Esqueleto Do Capítulo
Esqueleto Do Capítulo
Editorial Editorial 1
Thiago Thomaz Mafort
Editora Convidada 3
Cláudia Henrique da Costa
Artigos Articles
O que é importante para o Diagnóstico da DPOC? 5
Gilmar Alves Zonzin, Rená Simões Geraidine Clemente, Jaime Veras Correia, Julio Cezar Dias Ferenzini
da Silveira, Auriston Ferraz da Costa
A Pulmão RJ tem por missão fazer prospecção, promover e divulgar trabalhos científicos e educativos
para médicos, pesquisadores, professores, estudantes e demais partes interessadas. Visa contribuir para a
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EXPEDIENTE
Editorial
Pulmão RJ 2017;26(1):1-1 1
Apoiadores SOPTERJ
2 Pulmão RJ 2017;26(1)
Costa CH Editora Convidada
Editora Convidada
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) é uma condição frequente e que está diretamente
ligada ao ato de fumar e com o envelhecimento da população. Segundo dados do DATA SUS1, a DPOC afeta
mais de 5 milhões de brasileiros, levando ao óbito 3 conterrâneos a cada hora. Apesar dos números alar-
mantes sabemos que a quantidade de espirometrias realizadas é pequena. A realidade nos ensinou que os
pacientes têm acesso mais fácil a um eletrocardiograma do que a uma espirometria. No estado do Rio de
Janeiro, várias cidades sequer possuem aparelho de função pulmonar, fazendo com que os médicos se acos-
tumem a não solicitar o exame para os pacientes tabagistas ou com dispneia. Somado a isso, a exposição
a fumaças e gases frequentemente é negligenciada e o diagnóstico de doença obstrutiva acaba não sendo
realizada em muitos desses pacientes. Finalmente, mas não menos importante, observamos que raramente
fazemos o diagnóstico da deficiência de alfa-1 antitripsina embora a mutação do gene SERPINA 1 esteja
presente em cerca de 1% dos pacientes com DPOC.
Este número da Revista Pulmão RJ tem por objetivo reunir artigos de interesse do pneumologista
trazendo à baila temas de cunho prático. Esperamos com isso discutir esta temática tão relevante da nossa
especialidade.
1. [Link]
Pulmão RJ 2017;26(1):3-3 3
4 Pulmão RJ 2017;26(1)
Zonzin GA, Clemente RSG, Correia JV, Silveira JCDF, Costa AF O que é importante para o Diagnóstico da DPOC?
Artigo
Gilmar Alves Zonzin1, Rená Simões Geraidine Clemente2, Jaime Veras Correia3,
Julio Cezar Dias Ferenzini da Silveira4, Auriston Ferraz da Costa5
Resumo
Nesse capítulo buscamos estabelecer os aspectos mais importantes a serem levados em conta para, tanto o
diagnóstico preciso da doença pulmonar obstrutiva crônica bem como estratégias que possam fomentar a melhoria
desse diagnóstico, especialmente em relação a médicos generalistas.
Foram alinhados aspectos clínicos epidemiológicos, aplicação de exames complementares com especial foco
na avaliação da função pulmonar, abordando adicionalmente exames de imagens e outros que podem contribuir
nesse processo. Adicionalmente abordamos questionários visando rastreio e diagnóstico em relação a sua utilidade
e suas limitações
Conclusivamente fica reforçado que o diagnóstico da DPOC se fundamenta em três pilares que seriam
expressão clínica caracterizada por tosse crônica e ou a presença dispneia, histórico de exposição algum fator de
risco, em especial história de tabagismo e avaliação funcional através da espirometria que confirma a presença de
processo obstrutivo pulmonar.
Abstract
In this section we search how establish the most important aspects to achieve the precise diagnosis of chro-
nic obstructive pulmonary disease and strategies that may encourage the improvement of this diagnosis, especially
in relation to general practitioners.
Epidemiological clinical aspects, the application of complementary tests with special focus on the evaluation
of pulmonary function, were also aligned, besides examining images and others that may contribute to this process.
In addition, we approached questionnaires aimed at screening and diagnosis in relation to their usefulness and
their limitations
Conclusively it is reinforced that the diagnosis of COPD is based on three pillars that would be clinical ex-
pression characterized by chronic cough and or dyspnea presence, history of exposure some special risk factor,
especially smoking history and functional evaluation through spirometry that confirms the presence of obstructive
process pulmonary.
1. Especialista em pneumologia pela SBPT - AMB, Especialista em Clínica Médica pela FUGEMSS, Professor do Curso de Medicina do UniFOA - Volta Re-
donda, Presidente em exercício da SOPTERJ, Preceptor em Pneumologia do Internato e da Residência de Clínica Médica do Hospital Munir Rafful - Volta
Redonda -RJ, Coordenador do Serviço de Pneumologia da Casa de Saúde Santa Maria, Barra Mansa - RJ.
2. Pneumologista. Secretária de divulgação da SOPTERJ
3. Medico pneumologista (TE/SBPT/AMB), Mestre em Ciências da Saúde e Educação, Professor de Clínica Médica e Pneumologia do UNIFOA - Centro
Universitário da Fundação Osvaldo Aranha.
4. Pneumologista. Vita Medical Center - Volta Redonda. Hospital Munir Rafful - Volta Redonda
5. Especialista em Pneumologia pelo IDT/UFRJ e Clínica Médica pelo Hospital Municipal Dr. Munir Rafful, Pneumologista do Hospital HINJA - Volta Redonda
Pneumologista da Prefeitura Municipal de Resende-RJ, Supervisor do Programa de Residência de Clínica Médica e membro do corpo clínico do Hospital
Municipal Dr Munir Rafful, Membro do corpo Clínico do Hospital VITA - Volta Redonda.
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funcionais pulmonares ainda preservadas, podendo ter Oscilometria de impulso (iOS) e Pletis-
mais exacerbações e pior prognóstico que aqueles em mografia
situação oposta, ou seja, com provas alteradas e assinto- Na DPOC, as pequenas vias aéreas sofrem des-
máticos, reforçando assim a importância da valorização e truição antes que qualquer alteração espirométrica possa
busca da presença de sintomas. ser detectada.
A presença de sinais ou sintomas clínicos sugerem Um estudo italiano submeteu 202 pacientes com
o diagnóstico de DPOC mas sua ausência, quando há fa- DPOC estável a avaliação de resistência das vias aére-
tor de risco, não exclui a doença. as por iOS e encontrou uma prevalência de disfunção de
Desta forma, diante da presença de fatores de pequenas vias aéreas de 74%, caracterizada por reatân-
risco, mesmo não havendo relato de anormalidades res- cia alterada, elevada resistência a 5 Hertz (Hz) e elevado
piratórias pelo paciente, cabe ao médico lançar mão de delta de resistência em 5Hz-20Hz. A prevalência da dis-
recursos e estratégias para fazer a busca ativa dos sinto- função foi maior conforme pior era a gravidade do pa-
mas em pacientes que desconhecem sua condição e seus ciente (classificação do GOLD) e foi maior em pacientes
riscos em especial estando atento quanto a agravos do com mais dispneia, mostrando a associação da alteração
estado de saúde básico, especialmente quando da ocor- funcional com doença mais limitante .Tendo em vista a
rência de exacerbações que se apresentam como uma associação entre hiperinsuflação e doença limitante e os
oportunidadre pontual para suspeição do diagnóstico de dados crescentes favorecendo a avaliação de resistência
DPOC. das vias aéreas, um outro estudo sueco procurou obser-
O diagnóstico precoce possibilita intervenções, var quais eram os parâmetros da iOS e da pletismogra-
como a cessação do tabagismo e o incentivo a um pro- fia que mais respondiam a prova broncodilatadora e que
grama de atividades físicas, ambos com impacto impor- pudessem traduzir os efeitos do tratamento na função
tante na evolução favorável da doença. pulmonar destes pacientes. As variações em parâmetros
volumétricos foram mais importantes em pacientes com
Papel das provas de função pulmonar pior VEF1 e as variações nas medidas de resistência foram
no diagnóstico proeminentes em pacientes com doença leve.
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e naqueles em que a dispneia é desproporcional a doença para a exclusão de outras patologias e para a avaliação
pulmonar e nos quais doenças cardiovasculares podem de presença de comorbidades1.
ter contribuição importante com a limitação funcional do Adicionalmente a TC apresenta indicação em pa-
paciente. Um estudo italiano contemplou outra aplicação cientes com critérios para rastreamento de câncer de
do referido teste, esse teve como objetivo avaliar altera- pulmão, em candidatos a cirurgia redutora de volume ou
ções funcionais em pacientes sintomáticos tabagistas que nos candidatos a transplante pulmonar. A tomografia tem
apresentaram espirometria normal. Foram detectadas valor especial adicional por poder demonstrar a extensão
menor reserva respiratória que indivíduos hígidos, menor de acometimento do parênquima através da avaliação da
pico de consumo de O2, hiperinsuflação dinâmica indu- presença em maior ou menor grau de enfisema pulmonar.
zida pelo exercício e eficiência respiratória reduzida. Tais A extensão do enfisema se correlaciona com os níveis de
achados são importantes para reconhecimento precoce redução da capacidade de difusão do monóxido de car-
dos pacientes com déficit funcional e tratamento precoce bono DLco. Estudos demonstraram que uma maior carga
dos mesmos. de enfisema na TC se associa à diminuição da capacida-
de de exercício e menor distância percorrida no teste da
A Imagem no diagnóstico da DPOC caminhada de 6 minutos se associando a queda da con-
Em muitos casos os exames de imagem não são siderada diferença mínima clinicamente importante para
considerados adequados para o diagnóstico da DPOC, a distância de caminhada que é o declínio acima de 30m
mais do que isso, podemos encontrar no dia a dia si- que foi associado ao aumento do risco de hospitalização e
tuações em que o uso equivocado dos exames de ima- mortalidade dos pacientes18.
gem seria um dos fatores de retardo no diagnóstico com De forma relativamente recente surgiu a possibi-
pacientes portadores da doença, até mesmo em níveis lidade da adição de uma nova técnica, lançando mão da
avançados, apresentando exame de imagem - em espe- tomografia computadorizada de tórax através de mapea-
cial o radiograma de tórax - completamente normal. Po- mento de resposta paramétrica (parametric response ma-
de-se também, em pacientes com determinados biotipos, pping – PRM). Foram obtidas imagens em inspiração e
completamente saudáveis do ponto de vista respiratório, expiração que foram depois pareadas e analisadas basea-
exibirem padrão de imagem compatível com hiperinsufla- das em seus valores de atenuação em especial a variação
ção pulmonar sugerindo presença de doença na verdade dos mesmos. A PRM foi usada para calcular a quantidade
inexistente. de enfisema (PRM emph) e aprisionamento aéreo não en-
fisematoso (PRM das vias aéreas), posteriormente, mo-
O radiograma de tórax delos de regressão linear foram utilizados para estudo da
Se a radiografia de tórax não é útil para se estabe- associação de medidas de PRM com parâmetros clínicos.
lecer o diagnóstico de DPOC ela pode auxiliar na exclusão Observou-se que existe forte associação da severidade
ou sugestão de diagnósticos alternativos e também auxi- do DPOC com as medidas de PRM. Novos estudos serão
liar na identificação da presença de co-morbidades. Pode- necessários para validação desses dados e aplicabilidade
mos num radiograma de tórax identificar anormalidades de seu uso na prática clínica.
que possam sugerir por exemplo fibrose pulmonar, bron- Em relação ao enfisema pulmonar os pacientes
quiectasias, doença pleural, pneumoconioses; alterações podem exibir diferentes tipos morfológicos de apresen-
músculo esqueléticas (como cifoescoliose), entre outras1. tação do mesmo:
As alterações radiológicas que são caracteristica- Enfisema centrolobular: consequente à dilata-
mente associadas a à DPOC incluem sinais sugestivos de ção ou destruição dos bronquíolos respiratórios, predomi-
hiperinsuflação pulmonar decorrente do aprisionamento na nos lobos superiores e está associado principalmente
aéreo como perda ou redução da curvatura do diafrag- ao tabagismo1.
ma, ou aumento espaço retroesternal e a diminuição da Enfisema panacinar: dilatação e destruição dos
expressão das marcas vasculares. Como já mencionado ácinos pulmonares. Usualmente predomina nos lobos
alterações dessa natureza podem estar presentes em pa- inferiores e se associa principalmente a portadores de
cientes portadores de DPOC ou não, com os mesmos po- DPOC com deficiência de alfa 1 antitripsina.
dendo estar ausentes em portadores da doença inclusive Enfisema parasseptal: ocorre na periferia dos
em quadros avançados da mesma . 1
pulmões, a nível justapleural e ao longo septos interlo-
bulares. Associa-se também com o tabagismo. Sua loca-
A Tomografia de tórax lização determina possibilidade de desenvolvimento do
Em relação a tomografia computadorizada de tó- pneumotórax espontâneo secundário.
rax (TC), a mesma também não é rotineiramente reco-
mendada na avaliação de pacientes com DPOC até o atual
momento. Também de forma semelhante se mostra útil
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tudo realizado na população grega comparou 3 questio- terem a capacidade de otimizar a solicitação da espirome-
nários de triagem, incluindo o COPD-PS, entre fumantes tria e facilitar o diagnóstico prévio da COPD, os mesmos
com idade acima de 40 anos em ambiente de atenção não são capazes por si só de estabelecer o diagnóstico
primária sendo excluídos os indivíduos com diagnóstico da patologia, sempre dependente da avaliação da função
prévio de asma ou outra doença pulmonar crônica além pulmonar
da DPOC. Todos estavam em condição clínica estável e
preenchiam três questionários já validados sendo eles o Exames adicionais no diagnóstico da
questionário do Grupo Internacional de Vias Aéreas de DPOC
Atenção Primária (IPAG), o COPD-PS e o Questionário de O diagnóstico da DPOC independe de exames
Função Pulmonar (LFQ) e realizavam a seguir a espirome- adicionais. Por outro lado, determinados achados em
tria. O diagnóstico médico de DPOC foi estabelecido por determinados exames podem chamar a atenção para al-
um pneumologista experiente. Todos os 3 questionários terações que desencadeiam processos investigativos adi-
mostraram valores preditivos negativos extremamente cionais e que podem auxiliar no diagnóstico da DPOC.
elevados (94-96%), portanto, neste caso, o diagnósti- Como exemplo: o achado de hipoxemia, poliglobulia, pre-
co de DPOC pode ser excluído com segurança tornan- sença de alterações eletrocardiográficas compatíveis com
do desnecessária a realização da espirometria. A área aumento do trabalho do ventrículo direito entre outras
abaixo da curva foi semelhante nos 3 questionários (AUC possibilidades. Além disso, determinados exames tem uti-
ROC: 0.794-0.809). O questionário COPD-PS demonstrou lidade para, após estabelecido o diagnóstico de DPOC,
o maior valor preditivo positivo (41%) em relação aos auxiliarem na avaliação da gravidade e no acompanha-
outros dois. Por outro lado, o questionário IPAG e LFQ mento clínico da doença. Gasometria arterial está reco-
demonstraram maior sensibilidade do que o COPD-PS, mendada na avaliação inicial de pacientes com doença
resultando em menores porcentagens de casos não iden- grave, ou seja, VEF1 < 50%, na presença de manifestação
tificados. Assim sendo, percebeu-se que 3 questionários clínica de hipoxemia como cianose, cor pulmonale, hiper-
de triagem validados para DPOC demonstraram caracte- tensão pulmonar ou evidência de saturação periférica de
rísticas diagnósticas diferentes. oxigênio abaixo de 92%. Pacientes com doença avançada
A validade desse tipo de abordagem (questioná- podem apresentar hipercapnia e hipoxemia, podendo se
rios) com outros métodos foi estudada em trabalho bus- beneficiar da oxigenoterapia domiciliar prolongada con-
cando o melhor método de rastreio na atenção primária forme as recomendações pré-estabelecidas.
para diagnóstico de DPOC em tabagistas. O grupo desen- O eletrocardiograma e o ecocardiograma, em ca-
volveu um questionário para detectar casos de DPOC e sos de suspeição clínica ou radiológica de hipertensão
comparou sua confiabilidade com outras estratégias. Para arterial pulmonar ou na presença de dispneia despro-
desenvolver o novo questionário (questionário de triagem porcional ao grau de alteração na função pulmonar e no
da DPOC de Terrassa [EGARPOC]), utilizaram dados de caso de evidência ou suspeita de doença cardiovascular
um estudo epidemiológico sobre a prevalência de DPOC associada, estão indicados para uma abordagem sistêmi-
em fumantes e estabeleceram sua significância para o ca da DPOC buscando uma avaliação global do paciente e
diagnóstico de DPOC na análise de regressão. A compa- atenção a presença de co-morbidades.
ração se deu entre o questionário elaborado pelo grupo Também podem estar indicados outros exames
(EGARPOC), Questionário de Rastreio de Saúde Respira- laboratoriais além da gasometria arterial na proposta de
tória, o questionário de 2 questões e o espirômetro por- avaliação da função renal, hepática e metabólica, para
tátil COPD-6. Um estudo multicêntrico transversal que in- investigar doenças associadas como diabetes e cirrose
cluiu 407 fumantes ou ex-fumantes com mais de 40 anos, hepática. A ultrassonografia abdominal e a endoscopia
sem diagnóstico conhecido de DPOC, que preencheram digestiva alta são úteis na avaliação de neoplasias do
os diferentes questionários e submetidos à espirometria sistema digestório, doença do refluxo gastroesofágico e
com COPD-6. Ao comparar os questionários pelo teste do úlcera péptica.
qui-quadrado, o questionário de 2 perguntas mostrou a O Teste de caminhada de seis minutos (TC6M)
pior discriminação. Já a avaliação do VEF1 / VEF6 (Volume avalia a distância percorrida em metros associado ao
expiratório Forçado no sexto segundo) com corte de 0,78 comportamento da oximetria de pulso e frequência car-
saiu-se significativamente melhor do que os questionários díaca sendo um exame auxiliar na avaliação funcional
na detecção de DPOC sendo considerado a melhor ferra- dos pacientes. Se mostra útil para avaliar a tolerância ao
menta de triagem para DPOC em cuidados primários, em exercício, medir o efeito do treinamento em programas
comparação com os questionários testados. de reabilitação pulmonar e da terapia medicamentosa1,5.
Sendo assim, diferentes questionários foram de- A dosagem da α1-antitripsina está recomendada
senvolvidos para alcançar o diagnóstico por suspeita de em todos os pacientes que recebem o diagnóstico de
presença de DPOC. No entanto, apesar de os mesmos DPOC, especialmente nos com doença grave e precoce
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Zonzin GA, Clemente RSG, Correia JV, Silveira JCDF, Costa AF O que é importante para o Diagnóstico da DPOC?
Conclusão
A presença de sintomas sugestivos da doença –
que podem estar presentes em maior ou menor grau e
com maior ou menor facilidade de obtenção junto aos
pacientes – somados a avaliação da capacidade funcional
pulmonar tendo como base a espirometria convencional
e o histórico do indivíduo, em especial de tabagismo for-
mam uma tríade através da qual construímos a hipótese
e firmamos o diagnóstico da DPOC.
Referências
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12 Pulmão RJ 2017;26(1):5-14
Costa CH, Rufino R Quando devemos usar CI na DPOC?
Artigo
Resumo
Embora as diretrizes para o tratamento da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) preconizem o uso
de corticoides inalatórios para os casos mais graves e, especialmente, para aqueles que apresentam exacerbações
frequentes, verifica-se que o uso destes medicamentos é muito comum inclusive em casos leves e como primeira
opção de tratamento. A falta de estudos robustos em pacientes com DPOC e a experiência positiva adquirida no tra-
tamento dos pacientes com asma facilitou a disseminação do uso dos corticoides inalatórios para tratar os pacientes
com doença obstrutiva devido ao fumo. Estudos posteriores demonstraram que os corticoides inalados usados iso-
ladamente em pacientes com DPOC não só eram ineficazes, como aumentavam o risco de vários eventos adversos,
especialmente a pneumonia. Atualmente, após várias revisões, o documento GOLD (Global Initiative for Chronic
Obstructive Pulmonary Disease) sugere o uso de broncodilatadores combinados para o tratamento de pacientes
estáveis. O corticoide inalatório pode ser usado em combinação com um broncodilatador nos pacientes com asma
associada, nos que apresentam eosinofilia e naqueles que persistem com exacerbações.
Abstract
Although the guidelines for the treatment of Chronic Obstructive Pulmonary Disease (COPD) advocate the
use of inhaled corticosteroids for more severe cases, and especially for those with frequent exacerbations, the use
of these medications is very common even in as the first treatment option. The lack of robust studies in patients
with COPD and the positive experience gained in treating patients with asthma facilitated the spread of inhaled
corticosteroids in the to treat patients with obstructive disease due to smoking. Subsequent studies have shown
that inhaled corticosteroids used alone in COPD patients were not only ineffective, but also increased the risk of
some adverse events, especially pneumonia. Currently, after several reviews, the GOLD (Global Initiative for Chronic
Obstructive Pulmonary Disease) document suggests the use of combined bronchodilators for the treatment of sta-
ble patients. Inhaled corticosteroids may be used in combination with a bronchodilator in patients with associated
asthma, those with eosinophilia, and those who persist with exacerbations.
1. Professora Adjunta de Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro
2. Professor Titular de Pneumologia da Faculdade de Ciências Médicas, Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Endereço para correspondência: Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) - Boulevard 28 de setembro n° 77 – Vila Isabel - Rio de Janeiro (RJ)
Disciplina de Pneumologia - CEP:20551-030
Email: [Link]@[Link]
Pulmão RJ 2017;26(1):15-18 15
Costa CH, Rufino R Quando devemos usar CI na DPOC?
Quando devemos usar CI na DPOC? outros desfechos secundários foram alcançados incluin-
Segundo o documento GOLD (Global Initiative for do o número de exacerbações, que foi inferior nos três
Chronic Obstructive Pulmonary Disease), os corticosteroi- grupos ativos quando comparados ao placebo (p<0,001).
des inalatórios (CI) somente deveriam ser utilizados pelos Nesse mesmo estudo, foi observado que os pacientes que
pacientes que têm exacerbações frequentes, que repre- tinham usado fluticasona apresentavam risco aumenta-
sentam menos de 20% do total ou por aqueles com asma do de ter pneumonia, quando comparado com os outros
associada . Entretanto, mais de 70% dos pacientes com
1 grupos6.
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) atualmente Desde então, se avalia até que ponto o uso dos CI
se encontram em tratamento com CI, e mais da metade aumentam o risco de pneumonia. Uma revisão sistemáti-
começa a recebê-los como terapia inicial2. ca Cochrane, que incluiu 11.076 pacientes com DPOC de
moderada a grave de 12 estudos clínicos, constatou au-
Por que usamos corticoide inalatório na mento do risco de pneumonia em pacientes que usavam a
DPOC? associação de β-2 agonista de longa duração (LABA) com
Mais de meio século se passou desde o lançamen- CI, em comparação à monoterapia com LABA (OR: 1,55;
to do primeiro corticoide inalatório, a beclometasona. IC de 95%: 1,2-2,01)7. Vários outros estudos relataram o
Com a falta de estudos clínicos em pacientes com DPOC risco aumentado de monilíase oral, rouquidão, fraturas,
e levando-se em conta as propriedades anti-inflamatórias infecções e diabetes8-11.
do produto e a eficácia do produto na asma, parecia ób-
vio, no final dos anos 70 e 80, usar os CI para tratar os Qual seria a outra opção de tratamen-
pacientes com doença obstrutiva devido ao fumo. Na dé- to?
cada seguinte, alguns importantes estudos começaram a O estudo WISDOM (Withdrawal of Inhaled Ste-
ser desenhados para avaliar a eficácia deste tratamento. roids during Optimized Bronchodilator Management),
Assim, em 1999 foi publicado o estudo Copenhagen, que publicado em 2014, analisou 2.485 pacientes com DPOC
incluiu 290 pacientes com DPOC leve [média percentual exacerbadores12. Após um período inicial no qual todos
do volume expiratório forçado no 1º segundo (VEF1) basal os pacientes usavam tiotrópio, salmeterol e fluticasona,
foi de 86%] e que receberam, de forma aleatória, bude- metade foi alocada no braço que retiravam gradualmente
sonida ou placebo durante 36 meses . Como desfechos
3 o CI e os demais permaneceram em uso do mesmo tra-
primários foram avaliados a taxa de exacerbações e de- tamento. Ao final de um ano verificou-se que a retirada
clínio do VEF1 (%) no período. O estudo foi negativo, não do CI não havia interferido no número de exacerbações,
tendo sido capaz de mostrar diferença entre os grupos. mas esses pacientes haviam apresentado discreta queda
No mesmo ano, houve a publicação do estudo EUROSCOP do VEF1%12.
(European Respiratory Society study on chronic obstructi- O estudo INSTEAD (Indacaterol: Switching Non-
ve pulmonary disease), desenhado com características se- -Exacerbating Patients with Moderate COPD from Salme-
melhantes ao estudo de Copenhagen, mas tendo incluído terol/Fluticasone to Indacaterol) comparou pacientes com
1.277 pacientes4. Além de não ter conseguido demonstrar DPOC leve, não exacerbadores, em uso da monoterapia
benefício quanto ao uso de budesonida inalatória para os com indacaterol com a associação de salmeterol com flu-
pacientes com DPOC, o estudo apontou um maior nú- ticasona13. Verificou-se que todos os desfechos (VEF1%
mero de eventos adversos entre os pacientes do grupo vale, uso de medicação de resgate, número de exacerba-
ativo, como hematomas, candidíase oral e disfonia. No ções, qualidade de vida e índice de dispneia) foram seme-
ano seguinte, o estudo ISOLDE (Inhaled Steroids in Obs- lhantes nos dois grupos, sugerindo que pacientes pouco
tructive Lung Disease), que havia avaliado 751 pacientes exacerbadores não se beneficiariam do uso de CI13.
com DPOC durante 36 meses, em uso de fluticasona ou Mais recentemente, o estudo FLAME incluiu 3.362
placebo, não conseguiu observar resposta positiva na re- pacientes com DPOC com histórico de exacerbação14. Eles
dução do declínio da função pulmonar, mas apontou para foram divididos em dois braços: indacaterol e glicopirrônio
a redução do número de exacerbações entre os pacientes vs. salmeterol e fluticasona (Esta última associação era
que estavam no grupo ativo (p=0,026)5. Em 2007, é pu- considerada até então como o tratamento padrão para
blicado o estudo TORCH (TOwards a Revolution in COPD pacientes exacerbadores). Após um ano de acompanha-
Health) que incluiu 6.184 pacientes com DPOC moderado mento, verificou-se que os pacientes do grupo indacaterol
a grave, que foram alocados de forma aleatória em quatro e glicopirrônio haviam apresentado menos exacerbações.
braços: propionato de fluticasona, salmeterol, a combi- Os autores concluíram que a associação de dois broncodi-
nação dos dois ou placebo . O estudo tinha como desfe-
6 latadores (indacaterol e glicopirrônio) havia sido superior
cho primário, verificar a mortalidade de qualquer causa ao salmeterol/fluticasona na prevenção de exacerbações
durante 3 anos de observação. Embora não tenha sido de pacientes com DPOC com histórico de pelo menos uma
possível determinar essa redução de mortalidade, vários exacerbação no último ano14.
16 Pulmão RJ 2017;26(1):15-18
Costa CH, Rufino R Quando devemos usar CI na DPOC?
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Apoiadores SOPTERJ
18 Pulmão RJ 2017;26(1):15-18
Cardoso AP, Aguiar FS, Araújo AM O uso da combinação LABA/LAMA em pacientes com DPOC
Artigo
Resumo
Neste artigo de atualização discutiremos, à luz dos mais recentes e relevantes trabalhos, a terapia dupla com
broncodilatadores de longa ação para os pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) no período
estável, destacando sua proteção quanto a exacerbações, dispneia, qualidade de vida, utilizando como orientador
de sua oportunidade de uso a recomendação mais recente do Iniciativa Global para Doenças Pulmonares (GOLD)
da sigla em língua inglesa.
Abstract
In this update article we will discuss the light of the most recent and relevant studies on dual therapy with
long acting bronchodilators for patients with chronic obstructive pulmonary disease (COPD) in the stable period,
highlighting their protection against exacerbations, dyspnea, quality of life, Using the most recent recommendation
of the Global Initiative for Lung Disease (GOLD) as the guideline of their opportunity to use the English acronym.
Keywords: COPD, Indacaterol, Glycopyrronium, aclidinium, olodaterol, vilanterol , tiotropium, dual therapeu-
tics
1. Md Phd - Professor Associado Pneumologia UFRJ - Diretor Saúde IDT UFRJ - Coordenador Unidade Pesquisa Clínica IDT UFRJ - alexandrecardoso@
[Link]
2. Md Phd - Pesquisador Senior Unidade Pesquisa Clinica IDT UFRJ - aguiarmd@[Link]
3. Msc IDT UFRJ - Médica IDT UFRJ - Pesquisadora Unidade Pesquisa Clinica IDT UFRJ
Email: alexandrecardoso@[Link]
Pulmão RJ 2017;26(1):19-22 19
Cardoso AP, Aguiar FS, Araújo AM O uso da combinação LABA/LAMA em pacientes com DPOC
O pilar do tratamento não-farmacológico é ces- damente na DPOC estável são a redução do número de
sação do tabagismo, oxigenoterapia e reabilitação pul- exacerbações, melhora na função pulmonar e melhora na
monar, estes últimos, nos casos indicados. O tratamento qualidade de vida, quando comparados com placebo. Os
farmacológico inclui broncodilatadores inalados, corticos- LABA disponíveis atualmente são o salmeterol, o formo-
teroides inalados (ICS), combinação destes fármacos em terol, o indacaterol, o vilanterol e o olodaterol. Os LABA
formulação dupla ou tripla, inibidores da fosfodiesterase possuem bom perfil de segurança. Um estudo caso-con-
e até mesmo macrolídeos. trole com metodologia confusa mostrou uma tendência
A finalidade desta revisão será concentrar-se em de maior risco de arritmia com o início de uso de salme-
publicações recentes sobre o tratamento farmacológico terol, que não foi confirmada em pacientes sem antece-
para a DPOC, com ênfase na combinação de broncodi- dentes de doença cardíaca32. Aproximadamente 25% dos
latadores de longa ação, agonistas beta adrenérgicos de pacientes em uso de indacaterol apresentam tosse tran-
longa ação (LABA) e inibidores da acetilcolina (LAMA) sitória até 5 minutos após a inalação11. Não se observou
efeitos adversos significativos com o uso de formoterol,
LAMA / LABA na DPOC olodaterol e vilanterol.
As vias aéreas são inervadas por nervos pós- Os LAMA, também chamados de agentes muscarí-
-gangliônicos, parassimpáticos. Estes nervos liberam ace- nicos, incluem o tiotrópio, o umeclidínio e o glicopirrôneo.
tilcolina, que regula o tônus muscular, a broncoconstri- O tiotrópio é o LAMA mais estudado e está disponível no
ção de pequenos brônquios e bronquíolos e a resistência Brasil desde 2003. O tiotrópio melhora a função pulmo-
em vias aéreas maiores. Receptores muscarínicos e β2- nar, reduz a hiperinsuflação dinâmica, diminui o grau de
adrenérgicos são expressados nos pulmões. Três subtipos dispneia e o risco de exacerbações30, 6, 31, 16. Além disto,
de receptores muscarínicos são expressados no pulmão observa-se aumento do VEF1 até 24 horas após a dose,
(M1, M2 e M3) . A broncoconstrição é mediada pelos
2 quando comparado com placebo22 e é capaz de reduzir a
receptores M1 e M3. Receptores β2-adrenérgicos são taxa de declínio do VEF11. Apesar de preocupações quan-
20 Pulmão RJ 2017;26(1):19-22
Cardoso AP, Aguiar FS, Araújo AM O uso da combinação LABA/LAMA em pacientes com DPOC
to ao perfil de segurança cardiovascular, dados de dois podem ser administradas através de um único dispositi-
grandes estudos randomizados não encontraram riscos vo de medicação. A orientação antiga da Iniciativa Global
significativos14, 33. para a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (GOLD) re-
A observação de que o uso de em doses terapêu- comendou o LABA + ICS como o tratamento de primeira
ticas de um β2-agonista de curta duração não foi capaz linha para o controle da DPOC estável em pessoas de
de resultar em broncodilatação máxima em pacientes alto risco das categorias C e D. No entanto, a orientação
com DPOC levou à prática de associar um anticolinérgico. atualizada GOLD 2017 recomenda LAMA + LABA sobre
O grau de broncodilatação atingido por β2-agonistas e LABA + ICS.
anticolinérgicos é aditivo, principalmente em doses sub- Um trabalho recente36 com 9839 mil pacientes,
-máximas de cada agente . A terapia combinada com
14
revisou dezenas de trabalhos, sendo sua maioria com o
salbutamol e ipratrópio, foi capaz de aumentar o volume patrocínio da indústria farmacêutica concluiu que para o
expiratório forçado no 1o segundo (VEF1) além do ganho tratamento da DPOC, o LAMA + LABA tem menos exa-
de cada agente isolado. Por conta disto, em pacientes cerbações, maior melhora do VEF1, menor risco de pneu-
GOLD C ou D que continuem sintomáticos com o uso de monia e melhora mais frequente na qualidade de vida,
um LAMA ou um LABA, está recomendado se adicionar medida por um aumento de 4 unidades ou mais do Saint
um broncodilatador da outra classe [GOLD]. O uso de George Respiratory Questionary (SGRQ). Esses dados
uma formulação combinada em dose fixa é preferível ao foram respaldados por evidências de qualidade baixa ou
uso de um LAMA e um LABA em formulações separadas moderada, geradas principalmente por participantes com
devido a um provável ganho de adesão ao tratamento, DPOC moderada a grave em estudos heterogêneos com
além de se obter um custo total do tratamento menor .
34, 35
um período de observação de menos de um ano finaliza
A combinação de tiotrópio-olodaterol por inalador que estes resultados suportam a orientação GOLD recen-
Respimat© em pacientes com DPOC moderada a grave temente atualizada.
obteve um aumento no VEF1 nas primeiras 3 horas após Em outro trabalho de metanálise com cuidado
o uso e após 24 horas de uso comparado aos monocom- metodológico maior37 que incluía trabalhos com 3, 6 e 12
ponentes3. meses a melhora do VEF1 induzida pelo LABA / LAMA em
A combinação umeclidínio-vilanterol por inalador doses fixas de um mesmo dispositivo (FDC) versus mono-
de pó seco obteve um aumento no VEF1 nas primeiras terapia foi maior do que a diferença mínima clinicamente
6 horas e após 24 horas do uso comparado aos mono- importante (MCID) de 60mL. Melhorias mensuradas pelo
componentes e ao placebo15. Além disto, um estudo de SGRQ e Transient Dispneia Index (TDI) também foram
meta-análise encontrou um número menor de pacientes observadas quando do uso de FDC (quatro unidades e
com pelo menos uma exacerbação no grupo em uso da uma unidade, respectivamente), quando comparados
combinação, quando comparado aos grupos com os mo- com monocomponentes.
nocomponentes25. Além disso, a superioridade geral dos LABA/LAMA
A combinação glicopirrôneo-indacaterol por inala- FDC foi maior após 3 meses de tratamento, e depois a
dor de pó seco foi superior que os monoterapia com cada diferença se estabilizou diminuiu após 6 e 12 meses de
componente e com tiotrópio ao se comparar o VEF1 24 tratamento e permaneceram estáveis. Esta tendência de
horas após o uso e o uso de medicação de alívio26. melhorias contínuas no VEF1 provocadas pelas combina-
Até 2017 três classes de medicamentos inalatórios ções LABA / LAMA podem se iniciar precocemente em
são usados para tratar a doença pulmonar obstrutiva crô- até 3 meses de tratamento. Parece que para os agentes
nica (DPOC): beta-agonistas de ação prolongada (LABA), broncodilatadores de ação prolongada o tempo necessá-
antagonistas muscarínicos de longa duração (LAMA) e rio para atingir o broncodilatação clinicamente detectável
corticosteroides inalatórios (ICS). Quando são necessá- precisa de um tempo maior, mas nos fica a impressão que
rias duas classes de medicamentos, o LAMA mais o LABA o gradiente de eficácia de longo prazo continua ainda
(LAMA + LABA) e o LABA mais o ICS (LABA + ICS) são uma necessidade não atingida.
frequentemente selecionados porque estas combinações
Pulmão RJ 2017;26(1):19-22 21
Cardoso AP, Aguiar FS, Araújo AM O uso da combinação LABA/LAMA em pacientes com DPOC
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Bártholo TP, Costa CH Fenótipos da DPOC: há interesse prático nesta avaliação?
Artigo
Resumo
A doença pulmonar obstrutiva crônica é causa importante de mortalidade no mundo e está presente em
90-95% dos indivíduos que se expõem ao tabagismo. Há muito tem se discutido a heterogeneidade da doença,
inicialmente subdividindo a expressão clínica em dois grandes grupos: “Pink puffer” e “Blow blooter”. Recentemen-
te, tem sido descrito diferentes fenótipos da doença subdividindo os pacientes em diversos grupos. Destacam-se
como mais prevalentes o exacerbador, a síndrome de sobreposição asma/DPOC e o enfisema com hiperinsuflação.
Entretanto, será que devemos, em consulta clínica, estar preocupados em classificar o nosso paciente nestes sub-
grupos? Essa pergunta é foco de grande discussão, mas à luz dos conhecimentos atuais essa subdivisão parece
ser interessante para fins de decisão e escalonamento terapêutico, individualizando o tratamento com o objetivo de
maior efetividade terapêutica.
Abstract
Chronic obstructive pulmonary disease is an important cause of and in 90-95% of cases is associated
smoking habit. The heterogeneity of the disease has long been discussed dividing the clinical expression of the
disease into two major groups: Pink puffer and Blow blooter. Recently, different phenotypes of the disease have
been described, subdividing the patients into several groups. The following stand out: Exacerbator, overlap asthma
/ COPD syndrome, emphysema with hyperinflation and others. However, is important for us to classify our patients
in these subgroups? This question is a focus of great discussion, but the light of current knowledge this subdivision
seems to be interesting to decide about which drug we will choose to achieve individual effectiveness.
1. Médico do Serviço de Pneumologia e Tisiologia UERJ / Mestre em Pneumologia UERJ / Doutorando em Pneumologia UERJ
2. Coordenadora da Disciplina de Pneumologia e Tisiologia – Faculdade de Ciências Médicas - UERJ
Pulmão RJ 2017;26(1):23-28 23
Bártholo TP, Costa CH Fenótipos da DPOC: há interesse prático nesta avaliação?
Exacerbador
Durante o curso da DPOC, frequentemente, pa-
cientes apresentam episódios pontuais de instabilidade
clínica da própria doença conhecidos como exacerbação.
Entretanto, alguns pacientes nunca apresentam exacer-
24 Pulmão RJ 2017;26(1):23-28
Bártholo TP, Costa CH Fenótipos da DPOC: há interesse prático nesta avaliação?
Tabela 2. Características do Fenótipo Misto Asma – DPOC descritos pelo GINA / GOLD1 Enfisema com hiperin-
suflação
Enfisema pulmonar apresen-
ta definição anatomo-patológica ao
nível dos bronquíolos terminais. A
hiperinsuflação é causada pela perda
da retração do parênquima pulmonar
em pacientes com enfisema. A hipe-
rinsuflação pode ser detectada atra-
vés de tomografia computadorizada
de tórax e/ou de exame de função
respiratória com medida de difusão
ao monóxido de carbono (DLco) re-
duzida4.
Define-se fenótipo enfisema
com hiperinsuflação aquele paciente
com DPOC que apresente sinais de
hiperinsuflação na medida de volu-
bação, enquanto outros, apresentam de forma repetida
mes pulmonares (VR% e VR/CPT %
em curto espaço de tempo. Alguns fatores individuais
se encontram acima de 130%) e redução da difusão ao
como hipersecreção brônquica, presença de bronquiec-
CO (abaixo de 80%)19.
tasia, de doença cardiovascular ou de refluxo gastro-
A característica clínica destes pacientes é a pre-
esofagiano aumentam o risco de exacerbação. A regra
sença de dispneia, intolerância ao exercício, sinais de hi-
mnemônica A-G-X (do inglês) descreve os principais fa-
perinsuflação e tendência a baixo índice de massa corpo-
tores desencadeantes de exacerbação (infecção Aguda,
ral. A presença deste fenótipo é preditor de mortalidade
infecção Bacteriana, Coinfecção, Depressão, Embolia
independente da gravidade da doença.
pulmonar, Insuficência cardíaca, fatores Gerais outros)6.
Estes pacientes parecem apresentar um benefício
Nenhum fator genético foi implicado, até o momento, de
maior quando tratados com terapia broncodilatadora as-
forma consistente como fator de risco para exacerbação.
sociando dois broncodilatadores de longa duração4,20.
Estudo conduzido em população idosa demonstrou alta
prevalência de depressão nestes pacientes principalmen-
Outros fenótipos
te devido ao grau de dispneia7.
Diversos outros fenótipos tem sido identificados
Define-se exacerbador como o paciente que
na prática clínica. Vamos rever rapidamente os de maior
apresenta duas ou mais exacerbações por ano, sendo que
relevância.
as exacerbações devem ser separadas por pelo menos
DPOC com deficiência de alfa 1 antitripsina está
quatro semanas após término de tratamento ou seis se-
associado a alteração genética do gene SERPINA 1 e sem-
manas de início dos sintomas caso o paciente não tenha
pre que suspeitado devemos solicitar dosagem sérica de
recebido tratamento. Também são considerados exacer-
alfa 1 antitripsina e, caso diminuída, devemos pesquisar
badores pacientes que apresentam agudização da doen-
mutação genética. Este fenótipo se associa ao enfisema
ça que obrigue à internação hospitalar no último ano. À
panacinar mais evidente nas bases pulmonares e quando
despeito da controvérsia em torno do conceito de exa-
associado ao tabagismo o aparecimento da doença é mais
cerbação, define-se exacerbação como piora clínica dos
precoce e geralmente com pior prognóstico. A identifica-
sintomas respiratórios que requeira corticoterapia oral,
ção deste fenótipo tem importância terapêutica, já que
antibioticoterapia ou ambos4.
podemos prescrever reposição da enzima alfa 1 antitripsi-
Hospitalização e aumento da dose de corticoide
na via endovenosa21.
inalatório são critérios citados em alguns estudos, porém
O fenótipo declinador rápido é aquele que apre-
ainda controversos. Os pacientes com este fenótipo apre-
senta redução acentuada da função pulmonar em curto
sentam ao longo dos anos, uma pior qualidade de vida
espaço de tempo avaliada por VEF1 por pelo menos 2
e um maior risco de morbimortalidade. Estes pacientes
anos. Necessita de avaliação seriada da função pulmonar
apresentam maior benefício quando tratados com terapia
fato que muitas vezes não se tem disponível na prática
anti-inflamatória utilizando corticoide inalado e roflumilas-
clínica e, além disso, não se tem opção terapêutica dispo-
te. A terapia com antibiótico, principalmente azitromicina,
nível capaz de impedir esse rápido declínio. Com isso, a
objetivando imunomodulação parece também ser interes-
identificação deste fenótipo tem pouca aplicação prática
sante4, 17, 18.
em termos terapêuticos apesar de refletir avanço rápido
Pulmão RJ 2017;26(1):23-28 25
Bártholo TP, Costa CH Fenótipos da DPOC: há interesse prático nesta avaliação?
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Bártholo TP, Costa CH Fenótipos da DPOC: há interesse prático nesta avaliação?
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Pulmão RJ 2017;26(1):23-28 27
Apoiadores SOPTERJ
28 Pulmão RJ 2017;26(1):23-28
Cruz TF, Costa CH Deficiência de alfa-1 antitripsina: uma condição subdiagnosticada
Artigo
Resumo
Abstract
Alpha-1-antitrypsin deficiency (AAT) is associated with the development of severe liver disease and early
pulmonary emphysema. Around the world, only 2% of the estimated cases of AAT deficiency are believed to have
been diagnosed. The discipline of Pulmonology of the University of the State of Rio de Janeiro has been conducting
tests for AAT deficiency by filter nephelometry technique in all patients diagnosed with COPD. The prevalence of
severe mutations found in AAT genes in patients with COPD was 2.4% and does not differ from previous data in the
literature, but the number of other patients with mild mutations is quite high (4%). The authors suggest that the
systematic dosing of AAT in all patients with COPD may be an effective strategy to capture patients with enzyme
deficiency, allowing preventive measures such as smoking cessation and genetic counseling to be effective.
Pulmão RJ 2017;26(1):29-32 29
Cruz TF, Costa CH Deficiência de alfa-1 antitripsina: uma condição subdiagnosticada
30 Pulmão RJ 2017;26(1):29-32
Cruz TF, Costa CH Deficiência de alfa-1 antitripsina: uma condição subdiagnosticada
ning foram de 28 indivíduos. Destes, 5 ainda aguardam ficiar dessa investigação. O benefício se dá pela possibili-
resultados e 9 (40%) apresentaram alterações nos ale- dade de aconselhamento genético e por mais informação
los relacionados a deficiência da AAT. Desses ainda, 3 a respeito dessa condição.
(13%) apresentaram mutações graves. Abaixo segue a Como esses indivíduos possuem uma concentra-
tabela 2 com a discriminação de genótipos encontrados ção menor que o normal de AAT sérica, eles são mais
em familiares assintomáticos de pacientes com genótipos suscetíveis ao tabaco e poluentes ambientais e, portanto,
alterados. devem ser orientados a evitar esse tipo de exposição10.
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Pulmão RJ 2017;26(1):29-32 31
Apoiadores SOPTERJ
32 Pulmão RJ 2017;26(1):29-32
Pessôa CLC Tratamento do tabagismo em pacientes com DPOC
Artigo
Resumo
DPOC é uma das doenças pulmonares mais prevalentes no mundo. No Brasil, as prevalências de DPOC e de
tabagismo são 15,8% e e 10,4%, respectivamente. Entre 30 e 70% dos pacientes com DPOC permanecem tabagis-
tas. O tratamento destes pacientes é um desafio. Frequentemente apresentam baixa motivação e auto eficácia para
a interrupção do tabagismo (IT), elevada dependência de nitcotina e associação com depressão. A investigação
destes elementos deve preceder o início do tratamento farmacológico, que deve sempre estar associado a terapia
cognitivo comportamental (TCC) e ao tratamento da depressão. O paciente com DPOC deve ser informado sobre
a relação do tabagismo com sua doença e a importância da interrupção para o controle dos sintomas e mudança
do prognóstico. A TCC inclui e sugere a escolha da data de IT, a identificação de situações de alto risco, o desen-
volvimento de comportamentos alternativos e o manejo dos sintomas de abstinência, além de proporcionar apoio e
incrementar motivação. Todos os fármacos de primeira linha no tratamento do tabagismo podem ser utilizados no
tratamento deste grupo, com as doses e períodos clássicos, mas para os mais dependentes, é frequente a necessi-
dade de se estender o período de tratamento, aumentar doses e associar fármacos.
Abstract
COPD is one of the most prevalent pulmonary diseases in the world. In Brazil, the prevalence of COPD and
smoking is 15.8% and 10.4%, respectively. Between 30 and 70% of COPD patients are smokers. The treatment of
these patients is a challenge. Frequently they present low motivation and self-efficacy for smoking cessation (SC),
high level of nicotine dependence and association with depression. The investigation of these elements should
precede the beginning of pharmacological treatment, which should always be associated with cognitive behavioral
therapy (CBT) and with the treatment of depression. The patient with COPD should be informed about relationship
of smoking with their disease and the importance of discontinuation for symptom control and change of progno-
sis. CBT includes and suggests the choice of SC date, the identification of high-risk situations, the development of
alternative behaviors and the management of withdrawal symptoms, as well as providing support and increasing
motivation. All first-line drugs in the smoking treatment can be used in the treatment of this group, with the classic
doses and periods, but for the most dependent, it is often necessary to extend the period of treatment, increase
doses and associate drugs.
Pulmão RJ 2017;26(1):33-38 33
Pessôa CLC Tratamento do tabagismo em pacientes com DPOC
34 Pulmão RJ 2017;26(1):33-38
Pessôa CLC Tratamento do tabagismo em pacientes com DPOC
mentas para estimular-se o paciente a iniciar ou seguir quando os benefícios da cessação são considerados. Além
numa tentativa de interrupção do tabagismo. disso, em pacientes com baixo peso e com DPOC, algum
Mais de um estudo demonstrou que a realização ganho de peso é desejável34.
de espirometria aumenta a motivação e até mesmo as Em resumo, muitos tabagistas com DPOC têm
taxas de abandono em fumantes com DPOC24, especial- características específicas que reduzem suas chances de
mente se no laudo da mesma constar o cálculo da idade abandonar com sucesso.
pulmonar25.
Os monoxímetros podem ser úteis tanto para iden- Tratamento
tificar pacientes ainda tabagistas, mas também para ilus- O tratamento do tabagismo em portadores de
trar benefícios potenciais .
26
DPOC deve ser constituído pela combinação de terapia
cognitivo comportamental e farmacoterapia35.
Depressão
Depressão é mais comum entre os tabagistas por- Terapia cognitivo comportamental
tadores de DPOC do que em outros tabagistas. Um ciclo Deve-se informar claramente ao paciente que a
vicioso pode ocorrer com o tabagismo levando à DPOC causa principal ou única da sua doença e dos sintomas
e DPOC à depressão, que por sua vez tem um impacto atuais é o tabagismo e que: 1) a cessação do consumo de
negativo sobre a cessação nestes fumantes27. tabaco é a única medida que retarda a progressão da do-
Utilizando-se a escala The hospital anxiety and de- ença e melhora o prognóstico; 2) o tratamento da DPOC
pression scale (HADS)28, Lima e Viegas29 verificaram que não vai gerar o efeito desejado com a continuação do
28% dos pacientes tabagistas tinham pontuação compa- tabagismo; e 3) que a interrupção melhora a obstrução
tível com depressão provável e Pessôa et al30, verificaram ao fluxo aéreo com consequente melhora dos sintomas
45,9% com depressão possível ou provável e um dado da DPOC36.
alarmante, 19,4% dos participantes deste programa tra- Sugere-se fortemente a escolha da data do dia da
tamento de tabagismo revelaram história prévia de idea- interrupção do tabagismo, a identificação de situações de
ção suicida, mas nestes estudos nem todos eram porta- alto risco, o desenvolvimento de comportamentos alter-
dores de DPOC. nativos, explicando os sintomas de abstinência e de sua
A escala HADS é auxiliar na investigação de de- evolução. Entrega-se folhetos com informações de saúde
pressão, mas contem 14 questões e dependendo do sobre tabagismo e DPOC e de auto-ajuda para a inter-
perfil de atendimento, pode não ser exequível. Recurso rupção. É importante que o paciente se sinta ajudado por
mais prático é usar duas perguntas simples: 1) durante o toda a equipe de saúde no processo de abandono ao ta-
último mês, você foi incomodado por sentir-se para baixo, bagismo.
deprimido ou sem esperança? 2) durante o mês passado, Muitos pacientes com DPOC, principalmente os
você sentiu-se frequentemente incomodado por ter pou- que convivem com a doença há muitos anos, sentem-se
co interesse ou prazer em fazer as coisas? Uma resposta desestimulados a realizarem uma nova tentativa para ces-
afirmativa a qualquer uma das perguntas é um forte sinal sar o tabagismo, em razão dos insucessos em tentativas
de depressão .31
anteriores. Neste grupo, é fundamental enviar uma nova
Episódios recorrentes de depressão mais grave e mensagem: a) deve explicar sobre a existência de novos
o nível de depressão imediatamente antes da cessação tratamentos e novas formas de realizar a tentativa; b) é
parecem ser preditivos de recaídas. Tabagistas com de- conveniente analisar quais os tratamentos que foram utili-
pressão devem ser avaliados quanto à intensidade dos zados em tentativas anteriores e se estes foram utilizados
sintomas depressivos antes e durante a intervenção, para corretamente, e c), é essencial saber que, em uma nova
identificar aqueles que apresentam maior risco de reca- tentativa terá o apoio de toda a equipe de saúde22.
ída32.
Se os profissionais não avaliarem bem os sinto- Tratamento farmacológico
mas de depressão e as comorbidades possivelmente a Os fármacos utilizados são os mesmos prescritos
ela relacionada, não obterão o resultado esperado, pois no tratamento do tabagismo de pacientes sem DPOC e
a conduta preconizada para dependentes químicos que quando a dependência não é elevada, as doses emprega-
tem comorbidades é um tratamento sinérgico, que deve das e o tempo de uso também são iguais.
contemplar, simultaneamente, as duas doenças33. Um estudo com pacientes com doenças pulmona-
res (inclusive DPOC), comprovou a superioridade do tra-
Ganho de peso tamento com adesivos de nicotina em relação ao placebo.
A repercussão do ganho de peso (em média 5-6 A abstinência encontrada após 12 meses de seguimento
kg ao longo de 6 meses em tabagistas sem DPOC) na foi de 9% comm adesivos e de 2% com o placebo37.
função pulmonar é provavelmente mínima, especialmente Tabagistas com DPOC leve ou moderada ou em
Pulmão RJ 2017;26(1):33-38 35
Pessôa CLC Tratamento do tabagismo em pacientes com DPOC
risco de desenvolverem DPOC apresentaram uma taxa de mantendo-se esta dose por 6 semanas, reduzindo-se a
abstinência contínua aos 6 meses de tratamento, de 28% dose em seguida para 21mg por mais 4 semanas, 14mg
para bupropiona, 25% para nortriptilina e 15% para pla- nas 4 semanas seguintes e finalmente os adesivos de
cebo, mas a única diferença estatisticamente significativa 7mg por mais 2 semanas22. A associação de adesivos e
foi entre bupropiona e placebo38. bupropiona em doses clássicas tem sua eficácia compro-
Em outro estudo, o tratamento com vareniclina vada e também é uma opção34.
por 12 semanas associado a terapia cognitivo-comporta- Outras opções, mas com níveis de evidência cien-
mental resultou numa taxa de abstinência de 17% contra tífica moderados ou baixos são: a associação de vareni-
6% no grupo placebo (OR 4,04, IC 95% 7,67)39. clina e adesivos ou gomas de nicotina, a combinação de
Em fumantes com DPOC grave ou muito grave vareniclina e bupropiona e até mesmo iniciar-se uso da
atendidos em um serviço especializado de cessação tabá- vareniclina 4 semanas antes do dia eleito para a interrup-
gica que foram tratados com uma combinação de farma- ção do tabagismo22.
coterapia e apoio comportamental, 49% interromperam Os médico deve redobrar a atenção às constrain-
o consumo de tabaco em 24 semanas. As taxas de aban- dicações e efeitos adversos destas medicações, especial-
dono com os diferentes medicamentos foram, 44% com mente quando prescritas em doses mais elevadas ou por
reposição de nicotina, 55% com bupropiona e 61% com períodos mais prolongados de tempo.
vareniclina40. O tratamento tabagista portador de DPOC é um
Nos casos de pacientes com elevada dependência desafio, especialmente quando o diagnóstico da DPOC
e que usaram os fármacos prescritos conforme recomen- não foi realizado recentemente. Quase sempre ele trará
dação médica, mas não conseguiram interromper o taba- consigo características que parecerão inviabilizar a inter-
gismo, e também para aqueles que tiveram sintomas de rupção. Uma combinação de anos de tabagismo, pouca
síndrome de abstinência mesmo em uso das medicações motivação, baixa auto eficácia e depressão associada. Por
na tentativa anterior, deve-se aventar a possibilidade de outro lado, o apoio e estímulo da equipe médica podem
presrição dos fármacos considerados de primeira linha motivá-lo a tentar interromper o tabagismo. A terapia
no tratamento do tabagismo por até 6 meses. Também cognitivo comportamental e os recursos farmacológicos
pode-se proceder associação destes fármacos e/ou au- auxiliares disponíveis atualmente, provavelmente ameni-
mentar doses dos mesmos22. zarão ou evitarão os sintomas de síndrome de abstinên-
Nos pacientes com as características acima descri- cia. Este conjunto de ações claramente poderá culminar
tas, deve-se dar preferência ao uso de gomas de nicotina com a cessação do tabagismo, melhor controle da DPOC
de 4mg, a cada hora se necessário. Quanto ao uso de e melhor qualidade de vida.
adesivos, pode-se iniciar o tratamento com 42mg diários,
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38 Pulmão RJ 2017;26(1):33-38
Bruno LP, Motta JPS Tratamento Endoscópico com Válvulas Endobrônquicas nos Pacientes com Enfisema Pulmonar
Artigo
Resumo
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é uma patologia de grande prevalência na sociedade contem-
porânea, causando grande morbimortalidade e consumo de recursos em saúde. Apesar de flagrante melhora no
entendimento de sua fisiopatologia e acréscimo no arsenal terapêutico experimentado nas últimas duas décadas,
ainda existe grande parcela de doentes que convivem com limitação funcional extrema a despeito de tratamento
clínico otimizado, reabilitação cardiopulmonar e oxigenoterapia suplementar. Tratam-se dos pacientes com doença
em estágio avançado, que até pouco tempo só tinham como alternativa terapêutica o transplante pulmonar ou
cardiopulmonar. Porém, nos últimos dez anos, esse panorama sombrio vem ganhando mais uma alternativa viável e
factível, mesmo em pacientes com comorbidades limitantes e em países como o nosso, onde a realização de trans-
plante pulmonar em larga escala não é uma realidade. Trata-se do tratamento endoscópico do enfisema pulmonar.
Dentre as modalidades de terapia disponíveis atualmente, discutiremos o uso de válvulas endobrônquicas, método
dos mais estudados, já com diversas publicações importantes e recentemente incluído no documento GOLD como
opção terapêutica nos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica.
Abstract
Chronic obstructive pulmonary disease is a highly prevalent pathology in contemporary society, causing gre-
at morbidity, mortality and consumption of health resources. Despite a striking improvement in the understanding
of its pathophysiology and increase in the therapeutic arsenal experienced in the last two decades, there is still
a large number of patients living with extreme functional limitation despite optimal clinical treatment, cardiopul-
monary rehabilitation and supplemental oxygen therapy. They are those patients with advanced disease that until
recently had only as a therapeutic alternative the lung or cardiopulmonary transplantation. However, in the last ten
years, this bleak picture has been gaining yet another viable and feasible alternative, even in patients with limiting
comorbidities and in countries such as ours, where large-scale lung transplantation is not a reality. It is the endos-
copic treatment of pulmonary emphysema. Among the modalities of therapy currently available, we will discuss
the use of endobronchial valves, a method most studied, already with several important publications and recently
included in the GOLD document as a therapeutic possibility in patients with chronic obstructive pulmonary disease.
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Bruno LP, Motta JPS Tratamento Endoscópico com Válvulas Endobrônquicas nos Pacientes com Enfisema Pulmonar
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Bruno LP, Motta JPS Tratamento Endoscópico com Válvulas Endobrônquicas nos Pacientes com Enfisema Pulmonar
que é facilmente conhecido com a utilização de softwares tilação colateral. No que tange ao sistema Chartis, que
mais modernos, que conseguem medir volume de tecido descreveremos com maior detalhe no transcorrer do pre-
pulmonar com densidade inferior a -950 HU (valor corres- sente trabalho, são utilizadas medidas de pressão e fluxo
pondente a tecido acometido por enfisema) a partir de aéreo durante a broncoscopia para atestar a existência
imagem de tomografia computadorizada. ou não de comunicação entre lobos pulmonares através
A integridade de cissura entre lobo pulmonar alvo das cissuras.
para tratamento com válvulas e lobo(s) adjacente(s) é
outra condição indispensável para instituição dessa tera- Descrição do material utilizado e do
pia. Uma cissura com integridade de ao menos 90% é procedimento
fator decisivo para que se alcance a exclusão lobar alme- O procedimento tem sido realizado sob sedação
jada com a terapia. Valores inferiores a este estão relacio- e ventilação com dispositivo supraglótico (máscara larín-
nados com presença de ventilação colateral entre lobos e gea). O broncoscópio a ser utilizado deverá ter canal de
consequente manutenção de entrada de ar em lobo que trabalho de ao menos 2,8 mm por conta do diâmetro dos
se pretendia atelectasiar com as válvulas, com isso perde- cateteres utilizados.
-se ou limita-se muito o benefício da terapia. Após inventário inicial da árvore brônquica com
Essa integridade há algum tempo atrás era de- objetivo de excluirmos eventual lesão neoplásica endo-
finida apenas pela imagem tomográfica usual avaliada brônquica ou presença de corpo estranho em via aérea,
por radiologista experiente, porém verificou-se que tal inicia-se avaliação da presença de ventilação colateral
método não era replicável e constantemente seleciona- entre lobos pulmonares com auxílio de cateter Chartis e
va pacientes inadequados para tratamento com válvulas módulo externo de aferição de fluxos e pressão Chartis.
(ventilação colateral positiva). Um cateter dotado de balão em sua extremidade distal, a
Visando melhor avaliar a integridade de cissuras ser insuflado na entrada do lobo pulmonar a ser tratado,
interlobares, surgiram duas novas possibilidades diag- é introduzido pelo canal de trabalho. Após vedação com-
nósticas: avaliação tomográfica com software dedicado e pleta da entrada do lobo alvo do tratamento com o balão,
o sistema Chartis. Com o software dedicado temos uma estabelece-se comunicação direta entre a extremidade
análise quantitativa expressa em percentual de cissura distal do cateter e a unidade externa Chartis responsá-
presente entre lobos, um dado objetivo e confiável que vel pela aferição de pressão e fluxo aéreo proveniente do
traduz com segurança a presença ou ausência de ven- lobo pulmonar que foi selecionado para tratamento com
válvulas.
A queda progressiva do flu-
xo aéreo, manutenção da pressão e
aumento da resistência de via aérea
confirma que não existe comunica-
ção significativa entre lobos pulmo-
nares (ventilação colateral negativa),
enquanto a manutenção de fluxo de
ar mesmo após exclusão do lobo pul-
monar com o balão do cateter Char-
tis significa que independentemente
Figura 2. Mapeamento com software dedicado (VIDA Diagnostics) da distribuição de tecido enfise- da entrada anatômica usual daquele
matoso. Nesse caso específico há maior volume de tecido com densidade compatível com enfisema
(menor que -950HU) no lobo inferior esquerdo.
lobo, existe comunicação com outro
lobo através de cissura interlobar.
Dessa forma, mesmo após
eventual implantação de válvulas
objetivando a atelectasia lobar, essa
não será alcançada de forma com-
pleta, uma vez que ainda haverá
fluxo aéreo através de cissura inter-
lobar (ventilação colateral positiva),
refletindo na falta de indicação do
tratamento para tal paciente.
Figura 3. Mapeamento com software dedicado (VIDA Diagnostics) da integridade de cissuras inter- Confirmado que o paciente
lobares. Toda a representação em azul significa cissura completa. A representação em verde significa
apresenta ventilação colateral ne-
cissura incompleta. Neste caso percebemos que há quase que total integridade de cissura oblíqua em
pulmão esquerdo. gativa entre lobos, inicia-se a im-
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Bruno LP, Motta JPS Tratamento Endoscópico com Válvulas Endobrônquicas nos Pacientes com Enfisema Pulmonar
excluídos do estudo aqueles que tinham ventilação cola- sultando em maior segurança em relação ao controle de
teral positiva ou impossibilidade anatômica de inserção de eventuais efeitos colaterais8.
válvulas endobrônquicas (brônquios curtos ou muito an- As principais contraindicações são: presença de
gulados). Os resultados no grupo tratamento mostraram bronquiectasias difusas, infecções pulmonares de repeti-
aumento expressivo VEF1 e da tolerância aos exercícios ao ção, cardiopatia descompensada, doença sistêmica com
final de seis meses de acompanhamento. limitação de sobrevida e hipertensão pulmonar grave.
O estudo Impact7 publicado no final de 2016 foi
desenhado com objetivo de avaliar o benefício das vál- Conclusão
vulas endobrônquicas mesmo em pacientes com distri- Todos os estudos destacados, além de outras im-
buição homogênea de enfisema. Assim como no Stelvio, portantes publicações em torno do globo, conduzem a
foram excluídos do estudo os pacientes com ventilação confiança no real benefício do tratamento endoscópico
colateral positiva observada com catéter Chartis. Os resul- do enfisema com válvulas endobrônquicas. Com o passar
tados, estatisticamente significativos em favor da terapia dos anos e com o melhor entendimento da dinâmica de
endoscópica também nessa subpopulação de pacientes tal tratamento, gradativamente clarifica-se que os fatores
(com doença homogênea), ratificaram a importância da preponderantes para os resultados positivos são a oclu-
integridade de cissura e da efetiva oclusão lobar no resul- são lobar e a integridade de cissura, somados a possível
tado final do procedimento. combinação de análise pré procedimento de cissuras in-
terlobares com softwares dedicados associado ao cateter
Complicações e Contraindicações Chartis durante o procedimento, que parece ser uma es-
A título de possíveis complicações, devemos des- tratégia interessante para esses pacientes.
tacar uma incidência de pneumotórax que gira em torno Além da melhora funcional e clínica experimenta-
de 15% nas principais publicações e que ocorre indepen- da pelos pacientes que alcançam a exclusão lobar e efe-
dentemente da experiência do grupo executor, estando tivamente evoluem com redução volumétrica pulmonar,
diretamente relacionada a presença de bolhas, blebs, já existem evidências em estudos menores de impacto
aderências pleurais e principalmente à velocidade de re- em sobrevida9, algo extraordinário em patologia tão pre-
dução volumétrica de lobo pulmonar tratado com válvu- valente e com poucas opções terapêuticas nos enfermos
las e consequente necessidade de ocupação da cavidade com doença avançada, o que indubitavelmente deve ser
torácica pelo parênquima remanescente. Exacerbação da visto com otimismo pelos profissionais da medicina.
DPOC, pneumonia, hemoptise e deterioração da hiper-
tensão pulmonar são outros eventos adversos que podem
ocorrer após implantação das válvulas.
É importante salientar que as válvulas endobrô-
nquicas podem ser retiradas com reversão total do pro-
cedimento a qualquer momento após a implantação, re-
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Apoiadores SOPTERJ
44 Pulmão RJ 2017;26(1):39-44
Campos HS ACO: sobreposição de asma e DPOC ou uma forma intermediária?
Artigo
Hisbello S. Campos1
Resumo
Ainda não existe uma definição clara e objetiva da ACO (Asthma-COPD Overlap Syndrome). Criada para
rotular um conjunto de apresentações clínicas que tanto podem ser vistas como uma asma com nuances de doença
pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) como o contrário, é mais do que a simples sobreposição de ambas. Provavel-
mente é produto de arranjos genéticos envolvendo diferentes configurações das redes genéticas determinantes
da asma e da DPOC. Certamente, a progressão do conhecimento sobre os fundamentos genéticos das doenças
respiratórias obstrutivas crônicas esclarecerá se a ACO é resultado de uma sobreposição ou é outra entidade clínica.
Abstract
There is still no clear and objective definition of ACO (Asthma-COPD Overlap Syndrome). Created to label
a set of clinical presentations that can either be seen as asthma with nuances of chronic obstructive pulmonary
disease (COPD), or the opposite, ACO is more than a simple overlap of both. It is probably the product of genetic
arrangements involving different configurations of genetic networks that determine asthma and COPD. Certainly,
the progression of knowledge about the genetic fundamentals of chronic obstructive respiratory diseases will clarify
whether ACO is an overlap syndrome or is another clinical entity.
Pulmão RJ 2017;26(1):45-50 45
Campos HS ACO: sobreposição de asma e DPOC ou uma forma intermediária?
Tradicionalmente, a
asma e a DPOC são vistas
sob uma perspectiva que as
considera entidades indepen-
dentes, desconectadas, difi-
cultando, por vezes, o diag-
nóstico diferencial entre elas.
Entretanto, novas informa-
ções vão destruindo o muro
que colocamos entre elas. A
compreensão do papel das RG
na determinação das altera-
ções do comportamento celu-
lar no aparelho respiratório de
asmáticos e de portadores de
DPOC, bem como a identifica-
ção parcial de algumas delas,
vem indicando bases gené-
Fonte: GINA 20161
ticas parcialmente comuns Legenda: GINA: Global Initiative for Asthma; DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; GOLD: Global
para ambas4. Daí a proposta Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease; ACO: Asthma-COPD Overlap Syndrome
de agrupá-las, sugerida para
debate nesse artigo. Nessa perspec-
Quadro 2. Critérios diagnósticos de ACOS segundo o consenso GesEPOC/SEPAR6
tiva, a ACO, e qualquer outra apre-
sentação clínica intermediária entre
a asma e a DPOC, seria um produto
de diferentes arranjos genéticos.
A definição de ACO (Quadro
1) do GINA carece de objetividade e
clareza. Outras definições encontra-
das na literatura especializada não Legenda: DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; GOLD: Global Initiative for Chronic Obstructi-
possuem uniformidade e critérios ve Lung Disease; ACO: Asthma-COPD Overlap Syndrome
46 Pulmão RJ 2017;26(1):45-50
Campos HS ACO: sobreposição de asma e DPOC ou uma forma intermediária?
No quadro 3 são apresentadas as principais carac- asmáticos graves adultos10, poderiam ser considerados
terísticas da asma e da DPOC “típicas”, e da ACO. Pode- portadores de ACO. Qualquer estimativa da proporção de
-se observar que o perfil do portador de ACO, segundo o pacientes com DROC que teriam ACOS não se apoia em
quadro, seria o de um asmático com sintomas desde a dados consistentes, mas provavelmente, os portadores de
infância que evolui com alterações compatíveis com DPOC ACO devem ser em maior número que os “DPOC puros”.
na idade adulta, mas com maior grau de variabilidade na
sintomatologia e no distúrbio funcional, que são persis- Bases genéticas das DROC
tentes. Por vezes, a ACO parece uma forma mais grave de Tanto a classificação fenotípica (baseada em ca-
asma e, em outras, uma forma leve de DPOC. racterísticas observáveis da doença ou de seu portador,
como a morfologia, desenvolvimento, propriedades bio-
químicas ou fisiológicas, de-
Quadro 3. Aspectos usuais da asma, DPOC e ACOS
sencadeantes de sintomas,
respostas terapêuticas e
outras), sem qualquer indi-
cação do mecanismo cau-
sal, como a classificação
por endotipos (condição
definida por um mecanis-
mo fisiopatológico distinto
e determinístico), refletem
as variações genéticas que
modulam o comportamen-
to celular no pulmão e dão
origem às disfunções obser-
vadas11. As bases genéticas
de ambas justificam, tam-
bém, sua hereditariedade.
A proposta de classificar as
doenças de acordo com os
endotipos aponta para a ne-
cessidade de identificar bio-
marcadores, produtos bio-
lógicos capazes de indicar
os processos biológicos ou
patogênicos determinantes.
Estudos procurando identi-
ficar biomarcadores ofere-
cem informações relevantes
sobre os processos celulares
e moleculares que podem
ser usados no diagnóstico,
na seleção da terapia mais
indicada e no prognósti-
co12,13,14,15,16. Idealmente, a
Fonte: GINA 20164 utilidade de um biomarca-
Legenda: DPOC: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; GOLD: Global Initiative for Chronic Obstructive dor é dependente de pro-
Lung Disease; ACO: Asthma-COPD Overlap Syndrome, VEF1: Volume expirado no primeiro segundo, CVF:
Capacidade Vital Forçada, BD: Broncodilatador, HRB: Hiperrreatividade brônquica.
priedades como 1) relação
clara entre o biomarcador e
Num cenário indefinido como o da ACO, é difícil o processo patobiológico responsável pela disfunção; 2)
estimar sua prevalência. Estudos estimaram que 13-55% indicação da gravidade do problema; 3) mudanças men-
dos portadores de DPOC preencheriam os “critérios” para suráveis em sua concentração em resposta à intervenção
ACO . Outros sugerem que pelo menos a metade das
7,8
realizada; 4) sensibilidade, especificidade e valores pre-
pessoas com idade acima de 60 anos e doença obstru- ditivos positivos e negativos elevados e 5) material para
tiva da via aérea , e aproximadamente um quarto dos
9
exame possa ser coletado de modo simples e aceitável
Pulmão RJ 2017;26(1):45-50 47
Campos HS ACO: sobreposição de asma e DPOC ou uma forma intermediária?
pelo paciente. Outra característica fundamental para o Parte da dificuldade com os critérios diagnósticos
uso prático de um biomarcador é que sua titulação não de ACO advém de uma questão básica ainda não res-
seja afetada por fatores extrínsecos à doença em ques- pondida com evidências: o que gera a ACO? Ela seria o
tão. Como, até o momento, os biomarcadores identifica- resultado de variações nas redes genéticas envolvidas
dos não preenchem todas essas qualidades, continua a com a asma e a DPOC? Seria um distúrbio respiratório
busca de um biomarcador ideal, imune a fatores exter- intermediário entre a asma e a DPOC? Seria apenas a
nos. Nessa linha de pesquisa, os microRNAs (miRNA) vêm sobreposição das duas e suas variações seriam o reflexo
assumindo posição de destaque. Os miRNA são pequenas das diferenciações existentes em cada uma delas? Cer-
moléculas de RNA não codificante que agem como re- tamente, apenas a progressão do conhecimento poderá
guladores fundamentais da expressão gênica, modulando responder essa questão. Apenas quando os mecanismos
todos os processos biológicos e sendo essenciais para a determinísticos da ACO vierem a ser conhecidos. Enquan-
homeostase celular. Desregulações nos miRNA estão as- to isso, podemos apenas conjecturar sobre os mecanis-
sociadas a expressões aberrantes de genes que podem mos causais da ACO.
levar a alterações patológicas. Como seu perfil de expres- ACO: produto genético?
são é alterado na doença pulmonar17, muitos estudos vêm RG estão envolvidas na gênese das DROC. Como
procurando identificar miRNA específicos para a asma e a as RG não são compartimentos estanques, há interco-
DPOC18,19. nexões múltiplas entre os genes, fazendo com que, em
A identificação de polimorfismos genéticos asso- determinadas situações, o mesmo gene faça parte de di-
ciados às doenças é outra linha de pesquisa importante ferentes redes. Esse fato, por si só, pode ser responsável
na área das DROC. Os genome-wide association studies pelo espectro amplo de formas clínicas de DROC. Talvez,
(GWAS), em que todo o genoma é avaliado sem qual- quando todos os polimorfismos genéticos (variações nas
quer hipótese pré-condicionante, identificaram mais de sequências de nucleotídeos que compõem o DNA e ocor-
mil genes candidatos apenas na asma20 e muitos outros rem com frequência maior que 1% na população) envol-
para a DPOC . Diversos genes, organizados sob a forma
21
vidos nas DROC forem identificados e suas interações nas
de RG, nas quais um número variável de genes interage diversas RG envolvidas esclarecidas, o termo ACO será
entre si determinando um processo biológico, normal ou usado apenas no caso de superposição da asma e da
doentio, vêm sendo apontados como responsáveis pe- DPOC, e as demais formas clínicas sob esse rótulo rece-
las disfunções, evoluções e respostas terapêuticas nas berão nomes próprios.
DROC22,23,24,25,26,27. Muitas vezes, genes envolvidos em dife- ACO: fase intermediária entre asma e
rentes redes que, em conjunto, determinam as alterações DPOC?
da asma, também participam de outras redes importantes Se o espectro de apresentações clínicas da ACO
na patogenia da DPOC 4,28,29
. Possivelmente, essa é a razão refletir a participação parcial e associada de RG envolvi-
de muitas das semelhanças observadas entre elas, como, das na patogênese da asma e da DPOC, a falta de parti-
também, da existência de formas clínicas das DROC ro- cipação de parte dos genes poderia ser responsável por
tuladas como ACO, as quais, definitivamente, não consti- formas mescladas de ambas.
tuem um único fenótipo. ACO: simplesmente uma sobreposição
Ainda tratamos do mesmo modo diferentes pesso- de asma e DPOC?
as portadoras da mesma doença, como se todos fossem Nessa perspectiva, a ACO seria um resultado di-
iguais o que, certamente, justifica o fato de não alcançar- reto da sobreposição da asma e da DPOC num mesmo
mos desfechos terapêuticos desejados em diversas situ- indivíduo. Vista assim, sua frequência dependeria da pre-
ações. O progresso dos estudos genéticos direciona para valência de ambas e as variações em sua apresentação
a “Medicina de precisão”, na qual o tratamento leva em clínica seriam produto da diversidade de apresentações e
consideração as necessidades do paciente individual, com gravidades de formas clínicas existentes nos dois distúr-
base nos dados genéticos, em biomarcadores e caracte- bios respiratórios.
rísticas psicossociais, diferenciando-o de outros pacientes
com apresentações clínicas semelhantes. Nesse contexto,
a farmacogenética (ciência que estuda como os genes
afetam a resposta do indivíduo a fármacos particulares)
tem papel de destaque. A partir daí novos alvos terapêu-
ticos serão identificados, novos medicamentos serão de-
senvolvidos e a seleção do tratamento farmacológico será
personalizada. Assim, a identificação das redes genéticas
envolvidas nas disfunções presentes no espectro das
DROC é o passo inicial para alcançarmos esse cenário.
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Campos HS ACO: sobreposição de asma e DPOC ou uma forma intermediária?
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Lopes AJ, Mafort TT Uso da técnica de Washout de Nitrogênio para avaliação do acometimento da pequena via aérea em pacientes com
DPOC
Artigo
Resumo
É bem conhecido o fato de que os principais parâmetros de função pulmonar utilizados na avaliação de
gravidade e no seguimento dos pacientes com DPOC não apresentam boa correlação com os sintomas e os princi-
pais desfechos da doença, especialmente naqueles pacientes considerados graves. Portanto, torna-se imperativa a
busca de novos marcadores funcionais que melhor retratam a gravidade da DPOC. Nesse contexto, tem havido um
interesse crescente acerca da técnica de washout do nitrogênio (TWN2), uma vez que é uma ferramenta simples
e não invasiva, sendo capaz de detectar heterogeneidade na distribuição da ventilação e doença de pequenas vias
aéreas até mesmo quando outros testes de função pulmonar apresentam valores normais. A TWN2 possibilita a
busca de pacientes com DPOC cujo fenótipo da doença é basicamente a anormalidade de pequenas vias aéreas e,
através desse conhecimento, abre-se o caminho para o desenvolvimento de novas terapias farmacológicas voltadas
especificamente para vias aéreas mais periféricas. Além do mais, a avaliação do grau de heterogeneidade na dis-
tribuição da ventilação em diferentes graus de gravidade da DPOC juntamente com a evolução importante do seu
aparato técnico, justificam a retomada da TWN2 e, ao mesmo tempo, depositam enorme expectativa acerca da sua
utilização rotineira na prática clínica.
Descritores: Doença pulmonar obstrutiva crônica; Testes de função respiratória; Mecânica respiratória.
Abstract
It is well known that the main pulmonary function parameters used in the assessment of severity and
follow-up of patients with COPD do not show a good correlation with the symptoms and the main outcomes of the
disease, especially in patients considered to be severe. Therefore, the search for new functional markers that best
portray the severity of COPD becomes imperative. In this context, there has been a growing interest in the nitrogen
washout technique (N2WT), since it is a simple and non-invasive tool, being able to detect heterogeneity in the dis-
tribution of ventilation and small airway disease when other function tests still present normal values. N2WT makes
it possible to search for patients with COPD whose phenotype of the disease is basically the small airway abnormali-
ty, and through this knowledge, it opens the way for the development of new pharmacological therapies specifically
targeted to more peripheral airways. Moreover, the evaluation of the degree of heterogeneity in the distribution of
ventilation in different degrees of COPD severity, together with the important evolution of its technical apparatus,
justify the resumption of N2WT and, at the same time, put enormous expectations about its use in clinical practice.
Keywords: Chronic obstructive lung disease; Respiratory function tests; Respiratory mechanics.
1. Professor adjunto da Disciplina de Pneumologia e Tisiologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.
2. Médico do Serviço de Pneumologia e Tisiologia. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.
Endereço para correspondência: Rua Araguaia, 1266, bloco 1/405, Freguesia, Jacarepaguá, 22745-271, Rio de Janeiro, Brasil.
Telefone e fax: +55 21 21 2576 2030
Email: [Link]@[Link]
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Lopes AJ, Mafort TT Uso da técnica de Washout de Nitrogênio para avaliação do acometimento da pequena via aérea em pacientes com
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Lopes AJ, Mafort TT Uso da técnica de Washout de Nitrogênio para avaliação do acometimento da pequena via aérea em pacientes com
DPOC
índices mais comumente utilizados na interpretação da da ventilação nas vias aéreas acinares, mas não nas vias
TWN2 são seguintes: o slope de fase III (SIIIN2), que é a aéreas condutoras em pacientes com COPD através do
alteração na concentração de N2 entre 25% e 75% do vo- TWN2. Esses investigadores também observaram que a
lume expirado; e a razão entre o volume de fechamento heterogeneidade da ventilação nas vias aéreas acinares
e a capacidade vital (VF/CV), que é a porção da CV que aumenta na medida em que deteriora a classe funcional
é exalada após o início do fechamento das vias aéreas . 11
de acordo com o GOLD. Além do mais, a heterogeneidade
Em geral, o SIIIN2 não deve ser superior a 0,5% N2/L, na ventilação foi fortemente relacionada à queda na capa-
enquanto a razão CV/VC é normalmente inferior a 25%. cidade de difusão do CO (DLco) e ao aumento dos volu-
No entanto, a razão CV/VC varia significativamente com mes pulmonares estáticos e, em menor grau, ao aumento
a idade, sendo maior em crianças e idosos e menor em da resistência e reatância das vias aéreas.
adultos jovens12. Em pacientes com DPOC, o SIIIN2 altera Lopes e Mafort8 realizaram um estudo transversal
significativamente de acordo com a gravidade da doença avaliando a relação dos parâmetros obtidos através da
(Figura 2). TWN2 com a distância obtida durante o teste de caminha-
da de seis minutos (DC6M)
e a qualidade de vida em
pacientes com DPOC. Esses
autores mostraram corre-
lação significativa do SIIIN2
com a DC6M (r = -0,796;
p = 0,0001) e com o teste
de avaliação da DPOC (CAT)
(r = 0,728; p = 0,0001) e,
na análise multivariada, o
SIIIN2 foi o único preditor
independente para a DC6M
(R2 = 0,703; p = 0,0001),
o escore CAT (R2 = 0,586;
p = 0,0001) e a escala
Medical Research Coun-
cil (m-MRC) (RR = 1,14;
p = 0,0001). Já Mikamo et
al.16 descreveram correla-
ções significantes entre o
Figura 2. Alterações no slope de fase III (SIIIN2) (setas) em um indivíduo normal (A), em um portador de DPOC SIIIN2, as medidas de me-
leve (B) e em um portado de DPOC grave (C). Notar que no indivíduo com DPOC grave a delimitação entre as
fases III e IV já não é mais possível de ser notada graficamente. Nos exemplos em questão, os valores estimados
cânica pulmonar e o escore
para o SIIIN2 são de 1%, 3% e 11% para os indivíduos representados nos gráficos A, B e C, respectivamente. de enfisema avaliado pela
tomografia computadoriza-
O uso da técnica de washout do nitro- da (TC). Nesse estudo, o SIIIN2 foi um preditor indepen-
gênio na DPOC dente para a capacidade vital forçada (CVF), a frequência
Avaliação da má distribuição da venti- de ressonância medida por meio da FOT e o escore de
lação enfisema (R2 = 0,57; p < 0,0001).
A heterogeneidade da ventilação reflete a eficiên- Mais recentemente, Boeck et al.2 demonstraram
cia do transporte de gás tanto nas vias aéreas centrais que o SIIIN2 está aumentado em pacientes com DPOC
(dependentes da convecção) quanto periféricas (depen- moderada a grave, quando comparados aos controles
dente da difusão). Valores elevados de SIIIN2 são indicati- (p<0,001). Nesse mesmo estudo, o SIIIN2 foi associa-
vos de heterogeneidade na ventilação e reflete diferenças do com o VEF1, a razão VR/CPT e a DLco (todos com
nas constantes de tempo, que são dependentes tanto da p<0,001); além disso, o SIIIN2 foi relacionado à dispneia,
resistência local (doença de pequenas vias aéreas) quan- à dessaturação induzida pelo exercício e à capacidade
to da complacência local (enfisema)13,14. Na DPOC, as de exercício avaliada através da DC6M (p = 0,001, p <
pequenas vias aéreas podem impactar negativamente na 0,001 e p = 0,047, respectivamente). Utilizando modelos
resistência total das vias aéreas com efeito importante na de regressão multivariada, esses autores demonstraram
distribuição da ventilação, apesar de discretas alterações também que as associações do SIIIN2 com o VEF1, a razão
na mecânica pulmonar em alguns casos15. Nessa linha, VR/CPT, a DLco, a escala MRC, a dessaturação induzida
Jarenbäck et al.4 mostraram uma maior heterogeneidade pelo exercício e a DC6M são amplamente independentes
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Lopes AJ, Mafort TT Uso da técnica de Washout de Nitrogênio para avaliação do acometimento da pequena via aérea em pacientes com
DPOC
do VEF1 e, em geral, mais fortes do que as associações tra acima de 70%, é um preditor tanto para a presença de
dessas variáveis com o VEF1, mostrando assim que a he- enfisema na TC quanto para a elevação da razão VF/CV.
terogeneidade da ventilação em pacientes com DPOC não Já Gennimata et al.25 mostraram que elevações na razão
é um marcador de gravidade da obstrução ao fluxo aéreo. VF/CV correlacionam-se com a gravidade da limitação ao
No intuito de avaliar a resposta broncodilatadora fluxo aéreo em indivíduos com DPOC. Também é relatada
em pacientes com DPOC com importante heterogeneida- uma maior sensibilidade do SIIIN2 sobre o fluxo expirató-
de na ventilação, dois estudos não observaram resposta rio forçado entre 25-75% da CVF (FEF25-75%), mesmo em
na distribuição da ventilação através da TWN2, seja usan- fumantes com alterações inflamatórias leves nas peque-
do o salbutamol, o brometo de ipratrópio ou o brometo de nas vias aéreas13.
tiotrópio. Uma hipótese é que a maior heterogeneidade
ventilatória na DPOC, observada nas vias aéreas acinares, Considerações finais
pode não ser responsiva ao uso de broncodilatadores de- É geralmente aceito que o VEF1 não é o parâmetro
vido à falta de receptores nessa região ou, ainda, o fato ideal para descrever as alterações que ocorrem no curso
de que a inalação do pó seco não chega às vias aéreas da DPOC e, assim, outras técnicas de avaliação da função
acinares4,17. pulmonar são necessárias para descrever a complexidade
da doença4. Neste contexto, a TWN2 tem sido avaliada
Avaliação da doença de pequenas vias como um exame que pode ser complementar às atuais
aéreas ferramentas de avaliação da função pulmonar utilizadas
É bem conhecido o fato de que as pequenas vias na categorização e seguimento dos pacientes com DPOC.
aéreas contribuem pouco para a resistência do sistema A TWN2 possibilita a busca de pacientes com DPOC cujo
respiratório em pulmões sadios, embora elas sejam o fenótipo da doença é basicamente a anormalidade de pe-
principal local de resistência na doença pulmonar obs- quenas vias aéreas e, através desse conhecimento, abre-
trutiva18,19. Apesar de as pequenas vias aéreas serem o -se o caminho para o desenvolvimento de novas terapias
principal local da obstrução na DPOC, elas não são bem farmacológicas voltadas especificamente para as peque-
demonstradas nas avaliações funcionais convencionais. nas vias aéreas14,19. Além do mais, a avaliação do grau de
As pequenas vias aéreas contribuem apenas com cerca heterogeneidade na distribuição da ventilação em dife-
de 10% da resistência total ao fluxo aéreo. Se metade rentes graus de gravidade da DPOC e, ainda, a evolução
de todas as pequenas vias aéreas estiver completamen- importante do seu aparato técnico, justificam a retomada
te ocluída, a resistência combinada dobraria, com pouco da TWN2 e, ao mesmo tempo, depositam enorme expec-
efeito na mecânica pulmonar (por exemplo, no VEF1), mas tativa acerca da utilização rotineira da técnica na prática
com efeito importante na distribuição da ventilação2,15. Na clínica do dia-a-dia.
DPOC, acredita-se que as pequenas vias aéreas sejam o
principal ponto de limitação ao fluxo aéreo, e que o dano
a essas estruturas aumenta com a gravidade da doen-
ça1,16,20. Além do mais, na DPOC leve, a doença de vias
aéreas pequenas provavelmente antecede o desenvolvi-
mento de enfisema21,22.
Vários estudos têm mostrado que a doença de
pequenas vias aéreas é um fenótipo potencialmente im-
portante em muitos pacientes com DPOC e, portanto, sua
quantificação pode melhorar a estratificação da doença e
o manejo desses pacientes2,23,24. Na DPOC, muitas altera-
ções histopatológicas estão implicadas na gênese da pa-
tologia de pequenas vias aéreas, incluindo aí a deposição
de muco, a inflamação, a ruptura epitelial e o remodela-
mento21. Assim, o TWN2 pode se tornar uma ferramenta
importante na complementação dos parâmetros forneci-
dos pelos TFP considerados como padrão de avaliação
desses indivíduos, incluindo a espirometria e a medida de
volumes pulmonares estáticos.
Alguns investigadores avaliaram a razão VF/CV –
que é um marcador de pequenas vias aéreas – em pa-
cientes com DPOC. Timmins et al.20 mostraram que uma
queda na razão VEF1/CVF, mesmo quando esta se encon-
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Informações para autores e colaboradores da revista Pulmão RJ
Pulmão RJ 2017;26(1):57-58 57
(ABNT: [Link] As figuras que ne- Publicações Oficiais
cessitem de permissão deverão ser comunicadas ao edi- 4. World Health Organization. Guidelines for sur-
tor. Se for necessária permissão solicita-se que seja enca- veillance of drug resistance in tuberculosis. WHO/Tb,
minhada cópia da ilustração original da figura, endereço 1994;178:1-24.
de contato, email, fax e número de telefone.
Homepages/Endereços Eletrônicos
Legendas: Deverão acompanhar as respectivas 5. [Link] [homepage on the Internet].
figuras (gráficos, fotografias e ilustrações) e tabelas. Cada New York: Association of Cancer Online Resources, Inc.;
legenda deve ser numerada em algarismos arábicos, cor- c2000-01 [updated 2002 May 16; cited 2002 Jul 9]. Avai-
respondendo a suas citações no texto. Além disso, todas lable from: [Link]
as abreviaturas e siglas empregadas nas figuras e tabelas
devem ser definidas por extenso abaixo das mesmas. Outras situações:
Na eventualidade do surgimento de situações não
Referências: Devem ser indicadas apenas as re- contempladas por estas Instruções Redatoriais, deverão
ferências utilizadas no texto, numeradas com algarismos ser seguidas as recomendações contidas em International
arábicos e na ordem em que foram citadas. A apresen- Committee of Medical Journal Editors. Uniform require-
tação deve estar baseada no formato Vancouver Style, ments for manuscripts submitted to biomedical journals.
atualizado em outubro de 2004, conforme os exemplos Updated October 2004. Disponível em [Link]
abaixo e disponíveis em [Link] org/.
gov/bookshelf/[Link]?book=citmed. Os títulos dos
periódicos citados devem ser abreviados de acordo com
o estilo apresentado pela List of Journal Indexed in In-
dex Medicus, da National Library of Medicine disponibi-
lizados no endereço: [Link]
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Para todas as referências, cite todos os autores até
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