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JOSEPH HAYDN
(1732-1809)
Nascido em 31 de março de 1732 em Rohrau, pequena aldeia na fronteira da Áus-
tria com a Hungria, Franz Joseph Haydn, não fosse pelas duas viagens que fez a
Londres, teria passado toda a sua vida entre Viena e a região do lugarejo onde
nasceu. Foi o décimo de doze filhos — dos quais sobreviveram apenas seis — do
fabricante de carroças Mathias Haydn e de Anna Maria KoUer que, em solteira,
trabalhara como cozinheira na residência do conde Harrach, senhor feudal de
Rohrau. Quando tinha seis anos, Franz Joseph Haydn foi morar em Hainburg, a
cerca de doze quilômetros de Rohrau, na casa de seu tio Mathias Franck, marido
de uma meia-irmã de seu pai, que lhe ensinou os rudimentos de sua futura pro-
fissão. Entre 1740 e 1749, aproximadamente, fez parte do coro infantil da catedral
de Santo Estevão em Viena. Depois que sua voz mudou, foi afastado da escola dos
meninos de coro dessa catedral.
Dos anos que se seguiram, sabe-se pouca coisa. Deixado por sua própria conta
nas ruas de Viena, ganhou a vida dando aulas e tocando violino e órgão. Por volta
de 1751-1752, o autor e também ator Felix Kurz Bernardon fez-lhe a encomenda
de uma partitura para a comédia intitulada O diabo coxo. Por intermédio do poeta
Métastase, tornou-se, em torno de 1753, uma espécie de aprendiz do compositor
Porpora, um dos maiores professores de canto que já existira. Mas, no fundo, sua
formação foi a de um autodidata, graças principalmente ao Gradus ad Parnassum,
o famoso tratado do compositor barroco austríaco Johann Joseph Fux (1660¬
1741). Mais ou menos em 1757, Haydn compôs para o barão Karl Joseph von
Fürnberg, que o recebera em sua residência de Weinzierl, na Baixa Áustria, seus
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Joseph Haydn
primeiros quartetos para cordas (aqueles, em número de dez, atualmente conhe- os de setembro de 1773 em honra da imperatriz Maria Teresa e os de agosto de
cidos como n° 0, opus ln°l-4e 6, e opus 2n°l,2,4e 6). Havendo ingressado, por 1775 em homenagem ao arquiduque Ferdinando, terceiro filho da imperatriz.
volta de 1758-1759, no serviço do conde Morzin, cuja residência de verão se loca- Durante os primeiros anos vividos com os Esterhazy, Haydn obteve grande
lizava na Boêmia, compôs para este, entre outras coisas, suas primeiras sinfonias sucesso como compositor, sobretudo no domínio da sinfonia, para a qual fixou,
(quase todas em três movimentos, sem o minueto) e uma série de "divertimentos" não sem hesitações, a forma que acabaria por prevalecer: primeiro movimento
para instrumentos de sopro. Das muitas obras pertencentes a essa década, podem rápido (com ou sem introdução lenta); segundo movimento lento; terceiro movi-
ser citadas: duas missas breves (que talvez remontem à época em que, ainda bem mento no estilo dançante (minueto); quarto movimento rápido. A partir de 1761,
jovem, vivia na catedral de Santo Estevão), uma Ave Regina e uma Salve Regina Haydn já se revela magistral na composição de sinfonias: suas Sinfonias n° 6 {Ma-
(reflexos dos estudos com Porpora), sonatas para cravo, concertos para órgão nha), n° 7 (Meio-dia) e n° 8 (Entardecer) são brilhantes sínteses do barroco e do
e divertimentos para conjuntos de instrumentos diversos. Em 26 de novembro classicismo. Nas sinfonias seguintes, toma as mais diferentes orientações: os finali
de 1760, Haydn casou-se, em Viena, com a filha de um cabeleireiro fabricante de fugados das Sinfonias n" 13 e n" 40 (1763), a melodia de coral da Sinfonia n" 22
perucas. (O filósofo, 1764), as reminiscências balcânicas na Sinfonia n" 28 e na Sinfonia
Havendo os reversos da fortuna obrigado o conde Morzin a dispensar sua or- n° 29 (1765), os instrumentos solistas que aparecem nas n° 13 e n" 24 (1764), e
o
questra, em I de maio de 1761 Haydn assinou com o príncipe Paul Anton Es- sobretudo a Sinfonia n" 31, que compôs em 1765. Para que seus músicos solistas
terhazy, um dos mais ricos senhores da Hungria, um contrato — freqüentemente também pudessem brilhar, Haydn escreveu muitos dos seus concertos nessa épo-
citado por retratar exemplarmente a condição do músico no Antigo Regime —, ca. Além das inevitáveis partituras de circunstância, ele ainda compôs a opera seria
pelo qual, na qualidade de segundo mestre de capela, ficaria responsável por toda intitulada Alcide (1762) e o primeiro Te Deum (ca. 1763-1764).
a música do príncipe, com exceção da música de caráter religioso, reservada em Por volta de 1766, a produção de Haydn tornou-se mais profunda e diversifi-
princípio ao mestre de capela Gregorius Werner (1693-1766). Haydn que, após a cada. Em oito anos (mais ou menos até 1773-1774), escreveu aproximadamente 25
morte de Werner haveria de sucedê-lo no cargo, permaneceu ligado à família Es- sinfonias, algumas das quais consideradas entre suas obras mais geniais: a Sinfonia
terhazy até a morte, servindo a quatro gerações de príncipes, em condições, é ver- n° 49 em fá menor (A paixão, 1768), a Sinfonia n° 44 em mi menor (Fúnebre, ca.
dade, sempre diversas. Fora de Viena, a residência principal do príncipe Paul An- 1771), a Sinfonia n° 45 emfá sustenido menor (Les Adieux, 1772), a Sinfonia n" 48
ton (morto em 1762) era Eisenstadt (em húngaro, Kismarton), que naquele tempo em dó (Maria Teresa, ca. 1769), a Sinfonia n" 56 em dó (1774) e a Sinfonia n° 64 em
se situava no oeste da Hungria e hoje é capital da província austríaca de Burgen- lá (ca. 1773). Haydn preocupou-se mais com a estrutura interna dos movimentos
land. O sucessor de Paul Anton foi seu irmão Nicolas, morto em 1790, a serviço do do que com a natureza externa destes e, numa época de "crise romântica" (Sturm
qual Haydn esteve por 28 anos. Não iria demorar muito para que Nicolas recebes- und Drang), não deixou também de cultivar um tom bastante subjetivo: em toda
se o epíteto de Nicolas, o Magnífico. O castelo de Eisenstadt logo lhe pareceu aca- sua vida, nunca escreveu tantas obras em tons menores como nessa fase. Perten-
nhado demais, e ele mandou construir um outro castelo, esplêndido, que chegou cem a esse período três séries de seis quartetos para cordas (opus 9,1769-1770; opus
a ser comparado a Versailles, na planície húngara no extremo sul do lago Neusiedl. 17,1771; opus 20,1772), bem como belas sonatas para piano, como a Sonata n° 30
A partir de 1766, o novo castelo passou a ser chamado de Eszterhaza. Haydn e seus em ré (1767), a Sonata n° 31 em lá bemol (ca. 1768) e a n" 33 em dó menor (1771).
músicos lá se instalaram definitivamente em 1769. Mas Eszterhaza só foi dado E ainda música sacra: Stab at Mater (1767), Salve Regina em sol menor (1771) e
como realmente concluído em 1784, com a inauguração da cascata em frente à quatro missas, entre outras obras. Algumas das óperas de Haydn como La can-
construção central. terina do gênero intermezzo bufo (1766), Lo speziale, do gênero bufo (1768), Le
Durante mais de vinte anos, concertos, espetáculos de ópera e teatro (Haydn pescatrici, em que se mesclam os gêneros bufo e sério (1769) e a opera buffa LTnfe-
teve ocasião de ver representadas diversas peças de Shakespeare), além de grandes deltà delusa [A infidefidade desiludida, 1773], são igualmente desse período.
festas e espetáculos de fogos de artifício, sucederam-se ininterruptamente no cas- Por muito tempo, a vida de Haydn em Eszterhaza confunde-se com a história
telo de Eszterhaza, sobretudo no verão, pois normalmente o príncipe e seu séquito de suas obras e de suas múltiplas tarefas artísticas e administrativas. Sob suas or-
passavam as semanas de inverno em Viena. A saison de 1778, apenas para se ter dens, havia um numeroso grupo de cantores e instrumentistas de grande talento,
uma idéia, durou de 23 de janeiro a 22 de dezembro, com a realização de 242 es- mas às vezes turbulento e indisciplinado. Petições, disputas, requerimentos e casos
petáculos. Dos grandes festejos organizados em Eszterhaza, é obrigatório citar os litigiosos eram moeda corrente, com Haydn quase sempre servindo de interme-
de julho de 1772 em honra do cardeal de Rohan, embaixador da França em Viena, diário entre o interessado (ou interessados) e o príncipe. Um exemplo que reflete
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Joseph Haydn
bem essa situação é o famoso episodio da sinfonia Les Adieux (novembro de 1772), período de sua vida, essa situação tinha suas vantagens: "À frente de uma orques-
no fim da qual os músicos vão, um a um, retirando-se da orquestra: segundo cons- tra, eu podia... me permitir todas as ousadias. Excluído do mundo, eu não tinha
ta, a sinfonia teria sido escrita dessa forma para protestar contra uma saison que quem me importunasse, e assim não tive outro jeito senão tornar-me original."
nunca terminava. Ao que parece, esse episódio foi apenas mais um incidente entre O ano de 1779 representou uma reviravolta na vida de Haydn. Em janeiro, ele
outros tantos. Até mais ou menos 1775, ignoramos tudo da vida particular de assinou com o príncipe um novo contrato destinado a substituir o de 1761 e do
Haydn e de suas relações com o exterior. Foi certamente sem seu conhecimento qual foram retiradas quase todas as humilhantes cláusulas do anterior. Meses de-
que começaram a aparecer em Paris, no ano de 1764, suas primeiras obras impres- pois, Haydn fez os primeiros contatos com o editor vienense Artaria, que acabara
sas. Em 1768, sua casa de Eisenstadt pegou fogo. Nesse mesmo ano, Haydn enviou de se estabelecer naquele ramo de negócios. Em dezembro, chegou a Eszterhaza a
ao mosteiro de Zwittl, na Baixa Áustria, sua Cantata Applausus, acompanhada de cantora Luigia Polzelli, o que, por pouco que fosse, consolou Haydn de seu infeliz
uma carta preciosa pelas indicações nela contidas sobre a execução de obras mu- casamento. Também durante esse tempo, Nicolas, o Magnífico, encantou-se com
sicais do século XVIII. Em 1770, dirigiu em Viena a ópera Lo speziale e, em 1771, a ópera italiana, paixão que logo veio a substituir a que nutrira pelo seu instru-
seu Stabat Mater. Nos dias 2 e 4 de abril de 1775, sob sua direção, foi apresentado mento barítono. Haydn se viu obrigado a trabalhar ativamente nessa área, regendo
na capital o oratório II ritorno di Tobia [O retorno de Tobias]. e encenando não somente suas óperas, mas também as de outros compositores
Em 1775, inaugurou-se um período de sete a oito anos durante o qual Haydn, como Anfossi, Gazzaniga, Paisiello, Cimarosa, Sarti, Traetta, Piccinni, etc. Só que
sem abandonar a sinfonia, dedicou-se principalmente à ópera. Dessa época datam: Haydn não se limitou a ensaiá-las e dirigi-las, mas tratou de as rever do ponto de
L'Incontro improwiso [O encontro inesperado, 1775], II mondo delia luna [O mun- vista musical, chegando mesmo, como era costume na época, a substituir determi-
do da lua, 1777], La vera costanza [A verdadeira constância, 1778-1779], L'Isola nadas árias por outras de sua autoria. Entre 1780 e 1790, ocupou-se de 96 diferen-
disabitata [A ilha desabitada, 1779], Lafedeltà premiata [Afidelidadepremiada, tes óperas, das quais dezessete só no ano de 1786, o que levando-se em conta as
1780-1781], Orlando paladino [Orlando, o paladino, 1782] e Armida (1783-1784). reprises, dá um total de 1.026 representações, das quais 125 só em 1786! É espan-
A ópera é um dos raros gêneros em que Haydn não se realizou plenamente. toso como, com todo esse trabalho, ainda tenha encontrado tempo para compor.
É preciso observar, no entanto, que todas as óperas que Haydn compôs para Esz- Na verdade, parece que pouco a pouco Haydn foi conseguindo dividir em
terhaza são anteriores a Le nozze di Figaro [As bodas de Fígaro, 1786] de Mozart, a compartimentos estanques suas atividades de mestre de capela e de compositor.
primeira obra-prima absoluta do "classicismo" vienense originária da opera buffa Durante os últimos anos em Eszterhaza, praticamente nada compôs para o prín-
italiana. Contudo, nada existe na produção dos outros compositores da época que cipe, pois a quase totalidade de sua produção era destinada ao mundo exterior:
tanto permita antever as futuras grandes óperas de Mozart quanto La vera costan- Viena, Paris, Londres, Madri. Esta produção tornou-se de novo essencialmente
za, Lafedeltà premiata ou Orlando paladino, de Haydn, principalmente no que diz instrumental a partir de 1785. Haydn não só enviava as obras para o exterior,
respeito ao uso da orquestra e aos grandiosos finali de ato dessas obras. Haydn, que como também recebia encomendas de fora. Estão neste caso as seis sinfonias, ditas
em 1787 recusou a encomenda de uma ópera para Praga, mostrou-se surpreso por Parisienses, n°82 a 87, compostas em 1785 e 1786 a pedido do Concert de la Loge
não terem dado preferência a Mozart, mas estava certo quando, a propósito de La Olympique, de Paris, e a partitura instrumental de Die Sieben letzten Worte des
fedeltà premiata, escreveu em 1781 ao seu editor vienense Artaria: "Asseguro-lhe Erlõsers am Kreuze [As sete últimas palavras do Salvador na cruz], escrita no inver-
que nem em Paris, nem em Viena, seguramente, já se ouviu música semelhante no de 1786-1787, por encomenda de um cônego de Cádiz. Estas obras, somadas
a esta. Minha infelicidade está em viver no campo." Nesse mesmo ano de 1781, aos dezenove Quartetos para cordas opus 42 (1785), opus 50 (1787), opus 54-55
foram escritos, "de uma maneira inteiramente nova e particular", os seis quartetos (1788) e opus 64 (1790), aos doze Trios para piano, violino e violoncelo, às Sonatas
para cordas opus 33, os primeiros que se seguiram àqueles que haviam sido com- para piano n° 58 (1789) e n" 59 (1789-1790) e às sinfonias, compostas depois das
postos nove anos antes. Resta ainda assinalar, além da Sinfonia n" 70 (1778-1789), Parisienses, de n° 88 a 92, dentre as quais está a Sinfonia Oxford n° 92 (1789), as-
com seufinaleem forma de tríplice fuga, e da Sinfonia n" 77 (1782), a monumental sinalam, reunidas às obras de Mozart da mesma época, o primeiro apogeu do
Missa de Mariazell (1782) que, junto com a Missa brevis Sancti Joannis de Deo estilo "clássico" vienense.
{ca. 1777), é uma das raras partituras religiosas que Haydn escreveu nessa época de O isolamento de Haydn em Eszterhaza ficava ainda mais insuportável na me-
sua vida. dida em que as pessoas que lhe eram caras residiam em Viena. Uma delas era
Haydn vivia queixando-se de viver isolado em Eszterhaza e de não poder estar Mozart, com quem estabeleceu, no final do ano de 1784, uma relação de amizade
em Viena tanto quanto gostaria, mas reconhece que, pelo menos durante certo e estima recíproca, rara na história da música. Outra de suas amizades era Ma-
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riarrna von Genzinger, mulher de um médico da capital. As cartas que escreveu de 1795), que Beethoven compôs na ausência de Haydn, inspira-se evidentemente
Eszterhaza para essa senhora em 1789 e em 1790 estão entre os documentos mais numa das Sinfonias de Londres, a de n" 95, escrita na mesma tonalidade. Muito
pessoais sobre a vida de Haydn que chegaram até nós. provavelmente, as aulas que Haydn deu a Beethoven não ficaram limitadas a me-
A morte de Nicolas, o Magnífico, em 28 de setembro de 1790 veio pôr fim a ras questões de escrita musical, mas abordaram também a "composição" propria-
esta situação. O filho e sucessor do príncipe, Paul Anton, herdara-lhe o título e os mente dita.
bens, mas não o amor pela música. Haydn continuou com sua pensão e o cargo de No curso de sua segunda estada em Londres, que se prolongou de fevereiro de
mestre de capela, só que nada lhe era pedido. Dessa forma, pôde aceitar a oferta do 1794 a agosto de 1795, as principais obras que Haydn fez executar foram: as seis
empresário londrino Johann Peter Salomon (1745-1815): trezentasfibraspor ópe- últimas Sinfonias de Londres (n° 99 a n° 104), que incluem a Sinfonia Militar
ra composta, trezentas para escrever seis novas sinfonias, duzentas por sua par- (n° 100), O relógio (n° 101), O rufo dos tímpanos {n° 103), bem como a Sinfonia
ticipação em vinte concertos e duzentas como garantia de um concerto em bene- Londres (n° 104), suas derradeiras composições neste gênero; os Quartetos para
fício próprio, com a condição, é claro, de que Haydn fosse a Londres. Em 15 de cordas do opus 71 ao opus 74, escritos na Áustria depois de 1793; as três últimas
dezembro de 1790, com 58 anos, o compositor deixou seu país pela primeira vez. Sonatas para piano n° 60, 61 e 62; grandes Trios para piano, violino e violoncelo e
Ficou em Londres — onde há uns dez anos sua vinda era aguardada — de janeiro obras vocais, entre elas as canzonets com letra em inglês e a ária de concerto Bere-
de 1791 até o começo de julho de 1792, e foi nessa cidade que, em dezembro de nice chefai? [Berenice, que fazes?, 1795]. Fausto, virtuosismo e profundidade ca-
1791, tomou conhecimento da morte de Mozart, uma notícia em que de início racterizam esta produção bastante diversificada. Além disso, sob o signo de suas
não pôde acreditar. Nessa mesma ocasião, o Professional Concert, organização duas viagens a Londres, Haydn aliou à serenidade grave dos últimos anos de Esz-
rival da empresa de Salomon, tentou usar um antigo aluno de Haydn — Ignaz terhaza achados de originalidade e uma veia inovadora e experimental que lembra
Pleyel — para fazer-lhe oposição. A estada de Haydn em Londres, no entanto, foi seus tempos de juventude. Todas as Sinfonias de Londres são obras-primas, embora
um triunfo artístico e pessoal, tanto mais notável quanto a vida que ele teve em as duas mais conhecidas, a Surpresa e a Militar, tenham sido decerto superadas
Londres era inteiramente diferente da que até então levara em Eszterhaza e mesmo pelas de n" 98 e 99, mas sobretudo pelas três últimas — n° 102, 103 e 104 —,
em Viena. Depois de trinta anos de uma existência quase reclusa, Haydn ia de criadas em 1795. Àqueles que dizem ser a Primeira Sinfonia de Beethoven a mais
recepção em recepção, enchendo de entusiasmo salas anônimas e ruidosas. Em haydniana de todas, elas mostram a que ponto estão confundindo a estrutura in-
julho de 1791, viu-se agraciado pela universidade de Oxford com o título de dou- terna com as simples dimensões exteriores de uma obra. A verdadeira descendên-
tor honoris causa. Foi recebido pela família real. A imprensa descrevia em detalhes cia das Sinfonias de Londres deve ser procurada na Sinfonia Heróica (1804).
seus concertos. Todos estes acontecimentos, bem como grande quantidade de ane- Em seu retorno definitivo à Áustria, Haydn já era unanimemente considerado,
dotas, estão por ele relatados de maneira pitoresca não só em muitas de suas cartas mesmo em seu país, como o maior compositor vivo. A partir de então, um dos
a Luigia Polzelli e a Marianna von Genzinger, como também em cadernos manus- problemas de Beethoven foi o de superá-lo nesta posição, e as dificuldades que
critos que, afortunadamente, foram conservados quase intactos. Durante essa pri- opuseram Haydn e Beethoven devem-se em grande medida ao fato de que Beetho-
meira estadia na Inglaterra, as principais composições de Haydn foram a ópera ven somente começou a ombrear com Haydn quando este deixou de compor, ou
Orfeo ed Euridice [Orfeu e Eurídice, 1791], no gênero opera seria, e as seis primei- seja, depois de 1803, justamente a partir da Sinfonia Heróica. Morto Paul Anton
ras Sinfonias de Londres (n° 93 a 98), entre as quais a que é denominada Surpresa Esterhazy, o quarto príncipe Esterhazy que Haydn teve como patrão, Nicolas II
(n°94). resolveu reconstruir a capela do avô Nicolas, o Magnífico. Haydn retomou a dire-
Quando retornava à Áustria, durante uma parada em Bad Godesberg, Haydn ção da capela, mas suas obrigações eram bem mais leves do que no passado. Agora,
foi apresentado ao jovem Beethoven. Em novembro de 1792, voltaria a encontrá- ficava em Eisenstadt só dois ou três meses durante o verão — isto até 1803, ano em
lo em Viena, dessa vez para dar-lhe lições durante um ano, por sinal bem mais que cessariam definitivamente suas atividades — e o resto do tempo em Viena. As
proveitosas do que costuma admitir a lenda formada em tomo do assunto. É ver- encomendas de Nicolas II resumiam-se em uma missa por ano, para comemorar
dade que Haydn, no caso de Beethoven, negligenciou um pouco os exercícios de o aniversário de sua esposa. De 1796 a 1802, Haydn compôs ao todo seis missas:
contraponto, mas o que importa é que colocou o compositor alemão em contato Heiligmesse (1796), Missa in tempore belli (1796), Missa in angustiis ou Nelson-
com o gênio criador. Do próprio punho de Beethoven, existem duas cópias de messe (1798), Theresienemesse (1799), Schópfungmesse [Missa da criação, 1801],
uma parte do finale da Sinfonia n" 99, que Haydn compunha em 1793 com vistas Harmoniemesse (1802). De resto, podia compor o que bem entendesse; são, por
a nova viagem a Londres. Além disso, o Trio opus 1 n° 3, em dó menor (1794- exemplo, dessa época o Concerto para trómpete (1796), a versão vocal das Die Sie-
564 Quinta parte: o século XVIII - segunda metade Joseph Haydn 565
ben letzten worte des Erlõsers am Kreuze (1796), o hino austríaco Gott, erhalte Franz sob a direção do maestro Johann Nepomuk Hummel (1778-1837). A última apa-
den Kaiser (1797), os Quartetos para cordas opus 76 (1797), opus 77 (1799) e opus rição em público de Haydn se deu em 27 de março de 1808, por ocasião de uma
103 (1803, inacabado). São igualmente dessa ocasião os dois magníficos oratórios memorável execução de Die Schõpfung regida por Antonio Salieri (1750-1825), à
em língua alemã que iriam renovar completamente o gênero: Die Schõpfung saída da qual Beethoven beijou-lhe publicamente as mãos. Haydn morreu em sua
[A Criação, 1798] e Die Jahreszeiten [As estações, 1801], ambos baseados em libre- casa de Gumpendorf no dia 31 de maio de 1809, poucos dias depois da segunda
tos do barão Gottfried von Swieten. Durante todos esses anos, Haydn foi figura ocupação de Viena por Napoleão, acontecimento que, segundo parece, não deixou
destacada da sociedade vienense. Estava constantemente dirigindo suas obras, de lhe apressar o fim.
tanto em recintos públicos como particulares, e muitas vezes participou, ao lado Pelo biógrafo Griesinger,ficamossabendo que Haydn era "de estatura peque-
de Beethoven, dos mesmos concertos — o último em que os dois apareceram na, mas robusto e sólido na aparência; tinha a fronte larga, abaulada, pele morena,
juntos foi em 30 de janeiro de 1801. olhar vivo e altivo, traços fortes e bem definidos, sua fisionomia e comportamento
Os nove quartetos para cordas compostos entre 1797 e 1803 revelam-se ainda refletiam prudência e calma gravidade". Já o diplomata sueco Fredrick Samuel
mais inovadores se comparados com as últimas Sinfonias de Londres: finali em Silverstolpe, que serviu em Viena de 1796 a 1803, descobriu
tons menores em obras de tonalidade maior (opus 76 n° 1 e 3), substituição do
minueto por verdadeiros scherzos (opus 76n°le opus 77n"le 2), ousadias tonais, em Haydn, por assim dizer, duas fisionomias. U m a , quando ele falava de coisas elevadas,
era penetrante e séria; bastava a palavra sublime para que seus sentimentos aflorassem
harmônicas, polifónicas e rítmicas até então nunca ouvidas, como as que se en-
de maneira bem visível. Instantes depois, este estado de espírito cedia lugar ao seu ha-
contram no Quarteto opus 76 n° 6 ou no Quarteto opus 77 n° 2. Pode-se dizer que
bitual humor e ele voltava a ser jovial, com u m a satisfação que literalmente estampava-
tais páginas desafiam os critérios habituais de análise, pois tratam um material do se em seus traços fisionômicos e sempre desembocava numa atitude brincalhona. Esta
século XVIII à maneira do século XX. As seis missas e-principalmente os dois ora- fisionomia era mais comum, a outra precisava ser estimulada.
tórios são a contrapartida haydniana das grandes óperas de Mozart. O sinfonista
manifesta-se pela importância conferida à orquestra e pela ausência de estereóti- Haydn não criou o quarteto para cordas e muito menos a sinfonia, mas foi o
pos formais. Não se trata, nessas obras, de episódios que se sucedem frouxamente primeiro a conceder-lhes os foros de nobreza e a levar estes dois gêneros ao seu
ligados, mas de sólidas arquiteturas cuja vitalidade em nada diminui o alcance mais alto nível. Também foi o primeiro a usar genialmente a "forma sonata" e a
espiritual. Se Die Jahreszeiten, uma seqüência de quatro brilhantes cantatas, suge- explorar-lhe, com recursos inesgotáveis, todas as suas virtualidades dialéticas, tan-
rem sobretudo o primeiro romantismo — o de Weber e o de Der Fliegende Hollan- to no plano do trabalho temático como no das relações tonais. Com isso, ensinou
der [O navio fantasma] de Wagner —, constiüiindo uma espécie de síntese de uma nova maneira de pensar em música. Neste sentido, Beethoven foi não só o
meio século da produção haydniana, é o próprio Tristan und Isolde [Tristão e Isol- maior, mas também seu único discípulo. Haydn, ao lado de Mozart e Beethoven,
da] que o prelúdio de Die Schõpfung prenuncia: uma performance que se mostra estes mais jovens que ele, formam o que se costuma chamar, certa ou erradamente,
tanto mais vertiginosa quando se sabe que ela emana de um gênio (que, no início a "trindade clássica vienense". Dos três, foi ele o único que conheceu pessoalmente
da carreira, era tido como apenas mais um entre outros tantos obscuros compo- os outros dois. Ao seu pensamento rápido, concentrado, que procede por elipses,
sitores austríacos do século XVIII) e que, para além de seu lado visionário, esta síntese extraordinária de contração e de expansão, de essência épica, Haydn deve
poderosa representação do caos original inscreve-se com toda a coerência no pen- o sucesso que alcançou no quarteto para cordas, na sinfonia, no oratório. Para
samento musical de Haydn. chegar até Haydn, o único meio possível é através da música. Não nos podemos
No fim de 1803, o estado de saúde de Haydn o impediu subitamente de desen- apoiar em temas ou personagens de ópera, como no caso de Mozart, Wagner ou
volver qualquer atividade criadora, embora fosse ainda assaltado por novas idéias, Verdi, nem tampouco nos valer de uma exegese ou de uma simbólica bíblica, co-
que já não conseguia mais ordenar. Um terceiro oratório em alemão, O Juízo Final mo para com Schütz ou Bach, isto para não falar nas biografias romanceadas de
ficou só em projeto. Desde então, Haydn praticamente não deixou mais sua casa que foram vítimas Beethoven e tantos outros românticos. Não porque a vida deste
de Gumpendorf, um bairro de Viena, que acabou por transformar-se num lugar grande artesão tenha deixado de influir sobre sua obra: seria preciso falar com
de peregrinação. Entre os freqüentadores mais assíduos da casa de Haydn nesse minúcia de sua capacidade de observação, de sua tenacidade, de seu orgulho, de
período citam-se seus biógrafos Dies e Griesinger, Constanze Mozart e seu filho sua causticidade e, depois de tudo considerado, de sua solidão. De qualquer modo,
mais velho, Weber e Cherubini. Em maio de 1808, Haydn lá recebeu toda a capela para captar a personalidade de Haydn, bem mais significativa do que as lendas que
Esterhazy, que foi visitá-lo por ocasião de um concerto que viera realizar em Viena correm é a descrição da primeira audição de Die Schõpfung (30 de abril de 1798),
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e principalmente da famosa passagem E fez-se a luz, feita por ES. Silverstolpe qua-
renta anos depois de a ela ter assistido:
Parece que ainda hoje vejo seu rosto no momento em que a orquestra emite aqueles
primeiros sinais luminosos. Haydn tinha o jeito de u m a pessoa prestes a morder os
lábios, fosse para conter sua preocupação, fosse para dissimular u m segredo. E no ins-
tante preciso em que, pela primeira vez, aquela luz brilhou, tudo se passou como se os
raios dela tivessem sido lançados dos olhos ardentes do artista.
Haydn teve dois irmãos músicos. Johann Michael (Rohrau, 1737 - Salzburgo,
1806), compositor, ocupou um posto em Grosswardein na Hungria de 1757 a 1762 32
e, a partir de 1763, em Salzburgo, onde conheceu Mozart. Tornou-se famoso, em
sua época, sobretudo pelas obras religiosas que compôs. Escreveu também belas
páginas instrumentais, entre as quais quintetos para cordas e 43 sinfonias. Dos WOLFGANG AMADEUS MOZART
compositores que, nesse período, se moviam na órbita de Viena, só foi inferior a
seu irmão Joseph e a Mozart. Por sinal, era dono de um estilo que o aproxima mais (1756-1791)
do segundo que do primeiro. Johann Evangelist (Rohrau, 1743 - Eisenstadt, 1805)
passou toda sua vida de músico, como tenor, na corte dos Esterhazy, pois Joseph
Haydn, após a morte do pai de ambos, chamou esse irmão para ir viver junto dele.
Wolfgang Mozart (Johannes Chrysostomus Wolfgang Gottlieb) nasceu em Salz-
burgo em 27 de janeiro de 1756, ano em que começou a Guerra dos Sete Anos.
Leopold Mozart, seu pai, natural de Augsburg, cidade livre do Sacro Império, era
um violinista bem dotado e compositor de certo talento, autor de um método de
estudo de violino que muito justamente lhe rendeu reputação de pedagogo; ocu-
pava o posto de vice-Kapellmeister da corte de Salzburgo. Arma Maria Peril, sua
mãe, nascida em Wolfgangsee, perto de Salzburgo, era filha de um funcionário da
mesma corte.
Salzburgo e seu território só foram reunidos à Áustria no tempo de Napoleão.
Até então, como seus confrades de Colônia, Trier e Mainz, o príncipe-arcebispo de
Salzburgo era soberano em seus domínios e ligado ao Círculo da Baviera na orga-
nização administrativa do Sacro Império. Dividido entre o pai, vindo da Suábia
(Schwaben), e a mãe, nativa de Salzburgo, como ele próprio, Mozart nunca se disse
austríaco, mas alemão.
Salzburgo era uma pequena cidade de província (10 mil habitantes) que teve a
sorte de localizar-se numa das rotas em que se entrecruzavam trajetos germânicos
e italianos. Pôde, com isso, receber influências dos dois lados. Com suas fanrílias
nobres, seus grandes burgueses, seus pequenos funcionários e seus artesãos, vivia
totalmente centrada em torno do príncipe-arcebispo e de sua corte. Um bom mú-
sico, como Leopold, e outro que beirava a genialidade, como Michael Haydn (ir-
mão de Joseph), lá não passavam de empregados domésticos. Talvez o príncipe os
considerasse pouco mais que os outros, mas suas pretensões só serviam para ener-