80 Anos do Iphan: Patrimônio Brasileiro
Tópicos abordados
80 Anos do Iphan: Patrimônio Brasileiro
Tópicos abordados
Nº 35 Nº 35 Nº 35
2017 2017 2017
Neste número
Andrey Rosenthal Schlee
Hermano Queiroz
Jurema Machado
Lia Calabre
Marcia Sant’anna
Márcia Chuva
Marcos Olender
Mário Chagas
Milton Guran
Zoy Anastassakis
Iphan 1937–2017
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional nº 35 / 2017
ISSN 0102-2571
Iphan 1937–2017
ORGANIZAÇÃO: Andrey Rosenthal Schlee
PRESIDENTE DA REPÚBLICA DO BRASIL
Michel Temer
DIRETORES DO IPHAN
Andrey Rosenthal Schlee
Hermano Queiroz
Marcelo Brito
Marcos José Silva Rego
Robson Antônio de Almeida
Jurema Machado
Feito em casa: o Iphan e a cooperação
internacional para o patrimônio 245
Marcos Olender
O afetivo efetivo. Sobre afetos,
movimentos sociais e preservação
do patrimônio 321
Não serei o poeta de um mundo caduco. Foi no dia 13 de janeiro de 1937 que o
Também não cantarei o mundo futuro. presidente Getúlio Vargas sancionou a Lei
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
nº 378. Dava prosseguimento ao projeto
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
de modernização do Estado brasileiro,
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
reorganizando o ainda jovem Ministério da
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Educação e Saúde e criando, entre outras
instituições, o Serviço do Patrimônio
Carlos Drummond de Andrade1
Histórico e Artístico Nacional, atual
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional – Iphan.
de abertura dos XXXI Jogos Olímpicos, Rosenthal Schlee que organizasse uma
A C I O N A L
mostrar a cultura do país anfitrião. E o que – foi Rodrigo Melo Franco de Andrade,
vimos ou ouvimos? Justamente aquilo que nosso primeiro presidente, que, ainda em
A
o Iphan vem protegendo durante oitenta 1937, a concebeu como um veículo capaz de
E
reafirmar que o Brasil, com a maior floresta fez Rodrigo Melo Franco de Andrade,
e a maior reserva de biodiversidade do especialistas das mais variadas áreas foram
planeta, chama a atenção do Mundo para a convidados para assinar artigos absolutamente
necessidade urgente de promover também autorais sobre temas afetos ao Iphan. Entre os
a paz com o planeta. Ou seja, a preservação textos, como ilustrações, apenas belas imagens
integrada dos valores culturais e naturais. E de bens culturais brasileiros, sem datação ou
8 não foi isso que o Iphan sempre fez? localização. Imagens captadas pelos fotógrafos
da Repartição, profissionais que atuaram na
O Instituto tem uma vocação
ou para a Instituição ao longo de anos e que,
genuinamente pública e republicana.
assim, serão homenageados.
Preservamos e salvaguardamos o patrimônio
cultural do Brasil para o usufruto de Todos, O primeiro número apresenta-se dividido
no presente e no futuro. Enfrentamos em duas partes. Uma destinada a revisitar a
inúmeras dificuldades e idiossincrasias, e história do Iphan, das ideias preservacionistas
nos apresentamos como uma Instituição de da década de 1920 ao início de minha
Estado. Acontece que, aos oitenta anos de administração, considerando os mandatos de
existência, o próprio Instituto do Patrimônio Rodrigo Melo Franco de Andrade, Renato
Histórico e Artístico Nacional tornou-se Soeiro e Aloisio Magalhães, bem como
um patrimônio. Cabe, portanto, à Nação os períodos de 1982 a 2002 e de 2002 a
Brasileira buscar os meios que garantam a sua 2016. São seis artigos dispostos em ordem
serena continuidade e plena atuação. cronológica e de responsabilidade de Maria
Lucia Bressan Pinheiro, Lia Calabre, Paulo
Iphan 1937–2017
Ormindo de Azevedo, Zoy Anastassakis,
A C I O N A L
Márcia Chuva, Andrey Schlee e Hermano
Queiroz. A segunda parte explora grandes
temas ou desafios que a Instituição enfrentou
Kátia Bogéa
R T Í S T I C O
ou continua a enfrentar: os museus, os
centros urbanos, as referências culturais, a
A
arqueologia, as inovações da Constituição
E
Federal de 1988, o patrimônio afro-brasileiro,
I S T Ó R I C O
o patrimônio indígena, a cooperação
internacional, o licenciamento ambiental e
H
a participação cidadã. Ao todo, são mais dez
A T R I M Ô N I O
artigos, assinados por Mário Chagas, Márcia
Sant’Anna, Maria Cecília Londres Fonseca,
P
Roberto Stanchi, Yussef Salomão de Campos,
D O
Milton Guran, Lucia van Velthem, Jurema
E V I S T A
Machado, Tania Andrade Lima e Marcos
Olender. A quem agradecemos.
R
O segundo número não apresenta uma
lógica estrutural. Mas apenas uma provocação
de fundo: pensar o patrimônio no futuro.
patrimônio.
Vale
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
12
Maria Lucia Bressan Pinheiro Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Mar ia Lucia Bressan Pinheiro
A C I O N A L
T RAJETÓRIA DAS IDEIAS PRESERVACIONISTAS NO B RASIL :
1920 1930
N
AS DÉCADAS DE E
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
Para bem restaurar, é necessário amar e Não é tarefa fácil investigar os primeiros
entender o monumento, seja estátua, quadro ou indícios da emergência de uma sensibilidade
edifício, sobre o qual se trabalha (...) Ora, que preservacionista no Brasil, que se configuraria
P
séculos souberam amar e entender as belezas do
como a pré-história de nosso primeiro órgão
D O
passado? E nós, hoje, em que medida sabemos
E V I S T A
federal especificamente voltado à salvaguarda
amá-las e entendê-las?
do patrimônio brasileiro: o Iphan, cujos
(Boito, 2002:31).
R
oitenta anos de atividade são celebrados em
2017. Entre os vários enfoques possíveis, o
presente artigo, inspirado na exortação de
Camilo Boito na epígrafe acima, abordará o
tema a partir do mapeamento dos primeiros
e incipientes estudos sobre a arquitetura
brasileira, considerados aqui como as 13
primeiras demonstrações de interesse,
mesmo que tênue, por tais manifestações
do patrimônio cultural brasileiro. Tal
abordagem parece pertinente, também,
diante do viés arquitetônico, por assim dizer,
de que se revestiram as primeiras iniciativas
preservacionistas no Brasil, inclusive aquelas
protagonizadas no início das atividades
do Iphan – então denominado Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –
Sphan.
Profeta Habacuc
A esse respeito, não seria ocioso lembrar Acervo: Copedoc/Iphan/
Marcel Gautherot.
que, nascido sob o signo da globalização, em
Grafismo Wajãpi
seu momento inicial – que podemos situar Acervo: Iphan.
na grande expansão ultramarina portuguesa no período; e dela é emblemático não só o
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
–, o Brasil acabou de completar cinco séculos descaso pelos vetustos edifícios coloniais,
A C I O N A L
desde seu descobrimento. Entretanto, foi velharias a serem derrubadas pelas “picaretas
necessário o decurso de quase trezentos regeneradoras”, mas também a escassez
anos até a emergência das primeiras atitudes de estudos específicos sobre aqueles
N
R T Í S T I C O
Inconfidência Mineira e Tiradentes, sua figura aqui, posição de destaque cabe ao engenheiro
I S T Ó R I C O
paradoxalmente sufocados pela franca paulista por matrimônio e pela sua ligação
abertura à cultura europeia em geral, e profissional com o arquiteto Ramos de
P
francesa em particular, que caracterizou o Azevedo. Severo exerceu entre nós importante
D O
século XIX – inclusive com patrocínio oficial, papel no despertar de um interesse pela
E V I S T A
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
entre Portugal e o Brasil permitiram que as alheia”.
A C I O N A L
formas tradicionais portuguesas, decantadas Ao advogar a produção contemporânea de
de diversas correntes migratórias ao longo de uma arquitetura de base tradicional, Severo
séculos,
N
procurava afastar de sua exortação qualquer
R T Í S T I C O
laivo de “saudosismo” romântico e retrógrado,
(...) aqui se estabelecessem com naturalidade,
enraizando-se e resistindo, como na velha afirmando que
A
metrópole, à invasão das influências cosmopolitas”.
E
(...) não se intima ao artista de hoje a postura
I S T Ó R I C O
inerte da esfinge, voltada em adoração estática para
A palestra foi ilustrada com fotografias
o passado, mas sim a atitude viva do caminhante
e desenhos de exemplares da arquitetura
que, olhando o futuro, tem de seguir um caminho
H
residencial brasileira, destacando seus
A T R I M Ô N I O
demarcado pela experiência e pelo estudo do
elementos construtivos tradicionais, como passado.
telhados, beirais, janelas, portas, rótulas etc. –
Em março de 1917, evidenciando o
P
uma abordagem absolutamente fora do usual,
D O
naquele momento. Pouco usual era também sucesso de sua conferência de 1914, o
E V I S T A
a importância conferida por Severo ao casario engenheiro português foi convidado a
R
das cidades, em detrimento dos edifícios Escola Politécnica de São Paulo (Severo,
excepcionais. Com efeito, revelando-se leitor 1917:394-424). Aproveitou a oportunidade
atento de A lâmpada da memória, uma das e propôs a utilização, para o estudo da
Sete lâmpadas da arquitetura, de John Ruskin, arquitetura brasileira, do método de
o engenheiro afirmou: “investigação direta”, próprio da etnografia
e da arqueologia, em oposição à pesquisa
(...) há que ponderar que o caráter de uma
documental, privilegiada pelos historiadores – 15
cidade não lhe é dado por seus monumentos,
justificando-se com as seguintes palavras:
colocados em pontos dominantes, grandes praças
ou lugares históricos. Ligam esses locais as ruas e A arqueologia não é apenas o estudo da
avenidas, marginadas por casas de variado destino; antiguidade, analisada como uma ossatura
e são estas que dão a característica arquitetônica morta, ou dissecada como um cadáver em
da cidade; com efeito, o monumento é uma laboratório de anatomia. Não se prende às coisas
exceção, a casa é a nota normal da vida quotidiana do passado, como petrificações imobilizadas na
do cidadão, é como uma lápide epigráfica de sua
rocha sedimentar que é seu eterno jazigo. Estuda
ascendência e de sua história. manifestações da vida da humanidade, fases de
civilização; analisa as criações do homem como
Numa referência à recém-iniciada
integrações da coletividade, em determinado meio
construção da nova catedral de São Paulo,
e tempo. (grifo nosso)
que viera substituir a antiga matriz colonial,
Ricardo Severo não se furtou a criticar o Reiterando sua visão da arte como
caráter importado do estilo adotado – o fenômeno coletivo, transmitido pela
neogótico –, ressaltando que “Melhor fora experiência, ressaltou que, para a arqueologia,
(...) as mais rústicas ruínas têm um valor Minas, como se fosse composição do mesmo
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
máximo e o mais modesto edifício tem uma arquiteto (o “Aleijadinho”) da segunda metade do
brilhante significação, pela natureza dos século XVIII.
A C I O N A L
de exemplo, Severo apresentou um “grosseiro (...) uma legitimidade tão legal quanto o
dogma clássico das ordens arquitetônicas dos
esboço” da arquitetura religiosa brasileira,
H
critério arqueológico da sua composição movimento que logo ficaria conhecido como
E V I S T A
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
temas abordados pelo engenheiro português, contrário da ênfase de Ricardo Severo
A C I O N A L
fazendo até mesmo pequenas retificações. É no caráter anônimo e coletivo das igrejas
fácil compreender seu entusiasmo: discorrer brasileiras, e sua filiação genética à arquitetura
sobre a arquitetura colonial brasileira,
N
portuguesa.
R T Í S T I C O
identificando técnicas construtivas, motivos Citando textualmente alguns trechos
ornamentais recorrentes ou soluções de planta da conferência do engenheiro português,
A
inovadoras – por mais sumárias que fossem as Mário também endossou com entusiasmo sua
E
análises empreendidas, quase meras descrições
I S T Ó R I C O
hipótese relativa à originalidade das plantas
– era algo inédito até aquele momento. curvilíneas mineiras, reiterando que, em
É evidente, nos artigos, a preocupação Minas,
H
A T R I M Ô N I O
de Mário com o que ele considerava a
(...) os elementos decorativos não residem só
decadência da arquitetura religiosa no início
na decoração posterior, mas também no risco e na
do século XX, diante da miscelânea de
projeção das fachadas, no perfil das colunas, na
P
estilos empregados nas novas igrejas, com
D O
forma das naves.
predominância do Neogótico. Nesse sentido,
E V I S T A
R
Que divisar senão uma parva desorientação (...) assume a proporção dum verdadeiro estilo,
e um tresloucamento lamentável? (...) Há ainda equiparando-se, sob o ponto de vista histórico, ao
artistas cristãos, não há mais arte cristã, com Egípcio, ao Grego, ao Gótico. E é para nós motivo
normas exatas, com diretriz firme e determinada de orgulho bem-fundado que isso se tenha dado
(Andrade, 1920a:96). no Brasil (Andrade, 1920b:103).
do estilo a ser empregado nas novas igrejas. polonês Georg Przyrembel. O Neocolonial
Pouco depois dessa série de artigos, Mário assumia indiscutivelmente, assim, foros de
inaugurou a coluna “De São Paulo” na revista modernidade.
N
R T Í S T I C O
seu entusiasmo pela nova tendência pernambucano José Mariano Filho, cuja
E
que nenhum ousara continuar. E Brecheret, cujas aos artistas e arquitetos do Rio de Janeiro,
D O
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
jornal A Noite a respeito do projeto com costumava insistir era a falta generalizada
A C I O N A L
que concorrera ao Prêmio Heitor de Mello, de conhecimento a respeito da arquitetura
promovido por José Mariano Filho em 1923, colonial brasileira que imperava então,
no qual alcançara o segundo lugar (Pinheiro,
N
gerando pastiches de mau gosto. Nesse
R T Í S T I C O
2013:58). sentido, considerava que
Os esforços de divulgação do Neocolonial
(...) o programa de ação desse movimento
A
realizados por Mário de Andrade e por
[Neocolonial] consiste, antes de tudo, no
E
José Mariano Filho muito se beneficiaram
I S T Ó R I C O
reconhecimento e seleção do vocabulário
das comemorações ligadas ao Primeiro característico do estilo tradicional brasileiro”
Centenário da Independência do Brasil, (Pinheiro, 2011:141).
H
celebrado na grande Exposição Internacional
A T R I M Ô N I O
do Centenário da Independência, inaugurada A nosso ver, definiu claramente, assim, a
em setembro de 1922, na área resultante do principal contribuição do Neocolonial para a
cultura brasileira.
P
desmonte do Morro do Castelo, o antigo
D O
centro histórico do Rio de Janeiro. Coerentemente, procurou suprir a
E V I S T A
carência de estudos e de repertório sobre a
R
o deputado pernambucano Luiz Cedro
apresentou em 1923 um projeto de lei de bolsas de viagem a jovens arquitetos ou
criando a Inspetoria dos Monumentos estudantes de arquitetura às cidades mineiras
Históricos dos Estados Unidos do Brasil. do ciclo do ouro, patrocinadas pela Sociedade
Trata-se da primeira iniciativa inteiramente Brasileira de Belas Artes – SBBA, da qual era
voltada para a preservação do patrimônio diretor. Assim foram custeadas as viagens de
arquitetônico brasileiro, contemplando Nestor de Figueiredo a Ouro Preto; de Nereu
Sampaio a São João del-Rei e Congonhas 19
imóveis públicos ou particulares, que seriam
“classificados como monumentos nacionais”1. do Campo, e de Lucio Costa a Diamantina,
Todas as igrejas que mencionou em seu todas no ano de 1924.
discurso de encaminhamento do projeto Em São Paulo, também havia esforços no
à Câmara dos Deputados, em 3/12/1923, sentido de documentar a arquitetura colonial
haviam sido comentadas por Ricardo brasileira: Ricardo Severo financiava viagens
Severo na conferência de 1917, da qual de estudo ao pintor José Wasth Rodrigues, e o
Cedro extraiu inclusive citações textuais. O engenheiro e professor Alexandre Albuquerque
deputado mencionou também seu “amigo empreendia regularmente, entre 1921 e 1925,
o Dr. José Mariano Filho” (Pinheiro, excursões a cidades coloniais com seus alunos
2011:261), evidenciando, assim, sua da Escola Politécnica de São Paulo, com o
proximidade com os círculos neocoloniais. objetivo de suprir a carência de registros de
importantes exemplares arquitetônicos.
1. Em 1920, Alberto Childe, conservador do Museu Nacional, As cidades mineiras do ciclo do ouro
apresentara um anteprojeto de lei voltado à proteção de sítios
arqueológicos. eram o principal destino desses viajantes.
Em abril de 1924, estiveram em Minas Folgamos em ver realizado o sonho do grupo
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Gerais os estudantes cariocas bolsistas da de intelectuais paulistas que, o ano passado, fez
uma longa e proveitosa excursão às nossas cidades
A C I O N A L
Oswald de Andrade e Dona Olívia Guedes com assuntos de arte nesse tempo de vida cara e
R T Í S T I C O
conterrâneo do arquiteto Le Corbusier, que de lançar as bases de uma associação que tivesse
E
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
década de 1920, a questão patrimonial se Rosário, na Capela de S. João e na Matriz
A C I O N A L
intensifica, sendo que, também em 1928, a do Pilar. Gustavo Barroso privilegiou as
cidade de Ouro Preto começa a aparecer no obras públicas, e não as suntuosas igrejas do
epicentro das atenções, bem como seu artista Aleijadinho, apesar das atenções que para ele
N
R T Í S T I C O
maior, o Aleijadinho. Nesse ano, o poeta se voltavam naquele momento.
pernambucano Manuel Bandeira visitou a Reforços na estrutura da Casa dos Contos
A
cidade, registrando em inúmeras crônicas – onde então funcionava uma agência dos
E
a profunda impressão que lhe causara a Correios e Telégrafos – acabaram sendo
I S T Ó R I C O
arquitetura mineira e propondo a criação de incluídos no plano de obras de Barroso.
um órgão voltado à sua preservação. Também O trabalho foi dirigido pelo “jovem e
H
dedicou um artigo ao Aleijadinho, no qual distinto engenheiro da Repartição Geral
A T R I M Ô N I O
anunciou o bicentenário de nascimento do dos Telégrafos, Epaminondas de Macedo”,
genial artista mineiro que se aproximava, recebendo elogios do então diretor do MHN
P
devendo ser comemorado em 29/8/1930. (Barroso, 1955:19).
D O
Entre 1928 e 1929, talvez inspirados por As obras realizadas por iniciativa de
E V I S T A
R
Costa dedicaram artigos ao Aleijadinho, de constituem, portanto, uma das poucas
pontos de vista bastante distintos. ocasiões em que os discursos preservacionistas
Quem também esteve em Ouro Preto em da década de 1920 se traduziram em ações
1928 foi Gustavo Barroso, diretor do Museu efetivas, a incidir na própria materialidade
Histórico Nacional – MHN, o primeiro de exemplares do patrimônio brasileiro.
museu brasileiro especificamente voltado à Registre-se, nelas, a colaboração de um
história do Brasil, criado em 1922. Barroso futuro integrante dos quadros do Iphan:
21
procurou o então governador de Minas Epaminondas de Macedo.
Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, É difícil identificar as motivações dessa
com quem mantinha relações políticas, para precoce atuação de Barroso em Ouro Preto,
convencê-lo a promover reparos na cidade mas podemos formular algumas hipóteses.
– e foi bem-sucedido na empreitada. Ficou Além da sua posição como diretor do MHN,
acertado que Antônio Carlos destinaria à guardião máximo da memória nacional, é
prefeitura “a verba de 200 mil cruzeiros para bem possível que interesses políticos tenham
as obras urgentes de Ouro Preto”, ficando guiado sua ação, já que previsivelmente
Barroso encarregado “de inspecionar, como Antônio Carlos seria eleito presidente do Brasil
técnico, os trabalhos de restauro” (Barroso, nas eleições de 1930, conforme o acordo de
1955:5-6). alternância de poder então vigente entre Minas
Dessa forma, foram feitos reparos Gerais e São Paulo, conhecido como “política
emergenciais nos chafarizes da Glória, dos do café-com-leite”. Momento politicamente
Contos, do Largo de Dirceu, de Claudio oportuno para uma reaproximação com o
Manuel e do Alto da Cruz; também foram governador mineiro, portanto.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
22
Maria Lucia Bressan Pinheiro Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Luiz Santos.
Acervo: Iphan/
Ilha do Paty
Sambadeira,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
23
de outro episódio inusitado que ocorreu um a importância que a cidade de Ouro Preto
A C I O N A L
visita, já em plena crise desencadeada pelo Filho, que pronunciou a conferência Mestre
A T R I M Ô N I O
não ao mineiro Antônio Carlos, conforme Pois foi precisamente nesse dia que o
E V I S T A
acertado), João Batista Luzardo propôs à deputado José Wanderley de Araújo Pinho,
R
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
característica ímpar de locus da Inconfidência Decreto no 24.735, que reformulava o
A C I O N A L
Mineira assegurava a Ouro Preto uma posição regulamento do Museu Histórico Nacional
de honra no panteão da simbologia nacional, – MHN, criando o Serviço de Inspeção
sobrepondo-se a interesses regionais – o que dos Monumentos Nacionais no âmbito da
N
R T Í S T I C O
também convinha a Vargas. instituição. Esse Serviço ficou conhecido
Emblemática dessa proeminência foi a como Inspetoria de Monumentos Nacionais,
A
elevação da cidade à condição de Monumento embora nunca tenha se constituído como
E
Nacional, efetivada em 12/7/1933. De certa órgão autônomo, permanecendo sempre
I S T Ó R I C O
forma, é como se Vargas decidisse aprovar a como uma divisão do MHN.
proposta de criação de uma Comissão para a E, dois dias depois da ampliação das
H
Preservação de Ouro Preto, apresentada em atribuições do MHN, em 16/7/1934, foi
A T R I M Ô N I O
1929 pelo deputado João Batista Luzardo. aprovada a Constituição de 1934, com a
Há referências de que teria sido o inclusão do famoso artigo 148, que dispunha
P
advogado Vicente Racioppi, entusiasta do sobre a proteção do patrimônio histórico
D O
legado físico e moral da ex-capital do estado e artístico do país. Essa coincidência quase
E V I S T A
R
criação do Instituto Histórico e Geográfico de reorganização do MHN e a Carta Magna
Ouro Preto – IHG-OP, em 29/8/1931, quem brasileira muito contribuiu para conferir
sugeriu a Vargas a elevação daquela cidade à legitimidade ao recém-criado Serviço de
condição de Monumento Nacional. A esse Inspeção dos Monumentos Nacionais – que,
respeito, Rodrigo Melo Franco de Andrade na verdade, tinha muito pouco amparo legal,
faz menção a uma “sugestão propícia” na como apontou Rodrigo Melo Franco.
origem desse decreto, “a primeira lei federal Ainda no mês de julho de 1934, apenas
25
sobre a matéria”, o que parece corroborar dez dias depois da promulgação da nova
a participação de Racioppi na iniciativa Constituição, Gustavo Capanema assume a
(Andrade,1952:45-46). O advogado parece pasta da Educação e Saúde Pública – o que
ter gozado, de fato, de uma inusitada representou uma guinada decisiva quanto aos
familiaridade com Vargas, com quem teve rumos da cultura e da preservação no Brasil,
vários encontros pessoais, conforme registrado como se sabe.
no diário presidencial (Vargas, 1995). No final de 1934, poucos meses depois
Assim, apesar da naturalização do episódio de assumir o Ministério, eis que Capanema
nos estudos sobre a trajetória da preservação convida Mário de Andrade, durante “almoço
no Brasil, a patrimonialização de Ouro Preto no restaurante Albamar, Rio de Janeiro”, para
reveste-se de conotações políticas inequívocas, elaborar “um anteprojeto de lei de proteção à
a imprimir uma nova dinâmica ao processo. arte no Brasil” (Andrade, 1988:175).
De fato, quase exatamente um ano O inusitado convite nos remete ao já
depois da nova legislação, em 14 de julho de mencionado encontro de Mário de Andrade
1934 – agora por outra “sugestão propícia”, com os intelectuais mineiros do Grupo
Estrela, do qual Capanema fazia parte, nos – DC, criado provisoriamente em 1935
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
mesmo em mim uma confiança admirável de Sindicato Nacional de Engenheiros e do
generosidade. Eu fui muito combatido quando ele
A C I O N A L
Instituto Central de Arquitetos, associações
falou o meu nome, e ele fincou o pé contra toda a
de classe que tinham reagido fortemente
argumentação poderosíssima da política. (Andrade,
N
1988:177-178).
contra o convite feito por Capanema ao
R T Í S T I C O
arquiteto italiano Marcello Piacentini para
Esse episódio evidencia que, a par de elaborar o projeto carioca.
A
suas atividades no Rio de Janeiro, Capanema Sua conhecida participação no projeto
E
acompanhava com interesse as atividades de
I S T Ó R I C O
para a sede do Mesp, por outro lado, deu-se
Mário de Andrade em São Paulo, à frente do por convite direto do ministro. Insatisfeito
DC. E, em 1935, estavam em andamento
com o resultado do concurso, concluído
H
duas importantes iniciativas do Mesp: o
A T R I M Ô N I O
em dezembro de 1935 com a vitória do
projeto para a Cidade Universitária da
projeto marajoara de Arquimedes Memória,
futura Universidade do Brasil e o concurso
Capanema desobrigou-se de realizá-lo,
P
para o projeto da nova sede do Ministério
D O
convidando Lucio Costa para elaborar uma
(Schwarzman,1984:97). Nesse momento
E V I S T A
alternativa para o edifício, em março de
R
permanecera alheio à esfera governamental
com a condição de que o projeto fosse
desde seu fugaz envolvimento com a reforma
desenvolvido por uma equipe composta por
do ensino universitário colocada em prática
Carlos Leão, Afonso Reidy, Jorge Moreira,
em 1931 pelo ministro Francisco Campos,
que o nomeou diretor da Enba2. Ernâni Vasconcellos e Oscar Niemeyer, sob a
A essa altura, Lucio já tinha abraçado supervisão de Lucio.
publicamente a causa modernista – mudança
27
que só começara a se tornar evidente a partir
de sua atuação na Enba, quando tomou
iniciativas como a contratação de Gregori
Warchavchik, Alexander Buddeus, Celso
Antônio e Leo Putz como professores da
Escola e, principalmente, a organização
integral do Salão de Belas Artes de 1931, para
a qual recorrera inclusive ao auxílio de Mário
de Andrade a fim de arregimentar os artistas
modernistas paulistas (Pinheiro, 2011).
Agora, em 1935, Costa participava da
comissão de desenvolvimento da Cidade
que Gustavo Capanema telefonou a Mário MHN. No entanto, enquanto estava sendo
A C I O N A L
semanas, Mário apresentou o projeto para se novamente para Ouro Preto, onde já
o Serviço do Patrimônio Artístico Nacional colaborara ativamente com a administração
H
uma semana depois. Assim, a partir de abril Inspeção do MHN – oficializado até então.
D O
“em bases provisórias”, conforme as palavras se encarregar da direção material dos serviços
de Gustavo Capanema (Andrade, 1952:59). da Inspetoria de Monumentos”. O convite
Portanto, as tratativas iniciais para a foi aceito com entusiasmo por Macedo,
criação de um órgão federal de preservação que, para viabilizar a nova atividade, deu
do patrimônio ocorreram em paralelo à imediatamente início às providências para seu
decisão de Capanema de contratar Lucio afastamento do Departamento dos Correios
Costa para elaborar o novo projeto para a e Telégrafos (Barroso, 1955:23). Entretanto,
28
sede do Mesp; sendo que Lucio passou a seu processo de contratação foi bastante
integrar os quadros do novo órgão desde seu moroso, só se efetivando em 2/12/1935. Isso
início, juntamente com mais dois membros não o impediu de, entre junho e novembro
da equipe do projeto: Carlos Leão e Oscar de 1935, antes mesmo de sua efetivação junto
Niemeyer. Mário de Andrade, por sua vez, ao MHN, elaborar o Plano de Restaurações
assumiu a função de representante do Sphan em Ouro Preto que foi apresentado ao
em São Paulo. ministro Gustavo Capanema no final daquele
Configura-se, assim, de forma mais que ano (Barroso, 1955:43). O relatório compõe-
emblemática, a imbricação da arquitetura se da caracterização física e do estado de
modernista nas raízes da arquitetura conservação de várias pontes, chafarizes e
tradicional, sempre destacada. igrejas de Ouro Preto que a Inspetoria de
É digna de nota a ausência de qualquer Monumentos Nacionais pretendia restaurar,
menção, convite, ou proposta de colaboração além da descrição das intervenções propostas
entre o recém-criado Serviço e aquele outro, e respectivos orçamentos. Trata-se de um
criado apenas dois anos antes: o Serviço de documento precioso, por disponibilizar
grande quantidade de informação, Como se vê, concordemos ou não com
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
inclusive levantamentos métricos e registros as medidas e escolhas tomadas, o fato é que,
A C I O N A L
fotográficos, sobre o estado em que se entre 1935 e 1937, o Serviço de Inspeção
encontrava grande parte dos bens culturais de Monumentos Nacionais do MHN
de Ouro Preto naquele momento (Barroso, levou efetivamente a cabo um conjunto de
N
R T Í S T I C O
1955:34-127). intervenções visando preservar monumentos
Como já ocorrera em 1928, Barroso ouro-pretanos, todas precedidas de estudos
A
privilegiou logradouros, pontes e chafarizes, técnicos preliminares – um caso inédito até
E
isto é, os equipamentos urbanos, que então. Raras vezes mencionado, esse trabalho
I S T Ó R I C O
compunham o que ele chamou de “ambientes foi feito em paralelo à criação do Sphan e
históricos” – e que se encontravam então à sua progressiva institucionalização, que
H
bastante deteriorados. Trata-se de uma se deu, como vimos, entre abril de 1936 –
A T R I M Ô N I O
postura inovadora naquele momento, pois quando o anteprojeto de Mário de Andrade
o termo ultrapassa a noção convencional de foi autorizado por Vargas a ser submetido
P
monumento isolado, de caráter excepcional à Câmara dos Deputados – e novembro de
D O
(Barroso, 1955:35-43). 1937, quando foi aprovado o Decreto-lei no
E V I S T A
R
de Restaurações apresentado por Barroso novo órgão, possibilitou sua atuação efetiva.
foi elaborada por Epaminondas de Macedo, Tal seria, portanto, uma sucinta
que a iniciou até mesmo antes de sua con- apreciação do processo de emergência de
tratação, como vimos. Uma vez autorizado uma sensibilidade preservacionista no Brasil,
o Plano, o engenheiro deu início às obras a confluir na criação do Sphan – um tema
propriamente ditas, passando a apresentar ainda carente de pesquisas aprofundadas.
relatórios regulares, de periodicidade qua- Mapeando caminhos pouco explorados, o
29
se semanal, do andamento do trabalho, presente trabalho propôs uma abordagem
que cobrem o período de novembro de transversal e abrangente do período,
1935 a julho de 1937, quando o Sphan já privilegiando as conexões entre os temas
estava funcionando em bases provisórias. de investigação que iam se descortinando.
Os trabalhos consistiam geralmente no Recusando clivagens consagradas, recorreu a
conserto de telhados, caiação, recomposição uma abordagem inclusiva, voltada à busca das
de peças de cantaria e ornatos quebrados continuidades e dos intrincados percursos e
ou desaparecidos, limpeza e remoção de volteios dos processos de circulação de ideias.
camadas de pintura em retábulos e portadas. Do quadro delineado emerge uma noção
Em muitos casos foram colocadas placas plural da questão da identidade nacional – em
de pedra-sabão assinalando os serviços rea- que tradição e modernidade não constituem
lizados pelo MHN, como no Chafariz de uma dicotomia, mostrando-se, ao contrário,
Antônio Dias e na Ponte dos Contos – que fortemente entrelaçadas ao longo do período –
mais tarde foram “misteriosamente retiradas” o que constitui uma das observações de caráter
(Barroso, 1955:129-167). conclusivo possíveis de serem elencadas aqui.
De fato, a importância das ideias transformação em Ministério da Educação e
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Andrade e Lucio Costa, evidencia-se a partir transparece das muitas lacunas, silêncios e
da presença do Neocolonial na Semana omissões identificadas ao longo da singular
A
Ministério da Educação e Saúde Pública, após momentos. Peça essencial das tratativas em
D O
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
arquitetônico nacional. Rio de Janeiro, s.c.p., 1943.
______. Debates sobre estética e urbanismo. Rio de
A C I O N A L
ANDRADE, Mário. Mário de Andrade - cartas de
Janeiro, s.c.p., 1944.
trabalho: correspondência com Rodrigo Melo Franco de
Andrade, 1936-1945. Brasília: Sphan/Fundação Pró- MEC/SPHAN/PRÓ-MEMÓRIA. Proteção e
N
Memória, 1981. revitalização do patrimônio cultural no Brasil: uma
R T Í S T I C O
trajetória. Brasília, 1980.
______. A lição do amigo: cartas de Mário de Andrade a
Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro: Record, MICELI, Sérgio. Intelectuais à brasileira. São Paulo:
1988. Companhia das Letras, 2001.
A
______. Arte religiosa no Brasil - Arte cristã. Revista MORAES, Marcos Antonio de (org.). Correspondência
E
Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: Edusp/
I S T Ó R I C O
do Brasil, nº 50. São Paulo, Tipografia da Companhia
Industrial São Paulo, p. 95-103, fev.1920. (1920a) IEB, 2001.
______. Arte religiosa no Brasil - Em Minas Gerais. PINHEIRO, Maria Lucia Bressan. “John Ruskin e as
H
Revista do Brasil, nº 54. São Paulo, Tipografia da Sete Lâmpadas da Arquitetura – repercussões no Brasil”.
A T R I M Ô N I O
Companhia Industrial São Paulo, p. 103-111, jul.1920. In: RUSKIN, John. A Lâmpada da Memória. São Paulo:
(1920b) Ateliê, 2008, p. 9-48.
______. De São Paulo. Ilustração Brasileira. Rio de ______. “Lucio Costa: anos de formação”. In:
Janeiro, nº 3, s/p. nov.1920. (1920c) Humanistas e cientistas do Brasil. São Paulo: Edusp, 2015,
P
p. 245-264.
D O
______. De São Paulo. Ilustração Brasileira. Rio de
Janeiro, nº 6, s/p. fev.1921. ______. Neocolonial, Modernismo e preservação do
E V I S T A
R
Instituto Panamericano de Geografia e História, 1952. ______. “Repercussão das ideias de Ricardo Severo e
BARROSO, Gustavo. Documentário da ação do Museu Raul Lino no debate cultural arquitetônico no Brasil nos
Histórico Nacional na defesa do patrimônio tradicional anos 20”. In: FERNANDES, J. M.; PINHEIRO, M. L.
do Brasil. In: Anais do Museu Histórico Nacional, v. V. Rio B. (org.) Portugal-Brasil-África: urbanismo e arquitetura
de Janeiro: Imprensa Nacional, 1955, p. 5-167. do Ecletismo ao Modernismo – séculos XIX e XX.
Lisboa: Caleidoscópio,2013. p. 47-67.
BOITO, Camilo. Os restauradores. São Paulo: Ateliê,
2002. RUSKIN, John. The seven lamps of architecture. Nova
York: Dover, 1989.
BRASIL. Proteção e revitalização do patrimônio cultural
no Brasil: uma trajetória. Brasília: MEC/Sphan/Pró- SCHWARZMAN et al. Tempos de Capanema. Rio de 31
Memória, 1980. Janeiro/São Paulo: Paz e Terra/Edusp, 1984.
CALIL, Carlos Augusto. “Sob o signo do Aleijadinho”. SEVERO, Ricardo. A arte tradicional no Brasil. Revista
In: VVAA. Patrimônio: atualizando o debate. São Paulo: do Brasil, São Paulo, nº 16, ano II, v. 4. São Paulo:
9a. SR/Iphan, 2006, p. 79-90. Tipografia da Companhia Industrial, p. 394-424, jan-
abr.1917.
COSTA, Lucio. “A alma dos nossos lares”. A Noite. Rio
de Janeiro, 19 mar.1924. ______. “A Arte Tradicional no Brasil”. In:
SOCIEDADE DE CULTURA ARTÍSTICA.
DUARTE, Paulo. “Contra o vandalismo e o extermínio”.
Conferências 1914-1915. São Paulo: Typografia Levi,
O Estado de São Paulo. São Paulo, 7 out.1937.
1916.
______. “Departamento do Patrimônio Histórico e
VARGAS, Getúlio. Diário 1930-1936. São Paulo:
Artístico de São Paulo”. O Estado de São Paulo. São
Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,
Paulo, 7 out.1937.
1995.
______. Mário de Andrade por ele mesmo. São Paulo:
Hucitec, 1985. VIEIRA, Lucia Gouvêa Vieira. Salão de 1931: marco
da revisão da arte moderna em nível nacional. Rio de
LIMA, Kleverson Teodoro de. Ouro Preto: da cidade-
Janeiro: Funarte: Instituto Nacional de Artes Plásticas,
memória à cidade-monumento (1897-1937). Tese
1984.
de Doutorado. Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal de Minas Gerai., Belo
Horizonte, 2015.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
32
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
Lia Calabre
A C I O N A L
O S ERVIÇO DO P ATRIMÔNIO A RTÍSTICO N ACIONAL
N
DENTRO DO CONTEXTO DA CONSTRUÇÃO DAS POLÍTICAS
R T Í S T I C O
PÚBLICAS DE CULTURA NO B RASIL
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
Em que momento as políticas públicas Em 1930, Getúlio Vargas criou o
de cultura no Brasil tiveram início? Para Ministério da Educação e Saúde Pública –
uma grande maioria dos estudiosos e Mesp, inicialmente sob a chefia de Francisco
P
especialistas da questão, nos anos 1930, no Campos, que, em 1934, foi substituído
D O
E V I S T A
governo do presidente Getúlio Vargas e, por Gustavo Capanema, tendo este último
mais especificamente, na segunda metade permanecido à frente do órgão até 1945.
R
dessa década. É partindo da perspectiva da Vários intelectuais foram colaboradores
construção das políticas públicas de cultura no do ministro Capanema, como: Carlos
país que o presente artigo pretende revisitar os Drummond de Andrade, Mário de Andrade,
primeiros tempos de existência do Instituto do Rodrigo Melo Franco de Andrade, Anísio
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Teixeira, Fernando Azevedo, Heitor Villa-
Nessa década, o país passou por Lobos, Manuel Bandeira, entre outros.
significativas mudanças em áreas diversas e, A gestão Capanema foi marcada por um 33
em especial, na de estruturação e elaboração processo de construção institucional do
de políticas públicas. A Revolução de 1930 campo da cultura, ainda que, segundo Cecília
marcou a ruptura da chamada política do Londres, essa não fosse uma das prioridades
café-com-leite, que, de maneira simplificada, do ministro, “que em seu discurso de posse
pode ser explicada como um pacto político deu destaque à educação nacional, à saúde
que garantia uma espécie de revezamento pública e à assistência social” (Londres,
no controle do poder federal, entre paulistas 2001:85). De uma maneira geral, naquele
e mineiros, ainda que contasse com apoio momento, a ideia de cultura estava muito
de grupos oligárquicos de outras regiões do vinculada à de educação, ao conhecimento
país. Foram anos de profundas mudanças, erudito e aos “hábitos culturais cultivados”,
marcados por um processo de urbanização tais como ler clássicos da literatura canônica,
crescente, pelo aumento da produção conhecer a dramaturgia universal (ocidental
Rodrigo Melo Franco
industrial e pela conquista e consolidação de e especialmente europeia), ouvir música de Andrade
Acervo: Copedoc/Iphan/
uma série de direitos trabalhistas. erudita, enfim, o projeto era o de aumentar Marcel Gautherot.
o nível “civilizatório” do país. Ainda que a criação do Departamento Administrativo
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
realização de ações e a construção de políticas nas diferentes esferas da vida social e política
E
o ministro esteve à frente da pasta não houve reforma do Estado que, iniciada durante o governo
um setor que não tenha recebido atenção: institucional, tem seu ápice com a instauração do
regime autoritário (Diniz, 1999:26).
(...) desde a radiodifusão e o cinema ao
P
D O
decisivo apoio prestado à arquitetura e às artes O decreto que dispõe sobre os serviços
E V I S T A
Lia Calabre
A C I O N A L
– isso não significa dizer que grupos mais para a propagação e conhecimento do
conservadores ou de outras vertentes de patrimônio artístico nacional1.
O anteprojeto marioandradiano
N
pensamento não tivessem projetos para a área.
R T Í S T I C O
Havia uma disputa entre algumas correntes era ambicioso, alargando o conceito de
acerca do conceito de patrimônio que deveria patrimônio. O documento delimita as
A
ser operacionalizado pelo Estado. Segundo obras de arte patrimoniais a partir de oito
E
categorias: a arqueológica, a ameríndia, a
I S T Ó R I C O
Lúcia Lippi, as viagens dos modernistas
paulistas (como Mário de Andrade) e popular, a histórica, a erudita nacional, a
mineiros às cidades coloniais de Minas Gerais erudita estrangeira, as aplicadas nacionais e as
H
aplicadas estrangeiras. Na categoria popular,
A T R I M Ô N I O
desencadearam um processo de redescoberta
do Brasil; novos olhares eram lançados, por exemplo, estava previsto o tombamento
especialmente sobre o passado colonial. de objetos, monumentos, paisagens e
P
folclore; aqui estaria excluída a arte de origem
D O
O grupo de intelectuais modernistas e seus ameríndia. As obras tombadas deveriam ser
E V I S T A
pares mineiros, grupo composto por Gustavo
registradas em quatro Livros do Tombo. O
Capanema, Rodrigo Melo Franco de Andrade,
Lia Calabre
projeto também previa a criação de quatro
Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, entre
museus onde seriam expostas as coleções
outros, teria papel fundamental na educação, na
definição da política de patrimônio, na construção de arte correspondentes a cada um desses
de uma identidade nacional para o país (Oliveira, livros. Ao Livro do Tombo Arqueológico e
2008:116-117). Etnográfico corresponderiam as categorias
de artes arqueológicas, ameríndias e
As mobilizações intensas em favor populares. O Livro do Tombo Histórico
do patrimônio contribuíram, em muito, 35
seria correspondente à arte histórica (com
para a criação de inspetorias estaduais de o respectivo museu histórico já existente).
monumentos históricos em Minas Gerais Ao Livro do Tombo das Belas Artes
(1926), na Bahia (1927) e em Pernambuco corresponderia a criação da Galeria Nacional
(1928). de Belas Artes. E, ao Livro do Tombo das
Quando ainda estava no Departamento Artes Aplicadas corresponderia a criação
de Cultura de São Paulo, Mário de Andrade de um museu de artes aplicadas e técnica
foi convidado, pelo ministro Gustavo industrial. Cada museu deveria ter, em seu
Capanema, para elaborar o anteprojeto da saguão de entrada, a cópia do Livro do
criação do Serviço do Patrimônio Histórico Tombo das artes a que ele correspondesse,
e Artístico Nacional – que foi entregue em para ser consultado pelos visitantes. Estava
24/3/1936. No documento projetado pelo ainda prevista a criação de uma revista do
modernista, caberia ao Serviço do Patrimônio
determinar e organizar o tombamento, 1. O documento pode ser encontrado no CPDOC/FGV, no arqui-
vo Gustavo Capanema. Ref. 36.03.24/2, ou publicado na Revista
sugerir a conservação e defesa, determinar a do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nº 30, de 2002.
r e v i s t a d o P a t r i M ô n i o H i s t ó r i c o e a r t í s t i c o n a c i o n a l
36
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
Caio Reisewitz.
Acervo: Monumenta/Iphan/
Pintura de forro
Sphan e a publicação regular dos Livros do órgão (desde o período de funcionamento
A C I O N A L
museus, entre outros. mantendo-se no mesmo até 1967. Para a
O projeto era bastante abrangente. Em difícil tarefa de dar efetividade ao Sphan,
uma entrevista concedida em 2001, um dos inclusive com o necessário caráter nacional,
N
R T Í S T I C O
funcionários do grupo que trabalhou na Rodrigo contou com a contribuição de
implantação do Serviço do Patrimônio, o destacados profissionais das mais diversas
A
arquiteto, desenhista e pintor Alcides da Rocha áreas – arquitetos, juristas, engenheiros,
E
Miranda, declarou que o projeto de Mário historiadores, literatos, mestres de obras, entre
I S T Ó R I C O
outros. Atuaram na consultoria jurídica do
(...) era uma coisa imensa, tão grande, que era
difícil de fazer funcionar, porque não havia verbas
órgão, por exemplo, Afonso Arinos de Melo
H
Franco e Prudente de Morais Neto. Para
A T R I M Ô N I O
suficientes, não havia elementos humanos com
conhecimento e prática” para dar efetividade ao as ações em Pernambuco, Rodrigo contou
planejado (Miranda, 2002:247). com os serviços de Gilberto Freyre; para o
P
Rio Grande do Sul, com Augusto Meyer; e,
D O
Segundo Cecília Londres, além da
para a região amazônica, com Arthur Cezar
E V I S T A
extensão do projeto, que, sem dúvida,
Ferreira Reis. Mário de Andrade produziu
influíra na decisão da não implementação
Lia Calabre
estudos sobre São Paulo. Carlos Drummond
integral do mesmo, dois outros fatores foram
de Andrade foi o organizador do Arquivo e
determinantes. O primeiro deles era o aspecto
chefe da Seção de História e Lucio Costa,
jurídico, pelo qual Rodrigo tinha forte
chefe da Divisão de Estudos e Tombamento.
interesse,
Em suma, o Sphan contou com importantes
(...) seria praticamente inviável criar um intelectuais, seja coordenando trabalhos
instrumento de proteção legal aplicável não só aos regionais (Freyre e Meyer), seja produzindo
37
bens materiais como imateriais. estudos pontuais de interesse para a área
(Manuel Bandeira).
E o segundo era de aspecto político, a
Somente parte do anteprojeto entregue
pluralidade da cultura brasileira identificada
a Capanema foi efetivamente incorporado à
por Mário “ia de encontro ao projeto de
lei. Em correspondência trocada com Rodrigo
unidade nacional do governo” getulista,
Melo Franco de Andrade, em 29 de julho de
ou seja, não contribuía com o projeto de
1936, Mário de Andrade, após ler a versão do
construção de uma cultura nacional oficial
projeto de lei para o Serviço do Patrimônio,
(Londres, 2001:98).
respondia ao amigo:
Rodrigo Melo Franco de Andrade2 foi
o responsável pela organização do Serviço Li seu projeto de lei que achei, pelos
do Patrimônio, assumindo a direção do meus conhecimentos apenas, ótimo. Aliás,
preliminarmente é preciso que eu lhe diga
2. Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969). Formado em com toda a lealdade que dado o anteprojeto ao
direito, jornalista, escritor, por indicação de Mário de Andrade Capanema, eu bem sabia que tudo não passava
e Manuel Bandeira, foi convidado, em 1936, para organizar e
dirigir o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. de anteprojeto. Vocês ajudem com todas as
luzes possíveis a organização definitiva, façam e estudos necessários para o fim de dar início às
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
tomou em conta muitas circunstâncias porque os quais se destacam os vestígios das construções
não as conhecia (Andrade, 1981:60). (grifo nosso) jesuíticas, em São Miguel. (Xavier, 2008:44).
N
R T Í S T I C O
Rodrigo manteve uma ativa rede de (...) uma luta insana, sobretudo contra a
A T R I M Ô N I O
Tribunal de Contas.
a título de exemplo), Rodrigo tanto trata
E V I S T A
Lia Calabre
patrimônio, quanto mantém ativa, e chega que fazem parte da natureza das ações
mesmo a ampliar, sua rede de sociabilidade públicas no Brasil, somadas ao campo da
intelectual, tratando de outros projetos novidade que seria o da criação de um órgão
intelectuais e de questões diversas.
efetivo de caráter nacional que deveria
No período que antecede a promulgação
cuidar do patrimônio, Rodrigo busca se
da lei do patrimônio, em intensa
munir de argumentos e informações legais
correspondência com Augusto Meyer,
38 para dar efetividade a uma nova política
em várias ocasiões Rodrigo expressa a
pública de preservação do patrimônio
necessidade de possuir inventários e relações
nacional. Deveriam ser tomadas medidas
de bens prontos para serem tombados após
de várias naturezas, como a apontada na
a publicação da lei. Em carta de março
correspondência abaixo:
de 1937, Rodrigo convidou Meyer para
colaborar com as tarefas do Serviço do A lei não tarda a ser sancionada e precisamos,
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, portanto, estar preparados para lhe dar
que estava ainda em fase de organização cumprimento. Daí a necessidade de apurarmos a
administrativa, apontando algumas das quem pertence e de que autoridades dependem
diretrizes e projetos do novo órgão: todas as edificações aí existentes com excepcional
valor histórico e artístico, a fim de notificarmos
O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico oportunamente os proprietários ou responsáveis
Nacional se empenhará por dilatar a sua ação até (Xavier, 2008:88).
o Rio Grande do Sul, no propósito de inventariar
os bens de valor histórico e artístico excepcional
3. Correspondência não publicada e disponível para consulta na
existentes no estado e bem assim proceder aos Fundação Gilberto Freyre.
Em 13 de janeiro de 1937, pela Lei nº Previa a existência de um Conselho
A C I O N A L
de novembro de 1937, foi respectivamente diretor do Sphan, os diretores dos museus
criado e organizado o Serviço do Patrimônio nacionais (históricos ou artísticos) e mais
dez membros nomeados pelo presidente da
N
Histórico e Artístico Nacional – Sphan. O
R T Í S T I C O
decreto foi o responsável pela organização República. Através da mesma lei, foi criado
do Serviço de Proteção do Patrimônio e o Museu Nacional de Belas Artes4, destinado
A
está vigente, com poucas alterações, até os a recolher, conservar e expor as obras de
E
dias de hoje. Segundo o mesmo, constitui artes pertencentes do patrimônio federal.
I S T Ó R I C O
patrimônio o Todos os museus federais existentes, ou que
viessem a ser criados, deveriam cooperar com
H
(...) conjunto dos bens móveis e imóveis
as atividades do Sphan. Ao Museu Histórico
A T R I M Ô N I O
existentes no país e cuja conservação seja de
Nacional foi assegurada a função de guardar,
interesse público, quer por sua vinculação a fatos
conservar e expor as relíquias referentes ao
memoráveis da história do Brasil, quer por seu
P
excepcional valor arqueológico ou etnográfico, passado do país, ficando mantido o curso de
D O
bibliográfico ou artístico. museologia ali existente.
E V I S T A
O Decreto-lei nº 25 determinava a
Também ficaram sujeitos a tombamento
Lia Calabre
inscrição dos bens em quatro Livros do
monumentos naturais, sítios e paisagens que Tombo: o Arqueológico, Etnográfico e
sejam julgados merecedores de proteção. Paisagístico; o Histórico; o das Belas Artes;
O texto introdutório do decreto o e o das Artes Aplicadas. Prevendo ainda a
apresenta como a legislação que organiza a realização de acordos entre o governo federal
proteção ao patrimônio. O primeiro órgão e os estados na tentativa de uniformizar a
federal da área de proteção ao patrimônio legislação relativa à proteção do patrimônio.
foi a Inspetoria dos Monumentos 39
Em 1939, um balanço das atividades
Nacionais, criada em 1934, no Museu do Sphan, feito por Rodrigo Melo Franco
Histórico Nacional, por iniciativa de de Andrade, registrava que em todo o país
Gustavo Barroso. Com a criação do Sphan, haviam sido efetivamente tombados 261
a inspetoria foi desativada. monumentos, seis logradouros e nove
A Lei nº 378 tratava de uma conjuntos arquitetônicos e urbanísticos,
reestruturação maior do Ministério. No caso apesar de um número bem mais significativo
do patrimônio, o artigo 46 estabelecia a de bens inventariados. Ainda segundo
criação do Rodrigo, até aquele momento, o Serviço
ainda não havia conseguido realizar ações nos
(...) Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, com a finalidade de promover,
estados do Amazonas, Mato Grosso e Goiás
em todo o país e de modo permanente, o (Fonseca, 2005:111).
tombamento, a conservação, o enriquecimento
e o conhecimento do patrimônio histórico e 4. A lei prevê ainda a extinção do Conselho Nacional de Belas
Artes, cujas funções passam a ser exercidas pelo Museu Nacional
artístico nacional. de Belas Artes.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
40
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
Heitor Reali.
Acervo: Iphan/
Pintura corporal Wajãpi
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
41
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
OS Parece ocioso repetir aqui a existência de
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
CAMPOS DA POLÍTICA
serviço público da natureza daquele a que vimos
aludindo. Recorre do reconhecimento por parte
A C I O N A L
mãos da iniciativa privada. Mesmo na esfera Em nossa terra, ainda persiste em muito
I S T Ó R I C O
autonomia sobre alterações, negociações ou progressista dessa natureza não faz, na maioria das
vezes, senão acobertas grandes ambições materiais.
mesmo venda do patrimônio edificado. Nesse
sentido, o trabalho com os inventários era A tarefa da construção de políticas públicas
P
Lia Calabre
A C I O N A L
para saber o que se passava, o mesmo declarou alterações de nomenclatura, mas nada
que “estando na iminência de ser substituído, que tenha alterado significativamente sua
não tomaria mais nenhuma iniciativa sobre o missão, o Instituto do Patrimônio Histórico
N
R T Í S T I C O
provimento de cargos de confiança” (Xavier, e Artístico Nacional é um raro exemplo de
2008:120). Rodrigo continua afirmando efetividade e continuidade de política pública,
A
que havia a possibilidade, caso o Capanema especialmente na área de cultura.
E
saísse, de ele próprio deixar o Serviço, mas
I S T Ó R I C O
que mesmo assim continuaria tomando as REFERÊNCIAS
providências necessárias para garantir os
H
trabalhos em curso, como os que já haviam ANDRADE, Mário. Mário de Andrade - cartas de
A T R I M Ô N I O
trabalho: correspondência com Rodrigo Melo Franco de
sido iniciados na região das Missões. Já em Andrade, 1936-1945. Brasília: Sphan/Fundação Pró-
final de janeiro o perigo da substituição parecia Memória, 1981.
P
CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos
ter passado (Xavier, 2008:126).
D O
1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2009.
Em correspondência com Gilberto Freyre, DINIZ, Eli. “Engenharia institucional e políticas
E V I S T A
mais de um ano depois, a descontinuidade públicas: dos conselhos técnicos às câmaras setoriais”. In:
PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo.
R
volta a assombrar o Ministério e o Serviço.
Lia Calabre
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1999.
Em sua carta Rodrigo informa: FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em
processo: trajetória da política federal de preservação no
Deixei para o fim o seguinte: anda por aqui Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Minc/Iphan, 2005.
uma campanha muito pérfida contra o Capanema. ______. “A invenção do patrimônio e a memória
Atribuem-lhe tendências esquerdistas e ligações nacional”. In: BOMENY, Helena (org.). Constelação
Capanema: intelectuais e políticas. Rio de Janeiro: Ed.
com elementos comunistas, certamente com o
FGV; Bragança Paulista: Universidade de São Francisco,
objetivo de avançar no Ministério da Educação. 2001, p. 85-101. Disponível em http://www.cpdoc.fgv.br
43
Neste momento mesmo acabam de trançar uma Acesso em 20/1/2009.
rede de sacanagem junto ao ministro da Guerra MIRANDA, Alcides da Rocha. Entrevista. Revista do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 30, 2002.
para convencê-lo que o novo edifício do Ministério
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Cultura e identidade nacional
da Educação tem a forma de um martelo para
no Brasil do século XX. In: GOMES, Ângela Castro et
significar o empenho do Capanema em perpetuar al. (coord.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova
seu amor ao emblema da URSS (29/4/1939 – Fronteira/CPDOC, 2002.
_________. Cultura é patrimônio: um guia. Rio de
Arquivo Gilberto Freyre).
Janeiro: Ed. FGV, 2008.
RUBIM, Antônio Albino Canelas. “Políticas culturais no
Ao terminar o governo Vargas e a gestão
Brasil: tristes tradições, enormes desafios. In: RUBIM et
Capanema, o Serviço do Patrimônio já se al. Políticas culturais no Brasil. Salvador: Edufba, 2007.
encontrava mais consolidado. O empenho TORRES, Heloisa Alberto. Contribuição para o estudo
da proteção ao material arqueológico e etnográfico
em garantir a presença do Serviço em todas as do Brasil. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e
regiões do país, construída a partir das redes Artístico Nacional, nº 1, 1937.
pessoais de sociabilidade intelectual de Rodrigo XAVIER, Laura Regina. Patrimônio em prosa e verso: a
correspondência de Rodrigo Melo Franco de Andrade
Melo Franco de Andrade se mostrou uma para Augusto Meyer. (Dissertação de Mestrado). Rio de
estratégia acertada. Janeiro: CPDOC-FGV – 2008.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
44
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Paulo Or mindo de Azevedo
a c i o n a l
p aTrimônio c ulTural e n aTural como faTor de
n
r t í s t i c o
r enaTo s oeiro , 1967-1979
a
e
i s t ó r i c o
H
a t r i M ô n i o
A mudança de guarda no Serviço do A preparação de Renato Soeiro para
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – assumir o cargo incluiu sua promoção, em
Sphan, em 1967, foi preparada por Rodrigo 1946, à chefia da Divisão de Conservação
P
Melo Franco de Andrade, seu fundador, com e Restauração da Diretoria do Patrimônio
d o
antecedência de vinte anos. Diante da recusa
e v i s t a
Histórico e Artístico Nacional – , DPHAN,
de Lucio Costa a se envolver com questões em que havia sido transformado o Sphan,
r
burocráticas, o escolhido foi o arquiteto naquele ano, no mesmo nível de Lucio Costa.
Renato de Azevedo Duarte Soeiro, um dos Durante 21 anos ele foi o braço direito de
pioneiros da arquitetura modernista brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade.
que colaboraram no projeto da estação de Mas não bastava isso, era preciso estar
hidroaviões do Rio de Janeiro. Ele era o a par do que acontecia nos organismos
profissional mais qualificado para gerir o internacionais. Entre outras missões que lhe
órgão cuja principal atribuição era preservar foram confiadas, ressaltamos a participação 45
monumentos e cidades históricas. A sucessão na reunião preparatória da Convenção
era tão tácita que a transmissão do cargo foi para a Proteção do Patrimônio Cultural em
feita num sábado pela manhã, sem a presença
Evento de Conflito Armado, Unesco 1952, o
de autoridades nem jornalistas, como
Simpósio de Preparação (1965) e a Reunião
assinalou Carlos Drummond de Andrade:
sobre a Conservação e a Utilização do
Sai sem ruído, entra sem ruído Renato Soeiro, Patrimônio e Lugares de Interesse Histórico e
antigo e impecável colaborador dessa obra delicada Artístico, que aprovou as Normas de Quito,
e áspera. Soeiro conhece na palma da mão os OEA, 1967. Em relatório desse evento,
problemas de seu ofício. E dono de uma energia
ele assinala a contribuição ao documento
mansa, tranquila, eficiente. O melhor, o mais certo
e a reivindicação de inclusão de Portugal
substituto de mestre Rodrigo, para garantia de
e criação de um Centro Interamericano
nossos bens de arte e história. Que o governo lhe
dê meios para cumprir a tarefa, pois engenho e arte de Investigação e Estudos, no Brasil, para
não lhe faltam, em sua nobre discrição (Andrade, ampliar a assistência que o Iphan já dava
Renato Soeiro
1969:32-33). à parte meridional do continente (Soeiro, Acervo: Iphan.
1967b). No mesmo ano de 1967, Soeiro outorgada uma nova Constituição e, um
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
foi eleito para o Conselho do Centro ano mais tarde, decretado o AI-5. No final
A C I O N A L
Belgique para a organização do Centro de dos setores mais reprimidos. Mas o governo
E
Os autores que mais têm estudado a patrimônio como fator de unidade nacional,
política patrimonial no país – Gonçalves como o fizera Vargas.
H
e Sant’Anna (2015) – vêm dando pouca patrimônio não podia continuar à margem
importância à interação do Iphan com os da dinâmica socioeconômica do país, como
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P
ampliação do conceito de patrimônio cultural governo Castelo Branco com o Plano de Ação
R
e natural, sua relação com o planejamento Econômica do Governo – Paeg, eram claros:
urbano e o aproveitamento turístico foram desenvolvimento econômico e combate
conquistas universais em que o Iphan teve um à inflação. A estratégia de Soeiro seria a
grande protagonismo. integração do patrimônio a esse processo
de desenvolvimento, cooptando para isso
O PA N O R A M A D A D É C A D A outras esferas de poder – federal, estadual e
DE 1960 municipal. Esses pontos já estavam delineados
46
em seu discurso de posse (Soeiro,1967a) e
O ambiente socioeconômico e cultural seriam desenvolvidos no Plano Estratégico de
brasileiro, no final da década de 1960, era Ação que analisaremos adiante.
inteiramente distinto dos trinta anos anteriores. Internamente a DPHAN enfrentava uma
A industrialização, deflagrada a partir da grave crise. Desde o término do Estado Novo,
década de 1950, e a consequente urbanização como assinalou Joaquim Falcão, o Sphan
haviam transformado o país. Aquele foi o vinha perdendo prestígio (Falcão, 1984:21-
período de maior urbanização do Brasil, 38). Rodrigo reconheceria depois que os
quando o mercado imobiliário se estruturou maiores problemas não eram com o setor
em bases capitalistas. O desafio do patrimônio privado, mas com o poder público (Andrade,
não era mais a afirmação, senão sua gestão, 1987:53). O isolamento da DPHAN dentro
frente às pressões urbanas e econômicas. do governo era crescente e a importância
A posse de Soeiro ocorreu no período do órgão se devia mais ao alto conceito
mais duro da ditadura militar instalada com intelectual e ético de seu fundador e diretor,
o golpe de 1964. Naquele ano de 1967, foi do que pelo trabalho realizado (Fonseca,
1997:138-141). Rodrigo não escondia seu (168) e Rio de Janeiro (152), refletindo a
A C I O N A L
historiador argentino Mario Buschiazzo, (Brasil, 1994). Rodrigo defendia o tratamento
ele desabafava: ”continuo preso ao posto privilegiado dado a Minas Gerais, dada a
de chefia da Dphan enleado nas mesmas originalidade do Barroco mineiro.
N
R T Í S T I C O
dificuldades de sempre, que me parecem
mais aflitivas na medida em que me sinto O PLANO DE R E N AT O S O E I R O
A
envelhecer” (Andrade, 1986:24).
E
Entre 1953 e 1967, o número de Para orientar sua administração, Soeiro
I S T Ó R I C O
tombamentos havia se multiplicado por elabora, em 1968, um Plano Estratégico de
cinco, enquanto as verbas para conservação e Ação, que seguiria à risca, embora nunca o
H
restauração, deflacionadas, haviam encolhido tivesse divulgado1. Esse documento prova
A T R I M Ô N I O
para um terço da dotação de 1953 (Soeiro, cabalmente que a expansão silenciosa do
1967c). O órgão resistia, sem fazer concessão patrimônio na década de 1970 foi planejada
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P
ao governo, como uma grande família por ele e não “apesar dele”. Em cinco
D O
amalgamada pelo carisma de seu diretor. A capítulos, ele define sua linha de ação. O
E V I S T A
identidade da instituição com a figura de primeiro é a “Filosofia” do órgão, que ele
R
seu fundador/diretor fazia com que ele fosse toma de empréstimo a Rodrigo, sinalizando a
conhecido como o “Sphan de Rodrigo” ou, no continuidade com a sua tradição:
dizer de Drummond, “o casal Rodrigo-Sphan”.
Somente a extensão territorial, com seus
Trinta e um anos depois de fundado,
acidentes e riquezas naturais, somada ao povo
o órgão não tinha regimento interno e que a habita, não configura de fato o Brasil, nem
mantinha praticamente o mesmo quadro de corresponde a sua realidade. Há que computar
funcionários. O próprio Rodrigo ocupava também (,,,) a produção material e espiritual
47
o cargo em comissão. Ao deixar o serviço duradoura ocorrida de norte a sul e de leste a
público, não tinha direito a aposentadoria, oeste do país, constituindo as edificações urbanas
tendo sido necessário que o presidente e rurais, a literatura, a música, assim como tudo
Castelo Branco baixasse um decreto mais que ficou em nossas paragens, como traços de
caráter nacional, do desenvolvimento histórico do
concedendo-lhe uma pensão.
povo brasileiro (Andrade, 1987b:56).
Uma das críticas mais frequentes ao
Sphan, no “período heroico”, especialmente O texto prioriza as ações a serem
a endereçada pelos nordestinos – incluindo adotadas, começando pela reestruturação
Gilberto Freyre, inspirador do conceito administrativa e financeira do órgão. Em
de patrimônio nacional, com sua casa- seguida, propõe uma ampla campanha de
grande, capela e sobrado urbano –,,era o conscientização cidadã do que representava
favorecimento a Minas Gerais e ao Rio o patrimônio como valor cultural, de
(Azevedo, 2016). Dos 745 tombamentos identidade e como gerador de riqueza.
realizados no período, 320, ou cerca de 43%,
estavam concentrados em Minas Gerais 1. Ver detalhes do mesmo em Azevedo, 2013.
O segundo capítulo é denominado de Casas de Cultura de iniciativa do egrégio Conselho
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
mudanças do país.
E
integração no plano nacional de turismo cultural, de objetos e obras de arte, à venda de ingressos,
E V I S T A
A C I O N A L
O primeiro curso nacional de especialização
isenções compensatórios dos ônus do tombamento
em restauração para arquitetos ocorreria em
(Soeiro, 1968).
1974, na USP. A seguir foram realizados
N
R T Í S T I C O
Esse capítulo se ocupa também da cursos em convênio com as Universidades
obrigatoriedade da educação patrimonial e Federais de Pernambuco (1976) e Minas
A
da formação de técnicos, de diferentes níveis, Gerais (1978). A partir da sua quarta edição,
E
realizada em 1981 em Salvador, decidiu-se
I S T Ó R I C O
para cuidar da preservação do patrimônio.
Até então, a formação dos técnicos da dar sede ao curso naquela cidade. Convênio
DPHAN se fazia nos canteiros de obra. semelhante foi celebrado com a Universidade
H
Federal de Minas Gerais para formação de
A T R I M Ô N I O
O Plano Estratégico de Ação seria
institucionalizado com os Compromissos de técnicos em conservação e restauração de bens
Brasília (Compromisso, 1970) e de Salvador, móveis, dando origem ao Cecor.
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P
em 1971 (Brasil, 1973). Nele já estava
D O
prevista a criação do Ministério da Cultura, O I N Í C I O D A N O VA
E V I S T A
de um Fundo Nacional de Desenvolvimento ADMINISTRAÇÃO
R
da Cultura, como ocorreria em 1991 com
o Programa Nacional de Apoio à Cultura – Os dois primeiros anos da administração
Pronac, e de incentivos fiscais. Mas muitas de Soeiro foram de muito poucos recursos,
de suas propostas não avançaram devido reflexo da instabilidade do governo Costa e
ao receio, dentro da própria DPHAN, de Silva e da junta militar que o sucedeu. Mas a
fragilizar o Decreto-lei nº 25/1937. nova administração não ficaria imobilizada,
O Plano Nacional de Turismo, então aproveitaria esse recesso para reestruturar a
49
em discussão, deveria beneficiar os centros casa e buscar em instituições internacionais
históricos, monumentos e museus, mas os expertise para realizar os primeiros planos
lobbies do turismo não permitiram. Em diretores de patrimônio de cidades históricas.
compensação, negociações junto ao Tribunal A cooperação com a Unesco, que havia
de Contas da União resultaram na Resolução sido iniciada em 1952, teve um grande
nº 74/1970, que permitia destinar 5% reforço no final da administração de Rodrigo,
da cota-parte do Fundo de Participação por iniciativa do embaixador Carlos Chagas
dos Estados e Municípios a trabalhos de junto àquele órgão, e resultou na missão
preservação da cultura. A grande ampliação do arquiteto Michel Parent, entre 1966 e
dos recursos do órgão viria, porém, de 1968 (Leal, 2008). O título do relatório
convênios com outros ministérios, que era: Brésil, protection et mise en valeur du
analisaremos adiante. patrimoine culturel brésilien dans le cadre
Uma das recomendações do du développement touristique et économique,
Compromisso de Brasília dizia respeito que expressava a nova diretriz da Unesco.
à formação de arquitetos restauradores, No mesmo período, Soeiro participou da
50
elaboração das Normas de Quito, OEA, Passarinho para pedir apoio para o seu plano
A C I O N A L
impacto muito positivo junto aos tecnocratas de governadores para a defesa do patrimônio
do regime militar. (Sant’Anna, 2015:215).
Em abril de 1968, no início de seu
N
De outra parte, se processava, com a Carta
R T Í S T I C O
mandato, Soeiro vai a Roma para uma de Veneza de 1964, uma revisão do conceito
reunião do Iccrom. Dali segue para Paris, de patrimônio, que deixava de ser a expressão
A
onde acerta com a Unesco a volta de Michel da identidade nacional para se converter
E
Parent para uma missão no Pelourinho.
I S T Ó R I C O
em uma herança comum de todos os povos.
Como esse não pôde voltar, em seu lugar foi O monumento isolado perdia importância
acertada a vinda do arquiteto Jean-Bernard para os sítios urbanos e naturais. A Unesco
H
Perrin, especialista em legislação de cidades
A T R I M Ô N I O
promulgaria, em 1972, a Convenção para a
históricas (Brasil, 1980b). Consegue também Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural
a vinda dos urbanistas ingleses Graeme
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
e Natural, em cuja preparação Soeiro teve
P
Shankland e Dave Walton, para elaborar
papel importantíssimo. O Conselho da
D O
um plano de turismo para o Pelourinho, e
E V I S T A
Europa lançava em 1975 a Declaração de
do arquiteto português Viana de Lima, para
Amsterdam, que defendia o princípio da
R
os estudos do plano diretor de Ouro Preto
conservação integrada, ou seja, a preservação
e avaliação de São Luís do Maranhão e de
de conjuntos históricos feita através da
Alcântara como centros históricos. Para o
planificação urbana (Cartas patrimoniais).
ano seguinte, foi acordada a realização de
O Iphan estava inteiramente identificado
missões no Pelourinho e em Ouro Preto e
com esse aggiornamento do pensamento
a elaboração de um plano urbanístico para
preservacionista e seu diretor afirmaria, no
Parati, pelo urbanista Limburg-Stirum.
final de seu mandato: 51
Através da OEA viriam o mexicano Flores
Marine, e por organismos da ONU o Mais preocupado com o monumento
colombiano Guillermo Trimmiño e o isolado nos seus 30 primeiros anos – 1937/1967
holandês Sylvio Mutal. – e atuando quase sempre isoladamente,
Estávamos no final da década de 1960 e o desenvolvimento econômico do país vai
o desenvolvimento econômico era a solução impor-lhe novas obrigações, que se traduzem
na necessidade de organização de planos de
recomendada pelos organismos internacionais
conjuntos urbanísticos, visando a preservação
para superar a pobreza regional, em especial
e o desenvolvimento dos núcleos históricos
pela Comissão Econômica para a América
afetados pelas novas estradas, represas, complexos
Latina e o Caribe – Cepal. O turismo
industriais etc., providências essas que definem
cultural, promovido pela Unesco e OEA, era uma segunda fase de atividades para o órgão e para
apresentado como a tábua de salvação, não só a qual era indispensável o apoio dos governos dos
do patrimônio, como da própria economia estados e dos municípios, fase esta marcada pelos
dos países da região. É nesse momento que o Encontros de Brasília e Salvador, em que foi fixada Azulejos de Portinari
Acervo: Iphan/
diretor da DPHAN procura o ministro Jarbas a nova política para o Iphan (Soeiro, 1979a). Márcio Vianna.
Essa nova orientação não ficou no papel. b) Criação de mais cinco novos Distritos, com
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Entre 1967 e 1979, os conjuntos paisagísticos sedes em Belém, São Luis, Rio de Janeiro, Brasília
e Porto Alegre.
A C I O N A L
para esses sítios, em vez de apenas tombá-los Essa proposta se transformaria no novo
E
A C I O N A L
Soeiro aponta, além das dificuldades
conscientes dos seus valores locais dentro da
conceituais, a insensibilidade da burocracia
cultura nacional (Soeiro, 1973).
N
do MEC para com a cultura, totalmente
R T Í S T I C O
absorvida pelas questões educacionais, e a O inventário seria um dos objetivos da
falta de recursos para cumprir sua missão. fundação a ser criada para tornar mais ágil a
A
Mas, mesmo assim, elabora e publica, em ação do Iphan, mas não chegou a ser realizado
E
1973, o Programa de Ação Cultural – PAC,
I S T Ó R I C O
diante da extensão da tarefa e pelo fato de
no qual demonstra igual preocupação com Soeiro ter deixado a direção do DAC para
a cultura do passado e do presente, do se dedicar integralmente ao Instituto. Deve-
H
A T R I M Ô N I O
patrimônio material e imaterial e com o se ressaltar que não existia, na época, uma
fomento da produção cultural. experiência internacional nesse campo, salvo
em uma cultura muito diversa da ocidental,
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
O Departamento de Assuntos Culturais, do
P
como a japonesa. A primeira manifestação da
D O
Ministério da Educação e Cultura, organizou
Unesco sobre o assunto seria a Recomendação
E V I S T A
o PAC, através do qual se propõe à execução e
a criação de novas condições para que o acervo sobre a salvaguarda da cultura tradicional e
R
brasileiro no campo artístico, histórico, literário, popular, de 1989.
arqueológico – e nas demais manifestações do As manifestações culturais imateriais e
pensamento – seja resguardado, ao tempo em que performáticas, além de registradas, deveriam
se intensifiquem e se multipliquem as atividades em ser incentivadas, amparadas e desenvolvidas.
todos os campos da cultura no país (Soeiro, 1973). Para isso foi criada, em 1975, no DAC, a
O principal programa do DAC era Fundação Nacional de Arte – Funarte, que
cultura como identidade era oficializado pelo que promulgaria as Normas de Quito (1967)
MEC. O país só iria ter um segundo Plano e a reunião para elaboração do anteprojeto
A
A C I O N A L
piauiense, da Secretaria de Planejamento da OEA.
e Coordenação Geral da Presidência da A primeira reunião do grupo foi realizada
República – Seplan-PR, Jarbas Passarinho,
N
na representação da Seplan-PR no Recife, em
R T Í S T I C O
acreano, ministro do MEC e, logo abaixo janeiro de 1973, e ali ficaria sediado o PCH.
dele, Renato Soeiro, paraense, diretor do Os recursos eram provenientes do fundo
A
Iphan e DAC, e Josué Montelo, maranhense, Plano de Ações Integradas da Seplan-PR, que
E
diretor do recém-criado Conselho Federal
I S T Ó R I C O
financiava 80% dos projetos apresentados
de Cultura. Eles e outras lideranças políticas por estados e municípios, e estes bancavam
e até militares viam no desenvolvimento
os 20% restantes. Os projetos deviam ser
H
daquelas regiões, mais que na repressão, a
A T R I M Ô N I O
previamente aprovados pelo Iphan. Com esse
solução para o problema2. Com a riqueza
programa milionário, o protagonismo da
patrimonial da região, experiência de
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
preservação do patrimônio se deslocou do Rio
P
planejamento de cidades históricas e as
D O
para o Recife.
recomendações da Unesco e da OEA, o
E V I S T A
Em 1975, em plena ascensão do PCH, o
diretor do Iphan sugeriria um programa de
brilhante Aloisio Magalhães, designer oficial
R
desenvolvimento do Nordeste com base no
do regime militar, mas sem antecedentes na
turismo cultural.
área do patrimônio, criou o Centro Nacional
O Iphan, com o novo estatuto, podia
firmar convênios com outros ministérios
e efetivamente firma um amplo convênio
com a SEPLAN-PR visando a preservação
do patrimônio cultural. O programa foi
55
criado pela Exposição de Motivos nº 076-B,
de 21/5/1972, e detalhado por um Grupo
de Trabalho Interministerial reunindo
representantes do MEC, Seplan-PR, Sudene
e Embratur. O representante do MEC era
o diretor do Iphan e DAC, articulador da
proposta. Chamava-se Programa Integrado
de Reconstrução das Cidades Históricas
do Nordeste com sua Utilização para Fins
Turísticos, nome depois reduzido para
Programa das Cidades Históricas, ou PCH.
A sua denominação original evidencia a
volta a arrebatar dois terços dos recursos do Em 1983, foi realizada a última dotação
A C I O N A L
retoma o ideário contido no projeto de proteção elitista (Demo, 1980:89-90).
aos bens culturais de autoria do escritor Mário de
N
Andrade, proposto em 1936, que valoriza melhor
R T Í S T I C O
Essa era uma reivindicação difusa de
a heterogeneidade e complexidade culturais
grupos marginalizados da sociedade brasileira
inerentes à formação social brasileira (Milet,
que buscavam o reconhecimento de sua
A
1988:192).
E
identidade étnica, como negros e índios. Esses
I S T Ó R I C O
O Gal. João Figueiredo toma posse grupos não tinham monumentos, mas uma
em março de 1979 e nomeia para o MEC cultura imaterial importante. A cooptação das
H
o pernambucano de formação Eduardo camadas populares fazia parte da estratégia de
A T R I M Ô N I O
Portella. Este, por sua vez, indica o sociólogo abertura política gradual e controlada, frente
e filósofo Pedro Demo como Subsecretário- ao fortalecimento de movimentos sociais,
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
Geral do MEC. Demo trabalhava no Ipea, do
P
como as Comunidades Eclesiais de Base e
D O
Ministério do Planejamento, desde 1970. O outros (Sabino, 2012:5)
E V I S T A
PCH era um projeto custoso e de resultados a Por outro lado, durante a década de
longo prazo, o que não atendia aos interesses 1970, a indústria imobiliária se fortaleceu
R
imediatistas do governo de transição do Gal. fundando a Associaçao de Dirigentes de
Figueiredo. Pedro Demo, orientado por Empresas do Mercado Imobiliário – Ademi
Portella, seria o principal formulador da nova em praticamente todos os estados. A nova
política cultural do país. É dele o texto que se política cultural desviava o foco dos sítios
segue, de 1979: urbanos e naturais para bens imateriais, sem
No quadro da política social, o cuidado valor de mercado, aliviando o orçamento
57
cultural aparece normalmente como secundário. do órgão e a tensão com o setor imobiliário,
Essa ótica desagrada os culturalistas, mas, uma que pressionava contra o tombamento
vez bem enfocada, pode ser recolocada na linha de conjuntos históricos, cidades e até
da sedimentação de traços culturais participativos,
municípios inteiros.
como pontos altos do processo educativo, bem
Além dessas duas forças, existia uma
como do processo cultural.
luta surda pelo controle de um órgão que
Dentro de um país com profundos possuía naquele momento muitos recursos
desequilíbrios regionais e sociais, a meta prioritária e prestígio junto a governadores e prefeitos.
da política social é a população de baixa renda, A disputa pelo Iphan não era apenas
que, além de muito pobre, é também maioria
conceitual, senão política e regionalista.
(...). Esse conteúdo cultural pode revelar alienação
Pode-se dizer que a mudança nos rumos do
acentuada, quando se perde na identificação de
Iphan em 1979 foi, além de uma tentativa
valores ligados à elite, como se o povo não tivesse
cultura. Por isso, insistem em que a identificação de cooptação de setores populares para a
se volte para o todo da sociedade, principalmente transição democrática gradual, a revanche
para o povo, podendo valorizar manifestações do Nordeste em razão do monopólio do
órgão por um grupo de intelectuais de antropólogos e filósofos que vieram do CNRC.
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
A C I O N A L
Memória, que pretendeu historiar a trajetória
“referência” e os da “pedra e cal”, não foram
do Iphan (Brasil, 1980a), comenta:
superadas em uma proposta de trabalho comum.
N
A proposta do CNRC, apropriada e desenvolvida De acordo com a historiografia oficial
R T Í S T I C O
pela FNPM, encampada pela SEC e, em certa do Iphan, o “período heroico” da instituição
medida, inclusive pela Constituição Federal corresponde àquele que se estende desde a sua
A
de 1988, ficou conhecida praticamente apenas criação em 1937 até a morte de Rodrigo, em
E
I S T Ó R I C O
enquanto discurso (Fonseca, 1997:200-201). 1969. Um segundo período é identificado por
essa historiografia, de 1969 (sic) a 1979, tempo
Com a redemocratização e a criação do em que a direção esteve a cargo de Renato
H
Ministério da Cultura pelo presidente José Soeiro, próximo colaborador de Rodrigo, mas
A T R I M Ô N I O
Sarney, em 1985, o seu mais duradouro que não foi marcada por quaisquer mudanças
ministro, o cearense Celso Furtado, significativas em termos de política oficial de
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
patrimônio (Gonçalves, 1996:51).
P
entendendo que a disputa era regionalista,
D O
nomeia para a Fundação Pró-Memória o A ocultação da obra de Soeiro pelo
E V I S T A
pernambucano Joaquim Falcão, ligado à Sphan/Pró-Memória era fundamental para a
Fundação Joaquim Nabuco, e para a Sphan o
R
afirmação da nova política cultural e do grupo
professor Ângelo Oswaldo, mineiro. Mas essa emergente. Quem melhor resumiu o legado
divisão salomônica não resolveria a disputa. da administração de Renato Soeiro foi Marcia
Na onda neoliberal, Sarney, na tentativa Sant’Anna em sua imparcial história do Iphan
talvez de resolver a contenda, delega ao setor registrada no livro Da cidade-monumento à
privado a política cultural do país, com a cidade-documento.
lei de renúncia fiscal que levou seu nome.
A gestão de Renato Soeiro correspondeu ao 59
Diante das infindáveis brigas intestinas do
processo de modernização administrativa do Iphan
órgão, o presidente Collor de Mello dissolveu
e à democratização da questão do patrimônio.
o sistema Sphan/Pró-Memória , em 1990,
Foi nesse período que o patrimônio, apesar
e o substituiu pelo Instituto Brasileiro de das resistências, extrapolou o âmbito do órgão
Patrimônio Cultural – IBPC, de vida curta. criado por Rodrigo M. F. de Andrade e passou
Com o presidente Fernando Henrique a ser também assunto de governos estaduais e
Cardoso, o órgão voltaria a ser um instituto, municipais. Correspondeu ainda ao período em
em 1994, como havia concebido Renato que o Iphan contou com o maior volume de
Soeiro. recursos para investimento desde a sua criação, o
que, a nosso ver, põe por terra a afirmação de que
Soeiro havia favorecido o Nordeste com
Renato Soeiro não gozava de bom trânsito político
o PCH e valorizado o patrimônio imaterial
no governo. Bastaria também lembrar que ele foi
e popular com a Funarte, mas era o herdeiro o primeiro diretor do Departamento de Assuntos
institucional de Rodrigo e seu grupo, ainda Culturais do MEC, origem e embrião do futuro
que não fosse mineiro, nem carioca, e tivesse Ministério da Cultura (...). Não fossem suficientes
uma plataforma de ação muito distinta os fatos citados, a administração de Soeiro também
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
60
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Maranhão
Acervo: Iphan.
Bumba meu boi,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
61
se formulou uma nova política de preservação de e natural como política regional e urbana”. In: Anais do
Museu Paulista, vol. 24, n.1. São Paulo: jan-abr. 2016.
A C I O N A L
de lutas no Iphan, fazer o desagravo numa revitalização do patrimônio cultural no Brasil: uma
trajetória. Brasília, 1980a.
nota jornalística sutilmente chamada de “A
______. Restauração e revitalização de núcleos históricos:
H
A C I O N A L
SABINO, Roberto. As disputas pela representação do Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
patrimônio nacional (1967-1984). Resumo de dissertação Pasta. 93.03.13.S). Não paginado.
defendida no PPG de Museologia e Patrimônio da SOPHIA, Daniela. “As políticas de preservação do
N
Unirio/Mast. Rio de Janeiro, 2012. Disponível em patrimônio na arena federal sob a gestão de Renato
R T Í S T I C O
www.culturadigital.br/politicaculturalcasaderuibarbosa/
Soeiro (1967-1979)”. In: GRANATO, Marcus (org.).
files/2012/09/Roberto-Sabino.pdf. Acessado em
Museologia e Patrimônio. Rio de Janeiro: Museu
1º/12/2016.
da Astronomia e Ciências Afins, 2015, p.317-338.
A
SANT’ANNA, Marcia. Da cidade-monumento à cidade- Disponível em http://www.mast.br/hotsite_mast_30_
E
documento: a norma de preservação de áreas urbanas no
I S T Ó R I C O
anos/pdf/volume_01.pdf. Acessado em 1º/12/2016.
Brasil. Salvador: Iphan/Oiti Editora, 2015.
SILVA, Vanderli M. da. A construção da política cultural
no regime militar: concepções, diretrizes e programas
H
(1974-1978). (Dissertação de Mestrado em Sociologia).
A T R I M Ô N I O
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2001, p. 211.
SOEIRO, Renato de A. D. “Discurso proferido no ato da
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
posse como Diretor do Patrimônio Histórico e Artístico
P
D O
Nacional”. Rio de Janeiro, 24 jun.1967a. (Arquivo
Noronha Santos, Sphan – Personalidades. SOEIRO,
E V I S T A
Renato de Azevedo Duarte. Pasta. 93.03.13.S). Não
paginado.
R
______. “Notas sobre a reunião de Quito”, 14/2/1967b.
Iphan/Copedoc, Rio de Janeiro, Personalidades.Soeiro,R,
IIA, p.422.
______. “Reaparelhamento do patrimônio histórico
e artístico nacional”. Trabalho apresentado na 14ª
Sessão Plenária do Conselho Federal de Cultura, Rio de
Janeiro, 27 abr.1967c. Iphan/Copedoc. Rio de Janeiro,
Personalidades, Soeiro, R., IIA, p.422. Matriz da Lapa-PR
Acervo: Iphan/
Cyro Corrêa Lyra.
______. “Curriculum Vitae”. Rio de Janeiro, ca. 1967d.
(Arquivo Noronha Santos, Sphan – Personalidades. 63
SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte, pasta.
93.03.13.S). Não paginado.
______. “Plano Estratégico de Ação”. Rio de Janeiro,
14 set. 1968. (Arquivo Noronha Santos, Sphan –
Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
Pasta. 93.03.13.S). Documento datilografado sem título,
em papel timbrado do órgão, definindo a política a ser
seguida pelo órgão. Título atribuído pelo autor. Não
paginado.
______. O Programa de Ação Cultural, em 1973. Brasília:
MEC/DAC, 1973. Não paginado.
______. “Pronunciamento lido na sessão do Conselho
Consultivo do Iphan 13 mar.1979a”. Rio de Janeiro:
Arquivo Noronha Santos, Sphan – Personalidades.
SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte, Pasta. 93.03.13.S.
Não paginado.
______. “Discurso de transmissão do cargo”. Rio de
Janeiro, 27 mar.1979b. (Arquivo Noronha Santos. Sphan
– Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
Pasta. 93.03.13.S). Não paginado.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
64
Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
Zoy Anastassakis
A C I O N A L
A CULTURA COMO PROJETO :
A LOISIO M AGALHÃES E SUAS I PHAN
N
IDEIAS PARA O
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
INTRODUÇÃO do Iphan1 no final da década de 1970 se
caracteriza como marco de uma substantiva
Para o Iphan, 1979 foi um ano de virada nas políticas públicas de patrimônio
P
cultural no Brasil, que, orientada segundo
D O
rupturas. Com a nomeação de Aloisio
E V I S T A
um “paradigma antropológico” (Anastassakis,
Magalhães para a sua presidência, se fundem
2014), opera uma significativa ampliação
ao Instituto o Programa das Cidades
R
semântica do conceito de patrimônio
Históricas PCH e o Centro Nacional
cultural, que a partir de então passa a
de Referência Cultural – CNRC. Logo
incorporar, progressivamente, os bens
em seguida, o órgão é reestruturado, culturais de natureza imaterial ou intangível
decompondo-se em duas entidades, a saber, a e, dentre esses, as manifestações da cultura
Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico popular.
Nacional – Sphan e a Fundação Nacional Assumindo a relevância da mudança 65
E SEU
P R O J E T O P O L Í T I C O PA R A O seu gabinete em Brasília com Aloisio (idem).
A C I O N A L
Zoy Anastassakis
(...) capaz de lhe abrir as portas de uma 2. O redesenho da área de patrimônio cultural ocorre em meio a
burocracia federal quase sempre desconfiada dos um processo mais amplo de “construção institucional” (Miceli,
1984:56) durante a gestão do ministro Ney Braga no governo
pleitos da cultura, sendo também interlocutor Geisel (1974-78).
nosso próprio modelo, que, segundo ele, diversas faces do mesmo cristal (apud Souza Leite,
A C I O N A L
nosso comportamento cultural, moldado
Aloísio propõe uma aproximação da
de forma heterogênea “no fazer do homem
nova Fundação com áreas do governo ligadas
brasileiro, na pequena dimensão muitas
N
mais diretamente às questões econômico-
R T Í S T I C O
vezes frágil de uma atividade pré-industrial”
produtivas, sugerindo que o patrimônio
(idem: 242), pois é a partir dele que se
cultural pode contribuir para o processo de
A
encontrariam os indicativos de um modelo
E
desenvolvimento nacional, na medida em que
de desenvolvimento autêntico da nação e da
I S T Ó R I C O
identidade nacional (idem). (...) uma cultura é feita dos elementos
É significativa desse posicionamento a fala compostos do passado que são vistos pelos
H
em que Aloisio evoca a metáfora do bodoque,
A T R I M Ô N I O
homens transitórios do presente e que desenham o
a fim de descrever a relação entre passado e caminhar projetivo (idem).
futuro, segundo sua perspectiva:
Segundo Falcão, com essas falas, Aloisio
P
D O
Zoy Anastassakis
(...) uma cultura é avaliada no tempo e se insere busca marcar um novo posicionamento
E V I S T A
no processo histórico não só pela diversidade dos
das políticas públicas de preservação do
elementos que a constituem, ou pela quantidade
patrimônio cultural, que estivesse mais
R
das representações que dela emergem, mas
sobretudo por sua continuidade. Essa continuidade
afinado ao clima geral de mudança que
comporta modificações e alterações num processo envolvia o fim do regime autoritário no país
aberto e flexível, de constante realimentação, (2003:248). Captando, sistematizando e
o que garante a uma cultura sua sobrevivência. tentando concretizar esse clima, Aloisio optou
Para seu desenvolvimento harmonioso pressupõe por atuar dentro das políticas de Estado
a consciência de um largo segmento de passado (idem:250), buscando articular cultura e
histórico. Pode-se mesmo dizer que a previsão 67
desenvolvimento (idem:252). Nesse sentido,
ou a antevisão da trajetória de uma cultura
para Falcão, ele foi tanto fruto quanto artesão
é diretamente proporcional à amplitude e
da abertura política que se insinuava de forma
profundidade de recuo no tempo, do conhecimento
e da consciência do passado histórico. Da mesma mais direta a partir daquele momento.
maneira como, por analogia, uma pedra vai mais Sua estratégia para “institucionalizar
longe na medida em que a borracha do bodoque é no Iphan uma continuidade revitalizadora
suficientemente forte e flexível para suportar uma consistia na incorporação de duas experiências
grande tensão, diametralmente oposta ao objetivo inovadoras na área patrimonial, que já
de sua direção. Pode-se mesmo afirmar que, no ocorriam no governo” (idem:254), o Centro
processo de evolução de uma cultura, nada existe
Nacional de Referência Cultural – CNRC e
propriamente de “novo”. O “novo” é apenas uma
o Programa das Cidades Históricas – PCH.
forma transformada do passado, enriquecida na
continuidade do processo, ou novamente revelada,
Na tentativa de ampliação democrática do
de um repertório latente. Na verdade, os elementos conceito de patrimônio (idem), Aloisio
são sempre os mesmos: apenas a visão pode ser propôs a absorção, dentro das políticas
enriquecida por novas incidências de luz nas públicas de preservação, das manifestações
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
68
Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
Maranhão
Edgard Graeff.
Acervo: Iphan/
Tambor de crioula,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
69
Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
culturais ligadas às matrizes africana e de patrimônio cultural delineada por Mário
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
colocações das comunidades habitantes das Sphan, documento datado de 1936. Segundo
cidades históricas contempladas por políticas Maurício Chagas, assim como Lina Bo Bardi
de preservação (idem). Assim, os órgãos de
N
Zoy Anastassakis
enfoque para o patrimônio no país, que se elaborar o famoso parecer que veio dar origem ao
E V I S T A
consolida em termos legais somente no ano Decreto-lei nº 25, de 1937, de criação do Sphan.
A novidade que se apresenta nessas duas propostas
R
A C I O N A L
homem simples” (Rubino, 2009:34), para traz o bem arquitetônico para o universo da
Aloisio, assim como para Lina Bo Bardi, de cultura escrita, tornando-se assim o sociólogo
quem trata Rubino, dos arquitetos” (idem: 305). Assim, a obra
N
R T Í S T I C O
de Freyre contribui para a legitimação,
(...) se o povo era arquiteto, capaz de construir
na perspectiva de trabalho adotada pelo
obras corretas com poucos recursos, era um
A
povo do presente, vivo nesse Brasil dos anos de Sphan, de “um lugar para o evento passado
E
se construir” (idem: 307). Desse modo, o
I S T Ó R I C O
redemocratização (idem).
passado tradicional, requalificado por Freyre
Assim, em Casa-grande e senzala, se insere em um
H
projeto intervencionista no presente (idem:
A T R I M Ô N I O
(...) se um “outro” no passado poderia
conduzir a uma forte política de preservação, esse 306), a saber, as ações de tombamento
“outro” presente levou à politização de seu discurso realizadas pelo Sphan, em grande parte
P
em pleno período de aposta na modernização lideradas por Costa.
D O
Zoy Anastassakis
do país. A noção de autenticidade era deslocada: Voltando às propostas de Aloisio para o
E V I S T A
autêntico era o povo (idem). Iphan: mesmo que formuladas em diferentes
R
instâncias e com abordagens distintas,
Em meio a esse debate, é fundamental
nelas são acionadas outras concepções de
comentar o que Rubino nomeia de “parceria
patrimônio cultural, orientadas segundo as
intelectual entre o antropólogo e sociólogo
questões que o levaram a discutir, logo antes,
Gilberto Freyre e o arquiteto Lucio Costa”
os limites e as possibilidades de atuação em
(2010:302), na medida em que parece
design. Então, assim como suas considerações
haver uma estreita ligação entre os dois,
sobre design (Anastassakis, 2014; Souza
notadamente no que tange à formulação 71
Leite, 2003), suas concepções de patrimônio
de uma vinculação da arquitetura moderna
cultural são similarmente guiadas por um
brasileira à história cultural do país3,
comprometimento com as questões culturais
formulação essa que permitira aos dois
no presente, visando desenvolvimentos
construírem, via arquitetura, um elo entre o
futuros. Nesse sentido, não deixam de estar
Movimento Moderno e a boa tradição (idem).
alinhados aos compromissos firmados durante
Valendo-se da apresentação de uma série
a Convenção para a Proteção do Patrimônio
de ocasiões em que um cita o outro, Silvana
Mundial, Cultural e
Rubino ilumina um processo de legitimação
Natural, organizada pela
recíproca, segundo o qual, “se a explicação
Unesco em 1972.
mais sociológica que Lucio Costa constrói
Trata-se, então, de
está visivelmente inspirada pelo sociólogo
uma visada sobre os
práticas culturais dos grupos que nele – ou uma visada projetiva do patrimônio cultural,
em torno dele – vivem. Nesse ponto é que ancorada na convicção de que é somente
Aloisio mais se reaproxima da concepção de através da consideração das especificidades
N
R T Í S T I C O
patrimônio cultural formulada por Mário culturais que se pode constituir um projeto
de Andrade, nos modos como intentam de desenvolvimento futuro.
A
aproximar arte erudita e arte popular; se Nessa medida, não se trata, segundo
E
implicam em uma negação de certos ideais políticas de patrimônio cultural per se, mas
universalistas; percebem valor no fato de de investimentos em ações políticas de
H
o Brasil ser um “país novo”, “emergente”; patrimônio cultural, com fins a um projeto
A T R I M Ô N I O
mapeamentos da produção cultural popular; como, uma década antes, o campo do design
D O
Zoy Anastassakis
incorporam os bens culturais de natureza representara para ele uma porta de acesso às
E V I S T A
produção cultural nacional (Freitas, 1999:76- contexto, é no âmbito das políticas públicas
79). de patrimônio cultural que se constitui, a seu
Além da aproximação conceitual com a ver, um domínio a partir do qual se torna
noção de patrimônio cultural, Freitas sinaliza possível ensaiar uma intervenção no “mundo
que, ao estabelecer, textualmente, vínculos real”. Desse modo, design e políticas culturais
entre suas propostas para o Iphan e as se configuram como áreas ou domínios a
formuladas por Mário de Andrade quarenta partir de onde, em distintos momentos de
72
anos antes, Aloisio Magalhães buscava sua trajetória profissional, Aloisio Magalhães
legitimar seu trabalho à frente do CNRC, logra viabilizar suas propostas de projeto para
bem como estabelecer uma base de diálogo o próprio país.
com o grupo de intelectuais remanescentes
da “fase heroica” (1999:89), que, em grande ALGUNS ANTECEDENTES DA
parte, resistiam às mudanças sugeridas pelo REESTRUTURAÇÃO POLÍTICO-
grupo do Centro, incorporado ao Instituto INSTITUCIONAL DE 1979
após a nomeação de Aloisio para a sua
presidência. Como já comentado acima, logo antes
Além da preocupação com o presente, de assumir a presidência do Iphan, Aloisio
essa visão do patrimônio cultural está atuava à frente do CNRC (Anastassakis,
engajada com o desenvolvimento de projetos 2007), considerado como o tubo de ensaio
de futuro, ou seja, nela a continuidade em que teriam sido experimentadas as ideias
dos processos culturais, seja em seus que informaram as propostas de políticas
aspectos materiais ou imateriais, depende públicas de preservação patrimonial a partir
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
A C I O N A L
N
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
P
D O
Zoy Anastassakis
E V I S T A
R
de 1979. Deve-se ressaltar, contudo, que, do Centro para a formulação da virada São Francisco do
Paraguaçu
diferentemente do Iphan, o CNRC não fazia nas políticas de patrimônio cultural que é Acervo: Iphan/
Nelson Kon.
parte da estrutura do Ministério de Educação articulada por Aloisio, não apenas porque 73
Zoy Anastassakis
E V I S T A
R
Acarajé de Iansã institucional, segue-se também uma políticas de preservação cultural durante os
Acervo: Iphan/
Francisco Moreira
da Costa.
reorganização das políticas de preservação do anos 1970, não apenas no Brasil, mas em
patrimônio cultural conduzidas pelo órgão. todo o mundo. Primeiramente, ela destaca
Ao propor toda essa reformulação política, algumas transformações percebidas nas
Aloisio Magalhães considerava também as disciplinas que fundamentavam a seleção de
mudanças que começavam a se ensaiar no país bens considerados dignos de preservação.
74 a partir do desgaste do modelo implementado Dentre elas, a história e a antropologia, que
pelo regime militar a partir de 1964 e da sofreram significativas revisões no que tange
remobilização da sociedade civil. Segundo a seus objetos e abordagens de pesquisa.
Joaquim Falcão, ele percebia que “novas Para essa autora, essas mudanças no campo
demandas sociais pressionavam por políticas acadêmico teriam acontecido em paralelo
governamentais diferentes” (2003:248). Para a uma difusão da democracia em outros
Falcão, o grande mérito de Aloisio foi ter tido campos. Corria pelo mundo o processo de
a sensibilidade de captar, antes dos demais, descolonização e o surgimento de novos
o clima de mudança para, a partir do que o Estados-nação. Era assim uma época de
momento demandava, formular um projeto reivindicações de direitos e identidades
político e institucional que permitisse a coletivas. Vinha à tona a consciência da
concretização das mudanças necessárias. dominação cultural das ex-colônias e dos
Para Maria Cecília Londres Fonseca grupos denominados “minoritários”.
(2005), vários fatores contribuíram para A cultura surgia, nesse contexto, como
as modificações ocorridas no campo das uma via possível de libertação da dominação
e de elaboração de novas identidades a aposentadoria de Rodrigo Melo Franco de
A C I O N A L
enfatiza que, a partir da década de 1960 e na autonomia do Instituto. Além disso, pesa
década seguinte, o Modernismo passar a ser sobre o Iphan o distanciamento de suas
contestado e revisto. No Brasil, é de destaque políticas face ao modelo de desenvolvimento
N
R T Í S T I C O
a consagração do modelo desenvolvimentista nacional firmado entre os anos 1950 e 1960,
e industrial, alavancado a partir do governo pois a ideologia de desenvolvimento a ele
A
de Juscelino Kubitschek, e a hegemonia da vinculada teria atrelado o nacionalismo
E
arquitetura modernista, consagrada pela a valores de modernização, em contraste
I S T Ó R I C O
construção de Brasília. Nos anos 1960, e a ideais preservacionistas, tais quais os
principalmente a partir do governo de João acionados pelo Iphan durante as primeiras
H
Goulart e do golpe militar que a ele se segue, décadas de sua existência, voltadas quase
A T R I M Ô N I O
cresce também a politização da atividade que exclusivamente para a preservação de
cultural e ampliam-se as manifestações da edificações de “valor histórico”.
P
sociedade através de movimentos populares, Para dissolver os impasses surgidos a partir
D O
Zoy Anastassakis
artísticos e estudantis. de então, o Iphan teria recorrido também
E V I S T A
Mas é apenas à Unesco, que o auxiliou a reformular a
R
sua atuação, compatibilizando-a com o
(...) com o início da ‘distensão’, no governo
novo modelo de desenvolvimento nacional
Geisel, que o Estado passa a atuar na área cultural,
(Fonseca, 2005). Segundo as diretrizes da
não apenas como repressor, mas também como
Unesco, o Iphan deveria se transformar
organizador da cultura (2005:134).
em um negociador e um conciliador de
Deve-se ressaltar que essa ”distensão” interesses, ou seja, um órgão que conseguisse
vinha acompanhada de uma crise econômica demonstrar à sociedade que é viável a
75
internacional, o que tornaria mais nítidas as compatibilização entre preservação e
contradições do modelo econômico adotado desenvolvimento, valores culturais e valores
pelo regime militar. A partir de todo esse econômicos. As novas diretrizes divulgadas
estado de crise, o regime teria passado a pela Unesco nas Normas de Quito (1967)
enfrentar também uma crise de legitimidade. contribuíram, indiretamente, para a criação
Assim como o regime de governo, o do PCH, em 1973, e o CNRC, em 1975.
modelo de preservação do patrimônio Fazendo parte de um movimento de
cultural adotado pelo Iphan desde 1937 descentralização ocorrido no campo das
passava por uma crise decorrente do desgaste políticas de patrimônio cultural nos anos
das políticas implementadas pelo órgão 1970, movimento esse que tem por objetivo
em sua ”fase heroica”. Dentre os fatores suprir as lacunas que a atuação do Iphan
constituintes desse desgaste, Fonseca destaca, vinha apresentando, pode-se considerar,
primeiramente, a dificuldade do Iphan em então, que, mesmo que sem tal intenção,
mobilizar a sociedade e o governo para a PCH e CNRC surgem como alternativas ao
causa da preservação. Em segundo lugar, com Iphan. Tais lacunas não seriam somente de
ordem operacional; em termos conceituais o 1936 redigiu o anteprojeto do Serviço de
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
períodos históricos, e elitista na seleção e no trato da cultura ele busca formular alternativas
I S T Ó R I C O
popular (2005:143).
vincular a questão da cultura a áreas
politicamente fortes do governo, explorando o
OUTRAS D I R E Ç Õ E S PA R A A S
P
P O L Í T I C A S D E PAT R I M Ô N I O
Zoy Anastassakis
A C I O N A L
futuro é que a cultura passa a ser percebida, MAGALHÃES, Aloisio. E Triunfo? A questão dos bens
naquele momento, como base de lançamento culturais no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/
para ações que apontassem outras direções. Fundação Roberto Marinho, 1997 (1985).
N
R T Í S T I C O
______. “Na fundação da Fundação”. In: SOUZA
LEITE, João (org.). A herança do olhar: o design de
REFERÊNCIAS Aloisio Magalhães. Rio de Janeiro: Artviva, 2003, p.
A
240-243.
E
ANASTASSAKIS, Zoy. Dentro e fora da política oficial MICELI, Sergio (org.). Estado e cultura no Brasil.
I S T Ó R I C O
de preservação do patrimônio cultural no Brasil: Aloisio São Paulo: Difel, 1984.
Magalhães e o Centro Nacional de Referência Cultural. RUBINO, Silvana. “A escrita de uma arquiteta”.
(Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação In: GRINOVER, Marina; RUBINO, Silvana
H
em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade (orgs.). Lina por escrito. Textos escolhidos de
A T R I M Ô N I O
Federal do Rio de Janeiro, 2007. Lina Bo Bardi. São Paulo: Cosac Naify, 2009,
______. Triunfos e Impasses: Lina Bo Bardi, Aloisio p. 19-40.
Magalhães e o design no Brasil. Rio de Janeiro: ______. “Gilberto Freyre e Lucio Costa ou
P
Lamparina Editora, 2014. a boa tradição. O patrimônio intelectual do
D O
Zoy Anastassakis
CHAGAS, Maurício de Almeida. Modernismo e SPHAN”. In: GUERRA, Abílio (org.). Textos
E V I S T A
tradição: Lina Bo Bardi na Bahia. (Dissertação de fundamentais sobre a história da arquitetura
Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano
e Urbanismo. Universidade Federal da Bahia. Salvador,
R
Guerra, 2010a, p. 299-314.
2002. SOUZA LEITE, João (org.). A herança do
FALCÃO, Joaquim. Patrimônio imaterial: um sistema olhar: o design de Aloisio Magalhães. Rio
sustentável de proteção. Tempo Brasileiro, nº 147, out- de Janeiro: Artviva, 2003.
dez.2001, p. 163-180.
______. “Um líder e seu projeto”. In: SOUZA LEITE,
João (org.). A herança do olhar: o design de Aloisio
Magalhães. Rio de Janeiro: Artviva, 2003, p. 248-259.
FONSECA, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em
77
processo: trajetória da política federal de preservação no
Brasil. Rio de Janeiro: Ed.UFRJ/MinC/Iphan, 2005.
FREITAS, Marcelo de Brito Albuquerque Pontes. Mário
de Andrade e Aloisio Magalhães: dois personagens
e a questão do patrimônio cultural. PÓS – Revista
do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e
Urbanismo da FAU/USP, nºs 97/98. São Paulo: set.1999,
p. 71-93.
GONÇALVES, José Reginaldo. A retórica da perda.
Os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de
Janeiro: Ed. UFRJ/MinC/Iphan, 2002.
IPHAN. Portal web. http://portal.iphan.gov.br/.
LIRA, José Tavares Correia. “O popular na cultura,
a arquitetura brasileira e a história: Gilberto Freyre,
os mocambos, os modernistas e os primeiros anos do
Iphan”. In: CARDOSO, Luiz Antonio Fernandes;
OLIVEIRA, Olívia Fernandes (orgs.). Rediscutindo o
moderno: universalidade e diversidade no movimento Praça da República-PA
Acervo: Iphan/
moderno em arquitetura e urbanismo no Brasil. Caio Reisewitz.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
78
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Márcia Chuva
A C I O N A L
P OSSÍVEIS NARRATIVAS SOBRE DUAS DÉCADAS DE
N
A
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
Escrever para a revista do Iphan nos seus se de uma narrativa comprometida com
oitenta anos é um desafio. Incumbiram-me percepções, pontos de vista, reflexões a partir
de tratar do período de 1982 a 2002, vinte de um lugar de fala construído na vivência
P
anos marcantes, registrados em diferentes desses anos.
D O
E V I S T A
impressões, camadas de sensibilidade e Buscamos dar inteligibilidade a esse
inteligibilidade. Pensar sobre a instituição recorte temporal como contexto e, nesse
R
é pensar sobre seus quadros, seus agentes e sentido, alguns momentos de inflexão nos
os sujeitos que nela se constituem, também pareceram significativos para explorar e
sobre seu multifacetado universo de ação arriscar uma compreensão mais ampla do
e sobre a amplitude de suas práticas. campo do patrimônio no período, a começar
Infelizmente, não teria condições de dar a pela morte de Aloisio Magalhães, em 1982,
devida dimensão a toda essa grandeza. Esses que dá início ao período recortado. Morte
vinte anos da ação institucional no campo vivida como trauma na instituição, em um 79
do patrimônio serão abordados aqui numa momento de grandes expectativas no Brasil.
perspectiva que inevitavelmente deixará A Fundação Nacional Pró-Memória estava
muitos aspectos de fora. Se não posso precisar dando uma nova feição ao setor cultural
a medida do que está ausente, posso apenas brasileiro, em especial às instituições a ela
me desculpar antecipadamente. Vale dizer vinculadas (Peregrino, 2012; Brito, 2014).
que as reflexões deste artigo são fruto de um Dava-se mais um importante passo para a
olhar afetivo sobre uma experiência1. Trata- retomada plena dos direitos civis, com a volta,
depois de suspensas por quase vinte anos, das
1. Ingressei na instituição em 1982, como estagiária da Fundação
Nacional Pró-Memória, no setor de Estudos de Tombamento eleições diretas para os governos dos estados e
coordenado pela arquiteta Dora Alcântara, na Diretoria de
Tombamento e Conservação – DTC, chefiada pelo arquiteto as prefeituras das capitais.
Augusto Carlos da Silva Telles, no oitavo andar do Palácio
Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Ao longo da década de
A segunda inflexão no âmbito do recorte
1980, descobri e me formei no mundo do patrimônio. A partir temporal proposto pode ser verificada com
de 1992 e nos dez anos seguintes, até 2002, integrei a equipe de
inventários de bens imóveis, coordenada pela arquiteta Lia Motta, os novos rumos dados à política brasileira Capela do Engenho Una
no Departamento de Identificação e Documentação, o DID, Acervo: Copedoc/Iphan/
dirigido por Célia Corsino. no início dos anos 1990, após as primeiras Marcel Gautherot.
eleições diretas para presidência da República, pareceram adequados para compreender a
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Os dois anos de seu governo trouxeram parte indissociável dos processos de formação
momentos difíceis para todo o setor cultural, do Estado, da esfera de poder público e do
com traços violentos como perseguições a cenário político-social em que se insere.
N
R T Í S T I C O
perdas, inclusive por meio do Programa camadas de leitura que se sobrepõem, como
E
no setor, sem qualquer ajuste salarial durante tendo em vista ser ela fruto de camadas
D O
Márcia Chuva
drasticamente com Fernando Collor teve afastam focos e visadas aqui intencionalmente
R
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
cujos integrantes foram formados na esteira uma concepção da história como narrativa,
A C I O N A L
da École des Annales e dela sentiam-se tendo surgido estudos sobre uma diversidade
continuadores, herdeiros em terceira geração. de temas (abordagens, objetos e problemas),
como gênero, minorias étnicas e religiosas,
N
Publicada no Brasil logo em seguida, pela
R T Í S T I C O
Livraria Francisco Alves Editora, em 1976, hábitos e costumes. Para o campo do
com segunda edição em 1979, História: novos patrimônio, esse contexto historiográfico
A
problemas; novas abordagens; novos objetos foi expressivo, pois compartilhou a quebra
E
atingiu boa parte dos jovens que se formaram de paradigmas acerca de verdades históricas,
I S T Ó R I C O
nos anos 1970 e 80 nos cursos de História rupturas com uma história política tradicional
e de Ciências Sociais no Brasil que tinham ou com uma visão de cultura restrita às artes,
H
música ou literatura, para a uma definição
A T R I M Ô N I O
contato com a escola francesa, em anos de
ditadura militar e abertura política, ávidos mais ampla, como práticas, processos e
por revolucionar o pensamento, o Estado, a cotidiano (Burke, 1992).
P
vida cultural, as práticas sociais – o país. Os Teve também entrada no Brasil, o livro
D O
Márcia Chuva
efeitos no campo do patrimônio produzidos de Eric Hobsbawm e Terence Ranger The
E V I S T A
por essa historiografia francesa não serão invention of tradition, lançado originalmente
R
analisados neste artigo5, mas situar essa em 1983 e aqui publicado, em 1984, pela
obra no mesmo contexto pode iluminar em editora Paz e Terra. Os dois historiadores
certa medida as mudanças conceituais que ingleses de base teórica marxista também
verificamos no período aqui recortado. Pode incorporavam a perspectiva cultural em seus
também deixar pistas para aprofundamento estudos de história social, desconstruindo
e produção de novos estudos que percebam ícones e emblemas, dessacralizando
conexões entre as reflexões teóricas sobre o costumes e patrimônios. Era, sem dúvida,
81
campo do patrimônio no Brasil e o debate um contexto de viradas epistemológicas.
Essa virada cultural que atingia em cheio a
acadêmico no da história naquele momento,
história produzia os primeiros passos de uma
tal como se verificou na França (cf. Roiz e
aproximação da disciplina com a temática do
Santos, 2012).
patrimônio no Brasil.
Como apontou Peter Burke (2005),
Em obra posterior, tratando da história
nos anos 1970, aspectos culturais do
do capitalismo, Hobsbawm ([1993]1995)
comportamento humano se tornaram
fez uma leitura panorâmica do século XX
foco em estudos históricos na Europa (não
e apresentou os anos 1970 e 1980 como
somente na França) e foram estabelecidas
as “décadas de crise” do sistema, com
conexões entre história, antropologia e
predomínio da recessão e da estagnação da
literatura. Para o autor, nesse momento
economia mundial. Décadas marcadas por
afirmar que esse contexto deu margem República, depois de vinte e quatro anos de
A C I O N A L
perspectivas sobre uma identidade nacional. humanos e da tolerância, expressões que não
Essas identidades emergentes também podem ser esquecidas, nem cair no vazio,
A
trouxeram questões para os debates sobre serão sentidos a longo prazo, no campo do
E
E O CAMPO DO
como objeto de investigação. Bens e práticas PAT R I M Ô N I O : 1982-2002
culturais até então alheios a esse universo
P
Márcia Chuva
Márcia Chuva
RE V I S T A
dos subalternos e das minorias e, nem por e tradicional (1984) ou o dos Vestígios do Renda Irlandesa de
Divina Pastora,SE
Acervo: Iphan/
isso, menos significativo como referência de Quilombo dos Palmares, tombado no ano de Fabrícia de Oliveira Santos.
identidades e como fonte para a produção de 1986, em Alagoas, integrando novos sujeitos
conhecimento sobre a história do Brasil. à cena do patrimônio nacional. Também
O tombamento do Terreiro da Casa pode ser incluído nesse grupo o tombamento,
83
Branca, Ilê Axé Iyá Nassô Oká, de Salvador , em 1990, de 48 edificações na zona central
em 1984, tem sido recorrentemente apontado de Antônio Prado, no Rio Grande do Sul,
(Velho, 2006; Fonseca, 1997, entre outros) que, por sua vez, incorporou ao patrimônio
como emblemático das lutas para inclusão nacional uma expressão da colonização
de representações de grupos de identidade italiana. Essa proteção decorreu de demanda
diversificados na categoria de patrimônio advinda de técnicos, especialistas e setores
cultural brasileiro, por meio da demanda sociais, em busca de uma representação mais
de movimentos sociais que se apropriaram ampla e diversa da nação7.
dos instrumentos disponíveis, como o Em todos esses casos, os debates no
tombamento, em favor dos interesses das Conselho Consultivo, verificados por meio
minorias. Podem ser somados a esse contexto
tombamentos inovadores, como o da Fábrica 7. Esse tombamento não foi aceito de imediato pela população
de Vinho de Caju em João Pessoa, que incluiu local e foram realizados projetos de “educação patrimonial”, vista
então como meio para reduzir as tensões geradas pela ação insti-
as técnicas industriais utilizadas e, portanto, tucional. Sobre o assunto hoje, ver clipping do Ministério Público,
em 14/7/2009, em que foi instituído o tombamento voluntário:
uma expressão de modos de fazer popular https://www.mprs.mp.br/memorial/noticias/id18399.htm
das atas das reuniões, podem ser reveladores integrava um projeto mais amplo de
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
trazendo à luz sujeitos que por diferentes linhas editoriais, as séries Revista do
R T Í S T I C O
Márcia Chuva
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
denominadas de “fase heroica” e “fase algo
A C I O N A L
moderna” e, por meio dessa estratégia
(...) múltiplo como as manifestações culturais
discursiva, os doze anos de gestão de Renato
que emergem das estruturas sociais formadoras do
Soeiro, de 1967 a 1979, foram colocados
N
povo brasileiro, em que as suas produções culturais
R T Í S T I C O
na sombra. Nessa versão, o Iphan estaria seriam tão valorizadas quanto o espaço em que elas
esvaziado e enfraquecido no momento ocorrem10.
A
em que Aloisio Magalhães o assumiu. Há
E
algumas evidências, contudo, que mostram Por sua vez, a seção de cartas do Boletim
I S T Ó R I C O
o importante papel de Renato Soeiro à permitia o conhecimento de demandas e
frente da instituição: ele tinha assento no opiniões de um público que até então se
H
Conselho Federal de Cultura e no Conselho manifestava apenas de forma dispersa, sem
A T R I M Ô N I O
Consultivo do PCH, além de ter dirigido o dispor de um canal próprio de comunicação
Departamento de Assuntos Culturais – DAC, ou apresentação de demandas. Era esse,
P
a autarquia que sediava os programas PAC portanto, um espaço para questionamentos
D O
Márcia Chuva
e PCH, até 1974 (Azevedo, 2013 e Chuva em relação às práticas institucionais.
E V I S T A
e Lavinas, 2016). É fato que ambos, Renato Tais publicações, como o livro Proteção e
R
Soeiro e Aloisio Magalhães, desfrutaram de revitalização do patrimônio histórico e artístico
boas relações com setores do governo durante no Brasil - uma trajetória ou a coleção do
o regime militar. Boletim, são fontes ricas para investigação
O Boletim Sphan/Pró-Memória, editado da história das políticas institucionais de
mensalmente de 1979 a 1989 ,,foi uma 9 preservação do patrimônio no Brasil. Suas
publicação de tiragem bastante expressiva. narrativas são datadas, mas ainda ecoam
Welbia Carla Dias descreveu diversas de suas no presente, tendo sido disseminadas por
85
características, capazes de defini-la como um diferentes canais e autores. Joaquim de
espaço comunicativo. Para ela, Arruda Falcão foi um deles, ao afirmar que a
política cultural durante o regime militar teria
(...) o Boletim serviu como um espaço para
tido início somente com a criação do CNRC
discussão e compreensão de um período do
órgão repleto de questionamentos em relação aos e que o Iphan teria permanecido no “atraso
conceitos e às práticas preservacionistas (Dias, conceitual e metodológico” até a nova direção
2012:123). de Aloisio Magalhães (Falcão, 1984)11.
A Revista do Patrimônio criada em 1937
Servia também para divulgar as ações
– Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e
da instituição. No número zero do Boletim,
lançado em 1979, Aloisio Magalhães 10. Conforme analisado por Laís Lavinas, “a noção de cultura
apresentada no Boletim é (...) a cultura compreendida como um
‘processo global que não separa as condições do meio ambiente
9. No número 0/1979, o periódico chamou-se Boletim do Iphan. daquelas do fazer do homem’.”(Lavinas, 2014:157).
A partir do número 1, é denominado Boletim Sphan/Pró-Memória 11. Tais como Fonseca (1997), Gonçalves (2002). O debate
(da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da historiográfico mais recente conta com estudos sobre as políticas
Fundação Nacional Pró-Memória). Entre 1985 e 1987 o boletim culturais e de patrimônio dos anos 1970 (Lavinas, 2014, Pereira,
não foi publicado. Ver Dias (2012). 2009; Maia, 2010; Calabre, 2009).
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
86
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Convento
Nelson Kon.
Acervo: Iphan/
São Francisco
do Paraguaçu, BA
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
87
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Artístico Nacional – também nos dá elementos do Capacete, e a morte de Chico Mendes12,
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
para compreendermos o contexto recortado eventos que não podem ser banalizados, para
A C I O N A L
neste artigo. O primeiro número publicado que não percamos de vista a intensidade das
no período entre 1982 e 2002 saiu em 1984. conquistas daquele momento, em diversas
frentes.
N
dos estudos sobre o patrimônio publicados Por isso mesmo, enfatizamos o fato de
na revista até 1978. Em novo formato, o 1988 ter sido, também, o ano da Assembleia
A
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
variações. Nos 42 anos que separam a comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio
cultural brasileiro, por meio de inventários,
A C I O N A L
Constituição Democrática de 1946 da
registros, vigilância, tombamento e desapropriação,
Constituição Cidadã de 1988, o campo
e de outras formas de acautelamento e preservação.
do patrimônio se ampliou, se tornou mais
N
§ 2º - Cabem à administração pública, na forma
R T Í S T I C O
complexo e o texto Constitucional de 1988 é
da lei, a gestão da documentação governamental
revelador desse percurso. Nele encontramos e as providências para franquear sua consulta a
A
traços desse tempo percorrido e das lutas quantos dela necessitem.
E
a ele coevas, nos extensos artigos 215 e
I S T Ó R I C O
§ 3º - A lei estabelecerá incentivos para a produção
216, bem como no artigo 68 do Ato das e o conhecimento de bens e valores culturais.
Disposições Constitucionais Transitórias – § 4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural
H
ADCT. Considerando nosso recorte temporal serão punidos, na forma da lei.
A T R I M Ô N I O
e a importância do assunto, optamos por § 5º - Ficam tombados todos os documentos e os
sítios detentores de reminiscências históricas dos
reproduzi-los aqui. São eles, tal como
antigos quilombos.
P
promulgado em 1988:
D O
ADCT - Art. 68 - Aos remanescentes das
Márcia Chuva
E V I S T A
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno comunidades dos quilombos que estejam
exercício dos direitos culturais e acesso às fontes ocupando suas terras é reconhecida a propriedade
R
da cultura nacional, e apoiará e incentivará a definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos
valorização e a difusão das manifestações culturais. respectivos.
§ 1º - O Estado protegerá as manifestações das
culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, Através desses dispositivos, a Constituição
e de outros grupos participantes do processo Federal Brasileira consagrou a tese da
civilizatório nacional. diversidade cultural, ao considerar a
§ 2º - A lei disporá sobre a fixação de datas importância da contribuição dos “diversos
comemorativas de alta significação para os grupos formadores da sociedade brasileira” e 89
diferentes segmentos étnicos nacionais. a necessidade de proteção e salvaguarda do
Art. 216 - Constituem patrimônio cultural
patrimônio cultural de natureza material e
brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
imaterial pertencente a esses diferentes grupos.
tomados individualmente ou em conjunto,
portadores de referência à identidade, à ação, à A noção de “grupos formadores” cumpriu
memória dos diferentes grupos formadores da um papel crucial em termos discursivos, no
sociedade brasileira, nos quais se incluem: sentido da inclusão e do reconhecimento da
I - as formas de expressão; diversidade cultural brasileira.
II - os modos de criar, fazer e viver; Refletindo sobre a eficácia da noção de
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
“grupo” após o transcurso de algumas décadas
IV - as obras, objetos, documentos, edificações
e das novas configurações do campo, alguns
e demais espaços destinados às manifestações
artístico-culturais;
dos efeitos da sua apreensão como algo
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor permanente podem ser verificados na prática
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, de seleção de bens culturais como patrimônio:
paleontológico, ecológico e científico. se por um lado essas práticas ampliaram
significativamente o universo de bens modos de pertencimento a essa categoria.
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Márcia Chuva
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
configuração de novos objetos passíveis de valor de patrimônio e não à natureza dos
A C I O N A L
se tornarem patrimônio, novos problemas bens tornados patrimônio. Desse modo,
a serem enfrentados e novas abordagens é possível afirmar que isso significou uma
sobre antigos objetos patrimoniais. Esses
N
importante inversão na lógica consagrada
R T Í S T I C O
elementos indicam que os paradigmas do dos processos de patrimonialização, fundada
campo do patrimônio estavam (e estão) sendo na ideia de que os objetos teriam valores
A
redesenhados (Chuva, 2014). intrínsecos. (Chuva, 2012).
E
Contudo, esse entendimento, tal
I S T Ó R I C O
NOVOS OBJETOS – A NOÇÃO como apresentado por Fonseca, não estava
D E R E F E R Ê N C I A C U LT U R A L plenamente desenhado na década de 1980 e,
H
A T R I M Ô N I O
quiçá, 1990. Em sua tese, Lia Motta (2017)
Essa noção, introduzida pelo Centro faz uma interessante revisão historiográfica
Nacional de Referência Cultural, teve papel e, com uma abordagem inovadora e farto
P
decisivo na virada que viabilizou a ampliação material empírico, percebe que a noção de
D O
Márcia Chuva
da noção de patrimônio cultural no Brasil e, referência cultural dos anos 1970 era mais
E V I S T A
com ela, a inclusão de novos objetos passíveis uma marca e bem menos um conceito. A
R
de serem reconhecidos como tal. Ela foi referência cultural era uma categoria em
também fundamental para a inclusão dos construção. São as lutas de representação em
grupos sociais como sujeitos no processo de torno da legitimidade do patrimônio e dos
seleção desse patrimônio. Formulada nos sujeitos de atribuição de valor, processadas
anos 1970, aparece no texto constitucional, ao longo daquelas duas décadas, que vão
através da noção de referência, que consta conferir sentido e encorpar os significados da
no caput do Art. 216, ao lado da definição de noção de referência cultural, até que se torne
91
patrimônio como “bens de natureza material uma categoria operacional, na metodologia
ou imaterial”. Ao indicar a necessidade de do Inventário Nacional de Referências
“colaboração da comunidade” nas ações Culturais – INRC, elaborada em 200015.
de promoção e proteção ao patrimônio, Sem dúvida, seus significados na atualidade
empreendidas pelo Estado, a Constituição dão consistência e operacionalidade à ideia
também inova por incluir outros agentes no dos novos sujeitos de atribuição de valor de
processo que, até então, era monopolizado na patrimônio. Isto é, os produtores, detentores
fala do Estado e de seus especialistas. e/ou agentes da cultura foram incluídos no
Os sentidos históricos dados à noção de
processo de reconhecimento e valorização da
referência cultural, principalmente a partir
prática cultural, transformando os processos
da implantação do Decreto no 3.551/2000,
estabeleceram uma associação quase que 15. O antropólogo Antonio Augusto Arantes coordenou a
exclusiva com o patrimônio imaterial, que equipe responsável pela concepção da metodologia do Inventário
Nacional de Referências Culturais, contratado pelo Iphan para
não estava prevista na Constituição. Para desenvolvimento do Projeto Piloto no Museu Aberto do Desco-
brimento, Porto Seguro, em 1999-2000. Foi presidente do Iphan
Maria Cecília Londres Fonseca (2003), a de 2004 a 2006.
de construção de legitimidade do patrimônio à cultura do imigrante, restritos ao sul do
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Márcia Chuva
patrimônio cultural – como algo processual outro, isto é, do Centro Nacional do Folclore
R
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
forma de um texto normativo, o Decreto n o
arqueológico, logo, sua gestão não envolvia
A C I O N A L
3.551/2000 pode ser visto como o fato síntese relações com sujeitos de identidade
que encerra esse período, com a criação do quilombola no presente. O debate
para a inclusão dessa temática no texto
N
Programa Nacional de Patrimônio Imaterial.
R T Í S T I C O
Os seus efeitos se fizeram sentir a partir de constitucional envolveu diferentes setores
2002, ano do primeiro registro realizado . 18 da sociedade e foi relatado pelo referido
A
Novos objetos só poderiam ter surgido antropólogo, que, na época, era presidente
E
da Associação Brasileira de Antropologia –
I S T Ó R I C O
porque socialmente se configuraram novos
problemas e novas abordagens foram ABA. Termos como quilombo, remanescentes
propostas. Os dados produzidos por de quilombo, quilombolas, adotados na
H
Constituição, colocaram em debate o
A T R I M Ô N I O
Marins (idem) acima apresentados são, sem
dúvida, expressivos. Contudo, observar as reconhecimento da existência de grupos
políticas de patrimônio exclusivamente pelo detentores de modos de vida específicos
P
tombamento pode limitar o olhar sobre associados à vivência da territorialidade
D O
Márcia Chuva
e da diferenciação étnica, em oposição
uma realidade mais complexa. Buscaremos
E V I S T A
à perspectiva passadista e de abordagem
apontar, a seguir, outros aspectos das políticas
arqueológica que predominava entre
R
dos anos 1990 que são fruto das inovações
legisladores e também no Iphan.
conceituais e políticas forjadas nos anos 1980,
A concepção de quilombo
evidenciando também descontinuidades com
contemporâneo, que a ABA sistematizou em
o paradigma modernista.
um documento datado de 1994, subsidiou
os debates que levaram à regulamentação
NOVOS PROBLEMAS –
do Art. 68 da ADTC, quase uma década
A NOÇÃO DE QUILOMBO 93
depois, em 2003, como citado por Eliane
O’Dwyer:
Para a reflexão sobre os novos problemas,
voltamos ao texto constitucional, no que se Contemporaneamente, portanto,
refere aos quilombos e suas relações com o o termo Quilombo não se refere a
resíduos ou resquícios
campo do patrimônio. Segundo Antonio
arqueológicos
Augusto Arantes (2015), a concepção
de ocupação
predominante da categoria “quilombo” no temporal ou de
comprovação
17. A Comissão foi criada pela Portaria nº 37, de 4 de março de biológica.
1998, com a finalidade do estabelecimento de critérios, normas
e formas de acautelamento do patrimônio imaterial brasileiro e Também não se
o Grupo de Trabalho, cuja finalidade era dar assessoramento à
referida Comissão, foi criado pela Portaria nº 229, de 6 de julho
trata de grupos
de 1998, ambas assinadas pelo Ministro da Cultura Francisco isolados ou de
Weffort (Iphan, 2003). Sobre a composição dos dois grupos
citados, ver também Iphan, 2003. uma população
18. Em 2002, ocorreram os primeiros registros de patrimônio estritamente
cutural de natureza imaterial: o Ofício das Paneleiras de Goiabei-
ras, Vitória (ES) e a Arte Gráfica dos Índios Wajãpi, no Amapá. homogênea.
Baiana
Acervo: Iphan/
Da mesma forma nem sempre foram constituídos Convocado a posicionar-se nesse
Francisco Costa. a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados debate e responder às novas determinações
mas, sobretudo, consistem em grupos que constitucionais, em especial ao parágrafo 5º
94 desenvolveram práticas cotidianas de resistência na
do Art. 216, o Iphan apresentou, em 1998,
manutenção e reprodução de seus modos de vida
um parecer técnico que mantinha a posição
característicos e na consolidação de um território
institucional restrita às situações em que
próprio (Abant, 1994, apud O’Dwyer, 2002).
fossem encontrados vestígios materiais de
Em 1995, ano das comemorações dos existência dos antigos quilombos. A partir
trezentos anos da morte de Zumbi dos daí a instituição desenvolveu uma série de
Palmares, a temática quilombola conseguiu estudos e foram abertos onze processos de
entrar na pauta nacional, demarcando o tombamento, dos quais foi tombado somente
início de uma batalha jurídica e legislativa o bem relativo ao processo dos Remanescentes
que seria travada no Congresso brasileiro do Antigo Quilombo do Ambrósio. Nesse
(Arruti, 2008). Nesse mesmo ano, os caso, foram identificados restos arqueológicos,
conflitos fundiários tornaram-se manchete bem como marcos geográficos e referências
nacional com o massacre de Corumbiara, históricas da existência de quilombo
em Rondônia, e, em 1996, o massacre do constituído de negros fugidos do sistema
Eldorado dos Carajás, no Pará. escravista no local (Vaz, 2016).
Naquele momento, o Iphan eximia-se do representativa da comunidade, cabendo ao
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
debate sobre a questão fundiária, o direito à Instituto Nacional de Colonização e Reforma
A C I O N A L
terra por remanescentes de comunidades de Agrária –Incra a responsabilidade sobre a
quilombos no presente e, portanto, sobre o regularização fundiária das comunidades
quilombolas19. Desse modo, como apontou
N
próprio cerne do Art. 68, da ADTC, cujo
R T Í S T I C O
enfrentamento fervilhava no Congresso. José Maurício Arruti, a noção de “terra”
Em 2001, Fernando Henrique Cardoso ganhou a dimensão conceitual de território,
A
assinou o Decreto n 3.912, que acabou
o pois nela se incluem:
E
não tendo efetividade, porque foi julgado
I S T Ó R I C O
(...) não só a terra diretamente ocupada no
inconstitucional pelo Ministério Público, momento específico da titulação, mas todos os
por estabelecer um prazo excessivamente espaços que fazem parte de seus usos, costumes e
H
A T R I M Ô N I O
curto para apresentação de demandas de tradições e/ou que possuem os recursos ambientais
regularização fundiária quilombola e por necessários à sua manutenção e às reminiscências
exigir que as comunidades comprovassem históricas que permitam perpetuar sua memória
P
uma história de cem anos de “posse pacífica” (Arruti, 2008:23).
D O
Márcia Chuva
da terra, desde 13 de maio de 1888 até a data
E V I S T A
Especialmente com a implantação das
de promulgação da Constituição de 1988. políticas de patrimônio imaterial, essa questão
R
Essa batalha judicial que se arrastava há tornou-se central em diversas situações
mais de uma década só teria novo desfecho de registro e de inventário, passando a ser
em 2003, com a assinatura do Decreto compreendida e enfrentada também no
no 4.887 por Luiz Inácio Lula da Silva, Iphan por meio do conceito de quilombo
que regulamentou o procedimento para contemporâneo20.
identificação, reconhecimento, delimitação, Na rede de agências e agentes envolvidos
demarcação e titulação das terras ocupadas com a questão jurídico-legal quilombola, vale 95
por remanescentes das comunidades destacar a Fundação Cultural Palmares, que
dos quilombos. O decreto consagrou o se tornou responsável pela certificação das
significado de quilombo contemporâneo, em comunidades quilombolas que a reivindicam,
seu Art. 2º: antes que o Incra procedesse à regularização
da posse da terra para tais comunidades.
Consideram-se remanescentes das
A fundação é vinculada ao Ministério da
comunidades dos quilombos, para os fins deste
decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios Cultura, tal como o Iphan, sendo que as duas
de autoatribuição, com trajetória histórica própria, instituições puderam estreitar relações de
dotados de relações territoriais específicas, com parceria a partir da implantação do Decreto
presunção de ancestralidade negra relacionada com no 3.551/2000.
a resistência à opressão histórica sofrida.
19. Percebem-se nessa definição traços semelhantes àqueles que
O decreto prevê a possibilidade de serão definidos posteriormente no Decreto no 3.551/2000, para a
Salvaguarda do Patrimônio de Natureza Imaterial.
desapropriações e estabelece que a titulação 20. Esse foi o caso, por exemplo, do Jongo no Sudeste, que foi
inventariado em conformidade com a metodologia do INRC e foi
deva se efetuar em nome de entidade registrado no Livro de Registro das Formas de Expressão em 2005.
Haja vista os conflitos de interesses Os princípios que regem essa categoria
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
projetos de lei no Congresso Nacional com o 1995). A área urbana de valor patrimonial
intuito de derrubar o Decreto n 4.887/2003.
o
passava a ser concebida como documento
A
Essas tensões refletem a frágil legitimidade capaz de narrar a história da rede de cidades
E
patrimônio como direito e como instrumento valor histórico tornou-se crucial na seleção de
D O
Márcia Chuva
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
exemplares de arquitetura moderna, Flávia INBI-SU, ele próprio uma nova proposta de
A C I O N A L
Nascimento (2016) indica uma importante abordagem do bem patrimonializado.
inflexão nesse momento, tendo em vista que Veremos então, a seguir, como essa
os primeiros tombamentos desse tipo de bem nova abordagem metodológica levou à
N
R T Í S T I C O
se deram até 1967, ligados à escola carioca de compreensão da cidade histórica como um
arquitetura moderna, logo após terem sido bem em processo dinâmico, constituído
A
construídos. Nos tombamentos ocorridos pelos sujeitos que nela habitam. Deixava
E
nos anos 1980, segundo a autora, começa a de ser, portanto, um bem do passado – que
I S T Ó R I C O
haver uma percepção distinta desse tipo de deve ser protegido da destruição – para
bem, na qual a arquitetura moderna passa a tornar-se um bem apropriado pelos sujeitos
H
ser vista como história e não como partido do presente, devendo ser negociadas as
A T R I M Ô N I O
arquitetônico em disputa. formas dessa apropriação e preservação.
É também nos anos 1980 que a gestão Naquele contexto, os caminhos encontrados
P
do bem tombado consagra-se como um para tal foram os inventários.
D O
Márcia Chuva
problema incontornável a ser abordado,
E V I S T A
tendo em vista o enorme acervo de bens OS PA D R Õ E S N A C I O N A I S
DE INVENTÁRIO: NOVOS
R
tombados, as dificuldades para a fiscalização
da sua conservação e a evidência dos INSTRUMENTOS DE
processos de crescimento das cidades, P R E S E R VA Ç Ã O
inclusive aquelas tombadas. O estudo de
Lia Motta sobre Ouro Preto, publicado na O ano de 1989 foi decretado Ano
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Inventário, durante a gestão
Nacional n 22, de 1987, estabeleceu
o
de Ítalo Campofiorito como presidente do
97
parâmetros importantes para o debate Iphan. Esse evento anunciava as prioridades
sobre a gestão das cidades tombadas e da década seguinte.
servirá de ponte para refletirmos sobre os Após o desmonte do setor cultural
inventários. Embora o conceito de cidade- promovido pelo meteórico governo de
documento tenha sido inaugurado com os Fernando Collor de Mello, momento que
estudos de tombamento, como já vimos, ele apontamos como importante inflexão no
também foi utilizado nos inventários que campo do patrimônio, a sequência da década
se desenvolveram para subsidiar a gestão de 1990 foi marcada pelos oito anos de
do patrimônio tombado. Por isso, além dos governo neoliberal de Fernando Henrique
novos tombamentos de cidades, vale dizer Cardoso na presidência da República.
que as cidades com tombamentos anteriores, Marco Aurélio Santana (2003) afirma
cujos atributos apontados eram de ordem que ao mesmo tempo em que a mídia fazia a
estética, foram revisitadas sob a perspectiva defesa aberta do neoliberalismo, visto como
documental, especialmente, através da única alternativa para a crise econômica
metodologia do Inventário Nacional de global, o movimento sindical brasileiro sofria
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
98
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
significativo refluxo, comparativamente ao regional em cada estado da federação
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
ressurgimento que teve no início dos anos (Motta: 2015).
A C I O N A L
1980. Vale dizer que no período surgiram Como vimos até aqui, ocorreram alterações
também as primeiras leis visando a indenização de ordem conceitual, que pretendiam romper
das famílias de opositores da ditadura militar a com as concepções hegemônicas civilizadoras.
NR T Í S T I C O
partir do reconhecimento de crimes de tortura Conhecer, identificar, documentar tornavam-
e morte cometidos contra eles pelo Estado. se ações tão importantes para a preservação
A
Foram emblemáticos os casos de Carlos do patrimônio quanto proteger e conservar.
E
Lamarca e Carlos Marighella (Prado, 2004). O inventário passava a ser um modo de
I S T Ó R I C O
Segundo Santana, “Fernando Henrique preservação do patrimônio cultural, segundo a
assumirá como insígnia de seu governo tese defendida por Paulo Ormindo de Azevedo,
H
‘o fim da era Vargas’ e de tudo o que ela ainda nos anos 1980 (Azevedo, 1987).
A T R I M Ô N I O
representava” (2003:302). Na economia, foi o Havia experiências de inventários de
início de um processo tanto de flexibilização varredura, em escala regional (Motta e
P
das leis trabalhistas e da Consolidação das Rezende, 1998), mas foi nos anos 1980 que
D O
Márcia Chuva
Leis do Trabalho – CLT, responsabilizada teve início o desenvolvimento de metodologias
E V I S T A
então por dificultar a geração de empregos, de inventário para aplicação em nível nacional,
com a preocupação voltada para subsidiar
R
por causa dos encargos patronais por ela
gerados, quanto de redução do Estado, nos a gestão do bem tombado, cada vez mais
moldes da cartilha neoliberal. atingido pelas pressões do crescimento urbano,
Nessa esteira, uma série de medidas buscando, ao mesmo tempo, dar transparência
atingiu a gestão de Francisco Weffort no às ações institucionais e assistir às demandas
Ministério da Cultura, que manteve um das populações atingidas.
pequeno quadro de funcionários, bem As metodologias que foram então
concebidas tiveram larga aplicação no período, 99
como uma estrutura institucional reduzida.
Nenhuma Superintendência Estadual do principalmente por constituírem a principal
Iphan surgiu após 1990, ano de criação da ação de fortalecimento institucional do
Superintendência do Paraná, até 2002, ano Programa Monumenta (Duarte, 2010). Foram
de criação da Superintendência do Distrito elas o Inventário Nacional de Bens Móveis
Federal. Esses dados tornam-se expressivos e Integrados – INBMI (com o objetivo de
se considerarmos a ampliação das atribuições controle do tráfico ilícito de bens culturais) e
institucionais que a Constituição Federal o Inventário Nacional de Bens Imóveis: Sítios
havia produzido. Significativos, também, Urbanos Tombados – INBI-SU (aplicado em Matriz de Tiradentes, MG
Acervo: Iphan/
Nelson Kon.
comparativamente, pois nos anos 1980 cidades tombadas)22.
haviam sido criadas as superintendências
22. O INBMI foi financiado por um convênio estabelecido com
do Ceará (1982), do Amazonas (1987) e a Fundação Vitae. O INBI-SU foi executado com recursos do
de Sergipe (1989) e, entre 2004 e 2009, Iphan e, posteriormente, com Recursos do Programa Monumen-
ta/BID, foi aplicado em inúmeras cidades tombadas. O manual
foram criadas mais onze superintendências, da metodologia e alguns resultados do INBI-SU foram parcial-
mente reproduzidos nas Publicações do Senado Federal (Rezende,
concluindo a meta de uma representação 2007, 2007a, 2007b, 2007c).
O INBI-SU adotava a noção de O
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
PAT R I M Ô N I O D E
cidade-documento. Compreendendo a DUAS DÉCADAS
A C I O N A L
histórica sobre a forma urbana, bem na sociedade civil nos anos 1980, como
E
I S T Ó R I C O
Márcia Chuva
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
vimos nas palavras de Gilberto Velho (1984).
A C I O N A L
As políticas de patrimônio, portanto, AGUIAR, Marco Alexandre. As décadas de 80 e
90: transição democrática e predomínio neoliberal.
não visam mais propriamente evitar a
Contemporâneos – Revista de Artes e Humanidades, nº 7,
destruição do passado, elas estão enraizadas
N
nov-abril, 2011.
R T Í S T I C O
na vida, no presente. Também não parece ARANTES, Antonio Augusto. “Sobre inventários e
possível falar em patrimônio cultural hoje outros instrumentos de salvaguarda do patrimônio
cultural intangível: ensaio de antropologia pública”. In:
A
sem considerarmos sua natureza relacional, Anuário antropológico 2007-2008. Rio de Janeiro, 2009.
E
intersetorial e interdisciplinar, suas conexões
I S T Ó R I C O
______. Trajetórias e desafios do Inventário Nacional de
com áreas variadas e diversos agentes sociais Referências Culturais. Entrevista com Antonio Augusto
Arantes. Revista CPC, São Paulo, nº 20, dez. 2015 p.
envolvidos. A profissionalização e as tensões
221–260.
H
que se instalaram na área do patrimônio são
A T R I M Ô N I O
ARRUTI, José Maurício. “Quilombo”. In: PINHO,
aspectos que apenas se esboçavam nas décadas Osmundo (org.). Raça: perspectivas antropológicas.
Campinas: ABA/Ed. Unicamp/Edufba, 2008.
de 1980 e 1990.
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Por um Inventário do
P
A perspectiva estética e civilizadora
D O
Patrimônio Cultural Brasileiro. Revista do Patrimônio
Márcia Chuva
que fundou as práticas de preservação do Histórico e Artístico Nacional, nº22, 1987.
E V I S T A
patrimônio no Brasil e no mundo ocidental AZEVEDO, Paulo Ormindo de. “Renato Soeiro e
parece ter sido fortemente questionada a institucionalização do setor cultural no Brasil”. In:
R
AZEVEDO, Paulo Ormindo; CORRÊA, Elyane Lins
no período, estremecendo as bases do (org.). Estado e sociedade na preservação do patrimônio.
paradigma modernista dominante, ainda Salvador: Edufba/IAB, 2013.
que este não tenha sido superado. Nossa BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil.
Brasília,: Presidência da República, 1988. Disponível
análise buscou explorar a simultaneidade de
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
eventos, questões, problemas e pensamentos, constituicaocompilado.html>.
a fim de que o leitor estabelecesse suas BRITO, Diogo de Souza. “A invenção da
próprias conexões, levantando ele também patrimonialização das culturas populares no Brasil: a 101
Sphan/Pró-Memória (década de 1980)”. In: Anais do VII
camadas imprevistas, em que se confundem Simpósio Nacional de História Cultural. São Paulo: USP,
sentimentos, histórias, trajetórias, valores, 10 a 14 de novembro de 2014.
interesses e visões de mundo, para BURKE, Peter. O que é história cultural? 2ª ed. Rio de
Janeiro: Zahar, 2005.
encontrar rastros, produzir
______. A escrita da história: novas perspectivas. São
suas próprias pistas Paulo: Unesp,1992.
e experimentar CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos
a arena de 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
legitimidade e ação política”. In: REZENDE, Maria perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. 2.
Beatriz; GRIECO, Bettina; TEIXEIRA, Luciano; ed. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/ MinC/Iphan, 2002.
A C I O N A L
THOMPSON, Analucia (orgs.). Dicionário Iphan de HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX
Patrimônio Cultural. Rio de Janeiro, Brasília: Iphan/ (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
DAF/Copedoc, 2014. (termo chave Pesquisa)
N
Paulista. São Paulo, Nova Série, v. 24, nº 1, jan- LAVINAS, Laís. Um animal político na cultura
E
abr.2016.
cultural no Brasil (anos 1966-1982). (Dissertação de
DIAS, Welbia Carla. Boletim Sphan/Pró-Memória: um
Mestrado em História). Rio de Janeiro: Universidade
espaço de comunicação do patrimônio cultural. Rio de
Federal do Estado do Rio de Janeiro, 2014.
H
Patrimônio Cultural). Instituto do Patrimônio Histórico MARINS, Paulo Garcez. Novos patrimônios, um novo
e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, 2012. Brasil? Um balanço das políticas patrimoniais federais
após a década de 1980. Estudos Históricos, v. 29, nº 57, p.
______. “Boletim Sphan/Pró-Memória”. In: GRIECO,
9-28, jan-abr.2016.
P
(orgs.). Dicionário Iphan de Patrimônio Cultural. 2. ed. MAIA, Tatyana de Amaral. A construção do “senado da
Márcia Chuva
rev. ampl. Rio de Janeiro, Brasília: Iphan/DAF/Copedoc, cultura nacional” em tempos autoritários (1967-1975). Rio
E V I S T A
experiência em preservação urbana no Brasil. Revista patrimônio histórico e artístico no Brasil - uma trajetória.
CPC, São Paulo, nº 10, p. 49-88, mai-out.2010. Brasília: Sphan/Pró-Memória, 1980.
FALCÃO, Joaquim Arruda. “Política cultural e MENDONÇA, Guilherme Cruz de. “Considerações
democracia: a preservação do patrimônio histórico e jurídicas sobre o tombamento dos antigos quilombos:
artístico nacional”. In: MICELI, Sérgio (org.). Estado e conceitos, categorias e instrumentos”. In: PROGRAMA
cultura no Brasil. São Paulo: Difel, 1984. de Especialização em Patrimônio – artigos (2005 e
2006). Rio de Janeiro: Iphan/Copedoc, 2009, p. 301-
FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em
332.
processo: trajetória da política federal de preservação no
102 Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Iphan, 1997. MICELI, Sérgio. Sphan: refrigério da cultura oficial.
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº
______. “Para além da pedra e cal: por uma concepção
22, 1987.
ampla de patrimônio cultural”. In: ABREU, Regina;
CHAGAS, Mário (orgs.). Memória e patrimônio: ensaios ______. Intelectuais e classe dirigente no Brasil (1920-
contemporâneos. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. 1945). São Paulo: Difel, 1979.
FRANCO, Luís Fernando. “Informação Técnica: MOTTA, Lia. Sítios urbanos e referência cultural: a
Laguna”. In: IPHAN. Estudos de tombamento. Caderno situação exemplar da Maré. (Tese de Doutorado em
de Documentos nº 2, Rio de Janeiro: Ministério da Urbanismo). Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio
Cultura/ Iphan, 1995. de Janeiro, 2017.
GIANNECCHINI, Ana Clara. O Iphan e o Programa ______. A Sphan em Ouro Preto: uma história de
Monumenta. Lições para a gestão do patrimônio cultural. conceitos e critérios. Revista do Patrimônio Histórico e
Trabalho de Conclusão de Curso de Especialista em Artístico Nacional, nº 22, 1987.
Gestão Pública. Brasília: Enap, 2014. MOTTA, Lia (org.). Um panorama do campo da
GONÇALVES, Janice. Pierre Nora e o tempo presente: preservação do patrimônio cultural. Rio de janeiro: Iphan/
entre a memória e o patrimônio cultural. Historiæ, Rio DAF/Copedoc, 2015.
Grande, v. 3, nº 3, p. 27-46, 2012,. MOTTA, Lia; SILVA, Maria Beatriz Rezende (orgs.).
______. Lugares de memória, memórias concorrentes e Inventário de identificação: um panorama da experiência
leis memoriais. Revista Memória em Rede, Pelotas, v. 7, n. brasileira. Rio de Janeiro: Iphan, 1998.
13, jul-dez.2015. NASCIMENTO, Flávia Brito do. Blocos de Memória.
Habitação social, arquitetura moderna e patrimônio contemporâneo. (Tese de Doutorado em História e
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
cultural. São Paulo: Edusp, 2016. Sociedade). Faculdade de Ciências e Letras, Universidade
______. Preservando a arquitetura do século XX: Estadual Paulista Assis: Unesp, 2003.
A C I O N A L
o Iphan entre práticas e conceitos. Cadernos Proarq TELLES, Mário Pragmácio. O registro como forma de
(Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da UFRJ), proteção do patrimônio cultural imaterial. Revista CPC,
Rio de Janeiro, nº 19, p. 172-193, 2012. São Paulo, nº 4, p.40-71, mai-out.2007.
N
R T Í S T I C O
O’DWYER, Eliane Cantarino. Quilombos – identidade THOMPSON, A.; LEAL, C.; SORGINE, J.;
étnica e territorialidade. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2002. TEIXEIRA, L. História e civilização material na Revista
PEREGRINO, Miriane. Sphan/Pró-Memória. Abertura do Patrimônio. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico
A
política e novos rumos para a preservação do patrimônio Nacional, Brasília, nº 34, 2011.
E
nacional. Revista Confluências Culturais, v..1, nº 1, 2012. VAZ, Beatriz Accioly. “Quilombos”. In: GRIECO,
I S T Ó R I C O
PRADO Larissa Brisola Brito. Estado democrático e Bettina; TEIXEIRA, Luciano; THOMPSON, Analucia
políticas de reparação no Brasil: torturas, desaparecimentos (orgs.). Dicionário Iphan de Patrimônio Cultural. 2. ed.
e mortes no regime militar. (Dissertação de Mestrado rev. ampl. Rio de Janeiro, Brasília: Iphan/DAF/Copedoc,
H
em Ciência Política). Campinas: Instituto de Filosofia e 2016. (verbete)
A T R I M Ô N I O
Ciências Humanas/Universidade de Campinas, 2004. ______. Quilombos e patrimônio cultural: reflexões sobre
REZENDE, Maria Beatriz (org.). Inventário Nacional direitos e práticas no campo do patrimônio.(Dissertação
de Bens Imóveis Sítios Urbanos Tombados – INBI-SU de Mestrado em Preservação do Patrimônio Cultural).
P
- Cidades históricas - inventário e pesquisa - Manual Iphan. Rio de Janeiro, 2014.
D O
de Preenchimento. Brasília: Senado Federal, 2007. VELHO, Gilberto. Patrimônio, negociação e
Márcia Chuva
E V I S T A
(Publicações do Senado Federal) conflito. Mana [online], v. 12, nº 1, p. 237-248, 2006.
_____. (org.). Cidades históricas - inventário e pesquisa: ______. Antropologia e patrimônio cultural. Revista do
R
São Luís. Brasília: Senado Federal, 2007a. (Publicações Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 20, 1984.
do Senado Federal)
______. (org.). Cidades históricas - inventário e pesquisa:
Parati. Brasília: Senado Federal, 2007b. (Publicações do
Senado Federal)
______. (org.). Cidades históricas - inventário e pesquisa:
Tiradentes. Brasília: Senado Federal, 2007c. (Publicações
do Senado Federal)
ROIZ, Diogo da Silva. A Recepção da Escola dos 103
Annales na Europa e nas Américas: algumas reflexões.
Akrópólis, Umuarama, v. 16, nº 4, p.211-226, out-
dez.2008.
ROIZ, Diogo da Silva; SANTOS, Jonas Rafael. As
transferências culturais na historiografia brasileira: leituras
e apropriações do Movimento dos Annales no Brasil.
Jundiaí: Paco Editorial, 2012.
SANT’ANNA, Marcia. Da cidade-monumento à cidade-
documento: a trajetória da norma de preservação de áreas
urbanas no Brasil (1937-1990). Salvador: Oiti Editora,
2014.
SANTANA, Marco Aurélio. “Trabalhadores em
movimento: o sindicalismo brasileiro nos anos 1980-
1990”. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia
de Almeida Neves (orgs.). O Brasil republicano, Rio de
Janeiro, v. 4, Civilização Brasileira, 2003.
SILVA, Ana Cristina Teodoro da. O Tempo e as imagens
de mídia: capas de revistas como signos de um olhar
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
104
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z O jogo de olhares
Andrey Rosenthal Schlee e
Her mano Fabrício Oliveira Guanais e Queiroz
A C I O N A L
O
N
JOGO DE OLHARES
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
INTRODUÇÃO Estabeleceu, portanto, de forma unilateral
e discricionária, o que se entendia como
Este artigo analisa os oitenta anos de “patrimônio histórico e artístico nacional”
P
ou que, atualmente, se considera como parte
D O
atuação do Instituto do Patrimônio Histórico
E V I S T A
e Artístico Nacional no sentido de preservar do “patrimônio cultural brasileiro”.
e salvaguardar bens materiais e imateriais que Embora o Brasil tenha acompanhado
R
constituem o chamado Patrimônio Cultural a discussão internacional que levou à
Brasileiro1. Considerando a amplitude da ampliação da noção de Patrimônio – com
ação institucional, concentra a análise apenas importante repercussão na Constituição
na aplicação de três instrumentos legais (o Federal de 1988 –, o principal documento
Decreto-Lei nº 25 de 1937, a Lei nº 3.924 legal aplicado para a proteção de bens
de 1961 e o Decreto nº 3.551 de 2000) e materiais permanece sendo o Decreto-
explora a contribuição dos quatro últimos lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. 105
presidentes: Maria Elisa Costa, Antonio Foi ele que instituiu o tombamento, ato
Augusto Arantes Neto, Luiz Fernando de administrativo de inscrição ou tombo de
Almeida e Jurema de Sousa Machado. um bem em livro apropriado, e definiu seus
De janeiro de 1937 a janeiro de efeitos, as limitações ao exercício do direito
PA R A O
arqueológico para monumentos arqueológicos EXCEPCIONAL
A C I O N A L
singulares para bens seriados; da vizinhança Melo Franco de Andrade estabeleceu uma
E
vez mais, em áreas que conhece menos. E que Mário de Andrade em São Paulo, do
D O
O jogo de olhares
Iphan, desde o primeiro momento, atuou ministrados por não arquitetos, como os
A C I O N A L
na quase totalidade de seis cidades ditas de Hanna Levy, Heloisa Alberto Torres ou
“históricas”. Afonso Arinos de Melo Franco;
N
Cabe perceber que o Decreto-lei nº 25 III. A promoção de pesquisas em
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
organizou a proteção do patrimônio, baseado arquivos de todo o país, de maneira a
na existência dos quatro “Livros do Tombo” confirmar a narrativa histórica adotada,
A
e não na indicação das tipologias de bens que como as conduzidas por Dom Clemente
E
Silva Nigra, Judite Martins ou Manoel
I S T Ó R I C O
poderiam ser protegidas. Dessa maneira, um
determinado bem só é considerado acautelado José de Paiva Jr.;
quando identificado(s) o(s) seu(s) valor(es) e IV. A colaboração com historiadores
H
A T R I M Ô N I O
após a sua inscrição em pelo menos um dos internacionais que validaram o caminho
livros: do Tombo Arqueológico, Etnográfico e adotado, entre eles o americano Robert
Paisagístico; do Tombo Histórico; do Tombo Smith, o francês Germain Bazin, o inglês
P
das Belas Artes; ou do Tombo das Artes John Bury e o português Mário Chicó;
D O
Aplicadas. V. A divulgação dos resultados obtidos,
E V I S T A
Foi a opção pelo jogo dos livros que principalmente por meio da sua Revista
R
garantiu a longa permanência e a atualidade ou da coleção de publicações do Serviço
do Decreto-lei nº 25, mesmo frente ao do Patrimônio.
processo de ampliação dos conceitos ou Em linhas gerais, o Iphan “deveria
da incorporação de novos bens ao rol do tratar das coisas móveis e imóveis com valor
patrimônio protegido. excepcional”, o que não incluía
Considerando a amplitude e a diversidade
(...) uma vasta quantidade de bens
da produção cultural brasileira – e baseado 107
culturais cuja preservação, embora de manifesta
nos conceitos de “tradição” e “civilização”
conveniência pública, escapa à alçada do serviço
– Rodrigo estabeleceu recortes temáticos e
mantido pela União (Andrade, 1968).
temporais bastante claros que permitiram
uma atuação segura da “repartição”4. Para
Rodrigo chegou a citar algumas categorias
tanto, simultaneamente, lançou mão das
de bens que, na sua opinião, não deveriam
estratégias seguintes:
ser consideradas pelo Iphan: os documentos
I. A definição de uma narrativa
históricos; parcelas apreciáveis do espólio
histórica única e linear capaz de legitimar
de obras de arte antiga e de artesanato
as ações e escolhas do Iphan, elaborada
tradicional; sítios urbanos e rurais em que
pelo próprio Rodrigo e pelo arquiteto
predominam os traços de ancianidade,
Lucio Costa;
de pitoresco ou de beleza de paisagem;
II. A qualificação do quadro de
edificações que, conquanto não assumam a
importância de monumentos nacionais, são,
4. Maneira carinhosa como Rodrigo Melo Franco se referia ao
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. contudo, produções genuínas de arquitetura
brasileira, popular ou o seu tanto eruditas; valor estético (mas sempre excepcionais).
O jogo de olhares
em todo o Brasil, com destaque para Minas por solicitação externa para evitar sua
Gerais e para o que ficou conhecido como destruição devido à construção de uma usina
H
(capelas, matrizes e mosteiros), militares eram bastante sucintos, muitas vezes não
E V I S T A
O jogo de olhares
novos bens arqueológicos, que passaram a demonstrando maior interesse da sociedade.
A C I O N A L
ser geridos por outra lógica (a do resgate e da Tais processos levaram o Iphan a refletir sobre
interpretação), e os poucos processos abertos a sua capacidade de, isoladamente, continuar
foram indeferidos. Entretanto, a partir de a promover a preservação do patrimônio
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
1985 nota-se um ligeiro aumento do número cultural no país. Buscando enfrentar o novo
de processos abertos (a maioria arquivado), contexto, Soeiro reescreveu as estratégias de
A
sendo tombados o Parque Nacional da Serra Rodrigo em outros termos, propondo:
E
da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI), I. A manutenção da narrativa histórica
I S T Ó R I C O
e a Ilha do Campeche, em Florianópolis (SC), única e linear, admitindo a existência
além de uma coleção de artefatos, também de bens com importância estadual ou
H
em Florianópolis (SC). municipal e semeando a ideia de um
A T R I M Ô N I O
Por força da Lei nº 3.924, os sistema nacional de patrimônio;
monumentos arqueológicos ou pré-históricos II. A organização de cursos para a
P
de qualquer natureza existentes no território formação de técnicos aptos a atuar nos
D O
nacional e todos os elementos que neles se diferentes órgãos de patrimônio em todo
E V I S T A
encontram estão sob a guarda e proteção o país, como os cursos ofertados em São
R
do poder público. O Centro Nacional de Paulo, em 1974; Recife, em 1976; Minas
Arqueologia – CNA, ligado ao Iphan, é Gerais, em 1978; e Salvador, em 1980;
o responsável pela gestão do patrimônio III. A articulação do Iphan com
arqueológico, que atualmente conta com outros ministérios no sentido de
cerca de 24 mil sítios cadastrados, envolve construir políticas e programas voltados,
quatrocentas instituições de pesquisa e guarda principalmente, para a preservação dos
e acompanha, aproximadamente, 10 mil conjuntos monumentais e para o fomento
109
projetos de pesquisa autorizados. ao turismo;
Rodrigo manteve-se na presidência IV. A colaboração com consultores
do Iphan até 1967, sendo substituído internacionais indicados pela Unesco,
pelo arquiteto Renato de Azevedo Duarte como Graeme Shankland, Paul
Soeiro, que dirigiu a instituição por mais Coremans, Michel Parent, Frédéric
doze anos. Foi quando teve início uma Limburg de Stirum e Evandro Evangelista
primeira revisão ou redefinição da política Viana de Lima;
institucional. Em virtude da crescente V. A manutenção da Revista do
expansão urbana pela qual passava o país e Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
do consequente aumento da demanda por Em 1970 e 1971 o Ministério da
áreas urbanizadas – impactando fortemente Educação e Cultura promoveu dois
os conjuntos protegidos e a ambiência dos Encontros de Governadores, propondo aos
monumentos isolados –, observou-se uma estados e municípios o compartilhamento
forte preocupação com o entorno desses e a descentralização da responsabilidade
bens. Por outro lado, ocorreu um aumento pela preservação do patrimônio cultural.
Simultaneamente, em 1973, foi instituído o Entretanto, devido a um maior rigor técnico
O jogo de olhares
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
valores estéticos e eruditos, associados a uma Foi ele quem “substituiu o patrimônio
D O
elite política e às classes dominantes. Nesse histórico e artístico de Rodrigo pela noção
E V I S T A
sentido, as discussões capitaneadas pelos de bens culturais” (Porta, 2012). Se, até
folcloristas, das décadas de 1940 a 1960, os então, o Patrimônio trabalhava com os
R
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
P
D O
E V I S T A
R
da apresentação de candidaturas à lista do bens relacionados a minorias ou a grupos Caboclinho,
Pernambuco
Patrimônio Mundial: Ouro Preto (1980) até então não reconhecidos, tais como Acervo: Iphan/
Felipe Peres.
proteção das “manifestações das culturas ampliação das inscrições no Livro do Tombo
A C I O N A L
civilizatório nacional” . 7
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Osvaldo Cruz em 1981, do Hospital São dada aos templos religiosos a seus acervos
E
Enfermagem Ana Neri em 1986, todos no retroativos sobre 385 monumentos. Fato que,
Rio de Janeiro (RJ), bem como da Casa de por um lado, garantiu coerência à preservação
H
Tito Silva em 1984, como modelo de saberes documentação desse acervo. Problema ainda
D O
1985, no centro de Antônio Prado (RS); Os anos 1980 também foram marcados
R
O jogo de olhares
para novos servidores . Observou-se também
8
Serro e das Serras da Canastra e do Salitre; o
A C I O N A L
a ampliação efetiva dos instrumentos de Modo de Fazer Cuias do Baixo Amazonas;
acautelamento. o Modo de Fazer Viola de Cocho; o Modo
de Fazer Renda Irlandesa de Sergipe; o
N
Em 2000, durante o governo de Fernando
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Henrique Cardoso e com Carlos Heck Ofício das Baianas de Acarajé; o Ofício
na presidência do Iphan, foi constituído das Paneleiras de Goiabeiras; o Ofício dos
A
um Grupo de Trabalho do Patrimônio Mestres e a Roda de Capoeira; o Ofício
E
Imaterial com a finalidade de regulamentar de Sineiro e o Toque dos Sinos em Minas
I S T Ó R I C O
o instrumento legal do Registro, previsto no Gerais; a Produção Tradicional e Práticas
art. 216 da Constituição Federal de 1988, Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí;
H
os Saberes e Práticas Associados aos Modos
A T R I M Ô N I O
em consequência do célebre Seminário de
Fortaleza (1997). Após dois anos de estudo e de Fazer Bonecas Karajá; o Sistema Agrícola
discussão, foi publicado o Decreto nº 3.551, Tradicional do Rio Negro; o Círio de Nossa
P
que instituiu o Registro de Bens Culturais de Senhora de Nazaré; o Complexo Cultural
D O
Natureza Imaterial, concretizando finalmente do Bumba-meu-boi do Maranhão; a Festa
E V I S T A
as reivindicações já propostas por Mário de do Divino Espírito Santo de Paraty; a Festa
R
Andrade, pelos folcloristas e no âmbito do do Divino Espírito Santo de Pirenópolis; as
CNRC. O Registro foi, então, o instrumento Festividades do Glorioso São Sebastião na
adequado à preservação dos bens culturais Região do Marajó; a Festa do Pau da Bandeira
intangíveis. Adotando desenho semelhante ao de Santo Antônio em Barbalha; a Festa
proposto pelo Decreto-lei nº 25, o Decreto de Sant´Ana de Caicó; a Festa do Senhor
nº 3.551 também estabeleceu quatro livros, Bom Jesus do Bonfim; o Ritual Yaokwa do
mas definidos por tipologias de bens: a dos Povo Indígena Enawenê Nawê; a Romaria
113
Saberes, a das Celebrações, a das Formas de Carros de Bois da Festa do Divino Pai
Eterno de Trindade; a Arte Kusiwa – Pintura
de Expressão e a dos Lugares. Assim, um
Corporal e Arte Gráfica Wajãpi; o Carimbó;
determinado bem de natureza imaterial só é
o Cavalo-Marinho; o Fandango Caiçara; o
considerado acautelado quando, após passar
Frevo; o Jongo no Sudeste; os Caboclinhos;
pelo processo de identificação, fundamentado
o Maracatu Nação; o Maracatu de Baque
na mais ampla participação social, é inscrito
Solto; as Matrizes do Samba no Rio de
num dos quatro Livros de Registro.
Janeiro (Partido Alto, Samba de Terreiro e
Estabelecida a política institucional com
Samba-Enredo); Rtixòkò: Expressão Artística
base no Programa Nacional do Patrimônio
e Cosmológica do Povo Karajá; o Samba de
Imaterial, desde 2000, foram registrados os
Roda do Recôncavo Baiano; o Tambor de
seguintes bens imateriais: o Modo Artesanal
Crioula do Maranhão; o Teatro de Bonecos
está ameaçando sofrer um incêndio para intervenções cirúrgicas radicais num paciente
com a resistência já abalada, pode significar
depois de amanhã?” (Costa, 2004). Ou seja, o
destruir o que existe de positivo. A precariedade
retorno ao patrimônio de Rodrigo e de Lucio.
da situação do Iphan é notória, com carências 115
Novamente a “pedra e cal”. Na verdade,
de toda ordem – de recursos humanos,
um profundo carinho familiar fez com que materiais, financeiros, etc., etc., carências
Maria Elisa concentrasse esforços no resgate essas que geraram consequências negativas no
das tradições construídas e consolidadas próprio comportamento interno da Instituição,
pelo próprio Iphan, especialmente aquelas tais como a dificuldade de integração dentro
relacionadas com o patrimônio material. da área central, com problemas entre Rio e
PA R A F O R A
de forma inequívoca a necessidade de proceder
a uma reestruturação organizacional do Iphan
A C I O N A L
(Costa, 2004).
D O
Com a inesperada saída de Maria Elisa, não estão apenas vinculadas ao conceito de
o antropólogo Antonio Augusto Arantes excepcionalidade, mas principalmente ao exercício
assumiu a instituição. Além de uma sólida de cidadania. Além disso, elas passaram a
considerar a dimensão territorial desse patrimônio.
carreira acadêmica, o novo gestor já tinha
Por essa razão, sua integração às demais políticas
administrado o Conselho de Defesa do
públicas, em busca de uma relação sincrônica e
Patrimônio Histórico, Arqueológico, diacrônica com o desenvolvimento e o futuro, deve
116 Artístico e Turístico do Estado de São apontar para além do que tem sido nossa atuação
Paulo – Condephaat, entre 1983 e 1984, e histórica (Almeida, 2012).
produzido um conjunto de textos basilares
sobre o Patrimônio Cultural, especialmente Assim como fizeram os principais
sobre sua dimensão imaterial. Arantes presidentes que o antecederam, Luiz
concentrou-se em três desafios centrais: o do Fernando também estabeleceu estratégias para
fortalecimento da autarquia por meio da sua a atuação do órgão:
reorganização administrativa, o da realização I. A adoção de uma nova narrativa,
do denominado “primeiro concurso a do patrimônio como instrumento
público” e o da consolidação da política de construção de políticas nacionais:
de salvaguarda do patrimônio imaterial. Território + Sociedade = Política
Embora tenha obtido sucesso em todos, viu Patrimonial;
seu mandato subitamente reduzido frente a II. A reorganização institucional, com a
um embate interno com os superintendentes presença do Iphan, por meio de suas supe-
da Instituição. rintendências, em todos os estados e DF;
III. A articulação do Iphan com outros apostando na internalização dos avanços
O jogo de olhares
ministérios, principalmente com o da ocorridos no país e no próprio Iphan.
A C I O N A L
Educação e o das Cidades; Seu primeiro discurso como presidente,
IV. A institucionalização do Programa realizado na entrega do Prêmio Rodrigo Melo
N
Monumenta e criação do PAC- Cidades Franco, em 2012, demonstrou sua refinada
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Históricas; consciência do presente e seu combativo
V. A apresentação de candidaturas compromisso com a realidade institucional:
A
“polêmicas” à lista do Patrimônio
E
Refletindo sobre a trajetória do Iphan, quero
I S T Ó R I C O
Mundial: Rio de Janeiro (2012) e Cais do
Valongo (2017); revelar que a minha identidade com o projeto
em curso reside na crença em uma prática de
VI. A aposta no Sistema Nacional de
H
patrimônio radicalmente aderida ao presente. É o
A T R I M Ô N I O
Patrimônio Cultural.
que tento explicar melhor. O tempo, mais do que
Sobre a narrativa então adotada, explicou o passado e a memória, é a matéria do Iphan. Essa
Luiz Fernando: não é a única leitura possível, mas é, com certeza,
P
D O
uma das formas de se descrever os agora 75 anos
Acredito que o grande salto conceitual,
E V I S T A
dessa instituição. No projeto modernista de Mário
que aconteceu principalmente a partir dos anos de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade,
R
1980, foi entender que o conceito de patrimônio transparece a ideia de um tempo que descreve um
não estava mais somente vinculado a uma ideia percurso evolutivo, um traçado unificador ligando
de excepcionalidade, mas que estava ligado à o passado colonial ao Moderno. O projeto de
ideia de direito à cidadania e à de que, onde Aloisio Magalhaes talvez possa ser representado
houvesse território e onde houvesse pessoas, onde por um tempo não linear, que admite e valoriza a
houvesse gente e houvesse terra, haveria de existir simultaneidade do tempo lento da tradição com
uma política de patrimônio... Então, a ação da a instabilidade do contemporâneo. Sem medo de
instituição deixa de estar localizada em pontos personalismos, digo que o tempo do Iphan nesses 117
específicos do território e passa a abranger a sua anos em que foi dirigido pelo Luiz Fernando é o
globalidade. Deixa de fazer a gestão somente dos tempo presente. Aquele ao qual Drummond dizia
sítios históricos, por exemplo, e passa a ser uma estar irremediavelmente atado: “o tempo presente,
instituição que estimula a formação de políticas dos homens presentes, da vida presente”. No
de patrimônio nos estados, nos municípios, para entanto, o presente do patrimônio não é aquele
promover o fortalecimento da sociedade civil sob o domínio do efêmero e do imediato, mas o
(Almeida, 2012). que resulta do acúmulo e da experiência. É o que
nos permite reagir à angústia da obsolescência e
OLHAR PA R A D E N T R O desfrutar de registros da memória inseridos entre
nós como contrapontos que nos fazem olhar com
mais lucidez à nossa volta. Olhar e perguntar sobre
A arquiteta Jurema Machado exerceu a
a arquitetura, as cidades e os espaços públicos
direção do Iphan em um momento de difícil
que estamos produzindo; sobre como anda a
inflexão da vida nacional. Já não mais havia nossa capacidade de criar e inovar, ou para onde
a estabilidade e o vigor político-econômico caminham as nossas formas de sociabilidade e
dos tempos de Lula. Trabalhou, no entanto, a nossa relação com o ambiente. Estar atado ao
presente significa também buscar nossos ritos, colonial; o Paraná, com os tombamentos de
O jogo de olhares
línguas e conhecimentos tradicionais, não para olhar Antonina e Paranaguá, associados ao primeiro
para eles com complacência, mas entender o que
A C I O N A L
que elas traçam: diferenças de tempos, étnico-raciais, atualmente com nove bens protegidos.
E
I S T Ó R I C O
O jogo de olhares
reconhecidos como patrimônio cultural, 84
ALMEIDA, Luiz Fernando de. Patrimônio cultural e
A C I O N A L
correspondem a conjuntos urbanos, tais como
desenvolvimento sustentável. Brasília: Iphan, 2012.
Ouro Preto, Diamantina, Goiás e Brasília, ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Âmbito do
e alguns bens imateriais estão presentes em Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Revista
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Cultura, nº 7, Rio de Janeiro, p. 32-35, 1968.
todo o território nacional, a exemplo da Roda
COSTA, Maria Elisa. Ata da 39ª reunião do Conselho
de Capoeira. Consultivo do Patrimônio Cultural, 14/8/2003. Portal
Iphan. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/
A
Pensar no futuro do Iphan, ou mesmo
E
atasConselho>.
no futuro da noção de Patrimônio Nacional,
I S T Ó R I C O
COSTA, Maria Elisa. Entrevista a Antônio Agenor
implica em perceber que o acautelamento Barbosa. Portal Vitruvius, abr.2004. Disponível
de bens não pode significar um “fim em em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/
H
entrevista/05.018>.
si mesmo”. Ao contrário, reconhecer a
A T R I M Ô N I O
FIGUEIREDO, Vanessa Gayego Bello. Da tutela dos
importância de um “monumento” (daqueles monumentos à gestão sustentável das paisagens culturais
complexas: inspirações à política de preservação cultural
bens que, independentemente de sua natureza
no Brasil. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-
P
material ou imaterial, são legitimamente Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU/USP.
D O
escolhidos como representativos das São Paulo, 2014.
E V I S T A
MACHADO, Jurema. Discurso. Documento inédito,
referências culturais de uma comunidade)
2012.
exige diálogo com toda a sociedade, de
R
PORTA, Paula. Política de preservação do patrimônio
maneira que ela possa assumir – direta e cultural no Brasil. Diretrizes, linhas de ação e resultados:
2000/2010. Brasília: Iphan, 2012.
conscientemente – a sua real conservação e SCHLEE, Andrey Rosenthal. Brasil, 80 anos protegendo
salvaguarda. No mesmo sentido, o resultado um patrimônio. In: FÓRUM INTERNACIONAL DO
de oitenta anos de política de preservação PATRIMÓNIO ARQUITETÓNICO PORTUGAL/
BRASIL. Universidade de Aveiro. Aveiro, mai.2017.
no Brasil aponta para a construção de
um novo modelo da gestão de tamanho
acervo patrimonial. Uma gestão sistêmica, 119
120
Már io Chagas Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial
Már io Chagas
A C I O N A L
M USEUS E PATRIMÔNIOS :
N
POR UMA POÉTICA E UMA POLÍTICA DECOLONIAL
R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
(...) agora vejo que vós outros maírs sois INTRODUÇÃO
grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis
grandes incômodos, como dizeis quando aqui
O artigo que aqui se inicia está dividido
P
chegais, e trabalhais tanto para amontoar
D O
riquezas para vossos filhos ou para aqueles que em oito fragmentos, ao longo dos quais se
E V I S T A
vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu examina a política de cultura que esteve
suficiente para alimentá-los também? Temos pais, especialmente voltada para o campo dos
R
mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos museus e dos patrimônios nas décadas de
de que depois de nossa morte a terra que nos 1930 e 1940 e posteriormente durante os
nutriu também os nutrirá, por isso descansamos
primeiros dezesseis anos do século XXI. Num
sem maiores cuidados. (Fala atribuída a um velho
movimento pendular, com idas e vindas,
tupinambá registrada no livro Viagem à terra do
Brasil, de Jean de Léry). pretende-se reconhecer que essas políticas,
desde muito tempo, operam com recuos e
121
avanços e que todas elas estão atravessadas por
questões que dizem respeito à modernidade e
à colonialidade, bem como aos movimentos Ruína de São Miguel
das Missões
de decolonidade. Acervo: Iphan/
Leonid Streliaev.
Nesses oito fragmentos discute-se a A esse respeito, Luciana Ballestrin (2013)
Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial
modernidade dos museus e dos patrimônios esclarece que a opção pela palavra decolonial
A C I O N A L
decolonial.
D O
A C I O N A L
Esse é o caso dos trabalhos desenvolvidos
por Nise da Silveira (Museu de Imagens A cidade de Ouro Preto foi tombada
do Inconsciente), Darcy Ribeiro (Museu
N
como patrimônio brasileiro pelo Serviço do
R T Í S T I C O
do Índio) e Abdias do Nascimento (Museu Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
de Arte Negra). Mas, ainda assim, é – Sphan no dia 20 de abril de 1937, dois
A
importante ressaltar, por um lado, que essas dias após o primeiro aniversário da gestão de
E
são experiências desenvolvidas num tempo
I S T Ó R I C O
Rodrigo Melo Franco de Andrade à frente
em que a cidade do Rio de Janeiro era o
do órgão e um dia antes do 145º aniversário
Distrito Federal e, por outro, que a “história
de morte de Tiradentes. No final de 1938,
H
da museologia” carioca não está autorizada
A T R I M Ô N I O
o Museu da Inconfidência foi criado por
a traduzir e falar em nome da história da
lei, mas a sua instalação só viria a acontecer
museologia brasileira. Esse é um problema
seis anos depois, no antigo edifício da
Már io Chagas
P
sério e que tem graves repercussões na
D O
Casa de Câmara e Cadeia3 da cidade de
atualidade.
E V I S T A
Ouro Preto, no dia 11 de agosto de 1944,
Nos anos de 1980 e 1990, outras
quando se comemorava o bicentenário de
R
experiências inovadoras foram colocadas em
nascimento do poeta e inconfidente Tomás
movimento. Nesse contexto destacam-se o
Antônio Gonzaga. Todas essas datas estão
I Encontro Internacional de Ecomuseus,
carregadas de intencionalidade. Nelas não há
realizado em 1992 na cidade do Rio de
ingenuidade ou acaso; ao contrário, resultam
Janeiro (RJ), antes da ECO 92, e o Seminário
de escolhas precisas e amparam-se no desejo
Patrimônio Imaterial: Estratégias e Formas
de construção de outras memórias e histórias,
de Preservação, realizado em novembro
de ocupação política e poética do passado, do 123
de 1997 na cidade de Fortaleza (CE). Este
presente e do futuro.
último foi responsável pela elaboração da
A decisão tomada em 1936 pelo
Carta de Fortaleza, que teve papel decisivo
para a construção do dispositivo legal presidente Getúlio Vargas de transferir para o
conhecido como Decreto nº 3.551, de 4 de Brasil os restos mortais dos inconfidentes que
agosto de 2000, que instituiu o Registro de haviam sido degredados para a África pela
Bens Culturais de Natureza Imaterial que Coroa Portuguesa no final do século XVIII
Constituem Patrimônio Cultural Brasileiro fazia parte dos movimentos políticos que
e criou o Programa Nacional do Patrimônio buscavam acionar memórias de resistência do
Imaterial. período colonial. Todos esses gestos políticos
Por fim, o artigo que quer ser lido destaca
2. Paráfrase dos dois primeiros versos da letra da música
algumas experiências de museus realizadas a Trastevere, de autoria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos,
partir de 2006 em sintonia com a chamada incluída no álbum Minas, de 1975.
3. Permanece como um desafio o estudo da relação entre poder,
Museologia Social. resistência, memória e esquecimento, particularmente no que
se refere aos museus instalados em antigos prédios de Câmara e
Cadeia.
e poéticos estavam vincados por interesses 2. O
Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial
PAT R I M Ô N I O TA M B É M
ancorados nas relações entre memória e É MODERNO
A C I O N A L
organização popular.
A T R I M Ô N I O
A C I O N A L
de museus. Concentrar a prática social dos missioneiro foram registrados em 1938 como
museus e patrimônios na Região Sudeste e patrimônio histórico e artístico nacional
nas capitais não contribuiria para a expansão no Livro do Tombo das Belas Artes. Nesse
N
R T Í S T I C O
da noção de patrimônio nacional e menos mesmo ano foi iniciada a construção do
ainda para a sua preservação. É possível singelo edifício do museu projetado por
A
imaginar que essa estratégia de política Lucio Costa. Dois anos depois, ou seja, em
E
cultural tenha dado ao Iphan o sentido de sua 1940, o museu foi juridicamente instituído e,
I S T Ó R I C O
existência. em 1942, aberto ao público.
Essa orientação estruturante foi Na região das Missões, que hoje se
H
evidenciada durante a inauguração do encontra nas fronteiras entre a Argentina, o
A T R I M Ô N I O
Museu da Inconfidência, em 1944, ocasião Brasil e o Paraguai, ao longo de 150 anos,
em que Rodrigo Melo Franco de Andrade entre os séculos XVII e XVIII, desenvolveu-
Már io Chagas
P
pronunciou um discurso que no campo se um projeto geral que articulava trinta
D O
dos patrimônios e museus ficou bastante povoados, com forte expressão cultural,
E V I S T A
célebre. Nesse discurso, além de desenhar religiosa, política e econômica e que
constituíam unidades urbanas distantes das
R
uma política para os museus e de sublinhar,
em nome do poder público, o desejo de cidades controladas pelas metrópoles.
interiorizá-los, dizia: Como indica Jean Baptista (2006:9):
tinha, por sua simplicidade arquitetônica e pela Museologia Social – que também pode
A C I O N A L
museográfica, por sua abordagem temática ser considerada uma Museologia Insurgente,
e por sua proposta museológica, um aspecto nos termos de Boaventura de Souza Santos
inovador. Segundo Lucio Costa (1999:39): –, é romper com as camisas de força, com as
N
R T Í S T I C O
muito lucrarão vistas assim em contato direto pela museologia colonialista que se estrutura
E
preferência, um dos extremos da antiga praça prática e que valoriza, de modo especial, a
para servir de ponto de referência e dar uma ideia
memória do poder.
melhor das suas dimensões.
Már io Chagas
P
A C I O N A L
afetos políticos e afetos poéticos a favor quéchua); ao suma qamaña (em língua
da decolonização epistêmica, política, aymara) e ao tekó porã (em língua guarani).
N
econômica, social e cultural. Contra esses Talvez esse seja um desafio para os próximos
R T Í S T I C O
movimentos erguem-se sistematicamente vinte anos do Iphan.
os setores mais conservadores da sociedade Nesse sentido, a inscrição da Tava5 como
A
brasileira, utilizando como argumentos patrimônio imaterial, na categoria de Lugar
E
I S T Ó R I C O
a defesa da ordem e do progresso, do de Referência Cultural para o Povo Guarani,
patrimônio privado e do desenvolvimentismo. no Livro de Registro dos Lugares, é um forte
A decolonização do pensamento indicativo de que é possível pensar e trabalhar
H