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80 Anos do Iphan: Patrimônio Brasileiro

Este número da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional celebra os 80 anos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O número apresenta artigos de diversos autores sobre a trajetória das ideias preservacionistas no Brasil, a construção das políticas públicas de cultura e o papel do Iphan nesse processo. Além disso, aborda temas como patrimônio cultural e natural, museus, patrimônio imaterial, arqueológico e indígena

Enviado por

Mariana Aguiar
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
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Tópicos abordados

  • Aloisio Magalhães,
  • cultura e patrimônio coletivo,
  • cidades históricas,
  • cultura e patrimônio local,
  • cultura e patrimônio popular,
  • cultura e resistência,
  • história urbana,
  • cultura e patrimônio regional,
  • diversidade cultural,
  • cultura e educação
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80 Anos do Iphan: Patrimônio Brasileiro

Este número da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional celebra os 80 anos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O número apresenta artigos de diversos autores sobre a trajetória das ideias preservacionistas no Brasil, a construção das políticas públicas de cultura e o papel do Iphan nesse processo. Além disso, aborda temas como patrimônio cultural e natural, museus, patrimônio imaterial, arqueológico e indígena

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Tópicos abordados

  • Aloisio Magalhães,
  • cultura e patrimônio coletivo,
  • cidades históricas,
  • cultura e patrimônio local,
  • cultura e patrimônio popular,
  • cultura e resistência,
  • história urbana,
  • cultura e patrimônio regional,
  • diversidade cultural,
  • cultura e educação

ISSN 0102-2571

Nº 35 Nº 35 Nº 35
2017 2017 2017

Neste número
Andrey Rosenthal Schlee

Hermano Queiroz

Jurema Machado

Lia Calabre

Lucia Hussak Van Velthem

Marcia Sant’anna

Márcia Chuva

Marcos Olender

Maria Cecília Londres Fonseca

Maria Lucia Bressan Pinheiro

Mário Chagas

Milton Guran

Paulo Ormindo de Azevedo

Roberto Pontes Stanchi

Tania Andrade Lima

Yussef Daibert Salomão de Campos

Zoy Anastassakis

Iphan 1937–2017
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional
Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional nº 35 / 2017
ISSN 0102-2571

Iphan 1937–2017
ORGANIZAÇÃO: Andrey Rosenthal Schlee
PRESIDENTE DA REPÚBLICA DO BRASIL
Michel Temer

MINISTRO DE ESTADO DA CULTURA


Sérgio Sá Leitão

PRESIDENTE DO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO


HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL
Kátia Bogéa

DIRETORES DO IPHAN
Andrey Rosenthal Schlee
Hermano Queiroz
Marcelo Brito
Marcos José Silva Rego
Robson Antônio de Almeida

CHEFE DE GABINETE DO IPHAN


Rafael Arrelaro

ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DO IPHAN SELEÇÃO DAS IMAGENS A Revista do Patrimônio é publicada


Fernanda Pereira Andrey Rosenthal Schlee pelo Instituto do Patrimônio
Assessoria de Comunicação Histórico e Artístico Nacional, do
ORGANIZAÇÃO Autores Ministério da Cultura, desde 1937.
Andrey Rosenthal Schlee Cristiane Dias Os artigos são autorais e não
refletem necessariamente a posição
ORGANIZADORES-COLABORADORES COLABORADORES do Iphan e do organizador deste
António Miguel de Sousa Adélia Soares número, Andrey Rosenthal Schlee.
Hermano Queiroz Carolina Di Lello Silva
Yussef Daibert de Campos Glayson Nunes Instituto do Patrimônio Histórico
Ivana Cavalcante e Artístico Nacional
EDIÇÃO E COPIDESQUE Karina Monteiro De Lima SEPS 713/913, Bloco D, Edifício
Caroline Soudant Leonardo Prudente Iphan. 70390-135 - Brasília (DF)
Roberto Stanchi
REVISÃO E PREPARAÇÃO DOS TEXTOS
Gilka Lemos FOTO DA CAPA
Marcel Gautherot
DIREÇÃO DE ARTE E DIAGRAMAÇÃO
Cristiane Dias (a partir do projeto
gráfico de Victor Burton)
Iphan 1937–2017
Maria Lucia Bressan Pinheiro Mário Chagas
Trajetória das ideias preservacionistas Museus e patrimônios: por uma
no Brasil: as décadas de 1920 e 1930 13 poética e uma política decolonial 121

Lia Calabre Marcia Sant’Anna


O Serviço do Patrimônio Artístico A cidade-patrimônio no Brasil:
Nacional dentro do contexto da lições do passado e desafios
construção das políticas públicas contemporâneos 139
de cultura no Brasil 33
Maria Cecília Londres Fonseca
Paulo Ormindo de Azevedo A salvaguarda do patrimônio cultural
Patrimônio Cultural e Natural como imaterial no Iphan: antecedentes,
fator de desenvolvimento: a revolução realizações e desafios 157
silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979 45
Roberto Stanchi
Zoy Anastassakis O patrimônio arqueológico: oitenta
A cultura como projeto: Aloisio anos de delegações 171
Magalhães e suas ideias para o Iphan 65
Yussef Daibert Salomão de Campos
Márcia Chuva Desafios propostos pela Constituição
Possíveis narrativas sobre duas de 1988 ao patrimônio cultural 203
décadas de patrimônio: de 1982 a 2002 79
Milton Guran
Andrey Rosenthal Schlee e Hermano Queiroz Sobre o longo percurso da matriz
O jogo de olhares 105 africana pelo seu reconhecimento
patrimonial como uma condição
para a plena cidadania 213

Lucia Hussak vanVelthem


Patrimônios culturais indígenas 227

Jurema Machado
Feito em casa: o Iphan e a cooperação
internacional para o patrimônio 245

Tania Andrade Lima


O licenciamento ambiental no Iphan:
o socioambiente em questão 285

Marcos Olender
O afetivo efetivo. Sobre afetos,
movimentos sociais e preservação
do patrimônio 321

Acervo: Cyro Corrêa Lyra.


Kát i a B ogéa
A pr e s e nta ç ã o

Não serei o poeta de um mundo caduco. Foi no dia 13 de janeiro de 1937 que o
Também não cantarei o mundo futuro. presidente Getúlio Vargas sancionou a Lei
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
nº 378. Dava prosseguimento ao projeto
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
de modernização do Estado brasileiro,
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
reorganizando o ainda jovem Ministério da
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. Educação e Saúde e criando, entre outras
instituições, o Serviço do Patrimônio
Carlos Drummond de Andrade1
Histórico e Artístico Nacional, atual
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional – Iphan.

Estabelecido com a finalidade de


promover, em todo o país e de modo
permanente, o tombamento, a conservação,
o enriquecimento e o conhecimento do
patrimônio histórico e artístico nacional, o
Iphan extrapolou os limites daquilo que lhe
foi originalmente proposto.

Passados oitenta anos de sua criação, é pos-


sível olhar para o passado e perceber que mais
do que preservar ou salvaguardar os bens cultu-
rais escolhidos como referências para a Nação,
o Iphan foi capaz de, a par de imensas difi-
culdades estruturais, firmar-se como uma das
mais respeitadas instituições públicas do país e,
simultaneamente, construir uma sólida noção
1. Trecho do seu poema “Mãos dadas”, publicado pela primeira Fonte Ribeirão
vez em 1940, no livro Sentimento do mundo. do que é o patrimônio cultural do Brasil. Acervo: Iphan/C.Knepper.
Vou dar um exemplo. Na cerimônia Com tal espírito solicitei a Andrey
Iphan 1937–2017

de abertura dos XXXI Jogos Olímpicos, Rosenthal Schlee que organizasse uma
A C I O N A L

realizados na cidade do Rio de Janeiro, o edição comemorativa da tradicional Revista


Mundo assistiu, certamente surpreso, a um do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
que também está completando oitenta anos
N

belíssimo espetáculo artístico voltado para


Kátia Bogéa
R T Í S T I C O

mostrar a cultura do país anfitrião. E o que – foi Rodrigo Melo Franco de Andrade,
vimos ou ouvimos? Justamente aquilo que nosso primeiro presidente, que, ainda em
A

o Iphan vem protegendo durante oitenta 1937, a concebeu como um veículo capaz de
E

“divulgar o conhecimento dos valores da arte


I S T Ó R I C O

anos! As curvas de nossa arquitetura, a


arte geométrica brasileira, os grafismos e história do Brasil”.
indígenas, as estampas africanas e os azulejos
H

O programa a mim apresentado foi


A T R I M Ô N I O

portugueses... As matrizes do samba, o


ambicioso: a publicação simultânea de
maracatu, os bate-bolas, o bumba meu boi...
dois números da Revista. O primeiro,
As celebrações, os saberes, as formas de
retrospectivo, que olha criticamente para
P

expressão e os lugares onde são concentradas


D O

o passado da Instituição. E o segundo,


ou reproduzidas práticas culturais coletivas.
E V I S T A

prospectivo, que lança os olhos para o futuro


Tudo isso para, no final da cerimônia, do patrimônio. A exemplo do que sempre
R

reafirmar que o Brasil, com a maior floresta fez Rodrigo Melo Franco de Andrade,
e a maior reserva de biodiversidade do especialistas das mais variadas áreas foram
planeta, chama a atenção do Mundo para a convidados para assinar artigos absolutamente
necessidade urgente de promover também autorais sobre temas afetos ao Iphan. Entre os
a paz com o planeta. Ou seja, a preservação textos, como ilustrações, apenas belas imagens
integrada dos valores culturais e naturais. E de bens culturais brasileiros, sem datação ou
8 não foi isso que o Iphan sempre fez? localização. Imagens captadas pelos fotógrafos
da Repartição, profissionais que atuaram na
O Instituto tem uma vocação
ou para a Instituição ao longo de anos e que,
genuinamente pública e republicana.
assim, serão homenageados.
Preservamos e salvaguardamos o patrimônio
cultural do Brasil para o usufruto de Todos, O primeiro número apresenta-se dividido
no presente e no futuro. Enfrentamos em duas partes. Uma destinada a revisitar a
inúmeras dificuldades e idiossincrasias, e história do Iphan, das ideias preservacionistas
nos apresentamos como uma Instituição de da década de 1920 ao início de minha
Estado. Acontece que, aos oitenta anos de administração, considerando os mandatos de
existência, o próprio Instituto do Patrimônio Rodrigo Melo Franco de Andrade, Renato
Histórico e Artístico Nacional tornou-se Soeiro e Aloisio Magalhães, bem como
um patrimônio. Cabe, portanto, à Nação os períodos de 1982 a 2002 e de 2002 a
Brasileira buscar os meios que garantam a sua 2016. São seis artigos dispostos em ordem
serena continuidade e plena atuação. cronológica e de responsabilidade de Maria
Lucia Bressan Pinheiro, Lia Calabre, Paulo

Iphan 1937–2017
Ormindo de Azevedo, Zoy Anastassakis,

A C I O N A L
Márcia Chuva, Andrey Schlee e Hermano
Queiroz. A segunda parte explora grandes
temas ou desafios que a Instituição enfrentou

Kátia Bogéa
R T Í S T I C O
ou continua a enfrentar: os museus, os
centros urbanos, as referências culturais, a

A
arqueologia, as inovações da Constituição

E
Federal de 1988, o patrimônio afro-brasileiro,

I S T Ó R I C O
o patrimônio indígena, a cooperação
internacional, o licenciamento ambiental e

H
a participação cidadã. Ao todo, são mais dez

A T R I M Ô N I O
artigos, assinados por Mário Chagas, Márcia
Sant’Anna, Maria Cecília Londres Fonseca,

P
Roberto Stanchi, Yussef Salomão de Campos,

D O
Milton Guran, Lucia van Velthem, Jurema

E V I S T A
Machado, Tania Andrade Lima e Marcos
Olender. A quem agradecemos.

R
O segundo número não apresenta uma
lógica estrutural. Mas apenas uma provocação
de fundo: pensar o patrimônio no futuro.

Meu desejo é que a leitura deste número


35 da Revista permita o conhecimento do
9
que fomos capazes de fazer e uma reflexão
crítica da importância assumida pelo Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
nos seus primeiros oitenta anos de vida,
incansavelmente, voltada à defesa do que
é de Todos e daquilo que nos identifica
como Nação.
A pr e s e nta ç ã o d a Va l e

Para a Vale, investir em cultura é uma


forma de reconhecer o que é genuíno e
tem significado para a vida das pessoas.
Contribuímos com iniciativas e projetos
que promovam a identidade da nossa gente
e seus patrimônios culturais, a conexão e o
aprendizado para o desenvolvimento.

Os oitenta anos do Iphan são motivo


de orgulho para todos nós brasileiros, que
reconhecemos e valorizamos o patrimônio
cultural.

Ao patrocinar a publicação da edição


especial da Revista do Patrimônio,
reforçamos as nossas crenças e valores, que
compartilhamos como forma de homenagear
a identidade do nosso país.

Por isso, convidamos vocês para conhecer


a história e inúmeras contribuições do Iphan Festa do Nosso Senhor
do Bomfim, Salvador
para o presente e para o futuro do nosso rico Acervo: Iphan/
Marcelo Reis.

patrimônio.

Vale
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

12
Maria Lucia Bressan Pinheiro Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Mar ia Lucia Bressan Pinheiro

A C I O N A L
T RAJETÓRIA DAS IDEIAS PRESERVACIONISTAS NO B RASIL :
1920 1930

N
AS DÉCADAS DE E

R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
Para bem restaurar, é necessário amar e Não é tarefa fácil investigar os primeiros
entender o monumento, seja estátua, quadro ou indícios da emergência de uma sensibilidade
edifício, sobre o qual se trabalha (...) Ora, que preservacionista no Brasil, que se configuraria

P
séculos souberam amar e entender as belezas do
como a pré-história de nosso primeiro órgão

D O
passado? E nós, hoje, em que medida sabemos

E V I S T A
federal especificamente voltado à salvaguarda
amá-las e entendê-las?
do patrimônio brasileiro: o Iphan, cujos
(Boito, 2002:31).

R
oitenta anos de atividade são celebrados em
2017. Entre os vários enfoques possíveis, o
presente artigo, inspirado na exortação de
Camilo Boito na epígrafe acima, abordará o
tema a partir do mapeamento dos primeiros
e incipientes estudos sobre a arquitetura
brasileira, considerados aqui como as 13
primeiras demonstrações de interesse,
mesmo que tênue, por tais manifestações
do patrimônio cultural brasileiro. Tal
abordagem parece pertinente, também,
diante do viés arquitetônico, por assim dizer,
de que se revestiram as primeiras iniciativas
preservacionistas no Brasil, inclusive aquelas
protagonizadas no início das atividades
do Iphan – então denominado Serviço do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –
Sphan.
Profeta Habacuc
A esse respeito, não seria ocioso lembrar Acervo: Copedoc/Iphan/
Marcel Gautherot.
que, nascido sob o signo da globalização, em
Grafismo Wajãpi
seu momento inicial – que podemos situar Acervo: Iphan.
na grande expansão ultramarina portuguesa no período; e dela é emblemático não só o
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

–, o Brasil acabou de completar cinco séculos descaso pelos vetustos edifícios coloniais,
A C I O N A L

desde seu descobrimento. Entretanto, foi velharias a serem derrubadas pelas “picaretas
necessário o decurso de quase trezentos regeneradoras”, mas também a escassez
anos até a emergência das primeiras atitudes de estudos específicos sobre aqueles
N
R T Í S T I C O

de afirmação de uma identidade nacional, exemplares arquitetônicos que estavam sendo


consubstanciadas nos movimentos em busca animadamente demolidos.
A

da autonomia política – destacando-se, aí, a Assim, do ponto de vista privilegiado


E

Inconfidência Mineira e Tiradentes, sua figura aqui, posição de destaque cabe ao engenheiro
I S T Ó R I C O

máxima, em 1789. português Ricardo Severo, radicado


Após a independência política, esses definitivamente no Brasil desde 1910 e
H

primeiros pendores nacionalistas foram plenamente inserido na alta sociedade


A T R I M Ô N I O

paradoxalmente sufocados pela franca paulista por matrimônio e pela sua ligação
abertura à cultura europeia em geral, e profissional com o arquiteto Ramos de
P

francesa em particular, que caracterizou o Azevedo. Severo exerceu entre nós importante
D O

século XIX – inclusive com patrocínio oficial, papel no despertar de um interesse pela
E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro

como aconteceu no episódio da Missão arquitetura brasileira dos primeiros séculos,


R

Francesa. A paulatina inserção de algumas que viria a consubstanciar-se no movimento


regiões brasileiras no mercado internacional, conhecido como Neocolonial.
através da produção de determinadas As propostas de Severo foram enunciadas
matérias-primas – o café, o algodão, a em duas conferências intituladas A arte
borracha –, facilitando intercâmbios de tradicional no Brasil (Severo, 1916:37-82).
todos os tipos, veio reforçar o processo. No A primeira, proferida em São Paulo em 20
final do século, há uma associação clara, de julho de 1914, conclamava os “jovens
14
por parte das elites brasileiras, entre valores arquitetos nacionais” a iniciar “uma nova era
culturais europeus e as noções vigentes de de Renascença Brasileira”.
modernidade e de civilização, manifestadas Nessa oportunidade, explicitando
nos costumes, nas artes, na moda, com desde logo seu entendimento da arte como
destaque para a arquitetura, capaz de “fenômeno coletivo”, Severo afirmou que “a
evocar/emular paisagens urbanas dignas das Arquitetura (...) é a mais social de todas as
metrópoles europeias. Pretendia-se esquecer, artes”, indo muito além das “obras-primas
obliterar mesmo, o passado colonial, dos artistas geniais” e “manifestando-se nos
primitivo, retrógrado, tacanho, em nome do artefatos humildes do povo”.
progresso. Progresso esse consubstanciado Seu objetivo era, claramente, demonstrar
em extensas operações de modernização e a qualidade e adequação ao meio físico da
embelezamento urbano, realizadas a partir arquitetura brasileira do período colonial
do arrasamento das áreas mais antigas das – que ele denomina Arte Tradicional – e,
cidades brasileiras. ao mesmo tempo, ressaltar suas origens
Essa é, de fato, a atitude predominante portuguesas.
Para Severo, as semelhanças climáticas pois reproduzir a própria tradição do que a

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
entre Portugal e o Brasil permitiram que as alheia”.

A C I O N A L
formas tradicionais portuguesas, decantadas Ao advogar a produção contemporânea de
de diversas correntes migratórias ao longo de uma arquitetura de base tradicional, Severo
séculos,

N
procurava afastar de sua exortação qualquer

R T Í S T I C O
laivo de “saudosismo” romântico e retrógrado,
(...) aqui se estabelecessem com naturalidade,
enraizando-se e resistindo, como na velha afirmando que

A
metrópole, à invasão das influências cosmopolitas”.

E
(...) não se intima ao artista de hoje a postura

I S T Ó R I C O
inerte da esfinge, voltada em adoração estática para
A palestra foi ilustrada com fotografias
o passado, mas sim a atitude viva do caminhante
e desenhos de exemplares da arquitetura
que, olhando o futuro, tem de seguir um caminho

H
residencial brasileira, destacando seus

A T R I M Ô N I O
demarcado pela experiência e pelo estudo do
elementos construtivos tradicionais, como passado.
telhados, beirais, janelas, portas, rótulas etc. –
Em março de 1917, evidenciando o

P
uma abordagem absolutamente fora do usual,

D O
naquele momento. Pouco usual era também sucesso de sua conferência de 1914, o

E V I S T A
a importância conferida por Severo ao casario engenheiro português foi convidado a

Maria Lucia Bressan Pinheiro


anônimo que compunha o tecido urbano palestrar perante o grêmio estudantil da

R
das cidades, em detrimento dos edifícios Escola Politécnica de São Paulo (Severo,
excepcionais. Com efeito, revelando-se leitor 1917:394-424). Aproveitou a oportunidade
atento de A lâmpada da memória, uma das e propôs a utilização, para o estudo da
Sete lâmpadas da arquitetura, de John Ruskin, arquitetura brasileira, do método de
o engenheiro afirmou: “investigação direta”, próprio da etnografia
e da arqueologia, em oposição à pesquisa
(...) há que ponderar que o caráter de uma
documental, privilegiada pelos historiadores – 15
cidade não lhe é dado por seus monumentos,
justificando-se com as seguintes palavras:
colocados em pontos dominantes, grandes praças
ou lugares históricos. Ligam esses locais as ruas e A arqueologia não é apenas o estudo da
avenidas, marginadas por casas de variado destino; antiguidade, analisada como uma ossatura
e são estas que dão a característica arquitetônica morta, ou dissecada como um cadáver em
da cidade; com efeito, o monumento é uma laboratório de anatomia. Não se prende às coisas
exceção, a casa é a nota normal da vida quotidiana do passado, como petrificações imobilizadas na
do cidadão, é como uma lápide epigráfica de sua
rocha sedimentar que é seu eterno jazigo. Estuda
ascendência e de sua história. manifestações da vida da humanidade, fases de
civilização; analisa as criações do homem como
Numa referência à recém-iniciada
integrações da coletividade, em determinado meio
construção da nova catedral de São Paulo,
e tempo. (grifo nosso)
que viera substituir a antiga matriz colonial,
Ricardo Severo não se furtou a criticar o Reiterando sua visão da arte como
caráter importado do estilo adotado – o fenômeno coletivo, transmitido pela
neogótico –, ressaltando que “Melhor fora experiência, ressaltou que, para a arqueologia,
(...) as mais rústicas ruínas têm um valor Minas, como se fosse composição do mesmo
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

máximo e o mais modesto edifício tem uma arquiteto (o “Aleijadinho”) da segunda metade do
brilhante significação, pela natureza dos século XVIII.
A C I O N A L

seus materiais, técnica construtiva, caráter


arquitetônico, época, estilo ou escola, seu destino Assim, buscando evitar preconceitos
N

e tradição. ditados pelo gosto ou pela moda, Severo está


R T Í S T I C O

entre os primeiros a destacar a originalidade


Cabe destacar que a menção à “natureza da arquitetura barroca mineira, que, para ele,
A

dos materiais” e à “técnica construtiva” era tinha


E

absolutamente inusitada, no período. A título


I S T Ó R I C O

de exemplo, Severo apresentou um “grosseiro (...) uma legitimidade tão legal quanto o
dogma clássico das ordens arquitetônicas dos
esboço” da arquitetura religiosa brasileira,
H

panteões greco-romanos. Na arte não há estilos


A T R I M Ô N I O

capaz de “orientar o estudo das artes no


privilegiados.
Brasil” segundo o método proposto.
Dos cinco tipos genéricos de edifícios Com tal visão anticonvencional da
P

religiosos que identificou, “segundo o arquitetura, Severo lançou as bases para o


D O

critério arqueológico da sua composição movimento que logo ficaria conhecido como
E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro

arquitetônica”, o primeiro tipo era composto Neocolonial e que se mostraria capaz de


R

por igrejas paulistas de grande simplicidade – promover significativa mobilização simbólica


cuja beleza, segundo Severo, “não se percebe fora dos estreitos círculos acadêmicos,
com os olhos, mas com o coração”, afirmando alcançando grande popularidade em meios
também que bastante diversificados. Tratando-se de uma
proposta ancorada na arquitetura, que exige
(...) só o culto do passado é que nos faz
perceber a linguagem das ruínas, traduzir o
para sua concretização o comprometimento
encanto e a poesia dessas grosseiras fábricas de efetivo de recursos vultosos, tal feito não pode
16
taipa, amassada com a própria terra que nos ser menosprezado.
alimenta a vida e nos dilui a morte na perpétua Curiosamente, entretanto, seu bem-
alma do universo. sucedido empenho em valorizar a arquitetura
tradicional brasileira nunca se traduziu em
Os demais tipos mereceram comentários
quaisquer veleidades preservacionistas de
mais sucintos, com exceção do terceiro
sua parte. Porém, sua contribuição parece
tipo, composto pelas igrejas ouro-pretanas
ter sido decisiva para a formação de um dos
do Rosário e de S. Francisco de Assis e pela
mais emblemáticos intelectuais brasileiros
Igreja do Carmo de São João del-Rei – casos
da primeira metade do século XX: Mário de
em que “a paixão pelas linhas curvas passa
Andrade, um jovem escritor em princípio de
dos elementos decorativos da arquitetura ao
carreira então.
próprio plano da igreja”. Severo atribuiu tal
Com efeito, em 1920, Mário escreveu
originalidade ao Aleijadinho:
uma série de artigos intitulada A arte
(...) Pode dizer-se que este tipo de plano religiosa no Brasil, claramente motivada
curvilíneo é original nessa parte do estado de pelas conferências de Severo. Nesses escritos,
Mário, várias vezes, retoma e complementa os importantes artistas de cada região, ao

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
temas abordados pelo engenheiro português, contrário da ênfase de Ricardo Severo

A C I O N A L
fazendo até mesmo pequenas retificações. É no caráter anônimo e coletivo das igrejas
fácil compreender seu entusiasmo: discorrer brasileiras, e sua filiação genética à arquitetura
sobre a arquitetura colonial brasileira,

N
portuguesa.

R T Í S T I C O
identificando técnicas construtivas, motivos Citando textualmente alguns trechos
ornamentais recorrentes ou soluções de planta da conferência do engenheiro português,

A
inovadoras – por mais sumárias que fossem as Mário também endossou com entusiasmo sua

E
análises empreendidas, quase meras descrições

I S T Ó R I C O
hipótese relativa à originalidade das plantas
– era algo inédito até aquele momento. curvilíneas mineiras, reiterando que, em
É evidente, nos artigos, a preocupação Minas,

H
A T R I M Ô N I O
de Mário com o que ele considerava a
(...) os elementos decorativos não residem só
decadência da arquitetura religiosa no início
na decoração posterior, mas também no risco e na
do século XX, diante da miscelânea de
projeção das fachadas, no perfil das colunas, na

P
estilos empregados nas novas igrejas, com

D O
forma das naves.
predominância do Neogótico. Nesse sentido,

E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro


perguntava-se: Dessa forma, o Barroco

R
Que divisar senão uma parva desorientação (...) assume a proporção dum verdadeiro estilo,
e um tresloucamento lamentável? (...) Há ainda equiparando-se, sob o ponto de vista histórico, ao
artistas cristãos, não há mais arte cristã, com Egípcio, ao Grego, ao Gótico. E é para nós motivo
normas exatas, com diretriz firme e determinada de orgulho bem-fundado que isso se tenha dado
(Andrade, 1920a:96). no Brasil (Andrade, 1920b:103).

Entusiasmou-se, portanto, com a Entretanto, tal como Severo, Mário não


17
sugestão de Severo sobre o aproveitamento chegou a manifestar qualquer preocupação
de elementos arquitetônicos coloniais quanto à preservação da arquitetura religiosa
como fonte de inspiração para a arquitetura brasileira; defendia veementemente, aliás,
residencial do período, comparando-os a “um a necessidade de renovação das igrejas
tesouro abandonado onde os nossos artistas paulistanas:
poderiam ir colher motivos de inspiração”
(Andrade, 1920a:96). Neste orgulhoso estado de São Paulo, que se
não podia, com justiça, contentar com as velhas
Apropriando-se do roteiro tipológico
igrejas, pardieiros a esfrangalhar-se, foi necessário
apresentado em 1917 pelo engenheiro
substituir tudo. Onde fomos buscar inspiração?
português, Mário identificou três centros
Em Portugal, que nos deu o que possuímos? Ou
principais de irradiação da arquitetura nos progressos dessa dádiva, realizados na vastidão
religiosa brasileira: Bahia, Rio de Janeiro do Brasil? Nada disso. Queríamos ser progressistas,
e Minas Gerais. E seus principais artistas: reformadores, cubistas, fomos buscar o que não
Chagas, Mestre Valentim e o Aleijadinho. era nosso, imitamos sem altivez, copiamos sem
Buscava, assim, individualizar os mais engenho (Andrade, 1920b:109).
Não criticava, portanto, a demolição do espanhol Antônio Garcia Moya, um
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

de templos coloniais, mas a escolha errônea projeto neocolonial de autoria do arquiteto


A C I O N A L

do estilo a ser empregado nas novas igrejas. polonês Georg Przyrembel. O Neocolonial
Pouco depois dessa série de artigos, Mário assumia indiscutivelmente, assim, foros de
inaugurou a coluna “De São Paulo” na revista modernidade.
N
R T Í S T I C O

carioca de cultura Ilustração Brasileira; na A divulgação do Neocolonial encontrou


crônica de estreia, manifestou explicitamente seu mais eloquente arauto no médico
A

seu entusiasmo pela nova tendência pernambucano José Mariano Filho, cuja
E

neocolonial: campanha pelas ideias de Ricardo Severo


I S T Ó R I C O

no Rio de Janeiro iniciou-se em 1920,


São Paulo, mais uma vez e em outro terreno,
como afirmou em várias ocasiões. Figura
H

vai glorificar-se, reatando uma tradição artística


proeminente, e polêmica, do panorama
A T R I M Ô N I O

que o Aleijadinho de Vila Rica, o gênio inculto


do portal de S. Francisco de Assis, em Ouro cultural carioca dos anos 1920 e 1930,
Preto, e da escadaria de Congonhas encetou e Mariano Filho era extremamente ativo junto
P

que nenhum ousara continuar. E Brecheret, cujas aos artistas e arquitetos do Rio de Janeiro,
D O

forças artísticas rapidamente se maturam ao calor a quem prestigiou através de inúmeras


E V I S T A

de empecilhos e rivalidades, não só renova o


Maria Lucia Bressan Pinheiro

iniciativas, valendo-se de sua fortuna e


passado em que a Bahia deu Chagas, o Rio Mestre prestígio pessoais. Foi presidente da Sociedade
R

Valentim e Minas João [sic] Francisco Lisboa,


Brasileira de Belas Artes e era muito influente
como realiza o ideal moderno de escultura, templo
junto aos órgãos de classe dos arquitetos;
onde pontificam Bourdelle, Lehmbruck, Carl
chegou a assumir o cargo de Diretor da
Millés e Mestrovic (Andrade, 1920c).
Escola Nacional de Belas Artes – Enba entre
A menção à “renovação do passado” e à 1926 e 1927. Nesse curto período, procurou
“realização do ideal moderno” em Brecheret introduzir uma disciplina sobre arte brasileira
18
prenuncia a Semana de Arte Moderna, marco no currículo da escola, proposta que não foi
do Modernismo no Brasil, que teria lugar em aprovada pela Congregação.
fevereiro de 1922 – e da qual Mário seria um José Mariano Filho conseguiu “interessar
dos principais organizadores. no movimento [de Severo] os mais formosos
De fato, em fevereiro de 1921 – espíritos da moderna geração de arquitetos
exatamente um ano antes da realização brasileiros”, entre os quais se incluía Lucio
da própria Semana – Mário elogiava Costa, além de Nereu Sampaio, Raphael
declaradamente “o glorioso estilo Galvão e Nestor de Figueiredo (Pinheiro,
Neocolonial, que um grupo de arquitetos 2011:134).
nacionais e portugueses, com o Sr. Ricardo Os contatos de Mariano Filho com esse
Severo à frente, procura lançar” (Andrade, grupo de arquitetos devem remontar aos
1921). concursos de projetos neocoloniais por ele
Não foi por acaso, portanto, que a promovidos na primeira metade da década
seção de arquitetura da Semana de Arte de 1920, os quais alcançaram razoável
Moderna incluiu, além de alguns desenhos repercussão na imprensa. Em 1924, por
exemplo, Lucio Costa foi entrevistado pelo Um aspecto sobre o qual José Mariano

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
jornal A Noite a respeito do projeto com costumava insistir era a falta generalizada

A C I O N A L
que concorrera ao Prêmio Heitor de Mello, de conhecimento a respeito da arquitetura
promovido por José Mariano Filho em 1923, colonial brasileira que imperava então,
no qual alcançara o segundo lugar (Pinheiro,

N
gerando pastiches de mau gosto. Nesse

R T Í S T I C O
2013:58). sentido, considerava que
Os esforços de divulgação do Neocolonial
(...) o programa de ação desse movimento

A
realizados por Mário de Andrade e por
[Neocolonial] consiste, antes de tudo, no

E
José Mariano Filho muito se beneficiaram

I S T Ó R I C O
reconhecimento e seleção do vocabulário
das comemorações ligadas ao Primeiro característico do estilo tradicional brasileiro”
Centenário da Independência do Brasil, (Pinheiro, 2011:141).

H
celebrado na grande Exposição Internacional

A T R I M Ô N I O
do Centenário da Independência, inaugurada A nosso ver, definiu claramente, assim, a
em setembro de 1922, na área resultante do principal contribuição do Neocolonial para a
cultura brasileira.

P
desmonte do Morro do Castelo, o antigo

D O
centro histórico do Rio de Janeiro. Coerentemente, procurou suprir a

E V I S T A
carência de estudos e de repertório sobre a

Maria Lucia Bressan Pinheiro


Em tal ambiente de exaltação nacionalista,
arquitetura brasileira através da concessão

R
o deputado pernambucano Luiz Cedro
apresentou em 1923 um projeto de lei de bolsas de viagem a jovens arquitetos ou
criando a Inspetoria dos Monumentos estudantes de arquitetura às cidades mineiras
Históricos dos Estados Unidos do Brasil. do ciclo do ouro, patrocinadas pela Sociedade
Trata-se da primeira iniciativa inteiramente Brasileira de Belas Artes – SBBA, da qual era
voltada para a preservação do patrimônio diretor. Assim foram custeadas as viagens de
arquitetônico brasileiro, contemplando Nestor de Figueiredo a Ouro Preto; de Nereu
Sampaio a São João del-Rei e Congonhas 19
imóveis públicos ou particulares, que seriam
“classificados como monumentos nacionais”1. do Campo, e de Lucio Costa a Diamantina,
Todas as igrejas que mencionou em seu todas no ano de 1924.
discurso de encaminhamento do projeto Em São Paulo, também havia esforços no
à Câmara dos Deputados, em 3/12/1923, sentido de documentar a arquitetura colonial
haviam sido comentadas por Ricardo brasileira: Ricardo Severo financiava viagens
Severo na conferência de 1917, da qual de estudo ao pintor José Wasth Rodrigues, e o
Cedro extraiu inclusive citações textuais. O engenheiro e professor Alexandre Albuquerque
deputado mencionou também seu “amigo empreendia regularmente, entre 1921 e 1925,
o Dr. José Mariano Filho” (Pinheiro, excursões a cidades coloniais com seus alunos
2011:261), evidenciando, assim, sua da Escola Politécnica de São Paulo, com o
proximidade com os círculos neocoloniais. objetivo de suprir a carência de registros de
importantes exemplares arquitetônicos.
1. Em 1920, Alberto Childe, conservador do Museu Nacional, As cidades mineiras do ciclo do ouro
apresentara um anteprojeto de lei voltado à proteção de sítios
arqueológicos. eram o principal destino desses viajantes.
Em abril de 1924, estiveram em Minas Folgamos em ver realizado o sonho do grupo
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

Gerais os estudantes cariocas bolsistas da de intelectuais paulistas que, o ano passado, fez
uma longa e proveitosa excursão às nossas cidades
A C I O N A L

SBBA, assim como Mário de Andrade e seus


históricas. Aliás, o sonho era de todos, paulistas ou
amigos modernistas – Tarsila do Amaral,
mineiros, que temos a coragem de nos preocupar
N

Oswald de Andrade e Dona Olívia Guedes com assuntos de arte nesse tempo de vida cara e
R T Í S T I C O

Penteado, entre outros – ciceroneando de revoluções caudilhescas. Em Belo Horizonte,


o escritor Blaise Cendrars, amigo e os novos bandeirantes trataram com entusiasmo
A

conterrâneo do arquiteto Le Corbusier, que de lançar as bases de uma associação que tivesse
E

por fim defender o nosso malbaratado patrimônio


I S T Ó R I C O

logo daria sua contribuição à arquitetura


artístico. A ideia floresceu. A comissão escolhida
brasileira, como sabemos. Trata-se da
pelo Sr. Mello Vianna tratará provavelmente de
chamada “Viagem de Descoberta do Brasil”,
H

estabelecer uma sociedade protetora das obras de


A T R I M Ô N I O

na qual os paulistas encantaram-se com o arte em Minas (A Revista, nº 1, 1925:46, apud


rico patrimônio mineiro e chegaram mesmo Lima, 2015:186-187).
a pensar na fundação de uma organização
P

O artigo faz menção à Comissão


D O

voltada à sua preservação (Calil, 2006).


encabeçada pelo jurista Jair Lins, criada
E V I S T A

Mas, por suas consequências futuras para


Maria Lucia Bressan Pinheiro

naquele mesmo mês de julho de 1925 pelo


a preservação no Brasil, o mais importante
R

governador do estado de Minas Gerais,


evento dessa viagem foi o encontro, em Belo
Fernando de Mello Vianna e voltada
Horizonte, entre Mário de Andrade e os
à preservação do patrimônio mineiro.
escritores e intelectuais mineiros membros
Aliás, um pouco antes, em 16/10/1924,
do Grupo Estrela, como Carlos Drummond
o poeta e deputado mineiro Augusto de
de Andrade e Gustavo Capanema (Lima,
Lima apresentara um projeto de lei com o
2015:186). Esse foi o início de amizades
objetivo específico de impedir a saída do
20 duradouras entre o escritor paulista e nomes
país de obras de arte tradicional brasileira
que assumiriam grande relevância na área
– uma questão que mobilizava a imprensa,
cultural na década de 1930, especialmente no
naquele momento.
que diz respeito à criação do Sphan. A iniciativa de Mello Vianna não obteve
As circunstâncias do encontro êxito, mas dela resultou um projeto de lei
propiciaram a inclusão de um novo tópico, bastante maduro, que mais tarde traria
além da literatura, no leque de afinidades subsídios para a elaboração do Decreto-lei
entre mineiros e paulistas: o apreço pela no 25, de 1937. Os trabalhos da comissão
arquitetura colonial mineira, que logo certamente estimularam as primeiras
assumiria contornos de preservação do medidas bem-sucedidas no âmbito da
patrimônio artístico nacional, como veremos. preservação: a criação da Inspetoria Estadual
Tais afinidades transparecem em artigo de Monumentos Históricos da Bahia,
publicado no primeiro número do periódico em 1927, e a da Inspetoria Estadual de
A Revista, lançado em julho de 1925 pelo Monumentos Históricos de Pernambuco,
Grupo Estrela: em 1928.
Como se vê, na segunda metade da feitas intervenções pontuais na Igreja do

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
década de 1920, a questão patrimonial se Rosário, na Capela de S. João e na Matriz

A C I O N A L
intensifica, sendo que, também em 1928, a do Pilar. Gustavo Barroso privilegiou as
cidade de Ouro Preto começa a aparecer no obras públicas, e não as suntuosas igrejas do
epicentro das atenções, bem como seu artista Aleijadinho, apesar das atenções que para ele

N
R T Í S T I C O
maior, o Aleijadinho. Nesse ano, o poeta se voltavam naquele momento.
pernambucano Manuel Bandeira visitou a Reforços na estrutura da Casa dos Contos

A
cidade, registrando em inúmeras crônicas – onde então funcionava uma agência dos

E
a profunda impressão que lhe causara a Correios e Telégrafos – acabaram sendo

I S T Ó R I C O
arquitetura mineira e propondo a criação de incluídos no plano de obras de Barroso.
um órgão voltado à sua preservação. Também O trabalho foi dirigido pelo “jovem e

H
dedicou um artigo ao Aleijadinho, no qual distinto engenheiro da Repartição Geral

A T R I M Ô N I O
anunciou o bicentenário de nascimento do dos Telégrafos, Epaminondas de Macedo”,
genial artista mineiro que se aproximava, recebendo elogios do então diretor do MHN

P
devendo ser comemorado em 29/8/1930. (Barroso, 1955:19).

D O
Entre 1928 e 1929, talvez inspirados por As obras realizadas por iniciativa de

E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro


Bandeira, também Mário de Andrade e Lucio Barroso em Ouro Preto entre 1928 e 1929

R
Costa dedicaram artigos ao Aleijadinho, de constituem, portanto, uma das poucas
pontos de vista bastante distintos. ocasiões em que os discursos preservacionistas
Quem também esteve em Ouro Preto em da década de 1920 se traduziram em ações
1928 foi Gustavo Barroso, diretor do Museu efetivas, a incidir na própria materialidade
Histórico Nacional – MHN, o primeiro de exemplares do patrimônio brasileiro.
museu brasileiro especificamente voltado à Registre-se, nelas, a colaboração de um
história do Brasil, criado em 1922. Barroso futuro integrante dos quadros do Iphan:
21
procurou o então governador de Minas Epaminondas de Macedo.
Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, É difícil identificar as motivações dessa
com quem mantinha relações políticas, para precoce atuação de Barroso em Ouro Preto,
convencê-lo a promover reparos na cidade mas podemos formular algumas hipóteses.
– e foi bem-sucedido na empreitada. Ficou Além da sua posição como diretor do MHN,
acertado que Antônio Carlos destinaria à guardião máximo da memória nacional, é
prefeitura “a verba de 200 mil cruzeiros para bem possível que interesses políticos tenham
as obras urgentes de Ouro Preto”, ficando guiado sua ação, já que previsivelmente
Barroso encarregado “de inspecionar, como Antônio Carlos seria eleito presidente do Brasil
técnico, os trabalhos de restauro” (Barroso, nas eleições de 1930, conforme o acordo de
1955:5-6). alternância de poder então vigente entre Minas
Dessa forma, foram feitos reparos Gerais e São Paulo, conhecido como “política
emergenciais nos chafarizes da Glória, dos do café-com-leite”. Momento politicamente
Contos, do Largo de Dirceu, de Claudio oportuno para uma reaproximação com o
Manuel e do Alto da Cruz; também foram governador mineiro, portanto.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

22
Maria Lucia Bressan Pinheiro Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
Luiz Santos.
Acervo: Iphan/
Ilha do Paty
Sambadeira,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
23

Maria Lucia Bressan Pinheiro Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0


Essa hipótese ganha consistência diante Assim, ao mesmo tempo em que assinala
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

de outro episódio inusitado que ocorreu um a importância que a cidade de Ouro Preto
A C I O N A L

pouco depois, em setembro de 1929: a visita assumia no cenário nacional, a proposta de


dos deputados federais gaúchos João Batista Luzardo também evidencia que a preservação
Luzardo e Joaquim Francisco de Assis Brasil do patrimônio começava a ser valorizada
N
R T Í S T I C O

a Ouro Preto, em companhia do deputado como moeda de troca no jogo político.


mineiro Virgílio de Melo Franco (primo de E assim chegamos a 29/8/1930, data
A

Rodrigo Melo Franco de Andrade) e dos da comemoração do bicentenário do


E

estudantes locais Hugo Gouthier, Newton Aleijadinho, bastante noticiado em nível


I S T Ó R I C O

de Paiva e Francisco de Sá Pires. nacional, e que atraiu muitos visitantes


Menos de quinze dias depois dessa para Ouro Preto, entre eles José Mariano
H

visita, já em plena crise desencadeada pelo Filho, que pronunciou a conferência Mestre
A T R I M Ô N I O

rompimento da “política do café-com-leite”, Aleijadinho e sua obra “do púlpito da Igreja


devido ao apoio declarado de Washington de São Francisco de Assis, de Ouro Preto”
P

Luís ao candidato paulista Júlio Prestes (e (Pinheiro, 2011:277).


D O

não ao mineiro Antônio Carlos, conforme Pois foi precisamente nesse dia que o
E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro

acertado), João Batista Luzardo propôs à deputado José Wanderley de Araújo Pinho,
R

Câmara dos Deputados a formação de um membro do Instituto Histórico e Geográfico


conselho técnico para identificar sítios, da Bahia, animou-se a apresentar um projeto
monumentos e edifícios de Ouro Preto a de proteção do patrimônio histórico e
serem preservados como patrimônio da artístico nacional mais avançado do que
educação nacional. Em outras palavras, qualquer outro já proposto. Entretanto,
Luzardo propunha uma Comissão para a o projeto foi tornado sem efeito devido
preservação da ex-capital mineira (Lima, à dissolução do Congresso Nacional pela
24
2015:195). Revolução de 1930, que pôs fim também
Embora não tenha sido aprovada, à vigência da Constituição de 1891.
a proposta – que partiu de um político Reapresentado em 1935, o projeto seria
do Rio Grande do Sul, importante novamente rejeitado (MEC/Sphan/Pró-
articulador político de Vargas – assinala Memória, 1980:17).
uma inusitada aproximação entre a Câmara Evidentemente, a Revolução de 1930 teve
dos Deputados (portanto, nível federal) impacto generalizado em todas as instâncias
e as instâncias estadual e local, articulada da vida nacional. De nosso ponto de vista
em torno da preservação de Ouro Preto. específico, cabe destacar que a proeminência
O interesse do governador Antônio Carlos de Ouro Preto como patrimônio histórico e
no patrimônio ouro-pretano teria passado, artístico brasileiro não foi abalada, mas até
assim, a ser considerado um capital reforçada com a ascensão de Getúlio Vargas
político a ser utilizado na busca de uma ao poder. De fato, prestigiar a cidade somava-
aproximação do grupo varguista com os se às demais estratégias para a estabilização
políticos mineiros. do novo regime, que não podia prescindir
do apoio político mineiro. Por outro lado, a a de Gustavo Barroso – foi aprovado o

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
característica ímpar de locus da Inconfidência Decreto no 24.735, que reformulava o

A C I O N A L
Mineira assegurava a Ouro Preto uma posição regulamento do Museu Histórico Nacional
de honra no panteão da simbologia nacional, – MHN, criando o Serviço de Inspeção
sobrepondo-se a interesses regionais – o que dos Monumentos Nacionais no âmbito da

N
R T Í S T I C O
também convinha a Vargas. instituição. Esse Serviço ficou conhecido
Emblemática dessa proeminência foi a como Inspetoria de Monumentos Nacionais,

A
elevação da cidade à condição de Monumento embora nunca tenha se constituído como

E
Nacional, efetivada em 12/7/1933. De certa órgão autônomo, permanecendo sempre

I S T Ó R I C O
forma, é como se Vargas decidisse aprovar a como uma divisão do MHN.
proposta de criação de uma Comissão para a E, dois dias depois da ampliação das

H
Preservação de Ouro Preto, apresentada em atribuições do MHN, em 16/7/1934, foi

A T R I M Ô N I O
1929 pelo deputado João Batista Luzardo. aprovada a Constituição de 1934, com a
Há referências de que teria sido o inclusão do famoso artigo 148, que dispunha

P
advogado Vicente Racioppi, entusiasta do sobre a proteção do patrimônio histórico

D O
legado físico e moral da ex-capital do estado e artístico do país. Essa coincidência quase

E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro


(Lima, 2015:204-207) e figura central na exata de datas entre o Decreto-lei de

R
criação do Instituto Histórico e Geográfico de reorganização do MHN e a Carta Magna
Ouro Preto – IHG-OP, em 29/8/1931, quem brasileira muito contribuiu para conferir
sugeriu a Vargas a elevação daquela cidade à legitimidade ao recém-criado Serviço de
condição de Monumento Nacional. A esse Inspeção dos Monumentos Nacionais – que,
respeito, Rodrigo Melo Franco de Andrade na verdade, tinha muito pouco amparo legal,
faz menção a uma “sugestão propícia” na como apontou Rodrigo Melo Franco.
origem desse decreto, “a primeira lei federal Ainda no mês de julho de 1934, apenas
25
sobre a matéria”, o que parece corroborar dez dias depois da promulgação da nova
a participação de Racioppi na iniciativa Constituição, Gustavo Capanema assume a
(Andrade,1952:45-46). O advogado parece pasta da Educação e Saúde Pública – o que
ter gozado, de fato, de uma inusitada representou uma guinada decisiva quanto aos
familiaridade com Vargas, com quem teve rumos da cultura e da preservação no Brasil,
vários encontros pessoais, conforme registrado como se sabe.
no diário presidencial (Vargas, 1995). No final de 1934, poucos meses depois
Assim, apesar da naturalização do episódio de assumir o Ministério, eis que Capanema
nos estudos sobre a trajetória da preservação convida Mário de Andrade, durante “almoço
no Brasil, a patrimonialização de Ouro Preto no restaurante Albamar, Rio de Janeiro”, para
reveste-se de conotações políticas inequívocas, elaborar “um anteprojeto de lei de proteção à
a imprimir uma nova dinâmica ao processo. arte no Brasil” (Andrade, 1988:175).
De fato, quase exatamente um ano O inusitado convite nos remete ao já
depois da nova legislação, em 14 de julho de mencionado encontro de Mário de Andrade
1934 – agora por outra “sugestão propícia”, com os intelectuais mineiros do Grupo
Estrela, do qual Capanema fazia parte, nos – DC, criado provisoriamente em 1935
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

idos de 1924. Também parece indicar que (Duarte,1985:343).


A C I O N A L

Gustavo Barroso – titular do único cargo No dizer de Antonio Candido, o DC


voltado à preservação do patrimônio em nível procurava, mais do que “rotinizar a cultura”,
nacional então existente – não contava com as
N

“arrancá-la dos grupos privilegiados para


R T Í S T I C O

boas graças do novo ministro. transformá-la em fator de humanização da


Seja como for, nenhum anteprojeto maioria, através de instituições planejadas”.
A

chegou a ser elaborado, naquele momento, Tratava-se justamente da


E

como se depreende da carta, datada de


I S T Ó R I C O

(...) tentativa de Mário de Andrade e de


16/12/1934, de Mário a Carlos Drummond
Paulo Duarte para fazer da arte e do saber um
de Andrade, chefe de gabinete de Capanema
H

bem comum; para incorporar as conquistas do


à época e também ex-membro do Grupo
A T R I M Ô N I O

Modernismo à tradição que ele veio atualizar


Estrela, de quem o paulista se tornara amigo e e fecundar; para extrair dos grandes ideais do
correspondente desde 1924: decênio de 1920 as consequências no terreno da
P

educação e da pesquisa (Duarte, 1985:14-15).


D O

Logo que cheguei do Rio e do nosso almoço,


E V I S T A

andei matutando um pouco no que o Capanema


Mário de Andrade assumiu a direção do
Maria Lucia Bressan Pinheiro

pedira. Depois a vida me tomou de novo e não


DC em 30/5/1935, pondo-se imediatamente
R

organizei nada. Mas me volta sempre a lembrança


daquilo. Como arte é difícil de proteger e orientar, a organizar as inúmeras frentes de trabalho
desde que não seja proteção ditatorial e particular idealizadas: construção de parques infantis
a artistas! E eu ando com raiva dos artistas. Assim “onde se cantavam e se representavam as
mesmo, me andam cá bestando no cérebro umas canções populares e o que de melhor o
ideiazinhas, talvez viáveis (Andrade:1988:173, 175). folclore do Brasil podia inspirar”; organização

Certamente as tais “ideiazinhas, de um sistema de bibliotecas, com dotações


26 regulares para compra de acervos; restauração
talvez viáveis” estivessem relacionadas às
elucubrações de um grupo de intelectuais de documentos históricos para publicação;
paulistas – liderados pelo jornalista Paulo recenseamentos socioeconômicos da
Duarte e pelo próprio Mário de Andrade população etc. (Duarte, 1985:34-35).
--, relativas à criação de uma instituição Quatro meses depois de assumir sua
cultural moderna e dinâmica, com uma nova função, eis que Gustavo Capanema lhe
visão abrangente e inclusiva de cultura. Após dirigiu novo convite, agora para colaborar
o trauma da derrota paulista na Revolução diretamente com sua administração no
de 1932, a conjuntura político-intelectual próprio Ministério da Educação e Saúde
iniciada em 07/9/1934, com a nomeação Pública – Mesp, no Rio de Janeiro, o que,
de Armando de Sales Oliveira para o naturalmente, implicaria sua demissão de
governo de São Paulo e Fábio Prado para a seu cargo no DC. Por lealdade ao prefeito de
prefeitura da capital, propiciou campo fértil São Paulo, Mário declinou mais uma vez do
para tais ideias, que se consubstanciaram tentador convite, através de carta datada de
no Departamento de Cultura de São Paulo 19/9/1935:
O Fábio Prado confiou em mim, pôs Universitária como representante do

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
mesmo em mim uma confiança admirável de Sindicato Nacional de Engenheiros e do
generosidade. Eu fui muito combatido quando ele

A C I O N A L
Instituto Central de Arquitetos, associações
falou o meu nome, e ele fincou o pé contra toda a
de classe que tinham reagido fortemente
argumentação poderosíssima da política. (Andrade,

N
1988:177-178).
contra o convite feito por Capanema ao

R T Í S T I C O
arquiteto italiano Marcello Piacentini para
Esse episódio evidencia que, a par de elaborar o projeto carioca.

A
suas atividades no Rio de Janeiro, Capanema Sua conhecida participação no projeto

E
acompanhava com interesse as atividades de

I S T Ó R I C O
para a sede do Mesp, por outro lado, deu-se
Mário de Andrade em São Paulo, à frente do por convite direto do ministro. Insatisfeito
DC. E, em 1935, estavam em andamento
com o resultado do concurso, concluído

H
duas importantes iniciativas do Mesp: o

A T R I M Ô N I O
em dezembro de 1935 com a vitória do
projeto para a Cidade Universitária da
projeto marajoara de Arquimedes Memória,
futura Universidade do Brasil e o concurso
Capanema desobrigou-se de realizá-lo,

P
para o projeto da nova sede do Ministério

D O
convidando Lucio Costa para elaborar uma
(Schwarzman,1984:97). Nesse momento

E V I S T A
alternativa para o edifício, em março de

Maria Lucia Bressan Pinheiro


reaparece a figura de Lucio Costa, que
1936. O convite foi rapidamente aceito,

R
permanecera alheio à esfera governamental
com a condição de que o projeto fosse
desde seu fugaz envolvimento com a reforma
desenvolvido por uma equipe composta por
do ensino universitário colocada em prática
Carlos Leão, Afonso Reidy, Jorge Moreira,
em 1931 pelo ministro Francisco Campos,
que o nomeou diretor da Enba2. Ernâni Vasconcellos e Oscar Niemeyer, sob a
A essa altura, Lucio já tinha abraçado supervisão de Lucio.
publicamente a causa modernista – mudança
27
que só começara a se tornar evidente a partir
de sua atuação na Enba, quando tomou
iniciativas como a contratação de Gregori
Warchavchik, Alexander Buddeus, Celso
Antônio e Leo Putz como professores da
Escola e, principalmente, a organização
integral do Salão de Belas Artes de 1931, para
a qual recorrera inclusive ao auxílio de Mário
de Andrade a fim de arregimentar os artistas
modernistas paulistas (Pinheiro, 2011).
Agora, em 1935, Costa participava da
comissão de desenvolvimento da Cidade

2. É pertinente mencionar que, em 1931, Mário de Andrade


também fora convidado a colaborar com Francisco Campos na
reorganização do Instituto Nacional de Música.
Pois foi também em março de 1936 Inspeção dos Monumentos Nacionais do
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

que Gustavo Capanema telefonou a Mário MHN. No entanto, enquanto estava sendo
A C I O N A L

de Andrade, solicitando a sua colaboração gestada a criação do novo órgão, Gustavo


para organizar “um serviço nacional Barroso, investido da condição de Inspetor
para a defesa do nosso extenso e valioso dos Monumentos Nacionais do Brasil,
N
R T Í S T I C O

patrimônio artístico” (Brasil, 1980:22). mantivera-se ativo na nova função. Após


Trata-se do terceiro convite dirigido por um hiato inicial, devido a um período de
A

Capanema ao escritor paulista – que, dessa intenso engajamento na militância integralista


E

feita, acedeu de bom grado. Em duas (Magalhães, 2004:127), Barroso voltou-


I S T Ó R I C O

semanas, Mário apresentou o projeto para se novamente para Ouro Preto, onde já
o Serviço do Patrimônio Artístico Nacional colaborara ativamente com a administração
H

– Span. Submetido a Getúlio Vargas em Antônio Carlos em 1928, e que constituía


A T R I M Ô N I O

13/4/1936, foi autorizado pelo presidente a o único Monumento Nacional – digno,


ser encaminhado à Câmara dos Deputados portanto, de receber as atenções do Serviço de
P

uma semana depois. Assim, a partir de abril Inspeção do MHN – oficializado até então.
D O

de 1936 começou a funcionar o Serviço do Gustavo Barroso logo convidou o


E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro

Patrimônio Histórico e Artístico Nacional engenheiro Epaminondas de Macedo “para


R

“em bases provisórias”, conforme as palavras se encarregar da direção material dos serviços
de Gustavo Capanema (Andrade, 1952:59). da Inspetoria de Monumentos”. O convite
Portanto, as tratativas iniciais para a foi aceito com entusiasmo por Macedo,
criação de um órgão federal de preservação que, para viabilizar a nova atividade, deu
do patrimônio ocorreram em paralelo à imediatamente início às providências para seu
decisão de Capanema de contratar Lucio afastamento do Departamento dos Correios
Costa para elaborar o novo projeto para a e Telégrafos (Barroso, 1955:23). Entretanto,
28
sede do Mesp; sendo que Lucio passou a seu processo de contratação foi bastante
integrar os quadros do novo órgão desde seu moroso, só se efetivando em 2/12/1935. Isso
início, juntamente com mais dois membros não o impediu de, entre junho e novembro
da equipe do projeto: Carlos Leão e Oscar de 1935, antes mesmo de sua efetivação junto
Niemeyer. Mário de Andrade, por sua vez, ao MHN, elaborar o Plano de Restaurações
assumiu a função de representante do Sphan em Ouro Preto que foi apresentado ao
em São Paulo. ministro Gustavo Capanema no final daquele
Configura-se, assim, de forma mais que ano (Barroso, 1955:43). O relatório compõe-
emblemática, a imbricação da arquitetura se da caracterização física e do estado de
modernista nas raízes da arquitetura conservação de várias pontes, chafarizes e
tradicional, sempre destacada. igrejas de Ouro Preto que a Inspetoria de
É digna de nota a ausência de qualquer Monumentos Nacionais pretendia restaurar,
menção, convite, ou proposta de colaboração além da descrição das intervenções propostas
entre o recém-criado Serviço e aquele outro, e respectivos orçamentos. Trata-se de um
criado apenas dois anos antes: o Serviço de documento precioso, por disponibilizar
grande quantidade de informação, Como se vê, concordemos ou não com

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
inclusive levantamentos métricos e registros as medidas e escolhas tomadas, o fato é que,

A C I O N A L
fotográficos, sobre o estado em que se entre 1935 e 1937, o Serviço de Inspeção
encontrava grande parte dos bens culturais de Monumentos Nacionais do MHN
de Ouro Preto naquele momento (Barroso, levou efetivamente a cabo um conjunto de

N
R T Í S T I C O
1955:34-127). intervenções visando preservar monumentos
Como já ocorrera em 1928, Barroso ouro-pretanos, todas precedidas de estudos

A
privilegiou logradouros, pontes e chafarizes, técnicos preliminares – um caso inédito até

E
isto é, os equipamentos urbanos, que então. Raras vezes mencionado, esse trabalho

I S T Ó R I C O
compunham o que ele chamou de “ambientes foi feito em paralelo à criação do Sphan e
históricos” – e que se encontravam então à sua progressiva institucionalização, que

H
bastante deteriorados. Trata-se de uma se deu, como vimos, entre abril de 1936 –

A T R I M Ô N I O
postura inovadora naquele momento, pois quando o anteprojeto de Mário de Andrade
o termo ultrapassa a noção convencional de foi autorizado por Vargas a ser submetido

P
monumento isolado, de caráter excepcional à Câmara dos Deputados – e novembro de

D O
(Barroso, 1955:35-43). 1937, quando foi aprovado o Decreto-lei no

E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro


Evidentemente, a parte técnica do Plano 25, que, ao regulamentar as atribuições do

R
de Restaurações apresentado por Barroso novo órgão, possibilitou sua atuação efetiva.
foi elaborada por Epaminondas de Macedo, Tal seria, portanto, uma sucinta
que a iniciou até mesmo antes de sua con- apreciação do processo de emergência de
tratação, como vimos. Uma vez autorizado uma sensibilidade preservacionista no Brasil,
o Plano, o engenheiro deu início às obras a confluir na criação do Sphan – um tema
propriamente ditas, passando a apresentar ainda carente de pesquisas aprofundadas.
relatórios regulares, de periodicidade qua- Mapeando caminhos pouco explorados, o
29
se semanal, do andamento do trabalho, presente trabalho propôs uma abordagem
que cobrem o período de novembro de transversal e abrangente do período,
1935 a julho de 1937, quando o Sphan já privilegiando as conexões entre os temas
estava funcionando em bases provisórias. de investigação que iam se descortinando.
Os trabalhos consistiam geralmente no Recusando clivagens consagradas, recorreu a
conserto de telhados, caiação, recomposição uma abordagem inclusiva, voltada à busca das
de peças de cantaria e ornatos quebrados continuidades e dos intrincados percursos e
ou desaparecidos, limpeza e remoção de volteios dos processos de circulação de ideias.
camadas de pintura em retábulos e portadas. Do quadro delineado emerge uma noção
Em muitos casos foram colocadas placas plural da questão da identidade nacional – em
de pedra-sabão assinalando os serviços rea- que tradição e modernidade não constituem
lizados pelo MHN, como no Chafariz de uma dicotomia, mostrando-se, ao contrário,
Antônio Dias e na Ponte dos Contos – que fortemente entrelaçadas ao longo do período –
mais tarde foram “misteriosamente retiradas” o que constitui uma das observações de caráter
(Barroso, 1955:129-167). conclusivo possíveis de serem elencadas aqui.
De fato, a importância das ideias transformação em Ministério da Educação e
Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0

tradicionalistas de Ricardo Severo e sua Saúde – MES, após o Estado Novo.


A C I O N A L

popularidade junto a alguns dos mais Evidentemente, a dimensão político-


importantes protagonistas da preservação ideológica é inerente ao âmbito da
do patrimônio no Brasil, como Mário de preservação cultural, o que também
N
R T Í S T I C O

Andrade e Lucio Costa, evidencia-se a partir transparece das muitas lacunas, silêncios e
da presença do Neocolonial na Semana omissões identificadas ao longo da singular
A

de 1922, da elaboração dos primeiros e pré-história da preservação no Brasil, como


E

incipientes esforços de reconhecimento e nos referimos a esse período.


I S T Ó R I C O

registro da arquitetura colonial brasileira e – Nesse sentido, ainda há muito que


talvez o aspecto mais importante da questão pesquisar para uma compreensão mais
H

– da ininterrupta interlocução, desde 1924, aprofundada do multifacetado processo,


A T R I M Ô N I O

entre Mário de Andrade e os intelectuais notadamente quanto ao protagonismo


mineiros que viriam a orbitar em torno do pontual de Lucio Costa em diferentes
P

Ministério da Educação e Saúde Pública, após momentos. Peça essencial das tratativas em
D O

a Revolução de 1930. curso, a trajetória do arquiteto é composta


E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro

Para além do entrosamento intelectual de momentos de grande exposição pública


R

apontado, também é possível acompanhar a que se alternam com outros de singular


paulatina inserção da questão da preservação opacidade, notadamente no que diz respeito a
do patrimônio histórico e artístico nacional sua aproximação de Gustavo Capanema. Sua
no jogo de interesses políticos do conturbado posição ímpar de profissional comprometido
período que antecedeu a revolução de 1930, com a renovação da arquitetura brasileira e,
e dos anos posteriores. Com efeito, desde os ao mesmo tempo, defensor do patrimônio
esforços empreendidos por Gustavo Barroso arquitetônico nacional, assumiu contornos
30
em 1928 para reaproximar-se de Antônio de mitificação, favorecendo interpretações
Carlos, passando pela proposta de formação simplificadoras dos complexos mecanismos
de uma Comissão de Preservação de Ouro em operação.
Preto apresentada pelos deputados gaúchos De resto, nada há de surpreendente
Batista Luzardo e Assis Brasil em 1929, até na constatação de que a preservação do
a intensificação das iniciativas patrimoniais patrimônio é por excelência um campo
federais de 1933, 1934 e 1936 – culminando de tensões, as quais, porém, se procura
com a criação do Sphan –, fica evidente o ignorar ou subestimar, a partir de conceitos
interesse ideológico que o tema assume, naturalizados de memória, identidade
no bojo da política de fortalecimento e e pertencimento. O presente trabalho
integração do estado nacional que marca o pretendeu explorar algumas das múltiplas
período Vargas. dimensões do tema, que nos remetem ao
Tais fatos apontam para a importância processo de construção – e reconstrução – dos
e o prestígio de que se revestirá o Mesp sob mitos e símbolos pelos quais se pretende que
Gustavo Capanema, principalmente após a sua uma sociedade se reconheça a si mesma.
REFERÊNCIAS MARIANO FILHO, José. À margem do problema

Tr a j e t ó r i a d a s i d e i a s p r e s e r v a c i o n i s t a s n o B r a s i l : a s d é c a d a s d e 1 9 2 0 e 1 9 3 0
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A
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P
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D O
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E V I S T A

Maria Lucia Bressan Pinheiro


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R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

32
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
Lia Calabre

A C I O N A L
O S ERVIÇO DO P ATRIMÔNIO A RTÍSTICO N ACIONAL

N
DENTRO DO CONTEXTO DA CONSTRUÇÃO DAS POLÍTICAS

R T Í S T I C O
PÚBLICAS DE CULTURA NO B RASIL

A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
Em que momento as políticas públicas Em 1930, Getúlio Vargas criou o
de cultura no Brasil tiveram início? Para Ministério da Educação e Saúde Pública –
uma grande maioria dos estudiosos e Mesp, inicialmente sob a chefia de Francisco

P
especialistas da questão, nos anos 1930, no Campos, que, em 1934, foi substituído

D O
E V I S T A
governo do presidente Getúlio Vargas e, por Gustavo Capanema, tendo este último
mais especificamente, na segunda metade permanecido à frente do órgão até 1945.

R
dessa década. É partindo da perspectiva da Vários intelectuais foram colaboradores
construção das políticas públicas de cultura no do ministro Capanema, como: Carlos
país que o presente artigo pretende revisitar os Drummond de Andrade, Mário de Andrade,
primeiros tempos de existência do Instituto do Rodrigo Melo Franco de Andrade, Anísio
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Teixeira, Fernando Azevedo, Heitor Villa-
Nessa década, o país passou por Lobos, Manuel Bandeira, entre outros.
significativas mudanças em áreas diversas e, A gestão Capanema foi marcada por um 33
em especial, na de estruturação e elaboração processo de construção institucional do
de políticas públicas. A Revolução de 1930 campo da cultura, ainda que, segundo Cecília
marcou a ruptura da chamada política do Londres, essa não fosse uma das prioridades
café-com-leite, que, de maneira simplificada, do ministro, “que em seu discurso de posse
pode ser explicada como um pacto político deu destaque à educação nacional, à saúde
que garantia uma espécie de revezamento pública e à assistência social” (Londres,
no controle do poder federal, entre paulistas 2001:85). De uma maneira geral, naquele
e mineiros, ainda que contasse com apoio momento, a ideia de cultura estava muito
de grupos oligárquicos de outras regiões do vinculada à de educação, ao conhecimento
país. Foram anos de profundas mudanças, erudito e aos “hábitos culturais cultivados”,
marcados por um processo de urbanização tais como ler clássicos da literatura canônica,
crescente, pelo aumento da produção conhecer a dramaturgia universal (ocidental
Rodrigo Melo Franco
industrial e pela conquista e consolidação de e especialmente europeia), ouvir música de Andrade
Acervo: Copedoc/Iphan/
uma série de direitos trabalhistas. erudita, enfim, o projeto era o de aumentar Marcel Gautherot.
o nível “civilizatório” do país. Ainda que a criação do Departamento Administrativo
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das

houvesse correntes intelectuais trabalhando do Serviço Público – Dasp, que investia na


A C I O N A L

na consolidação da ideia da valorização de formação dos quadros públicos. Havia um


uma cultural nacional, enaltecendo saberes e projeto de uma efetiva profissionalização da
N

fazeres populares. área pública. Segundo Eli Diniz:


R T Í S T I C O

Apesar do discurso de posse, o que


O aperfeiçoamento e a diversificação
verificamos na gestão Capanema foi a
dos instrumentos de intervenção do Estado
A

realização de ações e a construção de políticas nas diferentes esferas da vida social e política
E

que extrapolaram fronteiras tradicionalmente


I S T Ó R I C O

viabilizaram a implementação de um projeto


demarcadas. Ainda segundo Cecília Londres, nacional por cima da rivalidade entre as elites. Esse
durante o longo período (onze anos) em que conjunto de mudanças foi aprofundado com a
H
A T R I M Ô N I O

o ministro esteve à frente da pasta não houve reforma do Estado que, iniciada durante o governo
um setor que não tenha recebido atenção: institucional, tem seu ápice com a instauração do
regime autoritário (Diniz, 1999:26).
(...) desde a radiodifusão e o cinema ao
P
D O

decisivo apoio prestado à arquitetura e às artes O decreto que dispõe sobre os serviços
E V I S T A

plásticas contemporâneas. Nesse período foram do novo Ministério cria o Departamento


criados vários museus nacionais – Museu Nacional de Ensino e três departamentos para
R

Lia Calabre

Nacional de Belas-Artes, Museu Imperial, Museu


a área de saúde. Os museus, as bibliotecas
da Inconfidência – e, no âmbito do Serviço
e as escolas de arte ficaram subordinados
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
ao Departamento Nacional de Ensino. Em
– Sphan, inúmeros museus regionais e casas
históricas. Capanema fez, inclusive, incursões 1931, através do Decreto n° 19.850, foi
em áreas como o artesanato e a questão indígena. criado o Conselho Nacional de Educação.
Terminada sua gestão estava esboçado o desenho Dentre os objetivos do órgão, estava o de
34 básico da organização institucional da cultura no elevar o nível da cultura brasileira e, entre
Estado brasileiro e plantado o embrião do que, em suas atribuições, a de promover e estimular
1981, veio a se constituir na Secretaria de Cultura iniciativas em benefício da cultura nacional.
do MEC e, em 1985, no Ministério da Cultura
Ou seja, temos as primeiras referências
(Londres, 2001:85/86).
diretas às questões da cultura, ainda que
O desenho institucional criado na gestão sob a ótica da educação, do crescimento
Capanema fez com que o período seja tomado do conhecimento escolarizado e erudito
como o marco do início das políticas culturais e de uma cultura “civilizada” nos padrões
no Brasil. No campo da administração europeus-ocidentais.
pública, esse foi o momento da construção
de uma racionalidade administrativa que A PROTEÇÃO DO
buscava romper com a tradição de uma PAT R I M Ô N I O
república oligárquica. Em 1934, foram
instituídos concursos públicos para ingresso no As discussões e os projetos de defesa dos
funcionalismo de carreira e, em 1938, ocorreu monumentos históricos no país ganharam
força e maior efetividade na década de 1920, conservação e restauração, sugerir aquisição

políticas públicas de cultura no Brasil


O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
tendo como importantes aliados os modernistas e fazer os serviços de publicidade necessários

A C I O N A L
– isso não significa dizer que grupos mais para a propagação e conhecimento do
conservadores ou de outras vertentes de patrimônio artístico nacional1.
O anteprojeto marioandradiano

N
pensamento não tivessem projetos para a área.

R T Í S T I C O
Havia uma disputa entre algumas correntes era ambicioso, alargando o conceito de
acerca do conceito de patrimônio que deveria patrimônio. O documento delimita as

A
ser operacionalizado pelo Estado. Segundo obras de arte patrimoniais a partir de oito

E
categorias: a arqueológica, a ameríndia, a

I S T Ó R I C O
Lúcia Lippi, as viagens dos modernistas
paulistas (como Mário de Andrade) e popular, a histórica, a erudita nacional, a
mineiros às cidades coloniais de Minas Gerais erudita estrangeira, as aplicadas nacionais e as

H
aplicadas estrangeiras. Na categoria popular,

A T R I M Ô N I O
desencadearam um processo de redescoberta
do Brasil; novos olhares eram lançados, por exemplo, estava previsto o tombamento
especialmente sobre o passado colonial. de objetos, monumentos, paisagens e

P
folclore; aqui estaria excluída a arte de origem

D O
O grupo de intelectuais modernistas e seus ameríndia. As obras tombadas deveriam ser

E V I S T A
pares mineiros, grupo composto por Gustavo
registradas em quatro Livros do Tombo. O
Capanema, Rodrigo Melo Franco de Andrade,

Lia Calabre
projeto também previa a criação de quatro
Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, entre
museus onde seriam expostas as coleções
outros, teria papel fundamental na educação, na
definição da política de patrimônio, na construção de arte correspondentes a cada um desses
de uma identidade nacional para o país (Oliveira, livros. Ao Livro do Tombo Arqueológico e
2008:116-117). Etnográfico corresponderiam as categorias
de artes arqueológicas, ameríndias e
As mobilizações intensas em favor populares. O Livro do Tombo Histórico
do patrimônio contribuíram, em muito, 35
seria correspondente à arte histórica (com
para a criação de inspetorias estaduais de o respectivo museu histórico já existente).
monumentos históricos em Minas Gerais Ao Livro do Tombo das Belas Artes
(1926), na Bahia (1927) e em Pernambuco corresponderia a criação da Galeria Nacional
(1928). de Belas Artes. E, ao Livro do Tombo das
Quando ainda estava no Departamento Artes Aplicadas corresponderia a criação
de Cultura de São Paulo, Mário de Andrade de um museu de artes aplicadas e técnica
foi convidado, pelo ministro Gustavo industrial. Cada museu deveria ter, em seu
Capanema, para elaborar o anteprojeto da saguão de entrada, a cópia do Livro do
criação do Serviço do Patrimônio Histórico Tombo das artes a que ele correspondesse,
e Artístico Nacional – que foi entregue em para ser consultado pelos visitantes. Estava
24/3/1936. No documento projetado pelo ainda prevista a criação de uma revista do
modernista, caberia ao Serviço do Patrimônio
determinar e organizar o tombamento, 1. O documento pode ser encontrado no CPDOC/FGV, no arqui-
vo Gustavo Capanema. Ref. 36.03.24/2, ou publicado na Revista
sugerir a conservação e defesa, determinar a do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nº 30, de 2002.
r e v i s t a d o P a t r i M ô n i o H i s t ó r i c o e a r t í s t i c o n a c i o n a l

36
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil

Caio Reisewitz.
Acervo: Monumenta/Iphan/
Pintura de forro
Sphan e a publicação regular dos Livros do órgão (desde o período de funcionamento

políticas públicas de cultura no Brasil


O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
Tombo, de monografias, livros, catálogos de provisório, antes da aprovação da lei) e

A C I O N A L
museus, entre outros. mantendo-se no mesmo até 1967. Para a
O projeto era bastante abrangente. Em difícil tarefa de dar efetividade ao Sphan,
uma entrevista concedida em 2001, um dos inclusive com o necessário caráter nacional,

N
R T Í S T I C O
funcionários do grupo que trabalhou na Rodrigo contou com a contribuição de
implantação do Serviço do Patrimônio, o destacados profissionais das mais diversas

A
arquiteto, desenhista e pintor Alcides da Rocha áreas – arquitetos, juristas, engenheiros,

E
Miranda, declarou que o projeto de Mário historiadores, literatos, mestres de obras, entre

I S T Ó R I C O
outros. Atuaram na consultoria jurídica do
(...) era uma coisa imensa, tão grande, que era
difícil de fazer funcionar, porque não havia verbas
órgão, por exemplo, Afonso Arinos de Melo

H
Franco e Prudente de Morais Neto. Para

A T R I M Ô N I O
suficientes, não havia elementos humanos com
conhecimento e prática” para dar efetividade ao as ações em Pernambuco, Rodrigo contou
planejado (Miranda, 2002:247). com os serviços de Gilberto Freyre; para o

P
Rio Grande do Sul, com Augusto Meyer; e,

D O
Segundo Cecília Londres, além da
para a região amazônica, com Arthur Cezar

E V I S T A
extensão do projeto, que, sem dúvida,
Ferreira Reis. Mário de Andrade produziu
influíra na decisão da não implementação

Lia Calabre
estudos sobre São Paulo. Carlos Drummond
integral do mesmo, dois outros fatores foram
de Andrade foi o organizador do Arquivo e
determinantes. O primeiro deles era o aspecto
chefe da Seção de História e Lucio Costa,
jurídico, pelo qual Rodrigo tinha forte
chefe da Divisão de Estudos e Tombamento.
interesse,
Em suma, o Sphan contou com importantes
(...) seria praticamente inviável criar um intelectuais, seja coordenando trabalhos
instrumento de proteção legal aplicável não só aos regionais (Freyre e Meyer), seja produzindo
37
bens materiais como imateriais. estudos pontuais de interesse para a área
(Manuel Bandeira).
E o segundo era de aspecto político, a
Somente parte do anteprojeto entregue
pluralidade da cultura brasileira identificada
a Capanema foi efetivamente incorporado à
por Mário “ia de encontro ao projeto de
lei. Em correspondência trocada com Rodrigo
unidade nacional do governo” getulista,
Melo Franco de Andrade, em 29 de julho de
ou seja, não contribuía com o projeto de
1936, Mário de Andrade, após ler a versão do
construção de uma cultura nacional oficial
projeto de lei para o Serviço do Patrimônio,
(Londres, 2001:98).
respondia ao amigo:
Rodrigo Melo Franco de Andrade2 foi
o responsável pela organização do Serviço Li seu projeto de lei que achei, pelos
do Patrimônio, assumindo a direção do meus conhecimentos apenas, ótimo. Aliás,
preliminarmente é preciso que eu lhe diga
2. Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969). Formado em com toda a lealdade que dado o anteprojeto ao
direito, jornalista, escritor, por indicação de Mário de Andrade Capanema, eu bem sabia que tudo não passava
e Manuel Bandeira, foi convidado, em 1936, para organizar e
dirigir o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. de anteprojeto. Vocês ajudem com todas as
luzes possíveis a organização definitiva, façam e estudos necessários para o fim de dar início às
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das

desfaçam à vontade, modifiquem e principalmente obras de conservação ou de restauração que


acomodem às circunstâncias, o que fiz e não reclamarem alguns monumentos aí situados, entre
A C I O N A L

tomou em conta muitas circunstâncias porque os quais se destacam os vestígios das construções
não as conhecia (Andrade, 1981:60). (grifo nosso) jesuíticas, em São Miguel. (Xavier, 2008:44).
N
R T Í S T I C O

Havia efetivamente uma preocupação Na correspondência de Rodrigo com


grande por parte de Rodrigo Melo Franco de Gilberto Freyre3, de 19 de fevereiro de 1937,
A

Andrade quanto aos problemas e resistências ficam expressas as dificuldades na organização


E

que o projeto iria sofrer. Buscando garantir


I S T Ó R I C O

do Sphan, em especial, as de caráter


um alto grau de efetividade e de excelência orçamentário. Rodrigo comenta que vive
nos trabalhos que viriam a ser realizados,
H

Rodrigo manteve uma ativa rede de (...) uma luta insana, sobretudo contra a
A T R I M Ô N I O

correspondência e sociabilidade intelectual. inércia, a estupidez e o desleixo do Ministério


da Fazenda, com umas escaramuças parciais
Nas missivas trocadas com Augusto Meyer,
frequentes com a contabilidade da Educação e do
P

Mário de Andrade e Gilberto Freyre (só


D O

Tribunal de Contas.
a título de exemplo), Rodrigo tanto trata
E V I S T A

das questões de trabalho no campo do Com todas as dificuldades burocráticas


R

Lia Calabre

patrimônio, quanto mantém ativa, e chega que fazem parte da natureza das ações
mesmo a ampliar, sua rede de sociabilidade públicas no Brasil, somadas ao campo da
intelectual, tratando de outros projetos novidade que seria o da criação de um órgão
intelectuais e de questões diversas.
efetivo de caráter nacional que deveria
No período que antecede a promulgação
cuidar do patrimônio, Rodrigo busca se
da lei do patrimônio, em intensa
munir de argumentos e informações legais
correspondência com Augusto Meyer,
38 para dar efetividade a uma nova política
em várias ocasiões Rodrigo expressa a
pública de preservação do patrimônio
necessidade de possuir inventários e relações
nacional. Deveriam ser tomadas medidas
de bens prontos para serem tombados após
de várias naturezas, como a apontada na
a publicação da lei. Em carta de março
correspondência abaixo:
de 1937, Rodrigo convidou Meyer para
colaborar com as tarefas do Serviço do A lei não tarda a ser sancionada e precisamos,
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, portanto, estar preparados para lhe dar
que estava ainda em fase de organização cumprimento. Daí a necessidade de apurarmos a
administrativa, apontando algumas das quem pertence e de que autoridades dependem
diretrizes e projetos do novo órgão: todas as edificações aí existentes com excepcional
valor histórico e artístico, a fim de notificarmos
O Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico oportunamente os proprietários ou responsáveis
Nacional se empenhará por dilatar a sua ação até (Xavier, 2008:88).
o Rio Grande do Sul, no propósito de inventariar
os bens de valor histórico e artístico excepcional
3. Correspondência não publicada e disponível para consulta na
existentes no estado e bem assim proceder aos Fundação Gilberto Freyre.
Em 13 de janeiro de 1937, pela Lei nº Previa a existência de um Conselho

políticas públicas de cultura no Brasil


O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
378 e através do Decreto-lei nº 25, de 30 Consultivo do qual deveria participar o

A C I O N A L
de novembro de 1937, foi respectivamente diretor do Sphan, os diretores dos museus
criado e organizado o Serviço do Patrimônio nacionais (históricos ou artísticos) e mais
dez membros nomeados pelo presidente da

N
Histórico e Artístico Nacional – Sphan. O

R T Í S T I C O
decreto foi o responsável pela organização República. Através da mesma lei, foi criado
do Serviço de Proteção do Patrimônio e o Museu Nacional de Belas Artes4, destinado

A
está vigente, com poucas alterações, até os a recolher, conservar e expor as obras de

E
dias de hoje. Segundo o mesmo, constitui artes pertencentes do patrimônio federal.

I S T Ó R I C O
patrimônio o Todos os museus federais existentes, ou que
viessem a ser criados, deveriam cooperar com

H
(...) conjunto dos bens móveis e imóveis
as atividades do Sphan. Ao Museu Histórico

A T R I M Ô N I O
existentes no país e cuja conservação seja de
Nacional foi assegurada a função de guardar,
interesse público, quer por sua vinculação a fatos
conservar e expor as relíquias referentes ao
memoráveis da história do Brasil, quer por seu

P
excepcional valor arqueológico ou etnográfico, passado do país, ficando mantido o curso de

D O
bibliográfico ou artístico. museologia ali existente.

E V I S T A
O Decreto-lei nº 25 determinava a
Também ficaram sujeitos a tombamento

Lia Calabre
inscrição dos bens em quatro Livros do
monumentos naturais, sítios e paisagens que Tombo: o Arqueológico, Etnográfico e
sejam julgados merecedores de proteção. Paisagístico; o Histórico; o das Belas Artes;
O texto introdutório do decreto o e o das Artes Aplicadas. Prevendo ainda a
apresenta como a legislação que organiza a realização de acordos entre o governo federal
proteção ao patrimônio. O primeiro órgão e os estados na tentativa de uniformizar a
federal da área de proteção ao patrimônio legislação relativa à proteção do patrimônio.
foi a Inspetoria dos Monumentos 39
Em 1939, um balanço das atividades
Nacionais, criada em 1934, no Museu do Sphan, feito por Rodrigo Melo Franco
Histórico Nacional, por iniciativa de de Andrade, registrava que em todo o país
Gustavo Barroso. Com a criação do Sphan, haviam sido efetivamente tombados 261
a inspetoria foi desativada. monumentos, seis logradouros e nove
A Lei nº 378 tratava de uma conjuntos arquitetônicos e urbanísticos,
reestruturação maior do Ministério. No caso apesar de um número bem mais significativo
do patrimônio, o artigo 46 estabelecia a de bens inventariados. Ainda segundo
criação do Rodrigo, até aquele momento, o Serviço
ainda não havia conseguido realizar ações nos
(...) Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, com a finalidade de promover,
estados do Amazonas, Mato Grosso e Goiás
em todo o país e de modo permanente, o (Fonseca, 2005:111).
tombamento, a conservação, o enriquecimento
e o conhecimento do patrimônio histórico e 4. A lei prevê ainda a extinção do Conselho Nacional de Belas
Artes, cujas funções passam a ser exercidas pelo Museu Nacional
artístico nacional. de Belas Artes.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

40
Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
Heitor Reali.
Acervo: Iphan/
Pintura corporal Wajãpi
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
41

Lia Calabre O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
políticas públicas de cultura no Brasil
OS Parece ocioso repetir aqui a existência de
políticas públicas de cultura no Brasil
O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das

CAMPOS DA POLÍTICA
serviço público da natureza daquele a que vimos
aludindo. Recorre do reconhecimento por parte
A C I O N A L

Nos anos 1930, o patrimônio, enquanto


dos civilizados de que os indígenas devem ser
campo de conhecimento e de ação de
considerados, pela constatação do direito à terra
políticas públicas, era novo. O Serviço
N

que habitavam (Torres, 1937:25).


R T Í S T I C O

enfrentou pesadas batalhas jurídicas para


efetivar o tombamento de determinados bens, E continuava:
principalmente os que se encontravam em
A
E

mãos da iniciativa privada. Mesmo na esfera Em nossa terra, ainda persiste em muito
I S T Ó R I C O

pública, fora do âmbito do Ministério da espírito que se arvora em progressista a ideia


Educação, havia uma resistência considerável. de que o elemento aborígene deve desaparecer,
quanto mais depressa, melhor. O grande espírito
H

Os órgãos não queriam abrir mão da sua


A T R I M Ô N I O

autonomia sobre alterações, negociações ou progressista dessa natureza não faz, na maioria das
vezes, senão acobertas grandes ambições materiais.
mesmo venda do patrimônio edificado. Nesse
sentido, o trabalho com os inventários era A tarefa da construção de políticas públicas
P

fundamental, como momento dos estudos,


D O

é árdua, em especial em áreas de governo


das discussões técnicas, do aprofundamento
E V I S T A

consideradas menos prioritárias. Albino


do conhecimento histórico. Segundo Maria
Rubim, ao analisar o processo histórico da
R

Lia Calabre

Cecília Londres Fonseca, a prioridade nos


construção das políticas públicas de cultura
processos de tombamento foi dada aos
no Brasil, identifica algumas tristes tradições
(...) remanescentes da arte colonial brasileira, e muitos desafios. Para o autor, algumas
justificada pelos agentes institucionais como expressões condensam parte significativa
decorrência do processo de urbanização que já se
dessa história: “autoritarismo, caráter tardio,
acelerava” e colocava em risco de desaparecimento
descontinuidade, desatenção, paradoxos,
42
definitivo tais exemplares (Fonseca, 2005:107).
impasses e desafios” (Rubim, 2007:11). Ao
Ao assumir a função de criar e dar estudarmos mais detidamente as políticas
efetividade a um Serviço de Defesa do culturais estabelecidas dentro de períodos
Patrimônio, Rodrigo Melo Franco de autoritários, como é o caso da ditadura
Andrade tinha a exata noção das dificuldades varguista do Estado Novo, verificamos que as
a serem enfrentadas – como vimos na outras tristes tradições que cercam a elaboração
correspondência trocada com Augusto Meyer. de tais políticas eram muito presentes.
A problemática da disputa entre o A gestão do ministro Gustavo Capanema
progresso e a preservação é uma preocupação esteve inúmeras vezes ameaçada e com ela os
constante. No primeiro número da Revista próprios projetos de construção de políticas
do Serviço do Patrimônio Histórico e públicas que extrapolavam o campo restrito da
Artístico Nacional, ao tratar do patrimônio educação e da saúde. Em 4 de janeiro de 1938,
arqueológico, Heloisa Alberto Torres buscava Rodrigo escreve a Meyer (que seria nomeado
apoio para as teses que defendia em outros para o Instituto Nacional do Livro), para falar
serviços de proteção existentes. sobre a demora no despacho presidencial com
a nomeação do mesmo. Em meio à conversa Ao longo desses oitenta anos de

políticas públicas de cultura no Brasil


O Ser viço do Patr imônio Ar tístico Nacional dentro do contexto da constr ução das
Rodrigo informa que, ao procurar o ministro existência, tendo vivenciado algumas

A C I O N A L
para saber o que se passava, o mesmo declarou alterações de nomenclatura, mas nada
que “estando na iminência de ser substituído, que tenha alterado significativamente sua
não tomaria mais nenhuma iniciativa sobre o missão, o Instituto do Patrimônio Histórico

N
R T Í S T I C O
provimento de cargos de confiança” (Xavier, e Artístico Nacional é um raro exemplo de
2008:120). Rodrigo continua afirmando efetividade e continuidade de política pública,

A
que havia a possibilidade, caso o Capanema especialmente na área de cultura.

E
saísse, de ele próprio deixar o Serviço, mas

I S T Ó R I C O
que mesmo assim continuaria tomando as REFERÊNCIAS
providências necessárias para garantir os

H
trabalhos em curso, como os que já haviam ANDRADE, Mário. Mário de Andrade - cartas de

A T R I M Ô N I O
trabalho: correspondência com Rodrigo Melo Franco de
sido iniciados na região das Missões. Já em Andrade, 1936-1945. Brasília: Sphan/Fundação Pró-
final de janeiro o perigo da substituição parecia Memória, 1981.

P
CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos
ter passado (Xavier, 2008:126).

D O
1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2009.
Em correspondência com Gilberto Freyre, DINIZ, Eli. “Engenharia institucional e políticas

E V I S T A
mais de um ano depois, a descontinuidade públicas: dos conselhos técnicos às câmaras setoriais”. In:
PANDOLFI, Dulce (org.). Repensando o Estado Novo.

R
volta a assombrar o Ministério e o Serviço.

Lia Calabre
Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1999.
Em sua carta Rodrigo informa: FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em
processo: trajetória da política federal de preservação no
Deixei para o fim o seguinte: anda por aqui Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Minc/Iphan, 2005.
uma campanha muito pérfida contra o Capanema. ______. “A invenção do patrimônio e a memória
Atribuem-lhe tendências esquerdistas e ligações nacional”. In: BOMENY, Helena (org.). Constelação
Capanema: intelectuais e políticas. Rio de Janeiro: Ed.
com elementos comunistas, certamente com o
FGV; Bragança Paulista: Universidade de São Francisco,
objetivo de avançar no Ministério da Educação. 2001, p. 85-101. Disponível em http://www.cpdoc.fgv.br
43
Neste momento mesmo acabam de trançar uma Acesso em 20/1/2009.
rede de sacanagem junto ao ministro da Guerra MIRANDA, Alcides da Rocha. Entrevista. Revista do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 30, 2002.
para convencê-lo que o novo edifício do Ministério
OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Cultura e identidade nacional
da Educação tem a forma de um martelo para
no Brasil do século XX. In: GOMES, Ângela Castro et
significar o empenho do Capanema em perpetuar al. (coord.). A República no Brasil. Rio de Janeiro: Nova
seu amor ao emblema da URSS (29/4/1939 – Fronteira/CPDOC, 2002.
_________. Cultura é patrimônio: um guia. Rio de
Arquivo Gilberto Freyre).
Janeiro: Ed. FGV, 2008.
RUBIM, Antônio Albino Canelas. “Políticas culturais no
Ao terminar o governo Vargas e a gestão
Brasil: tristes tradições, enormes desafios. In: RUBIM et
Capanema, o Serviço do Patrimônio já se al. Políticas culturais no Brasil. Salvador: Edufba, 2007.
encontrava mais consolidado. O empenho TORRES, Heloisa Alberto. Contribuição para o estudo
da proteção ao material arqueológico e etnográfico
em garantir a presença do Serviço em todas as do Brasil. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e
regiões do país, construída a partir das redes Artístico Nacional, nº 1, 1937.
pessoais de sociabilidade intelectual de Rodrigo XAVIER, Laura Regina. Patrimônio em prosa e verso: a
correspondência de Rodrigo Melo Franco de Andrade
Melo Franco de Andrade se mostrou uma para Augusto Meyer. (Dissertação de Mestrado). Rio de
estratégia acertada. Janeiro: CPDOC-FGV – 2008.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

44
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Paulo Or mindo de Azevedo

a c i o n a l
p aTrimônio c ulTural e n aTural como faTor de

desenvolvimenTo : a revolução silenciosa de

n
r t í s t i c o
r enaTo s oeiro , 1967-1979

a
e
i s t ó r i c o
H
a t r i M ô n i o
A mudança de guarda no Serviço do A preparação de Renato Soeiro para
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – assumir o cargo incluiu sua promoção, em
Sphan, em 1967, foi preparada por Rodrigo 1946, à chefia da Divisão de Conservação

P
Melo Franco de Andrade, seu fundador, com e Restauração da Diretoria do Patrimônio

d o
antecedência de vinte anos. Diante da recusa

e v i s t a
Histórico e Artístico Nacional – , DPHAN,
de Lucio Costa a se envolver com questões em que havia sido transformado o Sphan,

r
burocráticas, o escolhido foi o arquiteto naquele ano, no mesmo nível de Lucio Costa.
Renato de Azevedo Duarte Soeiro, um dos Durante 21 anos ele foi o braço direito de
pioneiros da arquitetura modernista brasileira Rodrigo Melo Franco de Andrade.
que colaboraram no projeto da estação de Mas não bastava isso, era preciso estar
hidroaviões do Rio de Janeiro. Ele era o a par do que acontecia nos organismos
profissional mais qualificado para gerir o internacionais. Entre outras missões que lhe
órgão cuja principal atribuição era preservar foram confiadas, ressaltamos a participação 45
monumentos e cidades históricas. A sucessão na reunião preparatória da Convenção
era tão tácita que a transmissão do cargo foi para a Proteção do Patrimônio Cultural em
feita num sábado pela manhã, sem a presença
Evento de Conflito Armado, Unesco 1952, o
de autoridades nem jornalistas, como
Simpósio de Preparação (1965) e a Reunião
assinalou Carlos Drummond de Andrade:
sobre a Conservação e a Utilização do
Sai sem ruído, entra sem ruído Renato Soeiro, Patrimônio e Lugares de Interesse Histórico e
antigo e impecável colaborador dessa obra delicada Artístico, que aprovou as Normas de Quito,
e áspera. Soeiro conhece na palma da mão os OEA, 1967. Em relatório desse evento,
problemas de seu ofício. E dono de uma energia
ele assinala a contribuição ao documento
mansa, tranquila, eficiente. O melhor, o mais certo
e a reivindicação de inclusão de Portugal
substituto de mestre Rodrigo, para garantia de
e criação de um Centro Interamericano
nossos bens de arte e história. Que o governo lhe
dê meios para cumprir a tarefa, pois engenho e arte de Investigação e Estudos, no Brasil, para
não lhe faltam, em sua nobre discrição (Andrade, ampliar a assistência que o Iphan já dava
Renato Soeiro
1969:32-33). à parte meridional do continente (Soeiro, Acervo: Iphan.
1967b). No mesmo ano de 1967, Soeiro outorgada uma nova Constituição e, um
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

foi eleito para o Conselho do Centro ano mais tarde, decretado o AI-5. No final
A C I O N A L

Internacional de Estudos para a Conservação de 1969, o presidente Gal. Costa e Silva


e o Restauro de Bens Culturais – ICCROM, sofreu um derrame e foi substituído por uma
Roma, e participa de reunião conjunta do junta militar, passando depois o comando
N
R T Í S T I C O

Conselho Internacional de Monumentos e do país ao Gal. Emílio Garrastazu Médici,


Sítios – Icomos, e Institut Royal du Patrimoine que endureceu o regime. A cultura era um
A

Belgique para a organização do Centro de dos setores mais reprimidos. Mas o governo
E

Documentação do Icomos (Soeiro, ca.1967d). militar, nacionalista, tendia a favorecer o


I S T Ó R I C O

Os autores que mais têm estudado a patrimônio como fator de unidade nacional,
política patrimonial no país – Gonçalves como o fizera Vargas.
H

(1996), Fonseca (1997), Chuva (2009) Soeiro tinha consciência de que o


A T R I M Ô N I O

e Sant’Anna (2015) – vêm dando pouca patrimônio não podia continuar à margem
importância à interação do Iphan com os da dinâmica socioeconômica do país, como
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P

organismos internacionais, iniciada em 1952 um peso morto. Os objetivos econômicos


D O

e maximizada no período de 1967 a 1979. A do regime militar, explicitados ainda no


E V I S T A

ampliação do conceito de patrimônio cultural governo Castelo Branco com o Plano de Ação
R

e natural, sua relação com o planejamento Econômica do Governo – Paeg, eram claros:
urbano e o aproveitamento turístico foram desenvolvimento econômico e combate
conquistas universais em que o Iphan teve um à inflação. A estratégia de Soeiro seria a
grande protagonismo. integração do patrimônio a esse processo
de desenvolvimento, cooptando para isso
O PA N O R A M A D A D É C A D A outras esferas de poder – federal, estadual e
DE 1960 municipal. Esses pontos já estavam delineados
46
em seu discurso de posse (Soeiro,1967a) e
O ambiente socioeconômico e cultural seriam desenvolvidos no Plano Estratégico de
brasileiro, no final da década de 1960, era Ação que analisaremos adiante.
inteiramente distinto dos trinta anos anteriores. Internamente a DPHAN enfrentava uma
A industrialização, deflagrada a partir da grave crise. Desde o término do Estado Novo,
década de 1950, e a consequente urbanização como assinalou Joaquim Falcão, o Sphan
haviam transformado o país. Aquele foi o vinha perdendo prestígio (Falcão, 1984:21-
período de maior urbanização do Brasil, 38). Rodrigo reconheceria depois que os
quando o mercado imobiliário se estruturou maiores problemas não eram com o setor
em bases capitalistas. O desafio do patrimônio privado, mas com o poder público (Andrade,
não era mais a afirmação, senão sua gestão, 1987:53). O isolamento da DPHAN dentro
frente às pressões urbanas e econômicas. do governo era crescente e a importância
A posse de Soeiro ocorreu no período do órgão se devia mais ao alto conceito
mais duro da ditadura militar instalada com intelectual e ético de seu fundador e diretor,
o golpe de 1964. Naquele ano de 1967, foi do que pelo trabalho realizado (Fonseca,
1997:138-141). Rodrigo não escondia seu (168) e Rio de Janeiro (152), refletindo a

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
dissabor. Em carta de 1960, ao amigo e origem dos membros de seu grupo fundador

A C I O N A L
historiador argentino Mario Buschiazzo, (Brasil, 1994). Rodrigo defendia o tratamento
ele desabafava: ”continuo preso ao posto privilegiado dado a Minas Gerais, dada a
de chefia da Dphan enleado nas mesmas originalidade do Barroco mineiro.

N
R T Í S T I C O
dificuldades de sempre, que me parecem
mais aflitivas na medida em que me sinto O PLANO DE R E N AT O S O E I R O

A
envelhecer” (Andrade, 1986:24).

E
Entre 1953 e 1967, o número de Para orientar sua administração, Soeiro

I S T Ó R I C O
tombamentos havia se multiplicado por elabora, em 1968, um Plano Estratégico de
cinco, enquanto as verbas para conservação e Ação, que seguiria à risca, embora nunca o

H
restauração, deflacionadas, haviam encolhido tivesse divulgado1. Esse documento prova

A T R I M Ô N I O
para um terço da dotação de 1953 (Soeiro, cabalmente que a expansão silenciosa do
1967c). O órgão resistia, sem fazer concessão patrimônio na década de 1970 foi planejada

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P
ao governo, como uma grande família por ele e não “apesar dele”. Em cinco

D O
amalgamada pelo carisma de seu diretor. A capítulos, ele define sua linha de ação. O

E V I S T A
identidade da instituição com a figura de primeiro é a “Filosofia” do órgão, que ele

R
seu fundador/diretor fazia com que ele fosse toma de empréstimo a Rodrigo, sinalizando a
conhecido como o “Sphan de Rodrigo” ou, no continuidade com a sua tradição:
dizer de Drummond, “o casal Rodrigo-Sphan”.
Somente a extensão territorial, com seus
Trinta e um anos depois de fundado,
acidentes e riquezas naturais, somada ao povo
o órgão não tinha regimento interno e que a habita, não configura de fato o Brasil, nem
mantinha praticamente o mesmo quadro de corresponde a sua realidade. Há que computar
funcionários. O próprio Rodrigo ocupava também (,,,) a produção material e espiritual
47
o cargo em comissão. Ao deixar o serviço duradoura ocorrida de norte a sul e de leste a
público, não tinha direito a aposentadoria, oeste do país, constituindo as edificações urbanas
tendo sido necessário que o presidente e rurais, a literatura, a música, assim como tudo
Castelo Branco baixasse um decreto mais que ficou em nossas paragens, como traços de
caráter nacional, do desenvolvimento histórico do
concedendo-lhe uma pensão.
povo brasileiro (Andrade, 1987b:56).
Uma das críticas mais frequentes ao
Sphan, no “período heroico”, especialmente O texto prioriza as ações a serem
a endereçada pelos nordestinos – incluindo adotadas, começando pela reestruturação
Gilberto Freyre, inspirador do conceito administrativa e financeira do órgão. Em
de patrimônio nacional, com sua casa- seguida, propõe uma ampla campanha de
grande, capela e sobrado urbano –,,era o conscientização cidadã do que representava
favorecimento a Minas Gerais e ao Rio o patrimônio como valor cultural, de
(Azevedo, 2016). Dos 745 tombamentos identidade e como gerador de riqueza.
realizados no período, 320, ou cerca de 43%,
estavam concentrados em Minas Gerais 1. Ver detalhes do mesmo em Azevedo, 2013.
O segundo capítulo é denominado de Casas de Cultura de iniciativa do egrégio Conselho
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

“Instrumentação” e traça a estratégia para Federal de Cultura (...) (Soeiro, 1968).


A C I O N A L

modernizar a emperrada administração do


O quarto capítulo refere-se aos “Recursos”
órgão. Ela se impunha não só para melhor
e traça uma estratégia de sustentação do
N

atender aos encargos do Decreto-lei no


órgão, com fontes alternativas como a criação
R T Í S T I C O

25/1937, como para consolidar as leis


de fundos, taxação da atividade turística e
complementares e acautelar o impacto das
venda de produtos:
A

mudanças do país.
E

Além das verbas orçamentárias que lhe forem


I S T Ó R I C O

Assinale-se, ainda, o surto de desenvolvimento


atribuídas no orçamento da União, os órgãos
urbano e industrial do país que envolve, em seus
autônomos do PHAN e dos Museus Nacionais
H

planos, monumentos, conjuntos, até municípios


deverão participar de outras receitas, inclusive das
A T R I M Ô N I O

tombados, obrigando a DPHAN à mobilização de


provenientes de tributações e incentivos fiscais que
técnicos para o exame e o acompanhamento desses
incidirem direta ou indiretamente sobre atividades
projetos, além daqueles de sua própria iniciativa,
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o

relacionadas com a cultura, tais como as ligadas à


P

visando a defesa e a valorização de bens e sua indústria do turismo, às transações e exportações


D O

integração no plano nacional de turismo cultural, de objetos e obras de arte, à venda de ingressos,
E V I S T A

alguns já em realização, com assistência da Unesco publicações, reproduções, Fundos de Participação


e possivelmente em breve com a cooperação da
R

dos Estados e Municípios através de convênios,


OEA (Soeiro, 1968). Fundo Nacional de Desenvolvimento da Cultura,
a ser criado etc. (Soeiro, 1968).
O terceiro capítulo, “Irradiação
nacional”, trata da descentralização do órgão Por fim o plano trata da “Legislação”, ace-
e criação de uma rede de preservação do nando com a possibilidade de aperfeiçoamen-
patrimônio nacional, integrada pela DPHAN to da legislação patrimonial, especialmente no
e instituições assemelhadas estaduais e que toca a sua aplicação a cidades e conjuntos
48
municipais a serem criadas. A ideia era pôr históricos. Com a complementação do Decre-
em funcionamento, pela primeira vez, o to-lei n° 25, ele pretendia:
artigo 23 do Decreto–lei n° 25/1937, que a) Efetivação da legislação proposta pelo
previa acordos entre a União e os estados para Conselho Federal de Cultura, assegurando
a preservação do patrimônio nacional. utilização condigna e conveniente aos
monumentos inseridos nos Livros do Tombo da
A DPHAN, atuando em todo o país, é DPHAN.
órgão de irradiação nacional. Sua atuação será b) Distinção, em projeto a ser proposto, entre
complementada: zona monumental e zona de ambientação como
a) pelos Serviços de Patrimônio Histórico indispensável à maior e mais eficiente proteção aos
e Artísticos estaduais que têm incentivado e se bens tombados (...)
destinam a atender não só a proteção de obras c) Obrigatoriedade legal de prévia consulta ao
e monumentos de interesse regional, como de órgão encarregado da proteção do patrimônio (...)
auxiliar a União na preservação dos monumentos de toda e qualquer iniciativa, pública ou particular,
nacionais ali localizados (...) que interfira de algum modo na visibilidade e na
b) pelos Conselhos Estaduais de Cultura e as ambiência do bem tombado.
d) Conveniência de se atribuírem aos conservadores de pintura, escultura e

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
proprietários, mediante proposta legislativa, de documentos, arquivologistas e museólogos.
imóveis tombados que requeiram, benefícios e

A C I O N A L
O primeiro curso nacional de especialização
isenções compensatórios dos ônus do tombamento
em restauração para arquitetos ocorreria em
(Soeiro, 1968).
1974, na USP. A seguir foram realizados

N
R T Í S T I C O
Esse capítulo se ocupa também da cursos em convênio com as Universidades
obrigatoriedade da educação patrimonial e Federais de Pernambuco (1976) e Minas

A
da formação de técnicos, de diferentes níveis, Gerais (1978). A partir da sua quarta edição,

E
realizada em 1981 em Salvador, decidiu-se

I S T Ó R I C O
para cuidar da preservação do patrimônio.
Até então, a formação dos técnicos da dar sede ao curso naquela cidade. Convênio
DPHAN se fazia nos canteiros de obra. semelhante foi celebrado com a Universidade

H
Federal de Minas Gerais para formação de

A T R I M Ô N I O
O Plano Estratégico de Ação seria
institucionalizado com os Compromissos de técnicos em conservação e restauração de bens
Brasília (Compromisso, 1970) e de Salvador, móveis, dando origem ao Cecor.

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P
em 1971 (Brasil, 1973). Nele já estava

D O
prevista a criação do Ministério da Cultura, O I N Í C I O D A N O VA

E V I S T A
de um Fundo Nacional de Desenvolvimento ADMINISTRAÇÃO

R
da Cultura, como ocorreria em 1991 com
o Programa Nacional de Apoio à Cultura – Os dois primeiros anos da administração
Pronac, e de incentivos fiscais. Mas muitas de Soeiro foram de muito poucos recursos,
de suas propostas não avançaram devido reflexo da instabilidade do governo Costa e
ao receio, dentro da própria DPHAN, de Silva e da junta militar que o sucedeu. Mas a
fragilizar o Decreto-lei nº 25/1937. nova administração não ficaria imobilizada,
O Plano Nacional de Turismo, então aproveitaria esse recesso para reestruturar a
49
em discussão, deveria beneficiar os centros casa e buscar em instituições internacionais
históricos, monumentos e museus, mas os expertise para realizar os primeiros planos
lobbies do turismo não permitiram. Em diretores de patrimônio de cidades históricas.
compensação, negociações junto ao Tribunal A cooperação com a Unesco, que havia
de Contas da União resultaram na Resolução sido iniciada em 1952, teve um grande
nº 74/1970, que permitia destinar 5% reforço no final da administração de Rodrigo,
da cota-parte do Fundo de Participação por iniciativa do embaixador Carlos Chagas
dos Estados e Municípios a trabalhos de junto àquele órgão, e resultou na missão
preservação da cultura. A grande ampliação do arquiteto Michel Parent, entre 1966 e
dos recursos do órgão viria, porém, de 1968 (Leal, 2008). O título do relatório
convênios com outros ministérios, que era: Brésil, protection et mise en valeur du
analisaremos adiante. patrimoine culturel brésilien dans le cadre
Uma das recomendações do du développement touristique et économique,
Compromisso de Brasília dizia respeito que expressava a nova diretriz da Unesco.
à formação de arquitetos restauradores, No mesmo período, Soeiro participou da
50
elaboração das Normas de Quito, OEA, Passarinho para pedir apoio para o seu plano

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
1967. Esses dois documentos teriam um e surge a ideia da realização dos encontros

A C I O N A L
impacto muito positivo junto aos tecnocratas de governadores para a defesa do patrimônio
do regime militar. (Sant’Anna, 2015:215).
Em abril de 1968, no início de seu

N
De outra parte, se processava, com a Carta

R T Í S T I C O
mandato, Soeiro vai a Roma para uma de Veneza de 1964, uma revisão do conceito
reunião do Iccrom. Dali segue para Paris, de patrimônio, que deixava de ser a expressão

A
onde acerta com a Unesco a volta de Michel da identidade nacional para se converter

E
Parent para uma missão no Pelourinho.

I S T Ó R I C O
em uma herança comum de todos os povos.
Como esse não pôde voltar, em seu lugar foi O monumento isolado perdia importância
acertada a vinda do arquiteto Jean-Bernard para os sítios urbanos e naturais. A Unesco

H
Perrin, especialista em legislação de cidades

A T R I M Ô N I O
promulgaria, em 1972, a Convenção para a
históricas (Brasil, 1980b). Consegue também Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural
a vinda dos urbanistas ingleses Graeme

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
e Natural, em cuja preparação Soeiro teve

P
Shankland e Dave Walton, para elaborar
papel importantíssimo. O Conselho da

D O
um plano de turismo para o Pelourinho, e

E V I S T A
Europa lançava em 1975 a Declaração de
do arquiteto português Viana de Lima, para
Amsterdam, que defendia o princípio da

R
os estudos do plano diretor de Ouro Preto
conservação integrada, ou seja, a preservação
e avaliação de São Luís do Maranhão e de
de conjuntos históricos feita através da
Alcântara como centros históricos. Para o
planificação urbana (Cartas patrimoniais).
ano seguinte, foi acordada a realização de
O Iphan estava inteiramente identificado
missões no Pelourinho e em Ouro Preto e
com esse aggiornamento do pensamento
a elaboração de um plano urbanístico para
preservacionista e seu diretor afirmaria, no
Parati, pelo urbanista Limburg-Stirum.
final de seu mandato: 51
Através da OEA viriam o mexicano Flores
Marine, e por organismos da ONU o Mais preocupado com o monumento
colombiano Guillermo Trimmiño e o isolado nos seus 30 primeiros anos – 1937/1967
holandês Sylvio Mutal. – e atuando quase sempre isoladamente,
Estávamos no final da década de 1960 e o desenvolvimento econômico do país vai
o desenvolvimento econômico era a solução impor-lhe novas obrigações, que se traduzem
na necessidade de organização de planos de
recomendada pelos organismos internacionais
conjuntos urbanísticos, visando a preservação
para superar a pobreza regional, em especial
e o desenvolvimento dos núcleos históricos
pela Comissão Econômica para a América
afetados pelas novas estradas, represas, complexos
Latina e o Caribe – Cepal. O turismo
industriais etc., providências essas que definem
cultural, promovido pela Unesco e OEA, era uma segunda fase de atividades para o órgão e para
apresentado como a tábua de salvação, não só a qual era indispensável o apoio dos governos dos
do patrimônio, como da própria economia estados e dos municípios, fase esta marcada pelos
dos países da região. É nesse momento que o Encontros de Brasília e Salvador, em que foi fixada Azulejos de Portinari
Acervo: Iphan/
diretor da DPHAN procura o ministro Jarbas a nova política para o Iphan (Soeiro, 1979a). Márcio Vianna.
Essa nova orientação não ficou no papel. b) Criação de mais cinco novos Distritos, com
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

Entre 1967 e 1979, os conjuntos paisagísticos sedes em Belém, São Luis, Rio de Janeiro, Brasília
e Porto Alegre.
A C I O N A L

passaram de oito para quinze, enquanto o


c) Constituição de um serviço de Consultoria
número de cidades históricas cresceu de nove
Jurídica.
para quatorze e os conjuntos urbanísticos de
N

d) Reformulação completa dos seus quadros


R T Í S T I C O

24 para 29 (BRASIL, 1994). Começava-se a


administrativos e técnicos.
implementar, pela primeira vez, uma política
A

para esses sítios, em vez de apenas tombá-los Essa proposta se transformaria no novo
E

e congelá-los. Regimento Interno do Iphan (Portaria


I S T Ó R I C O

Na reestruturação administrativa do MEC n° 230/1976). Para implantar essa


MEC, de 1970, Soeiro conseguiu incluir a reforma, Soeiro designa como seu assessor
H

Irapoan Cavalcanti de Lyra, seu colega no


A T R I M Ô N I O

transformação da DPHAN em Instituto do


Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Conselho da Casa de Rui Barbosa, que havia
Iphan (Decreto n° 66.967, de 27/7/1970). transformado aquele museu-biblioteca em
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P

O dilema estava entre criar uma fundação uma fundação dinâmica.


D O

com maior agilidade, mas sem poder


E V I S T A

embargar obras, ou mantê-lo como um órgão A ASSOCIAÇÃO IPHAN/DAC


R

centralizado do MEC, com todas as travas E O PAT R I M Ô N I O I M AT E R I A L


que isso implicava, porém com poder de
polícia e direito a fórum privilegiado. Unificar Tendo integrado o Grupo de Trabalho
os dois modelos de instituição parecia muito Incumbido de Estudar a Reforma e
difícil. A solução encontrada foi a criação de Atualização das Instituições Culturais, em
uma autarquia, o Iphan. A história recente do 1968 (Decreto n° 63.235/1968), Soeiro
órgão demonstrou o acerto da opção adotada. seria convidado pelo ministro Passarinho,
52
A transformação da DPHAN em Iphan dois anos mais tarde, para organizar o
consistiu na adoção da proposta encaminhada Departamento de Assuntos Culturais –
ao MEC, pouco antes da posse de Soeiro, DAC, do Ministério, cumulativamente com
com base no art. 172 do Decreto-lei n° 200, a direção do Iphan. Diante das limitações
de 25/2/1967. O fato dele incorporar essa do Decreto-lei nº 25/1937 no que se refere
proposta a seu Plano Estratégico de Ação revela aos bens imateriais, a criação do DAC
sua participação na elaboração da mesma: abria a possibilidade de protegê-los com
instrumentos adequados. Não se contava,
a) Criação de mais quatro Divisões
até então, com uma política cultural
Técnicas: Restauração de Obras de Talha e
integrada, e o DAC iria fazer as primeiras
Pintura; Arqueologia; Museus Regionais e
formulações. É com o DAC que se inicia a
Casas Históricas; e Difusão Cultural, que
deveria “abranger não só a divulgação através do institucionalização do setor cultural no país,
ensino, como a iniciativa de execução de filmes que resultaria na criação do Ministério da
documentários, publicações, programas de Rádio Cultura, em 1985 (Azevedo, 2013). Não se
e TV Educativa (...) (Soeiro, 1968). pode, portanto, desvincular a ação de Iphan
da do DAC, conduzida pelo mesmo diretor. campos da cultura, pretende integrar, preservar

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Em entrevista, após sua posse no DAC, e incentivar tudo aquilo que for digno de apreço
e que, ao mesmo tempo, torne as populações

A C I O N A L
Soeiro aponta, além das dificuldades
conscientes dos seus valores locais dentro da
conceituais, a insensibilidade da burocracia
cultura nacional (Soeiro, 1973).

N
do MEC para com a cultura, totalmente

R T Í S T I C O
absorvida pelas questões educacionais, e a O inventário seria um dos objetivos da
falta de recursos para cumprir sua missão. fundação a ser criada para tornar mais ágil a

A
Mas, mesmo assim, elabora e publica, em ação do Iphan, mas não chegou a ser realizado

E
1973, o Programa de Ação Cultural – PAC,

I S T Ó R I C O
diante da extensão da tarefa e pelo fato de
no qual demonstra igual preocupação com Soeiro ter deixado a direção do DAC para
a cultura do passado e do presente, do se dedicar integralmente ao Instituto. Deve-

H
A T R I M Ô N I O
patrimônio material e imaterial e com o se ressaltar que não existia, na época, uma
fomento da produção cultural. experiência internacional nesse campo, salvo
em uma cultura muito diversa da ocidental,

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
O Departamento de Assuntos Culturais, do

P
como a japonesa. A primeira manifestação da

D O
Ministério da Educação e Cultura, organizou
Unesco sobre o assunto seria a Recomendação

E V I S T A
o PAC, através do qual se propõe à execução e
a criação de novas condições para que o acervo sobre a salvaguarda da cultura tradicional e

R
brasileiro no campo artístico, histórico, literário, popular, de 1989.
arqueológico – e nas demais manifestações do As manifestações culturais imateriais e
pensamento – seja resguardado, ao tempo em que performáticas, além de registradas, deveriam
se intensifiquem e se multipliquem as atividades em ser incentivadas, amparadas e desenvolvidas.
todos os campos da cultura no país (Soeiro, 1973). Para isso foi criada, em 1975, no DAC, a
O principal programa do DAC era Fundação Nacional de Arte – Funarte, que

o Projeto Rodrigo M. F. de Andrade, de cuidaria da música – popular e erudita –,


53
das artes plásticas e visuais, incorporando
identificação e registro integral do patrimônio
a Fundação Nacional de Artes Cênicas –
nacional. Resgatava-se assim o espírito da
Fundacen e o Instituto Nacional de Folclore
proposta de Mário de Andrade, de 1936, para
– INF. Subordinados ao DAC também
o Sphan.
estavam a Fundação do Cinema Brasileiro
O Ministério da Educação e Cultura chegou – FCB e seu braço comercial a Embrafilme,
à conclusão de que se apresenta o momento criada em 1969 para divulgar o filme nacional
de se proceder a um diagnóstico do estágio de
no exterior, mas que seria redirecionada,
maturação cultural atingido por nosso processo
em 1975, para a produção e distribuição de
histórico, utilizando-se as vantagens das ciências
filmes nacionais no mercado interno, de qual
do homem e da tecnologia moderna, posta à nossa
chegou a conquistar 40%.
disposição e com as quais nos será permitido o
levantamento da realidade cultural brasileira. O Programa de Ação Cultural do DAC
Assim, o Projeto Rodrigo M. F. de Andrade, seria a semente do primeiro plano federal
promovendo um inventário da inteira produção de cultura, intitulado Política Nacional
do passado e do presente brasileiros, nos diversos de Cultura – PNC, de 1975, elaborado
por uma comissão de membros do MEC o objeto da proposta, aprovando-se, assim,
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

e do Conselho Federal de Cultura, sob a a Convenção para a Proteção do Patrimônio


A C I O N A L

coordenação de Afonso Arinos de Melo Mundial Cultural e Natural, na 17ª Assem-


Franco, intelectual muito ligado ao Iphan bleia da Unesco (Jornal do Brasil, 1972).
(Fonseca, 1997:183). Nele o conceito de No que toca à OEA, assinale-se a reunião
N
R T Í S T I C O

cultura como identidade era oficializado pelo que promulgaria as Normas de Quito (1967)
MEC. O país só iria ter um segundo Plano e a reunião para elaboração do anteprojeto
A

Nacional de Cultura em 2010. do Programa Regional de Desenvolvimento


E

Em função dos trabalhos que se Cultural e Avaliação do Desempenho do


I S T Ó R I C O

realizavam no país naquele período, o Departamento de Assuntos Culturais,


diretor do Iphan foi convidado a participar Washington, 1968. Como membro do
H

de numerosas reuniões da Unesco. Além Comitê Interamericano de Cultura – Cidec,


A T R I M Ô N I O

da reunião do ICCROM, já referida, Soeiro participou, entre 1970 e 1974, de


assinale-se o Seminário sobre Formação de sete das oito reuniões do grupo, realizadas
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P

Arquitetos em Conservação e Restauração de em diferentes países das Américas. Em


D O

Monumentos, Pistoia, 1968; a Conferência 1972, Soeiro presidiu a reunião do grupo


E V I S T A

Intergovernamental sobre Aspectos de especialistas designados pela OEA para


R

Institucional, Administrativo e Financeiro das o Estabelecimento de Normas Visando


Políticas Culturais da Unesco, Veneza 1970; a Identificação, Proteção e Vigilância do
e a reunião do Comitê de Experts sobre a Patrimônio Cultural dos Países Americanos,
Preservação e Expansão dos Valores Culturais, São Paulo, 1972. Participou, ainda, da IV
Varsóvia, 1977 (Azevedo, 2013). Reunião do Conselho Interamericano de
Fundamental seria a contribuição brasilei- Educação, Ciência e Cultura – CIECC),
ra na reunião do Comitê Especial de Peritos em Mar del Plata 1972, onde foi aprovada
54
Intergovernamentais incumbidos de preparar a resolução sobre o mesmo tema (Soeiro,
os projetos de Convenção e Recomendação ca.1967d).
sobre a Proteção de Monumentos, Conjuntos
e Lugares Históricos, Paris, 1972. A maioria
dos 52 delegados nacionais queria que a Con- O PROGRAMA DAS CIDADES
venção tivesse como foco o patrimônio cultu- HISTÓRICAS
ral, de acordo com a convocação da reunião,
enquanto os Estados Unidos e o Canadá, Para os militares, uma das questões mais
com seu grande peso político e possuidores preocupantes eram os desníveis regionais, que
de grandes parques naturais, pressionavam provocavam tensões sociais e expulsavam os
para que ela tratasse apenas de temas ligados retirantes em busca de melhores condições
ao patrimônio natural. Armou-se, assim, devida. O maior desses desafios ocorria em
uma contenda aparentemente sem solução. Pernambuco, com as Ligas Camponesas,
Soeiro, eleito por aclamação vice-presidente lideradas pelo deputado Francisco Julião. Por
do Comitê, convence as duas partes a ampliar um acaso estavam em altos postos do governo
federal representantes das duas regiões menos inspiração na reconstrução europeia depois

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
desenvolvidas do país: João Paulo Reis Veloso, da II Guerra e recomendações da Unesco e

A C I O N A L
piauiense, da Secretaria de Planejamento da OEA.
e Coordenação Geral da Presidência da A primeira reunião do grupo foi realizada
República – Seplan-PR, Jarbas Passarinho,

N
na representação da Seplan-PR no Recife, em

R T Í S T I C O
acreano, ministro do MEC e, logo abaixo janeiro de 1973, e ali ficaria sediado o PCH.
dele, Renato Soeiro, paraense, diretor do Os recursos eram provenientes do fundo

A
Iphan e DAC, e Josué Montelo, maranhense, Plano de Ações Integradas da Seplan-PR, que

E
diretor do recém-criado Conselho Federal

I S T Ó R I C O
financiava 80% dos projetos apresentados
de Cultura. Eles e outras lideranças políticas por estados e municípios, e estes bancavam
e até militares viam no desenvolvimento
os 20% restantes. Os projetos deviam ser

H
daquelas regiões, mais que na repressão, a

A T R I M Ô N I O
previamente aprovados pelo Iphan. Com esse
solução para o problema2. Com a riqueza
programa milionário, o protagonismo da
patrimonial da região, experiência de

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
preservação do patrimônio se deslocou do Rio

P
planejamento de cidades históricas e as

D O
para o Recife.
recomendações da Unesco e da OEA, o

E V I S T A
Em 1975, em plena ascensão do PCH, o
diretor do Iphan sugeriria um programa de
brilhante Aloisio Magalhães, designer oficial

R
desenvolvimento do Nordeste com base no
do regime militar, mas sem antecedentes na
turismo cultural.
área do patrimônio, criou o Centro Nacional
O Iphan, com o novo estatuto, podia
firmar convênios com outros ministérios
e efetivamente firma um amplo convênio
com a SEPLAN-PR visando a preservação
do patrimônio cultural. O programa foi
55
criado pela Exposição de Motivos nº 076-B,
de 21/5/1972, e detalhado por um Grupo
de Trabalho Interministerial reunindo
representantes do MEC, Seplan-PR, Sudene
e Embratur. O representante do MEC era
o diretor do Iphan e DAC, articulador da
proposta. Chamava-se Programa Integrado
de Reconstrução das Cidades Históricas
do Nordeste com sua Utilização para Fins
Turísticos, nome depois reduzido para
Programa das Cidades Históricas, ou PCH.
A sua denominação original evidencia a

2. Vanderli Silva (2001) aponta forte influência da doutrina da


Escola Superior de Guerra – ESG na política cultural inaugurada
em 1974.
de Referência Cultural – CNRC, através núcleos urbanos tombados. Somente uma ação
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

de convênio da Secretaria de Educação e conjunta com aqueles organismos financeiros


aliados, mais uma vez, aos órgãos de cultura será
A C I O N A L

Cultura do Distrito Federal e o Ministério da


possível resguardar a nossa identidade cultural,
Indústria e Comércio, como um programa
possibilitando, de maneira democrática, a solução
paralelo e alternativo ao Iphan.
N

para o problema que a coletividade brasileira


R T Í S T I C O

O sucesso do PCH foi tanto, que ele


enfrenta para garantir estes direitos básicos do
foi, por reivindicação, estendido em 1977 indivíduo: o da habitação e o da livre transmissão
A

aos estados de Minas Gerais, Espírito Santo da cultura (Soeiro, 1979c).


E

e Rio de Janeiro. Nesse período, o Sudeste


I S T Ó R I C O

volta a arrebatar dois terços dos recursos do Em 1983, foi realizada a última dotação

programa, assustando os técnicos do Recife. importante de recursos para o programa,


H

com um empréstimo de 7 milhões de dólares


A T R I M Ô N I O

Entre 1973 e 1979, foram financiados 193


projetos de restauração de monumentos, além concedido pelo governo francês. Entre 1973
e 1983, foram investidos no PCH cerca
das intervenções em dez conjuntos urbanos,
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o

de 73,8 milhões de dólares, incluídas as


P

da realização de quinze planos diretores de


D O

contrapartidas dos estados, um montante


preservação de cidades históricas, onze cursos
E V I S T A

de recursos com que nunca mais a área


e seminários de formação de mão de obra
do patrimônio viria a contar (Sant’Anna,
R

de níveis médio e superior e oito projetos de


2015:235).
inventário e pesquisa (Sant’Anna, 2015:234).
O PCH seria estendido a todo o país,
em 1979, e incorporado ao Iphan. Mas o
A TRANSIÇÃO DEMOCRÁTICA
E A N O V A P O L Í T I C A C U LT U R A L
órgão não tinha os recursos da Seplan-PR,
sobretudo durante a época do chamado
A progressiva desativação do PCH, no
“milagre brasileiro”. Com as atribuições
56 início dos anos 1980, deveu-se não só à menor
aumentadas e as verbas reduzidas, Soeiro, sem
disponibilidade de recursos como à mudança
desanimar, imaginava lançar mão de recursos
de foco da política cultural. Nos últimos anos
destinados à habitação social do Banco
da década de 1970, com a crise econômica
Nacional da Habitação – BNH3.
que obrigou o Brasil a pedir empréstimo
Uma nova etapa é aguardada com a ao Fundo Monetário Internacional, a volta
incorporação definitiva do Programa (das galopante da inflação e a crescente oposição
Cidades Históricas) ao Iphan e o envolvimento
ao regime militar, era preciso reformular a
indispensável com outros setores da Administração
política cultural, como já chamaram a atenção
Pública e da área privada, o que deverá resultar
Vera Milet (1980), Vanderli da Silva (2001) e
na cooperação de organismos federais de
financiamento para a tarefa de preservação e Roberto Sabino (2012).
valorização do acervo residencial dos bairros e Com efeito, na década de 1970, o Estado,
que, em 1964, rompera com o pacto populista,
3. No ano anterior este autor havia apresentado uma proposta definindo-se claramente como um Estado de
nesse sentido, num seminário do BNH em Salvador, que foi
muito bem recebido pelo banco e pelo Iphan (Azevedo, 1988). classe, encontra-se em crise de legitimação,
necessitando, urgentemente, ampliar suas bases populares da religião, do folclore, de hábitos de

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
sociais. Para tanto, recorre a um ideário em que alimentação, hábitos de cura, hábitos de lazer etc.,
todos se sintam representados. É nesse sentido que e não somente traços característicos do consumo

A C I O N A L
retoma o ideário contido no projeto de proteção elitista (Demo, 1980:89-90).
aos bens culturais de autoria do escritor Mário de

N
Andrade, proposto em 1936, que valoriza melhor

R T Í S T I C O
Essa era uma reivindicação difusa de
a heterogeneidade e complexidade culturais
grupos marginalizados da sociedade brasileira
inerentes à formação social brasileira (Milet,
que buscavam o reconhecimento de sua

A
1988:192).

E
identidade étnica, como negros e índios. Esses

I S T Ó R I C O
O Gal. João Figueiredo toma posse grupos não tinham monumentos, mas uma
em março de 1979 e nomeia para o MEC cultura imaterial importante. A cooptação das

H
o pernambucano de formação Eduardo camadas populares fazia parte da estratégia de

A T R I M Ô N I O
Portella. Este, por sua vez, indica o sociólogo abertura política gradual e controlada, frente
e filósofo Pedro Demo como Subsecretário- ao fortalecimento de movimentos sociais,

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
Geral do MEC. Demo trabalhava no Ipea, do

P
como as Comunidades Eclesiais de Base e

D O
Ministério do Planejamento, desde 1970. O outros (Sabino, 2012:5)

E V I S T A
PCH era um projeto custoso e de resultados a Por outro lado, durante a década de
longo prazo, o que não atendia aos interesses 1970, a indústria imobiliária se fortaleceu

R
imediatistas do governo de transição do Gal. fundando a Associaçao de Dirigentes de
Figueiredo. Pedro Demo, orientado por Empresas do Mercado Imobiliário – Ademi
Portella, seria o principal formulador da nova em praticamente todos os estados. A nova
política cultural do país. É dele o texto que se política cultural desviava o foco dos sítios
segue, de 1979: urbanos e naturais para bens imateriais, sem
No quadro da política social, o cuidado valor de mercado, aliviando o orçamento
57
cultural aparece normalmente como secundário. do órgão e a tensão com o setor imobiliário,
Essa ótica desagrada os culturalistas, mas, uma que pressionava contra o tombamento
vez bem enfocada, pode ser recolocada na linha de conjuntos históricos, cidades e até
da sedimentação de traços culturais participativos,
municípios inteiros.
como pontos altos do processo educativo, bem
Além dessas duas forças, existia uma
como do processo cultural.
luta surda pelo controle de um órgão que
Dentro de um país com profundos possuía naquele momento muitos recursos
desequilíbrios regionais e sociais, a meta prioritária e prestígio junto a governadores e prefeitos.
da política social é a população de baixa renda, A disputa pelo Iphan não era apenas
que, além de muito pobre, é também maioria
conceitual, senão política e regionalista.
(...). Esse conteúdo cultural pode revelar alienação
Pode-se dizer que a mudança nos rumos do
acentuada, quando se perde na identificação de
Iphan em 1979 foi, além de uma tentativa
valores ligados à elite, como se o povo não tivesse
cultura. Por isso, insistem em que a identificação de cooptação de setores populares para a
se volte para o todo da sociedade, principalmente transição democrática gradual, a revanche
para o povo, podendo valorizar manifestações do Nordeste em razão do monopólio do
órgão por um grupo de intelectuais de antropólogos e filósofos que vieram do CNRC.
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

Minas Gerais e do Rio de Janeiro, durante A Fundação Pró-Memória tinha as atribuições


A C I O N A L

43 anos. de definir a política do órgão, selecionar


O discurso alternativo de Aloisio referências culturais e financiar o sistema. A
Magalhães, sua relação com os militares, os
N

Sphan tinha as funções duras da aplicação


R T Í S T I C O

trabalhos do CNRC, ao lado da sua origem da lei: tombar, fiscalizar e embargar. Os


pernambucana, tornavam o seu nome o mais funcionários da Sphan recebiam os salários da
A

adequado para tocar a nova política no Iphan. administração pública e os da Fundação, os de


E

Com seu carisma e o apoio da Globo, para


I S T Ó R I C O

mercado. Enquanto Aloisio, com seu carisma,


quem havia feito sua primeira logomarca, dirigiu os dois órgãos não houve grandes
Aloisio se transforma em uma estrela conflitos, eles surgiriam depois.
H

nacional. Entrevistado, logo após sua posse,


A T R I M Ô N I O

Aloisio transforma, então, o DAC em


por um jornalista que lhe perguntou se lhe Secretaria de Cultura – SEC, núcleo do
causou surpresa a sua nomeação para diretor futuro ministério e assume sua direção.
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
P

do Iphan, Aloisio responde: Para o sistema Sphan/Pró-Memória ele


D O

nomeia Irapoan Cavalcanti de Lyra, carioca,


E V I S T A

Há duas respostas. A primeira: não me


causou surpresa (...). O ano passado comecei a me filho de tradicional família pernambucana,
R

preocupar com a institucionalização do CNRC antigo colaborador de Soeiro. Com sua


(...). Então cheguei à conclusão que havia um morte prematura, em 1982, os técnicos
órgão oficial onde o CNRC caberia perfeitamente:
da Seplan-PR no Recife, da Sudene e um
o Iphan (...). Me surpreendi com a nomeação
grupo de intelectuais do local conseguem
porque há grande diferença entre ter um conceito
de um determinado problema e se deparar, depois, de Eduardo Portella nomear para sucedê-
com a realidade, a fim de resolvê-lo (Magalhães, lo na Secretaria de Cultura do MEC outro
58 1985:113-114). conterrâneo, Marcos Vinicios Vilaça, membro
do Conselho Diretor da Fundação Joaquim
Após a posse, a nova diretoria do Iphan
Nabuco. O novo secretário mantém Irapoan
põe em execução estudos que encontrou de sua
Lyra na presidência do sistema Sphan/Pró-
antecessora, como uma fundação para agilizar
Memória, mas a disputa entre os dois grupos
a ação do órgão. Aloisio opta por criar um
continuaria.
sistema formado por uma Secretaria de Estado,
O Sphan/Pró-Memória não conseguiu
a Sphan, e uma fundação. Sistema que viria
criar um instrumento apropriado de
a ser designado como Sphan/Pró-Memória.
preservação do patrimônio imaterial, nem
Entre os objetivos da nova fundação figurava o
abandonar o patrimônio de “pedra e cal”
Projeto Rodrigo M. F. de Andrade, do DAC,
protegido por lei. Uma das suas mais fiéis
para a realização do grande inventário cultural,
colaboradoras reconhece que a proposta de
que nunca foi realizado.
Aloisio permaneceu apenas no discurso.
Aloisio manteve na Sphan os arquitetos
que ele apelidou de “pedra e cal” e colocou na O fato é que, na prática, a síntese pretendida
Fundação Nacional Pró-Memória – FNPM os por Aloisio Magalhães não chegou a se concretizar
realmente, e as inevitáveis diferenças de orientações da dele. José R. S. Gonçalves, referindo-se

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
dos técnicos das três instituições (Sphan, CNRC à primeira publicação da Fundação Pró-
e PCH) “fundidas”, sobretudo entre os da

A C I O N A L
Memória, que pretendeu historiar a trajetória
“referência” e os da “pedra e cal”, não foram
do Iphan (Brasil, 1980a), comenta:
superadas em uma proposta de trabalho comum.

N
A proposta do CNRC, apropriada e desenvolvida De acordo com a historiografia oficial

R T Í S T I C O
pela FNPM, encampada pela SEC e, em certa do Iphan, o “período heroico” da instituição
medida, inclusive pela Constituição Federal corresponde àquele que se estende desde a sua

A
de 1988, ficou conhecida praticamente apenas criação em 1937 até a morte de Rodrigo, em

E
I S T Ó R I C O
enquanto discurso (Fonseca, 1997:200-201). 1969. Um segundo período é identificado por
essa historiografia, de 1969 (sic) a 1979, tempo
Com a redemocratização e a criação do em que a direção esteve a cargo de Renato

H
Ministério da Cultura pelo presidente José Soeiro, próximo colaborador de Rodrigo, mas

A T R I M Ô N I O
Sarney, em 1985, o seu mais duradouro que não foi marcada por quaisquer mudanças
ministro, o cearense Celso Furtado, significativas em termos de política oficial de

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
patrimônio (Gonçalves, 1996:51).

P
entendendo que a disputa era regionalista,

D O
nomeia para a Fundação Pró-Memória o A ocultação da obra de Soeiro pelo

E V I S T A
pernambucano Joaquim Falcão, ligado à Sphan/Pró-Memória era fundamental para a
Fundação Joaquim Nabuco, e para a Sphan o

R
afirmação da nova política cultural e do grupo
professor Ângelo Oswaldo, mineiro. Mas essa emergente. Quem melhor resumiu o legado
divisão salomônica não resolveria a disputa. da administração de Renato Soeiro foi Marcia
Na onda neoliberal, Sarney, na tentativa Sant’Anna em sua imparcial história do Iphan
talvez de resolver a contenda, delega ao setor registrada no livro Da cidade-monumento à
privado a política cultural do país, com a cidade-documento.
lei de renúncia fiscal que levou seu nome.
A gestão de Renato Soeiro correspondeu ao 59
Diante das infindáveis brigas intestinas do
processo de modernização administrativa do Iphan
órgão, o presidente Collor de Mello dissolveu
e à democratização da questão do patrimônio.
o sistema Sphan/Pró-Memória , em 1990,
Foi nesse período que o patrimônio, apesar
e o substituiu pelo Instituto Brasileiro de das resistências, extrapolou o âmbito do órgão
Patrimônio Cultural – IBPC, de vida curta. criado por Rodrigo M. F. de Andrade e passou
Com o presidente Fernando Henrique a ser também assunto de governos estaduais e
Cardoso, o órgão voltaria a ser um instituto, municipais. Correspondeu ainda ao período em
em 1994, como havia concebido Renato que o Iphan contou com o maior volume de
Soeiro. recursos para investimento desde a sua criação, o
que, a nosso ver, põe por terra a afirmação de que
Soeiro havia favorecido o Nordeste com
Renato Soeiro não gozava de bom trânsito político
o PCH e valorizado o patrimônio imaterial
no governo. Bastaria também lembrar que ele foi
e popular com a Funarte, mas era o herdeiro o primeiro diretor do Departamento de Assuntos
institucional de Rodrigo e seu grupo, ainda Culturais do MEC, origem e embrião do futuro
que não fosse mineiro, nem carioca, e tivesse Ministério da Cultura (...). Não fossem suficientes
uma plataforma de ação muito distinta os fatos citados, a administração de Soeiro também
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

60
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
Maranhão
Acervo: Iphan.
Bumba meu boi,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
61

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
poderia ser caracterizada como o momento em que ______. ”PCH: a preservação do patrimônio cultural
Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:
a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979

se formulou uma nova política de preservação de e natural como política regional e urbana”. In: Anais do
Museu Paulista, vol. 24, n.1. São Paulo: jan-abr. 2016.
A C I O N A L

áreas urbanas (Sant’Anna, 2015:256-257). Disponível em: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_


arttext&pid=S0101-47142016000100237, acessado em
Soeiro foi demitido sumariamente, 1º/12/2016.
N

após 41 anos de serviços em prol da cultura


R T Í S T I C O

BRASIL, MEC/DPHAN. Compromisso de Salvador.


nacional, sem, ao menos, um telefonema 2.º Encontro de Governadores para a Preservação do
Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Natural
do ministro Eduardo Portella. Coube a
A

do Brasil. Rio de Janeiro, 1973.


Carlos Drummond de Andrade, seu colega
E

BRASIL, MEC/Sphan/Pró-Memoria. Proteção e


I S T Ó R I C O

de lutas no Iphan, fazer o desagravo numa revitalização do patrimônio cultural no Brasil: uma
trajetória. Brasília, 1980a.
nota jornalística sutilmente chamada de “A
______. Restauração e revitalização de núcleos históricos:
H

recompensa de Soeiro”, que termina assim:


A T R I M Ô N I O

análise face à experiência francesa. Brasília, 1980b.


A alegria de ter bem cumprido a missão BRASIL, MinC/Sphan/FNPM. Bens móveis e imóveis
sem embargo daquilo que não pôde fazer, por inscritos nos Livros do Tombo do Patrimônio Histórico e
Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o

Artístico Nacional, 4ª ed. Rio de Janeiro, 1994.


P

deficiências insanáveis do aparelho administrativo


D O

CARTAS PATRIMONIAIS. Disponível em www.


brasileiro, há de pousar na casa de Renato Soeiro
portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/226. Acessado em
E V I S T A

como recompensa melhor, senão única, do seu 2/12/2016.


trabalho (Andrade, 1979).
R

CHUVA, Márcia R. R. Os arquitetos da memória:


sociogênese das práticas de preservação do patrimônio
REFERÊNCIAS cultural no Brasil (1930-1940). Rio de Janeiro: Editora
da UFRJ, 2009.
COMPROMISSO de Brasília. São Paulo: Departamento
ANDRADE, Carlos Drummond de. “Rendição
de História da Universidade de São Paulo/Instituto de
de guarda”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 25
Arquitetos do Brasil-SP; 4o Distrito da DPHAN, 1970.
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62 ______. “A recompensa de Soeiro”. Jornal do Brasil. Rio
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histórico nacional”. In: MICELI, Sergio (org.). Estado e
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FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em
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AZEVEDO, Paulo Ormindo. A recuperação do JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, 8 abr.1972.


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MILET, Vera. A teimosia das pedras: um estudo sobre a ______. “Discurso de agradecimento à homenagem

Patr imônio Cultural e Natural como fator de desenvolvimento:


a revolução silenciosa de Renato Soeiro, 1967-1979
preservação do patrimônio ambiental do Brasil. Olinda: do Instituto de Arquitetos do Brasil”. Rio de Janeiro,
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SABINO, Roberto. As disputas pela representação do Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
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defendida no PPG de Museologia e Patrimônio da SOPHIA, Daniela. “As políticas de preservação do

N
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R T Í S T I C O
www.culturadigital.br/politicaculturalcasaderuibarbosa/
Soeiro (1967-1979)”. In: GRANATO, Marcus (org.).
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Museologia e Patrimônio. Rio de Janeiro: Museu
1º/12/2016.
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A
SANT’ANNA, Marcia. Da cidade-monumento à cidade- Disponível em http://www.mast.br/hotsite_mast_30_

E
documento: a norma de preservação de áreas urbanas no

I S T Ó R I C O
anos/pdf/volume_01.pdf. Acessado em 1º/12/2016.
Brasil. Salvador: Iphan/Oiti Editora, 2015.
SILVA, Vanderli M. da. A construção da política cultural
no regime militar: concepções, diretrizes e programas

H
(1974-1978). (Dissertação de Mestrado em Sociologia).

A T R I M Ô N I O
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas,
Universidade de São Paulo. São Paulo, 2001, p. 211.
SOEIRO, Renato de A. D. “Discurso proferido no ato da

Pa u l o O r m i n d o d e A z e ve d o
posse como Diretor do Patrimônio Histórico e Artístico

P
D O
Nacional”. Rio de Janeiro, 24 jun.1967a. (Arquivo
Noronha Santos, Sphan – Personalidades. SOEIRO,

E V I S T A
Renato de Azevedo Duarte. Pasta. 93.03.13.S). Não
paginado.

R
______. “Notas sobre a reunião de Quito”, 14/2/1967b.
Iphan/Copedoc, Rio de Janeiro, Personalidades.Soeiro,R,
IIA, p.422.
______. “Reaparelhamento do patrimônio histórico
e artístico nacional”. Trabalho apresentado na 14ª
Sessão Plenária do Conselho Federal de Cultura, Rio de
Janeiro, 27 abr.1967c. Iphan/Copedoc. Rio de Janeiro,
Personalidades, Soeiro, R., IIA, p.422. Matriz da Lapa-PR
Acervo: Iphan/
Cyro Corrêa Lyra.
______. “Curriculum Vitae”. Rio de Janeiro, ca. 1967d.
(Arquivo Noronha Santos, Sphan – Personalidades. 63
SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte, pasta.
93.03.13.S). Não paginado.
______. “Plano Estratégico de Ação”. Rio de Janeiro,
14 set. 1968. (Arquivo Noronha Santos, Sphan –
Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
Pasta. 93.03.13.S). Documento datilografado sem título,
em papel timbrado do órgão, definindo a política a ser
seguida pelo órgão. Título atribuído pelo autor. Não
paginado.
______. O Programa de Ação Cultural, em 1973. Brasília:
MEC/DAC, 1973. Não paginado.
______. “Pronunciamento lido na sessão do Conselho
Consultivo do Iphan 13 mar.1979a”. Rio de Janeiro:
Arquivo Noronha Santos, Sphan – Personalidades.
SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte, Pasta. 93.03.13.S.
Não paginado.
______. “Discurso de transmissão do cargo”. Rio de
Janeiro, 27 mar.1979b. (Arquivo Noronha Santos. Sphan
– Personalidades. SOEIRO, Renato de Azevedo Duarte.
Pasta. 93.03.13.S). Não paginado.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

64
Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
Zoy Anastassakis

A C I O N A L
A CULTURA COMO PROJETO :
A LOISIO M AGALHÃES E SUAS I PHAN

N
IDEIAS PARA O

R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
INTRODUÇÃO do Iphan1 no final da década de 1970 se
caracteriza como marco de uma substantiva

Para o Iphan, 1979 foi um ano de virada nas políticas públicas de patrimônio

P
cultural no Brasil, que, orientada segundo

D O
rupturas. Com a nomeação de Aloisio

E V I S T A
um “paradigma antropológico” (Anastassakis,
Magalhães para a sua presidência, se fundem
2014), opera uma significativa ampliação
ao Instituto o Programa das Cidades

R
semântica do conceito de patrimônio
Históricas PCH e o Centro Nacional
cultural, que a partir de então passa a
de Referência Cultural – CNRC. Logo
incorporar, progressivamente, os bens
em seguida, o órgão é reestruturado, culturais de natureza imaterial ou intangível
decompondo-se em duas entidades, a saber, a e, dentre esses, as manifestações da cultura
Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico popular.
Nacional – Sphan e a Fundação Nacional Assumindo a relevância da mudança 65

Pró-Memória – FNPM. A essa reestruturação paradigmática operada em meio à gestão de


institucional, segue-se também uma Aloisio Magalhães à frente do Iphan, este
reorganização das políticas de preservação do artigo propõe trazer à tona, mais do que as
patrimônio cultural conduzidas pelo órgão. ações de preservação do patrimônio cultural

A partir dessa reconfiguração, se inaugura desenvolvidas durante o período de 1979


a 1982, o debate e os antecedentes que
uma segunda fase das políticas públicas
informam a virada cultural e projetiva que
de preservação do patrimônio cultural no
se articula em meio às políticas públicas de
Arte popular
país, conhecida como “fase moderna”, que Acervo: Copedoc/Iphan/
patrimônio cultural a partir de 1979. Marcel Gautherot.
se distingue da “fase heroica”, caracterizada
pelo período compreendido entre 1937
e 1967, em que o Iphan é presidido por
Rodrigo Melo Franco de Andrade. Assim, a 1. Para discutir a atuação de Aloisio Magalhães à frente do Iphan,
ver também Falcão, 2001 e 2003, Fonseca, 2005 e Gonçalves,
chegada de Aloisio Magalhães à presidência 2002.
ALOISIO MAGALHÃES convergente, nas inúmeras conversas que teve em
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan

E SEU
P R O J E T O P O L Í T I C O PA R A O seu gabinete em Brasília com Aloisio (idem).
A C I O N A L

IPHAN Logo ao assumir a presidência do Iphan,


Aloisio propõe o desdobramento do Instituto
N

Antes de abordar o debate que informa


em dois órgãos2, a Secretaria do Patrimônio
R T Í S T I C O

as mudanças capitaneadas por Aloisio


Histórico e Artístico Nacional – Sphan e
Magalhães à frente do Iphan, é importante
a Fundação Nacional Pró-Memória. Em
A

comentar alguns dos antecedentes e das ideias


E

novembro de 1979, em discurso ao presidente


I S T Ó R I C O

que compõem a trajetória profissional do


da República João Figueiredo por ocasião da
designer pernambucano e que contribuem
assinatura do projeto de lei que autorizava a
para a sua chegada à presidência do Instituto.
H

criação da Fundação, Aloisio, talvez fazendo


A T R I M Ô N I O

Aloisio, que desde 1960 estava à frente de


menção à iminência de abertura política,
um dos maiores escritórios de design do país,
comenta o caráter transitório das funções
no início da segunda metade da década de
ocupadas por cada um dos presentes na
P

1970 encontra-se plenamente envolvido


D O

Zoy Anastassakis

cerimônia, afirmando, em contrapartida, que


com projetos que, mais do que de design
E V I S T A

se eram transitórias as funções de cada um


propriamente dito, podem ser definidos
deles, todos, por serem brasileiros, dividiam
R

como de política cultural. Se em 1975 ele se


de uma mesma responsabilidade, que essa,
afastara do escritório no Rio de Janeiro para
sim, deveria ser assumida, de forma coerente.
coordenar o CNRC em Brasília, quatro anos
Essa responsabilidade teria a ver com
depois é convidado a presidir o Iphan, para
onde transpõe as ideias gestadas pelo Centro. (...) o momento em que a nação brasileira,
Segundo Joaquim Falcão, foi depois de um período de relativa sombra, procura
reencontrar os seus verdadeiros caminhos, (...) os
66 Eduardo Portella, ministro da Educação e fundamentos da nacionalidade, para construirmos
Cultura, que o levou à presidência do Iphan, e, uma forma e um modelo que nos caiba
mais do que chefe, foi interlocutor permanente (Magalhães, 2003:240).
na tarefa de reconceituação, inclusive da noção
de patrimônio transtemporal; além de sutil Quando assumida, implicaria em
negociador nas indispensáveis negociações com o uma atitude de devolução, o que significa
Congresso (2003:253). “devolver à nação os privilégios que
Além da relação de Aloisio com recebemos” (2003:241).
o ministro Portella, Falcão destaca a No âmbito da preservação do patrimônio
importância do vínculo do designer com o cultural, assumir a responsabilidade de
então ministro-chefe da Casa Civil, Golbery devolução implicaria em construir, em meio
do Couto e Silva, que foi aos modelos que se mostraram insatisfatórios,

(...) capaz de lhe abrir as portas de uma 2. O redesenho da área de patrimônio cultural ocorre em meio a
burocracia federal quase sempre desconfiada dos um processo mais amplo de “construção institucional” (Miceli,
1984:56) durante a gestão do ministro Ney Braga no governo
pleitos da cultura, sendo também interlocutor Geisel (1974-78).
nosso próprio modelo, que, segundo ele, diversas faces do mesmo cristal (apud Souza Leite,

A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan


deveria ser buscado entre os indicadores do 2003:11).

A C I O N A L
nosso comportamento cultural, moldado
Aloísio propõe uma aproximação da
de forma heterogênea “no fazer do homem
nova Fundação com áreas do governo ligadas
brasileiro, na pequena dimensão muitas

N
mais diretamente às questões econômico-

R T Í S T I C O
vezes frágil de uma atividade pré-industrial”
produtivas, sugerindo que o patrimônio
(idem: 242), pois é a partir dele que se
cultural pode contribuir para o processo de

A
encontrariam os indicativos de um modelo

E
desenvolvimento nacional, na medida em que
de desenvolvimento autêntico da nação e da

I S T Ó R I C O
identidade nacional (idem). (...) uma cultura é feita dos elementos
É significativa desse posicionamento a fala compostos do passado que são vistos pelos

H
em que Aloisio evoca a metáfora do bodoque,

A T R I M Ô N I O
homens transitórios do presente e que desenham o
a fim de descrever a relação entre passado e caminhar projetivo (idem).
futuro, segundo sua perspectiva:
Segundo Falcão, com essas falas, Aloisio

P
D O

Zoy Anastassakis
(...) uma cultura é avaliada no tempo e se insere busca marcar um novo posicionamento

E V I S T A
no processo histórico não só pela diversidade dos
das políticas públicas de preservação do
elementos que a constituem, ou pela quantidade
patrimônio cultural, que estivesse mais

R
das representações que dela emergem, mas
sobretudo por sua continuidade. Essa continuidade
afinado ao clima geral de mudança que
comporta modificações e alterações num processo envolvia o fim do regime autoritário no país
aberto e flexível, de constante realimentação, (2003:248). Captando, sistematizando e
o que garante a uma cultura sua sobrevivência. tentando concretizar esse clima, Aloisio optou
Para seu desenvolvimento harmonioso pressupõe por atuar dentro das políticas de Estado
a consciência de um largo segmento de passado (idem:250), buscando articular cultura e
histórico. Pode-se mesmo dizer que a previsão 67
desenvolvimento (idem:252). Nesse sentido,
ou a antevisão da trajetória de uma cultura
para Falcão, ele foi tanto fruto quanto artesão
é diretamente proporcional à amplitude e
da abertura política que se insinuava de forma
profundidade de recuo no tempo, do conhecimento
e da consciência do passado histórico. Da mesma mais direta a partir daquele momento.
maneira como, por analogia, uma pedra vai mais Sua estratégia para “institucionalizar
longe na medida em que a borracha do bodoque é no Iphan uma continuidade revitalizadora
suficientemente forte e flexível para suportar uma consistia na incorporação de duas experiências
grande tensão, diametralmente oposta ao objetivo inovadoras na área patrimonial, que já
de sua direção. Pode-se mesmo afirmar que, no ocorriam no governo” (idem:254), o Centro
processo de evolução de uma cultura, nada existe
Nacional de Referência Cultural – CNRC e
propriamente de “novo”. O “novo” é apenas uma
o Programa das Cidades Históricas – PCH.
forma transformada do passado, enriquecida na
continuidade do processo, ou novamente revelada,
Na tentativa de ampliação democrática do
de um repertório latente. Na verdade, os elementos conceito de patrimônio (idem), Aloisio
são sempre os mesmos: apenas a visão pode ser propôs a absorção, dentro das políticas
enriquecida por novas incidências de luz nas públicas de preservação, das manifestações
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

68
Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
Maranhão

Edgard Graeff.
Acervo: Iphan/
Tambor de crioula,
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L
69

Zoy Anastassakis A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
culturais ligadas às matrizes africana e de patrimônio cultural delineada por Mário
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan

indígena, bem como a consideração das de Andrade no anteprojeto para a criação do


A C I O N A L

colocações das comunidades habitantes das Sphan, documento datado de 1936. Segundo
cidades históricas contempladas por políticas Maurício Chagas, assim como Lina Bo Bardi
de preservação (idem). Assim, os órgãos de
N

no projeto para o Solar do Unhão, ainda nos


R T Í S T I C O

patrimônio assumiam a responsabilidade anos 1960, na Bahia, Aloisio partilha com


de intermediar os diálogos entre os agentes Mário
A

culturais e o governo, o que, deve-se notar,


E

(...) do reconhecimento da grandeza da


não se deu sem embates.
I S T Ó R I C O

produção anônima e conformadora da verdadeira


Assumindo que cuidar do patrimônio
identidade de um povo – a valorização do fazer
cultural implicava também em projeto
popular –, que não era uma atitude inovadora,
H

e participação e na consideração dos


A T R I M Ô N I O

nem em Lina Bo Bardi nem no CNRC. O discurso


aspectos materiais e imateriais relativos aos da apaixonada descoberta da face popular do país
processos culturais, Aloisio contribui para a já integrava as preocupações dos modernistas de
P

sedimentação de uma nova perspectiva de 22 e, posteriormente, as de Mário de Andrade ao


D O

Zoy Anastassakis

enfoque para o patrimônio no país, que se elaborar o famoso parecer que veio dar origem ao
E V I S T A

consolida em termos legais somente no ano Decreto-lei nº 25, de 1937, de criação do Sphan.
A novidade que se apresenta nessas duas propostas
R

de 2000, quando se institui o decreto do


– Unhão e CNRC – é a atitude de reconhecer, no
patrimônio imaterial.
caráter de uma produção tida como marginal, não
Em meio a essa visada sobre o patrimônio
apenas o traço da identidade nacional, mas, sim, o
cultural ensejada por Aloisio, se prenunciam
imenso potencial de valor econômico nela contido
dois instrumentos de preservação que só
desde que fosse corretamente inserida em um
viriam a ser institucionalizados, seja em modelo apropriado de desenvolvimento adequado
âmbito nacional quanto global, anos mais às suas múltiplas características (2002:81).
70
tarde, a saber, os conceitos de patrimônio
imaterial ou intangível e de paisagem Apesar de a perspectiva adotada por
cultural. Essa perspectiva, delineada a Aloisio estabelecer diálogos com as referências
partir de sua gestão no Iphan, considerava acima citadas, na medida em que valorizava
que a preservação do patrimônio histórico a combinação da ideia de cultura nacional
só faria sentido se articulada às condições popular a princípios modernos e a valores
socioculturais presentes e a um projeto de econômicos, é preciso ressaltar que o
desenvolvimento futuro. patrimônio cultural que interessa a Aloisio
Em diálogo com a perspectiva formulada não é aquele ”de pedra e cal” praticado até
por Lucio Costa anos antes, Aloisio se então, no Brasil, nem tampouco aquele que
diferenciava dele na medida em que, para restringe ao passado os valores culturais a
o pernambucano, o outro popular não se serem protegidos e preservados.
localizava no passado, mas, sim, no presente. É nesse ponto que suas ideias mais se
Quando busca justificar suas propostas para distanciam daquelas formuladas por Lucio
o Iphan, Aloisio também faz uso da noção Costa. Entendendo que “a ‘boa tradição’
que vinha da Colônia havia sido transmitida pernambucano” (idem: 303), Gilberto

A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan


e guardada não pelo arquiteto, mas pelo Freyre, por sua vez, “constrói um léxico que

A C I O N A L
homem simples” (Rubino, 2009:34), para traz o bem arquitetônico para o universo da
Aloisio, assim como para Lina Bo Bardi, de cultura escrita, tornando-se assim o sociólogo
quem trata Rubino, dos arquitetos” (idem: 305). Assim, a obra

N
R T Í S T I C O
de Freyre contribui para a legitimação,
(...) se o povo era arquiteto, capaz de construir
na perspectiva de trabalho adotada pelo
obras corretas com poucos recursos, era um

A
povo do presente, vivo nesse Brasil dos anos de Sphan, de “um lugar para o evento passado

E
se construir” (idem: 307). Desse modo, o

I S T Ó R I C O
redemocratização (idem).
passado tradicional, requalificado por Freyre
Assim, em Casa-grande e senzala, se insere em um

H
projeto intervencionista no presente (idem:

A T R I M Ô N I O
(...) se um “outro” no passado poderia
conduzir a uma forte política de preservação, esse 306), a saber, as ações de tombamento
“outro” presente levou à politização de seu discurso realizadas pelo Sphan, em grande parte

P
em pleno período de aposta na modernização lideradas por Costa.

D O

Zoy Anastassakis
do país. A noção de autenticidade era deslocada: Voltando às propostas de Aloisio para o

E V I S T A
autêntico era o povo (idem). Iphan: mesmo que formuladas em diferentes

R
instâncias e com abordagens distintas,
Em meio a esse debate, é fundamental
nelas são acionadas outras concepções de
comentar o que Rubino nomeia de “parceria
patrimônio cultural, orientadas segundo as
intelectual entre o antropólogo e sociólogo
questões que o levaram a discutir, logo antes,
Gilberto Freyre e o arquiteto Lucio Costa”
os limites e as possibilidades de atuação em
(2010:302), na medida em que parece
design. Então, assim como suas considerações
haver uma estreita ligação entre os dois,
sobre design (Anastassakis, 2014; Souza
notadamente no que tange à formulação 71
Leite, 2003), suas concepções de patrimônio
de uma vinculação da arquitetura moderna
cultural são similarmente guiadas por um
brasileira à história cultural do país3,
comprometimento com as questões culturais
formulação essa que permitira aos dois
no presente, visando desenvolvimentos
construírem, via arquitetura, um elo entre o
futuros. Nesse sentido, não deixam de estar
Movimento Moderno e a boa tradição (idem).
alinhados aos compromissos firmados durante
Valendo-se da apresentação de uma série
a Convenção para a Proteção do Patrimônio
de ocasiões em que um cita o outro, Silvana
Mundial, Cultural e
Rubino ilumina um processo de legitimação
Natural, organizada pela
recíproca, segundo o qual, “se a explicação
Unesco em 1972.
mais sociológica que Lucio Costa constrói
Trata-se, então, de
está visivelmente inspirada pelo sociólogo
uma visada sobre os

3. As relações entre Lucio Costa e Gilberto Freyre também são


patrimônios culturais
discutidas por José Tavares Correia de Lira, que em meio aos dois que considera, sim, a
posiciona Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro presidente
do Sphan (1997:110). preservação dos aspectos
materiais, mas entendendo, sempre, que esses da sustentabilidade socioeconômica que se
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan

devem estar indissociavelmente ligados às garante, a eles, estabelecer. Trata-se, então, de


A C I O N A L

práticas culturais dos grupos que nele – ou uma visada projetiva do patrimônio cultural,
em torno dele – vivem. Nesse ponto é que ancorada na convicção de que é somente
Aloisio mais se reaproxima da concepção de através da consideração das especificidades
N
R T Í S T I C O

patrimônio cultural formulada por Mário culturais que se pode constituir um projeto
de Andrade, nos modos como intentam de desenvolvimento futuro.
A

aproximar arte erudita e arte popular; se Nessa medida, não se trata, segundo
E

valem de conceitos de nacionalismo que não as propostas de Aloisio para o Iphan, de


I S T Ó R I C O

implicam em uma negação de certos ideais políticas de patrimônio cultural per se, mas
universalistas; percebem valor no fato de de investimentos em ações políticas de
H

o Brasil ser um “país novo”, “emergente”; patrimônio cultural, com fins a um projeto
A T R I M Ô N I O

buscam integrar a produção artística nacional de transformação social via consideração


no curso geral da modernidade; investem em das especificidades culturais. Então, assim
P

mapeamentos da produção cultural popular; como, uma década antes, o campo do design
D O

Zoy Anastassakis

incorporam os bens culturais de natureza representara para ele uma porta de acesso às
E V I S T A

imaterial; valorizam o heterogêneo da questões de transformação sociocultural, nesse


R

produção cultural nacional (Freitas, 1999:76- contexto, é no âmbito das políticas públicas
79). de patrimônio cultural que se constitui, a seu
Além da aproximação conceitual com a ver, um domínio a partir do qual se torna
noção de patrimônio cultural, Freitas sinaliza possível ensaiar uma intervenção no “mundo
que, ao estabelecer, textualmente, vínculos real”. Desse modo, design e políticas culturais
entre suas propostas para o Iphan e as se configuram como áreas ou domínios a
formuladas por Mário de Andrade quarenta partir de onde, em distintos momentos de
72
anos antes, Aloisio Magalhães buscava sua trajetória profissional, Aloisio Magalhães
legitimar seu trabalho à frente do CNRC, logra viabilizar suas propostas de projeto para
bem como estabelecer uma base de diálogo o próprio país.
com o grupo de intelectuais remanescentes
da “fase heroica” (1999:89), que, em grande ALGUNS ANTECEDENTES DA
parte, resistiam às mudanças sugeridas pelo REESTRUTURAÇÃO POLÍTICO-
grupo do Centro, incorporado ao Instituto INSTITUCIONAL DE 1979
após a nomeação de Aloisio para a sua
presidência. Como já comentado acima, logo antes
Além da preocupação com o presente, de assumir a presidência do Iphan, Aloisio
essa visão do patrimônio cultural está atuava à frente do CNRC (Anastassakis,
engajada com o desenvolvimento de projetos 2007), considerado como o tubo de ensaio
de futuro, ou seja, nela a continuidade em que teriam sido experimentadas as ideias
dos processos culturais, seja em seus que informaram as propostas de políticas
aspectos materiais ou imateriais, depende públicas de preservação patrimonial a partir
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
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Zoy Anastassakis
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de 1979. Deve-se ressaltar, contudo, que, do Centro para a formulação da virada São Francisco do
Paraguaçu
diferentemente do Iphan, o CNRC não fazia nas políticas de patrimônio cultural que é Acervo: Iphan/
Nelson Kon.

parte da estrutura do Ministério de Educação articulada por Aloisio, não apenas porque 73

e Cultura. Localizado em Brasília, o Centro a experiência do CNRC teria informado a


teve seu funcionamento viabilizado por um subsequente atuação do pernambucano na
convênio multi-institucional, organizado em presidência do Iphan, mas também porque, ao
torno do Ministério da Indústria e Comércio assumir esse cargo, Aloisio leva consigo, para o
– MIC. Como definido por seus integrantes, Instituto, a equipe e os projetos do Centro.
o objetivo do CNRC era Além do CNRC, também se funde ao
Iphan o Programa das Cidades Históricas
(...) traçar um sistema referencial básico para a
– PCH, que desde 1973 era coordenado
descrição e análise da dinâmica cultural brasileira,
por Henrique Oswaldo de Andrade. Com
tal como é caracterizada na prática das diversas
essas fusões, o Instituto é reestruturado,
artes, ciências e tecnologias (Magalhães, 1997:42).
decompondo-se em duas entidades, a saber,
Não obstante a distância institucional que a Secretaria de Patrimônio Histórico e
inicialmente separava o CNRC do Iphan, Artístico Nacional – Sphan e a Fundação
deve-se notar a importância fundamental Nacional Pró-Memória. A essa reestruturação
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan
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Zoy Anastassakis
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Acarajé de Iansã institucional, segue-se também uma políticas de preservação cultural durante os
Acervo: Iphan/
Francisco Moreira
da Costa.
reorganização das políticas de preservação do anos 1970, não apenas no Brasil, mas em
patrimônio cultural conduzidas pelo órgão. todo o mundo. Primeiramente, ela destaca
Ao propor toda essa reformulação política, algumas transformações percebidas nas
Aloisio Magalhães considerava também as disciplinas que fundamentavam a seleção de
mudanças que começavam a se ensaiar no país bens considerados dignos de preservação.
74 a partir do desgaste do modelo implementado Dentre elas, a história e a antropologia, que
pelo regime militar a partir de 1964 e da sofreram significativas revisões no que tange
remobilização da sociedade civil. Segundo a seus objetos e abordagens de pesquisa.
Joaquim Falcão, ele percebia que “novas Para essa autora, essas mudanças no campo
demandas sociais pressionavam por políticas acadêmico teriam acontecido em paralelo
governamentais diferentes” (2003:248). Para a uma difusão da democracia em outros
Falcão, o grande mérito de Aloisio foi ter tido campos. Corria pelo mundo o processo de
a sensibilidade de captar, antes dos demais, descolonização e o surgimento de novos
o clima de mudança para, a partir do que o Estados-nação. Era assim uma época de
momento demandava, formular um projeto reivindicações de direitos e identidades
político e institucional que permitisse a coletivas. Vinha à tona a consciência da
concretização das mudanças necessárias. dominação cultural das ex-colônias e dos
Para Maria Cecília Londres Fonseca grupos denominados “minoritários”.
(2005), vários fatores contribuíram para A cultura surgia, nesse contexto, como
as modificações ocorridas no campo das uma via possível de libertação da dominação
e de elaboração de novas identidades a aposentadoria de Rodrigo Melo Franco de

A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan


coletivas. Ainda em nível mundial, Fonseca Andrade, em 1967, evidenciara-se a fraca

A C I O N A L
enfatiza que, a partir da década de 1960 e na autonomia do Instituto. Além disso, pesa
década seguinte, o Modernismo passar a ser sobre o Iphan o distanciamento de suas
contestado e revisto. No Brasil, é de destaque políticas face ao modelo de desenvolvimento

N
R T Í S T I C O
a consagração do modelo desenvolvimentista nacional firmado entre os anos 1950 e 1960,
e industrial, alavancado a partir do governo pois a ideologia de desenvolvimento a ele

A
de Juscelino Kubitschek, e a hegemonia da vinculada teria atrelado o nacionalismo

E
arquitetura modernista, consagrada pela a valores de modernização, em contraste

I S T Ó R I C O
construção de Brasília. Nos anos 1960, e a ideais preservacionistas, tais quais os
principalmente a partir do governo de João acionados pelo Iphan durante as primeiras

H
Goulart e do golpe militar que a ele se segue, décadas de sua existência, voltadas quase

A T R I M Ô N I O
cresce também a politização da atividade que exclusivamente para a preservação de
cultural e ampliam-se as manifestações da edificações de “valor histórico”.

P
sociedade através de movimentos populares, Para dissolver os impasses surgidos a partir

D O

Zoy Anastassakis
artísticos e estudantis. de então, o Iphan teria recorrido também

E V I S T A
Mas é apenas à Unesco, que o auxiliou a reformular a

R
sua atuação, compatibilizando-a com o
(...) com o início da ‘distensão’, no governo
novo modelo de desenvolvimento nacional
Geisel, que o Estado passa a atuar na área cultural,
(Fonseca, 2005). Segundo as diretrizes da
não apenas como repressor, mas também como
Unesco, o Iphan deveria se transformar
organizador da cultura (2005:134).
em um negociador e um conciliador de
Deve-se ressaltar que essa ”distensão” interesses, ou seja, um órgão que conseguisse
vinha acompanhada de uma crise econômica demonstrar à sociedade que é viável a
75
internacional, o que tornaria mais nítidas as compatibilização entre preservação e
contradições do modelo econômico adotado desenvolvimento, valores culturais e valores
pelo regime militar. A partir de todo esse econômicos. As novas diretrizes divulgadas
estado de crise, o regime teria passado a pela Unesco nas Normas de Quito (1967)
enfrentar também uma crise de legitimidade. contribuíram, indiretamente, para a criação
Assim como o regime de governo, o do PCH, em 1973, e o CNRC, em 1975.
modelo de preservação do patrimônio Fazendo parte de um movimento de
cultural adotado pelo Iphan desde 1937 descentralização ocorrido no campo das
passava por uma crise decorrente do desgaste políticas de patrimônio cultural nos anos
das políticas implementadas pelo órgão 1970, movimento esse que tem por objetivo
em sua ”fase heroica”. Dentre os fatores suprir as lacunas que a atuação do Iphan
constituintes desse desgaste, Fonseca destaca, vinha apresentando, pode-se considerar,
primeiramente, a dificuldade do Iphan em então, que, mesmo que sem tal intenção,
mobilizar a sociedade e o governo para a PCH e CNRC surgem como alternativas ao
causa da preservação. Em segundo lugar, com Iphan. Tais lacunas não seriam somente de
ordem operacional; em termos conceituais o 1936 redigiu o anteprojeto do Serviço de
A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan

órgão também era alvo de críticas. Patrimônio e Artístico e Histórico Nacional


A C I O N A L

– Sphan. Retomando algumas das propostas


Para setores modernos e nacionalistas do
de Mário no que tange à valorização das
governo, era necessário não só modernizar a
raízes populares para a construção da
N

administração dos bens tombados, como também


R T Í S T I C O

atualizar a própria composição do patrimônio, identidade nacional, Aloisio dele se diferencia


considerada limitada a uma vertente formadora da na medida em que vincula o bem cultural
A

nacionalidade, a luso-brasileira, a determinados a um valor econômico. Com isso, através


E

períodos históricos, e elitista na seleção e no trato da cultura ele busca formular alternativas
I S T Ó R I C O

dos bens culturais, praticamente excluindo as ao desenvolvimento do país. Percebendo a


manifestações culturais mais recentes, a partir da
fraqueza política da área de preservação do
H

segunda metade do século 20, e também a cultura


patrimônio cultural, Aloisio teria buscado
A T R I M Ô N I O

popular (2005:143).
vincular a questão da cultura a áreas
politicamente fortes do governo, explorando o
OUTRAS D I R E Ç Õ E S PA R A A S
P

potencial econômico dos bens culturais.


D O

P O L Í T I C A S D E PAT R I M Ô N I O
Zoy Anastassakis

Assim, com sua nomeação para a


C U LT U R A L : A C U LT U R A
E V I S T A

presidência do Iphan se delineia uma virada


COMO PROJETO
nas políticas de preservação que toma
R

a cultura não apenas como documento


Assim, é em outras direções que Aloisio
(portanto passível de registro e tombo), mas,
Magalhães propõe conduzir o Iphan, a partir
sobretudo, como projeto (logo, como possível
de sua nomeação. Segundo José Reginaldo
agenciadora de futuros desenvolvimentos).
Gonçalves (2002), Aloisio surge como alguém
Articulando bens materiais e imateriais e
que autentica sua posição, desafiando aquela
considerando os valores culturais locais,
76
conquistada pelo primeiro presidente do
as ações de preservação levadas a cabo
órgão, Rodrigo Melo Franco de Andrade.
pelo Iphan desse período, tais como o
A fim de concretizar esse objetivo, ainda
reconhecimento do Centro Histórico de
segundo Gonçalves, Aloisio teria se utilizado
Ouro Preto (MG) pela Unesco, em 1980;
de uma estratégia discursiva que propunha
a formulação do Projeto Interação, que
novas concepções de patrimônio e identidade
buscava desenvolver ações que garantissem
nacional, menos vinculadas à noção de
e facilitassem a participação comunitária em
memória e mais ligadas aos processos e
processos educacionais; e a criação de Grupo
dinâmicas dos saberes e fazeres populares.
de Trabalho para a preservação do patrimônio
Uma perspectiva em que presente e futuro
histórico, artístico, urbanístico e paisagístico
seriam tão importantes quanto o passado.
de Brasília, a fim de estudar, propor e adotar
Nesse ponto é que sua posição se aproxima
medidas para a preservação do patrimônio
das questões de interesse dos modernistas de
histórico-cultural da capital federal (Iphan),
1922 e, dentre eles, mais especificamente,
indicam outras direções possíveis para
das ideias de Mário de Andrade, que em
as políticas públicas de preservação do
patrimônio cultural. Como na imagem do (Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação

A cultura como projeto: Aloísio Magalhães e suas ideias para o Iphan


em Arquitetura e Urbanismo da UFBA. Salvador: 1997,
bodoque, da tensão entre passado, presente e
p. 98-118.

A C I O N A L
futuro é que a cultura passa a ser percebida, MAGALHÃES, Aloisio. E Triunfo? A questão dos bens
naquele momento, como base de lançamento culturais no Brasil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira/
para ações que apontassem outras direções. Fundação Roberto Marinho, 1997 (1985).

N
R T Í S T I C O
______. “Na fundação da Fundação”. In: SOUZA
LEITE, João (org.). A herança do olhar: o design de
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de preservação do patrimônio cultural no Brasil: Aloisio São Paulo: Difel, 1984.
Magalhães e o Centro Nacional de Referência Cultural. RUBINO, Silvana. “A escrita de uma arquiteta”.
(Dissertação de Mestrado). Programa de Pós-Graduação In: GRINOVER, Marina; RUBINO, Silvana

H
em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade (orgs.). Lina por escrito. Textos escolhidos de

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Federal do Rio de Janeiro, 2007. Lina Bo Bardi. São Paulo: Cosac Naify, 2009,
______. Triunfos e Impasses: Lina Bo Bardi, Aloisio p. 19-40.
Magalhães e o design no Brasil. Rio de Janeiro: ______. “Gilberto Freyre e Lucio Costa ou

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Zoy Anastassakis
CHAGAS, Maurício de Almeida. Modernismo e SPHAN”. In: GUERRA, Abílio (org.). Textos

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Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Arquitetura moderna brasileira. São Paulo: Romano
e Urbanismo. Universidade Federal da Bahia. Salvador,

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Guerra, 2010a, p. 299-314.
2002. SOUZA LEITE, João (org.). A herança do
FALCÃO, Joaquim. Patrimônio imaterial: um sistema olhar: o design de Aloisio Magalhães. Rio
sustentável de proteção. Tempo Brasileiro, nº 147, out- de Janeiro: Artviva, 2003.
dez.2001, p. 163-180.
______. “Um líder e seu projeto”. In: SOUZA LEITE,
João (org.). A herança do olhar: o design de Aloisio
Magalhães. Rio de Janeiro: Artviva, 2003, p. 248-259.
FONSECA, Maria Cecília Londres. O Patrimônio em
77
processo: trajetória da política federal de preservação no
Brasil. Rio de Janeiro: Ed.UFRJ/MinC/Iphan, 2005.
FREITAS, Marcelo de Brito Albuquerque Pontes. Mário
de Andrade e Aloisio Magalhães: dois personagens
e a questão do patrimônio cultural. PÓS – Revista
do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e
Urbanismo da FAU/USP, nºs 97/98. São Paulo: set.1999,
p. 71-93.
GONÇALVES, José Reginaldo. A retórica da perda.
Os discursos do patrimônio cultural no Brasil. Rio de
Janeiro: Ed. UFRJ/MinC/Iphan, 2002.
IPHAN. Portal web. http://portal.iphan.gov.br/.
LIRA, José Tavares Correia. “O popular na cultura,
a arquitetura brasileira e a história: Gilberto Freyre,
os mocambos, os modernistas e os primeiros anos do
Iphan”. In: CARDOSO, Luiz Antonio Fernandes;
OLIVEIRA, Olívia Fernandes (orgs.). Rediscutindo o
moderno: universalidade e diversidade no movimento Praça da República-PA
Acervo: Iphan/
moderno em arquitetura e urbanismo no Brasil. Caio Reisewitz.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

78
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Márcia Chuva

A C I O N A L
P OSSÍVEIS NARRATIVAS SOBRE DUAS DÉCADAS DE

PATRIMÔNIO : DE 1982 2002

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Escrever para a revista do Iphan nos seus se de uma narrativa comprometida com
oitenta anos é um desafio. Incumbiram-me percepções, pontos de vista, reflexões a partir
de tratar do período de 1982 a 2002, vinte de um lugar de fala construído na vivência

P
anos marcantes, registrados em diferentes desses anos.

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E V I S T A
impressões, camadas de sensibilidade e Buscamos dar inteligibilidade a esse
inteligibilidade. Pensar sobre a instituição recorte temporal como contexto e, nesse

R
é pensar sobre seus quadros, seus agentes e sentido, alguns momentos de inflexão nos
os sujeitos que nela se constituem, também pareceram significativos para explorar e
sobre seu multifacetado universo de ação arriscar uma compreensão mais ampla do
e sobre a amplitude de suas práticas. campo do patrimônio no período, a começar
Infelizmente, não teria condições de dar a pela morte de Aloisio Magalhães, em 1982,
devida dimensão a toda essa grandeza. Esses que dá início ao período recortado. Morte
vinte anos da ação institucional no campo vivida como trauma na instituição, em um 79
do patrimônio serão abordados aqui numa momento de grandes expectativas no Brasil.
perspectiva que inevitavelmente deixará A Fundação Nacional Pró-Memória estava
muitos aspectos de fora. Se não posso precisar dando uma nova feição ao setor cultural
a medida do que está ausente, posso apenas brasileiro, em especial às instituições a ela
me desculpar antecipadamente. Vale dizer vinculadas (Peregrino, 2012; Brito, 2014).
que as reflexões deste artigo são fruto de um Dava-se mais um importante passo para a
olhar afetivo sobre uma experiência1. Trata- retomada plena dos direitos civis, com a volta,
depois de suspensas por quase vinte anos, das
1. Ingressei na instituição em 1982, como estagiária da Fundação
Nacional Pró-Memória, no setor de Estudos de Tombamento eleições diretas para os governos dos estados e
coordenado pela arquiteta Dora Alcântara, na Diretoria de
Tombamento e Conservação – DTC, chefiada pelo arquiteto as prefeituras das capitais.
Augusto Carlos da Silva Telles, no oitavo andar do Palácio
Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. Ao longo da década de
A segunda inflexão no âmbito do recorte
1980, descobri e me formei no mundo do patrimônio. A partir temporal proposto pode ser verificada com
de 1992 e nos dez anos seguintes, até 2002, integrei a equipe de
inventários de bens imóveis, coordenada pela arquiteta Lia Motta, os novos rumos dados à política brasileira Capela do Engenho Una
no Departamento de Identificação e Documentação, o DID, Acervo: Copedoc/Iphan/
dirigido por Célia Corsino. no início dos anos 1990, após as primeiras Marcel Gautherot.
eleições diretas para presidência da República, pareceram adequados para compreender a
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

que elegeram Fernando Collor de Mello. complexidade do campo do patrimônio como


A C I O N A L

Os dois anos de seu governo trouxeram parte indissociável dos processos de formação
momentos difíceis para todo o setor cultural, do Estado, da esfera de poder público e do
com traços violentos como perseguições a cenário político-social em que se insere.
N
R T Í S T I C O

funcionários e o desmonte da Fundação Diferentes escalas de aproximação foram


Nacional Pró-Memória. Foram tempos de acionadas nessa abordagem, considerando
A

perdas, inclusive por meio do Programa camadas de leitura que se sobrepõem, como
E

De Demissão Voluntária – PDV. Aqueles estratégia discursiva na construção de uma


I S T Ó R I C O

que permaneceram na instituição foram leitura possível do campo do patrimônio


posteriormente integrados ao Regime Jurídico associado ao recorte temporal sobre o qual se
H

constrói a narrativa. Desse modo, a aparente


A T R I M Ô N I O

Único – RJU como servidores públicos


federais. Nos anos subsequentes, houve um perspectiva panorâmica da narrativa aqui
esvaziamento de recursos materiais e humanos desenvolvida deve ser desde já desmascarada,
P

no setor, sem qualquer ajuste salarial durante tendo em vista ser ela fruto de camadas
D O

Márcia Chuva

toda a década . A vaga neoliberal iniciada


2 sobrepostas, escalas que ora aproximam, ora
E V I S T A

drasticamente com Fernando Collor teve afastam focos e visadas aqui intencionalmente
R

continuidade de forma mais estável ao longo operadas.


dos anos 1990, com efeitos diretos sobre
o campo do patrimônio. Nosso recorte NOVOS P R O B L E M A S , N O VA S
temporal se encerra em 2002, contando que, ABORDAGENS, NOVOS
em 2003, uma nova e significativa inflexão se OBJETOS
deu, com o início do governo de Luiz Inácio
Lula da Silva, a reestruturação do Ministério A famosa coleção organizada por Jacques
80
da Cultura, na gestão de Gilberto Gil , e a 3 Le Goff e Pierre Nora, publicada em 1974,
nova estrutura regimental do Iphan. na França, intitulada Faire L’Histoire, com
Para percorrer esses vinte anos, foram três volumes (Nouveaux problèmes; Nouveaux
selecionados assuntos e eventos que, da Aproches; Nouveaux Objets), inspira a
minha visada, julguei relevantes para narrativa que construímos para tratar do
uma compreensão de mudanças que campo do patrimônio no Brasil, nas décadas
tiveram efeitos de longo prazo na história de 1980 e 19904. Essa coleção inaugurava
institucional, inserida em contextos mais
4. A coleção organizada por Pierre Nora em comemoração aos
amplos da história do Brasil. Eles me duzentos anos da Revolução Francesa, Les Lieux de mémoire.
Tomo 1. La République (1 volume, 1984); Tomo 2. La Nation
(3 volumes, 1987); Tomo 3. Les France (1992), pela Gallimard,
2. Em 2005 ocorreu o primeiro concurso público na instituição, especialmente seu artigo Entre memória e história: a problemática
após as novas regras de acesso ao serviço público instituídas pela dos lugares, publicado na revista Projeto História, São Paulo, v.10,
Constituição Federal de 1988. 1993, também deve figurar entre as referências emblemáticas do
3. O Ministério da Cultura foi criado em 1985. Em 1990, foi período, no âmbito da formação em História, em particular. Jani-
transformado em Secretaria da Cultura, diretamente vinculada ce Gonçalves (2012) analisa a contribuição do historiador Pierre
à Presidência da República, situação que foi revertida em 1992. Nora para os estudos relacionados ao campo do patrimônio
Em 2003, foi feita nova reestruturação do Ministério. Ver http:// cultural, em especial a partir da noção de “lugares de memória”,
www.cultura.gov.br/historico. Acesso em 22/6/17. apresentada na referida obra).
na França a autodenominada Nova História, ocorreu uma virada cultural, que incorporava

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
cujos integrantes foram formados na esteira uma concepção da história como narrativa,

A C I O N A L
da École des Annales e dela sentiam-se tendo surgido estudos sobre uma diversidade
continuadores, herdeiros em terceira geração. de temas (abordagens, objetos e problemas),
como gênero, minorias étnicas e religiosas,

N
Publicada no Brasil logo em seguida, pela

R T Í S T I C O
Livraria Francisco Alves Editora, em 1976, hábitos e costumes. Para o campo do
com segunda edição em 1979, História: novos patrimônio, esse contexto historiográfico

A
problemas; novas abordagens; novos objetos foi expressivo, pois compartilhou a quebra

E
atingiu boa parte dos jovens que se formaram de paradigmas acerca de verdades históricas,

I S T Ó R I C O
nos anos 1970 e 80 nos cursos de História rupturas com uma história política tradicional
e de Ciências Sociais no Brasil que tinham ou com uma visão de cultura restrita às artes,

H
música ou literatura, para a uma definição

A T R I M Ô N I O
contato com a escola francesa, em anos de
ditadura militar e abertura política, ávidos mais ampla, como práticas, processos e
por revolucionar o pensamento, o Estado, a cotidiano (Burke, 1992).

P
vida cultural, as práticas sociais – o país. Os Teve também entrada no Brasil, o livro

D O

Márcia Chuva
efeitos no campo do patrimônio produzidos de Eric Hobsbawm e Terence Ranger The

E V I S T A
por essa historiografia francesa não serão invention of tradition, lançado originalmente

R
analisados neste artigo5, mas situar essa em 1983 e aqui publicado, em 1984, pela
obra no mesmo contexto pode iluminar em editora Paz e Terra. Os dois historiadores
certa medida as mudanças conceituais que ingleses de base teórica marxista também
verificamos no período aqui recortado. Pode incorporavam a perspectiva cultural em seus
também deixar pistas para aprofundamento estudos de história social, desconstruindo
e produção de novos estudos que percebam ícones e emblemas, dessacralizando
conexões entre as reflexões teóricas sobre o costumes e patrimônios. Era, sem dúvida,
81
campo do patrimônio no Brasil e o debate um contexto de viradas epistemológicas.
Essa virada cultural que atingia em cheio a
acadêmico no da história naquele momento,
história produzia os primeiros passos de uma
tal como se verificou na França (cf. Roiz e
aproximação da disciplina com a temática do
Santos, 2012).
patrimônio no Brasil.
Como apontou Peter Burke (2005),
Em obra posterior, tratando da história
nos anos 1970, aspectos culturais do
do capitalismo, Hobsbawm ([1993]1995)
comportamento humano se tornaram
fez uma leitura panorâmica do século XX
foco em estudos históricos na Europa (não
e apresentou os anos 1970 e 1980 como
somente na França) e foram estabelecidas
as “décadas de crise” do sistema, com
conexões entre história, antropologia e
predomínio da recessão e da estagnação da
literatura. Para o autor, nesse momento
economia mundial. Décadas marcadas por

5. O estudo dessas relações está por ser feito. Sobre a influência


um novo tipo de concorrência em termos
da historiografia francesa na formação de historiadores no Brasil, globais que a tecnologia promoveu, com a
em especial da Escola dos Annales, ver ROIZ e SANTOS, 2012
e ROIZ, 2008. expansão do poder transnacional do capital,
a ignorar as fronteiras nacionais. É possível as primeiras eleições para a Presidência da
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

afirmar que esse contexto deu margem República, depois de vinte e quatro anos de
A C I O N A L

ao fortalecimento de recortes identitários ditadura militar no Brasil6.


multifacetados, de clivagem religiosa, étnica, Os efeitos da conquista dos valores
ideológica, de gênero, reconfigurando as
N

fundamentais da liberdade, dos direitos


R T Í S T I C O

perspectivas sobre uma identidade nacional. humanos e da tolerância, expressões que não
Essas identidades emergentes também podem ser esquecidas, nem cair no vazio,
A

trouxeram questões para os debates sobre serão sentidos a longo prazo, no campo do
E

o patrimônio cultural, que acompanharam patrimônio. É o que buscaremos apontar


I S T Ó R I C O

a virada epistemológica aqui referida e o a seguir.


predomínio de uma perspectiva processual
H

da cultura, que tomava a vida cotidiana O IPHAN


A T R I M Ô N I O

E O CAMPO DO
como objeto de investigação. Bens e práticas PAT R I M Ô N I O : 1982-2002
culturais até então alheios a esse universo
P

passaram a concorrer legitimamente para Os anos 1980 foram de luta, de mudanças


D O

Márcia Chuva

serem incluídos na categoria de patrimônio e, principalmente, de esperança no Brasil


E V I S T A

cultural (cf. Canclini, 2007). e também no Iphan. Nesse contexto,


R

No Brasil, essas mudanças conceituais transformou-se o perfil dos quadros


ocorreram no contexto de abertura política da instituição, com a incorporação de
vivida no país associada à crise econômica profissionais de áreas diversificadas, como
da qual o Brasil não escapava. Os anos 1980 sociólogos e educadores do Centro Nacional
ficaram apelidados de a “década perdida” por de Referência Cultural – CNRC, arquitetos
economistas, devido ao péssimo desempenho e economistas do Programa das Cidades
da economia brasileira e aos altos índices Históricas – PCH e historiadores e arquitetos
82
inflacionários. Esse apelido, no entanto, contratados pela Fundação Nacional Pró-
desmerece as grandes conquistas políticas Memória. Os tipos de bens passíveis de
e sociais daquele momento memorável. A patrimonialização e as perspectivas sobre eles
Campanha das Diretas Já, em 1984 – ainda também se transformavam. O paradigma da
que derrotada –, e a promulgação da nova excepcionalidade do patrimônio nacional
Constituição Federal Brasileira, em 1988, que marcou a ação institucional passava
são eventos inesquecíveis, que estruturaram a conviver com a compreensão do bem
a vida democrática brasileira. José Sarney, como peça do cotidiano, do mundo do
último presidente da República eleito trabalho, de religiosidades não dominantes,
indiretamente por um colégio eleitoral,
terminou seu mandato, segundo Ana Cristina 6. O pleito de 1989 foi a primeira e única eleição que reuniu
tantos personagens marcantes da história brasileira. Estavam dis-
Teodoro da Silva (2003), com a imagem de putando a Presidência da República Ulysses Guimarães, Leonel
um presidente fraco, “impotente diante dos Brizola, Mário Covas, Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Collor
de Mello e Guilherme Afif Domingos, entre muitos outros.
eternos três dígitos nos índices anuais de Ainda fazia parte da disputa Paulo Maluf, candidato derrotado na
disputa presidencial de 1985, que elegeu Tancredo Neves e José
inflação”, no ano de 1989, em que ocorreram Sarney pelo colégio eleitoral, em uma eleição indireta.
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Márcia Chuva
RE V I S T A
dos subalternos e das minorias e, nem por e tradicional (1984) ou o dos Vestígios do Renda Irlandesa de
Divina Pastora,SE
Acervo: Iphan/
isso, menos significativo como referência de Quilombo dos Palmares, tombado no ano de Fabrícia de Oliveira Santos.

identidades e como fonte para a produção de 1986, em Alagoas, integrando novos sujeitos
conhecimento sobre a história do Brasil. à cena do patrimônio nacional. Também
O tombamento do Terreiro da Casa pode ser incluído nesse grupo o tombamento,
83
Branca, Ilê Axé Iyá Nassô Oká, de Salvador , em 1990, de 48 edificações na zona central
em 1984, tem sido recorrentemente apontado de Antônio Prado, no Rio Grande do Sul,
(Velho, 2006; Fonseca, 1997, entre outros) que, por sua vez, incorporou ao patrimônio
como emblemático das lutas para inclusão nacional uma expressão da colonização
de representações de grupos de identidade italiana. Essa proteção decorreu de demanda
diversificados na categoria de patrimônio advinda de técnicos, especialistas e setores
cultural brasileiro, por meio da demanda sociais, em busca de uma representação mais
de movimentos sociais que se apropriaram ampla e diversa da nação7.
dos instrumentos disponíveis, como o Em todos esses casos, os debates no
tombamento, em favor dos interesses das Conselho Consultivo, verificados por meio
minorias. Podem ser somados a esse contexto
tombamentos inovadores, como o da Fábrica 7. Esse tombamento não foi aceito de imediato pela população
de Vinho de Caju em João Pessoa, que incluiu local e foram realizados projetos de “educação patrimonial”, vista
então como meio para reduzir as tensões geradas pela ação insti-
as técnicas industriais utilizadas e, portanto, tucional. Sobre o assunto hoje, ver clipping do Ministério Público,
em 14/7/2009, em que foi instituído o tombamento voluntário:
uma expressão de modos de fazer popular https://www.mprs.mp.br/memorial/noticias/id18399.htm
das atas das reuniões, podem ser reveladores integrava um projeto mais amplo de
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

das posições dominantes e das visões de democratização da sociedade brasileira como


A C I O N A L

mundo em disputa naquele momento, bem um todo.


como da força dos movimentos sociais, Até 1980, o Iphan dispunha de duas
N

trazendo à luz sujeitos que por diferentes linhas editoriais, as séries Revista do
R T Í S T I C O

estratégias foram colocados na invisibilidade, Patrimônio e Publicações. Na gestão de


inclusive em função da censura feita à Renato Soeiro à frente do Iphan (1967-
A

imprensa pelo regime ditatorial. 1979) saíram apenas os números 16, 17 e


E

18 da revista, referentes aos anos de 1968,


I S T Ó R I C O

O antropólogo Gilberto Velho foi


membro do Conselho Consultivo da Sphan 1969 e 1978 (Thompson, Leal, Sorgine
enquanto diretor do Museu Nacional e e Teixeira, 2012). Desde sua criação, a
H
A T R I M Ô N I O

participou, em diversas situações, desses Fundação Nacional Pró-Memória investiu


debates. Em artigo na Revista do Patrimônio significativamente numa ação editorial,
Histórico e Artístico Nacional n 20, de 1984,
o começando por lançar em 1980 o livro
P

ele assinalava que democratizar a política Proteção e revitalização do patrimônio histórico


D O

Márcia Chuva

e artístico no Brasil – uma trajetória8. Como


E V I S T A

cultural no Brasil era, de fato, questão central


naquele momento e afirmava que tratado anteriormente (Chuva, 2009 e
R

2014), entendo que esse livro inaugurou uma


(...) a ampliação do próprio conceito de
perspectiva historiográfica sobre a preservação
patrimônio cultural e o enriquecimento e
do patrimônio cultural no Brasil, construindo
flexibilização dos meios e instrumentos de que
dispomos fazem parte de um projeto mais amplo,
uma narrativa que se consagrou e, ainda hoje,
de longo prazo, de democratização da sociedade tem lugar dominante.
brasileira (Velho, 1984:39). Essa publicação produziu uma narrativa
84
sobre a trajetória das políticas de proteção
Dizia ele que era preciso “levar em conta desenvolvidas pelo Iphan. Nela, as origens
com o devido peso a questão da diversidade”, da nação foram identificadas no período
bem como colonial, a autoridade de Rodrigo Melo
(...) discutir e levar em conta os costumes Franco de Andrade foi consagrada, bem
e valores dos grupos e segmentos sociais que como ficou estabelecida a tese de que a
ocupam posições subordinadas e hierarquicamente prática da preservação cultural deveria
inferiores na sociedade (idem:38). ser desempenhada pelo poder público. A
periodização das políticas de patrimônio
Se observarmos o conjunto de publicações
colocava as gestões de Rodrigo Melo
da instituição, do qual esse número da revista
Franco de Andrade e Aloisio Magalhães
faz parte, podemos nos surpreender com a
como responsáveis por sua fundação e
intensidade do investimento feito no sentido
da criação de canais de comunicação com a
8. Publicado pela então Secretaria do Patrimônio Histórico e
sociedade, nos quais se expunham diferentes Artístico Nacional – Sphan e Fundação Nacional Pró-Memória
– FNPM, como número 31 da série Publicações, interrompida
posições. Parece-nos que tal investimento em 1945.
modernização, respectivamente. Foram apresentava sua ideia do bem cultural como

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
denominadas de “fase heroica” e “fase algo

A C I O N A L
moderna” e, por meio dessa estratégia
(...) múltiplo como as manifestações culturais
discursiva, os doze anos de gestão de Renato
que emergem das estruturas sociais formadoras do
Soeiro, de 1967 a 1979, foram colocados

N
povo brasileiro, em que as suas produções culturais

R T Í S T I C O
na sombra. Nessa versão, o Iphan estaria seriam tão valorizadas quanto o espaço em que elas
esvaziado e enfraquecido no momento ocorrem10.

A
em que Aloisio Magalhães o assumiu. Há

E
algumas evidências, contudo, que mostram Por sua vez, a seção de cartas do Boletim

I S T Ó R I C O
o importante papel de Renato Soeiro à permitia o conhecimento de demandas e
frente da instituição: ele tinha assento no opiniões de um público que até então se

H
Conselho Federal de Cultura e no Conselho manifestava apenas de forma dispersa, sem

A T R I M Ô N I O
Consultivo do PCH, além de ter dirigido o dispor de um canal próprio de comunicação
Departamento de Assuntos Culturais – DAC, ou apresentação de demandas. Era esse,

P
a autarquia que sediava os programas PAC portanto, um espaço para questionamentos

D O

Márcia Chuva
e PCH, até 1974 (Azevedo, 2013 e Chuva em relação às práticas institucionais.

E V I S T A
e Lavinas, 2016). É fato que ambos, Renato Tais publicações, como o livro Proteção e

R
Soeiro e Aloisio Magalhães, desfrutaram de revitalização do patrimônio histórico e artístico
boas relações com setores do governo durante no Brasil - uma trajetória ou a coleção do
o regime militar. Boletim, são fontes ricas para investigação
O Boletim Sphan/Pró-Memória, editado da história das políticas institucionais de
mensalmente de 1979 a 1989 ,,foi uma 9 preservação do patrimônio no Brasil. Suas
publicação de tiragem bastante expressiva. narrativas são datadas, mas ainda ecoam
Welbia Carla Dias descreveu diversas de suas no presente, tendo sido disseminadas por
85
características, capazes de defini-la como um diferentes canais e autores. Joaquim de
espaço comunicativo. Para ela, Arruda Falcão foi um deles, ao afirmar que a
política cultural durante o regime militar teria
(...) o Boletim serviu como um espaço para
tido início somente com a criação do CNRC
discussão e compreensão de um período do
órgão repleto de questionamentos em relação aos e que o Iphan teria permanecido no “atraso
conceitos e às práticas preservacionistas (Dias, conceitual e metodológico” até a nova direção
2012:123). de Aloisio Magalhães (Falcão, 1984)11.
A Revista do Patrimônio criada em 1937
Servia também para divulgar as ações
– Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e
da instituição. No número zero do Boletim,
lançado em 1979, Aloisio Magalhães 10. Conforme analisado por Laís Lavinas, “a noção de cultura
apresentada no Boletim é (...) a cultura compreendida como um
‘processo global que não separa as condições do meio ambiente
9. No número 0/1979, o periódico chamou-se Boletim do Iphan. daquelas do fazer do homem’.”(Lavinas, 2014:157).
A partir do número 1, é denominado Boletim Sphan/Pró-Memória 11. Tais como Fonseca (1997), Gonçalves (2002). O debate
(da Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e da historiográfico mais recente conta com estudos sobre as políticas
Fundação Nacional Pró-Memória). Entre 1985 e 1987 o boletim culturais e de patrimônio dos anos 1970 (Lavinas, 2014, Pereira,
não foi publicado. Ver Dias (2012). 2009; Maia, 2010; Calabre, 2009).
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

86
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Convento

Nelson Kon.
Acervo: Iphan/
São Francisco
do Paraguaçu, BA
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Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
Artístico Nacional – também nos dá elementos do Capacete, e a morte de Chico Mendes12,
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para compreendermos o contexto recortado eventos que não podem ser banalizados, para
A C I O N A L

neste artigo. O primeiro número publicado que não percamos de vista a intensidade das
no período entre 1982 e 2002 saiu em 1984. conquistas daquele momento, em diversas
frentes.
N

Ele buscava desarrumar a fala canônica


R T Í S T I C O

dos estudos sobre o patrimônio publicados Por isso mesmo, enfatizamos o fato de
na revista até 1978. Em novo formato, o 1988 ter sido, também, o ano da Assembleia
A

projeto original da revista dispunha de novas Nacional Constituinte, que consagrou a


E

ampliação da noção de patrimônio cultural


I S T Ó R I C O

dimensões, muitas ilustrações e um desenho


moderno, ainda que tenha sido mantida sua no texto da nova Constituição Federal, com
finalidade de intercâmbio entre especialistas, a consolidação de uma perspectiva ampla
H

e plural da identidade brasileira e trazendo


A T R I M Ô N I O

como dito no editorial. O novo projeto criou


seções que permitiam a apresentação de um para a cena jurídico-política a noção de bens
culturais de natureza imaterial. Vale destacar,
campo dinâmico, ao garantir um espaço de
P

como já apontado, que essas conquistas


D O

debates com publicação de mesas redondas,


Márcia Chuva

foram possíveis devido à reunião de forças


E V I S T A

com falas múltiplas e posições multifacetadas


políticas de esquerda, partidos e grupos
e até dissonantes sobre as políticas de
R

de intelectuais, com o intuito de forjar


patrimônio (Thompson, Leal, Sorgine e
um conceito de patrimônio cultural que
Teixeira, op. cit.). O número 22 foi o último
favorecesse o exercício da cidadania, como
número nesse formato e saiu em 1987. Nele,
resultado de lutas e reflexões que vinham
o sociólogo Sergio Miceli apontou a questão
sendo processadas desde os anos 1970 (Telles,
da democratização dos modos de seleção e
2007 e Arantes, 2015).
exposição da cultura como ponto chave de
88 qualquer política de patrimônio em termos
A CONSTITUINTE –
globais e, em especial, no Brasil, tema delicado
NOVOS SUJEITOS EM CENA
no contexto de abertura política do país. Para
ele, as políticas de Estado de âmbito cultural Desde a Constituição Brasileira de
deveriam assegurar a representatividade de 1934, o amparo à cultura é tratado como
diferentes setores e movimentos sociais que dever do Estado; o direito de propriedade
fossem direta ou indiretamente por elas está subordinado ao interesse social ou
atingidos (Miceli, 1987). coletivo, cabendo à União, aos estados e aos
Numa perspectiva mais ampla do processo municípios proteger os objetos de interesse
de abertura política brasileira, vimos sujeitos histórico e o patrimônio artístico do país.
ligados a minorias e movimentos sociais As constituições brasileiras subsequentes
ocupando dramaticamente as manchetes e anteriores à Constituição de 1988
dos jornais. O ano de 1988 foi marcado por
acontecimentos chocantes, como o massacre 12 . Líder sindical, seringueiro e ambientalista, Chico Mendes foi
assassinado em sua própria casa, em Xapuri, no Acre. Em 2011, o
dos índios Tikuna, chamado de Massacre Iphan tombou esse imóvel, em homenagem à sua memória.
reproduziram essas ideias com pequenas § 1º - O poder público, com a colaboração da

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variações. Nos 42 anos que separam a comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio
cultural brasileiro, por meio de inventários,

A C I O N A L
Constituição Democrática de 1946 da
registros, vigilância, tombamento e desapropriação,
Constituição Cidadã de 1988, o campo
e de outras formas de acautelamento e preservação.
do patrimônio se ampliou, se tornou mais

N
§ 2º - Cabem à administração pública, na forma

R T Í S T I C O
complexo e o texto Constitucional de 1988 é
da lei, a gestão da documentação governamental
revelador desse percurso. Nele encontramos e as providências para franquear sua consulta a

A
traços desse tempo percorrido e das lutas quantos dela necessitem.

E
a ele coevas, nos extensos artigos 215 e

I S T Ó R I C O
§ 3º - A lei estabelecerá incentivos para a produção
216, bem como no artigo 68 do Ato das e o conhecimento de bens e valores culturais.
Disposições Constitucionais Transitórias – § 4º - Os danos e ameaças ao patrimônio cultural

H
ADCT. Considerando nosso recorte temporal serão punidos, na forma da lei.

A T R I M Ô N I O
e a importância do assunto, optamos por § 5º - Ficam tombados todos os documentos e os
sítios detentores de reminiscências históricas dos
reproduzi-los aqui. São eles, tal como
antigos quilombos.

P
promulgado em 1988:

D O
ADCT - Art. 68 - Aos remanescentes das

Márcia Chuva
E V I S T A
Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno comunidades dos quilombos que estejam
exercício dos direitos culturais e acesso às fontes ocupando suas terras é reconhecida a propriedade

R
da cultura nacional, e apoiará e incentivará a definitiva, devendo o Estado emitir-lhes títulos
valorização e a difusão das manifestações culturais. respectivos.
§ 1º - O Estado protegerá as manifestações das
culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, Através desses dispositivos, a Constituição
e de outros grupos participantes do processo Federal Brasileira consagrou a tese da
civilizatório nacional. diversidade cultural, ao considerar a
§ 2º - A lei disporá sobre a fixação de datas importância da contribuição dos “diversos
comemorativas de alta significação para os grupos formadores da sociedade brasileira” e 89
diferentes segmentos étnicos nacionais. a necessidade de proteção e salvaguarda do
Art. 216 - Constituem patrimônio cultural
patrimônio cultural de natureza material e
brasileiro os bens de natureza material e imaterial,
imaterial pertencente a esses diferentes grupos.
tomados individualmente ou em conjunto,
portadores de referência à identidade, à ação, à A noção de “grupos formadores” cumpriu
memória dos diferentes grupos formadores da um papel crucial em termos discursivos, no
sociedade brasileira, nos quais se incluem: sentido da inclusão e do reconhecimento da
I - as formas de expressão; diversidade cultural brasileira.
II - os modos de criar, fazer e viver; Refletindo sobre a eficácia da noção de
III - as criações científicas, artísticas e tecnológicas;
“grupo” após o transcurso de algumas décadas
IV - as obras, objetos, documentos, edificações
e das novas configurações do campo, alguns
e demais espaços destinados às manifestações
artístico-culturais;
dos efeitos da sua apreensão como algo
V - os conjuntos urbanos e sítios de valor permanente podem ser verificados na prática
histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, de seleção de bens culturais como patrimônio:
paleontológico, ecológico e científico. se por um lado essas práticas ampliaram
significativamente o universo de bens modos de pertencimento a essa categoria.
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tombados, com elementos de representação Diferentes significados a ela atribuídos foram


A C I O N A L

do imigrante, do afrodescendente ou do confrontados ao longo dos anos 1990 até


indígena, por outro, ficou evidente o objetivo alcançar o (relativo) consenso da atualidade.
Como vimos anteriormente, os
N

de somar grupos distintos, como se fosse


R T Í S T I C O

possível alcançar uma totalidade, isto é, um movimentos sociais que reivindicavam


somatório de diferenças prontas. Esse modo direitos civis e culturais ganharam força nas
A

de perceber a realidade levou à colocação de ruas, na imprensa, na mídia e as agências


E

brasileiras de preservação (nos planos


I S T Ó R I C O

uma falsa pergunta, repetida em diferentes


situações: como contemplar todos os grupos federal, estadual e municipal) começaram
que constituem a nação? Isso só seria possível a enfrentar demandas para proteção e
H

valorização das artes e dos ofícios cultivados


A T R I M Ô N I O

se tais grupos fossem tipificados e estanques.


Os grupos formadores da sociedade brasileira por setores populares, populações afro-
são configurações históricas, portanto, brasileiras e nações indígenas (Arantes,
P

mutáveis, sempre em processo de formação e 2009). Naquele momento, o que estava em


D O

Márcia Chuva

transformação13. jogo era a plena inclusão dessas camadas


E V I S T A

Por sua vez, o parágrafo 5º do Art. da sociedade no processo político formal,


R

216 e o Art. 68 do ADCT consagraram os no sentido de reconquistar seus direitos de


remanescentes de quilombos como objeto cidadania. Suas demandas, amplificadas pela
de reconhecimento e proteção por parte do redemocratização do país, estimularam uma
Estado e colocaram em foco comunidades revisão crítica dos valores que ao mesmo

até então ignoradas pelas políticas de tempo fundamentavam e eram promovidos


pelas políticas públicas de patrimônio14.
patrimônio no Brasil, envolvendo o Iphan
Veremos então, a seguir, como
90 em políticas afirmativas e de reparação
foram produzidas novas realidades no
que não faziam parte do escopo de sua
campo institucional do patrimônio, que
atuação. Os debates que se sucederam à
interpretou as expectativas geradas pelo texto
Constituinte em relação ao texto do art. 68
constitucional, (re)configurando suas práticas
do ADCT e, especificamente, em relação ao
dentro dos limites históricos do Brasil nos
conceito de quilombo revelaram problemas
anos 1990.
de natureza política e epistemológica. A
Para isso, vamos destacar três noções
impossibilidade de serem inventariados todos
criadas, ou ressemantizadas, no contexto
os quilombos do Brasil mostrava a imprecisão
em análise que nos parecem centrais para a
do conceito e colocava em xeque
narrativa que vimos construindo: referência
algumas das interpretações
cultural, quilombo e cidade-documento.
vigentes a seu respeito, como
Ao refletir sobre a apropriação dessas
também trazia à cena os
14. Esse aspecto tem sido abordado por caminhos diferentes, tais
13. Para aprofundar esse como Fonseca, 1997; Marins, 2016; Chuva, 2012; Nascimento,
debate, ver Canclini, 2007. 2012, dentre outros.
noções nos anos 1980 e 1990, veremos a noção refere-se aos sujeitos de atribuição de

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
configuração de novos objetos passíveis de valor de patrimônio e não à natureza dos

A C I O N A L
se tornarem patrimônio, novos problemas bens tornados patrimônio. Desse modo,
a serem enfrentados e novas abordagens é possível afirmar que isso significou uma
sobre antigos objetos patrimoniais. Esses

N
importante inversão na lógica consagrada

R T Í S T I C O
elementos indicam que os paradigmas do dos processos de patrimonialização, fundada
campo do patrimônio estavam (e estão) sendo na ideia de que os objetos teriam valores

A
redesenhados (Chuva, 2014). intrínsecos. (Chuva, 2012).

E
Contudo, esse entendimento, tal

I S T Ó R I C O
NOVOS OBJETOS – A NOÇÃO como apresentado por Fonseca, não estava
D E R E F E R Ê N C I A C U LT U R A L plenamente desenhado na década de 1980 e,

H
A T R I M Ô N I O
quiçá, 1990. Em sua tese, Lia Motta (2017)
Essa noção, introduzida pelo Centro faz uma interessante revisão historiográfica
Nacional de Referência Cultural, teve papel e, com uma abordagem inovadora e farto

P
decisivo na virada que viabilizou a ampliação material empírico, percebe que a noção de

D O

Márcia Chuva
da noção de patrimônio cultural no Brasil e, referência cultural dos anos 1970 era mais

E V I S T A
com ela, a inclusão de novos objetos passíveis uma marca e bem menos um conceito. A

R
de serem reconhecidos como tal. Ela foi referência cultural era uma categoria em
também fundamental para a inclusão dos construção. São as lutas de representação em
grupos sociais como sujeitos no processo de torno da legitimidade do patrimônio e dos
seleção desse patrimônio. Formulada nos sujeitos de atribuição de valor, processadas
anos 1970, aparece no texto constitucional, ao longo daquelas duas décadas, que vão
através da noção de referência, que consta conferir sentido e encorpar os significados da
no caput do Art. 216, ao lado da definição de noção de referência cultural, até que se torne
91
patrimônio como “bens de natureza material uma categoria operacional, na metodologia
ou imaterial”. Ao indicar a necessidade de do Inventário Nacional de Referências
“colaboração da comunidade” nas ações Culturais – INRC, elaborada em 200015.
de promoção e proteção ao patrimônio, Sem dúvida, seus significados na atualidade
empreendidas pelo Estado, a Constituição dão consistência e operacionalidade à ideia
também inova por incluir outros agentes no dos novos sujeitos de atribuição de valor de
processo que, até então, era monopolizado na patrimônio. Isto é, os produtores, detentores
fala do Estado e de seus especialistas. e/ou agentes da cultura foram incluídos no
Os sentidos históricos dados à noção de
processo de reconhecimento e valorização da
referência cultural, principalmente a partir
prática cultural, transformando os processos
da implantação do Decreto no 3.551/2000,
estabeleceram uma associação quase que 15. O antropólogo Antonio Augusto Arantes coordenou a
exclusiva com o patrimônio imaterial, que equipe responsável pela concepção da metodologia do Inventário
Nacional de Referências Culturais, contratado pelo Iphan para
não estava prevista na Constituição. Para desenvolvimento do Projeto Piloto no Museu Aberto do Desco-
brimento, Porto Seguro, em 1999-2000. Foi presidente do Iphan
Maria Cecília Londres Fonseca (2003), a de 2004 a 2006.
de construção de legitimidade do patrimônio à cultura do imigrante, restritos ao sul do
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

e, com eles, as regras de atribuição de valor país, reproduzindo-se um pensamento


A C I O N A L

de patrimônio. modernista e colonial, ainda que por meio da


Historicamente, isso se processou com inclusão de bens de tipologias inovadoras.
a inclusão de novos objetos na categoria de No mesmo contexto em que esses
N
R T Í S T I C O

patrimônio cultural brasileiro, para atender estudos de tombamento de terreiros eram


a demandas de setores que encontraram nas realizados, ocorria uma mobilização para
A

políticas de patrimônio e no instrumento que fossem debatidos os encaminhamentos


E

do tombamento uma ferramenta na luta por da Constituição relativos ao patrimônio


I S T Ó R I C O

direitos culturais, direito à memória e imaterial. O Departamento de Identificação


à identidade. e Documentação do Iphan, o DID16, teve
H

Ideias inauguradas nos anos 1980, protagonismo na coordenação desse debate


A T R I M Ô N I O

contudo, não se tornaram hegemônicas na e em torno dele juntaram-se técnicos


década seguinte, como tratou Paulo Cesar anteriormente envolvidos com os estudos e a
P

Garcez Marins (2016). Podemos afirmar, salvaguarda da cultura popular e do folclore,


D O

Márcia Chuva

portanto, que a ampliação da noção de por um lado, e da referência cultural por


E V I S T A

patrimônio cultural – como algo processual outro, isto é, do Centro Nacional do Folclore
R

e dinâmico, cotidiano e diverso e sujeito e do antigo CNRC, respectivamente. Entre


a sentidos variados e mesmo conjunturais os eventos significativos desse período, vale
– se deu de modo lento, controvertido destacar a realização do VIII Congresso
e nada linear. Quantitativamente, os Brasileiro do Folclore, em 1995, que lançou
tombamentos diminuíram nos anos 1990, a Carta do folclore brasileiro, reabilitando essa
correspondendo a apenas 42% do número de noção, e trouxe agências e agentes para a
tombamentos realizados nos anos 1980. Mas cena das políticas de patrimônio. Vale dizer
92
nesse período, conforme dados de Marins que, em 1996, a museóloga Célia Corsino,
, diferentes religiões foram contempladas com trajetória no campo da cultura popular,
com tombamentos, como o Terreiro Axé assumiu a direção do DID. Esse foi um
Opô Afonjá em Salvador (2000) e o da Torá momento importante de reconfiguração de
do Museu Nacional (1999). Ao produzir redes de agentes e de posições, bem como de
esses dados sobre os anos 1990, o autor construção das conexões entre os campos do
acredita que o “paradigma modernista” de patrimônio e do folclore e cultura popular.
entendimento da nação forjado nos anos A partir do seminário internacional
1930 teve continuidade, embora com fissuras Patrimônio Imaterial: Estratégias e Formas
importantes provocadas nos anos 1980. de Proteção, organizado pelo Iphan em
Segundo Marins (2016), isso fica ainda mais Fortaleza, em 1997, uma série de medidas
evidente ao analisar a distribuição territorial foi tomada e redundou na criação da política
dos bens tombados nos anos 1990, pois os
bens relacionados à cultura afrodescendente 16. De 1986 a 1990, funcionava como Coordenadoria de
Registro e Documentação – CRD; de 1990 a 2003, como Depar-
ficaram restritos à Bahia e aqueles vinculados tamento de Identificação e Documentação – DID.
de patrimônio imaterial no Brasil17. Na Iphan antes de 1988 era de sítio

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forma de um texto normativo, o Decreto n o
arqueológico, logo, sua gestão não envolvia

A C I O N A L
3.551/2000 pode ser visto como o fato síntese relações com sujeitos de identidade
que encerra esse período, com a criação do quilombola no presente. O debate
para a inclusão dessa temática no texto

N
Programa Nacional de Patrimônio Imaterial.

R T Í S T I C O
Os seus efeitos se fizeram sentir a partir de constitucional envolveu diferentes setores
2002, ano do primeiro registro realizado . 18 da sociedade e foi relatado pelo referido

A
Novos objetos só poderiam ter surgido antropólogo, que, na época, era presidente

E
da Associação Brasileira de Antropologia –

I S T Ó R I C O
porque socialmente se configuraram novos
problemas e novas abordagens foram ABA. Termos como quilombo, remanescentes
propostas. Os dados produzidos por de quilombo, quilombolas, adotados na

H
Constituição, colocaram em debate o

A T R I M Ô N I O
Marins (idem) acima apresentados são, sem
dúvida, expressivos. Contudo, observar as reconhecimento da existência de grupos
políticas de patrimônio exclusivamente pelo detentores de modos de vida específicos

P
tombamento pode limitar o olhar sobre associados à vivência da territorialidade

D O

Márcia Chuva
e da diferenciação étnica, em oposição
uma realidade mais complexa. Buscaremos

E V I S T A
à perspectiva passadista e de abordagem
apontar, a seguir, outros aspectos das políticas
arqueológica que predominava entre

R
dos anos 1990 que são fruto das inovações
legisladores e também no Iphan.
conceituais e políticas forjadas nos anos 1980,
A concepção de quilombo
evidenciando também descontinuidades com
contemporâneo, que a ABA sistematizou em
o paradigma modernista.
um documento datado de 1994, subsidiou
os debates que levaram à regulamentação
NOVOS PROBLEMAS –
do Art. 68 da ADTC, quase uma década
A NOÇÃO DE QUILOMBO 93
depois, em 2003, como citado por Eliane
O’Dwyer:
Para a reflexão sobre os novos problemas,
voltamos ao texto constitucional, no que se Contemporaneamente, portanto,
refere aos quilombos e suas relações com o o termo Quilombo não se refere a
resíduos ou resquícios
campo do patrimônio. Segundo Antonio
arqueológicos
Augusto Arantes (2015), a concepção
de ocupação
predominante da categoria “quilombo” no temporal ou de
comprovação
17. A Comissão foi criada pela Portaria nº 37, de 4 de março de biológica.
1998, com a finalidade do estabelecimento de critérios, normas
e formas de acautelamento do patrimônio imaterial brasileiro e Também não se
o Grupo de Trabalho, cuja finalidade era dar assessoramento à
referida Comissão, foi criado pela Portaria nº 229, de 6 de julho
trata de grupos
de 1998, ambas assinadas pelo Ministro da Cultura Francisco isolados ou de
Weffort (Iphan, 2003). Sobre a composição dos dois grupos
citados, ver também Iphan, 2003. uma população
18. Em 2002, ocorreram os primeiros registros de patrimônio estritamente
cutural de natureza imaterial: o Ofício das Paneleiras de Goiabei-
ras, Vitória (ES) e a Arte Gráfica dos Índios Wajãpi, no Amapá. homogênea.
Baiana
Acervo: Iphan/
Da mesma forma nem sempre foram constituídos Convocado a posicionar-se nesse
Francisco Costa. a partir de movimentos insurrecionais ou rebelados debate e responder às novas determinações
mas, sobretudo, consistem em grupos que constitucionais, em especial ao parágrafo 5º
94 desenvolveram práticas cotidianas de resistência na
do Art. 216, o Iphan apresentou, em 1998,
manutenção e reprodução de seus modos de vida
um parecer técnico que mantinha a posição
característicos e na consolidação de um território
institucional restrita às situações em que
próprio (Abant, 1994, apud O’Dwyer, 2002).
fossem encontrados vestígios materiais de
Em 1995, ano das comemorações dos existência dos antigos quilombos. A partir
trezentos anos da morte de Zumbi dos daí a instituição desenvolveu uma série de
Palmares, a temática quilombola conseguiu estudos e foram abertos onze processos de
entrar na pauta nacional, demarcando o tombamento, dos quais foi tombado somente
início de uma batalha jurídica e legislativa o bem relativo ao processo dos Remanescentes
que seria travada no Congresso brasileiro do Antigo Quilombo do Ambrósio. Nesse
(Arruti, 2008). Nesse mesmo ano, os caso, foram identificados restos arqueológicos,
conflitos fundiários tornaram-se manchete bem como marcos geográficos e referências
nacional com o massacre de Corumbiara, históricas da existência de quilombo
em Rondônia, e, em 1996, o massacre do constituído de negros fugidos do sistema
Eldorado dos Carajás, no Pará. escravista no local (Vaz, 2016).
Naquele momento, o Iphan eximia-se do representativa da comunidade, cabendo ao

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
debate sobre a questão fundiária, o direito à Instituto Nacional de Colonização e Reforma

A C I O N A L
terra por remanescentes de comunidades de Agrária –Incra a responsabilidade sobre a
quilombos no presente e, portanto, sobre o regularização fundiária das comunidades
quilombolas19. Desse modo, como apontou

N
próprio cerne do Art. 68, da ADTC, cujo

R T Í S T I C O
enfrentamento fervilhava no Congresso. José Maurício Arruti, a noção de “terra”
Em 2001, Fernando Henrique Cardoso ganhou a dimensão conceitual de território,

A
assinou o Decreto n 3.912, que acabou
o pois nela se incluem:

E
não tendo efetividade, porque foi julgado

I S T Ó R I C O
(...) não só a terra diretamente ocupada no
inconstitucional pelo Ministério Público, momento específico da titulação, mas todos os
por estabelecer um prazo excessivamente espaços que fazem parte de seus usos, costumes e

H
A T R I M Ô N I O
curto para apresentação de demandas de tradições e/ou que possuem os recursos ambientais
regularização fundiária quilombola e por necessários à sua manutenção e às reminiscências
exigir que as comunidades comprovassem históricas que permitam perpetuar sua memória

P
uma história de cem anos de “posse pacífica” (Arruti, 2008:23).

D O

Márcia Chuva
da terra, desde 13 de maio de 1888 até a data

E V I S T A
Especialmente com a implantação das
de promulgação da Constituição de 1988. políticas de patrimônio imaterial, essa questão

R
Essa batalha judicial que se arrastava há tornou-se central em diversas situações
mais de uma década só teria novo desfecho de registro e de inventário, passando a ser
em 2003, com a assinatura do Decreto compreendida e enfrentada também no
no 4.887 por Luiz Inácio Lula da Silva, Iphan por meio do conceito de quilombo
que regulamentou o procedimento para contemporâneo20.
identificação, reconhecimento, delimitação, Na rede de agências e agentes envolvidos
demarcação e titulação das terras ocupadas com a questão jurídico-legal quilombola, vale 95
por remanescentes das comunidades destacar a Fundação Cultural Palmares, que
dos quilombos. O decreto consagrou o se tornou responsável pela certificação das
significado de quilombo contemporâneo, em comunidades quilombolas que a reivindicam,
seu Art. 2º: antes que o Incra procedesse à regularização
da posse da terra para tais comunidades.
Consideram-se remanescentes das
A fundação é vinculada ao Ministério da
comunidades dos quilombos, para os fins deste
decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios Cultura, tal como o Iphan, sendo que as duas
de autoatribuição, com trajetória histórica própria, instituições puderam estreitar relações de
dotados de relações territoriais específicas, com parceria a partir da implantação do Decreto
presunção de ancestralidade negra relacionada com no 3.551/2000.
a resistência à opressão histórica sofrida.
19. Percebem-se nessa definição traços semelhantes àqueles que
O decreto prevê a possibilidade de serão definidos posteriormente no Decreto no 3.551/2000, para a
Salvaguarda do Patrimônio de Natureza Imaterial.
desapropriações e estabelece que a titulação 20. Esse foi o caso, por exemplo, do Jongo no Sudeste, que foi
inventariado em conformidade com a metodologia do INRC e foi
deva se efetuar em nome de entidade registrado no Livro de Registro das Formas de Expressão em 2005.
Haja vista os conflitos de interesses Os princípios que regem essa categoria
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

nesse campo, o conceito e as políticas foram lançados no parecer de tombamento


A C I O N A L

implementadas não alcançaram a estabilidade da cidade de Laguna, em Santa Catarina, em


esperada, conforme entendimento de Arruti 1985, elaborado pelo arquiteto do Iphan Luiz
(2008), sendo recorrentemente apresentados
N

Fernando Franco (Fonseca, 1997 e Franco,


R T Í S T I C O

projetos de lei no Congresso Nacional com o 1995). A área urbana de valor patrimonial
intuito de derrubar o Decreto n 4.887/2003.
o
passava a ser concebida como documento
A

Essas tensões refletem a frágil legitimidade capaz de narrar a história da rede de cidades
E

conquistada pelas comunidades quilombolas que se constituiu desde o processo inicial


I S T Ó R I C O

diante da sociedade brasileira. de colonização no Brasil. Verificou-se ali


A inserção dessa temática no campo a valorização da forma do sítio urbano
H

do patrimônio no início nos anos 1990


A T R I M Ô N I O

(vestígios materiais urbanos) como fonte de


contribuiu fortemente com os novos investigação de processos sociais e culturais
paradigmas que colocaram a temática do de construção do espaço e, desse modo, o
P

patrimônio como direito e como instrumento valor histórico tornou-se crucial na seleção de
D O

Márcia Chuva

de reparação. cidades ou trechos urbanos nos tombamentos


E V I S T A

realizados especialmente nos anos 1980, mas


N O VA S –
R

ABORDAGENS também com efeitos na década seguinte21.


A NOÇÃO DE CIDADE- As cidades, que logo no início da ação
DOCUMENTO institucional foram patrimonializadas
numa perspectiva estética e pautada na
Novos objetos, novos problemas são fruto excepcionalidade como o valor maior do
também de novas abordagens que tiveram patrimônio, passavam a ser vistas como
lugar nesse contexto. Elas podem se referir aos um documento impresso no território que
96
olhares distintos que foram lançados sobre deveria ser preservado para a produção de
objetos tradicionalmente patrimonializados.
conhecimento sobre a história da ocupação
Para tratar esse tema, optamos por trazer
do território brasileiro. A convivência dessas
o conceito de cidade-documento como a
diferentes posições no interior da instituição
abordagem que predominantemente orientou
pode ser percebida nos pareceres técnicos e nas
processos de patrimonialização de cidades,
dissonâncias presentes dentro do Conselho
nos anos 1980. Embora sem presença
Consultivo, especialmente ao se observar
explícita no texto constitucional, essa noção
os bens cujo tombamento foi rejeitado ou
ganhou aplicabilidade e consistência nas
aprovado sem unanimidade. O quadro geral
ações de inventário que proliferaram nos
de bens tombados e rejeitados no período é
anos 1990, como veremos a seguir, dando
indício desses confrontos. (Nascimento, 2012).
concretude a um dos cinco instrumentos
de proteção do patrimônio, listados no 21. Para conhecer a trajetória das políticas de proteção de cidades
mencionado Art. 216: inventários, registros, históricas no Brasil, a partir da ação do Iphan, bem como um apro-
fundamento sobre o conceito de cidade-documento e sua relação
vigilância, tombamento e desapropriação. em oposição ao de cidade-monumento, ver Sant’Anna, 2014.
Em relação aos tombamentos de Bens Imóveis: Sítios Urbanos Tombados –

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
exemplares de arquitetura moderna, Flávia INBI-SU, ele próprio uma nova proposta de

A C I O N A L
Nascimento (2016) indica uma importante abordagem do bem patrimonializado.
inflexão nesse momento, tendo em vista que Veremos então, a seguir, como essa
os primeiros tombamentos desse tipo de bem nova abordagem metodológica levou à

N
R T Í S T I C O
se deram até 1967, ligados à escola carioca de compreensão da cidade histórica como um
arquitetura moderna, logo após terem sido bem em processo dinâmico, constituído

A
construídos. Nos tombamentos ocorridos pelos sujeitos que nela habitam. Deixava

E
nos anos 1980, segundo a autora, começa a de ser, portanto, um bem do passado – que

I S T Ó R I C O
haver uma percepção distinta desse tipo de deve ser protegido da destruição – para
bem, na qual a arquitetura moderna passa a tornar-se um bem apropriado pelos sujeitos

H
ser vista como história e não como partido do presente, devendo ser negociadas as

A T R I M Ô N I O
arquitetônico em disputa. formas dessa apropriação e preservação.
É também nos anos 1980 que a gestão Naquele contexto, os caminhos encontrados

P
do bem tombado consagra-se como um para tal foram os inventários.

D O

Márcia Chuva
problema incontornável a ser abordado,

E V I S T A
tendo em vista o enorme acervo de bens OS PA D R Õ E S N A C I O N A I S
DE INVENTÁRIO: NOVOS

R
tombados, as dificuldades para a fiscalização
da sua conservação e a evidência dos INSTRUMENTOS DE
processos de crescimento das cidades, P R E S E R VA Ç Ã O
inclusive aquelas tombadas. O estudo de
Lia Motta sobre Ouro Preto, publicado na O ano de 1989 foi decretado Ano
Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Inventário, durante a gestão
Nacional n 22, de 1987, estabeleceu
o
de Ítalo Campofiorito como presidente do
97
parâmetros importantes para o debate Iphan. Esse evento anunciava as prioridades
sobre a gestão das cidades tombadas e da década seguinte.
servirá de ponte para refletirmos sobre os Após o desmonte do setor cultural
inventários. Embora o conceito de cidade- promovido pelo meteórico governo de
documento tenha sido inaugurado com os Fernando Collor de Mello, momento que
estudos de tombamento, como já vimos, ele apontamos como importante inflexão no
também foi utilizado nos inventários que campo do patrimônio, a sequência da década
se desenvolveram para subsidiar a gestão de 1990 foi marcada pelos oito anos de
do patrimônio tombado. Por isso, além dos governo neoliberal de Fernando Henrique
novos tombamentos de cidades, vale dizer Cardoso na presidência da República.
que as cidades com tombamentos anteriores, Marco Aurélio Santana (2003) afirma
cujos atributos apontados eram de ordem que ao mesmo tempo em que a mídia fazia a
estética, foram revisitadas sob a perspectiva defesa aberta do neoliberalismo, visto como
documental, especialmente, através da única alternativa para a crise econômica
metodologia do Inventário Nacional de global, o movimento sindical brasileiro sofria
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

98
Márcia Chuva Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
significativo refluxo, comparativamente ao regional em cada estado da federação

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
ressurgimento que teve no início dos anos (Motta: 2015).

A C I O N A L
1980. Vale dizer que no período surgiram Como vimos até aqui, ocorreram alterações
também as primeiras leis visando a indenização de ordem conceitual, que pretendiam romper
das famílias de opositores da ditadura militar a com as concepções hegemônicas civilizadoras.

NR T Í S T I C O
partir do reconhecimento de crimes de tortura Conhecer, identificar, documentar tornavam-
e morte cometidos contra eles pelo Estado. se ações tão importantes para a preservação

A
Foram emblemáticos os casos de Carlos do patrimônio quanto proteger e conservar.

E
Lamarca e Carlos Marighella (Prado, 2004). O inventário passava a ser um modo de

I S T Ó R I C O
Segundo Santana, “Fernando Henrique preservação do patrimônio cultural, segundo a
assumirá como insígnia de seu governo tese defendida por Paulo Ormindo de Azevedo,

H
‘o fim da era Vargas’ e de tudo o que ela ainda nos anos 1980 (Azevedo, 1987).

A T R I M Ô N I O
representava” (2003:302). Na economia, foi o Havia experiências de inventários de
início de um processo tanto de flexibilização varredura, em escala regional (Motta e

P
das leis trabalhistas e da Consolidação das Rezende, 1998), mas foi nos anos 1980 que

D O

Márcia Chuva
Leis do Trabalho – CLT, responsabilizada teve início o desenvolvimento de metodologias

E V I S T A
então por dificultar a geração de empregos, de inventário para aplicação em nível nacional,
com a preocupação voltada para subsidiar

R
por causa dos encargos patronais por ela
gerados, quanto de redução do Estado, nos a gestão do bem tombado, cada vez mais
moldes da cartilha neoliberal. atingido pelas pressões do crescimento urbano,
Nessa esteira, uma série de medidas buscando, ao mesmo tempo, dar transparência
atingiu a gestão de Francisco Weffort no às ações institucionais e assistir às demandas
Ministério da Cultura, que manteve um das populações atingidas.
pequeno quadro de funcionários, bem As metodologias que foram então
concebidas tiveram larga aplicação no período, 99
como uma estrutura institucional reduzida.
Nenhuma Superintendência Estadual do principalmente por constituírem a principal
Iphan surgiu após 1990, ano de criação da ação de fortalecimento institucional do
Superintendência do Paraná, até 2002, ano Programa Monumenta (Duarte, 2010). Foram
de criação da Superintendência do Distrito elas o Inventário Nacional de Bens Móveis
Federal. Esses dados tornam-se expressivos e Integrados – INBMI (com o objetivo de
se considerarmos a ampliação das atribuições controle do tráfico ilícito de bens culturais) e
institucionais que a Constituição Federal o Inventário Nacional de Bens Imóveis: Sítios
havia produzido. Significativos, também, Urbanos Tombados – INBI-SU (aplicado em Matriz de Tiradentes, MG
Acervo: Iphan/
Nelson Kon.
comparativamente, pois nos anos 1980 cidades tombadas)22.
haviam sido criadas as superintendências
22. O INBMI foi financiado por um convênio estabelecido com
do Ceará (1982), do Amazonas (1987) e a Fundação Vitae. O INBI-SU foi executado com recursos do
de Sergipe (1989) e, entre 2004 e 2009, Iphan e, posteriormente, com Recursos do Programa Monumen-
ta/BID, foi aplicado em inúmeras cidades tombadas. O manual
foram criadas mais onze superintendências, da metodologia e alguns resultados do INBI-SU foram parcial-
mente reproduzidos nas Publicações do Senado Federal (Rezende,
concluindo a meta de uma representação 2007, 2007a, 2007b, 2007c).
O INBI-SU adotava a noção de O
Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

PAT R I M Ô N I O D E
cidade-documento. Compreendendo a DUAS DÉCADAS
A C I O N A L

cidade como um organismo dinâmico,


buscava registrar a apropriação dos traços Nossa Constituição Cidadã é o maior
N

materiais por sua população e desenvolvia- patrimônio destacado na narrativa aqui


R T Í S T I C O

se por meio de levantamentos físico- construída. Ela condensa e sistematiza


arquitetônicos, sociológicos e de pesquisa conceitos e anseios fortemente enraizados
A

histórica sobre a forma urbana, bem na sociedade civil nos anos 1980, como
E
I S T Ó R I C O

como sobre o estado de conservação dos buscamos apontar. A partir do texto


imóveis. Para cada tipo de levantamento, constitucional, exploramos os modos
formulários padrões eram utilizados. Uma como alguns aspectos centrais foram sendo
H
A T R I M Ô N I O

quantidade significativa de dados foi regulamentados e conduzidos, produzindo


então levantada em formato analógico. novas realidades no universo do patrimônio.
Com a aplicação da metodologia do As práticas do campo institucional
P

INBI-SU em larga escala, a partir de do patrimônio estavam limitadas pela


D O

Márcia Chuva

recursos do Programa Monumenta, singularidade histórica do país. E sobre


E V I S T A

pretendia-se superar as dificuldades de elas buscamos enfatizar aspectos que


R

estabelecimento de padrões que fossem tivessem produzido mudanças com efeitos


objetivos e transparentes na gestão dos duradouros. Nesse sentido, apontamos nas
sítios tombados, em relação às demandas políticas do Iphan dos anos 1990 aquelas
dos moradores em suas casas23. que estiveram relacionadas a inovações
Como resultado das novas abordagens conceituais e políticas forjadas na década
sobre um bem tradicionalmente protegido anterior, para evidenciar descontinuidades
como patrimônio – as cidades históricas com o paradigma modernista, mostrando que
100
–, consagrou-se a necessidade de as noções de referência cultural, quilombo
e cidade-documento constituíram-se como
estabelecimento de padrões nacionais de
novas chaves de entendimento e de ação no
inventários. As metodologias que foram
campo do patrimônio.
desenvolvidas nas décadas seguintes partiram
Com isso, pretendíamos corroborar
do consenso acerca da necessidade do
com as teses que admitem haver mudanças
estabelecimento de padrões nacionais e do
significativas dos paradigmas do campo
envolvimento das populações atingidas,
do patrimônio, por meio da ocorrência
afetadas, detentoras, enfim, produtoras do
de uma série de movimentos que colocam
patrimônio, seja ele de natureza material
a temática do patrimônio no âmbito dos
ou imaterial.
direitos cidadãos e mais, como instrumento
de reparação e de políticas afirmativas. Não
falamos em patrimônio na atualidade sem
falar sobre direito à memória e ao respeito à
23. Sobre o Programa Monumenta, ver Duarte, 2010 e
Giannecchini, 2014. pluralidade de identidades, assuntos que nos
anos 1980 estavam ganhando forma, como REFERÊNCIAS

Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2
vimos nas palavras de Gilberto Velho (1984).

A C I O N A L
As políticas de patrimônio, portanto, AGUIAR, Marco Alexandre. As décadas de 80 e
90: transição democrática e predomínio neoliberal.
não visam mais propriamente evitar a
Contemporâneos – Revista de Artes e Humanidades, nº 7,
destruição do passado, elas estão enraizadas

N
nov-abril, 2011.

R T Í S T I C O
na vida, no presente. Também não parece ARANTES, Antonio Augusto. “Sobre inventários e
possível falar em patrimônio cultural hoje outros instrumentos de salvaguarda do patrimônio
cultural intangível: ensaio de antropologia pública”. In:

A
sem considerarmos sua natureza relacional, Anuário antropológico 2007-2008. Rio de Janeiro, 2009.

E
intersetorial e interdisciplinar, suas conexões

I S T Ó R I C O
______. Trajetórias e desafios do Inventário Nacional de
com áreas variadas e diversos agentes sociais Referências Culturais. Entrevista com Antonio Augusto
Arantes. Revista CPC, São Paulo, nº 20, dez. 2015 p.
envolvidos. A profissionalização e as tensões
221–260.

H
que se instalaram na área do patrimônio são

A T R I M Ô N I O
ARRUTI, José Maurício. “Quilombo”. In: PINHO,
aspectos que apenas se esboçavam nas décadas Osmundo (org.). Raça: perspectivas antropológicas.
Campinas: ABA/Ed. Unicamp/Edufba, 2008.
de 1980 e 1990.
AZEVEDO, Paulo Ormindo. Por um Inventário do

P
A perspectiva estética e civilizadora

D O
Patrimônio Cultural Brasileiro. Revista do Patrimônio

Márcia Chuva
que fundou as práticas de preservação do Histórico e Artístico Nacional, nº22, 1987.

E V I S T A
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parece ter sido fortemente questionada a institucionalização do setor cultural no Brasil”. In:

R
AZEVEDO, Paulo Ormindo; CORRÊA, Elyane Lins
no período, estremecendo as bases do (org.). Estado e sociedade na preservação do patrimônio.
paradigma modernista dominante, ainda Salvador: Edufba/IAB, 2013.
que este não tenha sido superado. Nossa BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil.
Brasília,: Presidência da República, 1988. Disponível
análise buscou explorar a simultaneidade de
em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
eventos, questões, problemas e pensamentos, constituicaocompilado.html>.
a fim de que o leitor estabelecesse suas BRITO, Diogo de Souza. “A invenção da
próprias conexões, levantando ele também patrimonialização das culturas populares no Brasil: a 101
Sphan/Pró-Memória (década de 1980)”. In: Anais do VII
camadas imprevistas, em que se confundem Simpósio Nacional de História Cultural. São Paulo: USP,
sentimentos, histórias, trajetórias, valores, 10 a 14 de novembro de 2014.
interesses e visões de mundo, para BURKE, Peter. O que é história cultural? 2ª ed. Rio de
Janeiro: Zahar, 2005.
encontrar rastros, produzir
______. A escrita da história: novas perspectivas. São
suas próprias pistas Paulo: Unesp,1992.
e experimentar CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos
a arena de 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.

conflitos que CANCLINI, Nestor. Diferentes, desiguais e desconectados.


Rio de Janeiro: UFRJ, 2007.
configura o
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patrimônio Brasil. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2009.
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cultural no Brasil. Revista do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, Brasília, nº 34, 2011.
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Po s s í ve i s n a r r at i va s s o b re d u a s d é c a d a s d e p at r i m ô n i o : d e 1 9 8 2 a 2 0 0 2

legitimidade e ação política”. In: REZENDE, Maria perda: os discursos do patrimônio cultural no Brasil. 2.
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CHUVA, Márcia; LAVINAS, Laís. “O Programa de
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Márcia Chuva

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R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

104
A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z O jogo de olhares
Andrey Rosenthal Schlee e
Her mano Fabrício Oliveira Guanais e Queiroz

A C I O N A L
O

N
JOGO DE OLHARES

R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
INTRODUÇÃO Estabeleceu, portanto, de forma unilateral
e discricionária, o que se entendia como
Este artigo analisa os oitenta anos de “patrimônio histórico e artístico nacional”

P
ou que, atualmente, se considera como parte

D O
atuação do Instituto do Patrimônio Histórico

E V I S T A
e Artístico Nacional no sentido de preservar do “patrimônio cultural brasileiro”.
e salvaguardar bens materiais e imateriais que Embora o Brasil tenha acompanhado

R
constituem o chamado Patrimônio Cultural a discussão internacional que levou à
Brasileiro1. Considerando a amplitude da ampliação da noção de Patrimônio – com
ação institucional, concentra a análise apenas importante repercussão na Constituição
na aplicação de três instrumentos legais (o Federal de 1988 –, o principal documento
Decreto-Lei nº 25 de 1937, a Lei nº 3.924 legal aplicado para a proteção de bens
de 1961 e o Decreto nº 3.551 de 2000) e materiais permanece sendo o Decreto-
explora a contribuição dos quatro últimos lei nº 25, de 30 de novembro de 1937. 105

presidentes: Maria Elisa Costa, Antonio Foi ele que instituiu o tombamento, ato
Augusto Arantes Neto, Luiz Fernando de administrativo de inscrição ou tombo de
Almeida e Jurema de Sousa Machado. um bem em livro apropriado, e definiu seus
De janeiro de 1937 a janeiro de efeitos, as limitações ao exercício do direito

2017, o Instituto do Patrimônio de propriedade, do tipo non facere. Sendo

Histórico e Artístico Nacional – Iphan assim, discutir temas relacionados à gestão

classificou, via tombamento, 1.241 bens2. do múltiplo patrimônio cultural brasileiro


implica, primeiro, reconhecer o processo
1. Uma primeira versão do presente artigo foi apresentada em de ampliação e atualização dos conceitos
Portugal, com o título “Brasil, 80 anos protegendo um patrimô-
nio”. aplicados ao campo e perceber como ele tem
2. 1.241 bens inscritos, ou aguardando homologação do Ministro
da Cultura, ou já notificados e aguardando reunião do Conselho
moldado as práticas institucionais.
Consultivo do Patrimônio Cultural. Fonte: Depam/Iphan. Em oitenta anos de atuação, o Iphan
Dados levantados por Anna Elisa Finger e Cláudia Bastos do
Nascimento. Uma primeira versão do presente artigo foi apresen- evoluiu do chamado Patrimônio Histórico Manaus
tada em Portugal, com o título “Brasil, 80 anos protegendo um Acervo: Iphan/
patrimônio”. e Artístico Nacional para o Patrimônio Márcio Vianna.
Cultural; de bens com excepcional valor OLHAR
O jogo de olhares

PA R A O
arqueológico para monumentos arqueológicos EXCEPCIONAL
A C I O N A L

de qualquer natureza existentes no território


nacional; de bens materiais com endereço A partir de 1936 (de modo experimental)
N

fixo para bens imateriais com manifestação e ao assumir formalmente a direção do


A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O

nacional; de edificações isoladas para Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico


conjuntos urbanos inteiros; de monumentos Nacional, em 1937, o advogado Rodrigo
A

singulares para bens seriados; da vizinhança Melo Franco de Andrade estabeleceu uma
E

para a ambiência da coisa tombada; de


I S T Ó R I C O

rede de amigos colaboradores que, atuando


paisagens com valores cênicos para paisagens em suas respectivas regiões, foi capaz de
culturais; de excepcional valor cultural para indicar os primeiros bens a serem protegidos
H
A T R I M Ô N I O

referências culturais; do lote ao território, do e os nomes dos primeiros assistentes técnicos


proprietário à comunidade. a serem contratados. Entre outros, a rede
É possível afirmar que o Iphan atua, cada contou com a participação do escritor
P

vez mais, em áreas que conhece menos. E que Mário de Andrade em São Paulo, do
D O

tem considerado sociólogo Gilberto Freyre em Pernambuco,


E V I S T A

do historiador Godofredo de Figueiredo


R

(...) um amplo espectro de bens e significados, Filho na Bahia, do historiador Salomão de


de culturas cada vez mais variadas, de um passado Vasconcellos em Minas Gerais, do escritor
cada vez mais próximo, num território cada vez Augusto Meyer no Rio Grande do Sul. No
mais superposto e extenso (Figueiredo, 2014). Rio Janeiro, o grupo era um pouco maior,
mas não menos significativo, a exemplo do
Por outro lado, a sociedade em geral, poeta Manuel Bandeira, do arquiteto Carlos
e os detentores em particular, tem exigido Leão e da antropóloga Heloisa Alberto Torres.
106
participar de forma ativa dos processos de Tais intelectuais montaram propostas
identificação, reconhecimento, normatização, ou listas contendo edificações, ruínas,
fiscalização e monitoramento, salvaguarda e jardins, paisagens, coleções e acervos a serem
conservação de seus bens culturais. acautelados. O modus operandi gerou efeito
Frente a tal contexto, cabem as seguintes imediato. Logo em 1938 foram indicados
perguntas: o modelo de gestão que 328 bens, resultando em 313 tombamentos3
o Iphan construiu ao longo dos e em apenas quinze indeferimentos. Entre
últimos oitenta anos os bens protegidos, destacam-se ainda hoje,
segue válido? A pela importância e abrangência, os conjuntos
cultura institucional arquitetônicos e urbanísticos mineiros de
consolidada será Diamantina, Serro, Tiradentes, São João
capaz de dar conta del-Rei, Mariana e Ouro Preto. De onde se
dos desafios que depreende que, mesmo contando com um
se colocam para os
próximos oitenta anos? 3. Sendo 243 bens tombados ainda em 1938.
corpo técnico absolutamente reduzido, o servidores por meio de cursos internos

O jogo de olhares
Iphan, desde o primeiro momento, atuou ministrados por não arquitetos, como os

A C I O N A L
na quase totalidade de seis cidades ditas de Hanna Levy, Heloisa Alberto Torres ou
“históricas”. Afonso Arinos de Melo Franco;

N
Cabe perceber que o Decreto-lei nº 25 III. A promoção de pesquisas em

A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
organizou a proteção do patrimônio, baseado arquivos de todo o país, de maneira a
na existência dos quatro “Livros do Tombo” confirmar a narrativa histórica adotada,

A
e não na indicação das tipologias de bens que como as conduzidas por Dom Clemente

E
Silva Nigra, Judite Martins ou Manoel

I S T Ó R I C O
poderiam ser protegidas. Dessa maneira, um
determinado bem só é considerado acautelado José de Paiva Jr.;
quando identificado(s) o(s) seu(s) valor(es) e IV. A colaboração com historiadores

H
A T R I M Ô N I O
após a sua inscrição em pelo menos um dos internacionais que validaram o caminho
livros: do Tombo Arqueológico, Etnográfico e adotado, entre eles o americano Robert
Paisagístico; do Tombo Histórico; do Tombo Smith, o francês Germain Bazin, o inglês

P
das Belas Artes; ou do Tombo das Artes John Bury e o português Mário Chicó;

D O
Aplicadas. V. A divulgação dos resultados obtidos,

E V I S T A
Foi a opção pelo jogo dos livros que principalmente por meio da sua Revista

R
garantiu a longa permanência e a atualidade ou da coleção de publicações do Serviço
do Decreto-lei nº 25, mesmo frente ao do Patrimônio.
processo de ampliação dos conceitos ou Em linhas gerais, o Iphan “deveria
da incorporação de novos bens ao rol do tratar das coisas móveis e imóveis com valor
patrimônio protegido. excepcional”, o que não incluía
Considerando a amplitude e a diversidade
(...) uma vasta quantidade de bens
da produção cultural brasileira – e baseado 107
culturais cuja preservação, embora de manifesta
nos conceitos de “tradição” e “civilização”
conveniência pública, escapa à alçada do serviço
– Rodrigo estabeleceu recortes temáticos e
mantido pela União (Andrade, 1968).
temporais bastante claros que permitiram
uma atuação segura da “repartição”4. Para
Rodrigo chegou a citar algumas categorias
tanto, simultaneamente, lançou mão das
de bens que, na sua opinião, não deveriam
estratégias seguintes:
ser consideradas pelo Iphan: os documentos
I. A definição de uma narrativa
históricos; parcelas apreciáveis do espólio
histórica única e linear capaz de legitimar
de obras de arte antiga e de artesanato
as ações e escolhas do Iphan, elaborada
tradicional; sítios urbanos e rurais em que
pelo próprio Rodrigo e pelo arquiteto
predominam os traços de ancianidade,
Lucio Costa;
de pitoresco ou de beleza de paisagem;
II. A qualificação do quadro de
edificações que, conquanto não assumam a
importância de monumentos nacionais, são,
4. Maneira carinhosa como Rodrigo Melo Franco se referia ao
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. contudo, produções genuínas de arquitetura
brasileira, popular ou o seu tanto eruditas; valor estético (mas sempre excepcionais).
O jogo de olhares

coleções de peças a reclamar proteção Destacam-se, entre eles, o tombamento do


A C I O N A L

desvelada – depositadas em sedes de institutos acervo do denominado Museu da Magia


históricos, museus regionais e lojas maçônicas Negra, Rio de Janeiro (RJ), em função do
(Andrade, 1968).
N

seu valor etnográfico e, por isso, inscrito


A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O

Concebido e estruturado por intelectuais, apenas no Livro do Tombo Arqueológico,


em um primeiro momento, o Iphan voltou Etnográfico e Paisagístico; e do Conjunto
A

sua atuação, principalmente, para a proteção Arquitetônico e Urbanístico de São João


E

de bens relacionados ao período colonial Marcos, em Rio Claro (RJ), tombado


I S T Ó R I C O

em todo o Brasil, com destaque para Minas por solicitação externa para evitar sua
Gerais e para o que ficou conhecido como destruição devido à construção de uma usina
H

“Barroco mineiro”, onde se teria produzido


A T R I M Ô N I O

hidrelétrica, e inscrito apenas no Livro do


uma arquitetura e uma arte “autenticamente Tombo Histórico5.
brasileiras”. Nesse sentido, foi tombado um Salvo as solicitações externas, de um
P

grande número de monumentos religiosos modo geral os processos de tombamento


D O

(capelas, matrizes e mosteiros), militares eram bastante sucintos, muitas vezes não
E V I S T A

(fortificações), administrativos (palácios e demonstrando com clareza a motivação


R

casas de câmara e cadeia), conjuntos urbanos, do acautelamento proposto. Isso permitiu


obras de arte (com destaque para peças a celeridade dos trabalhos, sendo que um
sacras), além de alguns monumentos naturais expressivo número de bens foi tombado
(que representariam as belezas do país). A em um curto espaço de tempo. Assim, nas
esses bens, foram atribuídos prioritariamente duas primeiras décadas de atuação, o Iphan
valores artísticos, como se observa pelo protegeu o equivalente a 50% do patrimônio
predomínio das inscrições no Livro do tombado até hoje.
108
Tombo das Belas Artes e, em segundo lugar, Do ponto de vista da identificação e do
no Histórico (sendo uma grande parte
acautelamento de bens culturais, é necessário
dos bens inscrita nos dois livros). Fácil é
destacar a publicação de uma segunda lei
constatar que, no dia a dia da Instituição,
brasileira voltada à proteção do patrimônio
ocorreu uma hierarquização dos Livros do
cultural: a Lei nº 3.924, de 26 de julho
Tombo e uma direcionada “falta de rigor” na
de 1961, que dispôs sobre monumentos
determinação das inscrições. Bens indicados
arqueológicos e pré-históricos. Até a sua
com claro valor histórico foram inscritos
edição, o Decreto-lei nº 25 protegia, via
apenas no Livro do Tombo das Belas Artes,
tombamento, os bens com valor arqueológico.
a exemplo das ruínas jesuíticas Guarani de
O Iphan havia tombado três sítios e cinco
São Miguel das Missões (RS), o que reforça
coleções. Após a publicação da lei, por mais
a percepção de que a perspectiva estética
predominou nesses primeiros anos. 5. Em 1940 o conjunto foi “destombado” para permitir a execução
Poucos foram os tombamentos de bens da obra e, após ter sido evacuado, o conjunto acabou não sendo
submerso pela barragem, como se esperava. Em 1988 foi aberto
“não tradicionais” ou que fugiam à regra do um novo processo de tombamento para tratar de suas ruínas.
de trinta anos, a Instituição não tombou nas solicitações externas de tombamento,

O jogo de olhares
novos bens arqueológicos, que passaram a demonstrando maior interesse da sociedade.

A C I O N A L
ser geridos por outra lógica (a do resgate e da Tais processos levaram o Iphan a refletir sobre
interpretação), e os poucos processos abertos a sua capacidade de, isoladamente, continuar
foram indeferidos. Entretanto, a partir de a promover a preservação do patrimônio

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R T Í S T I C O
1985 nota-se um ligeiro aumento do número cultural no país. Buscando enfrentar o novo
de processos abertos (a maioria arquivado), contexto, Soeiro reescreveu as estratégias de

A
sendo tombados o Parque Nacional da Serra Rodrigo em outros termos, propondo:

E
da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI), I. A manutenção da narrativa histórica

I S T Ó R I C O
e a Ilha do Campeche, em Florianópolis (SC), única e linear, admitindo a existência
além de uma coleção de artefatos, também de bens com importância estadual ou

H
em Florianópolis (SC). municipal e semeando a ideia de um

A T R I M Ô N I O
Por força da Lei nº 3.924, os sistema nacional de patrimônio;
monumentos arqueológicos ou pré-históricos II. A organização de cursos para a

P
de qualquer natureza existentes no território formação de técnicos aptos a atuar nos

D O
nacional e todos os elementos que neles se diferentes órgãos de patrimônio em todo

E V I S T A
encontram estão sob a guarda e proteção o país, como os cursos ofertados em São

R
do poder público. O Centro Nacional de Paulo, em 1974; Recife, em 1976; Minas
Arqueologia – CNA, ligado ao Iphan, é Gerais, em 1978; e Salvador, em 1980;
o responsável pela gestão do patrimônio III. A articulação do Iphan com
arqueológico, que atualmente conta com outros ministérios no sentido de
cerca de 24 mil sítios cadastrados, envolve construir políticas e programas voltados,
quatrocentas instituições de pesquisa e guarda principalmente, para a preservação dos
e acompanha, aproximadamente, 10 mil conjuntos monumentais e para o fomento
109
projetos de pesquisa autorizados. ao turismo;
Rodrigo manteve-se na presidência IV. A colaboração com consultores
do Iphan até 1967, sendo substituído internacionais indicados pela Unesco,
pelo arquiteto Renato de Azevedo Duarte como Graeme Shankland, Paul
Soeiro, que dirigiu a instituição por mais Coremans, Michel Parent, Frédéric
doze anos. Foi quando teve início uma Limburg de Stirum e Evandro Evangelista
primeira revisão ou redefinição da política Viana de Lima;
institucional. Em virtude da crescente V. A manutenção da Revista do
expansão urbana pela qual passava o país e Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
do consequente aumento da demanda por Em 1970 e 1971 o Ministério da
áreas urbanizadas – impactando fortemente Educação e Cultura promoveu dois
os conjuntos protegidos e a ambiência dos Encontros de Governadores, propondo aos
monumentos isolados –, observou-se uma estados e municípios o compartilhamento
forte preocupação com o entorno desses e a descentralização da responsabilidade
bens. Por outro lado, ocorreu um aumento pela preservação do patrimônio cultural.
Simultaneamente, em 1973, foi instituído o Entretanto, devido a um maior rigor técnico
O jogo de olhares

atualmente denominado Programa de Cidades na instrução dos processos, o número de


A C I O N A L

Históricas – PCH, provavelmente a primeira tombamentos caiu significativamente,


experiência brasileira a pretender enfrentar fazendo com que os resultados desse
a difícil tarefa de promover a preservação de movimento, iniciado ainda no final dos anos
N

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R T Í S T I C O

modo economicamente sustentável. 1970, só fossem efetivamente percebidos na


Em outro sentido, observou-se um década seguinte.
A

estímulo à participação social, com mudanças


E

na relação entre Estado e sociedade. As OLHAR PA R A O R E F E R E N C I A L


I S T Ó R I C O

discussões sobre democratização do país,


que ultrapassavam o âmbito político, Em 1979, o designer Aloisio Magalhães
H

influenciaram também o campo da assumiu como diretor-geral do Iphan,


A T R I M Ô N I O

preservação, fazendo críticas ao modo de realizando, até 1982, um conjunto de


seleção de bens, prioritariamente a partir de transformações estruturais na instituição.
P

valores estéticos e eruditos, associados a uma Foi ele quem “substituiu o patrimônio
D O

elite política e às classes dominantes. Nesse histórico e artístico de Rodrigo pela noção
E V I S T A

sentido, as discussões capitaneadas pelos de bens culturais” (Porta, 2012). Se, até
folcloristas, das décadas de 1940 a 1960, os então, o Patrimônio trabalhava com os
R

trabalhos realizados pelo Centro Nacional conceitos de Civilização e Tradição, passou


de Folclore e Cultura Popular – CNFCP e a considerar as ideias de Desenvolvimento e
as novas concepções levadas no âmbito do Diversidade Cultural. Embora de passagem
Centro Nacional de Referência Cultural – rápida, aproximadamente quatro anos,
CNRC6 influenciaram as ações do Iphan, Aloisio conseguiu transformar o conjunto de
notadamente na questão da atribuição de estratégias de atuação institucional, a partir:
110 valor e da seleção de bens a serem protegidos. I. Da adoção de uma nova narrativa:
A noção de “identidade nacional” foi a das “referências culturais” (sentidos e
progressivamente abrindo espaço para a valores atribuídos pelos diferentes sujeitos
“diversidade” e “representatividade social” e a bens e práticas sociais);
a política de preservação começou a voltar II. Da reorganização institucional,
seus olhos para bens representativos de grupos com a criação da Fundação Pró-Memória
até então excluídos das ações patrimoniais. (FNPM: 1979-1990);
III. Da articulação do Sphan com outros
ministérios;
6. Criado em Brasília, em 1975, o Centro Nacional de Referência
Cultural – CNRC era formado por profissionais de perfis distin- IV. Da institucionalização do Centro
tos dos arquitetos de até então, como cientistas sociais, críticos Nacional de Referências Culturais –
literários, biblioteconomistas, técnicos em educação e informática,
entre outros, e buscava refletir sobre a cultura brasileira contem- CNRC e do Programa de Cidades
porânea, estabelecendo um sistema de referências para a análise
da dinâmica cultural. Funcionou até 1979, quando foi unido ao Históricas – PCH;
Iphan e ao PCH para formar a SPHAN (que deu continuidade ao
trabalho do Iphan e PCH) e a Fundação Nacional Pró-Memória V. Da colaboração com consultores
(que assumiu o trabalho desenvolvido pelo CNRC), ambos sob o
comando de Aloisio Magalhães.
internacionais indicados pela Unesco e
O jogo de olhares
A C I O N A L
N

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P
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E V I S T A
R
da apresentação de candidaturas à lista do bens relacionados a minorias ou a grupos Caboclinho,
Pernambuco
Patrimônio Mundial: Ouro Preto (1980) até então não reconhecidos, tais como Acervo: Iphan/
Felipe Peres.

e Olinda (1982); imigrantes, quilombolas ou religiosos de


VI. Da criação do Boletim SPHAN, matriz africana. Também foram acautelados 111

como forma ágil de comunicação e bens não monumentais; edifícios ecléticos;


divulgação das atividades realizadas pela e testemunhos da ocupação do território,
Instituição. da história urbana, dos diferentes grupos
Apesar de permitirem significativos étnicos, da história da ciência e da tecnologia.
avanços nas discussões relativas a temas Igualmente foram ampliadas as discussões
como cultura popular, identidade cultural relativas à proteção do patrimônio natural e
e valorização das referências de grupos do arqueológico.
excluídos, tanto o CNRC quanto, mais Essas mudanças, não por acaso,
tarde, a FNPM não conseguiram produzir coincidiram com o período de
novos instrumentos de acautelamento. redemocratização do Brasil, quando a
Mesmo assim, a partir de 1980, observou-se representatividade social foi oficialmente
a ampliação do leque de bens que passaram a assumida pela Constituição de 1988. Carta
fazer parte do patrimônio nacional, incluindo que, em seus artigos 215 e 216, consagrou
o aumento significativo do tombamento de a obrigação do Estado de assegurar a todos
o pleno exercício dos direitos culturais e a –, a partir dos anos 1980 houve uma
O jogo de olhares

proteção das “manifestações das culturas ampliação das inscrições no Livro do Tombo
A C I O N A L

populares, indígenas e afro-brasileiras, e das Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico para


de outros grupos participantes do processo diversas categorias de bens, notadamente os
conjuntos urbanos.
N

civilizatório nacional” . 7
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R T Í S T I C O

Como exemplos desse processo, merecem Em 1985, o Conselho Consultivo do


destaque os tombamentos da Fundação Patrimônio Cultural estendeu a proteção
A

Osvaldo Cruz em 1981, do Hospital São dada aos templos religiosos a seus acervos
E

Francisco de Assis em 1983 e da Escola de de bens móveis e integrados, com efeitos


I S T Ó R I C O

Enfermagem Ana Neri em 1986, todos no retroativos sobre 385 monumentos. Fato que,
Rio de Janeiro (RJ), bem como da Casa de por um lado, garantiu coerência à preservação
H

dos valores atribuídos aos edifícios, mas,


A T R I M Ô N I O

Saúde Carlos Chagas em 1985, em Lassance


(MG), como testemunhos da história da por outro, trouxe um problema de grandes
ciência e da tecnologia; da Fábrica de Vinho dimensões para o Iphan: o da identificação e
P

Tito Silva em 1984, como modelo de saberes documentação desse acervo. Problema ainda
D O

tradicionais; da Casa da Dona Neni em hoje não solucionado.


E V I S T A

1985, no centro de Antônio Prado (RS); Os anos 1980 também foram marcados
R

e, na sequência, de diversos outros bens pela preocupação com o rigor técnico na


no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, instrução dos processos de tombamento,
representativos da imigração alemã e italiana dando origem à edição da Portaria Iphan
no sul do Brasil; do Centro Histórico de nº 11, em 1986, e à abertura de uma série
Laguna (SC) em 1985, primeiro centro processos voltados para a delimitação de áreas
histórico tombado na Região Sul do Brasil de entorno de bens protegidos, de maneira
por sua importância como um documento independente dos respectivos processos de
112
para a história urbana do país; da Estação tombamento.
Ferroviária de Lassance (MG) em 1985, Ao final da década, porém, o presidente
relacionada ao patrimônio industrial; do da República Fernando Collor de Mello
Terreiro da Casa Branca em Salvador (BA), paralisou a atuação do Estado e das
em 1986, primeiro templo religioso não instituições culturais federais. Em 1990,
católico protegido e representativo das o Ministério da Cultura foi extinto e as
comunidades afro-brasileiras. atividades do Iphan e da FNPM foram

Se até então predominava o olhar entorpecidas com a dissolução do Conselho


Consultivo. Entretanto, dadas as suas
“estético” – ou, caso não se identificasse um
atribuições legais e o grande apoio da
premente valor artístico, o olhar “histórico”
sociedade, em 1992, foi criado o Instituto
7. Constituição Federal de 1988 - Art. 215. O Estado garantirá a Brasileiro de Patrimônio Cultural – IBPC,
todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da reconvertido para Iphan em 1994.
cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão
das manifestações culturais. § 1º O Estado protegerá as manifes- Foi só nos anos 2000 que o Iphan se
tações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de
outros grupos participantes do processo civilizatório nacional. reestruturou, por meio de um redesenho
organizacional e da realização de concursos de Fazer Queijo de Minas, nas Regiões do

O jogo de olhares
para novos servidores . Observou-se também
8
Serro e das Serras da Canastra e do Salitre; o

A C I O N A L
a ampliação efetiva dos instrumentos de Modo de Fazer Cuias do Baixo Amazonas;
acautelamento. o Modo de Fazer Viola de Cocho; o Modo
de Fazer Renda Irlandesa de Sergipe; o

N
Em 2000, durante o governo de Fernando

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R T Í S T I C O
Henrique Cardoso e com Carlos Heck Ofício das Baianas de Acarajé; o Ofício
na presidência do Iphan, foi constituído das Paneleiras de Goiabeiras; o Ofício dos

A
um Grupo de Trabalho do Patrimônio Mestres e a Roda de Capoeira; o Ofício

E
Imaterial com a finalidade de regulamentar de Sineiro e o Toque dos Sinos em Minas

I S T Ó R I C O
o instrumento legal do Registro, previsto no Gerais; a Produção Tradicional e Práticas
art. 216 da Constituição Federal de 1988, Socioculturais Associadas à Cajuína no Piauí;

H
os Saberes e Práticas Associados aos Modos

A T R I M Ô N I O
em consequência do célebre Seminário de
Fortaleza (1997). Após dois anos de estudo e de Fazer Bonecas Karajá; o Sistema Agrícola
discussão, foi publicado o Decreto nº 3.551, Tradicional do Rio Negro; o Círio de Nossa

P
que instituiu o Registro de Bens Culturais de Senhora de Nazaré; o Complexo Cultural

D O
Natureza Imaterial, concretizando finalmente do Bumba-meu-boi do Maranhão; a Festa

E V I S T A
as reivindicações já propostas por Mário de do Divino Espírito Santo de Paraty; a Festa

R
Andrade, pelos folcloristas e no âmbito do do Divino Espírito Santo de Pirenópolis; as
CNRC. O Registro foi, então, o instrumento Festividades do Glorioso São Sebastião na
adequado à preservação dos bens culturais Região do Marajó; a Festa do Pau da Bandeira
intangíveis. Adotando desenho semelhante ao de Santo Antônio em Barbalha; a Festa
proposto pelo Decreto-lei nº 25, o Decreto de Sant´Ana de Caicó; a Festa do Senhor
nº 3.551 também estabeleceu quatro livros, Bom Jesus do Bonfim; o Ritual Yaokwa do
mas definidos por tipologias de bens: a dos Povo Indígena Enawenê Nawê; a Romaria
113
Saberes, a das Celebrações, a das Formas de Carros de Bois da Festa do Divino Pai
Eterno de Trindade; a Arte Kusiwa – Pintura
de Expressão e a dos Lugares. Assim, um
Corporal e Arte Gráfica Wajãpi; o Carimbó;
determinado bem de natureza imaterial só é
o Cavalo-Marinho; o Fandango Caiçara; o
considerado acautelado quando, após passar
Frevo; o Jongo no Sudeste; os Caboclinhos;
pelo processo de identificação, fundamentado
o Maracatu Nação; o Maracatu de Baque
na mais ampla participação social, é inscrito
Solto; as Matrizes do Samba no Rio de
num dos quatro Livros de Registro.
Janeiro (Partido Alto, Samba de Terreiro e
Estabelecida a política institucional com
Samba-Enredo); Rtixòkò: Expressão Artística
base no Programa Nacional do Patrimônio
e Cosmológica do Povo Karajá; o Samba de
Imaterial, desde 2000, foram registrados os
Roda do Recôncavo Baiano; o Tambor de
seguintes bens imateriais: o Modo Artesanal
Crioula do Maranhão; o Teatro de Bonecos

8. Em 2005 foi realizado o primeiro concurso da história do


Popular do Nordeste; a Cachoeira de Iauaretê
Iphan, com a entrada de 222 novos profissionais, seguido por – Lugar Sagrado dos Povos Indígenas dos
outro em 2009, acompanhado por um aumento salarial que, na
época, revigorou os quadros técnicos. Rios Uaupés e Papuri; a Feira de Caruaru;
Cajuína
Acervo: Iphan/
a Tava – Lugar de Referência para o Povo 2005), Luiz Fernando de Almeida (2006 a
Marcio Vasconcelos.
Guarani. 2012) e Jurema de Sousa Machado (2012 a
A política de patrimônio imaterial do 2016). Período que ainda deverá ser analisado
Iphan, consagrada referência internacional, com maior detalhe e distanciamento, mas
serviu de inspiração à elaboração da que, desde já, pode ser caracterizado como o
114 Convenção para Salvaguarda do Patrimônio de um complexo “jogo de olhares”.
Imaterial da Unesco, de 2003, assim como
o seu Programa Nacional de Patrimônio OLHAR PA R A T R Á S
Imaterial está inscrito na Lista de Boas
Práticas de Salvaguarda. Ao assumir, Lula convidou o músico
Gilberto Gil para a pasta da Cultura. O
O JOGO DE OLHARES: convite, que em um primeiro momento
2003-2016 surpreendeu, logo se mostrou um acerto.
Homem da cultura, rapidamente se fez
No período compreendido entre os anos ministro, mantendo-se no cargo até 2008.
2003 a 2016, ou seja, durante os governos de Para presidir o Iphan, convidou a arquiteta
Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, Maria Elisa Costa. Sendo filha de Lucio
o Iphan foi administrado por quatro Costa, sentiu-se imediatamente em casa.
presidentes: Maria Elisa Costa (2003 a 2004), Na sua primeira entrevista sobre o tema, a
Antonio Augusto Arantes Neto (2004 a presidente afirmou que desejava “fazer uma
vistoria geral. O que tem de antigo? Onde com uma Instituição com tais características Paneleiras de
Goiabeiras
é que tem cupim? Onde é que a instalação é tarefa delicada – errar a mão, apelar para Acervo: Iphan/
Marcio Vianna.

está ameaçando sofrer um incêndio para intervenções cirúrgicas radicais num paciente
com a resistência já abalada, pode significar
depois de amanhã?” (Costa, 2004). Ou seja, o
destruir o que existe de positivo. A precariedade
retorno ao patrimônio de Rodrigo e de Lucio.
da situação do Iphan é notória, com carências 115
Novamente a “pedra e cal”. Na verdade,
de toda ordem – de recursos humanos,
um profundo carinho familiar fez com que materiais, financeiros, etc., etc., carências
Maria Elisa concentrasse esforços no resgate essas que geraram consequências negativas no
das tradições construídas e consolidadas próprio comportamento interno da Instituição,
pelo próprio Iphan, especialmente aquelas tais como a dificuldade de integração dentro
relacionadas com o patrimônio material. da área central, com problemas entre Rio e

No entanto, em fevereiro de 2004, uma Brasília, gargalos indesejáveis na tramitação dos


processos, falta de diretrizes comuns, tendência
crise no Ministério da Cultura levou ao seu
ao estabelecimento de “feudos”, tendência a
pedido de demissão. Como testemunho, a
encarar o parecer em produto final, perdendo-se
presidente deixou uma sincera reflexão sobre a noção de que o produto final é o que acontece
a fragilidade institucional que encontrou. a partir dele, o hábito de dizer “não” quase por
Segundo suas palavras, o Iphan princípio, compulsivamente, o que desvaloriza o
“não” e induz ao fato consumado, dificuldade de
(...) passou por muitos e diversos traumas e se comunicar com o mundo exterior, a falta de
intervenções negativas. É fácil concluir que lidar um ”norte” comum à Casa como um todo [...]
Assim, a análise da situação encontrada revelou OLHAR
O jogo de olhares

PA R A F O R A
de forma inequívoca a necessidade de proceder
a uma reestruturação organizacional do Iphan
A C I O N A L

Se, durante os períodos de Rodrigo


substituindo a estrutura vigente por outra, na
Melo Franco e Renato Soeiro, a chamada
qual o trabalho se organizasse a partir dos temas
N

“repartição” trabalhou com as ideias de


A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z

e não das ações, estruturando os departamentos


R T Í S T I C O

em função das áreas de atuação (patrimônio Civilização e de Tradição e se, a partir


material, patrimônio imaterial, museus e centros da contribuição de Aloisio Magalhães, o
A

culturais, planejamento e administração – além patrimônio passou a considerar os conceitos


E
I S T Ó R I C O

de um centro de referência e documentação) e os de Desenvolvimento e de Diversidade


trabalhos em função de áreas específicas, às quais Cultural, é possível afirmar que foi com
correspondem saberes próprios (sítios urbanos, o arquiteto Luiz Fernando de Almeida
H

edificações isoladas, bens móveis e integrados,


A T R I M Ô N I O

que o Iphan incorporou outros dois temas


sítios arqueológicos), tanto para a atividade
fundamentais: o de Território e o de Políticas
rotineira como para programas e projetos
Culturais. Conforme suas próprias palavras,
P

(Costa, 2004).
D O

(...) com a expansão do conceito de


E V I S T A

OLHAR PA R A F R E N T E patrimônio cultural nas últimas décadas ficou


evidente que as políticas de preservação já
R

Com a inesperada saída de Maria Elisa, não estão apenas vinculadas ao conceito de
o antropólogo Antonio Augusto Arantes excepcionalidade, mas principalmente ao exercício
assumiu a instituição. Além de uma sólida de cidadania. Além disso, elas passaram a
considerar a dimensão territorial desse patrimônio.
carreira acadêmica, o novo gestor já tinha
Por essa razão, sua integração às demais políticas
administrado o Conselho de Defesa do
públicas, em busca de uma relação sincrônica e
Patrimônio Histórico, Arqueológico, diacrônica com o desenvolvimento e o futuro, deve
116 Artístico e Turístico do Estado de São apontar para além do que tem sido nossa atuação
Paulo – Condephaat, entre 1983 e 1984, e histórica (Almeida, 2012).
produzido um conjunto de textos basilares
sobre o Patrimônio Cultural, especialmente Assim como fizeram os principais
sobre sua dimensão imaterial. Arantes presidentes que o antecederam, Luiz
concentrou-se em três desafios centrais: o do Fernando também estabeleceu estratégias para
fortalecimento da autarquia por meio da sua a atuação do órgão:
reorganização administrativa, o da realização I. A adoção de uma nova narrativa,
do denominado “primeiro concurso a do patrimônio como instrumento
público” e o da consolidação da política de construção de políticas nacionais:
de salvaguarda do patrimônio imaterial. Território + Sociedade = Política
Embora tenha obtido sucesso em todos, viu Patrimonial;
seu mandato subitamente reduzido frente a II. A reorganização institucional, com a
um embate interno com os superintendentes presença do Iphan, por meio de suas supe-
da Instituição. rintendências, em todos os estados e DF;
III. A articulação do Iphan com outros apostando na internalização dos avanços

O jogo de olhares
ministérios, principalmente com o da ocorridos no país e no próprio Iphan.

A C I O N A L
Educação e o das Cidades; Seu primeiro discurso como presidente,
IV. A institucionalização do Programa realizado na entrega do Prêmio Rodrigo Melo

N
Monumenta e criação do PAC- Cidades Franco, em 2012, demonstrou sua refinada

A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Históricas; consciência do presente e seu combativo
V. A apresentação de candidaturas compromisso com a realidade institucional:

A
“polêmicas” à lista do Patrimônio

E
Refletindo sobre a trajetória do Iphan, quero

I S T Ó R I C O
Mundial: Rio de Janeiro (2012) e Cais do
Valongo (2017); revelar que a minha identidade com o projeto
em curso reside na crença em uma prática de
VI. A aposta no Sistema Nacional de

H
patrimônio radicalmente aderida ao presente. É o

A T R I M Ô N I O
Patrimônio Cultural.
que tento explicar melhor. O tempo, mais do que
Sobre a narrativa então adotada, explicou o passado e a memória, é a matéria do Iphan. Essa
Luiz Fernando: não é a única leitura possível, mas é, com certeza,

P
D O
uma das formas de se descrever os agora 75 anos
Acredito que o grande salto conceitual,

E V I S T A
dessa instituição. No projeto modernista de Mário
que aconteceu principalmente a partir dos anos de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade,

R
1980, foi entender que o conceito de patrimônio transparece a ideia de um tempo que descreve um
não estava mais somente vinculado a uma ideia percurso evolutivo, um traçado unificador ligando
de excepcionalidade, mas que estava ligado à o passado colonial ao Moderno. O projeto de
ideia de direito à cidadania e à de que, onde Aloisio Magalhaes talvez possa ser representado
houvesse território e onde houvesse pessoas, onde por um tempo não linear, que admite e valoriza a
houvesse gente e houvesse terra, haveria de existir simultaneidade do tempo lento da tradição com
uma política de patrimônio... Então, a ação da a instabilidade do contemporâneo. Sem medo de
instituição deixa de estar localizada em pontos personalismos, digo que o tempo do Iphan nesses 117
específicos do território e passa a abranger a sua anos em que foi dirigido pelo Luiz Fernando é o
globalidade. Deixa de fazer a gestão somente dos tempo presente. Aquele ao qual Drummond dizia
sítios históricos, por exemplo, e passa a ser uma estar irremediavelmente atado: “o tempo presente,
instituição que estimula a formação de políticas dos homens presentes, da vida presente”. No
de patrimônio nos estados, nos municípios, para entanto, o presente do patrimônio não é aquele
promover o fortalecimento da sociedade civil sob o domínio do efêmero e do imediato, mas o
(Almeida, 2012). que resulta do acúmulo e da experiência. É o que
nos permite reagir à angústia da obsolescência e
OLHAR PA R A D E N T R O desfrutar de registros da memória inseridos entre
nós como contrapontos que nos fazem olhar com
mais lucidez à nossa volta. Olhar e perguntar sobre
A arquiteta Jurema Machado exerceu a
a arquitetura, as cidades e os espaços públicos
direção do Iphan em um momento de difícil
que estamos produzindo; sobre como anda a
inflexão da vida nacional. Já não mais havia nossa capacidade de criar e inovar, ou para onde
a estabilidade e o vigor político-econômico caminham as nossas formas de sociabilidade e
dos tempos de Lula. Trabalhou, no entanto, a nossa relação com o ambiente. Estar atado ao
presente significa também buscar nossos ritos, colonial; o Paraná, com os tombamentos de
O jogo de olhares

línguas e conhecimentos tradicionais, não para olhar Antonina e Paranaguá, associados ao primeiro
para eles com complacência, mas entender o que
A C I O N A L

ciclo de exploração do ouro no Brasil, antes


eles ensinam e dar consequência ao seu desejo de
das Minas Gerais. Mais recentemente, como
autonomia, ao seu impulso de resistir a um destino
N

fruto de um trabalho específico9, foram


A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z

nivelador e aparentemente inexorável de todas as


R T Í S T I C O

ampliados os tombamentos de terreiros


coisas. Enfim, mirar a riqueza das diferenças não
para aplainá-las, mas para crescer no “arco tenso” de religiões de matriz africana, que conta
A

que elas traçam: diferenças de tempos, étnico-raciais, atualmente com nove bens protegidos.
E
I S T Ó R I C O

geracionais, de modos de ver e estar no mundo.


Acredito que aí se funde o nosso melhor como país CONCLUSÃO
e, se formos capazes de não abrir mão dessa ideia, o
H

que pode ser a forma particular do nosso projeto de


A T R I M Ô N I O

No Brasil, desde 1937, o Iphan foi


desenvolvimento (Machado, 2012).
legitimado para identificar bens e reconhecer
valores e significados dignos de proteção
No período que vai de 2003 a 2016,
P

e salvaguarda enquanto pertencentes à


D O

como consequência do que foi acima exposto,


noção de patrimônio cultural brasileiro. Na
E V I S T A

é possível perceber uma continuidade na


década de 1980, a partir da reorganização
busca pela diversidade cultural: decresceu o
R

reivindicatória da sociedade nacional e,


número de bens “tradicionais” protegidos,
principalmente, com as discussões em torno
a exemplo da arquitetura religiosa católica,
da noção de referências culturais, a Instituição
fortificações, palácios, e buscou-se ampliar
passou a construir meios mais consistentes
a diversidade de representação para bens
de diálogo com as populações locais, de
pouco ou nada considerados. Destaca-se,
maneira a buscar maior representatividade
nesse sentido, o tombamento do primeiro
118 em suas filtragens e escolhas. Decorre que
bem representativo da cultura indígena, os
– ao longo de oitenta anos –, de maneira
lugares indígenas sagrados denominados
menos ou mais autoritária, menos ou
Kamukuwaká e Sagihenku (alto Xingu), no
mais participativa, menos ou mais elitista,
estado do Mato Grosso (2010). Também se
o Iphan acautelou, via instrumento do
buscou ampliar a participação de estados e
tombamento, 1.241 bens materiais; via
regiões ainda pouco presentes no panorama
instrumento do cadastro, cerca de 24 mil
dos bens tombados no país, destacando-se a
sítios arqueológicos; e via instrumento do
Região Norte, com os centros históricos de
registro, quarenta bens imateriais (sem
Belém (PA), Manaus (AM), Vila Serra do
considerar as línguas inventariadas e os bens
Navio (AP) ou o Encontro das Águas em
ferroviários valorados). Resultado da mais alta
Manaus (AM); o Piauí, onde foram tombados
relevância para a cultura brasileira. Resultado
três centros históricos, de Parnaíba, Oeiras
ampliado em sua abrangência e importância,
e Piracuruca, e ainda outros bens isolados
reconhecidos como testemunhos da ocupação
9. Em 2013 foi criado o Grupo de Trabalho Interdepartamental
do interior do Brasil durante o período para Preservação do Patrimônio Cultural de Terreiros – GTIT.
quando percebemos que, dos bens culturais REFERÊNCIAS

O jogo de olhares
reconhecidos como patrimônio cultural, 84
ALMEIDA, Luiz Fernando de. Patrimônio cultural e

A C I O N A L
correspondem a conjuntos urbanos, tais como
desenvolvimento sustentável. Brasília: Iphan, 2012.
Ouro Preto, Diamantina, Goiás e Brasília, ANDRADE, Rodrigo Melo Franco de. Âmbito do
e alguns bens imateriais estão presentes em Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Revista

A n d r e y R o s e n t h a l S c h l e e e H e r m a n o Fa b r í c i o O l i v e i r a G u a n a i s e Q u e i r o z
R T Í S T I C O
Cultura, nº 7, Rio de Janeiro, p. 32-35, 1968.
todo o território nacional, a exemplo da Roda
COSTA, Maria Elisa. Ata da 39ª reunião do Conselho
de Capoeira. Consultivo do Patrimônio Cultural, 14/8/2003. Portal
Iphan. Disponível em: <http://portal.iphan.gov.br/

A
Pensar no futuro do Iphan, ou mesmo

E
atasConselho>.
no futuro da noção de Patrimônio Nacional,

I S T Ó R I C O
COSTA, Maria Elisa. Entrevista a Antônio Agenor
implica em perceber que o acautelamento Barbosa. Portal Vitruvius, abr.2004. Disponível
de bens não pode significar um “fim em em: <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/

H
entrevista/05.018>.
si mesmo”. Ao contrário, reconhecer a

A T R I M Ô N I O
FIGUEIREDO, Vanessa Gayego Bello. Da tutela dos
importância de um “monumento” (daqueles monumentos à gestão sustentável das paisagens culturais
complexas: inspirações à política de preservação cultural
bens que, independentemente de sua natureza
no Brasil. (Tese de Doutorado). Programa de Pós-

P
material ou imaterial, são legitimamente Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU/USP.

D O
escolhidos como representativos das São Paulo, 2014.

E V I S T A
MACHADO, Jurema. Discurso. Documento inédito,
referências culturais de uma comunidade)
2012.
exige diálogo com toda a sociedade, de

R
PORTA, Paula. Política de preservação do patrimônio
maneira que ela possa assumir – direta e cultural no Brasil. Diretrizes, linhas de ação e resultados:
2000/2010. Brasília: Iphan, 2012.
conscientemente – a sua real conservação e SCHLEE, Andrey Rosenthal. Brasil, 80 anos protegendo
salvaguarda. No mesmo sentido, o resultado um patrimônio. In: FÓRUM INTERNACIONAL DO
de oitenta anos de política de preservação PATRIMÓNIO ARQUITETÓNICO PORTUGAL/
BRASIL. Universidade de Aveiro. Aveiro, mai.2017.
no Brasil aponta para a construção de
um novo modelo da gestão de tamanho
acervo patrimonial. Uma gestão sistêmica, 119

participativa e compartilhada, na qual cada


cidadão – detentor ou não, proprietário ou
não, socialmente organizado ou não – será
Fazenda Boi Só - PB
efetivamente responsável pelo Patrimônio Acervo: Iphan/
Cyro Corrêa Lyra.
Cultural Nacional.
R E V I S T A D O P A T R I M Ô N I O H I S T Ó R I C O E A R T Í S T I C O N A C I O N A L

120
Már io Chagas Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial
Már io Chagas

A C I O N A L
M USEUS E PATRIMÔNIOS :

N
POR UMA POÉTICA E UMA POLÍTICA DECOLONIAL

R T Í S T I C O
A
E
I S T Ó R I C O
H
A T R I M Ô N I O
(...) agora vejo que vós outros maírs sois INTRODUÇÃO
grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis
grandes incômodos, como dizeis quando aqui
O artigo que aqui se inicia está dividido

P
chegais, e trabalhais tanto para amontoar

D O
riquezas para vossos filhos ou para aqueles que em oito fragmentos, ao longo dos quais se

E V I S T A
vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu examina a política de cultura que esteve
suficiente para alimentá-los também? Temos pais, especialmente voltada para o campo dos

R
mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos museus e dos patrimônios nas décadas de
de que depois de nossa morte a terra que nos 1930 e 1940 e posteriormente durante os
nutriu também os nutrirá, por isso descansamos
primeiros dezesseis anos do século XXI. Num
sem maiores cuidados. (Fala atribuída a um velho
movimento pendular, com idas e vindas,
tupinambá registrada no livro Viagem à terra do
Brasil, de Jean de Léry). pretende-se reconhecer que essas políticas,
desde muito tempo, operam com recuos e
121
avanços e que todas elas estão atravessadas por
questões que dizem respeito à modernidade e
à colonialidade, bem como aos movimentos Ruína de São Miguel
das Missões
de decolonidade. Acervo: Iphan/
Leonid Streliaev.
Nesses oito fragmentos discute-se a A esse respeito, Luciana Ballestrin (2013)
Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial

modernidade dos museus e dos patrimônios esclarece que a opção pela palavra decolonial
A C I O N A L

em diálogo com a colonialidade e busca- decorre de sugestão feita por Catherine


se um sinal na direção de uma poética e Walsh, para quem a palavra “decolonização”
de uma política decolonial. Modernidade (com ou sem hífen) deveria ter uso e sentido
N
R T Í S T I C O

e colonialidade andam juntas, mas, ainda distinto da palavra “descolonização”.


assim, o denominado Modernismo brasileiro,
A supressão da letra “s” marcaria a
A

em algumas situações, especialmente no


distinção entre o projeto decolonial do Grupo
E

que se refere à literatura, às artes visuais e


I S T Ó R I C O

Modernidade/Colonialidade [M/C] e a ideia


à música, foi bastante inovador e radical. histórica de descolonização, via libertação nacional
A esse respeito convém registrar o diálogo durante a Guerra Fria. Além disso, insere-se
H

possível dos Movimentos Pau-Brasil (1924) em outra genealogia de pensamento, sendo o


A T R I M Ô N I O

e Antropofágico (1928), colocados em pauta constitutivo diferencial do M/C, reivindicado por


por Oswald de Andrade, e a perspectiva Mignolo (2010:19).
Már io Chagas
P

decolonial.
D O

No presente texto, dialogamos com a


O tempo todo, o texto que aqui se
E V I S T A

sugestão de Catherine Walsh, mas, ainda


oferece estará em conversa com os artigos
assim, compreendemos que o movimento de
R

de Waldisa Rússio (“Cultura, patrimônio e


de(s)colonização não pode ser reduzido a um
preservação”, texto III, do livro Produzindo
problema linguístico ou fonético. De outro
o passado: estratégias de construção do
modo: do meu ponto de vista, podemos
patrimônio cultural, publicado em 1984),
e devemos utilizar com total liberdade os
de Luciana Ballestrin (A América Latina e
verbos decolonizar e descolonizar e todos os
o giro decolonial, publicado em 2013) e de
seus derivados, precisamos apenas, a favor do
Márcia Chuva (Para descolonizar museus
122 bom entendimento, explicitar os usos que
e patrimônio: refletindo sobre a preservação
estamos fazendo.
cultural no Brasil, publicado em 2013), bem
De um ponto de vista crítico,
como com a dissertação de João Paulo Pereira
especialmente no que tange à “história
do Amaral (Da colonialidade do patrimônio
da museologia”1, construída em instância
ao patrimônio decolonial, defendida em
acadêmica que adota como referência
2015) e com as entrevistas de Hugues de
perspectivas europeias saudadas como
Varine-Bohan, publicada em 1979 no livro
universais, vale registrar que durante a
Os museus no mundo e de Walter Mignolo,
década de 1950, no Brasil, desenvolveram-se
“Decolonialidade como o caminho para a
experiências inovadoras e com características
cooperação”, publicada em 2013 na Revista
de(s)coloniais e, possivelmente, mais
do Instituto Humanitas Unisinos.
A observação atenta dos títulos 1. Registre-se que a expressão “história da museologia”
mencionados estimula a questão: afinal, considerada na atualidade traduz de modo anacrônico a
pretensão universalista do discurso ideológico da modernidade/
quais as diferenças e semelhanças entre o colonialidade. Esse discurso, no entanto, não dá conta sequer das
diferentes museologias que convivem e disputam o passado, o
descolonial e o decolonial? presente e o futuro na própria instância de onde é enunciado.
relevantes para a museologia brasileira do 1. O MUSEU É MODERNO,

Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial


que as referências das metrópoles europeias. DIZIA O CEGO A SEU FILHO2

A C I O N A L
Esse é o caso dos trabalhos desenvolvidos
por Nise da Silveira (Museu de Imagens A cidade de Ouro Preto foi tombada
do Inconsciente), Darcy Ribeiro (Museu

N
como patrimônio brasileiro pelo Serviço do

R T Í S T I C O
do Índio) e Abdias do Nascimento (Museu Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
de Arte Negra). Mas, ainda assim, é – Sphan no dia 20 de abril de 1937, dois

A
importante ressaltar, por um lado, que essas dias após o primeiro aniversário da gestão de

E
são experiências desenvolvidas num tempo

I S T Ó R I C O
Rodrigo Melo Franco de Andrade à frente
em que a cidade do Rio de Janeiro era o
do órgão e um dia antes do 145º aniversário
Distrito Federal e, por outro, que a “história
de morte de Tiradentes. No final de 1938,

H
da museologia” carioca não está autorizada

A T R I M Ô N I O
o Museu da Inconfidência foi criado por
a traduzir e falar em nome da história da
lei, mas a sua instalação só viria a acontecer
museologia brasileira. Esse é um problema
seis anos depois, no antigo edifício da

Már io Chagas
P
sério e que tem graves repercussões na

D O
Casa de Câmara e Cadeia3 da cidade de
atualidade.

E V I S T A
Ouro Preto, no dia 11 de agosto de 1944,
Nos anos de 1980 e 1990, outras
quando se comemorava o bicentenário de

R
experiências inovadoras foram colocadas em
nascimento do poeta e inconfidente Tomás
movimento. Nesse contexto destacam-se o
Antônio Gonzaga. Todas essas datas estão
I Encontro Internacional de Ecomuseus,
carregadas de intencionalidade. Nelas não há
realizado em 1992 na cidade do Rio de
ingenuidade ou acaso; ao contrário, resultam
Janeiro (RJ), antes da ECO 92, e o Seminário
de escolhas precisas e amparam-se no desejo
Patrimônio Imaterial: Estratégias e Formas
de construção de outras memórias e histórias,
de Preservação, realizado em novembro
de ocupação política e poética do passado, do 123
de 1997 na cidade de Fortaleza (CE). Este
presente e do futuro.
último foi responsável pela elaboração da
A decisão tomada em 1936 pelo
Carta de Fortaleza, que teve papel decisivo
para a construção do dispositivo legal presidente Getúlio Vargas de transferir para o
conhecido como Decreto nº 3.551, de 4 de Brasil os restos mortais dos inconfidentes que
agosto de 2000, que instituiu o Registro de haviam sido degredados para a África pela
Bens Culturais de Natureza Imaterial que Coroa Portuguesa no final do século XVIII
Constituem Patrimônio Cultural Brasileiro fazia parte dos movimentos políticos que
e criou o Programa Nacional do Patrimônio buscavam acionar memórias de resistência do
Imaterial. período colonial. Todos esses gestos políticos
Por fim, o artigo que quer ser lido destaca
2. Paráfrase dos dois primeiros versos da letra da música
algumas experiências de museus realizadas a Trastevere, de autoria de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos,
partir de 2006 em sintonia com a chamada incluída no álbum Minas, de 1975.
3. Permanece como um desafio o estudo da relação entre poder,
Museologia Social. resistência, memória e esquecimento, particularmente no que
se refere aos museus instalados em antigos prédios de Câmara e
Cadeia.
e poéticos estavam vincados por interesses 2. O
Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial

PAT R I M Ô N I O TA M B É M
ancorados nas relações entre memória e É MODERNO
A C I O N A L

poder. Algumas vezes esses vincos e dobras


estimulam e propiciam movimentos de O ficcionista e bacharel em direito
descolonização, outras apenas reiteram a
N

Rodrigo Melo Franco de Andrade, autor


R T Í S T I C O

colonialidade, com base no argumento da dos contos publicados no livro Velórios,


modernidade. O moderno, a modernidade assumiu o Serviço do Patrimônio Histórico
A

e a modernização têm sido argumentos e Artístico Nacional em 1936, no mesmo


E

utilizados até hoje, com muita frequência,


I S T Ó R I C O

ano em que publicou esse seu único


para justificar o combate e o enfrentamento livro de ficção, que, diga-se de passagem,
das comunidades populares e das formas de conta com uma fortuna crítica bastante
H

organização popular.
A T R I M Ô N I O

especial. Durante sua atuação à frente da


Entre o final da denominada Primeira instituição (1936-1967), o ficcionista de
Guerra Mundial (1919) e o início da assim um único livro esteve permanentemente
Már io Chagas
P

chamada Segunda Grande Guerra (1939), cercado e assessorado por intelectuais,


D O

como observa Nelson Werneck Sodré poetas, cientistas, artistas e arquitetos de


E V I S T A

(1979:55-56), os laços de dependência grande produção e renome, entre os quais


R

política e econômica ficaram mais frouxos, se incluem Carlos Drummond de Andrade,


o que estimulou a indústria nacional e Mário de Andrade, Manuel Bandeira,
contribuiu para a emergência de múltiplos Vinicius de Moraes, Pedro Nava, Cecília
e diferentes nacionalismos. No campo da Meireles, Heloisa Alberto Torres, Lígia
cultura, no Brasil, a situação não foi diferente Martins Costa, Candido Portinari, Sérgio
e pode ser identificada a partir de iniciativas Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Lucio
capazes de mobilizar afetos (políticos e Costa, Oscar Niemeyer e muitos outros.
124
poéticos), tais como a criação do Museu Foram essas e esses intelectuais que,
Histórico Nacional (1922), a elevação de a partir de perspectivas internacionais,
Ouro Preto à categoria de Monumento nacionais e regionais, contribuíram para a
Nacional (1933), a criação da Inspetoria dos construção, consolidação e aprimoramento
Monumentos Nacionais (1934), a criação do da política de patrimônio do Sphan
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico como política pública de Estado. Ao que
Nacional (1937), a criação do Museu tudo indica, Doutor Rodrigo (como era
Nacional de Belas Artes (1937), a viagem conhecido) soube cultivar uma poderosa rede
moderna de Lucio Costa para as ruínas de de relações políticas e soube conviver com
São Miguel das Missões e sua proposta para intelectuais que entre si não tinham boas
a criação do Museu das Missões (1937), a relações, como é o caso de Mário de Andrade
promulgação da lei de criação do Museu da e Gilberto Freyre ou Mário de Andrade e
Inconfidência (1938) e diversas outras ações, Heloisa Alberto Torres.
leis e propostas. Uma das orientações estruturantes da
política cultural do Sphan diz respeito à
decisão de deslocamento e interiorização Os remanescentes das ruínas da Igreja

Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial


da proteção dos patrimônios e da criação de São Miguel Arcanjo e do povoado

A C I O N A L
de museus. Concentrar a prática social dos missioneiro foram registrados em 1938 como
museus e patrimônios na Região Sudeste e patrimônio histórico e artístico nacional
nas capitais não contribuiria para a expansão no Livro do Tombo das Belas Artes. Nesse

N
R T Í S T I C O
da noção de patrimônio nacional e menos mesmo ano foi iniciada a construção do
ainda para a sua preservação. É possível singelo edifício do museu projetado por

A
imaginar que essa estratégia de política Lucio Costa. Dois anos depois, ou seja, em

E
cultural tenha dado ao Iphan o sentido de sua 1940, o museu foi juridicamente instituído e,

I S T Ó R I C O
existência. em 1942, aberto ao público.
Essa orientação estruturante foi Na região das Missões, que hoje se

H
evidenciada durante a inauguração do encontra nas fronteiras entre a Argentina, o

A T R I M Ô N I O
Museu da Inconfidência, em 1944, ocasião Brasil e o Paraguai, ao longo de 150 anos,
em que Rodrigo Melo Franco de Andrade entre os séculos XVII e XVIII, desenvolveu-

Már io Chagas
P
pronunciou um discurso que no campo se um projeto geral que articulava trinta

D O
dos patrimônios e museus ficou bastante povoados, com forte expressão cultural,

E V I S T A
célebre. Nesse discurso, além de desenhar religiosa, política e econômica e que
constituíam unidades urbanas distantes das

R
uma política para os museus e de sublinhar,
em nome do poder público, o desejo de cidades controladas pelas metrópoles.
interiorizá-los, dizia: Como indica Jean Baptista (2006:9):

A criação do Museu da Inconfidência, em É esta uma proposta audaciosa: erguer


Ouro Preto, assinala o início de uma orientação cidades em meio à selva, sobretudo a
nova e de relevante significação, adotada pelo partir da mão de obra indígena, coisa que
governo da União a respeito dos museus nacionais. somente a fé garante aos missionários
125
Deixando de limitar-se a organizar e desenvolver que se obterá. Em choque, duas
essas instituições federais apenas na capital da culturas com duas concepções de
República, ele deliberou fundá-las e mantê-las trabalho, produção e organização
também no interior do país, a fim de não ficar profundamente distintas, mas
circunscrita às divisas do Distrito Federal a muito próximas no que diz
obra de inestimável alcance cultural que a tais respeito a alguns aspectos da
estabelecimentos incumbe realizar (Andrade, religiosidade, especialmente
1987:165). aqueles relacionados com
a devoção. Com isso,
É possível identificar nesse discurso um ambos fazem das estruturas
tom “chapa branca”, mas nele também há um reducionais um campo
movimento que aponta para a necessidade de manifestações materiais
dessas relações simbólicas,
de rompimento com o cânone até então
compondo implicações sociais
estabelecido, que se confirma, por exemplo,
profundas para a geração
nas ações patrimoniais levadas a efeito no daquela organização.
extremo sul do Brasil.
A proposta para o Museu das Missões contemporânea, explicitamente assumido
Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial

tinha, por sua simplicidade arquitetônica e pela Museologia Social – que também pode
A C I O N A L

museográfica, por sua abordagem temática ser considerada uma Museologia Insurgente,
e por sua proposta museológica, um aspecto nos termos de Boaventura de Souza Santos
inovador. Segundo Lucio Costa (1999:39): –, é romper com as camisas de força, com as
N
R T Í S T I C O

práticas de domesticação e colonização, com


O ”museu” deve ser um simples abrigo para
a anestesia e o entorpecimento produzidos
todas as peças que, todas de regular tamanho,
A

muito lucrarão vistas assim em contato direto pela museologia colonialista que se estrutura
E

em bases hierárquicas e patriarcais, que


I S T Ó R I C O

com os demais vestígios; e como a casa do


zelador precisa ficar no recinto mesmo das acredita no poder das disciplinas, que se
ruínas, é natural que os dois sejam tratados considera pura e ideologicamente neutra,
H

conjuntamente, ocupando a construção, de que atribui mais valor à teoria do que à


A T R I M Ô N I O

preferência, um dos extremos da antiga praça prática e que valoriza, de modo especial, a
para servir de ponto de referência e dar uma ideia
memória do poder.
melhor das suas dimensões.
Már io Chagas
P

De algum modo, a memória desses


D O

O Museu das Missões e o Museu da movimentos constitui um patrimônio, ou


E V I S T A

Inconfidência, nascidos no âmbito do Iphan melhor, um contrapatrimônio, ou, ainda


R

e hoje vinculados ao Instituto Brasileiro de melhor, um “fratrimônio” (Chagas e Storino,


Museus – Ibram, em virtude de sua localização 2014:71-90) que pode ser acionado a favor da
e temática, preservam registros de movimentos vida e das liberdades humanas.
de libertação do domínio colonial. A existência Como indica Jacques Le Goff (2003:419-
desses registros, no entanto, por si só, não 476):
garante que eles estejam em sintonia com as (...) A memória, onde cresce a história,
práticas e teorias decoloniais. que por sua vez a alimenta, procura o passado
126
Os desejos e movimentos de resistência, para servir o presente e o futuro. Devemos
independência, rompimento com o pacto trabalhar de forma a que a memória coletiva
colonial e descolonização em termos sirva para a libertação e não para a servidão
políticos, econômicos e sociais, ao longo do dos homens.
tempo, conviveram com avanços, retrocessos Nesse breve excerto, depois de ter feito uma
e violentas ações de repressão por parte do análise crítica e de ter examinado a historicidade
Estado. Alguns exemplos de movimentos do vocábulo e do conceito “memória”, o
de resistência, rebeldia, revolta e separação historiador faz votos e investe no devir como
podem ser encontrados na Guerra quem reconhece a indispensabilidade dos
Guaranítica (1750-1756), na Inconfidência compromissos sociais a favor da vida e da
Mineira (1789), na Conjuração Baiana libertação dos corpos e mentes.
(1798-1799) e na Revolução Pernambucana Na contemporaneidade, movimentos
(1817). Não raro a memória desses e de resistência e de criatividade dos povos
outros movimentos é musealizada e quilombolas e dos povos indígenas, das
domesticada. Um dos desafios da museologia comunidades populares urbanas e rurais,
dos moradores das favelas e das chamadas Por esse caminho, falar em bem viver implica

Museus e patrimônios: por uma poética e uma política decolonial


periferias continuam mobilizando referência direta ao sumak kawsay (em língua

A C I O N A L
afetos políticos e afetos poéticos a favor quéchua); ao suma qamaña (em língua
da decolonização epistêmica, política, aymara) e ao tekó porã (em língua guarani).

N
econômica, social e cultural. Contra esses Talvez esse seja um desafio para os próximos

R T Í S T I C O
movimentos erguem-se sistematicamente vinte anos do Iphan.
os setores mais conservadores da sociedade Nesse sentido, a inscrição da Tava5 como

A
brasileira, utilizando como argumentos patrimônio imaterial, na categoria de Lugar

E
I S T Ó R I C O
a defesa da ordem e do progresso, do de Referência Cultural para o Povo Guarani,
patrimônio privado e do desenvolvimentismo. no Livro de Registro dos Lugares, é um forte
A decolonização do pensamento indicativo de que é possível pensar e trabalhar

H