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DIP RomaI Lima Pinheiro

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O NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO SOBRE A LEI APLICAVEL AS OBRIGACOES CONTRATUAIS (ROMA 1) — UMA INTRODUGAO (‘) Pelo Prof. Doutor Luis de Lima Pinheiro (**) SUMARIO: INTRODUGAG. I, AMBITO DE APLICACAO. A) Ambito material. B) Ambito espacial. C) Ambito temporal. Il. A DESIGNACAO PELAS PARTES DO DIREITO APLICAVEL. TIL CONEXAO SUPLETIVA GERAL. A) Solugées estabelecidas pela Convengao de Roma. B) Solu- gdes estabelecidas pelo Regulamento. C) Determinagao da residéncia habitual, IV, REGRAS DE CONFLITOS ESPECIAIS (CONTRATOS DE ‘TRANSPORTE, CONTRATOS COM CONSUMIDORES, CONTRATOS INDIVIDUAIS DE TRABALHO E CONTRATOS DE SEGURO). A) Con- ‘tratos de transporte. B) Contratos com consumidores, C) Contratos individaais d trabalho, D) Contiatos de seguro. V. REGRAS AUXILIA- RES E COMPLEMENTARES. A) Formagiio ¢ validade substancial dlo contrato, B) Ambito do estauto coniratual. C) Cesafio de eréditos, sub-rogacio, pluralidade de devedores e compensagio. D) Ordem pica internacional, normas susceptiveis de aplicagio necesséia, devolugdo e ordens juridicas complexss. VI. RELACOES COM OUTROS INS- ‘TRUMENTOS. A) Relagdes com outros instrumentos comunitérios. B) RelagBes com Convenges internacionsis. VII. CONSIDERAGOES FINA. (©) 0 presente estudo foi elaborado com vista ao Livro em Homenagem 20 Pro- fessor Doutor Jorge de Figueiredo Dias. (Professor Catedrético da Faculdade de Direito de Lisboa. 516 LUIS DE LIMA PINHEIRO INTRODUGAO I. A crescente internacionalizagio das relagdes econémicas ¢ um dos tracos mais marcantes da globalizagiio. Uma percentagem significativa —e cada vez mais importante — dos contratos obri- gacionais apresenta contactos relevantes com mais de um Estado. Os contratos internacionais colocam antes do mais trés problemas. especificos de regulagio juridica: a determinagao do Direito apli- cével; em caso de lit(gio, na falta de convengio de arbitragem, a determinagio da jurisdig&o estadual competente; enfim, na even- tualidade de o litigio ser decidido por um tribunal estrangeiro, 0 problema do reconhecimento da decisao judicial estrangeira na ordem juridica local. A divergéncia entre as ordens jurfdicas nacionais na resolugao destes problemas compromete a previsibilidade e a certeza juridi- cas. Primeiro, porque aumenta o risco de competéncias concorren- tes de duas ou mais jurisdigdes, permitindo o forum shopping, i.e., a escolha da jurisdigo mais conveniente para a parte que queira propor uma acedo. Nao se podendo determinar antecipadamente a jurisdic&o competente, no se sabe no momento da negociacio, celebragao e execugdo do contrato qual o Direito de Conflitos rele- vante para a determinagao do regime aplicdvel. Enfim, a divergén- cia entre os sistemas nacionais quanto ao reconhecimento das deci- sdes judiciais estrangeiras significa que mesmo depois de uma acgdo ser proposta € de a situaco juridica ser definida por uma decisao judicial de um Estado subsiste a incerteza sobre o valor desta decisdo noutras ordens juridicas. No Ambito das Comunidades Europeias, estas preocupagies conduziram, em primeiro lugar, a um instrumento internacional em matéria de competéncia internacional e de reconhecimento de decisdes judiciais estrangeiras: a Convengao de Bruxelas sobre a Competéncia Judiciéria e a Execugio de Decisées em Matéria Civil e Comercial (1968) (doravante designada Convengao Bruxe- las I). Mas esta Convengdo tem um Ambito de aplicagao no espago limitado e, mesmo dentro deste ambito, conduz com certa fre- quéncia a competéncias concorrentes. Daj ter-se sentido a necessi- dade de adoptar um instrumento internacional com vista 4 unifica- ‘Ao do Direito de Conflitos aplicdvel: a Convengao de Roma sobre O NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO. SIT a Lei Aplicavel as Obrigagdes Contratuais (1980). Na ordem juri- dica portuguesa, esta Convengao tem constitufdo a principal fonte de Direito de Conflitos regulador dos contratos obrigacionais desde a sua entrada em vigor nesta ordem jurfdica em 1 de Setem- bro de 1994 ('). Tratado da Comunidade Europeia, com a redacedo dada pelo Tratado de Amesterdio (arts. 61.°/c € 65.°), atribuiu aos 6rgios comunitérios uma certa competéncia legislativa em matéria de Direito Internacional Privado (Direito de Conflitos, Direito da ‘Competéncia Internacional e Direito de Reconhecimento) “na medida do necessério ao bom funcionamento do mercado interno”. Embora se tenham suscitado diividas sobre o alcance desta com- peténcia legislativa (*), os érgdos comunitdrios entenderam-na no sentido de uma competéncia legislativa genética em matéria de Direito Internacional Privado. ‘Com base neste entendimento, a Comunidade adoptou, entre outros instramentos, o Reg. (CE) n° 44/2001, de 22/12/2000, Rela- tivo & Competéncia Judiciaria, ao Reconhecimento e & Execucao de Decisées em Matéria Civil e Comercial (doravante designado Regulamento Bruxelas 1), que se destinou a substituir a atrés refe- rida Convengao de Bruxelas; 0 Reg. (CE) n.° 864/2007, de 11/7, Relativo 4 Lei Aplicdvel as Obrigagdes Extracontratuais (Regula- mento Roma ID); ¢ o novo Reg. (CE) n.° $93/2008, de 17/6, Sobre aLei Aplicével As Obrigagdes Contratuais (Roma 1), gue visa subs- tituir a Convencio de Roma. IL. O Regulamento Roma I foi adoptado com referéncia & competéncia legislativa atribuida ao Conselho da Unido Europeia e 20 Parlamento Europeu pelos arts. 61.°, 65.°/b, 67.° e 251.° do Tratado da Comunidade Europeia. A sua elaboragio foi precedida (2) A Convento do Funchal Relativa & Adesio do Reino de Espanta e da Reps- bilica Portuguesa & Convengto sobre a Lei Aplicdvel as ObrigagSes Contratuais foi apro- ‘ada pata ratficagio pela Resol. AR 2.° 394, do 32; raificade pelo Dec. PR n. 1/94 da resma data; depSsito da ratficaglo em 30/6/94 (Av.n.° 240/94, de 19/9). (©) Ver Luis de Laca Preino — Direto Intemacional Privado, vol. 1—Inarodi- dio e Direito de Confltos/ Parte Gera, ed, Coimbra, 2008, 210 e segs. com mais efe- ©) COM(2002) 654 final 5 ‘LUIS DE LIMA PINHEIRO da publicagao de um Livro Verde, em 2003 (3), ¢ teve como mar- cos @ apresentacio, pela Comissdo Europeia, de uma Proposta de Regulamento, em 2005 (*), o Pacote de compromisso da Presidén- cia do Conselho da Uniao Europeia, de 13 de Abril de 2007 (*) e a IPosig&o do Parlamento Europeu, aprovada em primeira leitura em 29 de Novembro de 2007, que gracas ao acordo entre o Parlamento e 0 Conselho jé corresponde ao texto legislative final (5), Os tra- balhos preparat6rios e, em especial, a Proposta de Regulamento, que foi acompanhada de uma Exposico de Motivos, constituem importantes elementos de interpretagao dos preceitos contidos no Regulamento. If. O Regulamento Roma I unifica 0 Direito de Conflitos geral dos Estados-Membros por ele vinculados embora, como yeremos, nao exclua completamente a actuagdo de outras fontes. Por “Direito de Conflitos geral” entendo o conjunto de normas de conflitos e de normas especiais sobre a sua interpretagdo e aplica- do que sao aplicadas pelos drgios estaduais e que se destinam, em prinefpio, a determinar a ordem juridica estadual competente. Nem sempre a regulagdo juridica dos contratos intenacionais passa, ou passa exclusivamente, pelo Direito de Conflitos geral. A regulagio juridica dos contratos internacionais é hoje feita em diferentes pla- hos e com recurso a diferentes técnicas. Um estudo global desta pluralidade de planos e de técnicas de regulagao foi feito noutro lugar (*). Aqui chamarei apenas a atengao para a importancia da unificagao internacional do Direito material aplicdvel aos contratos internacionais ¢ para a existéncia de um Direito de Conflitos espe- cial da arbitrage transnacional. A venda internacional de mercadorias e os transportes inter- nacionais constituem duas das éreas em que a unificago interna- cional do Direito material aplicdvel realizou maiores progres- @) COM(2005) 650 final, (©) 8022/07 ADD 1 REV 1 JUSTCIV 73 CODEC 306. (© Ver Resolucao legislativa do Parlamento Europeu, de 29 de Novembro de 2007 [P6_TA(2007)0560). () Ver Luts de Lnda Praneito — Direito Comercial Internacional, Coimbra, 2005, 49.¢ segs. e Bl e segs. NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 379 sos (®), A aplicabilidade do regime contido nas Convengées de Direito material unificado depende dos pressupostos nelas enun- ciados, que tragam o seu 4mbito material e espacial de aplicagao. Quando uma situagéo contratual caia dentro do ambito de aplica- ao de uma destas Convencées ¢ seja apreciada por orgaos de um Estado contratante nao é, em principio, necessario determinar a ordem juridica estadual competente com base no Direito de Con- flitos geral. Portugal, porém, ainda nao ratificou a Convengao mais importante neste dominio — a Convengao de Viena sobre a Venda Internacional de Mercadorias (1980). E essencialmente com respeito a certos contratos de transporte internacional que vigoram na ordem juridica portuguesa Convengées de unificagao do Direito material aplicdvel a contratos internacionais. Por con- seguinte, na falta de uma convengaio de arbitragem, é 0 Direito de Conflitos geral que desempenha na grande maioria dos casos a fungdo de determinar o Direito aplicdvel aos contratos interna- cionais. Por outro lado, a arbitragem nao s6 representa uma alterna- tiva a jurisdico estadual, como constitui mesmo o modo normal de resolugao de litigios emergentes de relagdes do comércio inter- nacional (°). Segundo a opiniao largamente dominante, os tribu- nais arbitrais, mesmo que funcionem em Portugal ou noutro Estado contratante, no esto vinculados & aplicagao do Direito de Conflitos geral e, em particular, da Convenggio de Roma sobre a Lei Aplicdvel as Obrigagdes Contratuais (!°) ou do Regulamento Roma I. Os tribunais arbitrais dispdem de um Direito de Conflitos especial para a determinagio do Direito aplicavel ao mérito da causa nas relagGes entre empresas ¢ entes equiparados, que resulta de uma conjugacao de fontes auténomas (costume jurisprudencial arbitral e regulamentos dos centros institucionalizados de arbitra- gem) com directrizes estaduais (na ordem juridica portuguesa 0 art, 33.° da Lei de Arbitrage Voluntéria). Sem entrar em porme- nores, pode dizer-se que este Direito de Conflitos especial da arbi- () Ver Lins Passitno (n, 2) 80. segs. (©) Ver Luis de Linca Puseino ~ Arbitragem Transnacional. A Determinacto do Estatuio da Avbitragem, Coimbra, 2045, 23 e segs. (9) Ver Losa Prana (n. 9) 502 e segs., com mais referéncias. 580 LUIS DE LIMA PINHEIRO tragem revela uma grande abertura A aplicagdo de usos e costumes do comércio internacional, de principios gerais de Direito, de principios comuns aos sistemas dos Estados em presenga ¢ de modelos de regulacao, tais como os Principios do UNIDROIT sobre os Contratos Comerciais Internacionais ("). O Direito apli- cével ao mérito da causa nao é, necessariamente, Direito estadual. Polos menos desde que se verifiquem certos pressupostos, 0 tri- bunal arbitral pode decidir com base em regras e princfpios auté- nomos e, até, com base em modelos de regulagao que tenham um vasto reconhecimento internacional, independentemente da rele- vancia que Ihes seja dada por uma particular ordem juridica esta dual. IV. Nos termos dos arts. 1.° ¢ 2.° dos Protocolos relativos & posigfio do Reino Unido e da Irlanda, e da Dinamarca, o Reino Unido ¢ a Dinamarca nao participaram na aprovagio do Regu- lamento e no so por ele vinculados ("?). J4 a Irlanda comuni- cou a sta intengdo de participar na aprovacao e na aplicagiio do Regulamento (1). Quando o Regulamento se refere a “Es- tado-Membro” entende-se apenas os Estados-Membros por ele vinculados, com excepgdo do disposto nos arts. 3.°/4 e 7.° (art. 1.°/4). V, Comegarei por examinar 0 ambito de aplicagao do Regula- mento (1), pasando em seguida ao estudo das regras gerais (desig- nago pelas partes do Direito aplicével e conexao supletiva geral) Le ILD). Feito este estudo, importa examinar as regras especiais estabelecidas para certas modalidades contratuais (contratos de transporte, contratos com consumidores, contratos individuais de trabalho e contratos de seguro) (IV). Segue-se uma andlise sucinta das regras auxiliares ¢ complementares (V) e das relagées com outros instrumentos (VI). Finalizarei com umas breves considera- GOes finais (VII). (2) Ver Lota Prvesmo (a, 9) 234 € segs. 3) Considerandos n.% 45 e 46. €°) Considerando 1.” 44 © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO S81 1. AMBITO DE APLICACAO A) Ambito material Quanto aos pressupostos de aplicagdo do Regulamento cabe distinguir entre mbito material, espacial e temporal de aplicagio, O art. 1.° diz respeito ao Ambito material, estabelecendo, em primeiro lugar (n.° 1), que “O presente regulamento ¢ aplicavel as obrigacdes contratuais em matéria civil e comercial que impliquem um conflito de leis”. “Nio se aplica, em especial, 4s matérias fis- cais, aduaneiras ¢ administrativas”. Por um lado, este preceito est4 alinhado com o Ambito de apli- cagiio do Regulamento Bruxelas I (art. 1.°/1 deste Regulamento) deve ser interpretado do mesmo modo. A jurisprudéncia do Tribu- nal de Justiga das Comunidades (TCE) com respeito ao art. 1.°/1 do Regulamento Bruxelas I, bem como a jurisprudéncia do mesmo tribunal com respeito ao art. 1.°/1 da Convengao de Bruxelas I, so, portanto, relevantes para a aplicagilo do art. 1.°/1 do Regulamento Roma I ("*). ‘Antes do mais, a qualificagdo de uma relagio como obrigagio contratual deve ser “auténoma”, ic. deve ser baseada numa inter- pretacdo auténoma do conceito (5). Isto significa que nfo deve ser feita referéncia ao Dircito de um dos Estados-Membros em pre- senca, mas antes “aos objectivos e ao sistema” do Regulamento e aos “principios gerais que decorrem do conjunto dos sistemas juri- dicos nacionais” (9. No contexto da Convengao Bruxelas I, o TCE decidiu que a expresso “matéria contratual”, empregue no art. 5.°/1 da Conven- do, deve ser entendida no sentido de nio abranger situagdes em que nao existe nenhum compromisso livremente assumido por uma parte relativamente a outra (17), tais como a acco intentada pelo subadquirente de uma coisa contra o fabricante, que no € 0 yendedor, em razo dos defeitos da coisa ou da sua inadequagio & ¢) Cf. Considerando n.° 7 e Exposigdo de Motivos da Proposta da Comissao, 5. (3) Ver também TCE 14/10/1976, no caso Eurocontrot (CTCE (1976) 629]. C9) CF. supracit. TCE 14/10/76, no caso Euroconirol,n.° $. (°) Cl. TCE 17/6/1992, no caso Handte [CTCE (1992) 1-3967], n.” 15. 582 LUIS DE LIMA PINHEIRO utilizagao a que se destina (8) ¢ a acgdo de indemnizagiio por ava- rias de carga intentada pelo destinatario da mercadoria ou o segu- rador sub-rogado nos seus direitos contra o transportador maritimo efectivo e ndo contra 0 emitente do conhecimento de carga ('). Mas ser sempre suficiente, para incluir a situagiio no con- ceito de matéria contratual, que haja uma obrigagao assumida por um compromisso de uma parte perante a outra, designadamente um negécio unilateral? A recente decisio do TCE no caso Engler aponta nesta direcg&io quando afirma que esté incluida uma acgdo em que um consumidor pretende obter o pagamento do prémio que lhe foi prometido na condigéo de celebrar um contrato de venda °), O ponto é controverso relativamente ao 4mbito material de aplicagéo da Conveng&o Roma I, mas, de acordo com a melhor opiniao, o conceito de “obrigacio contratual” deve ser entendido em sentido amplo, por forma a incluir as obrigacdes resultantes de negécios unilaterais (7). Creio que este entendimento também deve valer para 0 Regulamento Roma I. Por outro lado, o art. 1.°/1 do Regulamento Roma I esta coor- denado com o att. 1.°/1 do Regulamento Roma II que se refere as obrigagdes extracontratuais em matéria civil e comercial (77). 8) Idem, n2 21 (°) Cf. TCE 27/10/1998, no caso Réunion européenne [CTCE (1998) 1-651] @) Ver TCE 20/1/2005 [CTCE (2005) 1481]. Ver também Francois RIcAvx © Mare Fattow ~ Droit international privé, 3 ed. Bruxelas, 2005, 770, ¢ Peter MAKOWSKI = “Special Jurisdictions”, in European Commentaries on Private International Law. Brus- sels I Regulation, org. por Ulrich Magnus ¢ Peter Mankowski, 2007, Art. 5. 34-¢ segs. Ver ainda Jan Krorsouien ~ Europdisches Zivilprozefrecht. Kommentar, 8 ed. Franco~ forte-sobre-o-Meno, 2008, Art. 5.7 10. @), CE. Peter Manxowski - “Die Qualikation der culpa in contrahendo ~ Nagel- probe fir den Vetragsbegriff des europtischen IZPR und IPR”, ZPRax (2003) 127-135, 128 e segs.; Dieter Mantiny in Internationales Vervragsrecht, org, pot Christoph Retr. wan and Dieter Mastovy, 6.*ed., Colénia, 2004, n° 8; e Bemd Vos Homan ¢ Karsten ‘Tuoan — Internationales Privatrecht einschlieBlich der Grundeilge des Internationalen Zivilverfahrensrechts, 92 ed., Munique, 2007, 427. Cp., em sentido contrério, Alfonso- Las Cazvo Caravaca e Iavier Carrascosa GoxzAtez— Derecho Internacional Privado, vol. II, 9 ed., Granada, 2008, 479. (CE. Considerando n.° 7, Sobre o mbito material de aplicagéio do Regulamento Roma Il, ver Luts de Lima Prsmzino ~ “O Direito de Conflitos das obrigagées extracontra- luais entre @ comunitarizagao e a globalizagio ~ Um primeira apreciagtio do Regulamento ‘comunitério Roma II", O Direizo 139 (2007) 1027-1071, 1030 e segs. [versdo em Ifngua ‘nglesa em RDIPP 44 (2008) 5-42), ‘0 NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO | 583 A intengao do legislador comunitario 6 aparentemente que o Regu- lamento Roma I e o Regulamento Roma II sejam complementares ¢ abranjam, em principio, todas as obrigagées que no séo expres- samente excluidas @*). O Regulamento Roma I deve abranger a generalidade das obrigacées voluntérias ¢ o Regulamento Roma II a generalidade das obrigagGes involuntarias. Todavia, a inclusio no Regulamento Roma I de um preceito sobre a validade formal de “actos juridicos unilaterais relativos a obrigagées extracontratuais” (art. 21.°) suscita alguma diivida sobre este ponto, Até melhor cla- rificagdo, eu defenderei que o art. 21.° se refere apenas a situagdes especiais em que uma obigagio resulta de um acto unilateral de uma das partes (4) mas este acto unilateral nao € um compromisso perante a outra parte ou perante 0 puiblico (75), Contrariamente & Convengio Bruxelas I ¢ ao Regulamento Bruxelas I, a Convengdo de Roma nao limitou 0 seu Ambito de aplicagdo & “matéria civil e comercial” nem excluiu a sua aplica- g4o a “matérias administrativas” °). Tao-pouco resulta do Relaté- tio Gruttano/LacarbE a excluséo de contratos com elementos Pptiblicos (77). @)_ CL. Exposigéo de Motivos da Proposta da Comissio, 5, ¢ Exposigio de Moti- vos da Proposta da Comissao referente ao Regulamento Roms II (COM(2003) 427 final], 8, C4) Ver Exposicio de Motivos da Proposta da Comisso, 28, @) Bm sentido diferente, Alfonso-Lais Catvo Caravace e Javier Cakeascosa Gonzatxz - Las obligaciones extracontractuales en Derecho internacional privado. Bl Reglamento “Roma I”, Granada, 2008, 139. ©) Ver, sobre o sentido desta exclustio, Lufs de Loa Pivieiko ~ Direito Interna- cional Privado, vol. I~ Competéncia Internacional e Reconhecimento de Decisies Estrangeiras, Almedina, Coimbra, 2002, 60 e seg. ()_No Relatério Giutiano sobre o anteprojecto de Convenlo (1972) afiemava- -s¢ a aplicabilidade das zegras uniformes aos contrates celebrados enire um Estado e uin particular, desde que se tratasse de contratos inseridos na esfera do Direito privado [o.° 1 in fine), Desta passagem pateca inferc-se a exclusio dos contratos pblicos. Neste sen- tido, e criticamente, Kurt Lirsrsn ~ “Comments on Arts. to 21 ofthe Draft Convention’, in European Private Intemational Law of Obligations, org. por LaxoolVon HomAaaant ‘sSusun, 1975, 155-164, n° 7. Tal afirmagio nio veio a constar, porém, do Relatério Giv- LLnNo/LAGARDE sobre a Convengdo (“Rapport concernant la convention sut la lo applica- ble aux obligations contractuelles” por MaRio Gritiano o Pant Lacaroe [JOCE C2821, 31.10.1980). Pelo contétio, este relatério no deixa de invocer (16), em abono do prin: cipio da autonomia da vortade, a deciso do TPIT no caso dos empréstimos sérvios e as decisdes arbitrais nos casos Saudi Arabia V. Arabian American Oil Company (Aranico) (ad 584 LUIS DE LIMA PINHEIRO Arazao de ser desta divergéncia ndo esté inteiramente escla- tecida, mas é razodvel pensar que o legislador internacional ao mesmo tempo que n&o quis interferir com as regras internas de competéncia judiciaria com respeito a contratos que envolvem o exercicio de poderes de autoridade (e em que podem estar em causa problemas de imunidade de jurisdicao), quis estabelecer um regime de determinagdo do Direito aplicavel com respeito a todos 08 contratos obrigacionais que “impliquem um conflito de leis”. Quando os tribunais de um Estado se ocupem de contratos que sio submetidos pela ordem juridica do foro a um regime especial de Direito ptiblico nao se suscita um “conflito de feis” e, por isso, € aplicdvel directamente 0 Direito publico interno. Quando os tribu- nais de um Estado se ocupem de contratos em que esto implica- dos sujeitos piblicos estrangeiros suscita-se sempre um “conflito de leis” e, por isso, tem de recorrer-se, em prinefpio, 4 Convengio de Roma para determinar o Direito aplicdvel. Nao € outro o enten- dimento largamente dominante (*8). ‘hoc, 1958) {JLR 27: 117], elativo a um contrato de concessto de prospecgto e exploraglo de petrdleo, que, no entender do tribunal arbitral, fora celebrado no exercicio de wim poder soberano e teria um cardcter misto piblico e privado — ef, Lirstais ~ “International Azbi- tration Between Individuals and Governments and the Conflict of Laws", in Contempo- rary Problems of International Law. Essays in Honour of Georg Schwarcenberger, or. por Bix CHENG ¢ B, Brows, 177-195, Londtes, 1988, 183; Sapphire International Petro- leums Lid. v, National Iranian Oil Company (ad hoc, 1963) ULR 35: 136), relative 20 incumprimento de um “contrato de concessio”, que, na verdade, era um contrat misto de consesstio © emprecndimento comum; e, Texaco v. Libya [ILM (1979) 3 ¢ Clunet 104 (1977) 350], com respeito a um contrato de concessto de exploragio de petrdleo, em que 0 bitro René-lsan Duruy afastou a qualifieagio de contrato administrativo & face do Diteito libio, por entender que o Estado on autoridade administrativa lidou com a outra parte numa base de igualdade, que nao se tratou de uma operacio ou exploracio de ser- vigo pablico e que a dstingo entre contratos civis ¢ administratives, sendo desconhecida de muitos sistemas, nfo pode ser considerada como correspondendo & um “principio geral de Dircito” (@) "Cf. Frangois Riaaux ~ “Examen de quelaues questions laissées ouvertes pat Ja convention de Rome sur Ia loi applicable aux obligations contractuclls”, Cahiers de Droit Européen 24 (1988) 306-321, 313-314 e 319 e segs.; Dicey, Morris and Collins on the Conflict of Laws, 14* ed. vol. I Londres, 2006, 1547 © seg. ¢ 1567 ¢ segs Pieme Maven e Vincent Hvzé ~ Droit international privé, 9 ed., 2007, 525; Marna (n. 21) 1 147; CaLvo Caravaca/CaRrascosa GowzAuz (n, 21) 533-534, com excepgio de aspectos “de puro Direito publico” relacionados com “mercados pablices” (aparentemente (0s autores tém em vista os aspectos relacionados com o concurso piblico); aparentemente, Gerhard Keaet,¢ Klaus Scaunie ~ Internationales Privatrecht, 9? ed., Munique, 2008, ONOVO REGULAMENTO COMUNITARIO. 585 No entanto, a situagdo é alterada pelo Regulamento Roma I que, como jé se assinalou, alinha o seu ambito material de aplica- gao com o do Regulamento Bruxelas I e, assim, circunscreve-se & “matéria civil e comercial” e exclui as “matérias administrativas”. Esta alterago niio € feliz, porque limita 0 alcance da unificagao e, na falta de solugdes especiais, suscita uma indesejavel incerteza e imprevisibilidade sobre a determinacio do Direito aplicavel aos contratos de Estado que envolvam o exercicio de poderes de auto- ridade. Em minha opinido, o regime contido na Convengiio de Roma € adequado aos contratos de Estado que nao estejam submetidos a Direito Internacional de Conflitos (°°). Admito que o reforgo da competéncia atribuida ao Direito da parte que fornece os bens ou servigos, operado pelo Regulamento Roma I (infra Ill), possa ser particularmente inconveniente com respeito aos contratos de Estado, Mas teria sido preferivel estabelecer uma regra especial para estes contratos que mantivesse o regime estabelecido pela Convengao de Roma. A exclus%o dos contratos de Estado que envolvam 0 exercicio de poderes de autoridade do mbito de apli- cago do Regulamento Roma I coloca a questio de saber se deverd ser aplicado a estes contratos o Direito de Conflitos de fonte interna que, no nosso caso, consta dos arts. 41.° e 42.° CC. A meu 661, Ver também, no sentido da aplicacio do Direito de Conflites geral, Pr: Lative— “L’Brat en tant que partic a des contrats de concession ou d'investissement conclus avec des societés privées eirangtres", in UNIDROIT — New Directions in International Trade, Yo. I, 317-373, 1977, 343 e seg.; Id. - “Sur une notion de ‘Contat international”, in Mul= tum non Multa, FS Kurt Lipstein, 135-155, 1980, 151 ¢ segs.s Georges Van Hecke ~“‘Con- tracts between States and Foreign Private Law Persons”, in EPIL, 2 ed., vol, VIL, 1992, 1° 1; Berd Vow Hormnas ins Fiscier/Von Horan — Staatsunternelimen im Volker- recht und im Internationalen Privatreckt, Heidelberge, 1984, $7 ¢ seg.;¢ Tan BRowNLie ~ Principles of Public International Law, 6. ed., Oxford, 2003, 525, Cp., em sentido contririo, Peter Kave - The New Private International Lave of Con- tract of the European Community, Aldershot et al, 1992, 111; Dario Moura Vices ~ “Direito aplicével aos contratos piblicas internacionsis”, in Est. Marcello Caetano, 289- 311, Coimbra, 2006, 198, com respeito aos “contratos adminisirativos internacional"; aperentemente, também Berard Auort ~ Droit international privé, 4* ed., Paris, 2006, 667 © seg, @) Ver, com mais desenvolvimento, Lisa PINHEIRO (n. 7) 122 € segs. Quanto aos ‘contratos de estado submetidos a Direito Internacional de Conflitos, ver op. cit, 153 ¢ segs, 586 LUIS DE LIMA PINHEIRO ver, este regime, ao limitar a liberdade de escolha da lei aplicavel e ao estabelecer, como regra supletiva para os contratos onerosos entre partes localizadas em paises diferentes, a competéncia da lei do lugar da celebraciio, é inadequado aos contratos de Estado. ‘Numa primeira aproximacdo, parece-me defensavel que os tribunais portugueses apliquem analogicamente o regime do Regu- Jamento Roma I a esses contratos de Estado, com os ajustamentos que se imponham. No que toca 4 regra supletiva, entendo que esses contratos deverio ficar sujeitos & lei do pais com 0 qual apresen- tam uma conexdo mais estreita (art. 4.°/4). O Regulamento nao se aplica a todas as obrigagées em maté- tia civil e comercial. O art. 1.°/2 exclui as seguintes matérias: — obrigagdes do estatuto pessoal, sem prejuizo do disposto no art. 13.° sobre a invocagiio da incapacidade (a), b) € ©) CY: —obrigagées que decorrem de letras, cheques e livrangas, bem como de outros titulos negocidveis, na medida em que as obrigagdes decorrentes desses outros titwlos resultem do seu cardcter negocidvel (d) (*); — as convengoes de arbitragem e de eleigo do foro (e); —as questdes reguladas pelo Direito das sociedades e pelo Direito aplicavel a outras entidades dotadas ov nao de per- sonalidade juridica (Q (); ((*) Estas alineas tém o seguinte teor: “a) 0 estado e a capacidade das pessoas singulares, sem prejuizo do artigo 13.°: “b) As obrigagSes que decortem de relagBes de familia ou de elagGes que a lei que Ihes ¢ aplicével considera produzirem efeitos equiparados,incluindo as obriga- Bes de alimentos; %c) As obrigagées que decorem de regimes de bens no casamento, de regimes de bens no Ambito de relagées que a Lei que Ihes 6 aplicével considera produzirem ‘efeitos eqniparados ao casamento, ¢ as sucessGes”. Segundo © Considerando n.* 9 iso abrange os conhecimentos de carga, na medida em que as obrigacies deles decorrentes resultem do seu carécter negocivel (©) Tais “como a constituigdo, através de registo ou por outro micio, a capacidade {uridica, o funcionamento interno e a dissolugo de sociedades ¢ de outras entidades dota- 4as ou nao de personalidade juridica, bem como a responsabilidade pessoal dos sécios ¢ dos ttulares dos drglos que agem nessa qualidade relativamente As obrigagbes da socie dade on entidade” [Link] REGULAMENTO COMUNITARIO. 387 — a questo de saber se um agente pode vincular, em relago a terceiros, a pessoa por conta da qual pretende agir ou se um 6rgao de uma sociedade ou de outra entidade dotada ou niio de personalidade juridica pode vincular essa sociedade ou entidade perante terceiros (g); —a constituig&o de trusts e as relagdes que criam entre os constituintes, os trustees e os beneficiérios (h); —as obrigagdes decorrentes de negociagées realizadas antes da celebragao do contrato — 0s contratos de seguro decorrentes de actividades levadas a efeito por organismos que néio as empresas referidas no artigo 2.° da Directiva 2002/83/CE Relativa aos Seguros de Vida cujo objectivo consista em fornecer prestacdes a assalariados ou a trabalhadores nfo assalariados que fagam_ parte de uma empresa ou grupo de empresas, a um ramo ‘comercial ou grupo comercial, em caso de motte ou sobre- vivéncia, de cessagio ou redugio de actividades, em caso de doenga profissional ou de acidente de trabalho (j). As obrigagdes extracontratuais decorrentes de negociagdes realizadas antes da celebragéo do contrato caem dentro do Ambito de aplicagaio do Regulamento Roma Il. Isto abrange, designada- mente, a responsabilidade pré-contratual por violacio do dever de informagao e por ruptura de negociagdes contratuais (3), Mas o Regulamento Roma II remete, em primeira linha, para a lei aplicé- vel ao contrato ou que Ihe seria aplicdvel se tivesse sido celebrado (art, 12.°/1) e, por conseguinte, as regras do Regulamento Roma I )_ CE, Considerando n.° 30 do Regulamento Roma I ¢ Lava Piste (a. 22) 1056-1057, Cp, as apreciagées da Proposta da Comissio feitas por Paul LAGARDE ~ ““Remarques sur la proposition de rbglement de la Commission européenne sur Ia foi appli- cable aux obligations contractuelles (Rome I)", R. crit. 95 (2006) 331-359, 334; Peter Manxowsxr ~ “Der Vorschlag fiir die Rom I-Verordnung”, IPRax (2046) 101-113, 101, € ‘Max Planck Institute for Comparative and Internationel Private Law ~‘“Commeats on the European Commission's Proposal for a Regulation of the European Parliament and the Council on the law applicable to contractual obligations (Rome I)”, RabelsZ. 71 (2007) 225-344, 234 @ 237 e segs. (4) Ver Keasu/Sctiunia (n, 28) 612-613; Diefer Martie ~ “Art 32”, in Milnche- ner Kommentar zum Biirgerlichen Gesetebuch, 3° ed, Munique, 1998, Art. 32.2 33, € 588 LUIS DE LIMA PINHEIRO sao indirectamente aplicaveis. Isto converge com a melhor dou- trina expendida perante a Convengdio de Roma (*4). J4 a responsabilidade por violac&o de negécios preliminares ‘ou, pelo menos, de contratos preliminares, é abrangida directa- mente pelo Regulamento Roma I. O Considerando n.° 31 parece indicar que 0 Regulamento também nao se aplica aos acordos que instituam sistemas de paga- mentos ¢ de liquidagdo de valores mobilidrios na acepgao da ali- nea a) do art. 2.° da Directiva 98/26/CE Relativa ao Cardcter Defi- nitivo da Liquidaco nos Sistemas de Pagamentos ¢ de Liquidagao de Valores Mobiliarios. Naturalmente que as regras de conflitos do Regulamento sé actuam para questdes substantivas. O art, 1.°/3 confirma que o Regulamento nao se aplica 4 prova e ao processo, sem prejuizo do disposto no art. 18.° com respeito as regras sobre presungdes legais, dmus da prova e meios de prova de actos jurfdicos. B) Ambito espacial © Regulamento, a semelhanga da Convencao de Roma, é apli- cével as obrigacdes contratuais “que impliquem um conflito de leis”. Para a compreensio do sentido desta fSrmula € Gil convocar © Relatério Gruttano/Lacarpe sobre a Convengiio de Roma (), Lita Pnsnsino = Direito Internacional Privado ~ Parte Especial (Direito de Conflitos), Almedina, Coimbra, 1999, 155; Direito Internacional Privado, vol. I = Direito de Con- litos/Parte Especial, 2." ed., Aimedina, Cointbra, 2002, 251-252, 141, defendendo que a ‘Convengio Roma I era aplicével directamente quando tena sido celebrado ura contrato {mesmo que tenha um mero carécter preparatério) ¢ por analogia quando as negociagdes tenham sido interrompidas antes da celebragdo de um contrato, No sentido de uma aplica- ‘40 directa da Convengio Roma I em ambos os ca80s, ver Angelo Davi ~"Responsabilit non contrattuale nel diritto internazionale privato", in Digesto priv. cv., vol. XVII, 1998, 1? 12, ¢ Dério Mousa Vicexte:~ Da Responsabilidade Pré-Contratual em Direito Inter- nacional Privado, Coimbra, 2001, 445 e segs., 457 ¢ segs. ¢ 469 e segs. Cp. no sentido de ‘uma diferenciagio, Reremaann/Marrmvy (n, 21) n: 282 ¢ segs. € Ulrich Sereurenpene — “Aut. 31,32", in Miinchener Kommentar zum Biirgerlichen Gesetabuch, 4. ed., Munique, 12006, Art, 32 n= 59 e segs. ©) N27, 10. © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO | 589 que se refere a “situagSes que comportam um ou mais elementos estranhos A vida social interna de um pais (...) e que dio aos siste- mas juridicos de varios pafses vocacio a aplicar-se” @), Esta defi- nig&o nao evita as dtividas relativamente a situagées internas em que o Unico elemento de estrancidade é a escolha de uma lei estran- geira pelas partes (°7). Este ponto esté relacionado com a interpre- taco do art. 3,°/3 do Regulamento e seré examinado a propésito deste preceito (infra II). Do art. 22.°/2 do Regulamento resulta que um Estado-Mem- bro em que diferentes unidades territoriais tenham normas préprias ‘em matéria de contratos obrigacionais pode, mas nao é obrigado, a aplicar Regulamento aos conflitos de leis internos (interlocais). O Regulamento tem um cardcter universal porque deve ser aplicado pelos tribunais de qualquer Estado-Membro por ele vin- culado (art, 1.°/4), sempre que a situagao caia dentro do seu ambito materidl de aplicagao (¢ do seu ambito temporal de aplicagao) e envolva um conflito de leis, Para este efeito irrelevante que a relag&o no tenha conexdo com um Estado-Membro ou que a lei designada pelas regras de conflitos do Regulamento seja a lei de um terceiro Estado (art. 2.°). ©) Ambito temporal O Regulamento é aplicdivel aos contratos celebrados apés 17 de Dezembro de 2009 (art. 28.°). Por conseguinte, a Convencio de Roma continuard, durante um considerdvel perfodo de tempo, a ter importancia prética na determinago do Direito aplicavel aos con- tratos internacionais. IL. A DESIGNACAO PELAS PARTES DO DIREITO APLI- CAVEL (C9) Ver trecho similar na Exposigo de Motivos da Proposta da Comissio do Regolamento Roma If, 8. ") Ver Lints Paseo ~ Contrato de Empreendimento Comum (Joint Venture) em Direito Intemacional Privado, Almedina, Coimbra, 1998, $12 ¢ segs.; Id. (n. 7) 68 € sexs. 590, LUIS DE LIMA PINHEIRO Aautonomia da vontade na determinagao do Direito aplicdvel 408 contratos obrigacionais constitui hoje um principio de Direito Internacional Privado comum a esmagadora maioria dos sistemas nacionais (8), No Regulamento Roma I este principio encontra-se consa- grado no n.° 1 do art. 3.°. Na liberdade de designagao do Direito aplicavel manifesta-se a autodeterminagdo das partes @°), Para a justificagao da eficacia juridica da convengao sobre 0 Direito aplicavel, concorrem ainda razdes de certeza, previsibilidade e facilidade para as partes na determinago da disciplina material do caso, ligadas & protec¢dio da confianca reciproca. Enfim, é de partir do principio que a cone- xdo operada mediante a designagdo feita pelas partes exprime, numa concreta relacdo da vida, uma solugdo adequada aos seus interesses, O art. 3.° do Regulamento Roma I, & semelhanga do art. 3.° da Convengio de Roma, nao estabelece quaisquer limites quanto as ordens juridicas estaduais que podem ser designadas. Com ()_ Cf. Ole Lanno ~ “The Conflict of Laws of Contracts. General Principles”, RCADI 189 (1984) 223-447, 284; Ant6nio Fane Conasia~“Algumas consideragbes acerca da Convengao de Roma de 19 de Junho de 1980 sobre a lei aplicdvel as obrigagdes contratuais”, REY (1990) n.% 3787 a 3789; Frank ViscHeR ~ “General Course on Private International Law”, RCADI 232 (1992) 9-256, 139, considera que a liberdade de escolher [Link]ével pode ser considerada como wm principio gerade Direito; mas refere ran «ois Ricaux — "Les situations juridiques individuelies dans un systéme de relaivité géné- tale”, RCADI213 (1989) 7-407, 234, quando este ator assinala que.o problema nd € tanto © principio em si, quanto o seu alcance ¢ limites. Em rigor tem havido uma certa resistén- cia a este principio por parte dos Estados latino-americanos ~ yer Diogo Fexnéwnez Awnoxo (org.) ~ Derecho Internacional Privado de los Estados det Mercoser, Buenos Aires, 2003, 1015 e segs. Segundo o Preambulo da Resolugi de Instituto de Direite nter- ‘nacional sobre a sutonomia da vontade das partes nos contratos internacionais entre parti- cealares, aprovada na sessfo de Basileia (1991), a “autonomia da vontade des partes é um dos principios de base do Direito Internacional Privado”. Observe-se ainda que, no Direito portugues, a liberdade de designagao do Direito aplicavel foi jé consagrada, em 1888, pelo no Ido art. 42°C, Com, ©) Ver Isxset De Maaatsikes Cottago ~ Da Compra e Venda em Direito Inter- nacional Privado, Aspectos Fundamentais, ol. 1 (Diss. Doutoramento), Lisbos, 1954, 108, que se refere 2 um momento de liberdade, e, em geral, sobre a fondamentagio do prin- cipio da autonomia da vontade na designago do Direito apliosvel, Lawa Powter (n. 37) § 12.B, com mais referéncias, OQ NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 591 efeito, este preceito nfo subordina a escolha a qualquer lago objec- tivo entre o contrato e a lei escolhida nem 4 demonstracao de um interesse sério na escolha (*), A favor desta solugdo pode dizer-se que a exigéncia de um lago objective com a lei escolhida nao corresponde as necessida- des do comércio internacional e que, na falta de conexdo objectiva com a lei escolhida, evita as dificuldades de averiguagio do inte- resse sério e toma mais certa a determinagao do Direito aplicavel. Com efeito, confiar ao 6rgao de aplicagao a tarefa de avaliar, nes- tes casos, a seriedade do interesse subjacente A designagao nao dei- xaria de prejudicar a certeza e previsibilidade sobre o Direito apli- cével, Do art. 22.°/1 (infra VD) resulta que as partes também podem escolher directamente um sistema local vigente dentro de uma ordem juridica complexa de base territorial (i.e., em que diferentes unidades territoriais do mesmo Estado tenham normas préprias em matéria de contratos obrigacionais). O Regulamento salvaguarda em alguns casos a aplicagao de normas imperativas da lei que, na falta de designagio, seria objec- tivamente competente. Por esta via limita 0 aleance da escolha feita pelas partes. E 0 caso dos n.°* 3 e 4 do art. 3.°, do art. 6.° (con- tratos celebrados por consumidores) e do art. 8.° (contratos indivi- duais de trabalho). O Regulamento também salvaguarda a aplica- go das normas de aplicagio necesséria do Estado do foro (art. 9.9/2) ¢ de certas normas de aplicagéio necessdria do Estado ()Relativamente & Convengio de Roms, decorze do n.* 4 do Relatério Gru LIAKo/LAGARDE (a, 27) que 0 risco de uma evasiio a disposigées imperativas mediante 0 dépegage toi covsiderado nos trabalhos preparatrios, tendo os peritos entendido que este risco seria neutralizado pelo disposto no at 7.°. Ora, este comentirio, feito a propésito das remissGesparcais, vale por meioria de razio para orisco (menor) de evasio mediante uma designagio plobal. Lanoo (a, 38) 292, firma ainda que possibitidade de incluiro “prin- cipio da fraus legis” foi suscitada, € nfo concretizada, pelos perites, e retira, do comenta- rio ao art. 16.°, etm que se sublinha que o “ordem piiblica nao intervém, abstracta e glo- balmente, conta a lel designada pela convenclo”, x exclusto da aplicagio da ordre public a casos de fraus legis, Beste 0 entendimento dominant, mas nla pacifico, na doutrina — ver referéncias em Lima Pinteiro (n. 7) 100-101. No mesmo sentido parece apontar a Exposigio de Motivos de Proposia de Regula- mento Roma I quando afirma que a “fraude a lei” ¢ visada pelos n.* 4 € 5 do art. 3.°, que correspondem no Regulamento aos n.* 3 ¢ 4 do art, 3.°, 592 LUIS DE LIMA PINHEIRO em que as obrigagdes devam ser ou tenham sido executadas (art. 9.°/3). Enfim, o Regulamento coloca limites a escolha da lei aplic4vel ao contrato de transporte de passageiros (art. 5.°/2/2.° §) © a certos contratos de seguro (art. 7.°/3). Nos termos do art. 3.°/3, caso “todos os outros elementos rele- vantes da situagdo se situem, no momento da escolha, num pais que nao seja o pais da lei escolhida, a escolha das partes nfo pre- judica a aplicagdo das disposigdes da lei desse outro pais nao der- rogaveis por acordo”. O Considerando n.° 15 esclarece que esta regra € aplicdvel independentemente de a escolha da lei aplicdvel ser ou ndo acompanhada da escolha de um tribunal ou de outro 6rgio jurisdicional e que no se pretende alterar substancialmente © art. 3.°/3 da Convengio Roma I. Nao obstante, 0 preceito do Regulamento Roma I esté redigido com maior rigor, & semelhanga do art. 14.°/2 do Regulamento Roma IL O art. 3.°/3 da Convengio de Roma é entendido no Relatério GruLiano/Lacarve como referindo-se a situagSes puramente inter- nas a um Estado-Membro que s6 so abrangidas pelo ambito de aplicagdo da Convengao pelo facto de as partes terem escolhido uma lei estrangeira (“1). A redaccao dada ao preceito pelo Regula- mento Roma I dé menos apoio a este entendimento, uma vez que nao refere 2 lei escolhida pelas partes como uma “lei estrangeira”. Ela to-pouco sugere que o pais em que todos os elementos da situagio esto localizados seja o pais do foro. Na minha opiniao, esse entendimento entra em contradigao com 0 ambito espacial de aplicagio estabelecido no art. 1.°/1 do Regulamento, que se reporta a situagdes que impliquem um con- flito de leis (*). As situagdes intemas nao implicam um conflito de leis. A designacao de uma lei estrangeira pelas partes de um con- trato interno 86 constitui uma referéncia material, i.e., a incorpora- cao das regras da lei estrangeira como cldusulas do contrato. Esta incorporago é permitida pelo prinefpio da liberdade contratual e nao pelo art. 3.°/3, (!)_N. 27, 18. O mesmo se verifiea com respeito ao art. 14.°/2 do Regulamento Roma Il na Exposigao de Motivos da Proposta da Comissdo [24] (7) Ver Lia Pronto (n. 37) 512. segs.,¢ (n. 7) 68 segs. © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 593 Oart. 3.°/3 tem sentido util para outro tipo de situagSes: aque- Jas em que os tribunais de um Estado-Membro decidem um litigio emergente de uma “situag3o meramente estrangeira”, i.c., uma situag&o que est4 exclusivamente conectada com um Estado estrangeiro, ¢ as partes escolheram a lei do foro ou de um terociro Estado. Neste caso, hd uma situagio envolvendo um conflito de leis, porquanto o tribunal tem de determinar a lei aplicdvel. A esco- tha feita pelas partes deve ser respeitada pelo tribunal, mas o seu aleance é limitado pela aplicagao das regras imperativas do Estado estrangeiro em que 2 situagao esté localizada. Nos termos do art. 3.°/4, caso “todos os outros elementos rele- vantes da situagdo se situem, no momento da escolha, num ou em varios Estados-Membros, a escotha pelas partes de uma lei aplicé- vel que nfio seja a de um Estado-Membro nao prejudica a aplica- go, se for caso disso, das disposigdes de direito comunitério nao derrogéveis por acordo, tal como aplicadas pelo Estado-Membro do foro”. Este preceito € semelhante ao art. 14.°/3 do Regulamento Roma IL, pelo que remeto para as consideragdes que formulei com respeito a esta disposigao (*). A doutrina largamente dominante entende que o art. 3.° da Convengio de Roma nao admite que as partes subtraiam o negécio a qualquer ordem juridica ou escolham uma ordem juridica nio estadual (“), A Proposta de Regulamento Roma I era inovadora, a0 determinar que as “partes podem igualmente escolher como lei apli- cével os principios e regras de direito material dos contratos, reco- nhecidos a nivel internacional ou comunitério” (art. 3.°/2/1.° §). ‘A Exposigiio de Motivos esclarecia que esta formulagao se desti- &)_N. 22, 1038, (#)_ Vet Rui Mousa RaMos — Da Lei Aplicdvel ao Contrato de Trabalho Interna- ional, Coimbra, 1991, 511 ¢ segs. e Lea Posto (0, 7) 102, com extensas referéncies douttinas, © art. 2.°/1 da Resolugio do Institute de Dirito Internacional sobre auton- tmia da vontade das partes nos contratos internaeionais ente pessoas privadas (Basile, 1991), prev apenas a escolha de uma le estadual; a excluso do problems da lex mercato- ria relaciona-se com o entendimento segundo o qual a resoluyio se dirige as juzes esta- ‘ais ¢ 0s legisladores ~ ef. orelt6rio de Erk Jayues~ “Lautonomie de In volonté des parties dans les contatsintemationaux entre persoanesprivées. Rapport provisire”, Ann ns. dint, 64-1 (1991) 36-52, 37, as observagdes de Goren, Fannet CORRELA € PIERRE Lauive fin An, Int. dint. 64-1 (1991) 26 seg, 29 34, respoctivamente}. 304 LUIS DE LIMA PINHEIRO nava “a autorizar, nomeadamente, a escolha dos princfpios UNI- DROIT, dos Principles of European Contract Law ou de um even- tual futuro instrumento comunitério opcional, proibindo, ao mesmo tempo, a escolha da lex mercatoria, insuficientemente pre- cisa, ou de codificagées privadas nao suficientemente reconhecidas pela comunidade internacional” (*). O legislador comunitétio nao acolheu esta solugao, mantendo a situagdo existente perante a Con- vengaio de Roma, como confirma o Considerando n.° 13 ao limitar a relevancia de referéncias “a um corpo legislativo nao estatal ou uma convengao internacional” a referéncias materiais, que incor- poram as regras contidas nesses instrumentos no contrato, como cldusulas contratuais, no quadro delimitado pelo Direito impera- tivo da ordem juridica estadual chamada a titulo de lex contractus. Neste ponto o Direito de Conflitos comunitério diverge do entendimento seguido perante a Convengdo Interamericana sobre 0 Direito Aplicével aos Contratos Internacionais (Cidade do México, 1994). Com efeito, 0 art. 7.° desta Convengao é entendido no sentido de admitir uma designagao da lex mercatoria, dos “prin- cipios de Direito comercial internacional” e dos princfpios UNIDROIT (*). Por minha parte, entendo que a abertura contida na Proposta de Regulamento era bem-vinda (*’), e que um instrumento comu- nitério poderia mesmo ir mais longe ¢ permitir a designacao de ()_ 5. Sobre a possibilidade da escolhe das regras do "Quadro Comum de Refe- rnc, ver Max Planck Institute (a. 33) 341-342, ¢ Dieter Marxx = "Common Frame of Reference und Internationales Vertragsrecht”, ZeuP (2007) 212-228, (5). Cf, designadamente, Friedrich Juexore ~ “The lnter-Amezican Convention ‘on the Law Applicable to International Contracts: Some Highlights and Comparisons”, ‘Am, J. Comp. I. 42 (1994) 381-393, 392, ¢ “Amerikanische Praxis und europtische Ube- reinkommen”, in FS Ulrich Drobnig, 305-313, Tubinga, 1998, 311; Fernsxozz Ansovo (org) (n, 38) 999. ()Vertambén Nerina Bosciusno ~ “Verso il rinnovamento e la trasformazione della convenzione di Roma: problemi general", in Dirittainternazionale privato e dirito comunitari, org. por Paolo Piconé, 318-420, Padua, 2004, 357 e segs; Max Planck Inst tte (n, 33) 229-231 © 244-245. Cp, Bik Java ~ “Choice-of-aw clauses in international contracts: some thoughts on the reform of art. 3 of the Rome Convention”, in Semindrio [Internacional sobre a Comunitarizagao do Direito Internacional Privado, org. por Luis de Lima Pinheiro, 53-61, Coimbra, 2005, 56-57; Lacanos (n, 33) 336, € Mankowskt (a. 33) toa. NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO. 995 regras e princfpios da lex mercatoria que constituam Direito objec- tivo (mormente costume comercial internacional, costume juris- prudencial arbitral e regras criadas por organizacées privadas do comércio internacional no 4mbito da autonomia associativa), sem excluir a aplicabilidade de um Direito estadual aos aspectos no regulados por essas regras (‘°). Observe-se que, no entanto, o Regulamento nao exclui a pos- sibilidade de um instrumento comunitério que contenha regras de Direito material dos contratos prever a referéncia conflitual a essas regras, ie., a designacéo pelas partes dessas regras como Direito aplicdvel ao contrato (*°). Aexisténcia e a validade do consentimento das partes quanto A escolha da lei aplicdvel sao determinadas, em principio, com base na lei escolhida (art. 10.°/1 ex vi art. 3.°/5). Ha, no entanto, que ter em conta a releyancia concedida a lei da residéncia habitual do contraente nos termos do art. 10.°/2. Se a convengo sobre 0 Direito aplicdvel constituir uma cldusula contratual geral a sua inclusiio no contrato ser4 apreciada, em primeiro lugar, pela lei escolhida; se a questo for respondida afirmativamente pela lei escolhida, o declaratério poderd ainda invocar, com base no art, 10.°/2, a lei da sua residéncia habitual para demonstrar que nfio deu o seu acordo, se resultar das circunstincias que nao seria tazoavel determinar os efeitos do seu comportamento nos termos da lei escolhida (*). ) Ver, com mais desenvolvimento e apreciagdo politico-jurica, Lica Pranetro (0.7) 103 segs. (®) Ct, Considerando n° 14. (A Convengéo da Cidade do México oferece uma formulagdo menos precisa, segundo a qual o juiz tomaré em consideragdo a residéneia habitual ou o estabelecimient do declaratério. O art, 5.° da supracit. Resolugio do Institute de Direito Internacional, ap6s admitir, no sea n.* 1, que a “lt eplicével pode ser designada por cléusules contratuais erais desde que as partes tenham nelas consentido”, acrescenta, no seu n.° 2, ume regra material, segundo a qual este “consentimento dove ser expresso por escrito, ow de uma ‘maneira conforme aos hébitos estabelecidos entre as partes, ou segundo 0s usos profissio- nais de que clas tém conhecimento”, Esta solugio inspira-se na jurisprodéncia do TCE. relatvamente & cléusula de jurisdicio inserida no formuldrio proposto por uma das partes ~ cf Erik Jayme ~ “L’aufonomic dela volonté des parties dans les contratsintemationaux ‘enire personnes privées, Rapport definitif”, Ann. Inst. dr. it. 64-1 (1991) 62-76, 72 e segs. 596 LUIS DE LIMA PINHEIRO Em sistemas como 0 portugués haverd que ter em conta, a este respeito, o regime das cldusulas contratuais gerais (51), Observe-se que o Regulamento Roma I, a semelhanga da Convengiio de Roma, no € compativel com qualquer controlo do contetido da designa- Ao do Direito aplicével com base no Direito interno (*), E ainda aplicdvel & designacio do Direito competente o dis- posto nos arts, 11.° ¢ 13.° do Regulamento com respeito a forma ¢ a invocagdo da incapacidade (*). Nos termos da 2.* parte do n.° 1 do art. 3.° do Regulamento, 0 consentimento das partes na designacdo do Direito aplicdvel pode ser manifestado expressa ou tacitamente. Quanto & designa- Gio técita este preceito exige que a escolha resulte “de forma clara das disposig6es do contrato, ou das circunstancias do caso”. O pre- ceito homdlogo da Convengio de Roma exige que a escolha resulte “de modo inequfvoco”, o que dificulta a demonstracdo de uma vontade técita (*). Subsistem, no entanto, divergéncias entre as diferentes versdes lingufsticas do Regulamento que podem suscitar alguma incerteza (*). Podem constituir indicios importantes da vontade de escolha de uma Iei ndo s6, por exemplo, a utilizagio de um modelo con- tratual que se baseia num determinado sistema juridico, a cléusula que atribua competéncia A jurisdigdo de determinado Estado ou a refer€ncia feita no contrato a disposig6es particulares de um certo ordenamento (5), mas também, por exemplo, a convengio de Ver Liwa Prsisito ~ “Dircito aplicavel as operagdes bancérias internacio- nais”, ROA 67 (2007) 573-627, 585 ¢ sees, ©) Ver também Dieter Maxrivy ~ “Vor Art. 27-Art. 30", in Minchener Kom- Imentar zum Blirgerlichen Gesetzbuch, vol. X ~ BGBGB, 4. e4., Munique, 2006, Art. 27 1° 13, Em sentido diferente, Anténio Menszes Coaoetso — Tratedo de Direito Civit Por- ttgués, vol. ~ Parse Geral, tomo I, 3." ed., Coimbra, 2005, 636, () Cp., em sentido critica relevativamente 8 remiss4o para a disposigio sobre forma (perante & Convengio de Roma), Jaye (n. 47) 58-59, ©) Ver Lisa Prnnzino (0. 7) 109. (®)_Assim, a versio francesa refere-se a *résulte de fagon certaine”; a versio inglesa « “clearly demonstrated”; a versio alema a “eindeutig”. A divergéncie destas ver- ses lingusticas na Proposta jé € notada por Lacanos (a, 33) 335. ©) Isabel De MaaALsaes CouLago (n. 39) assinala que a existéncia de uma mera designacio expressa parcial pode constituir um indicio de vontade técita relativemente A designactio do estatuto geral; a conexio objectiva dos interesses com determinada order, 4 imegragio do acto nunia ordemn pela sua estrutura, lingua, formulirio empregado e eldu- sulas concretas sto factores que poderdo dar forga especial aquele indico, © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 597 competéncia que nfo constitua uma cléusula do contrato funda- mental ou a escolha expressa feita num contrato conexo ou em relag&es anteriores, do mesmo tipo, estabelecidas entre as mesmas partes (°7). Mas trata-se apenas de indicios, que tém de ser apreciados face ao conjunto das circunsténcias do caso. Assim, por exemplo, © sentido da remissio operada para disposigées particulares pode ser o de uma simples refer&ncia material. A cléusula de jurisdigio € um indicio importante mas nao, de per si, conclusivo (**). A pre- sungiio de escolha tacita da lei do foro a que as partes atribuiram competéncia, contida no art. 3.°/1/2.° § da Proposta da Comissao, nio foi acolhida pelo legislador comunitério (*). Na maioria dos casos em que as partes designam o Direito aplicavel, tal estipulagdo ¢ feita no momento 'da celebragio do con- trato, como cléusula acesséria do negécio fundamental. Mas nao € necessério que assim suceda: a designacao do Direito competente pode ser anterior ou posterior a celebragao do contrato. On? 2do art. 3.° do Regulamento Roma I estabelece que, em “qualquer momento, as partes podem acordar em subordinar 0 con- trato a uma lei diferente da que precedentemente o regulava, quer por forca de uma escolha anterior nos termos do presente artigo, quer por forca de outras disposiges do presente Regulamento”. ‘A possibilidade de escolha do Direito competente posterior & celebraco do contrato ou de alteragao da escolha anterior assume. considerdvel importincia pritica, designadamente em ligagdo com ‘a conduta observada pelas partes perante um litigio concreto, ma- xime no decurso de um processo, e com a necessidade de adapta- iio € evolugao dos contratos de longa duragao. Mas no basta que as partes (ou os seus mandatédrios) baseiem ‘a sua argumentag&o no Direito material do foro para haver uma designagiio tacita deste Direito. S6 existird uma escolha do Direito aplicdvel “mediante a conduta das partes no processo” se desta €°) Ver também Grutiano/Lacane (n. 27) 17, € Peter Nos ¢ J. Fawcrrt ~ Cheshire and North's Private International Law, 13: ed., Londres, 1999, 561 € segs. (Cf. Considerando n.° 12. ©) Cp. 2 este respeito, as posighes divergentes de Lacarns (n. 33) 335 ¢ Max Planck Institute (n. 33) 243. 598, LUIS DE LIMA PINHEIRO conduta Se puder inferir uma vontade real das partes nesse sen- tido ), Quer a designacio realizada posteriormente & celebrag&io do contrato venha substituir a lei previamente escolhida ou a lei objec- tivamente competente, ocorre uma mudanga de lei aplicdvel, devido & alteragdo do contetido concreto do elemento de conexéo (sucessao de estatutos). Porquanto esta mudanga de lei aplicdvel resulta de uma esco- tha das partes, entende-se que as partes também siio livres de determinar se a escolha produz efeitos ex tunc ou ex nunc, Se cor- responder & vontade das partes a revaloragdo juridica dos factos anteriormente ocorridos, devem em todo o caso ser salvaguarda- dos os direitos adquiridos por terceiros ao abrigo da lei compe- tente no momento da verificagdo dos factos. Neste sentido deter- mina 0 n,° 2 do art. 3.° do Regulamento Roma 1 que qualquer modificagGo quanto a determinagio da lei aplicavel, ocorrida pos- teriormente a celebracio do contrato, nao prejudica os direitos de terceiros. Esta alteragao também no afecta a validade formal do contrato (6). Importa agora averiguar se as partes podem fraccionar o esta- tuto do contrato mediante designagdes parciais e quais os limites que devem respeitar. As partes podem designar a lei aplicével @ totalidade ou ape- nas a uma parte do contrato (art. 3.°/1/3.* parte). A doutrina tem tragado certos limites as designagées parciais (*). Por forma geral, exige-se que a designagdo diga respeito a uma questdo separdvel do resto do contrato (°), Em regra, as normas singulares esto inseridas em unidades de regulacio e s6 podem ser correctamente entendidas e aplicadas no seu contexto. Por conseguinte, devem considerar-se separdveis aquelas questdes que so pelo legislador tratadas separadamente ou correspondem a um interesse tipica- () Ver Moura Rawos (n, 44) 468 n. 172, e Lita Parizino (n, 37) § 22 F, com inns referéncas. () Ver, com mais desenvolvimento, Lima PrvHEino.(n. 37) § 22 F, (2) Ver, com mais desenvolvimento, Lima Prxxeino (n. 7) 110 ¢ segs. (©) Ver Henri Barirou. © Paul Lacanoe ~ Droit infemational privé, vol. I~ ‘TS ed. (1983), Paris, 274. ‘NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 599 mente protegido por lei (*). J4 no se exige que os aspectos sepa- réveis do contrato sejam elementos independentes entre si do ponto de vista econdmico e juridico, a ponto de poderem constituir 0 objecto de contratos separados (*). Em suma, as unidades de regulacdo dos sistemas que as par- tes pretendem designar devem, em principio, ser respeitadas pelas designagoes parciais. III. CONEXAO SUPLETIVA GERAL A) Solugées estabelecidas pela Convenciio de Roma Para compreender o regime estabelecido a este respeito pelo Regulamento Roma I convém comecar por examinar as solugdes estabelecidas pela Convengao de Roma. Na falta de designacao pelas partes do Direito aplicdvel, n.° 1 do art. 4.° da Convengio de Roma determina que 0 contrato € regulado pela lei do pais com co qual apresente uma conexo mais estreita. Também 0 art. 9.° da Convengio da Cidade do México remete para o Direito do Estado com 0 qual o contrato tenha os vinculos mais estreitos. Consagrou-se assim um critério geral de conexiio, que catece de ser concretizado pelo érgao de aplicagdo do Direito mediante uma avaliagdo do conjunto das circunstancias do caso concreto € com ponderagao de todos os lacos entre 0 contrato e os Estados em presenga, Isto convergia com a solugdo adoptada no Direito de Conflitos da generalidade dos Estados-Memibros das Comunidades Europeias & data da conclusto da Convengio de Roma, com excep- do da Itélia, A entrada em vigor da Convengo na ordem juridica portuguesa também representou uma alteraco profunda quanto & Cf. Isape ox MacauatAes Cataco (a. 39) 130, ¢ Direto Internacional Pri- vado, Sistema de narmas de conflttos portuguesas. Das obrigacies voluntarias (Ligies proferidas no ano lectivo de 1972/1973. Apontamentos de alunos), Lisboa, 1973, 35. Cp. Giutiano/Lacaaos (a. 27) 17, para quem & Convengio de Roma s6 exige que a submissiio do contrato a leis diferentes nfo dé lugar a “resultados contraditérios”. €°) Entendimento defendido por alguns peritos na preparagio da Convengio de Roma ~ conforme informam GrotiaNoLacaros (n, 27) 17 ~ mas que nfo vingou. 600 LUIS DE LIMA PINHEIRO conexdo supletiva em matéria de contratos obrigacionais, visto que 0 art. 42.° CC se baseia em critérios de conexao determinados (residéncia habitual comum das partes e, na sua falta, nos contra- tos gratuitos, a residéncia habitual daquele que atribui o beneficio e, nos contratos onerosos, 0 lugar da celebracao). Para a compreensio da cldusula geral de conexiio consagrada na Convencao de Roma € importante assinalar, em primeiro lugar, que a conexdo mais estreita nao é, necessariamente, a estabelecida por um elemento de conexéio determinado no caso concreto, mas a que resulta de uma avaliacdo do conjunto das circunstincias do caso, atendendo nfo s6 ao significado que, por si, cada um dos lagos existentes pode assumir, mas também A combinagdo destes Lagos (°). Em segundo lugar, é de sublinhar que o critério geral da conexio mais estreita permite atender a lacos de qualquer natu- reza. Relevam em primeira linha os laos de natureza objectiva e espacial. Pense-se designadamente em elementos de conexdo tais como o-lugar da residéncia, da sede ou do estabelecimento das partes, ¢ o lugar onde se situa a coisa corpérea que seja objecto mediato do contrato — que sao empregues nas “presungdes” con- tidas nos n.°* 2 a 4 do art. 4.°. Refira-se ainda o lugar da execu- go do contrato e, com menor significado, a nacionalidade das partes. ‘Em geral, deve conferir-se maior peso na determinagio da conexio mais estreita aos lagos que traduzem uma ligacao efectiva Aesfera econémico-social de um pafs do que as ligagées mais visi- veis e palpaveis. Maz a cléusula geral de conexdo mais estreita também permi- tird ter em conta lagos objectivos de outra natureza, como por exemplo o idioma do contrato, a referéncia a disposigdes de uma determinada ordem jurfdica, ou o emprego de termos e expressdes (©) Em sentido convergente, ver MitnchKomm./Maxaxy (0. 52) Art. 28 n.° LI, ey com respeito 20 Dieito suigo, Zurcher Kommentar gum IPRG — Komentar zum Bundes” gesetztiber das Internationale Privatrecht (IPRG) yom 18, Dezember 1987, 2." ed. OF8. por Daniel Gresnexor, Anton Hew, Max Keutre, Jolanta Kren Kosreaewic2, Kurt Sis, Frank Viscwx e Paul Vorxex, Zurique, Basileia © Genebra, 2004, Kixusexnex Kosri. vwicz, Art. 17 n° 17. NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 601 caracteristicos desta ordem jurfdica (que contudo nao permitam inferir uma designaco técita), e 0 nexo funcional que o contrato estabelega com outro contrato regido por certo Direito. Subsidiariamente, poderio ainda relevar elementos subjecti- ‘vos, como as representagoes e as expectativas justificadas das par- tes (7). O significado da cldusula geral de conexao mais estreita resulta nao 86 do disposto no n.° 1 do art. 4.° da Convengio de Roma mas também do estabelecido no n.° 5 do mesmo artigo (2.* parte). Este tiltimo preceito permite-afastar as “presungdes” de conexio mais estreita previstas nos n.% 2 a 4 “sempre que resulte do conjunto das circunstncias que o contrato apresenta uma cone- xdo mais estreita com outro pais”. O n.° 2 contém uma “presun- do” geral de conexdo mais estreita a favor da lei do Estado do devedor da prestagio caracteristica (®), o n.° 3 uma “presungio” a favor da lei da situagao do imével para os contratos tendo por ‘objecto um direito real sobre um bem imével ou um direito obri- gacional de uso de um bem imével e 0 n.° 4 uma “presungiio” com respeito ao contrato de transporte de mercadorias que serd adiante referida (infra IV.A). Nos contratos que concernem & troca de bens e servigos por dinheiro, a prestagao caracteristica ¢ a que consiste na entrega da coisa, na cessio do uso da coisa ou na prestagao do servigo. Quer isto dizer, por exemplo, que o devedor da prestacao caracteristica (©) Ver também Eucénia Gatvko Tatts ~ “Determinac&o do Direito material aplicével aos contraios intemacionais. A clauswla geral da conexdo mais estreita", in Bstu- dos de Direito Comercial Internacional, vol. I, org. por Linx Prato, 63-141, Coimbra, 2004, 135 ¢ segs. Observo-se que estes elementos subjectivos assumena um papel mais saliente na Convencio da Cidade do México, levando mesmo Friedrich Juencer ~ “Con tract Choice of Law in the Americas”, Am. J. Comp. L. 45 (1997) 195-208, 205, a defen- det que 0 art. 9.2/2 conduz a uma “rule of validation”, ie. a favorecer 2 aplicagao do Direito que considera o contrato valido em deteimento do Direito que 0 considere invélido. Isto nlo defensével perante a Convengio de Roma. (®) Nos termos do n.° [Link] art. 4°, “presume-se" que o contrato apresenta uma ‘conexo mais estreita com o pals da residéncia habitual ou da sede da administrago cen- tral do devedor da prestacko caracteristica. Se o contrato for celebrado no exercicio da acti- vidade econdmica ou profissionsl do devedor da prestagio caracteristica relevao pais onde se situa o seu estabelecimento principal ou, se nos termos do contrato, a prestagdo deva ser fornccida por outro estabelecimento, o da situagio deste estabelecimento. 02, LUIS DE LIMA PINHEIRO 6, no contrato de venda, 0 vendedor, no contrato de locagiio, 0 locador, ¢, no contrato de prestago de servigo, o prestador de ser vigo. A articulagao das “presunges” de conexdo mais estreita com 0 critério da conex4o mais estreita suscitou divergéncias na dou- trina e na jurisprudéncia dos Estados contratantes, A grande maioria dos autores qualifica 0 n.° 5 do art. 4.° como uma cléusula de excepgio (®), o que deveria significar que as “presungdes” contém a regra priméria, ¢ que s6 so afastadas em casos excepcionais em que se verifica uma conexio manifes- tamente mais estreita com outro Estado ("). Em sentido contré- tio, faz-se valer que no se trata de uma cléusula de-excepcao, mas de um preceito que deve ser entendido, em conjugagao com on.° 1 do mesmo artigo, no sentido de conferir A ideia de cone- () Ver referéncias em Lista Pistsino (0, 37) n, 172. Ver, em geal, sobre a céu- sula de excepgdo, Rui Moura Rants (n, 44) 402.¢ sogs. € 916, ¢ “Les clauses d'exception en matitre de conflits de lois et de conflits de jurdictions ~ Portugal", in Das Retagdes Privadas Internacionais. Estudos de Direito Internacional Privado, 295-323, Coit, Anténio Manques pos Sawr0s — As Normas de Aplicagéo Imediaia no Direito Internacio.. nal Privado. Esbogo de Uma Teoria Geral, 2 vols, Coimbra, 397 e segs. ¢ Lina Poxseiro (0. 2) 397 e segs, com mais referéncias. (Em sentido préximo, na Alemanka, Jan [Link] — Internationales Priva- trecht, 52 ed., Tubinga, 2004, 465-465, Vox Hormann/Tuoan (n, 22) 440 © 447; em Franca, Mavew/Heuzé (n, 28) 544-545; na Inglaters, Dicey, Morris and Collins (u. 28) 1587, em Italia, Tito Battarino ~ Diritto internazionale privato, 3* ed., coma colabora- so de Andrea Bowowt, Pédua, 1999, 626, ©) Cf. Raymond VaNbex Etst ¢ Martha Wesex— Droit international privé belge et droit convenslonnel international, Braxelas, 1983, 172-173; Roberto BAkatra ~ Il col- egamenta pia stretio nel dirtiointernazionale privato dei contrat, Milio, 1991, 132 ¢ seg. © 176 ¢ sogs., e “Convenzione sulla legge applicabile alle obligazioni contratuali”, in Le nuove leggicivii commentate, 1995, 901-1116, Art. 4n.°4; Maria Hetewa Brivo — “Os contratos bancérios e & convengio de Roma de 19 de Junho de 1980 sobre e le apli- civel As obrigagbes contratuais”, Rey. da Banea 28 (1993) 75-124, 101, e “Direito apli- cével so contrato internacional de concessio comercial”, in Est, Isabel de Magathies Collago, vol. 1, 103-157, Coimbra, 2002, 121; Manlio Prioo ~ “La determinazione della legge applicabile in mancanza di scelta dei contraenti c le norme imperative nella Con- vonzione di Roms”, in La Convencione di Roma sul dirtto applicabile ai coniratttinter- rnazionali, org. por Giorgio Saceeoor: e Manlio Fauco, 2. ed., Mild, 1994, 24 © seg.; Evattua Gatvio Teues ~ "A prestago caracterstica: um novo eonceito para determinar lei subsidiariamente aplicével aos contratos intemacionais. O artigo 4.° da Convencio dde Roma sobre a Lei Aplicével &s Obrigagdes Contratusis", O Direito 127 (1993) 71-183, 150 e sog., © (n. 67) 63 © seg. 126-127 ¢ 132, defendendo que as “presungées” so 0 0 NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO_ 603 xdo mais estreita a fung&io de um “princfpio geral” ("!). Observe- -se que alguns dos autores que falam, a este respeito, de cléusula de excepgio, convergem, em substincia, com este entendimen- to (). Neste sentido, considero que o art. 4.° da Convengao de Roma no seu conjunto dominado pela cldusula geral de conexio mais estreita. Creio que as “presungdes” contidas nos n.®* 2 a 4 do art. 4.° constituem antes directrizes interpretativas, que actuam nos casos em que, devido a uma dispersio dos elementos de conexio —por exemplo quando 0 contrato seja celebrado entre partes de diferentes Estados e executado num terceiro Estado — se suscita divida sobre a determinagio da conexdo mais estreita (7). Observe-se ainda que nao se trata de presungGes em sentido téc- nico-juridico, uma vez. que a conexdo mais estreita no é um facto que se possa presumir, nem tais “presungdes” se relacionam com o regime do 6nus da prova (*), B) Solugées estabelecidas pelo Regulamento No Regulamento Roma I 0 legislador comunitério consagrou © entendimento referido em primeiro lugar, invocando a necessi- dade de um elevado grau de previsibilidade da lei aplicdvel, a fim de “garantir a seguranca juridica no espaco de justiga europeu” ("). Em todo 0 caso, 0 legislador considerou que os tribunais “deverio onto de partida na determinaglo dat lei da conexio mais estrete; Lima PisxtaRo (n. 37) § 23 A, com mais referéncias; Moura Vicente (1,34) 471 € sog.; CaLvo Caravaca/Car- RAscosa Gonzi. (n. 21) 496-497, entendendo que o drgio de aplicagto deve conside- rar necessariamente as “presungbes” e explicar a razo por que as segue ou por que as descart. (Yer Paul Laasnoe ~“Le nouveau droit international privé des contrats apres entrée en vigueur de la Convention de Rome du 19 juin 1980”, R. crit. 80 (1991).287- 340, e MiinchKomm./Marere (n. 32) Art. 28 n.° 110. 3) Em resultado, também Lacanor (n, 72) 310. C4) Ver também Keoesot Le (0. 70) 460, mantendo a posigdo expressa na edigBo anterior, Canistian Von Bax ~ Internationales Privatrecht, vol. Il, Munique, 1991, 361 ¢ segs. € BARATTA (n. 71 (1991]) 168 ¢ segs. S) Ch. Considerando n.° 16. 604 LUIS DE LIMA PINHEIRO gozar de uma certa margem de apreciagéio a fim de determinar a lei que apresenta a conexo mais estreita com a situacio” (7), O resultado ¢ a estatuigéo de uma conexio priméria com base num critério determinado (art. 4.°/1 e 2) acompanhado da relevan- cia do critério da conexdo mais estreita no quadro de uma verda- deira cldusula de excepgdo (art. 4.°/3) ou para estabelecer uma conexiio subsididria (art. 4.°/4). A conexdo primdria baseia-se principalmente na doutrina da prestacdo caracteristica: 0 contrato é, em principio, regulado pela lei da residéncia habitual do devedor da prestago caracteris- tica (). No entanto, o Regulamento Roma I no se limita a consa- grar esta doutrina para estabelecer a conexdo priméria. Relativa- mente a um certo nimero de contratos, o Regulamento concretiza esta doutrina (venda, prestagao de servigo, franquia e distribuicao), 0 que se revela titi! nos casos em que é controversa a determinagao da prestagio caracteristica. E 0 que se verifica com os contratos de franquia e de distribuicdo, que sio submetidos a lei da residéncia habitual do franqueado e do distribuidor (art. 4.°/1/e e f) (*). O Considerando n.° 17 assinala que os conceitos de “presta- io de servigos” e de “venda de bens” deverdo ser interpretados do mesmo modo que perante o art. 5.° do Regulamento Bruxelas J, Isto significa, designadamente, que a interpretagdio deve ser aut6- noma e que 0 conceito de “prestagéio de servigos” deve ser enten- dido em sentido amplo, abrangendo a realizaco, em beneficio da outra parte, de uma actividade niio subordinada de qualquer natu- reza, incluindo a actividade realizada no interesse de outrem ("*). Quanto a outros contratos, 0 Regulamento estabelece cone- x6es baseadas em consideragées diversas (contratos sobre iméveis, yenda de mercadorias em hasta ptiblica, contratos de venda de ins- trumentos financeiros no ambito de sistemas multilaterais). ¢%) Ibidem. (°)_ Ver, com mais desenvolvimento, Buaéwa Gatvao Ties (n. 71) 108 © segs., (a. 67) 85 ¢ sogs.; Lava Passo (n, 7) 117 e segs. (8) _A Exposigdo de Motivos da Proposte da Comissio [6] afirma que estas solu- {es se explicam “pelo facto de o direito comanitério material se destina a protegero fran- queado ¢ 0 distribuidor enquanto partes vulneréveis” ) Yer, com mais desenvolvimento, Krorsiotien (n. 20) Act 5 n< 38 e segs.,e “Mankowstt (n, 20) 1.% 69 € segs ‘[Link] REGULAMENTO COMUNITARIO 60s ‘Assim, o contrato que tenha por objecto um direito real sobre um imével ou o arrendamento de um imével é regulado pela lei da situagdo do imével (art. 4.°/I/c). Exceptua-se 0 arrendamento de um bem imével celebrado para uso pessoal temporério por um perfodo maximo de seis meses consecutivos, que € regulado pela lei do pais em que 0 proprietério tem a sua residéncia habitual, desde que o locatério seja uma pessoa singular ¢ tenha a sua resi- déncia habitual nesse mesmo pais (d). O contrato de compra e venda de- mercadorias em hasta publica é regulado pela lei do pafs em que se realiza a compra e venda em hasta ptiblica, caso seja poss{vel determinar essa locali- zagio (g). O contrato celebrado no ambito de um sistema multilateral que permita ou facilite o encontro de mUiltiplos interesses de ter ceiros, na compra ou venda de instrumentos financeiros, de acordo com regras néo discricionérias e regulado por uma tinica lei, é regulado por essa lei (h) (*). O conceito de sistema multilateral abrange os mercados regu- jamentados e sistemas de negociagéio multilateral de instrumentos financeiros tal como sao definidos pelos pontos 14 e 15 do art. 4.°/1 da Directiva 2004/39/CE, de 21/4, Relativa aos Mercados de Instrumentos Financeiros, independentemente de dependerem ‘ou ndo de uma contraparte central (*}, Quanto ao conceito de ins- trumento financeiro, 0 preceito remete para o ponto 7 do art. 4.°/1 da mesma Directiva que, por seu turno, remete para a Secgdo C do Anexo I. Nestes termos, 0 conceito de instrumento financeiro abrange os valores mobiliarios, os instrumentos do mercado mone- tério, as unidades de participagao em organismos de investimento colectivo e os chamados derivados (designadamente opgées, futu- 10s e swaps). Os contratos que nao constem da tipologia contida no n.° 1, ‘ou que s¢jam “contratos mistos”, no sentido de serem abrangidos (©), Sobre o Direito aplicével a estes negécios, perante a Convengo de Roma, ver Lima Pratt (0, 51) 612 ¢ sogs., com mais referéncias. Cf Considerando n.°18, 606 LUIS DE LIMA PINHEIRO por mais de um tipo, sao regulados pela lei da residéncia habitual do devedor da prestagio caracteristica (art. 4.°/2) (®), recurso a lei do devedor da prestagio caracteristica para estabelecer a conexio supletiva em matéria de contratos obtiga- cionais nao é pactfico. papel atribuido a esta solugdo na Convengiio de Roma foi por alguns autores (BaTiFFOL, LAcaRDe) justificado com razdes de conveniéncia pritica, ligadas As dificuldades suscitadas pela deter- minagio do lugar da execugdo da prestago caracterfstica (®), Para Scunrrzer, a competéncia da lei do devedor da prestagiio caracte- ristica fundamenta-se antes na insergdio do contrato na esfera sécio- -econémica do pais onde o devedor da prestagao caracteristica, que exerce uma actividade profissional ou empresarial, tem a sua sede ou residéncia (*), A maioria dos autores tem formulado consideragdes erfticas com respeito a esta doutrina (*5). Desde logo, parece dificilmente (© Considerando n. 19 afirma que “caso 05 contratos consistam num conjunto de direitos e obrigacdes susceptiveis de serem classificados em varios tipos especificados de contratos, a prestacio ceracteristica do contrato devers ser determinada tendo em conte ‘© seu centro de grevidade”. O sentido deste trecho suscita divides, Parece que tera em vista 0s casos em que o devedlor da prestagio caracterstica seria a parte A, perante um dos tipos envolvidos, ea perte B perante outro dos tipos envolvidos. ©) Cf. Henri Barro. - “Projet de convention C.E.E. sur la loi applicable aux obligations contractuelles”, R. trim. dr. eur. IN (1975) 181-186, 183; Panl Lacanns ~ “Examen de P-avant-projet de convention C-E.E, sur Ia toi epplicable aux obligations con- tractuelles et non contractuelles”, Tr. Com, fr dr. int. pr. 32/34 (197/193) 147-168, 135 seg. Cp. GrutianovLacanoe (n. 27) 20, em que a preferéncia dada ao pats de rescéncia, sede ou estabelecimento do devedor da prestacdo caracteristica em relagao ao pais de exe- ceucSo € considerada “completamente natural” (©) “Les contratsinternationaux en droit international privé suisse”, RADI 123 (1968) 541-635, 579 ¢ seg. Entre n6s, a aplicagto da lei do devedor da prestagto caracte- ristica foi defendida por Isassl. Ds MadaLHAES CoLLAco quanto ao contrato de venda (0, 39) 219 e segs, ©) Ver Jessuruy D’Otivessa ~ “Characteristic Obligation’ in the Draft EEC Obligation Convention”, Am. J. Comp. L. 25 (1977) 303-331, 308 ¢ segs. ¢ 326 ¢ seas.s Fricdrich Juenoss ~ “The European Conveation on the Law Applicable to Contractual Obligations: Some Critical Observations”, Virginia J. It. Z. 22 (1981) 123-141, 133 € seg.; Wilhelm Wexcuex ~ Internationales Privatrecht, 2 vols. Berlim ¢ Nova Toraue, 1981, 537 ¢ 828 n. 3; Andrea Gtarisa - “Volontd delle parti, prestazione caratterstica © collegamento pit sigificativo”, in Verso una disciplina comunitaria della legge applica bite ai contratt, org. por Tulio TREvES, 3-24, Pédua, 1983, 17 ¢ segs.; Moura RaMos: (1. 44) 560 e segs., mas accitando que 0 “critério da prestagio caracteristia (..) constitu ONOVO REGULAMENTO COMUNITARIO: 607 demonstrével que, por forma geral, se possa considerar 0 contrato como exclusivamente inserido na esfera econémico-social do pafs do devedor da prestagiio caracteristica. A competéncia da lei do devedor da prestagao caracteristica hé-de fundamentar-se princi- palmente no interesse desta parte contratual na aplicagio da lei a que esta intimamente ligada. As razdes por que se deve preferir 0 interesse desta parte relativamente ao interesse daquela que realiza a prestagdo pecuniéria nem sempre sio suficientemente esclarece- doras ou convincentes. De resto, estas razes ndo procedem nos ‘casos em que ambas as partes realizam prestagées no pecuniérias ‘ou em que ambas realizam s6 prestagdes pecuniarias (°°), ‘A Convengio da Cidade do México nao deu qualquer acolhi- mento A doutrina da prestacio caracteristica, Perante a Conyengiio de Roma, a seguir-se o entendimento atrés propugnado, a lei do devedor da prestacio caracterfstica sé aplicdvel se for a do pafs com o qual 0 contrato apresenta a cone- xio mais estreita ou se ocorrer uma disperstio dos elementos de conexao que exige uma solucio de recurso. ‘A Proposta da Comissao continha uma viragem radical, ao consagrar a lei do devedor da prestagio caracterfstica como princi- pal conexo supietiva, sem qualquer temperamento, A maioria dos comentadores da Proposta criticou esta rigidez e defendeu a actua- lum dos referenciais possiveis, a cuja utilizagao se poderd recorrer para preencher, face 1 ‘cada eategoria contratual, a ideia de sistema com o qual o contato se apresente mais estei- tamente conexo” desde que a sua actuacio seja limitada por uma clinsula de excepetio; ‘NorrivFawcere (a. 57) 570. seg.; Paolo Patoccs! ~ “Characteristic Performance: A New ‘Myth in the Confict of Laws? Some Comments on 2 Recent Concept in the Swiss and European Private Inernational Law of Contract”, in Etudes Pierre Lalive, 113-139, Basi- Ieia ¢ Francoforte-sobre-o-Meno, 1993, 131 e sogs.; Antoine Kassis ~ Le nowveau droit ewropéen des contrats internationaus, Paris, 1993, 295 e segs.; Euctnia GaLvio TeLes (2.71) 130 ¢ segs Lina Pewtzmo (0, 37) § 23 A; Eagene Scotss, Peter Hay, Pattick Bok. cars e Symeon Svatzontves ~ Conflict of Laws, 4 ed., St. Paul, Minn., 2004, 1038; Dicey, Morris and Collins (n, 28) 1584-1585; Maven/Hiauzt (n. 28) 546, chamando a aten- ‘80 para um efeito anticoncorrencial: 0 favorecimento dos profssionais estabelecidos emt pafies com um regime mais “liberal” relativamente aos profisionais estabelecidos em pat- ses com leis mais rigorosas. ) Ver ainda Linta Preino ~ “Direito aplicdvel as contratos celebrados atravds da internet”, ROA 66 (21096) 131-190, 173 e segs. 608 LUIS DE LIMA PINHEIRO ‘gdo do critério da conexao mais estreita no quadro de uma clusula de excepedo (*7), O legislador comunitério consagrou esta solugao. Com efeito, nos termos do art. 4.°/3 do Regulamento, caso “resulte claramente do conjunto das circunstdncias do caso que 0 contrato apresenta uma conexdo manifestamente mais estreita com um pafs diferente do indicado nos n,® 1 ou 2, é aplicdvel a lei desse outro pais”. Sao aplicdveis, & determinagio da conexio mais estreita, as consideragées atras formuladas com respeito & Conven- ‘gio de Roma. Os considerandos n.* 20 e 21 salientam a relevancia de uma “ligagao estreita” entre 0 contrato em questio e outro con- trato ou uma “série de contratos”. Perante o Regulamento Roma I, porém, o critério geral da conexdo mais estreita 6 releva excepcionalmente, quando hé uma conexio manifestamente mais estreita com um Estado diferente do indicado pela conexdo priméria, ou, subsidiariamente, quando o contrato nao for reconduzfvel as regras que estabelecem a conexo primétia (art. 4.°/4), Merece ulterior reflexdo até que ponto as cldusulas de excep- do contidas no Regulamento podem permitir, além de uma pon- deragio dos lagos que intercedem entre o contrato ¢ os Estados em presenga, uma margem de apreciaco dos interesses das partes € dos valores e finalidades que as leis dos paises envolvidos visam promover (®). Em todo 0 caso, 0 reforgo do papel atribuido a lei do devedor da prestago caracteristica pelo Regulamento Roma I nao é, em ©) Ver Lacanos (0. 33) 338 ¢ segs., € Max Planck Institute (n, 33) 256 e segs. Isto converge com a proposta do Grupo Europed de Direito Internacional Privado ~ vet ‘erceita Verstio Consolidada das Propostas de Modiicagio dos ans. 1°, 3., 4,5. 6°, 7, 9%, 10 bis, 12.°¢ 13. da Convengdo de Roma de 19 de Junho de 1980 Sobre a Lei Anlicvel 8s Obrigagdes Contratuas, e do ar. 15.° do Regulamento 44/2001/CE (Regula- mento “Bruxelas 1”), in www gedip-egpile. Fim sentido contrério, Manxowse: (n. 33) 104-105. ©) Relativamente ao art. 4,° da Convengio de Roma, Gruisavo/Lacason (n. 27) 20, parecem ter em vista apenas lagos objectives; também LacaKDs (n. 72) 306 ¢ 310-311 cequipara o critério da conexdo mais estreta & “localizaglo objectiva” do contrato; j MiinchKomm./Mawson (1. S2) Art. 28 n© 12-15, admite uma ponderagao de interesses conflituais das partes na apicagio do Direito a que esto mais ligadas, as no uma pon- deragi dos “interesses dos Estados” em presenga na linha da governmental interest analy. ses, Ver ainda Boscuito (n. 47) 412 ¢ segs. © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO| 609 minha opiniao, justificado. A vantagem que daf resulta quanto & previsibilidade do [Link] é muito reduzida, porque se a lei do devedor da prestagiio caracteristica nao é a que apresenta a conexao mais estreita com o contrato se suscita sempre a diivida sobre a possibilidade de intervengéo da cldusula de excepgao. Por exemplo, se um prestador de servicos localizado no Estado A celebra um contrato de prestagdo de servigo com um cliente localizado no Estado B, que deve ser executado neste Estado, o art. 4.°/1/> remete para a lei do Estado A. Em principio, este contrato apresenta a conexo mais estreita com 0 Estado B. Mas deverd esta conexdo ser considerada como manifestamente mais estreita ¢ desencadear 0 funcionamento da cléusula de excep- go? Nos casos em que a conexio mais estreita se estabelece com um Estado terceiro (Le. no vinculado pelo Regulamento), as par- tes terao frequentemente mais razdo para se orientarem pela lei deste Estado, se for a competente segundo 0 respectivo Direito de Contflitos, do que pela lei do devedor da prestago caracterfstica. Enfim, aplicar uma lei que ndo é a do Estado que apresenta a cone- xio mais estreita, s6 porque é a lei do devedor da prestaco carac- teristica, representa um sacrificio da justica da conexio (®). C) Determinagao da residéncia habitual A maioria das regras contidas no art. 4.° remete para a lei da residéncia habitual de uma das partes. Nos contratos internacio- nais, é muito frequente que uma das partes, ou ambas, celebrem 0 contrato no exercicio de uma actividade profissional. Isto coloca a questo da relevancia do seu estabelecimento. E também frequente que intervenham pessoas colectivas que nao tém propriamente uma residéncia, mas sede (estatutéria ou da administragao) e, nor- malmente, estabelecimento (ou um estabelecimento principal ¢ um ou mais estabelecimentos secundarios). (®) Ver, sobre a justiga de conexo, Lana Poaino (n, 2) 286 € segs, com mais refertacias 610 LUIS DE LIMA PINHEIRO © art. 19.° do Regulamento procura responder a estas ques- es doterminando que: —“a residéncia habitual de sociedades ¢ outras entidades dotadas ou nao de personalidade juridica é 0 local onde se situa a sua administrac&o central” (n.° 1/1.° §); — “a residéncia habitual de uma pessoa singular, no exercicio da sua actividade profissional, é 0 local onde se situa o seu estabelecimento principal” (n.° 1/2.° §). On 2 acrescenta que caso “o contrato seja celebrado no Ambito da exploragdo de uma sucursal, agéncia ou qualquer outro estabelecimento, ou se, nos termos do contrato, o cumprimento das obrigagées dele decorrentes é da responsabilidade de tal sucursal, agéncia ou estabelecimento, considera-se que a residéncia habitual corresponde ao local onde se situa a sucursal, agéncia ou outro estabelecimento”. Para determinar a residéncia habitual, o momento relevante é a data da celebragdo do contrato (n.° 3), O art, 18.° da Proposta da Comissio, que esté na base deste preceito, suscitou certas divergéncias de interpretacao, designada- mente quanto a alteragdo da situagio existente perante o art. 4.°/2 da Convengao de Roma (%). Este tltimo preceito, no caso de o contrato ser celebrado no exercicio da actividade econémica ou profissional do devedor da prestago caracterfstica, remete para a lei do seu estabelecimento principal; se, nos termos do contrato, a prestagdo deve ser fornecida por estabelecimento secundario, manda aplicar a lei deste estabelecimento. A face do Regulamento Roma I, a principal dificuldade surge quando 0 contrato seja cele- brado por um ente colectivo no ambito de um estabelecimento principal situado num pais diferente da sede da administragdo cen- tral. Em prinefpio, o estabelecimento é um ponto de referéncia mais importante para quem contrata com o ente colectivo que a sede da administragao. Parece-me que 0 art. 19.° do Regulamento Roma I deve ser entendido a luz da normal coincidéncia entre a sede da administra- (Cp. Lacanpe (n. 33) 347, Mankowski (a. 33) 104 e 112; Max Planck Institute (0. 33) 335, [Link] REGULAMENTO COMUNITARIO ou fo central € 0 estabelecimento principal. Dat que se atenda, em primeiro linha, ao lugar onde se situa a administracao central (n° 1). Mas se 0 contrato for celebrado no ambito da exploracio de um estabelecimento principal sitaado num pafs diferente daquele em que se situa a administraco central, ou se a responsa- bilidade pela sua execugio pertencer a esse estabelecimento, a situagio deve considerar-se abrangida pelo n.° 2, e releva o lugar onde se situa 0 estabelecimento principal (°"). Em qualquer caso, do ponto de vista da técnica legislativa, € discutfvel a utilizagdo da expressdo “residéncia habitual” nesta pluralidade de acepges (%). E uma técnica que pode induzir em erro o intérprete menos atento, A Convengao de Roma admite o fraccionamento conflitual do contrato niio s6 por meio de designagdes parciais feitas pelas partes (supra TI) mas também, excepcionalmente, no estabelecimento da conexo supletiva (art. 4.°/1 in fine da Convengao de Roma) (%). O Regulamento niio s6 omite esta permisséio como aponta sempre, mesmo em relagao a “contratos mistos”, para um estatuto contratual unitério (*). Parece pois de concluir que 0 érgo de aplicagiio nao pode submeter partes separdveis do contrato a leis diversas (°). IV. REGRAS DE CONFLITOS ESPECIAIS (CONTRATOS DE TRANSPORTE, CONTRATOS COM CONSUMIDO- RES, CONTRATOS INDIVIDUAIS DE TRABALHO E CONTRATOS DE SEGURO) A) Contratos de transporte © art. 5.° do Regulamento contém uma regra de conflitos sobre 0 contrato de transporte de mercadorias (n.° 1), uma regra de Ver, em sentido convergente, Max Planck Institute (n, 33) 335 @) Ver também Maniowsxt (a, 33) 104, ©) O Relatério de Greuinvo/Lacanvs:(n. 27) 23 informa que se abriu esta possi- bilidade para casos como o dos “contratos de cooperagio, contratos complexos”. Ver, com iis desenvolvimento e referéncias, Lia Pave (8. 7) 124-125, C4) CE. art. 4,92 e Considerando n.° 19, atras examinados. ©) Lacanne (n. 33) 340 fala de uma supressio pelo menos formal desta possibi- lidade, 612 LUIS DE LIMA PINHEIRO conflitos sobre 0 contrato de transporte de passageiros (n.° 2) ¢ uma cléusula de excepgio semelhante a do art. 4.°/3 (n.° 3). Remete-se quanto a cldusula de excepgdo para o anteriormente exposto (supra Til). A regra sobre 0 contrato de transporte de mercadorias € ins- pirada na “presung&io” contida no art. 4.°/4 da Convengio de Roma (°), mas com reformulacdo e elevagdo & categoria de regra primariamente aplicvel. Assim, segundo 0 n.° 1 do art. 5.° do Regulamento, “aplica-se a lei do pais em que © transportador tem a sua residéncia habitual, desde que o local da recepedo ou da entrega ou a residéncia habitual do expedidor se situem igualmente nesse pais. Caso esses requisitos nio estejam cumpridos, € aplica- vel a lei do pais em que se situa o local da entrega tal como acor- dado pelas partes”. A doutrina da prestagdio caracteristica tem aqui uma relevan- cia muito limitada. A lei do pais da residéncia habitual do trans- portador 86 é aplicdvel se concorrer outro lago significativo com este pais. Caso isto nao se verifique, aplica-se, em principio, a lei do lugar da entrega, o que em certas modalidades de transporte de mercadorias pode ser justificado pela existéncia de regimes impe- rativos que se destinam, em primeira linha, a proteger o destinaté- rio das mercadorias no tréfego de importacio. © Considerando n.° 22 assinala que, & semelhanga do disposto no art. 4.°/4/3." parte da Conveng&o de Roma, “os contratos de fre- tamento para uma s6 viagem ¢ outros contratos que t¢m como objecto principal o transporte de mercadorias deverdo ser tratados como contratos de transporte de mercadorias” (°). O mesmo Con- siderando esclarece que o termo “expedidor” deveré referir-se a qualquer pessoa que celebre um contrato de transporte com o trans- 65) Nos termos do art. 4/4, “presume-se” que 0 contrato de transporte de mer- ccedorias apresenta uma conexio mais estreita com 0 pafs em que, no momento da cele- bragio do contrato, o transportador tem o seu estabelecimento principal e onde, simulta neamente, se situa 0 lugar do carregamento ou do descarregamente ou 0 estabelecimento principal do carregador. Para este efeito so considerados como contratos de transporte de ‘oreadorias os contratos de fretamento de navies relativos a uma tinica viagem ou outros contratos que tentiam por objecto principal o transporte de mercadorias, €7) A regra nfo é aplicdvel 20s contratos de fretamento para véries viagens entre portos diferentes que cacm dentro do ambito de aplicagio do art. 4°/2 € 3. © NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 613 portador e o termo “transportador” deverdi referir-se & parte no con- trato que se obriga a transportar as mercadorias, independente- mente de esta efectuar ela propria o transporte. Ategra sobre 0 contrato de transporte de passageiros repre= senta uma inovagdo do Regulamento, que visa a protec¢’o do pas- sageiro enquanto parte contratualmente mais fraca (%). Com este fim, por um lado, limita-se a liberdade de designa- c&o do Direito aplicdvel pelas partes, que s6 pode incidir sobre a lei do pais em que o passageiro tem a sua residéncia habitual, ou o transportador tem a sua residéncia habitual ou a sua administragao central, ou se situa o local de partida ou de destino (n,° 2/2.° §). Por outro lado, na falta de escolha valida pelas partes, estabe- lece-se que a lei aplicavel a este contrato é a lei do pafs em que 0 passageiro tem a sua residéncia habitual, desde que local de par- tida ou de destino se situe nesse pais; caso estes requisitos nao este- jam cumpridos, é aplicavel a lei do pais em que o transportador tem a sua residéncia habitual (n.° 2/1.° §). B) Contratos com consumidores O Regulamento retoma os regimes especiais sobre contratos com consumidores e sobre o contrato individual de trabalho conti- dos nos arts. 5.° ¢ 6.° da Convengao de Roma (), que visam a pro- tecgtio dos consumidores e dos trabalhadores como partes contra- tuais mais fracas (!), Com respeito aos contratos com consumidores, 0 att. 6.° do Regulamento introduz modificagdes importantes quanto ao Ambito de aplicagdo do regime especial, quer pelo que toca aos contratos ©) Ver, designadamente, Considerandos n.% 23 ¢ 32. () Ver, designadamente, quanto aos contratos com consumidares, Lina PRvERO ~"Direito aplicdvel aos contratos com consumidores”, ROA 61 (2001) 155-170, e Direito Internacional Privado, vol. II ~ Direito de Conflitos/Parte Especial, 2+ ed., Coimbra, 2002, 198 e segs., com mais referéncias; Eucewa GaLvao TeLEs — “A lei aplicdvel aos Ccontratos de consumo no “labirinto comunitétio™, in Est. océncio Galvao Telles, vol. I, 683-751, Coimbra, 2002. 0) CE. Considerandos n° 23, 24 35, 614 LUIS DE LIMA PINHEIRO abrangidos, quer no que se refere & conexdo do contrato com o pats da residéncia habitual do consumidor (1, Enquanto o art. 5.° da Convengao de Roma limita 0 dominio de aplicagio do regime especial a certas categorias de contratos com consumidores (1), art. 6.° do Regulamento abrange a gene- ralidade dos contratos obrigacionais celebrados por uma pessoa singular, para uma finalidade que possa considerar-se estranha & sua actividade comercial ou profissional (“o consumidor”), com outra pessoa que aja no quadro das suas actividades comerciais ou profissionais (“o profissional”) (n.° 1), que néo sejam expressa- mente exclufdos (!5), O art, 6.° exclui: —os contratos de transporte e de seguro, que so objecto de regras especiais (n.° 1); —os contratos de prestagio de servico quando os servicos devam ser prestados ao consumidor exclusivamente num pats diferente daquele em que este tem a sua residéncia habitual (n.° 4/a) (!); — 08 contratos que tenham por objecto um direito real sobre um bem imével ou o arrendamento de um bem imével, diferentes dos contratos que tém por objecto um direito de (Quanto & articulagéo dos arts. 6.° ¢ 9. do Regulamento (“normas de aplica- o imediata") parece valer o mesmo entendimento que detendi com respeito a articulago dios arts. 5.° 7.° da Convengiio de Roma ~ ver Linea Prvteino (n. 99 {2001} 164 © segs., assinalando que nfo se pode inferir do art. 5.° nenium limite & aplicagdo do art. 7.°. Isto rio obsta a que 2 aplicagio cumlativa de normas protectoras de sistemas diferentes possa ser limitada, ou mesmo exclu‘da, em caso de contcadigo normativa ou valorativa entre as rnormas em presenga, nos termos gerais. Ver também MouRa Vicente (n, 34) 661 ¢ seg. Em sentido diferente ver, designadamente, Juiio Gowzaurz Cantos ~ “Diversification, specialisation, flexibilisation et matétialisation des régles de droit international privé”, RCADI 287 (2000) 9-426, 406 e segs. (%)Entende-se por “contrtos celebrados por consumidores” aqueles que tenham por objecto 0 fornecimento de bens méveis corpéreos ou de servicos a uina pessoa para uma Finalidade que possa consideret-se estranhe & sua actividade profissional, bem como (0s contratos destinados ao financiamento desse fornecimento, Esta definigio corresponde a empregue no art. 13. da Convengdo de Bruxelas I, ¢ deve ser interpretada do mesmo ‘modo, luz da finalidade de protecgo da parte mais fraca - of. GretzaNo/Lacatpe (n. 27) 23, Ver, com mais desenvolvimento, Lina Prvisie0 (n, 99) 198-199, (8) Ch. Exposigio de Metivos da Proposta da Comissi, 7. (0) Esta exelusto ¢ crticada por Max Planck Institute (n, 33) 275-276. O NOVO REGULAMENTO COMUNITARIO 615 utilizagfio de bens iméveis a tempo parcial, na acepgio da Directiva 94/47/CE Relativa 4 Proteccao dos Adquirentes nos Contratos de Timesharing (n.° 4/c); — “direitos © obrigagSes que constituam um instrumento financeiro e direitos e obrigagdes que constituam os termos € as condigées que regulam a emissio ou a oferta ao piiblico e as ofertas piblicas de aquisigdo de valores mobi- lidtios, e a subscrigdo e o resgate de partes de organismos de investimento colectivo na medida em que estas activi- dades nao constituam a prestago de um servigo finan- ceiro” (n.° 4/d) (195); ©) Considerando n.° 26 especifica que “os servigos financeiros, como os ser- Vigos ¢ actividades de investimento e os servigos auxiliaes prestados por um profssional ‘um consumidor, referidos nas secgdes A © B do ancxo I da Direetiva 2004/39/CE e os ccontratos relatives & compra e venta de partes de organismos de investimento colectivo, indopendentemente de estarcm ou ndo cobertos pela Directiva 85/61 /CEE do Conselho, de 20 de Dezembro de 1985, que coordena as disposigdes legislativas, regulamentares € administrativas respeitantes a alguns organismos de investimento colectivo em valores mobiliérios (OICVM), deverdo estar subordinados ao artigo 6.° do presente regulamento, Por consegvinte, as referéncias aos termos ¢ condigdes que regulam a emissfo ou oferta a0 Piblico de valoces mobilidrios ou & subserigdo e a0 resgate de partes de organismos de investimento colectivo deverio incluir todos os aspectos que obrigam o emitente ou ofe- renle perante 0 consumidoc mas nfo os aspects que envolvem a prestagdo de servigos financciros”. Sobre a lei aplicdvel a estes comtratos, perante a Convencao de Roma, vor Lava Paseo (n. 51) 615 e segs., com mais referéncias 0 Considerando n.° 28 assinala que importa “assegurar que os direitos ¢ as obrigae 6es que constinaem umn instramentofinanceiro no sejam abrangidos pela xegra geral apli- vel aos contratos celebrados por consumidores, visto tal poder conduzir aplicabilidade de leis diferentes a cada um dos instrumentos emitidos, o que alteraria a sua natureza € ‘impediria as suas negociacdo e oferta como bens fungiveis. Do mesmo modo, sempre que esses instrumentos so emitidos ou oferecidos, a relagdo contratual estabelecida entre 0 cmitente ou oferente e o consumnidor ndo deverd necessariamente estar aujeita& aplicasio obrigatGria da lei do pats da residéncia habitval do consumidor, porquanto é necessério -garantir a uniformidade dos termaos e condigdes de uma emissto ou oferta. A mesma légica

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