RICARDO PIMENTEL MÉLLO
Do estranhamento à familiaridade:
estratégias e contradições na construção da noção de
“Abuso sexual infantil intrafamiliar”
DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL
PUC
São Paulo
Março
2002
RICARDO PIMENTEL MÉLLO
Do estranhamento à familiaridade:
estratégias e contradições na construção da noção de
“Abuso sexual infantil intrafamiliar”
Tese apresentada à Banca Examinadora
da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, como exigência parcial para
obtenção do grau de Doutor em
Psicologia Social, sob a orientação da
Profa. Dra. Mary Jane Paris Spink.
Março
2002
Banca Examinadora:
_______________________
Profa. Dra. Ana Maria Almeida Carvalho
_______________________
Profa. Dra. Margareth Rago
_______________________
Profa. Dra. Mary Jane Paris Spink
_______________________
Prof. Dr. Peter Kevin Spink
_______________________
Prof. Dr. Sidnei José Cazeto
Para Ercília, Caio e Bia
Quero unir-me aos
que criam,
que colhem,
que festejam ...
(Nietzsche)
AGRADECIMENTOS
Este trabalho constitui-se de inúmeras vozes explícitas: autores do mundo
acadêmico, literário que permeiam os capítulos. E de vozes não tão explícitas,
mas que ecoam com tal vigor que sem elas a construção da pesquisa não
seria possível. São, como lembra Foucault, vozes do mundo dos sem fama.
Todas essas vozes são para o meu trabalho “existências-clarão”, “poemas-
vida”. Por isso agradeço:
Ø À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pela
concessão de bolsa.
Ø Ao Departamento de Psicologia Social e Escolar da Universidade Federal do
Pará, permitiu a realização deste doutorado, concedendo -me licença.
Ø À minha orientadora, Profa. Dra. Mary Jane Paris Spink, sempre sensível,
provocando-me caminhos, trilhas, transformando esta tese em um
delicioso esporte radical de riscos.
Ø Aos professores Dr. Peter Spink e Dra. Margareth Rago, pelas valiosas
observações durante o exame de qualificação.
Ø Aos professores do Programa de Psicologia Social da PUC-SP, em especial,
à Profa. Bader Sawaia, (sempre solícita à frente da Coordenação do
Programa) e à Profa. Fúlvia Rosemberg, afetiva em momentos difíceis em
Sampa.
Ø Ao Prof. da Universidade Autônoma de Barcelona, Dr. Lupicinio Íñiguez
Rueda, pela disponibilidade em discutir este trabalho, sugerindo leituras
importantes.
Ø Aos parceiros do Núcleo de Pesquisa em Psicologia Social e Saúde que se
dispuseram inúmeras vezes a ouvir, sempre atentos, as minhas
lucubrações, criticando-as: Adriana Cintra, Andréa Domanico, Claudia
Castro, Cláudia Pedrosa, Dolores Galindo (Tina), Dráuzio Camarnado, Edna
Roland, Jefferson Bernardes (meu posto avançado no Rio Grande do Sul),
Maria Auxiliadora Ribeiro (Xili), Roberta Edo, Rosineide Cordeiro, Sergio
Aragaki, Vanda do Nascimento, Vera Menegon, Zoica Bakirtzief.
Ø Aos membros do Centro de Referência às Vítimas de Violência do Instituto
Sedes Sapientiae, pelas oportunidades de discussão e troca, em especial,
Dalka Ferrari e Rose Myahara, sempre interessadas nos debates que o
tema provoca.
Ø Aos membros do Programa de Atendimento às Vítimas de Abuso Sexual,
pelas reflexões que me proporcionaram, em especial, ao médico Théo
Lerner e à psicóloga Andréa Machado.
Ø Aos parceiros que encontrei no curso: Adriana Domingues, Antônio
Saldanha, Carla Dozzi, Célia Escanfella, Leandro Andrade, Rejane Coelho,
Rosangela Almeida, Rosângela Freitas, Rose Mary Frezza, pelas conversas
entre um café e uma aula, sempre estimulantes, seja pelas elaborações
acadêmicas, seja pelas descontrações.
Ø À Terezinha, Secretária do Programa, sempre acolhedora.
Ø À Maria Helena, pela revisão cuidadosa.
Ø À psicanalista Graciella Barbero, pela disponibilidade em ler as minhas
primeiras reflexões sobre “abuso” e psicanálise com contribuições
importantes. E ao psicanalista Ernesto Duvidovich, pelas observações a
respeito dos gráficos que construí sobre “abuso” e “incesto”.
Ø À Helo, amiga sempre, tão perto ainda que tão longe, pelas observações
em alguns trechos deste trabalho, pela disponibilidade em localizar, enviar
textos e livros fundamentais para a pesquisa. Meu posto avançado em
Cambridge.
Ø À Lia, carinhosamente compartilhando todos os momentos em São Paulo,
pela sua incansável presteza. Devo -te uma maniçoba.
Ø Ao prof. Raul Navegantes, amigo que se dispôs a ler alguns trechos
colaborando com observações importantes e sempre atento, indicando-me
publicações e à Graça Navegantes, sempre solidária.
Ø Ao amigo descoberto no meu percurso no doutorado: Benê, parceiro de
Núcleo e agora de vida.
Ø À Érica, minha ponte no Rio de Janeiro, sempre disponível para acolher
minhas solicitações.
Ø À Rosely, pelo carinho com que se disponibilizou a ajudar em vários
momentos nos cuidados com o Caio.
Ø À Denise e Cláudio, que nos proporcionaram momentos de descontração
tão importantes na nossa vida em Sampa e que me acolheram com tanta
solicitude nos momentos “finais” da tese.
Ø À Mazinha e Sonia, que cuidaram dos lugares onde morei com Ercília, Caio
e Bia. Favoreceram enormemente o meu trabalho.
Ø À D. Yvette, minha mãe, Leila, Sylvia, Rutinha, irmãs e Roberta e Renata,
sobrinhas, pelas gostosuras enviadas de Belém para adoçar os intervalos
de trabalho.
Ø À D. Lucia e “seu” Zé Maria pelo afeto e pelas palavras de incentivo. E à
Hulda por tantos telefonemas para saber “como vão as coisas”.
Ø Ao amigo Nidau (in memorian), por sempre ter me incentivado a
prosseguir na carreira acadêmica.
Ø Ao Caio e à Bia, meu filho e minha filha, pelo constante alerta que me
oferecem sobre o perigo da exclusividade de minhas escolhas ao exigirem
atenção, permitindo que a minha vida suscite inquietação, agitação e fuga
da mesmice.
Ø À Ercília, companheira de sempre, primeira leitora do que escrevi e que
teve a paciência de reler cada linha várias vezes, (quiçá mais do que eu),
com seu olhar instaurador de prosaica dúvida e revelador de contradições
e beleza em trechos do trabalho.
RESUMO
Partindo do pressuposto de que as nomeações ou construções de sentidos são
negociadas em um espaço social, são coletivas (LATOUR, 2000, p. 53) e são talhadas
durante vários anos imprimindo mudanças que se “naturalizam”, é possível verificarmos
na história humana, períodos em que instituições (estruturas sociais) compartilham a
construção hegemônica de sentidos atribuídos a uma ação específica, criando uma
“noção”. A esse conjunto de instituições Hacking denominou matriz (1999, p. 10),
entendida também como um “espaço social” (Ibid.) onde “funciona uma classificação”
(Ibid., p. 11) ou nomeação (determinado sentido) de um acontecimento: um tipo.
Utilizando documentos publicados no Brasil e exterior (publicações
acadêmicas e jornalísticas, folhetos, relatórios, anais, legislação, etc.) e outras
expressões gráficas (quadros estatísticos, fotografias, etc.), busca-se a matriz e as
estratégias de construção e naturalização da noção de “abuso sexual infantil”.
A tese fundamenta-se na perspectiva construcionista representada na
Psicologia Social por vários autores: Tomás Ibáñez (1990, 1993, 1994), Kenneth J.
Gergen (1985, 1991, 1998, 2001), Mary Jane Spink (1996, 1999), entre outros, também
na proposta arqueológica de Michel Foucault (1985b, 1991, 1996, 2000) e na noção de
tipo desenvolvida por Ian Hacking (1999). Neste sentido, "abuso sexual” pode ser
compreendido como a categorização de uma construção social que se constitui em
práticas discursivas, sustentadas por dispositivos institucionais fundados a partir de
vivências diversas tais como, as interações face a face, as mediadas pelos meios de
comunicação e em última instância, pelos processos históricos vivenciados pelas pessoas.
O estudo permite apontar dois movimentos importantes: 1) Durante a
construção do “abuso” como um tipo, o saber médico teve uma participação pioneira,
mas o saber psicológico o sobrepujou. Dessa forma, o “abuso” constituiu-se como um
problema que extrapola as conseqüências físicas, ou seja, a ênfase no “trauma”
provocado pelo “abuso” deixou de ser unicamente física, para se direcionar ao
“emocional” ou “psicológico”, com a peculiaridade de que o “trauma psicológico”
apresenta conseqüências a longo prazo e pode ser potencializado pela memória; 2) A
vida familiar privada pôde ser invadida, com o objetivo explícito de proteger a criança
(pessoa frágil e com direitos específicos), e implicitamente tornar a estrutura familiar
ainda mais forte.
ABSTRACT
Assuming that labels or meanings are negotiated in a social space, leads to an
understanding that they are socially constructed (LATOUR, 2000, p. 53) and historically
sculpted reflecting dynamic changes. Taking this assumption, it is possible to identify in
human history periods in which social institutions shared the hegemonic construction of
meanings that gives significance to a specific action that creates the concept of “notion.”
To this group of social institutions, Hacking called matrix (1999, p. 10). Matrix is also
understood as a “social space” (Ibid.) where the meaning of an event is determined
(Ibid., p. 11): a kind.
Accordingly, this thesis aims to search for the matrix and the strategies
involved in the construction and naturalized notion of “children’s sexual abuse.” In order
to accomplish such intend, documents published in Brazil and in other countries, as well
as academic publications, newspaper articles, government reports, laws, information
flyers, and so on, were analyzed.
The framework adopted in this thesis is in line with the constructivist
perspective presented in the field of social psychology through the work of scholars, such
as Tomás Ibáñez (1990, 1993, 1994), Kenneth J. Gergen (1985, 1991, 1998, 2001),
Mary Jane Spink (1996, 1999), among others. Additionally, it is also theoretically based
on Michel Foucault’s (1985b, 1991, 1996, 2000) archeological proposal and on Ian
Hacking’s (1999) idea of kind. Regarding these theoretical assumptions, the concept of
“sexual abuse” might be understood as a categorization that results from selective
organization within the dialogical discourse. Therefore, “sexual abuse” is a concept
socially constructed supported by institutional mechanisms, which are grounded in
diverse social practices, such as interpersonal interactions (face-to-face), media
mediated interactions, and, at last level, individual’s as well as humanity’s historical
processes.
The study leads to two important historical movements: 1) During the
construction of the concept of “abuse” as a kind, the psychological paradigm took over
the medical knowledge, which was pioneer on this field. In the psychological paradigm,
“abuse” moves beyond physical problems to emphasize the “trauma” aspect of it.
Therefore, “abuse” lost its solely physical dimension to involve the “emotional” or
“psychological” perspectives with the peculiarity that the “psychological trauma” implies
long-term consequences guided and augmented by the memory. 2) The privacy of family
life is allowed to be broken with the intention of protecting the child (fragile being with
specific rights), and of, implicitly, strengthening of the family structure.
RÉSUMÉ
Ayant en compte que les nominations ou constructions de sens sont négociées
dans un espace social, qu’elles sont collectives, (LATOUR, 2000, p. 53) qu’elles sont taillées
pendant plusieurs années et qui impriment ainsi des changements qui se “naturalisent”, c’est
possible de vérifier, dans l’histoire humaine, des périodes dans lesquelles des institutions
(structures sociales) copartagent la construction hégémonique de sens attribués à une action
spécifique, en créant une “notion”. À cet ensemble d’institutions, Hacking a appelé matrice
(1999, p.10), connu aussi comme un “espace social” (Ibid.) où “une classification fonctionne” (
Ibid., p.11) ou comme nomination (certain sens) d’un événement: un type.
À partir de documents publiés au Brésil et à l’extérieur (des publications
académiques et journalistiques, des affiches, des annales, des rapports, législation, etc.) et
d’autres expressions graphiques (tableaux statistiques, photographies, etc.), on a cherché la
matrice et les stratégies de construction et de naturalisation de la notion de “abus sexuel
enfantin.”
La thèse est basée sur la perspective constructioniste représentée dans la
Psychologie Sociale par plusieurs auteurs: Tomás Ibáñez ( 1990, 1993, 1994), Kenneth J.
Gergen (1985, 1991, 1998, 2001), Mary Jane Spink (1996,1999), entre autres. Elle est aussi
basée sur la proposition archéologique de Michel Foucault (1985b, 1991, 1996, ,2000) et sur la
notion de “notion” développée par Ian Hacking (1999). Dans ce sens, “abus sexuel” peut être
compris comme une catégorisation d’une construction sociale qui se présente dans des
pratiques discursives soutenues par des dispositifs institutionnels, fondés à partir de différentes
expériences vécues: les interactions personnelles, celles venues des moyens de
communication et celles provenues des procès historiques vécus par chaque personne et par
l’humanité.
L’étude permet de montrer deux mouvements importants: 1) pendant la
construction de l’ “abus” comme un type, le savoir médical a eu une participation première,
mais le savoir psychologique l’a dépassé, en le transformant ainsi en un problème qui
extrapole les conséquences physiques. Dans ce mouvement, on fait remarquer que le
“trauma” provoqué par l’ “abus” n’est pas seulement physique mais est plus dirigé vers le
trauma “émotionnel” ou “psychologique”. Le plus remarquable est que le “trauma
psychologique” présente des conséquences à long terme et qu’il peut être pontetialisé par la
mémoire; 2) la vie familiale privée a pu être envahie, avec l’objectif explicite de protéger
l’enfant (personne, fragile et avec des droits spécifiques), et implicitement faire la structure
familiale devenir encore plus forte.
SUMÁRIO
I. INTRODUÇÃO: sem dualismos, sem verdades, com criatividade 13
1.1. Enfoque teórico 17
1.1.1. Sobre a construção do conhecimento 17
1.1.2. As noções de tipo, matriz e o “abuso” sexual 23
1.1.3. Uma palavra inicial sobre a construção de sentidos 27
1.2. Da escolha do tema 31
1.2.1. “Nasce” a infância inocente 33
1.2.2. “Nascem” os direitos da criança 37
1.3. O problema 40
1.3.1. Documentos para quê? 42
1.4. Fontes 44
1.4.1. Os documentos como mananciais 44
1.4.2. Os documentos utilizados 47
II. A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS: em busca das tramas do cotidiano 52
2.1. As práticas discursivas 53
2.2. Construção de sentidos e tempo 68
2.3. Memória e construção de sentidos 72
2.4. As práticas discursivas sempre dispersas e múltiplas 75
2.5. A arqueologia do cotidiano 78
III. CAMINHOS E ATALHOS: possibilidades de investigar o que é disperso 83
3.1. Pressupostos metodológicos 84
3.2. Os mananciais 90
3.2.1 Entrevistas 90
3.2.2. Localização dos documentos 91
3.3. As análises 94
3.4. Foco de estudo 97
3.5. Por uma metodologia que estimule a volúpia do saber 98
IV. ABUSO SEXUAL: as redes de força em negociação de sentidos 99
4.1. Afinal, (do) que trato? 103
4.2. Permissões e proibições do incesto 112
V. DO ESTRANHAMENTO À FAMILIARIDADE: o “abuso” se solidifica como um tipo 124
5.1. Da crueldade ao “abuso” 127
5.1.1. O “abuso” se internacionaliza 135
5.2. Da patologia do agressor às conseqüências psicológicas para a vítima 138
5.3. Familiaridade e expansão 147
5.4. Estratégias de visibilidade 153
5.5. A prevalência da área médica 159
Segueà
5.6. O “abuso” se consolida como um problema de saúde 162
5.7. Mantendo a família higienizada 167
VI. O MOVIMENTO NO BRASIL: do abusado ao “abusado” 170
6.1. Dando visibilidade ao “abuso” 172
6.1.1. Pesquisas e publicações 172
6.1.2. A mídia: o “abuso” na TV 179
6.2. A Governamentalidade 180
6.2.1. Aspectos da legislação brasileira 180
6.2.2. As organizações 185
6.3. As convergências 191
6.4. Peculiaridades brasileiras 192
6.5. As ambivalências 198
6.5.1. A família 198
6.5.2. A inocência 201
VII. À GUISA DE CONCLUIR? 209
7.1. Os movimentos na construção de um tipo 210
7.2. Os movimentos para “continuidade” da pesquisa 212
7.3. Os movimentos desencadeados na vida do pesquisador 213
ANEXOS 215
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 225
SOBRE O AUTOR 248
I. Introdução:
sem dualismos, sem verdades,
com criatividade
Ainda há ingênuos observadores de si mesmos
que acreditam existir “certezas imediatas”; por
exemplo, “eu penso”, ou, como era superstição de
Schopenhauer, “eu quero”: como se aqui o
conhecimento apreendesse seu objeto puro e nu,
como “coisa em si”, e nem de parte do sujeito
nem de parte do objeto ocorresse uma
falsificação.
(Friedrich Nietzsche, 1992, p. 21-22)
Introdução 14
É provável que a apresentação de uma tese favoreça o que
Foucault (1987a, p. VII) descreveu como uma grande tentação: a de lhe
atribuir uma forma, carregar-lhe com uma identidade, impor-lhe uma
marca que lhe daria um certo valor constante. Assim, estabelecer “a
monarquia do autor”, apresentando esta pesquisa como fruto exclusivo da
experiência de “seu autor” com o “seu objeto” de investigação e, desta
maneira, apresentar a tese como fruto de um processo de assujeitamento,
sem espaço para os heterônimos.
Estrategicamente, essa tentação é importante no caso da
apresentação de uma tese, pois se trata da abertura de uma defesa. Mas
desfavoreceria completamente uma postura construcionista caso se
buscasse reivindicar que este trabalho se constituísse em um discurso
sem desdobramentos, completamente coerente e monolítico. Ao
contrário, o objetivo é construir um texto ruidoso, que se recuse à
segurança da interpretação única e favoreça a perspectiva de uma tese
construída sob muitas vozes. Ao ser lida, já rompe a exclusividade de sua
autoria, porque proporciona novas construções, associações, outros
sentidos. Dito de outra maneira, o caráter de criação desta tese deve
revelar-se como fruto da perspectiva teórica que o sustenta: o
construcionismo.
No entanto, o movimento de ser reapropriada por quem a lê, de
modo algum transforma a tese num simples jogo de palavras esperando
interpretação. Jorge Luis Borges afirmava que os sentidos de seus poemas
quem os dá é o leitor. Porém:
Introdução 15
... convém, é claro, que o leitor acredite que o autor tenha querido dizer
alguma coisa. Pois se o leitor achar que está diante de um mero jogo de
palavras então o poema fracassou. Quanto ao sentido, pode haver diversos
sentidos num único poema, todos igualmente válidos (BORGES, in: MELLO,
p. 30).
O campo da criação acadêmica pressupõe versos menos livres
que os da poesia, já que são construídos sobre a forma de textos
reflexivos, com posturas minimamente explícitas dentro das várias
possibilidades de posicionamentos teóricos e metodológicos. Mas ainda
assim, está no campo mais abrangente da construção de sentidos, que é o
campo de interesse nesta tese.1 Por certo, esta introdução já faz parte do
exercício de negociação característica da construção de sentidos:
Isto significa que o/a investigador/a deve estabelecer uma relação ativa com
ele/a leitor/a (...): consiste mais em um exercício de negociação que de
exposição (RUEDA & ANTAKI, 1998, p. 65).
O tema “abuso” sexual, em geral, atrai mais a atenção que
“construção de sentidos”, mas foi o mundo acadêmico que me
impulsionou na escolha e casamento das duas temáticas. E, hoje, posso
afirmar que o meu interesse pela temática do “abuso” sexual infantil está
relacionado ao desejo de compreender os processos de construção de
sentidos (no caso, por meio de uma temática com visibilidade social).
Minha preocupação é argumentar que a construção de sentidos,
inerente à dimensão relacional que nos fez seres humanos, permite que
um acontecimento — o “abuso” sexual infantil intrafamiliar — acabe quase
sempre construído como um “fato” possível de ser generalizado,
universalizado e objetivamente observado. Como “fato”, passa a ser
desenhado e colorido no campo social de tal forma que cria uma espécie
de mapa, onde basta se seguir em pistas para que, inevitavelmente, seja
encontrado.
1
A discussão teórica sobre a construção de sentidos é realizada no próximo capítulo.
Introdução 16
Faço aqui um pequeno parêntese para explicar por que adoto a
expressão “acontecimento” para me referir ao “abuso” sexual. Utilizo a
noção de acontecimento, desenvolvida por Deleuze (1998), como algo que
“se produz em nós” (Ibid., p. 151), ou seja, não é um acidente (“o que
acontece”), mas ele é “no que acontece” (Ibid., p. 152). Em outras
palavras, um acontecimento não é como um “fato” (um fenômeno que
pode ser estudado sem a interferência de quem o estuda); ao contrário, o
acontecimento se efetua no presente e ligado ao passado por meio do
pesquisador e do seu mundo. O acontecimento se efetua, o “fato” já foi
realizado (basta descrevê-lo):
Em todo o acontecimento existe realmente o momento presente da efetuação.
Aquele em que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um
indivíduo, uma pessoa ... (DELEUZE, 1998, p. 154).
No entanto, em todo acontecimento há uma segunda estrutura
que se “esquiva” do presente. É-lhe característico sempre escapar, não
estar fundado para sempre. Este é o seu lado ambíguo, impessoal:
Mas há, de outro lado, o futuro e o passado do acontecimento tomado em si
mesmo, que esquiva todo o presente, porque ele é livre das limitações de um
estado de coisas, sendo impessoal e pré-individual... (DELEUZE, 1998, p.
154).
Portanto, um acontecimento pode ser capturado em um instante,
mas logo se revela escapável a qualquer sentido definitivo. Foucault diz:
“trata-se de cesuras que rompem o instante e dispersam o sujeito em
uma pluralidade de posições e funções possíveis” (FOUCAULT, 1996, p.
58).
Dessa maneira, é um trabalho que questiona fortemente a
concepção durkheiminiana de “fato social”:
... negando que se tratam de objetos estáveis, dotados da capacidade de
imporem-se às pessoas com a força de “coisas” e determinar suas condutas
como acreditava Durkheim (IBÁÑEZ, 1990, p. 182).
Introdução 17
1.1. Enfoque teórico
A pesquisa se fundamenta na perspectiva construcionista da
Psicologia Social (Ibáñez; Gergen; Spink, entre outros), utiliza a noção de
governamentalidade desenvolvida por Foucault (1985), a noção de matriz
(matrix) e tipos relevantes (relevant kinds) do filósofo Ian Hacking
(1999), bem como, as noções de dispositivos de inscrição de Bruno Latour
(1997; 2000).
Para que esses referenciais possam ficar mais compreensíveis,
primeiro traçarei um quadro de minha postura diante da construção do
conhecimento dito científico, para, em seguida, desenvolver a análise das
noções de matriz, tipo e dispositivo. Projetei essas reflexões teóricas
desde a introdução porque permeiam toda a tese funcionando como
pressupostos para as considerações que faço sobre a construção de
sentidos e práticas discursivas (Capítulo II).
1.1.1. Sobre a construção do conhecimento
Se os cientistas leram o livro da natureza
é somente porque eles primeiro
transformaram a natureza em um livro
(Nikolas Rose, 1996, p. 107)
As reflexões teóricas sobre os referenciais que adoto se
constituíram em uma tarefa que iniciou antes mesmo da definição de um
projeto de pesquisa e acompanham cada etapa do trabalho. Indicam que
perspectivas me lançam à temática que elegi pesquisar. São premissas
conceituais, que funcionam como ligas de toda a tese. No entanto, desde
Introdução 18
já, alerto que não se constituem em uma adesão dogmática que nega a
crítica a si. Pelo contrário, o projeto de vida acadêmica que busco trilhar
encontrou no construcionismo o princípio de criticar de modo incessante
todo o conhecimento.
Desde a apresentação do que será elaborado neste item já é
possível perceber que a “evidência” de um “objeto” está inteiramente
relacionada aos olhos de quem o vê. Portanto, nem cabe falar de
“evidência” ou de “objeto”, como se discutirá mais adiante. A ciência não
decifra, muito menos revela a natureza ou os fatos. Os acontecimentos
não são uma espécie de “concreto puro” com evidência interna que a
ciência, ou melhor, o pesquisador, decifrará com o uso da linguagem
específica de um campo de estudos. Se assim fosse, bastaria procurar,
como na Renascença, a regularidade dos objetos pesquisados, expressa
pela sua freqüência. Por outro lado, a ciência não é pura “imaginação”,
que se origina na “mente” do pesquisador, que, como na Idade Média, se
valia de sua autoridade para transformar a sua opinião em verdade
(HACKING, 1984). Tanto em uma postura quanto na outra, a experiência
que se inaugura no encontro do pesquisador com o que pretende
pesquisar adquire o status de reveladora de verdades. Como mostra
Blanché (1988, p. 102-103) a “experiência bruta” e seu revés, o
“simbólico puro”, estão somente em um plano ideal. Outros autores,
como o italiano Gianni Vattimo, concordam:
... nem a realidade do mundo se reduz à percepção do sujeito, nem o sujeito
que percebe tem, por sua vez, um estado ontológico mais sólido do que
aquele das suas pretensas “ilusões” (VATTIMO, 2001, p. 18).
Tomo por base as reflexões de Tomás Ibáñez sobre os
empecilhos para a construção do conhecimento sob uma perspectiva
construcionista, que considera o conhecimento como “um produto
construído mediante determinadas práticas humanas” (1994, p. 39). São
quatro os obstáculos:
Introdução 19
a) A crença em uma dicotomia entre sujeito e objeto
Esse debate opõe de um lado idealistas ou racionalistas, que
consideram que o sujeito é quem “imprime ao conhecimento todas, ou
quase todas, suas características” (Ibid., p. 40) e, de outro lado,
empiristas ou realistas, que reputam o objeto “como o determinante em
última instância, das características do conhecimento” (Ibid.). Ambos
podem até achar que o conhecimento é construído, contudo, os idealistas
ou racionalistas advogam que são construções “determinadas pela nossa
mente ou pela lógica do seu funcionamento” (Ibid., p. 40-41). Os
empiristas defendem que o conhecimento, para que seja válido, precisa
estar em correspondência com a realidade; portanto, é ela quem “guia a
construção dos conhecimentos” (Ibid., p. 40).
Aproximando-se do construcionismo, os interacionistas também
concebem o conhecimento como ativamente construído na interação entre
sujeito/objeto e apresentando inevitáveis e inseparáveis características
que provêm “tanto do sujeito como do objeto” (Ibid., p. 41). Mas as
semelhanças acabam aí, já que os interacionistas transformam sujeito e
objeto em entidades naturais, ou seja, não avançam na direção de evitar
a noção de sujeito e objeto e assim, também considerar como construídos
os “elementos que entrevêem no processo de elaboração do
conhecimento” (Ibid.), que além de serem os tais sujeitos e objetos,
também incluem os critérios que validam um saber como científico.
Preferi não utilizar a palavra “objeto” neste trabalho para me
referir à temática estudada, fruto de uma tentativa de coerência aos
referenciais teóricos adotados. A palavra “objeto” remete sempre a algo
que é pensado ou representado por nós em função de sua materialidade.
Dou exemplo disso por meio de algumas definições que encontrei no
dicionário (FERREIRA, 1986, p. 1208):
Introdução 20
• Tudo que é apreendido pelo conhecimento, que não é o sujeito do
conhecimento;
• Tudo que é manipulável ou manufaturável;
• Filo. O que é conhecido, pensado ou representado, em oposição ao ato de
conhecer, pensar ou representar;
• Filo. O que se apresenta à percepção com um caráter fixo e estável.
A palavra “objeto” está envolta nesta cisão entre alguém que
conhece e o que vai ser conhecido, sendo criticada como completamente
inadequada a uma perspectiva construcionista.
Não defini convencionalmente nenhum termo específico que
retratasse a temática de estudo por ser cético, também, em relação à
possibilidade de uma palavra a “definir”. Tomei a liberdade de adotar
termos como: tema, assunto, matéria ou ainda a própria descrição do que
pretendo pesquisar. O importante no cuidado com os termos empregados
é, na medida do possível, procurar verificar se o emprego de uma palavra
é oportuno em relação ao sentido que se quer dela. Todavia, em relação
à palavra “objeto”, não creio que seja possível utilizá-la, tal a sua
estabilidade conceitual e incompatibilidade com uma perspectiva
construcionista.
b) A concepção representacionista do conhecimento
Essa concepção indica que o conhecimento é válido quando
corresponde ou reflete a realidade. É impossível sustentá-la em uma
concepção construcionista. Ibáñez esclarece que, para saber se duas
coisas correspondem, é necessário compará-las, acedendo a cada uma
com total independência. O problema é exatamente este: como
acedermos à realidade com independência do conhecimento que temos
dela para compará-la com esse mesmo conhecimento? (Cf. IBÁÑEZ,
1994, p. 43). Não podemos:
Quando elaboramos um conhecimento não estamos representando algo que
estaria aí fora na realidade, como tampouco estamos traduzindo esses objetos
Introdução 21
exteriores e enunciados, estamos construindo de par em par um objeto
original que não traduz nada e que não representa nenhum objeto da
realidade com a qual estaria em correspondência (Ibid., p. 44).
Ibáñez se pergunta por que muitos ainda relutam em abandonar
a concepção representacionista e sustenta a hipótese de que é porque
têm receio da metáfora de um conhecimento como produto da fantasia de
seus criadores. Retruca:
... o conhecimento dista muito de ser ficção desenfreada, obedece a uma
série de restrições que condicionam o relato que se pode construir. Quando
se afirma que algo está construído, não se está dizendo que o resultado
depende exclusivamente dos caprichos do construtor. Com efeito, o que se
constrói tem determinadas finalidades, essas finalidades orientam as
características da construção (Ibid., p. 44).
Percebe-se uma pragmática na concepção construcionista que a
aproxima de teóricos como Richard Rorty, especialmente nas suas teses
contra qualquer “teoria da representação” e também em referência ao
“relativismo” (RORTY, 1994; 1997). Nesse último caso, é interessante
notar que a pretensão de desqualificar a postura construcionista,
acusando-a de relativista, implica em uma visão do conhecimento que
inclui o representacionismo, ou seja, se alguém se dispõe a discutir o
relativismo, é por acreditar na possibilidade de um conhecimento
verdadeiro e, portanto, fiel à realidade:
Até onde posso ver, o relativismo, (...) só poderia inserir-se na mente de
alguém que, (...), tivesse sido anteriormente convencido de que algumas de
nossas crenças verdadeiras estão relacionadas com o mundo de um modo,
segundo o qual, outras não (Rorty, 1997, p. 75).
c) A crença na verdade
Como indica Ibáñez, toda sociedade tem uma certa economia da
verdade, (1994, p. 45), ou seja, todos temos critérios para apostar mais
em alguma coisa ou em outra. Mas o que está sendo criticado aqui é a
Introdução 22
noção de verdade que apresenta um caráter absoluto e transcendente,
sem levar em consideração circunstâncias, pontos de vista, crenças,
desejos e decisões particulares (Cf. IBÁÑEZ, 1994, p. 45). A verdade está
para além da mortalidade humana:
... a partir do momento em que assumimos a crença na verdade, estamos
afirmando que esta não depende de nós mesmos e estamos declarando
portanto, que existe uma instância não humana que a estabelece e regula,
chame -se esta instância de Deus, a Realidade, a Ciência ou a Leis do Universo
(Ibid, p. 45).
A postura construcionista requer que nos afastemos da verdade,
uma vez que seus critérios são obra nossa e contingentes às nossas
práticas. Não há nada verdadeiro no sentido estrito da palavra (Ibid., p.
46).
d) A crença de que o cérebro fabrica o conhecimento e é a sede
do pensamento
Conforme Ibáñez, especialmente por causa da relação que existe
entre lesões no cérebro e dificuldades de pensamento, a tendência é
“essencializar os processos cognitivos” (Ibid., p. 46), ou seja, os
conteúdos e formas de nossos “processos cognitivos” dependem do
cérebro, que é condição de possibilidade do pensamento, assim como o
campo social, conclui o autor. Uma concepção diferente desta leva a três
princípios que impedem a postura construcionista: a) o internalismo: que
localiza os processos cognitivos no interior do cérebro; b) o
essencialismo, que faz os processo cognitivos parecerem naturais e
invariantes; c) o universalismo, que apresenta concepções atuais como
formas-padrão e como modelos válidos a situações semelhantes (Cf.,
Ibid., p. 48).
Introdução 23
A lista de empecilhos poderia ainda ser bem maior. Aqui
acrescento alguns pontos que são incompatíveis com a construção do
conhecimento a partir de uma perspectiva construcionista:
• A noção de progresso da história;
• As categorias identitárias consideradas naturais como homem,
mulher, criança etc... (criticada por UBACH, 1998, p. 53);
• E ainda, a concepção de “eu” estruturado, como uma “unidade
psíquica interior” que precisa ser investigada por uma reflexão
introspectiva (Ibid., p. 55), usada para o descobrimento de si,
para mostrar a verdade de si (FOUCAULT, 1990, p. 93).
1.1.2. As noções de “tipo”, “matriz” e o “abuso” sexual
Considerado como um tipo, “abuso” pode ser compreendido
como uma categorização, ou seja, como organização e seleção de
aspectos de um acontecimento que, inevitavelmente, se constitui em
práticas discursivas, que se fundam a partir de vivências diversas, tais
como interação face a face, mediadas pelos meios de comunicação, pelos
processos históricos que cada pessoa vivencia e pela humanidade.
Um tipo se constitui em fragmento de um acontecimento,
congelando-o. É social e cotidianamente elaborado com algum propósito
(HACKING, 1999, p. 128). Portanto, emerge no espaço social, entendido
como espaço de “distribuição racional”, “espaço finalizado de convergência
ideal”, “espaço coerente”. 2 É essa estrutura social que possibilita a
emergência de um tipo.
2
Essa noção de social é desenvolvida por Jean BAUDRILLARD (1994).
Introdução 24
Um tipo é construído a partir de uma matriz3 (HACKING, 1999,
p. 10). Aliás, Hacking é enfático, um tipo só funciona dentro de uma
matriz (Cf. Ibid., p. 10-11). Assim, ao analisarmos a emergência de um
tipo, é preciso também examinar a sua matriz (as suas condições de
possibilidade). Hacking dá o exemplo do tipo “mulheres refugiadas”, cuja
matriz é formada por uma série de instituições: práticas de
nacionalidade, imigração, cidadania e mulheres em fuga pedindo asilo
(Ibid., p. 12).
É importante notar que o que está sendo socialmente construído
não é, em primeira instância, a pessoa individual, mas uma classificação
(Ibid., p. 10). Ao se referir às mulheres refugiadas, Hacking diz: “... essa
maneira de classificar pessoas é produto de eventos sociais, de
legislações, de trabalhadores sociais, de grupos de imigrantes, de
ativistas, de advogados e das atividades de mulheres envolvidas” (Ibid.).
O que é socialmente construído não é uma pessoa específica, mas “a idéia
de mulher refugiada” (Ibid.).
A partir desse momento, Hacking coloca como sinônimos: idéia,
conceito e tipo (Ibid.). Não foi uma associação muito feliz, pela
dificuldade em utilizar o termo “idéia”, mesmo que o autor justifique seu
uso dizendo que não lhe atribui nenhum sentido mental, mas como sendo
algo construído socialmente. É compreensível sua opção, porém preferi
adotar o termo tipo sem associá-lo à idéia, para não utilizá-lo como uma
construção mental.
3
Luiz Cláudio FIGUEIREDO (1991) também utiliza o termo “matriz” para analisar as
“escolas” e “seitas” psicológicas (p. 12), em uma concepção muito próxima de Hacking:
como “modelos” de inteligibilidade e interesses (Cf., p. 11-12). A isso deu o nome de
“matrizes do pensamento psicológico”. À primeira vista, poderíamos ter a impressão de
que se trata de uma noção de matriz cognitivista, em função da natureza do trabalho de
Figueiredo. No entanto, os “pressupostos” (p. 12) das teorias que o autor analisa, além
de serem sustentáculos das práticas de psicólogos (em consultórios, organizações,
universidades etc.), também são por elas produzidos (testados, abandonados,
reforçados, ignorados).
Introdução 25
A noção de tipo foi originalmente usada pelo filósofo americano
Nelson Goodman, como aponta Hacking (Ibid., p. 128). Um tipo é uma
grande classificação que se estabelece socialmente, é compartilhada e
pode ser modificada sempre, com a finalidade de construir sentidos sobre
o mundo:
A seleção e organização de tipos determinam, (...) o que nós chamamos de
mundo embora (...) nós estejamos melhores sem um conceito de mundo
comum. O mundo está bem perdido ... (Ibid., p. 129).
Os tipos, por nos permitirem uma construção do mundo, têm
algumas características importantes: a) são “preferencialmente
cotidianos ou desenvolvidos para um propósito" (Ibid., p. 128); b) a sua
organização é essencialmente coletiva e social (Ibid., p. 129). Assim, o
“abuso” pode ser classificado como um tipo na medida em que se torna
visível no cotidiano (pioneiramente na prática de médicos pediatras norte-
americanos) e se desenvolve com o propósito de combater e controlar a
atividade sexual entre um adulto e uma criança.
O estudo do “abuso” como um tipo foi realizado a partir de
documentos diversos. A variação de documentos (livros, artigos
jornalísticos, acadêmicos e em revistas especializadas, relatórios de
eventos, comunicados de organizações internacionais etc...) teve o intuito
de compreender como um tipo se estrutura, a fim de ampliar esse estudo
para outros assuntos temáticos. Assim, examinar a eficácia deste
referencial em uma pesquisa e avaliar a possibilidade de fazer o que
Hacking acha ser fundamental na análise de tipos, é compreender um
grupo de tipos:
Um estudo de um tipo pode iluminar muitos outros. Mas não importa se o
exemplo foi bem escolhido, isto servirá unicamente como um guia para
compreensão de um grupo de tipos. Nunca deveria funcionar como um
modelo para todos os tipos. A senha é “variação” (Ibid., p. 131).
Introdução 26
É um estudo que analisa alguns aspectos de como, na vida
cotidiana, nós selecionamos e organizamos novos tipos, através de
práticas discursivas, sem nunca perder de vista que esse processo todo
está imerso na construção humana de sentidos.
“Abuso” sexual é um tipo que está visível e operando no mundo,
permitindo a emergência de atividades profissionais específicas, saberes,
organizações, leis e produzindo uma ingerência no âmbito privado da
estrutura familiar, na vida de crianças e, especialmente, na vida de
adultos, que passam a reestruturar seu passado e seu presente em função
da emergência desse tipo. Também, como apont a Hacking, é um tipo que
mantém sob tensão as fronteiras de diversas especialidades (medicina,
psiquiatria, sociologia, psicologia, jurisprudência, auto-ajuda), com o
intuito de produzir saberes:
... há abundância de especialistas firmemente convencidos que há verdades
importantes sobre o abuso de criança. Pesquisas e experimentos podem
revelá-las. Nós desejamos que causas e efeitos sejam bem compreendidos, de
modo que possamos encontrar prognósticos de futuros abusos, que nós
possamos explicar isto, que nós possamos prevenir isto, que nós possamos
determinar suas conseqüências e combatê-las. Nós desejamos poder curar
abusadores de crianças e curar as crianças feridas (HACKING, 1999, p. 132).
Empreender uma cartografia do “abuso” infantil como um tipo
pressupõe um rápido exame de sua matriz, (também socialmente
Introdução 27
construída). É formada por três instituições fundamentais:4 1) a
constituição do “eu” (self); 2) a noção de infância construída como uma
etapa do desenvolvimento humano, em que a criança deve ter cuidados
especiais em virtude da sua fragilidade e, por isso, devem ser limitados os
assuntos e jogos possíveis (excluindo, por exemplo, os de cunho sexual
explícito); 3) a noção de direitos, por meio da qual a criança adquire o
status de cidadã. Elas abrem o espaço necessário para que a prática de
relações sexuais entre um adulto e uma criança se manifeste como
abusiva. Foram necessários séculos para que isso acontecesse. Antes da
noção de “abuso” ligada à prática sexual, primeiro tornou-se visível a
noção de “crueldade” física (HACKING, 1999, p. 133-138).
1.1.3. Uma palavra inicial sobre a construção de sentidos
A ciência, as artes, a mídia, entre outros, fazem parte de
domínios de construção de saberes, que adquirem formas e sentidos
constituídos ao longo dos tempos. São práticas discursivas. Ao estudar a
emergência do “abuso” sexual infantil como um tipo, este trabalho busca
a construção de sentidos veiculados a partir da academia, organizações
governamentais e não-governamentais e na mídia. Há um pressuposto
básico em relação à linguagem humana, definida como prática discursiva.
A linguagem:
... cria a cada momento, (...) várias e infinitas interpretações e indagações
(...), é a nossa proteção, pois instituímos nossos pontos de referência, sem os
quais enlouqueceríamos (PAIXÃO, 1993, p. 11).
4
Por considerar que a constituição do self será mais bem compreendida na sua relação
com o “abuso”, após discussões sobre sentidos, apenas a cito. Durante o
desenvolvimento do Capítulo V, me deterei mais nas instituições que compõem esta
matriz. É possível buscarmos ainda outras instituições, mas essas são fundamentais e
imprescindíveis para a constituição do “abuso”.
Introdução 28
Realizei um estudo etimológico como pressuposto ao mergulho
no tema que me propus estudar, mas não me detive unicamente na
análise de terminologias específicas empregadas nos dicionários para se
referirem a um determinado acontecimento: relação sexual entre um
adulto e uma criança no âmbito familiar. Este trabalho também é uma
construção de sentidos, por mais que se desenvolva sobre o aparente
significado congelado nos dicionários. Desde o momento que antecedeu a
consolidação de um projeto de pesquisa, procurei a construção de
sentidos sob a perspectiva do construcionismo, para não me limitar a
descrições sobre a “evolução” no tempo5 de determinado termo ou noção.
As minhas preocupações neste trabalho de pesquisa se
encaminham em direção a um interesse por práticas sociais, na medida
em que criam e afetam instituições que se sustentam em formas
discursivas, as mais diversas. Isso faz com que todo estudo sobre
sentidos tenha como pressuposto: nenhuma construção discursiva pode
ser tratada como se fosse discurso autônomo, desvinculado de uma
cotidianidade humana que é tão diversificada quanto a possibilidade de
existirem saberes sobre determinado acontecimento. A palavra chave
para o mergulho no estudo da construção de sentidos é: negociação. A
construção de sentidos como fruto de negociação é apontada por vários
autores (SPINK & MEDRADO, 1999; GERGEN, 1991). Mesmo as
“descobertas científicas” são frutos de uma negociação na comunidade
científica (LATOUR & WOOLGAR, 1997; LATOUR, 2000).
Na análise das práticas discursivas, simpatizo com alguns
aspectos de posturas hermenêuticas como as de Ricouer e Gadamer e
com a postura analítica freudiana. Mas, a leitura de trabalhos destes
5
A discussão sobre a incompatibilidade com a postura construcionista em pesquisar
“evoluções” de práticas, encontra-se no próximo capítulo, no item “Construção de
Sentidos e Tempo”, p. 68-71.
Introdução 29
autores, ao longo de meu percurso acadêmico, foi fundamental para que
eu não me deixasse seduzir pela possibilidade (a meu ver, dotada de
fracasso) de uma dimensão interpretativa que buscasse sentidos
generalizáveis e verdadeiros, que parece, algumas vezes, ser por eles
facilitada. Assim sendo, considero uma tarefa inútil a de tentar responder
às questões: “Qual o sentido de tal texto?”; “O que o autor está
tentando dizer?”. Sendo assim:
... não há significado profundo, não há “origem escondida” na história ou fora
dela, de modo que a tentativa hermenêutica de encontrar um fundamento
anterior, por trás ou além da história, enquanto se situa na história, pode ser
rejeitada como mais um imperativo humanístico inacabável (RABINOW &
DREYFUS, 1995, p. 108).
Neste trabalho, preferi enveredar por caminhos propostos pelos
autores citados quando discuti o referencial teórico (Foucault, Gergen,
Hacking, Ibáñez, Latour, Spink), porque claramente adotam uma postura
oposta à busca de um sentido oculto à espera de interpretação.6
Inversamente, é na superfície do encontro do pesquisador com a sua
história de vida, seu acervo cultural, suas posturas teórico-metodológicas
e com a emergência de acontecimentos, que há um efeito de construção
de sentidos. Isso não se coaduna com uma postura de tradução de um
“fato”.
Sem sucesso em pesquisa etimológica sobre a origem da palavra
“interpretar”, em dicionários de língua portuguesa, julgo que uma análise
dessa palavra fragmentando-a pode ajudar a esclarecer a postura que
defendo neste trabalho. O prefixo “inter” é derivado do latim e significa
6
Há um movimento importante que tem questionado as interpretações nos trabalhos de
pesquisa. James Clifford, referindo-se ao trabalho etnográfico, faz observações que
podem ser ampliadas a outros trabalhos de pesquisa: “torna-se necessário conceber a
etnografia não como a experiência e a interpretação de uma ‘outra’ realidade
circunscrita, mas sim como uma negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e
muitas vezes mais sujeitos (...). Paradigmas de experiência e interpretação estão dando
lugar a paradigmas discursivos de diálogo e polifonia” (CLIFFORD, 1998, p. 43).
Introdução 30
“entre”, “no meio de” (CUNHA, 1998, p. 440). É muito utilizado na
formação de verbos (interligar, interdição, por exemplo). No exercício da
construção do sentido da palavra “interpretar” (construção de um efeito),
presumo que a palavra “pretor” possa ter tido um papel fundamental. A
palavra “pretor” significa magistrado que na Roma Antiga distribuía
justiça. É uma palavra que pode ser associada à busca de uma verdade
última evidenciada como a melhor opção a ser adotada. Inter-pretar seria
uma ação entre pretores, pessoas qualificadas como julgadores e
distribuidores de justiça. É um exercício que, como indiquei acima, ajuda
a esclarecer meu esforço por adotar uma postura que rejeite a
interpretação nesses moldes (bus ca de uma verdade).
O exercício da analítica deve abandonar a interpretação como
busca de compreensão última de algo (deste modo, a busca de uma
interpretação pretoriana), uma vez que o pesquisador sempre “(...)
prefigura o campo histórico e o constitui como um domínio no qual é
possível aplicar teorias específicas” (WHITE, 1995, p. 12), que utilizará
para formar seus problemas, suas análises e suas temporárias conclusões.
Seguindo este raciocínio, o objetivo deste trabalho constitui -se
no exercício de abordar um acontecimento, que se transformou em um
tipo relevante, expressado como um problema, que, “apropriado” pelo
pesquisador, é construído através de estratégias metodológicas. Como
um caudaloso rio que corre em direção ao oceano, a argumentação de
qualquer pesquisador finaliza (pela defesa de uma tese ou publicação de
artigo ou entrevista, por exemplo) na construção de sentidos ao
acontecimento estudado. O compromisso do pesquisador deve ser ético
na medida em que permite o acesso aos meandros de sua argumentação
e escolha metodológica. O aparente solilóquio do pesquisador durante a
pesquisa transforma-se na tentativa de suscitar interesse e discussão
sobre sua construção argumentativa. Essa suscetibilidade só é possível se
o pesquisador compreender o seu trabalho como uma construção dentre
Introdução 31
outras, uma vez que não há leis universais e objetivas que direcionem as
práticas dos seres humanos, situação esta bem referida por Rabinow &
Dreyfus como “a perturbadora falta de fundamento da maneira de ser...”
(1995, p. XVIII).
Esta tese também se constitui em uma prática discursiva. Como
tal é: “... simultaneamente batalha em arma, conjunturas e vestígios,
encontro irregular e cena repetível” (FOUCAULT, 1987a, p. VIII). Sem
dualismos, sem verdades, mas num esforço enorme em direção à
criatividade.
1.2. Da escolha do tema
Já desde o mestrado, cuja dissertação versou sobre a temática
da violência agrária no sul do Pará, me dediquei a pesquisar
acontecimentos violentos. Logo após concluí-la, ajudei a criar o Grupo de
Estudos da Violência (GEV), na Universidade Federal do Pará, com o
intuito de montar um banco de dados que reunisse documentação que
incluía textos jornalísticos, livros e textos acadêmicos. Pouco tempo
depois do seu início, recebemos a solicitação de colaborar na organização
de documentação jurídica, processual e jornalística, para dar suporte à
luta de um grupo formado por mães e pais residentes na cidade de
Altamira (PA), cujos filhos foram mortos em uma situação peculiar:
meninos entre oito e treze anos eram seqüestrados e, posteriormente,
apareciam mortos em lugares ermos, com marcas de tortura, sevícias
sexuais e emasculados.
Impressionados com esses crimes violentos, dedicamo-nos, sem
muito sucesso, a reunir o maior número possível de referências
bibliográficas a respeito de casos semelhantes àqueles ocorridos em
Altamira. Conseguimos apenas algumas referências relacionadas à área
Introdução 32
da Antropologia, cuja temática eram ritos satânicos que envolviam
emasculação. Durante essas buscas, tomei contato com uma série de
publicações referentes à temática da violência doméstica e do “abuso”
sexual infantil.
A análise desse material causou de imediato duas impressões:
1) havia pouca variação dos autores brasileiros que se dedicavam ao
tema (eram geralmente psicólogos ou assistentes sociais e residentes em
São Paulo); 2) havia uma repetição na maneira de abordar a temática do
“abuso” sexual infantil nas publicações, prevalecendo a postura de que a
população deveria ser mobilizada para identificar situações de “abuso”
sexual e denunciá-las à polícia ou autoridade judicial competente.
De maneira mais elaborada, essas primeiras impressões podem
ser apresentadas como:
a) há um movimento bem articulado no Brasil, cuja origem está na
cidade de São Paulo, mais especificamente na USP. Isso quer
dizer que as linhas de atuação e de argumentação, tanto das
organizações, quanto de intelectuais e profissionais envolvidos,
eram muito semelhantes e versavam, basicamente, sobre as
mesmas temáticas: critérios de classificação, exames, vigilância
e punição às situações de “abuso” sexual infantil. Em síntese,
constituíam uma série de procedimentos para enquadrar,
controlar e medir "abuso” sexual;
b) foram criadas estratégias as mais diversas, com o intuito de
assegurar a apresentação e divulgação de denúncias, bem como
proteger a criança e apenar o adulto.
O “abuso” sexual emerge como um problema específico,
expondo a família a uma intervenção pública, exigindo investimentos
significativos em todo o mundo, tanto de ordem econômica, quanto de
Introdução 33
ordem jurídica e ordem política. A academia, ao lado da mídia, tem um
papel importante nessa construção.
1.2.1. “Nasce” a infância inocente
A emergência do "abuso” sexual infantil foi favorecida pela
construção da noção de infância, a partir do advento do Estado, da família
e da escola. É esse lugar atribuído para a criança na sociedade e na
família (com as mudanças destas também), especialmente a partir do
século XVI, solidificada no século XVII e com formas imperativas a partir
do século XVIII, que permitiu, já na metade do século XX, julgar a relação
sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente como “abuso”
sexual, constituindo-o como um tipo e lhe dando autonomia suficiente
para se “universalizar” e “naturalizar”.
A noção de infância como argumenta Ariès (1981) é tardia.
Não havia na língua francesa, antes do século XIX, uma palavra para
designar o recém-nascido (Ibid., p. 45). Foi no século XX que se
passou a dar dedicação especial à infância (Ibid., p. 48).
A relação entre sexualidade-criança-jovem-adulto teve várias
construções. A prevalência da moralidade cristã na constituição e
aplicação das leis favoreceu a ilegalidade de várias atividades sexuais, tais
como o adultério, a bigamia, o incesto, a sodomia. A prática legal de
algumas atividades sexuais somente tornou-se possível no casamento ou
mediante a prostituição. Mas é importante observar que as atividades
sexuais entre adultos e crianças nem sempre foram consideradas
especialmente ilegais. Houve época em que um adulto estava submetido,
pelo menos a princípio, às mesmas punições por cometer algum crime
sexual com outro adulto ou com uma criança, ou seja, não seria punido
somente por causa do(a) seu(sua) parceiro(a) ser um(a) “menor”
(KILLIAS, 1991). Há um caso que ilustra essa situação:
Introdução 34
... um padre, cujo nome era Johann Arbogast Gauch, por dez anos (1735-
1744), quando servia em uma vila como vigário no antigo principado de
Fürstenberg (Alemanha), manteve relações sexuais com vários rapazes e
algumas meninas. Os atos sexuais se restringiram a masturbação com os
meninos e com as meninas na exibição das genitálias. Algumas das crianças
eram participantes condescendentes; muitos parecem ter resistido a princípio,
mas foram compelidos. Parece que toda a vila estava bem consciente do que
estava acontecendo, mas por um longo tempo ninguém interferiu. Contudo,
após dez anos, e isto após uma mudança no trono de Fürstenberg, Gauch foi
finalmente processado e sentenciado à morte. As crianças foram mantidas
em uma prisão subterrânea por vários meses e os meninos, como cúmplices
dos crimes, foram espancados e açoitados. Os meninos mais velhos mal e
mal escaparam da sentença de morte. As meninas apenas receberam
penalidades eclesiásticas por comportamento impuro. Como as atividades
sexuais nas quais elas foram envolvidas eram heterossexuais, não foram
levadas a sério (KILLIAS, 1991, p. 42).
Sem a solidificação da noção de infância, portanto, sem a
consolidação de uma fase que requeresse cuidado especializado, os
assuntos ou jogos sexuais, atualmente proibidos às crianças, eram
comuns a todas as idades e a todas as classes, entre o final do século XVI
e início do século XVII. Ariès nos fornece alguns exemplos primorosos da
vida de Luis XIII:
Luis XIII ainda não tem um ano: “Ele dá gargalhadas quando sua ama lhe
sacode o pênis com a ponta dos dedos” (Ibid., p. 125).
Durante seus três primeiros anos, ninguém desaprova ou vê algum mal em
tocar por brincadeira em suas partes sexuais: “A Marquesa (...) muitas vezes
punha a mão embaixo de sua túnica; ele pedia para ser colocado na cama de
sua ama, onde ela brincava com ele e punha a mão embaixo de sua túnica”
(Ibid., p. 126).
Essas brincadeiras não eram restritas à criadagem ou a jovens desmiolados
ou a mulheres de costumes levianos, como a amante do Rei. A Rainha, sua
mãe, também gostava dessa brincadeira: “A Rainha, pondo a mão em seu
pênis, disse: meu filho peguei a sua torneira”. O trecho seguinte é ainda mais
extraordinário: “Ele e Madame (sua irmã) foram despidos e colocados na
Introdução 35
cama juntos com o Rei, onde se beijaram, gorjearam e deram muito prazer
ao Rei” (Ibid., p. 126).
Essa prática familiar de associar crianças às brincadeiras sexuais dos adultos
fazia parte do costume da época e não chocava o senso comum (Ibid., p.
128).
Segundo Ariès, esses jogos sexuais começaram a ser proibidos
pela grande “... reforma cristã e a seguir leiga, que disciplinou a sociedade
aburguesada no século XVIII e, sobretudo do século XIX, na Inglaterra e
na França” (Ibid., p. 129). Diz ainda:
Não se tratava mais de alguns moralistas isolados (...), e sim de um grande
movimento cujos sinais se percebiam em toda parte, tanto numa farta
literatura moral e pedagógica como em práticas de devoção e numa nova
iconografia religiosa (Ibid., p. 129).
Uma noção essencial se impôs: a da inocência infantil. (Ibid., p. 136; o grifo é
meu).
Antes, a infância era mais ignorada, considerada um período de transição
rapidamente superado e sem importância (Ibid., p. 138).
Uma noção de infância se impõe, mas, como aponta Dandurand
(1994), “surgem gradualmente duas figuras contrastantes da infância”.
Uma, na burguesia ascendente, que centraliza a família na criança, para
protegê-la do mundo: “... porque a criança é julgada vulnerável e
precisa, para se desenvolver harmoniosamente, ser colocada à parte do
mundo dos adultos” (Ibid., p. 343-344). E outra, entre a população
empobrecida, em que as crianças são deixadas aos cuidados de
instituições beneficentes. Surgem, assim, duas formas opostas de
proteção à infância, uma privada e outra pública (Ibid., p. 343).
Introdução 36
A meu ver, ambas as formas prevalecem na constituição dessa
noção de infância frágil7 “associada ao primitivismo e ao irracionalismo”
(ARIÈS, 1981, p. 146), que surgiu com Rousseau, mas que “pertence à
história do século XX” (Ibid.), sendo marcada pela preocupação de sempre
fazer das crianças “pessoas honradas, probas e (...) racionais” (Ibid, p.
163). Agora a sua saúde e sua educação devem ser motivo de grande
preocupação (Ibid., p. 164).
Não podemos esquecer também que essa “proteção” às crianças
“abandonadas” que floresce em abundante literatura a partir do século
XVII (DONZELOT, 1986, p. 15-16), que passa a ser assumida pelo Estado,
no final deste século e solidifica-se no século XX, tem motivações iniciais
que poderíamos hoje julgar como pouco humanitárias:
... mostrar como seria oportuno (...), salvaguardar os bastardos, a fim de
destiná-los a tarefas nacionais, como a colonização, a milícia, a marinha,
tarefas para as quais eles estariam perfeitamente adaptados, pelo fato de não
possuírem vínculos de obrigações familiares (DONZELOT, 1986, p. 16).
A mesma “preocupação” surge no Brasil no final do século XIX
e início do século XX:
Empenhados na tarefa social de regeneração física e moral das crianças
desamparadas e alarmados com os elevados índices de mortalidade infantil
registrados no país, os médicos sanitários discutem a situação da infância
carente, refletem sobre as causas do fenômeno e, tendo em vista “os
interesses do Estado”, tentam encontrar soluções para evitar o
despovoamento da nação e para formar os futuros cidadãos (RAGO, 1985, p.
120).
A criança, como conhecemos hoje, foi moldada durante
séculos e permanece se deslocando. Mas há uma visibilidade
hegemônica que reclama universalidade. Aparentemente, seu ciclo de
7
A não ser que focalizássemos a figura de quem “abandona” a criança, mas no contexto
social geral, a prática de levar essas crianças “abandonadas” ao orfanato indica a
necessidade de protegê-la.
Introdução 37
possibilidades de transformação parece se fechar por um momento, em
função da luta por hegemonia, que pretende congelar uma noção como
um “fato”. Isso tem implicações de controle: formação de hábitos por
proibições e consentimentos, que geram a institucionalização de modos
de ser. Podemos compreender esta institucionalização como uma
“tipificação recíproca de ações habituais” (BERGER & LUCKMANN, 1985,
p. 113).8 Um acontecimento passa a ser esperado através de
indicadores de suas manifestações, como pode ser visto em relação às
estatísticas de “abuso” sexual. No entanto, apesar do controle e das
estratégias de regulação, a prática sexual entre um adulto e uma
criança irrompe e é considerada uma prática “abusiva”, porque
desrespeita os “direitos” da criança.
1.2.2. “Nascem” os direitos da criança
Estamos ainda vivendo, segundo Norberto Bobbio (1992), a “era
dos direitos”, que teve um grande impulso após a 1a Guerra Mundial e
cuja motivação não se pautou com uma atitude “humanitária” em relação
à população em geral:
Existem autênticas motivações humanitárias presentes no desenvolvimento
de "lei humanitária" para mitigar os horrores da guerra por declarar ilegais
certas armas, protegendo os doentes, feridos e prisioneiros de guerra,
salvaguardando populações civis, mas essa lei humanitária provavelmente
derivou de uma preocupação dos Estados por seus próprios soldados e
cidadãos, não pela igualdade de direitos humanos (HENKIN, 1990, p. 15).
De todo modo, Bobbio apresenta três aspectos importantes que
deram determinada configuração aos direitos nos dias atuais (Ibid., p.
68): a) o aumento de bens considerados merecedores de tutela; b) a
extensão de direitos para além do indivíduo; c) a especificação das
maneiras humanas de ser. Conforme Bobbio, primeiro expandiram-se, de
8
A semelhança com o conceito de “tipo” proposto por Hacking é grande.
Introdução 38
forma genérica, os direitos políticos e sociais: direito de religião, opinião
etc. Em segundo lugar, houve a extensão de direitos a “sujeitos
diferentes do indivíduo”: família, minorias étnicas. E em terceiro lugar, o
ser humano se especificou e a essas especificações foram atribuídos
direitos: mulher, criança, idosos. As cartas de direitos que se sucederam
permitem uma visualização disso:
... em 1952, a Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher; em 1959, a
Declaração da Criança; em 1971, a Declaração dos Direitos do Deficiente
Mental; em 1975, a primeira Assembléia Mundial, em Viena, sobre os direitos
dos anciãos... (BOBBIO, 1992, p. 69).
Mais diretamente interessa a este trabalho a atribuição de
direitos à criança, a qual passou a ser uma categoria do ser humano, no
âmbito das especificações apontadas por Bobbio no item “c”. Um exemplo
dessa associação de direitos humanos e “abuso” é o folder distribuído por
duas psicólogas, quando expunham painel durante a “I Mostra Nacional de
Práticas em Psicologia: psicologia e compromisso social" (realizada no
Centro de Convenções do Anhembi, na cidade de São Paulo, de 5 a 7 de
outubro de 2000). Elas conclamavam os profissionais envolvidos no
atendimento a famílias “incestogênicas” para que fossem “efetivos na
proteção dos direitos humanos...” (Anexo I).9
Após a instituição do Ano Internacional da Criança em 1979 e
durante toda a década de 80, “firmou-se uma nova valorização da
infância” (DANDURAND, 1994, p. 341). A Convenção Internacional dos
9
A título de curiosidade, essas psicólogas se denominavam “Psicólogas especialistas em
Violência Doméstica Contra Criança e Adolescente”. Provavelmente, não perceberam a
dubiedade embutida nesta “titulação”.
Introdução 39
Direitos da Criança (1990) transformou a criança oficialmente em “sujeito
de direitos”.
Com a “Declaração dos Direitos Sexuais”, pela Assembléia Geral
da “World Association for Sexology”, em 1997, durante o XIII Congresso
Mundial de Sexologia, em Valência, e, ainda mais, com a aprovação de
emendas a esta Declaração, durante o XV Congresso Mundial de
Sexologia, ocorrido em Hong Kong, em 1999, a relação entre “abuso” e
direitos humanos foi solidificada:
Art. 1. O direito à Liberdade Sexual: A liberdade sexual diz respeito à
possibilidade dos indivíduos em expressarem seu potencial sexual. No
entanto, aqui se excluem todas as formas de coerção, exploração e abuso em
qualquer época ou situação de vida.
O Estado toma para si o cuidado das crianças, policiando as
famílias. Em última análise, são atribuídas responsabilidades aos pais
e/ou responsáveis no cumprimento dos direitos das crianças, mas caso
eles não sejam capazes de manter seus filhos em dispositivos
disciplinares, o Estado, por meio do inquérito realizado por profissionais
(Assistente Social, Policiais e Psicólogos) e julgado por um juiz, exerce a
guarda dessas crianças.
A atividade sexual praticada no interior da família merece sanção
imediata, pois se constitui em forma de “abuso”.
Quando começamos a considerar como “abuso” essa prática
sexual que desrespeita a fragilidade da criança e seus direitos? No
Capítulo III, localizo historicamente o relacionamento sexual entre adultos
e crianças, discutindo as perspectivas antropológicas e psicanalíticas.
Introdução 40
1.3. O problema
A temática do “abuso” está diretamente relacionada à
sexualidade. Esta não é uma constante biológica, mas se constitui como
um campo de práticas que, ao longo da vida humana, são criadas,
permitidas ou proibidas com maior ou menor visibilidade social. A
hipótese de Foucault, de que o mundo moderno é regido por um
“dispositivo da sexualidade”, ainda vale para o mundo “pós-moderno”.
Define-o:
... um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos,
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamentares, leis,
medidas administrativas, enunciados científicos, proposições filosóficas,
morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não dito são os elementos do
dispositivo. O dispositivo é a rede que se pode estabelecer entre estes
elementos.
Ao estudar a construção do “abuso” sexual infantil intrafamiliar10
como um tipo, busco demarcar o período em que emergiu11 como um
problema (“estranhamento”), entender a formação de saberes e as
práticas institucionais direcionadas ao seu controle, a partir de
documentos relacionados ao tema.
Parto do pressuposto que sempre houve formas variadas de
regulação das relações sexuais intrafamiliares, inscrevendo-se em códigos
morais diversos. Estas formas de regulação exigem uma “perpétua
atenção a si” (FOUCAULT, 1985a, p. 108), criam o imperativo de ocupar-
10
Apenas para tornar a leitura mais fluida, optei por substituir o termo “abuso” sexual
infantil intrafamiliar, em alguns momentos, simplesmente por “abuso” ou “abuso”
infantil.
11
Sei das dificuldades em utilizar esta palavra, mas ainda não consegui substituí-la por
uma mais adequada à visão construcionista. Aqui, ela tem o sentido de um
acontecimento que toma visibilidade na sociedade, em função de uma rede de
negociações, e torna-se “objeto” de estudo, debates, controle etc. A palavra
“emergência” também pode se referir, no caso do “abuso”, a uma situação grave, que
exige ação imediata. Afasto o sentido de “emergência” como um ensejo fortuito, casual
e acidental.
Introdução 41
se consigo mesmo (Ibid., p. 50), favorecendo, enfim, toda uma estética
de existência que pertence à esfera do governo de si. São formas
regidas, sobretudo, por códigos morais. Entretanto, a literatura sobre o
tema do “abuso” sexual infantil intrafamiliar possibilita dizer que, a partir
dos anos 50, relações sexuais entre familiares e, especialmente, ações
sexualizadas focalizadas nas crianças, se tornam passíveis de
"governamentalidade” (FOUCAULT, 1985),12 no sentido de governo dos
outros. É a partir desse momento que se cria um vocabulário específico
para falar desse tipo de relação e ocorrem formas variadas de registro
para o “abuso” (como por exemplo: cálculos estatísticos e fotos), que lhe
favorecem a visibilidade e também são definidas instâncias e técnicas
específicas para lidar com o "problema” já aí definido.
Especificando ainda mais, o objetivo desta tese é compreender a
emergência de práticas (vocabulários, formas de cálculo e maneiras de
regulação) que fazem das relações sexuais entre adultos com crianças
e/ou adolescentes, no âmbito da família, um problema e constituem o tipo
“abuso”.
Instituições anteriores tornaram possível a nomeação de um
acontecimento como “abusivo”: 1) a crença na singularidade do ser
humano ou, em outras palavras, a invenção do "Eu" (self), dando-lhe a
qualidade de "Pessoa" (pessoalidade) e uma subjetividade; 2) a noção de
infância (mais especificamente, a inocência infantil); 3) a concepção de
que os seres humanos têm direitos (portanto, a criança também).
Constituem a matriz que dá condições de possibilidade ao tipo “abuso”
sexual infantil.
12
A definição de “governamentalidade” encontra-se adiante (p. 45).
Introdução 42
Algumas questões13 foram tomando forma quando me interessei
em pesquisar a construção de “tipos” e escolhi o “abuso” infantil
intrafamiliar: Como o “abuso” é definido? Quais são os “saberes” que o
definem? Em que momento passou a se constituir como um problema a
ser controlado? Como são ilustradas suas inscrições? Por que é um
problema a ser controlado? Quem deve controlá-lo? Ao longo deste
trabalho, procuro pistas que possibilitem construir algumas respostas.
1.3.1. Documentos para quê?
Tomando como fonte principal documentos de domínio público,
busco entender mais especificamente:
a) a adoção privilegiada da expressão “abuso” sexual para falar
das relações sexuais entre um adulto e uma criança, em face da
diversidade de expressões que podem ser utilizadas. Isso foi feito através
de análise epistemológica, que gerou um glossário e que possibilitou a
análise histórica de documentos. O uso de uma palavra para operar um
conceito ou uma noção torna possível a emergência de dispositivos que
regulam as relações humanas (FOUCAULT, 1985b; ROSE, 1996);
b) a consolidação da noção de “abuso” associada à relação
sexual entre adulto e criança e sua afirmação como problema. Dois
documentos foram importantes como marcos, a saber: primeiro, o artigo
publicado por médicos americanos no Journal of The American Medical
Association, The battered child syndrome (KEMPE, et al., 1962), em que o
“abuso” já começa a ser construído como um problema epidêmico (Cf.,
JANKO, 1984); o segundo documento é um comunicado da Organização
Mundial da Saúde - OMS, WHO reconizes child abuse as a major public
health problem (1999);
13
As questões serão abordadas a partir de um conjunto de documentos especificados
mais à frente.
Introdução 43
c) a função das “estratégias de inscrição” (LATOUR & WOOLGAR,
1997) na produção de informação passível de cálculo e, portanto, de ação
sobre o que se calcula. Em outras palavras, a arte do convencimento
usada por pesquisadores e organizações governamentais ou não-
governamentais não se resume às letras impressas em papel de artigos,
folders ou nas palavras expressas verbalmente em entrevistas, palestras.
É necessário que todo esse material usado na veiculação e construção de
acontecimentos utilize, estrategicamente, instrumentos visuais, como
tabelas, gráficos, o que pressupõem cálculo e mensuração do que é
analisado e também seu “retrato material” (também com fotos e exames
físicos, Raios X, por exemplo). Para sustentar uma afirmação como
“verdadeira” são necessários “dispositivos de inscrição” (LATOUR, 2000, p.
112), que possibilitem uma exposição visual do que se analisa:
... sair de um arsenal de recursos retóricos e ir para um conjunto de novos
recursos planejados com o objetivo de oferecer à literatura o seu mais
poderoso instrumento: a exposição visual (LATOUR, 2000, p. 112).
Da mesma forma, Nikolas Rose se refere à tentativa, no caso da
atividade acadêmica (“ciência”), de dar uma “identidade” a um
acontecimento ao relacioná-lo a alguns inscritores:
A ciência, (...), não somente vincula técnicas que proporcionam fenômenos
visíveis, de modo que eles possam formar focos de conceitualização, mas
também requerem dispositivos que representem o fenômeno para ser
calculado, que transforma esse fenômeno em uma forma apropriada para
análise (ROSE, 1996, p. 107).
O “abuso” sexual infantil também toma visibilidade através de
recursos de inscrição. Quais são e a justificativa para usá-los são
elementos de análise. Os dispositivos de inscrição favorecem o
desencadeamento de ações em relação ao “abuso” sexual infantil, tais
como: legislação, associações de direito, proteção e apoio às crianças.
Introdução 44
Em suma, para entender a construção, solidificação e
sistematização de um tipo, é realizada a análise documental, focalizando
formulações desde as noções de “abuso”, suas formas, justificativas e em
que contextos institucionais emergem (matriz).
1.4. Fontes
1.4.1. Os documentos como mananciais 14
A análise leva em conta que os documentos se constituem em
práticas discursivas, envolvem diversos atores em negociações e
enfrentamentos e ainda, que têm implicações em uma ampla gama de
atividades sociais.
Alguns autores, como Ginzburg (1987, p. 18), consideram as
fontes escritas como “indiretas”, visto que não se tem contato face a face
com os autores. É o caso da maioria das fontes desta pesquisa. Porém,
alguns documentos estudados podem ser caracterizados como
duplamente indiretos, como por exemplo, relatórios de organizações
(governamentais ou não), comunicados e leis. Isso porque sequer temos
um autor determinado (a não ser, muito raramente, quando se trata de
um parecer ou comunicado do presidente ou representante da
organização). Assim, o “autor” passa a ser identificado fortemente por
um período de tempo, como por exemplo, o Governo no período de tanto
a tanto, ou o documento de tal organização lançado em tal ano. Esses
14
É lamentável que o termo “fonte” esteja tão desgastado, sendo utilizado como material
higienizado, puro, que estava à espera de coleta e análise; ponto fixo e original de onde
surge o problema de pesquisa e do qual só temos o trabalho de coleta. Fontes não têm
origem determinada, o que vemos é apenas o ponto de onde jorra a água, mas, desde
antes disso e mesmo depois, há um trabalho na terra de espraiamento ao infinito. Até
aqui, vinha utilizando o termo “fonte” e assim permanecerei, por considerar que
“manancial” poderia trazer dificuldades de entendimento, mas sob a perspectiva de um
“manancial”, ou seja, como fonte sem fim, abundante, diversificada, dispersa...
Introdução 45
documentos duplamente indiretos apresentam a intenção de estabelecer
regras, ordenar e disciplinar a convivência humana. Até mesmo os
documentos acadêmicos relacionados à temática do “abuso” correm nessa
direção; não são reflexões desinteressadas, uma vez que também buscam
uma ordenação.
Foi uma opção tratar o “abuso” sexual infantil intrafamiliar sob
a perspectiva do que Foucault chamou de “governamentalidade” (1985b,
p. 277-293). Esta consiste em criar dispositivos de segurança, por se
considerar a população como um problema a ser governado. Os
dispositivos visam, especialmente a partir do século XVI:
... estabelecer a economia ao nível geral do Estado, isto é, ter em relação aos
habitantes, às riquezas, aos comportamentos individuais e coletivos, uma
forma de vigilância, de controle tão atenta quanto à do pai de uma família
(FOUCAULT, 1985b, p. 281).
Nesse sentido, os documentos são instrumentos valiosos para
compreender a “governamentalidade”. Alguns documentos até se
atribuem tacitamente essa função (como os estatutos, leis) e a exercem
com tanta presteza que não há preocupação com tiragens extensas,
apenas a disponibilidade para “pessoas-chave” em “cargos-chave”.
Quantos recebem documentos produzidos pelos governos em suas casas?
Provavelmente, só os próprios autores dos textos tiveram esse privilégio e
também, muito provavelmente, só durante o período em que o documento
estava em discussão, pois a forma final só é disponibilizada para quem for
procurá-la nos centros de documentação organizados pelo Estado
(Bibliotecas, Imprensa Oficial etc.).
Estou procurando demonstrar que existem domínios de produção
os mais diversos, dependendo do material escolhido para análise
(documentos oficiais, reportagens, livros acadêmicos, diários etc.),
indicando que, de alguma forma, priorizei o estudo de um domínio:
Introdução 46
documentos produzidos por organizações e autores que se dedicam ao
atendimento e/ou estudo de crianças e adolescentes. Isso porque
documentos governamentais como leis são a ponta final de movimentos
sociais anteriores. Mas reafirmo que todos os documentos pesquisados
participam da “arte de governar”, entendida como “... a maneira de gerir
corretamente os indivíduos, os bens, as riquezas...” (FOUCAULT, 1985b,
p. 281).
As fontes documentais são um dos produtos necessários à
“governamentalidade”, mas o produto para o tipo de pesquisa que me
propus realizar. Os documentos reproduzem a pedagogia de governos e
organizações, no que se refere à gerência das práticas sociais e
individuais. Como citei, são também fragmentos que, sem dúvida, deixam
vestígios de possibilidades para alargar a compreensão do acontecimento
que está sendo estudado, indicando a necessidade de diálogo com outras
fontes (tais como entrevistas com especialistas).
A análise se realiza a partir de fragmentos e é por isso que
também sempre será fragmentada. Ela só se torna um empecilho ao
trabalho de pesquisa caso o pesquisador não deixe claro que fragmentos
escolheu pesquisar.
A análise de documentos para compreender a emergência do
“abuso” sexual infantil intrafamiliar como um tipo não foi obra do acaso,
mas de uma postura teórica e uma perspectiva de abordagem do
problema que elegi estudar. Em outras palavras, foi uma opção
metodológica.15 Os documentos a serem analisados aqui, diferentemente
15
Neste trabalho, busco, sobretudo no plano metodológico, abandonar os vícios de
posturas interpretativas (ir à cata de algo escondido por detrás dos acontecimentos). Já
no plano epistemológico, empreender um contínuo questionamento das práticas de
construção de conhecimento buscando me afastar de fundamentalismos ou
essencialismos (este tema é discutido por autores como: STEVE, 1993, p. 20-21;
IBÁÑEZ, 1994, p. 43; RUEDA, 2000, p. 20).
Introdução 47
de uma abordagem jurídica , por exemplo, não são matéria de prova (essa
sempre será uma tentativa frustrada), porém, matéria de compreensão.
É neste momento que emerge a atividade idiossincrática do pesquisador e
que torna o seu trabalho relevante; momento que constitui o ponto de
partida e chegada da pesquisa. E ainda, é neste momento que se “revela”
a mítica da pesquisa: uma narrativa que encarna as forças do eterno devir
humano. Pesquisa compreendida como uma construção passional do
pesquisador, das vozes que conseguiu escutar e que ele transformou em
letras e também das vozes que teimaram em se caracterizar como
indefensáveis. É essa mítica que mantém a pesquisa em fluxo constante,
na aparente imobilidade da letra impressa.
As fontes documentais foram incorporadas ao próprio cotidiano
da cultura letrada e são instrumentos que divulgam e debatem esse
cotidiano e até buscam a sua normalização. Assim, a pesquisa que toma
como base de análise fontes documentais faz com que elas saiam da
sombra, deixem de ocupar o lugar de “fontes secundárias”. Os
documentos fazem parte da política, entendida, sob inspiração de
Foucault, como “estética da existência”: a busca de dar um sentido às
existências individuais, rechaçando uma política instrumental, que
pretenda fazer vigorar o espaço público como veiculador e atualizador de
ideais universais.16 A medicina, a psiquiatria, a justiça, a polícia, as
organizações não-governamentais, as organizações de ensino e pesquisa
etc. estabelecem conexões, repercussões, divisões, articulando em torno
do “abuso” um modo de “estar sendo”.
1.4.2. Os documentos utilizados
16
Christian RUBY (1998) aborda essa discussão de modo bem interessante em
Introdução à filosofia política, especialmente no Capítulo V.
Introdução 48
O material de consulta desta pesquisa se constituiu
especialmente de documentos escritos, brasileiros e estrangeiros, de
domínio público e classificadas em três tipos:
1) Governamentais, caracterizados como sendo construídos por
governos e poderes legislativos estaduais, municipais e federal: leis,
projetos de lei, medidas provisórias, cartilhas “educativas”, estatutos,
códigos, estudos teóricos e levantamentos estatísticos;
2) Organizacionais, produzidos por organizações não-
governamentais: notas,estudos teóricos e levantamentos
estatísticos,cartilhas, boletins e livros;
3) Acadêmicos, que incluem publicações em forma de artigos,
livros, teses, dissertações, monografias ou apresentações em eventos,
cujos autores sejam pesquisadores e/ou profissionais liberais.
Essa categorização dos documentos visou localizá-los em seus
contextos de produção. Hammersley & Atkison (1995), ao se referirem à
utilização de documentos chamados aqui de “acadêmicos” (produzidos
para publicação em periódicos especializados ou apresentações em
eventos científicos), fazem a observação (válida para qualquer tipo de
documento) de que é importante tentar localizá-los em seu contexto de
produção:
Ninguém pode acessar a complexa realidade social do trabalho científico e da
produção de conhecimento científico, sem dar atenção para, como e por que
papers científicos são escritos (...). E a mesma aproximação pode ser
estendida para todas as situações organizacionais e profissionais
(HAMMERSLEY & ATKISON, 1995, p. 166).
A utilização dos documentos teve motivações variadas. Para
construir os quadros de acontecimentos internacionais e nacionais
(Anexos II, III), as diversas categorias de documentos foram importantes.
Porém, para analisar a construção do “abuso” como um tipo, foram
Introdução 49
utilizados documentos acadêmicos pela peculiaridade deles terem sido os
pioneiros nessa construção. No Brasil, isso também é válido, mas livros
(teses, dissertações, transformadas em livros) e não artigos foram mais
importantes na solidificação do “abuso” como um tipo.
Todas as publicações foram estudadas com o intuito de buscar o
momento em que a temática começou a tomar visibilidade e em que
situações. De fora do Brasil, destaco a publicação Child Abuse & Neglect,
The International Journal, da International Society for Prevention of Child
Abuse and Neglect; o artigo de Kempe e colaboradores (1962); e ainda,
uma circular emitida pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 1999).
Do Brasil, destacam-se especialmente as publicações, em forma de livros
e teses, de Azevedo & Guerra, mas também artigos publicados em jornais,
debatendo o “abuso” (às vezes relacionando-o à pedofilia).
A busca de fontes documentais foi realizada sob duas
perspectivas discutidas por Peter Spink (1999). Uma, que o autor chama
de “presença ubíqua”, adotada principalmente para documentos
jornalísticos e governamentais:
Às vezes não é um docume nto ou uma série específica de documentos que
importa, mas a presença ubíqua de uma temática em documentos distintos
que serve como sinal para a desfamiliarização inicial (Ibid., p. 142).
A outra perspectiva foi a de utilizar documentos oriundos de
organizações não-governamentais e publicações do meio acadêmico, pela
sua especificidade:
... documentos desse tipo têm uma presença no campo de interesse e são
produzidos regularmente e de forma seriada, é um excelente caminho para a
compreensão da gradativa eme rgência, consolidação e reformulações dos
saberes e fazeres (Ibid., p. 146).
Não são freqüentes as pesquisas em Psicologia Social que
utilizam fontes documentais. O uso dessas fontes parece ser reduzido se
comparado a outras, como entrevistas, questionários e discussão de
Introdução 50
grupo, como aponta Peter Spink (1999, p. 123). Ainda assim, foram
realizadas algumas pesquisas importantes nesse campo, utilizando
documentos. Como exemplo, temos o momento no trabalho de Denise
Jodelet, Folies et représentations sociales, em que a autora utiliza a
análise de documentos para reconstituir a história de um hospital
(JODELET, 1989).
Alguns documentos governamentais, não–governamentais e
acadêmicos são semelhantes no sentido de realizarem análises de
conjuntura baseadas em “dados” estatísticos e por proporem normas
(sejam leis, sejam testes, sejam formas de atendimento, sejam formas de
prevenção). As análises que oferecem não podem ser lidas como “...
valores nominais, como representações precisas da realidade social, mas
podem sugerir temas, imagens ou metáforas” (HAMMERSLEY &
ATKINSON, 1995, p. 161). São fontes importantes para a análise do uso
de noções que circulam na sociedade e geram debates temáticos.
Realizando uma pesquisa com fontes documentais não poderia
deixar de estabelecer algumas considerações sobre os chamados “dados
estatísticos”, muitas vezes chamados também de “dados oficiais” (quando
aparecem em documentos de organizações governamentais ou não-
governamentais). Vale a observação de que nenhum número pode ser
tratado como valor nominal absoluto, já que são construções sociais como
quaisquer outras, produtos de negociação. Para Hammersley & Atkison,
as estatísticas “... podem ser matéria de preconceitos ou distorções ou de
interesses práticos da burocracia...” (Ibid., p. 168). Neste trabalho, as
análises estatísticas são consideradas como estratégias de visibilidade de
um acontecimento. Vale enfatizarmos a necessidade de compreendermos
o contexto de produção dos dados estatísticos, o uso que se faz deles,
muito mais do que rechaçá-los como “não-fiéis”. Assim, interessa
estarmos atentos a: quem produziu, que interesses poderiam estar em
jogo, que negociações etc.
Introdução 51
Por fim, é importante ter sempre presente, ao analisar fontes
documentais, as possibilidades de informações que veiculam,
exemplificadas abaixo por meio de vários tópicos:
Como são escritos os documentos? Como eles são lidos? Quem os escreve?
Quem os lê? Para que propósitos? Em que ocasiões? Com que conseqüências?
O que é registrado? O que é omitido? O que o escritor parece ter como certo a
respeito do(s) leitor(es)? O que os leitores precisam saber, em regra, para dar
sentido aos escritos? (HAMMERSLEY & ATKINSON, 1995, p. 173).
aaaïbbb
II. A CONSTRUÇÃO DE
SENTIDOS:
em busca das tramas do cotidiano
O mundo social-histórico é mundo de sentidos —
de significações —, e de sentido efetivo, mundo
que não pode ser pensado como uma simples
“idealidade visada”
(Cornelius Castoriadis, 1992, p. 55)
A construção de sentidos 53
2.1. As práticas discursivas:
Dizer é dicção: tempo e gestos dos signos que,
vivificados pelo sopro da vida, agora concorrem
para o exercício do corpo, para o seu despertar.
Transmutação em linguagem. Linguagem que
age, linguagem que é ação do corpo, dos órgãos,
dos sentidos, linguagem intensa, tensa...
(Laymert Garcia dos Santos, 1989, p. 23)
Ao analisar a construção de discursos relacionados à situação
específica de “abuso” sexual, à primeira vista, defrontamo-nos com duas
possibilidades de investigação: o discurso e a ação a ele relacionada.
Trata-se de uma divisão que, para uma postura construcionista, só pode
desembocar em uma dicotomia que dá uma independência aos discursos
que eles não têm (de serem precursores de uma ação); ou lhes dá uma
subserviência que lhes tira a força (são posteriores a uma ação).
Discurso-ação são indissociáveis e compõem um mesmo processo, que é a
constituição de práticas, que permitem a veiculação, criação e negociação
de sentidos. Quando afirmo que discurso é prática, não estou me
referindo à ação de falar, mas às motivações desse falar e suas
conseqüências; em outras palavras, ao jogo de posicionamentos e
estratégias que estão implicados em qualquer enunciado.
Portanto, sempre que falarmos de “discursos”, estaremos nos
referindo a “práticas discursivas” (SPINK, 1999; DAVIES & HARRÉ, 1990).
Em última análise, esta pesquisa visa situar uma ação (situ-ação): a
A construção de sentidos 54
emergência de um tipo, ou seja, da categorização de uma prática como
“abuso” sexual intrafamiliar, categorização que se constitui com a
atribuição de determinado sentido.
Discurso é ação que se realiza e se torna presença; presença
atuante, presença em movimento, promovendo agenciamentos, cuja
análise é o objetivo do pesquisador:
“um discurso” é um conjunto de práticas lingüísticas que mantêm e
promovem certas relações sociais. E a “análise” consiste em estudar como
estas práticas atuam no presente mantendo e promovendo estas relações...
(RUEDA & ANTAKI, 1998. p. 63).
O discurso é ação que sempre veicula e evoca sentidos que o
estruturam. Isso se complexifica a tal ponto que os sentidos se efetuam
na tentativa de apreender um acontecimento e terminam por se tornarem
inseparáveis dele. Os sentidos produzidos são formas de experimentar o
acontecimento e enunciam a condição em que o acontecimento é vivido.
Assim, os enunciados di namizam as práticas discursivas (Cf. SPINK &
MEDRADO, 1999, p. 45).
Uma separação entre o discurso e a ação é completamente
injustificável sob a perspectiva construcionista. Não é possível
hierarquizar discurso e ação, como se indicássemos a dupla natureza de
um acontecimento, especialmente quando falamos de construção de
sentidos que são veiculados ininterruptamente, como práticas discursivas:
Podemos definir, assim, práticas discursivas como linguagem em ação, isto é,
as maneiras a partir das quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam
em relações sociais cotidianas (SPINK & MEDRADO, 1999, p. 45).
Ao falarmos de construção de sentidos e de práticas
discursivas, inevitavelmente devemos falar de linguagem.
Diferentemente do exposto acima, também é possível compreender a
linguagem como palavras articuladas em frases, que veiculam
significados e como uma categoria que media o pensamento e a ação
A construção de sentidos 55
(LANE & CODO, 1984, p. 32, p. 41, p. 42). Porém, guardadas as
devidas diferenças, é possível afirmar que nenhum autor na Psicologia
Social brasileira advoga como categoria de análise a linguagem,
entendida como língua, 17 e todos crêem firmemente na importância da
contextualização da fala para analisá-la.
Adotando como categoria de análise as práticas discursivas,
procuro me distanciar de uma teoria da linguagem em que: “a palavra
ou frase representem diretamente o conceito subjacente” como nas
análises de conteúdo (RUEDA & ANTAKI, 1998, p. 60) e, ao mesmo
tempo, basear-me na proposição que os deslocamentos que foram
implementados nas relações sociais, agenciados através da visibilidade
do “abuso sexual”, são mantidos e promovidos através da linguagem,
entendida como prática discursiva. Desta maneira, evito transformar o
trabalho de análise das práticas discursivas em um mero jogo de
decifrações:
... não imaginar que o mundo nos apresenta uma face legível que teríamos
de decifrar apenas; ele não é cúmplice do nosso conhecimento; não há
providência pré-discursiva que o disponha a nosso favor. Deve-se
conceber o discurso como uma violência que fazemos às coisas, como uma
prática que lhe impomos em todo caso; e é nessa prática que os
acontecimentos encontram o princípio de sua regularidade (FOUCAULT,
1996, p 53).
17
“Conjunto de palavras e expressões usadas por um povo” (FERREIRA, 1986, p. 1034).
A construção de sentidos 56
Procuro estudar a emergência de uma noção:18 “abuso” sexual.
O termo em si só interessa na medida em que é instrumentalizado por
sentidos, constitui -se como prática discursiva, institucionalizando-se. Os
sentidos são inerentes à linguagem humana, estruturados em práticas
discursivas que buscam regularidade sob a forma de um acontecimento.
Ao refletirmos sobre a análise da construção de sentidos é
possível compreender melhor a afirmação de que lidamos com
“acontecimentos” e nunca com “fatos”.19 Na análise de um
acontecimento, perde-se a vontade de verdade e a objetividade e ganha-
se a pluralidade da experiência humana. Como um dado objetivo puro, os
sentidos estão para sempre perdidos, mas, se compreendidos como
construções em relação, veiculados em práticas discursivas, podem ser
ativados, por exemplo, em análises. Os resultados serão outros sentidos,
frutos de encontros, desencontros e negociações levadas a efeito pelo
pesquisador: “... não uma invenção subjetiva nem uma descrição objetiva,
mas um ato de imaginação, análise e engajamento” (RABINOW &
DREYFUS, 1995, p. 279).
Os sentidos são considerados pelo filósofo Éric Weil como uma
“presença” (Cf., PERINE, 1987, p. 190). Mas ao contrário de algumas
reflexões de Weil, que apontam para a necessidade de nos afastarmos
dessa presença para captá-la (afastamento esse que ele chama de “busca
de sentido”), essa presença deve ser entendida de maneira mais
dinâmica: não podemos jamais ignorá-la, mesmo que não seja
18
Para evitar concepções metafísicas, preferi utilizar a palavra “noção”, denotando
atividade em construção com poder de embate e negociação. Abandono a utilização das
palavras “idéia” e “conceito”, em favor da palavra “noção” que, segundo Lalande (1996,
p. 733), pode ter o sentido de se opor ao que é conhecido sob a forma de imagens. É
nesse sentido que emprego a palavra “noção”, para opô-la a representações do real,
objeto da consciência ou pensamento. “Noção” deixa de ser propriedade exclusiva e
inerte da mente ou de uma interioridade e se torna parte do processo da ação humana
(um acontecimento).
19
Discussão realizada na introdução p. 15-16.
A construção de sentidos 57
formalmente submetida à análise, já que sempre está manifesta, com e
nas práticas discursivas (como criação/construção de acontecimentos).
Talvez pudéssemos afirmar que os sentidos se configuram como
uma “apresentação”, palavra que, em nossa língua, permite compreender
o caráter dinâmico dos sentidos, já que significa: exibir, colocar à mostra,
manifestar. Portanto, os sentidos apresentam a ação (apresentação).
Essa parece ser uma boa metáfora: alguém ou algo passa a fazer20
sentido para nós, quando é apresentado, torna-se uma presença, dá-se a
conhecer (independentemente da sua presença física).
Não colocaria os sentidos como categoria, como defende Weil
(Cf., PERINE, 1987, p. 187). Caso se compreenda categoria como um
predicado do que nos propomos analisar, ela será veiculada como
“evidência empírica” de um “fato”, a ponto de se tornar “objeto” de
estudo. A tentação ao realismo nos levaria a afirmar que os sentidos são
atributos de um acontecimento e, assim, teriam existência própria,
independentemente de suas condições de possibilidade. Os sentidos se
tornariam “materialidades” dos acontecimentos. Ao contrário, os sentidos
estão diretamente relacionados às condições que lhes dão possibilidade
(matriz) de determinada apresentação/presença (tipo).
Essa concepção só é possível de ser articulada em uma pesquisa
se compreendermos os sentidos como constituídos em interanimação
dialógica. Portanto, os sentidos se servem, por exemplo, da estrutura de
uma língua, por meio do discurso, entendido como “... o uso
institucionalizado da linguagem e de sistemas de sinais de tipo
lingüístico...” (SPINK, 1996, p. 03), para criar estatutos que são
20
Evitei o uso do verbo “ter”, para não dar qualquer conotação de uma presença vinda
do nada. O “fazer” está imbuído de uma construção, portanto, de uma negociação.
A construção de sentidos 58
construídos nos nossos vínculos relacionais. Como afirma Spink,
evocando Bakhtin e Harré, “a construção de sentidos é uma prática social
essencialmente dialógica” (Ibid.), ou seja, “os enunciados de uma pessoa
estão sempre em contato, ou são endereçados a uma outra e estes se
interanimam mutuamente...” (Ibid., p. 04). A construção de sentidos não
tem “mão única”; uma pessoa, individualmente, isoladamente, não
constrói sentidos.21
Isto pode parecer óbvio, mas não é tão simples de ser assumido
como postura. É necessário recusar a noção cartesiana e ilusória de
identidade, de sujeito e de objeto, que opõem uma pessoa à outra e estas
aos objetos, de forma linear, unidimensional e que defende que cada
pessoa constitui os “objetos” e “fatos” como uma representação22
singular. A perspectiva que adoto se vale da noção apresentada por
Bakhtin (1995): os sentidos são sempre frutos de um processo dialógico;
em um enunciado, há várias vozes (as pessoas não são lineares). O que
alguém enuncia — um discurso — é “interanimado” por outros, que
podem ser uma pessoa, um livro, um filme, uma reflexão do próprio
enunciador etc... Constituem-se vozes que são veiculadas com sentidos.23
Não é suficiente dizer que existem várias “vozes”, mesmo que
seja em um enunciado emitido por uma pessoa (por isso ter afirmado
acima que não é uma postura simples). É importante enfatizar que não
são apenas “vozes” uníssonas e unânimes. Há “gritos e sussurros”,
semelhanças e diferenças, que se multiplicam sem uma origem bem
determinada.24 Lembro aqui as críticas de Foucault à:
21
Aliás, a concepção de “pessoalidade”, de ser pessoa, com toda carga de individualidade
que carrega, admitindo experiências sempre interiorizadas e privadas (ROSE, 1996),
pressupõe a interação para a formação do tal sujeito.
22
À frente, é discutido o conceito de representação, mais detidamente (p. 65-66).
23
Vale observar que a concepção de Bakhtin deve ser utilizada com cautela, porque
ainda inclui, na “interanimação dialógica”, sujeitos. Mas é extremante válida se as vozes
forem consideradas expressões sem dono.
24
Note-se também que, sob todos os aspectos, há uma dinâmica nos discursos que só
favorece a adoção do termo “práticas discursivas”.
A construção de sentidos 59
... redução das práticas discursivas às impressões textuais, elisão dos
acontecimentos que aí se produzem a fim de reter apenas marcas para uma
leitura; intenções de voz atrás dos textos para não ter de analisar os modos
de implicação do sujeito nos discursos; a aceitação do original como dito e
não dito no texto para não substituir as práticas discursivas no campo das
transformações em que elas se efetuam (Apud.: ERIBON, 1990, p. 129; grifo
25
meu).
A psicanálise se aproxima dessa concepção de construção de
sentidos quando questiona a homogeneização de um discurso e busca
sentidos nas “falhas” discursivas, que poderiam ser entendidas como
outras vozes de uma mesma pessoa sempre dividida, cindida entre o dito
e o não–dito, a consciência e o inconsciente.26
Da mesma forma, no trabalho de pesquisa, os sentidos
construídos “a partir” dos “dados” ou “sujeitos” pesquisados são fruto de
um diálogo do pesquisador com várias vozes. É essa perspectiva dialógica
que permeia esta pesquisa. Não é suficiente falarmos da relação
necessária entre o “sujeito” e a “realidade”, mas deslocar uma ordem de
saber e de práticas sobre o “sujeito”, mostrando-o como multifacetado e
também construído. A “busca” de sentidos impõe a “escuta” de vozes, e é
momento de atividade, de construção. Escutamos o que queremos e o
que não queremos. A construção está nessa qualificação do que
escutamos, na ordenação de domínios de saberes. São as práticas
discursivas, prenhes de vozes, buscando expressão.
25
Este trecho só aparece na edição francesa de História da loucura.
26
Fiquei tentado a levar a discussão desta cisão entre consciência e inconsciência à frente. Mas
neste espaço é desnecessária. Só noto que não compartilho de um aparelho psíquico cindido entre
um fora e um dentro, mas de um “aparelho psíquico” (não sei bem se este termo está adequado),
que sempre atua em um fora e por ele é formado. Fora: forças sempre abertas, com as quais nada
acaba, criadora de formas de existência e resistência à mesmice. Como define Pelbart: “é o não
estratificado, o sem-forma, o reino do devir e das forças...” (In: PELBART, 1989, p. 133).
A construção de sentidos 60
Outra conseqüência importante desta abordagem: as práticas
discursivas deixam de ser vozes de um “sujeito” autônomo que fala,
“pinta e borda”, constrói etc... São articulações sem sentidos fixos, mas
que, em função dos limites próprios da nossa sociedade, da cultura na
qual não se permite expressar tudo que desejamos, há interdição (que
também são vozes). Aqui as práticas discursivas se revelam como
estratégias de poderes: como ordenamentos crescentes em todas as
esferas da vida, para agenciar novas formas do existir humano ou
perpetuá-las. Nesse aspecto, Foucault é um dos melhores referenciais:
“por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as
interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o
desejo e o poder” (FOUCAULT, 1996, p. 10). E assim são construídos
dispositivos de “governamentalidade”.27
Esta relação das práticas discursivas com a interdição é muito
útil para refletirmos sobre esta pesquisa, que analisa uma prática cuja
nomeação está diretamente ligada ao interdito. As construções discursivas
em torno dessa prática sexual (em outras palavras, as vozes) não
traduzem apenas a cultura hegemônica de uma sociedade, mas também
uma luta por hegemonia. Explicando melhor, as vozes que envolvem o
“abuso” sexual infantil intrafamiliar, por exemplo, lutam por soberania de
sentido: há um embate pelo sentido mais “adequado”, mais “verdadeiro”,
mais “justo”. Poderíamos supor que a interdição é burlada, exatamente
em função desse embate, traduzido em desejos e poderes: entra em
jogo, por exemplo, a possibilidade de desejar sexualmente (seja
genitalmente ou não) uma criança ou um(a) adolescente. São postas em
combate instituições que compõem a matriz do ”abuso”, como: a noção
de eu (self), noção de infância, direitos da criança. Misturadas a outras
infindáveis: as noções de adulto (que pode “discernir o que faz” e
27
A noção de “governamentalidade” foi discutida na p. 45.
A construção de sentidos 61
considerar “correta” a relação sexual com uma criança); noções de
gênero, homem (viril, racional) e mulher (dependente, intuitiva) etc...
Mediante as práticas discursivas, passamos a localizar as vozes
que lutam pelo sentido mais “verdadeiro”, mais “adequado”. Esse embate
pode ser entendido como “vontade de verdade” (FOUCAULT, 1996, p. 19).
Para Foucault, é em função da vontade de verdade que se dinamizam os
jogos de desejo e poder:
O importante, (...), é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder
(...). A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas
coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem
seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade: isto é, os tipos de
discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e
as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a
maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que
são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o
encargo de dizer o que funciona como verdadeiro (FOUCAULT, 1985b, p. 12).
Mesmo que as práticas discursivas estejam articuladas em torno
de uma temática, estão para além dela; por isso, não basta que sejam
descritos os conteúdos veiculados, mas é necessário analisar as posições
ocupadas pelas pessoas que as manifestam, o estatuto que eles mantêm,
as técnicas e procedimentos que valorizam. Em outras palavras,
importam os modos de implicação dos personagens nos discursos
(FOUCAULT, 1996). Por isso, devemos insistir na análise das vozes que,
mesmo contraditórias, localizam os jogos de desejo e poder, que, em
última instância, são finalidade da construção de sentidos. Poder
entendido não como algo, propriedade que alguns possuem em
detrimento de outros, mas como estratégia, cujos efeitos são disposições:
Uma estratégia, que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma
“apropriação”, mas a disposições, a manobras, a táticas, a técnicas, a
funcionamentos; que se desvende nele antes uma rede de relações sempre
tensas, sempre em atividade, que um privilégio que se pudesse deter. (...)
A construção de sentidos 62
poder que se exerce mais do se possui, que não é “privilégio” adquirido ou
conservado da classe dominante, mas efeito de conjunto de suas posições
estratégicas — efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos
que são dominados (FOUCAULT, 1989, p. 29).
As práticas discursivas buscam se inscrever em uma ordem,
criando estatutos diferenciados de expressão comunicativa (valoriza-se tal
fala em detrimento de outra). Por isso que, mesmo quando a análise se
localiza nas práticas discursivas “expressas por alguém”, de um texto
específico, de determinada pintura, essa singularidade precisa ser
relacionada aos seus “modos de implicação”.
A título de exemplo, cito o relato de Wilkomirski (1998), de sua
experiência como sobrevivente do holocausto.28 Ele articula uma
narrativa que se embaraça com: a) lembranças de “sua” infância fugindo
da morte nas mãos do nazismo; b) “sua” experiência de ouvir na escola o
relato de um professor sobre a libertação dos judeus pelos aliados; c) e
“suas” vivências atuais como militante, prestando assistência aos
sobreviventes do holocausto. Especialmente quando se defronta com o
documentário apresentado por um professor primário exaltando os aliados
que “libertaram” os judeus do nazismo, podemos acompanhar (pressupor
ou propor) o movimento de seu discurso:
Pelo portão do campo (de concentração), entra um tanque americano (...). O
júbilo parecia indescritível. Abraçavam-nos, consolavam-nos e nos beijavam.
Via-se comida sendo distribuída, doentes recebendo cuidados (...). E, por toda
parte, sempre e de novo rostos felizes pela libertação que vivenciavam.
“Libertação!? Mas isso não é verdade! Não, não foi assim! Isso é um engodo!
Não foi assim que aconteceu!”
... Estava estupefato. E, no entanto, não estava vendo senão cenas
incorruptíveis de um documentário.
28
Esse exemplo é plenamente válido para o que pretendo discutir, mesmo com a
revelação, algum tempo depois do livro lançado, de que se trata de um relato fictício.
A construção de sentidos 63
... Onde houve libertação? E onde é que eu estava enquanto os outros
estavam sendo libertados? Ora, eu estava lá e não vi nada! Não fomos
libertados coisa alguma, e ninguém nos trouxe comida, ninguém cuidou de
nós ou nos acariciou como no filme.
... Nós simplesmente fomos embora sem permissão! (...) Fugiram (os
soldados nazistas) sem dizer uma palavra.
E as pessoas do lado de fora, nos campos, na cidade próxima — elas não se
alegraram em nos ver. O que fizeram foi nos xingar e dizer: “Voltem para o
lugar de onde vocês vieram! Nós achávamos que Hitler tinha acabado com
todos vocês nas câmaras de gás! E agora já estão aí de novo” (WILKOMIRSKI,
1998, p. 200-201).
Nesta narrativa plena de sentidos para o autor (e para nós que a
lemos), é possível verificarmos o diálogo de múltiplas vozes: as dos
soldados norte-americanos, dos soldados nazistas, do professor, do autor
quando criança e de uma infinidade de vozes que até hoje debatem
guerra, intolerância, racismo etc.. Essas vozes coexistem, ainda que
antagônicas, misturam-se às nossas vozes de leitores, judeus ou não e de
às inúmeras outras instituições (criança, nação, direitos, povo, ditadura,
etc.). Vozes que se organizam em torno de desejo e poder. Afinal, qual a
versão “verdadeira”? Para um pesquisador com referenciais
construcionistas, essa não é uma questão. Seria melhor perguntar: que
vozes buscam expressão nesta narrativa? Em outras palavras: que
possibilidades de sentido são construídas neste discurso? Que negociações
estão sendo feitas? Que instituições são questionadas ou reforçadas? Que
práticas são combatidas? Que práticas são instituídas?
O discurso, entendido como prática discursiva, perde seu caráter
acidental e passa a se configurar como um argumento e é sobre ele que
recai o trabalho de pesquisa da construção de sentidos. Uma
conseqüência importante da relação entre a construção de sentidos e um
acontecimento é que a narrativa deixa de ser analisada como estruturada
e focalizada em torno de um autor e de um receptor estático, em que o
A construção de sentidos 64
maior movimento detectado é a articulação da língua e o diálogo entre
eles, e as análises são centradas em torno de “sujeitos”. Novamente aqui
devemos lembrar que os sentidos jamais são fundados por alguém de
maneira isolada, muito menos são fruto de “idéias” articuladas na
“cabeça” de alguém. Conforme o poeta argentino Jorge Luis Borges “...
toda palavra pressupõe uma experiência compartilhada” (In: MELLO,
1992, p. 74). A construção de sentidos é compartilhada, mas não é de
exclusiva autoria de um “sujeito” que se manifesta. O próprio Borges
consideraria um absurdo a desautorização de um sujeito (Cf., Ibid., p.
28), mas essa postura construcionista deve ser levada até a negação da
existência de um indivíduo-autor que escreve e inventa. Não basta ficar
na afirmativa de que os “indivíduos” nunca escrevem e inventam a partir
do nada, sozinhos, ou que sempre agem dialogicamente.
A propósito da dialogia, em termos etimológicos, diálogo é
preliminarmente “a fala entre duas pessoas”, mas também com acepção
extensiva à “conversação entre muitas pessoas” (CUNHA, 1998, p. 261-
262). Tomando como mote o que diz o dicionário, a construção de
sentidos, realizada a partir de vozes, não pode ser analisada somente a
partir do contexto “imediato” de uma prática discursiva (poucos ou muitos
“eus” em diálogo). Devemos estender o campo da dialogia no espaço e
tempo indefinidamente, para um contexto “mediato” (feito sempre por
terceiros indefinidos) já que as vozes se estendem formando um sem-
número de agenciamentos.
A construção de sentidos não se atrela às formações discursivas
sem referência a um contexto de produção. Nenhuma linguagem,
discurso, narrativa, opinião ou relato, sob que forma for (texto escrito,
retrato, outdoor, pintura, gráfico, desenho, comercial televisivo etc.),
contêm em si sentidos desarticulados da especificidade de contextos nos
quais interagem as pessoas que fazem uso desses sentidos. Estas
incluem as vozes de outras pessoas reais ou fantasiosas, significativos ou
A construção de sentidos 65
não-significativos, concordantes ou discordantes, vozes da cultura em que
eles estão imersos ou não.
Novamente podemos reafirmar que essa concepção de
construção de sentidos implica em abandonarmos o conceito de
representação como um retrato de um sentido essencial ou último. Esse
não existe, a não ser como uma finalidade específica, como vimos acima,
como sendo considerado como “vontade de verdade” (FOUCAULT, 1996,
p. 14).
O pressuposto de um trabalho de pesquisa que busca uma
“representação” é que há um sentido a ser revelado e para isso é
necessário seguir um determinado caminho, como a busca de um núcleo
figurativo (Cf. JODELET, 1986). Isso acaba fixando o sentido em vez de
vê-lo constituindo formas em um acontecimento. O conceito de
representação mantém uma função restritiva quando busca o sentido
murmurado como “dado”, que cresce e se revela na fala de um “sujeito”
ou documento. Cria-se um recorte no discurso, que lhe castra a
construção de sentidos como instância fundamentalmente criadora e
criativa. Restringe-se o lugar do discurso como se ele representasse o
pensamento de quem o articula. Esse procedimento amordaça os
sentidos construídos no campo relacional. É necessário deixar de
privilegiar o foco proposto pelos teóricos das representações sociais, que
utilizam o campo interativo apenas para caracterizar onde as
representações se movimentam, com finalidade de que as pessoas os
utilizem para ordenar suas ações:
... designa uma forma de conhecimento específico, a saber de sentido
comum, cujos conteúdos manifestam a operação de processos generativos e
funcionais socialmente caracterizados. Em sentido mais amplo, designa uma
forma de pensamento social (JODELET, 1986, p. 474; grifos meus).
As representações são como um “espelho” de uma dada cultura
e implicam na adoção de parâmetros de verdade, para que uma
A construção de sentidos 66
representação possa ser aceita. E, além disso, retiram dos sentidos toda
a relação com a ação, reatando-lhes uma configuração ideativa,
impossível de ser admitida na concepção construcionista. Extremante
grave, ainda, é a noção de conhecimento que vigora sob o
representacionismo, considerado “... como uma questão de
representações internas — um espelho da Natureza desanuviado e não-
distorcedor ...” (RORTY, 1994, p. 248).
Trabalhando sob outra perspectiva, através da análise de
práticas discursivas, Spink afirma que Moscovici29 enfatiza a dinamicidade
das representações sociais, localizando-as na mutabilidade da sociedade,
em contraste com a construção que a autora privilegia, na qual essa
mutabilidade está relacionada à “multiplicidade de narrativas que podem
estar presentes nas práticas discursivas” (SPINK, 1995, p. 07). Por isto,
não adianta buscar um sentido que espelha uma construção social, que
age silencioso, encoberto. Os discursos são práticas que buscam
hegemonia: “os discursos devem ser tratados como práticas descontínuas,
que se cruzam por vezes, mas também se ignoram ou se excluem”
(FOUCAULT, 1996, p. 52).
Em pesquisas sobre a construção de sentidos, não há espaço
para o verdadeiro ou o falso, muito menos para concepções que acreditam
que os sentidos podem ser “descobertos” por uma análise “rigorosa”. Sob
estas concepções, o pesquisador “desvenda” sentidos que já se
encontravam lá esperando apenas um “intérprete” que o
revelasse/interpretasse. Sontag, ao criticar a interpretação, afirma:
“compreender é interpretar. E interpretar é reafirmar o fenômeno, de
fato, descobrir um equivalente adequado” (SONTAG, 1987, p. 15). Como
29
Um dos maiores expoentes da teoria da representação social.
A construção de sentidos 67
o “equivalente adequado” não existe, o sentido ao ser univocamente
interpretado passa a se adequar àquilo que acreditamos ser mais
verdadeiro. Por conseqüência, favorece a crença de que lidamos com
“fatos”, excluindo a noção de acontecimento (o sobrevir de um campo de
interação formado por vozes, que inclui quem pretende interpretar).
Sontag, ao refletir sobre os críticos de arte, nos diz: “em vez de
uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte” (SONTAG, 1987,
p. 23). Podemos aplicar esse princípio à construção de sentidos, uma vez
que ela vai além de um significado, de uma representação e desemboca
em uma experiência de investimento afetivo (intensidades, sem separar
idéias de afetos, de ações). As intensidades de nossos investimentos
impedem que haja um sentido definitivo e único, fazendo com que os
sentidos sejam sempre supostos e é isso que lhes dá o caráter de uma
construção:
Quanto mais interpretamos, menos encontramos o significado fixo de um
texto ou do mundo, e mais encontramos outras interpretações. Estas
interpretações foram criadas... (RABINOW & DREYFUS, 1995, p. 119-120).
Relembrando, não importa o sentido verdadeiro 30, mas os
agenciamentos expressos em vozes múltiplas, cúmplices ou não. Os
sentidos não estão adormecidos esperando serem descobertos, mas são
construídos quando pesquisados (por exemplo, no caso presente). Como
afirma Spink: “... conhecer é dar sentido ao mundo. Não se trata,
portanto, de mera informação, da adesão a uma teoria ou encadeamento
lógico de idéias...” (SPINK, 1995, p. 06).
30
Reafirmo aqui a minha posição de incredulidade em relação a qualquer categoria que
se pretenda ontológica.
A construção de sentidos 68
2.2. Construção de sentidos e tempo:
Tempo, tempo mano velho
Vai, vai, vai...
Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final
Sobre o tempo
(JOHN: Banda Pato Fu)
Pesquisar as condições de possibilidade de determinados
acontecimentos torna-se imprescindível quando se estuda a construção de
sentidos, já que estes não flutuam fora de contextos históricos, mas são
frutos de inúmeras negociações que se fazem ao longo do tempo e que
permitem que determinadas versões possam ter visibilidade social.
Essas reflexões iniciais já nos permitem abertura para dois
aspectos importantíssimos: 1) negociações existem porque as práticas
discursivas são polissêmicas; 2) conseqüentemente, a polissemia gera
verdadeiros embates, ou lutas pela hegemonia de determinadas versões.
Polissemia, como bem definiram Spink e Medrado (1999, p. 48),
não é um fenômeno lingüístico, de extensão dos significados de uma
palavra (polilexia para a lingüística), mas um complexo fenômeno que
articula práticas e sentidos, ao mesmo tempo em que permite, a cada um
de nós, participarmos de versões diversas de um fenômeno
aparentemente igual. Em outras palavras, as pessoas transitam "... por
inúmeros contextos e vivenciam várias situações" (Ibid.). É necessário
resgatarmos a força ativa do verbo transitar, desfavorecendo a idéia de
uma simples passagem de uma situação à outra. Ao contrário, impõem-
se atividades de elaboração que envolvem recursos como a observação e
a busca de enodamento em algum registro já vivido no processo de
socialização. Diz respeito a práticas que já vinham sendo elaboradas
A construção de sentidos 69
coletivamente e às condições de possibilidade de uma pessoa em se
apropriar de determinada versão, devido a convivência, em diferentes
níveis, de identificações e “descontinuidades”, advindas de seu processo
de socialização.31 Essa descontinuidade é extremamente importante,
porque rompe definitivamente com a noção de uma socialização sem
fraturas ou de socialização que supera definitivamente fraturas, em vista
de um falso ideal de maturidade que advoga maior estabilidade.
As pessoas podem até construir sentidos mais ou menos
estáveis, contudo, as descontinuidades persistem, retornam e obrigam os
pesquisadores de práticas discursivas, que adotam uma postura
construcionista à especificidade, a sempre procurarem movimentos
de estrutura descontínua nos acontecimentos.
Não basta apontar um acontecimento como fruto de
situações históricas. Essa obviedade não ajuda muito, inclusive
porque pode provocar reflexões que busquem no passado próximo
ou remoto configurações de acontecimentos no presente, evitando a
dimensão instável dos acontecimentos no tempo e a
irrecuperabilidade da exatidão de sentidos (passados e/ou
presentes). A perspectiva construcionista ultrapassa esse problema,
uma vez que nos permite balizar operações metodológicas que
sempre invoquem o confronto de práticas discursivas quando
procuramos, nas tramas da história, as construções do que estamos
pesquisando.
A investigação em um tempo passado (longo ou mais
recente) de práticas relacionadas à temática que pesquisamos é
importante, mas não traduz a dimensão de uma pesquisa inspirada
no construcionismo social, caso tais práticas sejam incluídas no
31
A respeito da discussão sobre a “descontinuidade” entre sistemas simbólicos no
processo de socialização, ver Figueira (1981) e Nicolaci-da-Costa (1985).
A construção de sentidos 70
tempo a partir de uma lógica evolutiva. Por exemplo: poderíamos
dizer que sempre houve “abuso” de crianças e “pedófilos” no Brasil,
tendo em vista o tratamento dado aos chamados grumetes, nas
embarcações portuguesas:
Em qualquer condição, eram os “miúdos” quem mais sofriam (...).
Grumetes e pagens eram obrigados a aceitar abusos sexuais de
marujos rudes e violentos. Crianças, mesmo acompanhadas, eram
violadas por pedófilos e as órfãs tinham que ser guardadas e vigiadas
cuidadosamente a fim de manterem- se virgens, pelo menos, até que
chegassem à Colônia (RAMOS, 1999, p. 19; os grifos são meus).
Procedendo dessa maneira, tentaríamos identificar em um
“tempo longo” o “tempo curto”32, que funcionaria como petrificante
das práticas discursivas e, à semelhança de um espelho, nós
reconheceríamos, no passado recente ou remoto, o lugar de uma
vivência virtual do que encontramos nos dias atuais.
Não estamos em busca de “elos perdidos” quando nos lançamos
à pesquisa no "tempo longo", mas o objetivo é fazer associações, em
busca de dispositivos, das condições de possibilidade, das construções de
determinadas práticas discursivas nos tempos atuais. O “tempo longo” é
importante na medida em que nos permite articular vicissitudes que
produziram no passado a possibilidade de algo apresentar determinadas
visibilidades no presente. O “tempo longo” traz indicadores de
permanência e de desvio de um acontecimento presente.
Nesse confronto de tempos há um paradoxo fundamental para
nós: ir à procura do passado para perder o presente (no sentido de não
32
Esses tempos são parte da divisão temporal utilizada nos trabalhos de pesquisa do Núcleo
de Psicologia Social e Saúde da PUC-SP: 1) Tempo longo: “marca os conteúdos culturais,
definidos ao longo da história da civilização”; 2) Tempo vivido: “linguagens soc iais
aprendidas pelos processos de socialização”, “corresponde às experiências da pessoa no
curso de sua história pessoal”; 3) Tempo curto: “marcado pelos processos dialógicos”,
“refere-se às interações face a face, em que os interlocutores se comunicam diretamente”
(Cf., SPINK & MEDRADO,1999, p. 51-53).
A construção de sentidos 71
buscar um acontecimento presente no passado); mas também, ir a busca
do passado para achar o presente (no sentido de verificar as suas
condições de possibilidade). De todo modo, ir à cata de práticas na
história passada é encontrar vida e movimento no que parecia estar
morto, tendo a certeza de que as práticas discursivas construídas são
sempre fugazes: no momento seguinte da tentativa de normalização, já
estão direcionadas para o caos; nunca se estabelecem definitivamente,
são inesperadas. São construções realizadas em um “tempo” que
também é um construto. A cristalização das práticas discursivas está
relacionada à crença em um tempo fixo:
Hipoteticamente, o tempo pode ser liso ou áspero, espinhoso ou sedoso,
duro ou macio. Mas neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa.
Porções de cidades aderem a algum momento da história e não soltam. Do
mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas
vidas e não se libertam (LIGHTMAN, 1993, p. 60).
O segundo ponto que levantei no início deste item — a luta
pela hegemonia de versões — desemboca no que acabei de apontar
como um paradoxo essencial. O mito é pesquisar a história como
contínua. O que digo parece uma banalidade, contudo, marca um
investimento do pesquisador que não se esgota na revelação sempre
polissêmica do que ele investiga, mas que busca evidenciar a
coexistência de ambigüidades, os combates derrisórios, em que a
instabilidade das práticas discursivas apareça na análise proposta pelo
pesquisador.
Assim, o pesquisador, com seu trabalho de investigação,
apontando construções (posições estratégicas), assinalando momentos
de visibilidade social de um acontecimento e seus sentidos (efeito de
conjunto), deve estar bem ciente que esses sentidos que tomam
visibilidade na sociedade se originam em embates por hegemonia e são
sustentados por construções específicas ao seu contexto de produção.
A construção de sentidos 72
2.3. Memória e construção de sentidos:
... mesmo que se tratasse do passado, era um
passado que mudava à medida que ele prosseguia a
sua viagem, porque o passado do viajante muda de
acordo com o itinerário realizado ...
(Ítalo Calvino, 1993, p. 28)
É comum pensarmos a temática memória relacionando-a
imediatamente com uma experiência íntima e como um momento já
vivido e, por isso, fixo, imutável. Não é essa a proposta sustentada em
uma perspectiva construcionista.
Poderemos entender memória como fez Freud, na concepção de
Derrida, com a criação do termo facilitação (Bahhnung).33 A memória é
completamente destituída de um valor unicamente psíquico, deixa de ser
um conceito em si, para se transformar em uma "abertura de caminho"
(facilitação) (NASCIMENTO, 1999, p. 168). Desta feita, a memória nunca
é a presença plena de uma experiência, entendida como um retorno à
mesma situação; é sempre uma ressignificação de experiências; sempre
havendo essa abertura à possibilidades de sentidos:
Uma das conseqüências da investigação freudiana foi a de subtrair a
memória do conceito tradicional que a pensaria como um simples
“reservatório”, onde se depositariam conteúdos substantivos, os quais de
modo mais ou menos regular retornariam à consciência. Longe disso, a
inscrição psíquica só é compreensível (...), a partir de um campo de forças
em tensão (NASCIMENTO, 1999, p. 168).
A “abertura de caminho” é produzida por uma correlação de
forças, que se constitui em um processo que permite falarmos de
memória. Para o ser humano, esse é um processo vital que impede o
33
Utilizo- me aqui das reflexões desenvolvidas por Evando NASCIMENTO (1999), em
Derrida e a literatura.
A construção de sentidos 73
retorno ao não-cultural e que afinal lhe desestruturaria por completo e lhe
remeteria a uma espécie de in-consciência natural.
Nos termos propostos, “recordar, elaborar e repetir”
(parafraseando Freud) são partes de um mesmo processo, em que
recordar e elaborar já são a memória como constante construção de
sentidos, e o repetir, significando não o retorno de conteúdos do passado
(mesmice) no presente, mas parte do processo de vivenciar possibilidades
humanas (o que parece igual apresenta vários olhares possíveis).
Os exemplos podem ser bem variados para o uso da memória
como repetição, com a função de negar a multiplicidade de sentidos,
sendo invocada sempre como uma experiência plena, única, derradeira e
fundamental. Um exemplo são as organizações que lutam contra
variabilidade das regras (“isso é assim, porque sempre foi assim”).
Podemos citar outro caso, que é o uso da memória na clínica psicológica
ou psicanalítica como um lugar de segredos, ou seja, de algo já sabido
que apresenta dificuldades para se elaborar, porque os sentidos que evoca
são temidos. Nos dois casos, a memória está intocada à espera de uma
revelação.
A discussão sobre a memória abre possibilidades de reflexão as
mais diversas. Em função deste trabalho de pesquisa, a partir deste
ponto, retomo a discussão procurando estabelecer a correlação entre
memória e construção de sentidos.
Memória e construção de sentidos se tocam tão intimamente que
não nos permite definir suas fronteiras: não temos memória sem
construção de sentidos, não temos construção de sentidos sem memória.
Isso se aplica à vida humana em geral. Relaciono memória à construção
de sentidos para destituí-la da concepção de ser um conteúdo guardado,
quase que intocado, na expectativa de uma descoberta.
A construção de sentidos 74
Como lembra Nascimento (1999), deixamos o campo do
naturalismo, bem como de uma fenomenologia, ao nos referirmos ao
conceito de memória. Abandonamos o naturalismo, no qual a memória é
um reservatório de recordações possíveis, e passamos a verificar que é na
tensão entre possibilidades de sentidos que a memória “emerge”.
Também abandonamos o campo de uma fenomenologia da memória,
porque perde importância uma possível relação direta com a consciência
do fenômeno e ganham relevância para a análise as forças/versões de
sentidos que agenciam um acontecimento. Muito mais que o conteúdo em
si, importam as forças, se quisermos, as vozes de sentidos que lhe
favorecem a “emergência” de algo como um acontecimento que alegra,
entristece, dá raiva etc... Sob este aspecto:
Toda interpretação é determinação do sentido de um fenômeno. O sentido
consiste precisamente numa relação segundo a qual algumas pessoas agem e
outras reagem num conjunto complexo e hierarquizado (DELEUZE, 1985, p.
21).
Nunca encontraremos o sentido de alguma coisa (fenômeno humano,
biológico ou até mesmo físico) se não soubermos qual é a força que se
apropria da coisa, que a explora, que dela se apodera ou nela se exprime.
Fenômeno não é uma aparência, nem mesmo uma aparição, mas um signo,
um sintoma que encontra seu sentido numa força atual (NIETZSCHE, Apud.:
NASCIMENTO, 1999, p. 168).
A memória como elaboração das experiências vividas é uma
construção de sentidos sempre atemporal, uma vez que se presentifica ou
se inscreve em uma cadeia de acontecimentos irredutíveis a um só tempo.
O passado é ressignificado no presente. Aí se verifica a impossibilidade de
“recuperar”, pela memória, o que foi vivido, mas na relação de forças
passado-presente temos acesso aos sentidos incessantemente produzidos
e isso pode ser chamado de “vivido” (uma presentificação não-atrelada a
espaço e tempo, mas com referência a eles). Nenhum acontecimento
retorna à elaboração em estado puro, restando “apenas” a tensão entre
A construção de sentidos 75
passado (ausência de uma presença) e presente (presença de uma
ausência).
De todo modo, os efeitos da construção de sentidos são
imprevisíveis. Assemelham-se à viagem de uma garrafa jogada no
oceano com uma mensagem cuja imprevisibilidade se dará por causa do
enfrentamento de inúmeras forças: das correntes marítimas, dos ventos,
quiçá do encontro com algum monstro marinho. Interagindo com essas
forças, a garrafa encontrará um porto, marcada pela viagem (tempo),
com determinada visibilidade. A viagem continuará (ou começará e em
outras paragens) no embate de forças já em terra.
Uma vez que a metáfora inclui viagens oceânicas, lembro aqui
das palavras de Aronnax (do clássico: “Vinte mil léguas submarinas”) que
diante do encalhe do Nautilus nas proximidades de uma praia tropical,
resolveu explorar suas riquezas: “Professor, a caçada ainda não acabou;
aliás, ainda nem começou. Tenha um pouco de paciência” (VERNE, s.d.,
p. 89).
A viagem-memória não tem espaços demarcados tão claramente
(iniciais, intermediários, finais). A viagem-memória só tem espaços
virtuais (sentidos-força buscando expressão).
2.4. As práticas discursivas sempre dispersas e múltiplas:
O jornalista Damazio, ao discutir a crítica literária, afirma que o
discurso sofre de um desgaste em virtude de sua multiplicidade: “Disperso
em múltiplos meios, assolado pelos engodos ideológicos e perdido no
cipoal do jargão científico, o discurso se tornou um clone bastardo. Nem
sequer paródia, mas pobre arremedo” (DAMAZIO, 1999, p. 23). Talvez o
que esteja ocorrendo (e sempre ocorreu) é mais do que um desgaste:
uma pluralidade de possibilidades de expressão. Ao contrário do
A construção de sentidos 76
jornalista, e após as discussões realizadas acima sobre a construção de
sentidos, podemos compreender que o discurso sempre será múltiplo,
mesmo que aparentemente saia de uma só boca e se constitua em uma
só voz. E sempre será assolado, destruído e construído, agonizante e
ressuscitado, por quem quer que “queira” lhe dar “um” ou “o” sentido.
Que dizer então daqueles que pesquisam a construção de
sentidos expressa através do discurso escrito e/ou falado? Também
multiplicam ao infinito os sentidos e os jogam no “cipoal científico”, pela
linguagem e modos-metodologia que empregam. Devem reinventar
metodologias e já aí “assolam” os discursos. Mas o problema não é esse.
A linguagem e a metodologia que usam criam obstáculos quando se
cristalizam “ad eternum”. Efetivamente, a pesquisa de construção de
sentidos deve levar em conta o confronto incessante com as possibilidades
do discurso, da palavra, ao ser expressos no tempo, na história. Devem
ser pesquisas pertinentes à fugacidade dos sentidos diante das infindáveis
interações que proporcionam ao serem construídos, ao se constituírem em
uma língua, ao se tornarem produtores de imagens, formadores de
conceitos, sons.
Vale lembrar a fugacidade dos sentidos quando o pesquisador
confronta passado remoto e/ou recente com a visibilidade presente do que
está pesquisando, na busca de rearrumar este material com a sua
interpretação, análise, com seu olhar e seus referenciais.
No trecho a seguir, Damazio se refere ao trabalho de um poeta,
mas poderíamos nos referir ao pesquisador que trabalha explicitamente
com a construção de sentidos:
O ato solitário do poeta diante da página em branco, o mistério insolúvel da
relação entre o verbo e a realidade dos objetos, o princípio ontogenético da
significação, a obsessão em traduzir numa imagem concreta e definitiva o
instante efêmero de um sentimento, ou a reflexão, o ardor em fazer com que
a palavra se torne gesto,... (DAMAZIO, 1999, p. 23).
A construção de sentidos 77
Realizando uma comparação com o trabalho do pesquisador,
poderíamos pensar que o mistério da relação entre o verbo e a realidade
que ele pretende expressar é insolúvel, só se repercute em fragmentos.
Mas está longe de ser um ato solitário, a nã o ser na sua “aparência” (na
medida em que quem escreve e relata é o pesquisador). As suas
reflexões se emaranham às dos autores de sua referência e àqueles que
critica, dos quais discorda e pretende superar. Atravessam seus escritos
mais do que uma obsessão e necessidade, o desejo humano de traduzir
suas experiências. A pesquisa também é a vivência de um
acontecimento: é o encontro singular do pesquisador com uma temática-
problema, atravessados por vozes que, ao mesmo tempo, tornam esse
encontro irredutível às comunicações e/ou publicações daí advindas.
Como uma onda de rádio, é irradiante ao infinito.
Não há possibilidade de aprisionar sentidos, seja em uma
pintura, poesia, foto, artigo, música, filme ou tese; pelo contrário, essas
expressões desencadeiam movimentos, ritmos circadianos próprios da
relação de cada um que delas se aproximam para senti-las pela
observação, pela passagem de seus olhos, mãos, ouvidos, pelas posturas,
caras e bocas que são provocados na leitura. A própria palavra se torna
gesto para o pesquisador.
O acontecimento se impõe na pesquisa. O pesquisador é sempre
seduzido e destituído da onipotência de ser o que escolhe. Não há uma
postura de contemplação prévia do acontecimento pelo pesquisador (para
vê-lo “tal como ele é”). O encontro pesquisador/temática estudada/vozes
funde-se em fluxos que geram construções inacabadas, não por serem
A construção de sentidos 78
incompletas, mas pela sua “íntima imensidão”34 que escapa à análise com
minudência.
2.5. A arqueologia do cotidiano:
A menção ao cotidiano e a arqueologia merece uma breve
reflexão, que se manteve de alguma forma presente nas discussões
desenvolvidas. Começo pelas reflexões sobre o cotidiano.
Uma pesquisa sobre a construção de sentidos também é
inseparável de uma pesquisa sobre o cotidiano, seja ele remoto ou
recente. Entenda-se o cotidiano como o momento de relação e produção
de práticas discursivas; portanto, são momentos que se efetuam em
espaços de criação diversos (academia, bares, o interior de um ônibus,
textos e imagens na mídia, galerias de arte, museus, músicas, danças...).
Construção de sentidos e cotidiano estão conjugados na medida
em que rompemos a noção de cotidiano como o lugar do usual, do
habitual, quase como um momento banal e desqualificado: “lugar da
rotina, do hábito, do espontâneo, do desempenho automático de papéis”
(SAWAIA, 1996, p. 87). Cotidiano definido em contraposição a um não
comum, não organizado, não rotineiro etc.
Devemos definir o cotidiano como espaço de vivência de
práticas, lugar de efetuação e construção de sentidos. O que se faz
cotidianamente é construir sentidos, mesmo que não seja percebido como
um hábito (e nem poderia ser percebido como tal, porque vai além de um
hábito, de algo mecânico para tornar-se possibilidade de vida humana). O
cotidiano é um plural: espaços de argumentação, de negociação de
sentidos.
34
Tema de um capítulo de uma das obras mais importantes de Bachelard, em que ele
desenvolve reflexões sobre a imaginação poética: A poética do devaneio.
A construção de sentidos 79
Podemos até dizer, como fazem Berger & Luckmann (1985, p.
39), que o cotidiano está organizado em torno do aqui e do agora do
nosso presente, o que é bem diferente de dizer que está fixado a
presentificações. Nesse aspecto, Sawaia aponta que “o presente traz
marcas de diferentes temporalidades” (SAWAIA, 1996, p. 88); a
“temporalidade do cotidiano é tridimensional: passado, presente e futuro”
(Ibid., p. 89); “O passado está nos instantes do cotidiano” (Ibid., p. 89).
Vimos acima (p. 69) que, na perspectiva construcionista adotada no
Núcleo de Psicologia Social e Saúde da PUC-SP, também cruzam–se
tempos. Ora, o fato de estar atravessado por inúmeros tempos já lhe
favorece a imprevisibilidade, especialmente se entendermos o cotidiano
como espaço vital. Daí é impossível achar que é o lugar da rotina e que
seu processo fundamental é a previsibilidade.
Fazer movimentos repetitivos como os descritos na música de
Chico Buarque (“todo dia ela faz tudo sempre igual”) não quer dizer que o
cotidiano é mesmice, mas que no cotidiano há, sim, espaço para o
mesmo, para a repetição, para a cristalização e institucionalização de
práticas. Sublinho, entretanto, que não podemos restringi-lo a isso.
O cotidiano é o “estar sendo”. E leva também a um
estranhamento, que questiona a mesmice:
— Então se estranhou a si própria e isso parecia levá-la a uma vertigem. É
que ela própria, por estranhar-se, estava sendo. Mesmo arriscando que
Ulisses não percebesse, disse-lhe bem baixo:
Estou sendo...
(...) Ele examinou-a e por um momento estranhou-a, aquele rosto familiar de
mulher. Ele se estranhou, e entendeu Lóri: ele estava sendo.
Ficaram calados como se os dois pela primeira vez se tivessem encontrado.
Estavam sendo (LISPECTOR, 1993, p. 83).
A construção de sentidos 80
Em relação à arqueologia, a discussão está relacionada à
metodologia empregada na análise de práticas discursivas. Assim, é
importante que fique claro não se tratar de uma exegese mas da
arqueologia do cotidiano. Desta feita, o mais importante não é a
emergência de uma palavra em si (“abuso”), mas o seu entorno: a
emergência de regras, profissões, instituições, organizações, que lançam
novas35 práticas discursivas.
Foucault, ao se referir ao estudo das práticas discursivas, indica
qual o ponto fundamental de seu trabalho arqueológico: não é a estrutura
da linguagem ou a construção de regras formais que a constitui como uma
língua, não é a busca de um sentido geral; o que deve ser analisado nas
práticas discursivas são as “condições de existência” de um acontecimento
(Cf., FOUCAULT, 1991, p. 59-60). Não interessa capturar um sentido
verdadeiro escondido, a intenção não-aparente, obscura, um “sub”
alguma coisa, ou seja, não pretende uma exegese, mas uma arqueologia.
Importa, sim, para o trabalho verificar que sentidos são construídos para
que algo se constitua necessariamente como uma prática cotidiana;
verificar sentidos que são ordenados por regras práticas, que devem ser
pesquisadas: o que se pode e o que não se pode dizer? Como é posto em
circulação? Entre que grupos? Como se registra? Que expressões são
consideradas como válidas? Quais discursos são importados de outras
épocas para justificar práticas presentes?... (Cf., Ibid.).
São válidas as críticas, como as de Kendall & Wickham (1999),
que vão em direção ao uso dos escritos de Foucault para o estudo da
cultura como “estudos de sentidos”. Nesse caso, os autores se opõem ao
uso do termo “sentidos”, de forma completamente diferente da que é feita
neste trabalho. Criticam os estudos que se propõem a encontrar um
sentido profundo, que estava encoberto e também as generalizações que
35
O novo aqui está relacionado com o momento de visibilidade social e não com uma
determinada data.
A construção de sentidos 81
não levam em consideração as especificidades dos acontecimentos
estudados (Cf. KENDALL & WICKHAM, 1999, especialmente o quinto
capítulo, p. 116-142).
Interessa, então, na análise de práticas discursivas, os seus
contextos de produção (peculiaridades de uma época e de uma cultura) e
os instrumentos e as estratégias que são criadas para lhes dar
sustentação e visibilidade social (instituições, leis, práticas profissionais,
sanções, governos, organizações, levantamentos estatísticos etc).
Constituem “dispositivos”, ou seja, mecanismos e instrumentos que
revelam uma disposição, uma direção. As formações discursivas, os
enunciados, constituem-se também em dispositivos.
A cartografia do cotidiano permite visualizar o que se pode
dizer/fazer e como se pode dizer/fazer, constituindo instrumentos para um
“território discursivo” (FOUCAULT, 1991, p. 59).
Arqueologia do cotidiano
A CONSTRUÇÃO DE UM ACONTECIMENTO
Formações lingüísticas Organizações
de suporte e produção de suporte e produção
Discursos, textos,
imagens...
Mídia, escolas, profissões,
eventos científicos...
As condições de existência de um acontecimento constroem
possibilidades de compreensão, introduzem e retiram temáticas a serem
A construção de sentidos 82
discutidas e, ao mesmo tempo, instituem ações, geram dispositivos de
suporte e legitimação. Por outro lado, também, muitas vezes com menos
visibilidade, trabalham movimentos questionadores das institucionalizações,
sobre os quais se sustentam negociações.
As práticas discursivas, como bem detalhou Foucault, evidenciam
um conhecimento guiado por um “olhar”, que é um olhar mutante, não é
redutor, mas “fundador” (FOUCAULT, 1998, p. XIII) de experiências que
se revelam em relação às disposições que se apresentam em face de
outras tantas experiências. O trabalho arqueológico trata as práticas
discursivas
(...) não como núcleos autônomos de significações múltiplas, mas como
acontecimentos e segmentos funcionais formando pouco a pouco, um
sistema. O sentido de um enunciado não seria definido pelo tesouro de
intenções que contivesse, revelando-o e reservando-o alternadamente, mas
pela diferença que o articula com os outros enunciados reais e possíveis, que
lhe são contemporâneos ou aos quais se opõe à série linear do tempo
(FOUCAULT, 1998, p. XVII).
aaaïbbb
III. Caminhos e atalhos:
possibilidades de investigar
o que é disperso
Quem acha vive se perdendo
(Noel Rosa/Nadico: Feitio de Oração)
Caminhos e atalhos 84
3.1. Pressupostos metodológicos
No capítulo introdutório refleti sobre os empecilhos à construção
do conhecimento a partir da perspectiva construcionista. Esta discussão
será retomada para tratar dos caminhos percorridos e dos atalhos que
foram abertos na construção da pesquisa. Os empecilhos podem ser
resumidos a partir de duas conclusões de Ibáñez em relação à tentativa
“ingênua” da Psicologia de constituir seu campo:
Primeira ingenuidade: a crença de que existe uma realidade independente do
nosso modo de acesso à mesma.
Segunda ingenuidade: crer que existe um modo de acesso privilegiado capaz
de nos conduzir, graças a objetividade, até a realidade como ela é (IBÁÑEZ,
1993, p. 110).
Completa:
Cremos que se podemos representar, nomear, conhecer os objetos do mundo,
é porque já estão aí e porque pré-existem a sua representação e ao ato de
nomeá-los. Mas isto não é assim. E o que tomamos por objetos naturais não
são senão objetivações que resultam de nossas características, de nossas
convenções e de nossas práticas. Essas práticas de objetivação incluem, por
suposto o conhecimento, científico ou não, as categorias conceituais que
temos forjado, as convenções que utilizamos, e a linguagem na qual se faz
possível à operação de pensar (Ibid., p. 112).
Ainda sobre a objetividade (questionada por Ibáñez e
caracterizada como “objetivações”), Gergen afirma que é uma
conseqüência retórica de uma determinada maneira de construir o saber
científico:
Caminhos e atalhos 85
(...) a objetividade não é inerente nem ao funcionamento mental particular do
científico, nem à capacidade do científico para retratar a natureza com
exatidão; trata-se primeiramente de uma conquista científica que se baseia
na metáfora mecanicista do funcionamento humano. (...) [que] tem uma
enorme força retórica nos fazeres contemporâneos (GERGEN, 1996, p. 209).
Seguindo o enfoque mecanicista do funcionar humano, ser
objetivo é “dar conta de uma representação exata ou correta”; trata-se
de uma conquista textual (GERGEN, 1996, p. 215).
Discutir os aspectos metodológicos da pesquisa, muitas vezes,
significa oferecer os parâmetros sobre os quais se busca uma
“objetivação” da “realidade”. Porém, depois das discussões nos capítulos
anteriores, já podemos concluir que um dos pressupostos metodológicos
fundamentais ao trabalho construcionista é: não há realismo possível de
ser representado por nenhum tipo de investigação ou análise, uma vez
que todas as relações que mantemos dentro e fora do trabalho de
pesquisa estão permeadas por práticas de poder e resistência,
negociações ativamente construídas por diversos protagonistas do debate
cientifico e por outras expressões de saber.
Todas essas discussões foram retomadas para refletir sobre
metodologia, porque, se abandonamos os empecilhos e ingenuidades
advindas de um conhecimento objetivo, também devemos construir
metodologias que sigam este caminho. Assim, primeiro teremos de
abandonar perguntas como: Quais os procedimentos escolhidos para
objetivar a realidade? Não vamos “objetivar” a “realidade”, pois essa
perspectiva recairia em um conhecimento que espelha o mundo. Porém,
não escapamos de oferecer uma versão aos acontecimentos, cujo
predicado “científico” é tornar públicos os critérios utilizados para as
caracterizações do que é pesquisado e para o desenvolvimento de
determinadas afirmações; possibilitar o conhecimento público das
atividades que constituíram o trabalho de pesquisa: convenções retóricas
Caminhos e atalhos 86
e atividades de busca e escolha do material sobre o qual nos debruçamos
para oferecer uma versão da circulação e agenciamentos do que foi
escolhido como assunto-problema.
O trabalho com documentos, por exemplo, não é um trabalho de
interpretação de textos, exegese, mas de construção das negociações
realizadas em torno do material que está sendo utilizado. Segundo
Gergen, é “reduzir o impacto totalizador da voz singular” do pesquisador,
ampliando “o número de diálogos” dos quais o leitor e pesquisador podem
participar (GERGEN, 1996, p. 228).
Quando discutimos, no capítulo anterior, a construção de
sentidos, concluímos que não há práticas discursivas retilíneas e
homogêneas, sem vozes contraditórias, sem jogos de negociação.
Portanto, a metodologia deve favorecer a emergência das condições de
possibilidades e os agenciamentos dessas práticas discursivas. Eis o
problema: como fazer isso? E como fazer isso, levando-se em conta o
material específico que será “fonte”36 da pesquisa? Recolocando essa
última pergunta, fundamental para as reflexões metodológicas com base
na concepção construcionista: como desenvolver pesquisas sobre práticas
discursivas se elas envolvem discursos sempre dispersos?
Como afirmou Foucault: “os discursos37 devem ser tratados
como práticas descontínuas, que se cruzam por vezes, mas também se
36
Ver observação à p. 44, nota 14.
37
Foucault utiliza a palavra “discurso”, mas não há contradição com o uso de “práticas
discursivas”. Pelo contrário, mesmo utilizando a palavra “discurso” como conjuntos de
enunciados (FOUCAULT, 2000, p. 135), não a dissocia de práticas. Podemos verificar isso
em vários trechos de A arqueologia do saber (p. ex., p. 151, 159, 193). A respeito,
Roberto MACHADO inclui uma citação de Foucault bem esclarecedora: “... a arqueologia
não faz análise de palavras, signos (...), nem uma análise própria das coisas, objetos da
experiência, designados pelas palavras. O discurso é um conjunto de regras dado como
sistema de relações. Essas relações constituem o discurso em seu volume próprio, em
sua espessura, isto é, caracterizam-no como prática. Considerar o discurso como prática,
prática discursiva, significa definí-lo como ‘(...) conjunto de regras anônimas históricas,
sempre determinadas no tempo e no espaço que dfiniram (...) as condições de existência
da função enunciativa’ (Apud., MACHADO, 1982, p.171; grifos meus).
Caminhos e atalhos 87
ignoram ou se excluem” (1996, p. 52-53). Um tema pode se encontrado
em diferentes práticas discursivas, do mesmo modo que uma única prática
discursiva produz temas variados. Elas não têm princípio de unidade. Daí
analisá-las como pura dispersão (FOUCAULT, 2000, p. 140; MACHADO,
1982, p. 162).
A dispersão das práticas discursivas favoreceu a construção de
métodos que se mantiveram em contraposição com a antiga dualidade
entre pesquisa qualitativa e pesquisa quantitativa.38 Buscam mais do que
uma análise simplesmente metódica-monista (em que a relevância de um
tema é avaliada pela sua freqüência ou sua suposta importância e
visibilidade no contexto social), procurando o que Foucault chamou de
“regras de formação”: “... devem explicar como os discursos aparecem e
se distribuem no interior do conjunto” (MACHADO, 1982., p. 163).
Esse posicionamento metodológico pode ser apresentado por
intermédio de duas expressões importantes: a perspectiva do
“construcionismo” e a “arqueologia” foucaultiana. São posicionamentos
convergentes como demonstramos no capítulo introdutório e no capítulo
sobre a construção de sentidos. Nesse momento, a discussão se guiará
pela possibilidade de fazê-las convergir no trabalho de escolha do material
a ser pesquisado e sua análise.
Da “arqueologia” foucaultiana, importa especialmente a postura
de buscar descontinuidades, rupturas e resistências nas práticas
discursivas, que neste trabalho são pesquisadas em documentos.
Também, a tentativa constante em mostrar que os saberes produzidos e
reproduzidos nas práticas discursivas sempre estão articulados e inter-
relacionados e, também, são veiculados cotidianamente. Não devem ser
analisados como se estivessem sendo submetidos a um julgamento como
38
Discutidos por BOGDAN & BIKLEN (1994) e também por ALVES MAZZOTTI &
GEWANDSZNAJDER (1998).
Caminhos e atalhos 88
saberes superiores ou inferiores do ponto de vista moral. E, por fim,
importa a crítica de progresso na construção dos saberes, sem a qual o
pesquisador pode ser levado à tarefa sempre impossível de buscar as
exatas origens de um acontecimento. Esta crítica impulsiona a pesquisa
na procura de práticas discursivas que funcionem como dispositivos
políticos de poder. Dito de outra forma, em vez das origens últimas,
tentar encontrar a emergência de condições que possibilitaram tais ou
quais práticas discursivas:
... é, em última análise, explicar o aparecimento de saberes a partir de
condições de possibilidades externas aos próprios saberes, ou melhor, (...)
imanentes a eles pois não se trata de considerá-los como efeito ou
resultante [mas de situá-los] (...) como elementos de um dispositivo de
natureza essencialmente política (MACHADO, 1982, p. 187).
A “arqueologia” favorece uma postura “construcionista”, uma vez
que, para esta última, as práticas discursivas não são possessão de um
indivíduo, mas fruto de negociações sociais. Nesse caso, o trabalho de
pesquisa referente às práticas discursivas se relaciona, principalmente,
com a construção do processo pelo qual pessoas descrevem, expõem ou
avaliam o mundo. Esse processo de compreensão e posicionamento no
mundo “... é resultado da atividade, de iniciativas de cooperação de
pessoas em relação” (GERGEN, 1985, p. 267). Desta forma, é inevitável
que as pesquisas inspiradas na perspectiva construcionista mergulhem em
bases culturais e históricas, buscando as mais variadas formas de
construção do mundo (Ibid., p. 267). Por isso, são rechaçadas pesquisas
que investiguem na história somente repetições. Pelo contrário, é
incentivada a procura de lacunas: o que difere, situações que se
encontrem “à margem” do que é mais aceito ou comum. São estas
situações que fazem parte de um mesmo contexto em disputa.
Para o trabalho de pesquisa desenvolvido aqui, a aliança entre as
perspectivas construcionista e foucaultiana é valorosa, pois os
Caminhos e atalhos 89
documentos pesquisados são tratados como concernentes a um contexto
histórico de disputas e por isso agenciam posturas de governo de si e de
outros, posturas que se debatem em busca de expressão e hegemonia.
Interessam “... as formas de linguagem que atravessam a sociedade, os
meios pelos quais são negociadas e suas implicações para outras classes
de atividade social” (GERGEN, 1985, p. 270).
A metodologia apresenta as possibilidades que o trabalho de
pesquisa oferece e, também, os seus limites, ou seja, indica que foram
realizadas escolhas teórico-metodológicas que fornecem as guias para as
análises. Toda escolha limita, mas também proporciona o prosseguimento
da caminhada. Sem as escolhas, só resta a “in-decisão” que, indicam a
existência de multiplicidades, que originam o testemunho precioso de uma
escolha ou desembocam na procura de indícios do mesmo caminho,
peculiar aos testemunhos verdadeiros, inoportunos a qualquer
pesquisador. Os “atalhos” usados para chegar aos documentos também
não foram fortuitos: foram percorridos caminhos já abertos por
bibliotecas (algumas virtuais) e retraçados pelo pesquisador conforme
suas perspectivas e interação com o material pesquisado. E por fim, o
tratamento dado aos documentos selecionados também impõe limites de
escolha e, nesse caso, alinha -se ao procedimento desenvolvido por
Spink, 39 que consiste em analisar as práticas discursivas a partir da
escolha de temas e posicionamentos emergentes (abordado à frente no
item “As análises”, p. 92).
39
Adotado por mim em outra pesquisa: PIMENTEL MÉLLO, Ricardo. A representação
social dos direitos de exploração e uso do solo: um estudo psicossocial da violência na
região sul do Pará. Dissertação de mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, 1994.
Caminhos e atalhos 90
3.2. Os mananciais
A pesquisa sobre as condições de possibilidade do “abuso” como
um tipo foi elaborada especialmente a partir de documentos escritos, mas
também houve entrevistas com especialistas, análise de material
fotográfico e filmográfico. A caracterização dos documentos foi feita no
capítulo introdutório (p. 44-51). Foram documentos de domínio público
de três tipos: governamentais, organizacionais e acadêmicos. Passo à
caracterização dos especialistas entrevistados e dos locais onde os
documentos foram obtidos.
3.2.1. Entrevistas
Foram realizadas entrevistas com pessoas de referência na
discussão da problemática do “abuso” sexual infantil intrafamiliar no
Brasil: pelas publicações a respeito; por estarem à frente de organizações
que também se tornaram referência, já que mantêm cursos de formação
de outros profissionais e/ou atividades de acompanhamento social e
clínico, e ainda por manterem eventos periódicos onde se discutem a
temática do “abuso” e os trabalhos que desenvolvem. As entrevistas
visaram uma maior contextualização das condições de possibilidade da
emergência do “abuso” no Brasil, os debates que favoreceram isso e suas
perspectivas. As pessoas entrevistadas também enriqueceram o quadro
de acontecimentos nacionais (Anexo III).
Os antropólogos, geralmente, caracterizam esses especialistas
como “informantes”. Latour & Woolgar (1997, p. 19-20), lembram que
esses informantes devem ser “... certamente informantes privilegiados,
mas de quem sempre se duvida”. Essa perspectiva foi adotada: as
informações colhidas não são tomadas como verdades factuais, mas como
versões de acontecimentos.
Caminhos e atalhos 91
Foram realizadas duas entrevistas, com dois informantes, por
meio de perguntas abertas sobre a temática do “abuso”, com o foco em
acontecimentos brasileiros: quais as primeiras reuniões científicas, as
motivações, o que/quem estimulou a realização; quais os primeiros
profissionais a se interessarem pelo assunto; organizações e serviços que
surgiram. Os depoimentos foram registrados com o auxílio de gravador e
fita cassete, bem como, feitas anotações realizadas no decorrer da
entrevista. Não foram transcritos, uma vez que tiveram apenas caráter
informativo, ou seja, não foram utilizados para análise de discursos. Os
informantes não foram identificados, mesmo porque não havia motivo
para tal. As informações colhidas nortearam a escolha das organizações e
auxiliaram na decisão de inclusão de documentos. Facilitaram bastante a
identificação dos eventos nacionais relacionados à discussão do “abuso”
infantil.
3.2.2. Localização dos documentos
Os documentos foram escolhidos após inúmeras consultas
diretas (pessoalmente) e via on-line, em bibliotecas especializadas, banco
de dados, organizações governamentais e não–governamentais e também
a partir das entrevistas com especialistas.
a) Consulta direta realizada em bibliotecas:
• Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo;
• Bibliotecas da Universidade do Estado de São Paulo: dos institutos de
Psicologia, de História, de Educação e Filosofia, das faculdades de
Medicina e de Saúde Pública;
• Biblioteca da Escola Nacional de Saúde Pública – FIOCRUZ (Rio de
Janeiro/RJ).
b) Consulta on-line realizada em bibliotecas:
Caminhos e atalhos 92
• Biblioteca da Câmara Federal em Brasília;
• Biblioteca do Senado Federal em Brasília;
• Biblioteca da Universidade de Brasília;
• Biblioteca da Universidade Federal do Rio de Janeiro;
• Biblioteca da Universidade Estadual do Rio de Janeiro;
• Biblioteca da Universidade Federal da Bahia;
• Biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
c) Consulta on-line realizada em órgãos governamentais: 40
• Ministério da Justiça (Brasília/DF);
• Conselho Nacional da Criança e do Adolescente – CONANDA
(Brasília/DF);
• Rede Nacional de Informações sobre Violência, Exploração e Abuso
Sexual de Crianças e Adolescentes – RECRIA (Brasília/DF);
• Centro de Referência, Estudos e Ações sobre Crianças e Adolescentes -
CECRIA (Brasília/DF).
d) Consulta direta realizada em órgãos não-governamentais:
• Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF (São Paulo/SP);
• Organização Mundial da Saúde – OMS (São Paulo/SP);
• BIREME (São Paulo/SP);
• Centro de Estudos e Atendimento Relativos ao Abuso Sexual – CEARAS
(São Paulo/SP);
40
Não é possível realizar consultas on-line para acessar o conteúdo de documentos
governamentais brasileiros, porque eles não estão disponíveis. Podem ser encontradas
apenas as referências ao tipo de documento (lei, projeto de lei etc...) e, algumas vezes,
especialmente nos documentos do Congresso, um pequeno resumo do que se trata.
Caminhos e atalhos 93
• Centro de Referência às Vítimas da Violência do Instituto Sedes
Sapientiae – C.N.R.V.V. (São Paulo/SP);
• Programa de Atenção às Vítimas de Abuso Sexual – PAVAS (São
Paulo/SP);
• Centro de Documentação da Infância da Coordenação de Estudos e
Pesquisas sobre a Infância – CESP, da Universidade Santa Úrsula (Rio
de Janeiro/RJ). Pesquisa em documentos e em Cd-Rom.
e) Consulta on-line realizada em bancos de dados e organizações não-
governamentais:
• PsycLIT;
• MedLine;
• Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF);
• Organização Mundial da Saúde (OMS);
• Agência de Notícias dos Direitos da Criança – ANDI (Brasília/DF);
• Associação Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência -
ABRAPIA (Rio de Janeiro/RJ);
• International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect –
ISPCAN;
• End Child Prostitution, Child Pornography and the Trafficking Children
for Sexual Purposes – ECPAT;
• Centro de Defesa da Criança e do Adolescente – CEDECA
(Salvador/BA).
Caminhos e atalhos 94
f) Consulta on-line realizada na mídia: 41
• Folha de S. Paulo;
• CD-Rom Folha:42 1994-1998 (São Paulo/SP);
• O Estado de São Paulo;
• Jornal do Brasil (Rio de Janeiro/RJ);
• Jornal O Liberal (Belém/PA);
• Revista Isto É;
• Revista Época;
• Revista Veja.
3.3. As análises
Toda análise sempre se realiza sobre um fragmento e se
constitui também como um fragmento elaborado. A análise se inicia
desde a escolha do fragmento que o pesquisador pretende trabalhar e
elaborar alguma reflexão. Port anto, ela também deve ser incluída em
uma discussão metodológica, pois, metodologia, longe de ser unicamente
uma técnica de coleta de dados, é todo o caminho percorrido pelo
pesquisador ao eleger e analisar algo para investigar; a revelação pública
das escolhas realizadas na pesquisa. Neste item, procurarei esclarecer
como pretendo analisar as fontes documentais.
41
Este jornais e revistas foram incluídos pela sua grande circulação em território nacional,
na tentativa de encontrar matérias jornalísticas sobre documentos governamentais e
não-governamentais e, assim, tentar localizá-los. Também foram importantes para a
construção da tabela nacional de acontecimentos relativos ao “abuso”. O jornal “O
Liberal” foi incluído porque é o jornal de maior circulação na região Norte, onde ocorreu
decisão judicial importante em relação a atividades sexuais envolvendo adulto e
adolescente (abordada no Capítulo VI, p.184).
42
Trata-se de Cd-Rom que reúne matérias jornalísticas da Folha de S. Paulo.
Caminhos e atalhos 95
As fontes documentais se constituem em discursos estruturados
e foram analisadas como fazendo parte de “um sistema complexo de
relações” de que são, simultaneamente, “condições e efeitos”
(GONÇALVES, In: CLIFFORD, 1998, p. 10).43
Uma das estratégias de visualização foi a construção de tabelas
de acontecimentos (Anexos II e III), a partir das quais foram escolhidos
documentos considerados fundamentais para a emergência do “abuso”
como um tipo e sua solidificação. A análise levou em conta dois aspectos
citados por Spink:
a variação, ou seja, as versões contraditórias que emergem (...) e que são
indicadores valiosos sobre a forma como um discurso se orienta para a ação;
(...)
a retórica, ou a organização do discurso de modo a argumentar contra ou a
favor de uma versão dos fatos (SPINK, 1985, p. 130).
Em resumo:
• Foram construídas tabelas sobre os acontecimentos (nacionais e
internacionais) relacionados ao “abuso”. A classificação incluiu: período
e local de origem do acontecimento; quando possível, personagens
envolvidos e fonte (onde foi encontrada a referência);
• As tabelas nortearam a escolha de documentos, para os quais foram
desenvolvidas análises dos posicionamentos emergentes em relação ao
“abuso”;
• Nessa escolha, foram privilegiados documentos com perspectiva
histórica e/ou estudos que faziam revisões temáticas (por exemplo, o
diagnóstico médico do “abuso” nas últimas duas décadas);
• Foram identificados nas tabelas: eventos importantes; o periódico que
serviu para análises mais detalhadas no plano internacional; e os
43
Citação colhida na apresentação do livro de Clifford (1998), feita por José R. dos
Santos GONÇALVES.
Caminhos e atalhos 96
principais autores e organizações nacionais e internacionais
responsáveis pela construção do “abuso” como um tipo;
• Dos autores, buscaram-se suas obras principais. No caso internacional,
o artigo de Kempe e seus colaboradores (1962) e, no caso brasileiro,
diversas obras de Azevedo & Guerra;
• Das organizações, foram analisadas algumas publicações - tais como
cartilhas e folhetos – e foram escolhidas algumas como exemplo da
caracterização da emergência do “abuso”. Por exemplo, um folheto de
campanha nacional do LACRI contra a palmada (Anexo IV(a) e IV(b);
• Ainda foi escolhido um comunicado (marco) da Organização Mundial de
Saúde – OMS (WHO, 1999), por ser uma organização reconhecida
internacionalmente e com grande penetração nas políticas
governamentais e não-governamentais. Este documento é um marco
por retratar toda uma discussão internacional e nacional sobre o
“abuso” como um problema de saúde;
• Identificado também o principal periódico sobre a temática (Child
Abuse & Neglect), foi realizada análise detalhada; texto a texto,
reconhecendo os artigos que poderiam ajudar na compreensão da
emergência e solidificação do “abuso” como um tipo. Essa publicação
favoreceu a visualização dos profissionais envolvidos, temáticas mais
presentes em determinadas épocas.
No decorrer dos capítulos V, VI e VII, serão distinguidos os
autores e os textos de maneira mais detalhada. As análises também
foram norteadas pela tentativa de identificar a governamentalidade
veiculadas nos documentos (Ver: p. 45) e ainda as estratégias de
inscrição utilizadas (Ver: p. 43) e estão nesses capítulos imiscuídos nas
análises.
Caminhos e atalhos 97
3.4. Foco de Estudo
Como uma das estratégias para obter as condições de
possibilidade da emergência e solidificação do “abuso” como tipo
(nomeação da prática sexual entre adulto e crianças como “abuso” e
criação de organizações que assegurem isto, leis, profissões etc...), não
foi delimitado, de antemão, um período para realizar o levantamento do
material a ser pesquisado. Porém, aos poucos, especialmente a partir da
análise de textos históricos, foi possível identificar a década de 60 como o
momento de visibilidade social do “abuso”. Isto se tornou possível pela
classificação dos documentos nas tabelas de acontecimentos, a partir de
uma perspectiva temporal, nas quais se buscou o que poderia ser
caracterizado como balizador da emergência do “abuso”. Portanto, a
busca se iniciou por sinais indicativos de mudança na concepção de uma
prática sexual (mudança de termos, congressos especializados,
construção de instrumentos clínicos para diagnóstico, legislação específica
etc.).
Lembro novamente que as investigações nunca foram realizadas
no sentido de identificar as origens do “abuso”, e sim, como indica a
perspectiva construcionista, foram “... um esforço de desconstrução de
noções profundamente arraigadas na nossa cultura” (SPINK & FREZZA,
1999, p. 27). Portanto, o período inicial marcado pela década de 60
assinala um momento em que um tipo começou a ter regularidade
enunciativa (FOUCAULT, 2000, p. 166). Em outras palavras, os
enunciados veiculados em diferentes meios (academia e mídia, por
exemplo) começaram a ter uma certa regularidade (termos e opiniões
comuns) estabelecendo, não de maneira definitiva, a noção de “abuso”
relacionada a uma prática sexual. A partir da década de 60,
especialmente, ocorreu uma espécie de “homogeneidade enunciativa” em
torno do “abuso” sexual infantil intrafamiliar.
Caminhos e atalhos 98
3.5. Por uma metodologia que estimule a volúpia do saber:
A exposição da metodologia empregada na pesquisa, iniciada no
capítulo introdutório e mais detalhada neste capítulo, visa contestar a
docilidade imposta pelo pensamento único e pelo dogmatismo. Esta
contestação parece ser uma espécie de “derrota vitoriosa”44 da pesquisa
científica, ou seja, percebemos que é vã a tentativa de controle completo,
objetividade e, como conseqüência, a busca da interpretação verdadeira
sobre um acontecimento pesquisado. Esses mitos foram guardados para
sempre em uma caixinha mágica, localizada no final do arco-íris. Isso
pode parecer derrota à “vontade de saber”, mas, ao contrário, a postura
de busca contínua da sabedoria permite que a ciência participe do
banquete com os deuses e, com uma taça de ambrosia, comemore o lugar
de sempre devir do conhecimento, ou se quisermos, a volúpia do saber.
aaaïbbb
44
Essa expressão (“derrota vitoriosa”) e reflexões que seguem, foram- me inspiradas pelo
mito “Eros e Psiqué”, analisado por Brandão (In: Junito de Souza BRANDÃO, Mitologia
Grega, vol. II, p. 209-251), no qual Psiqué cede à tentação de abrir uma caixa pensando
obter a eterna beleza divina e encontra r o sono estígio. Encontra punição por isso
(aparente derrota). Mas é a partir desta derrota que retoma sua união com Eros, torna-
se imortal e tem uma filha chamada Volúpia. Fazendo um paralelo com o trabalho
científico: sua eterna derrota na tentativa de completo controle lhe permite a
imortalidade criativa da busca (volúpia). É uma derrota vitoriosa.
IV. “Abuso” Sexual:
as redes de força em negociação
de sentidos
Em 1978, quando as pessoas me perguntavam sobre o
que eu escrevia, eu dizia “incesto”. E elas,
freqüentemente perguntavam: “Você é feminista?”.
Agora quando eu digo (com alguma reticência) que eu
tenho escrito sobre incesto, as pessoas perguntam:
“Você é psicóloga?”
(Louise Armstrong, 1996, p. 331)
Abuso sexual 100
O “abuso” sexual infantil, de que trato neste trabalho, refere-se
exclusivamente àquele ocorrido e praticado por membros de uma mesma
família, tendo um adulto e uma criança ou adolescente como personagens
e, geralmente, incluído por estudiosos do tema como “violência
doméstica” (Ver: GUERRA, 1995, p. 23). No entanto, para discutir
aspectos teóricos, lanço mão de autores que fazem reflexões sobre o
“abuso” sexual sem se deterem sobre o espaço onde ocorreu. Em alguns
momentos, amplio a discussão, a fim de refletir sobre a institucionalização
da sexualidade humana em geral, com o objetivo de compreender melhor
a situação do “abuso” sexual como uma construção do século XX.
A perspectiva deste capítulo é procurar compreender a dinâmica
de uma noção como a de "abuso”, que se forma como um tipo a partir da
negociação de “redes de força e fatores que constituem regimes de
verdade e controle” (LEVETT, p. 235, 1996). Nessa ótica, é importante
mostrar as descontinuidades e mudanças que ocorreram nessa negociação
em que a prática sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente
tornou-se visível socialmente através da noção de “abuso” sexual. Daí a
importância de “... retomar também a linha da história, de modo a
entender a construção social dos conceitos que utilizamos...” (SPINK &
MEDRADO, 1999, p. 49). Isso permite que, ao investigarmos a linha da
história, possamos identificar acontecimentos que favoreceram ou inibiram a
Abuso sexual 101
emergência de outros. Assim, a investigação de temporalidades45 é
realizada para problematizar “contextos de sentidos” (Ibid., 1999, p. 49) e
favorecer a construção de diálogos entre contextos variados.
Neste capítulo, entrelaçam-se vários tempos: os mais longínquos
da emergência46 da proibição do incesto; tempos menos longí nquos, se
comparados aos anteriores, da emergência da infância; tempos recentes
da emergência do “abuso” sexual infantil.
Inicialmente, as reflexões são em torno do termo “abuso” sexual.
A sua utilização neste trabalho está relacionada à sua adoção, tanto por
estudiosos estrangeiros como brasileiros, para se referirem à prática
sexual genital entre um adulto e uma criança ou adolescente.47 Isso
facilita o enquadramento do tema em discussão em um campo de
pesquisa específico e, o que é mais importante, localiza a noção de
“abuso” sexual como uma construção que envolve vários personagens,
noção48 aqui compreendida como uma construção humana, produto de
convenções passíveis de serem localizadas historicamente e que se
constitui em regras que regulam e ordenam práticas.
A nomeação “abuso” sexual para se referir à prática sexual entre
adultos-crianças-adolescentes é bem complexa. São várias as dificuldades
advindas da utilização desse termo, já que, muitas, vezes ele é carregado
45
“Temporalidades” é um termo utilizado por Latour (2000, p. 67), para caracterizar o
retorno ou a presença continuada de acontecimentos que são situados em relação a sua
intensidade, freqüência e datas, característicos da modernidade. É importante enfatizar
que, neste trabalho, a “temporalidade” é instável e descontínua, porque o tempo não é
formado por momentos que passam, mas que se presentificam e que são negociados
dando certa visibilidade aos acontecimentos. Portanto, há uma inscrição dos
acontecimentos no tempo, porém, com a preocupação de não os constituir irrompendo
miraculosamente ou de não voltar ao passado para os recompor. Aqui valem as
considerações sobre memória e tempo realizadas no Capítulo II.
46
Sobre a utilização dessa palavra ver nota 11, à p. 40.
47
Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, a faixa de idade que caracteriza essa
população é: criança até 12 anos de idade e adolescente, entre 12 e 18 anos de idade.
(1990, p. 05).
48
Novamente aponto as dificuldades de usar algumas palavras, no caso, a palavra
“noção”. A discussão do seu emprego encontra-se na p. 56, nota 18.
Abuso sexual 102
de uma conotação maniqueísta, colocando o adulto que mantém relações
sexuais com criança ou com adolescente como alguém que merece o
completo desprezo da sociedade. As crianças ou adolescentes, por outro
lado, são envoltos em uma redoma de ingenuidade que os coloca em
posição de vítimas e, por isso, merecedores de cuidados motivados pelo
sentimento, dentre outros, de piedade.
De imediato, deixo claro que rechaço qualquer prática sexual,
genital ou não, que envolva a transgressão violenta do desejo do outro,
ou seja, quando uma das partes envolvidas é induzida por
constrangimento. Isso configura prática violenta em qualquer situação de
convívio humano, em especial onde a sociedade ocidental depositou
relevância tal que permitiu ser um tema tratado com tanto cuidado a
ponto de ser considerado “tabu”. A explicitação de minha posição se faz
necessária porque “não há escolha arbitrária entre opções tidas como
equivalentes, mas a opção refletida a partir de nossos posicionamentos
políticos e éticos" (SPINK & FREZZA, 1999, p. 32-33).
A adoção do termo neste trabalho foi precedida de uma pesquisa
em dicionários,49 cujos “desmapeamentos” proporcionaram interessantes
gráficos de significados e sentidos, que permitiram alguns
posicionamentos que resumo a seguir. Antes ainda uma observação sobre
“desmapeamento”. Este conceito foi desenvolvido pelo psicanalista
Sérvulo Figueira (1985), que o utiliza para caracterizar a convivência, em
planos diferentes, de conjunto de valores “internalizados” pelo sujeito em
diversos momentos de seu processo de socialização. Aqui utilizo o termo
“desmapeamento” para caracterizar a convivência em uma cultura, em
diferentes níveis, de sentidos que circulam, tomam visibilidade e se
49
Foram realizadas pesquisas nos dicionários: Etimológico Nova Fronteira da Língua
Portuguesa; Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa; Lê Nouveau Petit Robert:
dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française; Webster’s New
International Dictionary of the English Language. Estão anexos os desmapeamentos
feitos nos dicionários brasileiros (Anexos V, VI, VII, VIII).
Abuso sexual 103
deslocam em intervalos situados historicamente. Assim, um mesmo
acontecimento toma sentidos diversos ao longo do tempo e em espaços
culturais diferentes.
4.1. Afinal, (do) que trato?
A literatura sobre a prática sexual entre membros de uma
mesma família, especialmente entre pai e filha, utiliza, para caracterizar
esta ação, dentre outras, as palavras “incesto” (incest/inceste) e “abuso”
sexual (sexual abuse/abus sexuel). Mais raramente, encontram-se
“estupro” (rape/strupe) e “assalto”/”ataque” (assault/attaque).
Isso me levou a procurar que relações essas palavras mantinham
e se elas apresentavam significados específicos, ainda que se referissem
ao mesmo acontecimento. Quando ainda estava elaborando o projeto de
tese, surgiu a dúvida sobre qual palavra utilizar no meu trabalho50.
Dúvida que não pode ser resumida a escolher a palavra mais
contemporânea ou científica, porque, já que se trata de um trabalho sobre
construção de sentidos, não se devem empregar palavras sem
contextualizar o(s) sentido(s) que se deseja(m) obter por meio delas.
Quando estava procurando definir sobre o que versaria a minha pesquisa
e como qualificaria ou conceituaria isso diante de tantas publicações a
respeito, verifiquei que o interesse geral permanecia sendo o de pesquisar
a relação sexual mantida por um adulto com uma criança ou adolescente
no seio da estrutura familiar.
Sob a inspiração da investigação construcionista, que "...
preocupa-se, sobretudo com a explicação dos processos por meio dos
50
Inicialmente a intenção era estudar os sentidos da prática sexual entre adultos,
crianças e adolescentes para os personagens envolvidos (familiares, vizinhos,
profissionais). Posteriormente, mudou-se o enfoque da pesquisa para a construção do
“abuso” como um tipo. Houve maior motivação para investigar a emergência da
classificação de tal prática sexual como “abusiva”.
Abuso sexual 104
quais as pessoas descrevem, explicam ou dão conta do mundo (incluindo
a si mesmos) em que vivem" (GERGEN, 1985, p. 266), decidi que deveria
me dedicar ao objetivo de analisar as condições de possibilidade para que
aquele tipo (espécie, classe) de relação sexual fosse definida como
"abuso".
Isso criou um problema interessante, pois desde o início me
obrigou a me colocar de frente à temática que pretendia investigar, já
proporcionando o necessário trabalho de reflexão sobre as construções
conceituais que permitiam a familiarização da prática sexual de um adulto
com uma criança ou adolescente como “abuso”: Que sentidos foram
atribuídos àquela relação sexual específica? Que situações ou contextos
permitiram a sua visibilidade como tal?
Naquele momento, quando da elaboração do projeto de
pesquisa, ponderei que um título descritivo simplesmente, sem maiores
reflexões, deixaram-me com um outro problema, que é a velha crença na
neutralidade do pesquisador e na elaboração de uma pesquisa muito
higienizada. Desse equívoco, procuro manter distância. Por outro lado,
essas reflexões também vieram me obrigar a pensar em que posturas
acredito e adoto como pesquisador, o que também me ajudou
sobremaneira na definição do problema de pesquisa e no aprofundamento
de referenciais.
Então, retornando, de que trato? É uma pergunta dúbia, pois
pode estar se referindo à busca de um trato, no sentido de um acordo,
pacto, contrato ou tratado (FERREIRA, 1986, p. 1706). Assim, poderia ser
a busca do acordo social feito em torno da palavra “abuso”, para uma
universalização de seu uso e sentidos empregados. De outra maneira, a
palavra "trato" pode estar se referindo a “um espaço de terreno, região”
(Ibid.), que no presente trabalho seria a busca de uma demarcação do
tema de pesquisa. São essas duas coisas ao mesmo tempo: defini o tema
Abuso sexual 105
de pesquisa em torno desse processo de transformação do “abuso” em
uma palavra, que indica um sentido majoritário, que foi socialmente
construído e que, como apontou Ian Hacking (1999), tornou-se um
“tipo”.51
Mas àquela altura, como um iniciante no construcionismo, já me
preocupavam as minhas escolhas em relação às palavras que seriam
empregadas para evidenciar o que pretendia pesquisar: “abuso” e/ou
“incesto”. Ao tratar da temática com uma destas palavras, deveria
destratar uma ou poderia “coabitar” com ambas?
Os textos acadêmicos não foram suficientes para me ajudar na
resolução do meu primeiro problema, uma vez que utilizam os termos
aparentemente sem nenhum critério. Assim, preferi partir da “superfície”
da língua, os dicionários,52 pois os textos acadêmicos têm uma
profundidade, digamos, abusiva. Como na aventura de Alice na “Casa do
Espelho” (CARROLL, 1980), que, segundo Deleuze, constituía-se na “...
sua ascensão à superfície, sua desmistificação da falsa profundidade, sua
descoberta de que tudo se passa na fronteira” (DELEUZE, 1998, p. 10),
mergulhei na caça de palavras, como quem caça um tesouro, com a
diferença que é no processo de caça que surge o mapa que em si já é
também um desmapeamento. Fui caçando e desmapeando palavras a
partir de duas palavras-chave: abuso e incesto. Mais tarde, ampliei para
duas outras, em função das construções que foram feitas: violência e
obsceno.
Desta forma, fui (des) mapear (palavra do séc. XX), buscando,
na fronteira de significados e sentidos, respostas para questões básicas:
Que palavras usar? Por que usá-las? Como usá-las?
51
A discussão sobre “tipo” foi realizada no capítulo introdutório (p. 23-27).
52
Também porque os dicionários são um poderoso instrumento de governamentalidade,
uma vez que “democratizam” o significado “correto”. Estabelecem também práticas.
Abuso sexual 106
Ainda uma observação sobre significado e sentido. Entendo que
o significado está relacionado à ordem, à organização de uma língua. O
sentido escapa à ordem, embaraça-se com o significado previamente
conhecido, mas o sentido está no campo da possibilidade, nunca é,
sempre está sendo, porque não se constitui em uma verdade, mas em um
emaranhado de vozes, em um jogo sem regras definidas previamente. O
significado é “prendido” (ligado, unido), por exemplo, através do
dicionário. O sentido é “a-prendido” (não-prendido), uma vez que quando
se chega nele, ele já está escapando, porque as vozes se ampliam ou se
reorganizam em torno dele. Assim, aprende-se uma palavra e a-prende-
se a usá-la. Sempre lembrando que o sentido se da em fronteiras, na
superfície de práticas.
Usei “aprender” propositadamente, como exemplo de sentido,
pois desliga essa palavra de seu significado, “adquirir conhecimento”.
Nesse caso, a letra “a” tem a função de restringir uma palavra a um único
acontecimento de maneira quase definitiva, pois enfatiza uma ligação
estreita entre ambos. No caso do “a” seguido de hífen em “a-prendido”,
procurei enfatizar a negação a uma afirmação, ou seja, conheço e logo
posso desconhecer. Como vimos no Capítulo II, não há um sentido único.
Localizando o tema nos dicionários, concluí que o incesto se
relaciona a um tema proibido, no sentido de ser contrário aos costumes e
leis — portanto um crime — mas também se relaciona intensamente à
moral, sendo então uma “mancha”, uma “mácula” concernente a um grau
de relacionamento sexual só permitido no casamento. Assim, o incesto se
associa a um casamento proibido, porque entre parentes, consangüíneos
e/ou agregados; porque entre um adulto e uma criança/adolescente. E
por isso, é mais “obsceno” (“repugnante”, “asqueroso”, “nojento”) que
violento.
Abuso sexual 107
Ao contrário, o “abuso” tem um amplo sentido que acaba por
incluir o incesto, porém, associa-se mais a uma “violação”, “maldade” ou
“transgressão” de caráter violento, seja pelo uso da força física, seja pelo
uso da força da “influência”, da “sedução”. Trata-se de um “ir além” (do
possível, do esperado, dos limites impostos pela Lei, pela natureza, ou
pelos costumes). Mesmo quando se refere ao uso da língua ou quando se
refere mais especificamente à sexualidade, o “abuso” é muito mais um
crime social (entendido como um desrespeito à convivência em
sociedade), do que i-moral.
Na medida em que o incesto passa a ser considerado um
problema social de violência contra a criança (na cultura ocidental
“civilizada”), é incluído como “abuso” e não se restringe somente a um
problema moral de ordem privada familiar. Passa a ser um problema de
ordem pública, de saúde pública, um problema político (relativo ou próprio
da Pólis) porque, como veremos, desrespeita a criança (um sujeito frágil e
com direitos).
Localizar o tema nos dicionários é bem mais simples que na
literatura corrente. Em geral, as publicações referentes ao assunto,
utilizam sem muito critério ambos os termos. Através de consulta à base
de dados PsycLIT (usando como palavra chave “incest” e “abuse”), é
possível verificar que, em geral, quando se trata de artigo em que se
busca uma reflexão teórico-clínica — especialmente ligada à teoria
psicanalítica do complexo de Édipo, medo da castração ou inveja do pênis
—, o termo preferido pelos teóricos é “incesto”. Já quando se trata de
artigo no qual se busca uma explicação sociológica ou reflexões jurídicas,
o termo preferido é “abuso” sexual. Porém, em revista especializada
como a Child Abuse and Neglect, o direcionamento é para o uso
preponderante da palavra “abuse”, independentemente da abordagem
(conceitual, clínica, sociológica, jurídica).
Abuso sexual 108
A classificação da prática sexual entre um adulto e uma criança,
como “abuso” e como “traumática”, nem sempre é assim considerada por
teóricos da clínica psicológica, especialmente os de linha psicanalítica.
Mesmo com as exceções que já surgem ao uso exclusivo do termo incesto
no campo psicanalítico,53 ainda há reflexões sobre a relação
incesto/trauma. Para Leclaire, o termo incesto significa “gozar
sexualmente com a mãe” (LECLAIRE, 1992, p. 120.), seja menino ou
menina. Para o autor, não é possível que uma criança de três a cinco
anos signifique o incesto da mesma maneira que um adulto, por isso, o
sentido é o da criança possuir a mãe de maneira a mais ampla, não se
limitando a uma relação genital. Assim, a relação incestuosa é uma forma
de posse da mãe.
O filósofo Eduardo Subirats vai ainda mais longe e afirma tratar-
se de uma transgressão que se torna lei “interiorizada” e ordem moral:
... Não é a transgressão real, cuja representação torna necessária a lei, a
codificação repressiva do corpo, mas, pelo contrário, é a transgressão ilusória,
de cuja culpabilização efetiva emana a organização repressiva do corpo como
ordem moral, como lei interiorizada. Édipo não existe. O crime ancestral dos
irmãos parricidas é um fantasma. E, no entanto, é a realidade, a verdade
constantemente promovida como a legitimação moral da ordem social
repressiva (...). Onde subsistir uma ordem social coercitiva, fundada na
sujeição e no domínio do desejo, haverá também um Édipo, crime original,
sempre disposto a alimentar o remorso, a culpa, a aceitação, como uma
ordem moral interna daquelas proibições culturais.
53
Um exemplo disso é o artigo publicado pela psicanalista Maria Flávia Ferreira
GOLDFEDER (1987), em revista psicanalítica de referência nacional, em que não usa o
termo incesto, mas “abuso” sexual. Também, o uso “casado” de “incesto” e “abuso”,
pela psicóloga e psicanalista Renata Udler CROMBERG (2001), no seu livro Cena
incestuosa: abuso e violência sexual, constituindo o termo “abuso” sexual incestuoso.
Abuso sexual 109
... Édipo se revela então (...), princípio de uma codificação repressiva do
corpo. Édipo é o crime originário que engendra a culpa, que por sua vez
suscita a obediência, que por sua vez instaura a lei — lei que sujeita a ordem
polimorfa do desejo e do inconsciente a um princípio de organização
hierárquica, aos requisitos da “formação cultural” (SUBIRATS, 1985, p. 43).
Já o incesto criminoso ou médico-legal se inscreve como um
interdito infracional de um adulto e envolve especificamente a dimensão
genital. A psicanálise coloca como temática o que poderia ser chamado
de “interdito infantil”, que tem a função de estruturar o futuro adulto, por
meio da chamada tríade edípica (pai-mãe-filho). Possui a função de impor
limites ao gozo das pessoas, para mostrar que na cultura não é possível
realizar tudo que se deseja, sob pena de tornar a convivência impossível.
O sentido é completamente diverso do médico-legal.
Para complicar ainda mais, ou para mostrar o movimento da
construção de sentidos, o incesto pode ser definido como “abuso”:
O que é incesto?
Incesto é abuso sexual dentro da família extensa ou imediata.
(VANCOUVER POLICE CHARITABLE FOUNDATION, 1994, p. 39).
Percebe-se que o termo incesto tem já o emprego associado ao
“abuso”. Isto aproxima incesto de uma caracterização médico-legal,
importante para esta pesquisa, porque, ao que tudo indica, foi a partir
dessa conotação que foi possível a emergência do “abuso” nos moldes
atuais.
É importante ressaltar que, neste trabalho, o termo “abuso”
adquire uma forma classificatória para operacionalizar a pesquisa. Não se
trata de estudar nem os aspectos clínicos nem jurídicos ou mesmo
sociológicos para efeito de uma intervenção específica, mas de pesquisar
a emergência do “abuso” como um tipo. Aspectos clínicos, jurídicos ou
mesmo sociológicos são utilizados na medida em que permitam buscar a
construção do “abuso” como um acontecimento que gera a mobilização da
Abuso sexual 110
sociedade, a ponto de criar estruturas de “governamentalidade”
(FOUCAULT, 1985b).54
O termo “incesto” localiza de imediato a temática em
discussão, ou seja, relações sexuais familiares entre pais e filhos, e
também indica a sua inserção na ordem da interdição moral e legal na
nossa sociedade.
Já o termo “abuso” sexual, geralmente, está relacionado à
prática sexual entre adulto e criança ou adolescente, mas não caracteriza
o grau de parentesco das pessoas envolvidas. Sua adoção na literatura
mais recente (últimos 40 anos) indica uma nova tipificação da prática
sexual entre um adulto e uma criança ou adolescente que vai além do uso
de uma nova palavra. Associa uma prática sexual como traumática,
sendo necessário estudá-la do ponto de vista psicológico e como imoral e
ilegal, localizando-a no campo jurídico, considerando-a como uma
transgressão criminosa. De todo modo, o que se observa nas discussões
sobre o “abuso” sexual é uma tendência a que todo o mundo
(literalmente) deva envidar esforços para que essa prática seja exposta
(propagada) e punida (exorcizada).
Tanto “abuso” quanto “incesto” estão prenhes de sentidos e
desejos. Mas, como vimos acima, o termo “incesto” evoca geralmente a
especificidade do trabalho psicológico-clínico, enquanto o termo “abuso”
sexual, pressupõe, a priori, além de um olhar clínico (diagnosticador),
uma postura punitiva.
Diante dos objetivos da pesquisa em verificar as condições de
possibilidade da relação sexual entre adulto, criança ou adolescente na
família ser caracterizada como “abuso”, constituindo um tipo, preferi
colocar o termo entre aspas, para dar ênfase que não se pode, tomando-
se como referência a postura construcionista, simplesmente, sair
54
Esta noção foi discutida no capítulo introdutório (p. 45).
Abuso sexual 111
utilizando termos só para acompanhar a nomenclatura dos trabalhos
sobre o assunto.
Muitas vezes adoto termos que são aparentemente mais
“operacionais”55 (como: prática sexual entre pai e filha; relação sexual
intrafamiliar), ciente da reflexão que fiz na página 102, quando afirmei
que evitei adotar, de imediato, tais termos. Foi essa recusa que me levou
à pesquisa nos dicionários, de modo a ter maior compreensão do uso dos
termos “abuso” e “incesto”. Ao utilizar, a partir de então, “termos
operacionais”, que se referem mais claramente à prática sexual
caracterizada como “abuso”, tenho o intuito de estar mais aberto às
construções de sentidos em torno dessa prática, que são frutos de
negociações, embates, de “seus” personagens, aí inclusos adultos,
crianças, adolescentes, organizações, polícias, mídia, profissionais liberais,
meio acadêmico, pesquisadores. Todos estão envolvidos diretamente na
construção dessa prática como sendo de um determinado tipo.
Cabe notar, ainda, que procurei não usar o termo “ato”, exceto
quando me reporto à literatura jurídica. Preferencialmente, utilizo a
palavra “prática”, pois já nos leva ao âmbito da ação cotidiana e assim
nos remete a não separar sentido de ação, evitando alguma armadilha
metafísica ou idealista e favorecendo a análise do processo de construção
de sentidos como práticas de posicionamento no mundo. Assim, busco:
1) evitar que o discurso seja remetido a uma “interioridade silenciosa da
consciência de si” (FOUCAULT, 1996, p. 49); 2) comp reender, por
conseqüência, o discurso sempre como prática (práticas discursivas) e
dessa maneira, restituir o seu caráter de acontecimento (Ibid., p. 51).
55
Apesar de saber que todo e qualquer termo opera sobre um contexto, evitei adotar a
palavra “descritivo”. Estaria contradizendo todo o conhecimento construído a partir da
concepção construcionista se acreditasse que há termos que descrevem a realidade. Mas
não encontrei termo mais adequado para substituí-lo. Por hora, “operacional”.
Abuso sexual 112
4.2. Permissões e proibições do incesto:
Faço agora apontamentos gerais sobre a prática sexual mantida
por adulto com criança ou adolescente em uma mesma família como
estratégia para traçar um quadro da emergência do “abuso” como um
tipo. A intenção é estabelecer uma “historicidade”, indicando
temporalidades desta prática sexual, ou seja, vendo seus cont ornos, que
formatos adquire, enfim, o que mudou nesse processo. Pontuando a
singularidade da sexualidade em diferentes culturas (permissões e
proibições), busco abrir espaço para as discussões subseqüentes
desenvolvidas nos próximos capítulos (com discussões mais direcionadas
ao “abuso”). São aspectos diversos da prática sexual entre adultos e
crianças de uma mesma família que, durante muito tempo, foi
reconhecida e nomeada como incesto.
Há inúmeros estudos que se localizam no campo da sexualidade,
alguns já disponíveis no mercado editorial brasileiro. Vários autores se
debruçam no tempo em busca da construção de práticas sexuais e nos
brindam com “casos” que seriam moralmente impensáveis nos nossos
dias. Dentre eles: Cuatrecasas, 1997; Laqueur, 2001; Malinowski 1983,
2000; Richards, 1993; Ariès & Bèjin, 1986; Ussel, 1980; Lévi -Strauss,
1982; Rousseau & Porter, 1999; Foucault, 1980, 1984, 1985; entre
outros.
A leitura desses estudos evidencia o que Alfonso Cuatrecasas
indica quando aborda a concepção romana da sexualidade: “... os
critérios morais pelos quais a sociedade tem se pautado não têm sido
imutáveis e absolutos, senão que evoluíram, modificando-se no decorrer
do tempo” (CUATRECASAS, 1997, p. 67). Essas modificações vão desde
a “tolerância” e “permissividade sexual“, quase absolutas no Império
Romano (Ibid., p. 68), e chegam às proibições especialmente prescritas
pela Igreja Católica, na Idade Média. Nessa época, por exemplo, o
Abuso sexual 113
penitencial do século XI de Burchard de Worms já classificava os pecados
sexuais pela sua gravidade:
Burchard ponderava que qualquer ato que conduzisse à excitação sexual ou
ao prazer sexual era pecaminoso e os enumerava, indicando (...) aquilo que
era capaz de excitar as pessoas. Os atos provocantes que destacou incluíam
contar ou rir de piadas sujas, cantar ou ouvir canções sugestivas, participar
ou assistir a diversões lascivas, tomar banho em companhia de várias
pessoas e tocar, acariciar ou beijar seios e órgãos genitais.
... Em ordem decrescente de gravidade, havia o incesto, a sodomia e a
bestialidade, o adultério, a fornicação e a masturbação (RICHARDS, 1993, p.
41).
Sob a perspectiva da Igreja Católica, a prática sexual é uma
atividade cujos propósitos são a procriação e, quando é desvirtuada desse
objetivo torna-se pecado, especialmente porque se põe contra a ordem
natural das coisas. As “devassidões contrárias à natureza“, como pregava
Sto. Agostinho, “... sempre se deve detestar e punir, como o foram os
pecados de Sodoma.” E continua ainda mais enfático: “Efetivamente,
viola-se a própria união que deve existir entre Deus e nós, quando a
natureza, de quem Deus é autor, se mancha pelas paixões depravadas”
(Sto. AGOSTINHO, 1980, Cap. III., item 8, p. 48-49). O maior exemplo
dessa concepção é a oposição da Igreja Católica ao uso de preservativos e
qualquer método contraceptivo que não os “naturais”.
Mas a proibição do incesto não era apenas uma imposição da
Igreja Católica na Idade Média. Como aponta a professora de história,
Mayke de Jong, a interdição do incesto, especialmente na alta Idade
Média, era secular e eclesiástica, e “... o termo [incesto] tinha
abrangência muito maior” (JONG, 1995, p. 51). A proibição incidia sobre
as “relações espirituais” (derivadas do batismo ou crisma), em um
momento em que a cerimônia religiosa não era imprescindível no
casamento cristão (Ibid., p. 52) e o que ainda é mais instigante, a
legislação laica proibindo o incesto teve grande amplitude “... não no
Abuso sexual 114
Império Romano cristianizado, mas (...) no interior dos reinos
germânicos” (Ibid., p. 53). Essa “conjunção entre valores eclesiásticos e
seculares” era sustentada pelo temor de rupturas, “tanto da ordem social
como da ordem religiosa” (Ibid., p. 53).
Até metade do século IX, o casamento entre parentes era
proibido pela Igreja até a sétima geração ou “até onde a memória
pudesse remontar” (Ibid., p. 63). Em 1215, a extensão da proibição foi
reduzida para a quarta geração.
Tanta rigidez eclesial não impedia que a estabilidade do
casamento cristão fosse abalada. Aponto duas situações curiosas
narradas por Jong, indicando que havia a possibilidade de pessoas se
beneficiarem da proibição do casamento quando havia “parentescos
espirituais” (considerado, portanto, incesto). A primeira: mulheres que
desejavam se ver livres dos seus maridos começaram a ser madrinhas de
crisma de seus próprios filhos. Outro caso curioso relacionado ao
“parentesco espiritual”: a concubina do rei francês Chilperic (727) se
tornou sua esposa, convencendo a rainha Audovera a se tornar madrinha
da própria filha recém-nascida (Cf., JONG, 1995, p. 56).
Para Jong, a legislação eclesial e leiga sobre o incesto desde a
Alta Idade Média “... parece ter sido vinculada a uma noção de ‘ordem’
destinada a controlar as funções corporais humanas, em geral, e as
atividades sexuais, em particular”, (Ibid., p. 74; o grifo é meu). Havia a
concepção de que o incesto “violava limites”56 (Ibid., p. 73). Um dos
pressupostos para isso “era” a relação muita bem articulada, em reflexões
religiosas, das práticas sexuais em geral, que a “esfera sexual e a sagrada
não podiam se unir” (Ibid., p. 73):
56
Neste sentido, incesto se aproxima do “abuso”, em relação à pesquisa realizada nos
dicionários, já descrita acima (p. 103-107).
Abuso sexual 115
A idéia básica era a de que a sexualidade humana é, por definição, perigosa e
perturbadora, em comparação com a sua contrapartida paradisíaca. (...) Em
outras palavras, a sexualidade humana só pode ser “ordenada” se o aspecto
perigoso do desejo é refreado o máximo possível (Ibid., p. 74).
Quanto mais forte o ímpeto em “domar” a sexualidade, mais amplo o círculo
de relações ilícitas, chegando-se ao ponto em que este ultrapassa os limites
do parentesco — ou alcança até a sétima geração (Ibid., p. 76).
Algo importante que talvez seja a matriz do “denuncionismo”
atual em relação ao “abuso”, é que se acreditava que a impureza do
incesto praticada por uma pessoa contaminaria toda a comunidade: “...
era necessário destruir a raiz e o tronco do incesto, uma vez que a ira
divina se abateria não apenas sobre os próprios culpados, mas também
sobre a comunidade que tolerasse o mal em seu meio” (JONG., 1995, p.
77). Por isso era necessário isolar os culpados, como por exemplo, no
regulamento de Carlos Magno: “... o imperador exigia, (...), que aqueles
que teimosamente insistissem em uniões incestuosas deveriam aguardar
julgamento em isolamento, ‘de sorte que não inflijam impurezas às
demais pessoas’” (Ibid., p. 76) e, para manter a ordem, a penitência era
pública tal a gravidade do ato. Esse era um dos motivos que dificultava a
manutenção do incesto em segredo, acrescido de pelo menos mais um:
em função da extensão dos relacionamentos proibidos e por força de
regulamentos, os casamentos só eram permitidos depois que os
representantes da Igreja e a comunidade fizessem uma investigação para
determinar se havia algum grau de parentesco (Cf., Ibid., p. 77).57 De
tudo isso,há o importante registro de que a categorização de um ato como
incestuoso, sua punição/penitência tinha um caráter coletivo (Ibid., p.
78) e fazia parte de um sistema moral dominado pela impureza.
57
Quem sabe daí não tenha vindo a famosa pergunta, em cerimônias religiosas, sobre se
há alguém entre os presentes que se oponha ao casamento.
Abuso sexual 116
Os estudos de Jong apontam reflexões importantes quanto às
origens da proibição do ato sexual entre parentes, indicado por Malinowski
como um dos temas mais debatidos na Antropologia (MALINOWSKI, 2000,
p. 201). Talvez esse debate em torno do incesto não seja tão evidente
hoje em dia pela própria diversificação temática da Antropologia, que tem
em Malinowski e Lévi-Strauss expoentes no que se refere, especialmente,
às pesquisas sobre a sexualidade humana.
Para alguns autores, o marco da entrada do ser humano na
ordem cultural é realizado com a interdição das uniões “incestuosas”.
Tanto Malinowski quanto Lévi-Strauss afirmam que essa proibição é
peculiar a todas as sociedades.58 Lévi-Strauss assegura que o ser humano
só pode ser caracterizado como tal após esta proibição: “... com ela [a
proibição do incesto] a Natureza deixa de existir no homem como um
reino soberano” (LÉVI-STRAUSS, 1982, p. 63; grifo meu). Malinowski
advoga algo semelhante: o incesto foi introduzido na cultura “... pela
necessidade de estabelecer atitudes organizadas e permanentes”
(MALINOWSKI, 2000, p. 207). Ambos partem do princípio que a lei
(cultura) do incesto se impôs aos instintos sexuais (natureza).
Malinowski vai ainda mais longe ao prever que a cultura não
subsistiria à liberação do incesto: “O incesto, enquanto modo normal de
comportamento, não pode existir na humanidade, porque é incompatível
com a vida da família e desorganizaria os fundamentos desta” (Ibid.).
Parece um paradoxo que uma prática “natural” passe a ser
interditada por uma regra imposta culturalmente e que prediz punições
geralmente intensas (prisões, linchamentos etc.) para quem é descoberto
burlando-a. Presumidamente, quem burla a lei está indo ao encontro da
natureza, ou seja, pessoas preparadas biologicamente, já aptas para
58
Hoje sabemos que não é bem assim. Estudos antropológicos indicam, por exemplo,
que entre os Kubeo da América do Sul o menino marcava o início de sua vida sexual
mantendo relações sexuais com sua mãe (GREGERSEN, 1983, p.131).
Abuso sexual 117
reproduzir, dariam vazão aos seus instintos sexuais (independentemente
do grau de parentesco). Até mesmo se pensássemos nos termos
propostos por Sto. Agostinho, o natural seria o incesto. Mas mesmo essa
reflexão é cultural e pressupõe a concepção de que a natureza não pode
ou não deve ser transformada. Alguém voltaria a habitar as cavernas,
evitando morar em prédios ou casas, para não violentar a “natureza
humana”? E nessa atitude não se poderia encontrar algum aspecto da
ordem cultural, mesmo durante a experiência?59 O ser humano perdeu o
seu “estado natural”, sendo impossível se separar do seu “estado
cultural”: “Não há no domínio humano ato natural que não seja cultural”
(SIMONIS, 1968, p. 35-36).
As reflexões de Freud sobre o incesto também vão em direção a
uma natureza incestuosa: o primeiro objeto que o bebê escolhe para amar
é a mãe, portanto, uma escolha incestuosa.60 Essa atitude torna-se um
tabu que, segundo Freud, é um termo Polinésio com dois sentidos:
“sagrado” e “consagrado”, por um lado, e “perigoso”, “proibido”, por outro
(FREUD, 1974a, p. 38). Em referência ao incesto, a prevalência de
sentido recai sobre o proibido, por isso é tabu. O significado etimológico
do termo tabu é: “... aquilo que, por convenção ético-religiosa, é proibido
ou invulnerável” (CUNHA, 1998, p. 748). O termo em Português deriva
do inglês taboo (que por sua vez deriva do Polinésio).
Na psicanálise, as reflexões sobre o tabu do incesto estão muito
relacionadas às discussões sobre Complexo de Édipo. Malinowski, ao
comentar essa relação, afirma:
Descobrimos que o complexo é um inevitável subproduto da cultura, que
surge quando a família se desenvolve, passando de um grupo ligado por
59
A experiência Hippie dos anos 60 e 70 era fundamentada em um naturalismo e sua
defesa já poderia ser considerada como uma construção retórica, baseada em uma
determinada maneira de estruturar a vida em comunidades. Nada natural...
60
Freud afirma que, se houvesse barreiras naturais ao incesto, não seriam necessárias
“severas proibições”. Como não existem tais barreiras, a primeira escolha objetal do ser
humano “é regularmente incestuosa” (FREUD, 1974b, p. 391).
Abuso sexual 118
instintos a um grupo que é unido por laços culturais. Psicologicamente
falando, esta modificação significa que uma coesão devido a uma cadeia de
impulsos ligados transforma-se em um sistema de sentimentos organizados.
(...) Verificamos o mecanismo atuante e a influência do ambiente social, que
age por meio da estrutura cultural e pelos contatos pessoais diretos.
Assim, a constituição dos sentimentos, os conflitos e desajustes que estes
implicam, dependem largamente do mecanismo sociológico que atua em
determinada sociedade. Os principais aspectos deste mecanismo são a
regulação da sexualidade infantil, os tabus do incesto, a exogamia, a
distribuição da autoridade e o tipo de organização da família (MALINOWSKI,
2000, p. 224-225).
O que poderia ter ocorrido para que o incesto fosse instituído na
maioria das sociedades humanas? Simonis (1968, p. 38) indica várias
possibilidades de explicação. Uma primeira teoria sustenta que a
proibição teria a função de “impedir os resultados nefastos das uniões
consangüíneas” (SIMONIS, 1968, p. 38). Para ele, essa teoria é pouco
provável, uma vez que pressupõe conhecimentos científicos tais que
também deveriam ter indicado quais as relações mais propícias à
reprodução e melhoramento da raça humana. Outra teoria indica que o
contato familiar cotidiano teria “reduzido a excitabilidade erótica”, criando
uma espécie de “horror psicológico” às relações sexuais entre parentes
próximos (Ibid., p. 39-40). Esta teoria também é difícil de ser adotada,
porque, conforme Simonis, paira a dúvida se seria causa ou conseqüência
do tabu do incesto. Ele lembra que a psicanálise está entre as teorias que
se opõem a aceitar este “horror”. É possível verificar isso nos escritos de
Freud:
... as descobertas da psicanálise tornam a hipótese de uma aversão inata à
relação sexual incestuosa totalmente insustentável. Demonstram, pelo
contrário, que as mais precoces excitações sexuais dos seres humanos muito
novos são invariavelmente de caráter incestuoso e que tais impulsos, quando
reprimidos, desempenham um papel que pode ser seguramente considerado —
Abuso sexual 119
sem que isso implique uma superestima — como forças motivadoras de
neuroses, na vida posterior.
Dessa maneira, o ponto de vista que explica o horror ao incesto como sendo
um instinto inato deve ser abandonado (FREUD, 1974a , p. 150-151).
Também poderíamos concluir que se houvesse uma repugnância
natural, não haveria necessidade de proibi-lo.
Por fim, o incesto é visto como “... uma regra de origem
puramente social...” (SIMONIS, 1968, p. 40). Essa corrente liderada por
Lévi-Strauss indica que a proibição do incesto mistura fatores culturais e
naturais, constituindo-se na passagem da natureza à cultura. Como nos
declara Simonis: “A proibição do incesto, (...), é verdadeiramente a
encruzilhada, a emergência mesmo de uma nova ordem” (Ibid., p. 41).
Essa nova ordem cultural se organiza em torno de uma aliança
entre o homem e a mulher que difere da aliança proposta pela natureza.
Essa reflexão é liderada por Lévi-Strauss. A natureza impõe a reprodução
da espécie humana à aliança entre um macho e uma fêmea. Mas não
indica nenhuma regra que organize essa união de uma determinada
maneira. A regra é de ordem cultural, tanto que apresenta variações
conforme o grupo social.
Até aí não se “explicou” o incesto, mas podemos perceber a
importância de sua existência para instituir uma ordem. Segundo Lévi-
Strauss, essa regra foi criada para que as mulheres pudessem ser
repartidas (LÉVI-STRAUSS, 1967, p. 39). O incesto funda uma troca na
medida em que se proíbe determinada mulher de se unir com
determinado homem e, ao mesmo tempo, ambos se tornam disponíveis
para outros (Ibid., p. 64-65). Foi criado um sistema de parentesco que
tem uma função de troca. Está implícito neste sistema uma possibilidade
de dar para também receber: “... uma regra que proíbe desposar mãe,
irmã ou filha, é uma regra que obriga a dar mãe, irmã ou filha a outrem”
(Ibid., p. 56). Em outras palavras, Lévi-Strauss defende que o incesto
Abuso sexual 120
garante uma troca e surge quando se estrutura uma relação sócio-
cultural. Ele destitui a proibição do incesto de uma caracterização
negativa, quando afirma que sem ela o ser humano não poderia entrar em
uma determinada ordem cultural interagindo com diversos grupos.
As reflexões de Bataille (1982) sobre as conclusões de Lévi-
Strauss são bastante interessantes. Bataille retoma um pouco a relação
dos seres humanos com o trabalho, para se aproximar de uma
comparação com a sexualidade. O mundo humano passou a se definir,
desde tempos imemoriais, como mundo do trabalho. São conhecidas as
argumentações de Marx em torno do trabalho como a via de possibilidade
do ser humano escapar da “animalidade” e se inscrever no campo da
“consciência”:
Antes de tudo, o trabalho é um processo entre um homem e a Natureza, um
processo em que um homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla
seu metabolismo com a Natureza. Ele mesmo se defronta com a matéria
natural como uma força natural. Ele põe em movimento as forças naturais
pertencentes à sua corporalidade, braços e pernas, cabeça e mão, a fim de
apropriar-se da matéria natural numa forma útil para sua própria vida. Ao
atuar, por meio desse movimento, sobre a Natureza externa a ele e ao
modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. (...)
pressupomos o trabalho numa forma em que pertence exclusivamente ao
homem. (...) o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha
é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera
(MARX, 1988, p. 142-143).
Retomando Bataille, o mundo humano é considerado como
mundo do trabalho, portanto, um mundo restrito às atividades produtivas
economicamente. O trabalho nos aproxima da “consciência” na medida
em que, como podemos observar na citação acima, transformamos a
natureza naquilo que idealizamos. Já a sexualidade nos afasta da
consciência e embota o nosso discernimento. De alguma forma,
renunciamos à atividade sexual porque “enquanto impulso imediato, pode
Abuso sexual 121
perturbar o trabalho: uma coletividade laboriosa não pode, no momento
do trabalho, estar à mercê dela [sexualidade]” (BATAILLE, 1982, p. 169).
Dito de outra maneira: quanto mais o ser humano se ocupa com o
trabalho, menos possibilidade tem de se dedicar à sexualidade e vice-
versa. Definimo-nos pelo trabalho, logo, pela consciência. Devemos,
então, moderar ou até ignorar a sexualidade. Conseqüentemente, o ser
humano conseguiu obter “consciência do mundo”, mas, segundo Bataille,
desconheceu uma parte de si próprio, menos ordenada (sentidos e
sensações que não precisam estar organizados segundo o mundo do
trabalho).61
Ainda assim, a ordenação consegue sucesso na repressão às
manifestações que se opõem a ela e, por isso, são necessárias a vigilância
e a punição (diria Foucault). O mais interessante é que a
ordenação/proibição termina por sublinhar “o valor sedutor do seu objeto”
(BATAILLE, 1982, p. 172).
As reflexões de Bataille são semelhantes com a postura de Lévi-
Strauss no que se refere à proibição do incesto como essencial à
constituição do ser humano que conhecemos nos dias de hoje. Bataille se
refere a essa renúncia sexual de um parente próximo, como possibilidade
de se contrapor à voracidade animal e, portanto, como uma tentativa de
ordenação que evitaria a violência. 62
Essa perspectiva positiva é também compartilhada por outras
vertentes teóricas. A psicanálise, como vimos acima, pressupõe que a
proibição do incesto estrutura o indivíduo. Trata-se da primeira relação
objetal da criança e é um marco fundamental em sua vida. Por outro
61
Não é que fora do trabalho haja uma ordenação natural da sexualidade, apenas que no
mundo do trabalho há uma organização que atinge também a sexualidade. As reflexões
de Bataille vão na direção de que os corpos poderiam se agenciar de modo mais fluido,
sem tantas ordenações.
62
Mais uma vez se vê que a temática da violência está presente na normalização da
sexualidade humana. Observe-se que Bataille é um homem do séc. XX, onde essa
temática já está presente.
Abuso sexual 122
lado, há também, conseqüências que podem não ser tão positivas:
“Chegamos a ponto de considerar a relação de uma criança com os pais,
dominada como é por desejos incestuosos, como o complexo nuclear das
neuroses” (FREUD, 1974a, p. 37).
Esses paradoxos de positividade e negatividade, de
permissividade e proibição da noção de incesto, vão se retirando de cena
e dando lugar a uma mudança não só na nomenclatura utilizada para
caracterizar a relação sexual de um adulto com criança e/ou adolescente,
mas uma mudança na postura cada vez mais generalizada nas sociedades
contemporâneas ocidentais de interditar as relações sexuais
intrafamiliares. Vários artigos acadêmicos, como veremos nos capítulos
segui ntes, consolidam a informação de que se trata de uma relação
traumática sob todos os aspectos (físicos e emocionais) e que precisa ser
denunciada.
A denúncia esteve presente desde os momentos iniciais da
construção do “abuso” como um tipo. Sem o devido cuidado, algumas
vezes, tornou-se “denuncionismo” (a denúncia a qualquer momento e
destituída de qualquer análise) desembocou em maniqueísmos que geraram
injustiças, como foi o caso da denúncia oferecida por pais contra os donos
da Escola Base na cidade de São Paulo,63 que, após terem sido expostos
como pornográficos e abusadores de crianças por toda a imprensa
nacional, a polícia concluiu que a ocorrência foi fruto da “imaginação fértil”
63
No dia 29 de março de 1994, mães de duas crianças denunciaram que os donos da
Escola de Educação Infantil Base (localizada na zona sul da cidade de São Paulo)
cometeram “abuso” sexual contra seus filhos. A partir da denúncia, foi aberto inquérito,
sendo que os exames realizados pelo Instituto Médico Legal foram inconclusivos. Depois
desta primeira denúncia, outros pais que mantinham seus filhos nesta escola
comparecera m à Delegacia para prestar queixa sob as mesmas alegações. A escola foi
depredada por moradores vizinhos e pais de alunos. Os donos da escola sempre
sustentaram que as acusações eram fantasias das crianças. Além dos donos da escola,
um casal de pais também foi preso sob a acusação de tomarem parte do “abuso”. Quase
três meses após a denúncia, os laudos do IM L e de uma psicóloga negaram a
possibilidade de ter havido “abuso sexual”. Mas a escola não teve mais condições de se
manter em funcionamento.
Abuso sexual 123
de algumas crianças da escola, estimuladas por seus pais.
Mas esse “denuncionismo” agrada boa parte da imprensa, que
constrói uma notícia de “abuso” em moldes a torná-la ainda mais
vendável e faz circular os sentidos mais pejorativos sobre este
acontecimento. Um exemplo disso pode ser encontrado em matéria
publicada no jornal de maior circulação da região Norte, “O Liberal” (Ver:
DE PAULA, 2001). Com lugar privilegiado, pois se encontrava na
contracapa do caderno de esportes, tinha como título: "Ameaças dentro
do lar” e como subtítulo: "Terror: em Belém, pais e parentes são acusados
de abusos sexuais contra crianças e adolescentes”. O conteúdo da
matéria fala de uma rotina de “abuso” em “dezenas de famílias” e cita
como exemplo um pai que teve relações sexuais com sua filha e a
engravidou, nomeando-o de estuprador.
No entanto, esta pesquisa não visa adentrar nesses debates
especificamente. O que está em pauta e será discutido nos próximos
capítulos é o cenário da construção do “abuso” como um tipo, que foi
sendo constituído internacional e nacionalmente, apoiado em práticas
Discursivas, estruturadas e fomentadas em uma rede composta pela
mídia, pesquisadores, profissionais liberais, organizações policiais,
jurídicas e de proteção à criança e ao adolescente.
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V. Do estranhamento
à familiaridade:
o “abuso” se solidifica como um tipo
Crianças abusadas sofrem uma variedade vasta de problemas
físicos, emocionais e de desenvolvimento (...). Além das
conseqüências para a saúde, a criança abusada tem dificuldades
na escola, problemas com o abuso de drogas e problemas com a
lei. Essas são questões de saúde pública de importância vital
para a OMS e representa uma mudança para o próximo milênio.
(Dr. Bjorn Thylefors, Diretor da OMS, 1999)
O abuso se solidifica como um tipo 125
O “abuso” aparece intrinsecamente ligado a um amplo quadro de
transformações políticas importantes, que produzem modos de existência
para essa criatura que conhecemos como “ser humano”. Dessa forma, as
nossas práticas são associadas à solidificação de uma subjetividade
individualizada, ou seja, à construção de um “eu” autônomo, um “sujeito”.
A nomeação, categorização e construção de saberes, ao mesmo tempo,
formalizam tudo isso em diversas práticas, permitindo agenciamentos do
que seja ser um humano: um ser que constitui a si mesmo como um
sujeito.64 Constituimo-nos a nós mesmos na procura de modos de
existência que nos aproximem o mais possível do ser humano que
inventamos. O resultado é esse ser individualizado, dotado de
subjetividade, de memória e consciência.65
Esse caminho estando aberto é possível falar em direitos
individuais e universais do “ser humano”, que se constitui em etapas de
desenvolvimento que vão da infância à vida adulta. Tal infância, como já
vimos no capítulo introdutório, ficou historicamente associada à
fragilidade, docilidade e pureza, irracionalidade, pré-logicismo, em
oposição à vida adulta que se relaciona a possibilidades de escolhas na
crença de que o ser humano, nesta fase, já está com as suas capacidades
“físicas” e “mentais” desenvolvidas.
64
A construção de um “eu” através de tecnologias fomentadas pelas áreas “psi”
intrinsecamente ligada a transformações no poder político em democracias liberais
contemporâneas é a tese central do trabalho de Nikolas Rose (1996). Suas reflexões
influenciaram- me no estudo da emergência do “abuso”.
65
Quiçá possamos um dia “... descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e
daquilo que nós somos — não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do
acidente” (FOUCAULT, 1984, p. 21).
O abuso se solidifica como um tipo 126
Retomo agora as discussões já realizadas sobre a infância
(Capítulo I, p. 33-37) para avançarmos na construção do “abuso” como
um tipo no cenário internacional.
Foi a partir do século XVII que ocorreram mudanças
significativas em relação ao trato de crianças, criando-se regras de
conduta que as separavam da vida dos adultos. Tornaram-se seres que
deveriam ser tratados por especialistas que estudavam suas
peculiaridades. As observações começavam “em casa”: Pestalozzi
publicou em 1774, anotações que extraiu de observações realizadas com
seu filho de três anos; Darwin também publicou, em 1877, um diário com
as observações que realizou com seu filho. De uma forma ou de outra,
especialmente no final do século XIX e nas três primeiras décadas do
século XX, as crianças tornaram-se sujeitos para estudos, influenciados
pela obra de Darwin sobre a origem das espécies. Teóricos da área “psi”
se detiveram na descrição de “etapas” do desenvolvimento humano (Hall,
Freud, Werner, Piaget, por exemplo), enfatizando o cuidado que se
deveria ter nos primeiros estágios da infância.
Constituída como um sujeito com características peculiares a um
estágio do desenvolvimento humano, a criança pôde ser objeto de
investigação científica e de proteção por ser frágil. A American
Psychological Association (APA), inspirada no seu código de ética para
pesquisas com humanos (Ethical Standards for Research with Human
Subjects) publicou, em 1972, um código específico para pesquisas com
crianças enfatizando no primeiro artigo seus direitos:
As crianças, como sujeitos de pesquisa, apresentam ao investigador problemas éticos
diferentes dos trazidos por sujeitos adultos. As crianças não são somente consideradas
mais vulneráveis à tensão como também, por seu menor conhecimento e experiência,
são menos capazes de avaliar o significado de sua participação na pesquisa. Deve ser
obtido o consentimento dos pais para o estudo do seu filho, além do da criança. Estas
são algumas das principais diferenças entre a pesquisa com crianças e a com adultos.
O abuso se solidifica como um tipo 127
1. Não importa quão jovem seja a criança, ela tem direitos que transcendem
os do investigador. Este deveria medir cada operação proposta em termos
dos direitos da criança e, antes de prosseguir, obter a aprovação de um
comitê de profissionais. Em qualquer situação com crianças como sujeitos de
estudo, dever-se-iam estabelecer comitês de avaliação formados por
profissionais (Apud. MUSSEN et al., 1977, p. 19-20; os grifo são meus).
Portanto, temos um “ser” com particularidades e, por isso,
objeto de investigação e de direitos específicos. Um ser que merece
cuidados especiais, organizações e profissionais que zelem por sua vida, o
que favorece as condições de possibilidade para que relações sexuais
entre adultos e crianças ou adolescentes possam ser classificadas como
“abuso”, com registros que lhe dão visibilidade. Isso tudo a partir de um
determinado momento/tempo, em determinado lugar/espaço.
5.1. Da crueldade ao “abuso”
Os movimentos reivindicatórios relacionados aos maus -tratos na
família vieram depois de outros movimentos, como a abolição da
escravidão, legislações sobre o trabalho infantil, a implantação do sufrágio
universal, vivissecção e crueldade contra os animais (HACKING, 1999, p.
134).
No início do século XIX, na Europa — especialmente na
Inglaterra e França —, na legislação que se referia aos serviços sociais e
de saúde, o que se designava como proteção à criança estava relacionado
ao combate à crueldade: “A expressão ‘abuso sexual’ (...) é muito rara
antes de 1960; o que se dizia antes era ‘crueldade com crianças’ ”
(HACKING, 2000, p. 67). Diferentemente do “abuso”, a “crueldade” não
se referia a transgressões sexuais. Para governar a crueldade, foram
elaboradas normas, leis e providenciadas medidas para proteger as
crianças, já que elas, em diversas ocasiões, substituíam os adultos em
situações de trabalho consideradas perigosas. No combate à crueldade
O abuso se solidifica como um tipo 128
propunha-se limitar as horas de trabalho dos aprendizes, garantir
condições sanitárias mais adequadas e providenciar o mínimo de educação
(WATKIN, 1975). Eram normas que visavam atingir, sobretudo, crianças
pobres que trabalhavam.
Nesse movimento, foi fundada, em 1884, uma organização
inglesa para combater a crueldade, The National Society for the Prevention
of Cruelty to Children (Ibid., p. 414), porém, os EUA se anteciparam no
combate à crueldade sofrida por crianças com a fundação, em 1874, da
The New York Society for the Prevention of Cruelty to Children (NYSPCC).
É interessante notar que a NYSPCC se originou de uma organização que se
dedicava a lutar contra a crueldade sofrida por animais, a The New York
Society for Prevention Cruelty to Animals (HACKING, 1998, 1999;
LAZORITZ, 1990; LAZORITZ & SHELMAN, 1996) e isso ocorreu porque o
fundador dessa organização foi intimado a proteger uma criança que sofria
maus-tratos.
Geralmente, a literatura especializada reconhece que o início dos
movimentos de proteção às crianças maltratadas em suas famílias está
relacionado ao episódio de uma pequena garota de nove anos chamada
Mary Ellen (foto abaixo), que era espancada por seu padrasto (LAZORITZ,
1990; LAZORITZ & SHELMAN, 1996).
Mary Ellen wearing tattered clothes and bearing scars form her abuse
(Keens, 1876a)
Fonte: LAZORITZ, 1990, p. 145.
O abuso se solidifica como um tipo 129
Mary Ellen foi removida de sua casa em 1874 por intermédio da
New York Society for the Prevention of Cruelty to Animals, fundada em
abril de 1866, por Henry Bergh (LAZORITZ & SHELMAN, 1996). Bergh
recebeu carta de uma senhora que lhe pedia uma intervenção em favor de
Mary Ellen justificando: “um homem que apresenta tanta misericórdia
com os animais, não pode deixar de fazê-lo igualmente com a espécie
humana” (Ibid., p. 236). O que passou a ser conhecido como “o caso
Mary Ellen”, resultou na fundação da New York Society for the Prevention
of Cruelty to Children, em 1874, e na remoção de Mary Ellen de sua casa,
através de um habeas-corpus.
Esta associação investigou o “abuso” físico e a negligência
infantil primeiramente entre imigrantes americanos pobres, de famílias de
classes trabalhadoras (OLAFSON et al., 1993, p. 09), revelando
preconceito que passou a ser quebrado a partir do final do século XIX na
Inglaterra e nos EUA, especialmente em função da luta de feministas e de
mulheres religiosas que, ao reivindicarem condições igualitárias entre
mulheres e homens, também afirmavam que o “abuso” sexual e físico
eram crimes chocantes que ocorriam em todas as classes sociais (Ibid.).
Hacking (1998) aponta esse aspecto do “abuso” como uma diferença em
relação à noção de crueldade já que, neste último caso tratava-se de um
“vício” das classes baixas. Uma das hipóteses para essa crença, segundo
Hacking, está relacionada à união de setores “conservadores” e mais
“avançados” da sociedade norte americana no combate ao “abuso”, uns
por medo da desestruturação da família e outros por acreditarem que o
“abuso” é fruto do domínio masculino (Ibid.). Desta forma, uniram-se
várias classes, ainda que com objetivos diversos, para combater o
“abuso”.
No entanto, “o caso Mary Ellen” não foi o primeiro episódio de
maus-tratos ocorridos na família que resultou na remoção da criança de
sua casa. Lazoritz & Shelman (1996) descrevem o caso Emily Thompson
O abuso se solidifica como um tipo 130
como tendo sido a primeira intervenção da New York Society for the
Prevention of Cruelty to Animals (NYSPCA) realizada também através do
mesmo instrumento legal, ou seja, um habeas-corpus (Ibid., p. 236). O
jovem advogado Elbridge T. Gerry, ovacionado pela genialidade da
aplicação de um habeas-corpus para retirar Mary Ellen de sua família, já
havia adotado esse procedimento com os mesmos objetivos no caso Emily
Thompson. A diferença foi que Emily negou veementemente ter sido
agredida por sua “protetora”, a Sra. Larkin. Apesar de sua face e seu
pescoço estarem severamente feridos, do testemunho de vizinhos
afirmando que ela era agredida quase diariamente e, ainda, do juiz ter
considerado a sua “protetora” culpada, a sentença foi suspensa e Emily
devolvida a Sra. Larkin, porque o juiz presumiu que não havia parentes
vivos (Ibid., p. 236). Contudo, a imprensa da época, ao divulgar o caso,
favoreceu Emily, pois sua avó leu um artigo sobre o caso em um jornal,
procurou o Sr. Bergh e se identificou. Novamente, foi utilizado um
habeas-corpus para retirar Emily da casa onde morava e o juiz entregou a
guarda da menina para a sua avó.
Ambos os casos e as demais situações em que houve
intervenção da New York Society for the Prevention of Cruelty to Animals,
da Justiça e mesmo de vizinhos, não eram ainda identificados como
“abuso” e sim como “crueldade”, e as denúncias estavam mais restritas a
circunstâncias em que as crianças eram criadas por pessoas que não eram
seus parentes “naturais”.
O primeiro estudo considerado científico sobre “crueldade” em
crianças realizado "por aqueles que exercem uma autoridade mais ou
menos direta sobre elas" (WOLFF, Apud., GUERRA, 1995, p. 61) foi
publicado na França, em 1857, pelo Dr. Ambroise Tardieu, presidente da
Academia de Medicina de Paris. Seu trabalho, intitulado Étude médico-
légale sur lês attentats aux moeurs (CUNNINGHAM, 1988, p. 346), era um
estudo de 32 casos de crianças que haviam sofrido diversas lesões
O abuso se solidifica como um tipo 131
(fraturas, queimaduras, hematomas, equimoses etc.) que, por suas
características, estavam em desacordo com as causas oferecidas pelos
seus acompanhantes (WOLFF, Apud., GUERRA, 1995, p. 60). É
importante localizar este trabalho observando que na França, no final do
século XIX, começaram a se multiplicar as sociedades preocupadas com o
que Donzelot chamou de "infância em perigo" e "infância perigosa"
(DONZELOT, 1986, p. 79). Em 1888, foi promulgada lei decidindo ser
possível “… decretar a perda dos direitos de pais e mães que, por sua
embriaguez habitual, maus procedimentos notórios e escandalosos, maus-
tratos, comprometam tanto a segurança como a saúde de seus filhos”
(Ibid., p. 80, o grifo é meu).
Conforme Hacking (1999, p. 135-136), o uso do termo
“crueldade” relaci onado a crianças começou a perder notoriedade em
torno de 1910, dando lugar para problemas como “mortalidade infantil” e
“delinqüência juvenil”. Estes temas tiveram maior relevância até pouco
mais da metade do século XX. A partir daí, entre 1961-1962, a noção de
“abuso” infantil emerge nos EUA, mais especificamente na cidade de
Denver, através de médicos pediatras.66 Inicialmente se referindo a
maus-tratos em geral, começou a ter maior visibilidade com a publicação
do artigo: The battered child syndrome, (KEMPE, SILVERMAN, STEELE,
DROGMUELLER & SILVER, 1962).
Sob a liderança do Dr. Kempe, e com total apoio da American
Medical Association (HACKING, 1999, p. 138), pediatras começaram a
observar com mais cuidado, quer dizer, com um certo estranhamento,
66
A exposição sobre a emergência do “abuso” internacionalmente foi realizada a partir
das referências: Hacking (1999); Guerra (1995); Furlotti (1999) e de vários artigos
publicados na revista Child Abuse & Neglect (cujos autores vão sendo citados no decorrer
deste capítulo).
O abuso se solidifica como um tipo 132
lesões e fraturas em crianças pequenas.67 Com o auxílio de raios X,
passaram a obter os indícios ou sinais de maus-tratos,68 o que permitiu
que esses pediatras, batizados como o “grupo de Denver”, pudessem
indicar o surgimento de uma nova síndrome:69 the battered child
syndrome (síndrome da criança espancada). Em 1965, o Index Medicus
incluiu “abuso” infantil na sua lista de categorias médicas, assim como o
New York Times’ passou a arquivar as histórias sobre “abuso” e
“crueldade” sob o título de “abuso” infantil (Ibid.). A descoberta da
“síndrome da criança espancada” teve ampla cobertura da imprensa
norte-americana, por meio da televisão e dos semanários de informação
geral que anunciavam esta nova calamidade (Hacking, 1999, p. 138).
O artigo de Kempe e colaboradores se tornou um marco de
referência aos estudos sobre “abuso”. Iniciava-se a construção de um
conhecimento de cunho científico, com análises e explicações
fundamentadas nas evidências de exames médico-clínicos, que tinha nos
Raios X a prova objetiva do “abuso” infantil.
O “abuso” infantil era qualificado por médicos. Este atrelamento
ao saber médico apresenta dois aspectos importantes: a) faz com que se
considere que quem pode ter, como lembra Hacking, o “conhecimento
real” sobre situações de “abus o” infantil são os médicos; b) as pessoas
67
No artigo de Kempe e colaboradores, consta, nas referências bibliográficas, um artigo
que pode ter influenciado esses pediatras na proposição da “síndrome da criança
espancada” e na noção de “abuso físico”: ELMER, E. Abused young children seen in
hospitals. Soc. Work, (04) 5: 98-105, oct., 1960. Em função dos problemas ocasionados
pela disseminação da substância “Antrax” nos correios norte-americanos, não pude obter
o artigo antes de terminar este trabalho, porque os remetentes, temerosos de uma
possível contaminação, desistiram do envio.
68
Nesse artigo de Kempe e colaboradores, analisado a seguir, há uma série de fotos de
radiografias, como exemplos de “abusos” cometidos contra crianças.
69
É interessante observar o significado no dicionário da palavra “síndrome”, pois permite
uma melhor localização do que tomava visibilidade como “abuso” nos EUA: “1. (Med.)
Estado mórbido caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas, e que pode ser
produzido por mais de uma causa; 2. (Fig.) Conjunto de características ou de sinais
associados a uma condição crítica, susceptíveis de despertar reações de temor e
insegurança” (Houaiss, et, al.2001, p. 2578). As duas definições são aplicáveis à
“síndrome da criança espancada”.
O abuso se solidifica como um tipo 133
diagnosticadas como “abusadoras” são consideradas doentes e, portanto,
o “abuso” é uma enfermidade (HACKING, 1999, p. 137-138).
A “medicinalização” do “abuso” fornece peculiaridades em
relação à crueldade. Ao realizar essa comparação, Hacking aponta:
... a crueldade com crianças não era um problema médico, enquanto o abuso
infantil foi objeto da medicina desde o princípio. A idéia foi proposta pelos
pediatras. Os acusadores infantis foram qualificados como enfermos. A
medicina não teve meios de manter um controle uniforme (...) do abuso
infantil, mas quem quer que pretenda controlá-lo deve tratá-lo dentro de
alguma ciência. Em contraste, a crueldade não foi objeto da ciência. Os
homens que batiam em seus filhos não eram submetidos a exame médico
como um tipo especial de pessoa enferma. Uma grande parte do que
Donzelot (1979) chamou de “a polícia das famílias” fez uso de teorias
médicas, mas a crueldade seguiu outra rota. As pessoas não tentaram
controlá-la por meio de um conhecimento especial sobre o cruel. Eles nunca
deram a conhecer que pais cruéis eram um tipo de ser humano sobre o qual
era possível um conhecimento especializado (HACKING, 1999, p. 135).
Apesar da identificação do “abuso” (especialmente associado à
agressão física) ser realizada através de um exame clínico com o auxílio
de raios X (que se transformou em instrumento de prova), ele, desde o
seu início, foi caracterizado como uma agressão motivada por problemas
psíquicos. A diferença dos escritos de Kempe em relação às teorias atuais
se restringe, quase que exclusivamente, às conseqüências do “abuso”,
caracterizadas como “traumas” que vão além de aspectos físicos.70 No
mais, algumas afirmações - como dizer que o “abuso” pode ser
encontrado em todas as camadas sociais; que crianças “abusadas” se
tornam provavelmente pais “abusadores”71; e também que os fatores
desencadeantes podem estar relacionados, por exemplo, ao alcoolismo e
70
Kempe e colegas ao se referirem a “trauma”, neste texto, associam-no exclusivamente
a problemas físicos.
71
Esta hipótese como afirma Hacking, está de acordo com as crenças no século XX que
as experiências vividas na infância formam o adulto (HACKING, 1999, p. 137).
O abuso se solidifica como um tipo 134
famílias desestruturadas - já eram apontadas no artigo de Kempe e seus
colegas:
Bater em crianças, entretanto, não é uma ação restrita a pessoas com uma
personalidade psicopática ou com condição sócio-econômica borderline. Isto
também ocorre dentre pessoas com boa educação, estabilidade financeira e
background social. Entretanto, a partir dos dados restritos que estão
disponíveis, poder-se-ia mostrar que nestes casos, também, há um defeito na
estrutura de caráter que permite que impulsos agressivos sejam expressos
livremente. Há também a sugestão que parente agressivo foi objeto de abuso
similar na infância. Isto indicaria que um dos fatores mais importantes a ser
encontrados em famílias onde ocorre estupro parental é, “faça aos outros, o
que foi feito para você." Isto não é surpreendente: tem sido reconhecido por
psicólogos e antropólogos sociais que modelos de criação de criança, sejam
bons ou ruins, são passados de uma geração à outra, relativamente
inalterados. Psicologicamente, pode-se descrever este fenômeno como uma
identificação com o pai agressivo e esta d
i entificação ocorre a despeito de
fortes desejos da pessoa ser diferente (KEMPE, et. al., 1962, p. 18; os grifos
são meus).
Também no mesmo artigo, os autores defendem a separação
dos bebês de seus pais como medida para evitar a continuidade do
“abuso” e atribuem aos médicos essa competência: “Os médicos não
deveriam estar satisfeitos com o retorno de crianças a um ambiente onde
ainda houvesse um risco moderado de repetição” (KEMPE et. al., p. 24).
É interessante verificar ainda mais alguns aspectos que podem
ser encontrados ainda hoje quando a temática é o “abuso”. O artigo já se
referia à agressão física como “abuso”, mas não relacionava essa palavra
diretamente à sexualidade. Também reconhecia “aspectos psiquiátricos”
pertencentes ao problema de agressão a crianças tais como psicose,
psicopatia ou sociopatia (p. 18). Alcoolismo, promiscuidade sexual,
instabilidade no casamento, pequenas atividades criminais e gravidez
“indesejável” também são relatadas como causas comuns entre os pais
que agridem crianças, aliadas a algumas características psicológicas:
O abuso se solidifica como um tipo 135
imaturidade, impulsividade, “self-centrado”, hipersensitividade e reações
rápidas com pouco controle da agressão (Ibid.).
Reforçando a tese de que, na emergência do “abuso” como um
tipo, os aspectos “psi” estavam relacionados aos perpetradores, destaquei
dois trechos do texto de Kempe e colaboradores, que me parecem
importantes, um sobre “repressão psicológica” e outro sobre “testes
psicológicos”:
A negação por pais de algum envolvimento em episódio abusivo pode (...),
ser um consciente dispositivo de proteção, mas em outras circunstâncias pode
ser uma negação baseada em uma repressão psicológica. Assim, uma mãe
que parecia ter sido aquela que injuriou seu bebê, teve amnésia completa aos
episódios em que sua agressão irrompe... (Ibid., p. 19; o grifo é meu).
Em alguns casos os testes psicológicos podem revelar tendências agressivas
fortes, comportamento impulsivo e carência de mecanismos adequados de
controle de comportamento impulsivo. Em outros casos somente um contato
prolongado em um ambiente psicoterápico pode conduzir a uma compreensão
completa do background e circunstâncias que envolveram o ataque... (KEMPE,
et al., 1962, p.19).
5.1.1. O “abuso” se internacionaliza
Sob a liderança de Kempe, foi fundada a International Society
for Prevention and Treatment of Child Abuse and Neglect (ISPCAN)72, em
1977, e, posteriormente, uma revista científica: “Child Abuse & Neglect:
The International Journal”, que se tornou a publicação de maior circulação
mundial que tratava especificamente desse tema.
72
A ISPCAN é a maior e mais conhecida organização com o objetivo específico de
prevenir e tratar do “abuso” infantil. Há uma outra organização internacional chamada
de “Movimento ECPAT” (End Child Prostitution, Child Pornography and the Trafficking
Children for Sexual Purposes), com sede em Bangkok, que está começando sua inserção
no Brasil e as informações que foram levantadas ainda são insuficientes para uma análise
mais detida. Algumas informações adicionais foram incluídas no capítulo seguinte.
O abuso se solidifica como um tipo 136
A ISPCAN nasceu a partir da articulação de médicos de vários
países que fomentaram a criação de um campo. Um pequeno trecho do
relato de um dos médicos participantes desse movimento e o título do
artigo que abriga a descrição, “Nurturing a journal, fostering a field”,
indicam essa articulação:
Em 1975, Henry Kempe deu a Pierre Ferrier a missão de organizar o “First
International Congress on Child Abuse and Neglect” em Genebra. Henry
juntou um grupo de profissionais (principalmente seus amigos e colegas) da
Europa, Austrália e dos Estados Unidos em Bellagio, na Itália. Durante o
encontro de Bellagio nasceu a International Society for Prevention of Child
Abuse and Neglect.7 3 Henry foi o primeiro presidente e se voltou para Pierre
Ferrier e disse: "Pierre, você podia organizar nosso primeiro congresso
internacional em Genebra no próximo ano, ..." (KRUGMAN & FERRIER, 1988,
p. V).
Nos fascículos da Child Abuse and Neglect há um pequeno
resumo dos objetivos da ISPCAN, que é uma transcrição de um trecho do
Estatuto da Sociedade (artigo primeiro, seção 1):
A Sociedade Internacional foi fundada em 1977 para prevenir a crueldade em
crianças em todas as nações — caso a crueldade ocorra na forma de abuso,
negligência ou exploração — e assim possibilitar às crianças de todo mundo
se desenvolverem fisicamente, mentalmente e socialmente com saúde e de
modo normal. (...).
A Sociedade fundou Child Abuse & Neglect, The International Journal como
uma publicação oficial. (...) A revista promove um fórum multidisciplinar
internacional para prevenção e tratamento do abuso infantil e negligência,
incluindo abuso sexual...
Nesta citação, podemos perceber que a ISPCAN foi fundada para
o combate à crueldade. Nesse primeiro momento, o “abuso” ainda era
considerado um caso de maus-tratos. Posteriormente, fica explícito nos
objetivos da revista que o “abuso” combatido pela ISPCAN passou a incluir
73
Observe-se ainda que o mesmo grupo de Bellagio propôs o jornal da Sociedade
(KRUGMAN & FERRIER, 1988, p. V).
O abuso se solidifica como um tipo 137
aspectos sexuais. Nesse caso, a ISPCAN absorveu as reivindicações
oriundas dos movimentos feministas.
Inicialmente relacionado aos maus-tratos (violência física) e
com a indicação de que pais e professores deveriam ser vigiados para que
isso fosse evitado, o “abuso” foi sendo gradativamente também associado
à violência sexual. Hacking aponta as “feministas” como as responsáveis
por essa inclusão no arco de situações “abusivas”, destacando dois
eventos fundamentais: a) a explanação de Florence Rush sobre o tema
do “abuso” sexual na New York Radical Femenist Conference, em 1971;
b) a publicação de um artigo na revista MS com o título “Incest: Child
Abuse Begins at Home”, em maio de 1977 (HACKING, 1999, p. 139).
O “abuso” passa a se referir não só a relações sexuais em seu
sentido restrito (relações genitais), mas também a carícias, exposição de
crianças a intimidade de casais, jogos sexuais com irmãos (Ibid., p. 140).
A inclusão de várias práticas como sendo “abuso” permitiu que homens e
mulheres passassem a “recordar” e revelar experiências sexuais vividas
com parentes consideradas "abusivas" (Ibid., p. 140). Também favoreceu
a concepção de que o incesto e “abuso” sexual infantil são epidêmicos,
reforçando a teoria da “memória reprimida” já que, por se tratarem de
experiências doloridas e traumáticas, não poderiam ser lembradas com
facilidade, porque ativariam defesas e mecanismos inconscientes de
repressão e por isso precisariam ser revividas com ajuda de especialistas
em ambiente terapêutico (LOFTUS & KETCHAN, 1994). Esse quadro
permite, inclusive, que se indiquem vários sintomas vividos por adultos
que podem ser caracterizados como “abuso” sofrido na infância:
ansiedade, pânico, depressão, disfunções sexuais, dificuldades de
relacionamento, comportamentos abusivos, desordens alimentares,
solidão, tentativa de suicídio (Ibid., p. 140). Ou seja, o “abuso” se
constitui em uma doença com as seguintes características: "... é
O abuso se solidifica como um tipo 138
epidêmico, a repressão é feroz, é possível recordar, a terapia pode ajudar"
(Ibid., p. 141).
5.2. Da patologia do agressor às conseqüências
psicológicas para a vítima
Cunningham (1988) e Masson (1984) apontam que desde a
metade do século XIX havia autores franceses que exploravam as
“conseqüências psicológicas do abuso sexual” (CUNNINGHAM, 1988, p.
346). O Dr. Ambroise Tardieu (1818-1879), o primeiro a publicar um livro
sobre o assunto, como já vimos, é apontado como um dos autores
principais. A quarta edição de seu livro (1862) apresentava o relato de
515 casos de “ofensas sexuais”, das quais 420 foram cometidas contra
crianças com idade abaixo de 15 anos. Segundo Tardieu, os casos de
ataque sexual contra crianças não tinham continuidade na corte judicial,
uma vez que precisavam apresentar sinais legais de evidência de
violência, que incluíam, por exemplo, o rompimento do hímen (Ibid., p.
345).
No fim da primeira metade do século XIX, houve interesse na
psicopatologia do acusado (Ibid., p. 347). Em 1882, Jean Martin Charcot
(1826-1893) criticou os “oficiais da lei” por considerarem os “infratores
sexuais” como essencialmente “viciados”, mais do que “mentalmente
doentes” (Ibid., p. 347). Um dos sucessores de Tardieu, Paul Brouardel
(1837-1906), dizia ter sido muito influenciado pela visão de Charcot no
que se refere à necessidade de compreender a patologia dos acusados de
infrações sexuais. Brouardel é apontado por Cunningham pelo fato de ter
favorecido a proteção desses infratores, na medida em que os identificava
como sendo “homens de família honesta” e minimizava a incidência de
crimes sexuais, ao estimar que 80% dos casos eram falsas acusações e
O abuso se solidifica como um tipo 139
que, portanto, a corte deveria estar atenta e ser cuidadosa para não se
deixar influenciar pela “falsidade das crianças” (p. 347).
Sob influência de Charcot, psiquiatras franceses “estavam
predispostos a atribuir fatores hereditários às doenças mentais” (Ibid.), a
ponto de a pederastia ser considerada “degeneração mental hereditária”
(Ibid.). Alfred Binet (1857-1911) foi uma das vozes que se levantou a fim
de limitar a influência da hereditariedade em relação aos “desvios sexuais”
(Ibid.). Por outro lado, em “Études de psychologie expérimentale: le
fétichisme dans l’amour”, defende que os fatores fundamentais na
etnologia de desordens, envolvendo a sexualidade, têm efeitos a longo
prazo nas experiências sexuais de crianças. Para exemplificar sua teoria,
Binet se refere a uma situação que Jean-Jaques Rousseau (1712-1778)
viveu: quando tinha oito anos de idade, foi forçado a partilhar a cama de
sua professora e dormir com ela (Ibid., p. 348). O próprio Rousseau
relatou as conseqüências do ocorrido em seu livro “Confissões” (1764):
foi responsável pela sua timidez, pelo seu celibato até a idade de trinta
anos e pela sua obsessiva necessidade de humilhar as mulheres para
obter satisfação sexual (Ibid.).
Binet sustenta a hipótese das amplas conseqüências de uma
danosa experiência sexual na infância, apoiando-se no relato de
Rousseau. A confiabilidade ou descrédito do relato de experiências sexuais
na infância é também um tema que tem gerado inúmeras discussões em
torno do “abuso”. Uma das posições mais discutidas até hoje é a de
Freud.
Freud iniciou seus estudos sobre a etiologia da histeria com
Charcot. Foi mais longe ainda e relacionou a etiologia das neuroses não a
fatores hereditários, mas a experiências sexuais vividas na infância,
portanto prematuras e traumáticas. Tanto em “Etiologia da histeria”
(1896), quanto em cartas endereçadas a Fliess (1897), Freud deu muita
O abuso se solidifica como um tipo 140
importância à teoria da sedução, afirmando que o incesto era mais comum
do que se suspeitava, acontecia em famílias respeitáveis e, inclusive, dava
origem às neuroses e até a algumas psicoses.74 Depois, abandonou a
teoria da sedução e, por isso, alguns autores o criticam severamente (por
exemplo: OLAFSON et al. 1993; MASSON, 1984).
Segundo Olafson e colaboradores (1993), depois que Freud
abandonou a teoria da sedução e passou a incluir em suas reflexões o
conceito de "fantasia", considerou a maioria dos relatos de seus pacientes
relacionados a relações sexuais na infância como produto da imaginação.
Em função dessa mudança de perspectiva teórica, Freud é acusado, então,
de favorecer o encobrimento do “abuso” sexual, retardando em
profissionais e na população, em geral, a consciência desse problema.
No entanto, Peter Gay (1989) observa:
O colapso dessa teoria não o levou a abandonar sua crença na etiologia
sexual das neuroses e tão pouco, sob esse aspecto, a convicção de que pelo
menos alguns neuróticos tinham sofrido abusos sexuais por parte dos pais.
Como outros médicos, ele conhecia casos assim. É significativo que, em
dezembro de 1897, cerca de três meses depois de ter provavelmente
abandonado a teoria da sedução, ele ainda escrevesse que sua “confiança na
etiologia paterna aumentou bastante”. Menos de quinze dias depois, ele
contou a Fliess que uma de suas pacientes lhe fizera um relato pavoroso em
que ele estava disposto a acreditar: aos 2 anos de idade, ela tinha sido
brutalmente estuprada por seu pai, um pervertido que precisava infligir
ferimentos sangrentos para obter satisfação sexual. De fato, durante dois
anos, Freud não se afastou em definitivo da teoria da sedução, e depois disso
passaram-se mais seis anos antes que anunciasse publicamente alteração de
suas idéias. Ainda em 1924, quase três decênios após ter se distanciado do
que contritamente chamou de “um erro que repetidamente reconheci e desde
então corrigi”, Freud insistia que nem tudo o que escrevera nos meados dos
anos 1890 sobre o abuso sexual das crianças merecia ser rejeitado: “a
74
Sobre a teoria da sedução e sua relação com o “abuso” sexual escrevi outro trabalho,
Teoria da sedução e abuso sexual (PIMENTEL-MÉLLO, 1999).
O abuso se solidifica como um tipo 141
sedução conservou uma certa importância para a etiologia”. Observou
explicitamente que dois de seus primeiros casos, Katharina e “Fraülein Rosalia
H.", tinham sido molestadas por seus pais. Freud não tinha a menor intenção
de substituir um tipo de incredulidade por outro. O fato de deixar de
acreditar em tudo que seus pacientes lhe contavam não significava que
tivesse que cair na armadilha sentimental de considerar o moderado burguês
de casaca incapaz de revoltantes agressões sexuais. O que Freud rejeitou foi
a teoria da sedução como uma explicação geral da origem a neuroses. (GAY,
1989, p. 101-102).
Raciocínio semelhante é utilizado por Schimer:
(...) Meu principal argumento será que a conclusão de Freud que a histeria
sempre requer uma ocorrência de abuso sexual na primeira infância não era
baseada diretamente nas falas dos pacientes e memória consciente, mas
envolve muitas interpretações seletivas e reconstruções. As reconstruções
pressupõem um complexo conjunto de hipóteses e suposições e são baseadas
em uma ampla variedade de dados não claramente especificados, vindos de
pensamentos, imagens, exposição de afetos e gestos, para especificar
memórias vindas depois da infância. Ao mudar a teoria da sedução original,
Freud não suprimiu tal clara e ambígua evidência, somente alterou alguns
aspectos de sua interpretação dos dados — a saber, sua origem última em
uma fantasia interna mais do que em um trauma externo (SCHIMER, 1987,
p. 938-939).
Outro personagem importante relacionado à psicanálise, Sándor
Ferenczi (1873-1933) advogava que os traumas sexuais foram afastados
da memória/consciência, mas poderiam ser recuperados (GAY, 1989, p.
102). Também argumentou, claramente, sobre as conseqüências dos
traumas sexuais que incluíam “fragmentação da personalidade e adultos
pervertidos” (Ibid.). Publicou suas objeções em relação a Freud e a seus
colegas por não darem a devida importância aos relatos de seus pacientes
sobre ataques sexuais sofridos na infância. Segundo Roudinesco e Plon:
Do ponto de vista clínico, foi Sándor Ferenczi quem levou mais longe a
discussão psicanalítica dessa questão, ao apresentar ao congresso da
International Psychoanalytical Association (IPA) realizado em Wiesbaden, em
O abuso se solidifica como um tipo 142
1932, uma intervenção que seria publicada sob o título “Confusão de língua
entre os adultos e a criança”.7 5 Nele, Ferenczi instigou a hipocrisia da
corporação analítica e suas atitudes de “neutralidade benevolente”,
mostrando que ela repetia a hipocrisia parental...
Sem abolir a dimensão da fantasia, Ferenczi reivindicou que se levasse em
conta, na e através da psicanálise, a existência de sedução (ROUDINESCO &
PLON, 1998, p. 698).
Karl Abraham também é outro personagem da história do
movimento psicanalítico que se preocupou em investigar mais
detidamente traumas sexuais infantis e a teoria da sedução. Em 1907,
publicou seu primeiro texto psicanalítico, “On the significance of sexual
trauma in childhood for the symptomatology of dementia praecox”, no
qual examinava traumas promovidos por elementos de sedução (GOOD,
1995, p. 1138). Nesse texto não questionava a veracidade das seduções
relatadas pelas pessoas, mas centralizava-se na questão: “por que tantos
indivíduos neuróticos e psicóticos relatavam traumas sexuais em suas
histórias” (Ibid., p. 1139). Propôs a controversa noção de que, em alguns
casos, a criança “inconscientemente deseja o trauma”, em função de uma
predisposição para apresentar em algum momento de sua vida neurose ou
psicose (GOOD, 1995, p. 1140). Em outras palavras, pelo que se pode
deduzir do texto de Michael Good, Abraham afirmava que as experiências
sexuais na infância se tornavam traumáticas na medida em que a criança
apresentasse uma predisposição para desenvolver uma neurose ou
psicose.
É interessante notar o desfecho contemporâneo da teoria da
sedução:
A história da teoria da sedução transformou-se num verdadeiro escândalo no
início da década de 1980, quando Kurt Eissler e Anna Freud decidiram confiar
a publicação integral das cartas de Freud a Fliess para um acadêmico norte-
75
Consta das obras completas publicadas no Brasil pela editora Martins Fontes. Ver:
FERENCZI (1992).
O abuso se solidifica como um tipo 143
americano, devidamente formado no serralho da ortodoxia. Nascido em
Chicago em 1941, Jeffrey Moussaïef Masson pôs-se a ler os arquivos
interpretando-os de maneira selvagem, com a idéia de que eles esconderiam
uma verdade oculta, afirmou que Freud renunciara, por covardia, à teoria da
sedução. Não se atrevendo a revelar ao mundo as atrocidades cometidas
pelos adultos com as crianças, Freud teria inventado a fantasia para mascarar
uma realidade; seria, portanto, pura e simplesmente, um falsário. Em 1984,
Masson publicou o livro sobre o assunto, “O real escamoteado”, que foi um
dos maiores best-sellers psicanalíticos norte-americanos da segunda metade
do século. (ROUDINESCO & PLON, 1998, p. 698).
Deixando a discussão da teoria propriamente dita de lado,
percebe-se que Freud, para uma parte dos psicanalistas norte-
americanos, tornou-se um pervertido à semelhança do que aconteceu com
Lewis Carrol (Charles Dogson, autor de “Alice no país das maravilhas”),
que teve sua obra atrelada a uma operação policial em Nova York
denominada de Project Looking-Glass (em referência à obra ”Através do
espelho, e o que Alice encontrou lá”), que tinha a finalidade de investigar
e prender pedófilos (Ver: HACKING, 1999). No caso de Carrol, a
“evidência” de sua tendência pedófila foi o seu gosto por fotografar
meninas. Uma das fotos usadas para esta “comprovação” é a de sua
sobrinha Alice Liddell, que lhe inspirou “Alice nos país das maravilhas”.
Aqui posa com um vestido em farrapos:
O abuso se solidifica como um tipo 144
Alice Liddell
Fonte: CARROL, 1980, p. 273.
De todo modo, as discussões sobre a “teoria da sedução” ou
sobre os efeitos traumáticos de experiências sexuais na infância
permaneceram. Foi a partir da Segunda Guerra Mundial que os "efeitos
de traumas psicológicos" tomaram o lugar central na psiquiatria
ocasionando estudos de “choques proporcionados por bombas, neuroses
de guerra e efeitos do holocausto” (OLAFSON et al., 1993, p. 11). Com
esses estudos também cresceu o interesse para analisar a relação entre
trauma e memória (Ibid.). Como afirma Hacking, “o trauma pulou do
corpo para mente (...) na época em que as ciências da memória estavam
entrando em cena” (HACKING, 2000, p. 201).
Também podemos perceber que o início do século XX já trazia,
especialmente em função do alargamento das fronteiras da psicanálise,
discussões acadêmicas direcionadas à análise de “traumas psicológicos”
ocasionados pela prática sexual de adultos com crianças. Um exemplo
disto está no primeiro artigo catalogado na base de dados PsycLIT sobre
O abuso se solidifica como um tipo 145
“abuso” sexual76 Trata-se do artigo de L. E. Emerson, “A psychoanalytic
study of a severe case of hysteria”, publicado no Journal-of-Abnormal-
Psychology, em 1913 (may; vol. 08: 180-207). O resumo que descreve o
artigo no banco de dados diz:
Apresenta um caso de histeria severa e seu tratamento com a psicanálise. A
paciente foi sexualmente abusada por seu pai quando tinha a idade de 7
anos, depois foi repetidamente sexualmente violentada e teve relações
incestuosas com seu irmão. Os sintomas histéricos serviam como gratificação
sexual, resultado de um compromisso entre dois impulsos opostos, um que foi
a tendência de tornar conscientes memórias reprimidas, enquanto o outro
lutava para suprimi-las. A consciência/ego defende-se reprimindo idéias
intoleráveis que foram então manifestadas como desmaios histéricos e
cegueira. Algumas vezes a repressão pode levar à dissociação da mente. Os
sonhos do histérico são formações de compromisso psíquico que expressam a
censura do ego. Devido a forte resistência, o método da associação-livre não
foi bem sucedido na análise. Finalmente, a atitude emocional do analista é
importante na técnica psicanalítica.
A década de 1980 foi importante para a caracterização do
“abuso” sexual como “um evento traumático” (FILKELHOR & BROWNEW,
1985). Muito mais que as conseqüências físicas, o trauma severo é de
dimensão psicológica e pode acarretar: “confusão de sexo com amor,
aumento do aparecimento de questões sexuais e diversas manifestações
comportamentais, tais como preocupação com a sexualidade, agressão
sexual e a inapropriada sexualização de pais”77 (FRIEDRICH, 1993, p. 59).
Com a preocupação de verificar a extensão do trauma, foram
construídos, em períodos diferentes, alguns testes. O Child Behavior
Checklist (CBC), criado em 1983, é o mais comum deles, ainda que não
76
Esta pesquisa foi feita nessa base de dados a partir do verbete “sexual abuse” como
palavra solta. Caso a pesquisa utilize o verbete “sexual abuse” aparecendo em títulos de
artigos, a primeira obra catalogada é o artigo Adult sexual abuse of children: the man
and circumstances, publicado em Diseases-of-the-Nervous-System, em 1968 (29 (10):
677-683), por David W. Swanson. Do resumo do artigo consta simplesmente: “Revisão
psicológica do conceito de pedofilia”.
77
Essa sexualização se refere ao desejo sexual-genital de crianças por seus pais.
O abuso se solidifica como um tipo 146
tenha sido feito especificamente para avaliar o “abuso” sexual. Segundo
Friedrich (1993), dentre os testes mais específicos, destacam-se:
a) Observational Rating Scale for Sexually Abused Children, construído em 1985,
por Friedrich e Lui, e desenvolvido para, através de observação, avaliar de
forma “mais precisa” o comportamento sexual de crianças.
b) Trauma Symptom Checklist for Children (TSC-C), construído por Briere, em
1989, utiliza o relato da própria criança vítima de “abuso”. Foi desenvolvido a
partir de estudos com pessoas entre oito e quinze anos, “mede” 54 itens que
incluíam dentre, outras coisas, depressão, ansiedade, problemas no sono,
problemas sexuais, dissociação;
c) The Child Behavior Inventory (CSBI), construído por Friedrich e colegas, em
1991, é utilizado para avaliar mais especificamente o comportamento sexual
em crianças sexualmente “abusadas”, servindo-se do relato de pais.
Em todos eles há a pressuposição generalizada de que o
“comportamento sexual” de crianças que sofreram “abuso” é mais
“exaltado” (elevated): “em conclusão, o comportamento sexual exaltado
em crianças abusadas sexualmente é uma descoberta consistentemente
identificada. Sua importância, tratamento e implicações, a longo prazo,
asseguram outras investigações” (FRIEDRICH, 1993, p. 64).
Ainda na metade da década de 80, iniciaram-se estudos
comparativos "rigorosos" sobre os “persistentes e prejudiciais” efeitos
traumáticos do “abuso” em crianças (BEICHMAN et al, 1991; OLAFSON et
al. 1993), usando questionários rápidos. Os resultados desses estudos,
bem como a publicação de relatos clínicos (psicoterapias) de adultos
sobreviventes se tornaram abundantes (Ibid.).
Os relatos oriundos de processos terapêuticos desencadearam
críticas contundentes. Loftus & Ketcham são pesquisadoras dos processos
de memória e publicaram um livro de referência em relação a essa
discussão, The myth of repressed memory: false memories and
allegations of sexual abuse. Elas têm uma discordância de fundo
O abuso se solidifica como um tipo 147
conceitual às técnicas terapêuticas que se propõem a tornar consciente a
memória reprimida por uma situação traumática. As autoras não duvidam
das experiências de homens e mulheres que sofrem por não conseguirem
esquecer de situações de “abuso”, mas questionam processos terapêuticos
que relacionam memória com "(...) repressão — memórias que não
existem até alguém tê-las mostrado” (LOFTUS & KETCHAM, p. 141). O
que as autoras apontam como problema pode ser estendido a uma
compreensão geral da sociedade que acredita na memória reprimida
(popularmente compreendida como um esquecimento), causada por
trauma “emocional”. Desta forma, o “abuso” fica escondido, esquecido,
até que, em um momento posterior (já na vida adulta), a pessoa
submetida à terapia e estimulada a recordar de sua infância recobre a
memória de ter sido “abusada” por familiares. As autoras demonstram a
preocupação com os exageros que podem surgir, no afã de encontrar um
“fato” no passado que tenha desencadeado os problemas “emocionais” no
presente.
5.3. A familiaridade e a expansão
A preocupação com o “abuso” sexual infantil e a familiarização
com esse tipo ultrapassou as fronteiras norte-americanas, globalizando-
se:
Um dos epifenômenos que são mais impressionantes no abuso infantil é seu
elemento missionário, o desejo de transportar más notícias para outras
nações (Hacking, 1999., p. 145-146).
O tipo “abuso” infantil se tornou mais um produto de exportação
norte-americano. Os ativistas que buscavam combater o “abuso”
afirmavam que ele ocorria “na maioria das culturas, em quase todas as
épocas” (Ibid., p. 146). A expansão foi articulada e teve como
instrumentos a criação da ISPCAN e a revista especializada “Child Abuse
and Neglect: the international journal”. A ISPCAN e outros organismos
O abuso se solidifica como um tipo 148
internacionais, tais como o UNICEF, aliados a governos locais,
promoveram congressos, seminários e oficinas.78 Esses eventos
começaram a ser realizados em vários países, abrangendo todos os
continentes. A coroação desse processo consistiu na fundação de
associações afiliadas à sociedade internacional e na busca de pessoas que
desejassem se filiar a elas. Afinal, como afirmava o presidente da ISPCAN
em 1986: “O abuso de crianças é um fenômeno universal: as diferenças
são em relação à prevalência e à natureza do abuso” (FERRIER, 1986, p.
281).
A ISPCAN ampliava seus horizontes em busca de identificar e
combater o “abuso” infantil no mundo todo. Na “Primeira Conferência
Européia sobre Abuso de Criança e Negligência”, em Rhodes, ocorreu um
diálogo entre o editor-chefe da Child Abuse & Neglect e um ministro
romeno, que estava chocado com o elevado número de crianças
“abusadas” e negligenciadas nos EUA, Europa Ocidental e “outras partes
do mundo livre”:
Eu perguntei a ele se havia abuso de criança na Romênia.
"Não”, ele disse, “nós não temos”.
“Realmente?" Eu, surpreso, perguntei: por que isso?
“Na Romênia,” ele me respondeu, “nós não temos abuso de criança porque é
contra a lei”.
Suprimido um impulso para exclamar, disse, "Eu gostaria que nós
refletíssemos sobre isso”. Eu insisti: “Você não tem problemas com
prostituição? Homicídios?”
“Sim”, ele admitiu. “Nós temos alguns, mas não tanto quanto no seu país”.
“Bem, você deve ter abuso então”. Eu disse: “Em nossa experiência, quase
todas as prostitutas foram abusadas sexualmente quando crianças e quase
todos os nossos assassinos foram freqüentemente abusados fisicamente e
sexualmente também”.
78
O quadro de acontecimentos internacionais, Anexo II, permite uma melhor
visualização desses eventos.
O abuso se solidifica como um tipo 149
Ele ficou em silêncio por um momento e então disse, “todas as nossas
prostitutas e assassinos são ciganos. Nenhum deles é romeno”.
Talvez agora que aquele muro veio abaixo, possamos aprender mais
mutuamente. E gostaria de saber se a declaração do ministro romeno foi
verdadeira, ou se seu dogma impede sua visão. Nós daremos alta prioridade
para as cartas, comunicações breves e papers vindos de nossos colegas da
Europa Oriental, esperando encontrá-los no IX Congresso em 1992, ou em
Denver a qualquer momento (KRUGMAN, 1990, p. 299).
Nesse diálogo é possível vermos, de um lado o ministro tentando
mostrar que em seu país, se há “abuso”, está localizado em um grupo
errante, sequer considerado romeno. Por outro lado, o editor defendendo
a concepção de que o “abuso” infantil tem ocorrência mundial. Krugman
aponta ainda que o “abuso” infantil também se localiza em segmentos da
população bem definidos (prostitutas e assassinos, por exemplo).
Até mesmo pelo título do artigo de Krugman “Returning to
Europe: expanding horizons”, os objetivos da ISPCAN são os de identificar
e tratar do “abuso” em cada canto do mundo. Por isso importa criar
estratégias para cada país. Um exemplo disso é a inovação proposta pelo
“grupo latino-americano” no Congresso do Rio de Janeiro (1988) e
aprovada pelo Conselho Executivo da ISPCAN durante a I Conferência
Caribenha sobre Abuso e Negligência, realizada em Trinidad (outubro de
1989): a constituição de grupos de estudos formados por profissionais
selecionados com habilidades em liderar e trabalhar em rede. Conforme
Kim Oates, presidente da ISPCAN na época, com o aumento de peritos na
área, os esforços na identificação e tratamento do “abuso” infantil e
problemas familiares seriam ampliados, bem como se daria maior difusão
a esses “problemas sociais” (OATES, 1990).
Logo surgem dificuldades para identificar as práticas classificadas
como “abuso” sexual infantil e criam-se técnicas para isso. Uma delas foi
difundida na Inglaterra há cerca de 30 anos, denominada de dilatação
anal que consiste em observar se há alguma anormalidade no ânus,
O abuso se solidifica como um tipo 150
separando as faces das nádegas. Esse exame se tornou uma prática
forense habitual depois transferida por alguns pediatras para clínica
médica desenvolvida em hospitais (Ibid., p. 148). O resultado foi um
crescente número de casos reconhecidos como “abuso sexual”, e
inúmeras crianças separadas de suas famílias sem qualquer explicação.
Ao contrário do acolhimento e implemento de mais investigação e punição
do “abuso” sexual infantil, como nos EUA, na Inglaterra houve reação
pública contrária, mesmo com alguns políticos ainda se manifestando a
favor dos pediatras e citando dados estatísticos (oriundos de trabalhos
norte-americanos) que mostravam a alta incidência de “abuso” sexual
infantil (Ibid., p. 149).
Permaneciam as dificuldades para comprovar o “abuso” infantil
aliada à concepção (em voga desde 1962, quando dos estudos sobre
maus-tratos) de que era necessário separar a criança de sua família. Esse
preceito era sustentado por duas teorias: a) "... uma teoria terapêutica
segundo a qual é essencial que a criança assuma, expressando-se, o
abuso e suas próprias reações emocionais” (Ibid., p. 151); b) "... a
confissão somente ocorre quando a criança é capaz de ficar longe do
abusador por um certo tempo” (Ibid.).
Não é simples classificar pessoas e situações sob a justificativa
de que os métodos de diagnóstico são objetivos e a partir deles podemos
tomar decisões “diretas e simples” (Ibid.). Mas, por outro lado, a potente
metáfora implicada no “abuso” infantil não permite tantas hesitações na
identificação do “abuso”:
"Abuso infantil" é uma potente metáfora porque tem a propriedade de
instantaneamente ocultar seu uso como metáfora. Uma vez que algo é
rotulado como abuso infantil, você não supõe dizer: espera um minuto, isso é
estender demais as coisas. O que suporta o rótulo depende menos de seus
méritos intrínsecos que da rede de partes interessadas que desejem colar
esses rótulos (HACKING, 1999, p. 152).
O abuso se solidifica como um tipo 151
A rede que se formou em torno do “abuso” sexual iniciou nos
EUA e expandiu-se por todo o mundo. Que interesses teriam levado a
substituir a palavra “incesto”, que também se referia a relações sexuais
entre adultos e crianças como proibitivas, pela palavra “abuso” que
expande, enfaticamente, a proibição de relações sexuais ou jogos sexuais
para qualquer relação de parentesco, maus -tratos e “pressão psicológica”
exercida sob a criança?
Parece que a proibição imposta pelo “abuso” tem as mesmas
motivações da proibição imposta pelo “incesto”: motivações de cunho
religioso, moral, político e econômico, que visam impedi r a reprodução
consangüínea ou reprodução baseada na propinq?idade do parentesco,
para impedir o fim da organização familiar.79 Em outras palavras, a
proibição do incesto/abuso auxilia a organização social que temos
atualmente, ou seja, as sanções que cercaram o incesto e que também
cercam o “abuso” se desenvolveram como práticas para manter uma
estrutura social.
O “abuso” é relacionado muito fortemente com uma doença e
com violência. A matriz do “abuso” lhe dá essas feições. Essa matriz
compreende pelo menos três institucionalizações (instituir-ações) ou
“dispositivos” fundamentais:
1) a crença na singularidade do ser humano ou, em outras
palavras, a invenção do "Eu" (self), dando-lhe a qualidade de "pessoa"
(pessoalidade) e uma subjetividade.80 Isso proporciona a
institucionalização de regimes de conduta e propriedades intrínsecas ao
ser humano que vão agenciando corpos, vocabulários, julgamentos,
técnicas, práticas diversas (ROSE, 1996, p. 26). Constituem “tecnologias
79
Bronislaw MALINOWISK (2000) defendia que a objeção ao incesto surgiu por ser um
elemento de ruptura da família.
80
Com a construção do eu (self) foram instituídos valores como autonomia, identidade,
individualidade, liberdade e escolha (ROSE, 1996).
O abuso se solidifica como um tipo 152
de si” (FOUCAULT, 1985a), que, ao serem analisadas, indicam um ser
humano construído historicamente e, “(...) ao mesmo tempo, que a
subjetividade não é nem um dado nem tão pouco o ponto de partida, mas
algo da ordem da produção” (BIRMAN, 2000, p. 80). Precisamos, então,
produzir um corpus mais próximo possível do que é considerado como ser
humano construindo as possibilidades concretas para isso.
2) atribuir a esse “eu” direitos. Todos os direitos são para
"aperfeiçoar" os humanos, até mesmo os “direitos” dos não-humanos (das
plantas, ani mais, enfim, da natureza e do universo como um todo) têm a
finalidade de permitir que futuras gerações humanas sobrevivam, que
tenham o direito de viver. Trata-se de direitos cuja concepção subjacente
— desde a "Declaração da Virgínia”, em 12 de junho de 1776, e a
“Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” da Assembléia Nacional
francesa, em 1789, até a "Declaração Universal dos Direitos do Homem",
aprovada pela Assembléia Geral da ONU, em 1948 — é individualista.81
Está em pauta a tradição humanista que constrói um “eu” (self) como
entidade naturalmente autônoma, com consciência, com valores básicos
que se constituem em direitos sagrados válidos para todos, em qualquer
tempo e em qualquer lugar. 82
3) a teoria que há um período do desenvolvimento humano — a
infância — onde o “eu” é muito frágil, precisa de maior proteção, de
direitos especiais e de especialistas e organizações que lhe dêem os
cuidados e a atenção devida e ainda que o proteja de outros humanos que
queiram lhe causar algum dano. Essa concepção chega ao seu ápice com
a "Convenção Relativa aos Direitos da Criança", realizada em Nova York,
81
Neste sentido são importantes as reflexões de Marx realizadas no texto “A questão
judaica”, criticando a concepção individualista que estava embutida nas declarações de
direitos norte-americana e francesa, como observa Dorneles (1989, p. 25).
82
Podemos considerar estas características como expressões da “lei da totalização social”
(SCHURMANN, Apud. MAY, 1996, p. 185). O sentido aqui é o de tornar a pulsante massa
disforme em uma espécie unificada pela consciência; dar objetividade ao conceito de
social, assim formado por vários “eu”, com os mesmos direitos e deveres.
O abuso se solidifica como um tipo 153
em 26 de janeiro de 1990, que já previa, no artigo 19, proteção contra
maus-tratos físicos e mentais, incluindo a criação de programas sociais:
1. Os Estados integrantes tomam todas as medidas legislativas, administrativas,
sociais e educativas adequadas para proteger a criança contra todas as
formas de violência, de ataque ou de brutalidades físicas ou mentais, de
abandono ou de negligência, de maus-tratos ou de exploração, inclusive a
violência sexual, enquanto estiver sob a guarda de seus pais ou de um deles,
de seu ou seus representantes legais ou de qualquer outra pessoa a quem
estiver confiada.
2. Essas medidas de proteção abrangerão, (...), procedimentos eficazes para
estabelecimento de programas sociais que visam fornecer o apoio necessário
à criança e àqueles a quem ela foi confiada, assim como a outras formas de
prevenção, e para a identificação, comunicação, investigação, tratamento e
acompanhamento dos casos de maus-tratos da criança mencionados acima, e
abrangendo também, (...), o procedimento de intervenção judiciária (In:
BRANDÃO, 2001, p. 182-183).
A emergência e a expansão do “abuso” infantil como um tipo
foram historicamente constituídas (como um modo de existência), em
função dessa matriz, expressa especialmente nos três itens anteriores. As
relações sexuais entre um adulto e uma criança deixaram de ser um
problema de consangüinidade ou propinqüidade de parentesco para ser
um problema de “direitos humanos”. E mais ainda, com uma
peculiaridade em relação aos outros problemas de direitos humanos: sua
ocorrência acarreta problemas de saúde “física” e “mental” e é um
“retrato” da violência que se expande pelo mundo.
5.4. Estratégias de visibilidade
Inicialmente o “abuso” foi associado a maus-tratos e depois
relacionado também a males psíquicos. Como isso foi feito? Dando-lhe
visibilidade através de textos e eventos acadêmicos, matérias
jornalísticas, levantamentos estatísticos, material fotográfico, vídeo-tape,
O abuso se solidifica como um tipo 154
tecnologias de exame clínico, testes etc. — todas estratégias para
documentar e “preservar evidencias do abuso” (CAROLE, 1997, p. 285).
A utilização de textos acadêmicos como estratégia para dar
visibilidade à prática sexual realizada entre uma adulto e criança está
presente há muito tempo, antes mesmo do texto de Kempe e sua equipe.
Já a tradicional medicina forense na França tinha documentado dezenas
de casos hoje catalogados como “abuso sexual infantil e estupro”
(OLAFSON, et al., 1993, p. 09-10). Também, como exemplo, Olafson e
colegas citam um artigo publicado em um periódico francês sobre saúde
pública, em 1856, por Toulmouche. Outros trabalhos também feitos por
médicos (Tardieu, Bernard, Lacassagne) argumentavam que os atos
sexuais praticados contra crianças eram muito freqüentes, que os relatos
de crianças eram geralmente verdadeiros, que pais e irmãos eram
freqüentemente os molestadores e que nem mesmo o nível educacional
alto impedia homens de cometerem tais atos (Ibid.).
Vários estudos e pesquisas produzidos na metade do século XX
davam visibilidade ao “abuso”, continuando pesquisas de grande porte
desenvolvidas anteriormente, como a realizada em 1953 por Kinsey e
equipe. Relatam:
É difícil compreender por que uma criança, exceto por suas condições
culturais, poderia estar perturbada por ter sido tocada em sua genitália, ou
estar perturbada por ter visto a genitália de outras pessoas, ou perturbada
até mesmo com contatos sexuais mais específicos... Algum dos mais
experimentados estudiosos de problemas juvenis têm acreditado que as
reações emocionais dos pais, oficiais de polícia e outros adultos que
descobrem que a criança tem tais contatos, podem perturbar a criança mais
seriamente que os contatos sexuais... (KINSEY, 1953; Apud., OLAFSON et al.,
1993, p. 15).
Críticas recentes acusam Kinsey e equipe de “minimizar” os
resultados estatísticos obtidos. Na época, Kinsey não classificou como
“abuso” os relatos de adultos sobre os contatos sexuais que tiveram na
O abuso se solidifica como um tipo 155
infância. Antes de acusá-lo de “menosprezar”, “minimizar” seus “dados”,
ou de “expressar pouca simpatia por crianças vítimas de “abuso”, como o
fazem Olafson e colegas (1993, p. 15), é importante dizer que o “abuso”
não estava ainda sedimentado como um tipo na década de 50, quando a
pesquisa foi realizada.83 Não é que Kinsey tenha desprezado as
entrevistas que relatavam algum contato sexual de adultos na infância,
apenas as interpretou de outra maneira. Além do mais, a revelação de
relações sexuais extra e pré-maritais na pesquisa de Kinsey causaram
maior sensação na imprensa da época que as revelações de incesto e
“abuso” sexual, quase completamente ignoradas (CREWDSON, 1998.
Apud. OLAFSON et al., Ibid.).
Como vimos, o “abuso” começou a ser construído como um tipo
a partir de 1960 e só a partir de 1970, com o movimento feminista,84 é
que passou a incluir a prática sexual.
Kerns (1998), médico pediatra, realizou um levantamento sobre
publicações da área médica desde 1970 que abordassem o “abuso” sexual
infantil.85 A partir da metade dos anos 70, surgiram várias publicações
abordando o “abuso” sexual infantil em um contexto médico: estudos
epidemiológicos (freqüência, modo de distribuição, especialmente) e
alerta a pediatras. Tratava-se ainda de dar maior visibilidade e
caracterizar essa prática sexual como um problema. Na década de 80
foram publicadas numerosas revisões de aspectos médicos do “abuso”
sexual infantil, que já começavam a incluir técnicas de exame que
abrangiam atlas fotográfico da anatomia genital de crianças que haviam
83
Há mais autores como Olafson que, com a perspectiva de buscar no passado
acontecimentos construídos mais recentemente, consideram o “abuso” infantil um
“fenômeno social há séculos” (BELSEY, 1993; LYNCH, 1985). Até mesmo a história
bíblica de Lot serve de exemplo para demonstrar o quanto o “abuso” sexual é antigo
(Ver: CAROLE, 1997).
84
Vide p. 136-137.
85
As reflexões que se seguem foram realizadas a partir das análises de Kerns (1998) e
do exame dos títulos das publicações listadas por ele (178 ao todo).
O abuso se solidifica como um tipo 156
sido “abusadas” e em estado “normal” e também, conduta a ser seguida
pelo médico no exame de crianças que sofreram “abuso”. Vários estudos
“... providenciaram o conhecimento básico da anatomia normal da
genitália e do ânus de crianças. (...) pediatras descreviam acuradamente
os efeitos físicos do abuso em crianças” (CAROLE, 1997, p. 285).
Contudo, também já havia quem apontasse dificuldades na
identificação do “abuso” pelo exame médico:
... A cada estágio do desenvolvimento do conhecimento deste novo campo de
prática e estudo, os conflitos entre as partes envolvidas nestes casos, as
polaridades do sistema legal e a cobertura da mídia, têm servido para ampliar
a discórdia (KERNS, 1998, p. 454).
Até por essas dificuldades, o número de estudos descritivos que
se dedicavam a aspectos técnicos de exame médico para identificar o
“abuso” continuaram sendo realizados por toda a década de 80 até a
metade da década de 90. Nesse período, a temática das publicações86
abordando o exame médico era bem variada: estudos sobre a
colposcopia,87 especialmente para exame forense; exame clínico para
identificar mudanças na anatomia do hímen; teste sorológico para
identificar doenças sexualmente transmissíveis; a descrição das melhores
posições para o exame ginecológico de crianças abusadas; estudos
indicando o aspecto da anatomia anogenital “normal” com o intuito de
esclarecer e identificar casos de “abuso”.
No entanto, nos vinte anos que se seguiram ao artigo de Kempe,
a maior mudança que ocorreu no exame visando validar os relatos de
criança e parentes sobre o “abuso sexual” foi a colposcopia. Este
instrumento foi muito importante:
86
A listagem da temática baseou-se nos estudos publicados por Bays & Chadwick (1993)
Beichman (1993), Caro le (1997), Heger (1996), Kerns, (1999) e Kolko et al. (1999).
87
Colposcopia constitui-se no exame da vagina e do colo do útero através de um
colposcópio: um aparelho de uma lente binocular fixada sobre um espéculo (Houaiss et
al., 2001, p. 764).
O abuso se solidifica como um tipo 157
No campo 8 8 do abuso sexual infantil, nós podemos comparar o
desenvolvimento do colposcópio ao desenvolvimento do microscópio ou
estetoscópio em outros campos (CAROLE, 1997, p. 285).
O maior benefício do exame com colposcópio não é tão óbvio, mas o benefício
mais importante para as crianças foi a aceitação do colposcópio como uma
ferramenta de diagnóstico válido e a fotografia como um substituto da
repetição dos exames. O uso da fotografia no lugar da repetição de exames
foi validado pelo sistema legal e resistiu ao escrutínio da Corte de Apelação
(...). Em 1990, os benefícios do colposcópio foram mais aceitos e foram
usados para compreender melhor o diagnóstico médico de abuso sexual, para
fornecer revisão a colegas, alcançar consenso, e proteger a criança (HEGER,
1996, p. 894-895).
Ainda na década de 90, supervalorização do exame colposcópico
começou a ser questionada. As pesquisas relacionadas à anatomia
anogenital indicavam que algumas variações associadas a situações de
“abuso” sexual poderiam não ser corretas. Não se propunha o abandono
dos exames anatômicos, contudo vozes alertavam: “... as descobertas
médicas assumiram grande importância e a história das crianças foi
freqüentemente esquecida” (HEGER, 1996, p. 895).
Também na década de 90 foi criada nos EUA uma organização
que buscava articular uma agenda médica de pesquisa sobre o “abuso”
infantil: a CRESAC (Collaboration for Research on the Sexual Abuse of
Children). Financiados pelo Center for the Future of Children of the David
and Lucile Packard Foundation (Los Altos, California), pela Intermountain
Health Foundation/Primary Children’s Medical Center Foundation (Salt
Lake City, Utah) e pela Valley Medical Center Foundation (San Jose,
California), organizaram em maio de 1997, em Solitude (Utah), a
Conferência: “Establishing a Medical Research Agenda for Child Sexual
Abuse”. A lista de prioridades ou recomendações inspirada em artigos
88
Observe-se que se trata de artigo recente e que define o abuso sexual infantil como
um campo médico de atuação.
O abuso se solidifica como um tipo 158
encontrados na revista “Child Abuse & Neglect: the international journal”,
incluiu: epidemiologia, técnicas de conduta e exame médico,
conseqüências médicas do “abuso”, manifestações comportamentais
provenientes do “abuso”, triagem, local para exame médico, anatomia
anogenital, tratamento de traumas anogenitais, doenças sexualmente
transmissíveis e o impacto das descobertas e do conhecimento médico nas
organizações forenses (KERNS, 1998).
Também se pode concluir que a partir da metade da década de
80 e por toda a década de 90, houve uma grande preocupação em relatar
que as situações de “abuso” ocorriam em todos os cantos do mundo.
Expandiram-se reuniões, conferências, congressos em todos os
continentes. A International Society for Prevention of Child Abuse and
Neglect dirigiu pesquisa descrevendo situações de “abuso” infantil em 30
continentes (NATIONAL COMMITTEE FOR PREVENTION OF CHILD ABUSE,
1992). A Organização Mundial de Saúde, em 1992, padronizou um
questionário para avaliar situações suspeitas de “abuso” infantil e
negligência:
Table 2 Tableau 2
The Montreal Children’s Hospital Accident-SCAN Enquête sur les accidents à l´hôpital des enfants de
Montréal
Has the patient: Est-ce que le patient/la patiente:
Reported that she/he has been physically ill-treated? a signalé qu´il/elle avait été victime de sérvices?
Shown evidence of neglect? présentait des signes d´une absence de soins?
Shown evidence of repeated injury? présentait des signes de traumatismes répétés?
Has the parent/caretaker: Est-ce que le parent/l´accompagnateur;
Reported that the child has been abused or neglect? a signalé que l´enfant était victime de mauvais
traitements ou d´une absence de soins?
Delayed unduly in seeking medical attention for a trop attendu avant de demander des soins
treatment? médicaux?
Shown detachment or hostility? s´est montré indifférent ou hostile?
Presented contradictory history and/or unsatisfactory a présenté une anamnèse cnatradictoire et/ou des
explanation of the injury? explications peu satisfaisantes pour le
Been reluctant to give information or refused consent traumatisme?
for a été réticent au cours de l´interrogatoire ou a
further studies? refusé de
donner son accord pour des examens plus
Is there any other reason to suspect that this incident approfondis?
was
non-accidental? A-t-on d´autre raisons de soupçonner que cet incident
Was a skeletal survey required? ait
pu ne pas être accidentel?
A-t-il fallu procéder à une radiographie du squelette?
O abuso se solidifica como um tipo 159
Source: Ref. (6)
Fonte: BELSEY, 1993, p. 70.
Mas as dificuldades em realizar a mensuração da incidência do
“abuso” sexual infantil permanecem até hoje: “... O abuso sexual é
definido com base em relatos de criança ou vítimas adultos e geralmente
não é confirmado pelo exame físico” (BELSEY, 1993, p. 72). Por outro
.lado, as estimativas da prevalência ou incidência do “abuso” sexual
infantil mostram números díspares, já que algumas incluem pesquisas
com população adulta (que se lembra de ter sofrido “abuso” na infância).
Portanto, os “dados” variam enormemente de acordo com a metodologia
usada, a maneira de formular as questões da entrevista e, também, a
definição operacional do que seja “abuso” sexual (Ibid.).
5.5. A prevalência da área médica
De todo modo, ao final da década de 90, ainda se percebe nos
EUA a predominância da área médica em torno do “abuso” sexual infantil:
há uma grande preocupação em treinar profissionais (médicos, profissionais
forenses, trabalhadores sociais) em relação aos aspectos médicos do
“abuso” sexual infantil, tais como identificar traumas físicos, identificar
sintomas físicos, doenças sexualmente transmissíveis, exames que
utilizam a imagem digital etc. Não se trata mais de dar visibilidade ao
“abuso” ou de demonstrar que ele existe, mas sim de buscar os melhores
métodos para investigar e identificá-lo com precisão.
A prevalência da área médica em relação ao “abuso” é tal que a
Academy of Pediatrics tem um Committee on Child Abuse que oferece
cursos para que pediatras possam identificar e tratar “abuso” físico e
sexual (CAROLE, 1997, p. 285). A pediatra Jenny Carole (1997, p. 285)
defendeu, em artigo publicado no Pediatric Annals, a inserção nos
O abuso se solidifica como um tipo 160
currículos das escolas médicas e nos programas de residência pediátrica
de programas educacionais que discutam a violência familiar e que
treinem “líderes no campo do abuso infantil”.
Costin et al. (1996) se referiram ao período após o artigo de
Kempe e colegas em 1962, em que o “abuso” infantil começou a tomar a
linha de frente dos problemas sociais norte-americanos, como “paradigma
médico”. Não me parece que esse paradigma tenha sido superado
nesses 40 anos de ciclo de construção e interesse pela temática (nos
EUA). Então esse ciclo compreende, basicamente, três fases que,
obviamente, não são estanques:
1) As décadas de 60 e 70 foram centradas no “abuso” físico, em atender
crianças que eram espancadas. Dentre as medidas principais de
intervenção estava a remoção da criança de sua casa. As discussões,
em geral, estavam mais voltadas aos cuidados da criação infantil
(KRUGMAN, 1999; COSTIN et al., 1996). As políticas sociais
governamentais ainda não se dedicavam intensamente ao “abuso”
(seja de que maneira fosse categorizado), uma vez que o foco era o
“welfare system” (saúde, habitação, emprego) (Ibid.).
2) As décadas de 80 e 90 foram caracterizadas por um aumento no
“reconhecimento”, na familiarização do “abuso” sexual e “reação”
fomentada em vários segmentos da sociedade. Incremento de
programas governamentais e implantação de serviços especializados
(Ibid.). A mídia nacional e local encontrou nas situações de violência
familiar possibilidade de publicar notícias vendáveis (KRUGMAN, 1999,
p. 965; LEVEY, 1999). Também se multiplicaram os profissionais que se
dedicam a atuar no que passou a se constituir como um campo de
trabalho. Esse crescimento foi tamanho que há uma reivindicação
das organizações nacionais que representam esses profissionais
(médicos, trabalhadores sociais, advogados, promotores e outros
O abuso se solidifica como um tipo 161
profissionais como os policiais), para que efetivamente
homogeneízem ações que “reduzam significativamente” o “abuso”
(KRUGMAN, 1999, p. 965).
3) Atualmente, a palavra de ordem é prevenção e tratamento. A
metáfora do “abuso” é tão forte que no país dos direitos individuais e
da inviolabilidade da vida privada, cresce a discussão sobre
prevenção: "vigilância” preventiva das famílias por assistentes sociais,
psicólogos, educadores, por exemplo. Além disso, a prevenção é
geralmente associada a medidas jurídicas punitivas, ou com a
ampliação da exposição na mídia do “problema” para a sociedade
como um todo.
Garbarino (1996) compara a prevenção do “abuso” infantil com a
proibição do uso de cigarros em aeronaves. Foi uma proibição gradativa e
completa que requereu um “ataque coordenado” a determinados valores e
crenças e a assunção de que pessoas possuem direitos; também estudos
demonstrando os malefícios do cigarro para a saúde; campanhas
“persistentes e inflexíveis”; advogados preparados nos “salões” de
governos locais, estaduais e nacionais (GARBARINO, 1996., p. 157).
Como o “abuso” é por alguns considerado como fruto de uma
“deterioração social generalizada” (Ibid., p. 158), são necessárias ações
em vários campos. Dentre elas, a que também desperta a atenção é a
sugestão de intervir na “língua” (Ibid., p. 158-159), por se tratar de algo
com o “poder de interferir na consciência das pessoas empurrando-as na
direção que queremos” (Ibid.):
Eu penso que um dos caminhos para prevenir o abuso infantil é insistir contra
o uso de termos que descrevem a punição física como se não fosse algo além
disso. Nós já fizemos progresso na reforma de dicionários em relação a
expressões sobre violência (GARBARINO, 1996., p. 157).
Sobre este aspecto, Garbarino se refere ao termo “assault”, para
que não seja relacionado simplesmente à punição ou disciplina. Assim
O abuso se solidifica como um tipo 162
sendo, muitas “pessoas desorientadas” podem utilizar confortavelmente a
expressão “uma boa surra” e, por conseguinte, também a expressão: “I
favor assaulting children — for their own good, of course” (Ibid., p. 159).
Portanto, a definição das palavras utilizadas para expressar violência
contra crianças ou para expressar o que não deve ser feito com elas
precisa ser realizada com o objetivo de não acolher algo nocivo como um
“comportamento normal”. Em outras palavras: é preciso “minar” “assault
physical” como normal para prevenir o abuso infantil (Ibid., p. 159).
Garbarino ainda afirma que o problema maior em “minar”
palavras está relacionado às palavras que definem “abuso” sexual, em
função da dificuldade em definir qual contato sexual é considerado
inapropriado (Ibid.). Não aponta soluções para isso, mas defende uma
maior flexibilidade na “privacidade” da família em relação à criação de
seus filhos, porque “toda criança é assunto social e ser pai e mãe é um
ato social” (Ibid., p. 160).
5.6. O “abuso” se consolida como um problema de saúde
Na década de 90, o “abuso” de crianças passa a ser considerado
um problema de “saúde pública” (WHO, 1999): um problema epidêmico
comparado a doenças como Aids, câncer e doenças do coração (SADLER
et al., 1999, p. 1016-1017). O adjetivo “público” atrelado à palavra
“saúde” é usado no sentido de mostrar que o “abuso” é um problema que
atinge “... simultaneamente um grande número de indivíduos” (HOUAISS
et al., 2001, p. 1177). Sob esta perspectiva, foi realizada uma pesquisa
comparativa por intermédio do National Institute of Mental Health (EUA)
que conclui: a taxa de incidência do “abuso” e negligência de crianças é
10 vezes maior que a de todas as formas de câncer, e ainda assim, as
verbas federais para tratamento e pesquisa não correspondem à
gravidade do problema (SADLER et al., 1999).
O abuso se solidifica como um tipo 163
Adler (1996) também compara o “abuso” com outras doenças
reivindicando mais recursos para pesquisas:
Ainda continuamos a investir desproporcionalmente somas de
dólares em pesquisas e clínica de problemas de adultos tais como câncer,
doenças coronárias e na epidemia do envelhecimento e demência. Talvez isto
esteja acontecendo em parte porque os responsáveis pela alocação de
recursos são inevitavelmente adultos e não necessariamente adultos que se
vêem como advogados de crianças (ADLER, 1996, p. 476).
Avaliar a incidência em relação ao “abuso” sexual infantil
permanece sendo uma preocupação, inclusive para os profissionais ligados
a ISPCAN. Em pesquisa recente (OATES, et, al. 2000), foi realizada uma
revisão de todos os prontuários de notificação de casos de “abuso”
infantil, ocorridos durante um, ano no Denver Department of Social
Services.89 Os casos foram classificados em quatro grupos: relatos
confirmados, relatos não-confirmados, relatos inconclusos ou errôneos. A
média de idade das crianças envolvidas nos casos investigados variava
entre 6,9 e 9,6 anos. Dos 551 casos que foram revistos, 43% foram
confirmados; 21% estavam inconclusos; 34% não foram considerados
como casos de “abuso” sexual. Portanto, 55% dos casos não eram
tratados como “abuso” ou não apresentavam algum problema que pudesse
estabelecer essa confirmação. Dentre os casos que foram descartados
como sendo “abuso” sexual infantil, havia os acontecimentos “inocentes”
mal interpretados como “abuso” sexual e falsas acusações. Em relação
aos relatos de crianças, os autores concluem que “as alegações errôneas
sobre abuso sexual são incomuns” (Ibid., p. 150). E aqui aparece um
aspecto interessante: por mais que as crianças estejam em uma fase do
desenvolvimento humano (infância), que, como vimos, apresenta
características como irracionalidade e o pré-logicismo, a pesquisa concluiu
que, “geralmente”, quando as crianças alegam “abuso” sexual estão
89
Observe-se que foi a partir de Denver que o movimento de denúncia, prevenção e
tratamento do “abuso” infantil se desenvolveu.
O abuso se solidifica como um tipo 164
falando a “verdade”. O “geralmente” é a única ressalva para a
possibilidade de crianças estarem fazendo acusações falsas, mesmo com o
alto índice de casos que não se tratavam como “abuso” (55%). Talvez por
estar tão arraigada a noção de que a infância se caracteriza pela
inocência, ainda é difícil falar abertamente dessas denúncias “fantasiosas”.
A partir do final da década de 90, o “abuso” sexual infantil, já -
considerado um problema de proporções mundiais, consolida-se como
problema relacionado ao campo da saúde (“física e mental”). A
Organização Mundial e Saúde (OMS), em 8 de abril de 1999, através de
um comunicado oficial, que tem como título WHO Recognizes Child Abuse
as a Major Public Health Problem, por ser um órgão de prestígio
internacional e legitimador do saber acadêmico, reforça a compreensão do
“abuso” como um problema de saúde pública e não só, mas como um
grande problema de saúde pública em todo o mundo.
Trata-se, portanto, do reconhecimento oficial daquilo que vários
profissionais, organizações de proteção à criança, mídia, estatísticas
governamentais etc. vinham procurando demonstrar: que o “abuso”
ocorre mundialmente e é um grave problema. A posição da OMS solidifica
e amplia a projeção internacional de um assunto que começou como
sendo de ordem privada e “finda” como sendo de ordem pública.90
O documento se baseia em dados estatísticos produzidos pela
própria OMS e que se referem tanto ao número de crianças vítimas de
“abuso” sexual, quanto ao custo financeiro do problema. A estratégia é
mostrar o tamanho do problema. É importante combater o “abuso” não
só pelo prejuízo financeiro que ele acarreta como também pela “variedade
de problemas emocionais e físicos” que incapacitam as crianças de terem
90
Neste sentido, a análise de Guiddens parece se confirmar em relação à instituição
familiar: “... as instituições modernas tornaram-se cada vez mais sujeitas à intervenção
social” (GUIDDENS, 1993, p. 192).
O abuso se solidifica como um tipo 165
uma vida “saudável e produtiva”. A OMS assegura a tese das inevitáveis
conseqüências do “abuso”.
E qual a solução proposta? Em primeiro lugar, intervir no espaço
privado da família e treinar os pais no cuidado de seus filhos:
Programas executados em alguns países têm mostrado que é possível reduzir
a prevalência de abuso de crianças, quando pais são providos de treinamento
em habilidades relacionadas ao cuidado de seus filhos, antes e depois do
nascimento... (WHO, 1999).
E sob que fundamento essa intervenção é justificada? Sob o
pressuposto de que as crianças têm direitos:
... Seja na área do abuso de criança, na prevenção de abuso de drogas, na
promoção de saúde mental, a OMS afirma o valor da Convenção das Nações
Unidas sobre os Direitos da Criança como um fundamento que a comunidade
internacional pode fornecer contra o abuso de crianças em todo mundo.
(Ibid.).
Este documento sintetiza bem os argumentos que venho
levantando desde o início deste trabalho: o “abuso” se solidifica como um
tipo sob uma matriz ramificada em três importantes dispositivos que são a
construção do eu (self) individualizado, a construção da infância e a
construção dos direitos da criança.
Sob um aspecto geral, a prática sexual entre membros de uma
mesma família (exceto é claro, entre pai e mãe, porque não são
originalmente da mesma família) e entre adultos e crianças perde
qualquer possibilidade de tolerância não só porque apresenta uma relação
direta com a violência, mas também porque ocasiona doenças que
repercutem durante um longo tempo. O adulto que comete o “abuso” é
um doente. Para a criança “abusada”, mesmo que se reconheça que há
crueldade no “abuso”, ou seja, mesmo que se reconheça a violência física
(em função da visibilidade de cortes, fraturas, hematomas), a ênfase recai
nas “fraturas emocionais” que afetam o seu desenvolvimento. As
O abuso se solidifica como um tipo 166
conseqüências do “abuso” são muitas, como indica o documento da OMS:
dificuldades na escola, abuso de drogas e infrações.
Também podemos ver, na definição do “abuso” como problema
de saúde pública, uma tendência mundial a retirar a ênfase na violência
física, priorizando as conseqüências emocionalmente traumáticas.91
A despeito da ênfase nas conseqüências emocionais, nunca é
demais lembrar que o movimento em torno do “abuso” sexual infantil,
internacionalmente, é de ordem médica. A sua emergência sob as mãos
da medicina é compreensível, porque o movimento começou como um
combate à “crueldade” física imposta às crianças. E depois, a
identificação do “abuso sexual” começa pelo exame físico (clínico).
Esta participação da área médica no movimento internacional de
combate ao “abuso” está diretamente relacionada à construção de várias
formas de “abuso”. Explicando melhor, o “abuso” emerge nos EUA sob a
liderança de médicos, porque começou como um combate à violência
física, portanto requerendo tratamento médico para suas conseqüências
(ferimentos, fraturas etc.). Aos poucos, essas conseqüências se
ampliaram e foram incluídos fatores emocionais. No entanto, os médicos
não cederam essa liderança para profissionais da área “psi”, incluíram em
seus estudos os aspectos emocionais; e ainda, às organizações e serviços
dedicados ao atendimento de vítimas de “abuso” foram incorporadas
várias áreas profissionais (psicólogos, assistentes sociais).
Ao contrário dos EUA e da Inglaterra, no Brasil, a liderança do
movimento foi e continua sendo de psicólogos, assistentes sociais e
advogados (profissionais das chamadas Ciências Humanas), pois parece
que têm maior tradição no envolvimento de “problemas sociais”.92
91
Note-se que essa conclusão é oposta ao que foi encontrado na pesquisa feita em
dicionários com a palavra “abuso”, em que a ênfase era na violência.
92
No próximo capítulo, as características da emergência do “abuso” no Brasil serão mais
detalhadas.
O abuso se solidifica como um tipo 167
5.7. Mantendo a família higienizada
Concluo este capítulo com uma reflexão sobre os fatores
considerados como desencadeantes do “abuso”. As palavras de Richard
Krugman, presidente da ISPCAN, durante o “10th International Congress
on Child Abuse and Neglect”, em 1994, na Malásia, caracterizam e
resumem o principal fator desencadeante do “abuso”, negligência e
exploração de crianças e as estratégias de prevenção:
..., se existe uma estratégia futura para prevenção do abuso infantil, isso
demandará (...): profissionais e outras pessoas competentes que
reconheçam as limitações de seus conhecimentos trabalhando em equipes
multidisciplinares; clara direção política de líderes informados que irão evitar
soluções provisórias de problemas (“quick-fixes”); uma imprensa investigativa
e educativa que evite a abordagem superficial e eduque o público para a
complexidade do problema; e programas que sejam baseados em pesquisas
idôneas e tenham componentes de progressiva avaliação.
(...) Seja em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, o abuso, a
negligência e a exploração de crianças é de longe o melhor indicador da
deterioração das famílias. Assim, qualquer estratégia para prevenir maus-
tratos deveria estar centrada na criança — respeitando seus direitos
individuas — e focada na família, reconhecendo que as crianças crescem
melhor em famílias que são capazes de amar e cuidar delas de uma maneira
que lhes permita crescer com todo seu potencial. Essas famílias necessitam
de uma sociedade que lhes dê auxílio e cuidado e que lhes forneça políticas,
programas e recursos que suportarão os seus esforços para crescerem e
também desenvolverem o seu potencial.
Nada disso será fácil. Mas considerando que somente há 33 anos o
espancamento de crianças despertou a nossa atenção, nós temos feito
extraordinário progresso. (...) a maioria das mudanças feitas em grande
parte de nossas sociedades tem sido para melhor. Isto não tem sido sem
complicações e desafios, mas isto também nos trouxe muitas oportunidades.
As mudanças políticas na última década no leste europeu, (...), na Ásia e na
África do Sul, mostram- me serem as precursoras em todo o mundo do desejo
de paz.
O abuso se solidifica como um tipo 168
A última fronteira para paz é a família. Nós podemos alcançar isto em breve.
(KRUGMAN, 1995, p. 278-279).
Assim, o discurso se centra no governo das famílias. E para
tanto se devem respeitar os direitos da criança e também preservar a
família de percalços para que ambos desenvolvam seu potencial. O
estigma de que a família não pode ser desestruturada permanece atuante,
reforçando a noção de que ela é o “... único modelo possível de
socialização, ao mesmo tempo de todas as insatisfações” (DONZELOT,
1986, p. 206).
As discussões sobre o “abuso” têm estimulado uma cultura de
adultos: que “... vê[em] seus filhos como continuadores da vida familiar
presente, num ponto ascendente onde estiverem na estrutura social”
(PASSETTI, 1999, p. 84). Por exemplo, a literatura epidemiológica sobre
“abuso” sexual infantil, como se percebe no trabalho de Finkelhor (1993),
indica como sua principal “descoberta” que não existem características
familiares e demográficas que podem ser utilizadas para excluir a
possibilidade de que uma criança tenha sido sexualmente “abusada”.
Mesmo assim, geralmente são listadas algumas características como de
maior risco: meninas mais que meninos, pré-adolescentes e jovens
adolescentes, ter um padrasto, viver sem um parente biológico, ter uma
mãe fraca, ser submetido à falta de afeto e atenção por parte de seus pais
e ser testemunha de conflitos familiares. Em resumo, são características
associadas à estrutura de famílias como um todo e dos pais,
especificamente.
O “abuso” infantil envolve debates difíceis e inquietantes. Ao
mesmo tempo em que se deve exercer a crítica em relação à perpetuação
incólume da estrutura familiar e às intervenções preconceituosas da
filantropia governamental e não-governamental, também não podemos
simplesmente ignorar violências cometidas por famílias e pelo Estado
contra crianças. Assim sendo, não basta, diante das situações de
O abuso se solidifica como um tipo 169
violência, retirar do baú (da felicidade utópica) as explicações de praxe,
como por exemplo, a pobreza e desagregação da família. O resultado
disso é a continuidade da construção de leis e normas que aliviam a
“consciência” dos “nossos governantes” e de seus especialíssimos
assessores (psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, pedagogos, juízes,
advogados, policiais, pesquisadores acadêmicos etc.) e também, as
sempre lembradas argumentações jurídicas em torno de uma melhor
caracterização das infrações e ampliação das penas correspondentes.
As discussões acabam sendo direcionadas pelos “homens bons e
justos” (lembrando Nietzsche), “especialistas” na higienização da moral e
dos costumes. Aí esquecemos que podemos combater a violência sofrida
por qualquer criatura sem render às instituições oferendas em ritos que
visam, em última instância, atribuir-lhes a sagrada imutabilidade.
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VI. O movimento no Brasil:
do abusado ao “abusado”
Com a proliferação dos serviços de atendimento médico,
psicológico e social às vítimas de abuso sexual, o problema, que
hoje é tratado como questão de Justiça e de saúde pública, conta
com ferramentas de amparo e de solução.
(...)
Para quebrar esse ciclo de violência os especialistas apostam na
prevenção e no tratamento familiar. A prevenção é feita por meio
da educação, do debate e da divulgação dos serviços de
atendimento que têm os profissionais e as ferramentas necessários
à recuperação da vítima.
(Folha de S. Paulo, 4/3/2002, p. 04 e p. 05, c. Folha Teen)
O movimento no Brasil 171
O tipo “abuso” toma visibilidade no Brasil sob forte influência
norte-americana e sob a mesma matriz (p. 151-153), mas com
peculiaridades em relação aos profissionais que lideram as discussões e
mesmo em relação a algumas intervenções da Justiça.
Refletir sobre algumas dessas peculiaridades e esboçar a
emergência do “abuso” como um tipo no Brasil são os objetivos deste
capítulo. Ressalte-se que há imensas dificuldades para realizar essas
tarefas, tendo em vista a vastidão desse país aliada à rudimentar
organização de bancos de dados específicos ao tema,93 especialmente em
relação a documentos governamentais (legislação).
A peculiaridade começa com os sentidos da palavra “abusado”.
A palavra remonta ao século XIX, 1816 (HOUAISS, et al., 2001, p. 33).
Nas regiões Norte e Nordeste, “abusado” ainda é uma palavra bastante
empregada para se referir a alguém que “passa dos limites”, sendo
“atrevido”, “malcriado”, “intrometido”, “confiado” ou “saliente”. A
expressão “deixa de ser abusado!”, por exemplo, identifica bem o sentido
que aponto. Nem mesmo os dicionários Aurélio e Houaiss se referem a
“abusado” significando alguém que tenha sofrido maus -tratos ou sido
submetido a práticas sexuais consideradas violentas.
O uso da palavra “abusado” para se referir a alguém que sofreu
algum tipo de violência sexual quase se limita a alguns textos acadêmicos
e matérias jornalísticas. Ainda assim, o emprego da palavra “abusado”
93
Exceção se faça a três iniciativas importantes: ao Laboratório de Estudos da Criança
(USP); à Coordenação de Estudos e Pesquisas sobre a Infância (Universidade Santa
Úrsula); à Rede de Informações sobre Violência, Exploração e Abuso Sexual de Crianças
e Adolescentes - RECRIA, vinculada à Secretaria dos Direitos Humanos do Ministério da
Justiça.
O movimento no Brasil 172
não é tão freqüente. A preferência é por uma frase mais operativa:
“crianças vítimas de abuso”. Também é comum, especialmente nos
escritos de Azevedo & Guerra, encontrarmos o termo “crianças
vitimizadas”, referindo-se à violência doméstica em geral, incluindo maus-
tratos, assédio sexual, estupro.94 É também comum, no meio acadêmico,
falar de “família abusiva” como em Azevedo & Guerra (1989; 1994).
Em relação aos profissionais que tomaram a frente do processo
de dar visibilidade ao “abuso”, no Brasil acontece o inverso dos EUA: não
foram os médicos que quase exclusivamente tomaram a dianteira das
pesquisas e discussões sobre o “abuso”, mas profissionais de outras
áreas: advogados, assistentes sociais, psicólogos e juízes. Parece que,
tanto nos EUA como no Brasil, o emprego da palavra “abuso” selou a
construção de um tipo que permitiu a inserção de vários profissionais na
discussão. Ressalte-se, porém, que, como nos EUA, antes do “abuso” se
solidificar como tipo, ainda com preocupações relacionadas à crueldade
contra crianças, também no Brasil os pioneiros foram os médicos, como
veremos a seguir.
6.1. Dando visibilidade ao “abuso”
6.1.1. Pesquisas e publicações
Como nos EUA, a desfamiliarização concernente a agressões
cometidas contra crianças no Brasil se iniciou com casos de espancamento
e por profissionais da área médica. São publicados trabalhos acadêmicos
relacionados a casos de crianças submetidas a espancamento ou castigo
físico precedendo estudos sobre “abuso”.
Vários autores citam que a primeira publicação no Brasil que
94
Há uma ampla discussão sobre o uso do termo “vitimizado” em Azevedo & Guerra
(1988; 1989), que será retomada mais à frente.
O movimento no Brasil 173
analisa mais detidamente um caso de espancamento data de 1973, sendo
de professores da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São
Paulo (FURLOTTI, 1999, p. 07; GUERRA, 1985, p. 41; COATES et al.,
1973, p. 265). Tratra-se de um caso de espancamento de uma criança de
aproximadamente um ano e três meses.
Furlotti afirma que há trabalhos publicados anteriormente sobre
o tema, mas com apenas “... certo vislumbre de preocupação quanto ao
fenômeno” (Ibid.). Esta autora e os demais citados no parágrafo anterior
incluem os trabalhos iniciais da área médica sobre maus-tratos e
crueldade como estudos sobre “abuso”, embora não fossem assim
explicitamente classificados.
Há um trabalho anterior (1924) cadastrado no banco de dados
da Coordenação de Estudos e Pesquisas sobre a Infância — CESPI, da
Universidade Santa Úrsula como se fora “abuso” sexual, mas não há no
título (Esboço médico-jurídico de delinqüentes sexuais) nenhuma
referência explícita a isso.95 Trata-se de um trabalho de conclusão de
curso, arquivado na Biblioteca Pelourinho/Faculdade de Medicina da Bahia.
Por mais que não se possa afirmar que se trate de um trabalho sobre
“abuso” sexual, confirma-se a iniciativa da área médica nos estudos sobre
práticas sexuais consideradas problemáticas aqui no Brasil.
A explicação para o “pioneirismo” de trabalhos na área médica
parece ser óbvia: a “evidência” de sinais clínicos (fraturas, hematomas,
ferimentos). Esses trabalhos continuam a ser publicados ainda hoje sob a
mesma ótica, mas incluindo contribuições de outras áreas. Em especial,
há o reconhecimento de conseqüências “emocionais” para as crianças
envolvidas em situações de “abuso”, alguns autores defendem, inclusive,
95
Nelson Guilherme d’ ALMEIDA. Esboço médico-jurídico de delinqüentes sexuais.
Monografia. Faculdade de Medicina da Bahia, Salvador, 1924. (Consta como tese de
doutorado, porque os trabalhos de conclusão do curso de Medicina à época eram
chamados de tese de doutoramento).
O movimento no Brasil 174
a ampliação do conhecimento médico, como por exemplo, Drezett et al.
Afirmam que o médico: “deve estar preparado para o manejo clínico e
psicológico dessas vítimas. O atendimento exige, além de treinamento e
capacitação, paciência e experiência” (DREZETT et al., 2001, p. 416; o
grifo é meu). Os médicos psiquiatras, pela especificidade de seu campo
de atuação, são mais enfáticos quanto às repercussões “mentais” e
especificam ainda mais as repercussões “físicas”, como no artigo de Kerr-
Corrêa et al. (2000), em que se podem encontrar quadros detalhados que
identificam as conseqüências de uma situação de “abuso” (transtornos
alimentares, transtornos psicóticos, transtornos afetivos, doenças
gastroenterológicas, dor crônica). A conclusão a que chega a terapeuta
sexual Mabel Cavalcante, a respeito das conseqüências “psíquicas” do
“abuso”, abrange a totalidade dos diversos trabalhos a que tive acesso:
Qualquer que seja o tipo de violência sexual incestuosa não há dúvida de que
nelas são encontrados os maiores danos psicológicos. (...) mesmo na
ausência de emprego de força física, a repercussão psicotraumática pode ser
96
grave e indelével (CAVALCANTI, 1993, p. 28).
Um dos trabalhos pioneiros no Brasil é um estudo de dois casos
de crianças “com história de abuso”, publicado em 1985, na revista de
Psiquiatria do Rio Grande do Sul, por dois médicos psiquiatras, Zaslavsky
97
& Nunes: Breve estudo de crianças com abuso sexual . Os autores se
propõem a “examinar os aspectos psicológicos parentais” e aspectos
“psicológicos da criança submetida ao abuso” (ZASLAVSKY & NUNES,
1985, p. 234). Concluem que as mães são “imaturas, infantis, incapazes
de manter um vínculo afetivo com os filhos (...) revivem as próprias
experiências infantis de abandono e carência de cuidados” (Ibid, 236). Os
pais (no caso, padrastos) são “infantis” (Ibid.). E as crianças apresentam
96
As discordâncias estão relacionadas à ênfase dos profissionais na “veracidade” do que
é relatado. Para a psicanálise, por exemplo, isso não faz muita diferença (verdade e/ou
fantasia) na medida em que alguém vive o que relata como “realidade”.
97
Originalmente apresentado como tema livre no VII Congresso Brasileiro de Neurologia
e Psiquiatria Infantil, realizado em Canela (RS), em setembro de 1983.
O movimento no Brasil 175
um “padrão de comportamento caracterizado por agressividade,
hiperatividade, impulsividade e baixa tolerância a frustrações” (Ibid.).
Observe-se o emprego no título deste artigo (Breve estudo de
crianças com abuso sexual) da preposição “com”, muito usada na língua
portuguesa para se referir a um “estado” (FERREIRA, 1986, p. 433-434)
ou conjunto de condições físicas, como ao se referir a uma doença
contraída (“fulano está com malária”). Assim, o “abuso”, ainda sob forte
influência da área médica, como nos EUA, é tratado como uma doença. A
ênfase está na “doença psíquica” dos pais: “... os traços de personalidade
de caráter patológico dos pais assumem papel decisivo na questão do
abuso de crianças” (ZASLAVSKY & NUNES,1985, p. 237). Também
enfatizam as “seqüelas psicológicas” sofridas pelas crianças (Ibid.).
A partir da década de 80, surgem, com maior intensidade,
trabalhos que se propõem a analisar, pormenorizadamente, o que passou
a ser conhecido como “violência doméstica”. Inicialmente, este rótulo
abrigava violências diversas praticadas contra mulheres e crianças:
violência sexual, violência física , violência emocional e negligência. O
primeiro livro de expressão nacional, que aborda especificamente maus-
tratos cometidos contra crianças no interior da família, parece ser
“Violência de pais contra filhos: procuram-se vítimas”, publicado em 1985
pela assistente social Viviane Nogueira de Azevedo Guerra, originalmente
uma dissertação de mestrado desenvolvida no Programa de Pós-
Graduação em Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. A autora já nomeava os vários tipos de violência ocorridos na
família como sendo “violência doméstica” (Ibid., p. 108).
Em 1987, Helio Santos publica o primeiro livro com fotos de
crianças vítimas de agressões físicas (algumas mortas): “Crianças
espancadas”. E ainda no mesmo ano Stanislau Krynski (1987) organiza
um livro sobre o mesmo tema: “A criança maltratada”.
O movimento no Brasil 176
Em 1989, Azevedo & Guerra organizam e fazem publicar o
primeiro livro com artigos de profissionais de áreas e especialidades as
mais diversas (assistente social, advogado, psicólogo, sociólogo, pediatra,
ginecologista, jurista, psicanalista, psiquiatra). O prefácio, feito pelo atual
Secretário Nacional dos Direitos Humanos, Paulo Sérgio Pinheiro, resume
o conteúdo do livro:
Várias contribuições do livro, como as pesquisas de Maria Amélia Azevedo e Viviane
Nogueira de Azevedo Guerra, põem abaixo inúmeros estereótipos e noções
equivocadas do senso comum a respeito dos algozes e das vítimas. Os artigos sobre
a identificação do fenômeno, as conseqüências orgânicas e psicológicas, assim como
conduta médica, conferem extraordinária substância e concreção ao debate
(AZEVEDO & GUERRA, 1989, p. 10-11).
Trata-se ainda de dar visibilidade ao “abuso”, demonstrando a
necessidade de identificá-lo em função dos “danos orgânicos e
psicológicos” que proporcionam (Ibid., p. 101) e quais os procedimentos a
se adotar diante dessas situações. Nesse livro, estão reunidos muitos
aspectos apontados no capítulo anterior: busca-se definir o que são maus-
tratos, o que é “abuso”, suas conseqüências físicas e emocionais, como
identificar lesões que podem estar relacionadas ao “abuso”, a necessidade
de montar serviços específicos para atender essas situações e quais as
características desses serviços. Azevedo & Guerra, nessa obra,
caracterizam o que chamam de “abuso sexual propriamente dito”: o
estupro e a prática de atos libidinosos, sejam incestuosos ou não (Ibid., p.
181).
Note-se também que naquela época, já estava constituído um
serviço de atendimento para as situações de violência física e sexual
cometidas contra crianças. Trata-se da “Rede Criança”, montada pelo
Governo do Estado de São Paulo, vinculada à Secretaria de Estado do
Menor. Criada no dia 12 de outubro de 1987, a rede incluía hospitais,
postos de saúde, clínicas de psicologia e o Serviço de Advocacia da
Criança (SAC) — criado em 8 de fevereiro de 1988, através de convênio
O movimento no Brasil 177
firmado entre as secretarias de Estado do Menor e da Justiça,
Procuradoria Geral do Estado e Ordem dos Advogados do Brasil, Seção de
São Paulo (Ibid. p. 183).
Outro aspecto importante do livro é a caracterização da violência
contra criança (chamada de vitimização) como “síndrome do pequeno
poder”. Diferentemente da “síndrome da criança espancada” descrita por
médicos americanos, a “síndrome do pequeno poder” tem a peculiaridade
de atribuir características sócio-políticas às situações de violência
cometida contra crianças. A socióloga Heleieth Saffioti explica o porquê
dessa caracterização:
O objetivo nuclear (...) consiste em mostrar que tal processo de vitimação,
ou de vitimização, tem suas raízes numa ordem social iníqua, na qual as
relações sociais são permeadas pelo poder9 8 (Ibid., p. 14).
Para Saffioti, o poder “define-se como macho, branco e rico” e
tem “caráter adultocêntrico” (Ibid., p. 16):
..., não será difícil verificar que as categorias sociais subalternas são, no
Brasil, constituídas por mulheres, negros, pobres e crianças. Nesta
hierarquia, o último lugar é ocupado pela mulher negra, pobre e criança. No
topo desta escala de poder está o macho branco, rico e adulto. Exatamente
em virtude da alta concentração de renda em poucas mãos, são pouco
numerosos os homens a desfrutar deste poder denominado de grande poder
ou macro poder. Os detentores deste grande poder podem submeter qualquer
pessoa menos bem situada nesta hierarquia. Mas se a vitimização de crianças
dependesse apenas do exercício do macropoder o número de vítimas seria,
certamente, menor. A vitimização de crianças constitui fenômeno
extremamente disseminado exatamente porque o agressor detém pequenas
parcelas de poder, sem deixar de aspirar ao grande poder. Então não se
contentando com sua pequena fatia de poder e sentindo necessidade de se
treinar para o exercício do grande poder, que continua a almejar, exorbita de
sua autoridade, ou seja, apresenta a síndrome do pequeno poder (Ibid., p.
17).
98
Poder no sentido de domínio (econômico e político) e força física.
O movimento no Brasil 178
Portanto, a tese defendida no livro foge de uma centralização no
aspecto sexual, corporal ou até mesmo instintual (necessidade natural),
focando-se na hierarquização favorecida e estimulada pelo sistema
capitalista. Saffioti, por mais que afirme que as situações de violência
cometidas contra crianças não sejam um problema específico de uma
classe, termina por reforçar uma posição oposta, na medida em que em
seus exemplos cita: o funcionário público de baixo salário, o porteiro,
jovens assaltantes e o trabalhador que, com raiva de obedecer às ordens
de seus superiores hierárquicos, maltrata a mulher e os filhos quando
volta para casa e (Ibid., p. 18).
Retomando então, a tônica ainda era a de afirmar que o “abuso”
sexual de crianças existia no Brasil, ocorria dentro da própria família e
precisava ser identificado e denunciado, para que o “agressor” fosse
punido e a criança “vitimizada”, encaminhada para acompanhamento
social e psicológico.
Ainda sob essa tônica, em 1988, Azevedo & Guerra lançam o
livro “Pele de asno não é só história...” (1988). Retomam a discussão do
abuso sexual infantil no Brasil a partir do conto “Pele de asno”, de Charles
Perrault. Buscam construir “um marco referencial para abordar a
vitimização sexual da infância e da adolescência em família” (Ibid, p. 03),
discutindo o conceito de vitimização sexual, identificando situações que
caracterizam esse tipo de violência, apresentando “um caso verídico”
(Ibid.).
Outro aspecto importante do livro é a descrição minuciosa da
pesquisa desenvolvida pelas autoras, investigando a “vitimização sexual
da infância e adolescência em famílias do município de São Paulo” (Ibid.,
p. 37). Foram consultados, entre dezembro de 1982 e dezembro de
1984, os boletins de ocorrência policial, laudos do Instituto Médico Legal,
processos das Varas de Menores e prontuários da FEBEM (Ibid., p. 47),
O movimento no Brasil 179
que propiciaram caracterizar as vítimas (na sua maioria do sexo feminino,
tendo em média dez anos de idade); os agressores (na maioria do sexo
masculino, pais, situados na faixa de 30-39 anos); a cor, naturalidade e
ocupação (paulistas de cor branca e trabalhadores da produção industrial,
operadores de máquinas, condutores de veículos e trabalhadores
assemelhados); residência (as três maiores concentrações ocorrem nas
Administrações Regionais de Santo Amaro, Campo Limpo e Freguesia do
Ó); por fim, o “o uso de álcool e/ ou drogas pelo agressor” (em 90,3 %
dos casos os documentos consultados não mencionavam essa
informação).
6.1.2. A mídia: o “abuso” na TV99
Na TV, o “abuso” teve visibilidade através de documentários,
também na década de 90. O primeiro exibido nacionalmente e
especificamente dedicado ao “abuso” sexual de crianças e adolescentes foi
realizado pela TV Cultura de São Paulo, em 1997. Em 1998, a TV Globo
exibiu documentário sobre “abuso” sexual no programa “Globo Repórter”,
e em 1999, o programa ”Linha Direta” apresentou matéria sobre o
“abuso” sexual infantil.
Porém, “no país do futebol, do samba e da novela”, a temática
de práticas sexuais intrafamiliares teve seu espaço na década anterior sob
a forma de novela. Em 1988, a rede Globo apresentou em horário nobre
(20 horas) a novela “Mandala”, cuja trama versava sobre um triângulo
amoroso entre pai, mãe e filho (Perry Sales, Vera Fischer e Felipe
99
Trata-se de indicar alguns programas televisivos que debateram o assunto e que
tiveram exibição nacional. Uma pesquisa na imprensa demandaria um estudo mais
profundo, pelo volume de material, especialmente entrevistas e matérias sobre o
assunto. Chego a essa conclusão após ter tido acesso ao arquivo de apenas uma ONG
sobre a participação de seus membros em matérias jornalísticas em geral. Só para
exemplificar, em levantamento realizado no Cd-rom da Folha de S. Paulo, entre 1984 e
1998, há 310 matérias com a palavra “abuso” no título. Dentre estas matérias, há 133
com “abuso sexual” no título (42,9% do total de matérias com “abuso” no título).
O movimento no Brasil 180
Camargo), personagens principais que se chamavam, respectivamente,
Laio, Jocasta e Édipo, inspirados no mito grego.
6.2. A governamentalidade
6.2.1. Aspectos da legislação brasileira
O Código Penal, aprovado em 1940, não trata especificamente
do “abuso” sexual doméstico, nem mesmo no Título “Dos crimes Contra a
Família”. No entanto, os casos de “abuso” infantil (intrafamiliares ou não)
podem ser incluídos no Título VI “dos Crimes Contra os Costumes”.100 O
capítulo I desse título, “Dos crimes Contra a Liberdade Sexual”, contém
artigos sobre o estupro,101 atentado violento ao pudor102 e posse sexual
mediante fraude.103 Todos esses artigos prevêem pena para quem pratica
esses atos com menores de 14 anos. Importa também observar que,
nestes crimes, a ação penal só procede mediante queixa.104 A exceção se
faz por intermédio de ação pública, caso a vítima não possa prover as
despesas do processo, ou “se o crime é cometido com abuso do pátrio
poder, ou da qualidade de padrasto, tutor ou curador”. 105 De toda
maneira, as crianças ou adolescentes que foram submetidos ao “abuso”
têm poucas possibilidades de realizarem essa denúncia, uma vez que
dependerão de um adulto que lhes dê credibilidade e os acompanhe para
fazer queixa.
100
“A relação sexual mantida com menor de 14 anos, mesmo com o consentimento da
vítima, corresponde à conduta criminosa prevista nos artigos 213 e 224 do Código Penal
(CP) que, interpretados em conjunto, correspondem à figura do estupro presumido. Este
entendimento do Superior Tribunal de Justiça foi confirmado, recentemente, durante o
julgamento de um recurso especial negado por sua Sexta Turma e cujo relator foi o
ministro Vicente Leal” (SUBJUDICE-ONLINE, Dezembro/2001 - nº 20).
101
Art. 213: “Constranger mulher à conjunção carnal, mediante violência ou grave
ameaça”.
102 Art. 214: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a praticar ou
permitir que com ele se pratique ato libidinoso diverso da conjunção carnal”.
103 Art. 215: “Ter conjunção carnal com mulher honesta mediante fraude”.
104 Art. 225.
105
Art. 225.
O movimento no Brasil 181
Ainda há outro aspecto que merece observação. A lei explicita o
que significa a “presumida violência dos crimes contra a liberdade sexual”
no Art. 224: “a) Quando a vítima não é maior de quatorze anos; b)
Alienada ou débil; c) Não pode oferecer resistência.” Considera,
portanto, que mesmo havendo o “consentimento” da criança ou do
adolescente, a eles não pode ser imputada culpa,106 como insidiadores, já
que são considerados ingênuos, o que reduz, nesse caso, a possibilidade
de defesa do agente (adulto). A pena chega a ser aumentada da quarta
parte, dentre outros motivos, caso o “agente seja ascendente, pai adotivo,
padrasto, irmão, tutor ou curador, preceptor ou empregador da vítima ou
por qualquer outro título tenha autoridade sobre ela”.107 Assim, a pena é
ampliada em caso de “abuso” sexual intrafamiliar, por exemplo.
Especialmente a partir da década de 90, a legislação brasileira
passa a se tornar mais “atenta” às situações descritas como “abuso”,
sendo elaborados dispositivos legais que o regulem.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em
1990, no título “Das Medidas Pertinentes aos Pais ou Responsável”, no
Art. 130, prevê claramente medidas contra o “abuso” sexual intrafamiliar.
Inclusive faculta a separação da criança de seus pais ou responsável,
como medida cautelar, caso seja avaliado risco potencial para a criança.108
Com a aprovação do ECA, os governos se vêem obrigados a criar os
órgãos previstos: conselhos de Direitos da Criança e do Adolescente
(municipais, estaduais e nacional) e conselhos tutelares municipais.
Já a Constituição Federal (em voga desde 1988), no artigo 27,
parágrafo 4, reza: “A lei punirá severamente o abuso, a violência e a
exploração sexual da criança e do adolescente”. Até então, nenhum
106
Já há precedentes contrários. Isso será abordado mais à frente às p. 184-185.
107
Art. 226.
108
Art. 130: “Verificada a hipótese de maus-tratos, opressão ou abuso sexual impostos
pelos pais ou responsável, a autoridade judiciária poderá determinar, como medida
cautelar, o afastamento do agressor da moradia comum”.
O movimento no Brasil 182
código de leis federal, nem mesmo o Código Penal (como vimos),
referiam-se ao “abuso” de forma explícita. A referência era a “conjunção
carnal e atos libidinosos” (HAZEU, 1996, p. 12).
Anteriormente, no caso específico das crianças e adolescentes,
era o Código de Menores (1979) que legislava sobre o que na época se
caracterizava como “situação irregular”: privações relacionadas à saúde e
instrução; impossibilidade dos pais de provê-las; vítimas de castigos e
maus-tratos “imoderados”; em perigo por encontrar-se em ambientes
contrários aos “bons costumes”; com “desvio de conduta” (In: Azevedo &
Guerra, 1993, p. 316). O código não abordava situações de “abuso”.
Nem mesmo o Programa Nacional de Direitos Humanos - PNDH
(1996) se refere ao “abuso” sexual intrafamiliar diretamente, mas prevê,
no capítulo “Propostas de Ações Governamentais”, medidas que podem
ser relacionadas ao “abuso”: “Propor alterações na legislação penal com
o objetivo de limitar a incidência da violência doméstica contra crianças e
adolescentes”; “promover (...) campanhas educativas relacionadas a
situações de risco (...), como violência doméstica e sexual, prostituição,
exploração no trabalho e uso de drogas...” (p. 25). As medidas do
Governo Federal na área dos direitos humanos estão bem mais
direcionadas à prostituição sexual e ao trabalho infantil, já que, para esses
problemas, há seis medidas no PNDH (talvez porque sejam problemas que
têm ocupado com mais freqüência a imprensa internacional e isso
funcione como pressão, para que o governo brasileiro tome alguma
providência).
Direcionada a combater o turismo sexual, em 1997, a Empresa
Brasileira de Turismo (Embratur) desencadeou, nacionalmente, campanha
contra a prostituição infantil. Em parceria com o Ministério da Justiça e a
ABRAPIA, criou o “Disque - Denúncia Prostituição Infantil”. A diretora de
marketing da Embratur, Anna Karen, justificou esta iniciativa: "O papel
O movimento no Brasil 183
da Embratur foi assumir o problema antes que a imagem do nosso país
ficasse como a de países da Ásia. Turismo deste tipo não traz nada para o
Brasil”.109 A maior parte das denúncias envolvia brasileiros.
Um ano antes, em 1996, a Secretaria Nacional dos Direitos
Humanos e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher organizaram o
“Programa Nacional de Prevenção e Combate à Violência Doméstica e
Sexual”, com o objetivo de “articular ações int erministeriais de combate à
violência doméstica e sexual”. Trata-se de um plano voltado para
mulheres adultas, que sofrem violência em casa.
Uma das medidas importantes do Governo Federal e do
Parlamento, institucionalizando o “abuso” como um tipo, foi a
promulgação, em 1999, da Lei 9.970, que criou o Dia Nacional de
Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infanto-Juvenil, de autoria da
Deputada Rita Camata (PMDB/ES), presidente da Frente Parlamentar pela
Criança e Adolescente do Congresso Nacional. Foi sancionada com vetos
parciais, a saber, o parágrafo que atribuía aos governos Federal e
Estadual a coordenação das ações e o artigo 2º, que previa a alocação de
recursos orçamentários para custear as despesas decorrentes do Dia
Nacional.110
Ainda no campo jurídico, há uma discussão que, vez por outra
ganha espaço na mídia: a figura do “estupro presumido”. O Código Penal
estabelece que é crime um adulto manter relações sexuais com uma
109
Matéria publicada no Jornal do Brasil, em 21/4/1997, colhida no domínio do jornal (JB
On line), na mesma data.
110
A proposta do Dia Nacional foi feita pelos participantes do II Encontro do ECPAT-
Brasil, realizado em dezembro de 1998, em Salvador/BA, e enviada à Dep. Rita Camata.
Registre-se também que a pessoa indicada para assumir a direção do Departamento da
Criança e do Adolescente - DCA, órgão do Executivo Federal responsável pela
coordenação nacional da política de promoção e defesa dos direitos da criança e do
adolescente, vinculado à Secretaria de Estado dos Direitos Humanos, ligada ao Ministério
da Justiça, foi articulada e proposta pelo “Grupo ECPAT”. O Plano Nacional de Combate
ao Abuso e Exploração Sexual Infanto-Juvenil teve o apoio do DCA, onde inclusive houve
várias reuniões para a organização do III Encontro do ECPAT.
O movimento no Brasil 184
pessoa menor de 14 anos (mesmo com o consentimento desta). Escolhi
dois exemplos.
A desembargadora Lúcia Seguin Dias retificou a pena que a juíza
Gleide Pereira de Moura havia imposto a um rapaz de 25 anos de idade
que manteve relações sexuais com sua namorada de 13 anos. Conforme
trecho colhido no domínio do jornal paraense O Liberal (em 27/9/1998), a
desembargadora “... ao analisar o processo, percebeu que a menina se
entregou ao réu. Em razão disso, ele não praticou nenhuma violência ao
ter tido relação sexual com ela”.
Outra situação que teve ainda maior divulgação na mídia
brasileira e causou grande polêmica foi a decisão do ministro do Supremo
Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, de absolver um homem do crime de
estupro. Em abril de 1996, o ministro inocentou o namorado adulto (35
anos) de uma menina de 12 anos, acusado de estupro e sedução. O
ministro chegou a este veredicto porque a menina há tempos mantinha
relações sexuais com o homem (ISTO É, On-line).111 Entendeu que não
houve violência, porque a menina concordara em fazer sexo. “Nos dias de
hoje, não há crianças, mas moças de 12 anos”, justificou (ÉPOCA On-
line).112 O ministro desconsiderou, com esse argumento, a circunstância
da lei de presumir violência quando a vítima for menor de 14 anos.
Em entrevista concedida para a Revista Isto É, o ministro
justifica seu voto:
ISTOÉ - No caso do julgamento do estupro, quais foram os seus critérios?
Marco Aurélio - Sempre que me defronto com um caso controverso, eu não
procuro de imediato o dogma da lei. Tento idealizar, dentro da minha
formação humanística, a solução mais adequada. A partir deste ponto é que
vou à ordem jurídica buscar o indispensável apoio que viabilize a solução.
(...). Neste caso, havia um contexto paradoxal. Além da concordância da
111
Informações colhidas no domínio da revista em 26/9/2001.
112
Informações colhidas no domínio da revista em 5/4/1996.
O movimento no Brasil 185
vítima, o suposto agressor teve a nítida impressão de que a moça tinha mais
de 14 anos. A sentença só foi aplicada cinco anos depois do incidente,
quando o rapaz já havia se casado e tido um filho. Condená-lo por um crime
hediondo e prendê-lo em regime fechado se mostrou outro paradoxo. Por que
ele e não qualquer dos outros rapazes que haviam mantido relações antes
com a moça? Pesquisei e encontrei em juristas de renome apoio à absolvição
do acusado, com base na relatividade da violência presumida pela lei. A
questão passava a ser: a presunção de violência quando a vítima tem menos
de 14 anos é relativa ou absoluta? A corrente mais conservadora acha que é
absoluta, pouco importando a aparência física da vítima. Já a outra, mais
próxima da realidade, leva em conta esses aspectos relativos, como o
consentimento e a própria aparência física da suposta vítima (ISTO É, On-
113
line).
A relação dessa polêmica com o “abuso” está mais diretamente
ligada às situações que ocorrem fora do ambiente familiar. Porém, ela foi
incluída por se tratar de um movimento importante de flexibilização na lei,
que dá indícios de uma mudança na concepção de imaturidade/inocência
na fase adolescente. Essa mudança na interpretação da lei voltará a ser
discutida no final deste capítulo.
6.2.2. As organizações
Na segunda metade da década de 80, são criadas organizações
que visam o atendimento de crianças submetidas a situações de “abuso”.
Destacam-se em São Paulo:114 o Laboratório de Estudos da Criança
(LACRI/USP-1985), o SOS Criança (Governo do Estado-1986), o Centro de
Referência às Vítimas de Violência (C.N.R.V.V./Instituto Sedes Sapientiae-
1988), 115 o Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância
(Rami/Campinas/ABCD-1988), o Centro de Estudos e Atendimento
113
Entrevista colhida no domínio da revista em 5/4/1996.
114
Não se trata de um levantamento histórico, mas de apontar alguns atores que
exercem influência na construção do “abuso” como um tipo no Brasil.
115
Essa organização não se dedica exclusivamente a situações de “abuso”, mas as
prioriza.
O movimento no Brasil 186
Relativos ao Abuso Sexual (Cearas/USP-1993), o Programa de
Atendimento às Vítimas de Abuso Sexual (PAVAS/USP-1996). Também,
algumas delas (LACRI, C.N.R.V.V., Cearas e Pavas) mantêm cursos
destinados a preparar profissionais no atendimento e prevenção da
violência doméstica contra crianças e adolescentes. O curso promovido
pelo C.N.R.V.V. corresponde a uma especialização.
Dentre as organizações fora do Estado de São Paulo que também
contribuíram para solidificar o “abuso” como um tipo no Brasil, por se
proporem a um trabalho de abrangência nacional, destacam-se: a
Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e
Adolescência (ABRAPIA/RJ-1988); Centro de Defesa da Criança e do
Adolescente (CEDECA/BA-1991); Centro de Referência para Estudos e
Ações sobre Crianças e Adolescentes (CECRIA/DF-1993).
Observa-se de imediato que três organizações de destaque
nascem na Universidade de São Paulo, ou seja, no Brasil, a emergência do
“abuso” como um tipo se inicia na academia. A área médica também se
faz presente, já que o Cearas e o Pavas são coordenados por médicos,
respectivamente psiquiatra e ginecologista.
Na década de 90, consolidam-se os serviços de atendimento e
proteção à criança, que se espalham por todo o Brasil. Inúmeras
organizações, além das já citadas, passaram a criar projetos para
denunciar a chamada “exploração sexual” de crianças e adolescentes,
incluindo especialmente o combate ao turismo sexual e ao “abuso” sexual,
como por exemplo: “Projeto Ser Menina” (Campo Grande, RJ);
“Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua” (Brasília, DF);
“Centro de Defesa da Criança e do Adolescente” (Belém, PA); “Clinica da
Violência”, da Formação Freudiana (Rio de Janeiro, RJ); “Projeto Axé”
(Salvador, BA); “Casa de Passagem” (Recife, PE).
O movimento no Brasil 187
A maior iniciativa de combate ao “abuso” reunindo governos
municipais, estaduais e federal, além de diversas organizações
governamentais e não-governamentais, ocorreu em um encontro na
cidade de Natal (RN), no período de 15 a 17 de junho de 2000, para
discussão e elaboração do “Plano Nacional de Enfrentamento da Violência
Sexual Contra Crianças e Adolescentes”.116 Contou com participantes
governamentais do Executivo Federal, Estadual e Municipal; dos poderes
legislativos Federal e Estadual, do poder Judiciário, especialmente da
Justiça da Infância e Adolescência; do ministério públicos Federal e
Estadual; da Defensoria Pública; das polícias Federal, Civil e Militar; dos
conselhos municipais, estaduais e Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente, dos Conselhos Tutelares; de organismos internacionais de
cooperação técnica e financeira; do ECPAT – Brasil; das organizações da
sociedade civil e de representantes de jovens. Estiveram presentes cerca
de 160 representantes. Dentre as organizações internacionais: Cáritas
Brasileira Escritório Regional/PE, Fundo das Nações Unidas para Infância -
UNICEF/DF, Organização Internacional do Trabalho - OIT/DF, Save The
Children/PE, UNESCO/FORÉTICA.
Este plano foi preparado durante o “III Encontro ECPAT – Brasil”.
O ECPAT (End Child Prostitution, Child Pornography and Trafficking of
Children for Sexual Purposes) é uma organização internacional, com sede
em Bangkok, na Tailândia, que, ao contrário da ISPCAN, vem tendo uma
penetração importante no movimento de combate ao “abuso” sexual no
Brasil. A secretaria executiva, pelo menos até 2000, estava sob a
responsabilidade do Centro de Defesa da Criança e do Adolescente -
CEDECA/BA. Constitui-se em uma “rede de organizações e pessoas
trabalhando juntas na eliminação da prostituição de crianças, pornografia
116
O relatório final ainda não estava disponível, até a finalização da tese, no domínio do
Cecria, onde foram colhidas estas informações.
O movimento no Brasil 188
infantil e tráfico de crianças para propósitos sexuais”.117 O ECPAT
originou-se de uma campanha contra o turismo sexual na Ásia (End
Children Prostitution in Asian Tourism), crescendo a tal ponto que, em
conjunto com o governo da Suécia, promoveu o “I Congresso Mundial
contra a Exploração Sexual e Comercial de Crianças”, realizado em
Estocolmo, em 1996.118 Mantém em sua sede um centro de pesquisa que
reúne documentos, vídeos e CD-ROMs sobre o comércio sexual e
exploração de crianças, além de legislação internacional de proteção à
criança explorada sexualmente. Mantém também um banco de dados
sobre a situação da prostituição infantil, pornografia infantil e tráfico de
crianças com objetivos sexuais, bem como das organizações que
combatem esses problemas. Em março de 1991, o ECPAT produziu sua
primeira circular sobre seu trabalho internacional e, em setembro de
1999, realizou sua primeira Assembléia Internacional, na Tailândia, onde
definiu a sua atual composição (participaram representantes do
CEDECA/BA, Coletivo Mulher Vida/PE e Fórum Nacional DCA/DF).
Ao que parece, a sua estrutura mais participativa facilitou a
entrada no Brasil. Veja-se que seu escritório funciona nas instalações de
uma organização já existente e com trabalho reconhecido nacionalmente
(CEDECA/BA). Já realizou três encontros nacionais. Durante o segundo
encontro brasileiro, realizado em dezembro de 1998 (Salvador/BA), o
então presidente da ECPAT internacional, Ron O’Grady, mandou uma
mensagem, ressaltando a sua preocupação “com o crescimento do abuso
sexual de crianças e adolescentes por todo o mundo” e também no Brasil
e América Latina, por causa de “recentes pesquisas” feitas, alertando para
a “seriedade do problema”. Nesta mensagem, também alerta para o uso
117
Informações colhidas no domínio da organização na Internet, em 6/9/2001.
118
Foi o único congresso mundial com esse fim específico, com participação de 1.200
representantes de 130 países, inclusive representantes brasileiros. A partir desse evento,
o ECPAT tornou-se uma ONG e já conta com representação em 46 países.
O movimento no Brasil 189
da Internet como um “poderoso instrumento nas mãos daqueles que
querem abusar de crianças”.119
Conforme documento do ECPAT/CEDECA-BA (enviado às
organizações participantes e posto em circulação no terceiro encontro
realizado em Natal/RN, em junho de 2000) e conforme o documento final
do segundo encontro (realizado em dezembro de 1998 em Salvador/BA),
o Movimento ECPAT esteve no Brasil pela primeira vez, realizando visitas
“a vários Estados e entidades”, em 1995. O movimento convidou o
CEDECA/BA para participar da Assembléia Geral realizada em Tóquio, em
1996, “... para que apresentasse uma avaliação das políticas públicas no
Brasil e na América Latina sobre infância e juventude” (II Encontro
Nacional do ECPAT no Brasil, 1998, p. 09). Após esse evento, o CEDECA
foi indicado pelo ECPAT internacional para participar de um painel durante
o I Congresso Mundial Contra a Exploração Sexual e Comercial de
Crianças. Em 1997, deu-se efetivamente o início do processo para criar
uma representação do ECPAT no Brasil, por intermédio da visita da sua
secretária executiva, Sra. Amihan Abueva, que outorgou ao CEDECA a
função de organizar o I Encontro do ECPAT no Brasil, “... para
identificação de ações e coalizão de futuros membros afiliados” (Ibid., p.
09). Em 1997, foi realizado o I Encontro do ECPAT/Brasil em
Salvador/BA, onde se formaram os primeiros grupos regionais e foram
traçadas diretrizes para uma maior articulação nacional.
Em janeiro de 1998, o CEDECA participou de uma assembléia
geral do ECPAT/Internacional em San Salvador, apresentando as
conclusões do primeiro encontro realizado no Brasil. Depois enviou as
119
A atual presidente do ECPAT é uma inglesa, Jo de Linde, que trabalhou como
voluntária na Índia (professora de inglês), também como voluntária nas obras
assistenciais de Madre Tereza de Calcutá; depois se mudou para Hong Kong, onde
também atuou como professora de inglês. Desde 1977 reside em Paris, onde trabalhou
para a Unesco, como tradutora, e no escritório francês da Financial Times. Participa do
Comitê Executivo do ECPAT desde 1996 e foi eleita para presidi-lo por três anos, em
setembro de 1999.
O movimento no Brasil 190
decisões do encontro para a direção do ECPAT, para serem apreciadas
pelo “Comitê de Credenciamento”. No dia 12 de maio de 1998, o
presidente do ECPAT Internacional, Ron O’Grady, enviou mensagem ao
CEDECA, reconhecendo-o como representante oficial do grupo nacional
ECPAT/Brasil, na condição de membro pleno, com direito a usar o nome e
a logomarca do ECPAT e desenvolver ações de seu interesse no Brasil
(Ibid., p. 10). Também nessa época, o ECPAT/Internacional passou a ser
uma ONG com personalidade jurídica (Ibid.).
O CEDECA assumiu em 1998 a Secretaria Executiva do
ECPAT/Brasil e organizou o segundo encontro, em dezembro do mesmo
ano, em Salvador/BA, com o objetivo de “reunir o maior número possível
de ações de prevenção e combate ao abuso sexual e à exploração sexual
e comercial de crianças e adolescentes” (Ibid., p. 09). Uma das decisões
do encontro foi a elaboração do “Plano Nacional de Combate ao Abuso e
Exploração Sexual Infanto-Juvenil” (Relatório ECPAT/Brasil, 2000, s/p.).
Uma comissão fez um esboço do Plano que foi apresentado e
discutido no III Encontro ECPAT/Brasil, realizado em junho de 2000
(Ibid.). Nesse encontro também os afiliados discutiram a regulamentação
do Estatuto do ECPAT no Brasil e sua estruturação.
Trata-se, portanto, da mais recente parceria de organizações
brasileiras com uma organização internacional, visando o combate ao
“abuso” sexual de crianças e adolescentes. O ECPAT/Internacional é uma
organização nova, e não disponibiliza em seu domínio na Internet um
histórico de sua criação. Somente na assembléia internacional realizada
em 1999 foram estabelecidas a estrutura e as regras de funcionamento da
organização.
No Estado de São Paulo, também houve um movimento visando
reunir diversas organizações para combater o “abuso” e a violência
cometidas contra crianças e adolescentes. Sob a coordenação do CRAMI-
O movimento no Brasil 191
ABCD, Visão Mundial e do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do
Adolescente – CONDECA, iniciou-se a articulação de um Plano Estadual,
“tendo como referência” o Plano Nacional Contra Violência Sexual Infanto-
Juvenil, denominado “Pacto São Paulo: contra a violência, abuso e
exploração sexual de crianças e adolescentes” (2000). Os objetivos:
construir um trabalho em rede; pesquisar a violência, abuso e exploração
sexual de crianças e adolescentes no Estado; potencializar as ações já
existentes no combate ao problema; “fomentar a consciência pública na
mobilização” para “enfrentar” o problema; capacitar profissionais para
“identificar” e “intervir” no “fenômeno”. A intenção era reunir
organizações governamentais e não-governamentais, inclusive
articulando-se com organizações fora do Estado de São Paulo (como o
CECRIA, CEDECA, ABRAPIA) e internacionais, (como ECPAT, UNICEF).
Esse movimento culminou com a realização, em abril de 2001, no SESC-
Vila Mariana, na cidade de São Paulo, do “I Seminário Estadual Pacto São
Paulo, Contra a Violência, Abuso e Exploração Sexual de Crianças e
Adolescentes”, com a presença de autoridades governamentais (federais,
estaduais e municipais).120
6.3. As convergências
Há alguns aspectos importantes que foram apresentados quando
da análise do movimento internacional da construção do “abuso” como um
tipo, que também estão presentes no Brasil: 1) o “abuso” emerge
atrelado à noção de que se trata de um “fenômeno” violento (maus-
tratos, crueldade); 2) caracterizado como um problema de saúde,
consegue congregar profissionais de várias áreas, uma vez que apresenta
120
Conforme o folder contendo a programação, o evento foi organizado pelo
CRAMI/ABCD, Visão Mundial, CONDECA, UNICEF. Houve a participação também de
palestrantes de outros Estados (Santa Catarina: Fórum Catarinenses pelo Fim da
Violência Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes), Bahia (CEDECA) Belém
(Movimento Emaus) e Minas Gerais (CHEGA).
O movimento no Brasil 192
conseqüências de ordem física e psicológica (traumas físicos e
psicológicos); 3) solidificando-se como um tipo, consolida um campo de
trabalho (pesquisas, estatísticas, profissionais qualificados, formulação de
leis etc.).
Dentre os artigos pesquisados, um foi escolhido como exemplo,
por reunir em um trecho todos esses aspectos, mostrando como se
articulam: “Abuso sexual na infância: um desafio terapêutico”, de
Zavaschi e colegas. Eis o trecho:
Os maus tratos na infância são atualmente considerados como uma das
principais causas de morte de crianças e, portanto, um problema de Saúde
Pública. A proliferação do abuso e negligência na infância deve ter alguma
relação com o aumento alarmante da violência contemporânea, demonstrada
pela incidência maior de crimes violentos, delinqüência, suicídio e acidentes
fatais. Nos últimos 20 anos, o abuso infantil tem se tornado um dos mais
emergentes campos de pesquisa e em vários países já existem programas em
desenvolvimento para estudo prevenção e tratamento deste tipo de abuso
(ZAVASCHI et, al., 1991, p. 136; os grifos são meus).
Os autores afirmam que o “abuso” de crianças é um problema de
saúde pública, antes mesmo da Organização Mundial de Saúde
estabelecer isso oficial e publicamente (1999). Zavaschi e colaboradores,
incluindo o “abuso” na categoria de maus-tratos, portanto como agressão
(violência), afirmam, enfaticamente, que se trata de um problema de
saúde pública e que é um campo de pesquisa.
Note-se que a maior parte (73,2%) das referências
bibliográficas que tomam como referência é estrangeira (norte-
americana), por isso é possível tamanha convergência.
6.4. Peculiaridades brasileiras
Em relação aos aspectos peculiares à construção do “abuso”
como um tipo no Brasil, dois aspectos serão destacados: 1) a nomeação
O movimento no Brasil 193
(vitimização) e perspectiva de abordagem (incluindo aspectos estruturais
da sociedade) levada a efeito por Azevedo & Guerra; 2) o Brasil deixou de
ser só receptor do “abuso” na forma como foi sendo construído pelos EUA,
passando a ser propositor de um modelo de educação de crianças sem o
uso da palmada para o mundo inteiro.
As autoras Viviane Guerra e Maria Amélia Azevedo, em trabalho
recente (2000) sobre violência doméstica, mesmo quando se referem a
práticas sexuais no interior da família, utilizam o título “Infância e
Violência Sexual Doméstica” (p. 11) ou “Violência Sexual por outros
Familiares” (p. 13). Em nenhum momento se referem a essa situação
como “abuso” sexual ocorrido na infância. Outras expressões aparecem
com mais freqüência: jogo sexual, estupro, violentar sexualmente,
violência sexual, iniciação sexual. Exceções se fazem quando, no relato
de um caso elas reproduzem o diagnóstico fornecido pelo hospital (“abuso
sexual com a aceleração...”, p. 13) e em um caso apresentado sob o título
“Depoimento de Vítimas Adultas” (“o pai abusava sexualmente...”, p. 17).
Por outro lado, utilizam a palavra “abuso”, quando se referem a
“Violência Física Contra a Mulher (Conjugal)”, referindo-se ao “ato de
abuso de autoridade do chefe de família” (p. 18). Há também, algures,
uma referência ao “abuso de drogas”.121
Em trabalho anterior, as autoras, ao analisarem os vários termos
empregados para caracterizar a prática sexual entre adultos e crianças,
concluem:
... com exceção de abuso-vitimização sexual, todos os demais temas referem-
se a facetas específicas, porém complementares, do mesmo fenômeno.
Abuso-vitimização expressa o fenômeno em sua totalidade de processo de
121
Poder-se-ia alegar que se trata de um trabalho com farto material de casos e que o
termo “abuso” não é empregado pela população em geral, mas os casos foram trazidos
às autoras por alunos seus (coletados em todo o Brasil) e a descrição final coube a elas.
O movimento no Brasil 194
causar dano à criança através de sua participação “forçada” em práticas ou
atos eróticos. A diferença reside no fato de que quando se emprega ABUSO, a
ênfase é posta no pólo adulto, isto é, naquele que impõe “força”, que
coercitivamente domina o processo. Quando se emprega VITIMIZAÇÃO, a
ênfase é posta no pólo criança, isto é, naquele que sofre a coação, que recebe
a injúria e o dano. No contexto do presente trabalho optamos por adotar o
termo VITIMIZAÇÃO SEXUAL para designar o fenômeno que estamos
estudando, ou seja, a participação de uma criança em práticas eróticas
mediante coerção (física ou psicológica) de um adulto (AZEVEDO & GUERRA,
1988, p. 12).
Trata-se da utilização de um termo “vitimização”, associado a
“abuso”. O emprego da palavra “vitimização” é indicativo de uma
discordância na ênfase da abordagem de situações de práticas sexuais
entre adultos e crianças (no adulto e não na criança). Porém, como
indicam as referências utilizadas pelas autoras, não há uma
incompatibilidade significativa entre o trabalho delas e os trabalhos
desenvolvidos internacionalmente. Mas há uma certa discordância, que
parece estar ligada à abordagem do problema, pouco relacionada ao
contexto político e econômico, mesmo que reconhecida essa relação,
especialmente nos EUA.
Azevedo deixa claro que se opõe ao modelo utilizado
internacionalmente no estudo da violência familiar contra crianças e
adolescentes, chamado por ela de “modelo interativo” (AZEVEDO, 1993).
Critica esse modelo ainda que o mesmo atribua multicausalidade à
violência doméstica, mesclando fatores macro (sistema sócio-econômico-
político) e fatores micro (história de vida dos pais e estrutura e
funcionamento familiar) (Ibid, p. 43). A autora propõe a construção “de
uma Teoria e Crítica na área da violência familiar contra crianças e
adolescentes” (Ibid.). Resume: uma teoria “emancipatória e contra–
ideológica, que permita combater o fenômeno de forma eficaz” (Ibid.). A
própria autora reconhece que se trata de um texto “em processo de
O movimento no Brasil 195
elaboração” (ibid., p. 46). Portanto, ainda não há possibilidade de uma
reflexão mais intensa.
Porém, o que se percebe é uma inspiração marxista, favorecendo
uma análise do “abuso” que inclua uma crítica à “objetalização” da
criança, oriunda de uma “violência estrutural”, que coexiste ao lado da
“violência interpessoal” (AZEVEDO & GUERRA, 1989, p. 35). Essa crítica
não está presente nos textos de autores norte-americanos, por exemplo.
As autoras esclarecem:
A violência estrutural, inerente ao modo de produção das sociedades
desiguais em geral e da sociedade capitalista em particular, não é a única
forma de “fabricar crianças-vítimas”. A seu lado — e por vezes, mas não
necessariamente em interseção com ela — coexiste a violência inerente às
relações interpessoais adulto-criança.
Como a história social da infância tem sido incumbida de mostrar, essas
relações são de natureza assimétrica. São relações hierárquicas,
adultocêntricas, porque assentadas no pressuposto do poder do adulto (maior
de idade) sobre a criança (menor de idade). A vitimização — enquanto
violência interpessoal — constitui uma exacerbação desse padrão. Pressupõe
necessariamente o abuso (grifo meu), enquanto ação (ou omissão) de um
adulto, capaz de criar dano físico ou psicológico à criança. Por essa razão
costuma se considerar abuso-vitimização como as duas faces da mesma
moeda de violência.
Enquanto violência interpessoal, a vitimização é uma forma de aprisionar a
vontade e o desejo da criança, de submetê-la, portanto ao poder do adulto, a
fim de coagi-la satisfazer os interesses, as expectativas ou as paixões deste.
(...)
O abuso-vitimização de crianças consiste, pois, no processo de completa
objetalização destas, isto é, sua redução a condição de objeto de maus-tratos.
Tal como no caso da vitimização, há várias maneiras de maltratar uma
criança, de vitimizá-la, de abusar de sua condição, de domesticá-la...
A literatura registra três formas privilegiadas de abuso-vitimização: a física, a
psicológica e a sexual. Cada uma delas envolve problemas conceituais específicos...
(AZEVEDO & GUERRA, 1989, p. 35-36).
O movimento no Brasil 196
A partir deste ponto, as autoras descrevem as formas de “abuso-
vitimização”, nomeando-as como: “abuso-vitimização física”, “abuso-
vitimização psicológica” e “abuso-vitimização sexual”.
Em uma nota, em outro livro, Azevedo & Guerra fornecem novo
esclarecimento:
A literatura estrangeira reserva a expressão Violência Doméstica, para designar o
abuso familiar dirigido à MULHER, optando por adotar MAUS -TRATOS e ABUSO no
caso de agressões familiares dirigidas a crianças e adolescentes. Nós, porém,
preferimos a expressão VIOLÊNCIA DOMÉSTICA como forma de tornar a face do
fenômeno, assentada numa assimetria de poder nas relações intergeracionais de pais
e filhos (Azevedo & Guerra, 1998, p. 70).
A questão que fica é se o “abuso” se consolidou como o tipo no
Brasil. A resposta é afirmativa. Por mais que Azevedo & Guerra — duas
autoras importantes — discordem do emprego isolado da palavra
“abuso”, elas ainda a empregam ou não se opõem ao uso nos livros que
organizam. Um exemplo está no artigo de Luís Mott, “Abuso sexual
ritualístico”, publicado no mesmo livro que as autoras iniciam suas
reflexões sobre uma “Teoria crítica da violência familiar contra crianças e
adolescentes” (AZEVEDO, & GUERRA, 1993, p. 119-132).
O que se verifica é que o termo “abuso”, associado a outro termo
ou empregado isoladamente, é referência para classificar modalidades de
violência contra crianças e adolescentes, tais como espancamento,
negligência. E permanece sendo um termo especialmente empregado
para se referir a uma prática sexual interditada por ser realizada entre um
adulto e uma criança (“abuso” sexual). Portanto, “abuso”, como um tipo,
classifica, nomeia uma ação e é assegurado, como uma classificação, por
vários dispositivos (leis, organizações, por exemplo). Constitui -se em um
campo de atuação de várias profissões, que permanecem fazendo valer
essa classificação e também seus derivados (“abusador” e “abusado”). O
“abuso” originou a criação de organizações que se dedicam
O movimento no Brasil 197
exclusivamente a encontrar formas de combatê-lo. É um tipo tão atuante
que só de um adulto suspeitar que tenha sido “abusado” na sua família,
isso lhe acarreta conseqüências profundas, como a depressão.
Consolidou-se como um tipo sendo referência para classificar
diversas modalidades de violência contra a criança e o adolescente. Essa
diversidade de classificação favorece a constante mudança dos aspectos a
enfocar. Por exemplo, duas importantes pesquisadoras do “abuso” no
Brasil, Maria Amélia Azevedo e Viviane Guerra, lançaram campanha
nacional contra a palmada, ou o “psicotapa” (Anexo IV(a) e IV(b)). Ou
seja, é um aparente “retorno” à temática dos maus-tratos, que deu início,
tanto nos EUA quanto aqui, a uma sensibilização às situações de violência
cometidas contra crianças. É interessante notar que essa “campanha por
uma pedagogia não violenta” inclui uma petição, solicitando “... o
empenho dos líderes e das nações do mundo no sentido de que a
Assembléia Geral das Nações Unidas se manifeste publicamente
condenando todas as formas de violência na educação das novas
gerações.” Portanto, em relação a esse problema específico, vemos uma
inversão no Brasil, através da iniciativa do LACRI, propondo ao resto do
mundo um modelo de educação em família: “esta campanha objetiva
proibir todo e qualquer ato de bater em crianças ou adolescentes como
uma forma de educá-los em família”. 122
A campanha em si não é nova. Em 1996, a Comissão de
Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado do Rio
Grande do Sul, sob a presidência do deputado do PT, Marcos Rolim,
publicou vários textos de um seminário realizado em Londres, em 1992,
122
No texto “Exploração sexual de crianças”, incluído no livro organizado por Azevedo &
Guerra, Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder (1989), Saffioti, àquela
altura, manifestava opinião distinta em relação à palmada: “Embora algumas palmadas
no momento certo possam aumentar o amor entre mãe e filho, pois a criança sente o
interesse que nela tem sua genitora, o exagero nos castigos físicos constitui uma
violação dos direitos da criança. Cada vez menos se aconselham castigos físicos pesados,
em virtude de seus efeitos negativos” (Ibid., p. 56).
O movimento no Brasil 198
promovido pelo Epoch-Worldwide (End Phisical Punishment of Children
Worldwide)123 e pelo Räda Barnen,124 com o objetivo de discutir e
implementar medidas legais contra os castigos físicos às crianças na
Europa, bem como esclarecer para a população em geral sobre as
conseqüências dos castigos físicos. Segundo o relatório, a Suécia foi o
primeiro país a tornar ilegais os castigos físicos (1979), seguida da
Finlândia (1984), Dinamarca (1986), Noruega (1987) e Áustria (1989).
De modo genérico, a tônica das várias intervenções de especialistas de
diversos países lá reunidos pode ser resumida no títul o da apresentação
do representante norte-americano: “Como o sucesso da Suécia pode ser
aplicado nos Estados Unidos”. Ou seja, como ampliar para o mundo todo a
experiência sueca. Vê-se que, no Brasil, o LACRI está tomando a frente
nas discussões, em termos nacionais.
6.5. As ambivalências
6.5.1. A família
Um aspecto muito importante de vários trabalhos brasileiros que
discutem o “abuso” e/ou a “violência doméstica” em geral é a busca da
desmistificação da família como um espaço exclusivamente privado. Essa
postura passa a dominar, favorecendo, por exemplo, o trabalho de
denúncia de vizinhos, como também a intervenção de diversos segmentos
(Justiça, polícia, psicólogos, assistentes sociais etc):
Através deste trabalho, tentamos mostrar que a violência na família brasileira existe,
que esta família não é sagrada, nem intocável, e que pode em alguns momentos
oferecer grandes riscos à integridade física de uma criança (Guerra, 1985, p. 110).
123
O EPOCH é uma organização semelhante ao ECPAT, uma vez que congrega outras
organizações que têm em comum o objetivo de acabar com punições físicas a crianças.
Sua sede é em Londres. Em 1989, lançou e coordenou campanha no Reino Unido com
estes objetivos.
124
O Rädda Barnen (em sueco: Salve as Crianças) é uma organização sueca financiada
por contribuições da população em geral, fundada em Estocolmo, em 1919.
O movimento no Brasil 199
Essa posição revela uma contradição: a família não é intocável
nem sagrada, mas, de certa forma, permanece intocável e sagrada.
Explicando melhor, é possível intervir nas relações familiares em função
de uma situação de violência cometida contra a criança (do ponto de vista
da preservação da vida da criança é inquestionável); por outro lado, não
há qualquer questionamento em relação à manutenção dessa instituição
e, sob este aspecto, ela permanece sagrada e intocável.
Com o desenvolvimento da modernidade industrializada e das
reivindicações de movimentos de mulheres (levando à inserção da mulher
no mercado de trabalho, garantindo-lhe renda, afastando-a dos serviços
domésticos, adiando, muitas vezes a maternidade), com mudanças até
mesmo na legislação em relação a casais de mesmo sexo biológico (a
procriação sendo colocada em xeque), há indícios de que a constituição de
uma nova família não está garantida apenas pela lei do incesto. Mas
como a situação não é tão simples, é importante verificarmos se, ao
mesmo tempo em que se instiga o abandono de “pai e mãe” (tão caros a
uma família tradicional), não estaríamos apenas fundando outras
maneiras de se perpetuar uma estrutura de relações fundada no
parentesco consangüíneo.125
Os trabalhos acadêmicos, as matérias jornalísticas, os livros
autobiográficos, enfim, o que se publica em relação ao “abuso” sexual
infantil corre na direção de proteger os direitos da criança o que não é em
si questionável. No entanto, ainda não se avança nas discussões em
relação à estrutura familiar, mesmo com a divulgação cada vez maior de
pessoas do mesmo sexo biológico que passam a viver juntas e até a criar
filhos.126
125
Assim, o conceito de comunidade vai continuar sendo a reunião momentânea de
células familiares, e o selo indicativo de que um lugar é “freqüentável” estará na placa
sempre afixada em lugar de destaque: “ambiente familiar”.
126
Vide a grande divulgação que teve a decisão de um juiz em dar a guarda do filho da
cantora Cássia Eller a sua companheira.
O movimento no Brasil 200
O trabalho de Cohen (1993) é um exemplo de obra acadêmica
brasileira em que há uma relação direta entre combater a violência
cometida contra crianças e preservar a família. Apresenta um trecho que
é bem característico da inquestionabilidade da estrutura familiar em
relação a situações de “abuso” e “incesto”:
A Declaração Universal de Direitos Humanos, no artigo 16, parágrafo 3º reza:
“a família é o elemento natural e fundamental da sociedade e tem direito à
proteção da sociedade e do Estado.” Portanto, essa é uma aceitação
universal. Podemos dizer que a família tem pelo menos duas funções
específicas, a de proteção psicossocial de cada um de seus membros e a de
adaptação à cultura e a sua transmissão (COHEN, 1993, p. 160).
Tomando a cultura ocidental judaico-cristã como modelo, o autor
considera a família natural e universal. A partir dessa concepção pode
então afirmar: “...não existe prazer ou amor no ato incestuoso, existe
apenas ódio (destruir a família) ou então existe uma mente muito
primitiva movida apenas pelo princípio do prazer...” (Ibid., p. 162).
Abuso/incesto é fruto de mentes desadaptadas, está relacionado à
“doença mental”. Daí se pode concluir que o intercurso sexual
intrafami liar entre um adulto e uma criança ocorre apenas em ambientes
familiares ditos desestruturados ou anormais.127
Não se deve padronizar as tentativas “humanas” de viver em
sociedade. Não é mais possível vivermos sob o dogma de que sem a
estrutura familiar tradicional a criatura humana não consegue “entrar” no
mundo simbólico. A padronização impede os vários olhares. Os
acontecimentos exigem posturas antropofágicas; posturas que
mergulhem, mastiguem e degustem; posturas de experimentação. O
olhar padrão vê a situação de intercurso sexual entre pessoas de uma
mesma família somente como um caso de violência e/ou de doença
mental. O desenrolar disso acaba sendo a solução de consenso: a prisão
127
Nesse sentido ver: Brenda VANDER & Ronald NEFF (1986).
O movimento no Brasil 201
e/ou terapia. Cabe aos médicos e vizinhos identificar o problema dando o
passo inicial, e a atuação final caberá aos policiais e profissionais “psi”.
Temos um tabu dentro do tabu. O que fazer em relação a isso?
Não tenho fórmulas prontas e nenhum de nós as terá. O melhor é
compartilhar e nunca universalizar os problemas; tratá-los como
acontecimentos peculiares. Universalizar é prejulgar que todos os
problemas são iguais, acontecem pelos mesmos motivos e devem ser
tratados da mesma maneira. Aí sim, todos serão casos de polícia e não
precisarão dos estudiosos da academia, dos assistentes sociais, muito
menos dos psicólogos, para lhes dar algum rótulo ou indicar as suas
conseqüências. O Estado poderá “economizar” dinheiro despedindo a
todos e apenas construindo mais cadeias. Acontece que essa solução tem
se mostrado inútil.
6.5.2. A inocência
Retomo aqui a discussão, iniciada à página 184, sobre uma
mudança na concepção de imaturidade/inocência na fase adolescente.
No Brasil, recentemente, a temática da pedofilia relacionada a
crianças e adolescentes, acrescida de um certo voyeurismo, esteve
presente nas manchetes dos principais jornais e revistas de circulação
nacional. O fotógrafo Fábio Cabral teve seu livro de fotografias, “Anjos
Proibidos”, com fotos de garotas, recolhido pela Justiça, em 1991. Foi
aberto inquérito policial e o fotógrafo foi acusado pelo então coordenador
das Curadorias da Infância e da Juventude, Munir Cury, de estar
infringindo o Estatuto da Criança e do Adolescente. Cabral estava em
férias quando soube que estava sob ameaça de prisão. Policiais invadiram
seu estúdio e confiscaram os negativos das fotos. O processo durou dois
anos, mas o fotógrafo acabou sendo absolvido “por falta de consistência
O movimento no Brasil 202
de provas”. Foi o primeiro caso de censura de um livro de fotografias no
Brasil.128
No processo que teve fim em 10 de setembro de 1993, o
despacho do juiz Osvaldo José de Oliveira, da 22a Vara Criminal de São
Paulo, com a decisão de absolver o fotógrafo, iniciava assim:
Fábio Gonçalves Maria Cabral, qualificado nos autos, está sendo processado
como incurso no artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente em
crimes continuado, segundo o artigo 71, “caput”, do Código Penal. Porque,
segundo a denúncia de fls. 02/06, fotografou e fez publicar pela “Itamaraty
Gráfica Ltda,” no seu livro denominado “Anjos Proibidos”, as crianças e
adolescentes Priscila, Taiz, Licia, Talita, Kassandra, Priscila, Luciana, Cristiane,
Lucila, Lady, Milena, Roberta, Aleska, Adriana, Maria e uma menor
desconhecida, em cenas que revelam conteúdo erótico ou sensual, o que na
interpretação dos dispositivos inseridos no Estatuto da Criança e do
Adolescente tipifica a conduta de fotografar criança ou adolescente em cena
pornográfica (artigo 241), posto que se deve levar em conta a condição
peculiar da criança e do adolescente.1 2 9
Esse foi o primeiro livro publicado por Cabral. Continha 25 fotos
de garotas entre 10 e 17 anos, teve tiragem única de 500 volumes —
quase metade deles apreendidos pela Justiça, poucos dias depois do
lançamento. Originou-se de uma exposição que o fotógrafo realizou em
1985, quando fez sua primeira “mostra exibindo imagens focadas na
sensualidade do nu feminino, levando seu trabalho às galerias de arte.”
As imagens retratam meninas de calcinhas, ou enroladas em um pano,
algumas com os seios à mostra, fotografadas entre 1985 e 1991.
Em 1997, a revista “Paparazzi”, especializada em fotografia,
publicou algumas dessas fotos, reabrindo a polêmica. Abaixo, a capa da
revista:
128
Informações colhidas no domínio fotógrafo na Internet em 13/2/2002 e no domínio do
jornal O Estado de S. Paulo, em matéria publicada em 30/9/2001.
129
Trecho foi colhido no domínio da Revista Trip, em 13/2/2002.
O movimento no Brasil 203
O jornalista Marcelo Coelho descreve as fotos publicadas na
revista Paparazzi assim:
Vejo agora as fotos de Fábio Cabral. Garotas de uns treze anos, ou menos,
mostram-se com carinhas mal-humoradas, arabescos de pernas e esboços de
seios nas páginas da revista. Escândalo? Exploração da criança e do
adolescente? Não sei. As fotos não são pornográficas, longe disso. Claro que
as meninas são lindas. Mas até que ponto a qualidade estética de uma foto,
de um desenho, absolve um autor da acusação de ser perverso?
(...) Fábio Cabral poderia ter tirado fotos de velhinhos ou de mendigos, assim
como Sebastião Salgado tira fotos de trabalhadores ou de migrantes, e só
importaria, ao crítico, notar a simetria, o agenciamento das luzes e dos
contornos, a angulação, a regularidade plástica, o “olhar” que se cristaliza em
cada negativo revelado.
Falar em “estética”, aqui, seria mais do que nunca fugir do assunto. Do
mesmo modo que Sebastião Salgado, Fábio Cabral está interessado em
evidenciar “conteúdos” — assuntos, temas, vivências, fantasias — e não
simplesmente formas bonitas. Suas fotos em “Anjos Proibidos” querem
mostrar ninfetas deliciosas, com corpinhos sensacionais, não há dúvida
quanto a isso.
Há pedofilia em “Anjos Proibidos”? Certamente. Seria hipócrita, e ao mesmo
tempo verdadeiro, falar de valor estético nas fotos que a revista “Paparazzi”
está publicando. Ninguém vai negar que a infância e adolescência constituem
a idade de ouro da beleza humana. Tem-se, entretanto, uma ambigüidade
entre a beleza que é enternecimento e encanto, e a beleza que é desejo
sexual. Nas fotos das ninfetas da revista, vejo ao mesmo tempo um gesto de
O movimento no Brasil 204
sedução e uma aparência de pureza; misto de casualidade e provocação, de
inocência e de pecado. (COELHO, 1997, p. 07).
Marcelo Coelho realiza uma discussão aparentemente inédita na
mídia brasileira. A discussão proposta relaciona-se à proibição até mesmo
do desejo sexual dirigido a “ninfetas” ou adolescentes. Aqui podemos
verificar que há um movimento ainda com pouquíssima visibilidade, por se
tratar de uma postura delicada diante de instituições tão firmemente
solidificadas: “sexo requer maturidade física e emocional”. Porém, é só
reconstituirmos algumas poucas árvores genealógicas para percebermos
que nossos avós, não poucas vezes, casaram-se e geraram filhos na
adolescência. Como afirma Marcelo Coelho:
(...) Durante muitos séculos, uma menina de 14 anos era considerada
pronta para o casamento. De uma hora para outra, decidiu-se que só
depois de dezoito anos uma mulher pode ser legitimamente desejável por
um homem. Se ela tiver 15, e o homem 40, o homem é um monstro, e a
mulher uma vítima.
(...) toda a voga de antipedofilia é contemporânea de uma extrema
sexualização das crianças. Meninas de sete anos usam os bustiês e as
botinhas da Xuxa. Nos programas infantis, ensina-se a rebolar com
shortinhos de couro preto. A dança da garrafa é um patrimônio cultural da
infância brasileira. Paquitas, marazinhas e angélicas, explodem de
sensualidade inocente (inocente?) ...
Minha opinião é que a censura à pedofilia é um sintoma dessa própria
sexualização da infância. Censura-se o que se deseja. 1 3 0 Reprime-se o que
não se quer ver reprimido.
(...) se alguém disser que fotos de crianças estimulam o abuso sexual
contra menores, posso responder que fotos de mulheres adultas na
“Playboy” estimulam o estupro...
(...) claro que nada há de mais horrível do que a prostituição infantil na
Tailândia, ou na Amazônia...
130
Essa é a hipótese freudiana sobre o incesto.
O movimento no Brasil 205
(...) ninguém é inocente neste jogo; nem quem proíbe, nem quem
fotografa, nem quem comenta, nem as próprias ninfetas, que em geral
sabem muito bem o que estão fazendo (Ibid.).
Calligaris (2000) desenvolve reflexões que, em alguns
momentos, assemelham-se às de Marcelo Coelho. Assim como a infância,
a adolescência é uma construção que busca identificar uma fase do
crescimento humano:
A adolescência é o prisma pelo qual os adultos olham os adolescentes e pelo
qual os próprios adolescentes se contemplam. Ela é uma das formações
culturais mais poderosas de nossa época.
Objeto de inveja e de medo, ela dá forma aos sonhos de liberdade ou de
evasão dos adultos e, ao mesmo tempo a seus pesadelos de violência e
desordem” (CALLIGARIS, 2000, p. 09).
Em relação especificamente ao corpo e à sexualidade de um bom
número de adolescentes, parece que a sua beleza e sedução, oferecem
liberdade e desordem. Liberdade pela “meio desligada” fomentação de
fantasias e desejos; desordem, porque desestabilizam a moral que lhes
reserva um momento de preparação, para que na fase adulta possam
usufruir sexualmente de seu corpo, assim como aos velhos é reservado o
momento de preparação para não mais usufruírem eroticamente de seu
corpo, que deteriora e aguarda conformado a sua imiscuição com a terra.
Tanto para mulheres quanto para homens na nossa sociedade
ocidental capitalista, “é necessário ser desejável e invejável” (Ibid., p.
13). Esse treino começa muito cedo e pode ser observado por exemplo,
na “dança da garrafa”, executada por crianças; na disputa pela atenção da
professora ou dos pais. Na adolescência, garotos e garotas estão prontos
para o jogo:
... Seus corpos, que se tornaram desejantes e desejáveis, poderiam lhes permitir
amar, copular e gozar, assim como se reproduzir. Suas forças poderiam assumir
qualquer tarefa de trabalho e começar a levá-los na direção de invejáveis sucessos
O movimento no Brasil 206
sociais. Ora, logo nesse instante, lhes é comunicado que não está bem na hora ainda”
(Ibid., p. 13-14).
Eles precisam concluir um curso (secundário, técnico,
universitário), obter um emprego e, após isso, construir uma nova família.
Essa é uma seqüência sagrada e inviolável, que lhes nega a erotização, ao
mesmo tempo que também lhes apela para isso (vide a atual caça das
agências de modelo às adolescentes).131 As etapas não podem ser
queimadas.132 Se isso ocorre é por imprudência (falta de experiência,
falta de informação) ou por maledicência (“abuso”, estupro, prostituição).
Quase nunca se cogita que foi por desejo.
Mas há um movimento de “inconformidade” e “desordem” em
relação à sexualidade adolescente e à erotização de seus corpos. Não se
pode afirmar que é um movimento especificamente brasileiro, mas é
inegável que há uma “agitação” no que “se percebia imóvel, uma
fragmentação do que se pensava unido, heterogeneidade no que se
imaginava em conformidade consigo mesmo” (FOUCAULT, 1985b, p. 21).
O tipo “abuso”, ao mesmo tempo em que se “solidificou” globalmente,
ainda permite balanços em sua estrutura a partir de uma discussão sobre
a “beleza”.
O que parece estar em jogo é a inocência das adolescentes, que
são pessoas que precisam ter seus direitos assegurados. Vemos em plena
atividade o funcionamento da matriz que constitui o abuso como um tipo
também aqui no Brasil. Em relação ao “abuso” sexual envolvendo
adolescentes, parece que um dos pilares da matriz, a inocência, inicia um
processo de desgaste. O que está em questão não são situações que
131
Seriam os donos dessas agências pedófilos?
132
Mas estas adolescentes estão liberadas pelos órgãos de proteção de crianças e
adolescentes para trabalhar, até fora do país e sem a companhia dos pais, como
“modelos” (De quê? Para quem?).
O movimento no Brasil 207
envolvam explicitamente violência, mas a afirmação generalizada, que o
Código Penal retrata, de que adolescentes não têm “maturidade física e
mental” para dispor de seu próprio corpo. Assim, permanece a instituição
de um self individual e prevalência de direitos.
Postman (1999) afirma categoricamente que vem acontecendo
nos Estados Unidos a “adultificação” em relação à infância, atribuindo
especial responsabilidade à mídia: “... a nossa nova e revolucionária
mídia vem causando a expulsão da infância depois de sua longa
permanência na civilização ocidental” (POSTMAN, 1999, p. 134). A sua
tese é sustentada por uma série de exemplos especialmente da televisão
e do cinema, em que crianças são expostas como adultas: vestimentas,
posturas, linguagem etc. A “adultificação” de crianças também acontece
na mídia brasileira, se tomarmos como referência alguns programas
infantis que estimulam vestimentas e danças até então restritas a adultos.
Para este trabalho de pesquisa, é mais relevante constatarmos
que, apesar do “abuso” ter se solidificado também como um tipo no Brasil,
há diálogo incessante entre permanências e rupturas construindo práticas,
agenciando corpos, produzido versões do mundo: o moleque abusado
deu espaço à criança “abusada”, mas nem tanto. Impedir que uma
criança sofra violência, sim. Impedir que não possa mais ficar nas ruas,
aguçar sua curiosidade (inclusive a sexual), impedir que transformemos
as nossas tradicionais organizações sociais e impedir que repensemos as
tão naturalizadas categorias humanas, não.
Nada mais consoante com a postura construcionista:
A compreensão das práticas discursivas deve levar em conta tanto as
permanências como, principalmente, as rupturas históricas, pela identificação
do velho no novo e vice-versa, o que possibilita a explicitação da dinâmica
das transformações históricas impulsionar sua transformação constante. Por
meio dessa abordagem, buscamos construir um modo de observar os
fenômenos sociais que tenha como foco a tensão entre a universalidade e a
O movimento no Brasil 208
particularidade, entre o consenso e a diversidade, com vistas a produzir uma
ferramenta útil para transformações da ordem social (SPINK & MEDRADO,
1999, p. 61).
aaaïbbb
VII. À GUISA DE CONCLUIR?
Só me resta a interrogar os filósofos. Entrei na grande biblioteca, perdi-
me entre as estantes que despencavam sob o peso de pergaminhos
encadernados, segui a ordem alfabética de alfabetos extintos, para
cima e para baixo pelos corredores, escadas e pontes. Na mais remota
sala de papiros, numa nuvem de fumaça, percebi os olhos
imbecilizados de um adolescente deitado numa esteira, que não tirava
os lábios de um cachimbo de ópio.
— Onde está o sábio? — o fumador apontou para o lado de fora da
janela. Era um jardim com brinquedos para crianças: os pinos, a
gangorra, o pião. O filósofo estava sentado na grama. E disse:
— Os símbolos formam uma língua, mas não aquela que você imagina conhecer.
Compreendi que devia me liberar das imagens que até ali haviam
anunciado as coisas que procurava...
Não existe a linguagem sem engano.
(Ítalo Calvino, 1993, p. 47-48)
À guisa de concluir? 210
7.1. Os movimentos na construção de um tipo:
A pesquisa foi calcada na noção de que é possível verificarmos,
na história humana, períodos em que há um nítido “aglomerado” de
instituições compartilhando a construção hegemônica de sentidos
atribuídos a uma ação/atividade/prática específica. A esse conjunto ou
aglomerado de instituições Hacking denominou matriz (1999, p. 10),
entendida também como um “espaço social”, onde “funciona uma
classificação” (Ibid., p. 11) ou a nomeação de determinados sentidos.
Buscou-se a localização desse espaço social indicando a matriz do “abuso”
e as suas estratégias de visibilidade e solidificação como um tipo.
Procurou-se ainda mostrar, como afirmam Spink & Medrado
(1999, p. 46, 47, 55), que a construção de sentidos é sempre o confronto
entre inúmeras vozes, que a linguagem é ação e produz conseqüências e
que tudo isso se faz em um processo constante de negociação. Essas
nomeações ou construções de sentidos são negociadas em um espaço
social, são coletivas (Latour, 2000, p. 53) e são talhadas durante vários
anos, imprimindo mudanças que se “naturalizam”. Assim, é muito comum
hoje que, ao lermos em uma manchete de um jornal os dizeres "Pai abusa
de filha”, imediatamente estabeleçamos relações com um ato sexual
genital proibido e violento. O termo “abuso” significa uso incorreto ou
excessivo, mas a partir de determinado momento passou a ter um sentido
mais amplo, relacionado ao ato sexual entre um adulto com uma criança
e/ou adolescente.
O "abuso" se tornou objeto do conhecimento científico, passando
a ser "registrado" sob várias formas: câmeras fotográficas, exames
clínicos, com ou sem o uso de aparelhos (Raios X, colposcópio, por
exemplo), e quadros estatísticos. Os registros serviram para
"representar" o “abuso” sexual infantil, dando-lhe objetividade,
visibilidade e “materialidade inquestionáveis”. Concomitante, foi
À guisa de concluir? 211
classificado como doença e relacionado a um “trauma”, no sentido de que
suas conseqüências não se limitam ao aspecto físico (uma lesão impressa
no corpo), mas se referem também a uma lesão “espiritual”, “sofrimento
psíquico” (impressa na mente/lembrança). Em decorrência disto, passa a
ser opinião geral que a pessoa submetida ao “abuso” precisa de
tratamento psicoterápico centrado na memória, já que são as lembranças
doloridas de um acontecimento que trazem sofrimento.
Eis um quadro geral da emergência do “abuso” sexual infantil.
Deixou-se de lado a exploração das teorias explicativas do “abuso" e se
priorizaram os caminhos ou estratégias que foram utilizadas para dar
visibilidade a este acontecimento, mostrando como foram criadas as
condições de possibilidade para a solidificação do que Hacking (1999)
chama de um tipo. São construções características do gênero humano “...
de preferência habituais ou arquitetadas para algum propósito” (Ibid., p.
128). Em outras palavras, são qualificações que se constituem no que
Bourdieu (2000, p. 61) chamou de habitus: conhecimento adquirido e
também um haver, no sentido de experimentar, ser afetado por. Portanto,
são qualificações que se fazem continuamente e que até podem, em alguns
momentos, constitui uma “arrumação” que se institucionaliza, uma
“atualização da história”, “sínteses passivas”, “estruturas estruturadas”
(BOURDIEU, 2000, p.82-83), mas, ao contrário, são unicamente
movimentos.
Quais foram os movimentos do “abuso” ? Chegaram em que
“onda”? Onde desaguaram? Como foram estruturados? Que estratégias de
visibilidade usaram? São questões que nortearam este trabalho de
pesquisa.
O “abuso” infantil desenvolveu-se no movimento de combate à
crueldade cometida contra crianças e o ultrapassa incluindo o aspecto
sexual, a negligência e a humilhação (“abuso” psicológico). Permite que o
À guisa de concluir? 212
Estado e organizações não-governamentais (ambas organizações de
governamentalidade) interfiram na vida doméstica, com o intuito de
preservar a integridade da criança e a própria estrutura familiar.
Diferentemente do incesto, o “abuso” não se vincula apenas a um problema
moral (relações entre pares consangüíneos), mas a uma violação de
direitos, a uma violência.
Porém, há um debate recente e ainda pouco visível, relacionado
à sexualidade na adolescência. A violência é condenada, no entanto,
reconhece-se a erotização manifesta no corpo adolescente, que é
valorizada pela sociedade, veiculada em telenovelas e revistas. Esse
parece ser um debate que irá crescer, relacionando-se à gravidez na
adolescência e inimputabilidade aos menores de 18 anos.
7.2. Os movimentos para “continuidade” da pesquisa
Ao “terminar” o trabalho de tese, já se esboça um programa de
novos estudos. Nesse sentido, o vínculo com o Núcleo de Psicologia Social
e Saúde (PUC-SP), compartilhando dúvidas e elaborações, é fundamental.
Algumas questões de estudo já começaram a tomar corpo. Por exemplo:
— A relação sentido/acontecimento. É possível adotar o termo
acontecimento sem atrelá-lo ao termo “sentido” para escapar da
“ditadura humana dos significados e interpretações”?
— A noção de “matriz” pode ser substituída pela expressão “condições de
possibilidade”, e assim abandonar de vez um certo resquício de
determinismo?
— A noção de “tipo” é a melhor expressão para indicar “as instituições de
um tempo”?
À guisa de concluir? 213
7.3. Os movimentos desencadeados na vida do
pesquisador
Depois de ter percorrido durante os últimos quatro anos dezenas
de textos em livros, revistas, jornais, banco de dados, Internet, em uma
jornada dubiamente cansativa e prazerosa, a sensação é de estar, como
cantava Gonzaguinha, “de volta ao começo”.
O construcionismo e os escritos de Ibáñez, Hacking, Foucault,
Latour, Rose e Spink mudaram minha postura diante da vida. Durante a
pesquisa sobre a construção de um tipo (“abuso” sexual infantil
intrafamiliar), percebi a volatilidade das construções humanas e mais
ainda, a delícia do estar sendo.
Dois grandes poetas (só eles conseguiriam colocar letras no que
me afeta neste momento), sempre estrangeiros (mutantes, não se deixam
aprisionar por nenhum lugar), finalizam um novo começo.
Primeiro Fernando Pessoa:
Não só eu quem escrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
(...)
E, abrindo-se as asas sobre Renovar,
A erma sombra de vôo começado
Pestaneja no campo abandonado...
Fernando Pessoa, 1991, p. 90
À guisa de concluir? 214
E agora o Chico:
Tantas palavras
Que eu conhecia
Só por ouvir falar, falar
(...)
Não tinham tradução
Mas combinavam bem
(...)
Tantas palavras
Que eu conhecia
E já não falo mais, jamais
Quantas palavras
Que ela adorava
Saíram de cartaz
Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui.
LP Chico Buarque, 1984
aaaïbbb
Anexos
216
ANEXO I
217
ANEXO II
TABELA DE ACONTECIM ENTOS INTERNACIONAIS
ORGANIZA-
DATA ACONTECIMENTO LOCAL PERSONAGEM FOCO OBS FONTE
ÇÃO
Fundação da
Sociedade de Nova Nova
1874 Iorque para a
Iorque
Prevenção da
Crueldade às Crianças
Criada lei punido o Rousseau &
1908 Inglaterra Potter, p.245,
incesto na Inglaterra
1999
Desaparece do
1910 noticiário “crueldade às EUA Hacking (1999)
crianças”
Crueldade dá lugar à
1910-1960 mortalidade infantil e EUA Hacking (1999)
delinqüência juvenil
Obtém relatos
Kinsey A. C., de adultos sobre
Publicada a pesquisa: Filadélfia Pomeroy, W. F., Sexualidade contatos sexuais Olafson, et al.,
1953 “Sexual behavior in the Martin, C. E., & feminina com outros 1993, p.15
human female” EUA
Gebhard, P. H. adultos quando
crianças
Organização do I Atenção para
Associação os danos
Encontro da Denver
1961 Médica Dr. C. H. Kempe físicos usando
Associação Médica (Colorado) Americana como prova
Americana
Raios-X
Já havia o
Veiculação da
preceito de que
chamada “Síndrome Atenção para
os danos a criança
1961-1962 Radiográfica” e EUA Pediatras Hacking (1999)
deveria ser
“Síndrome da Criança físicos
afastada dos
Espancada”
pais
Kempe, C. H.,
Publicado no Journal of Associação O abuso passa a
Siverman, F.,
the American Medical Médica Atenção para ser construído
Steele, B.., Susan Janko
1962 Association: The EUA Americana os danos como um
Droegemueller, (1994)
battered child físicos problema
(181:17) W.., & Silver, H.
syndrome. epidêmico
K.
Diversos estudos sobre Associação Atenção para
1962 as “síndromes” são EUA Médica os danos Hacking (1999)
publicados na mídia Americana físicos
Primeiras Leis Atenção para
1963 referindo-se à EUA Hacking (1999)
os danos
agressão contra físicos
crianças
The maltreated child. Charles C. Viviane Guerra
1964 The maltreatment Illinois
Thomas (1985)
syndrome in children
Index Medicus
adicionou abuso de Atenção para
1965 criança na sua lista de EUA os danos Hacking (1999)
categorias para físicos
catalogação
218
ANEXO III
TABELA DE ACONTECIMENTOS NACIONAIS
ORGANIZA-
DATA ACONTECIMENTO LOCAL PERSONAGEM FOCO OBS FONTE
ÇÃO
De Sobre a Faculdade
Rio de D. Mendonça Tese de Claudio Cohen
1943 psicopatologia do Nacional de
Janeiro (RJ) Uchoa doutoramento (1993)
incesto Medicina
Coates, V.;
Publicado artigo: Rio de Jornal de Ribeiro, T.; Viviane
1973 Síndrome da criança Janeiro (RJ) Pediatria Hercowitz, L. H. Guerra (1985)
batida
& Kaiseman, I.
Artigo publicado: Viviane
1975 Brasil Jovem
Crianças espancadas Guerra (1985)
Aborda o que
chama de
“assalto Livro que relata
Publicada a tradução
incestuoso” seu trabalho de
do livro de Sandra
relacionando-o pesquisa
Butl er (1978): A Rio de Zahar Arquivo
1979 Sandra Butler com qualquer abordando a
conspiração do Janeiro (RJ) Editores pessoal
ato sexual dinâmica do
silêncio; o trauma do
manual ou “assalto
incesto
genital imposto incestuoso”
por um adulto a
uma criança
Publicado artigo: São Paulo Pediatria Viviane
1982 A síndrome da criança Deluqui, C. G
(SP) (4: 26-34) Guerra (1985)
espancada
Tradução de
publicação norte -
Relatos de americana. O
Editora abuso sexual prefácio foi
Publicada a tradução Ellen Bass & escrito pela
São Paulo Harper & infantil Arquivo
1985 (1985): Nunca contei a Louise Thorton Diretora da
(SP) Row do praticado por pessoal
ninguém (orgs.) Revista NOVA
Brasil pais, parentes
ou estranho que à época
havia publicado
dois artigos a
respeito
Aborda o tema
da violência
doméstica com
ênfase na Trata-se de sua
violência dissertação de
sofrida pela mestrado e é um
Publicado: Violência criança ;
São Paulo Cortez dos trabalhos Arquivo
1985 de pais contra filhos: Viviane Guerra Procura revelar
(SP) Editora pioneiros sobre pessoal
procuram-se vítimas que a família violência
não é protetora doméstica no
da criança e Brasil
procura tornar
seu trabalho
como um foco
de denúncia
“Combater de
forma
organizada e
sistemática a Maria A.
Secretaria de Maria Amélia vitimização
12-10- São Paulo Azevedo &
Criada a Rede Criança Estado do Azevedo e física e
1987 (SP) Viviane
Menor Viviane Guerra doméstica e a Guerra (1989)
vitimização
sexual” sofrida
por crianças e
adolescentes
219
ANEXO IV (a)
220
ANEXO IV (b)
221
ANEXO V
222
ANEXO VI
223
ANEXO VII
224
ANEXO VIII
REFERÊNCIAS
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SOBRE O AUTOR:
Ricardo Pimentel Méllo é professor do Departamento de Psicologia Social e
Escolar, na Universidade Federal do Pará (UFPA) e participa do Núcleo de Pesquisa em
Psicologia Social e Saúde do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da
PUC-SP. Nasceu em 1962, em Belém (PA). Graduou-se em Psicologia na UFPA em 1986.
Especializou-se em teoria psicanalítica em curso interinstitucional UFPA/UFRJ, realizado
em Belém, em 1992, apresentando o trabalho de monografia Pulsão de morte e
violência: uma articulação possível?. Na Universidade Católica de São Paulo, cursou seu
mestrado defendendo, em 1994, a dissertação A representação social dos direitos de
exploração e uso do solo: um estudo psicossocial da violência na região sul do Pará. No
Centro de Estudos Psicanalíticos, em São Paulo, fez Formação em Psicanálise, concluída
em 2000.
Seus estudos e pesquisas atuais situam-se no âmbito da construção de
sentidos.
Para contato:
Fone: (91) 249-80-35
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