Carlos Lucena Fabiane Santana Previtali Lurdes Lucena: I A Edição Eletrônica
Carlos Lucena Fabiane Santana Previtali Lurdes Lucena: I A Edição Eletrônica
I a Edição Eletrônica
NAVEGANDO
Navegando Publicações Conselho Editorial
CNPJ - 18274393000197 Anselmo Alencar Colares - UFOPA
SUMARIO
Carlos Lucena - UFU
Carlos Henrique de Carvalho - UFU
Dermeval Saviani - Unicamp Prefácio
NAVEGANDO 1
Fabiane Santana Previtali - UFU
[Link] Gilberto Luiz Alves - UFMS
O Brasil republicano: um a história de golpes de Estado
e d itoranaveaando:# qm [Link] José Carlos de Souza Araújo - Uniube, UFU çSõsé (Ptaudwei Aem bardi
Uberlândia - MG José Claudinei Lombardi - Unicamp OMarces (Raberte A m a
Brasil José Luis Sanfelice - Univás. Unicamp
Lívia Diana Rocha Magalhães - UESB Apresentação 31
Mara Regina Martins Jacomeli - Unicamp
PARTE I 41
O golpe parlam entar e a política internacional
Copyright © by autores. 2017.
Atualidade histórica e ofensiva socialista: um a alternativa radical ao 43
sistema parlam entar
C715 - Lucena. Carlos; Previtali. Fabiane Santana; Lucena
Qysfrán CMeszáres
Lurdes. A crise da democracia brasileira - Volume I
Uberlândia: Navegando Publicações. 2017. A era das contrarrevoluçôes e o novo estado de exceção 53
(Ricardo Antunes
ISBN: 978-85-92592-57-8
As influências norte-am ericanas no Golpe de 2016 63
1. Democracia 2. Política 3. Educação I. Carlos (R aquelde AJm eída CMeraes
Lucena; Fabiane Santana Previtali; Lurdes Lucena. II.
Navegando Publicações. Título. Estado de B em -Estar Social. Neoliberalismo e Estado Gestor: 79
____________________________________________ C D D -370 aproxim ações globais
Preparação/ Revisão - Lurdes Lucena ç^fabiane Q&antana '* 2retital
Arte C apa - José Eduardo Fernandes 6*iben õ^ésar ç^faqiani
Foto C apa - Vinícius Souza e Maria Eugênia Sá. A geopolítica internacional do petróleo e o golpe parlam entar no 97
Brasil
índices para catálogo sistemático
(Partes A jeena
Educação 370
Ciências Sociais 300 Aurdes Aucena
Ciência Política 320 (Rebsen A u iz de ç^rança
A crise brasileira e as rachaduras do sistema 109
'P atricia Q Pilfat
PARTE II 127
O golpe parlam entar e o estado no Brasil
Notas sobre o Golpe de 2016 no Brasil 129 Os desafios da Economia Popular Solidária no pós-golpe de 2016 291
Neodesenvolvimentismo ou Crônica de Uma Morte Anunciada çdasé (S^àutrdo ç*femandes
çÇ/iôvtmní A k e s õ^ristúme <58etank>
O golpe 149 Sobre os autores 301
Aaitania ÔS íuí» de ézíma
Agosto de 2016: a verdadeira face do golpe de Estado no Brasil 157
éSute Qsèexrra cKeta
(éReis das Q&antas
O golpe parlamentar de 2016 e o reordenamento da hegemonia 177
burguesa
Q ô/fer A hes das Q&antas
çdulia OACdmehen
Através da janela: o signo do golpe no primeiro turno 191
de votação da PEC 55
AJéxía TSádua ç^ratiea
Q5au*a Qõi&x
<Svanise de Áxdrade
ORafael ^õuarte (S>liFeira Q&enanda
Odd/tessa C Maias das Q&axtas
Qcfataíus ^êkuvtd °3arne
PARTE 111 213
O golpe parlamentar e seus impactos na educação brasileira
A crise política no Brasil, o golpe e o papel da educação 215
na resistência e na transformação
^õermevid Q&amemi
Reformas educacionais em tempos de golpe ou como avançar 233
andando para trás
ISaulmo çdasé (Stsa
Com o golpe de 2016, para onde caminhará a educação?' 261
çdasé éSxts Q&<mfehce
A ponte, o golpe, a travessia e o resultado: neo “deficientes cívicos” 279
Q&âlma Ofensa
Á n x (SLlisa Qôpaabxzi <[Link]
1
PREFÁCIO
ç ^ o s é G lm iin e i
oUtüvas GKolrrtõ <£.hm112
golpismo tem uma profunda base material, econômica, e que no plano social e dos interesses da burguesia e suas frações de classe agrária (hoje agroindustrial),
político expressa a luta entre classes e frações de classe. industrial, comercial e financeira. E para isso que se cria e transforma-se. em
No caso brasileiro, na colônia eram os senhores (metropolitanos) x indí conformidade com as necessidades históricas dessas classes dominantes, o orde
genas e/ou negros (escravos) e depois os homens livres da terra. No império a es namento legal, jurídico constitucional, com os necessários aparatos do Poder J u
trutura social pouco mudou, mas a luta já se passava nos quadros de uma m o diciário e das forças repressivas. Mas quando esse ordenamento jurídico e consti
narquia nacional com feições lusitanas. A República - que nunca chegou a se tuinte trava, quaisquer que sejam os motivos, principalmente em decorrência do
constituir como res publica, conceito latino para “coisa pública”, surgiu ainda avanço dos movimentos e organizações políticas dos trabalhadores, a garantia do
nesse contexto monárquico, conflagrada por movimentos abolicionistas, Republi pleno funcionamento da máquina do Estado em benefício da burguesia, o con
canos e positivistas, sob a tutela das forças armadas; uma estrutura partidária ca trole do poder ou o ordenamento legal precisa ser alterado.
penga e uma prática política clientelista e coronelista foram se instalando com o Num Estado de Direito, nesse momento, entra em funcionamento pro
poder monárquico e continuou ao longo da Primeira República que já nasceu cessos democráticos de alteração da Carta Magna do Estado-Naçào, quer seja
velha nas alianças e práticas políticas. Nesses tempos, os fazendeiros, enquanto através de Emendas Constitucionais ou de uma ampla Constituinte. Em Estados
oligarquia fundiária, dominaram a vida política nacional (e hoje ainda exercem débeis e frágeis, característicos da periferia do mundo capitalista, sob o Imperia
forte influência, sob a carapaça do “agronegócio”), crescentemente em aliança lismo e a hegemonia de um capital monopolista, controlado pelo capital financei
com comerciantes, banqueiros e industriais, nào sem conflitos e divisões entre es ro internacionalizado, realiza-se a quebra do ordenamento jurídico, através de
sas frações de classe, contando com o suporte de suas organizações de classe um golpe de estado. E me parece muito adequado o uso da categoria golpe
(sindicatos), de organização e articulação (maçonaria), sob as bênçãos da Igreja e de estado como Florestan Fernandes definiu: como um ciclo permanente de
de agências de elaboração e difusão ideológica (jornais, revistas, rádios, televi contrarrevoluçòes preventivas, aspecto fundante do processo conservador da
sões e hoje internet). modernização periférica brasileira.
Para essas elites, os que vivem do trabalho nào passam (ontem e hoje) Os golpes de estado no Brasil sempre estiveram associados a um quadro
de massa de manobra, passível de convencimento pela propaganda ideológica e de crise econômica e que. consequentemente, se articulam a uma crise social e
pela manipulação eleitoral do clientelismo. do fisiologismo e da cooptação. Vi política. As elites econômicas brasileiras, associadas ao grande capital internacio
vem do trabalho os trabalhadores assalariados do campo e da cidade, os peque nal, não toleram crises e a consequente redução da lucratividade para as frações
nos produtores rurais e industriais e também a classe média, composta por pe da burguesia vinculadas à produção, sendo o capital financeiro nutrido pelas cri
quenos comerciantes, profissionais liberais e funcionários públicos que, embora ses para ampliar sua acumulação. Mais grave ainda, quando a crise se consorcia
vivam do seu trabalho, se pensam como parte integrante da burguesia. No caso com avanços democráticos, por mais tímidas que sejam as conquistas, amplian-
da classe trabalhadora, em sua difusa e complexa composição, desde o Império, do-se os movimentos sociais, um golpe de Estado é arquitetado. E preciso re
suas organizações sociais e políticas (sindicados, ligas, movimentos e partidos) gistrar que. desde as últimas eleições presidenciais de 2014. estamos em pleno
vem ampliando, emergindo no cenário político de modo crescente, evidenciando golpe de Estado, no qual se consorciam a burguesia (que possui CIC e RG), a
a existência e a vitalidade da luta de classes, acobertada pelo fetiche da nebulosa grande mídia (que também é monopólio do capital) e à qual cabe o papel de for-
ideologia burguesa dominante. No passado e no presente as forças jurídicas e re jadora ideológica, o judiciário e que nunca passou, no Estado Burguês, de um
pressivas (militares) atuaram e atuam para criminalizar e conter a marcha organi- poder conservador e que se ancora numa legislação que é suficientemente ambí
zativa dos trabalhadores em suas mais diferentes manifestações, nào se podendo gua para toda e qualquer ação - acusatória ou absolvitória - e que se completa
esquecer que as forças repressivas (polícias militares e mesmo as forças armadas) com uma política francamente reacionária e sabidamente uma grande banca de
nunca deixaram de intervir para conter dentro de limites aceitáveis (para os do negócios.
nos do poder) os movimentos sociais e para garantir a segurança e funcionamen Nessa perspectiva nào há nenhuma dúvida quanto ao processo golpista
to do Estado burguês. Em vários momentos da história, os próprios militares as que está em curso, com a plena participação dos meios de comunicação impres
sumiram o controle do poder, sob a justificativa da necessidade de garantir a o r so (jornais e revistas, com exceções), falado e televisivo, com a quase totalidade
dem e a segurança para o progresso e desenvolvimento do país. dos sistemas de rádio e televisão controlados por poucos monopólios que. por
A garantia do pleno funcionamento do Estado burguês, cada vez mais sua vez, estào nas mãos de oligarquias políticas regionais. A internet é um capítu
putrefato, acompanhando o processo de decadência do modo de produção capi lo à parte, possibilitando espaços contraditórios e ampla difusão de informações,
talista. está na organização dos instrumentos necessários à organização e defesa ainda que controlada pelo capital e por órgãos de inteligência imperialistas.
4 5
A pedra de toque do cimento ideológico golpista se alicerça num tema terísticas fundantes da política e da Nação moderna, como um aparelho a serviço
reincidente nos históricos golpes de Estado no Brasil: a corrupção. A denúncia de da classe dominante: a burguesia como classe formada por várias frações de clas
corrupção aparece ciclicamente em nossa história, sempre que é necessário ou se. seguindo a transformação que levou ao capitalismo se constituir como modo
conveniente às elites dominantes, com o endosso do judiciário e o uso das forças de produção dominante.
repressivas do Estado burguês. Nào se pode ser ingênuo ao discutir assunto com A corrupção é estrutural do capitalismo, posto que o princípio que a rege
plexo e que envolve várias dimensões da vida social. Num primeiro momento, é a mercadoria e o fundamento do mercado (a troca) atravessa todas as relações
somos quase levados a fazer um discurso pseudo ético, no qual nào há como societárias, atravessa a tudo e a todos. Na base da relação mercadológica está o
deixar de se posicionar contrário à corrupção. Entretanto, desde a perspectiva capital, que pode comprar tudo e todos, evidenciando que a corrupção é um
adotada sobre o assunto4, nào há uma ética universal, essencialista, independen modus operandi intrínseco à forma mercadoria. Para o capital, nào há limites
te do modo como os homens produzem a sua vida material e social. Em socieda econômicos, sociais, políticos, culturais, éticos ou morais para que ocorra o obje
des com classes, toda ética reporta-se aos valores da classe dominante e que. as tivo fundamental do capitalista: a acumulação, para a qual não existem frontei
sumindo características universais, é ideologicamente difundida para todo o teci ras. A corrupção nào diz respeito apenas ao Estado, mas atravessa toda a socie
do social. Disso resulta que a ética apareça com uma característica essencialista dade. abrangendo desde as pequenas corrupções cotidianas às grandes opera
e ahistórica. como se existissem princípios abstratos, gerais e universais sobre a ções comerciais, econômicas e financeiras, atingindo os altos escalões gerenciais
conduta e a açào dos homens. das empresas privadas.
Na realidade, os valores característicos da burguesia nada possuem de Por isso a reflexão sobre a existência de um golpe em curso, implica em
receituário de regras morais universais e que buscam o bem-estar de toda a hu analisar uma dupla dimensão contida nesse processo: é caracteristicamente um
manidade. Em termos econômicos, a corrupção é uma característica básica do golpe de Estado e também e principalmente é um golpe contra a classe trabalha
modus operandi dos negócios do mundo burguês a garantia do máximo de lu dora. A categoria que melhor expressa os sucessivos golpes ocorridos no Brasil é
cratividade e os melhores negócios - e que se vincula ao processo de formaçào contrarrevolução. conceito cunhado nas análises de Florestan Fernandes que
da burguesia como classe social que nada teve de idílica em sua trajetória, muito adequadamente entendeu que a Revolução Burguesa ocorrida no Brasil foi
menos que sua existência seja explicada por uma suposta ética protestante0. Não uma revolução conservadora, da qual resultaram desdobramentos políticos anti
se está aqui justificando a corrupção6, mas analisando como. no longo processo democráticos. antipopulares. anticomunistas, antinacionais e pró-imperialistas
histórico de constituição do modo de produção capitalista, houve um longo pro que, face à rigidez conservadora desses fatores condicionantes, obstaculizam os
cesso marcado pelo roubo, pela rapina, e pela expropriação dos meios de produ mais tímidos ganhos à classe trabalhadora, proporcionados pelo desenvolvimen
ção dos camponeses e artesãos e a consequente exploração da mais valia do tra to da própria revolução burguesa (cf. Lima Filho, 2007). Refletindo sobre o Gol
balhador. E um processo caracterizado pela existência de uma ampla teia de re pe de Estado de 1964, do qual resultou uma longa ditadura militar, Florestan
lações de apropriação, de intermediação e de prestação de serviços de apoio aos Fernandes (1980) foi categórico em precisar o caráter contrarrevolucionário da
negócios, dos mais diversos setores da economia, com a vinculação dessas aos ditadura, autodenominado de “revolução institucional”. Assim afirmou: “O regi
supostos interesses nacionais. Imaginar que esse mercado de negócios nào tenha me... instituído em 1964 através de um golpe de Estado e em nome de ‘ideais
relação alguma com a política e com o Estado moderno, é desconhecer as carac- revolucionários’, constitui, de fato, uma contrarrevolução” (FERNANDES. 1980.
p.113). Reflete ainda que “[...] nào estamos diante de uma revolução, mas de
uma contrarrevolução (que, além do mais, é largamente planejada e programa
d Abordado por Lombardi em capítulo no livro Ética e Educação (Lombardi, 2005. p. 20 e ss).
da). a qual se autoproclamou uma revolução (já que teve poder político, militar e
5 Sugiro a leitura do capítulo XXIV - A Chamada acumulação primitiva. In: MARX. Karl. O cap i
tal: crítica da economia política: livro 1: o processo de produção do capital. 1. ed. São Paulo: Boitem-
legal para ir mais longe, autodeterminando sua ‘legitimidade’)” (FERNANDES.
po. 2013, p.p.827 877. 1980, p.155). A profundidade teórica do autor o leva a entender uma caracte
6 Não se está aqui buscando justificar historicamente a corrupção, mas entendendo suas raízes. Numa rística básica dos Golpes de Estado que sistematicamente ocorreram no passado
perspectiva de defesa dos interesses dos trabalhadores, não se pode estar favorável à corrupção burgue do Brasil e que ainda mantém atualidade. Para Florestan Fernandes delineou-se
sa. praticada no mundo empresarial ou nas relações entre empresas e a política e o Estado. A corrup no Brasil uma república em que apenas vigora a autocracia burguesa, cuja essên
ção é. entre outros mecanismos, um instrumento de acumulação, de ampliação da exploração dos tra cia está na “concentração de poderes, dissimulada e mistificada no plano institu
balhadores.
De modo ainda mais radical, é injustificável qualquer tipo de corrupção, roubo, rapina, ou qualquer ou cional. mas posta em prática com a maior desenvoltura no plano do funciona
tra forma de apropriação da riqueza social. Não passam de formas de opressão, contrárias a uma ética mento do governo ‘Republicano’”, onde “a uma democracia restrita correspon
coletivista da res può/ica e emancipatória.
6 7
de... um Estado constitucional e representativo restrito” que Florestan chama de entre as classes e frações de classe na busca por solução para as crises conjuntu
"república burguesa autocrática” (FERNANDES. 1980. p.159-160). rais.
Qualquer avanço social para os trabalhadores no Brasil, levado a cabo A longa história do golpismo Republicano à brasileira começa com a
por governos politicamente desenvolvimentistas e nacionalistas, imediatamente própria Proclamação da República em 1889. depois em 1930. em 1937. em
sáo interpretados como um perigo para os interesses do capital. Da arguta análi 1954. em 1958. em 1961. em 1964. em 1969. em 1985 com o fim ditadura mili
se de Florestan decorre que o projeto burguês é para “[...] manter a ordem, sal tar e o inicio da Nova República, e a que vivemos atualmente desde as eleições
var e fortalecer o capitalismo, impedir que a dominação burguesa e o controle em 2014. Mesmo em que pese um aparente “esquecimento” do passado pelas
burguês sobre o Estado nacional se deteriorem” (FERNANDES. 1975. p.294). É massas e a permanente tentativa de reinterpretar os fatos pelas elites dominantes,
exatamente isso que faz com que o caráter político do golpe brasileiro seja anti- o exercício da ciência da História, numa perspectiva crítica, não é conivente com
nacional. antipopular, antidemocrático e pró-imperialista; com boa dose de vio as tramas golpistas e acobertadoras do passado, registrando os fatos, os sujeitos e
lência institucionalizada. os papéis que desempenharam, numa incessante busca pela verdade histórica.
Aqui se está apenas levantando alguns pontos teóricos para uma análise Segue um passeio panorâmico pelos momentos caracteristicamente gol
conjuntural profunda e rigorosa que precisa ser feita. Náo há como estar satisfei pistas de nossa história Republicana, deixando de lado as várias revoltas e rebeli
to com as análises que disponíveis, pois carecem de uma visào de conjunto e na ões ocorridas ao longo de toda a história brasileira.
qual as partes se articulam para explicar a realidade que estamos vivendo con
temporaneamente no Brasil. A ausência de análises mais complexas, que apreen 1889 - Proclam ação d a República
dam o mundo que vivemos, tem nos levado a equívocos estratégicos e táticos la
mentáveis. Enquanto as forças políticas conservadoras conseguem se articular Aprendemos que em 15 de novembro de 1888 ocorreu no Brasil a Pro
para a manutenção e aprofundamento de suas bandeiras cada vez mais an a clamação da República, como se isso tivesse ocorrido por uma decisão soberana
crônicas e reacionárias, lamentavelmente as forças progressistas e de esquerda de todo o “povo Brasileiro”. Sabe-se. entretanto, que a Proclamação da Repúbli
têm sofrido seguidas derrotas, padecendo sob um divisionismo e um fogo amigo ca resultou de um levante político-militar que culminou em 15 de novembro de
destrutivo. 1889. com a derrubada da monarquia constitucional parlamentarista do Império
Um breve e sintético passeio pelos fatos de nossa história pode ajudar a do Brasil, pondo fim à soberania do Imperador D. Pedro II e instaurando a forma
compreender como e em que condições a história dos Golpes se repetem na for Republicana federativa presidencialista no Brasil. Foi esse golpe que passou à
mação social brasileira, bem como as características e particularidades que assu história como Proclamação da República do Brasil.7
mem caso-a-caso. Numa análise como essa. não se pode esquecer de nosso Os sintomas da crise do Império já eram visíveis desde a década de
passado colonial - com suas relações de subordinação à metrópole, o patrimoni- 1870. quando teve início o movimento Republicano e o descompasso entre o go
alismo e a organização cartorial -. da recriação do trabalho escravo sob o capita verno imperial, o Exército e a Igreja, aos quais se soma o desgaste devido ao
lismo mercantil, inclusive sua devastadora influência ideológica sobre toda a or problema da escravidão. Tais sintomas não eram exclusividade da formação so
ganização social, notadamente sobre as classes dominantes, do processo de in cial brasileira, mas estavam permeados pelas profundas e rápidas transformações
dustrialização tardia brasileiro, com a imigração e a formação da m ão-de-obra econômicas e sociais em curso, originando novos grupos sociais e a receptivida
que era necessária à implementação da indústria e da qual resultou a constitui de às ideias reformistas.
ção do proletariado urbano, as transformações da produção rural para atendi A crise da monarquia no Brasil, que culminou com o golpe da Proclama
mento da economia mundial, da qual resultou sucessivas levas de expulsão dos ção da República, ocorreu quando o modo de produção capitalista experimenta-
trabalhadores do campo e a consequente urbanização da sociedade, a formação
e o papel das camadas médias urbanas em sociedades cada vez mais complexas, 7 A Proclamação deu-se na Praça da Aclamação (hoje Praça da República), na então capital do Impé
como é a brasileira. Isso exige um estudo aprofundado de suas bases materiais, rio do Brasil, o Rio de Janeiro, quando um grupo de militares, liderados pelo Marechal Manuel Deodo-
das transformações da economia e das relações econômicas, sociais, políticas, ro da Fonseca, destituiu o imperador e instituiu naquele lõ de novembro de 1889. um governo provi
ideológicas, etc. As transformações ocorridas na história brasileira resultaram em sório Republicano. Esse governo foi assim composto: o marechal Deodoro da Fonseca como presidente
exposições ideológicas justificadoras das mudanças sociais e política e que colo da república e chefe do Governo Provisório; o marechal Floriano Peixoto como vice-presidente: e
como ministros Benjamin Constant Botelho de Magalhães. Quintino Bocaiuva. Rui Barbosa. Campos
cam a necessidade de entender a base material (econômica) que anima as lutas Sales. Aristives Logo. Demétrío Ribeiro e o almirante Eduardo Wandenkolk. todos membros atuantes
da maçonaria, https: [Link] Ffrcdama<oC30áA70ÓC3i:’ÕA3o_da_Rgp<'c»C30ÕBAblica_do_Brasil
8 9
va sua primeira grande crise, ocorrida entre 1873 a 1896. também conhecida go da segunda metade do Século XIX (Prado Junior. 1982, p. 192), deu-se com
como “Grande Depressão”. Foi a primeira crise capitalista em escala mundial e índices de crescimento em praticamente todos os setores econômicos, tendo
que se fez sentir com grande intensidade na Europa e nos Estados Unidos. Essa como carro chefe a economia cafeeira. ampliação da malha ferroviária e das d e
crise decorreu do próprio desenvolvimento do capitalismo concorrencial: do co mais vias de transporte e comunicação, fortalecimento da produçáo manufaturei-
lossal desenvolvimento das forças produtivas, com a maquinaria e grande indús ra e industrial de bens de consumo. O crescimento da atividade econômica no
tria. da produção em massa de mercadorias; do desemprego de massas crescente Brasil deu-se pela ampliação da participação internacional nas atividades econô
de trabalhadores e que foram colocados, rapidamente, à margem do mercado. micas. notadamente, pela açào do capital financeiro internacional que passou a
Com essa primeira grande crise decorreram algumas consequências mundiais e ser multiforme e ativo, constante e crescente em todos os setores econômicos que
que afetaram profundamente a divisáo internacional do trabalho. A primeira foi a oferecessem perspectivas de bons negócios (Idem. p. 210). A concorrência entre
falência de muitas empresas, notadamente as pequenas e médias, com a conse os impérios tomava a América do Sul, e nesta o Brasil, um campo de batalha
quente concentração e centralização do capital e meios de produção nas máos pela disputa de influência e controle econômico. As inversões britânicas para a
de poucos capitalistas industriais. Certamente o surgimento dos monopólios e América do Sul foram de 10,5 % na década de 1860-70 para mais de 20% na
cartéis foi uma das principais transformações resultantes dessa primeira grande década de 1880-90 (Singer. 2006, p. 397). Para o Brasil os investimentos britâ
crise, submetendo todos os setores da economia ao domínio das grandes em pre nicos quase duplicam entre 1880 a 1890, passando de 39,9 a 68.7 milhões de li
sas monopólicas. dos trustes e cartéis. bras esterlinas, sofrendo crescimento vertiginoso entre 1890 a 2013, quando atin
Uma segunda consequência, resultado do estreitamente dos mercados gir 223,9 milhões de libras esterlinas (idem. ibidem). Estavam em pleno funcio
internos nas economias industrializadas, foi a busca por mercados consumidores namento os mecanismos de dependência e controle do capital financeiro no con
externos, fora da Europa, nos continentes ainda náo industrializados - Ásia. texto da guerra imperialista.
América Latina e África. Foi o início de um novo ciclo imperialista, caracterizado O conjunto das transformações econômicas em curso, também conduzia
pelo chamado “neocolonialismo europeu’’, do qual decorreu a partilha do mun a mudanças na estrutura social, com a emergência de novas classes e frações de
do pelas grandes potências industriais no século XIX. Para Eric Hobsbawm. esse classes, tanto empresariais quanto de trabalhadores e que tornavam mais com
novo imperialismo decorreu “de uma economia internacional baseada na rivali plexa a luta política que gradativamente vai se introduzindo no país. Era preciso
dade entre as economias industriais concorrentes” (Hobsbawm. 1988. p. 101). como de um aggiornamento (“atualização”) no campo político e que colocasse o
Os principais objetivos da corrida imperialista foram a repartição do mundo entre Brasil no caminho dos fluxos de capital e de força de trabalho dos países centrais
os países industrializados em de controle de mercados, fontes de matérias-primas para a periferia do mundo capitalista (Singer, 2006. p. 384).
e a dominação colonial, principalmente por meio de mecanismos econômicos, Entre as forças sociais em disputa pela hegemonia política no Brasil,
notadamente a exportação de grandes empresas multinacionais. Ainda que a In duas forças se destacaram no processo que resultou na queda da monarquia. Por
glaterra se mantivesse como a principal potência imperialista, outras potências um lado. os militares aos quais coube a iniciativa do episódio de 15 de novem
disputavam o mercado internacional, como a Alemanha, a Rússia, o Japáo, os bro. de 1889, resultando na Proclamação da República pelo monarquista Mare
Estados Unidos da América, a França e a Holanda. chal Deodoro da Fonseca. Por outro, a burguesia cafeeira paulista, organizada
Na divisáo internacional do trabalho grande parte da periferia capitalista, politicamente em tomo do Partido Republicano Paulista (PRP), fornecendo uma
composta por muitas ex-colônias e colônias, na qual o Brasil estava incluído, base social estável para a instauração do regime Republicano (FAUSTO. 1996.
exercia o papel de exportadora de “artigos coloniais” - como cobre, prata, sali p. 235).
tre. algodáo. café. açúcar, fumo, etc. - e importadora dos produtos manufatura Após a Proclamação da República, o descompasso entre os vários gru
dos ingleses ou pelas luxuosas e finas mercadorias francesas. Nessa divisáo inter pos que disputavam o poder era evidente. As elites de Sào Paulo, Minas Gerias e
nacional do trabalho o Brasil continuava um produtor e exportador de uns pou Rio Grande do Sul almejavam a conquista da autonomia das unidades regionais,
cos produtos primários, como o café. a borracha, o cacau, o algodáo. o açúcar, defendendo um modelo Republicano federalista. Mas outro elemento fragilizava
etc. Era apenas aparente a incipiência da relaçào do Brasil com a economia in a jovem república: intemamente as forças armadas náo eram coesas. Enquanto o
ternacional. náo se podendo menosprezar a importância das transformações em Exército havia sido o protagonista da proclamação da República, a Marinha ti
curso no capitalismo sobre o país (Singer, 2006. p. 381), inclusive o Golpe que nha sua imagem ligada ao antigo regime monárquico. O próprio Exército polari-
levou ao fim da monarquia e a instauração da república. O desenvolvimento das zava-se em tomo das figuras de Deodoro e Horiano, o primeiro identificado com
forças produtivas brasileiras e a transformação da base material brasileira ao lon os veteranos da Guerra do Paraguai, os quais defendiam o papel central do
10 11
exército na organização do novo regime, enquanto os militares identificados com A cham ada “Revolução de 1930”
a imagem de Floriano defendiam os ideais positivistas de “ordem e progresso”,
entendendo-se como “soldados-cidadãos”. Apesar das diferenças, estavam uni No final da década de 1920 o mundo foi abalado pela segunda grande
ficados no antagonismo aos defensores de uma República liberal (FAUSTO. crise estrutural do modo capitalista de produção. Foi a Grande Depressão de
1996. p. 246). 1929-1941 e que foi marcada por profundo crash financeiro. Essa crise foi se
A depressão econômica foi sendo sentida no Brasil gradativamente, até anunciando desde há muito e a Primeira Guerra Mundial foi a expressão belige
estourar em 1891. inicialmente manifestando-se como uma crise financeira, re rante de economias imperialistas que buscavam tomar-se hegemônicas na dispu
sultado da política de expansão das emissões monetárias que vinha dos tempos ta por mercados para seus produtos industrializados, por fontes de matérias pri
do Império (Prado Junior. 1982. p. 218-19). A crise financeira, agravada pela mas e combustíveis e investimentos de capital financeiro8. Contraditoriamente, o
convulsão política do país. foi acompanhada da especulação financeira pura e grande vencedor dessa guerra imperialista foi o USA (U nited S ta te s o f A m e ri
simples: grande número de novas empresas - bancos, firmas comerciais, compa ca) e que não entrou na guerra, mas aproveitou-se dela para ampliar a exporta
nhias industriais, estradas de ferro e todo tipo de negócios - eram criadas para a ção agricola e industrial, comerciando com os dois lados no conflito. Finda a Pri
especulação e não tinham existência real. mas fictícia, apenas para viabilizar a meira Guerra, os norte-americanos se dedicaram à abertura de créditos aos alia
emissão de açòes e colocá-las no mercado de ações que passavam rapidamente dos. com a concessão de empréstimos à Inglaterra e à França. A economia am e
de mãos (Prado Júnior, 1982, p. 220), a exemplo do que ocorria em todo mun ricana cresceu vertiginosamente inaugurando o que ficou conhecido como o
do. American way o f life (estilo de vida americano). MAS, ao longo da década de
A crise econômica correspondia grave fragilidade política, manifesta na 1920, os sinais de superprodução denunciavam o desenvolvimento econômico
ausência de unidade nacional e no anseio dos grandes Estados por maior auto desenfreado, tanto na agricultura quanto na indústria. Foi a e sp ec u laç ão fin an
nomia. Foi nesse contexto que Deodoro foi eleito presidente da República, em ceira que, entretanto, explodiu em 24 de outubro de 1929, com a quebra da
25 de fevereiro, de 1891. tendo como vice Floriano Peixoto. Inspirando-se no Bolsa de Valores de Nova York, deixando à mostra a profundidade da crise nos
antigo “Poder Moderador” do periodo monárquico, o qual dava ao imperador Estados Unidos e que se alastrou pelo mundo todo.
poderes decisórios excepcionais, colocando-o acima dos demais poderes. Por Foram muitos os efeitos da Grande Depressão para as formações sociais
meio de um golpe em 3 de novembro Deodoro centralizou o poder nas mãos do em todo o mundo, especialmente na Europa, onde os países deixaram de lado
executivo, pondo fim aos anseios de autonomia dos Estados (FAUSTO. 1996, p. os princípios do liberalismo e passaram a defender a intervenção do Estado na
254). Por meio desse Golpe no Golpe. Deodoro da Fonseca instalou um Estado economia, o protecionismo e a construir Estados fortes e, no limite, até mesmo
de Exceção, assinando dois decretos: um dissolvendo o Congresso e o outro ins autoritários. Não se pode esquecer que foi nesse contexto de crise que se deu a
taurando o Estado de Sítio, suspendendo todas as disposições da nova constitui ascensão de Hitler na Alemanha. Mussolini na Itália e ditadores esparramados
ção Republicana relativas aos direitos individuais e políticos. Em consequência, pelos diferentes continentes. No Brasil a crise engendrou grande instabilidade po
qualquer pessoa podia ser presa sem direito a habeas corpus ou defesa prévia. lítica que levou à instauração do Golpe de 1930 que conduziu à Ditadura Var
Nesse mesmo dia o Exército cercou a Câmara e o Senado, prendendo opositores gas.
e alguns ex-aliados de Deodoro, como Quintino Bocaiuva. O golpe, em si mesmo, foi um movimento armado, liderado pelos Esta
Toda a Primeira República foi marcada por crises econômicas, sociais e dos do Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba, insatisfeitos com o resultado
políticas. Foi um longo processo de adaptação do país à nova ordem imperialista das eleições presidenciais realizadas em primeiro de março de 1930 e que deu vi
internacional, com o crescente domínio do capital financeiro internacional sobre tória ao candidato govemista, então governador do Estado de São Paulo, Júlio
as formações sociais da periferia. A síntese de Prado Júnior é lapidar: foi um tem Prestes. Ele não tomou posse em virtude do golpe de estado desencadeado em 3
po em que a abolição da escravidão com a transformação do regime de trabalho, de outubro de 1930 e que em 24 de outubro derrubou o então presidente da re
o rompimento do conservadorismo da monarquia e a exploração dos negócios e pública Washington Luís. impedindo a posse do presidente eleito Júlio Prestes,
da especulação, não passaram de passos para ajustar o Brasil ao papel de semi- colocando fím à República Velha. Nesse 24 de outubro, antes que ocorresse o
colônia no círculo internacional do imperialismo financeiro (Prado Junior. 1982.
p. 224). 8 Para um entendimento desse processo é clássico o escrito de Lénin "Imperialismo, fase superior do
capitalismo”, praticamente produzido no calor dos acontecimentos que antecediam a Primeira Guerra
Mundial. (LENIN, 2011). A apresentação está primorosa, merece uma cuidadosa leitura, e foi escrita
por Plínio de Arruda Sampaio Junior. Por que voltar a Lénin? Imperialismo, barbárie e revolução.
12 13
enfrentamento militar entre forças leais ao governo e os golpistas, os gene Novo houve forte açào política do Estado para a expansão das atividades urba
rais Tasso Fragoso e Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha depuseram nas e deslocamento do eixo produtivo da agricultura para a indústria, introduzin
Washington Luís e formaram uma Junta Militar Provisória. A Junta Militar gover do as bases contemporâneas da economia brasileira. Getúlio fez um balanço da
nou o Brasil até passar o governo a Getúlio em 03 de novembro de 1930. revolução de 1930 e de seus 15 anos de governo, no Dia do Trabalho de 1945,
Washington Luís foi deposto apenas 22 dias antes do término do mandato presi em discurso no Rio de Janeiro, afirmando que:
dencial. que se encerraria em 15 de novembro de 1930.
A qualquer observador de bom senso nào escapa a evidência do pro
Para além da simples quartelada, o golpe decorria da cisáo entre as oli gresso que alcançamos no curto prazo de 15 anos. Éramos, antes de
garquias regionais que resultaram na deposição de Washington Luís e que ocor 1930, um país fraco, dividido, ameaçado na sua unidade, retardado
reu após a sua intransigência em relaçào à indicação do mineiro Antônio Carlos cultural e economicamente, e somos hoje uma naçào forte e respeitada,
de Andrada que escolheu como seu sucessor o paulista Júlio Prestes, quebrando desfrutando de crédito e tratada de igual para igual no concerto das p o
assim o acordo conhecido como "Política do café com leite”, fundamentado na tências mundiais!
alternância do poder executivo entre as oligarquias dos Estados de Sáo Paulo e Desde 1930, um dos elementos centrais do governo getulista foi a tenta
Minas Gerais. Para fazer frente as tentativas dos paulistas em perpetuar-se no tiva de anular os esforços de organização da classe trabalhadora, destacando-se
poder, em meados de 1929. foi criada a Aliança Liberal, articulando os Estados a repressão sobre os partidos de esquerda, sobretudo o Partido Comunista Brasi
de Minas Gerais. Rio Grande do Sul e Paraíba, cujos interesses eram representa leiro (PCB). Almejando atrair os trabalhadores para a esfera de controle do Esta
dos pela candidatura do gaúcho Getúlio Vargas à presidência, tendo como vice o do, Getúlio criou o Ministério do trabalho. Indústria e Comércio, criando leis de
paraibano Joâo Pessoa. A Aliança Liberal tinha por objetivo conquistar a classe proteção aos trabalhadores, ao mesmo tempo em que os sindicatos eram enqua
média, defendendo em seu programa o incentivo à produção nacional, até entào drados pelo Estado. Entretanto, os desdobramentos da profunda crise mundial
restrita à produção cafeeira liderada pelos paulistas, propondo o fim da política do final da década de 1920, colocaram em cheque as promessas de igualdade de
de valorização dos preços do café.
oportunidades do capitalismo liberal e aqui reproduzidas até mesmo sob a dita
Em oposição à afirmação de Washington Luís de que a questão social dura Vargas que foi marcada pelo desemprego, empobrecimento e desigualdade
no Brasil era “uma questão de polícia”, a Aliança afirmava ser ela um problema dos trabalhadores. Diante de um cenário como este, o discurso centralizador e
do poder público, defendendo medidas de proteção aos trabalhadores, tais como antidemocrático tornou-se hegemônico, acompanhando a ascensão do fascismo
extensão do direito à aposentadoria, regulamentação do trabalho de menores e e do nazismo na Europa.
mulheres, além da lei de férias. O golpe de 1930 nào foi apenas a tomada do p o A criação formal de um governo constitucional, a partir da promulgação
der por uma determinada classe social, num quadro social e político heterogê da Carta Constitucional de 14 de julho de 1934, nào foi suficiente para a consoli
neo. Ocorreu como que uma troca das elites no poder sem grandes rupturas, re dação do projeto de conciliação dos interesses entre capital e trabalho. Nào tar
sultando na queda dos quadros oligárquicos tradicionais, ascendendo no cenário dou para que a classe trabalhadora se rebelasse diante dos efeitos da crise econô
político os militares, os técnicos diplomados, jovens políticos e os industriais. O mica, eclodindo concomitantemente à promulgação da nova constituição uma
difuso poder oligárquico perdeu espaço para a centralização do poder, dando série de greves no Rio de Janeiro. Sào Paulo. Belém e Rio Grande do Norte, cul
origem a um novo tipo de Estado marcado pela sua atuação econômica, social e minando com a paralisação do setor de transporte, comunicação e bancário. As
o protagonismo das Forças Armadas, tendo na defesa da aliança entre as classes campanhas antifascistas ganharam força, resultando no choque entre progressis
sociais e a resolução dos conflitos entre capital e trabalho o suporte para o desen tas e os integralistas em Sào Paulo, em outubro de 1934. O governo reagiu com
volvimento do capitalismo nacional (FAUSTO, 1996, p. 326). a criação da Lei de Segurança Nacional (LSN), no ano de 1935, aumentando a
Em 1937 Getúlio Vargas utilizou a "ameaça comunista" para dar um repressão sobre a classe trabalhadora.
Golpe de Estado no anterior Golpe de Estado que o levou ao poder em 1930. Comunistas e tenentes de esquerda se articularam em tomo da Aliança
Foi em 10 de novembro de 1937 que ocorreu o golpe, quando Getúlio decretou Nacional Libertadora (ANL). com conteúdo nacionalista, defendendo a suspen
uma nova constituição, a Constituição de 1937. que instaurava o chamado Esta são do pagamento da dívida externa, a nacionalização das empresas estrangei
do Novo. em uma suposta tentativa de travar contra-ataques comunistas num ras, a reforma agrária, a garantia das liberdades populares e a constituição de um
suposto Plano Cohen. Com essa Constituição outorgada, houve centralização e governo popular. A ALN se a ajustava à orientação seguida pelo PCB, a partir do
aumento de poder do Presidente no Governo, garantindo a sua permanência no VII Congresso da III Internacional Comunista, realizado ao final do mês de julho
poder, com a anulação das eleições agendadas para o ano seguinte. No Estado de 1935. Após a constatação de que a crise mundial levou ao fortalecimento dos
14 15
regimes nazi-fascistas, apesar do abalo causado aos fundamentos do capitalismo, à Itália tropas da FEB. Getúlio passou a ser criticado pela oposição pela contradi
os comunistas passaram a defender as Frentes Populares como forma de defesa ção em apoiar a democracia extemamente. ao mesmo tempo em que mantinha
da União Soviética. Como destaca Boris Fausto a nova orientação resultou na intemamente uma ditadura. Getúlio perdeu o apoio de importantes apoiadores.
centralidade da temática nacional, em detrimento da problemática das classes so como Osvaldo Aranha. Góis Monteiro e José Américo, dentre outros. Some-se a
ciais (FAUSTO. 1996. p. 360). isso a emergência do movimento estudantil, organizado pela União Nacional dos
O manifesto de 5 julho de 1935 redigido por Luiz Carlos Prestes, entào Estudantes, criada em dezembro de 1938. durante o II Congresso Nacional dos
na clandestinidade e que havia ingressado no PCB em agosto de 1934. declara Estudantes. Ademais, decorrência do apoio aos Aliados. Vargas também se apro
va as intenções da ALN de construir um governo popular por meio da tomada ximou dos comunistas, estabelecendo relações diplomáticas com a União Soviéti
do poder. Getúlio reagiu imediatamente e a 11 de julho decretou o fechamento ca. fato inédito na história do Brasil. Isso explica o apoio de Prestes ao governo
da ALN. Apesar da orientação da Frente Popular de construir uma aliança de após a decretação da lei de anistia, ainda que Vargas tenha enviado à Alemanha
classes, a tese da insurreição prevaleceu, resultando na Intentona Comunista, de sua esposa judia Olga Benário. executada pelos nazistas nas câmaras de gás. O
flagrada em 25 de novembro de 1935. apoio dos comunistas se justifica também pelas medidas econômicas adotadas
Após a tentativa frustrada dos comunistas, o governo gradativamente pelo governo, resultando não somente na oposição liberal interna, mas na crítica
construiu aparelhos repressivos para a perseguição ao comunismo, como a C o externa aos EUA. Por meio do decreto-lei de junho de 1945. dispunha-se sobre
missão Nacional de Repressão ao Comunismo, além de atribuir a Filinto Miller. os atos contrários à ordem econômica, confrontando diretamente os monopólios
chefe de polícia da capital federal, poderes excepcionais. Em fins de outubro de e as práticas monopólicas por meio do controle da concorrência, sendo possível
1936. passou a atuar o Tribunal de Segurança Nacional, que apesar de ter sido a desapropriação das empresas que praticassem atos contrários ao interesse pú
criado para julgar os insurretos de 1935. funcionou ativamente, após o golpe do blico (FAUSTO. 1996. p. 387).
Estado Novo. instituído em 1937. para a centralização ainda maior dos poderes Sobre a campanha “queremista”. esta alertou a oposição liberal e setores
nas mãos de Vargas. do exército para a possibilidade de Getúlio se manter por mais tempo no poder,
avançando, a exemplo do que vinha acontecendo na Argentina de Perón. na
1945 e o fim do Estado Novo construção de um capitalismo nacional apoiado no protagonismo do Estado, sus
tentado em bases populistas, representando Getúlio as aspirações de toda a na
Em 1945 Novo Golpe de Estado marcou o fim da Era Vargas, resultado ção. Não foi isso o que ocorreu, apoiadas pelos EUA. as forças de oposição ace
direto do movimento de fim da Segunda Guerra Mundial e da ação dos Estados leraram o processo que culminaria na renúncia de Getúlio. em 29 de outubro, de
Unidos em sua área de influência pela instalação de governos que. ao menos for 1945.
malmente. pudessem ser chamados de “democráticos’'. Antes do golpe surgiu
um movimento chamado “queremismo” e que tinha como slogans "Queremos 1954 - Morte de Vargas e o aborto do Golpe em curso
Getúlio" e "Constituinte com Getúlio". Mas esse movimento nada mais fez que
precipitar a queda de Getúlio Vargas, deposto em 29 de outubro de 1945. por
Em 1954 estavam avançadas as articulações golpistas contra o Presiden
um movimento militar liderado por generais que compunham o próprio ministé te Getúlio Vargas, reconduzido ao poder nas eleições de 1950. De fato. desde a
rio (em sua maioria ex-tenentes da Revolução de 1930. como Góis Monteiro. posse Vargas enfrentou forte oposição ao seu governo, vindo tanto da direita so
Cordeiro de Farias. Newton de Andrade Cavalcanti. Ernesto Geisel. entre ou bre a liderança de Carlos Lacerda (UDN). como da esquerda sobre o comando
tros). Disso decorreu a renúncia formal de Getúlio do cargo de presidente da Re de Luís Carlos Prestes (PCB). As forças conservadoras não deram trégua ao Pre
pública. pondo final ao Estado Novo. Getúlio foi substituído por José Linhares, sidente. com o uso intensivo dos meios de comunicação de massa da época (a
presidente do Supremo Tribunal Federal e substituto direto do presidente, pois imprensa escrita, capitaneada pelo Jornal o Globo, e a rádio). A culminância da
pela Constituição de 1937 não existia a figura do vice-presidente. Linhares ficou crise política decorreu do Caso Toneleros5. com o jornal “O Globo” intensifican
como presidente interino por três meses, até passar o poder ao presidente eleito do as críticas e levando as elites conservadoras a uma forte reação contra Vargas.
Eurico Gaspar Dutra, eleito em 2 de dezembro de 1945. e cuja posse deu-se em
31 de janeiro de 1946.
As questões internacionais foram determinantes para a queda do Estado 9 A mando do chefe de segurança, Gregóho Fortunato, através de capangas mandou matar o udenista
Novo. Como o Brasil entrou na Segunda Guerra ao lado dos Aliados, enviando Carlos Lacerda. O presidente embora não sabendo das intenções criminosas de Fortunato teve que as
sumir as consequências políticas.
16 17
nào mais exigindo eleições, mas a renúncia do presidente da República. Tam pretada como um sinal de que Vargas desejava instaurar uma “República sindi
bém os militares realizavam reuniões manifestando indignação em face da crise calista” no Brasil, tese reforçada pelo aumento do salário mínimo concedido pelo
política e articulando um golpe na democracia brasileira. então ministro do trabalho João Goulart.
Em 24 de Agosto de 1954 Vargas presidiu sua última reunião ministerial, Como é possível observarmos, diante dos vários motivos para o descon
na qual o ministro da Guerra Zenóbio, argumentou que a situação do presidente tentamento da oposição nacional, apoiada pelo imperialismo norte-americano, o
estava difícil perante a oficialidade, sendo poucas as alternativas políticas para o caso da Rua Toneleros, em Copacabana, foi apenas um mero pretexto para a
presidente da República, ou este renunciava ao poder, ou seria deposto por um quebra da legalidade e a deposição de Getúlio. Seu suicídio gerou a reaçào vio
golpe militar. lenta das massas populares, às quais se somaram os comunistas, que após perce
Nesse mesmo dia Getúlio Vargas suicidou-se. deixando uma carta ao berem que sua linha radical de oposição a Vargas era funcional aos interesses da
Povo Brasileiro - logo denominada de "Carta Testamento”10: oposição liberal, passam a apoiar o nacionalismo populista (FAUSTO. 1996. p.
“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo.
4 1 8 )/
Tenho lutado de peito aberto. O ódio. as infâmias, a calúnia, nào a b a
teram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha
morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da 1961 - Com a renúncia de Jânio Quadros, nova conjuntura golpis
eternidade e saio da vida para entrar na história.” (Carta Testamento ta
de Getúlio Vargas, 1954).
go de Presidente da República. Jango retomou ao Brasil em 5 de setembro e em capitalismo brasileiro defendido por Jango. Também o movimento operário vivia
7 de setembro de 1961 tomou posse. grande contradição, indo da euforia à fragilidade, como destaca Fausto:
Em vista da Constituição Federal em curso, na qual o vice-presidente é
A aproximação com o poder, a escalada grevista, a presença nos comí
0 substituto nato da Presidência, em caso de impedimento ou vacância, ocorreu cios produziram uma euforia e ocultavam ao mesmo tempo os pontos
em 1961 um Golpe de Estado arquitetado pelas forças civis, militares e parla fracos do movimento operário. Os pontos fracos, como mais tarde se
mentares. ficando o Poder Legislativo com o papel de aprovar a medida necessá pôde ver com maior clareza, residiram em dois fatos inter-relacionados.
ria para realizá-lo. Entre 1961 a 1964 o Brasil viveu uma conjuntura de perma De um lado, o declínio proporcional do movimento operário no Estado
nente crise política, com a gradativa e notória preparação do Golpe pelas forças que concentrava o setor mais dinâmico da economia (Sào Paulo); de
entào representativas dos interesses em jogo. o que acabou ocorrendo em I o de outro, a excessiva dependência desse movimento com relação ao regi
abril de 1964. me político. A queda do regime arrastaria com ele o sindicalismo popu
lista (FAUSTO, 1996, p. 450).
O contexto histórico no qual se insere a ascensào e queda de Jango foi
marcado pelo avanço dos movimentos sociais, estimulados por mudanças estru Apesar de todo o esforço de personagens como Brizola. organizando
turais ocorridas entre anos de 1950 e 1964. O crescimento urbano e a industriali os “grupos de onze”, defendendo a convocação de uma Assembleia Constituinte
zação acelerada ampliaram o mercado agropecuário, com alteração das formas e a moratória da dívida externa. Jango encontrava-se cada vez mais fragilizado e
de posse e utilização da terra. Ao serem expulsos da terra, os trabalhadores rurais sem condições de manter-se no poder e realizar por decreto as reformas de base.
liderados pelo advogado Francisco Juliào criaram as Ligas Camponesas, fugindo sobretudo a partir do momento em que a direita ganhou a adesão de outros se
do velho modelo corporativo sindical atrelado ao Estado. tores. até entào moderados, em tomo da tese de que somente um movimento ar
Durante o governo Jango. cresceu também a participação de outros se mado, ironicamente denominado de “revolução”, colocaria fim à luta de classes,
tores da sociedade, como o movimento estudantil, destacando-se a atuaçào da ao poder dos sindicatos e à ameaça comunista.
Uniào Nacional Estudantil, criada em 1938. Também a Igreja Católica popular se
destacou na resistência às forças conservadoras, atuando ativamente através da
Juventude Universitária Católica (JUC), assumindo gradativamente posições so 1964 e o Golpe de I o de abril
cialistas. o que resultou no choque com a hierarquia eclesiástica. No decorrer do
1 Congresso Nacional dos Trabalhadores Agrícolas, os católicos radicais defende
ram. conjuntamente com as Ligas Camponeses, a expropriação de terras sem a O golpe de 1964 está mais próximo e conhecido, impossível de se es
indenização prévia, chocando-se com a posiçào dos comunistas, que defendiam conder, pois os muitos sujeitos dessa história, representativos dos partidos e m o
a extensão da legislação trabalhista ao campo. Em 1962 foi criada a Açào Popu vimentos entào em luta, no campo conservador ou progressista, ainda estão pre
lar. rompendo com a hierarquia católica. sentes entre nós. Ainda pulsa entre nós os que não se esquecem da intervenção
Segundo Boris Fausto, a retomada do populismo por Jango se deu em militar e continuam a clamá-la nos eventos de massa promovidos pelas forças e
um contexto de crescentes mobilizações, comparativamente maiores que no perí organizações conservadoras.
odo Vargas. Governo e sindicatos pregavam a articulação entre Estado, incluindo Durante o governo João Goulart, as forças civis - empresários, religio
as forças armadas, intelectuais, classe operária e burguesia industrial nacional. O sos. intelectuais - e militarem passaram a contar com o apoio do embaixador dos
Estado seria o articulador das reformas de base. destacando-se a reforma agrá Estados Unidos, Lincoln Gordon, com dólares bancando a campanha de vários
ria. reforma urbana, reforma política, defendendo-se o direito de voto dos anal políticos em 1962 e financiando institutos como o Brasileiro de Açào Democráti
fabetos e baixas patentes do exército. No campo económico as reformas se ca ca (IBAD) e o de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) a fazer a luta ideológica, por
racterizaram pelo caráter nacionalista, adotando-se medidas como a nacionaliza meio de propaganda em jornais, rádios, televisão e cinema. Defendiam a livre
ção das empresas concessionárias de serviço público, frigoríficos, indústria farma iniciativa e as supostas vantagens da democracia. O objetivo era criar na popula
cêutica. regulamentação da remessa de lucros ao exterior e extensão do mono ção um sentimento de oposição ao governo João Goulart e pela necessidade de
pólio da Petrobras (FAUSTO. 1996. p. 448). sua deposição. Para esse trabalho “intelectual” e de organização das forças con
Temerária do nível de mobilização social da população, a burguesia n a servadoras, desenvolvido pelo IBAD e pelo IPES, a Igreja Católica, que temia o
cional não se identificou com o projeto de desenvolvimento e modernização do comunismo, por se identificar com o ateísmo, tinha importante atuaçào. A Igreja
teve importante participação com o movimento de direita Tradição. Família e
Propriedade (TFP) e com a promoção, logo após o comício da Central do Brasil.
20 21
em 13 de março de 1964. de grandes Marchas da Família com Deus pela Liber intensificou o processo de espoliação da economia nacional, em curso desde a
dade. na qual os católicos conservadores manifestavam desagrado com as refor desnacionalização da economia iniciada por Juscelino Kubitschek.
mas de base anunciadas por Jango.
Culminando com o conluio das forças conservadoras organizadas da so
ciedade civil, nas Forças Armadas, na Igreja e no parlamento, com o apoio táti 1969 e o Golpe Militar no Golpe Militar
co. financeiro e militar norte-americano, na madrugada de 31 de março de 1964
teve início o Golpe. Resultado da conspiração com empresários paulistas e cario
cas. e contando com o apoio tático e militar norte-americano, o general Olímpio Em 1969 houve um Novo Golpe, no interior do Golpe Militar, com o
Mourào Filho deu início ao golpe, partindo de Minas Gerais em direçào ao Rio Ato Institucional Número Doze. ou A I-12. baixado pela Junta Militar, com
de Janeiro, à frente do 12° e do 11° Regimentos de Infantaria. posta pelos ministros da Marinha. Augusto Rademaker, do Exército, Aurélio de
Em entrevista sobre o golpe, o ex-deputado estadual e federal Ney Ortiz Lira Tavares e da Aeronáutica Márcio de Sousa e Melo em 1 de Setem
Borges, 89 anos. então líder do PTB na Câmara Federal, diz que jamais acredi bro de 1969. Este ato institucional informava à Nação brasileira o afastamento
tou na possibilidade da queda de Joào Goulart, apesar de testemunhar as idas e do Presidente Costa e Silva, devido à sua enfermidade, assumindo o controle
vindas de Carlos Lacerda à embaixada dos Estados Unidos, em Brasília. Nem a do governo os Ministros militares, impedindo a posse do vice-presidente, Pedro
entrevista do udenista ao jornal Los Angeles Times, afirmando que os militares tra Aleixo, afastado devido por sua intenção de restabelecer o processo democrático.
mavam a deposição do presidente, foi capaz de fazer os govemistas acreditarem Aleixo havia se oposto ao AI-5, que intensificara a cassações de mandatos, as
no golpe. “A gente tinha medo, mas nào acreditava que aconteceria. A gente perdas de direitos políticos e expurgos no funcionalismo, estabelecendo a censu
nào esperava aquilo. Nosso maior erro foi a inocência. Nós acreditávamos que se ra dos meios de comunicação, tomando a tortura um método corriqueiro.
isso acontecesse, o povo se revoltaria”11. A esquerda radical respondeu com sequestros de diplomatas estrangei
Várias forças conservadoras atuaram no golpe, certamente. Mas. antes ros, destacando-se o sequestro do embaixador Elbrick. dos EUA, no Rio de J a
de tudo. foi um golpe militar, pois estes foram diretamente responsáveis pela der neiro, pela ALN e o MR-8. apenas quatro dias após o estabelecimento da junta
rubada do Governo do presidente Joào Goulart. Os militares nào apenas conse militar. Em troca da liberdade do embaixador, quinze presos políticos foram li
guiram terminar o regime em vigor, mas assumiram o poder e conseguiram con bertados. No mesmo ano, inspirada nos métodos de tortura utilizados pelo Cen
tinuar no poder por longos 21 anos. tro de Informações da Marinha (CENIMAR). foi organizada em São Paulo a
Desde o término da Segunda Guerra e a polarização entre os blocos ca “Operação Bandeirantes” (OBAN). vinculada ao II Exército, limitando-se ao
pitalista e comunista, dando início à Guerra Fria. os EUA criaram uma escola de Eixo São Paulo-Rio de janeiro. A OBAN. por sua vez, foi substituída pelo Desta
quadros para combate à expansào comunista, denominada National War Colle- camento de Operações e Informações e o Centro de Operações de Defesa Inter
ge. A partir do contato entre militares brasileiros e norte-americanos foi criada na, conhecidos pela sigla DOI-CODI. Atuando em vários Estados os DOI-CODI
uma congênere brasileira, a Escola Superior de Guerra (ESG), tendo como prin se tomaram espaços de tortura sob o comando dos militares.
cipal representante o general Golbeiy do Couto e Silva. A ESG tinha a tarefa de
realizar o treinamento do pessoal civil e militar que assumiria papel de comando
na imposição de uma nova ordem econômica, política, social e ideológica que 2 015 - Fim d a Nova República
deveria substituir o modelo nacional desenvolvimentista.
Contando com a assistência de conselheiros franceses e americanos, a Nào há dúvidas quanto ao fato de que está em curso um NOVO GOLPE
ESG desenvolveu a “doutrina de segurança nacional’’, também denominada de DE ESTADO no Brasil. Sobre o assunto já foram produzidas excelentes matérias
“Doutrina da Interdependência”, apresentando uma estratégia de alinhamento publicadas ou reproduzidas nas principais revistas de perfil chtico. Nosso entendi
entre os interesses nacionais e estrangeiros, sobretudo norte-americanos, funda mento sobre o processo em curso está registrado num manifesto que Lombardi.
mentada na imposição do modelo capitalista de mercado e dependente. Com a redigiu, como coordenador executivo do grupo de pesquisa HISTEDBR:
imposição deste último, por meio do golpe, o capital monopólico internacionalil
ilEstá em matéria assinada por Núbia Silveira - As tentativas que acabaram no golpe de 1964 - para o
Sul21: http: \va-a-.suI21 conr. br tomai as-tgntativas-que-acabaram-r.o-coipe-de-1964
22
A COMUNIDADE CIENTIFICA E MOVIMENTOS SOCIAIS catos e organizações populares, era necessário criar instrumentos de prevenção
POPULARES do conflito.
O que dizer da massificação das camadas populares por meio do mono
A coordenação nacional do Grupo de Estudos e Pesquisas "História. So pólio das telecomunicações construído pela Rede Globo, em associação com os
ciedade e Educação no Brasil - HISTEDBR - , coletivo nacional de grupos de militares e os setores civis conservadores? O seu papel protagonista foi denuncia
pesquisa e pesquisadores, acompanhando a manifestação de várias organizações do com riqueza de detalhes pelo documentário Muito além do cidadão Kane. em
científicas e acadêmicas, manifesta sua preocupação com o agravamento da crise que a imagem de Roberto Marinho, considerado o “marechal civil do golpe de
política, jurídica e econômica e suas graves consequências para a vida da maioria 1964”, é associada ao personagem principal do filme de Orson Wells. Cidadào
da população. Acompanhamos o processo de democratização de nosso país. Kane. Mais do que uma concessão para tomar-se uma emissora de TV, a Rede
após anos de autoritarismo, arbítrio e repressão. Por mais que a democracia for Globo assumiu um papel de protagonista na implementação do projeto de m o
mal numa sociedade dividida em classes seja exercida preferencialmente em b e dernização conservadora sob a égide dos militares12. E inegável o papel assumido
nefício de uma classe, trata-se de um regime que possibilita a todas as forças po por essa emissora no atual golpe que, apesar da identidade de classe com os d o
líticas e sociais a plena mobilização social, a manifestação de suas opiniões e a nos e acionistas das demais emissoras, possui canais privilegiados de informação
luta em defesa das mais diferentes bandeiras. Nesse processo, as forças hege junto aos setores de comando do golpe, como a Polícia Federal e o ministério
mônicas assumem o controle político, sempre temporário, através de processos público, sem falar na íntima relação com o encarregado de chefiar a “Operação
eleitorais para a escolha de seus representantes nas diferentes instâncias do po Lava Jato”, o juiz federal Sérgio Moro.
der de Estado. A garantia para que isso ocorra está no pleno funcionamento do Esse processo bem pode ser caracterizado como de “revolução passiva”,
Estado de direito, o que não se viabilizará sem que este esteja ancorado em prin descrito por Coutinho, e que buscou a cooptaçào das massas populares, prepa
cípios constitucionais que garantam o pleno funcionamento de seus aparatos p o rando o consenso sobre a distensão, lenta, gradual e sob controle, resultando
líticos e jurídicos, jamais permitindo que suas instâncias atendam a clamores gol num contraditório processo de redemocratizaçào, tendencialmente confirmou-se
pistas. ainda que identificados com manifestações de camadas sociais que não com o golpe de 2016 o prognóstico de Florestan:
acatam o resultado de eleições democráticas. Testemunhamos o agravamento Acresce que a democracia de cooptaçào possui pouca eficácia e pouca
cotidiano dessa crise e de sua polarização. E fundamental que o Estado de direito “flexibilidade” em nações capitalistas pobres onde a extrema concentra
prevaleça e que os princípios constitucionais sejam restabelecidos para que não ção da riqueza e do poder deixa um escasso excedente para dividir na
ocorra novo retrocesso político em nosso país. compra de alianças ou lealdades. Por isso, ela concorre para exacerbar
Uma análise ainda que limitada pela proximidade dos fatos nos revala os as contradições intrínsecas ao regime de classes, levando-as a pontos
limites do processo de transição tutelada para o regime democrático, ou “abertu explosivos de efervescência, que mais debilitam do que fortalecem o
ra lenta, gradual e segura”, no jargão militar popularizado por Geisel. que junta Estado autocrático, compelido a funcionar sob extrema tensào perm a
nente e autodestrutiva. de insuperável paz armada (FERNANDES.
mente com o general Golberi do Couto e Silva, foi um dos mentores da estraté 1975, p. 424).
gia militar de transição para o modelo conservador de democracia.
Diferentes estudos sobre o período da ditadura nos revelam que os mili Apesar da demora de muitos setores da esquerda brasileira que faziam
tares não se limitarem à repressão, mas buscaram desenvolver instrumentos de oposição ao governo Dilma em reconhecer a dimensão do golpe de Estado, era
controle da luta de classes no seio da sociedade civil em articulação com setores possível observar na condenação de integrantes do Partido dos Trabalhadores
civis-empresariais (DREIFUSS, 1981; FONTES, 2010). A associação de setores (PT), no processo judicial-midiático conhecido como mensalào, o delineamento
golpistas civis e militares ao imperialismo norte-americano permitiu a socialização de uma das principais táticas deste que seria mais um ciclo de contra revolução
das estratégias associativistas e comunitaristas, descritas por Tocqueville. em sua preventiva.
obra A Democracia na América, ainda nos anos de 1840. cujo objetivo é a neu
tralização da perspectiva histórica revolucionária presente nas organizações po
pulares. anulando sua capacidade de resistência à dominação do capital mono- 12 Como observa Octavio Ianni. na “era do globalismo” a mídia se constitui no intelectual orgânico dos
pólico internacional. Assim, não bastava ao regime militar aniquilar as formas grupos, classes ou centros de poder dominantes na sociedade global (IANNI, 2001. p. 146). O que fica
clássicas de resistência dos trabalhadores nacionais, tais como os partidos, sindi bastante evidente, sobretudo, no que se refere à atuação da Rede Globo, que liderando as demais
emissoras que tém atuado ativamente, compõem o se convencionou denominar Partido da Imprensa
Golpista (PIG).
24 25
A eleição de Lula em 2003 integra um ciclo de governos progressistas na to de combater a corrupção através de contratos fraudulentos firmados entre o
América Latina, orientados por duas propostas: por uma proposta neodesenvol- Estado brasileiro e empresas privadas, como a construtora Odebrecht, responsá
vimentista, de cunho antineoliberal, sustentando-se. porém, na aliança da classe vel por várias obras de infraestrutura no Brasil e fora do país, disputando espaço
trabalhadora e setores da burguesia nacional, da qual os governos Lula e Dilma estratégico com empresas de vários países, tem colaborado para o estrangula
foram adeptos; e a proposta de integração de governos progressistas e movimen mento da economia nacional e o aprofundamento da crise, paralisando impor
tos populares, por meio da criaçáo de uma área de integração dos povos latino- tantes obras de infraestrutura sintonizadas com o modelo neodesenvolvimentista
americanos. Sendo um contraponto à tentativa norte-americana de criaçáo da defendido pela presidenta deposta Dilma Rousseff, resgatando a defesa do de
Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). a Aliança Bolivariana para os Po senvolvimento autônomo do capitalismo nacional, característica marcante do pe
vos da Nossa América - Tratado de Comércio dos Povos (ALBA). é uma aliança ríodo nacional-desenvolvimentista14. O alinhamento dos governos Lula e Dilma
popular estratégica para a construção do "socialismo do século XXI’’, cujo princi Rousseff ao BRICS13 colocou o Brasil na contramão das estratégias dos EUA para
pal idealizador foi Hugo Cháves (STÉDILE, 2016. p. 8). a superação da crise econômica, iniciada em 2008. A estratégia golpista de apro
Ambos os projetos foram afetados pela crise capitalista internacional que fundamento dos efeitos internos da crise econômica para desestabilizar o gover
assolou as economias latino-americanas, que continuam subordinadas, atuando no Dilma impossibilitou manobras de superação dos efeitos da crise apoiadas nas
na periferia do processo de acumulação. A ALBA, sobretudo, foi afetada direta- relações comerciais com os BRICS, já que o governo interino de Michel Temer já
mente pela crise dos preços do petróleo, afetando profundamente a Venezuela, dava os primeiros passos no realinhamento da economia brasileira aos interesses
sua principal liderança. Como observa Stédile. “quando o bolo deixa de crescer, imperialistas. A isso, soma-se a açáo político-econômica e militar imperialista de
tomando impossível a distribuição de renda, os burgueses insaciáveis náo que recolocar o contraponto latino-americano, representados por países como Brasil,
rem perder nada” (idem). Cuba, Bolívia. Equador, a Argentina dos Kirchner e o Paraguai do presidente
Desde 2003. com a eleiçáo de Lula. após dois mandatos consecutivos de Fernando Lugo e, sobretudo, a Venezuela, em sua zona de influência. Caso a
Fernando Henrique Cardoso, marcados pelo avanço das políticas neoliberais no atual ofensiva imperialista sobre a América Latina - da qual o golpe brasileiro é
Brasil, o PT conquistou sucessivas vitórias nas eleições presidenciais. Durante a parte integrante - seja plenamente vitoriosa, náo se descarta uma escalada de
Açáo Penal 470, episódio popularizado pela mídia conservadora como “Mensa- ações militares na região, o que se evidencia no avanço das negociações para
lào”. os principais quadros do PT. como José Dirceu, José Genuíno e Delúbio uma aliança militar entre o governo golpista e os EUA. transvestida num falacio
Soares, tiveram sua prisào decretada durante o processo eleitoral de 2014 e. so projeto de monitoramento da Amazônica, prevendo exercícios militares de sol
mesmo com todo o ataque midiático sofrido pela candidata do PT. o candidato dados estadunidenses em território brasileiro, numa evidente intimidaçáo à Ve-
conservador. Aécio Neves (PSDB), foi derrotado por Dilma Rousseff. reeleita no
segundo turno da eleiçáo presidencial. Além do fato da condenação se apoiar na
delaçào do réu confesso Roberto Jeferson (PTB), acusado de desviar recursos colonos que foram para EUA eram "pessoas religiosas, cristãos, que desejavam realizar seus sonhos”
(Diário do Centro do Mundo; disponível em: htto: [Link] essencial HaHa<mnL
dos correios, destaca-se o frágil argumento jurídico do “domínio de fato”. A es diz-oue-brasil-foi-colomzado-ror-cnmmosos-e-eua-por-cnstaos .
tratégia ali utilizada adquiriu contornos mais precisos na atual crise, passando a 14
O program a imposto pelo golpe foi lançado em 29 de outubro, de 2015, durante o governo interino
ser denominada pelo termo em inglês lawfare. Trata-se do que o advogado do de Michel Temer. Ironicamente denom inado de "Uma Ponte Para o Futuro”, o programa anuncia um
ex-presidente Lula. Cristiano Zanin Martins, define como o “uso indevido de re ajuste fiscal que anula as conquistas democráticas representadas na Constituição de 1988, congelando
cursos jurídicos para fins de perseguição política”. A estratégia consiste na trans por duas décadas os investimentos públicos no bem -estar social, além da privatização de em presas e
formação dos processos jurídicos em “espetáculos midiáticos”. para que no mo serviços públicos, m arcando o início de um a nova ofensiva neoliberal no Brasil.
mento em que a sentença for proferida, corações e mentes tenham sido ganhos 15 O BRICS constitui-se em um acordo de cooperação entre Brasil. Rússia. índia. China e África do Sul,
países emergentes que desde 2009 tem desenvolvido atividades que abrangem áreas como agricultura,
pela tese do “combate à corrupção” que. como vimos anteriormente, náo é ex
ciência e tecnologia, cultura, espaço exterior, think ranfcs, governança e segurança da Internet, previ
clusividade do atual golpe. dência social, propriedade intelectual, saúde, turismo etc. Dentre as projetos mais ambiciosos do grupo
O vínculo entre os “novos tenentes” que se apresentam como guardiáes na área económico-financeira, destacam -se dois acordos bastante relevantes, firmados na VI Cúpula
da ética do Estado brasileiro e o imperialismo norte-americano é despudorada- do BRICS (Fortaleza, julho de 2014). A criação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD). com o o b
mente revelado pelos integrantes da “Força Tarefa da Lava Jato”13 que, a pretex jetivo de financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e
países em desenvolvimento, e o Arranjo Contingente de Reservas (ACR) - prom ovendo o apoio mútuo
aos membros do BRICS em situações de instabilidade no balanço de pagamentos, disponibilizando um
13 O procurador Deltan Martinazzo Dallagnon chega a afirmar que dentre os fatores que explicam a co r m ontante de capitais na ordem de 200 bilhões de dólares. Fonte: Ministério das Relações Exteriores;
rupção no Brasil está o fato de que a colonização portuguesa trouxe para cá degredados, enquanto os disponível em: http: [Link]-BRpolmca-extema mecanismos-mter-reçionais 3672-brics
26 27
nezuela do presidente Nicolás Maduro e aos movimentos populares latino-ameri [...] Dentro da lógica dessas constatações, cabe perfeitamente admitir
canos. que as classes burguesas, apesar de tudo, levaram água de mais ao m o
Orientada pela estratégia de ataque ao modelo neodesenvolvimentista. a inho e que acabarào submergindo no processo político que desencade
operaçào Lava Jato deve cumprir ainda mais uma tarefa, que conforme se apro aram, ao associar a aceleração do desenvolvimento capitalista com a
autocratizaçào da ordem social competitiva. No contexto histórico de
ximam as eleições de 2018. torna-se cada vez mais evidente: impedir a candida
relações e conflitos de classes que está emergindo, tanto o Estado auto
tura de Lula à presidência. No momento em que as pesquisas eleitorais revelam crático poderá servir de piào para o advento de um autêntico capitalis
a liderança do principal candidato da esquerda brasileira, o juiz Sérgio Moro mo de Estado, strlcto sensu, quanto o represamento sistemático das
aperta o cerco contra Lula. amparado pelo espetáculo midiático que narra a “via pressões e das tensões antiburguesas poderá precipitar a desagregação
crucis” do ex retirante nordestino e metalúrgico do ABC que se tomou presidente revolucionária da ordem e a eclosào do socialismo. Em um caso, como
da República. Escancarando as entranhas do golpe, à semelhança do que ocor no outro, o modelo autocrático-burguês de transformação capitalista
reu no período que antecedeu à votação do impeachment. quando a mídia gol estará condenado a uma duraçào relativamente curta. Sintoma e efeito
pista liderada pela Rede Globo teve acesso as conversas entre a então presidenta de uma crise muito mais ampla e profunda, ele nào poderá sobrepor-se
a ela e sobreviver à sua soluçào (FERNANDES, 1975, p. 424).
Dilma e o ex-presidente Lula. grampeadas irregularmente pelo juiz da "Lava
Jato”, imagens da “condução coercitiva” de Lula produzidas pela Polícia Federal O processo golpista está em pleno curso e. apesar de nossa posição oti
aparecem no filme apócrifo que está prestes a ser lançado, com o sugestivo titulo mista. nào é possível prever o desfecho que terá a curto prazo. Todos os possí
de “A lei é para todos”, evidenciando as intenções bonapartistas da “República veis históricos se colocam, num amplo espectro que cobre da possível entrada do
de Curitiba”. país num novo ciclo ditatorial até um profundo revolucionar das estruturas socie
Longe de expressar um “lampejo ético” de setores ilustrados do aparelho tárias em direção à construção de uma formação social socialista. Qualquer que
de Estado, o golpe em curso no Brasil está ancorado em questões de ordem geo- seja o rumo da história, vale a pena lembrar conhecida frase de Marx. no Dezoito
política e fundamentalmente econômicas, o que se evidencia nas contra-refor- Brumário de Louis Bonaparte, publicado na primavera de 1852: “Os homens fa
mas levadas a cabo pelo governo golpista: da Previdência. Trabalhista, do Ensi zem a sua própria história, mas náo a fazem segundo a sua livre vontade; nào a
no Médio, articulando ataques na objetividade e subjetividade da classe trabalha fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam
dora. no intuito de garantir ao capital monopólico internacional patamares de ex diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gera
tração de mais-valia capazes de elevar a taxa de lucro do capital, rebaixada com ções mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quan
a atual crise econômica mundial. do parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que
Há um claro projeto de aniquilar as forças contra-hegemônicas emer jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens
gentes durante o processo de redemocratizaçào tutelada da sociedade brasileira: conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes
os partidos políticos historicamente identificados com as camadas populares, emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e
como o PT. ainda que o fenômeno do transformismo característico das transfor nessa linguagem emprestada.”
mações pelo alto o tenha delas afastado, sindicatos e movimentos sociais popula
res etc., que se tomaram sujeitos no cenário da luta de classes durante a Nova REFERÊNCIAS
República, conquistando de maneira contraditória os direitos sociais e políticos
expressos na Carta Constitucional de 1988. que agora estào sendo eliminados.
Soam os clarins que anunciam uma nova época, em que as oportunida BASTOS. Manoel Dourado; Miguel Enrique Stédile e Rafael Villas Boas. Golpes:
des históricas aparecem como espectros que rondam nosso continente, exigindo a permanência autoritária na política brasileira. In:
dos homens e mulheres que estejam à altura dos desafios colocados. Como subs hrtps:.. modosdêprcducao.>vorjdpreK.j»rri 2016. OS. Cõsoipes^-pern^encia^utcntan.a-na-pohacà-brasjieira...
tância para o nosso “otimismo da vontade”, vale a pena retomar as proféticas Acessado em 06/08/2016.
palavras de Florestan Fernandes que expressam, como reconhece o próprio au CASTRO, Nivalde José de. Econom ia e educação da esco la clá ssica a teo
tor. as frustrações e esperanças que o militante socialista carregava ao analisar as ria do Capital humano. Rio de Janeiro: UFRJ/FEA, 1990. Disponível em:
possibilidades históricas do início da década de 1970. portanto, durante os tene Iirp,.racíadrn\'[Link]:c.íjac^.r>[Link]íroi0.doc_
brosos anos da ditadura militar, com a pequena ressalva de que “a história só se
DREIFUSS. René A. A conquista do Estado: ação política, poder e golpe
repete como farsa”:
de cla sse. 2a ed. ver. Petrópolis-RJ: Vozes.
28 29
FAUSTO. Boris. História do Brasil. 4a edição. São Paulo: EDUSP: FDE. 1996. MARX. Karl. O Capital: crítica da Economia Política. Livro I, vol. I. São Paulo:
Nova Cultural, 1985.
FERNANDES. Florestan. A revolução burguesa no Brasil - ensaio de in
terpretação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. (Coleção Biblioteca de MARX. Karl. O D ezoito Brumário de Louis Bonaparte. Primavera de 1852.
Ciências Sociais). In: hcps:.v , - A - . v . r r . à r x i ; : 5 - c r ; 1S5;*br^[Link].:.:â;-[Link]..
SINGER, Paul. O Brasil no Contexto do capitalismo internacional: 1989-1930.
FERNANDES. Florestan. Brasil em com passo de espera. São Paulo: Hucitec.
In: FAUSTO, Boris (org.). História Geral da C ivilização Brasileira. Tomo
1980.
III: O Brasil Republicano. Volume 8: Estrutura de Poder e Economia (1889-
FONTES. Virginia. O Brasil e o capital-im perialism o: teoria e história. 2 a 1930). 8a. edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, pp. 378-429.
ed. Rio de Janeiro: 2010.
STÉDILE. João P. Uma interpretação necessária sobre a luta de classes em nosso
HOBSBAWM. E. A Era dos Impérios. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1988. continente. In. KATZ, Cláudio. N eoliberalism o, neodesenvolvim entism o,
socialism o. São Paulo: Expressão Popular: Perseu Abramo, 2016.
HOBSBAWM. Eric. 1989 - O que sobrou para os vitoriosos. In: Folha de S.
Paulo. 12/novembro/1990, p. A-3
HOBSBAWM. Eric. A crise do capitalismo e a importância atual de Marx. Entre
vista de Eric Hobsbawm a Marcelo Musto. In:
r ~ ••-.'.-a :anar.*.õ::r :::r. cr :«?.£»:» :r.««[Link]:srar ::':r.‘:v.à:-:najd=15253_ Acessado em 30 de se
tembro de 2008.
HOBSBAWM. Eric. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras. 1998.
IANNI. Octavio. A era do globalism o. 6a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasi
leira. 2001.
LENIN. V. I. O Imperialismo: fase superior do capitalismo. Apresentação: Plí
nio de Arruda Sampaio. Campinas : FE Unicamp (Navegando Publicações).
2011. Disponível em: https: meda.•[Link]. uod 35e7c6_fSc23070dS224c42a6dSQbc34e7f2e05.pdf
UNERA. Álvaro Garcia Linera. "Precisamos de uma Internacional de movimen
tos sociais’*. Entrevista a Brasil de Fato. 18/11/2009. Acesso: http: -Au^-brasiidefa.
[Link].-b:.vCl ir.r-r 11l:;r^:::Â:v.:^-d-:-^r.à-ir.[£inaaQnal-d£-[Link]^nio5-s<oaats201d..
APRESENTAÇÃO
repete: as pessoas aquiescem sem resistência e se alinham com as for levar pelos sentimentos de ódio e de vingança dos seus habitantes. (...)
ças do mal, E a isto assistímos impotentes''. Seria meu dever adverti-los: suas fronteiras já foram transpostas.
Olhem ao redor de vocês, tomem cuidado!3
Demonstrando total preocupação com os rumos tomados por uma socie
dade após o final da Segunda Grande Guerra Mundial, à qual se assentava as Hobsbawm reedita as preocupações de Einstein quanto às guerras e a
utopias da construção dos anos dourados do capitalismo, o jeito de viver e traba corrida armamentista. Em concepção teórica distinta ao ecletismo de Bnstein.
lhar capitalista capitaneado pelos Estados Unidos. Einstein apontou um cenário defensor de concepções históricas e dialéticas, aponta a dimensão política da
distinto ao afirmar que: atuação dos Estados Unidos para com o resto do planeta, demonstrando preocu
pações para com o futuro das relações internacionais e suas perspectivas,
(...) quando olho a humanidade hoje, nada me surpreende tanto ver
como é curta a memória do homem em relação aos desenvolvimentos Acredito que haverá um período de grande instabilidade, sobretudo
políticos. Ontem, os processos de Nuremberg; hoje o máximo esforço porque os americanos acreditam que podem travar guerras agressivas
para rearmar a Alemanha, Buscando algum tipo de explicação, não em qualquer parte do mundo que serão ganhas por eles em qualquer
consigo libertar meu pensamento de que esta, a última das minhas pá circunstância. Não serão guerras mundiais, como as do século XX, a
trias, inventou para o seu próprio uso um novo tipo de colonialismo. não ser que os americanos decidam ter um grande conflito com os chi
um colonialismo menos evidente que o da velha Europa. Consegue do neses, que é a única guerra possível ao estilo antigo. Mas isso não signi
minar outros países investindo capital norte-americano neles, o que tor fica que o mundo estará em paz ou que será um mundo sem grande vi
na esses países solidamente dependentes dos Estados Unidos. Qualquer olência e guerras. A instabilidade da economia é hoje, provavelmente,
um que se oponha a esta política ou as suas implicações é tratado mais séria do que precisaria ser, porque os governos sob a influência
como um inimigo dos Estados Unidos. (...) Minha ação quanto à bom dos Estados Unidos e do FMI decidiram, de forma deliberada, enfra
ba atômica e Roosevelt consistiu meramente no fato de que, em razão quecer as instituições políticas para controlar a instabilidade financeira
do risco de Hitler ser o primeiro a possuir a bomba, assinei uma carta internacional4.
ao presidente que foi redigida por Szilárd. S e eu soubesse que aquele
medo era injustificado, eu, assim como Szilárd, jamais teria participado As afirmações anteriores são fundamentais para a interpretação da crise
da abertura desta caixa de Pandora. Pois minha desconfiança em rela política em curso no Brasil. A ofensiva internacional voltada a suprimir as nações
ção aos governos não se limitava ao da Alemanha2. emergentes, tal qual demonstraremos um pouco mais a frente, se apresentam
como justificativa para a construção de um movimento de guerra constante.
Em conferência à favor do desarmamento proferida em 1932, nos alicer Perry Anderson foi enfático ao analisar esse processo de guerra constan
ces da elaboração da 2a Grande Guerra Mundial. Bnstein em “Como vejo o te, intitulando-os ironicamente como o “humanismo militar' do centro do capita
mundo” afirmou que lismo perante a periferia. Esse movimento, expresso em um conjunto de ideologi
Hoje, poucos indivíduos pensam realmente que as técnicas de guerra as midiáticas construídas para esse fim, justificam mortes, intervenções, guerras e
representam um sistema vantajoso, aplicável à humanidade para resol golpes de Estado. O barbarismo resultante dessas ações adota como justificativa
ver os conflitos humanos. Mas os outros homens não têm lógica nem a utilização da guerra como instrumento para a instauração da “liberdade”. Ten
coragem para denunciar o sistema e impor medidas que tomem impos do como referência a “satanização” das oposições, a guerra é utilizada como um
sível a guerra, este vestígio selvagem e intolerável dos tempos antigos.
instrumento voltado a “liberalização dos povos”. Nesse sentido, a própria liberda
(...) Nenhum acontecimento dos últimos anos foi tão humilhante para
os Estados civilizados quanto essa sucessão de malogros de todas as
de assume uma dimensão contraditória que se nega entre si. Em outras palavras,
conferências anteriores sobre o desarmamento. Os politiqueiros ambici é defendida como ação única para a liberalização dos “povos oprimidos”, quan
osos e sem escrúpulos, por suas intrigas, são os responsáveis por esse do na realidade representa os interesses hegemônicos transnacionais da periferia
fracasso, mas também, por toda parte, em todos os países, a indiferen daqueles que lutam por essa mesma liberdade apenas para si.
ça e a covardia. Se não mudarmos, pesará sobre nós a responsabilida
(...) uma hegemonia exige algo mais, exige a existência de uma potên
de do aniquilamento da soberba herança de nossos antepassados. (...)
cia particular que organize e faça cumprir as regras gerais do sistema.
assim se pensa nos Estados Unidos: A Europa vai perder-se se deixar
Em resumo, não há hegemonia internacional sem Estado hegemônico.
^Einstein apud MÉSZÁROS. István (2004): O poder da ideologia. Boitempo Editorial. São Paulo. 2004. 3Einstein, Albert. Como vejo o mundo. Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 1981. p. 80-81
p. 276-283. ^OBSBAW M , Eric. J. (2002): Confederadón Intersindica! Galega, hrtn- u-^n-galigagncom [Link]
'‘Idem, ibidem ao anterior. acesso dia 20102007.
34 33
Uma potência hegemônica tem de ser um Estado particular com uma que, Jordânia, Egito e em outras partes do norte da África é de mais de 4 mi
série de atributos que. por definição, nào podem ser compartilhados lhões de pessoas. Pelo menos outros 7.6 milhões de pessoas foram forçadas a
com outros Estados, dado que são precisamente estas peculiaridades deixarem suas casas dentro da Síria”8.
que o fazem uma superpotência e que o colocam acima dos outros Es A influência dos Estados Unidos no Oriente Médio é desastrosa para to
tados. Um Estado particular capaz, assim, de desempenhar um papel
dos os povos da região. Sua aliança com os setores sionistas acompanhado do
universal como garantia do “bom funcionamento” do sistema*.
fomento ao conflito constante atenta contra a paz na região. Tanto na Síria como
O “humanismo militar” se apresenta como alternativa política universal no Líbano as tensões se acirram.
reacendendo os pressupostos do neoimperialismo materializado pelo neoliberalis-
A manipulação da informação, o envio de mercenários, de armas e de
mo. A construção de uma espécie de “Nova Roma” ganha destaque na mídia in extremistas religiosos são estratégias já comprovadas, mas ficam escla
ternacional. O entendimento clássico no final do século XIX e início do seguinte recidas com a agressividade dos discursos [...] dos chefes de Estado do
dos Estados Unidos como uma democracia capaz de organizar todas as relações Reino Unido, da França, e de representantes da realeza saudita, para
internacionais é retomada como justificativa ideológica no presente. nào falar, mais uma vez, do sionismo. Além disso, o evento ainda nào
O “humanismo militar” tem sua açào justificada pela postura dócil e esclarecido do ataque químico à região de Ghutta, próxima a Damasco,
compreensiva da Organização das Nações Unidas. Desde a primeira guerra do que matou inúmeros civis, parecia a desculpa perfeita para as potências
Golfo, essa Instituição legitimou ataques e bloqueios que proporcionaram a mor intervirem, com discursos inflamados e encenados sobre uma "linha
te de aproximadamente 500 mil pessoas no Iraque, em sua maior parte, ocorri vermelha" cruzada, com o uso de armas químicas, num ataque cuja au
toria ainda hoje nào foi estabelecida oficialmente, nem mesmo pelos
das entre as crianças.
inspetores internacionais, que investigam no país a convite do governo.
A causa desta situação é muito simples. A ONU foi construída nos tem
pos de F. D. Roosevelt e Truman como uma máquina de dominação O segundo elemento a considerar faz referência ao crescimento das ideo
das grandes potências sobre os demais países, com uma fachada de logias de ultradireita no planeta expressas pela difusão do racismo, a homofobia,
igualdade e democracia na Assembleia Geral, e uma concentração fér a xenofobia o neonazismo, entre outros. O conservadorismo radical se expande
rea do poder nas mãos dos cinco membros permanentes do Conselho em todos os continentes mundiais. Seus argumentos se sustentam na desqualifi
de Segurança, arbitrariamente escolhidos entre os vitoriosos de uma cação do Estado e a construção subjetiva do mercado e interesses privado como
guerra que nào tem nenhuma relevância hoje em dia. Esta estrutura alternativa para a superação das crises económicas e políticas instauradas. To
profundamente oligárquica presta-se a qualquer tipo de mandato e m a mando como referência o crescimento do desemprego e a falta de esperança de
nipulação diplomáticos. E isto o que conduziu a organização que em milhões de pessoas jogadas à miséria, um fenômeno nào mais restrito à periferia
princípio deveria ser um baluarte da soberania nacional dos países p o
do capitalismo, essas afirmações acabam por se apegar na ineficácia dos Estados
bres do mundo a sua prostituição atual, convertida numa mera máscara
para a demolição desta soberania em nome dos direitos humanos, Nacionais em promover o desenvolvimento social em seus países. As denúncias
transformados, por sua vez. no direito da potência hegemônica de blo de corrupção desenfreada são justificadas como um desdobramento desse pro
quear, bombardear, invadir e ocupar países menores, de acordo unica cesso.
mente com seus caprichos56. O que importa é criar a ideia do “caos” constante, invertendo um princí
pio básico inerente a uma sociedade de direito, através do qual qualquer ser hu
Um cenário de miséria e morte se apresenta no início do século XXI. A
mano só é culpado quando se existem provas para esse fim. No espetáculo midi-
intensificação das guerras civis já acumula mais de 80 milhões de refugiados e
ático, a denúncia em si se transforma em uma própria sentença, construindo, no
milhões de mortos7. “O número total de refugiados sírios na Turquia, Líbano, Ira
imaginário popular, uma arena constante ao sacrifício dos eleitos estrategicamen-
5Perry Anderson. A Batalha das Ideias na Construção de Alternativas. htiDSL. resistirinfo. cuba penv ander-
son havana [Link]
6Idem. ibidem ao anterior. dio-^-sua-eonteymah^cao 31137
g
^'P odem -se considerar os conflitos mais amplamente difundidos ou divulgados contemporaneamente, Atualmente . quase metade da população de 20 milhões da Síria é formada ou por refugiados ou por
quais sejam: conflito Israel-Palestina, guerra civil síria, ataques aos houthis no Yemen, crises institucio deslocados internos. O conflito, que já chegou ao seu quinto ano. já m atou mais de 220.000 pessoas,
nais e guerra civil no Iraque e Líbia e os conflitos em virtude da ascensão de grupos terroristas islâmicos de acordo com a ONU. A síria, já palco de batalhas incessantes, mergulhou em uma sangrenta guerra
extremistas como o Boko Haram na Nigéria, o El Shabab na Somália e o próprio Estado Islâmico do civil em março de 2011, em meio à Primavera Árabe, e o país fragmentou-se entre forças leais ao presi
Iraque e de El-Sham”, explica Natalia Nahas, articulista semanal do Ceiri Newspaper e diretora de Re dente Bashar al-Assad e grupos insurgentes, hnp.. [Link]. confiitowiCK?nente-mgdic^-sua-contextuali-
lações Internacionais do Instituto da Cultura Árabe (Icarabe). http: caritas orçbr eonflitQS-noonente-me- 2acao31137
36 37
te para esse fim. Uma vez denunciado, será para sempre considerado como um restringem a imigração e limitam os direitos e liberdades dos estrangei
doente social, independente de ser ou nào inocentado. ros10.
Na prática, a açào manipulada midiática se apresenta como neutra, Na Hungria e Polônia, governam partidos de ultradireita com uma m en
quando na realidade nào o é. Como fenômeno classista, escolhe os temas em sagem autoritária. Na Suécia. Suíça. Grécia. França e Norte da Itália, partidos xe
discussão e defende os interesses e visões de mundo das frações de classe que re nófobos e às vezes abertamente neofascistas têm votações substanciais11.
presenta.
(...] Na Ucrânia, os neonazistas sào uma força política e militar com in
[...] sào postos de lado os temas de interesse concreto para a vida das fluência no governo e batalhões próprios. [...] Em Israel, o general Yair
pessoas, como a brutal, crescente e injusta concentração de renda: aqui Golan, vice-chefe do Estado-Maior, advertiu no dia israelense de lem
(dados de 2012). os 10% mais ricos detém 42% da renda e 40% dos brança do Holocausto (5 de maio) que vê em seu país evidências das
brasileiros, os mais pobres, respondem por apenas 13% da renda naci mesmas “tendências revoltantes” da Alemanha dos anos 1930: “Nada
onal; a renda real do trabalho do 1% de mais ricos é 87 vezes superior há mais fácil do que odiar os diferentes; nada mais fácil do que semear
à dos 10% dos mais pobres. Como na matriz, é alta a desigualdade - medo e terror; nada mais fácil do que se portar como animal e se con
nada obstante os esforços de inclusão social levados a cabo nos últimos formar presunçosamente à maioria”. Foi criticado por Benjamin Ne-
12 anos - e baixa a taxa de crescimento econômico, a qual. mantida, tanyahu, atacado pela mídia conservadora e obrigado a se desdizer. Na
nos assegurará a pobreza por mais 50 anos. Assim, nada discutindo ou Turquia, o partido islâmico de Recep Tayyip Erdogan tende a abando
discutindo o supérfluo, evitamos o debate em tomo de questões cruci nar a moderação e impor um nacionalismo semiautoritário similar ao
ais para a vida das pessoas como a expansào do mercado interno, a de Vladimir Putin. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte foi eleito presidente
política de distribuição de renda e aumento do poder de compra dos com a promessa de executar criminosos e prepara-se uma grandiosa
trabalhadores. E o crescimento, se possível sem inflação9. homenagem ao falecido ditador Ferdinand Marcos. A “mào dura” dos
Fujimori venceu o primeiro turno no Peru e similares como Jair Bolso-
Esta açâo midiática possibilita o crescimento de um amplo processo de
naro despontam em meio ao golpe parlamentar no Brasil, por ora ape
radicalização conservadora, cujo crescimento do número de militantes de extre nas neoliberal12.
ma direita em todo o planeta é um exemplo. Ela constrói novas identidades po
lítico partidárias, promove a intolerância política e a discriminação na sociedade. O terceiro elemento faz referência ao acirramento das disputas dos blo
Os partidos políticos de ultradireita adotam uma postura comum em di cos econômicos planetários. As mudanças internacionais expressas pelos desdo
ferentes regiões do planeta. Centrados em princípios similares à construção do bramentos das crises cíclicas econômicas do capitalismo intensificam as disputas
nazismo no século XX. adotam princípios sionistas para explicar a exclusão social referentes ao domínio de espaços de comércio.
e a pobreza, jogando seres humanos uns contra os outros. Na Europa e nos Esta A criação dos BRICS - Brasil. Rússia, índia. China e África do Sul -
dos Unidos é comum a eleição de estrangeiros e do processo de corrupção des exemplifica esta afirmação. Um amplo espaço de conflitos se estabelece, impli
provido de história e concepção classista como os responsáveis pela miséria im- cando em mudanças na Organização Internacional do Comércio e no sistema fi
perante. O crescimento das formas reprodutivas do capital em sua forma finan nanceiro internacional capitaneado pelo Fundo Monetário Internacional e o Ban
ceira e seus impactos sobre a pobreza sào estrategicamente deixados de lado co Mundial. A oposição dos BRICS impacta na chegada de novos atores afetan
nesta panfletagem midiática. do a hegemonia do bloco econômico dos países centrais, merecendo destaque,
os Estados Unidos, o Japão, a União Europeia e o Canadá.
Apresentam os imigrantes como bárbaros que váo à Europa para dis
putar os serviços sociais com os cidadàos “nacionais”. Odeiam, em es
A açào geopolítica dos BRICS manifestas no Consenso de Moscou e
pecial o Islà e os muçulmanos. Estes representam, em seu discurso, o Brasília, expressa na busca de alternativas de combate à desigualdade e a pobre
mesmo papel de “ameaça externa” que Hitler associava aos judeus. za movidas da periferia para o centro acirram as disputas políticas. Seus posicio
Esta capacidade de capitalizar o sentimento social e dirigi-lo para cau namentos políticos se baseiam na concepção de solidariedade dos povos a partir
sas retrógradas tom a a extrema-direita perigosa nào apenas pelo risco
de sua eventual chegada ao poder. Ela contamina, crescentemente, as
agendas nacionais. Os partidos da direita tradicional (e mesmo da anti 10Antonio Martins. Eurcpa: o espectro da sctema-direia. https:.,[Link] blogs outras-palavras eu-
ropa-o-espearo-da-excrenr^-direia-1414.h3rJ
ga social-democracia) tém aprovado, cada vez mais, leis e medidas que
**Antonio Luiz M. C. Costa. Em busca do Führer, httos: ■[Link] revista 933 em-busca-do-fuh-
9Roberto Amaral. A alienação conservadora, httos: [Link] polioca a-alienacao-conservado- rex
12
[Link] Idem, ibidem ao anterior.
38 39
dos seus interesses comuns. Ao mesmo tempo, a criação do referido bloco não muçulmanos na índia, os problemas étnicos na África do Sul e a busca de expul
impede que esses mesmos países busquem acordos com outras nações que não sar as empresas brasileiras do mercado internacional.
sejam integrantes. Essa ação implica na construção de um leque de oportunida As disputas internacionais fomentam as discussões propostas neste livro.
des de negócios para a periferia atentando, diretamente, às zonas de influência Dividido em 3 (três) partes que se complementam e fornalizam uma totalidade
dos países centrais. analítica, objetiva demonstrar os desdobramentos do processo de crise econômi
A legitimação da periferia do capitalismo é um processo que atinge dire ca internacional e seus impactos no Brasil. A “Parte I” denominada “O golpe par
tamente os interesses do centro, entendido como um processo que pode inviabili lamentar e a política internacional’’ analisa a crise econômica internacional e os
zar a centralidade dos seus negócios tanto na dimensão financeira como produti rearranjos diplomáticos e da política internacional do centro para com a periferia
va. do capitalismo visando recompor as formas acumulativas do capital transnacio-
Tomando como referência a ofensiva do centro sobre a periferia mani nal em sua forma financeira. A parte II “O golpe parlamentar e o Estado no Bra
festa na privatização das empresas estatais, estas mesmas empresas estatais são sil” demonstra os desdobramentos da ofensiva do capital no Brasil. Recupera
entendidas pelos BRICS como membros ativos em todas as transações econômi como os interesses transnacionais fomentaram a desestabilizaçào da política in
cas internacionais, não só na disputa por espaços centrais de acesso às matérias terna brasileira. A parte III “O golpe parlamentar e seus impactos na educação
primas, bem como de mercados consumidores. Da mesma forma, os BRICS for brasileira” analisa como a ofensiva internacional impacta na educação brasileira,
çam sua participação política em decisões centrais das Nações Unidas, especial manifesta em reestruturações, precarizaçào do trabalho de professores, entre ou
mente em questões armamentistas. resolução de conflitos militares e refinamento tros.
de urânio, componente fundamental para a construção e produção de energia Esperamos que este livro contribua para a análise do complexo período
nuclear. Merece destaque com referência às guerras militares e civis que os em que se insere a política brasileira, cujas explicações, acreditamos, transcen
BRICS entendem que as intervenções estrangeiras só serão possíveis a partir de dem as fronteiras nacionais.
um pedido formal do Estado em questão. Essa ação esbarra diretamente contra
os interesses da indústria armamentista internacional, cujo fomento de guerras (Paihs éiacem
impacta no atendimento de setores transnacionais capitaneados pelos Estados
Unidos.
çsfidmve Qsòaittaiia
Essa açào dos BRICS impacta em um processo de resistência das princi éiurdes éiatfm
pais potências centrais do planeta. As disputas diplomáticas internacionais são in Organizadores
tensificadas como forma de barrar o avanço dos BRICS no planeta. O que se
percebe é um amplo movimento de fomento à instabilidade nas fronteiras dos
seus componentes, manifesto no fomento das oposições, ataques constantes a
governos de tendências nacionalistas, entre outros. Com forte apoio de parcela
considerável da mídia, o fomento da instabilidade se sustenta em um processo
articulado voltado à tentativa de desacreditar seus governos perante a população
dos seus países.
Essa açào se justifica a partir da recomendação do Manual das Forças
Especiais de Guerra não Convencional dos Estados Unidos, recomendando a ex
ploração contínua das vulnerabilidades dos países inimigos através do fomento e
financiamento de oposições internas, desmoralização de empresas vinculadas a
esses mesmos países, entre outros. Os conflitos russo-ucraniamos, os embates no
Mar da China, a “cordão das ilhas“ promovido pela OTAN para controlar o
Atlântico Sul e a busca contínua de desestabilizar o Mercosul exemplificam essa
afirmação. Da mesma forma, o fomento à intensificação das disputas étnicas na
Rússia, dos conflitos sobre o Tibet na China, dos embates entre os hindus e os
41
PARTE I
O GOLPE PARLAMENTAR E A POLÍTICA INTERNACIONAL
43
ÇFjfníy/ O Uifckfrar
iEste capítulo corresponde às páginas 35 q 50 do livro intitulado “Atualidade histórica e ofensiva socia
lista: uma alternativa radical ao sistema parlamentar" de autoria de István Mészáros. publicado original -
mente pela Boitempo Editorial no ano de 2010. Agradecemos aos professores Ricardo Antunes e Ivana
Jinkings pela disponibilização gratuita deste texto.
^Karl Marx. Economic Manuscripts of 1861 - 1864. em MarxEngels. Colleted Works (MECW) v. 34.
p.457. Grifos de Marx. Outra importante observação a ser acrescentada aqui é que “o trabalho produti
vo - como produtor de valor - sempre enfrenta o capital como trabalho de trabalhadores isolados, seja
qual for a combinação com que esses trabalhadores iso/ados, seja qual for a combinação com que esses
trabalhadores entram no processo de produção. Assim, enquanto o capital representa o poder produti-
44 45
poder de produçào vitalmente necessário para a sociedade uis-ò-uis aos indiví dessem reaver o controle dos poderes sociais de produçào do seu trabalho por
duos. incorporando os interesses de todos. Dessa forma, o capital afirma-se náo meio de algum decreto político, ou mesmo por uma longa série de reformas par
apenas como poder de facto, mas também como poder de jure da sociedade, na lamentares decretadas sob a ordem sociometabólica de controle do capital. Em
qualidade societária e. portanto, como o fundamento constitucional de sua pró tais questões, nào pode haver nenhuma forma de evitar o conflito inconciliável
pria ordem política. em tomo das apostas do tipo ou/ou.
O fato é que a legitimidade constitucional do capital é historicamente O capital nào pode abdicar de seus - usurpados de produção - poderes
fundada na expropriação implacável dos produtores das condições de reprodu de produçào social em favor do trabalho, nem pode compartilhá-los com ele,
ção sociometabólica - os instrumentos e materiais de trabalho - , portanto, a ale graças a algum pretenso mas fictício “compromisso político”, na medida em que
gada “constitucionalidade” do capital (como a origem de todas as constituições) eles constituem o poder global de controle da reprodução societária sob a forma
é inconstitucional; mas essa verdade intratável perde-se nas brumas do passado da “dominação da riqueza sobre a sociedade”. Por isso, é impossível escapar,
remoto. Historicamente, as ‘’/orças de produçào social do trabalho, ou as forças sob o domínio do sociometabolismo fundamental, à severa lógica de “um ou o u
de produçào do trabalho social, primeiro se desenvolveram como o modo de tro”. Para tanto, ou a riqueza. sob a forma de capital, continua a comandar a so
produçào específico do capitalismo, por isso aparecem como algo imanente à re- ciedade humana, levando-a aos limites da autodestruição, ou a sociedade de
laçáo-capital e dela inseparável3. E assim que o modo de reprodução sociometa- produtores associados aprende a comandar a riqueza alienada e reificada usando
bólico do capital legitima-se e eterniza-se como sistema legalmente inquestioná os poderes de produçào resultantes do trabalho social autodeterminado de seus
vel. Só se aceita como legítimo o questionamento de aspectos menores de uma membros individuais - mas já nào mais isolados.
estrutura global inalterável. Desaparece de vista o estado real das coisas, ou seja, O capital é a força extraparlamentar par excellence, cujo poder de con
o poder de produçào efetivamente exercido e sua absoluta necessidade para ga trole sociometabólico nào pode ser politicamente constrangido pelo Parlamento.
rantir a próxima reprodução do capital. Em parte, isso acontece por causa da ig Essa é a razão pela qual a única forma de representação política compatível com
norância da longínqua origem histórica legitimável da acumulação primitiva do o modo de funcionamento do capital é aquela que efetivamente nega a possibili
capital e da concomitante, em geral violenta, expropriação da propriedade como dade de contestar seu poder material. E é por ser a força extraparlamentar par
precondiçào do modo atual de funcionamento do sistema e, em parte, por causa excellence que o capital nada tem a temer das reformas promulgadas no interior
na natureza mistificadora das relações de produçào e distribuição estabelecidas. da sua estrutura política parlamentar. A questào vital, da qual tudo depende, é
Ou seja. que “as condições objetivas do trabalho nào aparecem subsumidas ao trabalha
dor”, mas, ao contrário, “ele aparece subsumido àquelas”, por isso mesmo ne
(...] as condições objetivas do trabalho nào aparecem como subsumi
das ao trabalhador, em vez disso, é ele que aparece subsumido àque nhuma mudança significativa é viável sem que se volte a essa questào, tanto por
las. O capital emprega o trabalho. Mesmo na sua simplicidade, essa re- meio de políticas capazes de desafiar o poder e os modos de açào extraparla-
laçào é uma personificação de coisas e uma reificaçào de pessoas4. mentares do capital como na esfera da reproduçào material. Portanto, o único
desafio que poderia, de modo sustentável, afetar o poder do capital seria aquele
Nada disso pode ser contestado e remediado no âmbito de uma reforma que assumisse as funções de produçào decisivas do sistema e, ao mesmo tempo,
política parlamentar. Seria absurdo esperar a abolição, por decreto político, da
adquirisse o controle sobre todas as esferas correspondentes da tomada de deci
"personificação das coisas e da reificaçào das pessoas", assim como seria absur são política, em vez de ser irremediavelmente condicionado pela prisào circular
do esperar a proclamação de tal reforma nos limites das instituições políticas do da açào política institucional legitimada pela legislação parlamentar5.
capital. O sistema do capital nào pode funcionar sem a perversa inversào das re Há nos debates políticos das últimas décadas muita crítica - justificada -
lações entre pessoas e coisas: o poder reificado e alienado do capital que domina de figuras políticas antes de esquerda e de seus partidos hoje acomodados por
as massas do povo. Da mesma forma, seria um milagre se os trabalhadores, que completo. Entretanto, o mais problemático nesses debates é que, ao superenfati-
no processo de trabalho confrontam o capital como "trabalhadores isolados’*, pu- zar o papel da ambiçào e do fracasso pessoal, eles em geral continuam frequen
temente a buscar o remédio para a situação na mesma estrutura política instituci
vo social do trabalho para os trabalhadores, o trabalho produtivo social do trabalho para os trabalhado
onal que na verdade favorece grandemente as criticadas “traições pessoais*’ e os
res. o trabalho produtivo social do trabalho para os trabalhadores, o trabalho produtivo sempre repre dolorosos “descarrilhamentos partidários”. Infelizmente, as mudanças govema-
senta para o capital apenas o trabalhador iso/ado”. Ibidem. P. 460. Grifos de Marx
3Ibidem, p.456. Grifos de Marx 5As questões abordadas nos últimos parágrafos são discutidas de modo mais detalhado no capítulo 4
^Ibidem . p. 457. Grifos de Marx do presente volume.
46 47
mentais e de pessoal propostas e aguardadas tendem a reproduzir os mesmos re Essa é uma preocupação vital, senào uma “fé romântica no sonho irrea
sultados deploráveis. lizável de Marx” como alguns tentam desacreditar e desconsiderar. Na verdade, o
Nada disse deve surpreender. A razão pela qual as instituições políticas “fenecimento do Estado” nào se refere a algo misterioso ou remoto, mas a um
hoje estabelecidas resistem com sucesso a mudanças significativas para melhor é processo perfeitamente tangível que precisa ser iniciado ainda no nosso tempo
serem elas próprias partes do problema, e nào da solução, pois em sua natureza histórico. Significa, em linguagem simples, a progressiva reconquista dos poderes
imanente elas sâo a personificação das determinações e contradições estruturais de tomada de decisão política alienadas pelos indivíduos engajados na tarefa de
subjacentes pelas quais o Estado capitalista moderno - foi articulado e estabiliza avançar até uma genuína sociedade socialista. Sem a reaquisição desses poderes
do no curso dos últimos quarenta anos. - a que se opõem nào apenas o Estado capitalista, mas também a inércia parali-
Evidentemente, o Estado foi formado nâo como um resultado necânico sante das práíicas de reprodução material estruturalmente enraizadas - é incon
parcial, mas por meio de sua necessária inter-relaçâo com o terreno material da cebível o novo modo de controle político da sociedade por seus indivíduos, assim
evoluçào histórica do capital, nâo apenas moldado por este. mas moldando-o como a operação cotidiana não contraditória e, portanto, coesiva/planejável das
ativamente tanto quanto fosse viável historicamente nas circunstâncias prevalen- unidades produtivas e distributivas particulares realizada pela autoadministraçào
tes - e justamente por causa dessa inter-relaçâo também em mudança. Atenden dos produtores livremente associados. Superar radicalmente a adversidade e,
do à determinação insuperavelmente centrífuga dos microcosmos produtivos do dessa forma, assegurar o terreno político e material do planejamento global viá
capital, mesmo no nível das gigantescas corporações transnacionais quase mono vel - uma necessidade absoluta para a própria sobrevivência da humanidade,
polistas. apenas o Estado moderno poderia assumir e cumprir a necessária fun sem falar na autorrealizaçào potencialmente enriquecida dos seus membros indi
ção de ser a estrutura de comando global do sistema do capital. Inevitavelmente, viduais - sâo sinónimos de fenecimento do Estado como uma tarefa histórica
isso significou a completa alienação do poder de tomada de decisão dos produ atual.
tores. Até mesmos as "personificações particulares do capital” foram (e sâo) estri
tamente obrigadas a agir de acordo com os imperativos estruturais de seu siste
ma. De fato. o Estado moderno, tal como constituído sobre o terreno material do
sistema do capital, é o paradigma da alienação no que se refere aos poderes de Evidentemente, uma transformação dessa magnitude nào pode ser reali
tomada de decisão abrangente-totalizante. Seria, portanto, ingenuidade extrema zada sem a dedicação consciente de um movimento revolucionário à tarefa his
imaginar que o Estado capitalista pudesse entregar voluntariamente os poderes tórica mais desafiadora de todas, capaz de se sustentar contra toda a adversida
alienados de tomada sistêmica de decisão a qualquer ator rival que operasse de, pois tal engajamento suscita a feroz hostilidade de todas as forças mais im
dentro da estrutura legislativa do Parlamento. portantes do sistema do capital. Por isso, o movimento em questão nâo pode ser
Assim, para imaginar uma mudança social significativa e historicamente apenas um tipo de partido político orientado para a obtenção de concessões par
sustentável, é necessário submeter a uma crítica radial as indeterminações tanto lamentares. que em geral sâo, mais cedo ou mais tarde, anuladas pelos interesses
de reprodução material quanto políticas de todo o sistema, e nào apenas algu especiais da ordem estabelecida que também prevalecem no Parlamento. O m o
mas de suas práticas políticas contingentes e limitadas. A totalidade combinada vimento socialista nào terá sucesso diante da hostilidade dessas formas a menos
das determinações de reprodução material e a estrutura abrangente de comando que se rearticule como um movimento revolucionário de massas, ativo de manei
político do Estado constituem juntas a realidade esmagadora do sistema do capi ro consciente em todas as formas de luta política e social: local, nacional e
tal. Nesse sentido, diante da questão inevitável decorrente do desafio das deter global/intemacional. Um movimento revolucionário de massa capaz de utilizar
minações sistêmicas. Tendo em vista reprodução tanto socioeconômica como do plenamente as oportunidades parlamentares quanto disponíveis, ainda que limi
Estado, a necessidade de uma transformação política global - em estreita articu tadas nas atuais circunstâncias, e, acima de tudo. sem medo de afirmar as de
lação com o significativo exercício das funções de produção vitais da sociedade, mandas necessárias da ação extraparlamentar desafiadora.
sem as quais é inconcebível a mudança política duradoura e de longo alcance - O desenvolvimento desse movimento é muito importante para o futuro
tom a-se inseparável do problema caracterizado como o fenecimento do Estado. da humanidade na atual conjuntura histórica. Sem a contestação extraparlamen
Dessa forma, na tarefa histórica de produzir o “fenecimento do Estado”, autoges tar orientada e sustentada estrategicamente, os partidos que se alternam no go
tão por meio da participação plena e superação permanentemente sustentável do verno podem continuar a se oferecer como convenientes álibis recíprocos para o
sistema parlamentar por uma forma positiva de tomada de decisão substantiva fracasso estruturalmente inevitável do sistema em relação ao trabalho, confinan
sá o inseparáveis, como indicado no início da segunda seção desta Introdução. do a oposição de classe ao papel de apêndice inconveniente, mas marginalizado,
no sistema parlamentar do capital. Assim, em relação ao domínio da reprodução
48 49
tanto material como política, a constituição de um movimento socialista extrapar- tantes do trabalho é precisamente terem elas o potencial de afetar de forma ne
lamentar de massas estrategicamente viável - em conjunção com as de massas gativa a estabilidade do sistema. Assim, por exemplo, a “açào industrial politica
estrategicamente viável - em conjunção com as formas tradicionais de organiza mente motivada”, ainda que local, é categoricamente excluída (e mesmo tornada
ção política do trabalho, hoje extremamente sem rumo e urgentemente necessi ilegal) “em uma sociedade democrática”, porque poderia ter implicações negati
tadas do apoio e pressão radicalizantes de tais forças extraparlamentares - é pre- vas para o funcionamento normal do sistema. O papel dos partidos reformistas,
condiçáo vital para o êxito da luta contra a maciço poder extraparlamentar do pelo contrário, é bem vindo porque suas demandas ajudam a reestabilizar o siste
capital. ma em tempos difíceis - por meio da intervenção do arrocho salarial na indústria
O papel de um movimento revolucionário extraparlamentar é duplo. Por (com o slogan da necessidade de “apertar o cinto”) e de acordos político-legisla
um lado. cabe a ele formular e defender organizacionalmente os interesses estra tivos de controle sindical. Assim, suas demandas contribuem para a dinâmica da
tégicos do trabalho como a alternativa sociometabólica historicamente viável. O renovada expansão do capital, ou pelo menos sáo “neutras” no sentido de pode
sucesso dessa função só será viável se as forças organizadas do trabalho enfrenta rem ser no futuro, ou mesmo no momento de sua formulação, integradas à esti
rem conscientemente e negarem vigorosamente, em termos práticos, as determi pulada estrutura de normalidade.
nações estruturais da ordem de reprodução material estabelecida que se manifes A negação revolucionária do sistema do capital é e será concebível por
tam na relaçào-capital e na concomitante subordinação do trabalho ao processo meio de uma intervenção organizacional estrategicamente sustentada e conscien
socioeconômico, em vez de contribuir, mais ou menos como cúmplices, para te. Embora a rejeição tendenciosamente parcial da “espontaneidade”, por ser
reestabilizar o capital em crise, como sempre ocorreu em situações importantes uma suposição sectária, deva ser tratada com as críticas que merece, nào é m e
do passado reformista. Ao mesmo tempo, o poder político aberto ou oculto do nos nocivo subestimar a importância da consciência revolucionária e os requisi
capital, que hoje prevalece no Parlamento, precisa e deve ser contestado - ainda tos organizacionais de seu sucesso. O fracasso histórico de alguns partidos impor
que apenas em grau limitado - por meio da pressão que as formas de ação ex tantes da Terceira Internacional, que uma vez professaram objetivos leninistas e
traparlamentar podem exercer sobre o Legislativo e o Executivo. revolucionários, como os partidos comunistas italiano e francês acima citados,
A açáo extraparlamentar só será eficaz se atacar os aspectos centrais e as nào deve distrair nossa atenção da importância da recriação das organizações
determinações sistêmicas do capital, atravessando o labirinto de aparências feti- políticas em um terreno muito mais seguro} por meio das quais se realizará no fu
chistas com as quais eles dominam a sociedade. Pois a ordem estabelecida afir turo a transformação socialista vital de nossas sociedades. E evidente que uma
ma materialmente seu poder primariamente na (e através da) relação capital . reavaliação crítica contundente do que deu errado até agora é a parte mais im
perpetuada na base da inversão mistificadora da real relação de produçáo das portante desse processo de renovação. O que nesse momento se mostra perfeita-
classes hegemônicas alternativas na sociedade capitalista. mente claro é que a queda desintegrativa desses partidos na ladeira escorregadia
Como já mencionado, essa inversão permite ao capital usurpar o papel da armadilha parlamentar oferece uma importante liçào para o futuro.
de “produtor que. nas palavras de Marx, "emprega o trabalho", graças à des Apenas dois modos abrangentes de controle sociometabólico sáo viáveis
concertante “personificação das coisas e coisificaçao das pessoas", e assim se legi hoje: a exploração da ordem de reprodução do capital - imposta a qualquer cus
tima como precondiçâo inalterável de realização do “interesse de todos". Como to pelas “personificações do capital” - que miseravelmente traiu a humanidade,
o conceito de “interesse de todos’’ é de fato importante - ainda que hoje seja levando-a nossos dias à beira da autodestruição; e a outra, diametralmente
usado de modo fraudulento para camuflar a total negação de sua substância oposta à ordem estabelecida: a alternativa sociometabólica hegemônica do traba
para a esmagadora maioria das pessoas pelas pretensões formais e legais de “jus lho. Uma sociedade gerida por indivíduos sociais com base na igualdade subs
tiça e igualdade” nào poderá haver nenhuma alternativa significativa e histori tantiva que lhes permite todo o seu potencial humano produtivo e intelectual,
camente sustentável à ordem estabelecida sem a radical superação da abrangen em harmonia com os requisitos metabólicos da natureza, em vez de se inclinarem
te relação capital em si. Essa é uma exigência sistêmica inadiável. Exigências par para a detruiçâo dessa, portanto deles próprios, como ainda acontece no modo
ciais podem, e devem, ser defendidas por socialistas, desde que tenham relação de controle sociometabólico incontrolável do capital - expressa como a comple
direta ou indireta com a exigência, absolutamente fundamental, de superação da mentaridade dialética das demandas imediatas particulares, mas nào margina/i-
relação capital em si. que vai ao âmago da questão. záveis. e os objetivos abrangentes da transformação sistêmica - será capaz de
Essa exigência está em nítido contraste com o que hoje é permitido à constituir o programa válido do movimento revolucionário consciente organizado
forças de oposição pelos fiéis ideólogos e figuras políticas do capital. Seu princi em todo o mundo.
pal critério para excluir a possibilidade até mesmo de demandas parciais impor -
50 51
A crise da nossa ordem social nunca foi tào grande quanto hoje. Sua so onalistas (clamorosamente enfatizadas pela capitulação dos partidos social-de
lução é inconcebível sem a intervenção sustentada da política revolucionária mocratas à burguesia nacional no início da Primeira Grande Guerra Mundial)
numa escala adequada. A ordem dominante não é capaz de gerir seus interesses, tomaram impossível a transformação das Internacionais radicais numa força or
nas condições de uma crise estrutural que se aprofunda, sem adotar medidas ganizada eficaz e coesa de maneira estratégia.
cada vez mais autoritárias e repressivas contra as forças opostas às tendências Assim, a infeliz história das Internacionais radicais sáo foi de forma algu
destrutivas em curso de desenvolvimento, e sem o engajamento de suas potên ma acidental. Ligou-se à premissa irrealista da necessidade de uma unidade
cias imperialistas hoje ocupadas em aventuras militares genocidas. Seria a maior doutrinária no momento em que a operação no âmbito de uma estrutura política
das ilusões imaginar que uma ordem política e socioeconômica desse tipo fosse impunha sobre a esmagadora maioria do movimento dos trabalhadores a neces
reformável. no interesse do trabalho, quanto resistiu com firmeza à instituição de sidade de acomodação parlamentar. De nào é incorreto dizer que a adoçào de
todas as mudanças significativas propostas pelo movimento reformista no curso duas linhas de abordagem estratégica, uma ao lado da outra, foi. no passado,
de sua longa história, pois hoje a margem de ajustes acomodativos de estreira di mutuamente exclusiva. Por isso, a necessária mudança no futuro nào será viável
ante da incontrolável inter-relaçáo global das contradições e antagonismos do sem que se discutam de maneira crítica os problemas de ambas. Apenas um m o
capital. Assim. vimento revolucionário consciente e consistente - que se afirme como alternativa
(...] dado o fato de a mais intratável das contradições do sistema global
hegemônica à ordem social do capital - será capaz de encontrar uma saída des
do capital ser aquela existente entre a irretringibilidade interna de seus sas dificuldades.
componentes econômicos e a hoje inevitável necessidade de introdu E claro que um movimento organizado revolucionário consciente de tra
ção de restrições significativas, qualquer esperança de encontrar uma balhadores nào poderá ser contido dentro da estrutura política restritica do Parla
saída desse círculo vicioso em circunstancias marcadas pela ativação mento dominado pelo poder extrapalarmentar do capital. Ele também nào terá
dos limites absolutos deve ser aplicada à dimensão política do sistema. sucesso como organização sectária auto-orientada. Poder para se definir com su
Assim, à luz das recentes medidas legislativas que já apontam nessa di cesso por meio de dois princípios orientadores vitais. Primeiro, a elaboração de
reção, nào há dúvida de que todo o poder do Estado será ativado para seu próprio programa extraparlamentar orientado para os objetivos da alternati
servir ao fim de ajustar o círculo vicioso, ainda que isso signifique sujei
va hegemônica abrangente para assegurar uma transformação sistêmica funda
tar toda dimensão potencial a extremas restrições autoritárias. Da m es
mental. E. segundo, igualmente importante em termos de organização estratégi
ma forma, nào há dúvida de que a adoçào ou nào de tal “açào remedi-
adora“ (em conformidade com os limites estruturais do sistema global ca. o envolvimento ativo na constituição do necessário movimento extraparla
do capital), apesar de seu óbvio caráter autoritário e de sua destrutivi- mentar de massas, como o portador da alternativa revolucionária capaz de m u
dade, vai depender da capacidade da classe trabalhadora de rearticular dar, qualitativamente, também o processo legislativo. Isso representa um grande
de forma radical o movimento socialista como empresa verdadeiramen passo na direçào do fenecimento do Estado. Apenas por meio desses desenvolvi
te internacional'. mentos organizacionais, com o envolvimento direto das grandes massas será pos
Sem a adoçào de uma perspectiva socialista internacional, o movimento sível imaginar a realização da tarefa histórica de instituição da alternativa hege
dos trabalhadores não será capaz de adquirir a força necessária. Sob esse aspec mônica dos trabalhadores no interesse da emancipação socialista abrangente.
to. a reavaliação crítica da história das Internacionais do passado nào é menos
importantes que a critica radical da ‘v ia parlamentar para o socialismo”. De fafo,
as promessoas nào cumpridas dessas duas abordagens estratégicas estão em ínti
ma ligação. No passado, a incapacidade de concretizar as necessárias condições
de sucesso para uma delas afetou de maneira profunda as perspectivas da outra,
e vice-versa. De um lado. sem um movimento socialista autoassertivo forte nào
houve chance de fazer prevalecer a perspectiva socialista nos Parlamentos nacio
nais. Ao mesmo tempo, do outro lado. a esmagadora dominação do capital no
cenário nacional e a acomodação dos movimentos de trabalhadores internado-
nalmente mal organizados às restrições parlamentares dadas e às tentações naci
C ^Jum b
1 Texto publicado, com algumas pequenas alterações, em Herramienta 58. Ed. Herramienta. Buenos
Aires.
2Ricardo Antunes é Professor Titular de Sociologia no IFCHUNICAMP. Publicou, entre outros livros,
Os Sentidos do Trabalho. Ed. Boitempo. 13 reimpressão, publicado também na Itália, Inglaterra H o
landa, EUA, Portugal. índia e Argentina; Adeus ao Trabalho?. 16 a ed., Cortez, publicado também na
Itália, Espanha. Argentina. Colômbia e Venezuela; O Conrinenre do labor. Boitempo; Riqueza e Miséria
do Trabalho no Brasil (organizador), Boitempo, Vol. I, II e II. Atualmente coordena as Coleções Mundo
do Trabalho, pela Boitempo Editorial e Trabalho e Emancipação, pela Editora Expressão Popular. Co
labora regularmente em revistas e jornais nacionais e estrangeiros.
54 55
origem o 31 de março, fraudando a faticidade histórica, já que o golpe militar menos que o controle social da produção, fora tanto do enquadramento socialde-
ocorreu de fato em I o de abril, o dia da mentira. mocrático quanto do chamado “modelo soviético”.
E vital que a juventude nào esqueça esse fato e resista pela luta. onde Essa contrarrevoluçào burguesa descarregou sua profunda verve antis
houver risco de uma nova ditadura, uma vez que as nossas classes burguesas social em escala global: impulsionou a barbárie neoliberal ainda dominante; de
são, essencialmente, de perfil autocrático, atuando pela via do golpe e das dita flagrou uma monumental reestruturação produtiva do capital em escala global
duras sempre que seus interesses de classe correm algum risco. Por isso, ao longo que alterou, em muitos elementos, a engenharia produtiva do capital. (Antunes,
de décadas, tentam apagar o “pior’* da ditadura militar para que a juventude 2013), sendo que essa ação bifronte esteve sempre sob hegemonia do capital fi
possa acreditar que algo “positivo” ocorreu durante aquele tenebroso período. nanceiro. (Chesnais, 1996), de que resultou uma ampliação descomunal tanto da
Assim, a única forma de impedir os golpes, venham como ele vier, é (super)exploraçào do trabalho como do mundo especulativo e seu capital fictício.
através da organização e resistência popular. Se nào houver organização social Mas é bom recordar que o capital financeiro não é só o capital fictício
dos trabalhadores, das trabalhadoras, dos estudantes, dos trabalhadores rurais, que circula e generaliza as especulações e os saques: o capital fictício é uma parte
dos camponeses, das comunidades indígenas, dos negros, dos imigrantes, dos prolongada do capital financeiro e este é, como sabemos de há muito tempo,
movimentos sociais, os golpes retornam, ainda que possa assumir uma aparência uma fusão complexa entre o capital bancário e o capital industrial (como nos e n
menos brutal ou mais abrandada. Assim, é de extrema importância recordar sinaram Lenin. Hilferding. Rosa Luxemburgo, entre outros).
aqueles tristes anos - ou décadas - dessa fase tenebrosa de nossa América Lati Assim, ao contrário de certa leitura frágil defendida por muitos econo
na, para que ele nunca mais aconteça. Nunca Mais! mistas pouco críticos, o capital financeiro nào é uma alternativa ao mundo pro
Como a história do mundo é em grande medida a história das contra dutivo. mas o controla em grande parte e só uma parte dele - o capital especula
dições. nossa América Latina caminhou oscilante, ora no fluxo, ora no contraflu- tivo de tipo fictício - se desloca em períodos de crise de acumulação. Basta lem
xo das reformas e das contrarreformas. das revoluções e das contrarrevoluçòes. brar que. quando compramos um produto financiado, estamos, na verdade, ofe
recendo um duplo ganho para os capitais: tanto na compra quanto no financia
II - A era das contrarrevoluçòes. mento das mercadorias.
E é este é o lastro material existente, sem o qual o capital financeiro
1968 foi o ano que balançou o mundo: os levantes em Paris e em v á para pode dominar “etemamente”. Capital fictício sem algum lastro produtivo é
rios países da Europa; a invasào russa à Tchecoslováquia; as greves de 1968 no uma impossibilidade, quando se pensa em dominação de longo período. Nào é
Brasil; o massacre dos estudantes no México em 1968; as greves do autunno cal por outro motivo que, na lógica do capital financeiro, o saque, a exploração e a
do (outono quente) na Itália em 1969, mesmo ano do Cordobazo na Argentina, intensificação do uso da força de trabalho têm que ser levada cada vez mais ao
para citar alguns exemplos emblemáticos, nós adentramos em uma era de rebeli limite no capitalismo de nosso tempo. E é também por isso que os padecimentos,
ões que se expandiram por quase todos os cantos do mundo. Cinco anos depois, constrangimentos e níveis de (super)exploração da força de trabalho atingem ní
em um quadro de profunda crise estrutural do capital (Mészáros. 2002) o sistema veis de intensidade jamais vistos em fases anteriores, no Sul e Norte do mundo
de dominação do capital, constatada sua crise profunda em todos os níveis, eco global.
nômico, social, político, ideológico, valorativo. foi obrigado a desenhar uma nova Em nossa América Latina vivenciamos, sob formas diferenciadas, essa
engenharia da dominação. longa era de contrarrevoluçòes. A ditadura militar chilena antecipou o neolibera-
Vieram, numa sucessão concatenada, a reesíruturaçao produtiva dos lismo. antes do seu advento na Inglaterra, assim como em alguma medida ocor
capitais, a financeirizaçào ampliada do mundo e a barbárie neoliberal. e este tri- reu também com a ditadura militar na Argentina. Mas foi posteriormente, sob a
pode da destruição foi responsável pelo advento da contrarrevoluçào burguesa era da desertificação neoliberal que a contrarrevoluçào efetivamente triunfou.
de amplitude global, para recordar a expressão frequentemente usada pelo soció (Antunes. 2004 e 2006)
logo brasileiro Octavio Ianni. Como sabemos, a pragmática neoliberal significou maior da concentra
Uma contrarrevoluçào burguesa poderosa, cujo objetivo primeiro foi ção de riqueza e da propriedade da terra, avanço dos lucros e ganhos do capital,
destruir tudo que havia de organização da classe trabalhadora, do movimento intenso processo de privatizações das empresas públicas, desregulamentaçào dos
socialista e anticapitalista. Essa reação foi, então, a resposta às lutas empreendi direitos sociais e do trabalho, liberdade plena para os capitais, do que resultou o
das pelos polos mais avançados do movimento operário europeu e dos movi aumento da pauperizaçào dos assalariados, expansão dos bolsões de precariza-
mentos sociais que lutaram pela emancipação em 1968, que almejavam nada
56 57
dos e dos desempregados, dentre tantas outras consequências socialmente nefas le e Uruguai, dentre outras experiências. Mas. depois de mais de uma década
tas. destas vitórias, podemos constatar que. em sua grande maioria, estes novos go
No mundo financeiro latinoamericano, basta recordar que muitos ban vernos aceitaram fazer uma longa pactuaçào e forte conciliação com os grandes
cos estrangeiros compensaram sua situação quase falimentar em seus países de capitais, o que acabou por corroer por dentro e devorar seus governos, como
origem através da ampliação de seus lucros no Brasil. Chile, e tantos outros paí ocorre de modo cabal com o Brasil nos dias atuais, que apresentaremos a seguir.
ses latinoamericanos. O caso do Santander. E exemplar e o Brasil, que até pou Depois de várias lutas de grande importância, que marcaram um forte período
cas décadas atrás tinha um sistema financeiro majoritariamente nacional e esta de contestação, o neoliberalismo. mais como tragédia do que farsa, ainda segue
tal. hoje tem esse setor fortemente transnacionalizado. dominante.
Foi contra esse projeto profundamente destrutivo que os operários e
operárias, dos campos e das cidades, os povos indígenas, os campesinos, os III - A ofensiva d a direita e o golpe de novo tipo.
sem-terra, os despossuídos. os homens e as mulheres sem emprego, além de
uma miríade de outros movimentos sociais como dos da juventude, ambientalis Seja através de governos neoliberais "puros", seja pela ação de gover
tas etc. desencadearam novas formas de luta social e política, especialmente a nos social-liberais (apologeticamente chamados de “neodesenvolvimentistas)
partir dos anos 1990. que fracassaram ao tentar implementar uma moderada terceira via. o neolibera
Nos Andes, onde viceja uma cultura indígena secular e milenar, cujos lismo retoma e refortalece o controle nos países onde a conciliação dominava,
valores sào muito distintos daqueles estruturados sob o controle e o tempo do ca (ver PRADELLA e MAROIS, 2015) No caso da Argentina, depois do longo des
pital. ampliaram-se as rebeliões, desenham-se novas lutas, dando claros sinais gaste dos governos Kirchner, vimos recentemente a vitória de Macri. esta varian
de contraposição à ordem que se estrutura desde o início do domínio, espoliação te de gladiador da barbárie. E estamos presenciando também a gestação, em es
e despossessào típicas da fase neoliberal. (Antunes. 2011). Na Bolívia, as comu tágio bastante avançado e já quase vitorioso, do golpe parlamentar no Brasil,
nidades indígenas e camponesas rebelaram-se contra a sujeiçào e subordinação. através do processo de impeachment que. na forma que vem assumindo, burla
Na Venezuela, os assalariados pobres dos morros de Caracas esboça acintosamente a Constituição brasileira de 1988.
ram novas formas de organização popular nas empresas, nos bairros populares e Os governos Lula e Dilma do PT. como governos de conciliação, foram
nas comunidades. No Peru. os indígenas e camponeses desencadearam vários le em última instância, exemplos significativos de representação dos interesses das
vantes contra governos conservadores e junto com tantos outros povos andinos e classes dominantes, fazendo como ponto de diferenciação, a inclusão um progra
avançaram os espaços de resistência e rebelião. ma de melhoras pontuais, como o Bolsa-Famflia, voltado para os assalariados e
Na Argentina, quando da eclosão dos levantes em dezembro de 2001. setores mais pobres do país. dentre outras medidas similares. Enquanto o cenário
vimos a luta dos trabalhadores desempregados, dos “piqueteros”. que conjunta- económico foi favorável, o Brasil parecia caminhar bem, mas com o agravamen
mente com as classes médias empobrecidas, depuseram vários governos, nos to da crise económica, social, política e institucional, esse mito desmoronou, no
dias que abalaram a Argentina. No México encontramos os exemplos de Chiapas mesmo momento em que a Operação judicial denominada Lava Jato atingia al
desde 1994 e, posteriormente, da Comuna de Oaxaca. em 2005. que foram for guns núcleos de corrupção política amplamente implementados pelo PT no go
tes rebeliões contra a destruição neoliberal. Houve ainda inúmeras lutas sociais verno. Tudo isso reverteu profundamente o “quadro positivo” e tomou o futuro
urbanas em praticamente toda a América Latina, contra a mercadorizaçào ou imediato completamente imprevisível.
commoditização dos serviços públicos, como saúde, educação, transporte etc. Já nas eleições de outubro de 2014 era possível perceber uma redução
Neste período, o ciclo de governos neoliberais na América Latina per do apoio das frações burguesas ao governo Dilma. uma vez que o quadro reces
deu progressivamente força, o que possibilitou a ampliação do descontentamen sivo antecipava a necessidade de mudanças profundas em sua política econômi
to social contra o neoliberalismo. Em alguns casos, tais movimentos e partidos ca para ajustar-se ao novo cenário. Não foi por outro motivo que, imediatamen
políticos tomaram-se governos e geraram experiências políticas que sinalizavam te após a vitória eleitoral, em janeiro de 2015. Dilma implementou um ajuste fis
a possibilidade efetiva de mudanças, como na Venezuela de Chaves e o seu Boli- cal profundamente recessivo que, além de ampliar o descontentamento empresa
varianismo. ou o Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales, que venceu rial. aumentou também os descontentamentos em todas as classes sociais - ainda
as eleições e iniciou um longo ciclo na Bolívia. que frequentemente por motivos opostos.
Houve também vitórias de movimentos e partidos políticos de oposi Nas classes médias, em seus setores mais conservadores - desde libe
ção que chegaram ao governo, como o PT no Brasil e as Frentes Amplas no Chi rais, conservadores, até defensores da ditadura militar, passando por protofascis-
58 59
tas e fascistas - desencadeou-se um verdadeiro ódio ao governo Dilma e ao PT rosào de suas bases sociais de sustentação, desenvolveu-se um golpe parlamen
de Lula. Nas camadas médias baixas, o desencanto também se ampliou, pois os tar e judicial (uma vez que setores do Judiciário vêm implementando uma legis
salários se reduzem, a inflaçào aumenta e o desemprego se toma crescente e lação de exceção para poder dar respaldo jurídico ao golpe), no que é impulsio
mesmo galopante. O mito do projeto “neodesenvolvimentista” do governo do PT nada pela mídia privada, poderosíssima, mas que não tem nenhum escrúpulo em
desmoronou. apoiar um parlamento que é o mais desprezado da história Republicano do Bra
Na ciasse trabalhadora, os setores ainda vinculados ao PT. fazem um sil.
enorme esforço para impedir o impeachment, mas o parlamento, de perfil con Isso não significa, é imperioso reiterar, que se deva ser condescendente
servador - verdadeiro Pântano da política brasileira sob comando conserva com os governos petistas em suas práticas desmesuradas de corrupção político-
dor, está imbuído da proposta de destituir o governo Dilma a qualquer preço. eleitoral. mesmo sabendo que se trata de uma prática é recorrente na história Re
Como o impeachment está previsto na Constituição do país, gestou-se publicana brasileira de mais de um século, para não recordarmos dos períodos
a "alternativa ideal’’: deflagrar um golpe com aparência legal, constitucional. Um colonial e imperial, sob domínio de Portugal, onde a corrupção já era pragmática
golpe que, contando com o decisivo apoio da grande mídia dominante, assumiu recorrente na vida política do país. Mas um golpe, em suas múltiplas e distintas
a feiçào de um não-golpe. Não um golpe militar, como em 1964, mas um golpe modalidades, é sempre um ato que tem a marca da ilegalidade e da excepciona-
de novo tipo, foijado pelo pântano parlamentar que, até poucos dias atrás, era lidade.
parte da base aliada que dava sustentação aos governos Lula e Dilma.
Vale uma vez mais recordar o que disse Marx, em O 18 de Brumário Conclusão: O estado de exceção e seu novo tipo de golpe
de Luis Bonaparte, quando afirmou que o parlamento francês chegou à sua con
dição mais degradante e mais degradada. (Marx. 1974) Para nossa sorte. Marx As causas mais profundas da crise atual podemos assim sintetizar:
não viu o funcionamento servil, negociai, verdadeiramente pantanoso do parla como a crise econômica têm evidentes componentes globais, ela inicialmente
mento brasileiro dos dias atuais. Ele é incomparável ao francês. Fazendo uma atingiu, desde 2008, os países capitalistas centrais, como os EUA, Japão e diver
metáfora com a seca e desertificaçào decorrentes da falta de chuvas, pode-se di sos países da Europa. Mas como ela é uma crise desigual e combinada, acabou
zer que o parlamento brasileiro é a expressão de um pântano que chegou ao seu chegando ao sul. às periferias e seus países intermediários.
volume morto (nível das reservas de água na parte mais baixa, desprezada pela E, quanto mais a crise aprofunda no Norte, maior é a sucção de capi
quantidade de impurezas). tais para o centro e mais intensificadas são as taxas diferenciais de exploração,
Não é difícil constatar, então, que a crise é de alta profundidade: além seja diretamente entre o Norte e o Sul. o Leste e o Oeste, seja entre as próprias
de econômica, social e política, é também uma crise institucional, uma vez que regiões e países, onde também o desigual e o combinando se reproduzem em
abriga riscos de confrontação crescentes entre Legislativo. Executivo e Judiciário. forma microcósmica.
Apesar de o governo Dilma ter feito essencialmente tudo o que as distintas fra No Brasil, a chegada da crise foi pouco a pouco solapando e desmoro
ções das classes dominantes exigiram, a amplitude e abrangência da crise as le nando o mito petista da conciliação e do “neodesenvolvimentismo”. Tudo isso
vou a decidir pelo descarte de um governo que sempre lhes serviu e, desse começou a ruir desde as rebeliões de junho de 2013, mostrando que a fraseolo
modo, reintroduzir um governo "puro”, para garantir que todas as ações neces gia do país que caminhava para o primeiro mundo era uma ficção desprovida de
sárias para garantir a retomada da expansão burguesa sejam tomadas. Vale re qualquer lastro real. objetivo e material, (ver as várias análises em SAMPAIO.
cordar que a dominação burguesa no Brasil sempre se revezou entre a concilia 2014)
ção pelo alto e o golpe, seja ele militar, civil ou parlamentar. Quando essa crise atingiu o Brasil com intensidade, em fins de 2014 e
Nossas classes dominantes recorrem, então, ao uso de um instrumento início de 2015. as frações dominantes chegaram a um primeiro consenso: “em
legal, que é o impeachment, previsto na Constituição brasileira de 1988, mas o época de crise quem vai pagar com o ônus dessas perdas? Será. como sempre, a
fazem a partir de uma manobra ilegítima e mesmo ilegal, como ocorreu anterior classe trabalhadora”. Estas frações burguesas começaram a exigir, primeiro. que
mente em Honduras, em 2009, com a destituição do presidente Manuel Zelaya o ônus da crise fosse inteiramente pago pelos assalariados, através de cortes no
e, posteriormente, no Paraguai, em 2012, quando em menos de dois dias o Con seguro-desemprego, no Bolsa Família, que Dilma rapidamente, fez logo que co
gresso daquele país votou pelo impeachment de Fernando Lugo. meçou seu segundo mandato.
Assim, na concretude da política brasileira, o impeachment foi o cami Mas. com o agravamento da crise, as próprias frações dominantes co
nho encontrado para destituir a presidente reeleita em 2014. Dada a enorme cor- meçam a discutir um segundo ponto: quais frações burguesas vão perder menos
60 61
com a crise (uma vez que todas elas tendem a perder neste cenário, com a exce _________. Uma Esquerda Fora do Lugar. Campinas. Autores Associados.
ção da burguesia financeira que. além de hegemônica nos blocos de poder, po 2006.
dem utilizar sua dimensão especulativa e fictícia para continuar acumulando).
CHESNAIS. Francois. A Mundialização do Capital. São Paulo: Ed. Xamã.
Entào. neste momento as frações burguesias a disputar entre si quem iria perder
1996.
mais ou menos com a crise.
E isso levou, definitivamente, a um terceiro ponto: neste contexto re FERNANDES. Florestan A R evolução Burguesa no Brasil. São Paulo,_Zahar.
cessivo que se intensifica a cada dia. o governo de conciliação da dupla 1975
DilmaLula já nâo lhes interessava mais. E. se nâo era possível eliminá-lo eleito
MARX. Karl. O 18 Brumário e cartas a Kugelmann. Rio de Janeiro. Paz e
ralmente. uma vez que as frações dominantes náo quiseram esperar até 2018 -
Terra. 1974.
além de náo terem nenhuma “certeza” de vitória - foi preciso forjar uma alterna
tiva extra-eleitoral Ainda que os governos do PT tenham sempre feito tudo que MÉSZÁROS. István. Para Além do Capital. São Paulo. Ed. Boitempo, 2002.
foi exigido pelas classes dominantes, veio o momento descartá-lo. para impor
PRADELLA, Lucia e MAROIS. Thomas (Edit). Polarising development: alter
um outro governo, com o objetivo de garantir a própria dominação burguesa em
natives to neoliberalism and the crisis. Pluto Press, London, 2015.
tempos de crise. Implementando a contrarrevoluçao.
Termino, então, com o que indiquei anteriormente: a dominação bur PRADO Jr., Caio. A R evolução Brasileira. São Paulo, Ed. Brasiliense. 1999.
guesa no Brasil - e isso em alguma medida tem ressonância em toda a América
SAMPAIO. Jr.. Plinio. Jornadas de Junho. São Paulo. Instituto Caio
Latina - sempre oscilou, revezando-se. entre a conciliação pelo alto e o golpe.
Prado/lCP, 2014.
No primeiro quesito, a conciliação pelo alto. Getúlio Vargas e Lula fo
ram os grandes mestres em toda a história Republicana. Quando as classes domi
nantes (profundamente internacionalizadas e financeirizadas) decidiram encerrar
este ciclo e descartar o governo Dilma e o PT. decretaram também o fim deste ci
clo de conciliação iniciado por Lula. .
E esta transição, hoje. somente é possível através de um novo tipo de
golpe, que tenha uma faceta parlamentar e respaldada em uma legislação de ex
ceção. Parece, entào que. neste aspecto. Aganben tem boa dose de razão.
(Aganben. 2004). E nossa América Latina precisara intensificar a resistência dian
te da esta esdrúxula fase que pode ser caracterizada como estado de direito de
exceção. Para o qual. tristemente, nosso continente tem longa experiência e tra
dição. E o Brasil também, desta vez com o golpe parlamentar que levou Temer à
presidência da República.
Referências
G&riptf!deAJnieuia C f (oraes
Introdução
pletamente a favor do governo até antes das manifestações de 2013. Assim como lizaçào seguida de destituição, por via parlamentar, de governos populares. Essa
nào é por acaso que Bemie Sanders, pré-candidato democrata à presidência dos iniciativa vem sendo posta em prática em diferentes países, especialmente naque
Estados Unidos tenha afirmado que seu país precisa parar de "derrubar" gover les em que os Estados Unidos têm interesses econômicos ou politicamente estra
nos na América Latina. tégicos.” Saviani argumenta que ao “desrespeitar a Constituição depondo uma
Nessa mesma entrevista. Armando Boito assinala que presidenta que nào cometeu crime algum, quebrou-se a institucionalidade de
mocrática. Sem crime a presidenta, na vigência do regime democrático, só pode
(...] os irmàos Koch, com suas diferentes fundações, que formam lide
ranças, financiam o movimento Estudantes pela Liberdade e o Movi ria ser julgada pelo próprio povo no exercício de sua soberania.”
mento Brasil Livre (MBL). Isso já está provado, é um fato notório." Ele Para ele, o “julgamento no Senado Federal teve todos os ingredientes de
se refere aos irmàos Charles e David Koch, do Charles Koch Institute, uma farsa montada para dar a impressão de que se tratava de um ato que respei
que possuem uma fortuna de US 43 bilhões, segundo a Forbes. "Já o tava as regras do jogo do Estado Democrático de Direito, assegurando a ampla
quanto as instituições do Estado norte-americano, propriamente dito, defesa da acusada.” E reitera a informaçào sobre o financiamento externo das
estào envolvidas nisso a gente ainda nào sabe, mas que tem a mào do manifestações pró impeachment. via Cato Institute e o Charles Koch Foudation.
capital imperialista na mobilização contra Dilma, tem. E os Estados Uni vinculadas à família Koch, uma das mais ricas do mundo, com vastos interesses
dos teriam muitos motivos para preferir o fim dos mandatos dos gover
no setor petrolífero”.
nos do PT.
Nessa mesma linha de raciocínio, temos que para Valter Xéu (2016), o
E ainda: Golpe de 2016 foi um “conluio entre congresso, judiciário, setores econômicos,
mídia, midiotas. BRICS. o d edo dos EU A e a incompetência d o PT. "
(...] é possível enumerar uma série de iniciativas e políticas desenvolvi
das pelos últimos governos brasileiros, nos planos econômicos, político Analisando a determinação internacional, os norte-americanos conside-
e militar, que, por si só, atingem frontalmente os interesses do país mais ramo grupo formado pelo Brasil, Rússia, China, índia e África do Sul. BRICS,
poderoso da Terra em seu próprio continente e sào motivos mais do uma ameaça a sua economia no mundo, pois esses cinco países têm a metade
que suficientes para se desconfiar de que nào é o acaso que está por da população do planeta e representa 46 por cento da economia mundial com a
trás da poderosa conjunçào de forças aliadas contra Dilma. Rússia e a China fazendo negócios sem usar o dólar. Assim, os Estados Unidos
Boito assim avalia: semeiam conflitos em várias partes do mundo o que de certa forma, movimenta
a sua economia e assim, agem para desestabilizar os países que formam os
Muitos dizem que nào é possível que Sérgio Moro tenha se apropriado BRICS.
de tanta informaçào sobre a Petrobras em tào pouco tempo, a nào ser Essa análise coincide com a do historiador Moniz Bandeira (2016) para
que algum espiào tenha entregado alguma coisa para ele. "Os Estados quem “Os EUA nào se conformam com o fato de o Brasil integrar o bloco conhe
Unidos espionavam Dilma e a Petrobras, isso o Wikileaks mostrou. E
cido como BRICs e seja um dos membros do banco em Shangai, que visa a con
sabemos que a Chevron quer mudar o regime de partilha, e que o José
Serra, do PSDB, se comprometeu a mudar o regime de partilha, caso correr com o FMI e o Banco Mundial.”
vencesse as eleições em 2010. O Wikileaks revelou isso. Ademais, algumas entidades norte-americanas como a Fundação Ford e
a Fundação Rockfeller, conforme Xéu (2016) e Moniz Bandeira (2016), usando
E finaliza afirmando que: ONGS de fachada, injetaram milhões de dólares em grupos como MBL liderado
“Existe um fato histórico, que consiste no seguinte: o imperialismo por um descendente de japonês. Com a ajuda norte-americana, tratou de “alici
conspira, sim” "Nào conspirou no golpe no Chile, em 1973? Nào cons ar jovens brasileiros de classe média que foram para as ruas engrossar os protes
pirou no golpe no Brasil, em 1964? Basta ver o filme O Dia que Durou tos contra Dilma.” (XÉU, 2016)
21 anos. O imperialismo e a classe dominante conspiram e existe cons Ainda segundo Xéu. no governo golpista de Temer já está em andamen
piração na história. to um projeto no Senado para entregar de vez a exploração do Pré-Sal para gru
Dermeval Saviani também pontua a existência dessa influência norte- pos estrangeiros liderados pela Chevron e Shell, como existe também açòes no
americana no Golpe em: "DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO NO BRASIL: OS DE sentido de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, duas centenárias
SAFIOS DO MOMENTO ATUAL”, publicado no jornal de Sào Sepé. publicado instituições financeiras muito presente na vida dos Brasileiros, para especulação
em 17 de setembro de 2016. A seu ver. a estratégia dos golpes orquestrados pela internacional.
CIA (Agência de Inteligência Norte-Americana) "mudou na direção da desestabi-
66 67
Michel Chossudovsky (2016) em "Golpe ‘made in USA: Queda de Dil- da Lava-Jato. Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007. De
ma foi ordenada por Wall Street“, explica porque a queda de Dilma foi ordenada acordo com a entrevista, no ano seguinte, em 2008, Moro passou um mês num
pelo capital financeiro norte-americano de Wall Street e tenta desmascarar “os programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto
atores por trás do golpe“. com sua colega Gisele Lemke. E. em outubro de 2009, participou da conferência
“Para Chossudovsky (2016) as nomeações principais do ponto de vista regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Em
de Wall Street sào o Banco Central, que domina a política monetária e as opera baixada dos Estados Unidos. A Agência Nacional de Segurança (NSA). que m o
ções de câmbio, o Ministério da Fazenda e o Banco do Brasil“ . Desde o governo nitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades
FHC. passando por Lula e Temer. Wall Street tem exercido controle sobre os no e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, passou informação so
mes apontados para liderar essas três instâncias estratégicas para a economia bre o doleiro Alberto Yousseff a um delegado da Polícia Federal e ao juiz Sérgio
brasileira. Em nome de Wall Street e do ‘Consenso de Washington’, o ‘governo’ Moro, de Curitiba, já treinado em açáo multi-jurisdicional e práticas de investiga
interino pós-golpe de Michel Temer nomeou um ex-CEO de Wall Street (com ci ção, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar
dadania dos EUA) para dirigir o Ministério da Fazenda”, afirma Chossudovsky , terceiros). Nâo sem motivo o juiz Sérgio Moro foi eleito como um dos dez h o
referindo-se a Henrique Meirelles. nomeado em 12 de maio. mens mais influentes do mundo pela revista Time.
Segundo o artigo, Meirelles, que tem dupla cidadania Brasil-EUA, serviu
como presidente do Fleet Boston Financial (fusáo do Bank of Boston Corp. com A dim ensão geopolítica do Golpe
o Fleet Financial Group) entre 1999 e 2002 e foi presidente do Banco Central
sob o governo Lula, entre I o de janeiro de 2003 e I o de janeiro de 2011. Antes Snowden trouxe à luz a existência de um sistema de vigilância mundial.
disso, o atual ministro da Fazenda, que volta ao poder sob o governo Temer E o que vem a ser isso? Quais sào suas as implicações políticas e geopolíticas?
após ter sido dispensado por Dilma em 2010, também atuou por 12 anos como De acordo com Adorno e Horkheimer (1985, p. 114), o “terreno no qual
presidente do Bank of Boston nos EUA. Já o atual presidente do Banco Central. a técnica conquista seu poder sobre a sociedade é o poder que os economica
Ilan Goldfajn. nomeado por Temer em 16 de maio, tem dupla cidadania Brasil- mente mais fortes exercem sobre a sociedade. A racionalidade técnica hoje é a
Israel e foi economista-chefe do Itaú, maior banco privado do Brasil. racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade
Ainda segundo Chossudovsky. sob o governo Dilma. a “tradição” de no alienada em si mesma. Para essa vertente teórica, a técnica está inserida na lógi
mear uma "raposa de Wall Street” para o Banco Central foi abandonada com a ca da racionalidade enquanto dominação. Para eles é difícil escapar dessa racio
nomeação de Tombini. que permaneceu no cargo de 2011 até maio de 2016, nalidade instrumental, técnica, onde os meios estáo acima dos fins.
quando Temer assume a presidência interina do país. A partir daí, Meirelles, no Os marxistas, por sua vez, nâo sâo menos pessimistas. Chesneaux
Ministério da Fazenda do governo interino, “aponta seus próprios comparsas (1995, p. 110), analisando as tecnologias que compõem a mídia sob a ótica da
para chefiar o Banco Central [Goldfajn] e o Banco do Brasil [Paulo Caffarelli]”. modernidade-mundo pensa que as mesmas guardam uma estreita associação
Assim: “O que está em jogo através de vários mecanismos - incluindo com o poder político e o lucro capitalista.
operações de inteligência, manipulação financeira e meios de propaganda - é a
Reger toda a Terra... Tal é a lógica do tecnocosmo. A Informática intro
desestabilizaçào pura e simples da estrutura estatal do Brasil e da economia naci duz uma linguagem mundial, uma rede mundial (ou rede de redes), um
onal. para nâo mencionar o empobrecimento em massa do povo brasileiro”, afir mercado mundial, normas mundiais. As fábricas de roupas Benneton,
ma Chossudovsky. em Vêneto, se vangloriam de controlar instantânea e permanentemente
Tal análise também é acompanhada pelo historiador Moniz Bandeira a situação de seus estoques em todas as suas lojas do mundo. Os satéli
(2014) para quem “há poderosos interesses dos Estados Unidos, para ampliar tes espaciais varrem toda a Terra. A biologia genética é “trans-terrestre”
sua presença econômica e geopolítica na América do Sul.” A seu ver há fortes in no seu próprio princípio, contorna e desqualifica a lenta diversificação
dícios de que o capital financeiro (entenda-se Wall Street) e Washington nutri das espécies vivas, segundo o meio biogeográfico de cada uma delas.
ram a crise política e institucional, aguçando feroz luta de classes no Brasil. Para Quanto à energia termonuclear, lam enta-se que nâo tenha ainda
o historiador, ocorreu algo similar ao que o presidente Getúlio Vargas denunciou “apreendido” a totalidade do planeta, senào como virtual dissuasão.
na carta-testamento, antes de suicidar-se. em 24 de agosto de 1954. E combinado ao mercado, o Estado se apodera desse gerenciamento
Além disso, outra evidência, segundo Moniz Bandeira, é que a influência tomando-se, além de seu cúmplice, o “seu exército”, que. constantemente, des
dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo de a época da II Guerra Mundial, tem sido o comandante principal da pesquisa e
68 69
que os Cinco Olhos (Five Eyes) fazem sistematicamente no mundo sáo contrárias em 2003. O sistema dava ao governo americano acesso de backdoor a um pro
ao direito à privacidade intemacionalmente reconhecida por lei. vedor de serviço de wireless. Na ocasião nào foi revelado quem era o provedor,
Para Ramonet (2016). trata-sede uma aliança sem precedentes: Estado, mas mais tarde foi identificada a firma - a Verizon.
aparato militar de segurança e indústrias gigantes da web criaram um verdadeiro Em 2011. detalhes da Indústria de vigilância em massa foram expostos
império da vigilância, “cujo objetivo claro e concreto é manter a Internet sob através de WikiLeaks. De acordo com Julian Assange. "Estamos agora em um
constante observação, toda a Internet e todos os intemautas, como foi denuncia mundo em que nào apenas e teoricamente é possível gravar quase todo o tráfico
do por Julian Assange e Edward Snowden.” de telecomunicações de um país. todas as ligações telefônicas, mas também há
De acordo com o texto “Revelações da vigilância global (1970-2013)” uma indústria internacional de vigilância em massa vendendo o que se faz neces
(WIKIPEDIA. 2016). em 1982. o livro de James Bamford sobre a NSA. The Puzz- sário para estabelece a vigilância”.
le Palace foi publicado. O segundo livro de Bamford. Body of Secrets: Anatomy Em cinco de junho de 2013, Greenwald através do The Guardian e jun
of the Ultra-Secret National Security Agency. foi publicado duas décadas depois. tamente com vários outros jornais incluindo o The New York Times, The
Em 1988. a rede de espionagem ECHELON foi revelada por Margaret Washington Post. Der Spiegel, iniciou as publicações com as revelações de vigi
Newshm. funcionária da Lockheed Corporation. Newsham contou aos membros lância eletrônica global americana executada pela Agência de Segurança Nacio
do congresso americano que as ligações telefônicas de Strom Thurmond. mem nal NSA, baseadas em documentos vazados pelo ex-contratado da NSA, o ana
bro do partido Republicano Americano, estavam sendo coletadas pela NSA. In lista de segurança de redes Edward Snowden.
vestigadores do Congresso concluíram que nào poderia ser por acaso que uma No Brasil, o programa Fantástico do dia 8 de Setembro de 2013, basea
figura política fosse alvo de espionagem. Conclui que a espionagem de Strom foi do em documentos fornecidos por Snowden a Greenwald, revelou que a NSA
deliberada desde o princípio. vem espionando a Petrobras com fins de beneficiar os americanos nas transações
Ao final da década de 1990. se estima que a rede ECHELON já era ca com o Brasil.
paz de monitorar 90% de todo o trafego da Internet. De acordo com a BBC em Ainda em 2013, em reportagem com a jornalista Sônia Bridi, Grenwald
Maio de 2001. o Governo dos Estados Unidos nega a existência dessa rede. revelou que além de grandes empresas como a Petrobras, a presidente do Brasil.
Depois do ataque de 11 de Setembro de 2001. William Binney (U.S. Dilma Rousseff, foi espionada pelo governo americano.
Oficial de Inteligência Americano por quase 40 anos), acompanhado de J. Kirke A partir de entào, as revelações têm se tomado mais alarmantes a cada
Wiebe e Edward Loomis solicitaram ao Departamento de Defesa que investigas dia e têm provocado reação em todos os países e na comunidade de especialistas
se a NSA por gastos indevidos na ordem de milhões de dólares em um projeto em proteção da Internet. Elas vào desde a participação nos programas de vigilân
chamado Projeto Trailblazer. um sistema destinado a analisar dados de redes de cia de empresas como Google, Facebook, Microsoft, a contaminação de compu
comunicações como a Internet. Binney criticou publicamente a NSA por inter tadores no mundo todo e a quebra dos códigos de criptografia da internet, fazen
ceptar as comunicações dos americanos desde o ataque de 11 de setembro de do toda a internet vulnerável a ataques tanto pela NSA americana como por pre
2001. Binney declarou que a NSA havia fracassado em suas intenções de escla dadores e criminosos (HARDING, 2014).
recer as causas e autores de 11 de setembro apesar da captação e vigilância mas- As revelações da vigilância global trouxeram à tona as alegações de que
siva de dados. Google. Yahoo!, Facebook e Microsoft estào entre as muitas empresas intencio
Em 16 de dezembro de 2005. depois de esconder por um ano a infor nalmente cooperando com a NSA, oferecendo acesso ao seu sistema via uma
mação. o The New York Times publica o artigo que diz: "Bush deixa Estados backdoor criada especialmente para atender aos interesses da Agência... As em
Unidos espionar em ligações telefônicas sem autorização judicial”, escrito por presas negam tal participação.
Eric Lichtblau e pelo jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer James Risen. No caso de sistemas operacionais Linux, criado por Linus Torvalds do
Em 2006. mais detalhes sobre o sistema de vigilância doméstica emer Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Helsinki. Finlân
gem através do USA Today. O jornal reporta que a NSA possui um imenso ban dia. a agência americana NSA pediu ao criador do Linux, Linus Torvalds. para
co de dados das ligações telefônicas dos americanos. De acordo com o jornal, os criar uma backdoor no GNU / Linux através do qual eles poderiam acessar o sis
dados desta coleta em massa de dados de telefonemas foram fornecidos pelas tema. Apesar de Linus Torvalds nào haver fornecido a resposta a NSA. a nature
próprias companhias telefônicas entre elas AT&T. Verizon e BellSouth. za de código aberto de Linux, um acesso de backdoor se tom a impossível. No
Em 2008. o analista de segurança Babak Pasdar revelou a existência do caso do sistema de código aberto, se fossem deixados acessos para a NSA, eles
chamado Circuito de Quântico, que ele e seu grupo de trabalho haviam criado
72 73
seriam encontrados, expostos e erradicados pela comunidade, eliminando qual 2) Cooperação econômica regional (APEC, NAFTA) e institucional (Banco
quer acesso possivelmente concedido a NSA. Mundial, FMI, Acordo do Comércio Mundial;
De acordo com documentos revelados por Snowden. os programas náo 3) Procedimentos que enfatizam o processo decisório de modo consensual;
visam combater o terrorismo e têm sido empregados para espionagem comercial 4) A preferência pela democracia dentro das alianças;
e industrial e por vários outros motivos, conforme mostram os documentos. Em 5) Constituição global e estrutura judicial (Corte de Haia -crimes da Bosnia)
depoimento ao Congresso Brasileiro, o jornalista Greenwald. que tem acesso a Em “Strategic Vision: America and the Crisis of Global Power” (2012),
todos os documentos, (em fevereiro de 2014 apenas cerca de 2% dos documen Brzezinski argumenta que a posiçào americana como o superpoder mundial está
tos foram publicados), afirma que os objetivos dos programas sào espionagem longe de permanecer inabalável, pois depois 2025 o mundo se mostrará caótico.
industrial, controle social e manipulação diplomática. Edward Snowden confirma Segundo esse geopolítico. contudo, a América pode superar essa crise e
as afirmações de Grennwald. e declarou que tendo visto a operação dos sistemas as instabilidades propiciadas pelos ataques cibernéticos e dos drones. Para isso o
e como eles veem sendo usados, ele pode garantir que tais programas jamais ti século XXI, pode se tomar uma1 “era of renewed prosperity for America’s values
veram a ver com terrorismo, mas com manipulação diplomática, controle de pes and people” (idem, p. 202).
soas, espionagem para dar vantagem aos Estados Unidos e seus colaboradores. A seu ver, desde que a América náo é Roma e nem a China é bizantina,
Em 05/07/2016. Luis Nassif (2016) divulga um documento interno dos uma ordem estável no mundo depende da habilidade desse país se renovare agir
EUA exposto pelo WikiLeaks que comprova que houve treinamento sistemático sabiamente de modo a ser tanto o promotor como o garantidor de um revitaliza
aos juízes brasileiros, inclusive do responsável pela coordenação da Operação do Leste e como o equilibrador e o conciliador de um crescente novo Oeste.
Lava Jato, Juiz Sérgio Moro. Este juiz autorizou os grampos telefônicos aos ex- (BRZEZINSKI, 2012, p. 192)
presidentes Lula e Dilma Rousseff em março de 2016. Florestan Fernandes, em “A Revolução Burguesa no Brasil” (1981), ao
O documento (NASSIF. 2016) sugere que é necessário ministrar cursos teorizar sobre a revolução burguesa nas nações capitalistas da periferia argumen
mais aprofundados em Curitiba, Sào Paulo e Campo Grande, e conclui que “o ta que a burguesia brasileira deixou de ser no Golpe de 1964 “democrática” ou,
setor judiciário brasileiro claramente está muito interessado na luta contra o terro mesmo, “autoritária”, “para tom ar-se abertamente ‘totalitária’ e contra-revoluci
rismo, mas precisa de ferramentas e treinamento para empenhar forças eficaz- onária. em suma, o fermento de uma ditadura de classe preventiva.” (idem, p.
mente. [...] Promotores e juízes especializados conduziram no Brasil os casos 317). A ordem que foi instalada no país, desde entào.é a do modelo autocrático-
mais significativos envolvendo corrupção de indivíduos de alto escalão”. burguês.
Sobre a influência norte-americana na América Latina. Chossudovski Para Horestan Fernandes (1981), há. entre nossa transformação capita
(2016) foi muito lúcido quando analisou que "Lula era ‘aceitável’ porque seguiu lista e dominação burguesa, uma dissociação entre desenvolvimento capitalista e
as instruções de Wall Street e do FMI”, mas Dilma. com um governo mais guiado democracia, que é resultante política de forma própria de acumulação de capital
por um nacionalismo reformista soberano, náo pôde ser “aceita” pelos interesses nos quadros do “capitalismo periférico e dependente”, (idem. p. 292) Isso indica
financeiros dos EUA. apesar da agenda política neoliberal que prevaleceu sob que o desenvolvimento capitalista se apropria dos elementos arcaicos, mantendo
seu governo. o passado vivo no presente, acorrentando a “expansão do capitalismo a um pri-
“Se Dilma tivesse decidido manter Henrique de Campos Meirelles. o gol vatismo tosco, rigidamente particularista”. (p. 167) A burguesia correspondente
pe de Estado muito provavelmente náo ter ocorrido”. E o autor finaliza o artigo não universaliza a igualdade, mas a estabelece entre os privilegiados; segrega os
afirmando: “It is called a Coup d‘Etat... by Wall Street.” (Isto é chamado de Gol tempos da modernidade social, econômica e política, privatizando o poder políti
pe de Estado... por Wall Street.) co amálgama do mais antigo com o mais arcaico que se repõe incessantemente,
Do ponto de vista geopolítico, em “The Grand Chessboard: American expressa de forma dramática, “como se o ‘burguês moderno’ renascesse das cin
Primacy and Its Geostrategic Imperatives” (1996), de acordo com Zbigniew Brze- zas do ‘senhor antigo”, (p. 168)
zinski (ex Conselheiro da Segurança Nacional dos EUA), a supremacia america Sua análise do Golpe combina o desenvolvimento desigual interno com
na que se estabeleceu no mundo após 1991, produziu uma nova ordem mundial a dominação imperialista externa. Associando com o momento atual, percebe
que náo só duplicou, mas institucionalizou muitas das características do sistema mos como é pertinente essa análise, pois ainda não superamos essa dupla com
que inclui: binação.
1) Sistema coletivo de segurança internacional (NATO, US, Japào etc.);
1 Era de renovada prosperidade para os valores americanos e das pessoas”, (livre tradução)
74 75
Analisando a história do Brasil recente. Adriana Lopez & Carlos Guilher papel de intelectuais” (p.7). Em sua concepção, há vários graus de atividade inte
me Mota em “História do Brasil: uma interpretação” (2015). assinalam que a lectual. indo desde o mais alto nível onde estão os criadores das várias ciências,
nova sociedade civil é débil e nào conseguiu romper o “rigido modelo autocráti filosofia, arte. etc. até o mais baixo, onde estão os administradores e divulgado
co-burguês instalado, com todos os seus componentes viciosos, reatualizados e res da riqueza intelectual existente.
maquiados: neocoronelismo. neopopulismo. conciliação a qualquer preço, pouca Sob o capitalismo, a escola forma os intelectuais de diversos níveis, cujas
eficácia e transparência nas políticas públicas, corrupção, impunidades, patrimo- funções na sociedade civil (organismos privados + Estado) são as de organizar a
nialismo. e assim por diante” (p. 1059). E finalizam dizendo que algumas vozes hegemonia, ou seja: o consenso espontâneo da população. Esse consenso nasce
voltam a aventar a hipótese de uma Assembleia Nacional Constituinte, entre as do prestígio que a burguesia tem na sociedade e no aparato de coerção estatal
pouquíssimas alternativas para o país. que assegura legalmente a disciplina dos que consentem.
No processo transformador ou revolucionário, os intelectuais teriam o
Considerações Finais papel de dado a sua capacidade técnica, atuar como elemento pensante e orga
nizador das classes subalternas. Sua missão não é profissional, mas. como partíci
Teorizando politicamente. Gramsci pensou em três estratégias para a pes da construção de uma nova cultura pelo partido de massas, teriam a função
superação da hegemonia via catarsis2: crise de hegemonia, guerra de posição e o de dirigir as ideias e as aspirações da classe à qual pertencem organicamente,
papel dos intelectuais. (MORAES. 2016) tendo em vista que todos os homens são intelectuais, pensam, embora nem to
A crise de hegemonia (GRAMSCI. 1991) tem sua origem quando as dos desenvolvam plenamente essa capacidade, dado a hegemonia burguesa.
classes se separam dos seus partidos e a sociedade civil amplia seu poder e O partido de massas deveria, portanto, fundir os intelectuais tradicionais
autonomia, por atos impopulares dos seus dirigentes no Estado. Essa perda do (profissionais) e os orgânicos das classes subalternas em tomo de uma concepção
consenso faz com que ela nào seja mais dirigente, mas somente dominante, de mundo que transcendesse seus interesses de classe, para que os trabalhadores
exercendo apenas a força coercitiva. Essa crise nào é uma função direta das despertem suas possibilidades intelectuais (através das funções educacionais do
crises econômicas, embora estas também possam gerá-las. Podem ser causadas partido) e venham a fazer a Guerra de Posiçào, criando outra hegemonia onde a
pela perda do bem-estar, da miséria etc. Embora a crise de Estado seja um fator classe dominada tenha o poder.
importante para a transformação socialista, ela nào é suficiente. E preciso que a Assim, retomamos a Marx (1986, p.12) quando na sua terceira tese so
crise ocorra em todo o complexo do poder e nào apenas na instância mais bre Feurbach, postula que: “A coincidência da modificação das circunstâncias
imediata da hegemonia, que é o Estado. com a atividade humana ou alteração de si próprio só pode ser apreendida e
A guerra de posiçào (GRAMSCI. 1982) é o sitiamento do Estado pela compreendida racionalmente como práxis revolucionária”.
classe trabalhadora através da criação de uma cultura popular que alicerce uma Isso significa que a luta pela emancipação da consciência ou a desalie-
nova visão de mundo - normas e valores de uma nova sociedade - que substitui naçào deve ser travada no seio da própria vida. a qual é, por sua vez. composta,
ria o consenso da burguesia mediante o desenvolvimento de outra hegemonia. como bem coloca Gramsci. por três forças: econômicas, políticas e técnico-milita
Assim, a arena da consciência seria reconstruída com uma nova visão de homem res. Neste sentido é que se coloca o desafio da práxis revolucionária para a classe
e de mundo. Essa nova cultura seria desenvolvida pelo partido de massas, um trabalhadora.
partido que implantasse não uma “conscientização” vertical, de cima para baixo, Já para Meszáros (2011), estamos vivendo um período histórico de pro
mas algo orgânico, que relacionasse o partido como um todo, pois seria criado funda crise estrutural que pode realmente abrir uma brecha significativa na or
por todos os envolvidos. Esse processo de construção e educação para outra h e dem estabelecida, “porque ela já nào é mais capaz de proporcionar os bens que.
gemonia teria por missão construir grandes poderes de coesão, centralização e sem questionamento por muito tempo, lhe serviram de justificativa no passado”
inovação, os quais iriam minando o poder da hegemonia da classe dominante (p. 139). E continua:
pela criação de outro bloco histórico. Isso significa que muito tem de ser iniciado, sobre a base de um verda
Quanto aos intelectuais (GRAMSCI. 1968), para Gramsci: “Todos os ho deiro envolvimento das massas, no espírito da proposição original de
mens são intelectuais, mas nem todos os homens desempenham na sociedade o* Marx pelo desenvolvimento de uma “consciência de massas comunis
ta”. (...] O Brasil teve o êxito de desenvolver um movimento radical im
* A catarse, para Gramsci, é entendida como "passagem do momento puramente econômico (ou egoís- portante. com raízes profundas nas massas populares: os sem terra do
ta-passiona!) ao momento ético-político, isto é, a elaboração superior da estrutura em superestrutura MST. (...J A expansão e o fortalecimento das massas, sustentando esse
na consciência dos homens”. (GRAMSCI. 1991, p. 53)
76 77
movimento estrategicamente consciente, é uma grande esperança para COSTA. Silvio. O Sistema Echelon de espionagem global ou a lei do vale tudo.
o futuro (MESZÁROS. 2011, p. 153) Espaço A cadêm ico. Ano II, n. 22. Disponível em:
Assim, a superação da subordinação econômica, política e cultural do <hnp: •.vv.-.[Link].i::: :oir..br C22 22cccs:[Link].> Acesso em 27/09/16
Brasil aos ditames internacionais do império Americano (usando a conceituaçào FERNANDES. Florestan. A R evolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro:
do próprio ex-consultor de Segurança Nacional deste país, Zbigniew Brzezinski), Zahar Editores. 1981.
requer a catarsis das massas no processo contra-hegemônico para que se possa
ir, enquanto bloco histórico, além do Capital. GRAMSCI, Antônio. C oncepção D ialética da História. Rio de Janeiro: Ed.
E para isso acontecer, concordamos com Meszáros de que “a necessida Civilização Brasileira, 1991.
de de uma educaçào política apropriada, que envolva grandes massas, é hoje, _________. Maquiavel, a P olítica e o Estado Moderno. São Paulo: Editora
em meio à nossa crise global estrutural, maior do que nunca”, (p. 159). Civilização Brasileira. 1982.
Portanto, urge que nos organizemos para resistir à manipulação midiáti-
ca, política e cibernética. Só mediante a união conseguiremos superar esse novo _________. Os intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro:
Golpe ideológico, posto que esteja disfarçado de legalidade, nesses tempos de Civilização Brasileira, 1968.
Echelon. HARDING. [Link] Snow den Files. Uk. Guardian Books. 2014.
Referências IANNI. Otávio. O príncipe eletrônico. In: Enigmas da M odem idade-m undo.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2003.
ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. D ialética do Esclarecim en LOPES. Adriana; MOTA. Carlos Guilherme. História do Brasil: uma
to. RJ: Zahar Editor. 1994. interpretação. Rio de Janeiro: Editora 34. 2015.
BAGDIKIAN. Ben H. O Monopólio da Mídia. São Paulo: Ed. Scrita. 1993. MARETTI. Eduardo. ‘Governo invisível’ dos EUA trabalha no golpe em marcha
BRZEZINSKI. Zbigniew. The Grand Chessboard: American Primacy and Its no Brasil. Rede Brasil Atual. 21/04/2016.
Geostrategic Imperatives. New York, NY: Basic Books. 1997. Disponível em: < http: \v\[Link]ü[Link].brmurido2016 04o-201cqovemo-^nvisivel201d-dos-es-
t2do5-urudos-e-sua-influ€ncia-no-Qolpe-em.-[Link]> AceSSO em 25/09/2016.
____________. Strategic Vision, America and the Crisis of Global Power.
New York: Basic Books. 2012. MARX. Karl. ENGELS, Friedrich. Ideologia Alemã. - Feurbach - 2a ed. São
Paulo: Hucitec. 1986.
BURGHARDT, Tom. ECHELON. Today: The Evolution of an NSA Black
Program. Global Research. 13/07/2013. Disponível em: MESZÁROS. István. A crise estrutural do Capital. São Paulo: Boitempo.
Acesso 2011 .
em 27/09/16. MONIZ BANDEIRA. Moniz Bandeira denuncia apoio dos EUA a golpe no
CHESNEAUX. Jean. Modernidade-Mundo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1995. Brasil. D isp o n ív e l e m : < htto: wíkwQ [Link] 2016 0615 moniz-bandeira-denuncia-conexoes-
iniemaaonats-do-ootee > AceSSO e m 11/10/2016
CHOSSUDOVSKY, Michel. Golpe 'made in USA': Queda de Dilma foi orde
nada por Wall Street? Pátria Latina. SÁ. Evaristo.01/09/2016 Disponível em: ____________________. A Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Civiliza
< htrp: [Link]-combrcolpe-mada-m-usa-Queda-de-dilma-foi-ordenòda-por-wall-sgeet > Aces- ção Brasileira. 2013.
so em 25/09/2016. ___________________. A desordem mundial. Rio de Janeiro: Civilização Bra
. Wall Street Behind Brazil Coup d ’Etat. The Im peachment sileira. 2016.
of Dilma Rousseff. Global Research.1/09/16. D isp o n ív e l em : MORAES, Raquel de A. Gramsci and Culture. In: Michael Peters. (Org.).
[Link]-street-behind-braal-oQUD-d-etat5526715> ACSSSO 6IT1 25/09/2016. Encyclopedia of Educational Philosophy and Theory. [Link] | :
Springer, 2016, v. 1. p. 1-5.
78 79
NASSIF, Luis. W ikileaks revela treinam ento de Moro nos EUA. Luis Nassif ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL, NEOLIBERALISMO
Online. GGN. 05/07/2016. Disponível em: < httP: [Link]-revela-trei-
namento-de-moro-ncs-eua > . AceSSO e m 26/09/16. E ESTADO GESTOR: APROXIMAÇÕES GLOBAIS
NYST. Carly; CROWE. Anna. Unmasking the Five Eyes’ global surveillance prac
ç^fahiWe Oôcii/tMi ISmita/i1
tices. In: 2014. Com m unications surveillance in the digital age .
Disponível em: <h:tpr.A\vv\v\3 S’.va:[Link]£en, íon*[Link]-is-:irvêlâi-i«,ui-in*.â:kii-is-f".'5-€>5s-s!obal- õ i k v i õ^éSítr ç ^ íiy ia v i2
^ Acesso em 11/10/2016.
PERRONI. Jane. The Echelon spy network. The Guardian. 29/05/2001.
D isp o n ív e l e m : c htrcs: [Link].world2001 may 29 [Link]> AceSSO 1 - 0 Estado de B em -E star Social e o Com prom isso C onservador
em25/09/2016.
O Estado de Bem-Estar Social surge num determinado momento históri
POOLE. Patrick S. ECHELON: America's Secret Global Surveillance Network. co e pressupõe a utilização do poder político para imposição, através do Estado,
Disponível em: Chrtp: flyhiwaay net -pspoole [Link]> AceSSO em 2001. das medidas necessárias à acumulação e expansão do capital então ameaçadas.
RAMONET, Ignacio. Os 10 pontos que explicam o Novo Sistem a Mundi A estratégia de intervenção na economia tinha por finalidade encontrar novas
al. Diponível em: <http [Link]..br ,%[Link]:©na%2^memacicr:a':e2FCi-lC-pon:c~-que-ex?l;- formas de manutenção da ordem capitalista dominante e garantir a expansão do
cam-<>-NO'.~<>-S)5tgma-xund:àl:r;2F5<»2~3ó?5'.=.,.'_ra.[Link]> AceSSO em 11/10/2016. capital, dado o esgotamento da fase anterior fundada no predomínio das "livres”
leis do mercado.
SAVIANI. Dermeval. D em ocracia e educação no Brasil: os desafios do mo Assim, o Estado de Bem-Estar Social está intimamente relacionado ao
mento atual. Jornal de Sepé. 17/09/2016. processo de consolidação da fase monopolista do capitalismo industrial (BRA-
VLAJKI. Emil. D em onization of Serbs. Canadá: Ed. Revolt. 2001. VERMAN, 1998) e os conflitos sociais gerados a partir deste momento, tendo
como ápice a crise econômica-social de 1929. Com ele há a ampliação dos ser
WIKIPEDIA. R evelações da vigilância global (1970-2013). Disponível em: viços assistenciais públicos, envolvendo as áreas de renda, habitação e previdên
hrrps: ct.y.-.[Link]’.[Link] Revela>cC3%A7>aC3%B3g5_caj.ial%C3<:'óA2naa_alobal_(1973i:oE2,:’c>S0<o932013: . cia social, além da saúde e da educação. A Grã-Bretanha foi um dos países e u
Acesso em 25/09/2016. ropeus que mais se destacou na construção do Estado de Bem-Estar com a
XEU, Valter. A radiografia do golpe no Brasil. Pátria Latina. 11/08/2016. Dis aprovação, em 1942, de uma série de providências nas áreas da saúde e escola
ponível em: < http- [Link] corr..br a-radioçrafia-do-çclpe-nc-brasi > AceSSO em rização, que foram expandidas para os demais países da Europa.
5/09/2016.i2 Paralelamente à criação dessa rede de proteção social, o Estado de
Bem-Estar passou a intervir fortemente na área econômica, de modo a regula
mentar praticamente todas as atividades produtivas a fim de assegurar a geração
de riquezas materiais e controlar as crises do capital. Para tanto, era preciso tam
bém circunscrever a resistência operária à nova ordem da acumulação. O Esta
do. ao exercer a função de regulador das relações entre capital e trabalho, inseriu
uma série de reivindicações trabalhistas, introduzindo a negociação coletiva entre
trabalhadores e empresários, através do reconhecimento dos sindicatos como re
presentantes legítimos dos trabalhadores. Um dos pontos fundamentais do com
promisso de classes relacionava-se ao fato de que o incremento da produtivida
iDoc«nte da Universidade Federal de Uberlândia - UFU. Brasil. Pesquisadora CNPq PQ. e-mail: fabia-
[Link]ü[Link]
2 Professor da Universidade de Uberaba - UN1UBE. Brasil. Doutor em Educação. Pós-Doutorando em
Educação. Faculdade de Educação. Universidade de São Paulo. FE USP. Supervisor: Afrânio M. Cata-
ni. e-mail: cilsoncf.'[Link]
so 81
de do trabalho e os aumentos salariais deveriam ser ajustados de forma a náo institucionalização da escola nos moldes essencialmente burgueses. O desenvolvi
permitir crises de subconsumo (AGUETTA. 2000; BIHR, 1998). mento da instituição escolar, gratuita e no âmbito das políticas sociais do Estado
Bihr (1998) argumenta que foi o êxito da vertente reformista, socialde de Bem-Estar passa a incluir a obrigatoriedade do ensino, proporciona o aum en
mocrata, no movimento sindical que. ao negar a luta revolucionária pelo socialis to da escolaridade e desenvolvimento das modalidades de ensino técnico e pro
mo. aceitou as bases de um “compromisso de classes” intermediado e regulado fissional. se colocando como uma das principais características da evolução da
pelo Estado. A vertente reformista era composta, náo mais pelos mestres arte sociedade industrial burguesa na segunda metade do século XX (PROST, 1985).
sãos. oficiais e, em geral, trabalhadores qualificados, mas pela nova geração de Cumpre-se esclarecer que na sociedade capitalista dividida em classes, o
trabalhadores formados na fábrica taylorista-fordista. o operário massa. E esse Estado assume a função de impulsionar a política econômica, tendo em vista a
trabalhador que constrói a vertente socialdemocrata do movimento sindical. consolidação e a expansão do capital, favorecendo interesses da classe burguesa,
A vertente socialdemocrata do movimento operário começou a se desta personificação do capitalismo (MESZAROS, 2010). O capitalismo é um sistema
car. adotando o discurso da legalidade e do desenvolvimentismo do Estado-Na- econômico, político e social e ideológico fundado no valor, nas trocas de merca
çáo, sendo impregnado pelo “fetichismo do Estado”3, num período que as lutas dorias e exige uma formação política que é o Estado, cujas primeiras expressões
trabalhistas pela emancipação do capital estavam sendo derrotadas em vários datam do século XVI sob a origem do Estado Moderno (WOOD, 1999). E por
países. O movimento operário começou a renunciar à luta revolucionária, ao necessidade que o capitalismo se articula e se consolida como uma estrutura de
mesmo tempo em que aceitou discutir a dominação capitalista nos termos de um mando, implicando uma correlação entre economia e política (MESZAROS.
compromisso. “[...] é a perspectiva de sair da miséria, da instabilidade, da incer 2010). Portanto, o Estado é formado a partir das relações sociais de produção,
teza do futuro e da opressão desenfreada, que basicamente caracterizaram até sendo elemento constituinte da sociedade na dinâmica das lutas de classe, trans-
aquele momento a condição proletária [...]” (BIHR. 1998. p. 38). formando-se na dinâmica dessa luta. A forma social-política do Estado de Bem-
A educação escolar teve um papel importantíssimo nesse processo de Estar Social, assim como o Estado Neoliberal em fins do século XX sào expres
construção do novo trabalhador. As escolas, através de reformadores inspirados sões das lutas de classe pelo controle social do trabalho na sociedade burguesa.
no mundo empresarial, importaram os princípios e as normas de organização fa O Estado de Bem-Estar Social nào acabou com a luta de classes, mas
bril. fundados no taylorismo e fordismo para as salas de aula. Este processo teve circunscreveu-a aos limites de um compromisso que implicou na aceitação, por
lugar primeiramente e, sobretudo nos Estados Unidos, estendendo-se por todos parte da classe trabalhadora, em sua fração mais hegemônica, o operariado-
os países em maior ou menor grau dadas as correlações das forças sociais e suas massa, de um conjunto de transformações na organização do trabalho, tais
resistências. Mas. de maneira geral, assumiam-se nas escolas as teorias educacio como: a separação entre concepção e execução do trabalho, a divisão das tare
nais nascidas em consonância com a difusào do novo sistema capitalista mundi fas. o controle dos tempos e movimentos pela gerência, a fixação em um posto
al. Náo que a escola tivesse sido criada para esse propósito naquele momento. de trabalho, a subsunçào à técnica4, em troca da garantia de seus interesses de
No entanto, como ressalta Enguita (1989. p. 114). ela estava ali e se poderia tirar classe mais imediatos, relativos à sua seguridade social.
bom proveito dela para a “construção moral de uma obediência e disciplina da No que concerne à classe burguesa, esta se viu obrigada a renunciar ao
fábrica”. liberalismo de classe e conformar-se às políticas intervencionistas do Estado. Ou
Em verdade, os trabalhadores artesãos e os primeiros operários possuí seja. com o fracasso dos governos liberais em conter a crise ao longo das déca
am uma rede formal e informal de formação e capacitação profissional nas esco das de 1920 e 1930, vários intelectuais e políticos passaram a considerar o inter
las de iniciativa popular, no âmbito das sociedades operárias e dos ateneus. S e vencionismo estatal como forma de regular a economia e disciplinar as relações
gundo Enguita (1989). parte do movimento operário depositou nessas formas de de trabalho. A Grande Depressão dos anos 1920 e 1930 demonstrou às classes
aprendizado suas esperanças de acompanhar o ritmo do progresso e melhorar capitalistas que o regime de acumulação fundamentado em princípios tayloris-
sua posição social e política frente as classes dominantes. Outra parte, a vertente tas-fordistas de organização do processo produtivo somente seria viável se hou
revolucionária do movimento reivindicava uma escola para os trabalhadores fi vesse uma profunda mudança na relação salarial, envolvendo todas as condições
nanciada. mas nào gestada pelo Estado. Foi a derrota dos movimentos operários econômicas, sociais e político-jurídicas, visando a uma nova forma de regulação.
revolucionários e a ascensão da via reformista socialdemocrata que possibilitou a E importante destacar ainda o esforço de mobilização durante a Segunda Guerra
3 O fetiche do Estado representa a crença da classe trabalhadora na neutralidade do Estado no que tan
ge as relações entre trabalho e capital. Para mais detalhes, ver Bihr (1998). Lembremos a determinação do ritmo do trabalho pela introdução da esteira rolante no processo pro
dutivo por Heruy Ford. Para mais detalhes, ver Braverman (1998).
82 83
Mundial, que implicou na redução da resistência, tanto por parte dos trabalhado aos processos vivenciados pelos países de capitalismo hegemônico (...)
res quanto por parte dos capitalistas, sobre o processo de racionalização do tra e sustentado em um enorme processo de superexploraçâo do trabalho.
balho e de regulação através do Estado. O Estado de Bem-Estar Social atingiu seu apogeu durante a década de
Destaca-se que os pressupostos do Estado de Bem-Estar Social em ne 1950. Nesse período já se encontrava superada a fase de reconstrução da capaci
nhum momento contrariaram os interesses do capital. Ao contrário, significaram dade produtiva do pós-guerra e consolidava-se o padrão de produção e consu
uma estratégia de recuperação da acumulação diante da crise de acumulação mo com base nas vantagens das economias de escala e na utilização de uma for
que se apresentava e da necessidade de contenção das lutas da classe trabalha ça de trabalho altamente especializada. Porém, na década de 1970, a sua estabi
dora pelo socialismo. Ele significou a dominação político-jurídica do capitalismo lidade e hegemonia começaram a dar sinais de crise. Os traços mais evidentes fo
para assegurar a expansão das práticas tayloristas e da produção em massa nos ram:
países centrais. Daí o seu caráter conservador, posto que visou a manutenção da a) a queda na taxa de lucro, dada, em grande medida pelo aumento do valor da
ordem estabelecida. força de trabalho;
Vale dizer que também os países economicamente periféricos da Améri b) a combatividade do movimento operário que passa a reivindicar mudanças na
ca Latina foram sendo integrados à nova ordem de acumulação, porém de forma forma do controle do trabalho e não apenas aumentos salariais;
subalterna, exercendo a função não apenas de exportadores de matérias-primas, c) os limites técnicos advindos da organização do trabalho no chão da fábrica,
mas agora também de produtos industrializados. Nesse contexto, o binômio tay- em função da impossibilidade de aumento da produtividade por meio do apro
lorismo-fordismo que se desenvolve nesses países, em particular o Brasil, assume fundamento da divisão das tarefas;
um caráter de “fordismo periférico” (UPIETZ. 1988) dadas as suas características d) o acirramento da concorrência internacional, com o advento de economias
particulares. Uma dessas características diz respeito a ausência de um sindicalis emergentes como Japão, o que ameaçava os monopólios europeus e norte-am e
mo autônomo, reconhecido pela sociedade, com condições de estabelecer nego ricanos já constituídos:
ciações e compromissos com a burguesia nacional intermediado pelo Estado. Na e) as novas tecnologias de informação de base microeletrônica que se impõem
verdade, o nascente sindicalismo brasileiro nos anos 1930, em uma economia como nova forma de controle do trabalho.
ainda predominantemente agrária, foi marcado pelo seu atrelamento ao Estado, Como resposta à crise, o capital iniciou, ao final dos anos 1970 e início
junto ao Ministério do Trabalho, por meio do imposto sindical que lhes impossi dos anos 1980, um amplo processo de reestruturação que envolveu, por um
bilitava uma ação autônoma. Getúlio Vargas (1930-1945), ao instituir as leis tra lado, mudanças na esfera produtiva, com a introdução do toyotismo e das novas
balhistas através da criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT)5 em tecnologias de informação e de comunicação no processo de trabalho. Ao mes
1943. as apresenta como uma dádiva do governo aos trabalhadores e não como mo tempo, práticas de caráter neoliberal foram sendo adotadas de forma a alte
uma conquista de direitos relacionados à luta sindical. rar o sistema ideológico-político e jurídico de dominação burguesa. E preciso
O controle dos sindicatos durante o governo Vargas e posteriormente no destacar que o desmoronamento da URSS e do Leste europeu ao final dos anos
Regime Militar (1964-1982) foi fundamental para que a produção em massa se 1980 contribuiu significativamente para que as ideias neoliberais ganhassem
desenvolvesse sob níveis altíssimos de exploração do trabalho e muito distante grande impulso e dominassem o cenário político mundial uma vez que o “socia
da conformação do Estado de Bem-Estar Social com políticas públicas universais lismo” havia sido derrotado.
presentes nos países economicamente centrais. Antunes (2011, p. 22) afirma Portanto, a crise do Estado de Bem-Estar tem como eixo central a ruptu
que: ra de um padrão de dominação de classe relativamente estável. Para Antunes
(...) na América Latina, esse caminho para o mundo industrial sempre (2000), a crise que se instaurou ao final dos anos 1970 consiste em uma “expres
se realizou de modo tardio (ou mesmo hipertardio) quando comparado 3 são fenomênica” de uma crise estrutural do capital e aos seus determinantes es
truturais, quais sejam: as taxas decrescentes do lucro, a resistência operária e a
própria impossibilidade de controle do capital, enquanto um sistema de metabo
3 A CLT teve repercussão inicial restrita ao regulamentar inicialmente o trabalho urbano, num contexto lismo societal orientado para a expansão e acumulação do capital. Para o autor,
em que a maior parte da população ainda era rural. Mas essa estratégia fez parte da forma pela qual as
leis foram instituídas: um acordo do Estado com a burguesia agrária e industrial. Dentre os direitos con
o quadro crítico que começa a aparecer no final da década de 1970 fez com que
solidados, estava a limitação de oito horas de trabalho por dia, com direito a um descanso semanal de a classe burguesa engendrasse um processo de reestruturação produtiva e novos
24 horas consecutivas a semana de trabalho de 46 horas e as férias remuneradas. Para uma aprofunda mecanismos de controle social sob a égide neoliberal que possibilitassem o des
da discussão sobre os caminhos da construção do capitalismo industrial no Brasil, ver Fernandes monte dos direitos sociais e do movimento sindical.
(1976).
84 85
das por novas indústrias, cuja introdução se toma uma questão vital
2 - N eoliberalism o e R etrocesso d o s D ireitos Sociais: a g ê n e se d o para todas as nações civilizadas, por indústrias que não empregam m a
térias-primas autóctones, mas matérias-primas vindas das regiões mais
E stad o G esto r distantes e cujos produtos se consomem não somente no próprio país,
mas em todas as partes do mundo. Ao invés das antigas necessidades,
O neoliberalismo. enquanto reaçào articulada da burguesia às dificulda satisfeitas pelos produtos nacionais, surgem novas demandas que recla
des expansionistas e de acumulação do capital, passou a encontrar espaço efeti mam para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos
vo nos anos 1990 em meio ao processo de globalização das empresas que. apro- climas mais diversos. No lugar do antigo isolamento de regiões e na
veitando-se das vantagens econômicas oferecidas por países e regiões, tais como ções autossuficientes, desenvolvem-se, um intercâmbio universal e uma
universal interdependência entre as nações. E isso tanto na produção
impostos menores e grande quantidade de força de trabalho, buscavam novos
material quanto na intelectual. As criações intelectuais de uma nação
espaços para auferirem maiores lucros (PREVITALI et al. 2012; PREVITALI; FA-
tomam-se patrimônio comum. A estreiteza e unilateralidade nacionais
GIANI. 2014). tomam-se cada vez mais impossíveis e das numerosas literaturas nacio
A globalização pode ser definida como a aceleração intensa dos proces nais e locais nasce uma literatura universal.
sos de internacionalização e mundializaçâo, inerentes ao capitalismo desde sua
fase original nos séculos XV e XVI. A necessidade de expansào do capitalismo Para Ianni (1996. p. 11):
implicou em um processo de internacionalização dos países, visando à conquista A globalização expressa um novo ciclo de expansào do capitalismo,
de novos mercados. A expansào do capitalismo sofreu um relativo retrocesso ao como modo de produção e processo civilizatório de alcance mundial.
longo da década de 1950. com a consolidação do padrào taylorista-fordista de Um processo de amplas proporções envolvendo nações e nacionalida
acumulação na medida em que este possibilitava - e até mesmo exigia - um des, regimes políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, eco
crescimento regular do mercado interno. Com o esgotamento desse padrào de nomias e sociedades, culturas e civilizações. Assinala a emergência da
acumulação, o capital, por necessidade intrínseca, retoma o processo de interna sociedade global, como uma totalidade abrangente, complexa e contra
ditória.
cionalização e inicia um movimento de globalização e transnacionalizaçào, tanto
em nível dos mercados quanto em nível da produção As teses liberalizantes no mundo globalizado, manifestas na centralidade
Deve-se salientar que a globalização não leva o Estado-Naçào ao declí do mercado concomitantemente ao declínio do Estado como regulador de direi
nio, mas recria as relações de poder e equilíbrio de forças entre as esferas pública tos. engendram uma nova divisão internacional do trabalho via crescente con
e privada, na produção de mercadorias nacional e intemacionalmente. nas rela centração de capital sob o poder de empresas transnacionais, com nefastas con
ções entre os países. A globalização é intrínseca ao capitalismo enquanto modo sequências para o trabalho. Os princípios básicos do neoliberalismo podem ser
de produção. Para Wood (1999), o Estado é o principal agente da globalização, assim elencados:
pois. paralelamente à retração em várias de suas atividades, como nos setores a) Política de privatização de empresas estatais;
produtivos e de serviços essenciais (saúde e educação), outras funções, como o b) Livre circulação de capitais internacionais e ênfase na globalização;
favorecimento à livre circulação de capitais, são criadas para dar mobilidade ao c) Abertura da economia para a entrada de multinacionais;
capital ao mesmo tempo em que se limita a mobilidade dos trabalhadores, por d) Adoção de medidas contra o protecionismo econômico;
exemplo, através das leis de imigração. e) Desburocratizaçào do estado: leis e regras econômicas mais simplificadas para
Como disse Marx (2007, p. 43), o capitalismo necessita de um mercado facilitar o funcionamento das atividades econômicas;
constantemente em expansão, o que impele a burguesia a invadir todo o globo e f) Diminuição do tamanho do Estado, tornando-o mais eficiente;
recriar os espaços de dominação. g) Posição contrária aos impostos e tributos excessivos;
(...] Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia
h) Aumento da produção, como objetivo básico para atingir o desenvolvimento
invade todo o globo terrestre. Necessita estabelecer-se em toda parte, econômico;
explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Para a exploração i) Contra o controle de preços dos produtos e serviços por parte do Estado, ou
do mercado mundial, a burguesia imprime um caráter cosmopolita à seja. a lei da oferta e demanda é suficiente para regular os preços;
produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reaci j) A base da economia deve ser formada por empresas privadas;
onários, ela roubou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias Visando implementar esses pressupostos, os governos neoliberais destro
nacionais foram destruídas e são destruídas diariamente. São suplanta em. através de intensa política de privatizações, serviços públicos como a saúde.
Só 87
a educação e a previdência social, criando espaços de acumulação para o setor da ILO (2014), o emprego informal representou aproximadamente 48% do mer
privado em tempos de queda de lucratividade. A partir dos anos 1980. nos paí cado de trabalho global em 2013.
ses economicamente centrais, e dos anos 1990 nos países periféricos, como o De acordo com os autores, entre os trabalhadores empregados mundial
Brasil, o Estado promove a abertura dos mercados e libera o acesso do capital mente. 375 milhões ganham menos de US$ 1.25 por dia. Ao mesmo tempo, a
privado àquelas atividades tidas até então no âmbito do Estado de Bem-Estar concentração de renda no mundo tem aumentado. Cerca de 10% da população
Social, como de natureza pública e como um direito social. mundial controla 86% dos ativos do planeta e os 70% mais pobres controlam
Nesse sentido, o Estado não deixa de ser um agente regulador das rela apenas 3%. As 85 maiores fortunas do mundo somam US$ 1,7 trilhão, a mesma
ções econômicas, políticas e jurídicas na sociedade capitalista. O que muda é o renda de metade da população. Os 10 países mais ricos da Europa mantêm for
foco da regulação que passa a ser a desregulamentaçào das relações entre traba tunas equivalentes a todos os pacotes de resgate aos países da região entre 2008
lho e capital concomitantemente a abertura e garantia de novos caminhos para a e 2010. Nos EUA, 95% do crescimento gerado após a crise de 2008 ficou nas
acumulação do capital (PREVITALI; FAGIANI. 2014). O que se pode verificar no mãos de 1% da população.
desenrolar das últimas décadas do século XX e início do século XXI é uma ainda Para Huwns (2011), a nova divisão internacional do trabalho na globali
brutal intervenção do Estado contra as conquistas das classes trabalhadoras. Di zação neoliberal possibilita a mudança no poder de negociação dos trabalhado
reitos duramente conquistados pelos trabalhadores como o direito de greve, as res para com os empregadores, posto que esses últimos podem transferir trabalho
férias remuneradas, as convenções coletivas de trabalho, assim como a segurida entre regiões e nações, aproveitando-se de vantagens competitivas como menor
de social, estão sendo suprimidos e substituídos por contratos temporários e ter regulamentação legal dos direitos trabalhistas, menores salários, mas com bons
ceirizados em nome da competitividade global das empresas. níveis educacionais.
Destaca-se que os elementos da nova ordem de acumulação capitalista Se o trabalho precário está em difusão pelos países centrais, nos países
- ou da tal competitividade - ancora-se em relações laborais fundadas na flexibi periféricos, caso do Brasil, o seu avanço é ainda mais severo dada a fragilidade
lidade e no uso intensivo das tecnologias informacionais e comunicacionais. nas das conquistas sociais de institucionalização dos direitos.
exigências de maior escolarização e qualificação profissional, na redução expres
siva do trabalho estável e contratado regularmente, concomitantemente ao au 2.1 - A Reestruturação do Estado Brasileiro e os Impactos no Trabalho
mento do emprego parcial, temporário, subcontratado. Esse processo tem impli
cado na globalização do trabalho precário por todos os países, inclusive na Euro A presença do Estado na dinâmica social brasileira começou a mudar de
pa Ocidental o que leva Antunes (2013) a argumentar que a precarizaçào atual maneira significativa a partir do início dos anos 1980, em grande medida, em de
mente é a regra e não a exceção na lógica de acumulação capitalista. corrência das pressões dos movimentos sociais que foram ocupando cada vez
O trabalho precário é aquele que possuí caráter involuntário, uma vez mais a cena política, com suas próprias lideranças, métodos de organização e
que os indivíduos são constrangidos a esse tipo de relação de emprego porque ação. O processo de redemocratização6 foi marcado pela participação e controle
não têm outra escolha, pela ausência de emprego fixo. pelos baixos rendimentos social através da criação de conselhos, fóruns de discussão, elaboração participa
majoritariamente. levando os trabalhadores a mais de uma relação de emprego, tiva de políticas públicas nas instâncias do poder municipal, estadual e federal.
bem como pela redução ou mesmo ausência dos direitos sociais {DIOGO. 2010. Emergiu nesse período uma significativa onda de greves gerais nos setores priva
ANTUNES. 2013). dos. rurais e públicos. No final da década de 1980 havia 9.833 organizações sin
Segundo Fagiani e Previtali (2014). em 2013. a média europeia de tra dicais no país. alcançando cerca de 15.972 na década seguinte (ANTUNES.
balho em regime parcial foi de 19.5%. sendo mais uma regra do que uma exce 2011).
ção na economia. Países como a Holanda, o emprego em tempo parcial chega a Assim, quando o ideário e a pragmática neoliberais viviam seu clímax
50% do emprego total, o que significa que um em cada dois trabalhadores ho com a derrota dos movimentos sindicais e a crise do Estado de Bem-Estar Social
landeses são empregados nesse tipo de regime de trabalho. Com taxas que ultra na Europa e nos Estados Unidos nos anos 1980, no Brasil se assistiu uma ampla
passam a média europeia, estão também a Alemanha (26.2%). Áustria (25.7%). e expressiva expansão do sindicalismo e de manifestações grevistas nas mais di
Reino Unido (25.5%), Dinamarca e Suécia (24,7%). Bélgica (24.3%), e Irlanda versas categorias, desde os metalúrgicos, passando pelo funcionalismo público,
(23,5%). Entre os países com mais de 10 % de emprego a tempo parcial estão construção civil, trabalhadores do campo e variados setores assalariados médios,
Luxemburgo (18,7%). França (18.1%). Itália (17,7%) e Espanha (15.9%). Em
Portugal a taxa de emprego em regime parcial foi de 10.9%. Segundo relatório
A redemocratização ocorre com o fim do Regime Militar (1964-1982).
88
como professores, prestadores de serviços médicos7 (ANTUNES. 2011). Nos Através desse receituário, as instituições credoras promoveram a difusão
anos 1987/1988. rumaram à Brasília, para o Congresso Nacional, caravanas p o e adoção dos componentes centrais da chamada Nova Gestão do Estado
pulares de organizações comunitárias e sindicais que buscavam uma participação (HOOD. 1995) ou gerencialismo (CLARKE; NEWMAN, 1997). Para Clarke e
ativa, radicalmente democrática, na construção da nova Constituição. Nesse pro Newman (1997), o gerencialismo deve ser entendido como um conjunto de ele
cesso. no que concerne à educação, a Constituição de 1988. a chamada “Consti mentos culturais e ideológicos que vão se tomando hegemônicos a partir da crise
tuição Cidadã”, definiu em seu artigo 205 que a educação deve ser: dos anos 1970 e tem como resultado um profundo reordenamento na esfera p o
lítico-jurídica de regulação social, marcado pelo aparecimento da política da
(...] direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desen Nova Direita sob o comando de Margaret Thatcher (1979-1992) e John Major
volvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua (1992-1997) na Grã-Bretanha e pelo governo de Reaganl981-1989 nos EUA.
qualificação para o trabalho. (CONSTITUIÇÃO FEDERAL, p. 123). Fundado numa nova prática e num novo discurso ou linguagem, esse
modelo de gestão centra-se na ideia de liberar. Assim, propõe liberar as forças
Entretendo, já ao final dos anos 1990. uma ducha de água fria caiu so do mercado do controle do Estado; liberar o consumidor da carga de impostos e,
bre os movimentos sindicais e movimentos sociais brasileiros quando começam a por fim, reduzir o tamanho do Estado. Vale lembrar que a linguagem não é neu
ser sentidos os efeitos do neoliberalismo à medida que o país foi sendo inserido tra e, portanto, o discurso assume um papel importante dentre outros recursos
no contexto da globalização. Pode-se dizer que o neoliberalismo começa no Bra empregados por aqueles interessados em expandir e consolidar a nova ordem
sil com a eleição de Collor de Melo em 1989. Mas foi no governo de Fernando neoliberal. Palavras como ’transparência”, “eficiência”, “flexibilidade”, “qualida
Henrique Cardoso entre 1994 e 2002. quando houve a implementação de um de” e “qualificação” tomam-se predominantes nos discursos oficiais e nos meios
amplo programa de reforma do Estado, que as políticas neoliberais foram apro de comunicação.
fundadas e sistematizadas. Vale lembrar a criação do Ministério da Administração Sob a ideologia gerencialista, mesmo onde os serviços públicos não se
e Reforma do Estado (MARE) em 1995, pelo então Ministro Luiz Carlos Bresser jam totalmente privatizados, exige-se que tenham um desempenho como se esti
Pereira sob explícita influência da reforma do Estado implementada na Inglater vessem em um mercado competitivo e se tomassem semelhantes a negócio.
ra. HOOD, 1995; CLARKE; NEWMAN, 1997). A consequência é a introdução e di
Aliando-se e subordinando-se aos interesses dos capitais internacionais, fusão de uma nova lógica de tomada de decisão que privilegia a economia e efi
a burguesia nacional, através do Estado, insere o Brasil de forma ainda mais su ciência acima dos direitos democraticamente constituídos.
bordinada e dependente na globalização neoliberal ditada pelos países centrais. Carvalho (2006) elenca os seguintes elementos que compõem a raciona
Pressionado pelo grande capital privado transnacional. principalmente a partir da lidade gerencialista no Estado neoliberal:
década de 1990. o país passou a viver um processo de desregulamentação, de
avanço de políticas de privatizações e de liberalização monetária. a) A ênfase no controle financeiro, em que se procura aumentar os ganhos de efi
A reestruturação do Estado no Brasil assentou-se nos relatórios e diag
ciência, traduzidos na noção de Tazer mais com menos’, e aumentar o valor do
nósticos do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Orga dinheiro, desenvolvendo-se, para tal, sistemas de informação mais elaborados de
nização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Tais orga
monitorização e de controle de custos;
nizações, em particular o FMI, propuseram o aumento da desregulação, a dimi b) A gestão pela hierarquia, sustentada numa forma de trabalhar de comando e
nuição da burocracia do Estado e a redução das suas contas e orçamentos como controle direto e vertical, na definição de objetivos claros e na avaliação de de
receita para estancar as crises económicas, assim como as crises dos sistemas pú sempenho, aspectos que correspondem ao aumento do poder da gestão de topo;
blicos de educação, saúde e de proteção social (GRANEMANN, 2008). c) A orientação para uma cultura de auditoria, tanto financeira como profissional,
com ênfase em métodos de avaliação de desempenho mais transparentes, basea
dos no benchmarking, e no estabelecimento de protocolos de desempenho pro
7 Em 21 de julho de 1983 ocorre a greve geral de 24 horas organizada pela Comissão Nacional Pró- fissional;
CUT e que paralisou em todo o Brasil aproximadamente três milhões de trabalhadores de importantes d) A valorização da responsabilidade do prestador perante o consumidor, acom
categorias, como: metalúrgicos, bancários metroviários. comerciários e servidores públicos. Ocorreram panhada de uma crescente importância atribuída ao papel reservado aos presta
manifestações nas principais capitais e regiões metropolitanas, com passeatas, arrastões e piquetes. O
governo militar reprimiu duramente o movimento, intervindo nos sindicatos, cassando dirigentes e dores do setor não público e da ênfase na orientação para o consumidor;
prendendo os trabalhadores. Consultar Centro de Documentação e Memória da CUT - CEDOC, Cro
nologia das Lutas. Disponível em: http: [Link] org br .
90 91
e) A desregulaçào do mercado de trabalho, acompanhada da erosào dos acordos m entar o desenvolvimento de cidades sustentáveis; (iv) aprimorar a ca
coletivos e do crescimento de acordos individuais, baseados em contratos em pacidade institucional dos entes públicos; (v) incrementar a gestão sus
curto prazo, e no aumento do turnover nas posições de topo; tentável de recursos naturais e as ações de mitigação e adaptação às
f) Os constrangimentos na auto-regulaçào das profissões, que produzem altera mudanças climáticas; e (vi) promover o desenvolvimento por meio do
setor privado. O Banco atuará com os três níveis de governo, com ênfa
ções no poder profissional, com o deslocamento deste poder para a área da ges
se nos subnacionais. (FAGIANI, 2016, p. 1).
tão e/ou o aumento de papéis de gestão desempenhados pelos profissionais;
g) O desenvolvimento de formas de gestão menos burocráticas e mais em preen Segundo o autor, o BID tem sido o principal credor internacional para o
dedoras; setor público do Brasil. Dados do banco até 2012 mostram que os empréstimos
h) A instalação de novas formas de governo e gestão assentadas na marginaliza- em execução totalizavam 105 operações de crédito com um montante de 8.56
cão dos representantes eleitos. bilhões de dólares aprovados. Na década de 1990. auge da reorganização neoli
beral. pode-se verificar um salto histórico de volume de dinheiro nas relações de
Embora chame a atenção para as particularidades dos países membros empréstimos e cooperação técnica na área da educação entre o governo brasilei
da OCDE. Hood (1995) identifica a nova realidade da gestão pública em todos ro e o Banco (Gráfico 1).
os países do globo a partir de sete dimensões de mudanças, quais sejam:
Gráfico 1 - Volume de dinheiro envolvido em empréstimos e cooperação técnica para o
Brasil tomados ao BID no período: 1960 - 2010. na Área da Educação
a) Profissiona!izaçào da gestão nas organizações públicas;
b) Medidas explícitas e quantificadas de desempenho;
c) Enfase no controle dos resultados;
d) Desagregaçào das unidades;
e) Tendência para aumentar a competição;
f) Insistência em estilos e práticas de gestão privada;
g) Enfase em maior disciplina e parcimónia na utilização dos recursos.
ma Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (PRONATEC), o que im obteve êxito em promover mudanças econômicas e sociais estruturais que impli
plicou na elevaçào dos números de matrículas nos cursos profissionais de ensino cassem na alteração substancial da relação subordinada e dependente do país
técnico de nível médio tanto nas escolas públicas como privadas (FAGIANI. aos capitais internacionais, ainda que tenha avançado nas políticas de redução
2016). da desigualdade social e da pobreza. A política de expansão do ensino superior
Ao mesmo tempo em que o setor público educacional público sofre um se púbico foi acompanhada se fez com significativo apoio do governo à educa
processo de reestruturação mediante adequação às políticas educacionais com ção superior que destinava recursos públicos através de programas de bolsas aos
clara ênfase ao ensino profissional na educaçào pública, observa-se um cresci estudantes. Dessa forma, pode-se afirmar que. mais uma vez. a burguesia nacio
mento do setor privado na educaçào. em particular superior, a qual passa ser vis nal e internacional apoiou-se do Estado, através do repasse de recursos públicos
to como um nicho de negócios pelos capitalistas. O país vem atraindo massiva- aos seus negócios privados.
mente capital internacional nessa área. especialmente a partir da década de Em 2016. após o golpe contra o Governo Dilma. que sucede a Lula na
2000. Em 2005. ocorreu o primeiro caso relevante de fusào e aquisição entre presidência da República, o governo Michel Temer vem buscando impor a rees
Instituições de Ensino Superior Privadas no Brasil, com a compra de 51% das truturação da educaçào, com ênfase no ensino médio, dando-lhe um caráter
ações da Universidade Anhembi-Morumbi pelo grupo norte-americano Laureate mais técnico e profissionalizante. Sabe-se muito bem quais as implicações: a
Inc. Em 2007. as instituições foram a Anhanguera. a Estácio. a Kroton e a SEB. reestruturação se fará fortemente sobre as escolas públicas, onde estào os estu
Em 2009 entram os fundos de investimento Aduent International e Cartesian Ca dantes jovens da classe trabalhadora. Com a reforma do ensino médio, tem-se,
pital Group, a Kroton. os Grupos Anima. Campos de Andrade. UNIESP e UNO- portanto, a manutenção da histórica educaçào dual no Brasil pela qual institucio-
ESC. O volume de negócios pode ser observado no Gráfico 2. com destaque naliza-se uma educaçào para a classe trabalhadora, voltada para o mercado de
para o ano de 2008. no qual foram realizadas 39 transações econômicas. Impor trabalho e outra para as elites, formadora de dirigentes. As reformas educacio
ta lembrar que no Brasil. 78% dos estudantes matriculados em cursos superiores nais. portanto, visam mais a “formar’’ força de trabalho adaptada para o merca
estào nas instituições privadas e pertencem aos grupos sociais mais precarizados do do que garantir a qualidade da educaçào básica ou superior.
da classe trabalhadora.
Conclusão
Gráfico 2 - Fusões e aquisições de IES no período de 2007-2014
As mudanças na forma Estado no capitalismo remetem à análise do pro BOYER, R. Os modos de regulação na época do capitalismo globalizado: depois
cesso de trabalho naquilo que é fundamental à organização societal, isto é: o do boom, a crise? In: FIORI, J. L. et al. (org). Globalização: o fato e o mito.
controle efetivo do que produzir, como e para quem. portanto, à luta de classes Rio de Janeiro: UERJ, 1998.
pelo controle social do trabalho e sua correspondente forma política, o Estado.
BRAVEMAN, H. Labor and m onopoly capital: the degradation of work in
Nesse contexto, a educaçào atravessa um momento crítico no Brasil. E
the twentieth century. New York: Monthly Review Press. 1998.
relevante observar o interesse e a influência de poderosos organismos econômi
cos internacionais, como o Banco Mundial e a OCDE na elaboração das políticas CARVALHO, M. T. G. A Nova G estão Pública, as reformas no sector da
públicas voltadas para a educaçào no Brasil, sempre com o pretexto de ampliar a saúde e os profissionais de enfermagem com funções de gestão em
sua “eficiência” e a qualificação dos trabalhadores. Sob o manto de neutralidade Portugal. Tese de Doutoramento, Universidade de Aveiro, Secção Autónoma de
tais instituições procuram balizar açòes do governo estatais com o intuito de m o Ciências Sociais Jurídicas e Políticas. 2006.
dificar currículos escolares e metodologias de ensino conforme interesses e d e
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO E MEMÓRIA DA CUT - CEDOC. Cronologia
mandas das burguesias nacional e internacional.
Lembrando Braverman (1998), a valorização da qualificação está sem das Lutas. Disponível em: http: [Link] br. Acesso em 10 de Jan. 2017.
pre atrelada às necessidades momentâneas do mercado e não a apropriação de CLARKE, J.; NEWMAN, J. The Managerial State: power, p olitics and ide
algum ofício, e, mais ainda, não traz nenhuma garantia de emprego para o traba ology in the remaking of social welfare. London: Sage. 1997.
lhador. Para o autor, trabalho qualificado/complexo vale como trabalho superior
ao desqualificado/simples porque é a exteriorização da força de trabalho na qual CONSTITUIÇÃO FEDERAL.
entram os custos mais altos de formação, cuja produção custa mais tempo de tra htrp; a~[Link]. handle :c 5-c71c C-FSS_EC9õ_íivro.pàf. Acesso em 10. Jan.
balho, e por isto tem valor mais elevado. Se o valor desta força de trabalho é su 2017.
perior, ela se objetiva, nos mesmos períodos de tempo, em valores proporcional DIOGO, F. Precários Voláteis e Trajectórias de Emprego em Carrossel, o Caso
mente mais altos. dos Beneficiários do RSI. Forum S o ciológico [Online]. 2012. Disponível em:
Há. portanto, um vínculo estreito entre as reformas educacionais pauta hnp:.socipiofii«?jgvug.org9Q Acesso 10. 11. 2014.
das por pressupostos do neoliberalismo e o modelo econômico de produção ca
pitalista que tem se delineado neste início de século. Assim, almejar uma nova ENGU1TA, M. F. A Face O culta Da Escola: Educação E Trabalho No Ca
educaçào que possibilite reflexão crítica e emancipação dos sujeitos sociais signi pitalism o. Porto Alegre: Editora Artes Médicas. 1989.
fica pensar uma sociedade para além do capital. FAG1ANI. C. C.; PREV1TALI, F. S. A nova configuração da classe trabalhadora
no século XXI: qualificação e precarizaçào. Revista C iências do Trabalho. N.
Referências 3. 2 0 1 4 . P . 5 3 - 6 7 . D is p o n ív e l e m : http: [Link]£.b^rcnnd--v^:-^.reia.~:ia-.-.a-,v. [Link].
A c e s s o e m 2 7 . A b r. 2 0 1 6 .
AGUETTA. M. Shareholder value and corporate governance: some tricky ques
FAG1ANI, C. C. Tese Doutorado. Universidade Federal de Uberlândia. 2016.
tions. Econom y and Society. Vol, 29. N. 1. 2000. P: 146-159.
FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar
ANTUNES. R. A Classe Trabalhadora Hoje E A Nova Morfologia Do Trabalho
Editores. 1976.
Informalidade. Infoproletariado, Imaterialidade E Valor. In: VARELA R. (coord).
GRANEMANN. S. Fundações Estatais: Projeto D e Estado Do Capital.
A Segurança S ocial é Sustentável. Lisboa: Bertrand editora. 2013. p. 3 3 7 - 2008.
362.
D isp o n ív e l e m : http: d:*urpriüe^vcrdcr^ :cr. 2C :S IS [Link]::e;-[Link]. AceSSO 1 5 .
_________. O C ontinente do Labor. São Paulo: Boitempo. 2011. abr. 2014.
_________. Os S entidos do Trabalho. São Paulo: Boitempo. 2000. HARVEY, D O Enigma do Capital. São Paulo: Boitempo. 2011.
BIHR. A. Da Grande N oite à Alternativa: o m ovim ento operário europeu
HOOD, C The “New Public Management’’ in the 1980s: Variations on a theme.
em crise. São Paulo: Boitempo. 1998. Accounting. Organizations and Society. Vol. 20. No. 2/3. 1995. P. 93-109.
96 97
HUWS. U. Mundo Material: o mito da economia imaterial. M ediações. Londri A GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL DO PETRÓLEO E
na. V. 16. N .l, Jan./Jun. 2011. P. 24-54.
O GOLPE PARLAMENTAR NO BRASIL*
IANNI. O. A Era do Globalism o. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1996.
INTERNATIONAL LABOUR OFFICE. G lobal Employment Trends (2014). Garths
2014. Available at: httpLwv\[Link]-orc'.vcmsc5 croup; public. —dgrspcns. —dcoircr. — éiim ies é^ihYfh?
publ [Link] publication •.v-cms_233953.pdf . [Accessed 16. 01. 2014].
( R o h m < £.uiz Je
L1PIETZ. A. Miragens e Milagres: problem as da industrialização no ter
ceiro mundo. Sào Paulo: Nobel. 1988.
A Petrobras vive uma crise sem precedentes na segunda década do sécu
MARX. K: ENGLES, F. O Manifesto Comunista. Sào Paulo: Boitempo. 2007. lo XXI. Ela se explica em um complexo processo geopolítico de conflitos e dispu
tas que objetiva o controle da indústria do petróleo em âmbito internacional,
MASCARO. A. L. Estado e Forma Política. Sào Paulo: Boitempo. 2013.
condiçào essencial para a manutenção da hegemonia dos países centrais sobre
MESZAROS. I. A Educação Para Além do Capital. Sào Paulo: Boitempo. os periféricos nas próximas décadas.
2010 . O Brasil passa por um periodo político conturbado em termos político e
económico acompanhado por um forte processo recessivo econômico com gra
PREVITALI. F. S. et al. Globalização, Relações Interfirmas e Trabalho no Século
ves desdobramentos sociais. O crescimento da dívida pública, da inflação e as
XXI. História & Perspectivas. Uberlândia. N. 46. jan./jun. 2012. P: 181-208.
medidas governamentais para a estabilização da economia baseadas na "Escola
PREVITALI. F. S.; FAGIANI, C. C. Trabalho E Educação Na Nova Ordem Capi de Chicago" elevam o isolamento governamental, pondo em risco a própria go
talista: inovaçào técnica, qualificação e precarizaçào. In: XII Jornada do HIS- vernabilidade do Brasil. As criticas ocorrem em segmentos distintos da sociedade.
TEDBR: A crise estrutural do capitalism o e seu s im pactos na educação Por um lado, setores vinculados a frações de classe burguesa fomentam o proces
pública brasileira. 2014. Caxias - MA. UFMA, 2014. v. 1. p. 642-661. so de crise constante, difundindo a incapacidade governamental para retirar o
Brasil do processo recessivo e, por outro, parcela dos movimentos sociais e parti
PROST, A. História da Vida Privada: da Primeira Guerra até os n ossos dos de esquerda insatisfeitos com a dependência governamental às formas acu-
dias. Vol. 5. Sào Paulo/Inglaterra: PinguimCia das Letras. 1985. mulativas do capital em sua forma financeira.
WOOD. E. The Origin of Capitalism. New York: Monthly Review Press. 1999. A "Operaçào Lava-Jato" acirra o conturbado processo político em curso
no Brasil. Ela constitui em uma operaçào investigatória desenvolvida pelo Minis
tério Público da Uniào e a Polícia Federal Brasileira para denunciar processos de
corrupção inerentes a políticos e empresários de empresas brasileiras. As denún
cias formuladas pelo Ministério Público Federal e julgadas pela Justiça Federal
apontam para a existência de um amplo processo de desvio e lavagem de bi
lhões de dólares junto a contratos vinculados à Petrobras para financiar a campa-
A primeira versão deste capítulo foi publicado em artigo científico na Revista História e Perspectivas,
volume 29. número 55. no ano de 2016. intitulado como a resistência petroleira e a privatização do
pré-sal no Brasil
1 Doutor em Filosofia e História da Educação pela Unicamp. Pós-doutor em Educação pela Ufscar.
Bolsista de Produtividade e Pesquisa 2 do CNPQ. Professor Associado III do PPGEDFacedUFU. Linha
de Pesquisa Trabalho. Sociedade e Educação. Pesquisador do Histedbr GT Uberlândia
2 Doutora em Educação pelo PPGED FacedUFU. Professora da Esamc e da Unipac Uberlândia. Pes
quisadora do Histedbr GT Uberlândia
3 Doutor em Educação pela Unesp. Pós-doutorado em Educação pela Universidade Federal da Paraí
ba. Professor Associado IV do PPGEDFacedUFU. Linha de Pesquisa Trabalho. Sociedade e Educa
ção. Pesquisador do Histedbr GT Uberlândia
99
nha eleitoral de partidos políticos em troca de favorecimento de empresas em periferia impacta na crise nos países centrais. O Plano Brady se apresentou den
preiteiras em processos de licitação de contratos com a Empresa Estatal. A Polí tro dessa prerrogativa. Garantir a estabilidade econômica dos países periféricos
cia Federal estima que o prejuízo causado à Petrobras aproxima-se à ordem de para evitar a crise nos países centrais, mantendo intocáveis as formas reproduti
U$$ 5.53 bilhões. vas do capital em sua forma financeira.
Embasados pelo entendimento epistêmico manifesto nas contradições A assinatura do acordo pelo Brasil no ano de 1994 foi fundamental para
manifestas na mediação entre o particular e o geral, demonstraremos que a crise a criação do Plano Real voltado à estabilização da economia brasileira. Apesar
na Petrobras não se explica apenas em âmbito nacional expressando embates do forte apelo midiático enaltecendo a hegemonia e competência intelectual das
geopolíticos manifestos por forças políticas transnacionais que dele podem se b e frações de classe burguesa no governo do Brasil, o Plano Real não foi elaborado
neficiar. pela "genialidade" de nenhum segmento político brasileiro, mas sim a através da
Os conflitos internacionais sobre o controle da exploração do petróleo no mera execução sumária dos princípios, diretrizes e receitas econômicas determi
Brasil não são novos. As disputas no setor petrolífero produtivo brasileiro retra nadas pelos formuladores da equipe econômica de Nicolas Brady e do Fundo
tam a continuidade dos desdobramentos econômicos e políticos internacionais Monetário Internacional.
oriundos do século XX. cujos contornos tomaram-se drásticos com a queda do O Plano Real mudou a economia brasileira. A promoção da estabilidade
Sistema de Bretton Woods e as crises do petróleo nos anos 70 e 80. implicando econômica sustentada pela valorização da moeda brasileira em relação ao dólar
em um amplo processo de reestruturação das economias e Estados na periferia fundamentou o fetiche da excelência do setor privado sobre o setor público. Os
do capitalismo. resultados econômicos apresentados, legitimados por forte aprovação popular
Os anos 80 e 90 do século XX marcaram a reestruturação da economia acompanhado pela “miopia” dos setores críticos nacionais em sua interpretação
e política brasileira orientada pelos princípios do Plano Brady voltado ao ajuste da dinâmica reprodutiva internacional da capital financeiro, diminuíram a resis
económico nacional para a elevação do superavit primário para garantir o paga tência à ofensiva voltada ao enfraquecimento e privatização das empresas esta
mento dos juros da dívida externa aos banqueiros internacionais. Esse plano, ca tais. principalmente, os setores tecnológicos e produtivos centrais.
pitaneado pelo Fundo Monetário Internacional, implicou em uma alternativa via A submissão organizada ao FMI proporcionou que o Governo Federal
bilizada aos países periféricos, motivada, principalmente, após a falência do Pla remetesse ao Congresso Nacional cinco emendas alterando a ordem econômica
no Baker, à elevação do prazo de pagamento dos juros da dívida externa devida na Constituição do Brasil visando ajustar a economia brasileira aos imperativos
aos banqueiros internacionais e a criação de títulos da dívida a serem comerciali transnacionais e ao processo privatizante. Foram elas a quebra do Monopólio Es
zados no mercado internacional. tatal do Petróleo, das telecomunicações, da navegação de cabotagem, do gás ca
A condição exigida para a participação foi que os países periféricos de nalizado e a eliminação da diferença constitucional entre empresas brasileiras de
veriam promover reestruturações em suas economias, redefinindo a atuação dos capital nacional e empresas brasileiras de capital estrangeiro.
próprios Estados Nacionais, privatizações de empresas estatais rentáveis, quebra Foi como resistência a esse processo que se desenvolveu a greve dos p e
de monopólios produtivos e abertura do mercado nacional aos interesses trans troleiros de 1995. A paralisação afetou o consumo da população e das empresas
nacionais. aos derivados de petróleo. A escassez de combustíveis proporcionou a dissemina
Essa ação se insere no entendimento ao qual a estabilidade econômica ção generalizada do pânico por parcela considerável da mídia brasileira reforçan
na periferia do capitalismo é condição essencial para a estabilidade econômica do que o Brasil não poderia ser refém de uma categoria profissional. O apelo mi
dos países centrais. Marx em o "Livro Terceiro de O capital" demonstrou que a diático manifesto pela aparente neutralidade utilizou a greve contra os próprios
composição monetária dos Bancos Centrais dos países capitalistas é realizada por petroleiros, exemplificando-a como a materialização da necessidade imperiosa
uma parcela privada e outra estatal, cuja redução de qualquer das parcelas afeta de quebra do monopólio estatal do petróleo para garantir a demanda e reduzir
todo um sistema econômico de uma nação. Esta construção teórica é essencial os preços dos combustíveis. Ao mesmo tempo, legitimou a repressão governa
para entender a relação dinâmica e mundializada entre o centro e a periferia do mental à greve contabilizando 47 demissões por justa causa e multas aos sindica
capitalismo. Na prática, o calote dos países periféricos no pagamento dos juros tos de US$ 28 milhões em razão da somatória dos dias de paralisação.
da dívida externa não afeta apenas o banco privado credor. A existência de um O desgaste midiático e o enfraquecimento conjuntural dos petroleiros fa
vínculo do banco privado com o Estado Nacional impacta em uma redução do cilitaram o avanço e aprovação das propostas govemistas sem qualquer desgaste
volume da composição monetária do Banco Central do país de origem, desvalo político. Sua votação ocorreu com forte pressão em favor da aprovação pela mí
rizando a própria moeda nacional. Com a mundialização do capital, a crise na dia brasileira. Com um Congresso Nacional extremamente fisiológico, cada vota-
100 101
çào transformava os gabinetes das lideranças governamentais em "balcões de ne A reestruturação da Petrobras impactou na precarizaçào das condições
gócios*' voltados para atender aos anseios das bancadas de representantes de fra de trabalho dos petroleiros. No final dos anos 90 do século XX ocorreu um óbito
ções de classe burguesas nacionais e internacionais. Essa açào acabou por apro a cada quinze dias nas plataformas e refinarias da Estatal. De acordo com Sevá e
var todas as propostas govemistas sem um aprofundamento dos seus impactos Gil (1996) somente entre os anos de 1998 e 1999 morreram 74 trabalhadores,
no país. Com ampla maioria no Congresso Nacional e fundamentada pela hege sendo 59 em empresas terceirizadas na Petrobras. Esse valor correspondeu a
monia conservadora da nào eficiência estatal para gerir o setor energético, foi quase um terço das mortes ocorridas em conflitos recentes no Oriente Médio en
aprovado a quebra do monopólio estatal do petróleo pela Petrobras acom panha tre palestinos e judeus no mesmo período.
do, através da Lei 9.478 de 1997, da criaçào da Agência Nacional do Petróleo - O naufrágio da Plataforma P-36 a 1300 metros de profundidade no
ANP - com responsabilidade de definir e regular o ramo petrolífero no país4. Oceano Atlântico na costa brasileira no ano de 2001 foi o ápice da precarizaçào
A quebra do Monopólio Estatal do Petróleo mudou as relações entre o do trabalho dos petroleiros. A forte explosào que precedeu o naufrágio vitimou
Estado brasileiro e a Petrobras. O Governo Federal, sustentado por princípios ha- os integrantes da brigada de incêndio, sendo que apenas dois trabalhadores tive
yekianos relativos ao abandono definitivo de ações desenvolvimentistas em âm ram seus corpos recuperados.
bito nacional, reduziu os investimentos na Estatal adotando açào contrária à ten
Petroleiros mortos na explosão da Plataforma P-36 em 2001'
dência internacional de fusões e o fortalecimento de grandes grupos económicos
do setor petróleo, como o da British Petroleum com a Amoco. da Exxon (Esso)
com a Mobil e da Texaco e a Shell nos EUA.
A redução de investimento governamental e o prejuízo acumulado de
US$ 4 bilhões em virtude da obrigatoriedade da Estatal vender de combustíveis a
preços abaixo dos praticados no mercado para fomentar o setor petroquímico
privado nacional justificaram a mudança radical no funcionamento da Estatal no
mercado internacional através da instauração do sistema de concessão na segun
da metade da década de 1990.
A Agência Nacional do Petróleo convidou grupos privados para partici
parem do investimento petrolífero no Brasil, através da criaçào de cotas distribuí
das em grupos de 20 investidores, ao qual cada grupo investiria 3,39 milhões, to
talizando US$ 67,96 milhões. O objetivo foi conseguir um empréstimo de US$
631 milhões no mercado financeiro internacional ao qual somado ao capital pri
vado consorciado, formaria um total de US$ 698,96 milhões, equivalente a m e
nos de um terço do investimento da estatal já realizado na ordem de US$ 2,37
O poema abaixo produzido 11 anos após o acidente pela Senhora Marile-
bilhões. A contrapartida aos grupos privados presentes no consórcio foi a garan
na Souza, viúva do petroleiro Josevaldo Dias de Souza em ato público para re
tia de participação de 30% dos lucros obtidos0.
lembrar o acidente realizado no aeroporto de Macaé retrata o amplo processo de
O sistema de concessão possibilitou o acesso aos resultados de estudos e
precarizaçào do trabalho que foram submetidos os petroleiros8.
pesquisas realizados pela Petrobras a empresas petrolíferas privadas internacio
nais por meio de licitação feita pela ANP. O custo estipulado para o acesso aos
resultados da pesquisa foi de US$ 168.5 mil sendo que as empresas que quises
sem adquirir os estudos relativos em apenas uma região petrolífera brasileira p a
gariam 10% do valor acima, ou seja. US$16.85 mil6. 7 Ferreira. Bruna Gonzaga da Silva; e outros. Estudo de Caso "Explosão na P-36”. http:■'.■[Link].-
br comem ABAAAfhTUAG esrudcMasQ-explosao-plaraforma-p36
8 Das onze famílias que perderam parentes na explosão da P-36. apenas duas puderam enterrar seus
mortos. As outras nove tiveram de se conformar com o sobrevoo da área onde a plataforma afundou. A
’ Lucena. Carlos. Tempos de destruição: educação, trabalho e indústria do petróleo no Brasil. Campi Petrobras considera impossível recuperar os corpos que estão submersos, devido à grande profundida
nas. Autores Associados. Uberlândia. EDUFU, 2004. de e ao tempo que já se passou desde o acidente.
3 Idem ao anterior. http: [Link] abelhinha S1307. Acesso dia 07 09’201õ às 22 horas.
6 Idem ao anterior.
102 103
cia fragilizou de forma gradativa a liquidez bancária inviabilizando um conjunto mentais em âmbito nacional e internacional para proteger as empresas estaduni
de ações financeiras adotadas para contornar os impactos da crise. denses e garantir a pressão diplomática internacional na garantia dos seus inte
A tentativa dos bancos privados em venderem as hipotecas sob sua ges resses políticos. O endurecimento das ações diplomáticas dos Estados Unidos im
tão para os bancos de investimento nào surtiram os efeitos esperados. O agrava plicou em elevar sua influência política em diferentes regiões do planeta e enfra
mento da recessão econômica reduziu o volume de vendas e dos preços dos quecer o crescimento e expansão dos países rivais.
imóveis, inviabilizando a execução das hipotecas e a revenda dos imóveis aliena As negociações com a Arábia Saudita para a redução do preço do barril
dos aos bancos como forma de quitar as dívidas dos mutuários. Esse processo do petróleo no mercado internacional exemplificam a afirmação anterior. Um
afetou a liquidez dos bancos privados, consolidando a possibilidade concreta de complexo “jogo de xadrez" foi elaborado para esse fim com desdobramentos no
falência generalizada, cujos desdobramentos atingiriam, sobremaneira, o próprio interior e além das fronteiras estadunidenses.
setor produtivo. Em âmbito nacional, a redução do preço do barril de petróleo impactou
Isso se explica pela existência de um processo metabólico entre as for na produção das empresas dos Estados Unidos produtoras de óleo por intermé
mas reprodutivas do capital financeiro e o produtivo centrado na exploração do dio do Xisto. Isso se explica em virtude dos custos produtivos de extração de óleo
trabalho. Em outras palavras, os bancos emprestam dinheiro para as empresas do Xisto serem superiores aos da importação de petróleo. A redução contínua da
investirem na produção. Esses novos investimentos possibilitam que as empresas taxa de juros domésticos foi a estratégia utilizada para evitar a falência generali
elevem a produção, intensificando a elevaçào da mais-valia obtida sobre os tra zada das empresas vinculadas ao ramo produtivo do Xisto, garantindo, sobretu
balhadores. O crescimento da acumulação do capital produtivo possibilita que os do. a recuperação gradativa da economia interna dos Estados Unidos. Contudo,
homens de negócios devolvam o dinheiro emprestado pelos bancos acrescido de tendo como referência a autossuficiência estadunidense na produção de óleo
juros garantindo a acumulação do capital também em sua forma bancária. através do Xisto, compensava ao país manter esse parque produtivo em funcio
Com a fragilização da liquidez dos bancos, o processo metabólico repro namento. visto que a redução da produção proporcionava a manutenção das
dutivo do capital foi afetado com desdobramentos implacáveis tanto no interior suas reservas nacionais para serem utilizadas no futuro. Em âmbito internacional,
como além das fronteiras estadunidenses. Internamente. a quebra do processo a redução do preço do barril do petróleo pelos sauditas afetou as economias da
reprodutivo do capital proporcionou que a crise imobiliária atingisse toda a eco Rússia e o Irã. países dependentes das exportações de petróleo no mercado in
nomia estadunidense, comprometendo a capacidade de financiamento dos ban ternacional. A fragilização de suas economias tornou-os vulneráveis à pressão
cos na produção e os próprios fundos de pensão nos EUA. Extemamente. atingiu diplomática dos EUA objetivada na retirada do apoio iraniano ao governo sírio
toda a economia mundial dada a centralidade dos Estados Unidos no mercado e a redução da ofensiva russa contra a Ucrânia13.
financeiro internacional. A crise nos bancos estadunidenses retraiu o oferecimen As pressões diplomáticas realizadas pelos Estados Unidos se explicam
to de crédito pelos bancos internacionais diminuindo o volume da produção e o em uma totalidade que transcende as suas fronteiras. Tomando como referên
comércio em boa parte do planeta12. cia a expansibilidade incontrolável das formas reprodutivas do capital, tal qual
A instauração de um processo recessivo em nível internacional foi acom demonstrado por Marx em "O livro terceiro de O Capital", o controle de dife
panhada pelo crescimento da produção petrolífera no Oriente Médio - Líbia. Ira rentes regiões do planeta impacta na manutenção da hegemonia política e eco
que e Arábia Saudita e em ambientes fora da OPEP. como os EUA. Brasil e Ar nômica estadunidense nas próximas décadas. E no interior desses conflitos em
gentina. A dinâmica entre a redução da produção industrial e a elevação da ex tom o do controle do petróleo que se insere a pressão política gerida pelos Esta
tração de petróleo proporcionou a redução dos preços do barril do petróleo no dos Unidos e grupos econômicos europeus interessados na desmoralização da
mercado internacional agravada pela queda de demanda nas indústrias e seg Petrobras e a consequente desvalorização maciça do valor de suas ações no
mentos dependentes deste componente energético. mercado internacional favorecendo os interesses dos grupos financeiros interes
Essa dinâmica aparentemente desconexa se explica essencialmente na sados em sua privatização. Por um lado. a desvalorização de suas ações possi
construção gradativa de estratégias políticas para a superação da crise de 2008 bilita. em caso de sua privatização, a compra da Estatal em valores reduzidos.
visando garantir a centralidade na economia estadunidense independente dos Por outro lado. a compra de ações da Petrobras com preços reduzidos, tendo
impactos na periferia do capitalismo. O objetivo foi construir estratégias governa como referência o potencial econômico do Pré-Sal avaliado em U$ 3 trilhões.
12Oreiro. 2011. s p httos: [Link].201109 13. [Link]-da-cnse-valor-^gcono- 13http; [Link] bloc 201412 o-Que-esta-por-tras-e-alem-das-fronteiras-nacionaiS-na-Queda-
mico-13Q92Qll Acesso dia 17 de dezembro de 2015. das-acoes-da-petrobras acesso dia 15 de janeiro de 2016.
106 107
possibilita a obtenção de lucros com a possível valorização dessas mesmas 1964 voltados a instaurar um amplo processo de moralização no Brasil rompen
açòes no futuro. Um negócio altamente rentável sustentado nas tendências ex do com o "fantasma do comunismo” no Brasil.
postas no final do século XX e início do XXI de crescentes movimentos m ani Esse processo de "moralização política" com forte apelo ideológico capi
festos na elevação constante da acumulação do capital em sua forma financeira taneado. principalmente. por segmentos da classe média nas Regiões Sul e Su
por frações de classe burguesas nacionais e internacionais. deste do Brasil se explica em um contexto maior. Estão em disputa projetos po
Esta ação se explica na dinâmica do mercado e as ideologias que o líticos distintos ligados à política internacional brasileira, implicando, em última
justificam. A retomada do pensamento liberal assentada nos princípios da "Es análise, na manutenção de uma espécie de terceiro turno eleitoral constante que
cola de Chicago” à qual o mercado e a concorrência são as chaves para a su construa as condições objetivas para a vitória eleitoral de setores conservadores
peração de crises econômicas coloca como atores grupos econômicos e finan alinhados com a política externa dos Estados Unidos e do Mercado Comum Eu
ceiros alicerçados pelo poderio político e militar dos Estados aos quais ainda ropeu em 2018.
possuem vínculos em uma constante pressão sobre a periferia do capitalismo. As denúncias de corrupção no Brasil tomam uma dimensão "hollywoodi-
Esses atores agem no intuito de inviabilizar o surgimento de novos ato - ana" à qual a oposição apresenta-se como a personificação do ’bem" e os gover-
res. negando a essência da participação e liberdade aos moldes do mercado li nistas em seu oposto, o "mal". As forças do ’bem" são compostas pela personifi
beral. A constante pressào diplomática impacta em uma luta constante para cação da "competência e comprometimento" nacional e as do "mal" constituídas
manter o controle sobre a periferia agindo no intuito de conquistar o próprio a incompetência e a ausência de compromisso social, um embate que omite a es
apoio de frações de classe burguesas nacionais simpáticas a esse projeto. A sência corrupta e classista do Estado Capitalista transcendente ao horizonte de
pressào diplomática voltada a limitar a influência política brasileira na América um partido ou articulação política. A incompreensão gerada por setores da mídia
Latina e na costa oeste da África relacionada à redução da participação do país da dinâmica dos processos em disputa fomentam o incremento de passagens la
no mercado petrolífero internacional interligada à construção de alianças diplo mentáveis na história mundial manifestas no crescimento da intolerância, xenofo
máticas com países em conflito com os Estados Unidos exemplifica essa afirma bia. homofobia e do racismo.
ção. A transição política ocorrida via processo eleitoral nos últimos 25 anos
A descoberta de petróleo no Pré-sal fortaleceu a posiçào política brasi - não aponta rupturas distintas com as formas reprodutivas do capital financeiro. A
leira no cenário internacional. A participação do Brasil no seleto grupo dos crise política brasileira não se explica pela polarização expressa na contradição
maiores produtores de petróleo em âmbito internacional e sua aproximação inconciliável entre o modo de produção capitalista e o socialista, mas sim o em
com os BRICs acirrou os embates com os Estados Unidos. As disputas comerci bate nacional e internacional sobre os rumos do capitalismo no Brasil sendo a
ais entre os EUA. a Rússia e a China são fundamentais para o entendimento do exploração e o controle das jazidas de petróleo brasileiras um tema primordial.
fomento à crise da Petrobras. A participação do Brasil nos BRICs é essencial
para o debate sobre a questão do petróleo, especialmente no que se refere às re Referências
lações comerciais com a China e a Rússia.
A vitória de um consórcio de empresas chinesas sobre as estadunidenses
no leilão para a partilha no Campo de Libra no Pré-sal acirrou o conflito entre Biondi. A. O Brasil privatizado: um balanço do desm onte do Estado. São
os dois países, especialmente pelo fato dos chineses serem aliados do Brasil e Paulo. Perseu Abramo. 1999.
integrante do próprio BRIC. O governo brasileiro passou a receber constante ______. O Brasil privatizado II: o assalto das privatizações continua.
pressào diplomática estadunidense para que se afastasse definitivamente dos São Paulo. Perseu Abramo. 2000.
BRICs e do Mercosul.
A pressào diplomática sobre o governo brasileiro foi complementada Brant. V. C. (1990) Paulínia: petróleo e política. Campinas. CEBRAP. 195p.
com a construção de um conjunto de alianças com frações de classe burguesas e Carcanholo. M. D. Conteúdo e Forma da crise atual do capitalismo: lógica, con
parcela da mídia nacional voltadas ao fomento da instauração de ideologias cen tradições e possibilidades. Crítica e sociedade: revista de cultura política,
tradas no anticomunismo. A constante exposição midiática das denúncias de cor v .l, n.3. ed. Especial, dez. 2011. Disponível em:
rupção apuradas pela Operação Lava Jato ressuscitou as propostas políticas de [Link] [Link] cnncasociedade article download ... S279 AceSSO dia 17 de dezembro de
ultradireita manifestas na instauração de uma ditadura militar aos moldes de 2015.
108 109
A reconstrução, ao contrário, é a mais difícil de ser efetuada, por ser tra Caio Prado Jr. explica as questões implicadas na estruturação do capita
balhosa. requerer mais esforços, tempo. Para se erguer uma estrutura mais sóli lismo dependente das economias de exportação das periferias e enfatiza o quan
da. em primeiro lugar, é necessária a identificação consciente do que se deve im to o “espírito de exploração” foi fundamental, nào apenas por ter marcado a pre
preterivelmente derrubar até a raiz. o que se pode preservar e, enfim, o que se sença do homem europeu nos trópicos, mas, principalmente, por ter determina
quer construir. Deste modo, cada tijolo que vai sendo colocado para erguer essa do a totalidade das características da estrutura econômica, sociocultural e política
reconstrução, já apoiada em pilares sólidos, segue a orientação de seu projeto que se desenvolvia ao longo dos séculos nas “colônias de exploração”. Em suas
original, nào abdica dos cuidados necessários para fazer dessa estrutura a mais palavras,
inabalável possível e respeita os limites colocados pela própria natureza, física e
[...] se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade
humana. nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros;
Essa metáfora das rachaduras de uma construção tem o propósito de mais tarde ouro e diamante; depois algodão, e em seguida café, para o
nos ajudar a pensar algumas questões que náo podemos perder de vista para comércio europeu. Nada mais que isto. E com tal objetivo, objetivo ex
pensar o terreno histórico da atual crise brasileira em suas dimensões socioeco- terior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que
nômica e política. Em vez de focar exclusivamente os elementos de novidade no nào fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a socieda
mais recente golpe do contexto brasileiro, que já estáo sendo desvendados por de e a economia brasileiras (Prado Jr., 2000:20).
análises qualificadas, o propósito deste artigo é principalmente chamar atenção Autores como Florestan Fernandes analisaram as conexões dessa estru
para a continuidade histórica nele revelada. Com esse fim, na primeira seçào, os tura econômica das periferias do capitalismo com um regime político autoritário.
golpes do século XXI na América Latina a governos reformistas serão problemati- Seus estudos mostram bem como o traço colonial de opressão política e exclusão
zados à luz do conceito da divisão internacional do trabalho. Na segunda seçáo, da participação cidadá da maioria da população permanece existindo mesmo
serào analisados os traços de continuidade das reformas de fachada do atual go depois de o Brasil se constituir como um Estado-naçáo com sua “própria” bur
verno Temer para "resolver’*a crise. A terceira seçáo aborda a fuga da casa. ou guesia nacional.
seja. a produçáo de emigrantes brasileiros como um fator que nào pode ser des Ao contrário de representar os interesses da população, essa burguesia é
prezado para consideração dos efeitos da crise atual. Algumas considerações fi vital para a continuidade da “subordinação das economias periféricas das ma
nais encerram o artigo. ções emergentes’ às economias centrais das mações dominantes’” (Fernandes,
2008c: 95). Nào há interesse em romper com a satelitizaçâo, ou seja. com os me
O golpe à ilusão d o reform ism o n a s periferias canismos de expropriação dos excedentes econômicos nacionais, articulados in
terna e extemamente: “dependência e subdesenvolvimento sào um bom negócio
A história proferiu novamente sua sentença, reafirmando uma regra já para os dois lados” (Fernandes, 1973: 26). Há tào somente uma abertura estra
conhecida de que, nas periferias do sistema capitalista, a sobrevida de governos tégica de espaço ao desenvolvimento induzido3 pelo “progresso importado”, que
progressistas é breve. O recado dado pelos golpes do século XXI na América La só aparentemente se dá endogenamente e para os interesses internos da econo
tina é o seguinte: a despeito de nào mexerem minimamente na estrutura do siste mia e da sociedade brasileira.
ma, esses reformismos “democráticos" vêm combatidos com golpes de Estado, Portanto, também náo há nenhuma ruptura com o modelo autoritário
ou seja. por cima. de política que essa estrutura demanda. Antes de ter um compromisso demo
A primeira liçáo que aprendemos com os golpes na América Latina do crático com as necessidades da maioria da população, essa burguesia nacional,
século XXI2 é a de enxergar de novo, com mais clareza, a essência do poder po que comanda de forma articulada com os donos do poder do capitalismo global,
lítico do Estado nas periferias do capitalismo. Esse Estado nasceu, na verdade, tem o máximo de interesse em reproduzir a submissão econômica e política do
para servir o capitalismo mundial, sem nenhum compromisso com a população país e em manter o seu povo numa condição de pura força de trabalho para ali
nativa que aqui habita. mentar o mercado mundial.
“Ingênuos", e principalmente cúmplices, sào os líderes políticos e gover
nos que se acham acima dos condicionantes da histórica divisão internacional do
2 Até o momento, sem considerar o caso particular da Venezuela, esses golpes atingiram os governos de
Honduras (2004). Paraguai (2012) e o Brasil (2016). O cenário é de incerteza quanto ao impacto nega 3 De acordo com seu conceito de modernização dependente, no capitalismo periférico são os “dinamis
tivo desses golpes para outros governos (Equador. Bolívia, Venezuela) que, nos últimos anos. adotaram mos externos [que] decidem as transformações [internas] decisivas” (Fernandes. 1973: 79).
estratégias bem mais combativas, embora ainda dentro do sistema.
112 113
trabalho, fomentando a ilusào e a obsessão do “desenvolvimento”. Cedo ou tar mas seríssimos derivados da “drenagem de riquezas”, materiais e humanas, de
de. essa ilusào se desmancha no ar. causando consequências drásticas - como as cinco séculos de colonialismo, denunciou o sistema e ofereceu respostas políticas
que estamos vivendo atualmente no Brasil - e trazendo novamente à luz a força sólidas que merecem ser conhecidas pela força de seus ensinamentos.
violenta do sistema e suas rachaduras que tentava mascarar. De fato. as vozes críticas de líderes políticos e intelectuais das revoluções6
Esses golpes do século XXI sào, portanto, antes de tudo. frontais à ilu africanas desse período (Cabral. 1978; Fanon. 1980; Nkrumah. 1980) fornecem
sào do reformismo progressista nas periferias. Trata-se de uma ilusào que se m a instrumentos úteis para a compreensão das amarras - socioeconômicas. culturais
nifestou em diferentes contextos históricos das periferias, baseando-se em distin e políticas - do “desenvolvimento”. Como primeiro passo, esses líderes nos ensi
tos tipos de ideologia, mas com um denominador comum: a miragem dos gover naram a enxergar, sem ilusões de uma ascensão futura, o lugar permanente de
nos reformistas de poder orientar autônoma e livremente o desenvolvimento das “quintal do mundo” que a histórica divisão internacional do trabalho impôs a to
forças produtivas do espaço nacional das periferias, portanto de poder dar igual das as periferias do sistema capitalista. Esse é o ponto de partida para depois se
mente uma direçào própria e autônoma aos seus rumos políticos. enfrentar, de forma continuada no tempo, todos os desafios das sociedades com
Nào por acaso, na história, a resposta do sistema sempre foi muito mais a herança histórica da estrutura colonial7.
drástica às vozes críticas que realizavam experiências políticas efetivamente revo Justamente por ter convivido por séculos com os efeitos de uma crise
lucionárias. Os golpes a governos que tentaram enfrentar as estruturas do capita permanente, a percepção do olhar político africano mais crítico afasta qualquer
lismo - portanto também qualquer iktsào de que o reformismo, um dia. pudesse ilusào do reformismo para pensar soluções a seus efeitos. Mais do que qualquer
ser a soluçào para melhorar as condições de vida das populações da periferia - outra região do Sul global, a África sabe o que significa ocupar a posição históri
sào de outra natureza: sua arma principal é o sangue e a eliminação sistemática ca - e por imposição dos mecanismos de funcionamento do mercado mundial -
dos vestígios de suas obras. de uma periferia. Isso. porque o sistema econômico capitalista, desde sempre, se
Na América Latina, o bombardeamento ao Palácio de La Moneda - manifestou ali de forma “nua”, sem encontrar limites para sua célula mãe. a ex
onde Salvador Allende se encontrava no fatídico 11 de setembro de 1973 - tal ploração do trabalho (Antunes. 2009) e sua base de sustentação, o racismo -
vez seja o exemplo mais emblemático da diferença das armas utilizadas por gol sendo o tráfico de escravos seu maior exemplo histórico (Basso, 2000).
pes para se combater essa outra natureza de governo político e o processo social Esses casos históricos e muitos outros poderiam ser aqui citados por se
que representa. rem representativos da natureza de golpes a governos políticos que efetivamente
Mas. com certeza, a África em convulsão do contexto do Pós Segunda se propuseram a enfrentar, junto à população de seus territórios, as rachaduras
Guerra foi o espaço mais atingido por uma série de golpes brutais a vozes disso do sistema nas periferias. E válido lembrar essa outra natureza de golpe, com o
nantes de líderes de governos representativos de um processo político revolucio fim de entendermos com mais clareza que o golpe de 2016 no Brasil está longe
nário4. Esses líderes foram assassinados em série ou atingidos indiretamente pelo de representar uma guinada em relação aos governos que o precederam. Trata-
“câncer da traição do imperialismo”5, justamente porque combatiam a ilusào do se, de fato, de um golpe finalizado à continuidade sistémico do curso histórico do
reformismo, encarando, portanto, as rachaduras do sistema - de forma articulada país que tão somente bate de frente na ilusào do progressismo nas periferias.
intemacionalmente e. sobretudo, a partir da participação das massas no processo O recado desse golpe é, na verdade, que o capital deve seguir livre e
de reconstrução revolucionária. solto para agir, e nào tolera nem mesmo reformas que tentem conciliar seus inte
Essa África em revolta - bem diferente da imagem da “pobreza” e do resses com um mínimo para as classes trabalhadoras das periferias! Aqui, nào se
“imobilismo” que procuram nos apresentar e nos fazer aceitar como verdade e permite, por muito tempo, a existência sequer de reformas brandas, como as dos
destino daquele continente -, nào obstante partir de uma situação com proble- quatro governos petistas, guiadas pelo princípio, como esclarece Lowy (2014), de
“fazer tudo o que é possível para melhorar a situação dos pobres, com a condi
d Dos quais podemos citar o assassinato de Patrice Lumumba (1961) e Amflcar Cabral (1973), líderes ção de nào tocar nos privilégios dos ricos”! Aqui, é necessário um golpe para in
revolucionários, respectivamente, do Congo e de Cabo Verde Guiné-Bissau. terromper o quarto mandato de um governo eleito pelas vias democráticas, mas
5 Com essa expressão. Amflcar Cabral denunciava a pressão que esses líderes revolucionários africanos que jamais disse um nào contundente às alianças políticas com os partidos de di-
sofriam, interna e extemamente a seus países. O discurso de Amflcar Cabral, proferido na ocasião do
funeral de Kwame Nkrumah (1972) - um dos principais teóricos do pan-africanismo e líder revolucio
6 Sobre o contexto Latino Americano, ver Dos Santos. 2016.
nário de Gana - esclarece que sua morte foi causada, na verdade, pelo “câncer da traição do imperia
lismo”. Na ocasião da independência de Gana (1957), Nkrumah fez a seguinte declaração: “A indepen 7 Refere-se aos problemas enfrentados hoje pelas periferias ou semiperiferias. comumente denomina
dência de Gana é privada de sentido se não for ligada à libertação de todo o continente americano” das de “sul global”, “terceiro mundo”, “países em desenvolvimento”. "subdesenvolvidos”. “realidades
(Nkrumah, 1980: 425). pós-coloniais”. em que o Brasil certamente ainda se insere.
114 115
reita e, principalmente, às alianças com o Capital. Só durante o período de nos enraizados na “ideologia liberal, segundo a qual o termo democracia é so
“abundância” e “euforia”, apoiado nas demandas de commodiíies do novo co mente a máscara do despotismo de mercado” (Bensaíd. 2010: 30. grifo nosso)10.
losso global, a Chino, que esse pacto progressista pôde se manter - e. tào somen Esse ensinamento precioso de Bensaíd nos ajuda a entender também
te. vale lembrar, porque jamais deixou de ser favorável ao Capital. que, se as forças políticas do mercado podem agir com tanta violência, hoje, no
Retomando a ideia da estrutura social da casa-Brasil. é possível afirmar contexto brasileiro, é porque foram alimentadas, direta ou indiretamente, no pas
que as reformas dos governos petistas, na época de abundância, conseguiram sado. Ocorre que a ilusão do progressismo toma mais difícil de enxergar o que
contemplar, mesmo se de forma desigual, os cuidados com os andares “de cima” estava, em última instância, em jogo nas reformas dos governos petistas: a sobre
e “de baixo” dessa construção. Tâo logo a crise começou a se manifestar com vivência da estrutura do sistema capitalista no Brasil.
mais força no país. em 2014. o governo Dilma optou por priorizar as reformas A ilusão otimista de regular o sistema para um dia chegar ao ápice do
que favorecessem exclusivamente os andares de cima dessa casa. aplicando o “desenvolvimento” nas periferias nào ajudou, na verdade, a enxergar que as re
ajuste fiscal “recomendado” pelos organismos internacionais que ditam o com formas progressistas nào impedem que os interesses fundamentais e universais
passo do funcionamento do sistema e suas hierarquias6*8. Nos andares de baixo, da população brasileira sejam destruídos ou ameaçados pela potencializaçào sem
portanto, as rachaduras, que nunca deixaram de existir, começaram a crescer limites da atuação de um sistema econômico que é despótico por natureza e se
com mais força. mostra profundamente desigual, “náo só no que se refere à ‘livre troca’ entre ca
Mas. a despeito da fidelidade subserviente desses governos, a velha m o pital-trabalho, mas também às relações entre países”, nas palavras do sociólogo
dalidade dos golpes foi mesmo assim reativada como instrumento de controle italiano Pietro Basso (2003: 82).
para reafirmar a necessidade de abertura, ainda maior e mais plena, ao mercado A contradição fundamente do capitalismo, a desigualdade da relação ca
mundial. Dessa forma, náo houve tempo nem mesmo para esperar uma via elei pital-trabalho, é o primeiro elemento que comprova como as reformas petistas
toral “democrática” prevista para 2018 e manter, assim, o jogo de aparência da jamais quiseram enxergar a fundação da estrutura da sociedade brasileira. O
“democracia”. ponto de vista crítico da ótica do trabalho para analisar a estrutura produtiva bra
sileira. como o de Antunes (2013), demonstra como ela nunca deixou de ser
O d e s p o tis m o d e m e rc a d o d e s m a s c a r a d o transpassada por contradições de uma disseminada precarizaçáo do trabalho.
Nesse sentido, embora atentas ao horizonte empobrecedor de elevar o padrão de
A América Latina do século XXI conhecerá novamente os golpes em consumo da classe trabalhadora, as reformas do governo petista passaram longe
série como na segunda metade do XX? Se as comparações dos diferentes m o de combater efetivamente o trabalho precário, exaustivo, mal remunerado e des
mentos históricos dos golpes no continente podem parecer um certo exagero, protegido, no campo e na cidade, flexibilizado, sujeito às marcas da concentra
nào há dúvida de que a liberalização da economia e o ataque ao trabalho foi o ção de renda, de desigualdades “de raça”, à divisão sexual do trabalho e às ins
objetivo que guiou os governos ditatoriais na América Latina, assim como conti tabilidades de uma economia propriamente periférica.
nua sendo a uia única da direção política dos golpes do século XXI nesse conti O ciclo de greves que. conforme destacou Braga (2016), náo se inter
nente. rompeu. mas se intensificou na década de 2000. é prova do que significa para os
Daniel Bensaíd. autor que foi tào essencial para o pensamento contem próprios trabalhadores brasileiros carregar essa estrutura, mesmo num período de
porâneo mais crítico, ensina que mascarar a democracia nada mais é do que o aquecimento do mercado de trabalho que caracterizou os três primeiros m anda
despotismo de mercado. O mais recente golpe brasileiro, em sua motivação mais tos dos governos petistas. Também seria oportuno acenar outros fatores socioló-
profunda, nào é algo novo, nem pontual, na história do sistema capitalista. Esse
golpe é só mais um acontecimento que ilustra o estado de “escândalo permanen França em 2009, que mobiliza toda a história do pensamento político, oferecendo uma ideia da com
te” da Democracia9. Trata-se de mais um golpe da lista de muitos outros cotidia plexidade do tema e das sínteses hoje à disposição para se refletir sobre ele. Apesar dos diferentes enfo
ques teóricos, metodológicos e de opiniões desses autores, não há dúvida sobre o consenso que os une.
Ao fazer um balanço histórico da questão, concluem, em uníssono, que a democracia está indo muito
6 É claro que essa política de não enfrentamento também era esperada, já que as reformas progressistas mal.
não se propõem a mexer na estrutura do sistema; a o contrário, o que visam é reformar partes mais im 10 O autor ainda nos lembra que quem dita o despotismo do mercado neoliberal hoje, em primeiro lu
portantes ou visíveis da casa, orientando-se pela ilusão de que ela possa melhor manter, e por mais gar. é a "Democracia” por excelência, a estadunidense, que tende a impor seu próprio modelo ao resto
tempo, seu próprio peso. do mundo, baseando-se em dois pilares fundamentais: no “ataque brutal à solidariedade e aos direitos
9 O artigo de Bensaíd Um escândalo permanente compõe o livro Em que estado se encontra a dem o sociais” e na “ofensiva sem precedentes da privatização do m undo”, com a “redução do espaço público
cracia?. compêndio de textos de filósofos e cientistas políticos contemporâneos de peso, publicado na (Bensaíd. 2010: 30. grifo nosso).
116 117
gicos analisados na coletânea de textos organizada por Sampaio Jr. (2014). que Não há dúvida, portanto, de que as forças despóticas e destrutivas do
ficaram bastante evidentes nas manifestações sociais de 2013 e 2014 e sào indi mercado já estavam em ação e agora estão dando seu bote. Como ressaltou Bru
cativos de como. a essas condições precárias de trabalho, também se sobrepõe no De Conti (2015), “assim como a maré baixa traz à tona pedras desconhecidas
uma vida precária com relação ao acesso a direitos básicos de transporte, saúde, ou momentaneamente negligenciadas, contextos de crise fazem emergir proble
educação e moradia. mas que já existiam, ainda que ocultos".
E verdade que as reformas dos governos petistas, como destacado aci Talvez o que assuste mais em relação às medidas do atual governo Te
ma. náo deixaram de olhar para os andares de baixo, investindo mais nos servi mer é que a máscara do despotismo de mercado caiu. O despotismo de mercado
ços públicos de educação, saúde, transporte, moradia, por exemplo. Mas tam agora subiu ao patamar de uma política declarada de governo. Não por acaso, as
bém é verdade que o despotismo de mercado se expandiu paralelamente nesses soluções que se colocam para preservar a estrutura do sistema neste momento de
setores e. no fundo, foi até mais determinante para o seu funcionamento. agravamento dos efeitos da crise mundial no Brasil sào aquelas do tipo da refor
Em que momento as escolas públicas, de ensino fundamental e médio, ma “de fachada” mencionada na Introdução, a saber, a mais barata possível,
adquiriram a qualidade de educação que o povo brasileiro mereceria? Em que que tem o fim de mascarar os problemas da construção, tapar os buracos, mas
momento as Universidades públicas passaram a prevalecer como alternativa de que, mais tarde, cobra um preço inestimável e provoca danos irreparáveis. Essa
um estudo para a maioria da população em relação àquelas privadas? E possível reforma passa uma tinta lustrosa para cobrir as rachaduras do sistema e se preo
afirmar que escolas e Universidades privadas estáo de fato cuidando da Educa cupa principalmente com a fachada e os salões sociais dos andares de cima da
ção? Em que momento o Sistema Único de Saúde (SUS) passou a ser uma o p construção. Assume, assim, de forma menos ambígua, que quem deve suportar o
ção voluntária dos pobres? Em que momento os convênios privados e da indús peso da construção e suas rachaduras é o andar de baixo, a moradia dos traba
tria da saúde - que forçam uma negociação contínua do preço da vida de seus lhadores.
clientes pacientes - deixou de ser a opção dos “privilegiados” que podem pagar Agora, essas reformas retomam declaradamente a lei que sempre predo
os preços abusivos de suas mensalidades? Em que momento o transporte público minou na construção da casa da grande família brasileira, desde os tempos colo
(intraurbano, inter-urbano e inter-estatal) eficiente - que além de resolver o pro niais: a selva tropical do mercado, incluindo a liberdade dos governos comissá
blema da mobilidade digna, do trânsito nas grandes cidades, também propiciaria rios do poder econômico para administrar bens públicos guiando-se por vícios
o direito de respirar um ar mais puro - passou a ser uma alternativa ao transpor privados, nas palavras de José Saramago. Todas as reformas de fachada, aplica
te individual privado de automóveis, que alimenta a cadeia da indústria automo das com enorme velocidade, em poucos meses do governo Temer, retratam, na
bilística e obriga as pessoas a enfrentarem o caos do tráfico e do risco de aciden verdade, um “choque de gestão” que busca a “eficiência total” de se abrir ao
tes cotidianamente? Em que momento uma política efetivamente pública de ex mercado.
pansão e proteção de moradias prevaleceu diante da força de expropriação do Nesse sentido, a crise vem administrada com carinho, já que é uma
mercado imobiliário e de suas lógicas financeiras?11 E se pensamos nos bens oportunidade única e o melhor dos instrumentos para rebaixar salários e direitos!
básicos da vida propiciados pela natureza, em que momento a preservação des Essa diretriz política já se revelou, em poucos meses, a marca do presente gover
ses bens e de sua diversidade determinou as escolhas de produção no país. con no Temer. E tudo indica que ela será também a marca dos futuros governantes
centradas na monocultura agrícola, na extração de minérios e na exploração do eleitos “democraticamente”, seguindo a onda de ascensão dos partidos de direita
petróleo? e de extrema direita no mundo.
Talvez o desastre do Rio Doce seja o símbolo mais doloroso de como es O pior é que esse tipo de reforma de fachada obteve, por enquanto, bas
sas rachaduras do sistema já estivessem em ato, mesmo durante a última década tante sucesso no Brasil. Os resultados das últimas eleições municipais confirma
dos governos progressistas. A lama tóxica que percorreu quilômetros de seu leito, ram que. na opinião dos eleitores brasileiros que quiseram votar em um candida
matando ou contaminando toda a vida com a qual entrava em contato, repre to12, hoje são principalmente os gestores e os pastores do mercado que podem
senta, na verdade, o sinal mais evidente de como as reformas progressistas, no garantir a “eficiência total” da organização da sociedade brasileira. O que pre
fundo, não evitam que essas rachaduras produzam danos irreparáveis, que atin gam esses gestores e pastores do mercado?
gem populações inteiras.
l~ Ressalta-se a altas taxas de abstenção e de votos em brancos, que caracterizaram as últimas eleições
u Para um estudo sobre esse tema. ver Rolnik (2015). municipais de 2026.
118 119
Como uma das medidas pretensamente “anti-corrupção”. todo o espa Trata-se de um anseio que já vai sendo colocado, desde o início, no
ço que ainda estava preservado do mercado deve se abrir para ele e. assim, fun modelo de educação de uma sociedade. Nào há dúvida de que já estava vigo
cionar melhor. Sua eficiência é sinônimo de privatização, de monetizaçào e. por rando no país o reinado do horizonte mercantil, técnico, produtivo que penetra o
fim. de valorização. O espaço que nào é possível de ser privatizado desde já deve âmago das salas de aula e também dilacera a autonomia, o respeito, a formação,
ser abandonado, para que suas rachaduras se agravem ainda mais e. no momen a valorização do professor em favor de metas produtivas vazias e para o mercado
to final, o que já estiver quase virando caco puder ser loteado e vendido, peça mundial da educação. Mas essa diretiva do mercado agora ficou mais evidente
por peça. ao mercado, que entào se encarregará de tapar esses buracos. Para nos cortes da educação e na reforma do ensino médio, que foi imposta por meio
isso. nada melhor que uma Proposta de Emenda Constitucional (a PEC 55) que de uma medida provisória (MP), aplicada na calada da noite, sem a menor con
congela os gastos do Estado por 20 anos. uma medida impecável para o sucatea- sulta da sociedade. Seu projeto, seu ideal, é de formar soldados para o mercado,
mento dos bens e serviços públicos que abrirá espaço, posteriormente, à sua pri ou seja, jovens preparados e direcionados para ingressar no mercado de trabalho
vatização. - mais especificamente, passivos, alienados, “técnicos”. Nào está em jogo a for
A tática de enxugar os bens e serviços públicos é hoje efetuada de uma mação completa e plural nas diferentes áreas do conhecimento, o fornecimento
forma muito mais profissional do que no passado, por meio de leilões internacio de instrumentos de informação e reflexão. Nào por acaso, a sociologia, a filoso
nais. com alcance para todos os capitalistas do mundo. Vende-se trabalho, ter fia, as artes deixaram de ser obrigatórios, o que quer dizer que, em breve pode
ras. minérios, águas, petróleo em abundância, e reafirma-se. com mais vigor ain rão ser eliminadas, tendo nesta MP apenas um primeiro passo disfarçado.
da. a conveniência para a grande burguesia nacional da inserção subordinada do O despotismo de mercado também está explícito nas políticas de ajuste
país no mercado mundial. fiscal, que começaram a ser aplicadas já no governo Dilma e depois se potenciali
O pilar ainda mais importante dessas reformas de fachada no Brasil, que zaram no governo Temer. As receitas desses ajustes, como nos anos 1980 e
está por ser aprovado, é a reforma trabalhista. Seu braço direito e principal fonte 1990, reafirmam o servilismo do Estado brasileiro ao mercado mundial, repre
de dinamismo é a lei da terceirização. Esta lei. além de trucidar direitos conquis sentado por seus organismos internacionais - e, agora, também pelas agências
tados pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), coloca um futuro ainda de avaliação de risco - que colocam os bancos e os credores internacionais como
mais precário e inseguro para todos que trabalham - ou. para usar a expressão prioridade diante dos deveres sociais para com a população brasileira.
de Ricardo Antunes (2009). da classe que vive do trabalho, nào dizendo respeito Enfim, a particularidade das reformas de fachada, que estamos presenci
somente aos estratos mais pobres, mas. cada vez mais. também a seus estratos ando no atual governo Temer para “resolver“ a crise13, é que o despotismo de
mais altos e qualificados. mercado deixa de ser ilusoriamente controlado pelas políticas progressistas e ago
Como o laboratório dessas leis já foi largamente experimentado em paí ra se coloca como uma política declarada. Se nos governos petistas atendia-se
ses europeus como a Itália. Inglaterra e agora também a França, nào será preciso aos desígnios do mercado com a roupagem da democracia e um olhar mínimo
muitas pesquisas para mostrar como essa reforma nào resolve a crise e será parti para atender os andares de baixo da casa brasileira, agora isso nào é mais neces
cularmente cruel para os novos ingressantes no mercado de trabalho, para os jo sário. Vivemos em um momento político em que a máscara da democracia14 e a
vens que se qualificam com a esperança de poder estruturar a vida com o traba ilusão do progressismo caíram.
lho e que só encontrarão contratos temporários, sem garantias, com horários fle
xíveis. ritmos intensos e péssimos salários. Esses jovens encontrarão a flexibiliza
ção. já imperante. mas agora prevista em lei.
Para nào falar do aumento do tempo de contribuição para obter o direi
to de aposentadoria, que representa mais um saque vergonhoso e mortal aos tra
balhadores brasileiros. Trata-se de uma reforma que. além de colocar nas costas 15 Tudo indica que essas reformas provavelmente continuarão a ser aplicadas nos próximos governos
dos trabalhadores brasileiros a responsabilidade de pagar por uma crise em rela para.
ção à qual nào têm nenhuma culpa, também vai ao encontro do objetivo busca 14 Entende-se democracia não no sentido mitológico ou puramente formal dessa palavra, mas no que
do pelos Estados de levar mais rápido os trabalhadores ao túmulo, quando seu concerne ao seu significado substancial mais valioso e que não podemos jamais renunciar de lutar para
corpo não pode mais responder aos anseios produtivos do sistema, como denun sua realização: a "revolução democrática permanente” que não separa a emancipação política da
emancipação humana. A propósito. Daniel Bensaid (2010: 66) tem toda razão ao afirmar que "a tarefa
cia Ken Loach em seu filme Eu, Daniel Blake. de revolucionar a democracia, colocada em prática com a Revolução de 1846, ainda deve ser realizada
para que a crítica da democracia parlamentar não penda para o lado das soluções autoritárias ou das
comunidades míticas”.
120 121
A fuga e a busca por uma nova casa Náo há dúvida de que as “lógicas de expulsão”, marcas da “brutalidade
característica da economia global” (Sassen. 2014). que sáo acentuadas pelo atual
A atuaçáo explícita do mercado propiciada pelas escolhas políticas aci contexto de crise, também estào plenamente ativas hoje no Brasil. A emigração
ma tratadas, no atual contexto de crise econômica, encontra um terreno social em massa de brasileiros é um sintoma que nào deve ser desprezado, pois sinaliza
caracterizado por uma quantidade maior de brasileiros que dependem completa o aumento exponencial do desemprego, da violência, o rebaixamento de salários
mente da renda de um salário ou de um pequeno “empreendedorismo” para su e de direitos, a degradação das condições de vida. Diante de uma casa que está
prir suas necessidades básicas de vida. No contexto de 1930 - período evocado desmoronando, a atitude normal de seus moradores nunca será a da passivida
por diversos especialistas para as análises sobre a crise contemporânea, em fun de. O ser humano luta para preservar a vida e uma das formas de preservá-la é
ção da gravidade da crise de 1929 - parte significativa da população do país ain buscar outra casa.
da se encontrava no campo, podendo contar com um grau relativo de indepen Segundo Peliano (1990: 124)17. tanto aqueles que estào “dentro”, como
dência com relação a produtos básicos de sobrevivência, como a água. o alimen aqueles que estào “fora” do mercado de trabalho, ou seja. os desempregados ou
to etc. - além da própria moradia. Hoje. ao contrário. 85% da população brasi simplesmente os renegados de uma “integração”, sào migroníes em potencial -
leira vivem no espaço urbano. Há. portanto, uma maioria esmagadora de pesso no sentido de que a “busca da recomposição de condições de trabalho” é uma
as que tira sua sobrevivência cotidiana de uma renda salarial (formal ou infor constante histórica para essa classe18.
mal) ou de um pequeno negócio. Essas pessoas estào totalmente suscetíveis ao Como é sabido, o fenômeno da emigração começou a despontar com
rápido aumento do desemprego e queda de renda15 e plenamente expostas, por força no Brasil principalmente nas décadas perdidas da economia brasileira
tanto. às variadas formas de despotismo de mercado. (1980-1990). devastada pelo modelo de integração submissa ao mercado mun
Essas pessoas, hoje. náo encontram táo facilmente uma referência de dial19. Dentro de um cenário mundial de aumento dos movimentos de popula
apoio e de luta para combater esse despotismo. Isso porque no atual momento ções em escala global, esses brasileiros compõem os fluxos massivos que continu
político do país. como diversos cientistas sociais apontam, o terreno das forças am a se deslocar para o Norte, os países centrais, onde os salários (diretos e indi
sociais “daqueles de baixo” encontra-se bastante abalado pela “despolitizaçào” retos) sáo em média mais altos20.
generalizada dos tempos atuais, que. no Brasil, relaciona-se diretamente com os Com a eclosão da crise nesses países centrais (2007/8). o aumento do
treze anos do estrago provocado nos movimentos organizados pela ilusão pro desemprego e o recrudescimento das políticas imigratórias marcadas pelo que
gressista do lulismo16. Basso (2010) denomina racismo de Estado, uma parte desses emigrantes brasilei
O que acontecerá para essas pessoas em um cenário que oferece poucas ros retomou ao Brasil com a expectativa de encontrar melhores condições de tra
perspectivas de melhora em curto prazo? Qual será a alternativa para a classe tra balho e de estruturação de vida aqui. geralmente após conseguir juntar uma pou-
balhadora e também para a fração mais favorecida dos estratos médios para su
perar as altas taxas de desemprego e um mercado de trabalho estagnado nos se 17 “[As] migrações passam a refletir não somente o rompimento e tentativa de recomposição de condi
tores público e privado? Como poderão lidar com o enxugamento dos serviços ções efetivas de trabalho, mas singularmente a acumulação de trabalhadores, parte localizada dentro do
públicos, que se tornarão ainda mais escassos e de pior qualidade? E qual será a processo imediato de produção (forma produtiva) e a grande maioria localizada em esferas de trabalho
fora do processo imediato de produção (forma improdutiva), embora a ele estruturalmente subordina
atitude diante do aumento rápido da criminalidade produzida pela própria crise e
da” (Peliano, 1990: 123).
pobreza? 18
Em particular nos tempos atuais de "acentuação do desemprego estrutural’’ e de "tendências de pre-
E claro que essas perguntas implicam a consideração de diversos fatores carizaçào” na "nova morfologia do trabalho” (Antunes. 2013). Segundo destacado por Braga (2012:
e dinâmicas da sociedade brasileira e também de sua relação com o contexto in 19), o precariado. em particular aquele que vive “em condições sociais capitalistas periféricas”, encon-
ternacional. Aqui. gostaríamos tâo somente de chamar atenção para um elemen tra-se “em permanente trânsito entre a possibilidade da exclusão socioeconòmica e o aprofundamento
to que compõe esse cenário e certamente ganhará importância nos próximos da exploração econômica”.
19 Esse período inaugura uma nova dinâmica populacional em relação aos fluxos internacionais de en
anos: a produção de emigrantes brasileiros.
trada e saída de pessoas no país. Nesse contexto, o Brasil foi marcado profundamente pelas migrações
internas campo-cidade e. pela primeira vez na sua história com tradição de imigração, passou a produ
zir mais emigrantes em relação aos imigrantes que recebia. Esses emigrantes buscam uma nova casa,
phncipalmente nos países centrais, com destaque para os Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.
15 Entre 2015 e 2016. produziu-se novos 5 milhões de desempregados no Brasil. Em novembro de 20 Em 2013. segundo dados da Organização Internacional para Migrações (OIM), o Brasil tinha 3 m i
2016. estimava-se em 12 milhões o número de desempregados no país lhões de nacionais vivendo fora do país. E claro que se os brasileiros em situação indocumentada forem
16 Ver Antunes. 2014 e Braga. 2012. considerados, esse número de emigrantes certamente é mais alto.
122 123
pança com os anos de trabalho em um país de moeda forte. De alguma forma, Não se entende aqui. no entanto, que outras formas de resistência e de
esses emigrantes brasileiros que retomaram também foram vítimas da ilusão do reação a esse contexto de crise socioeconômica e política já não estejam em ato,
progressismo. No momento de aquecimento da economia brasileira e diante das principalmente por parte de movimentos de caráter mais espontâneo. Novas for
barreiras da crise e das políticas discriminatórias dos países centrais, o voltar para ças sociais nunca deixaram de surgir nos momentos mais críticos da história e
casa era movido pela esperança de que as coisas estavam de fato mudando no nada impede que elas se juntem àquelas já existentes e mais antigas, renovando-
Brasil e de que tudo sinalizava para a melhora dos problemas estruturais da p o as. para um dia estar à altura dos desafios de um enfrentamento real da estrutura
breza. da violência e das variadas desigualdades. do sistema, para transformá-la e reconstruí-la.
Parte dos emigrantes brasileiros que não retomaram continuou forman Esse tipo de resistência organizada talvez exija uma solução mais difícil e
do uma base de sustentação com suas redes no exterior que é fundamental para mais lenta, por demandar a reconstrução de uma casa sólida para de fato susten
que esses brasileiros possam reemigrar e também para ajudar aqueles que fogem tar a moradia de 200 milhões de brasileiros. Essa reconstrução requer certamente
da crise. Além disso, essas redes assumem uma importância vital no atual contex a consciência de que a fundação dessa nova casa deve ter outra estrutura que
to em que a possibilidade de migrar dentro do circuito legalizado de imigração não a do capitalismo.
(por motivo de trabalho, estudo, casamento, etc.) é para poucos, principalmente Para essa construção, é de fundamental importância nos inspirarmos nas
para aqueles que possuem uma reserva alta de recursos para investir no projeto vozes críticas das periferias que nos ensinam a necessidade de abandono da ilu
emigratório ou para jovens com um perfil alto de qualificação ou de especializa são do progressismo para pensar políticas em todos os âmbitos, que possam efe
ção demandado por setores específicos do mercado de trabalho. tivamente melhorar as condições de vida das populações na periferia. Só assim o
Para a classe trabalhadora brasileira, a imigração indocumentada, com despotismo de mercado - e seus golpes - será combatido, em prol da democra
alto risco de violência e morte, exposta aos empresários das fronteiras, acaba cia e de uma casa mais sólida e igualitária.
sendo a única alternativa de fuga da atual crise brasileira21. Nesse sentido, são
bastante impressionantes os números de brasileiros expostos a esses riscos e hu Referências
milhações para buscar uma nova casa. Se considerado um dos principais desti
nos desses fluxos, os Estados Unidos, é elevada a média de detenções pelo crime ANTUNES, R. “A nova morfologia do trabalho e suas principais tendências’’. Ri
de atravessar as fronteiras americanas de forma indocumentada, segundo repor queza e m iséria do trabalho no Brasil II. São Paulo, Boitempo, 2013.
tagem da Folha de São Paulo (Maisonnave. 2017).
Sem dúvida, essas deportações, o tratamento discriminatório, a explora ____. O s sentid os do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação
ção do trabalho imigrante, o racismo de Estado (Basso, 2010) e as barreiras de do trabalho. São Paulo, Boitempo, 2009.
direitos são sinais concretos de que a casa dos vizinhos, mesmo a de países mais ANTUNES, R.; SANTANA. M. A. “The dilemas of the New Unionism in Brazil:
ricos, também está cheia de rachaduras. Ao começar a enxergar essas rachadu Breakes and continuities”. Latin American perspectives, vol. 1. 2014. pp. 10-
ras. esses brasileiros também entendem que foram tomados pela “obsessão de 21.
migrar*' (Sayad. 1998)22, alimentada por falsas promessas e propagandas das
“oportunidades” de ascensão de vida nesses países. Ao ter contato com a dura BASSO. P. “Uascesa dei razzismo nella crisi globale”. Razzismo di stato: Stati
realidade do trabalho imigrante, essas pessoas sofrem, portanto, uma grande d e Uni ti. Europa. ítalia. Milano, Franco Angeli, 2010a.
silusão. ____. Sviluppo diseguale. migrazioni. politiche migratorie. In: BASSO, Pietro &
PEROCCO. Fabio (Orgs.). Gli immigrati in Europa: D iseguaglianze,
Considerações finais razzismo. lotte. Milano, FrancoAngeli, 2003.
A fuga da casa, mesmo com os riscos e problemas implicados, é, portan ___. Razze schiave e razze signore: I. Vecchi e nuovi razzismi. Milano,
to, uma forma de resistência que está de novo se colocando para os brasileiros. Franco Angeli. 2000.
Fugir da casa que está caindo e gerando o risco de morte é também resistir. BENSAÍD, D. Lo scandalo permanente. In: AGAMBEN, G. et ai In che stato è
la dem ocrazia? Roma: Nottetempo, 2010.
21 Para detalhes, ver Villen. 2016.
22
Essa expressão é utilizada pelo autor para explicar o processo psicológico anterior ao ato de emigrar.
124 125
BRAGA. R. O fim do lulismo. In: JINKINGS. L; DORIA. K.; CLETO, M. Por que _____. Amilcar Cabral e a crítica ao colonialism o. Sào Paulo: Expressào
gritamos o golpe? Sào Paulo: Boitempo, 2016. Popular, 2013.
____. A política do precariado: Do populism o à hegem onia lulista. Sào
Paulo. Boitempo. 2012.
CABRAL. A. A arma da teoria. Unidade e Luta, vol. I e II, Lisboa: Seara
Nova. 1978.
DE CONTI. B. R evelações da crise: as pedras que emergem na maré bai
xa. Brasil Debate. 02.04.2015.
DOS SANTOS, F. L. B. Origens do pensam ento e da p olítica radical na
América Latina. Campinas: Editora da Unicamp, 2016.
FERNANDES, F. A revolução burguesa no Brasil. Sào Paulo, Globo, 2008c.
___________. C apitalism o dependente e cla sses so cia is na América
Latina. Rio de Janeiro, Zahar. 1973.
FANON. F. Em defesa da revolução africana. Lisboa: Sá da Costa. 1980.
LÖWY, M. Da tragédia à farsa: o golpe de 2016 no Brasil. In: JINKINGS, I.; DO
RIA. K.; CLETO, M. Por que gritamos o golpe? Sào Paulo: Boitempo, 2016.
MAISONNAVE. F. O número de brasileiros presos nas fronteiras americanas e
deportados das Bahamas deu um salto desde novembro (2016), més em que
Trump foi eleito. Folha de São Paulo, 01.01.2017.
NKRUMAH. N. Revolutionary Path. London. Panaf, 1980.
PELIANO. J. C. A cum ulação de trabalho e m obilidade do capital. Brasí
lia. UNB. 1990.
PRADO Jr., C. Formação do Brasil contem porâneo: colônia. Sào Paulo:
Publifolha. 2000.
ROLNIK. R. A guerra dos lugares. A colonização da terra e da moradia
na era das finanças. Sào Paulo: Boitempo, 2015.
SAMPAIO JR.. P. Jornadas de junho. A revolta popular em debate. Sào
Paulo: ICP, 2014.
SASSEN, S. Expulsions. Brutality and Com plexity in the Global Econ
omy. Cambridge/Massachusetts/London: Harvad. 2014.
SAYAD, A. A im igração ou os paradoxos da alteriadade. Sào Paulo:
Edusp. 1998.
VILLEN. P. "Fronteiras porosas” e a explosào da mobilidade indocumentada.
Argumentum, v. 8. p. 29-39. 2016.
127
PARTE II
O GOLPE PARLAMENTAR E O ESTADO NO BRASIL
129
ç 0 iív w /m -A /)? /
Giovanni Alves é doutor em ciências sociais pela Unicamp. livre-docente em sociologia e professor da
Unesp, campus de Marflia. É pesquisador do CNPq com bolsa-produtividade em pesquisa e coordena -
dor da RET (Rede de Estudos do Trabalho [Link] ) e do Projeto Tela Crítica Cine-
Trabalho ([Link]). E autor de vários livros e artigos sobre o tema trabalho e sociabilidade, e n
tre os quais “O novo (e precário) mundo do trabalho: reestruturação produtiva e crise do sindicalismo
(Boitempo Editorial, 2000)”, "Trabalho e subjetividade: O espírito do toyotismo na era do capitalismo
manipulatório” (Boitempo Editorial, 2011), "Dimensões da Precarização do trabalho” (Ed. Praxis,
2013) e "Trabalho e neodesenvolvimentismo” (Ed. Praxis, 2014). E-mail: [Link]@[Link] .
Home-page: [Link]
* Consideramos o "neodesenvolvimentismo” como a frente de coalizão política liderada pelo PT (Parti -
do dos Trabalhadores) que elegeu e reelegeu em 2002 e 2006, Luís Inácio Lula da Silva; e elegeu e
reelegeu Dilma Rouseff em 2010 e 2014, respectivamente. O neodesenvolvimentismo possuía como
eixo programático, o crescimento com inclusão social; e como alma política, o lulismo. entendido como
sendo a estratégia de conciliação de classe baseada num profundo pragmatismo político visando a con -
quista (e preservação) do governo.
130 131
lismo, signo contraditório da política do neodesenvolvimentismo, demonstrou crescimento da economia com valorização do salário-mínimo e inclusão social. A
ainda possuir folego para reeleger Dilma Rousseff em 2014 ainda em aliança his desaceleração brusca da economia na primeira metade da década de 2010, num
tórica com o PMDB. O golpe como pulsão ontogenética da formaçào histórica cenário de queda de investimentos produtivos por conta da queda da taxa de lu
brasileira só se manifestou com a crise da economia brasileira no bojo da longa cro na esfera produtiva devido a pressão dos custos salariais (a valorização do sa
depressão do capitalismo global3. lário-mínimo e o baixo desemprego, favorecendo o poder de barganha sindical),
Entretanto, o tempo histórico do capitalismo global mudou. A ressaca da corroeu o orçamento público, abatido pela queda da arrecadação devido a desa
profunda crise capitalista de 2008 que abateu as economias capitalistas centrais celeração da economia e a política de subsídios fiscais para empresários visando
{EUA. Uniáo Europeia e Japào); logo se disseminou pelo sistema-mundo do ca incentivar investimentos produtivos capazes de levantar a economia brasileira (o
pitalismo periférico - incluindo a China que desacelerou sua economia em 2014. que não ocorreu). A crise fiscal iria expor os limites estruturais do neodesenvolvi
derrubando preços das commodities e alterando a conjuntura da economia dos mentismo no contexto de crise da economia capitalismo no Brasil.
países capitalista ditos emergentes, principalmente na última metade da década No plano da política institucional, a Presidenta Dilma Rousseff, eleita em
de 2010. A partir da profunda recessão capitalista de 2008. a ofensiva neoliberal 2010, demonstrou ser pouco afeita à negociação política. Mulher dura na con
assumiu uma dimensáo global. Em vez de ser abatido pelo crash global de 2008. versação com o público e aliados da direita do PMDB, mas corajosa na intencio
o capital financeiro e as políticas neoliberais. pelo contrário, tomaram-se hege nalidade política de levar adiante uma nova matriz macroeconômica, começou
mônicos na resposta à crise das dívidas soberanas dos países capitalistas afetados seu primeiro governo adotando políticas de confronto com setores rentistas que
pelo rombo orçamentário provocado pelo salvamento dos bancos falidos com o constituíam o núcleo duro do bloco do poder do Estado neoliberal no Brasil.
estouro da bolha especulativa. Por exemplo, na Uniáo Europeia, as políticas de Como diz o ditado popular: “cutucou onça com vara curta”. Em 2012, Dilma re
austeridade neoliberal demonstraram que o capital financeiro possui capacidade duziu com vigor a taxa básica de juros da economia (Selic) e sinalizou com gas
política para dobrar governos - inclusive governos socialistas (por exemplo. Fran tos públicos numa conjuntura de crise da economia mundial. Com Guido Mante-
cois Holland, na França e Alexis Tsipras. na Grécia). ga no Ministério da Fazenda, Dilma prosseguiu a política anticíclica adotada pelo
A Presidenta Dilma Rousseff. eleita em 2010. iniciou seu governo numa governo Lula em 2009-2010, verdadeiro terror para os economistas neoliberais
conjuntura de crise da economia global. Em dez anos de neodesenvolvimentis que cultuam a Responsabilidade Fiscal. Entretanto, como salientamos acima, a
mo. o Brasil, por conta da apreciação cambial, herdada da gestão Henrique Mei conjuntura mundial era outra: a desaceleração da China e o fim dos ciclos de
reles no Ministério da Fazenda do primeiro governo Lula (2003-2006). tom ou- commoditíes debilitaram as finanças públicas, impondo limites às políticas anti-
se uma economia desindustrializada e de pauta exportadora baseada em com cíclicas adotadas pelo Ministro da Fazenda Guido Mantega em 2009, que trans
modities (agronegócio. mineração e petróleo) principalmente para a China. En formaram a crise financeira de 2008 no Brasil apenas uma “marolinha”. Num ce
tretanto. na primeira metade da década de 2010, a persistência da crise da Uniáo nário de desaceleração da economia brasileira, aumento da inflação e juros em
Europeia, a desaceleração brusca da China e a queda dos preços das commodj- queda, a burguesia brasileira, de espinha-dorsal predominantemente rentista. es
ties e petróleo num cenário de profunda crise do capitalismo global, colocou peculativa e parasitária, exigiu, nos bastidores do Palácio do Planalto, em 2012,
imensas dificuldades para o projeto neodesenvolvimenta brasileiro baseado no mudanças na gestão da economia brasileira. Os empresários unidos em tomo da
FIESP (Federação da Indústria do Estado de São Paulo) e FEBRABAN (Federa
3 A persistência da pulsão histórica do golpismo no política brasileira visa deter a entrada em cena do
ção dos Bancos Brasileiros) pleiteavam naquele momento, mudanças drásticas
povo brasileiro no palco da história da Nação. E um traço indelével da tradição histórica oligárquica na política econômica: redução de gastos públicos, cortes em Programas Sociais,
que marca a política e a sociedade brasileira. A pulsão histórica do golpismo na política brasileira está redução de direitos trabalhistas e aumento dos juros para combater inflação. Era
arraigada profundamente na alma dos “donos do Poder", como diria Raymundo Faoro. O Brasil é um a pauta-bom ba da burguesia brasileira para sair da crise do capitalismo brasilei
país de capitalismo retardatário, com industrialização hipertardia e formação colonial-escravista de via
ro. Enfim, a burguesia brasileira lançou no centro do palco do neodesenvolvi
prussiana. A burguesia brasileira, ontogeneticamente oligárquica. nunca colocou para si o Projeto de
Nação ou inclusão social dos pobres e miseráveis na economia de mercado e no Estado democrático mentismo, a luta de classes.
com direitos sociais - o que expõe a estupidez política (ou ingenuidade medíocre) da conciliação de Como “animais políticos”, Dilma e Lula se recusaram a promover, de
classe de cariz social-democrata assumida pela direção hegemônica do PT. Os ricos nunca iriam rom imediato, a virada neoliberal da economia às vésperas das eleições de 2014. pois
per. de modo Republicano, com o passado oligárquico. A pulsão golpista contra governos democráti obviamente seria um suicídio político. A conciliação de classes tinha limites. Mas.
co-populares. tal como uma crônica de morte anunciada, iria se manifestar, mais cedo ou mais tarde.
Eis nosso lastro histórico que teimamos em esquecer, mas cujo passado persiste em voltar, tal como o logo após vencer as eleições de 2014 contra Aécio Neves (PSDB), Dilma Rous
espectro que persegue Hamlet na peça clássica de William Shakespeare. seff, com pequena margem de diferença de votos, pressionada pelo imperativo
132 133
da governabilidade e visando acalmar o bloco no poder neoliberal no seio do Es A “guerra de posição” conduzida pela direita ideológica neoliberal. teve
tado brasileiro, indicou para Ministro da Fazenda, o neoliberal Joaquim Lévy, mais eficácia política no momento histórico da crise da economia brasileira - sem
homem do Bradesco. e que fizera parte da equipe de Henrique Meirelles no pri desprezar também os flagrantes erros táticos do governo Dilma no xadrez políti
meiro governo Lula. com o objetivo de promover o ajuste fiscal. co. Parafraseando Lula, diríamos que “nunca na história desse país”, um gover
Entretanto, o tempo histórico era outro - nào estávamos em 2003. mas no errou tanto em tào pouco tempo (indicações desastrosas para pastas ministeri
sim em 2013; o “núcleo duro” da grande burguesia brasileira, imbuída de cons ais. adoção de ajuste fiscal neoliberal rompendo com o discurso de campanha da
ciência de classe oligárquica, verdadeiros donos do Poder, decidiu nâo mais que candidata Dilma, inoperância do Ministro da Justiça no âmbito dos vazamentos
rer o PT no governo (além é claro, dos interesses políticos escusos imediatos da da Operação Lava-Jata pela Polícia Federal, etc).
banda mafiosa do PMDB em deter a Operação Lava-Jato). Em 2013, o bloco de Portanto, o ano de 2013 foi o atmus horribilis dos governos neodesen-
poder da República, incrustado no Estado neoliberal. forma histórica do Estado volvimentistas. O calor das manifestações de massa, expôs os limites do neode-
político do capital, que acolheu durante dez anos os governos neodesenvolvi- senvolvimentismo e fez o “ovo da serpente” quebrar-se; e de lá saíram as víboras
mentistas, se reaiüculou, deliberando nâo querer mais a Presidência da Repúbli do fascismo social e político que se disseminaram pelo País. Foi pura ilusão (ou
ca sob o comando do PT. O economista Márcio Pochmann sintetizou numa fra idiotia política) vangloriar as jornadas de junho de 2013 como fez certa suposta
se, a tragédia do lulismo: “Os ricos nâo nos querem mais”. Golpear o PT no go esquerda revolucionária. Naquele momento histórico de disputa na sociedade ci
verno e na sociedade civil foi uma decisão suprema das oligarquias que vil, a direita ideológica neoliberal comandou a pauta das ruas; e lançou efetiva
compõem o bloco no poder do capital no Brasil; e que historicamente controlam mente a cruzada dos “coxinhas”, a classe média indignada e inquieta, que cul
há séculos, o sistema de produção e reprodução social (industriais, financistas, os pou o governo Dilma e o PT pela corrupção no País. Foi assim que, ensaiou-se
donos da Grande Mídia e o Poder Judiciário); e o sistema de representação p o em 2013, a rearticulaçào do bloco no poder oligárquico capaz de implodir a ar
lítica (o sistema político oligárquico). quitetura política do lulismo.
Desde a derrota de Lula da Frente Brasil Popular nas eleições presidenci A trágica vitória de Dilma em 2014 - vitória de Pirro - ocorreu sob a cri
ais de 1989, a direita brasileira - a direita ideológica neoliberal (PSDB e DEM); e se profunda da institucionalidade política e imensas dificuldades na economia
a centro-direita fisiológica e mafiosa representada pelo PMDB e partidos-satéli- brasileira, provocada pelo boicote de investidores e pela ofensiva midiática disse
tes. que representavam há pouco tempo, a base aliada do Palácio do Planalto minando o caos. Havia uma perfeita orquestração do golpismo. O governo e o
como avalistas da governabilidade, voltaram se articular como partido-guardiâo PT pareciam paralisados e bestificados pelo cerco golpista. A derrota inesperada
da ordem oligárquica no Brasil, os verdadeiros donos do Poder. da direita neoliberal. representada pelo PSDB em 2014. acirrou os ânimos da re
De fato. a partir do ano de 2013, começou a corrosão e fratura da base ação conservadora. Mas o verdadeiro golpe foi a eleição da maioria política con
de sustentação política do governo do PT no Congresso Nacional. Para começar, servadora e reacionária no Congresso Nacional, sob a liderança do PMDB e alia
ocorreu o rompimento do PSB, que lançou candidato próprio nas eleições à Pre dos do Deputado Eduardo Cunha. Coube a Eduardo Cunha implodir o centro
sidente da República (Eduardo Campos); e. aos poucos, verificamos o afasta político no qual se sustentava a estratégia do neodesenvolvimentismo lulista. En
mento progressivo de parlamentares do PMDB da base govemista. Por exemplo, fim, naquele momento, o espírito golpista encontrou o corpo político monstruoso
depois das jornadas de julho de 2013. Dilma propôs a Reforma Política, incomo - verdadeiro Frankenstein - da maioria política conduzida por Eduardo Cunha
dando o PMDB. partido do vice-presidente da República. Michel Temer. no Congresso Nacional.
Na verdade, ocorreu, pouco a pouco, um processo de cooptaçào da cen Em tomo de si, Eduardo Cunha, com a conivência ativa do vice-presi
tro-direita fisiológica e mafiosa do PMDB e partidos-satélites. que compunham a dente Michel Temer, construiu uma maioria política em sua maior parte, indicia
base-aliada do governo, pela direita ideológica neoliberal (PSDB e DEM), que dos por corrupção, dispostos a romper com a base de sustentação do governo, e
comandava na época, a Operação Lava-Jato. operação judicial sucessora do compor-se pragmaticamente com a direita ideológica neoliberal, tábua de salva
Mensalào no STF; e também a ofensiva midiática da Grande Imprensa, tendo ção de bandidos e canalhas da República oligárquica (no íntimo da canalha do
como articuladora-mor. a TV Globo. Depois de conquistar a sociedade civil, com PMDB - e inclusive do PSDB, o telos político de esvaziar a Operação Lava-Jato,
o poder midiático (de)formando e manipulando a opinião pública, a direita ideo posto que ela cumprira, após o golpe, sua finalidade escusa - nào combater a
lógica neoliberal conquistou enfim, a sociedade política (o Congresso Nacional) e corrupção endêmica da política brasileira, mas “destruir” o PT e quiçá, prender
o aparelho de Estado (o Poder Judiciário, PGR, MPF e PF). Lula).
134 133
Da articulação política que deu corpo ao espírito reacionário da oposi sociedades complexas onde a luta de classes se agudiza. O fenômeno da judicia-
ção neoliberal, surgiu a ambição do PMDB e seus cálculos políticos. Os capi do lizaçào das relações sociais e da própria política encontra como complemento
PMDB. encurralado pelas investigações da Operação Lava Jato. viram-se pressi manipulatório, a politizaçào da Justiça. Mas não é uma politizaçào qualquer, mas
onados. no jogo do toma lá-dá cá da política brasileira, a sedimentar a articula sim a politizaçào encoberta pela excepcionalidade hermenêutica da Moralidade
ção sinistra da Direita neoliberal com a Direita fisiológica e corrupta. Era ironica togada. Tal como a Mídia manipula a Noticia, o Ministro do Supremo manipula
mente. a “Ponte para o Futuro” - título do programa reacionário do PMDB lan a Lei de acordo com a conveniência do staíus quo. Por isso não interessa demo
çado em 2013. nascido como força de oposição ao governo do PT. No senso do cratizar o Poder Judiciário. Nem os Meios de Comunicação de Massa. Eles preci
oportunismo, a constelação mafiosa do PMDB e partidos-satélites, foram obriga sam ser permeáveis às forças da oligarquia dominante. Consumado, o Golpe de
dos a aderir ao golpe almejado pela oposição ideológica neoliberal em troca da 2016 no Brasil, que teve como experimento preliminar o Golpe paraguaio, tor-
prometida “impunidade” de seus capi. verdadeira quadrilha que tomou de assal nou-se um interessante objeto de estudo da ciência política, verdadeira lição his
to o Palácio do Planalto (vice-presidente Michel Temer. Senador Renan Calhei- tórica sobre como deve atuar o imperialismo quando não consegue depor pelo
ros e Deputado Eduardo Cunha, todos indiciados por corrupção). Na verdade, voto governos indesejáveis para Washington.
tratou-se de mero acordo tácito não explícito e provavelmente à mercê dos des O novo arco do poder (a aliança política PMDB-PSDB) significou o
dobramentos políticos e disputas no seio da coalizaçào oposicionista golpista. grande feito histórico da República oligárquica que ressurgiu das cinzas do lulis-
A articulação golpista visando estuprar a Constituição Federal foi realiza mo, que acreditou construir um projeto de inclusão social num país de pulsào
da às claras, dentro do aparelho de Estado brasileiro, contando inclusive com a histórica golpista. Como a caixa de Pandora, o lulismo disseminou na sociedade
conivência ativa (e passiva) do STF (Supremo Tribunal Federal). Enfim. Procura brasileira, o inadmissível na ordem oligárquica: a cultura dos direitos sociais, não
doria Geral da República. Ministério Público Federal. Supremo Tribunal Federal, apenas do povo brasileiro que trabalha, mas das minorias e maiorias discrimina
e inclusive a Polícia Federal, tomaram-se instâncias de desestabilizaçào ao statu das: mulheres, negros, pobres, homossexuais e transexuais. O desnudamento do
quo do governo Dilma. A conspiração corria às claras na Triste República. Enfim, Estado neoliberal. oculto desde o governo FHC, expôs de modo candente, a
a Operação Lava-Jato, na pessoa do Juiz Sérgio Moro, teve a gloriosa função imoralidade da miséria política brasileira. O signo contraditório do lulismo foi
histórica de ser o aríete de provocação para que a direita fisiológica e mafiosa. sustentar governos neodesenvolvimentistas comprometidos com a inclusão social
incrustada no PMDB e partidos-satélites. se aliassem pragmaticamente, com a di no interior do Estado neoliberal. A reação do bloco de poder burguês incrustado
reita ideológica neoliberal. compondo, deste modo. a maioria política sob a con no Estado neoliberal. adquiriu maior proporção nas condições de crise da econo
dução do Dep. Eduardo Cunha (PMDB), artífice da paralisia política do governo mia brasileira em 2013, tor