ANTÓNIO RAMOS ROSA
Entrevistado por Maria Augusta Silva
EXCERTOS DA ENTREVISTA EM MODO ÁUDIO
OUTUBRO 2004
O sol do poema é o sol para lá do sol. O tema da minha
poesia passa por uma busca de identidade. Também ando
numa deriva à procura daquela outra coisa que quero
encontrar e que talvez encontre, uma outra coisa que está
em tudo, em cada coisa, mas que ninguém vê, porque
existirá misturada na poeira da existência. Mas eu quero
ver. Tenho a preocupação de ver.
Ao escrever ganha maior inocência?
Há um impulso que tende a levar o poema para uma certa
inocência, para uma espécie de paraíso.
Como vive o poema no interior do seu corpo?
O poema nasce de uma unidade dinâmica entre o
consciente e o inconsciente. Quando repouso e adormeço
um bocadinho encontro essa unidade e nasce o poema.
O «paraíso do sono...», de que fala na sua poesia?
Esse sono não é necessariamente o sono. O sono não é
uma cegueira. S. João da Cruz foi um dia visitar uns
monumentos. E perguntaram-lhe: não são bonitos estes
monumentos? Respondeu: não vim aqui para ver. E disse
assim porquê?, porque há uma outra forma de ver.
Presença da mulher é constante na sua poesia e
desenho. Um fascínio?
Um poeta místico e erótico, William Black, diz que «a nudez
da mulher é divina».
Nos seus poemas não existe só o corpo-fêmea...
O corpo é uma palavra recorrente na minha poesia, uma
poesia da sensualidade, erótica, sem dúvida. Os meus
poemas estão, do mesmo modo, muito ligados ao
firmamento, aos elementos naturais: à terra, à água, ao
sol, ao vento.
Formam um corpo solar?
Um corpo cósmico. Uma vez, em Saint-Denis (França), num
encontro de escritores em que estava, também, a Agustina
Bessa-Luís, perguntou-me o Eduardo Prado Coelho se a
minha poesia não seria influenciada pela paisagem do
Algarve, onde nasci. Na ocasião respondi: não sou um
poeta regionalista.
E não é...
Não sou, mas a resposta só a achei mais tarde quando
escrevi um poema sobre o Algarve. Há uma característica
do Algarve, uma aridez e secura que existem em alguns
dos meus poemas. Isso marcou-me.
Eterna busca de uma identidade?
O tema da minha poesia passa, é verdade, por uma busca
de identidade. Não significa, contudo, que seja a evasão
total do poeta. Nunca se dá uma evasão completa.
Todo o poeta fica sempre um pouco preso à terra?
Sim.
Embora de palavra enxuta, a sua arte poética não
vive de emoções?
Na verdadeira poesia há sempre uma relação entre
interioridade e o espaço e os outros homens.
O “grito claro” que atravessa os seus livros irrompe
do “caminhante do deserto”?
O poeta espanhol Antonio Machado diz isto, extraordinário:
Caminhante não há caminho o caminho faz-se caminhando.
Esse meu grito torna-se claro, no entanto vem das
profundidades negras, profundidades básicas,
fundamentais.
Chama alma a essas profundidades?
Alma, espírito, são nomes que damos a qualquer coisa que
não sabemos o que é. Espírito talvez seja uma entidade
que compreendemos melhor, apesar de contraditória. Para
Paul Valéry, o espírito é contraditório e, se não fosse
contraditório, então não seria espírito. A realidade do Eu-
sujeito é contraditória tal como a realidade do mundo.
Todos os criadores passam por metamorfoses...
Se a minha maneira de ser tem mudado é porque a idade
me faz mudar mais do que eu próprio.
Cummings ensina-nos que toda a ignorância
escorrega para o saber. Ao escrever o Livro da
Ignorância procurou a grande sabedoria?
Não sei dizer coisas definidas sobre a minha poesia. Há um
poeta provençal, Guilherme IX d’Aquitânia, a provar-nos
como a modernidade sempre existiu nos poetas em todos
os tempos. Deixe-me ver se encontro o livro...
Consegue entender-se no meio da revolução de
papéis que o cercam?
Entender-me e desentender-me. Tenho um livro que se
chama Ocupação do Espaço... Bem, gostava de encontrar
esse poema provençal. Está aqui. Vou lê-lo do francês,
numa tradução livre: «Farei um poema de absolutamente
nada / não é de mim nem de outra gente / não é de amor
nem de juventude / nem de nenhuma outra coisa / porque
antes foi criado dormindo sobre um cavalo».
Cavalo que atravessa o seu imaginário poético.
Significa uma luta a galope no espaço e no tempo?
O cavalo é um animal com uma vitalidade admirável.
Ainda tem inéditos guardados?
A minha companheira Agripina, e eu próprio, quando vou a
casa, à segunda-feira, desencantamos vários originais.
Burila os poemas?
Na fase em que fui mais feliz no domínio da poesia quase
não fazia alterações.
Dava-se um encontro imediato?
Dá-me vontade de dizer o que Picasso respondeu um dia a
um jornalista ao perguntar-lhe o que procurava ao fazer um
quadro. Picasso disse: Não procuro nada, encontro.
Os poemas são os seus diademas?
Espero que sejam de todos.
«Sou um homem antes do homem / e depois do
homem», diz-nos precisamente no livro Os Volúveis
Diademas. Sente-se desajustado, sempre em viagem
à procura do «deus nu(lo)»?
O poeta não é um homem que se aceita. Je me suis
inacceptable (Sou-me inaceitável), disse um outro poeta.
Também ando numa deriva à procura daquela outra coisa
que quero encontrar e que talvez encontre, uma outra coisa
que está em tudo, em cada coisa, mas que ninguém vê
porque existirá misturada na poeira da existência.
Que poderá existir na poeira da existência?
É a poeira da existência que envolve as pessoas e não as
deixa ver, mas eu quero ver, tenho a preocupação de ver.
Para ver é preciso, porém, não pensar no que se está a ver.
Não deve haver interposição mental na visão.
Já teve a sensação de ver de uma outra forma?
Dou-lhe um exemplo: moro perto do Campo Pequeno e um
dia fui sentar-me numa parte do parque onde não estava
ninguém. Sentei-me no banco, estendi a mão sem ver a
árvore perto, como se houvesse realmente um vazio
mental; a certa altura, um pardal veio poisar na travessa
superior do banco. Lembro-me de ter pensado: seria
interessante se o pássaro poisasse na minha mão. Um
segundo depois, poisou, deu a volta, saltitou pelo meu
ombro, passou para a cabeça e bicou-me os cabelos. Achei
isto um acontecimento espantoso.
Há uma forte identidade entre si e os pássaros como
se partilhassem um voo de libertação?
A poesia é «liberdade livre» uma expressão de Rimbaud.
Também Angelus Silesius diz que a «rosa é sem porquê,
floresce quando floresce». A poesia é isso.
Daí a inspiração para escrever Poesia, Liberdade
Livre?
Vou contar-lhe uma coisa: esse livro estava uma vez numa
livraria de Faro e um agente da PIDE apreendeu-o,
mandou-o para a Censura; terá pensado que liberdade livre
não era liberdade condicional, portanto devia ser alguma
coisa contra o fascismo. A Censura não lhe encontrou nada
de político nem de subversivo e devolveu o livro à
procedência. Fiquei dececionado!
Funciona a arte como antissistema?
A poesia é um antissistema. A realidade do eu é
contraditória, tal como a realidade de um livro.
No seu caso, a poesia continua a florescer todos os
dias. E, a par da poesia, desenha. Como lhe sai um
traço tão rápido e firme?
Sai assim, não pensado. É quase como os pássaros, que
têm uma grande espontaneidade, se não a tivessem, se os
pássaros pensassem no que iam cantar, não cantavam.
Está a desenhar e a cantarolar...
A cantar faço melhor.
Quando começou a desenhar? Julgo saber que nem
era muito bom aluno a desenho...
Estava doente, há uns anos, e comecei a fazer uns
desenhos com esferográfica mas não resultava. Depois
passei para os marcadores e, pouco a pouco, com a prática
deu isto.
Por que desenha quase todos os rostos só com um
olho?
Há uma certa intencionalidade. Estas figuras veem mais
com um olho só.
Gosta de desenhar figurativo e abstrato. Que há de
comum e de diferença entre eles?
É como na pintura. O figurativo e o não-figurativo devem
possuir uma auto referencialidade de elementos estéticos
que se combinam entre si; na pintura figurativa, contudo,
tem de haver, necessariamente, uma referencialidade
maior; o não-figurativo não implica propriamente
referencialidade, embora o espetador possa ver uma
qualquer referencialidade.
«Eu escrevo versos ao meio-dia». E assim escreveu.
O meio-dia é o momento em que se dá o grande
diálogo entre a luz e a sombra?
Gosto do meio-dia e gosto igualmente da hora do
crepúsculo. E também escrevo à noite, por vezes.
Poesia, uma utopia?
Utopia quer dizer o quê? Vem do grego: Ou (não) + topos
(lugar). O não-lugar, ou o que está para além do lugar. É
essa utopia que permite atingir o nível em que o poema
encontra o seu verdadeiro lugar.
«Estou vivo e escrevo sol», verso que se tornou
emblemático de toda a sua obra. Como se escreve
sol?, explique-nos...
Há o sol real. Mas o sol do poema é o sol para lá do sol,
tem a ver mais com a intimidade do poeta.
Faz um tempo chuvoso... Em tempo de chuva como se
sente o poeta que escreve sol?
Quando a chuva é muito forte, muito pesada, não sou
capaz de escrever.
Na poesia, as palavras precisam de combinar umas
com as outras?
Deve haver uma coerência. O crítico Jean-Pierre Richard diz
que a poesia é a coerência da incoerência. Porque a poesia
deve ser aberta, não pode estar subordinada a um discurso
unívoco, fechado.
Traduziu muitos poetas. Algum que tenha apreciado
mais?
Muitos. Traduzi Paul Éluard, por exemplo. A poesia é difícil,
uma linguagem diferente.
Diz: «O que eu desejo / vem depois de toda a
esperança». Que desejo?
Procuro, aí, dar ao desejo um valor ético, de coragem. Um
desafio.
É uma pessoa terna?
Tenho a impressão que herdei isso da minha mãe. Gostava
muito dela mas às vezes também tinha fúrias contra a
minha mãe.
Impulsivo, ainda hoje?
Já não. O lado afetuoso melhorou muito nos últimos
tempos, tornou-se mais temperado.
A identidade entre o poeta e a escrita será lógica ou
relativa?
Um poeta pode desejar transmitir qualquer coisa e quer ser
sincero e justo em relação ao que sente. Quando vai
escrever, porém, diz uma coisa completamente diferente.
Dá-se uma heteronímia.
Razão bastante para Pessoa ter muitos
heterónimos...
E fez muito bem. Os heterónimos de Pessoa são
magníficos. Tudo o que um poeta escreve são heterónimos.
Pascal Fleury escreveu a propósito da sua obra:
«António Ramos Rosa leva-nos ao limite do
mistério». Que mistério?
O mistério de tudo e de todas as pessoas. Na minha poesia
há uma busca de identidade porque eu mesmo me não
conheço. Falo e comunico, no entanto. Estou a comunicar
consigo e entendemo-nos sem um conhecimento de nós. Aí
é que está o mistério da comunicação intersubjetiva.
Por que se define como «um construtor de gritos no
abismo»?
O grito é inerente à criação poética. Vem de longe. O
primeiro homem que viu o mundo ficou assombrado e
talvez tivesse dado esse grito.
«Não posso adiar o coração». Um dos seus versos
mais referidos. Esteve sempre aberto aos outros?
Que urgência é esta?
A urgência do amor. Também é verdade que, apesar de
todas as dificuldades da minha vida, fui-me tornando mais
aberto aos outros. Era muito introvertido, tímido, tinha
muita dificuldade em comunicar.
Tem sido feliz no amor?
Posso dizer que fui feliz e que fui infeliz, as duas coisas
estão relacionadas. Santa Teresa d’Ávila dizia que o amor é
mais terrível do que o inferno.
Goethe aponta um rumo: «Faz da tua dor um canto».
A sua poesia é canto?
Na medida em que o poema é uma celebração.
Desde cedo sentiu que a escrita seria um caminho,
um destino?
Há coisas que se processam em nós, sobretudo nos poetas,
que não ocorrem ao nível do consciente.
Nas palavras guarda a «chama do silêncio». As
palavras, ao mesmo tempo que desnudam também
cobrem os maiores segredos?
A palavra poética, sim.
Portugal, um país de grandes poetas?
Como qualquer outro país. Não penso que Portugal tenha o
privilégio de ter melhores poetas.
Pertenceu ao MUD-Juvenil e confessava-se próximo
do marxismo. Que encontrava nas ideias de Marx?
O marxismo tinha um fundamento humanista que apontava
para a mudança da realidade social, para a transformação
do mundo, de modo a que a vida fosse mais suportável. Fui
um marxista heterodoxo.
Nasceu e viveu em Faro a infância e juventude.
Gostava de sentir-se próximo do mar?
Não sabia nadar, mas já era uma grande coisa saber boiar
e andar na água. Sofri problemas de saúde, mais de ordem
psíquica do que física. Um dia, a minha mãe trouxe-me a
um médico de Lisboa, que tinha consultório no Largo de
Camões. Expus-lhe o meu problema, disse-lhe que não
achava nenhum sentido na vida. Ele levou-me à janela:
Está a ver aquelas pessoas, vão para os seus empregos,
essas pessoas têm um sentido na vida. Eu não soube
responder naquela ocasião, porém devia ter dito: o sentido
de vida dessas pessoas não me interessa. O médico chegou
a dizer à minha mãe, à parte: o seu filho há de ser um
grande homem.
E foi, é. Tem conseguido conjugar na sua poesia
todos os contrários da vida?
Se conseguisse, seria uma grande realização; de qualquer
maneira, tenho a preocupação de uma poesia que englobe
os contrários da vida, as disparidades.
Difícil ao poeta suportar-se a si próprio?
Acontece com toda a gente. Somos um peso difícil.
Como foi a passagem por um convento?
Os meus pais tinham dificuldades em pagar a renda da
casa e arranjaram um serviço no Convento de São
Francisco, em Faro, era eu adolescente. A igreja ficava
mesmo ao lado e uma vez subi as escadinhas e fui dar ao
púlpito. Não estava ninguém. Fiz um sermão lindíssimo! Era
a minha fantasia.
Outras lembranças da infância?
Havia os fogões de lenha e usava-se um abano para agitar
o lume. Eu gostava muito de ciclismo. Recortava dos
jornais as fotografias dos ciclistas, alinhava-as no chão e
agitava-as com o abano a ver aquele que mais corria.
Mantém um fino sentido de humor...
Ao longo das vicissitudes da minha vida, se não fosse o
humor... Acaba por ser uma defesa.
Continua guloso?
Era glutão, agora não como muito. Gostei sempre de
Bacalhau à Brás, de cozido à portuguesa e de jardineira
com aquelas ervilhas que na minha terra (Algarve)
chamavam griséus no meu tempo, não sei se ainda lhes
chamam assim...
Fumava muito...
Fumei. E bebia muito café. Não foi o médico que me disse
para deixar de fumar. Houve uma rejeição orgânica. Uma
noite acordei com um sabor horrível; no dia seguinte acabei
com os cigarros, e com o café, idem.
Pintor eleito?
Gosto tanto de pintura que nem sei dizer de que pintor
mais gosto..., vê ali um álbum de Picasso?, e muitos mais.
Tenho um certo fascínio pela pintura cinética, «pintura em
movimento» como a de Vasarely.
Ao receber distinções como o Prémio Poeta Europeu,
o Grande Prémio de Poesia da APE e o Prémio
Pessoa, ficou particularmente contente?
Contente, sim, é sempre grato ver o nosso trabalho
reconhecido.
Hoje, ao sentir algumas fragilidades, a arte poética
continua a ser um alimento essencial?
A poesia não resolve os nossos problemas mas ajuda
muito.
Outono, as folhas a cair, isso não o impressiona?
Tem a sua beleza. Podem existir dias solares com as folhas
a cair.
A poesia já lhe pôs o coração a nu?
Embora se queira dizer tudo, fica sempre alguma coisa por
dizer.
© MARIA AUGUSTA SILVA