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DANIEL SARMENTO*
1. Introdução
No mundo todo, a questão relativa ao tratamento jurídico que deve ser conferido
ao aborto desperta polêmicas intensas e até passionais, pondo em campos opostos
os defensores do direito à escolha da mulher e os que pugnam pelo direito à vida
do nascituro. As divergências são profundas e não se circunscrevem aos argumentos
jurídicos, morais ou de saúde pública, envolvendo também crenças religiosas. E, no
Brasil, não teria como ser diferente. Aqui, vigora na matéria o Código Penal, editado
em 1940, que optou pela criminalização do aborto nos seus arts. 124 a 128.
No momento, discute-se a revisão destas normas. Neste sentido, o Governo
brasileiro, em louvável iniciativa, instituiu Comissão Tripartite, composta por re-
I Agradeço a acadêmica Maíra Fernandes pelo excepcional trabalho de pesquisa realizado visando
a elaboração deste texto.
* Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UERJ, Professor Adjunto de Direito Constitu-
cional da UERJ (Graduação. Mestrado e Doutorado). da Fundação Getúlio Vargas (Pós-Gradua-
ção),da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro e da Escola Superior de Advocacia
Pública. Procurador Regional da República.
A proposta do movimento feminista está traduzida pela posição assumida pelas Jornadas
Brasileiras para o Aborto Legal e Seguro. que defende a legalização da interrupção voluntária da
gestação nas primeiras 12 semanas de gestação. com ampliação do prazo para 20 semanas. em caso
de gravidez resultante de violência sexual. e em qualquer momento. nas hipóteses de risco à vida
ou grave risco à saúde da gestante. ou de grave anomalia fetal incompatível com a \ ida extra-uterina.
3 Cf. Dussi[> Aborro: Morres PrtTisÍl·ei.\ t' EI'ir(Íl'ei.\. Belo HoriLOnte: Rede: FClllllli,ta de Saúdc.
2005.
.. Cf. S/w/'illg Respollsabilit\': WOIll t'1l , Saci"'.\' alld Abo/'rir!l1 Wo/'Idu·idt'. The Alan Guttmacher
Institute. 1999.
5 Cf. BOZON. Michel. Suciologia da Sexualidade. Rio de Janeiro: FGV Editora. 2004: e GID-
DENS. Anthony. A Tralls!u/'lIlaçüo da Illrilllidade. Trad. Magda Lopes. São Paulo: UNESP. 1992.
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mais como pensar no tema da interrupção voluntária da gravidez sem levar na devida
conta o direito à autonomia reprodutiva da mulher, questão completamente alheia
às preocupações da sociedade machista e patriarcal do início da década de 40 do
século passado. Parece assente que, embora esta autonomia não seja absoluta, ela
não pode ser negligenciada na busca da solução mais justa e adequada para a
problemática do aborto, seja sob o prisma moral, seja sob a perspectiva estritamente
jurídica.
Neste contexto, a revisão da legislação sobre aborto, elaborada sem qualquer
atenção em relação aos direitos humanos básicos da mulher, muito mais do que uma
mera opção política do legislador, torna-se um verdadeiro imperativo constitucional. E
o debate jurisdicional sobre a validade destas normas já se iniciou. através da corajosa
iniciativa da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde - CNTPS. que propôs
perante o Supremo Tribunal Federal, em outubro de 2004, a Argüição de Descumpri-
mento de Preceito Fundamental n° 54, sob o patrocínio do jurista e advogado Luís
Roberto Barroso, questionando a constitucionalidade da incidência do Código Penal. na
hipótese de interrupção da gravidez de feto anencéfalo 6 .
Vale destacar que. desde a década de 60 do século passado. se assiste. no mundo
todo um fenômeno de liberalização da legislação sobre o aborto. Em sintonia com
os novos valores sociais, e revelando uma crescente sensibilidade diante dos direitos
fundamentais das mulheres, legisladores ou Tribunais Constitucionais de incontáveis
países como Estados Unidos, Alemanha. França. Inglaterra. Itália. Espanha. Canadá.
dentre tantos outros, promoveram significativas modificações em suas ordens jurí-
dicas, legalizando a interrupção voluntária da gravidez, desde que realizada dentro
de determinados prazos ou sob determinadas indicações. Neste contexto. a legislação
brasileira caracteriza-se hoje como uma das mais severas, rigorosas e anacrônicas
de todo o mundo.
Por outro lado, a alteração do tratamento legal conferido à interrupção voluntária
da gravidez constitui também o cumprimento de compromissos internacionais, como
os estabelecidos no Plano de Ação da Conferência do Cairo, sobre População e
Desenvolvimento, realizada em 1994, e na Plataforma de Ação da IV Conferência
Mundial da Mulher, ocorrida em Beijing, em 1995, nas quais ficou assentado que a
questão do aborto deveria ser tratada pelos países como problema de saúde pública
e não pela ótica criminal.
6 A belíssima petição inicial da ação está reproduzida em BARROSO. Luís Roberto. Temas de
Direito Constitucional 111. Rio de Janeiro: RENOVAR. 2005. pp. 559-581.
Destaque-se que. por 7 votos a 4. o Supremo Tribunal Federal. resolvendo questão de ordem
levantada pelo Procurador-Geral da República. decidiu no sentido do cabimento da referida ADPF.
refutando o argumento de que só o legislador poderia criar uma nova hipótese de aborto legal.
Entendeu o Supremo que na a~ão não se busca\a decisão do Tribunal como legislador positivo.
mas fixação de interpretação conforme à Constituição. que eliminasse. por contrariedade à Cons-
tituição Federal. notadamente aos seus princípios da dignidade da pessoa humana. e da proteção à
liberdade. à privacidade e à saúde da gestante. a exegese de dispositivos do Código Penal que
implicassem no reconhecimento da tipicidade da conduta de mulher e dos profissionais de saúde
que realizassem a interrupção da gravidez após a constatação médica da anencefalia fetal
patologia grave. considerada absolutamente incompatível com a vida extra-uterina.
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Sem embargo, é certo que, do outro lado da balança, existe uma justa e legítima
preocupação com a vida do embrião. Embora haja ampla discordância sobre como
qualificar a situação jurídica e moral do nascituro, é indiscutível que não se deve
desconsiderar este importantíssimo elemento no equacionamento do tratamento legal
a ser dado para o caso. Portanto, se não parece correto ignorar os direitos da mulher
na fixação da solução normativa para este grave e delicado problema - como fez
o legislador de 1940 - , tampouco o seria negligenciar os valores concernentes à
vida do embrião ou feto. Neste ponto, o entendimento que vem prevalecendo nas
decisões dos Tribunais Constitucionais de todo o mundo é o de que a vida do
nascituro é protegida pela Constituição, embora não com a mesma intensidade com
que se tutela o direito à vida das pessoas humanas já nascidas. E. por razões de
ordem biológica, social e moral, tem-se considerado também que o grau de proteção
constitucional conferido à vida intra-uterina vai aumentando na medida em que
avança o período de gestação.
Assim, sob o prisma jurídico, o caso parece envolver uma típica hipótese de
ponderação de valores constitucionais, em que se deve buscar um ponto de equilíbrio,
no qual o sacrifício a cada um dos bens jurídicos envolvidos seja o menor possível,
e que atente tanto para as implicações éticas do problema a ser equacionado, como
para os resultados pragmáticos das soluções alvitradas.
Com base nestas premissas, foi elaborado o presente estudo, que pretende
abordar o tema do aborto sob a perspectiva jurídico-constitucional. mas devidamente
ilustrada e enriquecida pelos aportes da Ética, da Saúde Pública e da Sociologia.
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norte-americana, mas no famoso caso Roe v. Wade 8• julgado pela Suprema Corte
em 1973. entendeu-se que o direito à privacidade. reconhecido por aquele Tribunal
no julgamento do caso Griswold v. Connecticut. de 1965, envolveria o direito da
mulher de decidir sobre a continuidade ou não da sua gestação. Com base nesta
orientação, a Suprema Corte, por 7 votos a 2, declarou a inconstitucionalidade de
uma lei do Estado do Texas, que criminalizava a prática do aborto a não ser nos
casos em que este fosse realizado para salvar a vida da gestante. Da decisão, redigida
pelo Juiz Harry Blackmun, vale reproduzir o seguinte trecho:
Unidos. Veja-se. em especial, DWORKIN, Ronald. O Domínio da Vida. Trad. Jefferson Luiz
Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 2003; TRIBE. Laurence. American Constilllôonal Law. 2nd .
Ed .. Mineola: The Foundation Press. 1988. pp. 1340-1362: NOV AK. John E. & ROTl iNDA. Ronal
D. Constilllcional Law. SI. Paul: West Publishing Co .. 1995, pp. 809-861; GINSBURG. Ruth Bader.
"Some Thoughts on Autonomy and Equality in Relation to Roe v. Wade". In: 63 North Caroline
Law Review 375-386. 1985; ELY, John Hart. "The Wages of the Crying Woolf: A Coment on
Roe v. Wade". In: 82 Yale Law Jornal, 920-939, 1973.
8 410 U.S. 113,93 S.Ct. 705 (1973).
9 Tradução livre do autor.
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partir do qual já existiria viabilidade da vida fetal extra-uterina - , poderiam os
Estados proibir a realização do aborto, objetivando a proteção da vida potencial do
nascituro, a não ser quando a interrupção da gravidez fosse necessária para preser-
vação da vida ou da saúde da mãe.
Por honestidade intelectual, é mister reconhecer que a referida decisão provocou
na época, e ainda provoca, até hoje, intensa polêmica nos Estados Unidos. Além da
crítica substantiva relacionada ao resultado atingido, foram levantadas fortes obje-
ções contra a legitimidade democrática de um tribunal não eleito para decidir questão
tão controvertida, sobrepondo a sua valoração àquela realizada pelo legislador, tendo
em vista a ausência de qualquer definição no texto constitucional sobre a matéria 111.
Sem embargo, apesar dos esforços dos militantes do grupo Pro-Li/e e de sucessivos
governos do Partido Republicano, no sentido de forçar uma revisão deste precedente,
ele, nas suas linhas gerais, ainda hoje se mantém em vigor nos Estados Unidos.
É certo que em decisões posteriores, como Planned Parenthood v. Casey li,
proferida em 1992, a Suprema Corte flexibilizou o critério fundado no trimestre da
gestação, passando a admitir proibições ao aborto anteriores ao 3° trimestre, desde
que já caracterizada a viabilidade fetal extra-uterina.
É ainda digno de nota que a Suprema Corte reconheceu a inconstitucionalidade
de lei que condicionava o exercício do direito ao aborto ao consentimento do pai do
nascituro l2 . Ela admitiu, porém, a exigência de consentimento dos pais de gestante
menor de idade, mas apenas se a legislação contemplar a possibilidade de suprimento
judicial deste consentimento, a ser concedido quando se verifique que a gestante é
madura o suficiente para decidir sozinha, ou quando se conclua que a interrupção
da gravidez atende aos seus interesses I3 . Este procedimento judicial deve ser sigiloso
e suficientemente célere de modo a não retardar em excesso o exercício do direito
pela gestante menor de idade.
10 Esta é a crítica levantada, dentre tantos outros, por EL y, John Hart, em "The Wages 01' the
Crying Wolf ( ... )", op. cit. Ronald Dworkin rebate esta objeção, que tem a ver com o chamado
caráter" contramajoritário" da jurisdição constitucional, argumentando que, em matéria de tutela
de direitos fundamentais, os juízes e tribunais devem estar autorizados a realizarem uma '"leitura
moral" da Constituição, interpretando construtivamente as suas cláusulas mais gerais, visando a
proteção dos cidadãos em face do eventual arbítrio das maiorias legislativas. Para ele. esta atividade
não seria antidemocrática pois a democracia tem como pressuposto a garantia de direitos funda-
mentais. Veja-se, a propósito. DWORKIN. Ronald. '"The Moral Reading of the Majoritarian
Premise". In: Freedol1l 's La\\': the Moral Reading of rhe American C(J/lsrirwion. Cambridge:
Harvard University Press. 1996, pp. 01-38.
1I 112 S.Ct. 2791. Vale notar que neste caso houve uma maioria mais'" apertada'" de 5 votos a 4
favorecendo o direito ao aborto e mantendo a orientação básica firmada em Rol' \ Wade. Quatro
juízes da Suprema Corte dispuseram-se a rever aquele precedente para negar a existência do direito
de escolha da gestante à interrupção da gravidez, Veja-se, a propósito, NOV AK, John E. &
ROTUNDA, Ronald D" op, cit., pp, 817-822,
12 Planned Parent!zood of Central Missol/ri v. Danforth. 428 U.S.52. (1976).
13 Cf. NOV AK. John E. & ROTUNDA, Ronald D., op. cir., pp. 835-836.
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Todavia, a força desta orientação jurisprudencial em favor dos direitos repro-
dutivos das mulheres restou comprometida em face da orientação da Suprema Corte,
firmada em Harris v. McRae l4 , e reiterada em casos subseqüentes, no sentido de que
o Estado não está obrigado a realizar abortos gratuitamente na rede pública de saúde
ou a arcar com os respectivos custos, mesmo tratando-se de mulheres carentes,
incapazes de suportar os ônus econômicos inerentes aos procedimentos médicos
necessários. Tal entendimento, é bom que se registre, deve-se não a qualquer pro-
blemática específica atinente ao aborto, mas sim à visão dominante nos Estados
Unidos, de que os direitos fundamentais constitucionalmente garantidos são exclu-
sivamente direitos de defesa contra o Estado, que não conferem ao cidadão a
possibilidade de reclamar prestações positivas dos poderes públicos em seu favor l5 .
2.2. França
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daquela Convenção. De acordo com Louis Favoreau e Laic Philip. o Conselho de
Estado, na referida decisão, partiu do princípio de que "a vida e a pessoa existem
antes do nascimento, mas que o direito correlativo que as garante não deve ser
considerado como absoluto "17.
Em 1979, as normas da lei francesa de 1975 foram tornadas definitivas. Poste-
riormente, em 1982, foi editada outra lei prevendo a obrigação da Seguridade Social
francesa de arcar com 70% dos gastos médicos e hospitalares decorrentes da inter-
rupção voluntária da gravidez l8 .
E, mais recentemente, em 2001, foi promulgada a Lei 2001-588, que voltou a
tratar do aborto e, dentre as suas principais inovações, ampliou o prazo geral de
possibilidade de interrupção da gravidez, de 10 para 12 semanas, e tornou facultativa
para as mulheres adultas a consulta prévia em estabelecimentos e instituições de
aconselhamento e informação, que antes era obrigatória. O Conselho Constitucional
foi mais uma vez provocado e manifestou-se no sentido da constitucionalidade da
norma, afirmando, na sua Decisão n. 2001-446, que .. ao ampliar de 10 para 12
semanas o período durante o qual pode ser praticada a interrupção voluntária de
gravidez quando a gestante se encontre numa situação de angústia, a lei, considerando
o estado atual dos conhecimentos e técnicas, não rompeu o equilíbrio que o respeito
à Constituição impõe entre, de um lado, a salvaguarda da pessoa humana contra toda
forma de degradação, e, do outro, a liberdade da mulher. que deriva da Declaração
dos Direitos do Homem e do Cidadão" I~.
2.3. Itália
"Considera a Corte que a tutela do nasci turo ... tenha fundamento constitu-
cional. O art. 31, parágrafo segundo, da Constituição impõe expressamente
a 'proteção da maternidade' e, de forma mais geral, o art. 2 da Constituição
reconhece e garante os direitos invioláveis do Homem, dentre os quais não
pode não constar .. , a situação jurídica do nascituro.
E, todavia, esta premissa - que por si justifica a intervenção do legislador
voltada à previsão de sanções penais - vai acompanhada da ulterior con-
sideração de que o interesse constitucionalmente protegido relativo ao nas-
cituro pode entrar em colisão com outros bens que gozam de tutela consti-
tucional e que, por conseqüência, a lei não pode dar ao primeiro uma
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prevalência total e absoluta, negando aos segundos adequada proteção. E é
exatamente este o vício de ilegitimidade constitucional que, no entendimento
da Corte, invalida a atual disciplina penal do aborto ...
Ora, não existe equivalência entre o direito não apenas à vida, mas também
à saúde de quem já é pessoa, como a mãe, e a salvaguarda do embrião, que
pessoa ainda deve tornar-se.,, 2o Diante desta decisão, o legislador italiano
editou, em 1978, a Lei n°. 194, que regulamentou detalhadamente o aborto.
De acordo com a referida lei, a gestante pode, nos primeiros noventa dias
de gravidez, solicitar a realização do aborto em casos: (a) de risco à sua
saúde física ou psíquica; (b) de comprometimento das suas condições eco-
nômicas, sociais ou familiares; (c) em razão das circunstâncias em que
ocorreu a cOllcepção; 011 (d) em casos de má-formação fetal. Nestas hipó-
teses, antes da realização do aborto, as autoridades sanitárias e sociais
devem discutir com a gestante, e, se esta consentir, com o pai do feto,
possíveis soluções para o problema enfrentado, que evitem a interrupção
da gravidez. Afora casos de urgência, foi estabelecido também um intervalo
mínimo de 7 dias entre a data da solicitação do aborto e sua efetiva
realização, visando assegurar o tempo necessário para a reflexão da ges-
tante.
2.4. Alemanha
20 Tradução livre do autor. O acórdão pode ser obtido em Giurisprudenza Cosliluzionalc, Ano XX,
1975,p.117etseq.
21 Giurisprudenza Costituzionale, Ano XXVI, 1981, sentenza 108, fase. 06, p. 908 et seq.
22 Giurisprudenza Costituzionale, Ano XLII, 1997, sentenza 35, fase. OI, p. 281 et seq.
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esta lei foi ajuizada uma ação abstrata de inconstitucionalidade perante o Tribunal
Constitucional Federal, que veio a ser julgada em 1975. 23 .
Nesta famosa decisão, conhecida como caso Aborto I, a Corte rechaçou a
alegação de que o direito à vida só começaria com o nascimento, afirmando que.
antes disso, o feto já é "um ser em desenvolvimento", dotado de dignidade e
merecedor de proteção constitucional, a qual deveria iniciar-se, de acordo com
critérios biológicos de prudência, a partir do 14° dia de gestação - momento
aproximado em que se dá a nidação do óvulo no útero materno. O Tribunal reco-
nheceu a relevância do direito à privacidade da mulher grávida em questões relativas
à procriação, mas afirmou que, numa ponderação, este direito deveria ceder diante
do direito à vida do feto, a não ser em certas situações especiais, como risco à vida
ou à saúde da gestante. má-formação fetal. situação social dramática da família e
gravidez resultante de violência sexual.
Firmada esta premissa, assentou a Corte que o legislador tinha a obrigação
constitucional de proteger o direito à vida do feto. Por isso, a descriminalização do
aborto, tendo em vista a relevância do bem jurídico em jogo. não poderia ser operada.
a não ser nas hipóteses específicas acima mencionadas. Diante disso. o Tribunal
reconheceu. por maioria. a inconstitucionalidade da lei questionada.
Assim. em 1976 foi alterada a legislação para que se conformasse com a decisão
°
da Corte Constitucional. A nova norma proibia e criminalizava aborto, em regra,
mas contemplava diversas exceções ligadas não só ao risco à saúde e à vida da mãe,
mas também a casos de patologias fetais, violação e incesto e razões sociais e
econômicas.
Mais tarde, com a unificação da Alemanha, foi necessária a edição de nova
legislação sobre a matéria, visando conciliar o tratamento dispensado ao tema na
antiga Alemanha Oriental - em que o aborto era livre no primeiro trimestre de
gestação - com aquele existente na Alemanha Ocidental, acima descrito. Com este
objetivo, foi elaborada nova lei, promulgada em 1992, que permitia, mais uma vez,
a prática do aborto nos primeiros três meses de gravidez. Porém, a norma dispunha
que, antes de realizar a interrupção da gravidez. a gestante deveria submeter-se a
um serviço de aconselhamento, que tentaria demovê-Ia da idéia, e aguardar um
período de três dias. A principal característica da nova legislação estava no fato de
que visava evitar o aborto através de mecanismos não repressivos, criando medidas
de caráter educativo, de planejamento familiar, benefícios assistenciais, dentre ou-
tros, no afã de eliminar as causas materiais que levam as mulheres a procurarem a
interrupção da gravidez.
Mais uma vez, a legislação foi contestada na Corte Constitucional, que emitiu
decisão em 1993, conhecida como Aborto 11. Neste julgamento, ela considerou
inconstitucional a legalização do aborto na fase inicial de gestação. a não ser em
casos especiais, em que a continuidade da gravidez representasse um ônus excessivo
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para a gestante. Porém, ela afirmou que a proteção ao feto não precisava ser realizada
necessariamente através dos meios repressivos do Direito Penal e poderia ser buscada
através de outras medidas de caráter assistencial e administrativo. Vale transcrever
alguns dos trechos mais significativos da decisão:
Embora o direito à vida do nascituro tenha um valor muito elevado, ele não
se estende ao ponto de eliminar todos os direitos fundamentais das mulheres
à autodeterminação. Os direitos das mulheres podem gerar situação em que
seja permissível em alguns casos. e até obrigatório. em outros. que não ~e
imponha a elas o dever legal de levar a gravidez a termo ...
2488 BverfGE 203. O acórdão está parcialmente reproduzido em língua inglesa em KOMMERS.
Donald. op. cit.. pp. 349-356.
53
Em 1995, uma nova lei foi editada para adequar-se à decisão da Corte Consti-
tucional. O novo diploma, afora as hipóteses de aborto legal, referidas na decisão,
descriminalizou as interrupções de gravidez ocorridas nas primeiras 12 semanas de
gestação. A lei estabeleceu um procedimento pelo qual a mulher que queira praticar
o aborto deve recorrer a um serviço de aconselhamento, que tentará convencê-Ia a
levar a termo a gravidez. Depois disso, há um intervalo de três dias que ela deve
esperar para, só então, poder submeter-se ao procedimento médico de interrupção
da gravidez.
2.5. Portugal
E assim, o conflito dos dois bens ou valores pode ter uma solução diferente
daquela que teria se o conflito se desenhasse após o nascimento. Para o
demonstrar basta a tradição jurídica nacional que nunca equiparou aborto
ao homicídio. As concepções sociais dominantes são no mesmo sentido.
54
dificilmente controlável pelo juiz, pelo Tribunal Constitucional." 25 A pro-
blemática relacionada à existência de um direito à vida por parte do nascituro
voltou a ser aflorada pelo Tribunal Constitucional no Acórdão n. 85, profe-
rido em 1985, em que se afirmou:
55
diferente o grau de reprovação social que pode atingir quem procure even-
tualmente 'desfazer-se' do embrião logo no início de uma gravidez ou quem
pretenda 'matar' o feto pouco antes do previsível parto; aliás, esse senti-
mento jurídico colectivo, que não pode deixar de ser compartilhado por
povos de uma mesma comunidade cultural alargada que encontra sua ex-
pressão na união Européia, encontra-se bem reflectido na legislação dos
países que a compõem ...
2.6. Espanha
56
..... não podem contemplar-se tão-somente desde a perspectiva dos direitos
da mulher nem desde a proteção da vida do nascituro. Nem esta pode
prevalecer incondicionalmente frente àqueles, nem os direitos da mulher
podem ter primazia absoluta sobre a vida do nascituro '" Por isso, na medida
em que não se pode afirmar de nenhum deles (os interesses em conflito) seu
caráter absoluto, o intérprete constitucional se vê obrigado a ponderar os
bens e direitos ... tratando de harmonizá-los se isto for possível ou, em caso
contrário, precisando as condições e requisitos em que se poderia admitir
a prevalência de um deles."26
2.7 Canadá
57
para permissão do aborto encerrava o risco de um grande atraso na realização do
procedimento médico, o que trazia abalo emocional para as gestantes, além de
aumentar o risco para a sua saúde.
28 Até a edição da Resolução n° 11. em 1998. os cidadãos europeus não possuíam legitimidade
ativa perante a Corte Européia de Direitos Humanos. Tinham de formular seu~ requerimento~
perante a Comissão Européia de Direitos Humanos, que, se os considerasse admissíveis e não
alcançasse solução amigável com os Estados, podia levar as questões para a Corte Européia. em
sistemática muito semelhante a que hoje vigora no nosso sistema interamericano. Atualmente.
contudo. já pode o cidadão europeu acionar diretamente a Corte Européia de Direitos Humanos.
Cf.. a propósito, STEINER, Henry H & ALSTON. Philip. lnternatiollal HUl1lall Rights in COnTeXTo
Oxford: Oxford University Press. 2000, pp. 797-g01.
29 Cf. SAMPAIO. José Adércio Leite. Direito à lmimidade e à Vida Pril'ada. Belo Horizonte: Del
Rey, 1998. pp. 332-333.
30 O acórdão está reproduzido em BERGER. Vincent. Jurisprudence de la Caur Européene dês
Droits de IHol1lme. Se. éd., Paris: Ed. Sirey. 19996, pp. 428-432.
58
a medida adotada pelo Estado irlandês teria sido excessiva. Note-se que, muito
embora a Corte não tenha examinado a questão do direito ao aborto, infere-se da
sua decisão que a vida intra-uterina não pode ser protegida com a mesma intensidade
que a vida de pessoa nascida. Com efeito, ninguém questionaria o poder de um
Estado de proibir o fornecimento de informações contendo endereços, telefones e
contatos de assassinos, visando a encomenda de homicídios. O tratamento diferente
dado ao caso revela, portanto, uma posição que, nas suas entrelinhas, recusa qualquer
equiparação entre a proteção da vida do nascituro e a do indivíduo após o nascimento.
E esta postura se evidencia também na parte da decisão em que a Corte. rebatendo
a argumentação do governo irlandês. afirmou que o aumento da procura de abortos
no exterior por mulheres irlandesas devia-se não ao trabalho das clínicas de acon-
selhamento, mas ao excessivo rigor da legislação daquele país.
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fortalecimento da jurisdição constitucional são ingredientes fundamentais do fenô-
meno da constitucionalização do Direito". Tal fenômeno não se limita à regulação.
pelas constituições contemporâneas, de matérias que no passado inseriam-se na
esfera exclusiva do legislador ordinário. Mais que isso, ele envolve a idéia de que
todos os institutos jurídicos devem ser objeto de releitura a partir dos valores
constitucionais; de que todos os ramos do Direito, com suas normas e conceitos.
devem sujeitar-se a uma verdadeira "filtragem" constitucional 32 • para que se con-
formem à tábua axiológica subjacente à Lei Maior. Trata-se de um imperativo
decorrente do reconhecimento da supremacia formal e material da Constituição sobre
o direito infraconstitucional, mas também de uma tomada de posição no sentido da
mobilização do potencial emancipatório da Constituição em prol da efetiva trans-
formação da sociedade.
No caso brasileiro. este processo se intensifica sob a égide da Constituição de
1988, que inaugurou uma fase inteiramente nova em nosso constitucionalismo. Pela
primeira vez em nossa história, pode-se dizer que a Constituição está se incorporando
ao cotidiano dos tribunais. Apesar do persistente d~ficit de efetividade constitucional
em determinadas questões. sobretudo as concernentes à justiça social. é fato que a
Carta de 88 não é mais vista pelos operadores do Direito como uma mera proclamação
simbólica de princípios políticos desvestidos de força cogente. Pelo contrário. cada
vez mais ela é empregada diretamente na resolução das mais variada~ questões. e já
se pode falar no país do desenvolvimento de um certo .. sentimento" constitucional
entre o povo.
E o melhor: trata-se de uma Constituição com características muito singulares.
que apresenta. como sua marca mais notável. a preocupação central com os direitos
humanos. Este foco se evidencia desde já pela própria estruturação do texto consti-
tucional: se, nas constituições anteriores, primeiro tratava-se da organização do
Estado. e só ao fim eram consagrados os direitos, agora inverte-se esta ordem e os
direitos passam a ser afirmados antes, como uma espécie de testemunho da sua
prioridade axiológica. Na verdade, a Constituição de 88 não só hospedou em seu
texto um generoso catálogo de direitos fundamentais. incorporando direitos indivi-
duais, políticos, sociais e difusos, como também atribuiu a eles aplicabilidade ime-
60
diata (art. SO, § 1°), e protegeu-os, ainda, diante do próprio poder constituinte derivado
(art. 60, § 4°).
Neste contexto, parece evidente que é sobretudo na Constituição que deve ser
buscado o norte para o equacionamento jurídico a ser conferido à questão da inter-
rupção voluntária de gravidez no Brasil. É certo que, numa democracia, existe um
espaço próprio para que o legislador, como representante do povo, decida sobre
questões controvertidas como o aborto. Mas este espaço não é infinito. Ele está
emoldurado pela Constituição, notadamente pelos direitos fundamentais que esta
garante. Tal constatação justifica, ao nosso ver, a opção metodológica do presente
estudo, que priorizou a dimensão constitucional do debate a propósito do aborto.
Portanto, em que pese o reconhecimento de uma esfera de liberdade de confor-
mação do legislador na regulamentação da matéria, existem limites constitucionais
que devem ser observados, que concemem não só aos direitos fundamentais da
mulher, como também à proteção do feto. A seguir, tentaremos explorar estes limites.
Talvez não haja nenhum outro tema que provoque reações tão apaixonadas como
o aborto. E este passionalismo deve-se não apenas à transcendência dos interesses
envolvidos, mas também. cumpre reconhecer, às dimensões religiosas da nossa
problemática. Não é necessário lembrar, no particular, a posição radical assumida
pela Igreja Católica, que condena o aborto em qualquer circunstância - até mesmo
naquelas hoje admitidas pela retrógrada legislação brasileira. Nem é preciso recordar
que o catolicismo continua sendo a religião majoritária no país 33 .
Neste contexto, deveria o Direito curvar-se diante da religião, impondo coerci-
tivamente, inclusive aos não crentes, as posições de determinada confissão religiosa,
ainda que majoritária? O fato do catolicismo predominar no Brasil constituiria
justificativa legítima para o Estado adotar medidas legislativas que simplesmente
endossassem as concepções morais católicas? A resposta a esta pergunta só pode ser
negativa.
A Constituição de 88 não se limitou a proclamar, como direito fundamental, a
liberdade de religião (art. 5°, inciso VI). Ela foi além, consagrando, no seu art. 19,
inciso I, o princípio da laicidade do Estado, que impõe aos poderes públicos uma
posição de absoluta neutralidade em relação às diversas concepções religiosas. Este
princípio não indica nenhuma má-vontade do constituinte em relação ao fenômeno
33 Observe-se, porém. que. consoante diversas pesquisas de opinião. a maioria dos que se dizem
católicos no Brasil não subscreve os posicionamentos radicais da Igreja sobre questões ligadas à
sexualidade, reprodução e abono. Neste sentido, Sílvia Pimentel relata que a agência Datafolha
realizou, em julho de 1994, pesquisa entre católicos praticantes e não praticantes em São Paulo,
Brasília. Recife e Belém. A agência apurou que, entre os que se disseram càtólicos praticantes. II o/c
seguiam a orientação da Igreja. 8% seguiam-na em pane e 81 % não a seguiam. Já entre os que se
afirmaram católicos não praticantes, só 3% seguiam a Igreja, 3% seguiam em parte e 94 % não
seguiam (" Sacralidade da via e o aborto: idéias (in)conciliáveis". In Rel'ista de ESTUdos Feministas
n° 02: 153-163. 1996. p. 158).
61
religioso. mas antes exprime "a radical hostilidade constitucional para com a
coerção e discriminação em matéria religiosa, ao mesmo tempo em que afirma o
princípio da igual dignidade e liberdade de todos os cidadãos" :14.
A laicidade do Estado. levada a sério, não se esgota na vedação de adoção
explícita pelo governo de determinada religião. nem tampouco na proibição de apoio
ou privilégio público a qualquer confissão. Ela vai além. e envolve a pretensão
republicana de delimitar espaços próprios e inconfundíveis para o poder político e
para a fé. No Estado laico, a fé é questão privada. Já o poder político, exercido pelo
Estado na esfera pública, deve basear-se em razões igualmente públicas - ou seja.
em razões cuja possibilidade de aceitação pelo público em geral independa de
convicções reI igiosas ou metafísicas particulares35 . A laicidade do Estado não se
compadece com o exercício da autoridade pública com fundamento em dogmas de
fé - ainda que professados pela religião majoritária - . pois ela impõe aos poderes
estatais uma postura de imparcialidade e eqüidistância em relação às diferentes
crenças religiosas. cosmovisões e concepções morais que lhes são subjacentes.
Com efeito. uma das características essenciais das sociedades contemporâneas
é o pluralismo. Dentro de um mesmo Estado. existem pessoas que abraçam religiões
diferentes - ou que não adotam nenhuma - ; que professam ideologias distintas;
que têm concepções morais e filosóficas díspares ou até antagônicas. E. hoje. enten-
de-se que o Estado deve respeitar estas escolhas e orientações de vida. não lhe sendo
permitido usar do seu aparato repressivo. nem mesmo do seu poder simbólico. para
coagir o cidadão a adequar sua conduta às concepções hegemônicas na sociedade,
nem tampouco para estigmatizar os outsiders. Como expressou a Corte Constitucio-
nal alemã, na decisão em que considerou inconstitucional a colocação de crucifixos
em salas de aula de escolas públicas, .. um Estado no qual membros de várias ou até
conflituosas convicções religiosas ou ideológicas devam viverjuntos só pode garantir
a coexistência pacífica se se mantiver neutro em matéria de crença religiosa ( ... ). A
força numérica ou importância social da comunidade religiosa não tem qualquer
relevância 36 " .
Esta afirmação pode parecer em contradição com a idéia fundamental nas
democracias de que, inviável o consenso, as normas jurídicas devem expressar as
convicções das maiorias. Mas a contradição é apenas aparente. Isto porque, o prin-
cípio básico subjacente à democracia é o de que as pessoas devem ser tratadas com
igualdade 37 . O princípio majoritário, pelo qual, diante da impossibilidade de con-
senso, deve-se recorrer ao voto, atribuindo-se peso igual à manifestação de cada
cidadão (one man, one vote), não é outra coisa senão a transplantação para o cenário
político-institucional da idéia de intrínseca igualdade entre os indivíduos. Mas as
62
pessoas só são tratadas como iguais quando o Estado demonstra por elas o mesmo
respeito e consideração. E não há respeito e consideração quando se busca impingir
determinado comportamento ao cidadão não por razões públicas, que ele possa
aceitar através de um juízo racional, mas por motivações ligadas a alguma doutrina
religiosa ou filosófica com a qual ele não comungue nem tenha de comungar3R •
Na verdade, há muito tempo que a idéia de democracia não mais se circunscreve
à existência de eleições periódicas com respeito do princípio majoritário. Afirma-se,
hoje, que a democracia pressupõe a existência de um espaço público aberto, em que
as pessoas e grupos possam discutir sobre os temas polêmicos, prontas ao diálogo,
reconhecendo-se reciprocamente como seres livres e iguais. A democracia exige
deliberação pública, e o seu objetivo não é - ou pelo menos não é exclusivamente
- o de solucionar divergências contando votos. Presume-se, pelo contrário, que no
processo deliberativo as pessoas manifestem-se buscando o entendimento e não a
derrota do adversário. Pretende-se que, no espaço público, os cidadãos orientem-se
pela busca do bem comum, e não pela defesa incondicional dos seus interesses
pessoais ou de grupo. Almeja-se, enfim, que no debate franco de idéias inerente a
este processo, as pessoas eventualmente revejam suas posições originais. convenci-
das pelas razões invocadas pelo outro. Em suma, a democracia deve ser mais diálogo
do que disputa; mais comunicação do que embate 3'!.
Ocorre que, neste ambiente, as decisões adotadas pelo Estado. como já se disse.
devem ser justificadas em termos de razões públicas. Imposições que se baseiem
não em razões públicas, mas em compreensões religiosas, ideológicas ou cosmovi-
sivas particulares de um grupo social, ainda que hegemônico, jamais conquistarão
a necessária legitimidade numa sociedade pluralista, pois os segmentos cujas posi-
ções não prevalecerem sentir-se-ão não só vencidos. mas pior, desrespeitados 40 . A
divergência tornar-se-á conflito, e as bases de legitimação do Estado restarão com-
prometidas. E o pluralismo. não é demais recordar. mais que um indiscutível fato
38 Cf. SUNSTEIN. Casso "The Republic of Reasons". In: Tlle Parcial Constitution. Cambridge:
Harvard University Press, 1993, pp. 17-39.
39 Cf. HABERMAS, JÜrgen. Direito e Democracia e/ltre facticidade e validade 11. Trad. Flávio
Beno Siebeneichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. 1997. pp. 09-56; NINO, Carlos Santiago.
La Constitución de la Democracia Deliberativa. Barcelona: GEDISA, 1997; ELSTER, John
(Comp.). La Democracia Deliberativa. Trad. José Maria Lebron. Barcelona: GEDISA, 2001:
SOUZA NETO. Cláudio Pereira de. Teoria Constitucional e Democracia Deliberativa. Rio de
Janeiro: RENOVAR, 2005.
40 Jürgen Habermas abordou esta questão tendo em vista precisamente o debate travado em torno
da proteção devida à vida pré-natal. Segundo o filósofo, "En el debate /lOr1JWtilO de la e,lfera
pública democrática .1'0/0 cuelltan. ai fin y ai cabo, los enunciados Mora/e,l' eu selltido estricto.
Solo los enunciados cosmovisimmente neutrales sobre lo que es por igual bueno para IOdos.l' mda
llIlO pueden tener la pretensión de ser aceptables por todos por bueuas razones, La pretensión de
aceptabilidad racional diferencia los enunciados sobre la solllción 'jusw' de /r}\' ('onj7ictos de
acción de los enunciados sobre lo que es 'bueno' para mí o para '/losotros' em el contexto de uma
biografia o de uma forma de vida compartida . .. (EI Futuro de /a Naturale:a Humana, Trad. R. S,
Carbó, Barcelona: Ed. Paidós, 2002, p. 50).
63
social, é também um dos fundamentos expressos da República Federativa do Brasil
(art. 10, inciso IV, CF).
Portanto, é imperativo, não só sob o prisma ético, como também sob a perspec-
tiva jurídico-constitucional, que os atos estatais, como as leis, medidas administra-
tivas e decisões judiciais, baseiem-se em argumentos que possam ser aceitos por
todos os que se disponham a um debate franco e racional - mesmo pelos que não
concordarem com o resultado substantivo alcançado. Caso contrário, haverá tirania
- eventualmente tirania da maioria sobre a minoria - mas jamais autêntica demo-
cracia.
41 Esta concepção não é partilhada por todos. Há uma linha. identificada com o setor mais radical
do movimento feminista. que defende a tese de que a questão da vida do embrião ou feto é irrelevante
para o reconhecimento do direito da mulher ao aborto. A mais conhecida formulação desta tese
corresponde à metáfora do" violinista e do bom samaritano" elaborada por Judith Jarvis Thompson.
Esta autora norte-americana, em famoso ensaio publicado originariamente em 1971, propôs a
seguinte analogia: suponha-se que alguém acorde um dia num leito de hospital, com o rim ligado
ao de um famoso violinista. Esta pessoa descobre que fora seqüestrada pela Sociedade dos Amantes
da Música, porque seu raríssimo tipo sanguíneo era o único compatível com o do violinista. e está
agora conectada por aparelhos ao músico, que morrerá se estes forem desligados. Ela fica sabendo
que, ao fim de nove meses de tratamento, o violinista estará curado e os aparelhos poderão ser
desligados sem qualquer risco para nenhum dos dois. A autora então indaga se esta pessoa teria o
dever moral de aceitar a ligação por nove meses com o violinista, porque este seria o único meio
de salvar-lhe a vida. E responde à questão negativamente. Ela diz que embora fosse esta uma
conduta elogiável, não existe qualquer obrigação moral que a imponha, pois ninguém tem o dever
de ser um "bom samaritano". Assim, conclui Judith Jarvis Thompson que o mesmo raciocínio vale
para a gestante. pois ainda que se entenda que a vida do nascituro vale o mesmo que a de alguém
já nascido, não se poderia obrigar a mulher a emprestar seu corpo, contra sua vontade. para manter
esta vida, tal como não se pode compelir a ninguém a manter seu rim ligado ao de um grande
violinista para preservar sua vida. ( THOMPSON, Judith Jarvis ... A Defense on Abortion". In:
DWORKIN, Ronald. The Philosophy Df Law. Oxford: Oxford University Press. 1977, pp. 112-128).
42 Destaque-se que no âmbito da própria Igreja Católica esta questão é controvertida. Embora o
magistério pontifício contemporâneo pareça inclinar-se para a tese da animação imediata - pela
qual a alma é implantada no corpo já no momento da concepção - . grandes mestres da Igreja.
64
A tese que aqui se defenderá é a de que a vida humana intra-uterina também é
protegida pela Constituição, mas com intensidade substancialmente menor do que a
vida de alguém já nascido. Sustentar-se-á, por outro lado, que a proteção conferida
à vida do nascituro não é uniforme durante toda a gestação. Pelo contrário, esta tutela
vai aumentando progressivamente na medida em que o embrião se desenvolve,
tornando-se um feto e depois adquirindo viabilidade extra-uterina43 . O tempo de
gestação é, portanto, um fator de extrema relevância na mensuração do nível de
proteção constitucional atribuído à vida pré-natal.
Aliás, a idéia de que a proteção à vida do nascituro não é equivalente àquela
proporcionada após o nascimento já está presente, com absoluta clareza, no ordena-
mento brasileiro. É o que se constata, por exemplo, quando se compara a pena
atribuída à gestante pela prática do aborto - 1 a 3 anos de detenção (art. 124 do
Código Penal) - , com a sanção prevista para o crime de homicídio simples, que
deve ser fixada entre 6 e 20 anos de reclusão (art. 121 do mesmo Código).
Trata-se, por outro lado, de noção fortemente arraigada no sentimento social -
mesmo para os segmentos que reprovam a liberalização do aborto. Tome-se o
exemplo do aborto espontâneo: por mais que se trate de um fato extremamente
doloroso para a maioria das famílias, o evento não costuma representar sofrimento
comparável à perda de um filho já nascido, pois a percepção geral é a de que a vida
vale muito mais depois do nascimento.
E esta crença também encontra fundamentos científicos, diante da constatação
de que, pelo menos até a formação do córtex cerebral - que só acontece no segundo
trimestre de gestação - , não há nenhuma dúvida sobre a absoluta impossibilidade
de que o feto apresente capacidade mínima para a racionalidade 44 . Antes disso, o
como São Tomas de Aquino, sustentaram a tese da animação retardada, de acordo com a qual a
alma só seria introduzida em fase posterior, no curso da gestação.
43 Cf, no mesmo sentido, CASABONA, Carlos Maria Romeo. El Derecho y la Bioetica ante los
Limites de la Vida Humana. Madrid: Editorial Centro de Estudios Ramón Areces, 1994, pp. 142-161.
44 A valorização da racionalidade para a definição da personalidade humana chega ao extremo na
filosofia moral kantiana, de reconhecida influência no Direito moderno. Nas palavras do filósofo
de Konigsberg, "o homem, e, de uma maneira geral, todo o ser racional, existe como fim em si
mesmo. não só como meio para o uso arbitrário desta ou daquela vontade (... ) Os seres cuja
existência depende. não em verdade da nossa vontade, mas da natureza, têm. contudo, se são seres
irracionais, apenas um valor relativo como meios, e por isso se chamam coisas. ao passo que os
seres racionais se chamam pessoas. porque a sua natureza os distingue já como fin!; em si mesmos.
quer dizer. como algo que não pode ser empregado como simples meio." (H Fundamentação à
Metafísica dos Costumes". Trad. Paulo Quintela. In: Kant (11): os Pensadores. São Paulo: Abril
Cultural, 1980. pp. 109-162, p. 135).
É preciso, contudo. não hipostasiar o elemento racional na definição da personalidade, sob
pena de chegar-se ao extremo de negar a condição de pessoa às crianças pequenas e às pessoas
portadoras de deficiência mental severa. Neste exagero parece ter incidido H. Tristan Engelhart Jr..
um dos mais importantes autores da Bioética. que segue a orientação neokantiana (cf. ENGELHART
JR., H. Tristan. Fundamentos da Bioética. São Paulo: Edições Loyola. 1998. pp. 168-176). Para
uma densa crítica destas posições. veja-se BARRETO. Vicente de Paulo. A Idéia de Pessoa
H
65
nascituro não é capaz de qualquer tipo de sentimento ou pensamento, pois, como
ressaltou Maurizio Mori, "o córtex constitui o substrato biologicamente necessário
do qual emerge a novidade do nível cultllral-racional", sem a quaL nas palavras do
autor italiano, não existe senão a "naturalidade do mllndo orgânico ,,45 .
Por todas estas razões, afirma-se que o nascituro, embora já possua vida, não é
ainda pessoa46 . Isto, frise-se bem, decorre não apenas da lei. Recorde-se, no parti-
cular, que o Código Civil brasileiro é expresso ao estabelecer, logo no seu art. 2°,
que "a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei
põe a salvo, desde a concepção, os direito do nascituro "47. Mas é claro que se a
legislação ordinária negasse personalidade a quem é pessoa - como no passado
se fazia com os escravos - ela seria inválida, por manifesta inconstitucionalidade.
66
Isto porque, o primeiro direito humano é o que cada indivíduo tem de ser tratado
e considerado como pessoa'~R; um verdadeiro "direiru a ter direitos ", se ljuiserJIw.\
tomar emprestado a célebre fórmula arendtiana 49 .
Neste ponto, cumpre esclarecer que falar em vida humana e em pessoa humana
não é a mesma coisa5o. Indiscutivelmente, o embrião pertence à espécie homo
sapiens, sendo, portanto, humano. Por outro lado, embora habite o corpo da mãe,
ele, obviamente, não se confunde com as vísceras maternas, ao contrário do que
afirmavam os antigos romanos 51 • Possui o embrião identidade própria, caracterizada
pelo fato de que constitui um novo sistema em relação à mãe, e é dotado de um
código genético único - ressalvado o caso dos gêmeos homozigóticos - que já
contém as instruções para o seu desenvolvimento biológico. Trata-se, portanto, de
autêntica vida humana.
Não obstante, não é o feto ainda pessoa52 . É pessoa in fleri, pessoa potencial,
mais ainda não é pessoa, da mesma forma que uma semente pode ser qualificada
como árvore em potência, mas nunca como árvore 53 . Como vida humana, e como
projeto de pessoa, merece já o nascituro a proteção do ordenamento e da Constituição.
Não, porém, o mesmo grau de proteção que se confere à pessoa. Neste sentido,
colha-se a lição de 1.1. Gomes Canotilho e Vital Moreira:
-l8 Cf. LARENZ. Karl. Derecho Justo: Fundamentos de Etica Jurídica. Trad. Luis Díez-Picazo.
Madrid: Editorial Civitas. 1985. p. 59.
-l9 Hannah Arendt. como se sabe, usou a expressão "direito a ter direitos" para referir-se ao direito
à cidadania, apontando para os abusos cometidos por regimes totalitários que retiravam a naciona-
lidade de pessoas por razões étnicas ou políticas, tornando-as apátridas e sem direitos (The Origins
of Totalitarianism. New York: The Harvest Book, 1973).
50 Cf. MORI, Maurizio. A Moralidade do Aborto. Trad. Fermin Roland Schramm. Brasília: Ed.
UNB, 1997, pp. 43-62.
51 O feto era considerado em Roma como pars viscerum matris (parte das vísceras maternas). Em
alguns momentos o aborto foi proibido, mas não por qualquer preocupação com o nascituro, e sim
porque ele era considerado como uma violação do direito do marido à prole (cf HUNGRIA, Nelson .
.. Primeira Parte". In HUNGRIA, Nelson e FRAGOSO, Heleno. Comelltários ao Código PenaL.
Vol. V. Rio de Janeiro: Forense, 1979, pp. 270-271.
52 Cf Jürgen Habermas. para quem "EI ~'er geneticamente individuado em el daustro materno
nos es. como ejemplar de uma sociedad procreativa, ya persona. Solo em la pub/icidad de uma
sociedad hablallte el ser natural se convierte a la vez em individuo y persona dotada de razón"
(El Futuro de la Naturaleza Humana. Op. cit., p. 53).
53 Cf.. no mesmo sentido. ROCHA, Carmen Lúcia Antunes. que averbou ... Há que se distinguir.
portanto, ser humano de pessoa humana ( ... ) O embrião é, parece-me inegável. ser humano. ser
vivo. obviamente ( ... )Não é, ainda, pessoa, vale dizer, sujeito de direitos e deveres, o que caracteriza
o estatuto constitucional da pessoa humana." (" Vida Digna: Direito, Ética e Ciência" . In: ROCHA,
Carmen Lúcia Antunes (Coord.). O Direito à Vida Digna. Belo Horizonte: Editora Fórum. 2004.
p. 22).
67
to bem ou valor constitucionalmente protegido, o conceito constitucional de
vida humana parece abranger não apenas a vida das pessoas mas também a
vida pré-nataL ainda não investida numa pessoa (. .. ). É seguro, porém, que
(a) o regime de protecção da vida humana, enquanto simples bem constitu-
cionalmente protegido, não é o mesmo que o direito à vida, enquanto direito
fundamental das pessoas, no que respeita à colisão com outros direitos ou
interesses constitucionalmente protegidos (v.g., saúde, dignidade, liberdade
da mulher, direitos dos progenitores a uma paternidade e maternidade cons-
ciente); (b) a protecção da vida intra-uterina não tem que ser idêntica em
todas as fases do seu desenvolvimento, desde a formação do zigoto até o
nascimento; (c) os meios de protecção do direito à vida - designadamente
os instrumentos penais - podem mostrar-se inadequados ou excessivos
quando se trate de protecção da vida intra-uterina." 54
54 Constituição da República Portuguesa Anotada. 2' ed .. vol. I. Coimbra: Almedina. 1985, p. 175.
55 Em sentido contrário ao ora sustentado, veja-se, na doutrina brasileira, a coletânea de artigos
de respeitados juristas próximos ao pensamento católico, DIP, Ricardo Henry Marques Dip (Org.).
A vida dos Direitos Humanos: Bioética Médica e Jurídica. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris.
1999.
56 ROXIN, Claus ... A Proteção da Vida Humana através do Direito Penal". Conferência realizada
no dia 07 de março de 2002, no encerramento do Congresso de Direito Penal em Homenagem a
Claus Roxin. Rio de Janeiro. Disponível na Internet: http://www.mundojuridico.adv.br.
57 Não é necessário, no presente contexto, adentrar no debate sobre o caráter constitucional. ou
não, dos tratados internacionais sobre direitos humanos, incorporados ao ordenamento brasileiro
antes da Emenda Constitucional n° 45/2004. Destaque-se. apenas, que o STF, antes do advento da
68
a pessoa tem direito a que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela
lei, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida
arbitrariamente ".
Com efeito, a tese que ora se sustenta também parte da premissa de que a
proteção da vida se inicia no momento da concepção. Apenas afirma que a tutela da
vida anterior ao parto tem de ser menos intensa do que a proporcionada após o
nascimento, sujeitando-se, com isso, a ponderações de interesses envolvendo outros
bens constitucionalmente protegidos, notadamente os direitos fundamentais da ges-
tante. Aliás, o emprego da expressão" em geral" , no texto do artigo em discussão,
revela com nitidez que as partes celebrantes do tratado não quiseram conferir à vida
intra-uterina uma proteção absoluta 58 .
Neste particular, o uso da cláusula" em geral" evidencia que a proteção à vida
intra-uterina deve ser concebida como um princípio e não como regra. Em outras
palavras, e empregando a conhecida fórmula de Robert Alexy, a proteção ao nascituro
constitui um "mandado de otimização" 59 em favor de um interesse constitucional-
mente relevante - a vida embrionária - , sujeito, contudo, a ponderações com outros
referida emenda. decidira no sentido da hierarquia de lei ordinária dos mencionados tratados.
rechaçando a corrente capitaneada por Antonio Augusto Cançado Trindade e Flávia Piovesan. a
qual também nos filiávamos. que atribuía a eles força constitucional. forte no art. 5".* 2° da Carta.
e no sentido filosófico dos direitos humanos como limites à soberania dos Estados. Agora. porém.
a referida emenda acrescentou à Lei Maior um § 3° ao seu art. 5°. que expressamente conferiu
hierarquia de emenda constitucional aos tratados sobre direitos humanos que sejam aprovados no
Congresso, em duas votações sucessivas em cada Casa. com o quorum de 3/5. Discute-se. assim.
se o novo preceito implicou ou não em recepção, com hierarquia constitucional, dos tratados
anteriores que não seguiram o referido procedimento de incorporação. Veja-se. sobre este debate.
PIOVESAN, Flávia ... Reforma do Judiciário e Direitos Humanos". In: TA VARES, André Ramos;
LENZA, Pedro; e ALARCÓN, Pietro de Jesús Lora. Reforma do Judiciário. São Paulo: Editora
Método, 2004, pp. 67-81.
58 Veja-se, no particular, o insuspeito magistério de Ricardo Henry Marques Dip - ferrenho
opositor da liberalização da legislação abortista - que registrou: .. A cláusula 'em geral' (... )
presente no referido preceito do art. 4°, foi-lhe aposta ao enunciado em virtude de propostas
formllladas pelo Brasil e pelos Estados Unidos, quiçá para deixar à discrição das autoridades
locais os variados casos de aborto ". (" Sobre o Aborto Legal: Compreensão Reacionária da
Normativa versus Busca Progressiva do Direito". In DIP, Ricardo Henry Marques (Org.) A Vida
dos Direitos HlImanos: Bioética Médica e Jurídica. Op. cit., pp. 355-402, p. 399.
59 De acordo com o magistério de Alexy: HEI punto decisivo para la distinción entre regias y
principios es que los princípios son normas que ordenam que algo sea realizado en la mayor medida
posible. dentro de las posibilidades juridicas y reales existentes. Por tanto. los princípios son
mandatos de opimización, que están caracterizados por el hecho de que pueden ser cumplidos en
diferente grado y que la medida debida de su cumplimiento no solo depende de las posibilidades
reales sino también de las juridicas. EI ámbito de las posibilidades jurídicas es determinado por los
princípios y regias opuestos.
En cambio. Ias relas son normas que solo pueden ser cumplidas o no. Si uma regia es válida.
entonces de hacerse exactamente lo que ella exige. ni más ni menos." (Teoria de los Derechos
Fundamentales. Trad. Ernesto Garzón Valdés. Madrid: Centro de Estúdios Políticos y Constitucio-
nales. 1993, pp. 86-87.
69
princípios constitucionais. e que pode ceder diante deles em determinadas circuns-
tâncias.
E este entendimento se reforça diante da interpretação sistemática da Convenção
Interamericana dos Direitos Humanos. É que a Convenção consagra em seu bojo
uma série de outro direitos, titularizados também pelas gestantes, que podem entrar
em colisão com a proteção à vida embrionária: é o caso do direito ao respeito da
integridade física, psíquica e moral (art. 5°, 1), do direito à liberdade e segurança
pessoais (art. 7°, I), do direito de proteção à vida privada (art. 11, 2), dentre outros.
Assim, a atribuição de um peso absoluto à proteção da vida do nascituro implicaria.
necessariamente. na lesão a estes direitos, razão pela qual torna-se essencial a sua
relativização.
Não bastasse, mesmo para quem atribua estatura constitucional ao Pacto, é
evidente que se deve buscar a harmonização entre seus preceitos e aqueles contidos
não só na Constituição da República, como também em outros tratados internacionais
sobre direitos humanos. Portanto, tendo em vista a tutela constitucional de direitos
como os da saúde da mulher, da privacidade, da autonomia reprodutiva e da igualdade
de gênero - que adiante serão examinados - . não haveria como conferir peso
absoluto à proteção à vida embrionária, sob pena de criar-se uma contradição insa-
nável na ordem jurídica. E isto fica ainda mais claro quando se acrescenta a este
quadro normativo os tratados de direitos humanos voltados à proteção da mulher-
notadamente a Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas a Formas de
Discriminação contra a Mulher, de 1979, e a Convenção de Belém do Pará, elaborada
no âmbito da OEA, em 1994 - ambas devidamente incorporadas ao ordenamento
nacional e dotadas da mesma hierarquia do Pacto de San José da Costa Rica.
Portanto, é possível concluir que a ordem constitucional brasileira protege a
vida intra-uterina, mas que esta proteção é menos intensa do que a assegurada à vida
das pessoas nascidas, podendo ceder, mediante uma ponderação de interesses, diante
de direitos fundamentais da gestante. E pode-se também afirmar que a tutela da vida
do nascituro é mais intensa no final do que no início da gestação, tendo em vista o
estágio de desenvolvimento fetal correspondente, sendo certo que tal fator deve ter
especial relevo na definição do regime jurídico do aborto.
Pode-se dizer que a criminalização do aborto, da forma como está hoje consa-
grada na legislação penal brasileira, atinge duplamente o direito à saúde das mulheres.
Primeiramente, tem-se uma lesão aos direitos das gestantes, quando estas são obri-
gadas a levar a termo gestações que representam risco ou impliquem em efetiva
lesão à sua saúde física ou psíquica. Isto porque, o risco à saúde não constitui hipótese
de aborto autorizada pela legislação nacional.
Mas, além disso, verifica-se também uma lesão coletiva ao direito de saúde das
mulheres brasileiras em idade fértil, decorrente do principal efeito prático das normas
repressivas em vigor. Se estas têm eficácia preventiva mínima, e quase não evitam
os abortos, elas produzem um efeito colateral amplamente conhecido e absolutamente
desastroso: levam todo ano centenas de milhares de gestantes, sobretudo as mais
70
pobres, a submeterem-se a procedimentos clandestinos, realizados no mais das vezes
sem as mínimas condições de segurança e higiene, com graves riscos para suas vidas
e saúde.
No presente subitem, analisaremos estas duas questões importantíssimas. Mas,
antes disso, discorreremos brevemente sobre o direito fundamental à saúde na ordem
jurídica nacional, salientando a sua relação com os direitos reprodutivos.
O direito fundamental à saúde, como se sabe, está consagrado nos arts. 6° e 196
do texto magno. Este último dispõe que "a saúde é direito de todos e dever do
Estado. garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do
risco de doença e de outros agravos e ao acesso igualitário e universal às ações e
serviços para sua promoção. proteção e recuperação ". E seria dizer o óbvio afirmar
a enorme relevância deste direito fundamental para a garantia da vida humana digna.
Afinal. a proteção à saúde é muitas vezes um imperativo necessário à manutenção
do próprio direito à vida. bem como da integridade física e psíquica das pessoas
humanas 60 .
Sem embargo. há muitas controvérsias sobre o que pode ser judicialmente
exigido do Estado em termos de prestações positivas ligadas à saúde. com base no
texto constitucional 61 . Isto não só em razão da vagueza do enunciado constitucional
que consagra o direito à saúde, mas também pelo fato de que as prestações materiais
que tal direito reclama possuem um custo financeiro, e. em um quadro de escassez
de recursos, tem de ser enfrentada a questão da chamada" reserva do possível" 61.
Discute-se, portanto, até que ponto pode caminhar o Poder Judiciário na concretiza-
ção deste direito, num regime democrático em que, diante da limitação das verbas
disponíveis, as decisões sobre prioridades nos gastos cabem, em regra, ao Legislativo.
Neste ponto, a doutrina vem delineando alguns critérios materiais importantes para
a ponderação de interesses entre, de um lado, o direito social em jogo - no caso o
direito à saúde - , e, do outro, os princípios da separação de poderes, da democracia
e da legalidade orçamentária, destacando-se, neste particular, a idéia do mínimo
existencial 63 . Tem-se entendido, neste sentido, que o Judiciário não só pode como
60 Cfr. SARLET, Ingo Wolfgang. Eficácia dos Direitos FUlldamentais. Portu Alegre: Livraria dos
Advogados, 1998, pp. 296-297.
61 Veja-se na doutrina brasileira. em especial. SARLET. Ingo Wolfgang ... Algumas Considerações
em torno da Eficácia e Efetividade do Direito à Saúde na Constituição de 1988". In: Revista do
Interesse Público n° 12: 137-191, 2001; e BARCELLOS. Ana Paula. A Eficácia Jurídica dos
PrillclíJios COllstituciollais. Rio de Janeiro: Renovar. 2002. pp. 272-289.
61 Sobre u tema da eficácia dos direitos sociais prestacionais e a chamada reserva do possível nu
direito brasileiro. veja-se. entre outros. SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia dos Direitos Funda-
mentais. Op.cit.. pp. 254-279; AMARAL, Gustavo. Direito. Escasse~ e Escolha. Rio de Janeiro:
RENOV AR. 200 I: BARCELLOS, Ana Paula. Op. cit.; GOUVÊA. Marcos Maselli. O Controle
Judicial das Omissões Adminstrativas. Rio de Janeiro: FORENSE, 2003: e KRELL. Andréas J.
Direitos Sociais e Controle Judicialllo Brasil e /1(/ Alemanha. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris,
2002.
63 O mínimo existencial corresponde, segundo a visão doutrinária majoritária, às prestações ma-
teriais básicas sem as quais não há vida humana digna .. Sobre u mínimo existencial, veja-se
71
deve assegurar. mesmo contra a vontade dos poderes políticos. o conteúdo básico
dos direitos fundamentais prestacionais, uma vez que a garantia efetiva deles é
condição para a vida digna e constitui pré-requisito para a própria democraci a 64. Não
cabe, porém. o aprofundamento desta complexa problemática nos limites do presente
estudo.
De qualquer sorte, cumpre referir que a idéia de saúde, à qual se liga o corres-
pectivo direito fundamental, é bastante ampla e compreensiva. Neste ponto, tem-se
invocado a definição adotada pela Organização Mundial da Saúde, segundo a qual
.. saúde é um estado de completo bem-estar físico-mental e social e não apenas a
ausência de doença ou enfermidade" 65.
Por outro lado, é ainda importante destacar que o direito à saúde envolve tanto
um aspecto defensivo como uma dimensão prestacional, como, de resto, praticamente
todos os direitos fundamentais, inclusive os sociais. Na dimensão defensiva, este
direito atua como um mecanismo de bloqueio. para impedir que condutas do Estado
ou de terceiros venham a lesar ou ameaçar a saúde do titular do direito. E a dimensão
prestacional impõe ao Estado deveres comissivos, no sentido de formular e imple-
mentar políticas públicas visando a promoção da saúde das pessoas. bem como
fornecer prestações materiais aos cidadãos correlacionadas à saúde, tais como aten-
dimento médico e medicamentos. Portanto, o direito à saúde não é exclusivamente
um direito positivo ou negativo. Ele desempenha simultaneamente ambas as funções.
Esta afirmação é relevante no contexto do nosso estudo, uma vez que tanto a
dimensão negativa como a positiva do direito à saúde são mobilizados na questão
da proibição geral do aborto. A dimensão negativa entra em cena, por exemplo,
quando se verifica que a proibição do aborto, sob ameaça de sanção penal, em casos
que envolvam riscos à saúde física ou psíquica da gestante, constitui lesão a este
direito. Para cessar a ofensa, é preciso limitar o Estado, proibindo-o de agir contra
as gestantes e profissionais de saúde enquadrados nesta situação. E a dimensão
positiva vem à baila quando se percebe que seria insuficiente apenas remover a
interdição legal ao aborto dentro de certos casos, para eliminação dos riscos envol-
vidos na realização de procedimentos clandestinos pelas gestantes. Sem a garantia
da realização dos procedimentos médicos necessários no sistema público de saúde.
as mulheres pobres continuariam sujeitas aos mesmos riscos, já que, pela falta de
recursos, não teriam acesso à rede sanitária privada.
TORRES. Ricardo Lobo ... A Metamorfose dos Direitos Sociais em Mínimo Existencial". In:
SARLET. [ngo Wolfgang. Direitos Fundamentais Sociais: Estudos de Direito Constitucional.
Internacional e Comparado. Rio de Janeiro: RENOVAR, 2003, pp. 01-46; KRELL. Andréas J. Op.
cit., pp. 59-65; e BARCELLOS, Ana Paula de. "Mínimo Existência e Algumas Fundamentações:
John Rawls, Michael Walzer e Robert Alexy." In TORRES. Ricardo Lobo (Org.). A Legitimação
dos Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: RENOVAR, 2002, pp. 11-50.
64 Cf. ARANGO. Rodolfo ... Basic Social Rights, Constitucional Justice and Democracy" . In: Ratio
luris. v. [6, n° 02. June 2003, pp. 141-154.
65 Preâmbulo do Ato Fundador da Organização Mundial da Saúde. assinado por 61 Estados, dentre
os quais o Brasil.
72
Há direta relação entre o direito à saúde e os direitos reprodutivos. Estes são,
na definição de Flávia Piovesan e Wilson Ricardo Buquetti Pirota. "direitos básicos
relacionados ao livre exercício da sexualidade e da reprodução humana ", devendo
compreender "o acesso a um serviço de saúde que assegure informação, educação
e meios, tanto para o controle de natalidade,como para a procriação sem riscos de
saúde .. 66. A preocupação com os direitos reprodutivos é recente, e estes se consoli-
dam no plano internacional sobretudo a partir das Conferências do Cairo, de 1994,
e de Beijing, de 1995, como o resultado da luta do movimento feminista. Isto porque,
embora os direitos reprodutivos sejam titularizados tanto por homens como por
mulheres, as questões de saúde reprodutiva são muito mais críticas para o gênero
feminin0 67 .
Assentadas estas premissas, deve-se volver a atenção aos tópicos específicos
identificados no início deste subitem. Cabe então examinar, inicialmente, se é cons-
titucional ou não a interdição e a criminalização do aborto em casos em que haja
risco comprovado à saúde da gestante.
E a resposta só pode ser negativa. Em que pese a tutela constitucional conferida
à vida pré-natal, não é razoável impor à mulher o ônus de prosseguir numa gestação
que pode lhe comprometer a saúde física ou psíquica. Devidamente comprovado o
risco, deve ter a gestante o direito de optar pela interrupção da gestação, no afã de
salvaguardar sua própria higidez física e psíquica. Isto porque, como foi assentado
anteriormente, a proteção constitucional ao nascituro não tem a mesma intensidade
do que a assegurada pela Lei Maior aos indivíduos já nascidos.
Recorde-se, neste particular, que foi exatamente assim que decidiu a Corte
Constitucional italiana, ao declarar a inconstitucionalidade de norma incriminadora
do aborto inserida no Código Penal, exatamente porque não previra a hipótese de
interrupção da gravidez em decorrência de risco à saúde materna 68 . E é relevante
destacar, neste ponto, que a maioria das legislações que tratam do aborto - mesmo
as que optaram pela criminalização como regra geral - admitem a interrupção
voluntária da gravidez em casos de risco devidamente constatado à saúde da gestante.
Porém, ainda mais grave, pelo menos sob o ponto de vista quantitativo, é a
questão dos riscos concernentes aos abortos clandestinos. Não pode o Estado ignorar
a realidade de que a legislação penal é absolutamente ineficaz no que tange à
prevenção do aborto e proteção à vida pré-natal, e produz como conseqüência
inexorável a exposição a riscos graves e desnecessários da vida de multidões de
mulheres, integrantes sobretudo dos extratos sociais mais baixos. É certo que o aborto
73
não é, nem pode ser tratado como se fosse, um simples método anticoncepcional.
Isto seria incompatível com a proteção devida à vida do nascituro.
Sem embargo, a experiência já comprovou que o meio de proteção mais ade-
quado destas vidas intra-uterinas não é a repressão criminal. Ao invés disso, outras
medidas são muito mais eficazes e não geram os mesmos efeitos colaterais. como.
por exemplo, a ampliação dos investimentos em planejamento familiar e educação
sexual para redução do número de gestações indesejadas: a garantia do direito à
creche e o combate ao preconceito contra a mulher grávida no ambiente de trabalho.
para que as gestantes não sejam confrontadas com uma" escolha de Sofia" entre a
maternidade ou o emprego: e o fortalecimento da rede de segurança social, para que
um novo filho não seja sinônimo de penúria para as já desassistidas.
A prova mais eloqüente de que a proibição legal e a criminalização do aborto
não impedem a prática que estigmatizam são as estimativas alarmantes sobre núme-
ros anuais de abortamentos clandestinos no país. É verdade que. em razão da
ilegalidade do aborto no Brasil. não existem dados oficiais sobre seu número. Mas
a Rede Feminista de Saúde. empregando metodologia científica baseada na quanti-
dade de procedimentos de curetagem pós-aborto realizados por ano no SUS, estimou
que o total anual de abortos clandestinos ocorridos no país, entre 1999 e 2002, seja
algo entre 705.600 e 1.008.00069 .
Hoje. o preço cobrado por uma clínica de aborto nos centros urbanos do país
- em que estes procedimentos, apesar de ilegais, são realizados em melhores
condições de segurança e higiene - , oscila entre R$ 1.500,00 e R$ 3.500,00 70 . Estes
valores implicam, obviamente, na exclusão da absoluta maioria da população femi-
nina brasileira, que se vê forçada a recorrer a métodos muito mais precários, que
vão da ingestão de substâncias venenosas até a introdução de objetos pérfuro-cor-
tantes no útero. Não é preciso ressaltar o impacto tenebroso deste quadro para a
saúde deste enorme contingente de mulheres.
De acordo com o Ministério da Saúde, o número de óbitos provocados por
complicações decorrentes de abortos no país, entre 1999 e 2002. foi 518. É certo.
no entanto, que este número é infinitamente maior, seja em razão da sub-notificação
de mortes, seja pela natural tendência dos profissionais de saúde de mascararem a
causa real do óbito nesta situação, em razão da ilegalidade do abort0 71 • E não é
preciso ser muito perspicaz para descobrir o perfil destas vítimas: são quase inva-
riavelmente mulheres pobres e freqüentemente negras.
Portanto, o quadro que se desenha diante dos olhos é profundamente desalen-
tador, mas é também muito claro: a proibição do aborto não salva vida de fetos, mas
mata muitas mulheres e impõe graves seqüelas a outras tantas!
Veja-se, por outro lado, que não bastaria, para solucionar este problema, a
simples descriminalização da interrupção voluntária da gravidez. dentro de determi-
nados prazos e condições. Isto muito pouco adiantaria se os procedimentos médicos
74
não pudessem ser realizados gratuitamente, no âmbito do Sistema Único de Saúde,
pois, do contrário, as mulheres pobres continuariam fatalmente expostas à mesma
via crucis, em detrimento da sua saúde e expostas aos mesmos riscos de vida.
Na verdade, se o aborto for tratado como um problema de saúde pública, tal
como recomendado pelas Plataformas das Conferências do Cairo e de Beijing, não
haverá como escapar desta equânime solução. Isto porque, o direito à saúde, nos
termos do ditado constitucional, rege-se pelo princípio do "atendimentu integral"
(art. 198, inciso Il). De acordo com este princípio, o Estado, através do Sistema
Único de Saúde, deve assegurar os tratamentos e procedimentos necessários a todos
os agravos à saúde humana. E, concretizando o referido mandamento constitucional,
o art. 7°, inciso IV, da Lei 8.080/90, definiu como princípio do Sistema Único de
Saúde "u integralidade de assistência, entendida como 1I11l conjunto articulado e
contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exi-
gidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema ".
E nem se objete que a realização de abortos no SUS implicaria na assunção de
gastos desmesurados pelo Poder Público. Na verdade, apesar da atual ilegalidade do
aborto, o Governo já gasta, hoje, vultuosos recursos para tratar das conseqüências
dos abortos clandestinos sobre a saúde das mulheres. Só com o pagamento de
curetagens são aproximadamente R$ 29.7 milhões por ano 72 • sem contar outros
procedimentos e/ou tratamentos que por vezes se tornam necessários para acudir à
saúde feminina.
Por todas estas razões, é de concluir-se que a proteção ao direito constitucional
à saúde da mulher recomenda a urgente reforma da legislação brasileira, visando a
legalização e realização pelo SUS dos procedimentos de interrupção voluntária da
gravidez na fase inicial da gestação.
72 De acordo com os dados do SUS. são cerca de 238 mil curetagens decorrentes de aborto por
ano. cada uma ao custo médio de R$ 125.00. Ficaram daí excluídos. por exemplo. os custos com
internações por período superior a 24 horas. os gastos com UTI e os recursos necessários ao
atendimentos de seqüelas decorrentes do aborto. Cf. Dossiê Aborto: Mortes Prel'isÍl'eis e Evitál'eis.
Op. cit.. p. 05.
73 Cf. NINO. Carlos Santiago. Ética y DerecllOs HUlIlanos. 2' ed .. Buenos Aires: Editorial Astrea.
1989. pp. 199-265.
75
De acordo com as belas palavras de Canotilho, a dignidade da pessoa humana
baseia-se no "princípio antrópico que acolhe a idéia pré-moderna e moderna da
dignitas-homini (Pico della MirandolaJ, ou seja, do indivíduo conformador de si
próprio e da sua vida segundo o seu projecto espiritual". Como destacou o Mestre
de Coimbra, "a dignidade da pessoa humana exprime a abertura da República à
idéia de comunidade constitucional inclusiva pautada pelo multiculturalismo 11111ll-
dividencial, religioso ou filosófico "74.
E uma das escolhas mais importantes na vida de uma mulher é aquela concer-
nente a ter ou não um filho. É desnecessário frisar o impacto que a gestação e, depois.
a maternidade, acarretam à vida de cada mulher. A gravidez e a maternidade podem
modificar radicalmente o rumo das suas existências. Se, por um lado. podem conferir
um novo significado à vida, por outro, podem sepultar projetos e inviabilizar certas
escolhas fundamentais. É dentro do corpo das mulheres que os fetos são gestados,
e ademais, mesmo com todas as mudanças que o mundo contemporâneo tem viven-
ciado, é ainda sobre as mães que recai o maior peso na criação dos seus filhos. Por
tudo isto, a questão tem intensa conexão com a idéia de autonomia reprodutiva 7"',
cujo fundamento pode ser encontrado na própria idéia de dignidade humana da
mulher (art. 1°, 11, CF), bem como nos direitos fundamentais à liberdade e à priva-
cidade (art. 5°, capll! e inciso X, CF).
E a autonomia reprodutiva, além de dotada de inequívoco fundamento consti-
tucional, é também direito humano protegido na esfera internacional. Neste sentido,
é eloqüente a redação do Parágrafo 95 da Plataforma da IV Conferência Mundial
sobre a Mulher, que afirma o direito humano de "decidir livre e responsavelmente
pelo número de filhos. o espaço a medear entre os nascimentos e o intervalo entre
eles", bem como o de "adotar decisões relativas à reprodução sem sofrer discri-
minação, coações nem violência ".
Por outro lado, é importante repisar que o fato da gestação desenvolver-se no
interior do corpo feminino tem particular relevância. Se o direito à privacidade
envolve o poder de excluir intervenções heterônomas sobre o corpo do seu titular,
é difícil conceber uma intrusão tão intensa e grave sobre o corpo de alguém, como
a imposição à gestante de que mantenha uma gravidez, por nove meses, contra a
vontade. Como ressaltou Ronald Dworkin, "uma mulher que seja forçada pela sua
comunidade a carregar um feto que ela não deseja não tem mais o controle do seu
próprio corpo. Ele lhe foi retirado para objetivos que ela não compartilha. Isto é
uma escravização parcial, uma privação de liberdade "76:
Assim, o poder individual da mulher sobre seu próprio corpo, bem como a
liberdade que lhe assiste para escolher autonomamente os rumos da própria vida,
permitem que, à semelhança do que disse a Suprema Corte norte-americana em Roe
76
v. Wade, afirmemos, também no Brasil. que "o direiTO à privacidade ti amplo o
suficiente para compreender o direito da mulher sobre interromper ou não sua
gravidez" 77.
A questão da autonomia reprodutiva em matéria de aborto foi discutida com
percuciência no voto que o Ministro Joaquim Barbosa elaborou, como Relator, para
o julgamento do Hábeas Corpus n° 84.025-6/RJ, que versava sobre o direito da
gestante de interromper a gravidez de feto anencéfalo. O caso não chegou a ser
apreciado pelo STF, porque, em plena sessão de julgamento, foi o Tribunal comu-
nicado do fato de que a paciente dera à luz e que a criança, como já se esperava,
falecera poucos minutos depois. Todavia, o referido voto foi amplamente divulgado.
e dele consta:
77
3.6. Direito à Igualdade
78 Nos Estados Unidos a jurisprudência formulou. no julgamento do caso Griggs I'. Duke Power.
julgado em 1971. a doutrina do impacto desproporcional (disparage impacT)o que permite o reco-
nhecimento da inconstitucionalidade de normas que. aparentemente regulares. causem um ônus
desproporcional para determinados grupos em situação de inferioridade. Veja-se. a propósito.
NOV AK, John E. &ROTUNDA. Ronald D. Constitucional Law. SI. Paul: West Publishing Co ..
1995. pp. 620-636.
79 .. Por uma Concepção Multicultural dos Direitos Humanos" . In: SANTOS. Boaventura de Souza
(Org.). Reconhecer para Libertar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2003. pp. 429-461. p. 458.
78
se-ia talvez emendar o grande sociólogo português, afirmando que o direito à dife-
rença não está em colisão com a igualdade, mas é antes uma importante faceta sua.
É com base nestas premissas teóricas que será examinada a relação entre a
proibição ao aborto e a igualdade. O que se sustentará, em síntese, é que a vedação
em questão viola a igualdade entre os gêneros, na medida em que subjuga as
mulheres, impondo a elas um ônus que em nenhum contexto se exigiria que os
homens suportassem. E que esta proibição ofende ainda a igualdade social, já que
produz impactos muito mais marcantes sobre as mulheres de baixo poder aquisitivo.
Desde as Revoluções liberais dos séculos XVII e XVIII o direito à igualdade
incorporou-se à retórica jurídica. Não obstante, até não muito tempo atrás, a mulher
não era incluída entre o universo dos "iguais". Como na fazendá dos bichos de
George OrwelJ, todos eram iguais, mas uns menos iguais que os outros. E as mulheres
eram sempre as menos iguais. Basta lembrar, por exemplo, que o direito ao voto só
foi estendido às mulheres no Brasil na década de 30, e que até muito recentemente,
nossa legislação civil ainda considerava o marido o "chefe do casal" 80.
A Constituição de 88, neste particular, foi taxativa: "homens e mulheres são
iguais, nos termos desta Constituição" (art. 5°, inciso 1). Porém, há ainda muito a
se avançar para que se cumpra o mandamento constitucional. E uma das tarefas
urgentes é a revisão do .. entulho machista": normas elaboradas no passado, por um
legislativo composto quase exclusivamente por homens, que refletem estereótipos
impregnados de preconceitos, e que implicam no congelamento ou até noaprofun-
damento da desigualdade entre os gêneros. Para desenvolver esta tarefa, é funda-
mentaI, como asseverou Flávia Piovesan, "criar uma doutrina jurídica sob a pers-
pectiva de gênero, que seja capaz de visualizar a mulher e fazer visíveis as relações
de poder entre os sexos ", o que seguramente demandará a análise do .. padrão de
discriminação e as experiências de exclusão e violência sofridas por mulheres"sl.
Ora, um caso típico de legislação androcêntrica no Brasil é exatamente a que
trata do aborto, elaborada sem nenhuma consideração em relação aos direitos e
interesses femininos envolvidos. Ela viola a igualdade, na medida em que gera um
impacto desproporcional sobre as mulheres 82 , já que as afeta com intensidade in-
80 Sobre a evolução dos direitos humanos da mulher, veja-se PINSKY, Carla Bassanezy e PEDRO,
Joana Maria. "Mulheres: Igualdade e Especificidade". In: PINSKY, James & PINSKY, Carla
Bassanezi. História da Cidadania. São Paulo: Ed. Contexto, 2003, pp. 265-307.
81 "Integrando a Perspectiva de Gênero na Doutrina Jurídica Brasileira: Desafios e Perspectivas".
In: Temas de Direitos Humanos. Op.cit, pp. 153-165, p. 158. A propósito da perspectiva de gênero
e as várias posições feministas em relação ao Direito, veja-se OLSEN. Francês. "EI Sexo dei
Derecho". In: COURTIS, Christian (Comp.). Desde outra Mirada: Textos de Teoría Crítica dei
Derecho. Buenos Aires: Eudeuba, pp. 305-324.
82 Tratar-se-ia. aqui. da aplicação da doutrina do impacto desproporcionaL já citada em nota
anterior, também conhecida com teoria da discriminação indireta, da qual decorre a invalidade de
normas que, apesar de regulares, na sua aparência, geram. em sua aplicação. um ônus despropor-
cional para grupos vulneráveis. A aplicação desta teoria é de grande importância nas questões de
gênero. Nas palavras de Barry Fizpatrick, "desde o desenvolvimento do princípio do impacto
desproporcional pela Suprema Corte norte-americana, os regimes de igualdade também vieram (/
79
comparavelmente maior do que aos homens, de forma tendente a perpetuar a assi-
metria de poder entre os gêneros presente em nossa sociedade. Só a mulher. quando
não se conforma com a legislação proibitiva e busca o aborto, se sujeita a graves
riscos à sua vida e saúde, ao submeter-se a métodos quase sempre precários de
interrupção da gravidez: só ela, quando obedece à contragosto a lei. acolhendo em
seu ventre e depois gerando um filho que não desejava, vê seu corpo instrumenta-
lizado e perde as rédeas do seu próprio destin0 83 .
Poder-se-ia objetar a este raciocínio com uma afirmação acaciana: os ônus
recaem apenas sobre as mulheres porque só elas ficam grávidas. Contudo, veja-se
que a legislação não requer, em nenhum caso, sacrifício comparável do homem.
Laurence Tribe ilustra a situação com um exemplo pertinente: a lei não obriga nos
Estados Unidos - como também não o faz no Brasil - que um pai doe algum
órgão ou mesmo sangue ao filho, ainda que isto seja indispensável para manutenção
da vida deste. E, note-se bem, trata-se de vidajá nascida, protegida mais intensamente
pelo ordenamento do que a vida pré-natal. Há, assim, dois pesos e duas medidas.
Aliás, será que alguém de boa-fé discordaria da afirmação de que, se os homens
pudessem engravidar, não haveria tamanha repressão contra o aborto? Por tudo isso.
merecem especial atenção as palavras do mesmo Laurence Tribe:
incorporar o que hoje é conhecido na Europa como princípio da discriminação indireta, através do
qual políticas e práticas aparentemente neutras abrem-se a questionamentos, com base no seu
impacto desproporcional sobre um gênero. A batalha entorno da amplitude do princípio da discri-
minação indireta é vital para o desenvolvimento dos objetivos da igualdade, já que é um princípio
mais intrusivo do que o da discriminação direta" (Tradução livre do autor. "Gender for Equality:
A Move Towards na 'Equality Ethos' Model?". In: HEGARTY. Angela & LEONARD. Siobhan.
Humans Rights: An Agenda for lhe 21". Century. London: Cavendish Publishing Limited, 1999.
pp. 117-137, p. 118.
83 É interessante notar que, no cenário norte-americano, as feministas, de modo geral, preferem
defender o direito ao aborto com base na igualdade do que com fundamento na privacidade. E há
basicamente duas razões para isso: a primeira é que muitas feministas contestam a própria idéia de
direito à privacidade, sob o argumento de que a separação entre o público e o privado é uma fórmula
machista, que permite que no âmbito do espaço tido como privado - casa, relações marido e
mulher, domínio da sexualidade, etc. - viceje a tirania do homem, à margem de qualquer controle
estatal. Além disso, dizem elas, o direito à privacidade, pelo seu caráter eminentemente negativo,
não é suficiente para assegurar a garantia da cobertura pelo Estado dos custos do aborto, prejudi-
cando as mulheres mais pobres. Neste sentido, é paradigmática a posição de MACKINNON,
Catherine ... Retlections on Sex Equality Under Law". In: 100 Yale Lo\1' }ollr/1al. 1991. 1281-131 Ó.
80
formas pelas quais a gravidez indesejada e a maternidade indesejada oneram
a participação das mulheres como iguais na sociedade" H4
Neste ponto, é preciso não perder a perspectiva de que. como ressaltou Ruth
8ader Ginsburg - antiga advogada do movimento feminista nos EUA e hoje juíza
da Suprema Corte naquele país - , .. o conflito (no caso do aborto) nào é exclusi-
vamente entre os interesses do feto e os interesses da mulher, estritamente concebi-
dos. nem resume-se à ampla questão Estado versus particular. em referência ao
controle sobre o corpo da mulher por nove meses. Também na balança está o poder
de autonomia da mulher sobre o curso da sua vida ( ... ), a sua capacidade de posi-
cionar-se em face do homem, da sociedade e do Estado como cidadã independente,
auto-suficiente e igual" 85.
E se a questão do aborto envolve a igualdade entre gêneros, o mesmo acontece
com a igualdade social, já que são as mulheres pobres as maiores vítimas do modelo
legislativo hoje adotado. São elas as que mais freqüentemente recorrem ao aborto,
seja pela falta de condições financeiras para criar futuros filhos, seja pela maior
dificuldade de acesso à educação sexual e aos meios contraceptivos. As gestantes
de nível social mais elevado, quando decidem pelo aborto. têm como realizá-lo,
apesar da sua ilicitude, com acompanhento médico e em melhores condições de
higiene e segurança. Já as mulheres carentes acabam se submetendo a expedientes
muito mais precários e perigosos para pôr fim às suas gestações. Perfeita, neste
sentido, a lição de Carlos Roberto de Siqueira Castro:
84 Tradução livre do autor. American Constitucional Law. 2 nd ed .. Mineola: The Foundation Press.
1988. p. 1354.
85 Tradução livre do autor. .. Some Thoughts on Autonomy and E4uality in Rclation to Roc \.
Wade". Op. cit., p. 384.
86 A Constituição Aberta e os Direitos Fundamentais. Rio de Janeiro: Forense. 2003. pp. 687-688.
81
4. Conclusões Finais
82