A MENINA DO MAR
de Sophia de Mello Breyner Andresen
Personagens:
Menina do Mar
Rapaz
Caranguejo
Polvo
Peixe
Raia
Gaivota
Golfinho
Rei do Mar
Búzios
Povos
Narrador – Era uma vez uma casa branca nas dunas voltada para o mar, tinha uma porta, sete janelas e
uma varanda de madeira pintada de verde, em volta da casa havia um jardim de areia onde cresciam lírio
brancos e uma planta que dava flores brancas, amarelas e roxas.
Nessa casa morava um rapazito que passava os dias a brincar na praia.
Rapaz – Que cheiro a maresia!
Quem me dera ser um peixe e ir ao fundo do mar.
Narrador – Nessa noite o rapaz sonhou com o fundo do mar. Mas uma enorme trovoada rebentou, as
ondas do mar gritavam, uivaram, bateram e quebraram-se com tanta força na praia, que, no seu quarto
caiado da casa branca, o rapazinho esteve até altas horas sem dormir.
De manhã, quando acordou, tudo estava calmo, a batalha tinha acabado, já não se ouviam os gemidos do
vento, nem os gritos do mar, mas só o doce murmúrio de ondas pequeninas.
Rapaz – Que manhã tão linda!
Narrador – O rapazito sentia-se tão feliz que se punha a dançar em cima dos rochedos, quando já ia no
décimo mergulho, lembrou-se que já deveria ser horas de voltar para casa, saiu de água e deitou-se
numa rocha a apanhar sol.
E enquanto estava a dormir com a cara encostada às algas, aconteceu uma coisa extraordinária.
(Todos ao mesmo tempo)
Polvo – Oh! Oh! Oh! – ria o polvo.
Caranguejo – Que! Que! Que!
Peixe – Glu! Glu! Glu!
( O rapaz acorda)
Caranguejo – Oh! O que é aquilo?!
Polvo – Aquilo o quê?!
Caranguejo – Aquele terrível animal terrestre!
Polvo – Fujam!
Rapaz – Eu sou o rapaz da casa branca, não vos quero fazer mal! Só quero conhecer esta sereia tão
bonita.
(O rapaz agarra a menina)
Menina – Ai! Ai! Ai!
Polvo - Caranguejo – Peixe – Um monstro!
Polvo – Larga já essa menina do mar… já vais ver!
Menina – Socorro!!!
Rapaz – Não tenhas medo, não te quero fazer mal.
Menina do Mar – Eu sei que me vais fazer mal!
Rapaz – Que mal é que posso fazer a uma menina tão bonita?!
Menina – Tu vais-me fritar! Oh Polvo! Oh Caranguejo! Oh Peixe!
Rapaz – Fritar para quê?
Menina – Os peixes dizem que os homens fritam tudo quanto apanham.
Rapaz - Os pescadores é que apanham peixe para fritar. Não te quero fazer mal nenhum, só quero que
me contes quem tu és, onde é que vives, o que é que fazes aqui no mar e como te chamas.
Menina – Mas prometes que não me fritas?
Rapaz - Prometo.
Menina – Eu sou uma menina do mar, não sei como nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para
esta praia e deixou-me numa rocha na maré vazia. O polvo, o peixe e o caranguejo apareceram para
tomar conta de mim e fomos viver para uma gruta muito bonita.
Polvo – Eu limpo a casa.
Caranguejo – Eu sou o cozinheiro e o ourives.
Rapaz – E o peixe, o que faz?
Menina – Nada, de mais não é capaz.
Peixe – Mas sou um bom amigo!
Menina – É com o peixe que eu brinco mais quando a maré está vazia. Quando a maré está alta dá-mos
grandes passeios no fundo do mar.
Rapaz - No fundo do mar?!
Menina – Tu nunca foste ao fundo do mar?
Rapaz – Eu não posso! Tenho de respirar.
Menina – Sabes… o fundo do mar é tão bonito!
(Chega a Raia)
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – Polvo – Menina – Fujam! Fujam!...
Menina – Esconde-te! Esconde-te!
Raia – Menina do Mar, hoje não quero que dances para mim! Quero apenas que saibas que se pensares
fugir serás severamente castigada!!!
Menina – Eu nunca, nunca deixarei de dançar para ti, senhora dona Raia.
Raia – Ainda bem, nunca te esqueças disso!
(A Raia parte e aparece o rapaz)
Rapaz – Que susto!
Menina – Eu também tenho medo dela.
Rapaz – Ela detesta os homens.
Menina – E não gosta nada de peixes.
Rapaz – Deve de ser triste dançar para ela.
Menina – Agora que já sabes a minha história, leva-me para junto dos meus amigos, eles devem de estar
aflitíssimos.
Rapaz – Vamos.
(Aparecem os amigos da Menina do Mar)
Menina – Não chorem, estou aqui!
Caranguejo – A Menina!
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – Polvo – A nossa menina. Vamos atacar o rapaz…
Menina – Parem, parem, não lhe façam mal, ele é meu amigo.
Rapaz – Eu sou vosso amigo! Gosto tanto do mar…
Menina – E eu tenho tanta curiosidade da terra.
Rapaz – Então amanhã, à mesma hora venho ter com vocês, combinado?
Menina – Combinado.
Rapaz – Até amanhã.
Menina – Até amanhã.
Narrador – Um sol fascinante nasce, cobre o mar e inunda toda a praia.
(Chega a menina, depois o rapaz)
Menina – Bom dia.
Rapaz – Bom dia.
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – Polvo – Bom dia.
Rapaz – Trago-te uma flor da terra, chama-se rosa.
Menina – É linda!
( A menina toca na flor)
Menina – Ai! Piquei-me!
Rapaz – Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
Menina – É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Sinto-me um bocadinho
triste. As coisas da terra são tão esquisitas.
Rapaz – São diferentes das do mar.
Menina – No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres, na terra há tristeza e há
dor dentro das coisas bonitas.
Rapaz – Isso é por causa da saudade.
Menina – Saudade! Mas o que é a saudade?
Rapaz – Saudade é a tristeza que fica dentro de nós quando as coisas que gostamos se vão embora.
Menina – Agora estou triste e com vontade de chorar.
Rapaz – Oh! Tenho de ir para casa! Adeus amigos, até amanhã.
Narrador – No dia seguinte, voltaram a encontrar-se no sítio do costume.
Rapaz – Bom dia.
Menina – Bom dia.
Rapaz – Trouxe-te isto.
Menina – O que é isso?
Rapaz – Uma caixa de fósforos.
Menina – Não é muito bonito.
Rapaz – Mas tem lá dentro uma coisa maravilhosa, linda e alegre que se chama fogo. Já vais ver.
Menina – Deixa-me tocar.
Rapaz – Não! O fogo é alegre, mas queima.
Menina – É um sol tão pequenino.
Rapaz – Mas não podes tocar. Com um sopro apaga-se…
(O rapaz sopra e apaga o fogo)
Menina – Tu és bruxo! Sopras e desaparece…
Rapaz – O fogo é assim, enquanto é pequeno o sopro apaga-o mas depois de crescido pode destruir
florestas e cidades.
Menina – As coisas da terra são tão esquisitas.
Narrador – Os dois separaram-se sem saberem que os seus segredos tinham sido ouvidos pelos búzios.
Rapaz – Menina do Mar!
Menina – Estou aqui.
Rapaz – Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria, chama-se vinho.
Menina – É tão encarnado! É tão perfumado! Conta-me, o que é o vinho?
Rapaz – Na terra há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca, mas na
Primavera cobre-se de folhas e no Verão dá um fruto que se chama uvas.
Menina – Ah! É das uvas que se faz o vinho!
(E bebem o vinho)
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – polvo – Menina – Ah! Ah! Ah! Estamos tão alegres.
Narrador – Naquele dia, a Menina do Mar tomou finalmente uma decisão.
Menina _ Leva-me a ver a terra. Quero ir ver as florestas, as montanhas e tudo o que me contaste.
Rapaz – Vem comigo, vamos fugir agora!
Menina – Mas o pior é que eu fico seca na terra.
Rapaz – Pois é… Já sei! Eu levo comigo um balde de água e quando secares já temos água do mar. Vamos,
vamos ver a terra.
Menina – Vamos.
(Chega a Raia com os búzios)
Raia – Esta noite a Menina do Mar será levada para uma praia distante, ninguém saberá onde fica,
ninguém saberá como se chama.
(Sai a Raia, entra a Menina do Mar e o Rapaz com o balde)
Rapaz – Vamos Menina do Mar.
Caranguejo – A Menina do Mar não pode ir, os búzios ouviram tudo e foram contar à grande Raia.
Polvo – Os polvos não te deixam passar.
Rapaz – Mas eu com as minhas pernas corro e os polvos não conseguem apanhar-me. Vamos.
Menina – Vamos… Cuidado com os polvos!
(Os polvos agarram o Rapaz)
Rapaz – Não…Não…Não…Vão-se embora… Deixem-me mostrar a terra à Menina do Mar!
(O rapaz cai no chão – fecham-se as cortinas – abre-se um novo cenário)
Gaivota – Bom dia.
Rapaz – Bom dia.
Gaivota – Venho da parte da Menina do Mar. Tu queres ir ter com ela ao fundo do mar?
Rapaz – Quero! Quero! Mas como hei-de ir ter com ela?
Gaivota – Toma este frasco. Lá dentro tem um suco feito de plantas mágicas, se o beberes poderás ser
como a Menina do Mar. Poderás viver dentro de água como os peixes e fora de água como os homens.
Rapaz – Vou já beber.
(aparece o golfinho)
Gaivota – Está ali um golfinho para te ensinar o caminho.
Rapaz – Adeus gaivota! Obrigada!
Golfinho – Anda rapaz, vou levar-te à Menina do Mar. Vamos atravessar o mar dos Sargaços e as
baleias, os Icebergs e a grande solidão dos oceanos.
( E nadam os dois)
Golfinho – É ali naquela gruta que encontrarás a Menina do Mar.
(Aparecem os três amigos da Menina do Mar)
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – Polvo – O nosso rapaz regressou. A Menina do Mar
sentiu muito a tua falta.
Rapaz – Mas onde está a minha Menina?
(Aparece a Menina do Mar)
Menina – Estou aqui! Estou tão feliz! Pensei que nunca mais te ia ver.
Rapaz – Sem ti a terra é tão triste.
Menina – Sem ti o mar é tão vazio.
Rapaz – E a grande Raia?
Menina – Foi castigada pelo Rei do Mar.
Caranguejo – O grande Rei deu uma festa com muitos convidados e convidou a Menina do Mar para
dançar na festa, mas… eu estava muito triste.
(Entra a Raia)
Raia – …e dançou muito mal!
Menina – Porque estava cheia de saudades.
Caranguejo – Mas eu contei tudo ao Rei do Mar.
(Chega o Rei do Mar)
Raia – Senhor Rei do Mar, ela queria fugir mas tive de a mandar fechar numa gruta maravilhosa.
(Todos ao mesmo tempo) – Caranguejo – Peixe – Polvo – Horrível!
Raia – Eu sou muito boazinha.
Rei – Grande raia, a partir de hoje serás a Pequena Raia.
Raia – Meu senhor, sempre sonhei ser pequena e magrinha.
Rei – Serás gorda!
Raia – Não! Não! Não!
Rei – E tu, Menina do Mar nunca mais deixarás o teu amigo.
Rapaz – Agora nunca mais nos separamos.
Polvo – Agora vais ser forte como um polvo!
Peixe - Feliz como um peixe!
Caranguejo – Sábio como um caranguejo!
Menina – Agora a tua terra é o mar.
Rapaz – E tu nunca mais sentirás Saudade!