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Revista Do Instituto Do Ceará Tomo CXXI - Ano CXXI

[1] O Instituto do Ceará é uma entidade cultural fundada em 1887 para estudar a história, geografia e antropologia do Ceará. [2] A revista de 2007 é o 121o volume anual publicado sem interrupções pelo Instituto. [3] A revista contém artigos de sócios do Instituto sobre temas históricos, geográficos e antropológicos do Ceará.

Enviado por

Glauber Aguiar
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
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Revista Do Instituto Do Ceará Tomo CXXI - Ano CXXI

[1] O Instituto do Ceará é uma entidade cultural fundada em 1887 para estudar a história, geografia e antropologia do Ceará. [2] A revista de 2007 é o 121o volume anual publicado sem interrupções pelo Instituto. [3] A revista contém artigos de sócios do Instituto sobre temas históricos, geográficos e antropológicos do Ceará.

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6

Revista do Instituto do Ceará


(Histórico, Geográfico e Antropológico)

Comissão da Revista

Presidente
José Augusto Bezerra

Eleitos
Pedro Alberto de Oliveira Silva
Francisco Fernando Saraiva Câmara
Francisco Ésio de Sousa
Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes
Aroldo Cavalcanti Mota

(Publicada anualmente desde 1887 – Ano da


Fundação do Instituto do Ceará – sem interrupção)

Tomo CXXI – Ano CXXI

2007

Dedimus profecto grande


patientiae documentum

Fortaleza – Ceará – Brasil

Revista do
Instituto do Ceará Fortaleza Vol. 121 p. 408 2007
Revista do Instituto do Ceará Instituto do Ceará
(Histórico, Geográfico e Antropológico)
Além dos 121 Tomos correspondentes aos cento e vinte e um anos de
existência do Instituto do Ceará, foram editados os Tomos Especiais Diretoria
seguintes: (4 mar. 2007 - 4 mar. 2009)
1924 – TE – 1 (Centenário da Confederação do Equador)
1929 – TE – 2 (Falecimento do Dr. Tomás Pompeu de Sousa Brasil) Presidente José Augusto Bezerra
1938 – TE – 3 (Falecimento do Barão de Studart) Vice-Presidente Pedro Sisnando Leite
1956 – TE – 4 (Centenário do Barão de Studart) Secretário-Geral Valdelice Carneiro Girão
1º. Secretário Paulo Ayrton Araújo
1972 – TE – 5 (Sesquicentenário da Independência do Brasil) 2º. Secretário Rejane Maria V. Accioly de Carvalho
1977 – TE – 6 (90º. aniversário do Instituto do Ceará) lº. Tesoureiro Francisco Fernando Saraiva Câmara
1984 – TE – 7 (Centenário da Abolição da Escravatura no Ceará) 2º. Tesoureiro Ednilo Gomes de Soares
1987 – TE – 8 (Centenário do Instituto do Ceará) Diretor da Biblioteca e Arquivo Pedro Alberto de Oliveira Silva
Diretor de Com. e Rel. Públicas Miguel Ângelo de Azevedo (Nirez)
Endereço:
Rua Barão do Rio Branco, 1594 - Centro Conselho Superior
60025-061 – Fortaleza – Ceará – Brasil Tácito Théophilo Gaspar de Oliveira (ex-presidente)
Zélia Sá Viana Camurça
Telefone: (85) 3231.6152 - Fax: (85) 3254.4116 Paulo Ayrton Araújo (ex-presidente)
http: www.institutodoceara.org.br José Liberal de Castro
e-mail: [email protected] Carlos Mauro Cabral Benevides

Pede-se permuta
Pídese canje Comissões
On démande le change
We ask for exchange História Revista
Pedro Alberto de Oliveira Silva Pedro Alberto de Oliveira Silva
Man bittet um austausch José Caminha Alencar Araripe Francisco Fernando Saraiva Câmara
Si richiede lo scambo Gisafran Nazareno Mota Jucá Francisco Ésio de Souza
Ni petas cangon Valdelice Carneiro Girão Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes
João Alfredo de Sousa Montenegro Aroldo Cavalcanti Mota
A matéria assinada é de responsabilidade do respectivo autor
Geografia Verificação de Merecimento
Revista do Instituto do Ceará Oswaldo Evandro Carneiro Martins Vinícius Antonius H. de Barros Leal
Eduardo de Castro Bezerra Neto
Fortaleza: Rubens de Azevedo
José Filomeno de Moraes Filho
Caio Lóssio Botelho
V. anual José Cláudio de Oliveira Francisco de Assis Arruda Furtado
Trimestral até 1928 Raimundo Elmo de Paula Vasconcelos

1. Geografia, História, Antropologia – periódico Antropologia Defesa do Patrimônio


Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e Antropológico) Zélia Sá Viana Camurça José Liberal de Castro
Dário Moreira de Castro Alves Miguel Ângelo de Azevedo
CDU: 91 + 93.572 (05 Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes Francisco Edson Cavalcante Pinheiro
ISSN 0100-3585 José Murilo de Carvalho Martins Pedro Sisnando Leite
Rejane Maria V. Accioly de Carvalho Vladir Pontes Meneses
6
Ao Leitor

Instituto do Ceará
(Histórico, Geográfico e Antropológico) O Instituto do Ceará, a mais antiga entidade cultural da nossa
terra, dando continuidade ao paciente trabalho dos nossos antepassados,
apresenta a revista de 2007, novo elo de uma cadeia ininterrupta de cento
e vinte e um números anuais, densos de informações, que transformam
essa coleção histórica numa das mais completas do nosso país.
Fundado a 4 de março de 1887, na cidade de Fortaleza, estado
do Ceará, onde tem sede e domicílio. Mais uma vez será permitido ao consulente adentrar num ambiente
Sociedade civil, de caráter científico e cultural, sem fins lucrati- em que a história, pela pesquisa documental, surpreendentemente, toma
vos, duração por tempo indeterminado. Reconhecida de utilidade públi- vida e interage com o estudioso.
ca pelo Decreto Federal n. 94.364, de 22 de maio de 1987, Lei Estadual Cumpre-nos agradecer aos ilustres colaboradores que escreveram
n. 100, de 15 de maio de 1936, e Lei Municipal n. 5.784, de 13 de sobre os preciosos temas que compõem a presente obra.
dezembro de 1983. Fato significativo, que demonstra a magnitude intelectual do
Tem por finalidade específica o estudo da História, da Sodalício, é a participação de quatorze sócios efetivos da Instituição na
Geo­grafia, Antropologia e das Ciências correlatas, especialmente presente publicação, os quais, debruçando-se sobre relevantes assuntos,
do Ceará. colocaram focos de luz em personalidades e acontecimentos que estavam
Para alcançar seus objetivos precípuos, realiza sessões ordiná- obscurecidos pela névoa do tempo.
rias, especiais e solenes, e mantém: Registramos, também, o esforço do coordenador da revista, o só-
– intercâmbio cultural com instituições científicas e literá­rias na- cio Pedro Alberto de Oliveira Silva, mais uma vez à frente do comando
cionais e estrangeiras;
editorial, com objetividade e dedicação em todo o seu projeto.
– a Revista do Instituto do Ceará, em que se publicam colabora- No ensejo de que venhamos a usufruir prazerosamente o conteúdo
ções de Sócios, documentos históricos e outros trabalhos que a
deste livro, queremos registrar o empenho que o Instituto do Ceará vem
comissão de redação achar conveniente;
empreendendo, no sentido de adaptar-se às regras da modernidade, sem
– um Museu Histórico e Antropológico de caráter regional;
perder os vínculos com os seus costumes e tradições.
– Biblioteca, Hemeroteca, Mapoteca e Arquivo;
– Auditório Pompeu Sobrinho, para solenidades.
A Diretoria
ARTIGOS
Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará

Melquíades Pinto Paiva*

J osé Martiniano Pereira de Alencar (1794 – 1860) é perso-


nagem da maior importância da história política do Ceará, muito bem
conhecido pelos conterrâneos mais cultos. Existe abundante bibliografia
sobre a sua vida, com destaque para o livro de Araripe (1995), sem
contar com resenhas contidas em publicações as mais diversas.
Não temos a intenção de produzir um novo relato sobre a vida
deste ilustre cearense, mas tão-somente uma breve súmula biográfica,
servindo de introdução ao estudo do seu desempenho no Senado do
Império, como representante da Província do Ceará, em defesa dos
seus interesses, sem falar nas atividades ligadas à política nacional,
onde foi participante da maior proeminência
Nasceu em Barbalha (CE), em 16 de outubro de 1794, sendo filho
do negociante português José Gonçalves dos Santos e de Bárbara Pereira
de Alencar. Foi enviado para estudar no Seminário de Olinda (PE).
Ainda como sub-diácono, foi escolhido como emissário das
forças revolucionárias de 1817, para sublevar o sul do Ceará. Entrou
para a História no dia 3 de maio daquele ano, quando, no patamar da
igreja matriz do Crato, proclamou a República na região do Cariri
(CE); poucos dias depois foi preso, o mesmo acontecendo com a mãe,
dois irmãos e outros revoltosos patriotas. Encaminhado à prisão em
Fortaleza e depois mandado para os cárceres do Recife e Salvador, foi
posto em liberdade no correr do ano de 1821.
Primeiro suplente de deputado à Constituinte Portuguesa (1822),
nela tomou assento porque José Ignácio Gomes Parente não assumiu
sua cadeira de representante do Ceará, por motivo de doença. Abando-

* Sócio efetivo do Instituto do Ceará.


10 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará 11

nou as Côrtes de Lisboa, fugindo para a Inglaterra, logo que soube da consultar os anais do Senado do Império, pela falta de volumes ou mo-
Independência do Brasil, donde regressou ao Rio de Janeiro. notonia cansativa da leitura de material esparso e volumoso.
Deputado à Assembléia Geral Constituinte (1823), também Apesar das possíveis falhas, o levantamento realizado bem serve
participou da segunda legislatura da Câmara dos Deputados (1830 para avaliar a atuação do senador Alencar em relação ao Ceará.
– 1833), eleito pelo Ceará. Escolhido senador por Carta de 10 de abril Nas transcrições adotamos a grafia das palavras conforme as
de 1832, assumiu cadeira vitalícia, representando a província natal, em encontramos nas fontes consultadas, não havendo atualização da
2 de maio do mesmo ano. ortografia.
Participou da Confederação do Equador (1824), tendo sido preso
e levado a julgamento; apresentou súplica de perdão ao imperador D. Sessão de 21 de agosto de 1832 – Falando sobre emenda ao Có-
Pedro I (1825) e foi libertado em 1826. digo Penal, afirmou o senador Alencar que duas vilas cearenses estavam
Por duas vezes presidiu o Ceará: de 6 de outubro de 1834 a 25 de “debaixo do dominio de Pinto Madeira.” Mais adiante disse: “Em 1824
novembro de 1837; de 20 de outubro de 1840 a 6 de abril de 1841. quando Carvalho [Manuel de Carvalho Paes de Andrade] principiou a
Fundou e dirigiu a Sociedade Promotora da Maioridade do Im- desobedecer a Côrte, mandou dous emissarios ao Ceará para fazerem
perador D. Pedro II (Clube da Maioridade). a revolução. Quem estava governando recebeu os emissarios, que não
Embora sacerdote pelo Seminário de Olinda (1823), teve vida levavam exercito, e officiou a todos os Eleitores, a todos os Membros
conjugal com a prima Ana Josefina de Alencar, a partir de 1826 – o das Camaras, etc., para que se reunissem em um certo dia para se tratar
primogênito do casal foi o escritor José de Alencar (1829 – 1877). de negocios de que elles vinham incumbidos. Começou-se a cabalar para
Sempre atuou nas fileiras do Partido Liberal e foi um dos seus proclamar um systema novo, o que durou dous meses, sem qualquer
mentores na Província do Ceará. exercito algum, ou gente armada, mais que a tropa ordinaria da guarni-
Faleceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 15 de março ção; cumpriram-se emfim as ordens e reunio-se um Congresso de 400
de 1860. homens, que não estavam armados, e que depois se retiraram para suas
casas. Não houve excesso algum, não houve ninguem armado, não houve
emfim mais nada do que dizerem que se proclamasse a Federação do
Senado do Império
Equador; e como a Provincia toda concordou, foi ella proclamada.” (...)
“O facto é este: fez um Congresso, discutio-se nelle (...) e venceu-se que
O levantamento dos pronunciamentos do senador José Martiniano
se proclamasse, assim como proclamou um systema novo, que deitava
Pereira de Alencar, no Senado do Império, foi realizado com apoio das
por terra o estabelecido, e se isto não é rebellião, apezar de não haver
atas de suas sessões (1832 – 1860), a partir de xerocópias recebidas da
tropa ou pessoa alguma armada, então não sei o que é, me fará o favor
Subsecretaria de Arquivo do Senado Federal e da consulta direta aos
de dizer o titulo que lhe hei de dar...”
volumes dos Anais,encontrados nos acervos da Biblioteca Nacional e
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Não temos a certeza de Sessão de 23 de agosto de 1832 – Defendeu a criação de uma
haver lido todos os discursos e apartes de sua autoria, por notórias faltas nova freguesia na capela de Nossa Senhora da Glória, na povoação de
de volumes/anos nas coleções consultadas. Maria Pereira; também, o estabelecimento de uma cadeira de Gramática
Justificamos as longas transcrições apresentadas, porque não Latina na vila de Campo Maior de Quixeramobim; ainda, a remoção da
desejamos correr riscos de más interpretações dos textos, e também por freguesia de Almofala para a povoação da Barra do Aracajú [Acaraú]; por
elas servirem como importantes depoimentos sobre a história do Ceará, fim, uma nova freguesia a se fixar na povoação de Cascavel. A respeito
em geral pouco conhecidos, por causa das dificuldades de encontrar e da concessão de gratificação aos fazendeiros e lavradores cearenses que
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construírem açudes de pedra e cal, disse o seguinte: “Todos os Brasileiros Sessão de 5 de julho de 1833 – Posicionou-se a favor da contra-
sabem quanto aquella desgraçada Provincia do Ceará tem soffrido com tação de moços para praticarem a navegação na Província do Ceará e da
as seccas e a experiencia agora tem mostrado que algum açude, que ha criação de um lugar de prático da barra do rio Jaguaribe (Aracati).
na Provincia, feito pelos proprietarios nas suas terras, apresenta um re- Sessão de 28 de maio de 1839 – Apresentou longo relato sobre
medio extraordinario contra estas seccas; porque toda a circumferencia os atritos entre o presidente Manoel Felizardo de Souza e Melo, seu su-
das margens daquelles açudes conservam mattas nas quaes já elles podem cessor na presidência da Província do Ceará e a Assembléia Provincial,
plantar. Presumio agora o Conselho Geral [da Província da Ceará], e por ele negar-se a sancionar e mandar executar leis por ela aprovadas por
muito bem, que se se désse um incentivo aos proprietarios para sahirem maioria de dois terços. Refutou afirmações do senador Bernardo Pe­
daquelle lethargo em que estão, e se fisessem açudes nas estradas, e nas reira de Vasconcellos, ex-ministro da Justiça. Considerou um absurdo o
suas proximidades, a Provincia tiraria utilidade disso. O que eu acho aviso do ministro do Império, com data de 5 de novembro de 1838, que
porém é, que é mui diminuto esse incentivo: porque quantas braças “estabelecia como principio que, sempre que o Presidente da Provincia
terão esses açudes? Cinco ou dez braças, o que torna o premio muito entendesse que uma lei era anti-constitucional, ainda que a Assembléa
pequeno; parece-me pois que ainda que se gastassem dez contos de réis, Provincial a approvasse por dous terços, em segundo exame, não devia
para suavisar naquella Provincia o flagello, que soffre da secca, devia ella ter execução, enquanto a Assembléa Geral não decidisse; creio que
dar-se essa quantia por bem empregada, ainda que não fosse senão para isto foi uma exorbitancia do Ministro do Imperio, em face do que dizem
a conservação de seus animaes, que são realmente os melhores do Brasil. os artigos 16 e 20 do Acto Addicional, que eu peço licença ao Senado
Não ha producção mais fecunda de gados do que a daquella Provincia; para ler.” (...) “Disse o nobre Senador ex-Ministro que houve algumas
são todos de muita força, a ponto de virem do Sobral a Pernambuco com queixas contra o Sr. Manoel Felizardo, porque elle não tinha querido dar
300 leguas de distancia, voltarem outra vez carregados, não ha animal execução ás leis da Assembléa Provincial. Isto não é exacto; as primeiras
algum tão possante. Tem pois aquella Provincia recurso extraordinario queixas que houve contra o Sr. Manoel Felizardo não foram por esse
na criação dos gados, e é tal a rigeza delles, que quasi nunca morrem de motivo, e tanto assim, que a Assembléa Provincial logo que se reunio,
fome, apezar das grandes seccas comem erva queimada pelos ardores do muito antes de passar algum acto legislativo, se pronunciou contra elle; as
sol e soffrem sêde de 2 e 3 dias, que quasi sempre é quem os mata. Ora queixas que depois appareceram provieram de que elle recusou sanccio-
em attenção a isto é que o Conselho Geral se lembrou de animar este nar certas leis, e executar outras que em segundo exame tinham passado
unico recurso (á excepção dos Poços Artesianos que demandam outras por dous terços da Assembléa Provincial; dahi é que vieram as queixas
cousas), e julgou que havendo esse incentivo, que eu acho pequeno, os e o Presidente da Assembléa Provincial mandava publicar e executar
proprietarios iriam fazendo esses, já nas suas fazendas, já nas estradas. essas leis.” (...) “Sr. Presidente. Eu quis só retorquir essas expressões
/ Disse o nobre Senador [Luiz José de Oliveira] que é em conveniencia do nobre Senador, e mostrar a injustiça que elle fazia á Provincia do
propria dos proprietarios; mas não é só delles, é tambem do interesse Ceará, suppondo-a dividida em partidos. De facto, a Provincia do Ceará
geral da Nação, porque os direitos dos gados hão de produzir mais 20 ou não merecia nenhuma contemplação ao nobre Senador; essa Provincia
30 por cento. Portanto, Senhores, este é talvez o primeiro beneficio que tinha tomado uma lição sua; ella tinha muita fé nas instituições do paiz;
se faz áquella Provincia para ver se suavisa a sua desgraça. O Conselho seus habitantes iam-se acostumando a executar a Constituição, debaixo
Geral lembrou isto, e os nobres Senadores terão beneficencia bastante da protecção della; iam-se consolidando as instituições, retirando-se o
para o approvar.” Pondo-se de lado alguns exageros e certos conceitos espirito do campo da politica para as occupações necessarias e uteis ao
obsoletos, esta é uma bela e pioneira defesa da açudagem, para combater desenvolvimento material da Provincia; emfim, ia-se fazendo alguma
os efeitos das secas que periodicamente assolam o Ceará! cousa em beneficio real do paiz; e quem assim estava, de certo não era
14 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará 15

muito proprio para caminhar nesse systema de regresso e de transacções Corpo Legislativo homens legitimamente eleitos, nossos pensamentos
(apoiados), queria conservar aquillo que estava legitimamente estabele- não foram uniformes.” (...) “Todavia, como o nobre Senador é dotado de
cido, e não queria tornar ao que existia anteriormente.” uma vasta comprehensão, deu suas voltas, entendeu dever retrogradar;
Sessão de 29 de maio de 1839 – Prosseguiu refutando afirma- mas eu, quando não vou para diante, também não quero tornar atraz;
ções do senador Bernardo Pereira de Vasconcellos – “Sr. Presidente. O gosto do justo meio que é a verdadeira politica do Brazil, porque não
nobre Senador que hoje me combateu, em primeiro logar attribuiu-me deve seguir a carreira das revoluções extremas, nem voltar para o ponto
que eu hontem me affligi porque havia sido demitido de Presidente. Eu donde sahimos, depois de tantos sacrificios.” Relacionou as queixas dos
creio que, pelo contrario, quando toquei nesse ponto, disse que achava cearenses com respeito à presidência de Manoel Felizardo de Souza e
mui natural que o nobre Senador me demitisse, e não mostrei afflição. Melo: demissões efetuadas, seguidas de nomeações favorecendo inimi-
Como o nobre Senador trouxe esse facto, como deu os motivos porque gos dos demitidos; desperdícios dos dinheiros públicos. Ele não tinha
fez essa demissão, mostrarei que esses motivos que allegou são pouco maioria na Assembléia Provincial, e que a maior parte das Câmaras se
fundados. O primeiro foi por eu não ter licença do Senado. Ora, o Mi- posicionaram contra a sua administração.
nistro officiou ao Senado sobre a minha nomeação, e o Senado remetteu Sessão de 6 de junho de 1839 – Encaminhou à consideração do
o negocio á Commissão de Constituição. Enquanto essa não decidia, Senado quatro requerimentos, todos eles tendentes ao melhoramento
parece que tacitamente consentia na minha presidencia. Mas o nobre material da Província do Ceará. O primeiro, assinado por grande núme-
Senador, dando isto por motivo, não póde deixar de confessar que no- ro de pessoas do comércio e proprietários de Fortaleza, tendo em vista
meou um Deputado para a Presidencia no principio da sessão. Logo este o melhoramento do porto da capital, “exigindo medidas e offerecendo
motivo de minha falta no Corpo Legislativo não é razoavel.” / “Outro um projecto mostrando os meios por onde se póde levar a effeito essa
motivo foi porque sanccionei leis da Assembléa Provincial do Ceará, indispensavel obra, com o menor dispendio possivel da Fazenda Publica.”
que iam fazendo a Provincia independente. Eu não defenderei todas as O segundo, assinado por comissão nomeada na Capital, em decorrência
leis da Assembléa Provincial: póde ser que algumas ultrapasse(m) a(s) de lei da Assembléia Provincial, “para levar effeito projectos de uma
sua(s) attribuições; mas, antes de continuar, pergunto se o ex-Ministro sociedade de colonisação, agricultura e criação de gados, e de um Ban-
da Justiça só se importou com as leis da Assembléa Provincial do co Provincial, pede que sejam recebidas nas estações publicas daquella
Ceará, e não com as de outras Assembléas que crearam prefeitos, como Provincia as notas do Banco que se pretende estabelecer.” O terceiro,
se fez no Maranhão? Por ventura, a Assembléa Provincial merece, só, assinado pela mesma comissão, “pedindo que se conceda, por afora-
essa censura?” / “Mas, outra cousa noto eu: se essas leis eram más, mento, os terrenos nacionaes devolutos daquella Provincia, que ella julgar
porque o delegado do ex-Ministro não fez que a Assembléa Provincial necessarios para estabelecer colonisação estrangeira, que se pretende
as derrogasse? Antes eram más, agora são boas; quando foi o dele­gado introduzir na mesma Provincia.” O quarto, “pede a prompta decisão da
do nobre Senador, podiam as leis conservar-se; mas antes delle ir, eram Assembléa Geral sobre a lei provincial que diz respeito ao projectado
anti-constitucionaes.” / “Dirigi á Administração Geral um officio ex- Banco, visto que, por aviso da Secretaria de Estado do Imperio, de 20
plicando os meus sentimentos; eu quis, então, entregar o Governo ao de Fevereiro do corrente anno, foi ordenado ao Presidente do Ceará que
Vice-Presidente; e receiando algum transtorno, e parecendo-me que o promovesse a derrogação desta lei, dando-se assim a entender que ella
Ministro não tinha em mim confiança, pedi a minha demissão. O motivo não cabe nas attribuições das Assembléas Provinciaes.” Mais adiante
era porque então discordavamos em politica, bem que em outro tempo afirmou: “Sei tambem que pelos avisos de 5 e 6 de Novembro do anno
andassemos juntos no mesmo caminho politico; mas, desde que na passado, foram suspensas, na Provincia do Ceará, varias leis que já se
Assembléa appareceram essas idéas exaltadas, de se lançarem fora do achavam postas em execução, e esta sustação de leis tem causado na
16 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará 17

minha Provincia bastante inquietação; pois, para ser executada a ordem Sessão de l6 de agosto de 1839 – Apresentou o seguinte projeto:
do Presidente a semelhante respeito, foi preciso marchar força para “A Assembléa Geral Legislativa decreta :
diversas partes, e até cuido que para se fazer effectiva essa suspensão Art. 1º Fica creada uma nova Provincia, que se denominará – Pro-
da lei é que o Presidente, que ha pouco foi mudado daquella Provincia, vincia do Cariri Novo – cuja capital será a villa do Crato.
havia pedido auxilio de força ao Presidente da Parahyba. Ora, eu não Art. 2º Esta Provincia se comporá:
defendo todas estas leis, e nem me atrevo a sustentar a conveniencia e § 1º Dos municipios do Riacho do Sangue, Icó, Inhamum, S.
constitucionalidade de todas; mas o que me persuado é que o Governo Matheus, Lavras, Jardim e Crato, da Provincia do Ceará.
Central não tem faculdade para as mandar suspender por acto seu proprio, § 2 ° Dos municipios do Rio do Peixe e Pinhacó [Piancó], da
e sim devem vir ao Corpo Legislativo para, em conformidade do art. 20 Provincia da Parahyba.
do Acto Addicional, se decidir se são contra a Constituição os tratados, § 3º Do municipio de Dajau [Pajeú] de Flôres e dos compreendidos
os impostos geraes ou os direitos das outras Provincias, unicos casos em no antigo Julgado de Cabrobó, na Provincia de Pernambuco.
que devem ser derrogadas.” § 4º Do municipio de Piranhos [Piranhas], na Provincia
Sessão de 23 de julho de 1839 – Contestou o senador Bernardo do Piauhy.
Pereira de Vasconcellos, com forte pronunciamento: “Até onde chega a Art. 3º As autoridades geraes que, em virtude da Constituição e das
força das paixões e do amor proprio: elle tem muito interesse pelo Ceará, leis existentes, houverem de ser creadas nesta nova Provincia, vencerão
e neste momento permitta-me que eu diga duas palavras, aqui mesmo de os mesmos ordenados que as da Provincia do Ceará.”
longe, aos meus patricios: “ Cearenses! aqui disse em alto e bom som Em defesa, disse: “Um governo colado no Cariri poderia dalli ex-
que o Sr. Senador Bernardo Pereira de Vasconcellos que tinha muito mais pedir forças muito proprias e efficazes para tirar Caxias e outros lugares
interesse pelo vosso bem estar do que o vosso patricio senador Alencar; do poder dos rebeldes. No Cariri, em Dejau [Pajeú], em Inhamum, Icó e
vós tendes na vossa provincia as provas desta verdade: perguntai pelo outros lugares que se destinam para esta nova Provincia, existem ainda
estado de socego, tranquilidade e prosperidade della no fim do anno de os soldados e officiais que já uma vez venceram Caxias, não occupada
l837, e comparai com o que agora existe; perguntai pelas vossas estradas, por Raymundo Gomes e gente indisciplinada, e sim occupada por tropas
pelas vossas pontes, pelo vosso chafariz, pelo avanço de vossas finanças, luzitanas, aguerridas e commandadas pello official, talvez que no Brazil
pela vossa segurança individual; considerai essas demissões e perse- se oppôz á independencia, João José da Cunha Fidié. Sim, foi do Cariri
guições que têm tirado o pão e levado o terror a tantas familias; vede o que marchou a mais forte expedição que cercou Caxias e a fez render,
frenesi dos partidos que dilaceram o seio da provincia; combinai tudo isto quando então se achava guarnecida e fortificada militarmente.” Disse
com o vosso estado em 1837, e agradecei ao Sr. senador Vasconcellos o ainda que o Ceará não seria prejudicado com a perda de renda, porque
grande interesse que sua administração tomou pela vossa prosperidade; a produção iria crescer, o consumo de gêneros alimentícios também,
e quando fizerdes a comparação de qual de nós dous ama mais o Ceará, ficando os portos de Fortaleza e Aracati com os direitos alfandegários.
eu desejo que sejam juizes no julgamento todos os cearenses, ainda Sessão de 26 de setembro de 1839 – Tornou a falar sobre algu-
mesmo aquelles que fizeram opposição á minha administração; amigos mas leis votadas pela Assembléia Provincial do Ceará, que depois de
e inimigos, julguem lá quem poderá ter mais interesse pelo Ceará, se o estarem em execução, foram mandadas sustar por ordem do presidente
Sr. senador Vasconcellos, se o senador Alencar; eu não dou por suspeito da Província, apesar do aviso de 6 de junho de 1839, para que elas per-
nenhum cearense, seja elle qual for o seu credo; entrego-me á decisão manecessem em execução, enquanto pela Assembléia Geral não fossem
de todos. Eis, Sr. Presidente, o que eu tenho a dizer em resposta ao que revogadas – o presidente do Ceará não quis cumprir a determinação do
a este respeito disse o nobre senador.” governo central.
18 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará 19

Sessão de 5 de outubro de 1839 – Afirmou que os navios da Com- peças que apparecem, as quaes patenteiam a divisão entre a Assembléa e
panhia Brazileira dos Paquetes a Vapor deveriam tocar em todos os portos o Presidente do Ceará, não se divulga tendencia alguma para separação;
principais do nordeste brasileiro, entre eles o porto de Fortaleza. nem mesmo o ultimo rompimento entre os dous poderes provinciaes foi
Sessão de 23 de outubro de 1839 – Advogou um suprimento no proveniente de alguma complicação entre as attribuições de um e outro;
orçamento de 1840/1841, destinado à província do Ceará, para cobrir a Assembléa fez suas leis; o Presidente negou sua sancção áquellas que
um grande déficit perante o Ministério da Fazenda, como acontece em não julgou merecerem sua approvação, e nisto cada um esteve no seu
relação a outras províncias. Apresentou emenda destinando 24 contos direito, e portanto não se seguiu desordem alguma. A mensagem, a mallo-
de réis ao Ceará. gração da deputação que a levou, não achando o presidente no palacio,
Sessão de 28 de outubro de 1839 – Discussão do Orçamento, e a portaria do adiamento, levada pelo ajudante de ordens até o recinto
perante o ministro da Justiça. Repeliu acusações deste com respeito à da sessão, eis o que me parece ter exarcebado os espiritos, e posto os
província do Ceará: “Sr. Presidente, eu tinha feito tenção de não fallar dous partidos quase a braços; mas em nada disto divulgo eu a tendencia
mais sobre negocios do Ceará, por varios motivos: 1º., porque posso ser a algum rompimento contra a integridade do Imperio.” / “ Eu não podia
considerado suspeito; 2º., porque me tenho convencido que não posso deixar passar a hypothese de S. Ex. em relação á Assembléa do Ceará,
alcançar remedio para os males da minha Provincia, e quando se está porque não é de agora que se pretende envenenar aquella Assembléa com
desenganado de uma cousa, é prudencia não insistir; 3º., porque o nobre idéas de separação; sobre isto se tem dito mil cousas para desacreditar a
Senador [Nicolau Pereira de Campos Vergueiro], que tem tomado parte Assembléa do Ceará; eu peço, porém, a S. Ex., e a todas as pessoas que
neste negocio, tem dito quanto se poderia dizer.” / “Levantei-me, pois, quizerem julgar com imparcialidade e sem espirito de partido, que leiam
unicamente para dar uma satisfação ao Sr. Ministro, por um desapoiado a legislação da minha Provincia, que foi feita por essa maioria actual
que me escapou quando S. Ex. fallava, e dizia que se podia dar a possibi- da Assembléa. Durante a minha presidencia não duvido que escapasse
lidade de em uma Assembléa Provincial existir um partido que se tornasse um ou outro acto que tenha algum vislumbre de ultrapassar as raias da
maioria, a qual fosse hostil á união do Imperio: esta possibilidade em attribuição da Assembléa, assim como julgo que nenhuma Assembléa
geral eu a admittiria, mas como S. Ex. figurou sua hypothese em relação Provincial do Brazil escapará de dizer-se della o mesmo; mas, mostre
á Assembléa da Provincia do Ceará, eu desapoiei uma tal hypothese, qual dos seus actos é aquelle que tem uma tendencia para se acabar com
porque, como filho e morador nesta Provincia, tenho conhecimento a união! Se dar força ao delegado do poder central para manter a ordem,
pleno dos individuos que compõem aquella Assembléa, e sei de certo e promover o bem, é tendencia de separação, então alguma se achará
que elles não são capazes de conspirar contra a união e integridade do nesses actos. De certo, nenhuma Lei se deu por capricho, todas foram a
Imperio. Admittir uma tal hypothese me seria mesmo deshonroso, por expressão das necessidades da Provincia; não foram o effeito do espirito
isso que eu [estou] com a maioria daquella Assembléa, e não tratei de de partido, e sim para se obter a segurança da Provincia, prover aos seus
certo no sentido da desunião do Imperio; e nunca desejei que a minha melhoramentos, e tanto que produziram o effeito desejado; a Provincia
Provincia se separasse da communhão brazileira. S. Ex. deverá reconhe- conservou-se e ninguem poderá negar que teve augmento em suas rendas
cer que, quando por mais não fôra, mesmo por interesse meu particular, e no seu melhoramento material, por effeito dessa legislação, de que tanto
para conservação do lugar que occupo, devo querer a união do Imperio; mal se fallou, e pelo patriotismo da Assembléa, a que se quer agora de-
ao menos, por este motivo devera S. Ex. acreditar-me tão interessado sacreditar. Eu estou muito persuadido das boas intenções de S. Ex., mas
nessa união, como S. Ex., que tem tão bom lugar a conservar.” / “Nem desde já declaro a S. Ex. que não me parece que pode melhorar o estado
sei mesmo quaes são as razões que S. Ex. pode ter para figurar tal pos- daquella Provincia; só tenho esperanças na Divina Providencia, só ella
sibilidade, em relacção á actual Assembléa do Ceará. Parece-me que nas nos poderá valer, e abaixo della o Sr. D. Pedro II, quando elle chegar á
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sua maioridade... quando elle tomar as redeas do Governo; é só para esse ção de uma sociedade em uma província onde há falta de capitais, como
tempo que eu appello: isto mesmo tenho escripto para a minha Provincia, a do Ceará; mas, pode ser que a concessão, já não digo de 10 léguas de
dizendo que ponham suas esperanças na maioridade de S. M. I., porque terra, mas de 4, fosse o meio de fazer com que essa associação se orga-
por ora não ha salvação. É esta a minha firme convicção.” nizasse; e quando se não pudesse em grande escala fazer a introdução
Sessão de l3 de maio de 1840 – Tratou da resolução concedendo de colonos, podia-se fazer um ensaio avantajado.”
sesmaria à Sociedade de Colonização, Agricultura e Criação de Gado, a Sessão de 14 de setembro de 1841 – Pronunciou forte e raivoso
ser estabelecida na província do Ceará: “ Esta província já não tem muitas discurso contra Cândido José de Araújo Vianna, Ministro do Império, que
terras devolutas; é uma província que, não tendo grandes cidades nem o acusou de conspirador e o ameaçou, dizendo que o Governo tinha força
grandes povoações, contudo, no seu interior está muito bem povoada; e bastante para lhe esmagar. Pediu provas e que estas fossem apresentadas
eu julgava que, para se dar alguma ajuda a esta sociedade de coloniza- ao Senado, para ele ser julgado. Num trecho do discurso, se refere ao
ção, bastava que se concedesse só quatro léguas, com a cláusula de que Ceará: “Ainda há pouco, delegado do Imperador, presidindo a Província
não se daria a primeira sesmaria de uma légua, sem que essa sociedade do Ceará, ia sendo vítima de uma conspiração. Desordeiros e sediciosos
apresentasse no Ceará cem casais de colonos, porque é quando chegarem sublevaram quase toda a província, e com as armas na mão atacaram,
esses colonos que a sociedade precisará de terras.” (...) “Quando estive não ao Alencar como homem particular, e sim como delegado do Im-
na presidência, convenci-me de que uma das maiores necessidades era perador; estive cercado uma noite inteira, fazendo-se fogo sobre a casa
haver quem trabalhasse; e, reconhecendo a falta de braços que havia da minha residência; foram assassinados soldados da minha guarda; e,
na província, mandei à Europa procurar colonos, os quais, quando se enfim, escapei, por visível milagre da Providência Divina. Os desordeiros
tratava do seu engajamento, logo perguntavam se havia terras para se e sediciosos que promoveram a perturbação em toda a província, que
lhes dar. Para aqueles homens esta promessa é mais lisonjeira do que ensanguentaram as vilas de Sobral, Rupias [Russas], Aracati e Cascavel,
outra qualquer que se lhes faça; e por isso, aqueles que sem essa garantia têm sido não só poupados, e não castigados, mas galardoados, estimados,
vêm ao Brasil não são colonos industriosos, não são os homens que nos e até alguns condecorados com distinções honoríficas pelo Sr. Ministro
convêm; estes sem terem terras em que trabalhem, não querem trabalhar, do Império. E é este mesmo Sr. Ministro que, depois de tratar assim aos
não querem vir: portanto, se se quer dar impulso à colonização, que é tão sediciosos que me queriam assassinar, me manda o recado de que tenho
necessária naquela província, é mister que se passe a resolução. Ficando feito menção, ameaçando-me com castigo do governo, que deveria ser
ela adiada, não pode produzir o efeito que se deseja.” aplicado aos verdadeiros conspiradores!”
Sessão de 15 de maio de 1840 – Ainda falando sobre a Sociedade Sessão de 1º. de fevereiro de 1845 – Na discussão de parecer so-
de Colonização, Agricultura e Criação de Gado: “Eu já disse que no Ceará bre anulação de eleições no Ceará em 1840, para deputados provinciais,
houve quem se lembrasse, interessado pelo bem do Brasil, de procurar disse que os eleitores de São Mateus, a pretexto de coação, se reuniram
desviar o espírito público dos negócios políticos, chamando a atenção em Saboeiro e ali a procederam; por causa da não existência do colégio
dos habitantes para o melhoramento real e material do país. Uma das de Saboeiro, os deputados eleitos não foram reconhecidos.
lembranças foi a de se mandar vir colonos; levou-se isto a efeito, mas, Sessão de 6 de fevereiro de 1845 – Ainda cuidando do parecer
chegando ao Ceará os colonos e não havendo terreno que se lhes dar, não sobre a anulação das eleições de 1840, informou “como as coisas se pas-
puderam satisfazer os fins que tinham em vista; porque se entendeu que saram nesse tempo em que, segundo ele, o Ceará existiu em um estado de
a assembléia provincial não podia dispor dos terrenos devolutos, que são terror e de opressão difícil de descrever-se, sendo vítimas de toda sorte
próprios nacionais, e como tais estão debaixo da imediata fiscalização da de violências os homens mais eminentes do lado que o orador pertence.
assembléia geral.” / “Eu estou convencido de que será custosa a organiza- Tendo havido um pequeno interregno em que o partido que se chama
22 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império: o senador Alencar e o Ceará 23

ordeiro esteve fora do poder, assentaram os homens desse partido no e fugiram já ao romper do dia.” / “E porque o nobre deputado não falou
Ceará que deviam tratar de vencer com as armas, e assim o pretenderam nesta revolta? É fácil de saber. Esta revolta era uma coisa inocente, era
fazer atacando a própria casa do presidente e indo depois cometer os para apear o senador Alencar da Presidência, e talvez matá-lo, pois que
maiores atentados em algumas vilas da província: as do Aracaty, Cas- se fez fogo contra ele, e colocar-se na administração da Província o Sr.
cavel e Sobral; entretanto observa o orador que todos esses homens que Miguel Fernandes Vieira, primo e cunhado do nobre deputado, como se
eram oficiais de comissão foram depois confirmados na côrte e os que vê do plano dado por um dos revoltosos, plano que tenho em meu poder!
não eram oficiais foram agraciados com comendas e hábitos por ocasião Mas nesta revolução não se fala, porque foi feita por esses constitucio-
da coroação de S. M. I.” nais por excelência, por esses exclusivos amigos do Trono e da ordem,
Sessão de 19 de fevereiro de 1850 – Longo pronunciamento, pelos amigos e correligionários do Sr. Deputado!” Mais adiante afirmou
defendendo-se de acusações que lhe foram feitas na Câmara dos Depu- que “esse nobre deputado foi um dos correligionários políticos, um dos
tados a respeito de antigos acontecimentos, fundamentando requerimento amigos mais dedicados que tenho tido; foi um chimango decidido e de
de informações e solicitando documentos para sua defesa. Foram três mão cheia, apesar desse espírito revolucionário que hoje me atribui. E
deputados os acusadores, todos eles trânsfugas do Partido Liberal, então também tanta era a atenção que me merecia esse nobre deputado que não
membros fervorosos do Partido Conservador, gozando as delícias do po- duvidei de praticar em seu favor todos aqueles atos de bondade que cos-
der – em outras palavras, traidores mostrando serviços aos novos patrões: tumo derramar sobre aquelas pessoas de quem sou amigo.” (...) “Verdade
André Bastos de Oliveira (CE), Joaquim Villela de Castro Tavares (PE) porém é que apenas se apanhou juiz de direito e eleito deputado [liberal],
e João Antônio de Miranda (RJ). O primeiro, André Bastos de Oliveira, começou a pensar diferentemente (já se sabe, começou a pensar melhor)
qualificou-o como eminente revolucionário, “o homem das revoluções”, e honra lhe seja feita, assim como tinha um correligionário extremoso e
dizendo que ele mandaria “fazer no Ceará a mesma revolução que teve o mais decidido partidarista chimango-alencarino, também tornou-se o
lugar em Pernambuco em 1848”; também o chamou de chefe dos invisí- maior renegado que tenho conhecido; nada deixa a desejar o favor dos
veis em 1842: “O senador Alencar é o chefe de um clube revolucionário; seus novos amigos contra os seus antigos amigos e aliados: aqui deixo este
esse senador mandou ordem para se fazer uma revolução no Ceará; já foi Sr. deputado, o País o julgará.” Dizemos nós: é a velha história da criatura
chefe dos invisíveis em 1842, etc.” Lembrou ter o seu acusador se esque- se voltar contra o seu criador, e o julgamento que mereceu tal deputado
cido de falar sobre as estripulias dos seus correligionários conservadores foi o esquecimento do povo cearense – hoje é um ilustre desconhecido!
no Ceará, em 1840: “Revoltaram-se umas poucas de vilas: revoltou-se O segundo, Joaquim Villela de Castro Tavares, ao tratar dos negócios
a Vila de S. Bernardo, os revoltosos ali reunidos marcharam e atacaram de Pernambuco, defendeu Honório Hermeto Carneiro Leão, não atacado
a vila vizinha do Aracati a ferro e fogo, houve mortes, atacaram a Vila pelo Senador Alencar. Este disse a respeito do seu primeiro período no
de Cascavel, onde também houve mortes, e foi preciso grandes esforços governo do Ceará: “A Província do Ceará estava em estado excepcional;
dos amigos da legalidade para conter os revoltosos daquela vila; e não o furor do assassinato tinha chegado a um ponto horribilíssimo, não era
obstante isto revoltaram-se na Vila de Sobral: na noite de 14 para 15 de uma ou outra morte que aparecia neste ou naquele lugar da Província,
dezembro atacaram a própria casa da residência do presidente da Provín- eram imensas; bandos de assassinos armados corriam de um ponto a
cia, mataram soldados da sua guarda, deram um combate por toda uma outro, praticando barbaridades inauditas; a guerra de Pinto Madeira
noite; choviam balas de todas as partes, e só depois que reconheceram que tinha tido lugar havia pouco tempo, esses assassinos apresentaram-se
a tropa e muitos cidadãos importantes daquela vila defendiam com valor em movimento; era o efeito da desenvoltura das paixões; o armamento
ao presidente (sendo testemunha deste fato o meu ilustre amigo e colega, que tinha entrado na Província para a guerra de Pinto Madeira estava
o Sr. Paula Pessoa, em cuja casa estava o presidente), é que deram costas nas mãos dos assassinos; principalmente nos termos de Icó, das Lavras,
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de Serra Grande, de Quixeramobim e Serra do Pereiro. Havia assassinos Cabe aqui destacar, entre suas iniciativas senatoriais, o projeto
muito conhecidos, prepotentes e de séquito, cujos nomes faziam aterrar de criação da província do Cariri Novo, antigo sonho acalentado por
tudo; o furor de assassinar chegava ao ponto que as vítimas eram imola- gente do Crato e da região do Cariri, sul do Ceará; também, a defesa de
das até dentro das prisões.” Disse que enfrentou assassinos ferozes que incentivos à açudagem em terras cearenses, como forma de amenizar os
percorriam em bandos toda a província do Ceará, tendo pago gratifica- efeitos calamitosos das secas, que periodicamente castigam o Ceará.
ções às forças policiais pela prisão ou morte dos bandidos; ao contrário, Sempre defendeu elevado padrão ético e de honra no Senado do
Honório Hermeto Carneiro Leão, em Pernambuco, voltou-se contra réus Império, sendo ativo participante nas discussões políticas dos anos da
de crimes políticos, pagando gratificação a qualquer pessoa pelas prisões Regência, até a declaração da Maioridade de Pedro II – depois ficou mais
ou mortes dos seus inimigos políticos; por isto, rejeitava a comparação quieto, conseqüência da idade!
do comportamento de ambos os presidentes, como afirmou o deputado
Convém assinalar a sua permanente fidelidade ao Partido Liberal,
pernambucano – ele defendeu a ordem e o outro praticou violências
na defesa das liberdades políticas, mais evidente nas calorosas discussões
contra políticos adversários. O terceiro, João Antônio de Miranda, um
de interpretação do Ato Adicional.
dos seus sucessores na presidência do Ceará (15/02/1839 – 03/02/1840),
foi mais virulento nas acusações do que o deputado cearense. O senador Nunca renegou os ideais que o levaram a participar das revoluções
Alencar relembrou o seu passado, revolucionário em 1817 e 1824, que de 1817 e de 1824 no Ceará, tendo sofrido anos de prisão, sob severas
não renegava. Foi acusado com respeito ao julgamento de Pinto Madeira, condições. Entretanto, apresentou súplica de perdão ao imperador
de obrigar vadios a trabalhar em obras públicas [embora devidamente Pedro I, por muitos considerada como de manifesta subserviência.
pagos], e de fazer transferências de funcionários públicos. No Senado do Império defendeu fortemente suas ações como presi-
dente da província do Ceará, freqüentemente combatidas por adversários
políticos. Tantas vezes foi interpelado e mesmo acusado por seu passado
Considerações finais revolucionário, motivo de muitos entreveros verbais, principalmente com
o senador Bernardo Pereira de Vasconcellos (1795 – 1850), antigo liberal
José Martiniano Pereira de Alencar foi senador do Império durante que se tornou conservador, com a política regressista.
quase 28 anos (10/04/1832 – 15/03/1860); já em 1850 se dizia velho, Afirmou, no Senado do Império, não ter tido ligações com os se-
doente e cansado, o que explica o pouco brilho do último decênio do diciosos de 1842, entre os quais estava seu amigo Diogo Antônio Feijó
seu período senatorial. (1784 – 1843), mas é sabido que, pelo menos, em sua chácara na cidade
É certo ter sido ele um eficiente e laborioso presidente da pro- do Rio de Janeiro, se refugiaram alguns dos implicados no movimento
víncia do Ceará, com iniciativas pioneiras, principalmente durante o (ARARIPE, 1995).
primeiro período de suas investiduras. Buscou o progresso material e
avançou em defesa da segurança das populações sertanejas, combatendo Agradecimentos
o banditismo rural.
Infelizmente, o mesmo não podemos dizer sobre a sua atuação na Devemos sinceros e profundos agradecimentos a instituições e
tribuna do Senado do Império, onde pouco falou em defesa do progresso pessoas que nos ajudaram na realização desta pesquisa: instituições
do Ceará e do bem-estar do seu povo. Isto não significa falta de amor – Biblioteca Nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e
à terra natal, tantas vezes reafirmado em sua atribulada vida, desde a Senado Federal/Subsecretaria de Arquivo; pessoas – Emanoel Aranda
revolucionária juventude. Fernandes e Marco Maciel.
26 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Glória e tragédia de Delmiro Gouveia 27

Fontes bibliográficas

ARARIPE, J. C. A. – 1995 – Alencar, o padre rebelde. Secretaria da Cultura e


Desporto do Estado do Ceará, 228 p., [18] figs., Fortaleza.
BLAKE, A. V. A. S. – 1899 – Diccionario Bibliographico Brazileiro. Imprensa
Nacional, quinto volume, 493 p., Rio de Janeiro. Biografia de José Martiniano
de Alencar: p. 73 – 74.
LEITE NETO, L. (org.) – 1986 – Catálogo biográfico dos senadores brasileiros.
Senado Federal, volume III, p. I – XLV + 1309 – 1966 + I – CCXXXII, ilus.,
Brasília. Biografia de José Martiniano de Alencar: p. 1687 – 1688.
NOBRE, F. S. – 1996 – 1001 Cearenses Notáveis. Rio de Janeiro: Casa do
Ceará Editora, 398 p.
PAIVA, M. A. P. – 1979 – A Elite Política do Ceará Provincial. Rio de Janeiro:
Edições Tempo Brasileiro Ltda., XVI + 221 p., 4 figs.
Delmiro Gouveia
SISSON, S. A. (ed.) – 1999 – Galeria dos Brasileiros Ilustres. Brasília: Senado
Federal, primeiro volume, 447 p., ilus. Biografia de José Martiniano de Alencar:
p. 249 – 255.
STUDART, G. (barão) – 1913 – Diccionario Bio-Bibliographico Cearense. Glória e tragédia de Delmiro Gouveia
Fortaleza: Typo-Lithographia a Vapor, volume segundo, 430 p., Biografia de 90 anos da morte do pioneiro de Paulo Afonso
José Martiniano de Alencar: p. 155 – 158.

Annaes do Senado do Imperio do Brazil / Anais do Senado do Império do Brasil j. c. alencar araripe*
/ Annaes do Parlamento Brasileiro – Senado (1832 – 1860).

N o dia 10 de outubro de 1917, começo da noite, era assassi-


nado Delmiro Gouveia, quando lia jornais no alpendre do seu chalé em
Pedra. Tiraram-lhe a vida dois balaços: um localizou-se no braço, outro,
no peito, varando-lhe o coração; o terceiro alcançou a parede.
Pedra não enfrentara, até então, alvoroço igual ao que ocorreu
depois do atentado. Antes, muita gente concentrara-se ali para a che-
gada da luz elétrica; celebrara-se com festa a inauguração da fábrica de
linhas; a gente que se reunia, agora, atônita e entre assomos de revolta,
deplorava a morte do homem que transformara Pedra de simples parada
de trem em núcleo industrial de trabalho e progresso nos carrascais do
sertão agreste.

* Sócio efetivo do Instituto do Ceará.


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Dos que consumaram a empreitada sinistra nada se sabia; apenas cavalariano que deixou fama no Norte do Ceará pela audácia e temeridade
se dizia que, após os tiros, haviam sido vistos vultos que se esgueiravam das suas proezas, numa das viagens a Pernambuco, realizadas com objetivos
do local nas sombras da noite. Piquetes foram armados nas estradas pelas comerciais, enamorou-se de uma jovem – Leonila Flora da Cruz Gouveia- e
quais se deixava Pedra ou nela se penetrava. De nada adiantou quanto com ela fugiu. Perseguido pelos irmãos da moça, conseguiu escapar e chegar
ao objetivo visado, ou seja, a detenção dos criminosos. às terras do Ipú, onde constituiu uma segunda família.
Quando mataram Delmiro Gouveia, na noite de 10 de outubro Sim, porque Delmiro Porfírio de Farias já era casado. Quando se
de 1917, não se findou uma existência apenas. Interrompeu-se, de ma- iniciou o romance com Leonila, possuía cinco filhos da sua união com
neira brusca, a marcha evolutiva do Nordeste, iniciada vigorosamente Francisca de Mesquita Farias. Nos arrebatamentos da paixão, não atentou
no momento em que começaram a funcionar as turbinas montadas nas para as pesadas responsabilidades antes contraídas.
escarpas da Cachoeira. Refugiou-se no Ipú, em propriedade do coronel Felix José
Outra seria, hoje em dia, a situação do Nordeste se as balas assassi- de Sousa. O nascimento de Delmiro Gouveia ocorreu a 5 de junho
nas não o houvessem abatido. Da fábrica de linhas Delmiro teria partido de 1863, segundo filho do casal, pois o primeiro fora mulher e de
para outros avantajados empreendimentos. A ampliação da usina da nome Maria Augusta. O batizado de Delmiro foi celebrado a 30 do
Cachoeira era uma de suas metas. Alcançada, que fosse, surgiriam novas mesmo mês, na Fazenda Boa Vista. Oficiou o ato o padre Bernardino
indústrias, ampliar-se-ia o parque fabril, perspectivas bem mais alenta- d’Oliveira, coadjutor da Paróquia de Santa Quitéria e que empreendia
doras teriam os nordestinos na luta contra o subdesenvolvimento. uma desobriga.
Nascido na segunda metade do século XIX, Delmiro ingressou na Ameaçado de prisão, pois contra ele existia mandado da Justiça,
centúria seguinte embalado pelos rumorosos sucessos registrados em Paulo Belo Farias, assim o chamavam, alistou-se como voluntário e seguiu para
Afonso. É estupendo que, naquele tempo recuado, marcado por tantos fatores o Paraguai. O Brasil estava em guerra contra Solano Lopes. Integrando
negativos, encarnasse o estereótipo do empreendedor do século XXI. o 26 do Ceará, participou de inúmeras pelejas, confirmando nos campos
Delmiro desapareceu quando mais dele precisávamos. E, para guaranis o destemor de que dera provas na terra natal. A 2 de dezembro
infelicidade nossa, não teve continuadores. Nem a fábrica de linhas lo- de 1867, aniversário do Imperador Pedro II, quando o 26 acampava em
grou sobreviver ao seu fundador. Doze anos depois, isto é, em 1929, um Taji, um grupo de cearenses, entre os quais estava Belo Farias, caiu em
dia consumou-se o crime maior: depois de uma concorrência desleal, o uma emboscada. Combate ferrenho e desigual travou-se na Clareira de
trust inglês apoderou-se das instalações que Delmiro deixara e que não Cainbocá. Quando terminou, com a chegada de reforços do 26, quase
conseguira abocanhar enquanto vivo foi o caboclo cearense do Ipú. Parte todos estavam mortos. Entre eles, Delmiro Porfírio de Farias, já então
da maquinaria foi lançada ao rio São Francisco, outra levada para bem com a patente de capitão, e que apresentava vários ferimentos pelo corpo
longe pela Machine Cottons. e seis golpes na cabeça, que lhe abriram o crânio. Hoje, é nome de rua
O que ninguém conseguirá, porém, é destruir a glória do pioneiro em Fortaleza. A Delmiro de Farias tem início no Jardim América e passa
autêntico, empreendedor que nos albores do século XX apontou para o em Damas e Rodolfo Teófilo.
Brasil o caminho da redenção econômica do Nordeste. De Belo Farias, Delmiro Gouveia herdou o nome próprio. Mas,
na personalidade do filho, destacam-se traços dominantes do pai. O
O fadário romanesco arrojo, a coragem que atinge as raias de temeridade, o gênio expansivo,
o temperamento arroubado, o gosto pela aventura. Em certa fase de sua
Delmiro é fruto de um amor arrebatado, que ensejou um desses raptos existência, tem-se até a impressão de que Delmiro Gouveia procurou
rumorosos que povoam a história dos sertões. O pai, Delmiro de Farias, reeditar as façanhas de seu genitor.
30 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Glória e tragédia de Delmiro Gouveia 31

Rei no comércio de pele Revolução no Derby


Criança ainda, deixou o Ipú; a mãe resolvera voltar a Pernambuco.
Foi no vizinho Estado, de modo particular no Recife, onde se criou e se Além do comércio de peles, Delmiro incursionou também nos
desenvolveu. Pobre, desajudado, cedo conheceu o peso da luta pela vida. domínios da indústria de açúcar. Na Usina Beltrão, depois fábrica de
O destino, tão pródigo para com uns, foi extremamente avaro para com Tacarauna, refinava o produto e o vendia em tabletes, como se fazia
ele, nos primeiros passos pelos caminhos do mundo. na Europa.
Empregado da “Pernambuco Railway”, depois servidor da Alfân- Mas o grande empreendimento de Delmiro no Recife foi o Mer-
dega, Delmiro enfrentou também os percalços da mercância primária, que cado do Derby. De volta da Exposição Universal de Chicago, em 1893,
praticou, como meio de sobrevivência, pelo agreste de Pernambuco. trouxe a idéia de dotar o Recife de um grande parque permanente de
Casando-se com 20 anos, em Pesqueira, com Anunciada Cândida diversões, com mercado, hotel, restaurante e outras inovações.
Falcão, pouco depois se estabeleceu no ramo de peles e algodão. Ao sabor Em 1898, assinou contrato com o Prefeito do Município, Dr.
de sucessos e reveses, teve várias experiências. Admira a persistência José Cupertino Coelho Cintra, para a realização do útil empreendi-
que demonstrava, não esmorecendo jamais, ressurgindo quando parecia mento. Obteve isenção dos impostos municipais para o mercado,
afastado da liça, lançando-se a novos tentames quando só encontrava no com o direito de explorá-lo durante 25 anos, findos os quais deveria
passado motivos para desalentos. pertencer à Prefeitura.
À custa de trabalho e espírito de iniciativa, firmou-se, afinal, no Sem delongas, iniciou a construção, de tal modo que a primeira
comércio de peles. Por vastas regiões do Nordeste, estendeu a rede de seus parte do mercado foi inaugurada a 13 de maio de 1899. A conclusão total
agentes e controlou quase de maneira total os negócios da especialidade verificou-se no dia 7 de setembro do mesmo ano.
que escolhera. Vence onde outros baquearam. O edifício era algo original. Igual ou superior não existia outro
Que era o bode até então? Um animal precioso que imperava na no país. Chafarizes, torneiras de água e um sistema de esgotos, cuida-
região. Além do leite, fornecia carne sem perigo de desperdício, já que dosamente traçado, asseguravam asseio admirável. Em frente à fachada
era de porte pequeno. O que sobrava do consumo das famílias era levado principal, um jardim; ao lado, em uma área de 400m, o velódromo.
às feiras. A essa vantagem, reunia a de sobreviver, como o jumento, aos Em prédio à parte, instalações para jogos, cafés e divertimen-
piores períodos de estiagem. tos, inclusive teatro. Carrosséis, barraquinhas, regatas e retretas
Com a intensiva exportação de peles para os Estados Unidos, animavam as noites do Derby, iluminadas pela primeira luz elétrica
Delmiro Gouveia abriu nova frente de exploração animal e conferiu que o Recife conheceu. Além das diversões que ostentava, o Mer-
ao caprino uma valorização extraordinária, pela larga importância que cado do Derby oferecia vantagens de natureza econômica. Vendia
passou a representar na economia de milhares de nordestinos. por preços sempre inferiores aos vigorantes na praça. Comprava
O mascate de outrora chegou às culminâncias de “rei da pele”. em grandes quantidades e se abastecia diretamente nas fontes
No Recife, era uma figura prestigiosa nas altas rodas sociais. Não tardou produtoras, evitando os intermediários que encarecem o produto.
que o elegessem presidente da Associação Comercial. Assegurava vantagens com os quais outros estabelecimentos não
No bairro de Apipucos, instalou sua residência, com evidente tinham possibilidade de competir.
bom gosto, e deu-lhe o nome de Vila Anunciada, homenagem à esposa. A significação do Mercado do Derby para o Recife não se restringia
O palacete, cercado de jardins e tendo à frente altaneiras palmeiras im- ao que ressaltei, porque teve repercussão urbanística pelas obras comple-
periais, foi cenário de elegantes reuniões, abrilhantadas com a presença mentares que exigiu em trecho da cidade onde havia mangues, como era
de artistas que visitavam o Recife. a Estância daquela fase. Delmiro fez aterro, saneou, abriu ruas.
32 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Glória e tragédia de Delmiro Gouveia 33

Atrito com o Vice-Presidente 1°. de janeiro de 1900, elementos criminosos atearam fogo a dependências
do Mercado do Derby, que tanto servia ao povo e era o orgulho do Recife.
Com o Mercado do Derby surgiram os primeiros atritos entre Del- Os prejuízos atingiram cifras altíssimas: 600 contos de réis.
miro Gouveia e os que dominavam a política pernambucana da época, Como se não bastasse o fato por si só, o Governo do Estado as-
representados pelo prefeito Esmeraldino Bandeira. sumiu uma atitude que feriu ainda mais a sensibilidade do povo: prende
A tensão chegou a tal ponto, que Delmiro Gouveia se viu forçado Delmiro e o seu sócio e gerente do Mercado, Napoleão Duarte.
a ir ao Rio de Janeiro, para conversações com o conselheiro Rosa e Silva, A detenção de Delmiro verificou-se com o maior aparato policial:
Vice-Presidente da República e chefe situacionista de Pernambuco, a um alferes e 50 praças embaladas. A intenção era desmoralizá-lo e até
cujo comando obedecia ao Prefeito do Recife. matá-lo, se porventura opusesse resistência.
Os entendimentos marchavam satisfatoriamente, quando, alguns A reação popular logo se fez sentir. Pela primeira e única vez, na
dias depois da chegada de Delmiro Gouveia, ali desembarcava também história do Recife, o comércio cerrou as suas portas em solidariedade a
o indivíduo que atendia pelo apelido de “Sabe Tudo”. Seu nome verda- um homem. Já fechou em outras ocasiões, mas sempre em movimentos
deiro: João Batista da Rosa. Pelos avisos que recebera Delmiro, viera reivindicatórios.
para matá-lo, a mandado de Esmeraldino Bandeira. De diferentes setores, partiram demonstrações de simpatia e
Delmiro Gouveia, através de um amigo comum, cientificou Rosa apreço a Delmiro. A Associação Comercial mobilizou-se em defesa do
e Silva do que se passava e o responsabilizou por qualquer atentado que seu consórcio e ex-presidente, designando uma comissão para entender-se
viesse a sofrer. O Conselheiro irritou-se com esse gesto e o repeliu. com o governador Sigismundo Gonçalves. Os jornais Gazeta da Tarde
Em uma tarde de sábado – 17 de junho de 1899 – Delmiro en- e Jornal Pequeno, vespertinos, não circularam, o mesmo acontecendo,
controu-se com Rosa e Silva na Rua do Ouvidor e dele se aproxima, no dia seguinte, com os matutinos A Província e A Concentração, o que
dizendo-lhe: dá a idéia da falta de garantia reinante.
- Seu amigo Esmeraldino mandou assassinar-me e eu responsabi- No dia 3, uma ordem de habeas corpus restituiu a liberdade a
lizo o senhor pelo que vier a acontecer. Delmiro, que no dia 5 publica uma nota na imprensa, em termos vee-
Rosa e Silva, sem se deter, respondeu-lhe: mentes, relatando os dramáticos acontecimentos e estigmatizando os
-Seja instrumento de quem quiser, mas não me aborreça. adversários.
Delmiro, não se contendo, agride a bengala o Vice-Presidente da Cercado de perigos de toda sorte, na mira de inimigos poderosos
República, que se refugia na Chapelaria Inglesa, de propriedade de Artur que não o perdoavam, Delmiro embarcou para a Europa, na esperança
Watson, dali se retirando dez minutos depois, sem acompanhantes. de encontrar, quando regressasse meses depois, paz e tranqüilidade para
O incidente teve vasta repercussão. E não era de se estranhar. o trabalho.
Pela primeira vez, tão alto dignatário da República, a segunda pessoa do O incêndio do Mercado e a prisão tiveram trágica repercussão na sua
governo, recebia uma desfeita daquela natureza, numa das artérias mais vida amorosa: porque não foi visitado pela esposa, quando detido pela Polícia,
movimentadas da capital federal. Um escândalo em grande estilo. não mais voltou ao lar. E começou a separação que seria definitiva.

Incêndio criminoso Rapto e fuga

Delmiro iria pagar caro pela ousadia. E não demoraria a execução Da Europa, Delmiro somente retornaria no segundo semestre do
do plano de vingança que os inimigos arquitetavam. Às últimas horas de ano seguinte, chamado às pressas para acudir à firma Silva Carneiro &
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Cia., que fundara antes de embarcar, e cuja situação era tão difícil, que caráter predatório. Agia no presente com olhos no futuro. E indireta-
não pôde evitar a falência, mesmo com sua presença em Pernambuco. mente contribuiu para melhorar o padrão alimentar do sertanejo. Porque
Por essa época, ocorreu fato que viria a alterar, por completo, os só o interessava a pele. A carne, de muito valor nutritivo, ficava para o
rumos da sua vida. Com o lar desfeito, Delmiro, quarentão, sentindo-se consumo do povo.
isolado, enamorou-se por uma jovem, Carmélia Eulina do Amaral Gus-
mão, filha da amásia do governador Sigismundo Gonçalves. Novas avançadas
Indiferente aos motejos que iria provocar e sem atentar para as
conseqüências do seu gesto, Delmiro raptou-a e com ela passou a residir O êxito de IONA & CIA. estimulou em Delmiro o anseio de
na Usina Beltrão, no bairro de Santo Amaro. Os inimigos o acusaram empreendimentos mais avançados. Em dez anos, o ramo de atividades
pelo crime de rapto e sedução e mobilizaram a Polícia e a Justiça para que escolhera era demasiado restrito aos impulsos criadores do seu
enquadrá-los nos termos da lei e o levarem à cadeia. Não teve alternativa extraordinário dinamismo. Sonhou, então, com a industrialização do
senão fugir. Nordeste, com a energia captada em Paulo Afonso, um desafio de séculos
Abandonando o Recife, para escapar às perseguições políticas e à capacidade realizadora do brasileiro.
policiais, Delmiro Gouveia foi localizar-se no interior alagoano. Como Passando imediatamente à ação, logrou convencer o governo de
pretendia continuar no comércio de peles, instalou-se em Pedra, na Alagoas da viabilidade dos seus planos, obtendo as concessões que plei-
confluência de três Estados – Pernambuco, Bahia e Alagoas. Pedra ti- teava para utilizar as terras secas e devolutas de Água Branca: isenção de
nha outro aspecto favorável: o de ser parada de trem que fazia a ligação impostos, pelo período de dez anos, para exploração de uma fábrica de
Jatobá-Piranhas. linha, e permissão para aproveitar o potencial hidrelétrico da Cachoeira
Com o conhecimento que tinha do ramo comercial que escolhera, e estabelecer linhas de transmissão de energia no Estado de Alagoas.
e ao qual se dedicava fazia anos, e com as boas relações que estabelecera Logo cogitou Delmiro de formar uma sociedade anônima, que
não demorou que os negócios de Delmiro prosperassem bastante. Tantos reunisse seus sócios, interessados, auxiliares mais graduados e amigos
e tão repetidos sucessos levaram-no, em 1904, a constituir a firma IONA de sua preferência. Como fruto das demarches com esse objetivo, fundou
& CIA., cuja atividade principal era exportação de peles de cabra e de a 6 de maio de 1912, a Companhia Agro Fabril Mercantil com o capital
carneiro, couros de boi, mamona em bagas e caroço de algodão. inicial de mil e duzentos contos de réis.
Foram abertos, em algumas capitais nordestinas, escritórios de Enquanto se desenrolavam as providências para a instituição da
IONA & CIA. O de Fortaleza teve como gerente José Porto, figura de Companhia, marchavam as medidas relacionadas com a compra das
alto prestígio no comércio do Estado e que foi, mais tarde, acionista e máquinas para a usina da Cachoeira e a fábrica de linha. Desse modo, foi
suplente do Conselho Fiscal da Companhia Agro Fabril, sob cujos aus- ganho precioso tempo. Tanto que, já a 24 de janeiro de 1913, chegava a
pícios surgiu a fábrica de linhas. Pedra água da Cachoeira. A 24 de junho do mesmo ano, inaugurava-se
Atuando desde o sul da Bahia até o norte do Ceará, penetrando luz elétrica e, a partir de setembro, trabalhava-se no prédio da fábrica
até mesmo no Piauí, o consórcio sob o comando de Delmiro fazia ex- que funcionou a 1°. de julho de 1914.
cepcional movimento, promovendo a circulação de vultosas somas de
dinheiro e criando riqueza numa região pobre e desprotegida de meios Conquistas econômicas e sociais
de subsistência.
Delmiro não se descurava de difundir práticas destinadas a fo- Delmiro lançava, no Nordeste, as bases de uma corajosa experiên-
mentar o aumento dos rebanhos. Porque a sua atividade não assumia cia. Com a energia da Cachoeira de Paulo Afonso, ia tentar o processo de
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industrialização. Para compreender a exata significação da sua iniciativa, Frota de carros


é preciso que se atente para a época em que surgiu – o princípio do século
passado e para o ambiente em que ia projetar-se – o interior de uma região A necessidade de comunicação normal e rápida levou Delmiro a
dominada pelo atraso, pela ignorância e pelo pauperismo. abrir as primeiras estradas no interior nordestino, pelas quais rodaram
Apesar de todos os fatores negativos, Delmiro subjugou-os, também os primeiros automóveis. Inicialmente, a ligação com os ter-
firmou-se e venceu. A fábrica não conheceu retrocessos. Enfrentou difi- minais ferroviários, Quebrângulo, Alagoas e Garanhuns, Pernambuco.
culdades, mas foi sempre para a frente. Depois com Cachoeira, Água Branca e Paulo Afonso. Ao todo, 520
Dentro em pouco, não havia Estado onde não se vendesse a linha quilômetros.
Estrela. Competia com o produto de um truste poderoso. Não obstante, Cinco carros, ao todo, a serviço de Delmiro nas carrascais do ser-
espraiava-se no mercado interno, para depois se impor no internacional. tão alagoano: um Fiat, italiano, um Austin grande e um Austin pequeno,
Pedra chegou a exportar até para colônias inglesas. ingleses, um NAG, alemão, e um Bayard, francês. Das condições das
Delmiro deu oportunidade ao caboclo nordestino para mostrar estradas, em que esses veículos eram utilizados, basta dizer que permitiam
aquilo de que é capaz, quando bem orientado. Ao fanático e ao cangaceiro velocidade de 60 quilômetros.
opunha-se o homem de trabalho, pronto a revelar inteligência, intuição, Uma sensação, os carros de Delmiro. Quando chegavam a uma
capacidade construtiva. localidade parecia um dia de festa. Formava-se aglomeração e não se
Sob a dinâmica de Delmiro, Pedra deixou de ser um burgo apagado falava em outra coisa,
na geografia nordestina para transformar-se num centro de progresso, Empenhado na industrialização da linha, Delmiro não olvidou
onde o operário desfrutava vantagens excepcionais, que nem nas capitais as riquezas tradicionais da região: a agricultura e a pecuária. Procurou
lhe eram concedidas: água encanada ou em chafarizes, luz elétrica, que difundir as culturas agrícolas com a irrigação das terras secas e muito
era uma das melhores do Brasil, vila de casas, médico, escolas, cinemas, cedo compreendeu a importância da palma forrageira como alimento
rinque de patinação, banda de música. dos rebanhos propagando-a o quanto pôde.
A par dessas medidas de caráter social, Delmiro desencadeou
um combate sem tréguas aos costumes retrógrados, procurando incutir Desvendada a trama sinistra
na população de Pedra hábitos de higiene e de boas maneiras. O banho
tornou-se obrigatório, não se fumava em cachimbos de barro, não se Quem teria o atrevimento de assassinar um homem de imenso
podia cuspir no chão, não se entrava numa casa com o chapéu na cabeça, prestígio, pelo espírito de iniciativa que o animava, pela grandiosidade
homens e mulheres tinham de andar calçados e limpos. dos planos que pôs em execução, pela ousadia e determinação com que
Em Pedra, imperava ordem excepcional. Não se bebia cachaça agia, pelo poder que detinha em face da riqueza que acumulara?
nem se explorava a prostituição. Havia respeito, as ordens estabelecidas Várias as hipóteses levantadas.
eram cumpridas à risca. Delmiro fora vítima do truste inglês da linha. A Machine Cottons
O abastecimento da população merecia cuidados especiais. As sentia escapar-lhe preciosos mercados com o avanço da linha “Estrela”
feiras realizavam-se semanalmente e ninguém pagava impostos, porque fabricada no burgo de Pedra, no interior alagoano. Delmiro já não se
Delmiro os arrematara por dez anos e os dispensava dos contribuintes. continha dentro do Brasil. Expandia-se pelo continente, favorecido pelas
Nem na seca de 1915 houve escassez, apesar dos flagelados, em grande circunstâncias determinadas pela I Grande Guerra, no auge a campanha
número, que afluíram a Pedra em busca de socorros e que eram atendidos submarina alemã afundando navios cargueiros e dificultando ao máximo o
em tendas ao redor da vila. comércio internacional. E era difícil prever até onde chegaria Delmiro, tal
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o arrojo com que se lançava à conquista de novos centros consumidores. cumprira na prisão a pena a que o condenaram. Não devia mais nada
Cortar-lhe o fio da existência era um dos meios indiretos de alcançar o perante a lei, mas continuava a afirmar categoricamente: “Não matei o
estrangulamento da promissora indústria. coronel Delmiro”.
O êxito e a projeção de Delmiro despertavam inveja e despeito. A revisão do processo, a pedido de Róseo, foi postulada pelo ad-
Para a malquerença e o ódio, a distância era pequena. Bastava um pequeno vogado Antônio Aleixo Paes de Albuquerque, que invocou como álibi o
incidente, no jogo dos interesses contrariados. No ambiente rasteiro em telegrama do coronel Neco Brito ao coronel Ulisses Lima, de Água Branca,
que pontificava o coronelismo retrógrado e sanguinário, que respeito ressaltando que os indigitados autores do homicídio não o poderiam ter
merecia a vida de um homem progressista? cometido por absoluta impossibilidade material, uma vez que, na véspera
Para implantar, no interior nordestino dos albores do século, um do crime estavam a 200 quilômetros de Pedra, em viagem de terra e água.
estilo de civilização que nem as metrópoles conheciam, impunha-se agir Esse telegrama, de suma importância, não incorporaram, estranhamente,
com braço forte. Do contrário, não estabeleceria ordem, muito menos ao processo, sendo descoberto com outras peças, em 1977, pelo historia-
alcançaria a meta de trabalho ordenado e produtivo. Da cabroeira insa- dor Moacir Sant’Anna, Diretor do Arquivo Público de Alagoas. Quando,
tisfeita e sem escrúpulos poderia partir o braço assassino. em maio de 1983, o Tribunal de Justiça de Alagoas, em decisão histórica,
Delmiro não conseguiu escapar às maquinações políticas em que procedeu à revisão do processo do assassínio de Delmiro, dela resultou,
se viu enredado, no Recife, durante os últimos anos de atuação ali. Não evidente, e inocência dos acusados. Róseo já havia falecido, mas a Justiça,
conseguiu nem fez esforço para isso. Pelo contrário, deu contribuição embora tardia, reparou clamoroso erro judiciário.
pessoal, com gestos desatinados, para armar situação prenhe de perigos. O assassínio de Delmiro teve como mandantes os coronéis José
Sua morte não seria uma vingança política? Rodrigues de Lima e José Gomes de Lima e Sá; como executantes:
Corre mundo a fama de Delmiro Gouveia como homem galante Herculano Soares Vilela, proprietário na serra do Cavalo, perto de Água
e conquistador. Não se detinha diante de quaisquer obstáculos quando o Branca; o cunhado Luis dos Anjicos e o cabra Manuel Vaqueiro.
coração pendia para uma mulher. Exagero ou não, o certo é que nunca O coronel José Rodrigues de Lima, de Piranhas, chefe político,
se afastou, na apreciação das causas determinantes do seu assassínio, a fazendeiro e criador, proprietário e latifundiário, não se sentia confortável
possibilidade de tratar-se de um caso de honra. com a vizinhança de Delmiro, industrial da linha atuando no criatório e
O que se seguiu, em termos de apuração do crime, foi uma farsa comercializando na vila de Pedra produtos agrícolas a preços mais baixos
e que consumou clamoroso erro judiciário. Inocentes foram condenados do que o convencional da região.
como executantes, não havia quem se interessasse por eles; um dos acu- José Gomes de Sá, coletor em Jatobá de Tacaratú, hoje Petrolân-
sados como mandante desapareceu do mapa e o outro foi despronunciado dia, tivera uma pendência com Aureliano Gomes de Menezes, a quem
pelo juiz, que aceitou em seu favor depoimento dos réus, mas que não acusara de contrabandista de peles e de couros, a serviço de Delmiro; a
prevaleceu para eles próprios no júri presidido pelo mesmo magistrado denúncia não foi comprovada e José Gomes de Sá foi demitido. Envol-
que proferiu a despronúncia. Que vergonha! A Justiça armou o circo, veu-se como mentor intelectual, da trama que eliminou Delmiro. Com
fez o jogo das aparências e não teve grandeza nem sabedoria. A Polícia o assassinato, tomou rumo por muito tempo ignorado, indo se refugiar
excedeu-se em arbitrariedades, não realizou diligências que se impunham em Goiás. Quando estava às vésperas da morte, em 1948, na cidade de
nem instruiu o processo como devia. Revoltante! A tudo se compunha a Porto Nacional, confessou o conluio sinistro perante o padre Luso, o
sociedade com inacreditável conformação. promotor público José Cortez de Lucena, o advogado Oswaldo Leal e o
Conheci em Maceió o último sobrevivente dos acusados do fazendeiro Pedro Pastanheiro. Não foi confissão auricular ao sacerdote,
assassínio de Delmiro, chamava-se Róseo Moraes do Nascimento. Já como ainda houve quem insinuasse, mas confissão pública.
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Certa vez, quando Delmiro Gouveia chegava a Água Branca, O tombamento da Estação Ferroviária do Crato
Herculano Vilela saía da cidade com um comboio carregado de manti-
mentos. Um dos animais abalroou com Delmiro, que se exasperou, indo
ao extremo de bater com uma chibata em Herculano. Este tentou revidar, José Liberal de Castro*
mas, outras pessoas intervieram, evitando a luta que parecia iminente.
Herculano jurou vingança. E cumpriu o juramento.
Demorou 66 anos a palavra final da justiça sobre o crime que eli-
minou figura humana da grandeza de Delmiro. Não teve conseqüências
práticas, pois todos os envolvidos já haviam desaparecido do mundo E
ste artigo adapta a versão preliminar de parecer que o autor
emitiu como relator do processo concernente ao pedido de inscrição da
dos vivos. Vale ressaltar o fato pelo que representa como reparação das
injustiças perpetradas contra os mais fracos; encerra igualmente desabafo antiga Estação Ferroviária do Crato nos Livros de Tombo da Secretaria
de consciências tripudiadas pela prevalência de injunções subalternas, Estadual da Cultura. A solicitação de tombamento fora encaminhada
que por tanto tempo beneficiaram os potentados do dia. pela Prefeitura Municipal do Crato ao Conselho Estadual de Preservação
do Patrimônio Cultural / COEPA por intermédio da Coordenadoria do
Referências bibliográficas Patrimônio Cultural / COPAC, da referida Secretaria 1.
Como, de fato, apenas o edifício da estação constituía o objeto do
ACORDÃO, M. 50/83, aprovado pelo Tribunal de Justiça de Alagoas, em sessão tombamento diligenciado, por tal razão, foi remetido parecer conciso e
de 24 de maio de 1983, e do qual resultou a absolvição post mortem dos réus,
definitivo à Secretaria de Cultura, redigido com o necessário viés bu-
tendo como Presidente e Relator Marçal Cavalcanti.
rocrático. Diferentemente do documento enviado, a versão preliminar
ARARIPE, J.C. Alencar. A glória de um pioneiro (A vida de Delmiro Gouveia).
2. ed. Fortaleza: BNB.1999. 282p. do texto incluía referências históricas e também considerava assuntos
BARROSO, Gustavo. A guerra do Lopez: contos e episódios da campanha do paralelos, nem sempre diretamente correlatos com a estação ferroviá-
Paraguai. 4. ed. Rio: Getúlio M. Costa Editor, 1939. 239 p. ria e sua arquitetura. Ao publicar a matéria na Revista do Instituto do
BENEVIDES, Mauro. Delmiro Gouveia e o desenvolvimento nordestino. Bra- Ceará, o autor preferiu, pois, recorrer à forma primitiva do texto, bem
sília: Senado Federal, 1978. 12p. Discurso pronunciado na Sessão do Senado mais abrangente, adaptando-a, à parte havê-la acrescido com notas de
Federal no dia 10 de out. de 1977. rodapé esclarecedoras. Para melhor clareza expositiva, o artigo ficou
CAVALCANTI, Plínio. A Manchester Sertaneja do Norte. Revista Nacio- dividido em três blocos interdependentes: l. As ferrovias; 2. O Crato; 3.
nal. p. 17. A Estação Ferroviária
DANTAS, Paulo. Evocação da figura de Delmiro Gouveia. Diário de Notícia,
Rio de Janeiro, 14 de abr. 1963. Suplemento Literário, p.2-6. A edificação contemplada com o tombamento
ERRO Jurídico – Condenados pela morte de Delmiro são inocentados. O Globo,
Rio de Janeiro, 26 de maio de 1983. O edifício da antiga Estação Ferroviária, hoje desativada, integra
FIGUEIREDO FILHO, J. de. Participação de José Gomes de Sá no assassinato o acervo de bens patrimoniais da Prefeitura Municipal do Crato. Trata-
de Delmiro. O Povo, Fortaleza, 09 de set. 1959.
se de obra de indiscutível mérito arquitetônico nos quadros estaduais.
ROCHA, Tadeu. Provada a inexistência de caso de honra na morte de Delmiro.
O Povo, Fortaleza, 20 abr. 1967. *
Sócio efetivo do Instituto do Ceará.
SOUSA, José Bonifácio de. A vida audaciosa de Delmiro Gouveia. Nordeste 1
O autor emitiu o parecer na condição de representante do Instituto do Ceará no Conselho Esta-
Econômico e Financeiro. Fortaleza, v.2, n.8, p.37-46, dez. 1959. dual de Preservação do Patrimônio Cultural / COEPA, da Secretaria Estadual de Cultura.
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Além de expressivo testemunho do desenvolvimento material da cidade, iniciais do século XIX. Advento imbricado nas conquistas da Revolução
a estação compôs cenário de eventos significativos da história política Industrial, cabe porém lembrar que, para consolidação da nova modali-
e social da região. dade de condução e na sua difusão, se conjugaram várias descobertas e
Localizado em frente a uma praça de especial evidência na malha invenções, acumuladas no passar do tempo, sempre acompanhadas de
urbana cratense, por sua condição de estação ferroviária terminal, o edifí- melhoramentos técnicos.
cio adquiriu características próprias, impostas pelo programa arquitetôni- Como fator básico para eclosão do processo, impôs-se a aplicação
co. Marcas identificadoras similares também se observam em outras obras da energia a vapor às máquinas, em particular aos sistemas mecânicos
cearenses similares, como as estações de Fortaleza, Baturité, Camocim, de transporte. Os percursos terrestres ficavam, até então, inteiramente à
Sobral e Crateús. O funcionamento da estação, ao longo dos anos, solicitou mercê do esforço humano ou de animais. As rodas d’água e os moinhos
a construção de obras complementares, arroladas no processo. de ventos, é bem verdade, aproveitavam as forças da natureza, mas so-
Em favor do tombamento, o fato de ter sido a solicitação encami- mente podiam ser utilizados em instalações estacionárias.
nhada pela entidade proprietária da edificação, que a pretende preservar, O transporte sobre trilhos, contudo, já constituía prática antiga,
ofereceu a vantagem de se eliminarem antecipadamente ocasionais de meados do século XVI, empregada nas minas de carvão, a fim de
controvérsias sobre a matéria.2 facilitar o deslizamento de pequenos vagões, tirados à força humana ou
por animais. Como os trilhos, geralmente feitos de madeira, não podiam
1 As ferrovias suportar grande peso, foram substituídos por peças de ferro fundido,
todavia, ainda sem melhores resultados. Somente os trilhos de ferro
Os limitados objetivos deste artigo não permitem evocar o impacto forjado puderam resistir ao aumento das cargas.
verificado pela introdução do transporte ferroviário no quotidiano das Muitas dessas melhorias técnicas foram contemporâneas das.pri-
populações. A novidade, recebida como padrão de progresso e inserção no meiras experiências de James Watt nas máquinas movidas a energia tér-
espírito do século, revolucionou a vida de todos, alterando as relações de mica (1765), mas somente tiveram aplicação mecânica específica quando,
tempo e de espaço, incentivando as trocas comerciais e proporcionando quatro décadas após, em 1804, Richard Trevithick conseguiu usar bielas
o surgimento de novos hábitos, entre os quais, o turismo. Por outro lado, ajustadas aos êmbolos dos mecanismos, as quais, fazendo movimentar
despertava temor em pessoas ingênuas, vista como monstro diabólico, os sistemas de rodas, compeliam a impulsão das máquinas.
máquina potente, resfolegante, que não precisava da ajuda dos homens O transporte ferroviário, tal como veio a se desenvolver, formado
nem dos animais para correr sobre os trilhos. por uma locomotiva arrastando vagões com passageiros e, depois, com
cargas, teve contudo de esperar ainda mais vinte anos, até a viagem inau-
A emergência do transporte ferroviário gural da Locomotion de George Stephenson, entre as cidades inglesas de
Stockton e Darlington, em 1825.
O nome de Robert Stephenson aparece sempre citado como Foi rápida a expansão das ferrovias na Europa e nos Estados Unidos,
figura primordial na emergência dos transportes ferroviários nos anos logo utilizadas intensivamente como meio de condução segura e pontual
de pessoas e de mercadorias, cedo transformadas em troféu simbólico do
2
O vocábulo “tombamento” aparece empregado consoante variação semântica específica. desenvolvimento material proporcionado pelo capitalismo triunfante.
Significa o alistamento, o arrolamento da edificação nos Livros de Tombo da Secretaria
Estadual de Cultura. Entre os benefícios do “tombamento”, alinham-se a honraria distintiva, Paralelamente aos seus objetivos específicos, a nova modalidade
concedida ao conjunto arquitetônico, e sua preservação material, oficialmente assegurada de transporte ensejou o aparecimento e o aperfeiçoamento de inumeráveis
por força de legislação estadual. Na acepção ora considerada, tombamento é brasileirismo.
Em outros países, inclusive em Portugal, usa-se a palavra classificação. técnicas, com repercussão designadamente no campo das obras civis,
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envolvendo a construção de túneis, de pontes e de estações ferroviárias, Mutações na vida brasileira


obras estas últimas marcadas pelo emprego de grandes vãos. As buscas
pelo conforto nas viagens se manifestaram de imediato, com rápidas A inclusão direta do Brasil no mundo capitalista, iniciada com
conquistas no desenho dos vagões, quer nos seus interiores, quer nos a chamada abertura dos portos em 1808, redundou em visíveis mu-
sistemas de molejo, conquistas extensivas à forma das poltronas e dos danças no viver quotidiano das populações, tanto em conseqüência da
beliches de carros-leito, bem como aos equipamentos de aceleração e importação de produtos industrializados e do emprego de novas téc-
de frenagem (Gideon, 1969: 439-46). nicas, quanto na absorção de novos padrões de comportamento social.
Vários setores da vida nacional foram afetados com as transformações
As estações ferroviárias correlacionadas com atividades fabris, nomeadamente nos setores de
As estações ferroviárias foram construídas para abrigo temporário máquinas estacionárias (tecelagem, serrarias) e nos transportes ferro-
dos passageiros. Constavam minimamente de uma sala de espera, de viários e marítimos, transformações que resultaram na formação de
uma saleta para atendimento dos usuários e controle da estação, de outra uma incipiente classe operária.
saleta para o telegrafista, bem como possuíam compartimentos destina- Por vários motivos, as novidades mecânicas oferecidas pela
dos à guarda de bagagens, além de sanitários e da plataforma de acesso Revolução Industrial encontraram campo fértil no País, que passara a
aos trens, coberta ou descoberta. Nas povoações ou cidades menores, a conhecer incontestável progresso em meados do século XIX, após a pa-
pequena estação ferroviária reduzia-se praticamente a um espaço único, cificação política nacional, alcançada com a proclamação da maioridade
onde se concentravam todas as funções. de Pedro II. Apesar das contradições e, tantas vezes, da lentidão das
Nas localidades de maior movimentação, construíram-se galpões, mudanças, juntavam-se, àquele importante ato político, outros mais, que
especificamente destinados a depósitos de mercadorias, nem sempre favoreceram a expansão do cultivo e a exportação de produtos agrícolas,
próximos da estação de passageiros. especialmente o café. Entre muitas resoluções, avultava a Lei Eusébio de
Após o término da Guerra 1939-1945, verificou-se um apressado Queiroz (1850), que proibia a importação de escravos, aliás, cumprida
desmonte da malha ferroviária brasileira, perpetrado em favor da rede sob interferência punitiva da armada britânica no Atlântico Sul. O êxito
rodoviária. A desativação dos serviços de transporte de passageiros a da lei favoreceu o incremento de atividades produtivas, resultantes da
longa distância fez deteriorar-se um sem-número de antigas estações em absorção de capitais anteriormente envolvidos no tráfico. Entre outras
todo o País, na quase totalidade abandonadas e submetidas a processo conseqüências imediatas, as mutações incentivaram a expansão do tra-
de acelerada e inexorável destruição3. balho livre no país, atraindo imigrantes europeus.
Diversamente do que tem ocorrido em outras localidades, onde
prédios semelhantes ficaram entregues ao descaso, a Prefeitura Municipal As ferrovias brasileiras
do Crato, em boa hora, decidiu adquirir o edifício da estação ferroviária
aos antigos proprietários. Pretende recuperá-la e reintegrá-la ao cotidiano As primeiras concessões em favor da instalação de ferrovias no País
da cidade, embora se veja impelida a destiná-la ao exercício de novas datam de 1835, no período regencial, quando foram autorizados vários
funções, compatíveis, é claro, com a tipologia do edifício. empreendimentos, todavia, sem resultados práticos4. Apesar do quadro
de transformações velozes, o Brasil somente assistiu à construção de sua
3
O Plano SALTE, aprovado no governo Dutra, somente se interessou pela implantação e
expansão da rede rodoviária. Amparava-se no argumento pragmático de que à administração 4
“O primeiro diploma legal a respeito de estradas de ferro no Brasil foi o Decreto n°. 100, de
pública competiria apenas a construção e conservação das estradas, visto que a aquisição e 31 de outubro de 1835, sancionado pelo Regente Padre Feijó, em nome do Imperador D.
a manutenção dos veículos ficaria a cargo de seus proprietários. Pedro II” (Silva Telles, 1984:185).
46 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 47

primeira via férrea em 1854, obra do Visconde de Mauá, realizada nos litou as finanças da Província. Em um quadro difícil, somente em 1882,
arredores do Rio de Janeiro5 , embora logo se tenha verificado a expansão dez anos depois, as linhas atingiriam a cidade de Baturité, ponto final do
da malha ferroviária em outras partes do País. Os trilhos acompanharam, empreendimento. Um ano antes, tivera início o tráfego da Estrada de Ferro
principalmente, a propagação do cultivo do café, embora, aqui e ali, se de Sobral, que ligaria essa cidade ao porto marítimo do Camocim.
vissem entravados pelo relevo acidentado de muitas regiões.6
Planos de expansão das redes ferroviárias nacionais
Ferrovias no Ceará
Quase uma década após, já no período republicano, os trabalhos de
continuação das linhas da Estrada de Ferro de Baturité seriam retomados.
Conquanto, no período, o Ceará não tivesse participado diretamen-
Reativavam velhos planos do governo imperial, referentes à implantação
te daquele quadro de mudanças econômicas conseqüentes à Lei Eusébio
de uma malha de interligação ferroviária entre distintas regiões do País.
de Queiroz, beneficiou-se com a valorização do preço do algodão, cuja
As linhas, em direção sul, aspiravam a cruzar as divisas serranas do
oferta internacional diminuíra em decorrência da guerra da Secessão
Ceará em pontos menos elevados, a fim de atravessar Pernambuco, até
(1860-1865), nos Estados Unidos, que privava a indústria britânica da
as margens do São Francisco, em Juazeiro da Bahia. Dessa cidade, por
obtenção do produto americano cultivado nos estados do Sul.
via de solução intermodal, as viagens continuavam em barcos, pelo rio,
O acúmulo de capitais, reduzido que fosse, incentivou um grupo de
de sorte a encontrar as ferrovias mineiras em Pirapora, de onde prosse-
empresários, envolvidos pela euforia econômica que animava a Província,
guiam para o Rio de Janeiro e estados sulinos.7
a tentar obter a concessão de explorarem uma ferrovia, destinada a ligar a
Em termos de Ceará, consoante opinião formulada na época
Capital à serra de Baturité, fonte de abastecimento de gêneros alimentícios
por um engenheiro de prestígio, a expansão ferroviária apontava para
e cenário de florescente desenvolvimento de produção cafeeira.
três objetivos:
A estrada de ferro teve seu trecho inicial inaugurado em 1873. A
a. “ligar o Ceará ao Sul da Republica”; estabelecendo integração de
inesperada e cruel seca deflagrada em 1877, e que durou três anos, debi-
amplitude nacional;
b. “proporcionar maior desenvolvimento da lavoura e da industria”;
5
A Estrada de Ferro Mauá ligava o Porto da Estrela, à margem do rio Inhimirim, perto de sua c. assentar “uma estrada estrategica, para minorar os effeitos das seccas
foz, no fundo da baía da Guanabara, com a Raiz da Serra, no pé da serra dos Órgãos, a ca-
minho de Petrópolis, cidade esta somente alcançada posteriormente por meio de um sistema periodicas que assolam este Estado.” 8
de subida em cremalheira. Entre o Largo do Paço (Imperial), isto é, entre a atual praça 15
de Novembro e o Porto da Estrela, o tra­jeto realizava-se por via marítima, cruzando a baía.
A partida de trens diretamente do centro da cidade do Rio de Janeiro somente se operou 7
O autor, quase adolescente, durante a Guerra, fez essa viagem em busca do Rio de Janeiro.
quando da construção da Estrada de Ferro D. Pedro II (Central do Brasil), depois de aterra- De trem, entre Fortaleza e o Crato, em dois dias, com dormida em Senador Pompeu. Três
dos os charcos que interceptavam a implantação dos trilhos em direção ao interior. dias de espera no Crato e viagem sobre a carga de sal nos caminhões que vinham de Mos-
6
Após a Estrada de Ferro Mauá, a primeira ferrovia brasileira instalada foi a Estrada de soró e do Aracati, em demanda de Petrolina, em Pernambuco. Mais quatro dias de espera
Ferro do Recife ao Cabo, em 1858, empreendimento com técnica e capitais ingleses. Na pelos vapores da Mineira ou da Baiana, movidos a roda d’água que percorriam o rio São
mesma ocasião, inaugura-se a Estrada de Ferro D. Pedro II (futura Central do Brasil), Francisco, de Juazeiro da Bahia a Pirapora, em Minas, num trajeto de onze dias. Mais um
estabelecida para atender ao escoamento da produção de café da região de Vassouras, na dia para alcançar Belo Horizonte, pelos trilhos da antiga Rede Mineira de Viação. Final-
província do Rio de Janeiro. Somente após a implantação de uma pequena ferrovia nos mente, ainda mais outro dia, para chegar ao Rio de Janeiro às onze da noite, pelo trem, já
arredores da baía da Guanabara, a Estrada de Ferro Cantagalo, e inaugurado o trecho confortável, da Central do Brasil. Ao todo, vinte e dois dias de viagem! Come è bella gio-
inicial da Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco, em 1860, também organizada em vinezza, chi si fuggi tuttavia, cantava Lourenço de Médicis, no alto dos carros alegóricos
Londres, é que surgiram as ferrovias paulistas, acopladas aos negócios do café. A primei- que percorriam Florença em dias de festa...
ra foi a São Paulo Railways (Santos / Jundiaí), de 1865, seguida da Companhia Paulista 8
Declaração do engenheiro-chefe da Estrada, Ernesto Antônio Lassance, em relatório desti-
de Estradas de Ferro, patrocinada por fazendeiros da região de Campinas, já de 1872, com nado a constar de textos de valorização de produtos cearenses enviados para integrar a
obras posteriormente complementadas pelo engenheiro cearense Viriato de Medeiros contribuição brasileira à Exposição Internacional de Chicago, inaugurada em 1893 (relató-
(Silva Telles, 1983: 183-218). rio citado por Ferreira, 1989: 33).
48 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 49

Assim, proclamada a República, evidenciou-se manifesto interesse Entre várias medidas, que retomavam os velhos planos de inte-
por reativar os planos de ampliação da rede ferroviária nacional, com gração viária nacional, já discutidos desde os dias imperiais, Francisco
reflexos no Ceará, já no decênio final do século XIX. A ferrovia que, desde Sá propôs a criação de uma Inspetoria Federal de Estradas, direcionada
1882, ainda no período imperial, estacionara em Baturité, ganha alento, à coordenação, ao controle e à fiscalização das ferrovias nacionais.
de sorte que, no começo do século XX, chegaria a Senador Pompeu, a Essa rede ampla conectaria, num todo integrado, as primitivas linhas
quase 300 quilômetros da Capital. Em 1910, com mais 100 quilômetros de penetração, originariamente destinado ao escoamento de produtos
alcançava o Iguatu, para finalmente atingir o Crato, em 1926. agrícolas, cujo traçado, visto em um mapa, assemelhava-se a tiras de
Nos anos 20, entretanto, ocorreram algumas revisões dos planos, trilhos dispersas, lançadas do litoral ao interior, refletindo as práticas
visto que as obras de combate às secas, desenvolvidas no governo Epi- de exploração colonialista.
tácio Pessoa, exigiram a implantação de ramais ferroviários, destinados Em busca de recuperação do semi-árido do Nordeste, Francisco Sá
a transportar maquinaria pesada de firmas estrangeiras, encarregadas da defendia uma proposta de uso integrado da tecnologia, planejando uma
construção de açudes. Por outro lado, como a ferrovia passava próximo ação conjunta da açudagem, do sistema ferroviário e dos complexos por-
da divisa da Paraíba, em vez da ligação direta com o Sul, foi proposto tuários. Consoante essa diretriz, procurou, portanto, favorecer a expansão
desviar-se a linha ao longo daquele estado, terra natal do presidente da rede ferroviária, além de promover a criação da Inspetoria Federal de
Epitácio, até Patos, onde se entroncaria com os trilhos da Great Western, Obras Contra as Secas (1907) e estimular elaboração dos projetos dos
empresa com sede no Recife.9 Essas alterações nos planos retardariam portos do Recife e de Salvador, bem como estudos do porto de Forta­leza,
um pouco os trabalhos em direção ao Cariri. estes, infelizmente, sem êxito. Conseguiu, porém, levar os trilhos da fer-
rovia cearense até o Iguatu, a 400 quilômetros da Capital (1910).
Problemática local e dificuldades nacionais Durante a guerra 1914-1918 arrefecidos os planos de crescimento
material, o País viu-se na contingência de forçar o início de um processo
O longo percurso da Capital ao Crato, vencido lentamente, deparou
amplo de industrialização. Durante o período, acumulou reservas finan-
seguidas e grandes dificuldades. Basta lembrar que, em 1878, antes de
ceiras oferecidas pela exportação de produtos agrícolas, embora fossem
alcançar Baturité, diante de inúmeros problemas, a ferrovia tinha sido
incomensuráveis os prejuízos no fim do decênio, decorrentes da quebra
encampada pelo governo imperial (Studart, t.2, 1896: 243-51). A
financeira mundial de 1929.
expansão das linhas, portanto, verificou-se com demora, refletindo as
Presidente da República em 1919, Epitácio Pessoa por sua origem,
próprias dificuldades enfrentadas pelo País, cuja rede ferroviária ficou
revelou-se pessoalmente interessado de modo direto no encaminhamento
praticamente estagnada no primeiro decênio do século XX.
de soluções para os problemas do semi-árido nordestino. Na ocasião, o
A indicação dos nomes de Lauro Muller e, principalmente, de
governo federal contratou vultoso número de obras com firmas estran-
Francisco Sá, para dirigir o Ministério da Viação, imprimiu novo alento
geiras, inclusive a construção de grandes açudes, obras que exigiam,
à expansão da rede ferroviária nacional.
como já se assinalou, remessa de materiais e máquinas pesadas por via
ferroviária, requerendo implantação de ramais às linhas tronco, como
9
Essa junção ferroviária somente veio a ocorrer mais de três décadas depois. Na ocasião, os
trens alcançaram apenas as cidades de Sousa e Cajazeiras, localizadas perto do Ceará. Como, ocorreu no Ceará. Por interferência dessas ações, somente em 1926, a
à época, Fortaleza não dispunha de porto organizado, com cais onde os grandes navios antiga Estrada de Ferro de Baturité, de há muito denominada Rede de Via-
atracassem, havia total desinteresse do comércio local na ligação, pois, em grande parte, o
algodão produzido no Estado seria deslocado para Campina Grande, cidade subsidiária da ção Cearense, atingia finalmente seu ponto terminal, atingindo a cidade
praça do Recife. Na verdade, o ramal atraiu para a capital cearense vultosa colônia de do Crato. Alcançava-a tardiamente, mais de meio século após lançados
oeste-paraibanos, principalmente cajazeirenses, gente operosa, que logo se distinguiu no
comércio e cujos descendentes hoje ocupam posições destacadas na vida fortalezense. os primeiros trilhos da ferrovia, ao longo de 600 quilômetros .
50 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 51

O empreendimento, ultimado com grande esforço, somente ficou as homenagens prestadas ao ilustre engenheiro, cujo nome aparece
concluído nos últimos dias do governo de Artur Bernardes, cujo Ministé- consagrado na toponímia urbana das capitais dos três referidos estados,
rio da Viação e Obras Públicas tinha como titular o engenheiro Francisco e em muitas outras cidades do país, tais como o Crato, que lhe cultiva a
Sá, figura política intimamente ligada ao Ceará, patrono da obra. memória na denominação dada à praça fronteira à estação ferroviária,
obra esta em que tanto Francisco Sá se empenhou.11
A figura de Francisco Sá
2. O Crato
Francisco Sá nasceu no Brejo de Santo André / MG em 1862 e
faleceu no Rio de Janeiro em 1936. Logo após obter seu diploma em O território cearense atraiu os interesses lusitanos somente nos
engenharia, transferiu-se para o Ceará, a fim de trabalhar na Estrada de anos iniciais do século XVII, tomado como ponto de apoio à conquista
Ferro de Baturité. Integrando-se à vida local, casou-se com Olga, filha do Maranhão aos franceses. Uma vez criado o Estado do Maranhão e
de Antônio Pinto Nogueira Accioly10 . Conquanto Accioly já então des- Grão-Pará, ligado diretamente a Lisboa, a Capitania ficou praticamente
frutasse de prestígio, sua presença avultou depois da Proclamação da abandonada. Apenas no fim daquele século, franqueadas as terras inte-
República, quando se tornou Presidente do Estado por três vezes e chefe rioranas aos criadores de gado, inicia-se realmente a posse das glebas,
da oligarquia que dominou a vida política cearense durante vinte anos, distribuídas segundo o regime de cessão por sesmarias. Concomitan-
até ser deposto em 20 de janeiro de 1912 por uma revolta popular. temente, ocorrera a pacificação dos sertões, após vencida a reação dos
Francisco Sá ascendeu rapidamente aos altos postos da vida índios, dizimados, expulsos ou aculturados.
administrativa nacional por via de influência do grupo aciolino. Logo,
porém, demonstrou possuir méritos pessoais que lhe permitiram transitar Povoamento inicial do Cariri
brilhantemente nas altas esferas políticas e técnicas da Capital Federal,
quando procurou desenvolver programas de ação particularmente vol- No processo de ocupação do interior cearense, destacaram-se
tados para a problemática ferroviária do país. Quando Accioly e seu correntes demográficas procedentes do Nordeste Oriental e também da
entourage perderam o poder, Francisco Sá manteve o prestígio político Bahia. Instaladas as fazendas, muitas vezes em zonas longínquas do
e técnico, figurando como a mais alta expressão representativa da fa- litoral, desde cedo, abriram-se caminhos para trânsito do gado destinado
mília do sogro, já não propriamente amparado pelo Ceará, mas por sua aos engenhos e às feiras distantes. Entre as áreas mais afastadas, desta-
terra natal, Minas Gerais, da qual foi representante no Senado Federal cavam-se os sopés da chapada do Araripe, terras férteis e molhadas por
(1919-1922), e pelo Rio de Janeiro, onde se radicara. São justas, pois, fontes naturais, de sorte que “cedo surgiu o Cariri como centro agrícola
de grande valor na economia rural nordestina” (Studart Filho,
10
A instalação da Escola Militar do Ceará, às vésperas da República, atraiu presença nume-
1937:37). Assim, “a lavoura da canna trouxe á região sulina da Capitania
rosa de jovens das províncias vizinhas e até mais distantes. Devia ser agradável a vida uma era de invejável prosperidade”, de que
fortalezense à época, pelo menos para os cadetes, pois, aqueles não cearenses, de um modo
ou de outro, sempre se mostraram posteriormente vinculados à cidade. Muitas jovens da o Crato se torna o centro onde se surtem de açucar e de rapadura
sociedade local se casaram com alunos ou ex-alunos da Escola, moços vindos de fora. Não – particularmente de rapadura, que com a farinha constituia a base da
foi propriamente este o caso de Olga, filha de Accioly, que se consorciou com Francisco
Sá, mineiro, chegado ao Ceará com diploma de engenheiro e já empregado. Entretanto,
Branca, outra filha de Accioly, casou-se com Raimundo Borges, piauiense, aluno da Esco-
la Militar e futuro general do Exército. Na partilha de tarefas da oligarquia familiar, Borges 11
No Ceará, Francisco Sá ainda foi homenageado com o nome de uma pequena estação fer-
recebeu do sogro o encargo de administrar as obras de construção do Teatro José de Alen- roviária (Uruquê) e com o de uma ponte ferroviária, inaugurada festivamente (Costa:
car (1908-1910). 1924: 205-12).
52 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 53

alimentação dos nossos sertanejos – não só os nossos campesinos, mas como substitutivo, desenvolveram-se as ações catequéticas de franciscanos
tambem os matutos de Pernambuco e da Paraiba. Daí saem comboios e também de carmelitas, procedentes dos conventos de Olinda.
de 50, 60 e até 100 cavallos carregados de rapaduras, com destino ás
Os fatos explicam o interesse, pelo Cariri, no campo das atividades
regiões vizinhas” (Studart Filho, 1937:37).
desenvolvidas pelos irmãos de São Francisco, vindos de Olinda e do Re-
De modo ainda mais evidente do que no litoral, não houve propria- cife, em missões espalhadas por paragens longínquas. Entre várias delas,
mente latifúndios no Cariri, seja em face do uso das terras, dedicadas à tomou vulto a Missão do Miranda (do Brejo do Miranda), nomeadamente
pequena lavoura de produção de alimentos básicos à dieta sertaneja, seja quando sob a direção de Frei Carlos Maria de Ferrara, “frade capuchinho
porque as glebas, subdivididas, haviam sido ocupadas anteriormente à ces- italiano, que os aldeou [os índios] em lugares onde se acha o Crato, doados
são, a grandes proprietários, em sesmarias, que jamais as cultivaram.12 em 3 de dezembro de 1743 aos indígenas pelo Capitão-Mor Domingos
Ponto de abastecimento das rotas que conduziam o gado para o Álvares de Matos” (Figueiredo Filho & Pinheiro, 1955: 29).
litoral distante, o Cariri foi favorecido com a sua localização, inserta Quando, no século XVIII, o governo português decidiu integrar os
em uma rede de caminhos. O Crato logo se tornou centro de irradiação indígenas aos seus desígnios político-administrativos, foram criadas as
e de convergência da região, beneficiado principalmente pela “Estrada “vilas de índios”. Essas vilas assumiam aspectos especiais, pois deviam
Crato-Piancó”, que levava à Paraíba e a Pernambuco, e pela Estrada congregar determinado número de famílias de indígenas, com autonomia
“Crato-Oeiras”, que comunicava com o alto sertão do Piauí, zona de de ação, autonomia, entretanto, aparente, pois eram de fato comandadas
grande produção pecuária (Studart Filho, 1937: 37—39).13 por um diretor, preposto real, o verdadeiro gestor.
No Ceará, as primeiras “vilas de índios” foram criadas em 1759,
Ação missionária das ordens religiosas em lugar das extintas missões dos jesuítas na Capitania, situadas em
Viçosa, Caucaia, Parangaba e Messejana. Em 14 de abril de 1764, numa
Nos sertões, a ocupação das terras pelas fazendas de criação foi procura de ampliar as medidas de laicização administrativa, cumprindo
imediata e generalizada, embora se efetivasse por meio de população ordens reais, o ouvidor Vitorino Soares Barbosa, instalou a “vila de ín-
rarefeita e turbulenta, e com baixa rentabilidade econômica. Do processo dios” de Montemor-o-novo-d’America, futura vila e cidade de Baturité.
de aculturação dos indígenas, participaram missionários jesuítas, expulsos A solenidade, seguindo as normas de praxe, contou, para definição do
dos domínios portugueses em 1759, por ordem real. Em seguida, porém, traçado e do uso dos espaços, com a presença do engenheiro Francisco
Custódio de Azevedo (1700-1784) (Castro, 1999: 48-51).
12
Capistrano denominava absenteísmo a ausência de sesmeiros nas terras doadas, fato ocorrido A vila do Crato
em tantas partes do País. Em relação ao Cariri, o padre Antônio Gomes de Araújo verbera:
“O sesmeiro não constituía símbolo de precedência em seus sesmos, mas índice de usurpação Cumpridas as tarefas em Montemor, o ouvidor seguiu para o Cariri,
sobre os que os haviam precedido e de exploração sobre aqueles que chegavam depois de
solicitar um lugar ao sol nas terras açambarcadas” (1973; 134)”. “Na maioria, esses sesmeiros onde, em 21 de junho de 1764, instalou a vila do Crato, localizada “em
se encheram, parasitariamente, do produto dos arrendamentos e vendas em que retalharam núcleo tão obscuro, tão pequenino, qual a Aldeia do Brejo” (Figueire-
os latifúndios que nada lhes custaram. O Cariri Novo não é criação desses sesmeiros, porém,
daqueles que, a retalho, lhe foram absorvendo os extensos feudos rurais, com que se fundou do Filho & Pinheiro, 1955: 30)14. Como, quase certo, não se fez
a pequena propriedade, base da grandeza desta parte do Ceará. (Araújo, 1973: 136).
13
“Do Crato, saíam estradas em todas as direções do quadrante. Para o norte seguia a que
acompanhava o Salgado até o Icó; para o sul a que, transpondo a Serra Grande, ia ao São 14
A criação da paróquia do Crato, datada de 1762, antecipou a ereção da vila, entretanto, sem
Francisco, sertões de Pernambuco e Baía; para oeste a que alcançava Oeiras pela Varzea maior efeito, pois sua instalação canônica ocorreu pouco depois, em 4 de janeiro de 1768
da Vacca; para leste a que se dirigia para Piancó e Pernambuco. Havia ainda a que deman- (Girão, 1983: 76), recebendo, como orago, Nossa Senhora da Penha de França, invocação
dava S. João do Príncipe [Tauá], por São Matheus [Jucás], e a que conduzia á villa do mariana da antiga capela local e devoção de agrado dos capuchinhos de Olinda, missioná-
Jardim (Studart Filho, 1937: 46). rios do Cariri. Trata-se de fato pouco comum, pois, no Ceará, de modo geral, a organização
54 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 55

acompanhar do engenheiro, por tal razão, talvez não se saiba quais os reis de Espanha em 1640. Conquanto fosse habitual entre os colonizado-
padrões espaciais utilizados na ocasião, embora prevalecesse a implan- res europeus reproduzir, nas Américas, as denominações de localidades
tação da vasta praça central, conhecida nas comunas cearenses como “o de suas terras, tornou-se obrigatório, na época de Dom José I, conferir
quadro”. Também se desconhecem (pelo menos, o autor) os documentos nomes de cidades portuguesas às novas vilas então instaladas por ordem
originais dos atos de instalação da vila, aliás, não transcritos por histo- do Marquês de Pombal. Assim se explica a decisão do ouvidor Vitorino
riadores cratenses15. A criação da vila, ao que se deduz, significava a Barbosa em se decidir por Crato, como já o fizera um pouco antes, em
conclusão de um ciclo de urbanização desejado, pois havia ordens dos Monte-mor-o-Novo (Baturité).17
governantes de Pernambuco, em tal sentido.16 Em 1816, o Crato tornou-se sede da segunda comarca cearense,
Crato é nome de vila lusitana do Alentejo, antiga sede do castelo com ampla área de jurisdição. A honraria não lhe mudara a condição
dos Hospitalários de São João de Jerusalém, de que foi prior Dom Antô- de vila humilde, tal como aparece descrita naquele mesmo ano pelo
nio, malogrado lutador pela posse da coroa portuguesa, empalmada pelos ouvidor Rodrigues de Carvalho (descrição atribuída equivocadamente
a Silva Paulet). Carvalho pouco fala da vila, em si, apenas declarando:
religiosa sempre se antecipou à organização civil. Talvez as duas deliberações se correla- “Não tem caza de camara; tem uma cadeia principiada. A câmara tem
cionassem, visto que, ao contrário de Montemor-o Novo (Baturité), o Crato não foi insti- de renda annual 400$000” (Paulet, 1989: 25). Algum tempo depois,
tuída como “vila de índios”, embora a nova vila se originasse de uma missão catequética,
a Missão do Brejo do Miranda, e sua população fosse de absoluta maioria indígena. Por visitada pelo médico e botânico escocês George Gardner, em 1838, e
certo, ante o fato de ter sido a missão extinta quando da criação da paróquia, às vés­peras comparada desvantajosamente com o Icó, receberia comentários de-
da instalação da vila, o ouvidor Vitorino Barbosa não se achou com poderes para consi­
derá-la “vila de índios”. Consoante documento transcrito por Freire Alemão: - a villa foi sagradáveis, envolvendo o próprio comportamento social e moral da
denominada no acto do levantamento do Pelourinho = Real Villa do Crato = e lhe foi dada população (Gardner, 1942:152-55).
para orago N.S. da Penha de França e por padroeiro S. Fidelis (Freire Alemão, docs.
BNRJ). Outro documento informa que a igreja já existia e serviu de marco à delineação da
praça : regulada dita praça pela Igreja que nella existe ainda arruinada a qual tendo Meados do século XIX e a cidade do Crato
frente de 50 palmos [11 metros] e de fundo se deixaram 20 palmos [4,40m] de área na
frente dos dois lados (...) (Freire Alemão, id. ib.).
15
Na verdade, tem-se informação de fatos significativos desse período da história do Crato Vinte anos depois, quando da passagem da Comissão Científica
porque Freire Alemão se deu ao trabalho de transcrever, com grafia já de sua época, inú-
meros documentos do século XVIII, que deparou na Câmara Municipal, hoje provavel- de Exploração, conforme opina Freire Alemão, a cidade mantivera-se
mente extraviados. Há trechos em branco, certamente porque Freire Alemão não conseguiu fisicamente a mesma: O Crato é uma pequena cidade à qual convinha
decifrar a caligrafia vetusta. Francisco Freire Alemão de Cisneiros (1797-1874), médico,
professor e botânico de nomeada, chefiou a Comissão Scientifica de Exploração, que per- o titulo de vila. Tem a cidade algumas ruas paralelas direitas e largas
correu o Ceará entre 1859 e 1861. A Comissão permaneceu no Crato entre fins de 1859 e (...), mais algumas travessas e becos. A praça da Matriz é um grande
os meses iniciais de 1860. Nesses dias, Freire Alemão voltou a manter contatos com o
historiador Pedro Théberge (Marcé / França, 1811 - Icó, 1864), radicado no Icó, que lhe quadrilátero desenhos (Freire Alemão, docs. BNRJ). O comentário
forneceu informações sobre a história do Crato, inclusive sobre os projetos de arquitetura do botânico fica melhor entendido quando se considera que a vila tinha
que ali vinha realizando.
16
Comprovam-se claramente as pretensões reais em documento datado de 6 de agosto de
ascendido à condição de cidade, fazia pouco, em1853.
1763, em que o governo de Pernambuco considera a criação da vila: (...) nas cartas dos
governadores de Pernambuco, Luiz Diogo Lobo da Silva, e confirmada pelo Conde Copei-
ro mor (Manoel de Menezes, Conde de Villa Flor = nota do Dr. Theberge) mandado ao 17
No Ceará, a prática fora iniciada pelo desembargador Gama Casco, quando, em 1759, cumprin-
ouvidor mandando crear villas no Ceará, trata-se da do Crato (...) entre as referidas [vilas] do ordens reais, mudou o nome das aldeias jesuíticas da Ibiapaba, Caucaia, Parangaba e Pau-
falta para estabelecer a do Miranda, q. segundo a qualidade de suas boas serras, abun- pina, respectivamente, para as vilas de Viçosa d’América, Soure, Arronches e Messejana. Na
dancia de agoas, bondade dos ares e quantidade de matas se tem assentado ser proporcio- ocasião, outras localidades também receberam nomes lusitanos, tais como Monte-mor-o-Velho
nada a formar-se uma boa villa, unindo-se os Índios das duas Malocas ou Aldeias do Jucás (Pacajus) e Almofala, todavia, não oficializados. Acrescente-se o nome da vila do Sobral (so-
e Quixelô que estavam fora da Missão da Telha [Iguatu], com todos os índios que andarem breiral), conferido em 1773, sem ficar explicitamente declarada qual das várias localidades
dispersos não pertencerem a alguma das novas villas e povoações, a que estão obrigados portuguesas homônimas recebia a homenagem. O documento, citado na nota 15, faz presumir
(...) (Freire Alemão, docs. BNRJ). que o topônimo Crato foi escolhido pelo governador de Pernambuco.
56 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 57

O Seminário de São José

Declarada mutação da Cidade, somente ocorreria depois de 1875,


quando Dom Luís, bispo de Fortaleza, criou o Seminário de São José,
núcleo de formação educacional, que a transformaria em verdadeiro pólo
cultural do Cariri e dos sertões limítrofes. A instalação da diocese do Cra-
to, em 1915, constituiu, pois, conseqüência direta da ação multiplicadora
do Seminário, rebatida na vida religiosa, ocasião quando a velha matriz
de Nossa Senhora da Penha foi elevada à posição de Sé Episcopal. Desde
então, imbricado no desenvolvimento material da cidade, o prestígio do
Estação Ferroviária
Crato firmou-se, conferindo-lhe posição hegemônica de urbe civilizada, do Crato, foto in­
verdadeiro centro regional do Sul do Estado18. Todos esses fatos explicam cluída no processo.
por que a cidade se havia transformado em meta final, almejada pelos
planos de expansão da ferrovia. ao edifício, como a faixas salientes mais estreitas, verticais, em procura
de efeitos ascensionais. Vale ressaltar que a fachada de frente ganhou
3 A arquitetura da Estação Ferroviária do Crato aspecto peculiar com a introdução de amplos vãos em arco de meia volta,
correspondentes às portas de acesso, vãos aos quais foram sobrepostos
A Estação Ferroviária do Crato apresenta-se como uma edificação pontaletes de alvenaria que sustentam, ou fingem sustentar, platibandas,
pavilhonar, definida geometricamente por um paralelepípedo alon­gado, o estas também encimadas por arcos abatidos, sem funções estáticas.
qual penetra transversalmente em três paralelepípedos salientes, menores A fachada nordeste, voltada para os fundos e sem sobreposições
porém mais altos, localizados, um, no centro, e os outros, nas extremida- decorativas, compreende a plataforma de acostamento dos trens. Por tal
des. Esse esquema de composição, simétrica a um eixo central, comanda razão, recebeu a aplicação de uma longa coberta em balanço, apoiada
a volumetria do edifício, filiando-a a velhos sistemas de organização por esbeltos pilares intermediários.
arquitetônica comuns nos edifícios públicos do século XIX. Entretanto, As fachadas refletem os cortes transversal e longitudinal da edi-
a carga ornamental aplicada às fachadas, constituída de elementos geo- ficação, solucionados de modo bastante simples. Os trechos da fachada
métricos que se integram ao conjunto de modo contido, confere à obra frontal, abertos em arcos, correspondiam ao salão de espera e ao salão de
um toque de modernidade. recebimento e entrega de bagagens. Este último salão hoje está di­vidido
A fachada sudoeste, frontal à praça Francisco Sá, bem como as por uma parede e tem as largas portas em arco meio emparedadas, com
fachadas laterais, nordeste e sudoeste, receberam preconcebido trata- acessos reduzidos.
mento estético marcado por elementos decorativos que tanto recorrem Os corpos salientes da fachada de frente mantêm correlação em
a largas faixas horizontais, em busca de transmitir impressão de solidez planta com espaços que exerciam funções especificas, tais como a agên-
cia da estação, os sanitários, os serviços burocráticos (estes com uma
sobreloja), além de uma expansão do depósito de bagagens. Não se nota
18
“Uma das facetas mais atraentes da vida do Crato é a educação cívica de seus moradores. indicação expressa de compartimentos destinados a refeições rápidas.
(...). Cidade alegre e movimentada, de ruas limpas e traçadas regularmente, praças ajardi-
nadas, bem iluminada, de convívio fino e elevado, merece, sem favor, o título heráldico
A coberta da edificação, resolvida com telhas cerâmicas de canal,
de Princesa do Cariri” (Braga, 1967: 446). compõe-se de cinco prismas triangulares, que formam telhados com
58 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 59

duas águas, em cangalha, todas vertendo em calhas. Deve também ser segundo um direcionamento que lhes confere traços de modernidade
incluído o trecho da coberta, lançado à parte, que recobre a plataforma antecipadora19.
de acesso, localizada na fachada posterior. Como arco temporal, vale lembrar que, na Europa, o ecletismo
Os interiores são singelos. Mostram paredes rebocadas e pisos de arquitetônico ou abriga obras edificadas desde a segunda metade dos
ladrilhos hidráulicos, estes, em boa parte, formando desenhos geomé- oito­centos, ou até bem antes, até dias posteriores ao fim da guerra de
tricos constituídos de variações que tomam o quadrado como motivo. A 1914/1918. No Brasil, as realizações dos dias finais desses marcos
antiga sala de espera apresenta um conjunto de bancos cimentados de cronológicos não apenas misturam estilos, fato comum ao ecletismo,
confecção recente, alheios ao ambiente, por certo introduzidos em subs- mas mesclam léxico de procedência vária, muitas vezes coletado já em
tituição a peças antigas, feitas de apoios de ferro e assentos de madeira, vocabulário de vertente modernizante, como ocorre na Estação Ferro-
destruídas com o passar do tempo. viária do Crato.
A caixa d’água metálica, que se eleva ao lado do conjunto, deve O texto da solicitação de tombamento faz referência à expressão
ser considerada como elemento integrante da estação. Para melhor art déco, tida como característica estética da edificação. Não parece, con-
entendimento, conviria tivessem constado do processo algumas in- tudo, aconselhável usar-se a expressão, somente divulgada na Europa, e
formações pertinentes ao reservatório, de modo particular quanto ao às vezes de modo pejorativo, após encerrada a Exposition Internationalle
sistema de travejamento estrutural bem como quanto à capacidade. des Arts Décoratives et Industrielles Modernes de Paris, aberta em 1925,
Dados sobre o fabricante, caso tivessem sido externados, também isto é, em datas quando a estação estava às vésperas de ser inaugurada!
despertariam interesse. Desde as décadas finais do século XIX, vinha sendo tentada na Europa e
nos Estados Unidos uma reconceituação da forma dos objetos e da própria
As opções estéticas do projeto arquitetura, envolvendo vigoroso debate concernente às possibilidades
de criação de uma linguagem plástica nascida da produção industrial.
A Estação Ferroviária do Crato integra o reduzido grupo de insta- Assim, no campo da edificação, explica-se o rápido abandono do emprego
lações semelhantes que remanescem em cidades cearenses. Ao contrário, dos ornatos de cunho historicista, trocados por elementos decorativos de
porém, da Central fortalezense e das estações de Baturité, do Camocim, feição geométrica, integrados ao conjunto. Nesse quadro de transições
do Sobral, todas construídas em finais dos oitocentos, a estação ferroviária e afirmações, a mostra parisiense de 1925 transformou-se, de fato, em
cratense é realização da primeira metade do século XX. Essa referência oportunidade ímpar de apresentação e ampla divulgação internacional
cronológica implica mutações estéticas que refletem um período ainda das novidades, particularmente no campo do desenho do objeto e da
em transição, mas já orientado para propostas arquitetônicas conce­bidas renovação do ornato, com forte rebatimento na arquitetura fortalezense,
consoante novas aspirações estéticas, projetadas para atendimento de todavia já nas décadas de 1930 /1940.
novos programas, elaboradas com novos materiais de construção e Deve-se porém ressaltar que muitas mensagens inovadoras, por certo
consoante novas técnicas. A Estação Ferroviária do Crato traduz esse com raízes mais profundas, procediam de várias fontes, todas em fase de
momento de fins de um período de transição, todavia ainda reproduzindo franca absorção nos meios profissionais brasileiros, como parece ter sido o
soluções usuais perceptíveis na adoção de um sistema de simetria a um caso da estação cratense, na qual, testemunho da indefinição estética obser-
eixo central, que rege a disposição hierarquizada dos volumes. Embora vada na ocasião, se imbricavam passado e presente. Não se deve esquecer
filiada a realizações de vertente eclética, descarta o emprego de formas
ornamentais de origem historicista, recorrendo a elementos decorativos
19
Ecletismo arquitetônico, consoante a própria etimologia, é denominação conferida à mis-
tura de estilos. Na época, denotando transição estética, mesclavam o antigo com o mo­derno,
marcados por uma deliberada simplificação geometrizante, reformulados qual se vê na Estação Ferroviária do Crato.
60 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 61

de que, no mesmo ano de 1926, quando a estação ferroviária começou modo algum pode ser aceita, provavelmente nascida de algum equívoco
a funcionar, Le Corbusier, como mensagem nova, projetava o conjunto ocorrido durante a busca de informações.
residencial de Pessac e eram inauguradas as instalações da Bauhaus, em Antônio Urbano de Almeida (Quixadá, 1900 - Fortaleza, 1982), di-
Dessau, da autoria de Gropius, obras paradigmáticas, que já se apresen- plomou-se em engenharia pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Re-
tavam formal e espacialmente elaboradas segundo uma completa revisão tornando logo depois ao Ceará, foi trabalhar na Rede de Viação Cea­rense,
estética, caracterizadora do modernismo arquitetônico racionalista. instituição em que fez carreira profissional, tendo ascendido ao posto
de Chefe do Departamento de Tração. Assumiu a direção da Prefeitura
Festas de inauguração da Capital logo após a vitória da Revolução de 1930, quando comandou
aa elaboração do Código de Obras, aprovado em 1932 e publicado em
A inauguração da Estação Ferroviária do Crato ocorreu em 9 de 1933. Figura como um dos fundadores do SENAI Norte/Nordeste e do
novembro de 1926, com entusiasmado júbilo da população. Leonardo CREA da 9ª Região, atual CREA/ CE. Tornou-se professor de física no
Mota, em suas Datas e Factos para a História do Ceará, assim resume Colégio Militar de Fortaleza, aposentando-se ao completar os 70 anos
os acontecimentos: Quando engenheiro da Rede de Viação Cearense, ficou encarre-
8 de novembro – Chega ao Crato o trem especial da comitiva que gado da construção da Estação Ferroviária do Crato. Não se conhece,
vai inaugurar a estação ferroviária daquela cidade, cerimônia que entretanto, qualquer atividade de Urbano de Almeida como projetista de
só tem efetividade no dia seguinte. À chegada do expresso, discursou arquitetura. Seria, portanto, totalmente improvável que, como recém-
o dr. Otacílio de Macedo. Às 13 horas, realiza-se um banquete de diplomado em engenharia, assinasse o projeto da Estação Ferroviária do
120 talheres, presidido pelo Bispo D. Quintino. À hora dos brindes,
Crato, obra de pioneirismo estético, pelo menos no âmbito cearense.
fizeram-se ouvir os Drs. Elísio de Figueiredo, Hugo Rocha, José
Valente, João Vitoriano, Fanor Cumplido e Jorge Rocha (Hugo Rocha Tivessem sido os planos da Estação elaborados em Fortaleza, cer-
e Jorge Moreira da Rocha pertenciam aos quadros da RVC). tamente contariam com a participação de projetistas locais altamente ha-
bilitados, que os havia, embora ainda filiados ao ecletismo arquitetônico,
9 de novembro – Inauguração da estação ferroviária do Crato. O
quer de cunho historicista, quer de outras fontes. Basta apenas mencionar
ato foi precedido de uma missa campal, celebrada por D. Quintino.
Na cerimônia da inauguração, discursaram D. Quintino, e os Drs. nomes como João Sabóia Barbosa (1886-1972), autor da sede do Banco
Hugo Rocha e Jorge Rocha (Mota, 1951: 105). Frota Gentil (atual Banco Bandeirantes), de 1924, ou José Gonçalves
Os festejos de inauguração do edifício, com pompa e alegria, da Justa (1870-1944), que formulara, em 1926, o projeto da Secretaria
demonstram a ansiedade pela espera do melhoramento, mitificado pelo da Fazenda, obras essas da mais alta valia nos quadros da arquitetura
fascínio exercido pelas ferrovias, tais as vantagens que nova modalidade cearense. É bem verdade, esclareça-se, ambos já se encaminhavam para
de transporte oferecia. Tornar-se “ponta de linha” constava como aspi- outras soluções formais, todavia, externadas algum tempo depois. Antes
ração das cidades servidas pelo trem. Essa função, agora permanente, de deixar o Ceará, em 1928, João Sabóia Barbosa já enveredara por no-
tornava o Crato pólo de convergência e centro de distribuição regional, vos caminhos de eliminação ornamental, posteriormente desenvolvidos
consolidando a centralidade exercida no Cariri e vizinhanças. no Rio de Janeiro, para onde se transferiu, enquanto José Gonçalves da
Justa, a par de outras realizações, projetava a demolida Coluna Hora
Atribuição indevida da autoria do projeto da estação em 1933, com linhas fiéis às produções ditas Art Déco. Consideradas
as opções estéticas cultivadas por Barbosa e Justa, pode-se afirmar que,
O texto do pedido de tombamento afirma que o projeto da esta- na época de planejamento da Estação, o projeto jamais poderia trazer a
ção teve como autor o engenheiro Urbano de Almeida. A declaração de assinatura desses profissionais.
62 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 63

Deste modo, tudo leva a crer que a Estação Ferroviária do Crato (?). (ver o nome Elysio de Figueiredo, citado por Leonardo Mota). Sob
foi projetada no Rio de Janeiro, por interferência de Francisco Sá. No a referência Desenho de, alguém se assina como A. J. Ipiranga (?) ou J.
fim de contas, no Rio vivia Francisco Sá, e a antiga Capital da República Ipirajá (?), talvez co-autor do projeto. Como as assinaturas não aparecem
avultava como o grande centro político, econômico e cultural do País, subscritas em letra de forma pelos respectivos signatários, os nomes
ponto de divulgação das mais diversas tendências estéticas. aventados limitam-se a meras suposições.
Os dois últimos profissionais, projetista e desenhista, dificilmente
A verdadeira autoria do projeto da estação
seriam cearenses ou viveriam permanentemente no Ceará. Os nomes, por
Depois de entregue à Secretaria Estadual de Cultura o parecer serem desconhecidos, confirmam a suspeita, já levantada, de que talvez
sobre o tombamento da Estação, o autor não se conformou com haver, pudessem atuar nos quadros do Ministério da Viação.20
na ocasião, admitido desconhecer a autoria do projeto do edifício, pois
mantinha a certeza de que, embora de modo vago, se lembrava de alguma Ampliação do tombamento a edificações anexas
informação pertinente. Passados uns dois anos, em pesquisa no Arquivo
Iconográfico do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Fede- A Prefeitura Municipal do Crato solicitou que na área demarcada
ral do Ceará, eis que depara com o projeto arquitetônico da Estação, uma pelo tombamento fossem incluídos o antigo pavilhão de dormitórios e a
cópia do desenho original, extraída em papel (ferro-prussiato) com linhas casa de morada do agente da estação. O prédio do dormitório desenvolve
brancas sobre fundo azul, relativamente conservada! Regozijou-se com o curioso programa arquitetônico. Talvez possa vir a ser distinguido pelo
achado, é claro, certo de que a imagem gráfica do documento não esmae- tombamento, embora concedido com limitações quanto a seu uso fu­turo,
cera nos desvãos de sua memória, hoje não tão viva como outrora. posto que a modificação dos espaços que caracterizam a edificação re-
A prancha, com 82,3 cm x 46,3 cm, intitula-se - R.V.C. / P. E. F. B. / dundará na perda de aspectos documentais de sua arquitetura, singular
Estação de Crato / Escala 1:100. Mostra a planta geral da edificação, testemunho de práticas sociais embutidas na história da comunicação
bem como um desenho da Fachada Principal, outro da Fachada Late- ferroviária no Ceará.
ral, além de uma Secção EM, isto é, um corte transversal. De extremo A casa do agente, é pena, não oferece qualquer característica
a extremo, as cotas da planta acusam uma dimensão de 33,40 m, com que possa distingui-la como obra residencial pouco comum, além de
largura de 10,40m nos retângulos mais salientes. O vão interno, de 9,00m, aparecer fortemente diluída num grupo de edificações sem valia, que a
é vencido por armações de madeira, do tipo tesoura inglesa simples, com cercam. Oportunamente, poderá vir a ser incluída nalguma poligonal de
um pendural e duas escoras, cujo tensor (linha horizontal inferior) fica a preservação do conjunto, entretanto, sem se beneficiar de tombamento
4,50m do piso, portanto, altura dos pés direitos dos salões. específico.
No desenho, com esforço, foi possível reconhecer apenas a assina- Vale acrescentar que o autor se absteve de sugerir o lançamento de
tura do Diretor Geral / D. Rockert, o engenheiro Demosthenes Rockert. uma poligonal de proteção da vizinhança da Estação. Precisaria avaliar
Logo abaixo, como Engo Chefe de Divisão, entrevê-se outra assinatura,
20
Caso o projetista tenha firmado contrato para execução do projeto diretamente com a Rede
de A. ou H.( ? ) Rocha, provavelmente correlacionada como o nome do de Viação Cearense, é provável que seu nome conste dos livros pertinentes, por certo,
engenheiro Hugo Rocha. guardados nos arquivos da ferrovia. (Relatórios 1925/26) e também do DNOCS. Se o
contrato foi assinado no Rio de Janeiro, por meio de Francisco Sá, torna-se muito compli-
Infelizmente, os nomes do projetista e do desenhista, pelo menos cado identificar o autor do projeto, talvez citado em documentação ministerial preservada
até o momento, não ficaram devidamente identificados. Sob a linha no Arquivo Nacional. O projeto da Estação do Crato, por sua categoria, dificilmente estaria
assinado por estreante ou por amador. Assim, tempo e pertinácia podem, quem sabe, ofe-
Projecto de aparece a assinatura Eng. Elysio ou Elyseu, cujo sobrenome recer melhores informações, mediante estudos comparativos estabelecidos entre projetos
pode ser Moreira (?), Mariano( ?), Maia (?), Morais (?), M. de Assis de outras estações ferroviárias, elaborados na época, pelo mesmo provável autor.
64 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 65

quais as reais condições físicas em torno da edificação, levando preli- A inquestionável importância material e simbólica conferida à ferrovia
minarmente em conta os programas de integração ambiental propostos como instrumento de progresso e de prosperidade, acoplava-se ao apreço
pela Prefeitura Municipal do Crato para o local. à competência técnica dos integrantes de uma profissão recentemente
definida, a engenharia civil21, filha dileta da Revolução Industrial, cujo
Conclusões prestígio em ascensão pode ser comprovado pela leitura de curioso
documento, datado de 21 de maio de 1882, integrante da coleção José
Em vista do inquestionável valor da Estação Ferroviária do Crato Augusto Bezerra. Nesse documento, a provincia agradece penhorada o
nos quadros arquitetônicos estaduais, o autor emitiu opinião favorável valioso serviço prestado pelo Ilmo. Senr. Dor. Amarilio Olinda de Vascon-
à inscrição do edifício no Livro do Tombo Artístico da Secretaria de cellos, como engenheiro responsável pelas obras da ferrovia, concluídas
Estado da Cultura. na ocasião. Para melhor avaliação, transcreve-se na íntegra o texto do
A versão final do parecer foi encaminhada ao Conselho Esta­dual documento:
de Preservação do Patrimônio Cultural / COEPA, da Secretaria de Estado Os abaixo assignados, penhorados, como todos os cearenses, pelo
de Cultura, para o devido exame, tendo servido da base para o tomba- empenho, intelligencia e honradez, com que V. Sa. dirigiu a Estrada
mento da Estação Ferroviária do Crato, concedido na sessão de 20 de de Ferro de Baturité, prestando a esta provincia o valioso serviço de
dar a esta empresa o mais elevado credito, pela sua crescente pros-
novembro de 2004. peridade; testemunhas do modo por que V. Sa. se identificou com os
*** interesses d’esta provincia, em circunstancias que mais recommendão
No Brasil, o fascínio das ferrovias decresceu juntamente com a a sua dedicação, veem, como interpretes d’ella, significar-lhe o seu
perda de consideração social e econômica do sistema, manifesta em agradecimento.
meados do século XX. A ascensão do transporte rodoviário – estradas O Ceará não esquecerá quanto deve a tão generoso quão esforçado
asfaltadas, ônibus confortáveis, automóveis de luxo, caminhões para amigo, e guardará perpetua lembrança de um nome, que lhe é tão
entrega de encomendas porta a porta, de par com a rapidez do transporte caro, e que o paiz inteiro deve ter na mais alta consideração.
aéreo, em um país de dimensões continentais, enfim, tudo contribuiu para A significação do documento atinge expressiva dimensão porque
a decadência dos transportes sobre trilhos está assinado por quase trezentas pessoas ( ! ), de diferentes posições
A Estação Ferroviária do Crato terá, pois, sua preservação garan- sociais e econômicas na vida da Cidade - firmas, comerciantes de diver-
tida por dispositivo legal. Ficará, entretanto, privada de suas funções ori- sos ramos, militares, juristas, médicos, engenheiros, professores, padres,
ginais, adaptadas a novos usos. Dificilmente, as novas gerações poderão funcionários, abolicionistas e figuras populares, por demais conhecidas
reconstituir o contexto social e cultural de um passado não muito distante, na Cidade.
que conferira superior valia material e significado simbólico à edificação, Entre os que assinaram o documento, incluíam-se o Barão
por sua arquitetura, a qual será mantida, embora sem vínculos com os d’Aquiraz, um dos idealizadores e acionista da empresa, e João Brígi-
serviços que prestava aos mais diversificados estratos da população. do dos Santos, advogado da ferrovia, bem como os Barões de Santo
No Ceará, pode-se imaginar em que conta eram tidas as primeiras Amaro e da Ibiapaba. Ligados a outro idealizador da empresa, o senador
linhas férreas, lembrando os festejos comemorativos da inauguração da
Estação do Crato. Igual, ou maior evidência, também obtivera a chegada 21
Quanto à emergência dos engenheiros civis, acrescente-se que a Escola Politécnica do Rio
dos trilhos da Estrada de Ferro de Baturité ao ponto final de sua primeira de Janeiro (hoje, EP/UFRJ), a primeira escola civil do País, foi fundada em 1874. A Escola
Engenharia de Minas e Metalurgia, de Ouro Preto, data de 1876. Até então, os engenheiros
fase, quase meio século antes, consumando sonhos acalentados pelos formavam-se na Real, depois, Imperial Academia Militar e, por último, na Escola Central
que a haviam idealizado, mas conquista de que todos se envaideciam. (do Exército). Tinham formação militar, embora viessem a exercer atividades civis.
66 Revista do Instituto do Ceará - 2007 O tombamento da Estação Ferroviária do Crato 67

Pompeu (então falecido), listavam-se membros da futura oligarquia Bibliografia


aciolina, como Antonio Pinto Nogueira Accioly (genro do senador), o
engenheiro Hildebrando Pompeu de Sousa Brasil, o médico e industrial ALBUM Historico do Seminario Episcopal do Crato. [Crato], [Comissão Co-
Antonio Pompeu de Sousa Brasil, o futuro Intendente Municipal, por memorativa do Centenário do Seminário?], 1925.
vinte anos, Guilherme César Rocha. Como respeitada figura de militar ARAÚJO, Antônio Gomes, Pe. Povoamento do Cariri. Fortaleza: Imprensa
e intelectual, o Brigadeiro Antonio Tiburcio Fer­reira de Souza. Futuros Universitária, 1973.
fundadores do Instituto do Ceará, como o Barão de Studart (muito jovem, BRAGA, Renato. Dicionário geográfico e histórico do Ceará / B-C. Fortaleza:
formado havia menos de 5 anos), Paulino Nogueira, Antônio Bezerra Imprensa Universitária,1967(446-481).
de Menezes e o padre João Augusto da Frota, além de futuros sócios, CASTRO, José Liberal de Castro. Alberto Nepomuceno e o Ceará. Revista do
Instituto do Ceará. Fortaleza, 1995, t.109: 83-114 319-36.
como o padre Bruno Figueiredo. Futuros presidentes de Estado, como
_____ O tombamento do sobrado do Dr. José Lourenço. Revista do Instituto
o médico Pedro Augusto Borges, Justiniano de Serpa e Almino Afonso.
do Ceará. Fortaleza, 2003, t.117: 103-33.
A poderosa firma Boris Frères, interessada diretamente na ferrovia. Os
_____ Urbanização pombalina no Ceará: a paisagem da vila de Montemor-o-
engenheiros Antônio Gonçalves da Justa, Henrique Théberge e Henrique Novo-d’América. Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza, 1999, t.113: 35-81
Foglare, este último, autor do projeto das estações ferroviárias de Forta- COSTA, Antonio Theodorico da. Inauguração da ponte Francisco Sá. Revista
leza e de Baturité. O livreiro Gualter da Silva, o futuro romancista Papi do Instituto do Ceará. Fortaleza, 1924, 38: 205-12.
Júnior, e Tito Tocha, português, então às voltas com o Passeio Público, FERREIRA, Benedito Genésio. A Estrada de Ferro de Baturité: 1870-1930.
recém-concluído. Muitos abolicionistas, então em franca agitação, entre Fortaleza: Edições UFC, 1989.
os quais Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, José Correa FIGUEIREDO FILHO, José & PINHEIRO, Irineu. Cidade do Crato. Rio de
do Amaral, João Cordeiro, Alfredo Rocha Salgado, Antônio Martins, Janeiro: MEC / Serviço de Informação, 1955.
os irmãos Jatahy. O Dr. Joaquim Bento de Sousa e Andrade, marido de FREIRE ALEMÃO. Francisco. Manuscritos. Biblioteca Nacional do Rio de
Dona Rolinha (Joaquina), irmã de José de Alencar, herdeira do Sítio Janeiro.
Alagadiço Novo. O pintor e professor de desenho Luiz Felix de Sá, um GARDNER, George. Viagens no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1942.
dos futuros fundadores da Padaria Espiritual. Muitas pessoas de sobre- GIDEON, Siegfried. Mechanization takes command. New York: Norton, 1969.
nome Theophilo Gaspar de Oliveira e Pamplona, entre estes, Confúcio, GIRÃO, Raimundo. Os municípios cearenses e seus distritos. Fortaleza: Secre-
taria de Planejamento e Coordenação, 1983.
futuro fundador da empresa telefônica. Os notários Joaquim Feijó de
Mello, em cuja chácara, a Vila Adelaide, no Benfica, os “Padeiros” se MOTA, Leonardo. Datas e Fatos para a história do Ceará. Revista do Instituto
do Ceará. Fortaleza, 1951, t.65: 41-109.
encontrariam aos domingos, e Felino Barroso, pai de Gustavo Barroso
PAULET, Antônio José da Silva (atribr.). Revista do Instituto do Ceará. For-
(ainda não nascido), com chácara. também no Benfica.22 taleza, 1898, t.12: 25.
SILVA TELLES, Pedro Carlos da. História da Engenharia no Brasil (Séculos
XVI a XIX). Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1984.
_____ História da Engenharia no Brasil. Século XX. Rio de Janeiro: Clavero,
1993.
22
Por indesculpável engano, em artigo publicado no tomo 117 da Revista do Instituto do
Ceará (2003: 116), intitulado O tombamento do Sobrado do Dr. José Lourenço, o autor STUDART, Guilherme (Barão de). Datas e Factos para a historia do Ceará.
citou Hermínio Barroso como pai de Gustavo, em vez de Felino Barroso. Corrija-se o Fortaleza: Typ. Studart, 1896, v.l.
equívoco: Hermínio era pai do Governador Parsifal Barroso (ver Rev. Inst. do Ceará, t.109,
1995: 329). A chácara de Felino, a Baixa Preta, ficava na estrada da Pajuçara (Rua Senador _____ Datas e Factos para a historia do Ceará. Fortaleza: Typ. Studart,
Catunda), atualmente, um colégio. 1896, v. 2.
68 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 69

_____ Datas e Factos para a historia do Ceará. Fortaleza: Typ. Commercial, Gênese do imaginário social dos sertões:
1924, v.3.
STUDART FILHO, Carlos. Vias de communicação no Ceará Colonial. Revista entre história & ficção1
do Instituto do Ceará. Fortaleza, 1937, t. 51: 5-47.

Eduardo Diatahy B. de Menezes*

SUMÁRIO I
O autor do presente artigo transcreve a versão primitiva do parecer
Preliminares: o trabalho dos conceitos
que emitiu, em 2004, como representante do Instituto do Ceará no Conselho
Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural / COEPA, da Secretária de «Sertão: estes seus vazios. O senhor vá. Alguma coisa ainda encontra ».
J. Guimarães ROSA [1978]
Estado de Cultura, relativo ao tombamento da antiga Estação Ferroviária
do Crato. Esse edifício, inaugurado em 1926 e hoje desativado, encerrou a «Muita coisa importante falta nome».
série de instalações ferroviárias da linha sul, construídas no Ceará durante J. Guimarães ROSA [1978]
um período de meio século. A condição de estação terminal e a qualificação
urbana da cidade, onde foi erguida, explicam as diretrizes espaciais e estéticas «... só aos poucos é que o escuro é claro».
conferidas à edificação. As aspirações modernizantes observadas nos exteriores J. Guimarães ROSA [1978]
e o emprego de partido tradicional de agenciamento dos espaços, vinculado a
esquemas de simetria a eixos diretores, refletem o período de transição em que «Ver bem não é ver tudo. É ver o que os outros não vêem ».
o projeto foi elaborado José Américo de ALMEIDA [1974]

ABSTRACT

This work intends to present the author’s opinion related to a classifica-


S e proceder a um rápido exame da programação deste Encontro
– pelo menos daquela versão a que tive acesso – percebo, de forma evi-
tion process concerning to former Crato Railway Station, built in that city located dente ou indireta, algo como uma homenagem implícita a autores como
in the south region of Ceará (Brazil). The author’s verdict was enunciated as a
representative member of the Instituto do Ceará in the State of Ceará Cultural José de Alencar, Euclydes da Cunha, Capistrano de Abreu, Guimarães
Heritage Preservation Council. The Crato Railway Station was inaugurated in Rosa, Ariano Suassuna, etc. Com efeito, eles, na ficção ou no ensaio,
1926, although it is out of activity in present days. That was the last of a series contribuíram ao lado de muitos outros para a construção do imaginário
of buildings constructed during half a century for Ceará’s southern railway social dessa espécie de leitmotiv de nossa tradição letrada, bem como
system. Its special condition of terminal station and Crato’s regional location,
explain the spatial and aesthetical qualities conferred to that construction.
Modern elements observed on that building’s façades and the use of traditional 1
Em sua origem, este texto constituía comunicação a ser proferida no dia 22 de novembro
internal space organization, based on symmetrical axes, reflect the transitional de 2006, durante o «ENCONTRO OS SERTÕES – Espaços – tempos – movimentos», na
period when that architectural design was conceived. Mesa-Redonda 5: O SERTÃO E SUAS MÚLTIPLAS IDENTIDADES, tendo como Coor-
denador o Prof. Dr. Jorge Siqueira (UFPE); expositores Prof. Dr. E. Diatahy B. de Menezes
(UFC) e Prof. Dr. Willy Bolle (USP); e como Debatedor o Prof. Dr. Antonio Paulo Rezen-
de (UFPE). Promovido por UFPE – CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
- Departamento de História – PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA –
GRUPO DE PESQUISA: Poder e Relações Sociais, em Recife (PE), de 21 a 24 de novem-
bro de 2006. Versão nova.
*
Sócio efetivo do Instituto do Ceará.
70 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 71

de nossa cultura popular: o Sertão. Todavia, talvez o mais específico Inúmeras fontes que tenho examinado ao longo de minhas pes-
deles todos, o autor de Os Sertões, incorporou a proposta oitocentista quisas e reflexões2 me levaram à convicção de que o tema do imaginário
de Hippolyte Taine, precursor da sociologia da arte e da literatura, que constituía não só uma chave de interpretação para a maioria das manifes-
fundamentava a explicação dessas manifestações pelo estudo de três or- tações do espírito humano em geral, mas também uma categoria básica
dens de fatores: o meio, a raça e o momento histórico. Na minha leitura, para análise da cultura sertaneja. Todavia, para os propósitos de minha
porém, constato no programa, não propriamente um antagonismo, mas exposição, Jacques Le Goff constitui inegavelmente um guia mais seguro
antes um contraponto, com bastante convergência, entre as contribuições nesse território. Eis que ele declara no prefácio de sua derradeira obra
dos conhecimentos científicos e as concepções que emergem ou são sobre o imaginário medieval: «Uma dimensão da história, desde alguns
construídas dos e pelos saberes estéticos e populares, tais como costu- anos, tem retido cada vez mais a minha atenção: a do imaginário.» Mas,
mam ser examinados na perspectiva das ciências humanas, em especial depois de tentar defini-la com relativa precisão, ele próprio se questiona:
a Literatura, a Antropologia e a História. «Por que então um novo domínio da história, o do imaginário?» É dele
É a partir dessa perspectiva que pretendo demarcar meus posiciona- também a tentativa de resposta que cito resumidamente:
mentos preliminares, antes de entrar na temática desta mesa-redonda, na
«Antes de mais nada, porque cada vez mais os historiadores percebem
segunda parte de minha exposição. Ou seja, fixar desde logo pontos de par- que tudo na vida dos homens e das sociedades está também na história
tida ou princípios que constituam um como horizonte conceptual, de onde e depende de um aproche histórico. (...) O imaginário alimenta e faz o
podem ser suscitadas certas reflexões pertinentes à nossa discussão. homem agir. É um fenômeno coletivo, social, histórico. Uma história
Todavia, para explicitar melhor minha posição, quero sugerir sem imaginário é uma história mutilada, desencarnada. (...) Estudar o
alguma definição de termos que estarei a usar aqui, tais como: ‘imagi- imaginário de uma sociedade é ir ao fundo de sua consciência e de sua
evolução histórica. É ir à origem e à natureza profunda do homem... E
nário’ e ‘Sertão’. Portanto, comecemos por dizer que se deve entender acredito que a nova importância do imaginário se desenvolverá ainda
por imaginário. no domínio da ciência histórica e da ciência tout court.» 3

a) O imaginário Na verdade, essa vertente interpretativa mais recente ‑ que inclui


Quase sempre impreciso ou mal definido, este termo plurívoco cons- uma gama variada de estudiosos como E. Cassirer, G. Bachelard, J.-P.
titui decerto uma perspectiva relativamente nova de nossos estudos, embora Sartre, C. G. Jung, P. Ricœur, G. Durand, G. Duby, J. Le Goff, P. Veyne, P.
haja quem o considere como mais um dos modismos intelectuais de anos Brown, etc., ou seja, filósofos, psicanalistas, antropólogos, historiadores
recentes. Uma coisa, porém, é certa: na renovação de seu uso há algo de ‑ tem levado a uma reabilitação da categoria do imaginário, fato que se
substancialmente inovador e fecundo, para além do efêmero e da leviandade expressa significativamente na sua mutação de adjetivo para substantivo,
das modas. A velha psicologia racionalista considerava a imaginação como e cuja riqueza aponta na direção de uma semântica especial. Eis por que
a “louca da casa” e a tinha por sinônimo de falsa, irreal, ilusória, fictícia, Bachelard insistia: «O vocábulo fundamental que corresponde à imagi-
fantástica, fabulosa, quimérica, etc.: sinonímia prenhe de conotações nega- nação não é imagem, é imaginário. Graças ao imaginário, a imaginação
tivas. Assim, o imaginário permanece, com freqüência, contraposto ao real.
Ora, a reflexão mais consistente propõe hoje substantivar positivamente esse
termo de modo a considerar o imaginário como uma função instituinte da
2
Eu poderia mencionar desde logo o denso ensaio do medievalista russo Aaron J. Gourevitch
sobre As Categorias da Cultura Medieval. Cf.: Les Catégories de la Culture Médiévale.
auto-poíesis do espírito humano, como abertura para a experiência inova- Tradução do russo por Hélène Courtin e Nina Godneff. Prefácio de Georges Duby. Paris:
dora, como o operador criativo em todos os campos do pensamento e da Gallimard, 1983.
3
Cf.: LE GOFF, Jacques: L’Imaginaire Médiéval. Paris: Gallimard, 1985, pp. I-XXI
ação: filosofia, ciência, técnica, arte, religião, política, etc. [grifo meu].
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é essencialmente aberta, evasiva. Ela é no psiquismo humano a própria ideal. Os reis de França dos portais das catedrais são a atualização dos
experiência da abertura, a própria experiência da novidade. »3 antigos reis de Judá (ou inversamente). A mulher de olhos vendados
Já no nível de análise adotado por Gilbert Durand, o imaginário é da escultura gótica é o emblema da Sinagoga. » Assim como uma cor-
considerado como «o conjunto das imagens e das relações de imagens rente partida é, para nós, o símbolo da libertação. No entanto, esses
que constitui o capital pensado do homo sapiens» [e que lhe parece] exemplos mostram como essas duas categorias podem unir-se e até
«como o grande denominador fundamental em que se encaixam todos recobrir-se parcialmente, «sem que seja preciso renunciar a distingui-
os procedimentos do pensamento humano. O Imaginário é essa encru- las, justamente para melhor pensá-las.»
zilhada antropológica que permite esclarecer determinado processo de Finalmente, faz-se necessária a distinção entre o imaginário e o
uma ciência humana por outro processo de tal outra. (...) Para poder falar ideológico: «O ideológico é investido por uma concepção do mundo que
com competência do Imaginário, é mister não confiar nas exigüidades tende a impor à representação um sentido que perverte tanto o “real”
ou nos caprichos de sua própria imaginação, mas possuir um repertório concreto quanto este outro real que é o “imaginário”. É justamente pelo
quase exaustivo do Imaginário normal e patológico em todas as cama- golpe de força que ele executa em relação ao “real”, constrangido a
das culturais que nos propõem a história, as mitologias, a etnologia, a entrar num quadro conceptual preconcebido, que o ideológico possui
lingüística e as literaturas. »4 certo parentesco com o imaginário. Quando os clérigos da Idade Média
Mas voltemos a Jacques Le Goff. Em sua tentativa de delimitar a exprimem a estrutura da sociedade terrestre pela imagem dos dois glá-
noção de imaginário, cujo domínio deva ser cuidadosamente distinguido dios, do temporal e do espiritual, do poder Real e do poder Pontifical,
das representações e das ideologias, ele busca confrontá-la com certos eles não descrevem a sociedade, mas sim, impõem-lhe uma imagem
conceitos que gravitam em torno de seu campo semântico e com ela se destinada a bem separar clérigos e leigos, e a estabelecer entre eles
confundindo. uma hierarquia, pois o gládio espiritual é superior ao temporal. (...)
Efetivamente, o primeiro conceito a recortar o domínio do ima- Qualquer que seja a parte de invenção conceptual que eles encerrem, os
ginário é o de representação: «Este vocábulo, ‑ afirma Le Goff ‑, muito sistemas ideológicos, os conceitos organizadores da sociedade forjados
geral, engloba toda tradução mental de uma realidade exterior percebida. pelas ortodoxias reinantes (ou por suas adversárias) não constituem
A representação está ligada ao processo de abstração. A representação sistemas imaginários propriamente ditos. Mas aí também é difícil
de uma catedral é a idéia de catedral. O imaginário faz parte do campo traçar a fronteira. »6
da representação. Mas ele ocupa aí a parte da tradução não-reprodutora,
não simplesmente transposta em imagens do espírito, mas sim, criadora, b) O sertão
poética no sentido etimológico. (...) Mas se o imaginário ocupa apenas Quanto ao segundo termo que me propus examinar nestas notas
uma fração do território da representação, ele o extravasa, no entanto. A preliminares, o «Sertão», não apresenta menor dificuldade em sua con-
fantasia, no sentido forte da palavra, arrasta o imaginário para além da ceituação. Prefiro usá-lo com maiúscula. Quero deixar claro desde logo
representação intelectual. » que pretendo designar com ele todo esse vasto território sociogeográfico
O simbólico constitui o segundo conceito de que é preciso dis- cuja formação histórica se deu paralelamente à civilização dominante no
tinguir o imaginário: «Só se pode falar de simbólico quando se reporta litoral brasileiro e que, no caso específico do grande mediterrâneo semi-
o objeto considerado a um sistema de valores subjacente, histórico ou árido, que me interessa mais de perto, ocupa a maior parte dessa imensa
região caracterizada por três zonas mais ou menos bem definidas: a Mata,
4
Cf.: L’Air et les Songes. Paris: Corti, 1943, p. 7 [grifado por mim].
5
Cf.: DURAND, Gilbert. Les Structures Anthropologiques de l’Imaginaire. Paris: Dunod,
1969: 12-13. 6
Cf.: LE GOFF, Jacques. Op. cit., pp. I-III.
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o Agreste e o Sertão7. Assim, pelo menos para o caso da referida região, Camões, n’Os Lusíadas, utiliza o termo no sentido de «lugar
uma maneira relativamente simples e curiosa de estabelecer os limites interior, inculto e despovoado: deserto, desertão, sertão»: «A gente do
desse território seria retraçar sobre a carta do Brasil o espaço circunscrito sertão, que as terras anda ». (c. X, 134, 5)11.
pelas andanças e aventuras do bando de Lampeão. Mas que território é Era certamente nessa última acepção que o estudioso norte-ame-
esse que serviu de palco à epopéia de Canudos, a ponto de ascender ‑ sob ricano, Roy Nash (ou o seu tradutor), empregava esse termo quando, em
forma plural ‑ à honra de título do clássico de Euclydes da Cunha? Ou 1926, iniciava seu excelente livro sobre o Brasil pela afirmação:
que mereceu ocupar um terço dos Capítulos de História Colonial, de J. «Quando Cabral tocou a fímbria de suas praias, em 1500, tudo era
Capistrano de Abreu, uma das primeiras grandes obras da historiografia mata virgem, cerrada; hoje, três quartos do Brasil são ainda sertão»12.
moderna brasileira? Certamente, qualquer resposta sistemática e cabal Não é minha intenção alimentar essa polêmica etimológica do
excederia os limites de um simples comentário. Adotarei, pois, a via termo Sertão. Todavia, há curioso tópico de seu À Margem da História
mais curta, ou, teria mesmo a tentação de dizer, a vereda, servindo-me do Ceará, onde Gustavo Barroso, que era bom lexicógrafo, discorda da
do auxílio de alguns instrumentos. Destes, uma das fontes mais antigas origem tradicionalmente apontada. Após mostrar que desde o início da
e mais fidedignas é por certo o vetusto e bom dicionário de Antonio colonização portuguesa a palavra era usada para designar as terras inte-
Moraes Silva, de que respigo a primeira informação léxica: riores, por oposição ao litoral e que os portugueses já a haviam aplicado
com o mesmo sentido na África, no Oriente e no próprio Reino, ele per-
«SERTÃO, s. m. O interior, o coração das terras, oppõe-se ao corre os clássicos dicionários da língua (Morais Silva, Domingos Vieira,
marítimo, e costa; v.g. Cidade do sertão; mercadores do sertão. Fernão Figueiredo, Aulete, Nascentes, etc.), para concluir que se o termo fosse a
Lopes CASTANHEDA (Historia da India. 2, f 152. B 1. 3. 8): “o rio tem forma aferética de desertão (terra longínqua, despovoada), restaria ainda
seu nascimento no sertão da terra”. §. fig. Bem pelo sertão dentro de a difícil explicação do ensurdecimento do s sonoro, conforme assinala
hum pensamento. Cam. Filod. 2. 2. §. O sertão toma-se por mato longe Nascentes. Em seguida, sustenta ser essa dificuldade natural, pois é outra
da costa. § O sertão da calma; i. é, lugar onde ella he mais ardente. a origem do termo. Lembra então que, pelo menos até o século XVIII,
Francisco Rodrigues LOBO (Na Corte na Aldeia). “metendo-se pelo a palavra escreveu-se mais corretamente com c, e já no século XVI era
sertão da calma, que naquelle tempo fazia”. »8 usada para as regiões interiores em Portugal, absolutamente nada desertas.
«Sertão ‑ Forma aferética de desertão, segundo Maximino Maciel, Além disso, embora repetindo a mencionada etimologia, a maioria dos
Gramática Descritiva, p. 44. É de explicação difícil o ensurdecimento dicionaristas define o vocábulo como significando mato ou floresta longe
do s sonoro. »9 da costa. Enfim, assevera que o segredo de sua origem está no Dicionário
«Sertão, s. m. ‑ região agreste, distante das povoações ou das ter- da língua Bunda de Angola, do erudito frei Bernardo Mª de Carnecatim,
ras cultivadas. No século XV: sertaõo e sertão. De etimologia obscura. edição da Impressão Régia, Lisboa, 1804: vem registrado aí o vocábulo
Sertanejo é do século XVII e sertanista, do século XX »10. muceltão, seguido da forma decepada celtão e da corrompida certão,
cujo significado vem definido em latim como locus mediterraneus, i. é,
7
Cf., por exemplo, o trabalho de: ANDRADE, Manuel Correia de. A Terra e o Homem do o interior, sítio longe da costa. Segundo frei Bernardo de Carnecatim,
Nordeste, 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1973.
8
Cf. MORAES SILVA, Antonio. Diccionario da Lingua Portugueza, 2a ed., t. segundo F – Z.
Lisboa: Na Typographia Lacérdina, 1813, p. 693. 11
PEIXOTO, Afrânio & PINTO, Pedro A. Dicionário d’Os Lusíadas de Luís de Camões.
9
NASCENTES, Antenor: Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Sociedade de Estudos Camonianos. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1924, p.
Livraria Acadêmica, 1955, 1º vol., p. 466. (2ª tiragem da 1ª edição). 535.
10
CUNHA, Antônio Geraldo. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: 12
Cf.: A Conquista do Brasil. Col. “Brasiliana” nº 150. São Paulo: Comp. Edit. Nac., 1950,
Nova Fronteira, 1982, p. 718. p. 13.
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os termos muceltão, celtão e certão, corruptelas de influência lusa do «E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus
puro angolano mbunda ou simplesmente bunda: michitu ou muchitu, existe, sim, devagarinho, depressa. (...) O grande-sertão é a forte
arma. Deus é um gatilho?»
através de muchitum por nasalação dialetal, significando mato, que era
empregado no interior da África Portuguesa. «Rebulir com o sertão, como dono? Mas o sertão era para, aos poucos
e poucos, se ir obedecendo a ele; não era para à força se compor. Todos
Mais relevante, porém, do que essa engenhosa descoberta é sua que malmontam no sertão só alcançam de reger em rédea por uns
afirmação: «Nenhuma palavra mais ligada à história do Brasil, sobretu- trechos; que sorrateiro o sertão vai virando tigre debaixo da sela. »
do à do Nordeste, do que a palavra sertão. (...) O termo sertão penetra «O sertão é bom. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado... O sertão
fundamente na história e na vida do povo brasileiro. Reflete-se de modo é confusão em grande demasiado sossego... »
extraordinário no seu folclore e na sua literatura, por onde espalha todos «O sertão aceita todos os nomes: aqui é o Gerais, lá é o Chapadão,
os seus derivados. »13. Com efeito, é suficiente lembrar obras de autores lá acolá é a caatinga.»
do passado como o Sertão de Coelho Neto, Pelo Sertão de Afonso Arinos «O sertão não tem janelas nem portas. E a regra é assim: ou senhor
ou Os Sertões de Euclydes da Cunha. É, pois, nessa perspectiva, que o bendito governa o sertão, ou o sertão maldito vos governa... »
reconhece na sua qualidade de lugar privilegiado de nosso imaginário «A esses muito desertos, com gentinha pobrejando. Mas o sertão está
coletivo, que esse termo será aqui considerado. movimentante todo-tempo ‑ salvo que o senhor não vê; é que nem
braços de balança, para enormes efeitos de leves pesos... »
No meu entender, contudo, a melhor elaboração do seu sinuoso
significado existencial e profundo, (que constitui o título e o primeiro «O sertão não chama ninguém às claras; mais, porém, se esconde e
acena. Mas o sertão de repente se estremece debaixo da gente... »
elemento central ‑ o outro é Satã ou o Diabo ‑ dessa obra extraordinária
«Sertão velho de idades. (...) Ali envelhece vento. »
que é Grande Sertão: Veredas), é fornecida mediante uma tessitura
«Sei o grande sertão? Sertão: quem sabe dele é urubu, gavião, gaivota,
em contraponto que se faz aos poucos, lentamente, fio a fio, ao longo
esses pássaros: eles estão sempre no alto, apalpando ares com pendu-
da narrativa, sobretudo pelos recorrentes e renovados comentários de rado pé, com o olhar remedindo a alegria e as misérias todas... »
Riobaldo, dos quais, para não me alongar ainda mais, forneço a seguir «O sertão me produz, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente
apenas pequena amostra: da boca...»
«Sertão. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com «Conheci. Enchi minha história. Até que, nisso, alguém se riu de mim,
astúcia. Deus mesmo quando vier, que venha armado!» como que escutei. O que era um riso escondido, tão exato em mim,
«Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma como o meu mesmo, atabafado. Donde desconfiei. Não pensei no
mais forte do que o poder do lugar. Viver é muito perigoso... » que não queria pensar: e certifiquei que isso era idéia falsa próxima;
«O sertão é do tamanho do mundo.» e, então, eu ia denunciar nome, dar a cita: Satanão! Sujo!...e dele
disse somente – S... – Sertão... Sertão... »14
«Sertão é o penal, criminal. Sertão é onde homem tem de ter a dura
nuca e mão quadrada. » Por certo, uma análise de perfil estrutural e semiológico desse
«Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo.» discurso pleno de filosofia e que se expressa ao gosto popular mediante
«Ah, mas, no centro do sertão, o que é doideira às vezes pode ser a aforismos e parêmias, desvelaria a imensa riqueza desse material. Mas
razão mais certa e de mais juízo.» essa seria outra tarefa. Passo, pois, à parte central de minha exposição.
«Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a ro­
dear o senhor pelos lados. Sertão é quando menos se espera; digo. » 14
Cf.: ROSA, João Guimarães: Grande Sertão: Veredas. (“O diabo na rua, no meio do rede-
moinho...”), 12ª ed.. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978, respectivamente, pp. 17-8, 22, 59,
13
Cf.: BARROSO, Gustavo. «Vida e História da Palavra Sertão», op. cit., 3ª. ed., v. I. For- 86, 121, 217, 218, 260, 284, 343, 370, 374, 391, 395, 410, 435, 443, 448 [trecho grifado
taleza: ABC Editora, 2004, pp. 9-12. por mim].
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II «A terra de esta capitania geralmente he terra fraqua, mas para gados


Imaginário e horizonte cultural dos sertões e criações que para canaviaes e roças e as vezes faltão nelas chuvas,
mas tem muytas partes em que se podem fazer fazendas, ainda que
as agoas são rastras e os matos não são de madeiras tão reais como
os da prahiba, mas não faltam as que oje podem ser necess.as, lenha
«O Sertão é o nervo e o osso do Nordeste. E o Nordeste é o centro do não faltarão nunqua. »16
Brasil. Não podemos nos esquecer que do Nordeste para Minas corre um eixo
que, não por acaso, segue o curso do rio da unidade nacional, o São Francisco. • Na memória escrita em 1816, pelo ouvidor J. A. Rodrigues de
E a esse eixo o Brasil tem de voltar de vez em quando, se não quiser se esquecer Carvalho – atribuída ao coronel de engenheiros português, Antonio José
de que é Brasil. Então o Brasil é o centro do Terceiro Mundo, o Nordeste é o da Silva Paulet –, dentre as razões do definhamento do Ceará ele arrola:
centro do Brasil e o sertão é o centro do Nordeste ».
Ariano SUASSUNA «Devem entrar em linha de conta a preguiça, o prejuizo de não servir
[Entrevista à revista PALAVRA, Ano I, n.º 10, Jan.-Fev. 2000]
homem forro, ainda que seja preto, a facilidade de se manter furtos de
gado, a frequencia de crimes de morte, que perde logo dois homens,
o morto e o agressor, que ordinariamente escapa não só pela fugida
«Há que não esquecer um aspecto tipicamente brasileiro do regionalis- e dificuldade de se apanhar nos longos matos, mas pela indiferença
mo: o sertanismo, a valorização e idealização do sertão e do tipo do sertanejo. com que os habitantes olham para o crime de morte e a prontidão
Desde o movimento romântico, e sucedendo ao indianismo, esse filão atravessa com que acoitam e dão passagem aos criminozos. »17
de ponta a ponta o nosso regionalismo. »
Afrânio COUTINHO [1986: 237] • É interessante assinalar que o futuro senador, José Martiniano de
Alencar – pai do romancista –, quando Presidente da Província (1834-
Acredito que seria boa metodologia, antes de começar a expor
1837), combateu incansavelmente «os facinorosos que infestavam o
meus comentários, proceder a uma espécie de recolha de trechos signifi-
Interior», e procurou «fazer parar a torrente de bárbaros assassinatos
cativos extraídos, sem preocupação de ordem, hierarquia ou cronologia,
que todos os dias sucediam na Capital»18. E George Gardner, ao passar
de várias fontes expressivas da inteligência brasileira em sua errância
por esta província à mesma época, constata: «O puxar da faca é o modo
criativa e em seu confronto com o real, que se vai construindo na medida
usual de liquidar desavenças nesta terra sem lei »19. Eis que sobrava
mesma desse processo modelador de nossa formação sócio-histórica. Vai,
razão a Capistrano de Abreu em sua lúcida observação sobre o crime
pois, a seguir tal analecto a modo de documentário, em seus aspectos
no capítulo sobre o Sertão de sua obra principal: «Ladrão era e ainda
tanto positivos quanto negativos15.
é hoje o mais afrontoso dos epítetos: a vida humana não inspirava o
• Provavelmente o primeiro documento do que viria a ser o Ceará
mesmo acatamento»20.
foi escrito em 1608, pelo missionário padre Luís Figueira, companheiro
de infortúnio do jesuíta Francisco Pinto; ele registra aí as impressões
iniciais sobre os índios deste território e seus costumes. Não obstante, a
terra se mostra melhor na descrição da obra do sargento-mor do Estado 16
Diogo Campos MORENO. «Livro da Rezão do Estado do Brasil», Revista do Instituto do
Ceará, t. 22, 1903, p. 194. [Em transcrição moderna, há edição crítica, com introdução e
do Brasil, Diogo Campos Moreno, escrita em 1612, com base em dados notas de Helio Vianna: Livro que dá Razão do Estado do Brasil. Recife: Arquivo Público
fornecidos pelo governador Diogo de Meneses ou nas cartas enviadas Estadual, 1955, p. 210].
por este ao Rei:
17
«Descripção geographica abreviada da capitania do Ceará», RIC, t. XII, 1989, p. 13.
18
Cf. Paulino NOGUEIRA. «Presidentes do Ceará, 7.º Presidente, José Martiniano de Alen-
car», RIC, t. XIII, 1899, pp. 47-106.
15
Que me seja perdoado o fato de me prender talvez mais à província natal (o Ceará), em 19
Viagens no Brasil. “Brasiliana – 223”. São Paulo: Cia. Edit. Nacional, 1942, p. 146.
virtude de melhor conhecimento que dela possuo. 20
Capítulos de História Colonial, 1500-1800. [1954: 224 – grifado por mim].
80 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 81

• Se passarmos ao século XX, a razão permanece com Capistrano. caminha-se largas horas, dias inteiros sem se ver moradia nem gente
Com efeito, recolho do jornal O POVO, o mais importante do Ceará, duas até ao retiro de João Pereira, guarda avançada daquellas solidões,
home chão e hospitaleiro, que acolhe com carinho o viajante desses
expressivas notícias registradas pelo quotidiano há 80 anos dos dias 14
alongados paramos, offerece-lhe momentaneo agasalho e o provê de
e 20 de janeiro de 1928, respectivamente: matalotagem precisa para alcançar os campos do Miranda e Pequiry,
O banditismo no Ceará ou da Vaccaria e Nioac, no Baixo Paraguay.
Ali começa o sertão chamado bruto21 ».
«Recebemos o seguinte telegrama de Belmonte, em Pernambuco,
assinado por Joaquim Amaro, Francisco Amaro e Amaro Araújo: • Contemporâneo deste, José de Alencar publica em 1875, aos
Apelamos para a imprensa, no sentido de ser feita a defesa das 46 anos, seu romance da maturidade, O Sertanejo22, visto que morreria
propriedades ameaçadas pelo vandalismo do Governo cearense. dois anos depois, a 12 de dezembro de 1877. Conforme ele assinala, a
Estamos refugiados em Pernambuco, para não sermos assassinados narrativa se inicia no “século passado”, a saber, em 1764, nos sertões de
pelos bandidos e sujeitos ao chicote do chefe político do município
Quixeramobim, e de que dou alguns trechos:
de Brejo Santo. O governador do Ceará, Moreira da Rocha, em-
presta todo apoio ao crime, fornecendo força pública e garantindo A força dos potentados do sertão e as lutas de família
a impunidade. »
«Esta imensa campina, que se dilata por horizontes infindos, é o
Açudes que não irrigam
sertão de minha terra natal.
Para quem viaja pelos sertões, depois de escutar os clamores do Aí campeia o destemido vaqueiro cearense, que à unha, de cavalo,
nordeste por açudes e barragens, uma circunstância fere o cearense. acossa o touro indômito no cerrado mais espesso, e o derriba pela
Existem construções levadas a termo, como o reservatório do Cedro cauda com admirável destreza.
e do Riacho do Sangue. Aquelas águas vivem contidas em suas bar- Aí ao morrer do dia, reboa entre os mugidos das reses, a voz saudosa
ragens e servindo a uma área de proporções diminutas. São apenas e plangente do rapaz que abóia o gado para recolher aos currais no
águas mortas acumuladas dentro dos limites de suas barragens, fora tempo da ferra. (...)
dos quais, estende-se o deserto do sertão. [Grifado por mim]. Nessa época o sertão parece a terra combusta do profeta; dir-se-ia
que por aí passou o fogo e consumou toda a verdura, que é o sorriso
• Mas, passemos a fontes mais amenas. Parece emblemático o dos campos e a gala das árvores, ou seu manto, como chamavam
fato de uma das obras mais expressivas de nossa prosa de ficção, já no poeticamente os indígenas. (...)
Apenas ao longe se destaca a folhagem de uma oiticica, de um jua-
“romantismo tardio”, Inocência, do Visconde de Taunay [1872], o seu zeiro ou outra árvore vivaz do sertão, que elevando a sua copa virente
capítulo inicial porte o título que segue e de que reproduzo pequeno por sobre aquela devastação profunda, parece o derradeiro arranco
trecho ilustrativo: da seiva da terra exausta a remontar ao céu. (...)
O sertão e o sertanejo Quem pela primeira vez percorre o sertão nessa quadra, depois de
longa seca, sente confranger-se-lhe a alma até os últimos refolhos em
«Corta extensa e quasi despovoada zona da parte sul-oriental da face dessa inanição da vida, desse imenso holocausto da terra.
vastissima provincia de Matto-Grosso a estrada que da villa de Das correntes caudais restam apenas os leitos estanques, onde não
Sant’Anna do Paranahyba vae ter ai sitio abandonado do Camapo- se percebe mais nem vestígio da água que os assoberbava. Sabe-se
an. Desde aquella povoação, assente proximo ao vertice do angulo que ali houve um rio...
em que confinam os territorios de S. Paulo, Minas-Geraes, Goyaz
e Matto-Grosso até ai rio Sucuriú, affluente do magestoso Paraná, 21
Visconde de TAUNAY. Innocencia, vigesima edição brasileira, illustrada por F. Richter.
isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de leguas, anda-se São Paulo: Melhoramentos, 1936, pp. 1-2.
commodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chega- 22
José de ALENCAR. In Ficção Completa e Outros Escritos, v. III. Biblioteca Luso-Brasi­leira.
das umas ás outras; raream, porém, depois as casas, mais e mais, e Ed. org. com a colaboração de M. Cavalcanti Proença. Rio: Aguilar, 1965, pp. 525-736.
82 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 83

É nos estuários dessas aluviões do inverno, conhecidos com o nome ventura mais absolutos do que esses outros de Europa, suscitados
de várzeas, onde se conserva algum vislumbre, que parece haver de na Média Idade por causas idênticas. Traziam séqüitos numerosos
todo abandonado a terra. Aí se encontram, semeadas pelo campo, de valentões; e entretinham a soldo bandos armados, que em certas
touceiras erriçadas de puas e espinhos em que se entrelaçam os cardos ocasiões tomavam proporções de pequenos exércitos.
e as carnaúbas. Sempre verdes, ainda quando não cai do céu uma só Estes barões sertanejos só nominalmente rendiam preito e home-
gota de orvalho, estas plantas simbolizam no sertão as duas virtudes nagem ao rei de Portugal, seu senhor suserano, cuja autoridade não
cearenses, a sobriedade e a perseverança. [527-530] penetrava no interior senão pelo intermédio deles próprios. Quando
(...) a carta régia ou a provisão do governador levava-lhes títulos e pa-
Datava do fim do século dezessete a primeira fundação da herdade tentes, eles a acatavam; mas se tratava-se de cousa que lhes fosse
ou fazenda, como já então se entrava a chamar esses novos solares desagradável não passava de papel sujo.
que os fidalgos de fortuna iam assentando nas terras de conquista, à Não davam conta de suas ações senão a Deus; e essa mesma era uma
semelhança do que outrora o haviam feito no reino outros aventurei- conta de grão-capitão, como diz o anexim, por tal modo arranjada
ros, também enobrecidos pelo valor e pelas façanhas. (...) com o auxílio do capelão devidamente peitado, que a consciência do
Nessa ocupação do solo, a cobiça de envolta com o orgulho gerou as católico ficava sempre lograda. Exerciam soberanamente o direito
lutas acérrimas e encarniçadas que durante o século dezoito assolaram de vida e de morte, jus vitæ et necis, sobre seus vassalos, os quais
a nascente colônia. eram todos quantos podiam abranger o seu braço forte na imensidade
Entre todas, avulta a guerra de extermínio das duas poderosas famí- daquele sertão. Eram os únicos justiceiros em seus domínios, e pro-
lias dos Montes e Feitosas23, que se acabou pelo aniquilamento da cediam de plano, sumariamente, sem apelo nem agravo, em qualquer
primeira. Desta bárbara contenda ficou sinistra memória não só na das três ordens, a baixa, a média e a alta justiça. Não careciam para
crônica da província, como no escólio de sua topografia. isso de tribunais, nem de ministros e juízes; sua vontade era ao mesmo
(...) tempo a lei e a sentença; bastava o executor.
Os sertanejos ricos daquele tempo eram todos de orgulho desmedi- Tais potentados, nados e crescidos no gozo e prática de um despotismo
do. Habitando um extenso país, de população muito escassa ainda, sem freio, acostumados a ver todas as cabeças curvarem-se ao seu
e composta na maior parte de moradores pobres ou de vagabundos aceno, e a receberem as demonstrações de um acatamento timorato,
de toda a casta, o estímulo da defesa e a importância de sua posição que passava de vassalagem e chegava à superstição, não podiam,
bastariam para gerar neles o instinto do mando [sic], se já não o como bem se compreende, viver em paz senão isolados e tão distantes,
tivessem da natureza. que a arrogância de um não afrontasse o outro» [541-561].
Para segurança da propriedade e também da vida, tinham necessidade
de submeter à sua influência essa plebe altanada ou aventureira que
• Transitemos de imediato para o relato de um acontecimento
o cercava, e de manter no seio dela o respeito e até mesmo o temor.
Assim constituíam-se pelo direito da força uns senhores feudais, por histórico altamente significativo e de valor exemplar. Posto esteja
registrado em documentos arquivísticos e em relatórios científicos,
23
Nota de J. A.: Não falaria o autor dessas lutas, se elas não pertencessem à história. Nessa prefiro dar a palavra a um narrador ficcional, que o narra de modo fiel e
referência não vai, porém, a menor alusão à importante família de Inhamuns. Não é ela saboroso. Domingos Olympio, seu autor, nascido em Sobral em 1850,
responsável por excessos de que outrora acusaram seus parentes; além de que tais excessos
eram próprios do tempo, e piores praticaram na Europa os ascendentes de muitas das tendo aí exercido as funções de promotor público de 1873 a 1878, fora
principais famílias. testemunha ocular da maior seca dos Sertões no século passado (1877-
O autor não podia referir-se senão com simpatia a uma família de que é chefe seu amigo,
o Coronel Joaquim Leopoldino de Araújo Chaves, cujos serviços no tempo da guerra não 1880) ‑ tragédia que esfacelou a economia do semi-árido e da província
foram remunerados nem pelos liberais, seus correligionários, nem pelos conservadores. do Ceará em especial ‑, tomou esse quadro para ambientar a dilacerante
Como ele, foram esquecidos muitos outros comandantes superiores de ambos os partidos,
por terem o pecado original de serem Cearenses. [Observe-se a compreensão objetiva que experiência de seu célebre romance Luzia-Homem [Rio, 1903]. Já quase
expressa José de Alencar a propósito da dura e violenta ordem social do Sertão, bem como no final do livro, Raulino, personagem que é um imoderado contador de
a sua ironia a respeito das discriminações de que já padeciam então seus conterrâneos.
– Nota e grifo meus]. casos, recorda o acontecido:
84 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 85

«‑ Era por volta da era de sessenta. Não me lembro bem o ano; bulir com os outros, dizendo a eles: “Estamos numa terra, onde
só sei que eu era rapazote, pelo tope dos doze. Andava por es- burros sabem mais que astrônomos”. »24
tes sertões uma comissão de doutores, observando o céu com
óculos de alcance, muito complicados, tomando medida das • Mais de um século depois desse fato, uma reportagem do jornal
cidades e povoações e apanhando amostras de pedras, de barro,
ervas e matos, que servem para mezinhas, borboletas, besouros
O POVO, de Fortaleza, 3 de outubro de 1994, período eleitoral, com
e outros bichos. uma grande foto – retratando o ambiente quase inalterável do Sertão
central do Ceará (Várzea Redonda, lugarejo situado na fronteira dos
Os maiorais dessa comissão eram homens de saber, Capanema, municípios de Senador Pompeu e Quixeramobim) e tendo em primeiro
Gonçalves Dias, Gabaglia, um tal de Freire Alemão, e um doutô
médico chamado Lagos e outros. Andavam encourados como nós
plano a figura de um sertanejo típico, sandália japonesa, chapéu de palha
vaqueiros; davam muita esmola e tiravam, de graça, o retrato da sobre a cabeça – trazia a legenda: «Sebastião Genoino, pai do deputado
gente, com uma gerigonça, que parecia arte do demônio. (...). federal José Genoino (PT-SP), segura uma coxa de bode, ao lado do
Uma tarde, chegaram, ao pôr do sol, à fazenda do velho. Iam no seu cão Magro». No texto, uma declaração sua expressa o baixo nível
rumo da gruta do Ubajara. Aboletaram-se no copiar, derrubando de cidadania da maioria do povo brasileiro e o do Sertão em especial:
o comboio, que era um estandarte de malas, instrumentos, es-
«Tem o tal do Lula que o pessoal diz que o cabra é bom, mas aqui nesse
pingardas, na casa dos passageiros. Depois de jantarem um bom
traçalho de carne de vaca gorda que parecia um leitão, assada no fim do mundo a gente nunca sabe direito. É um magote de candidato tão
espeto, algumas lingüiças e um chibarro aferventado com pirão grande que a gente fica meio zonzo, sem saber em quem votar ».
escaldado, armaram as redes nos esteios. Veio a noite, clara como • Por outro lado, num dos capítulos finais de Vidas Secas [1938],
dia, sem uma nuvem no céu, liso como espelho. Convidava mes- intitulado incisiva e sumariamente «Contas», deparamo-nos com esta
mo a gente a dormir na fresca do alpendre. Ali pelas sete horas, situação forte e significativa:
disse a eles o velho: “Achava melhor vossas senhorias passarem «Fabiano recebia na partilha a quarta parte dos bezerros e a terça dos
cá para dentro, porque vem aí um pé-d’água de alagar”. Ora, cabritos. Mas como não tinha roça e apenas se limitava a semear na
os doutores, que sabiam tudo e adivinhavam pelas estrelas as vazante uns punhados de feijão e milho, comia da feira, desfazia-
mudanças de tempo, zombaram do aviso; saíram para o terreiro se dos animais (...). Se pudesse economizar durante alguns meses,
e olharam para o céu, sempre limpo e claro, para verem o que levantaria a cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se
diziam as estrelas. O mais sabido deles, o doutô Capanema, disse trepa. (...). Pouco a pouco o ferro do proprietário queimava os bichos
que o velho estava sonhando com chuva, mania de sertanejos, que de Fabiano. E quando não tinha mais nada para vender, o sertanejo
não pensam noutra coisa. Teimaram em ficar no alpendre, embora
o velho continuasse a assegurar que se arrependeriam. Quando
estavam ferrados no sono, ali pelas onze horas, acordaram debaixo
24
OLYMPIO, Domingos: Luzia-Homem, 4ª edição. São Paulo: Melhoramentos, s/d, pp. 203-
204. Na verdade, ou o próprio romancista ou o editor censurou a fala do sertanejo que
d’água e correram com a rede nas costas, em procura de abrigo hospedou os membros da Comissão Científica de Exploração, pois nos seus relatos cons-
dentro de casa, todos admirados uns dos outros, como haviam ta que o velho dissera que quando seu burro, no cercado, começava a suar os escrotos, era
mangado do velho. De manhã, antes de deixarem o rancho, foram chuva na certa. Essa comissão, que percorrera a província entre 1859 e 1861, num período
agradecer a hospedagem, e um deles perguntou ao velho: “Como de seca, fora nomeada por D. Pedro II e se compunha de alguns dos melhores representan-
tes da inteligência brasileira da época: Antônio GONÇALVES DIAS, que dirigiu a Comis-
é que vossa senhoria percebeu sinais de chuva, que escaparam a são no início, seguindo, seis meses depois, para o Norte, onde realizou trabalhos de etno-
nós outros científicos, envergonhados do quinau de mestre que grafia indígena; Francisco FREIRE ALEMÃO, botânico e médico, que assumiu a direção
nos deu?” O velho sorriu, e respondeu: “É muito simples. Tenho dos trabalhos, recolheu cerca de 14 mil amostras de plantas, que estão no acervo do Museu
ali, no cercado, um burro velho que, quando se está formando Nacional, e publicou A Flora Cearense (1866); Giacomo RAJA GABAGLIA, astrônomo
e geógrafo, que publicou o célebre Ensaio sobre alguns melhoramentos tendentes à pros-
chuva, rincha de certo modo: é aquela certeza. A chuva vem peridade da Província do Ceará (1877); Manuel Ferreira LAGOS, médico e zoologista;
sem demora. Foi por isso que avisei a vossa senhoria”. O tal de Guilherme Schuch de CAPANEMA, engenheiro e físico, que instalou as primeiras estações
Gonçalves Dias, pequenino, muito ladino e esperto, começou a meteorológicas no Brasil; e outros mais.
86 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 87

endividava-se. Ao chegar a partilha, estava encalacrado, e na hora ‑ Patrão, eu não me sujeito. O patrão sabe que eu não enjeito para-
das contas davam-lhe uma ninharia. da: sou um burro de carga. Mas porém, nascer pra estrebaria não
Ora, daquela vez, como das outras, Fabiano ajustou o gado, arrepen- nasci.
deu-se, enfim deixou a transação meio apalavrada e foi consultar a Dagoberto não quis saber de mais nada:
mulher. (...). No dia seguinte Fabiano voltou à cidade, mas ao fechar ‑ Pois, por ali, cabra safado! Você não nasceu pra estrebaria que é de
o negócio, notou que as operações de sinhá Vitória, como de costume, cavalo de sela: nasceu foi pra cangalha!
diferiam das do patrão. Reclamou e obteve a explicação habitual: a Xinane continuou a coçar a cabeça, como se procurasse despertar
diferença era proveniente de juros. uma idéia:
Não se conformou: devia haver engano. Ele era bruto, mas a mulher ‑ A gente bota um quinguingu; quando é agora, o patrão, sem quê
tinha miolo. Com certeza havia um erro... nem mais...
O patrão zangou-se, repeliu a insolência, achou bom que o vaqueiro E, implorativamente:
fosse procurar serviço noutra fazenda. ‑ Quando acaba, foi a canseira arranhando com o caco de enxada.
Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era Patrão, minha rocinha, atrás do rancho! E a rebolada de cana!...
preciso barulho não. Se havia dito palavra à toa, pedia desculpa. ‑ O que está na terra é da terra!
(...) Era essa a fórmula de espoliação sumaríssima.
O amo abrandou, e Fabiano saiu de costas... ‑ Patrão, mande suas ordens. Dá licença que leve os troços?
Olhou as cédulas arrumadas na palma, os níqueis e as pratas, suspirou, E o caboclo saiu, levando os cacarecos num braçado e 400 anos de
mordeu os beiços. Nem lhe restava o direito de protestar. Baixava a servilismo na massa do sangue. »26
crista. Se não baixasse, desocuparia a terra, largar-se-ia com a mulher,
os filhos pequenos e os cacarecos. Para onde? Hem? Tinha para onde • Derradeiro texto para enriquecer a expressividade deste painel
levar a mulher e os meninos? Tinha nada. fragmentado, à guisa de mosaico, de nosso imaginário social do Sertão.
Espalhou a vista pelos quatro cantos. Além dos telhados, que lhe
reduziam o horizonte, a campina se estendia, seca e dura. Lembrou-
Trago aqui a presença de Monteiro Lobato, cujo artigo «Velha Praga»
se da marcha penosa que fizera através dela, com a família, todos [1914] constitui, em sua opinião, “a verdadeira mãe dos Urupês”, livro
esmolambados e famintos... que celebrizou o escritor nacionalmente, e que em suas sucessivas edições
Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que o roubavam. Aparente- o incorporou ao texto, visto que “não era justo separar a mãe do filho”:
mente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao
mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da «Andam todos, em nossa terra, por tal forma estonteados com as
prefeitura. Tudo na verdade era contra ele. Estava acostumado, tinha proezas infernais dos belacíssimos “vons” alemães, que não sobram
a casca grossa, mas às vezes se arreliava. Não havia paciência que olhos para enxergar males caseiros.
suportasse tanta coisa. Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá
fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor
‑ Um dia um homem faz besteira e se desgraça. »25 devasta nossas matas com furor não menos germânico.
Em Agosto, por força do excessivo prolongamento do inverno, “Von
• Dez anos antes [1928], outro romance do mesmo ciclo regiona- Fogo” lambeu montes e vales, sem um momento de tréguas...
lista [José Américo de Almeida: A Bagaceira] nos dá mais um retrato A Serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa, e é
sem retoques dessa mesma ordem social: hoje um cinzeiro imenso, entremeado, aqui e acolá, de manchas de

«Intimado a deixar a palhoça que ajudara a levantar, o caboclo coçou 26


Cf.: 13ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974, pp. 10-11. Um reparo: é óbvio que dizer
a cabeça e correu à casa-grande, com o chapéu debaixo do braço: “na massa do sangue” possui inegável efeito estético e literário, embora redunde em bio-
logizar a questão; qualquer antropólogo ou historiador sabe que se trata aí de códigos so-
cioculturais que regulamentam o ordenamento dessas relações por tanto tempo e nada tem
25
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas, 19ª ed. São Paulo: Martins, 1967, pp. 117-121. a ver com a genética ou o sangue.
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verduras – as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas salvas a estes simples ingredientes o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie
tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais é crepe negro. (...) e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.
Preocupa a nossa gente civilizada o conhecer em quanto fica por Acampam. Em três dias uma choça, que por eufemismo chamam casa,
dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém brota da terra como um urupê. Tiram tudo do lugar, os esteios, os
cuida de calcular os prejuízos de toda sorte provindos de uma as- caibros, as ripas, os barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e
sombrosa queima destas. As velhas camadas de húmus destruídas; a palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas palhoças com a terra
os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, local, que dariam idéia de coisa nascida do chão, por obra espontânea
via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralisado e retro- da natureza – se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias.
gradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de Barreada a casa, pendurado o santo, está lavrada a sentença de morte
pragas insetiformes; os vedos e aramados perdidos; o gado morto daquela paragem. (...) quando o palmito escasseia, rareiam os tiros,
ou depreciado pela falta de pastos; as cento e uma particularidades só a caça grande merecendo sua carga de chumbo; se o palmital se
que dizem respeito a esta ou aquela zona, e, dentro dela, a esta ou extingue, exultam as pacas: está encerrada a estação venatória. Depois
aquela situação agrícola...
ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau.
Isto, bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente, no
Árvores diante de cuja majestosa beleza Ruskin choraria de comoção,
Brasil, subtrai-se; somar ninguém soma... (...)
ele as derriba, impassível, para extrair o mel escondido num oco.
Qual é a causa da renitente calamidade?
Pronto o roçado, e chegado o tempo da queima, entra em função o
É mister um rodeio para chegar lá.
A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, isqueiro. (...) É o fogo de mato. (...)
peculiar ao solo brasileiro... Poderíamos, analogicamente, classifi- Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo?
cá-lo entre as variedades do Porrigo decalvans, o parasita do couro Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva qualquer, de barba
cabeludo produtor da “pelada”, pois que, onde ele assiste, se vai rala, amoitado num litro de terra litigiosa. (...)
despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cinqüenta alqueires de
nua e descalvada. Em quatro anos, a mais ubertosa região se despe terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano.
dos jequitibás magníficos e das perobeiras milenárias, seu orgulho Calcula as sementeiras pelo máximo de sua resistência às privações.
e grandeza, para, em achincalhe crescente, cair em capoeira, passar ...assim fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada, que naquele
desta à humildade da vassourinha e, decaindo sempre, encruar defi- momento brinca nua no terreiro.
nitivamente na desdita do sapezeiro... Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica
Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem a tapera e o sapezeiro. ...o mais se apaga como por encanto. A terra
baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização mas que vive à beira reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma
dela, na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem do Manoel
vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da Peroba, do Chico Maribondo, do Jeca Tatu ou outros sons ignaros,
propriedade, vai ele refugindo, em silêncio, com o seu cachorro, o de dolorosa memória à natureza circunvizinha. »27
seu pilão, a pica-pau e o isqueiro, de modo a conservar-se frontei- Este texto forte de Lobato, fruto da época, merece um reparo: a
riço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para denúncia das queimadas como procedimento agrícola é justa, mas
não adaptar-se. a análise em seus conceitos equivocados vale por uma antologia da
É de vê-lo abordar a um sítio novo para nele armar a sua arapuca mentalidade de nossas camadas dominantes que, ao longo do tempo,
de “agregado”; nômade por força de vagos atavismo, não se liga à produziram a vítima, concebida aqui como criminoso e vadio. Por
terra, como o campônio europeu: “agrega-se”... Vem de um sapezeiro esse tempo, vieram as missões científicas e campanhas sanitárias
para criar outro... que percorreram o País por todos os quadrantes, e nova mentalidade
Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” esposa, esta com um se foi criando, a ponto de já na primeira edição de Urupês [1918],
filhote no útero, outro ao peito, outro à ourela da saia, já de pito na
boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento, Brin-
quinho, a foice, a enxada, a pica-pau, o pilãozinho de sal, a panela de 27
LOBATO, Monteiro. Urupês. Biblioteca de Literatura Brasileira. Introdução de Edgard
barro, o santo encardido, três galinhas pevas e um galo índio. Com Cavalheiro. São Paulo: Martins Editora, 1943, pp. 24-28.
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Monteiro Lobato ter achado por bem inserir esta explicação: «Entra do poder são a violência e o temor generalizados. Em seus demais
neste livro de contos uma caricatura que não o é, “Urupês”. Ela veio caracteres, traz a pecuária extensiva como atividade econômica domi-
solver o tremendo problema batismal. E aqui aproveito o lance para
nante; com suas fazendas, povoados e vilas entremeando raras cidades;
implorar perdão ao pobre Jeca. Eu ignorava que eras assim, meu
Tatu, por motivo de doença. Hoje é com piedade infinita que te en- com sua estratificação polarizada entre potentados (coronéis) e “plebe
cara quem, naquele tempo, só via em ti um mamparreiro de marca. rural”. Formação societária com sua ética da honra, da bravura e da
Perdoas?» [p. 19] vingança; com sua religião sertaneja, herança do catolicismo ibérico
* * * em seu arranjo brasileiro, que incorpora fortes componentes indígenas e
Se Euclydes da Cunha acreditava ter descoberto nos Sertões «o cerne alguns traços de culturas negras; enfim, com seu estilo geral de vida, um
da nacionalidade», Guimarães Rosa, no seu Grande Sertão: Veredas, pro- universo de dominação masculina, cujo grupo doméstico Capistrano
punha-se transfigurar ficcionalmente o conjunto do país, centrando-o nessa de Abreu tomava como modelo para definir genericamente a família bra-
dura realidade do vazio, do desterro, do homizio, da sacrificada experiência sileira, ao afirmar que ela se apóia «num tripé: o pai autoritário, a mãe
sertaneja, que ele tenta exprimir neste termo forte Nonada, o qual condensa submissa e os filhos aterrados». Foi dessa matriz que nasceu o país.
a errância dessa existência coletiva, cujo traço dominante é a transitoriedade Em compensação, o seu imaginário próprio – polarizado entre
e a incompletude, mas que inscreve no tempo histórico sua possibilidade arché e eskaton, rico de festas e rituais, feiras e romarias – comporta um
de rememoração e de esperança da promessa. Já Ariano Suassuna situa no conjunto de representações coletivas e tem suscitado um sem-número de
Sertão toda a sua obra, que constitui o intento de elaborar esteticamente a transfigurações literárias e expressões simbólicas de amplo valor estético,
epopéia de seu imaginário em múltiplas formas expressivas. de que mais recentemente a obra de um Guimarães Rosa é fonte indispen-
Quanto a mim, estou convencido de que toda tentativa de cons- sável e a de Ariano Suassuna é um poço inexaurível. Assim, no imaginário
truir modelos rigorosos para uma realidade complexa tende decerto tanto popular quanto letrado, o Sertão é concebido em geral como uma
a resultar imperfeita, pois, conforme asseverava o jagunço Riobaldo região interior (em oposição ao litoral), de geral criação de gado, desér-
Tatarana, em sua ciência e filosofia: tica e dura, relativamente parada num tempo do passado, e evocada como
locus mais ou menos sagrado, reserva das tradições ancestrais, depósito
«Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza».
cultuado de linguagem e costumes antigos; é o grande mediterrâneo
Tentarei, portanto, esboçar a seguir, a largos traços, o que chamei semi-árido que compreende parte do Maranhão, os estados do Piauí, Ceará
no título: «Gênese do Imaginário Social dos Sertões: entre História & e Rio Grande do Norte, grande parte dos estados da Paraíba, Pernambuco,
Ficção» – retrato sumário da condensação de imagens e representações Alagoas, Sergipe e Bahia, e o norte de Minas Gerais.
acerca dessa realidade multiforme e heteróclita que leva este nome encan- Henry KOSTER, cidadão inglês que viveu em Pernambuco no
tatório, que é sem dúvida uma das matrizes mais fecundas do imaginário início do século XIX, relata longa viagem que empreendeu em exten-
erudito e popular da chamada ‘cultura brasileira’. sa área dos sertões em direção às províncias setentrionais, num livro
Em sua gênese sócio-histórica, a principal área do território na- maravilhoso28 pela riqueza de suas observações e pela descrição dos
cional subsumida mais freqüentemente pelo nome de Sertão constitui
um espaço geográfico e um processo de experiência coletiva de nossa 28
Cf.: KOSTER, Henry: Viagens ao Nordeste do Brasil. (Tradução e notas de L. da Câmara
Cascudo). Col. “Brasiliana” - 221. São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1942. [Edição original:
formação como povo e nação. Esse conjunto gerou a cultura sertaneja Travels in Brazil. London, 1816]. Chamo a atenção para o grave anacronismo cometido por
característica de uma sociedade, que assenta sobre a ordem privada e mestre Cascudo ao alterar o título original dessa obra capital: não existia àquela época esse
conceito de Nordeste, pois tal ‘região’ só vai ser inventada pela inteligência brasileira, em
familiar em seu caráter de instituição axial, com seu sistema de domi- especial a sudestina, entre os anos 20 e 30 do século passado, e Pernambuco e Bahia cons-
nação autoritária e patrimonial, cujo instrumento básico de exercício tituíam legitimamente as mais importantes áreas do que era conhecido então por Brasil.
92 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 93

costumes e da vida das populações rarefeitas que aí habitavam àquela gaceiros que os organizarão em bandos rebeldes, armados, a viver de
época (1810): abandonadas à própria sorte, distantes do controle direto assaltos e a afrontar a força dos “coronéis” e das milícias provinciais e
do aparelho institucional da civilização litorânea, mas próximas da ação polícias estaduais. Essas duas vias eram as únicas opções de saída, que
dominadora dos potentados rurais. se ofereciam às classes subalternas de nossos sertões daquele período.
Com efeito, nas largas extensões do mediterrâneo pastoril, onde a Constituem elas as faces de um mesmo círculo relativamente fechado que
criação extensiva de gado condicionou a forma de ocupação humana, a compõe o universo sertanejo, onde opera portanto uma como dialética
presença do Estado era tênue (exceto sobre a forma do fisco), a Justiça do rifle e do rosário30.
e mesmo a Igreja eram quase ausentes: aí os potentados – senhores de Gostaria de abrir um parêntese aqui para sublinhar o fato de que
gados, terras e gentes – instituíram uma ordem social baseada no seu essa dialética nem sempre tem sido percebida nos estudos de nossos
mandonismo local e na sua autoridade absoluta, assentada sobre a vio- cientistas sociais. Em geral, eles constatam e mencionam com desprezo,
lência e a submissão, ordem social relativamente paralela ao sistema nos movimentos sociais do homem do sertão, a presença de um êthos
oficial, vigente nos centros urbanos e faixas litorâneas. Para tanto, os mais religioso invariavelmente tido como “fanatismo” ou “messianismo”,
poderosos constituíam para si verdadeiros exércitos privados, recrutando porém nenhum chegou a captar com argúcia a sua significação crucial
elementos diretamente entre seus agregados ou entre os sem-terra, e na estruturação sociocultural desse mundo de vida.
acolhendo criminosos comuns, escravos fugidos, índios destribalizados Curiosamente, foi a sensibilidade acurada de alguns dos nossos
etc., conforme ocorreu exemplarmente com a população de Canudos, melhores ficcionistas que logrou compreender seu sentido agonístico. É o
que Euclydes da Cunha descreveu em seu estilo peculiar. caso de um Guimarães Rosa em sua obra maior, Grande Sertão: Veredas,
Tal formação societária gerava uma espécie de permanente es- cuja tessitura elabora talvez o melhor painel dessa dialética, onde Deus
tado de guerra entre os domínios, lutas de famílias ou clãs parentais e o Diabo convivem em íntima simbiose. Mas é o caso também de José
que perduraram durante todo o período colonial, estendendo-se pelo Lins do Rego que, na sua obra dupla e complementar – Pedra Bonita e
Império e ainda na República Velha29. Conflitos perpetuados mediante Cangaceiros –, captura essa tensão entre as duas metas históricas que se
mútua pilhagem, incêndios e destruições; e freqüentes vezes decididos apresentam como saídas à nossa plebe rural. Aliás, José Lins do Rego
pela eliminação recíproca dos adversários. Contudo, podiam ressurgir põe em epígrafe, deste seu segundo romance, esta afirmação que é uma
em novo ciclo, mediante a vingança praticada por seus descendentes. Só síntese luminosa:
muito lentamente a modernização do campo e a introdução de relações de
«Continua a correr neste Cangaceiros o rio da vida que tem as
produção semi-capitalistas foram transformando essa ordem tradicional suas nascentes em meu anterior romance Pedra Bonita. É o sertão
do Sertão, com repercussões ainda tênues na cultura e no imaginário de dos santos e dos cangaceiros, dos que matam e rezam com a mesma
suas camadas populares. crueza e a mesma humanidade. »
Foi, pois, nessa paisagem descrita aqui sumariamente, que surgi-
ram líderes do povo: seja na condição de Profetas, Conselheiros e Beatos, Eis, pois, o retrato reduzido desse território misterioso, encantado
que ocuparão os espaços vazios dessa dura ordem social e mobilizarão e seu tanto indecifrável, suporte do universo mitológico que se exprime
atrás de si as populações sertanejas em busca de formas alternativas de no sonho poético de um Ariano Suassuna, que é provavelmente hoje a
existência, livres da dominação tradicional; seja na de Chefe de can-
30
Em conversa com Ariano Suassuna, este lembrou que existia uma terceira via: tornar-se
cantador ou poeta narrador de romances. Com efeito, existe tal alternativa, porém prefiro
29
Cf.: VIANNA; Oliveira: Instituições Políticas Brasileiras. Rio de Janeiro: J. Olympio, assinalar que apenas alguns poucos membros das classes subalternas escolhiam essa via
1949, p. 223. nos interstícios daquela dialética dominante a que me refiro.
94 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 95

figura mais alta e fecunda da elaboração estética do imaginário social do face de ensaios mais antigos, que é o conhecido Terra de Sol, de Gustavo
Sertão. Sonho poético a que ele se refere com freqüência e a que atribui Barroso [1912], em seu capítulo inicial enfrenta o tema da seca e do in-
ênfase cada vez maior em seus escritos atuais, em seus depoimentos da verno. A historiografia não é menos abundante33, e aqui se destaca a figura
maturidade, como este que cito textualmente: pioneira e generosa de Rodolpho Theophilo, que examinou o assunto
em monografias fundamentais, em artigos e em sua ficção romanesca.
«... sempre fiel àquele sonho da épica pobre, (...) de um espetáculo
total brasileiro, no qual se usassem as máscaras, o canto, a música, Igualmente abundante é a novelística inspirada nas tragédias produzidas
a dança e as roupagens imaginosas dos espetáculos populares. (...) por cada ciclo de penúria das águas na região do semi-árido34 .
Nosso povo, com uma arte estranha e poderosa, sabe criar a beleza Mas como quero evitar o assunto, fecho o parêntese e retomo o fio
até a partir da miséria e consegue manter sua dignidade no meio da da exposição de minha tentativa de caracterização do imaginário desse
maior degradação... São os pobres e belos sonhos do povo, que se espaço humano e social.
veste assim para ter acesso a uma beleza, que, na vida, lhe é injus-
tamente negada... heróis infortunados, anônimos e altivos de uma
Janeiro: Artenova, 1970 (1ª edição: 1937), onde a temática aparece como pano de fundo
epopéia pobre; heróis que, em seu pauperismo descarnado, sofrem, do argumento; o estudo clássico de J. Guimarães DUQUE. Solo e Água no Polígono das
lutam e reagem, e que pelo simples fato de sobreviverem na dureza Secas, Fortaleza: Urânia, 1951; a série de estudos constantes do livro de Pinto de AGUIAR.
e na adversidade, participam da epopéia brasileira que a nossa Arte O Nordeste – o drama das Secas, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983; o estudo de
F. S. NASCIMENTO. Quadrilátero da Seca, 1º vol., Fortaleza: Stylus, 1988; o ensaio de
deve perenizar.»31 Lúcia de Fátima Guerra FERREIRA. Raízes da Indústria da Seca, João Pessoa: Editora da
UFPb, 1993; e, embora fale sobretudo da água, o pano de fundo motivacional é porém a
Abro outro parêntese apenas para aflorar um aspecto da caracteri- seca, no livro de Hypérides Pereira de MACEDO. A Chuva e o Chão na Terra do Sol, São
zação da cultura sertaneja de que venho dando um esboço, aqui, a pouco Paulo: Maltese, 1996; etc.
33
Sem aprofundar este aspecto, o que implicaria em rastrear a significativa soma de estudos
e pouco. Aspecto, aliás, que talvez fosse melhor omitir. Refiro-me a uma que o assunto tem suscitado ao longo do tempo, passando pelas monografias produzidas
associação quase automática que se instituiu entre o grande mediterrâneo pelos membros da Comissão Científica de Exploração (1859-1861) nomeada pelo impera-
dor D. Pedro II para examinar in loco a sua problemática, indico apenas alguns títulos: do
semi-árido e a idéia de seca, invenção do imaginário social brasileiro que mencionado Rodolpho THEOPHILO. História da Seca do Ceará (1877 a 1880), Fortaleza:
se intensifica a partir dos anos 30 do século passado. De fato, é abundante Tipografia do Libertador, 1883; Secas do Ceará (segunda metade do século XIX), Forta-
leza: Ed. L. C. Cholowieçki, 1901; A Seca de 1915, Rio de Janeiro: Imprensa Inglesa, 1922;
a produção simbólica que resulta do imaginário da seca, marca de ferro A Seca de 1919, Rio de Janeiro: Imprensa Inglesa, 1922; tais estudos foram ampliados por
em brasa na alma de seus viventes. Na ensaística, na historiografia, na Joaquim ALVES. História das Secas (Séculos XVII e XIX), Fortaleza: Instituto (Histórico)
do Ceará, 1953; e por Thomas POMPEU SOBRINHO. História das Secas (Século XX),
prosa de ficção, nas crônicas, na poesia, etc., para não citar outras formas Fortaleza: Instituto (Histórico) do Ceará, 1953; e até uma excelente tese de doutorado do
de expressão (cinema, fotografia, artes visuais, teatro, etc.), em geral, é historiador norte-americano, professor da Universidade da Califórnia – San Diego, Roger
L. CUNNIFF. The Great Drought: Northeast Brazil, 1877-1880, Ph.D. Dissertation, Uni-
vasta a manifestação desse imaginário, que se funda numa imaginação versity of Texas, Austin, 1971 (que traz ampla bibliografia sobre o tema); Luciara Silveira
material capturada por nossas pulsões oníricas. A ensaística em torno da de Aragão e FROTA. Documentação oral e a temática da seca: estudos. Brasília: Gráfica
do Senado Federal, 1985; etc. A Universidade de Mossoró tem republicado todos os me-
seca é riquíssima32, bastando lembrar que um dos textos mais recentes, em lhores estudos nessa área ensaística e historiográfica.
34
Aspecto mais conhecido porque marca uma presença forte e constante em nossa tradição
letrada, desde os clássicos – de José do PATROCÍNIO, Os Retirantes (1879); de Domingos
31
Cf.: SUASSUNA, Ariano. «O cinema, o Brasil e eu», BRAVO, Ano II, nº 18, março 1999, OLYMPIO, Luzia-Homem (1882); de Rodolpho THEOPHILO, A Fome (1890); etc. – até
pp. 18-19. obras mais recentes como de Rachel de QUEIROZ, O Quinze (1930), ou o livro definitivo
32
Menciono apenas, a título de ilustração, alguns trabalhos mais significativos: um dos pri- de Graciliano RAMOS, Vidas Secas (1938), etc. Essa produção ficcional tem sido objeto
meiros esforços para uma análise racional do fenômeno e de suas conseqüências sociocul- de estudo de vários ensaios, como o de Hilário Henrique DICK. A Cosmovisão do Roman-
turais é inegavelmente a obra-prima de nossa literatura: Os Sertões de Euclydes da CUNHA; ce Nordestino Moderno, Porto Alegre: Sulina, 1970; e sobretudo Teoberto LANDIM, Seca,
o clássico livro, acima mencionado, de Gustavo BARROSO. Terra de Sol, Fortaleza: Im- a Estação do Inferno, col. Alagadiço Novo, Fortaleza: Casa de José de Alencar – UFC,
prensa Universitária do Ceará, 1962; o célebre livro de José Américo. A Parahyba e os seus 1992; e José Maurício Gomes de ALMEIDA. A Tradição Regionalista no Romance Bra-
Problemas (Parahyba, 1923); o famoso estudo de Josué de CASTRO. Geografia da Fome sileiro, 1875-1945, Rio: Topbooks, 1999 [onde são examinados José de Alencar, Franklin
(São Paulo, 1961); o clássico de Djacir MENEZES. O Outro Nordeste, 2ª edição, Rio de Távora, Visconde de Taunay, Oliveira Paiva, J. Lins do Rego e Graciliano Ramos]; etc.
96 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 97

Portanto, essa tradição, essa região e essa gente, referidas na afir- o risco de ser visto como um deslize na direção da exaltação de uma
mação de Ariano, citada antes, resumem-se sobretudo no que se pode brasilidade antecipada, ele retifica os rumos de sua interpretação por
chamar o povo do Sertão. Território por cuja beleza áspera o narrador meio do parágrafo lapidar com que inicia o longo ensaio deste capítulo,
de Grande Sertão: Veredas demonstra especial predileção em definir impressionante e inédito num texto de história do Brasil, até em seu títu-
sob inúmeras fórmulas, verdadeiros aforismos, como este: «Sertão. lo: «A invasão flamenga constitui mero episódio da ocupação da costa.
O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com astúcia. Deus Deixa-a na sombra a todos os respeitos o povoamento do sertão, iniciado
mesmo quando vier, que venha armado. (...) Ah, mas, no centro do em épocas diversas, de pontos apartados, até formar-se uma corrente
sertão, o que é doideira às vezes pode ser a razão mais certa e de mais interior, mais volumosa e mais fertilizante que o tênue fio litorâneo »
juízo.» [Grifo meu]. [p. 177]. Há décadas, Capistrano pesquisava, meditava e escrevia sobre
Território onde os homens ou são irmãos ou são inimigos, conforme essa conquista, construção e integração do território nacional mediante
assinalava José de Alencar, em seu romance O Sertanejo [1875], de que a devassa dos sertões, das penetrações nos quadrantes mais distantes,
se pode afirmar ser uma das grandes obras primordiais na invenção desse enfim disso que veio a constituir o Brasil. Este livro tem o seu cerne
imaginário. Invenção que, de fragmento em fragmento, vai encontrar em neste capítulo central: o Sertão se constituiu pela expansão de nossas
Os Sertões de Euclydes da Cunha, já no século XX, a primeira tentativa fronteiras internas e externas em suas lutas e sacrifícios: era a metáfora e
de expressão épica [1902], assim como receberá seu estofo mais positivo a realidade que dava sentido à nossa história. É impossível resumir aqui
na obra renovadora de nossa historiografia moderna: Os Capítulos de a riqueza de fatos e de observações vitais desse processo que configurou
História Colonial [1907], de Capistrano de Abreu, onde pela vez primeira nossa singularidade. Este capítulo vale por um tratado geral, inclusive de
o povo surge como protagonista de nossa história e um terço desta obra sociologia de nossas revoltas e rebeliões, uma Suma de nossa gênese. É
fundamental trata da até então desconhecida história do Sertão. preciso lê-lo integralmente inúmeras vezes para desvelar as suas rique-
Com efeito, no meu entender, merece aqui especial destaque o zas e descobrir que desvenda nossas entranhas. Eis por que ao tratar aí,
capítulo nono desta obra, «O Sertão», sem dúvida a mais inovadora longamente, do livro de Antonil, Capistrano nos diz com lucidez a razão
e importante contribuição de Capistrano de Abreu à historiografia na- por que a Metrópole confiscou a obra, não pelo alegado motivo de que
cional35. Atento a que a conclusão do capítulo anterior a este corresse esta divulgava o segredo do Brasil aos estrangeiros; a verdade era outra:
«o livro ensinava o segredo do Brasil aos brasileiros, mostrando toda
35
Wilson MARTINS, em sua consistente História da Inteligência Brasileira, a propósito
a sua possança... » [p. 267 – grifo meu].
dessa temática, menciona o fato de o Visconde de TAUNAY ter intitulado de «O Sertão e Fecho o parêntese capistraneano e retomo fio da reflexão. Con-
o Sertanejo» o primeiro capítulo de Inocência, e que aí «empregava duas palavras que iam forme estava a sublinhar, ao assinalar essas vertentes da cultura e do
reaparecer sucessivas vezes em tantas outras obras marcantes de nossa literatura (de Alen-
car a Euclydes da Cunha, passando por Afonso Arinos e Coelho Neto), além de implantar imaginário sertanejos, de que Suassuna é legítimo herdeiro, pois está
um tema central, talvez o tema central, das nossas meditações sobre o Brasil, e de visceralmente ligado a essa tradição literária, estética e ensaística centra-
estabelecer de uma vez por todas as coordenadas mentais em que desde então passa-
mos a examiná-lo. (...). Essa é a significação essencial de Inocência na história do nosso da nesse espaço matriz de nossa formação: o Sertão semi-árido. Eis por
pensamento literário; acentuemo-lo fortemente, na esperança impossível de prevenir a que, em sua obra, ele lhe atribui dignidade e nobreza, por isso grafa-lhe
perpetuação de lugares-comuns que a encaram como simples novela de ingênuas idealiza-
ções românticas. » [1977, tomo IV, p. 405 – o grifo é meu]. Logo a seguir, em apoio à sua o nome sempre com maiúscula.
tese, ele reproduz ensaio seu anterior em que, estribando-se no que qualifica como o “ati-
lado espírito crítico” de Capistrano de Abreu, analisa longamente a significação cultural
mais densa dessa obra de Taunay, de que destaco este trecho: «Esse livro, lido como se dizia-o, com grande agudeza, o “stendhaliano” Visconde de Taunay: “No meu pensar bem
fosse Paulo e Virgínia, tem em nossa literatura um valor e uma significação diversos dos leal, talvez ingênuo, por isso mesmo, e de bastante modéstia, este romance é a base da
que se atribuem ao de Bernadin de Saint-Pierre. Porque, como dizia Capistrano, ele deve- verdadeira ‘literatura brasileira’.”.» [p. 407]. Além disso, essa temática do Sertão ocupa
ria ter sido o primeiro livro realista e não o último livro romântico; e, antes de Capistrano, também um lugar central na larga ensaística do pensamento brasileiro.
98 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 99

Efetivamente, ao Sertão devemos dois ciclos fundamentais de representações, aspectos físicos, sociais e culturais exóticos e cheios
nossa gênese econômica: o do criatório, sobretudo no grande mediter- de estranha singularidade. Por isso, Eidorfe Moreira já assinalava essa
râneo semi-árido, que tem por espinha dorsal o São Francisco; e o ciclo dimensão, quando dizia:
da mineração, estendendo-se para os gerais e para Oeste. «Há um acento épico e uma ressonância bárbara nesta palavra, onde
Norte e Sul, Litoral e Sertão eram os eixos conceptuais com que a a idéia de aventura paira sobre um fundo ermo e dilatado, um fundo
inteligência brasileira, até recentemente, pensava o Brasil em sua unidade de remota agrestia, que domina e engrandece a impressão do con-
diversificada, construindo assim o espaço semântico da nacionalidade. junto. Se há palavras másculas, independente da simples indicação
gramatical de gênero, esta é uma delas. » [op. cit., p. 8].
E o Sertão é pólo dessa semiologia onde reside a reserva de nossas
tradições mais enraizadas. Ele expressa a nossa permanência histórica, E, de fato, foi o Sertão que propiciou a nota mais típica de nosso
que Euclydes cunhou como «a rocha viva» da nação. Já o Litoral remete processo histórico, conforme assinalou Capistrano de Abreu.
para as influências de fora, para as marcas dos vínculos colonialistas de É a essa intuição da índole épica do Sertão, em Ariano Suassuna,
nossa dependência externa, que perduram ainda hoje numa cultura menos que me refiro agora. Nisso ele se inclui na alta estirpe dos escritores-pro-
peculiar e mais genérica. Ou como afirma Eidorfe Moreira: «Pelo litoral fetas que constroem a arquitetura do epos nacional, como um Euclydes
somos universais; pelo sertão somos nós mesmos»36. Eis a razão por que, da Cunha ou um Guimarães Rosa, dentre outros. Não era, pois, sem razão
em seu Marcha para Oeste, Cassiano Ricardo podia afirmar: «quando que Samuel Putnam, o realizador da clássica tradução de Os Sertões para
a bandeira penetra o sertão termina a história de Portugal e começa a o inglês, considerava esta obra como a epopéia das Américas.
do Brasil.» [Apud MOREIRA, Eidorfe: op. cit., p. 10]. Mas retorno, para concluir, ao Romance d’A Pedra do Reino. Há
Retorno, pois, a Ariano Suassuna. O Sertão é o seu Reino sagrado. nesse livro outra genial intuição de Ariano. O movimento sociorreligio-
Estamos aí em face de uma de suas intuições mais profundas: a digni- so de Pedra Bonita (1835-1838), que lhe serviu de motivação para esta
dade, a nobreza e altivez do povo sertanejo. Ora, todos os reinos e todas obra extraordinária, já suscitou pelo menos três criações literárias que
as dinastias que conhecemos na História são ou nascem de usurpações. tentaram dar conta desse surto sebastianista no Sertão de Pernambuco:
Todos os reinos são igualmente inautênticos ou espúrios, visto serem uma delas, ainda no século XIX, é O Reino Encantado [1878], de Araripe
produtos de pilhagens e atos de violência que instituem uns poucos como Júnior; a outra é o romance Pedra Bonita, de José Lins do Rego; e, enfim,
Senhores e os demais como súditos, sem escolha. Assim, os Reinos ou esta de Ariano. Posto seja bastante original o percurso romanesco e a
Impérios criados por Ariano Suassuna, em especial em seu “romance interpretação que José Lins do Rego elabora em seu livro ao ambientar
armorial-popular brasileiro” ou “novela romançal”, são tão ou mais a narrativa no século XX, dessas três obras, porém, inegavelmente, é
legítimos, e se geraram de seu fraternal e fecundo imaginário. a de Suassuna a mais rica e mais lúcida. Com efeito, a construção da
Identifico outra intuição fecunda de Ariano Suassuna na insistência dinastia de que provém o seu herói, Quaderna, constitui uma invenção
com que assinala seu sonho poético de realizar uma Epopéia do Sertão mitopoética genial na medida em que revela o sentido de continuidade
– que de fato ele já logrou em sua obra-prima que é o Romance D’A das lutas do povo brasileiro, apesar das fraturas da história positiva,
Pedra do Reino. Com efeito, parece legítimo afirmar que não há um sentido que vem expresso metaforicamente desde o complemento de seu
epos urbano, mas seguramente este existe na gênese do Sertão. Aliás, título: O Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta. O leitor que conseguir uma
sob o véu simples desse termo dissimula-se um universo de imagens e comunhão com o espírito dessa obra, saberá por certo quem é o Príncipe
de que aí se fala.
36
MOREIRA, Eidorfe: Sertão: a palavra e a imagem, 57 pp., vol. I de Obras Reunidas de
Finalmente, apesar de seu estilo narrativo mais alegórico, há um
Eidorfe Moreira (8 vols.). Belém: CEJUP, 1959, p. 9. inelutável tom guerreiro, transfigurado esteticamente, que atravessa todo
100 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Gênese do imaginário social dos sertões: 101

o seu enredo, sublinhando seu aspecto épico. Outro de seus traços cruciais ALENCAR, José de:
reside em sua cosmovisão entranhadamente monárquica37, não de fato 1965 O Sertanejo, in Ficção Completa e Outros Escritos, v. III. Rio de
como opção política, mas antes como recurso estético de nobilitação e Janeiro: Aguilar, pp. 525-736.
grandeza dos humilhados e ofendidos do Sertão. Já o evidente acento ANDRADE, F. Alves:
picaresco que acompanha toda a intriga é antes, no meu entender, uma 1973 Ensaios de Sociologia Rural. (I – Jeca Tatu de Monteiro Lobato &
espécie de ironia socrática de que se serve seu autor para desvelar sua Mané Xiquexique de Ildefonso Albano; II – Lições de Agronomia
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37
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teratura popolare del Nordeste del Brasile. Napoli: Liguori Editore. Romance armorial-popular brasileiro. Nota de Rachel de Queiroz e
PEREIRA, Nuno Marques: Posfácio de Maximiano Campos. Rio de Janeiro: J. Olympio.
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106 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Senado do Império:dao Prainha,
“Seminário senador uma
Alencar
outrae Fortaleza:”
o Ceará 107

Romance armorial e novela romançal brasileira. Estudo de Idelette “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza”:
Muzart Fonseca dos Santos. Rio de Janeiro: J. Olympio.
1994 a Aula Magna. João Pessoa: Editora da UFPB.
um velho tema numa nova opção metodológica
1994b Fernando e Isaura. Recife: Edições Bagaço.
1999 «A fonte de Euclydes: José de Alencar inspirou o criador de Os Sertões»,
BRAVO, Ano II, n.º 16, pp. 25-26. Gisafran Nazareno Mota Jucá*
1999 «O cinema, o Brasil e eu», BRAVO, Ano II, n.º 18, pp. 18-19.
2000 «Entrevista», PALAVRA, Ano I, n.º 10, Jan.-Fev., pp. 1-11.
TAUNAY, (Visconde de) Alfredo d’Escragnolle:
1 Considerações preliminares
1936 Innocencia, 20a edição brasileira, 57º. a 61º. milheiros. Illustrada por
F. Richter. São Paulo: Editora Comp. Melhoramentos.
VASSALO, Lígia:
1993 O Sertão Medieval. Origens européias do teatro de Ariano Suassuna.
O novo e o velho, apesar de serem considerados como conceitos
antagônicos, não se distanciam nas experiências vivenciadas em dife-
Rio de Janeiro: Livr. Francisco Alves.
rentes momentos da história, seja nos grandes eventos consagrados pela
VENTURA, Roberto tradição ou mesmo nas experiências cotidianas. O hoje existe como uma
1998 «Visões do deserto: selva e sertão em Euclydes da Cunha», História, continuidade do ontem e o amanhã, muitas vezes idealizado tal qual uma
Ciências, Saúde: Manguinhos, vol. V – Suplemento, julho. Rio de negação do passado, nada mais é do que uma manifestação da dinâmica
Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, pp. 133-147.
da história, sempre apoiada em uma contínua mutabilidade.
2001 «Os Sertões entre dois centenários», in MADEIRA, Angélica e O tripé deste continuum histórico, emoldurado pela relação que
VELOSO, Mariza (orgs.): Descobertas do Brasil. Brasília: EdUnB,
não consegue afastar o passado do presente, mesmo quando se superva-
pp.109-123.
loriza o amanhã, na expectativa de superar as frustrações enfrentadas,
ZILLY, Berthold:
nem sempre é aceito de bom grado, pois a ânsia de superar os impasses
1993 «A Guerra de Canudos e o Imaginário da Sociedade Sertaneja em Os
sofridos alimenta o sonho de apagar as manchas negras do passado no
Sertões, de Euclydes da Cunha. Da Crônica à Ficção », in CHIAPIN-
NI, Ligia e AGUIAR, Flavio Wolf de (orgs.): Literatura e História na
enlevo de perspectivas novas, que possam ser a realização dos anseios
América Latina. S. Paulo: Edusp, pp. 37-47. [Segue-se debate, pp. surgidos. Nesse enlace que resiste às rupturas registradas e almeja dias
59-73]. melhores, percebe-se que o futuro não apenas “a Deus pertence,” uma
vez que se revela como um resultado do que se viveu em diferentes
espaços sociais.
O confronto entre o idealizado e o realizado sempre atraiu a atenção
dos estudiosos, em diferentes momentos da história, gerando conceitos
reveladores na tentativa de ruptura com o passado, fruto do anseio de me-
lhorias almejadas. Como exemplo desse comentário, observe-se o alcance
do termo modernização, expresso através dos discursos e revelado nas

* Sócio efetivo do Instituto do Ceará.


108 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 109

experiências, sempre configurado como um antônimo do que o precedeu. Por isso, não foi apenas a escassez de documentos disponíveis que
Modernização/Modernidade ou mesmo Pós-Modernidade são conceitos me levou a optar pela história oral, como metodologia básica da temática
utilizados na tentativa de uma melhor compreensão dos constantes con- explorada. A priori, muitas são as razões, que podem ser apresentadas
trastes, sempre presentes ao longo das experiências humanas, mas que para desmerecer a validade de um estudo, embasado em depoimentos
nem sempre traduzem, a contento, o sentido da pluralidade dos símbolos orais, como produção histórica, pois sempre se aponta uma exigência
e das ações, que se revelam em cada momento da ação humana. consagrada pela tradição: a necessária distância temporal entre o pesqui-
Tal assertiva se cristalizou ao longo dos diferentes períodos da sador e a temática escolhida. Entretanto, como nada é eterno na história
história e essa relação nos remete ao complexo tripé, sempre presente nas e “tudo o que é sólido se desmancha no ar”, o importante é fundamentar
análises históricas realizadas, onde o ontem, o hoje e o amanhã, apesar das a proposta metodológica escolhida, revelando outras proposições de
propostas almejadas de romper com o passado, permanecem associados, trabalho, que demonstrem a sua validade.
por mais tênues que sejam os fios que os associam. Desse modo, “... o Como reforço à inovação metodológica adotada, é bom não esque-
passado pesa tão severamente sobre o presente e o futuro, que esses dois cer que na antiguidade, as principais informações obtidas não advinham
últimos domínios do tempo raramente têm sentido sem ele.”1 exclusivamente dos manuscritos disponíveis. O próprio “Pai da História”,
Os comentários, acima apresentados, almejam revelar o nexo que Heródoto, usou como fontes reveladoras das temáticas, por ele descritas,
aproxima diferentes maneiras de escrever história, apesar das sólidas além dos poucos documentos disponíveis, os depoimentos e as tradições
barreiras, moldadas nos discursos acadêmicos, que objetivam delimitar orais, na busca da almejada “verdade histórica”. E ao longo da história,
o antagonismo entre o legado positivista e “os novos temas e as novas dos trovadores medievais aos narradores de épocas posteriores, a tradi-
abordagens” do conhecimento histórico. ção oral propiciou a análise de diferentes temáticas, que permitiam uma
Após a palestra que proferi, no Instituto do Ceará, a respeito do melhor compreensão das experiências históricas.
desenvolvimento do meu estágio de pós-doutorado, cujo projeto de Conforme nos esclarece o conhecido historiador Paul Thompson,
pesquisa, baseado na metodologia da história oral e voltado à “micro-
O uso difundido da expressão “história oral” é novo, tanto quanto o
história”urbana, intitula-se “Seminário da Prainha: uma outra Fortaleza,”2 gravador; e tem implicações radicais para o futuro. Isto não significa
ouvi um comentário de um dos seus membros, a respeito da profundidade que ela não tenha um passado. Na verdade, a história oral é tão antiga
de um trabalho de pesquisa sobre história urbana, que acabara de ler. Nele, quanto a própria história. Ela foi a primeira espécie de história.3
o seu autor, um arquiteto baiano, demonstrava maturidade profissional,
ao explorar a riqueza das fontes documentais, que conseguira selecionar. A exposição, acima apresentada, não foi elaborada com o intuito
Mais importante do que novas propostas teórico-metodológicas se lhe de estabelecer fronteiras entre a produção historiográfica tradicional e os
afigurava a fidelidade aos documentos consultados. novos recursos metodológicos explorados, que demonstram o seu alcance
Sem desmerecer o significado do trabalho referenciado, considero com a produção proveniente dos cursos de pós-graduação em História,
mais importante respeitar a diversidade de opções metodológicas, que em diferentes universidades do país. O nosso propósito é apontar os la-
pode ser demonstrada, sobre temas antes considerados inexpressivos. ços que aproximam a velha tradição historiográfica das novas propostas
de estudo e, para tanto, basta indicar a validade da narrativa como uma
1
GADDIS, John Lewis. Paisagens da História: como os historiadores mapeiam o passado. forma de melhor explicar as experiências históricas.
Rio de Janeiro: Campus, 2003. p.161 1
2
O projeto foi desenvolvido com o apoio do CNPq, no período de 01.10.2006 a 01.10.2007,
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, onde passamos dois meses,
sob a orientação da Professora Dra. Sandra Jatahy Pesavento, uma das pesquisadoras pio- 3
Cf. THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
neiras no estudo da história cultural, no Brasil. 1992. p. 45.
110 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 111

2 História, memória e narrativa As primeiras leituras que me levaram a perceber a referência entre
Memória e História, deixaram-me confuso, uma vez que ambas
eram consideradas importantes ao trabalho do historiador, na relação
Na busca de uma explicação dos temas selecionados, se a fron-
entre passado e presente, mas a cautela em referenciá-las, ou mesmo
teira e a dinâmica da História e da Memória propiciam subsídios, que defini-las, é como se na verdade entre elas existisse uma fronteira
servem de pano de fundo à temática estudada, elas também podem se explícita, que não deveria ser ultrapassada sem a devida cautela do
revelar como barreiras que impossibilitam a probabilidade de uma melhor pesquisador.4
compreensão do passado. O impasse surgido ou superado dependerá da
A relação entre Memória e História já foi apresentada de forma
disponibilidade do pesquisador em aceitar as transformações nas análises
convincente, por Pierre Nora5 e não pretendemos apenas repetir o que foi
conceituais e nas práticas metodológicas, que possibilitem uma maneira
dito, mas explorar as possibilidades advindas com as inovações concei-
nova de compreender a história.
tuais e metodológicas, que nos fazem ver que “... a história e a memória
A relação entre Memória e História me remete à própria formação
como, apesar de distintas, mantendo significativas intersecções.”6
profissional. Afinal, para quem se licenciou em História, no final dos anos
Com o avanço de uma nova proposta de análise histórica, a partir
sessenta, do século passado, a verdade histórica permanecia enraizada
do surgimento da revista Annales, em 1929, que tinha como meta ul-
apenas nos documentos oficiais. Era preciso ir à cata de documentos iné-
trapassar os limites metodológicos deixados pela tradição da chamada
ditos, para tornar viável a apresentação de um trabalho original, missão
“história positivista”, durante muito tempo a narrativa histórica foi con-
reservada a poucos profissionais.
siderada como resquício de um legado histórico, que devia ser superado.
Por isso, o próprio trabalho semestral, que o aluno devia elaborar,
Entretanto, se analisarmos a produção historiográfica, em diferentes
para cada disciplina cursada, além das duas provas subjetivas, embora
momentos de sua trajetória, constata-se a presença contínua da narrativa
fosse idealizado como uma forma de despertar o senso analítico de cada
como forma expressiva de demonstrar o conteúdo estudado.
aluno, dificilmente essa meta era atingida. O mais fácil era copiar textos
Nas últimas décadas, com a manifestação de outras propostas
dos livros disponíveis, condimentando o conteúdo do maior número das
metodológicas, como a chamada “Micro-História”, surgida na Itália,7 a
páginas escritas, com citações do autor ou dos autores consultados.
narrativa é retomada na produção histórica como uma forma reveladora
Tal modelo de produção acadêmica intitulava-se “Nota de Trabalho
de compreensão das temáticas selecionadas, desde que seja demonstrada
Individual”, (N.T.I.), que na linguagem reveladora dos alunos era defini-
a capacidade analítica do autor dos relatos apresentados.
do como “Nada Tinha Imaginado”. A missão do aluno era reproduzir o
O nosso propósito de estudar o Seminário da Prainha se apóia
que foi dito e pouco se produzia, pois o objetivo primordial dos cursos
numa opção metodológica, voltada à “micro-história urbana”, associada
de História era preparar professores de História, “doadores de aulas”,
à “Memória Social”, na tentativa de superar os limites metodológicos
não pesquisadores, personagens raros no cotidiano das Faculdades de
Filosofia.
Até mesmo os jornais, fonte valiosa para compreensão dos mo- 4
JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. A oralidade dos velhos na polifonia urbana. Fortaleza:
mentos históricos selecionados, ainda eram classificados, por diversos Imprensa Universitária, 2003. p.27-28.
pesquisadores, como fontes suspeitas, pois demonstravam o conflito 5
Cf. NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. In: Projeto e
História, n.10. São Paulo: PUC, 1993. p,7-24.
das subjetividades, apresentadas nas reportagens e nos seus editoriais 6
MONTENEGRO, Antonio Torres. História oral e memória: a cultura popular revisitada.
ou artigos. São Paulo: Contexto, 1991. p.17-18.
7
Para melhor compreensão do significado dessa vertente historiográfica, vide LIMA, Henri-
que Espada, A Micro-história italiana: escalas, indícios e singularidades. Rio de Janeiro:
Por isso, Civilização Brasileira, 2006.
112 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 113

mantidos, pela tradição acadêmica, que supervalorizava as fontes escritas confiou aos padres lazaristas a missão de formar os futuros sacerdotes
e limitava a possibilidade de compreensão do histórico do Seminário da da Diocese, há pouco implantada em nosso Estado.10
Prainha, exclusivamente à História da Educação. Daí por que intitulamos O Seminário como “Outra Fortaleza”,
É óbvio que os temas relacionados à referida Instituição se inserem situando-o, historicamente, como uma representação da estratégia pas-
nesse campo de pesquisa, dedicado à Educação, ou mesmo à História toral da Igreja, para enfrentar a temida “laicização” e a difusão das idéias
Religiosa, mas considerando a viabilidade de compreensão proporciona- racionalistas na sociedade da época.
da pela chamada “interdisciplinaridade” e/ou “transdisciplinaridade,” a O segundo momento ocorreu em 1963, quando os Padres Laza-
análise histórica se apresenta mais reveladora, graças ao apoio conceitual ristas entregaram a direção do seminário à Arquidiocese de Fortaleza,
de outras áreas das Ciências Humanas, como a Antropologia ou mesmo exatamente quando faltava apenas um ano para as comemorações do
a Psicologia.8 seu centenário.
Tal possibilidade não constitui uma negação dos princípios de Para adentrar os corredores simbólicos da centenária Instituição, a
fundamentação do saber histórico? A nosso ver, o chamado “hibridismo fonte valiosa foi a narrativa, como forma de expressão da memória social.
cultural” não é um habitus dos tempos pós-modernos, pois ele pode ser As narrativas selecionadas associam experiências de vida dos depoentes,
detectado na produção de “autores clássicos,” tanto em âmbito interna- memórias individuais, às ações sociais partilhadas em comunidades,
cional quanto na produção historiográfica brasileira.9 memória social, relativas ao período de internato por que passaram os
Cientes do alcance revelador da chamada “história oral”, realiza- depoentes selecionados.
mos 53 entrevistas, relativas à História do Seminário da Prainha, com O critério de escolha desses não se deveu apenas à oportunidade
dois Arcebispos, alguns Bispos, Reitores, Padres, Sacerdotes que desis- e possibilidade de entrevistá-los, mas os selecionamos considerando a
tiram da vida eclesiástica e se casaram, Ex-Seminaristas, alguns nossos época, em que foram internos. Portanto, o fator idade serviu de parâmetro
colegas, pois também fui aluno do Seminário, onde ingressei aos onze para listar três tipos de depoentes: 1. Ex-Reitores ou Professores do Semi-
anos de idade e saí aos dezessete. nário, alguns deles Arcebispos ou Bispos; 2. Padres e “Ex-padres” [esta
Nessa perspectiva metodológica, o objetivo almejado se volta à última denominação não aceita por muitos padres, pois eles permanecem
compreensão de dois momentos especiais da história urbana de Fortaleza, sacerdos in aeternum...], com 70 ou mais anos; 3. Ex-seminaristas, na
envoltos no histórico do Seminário. O primeiro relaciona-se à instala- minha faixa de idade, de 50 anos em diante.
ção dessa Instituição, em 1864, quando o primeiro Bispo do Ceará, D.
Luiz Antônio dos Santos, que assumira Diocese de Fortaleza, em 1861,
10
Dos poucos trabalhos publicados sobre o Seminário, destacamos: ANDRADE, F.Alves de.
O Seminário de Fortaleza e a Cultura Cearense. Revista do Instituto do Ceará, t.XXXIX,
ano XXXIX, Ed. do Instituto do Ceará, 1967; LIMA, Francisco. O Seminário da Prainha.
Fortaleza: BNB, 1982. Na produção acadêmica, cf. COSTA FILHO, Luiz Moreira da.
8
Várias as obras que contêm análises sobre tais conceitos, em caráter introdutório, vide A Inserção do Seminário Episcopal de Fortaleza na Romanização do Ceará. (1864-1912).
SOUZA, Ielbo M. Lobo de & FOLLMANN, José Ivo. Transdisciplinaridade e Universi- Fortaleza, 2004. Dissertação de Mestrado. Centro de Humanidades da Universidade Fede-
dade: uma proposta em construção. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2003. Como demons- ral do Ceará e um artigo, de nossa autoria: JUCÁ, Gisafran Nazareno Mota. Na trilha das
tração da validade de uma aproximação entre Psicologia e Análise Histórica, cf. SANTOS, fontes, Relativas ao Seminário da Prainha, a Descoberta das Dimensões da Oralidade in
Nádia Maria Weber. “Capítulo 1: As representações simbólicas e o Inconsciente nas Ciên- Humanidades e Ciências Sociais, vol.2, n.2, 2000. p. 35-42. A respeito da ação da Igreja
cias Humanas”. In _____.Histórias de vidas ausentes: a tênue fronteira entre a saúde e a Católica do Ceará e sobre o processo de “romanização,” vide REIS, Edilberto Cavalcante.
doença mental. Passo Fundo: Editora da Universidade de Passo Fundo, 2005. p.39-71. Pro Animarum Salute: a Diocese do Ceará como “vitrine da romanização no Brasil.(1853-
9
Sobre o significado da produção de intelectuais de renome, no campo das Ciências Humanas, 1912). Rio de Janeiro, 2000. Dissertação de Mestrado – Instituto de Filosofia e Ciências
seja em âmbito internacional ou mesmo nacional, como Arnold Toynbee e Gilberto Freyre, Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro. PINHEIRO, Francisco José. O Proces-
considerados pioneiros nessa “hibridização”, vide BURKE, Peter. Hibridismo cultural. São so de Romanização do Ceará. In: SOUSA, Simone (Coord.) História do Ceará. Fortaleza:
Leopoldo: Editora Unisinos, 2006, em especial p.18-20. UFC/Fundação Demócrito Rocha/Stylus Comunicações,1989.
114 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 115

A narrativa, como é do conhecimento geral, sempre acompanhou observações pessoais de cada um dos entrevistados. O que para alguns
a produção histórica, embora nem sempre tenha sido reconhecida como possuía um significado especial, para outros adquiria um sentido dife-
importante. Graças à procura de “novas abordagens”, a dimensão da rente, revelando o filtro da subjetividade que dá uma conotação peculiar
narrativa foi redescoberta a partir das últimas décadas do século passado. à maneira de observar a ação relembrada.
Dessa forma, a força da oralidade se afigura como um canal transmissor Como exemplo das contradições observadas, me vem à mente à
de preciosas informações, não apenas complementares, mas que reve- ação dos Padres Lazaristas, responsáveis durante quase um século pela
lam aspectos nem sempre contidos nas fontes escritas. Através, além da direção do Seminário, ou mesmo dos Padres seculares que participa-
simples informação transmitida, brota algo do “inconsciente individual” vam das atividades docentes. Para muitos dos depoentes, as referências
ou mesmo do “inconsciente coletivo”. 11 apresentadas sobre eles expressam, além do senso de responsabilidade,
De forma pragmática, a sutileza da narrativa nos remete a informes o rigor disciplinar, a severa vigilância dispensada aos que lhes eram
reveladores de aspectos ao mais das vezes esquecidos ou silenciados pelos confiados.
autores de obras escritas, elaboradas com todo esmero, sempre manifesto Na opinião do Professor Luiz Dias Rodrigues, o Luizito,
por profissionais da história. Mas a possibilidade de mergulhar no fluxo
Gostei muito dos Lazaristas. Havia muita gente boa, como o Padre
da história, sem a intenção de desmerecer as fontes escritas, torna-se mais Tomé Verman, uma das melhores recordações. Competente, culto.
dinâmica através do conteúdo coletado ao longo das entrevistas, pois a O próprio Padre Paulo Almeida, que era disciplinário, que o pessoal
narrativa, além de informar sobre a experiência individual do depoente, achava assim meio rígido, mas eu me dava bem com ele. Gostava
nos remete à ação coletiva, a uma história plural. O “renascimento da muito dele, que gostava muito de música, sabia muita música.13
narrativa” veio suprir o reducionismo e o determinismo de proposições,
Para o Professor Francisco Camelo Nogueira,
que fluíam do esmero acadêmico em fundamentar teoricamente a análise
histórica.12 Os professores do Seminário eram os Padres Lazaristas. Uma Ordem
fundada por São Vicente de Paula para formar seminaristas, prepara-
dos para o sacerdócio e entre eles havia alguns holandeses, como o
3 A revelação parcial de alguns dos vários Padre Tomé Verman. Além dos holandeses, havia um francês, o padre
depoimentos coletados Pierre Zinguerlet. A grande maioria eram professores. O Padre Gu-
mercindo Sampaio, professor de latim, mas muito duro, muito duro.
Ao longo das entrevistas realizadas, muitas das referências apre- Dava aula com um palitinho na boca, mordia assim o palito na ponta...
sentadas me faziam pensar nas lembranças pessoais, sobre a minha estada mas brincava muito com os morenos. Segundo ele, “Nego em pé é
um toco, deitado é um coxo! “ Coxo de botar comida para porco.Se
no Seminário da Prainha, que sempre me acompanhou ao longo dos anos.
fosse hoje ele ia ser preso...Pois bem, dos Lazaristas havia dois aqui
Diferentes momentos indicados ou comentados me faziam pensar nas do Ceará... o Padre Luz, o grande... Foi Diretor do curso de Letras,
experiências vividas no cotidiano do sistema de internato. na Federal, naquele tempo era curso, naquele tempo ainda não havia
É bem verdade que sempre há algo comum nos diversos informes o centro de Humanidades. Eu fiz Letras na Federal e quando entrei
das entrevistas, embora permaneça, em cada uma delas, a marca das o Diretor era o Padre Luz. Além do Padre Luz, havia outro lazarista
cearense, o Padre Arruda, de Baturité. O comendador Arruda era tio
dele..ou parente próximo. Os outros lazaristas eram todos mineiros,
11
Vide JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, formados no Seminário do Caraça. Havia também alguns padres
2006, e, em especial, o capítulo “Confronto com o Inconsciente”. p.205-237.
12
Vide BURKE, Peter. A História dos acontecimentos e o renascimento da narrativa. In:___
A escrita da História: novas perspectivas. São Paulo: Ed. da Universidade Estadual Pau-
lista, 1992. p. 332 e 339. 13
Entrevista realizada com o Professor Luiz Dias Rodrigues, “o Luizito”, em 25 nov. 2006.
116 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 117

diocesanos, como o Padre José Nilson, que ainda hoje é vigário do saudade de casa. Mas, lentamente no ambiente do seminário a gente
Mucuripe. Era professor de português...o pessoal hoje condena que foi se acostumando, foi se amoldando e isso foi sendo superado. A
eles não tinham metodologia, mas eles faziam o que podiam...Sim, gente tinha tudo no Seminário, não faltava nada. De modo que, de
o Padre Tomé era um grande historiador. Você chegou a conhecer certa maneira havia um ambiente para acomodação.
o Padre Tomé? Padre Tomé, história da igreja, história universal:
- “Nasce Roma, nasce Cartago, cresce Roma, cresce Cartago. Essas E acrescenta:
duas potências chocar-se-ão.”14
Bem, o Seminário era uma casa em regime fechado. Então, prati-
Ao longo dos depoimentos, percebe-se que a maioria dos ex-alunos camente a gente vivia para fazer duas coisas: estudar e rezar e nas
horas vagas um pouco de lazer, um lazer também só interno, sem
do Seminário o reconhece como um modelo de Instituição Educa­cional,
muitos atrativos, aliás, a própria época não permitia muito isso. ...
não apenas no Ceará, mas em âmbito regional. Tal reconhecimento é Para mim, essa disciplina era terrível, eu me sentia realmente muito
plausível, pois até meados do século passado, poucos eram os Colégios preso. Tinha que acordar cedinho todo dia. Eu tinha ódio a acordar
Públicos, inclusive em Fortaleza, como o tradicional Liceu. Portanto, de madrugadas, às cinco, cinco e trinta, da manhã. Depois, passar
estudar era privilégio dos filhos de “conceituadas famílias”, pois poucos duas horas rezando na Igreja. A gente ia fazer a oração da manhã,
eram os que podiam arcar com as despesas de manutenção de um filho, rezava o terço, assistia missa, tinha mais um tempo de ação de graça
e só depois é que ia tomar o café. Eu passava o tempo mais só pen-
longe do domicílio, numa época em que a maioria da população ainda sando na hora de tomar o café, uma fome danada, em jejum ainda.
se concentrava nas cidades ou fazendas do interior. De modo que, realmente, para quem era menino, um menino que
Por isso, estudar no Seminário era garantia de um futuro profis- ainda estava abrindo-se para a vida e querendo se divertir, brincar,
sional, fosse como sacerdote, ou em outras funções de destaque, como uma disciplina rígida dessa era realmente muito pesada, era odiosa.
professor ou funcionário público federal ou do Banco do Brasil, privilégio Eu acho que a grande falha daquela educação era nivelar adulto e
criança com a mesma disciplina. Todos eram iguais, todo mundo se
de poucos. A linguagem popular bem traduzia “a lei da compensação”,
levantava na mesma hora, deitava na mesma hora, tinha as mesmas
usufruída por pais de famílias, que tinham a chance de ter um filho no obrigações. De modo que eu acho que isso era uma coisa muito
Banco do Brasil (BB), era “bem-aventurado quem não tinha dinheiro, pesada era uma agressão a nossa infância. Praticamente eu perdi a
mas podia depositar um filho no BB.” minha infância.15
Mesmo que a auréola modelar, atribuída ao Seminário, se confi-
gurasse como expressão do senso comum, na maioria das entrevistas, As razões do ingresso de várias crianças, no Seminário, em sua
também observamos, em algumas delas, comentários críticos a respeito maioria são explicadas como provenientes da influência recebida, através
das limitações, presentes nas atividades repressivas do sistema disciplinar da ação pastoral de vigários, na sede das paróquias sob suas responsabi-
adotado na Prainha. lidades ou mesmo em capelas, a elas subordinadas. A catequese, etapa
Para o Professor Lauro Nogueira Sá Mota, preparatória para o recebimento da primeira comunhão, é considerada
uma data significativa, preservada na memória, que remonta à primeira
O regime de internato, para mim, foi uma coisa muito dura. Eu era década existencial.
muito apegado a minha mãe, a minha família e ser separado, assim Entretanto, se analisarmos com atenção as informações disponí-
de repente, causou um impacto muito grande em mim. De modo que
sofri muito, chorava muito no Seminário, nos primeiros dias, sau-
veis, tão forte quanto à marca deixada pelos párocos, no cotidiano infantil,
dades de casa...Houve uma época em que eu quase não agüentava a foi a influência exercida pela mãe, pois foi ela que determinou muitas das

14
Entrevista concedida pelo Professor Francisco Camelo Nogueira. 15
Entrevista com o Professor Lauro Nogueira Sá Mota, realizada em 16 de mar. 2000.
118 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 119

escolhas dos filhos, pela vida sacerdotal. A proteção materna, estratégica no receio de perder um possível apoio nas suas atividades profissionais,
na vigilância da formação dos filhos, divisava na carreira sacerdotal uma das quais retirava o seu sustento. Afinal, um filho homem simbolizava a
oportunidade de manter a pureza infantil dos “chamados por Deus”, como garantia de continuidade do trabalho paterno, e a perpetuação da ascen-
uma dádiva, capaz de superar a “depravação dos costumes”, expressão dência familiar, inclusive configurada na manutenção do nome familiar,
definidora do receio constante de enfrentar a insegurança presente nas pois o espaço reservado às filhas restringia-se às atividades domésticas.
relações sociais. Conforme o Padre José Nilson,
Embora o critério de escolha do “eleito” variasse, de família a fa-
De princípio meu pai fez restrição, mas quando ele viu que eu tinha
mília, sempre a ação materna pesava, muitas vezes com o apoio paterno, a idéia fixa, afirmou: “Está certo, você vai, só peço uma coisa, seja
na garantia de propiciar ao filho indicado uma vida dedicada à ação re- um padre sério. É isso apenas que eu quero”. E eu procurei a minha
dentora dos “poucos escolhidos, entre os muitos convocados”. Observe-se vida toda cumprir a orientação, o conselho dele. Tanto ele quanto
a justificativa apresentada pelo Professor João Salmito Neto: minha mãe me davam apoio. E penso que, na medida do possível,
eu cumpri a promessa que eu fiz a eles.
Eu morava no interior, em São Benedito, meus pais eram muito reli-
giosos, iam à missa quase todo dia, rezavam o terço diariamente e eu Embora a maioria dos entrevistados indicasse o peso da influência
fiquei, assim, muito encantado, pensando na vida religiosa e pensei familiar ou do vigário na tomada de decisão ao ingresso no Seminário,
em ser padre; foi isso, foi a vivência religiosa da família. Meu pai era pelo menos um dos depoentes apresentou uma causa diferente, gerada
muito caridoso. Aos domingos eu ía à missa com ele, depois da missa
pelas circunstâncias familiares, embora ele tenha assumido, de forma
a gente ia visitar as velhinhas, deixar uma esmola, deixar uma sopa,
ia à cadeia, na prática com obras de misericórdia, porque ele era um espontânea, a possibilidade de dedicar-se ao sacerdócio. Anos depois,
católico muito praticante, então me influenciou muito.16 mesmo com a desistência de muitos dos seus colegas de Seminário, das
funções eclesiásticas, e permaneceu como padre, apesar das mudanças
Para explicar o fator determinante do seu ingresso no Seminário, registradas na Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II. Apesar dos
o Professor Raimundo de Assis Holanda ressalta a formação religiosa de novos rumos pastorais, tomados pela Santa Sé, a partir de João Paulo II,
seus pais, mas o passo decisivo foi dado graças ao amparo materno: considerado moderno nas suas constantes apresentações públicas e na
Lá em casa a gente tinha o hábito de ir à missa, embora a missa nessa sua maneira de falar, consagrada nas comunicações apresentadas pela
época, em Pindoretama, era só uma vez no mês. Nos segundos domin- televisão, mas avesso a muitas das proposições inovadoras, adotadas
gos de cada mês. Depois foi sendo mais freqüente, mas na Igrejinha pelo clero, antes do seu pontificado, ele continua dedicado ao sacerdócio.
todas as noites havia o terço e eu sempre gostava de participar desses Segundo Ele, Padre Albani Linhares: O que me levou ao seminário?
momentos e também uns primos meus, que já estavam no Seminário. Meu pai não tinha dinheiro para eu estudar e o negócio era botar no
Isso me foi dando interesse de ingressar no Seminário. Embora meu
Seminário, porque ia estudar de graça.
pai não quisesse que eu ingressasse no Seminário, minha mãe me
incentivou e eu mesmo quis. Eu lembro o momento em que eu chorei, Se fôssemos utilizar todas as entrevistas efetuadas, ao longo da
porque papai disse que eu não ia para o Seminário, mas realmente pesquisa que se estendeu num período de doze meses, ou pelo menos
eu queria ingressar no Seminário... explorar a maioria delas, vários seriam os temas revelados, que muitas
vezes se entrelaçam pelo teor do conteúdo transmitido. São informa-
Talvez essa reação paterna, em não incentivar o desejo de um filho ções sobre as condições de vida em um internato, reveladoras desde as
de ingressar no sistema de formação eclesiástica, tivesse as suas razões modalidades de ensino, que variavam em cada período letivo ou mesmo
de professor a professor, ao habitual horário reservado à preparação das
16
Entrevista realizada com o Professor João Salmito Neto, em 08 de nov. 2006. aulas e aos exercícios programados.
120 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 121

Dessas atividades escolares, no primeiro ano ginasial, a mais O chamado “Seminário Menor”, de seis anos de duração - quatro
incômoda era a elaboração das “cópias” impostas pelo Pe. Gumercindo equivalentes ao antigo curso ginasial e mais dois, o quinto e sexto anos,
Sampaio, nas suas exigências de memorização das regras gramaticais que por sinal não correspondiam à duração dos Cursos Científicos ou
do Latim, do saber declinar corretamente qui, quae, quod, o futuro do Clássicos, ministrados nos colégios laicos – era dividido em “Grandes”
pretérito de algum verbo irregular ou ainda para sanar os erros imponde- e “Menores.” Sendo a idade o critério dessa divisão estabelecida, quase
rados na escrita de palavras da “Língua Mater”. Quem errasse na resposta nada mudava, no regime disciplinar, apenas parte dos espaços ocupados
a qualquer uma das perguntas, que o “Magister” do latim dirigia aos pelos seus componentes eram divididos: o dormitório, o galpão de recreio
alunos, nas temidas aulas, esse estaria sujeito a escrever trinta ou mais e o salão de estudos. Os demais espaços, como a Capela ou mesmo o
cópias, dependendo do estado de espírito do exigente Mestre. E quando Refeitório, todos abrigava, havendo apenas uma divisória estabelecida,
ele observa a imponência de um aluno, que trazia um dicionário para sem fronteiras fixas, mas apenas determinadas pelas recomendações
a sala de aula, na busca de um reconhecimento do professor, a reação anunciadas e mantidas pelas vigilâncias constantes.
expressava o seu modo irônico de comentar acerca das banalidades Explicar a instalação do Seminário da Prainha não constituiu uma
cotidianas: “quanto maior a carga, maior o burro”. tarefa difícil, pois a longa duração do processo histórico e a intensa pro-
A permanência no salão de estudo, também conhecido como “o dução historiográfica sobre o significado do século XIX, no “processo
silêncio,” onde se preenchia o tempo anterior e equivalente a cada aula, civilizador”, já nos foi revelado, não apenas no campo historiográfico,
ou seja, duas vezes pela manhã e duas à tarde, pois eram ministradas duas mas em diferentes canteiros das ciências humanas, como na Sociologia,
aulas no período matutino e duas no vespertino. Ainda havia o horário na Antropologia e na Filosofia. E cada vez mais as interpretações histó-
noturno, após o recreio, quando o sono pesava mais que o conteúdo das ricas se apropriam de conceitos provenientes de outros campos do saber,
leituras recomendadas pelo professor de português ou de outra disciplina, tornando viável a sonhada “interdisciplinaridade”, expressa na própria
que exigisse o “decoreba”. Os passos vagarosos de um “colega regente”, produção divulgada que nos remete a viabilidade de uma perspectiva
por entre as “carteiras de estudo”, como responsável pela manutenção da maior, revelada na “transdisciplinaridade”
disciplina, decisiva na nota de comportamento, que pesava no boletim Entretanto, o pano de fundo do tópico final do meu trabalho,
final de cada semestre. E nota baixa em comportamento era tão peri- sobre a Prainha, ainda se me afigura nebuloso, pois se fácil foi coletar
gosa quanto uma reprovação em latim ou português: “levar bomba em as explicações acerca da instalação de uma outra Fortaleza, a procura
alguma disciplina” tornava o aluno em réu, sujeito a chacotas, além da de argumentos convincentes acerca do declínio da Instituição como
humilhação pública, registrada quando da leitura das notas semestrais grande templo educacional do Ceará me deixa circundado por várias
feitas pelo “Padre Prefeito”17 em uma mesa instalada no chamado “palco indagações: o que teria determinado a saída dos Lazaristas da direção
do recreio” ante um público atento, composto pelos colegas alunos ou dessa Instituição?
mesmo alguns dos professores. À primeira vista uma resposta fácil de ser apontada se apóia no
reconhecimento consensual das mudanças provenientes das decisões do
Vaticano II. Mas outras razões se afiguram na análise histórica, afinal
17
O Padre Reitor, responsável pela direção do Seminário, contava com o apoio de dois não é somente um evento que provoca rupturas súbitas ou inesperadas na
auxiliares diretos, o “Padre Prefeito do Maior”, envolvendo os alunos dos cursos de dinâmica das mudanças registradas. É bem verdade que os anos sessenta
Teologia e de Filosofia e o “Padre Prefeito do Menor”, responsável pelos alunos do
primeiro ao sexto anos e que tinha como seus auxiliares diretos os “regente”, seminaris- foram consagrados, como uma década de “rebeldia e contestação.” Indi-
tas indicados pela vigilância disciplinar e pela condução das “filas”, destinadas a qualquer cativas mudanças comportamentais repercutiram em diferentes países,
atividade programada: a missa, na capela, o roteiro do recreio ao salão de estudos ou ao
refeitório, etc... como reflexos da eclosão da “contracultura”, configurada na Era de
122 Revista do Instituto do Ceará - 2007 “Seminário da Prainha, uma outra Fortaleza:” 123

Aquarius ou na Nação Woodstock”. E principalmente o maio de 1968 uma velha estrutura ética e disciplinar, cujas raízes remontam ao Concílio
foi concebido como “... um dos derradeiros suspiros da modernidade e de Trento. Entretanto, a insatisfação surgida entre os seminaristas do
os primeiros passos do que se chamou pós-moderno.”18 Maior e também do Menor, o desejo de substituir o velho pelo novo, na
Entretanto, o pano de fundo sociocultural do Nordeste brasileiro ânsia de romper com o passado, mais do que um reflexo das mudanças
se constituía apenas como uma projeção dos cenários europeu ou norte- externas não seria um prenúncio do declínio de um velho modelo educa-
americano? Se a modernidade do pós-guerra ultrapassara a fronteira do cional, uma implosão do legado “tridentino?” A busca dessa explicação
atlântico, a chamada pós-modernidade tornava-se evidente numa região, nos estimula a aprofundar nossa proposta de estudo sobre o velho casarão
onde apenas as propostas modernizadoras da Sudene davam seus primei- da Prainha, “uma outra Fortaleza”.
ros passos? A proclamação do sonho da indústria, como consolidação do
progresso, em alto e bom tom, se fazia ouvir nos discursos políticos dos
principais líderes ou nos efusivos falatórios em vésperas de eleição. Mas
o velho modelo persistia na paisagem urbana, em muitos dos hábitos e
costumes de ver e agir e nas manifestações culturais, dentro e fora das
academias.
Uma análise retrospectiva sobre o curso da história nos revela, por
trás das barreiras simbólicas, incrustadas no fosso ideológico das tradi-
ções explicativas, espontâneas ou institucionais, muitas vezes simplistas,
que as mudanças, os reflexos das transformações históricas, não são frutos
de eclosões momentâneas, mas emergem de tempos anteriores.
A própria idéia de modernidade, muitas vezes centrada na con-
temporaneidade, ultrapassa tal limitação cronológica, remetendo-nos a
épocas anteriores. Nessa perspectiva, uma compreensão das vias e desvios
da trajetória histórica, à luz da interpretação filosófica, emana de profis-
sionais da Filosofia, que indicam e diferenciam experiências humanas,
aproximativas do ontem ao hoje, que não podem ser desconectadas.
Nessa perspectiva, fica explícito que ”o fim do teológico-ético,”
“a humanização ou a laicização da própria religião,” enfim, a chamada
“descristianização,” embora consolidada nos dias atuais, remonta a épo-
cas anteriores e abalam a manutenção dos dogmatismos.19
É certo que no início dos anos sessenta, as experiências de ensino
e de formação, moldadas no Seminário da Prainha, ainda se atrelavam a
18
Cf. TOURRAINE, Alain apud PAES, Maria Helena Simões. A década de 60: rebeldia,
contestação e repressão política. São Paulo: Editora Ática, 1992, p.30.
19
Cf. FERRY, Luc. O Homem Deus, ou, o Sentido da Vida. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.
Segundo o autor, “Desde Nietzsche, ou mesmo desde a filosofia das ‘Luzes’, com sua
crítica da superstição, quantidade de análises consideraram o nascimento do universo de-
mocrático efeito de uma ruptura com a religião” (p.32).
124 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 125

Nordeste: a moldagem ideológica


da questão regional

Rejane Vasconcelos Accioly de Carvalho*

Introdução

P arto do pressuposto de que algumas condições sociohistóricas


são importantes para o entendimento do processo de construção ideoló-
gica do Nordeste como Questão Regional, e entre elas destaco:
a) a existência de uma camada ou elite social que controla a orga-
nização de um espaço social de produção que por apresentar particulari-
dades econômicas, sociais e políticas possibilita que se auto-reconheça
e seja reconhecido como tendo uma identidade própria, contraposta a
de outras regiões do país;
b) que a diversidade de “regiões” se inscreva dentro de um territó-
rio unificado por um Estado Nacional suficientemente forte e centralizado
para articular e interferir suas ações em diferentes espaços regionais;
c) que se configure historicamente uma situação de crise que
afete a preservação dos padrões de organização produtiva e domínio
vigente em uma Região desencadeando assim a reação das elites amea­
çadas que passam a reivindicar a intervenção do Estado Nacional, de
modo a defender os interesses regionais dos quais se apresentam como
representantes.
Assim definida, a ideologia regionalista refere-se à visão da classe
dominante sobre a Questão Regional que incorpora simultaneamente o
reconhecimento da “crise” de reprodução do espaço de seu domínio e
a busca de mecanismos que possam neutralizar os fatores de ruptura.
Um elemento básico da ideologia é o ocultamento do conflito de classes

*
Sócia efetiva do Instituto do Ceará.
126 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 127

intra-regional substituído pelo conflito inter-regional, sendo as medidas estabelecida entre Questão Social do Brasil e a Questão Nordeste, permite
corretivas invocadas pelas elites feitas em nome do povo qualificado por entender porque na década de 1970 ocorre uma ruralização do discurso
sua regionalidade (nordestino). oficial sobre desenvolvimento nordestino e uma conseqüente definição
Essas considerações introdutórias são necessárias à explicitação do cunho estritamente regional dos projetos de Reforma Agrária.
dos objetivos principais deste texto: A não concretização dos sonhos de justiça social nos sertões nordes-
1 - Destacar a importância assumida pela estrutura de posse da tinos via Reforma Agrária não podem assim ser atribuídos ao imobi1ismo
terra na configuração do Nordeste como Região, tomando por referência do Estado. Sua intervenção no meio rural do Nordeste foi efetiva, embora
o conceito de Francisco de Oliveira: a ambigüidade de combinar políticas de incentivos á modernização dos
latifúndios tradicionais como programas de Reforma Agrária em áreas
Uma região é o espaço onde se imbricam dialeticamente uma forma
especial de reprodução do capital e por conseqüência uma forma restritas, longe de trazer soluções para a questão social, tenderam a agra­­­vá-la,
especial de luta de classes, onde o econômico e o político se fundem com a aceleração da corrosão da economia tradicional das “fazendas” que
e assumem uma forma especial de aparecer no produto social e nos se esvaziavam dos antigos “trabalhadores moradores”.
pressupostos da reposição.1 A pretendida metamorfose dos latifúndios em empresas rurais
nos sertões semi-áridos do Nordeste foi uma equação mal resolvida. A
2 - Analisar a conjuntura política em que a questão da terra e
expansão da pecuária por supostas “empresas rurais” não incorporou
as propostas de Reforma Agrária e de Programas de Apoio a Pequena
ganhos de produtividade significativos que justificassem a conversão
Produção Familiar emergem no debate sobre o Nordeste como Região
completa do trabalho em mercadoria, re-editando com freqüência velhas
Problema. Quando se fala em “problema” tem-se que definir para quem
fórmulas não capitalistas de redução dos custos monetários de produção
e porque algo se constitui um problema, para então entendermos a natu-
via apropriação do “trabalho morto”. As pastagens artificiais circunscre-
reza e os limites das soluções propostas. Vale ressaltar que o problema
viam-se às áreas úmidas (vazantes) próximas aos açudes.
da terra e as propostas de Reforma Agrária nas décadas de 1950 -1960,
O enfraquecimento dos mecanismos tradicionais de controle
não foram levantados pelas elites regionais e sim pelas forças populares
político e ideológico das massas rurais sertanejas que ganham maior vi-
que se articulavam no seio do próprio Estado através do pacto populista.
sibilidade na década de 1980 é indissociável do processo de degradação
O debate foi gerado não no ventre da ideologia regionalista e sim no do
das condições de reprodução dos parceiros e moradores. A outra face da
nacional-desenvolvimentismo. A Questão Regional transfigurava-se em
crise revela-se na emergência de novos atores políticos no sertão, que
“subdesenvolvimento regional” e as soluções incorporam medidas de
organizados em Comunidades de Base e em sindicatos passam a lutar
integração do arcaico ao desenvolvido, segundo o receituário das teorias
por “direitos”, legalmente definidos no Estatuto da Terra no que se refere
dualistas da modernização dominantes no cenário intelectual da América
à repartição da renda da terra entre “parceiros” e proprietários, afetando
Latina no período citado;
as bases tradicionais da economia sertaneja. Pretendemos enfocar alguns
3 – Analisar a centralidade das representações sobre a estrutura
impasses das alternativas de políticas Regionais de Desenvolvimento
arcaica dos latifúndios tradicionais na configuração das políticas de de-
acionadas nas duas décadas de governos militares pós–1964, que se
senvolvimento acionadas pelos governos militares pós-64 como formas
manifestaram de forma mais nítida na conjuntura de mobilização dos
de equacionamento da Questão Regional Nordestina. Como a temática da
trabalhadores rurais que ficou conhecida como “lutas pelos direitos”.2
Reforma Agrária foi retomada pelos governos militares? A equivalência
2
Sobre o assunto ver textos da autora “ Seca e Mobilização Camponesa: a atuação dos sindicatos”,
1
OLIVEIRA, Francisco. Elegia para uma Região. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2. ed. 1977, e “ Pequenos Produtores Rurais do Nordeste: mobilização pelos direitos”, ambos publicados no
pág. 29. Cadernos do CEAS, respectivamente nos números 86 e 87, Salvador, 1980 e 1983.
128 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 129

O controle sobre as terras e os homens: as bases rurais da externo e a grande propriedade como base territorial que possibilitava o
regionalidade nordestina recurso de expansão não por aumento de produtividade, mas principal-
mente pelo acréscimo de terra e trabalho (crescimento extensivo).
Embora a colonização do Brasil pelo capital mercantil no século Francisco de Oliveira ressalta inclusive que as exigências técnicas
XVI tenha se iniciado no litoral nordestino através do mais bem sucedido da agroindústria do açúcar de maior capitalização e divisão de trabalho no
empreendimento agroindustrial da época, representado pelo complexo interior das atividades agrícolas e industriais significavam uma “vocação”
açucareiro cuja dinâmica se irradiou na constituição de outros “Nordes- maior para o aburguesamento do que a registrada na cafeicultura.
tes” que lhe eram subsidiários (caso do Nordeste sertanejo dos currais Como entender, então, que o Centro Sul tenha se convertido na
de gado e agricultura de subsistência), somente ao final do século XIX região onde o ciclo da acumulação ganha uma nova dinâmica, comandada
os historiadores registram a emergência de um discurso regionalista. pelo capital industrial e subordinadora dos demais espaços?
A “crise” da economia açucareira não seria suficiente para explicar As explicações sobre o processo de diferenciação regional remetem
este fato, pois que desde o segundo quartel do século XVII e durante a dois argumentos referentes à estruturação da agricultura:
todo o século seguinte, em razão da perda do monopólio açucareiro, O primeiro relativo aos mecanismos de defesa dos espaços pro-
determinado pela concorrência da produção das Antilhas, os preços do dutivos do Nordeste acionados nos momentos de decréscimo dos preços
açúcar foram drasticamente reduzidos. A este fator tem-se que acrescentar dos seus produtos no mercado externo e que implicavam em reduzir os
a reordenação da economia do Brasil cujo pólo dinâmico se desloca para custos monetários da produção pelo deslocamento de parte do trabalho
uma outra região, a cafeicultora, localizada no Centro-Sul, estabelecendo e das terras das culturas comerciais para atividades de subsistência.
os parâmetros em que a noção de identidade regional se estabelecesse: Entretanto os mecanismos que preservaram quase intacta a estrutura
reconhecer-se e ser reconhecido pelo outro por suas diferenças. socioeconômica canavieira durante mais de um século de crises atuaram
como barreiras à transformações modernizadoras da economia canavieira
A ideologia regionalista tal como surge é portanto a reprodução da
nordestina. Isto porque a inibição do vigor do fluxo de renda monetária
crise na organização do espaço do grupo que a elabora. Uma fração
açucareira da classe dominante brasileira em vias de subordinação a tem como conseqüência uma estrutura social extremamente rudimentar,
uma outra fração comercial (comercial cafeeira) se percebe no seu locus com regressão da divisão do trabalho que se resume basicamente aos
de produção e no relacionamento deste locus com outros espaços de fazendeiros e a seus “moradores”, frustrando a consolidação de um
produção, de forma predominante aquele da fração hegemônica.3 mercado interno que dinamize a economia.
O “Nordeste” pecuário, que surge como apêndice da zona cana­
Nossa intenção é destacar a importância do monopólio da terra
vieira, nomeado por Djacir Menezes como “O Outro Nordeste”4, o
na construção das diferenças regionais e na evolução das formas de
da secas e dos coronéis. Sem dúvida o monopólio da terra nos sertões
representação da questão nordestina
oferece o suporte material do controle político sobre os homens que se
A rigor em sua fase inicial o pólo cafeicultor não se configurava
converte em formas de coerção extra-econômica, típicas das relações
como “região” já que partilhava características comuns com a dinâmica
servis tomadas como marca regional do “coronelismo” ao Nordeste
do processo de acumulação do Nordeste canavieiro: controle do conjunto
sertanejo. A estreita renda monetária advinda da comercialização de
das atividades produtivas exercido pelo capital comercial; uso de relações
animais, insulada em uma economia de subsistência implica em uma
escravagistas para produção de mercadorias endereçadas ao mercado
4
O termo foi cunhado pelo sociólogo cearense, Djacir de Lima Menezes, em obra de sua
3
Silveira, Rosa Maria. Godoy. O regionalismo nordestino. S. Pau1o, Ed. Moderna, 1984, autoria intitulada O Outro Nordeste: formação social do Nordeste pastoril. Rio de Janeiro:
pág. 17. José Olímpio, 1937.
130 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 131

economia de expansão meramente vegetativa, com reduzida base de cativa de trabalho das fazendas. O latifúndio nordestino gera dentro de
acumulação de riquezas. si um “campesinato” desprovido de terras e de “direitos”. Com índices
O acréscimo do algodão como produto mercadoria recorta um de produtividade desiguais e principalmente com diferentes processos
novo espaço regional nos sertões que reforça o esquema tradicional de de reprodução, podia-se falar então, em uma economia nordestina. As
acumulação em que os roçados de milho e feijão dos parceiros e ren- atividades industriais que se expandem no período, fins do século XIX
deiros atuam como fundo de “financiamento” dos produtos mercadoria até 1960, conservam-se dependentes da base rural.
(gado e algodão). A “ideologia regionalista” articulada pelas elites invoca ao
A “renda da terra” constituía-se assim um componente básico Estado medidas de proteção da região cujas conseqüências são contradi-
na renda total dos fazendeiros. É neste sentido que Francisco de Oli- tórias: se por um lado resguardam as bases oligárquicas do poder local,
veira afirma que no século XVI o “Outro Nordeste” impõe suas leis de expressam a perda de sua hegemonia em âmbito nacional Os exemplos
reprodução à zona açucareira decadente pela reedição de semelhantes clássicos da atuação do Estado no Nordeste anteriores à década de 1960
relações de produção, baseados na extração de sobre produto de que são refletem esta ambigüidade.
exemplos as diferentes expressões de acumulação primitiva sob forma A economia açucareira nordestina que já perdera no século XVII a
de “renda da terra”. hegemonia no mercado internacional perde no século XX para o Centro-
Quando os roçados deixam de assumir funções subsidiárias ou Sul também a hegemonia no mercado interno nacional que já em 1901
complementares para situar-se no interior do próprio processo de acu- era responsável por 60% da produção de açúcar do país.
mulação, o Nordeste passa a ser reconhecido como Nordeste das secas No início da década de 1930 as medidas adotadas pelo Instituto
e dos coronéis. do Açúcar e do Álcool (IAA) para proteger a tradicional agroindústria
A região cafeeira embora tendo sua produção realizada (transfor- açucareira do Nordeste da concorrência das usinas do Sudeste, condu-
mada em dinheiro no comércio externo) não percorreu o caminho da ziram a uma divisão do mercado nacional do açúcar entre os diversos
involução registrado no Nordeste. Por circunstâncias ligadas ao próprio Estados produtores, através do estabelecimento de políticas de “cotas”
momento histórico de sua expansão, em que se consolidava o Estado e de preços mínimos para o produto que garantisse a realização do lucro
Nacional, foi possível através da internalização do excedente auferido na dos produtores do Nordeste cujos índices de produtividade eram mais
atividade mercantil diversificar suas atividades e construir mecanismos baixos. Desse modo a “proteção” aos produtores marginais convertia-
endógenos de acumulação de riquezas que propiciaram a inversão do se em lucro adicional para os mais eficientes. O setor agroindustrial do
padrão original de acumulação: a indústria deixa de ser um subproduto da Nordeste restringia suas reivindicações a revisões periódicas dos preços
agricultura para configurar-se como elemento determinante da dinâmica do açúcar, sem despender investimentos significativos no sentido de
da economia do Sudeste. sua modernização. Desse modo pode-se concluir que o mecanismo de
O segundo argumento ressalta os diferentes efeitos da elimina- proteção do IAA contribuiu na verdade para acelerar a capitalização do
ção das relações escravagistas sobre os espaços regionais, atuaram no setor açucareiro no Sudeste ao mesmo tempo em que eram preservadas
sentido de consolidar o processo de processo de diferenciação regional as mesmas condições de reprodução da economia açucareira do Nor­
em curso. deste. Também a intervenção do Instituto Federal de Obras Contra a
Enquanto no Centro-Sul a impossibilidade do uso do trabalho Seca - IFOCS(19l9) posteriormente DNOCS, capturado- pelos interes-
escravo conduzia a progressiva monetarização do pagamento da força ses da oligarquia do Nordeste algodoeiro pecuário não poderia, como
de trabalho, na agricultura no Nordeste, ao contrário, os escravos eram afirma Francisco de Oliveira, ter outro destino senão o de realimentar
convertidos em moradores rendeiros, constituindo-se assim a reserva sua estrutura arcaica:
132 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 133

A construção de açudes e barragens expandia a pecuária dos grandes já garantidos aos trabalhadores urbanos pela legislação trabalhista ou a
e médios fazendeiros e contribuía para reforçar a existência do fundo conquista da condição de proprietário.
de acumulação próprio dessa estrutura representado pelas culturas
Para Aspásia Camargo6 a tentativa de Vargas de completar o ciclo
de subsistência dos moradores, meieiros, parceiros e pequenos
sitiantes.5 populista, cuja primeira fase foi a integração da classe operária à órbita
do Estado através da legislação trabalhista e controle sindical, com
A irrigação em larga escala, condição indispensável à moderniza- uma outra fase de integração de uma numerosa e diversificada massa
ção da estrutura produtiva dos sertões, apesar de constar dos objetivos de trabalhadores rurais aguçou contradições sociais que inviabilizaram
da instituição, não foi implementada. No âmbito do mercado nacional seu projeto político.
também o algodão do Nordeste deixa de ter peso econômico relevante, Entretanto as iniciativas de reforma agrária na década de 1950 que
embora se conserve como componente importante na renda global dos partiam do Executivo com envio de projetos de lei ao Congresso que
fazendeiros, principalmente por seu uso como pastagem para o gado. resistia em aprová-los, tinham raízes em movimentos sociais camponeses,
As secas constituíam-se momentos privilegiados para o fortale- de modo especial da zona açucareira no Nordeste. O governo captava os
cimento econômico e político das oligarquias sertanejas através da apli- sinais de mobilização política dos trabalhadores rurais traduzindo-os ao
cação de verbas do Estado que financiavam a retenção da mão de obra seu próprio código, o populismo, “antevendo a possibilidade de atrair a
que se ocupava da implantação de benfeitorias nas grandes propriedades massa rural mobilizada para a órbita do governo, criando novas e sólidas
sob dupla justificativa: assistir aos flagelados, e tornar a Região mais bases entre o líder e as massas” 7.
resistente às secas. A ofensiva do executivo que, desde Vargas até João Goulart,
apregoava em suas mensagens o combate ao latifúndio improdutivo e
Da ideologia regionalista à desenvolvimentista: a redefinição formulava projetos de reforma, contrapunha-se a resistência do Con-
do estatuto da reforma agrária gresso, sede das representações regionais. O núcleo dos debates do
período era a alteração do artigo 141, parágrafo 16, da Constituição,
A hipótese proposta é que a ideologia regionalista não poderia que condicionava a desapropriação por interesse social à prévia e justa
gerar o questionamento da estrutura agrária e conseqüentemente pro- indenização em dinheiro, considerado incompatível com um programa
postas reformistas já que isto significaria a negação das próprias bases mais amplo de Reforma Agrária.
de reprodução do poder das oligarquias regionais (monopólio da terra É em uma conjuntura de relativa abertura política à participação
e do voto). popular e de aceleração do ritmo de desenvolvimento capitalista impresso
Na verdade a questão agrária apenas ganha dimensão significativa no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek que a questão regional ganha
no discurso político do segundo governo de Getúlio Vargas, expressando o estatuto de Problema Nacional.
um projeto de rearticulação nacional do pacto político populista, con- As etapas anteriores de destruição da vitalidade econômica das
substanciado ideologicamente em uma dupla e complementar referência: regiões que incluíram desde a migração de capitais e força de trabalho
a primeira, desenvolvimentista, que identificava as relações arcaicas, ou que ali não encontravam condições de reprodução, seguida da possibi-
“feudais”, que persistiam no campo como entrave ao progresso capita- lidade de circulação de mercadorias produzidas no centro de gravidade
lista exigindo uma ação reformista; a segunda de justiça social, já que a
reforma agrária significaria a extensão aos trabalhadores rurais direitos 6
Camargo, Aspásia de Alcântara. A questão agrária: crise de poder e reformas de base.
(1930-1964) in História Geral da Civilização Brasileira - o Brasil Republicano; vo1. 111,
São Paulo: Ed. Difel, 1983.
5
Oliveira, Francisco. Op. cit. p. 62. 7
Camargo, Aspásia de Alcântara. Op. cit. p. 147.
134 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 135

da economia, possibilitada pela rede viária que unifica nacionalmente propriedade, cerne das revoltas camponesas, á uma Região específica,
o mercado davam lugar a uma proposta de intervenção do Estado que o Nordeste, qualificado como espaço de sobrevivência das Oligar-
reintegrasse os espaços degradados o sopro hegemônico da moderni­ quias Rurais.
zação capitalista. Não é assim, por casualidade, que primeira proposta do Estado de
O agravamento das desigualdades regionais legitimava o projeto de intervenção na estrutura fundiária do Nordeste tenha ocorrido ao final da dé-
integração modernizadora a ser conduzido por um órgão de planejamento cada de 1950, no bojo das medidas de políticas de modernização formuladas
do desenvolvimento regional criado em dezembro de 1959. pelo Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste - GTDN.
É impossível dissociar a politização da questão agrária da poli- A ideologia desenvolvimentista redefine a Questão Nordeste sob a
tização da questão regional na década de 1950, significando a 2ª uma ótica do subdesenvolvimento, enfatizando a estrutura e relações de trabalho
forma de esvaziamento do ímpeto considerado explosivo do movimento no campo como parte do problema a ser enfrentado. Embora o programa
camponês reconduzindo-o aos limites de uma reforma agrária em áreas de modernização proposto priorizasse o incentivo a industrialização da
arcaicas do Nordeste. Por outro lado, seria fortalecido o pacto político Região, ele contemplava também uma concepção que se institucionalizará
que sob o argumento de defesa das classes marginalizadas do Nordeste no pós–64: reformas agrárias limitadas a determinadas áreas problemas.
favoreceria também interesses das camadas da indústria nacional que se Embora o grau de “problematicidade” fosse definido por dois critérios,
fortaleciam com o projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubischek. um econômico (relativo à produtividade) e o outro político (tensão ou
Francisco de Oliveira8, analisando as condições de criação da Su- conflito social), foi segundo que assumiu peso significativo na decisão de
dene destaca o papel do movimento camponês que corroendo a suposta onde intervir prioritariamente. Foi para a zona da mata, principal lócus do
paz agrária do Nordeste rural constituindo-se uma ameaça à hegemonia movimento camponês das décadas de 1950 e 1960, que o GTDN propôs
burguesa nacional. Sua tese encontrava-se sedimentada nos seguintes um programa de redistribuição de terras que previa a liberação de áreas
argumentos: 1) no Nordeste o conflito entre latifundiário-burgueses da ocupadas pela cana-de-açúcar (que passariam por uma reestruturação dos
zona canavieira e operário-camponeses era direto, aberto, escapando processos produtivos) para fins de Reforma Agrária.
assim aos moldes do populismo em que as relações de classe são me- Os sertões semi-áridos, onde a massa camponesa era ainda controlada
diadas e controladas pelo Estado; 2) as classes dominantes regionais não eficientemente pela oligarquia rural, não foram incluídos como área priori-
se encontravam capacitadas para encontrar soluções alternativas que tária de Reforma Agrária. As soluções apontadas restringiam-se à redução
superassem a situação de conflito social: não se dispunham a atender as da vulnerabilidade às secas preconizando o esvaziamento demográfico dos
reivindicações de aumentos salariais, nem abriam mão da renda da terra, sertões através da combinação de medidas de desestímulo às culturas de
materializada na exigência dos movimentos camponeses de concessão subsistência que historicamente determinavam o crescimento vegetativo
de “sítios” ou áreas para cultivo de alimentos. A ausência de soluções da população sertaneja como programas de incentivo ao deslocamento de
no espectro da ordem vigente imprimia suposto potencial subversivo ao populações do semi-árido nordestino para ocupação das fronteiras agríco1as
movimento rural na zona canavieira do Nordeste naquele período. Os do Maranhão, onde o acesso a terra e a água eram abundantes.
sinais de perda da hegemonia da burguesia latifundiária canavieira, a
tornava pouco confiável aos olhos dos seus parceiros do Centro-Sul que A questão da terra no contexto dos governos
encontram na intervenção do Estado na Região a saída para neutralizar militares pós–1964
os fatores de risco de convulsão social, insulando o questionamento da
O impasse gerado por posições divergentes entre Executivo e
8
Oliveira, Francisco de. Elegia para uma Região. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2. ed. 1977. Legislativo face à instituição de uma legislação que oferecesse o suporte
136 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 137

legal de um programa de Reforma Agrária que atravessou todo o perío- medidas de reforma agrária em áreas classificadas como prioritárias,
do populista (sendo considerado fator importante na corrosão do pacto com projetos de colonização por pequenos produtores em áreas de
social em vigor) somente será resolvido em um contexto autoritário. Em fronteira agrícola.
novembro de 1964 foi aprovado o projeto de lei do Estatuto da Terra As políticas de modernização da grande propriedade rural através
enviado pelo Marechal Castelo Branco ao Congresso. Através de Ato do crédito subsidiado ou de incentivos fiscais, não poderiam ter outro
Institucional suprimido o dispositivo constitucional que condicionava a efeito senão o de agravamento da tendência de concentração fundiária.
desapropriação por interesse social à prévia e justa indenização em di- Entre 1970 e 1975 o índice de Gini de concentração da posse da terra
nheiro dos proprietários e introduzidas medidas, antes objeto de polêmica no Brasil se elevou de 0,840 para 0,855.
política, como a desapropriação de faixas de terras ao longo das rodovias
federais e a posse imediata das terras desapropriadas. O PROTERRA - Programa de Redistribuição de Terras no
O paradoxo de serem as reivindicações dos vencidos atendidas Nordeste
por governos arbitrários é apenas aparente. O enigma é decifrável, se
considerarmos que extirpados os focos de mobilização, as reivindicações Tendo ocorrido na fase do chamado “milagre econômico brasi-
antes ameaçadoras são politicamente desarmadas e metamorfoseadas leiro”, a seca de 1970 teve um impacto político significativo: ruralizou
em questões técnicas que comportam soluções da mesma ordem. Isto o discurso oficial sobre o desenvolvimento do Nordeste.
fica claro em vários trechos da mensagem presidencial que encabeça o As imagens da miséria de massas de nordestinos residentes nas
Estatuto da Terra, quando critica a anterior atuação política dos governos áreas afetadas pela seca veiculadas na televisão, revistas e jornais ope-
anteriores reconhecendo, porém a necessidade de atribuir prioridade raram um choque de realidade nos sonhos de um Brasil Moderno. Os
absoluta à questão agrária estudando e encaminhando soluções técni- diagnósticos socioeconômicos da época passaram a reconhecer os efeitos
cas, econômicas e jurídicas que a deslocassem do plano de um debate concentracionistas do padrão de desenvolvimento regional centrado na
ideológico para o das soluções pragmáticas. Por outro lado, o sentido industrialização defendido pela Sudene.
da proposta de desenvolvimento rural contida no Estatuto da Terra, tem Do total de recursos da política de incentivos fiscais aplicados
que ser apreendida em seu caráter de dualidade que combina medidas de no Nordeste até aquela década, 90,8% foram destinados a projetos
Reforma Agrária com Políticas de Modernização Agrária. No primeiro industriais.
caso ter-se-ia uma modernização da agricultura com base na propriedade O PROTERRA instituído em julho de 1971 reeditou as duas linhas
familiar que materializaria as intenções de justiça social via desconcen- de desenvolvimento rural preconizadas no Estatuto da Terra: Programa
tração da terra e da renda. No segundo caso, considerando o objetivo de Redistribuição de Terras e Estímulo a Agroindústria.
básico de orientar as atividades agropecuárias no sentido de harmoni- Os dois mecanismos principais para efetivar a revisão fundiária
zá-las com o processo de industrialização, a modernização se efetuaria seriam, a desapropriação por interesse social, nos termos fixados no
preferencialmente através das grandes propriedades metamorfoseadas Estatuto da Terra, de áreas classificada pelo INCRA como latifúndios
em empresas rurais. improdutivos e a compra de terras pelo órgão executor do programa para
Para analistas da política agrária9 implementada pelos gover- posterior parcelamento e revenda. Na realidade, foi insignificante o uso
nos militares de 1964 até 1969, predominava uma combinação de da desapropriação por interesse social já que alternativas mais atraentes
eram oferecidas aos proprietários para aderir ao programa: eles coloca-
9
Ver as análises de Bernardo Sorj em Estado e Classes Sociais na Agricultura, de Marcel Burs- riam à disposição do INCRA para venda um percentual que variava de
tyn em O Poder dos Donos e José de Souza Martins em A Militarização da Questão Agrária. 20 a 50% da área dos seus imóveis e seriam recompensados com crédito
138 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 139

subsidiado para modernizar a produção nas áreas remanescentes da pro- e mantidos os níveis tecno1ógicos tradicionais no semi-árido, 13,6%)
priedade de modo a enquadrá-la como empresa rural.10 dos parceleiros desistiram de permanecer na terra.
As observações e dados abaixo mencionados indicam claramente A divisão de uma propriedade em lotes individuais implicava quase
que o Programa de Redistribuição de Terras já nasceu morto ainda que sempre em partilha desigual, de bens valiosos e escassos: benfeitorias,
insepulto pela máquina burocrática instituída para sua gestão.11 Do como cercas, casas de moradia, e principalmente reservatórios de água
total de recursos destinados ao PROTERRA (4 bilhões em 1972) a par- açudes, barreiros etc.
ticipação do Fundo de Terra (FUNTERRA) foi sempre reduzida e em Outro ponto polêmico do programa referia-se à dimensão média
alguns anos nula, nos orçamentos do período de 1972 a 1978 (variando das parcelas que, situando-se acima dos limites que cada família podia
de 18,7% a 3%). explorar com a sua própria força de trabalho, implicava, por um lado, em
Até 1974 a área total posta à disposição do INCRA pelos latifun- recriar relações de parceria e arrendamento dentro das áreas parceladas,
diários para aquisição foi de 386.634 hectares, o que representava tão- e por outro lado, não absorviam na condição de proprietário todos os
somente 24,3%, da área de latifúndios das microrregiões nordestinas onde antigos moradores das propriedades rurais parceladas. Em Quixeramo-
o programa atuaria. Mesmo que o INCRA, em um hipotético desempenho bim onde realizamos pesquisa de campo, em 1978 o tamanho médio
de eficiência máxima, redistribuísse toda a área classificada como desa- das parcelas, era de 257 hectares, sendo que encontramos parcelas de
propriável, atingiria apenas 1,5% do total de terras que o próprio órgão até 618 hectares.
em 1972 cadastrara como latifúndio improdutivo. Os beneficiários não Entre os fatores adversos acrescentava-se a dispersão das áreas
ultrapassariam a 0,7% do total de trabalhadores sem-terra ou com posse parceladas. As frações das propriedades redistribuídas distavam entre si
precária no Nordeste. em muitos quilômetros inviabilizando qualquer tentativa de socialização
Na realidade, os resultados foram bem mais modestos. Até o final dos custos de produção pelo sistema cooperativo e tornado problemático
de 74 nenhuma desapropriação por interesse social efetivou-se, limi­ e oneroso o trabalho de assistência técnica aos beneficiários do Programa.
tando-se o INCRA à aquisição de 193.394 hectares dos 386.634 postos O isolamento social e político dos parceleiros favoreciam a que o Estado
à disposição do órgão pelos proprietários. fosse representado por eles como um espécie de novo patrão de quem
As operações de compra e redistribuição de terras concentraram-se recebiam, a terra, e “adiantamento” (crédito de custeio) e cuja parte da
nos sertões semi-áridos do Nordeste, em terras de baixa produtividade produção devia ser paga em dinheiro no Banco.
e com reduzido valor comercial: das 181 operações de compra de terras Como programa de Reforma Agrária, o PROTERRA representou,
feitas pelo INCRA, 43% realizaram-se no Ceará, principalmente nas porém, de 1971 a 1977 a principal fonte de crédito a juros subsidiados
microrregiões dos Sertões do Inhamuns e Quixeramobim. Um outro para a pecuária de corte e leiteira da Região.
dado que confirma as dificuldades enfrentadas pelos “parceleiros”12 para
organizar a produção contando apenas com crédito de custeio (sem o A alternativa de programas de apoio à pequena produção
título definitivo de posse da terra o crédito de investimento era negado)
A partir de 1974 com o patrocínio do Banco Mundial desativa-se a
10
Carvalho, Rejane Vasconcelos Accioly. Justiça social e acumulação capitalista: o idéia de único programa de Reforma Agrária no Nordeste, substituindo-a
PROTERRA. Fortaleza: Ed. UFC/PROED, 1982. por Projetos Especiais de Apoio a Pequena Produção Familiar.
11
Um dos relatórios trimestrais de prestação de contas do Projeto indicava que a participação
do item redistribuição de terras representava apenas 2,8% do total das despesas efetivadas, Essa reorientação pode ser detectada na transferência dos recursos
sendo 97,2% dos gastos relativos a atribuições técnico-burocráticas. do orçamento do PROTERRA para os novos programas especiais, dentre
12
Parceleiro, nome atribuído pelo INCRA àquele que recebia parcela de terra no processo
de redistribuição os quais se destacava o POLONORDESTE.
140 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 141

Embora oficialmente constasse nesses programas uma linha de destacam-se A Igreja e os Problemas da Terra (1980) e Considerações
reestruturação fundiária, a tônica era a promoção do desenvolvimento sobre o Homem e a Seca no Nordeste (1982).
rural integrado em determinados pólos cujo dinamismo supostamente
se irradiaria para zonas mais abrangentes. A autocrítica do Estado e um novo projeto de desenvolvimento
A proposta de Pólos de Desenvolvimento Rural Integrado regional: o Projeto Nordeste
(PDRIs) propugna que através da capitalização da pequena produção se
poderia resolver dois problemas: a redução dos fortes fluxos migratórios A autocrítica do Estado sobre efeitos das políticas de desenvol-
rural-urbano que geravam nas cidades um excedente de trabalho de tal vimento regional contida no diagnóstico que antecede a nova proposta
proporção, que perderiam qualquer funcionalidade para o processo de do Projeto Nordeste, não pode ser dissociada de um fato po1ítico novo:
acumulação; incremento da oferta de alimentos para as cidades, já que a emergência dos parceiros, rendeiros e moradores dos sertões como
a pauperização do campesinato tradicional inviabilizava a produção atores políticos que se mobilizam para reivindicar direitos que lhes eram
de excedentes comercializáveis. A dificuldade, porém era atacar esses reconhecidos pelo Estatuto da Terra: acesso à terra e regulamentação dos
problemas sem efetivar uma reestruturação fundiária mais profunda. Tal contratos de parceria e arrendamento no que se refere a prazos, condições
como analisado por Marcel Bursztyn13 o POLONORDESTE era ambí- de repartição da produção etc.). A divulgação feita a partir de 1979, entre
guo, pois anunciava como prioridade o acesso do trabalhador à terra sem os trabalhadores rurais do sertão, por sindicatos pela Igreja Católica dos
no entanto definir mecanismos operacionais que o viabilizasse. tópicos do Estatuto da Terra referentes a reforma agrária, renda da terra e
A avaliação dos resultados alcançados pelo POLONORDESTE parceria, forma muito importantes para o processo da “ Luta pelos Direi-
realizada em 1979 evidenciou que a política de apoio ao pequeno produ- tos” como ficou conhecida. Essas formas de mobilização contrastavam
tor estabelecida como prioritária nos documentos, recebera apenas 33% com a visão de movimentos sertanejos de cangaceiros e fanáticos que
dos recursos do programa, do total aplicados nos cinco primeiros anos foram celebrizados na literatura acadêmica, em romances e nas telas do
de vigência do Programa, sendo o restante (67%) aplicado em constru- cinema como formas de “rebeldias primitivas”. Em documentos que re-
ção de estradas e redes de eletrificação. As iniciativas de regularização sultaram de encontros e seminários realizados no período os trabalhadores
fundiária atingiram apenas 2.862 produtores dos 140.000 fixados como rurais do sertão, organizados nos sindicatos ou nas Comunidades de Base
“público alvo” do programa. da Igreja (CEBS) apresentavam reivindicações incisivas de participação
A partir de 1979 críticas à eficácia dos Programas de Apoio a nas decisões sobre as políticas de desenvolvimento rural.
Pequena Produção acirraram-se no próprio âmbito dos órgãos estatais Freqüentes os casos noticiados pela grande imprensa de mobili-
responsáveis por sua execução. Coincidentemente o ano de 1979 que zação de parceiros reivindicando pagar a renda de acordo com o fixado
assinala o início do longo processo de abertura política no país foi tam- no Estatuto da Terra, ou de continuar plantando algodão, milho e feijão
bém o de mais uma grande seca no Nordeste, e os seus efeitos perversos e em terras que o proprietário reserva ao pasto do gado. A seca de 1979
sobre os trabalhadores rurais propiciaram que a questão agrária fosse representou um momento importante no processo de politização à me-
pautada publicamente pelos setores da Igreja defensores da Teologia dida que os trabalhadores passaram a criticar publicamente a atuação do
da Libertação e do Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais. O Estado enfatizando que a seca não se definia apenas pela falta de chuva,
tema da Reforma Agrária aparece em vários documentos da Igreja tais mas pela falta de terra para plantar.
A ampliação de uma modalidade de “salário” introduzido nos
13
Ver do autor o livro de Marcel Burstyn O Poder dos Donos: planejamento e clientelismo Programas de Emergência colocava à mostra suas contradições: salário
no Nordeste. Rio de Janeiro: Vozes, 1989. pago com recursos públicos para realização de trabalho apropriado pe-
142 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 143

los fazendeiros, salário que tinha face ambígua, de pagamento por trabalho entre 1870 e 1980) contrastantes com a manutenção de altos índices
realizado, de ajuda oferecida pelo Estado aos desvalidos. O questionamento de pobreza da população refletidos nos baixos níveis de remuneração
das bases tradicionais do controle social e político da populações sertanejas salarial (cerca de 80% da população ocupada situando-se na faixa de
encontrou condições de florescimento na conjuntura daquele período. até dois salários mínimos), taxas de subemprego (45,6% do PEA) e nas
É significativo que no momento e que os sertões tornam-se áreas condições precárias de vida.
de tensão social, tal como acontecera na zona da mata na década de 1950, b) O reconhecimento da integração da economia do Nordeste ao
tenham sido ressuscitados nos planos de desenvolvimento regional a processo de acumulação nacional, percorrendo os mesmos ciclos de
pregações de reforma agrária. Parece-nos consistente a tese de Francisco ascensão e crise. A especificidade regional é diagnosticada no fato de
de Oliveira de que são os conflitos sociais, e não a estagnação econômica que o Nordeste, e do modo especial nas áreas rurais, configura-se como
que acionam as formulações de planos de Desenvolvimento Regional. espaço de concentração dos pobres do país. c) A análise da natureza do
Na verdade a Luta pelos Direitos emitia ao final das décadas de 1970 e desenvolvimento nordestino nas duas últimas décadas modernizou a eco-
1980, sinais nítidos de rupturas dos padrões tradicionais de dominação nomia e a sociedade urbanas, mantendo-se o atraso social e econômico
nos sertões. As noções de “obrigações” e “favores”, que orientavam as nas áreas rurais. A afirmação é ilustrada com dados sobre a participação
relações entre parceiros, moradores e patrões foram sendo progressiva- da produção agropecuária no PIB que decresceu de 35% em 1977 para
mente substituídas pelas noções de “direitos” e “deveres” assumindo 14,8% em 1981, dos baixos índices de produtividade, do déficit de 850
caráter mais impessoal. toneladas na produção de alimentos e dos baixos níveis de utilização
O avanço da monetarização da economia no sertão, propiciada pela produtiva da terra nas grandes propriedades. Por outro lado, ressalta-se
expansão do crédito institucional conduziu a uma redução da importância importância econômica e política das pequenas propriedades rurais, res-
da coerção extra-econômica que caracterizava as relações tradicionais ponsável por quase toda produção de alimentos da região e absorvedora
de trabalho. O palco onde se desenrolavam e resolviam todas as ques- de aproximadamente 81% força de trabalho rural.14
tões entre moradores e donos da terra tende a se deslocar da sede das Nestes termos a solução da questão regional via absorção produ-
fazendas para o espaço dos sindicatos e, em última instância, para os tiva da massa força de trabalho desempregada e subempregada conduz à
tribunais, revelando as rachaduras de uma organização social em que o proposta de apoio a pequena produção rural tendo como linha mestra do
poder advindo da propriedade da terra era quase ilimitado, estendendo- Projeto Nordeste. O que há de novo neste programa face aos anteriores,
se às pessoas e às coisas. A explicitação das funções sociais da terra, no cujas promessas eram semelhantes?
Estatuto da Terra fundamentava as demandas legais dos trabalhadores A primeira novidade é a definição do objetivo geral do Programa
em defesa de direitos sociais. centrado na erradicação da pobreza absoluta no Nordeste e não mais na
Alguns pontos fundamentais do que rotulamos de autocrítica redução das desigualdades nas taxas de crescimento econômico entre
do Estado sobre a Política de Desenvolvimento Regional estão abaixo as regiões do país. O diagnóstico de que os fatores determinantes do
sintetizados: crescimento da pobreza no Nordeste estariam na questão agrária não
a) O reconhecimento de que o crescimento econômico não conduz apenas não resolvida, mas mal resolvida pelos subsídios à modernização
necessariamente à redução da pobreza, e que o agravamento das desigual- do latifúndio, conduz a delimitar que este é o ponto chave a ser atacado
dades é fruto da natureza do desenvolvimento regional que se efetuou. nas políticas de desenvolvimento da Região. Outra diferença entre o
Os dados que dão suporte a tais conclusões prendem-se ao registro de Projeto Nordeste e os anteriores Programas Especiais de Apoio a Pe-
taxas médias de crescimento do PIB (que na década de 1970 alcança
a marca extraordinária de 11%) e da formação de capital fixo (10,7% 14
Dados extraídos do capitulo “Diagnóstico” do texto do Projeto Nordeste.
144 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Nordeste: a moldagem ideológica da questão regional 145

quena produção que o precederam foi a inversão da ordem nas linhas de dade levaram ao campo quase todos os grandes grupos empresariais de
intervenção modernizadora: a reestruturação fundiária deveria ser feita origem urbana. Com a propriedade fundiária tornando-se equivalente a
antes da implantação de todas as outras linhas de ação (recursos hídricos, capital e funcionando como passaporte e acesso ao crédito subsidiado, é
pesquisa e assistência técnica, políticas de crédito e comercialização) de evidente que a trama de interesses em jogo torna-se muito mais complexa
modo a evitar as distorções denunciadas. ultrapassando o âmbito de comportamento reacionário das chamadas
O Projeto Nordeste abandona a idéia de Pólos de Desenvolvimento oligarquias rurais. O que estava em disputa não era apenas a proprieda-
selecionados por critérios de possibilidades de maior rentabilidade eco- de da terra, mas os recursos financeiros que o Estado alocaria para os
nômica, para pautar-se em critérios sociais de atendimento ás populações programas de desenvolvimento rural. È sintomático que os conflitos de
em estado de pobreza extrema. O sertão semi-árido onde se concentrava terra que predominaram no Nordeste nas décadas de 1970 e 1980 já não
esta população empobrecida passa a ser considerada prioritária nos pro- envolviam predominantemente os antigos “coronéis”, mas sim figuras
gramas de desenvolvimento regional. A grande novidade introduzida pelo do novo empresariado rural.
Projeto Nordeste era a previsão de formas alternativas de propriedade, tais .No outro prato da balança é importante ponderar qual o peso
como a comunitária, e a de empresas multifamiliares, e o reconhecimento político da organização dos trabalhadores rurais para efetivação de uma
de que a mobilização e participação dos beneficiários era condição de reforma agrária no Nordeste que realmente os torne seus beneficiários,
sucesso as ações desenvolvidas pelo Estado. alterando a face de iniqüidade social da Região.
Permaneciam, porém velhos pontos de ambigüidade que sempre
atuaram na frustração dos protocolos de boas intenções de ruptura do
monopólio da terra no Nordeste. O mais evidente é que novamente não
se explicita a decisão política de acionar a desapropriação por interesse
social prevista no Estatuto da Terra15 como instrumento indispensável
para atingir o objetivo de reestruturação fundiária. Ao contrário, os
pronunciamentos públicos dos técnicos do programa se endereçavam a
tranqüilizar os grandes proprietários de terra ressaltando que o instru-
mento preferencial da ação fundiária seria a compra de terras a preços
considerados “justos” pelos contratantes.
Considerando que o destino de qualquer política pública não se
inscreve apenas em seus propósitos explícitos buscamos identificar as
forças sociais que poderiam determinar o curso do Projeto Nordeste.
Quais seriam os opositores da efetivação da promessa de desconcentração
da terra e da renda? Parece-nos ingênuo incluir nesta lista apenas figuras
das tradicionais oligarquias rurais, elas próprias em mutação.16 Tem-se
que levar em conta que os incentivos à modernização da grande proprie-

15
Estatuto da Terra, Lei 504, de 30 de novembro de 1964. Mensagem 33 do presidente Cas-
telo Branco ao Congresso Nacional
16
Ver sobre o assunto a tese de Marce1 Burstyn exposta no livro O poder dos donos – plane-
jamento e clientelismo no Nordeste.
146 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa 147

Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa


O homem de seu tempo (1722-1797)

Francisco Esio de Souza*

Introdução

P ara falar de Xerez Furna Uchoa é preciso dar um salto atrás,


na História, e falar da sucessão da Coroa portuguesa, após a morte de
Dom Sebastião e Dom Henrique, quando Filipe II (1580) de Espanha;
unificou os dois países sob a mesma Coroa. Na genética liga-se ao Papa
Adriano VI, antepassado de Furna Uchoa, que foi tutor de Carlos de V,
pai do ambicioso Filipe II.
Na literatura, as três primeiras décadas do século XVIII, ainda
sofriam algumas influências do século XVII que, pouco a pouco, abdi-
cava de seus valores para que o século seguinte assumisse sua identidade
própria.
Já não se admirava tanto o barroco, cuja produção literária não mais
transmitia a angústia do conflito entre o mundo material e o espiritual;
as metáforas, as antíteses e hipérboles, perdem espaço na linguagem da
comunicação para emergir o Neoclassicismo ou Arcadismo como grife do
século XVIII. O século da ascensão da burguesia e seus valores: fugere
urbem. A vida bucólica passa a ser valorizada e a natureza, admirada.
Os ideais da vida do campo são retomados com o pragmatismo e a razão
enfeitiçando o mundo.
Falar da Dominação Holandesa, em Pernambuco (1630-1654) na
turbulência social da revolta e chacina dos emboabas (1708); da Indepen-
dência dos Estados Unidos da América (1776); da Revolução Francesa
(1789); da Inconfidência Mineira (1792). Preciso é vivermos o Novo
Mundo do Brasil português, dominado por Filipe II de Espanha; que

*
Sócio efetivo do Instituto do Ceará.
148 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa 149

desembarquemos nos arrecifes da costa pernambucana; respiremos o ar José de Xerez Furna Uchoa, o Introdutor do Café no Ceará, de Manoel
adocicado da zona da mata nordestina, que nos rejubilemos ou soframos do N. Alves Linhares; que me escude na competência de Pe. Francisco
com o sucesso ou as agruras da indústria açucareira pernambucana. É Sadoc de Araújo, que eu me acuda de Barão de Studart, de Dom José
preciso que nos adaptemos às enchentes dos Rios Capibaribe e Beberibe, Tubinambá da Frota, de João Brígido, de Celso Furtado, Manoel Correia
no Recife; saboreemos o prato de goiamum, em Goiana (PE); deliciemo- de Andrade e tantas outras personalidades que transitaram por minha
nos com o suco de mangaba dos tabuleiros costeiros; banhemo-nos nas cabeça, durante a feitura deste trabalho.
praias de Pontas de Pedras (Goiana) na Porto de Galinhas (Ipojuca) e Assim, os acréscimos que, porventura, eu fizer às obras já escri-
recordemos as batalhas do (Forte Orange); rezemos para Nossa Senhora tas sobre Furna Uchoa, correrão à conta de informações de um mundo
do Pilar, em Itamaracá; enfrentemos as secas e enchentes do Rio Acaraú, globalizado e, principalmente, por ter eu nascido na região do cenário
curta o ciclo do couro e apure o ouvido para escutar o canto corruchiado físico onde Xerez Furna Uchoa viveu a segunda parte de sua vida, bem
do canário da terra no capitel de folhas imbricadas das carnaubeiras das como eu ter trabalhado na zona da mata pernambucana, pelo período de
várzeas aluvionais. É preciso que tenhamos coragem de catequizar, depois dezoito anos, onde o pesquisado nasceu e viveu a primeira parte de sua
dos Caetés, em Olinda, os Tremembés, em Almofala, e nos acostume- vida. Conheci lugares, convivi com pessoas descendentes das famílias
mos com o mugir do boi no curral, com o calor da Caiçara, com o sabor que são relacionadas dentro do ciclo genético de Furna Uchoa. Pena que
amargo do café da serra da Meruoca. na época, pouca importância eu dava a este assunto, tampouco sabia de
É preciso que nós exerçamos uma liderança política, no Ceará do minha descendência direta de Furna Uchoa por meio do sangue do seu
Brasil Colonial, que saibamos cumprir a etiqueta do Versailles de Luiz sexto filho, no caso, José de Lira Pessoa; deixando, assim, escapar ex-
XV de França. É preciso que saibamos conviver com as intrigas pala- celentes oportunidades de pesquisar nos municípios de Goiana, Ipojuca,
cianas, dos Ouvidores Gerais, dos Governadores corruptos da capitania Itamaracá, Igarassu ou no Recife, tudo em Pernambuco, ou de viagens
do Siará Grande. feitas à Espanha, Portugal e França.
É preciso que saibamos de tantas coisas mais, porquanto ser Feitos estes esclarecimentos de natureza introdutória e antes de
Furna Uchoa é ser bom chefe de família, líder político, empresário de me adentrar no tema propriamente dito da figura do Capitão-mor José de
seu tempo, católico, caridoso, inovador, polivalente. É preciso trocar a Xerez Furna Uchoa, eu quero destacar alguns pontos de sua biografia.
personagem folclórica de Maria Florzinha, da zona da mata pernambu- Em primeiro lugar impressiona a firmeza de seu caráter, que
cana, pelo Caipora das Caatingas litorâneas do Ceará. Mas é preciso, não abdica de seus valores morais, num só milímetro, mesmo quando
finalmente, sobretudo, que eu me volte para meus antepassados e, num isto implique perdas financeiras, políticas ou de sua própria liber­
todo imaginário, me encontre com o meu próprio quinto avô materno, o dade, o ponto mais temido de subtração não só pelo homem, mas
Capitão-mor José Xerez de Furna Uchoa. pelo próprio animal.
Feito este passeio pelos dois Nordestes – o úmido de Gilberto Segundo, chama atenção o seu espírito irrequieto, desassombrado,
Freire e o outro, o seco, de Djacir Menezes, – é bom que se diga que prospectivo, inovador, cativo dos que conquistam o mundo. Romper com
o presente trabalho é uma versão ligeiramente acrescida de alguns ele- os paradigmas do conservadorismo, da mesmice, é próprio das pessoas
mentos colhidos à luz do início deste século XXI, de outros trabalhos dotadas de ambição e visão de futuro. Xerez era um desses!
já brilhantemente feitos nos séculos atrasados e passado e publicados O terceiro piso assenta-se no excessivo devotamento e orgulho
inclusive, na Revista deste Instituto Histórico. que tinha pelo sangue que lhe irrigava o corpo, conseqüentemente o
Em ordem temporal destaca-se a Genealogia de Arnaud Holanda, zelo pela família. Finalmente, o desapego material a tudo que pudesse
escrita pelo próprio Xerez; TRAÇOS BIOGRÁFICOS do Capitão-mor comprometer o referencial do seu ideário de vida.
150 Revista do Instituto do Ceará - 2007 Capitão-mor José de Xerez Furna Uchoa 151

Desdobremos estes pontos; em Goiana (PE), e D. Inês de Vasconcelos Uchoa. Era neto paterno de
Bartolomeu Rodrigues Xerez, de origem espanhola e de Dona Eugênia
Vaz da Silva. Neto materno de Francisco Vaz Carrasco e Antônia de
I PARTE Mendonça Uchoa. O Uchoa, herdado de D. Antônia, é uma palavra de
origem basca (Espanha) significando lobo.
Veja o que diz Linhares1 sobre a ascendência mais remota co-
1 Quem foi José de Xerez Furna Uchoa? nhecida do Capitão José de Xerez Furna Uchoa: “Descende ele, por via
paterna, da distinta família Xerez (de origem espanhola) por seu avô,
José de Xerez da Furna Uchoa fez parte de uma família composta o Capitão Bartholomeu Rodrigues de Xerez, que, em 1703, residia em
de seis irmãos, contando com ele, sendo 4 filhos do primeiro casamento Olinda e era filho de João de Xerez, ambos fidalgos cavaleiros da Casa
de sua mãe, D. Inês de Vasconcelos Uchoa, com Francisco Xerez da Real e, naturais, de Lisboa; e da nobre família Vaz Carrasco, por sua
Furna, seu pai, e os outros dois, do segundo casamento de D. Inês com avó, D. Eugênia Vaz da Silva, neta de Sebastião Vaz Carrasco, nobre
Lourenço da Silva Melo. Olindense, e irmã de Francisco Vaz Carrasco, cavaleiro da Ordem de
São seus irmãos de primeiro casamento: Luiz de Sousa Xerez, Christo e padre depois de viúvo.
Rosaura de O. Mendonça e Ana da Conceição Uchoa. Foi este Francisco Vaz Carrasco Capitão de Ordenanças de Upo­
Luís casou-se duas vezes; a primeira em 20 de agosto de 1750, juca, por patente datada de 26 de agosto de 1666, que se acha registrada
com Ana Tereza de Albuquerque, filha de João Lins Albuquerque e Rosa no Livro 2 da Secretaria, à folha 229. Por este documento régio, vê-se
Maria Ferreira, casou-se a segunda vez, em 26 de novembro de 1789, ainda uma vez comprovada a nobreza desta família, que muito honro-
com Quitéria Maria do Rosário, filha de Francisco Ferreira da Ponte e samente se portou na guerra holandesa.
Inácia Ferreira do Espírito Santo. Rosaura casou-se também duas vezes; Por via materna é ele descendente das nobilíssimas famílias Uchoa,
a primeira, com o viúvo Gonçalo Ferreira da Ponte, sendo sua terceira Góes e Vasconcelos, Holanda, Albuquerque, Lyra Pessoa, Sá e Oliveira,
mulher; a segunda vez, em 27 de novembro de 1762, com André José Vaz Carrasco e outras, e por todos os lados, aparentado com os Lins,
Moreira Cavalcante, filho de João da Costa e Brásia de Oliveira Caval- Cavalcanti, Rego Barros,2 Paes Barreto, Barros Pimentel, enfim com as
cante. Ana casou-se com Manoel Gonçalves Torres. principais famílias das antigas capitanias da Bahia, Alagoas, Pernambuco,
Do segundo casamento de Dona Inês de Vasconcelos nasceram Paraíba, Rio Grande e Ceará.
Inocência Vaz Vasconcelos e João de Melo e Silva. Inocência casou em
20 de fevereiro de 1758, com José Bernardo Uchoa, filho do Cel. José 1
Manoel do N. Alves Linhares – Traços Biographicos do Capitão-mór José de Xerez Furna
Bernardo Uchoa e Maria Cavalcante. João de Melo casou-se, em 22 de Uchoa – O Introductor do Café no Ceará – Revista Trimestral do Instituto do Ceará, Ano
de 1901. págs. 66 e 67.
fevereiro de 1777, com Ana da Conceição, filha de Manoel Madeira de 2
Dos Rego Barros, família tradicional em Pernambuco, assim são os Cavalcanti, os Paes
Matos e Francisca de Albuquerque Melo. Barreto, os Lira Pessoa, os Albuquerque, destaco a figura de Francisco do Rego Barros, o
Conde da Boa Vista, irmão de João do Rego Barros, Barão de Ipojuca. O Conde da Boa