Espaço Social Alimentar: auxiliando na compreensão dos modelos alimentares
Jean-Pierre Poulain1
Rossana Pacheco da Costa Proença2
A alimentação humana é submetida a duas séries de condicionantes mais ou menos flexíveis. As
primeiras são referentes ao estatuto de onívoro (aquele que pode se alimentar de produtos animais, vegetais ou
minerais) e impostas aos comedores humanos por mecanismos bioquímicos da nutrição e às capacidades do
sistema digestivo, deixando um espaço de liberdade largamente utilizado pelo cultural. Já as segundas são
representadas pelas condicionantes ecológicas do meio ambiente no qual está instalado o grupo de indivíduos
oferecendo, também essas condicionantes, uma zona de liberdade na gestão da dependência do meio natural.
Neste sentido, o Espaço social alimentar corresponde à essa zona de liberdade dada aos comedores
humanos pela dupla série de condicionantes materiais e pode ser definido em seis dimensões, conforme a figura
abaixo.
O espaço social alimentar
Cultura
Espaço de liberdade
Condicionantes As dimensões sociais da Condicionantes
fisiológicas e ecológicas
biológicas alimentação
A ordem do comestível
O sistema alimentar
O espaço culinário
O espaço dos hábitos de consumo
alimentar
A temporalidade alimentar
L’espace de différenciation sociale
1
Socio antropólogo, Professor da Université de Toulouse Le Mirail, Toulouse, França . Coordenador do Centre d’Etude du Tourisme
et des Industries de l’Accueil (CETIA) e da Cellule Recherche Ingénierie Tourisme, Hôtellerie, Alimentation (CRITHA). Membro do
C.E.R.S. (Centre d’étude des rationalités et des savoirs) UMR-CNRS N°5117. Autor de Sociologias da Alimentação, editado pela
Série Nutrição da EDUFSC em junho de 2004.
2
Nutricionista, Doutora em Engenharia, Pós-Doutorado em Sociologia da Alimentação na França como bolsista da CAPES. Docente
do Curso de Nutrição e dos Programas de Pós-Graduação em Nutrição e em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa
Catarina – UFSC.
O espaço do comestível é a escolha feita por um determinado grupo humano no interior do conjunto de
produtos vegetais e animais colocados à sua disposição pelo meio natural, ou que poderá ser implantado pela
decisão do grupo. Esta escolha não é somente adaptativa, pois se observa que grupos que habitam locais
semelhantes apresentam hábitos alimentares diferenciados. Por exemplo, em várias regiões do mundo existem
cachorros, mas somente em poucos locais eles são considerados comestíveis.
A segunda dimensão, o sistema alimentar, corresponde ao conjunto de estruturas tecnológicas e sociais
que são empregadas desde a coleta até a preparação culinária, passando por todas as etapas de produção e de
transformação. Para chegar ao consumo humano, essas etapas são controladas não somente por leis físicas, mas
também por leis sociológicas, uma vez que as pessoas que vão controlando os processos agem de acordo com
lógicas profissionais ou familiares, em função de suas representações de necessidades e desejos dos comensais
e de seus papéis sociais recíprocos.
O espaço do culinário representa, ao mesmo tempo: um espaço no sentido geográfico do termo (se uma
cozinha localiza-se dentro ou fora de uma casa, aberta ou fechada para a sala, por exemplo); um espaço no
sentido social (repartição sexual e social das atividades de cozinha), mas também um espaço no sentido lógico
do termo, de relações formais e estruturadas, naquela hierarquia bem definida que conhecemos em cozinhas
coletivas e comerciais. Para a sociologia, a cozinha é um conjunto de ações técnicas, de operações simbólicas e
de rituais que participam da construção da identidade alimentar de um produto natural e o transforma em
consumível.
A quarta dimensão, o espaço dos hábitos de consumo, representa o conjunto de rituais que cercam o ato
de se alimentar. A definição de uma refeição, sua organização, a forma da jornada alimentar (número de
refeições, formas, horários, contextos sociais), as modalidades de consumo (comer com garfo e faca, com a
mão, com o pão...), a localização das refeições, as regras de localização dos comensais, etc. variam de uma
cultura à outra e no interior de uma mesma cultura, de acordo com os grupos sociais.
Já a temporalidade alimentar considera que a alimentação se inscreve dentro de uma série de ciclos
temporais socialmente determinados, como o ciclo de vida dos homens com uma alimentação de lactente, de
criança, de adolescente, de adulto e de idoso. A cada etapa correspondem estilos alimentares compreendendo
alguns alimentos autorizados, outros proibidos, os ritmos das refeições, os status dos comensais, os papéis, as
condicionantes, as obrigações e os direitos... Representam tempos que vão se alternando ciclicamente. O ritmo
das estações e dos trabalhos no campo pelos agricultores, o da migração das caças pelos caçadores, a
alternância de períodos de abundância e de penúria – sejam eles naturais, períodos de colheita e de poda, ou
decididos pelos homens – períodos festivos onde todos os alimentos são autorizados e períodos de jejum parcial
ou total. Enfim, um ritmo cotidiano, com suas alternâncias de tempos de trabalho, de repouso, as diferenças das
refeições, as comidas fora das refeições e seus horários respectivos.
Na dimensão espaço de diferenciação social destaca-se que comer marca, também, as fronteiras de
identidade entre os grupos humanos entre culturas diferentes, mas também no interior de uma mesma cultura,
entre os membros que a constituem. No interior de uma mesma sociedade, a alimentação desenha os contornos
dos grupos sociais. Um certo alimento pode ser atribuído a um grupo social e rejeitado por outro. Assim, o
espaço social alimentar assinala a conexão bio-antropológica de um grupo humano no seu meio.
As relações entre o biológico e o social não se reduzem a uma simples justaposição que permite
designar limites precisos, mas são marcadas por uma série de interações. A imersão de uma criança em um
contexto alimentar é pontuada por ritmos; o uso de certos produtos relaciona-se com o biológico tanto no que se
refere à expressão de determinados fenótipos quanto na ativação de mecanismos de regulação e de controle da
tomada alimentar. A alimentação é a primeira aprendizagem social do pequeno homem. Ela está no centro do
processo de “socialização primária”. O comportamento alimentar da criança entrando no mundo é largamente
submetido às condicionantes fisiológicas, à alternância de sensações de fome, aos comportamentos que essas
sensações desencadeiam (apelos, choros, gritos... depois leite) e às sensações de saciedade e de abundância que
lhe seguem. Ao longo das interações com a sua mãe, que logo buscará “regular” a criança sob certos ritmos
sociais (como os ritmos do dia e da noite, os momentos de trabalho e repouso...), esses mecanismos biológicos
vão conhecer uma primeira influência social. Depois, com o desmame, o aprendizado da alimentação “normal”
desenvolverá o gosto da criança, ensinando-lhe a amar aquilo que é bom na sua cultura, e regulará sua mecânica
digestiva aos ritmos da sociedade que lhe viu nascer.
Essa ação do biológico sobre o cultural é tanto mais forte quanto mais a alimentação for implicada nos
processos de construção da identidade social. Ao comer segundo uma forma socialmente definida, a criança
aprende o senso do íntimo e do público (aquilo que ela pode mostrar da sua mecânica alimentar e aquilo que ela
deve esconder), as regras de partilha e de privilégio que refletem a hierarquização social, enfim, o senso do
“bom”, mas exatamente do que é bom para o grupo ao qual ela pertence. Ao comer, ela interioriza os valores
centrais de sua cultura que se exprimem nas maneiras à mesa. Paralelamente, o corpo do comensal e os ritmos
da “mecânica” biológica são formatados pelos ritmos sociais.
Assim, um modelo alimentar é um conjunto de conhecimentos que agrega múltiplas experiências
realizadas sob a forma de acertos e de erros pela comunidade humana. Esse modelo se apresenta sob a forma de
uma série de categorias encaixadas, que são cotidianamente utilizadas pelos membros de uma sociedade, sem
que os mesmos tenham verdadeiramente consciência.
Neste sentido, os conceitos de espaço social alimentar e de modelo alimentar permitem um diálogo
pluridisciplinar entre as ciências sociais e as ciências da alimentação e da nutrição, com o objetivo de auxiliar
na compreensão das decisões alimentares.
REFERËNCIA BIBLIOGRAFICA
POULAIN, J-P. Sociologias da Alimentação. (Tradução de Rossana Pacheco da Costa Proença, Carmen Sílvia
Rial e Jaimir Conti), Florianópolis: Série Nutrição, EDUFSC, 2004.