TERROR ANAL: NOTAS SOBRE OS
PRIMEIROS DIAS DA REVOLUÇÃO
SEXUAL
Escrito por Paul P. Preciado
Traduzido por Kauan Amora
2019
ÉDIPO E A CASTRAÇÃO ANAL
Já que temos que começar de algum modo, comecemos pelo início. Contemos a
história do cu. Traguemonos el tapiz de la civilizacion y tejamos con los hilos que
asomaran entre nuestras piernas la carpa de un nuevo circo. Foi o que Gui fez: analisar-
se no lugar de psicanalisar-se. Na verdade, Guy lia Freud enquanto chupava rolas nas
reuniões do partido comunista francês e como uma coisa leva a outra acabou se
perguntando um dia se Édipo teve cu.
“Era uma vez o cu”, disse, e inventou um mito para explicar como nós havíamos
nos convertido em hétero-humanos e homo-humanos. O mito, lembro de cabeça, dizia
assim: Não nascemos homens ou mulheres, nem sequer nascemos meninos ou meninas.
Ao nascer somos um entremeado de líquidos, sólidos e géis recobertos por um estranho
órgão cuja extensão e peso superam qualquer outro: a pele. É essa cobertura que se
encarrega que tudo isso seja contido dando uma aparência de unidade isolada ao que
chamamos de corpo. Ao redor do tubo digestivo, a pele tem uma abertura nas suas
extremidades deixando à vista dois orifícios musculares: a boca e o cu. Então, não existem
diferenças, pois todos somos um pedaço de pele que, respondendo as leis da gravidade,
começa na boca e termina no cu. Apesar de haver alguma simetria entre esses dois
orifícios, os corpos, simples tubos dérmicos, assustados de sua indefinida possibilidade
de gozar com tudo (a terra, as pedras, a água, os animais e outros tubos dérmicos)
buscaram formas de controlar a si mesmo e os outros. O medo de que toda a pele fosse
um órgão sexual sem gênero os fez reorganizar o corpo, desenhos dentros e foras,
marcando zonas de privilégio e zonas de abjeção. Foi necessário fechar o cu para sublimar
o desejo pansexual transformando-o em vínculo de sociabilidade, assim como foi
necessário cercar as terras comuns para indicar propriedade privada. Fechar o cu para que
a energia sexual que poderia fluir através dele se convertesse em camaradagem viril
saudável e honrosa, em intercâmbio linguístico, em comunicação, em máquinas, em
publicidade, no capital.
Os santos padres, com medo de que o corpo nascido conhecesse o prazer de não
ser homem, não ser humano, de que se maculassem entre os javalis e as flores, pegaram
tudo que estava a sua disposição (o fogo, a roda, a linguagem, a física nuclear, a
biotecnologia...) e colocaram em marcha uma técnica de eliminar do cu toda sua
capacidade que não fosse de excremento. Depois de dar muitas voltas encontraram um
método higiênico para realizar a castração do cu: meter um dólar pelo cu da criança
enquanto exclamavam: “Fecha o cu e serás proprietário, terás esposa, filhos, objetos e
terás pátria. A partir de agora serás o mestre da tua identidade”. O cu castrado se converteu
em um mero ponto de expulsão de detritos: o orifício que culmina o aparelho digestivo e
por qual se expele o excremento. Posto a disposição dos poderes públicos, o cu foi
costurado, fechado e selado. Assim nasceu o corpo privado e a cidade moderna com seus
paralelepípedos e chaminés limpos e poluentes: anos de cementa por los que se des-
sublima lo reprimido colectivamente. Assim nasceram os homens heterossexuais no final
do século XIX: são corpos de cu castrado. Ainda que se apresentem como chefes e
vencedores são, na verdade, corpos feridos, maltratados.
No homem heterossexual, o cu, entendido exclusivamente como orifício excretor,
não é um órgão. É a cicatriz que deixa no corpo a castração. O cu fechado é o preço que
o corpo paga ao regime heterossexual pelo privilégio de sua masculinidade.