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Cortes de Dedekind: Definições e Propriedades

Esta é uma exposição detalhada de um método de construção popular de R, a saber, os cortes de Dedekind. A pergunta é uma continuação da ideia que gera N a partir apenas dos axiomas de ZFC e do conjunto vazio (0 = ∅, 1 = {∅}, 2 = {∅, {∅}} etc.) e se assemelha a um outro problema, a Hipótese do Contı́nuo (Existe um infinito com tamanho entre N e R?) que mostrou não ser compatı́vel com o sistema de axiomas. Como fundamentamos todo o nosso curso de Análise na existência de tal conjunto, vale a pena
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Cortes de Dedekind: Definições e Propriedades

Esta é uma exposição detalhada de um método de construção popular de R, a saber, os cortes de Dedekind. A pergunta é uma continuação da ideia que gera N a partir apenas dos axiomas de ZFC e do conjunto vazio (0 = ∅, 1 = {∅}, 2 = {∅, {∅}} etc.) e se assemelha a um outro problema, a Hipótese do Contı́nuo (Existe um infinito com tamanho entre N e R?) que mostrou não ser compatı́vel com o sistema de axiomas. Como fundamentamos todo o nosso curso de Análise na existência de tal conjunto, vale a pena
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Cortes de Dedekind

MA502 - Material Extra


September 2, 2017

1 Resumo
Esta é uma exposição detalhada de um método de construção popular de R,
a saber, os cortes de Dedekind. A pergunta é uma continuação da ideia que
gera N a partir apenas dos axiomas de ZFC e do conjunto vazio (0 = ∅, 1 =
{∅}, 2 = {∅, {∅}} etc.) e se assemelha a um outro problema, a Hipótese do
Contı́nuo (Existe um infinito com tamanho entre N e R?) que mostrou não ser
compatı́vel com o sistema de axiomas. Como fundamentamos todo o nosso curso
de Análise na existência de tal conjunto, vale a pena considerar esse problema.
(A resposta é afirmativa e mais: o conjunto é único.)

Essa exposição inclui, em ordem,


• A definição de corte;
• A definição de uma ordenação < dos cortes;

• A definição de soma e prova de suas propriedades básicas;


• A definição de multiplicação e prova de suas propriedades básicas;
• Prova de todas as propriedades de um corpo ordenado.
Assumimos que Q é corpo. O texto vem com exercı́cios simples para criar
familiaridade com os métodos da prova, mas não se esperam soluções
formais; todo formalismo estará no texto.

2 Cortes e a relação natural de ordem <


Exercı́cio 1: Tente descrever o conjunto {x ∈ Q|x < π} sem falar de números
irracionais. Essa é a ideia central da prova.
Definimos um corte como sendo uma partição dos racionais Q = A ∪ B com
as seguintes 3 propriedades:

1. A ∩ B = ∅
2. ∀a ∈ A, b ∈ B; a < b

1
3. sup(A) ∈
/ A (se existir nos racionais)

Intuitivamente, um corte corresponderia aos conjuntos {x < r} e {x ≥ r}


para algum r real.
Exercı́cio 2: Verifique que os conjuntos acima constituem de fato um corte.
Essa verificação será feita mais tarde várias vezes para outros conjuntos.

Sejam agora K1 = (A1 , B1 ) e K2 = (A2 , B2 ) dois cortes. Definimos K1 < K2


se A1 ⊂ A2 (propriamente).
Exercı́cio 3: Sejam r1 < r2 dois reais. Verifique que Kr1 < Kr2 onde
Kt = ({x < t}, {x ≥ t}) é o corte natural.

Exercı́cio 4: O conjunto {x ∈ Q tal que x < r} faz parte de um corte. Já


o conjunto {x ∈ Q tal que x = 2pq para p < 100, q ∈ N}, não faz. Tente escrever
uma condição sobre um conjunto A para que ele seja parte de um corte.
Lema 1: Seja K um corte e a ∈ AK (aqui AK é o primeiro conjunto do
corte) Se b ∈ Q e b < a então b ∈ AK . Intuitivamente, os conjuntos que
compõem o corte “não tem buracos”.
Prova: Suponha por absurdo b ∈ / AK . Como K é corte, temos b ∈ BK .
Mas então a < b, absurdo! (c.q.d)
Essa prova simples é uma ferramenta importante pois ela formaliza a noção
de completude no sentido de sem buracos. Ela também é a propriedade mais
especı́fica de um conjunto menor de um corte.

Teorema 1: A relação < é de fato uma relação de ordem (total). Ou seja;


• @K tal que K < K
• ∀K, J vale K < J ou J < K ou K = J

• K<J eJ <L⇒K<L
Prova: Primeiramente, se K < K ⇒ AK ⊂ AK , absurdo!
Também, se K 6= J então s.p.g ∃k ∈ AK com k ∈
/ AJ . Pelo lema 1, valem
duas afirmações:
1. ∀j ∈ AJ vale j ≤ k. Senão k ∈ AJ .

2. ∀x ∈ Q, x ≤ k ⇒ x ∈ AK
Logo AJ ⊂ AK , ou seja, J < K.
Por fim, se K < J e J < L então AK ⊂ AJ ⊂ AL logo K < L. c.q.d.

Note que a prova acima usa a ideia de transferir as propriedades de ⊂ para


a relação <. Usaremos essa ideia várias vezes!
Agora a principal motivação para os cortes.
Teorema 2: (“Axioma do Supremo”) Seja F = {Kλ }λ∈Λ uma famı́lia de
cortes limitada (isto é, ∃M t.q. M > Kλ , ∀λ) Então existe e é único o supremo
T da famı́lia, ou seja, um conjunto com as seguintes propriedades:

2
• T ≥ Kφ , ∀φ ∈ Λ
• ∀T 0 < T, ∃λ t.q. Kλ ≥ T 0 .

Exercı́cio 5: Selecione um conjunto infinito de cortes que seja limitado e


discuta existência e unicidade
S do supremo.
Prova: Pegue AS = AKλ . Afirmamos que S = (AS , Q\AS ) é o supremo
λ∈Λ
da famı́lia F. De fato,

• AS não contém o próprio supremo pois se a ∈ AS fosse supremo então


∃ λ ∈ Λ tal que a ∈ AKλ . Como a ≥ x, ∀x ∈ AS e Kλ ⊂ AS , a seria
supremo de Kλ , absurdo!

• Se existisse a ∈ AS e b ∈ Q\AS com b ≤ a, da mesma forma, terı́amos


∃ λ ∈ Λ tal que a ∈ AKλ . Como b ≤ a, b ∈ AKλ ⊂ AS , absurdo!
• Por definição, AK ⊂ AS ∀K ∈ Λ, logo S ≥ SK ∀K ∈ Λ.
• Por fim, se S 0 < S então ∃ µ ∈ Λ e a ∈ Aµ com a ∈ / AS 0 (já que todo
elemento de AS \AS 0 está em algum A) Mas então S 0 >
6 Aµ , ou seja, pela
tricotomia, Aµ ≥ S 0 .
• O supremo é único pois se X e Y fossem dois, terı́amos X ≥ Y e Y ≥ X
⇔ X = Y , já que pela segunda propriedade, se Y ≥ Sλ ∀λ então Y ≥ X.

Comentários: Essa prova se baseia no fato de que todo elemento de algum


Aλ deve estar no A do supremo, e busca a minimalidade colocando apenas os
necessários.

3 Soma
Exercı́cio 6: Sejam S > K3 e T > K1 dois cortes. Intuitivamente, espera-se
que 4 ∈ (S + T )? E 5? Tente formular um critério. Lembre-se que X > Kr ⇔
r ∈ AX .

Dados S,T cortes, definimos S+T como sendo AS+T = {s + t tais que
s ∈ AS , T ∈ AT } e BS+T = Q\AS+T .
Exercı́cio 7: Aplique a definição a K7 e K4 . Que corte se obtém? Porque?

Teorema 3: ∀ S, T cortes, S + T é corte de fato.


Prova:
• Seja x ∈ AS+T e y ∈ BS+T . Temos por definição x = aS + aT com
aS ∈ AS ⊂ Q e aT ∈ AT ⊂ Q. Logo y−aS ∈ Q, e devemos ter y−aS ∈ / AT
(senão y = aS + a0T ∈ AS+T ). Mas então y − aS ∈ BT ⇔ y − aS > aT
(pois T é corte). Assim y > aS + aT = x.

3
• Se s = sup S + T existisse e pertencesse a S + T , terı́amos s = a1 + a2 para
a1 ∈ AS e a2 ∈ AT . Como s é supremo, em particular como a1 + a0 ∈
AS+T ∀a0 ∈ AT , vale s ≥ a1 + a0 ⇔ a2 ≥ a0 ∀a0 ∈ AT logo a2 é elemento e
supremo de AT , absurdo!
Agora devemos provar os axiomas relativos à soma.
Exercı́cio 8: Verifique que (K1 + K2 ) + K4 = K1 + (K2 + K4 )
Teorema 4: Os cortes satisfazem os seguintes axiomas:
1. (S + T ) + L = S + (T + L)
2. S + T = T + S
3. S + K0 = S, onde K0 = ({x ∈ Q t.q. x < 0}, {x ∈ Q t.q. x ≥ 0})
Prova: Representaremos s qualquer elemento de S, análogo para t ∈ T e
l ∈ L.
1. A(S+T )+L = {(s + t) + l} = {s + (t + l)} = AS+(T +L)
2. AS+T = {s + t} = {t + s} = AT +S
3. Seja x ∈ AS , vamos demonstrar que x ∈ AS+0 . De fato, x não é supremo,
então ∃x0 ∈ AS tal que x0 > x. Mas então x = x0 + (x − x0 ) ∈ AS+0 pois
x − x0 ∈ K0 .
Agora seja x ∈ AS+0 . Então x = x0 +n, n < 0 logo x < x0 portanto x ∈ AS
pelo Lema 1. Juntando as duas partes temos AS+0 = AS ⇔ S + 0 = S.
Comentários: Aqui aparece novamente a ideia de transporte de propriedades;
nesse caso as da soma em Q para os cortes. Essa ideia é simples mas poderosa.
Um estudo mais detalhado dessa ideia envolve Teoria das Representações. (Uma
sugestão para atiçar a curiosidade.)
Para o leitor atento, falta uma propriedade para que (R, +) seja grupo
abeliano. E ela vem agora:
Definição: Seja S = (A, B) um corte. Defina −A = {−a; a ∈ A}. Defini-
mos −S como sendo:
• (−B, −A), se o ı́nfimo de B não pertence a B
• (−B\{−b}, −A ∪ {−b}), se b é o ı́nfimo de B e pertence a ele.
Teorema 5: Se S é um corte, −S também o é e S + (−S) = K0 .
Prova: Note que por definição A−S não tem supremo. Suponha que BS
contenha seu ı́nfimo b ∈ Q, o outro caso é análogo. Pegue qualquer x ∈ A−S e
y ∈ B−S .
Se y = −b, temos b < z ∀z ∈ BS , z 6= b. Como A−S = {x t.q. − x ∈ BS e
x 6= b} temos y = −b > x ∀x ∈ A−S . (Intuitivamente, como b é menor que todo
elemento de BS , −b é maior que todo elemento de −BS = A−S .)
Senão, y > −b pois −y ∈ AS ⇒ −y < b ∈ BS . Daı́ y > −b > x. Ou seja,
(−S) é corte.

4
Agora seja x ∈ A0 , ou seja, x < 0 racional qualquer. Temos que existem
elementos a ∈ AS , b ∈ BS com b − a < −x. (Prova no lema 2.) Logo ∃a0 ∈
AS , b−a0 = −x ⇔ a0 +(−b) = x. Como a0 ∈ AS , −b ∈ A−S , temos x ∈ AS+(−S) .
Por fim, ∀x ∈ AS+(−S) , x = a − b com a ∈ AS e b ∈ BS ou seja, x < 0. Assim
AS+(−S = {x ∈ Q, x < 0} logo S + (−S) = K0 .
Comentários: Essa é uma das partes mais difı́ceis da prova completa. Leia
com calma, pense e desenhe.
Exercı́cio 8: Convença-se da validade do Lema 2 e tente demonstrá-lo.

Lema 2: Seja S um corte. ∀ε > 0, ∃ a ∈ AS , b ∈ BS , b − a < ε.


Prova: Suponha por absurdo que δ é cota inferior para a distância entre AS
e BS . Tome a ∈ AS , b ∈ BS quaisquer e seja n ∈ N tal que b − a < n · δ. Temos
b − n · δ < a ⇔ b − n · δ ∈ AS pelo Lema 1. Seja portanto c = b − n · δ. Temos pela
propriedade c + 2δ ∈ AS , portanto c + 2·δ 2·n·δ
2 ∈ AS . . . c + 2 = b ∈ AS , absurdo!

4 Multiplicação: a fronteira final


Exercı́cio 9 - a barreira: Seja A · B =def {a · b; a ∈ A e b ∈ B} . Tente
escrever uma definição de produto análoga à nossa de soma; e calcule K−1 K2 .
Se você conseguiu fazer o exercı́cio anterior, percebeu também qual é o prob-
lema. Quando se multiplicam dois negativos o sinal cancela! O primeiro con-
junto passa a ser todo Q.
Para corrigir isso, vamos nos restringir a cortes positivos (K > 0).
Definição: Seja A+ = {a ∈ A; a > 0} e Q− os racionais não-positivos. Se
S, T > 0 são dois cortes, definimos AS·T = A+ + −
S · BS ∪ Q e BS·T é o restante
dos racionais, como sempre.
Definição: Se K < 0, definimos K · L = −([−K] · L) e L · K = −(L · [−K]).
Se K = 0, definimos 0 · L = L · 0 = 0.

Exercı́cio 10: Calcule pela definição K1 ·K3 , K−1 ·K2 , K−1 ·K−1 . Verifique
que eles são o que se espera.
Como sempre, agora temos que garantir que nossa definição é consistente e
faz sentido.
Teorema 6:
• K < 0 ⇔ −K > 0. Ou seja, ao trocar o sinal, estamos trocando efeti-
vamente para um corte positivo, e então podemos usar a definição para
negativos.

• Se K, L são cortes, então K · L é corte.


Prova: Se K < 0 então 0 ∈ BK e 0 6= inf BK . Ou seja, 0 ∈ A−K ⇔ −K > 0.
A recı́proca segue de −(−K) = K que é uma propriedade de qualquer grupo
abeliano.
Agora, se K, L são cortes, queremos provar que K · L é corte. Podemos
supor K, L > 0 pois −X é corte se X o for, e a definição de multiplicação por

5
negativo deixa o sinal de menos por último. (O teorema vale obviamente se K
ou L = 0) Nesse caso, AK·L não tem supremo senão s = k1 · l1 ≥ k · l, ∀ k, l > 0
em AK , AL respectivamente. Ou seja, k1 ≥ k e l1 ≥ l logo AK , AL também
teriam supremo.
Tome agora y ∈ BK·L e x ∈ AK·L . Como y > 0, se x < 0 temos x < 0 < y,
e se x > 0 ⇒ x = k1 · l1 com k1 ∈ A+ +
/ AK·L , y · l1−1 ∈ BK ⇒
K , l1 ∈ AL . Como y ∈
−1
y · l1 > k1 ⇒ y > x.
Logo K · L é corte c.q.d.
Comentários: Note a semelhança com a demonstração para a soma.
Exercı́cio 11: Verifique que em todo grupo abeliano (G, +) vale −(−x) = x.

Falta uma definição e o resto são teoremas. Dessa vez deixaremos para
provar que (R\{K0 }, ·) é grupo abeliano para depois, pois uma demonstração
muito similar já foi feita antes.
Definição: Denote por A−1 = A1 = { x1 t.q. x ∈ A} se 0 ∈/ A. Seja T > 0
um corte;
• Se BT não contém seu ı́nfimo, defina 1
T = T −1 como sendo (B −1 , Q\B −1 ).
• Se b ∈ BT é o ı́nfimo, defina 1
T = T −1 como (B −1 \{ 1b }, [Q\B −1 ] ∪ { 1b })

Se T < 0, defina T −1 como −(−T )−1 . Não se define K0−1 .


Exercı́cio 12: Compute K3−1 .

Teorema 7:
/ BT , logo é possı́vel definir T −1 .
• Se T > 0 é corte, então 0 ∈
• Se T 6= 0 é corte, T −1 também é corte.
• T · T −1 = K1 .
Prova: Se T > 0 então 0 ∈ AT , senão 0 ∈ BT ⇔ B0 ⊆ BT ⇔ AT ⊆ A0 ,
absurdo! Assim T −1 está bem definido.
Agora, se T > 0 é corte, temos que AT −1 não tem supremo por construção.
Sejam x ∈ AT −1 , y ∈ BT −1 , e suponha sem perda de generalidade que b ∈ BT
é ı́nfimo. O outro caso é análogo.
Se y = b−1 , temos b < z ∀z ∈ BT , z 6= b. Como AT −1 = {x t.q. x−1 ∈ BT
e x 6= b} temos y = b−1 > x ∀x ∈ AT −1 . (Intuitivamente, como b é menor que
todo elemento de BS , 1b é maior que todo elemento de B1T = AT −1 .)
Senão, y > b−1 pois y −1 ∈ AT ⇒ y −1 < b ∈ BT . Daı́ y > b−1 > x. Ou seja,
−1
T é corte.
Se T < 0 é corte, (−T )−1 é corte pelo resultado que acabamos de provar.
Logo também o é −(−T )−1 .
Para provar que T −1 é de fato inverso multiplicativo, suporemos T > 0.
O outro caso segue, como acima, pois o sinal cancela. Agora seja x ∈ A1 , ou
seja, x < 1 racional qualquer. Temos que existem elementos a ∈ AT , b ∈ BT
com ab < x1 . (Prova no lema 3.) Logo ∃a0 ∈ AT , ab0 = x1 ⇔ a0 · 1b = x. Como

6
a0 ∈ AT , 1b = b−1 ∈ AT −1 , temos x ∈ AT ·T −1 . Por fim, ∀x ∈ AT ·T − 1 , x = ab
com a ∈ AT e b ∈ BT ou seja, x < 1. Assim AT ·T −1 = {x ∈ Q, x < 1} logo
T · T −1 = K1 .
Comentários: Essa demonstração é análoga à feita para a soma. O impor-
tante dela é como considerar casos positivo e negativo nos livra de complicações
sobre a forma da multiplicação e deixa a verdadeira analogia entre (Q, +) e
(Q∗ , ·) transparecer.
Lema 3: Seja T > 0 um corte; ∀ε > 1, ∃ b ∈ BT , a ∈ AT t.q. ab < ε.
Prova: Seja c > 0 qualquer elemento positivo em AT . (Note que tal ele-
mento tem que existir pois T > 0 e AT não pode ter 0 como supremo.)
Pelo Lema 2, ∃b ∈ BT , a ∈ AT com b − a < (ε − 1) · c. Podemos tomar
a > c pois c não é supremo de A e aumentar a só diminui a diferença. Logo
b b−a b−a (ε−1)·c
a = 1 + a < 1 + c (pois a > c) < 1 + c = ε c.q.d.

5 Finalmente, R corpo ordenado


Teorema 8: Seja R o conjunto de todos os cortes. Então (R, +, ·, <) é um
corpo ordenado completo. Ou seja,

• (R, +) é grupo abeliano (comutatividade, associatividade, elemento neu-


tro, elemento inverso)
• (R\{K0 }, ·) é grupo abeliano (comutatividade, associatividade, elemento
neutro, elemento inverso)

• A relação de ordem < sobre R é total (transitividade, tricotomia, anti-


reflexividade)
• Axioma do Supremo: Todo conjunto limitado de reais admite supremo
• Vale a propriedade distributiva: S · (T + L) = S · T + S · L

• Se S < T , então S + L < T + L


• Se S < T , e K0 < L então L · S < L · T
Prova: Que < é relação de ordem, e o Axioma do Supremo, já vimos na
seção 2. Da mesma forma, já vimos na seção 3 que (R, +) é grupo abeliano.
Comecemos pelas últimas 2 proposições. Se AS ⊂ AT , AS+L = {aS + aL } ⊂
{aT + aL } = AT +L de onde o resultado segue. Da mesma forma, se AS ⊂ AT e
L > 0, AS·L = {aS · aL } ⊂ {aT · aL } = AT ·L .
Agora para os axiomas da multiplicação. Faremos todos para cortes nega-
tivos; os outros casos estarão incluı́dos.
Sejam S, T > 0 cortes, temos (−S) · (−T ) = −[S · (−T )] = −(−[S · T ]) =
S · T = (vamos provar depois) = T · S = (−T ) · (−S). Agora AS·T = {aS · aT } =
{aT · aS } = AT ·S de onde o resultado segue.

7
Da mesma forma, sejam S, T, L > 0 três cortes; [(−S) · (−T )] · (−L) =
[−(S · [−T ])] · (−L) = [S · T ] · (−L) = −[(S · T ) · L] = (vamos provar depois)
= −[S · (T · L)] = (−S) · [(−T ) · (−L)]. Agora A(S·T )·L = {(aS · aT ) · aL } =
{aS · (aT · aL )} = AS·(T ·L) .
Agora vem a propriedade mais difı́cil de todas: a distributiva. Lembre de
como um passo importante para a analogia entre soma e multiplicação era so-
mente separar em casos de acordo com o sinal.
Sejam S, T, L três cortes. Queremos provar S ·(T +L) = S ·T +S ·L. Quando
qualquer entre S, T, L, (T + L) for zero é trivial, e segue das definições. Senão,
1. Sabemos que −(X + Y ) = −X − Y , isso vale para todo grupo abeliano e
decorre da unicidade do inverso.
2. Suponha que sabemos provar para S > 0. Então no outro caso, S·(T +L) =
−[(−S) · (T + L)] = −[(−S) · T + (−S) · L] = −([−S] · T ) − ([−S] · L) =
S · T + S · L. Portanto basta provar para S > 0.
3. Suponha que sabemos provar para T + L > 0. Então no outro caso,
S · (T + L) = −[S · ([−T ] + [−L])] = −[S · (−T ) + S · (−L)] = −(S · [−T ]) −
(S · [−L]) = S · T + S · L. Portanto basta provar para T + L > 0.
4. Suponha que sabemos provar para T, L > 0 e considere o outro caso, L < 0
e T > −L > 0 já que T + L > 0. Temos T = (T + L) + (−L) e como
todos os termos são positivos, vale S · T = S · (T + L) + S · (−L). Logo
S · T − [S · (−L)] = S · (T + L) e portanto S · T + S · L = S · (T + L). Ou
seja, podemos assumir os 3 positivos.
Agora é a parte fácil, pois AS·(T +L) = {aS · (aT + aL )} = {(aS · aT ) + (aS ·
aL )} = A(S·T )+(S·L) e acabamos.

6 Reflexões Finais
Juntando essa construção com os axiomas de Peano conseguimos o feito impres-
sionante de construir um contı́nuo apenas a partir de conjuntos (dá pra fazer
Peano só usando cópias do conjunto vazio, como dito na introdução). Outra
consequência interessante é conectar as propriedades de Q com as de R. Lem-
bre que a intuição de representação em bases, ou de aproximações por racionais,
não é direta e envolve manipulações de infinitos delicadas. Aqui temos uma
alternativa.
E aqui vai o Exercı́cio Final: Tudo o que usamos sobre Q é que ele é um
corpo ordenado. Vimos que há outros exemplos de corpos ordenados, mas todos
os corpos ordenados completos agem da mesma forma. Tente portanto pegar
outro corpo ordenado bem diferente e veja o resultado de construir os cortes
encima dele. Dois candidatos interessantes são:
1. Os próprios reais
2. O corpo de frações de polinômios.

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