativo reaparece, desta vez, através de um investigador
que afirmava peremptoriamente:

211
Diário da Manhã. Recife, 23 de agosto de 1930, p.1.
212
“O caso de José Ulysses dos Santos”. Jornal do Recife. Recife, 02 de outubro de 1930, p.1
213
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, p.111.
87

[...] que há muitos anos antes dele respondente servir na polícia desta cidade,
já sabia que era de práxis enviarem para Fernando de Noronha os desordeiros
e gatunos conhecidos, que sabe por uma notícia publicada pelo jornal
Pequeno, que ultimamente foram enviados para Fernando de Noronha
diversos presos correcionais.214

Apesar da deportação ser um mecanismo inscrito há tempos no repertório da polícia


republicana, o caso de Ulysses emergiu numa conjuntura de intensos embates políticos o que
pode explicar a ampla repercussão social que auferiu. Não é devido à singularidade que se deve
buscar entender sua reverberação, mas ao seu caráter exemplar. Depois desse episódio, seu
nome perpassa todas as exprobras dirigidas ao governo de Estácio Coimbra que pretendiam
incidir sobre a temática da prisão e da repressão política.
Estava, então, em andamento a tessitura de um mártir local, que materializava e difundia
a imagem de um governo tirânico, ancorado no aparato de repressão. Observemos os
argumentos mais recorrentes que estavam associados à figura de Ulysses. Para um articulista
sua prisão era um despautério e tratava-se de uma:

[...] inominável violência política perpetrada contra o artista Ulysses José da


Silva [...] acusado de ter tomado parte na heroíca resistência popular contra a
selvageria policial durante a realização das exéquias do presidente João
Pessoa, foi Ulysses espancado cruelmente e no mesmo dia escoltado para uma
das celas da detenção onde ficou em rigorosa incomunicabilidade e de
sentinela à vista. O patrão de Ulysses o senhor Pedro Rufino Ferreira
proprietário do cinema Santo Amaro, do qual é zelador e porteiro da 2º classe,
a pobre vitima dos ódios policiais, requereu uma ordem de habeas corpus ao
doutor da primeira vara 1º vara Adolfo Ciríaco, tendo este requisitado a
apresentação do paciente nas salas de audiência.215

Devemos nos ater em alguns pontos importantes deste fragmento. Os argumentos


iniciais tendem a mostrar a população que Ulysses não era um vagabundo, era um homem de
valor, vinculado ao mundo do trabalho e da moralidade. Pois, trabalhador de um cinema, cujo
patrão pessoalmente se envolve nos intentos de localizar seu paradeiro. Esse “artista”, portanto,
deveria ser um indivíduo honrado. Por conseguinte, as truculências policiais não poupavam
nem mesmo os homens do povo dignos de valor. Tratava-se, pois, de um regime eivado pelos
“ódios policiais”. Deste modo, estava nítido que “esse pobre homem que nenhum crime
cometeu para se ver assim tolhido na sua própria liberdade, espancado e deportado pela polícia

214
Ibidem, p. 196.
215
Diário da Manhã. Recife, 10 de outubro de 1930, p.1.
88

de um governo a cujo respeito se escrevia que não podia existir no país outro tão tolerante e
liberal”.216
Por mais rotineira e legal que fosse a prática de remeter periodicamente presos da Casa
de Detenção para o presídio de Fernando de Noronha havia um esforço sistemático em
interpretar essa ação à luz do caso de Ulysses e, automaticamente, focar nas arbitrariedades do
governo. Como sublinhava a seguinte matéria:

Às 16:40 minutos as viúvas-alegres passaram pela avenida Martins de Barros


conduzindo os presos para Fernando de Noronha. Quando uma delas ia
subindo a ponte Maurício de Nassau um escândalo rebentou. O veículo para e
dela vozes de protesto saíram. Era um preto que se encontrava armado de uma
quicé. E dizia textualmente eu sei que vou morrer, de lá eu não volto. E dizia
que fora preso por acusação de fornecer a imprensa notícias sobre a prisão do
preto Ulysses José dos Santos. [...] Consultada alista de presos que seguiram
para Fernando de Noronha não vimos o de nome José Antão e segundo várias
pessoas presentes o preto, que pedia socorro, é conhecido por esse nome. Está
é outra questão: por que o preto José Antão seguiu para ilha fatal? Outra
deportação.217

O desfecho do caso de Ulysses José dos Santos revela-nos sua amplitude e relevância
no âmbito da campanha da Aliança Liberal em Recife. Vitoriosa a Revolução de 1930 no Estado
uma das primeiras medidas do governo revolucionário foi justamente localizar o paradeiro do
“herói popular”. Carlos de Lima Cavalcanti, nomeado interventor, logo requereu oficialmente
informações sobre o desaparecido. Em resposta o administrador da prisão de Fernando de
Noronha admitia que havia um preso remetido com o nome de Manoel Gomes dos Santos que
dizia, insistentemente, chamar-se Ulysses José dos Santos. O telegrama foi transcrito na íntegra
em diversos jornais da cidade. Com esse gesto, o governo revolucionário acenava para a
população com a realização de uma pauta recorrente nos jornais que se vinculavam à Aliança
Liberal. Uma primeira demonstração cabal de coerência entre discurso e prática política.
Vejamos os termos dessa comunicação:

Diretor Presídio - Fernando Noronha – De posse vossos radiogramas


madrugada hoje o governo recomenda cercar Ulysses José dos Santos todas
as garantias que tem direito, liberdade inclusive assim como provê-lo tudo
quanto necessário manutenção pessoal do mesmo ate seja embarcado para esta
capital em liberdade, logo seja possível. Deveis telegrafar informações
detalhadas estado saúde aludido Ulysses, até agora violentamente detido
dizendo tudo quanto se relacionar ida mesmo esse presídio. Governo aproveita

216
Diário da Manhã. Recife, 10 de agosto de 1930, p.1.
217
Jornal do Recife. Recife, 29 de novembro de 1930, p.1.
89

fazer constar estranheza não tivesse remetido no primeiro momento, valendo-


vos troca de nome não ocultava verdadeira identidade Ulysses.218

Investindo fortemente no clima de ebulição e regozijo popular que gozou o governo


revolucionário em Pernambuco nas suas primeiras horas, o retorno de Ulysses foi transformado
no primeiro ato para destruir o regime de arbitrariedades na cidade do Recife. O periódico de
propriedade do interventor federal afirmava, peremptoriamente, que “não fora a vitória da
Revolução e Ulysses José dos Santos ainda estaria a 300 milhas recluso no presídio de Fernando
de Noronha enquanto a polícia se obstinaria a sonegar do conhecimento público o seu
destino”.219 Nas dependências do jornal foi tirada uma foto emblemática e reveladora da
teatralização política por meio da qual os aliancistas haviam convertido Ulysses em um “ativo
militante” da causa liberal em Recife. Na imagem abaixo, sobrevém um conjunto de
associações políticas explícitas entre o “herói popular” e os símbolos da Aliança Liberal.
Primeiro, um lenço rubro envolto ao seu pescoço demonstra sua vinculação às ideias vencedoras
em outubro de 1930, afinal, a cor vermelha era associada à campanha política promovida pela
coligação liberal. A mão direita sob o busto de João Pessoa, símbolo maior da Aliança Liberal,
não deixava dúvidas quanto à ligação estreita entre Ulysses e a Revolução, um encontro entre
o novo Estado, inaugurado pelos aliancistas, e os segmentos menos abastados da sociedade.

Imagem 2:
Ulysses José dos Santos abraça o busto de João Pessoa.

Fonte: Diário da Manhã. Recife, 04.11.1930, p.3.

218
Jornal do Recife, Recife. 10 de outubro de 1930, p.2.
219
Diário de Manhã. Recife, 04 de novembro de 1930, p.3.
90

Sua chegada não passou despercebida pela população da cidade e não foram poucos os
que se dirigiram ao porto para esperar o navio Camaragibe que o trouxe da prisão insular. Na
ocasião os periódicos da cidade esforçaram-se para estabelecer os vínculos entre a vítima do
“governo tirano” que havia decaído e as figuras de proa do governo revolucionário que ansiava
por legitimar-se frente à população. No fragmento abaixo é notória essa estratégia:

A grande multidão que acompanhava Ulysses José dos Santos constantemente


vivava o nome de Juarez Távora, Getúlio Vargas e Carlos de Lima Cavalcanti.
As sacadas dos prédios estavam repletas de famílias e ostentavam bandeira
vermelha. O povo mais uma vez expandiu dentro da máxima ordem o seu
júbilo incontido pela vitória da Revolução.220

Portanto, naquela conjuntura que antecede imediatamente ao golpe e a vitória dos


revolucionários em 1930, a Casa de Detenção do Recife foi guinada ao proscênio do debate
público, ainda que como uma estratégia instrumental de ascensão política. Não era a situação
dos presos comuns e suas agruras que preocupavam os aliancistas. Ainda assim, os reclusos
observavam atentamente aqueles episódios e a partir deles tentaram extrair vantagens.
Aquém dos muros da instituição, a intensa campanha de denúncia mobilizada pelos
aliancistas teve como efeito imediato a adesão de parte significativa dos presos às causas da
Revolução. Em meio aos conflitos militares parte significativa dos presos se posicionou a favor
da vitória aliancista e tentaram sublevar o cárcere para desestabilizar a prisão, cuja guarda foi
último bastião das forças legalistas na cidade. O empenho do novo governo em resgatar Ulysses
José dos Santos da prisão foi percebido pelos detentos como uma demonstração inequívoca de
que aqueles acontecimentos de algum modo abririam oportunidades inauditas de ganho aos
presos.
Em um futuro próximo, para demandar do governo revolucionário os presos comuns
passarão a mobilizar o nome de Ulysses José dos Santos, dos jornais governistas e de seus
acrimoniosos textos, bem como, adotarão um vocabulário consoante com o emitido pelos
aliancistas que agora, depois do golpe de 1930, estavam na gerência da máquina pública e, por
conseguinte, direcionando os rumos da política prisional. Antes disso, porém, cabe observarmos
como os presos portaram-se durante os conflitos revolucionários propriamente ditos.

220
Idem.
91

1.3 - “O último reduto estacista”: a Casa de Detenção em meio aos conflitos


revolucionários.

Ao que nos deixa entrever as evidências os presos da Casa de Detenção do Recife


observaram com entusiasmo a relevância que as disputas políticas externas acabaram
conferindo ao mundo da prisão. Diante disso, não tardaram a presumir como reais as
possibilidades de melhorar suas condições. A crítica sistemática dos aliancistas sobre as prisões
ilegais e as práticas de tortura na Casa de Detenção, provavelmente, foram as condições
indutoras deste tipo de interpretação.
Esse entendimento parece ter sido reforçado mediante uma série de eventos ocorridos
durante a efetivação do movimento revolucionário na cidade do Recife. Naquela conjuntura,
devemos lembrar que olhares atentos, dos populares e da própria elite, estavam voltados para a
prisão da capital e isso em decorrência de alguns motivos.
No andamento dos conflitos armados que culminariam na vitória da Revolução, a Casa
de Detenção e os seus guardas converteram-se no último núcleo de resistência militar do
governo. Sabemos que naquelas circunstâncias de grande apreensão “o único ponto de
resistência era a Casa de Detenção, com o ‘coronel’ Joaquim Cavalcanti à frente de seus
guardas, combatendo. Lá dentro, desde julho, encontravam-se presos João Dantas e Augusto
Moreira Caldas, acusado do assassinato de João Pessoa”.221
No momento imediato da vitória revolucionária formou-se uma multidão que tentava a
todo custo invadir o estabelecimento prisional. Essa concentração de pessoas defronte à
instituição estava diretamente ligada ao fato de que ali estavam presos os assassinos de João
Pessoa, que a este tempo estava já envolto numa atmosfera de heroísmo e suscitava grande
clamor em diversos segmentos da população. Na época, de modo constante propalava-se
existência de um sofisticado plano para promover a evasão de João Dantas e seu cunhado,
mediante aquiescência do próprio administrador. Segundo informa Joaquim Cavalcanti, diretor
do estabelecimento na ocasião da tomada do poder pelos revolucionários, esses boatos eram
providos de alguma veracidade. Posto que “João Dantas [...] pediu a ele que lhes facilitassem a
fuga pelos fundos da Detenção, pois se a Revolução fosse vitoriosa a causa dele Dantas e de
Caldas estaria perdida”.222 Além disso, os jornais ligados aos aliancistas informavam de
maneira renitente que Dantas e Caldas estavam auferindo uma série de privilégios na Casa de

221
CAVALCANTI, Paulo. Op. cit. p.85
222
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1229, 1934, p. 16.
92

Detenção, em virtude do alinhamento político com o diretor. A esse propósito inquiria o Jornal
do Recife, que na época compunha o grupo de periódicos simpáticos à causa dos aliancistas:

Não é que João Dantas e Moreira Caldas palestram livremente em


confortáveis poltronas no jardim da Casa de Detenção? Não é verdade que
recebem visitas diariamente, infligindo o regulamento que só permitem visitas
às quintas e aos domingos? Por que as visitas se prologam até às 20 e 21 todos
os dias? São favores de que outros criminosos não gozariam mesmo sendo os
mesmos autores de atentados muitos menos hediondos. Quem for a Casa de
Detenção vai ver a verdade do que dizemos.223

Diante da tomada da Detenção, muitos indivíduos dirigiram-se para lá a fim de impedir


a fuga dos “dois assassinos”. O raciocínio de João Dantas mostrou-se correto, pois, assim que
se efetivou a tomada do poder pelos aliancistas “diante da prisão formara-se uma grande
multidão reclamando os detentos, para levá-los a Paraíba, onde seriam justiçados”.224 Ambos
foram encontrados mortos na enfermaria da prisão, de posse de bilhetes e comunicados que
anunciavam as pretensas razões pelas quais optaram pelo suicídio, versão defendida pelos
revolucionários e que na época muita controversa suscitou. Seja como for, a presença da
multidão à frente do estabelecimento era de conhecimento dos presos, inclusive do próprio João
Dantas, conforme salientou em carta.225
A leitura dos presos daqueles acontecimentos foi tecida, provavelmente, a partir de
múltiplas circunstâncias e fatores. Parece-nos que, de um lado, a constante pregação dos
periódicos sobre o caráter “odioso” dos cárceres da Casa de Detenção e, do outro, as ações
imediatas do governo revolucionário, funcionaram como fundamento que balizou a percepção
dos presos acerca da natureza daqueles eventos políticos e, sobretudo, das possibilidades que
ofertavam.
A ocasião da queda da prisão frente o movimento revolucionário parece ter se revestido
de grande impacto para a percepção dos presos que estavam encarcerados. Ao menos, é o que
deixa entrever o relato de um jornalista que esteve preso no período que antecedeu

223
Jornal do Recife, Recife, 23 de novembro de 1930, p.1.
224
SILVA, Hélio; CARNEIRO, Maria Cecília Ribas. O Governo Provisório: 1931-1933. Editora Três, 1975,
p.55.
225
Em carta que supostamente fora encontrada em posse de João Dantas pode-se constatar a apreensão e efusão
que a presença da multidão gerou dentro da prisão. A sorte de João Dantas e Moreira Caldas parecia selada.
Segundo o bacharel em direito: “A Detenção foi tomada pela madrugada. A nossa situação, como é de avaliar, é a
pior possível. Continuamos na mesma sala, mas já fomos ameaçados de ser sangrados na praça pública lá na
Paraíba ou aqui. Somos presos sem culpa formada, à disposição do governo, seja qual for ele. Procure com urgência
da junta governativa, que é o Dr. Lima Cavalcanti, por intermédio do irmão Ruy. [...]” Cf. Diario de Pernambuco,
07 de outubro de 1930, p.3.
93

imediatamente a rendição do estabelecimento prisional. Segundo ele, era perceptível o


significativo apoio que os presos emprestavam a causa da Revolução de 1930.
Alguns redatores do Jornal do Recife, entre eles Pedro Lopes Júnior, foram detidos pelo
delegado do 1º distrito Luiz Cabral de Mello no decorrer dos conflitos e encaminhados para o
interrogatório colhido pelo inspetor Ramos de Freitas, que deliberou que “esses rapazes vão
ficar incomunicáveis de ordem do Dr. Litto”.226 Conforme a narrativa de Pedro Lopes, os presos
comuns que ali estavam mostravam-se bastante inclinados à causa do movimento aliancista.
Segundo ele:

Eram 6 horas e pouco quando demos entrada na Penitenciária e Detenção.


Mandaram-nos para a cela 9-2 a qual foi desocupada para nos receber. Ampla,
suja, com cinco tarimbas e W.C a um dos ângulos. A luz entrava pelos gradis,
ao lado. Fecharam-nos nesse cubículo todos os nove, trancando além da grade
uma sólida porta de madeira, que nos isolava do resto do mundo. (...) Às 8 e
poucas ouvimos uns disparos. Eram distantes, mas foram se concentrando
como se estivessem envolvendo a Detenção. E se prolongaram com
intermitências. [...] Fora o fogo aumentava progressivamente. Às 20 horas
entraram em ação as metralhadoras. [...] E assim, durante toda a noite, fomos
tiroteiados por todos os lados. Os soldados da detenção respondiam como se
estivessem poupando munição.227

De acordo com seu relato foi possível perceber uma intensa movimentação dos presos
que estavam na cela em frente. Com alguma dificuldade o redator disse ter sido capaz de
perceber que “os presos da cela 9-1, em frente a nossa, nos faziam acenos significativos
mostrando-nos coisas vermelhas, símbolos revolucionários”.228
O jornalista Pedro Lopes e seus companheiros de cela aguardavam, então, o desfecho
dos conflitos armados e apenas escutavam intenso tiroteio que perdurou toda madrugada.
Afinal, afirmava que foi surpreendido quando:

[...] os guardas nos informaram que a Revolução ia vitoriosa. Os civis em


armas, com grande parte da polícia e do exército. [...] Ouvimos gritos
entusiasmáticos que não podíamos perceber. Parecia que davam vivas a
Parahyba. Meia hora depois cessaram. Ficamos em dolorosa expectativa.
Vitória? Os tiros cessaram de parte a parte.229

Por fim veio a confirmação que o governo de Estácio Coimbra, de fato, havia sido
deposto. Relevante para nossa investigação é o intenso fervor que o jornalista diz ter percebido

226
Jornal do Recife. 07 de outubro de 1930, p.1.
227
Idem.
228
Idem.
229
Idem.
94

no interior da prisão. Diante das confirmações do êxito do movimento aliancista na cidade do


Recife o seu relato sugere que “dentro do presídio rebentou um movimento ensurdecedor. Os
sentenciados gritavam, entusiasmados, dando vivas à Revolução, à João Pessoa e a outros
nomes que não podíamos perceber por ser a porta muito compacta”.230 Difícil ponderar a
veracidade deste relato quando analisado sem a confrontação e cruzamento necessário com
outros dados. Vista isoladamente essa percepção pode ser atribuída ao seu posicionamento
pessoal que imputava aos detentos comuns uma percepção dos quais poderiam ser totalmente
alheios.
Mas esse entendimento não é pontual e emerge em diferentes modalidades de registros
o que robustece a asserção do jornalista. Encontraremos uma apreciação muito semelhante em
uma série de reportagens intituladas “Na Casa de Detenção onde sempre há novidades para
reportagens interessantes” publicadas pelo jornal A Notícia que se dedicava a propalar, sob o
viés da espetacularização, os “feitos” dos criminosos mais famigerados.
Em uma dessas reportagens que versava sobre as façanhas do preso Francisco Xavier
Pereira – de 79 anos e que há 22 era “hóspede” da instituição – o jornalista reproduziu o
depoimento de um guarda que, entre outras coisas, mencionava o estado de ebulição que pôde
ser constatado no interior da penintenciária quando do advento da vitória dos aliancistas. De
modo bastante elucidativo, o funcionário afirmou que:

Quando rebentou a Revolução de 4 de outubro os presos botaram em


polvorosa o cemitério dos vivos. Foi um verdadeiro dia de juízo. Todos os
detentos participavam, em ideias, do movimento revolucionário. Assim
arrebentavam a grade e tudo o mais que não podia resistir aquele entusiasmo
louco. E falavam em ganhar a rua. Não era possível, diziam eles, que o Brasil
Novo não nos mande pra casa. “Negrada! Vamos pra casa”. Ouvindo isto, o
velho Francisco Xavier largou as moletas fez-se lépido e, sem vacilações,
preparou a sua mala e a rir, dando viva à Revolução, foi o primeiro que se
apresentou ao chaveiro, dizendo-lhe: Já estou bom, abra essa gaiola que eu
quero ir pra casa.231

Esse entendimento que captamos pela leitura dos periódicos é reforçado quando
cotejados com outros depoimentos de indivíduos envolvidos naqueles conflitos. Essas
informações coadunam, por exemplo, o relato das memórias de Agildo Barata, chefe militar
que comandou a invasão da Casa de Detenção. Segundo ele, a estratégia de cortar a luz e a água
que abasteciam a instituição, acrescida do “ultimatum” de trucidar todos os que resistissem e
não entregassem o último reduto de resistência, funcionou como motivador para mobilizar a

230
Idem.
231
A Notícia. Recife, 11 de março de 1931, p.1. Grifos nossos.
95

opinião dos presos a favor da rendição. Nas trilhas do seu relato ao menos um dos presos
explicitou cabalmente o apoio ao movimento revolucionário: Antônio Silvino, o célebre
cangaceiro que se encontrava preso na instituição.232 Segundo Barata, o antigo cangaceiro
“erguera seu protesto contra a situação em que se encontravam, pois dele recebi uma carta
oferecendo seus préstimos ao movimento revolucionário”.233
Do lado de fora do estabelecimento, no centro da cidade, sabemos que a vitória da
Revolução ensejou uma intensa onda de comemorações e um verdadeiro furor que pode ser
constatado nas ações dos segmentos populares. De fato, sabemos que:

[...] com a queda da Casa de Detenção o Recife virou festa, dia e noite [...]. O
carnaval de 1931 começou cedo, de véspera, em outubro de 1930. Toda noite
havia um “corso”, ou desfile de carros nas ruas da imperatriz e Nova, a alegria
contagiando a cidade, bandeiras, dísticos e laços de fita encarcanados por
todos os cantos.234

Segundo Sarmento, naqueles dias foi comum a existência de diversas manifestações


populares de apoio à Revolução, assim, constantemente “formavam-se grupos de pessoas em
passeata, empunhando a bandeira vermelha da Aliança Liberal, cantando o hino, percorrendo
as ruas mais movimentadas do centro da cidade”.235
Em meio ao ambiente de intenso júbilo e exaltação dos ânimos, não tardou surgir uma
série de pilhagens, depredações de propriedades e empastelamento de jornais, era a
“embriaguez da vitória”.236 Naquele momento as desordens e acertos de contas pessoais deram
a tônica das primeiras horas da vitória revolucionária. Os alvos preferenciais eram, geralmente,
as propriedades dos indivíduos que detinham relações com o governo que havia sido deposto,
cognominados com a pecha de “perrepistas”. Muitas foram as invasões e depredações. Segundo
Delgado, as ruas do Recife foram tomadas por um espetáculo político em cujo roteiro
sobressaiam “os incêndios, as prisões, às proclamações de vingança extraordinária, toda aquela
variada explosão de ódio e fúria”.237
O governo provisório, por meio da emissão constante de notas oficiais, aconselhava o
povo a portar-se com parcimônia e prudência, mas prisões não foram efetuadas para punir
àqueles que atacavam a propriedade dos adversários políticos dos aliancistas. De forma evasiva,

232
OLIVEIRA JÚNIOR, Op. cit.
233
BARATA, Agildo. Vida de um revolucionário (memórias). São Paulo, Alfa-Ômega, 1978, p.131.
234
CAVALCANTI, Paulo. Op. cit. p.86.
235
SARMENTO, Antônio Natanael Martins. Op. cit, p. 163.
236
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. A embriaguez da vitória: as festas da revolução de 1930 em
Pernambuco. 1. ed. Recife: Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, 2010.
237
DELGADO, Luiz. Op. cit, p.37.
96

as autoridades recém-instituídas explicavam esse fenômeno como decorrência de uma suposta


“embriaguez da vitória”. Na passagem transcrita abaixo, podemos perceber essa situação:

O governo revolucionário faz constar que a revolução triunfante,


aconselhando o respeito à pessoa e os bens dos vencidos, não os humilhando,
não quis com esse ato perdoar os crimes de quem for achado em culpa. Espera
que serenem os ânimos agitados pela embriagues da vitória ou rejubilados pela
restauração de seus direitos, para nomear comissões técnicas a fim de
apurarem as responsabilidades dos que arruinaram os cofres públicos,
confundindo o patrimônio geral com o particular e violaram direitos e
garantias constitucionais elementaríssimas [...]. Chegará, portanto, a vez do
ajuste regular de conta. Até lá fique certa a opinião pública de que essa
promessa não será vã.238

Os presos comuns parecem ter apostados suas fichas na possibilidade de usar esse
expediente para um “ajuste regular de contas” com os diretores e funcionários diretamente
responsáveis pelo que entendiam como injustiças. Vale frisar que esse sentimento foi
predominante também além dos muros da prisão na medida em que foi intensa a recepção da
vitória dos revolucionários pela população mais pobre da cidade e fomentou muitas
expectativas.
É no processo criminal instaurado para investigar as circunstâncias da morte - ou
assassinato - de João Dantas e Moreira Caldas que podemos rastrear mais informações sobre os
acontecimentos que acompanharam a rendição da penitenciária. A partir deste relato, somos
informados “que defronte da Detenção haviam se acumulado cerca de duas mil pessoas com os
gritos de mata e lincha esses miseráveis, assassinos de João Pessoa”.239
A Casa de Detenção do Recife estava no epicentro da revolta popular que procurava a
todo custo adentrar no estabelecimento. Em função da grande quantidade de pessoas e do
ambiente de ânimos exaltados foi necessário à intervenção dos guardas a fim de impedir a
invasão da prisão. Acerca da situação sabemos “que os oficiais com energia impediram a
entrada da massa [...], no entanto, certos grupos fardados e mesmos paisanos penetraram no
presídio [...] que mesmo senhoras penetraram na Detenção e também dirigiam seus insultos aos
aludidos detentos”.240
Segundo o depoimento de Francisco Salles Ivo, guarda da instituição, mesmo depois do
óbito dos algozes de João Pessoa foi preciso ludibriar a multidão para que esta não se

238
APEJE. Leis de Pernambuco. Volume 14. Atos e Notas do Governo Provisório, 1930, p.35.
239
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p. 17.
240
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p. 17.
97

apropriasse dos seus corpos. De modo que “os cadáveres só saíram da Detenção a meia noite
para assim estarem escondidos para assim evitar que fossem estraçalhados pela multidão”.241
No relatório que concluía sobre a morte de João Dantas e Augusto Moreira Caldas, é
possível encontrar fragmentos que informam acerca das características da multidão que se
colocou em frente ao estabelecimento. Nesse sentido, tratava-se de um agrupamento de pessoas
que abastecia sua revolta numa “exaltação quase religiosa”. Segundo a percepção proposta pelo
redator daquele documento – que, aliás, voltava a indicar que as mortes eram decorrentes de
suicídio - era evidente o ímpeto que arrebatava a multidão. Assim, “não precisaria, pois, de uma
visão aguda para adivinhar o ódio que soprava naquelas almas arrebatadas aos maus instintos
de vingança, que irrompem nas multidões delirantes”.242
Os ânimos dos detentos, já simpáticos à causa dos aliancistas, dificilmente passaram
incólumes diante de tamanha agitação que prorrompia no perímetro da instituição. Outra
evidência importante é o depoimento do diretor Joaquim Cavalcanti que também sugere a
existência de um apoio dos presos comuns ao movimento da Aliança Liberal. Segundo ele:

[...] às três horas da madrugada do dia seis de Outubro as forças


revolucionárias ocuparam a Detenção, tendo a frente o oficial Agildo Barata,
além de outros cujos nomes não sabe, que essas forças eram constituídas por
soldados do exército; que a esse tempo todos os detentos, tendo arrombado as
celas com paus, ferros e martelos, etc, puseram os chapéus e em grande
gritaria de viva a Revolução pediam para ser postos em liberdade; que com
muito custos foram contidos.243

Essa afirmação corrobora o relato do jornalista preso e do guarda da Casa de Detenção


citados anteriormente. Euforia e esperança foram, possivelmente, os sentimentos que
emergiram imediatamente durante os conflitos. Outro indício da simpatia dos presos comuns
pela Revolução pode ser encontrado na documentação do Conselho Penitenciário de
Pernambuco. Acerca das ressonâncias imediatas da Revolução de 1930 no cotidiano da
instituição prisional, Joaquim Amazonas, presidente do instituto, entendia que os detentos
construíram uma leitura destoante da realidade e associavam aqueles acontecimentos com a
ampliação da facilidade para obter a liberdade ou redução de suas penas. De modo elucidativo
o relato de Joaquim Amazonas sugere que o otimismo dos presos com a revolução ganhou

241
Ibidem, p.26.
242
APEJE. Fundo Diversos, volume 30. Relatório procedido em torno das mortes do Bel. João Duarte Dantas e
Eng. Augusto Moreira Caldas. Recife, 30 de novembro de 1932.
243
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p. 17.
(Grifo nosso).
98

materialidade, primeiramente, numa verdadeira enxurrada de pedidos de livramento


condicional. Segundo ele:

A partir de janeiro de 1931 um grande número de sentenciados, em número


maior que 500, às vezes dos mais célebres e perigosos, cuidando em sua
bronca imaginação que a Revolução de 1930 se fizera, principalmente, para
lhes abrir as grades da prisão, entraram a requerer perdão das penas que se
acham condenados.244

Comparando os índices de concessão de livramento condicional por ano, percebemos


que as aspirações dos detentos foram prontamente frustradas, afinal, ocorreu um declínio das
concessões no governo encabeçado por Carlos de Lima Cavalcanti. A partir do escrutínio de
560 pareceres coligidos no andamento da pesquisa, podemos constatar que entre 1930 e 1936
os maiores índices de indeferimento dos pedidos de livramento condicional estão justamente
em 1930 e 1931, onde foram denegados 56% e 45% dos pedidos, respectivamente.245
O depoimento do preso comum Izaias Gonçalves de Lima nos indica que na ocasião em que foi
tomada a prisão “durante todo o dia a confusão e o barulho reinaram na Detenção onde só se
ouviam gritos e imprecações de presos”.246
Como nos lembra de modo arguto Michelle de Perrot, as implicações de movimentos
externos de contestação política podem ter desdobramentos contraditórios e uma apreensão
peculiar por parte dos detentos, de toda forma precisamos ter em conta que, por vezes, “é
verdade que a esperança traz insubmissão”.247 E convém lembrar ainda que “um evento
transforma-se naquilo que lhe dado como interpretação. Somente quando apropriado por, e
através de um esquema cultural, é que adquire uma significância histórica”.248 A interpretação
imediata dos presos daqueles acontecimentos parece estar conformada pela possibilidade
concreta de ampliarem conquistas no cárcere ainda que esta não tenha sido exatamente a
mensagem dos aliancistas.
Se, por um lado, a plataforma política cunhada pelos aliancistas era, como denunciava
à época Luiz Carlos Prestes, “anódina” e incapaz de viabilizar qualquer projeto de
transformação mais estrutural e emancipatória dos grupos subalternos que compunham a
sociedade brasileira, por outro, sua generalidade proporcionou adesões muito distintas e leituras

244
APEJE. Impressos, Caixa 2, vol. Secretaria de Justiça. Relatório do Conselho penitenciário 1933, p. 6.
245
Cf. Os dados estão tabulados e apresentados graficamente no terceiro capítulo deste trabalho.
246
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p.33.
247
Ibidem, p. 17
248
SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, p.15.
99

muito diversas.249 Acerca dessa plasticidade política, Santa Rosa percebeu com muita acuidade
que, naquele contexto, “a Aliança Liberal apresentava-se como um remanso acolhedor para
todos os descontentamentos e todas as esperanças”.250
Tomando os relatos supramencionados - do jornalista Pedro Lopes, do guarda da
instituição, do diretor Joaquim Cavalcanti e do presidente do Conselho Penitenciário - como
verossímeis e reputando como plausível suas indicações, é possível afirmarmos que os presos
nutriam certa simpatia pela Revolução no momento da tomada do poder e esta fomentou certo
entusiasmo nos presos comuns.
Esse entendimento deve ter sido validado ou mesmo recrudescido pelas ações imediatas
da tropa paraibana responsável pela tomada da prisão. Isso porque depois de dominada e
“ocupada militarmente a Penitenciária, correu a notícia entre empregados e detentos que alguns
presos haviam de ser soltos, para prestar serviços à Revolução”.251 Ventilou-se entre os presos
que os militares do exército da Paraíba, chefiados pelo comandante Agildo Barata, realizariam
a soltura de alguns presos.252 Os revolucionários - e, por conseguinte, a Revolução de 1930 -
chegavam à prisão como prenúncio da liberdade e seria um equívoco negligenciar o impacto
desta ações no ambiente de encarceramento.
A tomada da prisão pela tropa oriunda da Paraíba implicou no imediato protagonismo
de dois presos que se encontravam na instituição: Otacílio e Izaías, ambos paraibanos, que
detinham relações de parentesco e amizade com os militares que invadiram a prisão. De modo
que os dois sentenciados “passaram logo a se movimentar a vontade na penitenciária sendo
abraçados por oficiais que vieram na tropa e que são responsáveis diretos pela fuga dos
mesmos”.253

249
Segundo defendia Prestes em manifesto: “A revolução brasileira não pode ser feita com o programa anódino
da Aliança Liberal. Uma simples mudança de homens, um voto secreto, promessas de liberdade eleitoral, de
honestidade administrativa, de respeito à Constituição e moeda estável e outras panaceias, nada resolvem, nem
podem de maneira alguma interessar à grande maioria da nossa população, sem o apoio da qual qualquer revolução
que se faça terá o caráter de uma simples luta entre as oligarquias dominantes. Não nos enganemos. Somos
governados por uma minoria que, proprietária das terras, das fazendas e latifúndios e senhora dos meios de
produção e apoiada nos imperialismos estrangeiros que nos exploram e nos dividem, só será dominada pela
verdadeira insurreição generalizada, pelo levantamento consciente das mais vastas massas das nossas populações
dos sertões e das cidades. Contra as duas vigasmestras que sustentam economicamente os atuais oligarcas,
precisam, pois, ser dirigidos os nossos golpes — a grande propriedade territorial e o imperialismo anglo-
americano. Essas as duas causas fundamentais da opressão política em que vivemos e das crises econômicas
sucessivas em que nos debatemos”. Diário da Noite, Rio de Janeiro, 29 de maio de 1930.
250
SANTA ROSA, Virgínio. O sentido do tenentismo. 3 ed. Rio de Janeiro: Schimidt, 1993, p.51.
251
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p.2.
252
Agildo Barata que teve papel destacado nas lutas da Revolução de 1930 na Paraíba e em Pernambuco quando
servia no 22º Batalhão de Caçadores será um dos presos políticos mais conhecidos da Era Vargas na medida em
que gradativamente vai se decepcionando com os rumos da Revolução e passa ao campo da oposição política até
filiar-se ao Partido Comunista (PCB) o que explicará o seu envolvimento direto na organização Aliança Nacional
Libertadora (ANL), uma frente de esquerda voltada ao combate ao integralismo.
253
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 2212, 1934, p.2-3.
100

No interior da Casa de Detenção tornou-se, então, “corrente que Otacílio e Izaias seriam
soltos com alguns outros presos de bom comportamento” e, além disso, não se trataria de uma
fuga, pois, os presos escolhidos seriam transformados em soldados da causa revolucionária.
Nesse sentido, os relatos indicam que o detento “Otacílio esteve fazendo uma lista dos que
sairiam com ele, para fazer parte das forças revolucionárias, para que solicitou a ele depoente
alguns nomes”.254
Nesta ocasião, as relações pessoais fundamentavam as ações. Apenas dois sentenciados
saíram da prisão posto que não se tratava de uma ação generalizada, mas advinda de uma relação
de amizade que os dois detentos nutriam com a tropa. A revolução não se realizara para
proporcionar liberdade aos presos, portanto, estava completamente fora do seu horizonte
ideológico e, da sua agenda política efetiva, a situação dos cárceres e as agruras do mundo
prisional. No entanto, a interpretação dos eventos políticos pôde se desvencilhar radicalmente
dos propósitos dos seus idealizadores. Os presos comuns passaram, então, a depositar no
governo revolucionário crescentes expectativas. Entretanto, não tardaria perceber as inúmeras
marcas de continuidade na condução da gestão prisional que caracterizaria o governo
revolucionário, ao que aqueles indivíduos ardilosamente responderiam com novas estratégias
de negociação e pressão política. Antes disso, no entanto, procuraram recorrer aos
revolucionários no poder e optaram por demandar, de maneira deferente, medidas que
melhorassem a vida efetiva na prisão. Vejamos as primeiras medidas dos revolucionários que
se direcionavam ao mundo da prisão e como estas foram recebidas pelos presos comuns.

1.4- O regime revolucionário e a Casa de Detenção.

As primeiras medidas implementadas pelo governo revolucionário de Pernambuco - que


tinha como interventor federal o usineiro Carlos de Lima Cavalcanti – se encaminharam no
sentido de efetivar as diretrizes do decreto que institucionalizava o Governo Provisório como
um regime discricionário. De modo bastante arguto, Edgard Carone observou que nos
momentos iniciais do regime instalado em outubro de 1930 a tarefa precípua, em todas as
unidades da federação, que impelia os interventores era extirpar os adversários do governo
transato. De modo que ainda “existe aparente unidade enquanto se procurar liquidar os grupos
situacionistas do passado. A vitória militar é uma das fases da luta, posteriormente o que
aparece como básico é o programa da moralidade, de superação de ‘vícios’ anteriores etc”.255

254
Ibidem, p. 7.
255
CARONE, Edgar. Op. cit. p.288.
101

No tocante à repressão e perseguição aos correligionários do governo de Estácio


Coimbra, a interventoria de Pernambuco não denotou hesitação alguma em iniciar a desforra.
Em uma nota oficial que data do dia 11 de outubro, o novo chefe de polícia instituído, A.
Ribeiro, tornava público que:

Repostas nos seus termos pela Revolução vitoriosa neste Estado todas as
garantias constitucionais e sendo firme o propósito do governo de punir os
crimes que contra a integridade física, liberdade e vida dos cidadãos
ordenados, acumpliciados ou cometidos por autoridades policiais ou pessoas
depositárias de qualquer parcela de poder público durante o regime decaído
fica avisado o povo de que as delegacias policiais estão aptas a receber
quaisquer queixa crime que lhes forem feitas, acompanhadas das provas
admitidas na lei.256

A partir de uma retórica que propalava tolerância e inexistência de perseguições


políticas aos seus adversários vencidos, Carlos de Lima Cavalcanti procurava demarcar um
campo de atuação distinto do governo anterior que seria caracterizado pelas ações pessoais e
mesquinhas. Nesse sentido, implementar uma política análoga seria incorrer “nos mesmos erros
e dislates clamorosos que levaram as massas populares e as forças armadas da nação a essa
arrancada épica, clamorosa e fulminante”.257 Não é necessário esforço de grande monta para
constatar a natureza eminentemente retórica dessa suposta política de indulgência. O caráter de
retaliação aparece de maneira transparente numa nota oficial onde vemos os revolucionários
instar o povo a denunciar antigas autoridades para que se procedesse à necessária punição. Nela,
regulamentavam-se mecanismos formais para que a população denunciasse os desmandos
cometidos pelo governo de Estácio Coimbra:

O governo de Pernambuco faz constar ao povo que é permitido a quem quer


que seja representar, mediante petição dirigida ao chefe do governo executivo,
denunciando abusos das autoridades do regime decaído. As representações
devem frisar com clareza:

1º- qual autoridade abusou no exercício do cargo, atentando contra a


constituição, leis ou regulamentos;
2º- o abuso cometido, com todas as especificações possíveis, circunstâncias
de tempo inclusive;
3º- as provas necessárias (inclusive indicação de testemunha) para a firmeza
das alegações ou pelo menos um conjunto de circunstâncias lógicas capazes
de gerar convicção ou, quando nada, capazes de gerar pesquisas posteriores.258

256
Diário da Manhã. Recife, 11 de outubro de 1930, p.3. (Grifo nosso)
257
Idem.
258
Idem.
102

Os indivíduos que optassem por representar contra qualquer autoridade não poderiam
optar pelo anonimato, pois, conforme a nota cada indivíduo deveria “assumir a responsabilidade
de suas afirmativas, visto que a Revolução não tolera pusilaminidade”.259 Foi por meio destes
mecanismos que o governo de Carlos de Lima Cavalcanti procurou atingir os adversários. Para
Sarmento, por intermédio dessas medidas e do seu caráter retroativo torna-se inteligível o que
pretendiam os revolucionários. Em seu entendimento “o governo institucionalizou o estímulo
à delação com a finalidade de perseguir e punir os adversários da “revolução”. [...] A norma foi
concebida para produzir efeitos para trás, no que denuncia seu próprio casuísmo de perseguição
aos adversários”.260
Esse tipo de política não foi uma excentricidade da interventoria de Pernambuco. Ao
contrário, encontrava esteio e era corroborada pela diretriz do regime instituído com a
Revolução no âmbito do governo federal. Diante disso, não tardaria para que o governo por
intermédio do decreto 19.440, datado de 28 de novembro de 1930, se pronunciasse formalmente
sobre a matéria. Esse decreto instituía um Tribunal Especial para julgar crimes políticos e
funcionais.
Na normativa exarada pelo governo revolucionário de Pernambuco permitia-se a todos
os segmentos da população peticionar ao interventor e às autoridades competentes a fim de
denunciar violações de leis ou regulamentos. Conforme veremos adiante, os presos da Casa de
Detenção do Recife perceberam nessa formulação uma fresta por meio da qual fariam chegar
suas agendas. E mais ainda, uma série de ações concretas implementadas pelo governo foram,
talvez, percebidas pelos detentos como indicativas que o governo recém-empossado abria novas
possibilidades para os presos realizar seus reclamos.
Algumas medidas tomadas nos dias que se seguiram a Revolução parecem ter ampliado
nos presos da Casa de Detenção uma expectativa positiva acerca do governo que se instaurava.
A primeira dessas ações é, sem dúvida, a busca do paradeiro de Ulysses José dos Santos, preso
que havia sido deportado para Fernando de Noronha e que tinha sua localização efetiva
desconhecida e bastante especulada.
Outra questão que deve ter sido observada com entusiasmo pelos detentos foi o
encarceramento dos antigos dirigentes da chefatura de polícia: o chefe Eurico de Souza Leão e
o inspetor de polícia Ramos de Freitas, autoridades que executaram pessoalmente muitas das
reclusões efetivadas na época. Suas prisões relacionavam-se com o processo gerado pelo caso
Ulysses José dos Santos. Ou seja, em tese, suas prisões eram decorrência das arbitrariedades

259
Idem.
260
SARMENTO, Antonio Natanael Martins. Op. cit. p. 171.
103

que haviam praticado na condução da Secretaria de Segurança Pública. Na verdade, uma das
questões importantes de registrar é que muitas autoridades diretamente ligadas às práticas de
tortura dos presos serão remetidas à Casa de Detenção, numa política explícita de retaliação do
governo instituído. Mas para os presos tratava-se de uma situação inaudita, afinal, passaram a
conviver na reclusão com aqueles agentes públicos que, poucos meses antes, eram dirigentes
máximos que comandavam a repressão na cidade e a tortura na Casa de Detenção. Essa situação
gerou uma onda de sarcasmos nos periódicos da cidade. Em um deles, alguém que assinava
com o pseudônimo de “Sá Poty” dedicou um poema a curiosa situação. Nestes termos, escrevia:

Meus senhores finalmente graças a Revolução,


o meu grande amigo Freitas vai conhecer a prisão;
Do mesmo modo este Eurico que além de Souza é Leão,
vai travar conhecimento com a Casa de Detenção.

“Ambos os dois” valentaços, valentaços de primeira,


vem a Recife conhecer a geladeira.
Eurico segundo dizem anda bastante aflito
temendo a delegacia lá do terceiro distrito;

Ramos de Freitas coitado toda noite sonha


que vai para a ilha do Meio em Fernando de Noronha.

Sá Poty. 261

Uma vez no poder, os aliancistas não deixaram de tematizar o mundo da prisão. O mote
da argumentação agora é a necessidade premente de implementação dos ideais da Revolução
no âmbito do mundo prisional de modo a instaurar um regime eficaz e moderno que, segundo
a percepção governista, inexistiu no quadriênio do governo Estácio Coimbra. Em um desses
textos, salientava-se que “no aparelho administrativo do Brasil, o sistema penitenciário não está
no nível dos nossos foros de cultura e muito longe de acompanhar o ritmo da moderna ciência
penal aplicada no estrangeiro”.262 Outra argumentação recorrente é quanto o caráter
exclusivamente repressivo que a prisão detinha antes da Revolução, de onde eram oriundas
práticas atrozes e arbitrárias como a tortura. Esse conjunto de mecanismos não era nada senão
o reflexo de uma herança do governo oligárquico. Por isso, a situação penitenciária encontrada
pelo governo revolucionário era caótica e incivilizada. Facilmente constatava-se que “nos
Estados da União, os estabelecimentos eram quase sempre entregues a indivíduos de mau gênio,

261
Jornal do Recife. Recife, 15 de novembro de 1930, p. 2.
262
Jornal do Recife. Recife, 22 de agosto de 1931, p.3.
104

irritadiços, amigos inseparáveis do relho e do grilhão. E era com esses instrumentos que se
costumava arrancar confissões incríveis e por faltas não cometidas”.263
Em suma, a situação dos cárceres brasileiros - e, notadamente, dos pernambucanos - era
decorrência de uma prática política genuinamente oligárquica. A missão dos interventores era
implantar novas diretrizes na organização e condução dessas instituições, articulando-as com
as ideias “modernas” que foram defendidas “heroicamente” pela Revolução de 1930.
Em abril de 1931, é possível perceber o anseio dos correligionários do governo para que
a Casa de Detenção do Recife tivesse seu funcionamento remodelado pautando-se em novas
diretrizes. Afinal, a reforma e a moralização das instituições havia sido uma das plataformas
mais prementes do movimento aliancista no âmbito nacional.
A primeira medida de Carlos de Lima Cavalcanti voltada diretamente para a prisão
recifense foi destituir do cargo o antigo diretor, Joaquim do Rego Cavalcanti, e alçar ao posto
de comando da prisão alguém de confiança junto às forças revolucionárias.
Nesse sentido, o antigo diretor da época do governo Estácio Coimbra foi substituído
pelo major Urbano Ribeiro de Senna, cuja nomeação data do dia 18 de novembro de 1930.
Cabe salientar, entretanto, que as primeiras nomeações para gerir a Casa de Detenção não
agradavam parcela dos correligionários que demandavam que os novos ares da Revolução
soprassem naquela instituição. Para um dos articulistas do jornal oficioso, só com a nomeação
do diretor Rodolfo Aureliano em abril de 1931 começava, definitivamente, a delinear-se uma
política prisional propriamente revolucionária para o estado de Pernambuco. Segundo ele:

O que não é mais possível, a menos que a Revolução neste Estado tivesse sido
apenas uma diátese sem repercussão profunda e salutar em todos os campos
da atividade administrativa e social, é a permanência do que vinha se
observando na Casa de Detenção onde o recluso qualquer que fosse a natureza
dos seus crimes se encontrava em um ambiente pernicioso de negligências e
promiscuidades ignóbeis, agravadas pelos suplícios mais selvagens e
clamorosos. O ato do governo que nos ocupamos é um bom sinal da nova
orientação que vai se imprimir à penitenciária do cais do Capibaribe.264

De modo que era possível vislumbrar um novo cenário no funcionamento das prisões,
no entanto, essa transformação substantiva demandaria tempo para a realização de reformas
modernizantes no ambiente carcerário. Entendia-se, portanto, que mediante a:

263
Idem.
264
Diário da Manhã. Recife, 26 de abril de 1931, p.1.
105

[...] derrocada das oligarquias em outubro caíram os processos iníquos. Não


havendo até agora uma reforma completa na legislação penal, os
estabelecimentos prisionais não puderam receber os influxos benéficos dos
modernos métodos. Enquanto não há dispositivos legais para o caso só mesmo
o concurso da boa vontade pode substituir a ausência de regulamentação da
lei.265

Diante disso, e em caráter circunstancial, o funcionamento satisfatório destas


instituições estaria dependendo de ações pontuais e mesmo em estreita relação com as virtudes
individuais dos seus gestores. Assim, as prisões deveriam estar sob a direção de pessoas
comprometidas com as premissas da Revolução. Nesse momento caberia protagonismo aos atos
individuais dos gestores enquanto o governo não implementava medidas normalizadoras de
abrangência nacional. Conforme esse juízo era notório que “a Casa de Detenção do Recife se
inclui no rol dos estabelecimentos em apreço, sem um controle de codificação moderna é
dirigida atualmente por um revolucionário moço e de ideias ampliadas, o Dr. Rodolpho
Aureliano”.266
A entrega da direção do estabelecimento prisional à Rodolfo Aureliano foi
efusivamente saudada como um inconteste posicionamento do governo no sentido de fazer
reverberar princípios revolucionários no âmbito da carcerário. Nesse sentido, para os
correligionários do governo “não se trata de uma investidura banal que deva ser despercebida
do espírito público”.267 Ao contrário, sua designação para o cargo concorria para:

[...] preencher uma lacuna de há muito reclamada pelos foros de civilização


de Pernambuco, que não podia continuar a ter a principal penitenciária
administrada por métodos e processos rotineiros em chocante e vergonhoso
antagonismo com o movimento que se opera nesses estabelecimentos, de
acordo com os princípios da ciência.268

Nessa leitura, o maior desafio do novo diretor na condução da instituição era romper
com os mecanismos retrógados de gestão que foram incorporados ao funcionamento da
Detenção pela “política decaída”. Diante disso, era urgente instituir um corpo de funcionários
tecnicamente capacitados e familiarizados com os encaminhamentos e avanços da política
penitenciária no mundo Ocidental. De tal modo que:

Sabe-se que um dos problemas de mais importância nos domínios da ciência


penal moderna é o que consiste na regeneração social dos criminosos, que não

265
Jornal do Recife, Recife, 22 de agosto de 1931, p.3.
266
Idem.
267
Idem.
268
Idem.
106

é possível conseguir com o empirismo que, infelizmente, ainda prevalece entre


nós, como um dos frutos do regime deposto pelas armas da Nação. Hoje em
dia nos países civilizados, a tendência vitoriosa nas penitenciárias, que não
prescindem de direções técnicas, entregues a especialistas estudiosos e
experimentados, visa resolver a situação dos segregados da comunhão social
por sistemas baseados nos melhores preceitos do direito penal.269

É notória no fragmento acima uma leitura demasiadamente política dos problemas da


instituição posto que eram oriundos, exclusivamente, do governo anterior. A prisão da capital,
grosso modo, se encontrava numa situação “onde tudo está por fazer, desde o simples
interrogatório dos detentos até sua restituição ao convívio da sociedade, transformando em
elemento útil a si mesmo e a seus semelhantes”.270
Nestes anos que sucederam a Revolução, o governo de Carlos de Lima Cavalcanti
reputava que havia se instalado uma sensível diferença na diretriz e no funcionamento da prisão
recifense. Segundo essa perspectiva não era difícil perceber que predominava “o esforço, a
vontade e o espírito de justiça dos que dirigem a Casa de Detenção”.271 O substancial já havia
mudado: a diretriz de perseguição, ódio e sevícias físicas que caracterizavam a política das
prisões nos regimes oligárquicos. Segundo esse raciocínio, na Casa de Detenção do Recife
faltavam “sobretudo, reformas materiais coordenadas com modernos princípios de higiene e
uma alteração justa no nosso sistema penitenciário. Por que os propósitos bárbaros e tendências
a torturas já não existem no antigo presídio”.272
Sabemos que a despeito do intenso discurso de modernidade e ruptura que o governo de
Carlos de Lima Cavalcanti insiste em envolver a temática da prisão, bem como, as constantes
vituperações a tudo que era oriundo do governo anterior, é muito fácil notar sua dimensão
retórica e instrumental. Afinal, até mesmo o regulamento prisional que era defendido como
instrumento de disciplinamento e brandura não foi redigido pelos aliancistas. Curiosamente, o
“governo tirânico” de Estácio Coimbra produziu um regulamento – datado de 7 de janeiro de
1930 - que vigorou até a transformação da Casa de Detenção em Presídio Especial, em 1935,
sem que houvesse discordâncias fundamentais com aquelas orientações. Isso nos mostra que no
atinente ao mundo prisional os governos anteriores e imediatamente posteriores a outubro de
1930 pouco se distinguiram nos termos de um projeto específico ou significativamente
inovador. No entanto, isso não implica assumir que no decurso do tempo não houve mudanças
importantes no sistema penitenciário brasileiro ensejadas pelos revolucionários no poder.

269
Diário da Manhã. Recife, 26 de abril de 1931, p.1.
270
Idem.
271
Jornal do Recife, Recife, 22 de agosto 1931, p.3.
272
Idem.
107

Sabemos em consonância com as formulações de Angela Texeira Artur que, ao longo da Era
Vargas, muitas foram as normatizações que pretendiam unificar e racionalizar o conjunto de
instituições nacionais de encarceramento. O regimento das correições em 1930, o Fundo e o
Selo Penitenciário, em 1934, com vistas a arrecadar recursos para o investimento nas prisões,
o Código Penitenciário da República, em 1935, e o próprio Código Criminal de 1940 nos
informam sobre a relevância das temáticas penitenciárias na agenda política do Estado. 273
Entretanto, quando direcionamos nossa atenção ao cotidiano das prisões e ao reclamo
dos presos comuns no Recife, nas balizas temporais desta pesquisa, percebemos que foram
parcas as alterações significativas. O que demonstra que o discurso de ruptura dos novos
governantes estava em patente descompasso com as demandas dos encarcerados.
Podemos constatar a permanência da estratégia argumentativa de convencimento pelo
contraste entre a “antiga” e “nova” Casa de Detenção. Em tese, existiria um fosso entre as duas
gestões da prisão: uma, tirânica, atrasada, repressora; a outra, moderna, científica e
regeneradora. Os articulistas e analistas políticos vinculados ao governo insistentemente
anunciavam que a situação em que se encontrava a Casa de Detenção do Recife era decorrência
das políticas equivocadas do governo passado, que simbolizavam:

[...] de modo eloquente o que foi o regime de injustiça saneada pelo regime
revolucionário. E serve, por outro lado, a que extremos de degradação pode
chegar o nosso primitivo regime penitenciário, tanto para os reclusos da ilha
de Fernando de Noronha, como para os que tinham, igualmente, a infelicidade
de ser segregados no edifício da Casa de Detenção desta cidade.”274

Esses homens não tinham dúvidas que, se ainda permaneciam alguns problemas
estruturais na Casa de Detenção, “a maldade dos governos passados muito concorreu para
agravar essa lamentável situação, permitindo a prática de vícios e costumes hediondos nos
presídios”.275
Por isso, durante aqueles anos era comum ver autoridades “a dar exemplos de
desumanidade, castigando os detentos com os mais bárbaros e tenebrosos suplícios”.276 Ao
invés de um cotidiano de disciplina, abastecido na ciência penitenciária mais avançada, o que
os revolucionários teriam encontrado na Casa de Detenção foi um barbarismo resultante “dessa

273
ARTUR, Angela Teixeira. Práticas do encarceramento feminino: presas, presídios e freiras. Tese (doutorado
em História Social). Faculdades de Filosofia, letras e ciências humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo,
2017, p. 22.

274
Diário da Manhã. 29 de março de 1931, p.3.
275
Idem.
276
Idem.
108

mentalidade selvagem com que atuavam os instrumentos do chamado poder legal, reprimindo
a ferro e a fogo, [...] não era lícito senão que resultassem tragédias e monstruosidades
inomináveis”.277 Muita retórica e poucas medidas práticas caracterizam os primeiros anos do
governo revolucionário em Pernambuco, sobretudo, no que concerne ao âmbito das prisões.
Os anos iniciais da década de 1930 no Recife são de entusiasmo popular e esperança
com a Revolução, mas vão surgindo as primeiras articulações e demandas por melhorias,
especialmente, no bojo das classes trabalhadoras organizadas. Estudando aquele período Nadja
Bryner sustentou que “poucos meses após a instalação do Governo Provisório já eram visíveis
os sinais de descontentamento que reinava no Estado entre os mais diversos segmentos
sociais”.278
Além de diversas frustrações oriundas da intensa defasagem entre a propaganda política
conduzida pelos aliancistas e a exígua efetivação daquela agenda, tornava-se patente que no
concernente à política de repressão a linha que distinguia o governo revolucionário do anterior
era demasiadamente tênue. Também em função disto emerge um crescente clima de
desconfiança no seio da classe trabalhadora com relação às ações da interventoria de Carlos de
Lima Cavalcanti.
Como discutiremos detidamente adiante, já durante o ano de 1931 a cidade do Recife
conviveu com a deflagração de várias greves, motins urbanos e até com uma tentativa
malfadada de golpe de estado. As medidas repressivas do governo revolucionário, ainda cioso
de legitimidade, recorreram aos velhos expedientes de repressão de onde avultaram as
“perseguições, prisões, intervenção policial nas manifestações operárias, proibição de reuniões
sem a devida autorização do governo e a proibição da livre atuação na esfera sindical”.279
A situação de agitação social que se instaurou na capital de Pernambuco nos meses que
se seguiram a Revolução foram significativas. Em suas comunicações F. van den Arend - cônsul
dos Estados Unidos em Pernambuco - salientava o que entendia ser um período de crise e
insatisfações por parte dos trabalhadores e desempregados do Recife. Entre outras questões, o
preocupava “a participação de trabalhadores nos movimentos sociais, muitos deles negros, que
compunham a maior parte dos analfabetos do Brasil”.280 Como apontou Luís Sant´Anna, o
cônsul entendia que a crescente movimentação da classe trabalhadora na capital concorria para

277
Idem.
278
BRYNER, Nadja. “Lutas Operárias: Recife nos anos 1930”. In: BEZERRA, Aurélio de Menezes. FERREIRA,
Maicon Maurício Vasconcelos; BEZERRA, Rafael Santana. Manifestações Operárias em Pernambuco. Recife:
NEEPD, 2001, p. 141.
279
Ibidem, p. 138.
280
SANT'ANA, L. H. S. Olhares diplomáticos estadunidenses sobre o Brasil em tempo de Revolução (1930-
1932). Dissertação de mestrado, Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2010, p.75.
109

criar um terreno fecundo aos ideais comunistas, uma vez que, os trabalhadores diante da
retração econômica que prevalecia no Estado estavam “à procura de liderança” e, nestas
circunstâncias, “têm ouvido mais e mais os agitadores comunistas”.281
A Casa de Detenção do Recife não tardaria a receber novos “habitantes”, desta feita, os
opositores do regime instituído com o golpe de estado de outubro de 1930. Já nos meses
seguintes à Revolução, o governo de Carlos de Lima Cavalcanti fornecia indícios significativos
que havia grande preocupação com as questões atinentes à organização da classe trabalhadora.
Seu objetivo imediato era estabelecer o controle dessas organizações e promover uma política
de conciliação entre o capital e o trabalho, eliminando as tensões entre patrões e empregados.
A retórica governista se encaminhava no sentido de demonstrar o caráter “impatriótico”
das mobilizações que começavam a eclodir na capital logo em seguida a vitória da Revolução.
Deste modo, entendia-se que:

As greves, por exemplo, no momento de normalização da vida administrativa


e social do país, quando a Nação coesa ainda não se convalesceu da crise em
virtude da qual as instituições serão reestabelecidas, constituíam um fator de
perturbação da ordem reinante, da disciplina e da fraternidade em todas as
classes sem distinções nem categorias. [...] Os pruridos grevistas, portanto,
não tem absolutamente nenhum motivo que os justifique. Organizado o
Departamento do Trabalho, os operários serão ouvidos e acatados pelo novo
órgão do governo pernambucano, resolvendo os problemas sociais sem
choque que violentem o equilíbrio necessário entre as classes laboriosas e
conservadoras. O que o governo revolucionário não tolera, por que a Nação
assim o exige, é que os exploradores do operariado tentem infiltrar a discórdia
e a agitação no seio das massas identificadas com a vitória da cruzada
redentora. Contra tais fornecedores de demagogia subversiva e atentadores da
ordem social, da tranquilidade e dos bens públicos serão adotadas as medidas
da mais rigorosa e absoluta inflexibilidade.282

Caso emblemático é a greve dos padeiros, um movimento de contestação grevista que


emerge na capital de Pernambuco quase imediatamente após a instalação da interventoria. No
conjunto de notas oficiais exaradas pelo poder público fica patente a junção de elementos
persuasivos e intimidadores. O governo utilizava o argumento da excepcionalidade institucional
que ainda perdurava e conclamava os trabalhadores a confiar e reconhecer o Estado como um
legítimo instrumento de conciliação. Tornava patente a ideia pela qual “a hora não é, não pode
ser de reivindicações, pessoais ou de classes por mais justas que sejam, a hora tem que ser ainda,
por algum tempo, de paciência, de ordem e de trabalho”.283 Nessa concepção, qualquer

281
Ibidem, p. 78.
282
Diário da Manhã. Recife, 04 de novembro de 1930, p.3.
283
Diario de Pernambuco. Recife, 14 de novembro de 1930, p.1.
110

mobilização política equivalia a um ato absolutamente impatriótico e subversivo. Para um


articulista do governo, a permanência da atividade grevista, bem como, ações perpetradas pelos
trabalhadores tais como a depredação de algumas padarias, era um inequívoco sinal que teriam
“conseguido se infiltrar entre os operários em greve alguns elementos estranhos ao seu meio”.284
Prova irrevogável deste raciocínio era, na leitura do articulista, “as depredações que foram
vítimas algumas padarias do subúrbio, conhecida como é a índole ordeira do operariado
pernambucano”.285
De toda forma, diante das manifestações de caráter coletivo por parte dos trabalhadores
o novo governo atuaria com veemência para reprimir essas ações. Aos recalcitrantes a
mensagem não guardava ambiguidades e os trabalhadores que insistissem na perpetração de
mobilizações coletivas defrontar-se-iam com o aparato de repressão do Estado, uma vez que,
“o governo será forçado a agir com energia reprimindo qualquer demanda que viesse a coagir
por meios violentos e responsabilizará com o poder que a ditadura nacional confere, os
perturbadores da ordem revolucionária, feita para o bem geral”.286
A Casa de Detenção do Recife era o destino de muitos desses “agitadores” e que, não
raro, responderiam por crimes comuns como a depredação do patrimônio, resistência etc. Em
suma, não eram considerados presos políticos ainda que tivessem sido encarcerados em função
da militância política.
Os proprietários da capital vislumbravam no governo um aliado impreterível para conter
os ânimos dos trabalhadores nessa crescente contestação que vicejou na cidade após a
Revolução de 1930. Na verdade, como salienta Marcelo Badaró Mattos, no atinente ao mundo
da organização dos trabalhadores as maiores inovações perpetradas pelo governo instalado em
outubro de 1930 é a máxima da “convivência harmônica entre trabalhadores e empregados”.287
A esse respeito é inequívoco um abaixo-assinado remetido por quatorze patrões de firmas da
cidade em que se mostravam profundamente agradecidos ao governo revolucionário pelas ações
de repressão empreendidas pela Secretaria de Segurança Pública. O caráter decididamente
patronal daquelas ações concorreu para legitimar, momentaneamente, o governo ante alguns
segmentos da elite local, entretanto, explicitava o caráter retórico de muito de seus discursos
dirigidos aos trabalhadores. No fragmento abaixo os patrões enalteciam as iniciativas
repressivas do novo governo:

284
Ibidem, p.2.
285
Idem.
286
Diário da Manhã. Recife, 04 de novembro de 1930, p.3.
287
MATTOS, Marcelo Badaró. O Sindicalismo no Brasil após 1930. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2003.
p. 11.
111

Os abaixo assinados proprietários de empresas gráficas e jornalistas nesta


capital, pelo presente vem testemunhar os seus mais sinceros e veementes
agradecimentos pelas prontas e eficazes providências tomadas por Vossa
Excelência por ocasião da greve dos operários de suas oficinas, não somente
fazendo abortar esse injustificável movimento como garantindo de modo
absoluto a integridade dos estabelecimentos e pessoas dos signatários. 288

Muitos desses grevistas e contestadores foram parar na Casa de Detenção do Recife. Até
mesmo um jornalista vinculado ao governo, que visitou naqueles dias a instituição, registrou
que foi possível reconhecer entre os presos diversos “elementos que tomaram parte no
movimento grevista irrompido nesta capital”. Mais adiante na tentativa de legitimar as ações
do governo é o próprio jornalista quem nos informa sobre a intensa repressão ao movimento
grevista que levava operários, trabalhadores e populares a passar dias, meses ou anos na Casa
de Detenção do Recife. Segundo o relato:

O recente movimento grevista trouxe ao conhecimento do governo a


interferência de elementos estranhos a classe operária, recrutados entre os
elementos da política passada. Houve numerosas prisões inclusive grevistas
mesmos, correndo em torno do paradeiro destes os mais desencontrados
comentários. Vimo-los nos nas celas 5 e 6 do Raio Oeste, pavimento térreo da
Casa de Detenção. Mais de quinze em situação lamentável. Releva acentuar
que não sofreram nenhum sofrimento físico. Estão sem nenhum conforto,
dormindo em pé ou por sobre jornais forrados no cimento, por haver absoluta
ausência de cama. Não sendo penitenciários a Detenção não tinha autorização
para fornecer-lhes boia, criando-se um impasse nos primeiros dias de prisão.
Quando da nossa visita almoçavam com alimentação remetida pelas suas
famílias. Um deles queixou-se de haver recebido nos primeiros dias como boia
um pouco de farinha e naco de carne de charque crua e intragável, isso a
revelia da direção da penitenciária.289

A Casa de Detenção, considerada uma das melhores da região, passou a receber até
mesmo opositores políticos de outros estados, como era o caso dos militares que participaram
da conspiração do Cabo Amador no Piauí em 1931. Naquela ocasião, diversos militares
insubordinaram-se contra seus superiores e chegaram a tomar o Palácio do Governo e
“mantiveram o interventor estadual como prisioneiro por 48 horas”.290
Assim como outrora, a instituição prisional passa a demonstrar, mais uma vez, seu
caráter repressor e funciona como mecanismo, por excelência, de contenção da organização e
manifestação política dos trabalhadores e da oposição em geral. Segundo o governo restava

288
APEJE. Secretaria de Segurança Pública (SSP). Volume 1071, 18 de março de 1932, n.p.
289
“Em um dos últimos redutos estacistas”. Jornal do Recife, Recife, 22 de agosto de1931, p.3.
290
SOUSA, R. E. P. M.; SANTOS, J. M. M. “Velhos camaradas”: contribuição inicial à história do Partido
Comunista Brasileiro no Piauí (1932-1964) (ISSN: 2316-5219). In: Anais eletrônicos do XII Encontro Nacional
de História Oral: política, ética e conhecimento. Teresina-PI, 2014, p.5.
112

evidente que aquelas ações eram fomentadas por indivíduos oriundos da época do estacismo ou
por elementos agitadores comunistas.
Na instituição prisional juntaram-se a uma multifacetada população de ladrões,
assassinos e grevistas, todos em graus diferentes vistos como uma ameaça à ordem e à reputação
que o movimento revolucionário buscava erigir. Sabemos que os censos oficiais responsáveis
pela quantificação dos presos tendiam a ignorar aqueles indivíduos que passavam pelo cárcere
e não tinham a culpa formada por meio de um processo. Elizabeth Cancelli nos lembra que
“tecnicamente, no Brasil dos anos 20, 30 e 40, estavam registrados, como ocupantes das prisões,
apenas aqueles que efetivamente haviam sido condenados”.291
Inúmeros sujeitos passaram pelos cárceres da capital sem que tivessem gerado o menor
registro burocrático. Esses “homens infames”, para usarmos a ditosa expressão de Foucault,
mesmo colidindo, em algum momento de suas vidas, com as instâncias do poder responsáveis
pela manutenção da ordem praticamente não deixaram rastros, nem mesmo fugidios, de suas
vivências no mundo prisional.292 Esse grupo de presos que a todo o momento entrava e saia da
instituição era reputado como um fator de indisciplina na medida em que eram apreendidos
como um dos principais entraves para a implementação de técnicas de classificação dos
detentos, diretriz do moderno sistema penitenciário. Segundo o relatório escrito pelo presidente
do Conselho Penitenciário de Pernambuco esse era um dos maiores problemas que enfrentava
a Casa de Detenção nos idos de 1929. Uma vez que:

Pena é que estejam na Penitenciária, embora em um só dos raios, presos


simplesmente correcionais, uma quantidade enorme de indivíduos
indesejáveis, culpados de cotidianas contravenções, vagabundos, bêbados,
arruaceiros que entram e saem a todo momento para logo voltarem a prisão
em contato contínuo com os sentenciados.293

Ainda carecemos de estudos que mensurem as implicações sociais de tantas passagens


pelas prisões a que foram submetidos um conjunto de brasileiros, notadamente, os pobres e
urbanos. Amy Charkzel sugeriu, com muita pertinência, que na vida de muitos desses sujeitos
à passagem pela prisão equivalia a um momento de formação cívica visto que esse era o
encontro mais direto e imediato que teriam com o Estado brasileiro ao longo de suas precárias
existências.294

291
CANCELLI, Elizabeth. Op. cit. 2005, p.142.
292
FOUCAULT, Michel. “A vida dos homens infames”. In: FOUCAULT, Michel. Op. cit. 2003.
293
APEJE. Secretaria de Justiça (impressos). Relatório do Conselho Penitenciário de Pernambuco. Recife,
Imprensa Oficial, 1929, p. 10.
294
CHAZKEL, Amy. “Uma perigosíssima lição: a Casa de Detenção do Rio de Janeiro na primeira República” In:
MAIA, Clarissa Nunes; NETO, Flávio de Sá; COSTA, Marcos; BRETAS, Marcos Luiz (orgs.). Op. cit. p.9.
113

A esperança depositada por muitos segmentos populares do Recife na capacidade da


Revolução melhorar sua sorte vai se esboroando e uma das situações que concorreu para isso
foi, justamente, a implementação de uma ação profundamente repressiva destinada aos
opositores, o que concorria para uma associação inevitável entre os anos iniciais do governo de
Carlos de Lima Cavalcanti e aqueles da repressão estacista.
Nesse interregno muitos dos presos comuns que se encontravam na Casa de Detenção
passaram a reputar que aquele era o momento oportuno para demandar do governo algumas
melhorias na vida prisional, tendo em vista que entendiam que participaram da vitória do
movimento e agora esperavam ansiosamente que as autoridades públicas retribuíssem a sua
“adesão” facilitando a liberdade ou mesmo melhorando as condições gerais de encarceramento.
Os presos tinham que burlar a vigilância a que estavam submetidos para entrar em comunicação
com os revolucionários do mais alto escalão do governo e utilizar dos expedientes propalados
anteriormente a fim de denunciar as irregularidades do passado, mas, sobretudo, as do presente.
Escrutinar essa negociação dos presos comuns é o que faremos adiante.

1.5 - A Revolução de 1930 vista a partir da Casa de Detenção: leituras e demandas dos
presos comuns.

Devemos começar pela constatação que os presos não se mantiveram inertes diante da
conjuntura de agitação política que se avolumava nas ruas e, sobretudo, foram argutos o
suficiente para perceber que a crítica que os aliancistas faziam da prisão no Recife nos tempos
de Estácio Coimbra abriam-lhes perspectivas para encaminhar demandas e, sobretudo,
denunciar as agruras que, desde a muito tempo, eram rotinas no mundo prisional e mantinham-
se intactas após outubro de 1930. Diversos foram os mecanismos que os presos utilizavam para
se inteirar dos acontecimentos políticos daquela conjuntura.
A localização da Casa de Detenção do Recife não é mero detalhe que pode ser
negligenciado no entendimento da consecução das ações no interior desse estabelecimento. As
informações afluíam para o interior da instituição de modo ininterrupto. Sem incorrer em
nenhum tipo de determinismo geográfico, é preciso estarmos cientes que o ambiente urbano
propiciou um acesso, relativamente amplo, às informações sobre a conjuntura política que
balizaram as leituras do cotidiano formuladas pelos presos.
A prisão surgiu em meio centro urbano e conforme crescia a cidade maior tornava-se
também a proximidade da instituição com os acontecimentos. Destoava, por exemplo, da
114

realidade do presídio de Fernando de Noronha que pela sua localização geográfica possibilitava
um controle mais efetivo sobre as informações, ainda assim nunca total. Para o advogado de
Pinheiro Menezes, antigo diretor do presídio de Fernando de Noronha, aquela instituição se
caracterizaria pela quase inexistência de fluxos de informações. Assim sendo, entendia que
“aquele presídio, como acertadamente se diz, está fora do mundo. As notícias, mesmo as mais
sensacionais, ali só chegam tardiamente através de cartas e jornais que em ordinário são lidos
depois do regresso de navios”.295
Aliás, o controle das informações é uma verdadeira obsessão dos diretores da Casa de
Detenção do Recife muito em virtude de sua inserção em meio à ebulição da cidade. O
regulamento prisional de 1919 – que havia sido precedido por dois outros que vigoraram
durante o século XIX: o de 1855 e o de 1889 – expressava que incorria em penalidade o detento
que viesse a “escrever a parentes e amigos sem que as cartas sejam lidas e visadas pelo
ajudante”.296
No Regulamento vigente à época da Revolução de 1930 era patente a severa
intervenção sobre a prática da escrita e do recebimento de cartas. De modo que constituía
transgressão disciplinar o ato de “submeter correspondência a quem quer que seja sem o visto
do subdiretor”.297 Em outro artigo do mesmo documento menciona-se o fato de ser vetado
qualquer espécie de “representação coletiva, tenha embora a forma de pedido”.298 Por fim, o
artigo 62 sintetizava a norma a ser seguida no tocante às correspondências escritas de modo que
toda e qualquer “correspondência para expedição, bem como a que for recebida, será visada
pelo subdiretor e na ausência dele pelo secretário”.299
Entretanto, a presença constante de visitantes e trabalhadores externos na Casa de
Detenção, associada à exígua quantidade de guardas para supervisioná-los, era um problema de
longa data. Remonta já às primeiras décadas de seu funcionamento o surgimento de uma crítica
pertinaz que sublinhava os problemas advindos da sua localização nas adjacências das ruas
centrais. Até mesmo o penitenciarista Lemos de Britto - que em relatório, datado de 1924, havia
considerado a instituição prisional do Recife como a melhor existente no “Norte da República”
- atribuía-lhe como maior fragilidade justamente a proximidade que mantinha com os bulícios

295
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1912, fl.128.
296
APEJE, Regulamentos. Caixa 1, Volume 5. Regulamento da Casa de Detenção do Recife. 1919, capítulo XII,
art. 91.
297
Ibidem, art.40.
298
Ibidem, art.38
299
APEJE, Regulamentos. Caixa 3, volume 3. Regulamento da Casa de Detenção do Recife. 1930, capítulo XXIII,
art.62.
115

urbanos, uma vez que “faltando-lhe o que é para desanimar, uma área suficiente em derredor,
estando encravada entre ruas do centro da renovada Mauricéa”.300
Pelos idos de 1930 as coisas não haviam se alterado de modo substancial. Uma mirada
rápida na documentação primária demonstra que os presos tinham acesso a inúmeras
correspondências, bem como, as remetiam por meio de subterfúgios ardilosos. Os jornais de
circulação diária e os visitantes da instituição eram, sem dúvida, os principais vetores dessas
informações que chegavam aos presos. A esse respeito o presidente do Conselho Penitenciário
de Pernambuco, cuja sede funcionava no interior da Casa de Detenção, sublinhava em seu
relatório que:

Há muita liberdade, muita facilidade de comunicações entre os sentenciados


e, o que não pode deixar de ser algo extremamente prejudicial, entre eles e as
pessoas do exterior. Não sou partidário do extremo rigor adotado em São
Paulo, em sua modelar Penitenciária, [...], mas a liberdade um pouco excessiva
que se nota na Penitenciária do Recife também é muito prejudicial a reforma
do caráter dos sentenciados. Conveniente, portanto, será que se restrinjam um
pouco as comunicações entre os sentenciados, estabelecendo horário para elas
e que entre os mesmos e as pessoas de fora da prisão sejam limitadas as com
parentes mais chegados e em dias determinados [...] não podendo nem
devendo ser tão livres quanto atualmente.301

Nesse sentido, apesar dos dilatados índices de analfabetismo os jornais foram um dos
canais que os presos utilizaram para interpretar os acontecimentos políticos que estavam na
ordem do dia. Os presos estavam em intenso contato com as pessoas de fora da instituição e
com periódicos que, possivelmente, chegavam por seu intermédio.302 Segundo sustentava o
diretor do conselho:

A correspondência quer para o interior quer para o exterior da prisão devem


ser objeto de uma vigilância efetiva e constante. A leitura de jornais de
publicação diária na prisão deve ser limitada, ou talvez, excluída o que seria
muito melhor. Os jornais diários publicam sempre e sempre com minúcias e
detalhes excessivos notícias de crimes de toda ordem, dos mais simples aos

300
LEMOS BRITTO, J. G. Os Systemas Penitenciarios do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. Vol 1.
1924, p.263.
301
APEJE. Secretaria de Justiça (impressos). Relatório do Conselho Penitenciário de Pernambuco. Recife,
Imprensa Oficial, 1929, p. 10-11.
302
Esse tipo de raciocínio e critica aos jornais não é, absolutamente, novo e constitui ao longo dos oitocentos uma
preocupação central dos administradores da Casa de Detenção. Um deles de nome Jefferson Mirabeau de Azevedo
Soares remeteu ao chefe de polícia uma comunicação em que demonstrava juízo semelhante ao do documento
supramencionado. Segundo ele: “Tenho a honra de levar ao conhecimento de VSª que acabo de proibir aos detentos
a leitura de jornais políticos podendo eles distrair-se com a dos exclusivamente literários e a de livros de boa moral.
(...) porquanto a discussão sempre acrimonioza dos jornais políticos pode concorrer para interessar os presos nas
paixões tumultuárias do dia dispontando-lhe emoções desagradáveis o que muito convém evitar”. Cf. APEJE.
Fundo CDR. Correspondências entre o Administrador /Diretor. (4.1/7), novembro de 1874 - maio de 1878, p. 39.
116

mais horríveis, fazendo uma literatura imaginosa que pode impressionar


demasiado a mente dos sentenciados, pessoas que foram afeitas muito tempo
ao crime, outras que até mesmo foram levadas de ocasião, por circunstâncias
diversas. Será conveniente, portanto, permitir jornais e revistas puramente
literários, ou doutrinários, ou de ensinamentos cívicos, entre os segundos,
principalmente, os que procuram fazer a educação religiosa incutindo nos
sentenciados princípios superiores de moral.303

Essa associação entre visitantes e jornais é antiga na Casa de Detenção e constitui o


tema central de muitas correspondências entre os administradores prisionais e o chefe de polícia
ao longo dos Oitocentos. Acompanhemos um pouco mais o relato do presidente do Conselho
Penitenciário de Pernambuco de 1929:

A promiscuidade da Penitenciária do Recife entre os sentenciados e não


sentenciados a frequência intensa e contínua sem a menor regulação de
pessoas estranhas ao estabelecimento e em comunicação com os sentenciados;
a liberdade completa que se lhes dá para a compra e a leitura de livros e jornais
de toda espécie; a permissão de agiotagem entre os presidiários e o comércio
franco do fumo e outros artigos havendo sentenciados estabelecidos no
interior da Penitenciária – tudo faz da Penitenciária do Recife uma simples
Casa de Detenção.304

Os detentos acessavam cotidianamente as informações dos jornais. Devemos ressaltar


que desde 1920 existia na Casa de Detenção uma oficina gráfica e outra de encadernação onde
funcionavam as instalações da Imprensa Oficial do Estado. É possível afirmar que o trabalho
de presos comuns com a impressão do Diário Oficial franqueou acesso a diversas literaturas.
Sabemos que, pelo menos desde 1927, esses detentos que trabalhavam com jornais
demonstravam organização suficiente para peticionar, na forma de uma representação coletiva,
contra a direção do estabelecimento prisional. Na ocasião argumentavam que não mais
trabalhariam sem o pecúlio que costumeiramente recebiam. Sustentavam os detentos em sua
petição que “alguns de nós detentos acharam conveniente ficar nas celas [...] não mais
comparecemos ao trabalho”.305 Segundo estes detentos, o fato de serem miseráveis os
impossibilitava de trabalhar sem receber o pecúlio que os ajudava na lavagem de suas
vestimentas e nas demais necessidades cotidianas. Afirmavam ainda que antes de deixarem
definitivamente o serviço de encadernação trataram de avisar o chefe de secção “a
inconveniência de continuarmos a trabalhar, tendo ele achado justas as nossas alegações”.306

303
APEJE. Secretaria de Justiça (impressos). Relatório do Conselho Penitenciário de Pernambuco. Recife,
Imprensa Oficial, 1929, p. 11.
304
APEJE. Fundo Fernando de Noronha. Volume 55, p. 293.
305
APEJE. Coleção CDR. Vol. 142, p.280.
306
Idem.
117

No entanto, o diretor da instituição havia reputado aquela ação como um verdadeiro ato de
rebeldia e reprimiu os detentos que trabalhavam na gráfica com isolamento e
incomunicabilidade. Para o diretor o fato dos “detentos acintosamente se recusarem a prestar
serviços” provinha de um sentimento de superioridade e liberdade que os presos incutiram em
função de estarem em contato diário com os trabalhadores livres.307 Assim ele explica o
ocorrido:

Como era de esperar em plena promiscuidade com operários livres,


trabalhando dia e noite sob supervisão estranha a Penitenciária, foram se
julgando necessário e alguns (quase a maioria) se supunham empregados
públicos e consequentemente fora da disciplina e obediência que deviam ao
diretor da Penitenciária.308

A partir dos relatos acima podemos perceber que a leitura e a escrita dos detentos eram
formas tradicionais por meio das quais eles costumavam se informar e, sobretudo, remeter suas
contestações sobre ordenamento prisional. Por isso, a comunicação escrita era tão monitorada.
Subornar os guardas e funcionários que trabalharam na instituição e que, portanto, transitavam
pelos dois lados do muro, também era uma alternativa, ainda que arriscada, para conseguir
acessar as notícias do dia ou remeter suas próprias correspondências. Esse foi, por exemplo, o
que aconteceu com o preso Luciano, ao menos é o que relata o documento abaixo:

Comunico-vos que o guarda civil nº244 quando de serviço no Raio Leste deste
estabelecimento no dia 13 do corrente recebeu do detento Luciano Baptista de
Lima, recolhido a cela 15 do citado Raio, a quantia de dez mil reis para fim de
encaminhar uma carta ao Excelentíssimo Capitão Secretário da Segurança
Pública.309

Entendeu também que a simples proibição não surtia o efeito almejado e optou por
fomentar a criação de uma publicação que atuasse no sentido de moralizar os presos na medida
em que difundisse valores de hierarquia, a ordem e a disciplina. A criação deste jornal é uma
evidência da prática de leitura na instituição ainda que bastante alto fosse o índice de
analfabetismo entre os presos.
É dentro desse contexto que surge na Casa de Detenção, em 1932, um jornal chamado
de Redenção. Infelizmente, os exemplares dessa publicação não puderam ser encontrados, salvo
um único volume que foi resgatado durante a pesquisa em meio aos documentos do Conselho

307
Ibidem, p.282.
308
Ibidem, p.283.
309
APEJE. Fundo CDR. 4.1/49, 23.02.1932, p.20
118

Penitenciário. Neste número explicam-se as motivações que deram origem ao periódico. Uma
de suas motivações precípuas era sustar o acesso e a leitura de jornais da oposição que
fomentavam críticas ao governo e que poderiam impelir nos presos à indisciplina. Contra esse
tipo pernicioso de leitura desejam implementar uma que concorresse para o “saneamento do
espírito”. Onde podemos ler:

A iniciativa da criação um jornal para os reclusos de nossa penitenciária


surgiu, justamente no momento em que se verificou lhes prestar um benefício
mais duradouro, proporcionando uma leitura de saneamento do espírito e
capaz de os fazer retroceder ao caminho do Bem. [...] A boa leitura tem uma
força extraordinária do caráter do prisioneiro. Modifica-lhe o costume pelo
ensinamento das boas maneiras incute em seu espírito a ideia do bem pelo
conhecimento dos deveres do homem. A imprensa é o veiculo de ideias por
excelência. O jornal dos presos tem essa finalidade altruística de levar um
pouco de luz, o alívio do sofrimento, o bálsamo da alegria e de conforto as
trevas do cárcere. Os que vivem livres, que são ciosos de suas convicções
arraigadas e revigoradas pela garantia da liberdade se deixam orientar por essa
força irresistível que é a boa imprensa, de secreta e incompreendida ação para
quem por ela está se orientando. Na prisão onde há um campo mais vasto para
doutrinação, onde a sociedade faz construir uma muralha um mundo de
sentimento e ideias, de homens que sofreram e meditam com afinco nos dias
negros que passaram, a imprensa instrutiva e formativa das boas causas exerce
uma influência considerável, despertando energias novas para uma vida de
mais nobres empreendimentos, de iniciativas honestas e utéis.310

Essa investida contra o acesso aos jornais políticos no cotidiano da instituição é um fato
que podemos constatar em outros momentos da história institucional. Em 1932, o diretor
Miguel Calmon requeria providências quantos aos contatos perigosos que certos detentos
tinham com os empregados da Imprensa Oficial. Enviou ao chefe daquela secção
recomendações para recrudescer a vigilância sobre seus servidores, sobretudo, em virtude do
“fato de se prestarem os mesmos a conduzir correspondências clandestinas de detentos não
visadas pela diretoria desta penitenciária”.311 Salientava ainda que o funcionário de nome
Albino Ferreira estava entre os que se destacavam nesta atividade. O indivíduo foi flagrado na
prática do transporte de correspondências para os detentos e a direção constatou que por meio
dele também ingressava na instituição uma lista do “jogo do bicho” e trazia “do interior dessa
Imprensa um ‘Jornal Pequeno’ quando nesta penitenciária é absolutamente vedado a detentos
ler jornais”.312

310
Redenção: órgão da penitenciária e detenção do Recife. 25.06.1933, p.1. Durante a pesquisa de doutorado
encontramos esse exemplar em meio aos volumes do Conselho Penitenciário, precisamente: APEJE. Secretaria da
Justiça. Fundo Conselho Penitenciário. Caixa 10, volume 30.
311
APEJE. Fundo CDR. Vol. 4.1/48, p.22.
312
Idem.
119

Dessa forma, quando a direção identificava o detento que era escritor contumaz não
hesitava em aplicar-lhe as mais severas penas contidas no regulamento posto que sua ação
poderia influir no ânimo dos demais e na ordem do estabelecimento prisional. O preso político
Geraldo Castelo Branco remete a redação do Jornal do Recife afirmando que:

[...] outrossim, depois da honrosa campanha que vosso conceituado órgão


encetou o nosso estado de prisioneiros é o pior possível: setenta e três dias
incomunicáveis e privados até da visita da família e nem pelo menos temos o
direito de comprar um jornal por ter o novo diretor proibido a entrada do
gazeteiro neste estabelecimento.313

Esse queixume aparece em um momento que a Casa de Detenção estava repleta de


tensão e os presos comuns estavam organizando uma ação coletiva de protesto contra a direção
que eclodiria em 19 de janeiro de 1932. No fragmento acima, que reproduz parcialmente a carta
de um preso aparece o entendimento, em contraste com o regulamento, que preconiza a leitura
dos jornais como um direito. Em 1933, a direção do estabelecimento articulou uma verdadeira
ofensiva contra a entrada de jornais. Segundo o presidente do Conselho Penitenciário era
pujante a necessidade de proibir o fluxo ininterrupto desses materiais no interior da instituição,
uma vez que, este era um hábito pernicioso para uma vida ordeira no cárcere e fomentava
atitudes indesejáveis para o projeto penitenciário e para a própria manutenção da ordem no
interior da penitenciária. Sua objeção era direcionada:

[...] principalmente quanto ao recebimento de jornais de toda ordem elemento


excessivamente nocivo aos fins do recolhimento de criminosos sentenciados
à penitenciária. Não será com a leitura, com o conhecimento diário do que se
passava fora das prisões, com a leitura pormenorizada de quanto crime se
comete contra a sociedade, descritos nos jornais diários como luxo de
particularidades que se poderá atingir ao fim de fazer-se regenerar-se o
criminoso condenado.314

Como demonstramos anteriormente, desde a campanha política da Aliança Liberal


contra o governo de Estácio Coimbra até os conflitos militares concretos que sagraram a vitória
revolucionária em Pernambuco, a Casa de Detenção do Recife esteve envolvida direta ou
indiretamente com aqueles eventos. Os presos comuns perceberam o caráter recorrente com
que muitos jornais vinculados aos aliancistas criticavam o funcionamento da instituição. Essa

313
Jornal do Recife, Recife. 14 de janeiro de1932. Grifos nossos.
314
APEJE. Impressos, Caixa 2, vol. Secretaria de Justiça. Relatório do Conselho penitenciário 1933, p. 9. Grifos
nossos.
120

situação concorreu para que os presos atentassem para as dinâmicas políticas que se
processavam no Recife e delas tentassem extrair alguns benefícios.
Esse fenômeno não deve nos surpreender e basta lembrar que até mesmo os presos que
estavam reclusos no longínquo presídio de Fernando de Noronha também estavam atentos às
mudanças no cenário político. Aliás, se tivermos em conta a existência de um ininterrupto fluxo
de detentos entre as duas prisões - em função das constantes requisições da justiça - tal
fenômeno torna-se menos surpreendente, pois, muitas vezes são os mesmos indivíduos que
estão demandando melhorias do governo.
De um modo geral, os presos da Casa de Detenção sofreram uma influência do contexto
revolucionário muito mais intensa que os da prisão insular em função da proximidade e
contiguidade que a instituição da capital manteve com as dinâmicas do centro da cidade, lócus
decisório e onde se canalizavam os conflitos e as dinâmicas das manifestações políticas de apoio
ou repulsa ao governo.
Nesse sentido, quase que coetaneamente a vitória dos aliancistas em Recife pode-se
constatar a emergência de um conjunto de menções de apoio e solidariedade aos líderes da
Revolução circulando pelos jornais da cidade que tinham como remetentes os indivíduos
encarcerados.
Ao interventor de Carlos de Lima Cavalcanti, que acabava de galgar aos postos do
aparelho estatal por meio de um movimento armado que destitui o governo de Estácio Coimbra,
interessava a profusão das inúmeras notas panegíricas ao movimento vitorioso a fim de urdir
uma imagem de uma ampla legitimidade política. Importante salientar que essas efusivas
proclamações de apoio ao governo foram largamente difundidas nos jornais vinculados aos
revolucionários. Um desses periódicos jactava-se que até os presos apoiavam o movimento
revolucionário. Ainda em outubro, o diretor de Fernando de Noronha enviava para Carlos de
Lima Cavalcanti um “memorial” que tinha por origem “uma comissão de presidiários
representando seus companheiros que depois de lido na presença de habitantes livres sem
distinção inclusive pessoal da marinha e estando o Pavilhão Nacional asteado pela força pública
com a formalidade de estilo dos presidiários”.315
O conteúdo da mensagem é, notadamente, apologético e em função disso pôde ser
publicado nas páginas da imprensa do Recife. De saída, utiliza-se o tom da deferência e
humildade demonstrando apoio irrestrito ao governo recentemente instituído o que se daria por

315
Diario de Pernambuco. Recife, 25 de outubro de 1930, p.3.
121

meio de uma total disciplina e respeito ao diretor local. Em um fragmento deste memorial
podemos constatar essas características:

Ilmo senhor Sr. Diretor interino do presídio de Fernando de Noronha e


comandante da Praça Revolucionaria Libertadora nesta ilha com a devida
vênia os humildes presidiários abaixo assinados desejosos de dar um atestado
de suas condutas nesse momento, vem perante vossa senhoria interpretar de
seus humildes companheiros fazendo chegar ao conhecimento do Exc.ª
governador do Estado que outro fim não tem senão o de abraçar de coração a
causa santa que os nossos patrícios dignos que esta hora se debatem de armas
em punhos contra irmãos que não tem sabido ser irmãos o nosso adorado país
na posição que cabe entre as outras nações na altura de suas forças.
Reconhecemos que nenhuma posição social temos, porém nos nossos
corações mora o amor pelo engrandecimento da nossa Pátria. E é por este ideal
que deste degredo aonde a sorte nos quis atirar talvez por não possuímos a
compreensão nítida dos nossos deveres nos achamos prontos para na
vanguarda marchamos contra irmãos que não sabem ser irmãos. Diretor
cegamente estamos dispostos a cumprir vossas ordens que são as mesmas
emanadas do governo libertador podendo anunciar aqui e lá fora que nenhum
presidiário desta ilha ousara cometer qualquer ato de desrespeito aos seus
superiores, às pessoas livres, mormente as famílias por que seria neste caso
um desrespeito as ordens emanadas por nosso denodado Governo por quem
derramaremos a última gota de sangue se preciso for.316

Esse interessante depoimento em que os presos se esforçam para demonstrar uma


conduta morigerada e explicitar o seu imediato apoio ao governo instituído foi prontamente
instrumentalizado pelos periódicos oficiosos. Inseriu-se na publicação como uma prova cabal
do amplo consenso social em que, supostamente, se alicerçava o novo regime, afinal, “até os
presidiários de Noronha integrados à Revolução”.317
Ao término deste registro que fora largamente divulgado pela imprensa os
“disciplinados” detentos ainda solicitavam “a permissão para darmos um viva: viva o nosso
Brasil! Viva o Exmo. senhor Carlos de Lima Cavalcanti! Viva os chefes Revolucionários! Viva
o nosso Diário da Manhã que nos incentivou a sermos patriotas!”.318 Como bem percebeu
Sarmento, esta estratégia de difundir manifestações de apoio ao governo, inclusive dos presos

316
Idem. Grifo nosso.
317
Idem.
318
Idem. Cabe salientar que assinavam o “memorial” os seguintes detentos: João Thaumaturgo Baptista, José
Thomaz da Silva, Manoel Francisco do Nascimento José Luiz dos Santos, Justo Bezerra Leite. Esse último detento
será uma das lideranças que organizarão um grande movimento de contestação coletiva na Casa de Detenção do
Recife no ano de 1932.
122

da Ilha de Fernando de Noronha, se inseria no estratagema de demonstrar uma “representação


ideológica de aprovação e quase unanimidade”.319
Concomitante a retórica deferente e patriota destes indivíduos apenados na “ilha do
diabo” é possível apreender sua dimensão arguta e deliberada. Perquirindo as fontes, podemos
perceber que esses “disciplinados” detentos haviam participado da organização de movimento
de contestação coletiva nos rincões da ilha de Fernando de Noronha que fora adjetivada pelos
jornais da época como uma “insurreição”. Na verdade, esse movimento aconteceu cerca de 15
dias antes de enviarem a congratulação acima citada ao Interventor Carlos de Lima Cavalcanti.
Para termos uma ideia da proporção do evento basta dizer que conseguiram derrubar o
administrador Pinheiro Filho que havia sido nomeado pelo governo de Estácio Coimbra. Ao
receberem informações da movimentação política do Recife e da subsequente vitória do
movimento revolucionário, os presos rebelaram-se. Ao menos é o que nos quer fazer crer os
detentos que redigiram o memorial. Acompanhemos mais detidamente os meandros daqueles
acontecimentos.
A situação desdobrou-se da seguinte maneira. Cerca de cem detentos “dos mais
perigosos” se posicionaram contra as práticas do administrador Pinheiro Filho. Conseguiram se
armar com barras de ferros e “armas brancas” e iniciaram o movimento. De modo que “os
indisciplinados que se achavam detidos nos alojamentos fizeram entrega de algumas foices que
conseguiram subtrair dos serviços de campo”.320 No que concerne às suas demandas, pouco diz
a documentação. Mas sabemos que afirmavam que não se desarmariam enquanto o diretor do
estabelecimento fosse mantido no cargo. Analisando a situação o diretor remeteu um telegrama
para o interventor afirmando que estava “convicto de que com a força deficiente que disponho
não poderei desarmar os amotinados sem grande prejuízo de suas vidas suponho que a melhor
medida é a minha demissão”. 321 O Interventor federal decretou sua exoneração.
Na concepção do órgão de imprensa oficioso, as causas profundas dessa “sublevação”
não eram outras senão o regime de barbaridades perpetradas pelo regime político do antigo
governador de Pernambuco, que na ilha era representado na pessoa do diretor demitido Pinheiro
Filho. De modo que entendiam que a vigência daquele “regime tinha que provocar, mais um
dia, menos um dia, uma sublevação das vitimas do ódio oficial”.322 Nesse sentido, reputava-se

319
SARMENTO, Antônio Natanael Martins. Op. cit. p. 183.
320
Diario de Pernambuco. Recife, 14 de novembro de1930, p.3.
321
Idem.
322
Diário da Manhã. Recife, 14 de outubro de 1930, p.1.
123

que as causas profundas desse motim estavam inscritas no próprio caráter repressor do governo
de Estácio Coimbra que implantou uma política de barbaridades na ilha.
Aqui o mote da argumentação retoma o mártir que a Aliança Liberal fabricou durante
sua propaganda no Recife. Segundo essa interpretação:

Os inqualificáveis processos de arbítrio e violência praticados pela oligarquia


decaída tinham no diretor do presídio de Fernando de Noronha, o Sr. Pinheiro
Filho, um dos mais prestimosos executores. Aquela reclusão a 300 milhas da
costa se tornara um degredo de desespero para quantos eram atirados ao
abandono da lei e longe da proteção da justiça. O caso de Ulysses José dos
Santos é dos mais típicos.323

Estamos diante de um fenômeno importante. Assim que os agentes do governo


revolucionário se estabeleceram no poder é perceptível a emergência de uma retórica de
denúncia oriunda das prisões que mobilizará os argumentos provenientes da campanha política
promovida pelos aliancistas.
Esse fenômeno pode ser constatado em diferentes escritos produzidos pelos próprios
presos da Casa de Detenção do Recife e, em menor número, até mesmo por seus representantes
legais. São múltiplas as tipologias documentais que nos dão conta da utilização das temáticas
da Revolução e da política formal para alcançar diversos benefícios. Englobam desde habeas
corpus, onde se imbricam argumentos legais e políticos e constata-se maior ponderação no
discurso, até petições e cartas coletivas redigidas em nome da “classe presidiária”, onde se torna
notório um conjunto de questões atinentes à política e aos discursos sustentados pelo regime
instituído quando de sua campanha na oposição.
Cabe aqui uma breve digressão para salientar que nossa análise das correspondências
emitidas pelos presos restringe-se ao seu conteúdo e não problematizará as formas em que se
apresentação esses queixumes. De toda forma, compulsar a documentação à luz desta
problemática parece ser também um caminho bastante profícuo para mapear uma cultura
política eivada entre os detentos, ou melhor, uma “arte de requerer” enraizada entre presos. Mas
tal procedimento está fora do propósito em que se circunscreve esse trabalho.324 Nosso desígnio

323
Idem.
324
Essa perspectiva tem rendido pesquisas significativas e inovadoras. Um trabalho muito interessante
que vai nesta direção e estuda o pedido dos cidadãos livres é o de PEREIRA, Vantuil. Ao soberano
congresso: direitos do cidadão na formação do estado imperial (1822-1831). São Paulo: Casa Alameda Editorial,
2010. No que tange ao mundo do encarceramento destacaríamos as produções do professor Tiago da Silva Cesar
nas quais têm elaborado um atento exame às formas e características das próprias requisições remetidas pelos
presos. Cf. CESAR, Tiago da Silva. A arte de requerer dos presos da Província de São Pedro - Século XIX. In:
Paulo Roberto Staudt Moreira; Tiago da Silva Cesar; José Carlos da Silva Cardozo; Fabiano Quadros Rückert;
Jonathan Fachini da Silva. (Org.). Instituições e práticas de controle social: perspectivas de pesquisa. 1ed. São
124

é burilar esses escritos pretendendo neles encontrar evidências que possam robustecer a
hipótese de que a ruptura político-institucional dos anos 1930 produziu no âmbito da prisão
uma conformação das diversas estratégias de luta política. Dito isso, é preciso revir ao âmago
de nossas preocupações.
Os presos comuns articularam uma seleção peculiar das campanhas políticas que foram
empreendidas pela imprensa aliancista, notadamente, naquelas ocasiões em que se pautava a
rotina e vícios institucionais que suspostamente caracterizava o funcionamento das prisões no
contexto do governo passado.
Ora, é possível pensar o uso da retórica aliancista pelos presos comuns de formas
multifacetadas. O mecanismo mais utilizado pelos detentos nestes escritos parece ser o da
“simulação”, na acepção que lhe atribui a historiadora Régine Robin. Deste modo, entendemos
que os presos adotam essa estratégia e optam por tomar “de empréstimo o vocabulário de um
grupo que não é o seu para sustentar um discurso do seu grupo, fazendo aparecer como discurso
de ontrem”.325
A noção de apropriação também nos parece operativa para pensarmos aquelas
circunstâncias. Primeiro “por que postula a invenção criadora no próprio cerne da recepção”.326
Além disso, permite captar uma leitura peculiar que os presos teceram da realidade a partir da
propaganda política disseminada pelos aliancistas na exata medida em que tivermos em conta
que eles não realizaram simplesmente uma transposição ou reprodução daquelas ideias
divulgadas nos jornais. É o caso de apreender este fenômeno de um modo mais complexo
atentando que “a aceitação das mensagens e dos modelos opera sempre através de
ordenamentos, de desvios, de reempregos singulares [...]”.327
Majoritariamente, essas correspondências remetidas pelos detentos adotam um
vocabulário comedido e se afastam, num primeiro momento, de um tom contestador e refratário.
Não são “palavras de protesto” que aparecem de maneira comum nas ações coletivas de
contestação, pois, não emitem “uma linguagem indignada, frequentemente de desprezo, às
vezes brutal, sempre dissidente”.328 Ao contrário, a deferência é um elemento muito recorrente
nessas epístolas, funcionando como uma espécie de preâmbulo quase indispensável nestas
requisições.

Leopoldo: Oikos/Editora Unisinos, 2016, p. 172-209.


325
ROBIN, Régine. Op. cit.p.45.
326
CHARTIER, Roger. Op. cit., 1990, p.136.
327
Ibidem, pp.136-137.
328
ORKIBI, Eitham. “Por que maldizemos quando protestamos? A polemicidade na ação coletiva”. In: EID&A -
Revista Eletrônica de Estudos Integrados em Discurso e Argumentação, Ilhéus, n. esp. ADARR, mai.2016,
p.124.
125

A este propósito convém lembrar as relevantes contribuições de E.P. Thompson que


demonstraram como os trabalhadores ingleses eram perspicazes e operavam uma seleção no
discurso paternalista de modo a lhes beneficiar concretamente no seu desígnio pela fixação dos
preços de alimentos em tempos de escassez. De modo que urdiram “uma reconstrução seletiva
do paternalismo extraindo dele todas as características que mais favoreciam os pobres [...]”.329
O historiador inglês ressaltou de modo eloquente como as multidões estavam constantemente
“alertas aos pontos em que podiam exercer pressão em proveito próprio. Igualmente se
apoderam de parte da retórica da gentry para seu próprio uso”.330
Nesse sentido, seria equivocado estabelecer qualquer associação inexorável entre uma
retórica deferente e um alheamento da realidade. Ao contrário, tratava-se de uma leitura
concreta das possibilidades colocadas em determinada conjuntura política. Por isso, nos adverte
Thompson que “a deferência era frequentemente desprovida de qualquer ilusão: a partir de
baixo podia ser visto em parte como uma auto-preservação necessária, em parte como extração
calculada do que podia ser conseguido”.331
Comecemos por observar de um modo mais detido como as temáticas de um suposto
novo funcionamento da justiça são apresentadas, ainda que dotada de certo comedimento, nos
habeas corpus. Nestes documentos é recorrente o mote argumentativo que caracterizava que a
justiça estava em um período de reformulação, aperfeiçoamento e respeito pela liberdade
individual que havia sido retirada injustamente pelo autoritarismo do governo transato, por
outro lado, creditava-se grande esperança a um novo e emergente senso de justiça das
autoridades instituídas. Ainda que alguns desses documentos tenham sido escritos “arrogo” em
função do analfabetismo não deixam de mostrarem-se elucidativos. Outros viam assinados
pelos próprios detentos e são ainda mais interessantes.
Em maio de 1931, Manoel Guedes de Arruda, preso na Casa de Detenção do Recife,
entendia que estava “sofrendo constrangimento ilegal no direito de sua liberdade”. Advertia
que a origem de seu infortúnio era a notória e rotineira “perseguição da polícia decaída”, da
qual tentava demonstrar ser uma apenas infeliz vítima. Sua argumentação questionava ainda
como poderia ter continuidade a sua detenção noutros tempos da justiça. Por isso, demandava
sua liberdade “se prevalecendo do movimento revolucionário e no parágrafo 22º da constituição

329
THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.165.
330
Ibidem, p.70.
331
Ibidem, p.78.
126

federal”. Não foi feliz no seu desígnio, sua argumentação foi reputada improcedente e por
acórdão indeferiu-se a solicitação.332
Já Manoel Roberto da Silva, preso que também atendia pelo vulgo de “Neco Grande”,
afirmava categoricamente que sua solicitação de liberdade era oportunizada pela conjuntura
política que o país atravessava. Esse momento era apresentado pelo detento como sendo “uma
nova fase, apresento-me perante esta alta corte com esta reclamação que nada tem de dúvida,
podendo eu provar com testemunhas que alego”. Apresenta-se como uma desafortunada “vítima
transformado em criminoso pela polícia a fim desta defender os principais culpados”.333 Assim
como o detento anterior seu pedido foi denegado. Sabemos que conforme nos afastamos de
1930 mais escasso torna-se este mote de argumentação que, efetivamente, mostrou-se pouco
útil para os sujeitos que o mobilizou.
Essa percepção que preconizava um novo tempo vivenciado pelo poder judiciário não
era um devaneio dos presos e seus representantes. Uma das primeiras medidas da interventoria
de Pernambuco foi, justamente, efetivar um processo amplo de substituição de diversos cargos
na máquina pública, inclusive, alcançando diversos juízes. Era preciso, destarte, alocar nos
espaços decisórios indivíduos afinados com o programa político que resultou vitorioso em
1930. Ainda em outubro, pelo ato nº42, eram destituídos do poder todos os prefeitos do Estado
e alçado outros.334 Quanto à magistratura, o governo esforçava-se para demonstrar que as
motivações daquela reforma, que exonerou vários juízes e desembargadores, não eram
retaliações posto que “não entraram em jogo perseguições, interesses subalternos, ódios ou
paixões partidárias”.335
Muito importante como fonte para este trabalho são as correspondências – cartas,
petições e requerimentos - que continham reclamações dos presos da Casa de Detenção que
manipulavam o discurso da Revolução para questionar e denunciar o que entendiam ser diversas
irregularidades no funcionamento da prisão. Nestes documentos, escritos pelos próprios
detentos, o conteúdo político e uso da retórica da Revolução é marcante. Além disso, esses
relatos nos fornecem a percepção dos presos não apenas sobre a justiça penal de um modo geral
mais sobre o cotidiano da Casa de Detenção do Recife em particular.

332
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1310, Habeas Corpus
nº 7.454, p.2.
333
Memorial da Justiça de Pernambuco (MJPE). Comarca do Recife. Processos Crime. Caixa 1310, Habeas Corpus
nº 7.375, pp.2-3.
334
Diário Oficial. Recife, 17 de outubro de 1930, p.1716.
335
Diário da Manhã. Recife. 01 de janeiro de 1931, p.3.
127

Já no dia 20 de outubro de 1930, passados poucos dias depois do triunfo da Revolução


de 1930 em Pernambuco, encontramos uma correspondência que recorria ao anonimato como
forma de burlar as possíveis retaliações que poderia incorrer o remetente em virtude do seu
conteúdo. Assinava a correspondência como um “sentenciado, um humilde respeitador de
Vossa Excelência”, pouco abaixo salientava que, por precaução, “deixo de assinar para não
prejudicar a minha situação”.336
Sem subterfúgios ou rodeios, o sentenciado iniciava sua argumentação pontuando que
se sentia honrado pela possibilidade de poder “comunicar a Vossa Excelência as arbitrariedades
que se desenrolam na Penitenciária e Detenção do Recife. Começando pelos empregados desta
administração [...] que aqui habitam explorando todos os encarcerados e os cofres do Estado a
começar por esses tipos que vou declarar os respectivos nomes”.337 Curioso, mas também
revelador do impacto da conjuntura revolucionária no âmbito da prisão, é quando atentamos
para quem a correspondência era remetida. Não se trata de nenhuma autoridade da interventoria
de Pernambuco. O sentenciado incógnito buscava auxílio de ninguém menos que José Américo
de Almeida a quem intitula de “presidente da capital João Pessoa”.338 O leitor mais
familiarizado com a história da Revolução de1930 no Nordeste seguramente lembrará que José
Américo havia sido o secretário de segurança pública de João Pessoa e membro da Aliança
Liberal. Além disso, na ocasião da vitória revolucionária acompanhou de perto Juarez Távora,
o “Vice-Rei do Norte”. Em suma, podemos afirmar com segurança que José Américo era “na
época um dos mais importantes revolucionários nortistas, intitulado Governador-geral do Norte
durante o movimento de 30, cargo atribuído por Juarez”.339
Mais adiante é possível notar como o detento mobiliza fartamente todo um conjunto
léxico comum aos aliancistas e se apropria do vocabulário que predominou na luta política nos
anos iniciais da década de 1930. Amalgamando o cotidiano da prisão e o discurso político
emitido pelos aliancistas o detento afirmava que:

O famigerado diretor deste estabelecimento que vive espancando os presos


pelo simples fato de não contar com um só sentenciado que abraçasse a
política caída. O homem monstro é esse diretor pois nos todos e quem conhece
este perrepista ver e ler na fisionomia deste Lampião que ele é um verdadeiro
estacista e além disto não pode ficar a frente deste estabelecimento pois os

336
APEJE. Coleção CDR. Vol. 142, p. 753.
337
Idem.
338
Para uma aproximação inicial com a biografia política de José Américo de Almeida pode ser útil consultar o
verbete com seu nome no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro pós-30, disponível em www.cpdoc.fgv.br.
339
LOPES, Raimundo Hélio. Um Vice-reinado na República do pós-30: Juarez Távora, as interventorias do
Norte e a Guerra de 32. Tese (doutorado) – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do
Brasil, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais. Rio de Janeiro, 2014, p.49.
128

governos com esses homens a frente desta casa não estarão livre de uma
traição.340

O diretor mencionado é Joaquim do Rego Cavalcanti que assumiu o cargo ainda no


governo de Estácio Coimbra e permaneceu nesta condição alguns dias após a vitória
revolucionária. O detento, portanto, tentava retirar o diretor do cargo mostrando que sua
presença na gestão da prisão era incompatível com a vitória revolucionária. O detento assinou
esta carta no dia 20 de outubro de 1930. Tomando como verossímil as notas oficiais do governo,
três dias antes do detento redigi-la o governo revolucionário optou por trocar a direção da
instituição e nomeou Urbano Ribeiro de Senna no dia 17 de outubro.341 Isso pode nos indicar a
defasagem entre o acontecimento e a chegada da informação até os presos. E também pode ter
ampliado, ilusoriamente, a confiança do detento na eficácia das demandas escritas.
Os termos acima que grifamos eram parte do vocabulário político da época e a sua
utilização é um indício robusto da inserção dos presos comuns naqueles debates, assim como,
da consciência de que ao utilizá-los poderiam se denotar vinculados aos revolucionários no
poder. Em seguida, o detento esforça-se para tecer uma estrita conexão entre os desmandos
perpetrados pelo diretor e as orientações políticas anteriores. O vocabulário articulado na
correspondência deste detento dar a ver uma estratégia sofisticada para alcançar os seus
objetivos. Não se tratava simplesmente de alguém que prevaricava na condição de diretor, esses
desmandos eram decorrência de seu vínculo ideológico com “perrepismo” e o “estacismo”, em
suma, esse gestor era um sujeito com vínculos políticos com agentes da “situação caída”. De
fato, este relato sugere um grau de entendimento da realidade política por parte dos presos
comuns que normalmente a historiografia da temática tendeu a subestimar ou quando não
incorreu na completa negligência. Abordando sobejamente as formas de solidariedade
articuladas pelos presos políticos na Era Vargas muitos trabalhos não conseguiram atinar para
a possibilidade de um processo de politização dos presos comuns suscitado pelos conflitos
políticos da elite. Talvez, em função de não julgar que uma negociação deferente possa ser
considerada uma forma de intervenção relevante na arena política.
O sentenciado seguia indicando malversações na instituição e afirma que, entre outras
coisas, era preciso investigar “as oficinas deste estabelecimento, da sapataria que sai todos os
calçados para família, parentes e amigos sem custar verba nenhuma e sim custo às finanças do

340
APEJE. Coleção CDR. Vol. 142, p. 753. (Grifo nosso).
341
Diário da Manhã. Recife, 18 de novembro de 1930, p.5.
129

Estado”.342 A situação, conforme o detento, tornava-se ainda mais drástica na medida em que a
direção do presídio explicava o extravio dos sapatos pelo furto praticado pelos detentos.
Assim, era comum a diretoria “dizer que é os presos que roubaram, termina usando de
um corra em todos os ambientes e castigando os sapateiros e sentenciados que ali trabalham
para os mesmos adiantarem o paradeiro do material”.343 A problemática segundo afirmava o
detento não se restringia a sapataria, uma vez que, “também no rancho e na marcenaria o
escândalo é maior do que estes que já falei”.344
O detento denunciava um esquema de desvio de alimentos que era conduzido pelo
diretor do estabelecimento. Mensurar com precisão a quantidade surrupiada era impossível
visto que ele entendia que “charque e carne verde ninguém pode calcular por que entra carne
de três bois aqui e só chega aos prisioneiros carne de uma banda”345 Em seguida, retoma a
estratégia de associar a política partidária com as arbitrariedades que estavam sendo cometidas
na Casa de Detenção. O “célebre ajudante” Barboza é, desta vez, o alvo das admoestações do
sentenciado. Reafirmava que todos saibam que “este é um perrepista alterado, castiga os
prisioneiros que falavam no nome do antigo Presidente João Pessoa”.346 A citação do nome do
principal mártir da Aliança Liberal parece indicar que os presos conheciam as dinâmicas do
contexto político e não eram alheios ao mundo político que os circundava. A historiografia já
demonstrou fartamente o papel político e simbólico que a morte do presidente da Paraíba
desempenhou no desencadeamento do levante armado em outubro de 1930. Em torno do seu
nome articularam-se uma série de construções simbólicas, de modo que “a morte de João Pessoa
e o projeto vitorioso da Aliança Liberal que o transformou em mito relevante para a captura do
aparelho de Estado, envolveram uma variada produção de signos representativos de sua
memória sacralizada”.347 Os presos não estavam desatentos a este contexto de tessitura e
disseminação de uma memória política em meio à sociedade. Por certo, deviam saber que a
menção ao nome do mártir do movimento revolucionário poderia, eventualmente, concorrer
para sensibilizar o destinatário da mensagem ao passo que demonstrava adesão irrestrita dos
presos da Casa de Detenção ao movimento vitorioso em 1930.

342
APEJE. Coleção CDR. Vol. 142, p. 753.
343
Idem.
344
Idem.
345
Idem.
346
Idem.
347
AIRES, José Luciano de Queiroz. Cenas de um espetáculo político: poder, memória e comemorações na
Paraíba (1935-1945). Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Pernambuco, CFCH. Programa de Pós-
graduação em História, Recife, 2012, p.287.
130

As reclamações não paravam e a estratégia se mantém inalterada. A correspondência


cita um guarda que é cognominado de “sutão Valença” que vivia a propalar que “preso só presta
para morrer no cacete”.348 Por fim, nem mesmo o chauffeur do diretor Joaquim Cavalcanti
escapa às repreensões emitidas pelo sentenciado que salientava que este indivíduo era
conhecido por todos como:

[...] um protegido do estacismo, na tomada da detenção foi quem mais atirou,


deixava as posições e vinha atirar nas crianças e senhorinhas que passavam,
mas não podendo fazer suas vontades do lugar que estava entrava para os raios
armado de fuzil Off-Kiss e vinha tomar posição nos quartos de volta o mesmo
dizia que era pra não perder um tiro.349

A conjuntura de agitação política que tomava as ruas da cidade penetrou no interior do


presídio e os presos comuns que sabiam ler e escrever funcionavam como interlocutores dos
demais na medida em que redigiam cartas coletivas nas quais apresentavam um conteúdo
político que se fundamentavam no vocabulário político propalado pela Aliança Liberal na
cidade do Recife.
Mesmo do longínquo presídio de Fernando de Noronha encontramos registros de presos
peticionando e demandando vantagens em função do apoio prestado ao movimento. Não
conseguimos identificar se os requerentes teriam sido transferidos recentemente da prisão do
Recife para a ilha, mas encontraremos alguns deles novamente na Casa de Detenção, desta feita,
estavam envolvidos com uma rebelião deflagrada em 1932.
Em fevereiro de 1931 os sentenciados da prisão insular buscavam barganhar melhorias
de condições utilizando como argumento sua vinculação com o movimento revolucionário. Ao
contrário do detento anterior, os peticionários não optaram pelo anonimato e assinaram as
correspondências quatro detentos.350 De início manifestavam deferência às autoridades
instituídas e solicitavam permissão para com “sinceridade e respeito expor a vossa senhoria a
triste situação a que estamos reduzidos”.351
Afirmavam que haviam se mobilizado na ilha para defender a ideologia da Revolução
contra os representantes do estacismo numa explícita tentativa de legitimar suas práticas.
Observemos o fragmento:

348
APEJE. Coleção CDR. Vol. 142, p. 754.
349
Idem. Grifos nossos.
350
Assinavam a petição os seguintes detentos: Manoel Lins da Silva, Manoel Francisco do Nascimento, Honório
Bispo, Angelos Emidio da Silva. APEJE. Petições. Manoel Lins da Silva e outros. Recife, 05.02.1931. fls. 327-
328.
351
APEJE. Petições. Manoel Lins da Silva e outros. Recife, 05.02.1931. fl. 327.
131

Somos homens sem os direitos de cidadãos, mas não podemos conter naquela
época principiante da Revolução a nossa revolta ante as misérias daqueles que
combatiam o governo aliancista da União, a fim de que um poderoso governo
oligarca ficasse imperante em todo o Brasil. Receiando-nos com fundamento
que se a política washingteana dominasse a nossa Aliança Liberal e viéssemos
sofrer as consequências dolorosas e talvez funesta revoltamo-nos em prol de
nossa liberdade, por que sabíamos em absoluta certeza que em Recife o
governo de Vossa Excelência já havia triunfado com exceção do governo
federal e alguns estados.352

Esses detentos se apresentavam como militantes das causas propugnadas pela Aliança
Liberal. Esse relato sugere que nem mesmo no Presídio insular o controle da informação se
apresentava como uma realidade instransponível, o que rechaça a ideia de um isolamento
inexorável. Nos chama a atenção o fato dos detentos afirmarem que sabiam com absoluta
certeza que a Revolução havia triunfado no Recife o que reforça a nossa conjectura de uma
transferência recente de presos da Casa de Detenção.
A menção aos vínculos políticos que aproximavam os detentos do governo instituído
torna-se explícita quando afirmam que a “nossa manifestação em prol da Aliança liberal veio
trazer consequências desagradáveis por parte do senhor Pinheiro Filho”.353 A partir de então,
os presos enveredam na tentativa de demonstrar que o aludido diretor era um verdadeiro
facínora, uma vez que, “ordenou nosso massacre ao comandante do destacamento tenente
Damião que não chegou a realizar as ordens determinadas de fuzilamento do mesmo diretor”.354
Após algumas digressões e deferências habituais, chegam ao cerne da questão e anunciam o
que efetivamente desejavam:

O senhor Pinheiro vendo inutilizado os seus esforços em nos massacrar


envidou uma parte com testemunhas ao gabinete de vossa senhoria com o fito
de uma vingança o que nos leva a crer que algumas melhorias que nos eram
concedidas desaparaceram-nas. Como também a vossa ida ao mesmo presídio
ficou embargada. Sem saber o que façamos resolvemos pedir uma providência
a Vossa Excelência a fim de merecermos a mesma concessão o que nos faculta
a lei, o desconto de condenações atenuando o suplício da mesma penalidade
como também animando o paciente a ingressar na sociedade com o seu bom
modo de convivência. Confiamos ao vosso generoso coração a alma digna de
V. Excelência não nos deixe desamparados por causa dos vossos inimigos que
há tempo nos vem adiando pelo amparo que nos infelizes vimos merecendo
do vosso governo. Esperamos que o nosso apelo seja atendido. A resolução de
V. Excelência é por nós esperada com ardente ansiedade. Pedem mil desculpas
de seu atrevimento,
352
Ibidem, fl. 327.
353
Ibidem, fl.328.
354
Idem,
132

Manoel Lins da Silva, Manoel Francisco do Nascimento, Honório Bispo,


Angelos Emidio da Silva355

Percebemos neste fragmento que a estratégia dos detentos permanece bastante similar
as que os presos da Casa de Detenção do Recife utilizaram, ou seja, expor as malversações da
direção da instituição em estreita relação com a orientação política que o golpe da Aliança
Liberal depusera.
Encontramos no decurso da pesquisa várias correspondências de presos da Casa de
Detenção que mobilizam argumentos e a retórica da Revolução de 1930 a fim de pedir ou exigir
intervenção do governo instituído em outubro. Nota-se nestas correspondências uma oscilação,
e também amálgama, entre exigências, fundadas em notas emitidas pelo estado, e pedidos
deferentes cuja fundamentação é a bondade e novo senso de justiça dos revolucionários. Neste
particular, a estratégia dos presos parece convergir com aquela adotada, fora das prisões, por
muitos trabalhadores que remetiam correspondências ao chefe do poder executivo com vistas a
demandar, por um lado, “auxílio como um direito legal; de outro, como uma forma de caridade
e justiça”. 356
Uma das correspondências mais interessantes é a carta assinada por Nicodemos Antônio
dos Santos, onde o detento se autointitula de “liberal”. Sua intenção era também denunciar um
conjunto de irregularidades e castigos que o “diretor perrepista” estava realizando. Afirmava
que o cotidiano carcerário era tão funesto que nem mesmo podiam “falar em nome do
presidente”, pois, quem assim procedesse era submetido a diversas punições dentre as quais
“ser carregado a ferro”. Em um dos pontos centrais da carta afirmava que neste período a
repressão aos detentos era de tal monta que “foram proibidos de entrar jornais de oposição aqui,
por que nós éramos liberais e este homem fazia dos presos o que Judas fez com Cristo”.357
Esse fragmento demonstra, uma vez mais, a função relevante que os periódicos de
oposição angariaram como fonte de informação e politização dos detentos comuns no contexto
da Revolução de 1930 e nos seus desdobramentos imediatos.
Os periódicos que propalavam as ideias aliancistas e que haviam denunciado as
arbitrariedades da instituição prisional recifense sob a égide do regime de Estácio Coimbra
tornaram-se agora, com o golpe de outubro de 1930, órgão oficioso do governo.

355
Ibidem, 327-328.
356
FISCHER, Brodwyn. “Direitos por lei ou leis por direito? Pobreza e ambiguidade legal no Estado Novo”. In:
LARA, Silvia; MENDONÇA, Joseli (Orgs.). Direitos e justiças no Brasil: ensaios de história social. Campinas:
Unicamp, 2006, p. 418.
357
APEJE. Coleção CDR. Volume 142, p. 862.
133

Um elemento que torna a argumentação de Nicodemos particular é menção aos


assassinos de João Pessoa. Segundo ele era notória a diferença com que o diretor tratava “esses
presos políticos, como filhos da política estacista que vem pra aqui por ordem do senhor chefe
de polícia, ele escolhe as celas melhores, de portas abertas como também fornece cartão para a
visita deles entrarem até nove da noite”.358 Na sua percepção, as vinculações políticas dos
presos eram determinantes no sentido de delimitar o tratamento efetivo destes no interior da
prisão. Por isso, as associações políticas externas estavam determinando um conjunto de
hierarquias no cotidiano da prisão.
Outra correspondência foi remetida da Casa de Detenção, em meados de janeiro de
1931, pelo detento Edgar Alves de Santa Cruz, um “pardo”, de 26 anos de idade que era
mecânico de profissão. Além de enfatizar outros argumentos, a carta demonstra um poder de
persuasão bastante elevado destoando da forma simples e direta que podemos constatar na
maior parte das outras correspondências. Sua epistola, apesar de não preterir a forma deferente,
se distingue pelo tom legal de sua requisição e pela obrigação que tinha o governo de agir para
debelar as irregularidades por ele minuciosamente enumeradas.
Antes da argumentação propriamente dita buscava demonstrar que suas colocações
eram, inequivocamente, alinhadas com as diretrizes políticas exaradas pela interventoria de
Pernambuco. As diversas notas emitidas pelo governo autorizando denúncias de irregularidades
na gestão anterior foram interpretadas pelos detentos como o escopo legal que legitimava suas
ações. Portanto, sua ação não só era legítima como encontrava respaldo legal. Deste modo,
afirmava que:

Na conformidade dos preceitos e dispositivos legais vigentes do programa


revolucionário e tendo em vista as decisões do excelentíssimo Interventor
Federal do Estado punindo, depois das provas legais, a quem se apoderava
do poder para os fins de praticar as maiores irregularidades levo ao
conhecimento do Excelentíssimo senhor praticado pelo ex-diretor da
Penitenciária da capital que se reveste de circunstâncias verdadeiramente
escandalosas dentro da esfera onde se aplica a lei, quer dentro da esfera do
sentimento humano.359

O cerne de sua argumentação reside na imputação de torturas perpetradas ou aquiescidas


por Joaquim Cavalcanti e seus prepostos. Conforme o preso, no período em que esteve o diretor
na condução da penitenciária era banal “as maiores irregularidades com alguns detentos hoje

358
Idem.
359
APEJE. Coleção CDR. Vol. 159, p. 214.
134

com sinais físicos sobre o corpo, dentes quebrados, beiços lascados e talhos de umbigo de
boi”.360 Impressiona neste relato o esforço hercúleo para demarcar a incumbência que tinha o
governo revolucionário em intervir na instituição em nome dos princípios que caracterizaram a
propaganda política aliancista na cidade do Recife. Afinal, segundo a interpretação articulada
pelo detento era “o ideal do programa revolucionário punir os criminosos e sendo vítima de um
desses fatos portanto é meu dever primordial levar o caso em consideração pedindo a V.
Excelência nos justos termos do direito”.361
Por fim, sugeria que a ação mais acertada a ser tomada pelo governo de Carlos de Lima
Cavalcanti era “providenciar no sentido de enviar um emissário nesta penitenciária a fim de
proceder de acordo com o programa revolucionário abrindo inquérito a fim de elucidar o
caso”.362
A carta do detento sinaliza claramente uma elevação do tom comum nestas cartas. Neste
caso, não estamos diante de um simples pedido. O preso Edgar Alves de Santa Cruz pressiona
os governantes demonstrando que a omissão naquele caso era, simultaneamente, uma
negligência com o programa defendido pelos aliancistas.
Nem sempre esses queixumes de presos eram totalmente ignorados pelas autoridades
revolucionárias. No caso em tela, por exemplo, conseguimos rastrear a abertura de inquérito
363
para analisar o caso de maneira pormenorizada. Nas oitivas foi tomado o depoimento do
detento Anízio de Queiroz que trabalhava na condição de chaveiro da instituição. Não sabemos
qual o critério utilizado para que o preso fosse instado a depor, no entanto, o cargo de chaveiro
era comumente ocupado por indivíduos reputados como dignos de confiança pela direção do
estabelecimento. Segundo o chaveiro ele havia recusado “a ordem do diretor major Cavalcanti
de aplicar castigos físicos no detento Edgard Alves de Santa Cruz, por haver ele se rebelado,
em vista do diretor ter aplicado o castigo do quarto escuro”.364

360
Idem.
361
Idem.
362
Idem.
363
Assim publicava o jornal governista: “Recebeu o governo denuncias de graves irregularidades que teriam se
passado na Casa de Detenção pelo abuso, que se dizia, ali praticava de confeccionarem vários figurões políticos
nas oficinas da cadeira obras de varias qualidades e múltiplos valores umas com materiais do Estado outras com o
trabalho dos detentos e que nenhuma remuneração percebiam. [...] Com esses elementos que foram fornecidos ao
governo, ao assumir o a comissão a árdua tarefa, procurou fazer uma sindicância tão rigorosa quanto lhe foi
possível. Na impossibilidade de recorrer a outro tipo de prova pois o almoxarifado do estabelecimento nem sequer
tinha uma costaneira que se parecesse com escrita a comissão recorreu a testemunha ouvindo em autos de perguntas
a detentos, a funcionários e a ex-empregados da Detenção a fim de ser positivada aquela denuncias [...].” Cf. Diário
da Manhã. Recife, 17 de abril de 1931, p. 3.
364
APEJE. Coleção CDR. Vol. 159, p. 218.
135

Compulsando a documentação constatamos que o espancamento físico a que foi


submetido o preso havia sido aplicado por outro detento mediante aquiescência da diretoria.
Apesar de admitir as torturas físicas a que fora submetido o detento, o chaveiro Anízio de
Queiroz julgava que o supliciado “é um indivíduo de muito mau comportamento, dado a prática
de pederastia, razão pela qual tem sofrido diversos castigos disciplinares”.365 É notório que a
alusão às práticas pederastas no estabelecimento serve como elemento de legitimação moral
para a consecução dos castigos. Por fim, o chaveiro tratava de contemporizar o ocorrido e
afirmava que o detento não havia sido propriamente espancado, pois, o detento “de nome Izaias
que estava em liberdade e que absolutamente não lhe deu uma surra e sim alguns murros”.366
Na percepção do eletricista que trabalhava na instituição, o detento que reclamava às
autoridades que havia sido torturado era um sujeito turbulento e pérfido. Constantemente
confrontava o ordenamento prisional de modo que este funcionário considerava-o como “o
detento mais insubordinado e sem caráter desta penitenciária”.367
O inquérito arrola, por fim, o depoimento do antigo diretor, Joaquim Cavalcanti. No seu
entendimento o sentenciado nem mesmo poderia ser considerado um homem de faculdades
mentais em perfeitas condições e a loucura seria a explicação para tamanha repetição de
infrações e insubordinações. Segundo ele:

[...] que tantas foram as transgressões que Edgard de Santa Cruz que ele
respondente não tem a menor dúvida de julgá-lo um desequilibrado mental;
que repetidas vezes fora Edgard surpreendido em flagrante delito de pederastia
ativa contra companheiros durante o sono destes; que Edgard de Santa Cruz é
de tal forma destituído de senso moral que conta sem repugnância aos seus
companheiros os seus impulsos de pederastia [...] que Edgard de Santa Cruz é
tão fértil em escrever cartas visando fazer mal que de uma feita escreveu uma
carta desatenciosa a ele respondente com a assinatura do detento Osmar Faria
contra quem procurava exercer uma vingança368.

O relatório final concluía desfavoravelmente a denúncia emitida pelo detento. O


inquérito, portanto, foi arquivado e sua queixa associada a simples calúnia. Ainda assim, este
episódio nos relata de modo eloquente que nos anos imediatos a Revolução de 1930 alguns
presos da Casa de Detenção passaram a utilizar os temas propagados pelos aliancistas a fim de
angariar confiança e legitimidade frente aos novos gestores da máquina pública. Além disso, o
governo revolucionário não poderia ignorar completamente aquelas demandas que se

365
Idem.
366
Ibidem, p. 214.
367
Ibidem, p. 219.
368
Ibidem, p. 224.
136

esforçavam para engendrar um alinhamento com o discurso que havia alicerçado parte
significativa de sua propaganda política na cidade. O fato das autoridades revolucionárias
aquiescerem em instaurar investigações formais tendo por fundamento as denúncias remetidas
por criminosos parece decorrer desta situação. Embora, em nada o governo revolucionário foi
mais complacente com os detentos do que o anterior.
É justamente por falta de melhorias concretas que, progressivamente, essas queixas
emitidas pelos presos transladam de uma alusão vaga ao ideário difundido pelos revolucionários
para abordar nominalmente personage