Poética Arquitetônica: Barragán, Siza, Ando
Poética Arquitetônica: Barragán, Siza, Ando
A construção do território
Abstração e natureza nas obras de
Luis Barragán, Álvaro Siza e Tadao Ando
São Paulo
2016
Imagem da capa:
Álvaro Siza. Piscina em Leça da Palmeira.
Intervenção sobre croquis do arquiteto.
Juan Pablo Rosenberg
A construção do território
Abstração e natureza nas obras de
Luis Barragán, Álvaro Siza e Tadao Ando
São Paulo
2016
AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO,
POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO
E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.
CDU 72.011.22
Para Marina, Leon e Eva.
Agradecimentos
Este estudo propõe uma leitura sobre a poética arquitetônica nas obras de Luis Barragán,
Alvaro Siza e Tadao Ando, a partir do elo que estabelecem no binômio construção-
natureza.
Barragán, em Los Clubes (1964-1968) – Cuadra San Cristóbal e a Fuente de los Amantes
–, impõe agudos contrastes à paisagem para então dissolvê-los, numa “realidade
fantástica” que consuma a improvável comunhão entre fé católica e desejo erótico; na
Piscina de Leça da Palmeira Siza narra o retorno do Homem à Natureza, num “discurso da
técnica” que desfaz, no caminho entre a cidade e a praia, o muro de concreto em areia e
pedra; no Templo da Água, Tadao Ando estabelece um percurso do profano ao sagrado –
da razão ocidental à espiritualidade oriental –, pela transmutação simbólica da forma
geométrica, regida por vazios radicalmente disponíveis (Ma).
Cada capítulo circunscreve individualmente um arquiteto e sua obra por meio de três
aproximações sequenciais: inicia com as impressões da visita à obra; passa a pela
genealogia da imaginação e formação da linguagem; e fecha o ciclo retornando ao projeto,
analisado a partir dos desenhos e dos dados coletados ao longo da pesquisa.
Pretendemos, assim, criar uma ponte entre o desígnio projetivo e a expressão obra, para
identificar, nesse trajeto, os recursos poético-arquitetônicos utilizados. Na conclusão, são
gerados cruzamentos horizontais entre as diferentes manifestações desses recursos nas
obras – percurso, muro, água, luz etc. – como tentativa de contribuir para o léxico poético
da disciplina.
Palavras-chave:
1. Fundamentos do projeto 2. Poética arquitetônica 3. Território 4. Regionalismo
5. Barragán, Luis (1902-1988) 6. Siza, Álvaro (1933) 7. Ando, Tadao (1941)
Abstract
This study proposes a reading of architectural poetics on the works of Luis Barragán,
Alvaro Siza and Tadao Ando, departing from the link that each of them establish on the
binomal construction-nature.
Barragán, in Los Clubes (1964-1968) – Cuadra San Cristóbal and Fuente de los Amantes
–, imposes sharp contrasts to the landscape to then dissolve them in a “fantastic reality”
that consummates the unlikely match between catholic faith and erotic desire; in Leça da
Palmeira Swimming Pool, Siza tells, by a “technical speech”, the return of Man towards
Nature, in a liturgic procedure that undoes, between the city and the beach, the concrete
wall into sand and stone; on the Water Temple, Tadao Ando establishes a path from the
profane towards the sacred – from the occidental reasoning to the oriental spirituality –,
through the symbolic transmutation of the form along radically available spaces (Ma).
Each chapter individually circumscribes one architect and his work through three sequential
proxies: it begins with the impressions obtained in site visits; then goes through a
genealogy of the imagination and the formation of the language; and closes the circle
returning to the project, aproached through the drawings and data collected during the
research. The goal then, is to create a bridge between the project intentions and the
expression of the work, to identify, along this path, the poetic architectural resources that
were used. In the conclusion, horizontal crossings are created between different
expressions of those resources on the constructions – pathway, wall, water, light etc. – as a
way to try to contribute to the poetic lexicon of the discipline.
Key words:
1. Project Fundamentals 2. Architectonical poetics 3. Territory 4. Regionalism
5. Barragán, Luis (1902-1988) 6. Siza, Álvaro (1933) 7. Ando, Tadao (1941)
Sumário
Introdução pg. 14
A pesquisa encontra sua origem em 2001, quando morei no México e tive a oportunidade de
testemunhar a força dos espaços de Luis Barragán. Em 2008, ao percorrer as obras de Tadao
Ando no Japão, suas atmosferas reavivaram imediatamente aquelas sensações experimentadas
sete anos antes.
Em 2012, tornou-se imprescindível um olhar mais atento sobre as soluções projetuais geradoras
da potência poética dessas arquiteturas. A investigação consistiu numa grande viagem pelo
mundo de cada um dos três arquitetos aqui reunidos, pela formação de suas linguagens e pelo
conjunto de suas produções, seus escritos e pela crítica; o que resultou na seleção de uma obra
de cada a ser analisada. Os projetos aqui reunidos, emblemáticos de suas posturas projetuais,
são aqueles que melhor representam a relação que cada arquiteto estabelece no binômio
construção-natureza, eixo central da pesquisa. O muro - artefato primordial do engenho humano
- e a natureza, desconstruída em seus elementos essenciais - Terra, Céu, água e luz - são o
léxico comum de suas narrativas poéticas; as quais nos revelam verdadeiras obsessões
pessoais resolvidas nas fronteiras dessa relação.
O trabalho configura, a partir desse encontro, uma tentativa de estabelecer o elo entre o
imaginário do arquiteto, suas decisões e a obra realizada, no intuito de dar uma contribuição
para o ferramental poético na prática de projeto.
O primeiro que convém saber é que a heterodoxia não é fácil.
Serviço divino a poucos cometido, paga-o a moeda que os
deuses amam: a amargura e a solidão. Obedientes a um único
mandamento, o de não recusar para as trevas aquilo que se vê
na luz, essa exigência dá ao rosto dos heterodoxos uma
aparência inequívoca de dureza.
Eduardo Lourenço
moderna”. A partir do ensaio, que
complementa seu “Towards a Critical parte do paradoxo colocado por Paul Ricoeur – “Como ser
Regionalism: Six Points for an
Architecture of Resistance” (1983), moderno e retornar às raízes?” – para reunir “manifestações
Frampton deu amplitude e
notoriedade ao termo cunhado por localmente moduladas na cultura mundial”, as quais, em
Alexandre Tzonis e Liane Lefaivre
em 1981 no texto “The grid and the oposição ao uso “sentimental ou irônico” do vernáculo,
pathway”, o qual se restringiu ao Introdução
caso específico da arquitetura procuram valorizar a identidade da região “ao deturpar
grega. “Fechou
elementos autóctones com o uso a mão com originários
de paradigmas força e agarrou
de
bem a loucura dentro da mão,
fontes alienígenas [modernas]”. Segundo no
descobrindo Frampton, “essas
seu trabalho as
verdades simples ou uma verdade
manifestações têm como preceito mais valioso a ‘criação do
única.”
Almada Negreiros
lugar’2 , [apresentando-se como] fatos tectônicos’ [...] capazes
de reagir às condições específicas impostas pela localidade,
[...] com ênfase no território – e na topografia –, [com a]
1. O texto foi originalmente consciência
As obras dede queBarragán,
Luis o ambiente podeSiza
Álvaro ser vivenciado em outros
e Tadao Ando foram
publicado em 1983 na revista
“Perspecta: the architectural journal termos,
pela não vez
primeira somente atravésnodainício
justapostas visão,
dos mas
anos sensível à
1980 pelo
n.20“ e posteriormente incorporado,
em 1985, à terceira edição do livro percepções complementares
Regionalismo [...] com
Crítico de K. Frampton, níveis “Prospects
no ensaio variáveis for
de
“História Crítica da arquitetura
moderna”. A partir do ensaio, que iluminação
a e sensações
Critical Regionalism ambientais
”1 . Em […] “crítico”,
seu recorte – sensações que
Frampton
complementa seu “Towards a Critical induzem
parte do oparadoxo
modo de andar” (FRAMPTON,
colocado 2006, p.504-518).
por Paul Ricoeur – “Como ser
Regionalism: Six Points for an
Architecture of Resistance” (1983), moderno e retornar às raízes?” – para reunir “manifestações
Frampton deu amplitude e Para Frampton “essas manifestações podem ser descritas
notoriedade ao termo cunhado por localmente moduladas na cultura mundial”, as quais, em
Alexandre Tzonis e Liane Lefaivre como ‘interstícios de liberdade’, [que] dependem, por definição,
em 1981 no texto “The grid and the oposição ao uso “sentimental ou irônico” do vernáculo,
pathway”, o qual se restringiu ao de uma associação entre a consciência política de uma
caso específico da arquitetura procuram valorizar a identidade da região “ao deturpar
grega. sociedade e a profissão do arquiteto”, cuja principal força
elementos autóctones com o uso de paradigmas originários de
motivadora se encontra “no forte desejo de realizar
fontes alienígenas [modernas]”. Segundo Frampton, “essas
efetivamente uma identidade [e] num sentimento ‘anti-
manifestações têm como preceito mais valioso a ‘criação do
centrista’, isto é, uma aspiração por algum tipo de
2. A noção de ‘construir o lugar’, que lugar’2 , [apresentando-se como] fatos tectônicos’ [...] capazes
será retomada no capítulo dedicado independência cultural, econômica e política”.
a Siza, atribuída por Frampton a de reagir às condições específicas impostas pela localidade,
Mario Botta, foi proposta por
G r e g o t t i e m “ O Te r r i t ó r i o d a [...] com ênfase no território – e na topografia –, [com a]
Em 2001, no entanto, passados quase vinte anos da
Arquitetura” (1967).
consciência de que o ambiente pode ser vivenciado em outros
publicação do ensaio, o próprio autor reconheceria que
termos, não somente através da visão, mas sensível à
percepções complementares [...] com níveis variáveis de
iluminação e sensações ambientais […] – sensações que
induzem o modo de andar” (FRAMPTON, 2006, p.504-518).
14
“abordar Barragán como um arquiteto ‘crítico’ parece hoje (sic) 3. Apesar do Regionalismo Crítico
ser amplamente aceito como recorte
algo contraditório, visto que é difícil imaginar alguém menos da produção arquitetônica moderna,
afeito à ideologia do que ele”. (FRAMPTON, 2001, 16p.). Para o conceito encontrou severa
resistência teórica desde sua
além das controvérsias geradas pelo termo3 , as quais têm formulação, seja pela falta de rigor e
simplificação na formação de seu
perdido relevância com os novos paradigmas da espectro de análise (Alan
Colquhoun), seja pela postura
contemporaneidade, tal reposicionamento colabora para reunir “operativa” (M Tafuri) que gerou
diferentes desdobramentos na
as produções desses arquitetos segundo outros pontos de vista Europa, mas sobretudo nos Estados
menos “operativos”, e mais sensíveis a aspectos enraizados na Unidos, sobre a inoperância da
“criticalidade”. (ver: BAIRD 2004).
subjetividade dos arquitetos 4. Segundo Rem Koolhaas “o
problema do discurso crítico reside
na inabilidade em reconhecer que a
Sem negar aspectos identificados por Frampton – a matriz motivação mais profunda da
arquitetura não é crítica”.
dialética entre modernidade e localidade, suas materializações (KOOLHAAS apud BAIRD 2004).
Peter Testa, em sua dissertação de
como fatos tectônicos atentos ao território e à experiência tátil e Mestrado “The Architecture of Alvaro
Siza” defendida junto ao MIT em
fenomenológica, e sobretudo a ideia de construção do lugar –, 1984, identifica importantes
as obras desses arquitetos liberais podem ser entendidas para inconsistências metodológicas no
conceito que “neutralizam sua
além de “enclaves” culturais contra a massificação5; mas como eficácia” inclusive ao caracterizar a
obra de Siza como Regionalista.
manifestações poéticas oriundas de pulsões vitais no complexo (TESTA, 1984, p.10-38).
ideário pessoal de seus criadores, inevitavelmente enraizadas 4. Guilherme Wisnik, em “O Silêncio
e a sombra” (WISNIK 2014), parte
às idiossincrasias de suas localidades, e que encontram sua do regionalismo de Frampton para
melhor expressão no poder simbólico da abstração moderna. encontrar o elo entre os arquitetos
no “silêncio eloquente” que reflete as
idiossincrasias de cada um. Ao
As trajetórias heterodoxas de Luis Barragán, Alvaro Siza Vieira longo do texto Wisnik nos propõe
um “percurso fenomenológico e
e Tadao Ando, solitárias e coerentes, se desenvolvem alheias à processional” (WISNIK 2014, p.412)
pela Casa-estúdio de Tacubaya de
grupos, movimentos, ideologias ou regras preestabelecidas. Barragán, apontando para seu
conflito interior, debate o valor da
Firmemente arraigadas a tradições culturais ditas “periféricas”, natureza e da sombra na
“arquitetura moderna fechada” Ando
encontram no sítio e na memória – individual e coletiva - seu e a angústia solitária da “perda da
ponto de partida, para então identificar em diferentes fontes da materialidade” em Siza, à medida
que este se torna um arquiteto
modernidade – do purismo Corbusiano ao Surrealismo internacional e se afasta da
realidade do canteiro de obras.
(Barragán), do empirismo Aaltiano e à fragmentação (Siza) e ao
5. Tema que tangencia a obra de
minimalismo pós-modernos passando pelas atmosferas de Barragán e a “arquitetura de
Louis Kahn (Ando), o ferramental para manifestar guerrilha” inicial de Ando, mas está
totalmente alheia às formulações
necessidades de ordem existencial na “construção do lugar”. metodológicas de Siza, e que a esta
altura se esvai nos novos
Em seus métodos experimentais, travam um diálogo direto com paradigmas da contemporaneidade
o genius loci 6, encontrando neste embate de “gênios” - o do
6. Genius Loci segundo Christian
lugar e o do arquiteto -, na experiência do contato entre forma Norberg Schulz: “O ‘espírito do
lugar’ que os antigos reconheciam
construída e território e no trânsito entre o físico e o simbólico, como ‘aquele outro’ que os homens
precisam aceitar para serem
a manifestação poética “daquilo que o lugar deseja ser” (SIZA capazes de habitar” (NORBERG-
2012). SCHULZ, 1984, p.449)
15
No intuito de desvendar a maneira como cada arquiteto
“constrói o lugar”, encontramos em suas produções obras
emblemáticas da relação que estabelecem entre construção e
natureza, as quais, se não circunscrevem a complexidade de
seus pensamentos, aportam elementos exemplares de suas
linguagens poéticas. São elas: a Piscina da Praia de Leça da
Palmeira (1961-66) de Siza, Los Clubes (1964-68) – Cuadra
San Cristóbal e Fuente de los Amantes – de Barragán, e o
Templo da Água de Tadao Ando (1989-91).
16
erótico; na Piscina de Leça da Palmeira Siza narra, pelo
discurso da técnica, o retorno do Homem à Natureza, no rito
litúrgico do banhista que desmaterializa, entre a cidade e a
praia, o muro de concreto em areia e pedra; no Templo da
Água, Tadao Ando estabelece um percurso do profano e ao
sagrado através da transmutação simbólica da forma
geométrica, passando da razão ocidental à espiritualidade
oriental por meio de “vazios radicalmente disponíveis” (Ma).
Objetivos
17
mas também a seus criadores, entendidas hoje como
expressões de obsessões pessoais que se revelam na
construção do lugar. Pretende-se, enfim, trazer à luz como o
imaginário do arquiteto repercute nas decisões de projeto, que
por sua vez resultam na experiência fenomenológica da obra, a
qual, por fim, revela a obsessão do arquiteto; nesse processo
cíclico que tende a ao infinito como um Ouroboros, quanto mais
se olha para as obras e para o imaginário dos arquitetos, novas
revelações aparecem, chegando ao ponto de não ser mais
possível diferenciar decisões intencionais, daquelas
inconscientes, daquilo que é pura interpretação do visitante. O
que por si mostra a riqueza contida em obras aparentemente
simples do ponto de vista formal e construtivo.
Metodologia
18
Fazem já anos que me propus suspender o julgamento
sobre qualquer obra de arquitetura que não tenha
visitado. Isso porque, à margem de estar acostumado à
leitura de plantas e da ajuda que supõem as imagens
fotográficas dos edifícios, me ocorreu, em algumas
ocasiões, ter que trocar de opinião a respeito de uma
obra após a visita da mesma. Isto põe em manifesto, uma
vez mais, que o julgamento sobre a arquitetura exige seu
conhecimento, seu direto impacto sensorial sobre nós
para poder apreciá-la. (MONEO, 2010, p.25)
19
Finalmente, selecionadas as obras a serem analisadas a partir
das impressões in situ, retornamos aos desenhos e à
bibliografia para analisar e compreender as decisões projetuais
e os recursos arquitetônicos que promovem a potência poética
testemunhada nesses lugares arquitetônicos. Os projetos -
plantas cortes e elevações mais representativas foram
redesenhados pelo autor em Cad, como forma de estabelecer
uma relação mais íntima com as decisões projetuais.
Estrutura do trabalho
20
APROXIMAÇÃO: relato em primeira pessoa das impressões da
visita realizada à obra; 3. GENEALOGIA DA IMAGINAÇÃO:
reconstrução do imaginário do arquiteto e do percurso de
formação de sua linguagem, encontrando as principais
influências que desaguam em sua postura projetual;
4. SEGUNDA APROXIMAÇÃO: retorno à obra, munidos de
desenhos e do conhecimento construído ao longo da pesquisa,
para analisar decisões de projeto e os recursos poético-
arquitetônicos mais relevantes que compõem a espacialidade e
a atmosfera da obra. Serão analisados: situação, partido
arquitetônico e implantação, o percurso, os muros, a luz, a
presença da água e a noção de temporalidade gerada pela
arquitetura. Estes aspectos permitirão gerar cruzamentos na
conclusão.
Referências
21
Apesar do presente estudo propor uma ótica diversa, menos
exaustiva e mais atenta ao discurso poético, sua forma
mostrou-se muito eficiente para dar clareza à leitura, tendo sido
aqui incorporada. Os textos, portanto, se desenvolvem aqui
também amparados lateralmente por imagens.
22
Ausências
23
24
25
A Cuadra San Cristóbal é um caso muito particular.
Durante um passeio juntos me pediram para desenhar sua casa. Pensavam numa
‘granja sueca’, que fizesse recordar seu país. Eu respondi que faria uma granja
sueca com muito prazer, mas que não pensava ser o mais indicado para o lugar.
Não é ‘colonial mexicano’, pois penso tratar-se isso de um ‘estilo’ falso. A arquitetura
deve expressar a sua época, o momento em que foi construída. Não se deve
reproduzir indiscriminadamente o passado, mas assimilá-lo e interpretá-lo.
Para as cores usadas nos muros dos pátios e da fonte, foram realizadas muitas
maquetes. Consultei o ‘Chucho’ Reyes que viu os desenhos e as maquetes. Visitou a
obra constantemente para fazer provas de cor. Trabalhou-se muito nisso e estou
satisfeito com o resultado.
26
Atizapán de
Zaragoza
LOS CLUBES
México D.F.
Capítulo 1
Luis Barragán: território fantástico
Colaborador:
Andrés Casillas
Ano (projeto/construção):
1964/1968
Área construída:
2600m2
Localização:
Calle Manantial Oriente, 20, Atizapan de Zaragoza, Ciudad López Mateos (D.F.), Mexico.
27
1.1. Introdução
A obra de Luis Barragán (1902-1988) se manteve restrita a um 1. A exposição foi sugerida em 1967
pelo casal Anni e Josef Albers ao
pequeno círculo de admiradores até 1976, quando Emilio então diretor do Departamento de
Arquitetura e Design do MoMA,
Ambasz organizou uma exposição no Museu de Arte Moderna Arthur Drexler, que oito anos mais
de Nova York (MoMA) que resultou no primeiro livro-catálogo tarde incumbiu Ambasz de organizá-
la. Nos anexos, reproduzimos a
dedicado à sua produção1. A publicação, ao reunir sete projetos correspondência em que Anni faz a
sugestão a Barragán. (MARTINEZ,
de sua fase madura – autodenominada “emocional” – mostrou 2000, p. 154).
As obras que fizeram parte da
tardiamente, ao mundo e ao próprio México, imagens exposição e da publicação são: El
Pedregal (1950), A Casa-Estudio de
contundentes de uma arquitetura moderna de forte sotaque Tacubaya (1947), a Capela das
local, carregada, no entanto, de atmosferas absolutamente Capuchinas (1955), as Torres
Satélite (1957), Las Arboledas
peculiares: paisagens dramáticas de escarpados rochedos (1961), a Fuente de los Amantes –
denominada simplesmente Los
vulcânicos atravessados por brancas alamedas geométricas Clubes (1964) – e a Cuadra San
Cristóbal (1968) (AMBASZ, 1976).
onde patos se banham tranquilamente em chafarizes; uma sala
– sua sala – em que a luz filtrada penetra lateralmente através
do grande pano de vidro cruciforme que enquadra o jardim,
sugerindo na penumbra a silhueta de uma Virgem com Menino
barroca a homenagear um “Quadrado” de Albers que pende
sobre a mesa; freiras em clausura orando sob uma lisérgica
atmosfera monocromática dourada; e, finalmente, cenas
oníricas de cavalos sobrepostos a longos planos cor-de-rosa
que cortam a paisagem natural, duplicados em espelhos Fotos do Catálogo da exposição.
Acima: Casa-estúdio. Abaixo: El
d’água alimentados por aquedutos congelados na fotografia. Pedregal (esq.), Capela de Tlalpan
(centro), Cuadra San Cristóbal (dir.)
29
2. Os exemplos mais emblemáticos A cada página, os textos de Ambasz enfatizam o efeito
desse modernismo certamente
encontram-se na Cidade emocional e austeridade dramática dos espaços, a
Universitária (1950-1956) –
nomeadamente na Biblioteca sensualidade dos materiais e a força mítica das atmosferas
Central de Juan O’Gorman e Juan
Martines Velasco - e no complexo surrealistas, – “the Chirico-like settings” – “em que a ausência
habitacional Tlatelolco (1960-1964) se torna iminente presença” (AMBASZ, 1976, p. 107),
de Mario Pani, uma espécie de Ville
Radieuse com 101 edifícios advertindo ainda que as mesmas não podem ser
construída ao norte da cidade do
México (SMITH, 1967, p. 20-184). compreendidas a partir dos desenhos dos projetos.
Como curiosidade, Miquel Adrià -
editor da revista Arquine - conta que
Mario Pani, ao enviar as fotos do Para se ter ideia da repercussão da exposição e da publicação,
conjunto construído em Tlalteloco à
revista L’Architecture d’Aujourd’hui, naquele mesmo ano Barragán vence o Prêmio Nacional das
recebeu como resposta uma
negativa, dada a monumentalidade Artes do México e passa a ser fellow member do American
da obra, dizendo que não Institute of Architects, tornando-se, quatro anos mais tarde, o
interessava publicar fotos de
maquetes inspiradas no trabalho de segundo arquiteto a receber o prêmio Pritzker, depois do norte-
L e C o r b u s i e r. ( A D R I À , e m
conferência proferida na americano Philip Johnson.
Universidade de Navarra, abril de
2015). Em 1967, Clive Bamford
Smith publicara em Nova York o livro Até então, a “modernidade mexicana” via-se representada pelo
Builders in The Sun: Five Mexican
Architecs, em que põe lado a lado funcionalismo reproduzido a partir dos anos 1930 em fachadas
os trabalhos de Pani, O’Gorman,
Barragán, Felix Candela e Matias envidraçadas e pelo resgate pós-revolucionário (1910-20)
Goeritz, expandindo pela primeira nacionalista de elementos pré-hispânicos aplicados em murais
vez a referencia do Moderno
mexicano. sobre volumes puros, ambos associados sobretudo a
encomendas oficiais e do capital privado2 . No entanto, o cabal
reconhecimento da obra de Barragán, sucedido por sua
inclusão no Regionalismo Crítico de K. Frampton no início dos
anos 80 – o qual acentua uma motivação autobiográfica
anunciada por Ambasz –, consolidou sua linguagem
heterodoxa como um dos paradigmas estéticos da arquitetura
Mario Pani: Tlatelolco (1960-64)
moderna tardia3 , hoje incorporada ao estado da arte da
produção arquitetônica do século passado. Assim como seu
conterrâneo tapatío Juan Rulfo na literatura, Barragán deu uma
dimensão mágica ao regionalismo mexicano, reconciliando-o
com a tradição popular em contraposição à “arte
comprometida” indigenista – numa nova expressão “moderna,
O’Gorman Velasco. Biblioteca Central
UNAM (1950-56) sem ser modernista” (PAZ, 1980)4.
30
do engenho humano perante a natureza, no “aqueduto que
atravessava a cidade toda, chegando aos pátios onde havia
grandes fontes de pedra para armazenar a água” e nas
“coberturas em telha de imensas águas que protegiam os
viajantes das pesadas chuvas” (AMBASZ, 1976, p. 9). Imagens
remotas que Barragán reaviva na pureza sintética da abstração
moderna sobretudo em seus projetos dedicados à vida
equestre, e que encontram seu epílogo poético no conjunto de
Los Clubes, sua penúltima realização.
Nesse loteamento, projetado e incorporado pelo arquiteto ao 5. A Cuadra foi considerada por
Ambasz como a mais complexa obra
norte da Cidade do México entre os anos 1964 e 1968, estão de Barragán, onde “recria o pueblo de
sua infância no jogo mágico de
localizadas duas de suas obras mais emblemáticas: a Cuadra volumes, cores, sombras e
San Cristóbal (1966-68) – Residência Egerström e Cavalariça – reflexões” (AMBASZ, 1976, p. 91).
Enrique X. de Anda Alanis reconhece
e a Fuente de los Amantes (1964), uma praça pública com na Fuente de los Amantes o
“testamento artístico” do arquiteto
fonte que serve de bebedouro aos cavalos 5 . Nelas, Barragán (ALANIS, 2006, p. 162).
recria o assentamento idílico em meio à natureza, à qual se
impõe inequivocamente na força da geometria, pela escala e 6. “Um jardim não é apenas um
cenário. É o protagonista graças ao
por contraste cromático. qual os outros dois personagens, os
enamorados, podem realizar seu
destino de não se reunirem jamais.
Se a matriz afetiva da infância empresta a essência imagética à Esse destino de torturas e delícias é a
paisagem onírica de Barragán, o conjunto representa, por outro razão de ser do jardim, partícipe de
todos os prazeres, testemunha de
lado, a expressão madura de seu jardim “embrujado” – refúgio todas as infelicidades, única realidade
concreta, sentido das esperas e das
lírico murado em que o arquiteto guardou os mistérios, as dores deambulações” (F. Bac apud ALFARO,
1996, p. 35).
e as delícias de um profundo conflito espiritual estabelecido por
uma fervorosa fé católica perturbada pelo amor impossível e
por desejos inconfessos.
31
1.2. Primeira aproximação: visita à obra (Cuadra S.Cristobal)
Realizada em dezembro de 2015
32
Ao final da pacata rua, uma inflexão no longo muro branco
forma o pequeno largo que indica a entrada. A propriedade se
apresenta com discreta imponência sob a sombra de uma
árvore: sobre o pavimento escuro de pedra, o elegante portão
em pinho cor de mel recuado e protegido por uma laje baixa dá
uma aparente espessura ao muro, no qual o letreiro forjado em
ferro traz a confirmação: “Cuadra San Cristobal”. Ao abrir o
portão, o sr. Jesus Pacheco, caseiro da família Egerström há
25 anos, nos recebe com um simpático bom-dia sucedido de
um aviso convicto: “Prepara-te para conhecer um lugar
mágico”. Entra-se.
33
visível. No entanto, uma profunda sombra diagonal que invade
a pureza do sólido configura um alpendre sobre um generoso
patamar ligeiramente elevado do solo, dando a reconhecer
num canto junto ao muro o acesso principal, onde uma
luminária pende indicando que o lugar está habitado.
34
III. O espelho d’água deve ser contornado pela esquerda, visto
que o espesso muro alaranjado impede a passagem. Nesse
deslocamento, o sólido nos mostra que na verdade tem interior
líquido: a maciça geometria se revela em duas finas faces
paralelas a conduzir a água trazida de longe, que rasga sua
espessura para servir o banho aos cavalos. Enquanto faz sua
confissão, o aqueduto desvela lentamente o grande telhado
acinzentado que nasce junto ao muro de fundo encerrando o
quadrilátero, sob cuja sombra um alpendre antecede as
cocheiras onde os cavalos descansam. Terminado o giro,
percebe-se o formato em L do tanque por detrás do muro-
aqueduto, tornando clara sua função de anteparo a proteger
dos olhos de quem entra a intimidade do banho dos animais.
36
1.3. Genealogia da imaginação
39
[...] O espírito religioso, ou ‘brujo’, tende a desaparecer
entre nós para deixar campo livre à vulgaridade do
espírito laico [...]. Num mundo laico, o que mais pode
suprir a falta do espírito ‘brujo’ é a beleza e o bom gosto.
(BARRAGAN, 1945a, p. 27)
40
O processo arquitetônico
41
Segundo seu colega Juan Palomar, “se um muro não lhe
parecia bem, mandava derrubar e reconstruir. Se ainda assim
não estivesse convencido, mandava demolir novamente”.
(PALOMAR, 2015).
42
perceptuais por meio de técnicas simples utilizadas com
absoluto rigor, nos pesados muros emboçados que encontrou
na tradição local. A partir deles, busca captar nada menos do
que a quintessência da existência, dialogando por meio da
forma construída com estratos profundos da subjetividade no
jogo de significantes que estabelece entre geometria e
natureza – abstraída em água, luz ou no verde das árvores –,
enfrentando o homem com seus próprios contrastes e com sua
convicção da realidade, ao enfeitiçar suas emoções com a
sensualidade misteriosa da beleza que logra materializar na
arquitetura da paisagem. Para Barragán “um jardim bem
logrado deve conter nada menos do que o universo inteiro”.
(BARRAGÁN, 1980).
43
exageradas das cenas de De Chirico que sua solidão
heterodoxa encontra a atmosfera mágica que sempre buscou,
onde viu a possibilidade de materializar uma realidade própria
capaz de solucionar seu conflito existencial. “Quando vi os
seus quadros pensei: Isto é o que eu posso chegar a realizar
também na arquitetura da paisagem.” (BARRAGÁN apud
EGGENER, 2001, p.188). Segundo Enrique X. Alanis, no
entanto,
44
As fases
A fase funcionalista ocupa os primeiros quatro anos de Reforma de casa, Guadalajara, 1932
45
Para Quatro Pintores, na praça
Melchor Ocampo, o grande caixilho
sobre o pé-direito duplo emprestado
da casa-estúdio Ozenfant torna
patente a influência indelével de Le
Corbusier, depurada num estilo
próprio ao longo dos anos. A
elegância no uso dos meios níveis,
evidenciados pelo ritmo das
À esquerda: Barragán, Edifício para Quatro Pintores, 1939
Ao centro: Le Corbusier, Casa-Estudio Ozenfant, 1922 aberturas na fachada, torna patentes
À direita:O’ Gorman, Casa-Estudio D. Rivera, 1931 a sensibilidade e a autonomia da
linguagem de Barragán, sobretudo
quando comparada à mesma fonte revisitada por seu
contemporâneo Juan O’Gorman na Casa-Estúdio Diego Rivera,
em que reproduz uma alegoria mal-ajambrada da casa-estúdio
original.
46
Cristóbal (Residência Egerström) e a Fuente de los Amantes
(praça pública).
47
13. Aqui apresentamos os episódios Formação da linguagem 13
mais relevantes para a constituição da
linguagem madura de Barragán. No
entanto, há dois projetos não As aparentes rupturas de estilo nas diferentes fases de sua
construídos que não serão abordados
e merecem menção como fatos obra, entendidas como conjunto, formam um percurso
históricos: o projeto para a Plaza del
Zócalo (1953) no centro do D.F. e o
cumulativo depurado ao longo de cinquenta anos (1926-1977).
projeto urbanístico Lomas Verdes, um Nesse percurso, regido pelo gosto refinado permeado por um
bairro para 100 mil habitantes
financiado pelo Vaticano, realizado em espectro referencial de rara amplitude, as memórias de sua
colaboração com o arquiteto Juan
Sordo Madaleno. Para uma biografia infância constituem uma raiz afetiva fundamental, alimentada
mais aprofundada, ver Zanco (2001),
Noelle (2004). Para a uma cronologia pelas várias influências absorvidas em suas viagens, na
completa das obras, ver Martinez
(2004, p. 9-11).
literatura, no gosto pela dança e pela música, e sobretudo
pelas profícuas trocas com artistas de seu tempo.
48
desenhos e os contos do paisagista e escritor francês
Ferdinand Bac que encantam Barragán na exposição e fazem
com que retorne ao México com uma dúzia de exemplares de
seus dois livros, Les jardins enchantés e Les Colombières. para
dar de presente aos seus colegas tapatíos.
49
arquitetura e as exigências de uma arte arraigada que
respondesse às restrições de uma nova ideologia
16. “A medula do moderno está na nacionalista. (ALFARO, 2008, p. 38)
ciência. Ela nos desvela visões
novas sobre a natureza. Ali devemos
buscar ensinamentos (...) Quando Em seu retorno à Paris, consegue um breve encontro com Le
conversei com Bac, entendi seu
medo dos novos tempos e porque Corbusier, que lhe sugere visitar a Villa Savoye em Poissy,
se refugiou no colo da beleza de
ontem. Essa não há de ser a
recém concluída. Se seis anos antes, na exposição de 1925, as
solução, Bac fez coisas muito belas, vanguardas não haviam sido seu foco de interesse, a pureza
porém desprovidas de harmonia
com o espírito de hoje. Para sempre do volume branco sob a luz finalmente despertaria em
guardarei essas conversas e os
jardins do meu querido amigo Bac. Barragán o fascínio pelo poder de síntese da abstração
Mas estou com vontade de falar
diferente, já não me servem seus moderna, reverberando imediatamente – e para sempre – em
rebuscado métodos (...) o espírito de
hoje chama à pureza, ao rigor, ao
sua linguagem arquitetônica16. No mesmo ano, realiza uma
melhor uso da matéria. A beleza viagem de dois meses a Nova York – onde publica suas
deve surgir da solidariedade da arte
com esse novo espírito. Tenho agora primeiras obras –, ocasião em que reencontra o pintor e
a sensação de estar
verdadeiramente vivo. (GARDUÑO, muralista José Clemente Orozco, a quem conhecera em
1999, 18p.)
Guadalajara e que mais tarde o introduziria ao círculo da
vanguarda artística na capital mexicana. Em seu quadro
Pueblo mexicano (1930), de clara influência cubista, Barragán
encontra a transcendência que faltava ao jogo sábio e correto
dos volumes sob a luz de Le Corbusier, agora submetido ao
embrujamiento de uma luz inverossímil, na lógica distorcida das
sombras geradas pelo sol poente nas fachadas do casario que
retrata. A litogravura se encontra ainda hoje pendurada na
entrada da biblioteca de sua casa-estúdio em Tacubaya.
P. Picasso, The Reservoir, 1909 (detalhe)
50
trotskismo e por uma forte filiação aos ideais do Partido
Comunista. Convicto de sua origem aristocrática e da
necessidade de uma expressão alinhada com seu tempo, certo
17. “As cores que uso vêm dos
de que o retorno figurativo ao indigenismo pré-Cortés não povoados mexicanos. Os povoados
de Veracruz (Tlacotalpan), Chiapas,
passava de uma nostalgia sem sentido, Barragán segue seu Michoacan, Jalisco. Estão cheios de
combinações insólitas e
próprio caminho, reservando sua afinidade com o movimento extremamente belas. Nossos
construtores são artistas. Não
artístico às rodas boêmias e ao grande interesse comum pelos seguem leis acadêmicas, mas usam
ambientes surrealistas de De Chirico, o que o leva a assinar o seus sentidos para fazer
combinações que muitas regras
Manifesto da Arte Revolucionária Mexicana lançado por Diego escolares proibiriam e, no entanto, o
resultado é geralmente harmônico e
Rivera e André Breton em 1938. É nesse ambiente boêmio que sobretudo pessoal e único. As cores
expressam o estado de ânimo dos
reencontra Chucho Reyes Ferreira, pintor naïf que conhecera habitantes. Se observam os portais
cheios de cores e sombras, estão
na infância ainda em Guadalajara, a quem atribui sua também cheios de emoções, são
descoberta das cores vivas dos povoados mexicanos17 e que uma arquitetura dos sentidos e dos
sentimentos, uma arquitetura
se tornaria ao longo dos anos seu grande parceiro e colorista emocional”.
de suas obras.
51
A influência de Le Corbusier:
52
que regerá a implantação da Cuadra San Cristóbal em Los
Clubes. Não está mais interessado na nobreza da casona
tapatía com pátio central; a residência agora torna-se elemento
secundário, mero refúgio que ocupa uma pequena porção do
terreno para dar protagonismo ao jardim contido entre muros,
no qual os ensinamentos latentes de “seu mediterrâneo”
ressurgem vigorosos. Barragán começa a experimentar, na
arquitetura da paisagem, a espacialidade misteriosa obtida da
Le Corbusier. Apartamento Beistegui
fragmentação do espaço por planos geométricos, que Detalhe da escada externa entre muros
escondem passagens e insinuam continuidades. Tanto no
jardim quanto no terraço de cobertura da casa, mais uma vez
retorna a imagem de Le Corbusier, na escada emprestada do
apartamento Beistegui que encontra passagem entre muros
ortogonais. Barragán vende três desses jardins – e a casa – à
família Ortega, permanecendo apenas com uma pequena área
onde construiria a sua casa-estúdio definitiva, em 1946.
Nela o arquiteto criaria, num ambiente monástico e reservado, Cuatro Jardines (Casa Ortega), 1940
Jardins murados: mistério e continuidade
seu retiro-laboratório onde experimentaria, durante vinte anos,
as relações entre luz, cores e formas, a transição espacial e a
relação contemplativa com a natureza. A casa passaria ao
longo dos anos por reformas e adições sucessivas, bem como
alterações de cor e de aberturas 18, numa busca permanente 18. Para mais Ver o arquivo de
Esther McCoy. Disponível em: http://
por uma espacialidade íntima, frente a uma modernidade que w w w. a a a . s i . e d u / c o l l e c t i o n s /
container/viewer/Barragan-
se se tornava cada vez mais pública. House-1947-1948--492932
53
Partindo dos “Requisitos para a organização de El Pedregal”
escritos por Diego Rivera em 1935 (MARTINEZ, 2004, p.
24-26), Barragán se ocuparia por cinco anos em criar, em meio
à lava, o desenho do loteamento, as praças, alamedas e
chafarizes, realizando ali seu primeiro “aqueduto geométrico”
construído em pedra.
54
erótica que mobiliza o artista: “A beleza da arquitetura islâmica
- diz Barragán - reside no fato dos extremos se tocarem: o
mistério da religião e a magia da sensualidade, quase do
erotismo” (GARDUÑO, 1999, p. 61). A partir dessa
possibilidade de toque, sua arquitetura ganha novos horizontes
e seus espaços e paisagens passam a se tornar cada vez mais
sintéticos e potentes; Barragán começa a explorar a escala
como recurso emocional e tem início uma incursão definitiva e
sofisticada no universo cromático. A introspecção dá lugar à
extravasão de um novo mundo mágico, que passa a procurar
esse ponto de contato nas frestas da arquitetura e também da
realidade, na sensualidade bruja da beleza gerada por
sensações perceptuais. Casa-Estúdio em Tacubaya
A luz refletida nas paredes do
patamar de acesso ao terraço muda
Em 1955 e 1959 conclui, respectivamente a Casa Galvez e a de tom com a porta que dá ao
exterior aberta ou fechada.
reforma e ampliação do Convento das irmãs Capuchinas em
Tlalpan (D.F.). Nesses trabalhos, os efeitos cromáticos são o
foco de sua investigação. Barragán transcende o pigmento das
paredes e passa a pintar com os efeitos da cor filtrada ou
refletida, alcançando um novo patamar na criação da atmosfera
de seus espaços. Na capela do convento, um esbelto vitral
piso-teto realizado por Goeritz em vidro amarelo-âmbar, voltado
para oeste, configura a única fonte luminosa, escondida por
uma parede na lateral do altar. Essa luz é absorvida pelas
paredes ocres, pelo teto branco e pelo piso de madeira, criando
diferentes matizes a depender da hora do dia e das estações.
A luz do poente incide frontalmente num retábulo folhado a
ouro na parede oposta o qual, a depender da época do ano,
devolve um tom dourado que preenche completamente a
Capela das Capuchinas
atmosfera do ambiente. A cruz, paralela ao vitral e pintada no Tlalpan
55
Em 1957, Barragán é convidado a desenhar
uma fonte-marco urbano na entrada da Ciudad
Satélite a norte do D.F. Para o trabalho, convoca
como colaboradores Chucho Reyes e Goeritz,
que acabara de voltar de uma viagem a San
Gimignano, na Italia. A proposta resultou num
conjunto de sete torres de base triangular com
200 metros de altura, pintadas em diferentes
tonalidades de ocre para contrastar com o azul
do céu20 – um marco que seria visível de toda a
20. Hoje, conservadas por uma cidade. Por falta de orçamento, foram construídas apenas
fabricante de tintas, apresentam
cores primárias: azul, vermelho, cinco, tendo a mais alta delas a altura reduzida para 52 metros.
amarelo e branco.
Esbeltas à distância, parecem se mover conforme a
aproximação, entrelaçando-se até se tornarem enormes planos
cromáticos desprovidos de espessura, quando vistas
lateralmente.
21. Segundo Ambasz, a trilogia
equestre é composta pela Avenida
Processional (o Muro Rojo de las Em 1958, tem início o que Ambasz chamou de “trilogia
Arboledas), o Templo (a Fuente de
los Amantes, e a Academia (Cuadra equestre” de Barragán21 , quando sua arquitetura da paisagem
San Cristóbal. (AMBASZ 1976, 91p.)
atingirá a máxima expressão. Ele adquire em sociedade uma
22. O Muro Rojo é um monumental antiga fazenda na periferia a norte da Ciudad Satélite, onde
plano vermelho de 100m de
comprimento que se perde no projeta Las Arboledas (1958-61), seu primeiro loteamento
horizonte em meio ao verde das
árvores, o qual marcava o percurso dedicado aos amantes da equitação, vizinho a Los Clubes. Ali
equestre na entrada do loteamento. desenha três equipamentos públicos: A Fuente del
É quando o muro em grande escala
aparece pela primeira vez como Campanário, o Muro Rojo22 e a Fuente del Bebedero. Esta
geometria autônoma em meio à
paisagem. A Fuente del Campanário última foi a única que resistiu ao tempo. Situada sob a sombra
é seu primeiro aqueduto geométrico
emboçado e pintado, que seria dos pinheiros centenários que demarcavam a alameda triunfal
aprimorado nas obras de Los
Clubes. de acesso à fazenda – denominada Paseo de los Gigantes –,
trata-se de uma praça-fonte em que o arquiteto recria de forma
abstrata uma atarjea, bebedouro de animais da fazenda de sua
infância. A fonte consiste em um longo tanque preto apoiado
sobre o solo, formando, com o espelho d’água, um prisma
horizontal que termina num plano retangular vertical branco de
fundo, inserido em meio às árvores. Enquanto a água escura
duplica para baixo a imagem cristalina dos pinheiros, o plano
branco redesenha os mesmos em sombras verticais, criando
Fuente del bebedero, Las Arboledas,1959 uma ambiguidade perceptiva movente entre as imagens.
56
Em 1963, Barragán adquire a gleba vizinha, onde
desenvolverá, entre 1964 e 1968, o loteamento de Los Clubes,
analisado a seguir.
57
1.4. Segunda aproximação: análise do projeto
B
1. Entrada
7 2. Pátio
3. Quadra
4. Tanque Cavalos
5. baias
5 6. Selaria
9 7. Depósito de feno
8. apto. adestrador
3 10 9. Pista de trote
10. Treino
11.Jardim
12.Terraço
13. Estar
14.Jantar
15.Cozinha
16.Dormitório
A 4 A
6 17.Piscina
18.Caseiro
19. Gramado
B
11
12
13
14
19
16 16 16 15
11 2
17 18
N
1
Implantação
0 5 10 50
Corte A.A
Corte B.B
0 5 10 50
59
Na Cuadra San Cristóbal, Barragán cria a paisagem fantástica
em que finalmente realiza, no encontro de tradição, geometria
e natureza, a comunhão espiritual entre religião e erotismo que
perseguiu obsessivamente durante toda a vida – cujo toque
testemunhara no veráculo norte-africano. Nessa realidade
mágica, o jardim murado mediterrâneo encontra a pureza
corbusiana, embrujado pela geometria emocional de Goeritz,
pelas cores de Chucho Reyes e pelo cubismo de Orozco.
60
Situação
61
primeiro jardim embrujado –, a organização dos elementos que
compõem este rancho moderno obedece à narrativa da
memória do pueblo da infância do arquiteto – “[...] o aqueduto
atravessava a cidade chegando aos pátios, onde havia grandes
fontes para armazenar a água. Os pátios abrigavam os
estábulos [...]”. No entanto, a maneira como Barragán
estabelece as relações entre esses elementos abstraídos em
formas geométricas simples contrapostas ao verde da
natureza, ajustadas no próprio sítio, está ligada sobretudo à
lógica emocional da experiência espacial, aos efeitos das
relações topológicas e das diferentes visadas em perspectiva
que combinam fugas e frontalidades, enfim, aos mistérios que
a promenade architecturale revela por trás – e por dentro – dos
muros, mais do que à lógica regulada de decisões racionais de
projeto. Nessa síntese de seu jardim encantado, o partido
arquitetônico emocional estabelece as regras do jogo erótico
entre a geometria construída e a natureza envolvente, nas
ambiguidades geradas entre o fato físico e o efeito psíquico,
reforçadas pelos contrastes cromáticos e pela escala
surrealista que utiliza.
62
Um segundo eixo paralelo ao primeiro define o alinhamento
dos pilares que sustentam o telhado do estábulo, e portanto
marca a linha de sombra no limite oposto do pátio, a leste. Os
outros dois, transversais, determinam as posições do aqueduto
que separa os dois setores da implantação e o muro de fundo,
encerrando assim o vazio da quadra central.
63
O percurso
“A ideia mais bela possível está
intimamente ligada à ideia de
profundidade.”
Barragán
64
Ou seja, os curtos percursos estão associados aos diferentes
pontos de vista que revelam relações perceptuais diversas da
arquitetura, numa promenade composta por avanços, giros e
deslocamentos.
Os muros
“O mistério reside em ver parte de
uma árvore por detrás de um muro”.
Barragán
65
2º: No segundo muro de mesma cor, mais curto e mais alto (40
x 8m) que delimita a quadra a norte, as aberturas se
apresentam como dois estreitos e profundos cortes verticais
paralelos, que nascem à altura de um homem e se elevam
seccionando o plano para reforçar sua verticalidade e
espessura. Os vãos, cujos fundos são vedados em tábuas de
madeira rústica escura que reforçam a profundidade, agora dão
à geometria o aspecto de um enorme maciço cor-de-rosa. No
entanto, visto por trás, a partir do depósito de feno que
resguarda, vemos que a parede tem na verdade a espessura
de um tijolo. Sua falsa profundidade se revela nas abas
formadas pelos contrafortes em concreto que dão estabilidade
ao grande plano. Essa impressão de espessura aparece desde
as obras “mediterrâneas” em Guadalajara, na fachada da
Vista do depósito mostra os contrafortes
que dão a falsa espessura ao muro.
residência Gonzales Luna finalizada em 1929 e é também
utilizada em sua casa estúdio, na janela da fachada que se
projeta para fora do alinhamento, para dar ao vão na parede,
visto de dentro, uma falsa sensação de espessura.
66
Num rigor geométrico do arquiteto, a cumeeira do telhado
determina a altura do aqueduto alaranjado que se projeta
ortogonalmente, dando a impressão de que a água vem
conduzida de longe, por detrás da casa, como o aqueduto de
sua memória “que corria acima dos telhados e atravessava a
cidade toda, chegando aos pátios onde havia grandes fontes
de pedra para armazenar a água” (AMBASZ, 1976, p. 09).
67
perpetuação da vida foi novamente consumado, expresso na
mise en scène arquitetônica de Barragán (ALANIS, 1999, p.
172). O aqueduto em sua figura é a matriz que provê a água
26. “Fonte que serve para o banho
dos cavalos, daí as paredes que a fecunda, mas também é o muro que reserva o banho do
protegem” (BARRAGÁN apud
INGERSOL, 2001, p. 208). cavalo.26
Cor e luz
68
tanque é recoberto por seixos rolados marrom-escuro. A cor
refratada não é a do céu, mas a do frondoso verde que envolve
a fonte, o que gera, em vez do turquesa, uma superfície verde-
musgo. Ela então reflete em seus infinitos pequenos ângulos o
cor-de-rosa dos muros. O resultado é uma epifania cromática
que ilumina os mais profundos recantos dos sentidos e das
emoções.
O tempo
Espelho d’água Cuadra San Cristobal
69
Fuente de los Amantes
71
Ali estão, reunidos sob a mesma geometria do aqueduto de
sua infância, revelados por pontos de vistas opostos, os dois
mundos de Barragán. O embrujo que o arquiteto perseguiu por
toda uma vida revela-se na fonte: loucura transformada em
locus, entre geometria e natureza, sob o canto do silêncio.
72
AS CORES
espelho d’água
contraste dissolução
espelho d’água
contraste dissolução
Lista das obras visitadas em ordem cronológica:
Naquele sítio, um maciço rochoso interrompe as três linhas paralelas: encontro do mar
e do céu, da praia e do mar, longo muro de suporte da via marginal.
Alguém pensou em proteger uma depressão desse maciço, utilizando-a como piscina
das marés.
Mas o Atlântico não é o Mediterrâneo, nem é simples construir uma piscina onde
poucas se fazem: tratamento da água, captação difícil, regulamentos exigentes,
aprovação dependente de uma série de organismos. “O melhor é chamar um
arquitecto.”
Esses percursos existiam (em terreno difícil, a gente sabe escolher o sítio onde pôr os
pés), a piscina existia, os muros são paralelos ao muro de granito da avenida, do qual
apenas se destacam. Aqui e além, pequenas intervenções consolidam as plataformas
naturais.
Pouca coisa mudou. Nas primeiras marés o mar levou um bocado de muro, corrigindo
o que não estava bem.
Durante sete anos ainda, como Jacob, o arquiteto estudou os remates, a norte e a sul,
onde era difícil a entrega do que se fez ao que existia.
De tal sorte que daí resultou um plano da marginal, e o entregou e disso foi pago.
E alguém disse: “Qualquer um sabe onde pôr os pés, e é suposto que um arquitecto
ponha os pés em sítios diferentes dos de toda a gente”.
E logo o despediram.
78
Leça da Palmeira
Quinta da Conceição
Piscina Oceânica
Matosinhos
Porto
Capitulo 2
rio Douro
Álvaro Siza e a construção da natureza
Colaboradores:
Beatriz Madureira, António Madureira
Ano (projeto/construção):
1961 / 1966
Área construída:
2000m2
Localização:
Av. Da Liberdade, Leça da Palmeira, Matosinhos, Portugal
79
2.1. Introdução
Na virada dos anos 1960, enquanto Barragán, já no ocaso de 1. “Tudo há que refazer, começando
pelo princípio” escreveu Fernando
sua produção atingia a síntese poética de sua “arquitetura Távora em 1947 em seu ensaio “O
problema da casa portuguesa”.
emocional”, do outro lado do Atlântico Álvaro Siza recebia, aos Representante do Porto nos CIAM,
Távora defendia que a verdadeira
vinte e seis anos de idade, a incumbência de projetar uma identidade portuguesa surgiria de
“Piscina de marés” (1961-1966) na costa de Leça da Palmeira. um profundo conhecimento do
vernáculo utilizado como alicerce
para a aplicação dos novos
Naqueles anos, os arquitetos do Porto, alheios a grandes paradigmas da modernidade. Entre
a estagnação do estilo “português
encomendas oficiais e do capital financeiro concentradas em suave” - como era conhecido o
pitoresco oficial - e o funcionalismo,
Lisboa (PORTAS, 1990, p. 42), andavam em busca de uma o sincretismo que o grupo de Távora
defendia ficou conhecido como
verdadeira expressão para a “casa portuguesa”, mergulhados “Terceira via”: “uma arquitectura que
concilia contemporaneidade e
entre a raiz do vernáculo e as “tendências renovadoras – do tradição, não pondo em cheque [sic]
neorrealismo italiano ao neoempirismo nórdico e às formulaçõe o segundo, privilegiando o primeiro”.
(TRIGUEIROS apud CLEMENTINO,
s das mais jovens gerações que contestaram a tradição dos 2013, p. 19).
O antropólogo João Leal sustenta a
CIAM” (COSTA, 1990, p. 12). Cativados pelos ideais do “invenção da saudade” como tema
estruturante da identidade
professor Fernando Távora1 , Siza e seus colegas viam-se portuguesa e fonte de motivação de
grupos dos trabalho que iniciaram
empenhados em experimentar processos próprios não estudos etnográficos sistematizados
estabelecidos a priori, à procura da “verdade” não em um novo durante a década de 50, entre os
quais aquele dos arquitetos que
estilo, mas como resultado de uma nova atitude2 : “O estilo não culminou no Inquérito à Arquitetura
Popular em Portugal, do qual
conta, conta sim a relação entre a obra e a vida” (TÁVORA Fernando Távora e Siza fizeram
parte. (GOMES, 2008).
apud COSTA, idem).
2. Siza nega a existência de uma
coesão formal que possa ser
Num espectro mais amplo, a geração tardo-moderna formada chamada de “Escola do Porto”:
no pós-guerra à qual Siza pertence, tendo incorporado a ideia “Houve um surto de euforia acerca
da ‘Escola do Porto’, utilizada
de “identidade” reivindicada pela chamada ”terceira-geração”, também politicamente, que eu me
sinto obrigado a combater porque é
passa a colocar a questão da “continuidade” na arquitetura falsa, fruto de pura hipocrisia. Pode-
se falar de influências pessoais, de
numa acepção mais ampla, substituindo definitivamente aprendizagem mútua, mas não de
uma escola, existem diversas
qualquer resquício romântico na visão sobre a localidade por pesquisas numa arquitectura que
uma reflexão crítica sobre a história e sobre o contexto. Trata- hoje é plural, com muitas afinidades;
mas se se olha para a cidade, dizer
se de um momento de profunda revisão da modernidade, em ‘Escola do Porto’ significa dar uma
péssima definição.” (SIZA apud
que, junto ao crescimento das metrópoles, florescia o debate ESPÓSITO, 2003, p. 7-9).
81
3. Em 1966, ano em que é concluída sobre a cultura de massa e sobre o ambiente urbano3 . Os
a obra da Piscina de Leça, são
publicadas as primeiras edições de arquitetos avançavam sobre a dimensão humana da disciplina,
Complexity and Contradiction in
Architecture, de Robert Venturi,
passando a se debruçar sobre os próprios fundamentos do
L’Architettura della Città, de Aldo processo arquitetônico, em busca de novos paradigmas
Rossi, e Il Território dell’Architettura,
de Vittorio Gregotti. empíricos e intelectuais capazes de costurar novas relações
entre arquitetura e a sociedade.
82
Se no projeto da Casa de Chá Boa Nova (1958/63), iniciado
dois anos antes no mesmo ambiente dramático da costa
litorânea, a força do rochedo se sobrepõe inevitavelmente à
tabula rasa como matriz para o desenho do arquiteto, é na
Piscina de Leça que o imbricamento entre preexistência
geográfica e intervenção se aprofunda radicalmente, dando ao
“sítio” sua condição definitiva: além de princípio, torna-se
método5 de projeto. Isso significa que a paisagem deixa de ser 5. “Olhando suas primeiras obras se
percebe algo que só pertence à
objeto-estético sobre o qual trabalhar, para encontrar, na Siza, algo que com o passar do
tempo se tornará mais sutil […]: o
modificação de suas próprias características, um novo campo interesse pelo caráter específico do
sítio que chega a ser matéria-prima
expressivo para a arquitetura. Nesse deslocamento, o projeto e método do projeto.” (HUET, 1979,
transcende a autonomia do edifício para estabelecer-se como p. 176)
83
2.2. Primeira aproximação: visita à obra
Realizada em março de 2015
85
Caminhando junto ao longo muro que sustenta a avenida
marginal, um olhar menos atento não percebe a construção. A
paisagem é abrangente e a claridade da primavera obriga a
cerrar os olhos para enxergar no azul a longa linha do
horizonte. À esquerda, o velho molhe do porto delimita a praia
e estende a terra mar adentro, impondo o engenho humano na
paisagem natural. À direita, avista-se ao longe o antigo farol.
Abaixo, espessas ondas se desfazem contra o rochedo,
levantando o odor salgado trazido pelo vento que ameniza o
calor. Nesse violento encontro, sólidas geometrias costuram o
desenho que faltava à natureza para domesticar em piscinas a
força das marés. O conjunto se apresenta numa sequência
longilínea de telhados baixos apoiados ao parapeito da
avenida, a não mais de um metro do solo. Seu jogo de águas
únicas de suave inclinação reforça a horizontalidade
predominante, projetando o olhar para o oceano ao qual se
funde em verde-cobre. O jardim gramado é interrompido pelo
alargamento do passeio, onde, num canto junto ao muro, nasce
a discreta rampa que afunda paralela à avenida.
86
Despidos e descalços, somos lançados de forma brusca à luz.
A claridade cega novamente, exigindo uma nova pausa. Ao
recobrar a visão, a presença do mar nos é ainda
caprichosamente negada pela frontalidade de um novo muro,
pouco mais alto que a linha dos olhos, num betão bruto em que
a ação do tempo e das intempéries revela o agregado de areia
e pedra condensado pela geometria. Sua presença
inescrutável nos resigna a cumprir o percurso ainda necessário
até o encontro com as águas do oceano. “A distância imposta
deverá ser vencida com tempo e solenidade.” (TRIGUEIROS,
2004, p. 54)
88
2.3. Genealogia da imaginação
90
Em seu processo avesso a regras preestabelecidas – “dizem-
me que não tenho teoria de suporte nem método” –, Siza busca
no sítio um lugar seguro onde pôr os pés – “e é suposto que
um arquitecto ponha os pés em sítios diferentes dos de toda a
gente” – para então partir “como uma espécie de barco ao
sabor das ondas [em que] Posso ser visto só, passeando no
convés como um fantasma. Não toco o leme, olhando apenas a
estrela polar […] estudando correntes e redemoinhos,
procurando enseadas seguras antes de (ar)riscar. Não aponto
um caminho claro. Os caminhos não são claros”. (SIZA, 2009,
p. 28) . Sobre o processo de projeto, Siza faz sua reflexão:
91
ordem da razão e o que é da ordem da pulsão”, não como
entes opostos, mas complementares. É nesse processo cíclico
de retomada e reinterpretação crítica que Siza estabelece seu
método, numa “espécie de arqueologia autônoma, uma
estratificação de experiências anteriores, de erros e suas
correções, presentes de uma forma ou outra no modelo
definitivo que constrói por acumulação e simplificação de
invenções sucessivas, para converter-se finalmente em
premissas para modelos ulteriores”. (GREGOTTI, 1972, p.186)
92
que se reflete na diversidade de adjetivos encontrados na
literatura sobre o arquiteto, muitas vezes contraditórios entres
si: moderno, tradicionalista, situacionista, deconstrutivista,
minimalista ou barroco. Se é verdade que a obra de Siza
encontra qualificação em todos eles a um só tempo, por outro
lado, como resume Alexandre Alves da Costa, “ressalta que
nada está explicado porque, de facto, sua obra é a única
verdade”. (COSTA, 1990, p. 12).
93
digna” (TRIGUEIROS, 2004, p. 91), em “um reflexo da dureza
que compõe a humanidade silenciosa do povo
português” (GREGOTTI, 1972 apud SIZA, 1990, p. 188).
Construção e Natureza
A natureza – criadora do homem –
e o homem – inventor da natureza.
Siza (2009, p. 300)
10. São vários os momentos em que Siza conta que sua obsessão pela relação entre construção e
Siza trata do tema. Por exemplo
quando explica o pódio sobre o qual natureza10 surgiu ainda na infância, quando esteve doente e
se eleva a igreja de Marcio de
Canaveses: “[…] é por isso também
teve que fazer um prolongado repouso:
a construção de um lugar em
substituição de uma escarpa muito
acentuada. A plataforma habitada
[…] Recordo um equilíbrio perfeito entre o construído e a
devia portanto surgir como uma natureza […] porém não podendo me deslocar para além
natureza construída” (SIZA, 2012a,
p. 51). Sobre a Fundação Serralves, da varanda, comecei a odiar a paisagem, que a partir daí
diz que o jardim – cuja visão desde
o interior do edifício justifica a se tornou obsessiva. Senti assim, sempre e cada vez
posição das aberturas – “se revela
como uma máquina perfeita para a mais a necessidade dessa ligação. (SIZA, 2012a, p. 47).
utilização da natureza” (SIZA,
2012a, p. 73).
De sua confessa obsessão, o arquiteto estabelece seu
parâmetro disciplinar:
94
O objetivo da arquitetura – a função da a rquitetura –
consiste em tornar imperceptível a dificuldade de
controlar a contraditória relação entre interior e exterior,
entre proteção e abertura, entre luz e penumbra: ou
ninguém se sentirá em casa. Desenvolver um projeto
consiste em ultrapassar a perene oposição entre
natureza e criação humana. Tudo deverá surgir
inevitavelmente evidente. (SIZA, 2009e, p. 329)
95
época pela visão que os “jovens italianos” tinham do sítio como
matriz para a arquitetura, torna-se possível estabelecer um
paralelo entre eles. Pese a diferença fundamental entre o
processo orgânico de Siza e a retórica fenomenológica
estabelecida por Gregotti em seu “catálogo de aproximação
formal”, vemos que ambos encontram na ordenação da
12. Para C. Norberg Schulz, os
modos geométricos são a síntese de
geografia – sua modificação12 – a ponte de contato entre o
estruturas topológicas básicas, que homem e a natureza.
cumprem a função de representação
do imago-mundi, último estágio da
tríade (reconhecer, simbolizar, No caso específico da Piscina de Leça, projeto em que Siza
significar) pela qual o homem
estabelece sua relação com a leva ao limite essa fronteira, vemos que o arquiteto não
natureza: a arquitetura usa a
geometria para tornar patente um intervém deliberadamente sobre a paisagem, mas encontra na
sistema geral de grande
abrangência, como ilação de ordem geometria a resposta justa para cada matriz identificada na
cósmica, cujo propósito existencial é
fazer um sítio tornar-se um lugar.
preexistência. É o ponto de congruência entre a intervenção e
Isso significa revelar os significados a preexistência que lhe interessa, tópico da mais alta
presentes de modo latente no
ambiente dado, concretizando o importância para Gregotti no processo de projeto, abordado no
genius loci. É o ato de construir que
faz com que as coisas surjam como segundo capítulo de O Território da arquitetura: “A forma do
são, dando às coisas sua face e aos
homens, a visão de si mesmos, ao território”. Colhemos então três trechos que resumem um
revelar significados antes ocultos.
“O objetivo primordial da arquitetura
método que nos ajudará a compreender o processo de Siza
é tornar o ‘mundo’ visível, e o mundo junto ao rochedo.
que ela torna presente consiste no
que ela reúne” (NORBERG-
SCHULZ, 1984, p.444). Diz Gregotti:
96
processo produtivo, mas da outorga de sentido que
converte em objeto-estético o que antes era simples
coisa da natureza […]
97
II. Partindo de uma primeira leitura da preexistência – “Três
linhas paralelas: encontro do mar e do céu, da praia e do mar,
longo muro de suporte da via marginal” –, Siza faz a distinção
entre as duas paisagens descritas por Gregotti: “Aquela área
se caracteriza pela presença de um limite. Um muro, suporte
da zona urbana, delimita a praia, as rochas e o oceano, com
Piscina de Leça. Croquis
toda aquela força que o Atlântico possui” ;
E então conclui:
98
interligação do construído com o existente está mais ligada à
dissolução da arquitetura numa topografia complexa do que à
ideia de um Gesamtkunstwerk” (TRIGUEIROS, 2004, p. 53).
99
Formação da linguagem
100
de contestação à monumentalidade fascista do nacionalismo
oficial, amparando seus novos ideais, no entanto,
101
Fernando Távora foi para Siza não apenas um mestre
intelectual nos anos de formação, mas também aquele
promoveu suas encomendas expressivas iniciais, hoje tidas
como seus “primeiros trabalhos”. Ao receber a comissão para a
Piscina das Marés, o jovem Siza se encontrava já a cargo de
dois outros importantes projetos para a municipalidade
outorgados por seu professor: a Casa de Chá Boa Nova
(58-63) e a Piscina do Parque Quinta da Conceição (58-65). As
três obras resultam de uma iniciativa de revitalização turística
do entorno da área portuária, levada a cabo no final dos anos
1950 pela Câmara de Matosinhos, sua cidade natal. Em que
pese a quase concomitância dos encargos e suas
semelhanças – geográfica em relação ao primeiro, o rochedo
litorâneo da avenida da Liberdade, e programática quanto ao
segundo, as piscinas públicas –, a diversidade das soluções
apresentadas em cada caso revelam em Siza uma precoce
“postura crítica em relação à criação do lugar e [a]
sensibilidade em relação à conformação do território como
precondição para a arquitetura” (FRAMPTON, 1990, p. 10). Em
conjunto, essas obras mostram um caminho coerente e a
versátil habilidade do jovem arquiteto na experimentação das
diferentes referências que absorvia vorazmente para a
construção de uma linguagem autônoma. Em todo caso, como
bem definiu Alexandre Alves da Costa, “explicando o contexto
geral em que Álvaro Siza inicia sua atividade de arquitecto,
ressalta que nada está explicado porque, de facto, sua obra é a
única verdade” (COSTA, 1990, p. 12).
102
Situada ao final da avenida marginal, está implantada num
promontório rochoso junto ao mar definido por Távora, vizinho
a uma antiga capela e a um farol. “Um local dificílimo, mas
realmente fantástico (SIZA, 2012a, p. 33) […] cuja
Casa de Chá Boa Nova. Corte
extraordinária beleza incutia temor no arquiteto que dava seus
primeiros passos na atividade (SIZA, 2012a, p. 25). Por
precaução, o jovem Siza integrou a construção à paisagem,
amparando na linguagem vernacular o devido respeito ao forte
simbolismo preexistente naquele lugar. O edifício, portanto, se
implanta no contexto como uma construção baixa,
caracterizada por um jogo de telhados de grandes águas quase
escondido em meio ao rochedo, ancorado a este por meio de
grossas paredes caiadas de branco, que ressoam a forte
presença da pequena capela lindeira. “Parece uma decorrência
da paisagem, afirma-se sem ser passiva e, ao mesmo tempo,
reafirma a natureza” (SOARES, 2002, p. 22). Do interior, o
restaurante se abre em meio às rochas como um confortável
belvedere de onde se avistam a capela e o mar, cujos interiores
requintados contrastam com a dramaticidade da paisagem
natural. O acesso a partir da avenida foi definido por um
percurso geométrico em meio a um areal, assim descrito por
Paulo Varela Gomes:
103
O Parque da Quinta da Conceição, localizado na freguesia de
Leça da Palmeira, ocupa a área de um antigo convento que
remonta ao período manuelino. Távora, responsável por sua
requalificação, incumbe Siza de projetar a Piscina no alto de
uma colina em meio aos pinheiros centenários. Aqui, Siza
Piscina em Quinta da Conceição
Acima: implantação minimiza a expressão figurativa do vernáculo para se
Abaixo: corte transversal
concentrar na questão do território, encontrando no desenho do
acesso à Casa de Chá a solução a ser retomada e
desenvolvida. Os muros brancos agora abrem caminho para
uma sucessão de escadas e patamares que transformam a
arquitetura num exercício essencialmente topológico realizado
na nova topografia estabelecida pelas Ordens geométricas. A
obra se configura como um percurso ascendente e circundante
que propõe uma sequência de visadas ora includentes, ora
excludentes, ao tapar e revelar a paisagem de acordo com a
orientação e a altura que as paredes atingem em relação ao
piso. O caminho conduz o visitante a um platô elevado central,
uma espécie de pódio ou plataforma que surge no alto do
promontório como recinto-jardim onde a piscina ocupa o lugar
de um antigo tanque de rega, protegida na paisagem bucólica
das árvores centenárias circunstantes. O constructo definido no
estirador do arquiteto passa a cumprir, portanto, um papel
preponderante de modificação física do ambiente e, portanto,
de “criação do sítio”. Segundo Gregotti:
104
do edifício com o que preexistia” (SIZA, 2012, p. 27), a piscina
do Parque de Quinta da Conceição constitui, em si, um ensaio
essencialmente topográfico de arquitetura, no qual a operação
construtiva recria a morfologia do território, impondo uma nova
geografia por meio de sua geometrização. Aqui, no entanto,
Siza ainda marca clararamente a distância entre artifício e
natureza, no percurso tratado como um sistema “fechado”
pelos muros brancos que se impõe em meio ao verde das
árvores.
105
otimizar as condições existentes, capazes levar aquele
existente de um sentido a outro.
Desdobramentos
106
projetos posteriores. Vemos, por exemplo, no Centro Galego de
Arte Contemporânea (1993), em Santiago de Compostela,
como o difícil contexto do tecido histórico e a forte presença do
mosteiro tornam-se determinantes para a precisa inserção e a
materialização do novo edifício. Ele se coloca em franco
diálogo com a construção secular, amparado pelo belo
percurso-jardim geométrico desenhado pelo arquiteto; este
reconstrói, entre as ruínas, o caminho ascendente em direção
ao antigo cemitério ao final do parque. A pátina adquirida pelo
granito da fachada ao longo do tempo torna difícil, por
momentos, distinguir o que é novo do que estava lá há
Centro Galego de Arte Contemporânea.
séculos. Vista do jardim
107
‘E hoje: redescobrir a mágica estranheza e a singularidade das coisas evidentes’
Álvaro Siza (Oito Pontos)
109
2.4. Segunda aproximação: análise do projeto 1. Rampa de acesso
2.4 Segunda aproximação 2. Rouparia / Vestiários
3. Vestiários
Análise do projeto 4. Circulação
5. Ponte
6. Praia
7. Tanque nadadores
8. Tanque crianças
9. Estar
10. Snack-bar
11. Sanitários
12. Arrecadação
13. Captação de água
14. Tratamento de água
15. Vestiário funcionários
11 1
15 12
3 2 3 13
14 10
4 10 12 12
5
10 6 9
0 5 10 N 50m
111
Situação
Gênese do projeto
112
O local foi determinado numa depressão em meio às rochas
graníticas, onde o mar se encarregava de formar um pequeno
lago nas marés altas. Ali, o engenheiro Ferrão desenhou uma
piscina clássica, encerrada por quatro muros. Durante a obra,
percebendo o inevitável impacto que o projeto causaria à
paisagem, propõe à Câmara, por indicação de seu irmão, a
contratação do jovem arquiteto para auxiliá-lo. Siza então
manda demolir as paredes que não estavam bem, tirando
partido do próprio rochedo para fazer a contenção. “Nasceu
assim uma ligação muito mais estreita entre aquilo que é
natural e aquilo que é construído.” (SIZA, 2012a, p. 27)
O projeto ocupou por quatorze anos a prancheta do arquiteto, 16. A primeira fase (1962) consistiu
na construção dos tanque de
sendo desenvolvido em diferentes fases16, e acabou por incluir nadadores e de crianças. Na
segunda fase (não datada), foram
um plano para toda a orla litorânea que foi executado incorporados os vestiários e
parcialmente. sanitários. As terceira e quarta fases
(1973) incluíram a ampliação das
instalações, novos vestiários e o
snack bar, corresponde ao que hoje
está construído. Havia ainda a
previsão para um restaurante a
Referências norte do conjunto, que não foi
executado. Para mais detalhes
sobre as fases de projeto, ver
Minimizando a presença do vernáculo e de Alvar Aalto, Siza Trigueiros, 2004, p. 10-34.
São vários os aspectos da obra que certamente interessaram 17. Apesar de Siza não utilizar o
concreto ciclópico na piscina, o
Siza e podem ser vistos revisitados à sua maneira na Piscina: a agregado graúdo exposto no
concreto lhe confere uma expressão
horizontalidade da pesada construção baixa e alongada bem análoga de rudimentaridade, do
assentada na paisagem, o muro em concreto ciclópico17 que dá material natural submetido ao
trabalho do homem sob a condição
a inércia e a rudimentaridade necessárias para intervir no de geometria.
113
ele flutua em água única – mais especificamente o desenho da
estrutura da cobertura e sua fixação lateral ao concreto –, o
uso das escadas no acerto da topografia e, por fim, a
referência mais conhecida e declarada do arquiteto, a presença
determinante no desenho do ângulo rotacionado a 45º em
relação ao eixo regulador, reproduzido por Siza no snack bar
como arremate do conjunto. A honestidade do concreto tosco
Frank Lloyd Wright: Taliesin West
dos muros – utilizado por Siza unicamente nesta obra – parece
19. “A determinação para cada também encontrar inspiração na fase “mediterrânea” de Le
construção de uma concepção do
ponto de vista do espaço, da Corbusier ou no novo brutalismo inglês, que gerava na época
estrutura e da organização dos
materiais, o que expresso com grande interesse no ambiente da Escola do Porto, dada a
honestidade conduzirá a uma
imagem arquitetónica inconfundível,
aproximação de Távora ao Team X nos últimos CIAM19 . Com
a um habitat ideal para cada lugar algum esforço podemos encontrar ainda outras referências
preciso em cada momento preciso
aproximou-o das formulações do menos prováveis, como ao refeitório da Universidade de
recente movimento
neobrutalista” (BANHAM apud Jyvaskyla de Aalto, ou uma lembrança dos planos alongados
COSTA, 1990, p. 13)
de Mies van der Rohe enxergada por Montaner, ou ainda uma
reinterpretação das curvas do plano livre de Le Corbusier, na
forma da piscina para crianças, proposta por William Curtis.
Implantação
114
O primeiro trecho, norte-sul, define uma construção baixa e
longilínea, ancorada como um barco no arrimo da marginal, do
qual se desgarra numa sucessão de outros longos muros
paralelos à avenida, fazendo ressoar sua sólida geometria em
afastamento lento e contínuo da cidade, numa nova geografia
que é ainda puro artifício. O percurso que cria conecta a
avenida à praia para conduzir o homem da civilização de volta
à Terra, num longo trajeto que prepara o banhista para o
encontro com a natureza. O arquiteto dispunha de pouca
distância, não mais que cinquenta metros, para acomodar o
programa e vencer o desnível de cinco metros entre a cidade
na cota superior e rochedo junto ao mar. A solução então
aproveita uma pequena deflexão na longa contenção
preexistente, “um antigo atalho para a praia”, para ali encravar
a construção apoiada numa plataforma semienterrada, situada
2,20 metros abaixo da avenida. “Uma arquitetura de grandes
linhas, de paredes compridas, que buscava um encontro com
os rochedos no lugar adequado.” (SIZA, 2012a, p. 27). O
desenho resultante não só reforça a horizontalidade
predominante, preservando a vista da paisagem a partir da
avenida, mas transforma o revés em oportunidade para
resolver o programa numa sequência de “percursos em
ziguezague, que produzem uma contraditória sensação de
profundidade” (SIZA, 2012a, p. 27): uma promenade
descendente e ritual, na qual o homem civilizado deixa a
cidade para trás para ir de encontro à natureza no oceano
cativo das piscinas. A construção se destaca não mais que
doze metros da linha do arrimo até alcançar a areia,
convertendo essa pequena distância num percurso de
aproximadamente oitenta metros entre a avenida e a praia.
115
caminho ao banhista no acesso às piscinas – “aqui e além
pequenas intervenções consolidam plataformas naturais”.
Essas marcações geométricas sobre o território, feitas do
próprio material – areia e pedra agregadas em concreto –,
apenas modificam a percepção da paisagem, ao dotá-la de um
relevo antes inexistente, reunidas sob a familiaridade da
geometria. Junto ao rochedo, se ocupa de complementar as
arestas que faltavam à natureza para conter o mar de forma
definitiva, transformado-o em piscina.
116
em ângulo, cujo desenho é o negativo da de Wright na casa do
deserto. Essa escada configura uma pequena arquibancada
em V de onde se aprecia a vista: a aresta definida pelo eixo
propõe a mesma vista do molhe, enquanto a oposta mira para
o centro da piscina. Num capricho do arquiteto – ou da
natureza –, o ângulo reto formado pelo encontro dos eixos em
meio ao rochedo desenha a parede que a este faltava para
resolver a contenção de água na piscina. avista o molhe avista o centro
de frente da piscina
O Corte
+7.50
+5.20
O corte nos mostra que o percurso está resolvido em três +2.70
níveis principais:
117
piscinas oceânicas públicas. O sistema de longos muros
resolve o revés da pequena distância e do desnível num
percurso ritual que une os dois mundos, natural e construído,
numa nova geografia. O encontro entre eles se dá em nível
(cota +5,20), por meio de uma ponte, símbolo máximo da
imposição da técnica sobre a natureza, de modo que a
transição entre eles ocorre de forma fluida.
O Percurso
20. Frampton subdivide o “lugar” em O rito litúrgico do banhista está dividido em seis momentos
cinco elementos intimamente ligados
entre si: 1. a avenida como elemento distintos 20:
linear; 2. os vestiários de concreto
(aqui Frampton comete uma
imprecisão, pois na verdade o 1. A “cota zero” da avenida: de onde se parte antes do limite
material predominante é a madeira);
3. as rochas que afloram do terreno; enxergado por Siza na longa contenção que sustenta a cidade
4. as piscinas esculpidas; 5. as
incessantes agitações do mar
e de onde se tem a vista geral da paisagem, como objeto-
(FRAMPTON, 1990, p. 11). estético;
118
trás. Agora, o homem caminha só confinado entre muros,
adentrando um novo território desconhecido que é pura
construção rústica. A natureza torna-se abstração no jogo
movente entre luz, sombra e o céu recortado pela geometria;
119
O Muro
120
conduzir o percurso, proteger do vento, desenhar o céu e
sobretudo negar caprichosamente a paisagem com sua
provocativa altura de 1,95m, para finalmente abrir-se
enquadrando a natureza. Torna-se então ponte, antes de
desmaterializar-se na areia em pequenas plataformas que
tornam dócil o inóspito território. Por fim, alcança seu
derradeiro propósito e expressão junto ao oceano, contendo
suas águas em piscinas públicas, fundido ao rochedo em
comunhão com a natureza.
121
um banco). Na entrada dos vestiários atinge 2,75 metros, ou a
altura de um parapeito para a cidade. Junto à praia, na saída
dos vestiários, chega a 30 metros de comprimento com apenas
1,95 metro de altura, ou pouco mais que a altura dos olhos,
tornando-se obstáculo quase transponível, mas que nega a
paisagem, evocando aquilo que Paulo Varela Gomes definiu
como um “percurso mental que o observador segue para a
compreender enquanto algo que está para-lá-de”. (GOMES
apud SOARES 2002, p. 24). Finalmente atinge sua máxima
altura, como num último suspiro, antes de abrir-se
2.75m
1.95m
Detalhe do sistema de fixação das que o peso da horizontalidade estereotômica dos muros,
divisórias dos trocadores firmemente sedimentados sobre o terreno, dá lugar à leveza
25. interessa a discussão que tectônica25 da construção em madeira da cobertura e das
Frampton levanta sobre o tectônico
e o estereotômico em seu livro
divisórias flutuantes dos trocadores, que não tocam o solo
Studies in Tectonic Culture e diretamente, sugerindo uma discreta verticalidade. O pouco da
retomada por Campo Baeza em “O
plano horizontal plano”: “[…] O claridade indireta que penetra no ambiente de pé-direito baixo,
estereotômico referido ao pesado, o
gravitacional, o imóvel, o unitário, o pelas frestas entre o telhado e o muro, é rapidamente
contínuo. O tectônico referido à
leveza, ao móvel, ao fragmentado, o absorvido pela madeira rústica e negra das baias individuais.
descontínuo. Não imaginava
Frampton a capacidade de gerar
novas arquiteturas contida nessa Colocadas em sequência linear, essas baias formam um
ideia que recuperou de Godfried
Semper” (BAEZA, 2013, p. 44).
conjunto uno que ocupa longitudinalmente o centro do recinto,
criando dois corredores de acesso laterais junto aos muros, um
de cada lado, tornando-se assim passagem obrigatória. São
constituidas de um sistema linear de paramentos, paralelos e
122
fixos, com portas de ambos os lados, tracionado às vigas do
telhado, que por sua vez apenas se apoiam sobre os muros de
concreto perimetrais. Tal solução, própria para o material, além
de evitar o contato da madeira com a umidade do solo permite
à exígua luz difundir-se pelo piso de forma gradual e contínua,
garantindo o contraste mínimo necessário para que o banhista
enxergue o caminho a seguir. O tempo necessário à operação
à qual se destinam os trocadores converte a escuridão em uma
meia-luz condizente tanto com a privacidade exigida pelo uso
Detalhe da entrada de luz nos
quanto com o aspecto desejável ao ambiente. vestiários pelos vãos entre vigas da
cobertura
A Luz
123
O Tempo
124
Eduardo Chillida. El Peine del Viento. San Sebastian, Espanha. (1952)
125
Lista das obras visitadas em ordem cronológica:
127
129
“ Quando, representando os fieis adscritos ao Honpukuji, o senhor Satoshi Iue, da
Sanyo Denki, me consultou sobre o projeto, logo me veio à mente a cena de um lago
com sua superfície de nenúfares selvagens, que eu vira na Índia quando jovem.
Ao levar a ideia do santuário aos monges e aos fiéis que o patrocinavam, fui
recebido com uma forte reação contrária: ‘É um absurdo colocar água sobre um
santuário tão importante! É inimaginável um templo sem telhado! ’.
O senhor Iue se viu em maus lençóis, posicionado entre os fiéis que patrocinavam a
construção e o arquiteto. Após muita reflexão realizou-se uma consulta ao monge
superior Daiki Tachibana, do Templo Daitoku, com quem mantinha boas relações de
amizade e que na época contava com mais de noventa anos de idade. Ao ouvir
sobre a construção, a resposta do monge superior foi inesperada: ‘É fantástico entrar
no santuário por entre nenúfares, que simbolizam o ponto de partida do budismo.
Executem sem falta essa construção’.
130
Awajishima
Templo da Água
Baía de Osaka
Capítulo 3
Tadao Ando: território intervalar (Ma)
Templo da Água
Awaji, Japão
Ano (projeto/construção):
1989/91
Área construída:
860m2
Localização:
1310, Ura Higashiura-cho, Hyougo-ken,
Tsuna-gun, Awajishima, Hyogo, Japão.
131
3.1. Introdução
133
1. “Depois da Segunda Guerra, justamente a “perda” dessa natureza e da espiritualidade, que
quando o Japão experimentou um
rápido crescimento econômico, a acompanhou a forte assimilação ocidental a partir do pós-
hierarquia de valores da sociedade
sofreu uma profunda mudança. O guerra com o desenvolvimento massivo do ambiente urbano –
excesso populacional das zonas
urbanas tornou impossível sustentar até então, a vida japonesa era essencialmente rural –, que
o aspecto mais singular da antiga
arquitetura residencial japonesa: sua
Ando procura restituir por meio da potência simbólica da
profunda vinculação com a natureza abstração ocidental1 , e que configura o tensionamento cultural
e sua abertura ao mundo natural.
[Com minha arquitetura] procuro que marca a sua poética arquitetônica.
fazer a restauração da unidade entre
a casa e a natureza, qualidade que
se perdeu no processo de Enquanto as primeiras gerações de arquitetos modernos
modernização”. (ANDO, 1982/84, p.
141) japoneses 2 buscaram associar o ethos local à linguagem
Essa “perda e recuparação da
natureza” é uma questão que moderna, Ando sofisticou esse diálogo, colocando em choque
concerne aos três arquitetos aqui
estudados, apresentando grande
direto em sua arquitetura a essência culta extraída dessas
ênfase na obra de Barragán: matrizes – espiritualidade e abstração –, deslocando, com isso,
“Atualmente [...] o homem não se
encontra com a Natureza, mesmo seu ponto de contato de uma relação cognitiva direta, para o
quando deixa a cidade para
comungar com ela. Fechado em seu significante da experiência fenomenológica, naquilo que chama
automóvel reluzente, com seu
espírito selado [...] o homem é, “espaços sensitivos-fundamentais” (ANDO, 1984, p. 134). Seu
dentro da Natureza, um corpo
estranho [...] A natureza torna-se um
método consiste no uso de formas puras dispostas segundo
refugo da Natureza, e o homem um um sistema que denomina “teoria das partes” (ANDO, 1984, p.
refugo do homem” (MARTINEZ,
2004, p.44). 139), por meio do qual efetua o controle dos elementos da
natureza – luz, água, vento, enquadramentos da paisagem, etc.
2. Tadao Ando, nascido em 1941,
pertence à terceira geração. A –, com o objetivo de criar espaços que evocam e potencializam
primeira geração é aquela que
“introduziu” elementos da linguagem a sensibilidade japonesa. Segundo o crítico Francesco Dal Co,
moderna, como planta livre e pilotis,
à arquitetura insular tradicional. as atmosferas de Ando resultantes desse processo, por
Entre seus representantes mais
importantes estão: Junzo Sakakura momentos, “atingem o mais alto nível de um discurso
(1904) e Kunio Mayekawa(1905), arquitetônico que cruza a linha a partir da qual não existe nada
que colaboraram diretamente com
Le Corbusier no início dos anos além da vida em si, e todo o seu vazio” (DAL CO, 1997, p.7) –
1930, e Kenzo Tange (1913), quem
colocou, como veremos, a algo que só pode ser compreendido na experiência da obra.
arquitetura moderna japonesa no
circuito internacional. A segunda-
geração encontra sua Em sua extensa produção, marcada pela regularidade 3 de uma
representatividade no movimento
metabolista liderado por Tange. linguagem própria e coerente, certamente encontramos alguns
Entre outros, podemos citar como trabalhos que merecem maior atenção. Entre os projetos
principais nomes: Kiyonori Kikutake
(1928), Fumihiko Maki (1928), Arata notáveis, podemos destacar a emblemática Casa Azuma
Isozaki (1931) e Kisho Kurokawa
(1934). (1976) bastião murado de sua arquitetura de guerrilha contra a
3. Diferentemente de Siza e cidade genérica, em que procura “preencher o interior com o
Barragán, a linguagem formal de
Ando pouco se transformou ao longo máximo de exterior possível”, a austeridade silenciosa dos
de sua produção, apresentando,
desde suas primeiras casas na
jogos de luz e visadas da Casa Koshino (1984), os conjuntos
metade dos anos 1970, um léxico habitacionais Rokko I e II (1983/1993), em sua reconstrução de
poético estável que perdura até
hoje. uma topografia habitável, além de museus, como o complexo
Benesse Art Site (2006) e o museu Chichu (2004) em
134
Naoshima, além do Chikatsu-Asuka (1994) em Kyushu, entre
outros.
135
O desenho do templo propõe uma sucessão de lugares
geométricos que encontra na transformação simbólica das
formas puras, plenas de significado no budismo – o círculo, o
quadrado e o triângulo –, o elo dessa transição. Partindo da
geometria construída, Ando cria um trajeto composto por uma
sequência de “vazios radicalmente disponiveis”, em que os
elementos abstraídos da natureza por meio de técnicas
tradicionais, promovem um afastamento contínuo do plano
racional (profano) em direção ao estado búdico (sagrado).
Esses vazios – ou intervalos de transição –, denominados Ma
na cultura japonesa (OKANO, 2012), configuram uma união
espaço-tempo que se manifesta de diferentes maneiras ao
longo do percurso, fazendo a ponte que ativa a consciência da
experiência fenomenológica a caminho do estado de
iluminação.
136
3.2. Primeira aproximação: visita à obra
Realizada em abril de 2008
137
Noroeste da Ilha Awaji. Mar interior do Japão.
138
Finda a empena, um giro à esquerda desvela o grande espelho
d’água elíptico elevado quase um metro do solo, em cuja
superfície nenúfares em flor se mesclam ao reflexo das
montanhas ao fundo. A vasta paisagem exterior da baía dá
lugar agora à uma paisagem contida, interior. Contornado, o
mesmo muro nos conduz, agora por sua face côncava tingida
pelo sol poente, ao eixo menor da elipse. Esse deslocamento,
parece transformar o espelho d’água gradualmente num
grande círculo, seccionado ao meio por um estreito vazio que
revela a escada rumo ao interior da terra.
139
3.3. Genealogia da imaginação
Tadao Ando
Pensando no Ma
141
É neste embate cultural, cuja fronteira - ou vazio - identifica
com o conceito tradicional japonês Ma, que Tadao Ando
procura produzir “‘protótipos espaciais’, lugares ligados não ao
processo intelectual, mas às emoções enraizadas no ser, que
evocam planos existenciais profundos, os quais apelam aos
aspectos fundamentais da humanidade”. (ANDO, 1984, p. 134).
Esses “protótipos” se caracterizam por dois pontos: pelo uso
restrito de materiais em estado bruto – sobretudo o concreto –
e por uma articulação espacial que, por não seguir a lógica da
4. “Pretendo apartar a arquitetura da função, não se apresenta de imediato 4 . A ausência de uma
função, depois de assegurar a
estrita observância das bases articulação funcional clara, substituída pela articulação
funcionais. Dito de outra forma,
quero observar até onde a sensorial, procura “inspirar visões dentro do indivíduo em
arquitetura é capaz de seguir a
função para, a partir daí, ver o correspondência a seus espaços interiores” 5. A esses
quanto é possível apartar a “protótipos espaciais”, cuja ênfase em zonas indefinidas e
arquitetura da função. A distância
que as separa mede o alcance da espaços intersticiais submetidos ao controle da luz “desperta a
arquitetura.” (ANDO apud
FRAMPTON, 1984, p. 8) emoção e a espiritualidade”, Tadao Ando denomina “espaço
sensitivo-fundamental” (ANDO, 1984, p. 134). Uma vez
5. Tadao Ando parece fazer uma
referência direta aos espaços estabelecida essa espacialidade sensitiva, o processo segue a
arquetípicos de Gastón Bachelard
em BACHELARD,G. A poética do espaço.
Ver:
fim de sublimar o sensível ao simbólico, “com o objetivo de
criar lugares que exteriorizem os signos que sustentam a vida
humana e incitam a reflexão sobre seu sentido”. (ANDO, 1984,
p. 137).
142
Espaço e tempo x Espaço-tempo
143
São, portanto, duas maneiras diversas de perceber o mundo:
No Ocidente, a compreensão de espaço e de tempo se
constituiu de maneira apartada. A noção de espaço é
euclidiana, formada pela relação das formas dispostas entre si,
regida por ângulos e distâncias, em que a compreensão direta
do todo se dá pela correspondência entre as partes. A
perspectiva renascentista, sua representação mais
consagrada, composta a partir de um ponto fixo – o ponto de
vista do homem –, afirma uma compreensão ideológica
antropocêntrica. Como Afirma Okano em relação à perspectiva
ela é “uma submissão da figura em coerência com o esquema
geométrico, por meio do eixo de visão centralizado e único do
observador, na qual o espaço vazio, que serve de mediação
entre os corpos, é simplesmente desprezado na
representação” (OKANO, 2012, p. 26). Na arquitetura, a
dimensão temporal desse espaço antropocêntrico, explorada
pelo deslocamento do observador na promenade
architecturale, agrega uma relação cinética que sugere novos
pontos de vista de um mesmo espaço.
O Ma ( )
144
Assim, a forma e a não-forma – o vazio – têm o mesmo peso
na estrutura do pensamento e do espaço. Ao representar o
espaço-tempo desse vazio, o Ma se coloca como um vazio não
estático que ao mesmo tempo separa e une dois elementos
numa zona de coexistência, devendo portanto ser
compreendido como um intervalo radicalmente disponível. É
nesse Ma, entre a razão ocidental e a sensibilidade oriental,
que Ando situa a conflitiva exigência, [a obsessão] de sua
arquitetura.
145
Finalmente, Nitschke esclarece que o Ma não é um fenômeno
da natureza, mas um conceito que pressupõe a ação humana,
“um lugar modulado pelo homem por meio da distribuição de
símbolos por ele construídos […] A consciência do Ma (fazer o
lugar) - que combina as dualidades objeto/espaço, mundo
objetivo/mundo subjetivo - era a base da arquitetura japonesa
tradicional” (NITSCHKE apud OKANO, 2012, p. 30)
146
Hiroshima Peace Memorial (HOLT, 2014), revelando ao mundo
uma nova expressão arquitetônica japonesa realizada a partir
do cruzamento entre uma tradição estética profundamente
enraizada e o novo léxico vindo do Ocidente. No projeto, Tange
se apropria do vocabulário corbusiano, desenhando um
K. Tange, Hiroshima Peace Memorial
pavilhão alongado em concreto aparente elevado sobre pilotis,
de planta livre e fachada envidraçada protegida por brise-soleil,
que no entanto reforça a horizontalidade predominante da
arquitetura japonesa. No jardim em frente a este, no epicentro
da explosão, o cenotáfio em homenagem às vítimas da bomba
surge como uma paraboloide-hiperbólica construída numa
espessa casca de concreto de clara expressão brutalista, que
faz referência às urnas funerárias Haniwa da antiguidade
japonesa 7. Tadao Ando conta que o contato com essa obra, 7. Para saber mais sobre o projeto,
ver ISHIMARU, 2012.
durante sua primeira viagem pelo Japão aos vinte anos de
idade, lhe fez perceber pela primeira vez uma “estreita ligação
entre a força do edifício e a história do lugar”. A visão de uma
arquitetura que “ao mesmo tempo protege e inspira” lhe deu a
dimensão do papel moral da disciplina e sua responsabilidade
em “falar às forças da humanidade” (AUPING, 2003, p. 14).
147
urbanos dão início a um processo especulativo sobre o papel
dos arquitetos no futuro das metrópoles. Com a tecnologia do
concreto aplicado em larga escala, um grupo de jovens
arquitetos ligados a Tange, influenciados pela ideia dos
“clusters urbanos” apresentados pelo TEAM X no CIAM 9
(1953) e pelas cidades utópicas do Archigram, começa a
9. O que remete também à lógica da
arquitetura doméstica tradicional, formular hipóteses capazes de absorver o exponencial
composta por estruturas modulares
de pilares e vigas, fechadas por
crescimento demográfico por meio de megaestruturas urbanas
painéis removíveis, que permitiam o baseadas no metabolismo biológico e no crescimento orgânico
crescimento orgânico por adição de
novos cômodos. das estruturas da natureza9.
148
no qual a gradação da luz assume papel fundamental na
semântica espacial. Outro princípio do ethos japonês integrado
por Maki é o do uso do vazio como elemento de ligação,
mediador do espaço construído. Esses intervalos físico-
temporais entre dois acontecimentos resgatam para a
arquitetura moderna o conceito Ma.
Tadao Ando
149
forma não é imaginação, mas aquilo que engendra a
imaginação” (AUPING, 2003, p. 26).
150
abstração (razão). A natureza submetida ao controle da forma
construída, não em partes, mas como um todo, subverte a
máxima corbusiana: “a arquitetura é o jogo sábio, correto e
magnífico dos volumes reunidos sob a luz”. A arquitetura de
Ando se trata, em última instância, do jogo sábio da luz e da
natureza, reunidas sob o controle da forma, que surge para
regular a percepção e a significação do ambiente.
151
livro de Le Corbusier num numa velha livraria. “Decalquei
tantas vezes as linhas de Le Corbusier que acabei por
memorizar quase todas elas” (ANDO, 2010, p. 47). Sua visão
empírica foi definitivamente afetada pelas viagens que realizou.
Em 1963 fez uma longa peregrinação pelo Japão para
conhecer as obras de Kenzo Tange, durante a qual teve a
oportunidade de encontrar a verdade simples da arquitetura
vernacular japonesa nas casas dos vilarejos e nas Minka -
instalacões rurais.
152
do próprio material – o concreto –, ou seja, a materialidade
pura desprovida de elementos estranhos à sua natureza. O
segundo é a forma geométrica, símbolo da razão humana que
transcende a natureza e por meio da qual se dá presença à
arquitetura. O terceiro elemento é a própria natureza, não
aquela em estado virgem, mas a domesticada, submetida à
ordem14 artificial da forma e sintetizada por meio da abstração 1 4 . C o m o S i z a , Ta d a o A n d o
encontra na geometria o sentido de
(ANDO, 1990, p. 456). ordem: “Sinto necessidade da ordem
para dignificar a vida. A instauração
de uma ordem implica limitações,
No momento em que a natureza entra em contato com a mas também acredito que conserva
e faz crescer coisas extraordinárias”
arquitetura, ela deixa de ser integral. Sua manifestação é
reduzida a seus elementos como luz, vento, água e céu,
vistos como símbolos da natureza. A natureza, que até
aquele ponto era vista de forma definida, converte-se, em
ressonância com a geometria incorporada pela
arquitetura, numa abstração de si mesma. (ANDO 1990,
p.456)
153
Fascinado pela incidência da luz na massa cinzenta, logo Ando
interessou-se em apurar seu acabamento numa expressão
própria, desenvolvendo sua técnica - as fôrmas, o
espaçamento da armadura, a proporção do agregado, o slump
- ao longo dos anos, em busca de um concreto capaz de
reproduzir a suavidade da luz filtrada do shoji por meio da
homogeneidade do acabamento. “A estética que se baseia na
expressão do material em sua forma natural, bruta, consistiu
num princípio básico do modernismo, ao mesmo tempo
também representa a sensibilidade apurada da arquitetura
japonesa.”
154
3.4. Segunda aproximação: análise do projeto
O Templo da Água
Elevação
10
3 2
1
1
Implantação N
0 5 10 50
8
1. Acesso
6
2. Templo Antigo
6 3. percurso
5 4. Espelho d’água
5. Escada
6. Circulação / Antecâmara
9 7 7. Sala de meditação
8. Monge / Reuniões
9. Pátio Inglês (iluminação)
10. Cemitério
Planta inferior
Corte
155
Situação
Gênese do projeto
Partido arquitetônico
157
À primeira vista, a implantação pode parecer arbitrária, dando a
falsa impressão de resultar de uma composição geométrica
puramente formalista. Porém, numa leitura mais atenta, surgem
as evidências da sofisticada solução desenvolvida por Ando
para o programa apresentado.
158
Implantação
159
(18 metros ou dez tatami), com origem na escada descendente
e que se torna oblongo no vértice (v1) oposto, para definir uma
estreita circulação periférica híbrida que curiosamente
transforma um espaço quadrado num percurso circular. O
segundo vértice (v2) oposto à escada, voltado para oeste, é
cortado diagonalmente, formando um triângulo cuja hipotenusa
configura a única entrada de luz para todo o recinto. À direita
v2
da escada, um segundo triângulo regido pela grelha principal
v1 provoca a rotação do quadrado que se destina à sala privada
do monge, cuja dimensão é limitada ao encontro com a
projeção da elipse superior.
160
de motivar o pensamento e evocar a reflexão. Ela tem um
caráter contemplativo, mas um funcionamento dinâmico”.
(AUPING, 2003, p. 51). Seu uso, como veremos, parece ter o
propósito de gerar o tensionamento necessário entre
espiritualidade e razão que dá sentido ao caráter do lugar. O
espelho d’água elíptico é a chave do percurso de Ando:
posicionado a meio caminho entre o acesso no primeiro muro e
a sala de meditação, estabelece o ponto de transição entre o
exterior e o interior, devendo ter sua superfície atravessada na
descida da escada que dá acesso ao nivel inferior, semi-
enterrado.
O percurso
- primeiro trecho
161
deslocamento. Essa relação espaço-tempo fica evidente na
experiência fenomenológica: o trajeto se inicia com a sensação
de confinamento, torna-se expectativa de identificar a
totalidade do percurso, e se converte, no caminhar, em
consciência presente, no vazio tornado pura espacialidade,
formada entre a construção, a natureza, o corpo e a mente.
Esse vazio de transição corresponde ao segundo Ma, o mais
importante do projeto, tempo-espaço de preparação do shintai
– corpo-mente – para o encontro com o divino. Retomando os
diferentes sentidos que o Ma pode manifestar segundo Isozaki
(1976), este percurso preparatório instaurado entre geometrias
evoca duas manifestações bastante próximas: o Michiyuki
(michi = caminho + yuki = ir), ou o Ma relacionado à percepção
espacial japonesa, que pode ser traduzido como o “modo de
vivenciar o caminho”, no sentido da compreensão do espaço
pelo fluxo espaço-temporal perceptível pela experiência
(OKANO, 2012, p.49); e o Otsuroi (utsu = vazio + hi =
atividade), a manifestação mais importante do Ma, que remete
à mudança de estado da alma por meio do deslocamento num
espaço vazio (OKANO, 2012, p.55).
162
Um aspecto importante nesta frase de Ando, reside no fato do
muro, neste caso, não segregar um interior strictu sensu:
ambos os lados são exteriores. No entanto, num sentido mais
amplo, o muro conota um “interior” à medida que protege, em
sua concavidade, o templo do mundo profano exterior. Essa
proteção se estabelece à medida que os muros, uma vez
superados, ocultam a paisagem abrangente e dispersa da baía,
voltando a visão à paisagem silenciosa das montanhas e da
vegetação adjacente, colaborando no processo de
interiorização espiritual. Ao negar a vista da baía, Ando
empresta da tradição uma técnica denominada Mie gakure, que
significa literalmente o “revelar na mente algo que está
escondido”. O recurso pode ser explicado como a abstração de
uma experiência que permite à mente vislumbrar a insinuação
não visível.
A elipse
163
inconsciente. É o desgarramento da consciência entre o
voo e o desejo de permanecer sempre imóvel. A elipse,
lugar geométrico que pode ser classificado como
reversível, não é mais do que um vagar cego: é o lugar
geométrico da busca da verdade. (ANDO apud PUERTA,
1995, p. 118)
A água
164
Do ponto de vista simbólico, o “círculo” de reflexo cristalino
coberto pelas flores de lótus evoca o primeiro mandala da seita
Shingon, denominado kongo-kai, o qual representa o princípio
da eterna ligação cósmica ou o “reino da sabedoria em
transparência diamantina”, espaço metafísico em que habitam
os Cinco Budas da Meditação. Mandala Kongo-kai (detalhe)
165
19. No hotel-museu para Benesse de pedras Ryōan-ji e presente na Igreja da Água; e gyoushaku,
Art Site, a praça se debruça sobre o
mar e o horizonte, enquadrando um empréstimo para cima, ou zenital. Este último aparece, na obra
fragmento da paisagem distante
entre dois muros. Esses muros, por de Ando, em percursos entre os muros, como no próprio
sua vez, dão suporte à obra do
artista Hiroshi Sugimoto, que acesso ao Templo da Água, ou em pátios fechados que
reproduz a vasta paisagem (livre dos
muros) repetidamente numa emolduram o céu, a exemplo da praça central do Museu da
sequência de fotos em diferentes Madeira em Hyogo (1993) e dos vazios que se abrem na
horas do dia.
montanha no Museu de Arte Chichu (2004). No anexo ao hotel
de Benesse Art Site, em Naoshima, encontramos associados
dois tipos de Shakkei – para cima e para baixo, pela
sobreposição de uma abertura zenital ao espelho d’água
ovoide confinado entre muros. A paisagem capturada pelo
espelho d’água circular conclui o percurso preparatório (sandô)
desvelado gradualmente numa sucessão de espaços-tempo
Benesse Art-Site, Naoshima
Ma, gerados no encontro entre geometria e natureza.
- segundo trecho
166
No nível inferior, (cota -6,60 metros em relação ao espelho
d’água), o espaço intersticial definido entre uma envoltória
ortogonal e a parede interna curva transmuta o espaço
supostamente quadrado num percurso circular em que a luz se
esvai gradualmente, dando lugar à penumbra tingida de
vermelho pela luz refletida. Este percurso evoca ao quinto Ma,
agora manifesto como Yami: na mitologia, a escuridão, é
morada temporária das deidades Kami.
Considerações finais
167
natureza – água, luz, reflexo, enquadramento por meio do
controle da forma.
168
Lista de obra visitadas em ordem cronológica:
169
Conclusão
171
Conclusões Gerais
Villa Savoye no ano em que a obra foi concluída (1931); 3. Diretor da Faculdade de
Arquitetura do Porto que promoveu
assim como vivenciou o florescimento do surrealismo levado a renovação curricular, contratando
ao México por André Breton - a pureza corbusiana e o o professor Fernando Távora.
173
construída, síntese madura de uma linguagem desenvolvida
ao longo de cinquenta anos.
! !
174
Além do Regionalismo Crítico
175
Conclusões específicas
Horizontalidade x verticalidade
! !
176
habitar heideggeriano10 - o que parece reforçar a
experiência existencial das obras. Ela se manifesta de três
maneiras diferentes:
177
A Piscina de Leça e o Templo da Água encontram neste
ponto uma importante semelhança: ambos propõem o
percurso em si , divido em duas partes unidas por uma
“ponte”12 , como elemento estruturante da semântica
espacial. O primeiro trecho de ambos se dá num caminho
em zigue-zague que contorna os muros, associado ao
controle das visadas. O segundo trecho de Siza está na
praia, enquanto o de Ando se dá dentro do templo. Em Siza,
o percurso gera a “contraditória sensação de profundidade”
que conduz da cidade à praia, ao longo da qual a arquitetura
se desmaterializa na paisagem, enquanto em Ando ordena
uma sucessão de tempo-espaços Ma, ou vazios
radicalmente disponíveis, em que o tensionamento entre
forma e vazio torna o porvir sempre presente. Em ambos os
12. No caso de Ando, a “ponte” é a
escada descendente, representada casos, o percurso está diretamente associado à
pelo Má denominado hashi.
temporalidade da experiência. Já em Barragán, o verbo da
13. Bruno Zevi (1948) enxerga na
arquitetura “uma grande escultura narrativa - surrealista - não é o deslocar-se, mas o encantar-
escavada em cujo interior o homem
penetra e caminha”. se. Os curtos deslocamentos do observador servem,
Contemporaneamente às piscinas, portanto, para revelar, por meio de novos pontos de vista, os
essa aproximação se dá, no campo
da arte, a partir dos earthworks mistérios contidos por trás – ou dentro – de seus muros.
americanos, em “não exatamente
esculturas” que emprestam
premissas arquitetônicas – segundo Sob um outro prisma, se para Siza a “experiência
Rosalind Krauss em seu artigo
“Sculpture in the expanded field”, de arquitetônica” tem origem numa concepção escultórica do
1979.
espaço, em que a “forma do território” pode ser vista como
uma grande escultura em que o homem se desloca13, para
Ando e Barragán, por outro lado, o deslocamento está
associado a sucessivas relações de bi-dimensionalidade
próprias da pintura: Barragán, para além de sua paleta
cromática surrealista, utiliza a perspectiva como instrumento
perceptivo fundamental, tratada com rigor compositivo por
meio dos longos planos que geram combinações de fugas e
frontalidades nas diferentes visadas que propõe. Ando, parte
da noção de espaço-tempo oriental – bi-dimensionalidades
regidas pela escala de tempo – para propor em seu
percurso uma sucessão vazios radicalmente disponíveis Ma,
os quais vão gerando progressivamente a transição entre
mundos. Assim como Barragán, Ando encontra, na
perspectiva estática pictórica, o recurso do trompe d’oeil -
ambiguidade entre o fato físico e o efeito psíquico - que
! !
178
revela signos para além da objetividade do espaço
construído.
O muro
8m
4m
1,95m
179
Transmutação/ Desmaterialização:
! !
180
Cabe aqui um comentário comparativo a respeito da
materialidade do concreto em Ando e Siza. Enquanto o
betão tosco do português reforça a propriedade
estereotômica do muro, evidenciando a técnica rudimentar
ao expor a matéria que o constitui, Ando, no sentido oposto,
procura na homogeneidade do concreto transcender a
materialidade da forma, como um “material idôneo que gera
superfícies criadas pela luz, […] os muros se tornam
abstratos, se anulam e se aproximam dos confins do
espaço. Perdem sua ‘realidade’, e a única existente passa a
ser aquela do espaço que encerram”. (ANDO, 1982, p. 446)
A água
181
A luz
O tempo
! !
182
(Ma) que nos transportam do mundo exterior – profano – ao
mundo interior – sagrado.
Considerações finais
Quando os mortais protegem e cuidam
das coisas em seu crescimento,
cultivar e edificar significam, em
sentido estrito, habitar.
M. Heidegger
183
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12/01/2016)
Créditos fotográficos:
192
Anexos
193
anexo 01
“Es una especie de Mies mexicano“, le dije, de alguna manera, incorrectamente. Drexler sonrió y
opinó que eso estaba bien, añadiendo: “Barragán es extraordinario“.
Después, por la calle, repentinamente, se me ocurrió una idea: Drexler debería hacerte una
exposición.
Cuando más tarde le comenté a Albers todo esto, me contestó lo mismo: “Si, él es extraordinario“.
“¿Recuerdas esa palabra suya: extraordinario? ¿Qué te parecería hacer una expo-
le podéis proporcionar“
y justo para hacerlo. Tenemos archivos muy completos sobre su trabajo, y los estu-
dlaremos..."
Y: "Quizá sólo sea cuestión de añadir muchas fotografías, dibujos, primeros pro-
Suya,
Anni A.
Como todo esto está ahora en una fase preliminar, no se lo he mencionado a nadie.
anexo 02
dlaremos..."
Querido joseph,
Suya,
Tengo, desde las últimas semanas, remordimientos por mi silencio hacia usted, pero no puede
Anniimaginar
A. lo atareado que he estado todo este tiempo, yendo y viniendo de acá para allá, y, por si
fuera poco, sin mi secretaria, que es quién me ayuda a traducir mis ideas a un inglés comprensible
Y Albers le envía
y acorde sus mejores
al agradecimiento deseos.
que le tengo.
Su grabado
Como en blanco
todo esto es, creo,
está ahora enlauna
más fase
pura forma de comunicación
preliminar, no se lográfica; casi nada pero,
he mencionado al
a nadie.
mismo tiempo, cuánto.
También recibí al mismo tiempo, a través de Inés, uno de sus “cuadrados”, que me supuso
también una sorpresa muy agradable, en completa armonía con mi gusto. Por ambos trabajos, por
favor acepte mi más profundo agradecimiento.
Luis Barragán
anexo 03
Documento publicado en: Richard Saul Wurman. What will be has always been: the words of Louis
I. Kahn. Accesspress, 1986.
Muchas gracias por su amable carta del 20 de Enero, y por el libro dedicado a su trabajo.
Debo confesarle que. cuando hablé por teléfono con usted, no sabía realmente con quién estaba
hablando. Mi inglés es bastante pobre - como usted habrá notado - y no entendí su nombre.
Ahora, cuando he visto su carta y su libro. debo decirle que conozco su trabajo desde hace años a
través de publicaciones y lo admiro sinceramente. Incluso he recortado algunas reproducciones de
revistas y he hablado muy a menudo, sobre usted y su trabajo, con un buen amigo mío, el escultor
Mathias Goeritz.
En otras palabras: consideraría cualquier colaboración con usted un gran honor. Acepto ir a su
país para encontrarme con usted. Lo haré con gran placer. Sólo le pido me confirme las fechas
con anticipación, ya que estoy trabajando en un gran proyecto, cerca de la Ciudad de México, que
me mantiene muy ocupado en esos momentos.
Sinceramente,
Luis Barragán
anexo 04
Documento publicado en: Richard Saul Wurman. What will be has always been: the words of Louis
I. Kahn. Accesspress, 1986.
No tengo excusa por tardar tanto en escribirte, a pesar de que en mi miente lo he hecho muy a
menudo.
Leí con el mayor interés la publicación Students Via I, y sólo pude recordar, por nuestras
conversaciones, tu gran capacidad para penetrar en la verdadera esencia de las cosas; después
de tus palabras lo demás parece superficial.
El que le hayas dedicado tanto a mi trabajo no sólo me halaga sino que me anima y me inspira la
confianza que uno necesita de vez en cuando para seguir adelante. Te lo agradezco
profundamente.
Sinceramente tuyo,
Luis Barragán
anexo 05
Busca uma saída, mas nem o esteticismo exterior compreendido como ‘formalismo’, nem o
regionalismo orgânico, nem aquele confusionismo dogmático tem enfrentado a fundo o
problema de que o homem - criador ou receptor - do nosso tempo, aspira algo mais do que
uma casa bonita, agradável e adequada. Pede - ou terá que pedir um dia - da arquitetura e
de seus métodos e materiais modernos, uma elevação espiritual; dita simplesmente: uma
emoção como aquela brindada, em seu tempo, pela arquitetura da pirâmide, a do templo
grego, a da catedral românica ou gótica - ou inclusive o palácio barroco -. Somente
recebendo da arquitetura emoções verdadeiras, o homem pode voltar a considerá-la uma
arte.
1O documeto foi apresentado no ato de abertura do museu em 1953. Em: MARTINEZ, A. Luis Barragán:
Escritos y conversaciones. Madrid: El Croquis, 2000. Tradução livre do Autor.
Deixando de lado a convicção de que o nosso tempo está longe de altas inquietudes
espirituais, EL ECO não quer ser mais do que uma expressão destas, aspirando - não
conscientemente, mas quase automaticamente - uma integração plástica para causar no
homem moderno uma máxima emoção.
Se, no interior, um muro alto e negro - decolado das paredes e do teto - tem que dar a
sensação real de uma nova altura exagerada, fora da ‘medida humana’, no pátio faltava um
muro mais alto, compreendido como elemento escultórico, de cor amarela, que - como um
raio de sol - entrara no conjunto, no qual não se encontram outras cores que o branco e o
cinza.
Repito que toda arquitetura é um experimento. Não quer ser mais do que isso. Um
experimento com a finalidade de criar, novamente, dentro da arquitetura moderna, emoções
psíquicas no homem, sem cair num decorativismo vazio e teatral. Quer ser a expressão de
um livre-arbítrio da criação que, sem negar os valores do ‘funcionalismo’, procura submetê-
los à uma concepção espiritual moderna.
Octavio Paz
Barragán dijo una vez que su arquitectura estaba inspirada por dos palabras: la palabra magia y la
palabra sorpresa. Y agregó: “se trata de encontrar sorpresas al caminar por cualquier calle y al
llegar a cualquier plaza”. Las raíces de su arte son tradicionales y populares. Su modelo no es ni
el palacio ni el rascacielos. Su arquitectura viene de los pueblos mexicanos, con sus calles
limitadas por altos muros que desembocan en plazas con fuentes.
El arte de Barragán es un ejemplo del uso inteligente de nuestra tradición popular. Algo semejante
han hecho algunos poetas, novelistas y pintores contemporáneos. Nuestros políticos y
educadores deberían inspirarse en ellos: nuestra incipiente democracia debe y puede alimentarse
de las formas de convivencia y solidaridad vivas todavía en nuestro pueblo. Estas formas son un
legado político y moral que debemos actualizar y adaptar a las condiciones de la vida moderna.
Para ser modernos de verdad tenemos antes que reconciliarnos con nuestra tradición.
anexo 08
anexo 09
anexo 10